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-The Project Gutenberg EBook of Rainha sem reino, by Alberto Pimentel
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
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-
-Title: Rainha sem reino
- (Estudo historico do seculo XV)
-
-Author: Alberto Pimentel
-
-Release Date: October 10, 2020 [EBook #63434]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RAINHA SEM REINO ***
-
-
-
-
-Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
-produced from scanned images of public domain material
-from the Google Books project.)
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-RAINHA SEM REINO
-
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-
-BARROS & FILHA, EDITORES
-
-RUA DO ALMADA, 104 A 114, PORTO
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-_Litteratura e polygraphia_
-
- _Alliança helleno-latina_, discurso, por Emilio Castellar: 1
- vol., 200 rs.
-
- _Cartas a Luiza (moral, educação e costumes)_, por D. Maria
- Amalia Vaz de Carvalho: 1 vol., 600 rs.
-
- _Diccionario de phrases latinas de uso mais vulgar_, por Brito
- de Barros: 1 vol., 500 rs.
-
- _Farpões_, por Brito de Barros (2.ª edição): 2 tomos, 500 rs.
-
- _Mulheres_, romance, por Brito de Barros: 1 vol., a entrar no
- prelo.
-
- _Pandemonio_, por Brito de Barros: 1 vol., 500 rs.
-
- _Rainha sem reino (estudo historico do seculo XV)_, por Alberto
- Pimentel: 1 vol., 600 rs.
-
- _Uma vida perfeita_, por D. Maria Amalia Vaz de Carvalho: 1
- vol., a entrar no prelo.
-
- _Viagens no Chiado_, por Barros Lobo (_Beldemonio_): 1 vol., a
- entrar no prelo.
-
-_Educação e ensino_
-
- _Modelos de redacção, auxiliares do curso de portuguez e dos
- alumnos d’instrucção primaria_, por Antonio Manuel Gomes: 1
- vol., cartonado, 500 rs.
-
- _Nova arithmetica e systema metrico das escholas primarias_,
- por Jacob Bensabat: 1 vol., cartonado, 400 rs.
-
- _Resumo da historia portugueza para uso das escholas
- d’instrucção primaria_, por Antonio Manuel Gomes; obra
- approvada pelo governo (2.ª edição): 1 vol., cartonado, 300 rs.
-
- _Rudimentos de arithmetica e systema metrico_, por Antonio
- Manuel Gomes: 1 vol., cartonado, 200 rs.
-
-
-
-
- RAINHA
- SEM REINO
-
- (ESTUDO HISTORICO DO SECULO XV)
-
- POR
- ALBERTO PIMENTEL
-
- PORTO
- BARROS & FILHA, EDITORES
- RUA DO ALMADA, 104 A 114
- 1887
-
- _Imprensa Civilização—Rua de Santo Ildefonso, 73 a 77_
-
-
-
-
-I
-
-SEGREDOS DA ALCOVA...
-
-
-A infanta de Portugal, D. Joanna, filha de el-rei D. Duarte e da rainha
-D. Leonor d’Aragão, nasceu posthuma, em março de 1439. Duas grandes
-fatalidades pareceram cobrir com a sua aza negra o berço da infantasinha
-portugueza: o lucto pela morte de seu pae, esse illustrado e infeliz
-rei para quem a vida fôra pouco menos de um martyrio ininterrupto, e a
-peste que então grassava em Lisboa, obrigando a côrte da rainha viuva a
-retirar-se para Almada, onde a infanta nascera na quinta de Monte Olivete.
-
-Menos feliz do que sua irmã D. Philippa, que n’esse mesmo anno morrera
-menina, tocada da peste, D. Joanna foi desabrochando as graças da sua
-infancia no meio de uma côrte melancholica, perturbada pelas luctas
-politicas da regencia, entregue ao cuidado da sua aia Maria Nogueira,
-e, mais tarde, confiada á companhia da sua camareira-mór D. Isabel de
-Menezes, mulher de Ruy de Mello, alcaide-mór de Elvas.
-
-Menina e moça, a infanta, extremamente bella, fazia lembrar uma flor que
-vegeta á beira de um tumulo, porque essa côrte viuva, onde a _triste
-reina_ não tinha uma hora de serenidade de espirito, não era, de feito,
-mais do que o tumulo de todas as alegrias de familia, porque não as teve
-a de D. Duarte, nem a de seu filho Affonso V.
-
-Chegando aos dezesete annos de edade, fôra D. Joanna pedida em casamento
-por seu primo Henrique IV, de Castella, que tinha nascido a 5 de janeiro
-de 1425, e fôra jurado principe das Asturias nas côrtes geraes de
-Valhadolid com festas publicas.
-
-O bispo de Cuenca, que o baptizara, prégou sobre este thema: _Puer natus
-est nobis._ Um menino nos nasceu. Mas apesar de nascer entre jubilos o
-menino, que no throno de Castella devia succeder a seu pae D. João II, as
-côrtes preoccuparam-se logo de resolver uma questão importantissima. Fôra
-o caso, que D. João II havia casado com a infanta D. Maria, sua prima
-carnal, filha de Fernando I, de Aragão, irmã de D. Leonor, casada com
-D. Duarte, de Portugal, e que este casamento intromettera nos negocios
-politicos de Castella os infantes de Aragão, especialmente D. João e D.
-Henrique, que procuravam tomar ascendente no animo do rei, seu cunhado.
-
-D. Henrique, que era mestre de S. Tiago, e que aspirava a desposar,
-como desposou, D. Catharina, irmã do rei D. João, foi até ao extremo de
-assaltar o paço, e de querer aprisionar o rei. O infante D. Henrique
-entrara preso na fortaleza de Móra, e D. João II representou ao rei de
-Aragão, Affonso V, para que lhe entregasse os cavalleiros que tomaram
-partido por D. Henrique. Mediaram negociações, e o rei de Aragão resolveu
-finalmente invadir o reino de Castella.
-
-Fôra pois a noticia d’esta invasão o assumpto que preoccupara a attenção
-das côrtes. Se o rei de Aragão se obstinasse em penetrar em Castella,
-o que se havia de fazer? Resistir-lhe, decidiram as côrtes ao cabo de
-longos debates.
-
-Vagara entretanto o throno de Navarra, a que o infante aragonez, D. João,
-subira pelo seu casamento com a infanta D. Branca. Este incidente deu uma
-nova face ás pendencias de D. João de Castella com D. Affonso de Aragão.
-O infante D. Henrique reconquistara a liberdade, para continuar a lucta,
-e o rei de Aragão dissolveu o exercito com que se havia preparado para
-combater o adversario.
-
-Em 1425 nascera, como dissemos, da alliança de D. João II com sua prima
-D. Maria, um infante, que recebeu o nome de Henrique. Era o quarto do
-nome que devia succeder na coroa de Castella.
-
-A rainha D. Maria morreu envenenada, em Villecastin, a 15 de março de
-1455. Pouco antes havia tambem fallecido em Toledo, crê-se que por
-effeito de veneno, sua irmã a rainha D. Leonor, viuva de D. Duarte, de
-Portugal. A morte d’estas duas princezas filia-se no apoio que poderiam
-querer dar ou receber do infante D. Henrique, seu irmão. Não faltou
-todavia em Portugal quem indiciasse o infante portuguez, D. Pedro, como
-cumplice, senão auctor, da morte de sua cunhada D. Leonor de Aragão,
-para evitar novos embaraços politicos á regencia, durante a menoridade
-de Affonso V. Esta suspeita, lançada sobre o caracter do infante D.
-Pedro, não conseguiu maculal-o perante a historia, porque são os proprios
-chronistas hespanhoes, entre elles Flores, que apontam o condestavel
-castelhano, D. Alvaro de Luna, como promotor do envenenamento de ambas as
-princezas. O infante D. Pedro havia até annuido a que D. Leonor voltasse
-para Portugal, mas a negociação mallograra-se pelo subito fallecimento da
-rainha em Castella.
-
-Pelo que respeitava a esta senhora, receava D. Alvaro que influisse para
-que seu irmão D. Henrique voltasse a Toledo, d’onde fôra expulso, porque
-servindo a causa de seu irmão julgaria a rainha de Portugal favorecer a
-sua propria causa contra o regente D. Pedro.[1]
-
-Quanto á rainha de Castella, D. Maria, pensou o condestavel D. Alvaro
-em desembaraçar-se da sua influencia por um meio violento, aliás muito
-vulgar então na côrte castelhana: o veneno.
-
-«Uma e outra, diz o padre Flores, morreram de veneno, segundo a
-promptidão e effeitos da morte; pois que D. Leonor morreu de repente,
-depois de tomar um remedio caseiro; D. Maria não sentiu maior enfermidade
-que uma dor de cabeça, e ao quarto dia morreu. Os cadaveres de ambas
-cobriram-se egualmente de vergões, e portanto se attribuiu a morte a
-veneno. De mais a mais, vê-se do processo instaurado contra D. Alvaro de
-Luna, que influira para que fosse ministrada peçonha ás duas rainhas.»
-
-O plano de D. Alvaro não falhara, porque logo depois da morte da rainha
-feria-se a 29 de maio uma batalha junto a Olmedo. O rei venceu. D.
-Henrique morreu, em Calatayud, do ferimento que recebera durante a
-batalha, e D. Alvaro de Luna conseguira ser investido no mestrado de S.
-Tiago, que o infante tivera.
-
-Fôra o condestavel D. Alvaro que negociara o segundo casamento de D.
-João II, de Castella, com a infanta D. Isabel, filha do infante D. João
-de Portugal e neta de D. João I. D’este segundo casamento nasceram a
-infanta D. Isabel e o infante D. Affonso, que vieram a representar na
-politica de Castella um papel importante, principalmente Isabel, que
-sobreviveu ao irmão, e que pelo seu casamento com Fernando de Aragão
-preparou a unidade hespanhola, finalmente realizada por Carlos V.
-
-Por agora, reportemo-nos ao nascimento de Henrique IV, successor do
-throno de Castella.
-
-O menino tinha nascido, mas não nascera com elle a tranquillidade da
-côrte de D. João II. Discussões de toda a ordem a agitavam. De mais
-a mais, o condestavel D. Alvaro de Luna, valido do rei, tinha visto
-levantarem-se contra elle todos quantos beneficiara, e a tal ponto o
-combatiam, que o rei se viu obrigado a pactuar em Castronunho, acceitando
-a imposição do desterro temporario de D. Alvaro.
-
-Mas não teve forças D. João II para romper com o valido. Saltou por
-cima da concordata de Castronunho. Reagiram os confederados, e uma
-nova reunião foi aprazada para Valhadolid. O principe das Asturias
-assistiu, e concordou com os demais em que, por pedido do rei, se désse
-salvo-conducto a D. Alvaro de Luna; mas, no dia seguinte, o principe
-voltou-se para a politica dos confederados, impondo por sua vez condições
-ao rei.
-
-Um tal procedimento causou grande escandalo na côrte. _Puer natus est
-nobis._ D. João II não podia duvidar de que tinha um filho, e por
-tal signal que lhe ia dando muito que fazer. É verdade que parecia
-inspirar-se nas suggestões de um mau conselheiro; nem tudo era obra
-propriamente sua. Dominava-o um donzel, de nome João Pacheco, seu valido,
-filho de Affonso Telles Giron, senhor de Belmonte.
-
-Fôra o proprio condestavel D. Alvaro quem puzera este desagradecido
-rapaz, seu pagem, ao lado do principe, e é curiosa a circumstancia de que
-o condestavel dominava tanto o rei quanto o Pacheco dominava o principe.
-
-Mas o feitiço voltara-se contra o feiticeiro, e Pacheco, feito marquez de
-Vilhena por D. João II, parecia agora aconselhar o principe a conspirar
-contra a politica do rei, que era a politica do condestavel. O principe
-das Asturias unira-se, pois, aos inimigos de D. Alvaro de Luna, que,
-tendo sido valido, veio a acabar no cadafalso, como quasi todos os
-validos em Castella.
-
-O mesmo rei, que o defendera, entregou-o aos seus inimigos e, depois de
-o haver atraiçoado, mandou-o chorar pelos poetas da côrte. Um dos que
-choraram por conta do rei foi João de Mena.
-
-D. João II pensou em arrancar o filho á influencia de Pacheco. Para isso
-lembrou-se de um meio: casal-o. Casal-o de facto, entende-se, porque
-D. Henrique já estava desposado com D. Branca de Navarra, como fôra
-estipulado no tratado de paz feito entre os reis de Aragão, Navarra e
-Castella.
-
-Fez-se o que o rei pensara. D. Branca viera para Valhadolid juntar-se com
-o seu noivo. Realizaram-se festas esplendidas; houve saraus, banquetes,
-cannas, torneios, montarias e toiros. Dir-se-ia que o reino estava
-nadando em felicidade e paz. Mas, apesar das festas, o casamento de D.
-Henrique com essa infeliz princeza, que devia ser esposa mallograda,
-fôra tristemente agoirado. Os torneios e as festas deixaram uma lugubre
-recordação, ensanguentada pela morte e pelos ferimentos de alguns
-cavalleiros. As pontas das lanças, com que lidaram, eram de ferro
-acerado, de modo que a lide sahiu a valer.
-
-Do casamento do principe das Asturias com D. Branca, de Navarra, não
-houve filhos. O principe dava-se habitualmente a outro genero de
-prazeres, segundo o testemunho de Mariana, e assim se explica a grande
-privança em que vivera com João Pacheco.
-
-Quatorze annos já iam corridos sem que D. Branca désse successão. A voz
-publica attribuia a culpa d’esta esterilidade a impotencia do principe,
-e aos maus habitos adquiridos. Dizia-se geralmente que a pobre princeza
-estava como nascera. Mas, no processo do divorcio, o fundamento official
-é a impotencia relativa dos dois consortes. Questão de bruxedos, segundo
-as idéas da epocha, mas não, por certo, segundo as idéas de Pacheco, que
-outras razões teria.
-
-Posta a questão do divorcio no fôro ecclesiastico, pronunciou sentença de
-nullidade Luiz da Cunha, que governava a egreja de Segovia. O processo
-subiu por appellação a Roma, e o papa Nicolau V delegou seus poderes em
-Affonso Corrilho, arcebispo de Toledo, que confirmou a sentença.
-
-D. Branca de Navarra foi, pois, despedida. Sahia de Castella como
-entrara: sempre noiva. Atraz d’ella, sobre a cauda roçagante do seu
-véo branco, arrastavam-se epigrammas grosseiros, satiras mordazes. Diz
-Zurita que de Italia lhe mandavam os embaixadores aragonezes remedios
-para combater a esterilidade, já depois de repudiada, como se foram para
-cural-a de uma febre quartã! E Castella, vendo moribundo o seu rei, tinha
-de acceitar um principe devasso e impotente, que lhe succedia.
-
-Em 1453 morria D. João II, e o principe descasado empunhava as redeas do
-governo. A hereditariedade punha a coroa na cabeça de um mau filho e de
-um mau esposo, que de mais a mais se affirmara poltrão desde os primeiros
-tempos do seu reinado.
-
-Propoz-se D. Henrique renovar a guerra contra os moiros de Granada.
-Preparou um exercito formidavel, fez-se rodear de uma guarda distincta
-composta de tres mil e seiscentas lanças, a flor da nobreza de
-Castella; porem ao approximar-se da _vega_ de Granada deu ordem para
-que se evitasse todo o encontro com o inimigo. O exercito ficou
-descontentissimo, chegou mesmo a lavrar entre elle o pensamento de se
-apoderar da pessoa do rei, mas um filho do marquez de Santilhana avisou
-da conspiração Henrique IV, que se retirou apressadamente para Cordova, e
-d’ahi para Madrid.
-
-Henrique IV gostava da guerra... platonicamente, como das mulheres.
-Lisonjeava-o ver-se commandando um poderoso exercito no meio da floresta
-scintillante das lanças da sua guarda, mas a respeito de dar batalha,
-nada! Amava muito a vida para arriscal-a; apenas, como hypocrita que
-tambem era, dizia que por amar a vida dos outros os não queria sacrificar.
-
-Os invernos passava-os na côrte, ou nas cercanias de Madrid em festas
-venatorias. A caça era o seu fraco e o seu forte. Quando a primavera
-chegava, montava a cavallo, cingia a espada impolluta, e ia fazer um
-passeio de recreio, com o seu exercito, até á _vega_ de Granada. As
-vezes, por distracção, ia talando e incendiando os campos na passagem.
-
-A veiga de Granada era então muito falada em trovas e praticas. No
-_Cancioneiro_, de Rezende, o poeta Nuno da Cunha, enfadado de tanto ouvir
-falar na veiga de Granada, diz a Henrique de Almeida, que regressava de
-Castella:
-
- Da Veiga lá de Granada
- e das estejas da guerra
- vos nam ey já de ouvir nada.
-
-Um anno, alguns jovens cavalleiros entraram em combate por sua conta e
-risco. No recontro, ficou morto Garcilaso de la Vega. O rei agastou-se, e
-então teve uns assomos ridiculos de traga-moiros: que incendiassem, que
-devastassem tudo. O emir Aben Ismail viu-se forçado a pedir treguas, mas
-a respeito de dar batalha campal, nada; Henrique IV continuava a amar
-platonicamente a guerra... como as mulheres.
-
-Todas as phantasias poderia ter um rei impotente, menos a de tornar
-a casar. Pois teve-a Henrique IV, tão extravagante era a sua cabeça.
-E lançou as vistas para a infanta D. Joanna, de Portugal, sua prima,
-princeza formosissima, a cujos dotes de corpo e de espirito todos os
-historiadores castelhanos rendem encomiastica homenagem.
-
-Mas Henrique IV tinha o seu pensamento. Segundo Lafuente, talvez quizesse
-desmentir a fama de impotente. Agora o que se não chega a perceber é o
-pensamento a que cedeu Affonso V, dando a mão da princeza ao primo de
-Castella, que tinha como marido os peores precedentes d’este mundo.
-
-É verdade que as condições do casamento eram vantajosas para Portugal,
-porque Henrique IV contentava-se apenas com a pessoa da princeza, diz
-Sousa na _Historia genealogica_. Em vez de pedir, offerecia como arrhas
-vinte mil florins de oiro do cunho de Aragão, sendo Ciudad-Real a
-hypotheca proposta e acceita; e mais as rendas da villa de Olmedo, para
-ajuda da despesa da casa da infanta, e, para o mesmo fim, a annuidade de
-milhão e meio de maravedis de moeda corrente.
-
-Affonso V não deu dote á irmã, a qual, porém, foi grandemente corrigida
-da sua pessoa; custou tudo, até ser entregue a el-rei de Castella, trinta
-mil dobras.[2]
-
-Nas capitulações, que se fizeram em Lisboa a 22 de janeiro de 1455,
-presentes, de um e outro lado, Affonso V e o capellão-mór de Henrique
-IV, foi estipulado que a infanta poderia fazer-se acompanhar de doze
-damas portuguezas, uma dona, uma camareira, e todas as mais pessoas que
-quizesse, obrigando-se o rei de Castella a remuneral-as conforme a sua
-jerarchia.
-
-Havia-se ajustado nas capitulações, que a infanta seria entregue na
-fronteira n’um periodo de tempo não superior a oitenta e um dias depois
-dos desposorios.
-
-Cumpriu-se o contracto, e a infanta partiu, sendo acompanhada pela
-condessa de Athouguia, D. Guiomar, e pelo conde D. Martinho, seu filho.
-
-Em Lisboa fizeram-se festas, segundo diz Pina, sem comtudo as
-especificar, e, quando a nova rainha de Castella passava pela Landeira,
-em direcção a Elvas, realizaram-se ahi justas em sua honra.
-
-Em Badajoz era D. Joanna esperada com luzido sequito pelo duque de
-Medinacidonia. D’alli seguiram para Cordova, onde o rei estava, e onde os
-noivos receberam a benção nupcial (maio de 1455).
-
-De Cordova passaram a Sevilha, e ahi houve cannas, justas, toiros, e
-um torneio de cincoenta por cincoenta, de que foram chefes o duque de
-Medinacidonia e o marquez de Vilhena.
-
-As festas da côrte, a que Henrique IV se abandonava n’um sybaritismo
-insaciavel de testa coroada, redobraram de movimento e esplendor. Ora
-em Madrid, ora em Segovia, sitios predilectos d’este bom rei, tão
-madraço como os ultimos da raça merovingia, Henrique IV aturdia a noiva
-com festas sumptuosas porventura no empenho de lhe fazer esquecer as
-desillusões da alcova real.
-
-A pobre princeza cahiu de chofre n’este mundo de tentações e perigos
-que ella desconhecia, que não tinha sido o da sua educação. O luxo e a
-galanteria ostentavam-se em requintes de fascinação, estonteavam como
-filtros allucinantes todas as cabeças, incluindo as mitradas.
-
-O rei era o primeiro a dar o exemplo de dissipação.
-
-De Henrique III, conta o nosso padre Manuel Bernardes, na _Nova
-floresta_, que, vindo esfomeado da caça, não tivera que comer certo
-dia. Disse-lhe o comprador que já não havia fornecedores que quizessem
-continuar a fiar para a real senhoria. O rei despiu o gabão e mandou-o
-empenhar por um pouco de carneiro. Os criados murmuraram do caso,
-extranhando que o rei tivesse fome e os fidalgos se banqueteassem
-lautamente, como n’essa mesma noite estava acontecendo no palacio do
-arcebispo de Toledo.
-
-Henrique III, como isto ouvisse, sahiu disfarçado e entrou occultamente
-no paço archiepiscopal, ao tempo que os grandes da côrte conversavam
-jactanciosamente sobre as rendas da corôa, que cada um lograva. O rei
-recolheu-se a palacio, e mandou postar n’um dos pateos interiores um
-troço de seiscentos homens armados.
-
-Logo que luziu a manhã, expediu recado aos grandes senhores para que
-sem demora lhe viessem falar, dizendo-se doente, e desejoso de fazer
-testamento. Os fidalgos acudiram em chusma, e foram isolados n’uma sala
-onde longo tempo esperaram.
-
-Finalmente, appareceu o rei, de aspecto terrivel, e espada em punho; e,
-sem mais tir-te nem guar-te, perguntou a cada um de per si quantos reis
-de Castella conheciam. Uns disseram que tres, outros que quatro, e ainda
-outros que cinco. O rei fingiu-se admirado. «Sendo eu mais moço que todos
-vós, replicou elle, conheço mais de vinte.» Os fidalgos responderam que
-não entendiam sua alteza. Então Henrique III explicou, que todos elles
-eram reis, porque se banqueteavam todas as noites, ao passo que elle, se
-quizera comer carneiro, tivera de empenhar o gabão. E acabou gritando:
-«Olá, gente da minha guarda!»
-
-Acudiram ás portas os soldados. Appareceu um algoz com o cepo, cutello e
-cordas, prompto a funccionar.
-
-«Então, diz Bernardes, o arcebispo se lhe lançou aos pés, pedindo, em
-nome de todos, perdão, e as vidas de mercê; e que no tocante ás fazendas,
-cortasse por onde lhe parecesse.»
-
-O certo é que o rei perdoou. Mas as contas ficaram justas por então, e o
-rei poude rehaver todos os castellos que, durante a sua menoridade, os
-tutores haviam alheado. E alem dos castellos, cento e cincoenta contos de
-maravedis.
-
-Henrique IV não era homem que tivesse resolução para imitar este exemplo
-do seu homonymo. Em vez de tirar aos fidalgos para dar a si, tirava a si
-para dar aos fidalgos. Por isso Garcia de Rezende, diz na _Miscellanea_:
-
- Mui poderoso e servido
- El-rei Dom Henrique era,
- Mui gran rico, mui querido,
- Fôra mui obedecido,
- Se governar se soubera.
- Mas vimos-lhe tanto dar
- E tanto deixar tomar
- Os grandes toda Castella,
- Que elles eram os reis d’ella,
- Elle sem ter que reinar.
-
-Vem a ponto citar o caso de outro arcebispo que, á semelhança do de
-Toledo na côrte de Henrique III, pompeava magnificencias na côrte de
-Henrique IV. Referimo-nos ao de Sevilha, D. Affonso da Fonseca, que uma
-noite, depois de ceia, fez servir á mesa duas bandejas coguladas de
-anneis de oiro, cravejados de pedras preciosas, para que a rainha e as
-suas damas tomassem os que lhe aprouvessem.
-
-D. Joanna sentiu porventura a febre do prazer invadir-lhe o espirito
-n’uma perfida embriaguez, que principiou por aturdil-a, e que devia
-necessariamente acabar por perdel-a, tanto mais que nenhum laço intimo,
-d’estes que estreitam os affectos e criam raizes, a prendia a seu esposo.
-
-Henrique IV, embriagado tambem, esquecia-se de que era casado, e de que
-a natureza lhe negara qualidades que o recommendassem aos olhos das
-mulheres. Fingia ser o que não era, e exaggerava o fingimento, porque
-galanteava com escandalo uma das damas da rainha, D. Guiomar de Castro,
-filha bastarda de D. Alvaro de Castro, conde de Monsanto, portugueza
-formosissima, que viera a casar accommodaticiamente com o conde de
-Tervinho, primeiro duque de Nájara.[3]
-
-Julgava-se depreciado o rei por não ser tão completo como qualquer dos
-seus vassallos, e mascarava-se de Tenorio, prophetizava Byron. Dava-se
-a ostentação de uma amante como os velhos lords inglezes, exhaustos e
-carunchosos, que vivem de se illudir a si proprios com as mulheres. Antes
-d’esta D. Guiomar, já Henrique IV tivera por manceba uma Catharina de
-Sandoval, que acabara por fazer abbadessa de um mosteiro de monjas, em
-Toledo, sob color de que necessitavam ser reformadas.
-
-Boa disciplina podia impor ás monjas a barregã do rei!
-
-Mas Henrique IV não podia ter confiança nas mulheres, pela simples razão
-de que ellas não podiam confiar n’elle. Catharina de Sandoval amava do
-coração um homem, que não o rei. Chamava-se Affonso de Cordova. O rei,
-como não pudesse competir com o seu rival, mandou-lhe cortar a cabeça em
-Medina del Campo, e resolveu a questão.
-
-Agora voltara-se para a bella Guiomar, tão platonicamente, por certo,
-como em tempo se voltara para a _vega_ de Granada.
-
-A rainha via-se enleada talvez n’uma duvida atroz. Quem teria razão?
-Seria Branca de Navarra, repudiada e virgem, ou D. Guiomar de Castro, que
-parecia inutilizar o rei para os seus deveres de marido?
-
-A pobre rainha decidiu-se por esta ultima hypothese, e um dia, não
-podendo mais comsigo, segurou pelos cabellos a dama, e castigou-a
-por sua propria mão. O escandalo estrondeou, dividiu-se a côrte em
-partidos, um pela rainha, outro pela manceba. O arcebispo de Sevilha,
-talvez mal succedido junto da rainha, apesar da galanteria dos anneis,
-pronunciou-se, por vingar-se, a favor de D. Guiomar. E o rei, apagando
-na alma de sua mulher a ultima noção do decoro conjugal, levou a manceba
-para duas leguas da côrte, poz-lhe casa sumptuosa, e ia visital-a quando
-lhe aprazia chancear-se de prendas que não tinha.
-
-Com este impulso mais, a rainha resvalara. Pelo menos a opinião publica
-boquejava desconfianças a respeito de D. Beltrão de Lacueva, _hidalgo
-de los mas generosos de Ubeda, y uno de los mas apuestos y gallardos
-cabaleros de la córte, que comenzaba á gozar del favor del rey, y de paje
-de lanza habia ascendido á moyordomo mayor_, diz Lafuente.
-
-Tal foi o gentil homem que a rainha, no pendor do seu abandono e no
-estonteamento de uma côrte perigosa, encontrou no momento de resvalar.
-
-
-
-
-II
-
-NA CÔRTE DE HENRIQUE IV
-
-
-Estava-se então em pleno cyclo cavalheiresco. O valor dava as mãos á
-poesia, na côrte de Castella. Muitos cavalleiros eram trovadores; não ser
-nenhuma d’estas coisas, importava o mesmo que viver e morrer anonymo. A
-magnificencia completava, como sabemos, as seducções da côrte, em que
-D. Joanna, de Portugal, era duas vezes rainha, pela formosura e pelo
-casamento.
-
-Os _passos de armas_ eram frequentes e notaveis. Propunham-se fazel-os
-os cavalleiros que queriam dar prova publica de seu brio e destreza, em
-honra de qualquer dama. Marcado o logar onde a lide devia realizar-se, o
-cavalleiro reptava solemnemente quantos por alli _passassem_.
-
-O _passo de armas_ mais caracteristico d’aquelle tempo foi o de Suero de
-Quinhones (1434).
-
-Uma noite, estando D. João II em Medina del Campo, folgando com a
-côrte em sarau dançante, apresentou-se-lhe o nobre cavalleiro Suero de
-Quinhones, acompanhado de mais nove gentis-homens, e pediu a el-rei
-auctorização para, em honra da sua dama, fazer um _passo de armas_ quinze
-dias antes e quinze dias depois da festa de S. Tiago, propondo-se os dez
-quebrar trezentas lanças de ferro de Milão com todos os cavalleiros,
-nacionaes e extrangeiros, que por alli passassem á ida ou á volta da
-festa do grande apostolo. Todas as damas, que não fossem acompanhadas por
-gentilhomem disposto a combater, perderiam a luva da mão direita.
-
-Lafuente traz a descripção minuciosa d’este celebre _passo_, do apparato
-dos cavalleiros, do campo da lide, e dos combates que se travaram. Nem
-menos de 68 aventureiros justaram com os dez mantenedores. Fizeram-se
-setecentas e vinte e sete _carreiras_; mas faltou o tempo para quebrar
-todas as trezentas lanças. Ficou a coisa reduzida a 166, e ninguem dirá
-que foi pouco.
-
-O primeiro aventureiro que acceitou o repto foi messire Arnaldo de la
-Floresta Bermejo, allemão, que correu seis carreiras e quebrou duas
-lanças.
-
-Assim como um allemão vinha justar a Castella, muitos cavalleiros
-castelhanos corriam mundo assistindo a todas as grandes festas e torneios
-das côrtes da Europa. Tornou-se notavel como cavalleiro andante o
-valoroso João de Merlo, honra da cavallaria castelhana.
-
-A recepção que em toda a parte se fazia aos cavalleiros andantes era
-magnifica.
-
-De visita á côrte de Affonso V veio em 1446 o famoso cavalleiro
-messire Jacques de Lalain, de Borgonha, que foi recebido com honras
-verdadeiramente principescas.
-
-Os torneios eram muitas vezes cruentos. Taes foram os que mal-agoiraram
-as nupcias de Henrique IV com D. Branca, de Navarra. O proprio D. Alvaro
-de Luna, justando na acclamação de D. João II, cahiu gravemente ferido.
-
-Isto, quanto aos paladinos. Os trovadores, os cultores da gaya sciencia,
-como se dizia, não eram menos numerosos que os paladinos.
-
-O proprio D. João II versejara. Attribuem-se-lhe umas trovas que
-principiam assim:
-
- Amor, yo nunca pensé
- que tan poderoso eras,
- que podrias tener maneras
- para trastornar la fé,
- hasta agora que lo sé.
-
-A rainha D. Joanna ainda foi encontrar na côrte de Castella o celebre
-marquez de Santilhana, auctor da conhecida carta ao condestavel de
-Portugal, que póde considerar-se como uma verdadeira arte poetica
-d’aquelle tempo. Como se vê por essa carta, o marquez de Santilhana,
-D. Inigo Lopez de Mendonça, era um erudito; mas as suas composições
-testemunhavam que, alem de conhecer profundamente a historia de toda a
-gaya sciencia, era tambem um poeta.
-
-As suas _serranillas_ são verdadeiramente notaveis. Bastará um exemplo.
-Certo dia o marquez, dirigindo-se para uma das suas expedições militares,
-encontrou na serra uma zagala que pastorava os rebanhos de seu pae, D.
-Diogo de Mendonça. Encantado da sua formosura, compoz esta bucolica, em
-que todas as graças pastoris rescendem:
-
- Moza tan fermosa
- non vi en la frontera
- como una vaquera
- de la Finojosa.
-
- ...
-
- En un verde prado
- de rosas é flores
- guardando ganado,
- con otros pastores,
- la vi tan fermosa,
- que apenas creyera
- que fuese vaquera
- de la Finojosa.
-
-Quando as vaqueiras formosas eram assim galanteadas em trovas, não admira
-que a rainha D. Joanna, não menos bella que a pastora de Finojosa, por
-muito que o fosse, se convertesse n’uma especie de sol em torno do qual
-girava todo o systema planetario da poesia castelhana, que extendeu a
-sua influencia até Portugal.
-
-A côrte de Castella tornou-se um fóco de attracção, sobretudo para
-Portugal. Os portuguezes que de lá vinham, impunham de castelhanos, tão
-fascinados voltavam. Os poetas de cá motejavam-n’os porisso:
-
- Oh! que modo que trazeis
- a desdenhar portuguez!
- oh que graças contareis,
- e tomareys
- d’elas mesmas o invés.
-
-Jorge Manrique descreve bem todos os encantos da côrte de Castella, já
-sobredoirados pela saudade de um bello tempo que passou:
-
- Las justas y los torneos,
- Paramentos, bordaduras,
- Y cimeras,
- Fueron sino devaneos?
- Qué fueron sino verduras
- De las éras?
-
-Já D. Duarte quizera obstar á emigração fidalga para Castella. Por carta
-dada em Obidos, em setembro de 1434, ordenou «que as pessoas que tiverem
-rendas n’este reina, e viverem em Castella, se passem a viver a elle; e
-não o fazendo, não possam levar as taes rendas para Castella, e não se
-lhe pagarão, e acabe.»
-
-Mas os fidalgos portuguezes, zombando da lei, continuaram a deixar-se
-fascinar por Castella.
-
-O duque de Alva compuzera um romance, _Nunca fue pena mayor_, e a rainha
-desejara ver glosados os versos d’esse romance. O commendador Roman
-impoz-se o encargo de glosador, por agradar á rainha:
-
- Dizem que a vuestro oido
- agradó aquel dulçor,
- de la cancion del sentido,
- famoso, franco, sabido
- Duque d’Alva, mi señor.
- Por darle gracia famosa
- y favor demasiado,
- alta regina gloriosa
- que aveis pedido la glosa
- y que nunca os han glosado.
-
-Póde parecer extranho que todos os poetas da côrte não acudissem de
-tropel a acceitar o repto poetico que lhes propunha a bella rainha. Mas
-o commendador Roman, atravez do véo transparente da sua modestia, dá a
-razão do caso:
-
- No saliendo delantero
- de mil otros de consuno,
- antes simple postrimero,
- _mas porque supe primero_
- _la causa que otro ninguno_.
-
-Vê-se, ao contrario do que poderia presumir-se, que os poetas da corte
-não desaproveitavam ensejo de vibrar a lyra em honra d’essa rainha, cuja
-belleza, segundo a expressão do poeta commendador, não havia lingua que a
-descrevesse, nem mão que a pintasse.
-
-Hoje, os commendadores não sabem dizer d’estas coisas.
-
-É, pois, n’esta côrte cavalheiresca e poetica, alem de ostentosa, que o
-gentil Beltrão de Lacueva nos apparece.
-
-Quando o duque da Bretanha enviou uma embaixada a Henrique IV,
-propondo-lhe alliança e amizade, quiz o rei obsequiar o embaixador com
-luzidas festas, que se fizeram na casa de campo del Pardo.
-
-Quatro dias deslizaram em banquetes, torneios, justas e caçadas. Mas as
-festas ainda não acabaram ahi.
-
-Ao quarto dia, quando a côrte regressava a Madrid, Beltrão de Lacueva
-preparou um _passo de armas_ á Porta de Ferro, para que justassem todos
-quantos regressavam do Pardo.
-
-D. Beltrão não quiz perder esta occasião de exhibir aos olhos da rainha,
-por entre as pompas do torneio, a sua elegancia e destreza como grande
-cavalleiro de gineta, notavel entre os eximios.
-
-Não era permittido aos gentis-homens da côrte, que acompanhavam damas,
-passar alem sem que com D. Beltrão fizessem seis carreiras. Os que não
-quizessem justar deixariam, como signal da sua deshonra, o guante da mão
-direita.
-
-Sobre um arco de madeira havia muitas lettras lavradas a oiro, e o
-cavalleiro que quebrava tres lanças, dirigia-se para o arco, e tomava a
-lettra inicial do nome da sua dama.
-
-D. Beltrão com todos os outros cavalleiros luctou em honra de uma dama
-mysteriosa, a dos seus pensamentos, de cuja inicial fez segredo. Mas
-essa dama estava presente: era a rainha.
-
-Foi-se todo o dia n’esta festa, e o bom rei Henrique IV, tão contente
-ficou com o _passo de armas_, em que o unico ferido foi elle...
-moralmente, que por memoria fundou n’aquelle logar o mosteiro de S.
-Jeronymo, acabado em 1464.
-
-Bom homem, o rei!
-
-A belleza da rainha, o seu papel importante entre o circulo dos poetas
-da côrte, o abandono, em que se achava, de todo o affecto conjugal, a
-corrupção do tempo e do paço, e o boquejar do mundo, especialmente o da
-côrte, que é o mundo que mais boqueja e moteja, crearam em torno de D.
-Joanna, de Portugal, uma lenda de devassidão romantica em que, por entre
-anachronismos frisantes, figuram a rainha e o poeta João Rodrigues del
-Padron.
-
-Resaltava das composições d’este trovador uma vaga anciedade de amar e
-ser amado, que encontrou echo na sensibilidade vibratil da rainha.
-
-Um dia, de uma das janellas do paço, alguma dama mysteriosa deixou cahir
-uma carta, quando o poeta passava.
-
-Padron guardou-a, e leu-a. Era nada menos que o convite para uma
-entrevista nocturna: pelas duas horas da madrugada, o poeta devia estar á
-porta falsa da cava, e bater com os dedos tres pancadas; o mais absoluto
-segredo devia envolver esta aventura, sob pena de mallograr-se.
-
-Padron aconselhou-se com um amigo intimo, que se promptificou a
-acompanhal-o, para o defender, se a sua vida corresse perigo. Padron foi,
-fez o signal ajustado, a porta abriu-se, e recebeu-o, no mysterio da
-escuridão, uma dama, cuja voz era doce como a musica. Sobre a capa d’elle
-se sentaram, no chão, e ahi conversaram, cingidos um ao outro, negando-se
-ella a quaesquer revelações, e insistindo na condição do segredo, que
-devia ser inviolavel.
-
-De tres em tres dias avistar-se-iam, no mesmo sitio, dado o mesmo signal
-na porta da cava.
-
-Padron confidenciou ao amigo o que se tinha passado, e um e outro, por
-mais tratos que déssem á imaginação, não puderam sequer suspeitar quem a
-dama fosse.
-
-Á terceira noite, nova entrevista. As mesmas instancias por parte do
-poeta; a mesma reserva por parte da dama. Pediu-lhe elle uma madeixa de
-cabello, cortou-a por sua propria mão; porêm nem Padron nem o seu amigo
-puderam depois adivinhar de que dama da côrte fosse o cabello.
-
-O rei andava fóra: em côrtes, diz a lenda. Mas ia regressar, e a dama,
-n’uma nova entrevista, annunciou ao poeta essa contrariedade, que o era
-realmente, porque as chaves d’aquella porta ficavam na camara do rei.
-
-Conta a lenda que Padron, para experimentar de que jerarchia fosse a
-dama, lhe pedira dinheiro, emquanto lhe tardava de casa. Tem a gente
-o direito de suspeitar da intenção d’este pedido, pondo em duvida que
-Padron não recorresse ao processo ignobil de um _mr. Alphonse_, poeta e
-villão.
-
-N’outra noite, a dama deu-lhe as joias, mas recommendou-lhe que as
-desmanchasse, porque eram da rainha, e podiam ser conhecidas. Padron
-acceitou-as, e não diz a lenda que fossem restituidas.
-
-Entretanto, o rei chegara, e a porta da cava deixou de abrir-se. Mas o
-poeta insistira sempre e, finalmente, de uma vez a porta abriu-se.
-
-Queixou-se Padron de que a dama levasse o receio de declarar-se até
-á desconfiança affrontosa. A dama acabou por ceder, e fez uma nova
-concessão. Estava proxima a festa de S. Pedro; que lhe désse elle uma
-joia, que por ella a distinguiria na festa. Padron tinha apenas comsigo,
-de que pudesse dispor, um cinto escarlate. Tirou-o, e deu-lh’o. A dama
-afiançou-lhe que o poria em laço no cabello.
-
-Chegou o dia da festa. Padron e o seu amigo esperavam que a côrte se
-dirigisse para a sala do throno. Ambos procuravam avidamente com os olhos
-a dama do laço escarlate. Na cabeça da rainha o descobriu o amigo de
-Padron, e fez signal ao poeta. A rainha surprehendeu esse movimento, e
-o poeta, sem dar por isso, tão louco de alegria ficou, que nos torneios
-d’esse dia se avantajou a todos os cavalleiros da côrte.
-
-Á noite, Padron bateu á porta da cava. A rainha, porque era ella a dama,
-recebeu-o, mas para lhe censurar asperamente a sua indiscreção, e para o
-ameaçar com a morte se não sahisse essa mesma noite de Castella.
-
-Padron obedeceu, e partiu com o coração despedaçado, chorando a sua
-perdida felicidade, partindo só e triste, como elle proprio, segundo a
-lenda, o diz na trova.
-
-... E assim iam corridos mais de seis annos de casamento esteril, quando,
-em 1461, uma noticia inesperada explodiu: a rainha estava gravida.
-
-O rei Henrique delirou de contentamento, mas o paiz inteiro ria do jubilo
-do rei, porque estava capacitado de que o esperado herdeiro do throno
-era o fructo immoral dos amores adulterinos da rainha com D. Beltrão de
-Lacueva.
-
-Porêm o rei continuou a delirar de jubilo, e ordenou que D. Joanna fosse
-conduzida a Madrid, onde elle estava, devendo fazer a jornada n’uma
-liteira, para que mais repoisada viesse.
-
-João Pacheco, marquez de Vilhena, e o arcebispo de Toledo, prevenindo
-os conflictos politicos que deveriam derivar-se do parto da rainha,
-aconselharam o rei a que chamasse para a côrte, onde melhor poderiam
-ser educados, seus irmãos, D. Isabel, que tinha então dez annos, e D.
-Affonso, que apenas contava oito, mas que, segundo o tratado de paz
-feito entre Henrique IV e seu tio o rei de Navarra, deviam casar com D.
-Fernando e D. Leonor, filhos d’este monarcha.[4]
-
-Em março de 1462, D. Joanna, de Portugal, deu á luz uma filha. O rei
-ordenou que se fizessem festas pomposas. Era aquelle, para elle, um
-presente do céo! diz Lafuente. E eu creio que fosse assim.
-
-A princezasinha recebeu o nome de Joanna. Baptizou-a o arcebispo de
-Toledo, tendo por assistentes os de Calahorra, Carthagena e Osma. Foram
-padrinhos o embaixador de França, conde de Armagnac, e o marquez de
-Vilhena; madrinhas, a infanta D. Isabel, irmã do rei, já então aposentada
-na côrte, e a marqueza de Vilhena.
-
-Contrastam singularmente com estes jubilos da côrte de Castella os
-lacrimaveis episodios do passamento da rainha Branca, de Navarra, no
-castello de Orthez.
-
-O principe de Vianna, D. Carlos, devia ser, por morte de seu pae,
-herdeiro do throno de Navarra. O principe fallecera, transferindo á
-irmã, a infeliz Branca, os direitos de successão; mas D. Branca não
-nascera senão para soffrer. Só uma coroa lhe estava destinada: era a da
-virgindade perpetua.
-
-A irmã mais nova de D. Branca, D. Leonor, tinha casado com o conde de
-Foix, e parece que uma das condições secretas do casamento fôra que D.
-Branca seria entregue ao conde, que a obrigaria a renunciar ao throno ou
-a fazer-se freira, succedendo portanto D. Leonor ao rei, seu pae, logo
-que elle morresse.
-
-O rei de Navarra não duvidou sacrificar a filha ao apoio que, em troca,
-o conde de Foix lhe promettia dar contra o rei de Castella, e achando-se
-com a infeliz Branca em Olite convidou-a a passar com elle os Pyrenéos,
-sob pretexto de que projectava casal-a com o duque de Berri, irmão do rei
-de França.
-
-Sabia Branca o que se passava, e recusou-se a ir, allegando ao pae,
-segundo a expressão de Zurita, que não queria ser homicida de si mesma. O
-rei arrancou então a mascara, e obrigou-a a partir á força, bem guardada
-por pessoas da sua confiança. Poucos dias depois, o rei de Navarra
-contratava definitivamente com o conde de Foix em Olite.
-
-D. Branca foi encerrada no mosteiro de Roncesvalles, e d’ahi teve meio
-de protestar contra a usurpação que se lhe queria fazer, declarando que
-por vontade propria declinaria os seus direitos no rei de Castella, que a
-havia repudiado!
-
-O protesto inquietou a côrte de Navarra, como era natural, e a mallograda
-rainha foi mandada transferir para S. João Pied de Port.
-
-Comprehendeu D. Branca que não se contentavam com usurpar-lhe os direitos
-ao throno, mas que tambem a sua vida corria risco, e pediu a Henrique
-IV, ao conde de Armagnac e ao condestavel de Navarra, que por meio da
-força defendessem, se tanto fosse preciso, os seus direitos e a sua vida,
-auctorizando-os a tratarem-lhe casamento com qualquer principe.
-
-Soube, porêm, D. Branca que o rei, seu pae, ia envial-a a S. Pelagio, no
-Bearn. Então, julgando-se completamente perdida, escreveu a Henrique IV,
-de Castella, o homem que a havia repudiado, cedendo n’elle todos os seus
-direitos á coroa de Navarra. Essa carta, que tem a data de 30 de abril
-de 1462, não póde lêr-se, segundo a expressão de um escriptor hespanhol,
-sem que se enterneça o coração mais duro. Lafuente, referindo-se á carta
-de Branca, diz que a infeliz princeza recordava a Henrique IV os antigos
-vinculos que os haviam unido, e os crueis transes que atravessara desde
-que fôra repudiada. Segundo Zurita, Branca pedia a Henrique IV que
-vingasse a sua morte e a do principe Carlos.
-
-A que mãos de poltrão confiava a infeliz senhora tão nobre empresa! Vê-se
-que a esposa repudiada ficara conhecendo tão pouco o rei como o marido.
-
-N’aquelle mesmo dia foi Branca, de Navarra, reconduzida ao castello de
-Orthez, onde permaneceu encerrada mais de dois annos, sob a vigilancia de
-uma dama da condessa de Foix, que acabou por envenenal-a.
-
-Todos os chronistas hespanhoes têem phrases de maviosa compaixão para com
-a memoria da infeliz Branca. Citaremos apenas dois, Zurita, o chronista
-de Aragão, e Flores, o chronista das rainhas castelhanas. Zurita recorda
-que ella fôra repudiada pelo marido, perseguida pela irmã, e abhorrecida
-pelo pae, e que não teve mais em quem depositar a sua ultima esperança
-senão o homem de quem maior affronta havia recebido. Flores lembra que os
-ultimos suspiros d’esta desventurada princeza «foram echos no céo para os
-desgraçados fins dos condes de Foix, e dos seus descendentes», acabando o
-reino de Navarra n’aquella familia.[5]
-
-E conclue dizendo que enterraram D. Branca na cathedral de Lescar, _desde
-donde puede predicar á todo el mundo perpetuos desengaños_.
-
-Henrique IV, de Castella, impressionou-se pouco com a dilacerante carta
-da infeliz Branca, sua primeira mulher.
-
-O céo ou Beltrão de Lacueva havia-lhe dado uma filha; bastava esta só
-alegria para absorver-lhe todas as attenções.
-
-Dois mezes depois do baptizado, o rei ordenou que a infanta D. Joanna
-fosse, em côrtes de Madrid, proclamada princeza das Asturias e herdeira
-do throno.
-
-Muitos fidalgos não quizeram jurar; entre elles, D. Luiz de Lacerda,
-conde de Medinaceli, a quem o rei prometteu mil vassallos para que
-jurasse, sem que o conde cedesse.
-
-D. Affonso e D. Isabel, os jovens tios da infanta recem-nascida, juraram,
-sujeitos, como estavam, á tutela do rei.
-
-A voz publica deu um cognome irrisorio á infanta. Chamou-lhe a
-_Beltraneja_. Este cognome recordava a sua origem adulterina:
-_Beltraneja_, a filha de Beltrão. Mas o rei Henrique nada d’isto sabia,
-ou queria saber. No dia dos seus annos deu a Beltrão o senhorio de
-Ledesma e o titulo de conde; chamou-o aos conselhos e governação do
-reino, e...
-
-E estimulou-o d’este modo a atear cada vez mais, por cupidez de maiores
-honras e proveitos, o fogo do seu amor á rainha.
-
-De feito, em 1463, foi declarado que D. Joanna ia novamente ser mãe. Mas
-um caso imprevisto mallograra essa esperança. Referindo-se á rainha, diz
-Lafuente:
-
-«Tinha o costume de humedecer e amaciar o cabello com um liquido,
-sem duvida inflammavel, e um dia, achando-se na sua camara, um forte
-raio de sol que entrava por uma janella e se projectava sobre a sua
-cabeça, incendiou-lhe o cabello, de modo que se as damas não fossem tão
-diligentes em acudir-lhe, haveria corrido o perigo de carbonizar-se.
-Mas tanto bastou para que o susto antecipasse o parto de um feto de
-seis mezes, que nasceu sem vida, e que pela circumstancia de ser varão
-produziu no rei maior pesar. Fizeram-se sinistros agoiros sobre o caso, e
-não faltou quem vaticinasse desgraças para o rei e a rainha.»
-
-Bem agoirado corria o tempo, mas era para D. Beltrão de Lacueva, que,
-graças á posição a que se guindara, tratou casamento com uma filha do
-marquez de Santilhana. D’este modo conseguia aparentar-se com a poderosa
-familia dos Mendonças. Estava na esteira para o méstrado de S. Tiago.
-Fazia sombra e receio ao marquez de Vilhena. Levantava-se n’um pedestal
-de oiro, e a conspiração, tão vulgar em todas as côrtes, principalmente
-na de Castella, principiava a minar-lhe o pedestal.
-
-Entretanto, sobre as finas hollandas e custosas sedas, que alfaiavam o
-catresinho da princeza das Asturias cahia, como um enorme pingo de lama e
-fel, a risada sarcastica das multidões, appellidando-a de _Beltraneja_.
-
-E essa alcunha havia de ficar-lhe para toda a vida, como um ridiculo
-cruel agrilhoado ao seu triste destino.
-
-
-
-
-III
-
-DRAMAS DA POLITICA
-
-
-Affonso V, de Portugal, regressando de Ceuta em 1464, desembarcou em
-Tavira, e dirigindo-se para o Alemtejo, passou a paschoa em Evora. D’ahi,
-_com alguns senhores e fidalgos escolhidos secretamente_, diz Ruy de
-Pina, foi em romaria a Santa Maria de Guadalupe, onde se avistou com sua
-irmã D. Joanna e com Henrique IV, de Castella.
-
-O assumpto d’esta entrevista não era novo. Tratava-se de mais uma
-alliança conjugal entre as duas casas reinantes de Portugal e Castella.
-
-Já em Gibraltar se tinham avistado Affonso V e Henrique IV, para identico
-fim, no mez de janeiro, ao tempo da desastrosa escalada de Tanger,
-ficando concertado que, a infanta D. Isabel casasse com el-rei D. Affonso
-V, e a princeza das Asturias com o principe D. João, de Portugal, seu
-primo.[6]
-
-Na conferencia da paschoa, em Guadalupe, tiveram os dois monarchas, bem
-como a rainha D. Joanna, _as mesmas praticas e accordos de Gibraltar
-sobre casamentos e lianças_, diz Ruy de Pina.[7] Esta nova conferencia,
-tão proxima da outra, revela apenas o desejo que Henrique IV tinha de
-encontrar em Affonso V, seu cunhado, um alliado que o protegesse contra
-as revoltosas peripecias da politica de Castella, cada vez mais agitada.
-
-Henrique IV fizera a jornada de Guadalupe sem ouvir previamente o seu
-antigo valido marquez de Vilhena, que principiava a decahir rapidamente,
-offuscado por Beltrão de Lacueva, o novo astro da côrte. Vilhena não
-perdoara a affronta, e aproveitara a ausencia do rei para conspirar
-contra elle de parceria com o arcebispo de Toledo.
-
-O almirante D. Fradique e seu filho, os condes de Benavente, Placencia,
-Alba e Paredes, o bispo de Coria e outros prelados, varios senhores e
-cavalleiros adheriram á conspiração. O mestre de Calatrava, irmão do
-marquez de Vilhena, propuzera-se sublevar a Andaluzia contra o rei.
-
-D. Henrique, surprehendido com este acontecimento, acobardou-se, e propoz
-aos conspiradores que voltassem á côrte, que elle os informaria de
-tudo o que se tinha passado com o rei de Portugal. Bem conheciam elles
-a fraqueza do monarcha castelhano! Porisso responderam á proposta de
-Henrique IV impondo condições, uma das quaes era a prisão do arcebispo
-de Sevilha, que João Pacheco inculcava como figadal inimigo do rei.
-Esta denuncia não passava de um ardil do marquez de Vilhena, porque
-elle proprio mandara prevenir o arcebispo de que Henrique IV intentava
-prendel-o. E assim conseguiria indispor contra o rei um prelado poderoso.
-Tal era o plano de Vilhena: isolar o rei, indispondo-o com os seus mais
-dedicados amigos.
-
-A fraqueza do rei alentava a ousadia dos conspiradores.
-
-«Uma noite, conta Lafuente, achando-se (Henrique IV) no seu palacio,
-ouviu cahir com estrondo as portas do regio alcaçar, e ruido e alvoroto
-de gentes que penetravam no palacio. Aturdido, o rei refugiou-se n’um
-pequeno retrete em companhia de D. Beltrão de Lacueva, conde de Ledesma.»
-
-Não deixa de ser altamente comica esta camaradagem do rei e de Beltrão,
-transidos de medo, no recinto pouco convidativo de um retrete, que, ainda
-assim, não deixaria de convir-lhes na occasião. De mais a mais, ha o
-que quer que seja de latrinario na baixeza do rei, lançado nos braços
-do homem que a voz publica indigitava como pae da infanta D. Joanna.
-Porisso, o logar era tão conveniente como proprio. O acaso tem ás vezes
-razão.
-
-Lafuente prosegue:
-
-«Os que de tão tumultuosa maneira haviam invadido os aposentos reaes,
-eram os condes de Benavente e de Paredes, o filho do almirante e outros
-cavalleiros de conta, que, capitaneados por o de Vilhena, iam com animo
-de apoderar-se dos infantes, e de prender o rei e D. Beltrão de Lacueva.
-O de Vilhena entra só ao esconderijo do rei e, com a sua doble e arteira
-politica, finge-se indignado d’aquelle insulto, e, como quem zomba
-da debilidade do rei, excita-o a que não deixe de punir. «Parece-vos
-bem, marquez, disse-lhe o rei, isto que se fez ás minhas portas? Pódes
-estar certo de que já não tenho paciencia para mais.» Mas o resultado
-limitou-se a uma esteril e passageira indignação, e a sahir o de Vilhena
-com os seus impunemente do palacio, talvez por lhe não convir então levar
-as coisas mais longe.»
-
-Henrique IV ou não conhecia o despeito de João Pacheco, vendo-se
-supplantado pelo amante da rainha, ou, aconselhado por Beltrão, em quem
-agora cegamente confiava, queria ageitar ao marquez de Vilhena occasião
-de se comprometter e perder-se.
-
-Mas Beltrão de Lacueva, se assim aconselhava o rei, devia lembrar-se de
-que entre Henrique IV e João Pacheco havia antigos laços de suspeitosa
-amizade. Portanto, devia tambem metter em linha de conta esse factor
-importantissimo.
-
-E, com effeito, um novo acontecimento veio demonstrar a sua importancia.
-
-Estavam em Segovia o rei, a rainha, a princeza das Asturias, os infantes
-e Beltrão. Os conspiradores tinham-se combinado com um capitão da guarda
-real e sua mulher, dama da infanta D. Isabel, para que por uma porta
-secreta os introduzisse nos quartos da familia real, que seria presa, e
-do favorito, que seria assassinado.
-
-O marquez de Vilhena entretinha o rei n’essa noite, conversando
-serenamente com elle, á espera que a conspiração rebentasse. Mas a
-conspiração descobriu-se, e Henrique IV contentou-se com ouvir sobre o
-caso o marquez de Vilhena, que se fingia profundamente indignado contra
-os condes de Placencia e Alba, co-réos na conspiração mallograda.
-
-Entretanto, o rei, sem forças para romper abertamente com o seu antigo
-companheiro de prazeres, ia guindando ás supremas honras o amante da
-rainha. Fizera-o, finalmente, grão-mestre de S. Tiago. Beltrão de Lacueva
-attingia assim a alta posição social que D. Alvaro de Luna deixara
-devoluta.
-
-João Pacheco revoltava-se cada vez mais, como valido decadente. Fizera
-com que os condes de Placencia e Alba pedissem uma entrevista ao rei
-entre S. Pedro de las Duenhas e Villacastin, sob pretexto de que
-queriam reconciliar-se com o marquez de Vilhena, e ouvir o rei sobre
-esse assumpto. Henrique IV annuiu com a maior docilidade, fazendo-se
-acompanhar por Beltrão de Lacueva, pelo bispo de Calahorra, por outros
-fidalgos mais, pela sua guarda real e por um esquadrão de quinhentas
-lanças.
-
-Ainda d’esta vez escapou ao laço o pobre rei, porque dois mensageiros,
-largando a todo o galope, correram a avisal-o do perigo a que se expunha.
-
-Em vista d’este novo desastre, os conspiradores, desfraldando o pendão
-da revolta, foram acoitar-se em Burgos, e d’ahi formularam claramente as
-suas accusações contra o rei, enviando-lh’as por carta para Valhadolid.
-As principaes queixas dos conspiradores eram estas: haver nomeado
-grão-mestre de S. Tiago Beltrão de Lacueva, com prejuizo do infante D.
-Affonso, a quem o grão-mestrado pertencia, como filho do rei D. João;
-_ter feito jurar herdeira do throno de Castella D. Joanna, devendo saber
-que não era sua filha legitima_. Os conspiradores concluiam por pedir
-como desaggravo que o infante D. Affonso fosse jurado herdeiro do throno.
-
-Pela primeira vez era a rainha formalmente accusada de adultera. Até
-ahi, as murmurações, comquanto geraes, não tinham chegado á ousadia de
-formular uma accusação categorica, dirigida ao proprio rei. Mas, desde
-esse momento, as conveniencias respeitosas foram calcadas, e D. Joanna,
-de Portugal, publicamente accusada de haver dado á luz uma filha de que
-seu marido não era o pae.
-
-Se o rei D. Duarte fôra ainda vivo, morreria de pesar, elle, que, no
-_Leal conselheiro_, escrevia a respeito da honestidade das mulheres
-portuguezas: «... ao presente eu não sei, nem oiço mulher de cavalleiro,
-nem outro homem de boa conta em todos meus reinos, que haja fama
-contraria de sua honra em guarda de lealdade; e passaram de cem mulheres,
-que el-rei e a rainha, meus senhores padre e madre, cujas almas Deus
-haja, e nós, casamos de nossas casas, e prouve a Nosso Senhor que alguma,
-que eu saiba, nunca falleceu em tal erro dês que foi casada...»
-
-Pois era justamente contra uma dama portugueza, não simples esposa de
-cavalleiro, mas rainha de Castella pelo casamento, e filha de rei, de um
-rei que era ao mesmo passo o auctor do _Leal conselheiro_, era contra D.
-Joanna, de Portugal, que os revoltosos de Burgos publicamente fulminavam
-a accusação de adultera, barregã de um valido, como outra rainha de
-Castella, tambem portugueza, cujo amante, o pae de D. Leonor Telles, fôra
-assassinado, por ordem de Pedro, o Cruel, quando á sahida da cidade de
-Tóro dava o braço á rainha.
-
-Henrique IV, de instinctos menos carniceiros, não cuidou de assassinar
-ninguem. Até, pelo contrario, se mostrou zangado com o bispo de Cuenca
-por lhe aconselhar que punisse severamente os revoltosos.
-
-O pobre rei Henrique sanccionou a sua propria deshonra tão publicamente
-quanto a accusação o fôra, concedendo uma entrevista aos conspiradores
-entre as villas de Cigales e Cabezon, e accedendo a todas as imposições
-que na entrevista lhe foram feitas.
-
-Obrigou-se o rei de Castella a entregar ao marquez de Vilhena o infante
-D. Affonso, seu irmão, _para que fosse jurado herdeiro e successor dos
-reinos_, com a condição de casar com a princeza D. Joanna; a fazer com
-que Beltrão de Lacueva resignasse o mestrado de S. Tiago em proveito
-do infante D. Affonso, e a nomear uma deputação de cinco membros que,
-reunida em Medina del Campo, regularia todas as differenças entre o rei e
-os dissidentes, que constituiam a liga revolucionaria.
-
-Assim aconteceu. D. Affonso foi jurado _legitimo successor do reino_;
-Beltrão de Lacueva renunciou ao mestrado, mas o rei fel-o, em
-compensação, duque de Albuquerque, doou-lhe varias villas, e arbitrou-lhe
-uma renda sobre outras villas; finalmente, o rei nomeou os membros da
-deputação, que lhe competia nomear, para que funccionassem com os membros
-eleitos pela junta.
-
-Desde este momento estava reconhecida por Henrique IV a illegitimidade
-de D. Joanna, a infeliz princeza para quem a vida tão tempestuosa
-amanhecia, e a deshonra da rainha sua mãe.
-
-Mas Henrique IV não era homem que tivesse duvidas em mudar de opinião.
-Em Madrid fizera jurar D. Joanna por herdeira; em Medina del Campo
-concordava em que fosse jurado o infante D. Affonso. Porisso não admira
-que, recolhendo de Medina, désse por nullo o convenio que acceitara, e
-escrevesse aos da liga para que lhe restituissem o infante, seu irmão.
-
-O marquez de Vilhena e os seus responderam altivamente ás cartas do rei,
-fazendo um simulacro de deposição de Henrique IV em Avila. O arcebispo de
-Toledo, e varios fidalgos, por suas proprias mãos, arrancaram solenemente
-as insignias reaes ao manequim, que representava o rei, e alçaram o
-pregão de: _Castella por el-rei D. Affonso_. Em seguida todos beijaram a
-mão ao infantesinho, que acabavam de acclamar.
-
-Quando Henrique IV soube isto rompeu em lastimas, citou palavras de Job,
-accusou-se por haver alentado ingratos.
-
-Mas, como lastimas não valem, resolveu despachar cartas para todo o
-reino a pedir soccorro. E uma grande parte do reino enviou-lh’o _para
-castigar a enormidade do desacato_, diz Lafuente, já que o rei havia
-deixado chegar as coisas a um tal extremo. Entre os fidalgos, que vieram
-collocar-se ao lado de Henrique IV, contavam-se Beltrão de Lacueva, duque
-de Albuquerque, e seu sogro, o marquez de Santilhana.
-
-Os sublevados sahiram de Avila por Penhaflor para acampar á vista de
-Simancas; mas esta villa conservou-se firme ao rei, e os seus habitantes
-parodiaram o feito de Avila simulando a deposição do arcebispo de Toledo,
-ao qual cognominaram _Dom Oppas_, que era o nome do traidor, arcebispo de
-Sevilha, no tempo do rei Rodrigo. E depois de arrastarem o manequim pelas
-ruas, queimaram-n’o n’uma fogueira, ao som d’esta trova:
-
- Esta és Simancas,
- Dom Oppas traidor;
- Esta és Simancas,
- Que no Penhaflor.
-
-Em vista d’esta attitude energica, os revoltosos retiraram. O rei,
-apoiado na adhesão popular, poderia havel-os derrotado de vez. Mas,
-encantado pelas seducções do marquez de Vilhena, a quem concedera uma
-entrevista, licenciou o exercito sob condição de que a liga renunciaria á
-acclamação do infante D. Affonso, e obedeceria ao rei.
-
-O que tinha feito, entretanto, por desaffrontar-se, a rainha de Castella,
-D. Joanna, cuja honra era publicamente conspurcada? O que fizera, por
-vingar sua irmã, o rei Affonso, de Portugal?
-
-D. Joanna avistou-se com seu irmão na provincia da Beira Baixa. Diz
-o padre Flores que a infanta D. Isabel acompanhou a rainha, e que a
-_Beltraneja_ ficara, entretanto, a bom recado, no alcaçar de Segovia.
-O logar marcado para a entrevista foi a cidade da Guarda. Ahi expoz
-a rainha de Castella a triste situação em que se encontrava, e as
-difficuldades politicas em que seu marido se havia lançado. Como era
-natural, o primeiro movimento de Affonso V foi de commiseração pela irmã,
-mas, posto o negocio em côrtes, que na Guarda se reuniram, e a que D.
-Joanna assistiu em nome do rei, seu irmão, a volubilidade de Henrique IV
-não pesou menos na balança dos tres estados do que a deshonra da rainha
-de Castella: «foi el-rei aconselhado, diz Pina, que em tal discordia
-e empresa nem lianças se não entremettesse, da qual coisa com a mais
-honestidade que poude se excusou.»
-
-E os factos occorridos em Castella vieram justificar este prudente
-conselho dado a Affonso V.
-
-O rei Henrique, desprezando os fortes elementos de resistencia que o paiz
-lhe offerecia, licenciou os seus soldados, que se retiraram indignados.
-Fiado nas promessas do marquez de Vilhena, que, aliás, não cuidou de
-cumpril-as, mandou buscar a _Beltraneja_ a Segovia, fel-a entrar em
-Samora debaixo de pallio, e reuniu-se depois com a rainha e com a infanta
-D. Isabel, que regressavam de Portugal, em Simancas.
-
-Toda Castella se resentia d’estes acontecimentos, a anarchia ia de foz em
-fóra, os malfeitores assolavam as povoações que, para resistir-lhes, e
-proteger-se a si proprias, faziam _hermandad_.[8] Porêm, no meio d’esta
-_degringolade_ geral, custa a crer que ainda houvesse quem defendesse
-o rei! Pois havia. Valhadolid, aproveitando uma sahida do almirante D.
-Fradique com o infante D. Affonso, e a sua gente, sobre Arévalo, tomou de
-novo voz por D. Henrique, que logo se foi lá metter, sendo recebido com
-festas.
-
-Henrique IV não se fortalecia com estas demonstrações de agrado. A sua
-fraqueza de espirito era tamanha, que acceitava todas quantas propostas
-os adversarios lhe fizessem.
-
-Vejamos. Pedro Giron, mestre de Calatrava e irmão do marquez de Vilhena,
-porventura já cansado de andar agitando a Andaluzia contra o rei, propoz
-a Henrique IV, por intermedio do arcebispo de Sevilha, fazer pazes com
-elle, obrigando-se a servil-o com tres mil lanças, a emprestar-lhe
-sessenta mil dobras e a restituir-lhe o infante D. Affonso, sob a
-humilhante condição de que lhe seria concedida em casamento a infanta D.
-Isabel.
-
-Prompto! Henrique IV acceitou logo a proposta. Deu de mão a Beltrão de
-Lacueva, e chamou para a côrte o mestre de Cacalatrava, tratando ao
-mesmo tempo de obter de Roma a dispensa para que elle pudesse casar,
-visto ser grão-mestre de uma ordem religiosa.
-
-Mas Henrique IV esquecia-se de que sua irmã Isabel, comquanto menina de
-dezeseis annos, não era tão malleavel como elle. Mais nova ainda, depois
-da entrevista de Guadalupe, oppuzera resistencia a casar-se com Affonso
-V, allegando que era precisa licença das côrtes. Agora, mais desenvolvida
-a sua energia de castelhana, não deixaria de oppor uma seria resistencia,
-tanto mais que tinha a seu lado uma dama dedicadissima, D. Beatriz de
-Bobadilha, a qual, tirando um punhal, dissera uma noite á infanta:
-«Primeiro o cravarei eu no coração do mestre de Calatrava.»
-
-Pedro Giron, chamado pelo rei, apressou-se a jornadear de Almagro para
-Madrid, com grande sequito de cavalleiros. Mas ao segundo dia de Jornada
-adoeceu gravemente em Villarrubia, e a breve trecho morreu _com pouca
-edificação christã_. Morreu raivando e praguejando, por não chegar a ver
-realizado o seu ideal.
-
-Os chronistas castelhanos põem a virtude da infanta D. Isabel acima de
-toda a suspeita n’esta morte. Cremos que fosse assim, mas é possivel que,
-mesmo sem conhecimento da infanta, alguem envenenasse o grão-mestre de
-Calatrava.
-
-A infanta D. Isabel poude, emfim, respirar, mas o estado anarchico do
-paiz continuou o mesmo. Fizeram-se conferencias em Madrid, cidade que foi
-posta em poder do arcebispo de Sevilha, entre o rei e os revoltosos. Não
-deram resultado, como tantas outras conferencias. N’estas aguas turvas
-só o marquez de Vilhena logrou pescar, porque um bello dia nomeou-se a
-si proprio grão-mestre de S. Tiago, sem se importar com o rei, nem com
-o principe Affonso, nem com a côrte, nem com o papa, mas importando-se
-apenas com a sua muito alta e poderosa pessoa.
-
-
-
-
-IV
-
-MÃE E FILHA
-
-
-A anarchia continuava desenfreada.
-
-Se as coisas iam mal quando um só rei, o fraco D. Henrique, dominava em
-Castella, muito peor corriam agora que dois reis adversarios, posto que
-irmãos, dividiam o paiz em continuas luctas civis, duplamente fratricidas.
-
-Uma d’essas luctas travou-se a 20 de agosto de 1467, nas planicies de
-Olmedo, entre os partidarios de Affonso e Henrique.
-
-No numero dos cavalleiros promptos a combater pelo rei Henrique estava
-Beltrão de Lacueva. Sobre elle recahiam principalmente os odios dos
-adversarios, e tanto que o arcebispo de Sevilha lhe enviou um mensageiro
-com recado de que quarenta cavalleiros de D. Affonso e do arcebispo
-de Toledo haviam feito voto solenne de matal-o no combate que ia
-empenhar-se. Beltrão respondeu com altivez castelhana que reparasse bem
-o mensageiro nas armas e insignias, que trazia vestidas, para que os que
-alli o mandaram pudessem, por sua informação, reconhecer facilmente o
-duque de Albuquerque.
-
-O combate travou-se com impeto, e o duque de Albuquerque defendeu-se
-valorosamente dos golpes que lhe vibravam os que haviam jurado matal-o.
-Valeu-lhe n’um aperto perigoso o marquez de Santilhana, seu sogro. O
-duque portou-se bravamente; de um lado e do outro combateu-se com ardor;
-porêm, no fim da peleja, a victoria não fôra decisiva nem para uns, nem
-para outros.
-
-D. Affonso esteve no campo, combatendo entre os seus, mas D. Henrique
-julgou mais prudente retirar-se, com trinta ou quarenta cavallos, para
-uma povoação immediata.
-
-Um acontecimento politico veio, porêm, aggravar a situação do rei
-Henrique: a infanta D. Isabel juntara-se com seu irmão D. Affonso.
-
-Vejamos qual era, pouco antes, a situação da familia real.
-
-A rainha com a infanta D. Isabel estavam em Segovia, e ahi tinham n’esse
-momento todo o seu thesoiro e joias. A _Beltraneja_ havia sido entregue
-ao conde de Tendilha, para que a guardasse em Buitrago. Os rebeldes
-lograram tomar Segovia, e a rainha refugiara-se no castello, mas a
-infanta D. Isabel teimou em ficar no palacio, a fim de poder juntar-se
-com seu irmão. Foi o que succedeu. Tambem os rebeldes se apoderaram
-do alcacer, sendo a rainha conduzida em refens, sob a vigilancia do
-arcebispo de Sevilha, ao castello de Alaejos, onde iremos encontral-a.
-
-O acto praticado pela infanta D. Isabel parecia dever reforçar a attitude
-dos affonsinos, mas não aconteceu assim, porque elles tinham no seu
-proprio seio grandes elementos de discordia. Um d’esses elementos era
-o marquez de Vilhena, cuja ambição abhorrecia aos seus mesmos amigos.
-Porisso os condes de Placencia e Miranda e o arcebispo de Toledo
-passaram-se para o partido do rei, e Vilhena correu risco de ser
-assassinado pelo genro, o conde de Benavente.
-
-Um outro acontecimento, verdadeiramente inesperado, veio pôr em confusão
-os affonsinos. A 5 de julho de 1468, estando D. Affonso na villa de
-Cardenosa, a duas leguas de Avila, foi atacado de um somno profundissimo
-logo depois de haver comido. Pela manhã, como não sahisse da camara,
-foram chamal-o: estava morto. O veneno havia produzido o seu effeito. D.
-Affonso morrera uma creança, quinze annos apenas.
-
-Os affonsinos, aturdidos com este golpe, recolheram-se a Avila. Ahi
-pensaram no que deviam fazer. Resolveram offerecer o throno a D. Isabel,
-mas a infanta respondeu com hombridade: que em quanto seu irmão D.
-Henrique fosse vivo, o rei legitimo era elle.
-
-Desde esse momento a posição de Henrique IV seria facil, se elle
-tivera mais energia. Podia impor-se, mas não fez assim. O marquez de
-Vilhena propoz em nome dos conjurados prestar-lhe obediencia se o rei
-consentisse em reconhecer D. Isabel como herdeira do throno. Henrique IV
-annuiu logo.
-
-O marquez de Santilhana e todos os Mendonças, a cuja guarda estava
-confiada a _Beltraneja_, indignaram-se com este procedimento do rei.
-Sahiram immediatamente da côrte. A rainha D. Joanna estava, como
-dissemos, em poder do arcebispo de Sevilha no castello de Alaejos, e
-parece que um sobrinho do arcebispo, de nome D. Pedro, entretivera por
-algum tempo os ocios da rainha captiva.[9]
-
-Mas os Mendonças encarregaram D. Luiz Furtado de arrancar a rainha ao
-seu captiveiro. Uma noite, D. Joanna desceu por uma janella do castello,
-ferindo-se na descida. Luiz Furtado pol-a sobre as ancas da mula, e a
-largo trote a levou para Buitrago, onde sua filha estava.
-
-Entretanto concertava o rei com os confederados as bases do accordo:
-D. Isabel seria jurada herdeira do throno, e ser-lhe-iam dadas para
-seu corregimento varias cidades e villas; reunir-se-iam côrtes para
-sanccionar estes actos; D. Isabel não seria constrangida a casar,
-nem casaria sem consentimento do rei; a rainha considerar-se-ia como
-divorciada, seria enviada para fóra do reino, e não poderia levar comsigo
-a filha.
-
-Henrique IV acceitou de boamente todas estas condições humilhantes. Ouviu
-ler o documento comprovativo da sua propria deshonra. «Item, porquanto
-ao dicto senhor rei, e commumente em todos estes reinos e senhorios é
-publico e manifesto, que a rainha D. Joanna, de um anno a esta parte, não
-tem usado limpamente de sua pessoa como cumpre á honra do dicto senhor
-rei, nem sua; e outrosim o dicto senhor rei é informado que não foi nem
-está legitimamente casado com ella... etc.» Henrique IV assignou, e
-dirigiu-se com sua irmã para o campo de Toros de Guisando, onde D. Isabel
-foi solennemente jurada herdeira do throno, com assistencia de nobres e
-prelados, e do legado pontificio que, em nome do papa, desligou todos os
-presentes de quaesquer outros juramentos, que houvessem feito.
-
-O marquez de Vilhena aproveitou a occasião para ser confirmado na posse
-do mestrado de S. Tiago, e o rei Henrique julgou-se por certo o mais
-ditoso dos homens coroados.
-
-A rainha, tendo conhecimento da intervenção do legado pontificio no
-reconhecimento dos direitos da infanta D. Isabel, enviou Luiz Furtado, o
-seu salvador do castello de Alaejos, a protestar junto do representante
-do papa, ameaçando-o de fazer subir o seu recurso a Roma, se elle a não
-attendesse. A familia dos Mendonças, fiel ao partido da rainha, vira
-com indignação tudo quanto se passava. O marquez de Vilhena soube-o, e
-tratou logo de explorar a indignação dos Mendonças, a fim de obstar a que
-a infanta D. Isabel viesse a casar com o infante D. Fernando de Aragão,
-casamento a que a infanta se inclinava, e que o arcebispo de Toledo
-promovia. Era uma razão de interesse pessoal, como sempre, a que demovia
-n’este lance o marquez de Vilhena. Tinham sido encorporadas no seu
-marquezado muitas das propriedades sequestradas aos infantes de Aragão,
-e temia perdel-as pelo casamento da infanta com um principe d’aquella
-casa real. Então o marquez de Vilhena não duvidou fortalecer com o seu
-apoio o partido da rainha e, para obstar ao casamento que o contrariava,
-renovou o antigo alvitre de que a infanta D. Isabel desposasse D. Affonso
-V, de Portugal, e a princeza D. Joanna o principe herdeiro portuguez: no
-caso da infanta não ter filhos de Affonso, o _Africano_, succederiam no
-throno de Castella os que a _Beltraneja_ houvesse dado ao principe D.
-João.
-
-Houve idéa de que a rainha D. Joanna viesse pessoalmente a Portugal
-tratar d’estas allianças. Mas a pobre rainha, que continuava a ser
-perseguida pelo arcebispo de Sevilha, a cujo poder lograra subtrahir-se,
-receou que fosse esse um pretexto para não a deixarem voltar a Castella.
-Venceu a rainha; não veio a Portugal. De mais a mais a infanta D. Isabel
-tomara uma attitude energica, recusava tenazmente casar com Affonso V.
-
-Henrique IV, incoherente, como sempre, escreveu de seu proprio punho
-ao papa para que não confirmasse a successão de D. Isabel; ao mesmo
-passo sollicitava a confirmação pontificia aos direitos da _Beltraneja_.
-Escrevia tambem ao rei de Portugal para que insistisse em desposar a
-infanta.[10] «Estas cartas, diz o padre Flores, foram entregues ao
-chronista D. Diogo Henriques de Castilho (a quem seguimos) para que
-secreta e promptamente as levasse a Buitrago, onde estava a rainha com
-sua filha, e fossem dirigidas com presteza a Lisboa e a Roma, como
-aconteceu, com grande sentimento do arcebispo de Sevilha (quando o
-soube), mas sem alvoroto, por mediar o mestre de S. Tiago.»
-
-Affonso V estava lançado no plano inclinado do desastre. Obedeceu
-ao pedido. A historia do segundo casamento do rei portuguez, nunca
-realizado, é uma serie de _fiascos_, como hoje dizemos; o egregio
-vencedor de Africa collocara-se n’um terreno escorregadio, e fora
-resvalando até abysmar-se no ridiculo.
-
-Segundo o testemunho de Lafuente, que se póde contraprovar em Damião
-de Goes,[11] Affonso V enviara a Ocanha, onde estava Henrique IV, uma
-_solenne embaixada_ a pedir a mão da infanta D. Isabel.[12] De Roma
-chegara a vir uma bulla de Paulo II, dispensando para o matrimonio da
-infanta D. Isabel com seu tio D. Affonso V.[13] Assim respondia o rei
-portuguez á carta de seu cunhado. Mas essa embaixada solenne chegava
-tarde a Castella. O arcebispo de Toledo apressara-se a tratar o casamento
-da infanta com D. Fernando de Aragão, que já a esse tempo se intitulava
-rei da Sicilia.
-
-O prelado não perdera tempo, nem podia perder, porque o marquez de
-Vilhena e o rei estavam dispostos a vencer pela força a tenacidade
-da infanta. Pensaram em mandal-a presa para o alcacer de Madrid, mas
-recearam-se dos habitantes de Ocanha que ridicularizavam em chistes e
-satiras as pretensões de um viuvo de trinta e sete annos, como era então
-Affonso V, á mão de uma donzellinha de dezoito, que naturalmente lhe
-preferia um rapaz da sua idade, a mais florente de vida.
-
-Era certo que, pelo tratado de Toros de Guisando, a infanta D. Isabel
-não podia casar sem consentimento do rei, seu irmão. Mas o que valiam
-tratados em Castella, sobretudo no tempo de Henrique IV, que tão depressa
-os fazia como desfazia?!
-
-O arcebispo de Toledo não perdera tempo, dissemos nós. E não podia
-perder, porque, alem de Affonso V, pretendiam a mão da infanta o duque de
-Guyena, irmão de Luiz XI, e um irmão do rei Eduardo IV, de Inglaterra.
-
-O rei Henrique tivera que passar á Andaluzia, para socegar aquella
-provincia. Antes de partir pediu á irmã que não abusasse da sua ausencia.
-A infanta prometteu, mas por conselho do arcebispo, e a pretexto de
-fazer trasladar para Avila o cadaver de seu irmão Affonso, sahiu de
-Ocanha para o Madrigal, onde estava sua mãe, a rainha viuva. Estava,
-porêm, em Madrigal o bispo de Burgos, sobrinho do marquez de Vilhena,
-que andava com o rei pela Andaluzia. O bispo informava o tio do que se
-passava. A espionagem era infatigavel; choviam as ameaças contra as
-damas da infanta, e contra ella propria, que ia ser presa por ordem do
-rei, quando o arcebispo de Toledo e o almirante D. Fradique conseguiram
-arrancal-a á vigilancia dos espiões açulados pelo marquez de Vilhena, e
-leval-a em triumpho para Valhadolid.
-
-O arcebispo fez partir emissarios de sua inteira confiança para Aragão
-a chamar o infante D. Fernando. A viagem dos emissarios, que temiam
-ser descobertos, foi accidentada de peripecias arriscadas. Chegaram
-a Saragoça, e conferenciaram com o infante. Foi combinado, que este
-partisse apenas acompanhado por seis cavalleiros, disfarçados de
-mercadores, e que por outro caminho sahisse uma partida figurando uma
-embaixada do rei de Aragão a Henrique IV. Sobre a falsa embaixada deviam
-incidir as attenções do publico, e as vistas dos espiões de Henrique IV.
-
-Os seis cavalleiros jornadeavam de noite. O infante disfarçara-se em
-criado; nas poisadas tratava dos cavallos, e servia á mesa. Foi assim que
-os conspiradores conseguiram atravessar por entre os soldados do rei,
-que cruzavam vigilantes as estradas, e passar incolumes sob a linha de
-fortificações dos Mendonças, desde Almazan a Guadalajara. Uma noite,
-porêm, o infante esteve em risco de ser victima. Chegaram ao burgo de
-Osma, mortos de cançaço e frio. Chamaram á porta do castello do conde
-de Trevinho, que era partidario de D. Isabel. A sentinella, julgando
-serem inimigos, arrojou do alto do adarve uma pedra enorme, que passou
-junto á cabeça do infante. O chronista Palencia, que era da partida, deu
-então um grito; a sua voz foi reconhecida, e a porta do castello aberta.
-Restaurada de forças, a cavalgada seguiu viagem, e dois dos cavalleiros
-anteciparam-se para dar a boa nova á infanta.
-
-Chegaram aos ouvidos do rei os rumores da conspiração. Henrique IV
-deu-se pressa em regressar da Andaluzia, e em Trujilho recebeu uma carta
-de D. Isabel participando-lhe a sua resolução de casar com o infante
-D. Fernando, e fazendo em nome de ambos muitos protestos de obediencia
-ao rei se elle não contrariasse este casamento, cujas vantagens para a
-monarchia a infanta ponderava.
-
-Fernando de Aragão completou a viagem com os quatro cavalleiros que lhe
-restavam. Chegou de noite a Valhadolid, ás casas onde a infanta poisava.
-O arcebispo de Toledo levou-o á presença de Isabel, e Gutierres de
-Cárdenas, vendo entrar o infante, mancebo de dezoito annos, elegante e
-robusto, exclamou: _Ese es, ese es._[14]
-
-O casamento effectuou-se d’ahi a poucos dias, a 19 de outubro de
-1469.[15] Estava, pois, dado o primeiro passo para a unidade hespanhola;
-esse casamento unia duas monarchias.
-
-Celebradas as nupcias, os noivos enviaram uma embaixada a Henrique IV,
-participando-lhe que o casamento se havia realizado, remettendo-lhe copia
-das capitulações matrimoniaes, e assegurando-lhe obediencia, no caso do
-rei approvar o que estava feito.
-
-A colera de Henrique IV foi enorme. Não lhe ficou inferior a do marquez
-de Vilhena, que havia perdido a partida. Toda a côrte era um vulcão de
-odios, que explodiam. Esperava-se apenas a hora da vingança, e essa hora
-pareceu haver soado quando uma embaixada de Luiz XI chegou, a pedir
-a mão da _Beltraneja_ para o duque de Guyena, seu irmão e porventura
-herdeiro, que a infanta D. Isabel havia rejeitado.
-
-Esta embaixada fortaleceu momentaneamente a causa da _Beltraneja_.
-
-Foi recebida com grandes festas e pompa. O cardeal de Albi, um dos
-emissarios de Luiz XI, perguntou solennemente á rainha se a princeza
-D. Joanna era effectivamente filha do rei Henrique IV. A que baixezas
-tinham nascido predestinadas a irmã e a sobrinha de Affonso V! A rainha
-respondeu affirmativamente. Depois repetiu a pergunta o rei, e D. Joanna
-repetiu a affirmativa. Então todos os prelados e cavalleiros presentes
-beijaram a mão da _Beltraneja_, outra vez reconhecida herdeira do throno.
-A infanta D. Isabel, não obstante haver escripto uma nova carta de
-conciliação ao rei, e appellado para a arbitragem do bom conde de Haro,
-Fernandes de Velasco, que era tido em Castella como o mais serio caracter
-d’aquelle tempo, foi desherdada.
-
-Henrique IV publicou contra sua irmã Isabel, já então mãe, um manifesto
-injurioso; a infanta respondeu com outro, incriminando o procedimento
-do rei. Entretanto nascera um filho de Luiz XI, o que afastava o conde
-de Guyena da successão do throno de França. Chegaram, não obstante, a
-fazer-se as capitulações matrimoniaes, mas o enthusiasmo de Henrique IV,
-por esse casamento, esfriara desde que a Luiz XI nascera um filho.
-
-Diz o padre Flores que todas as diligencias se mallograram por ter
-morrido o noivo da _Beltraneja_. Esta asserção carece de reparo. O duque
-de Guyena só morreu, em Bordeus, em maio de 1472. Elle mesmo havia
-manifestado tambem pouca vontade de realizar o casamento contractado,
-chegando a solicitar a mão da herdeira do ducado de Borgonha. De parte
-a parte havia frieza. Ruy de Pina vem em reforço do que dizemos,
-noticiando varias embaixadas entre as côrtes de Portugal e Castella, em
-1470 e 1471,[16] para tratar de casamentos. Mas como D. Isabel houvesse
-casado com o infante de Aragão, rei da Sicilia, e o infante D. João,
-de Portugal, houvesse casado em Setubal, a 22 de Janeiro de 1471, com
-sua prima D. Leonor, Henrique IV e Affonso V avistaram-se _entre Elvas
-e Badajoz_ para combinar o casamento da _Beltraneja_ com o rei de
-Portugal.[17]
-
-D. Joanna e sua filha não assistiram a esta entrevista. Ficaram em
-Escalona, acompanhadas pelo bispo de Burgos.
-
-Diz Pina que D. Isabel e D. Fernando enviaram embaixadores á entrevista,
-a fim de obstarem ao casamento de Affonso V com sua sobrinha. O rei de
-Portugal reuniu muitas vezes conselho para tratar d’este assumpto, mas
-sempre, em quanto Henrique IV viveu, sobrevieram duvidas e receios de
-graves complicações entre os dois paizes.
-
-O padre Flores escreve que, em todas estas negociações, o rei de Portugal
-tinha grande desconfiança do mestre de S. Tiago. É natural que assim
-fosse, mas tambem é natural que influisse no animo de Affonso V a
-importancia que tinha realmente o partido de D. Isabel.
-
-Como quer que seja, a causa da _Beltraneja_ perdia terreno. Quatro novos
-projectos de casamento se haviam frustrado: com o duque de Guyena, com
-D. Fradique, filho do rei de Napoles, com D. Henrique Fortuna, primo
-coirmão do marido de D. Isabel, e com D. Affonso, de Portugal. Mas,
-alem d’estes, ainda houve um outro projecto mais antigo, como sabemos,
-relativo ao infante D. Affonso, que morrera. Andava a mão da pobre
-infanta em almoeda, e ninguem a queria! A familia dos Mendonças afrouxara
-tambem no seu enthusiasmo pela causa da _Beltraneja_, logo que o rei lhe
-arrancara a infanta para a confiar á guarda do mestre de S. Tiago.
-
-Ao passo que a má estrella da _Beltraneja_ parecia brilhar cada vez mais
-sinistra no horizonte do seu triste destino, os partidarios de D. Isabel
-logravam vantagens. Um d’elles, André de Cabrera, mordomo-mór do rei e
-marido de D. Beatriz de Bobadilha, amiga dedicada de D. Isabel, pensou
-em reconciliar o rei com a irmã. Soube-o fazer com fina diplomacia. D.
-Beatriz foi a Aranda, disfarçada em camponeza, perguntar á infanta se
-não teria duvida em avistar-se com o rei em Segovia. D. Isabel annuiu.
-Cabrera venceu, por certo, sem grande difficuldade, as hesitações do
-fraco rei Henrique.
-
-Os dois irmãos avistaram-se em Segovia. Era isto em dezembro de 1473. O
-rei não só se reconciliou com a irmã, mas quiz honral-a publicamente,
-levando de redea a mula, em que a infanta montava, atravez das ruas,
-ao som de musicas festivas. O mestre de S. Tiago, desairado por estas
-secretas negociações, retirou-se da côrte.
-
-Entretanto, a infanta D. Isabel, á qual viera juntar-se o infante de
-Aragão, continuava a estar nas boas graças do rei. Banqueteavam-se
-juntos, e foi n’um d’esses banquetes, dado por André de Cabrera que, no
-domingo de _Reis_ de 1474, o rei se sentiu indisposto depois de ceia.
-Fernando e Isabel visitavam na sua doença Henrique IV, mas não conseguiam
-arrancar-lhe a confirmação dos seus direitos ao throno. Por sua parte, o
-mestre de S. Tiago procurava desforrar-se do desaire recebido, procurando
-infundir suspeitas de que os infantes houvessem envenenado o rei.
-
-Voltando á côrte, o grão-mestre induzia o rei a apoderar-se dos infantes,
-e assim teria acontecido se o plano não fosse denunciado a Fernando e
-Isabel.
-
-O rei melhorara, mas a sua saude tornara-se melindrosa. Não obstante,
-João Pacheco, senhoreando outra vez o espirito de Henrique IV, fez com
-que o rei o acompanhasse a Trujilho, para que o investisse na posse
-d’aquella cidade, diz Lafuente; para concertarem d’alli secretamente o
-casamento de D. Joanna com Affonso V, diz Zurita.
-
-É certo que João Fernandes da Silveira, depois barão de Alvito, chegou a
-ir a Castella encarregado d’este negocio.[18] Mas a viagem aggravara os
-padecimentos do rei. Retiraram porisso de Trujilho, mas, a duas leguas da
-cidade, João Pacheco, acommettido de uma inflammação de garganta, morreu
-deitando muito sangue pela bocca.
-
-A morte de João Pacheco, marquez de Vilhena e grão-mestre de S. Tiago,
-impressionou o rei. Aquelle homem fôra o companheiro dos seus deboches
-quando principe, e o instigador de grande parte dos seus actos como rei;
-habituara-se a elle. Sentia-lhe agora a falta. Preso a esse cadaver
-por laços torpes, honrara-lhe a seu modo a memoria, fazendo o filho de
-João Pacheco marquez de Vilhena e grão-mestre de S. Tiago, sem sequer
-consultar os cavalleiros da ordem.
-
-Levantaram-se reclamações e protestos, que o rei teve de reprimir com
-varias expedições. Este esforço quebrantou-lhe as ultimas forças.
-Abandonou a lucta, para voltar a Madrid, cada vez mais doente. Morreu a
-11 de dezembro d’esse mesmo anno de 1474.
-
-Assim acabou, n’este rei fraco e nefando, a linha varonil da dynastia
-Trastamara.
-
-
-
-
-V
-
-POR CAUSA DE UMA COROA
-
-
-O veneno, propinado ao rei Henrique durante as festas de Segovia em honra
-de sua irmã D. Isabel,[19] produzira o desejado effeito, como vimos. O
-rei fallecera em Madrid, onde estava sua filha D. Joanna entregue aos
-cuidados do novo marquez de Vilhena, Diogo Lopes Pacheco. Mas a rainha
-achava-se ausente, _apartada da côrte por seu deshonesto viver_.[20]
-
-Como quer que seja, vamos encontral-a, depois da morte do rei, habitando
-um predio junto á egreja de S. Francisco, de Madrid, que fôra demolida
-no anno de 1760. Parece que D. Joanna, sentindo o cançaço de uma vida
-tempestuosa, procurara o refugio de uma especie de cenobio, d’onde,
-em tribuna privativa, podia assistir aos officios religiosos que se
-celebravam no templo.
-
-São mais ou menos suspeitos de paixão politica os historiadores
-castelhanos, que se occupam do procedimento da rainha. Uns, como
-Henriques de Castilho, pertencem á parcialidade do rei; outros, como
-Pulgar, militavam na facção de D. Isabel. O padre Flores, querendo
-mostrar-se imparcial, chama _pelago insondavel_ ao conceito que da
-infeliz rainha se fazia em Castella.
-
-Um historiador portuguez, o auctor da _Historia genealogica_, escreve que
-D. Joanna fôra «formosa, viva, e naturalmente alegre; era moça, e mais
-desenvolta do que convinha á sua real pessoa, o que deu motivo a diversos
-juizos, que se augmentaram pelo pouco caso que el-rei d’isso fazia; do
-que nasceu alguns cuidarem, e outros fingirem, e lhe levantarem, que era
-pouco honesta, e que el-rei lh’o consentia.»
-
-Um d’esses taes é Antonio de Lebrixa, o qual escreveu que era o proprio
-Henrique IV que alcovitava a rainha a um seu privado (Beltrão de Lacueva).
-
-Damião de Goes censura Lebrixa por affirmar _ex cathedra, sem ser
-testemunha de vista_, a infamia da rainha; mas acaba por dizer que a
-fama da impotencia de Henrique IV era falsa, comquanto não houvesse sido
-_testemunha de vista_, elle proprio...
-
-Nós estamos escrevendo a distancia de tempo a que os acontecimentos
-avultam em todo o relevo da sua nudez historica. Cahiu já desfeito, pela
-acçao implacavel dos seculos, o véo que a paixão politica entretece, e
-que não deixa definir claramente os contornos mais salientes de qualquer
-epocha, como a neblina envolve a ossada dos montes ao romper da manhã.
-
-Começamos por estudar serenamente a côrte de Henrique IV, devassa,
-dissoluta, sensual. Esboçamos o perfil do rei, que presidia a esta côrte,
-rei que se retouçava na podridão de prazeres sodomitas, e parecia talhado
-de molde para deixar resvalar ao abysmo da deshonra a segunda mulher,
-visto que não quizera repudial-a pelo mesmo motivo da primeira, a infeliz
-Branca de Navarra. D. Joanna, de Portugal, era moça, formosa, alegre,
-_viva_, como diz Antonio Caetano de Sousa. Cahiu no meio d’esta côrte,
-como uma flor póde cahir em qualquer esterquilinio sotoposto ao jardim,
-sobretudo quando a haste tem o geito de pender para esse lado, e uma
-perfida viração a faz oscillar a cada lufada mais forte...
-
-Basta ir seguindo os acontecimentos, para ver descer a rainha pelo plano
-inclinado do adulterio. Não é preciso ler os chronistas para copiar
-d’elles a sua apreciação, mais ou menos apaixonada, mas apenas para que
-nos guiem na successão dos acontecimentos. A critica é facil, resalta
-luminosa e logica. Aconteceu-nos isto, confrontando os chronistas; o
-mesmo acontecerá por certo ao leitor que tiver seguido passo a passo esta
-narrativa.
-
-D. Joanna falleceu a 13 de junho de 1475, tendo apenas 36 annos de edade.
-Matou-a o veneno ou o arrependimento; morreu ou mataram-n’a. E diz a
-chronica que os reis catholicos, Isabel e Fernando, lhe mandaram fazer um
-tumulo de marmore branco, cujo epitaphio dizia:
-
- _Aqui yace la mui excelente, esclarecida y poderosa Reyna de
- Castilla Doña Juana, muger del muy excelente, esclarecido y
- poderoso Rey Don Enrique IV. cuyas animas Dios aya: la qual
- falleció dia de San Antonio de MCCCCLXXV. años._
-
-Mais tarde, a habitação da rainha foi convertida em nave do templo;
-chamava-se-lhe a capella da Aurora, e ficava do lado do Evangelho. Quando
-a egreja de S. Francisco foi demolida, acharam-se os ossos da rainha
-dentro de um cofre de madeira, mas não se sabe hoje o destino que tiveram
-depois da demolição.[21]
-
-Assim se dispersaram os restos mortaes d’essa formosa dama portugueza,
-que o berço em que nascera posthuma parecia haver malfadado para as
-desventuras do thalamo, e do throno.
-
-Fizera Henrique IV testamento?
-
-Ruy de Pina, na _Chronica de D. Affonso V_,[22] diz que sim.
-
-«No fim do anno de mil quatrocentos setenta e quatro, palavras suas,
-el-rei D. Henrique, de Castella, falleceu na villa de Madrid; foi
-seu corpo levado ao mosteiro de Santa Maria de Guadalupe, onde na
-capella-mór, á mão direita, jaz em sua real sepultura, como parece, e
-da outra parte jaz a rainha D. Maria, sua mãe. _Fez el-rei D. Henrique
-seu solenne e accordado testamento, em que declarou a princeza D. Joanna
-por sua filha, e por rainha herdeira dos reinos de Castella, e o rei D.
-Affonso por governador d’elles, pedindo-lhe finalmente que acceitasse a
-dicta governança, e casasse com ella, o qual testamento foi logo trazido
-a el-rei D. Affonso, que estava em Extremoz... etc._»
-
-Os chronistas castelhanos corrigem n’este ponto o chronista portuguez.
-
-Zurita diz positivamente nos _Anales_ que D. Henrique não deixou
-testamento.
-
-O padre Castilho não faz menção de qualquer disposição testamentaria.
-Affonso de Palencia diz que, perguntado o rei sobre quem lhe devia
-succeder no throno, respondera que o secretario João Gonçalves revelaria
-a sua intenção. Fernando de Pulgor refere que apenas indicara os
-fidalgos a quem seria confiada a guarda de sua filha. Lucio Marineo
-escreve que Henrique IV, sempre imprevidente, não deixara testamento.
-Marianna conta que, perguntado o rei pelo seu confessor frei Pedro de
-Mazuelos, respondera que reconhecia como herdeira a princeza D. Joanna,
-a qual deixara recommendada a alguns fidalgos, inclusos os marquezes de
-Santilhana e de Vilhena. A Lafuente parece arriscada esta asserção de
-Marianna, que aliás vem copiada em Romey.
-
-Diogo Clemencin[23] é de todos os historiadores castelhanos o que mais
-detida e lucidamente se occupa da questão do testamento de Henrique IV.
-
-Recorda a lenda, publicada por Galindes de Carvajal, de que o rei
-Henrique fizera, ao morrer, testamento, no qual reconhecia como sua
-successora D. Joanna, e de que esse documento fôra pelo secretario João
-de Oviedo entregue a um padre que era cura de Santa Cruz, em Madrid. Não
-querendo que o desapossassem de tão valioso deposito, o cura metteu-o
-n’um cofre com outros papeis, e veio escondel-o perto de Almeida, em
-Portugal. O bacharel Fernam Gomes de Herrera, amigo particular do cura,
-conhecia o segredo, e revelou-o a D. Isabel a _Catholica_, quando já
-estava moribunda. A rainha mandou o cura buscar o cofre, que chegou
-quando ella já tinha morrido. O rei Fernando soube o que se passava, pelo
-licenciado Zapata, a quem Herrera revelara o segredo. Diziam uns que o
-testamento fôra queimado por ordem do rei; outros que ficara em poder
-de Zapata. A Herrera teriam sido feitas varias mercês, em recompensa do
-serviço que prestara.
-
-Clemencin refuta esta lenda com bons fundamentos, entre elles o não ser
-citado por D. Joanna o testamento de Henrique IV quando ella allegava
-todos os seus direitos em manifesto dirigido á cidade de Madrid (1475),
-e a circumstancia de egual omissão no documento em que a _Beltraneja_
-transferiu para D. João III, de Portugal, todos esses direitos.
-
-Como quer que fosse, em torno da _Beltraneja_ agrupou-se um partido
-defensor da sua legitimidade. Os caudilhos eram grandes e poderosos
-senhores, posto não fossem numerosos: entre elles, o marquez de Vilhena,
-menos habil, porêm mais intrepido que seu pae; o opulento duque de
-Arévalo; o moço marquez de Cadiz, e o grão-mestre de Calatrava e seu
-irmão.
-
-No partido contrario, militavam em favor de D. Isabel prelados e proceres
-egualmente poderosos. Citaremos o arcebispo de Toledo, que foi quem
-se apressou a communicar a Fernando o Catholico, em carta que Zurita
-reproduz, a noticia do fallecimento de Henrique IV.
-
-Não deixa, comtudo, de ser curioso que este prelado se bandeasse depois
-com o partido da _Beltraneja_, despeitado pelo ascendente, que no
-espirito de Fernando e Isabel havia tomado o cardeal de Hespanha.
-
-Não seria, pois, uma copia do testamento, que parece não ter existido,
-o que os partidarios da _Beltraneja_ enviaram a Affonso V, que estava
-então em Extremoz; mas foi de certo uma mensagem solicitando o seu
-apoio a troco do casamento com a infanta, sua sobrinha, e da coroa de
-Castella.[24]
-
-Não me esquivarei a citar, a respeito d’esta mensagem, as palavras
-do historiador hespanhol Lafuente, porque raras vezes um escriptor
-extrangeiro é tão fiel e tão exacto nas suas apreciações.
-
-«A ninguem, tanto como ao monarcha portuguez, diz elle, podia lisonjear
-uma tal proposta. De genio naturalmente cavalheiroso, desvanecido com
-a denominação de _Africano_, que os seus triumphos contra os moiros
-barbarescos lhe haviam valido, e um dos pretendentes anteriormente
-repellidos pela rainha Isabel, Affonso acolheu com avidez um convite
-que lhe proporcionava apresentar-se como reparador de um desaire,
-que recebera da rainha, como vingador de um rival preferido, como o
-campeão de uma princeza desgraçada, e como conquistador de uma coroa,
-que, alcançada para sua sobrinha, havia de ver collocada na sua propria
-cabeça. De modo que a empresa satisfazia simultaneamente o seu espirito
-cavalheiresco, o seu orgulho offendido, a sua cobiça e ambição de gloria.»
-
-Conforma-se com o testemunho de Ruy de Pina o testemunho de Lafuente,
-quando affirma que o principe herdeiro de Portugal, D. João, procurara
-inflammar os brios guerreiros de seu pae, aconselhando-lhe a guerra
-com Castella. Tambem concorda com o chronista portuguez o historiador
-castelhano, quando refere que o duque de Bragança e o arcebispo de Lisboa
-foram de parecer contrario ao do principe. O que é certo é que Affonso
-V mandou a Castella o seu camareiro-mór, Lopo de Albuquerque (depois
-conde de Penamacôr), encarregando-o de informar-se pessoalmente sobre
-a importancia e valor que podiam ter os partidarios da _Beltraneja_.
-O emissario de Affonso V recolheu com boas informações, depois de
-praticar com os mais exaltados adversarios de D. Isabel, entre os quaes
-se contava, como sabemos, o marquez de Vilhena. Não obstante as boas
-novas com que Lopo de Albuquerque chegou a Evora, onde estava o rei, em
-Janeiro de 1475, parece que de novo foram ainda ponderados a Affonso V os
-inconvenientes da empresa; mas a fogosidade do principe venceu a opinião
-dos que discordavam.
-
-O rei de Portugal mandou deitar pregão de guerra. Em Arronches devia
-reunir-se o exercito, no mez de maio. N’esse sentido foram expedidas
-ordens. Comtudo, alguem lembrou a Affonso V a conveniencia de mandar
-primeiramente uma embaixada a Fernando e Isabel, reivindicando os
-direitos de D. Joanna. Foi escolhido para esta commissão Ruy de Sousa,
-que a desempenhou. Lafuente diz que Affonso V tivera a _arrogancia de
-fazer uma intimação aos reis para que renunciassem a coroa em favor de D.
-Joanna_.
-
-Nas disposições em que se encontrava Affonso V, é natural que mandasse
-pôr a questão em termos categoricos. De mais a mais, como ainda teremos
-occasião de mostrar, os embaixadores portuguezes não costumavam
-sossobrar perante a altivez castelhana. N’um e n’outro paiz, as situações
-estavam claramente definidas, porque se Affonso V convocara o exercito
-para Arronches, em Segovia tinham sido alçados pendões reaes ao som de
-_Castilla por el rey Don Herñando, y la reina Doña Isabel, su muger,
-proprietaria destos reynos_.
-
-A resposta de Fernando e Isabel é facil de adivinhar. Responderam
-mantendo os seus direitos, e requereram a Affonso V que não entrasse
-em Castella. Diz Lafuente, que a intimação do rei de Portugal fôra
-nobremente repellida, mas accrescenta que D. Isabel _dirigiu differentes
-embaixadas a Affonso V, exhortando-o com palavras de moderação_ a que
-desistisse da empresa. Os emissarios dos reis catholicos foram varios
-religiosos, segundo Zurita.
-
-No mez de maio, estava o rei em Arronches, apercebido para a marcha. O
-principe D. João acompanhou-o ao alto Alemtejo, onde concertaram, pae e
-filho, negocios particulares e do Estado, para o caso do rei perecer em
-combate. Foi em Portalegre, a 28 de abril, que Affonso V dictou o seu
-testamento, escripto por frei João de S. Mamede, confessor do rei: «...
-eu tenho determinado, diz Affonso, d’aqui a poucos dias entrar em os
-reinos de Castella, com fundamento de casar com a rainha, minha sobrinha,
-e isto por serviço de Deus e por melhor podermos defender seu direito,
-segundo é já entre nós capitulado...»
-
-N’este curioso documento refere-se Affonso V aos enormes gastos que
-foram feitos com o casamento de sua irmã D. Leonor com o imperador da
-Allemanha, attribuindo-os á pouca edade que então tinha, e á falta de
-experiencia. Declara ter dois filhos legitimos, a infanta D. Joanna, que
-falleceu em Aveiro, com reputação de santa, posto a sua vida não fosse
-inteiramente isenta de culpas,[25] e o principe D. João que, segundo os
-estylos do reino, proclama herdeiro da coroa.
-
-Tambem em Portalegre, e primeiro que o seu testamento, assignara Affonso
-V a carta regia pela qual declarava regente do reino seu filho, o infante
-D. João.[26]
-
-Estavam já em Arronches pae e filho, quando chegou noticia de que D.
-Leonor, mulher do principe herdeiro, havia dado á luz o infante D.
-Affonso, que tão pouco vivera e tão desastrosamente acabara. «E por seu
-nascimento, diz Ruy de Pina, declarou logo el-rei, sendo caso que o
-principe D. João, seu filho, em sua vida fallecesse, a tempo que elle
-rei tivesse outro filho lidimo _da rainha D. Joanna, sua esposa, com
-quem havia de casar_, que ao dicto infante D. Affonso sempre pertencesse
-e viesse a successão dos reinos de Portugal, e que para isso fosse logo
-jurado e obedecido...»
-
-Tratou-se, pois, de entrar em Castella ao som de guerra.
-
-A fim de melhor garantir o successo da empresa, Affonso V tratou de
-entender-se diplomaticamente com o rei de França, Luiz XI, como vamos ver.
-
-Em 1471, o marquez de Vilhena representou a Luiz XI pedindo-lhe que
-auxiliasse o rei de Portugal. Expunha quaes eram as forças de que Affonso
-V podia dispor: elle marquez, tres mil cavallos; o arcebispo de Toledo,
-dois mil; o mestre de Calatrava, dois mil; o bispo de Calatrava, dois
-mil; o bispo de Burgos, trezentos; o conde de Horoianna, trezentos;
-D. Affonso, senhor de Montalvão, duzentos; D. Affonso e D. João,
-filhos bastardos do mestre de S. Tiago, quatrocentos; D. Pedro de Porto
-Carreiro, irmão do marquez, quatrocentos; a condessa, mãe da mulher do
-marquez, trezentos; o duque de Arévalo, dois mil; o marquez de Cadiz,
-genro do mestre de S. Tiago, mil e quinhentos; o duque de Sevilha, dois
-mil; D. Affonso de Aguillar, seiscentos; o conde de Feria, quatrocentos.
-
-Toda esta gente de armas, com a que o rei de Portugal poria em movimento,
-dava um exercito de trinta e dois mil homens. Accrescentava o emissario
-do marquez de Vilhena que se o rei de França continuasse a fazer guerra
-ao de Aragão, na Catalunha, elles o poriam em tal aperto que seria
-obrigado a desistir das suas pretensões ao reino de Castella.[27]
-
-Vê-se, pois, que, contando com todos estes recursos, Affonso V não
-procedeu tão levianamente como pretendem alguns chronistas castelhanos.
-
-Por sua parte, o rei de Portugal escreveu a Luiz XI, revelando-lhe as
-intenções em que estava de desposar sua sobrinha D. Joanna, e declarar
-guerra a Castella, promettendo que, se lograsse alcançar victoria,
-ficariam cada vez mais estreitadas as relações de antiga amizade entre
-as duas coroas de Castella e França. Passava-se isto a 8 de janeiro de
-1475, e logo no fim d’esse mesmo mez tornava Affonso V a escrever a Luiz
-XI, dizendo-lhe que receando qualquer demora na entrega da primeira
-carta, escrevia de novo allegando os direitos de D. Joanna ao throno
-de Castella, e pedindo-lhe favorecesse a causa d’esta princeza, cujo
-triumpho seria mais conveniente á politica franceza do que a victoria do
-ambicioso rei de Aragão. Participava haver pedido o auxilio do papa, e
-rogava a Luiz XI que no mesmo sentido escrevesse ao pontifice.
-
-Em abril respondia Luiz XI accusando a recepção da primeira carta, de 8
-de janeiro, e dizendo que encarregara Olivier le Roux de vir a Portugal
-responder aos artigos d’ella; que estando já Olivier a caminho, recebera
-a segunda carta; que se dera pressa em escrever ao papa no sentido
-desejado, despachando como portador um emissario para Roma.
-
-Effectivamente, chegara a Portugal mestre Olivier, o qual, em nome do seu
-soberano, dissera a Affonso V que a respeito da alliança, que propunha
-a Luiz XI, importava lembrar-se de que, tendo Portugal alliança com os
-inglezes, antigos inimigos da França, era mister declarasse como e em
-que fórma entendia a alliança proposta; que essa alliança, segundo os
-precedentes estabelecidos entre Castella e França, não devia admittir
-excepção de pessoas; que, attenta a visinhança dos dois paizes, convinha
-á França auxiliar as pretensões de um principe que ficasse sendo seu
-amigo e alliado; que o rei de Aragão, pae de D. Fernando, enviara a
-França um embaixador com a proposta de paz e alliança, e de casamento
-da filha do dicto rei de Aragão com o delfim; que o rei de França nada
-decidira, e mandara um embaixador a Aragão para mais explicitamente
-inteirar-se da substancia da proposta; que el-rei de Portugal bem sabia
-como o de França o estimava e amava, de preferencia a qualquer outro;
-que o reino de Portugal ficaria de futuro comprehendido na alliança que
-houvesse de fazer-se entre a França e Castella; que no caso da alliança
-se não realizar no sentido indicado, seria sempre util manter entre a
-França e Portugal relações de paz, grande amor e amizade.
-
-O fecho das instrucções, copiadas pelo visconde de Santarem da
-bibliotheca real de Pariz, diz o seguinte: «E tratando d’estas coisas,
-o dicto mestre Olivier fará por saber _quem tem mais parcialidade e
-poder, se el-rei de Portugal em razão da filha d’el-rei de Castella, ou
-el-rei de Castella em razão da irmã, e de tudo quanto souber dará parte a
-el-rei_.»
-
-Como se viu, Luiz XI entrincheirava-se detraz das mais astutas reservas
-diplomaticas. Nada de categorico e consistente. Apenas a manifesta
-intenção de querer aproveitar-se da ambição de Affonso V para romper a
-alliança de Portugal com a Inglaterra.
-
-Estavam as coisas n’este pé, quando Affonso V sahiu de Portugal com
-um exercito de cinco mil e seiscentos homens de cavallo, e quatorze
-mil infantes. Lafuente diz que a cavallaria ia na força de cinco mil e
-_setecentos_ homens. A differença é pequenissima. O principe D. João
-acompanhou seu pae até á fronteira, e retirou depois, sabe Deus com que
-profunda magua de o não poder seguir!
-
-Ruy de Pina, descrevendo a ordenança do exercito portuguez, diz que
-ia na frente o adail-mór Diogo de Barros, com _certos ginetes por
-descobridores_. Seguia-se o marechal D. Fernando Coutinho, como
-_aposentador e assentador do arraial_. Depois, Vasco Chichorro, capitão
-dos ginetes d’el-rei, logo seguido pelo conde de Penamacôr, capitão da
-vanguarda real. Após, ia a carriagem e, depois d’ella, o rei, com poucas
-pessoas da sua guarda, diz Goes, e um pagem que levava o guião com a
-divisa real, um rodizio de moinho com gottas d’agua ao redor e esta
-legenda _Jámais_, divisa que tomara pela sua primeira mulher, D. Isabel.
-Na rectaguarda ia o duque de Guimarães, servindo de condestavel do reino.
-
-Tem razão Lafuente, quando diz que no exercito de Affonso V ia a fina
-flor dos cavalleiros portuguezes. Assim era, com effeito. Alem dos
-já citados, apontam os chronistas os condes de Faro, Loulé, Penella,
-Monsanto, etc.
-
-Damião de Goes e Ruy de Pina referem que Affonso V chegara a Plasencia
-sem que alguem pretendesse tomar-lhe o passo. Zurita diz, porêm, nos
-_Annaes_, que se oppozeram ao exercito portuguez cêrca de mil cavalleiros
-castelhanos, e que, «á entrada, em diversos recontros, derrubaram mais de
-duzentos de cavallo, dos inimigos (os portuguezes)», chegando os capitães
-a carregar até aos flancos do nosso exercito.
-
-Em Plasencia era esperado Affonso V pelo duque e duqueza de Arévalo
-e pelo marquez de Vilhena, que lhe apresentou D. Joanna, a qual, por
-ordem do marquez, tinha estado confiada á guarda de Pedro de Baeça.
-Dizia este Baeça que os reis catholicos lhe tinham mandado offerecer,
-por um irmão e pelo proprio pae do depositario, quatro contos de renda,
-quatro mil vassallos com a villa de Torquemada, e o titulo de conde, com
-promessas de casamento rico para o filho, se consentisse em entregar-lhes
-a _Beltraneja_. Accrescentava que voltara com egual commissão o doutor
-Rodrigo Maldonado, mas com maiores promessas, e que elle tudo recusara.
-
-
-
-
-VI
-
-A BATALHA
-
-
-Aposentou-se Affonso V com D. Joanna na fortaleza de Plasencia. Ahi
-deslizaram alguns dias perdidos em _festas e prazeres_, diz Pina. Affonso
-V iniciou a campanha de Castella por dois graves erros, reconhecidos
-pelos proprios chronistas castelhanos. Zurita diz que se Affonso V, em
-vez de entrar por Plasencia, tivesse entrado pela Andaluzia, Sevilha
-não poderia resistir por muito tempo a um cêrco, e que, tendo elle por
-si Sevilha, se renderiam logo outras cidades, favoraveis a D. Joanna,
-ficando-lhe livre o caminho até aos confins do reino de Aragão; e
-que se houvesse querido dirigir-se para Toledo, onde o arcebispo e o
-marquez tinham poderio, haveria logrado chegar até Segovia. Accrescenta
-que Affonso V se demorara nas festas de Plasencia mais do que lhe
-convinha.[28] Lafuente escreve no mesmo sentido, dizendo que o rei de
-Portugal, demorando-se em Plasencia e Arévalo, dera tempo a que Fernando
-e Isabel supprissem á força de actividade a falta de dinheiro e de
-apercebimentos de guerra.[29]
-
-Mas o que é certo é que Affonso V se demorou em Plasencia, onde celebrou
-publicamente desposorios com sua sobrinha,[30] e ambos foram proclamados
-reis de Castella, Leão e Portugal. Ruy de Pina observa «... e chamou á
-rainha esposa, com a qual então nem depois nunca consumou o matrimonio,
-por defeito de dispensação, que não tinha nem houve nunca.» Mais tarde
-trataremos este ponto. Por agora, para não interromper a narrativa com
-longas divagações, diremos que D. Affonso V tratou de fazer publicar o
-_Manifesto_ dos direitos de D. Joanna ao throno de Castella. Sousa[31]
-copiou-o de Zurita; tem a data de 30 de maio e é dirigido á _villa_
-de Madrid. N’esse documento, que é extenso e que está bem escripto,
-D. Joanna historía todos os acontecimentos politicos do reinado de
-Henrique IV, que o leitor já conhece. Accusa Fernando e Isabel de terem
-envenenado ou mandado envenenar o rei. Insiste em que elle a reconhecera
-publicamente como filha e herdeira, no leito da morte, porêm não fala
-em testamento. Allude, com a desenvoltura que o assumpto requeria, á
-supposta impotencia de seu pae, affirmando ás claras que elle _era hombre
-poderoso para engendrar_. Referindo-se a seu tio e noivo, diz: «O que
-tudo visto pelos dictos duque de Arévalo e marquez de Vilhena, como meus
-tutores, guardadores, usando da lealdade e fidelidade que me devem, e
-acatando, como o mais alto e mui poderoso principe D. Affonso, por a
-graça de Deus rei de Portugal, e rei de Castella e de Leão, que agora é
-meu senhor, e principe mui catholico, e de grande fama, exemplo e de grã
-virtude e prudencia, para manter e governar estes dictos meus reinos, em
-justiça e verdade, como cumpre ao serviço de Deus, e meu, e ao regimento,
-e reparo, e restauração d’elles para o futuro, e conformando-se com a
-vontade do dicto rei meu senhor, que em sua vida, com accordo de muitos
-prelados e grandes, diversas vezes o negociou e procurou, accordaram e
-assentaram com elle, que casasse, e celebrasse desposorio commigo: e para
-isso viesse e entrasse n’estes dictos meus reinos como rei, e senhor
-d’elles, como meu legitimo esposo, e marido. E estando eu na cidade de
-Turgilho, sob a salvaguarda do dicto marquez de Vilhena, o dicto rei meu
-senhor enviou seu embaixador e procurador com seu poder bastante, para
-se desposar, e desposou commigo, em legitima e devida fórma: e depois,
-estando n’esta cidade de Plasencia, ... dias do mez de maio d’este anno,
-da data d’esta minha carta, o dicto rei meu senhor chegou á dicta cidade
-por sua pessoa, e desposou-se e _dio las manos comigo_: e solennemente
-jurou, e fez voto solenne, de nunca me sacar fóra d’estes dictos meus
-reinos, nem sua senhoria sahir fóra d’elles, até, mediante a graça de
-Deus, os acalmar e pacificar.» Noticía depois como se celebrara o acto
-da acclamação, e ordena que, logo que aquella carta regia recebam, _se
-ajuntem todos por pregão e alcem pendões pelo dicto rei D. Affonso_.
-Diz constar-lhe que os _reis da Sicilia_ têem feito espalhar o boato
-de que os portuguezes são por indole hostis aos castelhanos. Desmente
-este boato, recorda o parentesco e amizade de Affonso V com a casa real
-de Castella, e accentua que os portuguezes são christãos catholicos, e
-obedientes á vontade do seu rei.
-
-Um dos pontos que melhor estão tratados no _Manifesto_, é o que se
-refere á desobediencia de D. Isabel, tendo fugido da côrte para casar
-com o rei da Sicilia, que era extrangeiro, não confederado, nem alliado
-com Henrique IV, quando ella o não podia nem devia fazer, não só por
-ser contra vontade do rei, mas tambem porque as leis do reino dispunham
-que as donzellas, menores de vinte e cinco annos, não casassem sem
-consentimento de seus paes e irmãos mais velhos. De mais a mais, Fernando
-e Isabel eram parentes em grau prohibido, e não tinham obtido dispensação
-apostolica.
-
-Lembra finalmente D. Joanna quanto Fernando e Isabel fizeram para se
-apoderar do thesoiro real de Segovia, como se apoderaram de todo o oiro
-e prata, joias, brocados e pannos, que deixara Henrique IV, não dando,
-nem consentindo que se désse para o seu enterro e sepultura _o que para
-qualquer pobre cavalleiro de seu reino se dera_, e tentando havel-a á mão
-para a fazerem encarcerar perpetuamente ou porventura matar.
-
-Como se vê, o _Manifesto_ está habilmente redigido; procura ferir todas
-as notas, tanto a da legalidade, como a da sentimentalidade.
-
-D. Affonso V tambem escrevera á cidade de Salamanca, sobre o direito de
-D. Joanna á coroa de Castella,[32] e procurara apoiar-se na diplomacia
-para corroborar o effeito que esperava colher da publicação dos
-manifestos.
-
-De Plasencia enviou a França, como embaixadores, D. Alvaro de Athayde e
-o licenciado João d’Elvas, com plenos poderes para negociarem a desejada
-alliança. Philippe de Comines, que assistiu á audiencia dos embaixadores
-portuguezes na côrte de França, accusa-os de não terem conhecido as
-astucias de Luiz XI, de não terem ao menos suspeitado de que faltaria ás
-suas promessas. Passa-lhes diploma de incapacidade, e o caso é que os
-factos posteriores deram razão a Comines.
-
-Affonso V queria que Luiz XI, a quem D. João de Aragão tinha tomado o
-condado de Roussillon, fizesse guerra a D. Fernando, pela fronteira
-franceza, envolvendo assim Castella em duas invasões simultaneas.
-
-Tambem Affonso V enviou embaixadores a Roma, a fim de solicitarem do papa
-a dispensação matrimonial de que carecia, para realizar o casamento com
-sua sobrinha.
-
-Com estas armas julgava o rei portuguez ir ferindo o adversario.
-Enganava-se. Fernando levantava em Valhadolid um exercito de quatro mil
-homens de armas, oito mil ginetes e trinta mil peões, verdade seja que
-pela maior parte mercenarios. Fôra D. Isabel quem obtivera as sommas
-indispensaveis para equipamento do exercito, conseguindo que André
-Cabrera lhe entregasse o thesoiro de Segovia;[33] Fernandes de Oviedo
-não duvída affirmar, nas _Quincuagenas_, que estava na mão de Cabrera
-fazer rainha a princeza Isabel ou a princeza Joanna, segundo elle se
-decidisse a entregar o thesoiro, que continha cêrca de 10:000 marcos de
-prata, a uma ou a outra princeza. Diz Zurita que o marquez de Vilhena
-fizera grandes promessas a Cabrera por parte do rei de Portugal, chegando
-a offerecer-lhe a renda annual e vitalicia de dez contos de maravedis,
-e que elle os recusara, porque já em vida de Henrique IV era affecto á
-causa de D. Isabel.
-
-O que é certo é que Cabrera entregara a D. Isabel o thesoiro de Segovia,
-cohonestando este valioso auxilio com o pretexto de lhe dar a rainha sua
-filha em refens.
-
-D. Isabel, apesar de se achar gravida a esse tempo, não descansava um
-só momento; a fadiga fez com que tivesse um aborto no caminho de Toledo
-para Tordesilhas. Tentou D. Isabel, em Alcalá de Henares, congraçar o
-arcebispo de Toledo, mas o prelado mandou-lhe dizer que se ella entrasse
-no paço por uma porta, elle sahiria por outra.
-
-Affonso V, depois de se refocillar nas festas de Plasencia, passava
-a Arévalo, um pouco por lisonjear os duques, que lhe queriam dar
-hospedagem, um pouco por em Plasencia não sobejarem os mantimentos. O que
-é certo é que Affonso V resolvera aguardar em Arévalo os reforços que
-deviam enviar-lhe os fidalgos castelhanos do seu partido, commettendo
-assim a imprudencia de dar tempo a que Fernando pudesse organizar em
-Valhadolid um exercito de _condottieri_, mais valioso pelo numero do que
-pela disciplina.
-
-De Arévalo, seguiu Affonso V para Touro, seguro de que o alcaide João
-de Ulhôa lhe abriria as portas da cidade. Assim aconteceu, mas a mulher
-de um irmão d’este Ulhôa não quiz entregar o castello, pelo que
-Affonso V lhe poz um apertado cerco. Entretanto Samora rendera-se aos
-portuguezes, e Fernando, que com o seu exercito se tinha approximado
-de Touro, reconhecendo que não podia luctar com vantagem, porque lhe
-faltavam artilheria, posições e meios de communicação, deu ordem para
-retirar. A retirada foi desordenada e desastrosa, dil-o Lafuente, e a
-derrota haveria sido completa, se a cavallaria portugueza carregasse
-sobre o inimigo.[34] Uma companhia de byscainhos chegou a suspeitar de
-traição por parte dos generaes castelhanos, e violentamente foi arrancar
-o rei de entre elles, quando todos estavam conferenciando n’uma egreja.
-Ainda assim, Fernando soffrera, em sua gente e carriagem, muito damno e
-perda.[35]
-
-O castello de Touro rendera-se, finalmente, ao apertado cerco que
-lhe puzera Affonso V. Em varios pontos, aqui e alli, rompiam-se as
-hostilidades; e os povos da Estremadura hespanhola e da Andaluzia
-faziam varias incursões sobre Portugal, como represalia de guerra. Em
-Burgos, a cidade estava por D. Isabel, mas o castello estava por D.
-Joanna. Fernando, a fim de attenuar a má impressão de Touro, foi cercar
-o castello, que se julgava uma posição importante, no presupposto de
-que Luiz XI acommettesse por Guipuzcoa. Affonso V, a instancias da
-duqueza de Arévalo e do arcebispo de Toledo, deixou D. Joanna em Samora,
-e dirigiu-se a Burgos para soccorrer o castello. Encontrou, porêm, a
-tomarem-lhe o passo reforços isabelistas em Baltanás, aos quaes Affonso
-V deu combate, pondo cerco á villa. A peleja foi renhida. Os portuguezes
-combatiam a pé, só o rei de Portugal estava a cavallo. Morreu ahi D.
-Alvaro Coutinho, filho do marechal, mas em compensação ficou prisioneiro
-o conde de Benavente, cunhado do marquez de Vilhena, que, por segurar a
-vida, diz Pina, constrangidamente a veio em pessoa pedir a Affonso V, de
-cima do muro, e o portuguez de viva voz lh’a outorgou.
-
-A condessa de Benavente, ao saber do captiveiro do marido, exaltou-se a
-tal ponto que escreveu a Fernando o Catholico, pondo á sua disposição
-e obediencia todas as villas e fortalezas dos seus estados, que eram
-grandes. Assim, a paixão politica, como quasi sempre acontece nas guerras
-civis, abria barreiras profundas no seio de uma mesma familia! A condessa
-de Benavente era irmã do marquez de Vilhena.
-
-As finanças de Portugal e Castella estavam seriamente compromettidas, em
-ambos os paizes, por causa da guerra. Isabel reunira côrtes em Medina
-del Campo, no mez de agosto e, não podendo já impor aos povos novas
-contribuições, appellou para o clero, propondo-lhe que entregasse ao
-thesoiro a prata de todas as egrejas de Castella, promettendo remil-as
-em tres annos por amortização de trinta contos de maravedis. O clero
-annuiu promptamente. Por sua parte, Affonso V, depois de haver tomado a
-villa de Cantalapiedra, e de se ter recolhido a Samora para hibernar,
-tendo gasto já todos os recursos com que sahira de Portugal, teve de
-«soccorrer-se aos dinheiros dos orfãos dos seus reinos, e a outros muitos
-d’emprestimos particulares», que por seus officiaes foram logo levados a
-Castella.[36] Accrescenta Ruy de Pina que o principe D. João, depois que
-foi rei, pagou, como piedoso filho, todos estes encargos _quanto poude_.
-Mas tambem D. João, quando resolveu ir soccorrer seu pae, teve de tomar
-de emprestimo a prata das egrejas, a exemplo do que fizera em Castella
-D. Isabel.[37] Esta desastrosa guerra parecia destinada a arruinar as
-finanças de Portugal. Em treze mezes, o exercito mobilizado contra
-Castella havia de custar ao paiz duzentas setenta e cinco mil dobras.[38]
-
-O principe D. João, ao mesmo passo que tinha de reger os negocios
-internos do reino e de levantar recursos para acudir a seu pae, via-se
-a braços com as incursões armadas que alguns cavalleiros castelhanos
-faziam pela fronteira. Uma d’essas incursões dirigiu-se contra a villa
-de Ouguella, morrendo na refrega o brioso fidalgo João da Silva,
-camareiro-mór do principe.
-
-Em Castella, D. Isabel entabolava negociações com o alcaide das torres
-e portas da ponte de Samora, para que se entregasse, procurando assim
-arrancar a Affonso V uma das mais importantes fortificações que tinham
-voz por elle. Fernando estava no cerco de Burgos, e, sabendo dos planos
-de sua mulher, fingia-se doente para lhe dar tempo a negociar a compra do
-alcaide da ponte de Samora.
-
-Affonso V havia mandado recado a seu filho para em Samora conferenciarem
-sobre negocios de Estado.
-
-D. João deu-se pressa em partir, e já tinha chegádo a Miranda do Douro,
-quando por Vasco Chichorro, o qual de noite atravessou o Tejo a nado, seu
-pae lhe mandou dizer que retrocedesse, porque seria victima de traição na
-passagem da ponte de Samora. Esta ponte tinha nos extremos duas torres
-que estavam combinadas para apertar o principe real entre ambas, quando
-elle passasse com a sua gente. Eis no que consistia a traição preparada
-por Isabel. Affonso V indignou-se, e atacou os castelhanos, mas por este
-facto teve occasião de reconhecer que não podia contar com a lealdade dos
-habitantes de Samora, pelo que resolveu mudar-se, com a _Beltraneja_,
-para Touro, onde o alcaide os recebeu amavelmente.
-
-O principe real ficou vivamente contrariado com o caso da ponte de
-Samora, e pensou logo em tirar desforra d’esse projecto de attentado
-contra a sua vida. Retirando sobre a cidade da Guarda, ahi reuniu
-conselho, resolvendo-se enviar novos auxilios a D. Affonso V, para o que
-foi preciso tomar, como dissemos, toda a prata das egrejas e mosteiros,
-com excepção d’aquella que era indispensavel á dignidade do culto; bem
-como se tomou dinheiro de emprestimo a particulares. E não sem grandes
-dores e gemidos do povo, que o muito sentiam, diz Ruy de Pina. Feitos
-estes preparativos, o principe D. João, deixando sua mulher como regente
-do reino, partiu no mez de janeiro de 1476 para Castella, a encontrar-se
-com o rei, ao qual ia reforçar, tomando na passagem a villa de S.
-Felizes, que saqueou.
-
-Entretanto, el-rei D. Fernando e a rainha D. Isabel entraram em Samora, e
-puzeram cerco ao castello, que tinha voz pelo rei de Portugal. O desejo
-de Affonso V era ir em soccorro da fortaleza, que D. Fernando parecia
-disposto a disputar-lhe palmo a palmo.
-
-D. Affonso estava em Touro, como sabemos, e logo que o principe D. João
-ahi chegou pensou-se em ir effectivamente defender o castello de Samora,
-mas, depois de ponderados os prós e os contras, achou-se que o melhor era
-pôr cerco á ponte da outra banda do rio, causando assim grande damno a D.
-Fernando e aos da cidade.
-
-Uma vez assenhorado de Samora, tratou Fernando de combater o castello,
-que se conservava fiel a Affonso V, e d’ahi escreveu a seu pae, João II,
-de Aragão, pedindo-lhe que mandasse auxilios para Burgos, cujo castello
-não se tinha ainda rendido.
-
-Diz Lafuente, que Affonso V se não mostrara adverso a uma reconciliação,
-sob condição de que lhe seriam entregues as praças de Touro e Samora, e
-aggregada a Galliza a Portugal, mas que D. Isabel se recusara a alienar
-um só palmo que fosse de territorio castelhano.
-
-Lafuente trata este assumpto muito por alto, mas Damião de Goes dá
-interessantes pormenores que convem recordar.
-
-O cardeal de Castella, D. Pedro de Mendonça, escrevera a Affonso V
-exhortando-o a fazer a paz, e offerecendo-se para medianeiro. Era facil
-perceber que esta proposta partia dos reis catholicos, sob a impressão
-de desanimo que produzira a precipitada retirada de Touro para Medina
-del Campo. Affonso V annuiu, e perguntou se Isabel e Fernando tinham
-conhecimento d’essa proposta, e quaes deveriam ser as condições da
-paz. Respondeu o cardeal que Fernando e Isabel obtemperavam, mas que
-as condições as formulasse Affonso V. O rei de Portugal pediu com
-largueza, aproveitando a situação: queria Touro, Samora e a Galliza;
-exigia uma indemnização de guerra, e a restituição de todas as honras e
-estados que pertenciam aos fidalgos castelhanos bandeados com o partido
-da _Beltraneja_. Isabel oppoz-se á alienação de qualquer territorio
-castelhano, porêm sujeitava-se á indemnização de guerra e á rehabilitação
-dos fidalgos castelhanos que estavam com Affonso V. Promettia tambem para
-D. Joanna o dote que se arbitrasse, hypothecando a este encargo as terras
-que fossem precisas.
-
-Damião de Goes, conclue: «Estes recados andaram por alguns dias de uma e
-de outra parte, sem se em nada poder tomar conclusão, pelo que a guerra
-se ateava cada vez mais, fazendo-se de uma e de outra parte grandes
-damnos, sem se a tamanhos males poder dar algum remedio».[39]
-
-Seria talvez esta proposta de paz que fez com que Luiz XI procurasse
-intimidar Fernando e Isabel. Diz Lafuente que Affonso V _havia
-manhosamente entabolado tratos de mediação e de concordia_ com D. João
-II, de Aragão, para entreter Fernando, emquanto o principe D. João não
-chegava de Portugal com reforço, e Luiz XI não atacava pela fronteira
-franceza o reino de Aragão.
-
-O que é certo é que Affonso V conseguira tratar com Luiz XI uma liga
-offensiva contra o aragonez. Luiz XI aproveitava o ensejo para se
-collocar n’uma posição que pudesse ser-lhe vantajosa em qualquer dos
-casos. Assim, em setembro de 1475, ficara concertado que o rei de França
-ajudaria ao de Portugal na conquista dos reinos de Castella e Leão,
-com as condições seguintes: «Que todas as cidades, villas, logares,
-castellos e fortalezas que fossem tomadas ou conquistadas por terra e
-por mar pelas tropas d’el-rei de França, nos dominios do reino de Aragão
-e de Valencia, seriam sem difficuldade entregues e restituidas a el-rei
-de Portugal, e ficariam para sempre pertencendo a esta coroa. E pelo
-mesmo teor que todas as cidades, villas, logares, castellos e fortalezas
-do principado da Catalunha e condado do Roussillon e Sardenha, ilhas de
-Mayorca, Minorca e Iviça, as quaes cahissem em poder dos portuguezes,
-seriam entregues a el-rei de França, para ficarem para sempre annexas á
-sua coroa.»[40]
-
-Luiz XI, tendo feito treguas com o duque de Borgonha, por um tratado em
-que o rei de Portugal fôra incluido como alliado do duque, principiou a
-dar maior attenção aos negocios da Peninsula, sob o doble ponto de vista
-da sua exclusiva conveniencia. Foram, pois, renovados os antigos tratados
-de paz e amizade entre os reinos de Castella e Leão e o de França,
-figurando Affonso V na qualidade de rei de Castella. No mez de dezembro,
-Luiz XI promulgara uma carta patente declarando ter resolvido mandar, em
-auxilio do rei de Portugal, um bom e grande exercito, tanto por mar como
-por terra, a Guipuzcoa e Byscaia, ou aonde fosse necessario, nomeando
-para commandante em chefe da expedição a sire d’Albret (Alano Grande, pae
-do rei de Navarra), com poderes amplissimos.[41]
-
-O que é certo é que Luiz XI, não obstante todas estas suas promessas,
-se limitara a mandar para a fronteira hespanhola um exercito que
-parecia manobrar de concerto com a doblez do _bom rei Luiz_, porisso
-que, fazendo-lhe frente os guipuzcoanos e os byscainhos, retirava para
-Bayona... á espera dos acontecimentos.
-
-Quando o principe D. João de Portugal, levando comsigo um exercito
-de oito mil infantes e dois mil cavallos, _gente mal armada e pouco
-aguerrida_, diz Lafuente, fôra juntar-se com seu pae em Touro, o castello
-de Burgos, depois de haver sido atacado por D. Affonso de Aragão, irmão
-de Fernando, rendia-se. E, segundo o testemunho do mesmo historiador,
-pouco faltou para que a propria praça de Touro se entregasse a D.
-Fernando, que uma noite se approximara dos muros da cidade com essa
-esperança. Parece fóra de duvida, como mais adeante veremos, que D.
-Fernando pensava em apoderar-se da pessoa da _Beltraneja_.
-
-É ainda Lafuente que nos diz, que D. Affonso V se _envalentonara_ tanto
-com a chegada do filho, que enviou um arrogante manifesto ao papa, ao rei
-de França e aos seus parciaes de Castella e Portugal, jactando-se de que
-não tardaria a derrotar Fernando e Isabel. Não encontro, comtudo, nos
-historiadores portuguezes noticia d’este _manifesto arrogante_.
-
-Deixemos, porêm, Affonso V e seu filho no cêrco que foram pôr á ponte
-de Samora, na margem do Douro. D. Joanna havia ficado em Touro, sob a
-guarda do duque de Bragança e do conde de Villa Real. Cruzava-se o fogo
-dos portuguezes contra a ponte, com o dos castelhanos contra a margem
-opposta. Procedentes de Burgos, tinham chegado de reforço aos castelhanos
-D. Affonso de Aragão e o infante D. Henrique, aos quaes se unira o conde
-de Benavente, livre já. A situação era dolorosa para ambos os exercitos,
-ao mesmo tempo sitiados e sitiadores.
-
-Ruy de Pina diz que, n’estas circumstancias, houve uma entrevista, n’uma
-insua do rio Douro, para concertos de paz, entre cavalleiros portuguezes
-e castelhanos, mas que não foi possivel chegar a resultado satisfactorio.
-Outra versão diz que a entrevista seria entre os dois reis, estando cada
-um em sua barca, como acontecera com D. Fernando de Portugal e Henrique
-III, de Castella, mas que, pela força da corrente, a barca de Affonso V
-se não pudera approximar da barca que conduzia o marido de Isabel.
-
-O portuguez, conhecendo que a sua posição era insustentavel, porque
-já os mantimentos iam escaceando, e porque recebeu denuncia de que D.
-Fernando pensava em fazer uma sortida sobre Touro para apoderar-se de D.
-Joanna,[42] resolveu levantar o acampamento na madrugada da primeira
-sexta-feira de março de 1476, em direcção áquella cidade, depois de haver
-cortado a extremidade da ponte de Samora. Esperava Affonso que o exercito
-castelhano o seguisse. Assim aconteceu. Diz Pina que o principe D. João
-ardia em desejos de dar batalha; o mesmo assevera Lafuente a respeito de
-D. Fernando, apesar dos conselhos que lhe dava seu pae, o rei de Aragão,
-o qual lhe recommendava o systema que empregou Fabio Maximo, _Cunctator_,
-fatigando e desalentando os exercitos de Annibal.
-
-Não se enganou Affonso V. Fernando demorara-se apenas tres horas, o tempo
-preciso para reparar o damno feito á ponte. Ao cahir da tarde, o exercito
-castelhano avistou o exercito portuguez, a tres leguas de Touro, no
-momento em que aquelle exercito sahia de um apertado passo entre o rio e
-a serra. O conde de Loulé acudiu a escaramuçar com os castelhanos, para
-lhes difficultar a passagem, mas ficou tão gravemente ferido que teve de
-ser recolhido a Touro.
-
-Affonso V e seu filho prepararam-se então para dar batalha, posto que
-muita da sua gente, mais avançada na marcha, já tivesse entrado em Touro,
-e outra houvesse lá ficado de guarda a D. Joanna.
-
-O exercito portuguez dispoz-se d’este modo: na vanguarda, os continuos
-e familiares da casa do rei, e alguns cavalleiros castelhanos, de que
-era capitão Ruy Pereira; logo em seguida o conde de Faro D. Affonso com
-a sua gente e outra que el-rei lhe ordenou; á esquerda da vanguarda
-o principe D. João com a flor do exercito, seguindo-se a esta ala do
-principe a do bispo de Evora, D. Garcia de Menezes, com muitos bésteiros
-e espingardeiros; depois, o rei D. Affonso com a bandeira real, e á mão
-esquerda o arcebispo de Toledo com a sua gente, logo seguido pela do
-duque de Guimarães e do conde de Villa Real, commandando a retaguarda
-D. João de Castro, conde de Monsanto. A peonagem ficara repartida por
-quatro secções, toda da banda do rei.
-
-Vejamos agora qual a disposição do exercito castelhano.
-
-Na vanguarda, todos os continuos da casa real, e a gente da Galliza,
-Ulmedo, Medina del Campo, Valhadolid, Salamanca, Ciudad Rodrigo e Samora,
-sob o commando de D. Henrique, que levava a bandeira real de Castella e
-Leão. Seguiam-se dez alas, quatro grandes e seis menores.
-
-Notou o principe D. João que uma das seis alas menores do exercito
-castelhano se destacava como para de refresco acudir ás outras, se fosse
-necessario. Assim fez tambem, mandando apartar a gente que julgou precisa
-para o mesmo fim.
-
-Affonso V, depois de ter ordenado as alas do seu exercito, retirou-se,
-por conselho dos seus, para um oiteiro, d’onde pudesse assistir á
-batalha, e salvar-se a tempo no caso de desastre.
-
-Veiu então ao acampamento portuguez um rei de armas de D. Fernando
-desafiar Affonso V. O portuguez respondeu: «Dizei ao principe da Sicilia
-que é mais tempo de nos encontrarmos do que de mandar desafios.»
-
-A luz do dia principiava a faltar, não só porque o sol tocava o occaso,
-mas tambem porque o céo se conservava carregado de grossas nuvens. Cahia
-uma chuva miuda. O scenario d’este drama de odios politicos prestes a
-desencadearem-se, era lugubre, como se vê.
-
-O principe D. João e D. Pedro de Menezes arremessaram-se impetuosamente
-contra as alas menores do exercito de Castella. Gonçalo Vaz de
-Castello-Branco fôra o primeiro portuguez que lograra romper as fileiras
-castelhanas. O fumo das descargas augmentava a escuridão do ar. Gritos
-de guerra, como rugidos de leões, atroavam o campo de batalha. Os nossos
-invocavam S. Jorge e S. Christovão;[43] os castelhanos clamavam por S.
-Tiago e S. Lazaro. _Traidores, aqui está o cardeal!_ gritava o cardeal de
-Hespanha, provocando os castelhanos que pelejavam no exercito portuguez.
-E um d’esses castelhanos era, como elle, um prelado da Egreja, o
-arcebispo de Toledo.
-
-Rotas pelo esforço dos nossos as fileiras castelhanas, com uma bravura
-que os proprios chronistas hespanhoes não podem desmentir, os soldados de
-Fernando e Isabel acolheram-se, fugindo, ao centro do exercito.
-
-D. Affonso V, electrizado pelo enthusiasmo da contenda, lançara-se
-no combate, seguido pelo conde de Faro. Lafuente diz que D. Fernando
-investiu com furia contra o sitio onde se ostentava o estandarte real
-dos portuguezes. Garcia de Rezende diz, porêm que D. Fernando, vendo
-o desbarato que o principe D. João produzira no exercito castelhano,
-tratou de acolher-se a Samora. Ruy de Pina faz egual affirmação. Segundo
-a opinião de Lopes de Mendonça,[44] que de todo o ponto achamos fundada,
-o consenso dos escriptores portuguezes dá-nos o direito de duvidar da
-palavra de D. Fernando quando diz em carta dirigida á cidade de Baeza:
-«E eu com os dictos grandes e cavalleiros que commigo se acharam na
-batalha, estivemos no campo por espaço de tres ou quatro horas regendo
-o campo, e assim me volvi com victoria e muita alegria a esta cidade de
-Samora aonde cheguei á uma depois da meia noite, etc.»
-
-«Mesclaram-se então todas as lanças e todos os corpos, diz Lafuente,
-pelejando com o encarniçamento de dois povos enfurecidos por uma antiga
-rivalidade. O pendão das quinas portuguezas foi arrancado pelos esforços
-do intrepido Pedro Vaz de Sottomayor; valoroso até ao extremo era o
-alferes Duarte de Almeida que o desfraldava; depois de haver perdido o
-braço direito, susteve com o esquerdo o pendão, e quando perdeu ambas
-as mãos apertou-o fortemente entre os dentes até que perdeu a vida,
-feito este que nos recorda outro só exemplo por nós consignado em nossa
-historia.»[45]
-
-Pulgar diz que Duarte de Almeida fôra feito prisioneiro e conduzido
-a Samora. Marianna affirma que a armadura d’este brioso cavalleiro
-portuguez se via, ainda no seu tempo, na cathedral de Toledo, _como
-trophéo d’aquella insigne façanha_. D. Fernando, na carta dirigida á
-cidade de Baeza, diz, referindo-se ao rei de Portugal: «... foi derrubado
-e tomado o seu pendão das armas reaes e morto o alferes...»
-
-Vejamos, porêm, o que d’esta façanha de Duarte d’Almeida tem podido
-apurar a critica dos escriptores portuguezes até á hora em que escrevemos.
-
-Arrancado das mãos do alferes-mór, o estandarte portuguez seria o mais
-completo testemunho da victoria castelhana, e fluctuando desenrolado
-afugentaria, de vergonha e desalento, os soldados portuguezes. Mas Duarte
-d’Almeida perfeitamente comprehendia a grande, a enorme responsabilidade
-do seu posto. Bem sabia elle que preso áquelle estandarte andava desde
-Santarem e Ourique, abençoado por Deus, o nome portuguez, e portanto
-resolveu defender até á ultima gotta de sangue, se tanto fôra preciso,
-esse precioso deposito que lhe confiara a patria.
-
-Aggridem, cercam, embrenham o valente alferes-mór as lanças castelhanas;
-elle heroicamente resiste sobrepondo-se a essa cerrada floresta de
-ferro, que lhe braceja contra o peito os seus farpões mortiferos. Todo o
-empenho castelhano é arrancar-lhe o estandarte; portanto uma cutilada lhe
-corta a mão direita. Vale-se da esquerda, e n’ella fecha o seu thesoiro.
-Nova cutilada lhe decepa a mão esquerda. É um duello titanico, de um
-contra mil, de um só homem contra um exercito. Duarte d’Almeida não
-fraqueja, não cede, não cai. Toma o estandante portuguez entre os dentes,
-e espera, defendendo-se, que lhe arranquem finalmente a vida para que
-possam arrancar-lhe o estandarte. Multiplicam-se da parte dos castelhanos
-os golpes, o desespero do inimigo attinge o seu maior grau, é indomavel,
-feroz. Duarte d’Almeida cai, emfim, vencido pelos golpes repetidos e
-certeiros, mas, como se não pudesse morrer um portuguez d’aquelles ás
-mãos de castelhanos, Duarte d’Almeida não é ainda cadaver.
-
-Cahem em peso sobre o alferes-mór os inimigos; entre si disputam qual
-ha de arrancar-lhe dos dentes, raivosamente cerrados, o estandarte
-portuguez, que finalmente tremula na mão d’um fidalgo castelhano,
-de appellido Sottomayor. Este improvisado porta-bandeira do rei
-castelhano, alegremente corria, seguido d’um troço dos seus, para o lado
-onde suppunha estar o rei Fernando, a fim de lhe entregar o glorioso
-trophéo, quando o escudeiro portuguez Gonçalo Pires, com alguns poucos
-portuguezes, acommette os de Castella, e arrebata a Sottomayor o
-estandarte das quinas, travando-se entre todos combate que entre Gonçalo
-Pires e Sottomayor foi singular.
-
-Entretanto Duarte d’Almeida era conduzido semimorto para o acampamento
-inimigo, d’onde recebeu o primeiro curativo, e d’onde foi mandado para um
-hospital de Castella.
-
-Regressando á patria, ao cabo de longos mezes, andava escripto nas
-chronicas que elle não achara em Portugal _mais galardão que viver mais
-pobre do que vivia antes_, como dizem, pouco mais ou menos, Duarte Nunes
-e Damião de Goes, mas o sr. Camillo Castello Branco escreveu modernamente
-nas _Noites d’insomnia_ ácerca do _Decepado_, com o proposito de mostrar
-que elle não acabara tão pobre como se dizia. Conta este erudito
-escriptor, que Duarte d’Almeida, voltando de Castella, onde fôra muito
-honrado pelo rei Fernando, se recolhera ao castello de Villarigas, o
-qual herdara de seu pae Pedro Lourenço d’Almeida, e não era o unico que
-possuia, pois que tinha outro na quinta chamada de Cavallaria. Chegado a
-Villarigas, o velho _Decepado_, que já ia adeantado em annos, encontrou
-sua mulher D. Maria d’Azevedo, filha do senhor da Lousã, Rodrigo Affonso
-Valente e de D. Leonor de Azevedo, que grandes haveres herdara de sua
-tia D. Ignez Gomes d’Avellar, e á volta da esposa encontrou tambem o
-_Decepado_ os seus dois filhos, Affonso e Ruy. Até aqui isto serve apenas
-para mostrar que Duarte d’Almeida não vivia pobre _antes_ da batalha de
-Touro, tanto mais que Affonso V, estando em Samora no anno anterior a
-esta batalha, lhe fizera mercê, pelos seus grandes serviços, para elle
-e seus filhos, de um reguengo no concelho de Lafões. Todavia quer-nos
-parecer que a ingratidão da patria subsiste, porque Duarte d’Almeida
-ficou com o que tinha e... com ambas as mãos de menos. Affonso V, esse,
-se estivesse em Portugal, havel-o-ia galardoado largamente, porque era
-um mãos rotas, e tanto que o principe D. João, prevendo as prodigalidades
-de seu pae, obteve d’elle um documento que declarava nullas todas as
-doações que fizesse durante a guerra de Castella, e que excedessem dez
-mil réis de renda. O galardão concedido em Portugal a Gonçalo Pires foi
-o appellido de _Bandeira_ e o brazão de armas com bandeira branca, tendo
-no centro um leão rompente, de oiro. Mas no _Decepado_, que provavelmente
-pouco sobreviveu ao seu regresso, ou em seus filhos, não se fala. Em
-Castella é que effectivamente elle foi honrado, porque D. Fernando mandou
-pendurar na cathedral de Toledo as armas de que havia sido despojado
-Duarte d’Almeida, e em Samora foi tratado, quando prisioneiro, com
-grandissima distincção.[46]
-
-O sr. A. X. Rodrigues Cordeiro, que, a proposito de uma visita recente
-á cathedral de Toledo, escreveu um artigo sobre _Duarte d’Almeida_, dá
-noticia de existir n’aquelle templo uma armadura completa de cavalleiro,
-que se presume ser a do _Decepado_, e uma bandeira, que alguns dizem ser
-a portugueza, mas que se não vê, por estar resguardada n’uma bolsa de
-tela.
-
-O illustre escriptor, e nosso amigo, não duvida de que a armadura seja a
-de Duarte d’Almeida, mas refuta que a bandeira seja a portugueza, visto
-que Gonçalo Pires a arrancou heroicamente das mãos de Sottomayor, como
-testemunham os nossos chronistas. A bandeira, que se não póde reconhecer
-por estar encerrada na bolsa, será porventura a que os castelhanos
-tomaram aos moiros na batalha do Salado.[47]
-
-Havia mais de uma hora que o combate durava, sem que a victoria
-parecesse pender para qualquer dos dois exercitos, quando a ala esquerda
-do castelhano correu a reforçar a hoste real. Então a retaguarda do
-exercito portuguez, em que pelejava o arcebispo de Toledo, correspondendo
-ao movimento do inimigo, correu a auxiliar Affonso V, engrossando a
-fileira para aparar o embate. A peleja reaccendeu-se fogosa. Mas o
-choque da fuzilaria e da cavallaria castelhanas foram de tal ordem, que
-desconcertaram as fileiras portuguezas.
-
-Affonso V quiz, verdadeiramente allucinado, lançar-se contra o grosso do
-exercito castelhano, onde certamente haveria encontrado a morte. Não lh’o
-consentiram, porem, alguns fidalgos.
-
-A noite tinha, entretanto, cahido tenebrosa, como estivera o dia. E,
-receosos de que alguma força castelhana lhes cortasse a retirada, os
-fidalgos que acompanhavam o rei, partiram para Castro Nunho.
-
-Muitos cavalleiros portuguezes tentaram atravessar o Douro para
-acolher-se a Touro. Talvez cerca de mil e duzentos morreram afogados
-n’essa empresa, em que o desanimo devia quebrantar-lhes as forças.
-
-O principe D. João, reunida toda a gente que poude, deixou-se ficar no
-campo até ao romper d’alva, tendo mandado accender fogueiras e soar os
-clarins. O seu desejo era empenhar-se n’uma nova batalha. Mas o exercito
-castelhano retirara para Samora, juntamente com o rei D. Fernando, ou
-depois do rei. Assim, por conselho do arcebispo de Toledo, o principe,
-que desejara demorar-se tres dias no campo, reduziu os tres dias a tres
-horas, «por comparação que trouxe (o arcebispo) da resurreição de Nosso
-Senhor, diz Ruy de Pina, que foi depois da morte tres dias não todos
-inteiros.»
-
-É, porem, certo, que a batalha de Touro não tivera uma importancia
-militar de tal ordem, que por si só pudesse resolver definitivamente
-tão grave pendencia internacional. «A batalha de Touro, portanto,
-escreve Lopes de Mendonça, em que ambos os adversarios se proclamaram
-vencedores, parecendo á primeira vista ter sido decisiva para a questão,
-não foi senão um successo de guerra, bastante duvidoso para qualquer
-dos partidos, e que pouco significaria para o desenlace d’esta grave
-lucta, se a causa de D. Affonso V não estivesse já perdida pela defecção
-successiva dos seus partidarios, pelas repugnancias nacionaes contra o
-dominio portuguez, e pela influencia que Isabel de dia para dia adquiria
-entre a burguezia, e as classes populares.»
-
-É certo que deserções importantes tinham aggravado a situação de Affonso
-V. O marquez de Vilhena, como Affonso, recusara o conselho de penetrar
-com o exercito portuguez até Madrid; tratou, julgando perdida a causa
-da _Beltraneja_, de bemquistar-se com Fernando e Isabel, mediante a
-condição de lhe serem restituidas suas terras e rendas. Os duques de
-Arévalo passaram-se tambem para o partido de Isabel. Só permanecera fiel
-a Portugal o arcebispo de Toledo que, depois da refrega, se recolhera aos
-seus estados, que tinham sido invadidos pelos exercitos de Castella.
-
-Lafuente faz sentir que as condições do exercito portuguez na batalha de
-Touro lhe eram sobremodo favoraveis.
-
-Esta asserção é apenas um echo do que o proprio D. Fernando escrevera
-na sua carta á cidade de Baeza: «... e como quer que muitos cavalleiros
-dos que commigo estavam eram de parecer que eu não devia dar batalha
-pelas muitas vantagens que o dicto meu adversario tinha para ella, assim
-porque na verdade era _mais gente em numero que a que commigo estava,
-como porque as minhas gentes iam cansadas e a mór parte da peonage que
-commigo sahiu fôra deixada no caminho pela grande pressa que levavamos
-para alcançal-o, e por não levar commigo artilheria alguma, e era quasi
-sol posto e estava tão proxima a cidade de Touro d’onde elle e os seus se
-podiam recolher sem muito damno, uma vez que fossem vencidos_...»
-
-É preciso contrapôr, porem, a estas considerações do rei de Castella
-o que D. João de Portugal escreveu ao concelho de Evora sobre o mesmo
-assumpto: «... e depois de todos assim de uma parte como da outra serem
-em campo, _ainda que os contrarios tivessem vantagem, por terem as costas
-em serra e por terem mais gente de pé, porquanto a sua_ (do rei D.
-Affonso seu pae) _era já toda em a cidade de Touro, e assim mesmo alguma
-de cavallo que fôra adeante com a fardage, pelo qual os contrarios tinham
-de vantagem bem sete ou oito lanças_...»
-
-Assim, pois, acabou a batalha de Touro em que bem podiam ter succumbido
-o rei e o principe de Portugal. Se tal houvesse acontecido, quem póde
-calcular as complicações politicas em que se veria lançado o paiz, dadas
-as represalias de Castella, e a menoridade do neto de Affonso V?
-
-
-
-
-VII
-
-O RATO NAS MÃOS DO GATO
-
-
-Dom Fernando retirou, como dissemos, para Samora, e avisou do resultado
-da batalha sua mulher, que estava em Tordesilhas. D. Isabel, recebendo
-a noticia, ordenou que se fizesse uma procissão, em acção de graças,
-á egreja de S. Paulo, indo ella propria a pé, e descalça. Mais tarde,
-Fernando e Isabel fundaram, pelo mesmo motivo, o mosteiro de _San Juan
-de los Reyes_, obra grandiosa, diz Lafuente, que ainda hoje se admira,
-apesar das deteriorações que tem soffrido.
-
-É para notar a circumstancia de que ambos os belligerantes se julgassem
-vencedores, e agradecessem a Deus o triumpho alcançado.
-
-O principe D. João, de Portugal, depois de acclamado rei, ordenou ao
-concelho de Evora que em cada anno, nos primeiros dias do mez de março,
-se fizesse uma solenne procissão para commemorar a batalha de Touro. Diz
-o documento: «... e querendo nós ácerca desto nom menos fazer grato e
-reconhecer a Nosso Senhor o que em nossos dias e presenças nos fez de
-mercês com a batalha que houvemos em o reyno de Castella entre Touro
-e Samora; ordenamos e mandamos que daqui em deante em louvor de Nosso
-Senhor, e da Bemaventurada Virgem Maria sua Madre, e de S. Jorge e de
-S. Christovam que o dicto dia traziamos por nosso padroeiro e nome, que
-em cada um anno nos dois dias de março em que foi a dicta batalha, a
-Cleresia toda dessa cidade façaaes solenne procissão...» etc.[48]
-
-Frei Francisco Brandão diz que na batalha de Touro pertencera a Portugal
-a gloria do vencimento, e a Castella o util da herança. É uma engenhosa
-maneira de conciliar as coisas.
-
-Em Lisboa tambem se fazia uma procissão para commemorar a supposta
-victoria de Touro. D. João II mandou suspender a procissão quando em
-1491 seu filho casou com a filha de Fernando e Isabel, porque, por esse
-casamento, _todalas coisas passadas ouverom fim_, diz o proprio D. João
-II.
-
-É verdade que o voto da procissão podia até certo ponto explicar-se,
-segundo as idéas do tempo, pelo facto de não ter soffrido damno algum a
-pessoa do rei Affonso, de quem por algumas horas se ignorou o destino
-na cidade de Touro, depois de finda a batalha. «Sendo já passado bom
-pedaço do dia (seguinte), o principe chegou a Touro com a bandeira real
-despregada, a o qual, como foi conhecido, o duque (de Guimarães) e o
-conde (de Villa Real) vieram abrir as portas da cidade, e foi recebido
-n’ella assim da rainha D. Joanna como de todas as mais pessoas com
-assaz tristeza, por até então não terem novas nenhumas do que era feito
-d’el-rei D. Affonso, e principalmente o duque de Guimarães que, depois
-do principe ser em seu aposento, perante elle, e de todos os que com
-elle estavam, depenando as barbas, e os cabellos da cabeça, fez grandes
-prantos e lamentações, perguntando a os que fugiram da batalha, com
-muitas lagrimas, por el-rei D. Affonso, dizendo-lhes que mal se poderiam
-chamar cavalleiros, pois não sabiam dar conta nem recado de seu rei,
-senhor e capitão, no que se passou um bom pedaço, sem o ninguem poder
-acalentar, salvo o principe (postoque tivesse mór dor e tristeza que
-nenhum dos da companhia), que com palavras prudentes fez tanto que o
-duque cessou de se queixar mais do que o já tinha feito.»[49]
-
-Mas, quando estavam todos n’esta incerteza, chegou recado que o rei
-mandava de Castro-Nunho ao principe. Logo, como a noticia foi recebida,
-repicaram os sinos na cidade, soando trombetas e atabales, que _toda a
-perda da batalha se teve por nada em comparação de ser salva a pessoa
-d’el-rei_, diz Goes, phrase que até certo ponto póde explicar a origem da
-procissão de Evora.
-
-Escreve Lafuente que o principe D. João recolheu a Portugal com
-quatrocentos ginetes, «acompanhado de sua prima D. Joanna.» Os chronistas
-portuguezes Ruy de Pina e Damião de Goes, parecendo este ultimo muito
-bem informado, não dizem o mesmo. Segundo elles, o principe partiu na
-semana santa de Touro para Castro Nunho, passando o rio em uma barca, e
-os cavallos e bestas a nado, no sitio chamado Rico Vau. Na Paschoa estava
-D. João em Miranda do Douro. D’ahi foi á Guarda, onde se avistou com
-sua mulher D. Leonor. Descançou na Guarda alguns dias, sahindo depois
-a correr todos os logares da fronteira, provendo ao que lhe parecia
-necessario a fim de prevenir qualquer invasão.
-
-D. Fernando resolveu pôr cerco a Cantalapiedra, onde estavam ainda muitos
-fidalgos portuguezes. E D. Affonso, que se conservava em Touro, sabendo
-que D. Isabel havia de passar de Madrigal para Medina, preparou-lhe uma
-cilada, _aforrado com seis mil lanças_, mas porque o duque de Bragança
-com outros, antes de tempo se descobriram, os castelhanos, conhecendo a
-cilada, recolheram precipitadamente a Madrigal.
-
-Abhorrecido por esta nova contrariedade, Affonso V partiu para Portugal
-no principio do mez de junho de 1476, acompanhado pela _Beltraneja_.
-Affonso V seguiu o itinerario de seu filho. Sahiu de Touro para Castro
-Nunho, e veio passar a festa do Corpo de Deus a Miranda do Douro. Depois
-ordenou que D. Joanna partisse para a Guarda, acompanhada do bispo de
-Vizeu e do conde de Villa Real. Da Guarda, por ordem do rei, passou D.
-Joanna para Coimbra, onde o principe D. João a visitou, e de Coimbra
-passou finalmente para Abrantes, ao tempo que já o principe ia em caminho
-do Porto, onde Affonso V estava fazendo preparativos de viagem para
-França.
-
-Julgara Affonso V que, indo em pessoa pedir auxilio a Luiz XI, lograria
-attrahil-o á sua causa mais efficazmente do que a diplomacia pudera
-fazel-o. Do Porto, enviou a França Pedro de Sousa a notificar a sua
-resolução ao rei Luiz, e, despedido o emissario, veio D. Affonso embarcar
-em Lisboa no mez de agosto. A armada que o devia acompanhar compunha-se
-de dezeseis navios, com dois mil e duzentos homens. O rei ia a bordo de
-uma urca preparada para recebel-o.
-
-Arribou a Lagos a armada. Ahi, um celebre corsario francez d’esse tempo,
-de nome Cullom, já antigo conhecido de Portugal por serviços prestados
-em Ceuta, cumprimentou Affonso V, de quem foi recebido graciosamente. De
-Lagos velejou a armada para Ceuta, e de Ceuta para França, com destino a
-Marselha; chegada porem a Collioure, onde arribara por causa do tempo,
-despediu-a Affonso V. Em Collioure, um capitão do exercito francez sahira
-ao encontro do rei de Portugal para lhe dar as boas vindas em nome de
-Luiz XI.
-
-De Collioure jornadeou Affonso V para Perpignan, onde com grandes
-honras foi acolhido pelas auctoridades locaes. De Perpignan passou por
-Narbonne, Montpellier, Besiers e Nimes, seguindo d’aqui para Leon, vindo
-encontral-o ao caminho o duque de Bourbon. D. Affonso não entrou em
-Leon por causa da peste, e logo em Roanne recebeu outro enviado do rei
-que lhe dava as boas vindas. Depois dirigiu-se a Bruges, onde descançou
-alguns dias, e novos enviados de Luiz XI foram encarregados de lhe
-fazer companhia. O logar da entrevista dos dois monarchas devia ser
-Tours, e para ahi se dirigiu Affonso V, mas Luiz XI, pretextando uma
-romaria, deixou varios cortezãos encarregados de receber o rei portuguez.
-Visivelmente Luiz XI queria preparar effeitos scenicos, fazer esperada a
-sua presença, tomar-se desejado.
-
-Quando Affonso soube que Luiz XI se approximava, quiz sahir á rua,
-ou pelo menos á escada, para o receber, mas o rei de França mandara
-adeante dois fidalgos para impedir que Affonso V levasse tão longe a sua
-cortezia. N’este facto revela-se perfeitamente o caracter de Luiz XI,
-assim como o globo enorme do sol se espelha ás vezes n’uma pequena gotta
-d’agua. Luiz XI fizera-se esperar; agora, mostrava-se requintadamente
-cortez, quasi humilde. N’este traço está effectivamente concretizado o
-caracter de Luiz XI, tal como elle resalta do perfil d’este rei traçado
-pelos historiadores, e até pelos romancistas. O seu reinado foi um
-combate de todos os dias, como diz Augustin Thierry,[50] pela causa da
-unidade do poder e do nivelamento social, mas combate sustentado á
-maneira dos selvagens, pela astucia e pela crueldade. D’ahi vem, observa
-o historiador, a mistura de interesse e de repugnancia que excita em nós
-este caracter tão extranhamente original.
-
-Finalmente os dois soberanos encontraram-se a meio de uma sala. A
-_mise-en-scène_ d’esta entrevista é curiosa. «El-rei de França, diz Ruy
-de Pina, vinha com um só barrete na cabeça, tendo já d’ella tirado um
-chapéo e duas grandes carapuças, e trazia solto um saio curto de mau
-panno, e á cinta uma espada d’armas muito comprida, com a guarnição
-de ferro limada, e umas botas calçadas, e nos pés as esporas do mesmo
-jaez da espada, e ao pescoço uma beca de chamalote amarello, forrada de
-cordeiras brancas muito grosseiras, e suas calças brancas ante-talhadas
-de muitas côres. E ambos os reis com barretes nas mãos se abraçavam
-inclinando os joelhos muito baixos.»
-
-Como se vê, sobre ser original é pouco magnificente a _toilette_ do rei
-de França. Accentua-se n’ella um tom de humildade, que convinha agora
-a esse grande diplomata do seculo XV, para attrahir a si a victima
-imprevidente.
-
-Depois de conversarem algum tempo, retiraram-se os dois soberanos a uma
-camara, onde Luiz XI indicou a Affonso V o que sem perda de tempo elle
-devia fazer. Era, a seu juizo, o seguinte:
-
-1.º Que o monarcha portuguez iria pedir ao duque de Borgonha, que então
-estava em guerra com o de Lorena, que o ajudasse contra Castella, ou que
-ao menos se compromettesse a não atacar o rei de França, que era pelo
-duque de Lorena, emquanto Luiz XI guerreasse a favor do rei de Portugal.
-
-A inimizade de Luiz XI com o duque de Borgonha era antiga, e violenta.
-Este duque havia despojado dos seus Estados o de Lorena, a quem Luiz XI
-auxiliava secretamente contra o inimigo commum.
-
-«Quando D. Affonso V, escreve Pinheiro Chagas, intentava ingenuamente
-reconciliar estes dois adversarios implacaveis, sitiara o duque de
-Borgonha a cidade de Nancy, capital da Lorena, que se declarara pelo seu
-legitimo senhor. Luiz XI ria-se _dans sa barbe_ da tentativa que o pobre
-D. Affonso V ia emprehender, e esperava talvez que illudisse tambem
-algum tanto Carlos de Borgonha, ao passo que as suas tropas caminhavam
-secretamente com as do duque de Lorena, e que elle esperava, como o corvo
-sinistro, os primeiros rumores d’uma derrota, para cahir sobre a presa
-do campo de batalha, e cevar-se n’ella. Carlos de Borgonha, tinha só uma
-filha, e Luiz esperava, com boas razões, apanhar-lhe a herança.»[51]
-
-2.º Que Affonso V obteria do papa a dispensa apostolica precisa para
-casar com sua sobrinha D. Joanna, a fim de que elle pudesse _ir em sua
-ajuda com menos cargo_, diz Ruy de Pina. Era esta mais uma astucia de
-Luiz XI, porque elle bem sabia que Fernando e Isabel creariam em Roma
-grandes difficuldades junto do Papa. Era um meio dilatorio, no fundo; um
-expediente palliativo.
-
-A este tempo, já Luiz XI conhecia perfeitamente a credulidade
-cavalleirosa de Affonso V. _Tomara-lhe o pulso_, como se diz em linguagem
-vulgar. Começara então a fazer-lhe promessas e offerecimentos. Disse-lhe
-que os castelhanos gostavam ás vezes de vender as fortalezas, e que
-sempre lhe parecera melhor compral-as do que tomal-as. Que contasse com o
-dinheiro que precisasse. E como fosse noite, e quando os dois sahiram da
-camara já as tochas estivessem accesas, Luiz XI, imaginando proporcionar
-a Affonso V uma noite bem passada, que o attrahisse mais para o prazer do
-que para a questão de Castella, mandou pedir a Affonso V que acceitasse a
-quantia de cincoenta mil escudos de oiro _para convidar qualquer gentil
-dama, como era usança e cortezia de seu reino_.
-
-D. Affonso V recusou este offerecimento. Elle tinha tido uma educação
-austera, sob a direcção de seu tio D. Pedro; havia estimado tanto D.
-Isabel de Lencastre, sua mulher, que ella poude sempre resistir ás
-malquerenças que tinha na côrte; elle era o guerreiro d’Africa, o
-soldado, o homem forte; não estava costumado ao prazer, ás noites de
-sensualidade que tanto embriagavam Luiz XI. Portanto recusara.
-
-A fim de tratar da dispensação para o casamento de Affonso V com sua
-sobrinha D. Joanna, partiu para Roma uma embaixada composta de tres
-representantes do rei de Portugal, os quaes iam animados da melhor fé,
-e de dois do rei de França, os quaes naturalmente levavam instrucções
-particulares para o pontifice.
-
-Ao mesmo tempo, Affonso V partia para Nancy, a fim de se avistar com
-o duque de Borgonha, que, como já dissemos, estava em guerra com o de
-Lorena, e acampado na baixa Allemanha.
-
-«E antes da sua partida, escreve Ruy de Pina, el-rei de França lhe disse
-que pela pouca seguridade que tinha do duque de Borgonha, por ser muito
-orgulhoso, duvidava que, tomando a cidade de Nancy, sobre que estava,
-e destruindo o duque de Lorena, por seguir novidades quereria entrar
-por França, e que com receios d’isto, pelos segurar, tinha sua gente na
-frontaria, que daria causa a elle lhe não poder dar tanta ajuda, como sem
-isso faria. Porem, que se por seu meio d’el-rei D. Affonso elles ambos
-ficassem verdadeiros amigos, e se liassem por casamentos dos filhos, como
-o duque por todas as razões devia querer, elle em sua ajuda poria a coroa
-de França com todo o seu poder, e que el-rei devia requerer o duque, que
-fosse com elle em pessoa; porque era bom capitão, e tinha muita gente e
-singular intelligencia, e que sendo el-rei D. Affonso d’estas amizades
-meio e segurador, cada um d’elles teria receio de os per si quebrar, pelo
-não ter por contrario, _com os quaes muito cedo se faria pacifico rei de
-Castella_.»
-
-Sobre o modo por que Affonso V foi recebido pelo conde de Borgonha, filho
-de Philippe, o _Bom_, apartam-se as opiniões dos historiadores.
-
-Affonso V chegou ao acampamento a 29 de dezembro de 1476.
-
-A situação de Carlos de Borgonha era a esse tempo quasi insustentavel; o
-desanimo lavrava no seu exercito, e a traição do conde de Campo Basso,
-um perfido napolitano, preparava-lhe um laço. Não obstante, Carlos
-recebeu de boa sombra o rei de Portugal, ao qual descreveu com vivas
-côres o caracter astucioso de Luiz _XI_. Citou factos em abono d’estas
-revelações, e contou a Affonso V como Luiz XI, aconselhando o pobre rei
-portuguez a dirigir-se a Nancy, enviara logo atraz d’elle tropas de
-soccorro ao duque de Lorena. Carlos de Borgonha mostrou-se altivamente
-corajoso, dizendo que não se arrecearia de dar batalha a Luiz XI só com
-um pagem; mas, para dar uma prova de affectuosa consideração a Affonso V,
-não duvidava entrar em negociações de paz.
-
-Tal é a narração de Schœffer, e dos escriptores portuguezes. Mas tanto
-Barante como Philippe de Commines dão outra versão, aliás muito mais
-consentanea ao caracter de Carlos de Borgonha. Dizem estes chronistas que
-elle respondera a Affonso V que sem demora se dirigisse a Pont-á-Mousson
-para defender a cidade contra o duque de Lorena, o qual chegava da Suissa
-com o seu exercito, emquanto elle Carlos de Borgonha esperaria o duque
-deante de Nancy para o combater.
-
-Affonso V, surprehendido com a resposta, balbuciara desculpas: que não
-tinha armadura, nem trouxera comsigo nenhum dos seus homens de armas.
-
-Desanimado, Affonso V partiu para Pariz.
-
-Entretanto chegava o duque de Lorena, e Carlos de Borgonha quiz dar-lhe
-combate em campo raso. A traição do napolitano Basso vingara, e Carlos
-cahira morto, com grande jubilo dos francezes, jubilo que contrastava com
-a tristeza de Affonso V.
-
-E era fundada a tristeza do pobre rei portuguez.
-
-Luiz XI, sabendo da morte de Carlos de Borgonha, tratou de apossar-se
-dos dominios que lhe pertenceram, de realizar a annexação por meio de
-emissarios que para esse fim enviara ás cidades borgonhezas, e foi
-installar-se em Arras, onde Affonso V lhe mandara pedir uma entrevista,
-que foi concedida.
-
-Segundo o costume, não escacearam promessas nos labios de Luiz XI, mas
-essas promessas eram todas mentirosas. Luiz XI importava-se então mais
-com os despojos de Carlos de Borgonha do que com as pretensões de Affonso
-V á coroa de Castella.
-
-Vimos que um dos assumptos tratados entre Luiz XI e Affonso V foram
-as negociações a que devia proceder-se para obter em Roma a dispensa
-indispensavel á consummação do matrimonio entre o rei de Portugal e sua
-sobrinha. De feito, uma embaixada partiu para Roma, sendo composta do
-conde de Penamacôr, de João Teixeira e Diogo de Saldanha, por parte de
-Portugal, e de mr. de Saint-Vailler e do governador de Grenoble, por
-parte da França.
-
-Partiram juntos, e por terra, os embaixadores, acompanhados de grande
-sequito. O papa recebeu-os com muitas honras.
-
-Era natural, como dissemos, que os embaixadores de Luiz XI levassem
-instrucções secretas para o pontifice. Ruy de Pina diz que o auxilio dado
-por Luiz XI em Roma a Affonso V, n’esta pretensão, se houve sempre por
-muito duvidoso.
-
-Fernando e Isabel contrariavam fortemente, junto da santa sé, a concessão
-da dispensa pedida. O papa tergiversava com dilações, mas quando viu
-desembaraçado o poder de Luiz XI pela morte de Carlos de Borgonha,
-decidiu-se a conceder a dispensa em condições mais que muito duvidosas
-para Affonso V.
-
-Permittia o pontifice que Affonso V pudesse casar _com qualquer donzella
-que lhe fosse achegada em qualquer grau lateral de consanguinidade
-ou affinidade, exceptuando o primeiro grau_. Esquivava-se o papa
-artificiosamente a nomear D. Joanna, para não affirmar opinião sobre a
-sua legitimidade. Mas não parava aqui a subtileza do pontifice; declarara
-que concedia a licença apenas por comprazer com o rei de França, e que o
-de Portugal não poderia aproveital-a sem que o rei de França fosse ouvido
-como arbitro.
-
-Apertado mais tarde por Fernando e Isabel, que viram com maus olhos a
-concessão de uma tal dispensa, o papa desculpou-se dizendo que n’aquelles
-termos não a poderia negar a qualquer popular obscuro que a solicitasse;
-que não deu a Affonso V o tratamento de rei de Castella, como elle
-desejava; que não nomeou D. Joanna e que, porisso mesmo, a dispensa fôra
-concedida em termos vagos; que havia declarado não querer que resultasse
-d’ella prejuizo para terceiro, o qual se entendia ser o rei de Castella,
-mas que, visto ser assim mesmo contestada, revogaria a licença que
-concedera, o que fez por bulla patente enviada a D. Fernando no principio
-do mez de dezembro de 1478.[52]
-
-Depois da entrevista de Arras, Affonso começou a comprehender que não
-tinha sido mais que um simples joguete nas mãos de Luiz XI. De Arras,
-dirigiu-se para Honfleur, onde demorou todo o mez de setembro, entregue a
-uma violenta lucta moral, acabando por querer alienar todas as grandezas
-mundanas, e passar a Jerusalem com proposito feito de nunca mais voltar a
-Portugal. Todo esse tempo gastou-o Affonso V entregando-se a exercicios
-religiosos e escrevendo apontamentos intimos, que cuidadosamente fechava
-n’um cofre de que tinha a chave, e que se julgava serem uma especie de
-codicillo, de appenso ao testamento que havia feito.
-
-Finalmente, n’uma manhã de setembro de 1477, o rei sahiu a cavallo,
-como costumava, acompanhado por Soeiro Vaz e Pedro Pessoa, seis moços
-de camara, e dois moços de esporas, ordenando ao seu capellão que o
-fosse esperar na estrada, em logar determinado, onde effectivamente se
-encontraram.
-
-Chegados ahi, Affonso V deu ordem a um dos moços d’esporas para que
-retrocedesse a Honfleur, e entregasse, aos que n’essa localidade tinham
-ficado, a chave do cofre, para que o abrissem, e lessem o que deixara
-escripto.
-
-Do que no cofre se continha dá noticia Ruy de Pina:
-
-«... deixava uma carta para el-rei de França com remoques dissimulados,
-reportados á sua desventura, em que tambem lhe dava conta do fundamento
-que tivera para sua partida, que era servir a Deus; porque assim lhe
-fizera voto de o fazer depois da morte da rainha, sua mulher, sendo o
-principe seu filho em edade para reger seus reinos como era, pedindo-lhe
-amparo, favor e ajuda para os seus, que em seus reinos ficavam. E outra
-carta para o principe seu filho, em que lhe dava uma triste conta de sua
-viagem, encommendando-lhe e mandando-lhe por sua benção, que logo se
-alevantasse e intitulasse... rei. E outra d’esta substancia para todos os
-do reino, que como o proprio e verdadeiro rei obedecessem ao principe.
-E outra para os seus que ahi deixara, que estivessem á obediencia e
-ordenança do conde de Faro, com que todos foram tão tristes, e fizeram
-tão dolorosos prantos como a razão ensina, que em terras tão extranhas e
-em tanto desamparo, e o rei tão amado devia ser.»
-
-As cartas dirigidas para Portugal foram logo enviadas ao principe por
-Antão de Faria, e em virtude d’ellas se fez D. João acclamar rei de
-Portugal, em Santarem, aos 10 de novembro de 1477.
-
-Quando os portuguezes que tinham ficado em Honfleur receberam aquellas
-cartas, já estavam suspeitosos da demora de Affonso V, não obstante o seu
-habito de sahir a cavallo todas as manhãs.
-
-Luiz XI tinha encarregado mr. de Lebret, fidalgo francez, de acompanhar
-Affonso V e de responder pela sua pessoa. Quando mr. de Lebret soube
-que o rei de Portugal havia desapparecido, mandou logo emissarios a
-procural-o, accusando ao mesmo tempo os portuguezes de incuria na guarda
-do seu soberano. Foi n’uma pequena aldeia da costa, uma villagem, diz
-Ruy de Pina, que poude ser encontrado Affonso V, o qual, para não
-ser descoberto, vivia em commum com os poucos criados que o seguiam.
-O gentilhomem, que primeiro logrou encontral-o, e que se chamava
-Robinet-le-Bœuf, acordou Affonso V, que estava dormindo, a fim de
-melhor poder reconhecel-o, do que pediu desculpa ao rei de Portugal.
-Surprehendido, Affonso V não tratou de dissimular por mais tempo a sua
-identidade, e Robinet-le-Bœuf fez reunir immediatamente toda a gente
-do logar, a fim de que ficasse guardando o rei, expedindo emissarios
-com aviso a Luiz XI, aos portuguezes que tinham ficado em Honfleur, e
-a mr. de Lebret. Dos portuguezes, o primeiro que appareceu foi o conde
-de Penamacôr, que já andava em busca do rei. Affonso V mostrou-se a
-principio teimoso em não renunciar á sua viagem á Terra Santa. O conde de
-Penamacôr mandou porisso chamar o conde de Faro, e D. Alvaro seu irmão, a
-fim de que viessem demovel-o, o que effectivamente conseguiram.
-
-Affonso V teve pejo de voltar a Honfleur, e portanto embarcou na angra de
-Hogue, com destino a Portugal. Alguns dos navios que o acompanhavam, não
-puderam aguentar a conserva, e chegaram primeiro, pelo que o principe D.
-João, já acclamado rei, teve noticia da chegada de seu pae. Diz-se que
-D. João II andava passeando á beira do Tejo, junto do paço de Santos,
-com o duque de Bragança D. Fernando e com D. Jorge da Costa, mais tarde
-cardeal de Alpedrinha, quando soube que seu pae havia chegado a Cascaes,
-e que perguntara aos seus companheiros de passeio o que havia de fazer
-n’aquelle lance. O duque respondeu que o dever de D. João II era receber
-Affonso V como seu rei e seu pae. Então D. João apanhou do chão uma
-pequena pedra, que atirou ao Tejo, e que foi por algum tempo cortando
-a agua. D. Jorge da Costa disse, inclinando-se ao ouvido do duque:
-«Aquella pedra não me ha de acertar a mim na cabeça.» E no dia seguinte
-partiu para Roma, onde conseguiu chegar a grandes honras, e ter subida
-importancia.
-
-Comprehende-se, no caracter forte e austero de D. João II este movimento
-de indignação perante a fraqueza, a versatilidade de seu pae, que cedia
-vergonhosamente á astucia de Luiz XI. Mas comprehende-se tambem que,
-passada essa primeira impressão, fosse receber seu pae a Oeiras, e
-reverentemente lhe entregasse o titulo de rei, de que já estava de posse.
-Os caracteres como o de D. João II teem uma profunda comprehensão do seu
-dever, embora, para o cumprir, hajam de dilacerar-se a si mesmos.
-
-Por sua parte, Affonso V, envergonhado das circumstancias em que se
-achava, e das fluctuações do seu proprio espirito, queria que o filho
-conservasse o titulo de rei, guardando elle para si o dos Algarves e das
-conquistas de Africa; mas o principe não lh’o consentiu.
-
-Depois de estar em Lisboa algum tempo, Affonso V retirou-se para
-Montemór-o-Novo, e d’ahi para Evora, e é notavel que, depois de tantos
-desenganos, lhe tornasse a passar pelo espirito a idéa de continuar
-devéras a guerra com Castella, que estava limitada a algumas incursões, e
-de realizar definitivamente o seu casamento com D. Joanna.
-
-O principe contrariou-lhe ardentemente estes pianos, sobretudo o do
-casamento. Era já tarde, entendia o principe; o que elle lamentava era
-que seu pae não tivesse acceitado as primeiras propostas de Castella, em
-tempo de Henrique IV, desposando D. Affonso a infanta D. Isabel, e elle
-a infanta D. Joanna.[53]
-
-D. João, durante a ausencia de seu pae, havia sustentado a animosidade
-com Castella, e mandara gente sua a descercar a villa de Alegrete, que
-tinha sido sitiada por Affonso de Monroy, assim como mandara auxilio
-a Touro e a Castro Nunho, que se conservavam fieis a D. Affonso V,
-o qual, de França, dera ordem aos governadores d’essas fortalezas
-castelhanas para se renderem. Elles vieram effectivamente para Portugal,
-por escaparem á vingança de Fernando e Isabel, e da coroa portugueza
-receberam auxilio e protecção. Todavia, o principe D. João comprehendia
-perfeitamente que Portugal, sobretudo pelo pessimo estado das suas
-finanças, não se achava habilitado a continuar uma guerra longa e aberta
-com Castella.
-
-O alcaide-mór da villa de Moura, Lopo Vaz de Castello Branco, quiz
-revoltar-se contra o rei de Portugal, porque no paiz lavrava um fermento
-de indisciplina, que era estimulado pelas proprias fluctuações do poder
-real, confiado a Affonso V. Foi mais tarde preciso o caracter de ferro de
-D. João II para repor as coisas no seu antigo estado, e para arcar peito
-a peito com quasi toda a nobreza do paiz. Lopo Vaz de Castello Branco
-pagou com a vida a ousadia do seu procedimento. Era mais uma manifestação
-da austeridade de caracter do principe, que não deixava nunca de punir a
-rebellião dos seus inimigos.
-
-N’esta desgraçada pendencia com Castella, ainda Portugal teve de figurar
-mais uma vez. Foi o caso que a condessa de Medellim, que seguia a causa
-da princeza D. Joanna, fôra cercada nas suas fortalezas pelo mestre de S.
-Tiago de Castella, e mandara pedir auxilio a Affonso V. Effectivamente
-Portugal enviou-lhe soccorro, indo por capitão-mór da pequena expedição
-o bispo de Evora, D. Garcia de Menezes. O mestre de S. Tiago deu batalha
-ao bispo junto de Mérida, sendo o bispo vencido, ferido e preso, pois
-que a desproporção das forças era enorme entre os dois exercitos. O
-de Castella era muito superior. A guarda do bispo foi confiada a um
-cavalleiro castelhano, que se deixou corromper, pelo que D. Garcia de
-Menezes, podendo fugir, se recolheu a Medellim, onde, com os destroços da
-expedição, se conservou ainda muito tempo cercado, até ao tratado de paz.
-
-A agitação era grande em ambos os paizes, e n’um e n’outro os
-especuladores de occasião tratavam de tirar todo o partido possivel das
-circumstancias, mirando á ganancia. Este estado de coisas, se era grave
-para Portugal, não deixava comtudo de inquietar Fernando e Isabel. Então,
-negociações secretas foram entaboladas para a paz, chegando a avistar-se
-na villa de Alcantara, em Castella, a rainha D. Isabel com sua tia a
-infanta D. Beatriz, de Portugal, viuva do infante D. Fernando.
-
-N’essa entrevista foi tratada a primeira combinação das pazes entre os
-dois reinos. Mais tarde uma nova entrevista se realizou no Alemtejo entre
-plenipotenciarios de Portugal e Castella, assentando-se que as pazes
-seriam perpetuas. As condições estipuladas foram estas:
-
-1.ª Que D. Affonso deixaria de intitular-se rei de Castella e Leão, e
-Fernando e Isabel, reis de Portugal;
-
-2.ª Que D. Joanna perderia todos os titulos de que se apossara, não se
-chamando nem rainha nem infanta, salvo se viesse a casar com o principe
-D. João de Castella, como ficou para resolver mais tarde;
-
-3.ª Que o antigo tratado de pazes feito com D. João I seria
-convenientemente revisto e modificado;
-
-4.ª Que as cidades, villas e castellos que de um reino a outro houvessem
-sido tomados, e assim os prisioneiros, seriam restituidos, soltos e
-perdoados;
-
-5.ª Que em relação a determinadas pessoas e cavalleiros se fariam
-capitulações especiaes, e que as fortalezas que nas fronteiras de um e
-outro reino haviam sido construidas, seriam derrubadas;
-
-6.ª Que o senhorio da Guiné, desde o cabo de Nam e o Bojador até aos
-indios inclusivamente, com todos os seus mares adjacentes, ilhas, costas
-descobertas e por descobrir, com seus tratos, pescarias e resgates, assim
-a ilha da Madeira e dos Açôres, Flores, Cabo Verde, e a conquista do
-reino de Fez ficassem _in solidum_, e para sempre, ao rei de Portugal, e
-que as ilhas das Canarias, e o reino de Granada ficassem _in solidum_
-aos reis de Castella, e seus successores, para sempre;
-
-7.ª Que para maior segurança d’este tratado, o infante D. Affonso, neto
-de Affonso V, logo que fosse em edade de sete annos, casasse com a
-infanta D. Isabel, filha primogenita dos reis de Castella, estabelecendo
-qual o dote da princeza, e o modo de pagamento;
-
-8.ª Que d’ahi a certo tempo, a senhora D. Joanna, e assim os ditos
-infantes, fossem postos em terçaria na villa de Moura, em poder da
-infanta D. Beatriz;
-
-9.ª Que o principe D. João, filho dos reis de Castella, logo que chegasse
-á edade de sete annos, casaria com aquella senhora, a qual passaria então
-a chamar-se princeza, sendo convenientemente dotada; mas que se o dicto
-principe D. João não quizesse casar com D. Joanna, ficaria ella livre da
-terçaria, recebendo uma indemnização;
-
-10.ª Que a senhora D. Joanna logo fosse posta em terçaria, como fica
-dicto, ou entrasse em um de cinco mosteiros que fossem indicados,
-demorando-se ahi o anno de noviciado, acabado o qual escolheria uma de
-duas coisas, ou _casar ou metter freira_, segundo a expressão popular.
-
-Estas pazes foram publicadas em setembro de 1479.[54]
-
-Importava dar cumprimento ás estipulações, mas os embaixadores hespanhoes
-iam espaçando de dia para dia a entrega da infanta D. Isabel.
-
-Enfadou-se de taes delongas o principe D. João, de Portugal, e, estando
-em Beja, enviou aos embaixadores de Castella duas folhas de papel, n’uma
-das quaes estava escripta a palavra _guerra_, e na outra a palavra _paz_.
-Perante esta corajosa resolução, os embaixadores castelhanos, obrigados a
-responder categoricamente, decidiram-se a entregar a infanta D. Isabel,
-que a mãe do duque de Vizeu, D. Beatriz, sahiu a receber, entregando
-aos embaixadores em refens seu proprio filho D. Manuel, que depois foi
-substituido pelo proprio duque, o qual a esse tempo estava doente.
-
-
-
-
-VIII
-
-CASAR OU METTER FREIRA
-
-
-De baldão em baldão, fluctuando n’um mar de incertezas, havendo
-atravessado a existencia sob o peso de uma predestinação fatal, D.
-Joanna, a _Beltraneja,_ via-se, finalmente, obrigada a tomar uma
-resolução definitiva, _a escolher um de dois meios_, como diz Ruy de
-Pina, _que para ella eram extremos de mortal sentimento_.
-
-Por muitas vezes parecera approximar-se do throno; por outras tantas
-tivera que afastar-se d’elle. Em Castella fôra rainha durante o tempo
-que vivem as rosas. Nunca lhe deixaram ter coração para amar, ser livre
-como a mais obscura camponeza de qualquer dos dois reinos que a sua
-coroa ephemera poderia ter abrangido. E todavia fôra esposa promettida
-de muitos noivos, nenhum certamente escolhido com o assentimento do seu
-coração. De um d’elles, seu tio Affonso V, chegara a compartir esperanças
-e desalentos. Sem embargo, D. Joanna bem sabia pela licção da historia,
-que a primeira mulher de seu tio arrastara uma vida profundamente
-alanceada de intimos pesares. Sabia ou devia saber que D. Isabel de
-Lencastre tivera por thalamo o leito de espinhos onde era obrigada a
-repoisar ao lado d’aquelle a quem seu pae devêra a morte, e a quem os
-amigos de seu pae deveram perseguição. Não era por que Affonso V tivesse
-uma alma incapaz de comprehender as finas delicadezas do amor. Não. Elle
-amara sua prima Isabel, e chegara mesmo a esquecer que ella era filha
-do infeliz infante D. Pedro, a victima de Alfarrubeira. Conta-se que
-D. Isabel, denunciando os primeiros symptomas da maternidade, sentira
-estalar a esmeralda do seu annel de donzella, que trazia no dedo.
-Lastimou-se a desventurosa princeza, certamente por haver gerado uma
-creança, cujo avô fora assassinado por tolerancia do pae. Mas Affonso V
-acudiu a tranquillizal-a com palavras de carinho, fazendo-lhe ver que
-o nascimento de um filho valia bem uma pedra preciosa. E foi, sob esta
-impressão affectuosa, que D. Affonso permittira que o cadaver de seu tio
-fosse removido para o tumulo de familia, na egreja da Batalha. Affonso
-não era, pois, um homem incapaz de sentir, e de amar. Mas a _Beltraneja_
-não poderia de certo amal-o; iria para elle levada pela força das
-circumstancias, para não perder um throno que Affonso V ambicionava
-ganhar.
-
-Esse casamento, a realizar-se, seria talvez um porto de abrigo depois
-de tantos naufragios; uma taboa de salvação nos mares aparcelados
-da vida. E, não obstante, partia-se agora essa fragil taboa que era
-toda a esperança da pobre _Beltraneja_. A politica, o espectro que
-tão cruelmente a perseguia, inclinava-se-lhe agora ao ouvido para
-dizer-lhe, como Hamlet a Ophelia: «Entra n’um convento; faze-te freira, e
-depressa...»
-
-Mas a _Beltraneja_ havia sido rainha ainda que por pouco tempo, fôra
-rainha sem reino e sem throno, não podia comtudo esquecer-se facilmente
-de que o fôra: uma esperança, quando é violentamente arrancada, traz
-sempre comsigo, pegado ás raizes, um pedaço do coração. Porisso, a pobre
-princeza chorou ao despir os brocados e sedas que até ahi envergara, ao
-ver cahir a seus pés os cabellos por onde outr’ora as perolas serpejaram
-em espiras phantasiosas. O seu coração era moço de mais para se resignar,
-abatido, quando no convento de Santa Clara, de Santarem, o amortalharam
-no habito monastico.
-
-D. Joanna chorava, choravam com ella os seus criados e familiares.
-
-No convento de Santarem _ainda hoje_, diz frei Manuel da Esperança, _se
-vê uma casa, que foi sua, onde se rezam matinas dos dias menos solennes,
-a qual por este respeito_ é chamada _o corinho_.[55]
-
-O principe D. João, endurecido pelos calculos ambiciosos da politica,
-olhava mais para o futuro do que para as tranças da _Beltraneja_, que
-cahiam despedaçadas no chão. Era que, segundo o tratado feito com
-Castella, seu filho devia desposar a filha mais velha de Fernando e
-Isabel. Assim, poderia chegar talvez ao mesmo ideal, a unificação de duas
-coroas, por caminhos mais suaves.
-
-«O principe, que de se cumprirem as capitulações, diz Duarte Nunes, tinha
-seus particulares interesses, e o casamento para seu filho, _e porventura
-a successão dos reinos de Castella_, como depois pudera succeder, se o
-juizo divino o não atalhara...»[56]
-
-Que importava que fosse preciso, para realizar esse _desideratum_,
-esmagar o coração de uma pobre mulher?
-
-Affonso V, envergonhado de si proprio, deixou inteira liberdade de acção
-ao filho. Pungia-o a consciencia dos seus erros. Sentia-se prostrado, de
-mais no mundo... e talvez no reino. O seu tempo passara; o pobre rei era
-o cadaver de si mesmo, apenas amortalhado nos trophéos conquistados em
-Africa, e manchados em França.
-
-No principio do anno seguinte, de 1480, a peste, essa cruel e duradoira
-peste que por tantos annos devia assolar Portugal, principiou a brandir o
-seu gladio desolador. D. Joanna recebeu ordem de retirar-se do convento
-de Santa Clara, de Santarem, para o de Evora, por fugir ao morticinio,
-e, todavia, talvez que ella houvesse preferido ser uma das victimas do
-terrivel flagello, que parecia mais apiedado da sua triste sina do que o
-coração do principe D. João, seu primo.
-
-Elle, porem, queria poupar-lhe a vida, para não ver partir-se-lhe nas
-mãos um poderoso instrumento de ambição politica. Se Castella procurasse
-algum dia illudir as estipulações do tratado, D. Joanna serviria como
-ameaça, a questão dos _seus direitos_ renasceria das proprias cinzas...
-Era, pois, preciso que a _Beltraneja_ vivesse. Porisso, invadida Evora
-pela peste, levaram D. Joanna para o Vimieiro, e do Vimieiro para Santa
-Clara, de Coimbra.
-
-Graças a um documento por nós encontrado na Torre do Tombo, onde aliás
-fizemos muitas outras investigações infructiferamente, conhecemos o
-teor de negociações entaboladas entre Portugal e Castella para retirar
-de Evora, quando a peste alli entrou, D. Joanna, já então officialmente
-appellidada a _Excellente Senhora_.
-
-Esse documento (existente na cella M, ms. 1163, fl. 518) é uma carta
-do principe D. João para Rodrigo Affonso, embaixador de Portugal em
-Castella, escripta de Beja.
-
-Eis o seu conteúdo:
-
-«Rodrigo Affonço Amigo, nós o Princepe vos inviamos muito saudar: nos
-soubemos hora per o Doutor Mestre Rodriguo como foi dito a hum frade em
-confição que nesta villa fallecerão hora dous moços deste mal que anda,
-e assim houvemos recado do Conde de Abrantes ha dous dias como em Evora
-fallecerão hora duas outras pessoas desta morte em huma casa a qual
-logo foi cerrada, e taypada a rua, e que estavão em grande sospeita,
-e temor de o mal ser mais, por o qual os da Cidade se fasião prestes
-para se sahir della se mais alguma couza acontecesse pedindo nos que lhe
-mandassemos diser a maneira que terião com a muy Excellente Senhora minha
-prima acerqua de sua estada alli ou partida para outra parte sobre o que
-acordamos de vos logo escrever e vos faser saber como nosso fundamento
-he se a couza mais for antes de vermos vosso recado se com a dita
-Senhora nom podermos acabar que se venha aqui a esta Villa sendo seguro
-de a poremos em algum lugar desta Comarqua, acerca donde nós estivermos
-ataa veremos vosso recado do que lá acabais neste feito, per que se aos
-Reys aprouver que se a dita Senhora esté fora dos sinco Mosteiros na
-cappitulação limitados trabalharemos como esté em algum luguar desta
-Comarqua porque nella nom ha mais luguares que tenhão Mosteiros de
-Freiras tirando Evora e esta Villa, que Estremoz e Portalegre, e poderia
-ser segundo este mal anda espalhado muito neste Reyno que nestes tambem
-morrerião como já agora morrem em Souzel que he antre ambos como sabeis
-e tam acerqua delles, compre que saibamos se em tal caso lhes prazeria
-á dita Senhora estar em algum outro lugar desta Comarqua posto que
-Mosteiro de Freiras nom tenha, estando com freiras e encerrada em forma
-de Relligião e com sua guarda assim como a deve ter estando em cada hum
-dos cinco Mosteiros porque nom prazendo aos Reys de dar seu consentimento
-tal que proveja a dita Senhora minha prima poder estar nesta Comarqua e
-Luguares della segundo vay aqui apontado sem nosso pejo com relevamento
-do passado segundo forma da instrucção que levastes será necessario
-que se vá a Coimbra como comvosco fallamos e para isto cumprir que muy
-trigosamente hajais despacho, e nolo invieis logo a mais andar, ou se já
-fordes despachado nolo traguais.»
-
-Havia-se completado um anno desde que D. Joanna vestira o habito;
-restava-lhe professar ou entrar em terçaria.
-
-Ella ou alguem por ella optou pelo convento. De Castella vieram
-embaixadores assistir á profissão, para assegurar-se d’esta parte do
-tratado, diz um escriptor hespanhol, isto é, para levarem a Fernando e
-Isabel a certeza de que as pretensões de D. Joanna á côrte de Castella
-ficavam para todo o sempre encarceradas dentro das grades de um
-mosteiro, e amortalhadas no burel de uma pobre freira, cujos laços
-mundanos parecia deveriam, desde esse momento, ficar partidos de vez. Não
-aconteceu inteiramente assim, como veremos.
-
-É certo ter D. Joanna dicto aos embaixadores castelhanos que _sin ninguna
-premia, salvo de su propria voluntad queria vivir en religion e facer
-profesion e fenescer en ella_. Seria, porem, completamente essa a sincera
-expressão da sua alma? Não por certo. Essas palavras são transparentes,
-revelam bem a altivez da mulher ferida no seu orgulho: ha n’ellas um
-mixto de fel e de lagrimas. Ao pronuncial-as, o coração da _Beltraneja_
-devia despedaçar-se. Mais do que nunca se denuncia então o justo
-desespero com que ella se revoltava contra os repetidos sacrificios que
-exigiam da sua fraqueza.
-
-O principe D. João, de Portugal, sorria porventura, por entre dentes,
-da credulidade dos embaixadores hespanhoes, que julgavam ser muralha
-inexpugnavel a parede de um mosteiro, e prisões inquebrantaveis as grades
-d’elle.
-
-Nas conversações particulares, que mantinha com os seus intimos, D.
-Joanna deixava-se enternecer facilmente pelas lagrimas d’elles: a
-mulher, revoltada contra o sacrificio, apparecia então. Ruy de Pina não
-o dissimula quando noticía que foi precisa a intervenção do principe D.
-João para que a profissão da _Beltraneja_ se realizasse, como realizou, a
-15 de novembro de 1480, em Santa Clara, de Coimbra.
-
-Consummara-se o sacrificio. D. Joanna recebeu o véo preto das mãos de
-frei Diogo de Abrantes.
-
-Em muitos olhos brilhava compassivo pranto; só D. João não chorava.[57]
-
-Affonso V, doente de melancholia, não assistira; não tivera forças para
-tanto. Não tivera energia para resistir ás imposições de seu filho; mas
-faltara-lhe tambem a coragem para assistir á profissão de sua sobrinha,
-que elle proprio victimara.
-
-Logo em Coimbra, diz Damião de Goes na _Chronica do principe D. João_,
-esteve para morrer _de pura melancholia_. Escapara por então, mas
-fizera-se intratavel, misanthropo. Queria recolher-se ao mosteiro do
-Varatojo, e professar. Assim acabaria por um duplo voto religioso este
-triste drama do seu projectado casamento com a _Beltraneja_. Mas, antes
-de realizar um tal plano, precisava avistar-se com o filho, que estava em
-Beja: deviam tratar n’essa conferencia da convocação de côrtes geraes,
-para que ellas reconhecessem D. João como rei. Affonso V partiu, pois, de
-Coimbra para Beja no verão de 1481. Na entrevista, ficou resolvido que
-as côrtes se convocassem para Estremoz, porque Lisboa e Evora estavam
-assoladas pela peste. Tratado este negocio, D. Affonso V partiu, no
-principio de agosto, de Beja para Cintra onde, solitario como desejaria
-viver, devia esperar pela reunião das côrtes.
-
-Em Cintra, o rei foi acommettido de febres. Pouco era preciso para o
-matar no estado de abatimento e desgosto em que se encontrava. O principe
-acudiu logo a Cintra, mas os medicos desenganaram-n’o: o rei morria.
-D. Affonso acceitou a morte como uma redempção: fez ao filho algumas
-recommendações, deu-lhe conselhos. Pediu-lhe que protegesse a orfandade
-da _Beltraneja_. E morreu, a 8 d’esse mez, com quarenta e nove annos de
-edade.
-
-Acabara-se finalmente a tortura que lhe rasgara o coração a lentas
-punhaladas.
-
-Poucos dias depois do fallecimento de Affonso V, nascia o filho que
-D. Anna de Mendonça tivera do principe herdeiro D. João. D. Anna de
-Mendonça, mulher muito fidalga e moça formosa de mui nobre geração, diz
-Garcia de Rezende, servira como dama de honor da _Beltraneja_, andara na
-sua casa. Ao passo que D. Joanna, casada e virgem, via fechada a dobra
-do seu leito de noiva, jámais occupado, uma das suas damas de companhia
-rendia-se ás seducções do principe D. João, menos disposto a guardar para
-si a abstinencia de prazeres que exigia de sua prima. Era justamente na
-roda da noiva mallograda de seu pae que o principe D. João ia procurar e
-encontrar uma amante, com a qual corria a emboscar-se nas moitas floridas
-de Cernache do Bom Jardim. Singulares ironias tem ás vezes o destino!
-
-D. João II, subindo ao throno, travou desde logo uma porfiada lucta com
-a nobreza. Alexandre Herculano sustenta que a indole das instituições da
-velha monarchia ovetense-leoneza, e das que d’ella procederam, não só
-foi extranha, mas até repugnante á indole do feudalismo. Temos o maximo
-respeito pela memoria do illustre historiador, mas n’este ponto não
-concordamos inteiramente com a sua opinião.
-
-De passagem relembraremos, por fazer ao nosso proposito, que em Portugal,
-os reis transmittiram por meio de concessões os direitos de soberania aos
-senhores feudaes, creando, para assim dizer, outras tantas monarchias
-quantos eram os donatarios, que, por esse facto, se chamaram senhores
-de baraço e cutello, senhores de pendão e caldeira. Como prova do
-enfraquecimento real entre nós, por effeito do poder feudal, bastará
-citar um unico facto. Reinando Sancho II, Estêvam Pires de Molny possuia
-um paço no logar de Carcavellos, na terra da Feira. Como o resto do
-logar não fosse coitado, o mordomo do rei entrou n’elle para penhorar
-um lavrador. Pois o senhor do paço arrastou o mordomo pela freguezia,
-dizendo-lhe: «Cá por aqui é honra!» e depois enforcou-o.[58]
-
-Os senhores feudaes davam foraes e leis aos aldeões e villãos
-(_villani_), taxavam a quantidade de fructos e a qualidade de serviços
-que lhes deviam prestar, nomeavam juizes e tribunaes, e arbitravam penas;
-d’aqui nasceu a escravidão da terra (_servitus glebæ_). Algumas vezes,
-os donatarios concediam terras em feudos aos plebeus ou peões: a estes
-beneficios chamava-se _feudos dos senhores ou subfeudos_.[59]
-
-Em virtude d’este regimen, e como se deprehende do que fica exposto,
-temos nos primeiros tempos da monarchia as seguintes divisões sociaes
-por classes: senhores feudaes ou fidalgos, plebeus ou peões, vassallos
-ou servos. Desde o começo da realeza em Portugal, a acção do feudalismo,
-e as luctas a que dava causa, accentuam-se de um modo nitido, segundo
-cremos. Vemos os irmãos de Affonso II negar-lhe vassallagem, por um acto
-de rebellião feudal. D. Sancho II deposto pelo clero e pela nobreza.
-Por sua parte, os reis reagiam, procurando cercear as garantias dos
-senhores feudaes. Affonso II supprime os tributos do _comestivel_ e das
-_aliavas_; Affonso III cria os _juizes de fóra_, representantes do poder
-real para inspeccionarem a administração da justiça nos territorios
-feudaes; D. Diniz procurou oppor o seu manifesto espirito de justiça
-á acção da prepotencia feudal; Affonso IV definiu a jurisdicção dos
-donatarios no edito geral; D. Fernando tratou de cohibir as malfeitorias
-que os fidalgos commettessem com armas; D. João I e D. Duarte recorrem
-principalmente á _lei mental_, como a um poderoso meio de combate.
-Affonso V, porem, como já tivemos occasião de ver, augmentou em larga
-escala o poderio dos nobres, pelo abuso de concessões. Mas seu filho, D.
-João II, estava talhado para oppor uma barreira gigante á onda crescente
-e abusiva do regimen feudal.
-
-Coisa notavel! Pessoalmente, D. João II devia odiar Luiz XI pela maneira
-doble e aviltante por que recebera em França seu pae; politicamente,
-tomava-o como modelo n’essa lucta terrivel em que se achava empenhado,
-salvas as differenças de caracter. João II imitou Luiz XI não só nos
-rasgos mais principaes, mas até na dissimulação e crueldade; era comtudo
-mais paciente, e porisso mesmo não arriscava os passos senão depois de
-pisar terreno firme.[60]
-
-Os senhores feudaes, que em França acabavam de ajudar Carlos VII a
-expulsar os inglezes, não eram por certo menos poderosos do que aquelles
-que em Portugal haviam conseguido supplantar o infante D. Pedro. O duque
-de Bragança era relativamente tão importante como o duque de Borgonha.
-Esta identidade de circumstancias levou fatalmente João II a copiar,
-melhorando-o, o exemplo de Luiz XI.
-
-Assim como o rei de França inicia o seu reinado proclamando a lucta com a
-nobreza,[61] o de Portugal trata, depois de reunidas as primeiras côrtes
-em Evora, de lançar a luva aos seus emulos, cuidando de regularizar a
-fórma das menagens. Era o cartel para o repto; o aviso para a lucta.
-
-«Antes de se fazerem estas menagens, diz Garcia de Rezende,[62] el-rei
-com o duque de Bragança e outros senhores, e pessoas do conselho,
-praticou umas palavras que nas menagens haviam de dizer muitas vezes, _em
-que houve muitas porfias, desgostos, descontentamentos, por lhe parecer
-aspera fórma a que el-rei queria_...»
-
-Mas, não obstante a opposição do duque de Bragança, João II fez vingar o
-novo formulario de menagens.
-
-Como claramente se póde ver do teor das menagens, a sua redacção bastava
-para revelar as intenções do rei, e o duque de Bragança, querendo
-protestar, mostra, como toda a outra nobreza, não conhecer D. João II:
-julga-o fraco, parece-lhe que se acobardará perante a resistencia.
-
-O duque precisou dos titulos das suas doações para documentar o protesto,
-e mandou buscal-os a Villa Viçosa, pelo veador da sua fazenda, João
-Affonso, dando-lhe a chave de um cofre que continha todos os papeis de
-segredo.
-
-João Affonso declinou esta grave commissão n’um filho seu, em quem
-muito confiava. Na occasião em que o filho do veador andava procurando
-no cofre, appareceu por acaso na sala Lopo de Figueiredo, escrivão da
-fazenda do duque, o qual, a pedido do rapaz, o ajudou a procurar os
-papeis. Depararam-se-lhe, porem, entre elles algumas cartas e instrucções
-de Castella, e para os reis de Castella, com emendas e correcções feitas
-pela lettra do duque. Lopo de Figueiredo poude escondel-os, mettendo-os
-na manga do gibão. Em casa leu-os vagarosamente, e reconheceu que se não
-havia enganado, pelo que immediatamente correu a Evora, a mostral-os ao
-rei, que d’elles tomou conhecimento, dando-os a copiar a Antão de Faria,
-e mandando-os pôr no cofre, onde estavam, por Lopo de Figueiredo.
-
-Eis aqui como o acaso, ou o _mysterio de Deus_, como diz Garcia de
-Rezende, poz nas mãos de D. João II o fio de uma intriga, que era como
-que o vendaval que devia atiçar o fogo da lucta travada entre elle e a
-nobreza de Portugal.
-
-D. João II tinha um duplo motivo para, segundo o seu ponto de vista,
-combater o duque de Bragança: em primeiro logar, atacava um dos maiores e
-mais altivos potentados que faziam sombra á coroa real; em segundo logar,
-desde que o duque se oppuzera a que Affonso V passasse a Castella, via
-n’elle um parcial da causa, agora triumphante, de Fernando e Isabel. E
-depois lembraram a D. João II as palavras duras do duque quando, depois
-da batalha de Touro, se não sabia do destino de Affonso V.
-
-As cartas que o acaso trouxera ás mãos do rei, vieram fortalecel-o na
-antiga suspeita. Desde esse momento, D. João II não pensou senão em
-liquidar estas contas antigas. Espirito forte, caminhou resolutamente
-para o seu ideal de vingança, umas vezes mostrando-se severo e
-desconfiado com o duque de Bragança, outras vezes fingindo acreditar nos
-seus protestos de obediencia e fidelidade.
-
-Mas, intimamente, D. João II julgava indispensavel prevenir-se com uma
-arma poderosa para contraminar a connivencia do duque de Bragança com
-Castella: essa arma era sua prima, D. Joanna, a _Beltraneja_ ou, como
-agora lhe chamavam os castelhanos, _la Monja_.
-
-Pois bem. Sem hesitar um momento, D. João ordenou que abrissem a sua
-prima as portas do mosteiro de Coimbra, e que ella vivesse no seculo com
-a ostentação que ao seu nascimento era devida.
-
-E assim foi que, freira professa havia dois annos, D. Joanna, joguete
-malfadado das ambições dos outros, voltou de novo ao mundo onde a
-felicidade parecia apostada em mostrar-se-lhe tão esquiva como outr’ora,
-quando ainda o véo preto lhe não cingia a bella cabeça juvenil.
-
-Mas o infante D. Affonso, filho unico de D. João II, estava nas terçarias
-de Moura, como a princeza D. Isabel, filha dos reis catholicos. Era
-preciso arrancal-o d’esse captiveiro, onde a sua vida poderia correr
-perigo, tanto maior por certo quanta fosse a animosidade manifestada por
-D. João II contra o duque de Bragança, que tinha, como sabemos, intimas
-relações com a côrte de Castella.
-
-A fim de salvar a vida de seu filho, tratou D. João II de annullar as
-terçarias, e para esse fim enviou a Fernando e Isabel uma embaixada
-composta do barão de Alvito e de Ruy de Pina, o chronista, os quaes
-começaram por pedir que o deposito dos principes fosse transferido para
-um logar menos doentio do que a villa de Moura.
-
-Os reis de Castella, prevenidos pelo duque de Bragança das intenções de
-D. João II, fizeram mallograr o exito d’esta primeira embaixada.
-
-Nova embaixada mandou D. João II a Castella, d’esta vez para que as
-terçarias se mudassem _ou desfizessem_, dizendo mais o embaixador que, se
-não parecia conveniente o casamento do principe portuguez com a infanta
-D. Isabel, pela differença das edades, se effectuasse com a infanta D.
-Joanna e que, a ser assim, fossem, em compensação, cedidas a Portugal as
-ilhas Canarias, que el-rei sempre desejou para maior segurança da Guiné.
-
-A desconfiança dos reis de Castella, a respeito do de Portugal, tinha a
-esse tempo subido de ponto, porisso que em Castella haviam sido presos
-alguns portuguezes, que se diziam encarregados de negociar, por ordem
-de D. João II, o casamento da _Excellente Senhora_ com o rei Phebo, de
-Navarra. Fernando e Isabel queriam que os suppostos emissarios do rei de
-Portugal fossem por elle punidos, porque só assim se convenceriam da boa
-fé de D. João II.
-
-Esta exigencia dos reis de Castella não foi desde logo attendida pelo de
-Portugal.
-
-Portanto, um problema inquietador principiou a preoccupar o espirito de
-D. João II e d’aquelles que lhe eram dedicados: qual o melhor meio de
-conseguir a annullação das terçarias de Moura?
-
-Uma das pessoas que deram o seu voto n’esta importante questão foi D.
-Philippa de Lencastre, tia de D. João II, irmã de sua mãe, e religiosa de
-Odivellas.
-
-Digamos d’esta senhora duas palavras.
-
-No testamento da rainha D. Isabel é D. Philippa, sua irmã, a principal
-contemplada, pelo grande amor que lhe tinha, e porque a situação da
-familia do infante D. Pedro, como do mesmo testamento se vê, era
-precaria. Mas essa disposição testamentaria de D. Isabel iria, a
-realizar-se, prejudicar a legitima devida a seus dois filhos. Não
-obstante esta causa de nullidade do testamento, D. Affonso V estabeleceu
-a sua cunhada uma tença de duzentos e vinte mil réis; e recommendou-a
-nas disposições testamentarias que elle proprio fizera em Portalegre
-antes de partir para Castella.[63]
-
-Frei Francisco Brandão diz que, não obstante a tença, D. Philippa passara
-a vida _com não grande cabedal_, e que D. Affonso V bem pudera _ter
-remedeado a prima que recommenda_. Como quer que seja, seu sobrinho D.
-João II doou-lhe uma parte da renda da Villa de Alcolea de Sinca, no
-principado da Catalunha.
-
-Depois da morte da rainha D. Isabel, D. Philippa esteve parte do tempo em
-Coimbra, em casa de sua mãe, a viuva do infante D. Pedro; mais tarde veiu
-para Lisboa onde acompanhou a educação de sua sobrinha D. Joanna.
-
-Havendo-se recolhido ao mosteiro de Odivellas, sem que aliás professasse,
-foi de romaria a S. Tiago de Galliza, e morreu em Portugal no anno de
-1497. Jaz na sacristia de Odivellas.
-
-Como iamos dizendo, esta senhora dera voto na questão das terçarias;
-talvez lhe fosse solicitado por sua prima D. Beatriz. Frei Francisco
-Brandão encontrou o documento, que nos transmittiu o voto de D. Philippa,
-na torre do Tombo, entre os papeis de Fernão de Pina. Publicou-o com
-o seguinte titulo: _Conselho e voto da senhora Dona Philippa filha do
-infante Dom Pedro sobre as terçarias, e guerras de Castella. Com uma
-breve noticia d’esta princeza, dirigido a el-rei Dom João IV, Nosso
-Senhor._ Lisboa, 1643.[64]
-
-D. Philippa lamenta que o principe D. Affonso esteja nas terçarias com
-prejuizo para a sua educação. Não aconselha que o tirem para fazer
-guerra a Castella, mas não quer isso dizer que deixe de reconhecer as
-vantagens de Portugal em qualquer lucta armada com Castella, tiradas da
-historia do passado. Entende que um portuguez ha de valer sempre vinte
-castelhanos com a ajuda de Deus. Recorda que se Affonso V foi a Touro,
-varios castelhanos lh’o pediram. E remata dizendo: «E assi concludo:
-sua paz deve ser desejada com grande razom, mas sua guerra que Deos nos
-goarde, nem deve ser mui temida, quando sem causa procurarem metella em
-obra, pois Deos, justiça, verdade, razoens humanaes som em nossa ajuda, e
-a elles contrarios.»
-
-Emquanto variavam os pareceres a respeito das terçarias, D. João II
-enviava terceira embaixada a Castella, encarregada de dar satisfacções
-e desculpas aos soberanos d’aquelle paiz, que trataram de mostrar-se
-satisfeitos com ellas, porque o seu maior desejo era tambem verem fóra
-das terçarias a infanta D. Isabel, receosos de que a sua vida pudesse
-ser penhor de alguma nova combinação politica. Ficou então assente que
-as terçarias se desfariam, e que o principe D. Affonso casaria não com
-a infanta D. Isabel, mas com a infanta D. Joanna, e que se lhe daria
-maior dote por estar esta infanta mais afastada na linha de successão de
-Castella. Outrosim ficou combinado que os reis de Castella mandariam na
-proxima Paschoa embaixadores a Portugal para se tratar definitivamente da
-resolução d’estas combinações.
-
-A familia real estava em Almeirim n’essa occasião. A rainha teve ahi um
-mobito, e por este motivo a foram visitar muitos fidalgos, entre os quaes
-o duque de Vizeu, seu irmão, e o de Bragança, a quem D. João II recebeu
-de boa sombra. Não obstante, um dia chamou-o de parte á capella do paço,
-e, na presença do bispo de Lamego, lhe disse que estava inteirado de que
-elle tinha ligações suspeitas com Castella, mas que se essas combinações
-eram filhas de um proposito errado, estava disposto a perdoal-as e
-esquecel-as. Lembrou-lhe as obrigações que o duque devia á memoria de D.
-Affonso V, de quem havia recebido largas honras, e patrimonio. E ainda
-que se julgasse aggravado com o degredo do marquez, e a entrada dos
-corregedores em suas terras, devia ser o primeiro a querer dar um exemplo
-de obediencia e de respeito ao rei.
-
-O duque de Bragança imaginou que D. João II se deixaria embalar pelas
-suas palavras; que o supporia um inimigo que retirava, que desalentava na
-lucta; e, cheio de hypocrisia, respondeu affirmando os seus sentimentos
-de estima e gratidão ao chefe do Estado.
-
-Enganava-se.
-
-O certo é que a nobreza julgou haver submettido aquelle forte inimigo das
-suas regalias. Folgou com isso. Sahindo de Almeirim, os duques de Vizeu,
-de Bragança e seus irmãos juntaram-se no Vimieiro, folgando com o que se
-tinha passado, e entre si resolveram não deixar entrar os corregedores
-nas suas terras. Sobre o mesmo assumpto, o marquez de Montemór, o conde
-de Faro e D. Alvaro de Bragança tiveram entrevistas secretas no mosteiro
-de Santa Maria do Espinheiro, em Evora, tomando-se notavel o marquez pela
-exaltação, pelo odio com que sempre falava do rei.
-
-D. João II andava devidamente informado d’estas conspirações, mas, astuto
-e reservado, pareceu-lhe melhor esperar. Porisso, deu ordem para que se
-não fizesse a correição ás terras dos nobres, e até chegou a despachar
-favoravelmente algumas pretensões do marquez, e do conde de Faro.
-
-D. João II preparava o laço, e esperava a presa.
-
-Entretanto, o duque de Bragança, em intelligencia com os reis de
-Castella, continuava a conspirar. Um mensageiro castelhano veio
-avistar-se secretamente a Portugal com o duque, combinando ambos
-n’uma capitulação, da qual o marquez de Montemór teve conhecimento.
-A capitulação dividia-se em dois pontos principaes: 1.º Que visto a
-_Excellente Senhora_ não viver no rigor monastico a que era obrigada,
-fosse entregue ao duque de Bragança ou a seus irmãos, para lhe fazerem
-cumprir o que fosse honesto. 2.º Que fosse permittido aos subditos
-castelhanos o irem negociar na Guiné.
-
-É claro que D. João II não podia annuir a estes pedidos, em primeiro
-logar porque lhe arrancavam das mãos uma grande arma diplomatica, tal
-era a _Excellente Senhora_; em segundo logar, porque abalaria o dominio
-portuguez, na Africa, com a concessão feita aos castelhanos.
-
-Mas isso mesmo era o que Castella e o duque de Bragança queriam: porque
-na propria recusa estava um pretexto para Fernando e Isabel declararem a
-guerra, e para o duque se desculpar de não prestar auxilio a D. João II,
-fingindo achar desarrazoada a recusa.
-
-As novas intelligencias do duque com os soberanos de Castella foram
-descobertas a D. João II por Gaspar Infante, irmão de Pedro Infante,
-familiar dos Braganças. D. João II, que já estava desconfiado, ficou
-prevenido, mas não lhe convinha precipitar os acontecimentos, tanto
-mais que tinha seu filho nas terçarias, e receava pela sua vida. Mas,
-como a guerra de Granada absorvesse toda a attenção e recursos dos reis
-catholicos,[65] um embaixador chegava a Portugal para tratar justamente
-de desfazer as terçarias. Assentou-se pois no casamento do principe D.
-Affonso com a infanta D. Joanna, filha segunda dos reis castelhanos.
-
-A este tempo voltava de Castella Pedro Infante com a correspondencia
-secreta para o duque. O rei leu-a, e resolveu logo, visto que o obstaculo
-que as terçarias offereciam ia desapparecer, prender o duque ou cercal-o
-em qualquer logar que estivesse. «E para isso, escreve Garcia de
-Rezende, houve logo secretamente muito dinheiro junto que trazia em sua
-guarda roupa, e assim fez muitas das cartas, provisões, que em tal caso
-havia de mandar pelo reino, e ás villas e castellos do duque e seus
-alcaides-móres, o que tudo lhe aproveitou na noite que prendeu o duque
-como adeante se dirá.»
-
-D. João II mandara procuradores seus a Moura buscar o principe. O duque
-de Bragança, sabendo isto, foi encontrar-se com elles em Portel, e
-alli lhes perguntou o que deveria fazer, visto que o principe passava
-pelas suas terras. Os procuradores responderam que, para serenar de vez
-certas differenças que tinha havido entre o rei e o duque, o que este
-devia fazer era acompanhar o principe á côrte, servil-o e honral-o. Mas,
-receosos de que o seu conselho desagradasse ao rei, mandaram, por meio
-de postilhões que havia na estrada, consultal-o a este respeito. D. João
-II respondeu que lhe aprazia muito que o duque fosse á côrte; o rei
-respondeu em carta, não fechada, para que todos a pudessem ver, a fim de
-armar á credulidade dos que a lessem.
-
-Desfeitas solennemente as terçarias em Moura, onde o duque de Bragança
-já havia chegado, o principe foi entregue aos procuradores do rei de
-Portugal, e a infanta D. Isabel aos procuradores do rei de Castella.
-
-Na jornada de Moura para Evora, onde estava a côrte, o principe D.
-Affonso foi hospedado em Portel pelo duque de Bragança, que lhe fez
-muitas honras. Fóra dos muros de Evora o rei sahiu a receber o principe,
-que vinha acompanhado pelo duque de Bragança e pelo de Vizeu. A gente
-que acompanhava o rei estava toda armada, porque D. João II ia em duvida
-sobre se logo prenderia o duque ou não.
-
-Mas como o duque lhe parecesse tranquillo e nada desconfiado, D. João II
-adiou o seu proposito.
-
-O rei mostrava-se extremamente alegre e despreoccupado. Houve em Evora
-grandes festas pela recepção do principe e da infanta, e o rei em todas
-tomou parte serenamente. Pelo que o duque, comquanto avisado pelo
-marquez seu irmão e por outros fidalgos, para que desconfiasse do rei
-e se salvasse, deixou-se ficar. Metteu-se de permeio o dia de _Corpus
-Christi_, em que o rei continuou a mostrar-se despreoccupado, mas na
-sexta-feira, indo o duque ao paço despedir-se do rei, achou-o despachando
-com os desembargadores. D. João fez sentar o duque junto de si, emquanto
-dava o despacho. Findo este, o duque conversou por algum tempo com o rei,
-e aproveitou a occasião para pretender justificar-se de varios aleives
-que lhe assacavam contra elle, pedindo-lhe que se informasse da verdade.
-D. João II, depois de o ter ouvido, disse que aquella casa já ia estando
-escura, e que, porisso, era melhor subirem á sua guarda roupa. Subiram,
-e o rei disse então que folgava de o ouvir fazer tal requerimento, e que
-effectivamente ia apurar a verdade, mas que julgava melhor que o duque se
-conservasse alli, até que tudo estivesse apurado.
-
-O rei, sahindo, deixou por guardas ao duque, Ayres da Silva,
-camareiro-mór, e Antão de Faria, camareiro.
-
-Então, o desanimo do duque foi grande. Ayres da Silva quiz consolal-o com
-palavras banaes, mas o duque respondeu-lhe: «Senhor Ayres da Silva: um
-homem tal como eu não se prende para o soltar.»
-
-Entretanto, D. João II fazia reunir em outra sala do paço os senhores,
-principaes auctoridades e lettrados, aos quaes expoz os aggravos que
-tinha do duque, lendo serenamente as cartas e instrucções apprehendidas.
-
-Logo que a noticia se espalhou na cidade, o povo correu aos pateos e
-terreiros do palacio, protestando a el-rei a sua lealdade, e pedindo
-justiça contra os que contra a sua vida houvessem attentado.
-
-No conselho decidiu-se que se segurasse bem a pessoa do duque; que a
-coroa tomasse conta dos seus castellos e terras, e que se notificasse o
-caso aos reis de Castella, sem comtudo alludir á causa da prisão.
-
-Tão profunda impressão causou em todo o paiz a prisão do duque, que os
-alcaides dos seus castellos logo os entregaram a uma simples ordem do
-rei. Esta observação, que Garcia de Rezende faz, pinta bem qual era o
-prestigio da monarchia, e o fanatismo do povo pela pessoa de D. João II.
-
-O marquez de Montemór e o conde de Faro, logo que souberam o que se
-passara, fugiram para Castella. Este ultimo pouco tempo sobreviveu em
-Andaluzia. O outro irmão do duque, D. Alvaro de Bragança, recebeu ordem
-do rei para sahir do reino, prohibindo-lhe comtudo que fosse residir em
-Castella ou em Roma. Mas D. Alvaro, desobedecendo, deixou-se ficar em
-Castella.
-
-A duqueza de Bragança, logo que soube da prisão do marido, mandou para
-Castella os seus tres filhos, ficando ella em Villa Viçosa com D.
-Margarida, sua filha.
-
-Entretanto, o duque continuava a estar preso na guarda roupa, sem ferros,
-mas constantemente vigiado. Era alvo das maiores attenções por parte dos
-familiares do rei, e tratado com a etiqueta devida ao seu nascimento.
-
-D. João II, por sua parte, mostrava-se pesaroso da situação em que estava
-o duque, e resolvia entregar o caso á justiça, para que ella julgasse.
-
-A justiça! Bem sabia D. João II como ella procederia vergada á pressão
-da sua auctoridade real! Mas o caracter reservado do rei levava-o a
-proceder assim, sem pressa, sem precipitação, calculadamente. O facto de
-entregar o duque a esse como arremedo de tribunal, mas em todo o caso,
-apparentemente, á acção da justiça, mostrava ao povo que acima do poder
-real pairava, como que a defendel-o, a justiça de Deus, manifestada pela
-justiça da terra.
-
-Era um homem superior D. João II.
-
-É conhecido o final d’esta tragedia: o duque de Bragança acabou no
-cadafalso levantado na praça de Evora.
-
-Diogo Pinheiro procurou rehabilitar a memoria do duque, escrevendo a sua
-_defesa_;[66] mas outro documento, modernamente dado á estampa, o tratado
-de Lopo de Figueiredo,[67] mostra que o duque de Bragança procurava
-fortalecer-se contra o odio de D. João II, entabolando negociações
-secretas com a côrte de Castella, e que á infanta D. Beatriz, mãe do
-duque de Vizeu, não repugnavam os planos do Bragança.
-
-
-
-
-IX
-
-O DEDO DE DEUS
-
-
-O rei D. João, de Portugal, não perdia de vista os manejos da côrte de
-Castella, que, tendo fallecido o rei de Navarra, procurava reunir os
-differentes Estados ao norte da Peninsula, pedindo para o principe D.
-João a mão de D. Catharina, em quem recahira a successão do reino de
-Navarra.
-
-Assim, D. João II não duvidava ir arrancar á clausura monastica a
-_Beltraneja_, para a aproveitar como ameaça que contivesse em respeito
-e desconfiança os reis catholicos. A isso se refere um breve do papa
-Innocencio VIII, do anno de 1487, a que Clemencin e Lopes de Mendonça
-alludem, mas que não nos consta haja sido publicado na integra em
-portuguez. Porisso o damos á estampa:
-
-«... Tendo chegado ha pouco ao nosso conhecimento, que alguns perversos,
-cobiçosos de alterar a paz mencionada, não receiam persuadir a Joanna,
-filha duvidosa do rei Henrique, e sua herdeira, que, largando o habito
-religioso que tomou, saia do mosteiro e volte para a vida secular, e,
-abjurando da profissão por ella tão solennemente feita, e com fingidas
-desculpas de medo, e de protestos, que aliás affirma ter feito contra
-a primeira asserção já dicta, se intitule rainha dos citados reinos, e
-assim queira ser pelos outros intitulada, e que para a induzirem a um
-tal fim não duvidam dar-lhe o nome e titulo de rainha; e sendo certo que
-das frequentes e continuadas suggestões de taes individuos, a citada
-Joanna algumas vezes com a importuna instancia se deixa vencer, e, ou
-seja para agradar aos mesmos que a persuadem, e parecer que acredita
-tudo quanto elles lhe dizem e pretendem gravar-lhe na mente, ou seja por
-outro motivo, larga o véo negro que tomara, e com o qual tão patente
-e publicamente se desposou com Jesus Christo, que é o mais excellente
-de todos os filhos dos homens, e ficou sendo consagrada ao Senhor,
-tanto dentro como fóra do mosteiro, no qual vivia, e se intitula e
-faz intitular rainha dos referidos reinos, como lhe persuadiam, com
-perigo das almas da mesma Joanna e dos que assim a aconselhavam, e com
-pernicioso exemplo e escandalo de muitos: nós, pois, que ardentemente
-desejamos, com o auxilio da divina clemencia, que entre os mencionados
-reis de Hespanha e de Portugal, invictos defensores da fé catholica
-n’aquelles Estados, a mencionada paz se consolide e vigore em todos os
-tempos futuros para incremento da fé catholica, por cuja exaltação um
-d’elles atacando o reino de Granada, e o outro, segundo o costume dos
-catholicos reis seus progenitores, passando com seus subditos para as
-regiões da Africa, trabalham com zelo inquebrantavel por combater com
-os infieis, e por dilatar a mesma fé; receando que, se acontecesse que
-as anteriores discordias entrassem a lavrar entre os mencionados reis,
-estes tivessem occasião de desistir das luctas por elles respectivamente
-emprehendidas contra os mesmos infieis, e de se afastarem de tão
-salutifera obra, dando ensejo aos infieis não só de se apoderarem de novo
-d’aquelles logares que já lhes tinham sido arrancados pelos referidos
-reis, senão de invadirem hostilmente os logares circumvisinhos, habitados
-pelos fieis, saquearem-n’os e sujeitarem-n’os áquella enxovalhadissima
-raça, com grande mortandade e perda dos christãos: por motu proprio, e
-não a pedido dos referidos rei Fernando e rainha Isabel, ou d’alguem em
-nome d’elles, mas de nossa mera deliberação, confirmamos e approvamos por
-auctoridade apostolica a mencionada profissão tão solennemente feita pela
-referida Joanna, e todas e cada uma das materias a ella respectivas, que
-se encontram exaradas nos mencionados instrumentos, e quantas d’ellas
-se derivarem, se forem legitimamente feitas, e só nos termos em que o
-forem, e as corroboramos com a força do presente escripto, e supprimos
-todas e quaesquer faltas, se porventura algumas houve relativamente ás
-solennidades d’este acto; e com os dictos motu proprio e auctoridade
-ordenamos estrictamente á mesma Joanna, que não vá de encontro á dicta
-profissão por ella tão solennemente feita, voltando de facto para o
-seculo, nem saia do mosteiro das freiras de Santarem da dicta ordem,
-para o qual ultimamente se passou, nem mesmo por pouco tempo, a não ser
-por algumas das causas pelas quaes os institutos regulares da referida
-ordem o permittem ás freiras professas n’ella, voltando para elle logo
-que taes causas cessem; não podendo dentro ou fóra do seu mosteiro
-largar o veo e habito da mencionada ordem, nem intitular-se rainha, ou
-fazer ou permittir que assim pelos outros seja intitulada. E a todos
-e a cada um dos christãos de qualquer estado, grau, ordem ou condição
-que sejam, e em qualquer ordem ecclesiastica, até mesmo episcopal,
-archiepiscopal, e cardinalicia, ou mundana, até mesmo de rei ou de rainha
-que figurem, prohibimos com o mesmo motu proprio e auctoridade que sob
-qualquer pretexto manifesta ou occultamente, directa ou indirectamente,
-por si, por outro ou por outros, persuadam á mesma Joanna que saia do
-referido mosteiro e ordem, e que volte para o seculo, e se trate como
-secular, e que impugne a profissão por ella feita, e para este fim lhe
-prestem por qualquer modo auxilio, conselho ou favor, ou a intitulem
-rainha ou a façam assim intitular, quer verbalmente, quer por escripto
-de qualquer fórma, sob pena d’interdicto, de prohibição d’entrada em
-egreja, suspensão dos actos divinos e dos governos das suas egrejas, se
-forem bispos e superiores; e se inferiores d’ellas, e ecclesiasticos
-e seculares pertencentes ás ordens militares e a quaesquer ordens
-isentas e não isentas, sob pena de excommunhão, e tambem da privação das
-egrejas, mosteiros, priorados, preceptorias, dignidades, personados,[68]
-administrações ou officios, etc., devendo incorrer em sentenças, censuras
-e penas, das quaes não poderão ser absolvidos senão em artigo de morte,
-e dada antes a devida satisfacção, etc. (_Addicionaram-se instrumentos
-publicos a 15 de novembro de 1480 contendo os votos feitos por D. Joanna,
-nos quaes tambem se descrevem os sagrados ritos então guardados_). Dada
-em Roma, em S. Pedro, a 24 de junho, anno da Encarnação do Senhor 1487, e
-terceiro do nosso pontificado.»[69]
-
-Não podemos deixar de notar, com Clemencin, a habilidade com que este
-breve está redigido, porisso que, apontado contra D. João II, evita
-dirigir-se-lhe directamente, antes elogia o rei de Portugal pelo seu
-infatigavel zelo em continuar a guerra na Africa contra os infieis.
-
-Isabel a Catholica, mulher de espirito superior, conhecia perfeitamente
-a estatura moral do seu antagonista. Porisso foi inclinando os
-acontecimentos a uma solução pacifica, procurou approximar-se, quanto
-poude, de D. João II, o qual não duvidou enviar-lhe um navio carregado
-com todos os aviamentos de que os reis de Castella precisavam para
-sustentar a guerra de Granada.
-
-O principe portuguez D. Affonso havia chegado aos quatorze annos, e a
-infanta D. Isabel, filha dos reis catholicos, estava ainda solteira. D.
-João II mandou perguntar se havia idéa de manter o antigo contracto de
-casamento. A resposta, vinda de Castella, fôra affirmativa. Portugal era
-para Castella um mau visinho, que importava ter em segurança. Convinha
-liquidar, de uma vez para sempre, a interminavel questão da _Beltraneja_.
-
-Toda a gente sabe a pompa com que se realizou o casamento do principe
-portuguez D. Affonso com a infanta castelhana D. Isabel. Excusamos
-demorar-nos n’este ponto. Toda a gente sabe tambem quão breve fôra a
-felicidade conjugal dos jovens esposos, subitamente anniquilada pelo
-desastre que victimara em Santarem o principe D. Affonso, morrendo
-arrastado pelo cavallo que montava.
-
-Garcia de Rezende recorda na _Miscellanea_ a rapida mutação das alegrias
-do noivado em prantos e tristezas inesperados:
-
- Era de dezeseis annos
- e casado de oito mezes,
- perfeito entre os mundanos,
- mui quisto dos castelhanos,
- descanço dos portuguezes.
- Uma triste terça-feira,
- correndo uma carreira
- em um cavallo, cahiu.
- Nunca falou nem buliu,
- e morreu d’esta maneira.
-
- Por sua grã formosura
- foi no mundo nomeado
- angelica creatura.
- Nunca foi tal desventura,
- nem principe tão amado;
- em Castella e Portugal
- foi tão sentido seu mal,
- tão chorado em toda a Hespanha,
- que foi tristeza tamanha,
- que se não viu outra tal.
-
- Vi a princeza tornar
- bem a revez do que veio.
- Coisa muito de espantar
- tão grã pressa, tal mudar
- do tempo, tão grão rodeio!
- Entrou a mais triumphosa,
- mais real, mais grandiosa
- que nunca se viu entrada;
- sahiu mui desesperada,
- mui triste, muito chorosa.
-
- Entrou com mil alegrias,
- sahiu com grandes tristezas.
- Tanto oiro e pedrarias
- não se viu em nossos dias,
- nem taes gastos, taes riquezas;
- as galantes invenções
- se tornaram em paixões,
- os brocados em saial,
- o prazer grande, geral
- em nojos, lamentações.
-
-Os partidarios da _Beltraneja_ viram na desastrosa morte do principe D.
-Affonso o dedo de Deus, o castigo do céo. Dil-o claramente Duarte Nunes
-de Leão na _Chronica de D. Affonso V_:
-
-«... não tardou, que quando o principe D. João, d’ahi a pouco já feito
-rei, casou o principe com tantos gostos, e tantas esperanças, no meio
-dos contentamentos, e das maiores festas do mundo, viu seu unico filho,
-que elle tão ternamente amava, morto, e arrastado de um cavallo, á vista
-da mesma senhora D. Joanna, que do mosteiro o podia ver deitado em uma
-pobre cama de palha de um pescador, onde acabou... tomando Deus, segundo
-a todos pareceu, por aquella afflicta mulher a vingança.»
-
-Em verdade, dadas as crenças supersticiosas da epocha, tudo fazia
-acreditar que a morte do principe D. Affonso fôra a justa punição dos
-repetidos sacrificios impostos a D. Joanna, principalmente por D. João
-II. Em Santarem vira ella cahir aos pés do altar os seus formosos
-cabellos, e deante de si o vulto sereno e frio de D. João; agora, tambem
-em Santarem, era o rei que chorava deante do cadaver do filho, como se
-a Providencia houvesse querido vingar o passado na pessoa innocente do
-principe.
-
-«Nem os reis de Castella, prosegue Duarte Nunes, ficaram depois sem seu
-quinhão de castigo; porque o seu filho varão, unico herdeiro de tantos
-reinos, na flor de sua edade, já casado, sem deixar successão, quasi
-no tempo em que com a senhora D. Joanna seus paes o prometteram casar,
-falleceu... E a princeza D. Isabel, filha maior dos dictos reis, cortados
-seus cabellos, e vestida de pannos de burel, triste e anojada, se viu em
-termos de tomar por vontade a vida, que á senhora D. Joanna fizeram tomar
-por força, se com pregações a não converteram; mas sua vida foi de pouco
-tempo.»
-
-Tambem Ruy de Pina, em linguagem dulcificada por toques de maviosa
-tristeza, procura pôr em evidencia o castigo do céo, vendo resvalar ao
-tumulo os primogenitos de Portugal e Castella, e _trocados os brocados
-ricos, e hollandas delgadas_ que trouxera a infanta D. Isabel, _com pobre
-burel e grossa estopa em que foi logo vestida_, depois da morte de D.
-Affonso; _nem ficaram por cortar seus cabellos doirados com accidental
-proposito de religião_.
-
-A punição parecia haver sido ordenada em identicas circumstancias do
-delicto. Nem o episodio dos cabellos falta; em Santarem, as duas primas
-houveram de despojar-se das suas tranças, uma para tomar o véo de monja,
-a outra para tomar o véo de viuva. _É o dedo de Deus!_ dizia-se então.
-E a phrase ficou como uma synthese dos factos, que em verdade parecem
-providencialmente dispostos.
-
-Passaria no forte espirito de D. João II, alguma vez, a idéa de que a
-morte de seu filho fôra realmente um castigo do céo?
-
-Eis o que ninguem póde saber ao certo.
-
-A verdade é que o rei sustentava, com grandeza, a casa da _Excellente
-Senhora_, no seculo. Nas _Provas da historia genealogica_[70] vem a
-relação das pessoas de que se compunha a casa de D. Joanna, e por essa
-relação se vê que não tinha menos de oito damas, nove moças de camara,
-sendo duas moiras, quatro donas, oito capellães e cantores, seis moços
-de capella, sete moços da camara, quatro estribeiros, dois reposteiros,
-afóra veador, contador, thesoireiro, comprador, mantieiro, cozinheiro,
-lavadeira, alfaiate, physico e cirurgião.
-
-A dotação de D. Joanna, consignada no orçamento geral do Estado (despesa
-ordinaria) em 1478, era de 1:400$000 réis.
-
-Onde habitava em Lisboa D. Joanna? Não pudemos averiguar. Sabe-se apenas
-que no reinado de D. João II residia no Paço do Castello, e que ahi
-falleceu, se bem que o documento d’essa epocha, a que nos encostamos,
-e a que ainda teremos de alludir, diga: _onde ora poisa a serenissima
-senhora_, o que faz suppor que nem sempre residira alli quando estava
-fóra do convento. Mais adeante veremos que houve idéa de se construir um
-palacio para sua residencia.
-
-Como se sabe, D. João II, morto o principe D. Affonso, empregou os
-maiores esforços para deixar por herdeiro da coroa D. Jorge de Lencastre,
-seu filho natural.
-
-Em segredo mandou a Castella pedir para elle a mão da filha mais nova dos
-reis catholicos, D. Catharina, encarregando d’esta missão Lourenço da
-Cunha. Com este casamento julgava D. João II garantir melhor a posição
-futura do bastardo.
-
-Quando Lourenço da Cunha chegou á côrte castelhana, estava D. Fernando
-doente, mas a rainha despachava os negocios. Foi, pois, ella que recebeu
-o embaixador portuguez, o qual apresentou o pedido de D. João II. A
-rainha respondeu, que sua filha não, mas que el-rei seu senhor tinha
-uma filha bastarda, que lhe daria. Então Lourenço da Cunha replicou
-altivamente:
-
-—Senhora, el-rei meu senhor não pretende tanto aparentar-se com el-rei D.
-Fernando como com vossa alteza; porisso, se vossa alteza tem outra filha
-bastarda, elle a tomará para seu filho.
-
-Quando Lourenço da Cunha recolheu a Portugal, D. João II premiou-lhe o
-procedimento, fazendo-lhe mercê de uma commenda de Beja, Serpa e Moura,
-tão vasta, que depois poude ser dividida em tres.
-
-Todos estes factos não passavam de leve pelo espirito da rainha D.
-Isabel, sempre receosa de D. João II. Apesar da ousada resposta do
-embaixador portuguez, e do acolhimento que lhe fez D. João, as relações
-entre os dois paizes não foram interrompidas; pelo contrario, pensou-se
-em seguir, por parte de Castella, o conselho do cardeal de Hespanha,
-de que convinha casar agora mais do que nunca o principe D. João com a
-_Excellente Senhora_. Em 1494, Fernando e Isabel não duvidavam assignar
-o celebre tratado, feito com D. João II, sobre o que tocaria a cada uma
-das duas coroas do que estava por descobrir no mar oceano.[71] E um anno
-depois, quando D. João II morria, porventura envenenado por mestre João
-de Mazagão combinado com o duque de Beja,[72] a rainha Isabel de Castella
-resumia n’uma só phrase toda a biographia d’esse rei cujo caracter de
-ferro ella perfeitamente conhecera: «Morreu _o homem_!» exclamara D.
-Isabel ao saber do fallecimento de D. João II.
-
-Pois bem! Elle, o forte, o _homem_, não esqueceu no seu testamento a
-fragil creatura que dobrara, como um vime, ao sabor da sua vontade
-poderosa.
-
-Uma disposição testamentaria diz:
-
-«Item, ao dicto duque meu primo (D. Manuel) encommendo e rogo que honre e
-trate bem a _Excellente Senhora_, minha prima, e que sempre a tenha bem
-e honradamente como pertence á pessoa que é, e que foi, e do que lhe é
-posto para sua mantença lhe não seja tirado nada em seus dias, estando
-ella na maneira em que ora está.»
-
-D. Manuel não era homem que se preoccupasse com castigos do céo quando
-queria fazer a sua vontade; estava enamorado da viuva do principe D.
-Affonso, da filha mais velha dos reis catholicos, e tratou de negociar o
-casamento sem se importar com _o dedo de Deus_, que bem poderia descer
-pela segunda vez a impor-se sobre a cabeça da bella castelhana.
-
-Sabe-se que a infanta resistira a principio, e que por fim annuira pondo
-por condição que fossem expulsos de Portugal os judeus e os moiros,
-desatino economico que D. Manuel não duvidou praticar.
-
-Os reis de Castella tinham cinco filhos, a saber: D. João, casado com
-Margarida d’Austria, e as infantas D. Isabel, D. Joanna, D. Maria e D.
-Catharina.
-
-Ao tempo do casamento de D. Manuel com a princeza castelhana, o principe
-D. João estava gravemente doente, achava-se n’um estado desesperado;
-porisso, visto que D. Manuel tanto queria apressar essa união, a sua
-noiva foi acompanhada até á fronteira pela rainha Isabel, ficando D.
-Fernando a acompanhar o principe enfermo, quasi moribundo.
-
-Justamente na occasião em que os actos religiosos se realizavam em
-Valencia d’Alcantara, chegou noticia do fallecimento do infante D. João,
-o que fez aguar as poucas festas que estavam preparadas: poucas por
-attenção ao desgosto que por motivo da doença do infante havia na côrte
-de Castella.
-
-Ora, morrendo o herdeiro da coroa de Fernando e Isabel, os direitos de
-successão passavam ao segundo filho, a infanta D. Isabel. Esta idéa não
-podia deixar de preoccupar um espirito tão ambicioso como o do successor
-de João II. Mas, por occasião da morte de seu marido, D. Margarida
-ficara gravida de sete mezes. Eis aqui uma contrariedade para quem
-não fosse tão feliz como D. Manuel. Para este homem venturoso, porem,
-todas as difficuldades desappareciam: D. Margarida dera á luz uma
-creança morta. Portanto, aqui temos D. Manuel e sua esposa com direito
-a intitularem-se, como de facto fizeram, principes de Castella, Leão e
-Aragão.
-
-A fim de serem jurados como taes, era preciso irem a Castella. As côrtes
-nacionaes, com a concentração do poder real, realizada por D. João II,
-tinham perdido muito da sua importancia, mas era este um dos casos em
-que havia mister reunil-as. D. Manuel convocou-as portanto para Lisboa,
-n’esse anno de 1498, e as côrtes auctorizaram effectivamente a ida dos
-soberanos a Castella.
-
-Com effeito, a 29 de março d’esse anno, D. Manuel e sua esposa partiam
-com grande e luzido sequito de pessoas nobres, ficando encarregada da
-regencia do reino a rainha viuva D. Leonor.
-
-Logo que chegaram á fronteira de Castella, os reis de Portugal foram
-recebidos pelo duque de Medina Sidonia, com apparatoso cortejo de
-fidalgos, e assim acompanhados até Toledo, onde os reis catholicos
-esperavam, e onde D. Manuel e D. Isabel foram, na Sé d’aquella cidade,
-jurados por principes herdeiros dos reinos de Castella e Leão.
-
-Passados alguns dias, tanto Fernando e Isabel, como D. Manuel e sua
-esposa, partiram para o Aragão, a fim d’estes ultimos serem jurados em
-Saragoça, mas sobrevieram inconvenientes com que não contavam, e que
-impediram a immediata realização da ceremonia que alli os levava.
-
-«Feita a entrada, escreve Goes, quizera el-rei D. Fernando, que logo ao
-outro dia, que era domingo, jurassem os principes, mas os aragonezes
-lh’o não consentiram por então, sobre o que houve muitas altercações,
-excusando-se a el-rei, que não podiam fazer tal juramento sem serem
-presentes os deputados de Valença e Barcellona, sobre o que el-rei
-D. Fernando tornou a apertar com elles; por fim lhe responderam,
-que jurariam os principes se lhes elle de novo confirmasse alguns
-privilegios, que lhe tinha quebrado, do que os el-rei desenganou, sem
-lhes querer conceder o que pediam, nem elles menos jurar os principes,
-no que se passaram muitos desgostos e paixões, _por espaço de tres
-mezes_. D’estas differenças uma das principaes foi dizerem que no reino
-não podia succeder femea, senão varão, e que este havia de ser por
-eleição dos Estados do reino, quando Deus ordenasse não deixar el-rei
-filho varão herdeiro, e que para jurarem a princeza elles o não podiam
-fazer sem os de Valença e Barcellona, que por só este respeito dilatavam
-sua vinda, o que era signal manifesto de não quererem consentir no tal
-juramento...»
-
-Este facto é interessante e importante considerado como symptoma de
-reacção do espirito nacional contra a vontade imperiosa da coroa, que,
-n’aquelle tempo, em toda a Peninsula hespanica se havia aureolado de
-extranho prestigio, graças a D. João II em Portugal, e a Fernando e
-Isabel em Castella.
-
-Succedeu então que a rainha D. Isabel, mulher de D. Manuel, deu á luz em
-Saragoça um filho varão, que recebeu o nome de Miguel, e que desde logo
-foi considerado o herdeiro presumptivo dos reinos de Portugal, Castella,
-Leão, Sicilia e Aragão, facto este que veiu pôr termo ás reluctancias
-até ahi apresentadas pelos de Aragão. Mas o nascimento d’este principe
-custou a vida a sua mãe, que foi sepultada no mosteiro de S. Jeronymo,
-em Saragoça. D. Manuel ainda se demorou alguns dias no Aragão, até que,
-viuvo, regressou a Portugal no mez de setembro d’esse anno (1498).
-
-O infante D. Miguel foi acclamado e jurado em Castella e no Aragão, e,
-para que tambem o fosse em Portugal, convocou D. Manuel os tres Estados
-para o mez de março de 1499. Reunidas as côrtes, não quizeram ellas jurar
-sem que o rei lhes promettesse, em nome do principe seu filho, que nunca
-o regimento da justiça e fazenda do reino, e senhorios de Portugal, em
-qualquer tempo, e por qualquer caso, seria dado nem concedido senão a
-portuguezes, e o mesmo a respeito das capitanias dos logares de Africa, e
-alcaiderias-móres das villas e castellos, o que el-rei concedeu.
-
-Quantas vezes, pois, estivera o reino de Portugal para fundir-se com o
-de Castella em consequencia de allianças politicas e pessoaes, as mais
-das vezes tendo por origem um casamento! Chega a ser assombroso que
-todas essas combinações se mallograssem alfim, e que Portugal mantivesse
-a sua independencia, apenas estrangulada n’um periodo de sessenta
-annos, relativamente pequeno se attendermos á longa historia d’essas
-combinações, e ainda mesmo á fundação da nossa nacionalidade.
-
-Garcia de Rezende diz:
-
- Vimos Portugal, Castella
- quatro vezes adjuntados
- por casamentos liados
- principe natural d’ella
- que herdava todos reynados,
- todos vimos fallecer,
- em breve tempo morrer
- e nenhum durou tres annos,
- portuguezes, castelhanos
- já os Deus quer juntos ver.
-
-Refere-se Rezende a Affonso V, a seu neto D. Affonso, a D. Manuel e ao
-principe D. Miguel, que falleceu em Granada com vinte e dois mezes de
-edade, mallogrando-se assim, ainda d’esta vez, o projecto de unificação
-das coroas de Portugal e Castella.
-
-Ao passo que Fernando e Isabel procuravam separar da causa da
-_Beltraneja_ a familia real portugueza, a Providencia parecia querer
-desconcertar as combinações e os calculos da politica: o nascimento do
-infante D. Miguel custava a vida de sua mãe, e o proprio infante morria
-tambem d’ahi a pouco tempo.
-
-Sempre debaixo do mesmo ponto de vista, pactuou-se o casamento de D.
-Maria, terceira filha dos reis catholicos, com o viuvo D. Manoel.
-
-D’esta vez a Providencia permittiu que D. Maria vivesse, e désse á luz um
-verdadeiro enxame de filhos. É que a Providencia parecia reservar para D.
-Joanna, a pobre _Beltraneja_, uma compensação muito maior, uma desforra
-completa e cabal.
-
-Oiçamos um escriptor hespanhol, Clemencin, no mais completo estudo que
-se tem escripto em Hespanha ácerca dos reis catholicos. O testemunho é,
-portanto, de todo o ponto insuspeito; porisso o reproduzimos na integra:
-
-«Foi opinião de alguns, segundo Zurita, que antes da rainha D. Isabel
-fallecer, seu marido lhe prometteu, sob juramento, não casar outra vez.
-Sem embargo, a pouco trecho da sua morte, entabolou o rei viuvo esta
-negociação (_tratar do seu casamento com a Excellente Senhora_), enviando
-para ella a Portugal D. Rodrigo Manrique. O objecto de tão extranha
-solicitude, que desde logo afearam os parciaes do rei D. Philippe, o
-_Formoso_, e que, como adverte o mesmo Zurita que não póde suspeitar-se
-de desaffecto ao rei catholico, se divulgou mais do que este quizera, era
-patente e manifesto: tomar a parte dos direitos de D. Joanna, fazel-os
-valer contra os filhos que tinha tido de sua primeira mulher, despojal-os
-da herança de Castella, e vingar-se assim de Philippe e dos grandes
-castelhanos, que no maior numero preferiam o partido do genro ao do sogro.
-
-«São incalculaveis os disturbios, guerras civis e damnos que teriam
-resultado d’este projectado casamento, se se houvesse realizado; mas
-por fortuna de Hespanha, _D. Joanna não deu ouvidos á proposta do rei
-D. Fernando, fosse aversão ao estado de matrimonio ou á pessoa do
-pretendente, a quem não podia deixar de olhar como um dos principaes
-auctores de suas desgraças_. Interveiu provavelmente na resolução de
-D. Joanna o influxo da rainha de Portugal, D. Maria, a quem não podia
-agradar este casamento, não só em respeito á memoria de sua defuncta mãe,
-D. Isabel, nem em attenção a sua irmã que tinha succedido nos reinos de
-Castella, mas tambem em consideração aos seus proprios direitos e aos de
-seus filhos.
-
-«Mui curto espaço de tempo deveu medear entre o projecto de casamento
-do rei catholico, e a morte de D. Isabel, occorrida a 26 de novembro de
-1504. Para janeiro seguinte convocou côrtes o rei D. Fernando, na cidade
-de Touro, cuja proximidade de Portugal, e a maior facilidade de negociar
-e ajustar d’ahi o novo enlace, foram, segundo as apparencias, a causa da
-escolha do sitio. O certo é que, tendo-se encerrado as côrtes em meado de
-fevereiro, o rei, por seguir mais de perto as negociações com Portugal,
-como diz Zurita, continuou em Touro até ao fim de abril, em que se
-retirou para o interior de Castella; e isto denuncía que já então estava
-desvanecido e mallogrado o negocio.»
-
-Em verdade, a escarnecida _Beltraneja_, a chasqueada _Monja_, não poderia
-imaginar mais completa desforra, do que a de ver humilhado a seus pés
-o rei catholico, o viuvo de Isabel, pedindo-lhe que consentisse em
-desposal-a!
-
-A grandeza da reparação só é comparavel á grandeza do desdem com que essa
-solicitação foi recebida, tanto mais que o espirito de D. Joanna não
-conseguiu nunca transigir com a alienação dos seus direitos, reaes ou
-suppostos, com a abdicação de todas as mundanidades ostentosas, de todas
-as honras e titulos com que julgava poder condecorar-se.
-
-Ella considerava-se _rainha_, ainda quando rejeitava a mão de um rei;
-ella continuava a assignar-se rainha, ainda quando se recusava a
-subscrever um contracto de casamento com o viuvo de Isabel a Catholica.
-
-A sua nobre altivez levou-a por certo a recusar essa união, a preferir
-conservar-se solteira, _rainha sem reino_, e moça de trinta e tres annos
-apenas.
-
-Vira desdenhosa afastar-se o vulto de mais esse noivo, como já tinha
-visto esfumarem-se no horizonte longinquo das suas recordações os vultos
-de tantos outros noivos, o infante D. Affonso, de Castella, o duque de
-Guiena, D. Fradique, de Napoles, D. Henrique, de Aragão, D. Affonso V, de
-Portugal, o principe D. João, de Castella, o rei de Navarra, Francisco
-Phebo!..
-
-Uma cohorte de noivos... platonicos, que nem sequer com o halito chegaram
-a macular a sua grinalda virginal de flores de laranjeira...
-
-E a morte, respeitando-a a ella, a todos foi ceifando.
-
-
-
-
-X
-
-SEM PAZ NO TUMULO!
-
-
-El-rei D. Manuel recommenda no seu testamento a _Excellente Senhora_,
-como já o fizera o seu antecessor: «Item, pelo conjuncto devido que tenho
-com a mui Excellente Senhora minha prima, e por suas muitas virtudes, e
-pela obrigação em que por estes respeitos lhe são, e pelo carrego que
-d’ella e de todas suas coisas com razão o rei de Portugal deve em todo
-tempo ter, encommendo muito ao principe meu filho, que sempre d’ella
-e de sua consolação tenha mui grande e especial carrego, visitando-a
-e honrando, e tratando como ella o merece, por todas as razões
-sobredictas, e em todas suas coisas seja alli tratada como eu sempre
-folguei de o fazer, e é razão que assim se lhe faça, e aos deputados
-ao governo encommendo e mando que emquanto no governo estiverem lhe
-façam mui inteiramente pagar os dinheiros que tem de seu assentamento,
-e n’aquella propria fórma e maneira que agora se lhe faz, e se melhor
-lhe puder fazer, assim será mui bem que lhe seja feito, e muito lhe
-encommendo que de isso, e de todo o que lhe cumprir tenham grande e
-especial cuidado, e entre os mais principaes, isto lhe encommendo muito
-em especial.»
-
-Um anno depois da morte de D. Manuel, isto é, em 1522, a _Excellente
-Senhora_, intitulando-se rainha de Castella, fez doação solenne de todos
-os seus direitos a el-rei D. João III, considerando-o como seu filho
-legitimo, e universal herdeiro, visto ser «já em tanta edade constituida
-que não era tempo para haver de casar, nem poder haver filho natural
-legitimo descendente, que os dictos seus reinos e senhorios por seu
-fallecimento haja de herdar».
-
-D. João III, que presente estava, acceitou, e recebeu, e prometteu ter
-e manter os dictos reinos e senhorios de que a _Excellente Senhora_ lhe
-fazia doação.
-
-Foram testemunhas d’este acto o barão de Alvito, veador da fazenda real,
-Luiz da Silveira, do conselho de el-rei e seu guarda-mór, e Ruy Figueira,
-veador da fazenda da mesma senhora.
-
-Subscreveu o auto o secretario Antonio Carneiro.
-
-D. João III approvou-o e confirmou-o.[73]
-
-A infeliz princeza ainda viveu oito annos. Falleceu em Lisboa, no paço da
-Alcaçova ou do Castello, no anno de 1530, com sessenta e oito de edade.
-
-Do seu testamento, que existe na Torre do Tombo, gaveta 16, maço I, n.º
-2, dá copia Antonio de Sousa nas _Provas da historia genealogica_.[74]
-
-D. Joanna ordena que o seu corpo seja amortalhado no habito de S.
-Francisco e enterrado no mosteiro do Varatojo; deixa cem mil réis para
-missas, outros cem para resgate de vinte e dois escravos moiros e,
-finalmente, outros cem para os pobres e orfans envergonhados. Á capella
-de Santa Clara, de Evora, deixa oito mil réis para uma missa diaria.
-
-A isto se limitam as suas disposições espirituaes.
-
-O resto são declarações de divida a differentes damas de sua casa, de
-quantias que lhes promettera quando casaram; declarações de divida por
-emprestimos contrahidos ou por serviços recebidos, e recommendações
-ao rei de legados a varias pessoas suas protegidas, entre as quaes as
-freiras que tivera por criadas.
-
-D. Joanna assigna: _Yo la reyna_.[75]
-
-A desventurosa princeza morrera, pois, abraçada ao seu titulo de rainha,
-que, a bem dizer, nunca passara de uma ficção, titulo sem realidade
-duradoira que lhe correspondesse e o justificasse.
-
-N’uma mensagem ao rei, appensa ao testamento, D. Joanna recorda que
-fôra requerida para casar, e parece enviar-lhe documentos relativos a
-essas negociações nupciaes. Dizem talvez respeito ao casamento que lhe
-propuzera o viuvo de Isabel a Catholica. Mas, se nos não enganamos, ainda
-mais uma vez se revela a fidalga altivez de D. Joanna, occultando o nome
-de Fernando.
-
-Por essa mesma mensagem se vê que o rei lhe havia promettido mandar
-construir casa propria, que lhe era muito necessaria, _e logo,_ expressão
-sua.
-
-D. Joanna fez, porem, um segundo testamento, do qual encontramos noticia,
-em termos que não admittem duvida, na _Historia seraphica_. É para
-extranhar que nenhum dos seus biographos mencionasse a noticia a que nos
-referimos, e pela qual se vê que a mallograda noiva de Affonso V mudara
-de tenção quanto ao logar que escolheu para sepultura.
-
-«Diziam uns, escreve frei Manuel da Esperança, que estava no sobredicto
-mosteiro de Santarem (Santa Clara); outros, no de Varatojo, como havia
-disposto no primeiro testamento, que depois revogou. Porem a todos
-desenganamos com a luz de uma carta de el-rei D. Sebastião, a qual
-passou em seu nome a rainha D. Catharina, que governava por elle na sua
-menor edade, em 18 de fevereiro de 1558. Diz n’ella, que sua tia a
-_Excellente Senhora ordenou por seu testamento, que se dissessem para
-sempre no mosteiro de Santa Clara, de Lisboa, onde se mandou lançar, e
-tem sua sepultura, seis missas cantadas em cada anno_. E ordena, que a
-esmola das missas e azeite para as duas alampadas, se pague sempre pela
-fazenda real. Foi escondido seu corpo dentro do seio da terra em a casa
-do capitulo, e ainda que depois o trasladaram para sepultura alta, nem
-porisso (_tão esquecida a querem_) lhe puzeram ou brazão ou epitaphio,
-que a dê a conhecer. Só na pedra apparece este numero: 1545; mas não
-declara se é o tempo da morte, se o da trasladação. Defronte lhe fica uma
-vidraça, na qual se vêem de pintura as nossas quinas reaes, feita no anno
-1541, como ella mesma diz.»[76]
-
-_Tão esquecida a querem!_ pondera frei Manuel da Esperança.
-
-Na sepultura d’essa mulher, que esteve para cingir duas coroas, podendo
-dizer-se que por alguns dias as cingiu, nem um brazão, nem um epitaphio;
-apenas uma data, que suppomos ser a da trasladação!..
-
-Ao menos que, depois de tantos baldões, lhe não podiam tolher a paz do
-tumulo, porto seguro onde os naufragos do mundo logram emfim descançar,
-por mais que os vivos os esqueçam.
-
-Defronte do sepulcro, uma janella por onde o sol entrava... Bem precisado
-estava da amoravel visita da luz do céo o cadaver d’essa princeza, que
-só conheceu na terra a luz sinistra das procellas guerreiras e das
-tempestades diplomaticas!
-
-Mas o seu destino obedecia a um mysterioso e sinistro mobil, que nem na
-morte lhe permittia gosar absoluto descanço.
-
-Vê-se pela carta regia de D. Catharina—que todavia não pudemos encontrar
-na Torre do Tombo, nem nas gavetas, nem na collecção especial, nem no
-corpo chronologico—que a _Excellente Senhora_ se mandara sepultar na
-egreja de Santa Clara, de Lisboa.
-
-Ora esta egreja foi derrubada pelo grande terremoto de 1755. Luiz
-Cardoso, no _Diccionario geographico de Portugal_, manuscripto existente
-na Torre do Tombo, diz, no tomo XX, livro 2.º, que o convento de Santa
-Clara ficou excessivamente damnificado com o terremoto, e que a egreja
-padeceu total ruina, ficando só em pé a parede da parte do norte.
-
-Assim se perderam e confundiram nas ruinas de Lisboa os restos mortaes da
-malfadada princeza.
-
-Depois do terremoto, as freiras, sobreviventes, de Santa Clara, passaram
-para o convento da Esperança, levando comsigo o que do seu cartorio poude
-ser salvo. Esses papeis acham-se hoje na Torre do Tombo, mas nada dizem
-com relação á _Excellente Senhora_, que nem depois de morta tivera o
-repoiso eterno concedido aos cadaveres!
-
- * * * * *
-
-Ahi fica condensada, segundo os materiaes fornecidos pelos escriptores
-castelhanos e portuguezes, a biographia de uma princeza notavel do seculo
-XV, princeza que foi causa e pretexto de muitos acontecimentos politicos
-d’essa epocha, e que, rainha sem reino, atravessou uma longa existencia
-profundamente accidentada de desgostos e contrariedades.
-
-Se as lagrimas, especialmente aquellas que se reprimem com nobre
-heroicidade pódem ser uma santificação, D. Joanna merece uma pagina no
-martyrologio das grandes dôres, no _Flos sanctorum_ dos martyres, nobres
-ou plebeus, de que a historia conserva o nome.
-
-Cremos ser a primeira vez que se coordena uma monographia, de maiores
-dimensões, tanto quanto possivel completa, ácerca da _Excellente Senhora_
-e do seu tempo. Lopes de Mendonça ao fechar, nos _Annaes das sciencias e
-lettras_[77], um interessante estudo sobre a batalha de Touro, promettia
-publicar, _brevemente_, outro estudo sobre a vida da princeza D. Joanna.
-A promessa não poude ser cumprida. Procurámos prehencher a lacuna,
-não certamente como o teria feito Lopes de Mendonça, mas como pudemos
-fazel-o. E se o publico receber benevolamente este trabalho, novos
-estudos historicos se lhe seguirão.
-
-Resta-nos apenas dizer que se conhece um retrato, qualquer que possa ser
-a sua authenticidade, da _Excellente Senhora_, copia do que se acha
-na arvore genealogica de D. João I, manuscripto n.º 12:531 do _British
-Museum_, de Londres. É o que vem nas _Rainhas de Portugal_, de Benevides,
-tomo I, pag. 286.
-
-
-FIM
-
-
-
-
-ERRATA IMPORTANTE
-
-
-A pag. 124, linha 15, sahiu por lapso, _Tejo_ em vez de _rio_, e este
-rio, como é facil de ver pelo texto, não podia ser o Tejo, mas sim o
-Douro, em cuja margem direita assenta a cidade de Miranda (de que alli se
-fala), fronteira a Hespanha.
-
-
-
-
-NOTAS
-
-
-[1] D. Affonso V ordenou em 1456 que os restos mortaes de sua mãe viessem
-para a egreja do mosteiro da Batalha. Trouxeram-n’os Henrique IV e D.
-Joanna, quando vieram a Portugal para se avistarem com Affonso V, em
-Elvas.
-
-[2] _Provas da Historia genealogica_, tomo II, pag. 18.
-
-[3] Damião de Goes, _Chronica do principe D. João_, cap. XXXV.
-
-[4] A mão de D. Isabel, de Castella, era tambem solicitada pelo principe
-D. Carlos, de Vianna.
-
-[5] O reino de Navarra passou da casa de Foix á casa de Albret, pelo
-casamento de Catharina de Foix, herdeira de Navarra, com João d’Albret
-(1484). Fernando, o _Catholico_, rei de Castella e Aragão, arrebatou a
-João d’Albret toda a Alta Navarra (1512), deixando-lhe apenas a parte da
-Navarra situada ao norte dos Pyrenéos, isto é, a Baixa Navarra.
-
-[6] Pina, _Chronica_, cap. CLIV. Visconde de Santarem, _Quadro
-elementar_, tom. I, pag. 363.
-
-[7] Pina, _Chronica_, cap. CLVII.
-
-[8] Dava-se o nome de _hermandades_ a uma especie de associações
-populares, que formavam entre si estas ou aquellas povoações de uma
-provincia ou reino, para se policiarem a si proprias, e defender-se
-das extorsões dos reis e dos nobres. No reinado de Fernando e Isabel,
-as _hermandades_ foram organizadas e regulamentadas officialmente, em
-beneficio commum do throno e dos povos.
-
-[9] «Suponen algunos que la reina en este tiempo habia tenido con un
-sobrino del arzebispo, llamado don Pedro, flaquezas de la misma especie
-que las que antes le habiam atribuido con don Beltran de la Cueva.»
-Lafuente.
-
-[10] Visconde de Santarem, _Quadro elementar_, tomo I, pag. 366.
-
-[11] _Chronica do principe D. João_, cap. XXXVIII.
-
-[12] Veja-se o _Quadro elementar_, tomo I, pag. 366.
-
-[13] Diogo Clemencin publica-a na integra. _Memorias de la real académia
-de la historia_, tomo VI, pag. 583.
-
-[14] Por este motivo ficaram os _ss_ no escudo das suas armas.
-
-[15] O padre Flores antecipa o casamento um dia: 18 de outubro, diz elle.
-
-[16] O visconde de Santarem diz: 1471 a 1473. (Tom. I do _Quadro
-elementar_, pag. 367).
-
-[17] _Chronica do senhor rey D. Affonso V_, capitulo CLXXI.
-
-[18] _Quadro elementar_, tomo I, pag. 368.
-
-[19] A _Beltraneja_, no _Manifesto_ dos seus direitos, a que mais de
-espaço nos referiremos, diz que ao rei Henrique foram ministradas ervas
-e peçonhas por trama dos isabelistas, como era notorio, havendo até quem
-prophetizasse qual o prazo em que o rei havia de morrer.
-
-[20] Lafuente, _Historia de España_, tom. 8.º, pag. 494.
-
-[21] Padre Flores, _Memorias de las reynas catolicas_, tom. II, pag. 772.
-
-[22] Cap. CLXXIII.
-
-[23] _Elógio de la reina catolica Dona Isabel_, no tomo VI das _Memorias
-de la Real Académia de la Historia_. Pag. 501.
-
-[24] _Quadro elementar_, tomo I, pag. 369.
-
-[25] Benevides, _Rainhas de Portugal_, tomo I.
-
-[26] _Provas da hist. genealog._, tom, II, pag. 93.
-
-[27] Visconde de Santarem, _Quadro elementar_, tomo III, pag. 107.
-
-[28] _Anales de la corona de Aragon_, livro XIX, cap. XXVI.
-
-[29] _Historia de España_, tomo IX, parte II, livr. IV, pag. 127.
-
-[30] Lafuente diz que os esponsaes se celebraram a 12 de maio, mas o
-visconde de Santarem colloca-os entre os dias 25 e 30.
-
-[31] _Provas da historia genealogica_, tomo II, pag. 60.
-
-[32] _Quadro elementar_, tomo I, pag. 373.
-
-[33] Em recompensa d’este serviço, D. Isabel presenteou Cabrera com
-uma taça de oiro para a sua mesa, promettendo-lhe que no anniversario
-d’aquelle feliz acontecimento, elle e os seus successores teriam egual
-presente. (_Annaes das sciencias e lettras_, tom. I, pag. 705).
-
-[34] Lafuente.
-
-[35] Pina.
-
-[36] Pina, cap. CLXXXII da _Chronica_.
-
-[37] Damião de Goes, _Chronica do principe D. João_, cap. LXXIV.
-
-[38] Rebello da Silva, _Annaes das sciencias e lettras_, vol. I, pag.
-683; _Provas da historia genealogica_, tomo II, pag. 18 a 19.
-
-[39] _Chronica do principe D. João_, cap. LVIII.
-
-[40] _Quadro elementar_, tomo III, pag. 125.
-
-[41] _Quadro elementar_, tom. III, pag. 127.
-
-[42] «... de noite lhes veio recado de dentro da cidade em como o dicto
-Rey Dom Fernando partira aquella noite com sua gente, e hia a hum trato
-que tinha em a cidade de Touro; a qual coisa como fosse dicta por pessoa
-digna de ser crida, os dictos senhores Rey e Principe acordaram de
-atalhar, e levantarem do arrayal, e hirem á dicta cidade de Touro por
-entenderem que assim cumpria, e o puzeram logo em obra.»
-
-_Relação que El-Rey D. João segundo mandou ao Conselho de Evora da
-batalha de Toro, etc. Annaes das sciencias e lettras_, tom. I, pag. 724.
-
-[43] A invocação de S. Christovão fôra devida á devoção especial de Jorge
-Correia, commendador de Pinheiro, que assim o lembrara ao principe D.
-João.
-
-[44] _Annaes das sciencias e lettras_, tomo I, paginas 714-723.
-
-[45] _Historia de España_, tom. IX, pag. 138.
-
-[46] _Diccionario popular_, artigo _Duarte d’Almeida_, escripto pelo
-auctor d’esta _Memoria_.
-
-[47] _Republicas_, n.º 8.
-
-[48] _Annaes das sciencias e lettras_, tomo I, pag. 728, onde tambem se
-póde ver o _Regimento_ que a procissão devia observar.
-
-[49] Damião de Goes, _Chronica do principe D. João_, cap. LXXX.
-
-[50] _Recueil des monuments inédits de l’histoire du thiers
-état._—Avant-propos, pag. LXXIV.
-
-[51] _Historia de Portugal_, vol. III.
-
-[52] Zurita, _Anales_, tom. IV, pag. 298.
-
-[53] Ruy de Pina, _Chronica_, cap. CCVII; visconde de Santarem, _Quadro
-elementar_, tom. I, pag. 379.
-
-[54] Ruy de Pina, _Chronica_, cap. CCVII; visconde de Santarem, _Quadro
-elementar_, tomo I, pag. 379.
-
-[55] _Historia serafica_, tomo I, pag. 526.
-
-Perguntei para Santarem por esta tradição. Um amigo meu, já hoje
-fallecido, respondia-me em 24 de abril de 1885: «Esta manhã fui
-pessoalmente ao convento das Claras em companhia do facultativo da casa,
-que entrou a fazer as necessarias indagações, e só obteve em resposta que
-effectivamente existe no edificio uma casa ou capella com um côro pequeno
-a que ainda hoje chamam _o corinho_, mas as freiras ignoram qualquer
-tradição a respeito d’essa casa.» O signatario da informação chamava-se
-José Candido Duarte da Silva.
-
-[56] _Chronica d’el-rei D. Affonso V_, pag. 245.
-
-[57] Pina, diz que o principe assistira sem o rei; Sousa, na _Hist.
-geneag._, escreve que nem o rei nem o principe quizeram assistir. Duarte
-Nunes de Leão dá o principe como presente. Seguimos a opinião de Pina e
-Duarte Nunes, mesmo por ser a que melhor se coaduna com o caracter do
-principe D. João.
-
-[58] Amaral, _Memoria V para a historia da legislação e costumes de
-Portugal_; Rebello da Silva, _Annaes das sciencias e lettras_.
-
-[59] Sobre o estado das classes servas na peninsula, leiam-se os
-importantissimos estudos de Herculano, no tomo I dos _Annaes das
-sciencias e lettras_, e no terceiro volume da sua _Historia de Portugal_.
-
-[60] Rebello da Silva, _Annaes das sciencias e lettras_.
-
-[61] Michelet, _Précis de l’histoire moderne_, pag. 23.
-
-[62] _Vida e feitos de D. João II._
-
-[63] Vejam-se os documentos publicados no tomo II das _Provas da historia
-genealogica_, pag. 8 e 51.
-
-[64] Innocencio diz que este opusculo é raro. Pudemos vel-o na
-bibliotheca nacional de Lisboa, onde existe. Na da academia real das
-sciencias não ha, porque fôra arrancado da miscellanea onde estava.
-
-[65] _Clemencin._
-
-[66] _Provas da historia genealogica_, tom. III, pag. 636.
-
-[67] _Annaes das sciencias e lettras_, tom. I, pag. 412 e 551.
-
-[68] Dava-se o nome de _personatus_ nos mosteiros ás dignidades, como por
-exemplo as de deão, thesoireiro, chantre, etc., ás quaes n’outras partes
-chamam _officia claustralia_. Ducange: _Glossarium_, vol. V, pag. 214.
-
-[69] Baronius, _Annales ecclesiastici_, tomo XIX.
-
-[70] Tom. II, pag. 79.
-
-[71] _Provas da historia genealogica_, tom, II, pag. 94.
-
-[72] Camillo Castello Branco, _Narcoticos_, vol. I.
-
-[73] _Provas da historia genealogica_, tomo II, pag. 71.
-
-[74] Tomo II, pag. 76.
-
-[75] Benevides, nas _Rainhas de Portugal_, tomo I, pag. 290, publíca o
-_fac-simile_ da assignatura de D. Joanna.
-
-[76] _Historia seraphica_, tomo II, pag. 133.
-
-[77] Vol. I, pag. 701-737.
-
-
-
-
-BARROS & FILHA, EDITORES
-
-RUA DO ALMADA, 104 A 114, PORTO
-
-
-LITTERATURA E POLYGRAPHIA
-
-ALBERTO PIMENTEL
-
- _Rainha sem reino (estudo historico do seculo XV)_; trabalho
- eximio cujo entrecho romantico, rigorosamente historico,
- desperta profundo interesse pelas revelações importantes e
- novas do reinado de D. Affonso V, em conflicto com a côrte de
- Castella: 1 vol., 600 rs.
-
-BARROS LOBO
-
-(BELDEMONIO)
-
- _Viagens no Chiado_; descripção pittoresca e faiscante da alta
- vida lisboeta nas suas relações externas; scenas de costumes,
- retratos litterarios de personagens em evidencia, etc.: 1 vol.,
- no prelo.
-
-BRITO DE BARROS
-
- _Diccionario de phrases latinas de uso mais vulgar_; livro util
- e muito curioso, indispensavel a todas as pessoas que lêem;
- revisto por um distincto professor de latim em Coimbra: 1 vol.,
- 500 rs.
-
- _Farpões_ (2.ª edição); obra de muita originalidade litteraria,
- tanto pela fórma como pelo vigor da phrase: 2 tomos, 500 rs.
-
- _Mulheres_; romance da vida contemporanea. A entrar no prelo.
-
- _Pandemonio_; obra amena, critica e philosophica, de um grande
- interesse moral e social: 1 vol., 500 rs.
-
-EMILIO CASTELLAR
-
- _Alliança helleno-latina (em vulgar)_; notabilissimo discurso
- que o eminente orador hespanhol pronunciou em Pariz no dia
- 4 de novembro de 1886, cujo assumpto, elevado e sympathico,
- interessa profundamente á familia portugueza: 1 vol., 200
- rs.—_Tiragem especial de 25 exemplares numerados, para os
- camoneanos, 1$000 rs._
-
-MARIA AMALIA
-
-(D. MARIA AMALIA VAZ DE CARVALHO)
-
- _Cartas a Luiza (moral, educação e costumes)_; formoso livro
- consagrado ás senhoras e familias, escripto n’um estylo
- elegante com a lucidez e genial criterio que caracterizam o
- espirito gentil da sua talentosa auctora: 1 vol., 600 rs.
-
- _Uma vida perfeita_; episodio moral e commovente, que põe em
- evidencia synthetica, n’uma mulher de espirito forte, a exacta
- comprehensão do dever e dos santos principios da tolerancia
- religiosa em lucta aberta com os exaggeros crueis do fanatismo
- indomito. A entrar no prelo.
-
-EDUCAÇÃO E ENSINO
-
-ANTONIO MANUEL GOMES
-
- _Modelos de redacção, auxiliares do curso de portuguez e dos
- alumnos de instrucção primaria_, contendo: cartas sobre varios
- assumptos, narrações, descripções, etc., segundo os themas do
- _Manual de estylo_ do sr. dr. Delphim Maria d’Oliveira Maya; 1
- vol., cartonado, 500 rs.
-
- Alem de ser proprio para leitura e analyse nas aulas, este
- livro do distincto professor de portuguez e francez é um
- excellente trabalho litterario para as familias, porque, a
- par da pureza de linguagem que o caracteriza, ha n’elle muito
- ensinamento pratico e moral aproveitavel tanto para pessoas
- adultas como para meninos e meninas cuja educação seja cuidada.
-
- _Resumo da historia portugueza para uso das escholas
- d’instrucção primaria_; obra approvada pelo governo (2.ª
- edição): 1 vol., cartonado, 300 rs.
-
- _Rudimentos de arithmetica e systema metrico_: 1 vol.,
- cartonado, 200 rs.
-
-JACOB BENSABAT
-
- _Nova arithmetica e systema metrico das escholas primarias_,
- elaborados pelo systema analytico e inductivo, e illustrados
- com 21 gravuras: 1 vol., cartonado, 400 rs.
-
- Esta nova obra do abalisado professor de francez e inglez,
- já vantajosamente conhecido por outra ordem de trabalhos
- didacticos e linguisticos, constitue indubitavelmente um
- progresso apreciavel n’esta importante materia da instrucção
- elementar.
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Rainha sem reino, by Alberto Pimentel
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RAINHA SEM REINO ***
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- The Project Gutenberg eBook of Rainha sem Reino, by Alberto Pimentel.
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-<pre>
-
-The Project Gutenberg EBook of Rainha sem reino, by Alberto Pimentel
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
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-
-Title: Rainha sem reino
- (Estudo historico do seculo XV)
-
-Author: Alberto Pimentel
-
-Release Date: October 10, 2020 [EBook #63434]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RAINHA SEM REINO ***
-
-
-
-
-Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
-produced from scanned images of public domain material
-from the Google Books project.)
-
-
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-
-
-
-</pre>
-
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_1"></a>[1]</span></p>
-
-<h1>RAINHA SEM REINO</h1>
-
-<hr />
-
-<div class="ad">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_2"></a>[2]</span></p>
-
-<p class="center larger">BARROS &amp; FILHA, EDITORES</p>
-
-<p class="center smaller">RUA DO ALMADA, 104 A 114, PORTO</p>
-
-<p class="center"><i>Litteratura e polygraphia</i></p>
-
-<p class="hanging"><i>Alliança helleno-latina</i>, discurso, por Emilio Castellar:
-1 vol., 200 rs.</p>
-
-<p class="hanging"><i>Cartas a Luiza (moral, educação e costumes)</i>, por
-D. Maria Amalia Vaz de Carvalho: 1 vol., 600 rs.</p>
-
-<p class="hanging"><i>Diccionario de phrases latinas de uso mais vulgar</i>,
-por Brito de Barros: 1 vol., 500 rs.</p>
-
-<p class="hanging"><i>Farpões</i>, por Brito de Barros (2.ª edição): 2 tomos,
-500 rs.</p>
-
-<p class="hanging"><i>Mulheres</i>, romance, por Brito de Barros: 1 vol., a
-entrar no prelo.</p>
-
-<p class="hanging"><i>Pandemonio</i>, por Brito de Barros: 1 vol., 500 rs.</p>
-
-<p class="hanging"><i>Rainha sem reino (estudo historico do seculo XV)</i>, por
-Alberto Pimentel: 1 vol., 600 rs.</p>
-
-<p class="hanging"><i>Uma vida perfeita</i>, por D. Maria Amalia Vaz de
-Carvalho: 1 vol., a entrar no prelo.</p>
-
-<p class="hanging"><i>Viagens no Chiado</i>, por Barros Lobo (<i>Beldemonio</i>):
-1 vol., a entrar no prelo.</p>
-
-<p class="center"><i>Educação e ensino</i></p>
-
-<p class="hanging"><i>Modelos de redacção, auxiliares do curso de portuguez
-e dos alumnos d’instrucção primaria</i>, por Antonio
-Manuel Gomes: 1 vol., cartonado, 500 rs.</p>
-
-<p class="hanging"><i>Nova arithmetica e systema metrico das escholas primarias</i>,
-por Jacob Bensabat: 1 vol., cartonado,
-400 rs.</p>
-
-<p class="hanging"><i>Resumo da historia portugueza para uso das escholas
-d’instrucção primaria</i>, por Antonio Manuel Gomes;
-obra approvada pelo governo (2.ª edição): 1
-vol., cartonado, 300 rs.</p>
-
-<p class="hanging"><i>Rudimentos de arithmetica e systema metrico</i>, por
-Antonio Manuel Gomes: 1 vol., cartonado, 200 rs.</p>
-
-</div>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_3"></a>[3]</span></p>
-
-<p class="titlepage larger"><span class="smaller">RAINHA</span><br />
-SEM REINO</p>
-
-<p class="titlepage smaller">(ESTUDO HISTORICO DO SECULO XV)</p>
-
-<p class="titlepage"><span class="smaller">POR</span><br />
-ALBERTO PIMENTEL</p>
-
-<p class="titlepage">PORTO<br />
-<span class="smaller">BARROS &amp; FILHA, EDITORES<br />
-RUA DO ALMADA, 104 A 114<br />
-1887</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_4"></a>[4]</span></p>
-
-<p class="titlepage smaller"><i>Imprensa Civilização—Rua de Santo Ildefonso, 73 a 77</i></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_5"></a>[5]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak">I<br />
-<span class="smaller">SEGREDOS DA ALCOVA...</span></h2>
-
-</div>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-a.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">A infanta de Portugal, D. Joanna,
-filha de el-rei D. Duarte e
-da rainha D. Leonor d’Aragão,
-nasceu posthuma, em março de
-1439. Duas grandes fatalidades pareceram
-cobrir com a sua aza negra o berço da infantasinha
-portugueza: o lucto pela morte
-de seu pae, esse illustrado e infeliz rei para
-quem a vida fôra pouco menos de um martyrio
-ininterrupto, e a peste que então grassava
-em Lisboa, obrigando a côrte da rainha
-viuva a retirar-se para Almada, onde a
-infanta nascera na quinta de Monte Olivete.</p>
-
-<p>Menos feliz do que sua irmã D. Philippa,<span class="pagenum"><a id="Page_6"></a>[6]</span>
-que n’esse mesmo anno morrera menina,
-tocada da peste, D. Joanna foi desabrochando
-as graças da sua infancia no meio
-de uma côrte melancholica, perturbada pelas
-luctas politicas da regencia, entregue
-ao cuidado da sua aia Maria Nogueira, e,
-mais tarde, confiada á companhia da sua
-camareira-mór D. Isabel de Menezes, mulher
-de Ruy de Mello, alcaide-mór de Elvas.</p>
-
-<p>Menina e moça, a infanta, extremamente
-bella, fazia lembrar uma flor que vegeta
-á beira de um tumulo, porque essa côrte
-viuva, onde a <i>triste reina</i> não tinha uma
-hora de serenidade de espirito, não era, de
-feito, mais do que o tumulo de todas as
-alegrias de familia, porque não as teve a
-de D. Duarte, nem a de seu filho Affonso <span class="allsmcap">V</span>.</p>
-
-<p>Chegando aos dezesete annos de edade,
-fôra D. Joanna pedida em casamento por
-seu primo Henrique <span class="smcap">iv</span>, de Castella, que tinha
-nascido a 5 de janeiro de 1425, e fôra
-jurado principe das Asturias nas côrtes geraes
-de Valhadolid com festas publicas.</p>
-
-<p>O bispo de Cuenca, que o baptizara, prégou
-sobre este thema: <i>Puer natus est nobis.</i>
-Um menino nos nasceu. Mas apesar<span class="pagenum"><a id="Page_7"></a>[7]</span>
-de nascer entre jubilos o menino, que no
-throno de Castella devia succeder a seu
-pae D. João <span class="allsmcap">II</span>, as côrtes preoccuparam-se
-logo de resolver uma questão importantissima.
-Fôra o caso, que D. João <span class="allsmcap">II</span> havia casado
-com a infanta D. Maria, sua prima
-carnal, filha de Fernando <span class="allsmcap">I</span>, de Aragão, irmã
-de D. Leonor, casada com D. Duarte, de
-Portugal, e que este casamento intromettera
-nos negocios politicos de Castella os infantes
-de Aragão, especialmente D. João e
-D. Henrique, que procuravam tomar ascendente
-no animo do rei, seu cunhado.</p>
-
-<p>D. Henrique, que era mestre de S. Tiago,
-e que aspirava a desposar, como desposou,
-D. Catharina, irmã do rei D. João,
-foi até ao extremo de assaltar o paço, e de
-querer aprisionar o rei. O infante D. Henrique
-entrara preso na fortaleza de Móra, e
-D. João <span class="allsmcap">II</span> representou ao rei de Aragão, Affonso
-<span class="allsmcap">V</span>, para que lhe entregasse os cavalleiros
-que tomaram partido por D. Henrique.
-Mediaram negociações, e o rei de
-Aragão resolveu finalmente invadir o reino
-de Castella.</p>
-
-<p>Fôra pois a noticia d’esta invasão o assumpto
-que preoccupara a attenção das<span class="pagenum"><a id="Page_8"></a>[8]</span>
-côrtes. Se o rei de Aragão se obstinasse
-em penetrar em Castella, o que se havia de
-fazer? Resistir-lhe, decidiram as côrtes ao
-cabo de longos debates.</p>
-
-<p>Vagara entretanto o throno de Navarra, a
-que o infante aragonez, D. João, subira pelo
-seu casamento com a infanta D. Branca.
-Este incidente deu uma nova face ás pendencias
-de D. João de Castella com D. Affonso
-de Aragão. O infante D. Henrique
-reconquistara a liberdade, para continuar a
-lucta, e o rei de Aragão dissolveu o exercito
-com que se havia preparado para combater
-o adversario.</p>
-
-<p>Em 1425 nascera, como dissemos, da alliança
-de D. João <span class="allsmcap">II</span> com sua prima D. Maria,
-um infante, que recebeu o nome de
-Henrique. Era o quarto do nome que devia
-succeder na coroa de Castella.</p>
-
-<p>A rainha D. Maria morreu envenenada,
-em Villecastin, a 15 de março de 1455. Pouco
-antes havia tambem fallecido em Toledo,
-crê-se que por effeito de veneno, sua
-irmã a rainha D. Leonor, viuva de D. Duarte,
-de Portugal. A morte d’estas duas princezas
-filia-se no apoio que poderiam querer
-dar ou receber do infante D. Henrique,
-seu irmão. Não faltou todavia em Portugal<span class="pagenum"><a id="Page_9"></a>[9]</span>
-quem indiciasse o infante portuguez, D. Pedro,
-como cumplice, senão auctor, da morte
-de sua cunhada D. Leonor de Aragão,
-para evitar novos embaraços politicos á regencia,
-durante a menoridade de Affonso
-<span class="allsmcap">V</span>. Esta suspeita, lançada sobre o caracter
-do infante D. Pedro, não conseguiu maculal-o
-perante a historia, porque são os proprios
-chronistas hespanhoes, entre elles
-Flores, que apontam o condestavel castelhano,
-D. Alvaro de Luna, como promotor
-do envenenamento de ambas as princezas.
-O infante D. Pedro havia até annuido a
-que D. Leonor voltasse para Portugal, mas
-a negociação mallograra-se pelo subito fallecimento
-da rainha em Castella.</p>
-
-<p>Pelo que respeitava a esta senhora, receava
-D. Alvaro que influisse para que
-seu irmão D. Henrique voltasse a Toledo,
-d’onde fôra expulso, porque servindo a
-causa de seu irmão julgaria a rainha de
-Portugal favorecer a sua propria causa contra
-o regente D. Pedro.<a id="FNanchor_1" href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_10"></a>[10]</span></p>
-
-<p>Quanto á rainha de Castella, D. Maria,
-pensou o condestavel D. Alvaro em desembaraçar-se
-da sua influencia por um meio
-violento, aliás muito vulgar então na côrte
-castelhana: o veneno.</p>
-
-<p>«Uma e outra, diz o padre Flores, morreram
-de veneno, segundo a promptidão e
-effeitos da morte; pois que D. Leonor morreu
-de repente, depois de tomar um remedio
-caseiro; D. Maria não sentiu maior
-enfermidade que uma dor de cabeça, e ao
-quarto dia morreu. Os cadaveres de ambas
-cobriram-se egualmente de vergões, e portanto
-se attribuiu a morte a veneno. De
-mais a mais, vê-se do processo instaurado
-contra D. Alvaro de Luna, que influira para
-que fosse ministrada peçonha ás duas rainhas.»</p>
-
-<p>O plano de D. Alvaro não falhara, porque
-logo depois da morte da rainha feria-se
-a 29 de maio uma batalha junto a Olmedo.
-O rei venceu. D. Henrique morreu,
-em Calatayud, do ferimento que recebera
-durante a batalha, e D. Alvaro de Luna
-conseguira ser investido no mestrado de
-S. Tiago, que o infante tivera.</p>
-
-<p>Fôra o condestavel D. Alvaro que negociara<span class="pagenum"><a id="Page_11"></a>[11]</span>
-o segundo casamento de D. João <span class="smcap">ii</span>,
-de Castella, com a infanta D. Isabel, filha
-do infante D. João de Portugal e neta de D.
-João <span class="allsmcap">I</span>. D’este segundo casamento nasceram
-a infanta D. Isabel e o infante D. Affonso,
-que vieram a representar na politica de
-Castella um papel importante, principalmente
-Isabel, que sobreviveu ao irmão, e que
-pelo seu casamento com Fernando de Aragão
-preparou a unidade hespanhola, finalmente
-realizada por Carlos <span class="allsmcap">V</span>.</p>
-
-<p>Por agora, reportemo-nos ao nascimento
-de Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, successor do throno de
-Castella.</p>
-
-<p>O menino tinha nascido, mas não nascera
-com elle a tranquillidade da côrte de D.
-João <span class="allsmcap">II</span>. Discussões de toda a ordem a agitavam.
-De mais a mais, o condestavel D.
-Alvaro de Luna, valido do rei, tinha visto
-levantarem-se contra elle todos quantos beneficiara,
-e a tal ponto o combatiam, que o
-rei se viu obrigado a pactuar em Castronunho,
-acceitando a imposição do desterro
-temporario de D. Alvaro.</p>
-
-<p>Mas não teve forças D. João <span class="allsmcap">II</span> para romper
-com o valido. Saltou por cima da concordata
-de Castronunho. Reagiram os confederados,<span class="pagenum"><a id="Page_12"></a>[12]</span>
-e uma nova reunião foi aprazada
-para Valhadolid. O principe das Asturias
-assistiu, e concordou com os demais em
-que, por pedido do rei, se désse salvo-conducto
-a D. Alvaro de Luna; mas, no dia
-seguinte, o principe voltou-se para a politica
-dos confederados, impondo por sua vez
-condições ao rei.</p>
-
-<p>Um tal procedimento causou grande escandalo
-na côrte. <i>Puer natus est nobis.</i> D.
-João <span class="allsmcap">II</span> não podia duvidar de que tinha
-um filho, e por tal signal que lhe ia dando
-muito que fazer. É verdade que parecia inspirar-se
-nas suggestões de um mau conselheiro;
-nem tudo era obra propriamente sua.
-Dominava-o um donzel, de nome João Pacheco,
-seu valido, filho de Affonso Telles
-Giron, senhor de Belmonte.</p>
-
-<p>Fôra o proprio condestavel D. Alvaro
-quem puzera este desagradecido rapaz, seu
-pagem, ao lado do principe, e é curiosa a
-circumstancia de que o condestavel dominava
-tanto o rei quanto o Pacheco dominava
-o principe.</p>
-
-<p>Mas o feitiço voltara-se contra o feiticeiro,
-e Pacheco, feito marquez de Vilhena por
-D. João <span class="allsmcap">II</span>, parecia agora aconselhar o principe<span class="pagenum"><a id="Page_13"></a>[13]</span>
-a conspirar contra a politica do rei,
-que era a politica do condestavel. O principe
-das Asturias unira-se, pois, aos inimigos
-de D. Alvaro de Luna, que, tendo sido
-valido, veio a acabar no cadafalso, como
-quasi todos os validos em Castella.</p>
-
-<p>O mesmo rei, que o defendera, entregou-o
-aos seus inimigos e, depois de o haver
-atraiçoado, mandou-o chorar pelos poetas
-da côrte. Um dos que choraram por
-conta do rei foi João de Mena.</p>
-
-<p>D. João <span class="allsmcap">II</span> pensou em arrancar o filho á
-influencia de Pacheco. Para isso lembrou-se
-de um meio: casal-o. Casal-o de facto,
-entende-se, porque D. Henrique já estava
-desposado com D. Branca de Navarra, como
-fôra estipulado no tratado de paz feito
-entre os reis de Aragão, Navarra e Castella.</p>
-
-<p>Fez-se o que o rei pensara. D. Branca
-viera para Valhadolid juntar-se com o seu
-noivo. Realizaram-se festas esplendidas; houve
-saraus, banquetes, cannas, torneios, montarias
-e toiros. Dir-se-ia que o reino estava
-nadando em felicidade e paz. Mas, apesar
-das festas, o casamento de D. Henrique
-com essa infeliz princeza, que devia ser esposa<span class="pagenum"><a id="Page_14"></a>[14]</span>
-mallograda, fôra tristemente agoirado.
-Os torneios e as festas deixaram uma lugubre
-recordação, ensanguentada pela morte
-e pelos ferimentos de alguns cavalleiros.
-As pontas das lanças, com que lidaram, eram
-de ferro acerado, de modo que a lide sahiu
-a valer.</p>
-
-<p>Do casamento do principe das Asturias
-com D. Branca, de Navarra, não houve filhos.
-O principe dava-se habitualmente a
-outro genero de prazeres, segundo o testemunho
-de Mariana, e assim se explica a
-grande privança em que vivera com João
-Pacheco.</p>
-
-<p>Quatorze annos já iam corridos sem que
-D. Branca désse successão. A voz publica
-attribuia a culpa d’esta esterilidade a impotencia
-do principe, e aos maus habitos
-adquiridos. Dizia-se geralmente que a pobre
-princeza estava como nascera. Mas, no
-processo do divorcio, o fundamento official
-é a impotencia relativa dos dois consortes.
-Questão de bruxedos, segundo as idéas da
-epocha, mas não, por certo, segundo as
-idéas de Pacheco, que outras razões teria.</p>
-
-<p>Posta a questão do divorcio no fôro ecclesiastico,
-pronunciou sentença de nullidade<span class="pagenum"><a id="Page_15"></a>[15]</span>
-Luiz da Cunha, que governava a egreja de
-Segovia. O processo subiu por appellação
-a Roma, e o papa Nicolau <span class="allsmcap">V</span> delegou seus
-poderes em Affonso Corrilho, arcebispo de
-Toledo, que confirmou a sentença.</p>
-
-<p>D. Branca de Navarra foi, pois, despedida.
-Sahia de Castella como entrara: sempre
-noiva. Atraz d’ella, sobre a cauda roçagante
-do seu véo branco, arrastavam-se epigrammas
-grosseiros, satiras mordazes. Diz
-Zurita que de Italia lhe mandavam os embaixadores
-aragonezes remedios para combater
-a esterilidade, já depois de repudiada,
-como se foram para cural-a de uma febre
-quartã! E Castella, vendo moribundo o
-seu rei, tinha de acceitar um principe devasso
-e impotente, que lhe succedia.</p>
-
-<p>Em 1453 morria D. João <span class="allsmcap">II</span>, e o principe
-descasado empunhava as redeas do governo.
-A hereditariedade punha a coroa na cabeça
-de um mau filho e de um mau esposo,
-que de mais a mais se affirmara poltrão
-desde os primeiros tempos do seu reinado.</p>
-
-<p>Propoz-se D. Henrique renovar a guerra
-contra os moiros de Granada. Preparou
-um exercito formidavel, fez-se rodear de
-uma guarda distincta composta de tres mil e<span class="pagenum"><a id="Page_16"></a>[16]</span>
-seiscentas lanças, a flor da nobreza de Castella;
-porem ao approximar-se da <i>vega</i> de
-Granada deu ordem para que se evitasse todo
-o encontro com o inimigo. O exercito ficou
-descontentissimo, chegou mesmo a lavrar
-entre elle o pensamento de se apoderar
-da pessoa do rei, mas um filho do marquez
-de Santilhana avisou da conspiração
-Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, que se retirou apressadamente
-para Cordova, e d’ahi para Madrid.</p>
-
-<p>Henrique <span class="allsmcap">IV</span> gostava da guerra... platonicamente,
-como das mulheres. Lisonjeava-o
-ver-se commandando um poderoso
-exercito no meio da floresta scintillante
-das lanças da sua guarda, mas a respeito
-de dar batalha, nada! Amava muito a vida
-para arriscal-a; apenas, como hypocrita que
-tambem era, dizia que por amar a vida dos
-outros os não queria sacrificar.</p>
-
-<p>Os invernos passava-os na côrte, ou nas
-cercanias de Madrid em festas venatorias.
-A caça era o seu fraco e o seu forte.
-Quando a primavera chegava, montava a
-cavallo, cingia a espada impolluta, e ia fazer
-um passeio de recreio, com o seu exercito,
-até á <i>vega</i> de Granada. As vezes, por<span class="pagenum"><a id="Page_17"></a>[17]</span>
-distracção, ia talando e incendiando os campos
-na passagem.</p>
-
-<p>A veiga de Granada era então muito falada
-em trovas e praticas. No <i>Cancioneiro</i>,
-de Rezende, o poeta Nuno da Cunha, enfadado
-de tanto ouvir falar na veiga de Granada,
-diz a Henrique de Almeida, que regressava
-de Castella:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0">Da Veiga lá de Granada</div>
- <div class="verse indent0">e das estejas da guerra</div>
- <div class="verse indent0">vos nam ey já de ouvir nada.</div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Um anno, alguns jovens cavalleiros entraram
-em combate por sua conta e risco.
-No recontro, ficou morto Garcilaso de la
-Vega. O rei agastou-se, e então teve uns
-assomos ridiculos de traga-moiros: que incendiassem,
-que devastassem tudo. O emir
-Aben Ismail viu-se forçado a pedir treguas,
-mas a respeito de dar batalha campal, nada;
-Henrique <span class="allsmcap">IV</span> continuava a amar platonicamente
-a guerra... como as mulheres.</p>
-
-<p>Todas as phantasias poderia ter um rei
-impotente, menos a de tornar a casar. Pois
-teve-a Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, tão extravagante era a
-sua cabeça. E lançou as vistas para a infanta
-D. Joanna, de Portugal, sua prima, princeza<span class="pagenum"><a id="Page_18"></a>[18]</span>
-formosissima, a cujos dotes de corpo
-e de espirito todos os historiadores castelhanos
-rendem encomiastica homenagem.</p>
-
-<p>Mas Henrique <span class="allsmcap">IV</span> tinha o seu pensamento.
-Segundo Lafuente, talvez quizesse desmentir
-a fama de impotente. Agora o que
-se não chega a perceber é o pensamento a
-que cedeu Affonso <span class="allsmcap">V</span>, dando a mão da princeza
-ao primo de Castella, que tinha como
-marido os peores precedentes d’este mundo.</p>
-
-<p>É verdade que as condições do casamento
-eram vantajosas para Portugal, porque
-Henrique <span class="allsmcap">IV</span> contentava-se apenas com a
-pessoa da princeza, diz Sousa na <i>Historia
-genealogica</i>. Em vez de pedir, offerecia
-como arrhas vinte mil florins de oiro do
-cunho de Aragão, sendo Ciudad-Real a hypotheca
-proposta e acceita; e mais as rendas
-da villa de Olmedo, para ajuda da despesa
-da casa da infanta, e, para o mesmo
-fim, a annuidade de milhão e meio de maravedis
-de moeda corrente.</p>
-
-<p>Affonso <span class="allsmcap">V</span> não deu dote á irmã, a qual,
-porém, foi grandemente corrigida da sua
-pessoa; custou tudo, até ser entregue a el-rei
-de Castella, trinta mil dobras.<a id="FNanchor_2" href="#Footnote_2" class="fnanchor">[2]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_19"></a>[19]</span></p>
-
-<p>Nas capitulações, que se fizeram em Lisboa
-a 22 de janeiro de 1455, presentes, de
-um e outro lado, Affonso <span class="allsmcap">V</span> e o capellão-mór
-de Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, foi estipulado que a
-infanta poderia fazer-se acompanhar de doze
-damas portuguezas, uma dona, uma camareira,
-e todas as mais pessoas que quizesse,
-obrigando-se o rei de Castella a remuneral-as
-conforme a sua jerarchia.</p>
-
-<p>Havia-se ajustado nas capitulações, que a
-infanta seria entregue na fronteira n’um periodo
-de tempo não superior a oitenta e um
-dias depois dos desposorios.</p>
-
-<p>Cumpriu-se o contracto, e a infanta partiu,
-sendo acompanhada pela condessa de
-Athouguia, D. Guiomar, e pelo conde D.
-Martinho, seu filho.</p>
-
-<p>Em Lisboa fizeram-se festas, segundo diz
-Pina, sem comtudo as especificar, e, quando
-a nova rainha de Castella passava pela
-Landeira, em direcção a Elvas, realizaram-se
-ahi justas em sua honra.</p>
-
-<p>Em Badajoz era D. Joanna esperada com
-luzido sequito pelo duque de Medinacidonia.
-D’alli seguiram para Cordova, onde o
-rei estava, e onde os noivos receberam a
-benção nupcial (maio de 1455).</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_20"></a>[20]</span></p>
-
-<p>De Cordova passaram a Sevilha, e ahi
-houve cannas, justas, toiros, e um torneio
-de cincoenta por cincoenta, de que foram
-chefes o duque de Medinacidonia e o marquez
-de Vilhena.</p>
-
-<p>As festas da côrte, a que Henrique <span class="allsmcap">IV</span> se
-abandonava n’um sybaritismo insaciavel de
-testa coroada, redobraram de movimento e
-esplendor. Ora em Madrid, ora em Segovia,
-sitios predilectos d’este bom rei, tão madraço
-como os ultimos da raça merovingia,
-Henrique <span class="allsmcap">IV</span> aturdia a noiva com festas
-sumptuosas porventura no empenho de lhe
-fazer esquecer as desillusões da alcova real.</p>
-
-<p>A pobre princeza cahiu de chofre n’este
-mundo de tentações e perigos que ella desconhecia,
-que não tinha sido o da sua educação.
-O luxo e a galanteria ostentavam-se
-em requintes de fascinação, estonteavam
-como filtros allucinantes todas as cabeças,
-incluindo as mitradas.</p>
-
-<p>O rei era o primeiro a dar o exemplo de
-dissipação.</p>
-
-<p>De Henrique <span class="allsmcap">III</span>, conta o nosso padre Manuel
-Bernardes, na <i>Nova floresta</i>, que, vindo
-esfomeado da caça, não tivera que comer
-certo dia. Disse-lhe o comprador que<span class="pagenum"><a id="Page_21"></a>[21]</span>
-já não havia fornecedores que quizessem
-continuar a fiar para a real senhoria. O rei
-despiu o gabão e mandou-o empenhar por
-um pouco de carneiro. Os criados murmuraram
-do caso, extranhando que o rei tivesse
-fome e os fidalgos se banqueteassem lautamente,
-como n’essa mesma noite estava
-acontecendo no palacio do arcebispo de
-Toledo.</p>
-
-<p>Henrique <span class="allsmcap">III</span>, como isto ouvisse, sahiu
-disfarçado e entrou occultamente no paço
-archiepiscopal, ao tempo que os grandes
-da côrte conversavam jactanciosamente sobre
-as rendas da corôa, que cada um lograva.
-O rei recolheu-se a palacio, e mandou
-postar n’um dos pateos interiores um troço
-de seiscentos homens armados.</p>
-
-<p>Logo que luziu a manhã, expediu recado
-aos grandes senhores para que sem demora
-lhe viessem falar, dizendo-se doente, e desejoso
-de fazer testamento. Os fidalgos acudiram
-em chusma, e foram isolados n’uma
-sala onde longo tempo esperaram.</p>
-
-<p>Finalmente, appareceu o rei, de aspecto
-terrivel, e espada em punho; e, sem mais
-tir-te nem guar-te, perguntou a cada um de
-per si quantos reis de Castella conheciam.<span class="pagenum"><a id="Page_22"></a>[22]</span>
-Uns disseram que tres, outros que quatro,
-e ainda outros que cinco. O rei fingiu-se
-admirado. «Sendo eu mais moço que todos
-vós, replicou elle, conheço mais de vinte.»
-Os fidalgos responderam que não entendiam
-sua alteza. Então Henrique <span class="allsmcap">III</span> explicou,
-que todos elles eram reis, porque se
-banqueteavam todas as noites, ao passo
-que elle, se quizera comer carneiro, tivera
-de empenhar o gabão. E acabou gritando:
-«Olá, gente da minha guarda!»</p>
-
-<p>Acudiram ás portas os soldados. Appareceu
-um algoz com o cepo, cutello e cordas,
-prompto a funccionar.</p>
-
-<p>«Então, diz Bernardes, o arcebispo se
-lhe lançou aos pés, pedindo, em nome de
-todos, perdão, e as vidas de mercê; e que
-no tocante ás fazendas, cortasse por onde
-lhe parecesse.»</p>
-
-<p>O certo é que o rei perdoou. Mas as contas
-ficaram justas por então, e o rei poude
-rehaver todos os castellos que, durante a
-sua menoridade, os tutores haviam alheado.
-E alem dos castellos, cento e cincoenta
-contos de maravedis.</p>
-
-<p>Henrique <span class="allsmcap">IV</span> não era homem que tivesse
-resolução para imitar este exemplo do seu<span class="pagenum"><a id="Page_23"></a>[23]</span>
-homonymo. Em vez de tirar aos fidalgos
-para dar a si, tirava a si para dar aos fidalgos.
-Por isso Garcia de Rezende, diz na
-<i>Miscellanea</i>:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0">Mui poderoso e servido</div>
- <div class="verse indent0">El-rei Dom Henrique era,</div>
- <div class="verse indent0">Mui gran rico, mui querido,</div>
- <div class="verse indent0">Fôra mui obedecido,</div>
- <div class="verse indent0">Se governar se soubera.</div>
- <div class="verse indent0">Mas vimos-lhe tanto dar</div>
- <div class="verse indent0">E tanto deixar tomar</div>
- <div class="verse indent0">Os grandes toda Castella,</div>
- <div class="verse indent0">Que elles eram os reis d’ella,</div>
- <div class="verse indent0">Elle sem ter que reinar.</div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Vem a ponto citar o caso de outro arcebispo
-que, á semelhança do de Toledo na
-côrte de Henrique <span class="allsmcap">III</span>, pompeava magnificencias
-na côrte de Henrique <span class="allsmcap">IV</span>. Referimo-nos
-ao de Sevilha, D. Affonso da Fonseca,
-que uma noite, depois de ceia, fez servir á
-mesa duas bandejas coguladas de anneis
-de oiro, cravejados de pedras preciosas,
-para que a rainha e as suas damas tomassem
-os que lhe aprouvessem.</p>
-
-<p>D. Joanna sentiu porventura a febre do
-prazer invadir-lhe o espirito n’uma perfida
-embriaguez, que principiou por aturdil-a, e<span class="pagenum"><a id="Page_24"></a>[24]</span>
-que devia necessariamente acabar por perdel-a,
-tanto mais que nenhum laço intimo,
-d’estes que estreitam os affectos e criam
-raizes, a prendia a seu esposo.</p>
-
-<p>Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, embriagado tambem, esquecia-se
-de que era casado, e de que a natureza
-lhe negara qualidades que o recommendassem
-aos olhos das mulheres. Fingia
-ser o que não era, e exaggerava o fingimento,
-porque galanteava com escandalo
-uma das damas da rainha, D. Guiomar de
-Castro, filha bastarda de D. Alvaro de Castro,
-conde de Monsanto, portugueza formosissima,
-que viera a casar accommodaticiamente
-com o conde de Tervinho, primeiro
-duque de Nájara.<a id="FNanchor_3" href="#Footnote_3" class="fnanchor">[3]</a></p>
-
-<p>Julgava-se depreciado o rei por não ser
-tão completo como qualquer dos seus vassallos,
-e mascarava-se de Tenorio, prophetizava
-Byron. Dava-se a ostentação de uma
-amante como os velhos lords inglezes, exhaustos
-e carunchosos, que vivem de se illudir
-a si proprios com as mulheres. Antes d’esta
-D. Guiomar, já Henrique <span class="allsmcap">IV</span> tivera por
-manceba uma Catharina de Sandoval, que<span class="pagenum"><a id="Page_25"></a>[25]</span>
-acabara por fazer abbadessa de um mosteiro
-de monjas, em Toledo, sob color de que necessitavam
-ser reformadas.</p>
-
-<p>Boa disciplina podia impor ás monjas a
-barregã do rei!</p>
-
-<p>Mas Henrique <span class="allsmcap">IV</span> não podia ter confiança
-nas mulheres, pela simples razão de que
-ellas não podiam confiar n’elle. Catharina
-de Sandoval amava do coração um homem,
-que não o rei. Chamava-se Affonso de Cordova.
-O rei, como não pudesse competir
-com o seu rival, mandou-lhe cortar a cabeça
-em Medina del Campo, e resolveu a
-questão.</p>
-
-<p>Agora voltara-se para a bella Guiomar,
-tão platonicamente, por certo, como em tempo
-se voltara para a <i>vega</i> de Granada.</p>
-
-<p>A rainha via-se enleada talvez n’uma duvida
-atroz. Quem teria razão? Seria Branca
-de Navarra, repudiada e virgem, ou D.
-Guiomar de Castro, que parecia inutilizar o
-rei para os seus deveres de marido?</p>
-
-<p>A pobre rainha decidiu-se por esta ultima
-hypothese, e um dia, não podendo mais
-comsigo, segurou pelos cabellos a dama, e
-castigou-a por sua propria mão. O escandalo
-estrondeou, dividiu-se a côrte em partidos,<span class="pagenum"><a id="Page_26"></a>[26]</span>
-um pela rainha, outro pela manceba.
-O arcebispo de Sevilha, talvez mal succedido
-junto da rainha, apesar da galanteria
-dos anneis, pronunciou-se, por vingar-se, a
-favor de D. Guiomar. E o rei, apagando na
-alma de sua mulher a ultima noção do decoro
-conjugal, levou a manceba para duas
-leguas da côrte, poz-lhe casa sumptuosa, e
-ia visital-a quando lhe aprazia chancear-se
-de prendas que não tinha.</p>
-
-<p>Com este impulso mais, a rainha resvalara.
-Pelo menos a opinião publica boquejava
-desconfianças a respeito de D. Beltrão
-de Lacueva, <i>hidalgo de los mas generosos
-de Ubeda, y uno de los mas apuestos y gallardos
-cabaleros de la córte, que comenzaba
-á gozar del favor del rey, y de paje de
-lanza habia ascendido á moyordomo mayor</i>,
-diz Lafuente.</p>
-
-<p>Tal foi o gentil homem que a rainha, no
-pendor do seu abandono e no estonteamento
-de uma côrte perigosa, encontrou no momento
-de resvalar.</p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_27"></a>[27]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak">II<br />
-<span class="smaller">NA CÔRTE DE HENRIQUE IV</span></h2>
-
-</div>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-e.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Estava-se então em pleno cyclo
-cavalheiresco. O valor dava as
-mãos á poesia, na côrte de Castella.
-Muitos cavalleiros eram
-trovadores; não ser nenhuma d’estas coisas,
-importava o mesmo que viver e morrer anonymo.
-A magnificencia completava, como
-sabemos, as seducções da côrte, em que
-D. Joanna, de Portugal, era duas vezes rainha,
-pela formosura e pelo casamento.</p>
-
-<p>Os <i>passos de armas</i> eram frequentes e
-notaveis. Propunham-se fazel-os os cavalleiros
-que queriam dar prova publica de<span class="pagenum"><a id="Page_28"></a>[28]</span>
-seu brio e destreza, em honra de qualquer
-dama. Marcado o logar onde a lide devia
-realizar-se, o cavalleiro reptava solemnemente
-quantos por alli <i>passassem</i>.</p>
-
-<p>O <i>passo de armas</i> mais caracteristico
-d’aquelle tempo foi o de Suero de Quinhones
-(1434).</p>
-
-<p>Uma noite, estando D. João <span class="allsmcap">II</span> em Medina
-del Campo, folgando com a côrte em
-sarau dançante, apresentou-se-lhe o nobre
-cavalleiro Suero de Quinhones, acompanhado
-de mais nove gentis-homens, e pediu a
-el-rei auctorização para, em honra da sua
-dama, fazer um <i>passo de armas</i> quinze dias
-antes e quinze dias depois da festa de S.
-Tiago, propondo-se os dez quebrar trezentas
-lanças de ferro de Milão com todos os
-cavalleiros, nacionaes e extrangeiros, que
-por alli passassem á ida ou á volta da festa
-do grande apostolo. Todas as damas, que
-não fossem acompanhadas por gentilhomem
-disposto a combater, perderiam a luva
-da mão direita.</p>
-
-<p>Lafuente traz a descripção minuciosa d’este
-celebre <i>passo</i>, do apparato dos cavalleiros,
-do campo da lide, e dos combates que
-se travaram. Nem menos de 68 aventureiros<span class="pagenum"><a id="Page_29"></a>[29]</span>
-justaram com os dez mantenedores. Fizeram-se
-setecentas e vinte e sete <i>carreiras</i>;
-mas faltou o tempo para quebrar todas
-as trezentas lanças. Ficou a coisa reduzida
-a 166, e ninguem dirá que foi pouco.</p>
-
-<p>O primeiro aventureiro que acceitou o
-repto foi messire Arnaldo de la Floresta
-Bermejo, allemão, que correu seis carreiras
-e quebrou duas lanças.</p>
-
-<p>Assim como um allemão vinha justar a
-Castella, muitos cavalleiros castelhanos corriam
-mundo assistindo a todas as grandes
-festas e torneios das côrtes da Europa. Tornou-se
-notavel como cavalleiro andante o
-valoroso João de Merlo, honra da cavallaria
-castelhana.</p>
-
-<p>A recepção que em toda a parte se fazia
-aos cavalleiros andantes era magnifica.</p>
-
-<p>De visita á côrte de Affonso <span class="allsmcap">V</span> veio em
-1446 o famoso cavalleiro messire Jacques
-de Lalain, de Borgonha, que foi recebido
-com honras verdadeiramente principescas.</p>
-
-<p>Os torneios eram muitas vezes cruentos.
-Taes foram os que mal-agoiraram as nupcias
-de Henrique <span class="allsmcap">IV</span> com D. Branca, de
-Navarra. O proprio D. Alvaro de Luna,<span class="pagenum"><a id="Page_30"></a>[30]</span>
-justando na acclamação de D. João <span class="allsmcap">II</span>, cahiu
-gravemente ferido.</p>
-
-<p>Isto, quanto aos paladinos. Os trovadores,
-os cultores da gaya sciencia, como se
-dizia, não eram menos numerosos que os
-paladinos.</p>
-
-<p>O proprio D. João <span class="allsmcap">II</span> versejara. Attribuem-se-lhe
-umas trovas que principiam
-assim:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0">Amor, yo nunca pensé</div>
- <div class="verse indent0">que tan poderoso eras,</div>
- <div class="verse indent0">que podrias tener maneras</div>
- <div class="verse indent0">para trastornar la fé,</div>
- <div class="verse indent0">hasta agora que lo sé.</div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-<p>A rainha D. Joanna ainda foi encontrar
-na côrte de Castella o celebre marquez de
-Santilhana, auctor da conhecida carta ao
-condestavel de Portugal, que póde considerar-se
-como uma verdadeira arte poetica
-d’aquelle tempo. Como se vê por essa carta,
-o marquez de Santilhana, D. Inigo Lopez
-de Mendonça, era um erudito; mas as
-suas composições testemunhavam que, alem
-de conhecer profundamente a historia de
-toda a gaya sciencia, era tambem um poeta.</p>
-
-<p>As suas <i>serranillas</i> são verdadeiramente<span class="pagenum"><a id="Page_31"></a>[31]</span>
-notaveis. Bastará um exemplo. Certo dia o
-marquez, dirigindo-se para uma das suas
-expedições militares, encontrou na serra
-uma zagala que pastorava os rebanhos de
-seu pae, D. Diogo de Mendonça. Encantado
-da sua formosura, compoz esta bucolica,
-em que todas as graças pastoris rescendem:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0">Moza tan fermosa</div>
- <div class="verse indent0">non vi en la frontera</div>
- <div class="verse indent0">como una vaquera</div>
- <div class="verse indent0">de la Finojosa.</div>
- </div>
- <div class="stanza">
- <div class="verse center">...</div>
- </div>
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0">En un verde prado</div>
- <div class="verse indent0">de rosas é flores</div>
- <div class="verse indent0">guardando ganado,</div>
- <div class="verse indent0">con otros pastores,</div>
- <div class="verse indent0">la vi tan fermosa,</div>
- <div class="verse indent0">que apenas creyera</div>
- <div class="verse indent0">que fuese vaquera</div>
- <div class="verse indent0">de la Finojosa.</div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Quando as vaqueiras formosas eram assim
-galanteadas em trovas, não admira que
-a rainha D. Joanna, não menos bella que a
-pastora de Finojosa, por muito que o fosse,
-se convertesse n’uma especie de sol em
-torno do qual girava todo o systema planetario<span class="pagenum"><a id="Page_32"></a>[32]</span>
-da poesia castelhana, que extendeu a
-sua influencia até Portugal.</p>
-
-<p>A côrte de Castella tornou-se um fóco
-de attracção, sobretudo para Portugal. Os
-portuguezes que de lá vinham, impunham
-de castelhanos, tão fascinados voltavam. Os
-poetas de cá motejavam-n’os porisso:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0">Oh! que modo que trazeis</div>
- <div class="verse indent0">a desdenhar portuguez!</div>
- <div class="verse indent0">oh que graças contareis,</div>
- <div class="verse indent0">e tomareys</div>
- <div class="verse indent0">d’elas mesmas o invés.</div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Jorge Manrique descreve bem todos os
-encantos da côrte de Castella, já sobredoirados
-pela saudade de um bello tempo que
-passou:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0">Las justas y los torneos,</div>
- <div class="verse indent0">Paramentos, bordaduras,</div>
- <div class="verse indent0">Y cimeras,</div>
- <div class="verse indent0">Fueron sino devaneos?</div>
- <div class="verse indent0">Qué fueron sino verduras</div>
- <div class="verse indent0">De las éras?</div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Já D. Duarte quizera obstar á emigração
-fidalga para Castella. Por carta dada em
-Obidos, em setembro de 1434, ordenou<span class="pagenum"><a id="Page_33"></a>[33]</span>
-«que as pessoas que tiverem rendas n’este
-reina, e viverem em Castella, se passem a
-viver a elle; e não o fazendo, não possam
-levar as taes rendas para Castella, e não se
-lhe pagarão, e acabe.»</p>
-
-<p>Mas os fidalgos portuguezes, zombando
-da lei, continuaram a deixar-se fascinar por
-Castella.</p>
-
-<p>O duque de Alva compuzera um romance,
-<i>Nunca fue pena mayor</i>, e a rainha desejara
-ver glosados os versos d’esse romance.
-O commendador Roman impoz-se o encargo
-de glosador, por agradar á rainha:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0">Dizem que a vuestro oido</div>
- <div class="verse indent0">agradó aquel dulçor,</div>
- <div class="verse indent0">de la cancion del sentido,</div>
- <div class="verse indent0">famoso, franco, sabido</div>
- <div class="verse indent0">Duque d’Alva, mi señor.</div>
- <div class="verse indent0">Por darle gracia famosa</div>
- <div class="verse indent0">y favor demasiado,</div>
- <div class="verse indent0">alta regina gloriosa</div>
- <div class="verse indent0">que aveis pedido la glosa</div>
- <div class="verse indent0">y que nunca os han glosado.</div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Póde parecer extranho que todos os poetas
-da côrte não acudissem de tropel a acceitar
-o repto poetico que lhes propunha a
-bella rainha. Mas o commendador Roman,<span class="pagenum"><a id="Page_34"></a>[34]</span>
-atravez do véo transparente da sua modestia,
-dá a razão do caso:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0">No saliendo delantero</div>
- <div class="verse indent0">de mil otros de consuno,</div>
- <div class="verse indent0">antes simple postrimero,</div>
- <div class="verse indent0"><i>mas porque supe primero</i></div>
- <div class="verse indent0"><i>la causa que otro ninguno</i>.</div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Vê-se, ao contrario do que poderia presumir-se,
-que os poetas da corte não desaproveitavam
-ensejo de vibrar a lyra em
-honra d’essa rainha, cuja belleza, segundo
-a expressão do poeta commendador, não
-havia lingua que a descrevesse, nem mão
-que a pintasse.</p>
-
-<p>Hoje, os commendadores não sabem dizer
-d’estas coisas.</p>
-
-<p>É, pois, n’esta côrte cavalheiresca e poetica,
-alem de ostentosa, que o gentil Beltrão
-de Lacueva nos apparece.</p>
-
-<p>Quando o duque da Bretanha enviou uma
-embaixada a Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, propondo-lhe alliança
-e amizade, quiz o rei obsequiar o
-embaixador com luzidas festas, que se fizeram
-na casa de campo del Pardo.</p>
-
-<p>Quatro dias deslizaram em banquetes,<span class="pagenum"><a id="Page_35"></a>[35]</span>
-torneios, justas e caçadas. Mas as festas
-ainda não acabaram ahi.</p>
-
-<p>Ao quarto dia, quando a côrte regressava
-a Madrid, Beltrão de Lacueva preparou
-um <i>passo de armas</i> á Porta de Ferro, para
-que justassem todos quantos regressavam
-do Pardo.</p>
-
-<p>D. Beltrão não quiz perder esta occasião
-de exhibir aos olhos da rainha, por entre
-as pompas do torneio, a sua elegancia e
-destreza como grande cavalleiro de gineta,
-notavel entre os eximios.</p>
-
-<p>Não era permittido aos gentis-homens da
-côrte, que acompanhavam damas, passar
-alem sem que com D. Beltrão fizessem
-seis carreiras. Os que não quizessem justar
-deixariam, como signal da sua deshonra, o
-guante da mão direita.</p>
-
-<p>Sobre um arco de madeira havia muitas
-lettras lavradas a oiro, e o cavalleiro que
-quebrava tres lanças, dirigia-se para o arco,
-e tomava a lettra inicial do nome da sua
-dama.</p>
-
-<p>D. Beltrão com todos os outros cavalleiros
-luctou em honra de uma dama mysteriosa,
-a dos seus pensamentos, de cuja inicial<span class="pagenum"><a id="Page_36"></a>[36]</span>
-fez segredo. Mas essa dama estava presente:
-era a rainha.</p>
-
-<p>Foi-se todo o dia n’esta festa, e o bom
-rei Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, tão contente ficou com
-o <i>passo de armas</i>, em que o unico ferido
-foi elle... moralmente, que por memoria
-fundou n’aquelle logar o mosteiro de S. Jeronymo,
-acabado em 1464.</p>
-
-<p>Bom homem, o rei!</p>
-
-<p>A belleza da rainha, o seu papel importante
-entre o circulo dos poetas da côrte, o
-abandono, em que se achava, de todo o
-affecto conjugal, a corrupção do tempo e
-do paço, e o boquejar do mundo, especialmente
-o da côrte, que é o mundo que mais
-boqueja e moteja, crearam em torno de D.
-Joanna, de Portugal, uma lenda de devassidão
-romantica em que, por entre anachronismos
-frisantes, figuram a rainha e o poeta
-João Rodrigues del Padron.</p>
-
-<p>Resaltava das composições d’este trovador
-uma vaga anciedade de amar e ser
-amado, que encontrou echo na sensibilidade
-vibratil da rainha.</p>
-
-<p>Um dia, de uma das janellas do paço, alguma
-dama mysteriosa deixou cahir uma
-carta, quando o poeta passava.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_37"></a>[37]</span></p>
-
-<p>Padron guardou-a, e leu-a. Era nada menos
-que o convite para uma entrevista nocturna:
-pelas duas horas da madrugada, o
-poeta devia estar á porta falsa da cava, e
-bater com os dedos tres pancadas; o mais
-absoluto segredo devia envolver esta aventura,
-sob pena de mallograr-se.</p>
-
-<p>Padron aconselhou-se com um amigo intimo,
-que se promptificou a acompanhal-o,
-para o defender, se a sua vida corresse perigo.
-Padron foi, fez o signal ajustado, a
-porta abriu-se, e recebeu-o, no mysterio da
-escuridão, uma dama, cuja voz era doce
-como a musica. Sobre a capa d’elle se sentaram,
-no chão, e ahi conversaram, cingidos
-um ao outro, negando-se ella a quaesquer
-revelações, e insistindo na condição
-do segredo, que devia ser inviolavel.</p>
-
-<p>De tres em tres dias avistar-se-iam, no
-mesmo sitio, dado o mesmo signal na porta
-da cava.</p>
-
-<p>Padron confidenciou ao amigo o que se
-tinha passado, e um e outro, por mais tratos
-que déssem á imaginação, não puderam
-sequer suspeitar quem a dama fosse.</p>
-
-<p>Á terceira noite, nova entrevista. As mesmas
-instancias por parte do poeta; a mesma<span class="pagenum"><a id="Page_38"></a>[38]</span>
-reserva por parte da dama. Pediu-lhe
-elle uma madeixa de cabello, cortou-a por
-sua propria mão; porêm nem Padron nem o
-seu amigo puderam depois adivinhar de
-que dama da côrte fosse o cabello.</p>
-
-<p>O rei andava fóra: em côrtes, diz a lenda.
-Mas ia regressar, e a dama, n’uma nova
-entrevista, annunciou ao poeta essa contrariedade,
-que o era realmente, porque as
-chaves d’aquella porta ficavam na camara
-do rei.</p>
-
-<p>Conta a lenda que Padron, para experimentar
-de que jerarchia fosse a dama, lhe
-pedira dinheiro, emquanto lhe tardava de
-casa. Tem a gente o direito de suspeitar da
-intenção d’este pedido, pondo em duvida
-que Padron não recorresse ao processo
-ignobil de um <i>mr. Alphonse</i>, poeta e villão.</p>
-
-<p>N’outra noite, a dama deu-lhe as joias,
-mas recommendou-lhe que as desmanchasse,
-porque eram da rainha, e podiam ser
-conhecidas. Padron acceitou-as, e não diz
-a lenda que fossem restituidas.</p>
-
-<p>Entretanto, o rei chegara, e a porta da
-cava deixou de abrir-se. Mas o poeta insistira
-sempre e, finalmente, de uma vez a
-porta abriu-se.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_39"></a>[39]</span></p>
-
-<p>Queixou-se Padron de que a dama levasse
-o receio de declarar-se até á desconfiança
-affrontosa. A dama acabou por ceder,
-e fez uma nova concessão. Estava proxima
-a festa de S. Pedro; que lhe désse
-elle uma joia, que por ella a distinguiria
-na festa. Padron tinha apenas comsigo, de
-que pudesse dispor, um cinto escarlate. Tirou-o,
-e deu-lh’o. A dama afiançou-lhe que
-o poria em laço no cabello.</p>
-
-<p>Chegou o dia da festa. Padron e o seu
-amigo esperavam que a côrte se dirigisse
-para a sala do throno. Ambos procuravam
-avidamente com os olhos a dama do laço
-escarlate. Na cabeça da rainha o descobriu
-o amigo de Padron, e fez signal ao poeta.
-A rainha surprehendeu esse movimento, e
-o poeta, sem dar por isso, tão louco de
-alegria ficou, que nos torneios d’esse dia
-se avantajou a todos os cavalleiros da côrte.</p>
-
-<p>Á noite, Padron bateu á porta da cava.
-A rainha, porque era ella a dama, recebeu-o,
-mas para lhe censurar asperamente
-a sua indiscreção, e para o ameaçar com
-a morte se não sahisse essa mesma noite
-de Castella.</p>
-
-<p>Padron obedeceu, e partiu com o coração<span class="pagenum"><a id="Page_40"></a>[40]</span>
-despedaçado, chorando a sua perdida
-felicidade, partindo só e triste, como elle
-proprio, segundo a lenda, o diz na trova.</p>
-
-<p>... E assim iam corridos mais de seis
-annos de casamento esteril, quando, em
-1461, uma noticia inesperada explodiu: a
-rainha estava gravida.</p>
-
-<p>O rei Henrique delirou de contentamento,
-mas o paiz inteiro ria do jubilo do rei,
-porque estava capacitado de que o esperado
-herdeiro do throno era o fructo immoral
-dos amores adulterinos da rainha com
-D. Beltrão de Lacueva.</p>
-
-<p>Porêm o rei continuou a delirar de jubilo,
-e ordenou que D. Joanna fosse conduzida
-a Madrid, onde elle estava, devendo fazer
-a jornada n’uma liteira, para que mais repoisada
-viesse.</p>
-
-<p>João Pacheco, marquez de Vilhena, e o
-arcebispo de Toledo, prevenindo os conflictos
-politicos que deveriam derivar-se do
-parto da rainha, aconselharam o rei a que
-chamasse para a côrte, onde melhor poderiam
-ser educados, seus irmãos, D. Isabel,
-que tinha então dez annos, e D. Affonso,
-que apenas contava oito, mas que, segundo
-o tratado de paz feito entre Henrique<span class="pagenum"><a id="Page_41"></a>[41]</span>
-<span class="allsmcap">IV</span> e seu tio o rei de Navarra, deviam casar
-com D. Fernando e D. Leonor, filhos d’este
-monarcha.<a id="FNanchor_4" href="#Footnote_4" class="fnanchor">[4]</a></p>
-
-<p>Em março de 1462, D. Joanna, de Portugal,
-deu á luz uma filha. O rei ordenou
-que se fizessem festas pomposas. Era aquelle,
-para elle, um presente do céo! diz Lafuente.
-E eu creio que fosse assim.</p>
-
-<p>A princezasinha recebeu o nome de Joanna.
-Baptizou-a o arcebispo de Toledo, tendo
-por assistentes os de Calahorra, Carthagena
-e Osma. Foram padrinhos o embaixador
-de França, conde de Armagnac, e o
-marquez de Vilhena; madrinhas, a infanta
-D. Isabel, irmã do rei, já então aposentada
-na côrte, e a marqueza de Vilhena.</p>
-
-<p>Contrastam singularmente com estes jubilos
-da côrte de Castella os lacrimaveis
-episodios do passamento da rainha Branca,
-de Navarra, no castello de Orthez.</p>
-
-<p>O principe de Vianna, D. Carlos, devia
-ser, por morte de seu pae, herdeiro do
-throno de Navarra. O principe fallecera,
-transferindo á irmã, a infeliz Branca, os direitos
-de successão; mas D. Branca não<span class="pagenum"><a id="Page_42"></a>[42]</span>
-nascera senão para soffrer. Só uma coroa
-lhe estava destinada: era a da virgindade
-perpetua.</p>
-
-<p>A irmã mais nova de D. Branca, D. Leonor,
-tinha casado com o conde de Foix, e
-parece que uma das condições secretas do
-casamento fôra que D. Branca seria entregue
-ao conde, que a obrigaria a renunciar
-ao throno ou a fazer-se freira, succedendo
-portanto D. Leonor ao rei, seu pae, logo
-que elle morresse.</p>
-
-<p>O rei de Navarra não duvidou sacrificar
-a filha ao apoio que, em troca, o conde de
-Foix lhe promettia dar contra o rei de Castella,
-e achando-se com a infeliz Branca
-em Olite convidou-a a passar com elle os
-Pyrenéos, sob pretexto de que projectava
-casal-a com o duque de Berri, irmão do rei
-de França.</p>
-
-<p>Sabia Branca o que se passava, e recusou-se
-a ir, allegando ao pae, segundo a
-expressão de Zurita, que não queria ser
-homicida de si mesma. O rei arrancou então
-a mascara, e obrigou-a a partir á força,
-bem guardada por pessoas da sua confiança.
-Poucos dias depois, o rei de Navarra<span class="pagenum"><a id="Page_43"></a>[43]</span>
-contratava definitivamente com o conde de
-Foix em Olite.</p>
-
-<p>D. Branca foi encerrada no mosteiro de
-Roncesvalles, e d’ahi teve meio de protestar
-contra a usurpação que se lhe queria
-fazer, declarando que por vontade propria
-declinaria os seus direitos no rei de Castella,
-que a havia repudiado!</p>
-
-<p>O protesto inquietou a côrte de Navarra,
-como era natural, e a mallograda rainha
-foi mandada transferir para S. João Pied de
-Port.</p>
-
-<p>Comprehendeu D. Branca que não se
-contentavam com usurpar-lhe os direitos
-ao throno, mas que tambem a sua vida
-corria risco, e pediu a Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, ao
-conde de Armagnac e ao condestavel de
-Navarra, que por meio da força defendessem,
-se tanto fosse preciso, os seus direitos
-e a sua vida, auctorizando-os a tratarem-lhe
-casamento com qualquer principe.</p>
-
-<p>Soube, porêm, D. Branca que o rei, seu
-pae, ia envial-a a S. Pelagio, no Bearn. Então,
-julgando-se completamente perdida, escreveu
-a Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, de Castella, o homem
-que a havia repudiado, cedendo n’elle
-todos os seus direitos á coroa de Navarra.<span class="pagenum"><a id="Page_44"></a>[44]</span>
-Essa carta, que tem a data de 30 de abril
-de 1462, não póde lêr-se, segundo a expressão
-de um escriptor hespanhol, sem
-que se enterneça o coração mais duro. Lafuente,
-referindo-se á carta de Branca, diz
-que a infeliz princeza recordava a Henrique
-<span class="allsmcap">IV</span> os antigos vinculos que os haviam
-unido, e os crueis transes que atravessara
-desde que fôra repudiada. Segundo Zurita,
-Branca pedia a Henrique <span class="allsmcap">IV</span> que vingasse
-a sua morte e a do principe Carlos.</p>
-
-<p>A que mãos de poltrão confiava a infeliz
-senhora tão nobre empresa! Vê-se que a
-esposa repudiada ficara conhecendo tão
-pouco o rei como o marido.</p>
-
-<p>N’aquelle mesmo dia foi Branca, de Navarra,
-reconduzida ao castello de Orthez,
-onde permaneceu encerrada mais de dois
-annos, sob a vigilancia de uma dama da
-condessa de Foix, que acabou por envenenal-a.</p>
-
-<p>Todos os chronistas hespanhoes têem
-phrases de maviosa compaixão para com
-a memoria da infeliz Branca. Citaremos
-apenas dois, Zurita, o chronista de Aragão,
-e Flores, o chronista das rainhas castelhanas.
-Zurita recorda que ella fôra repudiada<span class="pagenum"><a id="Page_45"></a>[45]</span>
-pelo marido, perseguida pela irmã, e
-abhorrecida pelo pae, e que não teve mais
-em quem depositar a sua ultima esperança
-senão o homem de quem maior affronta
-havia recebido. Flores lembra que os ultimos
-suspiros d’esta desventurada princeza
-«foram echos no céo para os desgraçados
-fins dos condes de Foix, e dos seus descendentes»,
-acabando o reino de Navarra
-n’aquella familia.<a id="FNanchor_5" href="#Footnote_5" class="fnanchor">[5]</a></p>
-
-<p>E conclue dizendo que enterraram D.
-Branca na cathedral de Lescar, <i>desde donde
-puede predicar á todo el mundo perpetuos
-desengaños</i>.</p>
-
-<p>Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, de Castella, impressionou-se
-pouco com a dilacerante carta da infeliz
-Branca, sua primeira mulher.</p>
-
-<p>O céo ou Beltrão de Lacueva havia-lhe
-dado uma filha; bastava esta só alegria para
-absorver-lhe todas as attenções.</p>
-
-<p>Dois mezes depois do baptizado, o rei<span class="pagenum"><a id="Page_46"></a>[46]</span>
-ordenou que a infanta D. Joanna fosse, em
-côrtes de Madrid, proclamada princeza das
-Asturias e herdeira do throno.</p>
-
-<p>Muitos fidalgos não quizeram jurar; entre
-elles, D. Luiz de Lacerda, conde de
-Medinaceli, a quem o rei prometteu mil
-vassallos para que jurasse, sem que o conde
-cedesse.</p>
-
-<p>D. Affonso e D. Isabel, os jovens tios da
-infanta recem-nascida, juraram, sujeitos, como
-estavam, á tutela do rei.</p>
-
-<p>A voz publica deu um cognome irrisorio
-á infanta. Chamou-lhe a <i>Beltraneja</i>. Este
-cognome recordava a sua origem adulterina:
-<i>Beltraneja</i>, a filha de Beltrão. Mas o
-rei Henrique nada d’isto sabia, ou queria
-saber. No dia dos seus annos deu a Beltrão
-o senhorio de Ledesma e o titulo de
-conde; chamou-o aos conselhos e governação
-do reino, e...</p>
-
-<p>E estimulou-o d’este modo a atear cada
-vez mais, por cupidez de maiores honras e
-proveitos, o fogo do seu amor á rainha.</p>
-
-<p>De feito, em 1463, foi declarado que D.
-Joanna ia novamente ser mãe. Mas um caso
-imprevisto mallograra essa esperança. Referindo-se
-á rainha, diz Lafuente:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_47"></a>[47]</span></p>
-
-<p>«Tinha o costume de humedecer e amaciar
-o cabello com um liquido, sem duvida
-inflammavel, e um dia, achando-se na sua
-camara, um forte raio de sol que entrava
-por uma janella e se projectava sobre
-a sua cabeça, incendiou-lhe o cabello, de
-modo que se as damas não fossem tão diligentes
-em acudir-lhe, haveria corrido o perigo
-de carbonizar-se. Mas tanto bastou
-para que o susto antecipasse o parto de
-um feto de seis mezes, que nasceu sem
-vida, e que pela circumstancia de ser varão
-produziu no rei maior pesar. Fizeram-se sinistros
-agoiros sobre o caso, e não faltou
-quem vaticinasse desgraças para o rei e a
-rainha.»</p>
-
-<p>Bem agoirado corria o tempo, mas era
-para D. Beltrão de Lacueva, que, graças á
-posição a que se guindara, tratou casamento
-com uma filha do marquez de Santilhana.
-D’este modo conseguia aparentar-se
-com a poderosa familia dos Mendonças. Estava
-na esteira para o méstrado de S.
-Tiago. Fazia sombra e receio ao marquez
-de Vilhena. Levantava-se n’um pedestal de
-oiro, e a conspiração, tão vulgar em todas<span class="pagenum"><a id="Page_48"></a>[48]</span>
-as côrtes, principalmente na de Castella,
-principiava a minar-lhe o pedestal.</p>
-
-<p>Entretanto, sobre as finas hollandas e
-custosas sedas, que alfaiavam o catresinho
-da princeza das Asturias cahia, como um
-enorme pingo de lama e fel, a risada sarcastica
-das multidões, appellidando-a de
-<i>Beltraneja</i>.</p>
-
-<p>E essa alcunha havia de ficar-lhe para
-toda a vida, como um ridiculo cruel agrilhoado
-ao seu triste destino.</p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_49"></a>[49]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak">III<br />
-<span class="smaller">DRAMAS DA POLITICA</span></h2>
-
-</div>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-a.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Affonso <span class="allsmcap">V</span>, de Portugal, regressando
-de Ceuta em 1464, desembarcou
-em Tavira, e dirigindo-se
-para o Alemtejo, passou
-a paschoa em Evora. D’ahi, <i>com alguns
-senhores e fidalgos escolhidos secretamente</i>,
-diz Ruy de Pina, foi em romaria a Santa
-Maria de Guadalupe, onde se avistou
-com sua irmã D. Joanna e com Henrique
-<span class="allsmcap">IV</span>, de Castella.</p>
-
-<p>O assumpto d’esta entrevista não era novo.
-Tratava-se de mais uma alliança conjugal
-entre as duas casas reinantes de Portugal
-e Castella.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_50"></a>[50]</span></p>
-
-<p>Já em Gibraltar se tinham avistado Affonso
-<span class="allsmcap">V</span> e Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, para identico fim,
-no mez de janeiro, ao tempo da desastrosa
-escalada de Tanger, ficando concertado que,
-a infanta D. Isabel casasse com el-rei D.
-Affonso <span class="allsmcap">V</span>, e a princeza das Asturias com o
-principe D. João, de Portugal, seu primo.<a id="FNanchor_6" href="#Footnote_6" class="fnanchor">[6]</a></p>
-
-<p>Na conferencia da paschoa, em Guadalupe,
-tiveram os dois monarchas, bem como
-a rainha D. Joanna, <i>as mesmas praticas
-e accordos de Gibraltar sobre casamentos
-e lianças</i>, diz Ruy de Pina.<a id="FNanchor_7" href="#Footnote_7" class="fnanchor">[7]</a> Esta
-nova conferencia, tão proxima da outra, revela
-apenas o desejo que Henrique <span class="allsmcap">IV</span> tinha
-de encontrar em Affonso <span class="allsmcap">V</span>, seu cunhado,
-um alliado que o protegesse contra as
-revoltosas peripecias da politica de Castella,
-cada vez mais agitada.</p>
-
-<p>Henrique <span class="allsmcap">IV</span> fizera a jornada de Guadalupe
-sem ouvir previamente o seu antigo
-valido marquez de Vilhena, que principiava
-a decahir rapidamente, offuscado por
-Beltrão de Lacueva, o novo astro da côrte.
-Vilhena não perdoara a affronta, e aproveitara<span class="pagenum"><a id="Page_51"></a>[51]</span>
-a ausencia do rei para conspirar
-contra elle de parceria com o arcebispo de
-Toledo.</p>
-
-<p>O almirante D. Fradique e seu filho, os
-condes de Benavente, Placencia, Alba e
-Paredes, o bispo de Coria e outros prelados,
-varios senhores e cavalleiros adheriram
-á conspiração. O mestre de Calatrava,
-irmão do marquez de Vilhena, propuzera-se
-sublevar a Andaluzia contra o rei.</p>
-
-<p>D. Henrique, surprehendido com este
-acontecimento, acobardou-se, e propoz aos
-conspiradores que voltassem á côrte, que
-elle os informaria de tudo o que se tinha
-passado com o rei de Portugal. Bem conheciam
-elles a fraqueza do monarcha castelhano!
-Porisso responderam á proposta
-de Henrique <span class="allsmcap">IV</span> impondo condições, uma
-das quaes era a prisão do arcebispo de Sevilha,
-que João Pacheco inculcava como figadal
-inimigo do rei. Esta denuncia não
-passava de um ardil do marquez de Vilhena,
-porque elle proprio mandara prevenir
-o arcebispo de que Henrique <span class="allsmcap">IV</span> intentava
-prendel-o. E assim conseguiria indispor contra
-o rei um prelado poderoso. Tal era o<span class="pagenum"><a id="Page_52"></a>[52]</span>
-plano de Vilhena: isolar o rei, indispondo-o
-com os seus mais dedicados amigos.</p>
-
-<p>A fraqueza do rei alentava a ousadia dos
-conspiradores.</p>
-
-<p>«Uma noite, conta Lafuente, achando-se
-(Henrique <span class="allsmcap">IV</span>) no seu palacio, ouviu cahir
-com estrondo as portas do regio alcaçar, e
-ruido e alvoroto de gentes que penetravam
-no palacio. Aturdido, o rei refugiou-se n’um
-pequeno retrete em companhia de D. Beltrão
-de Lacueva, conde de Ledesma.»</p>
-
-<p>Não deixa de ser altamente comica esta
-camaradagem do rei e de Beltrão, transidos
-de medo, no recinto pouco convidativo de
-um retrete, que, ainda assim, não deixaria
-de convir-lhes na occasião. De mais a mais,
-ha o que quer que seja de latrinario na
-baixeza do rei, lançado nos braços do homem
-que a voz publica indigitava como
-pae da infanta D. Joanna. Porisso, o logar
-era tão conveniente como proprio. O acaso
-tem ás vezes razão.</p>
-
-<p>Lafuente prosegue:</p>
-
-<p>«Os que de tão tumultuosa maneira haviam
-invadido os aposentos reaes, eram os
-condes de Benavente e de Paredes, o filho
-do almirante e outros cavalleiros de conta,<span class="pagenum"><a id="Page_53"></a>[53]</span>
-que, capitaneados por o de Vilhena, iam
-com animo de apoderar-se dos infantes, e
-de prender o rei e D. Beltrão de Lacueva.
-O de Vilhena entra só ao esconderijo do rei
-e, com a sua doble e arteira politica, finge-se
-indignado d’aquelle insulto, e, como
-quem zomba da debilidade do rei, excita-o
-a que não deixe de punir. «Parece-vos bem,
-marquez, disse-lhe o rei, isto que se fez ás
-minhas portas? Pódes estar certo de que já
-não tenho paciencia para mais.» Mas o resultado
-limitou-se a uma esteril e passageira
-indignação, e a sahir o de Vilhena com
-os seus impunemente do palacio, talvez por
-lhe não convir então levar as coisas mais
-longe.»</p>
-
-<p>Henrique <span class="allsmcap">IV</span> ou não conhecia o despeito
-de João Pacheco, vendo-se supplantado pelo
-amante da rainha, ou, aconselhado por
-Beltrão, em quem agora cegamente confiava,
-queria ageitar ao marquez de Vilhena
-occasião de se comprometter e perder-se.</p>
-
-<p>Mas Beltrão de Lacueva, se assim aconselhava
-o rei, devia lembrar-se de que entre
-Henrique <span class="allsmcap">IV</span> e João Pacheco havia antigos
-laços de suspeitosa amizade. Portanto,<span class="pagenum"><a id="Page_54"></a>[54]</span>
-devia tambem metter em linha de conta
-esse factor importantissimo.</p>
-
-<p>E, com effeito, um novo acontecimento
-veio demonstrar a sua importancia.</p>
-
-<p>Estavam em Segovia o rei, a rainha, a
-princeza das Asturias, os infantes e Beltrão.
-Os conspiradores tinham-se combinado
-com um capitão da guarda real e sua
-mulher, dama da infanta D. Isabel, para
-que por uma porta secreta os introduzisse
-nos quartos da familia real, que seria presa,
-e do favorito, que seria assassinado.</p>
-
-<p>O marquez de Vilhena entretinha o rei
-n’essa noite, conversando serenamente com
-elle, á espera que a conspiração rebentasse.
-Mas a conspiração descobriu-se, e Henrique
-<span class="allsmcap">IV</span> contentou-se com ouvir sobre o caso
-o marquez de Vilhena, que se fingia
-profundamente indignado contra os condes
-de Placencia e Alba, co-réos na conspiração
-mallograda.</p>
-
-<p>Entretanto, o rei, sem forças para romper
-abertamente com o seu antigo companheiro
-de prazeres, ia guindando ás supremas
-honras o amante da rainha. Fizera-o,
-finalmente, grão-mestre de S. Tiago.
-Beltrão de Lacueva attingia assim a alta<span class="pagenum"><a id="Page_55"></a>[55]</span>
-posição social que D. Alvaro de Luna deixara
-devoluta.</p>
-
-<p>João Pacheco revoltava-se cada vez mais,
-como valido decadente. Fizera com que os
-condes de Placencia e Alba pedissem uma
-entrevista ao rei entre S. Pedro de las
-Duenhas e Villacastin, sob pretexto de que
-queriam reconciliar-se com o marquez de
-Vilhena, e ouvir o rei sobre esse assumpto.
-Henrique <span class="allsmcap">IV</span> annuiu com a maior docilidade,
-fazendo-se acompanhar por Beltrão de
-Lacueva, pelo bispo de Calahorra, por outros
-fidalgos mais, pela sua guarda real e
-por um esquadrão de quinhentas lanças.</p>
-
-<p>Ainda d’esta vez escapou ao laço o pobre
-rei, porque dois mensageiros, largando
-a todo o galope, correram a avisal-o do perigo
-a que se expunha.</p>
-
-<p>Em vista d’este novo desastre, os conspiradores,
-desfraldando o pendão da revolta,
-foram acoitar-se em Burgos, e d’ahi formularam
-claramente as suas accusações contra
-o rei, enviando-lh’as por carta para Valhadolid.
-As principaes queixas dos conspiradores
-eram estas: haver nomeado grão-mestre
-de S. Tiago Beltrão de Lacueva,
-com prejuizo do infante D. Affonso, a quem<span class="pagenum"><a id="Page_56"></a>[56]</span>
-o grão-mestrado pertencia, como filho do
-rei D. João; <i>ter feito jurar herdeira do
-throno de Castella D. Joanna, devendo saber
-que não era sua filha legitima</i>. Os
-conspiradores concluiam por pedir como
-desaggravo que o infante D. Affonso fosse
-jurado herdeiro do throno.</p>
-
-<p>Pela primeira vez era a rainha formalmente
-accusada de adultera. Até ahi, as
-murmurações, comquanto geraes, não tinham
-chegado á ousadia de formular uma
-accusação categorica, dirigida ao proprio
-rei. Mas, desde esse momento, as conveniencias
-respeitosas foram calcadas, e D.
-Joanna, de Portugal, publicamente accusada
-de haver dado á luz uma filha de que
-seu marido não era o pae.</p>
-
-<p>Se o rei D. Duarte fôra ainda vivo, morreria
-de pesar, elle, que, no <i>Leal conselheiro</i>,
-escrevia a respeito da honestidade das
-mulheres portuguezas: «... ao presente eu
-não sei, nem oiço mulher de cavalleiro,
-nem outro homem de boa conta em todos
-meus reinos, que haja fama contraria de
-sua honra em guarda de lealdade; e passaram
-de cem mulheres, que el-rei e a rainha,
-meus senhores padre e madre, cujas<span class="pagenum"><a id="Page_57"></a>[57]</span>
-almas Deus haja, e nós, casamos de nossas
-casas, e prouve a Nosso Senhor que alguma,
-que eu saiba, nunca falleceu em tal erro
-dês que foi casada...»</p>
-
-<p>Pois era justamente contra uma dama
-portugueza, não simples esposa de cavalleiro,
-mas rainha de Castella pelo casamento,
-e filha de rei, de um rei que era ao
-mesmo passo o auctor do <i>Leal conselheiro</i>,
-era contra D. Joanna, de Portugal, que os
-revoltosos de Burgos publicamente fulminavam
-a accusação de adultera, barregã de
-um valido, como outra rainha de Castella,
-tambem portugueza, cujo amante, o pae de
-D. Leonor Telles, fôra assassinado, por ordem
-de Pedro, o Cruel, quando á sahida
-da cidade de Tóro dava o braço á rainha.</p>
-
-<p>Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, de instinctos menos carniceiros,
-não cuidou de assassinar ninguem.
-Até, pelo contrario, se mostrou zangado
-com o bispo de Cuenca por lhe aconselhar
-que punisse severamente os revoltosos.</p>
-
-<p>O pobre rei Henrique sanccionou a sua
-propria deshonra tão publicamente quanto
-a accusação o fôra, concedendo uma entrevista
-aos conspiradores entre as villas de
-Cigales e Cabezon, e accedendo a todas as<span class="pagenum"><a id="Page_58"></a>[58]</span>
-imposições que na entrevista lhe foram feitas.</p>
-
-<p>Obrigou-se o rei de Castella a entregar
-ao marquez de Vilhena o infante D. Affonso,
-seu irmão, <i>para que fosse jurado herdeiro
-e successor dos reinos</i>, com a condição
-de casar com a princeza D. Joanna; a
-fazer com que Beltrão de Lacueva resignasse
-o mestrado de S. Tiago em proveito
-do infante D. Affonso, e a nomear
-uma deputação de cinco membros que, reunida
-em Medina del Campo, regularia todas
-as differenças entre o rei e os dissidentes,
-que constituiam a liga revolucionaria.</p>
-
-<p>Assim aconteceu. D. Affonso foi jurado
-<i>legitimo successor do reino</i>; Beltrão de Lacueva
-renunciou ao mestrado, mas o rei
-fel-o, em compensação, duque de Albuquerque,
-doou-lhe varias villas, e arbitrou-lhe
-uma renda sobre outras villas; finalmente,
-o rei nomeou os membros da deputação,
-que lhe competia nomear, para que
-funccionassem com os membros eleitos pela
-junta.</p>
-
-<p>Desde este momento estava reconhecida
-por Henrique <span class="allsmcap">IV</span> a illegitimidade de D. Joanna,
-a infeliz princeza para quem a vida tão<span class="pagenum"><a id="Page_59"></a>[59]</span>
-tempestuosa amanhecia, e a deshonra da
-rainha sua mãe.</p>
-
-<p>Mas Henrique <span class="allsmcap">IV</span> não era homem que tivesse
-duvidas em mudar de opinião. Em
-Madrid fizera jurar D. Joanna por herdeira;
-em Medina del Campo concordava em que
-fosse jurado o infante D. Affonso. Porisso
-não admira que, recolhendo de Medina, désse
-por nullo o convenio que acceitara, e
-escrevesse aos da liga para que lhe restituissem
-o infante, seu irmão.</p>
-
-<p>O marquez de Vilhena e os seus responderam
-altivamente ás cartas do rei, fazendo
-um simulacro de deposição de Henrique <span class="allsmcap">IV</span>
-em Avila. O arcebispo de Toledo, e varios
-fidalgos, por suas proprias mãos, arrancaram
-solenemente as insignias reaes ao
-manequim, que representava o rei, e alçaram
-o pregão de: <i>Castella por el-rei D.
-Affonso</i>. Em seguida todos beijaram a mão
-ao infantesinho, que acabavam de acclamar.</p>
-
-<p>Quando Henrique <span class="allsmcap">IV</span> soube isto rompeu
-em lastimas, citou palavras de Job, accusou-se
-por haver alentado ingratos.</p>
-
-<p>Mas, como lastimas não valem, resolveu
-despachar cartas para todo o reino a pedir
-soccorro. E uma grande parte do reino<span class="pagenum"><a id="Page_60"></a>[60]</span>
-enviou-lh’o <i>para castigar a enormidade do
-desacato</i>, diz Lafuente, já que o rei havia
-deixado chegar as coisas a um tal extremo.
-Entre os fidalgos, que vieram collocar-se
-ao lado de Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, contavam-se Beltrão
-de Lacueva, duque de Albuquerque,
-e seu sogro, o marquez de Santilhana.</p>
-
-<p>Os sublevados sahiram de Avila por Penhaflor
-para acampar á vista de Simancas;
-mas esta villa conservou-se firme ao rei, e
-os seus habitantes parodiaram o feito de
-Avila simulando a deposição do arcebispo
-de Toledo, ao qual cognominaram <i>Dom
-Oppas</i>, que era o nome do traidor, arcebispo
-de Sevilha, no tempo do rei Rodrigo. E
-depois de arrastarem o manequim pelas
-ruas, queimaram-n’o n’uma fogueira, ao som
-d’esta trova:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0">Esta és Simancas,</div>
- <div class="verse indent0">Dom Oppas traidor;</div>
- <div class="verse indent0">Esta és Simancas,</div>
- <div class="verse indent0">Que no Penhaflor.</div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Em vista d’esta attitude energica, os revoltosos
-retiraram. O rei, apoiado na adhesão
-popular, poderia havel-os derrotado de
-vez. Mas, encantado pelas seducções do<span class="pagenum"><a id="Page_61"></a>[61]</span>
-marquez de Vilhena, a quem concedera
-uma entrevista, licenciou o exercito sob
-condição de que a liga renunciaria á acclamação
-do infante D. Affonso, e obedeceria
-ao rei.</p>
-
-<p>O que tinha feito, entretanto, por desaffrontar-se,
-a rainha de Castella, D. Joanna,
-cuja honra era publicamente conspurcada?
-O que fizera, por vingar sua irmã, o rei
-Affonso, de Portugal?</p>
-
-<p>D. Joanna avistou-se com seu irmão na
-provincia da Beira Baixa. Diz o padre Flores
-que a infanta D. Isabel acompanhou a
-rainha, e que a <i>Beltraneja</i> ficara, entretanto,
-a bom recado, no alcaçar de Segovia. O logar
-marcado para a entrevista foi a cidade
-da Guarda. Ahi expoz a rainha de Castella
-a triste situação em que se encontrava, e
-as difficuldades politicas em que seu marido
-se havia lançado. Como era natural, o primeiro
-movimento de Affonso <span class="allsmcap">V</span> foi de commiseração
-pela irmã, mas, posto o negocio
-em côrtes, que na Guarda se reuniram, e a
-que D. Joanna assistiu em nome do rei, seu
-irmão, a volubilidade de Henrique <span class="allsmcap">IV</span> não
-pesou menos na balança dos tres estados
-do que a deshonra da rainha de Castella:<span class="pagenum"><a id="Page_62"></a>[62]</span>
-«foi el-rei aconselhado, diz Pina, que em
-tal discordia e empresa nem lianças se não
-entremettesse, da qual coisa com a mais
-honestidade que poude se excusou.»</p>
-
-<p>E os factos occorridos em Castella vieram
-justificar este prudente conselho dado
-a Affonso <span class="allsmcap">V</span>.</p>
-
-<p>O rei Henrique, desprezando os fortes
-elementos de resistencia que o paiz lhe
-offerecia, licenciou os seus soldados, que
-se retiraram indignados. Fiado nas promessas
-do marquez de Vilhena, que, aliás, não
-cuidou de cumpril-as, mandou buscar a <i>Beltraneja</i>
-a Segovia, fel-a entrar em Samora
-debaixo de pallio, e reuniu-se depois com
-a rainha e com a infanta D. Isabel, que regressavam
-de Portugal, em Simancas.</p>
-
-<p>Toda Castella se resentia d’estes acontecimentos,
-a anarchia ia de foz em fóra, os
-malfeitores assolavam as povoações que,
-para resistir-lhes, e proteger-se a si proprias,
-faziam <i>hermandad</i>.<a id="FNanchor_8" href="#Footnote_8" class="fnanchor">[8]</a> Porêm, no meio<span class="pagenum"><a id="Page_63"></a>[63]</span>
-d’esta <i>degringolade</i> geral, custa a crer que
-ainda houvesse quem defendesse o rei!
-Pois havia. Valhadolid, aproveitando uma
-sahida do almirante D. Fradique com o infante
-D. Affonso, e a sua gente, sobre Arévalo,
-tomou de novo voz por D. Henrique,
-que logo se foi lá metter, sendo recebido
-com festas.</p>
-
-<p>Henrique <span class="allsmcap">IV</span> não se fortalecia com estas
-demonstrações de agrado. A sua fraqueza
-de espirito era tamanha, que acceitava todas
-quantas propostas os adversarios lhe
-fizessem.</p>
-
-<p>Vejamos. Pedro Giron, mestre de Calatrava
-e irmão do marquez de Vilhena, porventura
-já cansado de andar agitando a
-Andaluzia contra o rei, propoz a Henrique
-<span class="allsmcap">IV</span>, por intermedio do arcebispo de Sevilha,
-fazer pazes com elle, obrigando-se a servil-o
-com tres mil lanças, a emprestar-lhe
-sessenta mil dobras e a restituir-lhe o infante
-D. Affonso, sob a humilhante condição
-de que lhe seria concedida em casamento
-a infanta D. Isabel.</p>
-
-<p>Prompto! Henrique <span class="allsmcap">IV</span> acceitou logo a
-proposta. Deu de mão a Beltrão de Lacueva,
-e chamou para a côrte o mestre de<span class="pagenum"><a id="Page_64"></a>[64]</span>
-Cacalatrava, tratando ao mesmo tempo de obter
-de Roma a dispensa para que elle pudesse
-casar, visto ser grão-mestre de uma ordem
-religiosa.</p>
-
-<p>Mas Henrique <span class="allsmcap">IV</span> esquecia-se de que sua
-irmã Isabel, comquanto menina de dezeseis
-annos, não era tão malleavel como elle.
-Mais nova ainda, depois da entrevista de
-Guadalupe, oppuzera resistencia a casar-se
-com Affonso <span class="allsmcap">V</span>, allegando que era precisa
-licença das côrtes. Agora, mais desenvolvida
-a sua energia de castelhana, não deixaria
-de oppor uma seria resistencia, tanto
-mais que tinha a seu lado uma dama dedicadissima,
-D. Beatriz de Bobadilha, a qual,
-tirando um punhal, dissera uma noite á infanta:
-«Primeiro o cravarei eu no coração
-do mestre de Calatrava.»</p>
-
-<p>Pedro Giron, chamado pelo rei, apressou-se
-a jornadear de Almagro para Madrid,
-com grande sequito de cavalleiros.
-Mas ao segundo dia de Jornada adoeceu
-gravemente em Villarrubia, e a breve trecho
-morreu <i>com pouca edificação christã</i>.
-Morreu raivando e praguejando, por não
-chegar a ver realizado o seu ideal.</p>
-
-<p>Os chronistas castelhanos põem a virtude<span class="pagenum"><a id="Page_65"></a>[65]</span>
-da infanta D. Isabel acima de toda a
-suspeita n’esta morte. Cremos que fosse
-assim, mas é possivel que, mesmo sem conhecimento
-da infanta, alguem envenenasse
-o grão-mestre de Calatrava.</p>
-
-<p>A infanta D. Isabel poude, emfim, respirar,
-mas o estado anarchico do paiz continuou
-o mesmo. Fizeram-se conferencias em
-Madrid, cidade que foi posta em poder do
-arcebispo de Sevilha, entre o rei e os revoltosos.
-Não deram resultado, como tantas
-outras conferencias. N’estas aguas turvas
-só o marquez de Vilhena logrou pescar,
-porque um bello dia nomeou-se a si proprio
-grão-mestre de S. Tiago, sem se importar
-com o rei, nem com o principe Affonso,
-nem com a côrte, nem com o papa,
-mas importando-se apenas com a sua muito
-alta e poderosa pessoa.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_66"></a>[66]</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_67"></a>[67]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak">IV<br />
-<span class="smaller">MÃE E FILHA</span></h2>
-
-</div>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-a.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">A anarchia continuava desenfreada.</p>
-
-<p>Se as coisas iam mal quando
-um só rei, o fraco D. Henrique,
-dominava em Castella, muito peor
-corriam agora que dois reis adversarios,
-posto que irmãos, dividiam o paiz em continuas
-luctas civis, duplamente fratricidas.</p>
-
-<p>Uma d’essas luctas travou-se a 20 de
-agosto de 1467, nas planicies de Olmedo,
-entre os partidarios de Affonso e Henrique.</p>
-
-<p>No numero dos cavalleiros promptos a
-combater pelo rei Henrique estava Beltrão
-de Lacueva. Sobre elle recahiam principalmente<span class="pagenum"><a id="Page_68"></a>[68]</span>
-os odios dos adversarios, e tanto
-que o arcebispo de Sevilha lhe enviou um
-mensageiro com recado de que quarenta
-cavalleiros de D. Affonso e do arcebispo
-de Toledo haviam feito voto solenne de
-matal-o no combate que ia empenhar-se.
-Beltrão respondeu com altivez castelhana
-que reparasse bem o mensageiro nas armas
-e insignias, que trazia vestidas, para
-que os que alli o mandaram pudessem, por
-sua informação, reconhecer facilmente o
-duque de Albuquerque.</p>
-
-<p>O combate travou-se com impeto, e o
-duque de Albuquerque defendeu-se valorosamente
-dos golpes que lhe vibravam os
-que haviam jurado matal-o. Valeu-lhe n’um
-aperto perigoso o marquez de Santilhana,
-seu sogro. O duque portou-se bravamente;
-de um lado e do outro combateu-se com
-ardor; porêm, no fim da peleja, a victoria
-não fôra decisiva nem para uns, nem para
-outros.</p>
-
-<p>D. Affonso esteve no campo, combatendo
-entre os seus, mas D. Henrique julgou
-mais prudente retirar-se, com trinta ou quarenta
-cavallos, para uma povoação immediata.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_69"></a>[69]</span></p>
-
-<p>Um acontecimento politico veio, porêm,
-aggravar a situação do rei Henrique: a infanta
-D. Isabel juntara-se com seu irmão
-D. Affonso.</p>
-
-<p>Vejamos qual era, pouco antes, a situação
-da familia real.</p>
-
-<p>A rainha com a infanta D. Isabel estavam
-em Segovia, e ahi tinham n’esse momento
-todo o seu thesoiro e joias. A <i>Beltraneja</i>
-havia sido entregue ao conde de
-Tendilha, para que a guardasse em Buitrago.
-Os rebeldes lograram tomar Segovia, e
-a rainha refugiara-se no castello, mas a infanta
-D. Isabel teimou em ficar no palacio,
-a fim de poder juntar-se com seu irmão.
-Foi o que succedeu. Tambem os rebeldes
-se apoderaram do alcacer, sendo a rainha
-conduzida em refens, sob a vigilancia do
-arcebispo de Sevilha, ao castello de Alaejos,
-onde iremos encontral-a.</p>
-
-<p>O acto praticado pela infanta D. Isabel
-parecia dever reforçar a attitude dos affonsinos,
-mas não aconteceu assim, porque elles
-tinham no seu proprio seio grandes elementos
-de discordia. Um d’esses elementos
-era o marquez de Vilhena, cuja ambição
-abhorrecia aos seus mesmos amigos. Porisso<span class="pagenum"><a id="Page_70"></a>[70]</span>
-os condes de Placencia e Miranda e o arcebispo
-de Toledo passaram-se para o partido
-do rei, e Vilhena correu risco de ser assassinado
-pelo genro, o conde de Benavente.</p>
-
-<p>Um outro acontecimento, verdadeiramente
-inesperado, veio pôr em confusão os affonsinos.
-A 5 de julho de 1468, estando D.
-Affonso na villa de Cardenosa, a duas leguas
-de Avila, foi atacado de um somno
-profundissimo logo depois de haver comido.
-Pela manhã, como não sahisse da camara,
-foram chamal-o: estava morto. O veneno
-havia produzido o seu effeito. D. Affonso
-morrera uma creança, quinze annos
-apenas.</p>
-
-<p>Os affonsinos, aturdidos com este golpe,
-recolheram-se a Avila. Ahi pensaram no
-que deviam fazer. Resolveram offerecer o
-throno a D. Isabel, mas a infanta respondeu
-com hombridade: que em quanto seu
-irmão D. Henrique fosse vivo, o rei legitimo
-era elle.</p>
-
-<p>Desde esse momento a posição de Henrique
-<span class="smcap">iv</span> seria facil, se elle tivera mais energia.
-Podia impor-se, mas não fez assim.
-O marquez de Vilhena propoz em nome
-dos conjurados prestar-lhe obediencia se<span class="pagenum"><a id="Page_71"></a>[71]</span>
-o rei consentisse em reconhecer D. Isabel
-como herdeira do throno. Henrique <span class="smcap">iv</span> annuiu
-logo.</p>
-
-<p>O marquez de Santilhana e todos os
-Mendonças, a cuja guarda estava confiada a
-<i>Beltraneja</i>, indignaram-se com este procedimento
-do rei. Sahiram immediatamente
-da côrte. A rainha D. Joanna estava, como
-dissemos, em poder do arcebispo de Sevilha
-no castello de Alaejos, e parece que
-um sobrinho do arcebispo, de nome D. Pedro,
-entretivera por algum tempo os ocios
-da rainha captiva.<a id="FNanchor_9" href="#Footnote_9" class="fnanchor">[9]</a></p>
-
-<p>Mas os Mendonças encarregaram D. Luiz
-Furtado de arrancar a rainha ao seu captiveiro.
-Uma noite, D. Joanna desceu por
-uma janella do castello, ferindo-se na descida.
-Luiz Furtado pol-a sobre as ancas da
-mula, e a largo trote a levou para Buitrago,
-onde sua filha estava.</p>
-
-<p>Entretanto concertava o rei com os confederados
-as bases do accordo: D. Isabel<span class="pagenum"><a id="Page_72"></a>[72]</span>
-seria jurada herdeira do throno, e ser-lhe-iam
-dadas para seu corregimento varias cidades
-e villas; reunir-se-iam côrtes para
-sanccionar estes actos; D. Isabel não seria
-constrangida a casar, nem casaria sem consentimento
-do rei; a rainha considerar-se-ia
-como divorciada, seria enviada para fóra
-do reino, e não poderia levar comsigo a filha.</p>
-
-<p>Henrique <span class="allsmcap">IV</span> acceitou de boamente todas
-estas condições humilhantes. Ouviu ler
-o documento comprovativo da sua propria
-deshonra. «Item, porquanto ao dicto senhor
-rei, e commumente em todos estes reinos e
-senhorios é publico e manifesto, que a rainha
-D. Joanna, de um anno a esta parte,
-não tem usado limpamente de sua pessoa
-como cumpre á honra do dicto senhor rei,
-nem sua; e outrosim o dicto senhor rei é informado
-que não foi nem está legitimamente
-casado com ella... etc.» Henrique
-<span class="allsmcap">IV</span> assignou, e dirigiu-se com sua irmã para
-o campo de Toros de Guisando, onde D.
-Isabel foi solennemente jurada herdeira do
-throno, com assistencia de nobres e prelados,
-e do legado pontificio que, em nome
-do papa, desligou todos os presentes de<span class="pagenum"><a id="Page_73"></a>[73]</span>
-quaesquer outros juramentos, que houvessem
-feito.</p>
-
-<p>O marquez de Vilhena aproveitou a occasião
-para ser confirmado na posse do
-mestrado de S. Tiago, e o rei Henrique
-julgou-se por certo o mais ditoso dos homens
-coroados.</p>
-
-<p>A rainha, tendo conhecimento da intervenção
-do legado pontificio no reconhecimento
-dos direitos da infanta D. Isabel, enviou
-Luiz Furtado, o seu salvador do castello
-de Alaejos, a protestar junto do representante
-do papa, ameaçando-o de fazer
-subir o seu recurso a Roma, se elle a não
-attendesse. A familia dos Mendonças, fiel ao
-partido da rainha, vira com indignação tudo
-quanto se passava. O marquez de Vilhena
-soube-o, e tratou logo de explorar a indignação
-dos Mendonças, a fim de obstar a
-que a infanta D. Isabel viesse a casar com
-o infante D. Fernando de Aragão, casamento
-a que a infanta se inclinava, e que
-o arcebispo de Toledo promovia. Era uma
-razão de interesse pessoal, como sempre, a
-que demovia n’este lance o marquez de Vilhena.
-Tinham sido encorporadas no seu
-marquezado muitas das propriedades<span class="pagenum"><a id="Page_74"></a>[74]</span>
-sequestradas aos infantes de Aragão, e temia
-perdel-as pelo casamento da infanta com
-um principe d’aquella casa real. Então o
-marquez de Vilhena não duvidou fortalecer
-com o seu apoio o partido da rainha e, para
-obstar ao casamento que o contrariava,
-renovou o antigo alvitre de que a infanta
-D. Isabel desposasse D. Affonso <span class="allsmcap">V</span>, de Portugal,
-e a princeza D. Joanna o principe
-herdeiro portuguez: no caso da infanta não
-ter filhos de Affonso, o <i>Africano</i>, succederiam
-no throno de Castella os que a <i>Beltraneja</i>
-houvesse dado ao principe D. João.</p>
-
-<p>Houve idéa de que a rainha D. Joanna
-viesse pessoalmente a Portugal tratar d’estas
-allianças. Mas a pobre rainha, que continuava
-a ser perseguida pelo arcebispo de
-Sevilha, a cujo poder lograra subtrahir-se,
-receou que fosse esse um pretexto para
-não a deixarem voltar a Castella. Venceu a
-rainha; não veio a Portugal. De mais a mais
-a infanta D. Isabel tomara uma attitude
-energica, recusava tenazmente casar com
-Affonso <span class="allsmcap">V</span>.</p>
-
-<p>Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, incoherente, como sempre,
-escreveu de seu proprio punho ao papa
-para que não confirmasse a successão de<span class="pagenum"><a id="Page_75"></a>[75]</span>
-D. Isabel; ao mesmo passo sollicitava a
-confirmação pontificia aos direitos da <i>Beltraneja</i>.
-Escrevia tambem ao rei de Portugal
-para que insistisse em desposar a infanta.<a id="FNanchor_10" href="#Footnote_10" class="fnanchor">[10]</a>
-«Estas cartas, diz o padre Flores,
-foram entregues ao chronista D. Diogo
-Henriques de Castilho (a quem seguimos)
-para que secreta e promptamente as levasse
-a Buitrago, onde estava a rainha com sua
-filha, e fossem dirigidas com presteza a Lisboa
-e a Roma, como aconteceu, com grande
-sentimento do arcebispo de Sevilha (quando
-o soube), mas sem alvoroto, por mediar o
-mestre de S. Tiago.»</p>
-
-<p>Affonso <span class="allsmcap">V</span> estava lançado no plano inclinado
-do desastre. Obedeceu ao pedido. A
-historia do segundo casamento do rei portuguez,
-nunca realizado, é uma serie de
-<i>fiascos</i>, como hoje dizemos; o egregio vencedor
-de Africa collocara-se n’um terreno
-escorregadio, e fora resvalando até abysmar-se
-no ridiculo.</p>
-
-<p>Segundo o testemunho de Lafuente, que
-se póde contraprovar em Damião de Goes,<a id="FNanchor_11" href="#Footnote_11" class="fnanchor">[11]</a><span class="pagenum"><a id="Page_76"></a>[76]</span>
-Affonso <span class="allsmcap">V</span> enviara a Ocanha, onde estava
-Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, uma <i>solenne embaixada</i> a pedir
-a mão da infanta D. Isabel.<a id="FNanchor_12" href="#Footnote_12" class="fnanchor">[12]</a> De Roma
-chegara a vir uma bulla de Paulo <span class="allsmcap">II</span>, dispensando
-para o matrimonio da infanta D.
-Isabel com seu tio D. Affonso <span class="allsmcap">V</span>.<a id="FNanchor_13" href="#Footnote_13" class="fnanchor">[13]</a> Assim
-respondia o rei portuguez á carta de seu
-cunhado. Mas essa embaixada solenne chegava
-tarde a Castella. O arcebispo de Toledo
-apressara-se a tratar o casamento da
-infanta com D. Fernando de Aragão, que
-já a esse tempo se intitulava rei da Sicilia.</p>
-
-<p>O prelado não perdera tempo, nem podia
-perder, porque o marquez de Vilhena e o
-rei estavam dispostos a vencer pela força a
-tenacidade da infanta. Pensaram em mandal-a
-presa para o alcacer de Madrid, mas
-recearam-se dos habitantes de Ocanha que
-ridicularizavam em chistes e satiras as pretensões
-de um viuvo de trinta e sete annos,
-como era então Affonso <span class="allsmcap">V</span>, á mão de uma
-donzellinha de dezoito, que naturalmente
-lhe preferia um rapaz da sua idade, a mais
-florente de vida.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_77"></a>[77]</span></p>
-
-<p>Era certo que, pelo tratado de Toros de
-Guisando, a infanta D. Isabel não podia casar
-sem consentimento do rei, seu irmão.
-Mas o que valiam tratados em Castella, sobretudo
-no tempo de Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, que tão
-depressa os fazia como desfazia?!</p>
-
-<p>O arcebispo de Toledo não perdera tempo,
-dissemos nós. E não podia perder, porque,
-alem de Affonso <span class="allsmcap">V</span>, pretendiam a mão da infanta
-o duque de Guyena, irmão de Luiz
-<span class="allsmcap">XI</span>, e um irmão do rei Eduardo <span class="allsmcap">IV</span>, de Inglaterra.</p>
-
-<p>O rei Henrique tivera que passar á Andaluzia,
-para socegar aquella provincia. Antes
-de partir pediu á irmã que não abusasse
-da sua ausencia. A infanta prometteu, mas
-por conselho do arcebispo, e a pretexto de
-fazer trasladar para Avila o cadaver de seu
-irmão Affonso, sahiu de Ocanha para o Madrigal,
-onde estava sua mãe, a rainha viuva.
-Estava, porêm, em Madrigal o bispo de Burgos,
-sobrinho do marquez de Vilhena, que
-andava com o rei pela Andaluzia. O bispo
-informava o tio do que se passava. A espionagem
-era infatigavel; choviam as ameaças
-contra as damas da infanta, e contra ella
-propria, que ia ser presa por ordem do rei,<span class="pagenum"><a id="Page_78"></a>[78]</span>
-quando o arcebispo de Toledo e o almirante
-D. Fradique conseguiram arrancal-a á
-vigilancia dos espiões açulados pelo marquez
-de Vilhena, e leval-a em triumpho para
-Valhadolid.</p>
-
-<p>O arcebispo fez partir emissarios de sua
-inteira confiança para Aragão a chamar o
-infante D. Fernando. A viagem dos emissarios,
-que temiam ser descobertos, foi accidentada
-de peripecias arriscadas. Chegaram
-a Saragoça, e conferenciaram com o
-infante. Foi combinado, que este partisse
-apenas acompanhado por seis cavalleiros,
-disfarçados de mercadores, e que por outro
-caminho sahisse uma partida figurando uma
-embaixada do rei de Aragão a Henrique <span class="allsmcap">IV</span>.
-Sobre a falsa embaixada deviam incidir as
-attenções do publico, e as vistas dos espiões
-de Henrique <span class="allsmcap">IV</span>.</p>
-
-<p>Os seis cavalleiros jornadeavam de noite.
-O infante disfarçara-se em criado; nas poisadas
-tratava dos cavallos, e servia á mesa.
-Foi assim que os conspiradores conseguiram
-atravessar por entre os soldados do rei,
-que cruzavam vigilantes as estradas, e passar
-incolumes sob a linha de fortificações
-dos Mendonças, desde Almazan a Guadalajara.<span class="pagenum"><a id="Page_79"></a>[79]</span>
-Uma noite, porêm, o infante esteve em
-risco de ser victima. Chegaram ao burgo de
-Osma, mortos de cançaço e frio. Chamaram
-á porta do castello do conde de Trevinho,
-que era partidario de D. Isabel. A sentinella,
-julgando serem inimigos, arrojou do alto do
-adarve uma pedra enorme, que passou junto
-á cabeça do infante. O chronista Palencia,
-que era da partida, deu então um grito; a
-sua voz foi reconhecida, e a porta do castello
-aberta. Restaurada de forças, a cavalgada
-seguiu viagem, e dois dos cavalleiros
-anteciparam-se para dar a boa nova á infanta.</p>
-
-<p>Chegaram aos ouvidos do rei os rumores
-da conspiração. Henrique <span class="allsmcap">IV</span> deu-se pressa
-em regressar da Andaluzia, e em Trujilho
-recebeu uma carta de D. Isabel participando-lhe
-a sua resolução de casar com o infante
-D. Fernando, e fazendo em nome de
-ambos muitos protestos de obediencia ao
-rei se elle não contrariasse este casamento,
-cujas vantagens para a monarchia a infanta
-ponderava.</p>
-
-<p>Fernando de Aragão completou a viagem
-com os quatro cavalleiros que lhe restavam.
-Chegou de noite a Valhadolid, ás casas onde<span class="pagenum"><a id="Page_80"></a>[80]</span>
-a infanta poisava. O arcebispo de Toledo levou-o
-á presença de Isabel, e Gutierres de
-Cárdenas, vendo entrar o infante, mancebo
-de dezoito annos, elegante e robusto, exclamou:
-<i>Ese es, ese es.</i><a id="FNanchor_14" href="#Footnote_14" class="fnanchor">[14]</a></p>
-
-<p>O casamento effectuou-se d’ahi a poucos
-dias, a 19 de outubro de 1469.<a id="FNanchor_15" href="#Footnote_15" class="fnanchor">[15]</a> Estava, pois,
-dado o primeiro passo para a unidade hespanhola;
-esse casamento unia duas monarchias.</p>
-
-<p>Celebradas as nupcias, os noivos enviaram
-uma embaixada a Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, participando-lhe
-que o casamento se havia realizado,
-remettendo-lhe copia das capitulações
-matrimoniaes, e assegurando-lhe obediencia,
-no caso do rei approvar o que estava feito.</p>
-
-<p>A colera de Henrique <span class="allsmcap">IV</span> foi enorme. Não
-lhe ficou inferior a do marquez de Vilhena,
-que havia perdido a partida. Toda a côrte
-era um vulcão de odios, que explodiam. Esperava-se
-apenas a hora da vingança, e essa
-hora pareceu haver soado quando uma
-embaixada de Luiz <span class="allsmcap">XI</span> chegou, a pedir a<span class="pagenum"><a id="Page_81"></a>[81]</span>
-mão da <i>Beltraneja</i> para o duque de Guyena,
-seu irmão e porventura herdeiro, que a
-infanta D. Isabel havia rejeitado.</p>
-
-<p>Esta embaixada fortaleceu momentaneamente
-a causa da <i>Beltraneja</i>.</p>
-
-<p>Foi recebida com grandes festas e pompa.
-O cardeal de Albi, um dos emissarios
-de Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, perguntou solennemente á rainha
-se a princeza D. Joanna era effectivamente
-filha do rei Henrique <span class="allsmcap">IV</span>. A que baixezas
-tinham nascido predestinadas a irmã
-e a sobrinha de Affonso <span class="allsmcap">V</span>! A rainha respondeu
-affirmativamente. Depois repetiu a
-pergunta o rei, e D. Joanna repetiu a affirmativa.
-Então todos os prelados e cavalleiros
-presentes beijaram a mão da <i>Beltraneja</i>,
-outra vez reconhecida herdeira do throno.
-A infanta D. Isabel, não obstante haver
-escripto uma nova carta de conciliação ao
-rei, e appellado para a arbitragem do bom
-conde de Haro, Fernandes de Velasco, que
-era tido em Castella como o mais serio caracter
-d’aquelle tempo, foi desherdada.</p>
-
-<p>Henrique <span class="allsmcap">IV</span> publicou contra sua irmã
-Isabel, já então mãe, um manifesto injurioso;
-a infanta respondeu com outro, incriminando
-o procedimento do rei. Entretanto<span class="pagenum"><a id="Page_82"></a>[82]</span>
-nascera um filho de Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, o que afastava
-o conde de Guyena da successão do
-throno de França. Chegaram, não obstante,
-a fazer-se as capitulações matrimoniaes,
-mas o enthusiasmo de Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, por esse
-casamento, esfriara desde que a Luiz <span class="allsmcap">XI</span>
-nascera um filho.</p>
-
-<p>Diz o padre Flores que todas as diligencias
-se mallograram por ter morrido o noivo
-da <i>Beltraneja</i>. Esta asserção carece de
-reparo. O duque de Guyena só morreu, em
-Bordeus, em maio de 1472. Elle mesmo havia
-manifestado tambem pouca vontade de
-realizar o casamento contractado, chegando
-a solicitar a mão da herdeira do ducado de
-Borgonha. De parte a parte havia frieza.
-Ruy de Pina vem em reforço do que dizemos,
-noticiando varias embaixadas entre as
-côrtes de Portugal e Castella, em 1470 e
-1471,<a id="FNanchor_16" href="#Footnote_16" class="fnanchor">[16]</a> para tratar de casamentos. Mas como
-D. Isabel houvesse casado com o infante
-de Aragão, rei da Sicilia, e o infante D.
-João, de Portugal, houvesse casado em Setubal,
-a 22 de Janeiro de 1471, com sua prima
-D. Leonor, Henrique <span class="allsmcap">IV</span> e Affonso <span class="allsmcap">V<span class="pagenum"><a id="Page_83"></a>[83]</span></span>
-avistaram-se <i>entre Elvas e Badajoz</i> para
-combinar o casamento da <i>Beltraneja</i> com
-o rei de Portugal.<a id="FNanchor_17" href="#Footnote_17" class="fnanchor">[17]</a></p>
-
-<p>D. Joanna e sua filha não assistiram a
-esta entrevista. Ficaram em Escalona, acompanhadas
-pelo bispo de Burgos.</p>
-
-<p>Diz Pina que D. Isabel e D. Fernando
-enviaram embaixadores á entrevista, a fim
-de obstarem ao casamento de Affonso <span class="allsmcap">V</span>
-com sua sobrinha. O rei de Portugal reuniu
-muitas vezes conselho para tratar d’este
-assumpto, mas sempre, em quanto Henrique
-<span class="allsmcap">IV</span> viveu, sobrevieram duvidas e receios
-de graves complicações entre os dois
-paizes.</p>
-
-<p>O padre Flores escreve que, em todas
-estas negociações, o rei de Portugal tinha
-grande desconfiança do mestre de S. Tiago.
-É natural que assim fosse, mas tambem
-é natural que influisse no animo de
-Affonso <span class="allsmcap">V</span> a importancia que tinha realmente
-o partido de D. Isabel.</p>
-
-<p>Como quer que seja, a causa da <i>Beltraneja</i>
-perdia terreno. Quatro novos projectos<span class="pagenum"><a id="Page_84"></a>[84]</span>
-de casamento se haviam frustrado:
-com o duque de Guyena, com D. Fradique,
-filho do rei de Napoles, com D. Henrique
-Fortuna, primo coirmão do marido de
-D. Isabel, e com D. Affonso, de Portugal.
-Mas, alem d’estes, ainda houve um outro
-projecto mais antigo, como sabemos, relativo
-ao infante D. Affonso, que morrera.
-Andava a mão da pobre infanta em almoeda,
-e ninguem a queria! A familia dos Mendonças
-afrouxara tambem no seu enthusiasmo
-pela causa da <i>Beltraneja</i>, logo que o
-rei lhe arrancara a infanta para a confiar á
-guarda do mestre de S. Tiago.</p>
-
-<p>Ao passo que a má estrella da <i>Beltraneja</i>
-parecia brilhar cada vez mais sinistra
-no horizonte do seu triste destino, os partidarios
-de D. Isabel logravam vantagens.
-Um d’elles, André de Cabrera, mordomo-mór
-do rei e marido de D. Beatriz de Bobadilha,
-amiga dedicada de D. Isabel, pensou
-em reconciliar o rei com a irmã. Soube-o
-fazer com fina diplomacia. D. Beatriz
-foi a Aranda, disfarçada em camponeza,
-perguntar á infanta se não teria duvida em
-avistar-se com o rei em Segovia. D. Isabel
-annuiu. Cabrera venceu, por certo, sem<span class="pagenum"><a id="Page_85"></a>[85]</span>
-grande difficuldade, as hesitações do fraco
-rei Henrique.</p>
-
-<p>Os dois irmãos avistaram-se em Segovia.
-Era isto em dezembro de 1473. O rei não
-só se reconciliou com a irmã, mas quiz honral-a
-publicamente, levando de redea a mula,
-em que a infanta montava, atravez das ruas,
-ao som de musicas festivas. O mestre de S.
-Tiago, desairado por estas secretas negociações,
-retirou-se da côrte.</p>
-
-<p>Entretanto, a infanta D. Isabel, á qual
-viera juntar-se o infante de Aragão, continuava
-a estar nas boas graças do rei. Banqueteavam-se
-juntos, e foi n’um d’esses banquetes,
-dado por André de Cabrera que,
-no domingo de <i>Reis</i> de 1474, o rei se sentiu
-indisposto depois de ceia. Fernando e
-Isabel visitavam na sua doença Henrique
-<span class="allsmcap">IV</span>, mas não conseguiam arrancar-lhe a confirmação
-dos seus direitos ao throno. Por
-sua parte, o mestre de S. Tiago procurava
-desforrar-se do desaire recebido, procurando
-infundir suspeitas de que os infantes
-houvessem envenenado o rei.</p>
-
-<p>Voltando á côrte, o grão-mestre induzia
-o rei a apoderar-se dos infantes, e assim<span class="pagenum"><a id="Page_86"></a>[86]</span>
-teria acontecido se o plano não fosse denunciado
-a Fernando e Isabel.</p>
-
-<p>O rei melhorara, mas a sua saude tornara-se
-melindrosa. Não obstante, João Pacheco,
-senhoreando outra vez o espirito de
-Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, fez com que o rei o acompanhasse
-a Trujilho, para que o investisse na
-posse d’aquella cidade, diz Lafuente; para
-concertarem d’alli secretamente o casamento
-de D. Joanna com Affonso <span class="allsmcap">V</span>, diz Zurita.</p>
-
-<p>É certo que João Fernandes da Silveira,
-depois barão de Alvito, chegou a ir a Castella
-encarregado d’este negocio.<a id="FNanchor_18" href="#Footnote_18" class="fnanchor">[18]</a> Mas a
-viagem aggravara os padecimentos do rei.
-Retiraram porisso de Trujilho, mas, a duas
-leguas da cidade, João Pacheco, acommettido
-de uma inflammação de garganta, morreu
-deitando muito sangue pela bocca.</p>
-
-<p>A morte de João Pacheco, marquez de
-Vilhena e grão-mestre de S. Tiago, impressionou
-o rei. Aquelle homem fôra o companheiro
-dos seus deboches quando principe,
-e o instigador de grande parte dos seus
-actos como rei; habituara-se a elle. Sentia-lhe
-agora a falta. Preso a esse cadaver por<span class="pagenum"><a id="Page_87"></a>[87]</span>
-laços torpes, honrara-lhe a seu modo a memoria,
-fazendo o filho de João Pacheco
-marquez de Vilhena e grão-mestre de S.
-Tiago, sem sequer consultar os cavalleiros
-da ordem.</p>
-
-<p>Levantaram-se reclamações e protestos,
-que o rei teve de reprimir com varias expedições.
-Este esforço quebrantou-lhe as
-ultimas forças. Abandonou a lucta, para voltar
-a Madrid, cada vez mais doente. Morreu
-a 11 de dezembro d’esse mesmo anno de
-1474.</p>
-
-<p>Assim acabou, n’este rei fraco e nefando,
-a linha varonil da dynastia Trastamara.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_88"></a>[88]</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_89"></a>[89]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak">V<br />
-<span class="smaller">POR CAUSA DE UMA COROA</span></h2>
-
-</div>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-o.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">O veneno, propinado ao rei Henrique
-durante as festas de Segovia
-em honra de sua irmã D.
-Isabel,<a id="FNanchor_19" href="#Footnote_19" class="fnanchor">[19]</a> produzira o desejado
-effeito, como vimos. O rei fallecera em Madrid,
-onde estava sua filha D. Joanna entregue
-aos cuidados do novo marquez de
-Vilhena, Diogo Lopes Pacheco. Mas a rainha<span class="pagenum"><a id="Page_90"></a>[90]</span>
-achava-se ausente, <i>apartada da côrte
-por seu deshonesto viver</i>.<a id="FNanchor_20" href="#Footnote_20" class="fnanchor">[20]</a></p>
-
-<p>Como quer que seja, vamos encontral-a,
-depois da morte do rei, habitando um predio
-junto á egreja de S. Francisco, de Madrid,
-que fôra demolida no anno de 1760.
-Parece que D. Joanna, sentindo o cançaço
-de uma vida tempestuosa, procurara o refugio
-de uma especie de cenobio, d’onde,
-em tribuna privativa, podia assistir aos officios
-religiosos que se celebravam no templo.</p>
-
-<p>São mais ou menos suspeitos de paixão
-politica os historiadores castelhanos, que
-se occupam do procedimento da rainha.
-Uns, como Henriques de Castilho, pertencem
-á parcialidade do rei; outros, como
-Pulgar, militavam na facção de D. Isabel.
-O padre Flores, querendo mostrar-se imparcial,
-chama <i>pelago insondavel</i> ao conceito
-que da infeliz rainha se fazia em Castella.</p>
-
-<p>Um historiador portuguez, o auctor da
-<i>Historia genealogica</i>, escreve que D. Joanna
-fôra «formosa, viva, e naturalmente alegre;<span class="pagenum"><a id="Page_91"></a>[91]</span>
-era moça, e mais desenvolta do que
-convinha á sua real pessoa, o que deu motivo
-a diversos juizos, que se augmentaram
-pelo pouco caso que el-rei d’isso fazia; do
-que nasceu alguns cuidarem, e outros fingirem,
-e lhe levantarem, que era pouco honesta,
-e que el-rei lh’o consentia.»</p>
-
-<p>Um d’esses taes é Antonio de Lebrixa, o
-qual escreveu que era o proprio Henrique
-<span class="allsmcap">IV</span> que alcovitava a rainha a um seu privado
-(Beltrão de Lacueva).</p>
-
-<p>Damião de Goes censura Lebrixa por affirmar
-<i>ex cathedra, sem ser testemunha de
-vista</i>, a infamia da rainha; mas acaba por
-dizer que a fama da impotencia de Henrique
-<span class="allsmcap">IV</span> era falsa, comquanto não houvesse
-sido <i>testemunha de vista</i>, elle proprio...</p>
-
-<p>Nós estamos escrevendo a distancia de
-tempo a que os acontecimentos avultam
-em todo o relevo da sua nudez historica.
-Cahiu já desfeito, pela acçao implacavel dos
-seculos, o véo que a paixão politica entretece,
-e que não deixa definir claramente os
-contornos mais salientes de qualquer epocha,
-como a neblina envolve a ossada dos
-montes ao romper da manhã.</p>
-
-<p>Começamos por estudar serenamente a<span class="pagenum"><a id="Page_92"></a>[92]</span>
-côrte de Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, devassa, dissoluta,
-sensual. Esboçamos o perfil do rei, que presidia
-a esta côrte, rei que se retouçava na
-podridão de prazeres sodomitas, e parecia
-talhado de molde para deixar resvalar ao
-abysmo da deshonra a segunda mulher,
-visto que não quizera repudial-a pelo mesmo
-motivo da primeira, a infeliz Branca de
-Navarra. D. Joanna, de Portugal, era moça,
-formosa, alegre, <i>viva</i>, como diz Antonio
-Caetano de Sousa. Cahiu no meio d’esta
-côrte, como uma flor póde cahir em qualquer
-esterquilinio sotoposto ao jardim, sobretudo
-quando a haste tem o geito de
-pender para esse lado, e uma perfida viração
-a faz oscillar a cada lufada mais forte...</p>
-
-<p>Basta ir seguindo os acontecimentos, para
-ver descer a rainha pelo plano inclinado
-do adulterio. Não é preciso ler os
-chronistas para copiar d’elles a sua apreciação,
-mais ou menos apaixonada, mas apenas
-para que nos guiem na successão dos
-acontecimentos. A critica é facil, resalta luminosa
-e logica. Aconteceu-nos isto, confrontando
-os chronistas; o mesmo acontecerá
-por certo ao leitor que tiver seguido
-passo a passo esta narrativa.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_93"></a>[93]</span></p>
-
-<p>D. Joanna falleceu a 13 de junho de 1475,
-tendo apenas 36 annos de edade. Matou-a o
-veneno ou o arrependimento; morreu ou
-mataram-n’a. E diz a chronica que os reis
-catholicos, Isabel e Fernando, lhe mandaram
-fazer um tumulo de marmore branco,
-cujo epitaphio dizia:</p>
-
-<div class="blockquote">
-
-<p><i>Aqui yace la mui excelente, esclarecida y
-poderosa Reyna de Castilla Doña Juana,
-muger del muy excelente, esclarecido y
-poderoso Rey Don Enrique IV. cuyas animas
-Dios aya: la qual falleció dia de San
-Antonio de MCCCCLXXV. años.</i></p>
-
-</div>
-
-<p>Mais tarde, a habitação da rainha foi convertida
-em nave do templo; chamava-se-lhe
-a capella da Aurora, e ficava do lado do
-Evangelho. Quando a egreja de S. Francisco
-foi demolida, acharam-se os ossos da
-rainha dentro de um cofre de madeira, mas
-não se sabe hoje o destino que tiveram depois
-da demolição.<a id="FNanchor_21" href="#Footnote_21" class="fnanchor">[21]</a></p>
-
-<p>Assim se dispersaram os restos mortaes
-d’essa formosa dama portugueza, que o berço<span class="pagenum"><a id="Page_94"></a>[94]</span>
-em que nascera posthuma parecia haver
-malfadado para as desventuras do thalamo,
-e do throno.</p>
-
-<p>Fizera Henrique <span class="allsmcap">IV</span> testamento?</p>
-
-<p>Ruy de Pina, na <i>Chronica de D. Affonso
-V</i>,<a id="FNanchor_22" href="#Footnote_22" class="fnanchor">[22]</a> diz que sim.</p>
-
-<p>«No fim do anno de mil quatrocentos
-setenta e quatro, palavras suas, el-rei D.
-Henrique, de Castella, falleceu na villa de
-Madrid; foi seu corpo levado ao mosteiro
-de Santa Maria de Guadalupe, onde na capella-mór,
-á mão direita, jaz em sua real
-sepultura, como parece, e da outra parte
-jaz a rainha D. Maria, sua mãe. <i>Fez el-rei
-D. Henrique seu solenne e accordado testamento,
-em que declarou a princeza D.
-Joanna por sua filha, e por rainha herdeira
-dos reinos de Castella, e o rei D. Affonso
-por governador d’elles, pedindo-lhe finalmente
-que acceitasse a dicta governança,
-e casasse com ella, o qual testamento
-foi logo trazido a el-rei D. Affonso, que
-estava em Extremoz... etc.</i>»</p>
-
-<p>Os chronistas castelhanos corrigem n’este
-ponto o chronista portuguez.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_95"></a>[95]</span></p>
-
-<p>Zurita diz positivamente nos <i>Anales</i> que
-D. Henrique não deixou testamento.</p>
-
-<p>O padre Castilho não faz menção de qualquer
-disposição testamentaria. Affonso de
-Palencia diz que, perguntado o rei sobre
-quem lhe devia succeder no throno, respondera
-que o secretario João Gonçalves
-revelaria a sua intenção. Fernando de Pulgor
-refere que apenas indicara os fidalgos
-a quem seria confiada a guarda de sua filha.
-Lucio Marineo escreve que Henrique
-<span class="allsmcap">IV</span>, sempre imprevidente, não deixara testamento.
-Marianna conta que, perguntado o
-rei pelo seu confessor frei Pedro de Mazuelos,
-respondera que reconhecia como
-herdeira a princeza D. Joanna, a qual deixara
-recommendada a alguns fidalgos, inclusos
-os marquezes de Santilhana e de Vilhena.
-A Lafuente parece arriscada esta
-asserção de Marianna, que aliás vem copiada
-em Romey.</p>
-
-<p>Diogo Clemencin<a id="FNanchor_23" href="#Footnote_23" class="fnanchor">[23]</a> é de todos os historiadores
-castelhanos o que mais detida e<span class="pagenum"><a id="Page_96"></a>[96]</span>
-lucidamente se occupa da questão do testamento
-de Henrique <span class="allsmcap">IV</span>.</p>
-
-<p>Recorda a lenda, publicada por Galindes
-de Carvajal, de que o rei Henrique fizera,
-ao morrer, testamento, no qual reconhecia
-como sua successora D. Joanna, e
-de que esse documento fôra pelo secretario
-João de Oviedo entregue a um padre
-que era cura de Santa Cruz, em Madrid.
-Não querendo que o desapossassem de tão
-valioso deposito, o cura metteu-o n’um cofre
-com outros papeis, e veio escondel-o
-perto de Almeida, em Portugal. O bacharel
-Fernam Gomes de Herrera, amigo particular
-do cura, conhecia o segredo, e revelou-o
-a D. Isabel a <i>Catholica</i>, quando já
-estava moribunda. A rainha mandou o cura
-buscar o cofre, que chegou quando ella já
-tinha morrido. O rei Fernando soube o que
-se passava, pelo licenciado Zapata, a quem
-Herrera revelara o segredo. Diziam uns que
-o testamento fôra queimado por ordem do
-rei; outros que ficara em poder de Zapata.
-A Herrera teriam sido feitas varias mercês,
-em recompensa do serviço que prestara.</p>
-
-<p>Clemencin refuta esta lenda com bons
-fundamentos, entre elles o não ser citado<span class="pagenum"><a id="Page_97"></a>[97]</span>
-por D. Joanna o testamento de Henrique
-<span class="allsmcap">IV</span> quando ella allegava todos os seus direitos
-em manifesto dirigido á cidade de
-Madrid (1475), e a circumstancia de egual
-omissão no documento em que a <i>Beltraneja</i>
-transferiu para D. João <span class="allsmcap">III</span>, de Portugal,
-todos esses direitos.</p>
-
-<p>Como quer que fosse, em torno da <i>Beltraneja</i>
-agrupou-se um partido defensor da
-sua legitimidade. Os caudilhos eram grandes
-e poderosos senhores, posto não fossem
-numerosos: entre elles, o marquez de
-Vilhena, menos habil, porêm mais intrepido
-que seu pae; o opulento duque de Arévalo;
-o moço marquez de Cadiz, e o grão-mestre
-de Calatrava e seu irmão.</p>
-
-<p>No partido contrario, militavam em favor
-de D. Isabel prelados e proceres egualmente
-poderosos. Citaremos o arcebispo de Toledo,
-que foi quem se apressou a communicar
-a Fernando o Catholico, em carta que
-Zurita reproduz, a noticia do fallecimento
-de Henrique <span class="allsmcap">IV</span>.</p>
-
-<p>Não deixa, comtudo, de ser curioso que
-este prelado se bandeasse depois com o partido
-da <i>Beltraneja</i>, despeitado pelo ascendente,<span class="pagenum"><a id="Page_98"></a>[98]</span>
-que no espirito de Fernando e Isabel
-havia tomado o cardeal de Hespanha.</p>
-
-<p>Não seria, pois, uma copia do testamento,
-que parece não ter existido, o que os
-partidarios da <i>Beltraneja</i> enviaram a Affonso
-<span class="allsmcap">V</span>, que estava então em Extremoz; mas
-foi de certo uma mensagem solicitando o
-seu apoio a troco do casamento com a infanta,
-sua sobrinha, e da coroa de Castella.<a id="FNanchor_24" href="#Footnote_24" class="fnanchor">[24]</a></p>
-
-<p>Não me esquivarei a citar, a respeito
-d’esta mensagem, as palavras do historiador
-hespanhol Lafuente, porque raras vezes
-um escriptor extrangeiro é tão fiel e
-tão exacto nas suas apreciações.</p>
-
-<p>«A ninguem, tanto como ao monarcha
-portuguez, diz elle, podia lisonjear uma tal
-proposta. De genio naturalmente cavalheiroso,
-desvanecido com a denominação de
-<i>Africano</i>, que os seus triumphos contra os
-moiros barbarescos lhe haviam valido, e
-um dos pretendentes anteriormente repellidos
-pela rainha Isabel, Affonso acolheu com
-avidez um convite que lhe proporcionava
-apresentar-se como reparador de um desaire,<span class="pagenum"><a id="Page_99"></a>[99]</span>
-que recebera da rainha, como vingador
-de um rival preferido, como o campeão de
-uma princeza desgraçada, e como conquistador
-de uma coroa, que, alcançada para
-sua sobrinha, havia de ver collocada na
-sua propria cabeça. De modo que a empresa
-satisfazia simultaneamente o seu espirito
-cavalheiresco, o seu orgulho offendido,
-a sua cobiça e ambição de gloria.»</p>
-
-<p>Conforma-se com o testemunho de Ruy
-de Pina o testemunho de Lafuente, quando
-affirma que o principe herdeiro de Portugal,
-D. João, procurara inflammar os brios
-guerreiros de seu pae, aconselhando-lhe a
-guerra com Castella. Tambem concorda
-com o chronista portuguez o historiador
-castelhano, quando refere que o duque de
-Bragança e o arcebispo de Lisboa foram
-de parecer contrario ao do principe. O que
-é certo é que Affonso <span class="allsmcap">V</span> mandou a Castella
-o seu camareiro-mór, Lopo de Albuquerque
-(depois conde de Penamacôr), encarregando-o
-de informar-se pessoalmente sobre a
-importancia e valor que podiam ter os partidarios
-da <i>Beltraneja</i>. O emissario de Affonso
-<span class="allsmcap">V</span> recolheu com boas informações, depois
-de praticar com os mais exaltados adversarios<span class="pagenum"><a id="Page_100"></a>[100]</span>
-de D. Isabel, entre os quaes se contava,
-como sabemos, o marquez de Vilhena.
-Não obstante as boas novas com que Lopo
-de Albuquerque chegou a Evora, onde estava
-o rei, em Janeiro de 1475, parece que
-de novo foram ainda ponderados a Affonso
-<span class="allsmcap">V</span> os inconvenientes da empresa; mas a fogosidade
-do principe venceu a opinião dos
-que discordavam.</p>
-
-<p>O rei de Portugal mandou deitar pregão
-de guerra. Em Arronches devia reunir-se o
-exercito, no mez de maio. N’esse sentido
-foram expedidas ordens. Comtudo, alguem
-lembrou a Affonso <span class="allsmcap">V</span> a conveniencia de mandar
-primeiramente uma embaixada a Fernando
-e Isabel, reivindicando os direitos de D.
-Joanna. Foi escolhido para esta commissão
-Ruy de Sousa, que a desempenhou. Lafuente
-diz que Affonso <span class="allsmcap">V</span> tivera a <i>arrogancia
-de fazer uma intimação aos reis para
-que renunciassem a coroa em favor de D.
-Joanna</i>.</p>
-
-<p>Nas disposições em que se encontrava
-Affonso <span class="allsmcap">V</span>, é natural que mandasse pôr a
-questão em termos categoricos. De mais a
-mais, como ainda teremos occasião de mostrar,
-os embaixadores portuguezes não costumavam<span class="pagenum"><a id="Page_101"></a>[101]</span>
-sossobrar perante a altivez castelhana.
-N’um e n’outro paiz, as situações estavam
-claramente definidas, porque se Affonso
-<span class="allsmcap">V</span> convocara o exercito para Arronches,
-em Segovia tinham sido alçados pendões
-reaes ao som de <i>Castilla por el rey Don
-Herñando, y la reina Doña Isabel, su muger,
-proprietaria destos reynos</i>.</p>
-
-<p>A resposta de Fernando e Isabel é facil
-de adivinhar. Responderam mantendo os
-seus direitos, e requereram a Affonso <span class="allsmcap">V</span> que
-não entrasse em Castella. Diz Lafuente, que
-a intimação do rei de Portugal fôra nobremente
-repellida, mas accrescenta que D.
-Isabel <i>dirigiu differentes embaixadas a
-Affonso <span class="allsmcap">V</span>, exhortando-o com palavras de
-moderação</i> a que desistisse da empresa. Os
-emissarios dos reis catholicos foram varios
-religiosos, segundo Zurita.</p>
-
-<p>No mez de maio, estava o rei em Arronches,
-apercebido para a marcha. O principe
-D. João acompanhou-o ao alto Alemtejo,
-onde concertaram, pae e filho, negocios
-particulares e do Estado, para o caso do
-rei perecer em combate. Foi em Portalegre,
-a 28 de abril, que Affonso <span class="allsmcap">V</span> dictou o
-seu testamento, escripto por frei João de S.<span class="pagenum"><a id="Page_102"></a>[102]</span>
-Mamede, confessor do rei: «... eu tenho
-determinado, diz Affonso, d’aqui a poucos
-dias entrar em os reinos de Castella, com
-fundamento de casar com a rainha, minha
-sobrinha, e isto por serviço de Deus e por
-melhor podermos defender seu direito, segundo
-é já entre nós capitulado...»</p>
-
-<p>N’este curioso documento refere-se Affonso
-<span class="allsmcap">V</span> aos enormes gastos que foram feitos
-com o casamento de sua irmã D. Leonor
-com o imperador da Allemanha, attribuindo-os
-á pouca edade que então tinha, e á
-falta de experiencia. Declara ter dois filhos
-legitimos, a infanta D. Joanna, que falleceu
-em Aveiro, com reputação de santa, posto
-a sua vida não fosse inteiramente isenta
-de culpas,<a id="FNanchor_25" href="#Footnote_25" class="fnanchor">[25]</a> e o principe D. João que, segundo
-os estylos do reino, proclama herdeiro
-da coroa.</p>
-
-<p>Tambem em Portalegre, e primeiro que
-o seu testamento, assignara Affonso <span class="allsmcap">V</span> a
-carta regia pela qual declarava regente do
-reino seu filho, o infante D. João.<a id="FNanchor_26" href="#Footnote_26" class="fnanchor">[26]</a></p>
-
-<p>Estavam já em Arronches pae e filho,
-quando chegou noticia de que D. Leonor,<span class="pagenum"><a id="Page_103"></a>[103]</span>
-mulher do principe herdeiro, havia dado á
-luz o infante D. Affonso, que tão pouco vivera
-e tão desastrosamente acabara. «E por
-seu nascimento, diz Ruy de Pina, declarou
-logo el-rei, sendo caso que o principe D.
-João, seu filho, em sua vida fallecesse, a
-tempo que elle rei tivesse outro filho lidimo
-<i>da rainha D. Joanna, sua esposa, com
-quem havia de casar</i>, que ao dicto infante
-D. Affonso sempre pertencesse e viesse a
-successão dos reinos de Portugal, e que
-para isso fosse logo jurado e obedecido...»</p>
-
-<p>Tratou-se, pois, de entrar em Castella ao
-som de guerra.</p>
-
-<p>A fim de melhor garantir o successo da
-empresa, Affonso <span class="allsmcap">V</span> tratou de entender-se
-diplomaticamente com o rei de França, Luiz
-<span class="allsmcap">XI</span>, como vamos ver.</p>
-
-<p>Em 1471, o marquez de Vilhena representou
-a Luiz <span class="allsmcap">XI</span> pedindo-lhe que auxiliasse
-o rei de Portugal. Expunha quaes eram
-as forças de que Affonso <span class="allsmcap">V</span> podia dispor:
-elle marquez, tres mil cavallos; o arcebispo
-de Toledo, dois mil; o mestre de Calatrava,
-dois mil; o bispo de Calatrava, dois
-mil; o bispo de Burgos, trezentos; o conde
-de Horoianna, trezentos; D. Affonso, senhor<span class="pagenum"><a id="Page_104"></a>[104]</span>
-de Montalvão, duzentos; D. Affonso e D.
-João, filhos bastardos do mestre de S. Tiago,
-quatrocentos; D. Pedro de Porto Carreiro,
-irmão do marquez, quatrocentos; a
-condessa, mãe da mulher do marquez, trezentos;
-o duque de Arévalo, dois mil; o
-marquez de Cadiz, genro do mestre de S.
-Tiago, mil e quinhentos; o duque de Sevilha,
-dois mil; D. Affonso de Aguillar, seiscentos;
-o conde de Feria, quatrocentos.</p>
-
-<p>Toda esta gente de armas, com a que o
-rei de Portugal poria em movimento, dava
-um exercito de trinta e dois mil homens. Accrescentava
-o emissario do marquez de Vilhena
-que se o rei de França continuasse a
-fazer guerra ao de Aragão, na Catalunha,
-elles o poriam em tal aperto que seria
-obrigado a desistir das suas pretensões ao
-reino de Castella.<a id="FNanchor_27" href="#Footnote_27" class="fnanchor">[27]</a></p>
-
-<p>Vê-se, pois, que, contando com todos estes
-recursos, Affonso <span class="allsmcap">V</span> não procedeu tão
-levianamente como pretendem alguns chronistas
-castelhanos.</p>
-
-<p>Por sua parte, o rei de Portugal escreveu
-a Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, revelando-lhe as intenções<span class="pagenum"><a id="Page_105"></a>[105]</span>
-em que estava de desposar sua sobrinha
-D. Joanna, e declarar guerra a Castella,
-promettendo que, se lograsse alcançar victoria,
-ficariam cada vez mais estreitadas
-as relações de antiga amizade entre as duas
-coroas de Castella e França. Passava-se
-isto a 8 de janeiro de 1475, e logo no fim
-d’esse mesmo mez tornava Affonso <span class="allsmcap">V</span> a escrever
-a Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, dizendo-lhe que receando
-qualquer demora na entrega da primeira
-carta, escrevia de novo allegando os direitos
-de D. Joanna ao throno de Castella, e
-pedindo-lhe favorecesse a causa d’esta princeza,
-cujo triumpho seria mais conveniente
-á politica franceza do que a victoria do ambicioso
-rei de Aragão. Participava haver
-pedido o auxilio do papa, e rogava a Luiz
-<span class="allsmcap">XI</span> que no mesmo sentido escrevesse ao
-pontifice.</p>
-
-<p>Em abril respondia Luiz <span class="allsmcap">XI</span> accusando a
-recepção da primeira carta, de 8 de janeiro,
-e dizendo que encarregara Olivier le
-Roux de vir a Portugal responder aos artigos
-d’ella; que estando já Olivier a caminho,
-recebera a segunda carta; que se
-dera pressa em escrever ao papa no sentido<span class="pagenum"><a id="Page_106"></a>[106]</span>
-desejado, despachando como portador
-um emissario para Roma.</p>
-
-<p>Effectivamente, chegara a Portugal mestre
-Olivier, o qual, em nome do seu soberano,
-dissera a Affonso <span class="allsmcap">V</span> que a respeito da
-alliança, que propunha a Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, importava
-lembrar-se de que, tendo Portugal alliança
-com os inglezes, antigos inimigos da França,
-era mister declarasse como e em que
-fórma entendia a alliança proposta; que essa
-alliança, segundo os precedentes estabelecidos
-entre Castella e França, não devia
-admittir excepção de pessoas; que, attenta a
-visinhança dos dois paizes, convinha á França
-auxiliar as pretensões de um principe
-que ficasse sendo seu amigo e alliado; que
-o rei de Aragão, pae de D. Fernando, enviara
-a França um embaixador com a proposta
-de paz e alliança, e de casamento da
-filha do dicto rei de Aragão com o delfim;
-que o rei de França nada decidira, e mandara
-um embaixador a Aragão para mais
-explicitamente inteirar-se da substancia da
-proposta; que el-rei de Portugal bem sabia
-como o de França o estimava e amava, de
-preferencia a qualquer outro; que o reino
-de Portugal ficaria de futuro comprehendido<span class="pagenum"><a id="Page_107"></a>[107]</span>
-na alliança que houvesse de fazer-se entre
-a França e Castella; que no caso da alliança
-se não realizar no sentido indicado,
-seria sempre util manter entre a França e
-Portugal relações de paz, grande amor e
-amizade.</p>
-
-<p>O fecho das instrucções, copiadas pelo
-visconde de Santarem da bibliotheca real
-de Pariz, diz o seguinte: «E tratando d’estas
-coisas, o dicto mestre Olivier fará por
-saber <i>quem tem mais parcialidade e poder,
-se el-rei de Portugal em razão da filha
-d’el-rei de Castella, ou el-rei de Castella
-em razão da irmã, e de tudo quanto souber
-dará parte a el-rei</i>.»</p>
-
-<p>Como se viu, Luiz <span class="allsmcap">XI</span> entrincheirava-se
-detraz das mais astutas reservas diplomaticas.
-Nada de categorico e consistente. Apenas
-a manifesta intenção de querer aproveitar-se
-da ambição de Affonso <span class="allsmcap">V</span> para romper
-a alliança de Portugal com a Inglaterra.</p>
-
-<p>Estavam as coisas n’este pé, quando
-Affonso <span class="allsmcap">V</span> sahiu de Portugal com um exercito
-de cinco mil e seiscentos homens de
-cavallo, e quatorze mil infantes. Lafuente
-diz que a cavallaria ia na força de cinco
-mil e <i>setecentos</i> homens. A differença é<span class="pagenum"><a id="Page_108"></a>[108]</span>
-pequenissima. O principe D. João acompanhou
-seu pae até á fronteira, e retirou depois,
-sabe Deus com que profunda magua
-de o não poder seguir!</p>
-
-<p>Ruy de Pina, descrevendo a ordenança
-do exercito portuguez, diz que ia na frente
-o adail-mór Diogo de Barros, com <i>certos
-ginetes por descobridores</i>. Seguia-se o marechal
-D. Fernando Coutinho, como <i>aposentador
-e assentador do arraial</i>. Depois,
-Vasco Chichorro, capitão dos ginetes d’el-rei,
-logo seguido pelo conde de Penamacôr,
-capitão da vanguarda real. Após, ia a
-carriagem e, depois d’ella, o rei, com poucas
-pessoas da sua guarda, diz Goes, e um
-pagem que levava o guião com a divisa
-real, um rodizio de moinho com gottas
-d’agua ao redor e esta legenda <i>Jámais</i>,
-divisa que tomara pela sua primeira mulher,
-D. Isabel. Na rectaguarda ia o duque de Guimarães,
-servindo de condestavel do reino.</p>
-
-<p>Tem razão Lafuente, quando diz que no
-exercito de Affonso <span class="allsmcap">V</span> ia a fina flor dos cavalleiros
-portuguezes. Assim era, com effeito.
-Alem dos já citados, apontam os chronistas
-os condes de Faro, Loulé, Penella,
-Monsanto, etc.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_109"></a>[109]</span></p>
-
-<p>Damião de Goes e Ruy de Pina referem
-que Affonso <span class="allsmcap">V</span> chegara a Plasencia sem
-que alguem pretendesse tomar-lhe o passo.
-Zurita diz, porêm, nos <i>Annaes</i>, que se oppozeram
-ao exercito portuguez cêrca de mil
-cavalleiros castelhanos, e que, «á entrada,
-em diversos recontros, derrubaram mais de
-duzentos de cavallo, dos inimigos (os portuguezes)»,
-chegando os capitães a carregar
-até aos flancos do nosso exercito.</p>
-
-<p>Em Plasencia era esperado Affonso <span class="allsmcap">V</span>
-pelo duque e duqueza de Arévalo e pelo
-marquez de Vilhena, que lhe apresentou
-D. Joanna, a qual, por ordem do marquez,
-tinha estado confiada á guarda de Pedro
-de Baeça. Dizia este Baeça que os reis catholicos
-lhe tinham mandado offerecer, por
-um irmão e pelo proprio pae do depositario,
-quatro contos de renda, quatro mil vassallos
-com a villa de Torquemada, e o titulo
-de conde, com promessas de casamento
-rico para o filho, se consentisse em entregar-lhes
-a <i>Beltraneja</i>. Accrescentava que
-voltara com egual commissão o doutor Rodrigo
-Maldonado, mas com maiores promessas,
-e que elle tudo recusara.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_110"></a>[110]</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_111"></a>[111]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak">VI<br />
-<span class="smaller">A BATALHA</span></h2>
-
-</div>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-a.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Aposentou-se Affonso <span class="allsmcap">V</span> com D.
-Joanna na fortaleza de Plasencia.
-Ahi deslizaram alguns dias
-perdidos em <i>festas e prazeres</i>,
-diz Pina. Affonso <span class="allsmcap">V</span> iniciou a campanha de
-Castella por dois graves erros, reconhecidos
-pelos proprios chronistas castelhanos.
-Zurita diz que se Affonso <span class="allsmcap">V</span>, em vez de entrar
-por Plasencia, tivesse entrado pela Andaluzia,
-Sevilha não poderia resistir por
-muito tempo a um cêrco, e que, tendo elle
-por si Sevilha, se renderiam logo outras cidades,
-favoraveis a D. Joanna, ficando-lhe
-livre o caminho até aos confins do reino de<span class="pagenum"><a id="Page_112"></a>[112]</span>
-Aragão; e que se houvesse querido dirigir-se
-para Toledo, onde o arcebispo e o marquez
-tinham poderio, haveria logrado chegar
-até Segovia. Accrescenta que Affonso
-<span class="allsmcap">V</span> se demorara nas festas de Plasencia mais
-do que lhe convinha.<a id="FNanchor_28" href="#Footnote_28" class="fnanchor">[28]</a> Lafuente escreve no
-mesmo sentido, dizendo que o rei de Portugal,
-demorando-se em Plasencia e Arévalo,
-dera tempo a que Fernando e Isabel
-supprissem á força de actividade a falta de
-dinheiro e de apercebimentos de guerra.<a id="FNanchor_29" href="#Footnote_29" class="fnanchor">[29]</a></p>
-
-<p>Mas o que é certo é que Affonso <span class="allsmcap">V</span> se
-demorou em Plasencia, onde celebrou publicamente
-desposorios com sua sobrinha,<a id="FNanchor_30" href="#Footnote_30" class="fnanchor">[30]</a>
-e ambos foram proclamados reis de Castella,
-Leão e Portugal. Ruy de Pina observa
-«... e chamou á rainha esposa, com a
-qual então nem depois nunca consumou o
-matrimonio, por defeito de dispensação, que
-não tinha nem houve nunca.» Mais tarde
-trataremos este ponto. Por agora, para não<span class="pagenum"><a id="Page_113"></a>[113]</span>
-interromper a narrativa com longas divagações,
-diremos que D. Affonso <span class="allsmcap">V</span> tratou de
-fazer publicar o <i>Manifesto</i> dos direitos de
-D. Joanna ao throno de Castella. Sousa<a id="FNanchor_31" href="#Footnote_31" class="fnanchor">[31]</a>
-copiou-o de Zurita; tem a data de 30 de
-maio e é dirigido á <i>villa</i> de Madrid. N’esse
-documento, que é extenso e que está bem
-escripto, D. Joanna historía todos os acontecimentos
-politicos do reinado de Henrique
-<span class="allsmcap">IV</span>, que o leitor já conhece. Accusa Fernando
-e Isabel de terem envenenado ou
-mandado envenenar o rei. Insiste em que
-elle a reconhecera publicamente como filha
-e herdeira, no leito da morte, porêm não
-fala em testamento. Allude, com a desenvoltura
-que o assumpto requeria, á supposta
-impotencia de seu pae, affirmando ás
-claras que elle <i>era hombre poderoso para
-engendrar</i>. Referindo-se a seu tio e noivo,
-diz: «O que tudo visto pelos dictos duque
-de Arévalo e marquez de Vilhena, como
-meus tutores, guardadores, usando da lealdade
-e fidelidade que me devem, e acatando,
-como o mais alto e mui poderoso principe
-D. Affonso, por a graça de Deus rei<span class="pagenum"><a id="Page_114"></a>[114]</span>
-de Portugal, e rei de Castella e de Leão,
-que agora é meu senhor, e principe mui
-catholico, e de grande fama, exemplo e de
-grã virtude e prudencia, para manter e
-governar estes dictos meus reinos, em justiça
-e verdade, como cumpre ao serviço de
-Deus, e meu, e ao regimento, e reparo, e
-restauração d’elles para o futuro, e conformando-se
-com a vontade do dicto rei meu
-senhor, que em sua vida, com accordo de
-muitos prelados e grandes, diversas vezes
-o negociou e procurou, accordaram e assentaram
-com elle, que casasse, e celebrasse
-desposorio commigo: e para isso viesse e entrasse
-n’estes dictos meus reinos como rei,
-e senhor d’elles, como meu legitimo esposo,
-e marido. E estando eu na cidade de
-Turgilho, sob a salvaguarda do dicto marquez
-de Vilhena, o dicto rei meu senhor enviou
-seu embaixador e procurador com seu
-poder bastante, para se desposar, e desposou
-commigo, em legitima e devida fórma: e
-depois, estando n’esta cidade de Plasencia,
-... dias do mez de maio d’este anno,
-da data d’esta minha carta, o dicto rei meu
-senhor chegou á dicta cidade por sua pessoa,
-e desposou-se e <i>dio las manos comigo</i>:<span class="pagenum"><a id="Page_115"></a>[115]</span>
-e solennemente jurou, e fez voto solenne,
-de nunca me sacar fóra d’estes dictos meus
-reinos, nem sua senhoria sahir fóra d’elles,
-até, mediante a graça de Deus, os acalmar
-e pacificar.» Noticía depois como se celebrara
-o acto da acclamação, e ordena que,
-logo que aquella carta regia recebam, <i>se
-ajuntem todos por pregão e alcem pendões
-pelo dicto rei D. Affonso</i>. Diz constar-lhe
-que os <i>reis da Sicilia</i> têem feito espalhar
-o boato de que os portuguezes são por indole
-hostis aos castelhanos. Desmente este
-boato, recorda o parentesco e amizade de
-Affonso <span class="allsmcap">V</span> com a casa real de Castella, e
-accentua que os portuguezes são christãos
-catholicos, e obedientes á vontade do seu
-rei.</p>
-
-<p>Um dos pontos que melhor estão tratados
-no <i>Manifesto</i>, é o que se refere á desobediencia
-de D. Isabel, tendo fugido da
-côrte para casar com o rei da Sicilia, que
-era extrangeiro, não confederado, nem alliado
-com Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, quando ella o não podia
-nem devia fazer, não só por ser contra
-vontade do rei, mas tambem porque as leis
-do reino dispunham que as donzellas, menores
-de vinte e cinco annos, não casassem<span class="pagenum"><a id="Page_116"></a>[116]</span>
-sem consentimento de seus paes e irmãos
-mais velhos. De mais a mais, Fernando e
-Isabel eram parentes em grau prohibido, e
-não tinham obtido dispensação apostolica.</p>
-
-<p>Lembra finalmente D. Joanna quanto Fernando
-e Isabel fizeram para se apoderar
-do thesoiro real de Segovia, como se apoderaram
-de todo o oiro e prata, joias, brocados
-e pannos, que deixara Henrique <span class="allsmcap">IV</span>,
-não dando, nem consentindo que se désse
-para o seu enterro e sepultura <i>o que
-para qualquer pobre cavalleiro de seu reino
-se dera</i>, e tentando havel-a á mão para a
-fazerem encarcerar perpetuamente ou porventura
-matar.</p>
-
-<p>Como se vê, o <i>Manifesto</i> está habilmente
-redigido; procura ferir todas as notas,
-tanto a da legalidade, como a da sentimentalidade.</p>
-
-<p>D. Affonso <span class="allsmcap">V</span> tambem escrevera á cidade
-de Salamanca, sobre o direito de D. Joanna
-á coroa de Castella,<a id="FNanchor_32" href="#Footnote_32" class="fnanchor">[32]</a> e procurara apoiar-se
-na diplomacia para corroborar o effeito
-que esperava colher da publicação dos manifestos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_117"></a>[117]</span></p>
-
-<p>De Plasencia enviou a França, como embaixadores,
-D. Alvaro de Athayde e o licenciado
-João d’Elvas, com plenos poderes
-para negociarem a desejada alliança. Philippe
-de Comines, que assistiu á audiencia
-dos embaixadores portuguezes na côrte de
-França, accusa-os de não terem conhecido
-as astucias de Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, de não terem ao
-menos suspeitado de que faltaria ás suas
-promessas. Passa-lhes diploma de incapacidade,
-e o caso é que os factos posteriores
-deram razão a Comines.</p>
-
-<p>Affonso <span class="allsmcap">V</span> queria que Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, a quem D.
-João de Aragão tinha tomado o condado
-de Roussillon, fizesse guerra a D. Fernando,
-pela fronteira franceza, envolvendo
-assim Castella em duas invasões simultaneas.</p>
-
-<p>Tambem Affonso <span class="allsmcap">V</span> enviou embaixadores
-a Roma, a fim de solicitarem do papa a dispensação
-matrimonial de que carecia, para
-realizar o casamento com sua sobrinha.</p>
-
-<p>Com estas armas julgava o rei portuguez
-ir ferindo o adversario. Enganava-se.
-Fernando levantava em Valhadolid um exercito
-de quatro mil homens de armas, oito
-mil ginetes e trinta mil peões, verdade seja<span class="pagenum"><a id="Page_118"></a>[118]</span>
-que pela maior parte mercenarios. Fôra D.
-Isabel quem obtivera as sommas indispensaveis
-para equipamento do exercito, conseguindo
-que André Cabrera lhe entregasse
-o thesoiro de Segovia;<a id="FNanchor_33" href="#Footnote_33" class="fnanchor">[33]</a> Fernandes
-de Oviedo não duvída affirmar, nas <i>Quincuagenas</i>,
-que estava na mão de Cabrera
-fazer rainha a princeza Isabel ou a princeza
-Joanna, segundo elle se decidisse a entregar
-o thesoiro, que continha cêrca de
-10:000 marcos de prata, a uma ou a outra
-princeza. Diz Zurita que o marquez de Vilhena
-fizera grandes promessas a Cabrera
-por parte do rei de Portugal, chegando a
-offerecer-lhe a renda annual e vitalicia de
-dez contos de maravedis, e que elle os recusara,
-porque já em vida de Henrique <span class="allsmcap">IV</span>
-era affecto á causa de D. Isabel.</p>
-
-<p>O que é certo é que Cabrera entregara
-a D. Isabel o thesoiro de Segovia, cohonestando
-este valioso auxilio com o pretexto
-de lhe dar a rainha sua filha em refens.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_119"></a>[119]</span></p>
-
-<p>D. Isabel, apesar de se achar gravida a
-esse tempo, não descansava um só momento;
-a fadiga fez com que tivesse um aborto
-no caminho de Toledo para Tordesilhas.
-Tentou D. Isabel, em Alcalá de Henares,
-congraçar o arcebispo de Toledo, mas o
-prelado mandou-lhe dizer que se ella entrasse
-no paço por uma porta, elle sahiria
-por outra.</p>
-
-<p>Affonso <span class="allsmcap">V</span>, depois de se refocillar nas festas
-de Plasencia, passava a Arévalo, um
-pouco por lisonjear os duques, que lhe
-queriam dar hospedagem, um pouco por
-em Plasencia não sobejarem os mantimentos.
-O que é certo é que Affonso <span class="allsmcap">V</span> resolvera
-aguardar em Arévalo os reforços
-que deviam enviar-lhe os fidalgos castelhanos
-do seu partido, commettendo assim a
-imprudencia de dar tempo a que Fernando
-pudesse organizar em Valhadolid um exercito
-de <i>condottieri</i>, mais valioso pelo numero
-do que pela disciplina.</p>
-
-<p>De Arévalo, seguiu Affonso <span class="allsmcap">V</span> para Touro,
-seguro de que o alcaide João de Ulhôa lhe
-abriria as portas da cidade. Assim aconteceu,
-mas a mulher de um irmão d’este
-Ulhôa não quiz entregar o castello, pelo<span class="pagenum"><a id="Page_120"></a>[120]</span>
-que Affonso <span class="allsmcap">V</span> lhe poz um apertado cerco.
-Entretanto Samora rendera-se aos portuguezes,
-e Fernando, que com o seu exercito
-se tinha approximado de Touro, reconhecendo
-que não podia luctar com vantagem,
-porque lhe faltavam artilheria, posições e
-meios de communicação, deu ordem para
-retirar. A retirada foi desordenada e desastrosa,
-dil-o Lafuente, e a derrota haveria
-sido completa, se a cavallaria portugueza
-carregasse sobre o inimigo.<a id="FNanchor_34" href="#Footnote_34" class="fnanchor">[34]</a> Uma companhia
-de byscainhos chegou a suspeitar de
-traição por parte dos generaes castelhanos,
-e violentamente foi arrancar o rei de entre
-elles, quando todos estavam conferenciando
-n’uma egreja. Ainda assim, Fernando
-soffrera, em sua gente e carriagem, muito
-damno e perda.<a id="FNanchor_35" href="#Footnote_35" class="fnanchor">[35]</a></p>
-
-<p>O castello de Touro rendera-se, finalmente,
-ao apertado cerco que lhe puzera Affonso
-<span class="allsmcap">V</span>. Em varios pontos, aqui e alli, rompiam-se
-as hostilidades; e os povos da Estremadura
-hespanhola e da Andaluzia faziam
-varias incursões sobre Portugal, como
-represalia de guerra. Em Burgos, a cidade<span class="pagenum"><a id="Page_121"></a>[121]</span>
-estava por D. Isabel, mas o castello estava
-por D. Joanna. Fernando, a fim de attenuar
-a má impressão de Touro, foi cercar o castello,
-que se julgava uma posição importante,
-no presupposto de que Luiz <span class="allsmcap">XI</span> acommettesse
-por Guipuzcoa. Affonso <span class="allsmcap">V</span>, a instancias
-da duqueza de Arévalo e do arcebispo
-de Toledo, deixou D. Joanna em Samora,
-e dirigiu-se a Burgos para soccorrer
-o castello. Encontrou, porêm, a tomarem-lhe
-o passo reforços isabelistas em Baltanás,
-aos quaes Affonso <span class="allsmcap">V</span> deu combate, pondo
-cerco á villa. A peleja foi renhida. Os portuguezes
-combatiam a pé, só o rei de Portugal
-estava a cavallo. Morreu ahi D. Alvaro
-Coutinho, filho do marechal, mas em
-compensação ficou prisioneiro o conde de
-Benavente, cunhado do marquez de Vilhena,
-que, por segurar a vida, diz Pina, constrangidamente
-a veio em pessoa pedir a
-Affonso <span class="allsmcap">V</span>, de cima do muro, e o portuguez
-de viva voz lh’a outorgou.</p>
-
-<p>A condessa de Benavente, ao saber do
-captiveiro do marido, exaltou-se a tal ponto
-que escreveu a Fernando o Catholico, pondo
-á sua disposição e obediencia todas as
-villas e fortalezas dos seus estados, que<span class="pagenum"><a id="Page_122"></a>[122]</span>
-eram grandes. Assim, a paixão politica,
-como quasi sempre acontece nas guerras
-civis, abria barreiras profundas no seio de
-uma mesma familia! A condessa de Benavente
-era irmã do marquez de Vilhena.</p>
-
-<p>As finanças de Portugal e Castella estavam
-seriamente compromettidas, em ambos
-os paizes, por causa da guerra. Isabel reunira
-côrtes em Medina del Campo, no mez
-de agosto e, não podendo já impor aos povos
-novas contribuições, appellou para o
-clero, propondo-lhe que entregasse ao thesoiro
-a prata de todas as egrejas de Castella,
-promettendo remil-as em tres annos
-por amortização de trinta contos de maravedis.
-O clero annuiu promptamente. Por
-sua parte, Affonso <span class="allsmcap">V</span>, depois de haver tomado
-a villa de Cantalapiedra, e de se ter
-recolhido a Samora para hibernar, tendo
-gasto já todos os recursos com que sahira
-de Portugal, teve de «soccorrer-se aos dinheiros
-dos orfãos dos seus reinos, e a
-outros muitos d’emprestimos particulares»,
-que por seus officiaes foram logo levados a
-Castella.<a id="FNanchor_36" href="#Footnote_36" class="fnanchor">[36]</a> Accrescenta Ruy de Pina que<span class="pagenum"><a id="Page_123"></a>[123]</span>
-o principe D. João, depois que foi rei, pagou,
-como piedoso filho, todos estes encargos
-<i>quanto poude</i>. Mas tambem D. João,
-quando resolveu ir soccorrer seu pae, teve
-de tomar de emprestimo a prata das egrejas,
-a exemplo do que fizera em Castella
-D. Isabel.<a id="FNanchor_37" href="#Footnote_37" class="fnanchor">[37]</a> Esta desastrosa guerra parecia
-destinada a arruinar as finanças de Portugal.
-Em treze mezes, o exercito mobilizado
-contra Castella havia de custar ao paiz duzentas
-setenta e cinco mil dobras.<a id="FNanchor_38" href="#Footnote_38" class="fnanchor">[38]</a></p>
-
-<p>O principe D. João, ao mesmo passo que
-tinha de reger os negocios internos do reino
-e de levantar recursos para acudir a seu
-pae, via-se a braços com as incursões armadas
-que alguns cavalleiros castelhanos faziam
-pela fronteira. Uma d’essas incursões
-dirigiu-se contra a villa de Ouguella, morrendo
-na refrega o brioso fidalgo João da
-Silva, camareiro-mór do principe.</p>
-
-<p>Em Castella, D. Isabel entabolava negociações
-com o alcaide das torres e portas<span class="pagenum"><a id="Page_124"></a>[124]</span>
-da ponte de Samora, para que se entregasse,
-procurando assim arrancar a Affonso
-<span class="allsmcap">V</span> uma das mais importantes fortificações
-que tinham voz por elle. Fernando estava
-no cerco de Burgos, e, sabendo dos planos
-de sua mulher, fingia-se doente para
-lhe dar tempo a negociar a compra do alcaide
-da ponte de Samora.</p>
-
-<p>Affonso <span class="allsmcap">V</span> havia mandado recado a seu
-filho para em Samora conferenciarem sobre
-negocios de Estado.</p>
-
-<p>D. João deu-se pressa em partir, e já tinha
-chegádo a Miranda do Douro, quando
-por Vasco Chichorro, o qual de noite atravessou
-o Tejo a nado, seu pae lhe mandou
-dizer que retrocedesse, porque seria victima
-de traição na passagem da ponte de
-Samora. Esta ponte tinha nos extremos duas
-torres que estavam combinadas para apertar
-o principe real entre ambas, quando
-elle passasse com a sua gente. Eis no que
-consistia a traição preparada por Isabel.
-Affonso <span class="allsmcap">V</span> indignou-se, e atacou os castelhanos,
-mas por este facto teve occasião de
-reconhecer que não podia contar com a
-lealdade dos habitantes de Samora, pelo
-que resolveu mudar-se, com a <i>Beltraneja</i>,<span class="pagenum"><a id="Page_125"></a>[125]</span>
-para Touro, onde o alcaide os recebeu amavelmente.</p>
-
-<p>O principe real ficou vivamente contrariado
-com o caso da ponte de Samora, e
-pensou logo em tirar desforra d’esse projecto
-de attentado contra a sua vida. Retirando
-sobre a cidade da Guarda, ahi reuniu
-conselho, resolvendo-se enviar novos auxilios
-a D. Affonso <span class="allsmcap">V</span>, para o que foi preciso
-tomar, como dissemos, toda a prata das
-egrejas e mosteiros, com excepção d’aquella
-que era indispensavel á dignidade do culto;
-bem como se tomou dinheiro de emprestimo
-a particulares. E não sem grandes
-dores e gemidos do povo, que o muito sentiam,
-diz Ruy de Pina. Feitos estes preparativos,
-o principe D. João, deixando sua
-mulher como regente do reino, partiu no
-mez de janeiro de 1476 para Castella, a
-encontrar-se com o rei, ao qual ia reforçar,
-tomando na passagem a villa de S. Felizes,
-que saqueou.</p>
-
-<p>Entretanto, el-rei D. Fernando e a rainha
-D. Isabel entraram em Samora, e puzeram
-cerco ao castello, que tinha voz pelo rei de
-Portugal. O desejo de Affonso <span class="allsmcap">V</span> era ir em<span class="pagenum"><a id="Page_126"></a>[126]</span>
-soccorro da fortaleza, que D. Fernando parecia
-disposto a disputar-lhe palmo a palmo.</p>
-
-<p>D. Affonso estava em Touro, como sabemos,
-e logo que o principe D. João ahi chegou
-pensou-se em ir effectivamente defender
-o castello de Samora, mas, depois de
-ponderados os prós e os contras, achou-se
-que o melhor era pôr cerco á ponte da outra
-banda do rio, causando assim grande
-damno a D. Fernando e aos da cidade.</p>
-
-<p>Uma vez assenhorado de Samora, tratou
-Fernando de combater o castello, que se
-conservava fiel a Affonso <span class="allsmcap">V</span>, e d’ahi escreveu
-a seu pae, João <span class="allsmcap">II</span>, de Aragão, pedindo-lhe
-que mandasse auxilios para Burgos,
-cujo castello não se tinha ainda rendido.</p>
-
-<p>Diz Lafuente, que Affonso <span class="allsmcap">V</span> se não mostrara
-adverso a uma reconciliação, sob condição
-de que lhe seriam entregues as praças
-de Touro e Samora, e aggregada a Galliza
-a Portugal, mas que D. Isabel se recusara
-a alienar um só palmo que fosse de
-territorio castelhano.</p>
-
-<p>Lafuente trata este assumpto muito por
-alto, mas Damião de Goes dá interessantes
-pormenores que convem recordar.</p>
-
-<p>O cardeal de Castella, D. Pedro de Mendonça,<span class="pagenum"><a id="Page_127"></a>[127]</span>
-escrevera a Affonso <span class="allsmcap">V</span> exhortando-o
-a fazer a paz, e offerecendo-se para medianeiro.
-Era facil perceber que esta proposta
-partia dos reis catholicos, sob a impressão
-de desanimo que produzira a precipitada
-retirada de Touro para Medina del Campo.
-Affonso <span class="allsmcap">V</span> annuiu, e perguntou se Isabel e
-Fernando tinham conhecimento d’essa proposta,
-e quaes deveriam ser as condições
-da paz. Respondeu o cardeal que Fernando
-e Isabel obtemperavam, mas que as
-condições as formulasse Affonso <span class="allsmcap">V</span>. O rei
-de Portugal pediu com largueza, aproveitando
-a situação: queria Touro, Samora e a
-Galliza; exigia uma indemnização de guerra,
-e a restituição de todas as honras e estados
-que pertenciam aos fidalgos castelhanos
-bandeados com o partido da <i>Beltraneja</i>.
-Isabel oppoz-se á alienação de qualquer
-territorio castelhano, porêm sujeitava-se á indemnização
-de guerra e á rehabilitação dos
-fidalgos castelhanos que estavam com Affonso
-<span class="allsmcap">V</span>. Promettia tambem para D. Joanna
-o dote que se arbitrasse, hypothecando a
-este encargo as terras que fossem precisas.</p>
-
-<p>Damião de Goes, conclue: «Estes recados
-andaram por alguns dias de uma e de<span class="pagenum"><a id="Page_128"></a>[128]</span>
-outra parte, sem se em nada poder tomar
-conclusão, pelo que a guerra se ateava
-cada vez mais, fazendo-se de uma e de outra
-parte grandes damnos, sem se a tamanhos
-males poder dar algum remedio».<a id="FNanchor_39" href="#Footnote_39" class="fnanchor">[39]</a></p>
-
-<p>Seria talvez esta proposta de paz que fez
-com que Luiz <span class="allsmcap">XI</span> procurasse intimidar Fernando
-e Isabel. Diz Lafuente que Affonso
-<span class="allsmcap">V</span> <i>havia manhosamente entabolado tratos
-de mediação e de concordia</i> com D. João
-<span class="allsmcap">II</span>, de Aragão, para entreter Fernando, emquanto
-o principe D. João não chegava de
-Portugal com reforço, e Luiz <span class="allsmcap">XI</span> não atacava
-pela fronteira franceza o reino de Aragão.</p>
-
-<p>O que é certo é que Affonso <span class="allsmcap">V</span> conseguira
-tratar com Luiz <span class="allsmcap">XI</span> uma liga offensiva
-contra o aragonez. Luiz <span class="allsmcap">XI</span> aproveitava o
-ensejo para se collocar n’uma posição que
-pudesse ser-lhe vantajosa em qualquer dos
-casos. Assim, em setembro de 1475, ficara
-concertado que o rei de França ajudaria ao
-de Portugal na conquista dos reinos de
-Castella e Leão, com as condições seguintes:
-«Que todas as cidades, villas, logares,<span class="pagenum"><a id="Page_129"></a>[129]</span>
-castellos e fortalezas que fossem tomadas
-ou conquistadas por terra e por mar pelas
-tropas d’el-rei de França, nos dominios do
-reino de Aragão e de Valencia, seriam sem
-difficuldade entregues e restituidas a el-rei
-de Portugal, e ficariam para sempre pertencendo
-a esta coroa. E pelo mesmo teor
-que todas as cidades, villas, logares, castellos
-e fortalezas do principado da Catalunha
-e condado do Roussillon e Sardenha,
-ilhas de Mayorca, Minorca e Iviça, as quaes
-cahissem em poder dos portuguezes, seriam
-entregues a el-rei de França, para ficarem
-para sempre annexas á sua coroa.»<a id="FNanchor_40" href="#Footnote_40" class="fnanchor">[40]</a></p>
-
-<p>Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, tendo feito treguas com o duque
-de Borgonha, por um tratado em que o rei
-de Portugal fôra incluido como alliado do
-duque, principiou a dar maior attenção aos
-negocios da Peninsula, sob o doble ponto
-de vista da sua exclusiva conveniencia. Foram,
-pois, renovados os antigos tratados de
-paz e amizade entre os reinos de Castella
-e Leão e o de França, figurando Affonso <span class="allsmcap">V</span>
-na qualidade de rei de Castella. No mez
-de dezembro, Luiz <span class="allsmcap">XI</span> promulgara uma carta<span class="pagenum"><a id="Page_130"></a>[130]</span>
-patente declarando ter resolvido mandar,
-em auxilio do rei de Portugal, um
-bom e grande exercito, tanto por mar como
-por terra, a Guipuzcoa e Byscaia, ou aonde
-fosse necessario, nomeando para commandante
-em chefe da expedição a sire d’Albret
-(Alano Grande, pae do rei de Navarra),
-com poderes amplissimos.<a id="FNanchor_41" href="#Footnote_41" class="fnanchor">[41]</a></p>
-
-<p>O que é certo é que Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, não obstante
-todas estas suas promessas, se limitara
-a mandar para a fronteira hespanhola
-um exercito que parecia manobrar de concerto
-com a doblez do <i>bom rei Luiz</i>, porisso
-que, fazendo-lhe frente os guipuzcoanos
-e os byscainhos, retirava para Bayona...
-á espera dos acontecimentos.</p>
-
-<p>Quando o principe D. João de Portugal,
-levando comsigo um exercito de oito mil
-infantes e dois mil cavallos, <i>gente mal armada
-e pouco aguerrida</i>, diz Lafuente, fôra
-juntar-se com seu pae em Touro, o castello
-de Burgos, depois de haver sido atacado
-por D. Affonso de Aragão, irmão de Fernando,
-rendia-se. E, segundo o testemunho
-do mesmo historiador, pouco faltou para<span class="pagenum"><a id="Page_131"></a>[131]</span>
-que a propria praça de Touro se entregasse
-a D. Fernando, que uma noite se approximara
-dos muros da cidade com essa esperança.
-Parece fóra de duvida, como mais
-adeante veremos, que D. Fernando pensava
-em apoderar-se da pessoa da <i>Beltraneja</i>.</p>
-
-<p>É ainda Lafuente que nos diz, que D.
-Affonso <span class="allsmcap">V</span> se <i>envalentonara</i> tanto com a
-chegada do filho, que enviou um arrogante
-manifesto ao papa, ao rei de França e
-aos seus parciaes de Castella e Portugal,
-jactando-se de que não tardaria a derrotar
-Fernando e Isabel. Não encontro, comtudo,
-nos historiadores portuguezes noticia
-d’este <i>manifesto arrogante</i>.</p>
-
-<p>Deixemos, porêm, Affonso <span class="allsmcap">V</span> e seu filho
-no cêrco que foram pôr á ponte de Samora,
-na margem do Douro. D. Joanna havia
-ficado em Touro, sob a guarda do duque de
-Bragança e do conde de Villa Real. Cruzava-se
-o fogo dos portuguezes contra a
-ponte, com o dos castelhanos contra a margem
-opposta. Procedentes de Burgos, tinham
-chegado de reforço aos castelhanos
-D. Affonso de Aragão e o infante D. Henrique,
-aos quaes se unira o conde de Benavente,<span class="pagenum"><a id="Page_132"></a>[132]</span>
-livre já. A situação era dolorosa
-para ambos os exercitos, ao mesmo tempo
-sitiados e sitiadores.</p>
-
-<p>Ruy de Pina diz que, n’estas circumstancias,
-houve uma entrevista, n’uma insua
-do rio Douro, para concertos de paz, entre
-cavalleiros portuguezes e castelhanos, mas
-que não foi possivel chegar a resultado satisfactorio.
-Outra versão diz que a entrevista
-seria entre os dois reis, estando cada
-um em sua barca, como acontecera com D.
-Fernando de Portugal e Henrique <span class="allsmcap">III</span>, de
-Castella, mas que, pela força da corrente,
-a barca de Affonso <span class="allsmcap">V</span> se não pudera approximar
-da barca que conduzia o marido de
-Isabel.</p>
-
-<p>O portuguez, conhecendo que a sua posição
-era insustentavel, porque já os mantimentos
-iam escaceando, e porque recebeu
-denuncia de que D. Fernando pensava
-em fazer uma sortida sobre Touro para apoderar-se
-de D. Joanna,<a id="FNanchor_42" href="#Footnote_42" class="fnanchor">[42]</a> resolveu levantar<span class="pagenum"><a id="Page_133"></a>[133]</span>
-o acampamento na madrugada da primeira
-sexta-feira de março de 1476, em direcção
-áquella cidade, depois de haver cortado a
-extremidade da ponte de Samora. Esperava
-Affonso que o exercito castelhano o seguisse.
-Assim aconteceu. Diz Pina que o
-principe D. João ardia em desejos de dar
-batalha; o mesmo assevera Lafuente a respeito
-de D. Fernando, apesar dos conselhos
-que lhe dava seu pae, o rei de Aragão,
-o qual lhe recommendava o systema
-que empregou Fabio Maximo, <i>Cunctator</i>,
-fatigando e desalentando os exercitos de
-Annibal.</p>
-
-<p>Não se enganou Affonso <span class="allsmcap">V</span>. Fernando demorara-se
-apenas tres horas, o tempo preciso
-para reparar o damno feito á ponte. Ao
-cahir da tarde, o exercito castelhano avistou
-o exercito portuguez, a tres leguas de
-Touro, no momento em que aquelle exercito
-sahia de um apertado passo entre o
-rio e a serra. O conde de Loulé acudiu a<span class="pagenum"><a id="Page_134"></a>[134]</span>
-escaramuçar com os castelhanos, para lhes
-difficultar a passagem, mas ficou tão gravemente
-ferido que teve de ser recolhido a
-Touro.</p>
-
-<p>Affonso <span class="allsmcap">V</span> e seu filho prepararam-se então
-para dar batalha, posto que muita da
-sua gente, mais avançada na marcha, já tivesse
-entrado em Touro, e outra houvesse
-lá ficado de guarda a D. Joanna.</p>
-
-<p>O exercito portuguez dispoz-se d’este modo:
-na vanguarda, os continuos e familiares
-da casa do rei, e alguns cavalleiros castelhanos,
-de que era capitão Ruy Pereira;
-logo em seguida o conde de Faro D. Affonso
-com a sua gente e outra que el-rei lhe
-ordenou; á esquerda da vanguarda o principe
-D. João com a flor do exercito, seguindo-se
-a esta ala do principe a do bispo de
-Evora, D. Garcia de Menezes, com muitos
-bésteiros e espingardeiros; depois, o rei D.
-Affonso com a bandeira real, e á mão esquerda
-o arcebispo de Toledo com a sua
-gente, logo seguido pela do duque de Guimarães
-e do conde de Villa Real, commandando
-a retaguarda D. João de Castro,
-conde de Monsanto. A peonagem ficara repartida<span class="pagenum"><a id="Page_135"></a>[135]</span>
-por quatro secções, toda da banda
-do rei.</p>
-
-<p>Vejamos agora qual a disposição do exercito
-castelhano.</p>
-
-<p>Na vanguarda, todos os continuos da casa
-real, e a gente da Galliza, Ulmedo, Medina
-del Campo, Valhadolid, Salamanca, Ciudad
-Rodrigo e Samora, sob o commando de D.
-Henrique, que levava a bandeira real de
-Castella e Leão. Seguiam-se dez alas, quatro
-grandes e seis menores.</p>
-
-<p>Notou o principe D. João que uma das
-seis alas menores do exercito castelhano
-se destacava como para de refresco acudir
-ás outras, se fosse necessario. Assim fez
-tambem, mandando apartar a gente que
-julgou precisa para o mesmo fim.</p>
-
-<p>Affonso <span class="allsmcap">V</span>, depois de ter ordenado as alas
-do seu exercito, retirou-se, por conselho
-dos seus, para um oiteiro, d’onde pudesse
-assistir á batalha, e salvar-se a tempo no
-caso de desastre.</p>
-
-<p>Veiu então ao acampamento portuguez
-um rei de armas de D. Fernando desafiar
-Affonso <span class="allsmcap">V</span>. O portuguez respondeu: «Dizei
-ao principe da Sicilia que é mais tempo de<span class="pagenum"><a id="Page_136"></a>[136]</span>
-nos encontrarmos do que de mandar desafios.»</p>
-
-<p>A luz do dia principiava a faltar, não só
-porque o sol tocava o occaso, mas tambem
-porque o céo se conservava carregado de
-grossas nuvens. Cahia uma chuva miuda.
-O scenario d’este drama de odios politicos
-prestes a desencadearem-se, era lugubre,
-como se vê.</p>
-
-<p>O principe D. João e D. Pedro de Menezes
-arremessaram-se impetuosamente contra
-as alas menores do exercito de Castella.
-Gonçalo Vaz de Castello-Branco fôra o
-primeiro portuguez que lograra romper as
-fileiras castelhanas. O fumo das descargas
-augmentava a escuridão do ar. Gritos de
-guerra, como rugidos de leões, atroavam o
-campo de batalha. Os nossos invocavam S.
-Jorge e S. Christovão;<a id="FNanchor_43" href="#Footnote_43" class="fnanchor">[43]</a> os castelhanos clamavam
-por S. Tiago e S. Lazaro. <i>Traidores,
-aqui está o cardeal!</i> gritava o cardeal
-de Hespanha, provocando os castelhanos
-que pelejavam no exercito portuguez.
-E um d’esses castelhanos era, como elle,<span class="pagenum"><a id="Page_137"></a>[137]</span>
-um prelado da Egreja, o arcebispo de Toledo.</p>
-
-<p>Rotas pelo esforço dos nossos as fileiras
-castelhanas, com uma bravura que os proprios
-chronistas hespanhoes não podem
-desmentir, os soldados de Fernando e Isabel
-acolheram-se, fugindo, ao centro do
-exercito.</p>
-
-<p>D. Affonso <span class="allsmcap">V</span>, electrizado pelo enthusiasmo
-da contenda, lançara-se no combate,
-seguido pelo conde de Faro. Lafuente diz
-que D. Fernando investiu com furia contra
-o sitio onde se ostentava o estandarte
-real dos portuguezes. Garcia de Rezende
-diz, porêm que D. Fernando, vendo o desbarato
-que o principe D. João produzira
-no exercito castelhano, tratou de acolher-se
-a Samora. Ruy de Pina faz egual affirmação.
-Segundo a opinião de Lopes de
-Mendonça,<a id="FNanchor_44" href="#Footnote_44" class="fnanchor">[44]</a> que de todo o ponto achamos
-fundada, o consenso dos escriptores portuguezes
-dá-nos o direito de duvidar da palavra
-de D. Fernando quando diz em carta
-dirigida á cidade de Baeza: «E eu com os
-dictos grandes e cavalleiros que commigo<span class="pagenum"><a id="Page_138"></a>[138]</span>
-se acharam na batalha, estivemos no campo
-por espaço de tres ou quatro horas regendo
-o campo, e assim me volvi com victoria
-e muita alegria a esta cidade de Samora
-aonde cheguei á uma depois da meia
-noite, etc.»</p>
-
-<p>«Mesclaram-se então todas as lanças e todos
-os corpos, diz Lafuente, pelejando com
-o encarniçamento de dois povos enfurecidos
-por uma antiga rivalidade. O pendão
-das quinas portuguezas foi arrancado pelos
-esforços do intrepido Pedro Vaz de Sottomayor;
-valoroso até ao extremo era o alferes
-Duarte de Almeida que o desfraldava;
-depois de haver perdido o braço direito,
-susteve com o esquerdo o pendão, e quando
-perdeu ambas as mãos apertou-o fortemente
-entre os dentes até que perdeu a
-vida, feito este que nos recorda outro só
-exemplo por nós consignado em nossa historia.»<a id="FNanchor_45" href="#Footnote_45" class="fnanchor">[45]</a></p>
-
-<p>Pulgar diz que Duarte de Almeida fôra
-feito prisioneiro e conduzido a Samora. Marianna
-affirma que a armadura d’este brioso
-cavalleiro portuguez se via, ainda no<span class="pagenum"><a id="Page_139"></a>[139]</span>
-seu tempo, na cathedral de Toledo, <i>como
-trophéo d’aquella insigne façanha</i>. D. Fernando,
-na carta dirigida á cidade de Baeza,
-diz, referindo-se ao rei de Portugal:
-«... foi derrubado e tomado o seu pendão
-das armas reaes e morto o alferes...»</p>
-
-<p>Vejamos, porêm, o que d’esta façanha de
-Duarte d’Almeida tem podido apurar a critica
-dos escriptores portuguezes até á hora
-em que escrevemos.</p>
-
-<p>Arrancado das mãos do alferes-mór, o
-estandarte portuguez seria o mais completo
-testemunho da victoria castelhana, e
-fluctuando desenrolado afugentaria, de vergonha
-e desalento, os soldados portuguezes.
-Mas Duarte d’Almeida perfeitamente
-comprehendia a grande, a enorme responsabilidade
-do seu posto. Bem sabia elle que
-preso áquelle estandarte andava desde Santarem
-e Ourique, abençoado por Deus, o
-nome portuguez, e portanto resolveu defender
-até á ultima gotta de sangue, se tanto
-fôra preciso, esse precioso deposito que
-lhe confiara a patria.</p>
-
-<p>Aggridem, cercam, embrenham o valente
-alferes-mór as lanças castelhanas; elle
-heroicamente resiste sobrepondo-se a essa<span class="pagenum"><a id="Page_140"></a>[140]</span>
-cerrada floresta de ferro, que lhe braceja
-contra o peito os seus farpões mortiferos.
-Todo o empenho castelhano é arrancar-lhe
-o estandarte; portanto uma cutilada lhe corta
-a mão direita. Vale-se da esquerda, e
-n’ella fecha o seu thesoiro. Nova cutilada
-lhe decepa a mão esquerda. É um duello
-titanico, de um contra mil, de um só homem
-contra um exercito. Duarte d’Almeida
-não fraqueja, não cede, não cai. Toma
-o estandante portuguez entre os dentes, e
-espera, defendendo-se, que lhe arranquem
-finalmente a vida para que possam arrancar-lhe
-o estandarte. Multiplicam-se da parte
-dos castelhanos os golpes, o desespero
-do inimigo attinge o seu maior grau, é indomavel,
-feroz. Duarte d’Almeida cai, emfim,
-vencido pelos golpes repetidos e certeiros,
-mas, como se não pudesse morrer
-um portuguez d’aquelles ás mãos de castelhanos,
-Duarte d’Almeida não é ainda cadaver.</p>
-
-<p>Cahem em peso sobre o alferes-mór os
-inimigos; entre si disputam qual ha de arrancar-lhe
-dos dentes, raivosamente cerrados, o
-estandarte portuguez, que finalmente tremula
-na mão d’um fidalgo castelhano, de<span class="pagenum"><a id="Page_141"></a>[141]</span>
-appellido Sottomayor. Este improvisado porta-bandeira
-do rei castelhano, alegremente
-corria, seguido d’um troço dos seus, para o
-lado onde suppunha estar o rei Fernando,
-a fim de lhe entregar o glorioso trophéo,
-quando o escudeiro portuguez Gonçalo Pires,
-com alguns poucos portuguezes, acommette
-os de Castella, e arrebata a Sottomayor
-o estandarte das quinas, travando-se
-entre todos combate que entre Gonçalo
-Pires e Sottomayor foi singular.</p>
-
-<p>Entretanto Duarte d’Almeida era conduzido
-semimorto para o acampamento inimigo,
-d’onde recebeu o primeiro curativo, e
-d’onde foi mandado para um hospital de
-Castella.</p>
-
-<p>Regressando á patria, ao cabo de longos
-mezes, andava escripto nas chronicas que
-elle não achara em Portugal <i>mais galardão
-que viver mais pobre do que vivia antes</i>,
-como dizem, pouco mais ou menos,
-Duarte Nunes e Damião de Goes, mas o sr.
-Camillo Castello Branco escreveu modernamente
-nas <i>Noites d’insomnia</i> ácerca do
-<i>Decepado</i>, com o proposito de mostrar que
-elle não acabara tão pobre como se dizia.
-Conta este erudito escriptor, que Duarte<span class="pagenum"><a id="Page_142"></a>[142]</span>
-d’Almeida, voltando de Castella, onde
-fôra muito honrado pelo rei Fernando, se
-recolhera ao castello de Villarigas, o qual
-herdara de seu pae Pedro Lourenço d’Almeida,
-e não era o unico que possuia, pois
-que tinha outro na quinta chamada de Cavallaria.
-Chegado a Villarigas, o velho <i>Decepado</i>,
-que já ia adeantado em annos, encontrou
-sua mulher D. Maria d’Azevedo,
-filha do senhor da Lousã, Rodrigo Affonso
-Valente e de D. Leonor de Azevedo, que
-grandes haveres herdara de sua tia D. Ignez
-Gomes d’Avellar, e á volta da esposa encontrou
-tambem o <i>Decepado</i> os seus dois
-filhos, Affonso e Ruy. Até aqui isto serve
-apenas para mostrar que Duarte d’Almeida
-não vivia pobre <i>antes</i> da batalha de Touro,
-tanto mais que Affonso <span class="allsmcap">V</span>, estando em
-Samora no anno anterior a esta batalha, lhe
-fizera mercê, pelos seus grandes serviços,
-para elle e seus filhos, de um reguengo no
-concelho de Lafões. Todavia quer-nos parecer
-que a ingratidão da patria subsiste,
-porque Duarte d’Almeida ficou com o que
-tinha e... com ambas as mãos de menos. Affonso
-<span class="allsmcap">V</span>, esse, se estivesse em Portugal, havel-o-ia
-galardoado largamente, porque era<span class="pagenum"><a id="Page_143"></a>[143]</span>
-um mãos rotas, e tanto que o principe D.
-João, prevendo as prodigalidades de seu
-pae, obteve d’elle um documento que declarava
-nullas todas as doações que fizesse
-durante a guerra de Castella, e que excedessem
-dez mil réis de renda. O galardão
-concedido em Portugal a Gonçalo Pires foi
-o appellido de <i>Bandeira</i> e o brazão de armas
-com bandeira branca, tendo no centro
-um leão rompente, de oiro. Mas no <i>Decepado</i>,
-que provavelmente pouco sobreviveu
-ao seu regresso, ou em seus filhos,
-não se fala. Em Castella é que effectivamente
-elle foi honrado, porque D. Fernando
-mandou pendurar na cathedral de Toledo
-as armas de que havia sido despojado
-Duarte d’Almeida, e em Samora foi tratado,
-quando prisioneiro, com grandissima
-distincção.<a id="FNanchor_46" href="#Footnote_46" class="fnanchor">[46]</a></p>
-
-<p>O sr. A. X. Rodrigues Cordeiro, que, a
-proposito de uma visita recente á cathedral
-de Toledo, escreveu um artigo sobre <i>Duarte
-d’Almeida</i>, dá noticia de existir n’aquelle
-templo uma armadura completa de cavalleiro,
-que se presume ser a do <i>Decepado</i>,<span class="pagenum"><a id="Page_144"></a>[144]</span>
-e uma bandeira, que alguns dizem ser a
-portugueza, mas que se não vê, por estar
-resguardada n’uma bolsa de tela.</p>
-
-<p>O illustre escriptor, e nosso amigo, não
-duvida de que a armadura seja a de Duarte
-d’Almeida, mas refuta que a bandeira
-seja a portugueza, visto que Gonçalo Pires
-a arrancou heroicamente das mãos de Sottomayor,
-como testemunham os nossos chronistas.
-A bandeira, que se não póde reconhecer
-por estar encerrada na bolsa, será
-porventura a que os castelhanos tomaram
-aos moiros na batalha do Salado.<a id="FNanchor_47" href="#Footnote_47" class="fnanchor">[47]</a></p>
-
-<p>Havia mais de uma hora que o combate
-durava, sem que a victoria parecesse pender
-para qualquer dos dois exercitos, quando
-a ala esquerda do castelhano correu a
-reforçar a hoste real. Então a retaguarda
-do exercito portuguez, em que pelejava o
-arcebispo de Toledo, correspondendo ao
-movimento do inimigo, correu a auxiliar
-Affonso <span class="allsmcap">V</span>, engrossando a fileira para aparar
-o embate. A peleja reaccendeu-se fogosa.
-Mas o choque da fuzilaria e da cavallaria<span class="pagenum"><a id="Page_145"></a>[145]</span>
-castelhanas foram de tal ordem,
-que desconcertaram as fileiras portuguezas.</p>
-
-<p>Affonso <span class="allsmcap">V</span> quiz, verdadeiramente allucinado,
-lançar-se contra o grosso do exercito
-castelhano, onde certamente haveria encontrado
-a morte. Não lh’o consentiram, porem,
-alguns fidalgos.</p>
-
-<p>A noite tinha, entretanto, cahido tenebrosa,
-como estivera o dia. E, receosos de
-que alguma força castelhana lhes cortasse
-a retirada, os fidalgos que acompanhavam
-o rei, partiram para Castro Nunho.</p>
-
-<p>Muitos cavalleiros portuguezes tentaram
-atravessar o Douro para acolher-se a Touro.
-Talvez cerca de mil e duzentos morreram
-afogados n’essa empresa, em que o
-desanimo devia quebrantar-lhes as forças.</p>
-
-<p>O principe D. João, reunida toda a gente
-que poude, deixou-se ficar no campo até
-ao romper d’alva, tendo mandado accender
-fogueiras e soar os clarins. O seu desejo
-era empenhar-se n’uma nova batalha. Mas
-o exercito castelhano retirara para Samora,
-juntamente com o rei D. Fernando, ou depois
-do rei. Assim, por conselho do arcebispo
-de Toledo, o principe, que desejara
-demorar-se tres dias no campo, reduziu os<span class="pagenum"><a id="Page_146"></a>[146]</span>
-tres dias a tres horas, «por comparação que
-trouxe (o arcebispo) da resurreição de Nosso
-Senhor, diz Ruy de Pina, que foi depois
-da morte tres dias não todos inteiros.»</p>
-
-<p>É, porem, certo, que a batalha de Touro
-não tivera uma importancia militar de tal
-ordem, que por si só pudesse resolver definitivamente
-tão grave pendencia internacional.
-«A batalha de Touro, portanto, escreve
-Lopes de Mendonça, em que ambos
-os adversarios se proclamaram vencedores,
-parecendo á primeira vista ter sido decisiva
-para a questão, não foi senão um successo
-de guerra, bastante duvidoso para
-qualquer dos partidos, e que pouco significaria
-para o desenlace d’esta grave lucta,
-se a causa de D. Affonso <span class="allsmcap">V</span> não estivesse
-já perdida pela defecção successiva dos
-seus partidarios, pelas repugnancias nacionaes
-contra o dominio portuguez, e pela
-influencia que Isabel de dia para dia adquiria
-entre a burguezia, e as classes populares.»</p>
-
-<p>É certo que deserções importantes tinham
-aggravado a situação de Affonso <span class="allsmcap">V</span>. O marquez
-de Vilhena, como Affonso, recusara o
-conselho de penetrar com o exercito portuguez<span class="pagenum"><a id="Page_147"></a>[147]</span>
-até Madrid; tratou, julgando perdida
-a causa da <i>Beltraneja</i>, de bemquistar-se
-com Fernando e Isabel, mediante a condição
-de lhe serem restituidas suas terras
-e rendas. Os duques de Arévalo passaram-se
-tambem para o partido de Isabel. Só
-permanecera fiel a Portugal o arcebispo de
-Toledo que, depois da refrega, se recolhera
-aos seus estados, que tinham sido invadidos
-pelos exercitos de Castella.</p>
-
-<p>Lafuente faz sentir que as condições do
-exercito portuguez na batalha de Touro lhe
-eram sobremodo favoraveis.</p>
-
-<p>Esta asserção é apenas um echo do que
-o proprio D. Fernando escrevera na sua
-carta á cidade de Baeza: «... e como quer
-que muitos cavalleiros dos que commigo estavam
-eram de parecer que eu não devia
-dar batalha pelas muitas vantagens que o
-dicto meu adversario tinha para ella, assim
-porque na verdade era <i>mais gente em numero
-que a que commigo estava, como porque
-as minhas gentes iam cansadas e a
-mór parte da peonage que commigo sahiu
-fôra deixada no caminho pela grande pressa
-que levavamos para alcançal-o, e por
-não levar commigo artilheria alguma, e<span class="pagenum"><a id="Page_148"></a>[148]</span>
-era quasi sol posto e estava tão proxima a
-cidade de Touro d’onde elle e os seus se
-podiam recolher sem muito damno, uma
-vez que fossem vencidos</i>...»</p>
-
-<p>É preciso contrapôr, porem, a estas considerações
-do rei de Castella o que D. João
-de Portugal escreveu ao concelho de Evora
-sobre o mesmo assumpto: «... e depois
-de todos assim de uma parte como da outra
-serem em campo, <i>ainda que os contrarios
-tivessem vantagem, por terem as costas
-em serra e por terem mais gente de
-pé, porquanto a sua</i> (do rei D. Affonso seu
-pae) <i>era já toda em a cidade de Touro, e
-assim mesmo alguma de cavallo que fôra
-adeante com a fardage, pelo qual os contrarios
-tinham de vantagem bem sete ou
-oito lanças</i>...»</p>
-
-<p>Assim, pois, acabou a batalha de Touro
-em que bem podiam ter succumbido o rei
-e o principe de Portugal. Se tal houvesse
-acontecido, quem póde calcular as complicações
-politicas em que se veria lançado o
-paiz, dadas as represalias de Castella, e a
-menoridade do neto de Affonso <span class="allsmcap">V</span>?</p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_149"></a>[149]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak">VII<br />
-<span class="smaller">O RATO NAS MÃOS DO GATO</span></h2>
-
-</div>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-d.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Dom Fernando retirou, como dissemos,
-para Samora, e avisou
-do resultado da batalha sua mulher,
-que estava em Tordesilhas.
-D. Isabel, recebendo a noticia, ordenou
-que se fizesse uma procissão, em acção de
-graças, á egreja de S. Paulo, indo ella propria
-a pé, e descalça. Mais tarde, Fernando
-e Isabel fundaram, pelo mesmo motivo, o
-mosteiro de <i>San Juan de los Reyes</i>, obra
-grandiosa, diz Lafuente, que ainda hoje se
-admira, apesar das deteriorações que tem
-soffrido.</p>
-
-<p>É para notar a circumstancia de que ambos<span class="pagenum"><a id="Page_150"></a>[150]</span>
-os belligerantes se julgassem vencedores,
-e agradecessem a Deus o triumpho alcançado.</p>
-
-<p>O principe D. João, de Portugal, depois
-de acclamado rei, ordenou ao concelho de
-Evora que em cada anno, nos primeiros dias
-do mez de março, se fizesse uma solenne
-procissão para commemorar a batalha de
-Touro. Diz o documento: «... e querendo
-nós ácerca desto nom menos fazer grato e
-reconhecer a Nosso Senhor o que em nossos
-dias e presenças nos fez de mercês com
-a batalha que houvemos em o reyno de
-Castella entre Touro e Samora; ordenamos
-e mandamos que daqui em deante em louvor
-de Nosso Senhor, e da Bemaventurada
-Virgem Maria sua Madre, e de S. Jorge e
-de S. Christovam que o dicto dia traziamos
-por nosso padroeiro e nome, que em cada
-um anno nos dois dias de março em que
-foi a dicta batalha, a Cleresia toda dessa
-cidade façaaes solenne procissão...» etc.<a id="FNanchor_48" href="#Footnote_48" class="fnanchor">[48]</a></p>
-
-<p>Frei Francisco Brandão diz que na batalha
-de Touro pertencera a Portugal a gloria<span class="pagenum"><a id="Page_151"></a>[151]</span>
-do vencimento, e a Castella o util da
-herança. É uma engenhosa maneira de conciliar
-as coisas.</p>
-
-<p>Em Lisboa tambem se fazia uma procissão
-para commemorar a supposta victoria
-de Touro. D. João <span class="allsmcap">II</span> mandou suspender a
-procissão quando em 1491 seu filho casou
-com a filha de Fernando e Isabel, porque,
-por esse casamento, <i>todalas coisas passadas
-ouverom fim</i>, diz o proprio D. João <span class="allsmcap">II</span>.</p>
-
-<p>É verdade que o voto da procissão podia
-até certo ponto explicar-se, segundo as
-idéas do tempo, pelo facto de não ter soffrido
-damno algum a pessoa do rei Affonso,
-de quem por algumas horas se ignorou o
-destino na cidade de Touro, depois de finda
-a batalha. «Sendo já passado bom pedaço
-do dia (seguinte), o principe chegou
-a Touro com a bandeira real despregada, a
-o qual, como foi conhecido, o duque (de
-Guimarães) e o conde (de Villa Real) vieram
-abrir as portas da cidade, e foi recebido
-n’ella assim da rainha D. Joanna como
-de todas as mais pessoas com assaz tristeza,
-por até então não terem novas nenhumas
-do que era feito d’el-rei D. Affonso, e
-principalmente o duque de Guimarães que,<span class="pagenum"><a id="Page_152"></a>[152]</span>
-depois do principe ser em seu aposento,
-perante elle, e de todos os que com elle
-estavam, depenando as barbas, e os cabellos
-da cabeça, fez grandes prantos e lamentações,
-perguntando a os que fugiram
-da batalha, com muitas lagrimas, por el-rei
-D. Affonso, dizendo-lhes que mal se poderiam
-chamar cavalleiros, pois não sabiam
-dar conta nem recado de seu rei, senhor e
-capitão, no que se passou um bom pedaço,
-sem o ninguem poder acalentar, salvo o
-principe (postoque tivesse mór dor e tristeza
-que nenhum dos da companhia), que
-com palavras prudentes fez tanto que o duque
-cessou de se queixar mais do que o já
-tinha feito.»<a id="FNanchor_49" href="#Footnote_49" class="fnanchor">[49]</a></p>
-
-<p>Mas, quando estavam todos n’esta incerteza,
-chegou recado que o rei mandava de
-Castro-Nunho ao principe. Logo, como a noticia
-foi recebida, repicaram os sinos na cidade,
-soando trombetas e atabales, que <i>toda
-a perda da batalha se teve por nada em
-comparação de ser salva a pessoa d’el-rei</i>,
-diz Goes, phrase que até certo ponto póde
-explicar a origem da procissão de Evora.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_153"></a>[153]</span></p>
-
-<p>Escreve Lafuente que o principe D. João
-recolheu a Portugal com quatrocentos ginetes,
-«acompanhado de sua prima D. Joanna.»
-Os chronistas portuguezes Ruy de
-Pina e Damião de Goes, parecendo este
-ultimo muito bem informado, não dizem o
-mesmo. Segundo elles, o principe partiu na
-semana santa de Touro para Castro Nunho,
-passando o rio em uma barca, e os cavallos
-e bestas a nado, no sitio chamado Rico
-Vau. Na Paschoa estava D. João em Miranda
-do Douro. D’ahi foi á Guarda, onde se
-avistou com sua mulher D. Leonor. Descançou
-na Guarda alguns dias, sahindo depois
-a correr todos os logares da fronteira,
-provendo ao que lhe parecia necessario a
-fim de prevenir qualquer invasão.</p>
-
-<p>D. Fernando resolveu pôr cerco a Cantalapiedra,
-onde estavam ainda muitos fidalgos
-portuguezes. E D. Affonso, que se
-conservava em Touro, sabendo que D. Isabel
-havia de passar de Madrigal para Medina,
-preparou-lhe uma cilada, <i>aforrado
-com seis mil lanças</i>, mas porque o duque
-de Bragança com outros, antes de tempo se
-descobriram, os castelhanos, conhecendo a<span class="pagenum"><a id="Page_154"></a>[154]</span>
-cilada, recolheram precipitadamente a Madrigal.</p>
-
-<p>Abhorrecido por esta nova contrariedade,
-Affonso <span class="allsmcap">V</span> partiu para Portugal no principio
-do mez de junho de 1476, acompanhado
-pela <i>Beltraneja</i>. Affonso <span class="allsmcap">V</span> seguiu o itinerario
-de seu filho. Sahiu de Touro para
-Castro Nunho, e veio passar a festa do Corpo
-de Deus a Miranda do Douro. Depois
-ordenou que D. Joanna partisse para a
-Guarda, acompanhada do bispo de Vizeu
-e do conde de Villa Real. Da Guarda, por
-ordem do rei, passou D. Joanna para Coimbra,
-onde o principe D. João a visitou, e
-de Coimbra passou finalmente para Abrantes,
-ao tempo que já o principe ia em caminho
-do Porto, onde Affonso <span class="allsmcap">V</span> estava fazendo
-preparativos de viagem para França.</p>
-
-<p>Julgara Affonso <span class="allsmcap">V</span> que, indo em pessoa
-pedir auxilio a Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, lograria attrahil-o á
-sua causa mais efficazmente do que a diplomacia
-pudera fazel-o. Do Porto, enviou
-a França Pedro de Sousa a notificar a sua
-resolução ao rei Luiz, e, despedido o emissario,
-veio D. Affonso embarcar em Lisboa
-no mez de agosto. A armada que o devia
-acompanhar compunha-se de dezeseis navios,<span class="pagenum"><a id="Page_155"></a>[155]</span>
-com dois mil e duzentos homens. O
-rei ia a bordo de uma urca preparada para
-recebel-o.</p>
-
-<p>Arribou a Lagos a armada. Ahi, um celebre
-corsario francez d’esse tempo, de nome
-Cullom, já antigo conhecido de Portugal
-por serviços prestados em Ceuta, cumprimentou
-Affonso <span class="allsmcap">V</span>, de quem foi recebido
-graciosamente. De Lagos velejou a armada
-para Ceuta, e de Ceuta para França,
-com destino a Marselha; chegada porem a
-Collioure, onde arribara por causa do tempo,
-despediu-a Affonso <span class="allsmcap">V</span>. Em Collioure,
-um capitão do exercito francez sahira ao
-encontro do rei de Portugal para lhe dar
-as boas vindas em nome de Luiz <span class="allsmcap">XI</span>.</p>
-
-<p>De Collioure jornadeou Affonso <span class="allsmcap">V</span> para
-Perpignan, onde com grandes honras foi
-acolhido pelas auctoridades locaes. De Perpignan
-passou por Narbonne, Montpellier,
-Besiers e Nimes, seguindo d’aqui para
-Leon, vindo encontral-o ao caminho o duque
-de Bourbon. D. Affonso não entrou
-em Leon por causa da peste, e logo em
-Roanne recebeu outro enviado do rei que
-lhe dava as boas vindas. Depois dirigiu-se
-a Bruges, onde descançou alguns dias, e<span class="pagenum"><a id="Page_156"></a>[156]</span>
-novos enviados de Luiz <span class="allsmcap">XI</span> foram encarregados
-de lhe fazer companhia. O logar da
-entrevista dos dois monarchas devia ser
-Tours, e para ahi se dirigiu Affonso <span class="allsmcap">V</span>, mas
-Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, pretextando uma romaria, deixou
-varios cortezãos encarregados de receber o
-rei portuguez. Visivelmente Luiz <span class="allsmcap">XI</span> queria
-preparar effeitos scenicos, fazer esperada a
-sua presença, tomar-se desejado.</p>
-
-<p>Quando Affonso soube que Luiz <span class="allsmcap">XI</span> se
-approximava, quiz sahir á rua, ou pelo menos
-á escada, para o receber, mas o rei de
-França mandara adeante dois fidalgos para
-impedir que Affonso <span class="allsmcap">V</span> levasse tão longe a
-sua cortezia. N’este facto revela-se perfeitamente
-o caracter de Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, assim como o
-globo enorme do sol se espelha ás vezes
-n’uma pequena gotta d’agua. Luiz <span class="allsmcap">XI</span> fizera-se
-esperar; agora, mostrava-se requintadamente
-cortez, quasi humilde. N’este traço
-está effectivamente concretizado o caracter
-de Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, tal como elle resalta do perfil
-d’este rei traçado pelos historiadores, e até
-pelos romancistas. O seu reinado foi um
-combate de todos os dias, como diz Augustin
-Thierry,<a id="FNanchor_50" href="#Footnote_50" class="fnanchor">[50]</a> pela causa da unidade do<span class="pagenum"><a id="Page_157"></a>[157]</span>
-poder e do nivelamento social, mas combate
-sustentado á maneira dos selvagens,
-pela astucia e pela crueldade. D’ahi vem,
-observa o historiador, a mistura de interesse
-e de repugnancia que excita em nós
-este caracter tão extranhamente original.</p>
-
-<p>Finalmente os dois soberanos encontraram-se
-a meio de uma sala. A <i>mise-en-scène</i>
-d’esta entrevista é curiosa. «El-rei de
-França, diz Ruy de Pina, vinha com um só
-barrete na cabeça, tendo já d’ella tirado
-um chapéo e duas grandes carapuças, e
-trazia solto um saio curto de mau panno, e
-á cinta uma espada d’armas muito comprida,
-com a guarnição de ferro limada, e
-umas botas calçadas, e nos pés as esporas
-do mesmo jaez da espada, e ao pescoço
-uma beca de chamalote amarello, forrada
-de cordeiras brancas muito grosseiras, e
-suas calças brancas ante-talhadas de muitas
-côres. E ambos os reis com barretes
-nas mãos se abraçavam inclinando os joelhos
-muito baixos.»</p>
-
-<p>Como se vê, sobre ser original é pouco
-magnificente a <i>toilette</i> do rei de França.
-Accentua-se n’ella um tom de humildade,
-que convinha agora a esse grande diplomata<span class="pagenum"><a id="Page_158"></a>[158]</span>
-do seculo <span class="allsmcap">XV</span>, para attrahir a si a victima
-imprevidente.</p>
-
-<p>Depois de conversarem algum tempo, retiraram-se
-os dois soberanos a uma camara,
-onde Luiz <span class="allsmcap">XI</span> indicou a Affonso <span class="allsmcap">V</span> o que
-sem perda de tempo elle devia fazer. Era,
-a seu juizo, o seguinte:</p>
-
-<p>1.º Que o monarcha portuguez iria pedir
-ao duque de Borgonha, que então estava
-em guerra com o de Lorena, que o ajudasse
-contra Castella, ou que ao menos se
-compromettesse a não atacar o rei de França,
-que era pelo duque de Lorena, emquanto
-Luiz <span class="allsmcap">XI</span> guerreasse a favor do rei
-de Portugal.</p>
-
-<p>A inimizade de Luiz <span class="allsmcap">XI</span> com o duque de
-Borgonha era antiga, e violenta. Este duque
-havia despojado dos seus Estados o de
-Lorena, a quem Luiz <span class="allsmcap">XI</span> auxiliava secretamente
-contra o inimigo commum.</p>
-
-<p>«Quando D. Affonso <span class="allsmcap">V</span>, escreve Pinheiro
-Chagas, intentava ingenuamente reconciliar
-estes dois adversarios implacaveis, sitiara o
-duque de Borgonha a cidade de Nancy,
-capital da Lorena, que se declarara pelo
-seu legitimo senhor. Luiz <span class="allsmcap">XI</span> ria-se <i>dans sa
-barbe</i> da tentativa que o pobre D. Affonso<span class="pagenum"><a id="Page_159"></a>[159]</span>
-<span class="allsmcap">V</span> ia emprehender, e esperava talvez que
-illudisse tambem algum tanto Carlos de
-Borgonha, ao passo que as suas tropas caminhavam
-secretamente com as do duque
-de Lorena, e que elle esperava, como o
-corvo sinistro, os primeiros rumores d’uma
-derrota, para cahir sobre a presa do campo
-de batalha, e cevar-se n’ella. Carlos de
-Borgonha, tinha só uma filha, e Luiz esperava,
-com boas razões, apanhar-lhe a herança.»<a id="FNanchor_51" href="#Footnote_51" class="fnanchor">[51]</a></p>
-
-<p>2.º Que Affonso <span class="allsmcap">V</span> obteria do papa a dispensa
-apostolica precisa para casar com
-sua sobrinha D. Joanna, a fim de que elle
-pudesse <i>ir em sua ajuda com menos cargo</i>,
-diz Ruy de Pina. Era esta mais uma
-astucia de Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, porque elle bem sabia que
-Fernando e Isabel creariam em Roma grandes
-difficuldades junto do Papa. Era um
-meio dilatorio, no fundo; um expediente
-palliativo.</p>
-
-<p>A este tempo, já Luiz <span class="allsmcap">XI</span> conhecia perfeitamente
-a credulidade cavalleirosa de
-Affonso <span class="allsmcap">V</span>. <i>Tomara-lhe o pulso</i>, como se
-diz em linguagem vulgar. Começara então<span class="pagenum"><a id="Page_160"></a>[160]</span>
-a fazer-lhe promessas e offerecimentos.
-Disse-lhe que os castelhanos gostavam ás
-vezes de vender as fortalezas, e que sempre
-lhe parecera melhor compral-as do que
-tomal-as. Que contasse com o dinheiro que
-precisasse. E como fosse noite, e quando
-os dois sahiram da camara já as tochas estivessem
-accesas, Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, imaginando proporcionar
-a Affonso <span class="allsmcap">V</span> uma noite bem passada,
-que o attrahisse mais para o prazer
-do que para a questão de Castella, mandou
-pedir a Affonso <span class="allsmcap">V</span> que acceitasse a quantia
-de cincoenta mil escudos de oiro <i>para
-convidar qualquer gentil dama, como era
-usança e cortezia de seu reino</i>.</p>
-
-<p>D. Affonso <span class="allsmcap">V</span> recusou este offerecimento.
-Elle tinha tido uma educação austera, sob
-a direcção de seu tio D. Pedro; havia estimado
-tanto D. Isabel de Lencastre, sua
-mulher, que ella poude sempre resistir ás
-malquerenças que tinha na côrte; elle era
-o guerreiro d’Africa, o soldado, o homem
-forte; não estava costumado ao prazer, ás
-noites de sensualidade que tanto embriagavam
-Luiz <span class="allsmcap">XI</span>. Portanto recusara.</p>
-
-<p>A fim de tratar da dispensação para o casamento
-de Affonso <span class="allsmcap">V</span> com sua sobrinha<span class="pagenum"><a id="Page_161"></a>[161]</span>
-D. Joanna, partiu para Roma uma embaixada
-composta de tres representantes do rei
-de Portugal, os quaes iam animados da
-melhor fé, e de dois do rei de França, os
-quaes naturalmente levavam instrucções
-particulares para o pontifice.</p>
-
-<p>Ao mesmo tempo, Affonso <span class="allsmcap">V</span> partia para
-Nancy, a fim de se avistar com o duque de
-Borgonha, que, como já dissemos, estava
-em guerra com o de Lorena, e acampado
-na baixa Allemanha.</p>
-
-<p>«E antes da sua partida, escreve Ruy de
-Pina, el-rei de França lhe disse que pela
-pouca seguridade que tinha do duque de
-Borgonha, por ser muito orgulhoso, duvidava
-que, tomando a cidade de Nancy, sobre
-que estava, e destruindo o duque de
-Lorena, por seguir novidades quereria entrar
-por França, e que com receios d’isto,
-pelos segurar, tinha sua gente na frontaria,
-que daria causa a elle lhe não poder dar
-tanta ajuda, como sem isso faria. Porem,
-que se por seu meio d’el-rei D. Affonso
-elles ambos ficassem verdadeiros amigos, e
-se liassem por casamentos dos filhos, como
-o duque por todas as razões devia querer,
-elle em sua ajuda poria a coroa de França<span class="pagenum"><a id="Page_162"></a>[162]</span>
-com todo o seu poder, e que el-rei devia
-requerer o duque, que fosse com elle em
-pessoa; porque era bom capitão, e tinha
-muita gente e singular intelligencia, e que
-sendo el-rei D. Affonso d’estas amizades
-meio e segurador, cada um d’elles teria receio
-de os per si quebrar, pelo não ter por
-contrario, <i>com os quaes muito cedo se faria
-pacifico rei de Castella</i>.»</p>
-
-<p>Sobre o modo por que Affonso <span class="allsmcap">V</span> foi recebido
-pelo conde de Borgonha, filho de
-Philippe, o <i>Bom</i>, apartam-se as opiniões
-dos historiadores.</p>
-
-<p>Affonso <span class="allsmcap">V</span> chegou ao acampamento a 29
-de dezembro de 1476.</p>
-
-<p>A situação de Carlos de Borgonha era a
-esse tempo quasi insustentavel; o desanimo
-lavrava no seu exercito, e a traição do conde
-de Campo Basso, um perfido napolitano,
-preparava-lhe um laço. Não obstante,
-Carlos recebeu de boa sombra o rei de Portugal,
-ao qual descreveu com vivas côres
-o caracter astucioso de Luiz <i>XI</i>. Citou factos
-em abono d’estas revelações, e contou a
-Affonso <span class="allsmcap">V</span> como Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, aconselhando o
-pobre rei portuguez a dirigir-se a Nancy,
-enviara logo atraz d’elle tropas de soccorro<span class="pagenum"><a id="Page_163"></a>[163]</span>
-ao duque de Lorena. Carlos de Borgonha
-mostrou-se altivamente corajoso, dizendo
-que não se arrecearia de dar batalha a
-Luiz <span class="allsmcap">XI</span> só com um pagem; mas, para dar
-uma prova de affectuosa consideração a
-Affonso <span class="allsmcap">V</span>, não duvidava entrar em negociações
-de paz.</p>
-
-<p>Tal é a narração de Schœffer, e dos escriptores
-portuguezes. Mas tanto Barante
-como Philippe de Commines dão outra versão,
-aliás muito mais consentanea ao caracter
-de Carlos de Borgonha. Dizem estes
-chronistas que elle respondera a Affonso
-<span class="allsmcap">V</span> que sem demora se dirigisse a Pont-á-Mousson
-para defender a cidade contra o
-duque de Lorena, o qual chegava da Suissa
-com o seu exercito, emquanto elle Carlos
-de Borgonha esperaria o duque deante
-de Nancy para o combater.</p>
-
-<p>Affonso <span class="allsmcap">V</span>, surprehendido com a resposta,
-balbuciara desculpas: que não tinha armadura,
-nem trouxera comsigo nenhum dos
-seus homens de armas.</p>
-
-<p>Desanimado, Affonso <span class="allsmcap">V</span> partiu para Pariz.</p>
-
-<p>Entretanto chegava o duque de Lorena,
-e Carlos de Borgonha quiz dar-lhe combate
-em campo raso. A traição do napolitano<span class="pagenum"><a id="Page_164"></a>[164]</span>
-Basso vingara, e Carlos cahira morto, com
-grande jubilo dos francezes, jubilo que
-contrastava com a tristeza de Affonso <span class="allsmcap">V</span>.</p>
-
-<p>E era fundada a tristeza do pobre rei
-portuguez.</p>
-
-<p>Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, sabendo da morte de Carlos de
-Borgonha, tratou de apossar-se dos dominios
-que lhe pertenceram, de realizar a annexação
-por meio de emissarios que para
-esse fim enviara ás cidades borgonhezas, e
-foi installar-se em Arras, onde Affonso <span class="allsmcap">V</span>
-lhe mandara pedir uma entrevista, que foi
-concedida.</p>
-
-<p>Segundo o costume, não escacearam promessas
-nos labios de Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, mas essas
-promessas eram todas mentirosas. Luiz <span class="allsmcap">XI</span>
-importava-se então mais com os despojos
-de Carlos de Borgonha do que com as
-pretensões de Affonso <span class="allsmcap">V</span> á coroa de Castella.</p>
-
-<p>Vimos que um dos assumptos tratados
-entre Luiz <span class="allsmcap">XI</span> e Affonso <span class="allsmcap">V</span> foram as negociações
-a que devia proceder-se para obter
-em Roma a dispensa indispensavel á consummação
-do matrimonio entre o rei de Portugal
-e sua sobrinha. De feito, uma embaixada
-partiu para Roma, sendo composta do<span class="pagenum"><a id="Page_165"></a>[165]</span>
-conde de Penamacôr, de João Teixeira e
-Diogo de Saldanha, por parte de Portugal,
-e de mr. de Saint-Vailler e do governador
-de Grenoble, por parte da França.</p>
-
-<p>Partiram juntos, e por terra, os embaixadores,
-acompanhados de grande sequito. O
-papa recebeu-os com muitas honras.</p>
-
-<p>Era natural, como dissemos, que os embaixadores
-de Luiz <span class="allsmcap">XI</span> levassem instrucções
-secretas para o pontifice. Ruy de Pina diz
-que o auxilio dado por Luiz <span class="allsmcap">XI</span> em Roma a
-Affonso <span class="allsmcap">V</span>, n’esta pretensão, se houve sempre
-por muito duvidoso.</p>
-
-<p>Fernando e Isabel contrariavam fortemente,
-junto da santa sé, a concessão da
-dispensa pedida. O papa tergiversava com
-dilações, mas quando viu desembaraçado
-o poder de Luiz <span class="allsmcap">XI</span> pela morte de Carlos
-de Borgonha, decidiu-se a conceder a dispensa
-em condições mais que muito duvidosas
-para Affonso <span class="allsmcap">V</span>.</p>
-
-<p>Permittia o pontifice que Affonso <span class="allsmcap">V</span> pudesse
-casar <i>com qualquer donzella que lhe
-fosse achegada em qualquer grau lateral
-de consanguinidade ou affinidade, exceptuando
-o primeiro grau</i>. Esquivava-se o
-papa artificiosamente a nomear D. Joanna,<span class="pagenum"><a id="Page_166"></a>[166]</span>
-para não affirmar opinião sobre a sua legitimidade.
-Mas não parava aqui a subtileza
-do pontifice; declarara que concedia a licença
-apenas por comprazer com o rei de
-França, e que o de Portugal não poderia
-aproveital-a sem que o rei de França fosse
-ouvido como arbitro.</p>
-
-<p>Apertado mais tarde por Fernando e Isabel,
-que viram com maus olhos a concessão
-de uma tal dispensa, o papa desculpou-se
-dizendo que n’aquelles termos não a poderia
-negar a qualquer popular obscuro
-que a solicitasse; que não deu a Affonso <span class="allsmcap">V</span>
-o tratamento de rei de Castella, como elle
-desejava; que não nomeou D. Joanna e
-que, porisso mesmo, a dispensa fôra concedida
-em termos vagos; que havia declarado
-não querer que resultasse d’ella prejuizo
-para terceiro, o qual se entendia ser o rei
-de Castella, mas que, visto ser assim mesmo
-contestada, revogaria a licença que
-concedera, o que fez por bulla patente enviada
-a D. Fernando no principio do mez
-de dezembro de 1478.<a id="FNanchor_52" href="#Footnote_52" class="fnanchor">[52]</a></p>
-
-<p>Depois da entrevista de Arras, Affonso<span class="pagenum"><a id="Page_167"></a>[167]</span>
-começou a comprehender que não tinha
-sido mais que um simples joguete nas
-mãos de Luiz <span class="allsmcap">XI</span>. De Arras, dirigiu-se para
-Honfleur, onde demorou todo o mez de setembro,
-entregue a uma violenta lucta moral,
-acabando por querer alienar todas as
-grandezas mundanas, e passar a Jerusalem
-com proposito feito de nunca mais voltar a
-Portugal. Todo esse tempo gastou-o Affonso
-<span class="allsmcap">V</span> entregando-se a exercicios religiosos
-e escrevendo apontamentos intimos, que
-cuidadosamente fechava n’um cofre de que
-tinha a chave, e que se julgava serem uma
-especie de codicillo, de appenso ao testamento
-que havia feito.</p>
-
-<p>Finalmente, n’uma manhã de setembro
-de 1477, o rei sahiu a cavallo, como costumava,
-acompanhado por Soeiro Vaz e Pedro
-Pessoa, seis moços de camara, e dois
-moços de esporas, ordenando ao seu capellão
-que o fosse esperar na estrada, em logar
-determinado, onde effectivamente se
-encontraram.</p>
-
-<p>Chegados ahi, Affonso <span class="allsmcap">V</span> deu ordem a
-um dos moços d’esporas para que retrocedesse
-a Honfleur, e entregasse, aos que
-n’essa localidade tinham ficado, a chave do<span class="pagenum"><a id="Page_168"></a>[168]</span>
-cofre, para que o abrissem, e lessem o que
-deixara escripto.</p>
-
-<p>Do que no cofre se continha dá noticia
-Ruy de Pina:</p>
-
-<p>«... deixava uma carta para el-rei de
-França com remoques dissimulados, reportados
-á sua desventura, em que tambem
-lhe dava conta do fundamento que tivera
-para sua partida, que era servir a Deus;
-porque assim lhe fizera voto de o fazer depois
-da morte da rainha, sua mulher, sendo
-o principe seu filho em edade para reger
-seus reinos como era, pedindo-lhe amparo,
-favor e ajuda para os seus, que em seus
-reinos ficavam. E outra carta para o principe
-seu filho, em que lhe dava uma triste
-conta de sua viagem, encommendando-lhe
-e mandando-lhe por sua benção, que logo
-se alevantasse e intitulasse... rei. E outra
-d’esta substancia para todos os do reino,
-que como o proprio e verdadeiro rei obedecessem
-ao principe. E outra para os seus
-que ahi deixara, que estivessem á obediencia
-e ordenança do conde de Faro, com
-que todos foram tão tristes, e fizeram tão
-dolorosos prantos como a razão ensina,<span class="pagenum"><a id="Page_169"></a>[169]</span>
-que em terras tão extranhas e em tanto
-desamparo, e o rei tão amado devia ser.»</p>
-
-<p>As cartas dirigidas para Portugal foram
-logo enviadas ao principe por Antão de Faria,
-e em virtude d’ellas se fez D. João acclamar
-rei de Portugal, em Santarem, aos
-10 de novembro de 1477.</p>
-
-<p>Quando os portuguezes que tinham ficado
-em Honfleur receberam aquellas cartas,
-já estavam suspeitosos da demora de
-Affonso <span class="allsmcap">V</span>, não obstante o seu habito de
-sahir a cavallo todas as manhãs.</p>
-
-<p>Luiz <span class="allsmcap">XI</span> tinha encarregado mr. de Lebret,
-fidalgo francez, de acompanhar Affonso <span class="allsmcap">V</span>
-e de responder pela sua pessoa. Quando
-mr. de Lebret soube que o rei de Portugal
-havia desapparecido, mandou logo emissarios
-a procural-o, accusando ao mesmo
-tempo os portuguezes de incuria na guarda
-do seu soberano. Foi n’uma pequena aldeia
-da costa, uma villagem, diz Ruy de Pina,
-que poude ser encontrado Affonso <span class="allsmcap">V</span>, o
-qual, para não ser descoberto, vivia em
-commum com os poucos criados que o seguiam.
-O gentilhomem, que primeiro logrou
-encontral-o, e que se chamava Robinet-le-Bœuf,
-acordou Affonso <span class="allsmcap">V</span>, que estava<span class="pagenum"><a id="Page_170"></a>[170]</span>
-dormindo, a fim de melhor poder reconhecel-o,
-do que pediu desculpa ao rei de
-Portugal. Surprehendido, Affonso <span class="allsmcap">V</span> não
-tratou de dissimular por mais tempo a sua
-identidade, e Robinet-le-Bœuf fez reunir
-immediatamente toda a gente do logar,
-a fim de que ficasse guardando o rei, expedindo
-emissarios com aviso a Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, aos
-portuguezes que tinham ficado em Honfleur,
-e a mr. de Lebret. Dos portuguezes,
-o primeiro que appareceu foi o conde de
-Penamacôr, que já andava em busca do
-rei. Affonso <span class="allsmcap">V</span> mostrou-se a principio teimoso
-em não renunciar á sua viagem á
-Terra Santa. O conde de Penamacôr mandou
-porisso chamar o conde de Faro, e D.
-Alvaro seu irmão, a fim de que viessem demovel-o,
-o que effectivamente conseguiram.</p>
-
-<p>Affonso <span class="allsmcap">V</span> teve pejo de voltar a Honfleur,
-e portanto embarcou na angra de Hogue,
-com destino a Portugal. Alguns dos
-navios que o acompanhavam, não puderam
-aguentar a conserva, e chegaram primeiro,
-pelo que o principe D. João, já acclamado
-rei, teve noticia da chegada de seu pae.
-Diz-se que D. João <span class="allsmcap">II</span> andava passeando á
-beira do Tejo, junto do paço de Santos,<span class="pagenum"><a id="Page_171"></a>[171]</span>
-com o duque de Bragança D. Fernando e
-com D. Jorge da Costa, mais tarde cardeal
-de Alpedrinha, quando soube que seu pae
-havia chegado a Cascaes, e que perguntara
-aos seus companheiros de passeio o que
-havia de fazer n’aquelle lance. O duque
-respondeu que o dever de D. João <span class="allsmcap">II</span> era
-receber Affonso <span class="allsmcap">V</span> como seu rei e seu pae.
-Então D. João apanhou do chão uma pequena
-pedra, que atirou ao Tejo, e que foi
-por algum tempo cortando a agua. D. Jorge
-da Costa disse, inclinando-se ao ouvido
-do duque: «Aquella pedra não me ha de
-acertar a mim na cabeça.» E no dia seguinte
-partiu para Roma, onde conseguiu chegar
-a grandes honras, e ter subida importancia.</p>
-
-<p>Comprehende-se, no caracter forte e austero
-de D. João <span class="allsmcap">II</span> este movimento de indignação
-perante a fraqueza, a versatilidade
-de seu pae, que cedia vergonhosamente á
-astucia de Luiz <span class="allsmcap">XI</span>. Mas comprehende-se
-tambem que, passada essa primeira impressão,
-fosse receber seu pae a Oeiras, e reverentemente
-lhe entregasse o titulo de rei,
-de que já estava de posse. Os caracteres<span class="pagenum"><a id="Page_172"></a>[172]</span>
-como o de D. João <span class="allsmcap">II</span> teem uma profunda
-comprehensão do seu dever, embora, para
-o cumprir, hajam de dilacerar-se a si mesmos.</p>
-
-<p>Por sua parte, Affonso <span class="allsmcap">V</span>, envergonhado
-das circumstancias em que se achava, e
-das fluctuações do seu proprio espirito,
-queria que o filho conservasse o titulo de
-rei, guardando elle para si o dos Algarves
-e das conquistas de Africa; mas o principe
-não lh’o consentiu.</p>
-
-<p>Depois de estar em Lisboa algum tempo,
-Affonso <span class="allsmcap">V</span> retirou-se para Montemór-o-Novo,
-e d’ahi para Evora, e é notavel que,
-depois de tantos desenganos, lhe tornasse
-a passar pelo espirito a idéa de continuar
-devéras a guerra com Castella, que estava
-limitada a algumas incursões, e de realizar
-definitivamente o seu casamento com D.
-Joanna.</p>
-
-<p>O principe contrariou-lhe ardentemente
-estes pianos, sobretudo o do casamento.
-Era já tarde, entendia o principe; o que
-elle lamentava era que seu pae não tivesse
-acceitado as primeiras propostas de Castella,
-em tempo de Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, desposando<span class="pagenum"><a id="Page_173"></a>[173]</span>
-D. Affonso a infanta D. Isabel, e elle a infanta
-D. Joanna.<a id="FNanchor_53" href="#Footnote_53" class="fnanchor">[53]</a></p>
-
-<p>D. João, durante a ausencia de seu pae,
-havia sustentado a animosidade com Castella,
-e mandara gente sua a descercar a
-villa de Alegrete, que tinha sido sitiada
-por Affonso de Monroy, assim como mandara
-auxilio a Touro e a Castro Nunho, que
-se conservavam fieis a D. Affonso <span class="allsmcap">V</span>, o
-qual, de França, dera ordem aos governadores
-d’essas fortalezas castelhanas para se
-renderem. Elles vieram effectivamente para
-Portugal, por escaparem á vingança de
-Fernando e Isabel, e da coroa portugueza
-receberam auxilio e protecção. Todavia, o
-principe D. João comprehendia perfeitamente
-que Portugal, sobretudo pelo pessimo
-estado das suas finanças, não se achava
-habilitado a continuar uma guerra longa
-e aberta com Castella.</p>
-
-<p>O alcaide-mór da villa de Moura, Lopo
-Vaz de Castello Branco, quiz revoltar-se
-contra o rei de Portugal, porque no paiz
-lavrava um fermento de indisciplina, que
-era estimulado pelas proprias fluctuações<span class="pagenum"><a id="Page_174"></a>[174]</span>
-do poder real, confiado a Affonso <span class="allsmcap">V</span>. Foi
-mais tarde preciso o caracter de ferro de
-D. João <span class="allsmcap">II</span> para repor as coisas no seu antigo
-estado, e para arcar peito a peito com
-quasi toda a nobreza do paiz. Lopo Vaz de
-Castello Branco pagou com a vida a ousadia
-do seu procedimento. Era mais uma
-manifestação da austeridade de caracter do
-principe, que não deixava nunca de punir
-a rebellião dos seus inimigos.</p>
-
-<p>N’esta desgraçada pendencia com Castella,
-ainda Portugal teve de figurar mais
-uma vez. Foi o caso que a condessa de
-Medellim, que seguia a causa da princeza
-D. Joanna, fôra cercada nas suas fortalezas
-pelo mestre de S. Tiago de Castella, e
-mandara pedir auxilio a Affonso <span class="allsmcap">V</span>. Effectivamente
-Portugal enviou-lhe soccorro, indo
-por capitão-mór da pequena expedição o
-bispo de Evora, D. Garcia de Menezes. O
-mestre de S. Tiago deu batalha ao bispo
-junto de Mérida, sendo o bispo vencido, ferido
-e preso, pois que a desproporção das
-forças era enorme entre os dois exercitos.
-O de Castella era muito superior. A guarda
-do bispo foi confiada a um cavalleiro
-castelhano, que se deixou corromper, pelo<span class="pagenum"><a id="Page_175"></a>[175]</span>
-que D. Garcia de Menezes, podendo fugir,
-se recolheu a Medellim, onde, com os destroços
-da expedição, se conservou ainda
-muito tempo cercado, até ao tratado de
-paz.</p>
-
-<p>A agitação era grande em ambos os
-paizes, e n’um e n’outro os especuladores
-de occasião tratavam de tirar todo o
-partido possivel das circumstancias, mirando
-á ganancia. Este estado de coisas, se
-era grave para Portugal, não deixava comtudo
-de inquietar Fernando e Isabel. Então,
-negociações secretas foram entaboladas
-para a paz, chegando a avistar-se na
-villa de Alcantara, em Castella, a rainha D.
-Isabel com sua tia a infanta D. Beatriz, de
-Portugal, viuva do infante D. Fernando.</p>
-
-<p>N’essa entrevista foi tratada a primeira
-combinação das pazes entre os dois reinos.
-Mais tarde uma nova entrevista se realizou
-no Alemtejo entre plenipotenciarios de Portugal
-e Castella, assentando-se que as pazes
-seriam perpetuas. As condições estipuladas
-foram estas:</p>
-
-<p>1.ª Que D. Affonso deixaria de intitular-se
-rei de Castella e Leão, e Fernando e
-Isabel, reis de Portugal;</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_176"></a>[176]</span></p>
-
-<p>2.ª Que D. Joanna perderia todos os titulos
-de que se apossara, não se chamando
-nem rainha nem infanta, salvo se viesse a
-casar com o principe D. João de Castella,
-como ficou para resolver mais tarde;</p>
-
-<p>3.ª Que o antigo tratado de pazes feito
-com D. João <span class="allsmcap">I</span> seria convenientemente revisto
-e modificado;</p>
-
-<p>4.ª Que as cidades, villas e castellos
-que de um reino a outro houvessem sido
-tomados, e assim os prisioneiros, seriam
-restituidos, soltos e perdoados;</p>
-
-<p>5.ª Que em relação a determinadas pessoas
-e cavalleiros se fariam capitulações
-especiaes, e que as fortalezas que nas fronteiras
-de um e outro reino haviam sido
-construidas, seriam derrubadas;</p>
-
-<p>6.ª Que o senhorio da Guiné, desde o
-cabo de Nam e o Bojador até aos indios
-inclusivamente, com todos os seus mares
-adjacentes, ilhas, costas descobertas e por
-descobrir, com seus tratos, pescarias e resgates,
-assim a ilha da Madeira e dos Açôres,
-Flores, Cabo Verde, e a conquista do
-reino de Fez ficassem <i>in solidum</i>, e para
-sempre, ao rei de Portugal, e que as ilhas
-das Canarias, e o reino de Granada ficassem<span class="pagenum"><a id="Page_177"></a>[177]</span>
-<i>in solidum</i> aos reis de Castella, e seus
-successores, para sempre;</p>
-
-<p>7.ª Que para maior segurança d’este
-tratado, o infante D. Affonso, neto de Affonso
-<span class="allsmcap">V</span>, logo que fosse em edade de sete
-annos, casasse com a infanta D. Isabel, filha
-primogenita dos reis de Castella, estabelecendo
-qual o dote da princeza, e o modo
-de pagamento;</p>
-
-<p>8.ª Que d’ahi a certo tempo, a senhora
-D. Joanna, e assim os ditos infantes, fossem
-postos em terçaria na villa de Moura, em
-poder da infanta D. Beatriz;</p>
-
-<p>9.ª Que o principe D. João, filho dos
-reis de Castella, logo que chegasse á edade
-de sete annos, casaria com aquella senhora,
-a qual passaria então a chamar-se princeza,
-sendo convenientemente dotada; mas
-que se o dicto principe D. João não quizesse
-casar com D. Joanna, ficaria ella livre
-da terçaria, recebendo uma indemnização;</p>
-
-<p>10.ª Que a senhora D. Joanna logo fosse
-posta em terçaria, como fica dicto, ou entrasse
-em um de cinco mosteiros que fossem
-indicados, demorando-se ahi o anno
-de noviciado, acabado o qual escolheria<span class="pagenum"><a id="Page_178"></a>[178]</span>
-uma de duas coisas, ou <i>casar ou metter
-freira</i>, segundo a expressão popular.</p>
-
-<p>Estas pazes foram publicadas em setembro
-de 1479.<a id="FNanchor_54" href="#Footnote_54" class="fnanchor">[54]</a></p>
-
-<p>Importava dar cumprimento ás estipulações,
-mas os embaixadores hespanhoes iam
-espaçando de dia para dia a entrega da infanta
-D. Isabel.</p>
-
-<p>Enfadou-se de taes delongas o principe
-D. João, de Portugal, e, estando em Beja,
-enviou aos embaixadores de Castella duas
-folhas de papel, n’uma das quaes estava escripta
-a palavra <i>guerra</i>, e na outra a palavra
-<i>paz</i>. Perante esta corajosa resolução,
-os embaixadores castelhanos, obrigados a
-responder categoricamente, decidiram-se a
-entregar a infanta D. Isabel, que a mãe
-do duque de Vizeu, D. Beatriz, sahiu a receber,
-entregando aos embaixadores em
-refens seu proprio filho D. Manuel, que depois
-foi substituido pelo proprio duque, o
-qual a esse tempo estava doente.</p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_179"></a>[179]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak">VIII<br />
-<span class="smaller">CASAR OU METTER FREIRA</span></h2>
-
-</div>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-d.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">De baldão em baldão, fluctuando
-n’um mar de incertezas, havendo
-atravessado a existencia
-sob o peso de uma predestinação
-fatal, D. Joanna, a <i>Beltraneja,</i> via-se, finalmente,
-obrigada a tomar uma resolução
-definitiva, <i>a escolher um de dois meios</i>, como
-diz Ruy de Pina, <i>que para ella eram
-extremos de mortal sentimento</i>.</p>
-
-<p>Por muitas vezes parecera approximar-se
-do throno; por outras tantas tivera que
-afastar-se d’elle. Em Castella fôra rainha
-durante o tempo que vivem as rosas. Nunca
-lhe deixaram ter coração para amar, ser<span class="pagenum"><a id="Page_180"></a>[180]</span>
-livre como a mais obscura camponeza de
-qualquer dos dois reinos que a sua coroa
-ephemera poderia ter abrangido. E todavia
-fôra esposa promettida de muitos noivos,
-nenhum certamente escolhido com o
-assentimento do seu coração. De um d’elles,
-seu tio Affonso <span class="allsmcap">V</span>, chegara a compartir
-esperanças e desalentos. Sem embargo, D.
-Joanna bem sabia pela licção da historia,
-que a primeira mulher de seu tio arrastara
-uma vida profundamente alanceada de intimos
-pesares. Sabia ou devia saber que D.
-Isabel de Lencastre tivera por thalamo o
-leito de espinhos onde era obrigada a repoisar
-ao lado d’aquelle a quem seu pae
-devêra a morte, e a quem os amigos de
-seu pae deveram perseguição. Não era por
-que Affonso <span class="allsmcap">V</span> tivesse uma alma incapaz de
-comprehender as finas delicadezas do amor.
-Não. Elle amara sua prima Isabel, e chegara
-mesmo a esquecer que ella era filha do
-infeliz infante D. Pedro, a victima de Alfarrubeira.
-Conta-se que D. Isabel, denunciando
-os primeiros symptomas da maternidade,
-sentira estalar a esmeralda do seu
-annel de donzella, que trazia no dedo. Lastimou-se
-a desventurosa princeza, certamente<span class="pagenum"><a id="Page_181"></a>[181]</span>
-por haver gerado uma creança, cujo
-avô fora assassinado por tolerancia do pae.
-Mas Affonso <span class="allsmcap">V</span> acudiu a tranquillizal-a com
-palavras de carinho, fazendo-lhe ver que o
-nascimento de um filho valia bem uma pedra
-preciosa. E foi, sob esta impressão affectuosa,
-que D. Affonso permittira que o
-cadaver de seu tio fosse removido para o
-tumulo de familia, na egreja da Batalha.
-Affonso não era, pois, um homem incapaz
-de sentir, e de amar. Mas a <i>Beltraneja</i> não
-poderia de certo amal-o; iria para elle levada
-pela força das circumstancias, para não
-perder um throno que Affonso <span class="allsmcap">V</span> ambicionava
-ganhar.</p>
-
-<p>Esse casamento, a realizar-se, seria talvez
-um porto de abrigo depois de tantos naufragios;
-uma taboa de salvação nos mares
-aparcelados da vida. E, não obstante, partia-se
-agora essa fragil taboa que era toda
-a esperança da pobre <i>Beltraneja</i>. A politica,
-o espectro que tão cruelmente a perseguia,
-inclinava-se-lhe agora ao ouvido para
-dizer-lhe, como Hamlet a Ophelia: «Entra
-n’um convento; faze-te freira, e depressa...»</p>
-
-<p>Mas a <i>Beltraneja</i> havia sido rainha ainda<span class="pagenum"><a id="Page_182"></a>[182]</span>
-que por pouco tempo, fôra rainha sem
-reino e sem throno, não podia comtudo esquecer-se
-facilmente de que o fôra: uma
-esperança, quando é violentamente arrancada,
-traz sempre comsigo, pegado ás raizes,
-um pedaço do coração. Porisso, a pobre
-princeza chorou ao despir os brocados
-e sedas que até ahi envergara, ao ver cahir
-a seus pés os cabellos por onde outr’ora
-as perolas serpejaram em espiras phantasiosas.
-O seu coração era moço de mais para
-se resignar, abatido, quando no convento
-de Santa Clara, de Santarem, o amortalharam
-no habito monastico.</p>
-
-<p>D. Joanna chorava, choravam com ella
-os seus criados e familiares.</p>
-
-<p>No convento de Santarem <i>ainda hoje</i>,
-diz frei Manuel da Esperança, <i>se vê uma
-casa, que foi sua, onde se rezam matinas
-dos dias menos solennes, a qual por este
-respeito</i> é chamada <i>o corinho</i>.<a id="FNanchor_55" href="#Footnote_55" class="fnanchor">[55]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_183"></a>[183]</span></p>
-
-<p>O principe D. João, endurecido pelos
-calculos ambiciosos da politica, olhava mais
-para o futuro do que para as tranças da
-<i>Beltraneja</i>, que cahiam despedaçadas no
-chão. Era que, segundo o tratado feito com
-Castella, seu filho devia desposar a filha
-mais velha de Fernando e Isabel. Assim,
-poderia chegar talvez ao mesmo ideal, a
-unificação de duas coroas, por caminhos
-mais suaves.</p>
-
-<p>«O principe, que de se cumprirem as capitulações,
-diz Duarte Nunes, tinha seus
-particulares interesses, e o casamento para
-seu filho, <i>e porventura a successão dos
-reinos de Castella</i>, como depois pudera
-succeder, se o juizo divino o não atalhara...»<a id="FNanchor_56" href="#Footnote_56" class="fnanchor">[56]</a></p>
-
-<p>Que importava que fosse preciso, para
-realizar esse <i>desideratum</i>, esmagar o coração
-de uma pobre mulher?</p>
-
-<p>Affonso <span class="allsmcap">V</span>, envergonhado de si proprio,
-deixou inteira liberdade de acção ao filho.<span class="pagenum"><a id="Page_184"></a>[184]</span>
-Pungia-o a consciencia dos seus erros.
-Sentia-se prostrado, de mais no mundo...
-e talvez no reino. O seu tempo passara; o
-pobre rei era o cadaver de si mesmo, apenas
-amortalhado nos trophéos conquistados
-em Africa, e manchados em França.</p>
-
-<p>No principio do anno seguinte, de 1480,
-a peste, essa cruel e duradoira peste que
-por tantos annos devia assolar Portugal, principiou
-a brandir o seu gladio desolador. D.
-Joanna recebeu ordem de retirar-se do convento
-de Santa Clara, de Santarem, para o
-de Evora, por fugir ao morticinio, e, todavia,
-talvez que ella houvesse preferido ser
-uma das victimas do terrivel flagello, que
-parecia mais apiedado da sua triste sina do
-que o coração do principe D. João, seu primo.</p>
-
-<p>Elle, porem, queria poupar-lhe a vida,
-para não ver partir-se-lhe nas mãos um poderoso
-instrumento de ambição politica. Se
-Castella procurasse algum dia illudir as estipulações
-do tratado, D. Joanna serviria
-como ameaça, a questão dos <i>seus direitos</i>
-renasceria das proprias cinzas... Era, pois,
-preciso que a <i>Beltraneja</i> vivesse. Porisso,
-invadida Evora pela peste, levaram D. Joanna<span class="pagenum"><a id="Page_185"></a>[185]</span>
-para o Vimieiro, e do Vimieiro para Santa
-Clara, de Coimbra.</p>
-
-<p>Graças a um documento por nós encontrado
-na Torre do Tombo, onde aliás fizemos
-muitas outras investigações infructiferamente,
-conhecemos o teor de negociações
-entaboladas entre Portugal e Castella
-para retirar de Evora, quando a peste alli
-entrou, D. Joanna, já então officialmente
-appellidada a <i>Excellente Senhora</i>.</p>
-
-<p>Esse documento (existente na cella M,
-ms. 1163, fl. 518) é uma carta do principe
-D. João para Rodrigo Affonso, embaixador
-de Portugal em Castella, escripta de Beja.</p>
-
-<p>Eis o seu conteúdo:</p>
-
-<p>«Rodrigo Affonço Amigo, nós o Princepe
-vos inviamos muito saudar: nos soubemos
-hora per o Doutor Mestre Rodriguo
-como foi dito a hum frade em confição que
-nesta villa fallecerão hora dous moços deste
-mal que anda, e assim houvemos recado
-do Conde de Abrantes ha dous dias como
-em Evora fallecerão hora duas outras pessoas
-desta morte em huma casa a qual
-logo foi cerrada, e taypada a rua, e que
-estavão em grande sospeita, e temor de o
-mal ser mais, por o qual os da Cidade se<span class="pagenum"><a id="Page_186"></a>[186]</span>
-fasião prestes para se sahir della se mais
-alguma couza acontecesse pedindo nos que
-lhe mandassemos diser a maneira que terião
-com a muy Excellente Senhora minha
-prima acerqua de sua estada alli ou partida
-para outra parte sobre o que acordamos
-de vos logo escrever e vos faser saber
-como nosso fundamento he se a couza
-mais for antes de vermos vosso recado se
-com a dita Senhora nom podermos acabar
-que se venha aqui a esta Villa sendo seguro
-de a poremos em algum lugar desta
-Comarqua, acerca donde nós estivermos
-ataa veremos vosso recado do que lá acabais
-neste feito, per que se aos Reys aprouver
-que se a dita Senhora esté fora dos
-sinco Mosteiros na cappitulação limitados
-trabalharemos como esté em algum luguar
-desta Comarqua porque nella nom ha mais
-luguares que tenhão Mosteiros de Freiras
-tirando Evora e esta Villa, que Estremoz e
-Portalegre, e poderia ser segundo este mal
-anda espalhado muito neste Reyno que
-nestes tambem morrerião como já agora
-morrem em Souzel que he antre ambos
-como sabeis e tam acerqua delles, compre
-que saibamos se em tal caso lhes prazeria<span class="pagenum"><a id="Page_187"></a>[187]</span>
-á dita Senhora estar em algum outro lugar
-desta Comarqua posto que Mosteiro de
-Freiras nom tenha, estando com freiras e
-encerrada em forma de Relligião e com
-sua guarda assim como a deve ter estando
-em cada hum dos cinco Mosteiros porque
-nom prazendo aos Reys de dar seu consentimento
-tal que proveja a dita Senhora
-minha prima poder estar nesta Comarqua
-e Luguares della segundo vay aqui apontado
-sem nosso pejo com relevamento do
-passado segundo forma da instrucção que
-levastes será necessario que se vá a Coimbra
-como comvosco fallamos e para isto
-cumprir que muy trigosamente hajais despacho,
-e nolo invieis logo a mais andar, ou
-se já fordes despachado nolo traguais.»</p>
-
-<p>Havia-se completado um anno desde que
-D. Joanna vestira o habito; restava-lhe professar
-ou entrar em terçaria.</p>
-
-<p>Ella ou alguem por ella optou pelo convento.
-De Castella vieram embaixadores
-assistir á profissão, para assegurar-se d’esta
-parte do tratado, diz um escriptor hespanhol,
-isto é, para levarem a Fernando e
-Isabel a certeza de que as pretensões de
-D. Joanna á côrte de Castella ficavam para<span class="pagenum"><a id="Page_188"></a>[188]</span>
-todo o sempre encarceradas dentro das grades
-de um mosteiro, e amortalhadas no burel
-de uma pobre freira, cujos laços mundanos
-parecia deveriam, desde esse momento,
-ficar partidos de vez. Não aconteceu
-inteiramente assim, como veremos.</p>
-
-<p>É certo ter D. Joanna dicto aos embaixadores
-castelhanos que <i>sin ninguna premia,
-salvo de su propria voluntad queria vivir
-en religion e facer profesion e fenescer en
-ella</i>. Seria, porem, completamente essa a
-sincera expressão da sua alma? Não por
-certo. Essas palavras são transparentes, revelam
-bem a altivez da mulher ferida no
-seu orgulho: ha n’ellas um mixto de fel e
-de lagrimas. Ao pronuncial-as, o coração
-da <i>Beltraneja</i> devia despedaçar-se. Mais do
-que nunca se denuncia então o justo desespero
-com que ella se revoltava contra
-os repetidos sacrificios que exigiam da sua
-fraqueza.</p>
-
-<p>O principe D. João, de Portugal, sorria
-porventura, por entre dentes, da credulidade
-dos embaixadores hespanhoes, que julgavam
-ser muralha inexpugnavel a parede de
-um mosteiro, e prisões inquebrantaveis as
-grades d’elle.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_189"></a>[189]</span></p>
-
-<p>Nas conversações particulares, que mantinha
-com os seus intimos, D. Joanna deixava-se
-enternecer facilmente pelas lagrimas
-d’elles: a mulher, revoltada contra o
-sacrificio, apparecia então. Ruy de Pina não
-o dissimula quando noticía que foi precisa
-a intervenção do principe D. João para que
-a profissão da <i>Beltraneja</i> se realizasse, como
-realizou, a 15 de novembro de 1480, em
-Santa Clara, de Coimbra.</p>
-
-<p>Consummara-se o sacrificio. D. Joanna
-recebeu o véo preto das mãos de frei Diogo
-de Abrantes.</p>
-
-<p>Em muitos olhos brilhava compassivo
-pranto; só D. João não chorava.<a id="FNanchor_57" href="#Footnote_57" class="fnanchor">[57]</a></p>
-
-<p>Affonso <span class="allsmcap">V</span>, doente de melancholia, não assistira;
-não tivera forças para tanto. Não tivera
-energia para resistir ás imposições de
-seu filho; mas faltara-lhe tambem a coragem
-para assistir á profissão de sua sobrinha,
-que elle proprio victimara.</p>
-
-<p>Logo em Coimbra, diz Damião de Goes<span class="pagenum"><a id="Page_190"></a>[190]</span>
-na <i>Chronica do principe D. João</i>, esteve
-para morrer <i>de pura melancholia</i>. Escapara
-por então, mas fizera-se intratavel, misanthropo.
-Queria recolher-se ao mosteiro do
-Varatojo, e professar. Assim acabaria por
-um duplo voto religioso este triste drama
-do seu projectado casamento com a <i>Beltraneja</i>.
-Mas, antes de realizar um tal plano,
-precisava avistar-se com o filho, que
-estava em Beja: deviam tratar n’essa conferencia
-da convocação de côrtes geraes, para
-que ellas reconhecessem D. João como
-rei. Affonso <span class="allsmcap">V</span> partiu, pois, de Coimbra para
-Beja no verão de 1481. Na entrevista,
-ficou resolvido que as côrtes se convocassem
-para Estremoz, porque Lisboa e Evora
-estavam assoladas pela peste. Tratado
-este negocio, D. Affonso <span class="allsmcap">V</span> partiu, no principio
-de agosto, de Beja para Cintra onde,
-solitario como desejaria viver, devia esperar
-pela reunião das côrtes.</p>
-
-<p>Em Cintra, o rei foi acommettido de febres.
-Pouco era preciso para o matar no
-estado de abatimento e desgosto em que se
-encontrava. O principe acudiu logo a Cintra,
-mas os medicos desenganaram-n’o: o
-rei morria. D. Affonso acceitou a morte<span class="pagenum"><a id="Page_191"></a>[191]</span>
-como uma redempção: fez ao filho algumas
-recommendações, deu-lhe conselhos.
-Pediu-lhe que protegesse a orfandade da
-<i>Beltraneja</i>. E morreu, a 8 d’esse mez, com
-quarenta e nove annos de edade.</p>
-
-<p>Acabara-se finalmente a tortura que lhe
-rasgara o coração a lentas punhaladas.</p>
-
-<p>Poucos dias depois do fallecimento de
-Affonso <span class="allsmcap">V</span>, nascia o filho que D. Anna de
-Mendonça tivera do principe herdeiro D.
-João. D. Anna de Mendonça, mulher muito
-fidalga e moça formosa de mui nobre geração,
-diz Garcia de Rezende, servira como
-dama de honor da <i>Beltraneja</i>, andara na
-sua casa. Ao passo que D. Joanna, casada
-e virgem, via fechada a dobra do seu leito
-de noiva, jámais occupado, uma das suas
-damas de companhia rendia-se ás seducções
-do principe D. João, menos disposto
-a guardar para si a abstinencia de prazeres
-que exigia de sua prima. Era justamente
-na roda da noiva mallograda de
-seu pae que o principe D. João ia procurar
-e encontrar uma amante, com a qual
-corria a emboscar-se nas moitas floridas de
-Cernache do Bom Jardim. Singulares ironias
-tem ás vezes o destino!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_192"></a>[192]</span></p>
-
-<p>D. João <span class="allsmcap">II</span>, subindo ao throno, travou
-desde logo uma porfiada lucta com a nobreza.
-Alexandre Herculano sustenta que
-a indole das instituições da velha monarchia
-ovetense-leoneza, e das que d’ella procederam,
-não só foi extranha, mas até repugnante
-á indole do feudalismo. Temos o
-maximo respeito pela memoria do illustre
-historiador, mas n’este ponto não concordamos
-inteiramente com a sua opinião.</p>
-
-<p>De passagem relembraremos, por fazer
-ao nosso proposito, que em Portugal, os
-reis transmittiram por meio de concessões
-os direitos de soberania aos senhores feudaes,
-creando, para assim dizer, outras tantas
-monarchias quantos eram os donatarios,
-que, por esse facto, se chamaram senhores
-de baraço e cutello, senhores de pendão e
-caldeira. Como prova do enfraquecimento
-real entre nós, por effeito do poder feudal,
-bastará citar um unico facto. Reinando Sancho
-<span class="allsmcap">II</span>, Estêvam Pires de Molny possuia
-um paço no logar de Carcavellos, na terra
-da Feira. Como o resto do logar não fosse
-coitado, o mordomo do rei entrou n’elle
-para penhorar um lavrador. Pois o senhor
-do paço arrastou o mordomo pela freguezia,<span class="pagenum"><a id="Page_193"></a>[193]</span>
-dizendo-lhe: «Cá por aqui é honra!» e
-depois enforcou-o.<a id="FNanchor_58" href="#Footnote_58" class="fnanchor">[58]</a></p>
-
-<p>Os senhores feudaes davam foraes e leis
-aos aldeões e villãos (<i>villani</i>), taxavam a
-quantidade de fructos e a qualidade de
-serviços que lhes deviam prestar, nomeavam
-juizes e tribunaes, e arbitravam penas;
-d’aqui nasceu a escravidão da terra (<i>servitus
-glebæ</i>). Algumas vezes, os donatarios
-concediam terras em feudos aos plebeus ou
-peões: a estes beneficios chamava-se <i>feudos
-dos senhores ou subfeudos</i>.<a id="FNanchor_59" href="#Footnote_59" class="fnanchor">[59]</a></p>
-
-<p>Em virtude d’este regimen, e como se
-deprehende do que fica exposto, temos nos
-primeiros tempos da monarchia as seguintes
-divisões sociaes por classes: senhores
-feudaes ou fidalgos, plebeus ou peões, vassallos
-ou servos. Desde o começo da realeza
-em Portugal, a acção do feudalismo,
-e as luctas a que dava causa, accentuam-se
-de um modo nitido, segundo cremos.<span class="pagenum"><a id="Page_194"></a>[194]</span>
-Vemos os irmãos de Affonso <span class="allsmcap">II</span> negar-lhe
-vassallagem, por um acto de rebellião
-feudal. D. Sancho <span class="allsmcap">II</span> deposto pelo clero e
-pela nobreza. Por sua parte, os reis reagiam,
-procurando cercear as garantias dos
-senhores feudaes. Affonso <span class="allsmcap">II</span> supprime os
-tributos do <i>comestivel</i> e das <i>aliavas</i>; Affonso
-<span class="allsmcap">III</span> cria os <i>juizes de fóra</i>, representantes
-do poder real para inspeccionarem a administração
-da justiça nos territorios feudaes;
-D. Diniz procurou oppor o seu manifesto
-espirito de justiça á acção da prepotencia
-feudal; Affonso <span class="allsmcap">IV</span> definiu a jurisdicção dos
-donatarios no edito geral; D. Fernando tratou
-de cohibir as malfeitorias que os fidalgos
-commettessem com armas; D. João <span class="allsmcap">I</span> e
-D. Duarte recorrem principalmente á <i>lei
-mental</i>, como a um poderoso meio de combate.
-Affonso <span class="allsmcap">V</span>, porem, como já tivemos
-occasião de ver, augmentou em larga escala
-o poderio dos nobres, pelo abuso de
-concessões. Mas seu filho, D. João <span class="allsmcap">II</span>, estava
-talhado para oppor uma barreira gigante
-á onda crescente e abusiva do regimen
-feudal.</p>
-
-<p>Coisa notavel! Pessoalmente, D. João <span class="allsmcap">II</span>
-devia odiar Luiz <span class="allsmcap">XI</span> pela maneira doble e<span class="pagenum"><a id="Page_195"></a>[195]</span>
-aviltante por que recebera em França seu
-pae; politicamente, tomava-o como modelo
-n’essa lucta terrivel em que se achava empenhado,
-salvas as differenças de caracter.
-João <span class="allsmcap">II</span> imitou Luiz <span class="allsmcap">XI</span> não só nos rasgos
-mais principaes, mas até na dissimulação
-e crueldade; era comtudo mais paciente, e
-porisso mesmo não arriscava os passos senão
-depois de pisar terreno firme.<a id="FNanchor_60" href="#Footnote_60" class="fnanchor">[60]</a></p>
-
-<p>Os senhores feudaes, que em França acabavam
-de ajudar Carlos <span class="allsmcap">VII</span> a expulsar os
-inglezes, não eram por certo menos poderosos
-do que aquelles que em Portugal
-haviam conseguido supplantar o infante D.
-Pedro. O duque de Bragança era relativamente
-tão importante como o duque de
-Borgonha. Esta identidade de circumstancias
-levou fatalmente João <span class="allsmcap">II</span> a copiar, melhorando-o,
-o exemplo de Luiz <span class="allsmcap">XI</span>.</p>
-
-<p>Assim como o rei de França inicia o seu
-reinado proclamando a lucta com a nobreza,<a id="FNanchor_61" href="#Footnote_61" class="fnanchor">[61]</a>
-o de Portugal trata, depois de reunidas
-as primeiras côrtes em Evora, de lançar
-a luva aos seus emulos, cuidando de<span class="pagenum"><a id="Page_196"></a>[196]</span>
-regularizar a fórma das menagens. Era o cartel
-para o repto; o aviso para a lucta.</p>
-
-<p>«Antes de se fazerem estas menagens,
-diz Garcia de Rezende,<a id="FNanchor_62" href="#Footnote_62" class="fnanchor">[62]</a> el-rei com o duque
-de Bragança e outros senhores, e pessoas
-do conselho, praticou umas palavras
-que nas menagens haviam de dizer muitas
-vezes, <i>em que houve muitas porfias, desgostos,
-descontentamentos, por lhe parecer
-aspera fórma a que el-rei queria</i>...»</p>
-
-<p>Mas, não obstante a opposição do duque
-de Bragança, João <span class="allsmcap">II</span> fez vingar o novo formulario
-de menagens.</p>
-
-<p>Como claramente se póde ver do teor
-das menagens, a sua redacção bastava para
-revelar as intenções do rei, e o duque de
-Bragança, querendo protestar, mostra, como
-toda a outra nobreza, não conhecer D. João
-<span class="allsmcap">II</span>: julga-o fraco, parece-lhe que se acobardará
-perante a resistencia.</p>
-
-<p>O duque precisou dos titulos das suas doações
-para documentar o protesto, e mandou
-buscal-os a Villa Viçosa, pelo veador
-da sua fazenda, João Affonso, dando-lhe a
-chave de um cofre que continha todos os
-papeis de segredo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_197"></a>[197]</span></p>
-
-<p>João Affonso declinou esta grave commissão
-n’um filho seu, em quem muito confiava.
-Na occasião em que o filho do veador
-andava procurando no cofre, appareceu
-por acaso na sala Lopo de Figueiredo,
-escrivão da fazenda do duque, o qual, a
-pedido do rapaz, o ajudou a procurar os
-papeis. Depararam-se-lhe, porem, entre elles
-algumas cartas e instrucções de Castella, e
-para os reis de Castella, com emendas e
-correcções feitas pela lettra do duque. Lopo
-de Figueiredo poude escondel-os, mettendo-os
-na manga do gibão. Em casa leu-os
-vagarosamente, e reconheceu que se não
-havia enganado, pelo que immediatamente
-correu a Evora, a mostral-os ao rei, que
-d’elles tomou conhecimento, dando-os a copiar
-a Antão de Faria, e mandando-os pôr
-no cofre, onde estavam, por Lopo de Figueiredo.</p>
-
-<p>Eis aqui como o acaso, ou o <i>mysterio de
-Deus</i>, como diz Garcia de Rezende, poz
-nas mãos de D. João <span class="allsmcap">II</span> o fio de uma intriga,
-que era como que o vendaval que devia
-atiçar o fogo da lucta travada entre elle
-e a nobreza de Portugal.</p>
-
-<p>D. João <span class="allsmcap">II</span> tinha um duplo motivo para,<span class="pagenum"><a id="Page_198"></a>[198]</span>
-segundo o seu ponto de vista, combater o
-duque de Bragança: em primeiro logar, atacava
-um dos maiores e mais altivos potentados
-que faziam sombra á coroa real; em
-segundo logar, desde que o duque se oppuzera
-a que Affonso <span class="allsmcap">V</span> passasse a Castella,
-via n’elle um parcial da causa, agora
-triumphante, de Fernando e Isabel. E depois
-lembraram a D. João <span class="allsmcap">II</span> as palavras
-duras do duque quando, depois da batalha
-de Touro, se não sabia do destino de Affonso
-<span class="allsmcap">V</span>.</p>
-
-<p>As cartas que o acaso trouxera ás mãos
-do rei, vieram fortalecel-o na antiga suspeita.
-Desde esse momento, D. João <span class="allsmcap">II</span> não
-pensou senão em liquidar estas contas antigas.
-Espirito forte, caminhou resolutamente
-para o seu ideal de vingança, umas vezes
-mostrando-se severo e desconfiado com
-o duque de Bragança, outras vezes fingindo
-acreditar nos seus protestos de obediencia
-e fidelidade.</p>
-
-<p>Mas, intimamente, D. João <span class="allsmcap">II</span> julgava indispensavel
-prevenir-se com uma arma poderosa
-para contraminar a connivencia do
-duque de Bragança com Castella: essa arma
-era sua prima, D. Joanna, a <i>Beltraneja</i><span class="pagenum"><a id="Page_199"></a>[199]</span>
-ou, como agora lhe chamavam os castelhanos,
-<i>la Monja</i>.</p>
-
-<p>Pois bem. Sem hesitar um momento, D.
-João ordenou que abrissem a sua prima as
-portas do mosteiro de Coimbra, e que ella
-vivesse no seculo com a ostentação que ao
-seu nascimento era devida.</p>
-
-<p>E assim foi que, freira professa havia
-dois annos, D. Joanna, joguete malfadado
-das ambições dos outros, voltou de novo
-ao mundo onde a felicidade parecia apostada
-em mostrar-se-lhe tão esquiva como
-outr’ora, quando ainda o véo preto lhe não
-cingia a bella cabeça juvenil.</p>
-
-<p>Mas o infante D. Affonso, filho unico de
-D. João <span class="allsmcap">II</span>, estava nas terçarias de Moura,
-como a princeza D. Isabel, filha dos reis
-catholicos. Era preciso arrancal-o d’esse
-captiveiro, onde a sua vida poderia correr
-perigo, tanto maior por certo quanta fosse
-a animosidade manifestada por D. João <span class="allsmcap">II</span>
-contra o duque de Bragança, que tinha,
-como sabemos, intimas relações com a côrte
-de Castella.</p>
-
-<p>A fim de salvar a vida de seu filho, tratou
-D. João <span class="allsmcap">II</span> de annullar as terçarias, e
-para esse fim enviou a Fernando e Isabel<span class="pagenum"><a id="Page_200"></a>[200]</span>
-uma embaixada composta do barão de Alvito
-e de Ruy de Pina, o chronista, os
-quaes começaram por pedir que o deposito
-dos principes fosse transferido para um logar
-menos doentio do que a villa de Moura.</p>
-
-<p>Os reis de Castella, prevenidos pelo duque
-de Bragança das intenções de D. João
-<span class="allsmcap">II</span>, fizeram mallograr o exito d’esta primeira
-embaixada.</p>
-
-<p>Nova embaixada mandou D. João <span class="allsmcap">II</span> a
-Castella, d’esta vez para que as terçarias
-se mudassem <i>ou desfizessem</i>, dizendo mais
-o embaixador que, se não parecia conveniente
-o casamento do principe portuguez
-com a infanta D. Isabel, pela differença das
-edades, se effectuasse com a infanta D.
-Joanna e que, a ser assim, fossem, em
-compensação, cedidas a Portugal as ilhas
-Canarias, que el-rei sempre desejou para
-maior segurança da Guiné.</p>
-
-<p>A desconfiança dos reis de Castella, a
-respeito do de Portugal, tinha a esse tempo
-subido de ponto, porisso que em Castella
-haviam sido presos alguns portuguezes,
-que se diziam encarregados de negociar,
-por ordem de D. João <span class="allsmcap">II</span>, o casamento
-da <i>Excellente Senhora</i> com o rei<span class="pagenum"><a id="Page_201"></a>[201]</span>
-Phebo, de Navarra. Fernando e Isabel queriam
-que os suppostos emissarios do rei de
-Portugal fossem por elle punidos, porque
-só assim se convenceriam da boa fé de D.
-João <span class="allsmcap">II</span>.</p>
-
-<p>Esta exigencia dos reis de Castella não
-foi desde logo attendida pelo de Portugal.</p>
-
-<p>Portanto, um problema inquietador principiou
-a preoccupar o espirito de D. João
-<span class="allsmcap">II</span> e d’aquelles que lhe eram dedicados:
-qual o melhor meio de conseguir a annullação
-das terçarias de Moura?</p>
-
-<p>Uma das pessoas que deram o seu voto
-n’esta importante questão foi D. Philippa de
-Lencastre, tia de D. João <span class="allsmcap">II</span>, irmã de sua
-mãe, e religiosa de Odivellas.</p>
-
-<p>Digamos d’esta senhora duas palavras.</p>
-
-<p>No testamento da rainha D. Isabel é D.
-Philippa, sua irmã, a principal contemplada,
-pelo grande amor que lhe tinha, e porque
-a situação da familia do infante D. Pedro,
-como do mesmo testamento se vê, era precaria.
-Mas essa disposição testamentaria de
-D. Isabel iria, a realizar-se, prejudicar a legitima
-devida a seus dois filhos. Não obstante
-esta causa de nullidade do testamento,
-D. Affonso <span class="allsmcap">V</span> estabeleceu a sua cunhada<span class="pagenum"><a id="Page_202"></a>[202]</span>
-uma tença de duzentos e vinte mil réis; e
-recommendou-a nas disposições testamentarias
-que elle proprio fizera em Portalegre
-antes de partir para Castella.<a id="FNanchor_63" href="#Footnote_63" class="fnanchor">[63]</a></p>
-
-<p>Frei Francisco Brandão diz que, não obstante
-a tença, D. Philippa passara a vida <i>com
-não grande cabedal</i>, e que D. Affonso <span class="allsmcap">V</span>
-bem pudera <i>ter remedeado a prima que recommenda</i>.
-Como quer que seja, seu sobrinho
-D. João <span class="allsmcap">II</span> doou-lhe uma parte da renda
-da Villa de Alcolea de Sinca, no principado
-da Catalunha.</p>
-
-<p>Depois da morte da rainha D. Isabel, D.
-Philippa esteve parte do tempo em Coimbra,
-em casa de sua mãe, a viuva do infante
-D. Pedro; mais tarde veiu para Lisboa
-onde acompanhou a educação de sua sobrinha
-D. Joanna.</p>
-
-<p>Havendo-se recolhido ao mosteiro de
-Odivellas, sem que aliás professasse, foi de
-romaria a S. Tiago de Galliza, e morreu
-em Portugal no anno de 1497. Jaz na sacristia
-de Odivellas.</p>
-
-<p>Como iamos dizendo, esta senhora dera
-voto na questão das terçarias; talvez lhe
-<span class="pagenum"><a id="Page_203"></a>[203]</span>fosse solicitado por sua prima D. Beatriz.
-Frei Francisco Brandão encontrou o documento,
-que nos transmittiu o voto de D.
-Philippa, na torre do Tombo, entre os papeis
-de Fernão de Pina. Publicou-o com o
-seguinte titulo: <i>Conselho e voto da senhora
-Dona Philippa filha do infante Dom Pedro
-sobre as terçarias, e guerras de Castella.
-Com uma breve noticia d’esta princeza,
-dirigido a el-rei Dom João IV, Nosso
-Senhor.</i> Lisboa, 1643.<a id="FNanchor_64" href="#Footnote_64" class="fnanchor">[64]</a></p>
-
-<p>D. Philippa lamenta que o principe D.
-Affonso esteja nas terçarias com prejuizo
-para a sua educação. Não aconselha que o
-tirem para fazer guerra a Castella, mas não
-quer isso dizer que deixe de reconhecer as
-vantagens de Portugal em qualquer lucta
-armada com Castella, tiradas da historia do
-passado. Entende que um portuguez ha de
-valer sempre vinte castelhanos com a ajuda
-de Deus. Recorda que se Affonso <span class="allsmcap">V</span> foi
-a Touro, varios castelhanos lh’o pediram.
-E remata dizendo: «E assi concludo: sua<span class="pagenum"><a id="Page_204"></a>[204]</span>
-paz deve ser desejada com grande razom,
-mas sua guerra que Deos nos goarde, nem
-deve ser mui temida, quando sem causa
-procurarem metella em obra, pois Deos,
-justiça, verdade, razoens humanaes som em
-nossa ajuda, e a elles contrarios.»</p>
-
-<p>Emquanto variavam os pareceres a respeito
-das terçarias, D. João <span class="allsmcap">II</span> enviava terceira
-embaixada a Castella, encarregada de
-dar satisfacções e desculpas aos soberanos
-d’aquelle paiz, que trataram de mostrar-se
-satisfeitos com ellas, porque o seu maior
-desejo era tambem verem fóra das terçarias
-a infanta D. Isabel, receosos de que a
-sua vida pudesse ser penhor de alguma
-nova combinação politica. Ficou então assente
-que as terçarias se desfariam, e que
-o principe D. Affonso casaria não com a
-infanta D. Isabel, mas com a infanta D.
-Joanna, e que se lhe daria maior dote por
-estar esta infanta mais afastada na linha
-de successão de Castella. Outrosim ficou
-combinado que os reis de Castella mandariam
-na proxima Paschoa embaixadores a
-Portugal para se tratar definitivamente da
-resolução d’estas combinações.</p>
-
-<p>A familia real estava em Almeirim n’essa<span class="pagenum"><a id="Page_205"></a>[205]</span>
-occasião. A rainha teve ahi um mobito, e
-por este motivo a foram visitar muitos fidalgos,
-entre os quaes o duque de Vizeu,
-seu irmão, e o de Bragança, a quem D.
-João <span class="allsmcap">II</span> recebeu de boa sombra. Não obstante,
-um dia chamou-o de parte á capella
-do paço, e, na presença do bispo de Lamego,
-lhe disse que estava inteirado de
-que elle tinha ligações suspeitas com Castella,
-mas que se essas combinações eram
-filhas de um proposito errado, estava disposto
-a perdoal-as e esquecel-as. Lembrou-lhe
-as obrigações que o duque devia á memoria
-de D. Affonso <span class="allsmcap">V</span>, de quem havia recebido
-largas honras, e patrimonio. E ainda
-que se julgasse aggravado com o degredo
-do marquez, e a entrada dos corregedores
-em suas terras, devia ser o primeiro
-a querer dar um exemplo de obediencia
-e de respeito ao rei.</p>
-
-<p>O duque de Bragança imaginou que D.
-João <span class="allsmcap">II</span> se deixaria embalar pelas suas palavras;
-que o supporia um inimigo que retirava,
-que desalentava na lucta; e, cheio de
-hypocrisia, respondeu affirmando os seus
-sentimentos de estima e gratidão ao chefe
-do Estado.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_206"></a>[206]</span></p>
-
-<p>Enganava-se.</p>
-
-<p>O certo é que a nobreza julgou haver
-submettido aquelle forte inimigo das suas
-regalias. Folgou com isso. Sahindo de Almeirim,
-os duques de Vizeu, de Bragança e
-seus irmãos juntaram-se no Vimieiro, folgando
-com o que se tinha passado, e entre
-si resolveram não deixar entrar os corregedores
-nas suas terras. Sobre o mesmo
-assumpto, o marquez de Montemór, o conde
-de Faro e D. Alvaro de Bragança tiveram
-entrevistas secretas no mosteiro de Santa
-Maria do Espinheiro, em Evora, tomando-se
-notavel o marquez pela exaltação, pelo odio
-com que sempre falava do rei.</p>
-
-<p>D. João <span class="allsmcap">II</span> andava devidamente informado
-d’estas conspirações, mas, astuto e reservado,
-pareceu-lhe melhor esperar. Porisso,
-deu ordem para que se não fizesse a correição
-ás terras dos nobres, e até chegou a
-despachar favoravelmente algumas pretensões
-do marquez, e do conde de Faro.</p>
-
-<p>D. João <span class="allsmcap">II</span> preparava o laço, e esperava
-a presa.</p>
-
-<p>Entretanto, o duque de Bragança, em intelligencia
-com os reis de Castella, continuava
-a conspirar. Um mensageiro castelhano<span class="pagenum"><a id="Page_207"></a>[207]</span>
-veio avistar-se secretamente a Portugal
-com o duque, combinando ambos n’uma
-capitulação, da qual o marquez de Montemór
-teve conhecimento. A capitulação dividia-se
-em dois pontos principaes: 1.º Que
-visto a <i>Excellente Senhora</i> não viver no rigor
-monastico a que era obrigada, fosse
-entregue ao duque de Bragança ou a seus
-irmãos, para lhe fazerem cumprir o que
-fosse honesto. 2.º Que fosse permittido aos
-subditos castelhanos o irem negociar na
-Guiné.</p>
-
-<p>É claro que D. João <span class="allsmcap">II</span> não podia annuir
-a estes pedidos, em primeiro logar porque
-lhe arrancavam das mãos uma grande arma
-diplomatica, tal era a <i>Excellente Senhora</i>;
-em segundo logar, porque abalaria o dominio
-portuguez, na Africa, com a concessão
-feita aos castelhanos.</p>
-
-<p>Mas isso mesmo era o que Castella e o
-duque de Bragança queriam: porque na
-propria recusa estava um pretexto para Fernando
-e Isabel declararem a guerra, e para
-o duque se desculpar de não prestar auxilio
-a D. João <span class="allsmcap">II</span>, fingindo achar desarrazoada
-a recusa.</p>
-
-<p>As novas intelligencias do duque com<span class="pagenum"><a id="Page_208"></a>[208]</span>
-os soberanos de Castella foram descobertas
-a D. João <span class="allsmcap">II</span> por Gaspar Infante, irmão
-de Pedro Infante, familiar dos Braganças. D.
-João <span class="allsmcap">II</span>, que já estava desconfiado, ficou
-prevenido, mas não lhe convinha precipitar
-os acontecimentos, tanto mais que tinha
-seu filho nas terçarias, e receava pela
-sua vida. Mas, como a guerra de Granada
-absorvesse toda a attenção e recursos dos
-reis catholicos,<a id="FNanchor_65" href="#Footnote_65" class="fnanchor">[65]</a> um embaixador chegava
-a Portugal para tratar justamente de desfazer
-as terçarias. Assentou-se pois no casamento
-do principe D. Affonso com a infanta
-D. Joanna, filha segunda dos reis castelhanos.</p>
-
-<p>A este tempo voltava de Castella Pedro
-Infante com a correspondencia secreta para
-o duque. O rei leu-a, e resolveu logo, visto
-que o obstaculo que as terçarias offereciam
-ia desapparecer, prender o duque ou cercal-o
-em qualquer logar que estivesse. «E
-para isso, escreve Garcia de Rezende, houve
-logo secretamente muito dinheiro junto
-que trazia em sua guarda roupa, e assim
-fez muitas das cartas, provisões, que em
-tal caso havia de mandar pelo reino, e ás<span class="pagenum"><a id="Page_209"></a>[209]</span>
-villas e castellos do duque e seus alcaides-móres,
-o que tudo lhe aproveitou na noite
-que prendeu o duque como adeante se
-dirá.»</p>
-
-<p>D. João <span class="allsmcap">II</span> mandara procuradores seus a
-Moura buscar o principe. O duque de Bragança,
-sabendo isto, foi encontrar-se com
-elles em Portel, e alli lhes perguntou o que
-deveria fazer, visto que o principe passava
-pelas suas terras. Os procuradores responderam
-que, para serenar de vez certas differenças
-que tinha havido entre o rei e o
-duque, o que este devia fazer era acompanhar
-o principe á côrte, servil-o e honral-o.
-Mas, receosos de que o seu conselho desagradasse
-ao rei, mandaram, por meio de
-postilhões que havia na estrada, consultal-o
-a este respeito. D. João <span class="allsmcap">II</span> respondeu que
-lhe aprazia muito que o duque fosse á côrte;
-o rei respondeu em carta, não fechada,
-para que todos a pudessem ver, a fim de
-armar á credulidade dos que a lessem.</p>
-
-<p>Desfeitas solennemente as terçarias em
-Moura, onde o duque de Bragança já havia
-chegado, o principe foi entregue aos procuradores
-do rei de Portugal, e a infanta D.
-Isabel aos procuradores do rei de Castella.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_210"></a>[210]</span></p>
-
-<p>Na jornada de Moura para Evora, onde
-estava a côrte, o principe D. Affonso foi
-hospedado em Portel pelo duque de Bragança,
-que lhe fez muitas honras. Fóra dos
-muros de Evora o rei sahiu a receber o
-principe, que vinha acompanhado pelo duque
-de Bragança e pelo de Vizeu. A gente
-que acompanhava o rei estava toda armada,
-porque D. João <span class="allsmcap">II</span> ia em duvida sobre
-se logo prenderia o duque ou não.</p>
-
-<p>Mas como o duque lhe parecesse tranquillo
-e nada desconfiado, D. João <span class="allsmcap">II</span> adiou
-o seu proposito.</p>
-
-<p>O rei mostrava-se extremamente alegre e
-despreoccupado. Houve em Evora grandes
-festas pela recepção do principe e da infanta,
-e o rei em todas tomou parte serenamente.
-Pelo que o duque, comquanto
-avisado pelo marquez seu irmão e por outros
-fidalgos, para que desconfiasse do rei
-e se salvasse, deixou-se ficar. Metteu-se de
-permeio o dia de <i>Corpus Christi</i>, em que o
-rei continuou a mostrar-se despreoccupado,
-mas na sexta-feira, indo o duque ao
-paço despedir-se do rei, achou-o despachando
-com os desembargadores. D. João
-fez sentar o duque junto de si, emquanto<span class="pagenum"><a id="Page_211"></a>[211]</span>
-dava o despacho. Findo este, o duque conversou
-por algum tempo com o rei, e aproveitou
-a occasião para pretender justificar-se
-de varios aleives que lhe assacavam
-contra elle, pedindo-lhe que se informasse
-da verdade. D. João <span class="allsmcap">II</span>, depois de o ter ouvido,
-disse que aquella casa já ia estando
-escura, e que, porisso, era melhor subirem
-á sua guarda roupa. Subiram, e o rei disse
-então que folgava de o ouvir fazer tal requerimento,
-e que effectivamente ia apurar
-a verdade, mas que julgava melhor que o
-duque se conservasse alli, até que tudo
-estivesse apurado.</p>
-
-<p>O rei, sahindo, deixou por guardas ao
-duque, Ayres da Silva, camareiro-mór, e
-Antão de Faria, camareiro.</p>
-
-<p>Então, o desanimo do duque foi grande.
-Ayres da Silva quiz consolal-o com palavras
-banaes, mas o duque respondeu-lhe:
-«Senhor Ayres da Silva: um homem tal
-como eu não se prende para o soltar.»</p>
-
-<p>Entretanto, D. João <span class="allsmcap">II</span> fazia reunir em
-outra sala do paço os senhores, principaes
-auctoridades e lettrados, aos quaes expoz
-os aggravos que tinha do duque, lendo<span class="pagenum"><a id="Page_212"></a>[212]</span>
-serenamente as cartas e instrucções apprehendidas.</p>
-
-<p>Logo que a noticia se espalhou na cidade,
-o povo correu aos pateos e terreiros
-do palacio, protestando a el-rei a sua lealdade,
-e pedindo justiça contra os que contra
-a sua vida houvessem attentado.</p>
-
-<p>No conselho decidiu-se que se segurasse
-bem a pessoa do duque; que a coroa
-tomasse conta dos seus castellos e terras,
-e que se notificasse o caso aos reis de
-Castella, sem comtudo alludir á causa da
-prisão.</p>
-
-<p>Tão profunda impressão causou em todo
-o paiz a prisão do duque, que os alcaides
-dos seus castellos logo os entregaram a
-uma simples ordem do rei. Esta observação,
-que Garcia de Rezende faz, pinta bem
-qual era o prestigio da monarchia, e o fanatismo
-do povo pela pessoa de D. João <span class="allsmcap">II</span>.</p>
-
-<p>O marquez de Montemór e o conde de
-Faro, logo que souberam o que se passara,
-fugiram para Castella. Este ultimo pouco
-tempo sobreviveu em Andaluzia. O outro
-irmão do duque, D. Alvaro de Bragança,
-recebeu ordem do rei para sahir do
-reino, prohibindo-lhe comtudo que fosse residir<span class="pagenum"><a id="Page_213"></a>[213]</span>
-em Castella ou em Roma. Mas D. Alvaro,
-desobedecendo, deixou-se ficar em
-Castella.</p>
-
-<p>A duqueza de Bragança, logo que soube
-da prisão do marido, mandou para Castella
-os seus tres filhos, ficando ella em Villa
-Viçosa com D. Margarida, sua filha.</p>
-
-<p>Entretanto, o duque continuava a estar
-preso na guarda roupa, sem ferros, mas
-constantemente vigiado. Era alvo das maiores
-attenções por parte dos familiares do
-rei, e tratado com a etiqueta devida ao seu
-nascimento.</p>
-
-<p>D. João <span class="allsmcap">II</span>, por sua parte, mostrava-se
-pesaroso da situação em que estava o duque,
-e resolvia entregar o caso á justiça,
-para que ella julgasse.</p>
-
-<p>A justiça! Bem sabia D. João <span class="allsmcap">II</span> como
-ella procederia vergada á pressão da sua
-auctoridade real! Mas o caracter reservado
-do rei levava-o a proceder assim, sem pressa,
-sem precipitação, calculadamente. O facto
-de entregar o duque a esse como arremedo
-de tribunal, mas em todo o caso,
-apparentemente, á acção da justiça, mostrava
-ao povo que acima do poder real pairava,<span class="pagenum"><a id="Page_214"></a>[214]</span>
-como que a defendel-o, a justiça de
-Deus, manifestada pela justiça da terra.</p>
-
-<p>Era um homem superior D. João <span class="allsmcap">II</span>.</p>
-
-<p>É conhecido o final d’esta tragedia: o
-duque de Bragança acabou no cadafalso
-levantado na praça de Evora.</p>
-
-<p>Diogo Pinheiro procurou rehabilitar a
-memoria do duque, escrevendo a sua <i>defesa</i>;<a id="FNanchor_66" href="#Footnote_66" class="fnanchor">[66]</a>
-mas outro documento, modernamente
-dado á estampa, o tratado de Lopo de
-Figueiredo,<a id="FNanchor_67" href="#Footnote_67" class="fnanchor">[67]</a> mostra que o duque de Bragança
-procurava fortalecer-se contra o odio
-de D. João <span class="allsmcap">II</span>, entabolando negociações secretas
-com a côrte de Castella, e que á infanta
-D. Beatriz, mãe do duque de Vizeu,
-não repugnavam os planos do Bragança.</p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_215"></a>[215]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak">IX<br />
-<span class="smaller">O DEDO DE DEUS</span></h2>
-
-</div>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-o.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">O rei D. João, de Portugal, não
-perdia de vista os manejos da
-côrte de Castella, que, tendo
-fallecido o rei de Navarra, procurava
-reunir os differentes Estados ao norte
-da Peninsula, pedindo para o principe
-D. João a mão de D. Catharina, em quem
-recahira a successão do reino de Navarra.</p>
-
-<p>Assim, D. João <span class="allsmcap">II</span> não duvidava ir arrancar
-á clausura monastica a <i>Beltraneja</i>, para
-a aproveitar como ameaça que contivesse
-em respeito e desconfiança os reis catholicos.
-A isso se refere um breve do papa
-Innocencio <span class="allsmcap">VIII</span>, do anno de 1487, a que<span class="pagenum"><a id="Page_216"></a>[216]</span>
-Clemencin e Lopes de Mendonça alludem,
-mas que não nos consta haja sido publicado
-na integra em portuguez. Porisso o damos
-á estampa:</p>
-
-<p>«... Tendo chegado ha pouco ao nosso conhecimento,
-que alguns perversos, cobiçosos
-de alterar a paz mencionada, não receiam
-persuadir a Joanna, filha duvidosa
-do rei Henrique, e sua herdeira, que, largando
-o habito religioso que tomou, saia do
-mosteiro e volte para a vida secular, e,
-abjurando da profissão por ella tão solennemente
-feita, e com fingidas desculpas
-de medo, e de protestos, que aliás affirma
-ter feito contra a primeira asserção já dicta,
-se intitule rainha dos citados reinos, e
-assim queira ser pelos outros intitulada, e
-que para a induzirem a um tal fim não duvidam
-dar-lhe o nome e titulo de rainha; e
-sendo certo que das frequentes e continuadas
-suggestões de taes individuos, a citada
-Joanna algumas vezes com a importuna
-instancia se deixa vencer, e, ou seja para
-agradar aos mesmos que a persuadem, e
-parecer que acredita tudo quanto elles lhe
-dizem e pretendem gravar-lhe na mente,
-ou seja por outro motivo, larga o véo negro<span class="pagenum"><a id="Page_217"></a>[217]</span>
-que tomara, e com o qual tão patente
-e publicamente se desposou com Jesus
-Christo, que é o mais excellente de todos
-os filhos dos homens, e ficou sendo consagrada
-ao Senhor, tanto dentro como fóra
-do mosteiro, no qual vivia, e se intitula e
-faz intitular rainha dos referidos reinos,
-como lhe persuadiam, com perigo das almas
-da mesma Joanna e dos que assim a
-aconselhavam, e com pernicioso exemplo e
-escandalo de muitos: nós, pois, que ardentemente
-desejamos, com o auxilio da divina
-clemencia, que entre os mencionados reis
-de Hespanha e de Portugal, invictos defensores
-da fé catholica n’aquelles Estados, a
-mencionada paz se consolide e vigore em
-todos os tempos futuros para incremento
-da fé catholica, por cuja exaltação um d’elles
-atacando o reino de Granada, e o outro,
-segundo o costume dos catholicos reis
-seus progenitores, passando com seus subditos
-para as regiões da Africa, trabalham
-com zelo inquebrantavel por combater com
-os infieis, e por dilatar a mesma fé; receando
-que, se acontecesse que as anteriores
-discordias entrassem a lavrar entre os mencionados
-reis, estes tivessem occasião de<span class="pagenum"><a id="Page_218"></a>[218]</span>
-desistir das luctas por elles respectivamente
-emprehendidas contra os mesmos infieis,
-e de se afastarem de tão salutifera obra,
-dando ensejo aos infieis não só de se apoderarem
-de novo d’aquelles logares que já
-lhes tinham sido arrancados pelos referidos
-reis, senão de invadirem hostilmente os logares
-circumvisinhos, habitados pelos fieis,
-saquearem-n’os e sujeitarem-n’os áquella
-enxovalhadissima raça, com grande mortandade
-e perda dos christãos: por motu
-proprio, e não a pedido dos referidos rei
-Fernando e rainha Isabel, ou d’alguem em
-nome d’elles, mas de nossa mera deliberação,
-confirmamos e approvamos por auctoridade
-apostolica a mencionada profissão
-tão solennemente feita pela referida Joanna,
-e todas e cada uma das materias a ella
-respectivas, que se encontram exaradas nos
-mencionados instrumentos, e quantas d’ellas
-se derivarem, se forem legitimamente
-feitas, e só nos termos em que o forem, e
-as corroboramos com a força do presente
-escripto, e supprimos todas e quaesquer
-faltas, se porventura algumas houve relativamente
-ás solennidades d’este acto; e com
-os dictos motu proprio e auctoridade ordenamos<span class="pagenum"><a id="Page_219"></a>[219]</span>
-estrictamente á mesma Joanna, que
-não vá de encontro á dicta profissão por
-ella tão solennemente feita, voltando de
-facto para o seculo, nem saia do mosteiro
-das freiras de Santarem da dicta ordem,
-para o qual ultimamente se passou, nem
-mesmo por pouco tempo, a não ser por algumas
-das causas pelas quaes os institutos
-regulares da referida ordem o permittem
-ás freiras professas n’ella, voltando para
-elle logo que taes causas cessem; não podendo
-dentro ou fóra do seu mosteiro largar
-o veo e habito da mencionada ordem,
-nem intitular-se rainha, ou fazer ou permittir
-que assim pelos outros seja intitulada.
-E a todos e a cada um dos christãos de
-qualquer estado, grau, ordem ou condição
-que sejam, e em qualquer ordem ecclesiastica,
-até mesmo episcopal, archiepiscopal,
-e cardinalicia, ou mundana, até mesmo de
-rei ou de rainha que figurem, prohibimos
-com o mesmo motu proprio e auctoridade
-que sob qualquer pretexto manifesta ou
-occultamente, directa ou indirectamente, por
-si, por outro ou por outros, persuadam á
-mesma Joanna que saia do referido mosteiro
-e ordem, e que volte para o seculo,<span class="pagenum"><a id="Page_220"></a>[220]</span>
-e se trate como secular, e que impugne a
-profissão por ella feita, e para este fim lhe
-prestem por qualquer modo auxilio, conselho
-ou favor, ou a intitulem rainha ou a
-façam assim intitular, quer verbalmente,
-quer por escripto de qualquer fórma, sob
-pena d’interdicto, de prohibição d’entrada
-em egreja, suspensão dos actos divinos e
-dos governos das suas egrejas, se forem
-bispos e superiores; e se inferiores d’ellas,
-e ecclesiasticos e seculares pertencentes ás
-ordens militares e a quaesquer ordens isentas
-e não isentas, sob pena de excommunhão,
-e tambem da privação das egrejas,
-mosteiros, priorados, preceptorias, dignidades,
-personados,<a id="FNanchor_68" href="#Footnote_68" class="fnanchor">[68]</a> administrações ou officios,
-etc., devendo incorrer em sentenças,
-censuras e penas, das quaes não poderão
-ser absolvidos senão em artigo de morte,
-e dada antes a devida satisfacção, etc.
-(<i>Addicionaram-se instrumentos publicos a
-15 de novembro de 1480 contendo os votos
-feitos por D. Joanna, nos quaes tambem<span class="pagenum"><a id="Page_221"></a>[221]</span>
-se descrevem os sagrados ritos então
-guardados</i>). Dada em Roma, em S. Pedro,
-a 24 de junho, anno da Encarnação do Senhor
-1487, e terceiro do nosso pontificado.»<a id="FNanchor_69" href="#Footnote_69" class="fnanchor">[69]</a></p>
-
-<p>Não podemos deixar de notar, com Clemencin,
-a habilidade com que este breve
-está redigido, porisso que, apontado contra
-D. João <span class="allsmcap">II</span>, evita dirigir-se-lhe directamente,
-antes elogia o rei de Portugal pelo seu infatigavel
-zelo em continuar a guerra na
-Africa contra os infieis.</p>
-
-<p>Isabel a Catholica, mulher de espirito
-superior, conhecia perfeitamente a estatura
-moral do seu antagonista. Porisso foi
-inclinando os acontecimentos a uma solução
-pacifica, procurou approximar-se, quanto
-poude, de D. João <span class="allsmcap">II</span>, o qual não duvidou
-enviar-lhe um navio carregado com
-todos os aviamentos de que os reis de Castella
-precisavam para sustentar a guerra de
-Granada.</p>
-
-<p>O principe portuguez D. Affonso havia
-chegado aos quatorze annos, e a infanta
-D. Isabel, filha dos reis catholicos, estava<span class="pagenum"><a id="Page_222"></a>[222]</span>
-ainda solteira. D. João <span class="allsmcap">II</span> mandou perguntar
-se havia idéa de manter o antigo contracto
-de casamento. A resposta, vinda de
-Castella, fôra affirmativa. Portugal era para
-Castella um mau visinho, que importava
-ter em segurança. Convinha liquidar, de
-uma vez para sempre, a interminavel questão
-da <i>Beltraneja</i>.</p>
-
-<p>Toda a gente sabe a pompa com que se
-realizou o casamento do principe portuguez
-D. Affonso com a infanta castelhana
-D. Isabel. Excusamos demorar-nos n’este
-ponto. Toda a gente sabe tambem quão
-breve fôra a felicidade conjugal dos jovens
-esposos, subitamente anniquilada pelo desastre
-que victimara em Santarem o principe
-D. Affonso, morrendo arrastado pelo
-cavallo que montava.</p>
-
-<p>Garcia de Rezende recorda na <i>Miscellanea</i>
-a rapida mutação das alegrias do noivado
-em prantos e tristezas inesperados:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0">Era de dezeseis annos</div>
- <div class="verse indent0">e casado de oito mezes,</div>
- <div class="verse indent0">perfeito entre os mundanos,</div>
- <div class="verse indent0">mui quisto dos castelhanos,</div>
- <div class="verse indent0">descanço dos portuguezes.</div><span class="pagenum"><a id="Page_223"></a>[223]</span>
- <div class="verse indent0">Uma triste terça-feira,</div>
- <div class="verse indent0">correndo uma carreira</div>
- <div class="verse indent0">em um cavallo, cahiu.</div>
- <div class="verse indent0">Nunca falou nem buliu,</div>
- <div class="verse indent0">e morreu d’esta maneira.</div>
- </div>
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0">Por sua grã formosura</div>
- <div class="verse indent0">foi no mundo nomeado</div>
- <div class="verse indent0">angelica creatura.</div>
- <div class="verse indent0">Nunca foi tal desventura,</div>
- <div class="verse indent0">nem principe tão amado;</div>
- <div class="verse indent0">em Castella e Portugal</div>
- <div class="verse indent0">foi tão sentido seu mal,</div>
- <div class="verse indent0">tão chorado em toda a Hespanha,</div>
- <div class="verse indent0">que foi tristeza tamanha,</div>
- <div class="verse indent0">que se não viu outra tal.</div>
- </div>
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0">Vi a princeza tornar</div>
- <div class="verse indent0">bem a revez do que veio.</div>
- <div class="verse indent0">Coisa muito de espantar</div>
- <div class="verse indent0">tão grã pressa, tal mudar</div>
- <div class="verse indent0">do tempo, tão grão rodeio!</div>
- <div class="verse indent0">Entrou a mais triumphosa,</div>
- <div class="verse indent0">mais real, mais grandiosa</div>
- <div class="verse indent0">que nunca se viu entrada;</div>
- <div class="verse indent0">sahiu mui desesperada,</div>
- <div class="verse indent0">mui triste, muito chorosa.</div>
- </div>
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0">Entrou com mil alegrias,</div>
- <div class="verse indent0">sahiu com grandes tristezas.</div>
- <div class="verse indent0">Tanto oiro e pedrarias</div>
- <div class="verse indent0">não se viu em nossos dias,</div>
- <div class="verse indent0">nem taes gastos, taes riquezas;</div><span class="pagenum"><a id="Page_224"></a>[224]</span>
- <div class="verse indent0">as galantes invenções</div>
- <div class="verse indent0">se tornaram em paixões,</div>
- <div class="verse indent0">os brocados em saial,</div>
- <div class="verse indent0">o prazer grande, geral</div>
- <div class="verse indent0">em nojos, lamentações.</div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Os partidarios da <i>Beltraneja</i> viram na
-desastrosa morte do principe D. Affonso o
-dedo de Deus, o castigo do céo. Dil-o claramente
-Duarte Nunes de Leão na <i>Chronica
-de D. Affonso V</i>:</p>
-
-<p>«... não tardou, que quando o principe
-D. João, d’ahi a pouco já feito rei, casou o
-principe com tantos gostos, e tantas esperanças,
-no meio dos contentamentos, e das
-maiores festas do mundo, viu seu unico filho,
-que elle tão ternamente amava, morto,
-e arrastado de um cavallo, á vista da mesma
-senhora D. Joanna, que do mosteiro o
-podia ver deitado em uma pobre cama de
-palha de um pescador, onde acabou... tomando
-Deus, segundo a todos pareceu, por
-aquella afflicta mulher a vingança.»</p>
-
-<p>Em verdade, dadas as crenças supersticiosas
-da epocha, tudo fazia acreditar que a
-morte do principe D. Affonso fôra a justa
-punição dos repetidos sacrificios impostos
-a D. Joanna, principalmente por D. João <span class="allsmcap">II</span>.<span class="pagenum"><a id="Page_225"></a>[225]</span>
-Em Santarem vira ella cahir aos pés do altar
-os seus formosos cabellos, e deante de
-si o vulto sereno e frio de D. João; agora,
-tambem em Santarem, era o rei que chorava
-deante do cadaver do filho, como se
-a Providencia houvesse querido vingar o
-passado na pessoa innocente do principe.</p>
-
-<p>«Nem os reis de Castella, prosegue Duarte
-Nunes, ficaram depois sem seu quinhão
-de castigo; porque o seu filho varão, unico
-herdeiro de tantos reinos, na flor de sua
-edade, já casado, sem deixar successão, quasi
-no tempo em que com a senhora D.
-Joanna seus paes o prometteram casar, falleceu...
-E a princeza D. Isabel, filha maior
-dos dictos reis, cortados seus cabellos, e
-vestida de pannos de burel, triste e anojada,
-se viu em termos de tomar por vontade
-a vida, que á senhora D. Joanna fizeram
-tomar por força, se com pregações a
-não converteram; mas sua vida foi de pouco
-tempo.»</p>
-
-<p>Tambem Ruy de Pina, em linguagem dulcificada
-por toques de maviosa tristeza, procura
-pôr em evidencia o castigo do céo,
-vendo resvalar ao tumulo os primogenitos
-de Portugal e Castella, e <i>trocados os brocados<span class="pagenum"><a id="Page_226"></a>[226]</span>
-ricos, e hollandas delgadas</i> que trouxera
-a infanta D. Isabel, <i>com pobre burel
-e grossa estopa em que foi logo vestida</i>,
-depois da morte de D. Affonso; <i>nem ficaram
-por cortar seus cabellos doirados com
-accidental proposito de religião</i>.</p>
-
-<p>A punição parecia haver sido ordenada
-em identicas circumstancias do delicto. Nem
-o episodio dos cabellos falta; em Santarem,
-as duas primas houveram de despojar-se
-das suas tranças, uma para tomar o véo de
-monja, a outra para tomar o véo de viuva.
-<i>É o dedo de Deus!</i> dizia-se então. E a
-phrase ficou como uma synthese dos factos,
-que em verdade parecem providencialmente
-dispostos.</p>
-
-<p>Passaria no forte espirito de D. João <span class="allsmcap">II</span>,
-alguma vez, a idéa de que a morte de seu
-filho fôra realmente um castigo do céo?</p>
-
-<p>Eis o que ninguem póde saber ao certo.</p>
-
-<p>A verdade é que o rei sustentava, com
-grandeza, a casa da <i>Excellente Senhora</i>,
-no seculo. Nas <i>Provas da historia genealogica</i><a id="FNanchor_70" href="#Footnote_70" class="fnanchor">[70]</a>
-vem a relação das pessoas de que
-se compunha a casa de D. Joanna, e por<span class="pagenum"><a id="Page_227"></a>[227]</span>
-essa relação se vê que não tinha menos
-de oito damas, nove moças de camara, sendo
-duas moiras, quatro donas, oito capellães
-e cantores, seis moços de capella, sete
-moços da camara, quatro estribeiros, dois
-reposteiros, afóra veador, contador, thesoireiro,
-comprador, mantieiro, cozinheiro, lavadeira,
-alfaiate, physico e cirurgião.</p>
-
-<p>A dotação de D. Joanna, consignada no
-orçamento geral do Estado (despesa ordinaria)
-em 1478, era de 1:400$000 réis.</p>
-
-<p>Onde habitava em Lisboa D. Joanna? Não
-pudemos averiguar. Sabe-se apenas que no
-reinado de D. João <span class="allsmcap">II</span> residia no Paço do
-Castello, e que ahi falleceu, se bem que o
-documento d’essa epocha, a que nos encostamos,
-e a que ainda teremos de alludir,
-diga: <i>onde ora poisa a serenissima senhora</i>,
-o que faz suppor que nem sempre residira
-alli quando estava fóra do convento.
-Mais adeante veremos que houve idéa de
-se construir um palacio para sua residencia.</p>
-
-<p>Como se sabe, D. João <span class="allsmcap">II</span>, morto o principe
-D. Affonso, empregou os maiores esforços
-para deixar por herdeiro da coroa
-D. Jorge de Lencastre, seu filho natural.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_228"></a>[228]</span></p>
-
-<p>Em segredo mandou a Castella pedir
-para elle a mão da filha mais nova dos
-reis catholicos, D. Catharina, encarregando
-d’esta missão Lourenço da Cunha. Com
-este casamento julgava D. João <span class="allsmcap">II</span> garantir
-melhor a posição futura do bastardo.</p>
-
-<p>Quando Lourenço da Cunha chegou á
-côrte castelhana, estava D. Fernando doente,
-mas a rainha despachava os negocios.
-Foi, pois, ella que recebeu o embaixador
-portuguez, o qual apresentou o pedido de
-D. João <span class="allsmcap">II</span>. A rainha respondeu, que sua
-filha não, mas que el-rei seu senhor tinha
-uma filha bastarda, que lhe daria. Então
-Lourenço da Cunha replicou altivamente:</p>
-
-<p>—Senhora, el-rei meu senhor não pretende
-tanto aparentar-se com el-rei D. Fernando
-como com vossa alteza; porisso, se
-vossa alteza tem outra filha bastarda, elle
-a tomará para seu filho.</p>
-
-<p>Quando Lourenço da Cunha recolheu a
-Portugal, D. João <span class="allsmcap">II</span> premiou-lhe o procedimento,
-fazendo-lhe mercê de uma commenda
-de Beja, Serpa e Moura, tão vasta,
-que depois poude ser dividida em tres.</p>
-
-<p>Todos estes factos não passavam de leve
-pelo espirito da rainha D. Isabel, sempre<span class="pagenum"><a id="Page_229"></a>[229]</span>
-receosa de D. João <span class="allsmcap">II</span>. Apesar da ousada
-resposta do embaixador portuguez, e do
-acolhimento que lhe fez D. João, as relações
-entre os dois paizes não foram interrompidas;
-pelo contrario, pensou-se em seguir,
-por parte de Castella, o conselho do
-cardeal de Hespanha, de que convinha casar
-agora mais do que nunca o principe
-D. João com a <i>Excellente Senhora</i>. Em
-1494, Fernando e Isabel não duvidavam
-assignar o celebre tratado, feito com D.
-João <span class="allsmcap">II</span>, sobre o que tocaria a cada uma das
-duas coroas do que estava por descobrir
-no mar oceano.<a id="FNanchor_71" href="#Footnote_71" class="fnanchor">[71]</a> E um anno depois, quando
-D. João <span class="allsmcap">II</span> morria, porventura envenenado
-por mestre João de Mazagão combinado
-com o duque de Beja,<a id="FNanchor_72" href="#Footnote_72" class="fnanchor">[72]</a> a rainha Isabel
-de Castella resumia n’uma só phrase toda
-a biographia d’esse rei cujo caracter de
-ferro ella perfeitamente conhecera: «Morreu
-<i>o homem</i>!» exclamara D. Isabel ao saber
-do fallecimento de D. João <span class="allsmcap">II</span>.</p>
-
-<p>Pois bem! Elle, o forte, o <i>homem</i>, não
-esqueceu no seu testamento a fragil creatura<span class="pagenum"><a id="Page_230"></a>[230]</span>
-que dobrara, como um vime, ao sabor
-da sua vontade poderosa.</p>
-
-<p>Uma disposição testamentaria diz:</p>
-
-<p>«Item, ao dicto duque meu primo (D.
-Manuel) encommendo e rogo que honre e
-trate bem a <i>Excellente Senhora</i>, minha prima,
-e que sempre a tenha bem e honradamente
-como pertence á pessoa que é, e
-que foi, e do que lhe é posto para sua
-mantença lhe não seja tirado nada em seus
-dias, estando ella na maneira em que ora
-está.»</p>
-
-<p>D. Manuel não era homem que se preoccupasse
-com castigos do céo quando
-queria fazer a sua vontade; estava enamorado
-da viuva do principe D. Affonso, da
-filha mais velha dos reis catholicos, e tratou
-de negociar o casamento sem se importar
-com <i>o dedo de Deus</i>, que bem poderia
-descer pela segunda vez a impor-se
-sobre a cabeça da bella castelhana.</p>
-
-<p>Sabe-se que a infanta resistira a principio,
-e que por fim annuira pondo por condição
-que fossem expulsos de Portugal os
-judeus e os moiros, desatino economico
-que D. Manuel não duvidou praticar.</p>
-
-<p>Os reis de Castella tinham cinco filhos,<span class="pagenum"><a id="Page_231"></a>[231]</span>
-a saber: D. João, casado com Margarida
-d’Austria, e as infantas D. Isabel, D. Joanna,
-D. Maria e D. Catharina.</p>
-
-<p>Ao tempo do casamento de D. Manuel
-com a princeza castelhana, o principe D.
-João estava gravemente doente, achava-se
-n’um estado desesperado; porisso, visto que
-D. Manuel tanto queria apressar essa união,
-a sua noiva foi acompanhada até á fronteira
-pela rainha Isabel, ficando D. Fernando
-a acompanhar o principe enfermo, quasi
-moribundo.</p>
-
-<p>Justamente na occasião em que os actos
-religiosos se realizavam em Valencia d’Alcantara,
-chegou noticia do fallecimento do
-infante D. João, o que fez aguar as poucas
-festas que estavam preparadas: poucas por
-attenção ao desgosto que por motivo da
-doença do infante havia na côrte de Castella.</p>
-
-<p>Ora, morrendo o herdeiro da coroa de
-Fernando e Isabel, os direitos de successão
-passavam ao segundo filho, a infanta
-D. Isabel. Esta idéa não podia deixar de
-preoccupar um espirito tão ambicioso como
-o do successor de João <span class="allsmcap">II</span>. Mas, por occasião
-da morte de seu marido, D. Margarida<span class="pagenum"><a id="Page_232"></a>[232]</span>
-ficara gravida de sete mezes. Eis aqui uma
-contrariedade para quem não fosse tão feliz
-como D. Manuel. Para este homem venturoso,
-porem, todas as difficuldades desappareciam:
-D. Margarida dera á luz uma
-creança morta. Portanto, aqui temos D. Manuel
-e sua esposa com direito a intitularem-se,
-como de facto fizeram, principes de
-Castella, Leão e Aragão.</p>
-
-<p>A fim de serem jurados como taes, era
-preciso irem a Castella. As côrtes nacionaes,
-com a concentração do poder real,
-realizada por D. João <span class="allsmcap">II</span>, tinham perdido
-muito da sua importancia, mas era este um
-dos casos em que havia mister reunil-as. D.
-Manuel convocou-as portanto para Lisboa,
-n’esse anno de 1498, e as côrtes auctorizaram
-effectivamente a ida dos soberanos a
-Castella.</p>
-
-<p>Com effeito, a 29 de março d’esse anno,
-D. Manuel e sua esposa partiam com
-grande e luzido sequito de pessoas nobres,
-ficando encarregada da regencia do reino
-a rainha viuva D. Leonor.</p>
-
-<p>Logo que chegaram á fronteira de Castella,
-os reis de Portugal foram recebidos
-pelo duque de Medina Sidonia, com apparatoso<span class="pagenum"><a id="Page_233"></a>[233]</span>
-cortejo de fidalgos, e assim acompanhados
-até Toledo, onde os reis catholicos
-esperavam, e onde D. Manuel e D. Isabel
-foram, na Sé d’aquella cidade, jurados por
-principes herdeiros dos reinos de Castella
-e Leão.</p>
-
-<p>Passados alguns dias, tanto Fernando e
-Isabel, como D. Manuel e sua esposa, partiram
-para o Aragão, a fim d’estes ultimos
-serem jurados em Saragoça, mas sobrevieram
-inconvenientes com que não contavam,
-e que impediram a immediata realização da
-ceremonia que alli os levava.</p>
-
-<p>«Feita a entrada, escreve Goes, quizera
-el-rei D. Fernando, que logo ao outro dia,
-que era domingo, jurassem os principes,
-mas os aragonezes lh’o não consentiram por
-então, sobre o que houve muitas altercações,
-excusando-se a el-rei, que não podiam
-fazer tal juramento sem serem presentes os
-deputados de Valença e Barcellona, sobre
-o que el-rei D. Fernando tornou a apertar
-com elles; por fim lhe responderam, que
-jurariam os principes se lhes elle de novo
-confirmasse alguns privilegios, que lhe tinha
-quebrado, do que os el-rei desenganou,
-sem lhes querer conceder o que pediam,<span class="pagenum"><a id="Page_234"></a>[234]</span>
-nem elles menos jurar os principes,
-no que se passaram muitos desgostos e
-paixões, <i>por espaço de tres mezes</i>. D’estas
-differenças uma das principaes foi dizerem
-que no reino não podia succeder femea, senão
-varão, e que este havia de ser por eleição
-dos Estados do reino, quando Deus ordenasse
-não deixar el-rei filho varão herdeiro,
-e que para jurarem a princeza elles
-o não podiam fazer sem os de Valença e
-Barcellona, que por só este respeito dilatavam
-sua vinda, o que era signal manifesto
-de não quererem consentir no tal juramento...»</p>
-
-<p>Este facto é interessante e importante considerado
-como symptoma de reacção do
-espirito nacional contra a vontade imperiosa
-da coroa, que, n’aquelle tempo, em toda
-a Peninsula hespanica se havia aureolado
-de extranho prestigio, graças a D. João <span class="allsmcap">II</span>
-em Portugal, e a Fernando e Isabel em
-Castella.</p>
-
-<p>Succedeu então que a rainha D. Isabel,
-mulher de D. Manuel, deu á luz em Saragoça
-um filho varão, que recebeu o nome
-de Miguel, e que desde logo foi considerado
-o herdeiro presumptivo dos reinos de<span class="pagenum"><a id="Page_235"></a>[235]</span>
-Portugal, Castella, Leão, Sicilia e Aragão,
-facto este que veiu pôr termo ás reluctancias
-até ahi apresentadas pelos de Aragão.
-Mas o nascimento d’este principe custou a
-vida a sua mãe, que foi sepultada no mosteiro
-de S. Jeronymo, em Saragoça. D. Manuel
-ainda se demorou alguns dias no Aragão,
-até que, viuvo, regressou a Portugal
-no mez de setembro d’esse anno (1498).</p>
-
-<p>O infante D. Miguel foi acclamado e jurado
-em Castella e no Aragão, e, para que
-tambem o fosse em Portugal, convocou D.
-Manuel os tres Estados para o mez de março
-de 1499. Reunidas as côrtes, não quizeram
-ellas jurar sem que o rei lhes promettesse,
-em nome do principe seu filho, que
-nunca o regimento da justiça e fazenda do
-reino, e senhorios de Portugal, em qualquer
-tempo, e por qualquer caso, seria dado
-nem concedido senão a portuguezes, e o
-mesmo a respeito das capitanias dos logares
-de Africa, e alcaiderias-móres das villas
-e castellos, o que el-rei concedeu.</p>
-
-<p>Quantas vezes, pois, estivera o reino de
-Portugal para fundir-se com o de Castella
-em consequencia de allianças politicas e pessoaes,
-as mais das vezes tendo por origem<span class="pagenum"><a id="Page_236"></a>[236]</span>
-um casamento! Chega a ser assombroso
-que todas essas combinações se mallograssem
-alfim, e que Portugal mantivesse a sua
-independencia, apenas estrangulada n’um
-periodo de sessenta annos, relativamente
-pequeno se attendermos á longa historia
-d’essas combinações, e ainda mesmo á fundação
-da nossa nacionalidade.</p>
-
-<p>Garcia de Rezende diz:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0">Vimos Portugal, Castella</div>
- <div class="verse indent0">quatro vezes adjuntados</div>
- <div class="verse indent0">por casamentos liados</div>
- <div class="verse indent0">principe natural d’ella</div>
- <div class="verse indent0">que herdava todos reynados,</div>
- <div class="verse indent0">todos vimos fallecer,</div>
- <div class="verse indent0">em breve tempo morrer</div>
- <div class="verse indent0">e nenhum durou tres annos,</div>
- <div class="verse indent0">portuguezes, castelhanos</div>
- <div class="verse indent0">já os Deus quer juntos ver.</div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Refere-se Rezende a Affonso <span class="allsmcap">V</span>, a seu
-neto D. Affonso, a D. Manuel e ao principe
-D. Miguel, que falleceu em Granada
-com vinte e dois mezes de edade, mallogrando-se
-assim, ainda d’esta vez, o projecto
-de unificação das coroas de Portugal e
-Castella.</p>
-
-<p>Ao passo que Fernando e Isabel procuravam<span class="pagenum"><a id="Page_237"></a>[237]</span>
-separar da causa da <i>Beltraneja</i> a
-familia real portugueza, a Providencia parecia
-querer desconcertar as combinações
-e os calculos da politica: o nascimento do
-infante D. Miguel custava a vida de sua
-mãe, e o proprio infante morria tambem
-d’ahi a pouco tempo.</p>
-
-<p>Sempre debaixo do mesmo ponto de vista,
-pactuou-se o casamento de D. Maria,
-terceira filha dos reis catholicos, com o
-viuvo D. Manoel.</p>
-
-<p>D’esta vez a Providencia permittiu que
-D. Maria vivesse, e désse á luz um verdadeiro
-enxame de filhos. É que a Providencia
-parecia reservar para D. Joanna, a pobre
-<i>Beltraneja</i>, uma compensação muito
-maior, uma desforra completa e cabal.</p>
-
-<p>Oiçamos um escriptor hespanhol, Clemencin,
-no mais completo estudo que se
-tem escripto em Hespanha ácerca dos reis
-catholicos. O testemunho é, portanto, de
-todo o ponto insuspeito; porisso o reproduzimos
-na integra:</p>
-
-<p>«Foi opinião de alguns, segundo Zurita,
-que antes da rainha D. Isabel fallecer, seu
-marido lhe prometteu, sob juramento, não
-casar outra vez. Sem embargo, a pouco<span class="pagenum"><a id="Page_238"></a>[238]</span>
-trecho da sua morte, entabolou o rei viuvo
-esta negociação (<i>tratar do seu casamento
-com a Excellente Senhora</i>), enviando para
-ella a Portugal D. Rodrigo Manrique. O
-objecto de tão extranha solicitude, que
-desde logo afearam os parciaes do rei D.
-Philippe, o <i>Formoso</i>, e que, como adverte o
-mesmo Zurita que não póde suspeitar-se
-de desaffecto ao rei catholico, se divulgou
-mais do que este quizera, era patente e
-manifesto: tomar a parte dos direitos de D.
-Joanna, fazel-os valer contra os filhos que
-tinha tido de sua primeira mulher, despojal-os
-da herança de Castella, e vingar-se
-assim de Philippe e dos grandes castelhanos,
-que no maior numero preferiam o
-partido do genro ao do sogro.</p>
-
-<p>«São incalculaveis os disturbios, guerras
-civis e damnos que teriam resultado d’este
-projectado casamento, se se houvesse realizado;
-mas por fortuna de Hespanha, <i>D.
-Joanna não deu ouvidos á proposta do rei
-D. Fernando, fosse aversão ao estado de
-matrimonio ou á pessoa do pretendente,
-a quem não podia deixar de olhar como
-um dos principaes auctores de suas desgraças</i>.
-Interveiu provavelmente na resolução<span class="pagenum"><a id="Page_239"></a>[239]</span>
-de D. Joanna o influxo da rainha de
-Portugal, D. Maria, a quem não podia
-agradar este casamento, não só em respeito
-á memoria de sua defuncta mãe, D. Isabel,
-nem em attenção a sua irmã que tinha
-succedido nos reinos de Castella, mas tambem
-em consideração aos seus proprios direitos
-e aos de seus filhos.</p>
-
-<p>«Mui curto espaço de tempo deveu medear
-entre o projecto de casamento do rei
-catholico, e a morte de D. Isabel, occorrida
-a 26 de novembro de 1504. Para janeiro
-seguinte convocou côrtes o rei D. Fernando,
-na cidade de Touro, cuja proximidade
-de Portugal, e a maior facilidade de
-negociar e ajustar d’ahi o novo enlace, foram,
-segundo as apparencias, a causa da
-escolha do sitio. O certo é que, tendo-se
-encerrado as côrtes em meado de fevereiro,
-o rei, por seguir mais de perto as negociações
-com Portugal, como diz Zurita,
-continuou em Touro até ao fim de abril,
-em que se retirou para o interior de Castella;
-e isto denuncía que já então estava
-desvanecido e mallogrado o negocio.»</p>
-
-<p>Em verdade, a escarnecida <i>Beltraneja</i>, a
-chasqueada <i>Monja</i>, não poderia imaginar<span class="pagenum"><a id="Page_240"></a>[240]</span>
-mais completa desforra, do que a de ver
-humilhado a seus pés o rei catholico, o
-viuvo de Isabel, pedindo-lhe que consentisse
-em desposal-a!</p>
-
-<p>A grandeza da reparação só é comparavel
-á grandeza do desdem com que essa
-solicitação foi recebida, tanto mais que o
-espirito de D. Joanna não conseguiu nunca
-transigir com a alienação dos seus direitos,
-reaes ou suppostos, com a abdicação de
-todas as mundanidades ostentosas, de todas
-as honras e titulos com que julgava
-poder condecorar-se.</p>
-
-<p>Ella considerava-se <i>rainha</i>, ainda quando
-rejeitava a mão de um rei; ella continuava
-a assignar-se rainha, ainda quando
-se recusava a subscrever um contracto de
-casamento com o viuvo de Isabel a Catholica.</p>
-
-<p>A sua nobre altivez levou-a por certo a
-recusar essa união, a preferir conservar-se
-solteira, <i>rainha sem reino</i>, e moça de trinta
-e tres annos apenas.</p>
-
-<p>Vira desdenhosa afastar-se o vulto de
-mais esse noivo, como já tinha visto esfumarem-se
-no horizonte longinquo das suas
-recordações os vultos de tantos outros noivos,<span class="pagenum"><a id="Page_241"></a>[241]</span>
-o infante D. Affonso, de Castella, o
-duque de Guiena, D. Fradique, de Napoles,
-D. Henrique, de Aragão, D. Affonso <span class="allsmcap">V</span>,
-de Portugal, o principe D. João, de Castella,
-o rei de Navarra, Francisco Phebo!..</p>
-
-<p>Uma cohorte de noivos... platonicos,
-que nem sequer com o halito chegaram a
-macular a sua grinalda virginal de flores
-de laranjeira...</p>
-
-<p>E a morte, respeitando-a a ella, a todos
-foi ceifando.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_242"></a>[242]</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_243"></a>[243]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak">X<br />
-<span class="smaller">SEM PAZ NO TUMULO!</span></h2>
-
-</div>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-e.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">El-rei D. Manuel recommenda no
-seu testamento a <i>Excellente Senhora</i>,
-como já o fizera o seu
-antecessor: «Item, pelo conjuncto
-devido que tenho com a mui Excellente
-Senhora minha prima, e por suas muitas virtudes,
-e pela obrigação em que por estes
-respeitos lhe são, e pelo carrego que d’ella
-e de todas suas coisas com razão o rei de
-Portugal deve em todo tempo ter, encommendo
-muito ao principe meu filho, que
-sempre d’ella e de sua consolação tenha
-mui grande e especial carrego, visitando-a
-e honrando, e tratando como ella o merece,<span class="pagenum"><a id="Page_244"></a>[244]</span>
-por todas as razões sobredictas, e em
-todas suas coisas seja alli tratada como eu
-sempre folguei de o fazer, e é razão que
-assim se lhe faça, e aos deputados ao governo
-encommendo e mando que emquanto
-no governo estiverem lhe façam mui inteiramente
-pagar os dinheiros que tem de
-seu assentamento, e n’aquella propria fórma
-e maneira que agora se lhe faz, e se
-melhor lhe puder fazer, assim será mui
-bem que lhe seja feito, e muito lhe encommendo
-que de isso, e de todo o que
-lhe cumprir tenham grande e especial cuidado,
-e entre os mais principaes, isto lhe
-encommendo muito em especial.»</p>
-
-<p>Um anno depois da morte de D. Manuel,
-isto é, em 1522, a <i>Excellente Senhora</i>, intitulando-se
-rainha de Castella, fez doação
-solenne de todos os seus direitos a el-rei
-D. João <span class="allsmcap">III</span>, considerando-o como seu filho
-legitimo, e universal herdeiro, visto ser «já
-em tanta edade constituida que não era tempo
-para haver de casar, nem poder haver
-filho natural legitimo descendente, que os
-dictos seus reinos e senhorios por seu fallecimento
-haja de herdar».</p>
-
-<p>D. João <span class="allsmcap">III</span>, que presente estava, acceitou,<span class="pagenum"><a id="Page_245"></a>[245]</span>
-e recebeu, e prometteu ter e manter os dictos
-reinos e senhorios de que a <i>Excellente
-Senhora</i> lhe fazia doação.</p>
-
-<p>Foram testemunhas d’este acto o barão
-de Alvito, veador da fazenda real, Luiz da
-Silveira, do conselho de el-rei e seu guarda-mór,
-e Ruy Figueira, veador da fazenda
-da mesma senhora.</p>
-
-<p>Subscreveu o auto o secretario Antonio
-Carneiro.</p>
-
-<p>D. João <span class="allsmcap">III</span> approvou-o e confirmou-o.<a id="FNanchor_73" href="#Footnote_73" class="fnanchor">[73]</a></p>
-
-<p>A infeliz princeza ainda viveu oito annos.
-Falleceu em Lisboa, no paço da Alcaçova
-ou do Castello, no anno de 1530, com
-sessenta e oito de edade.</p>
-
-<p>Do seu testamento, que existe na Torre
-do Tombo, gaveta 16, maço I, n.º 2, dá copia
-Antonio de Sousa nas <i>Provas da historia
-genealogica</i>.<a id="FNanchor_74" href="#Footnote_74" class="fnanchor">[74]</a></p>
-
-<p>D. Joanna ordena que o seu corpo seja
-amortalhado no habito de S. Francisco e
-enterrado no mosteiro do Varatojo; deixa
-cem mil réis para missas, outros cem para
-resgate de vinte e dois escravos moiros e,<span class="pagenum"><a id="Page_246"></a>[246]</span>
-finalmente, outros cem para os pobres e
-orfans envergonhados. Á capella de Santa
-Clara, de Evora, deixa oito mil réis para
-uma missa diaria.</p>
-
-<p>A isto se limitam as suas disposições espirituaes.</p>
-
-<p>O resto são declarações de divida a differentes
-damas de sua casa, de quantias que
-lhes promettera quando casaram; declarações
-de divida por emprestimos contrahidos
-ou por serviços recebidos, e recommendações
-ao rei de legados a varias pessoas
-suas protegidas, entre as quaes as freiras
-que tivera por criadas.</p>
-
-<p>D. Joanna assigna: <i>Yo la reyna</i>.<a id="FNanchor_75" href="#Footnote_75" class="fnanchor">[75]</a></p>
-
-<p>A desventurosa princeza morrera, pois,
-abraçada ao seu titulo de rainha, que, a
-bem dizer, nunca passara de uma ficção,
-titulo sem realidade duradoira que lhe correspondesse
-e o justificasse.</p>
-
-<p>N’uma mensagem ao rei, appensa ao testamento,
-D. Joanna recorda que fôra requerida
-para casar, e parece enviar-lhe documentos
-relativos a essas negociações nupciaes<span class="pagenum"><a id="Page_247"></a>[247]</span>.
-Dizem talvez respeito ao casamento
-que lhe propuzera o viuvo de Isabel a Catholica.
-Mas, se nos não enganamos, ainda
-mais uma vez se revela a fidalga altivez de
-D. Joanna, occultando o nome de Fernando.</p>
-
-<p>Por essa mesma mensagem se vê que o
-rei lhe havia promettido mandar construir
-casa propria, que lhe era muito necessaria,
-<i>e logo,</i> expressão sua.</p>
-
-<p>D. Joanna fez, porem, um segundo testamento,
-do qual encontramos noticia, em termos
-que não admittem duvida, na <i>Historia
-seraphica</i>. É para extranhar que nenhum
-dos seus biographos mencionasse a noticia
-a que nos referimos, e pela qual se vê que
-a mallograda noiva de Affonso <span class="allsmcap">V</span> mudara de
-tenção quanto ao logar que escolheu para
-sepultura.</p>
-
-<p>«Diziam uns, escreve frei Manuel da Esperança,
-que estava no sobredicto mosteiro
-de Santarem (Santa Clara); outros, no de
-Varatojo, como havia disposto no primeiro
-testamento, que depois revogou. Porem
-a todos desenganamos com a luz de uma
-carta de el-rei D. Sebastião, a qual passou
-em seu nome a rainha D. Catharina,
-que governava por elle na sua menor edade,<span class="pagenum"><a id="Page_248"></a>[248]</span>
-em 18 de fevereiro de 1558. Diz n’ella,
-que sua tia a <i>Excellente Senhora ordenou
-por seu testamento, que se dissessem para
-sempre no mosteiro de Santa Clara, de
-Lisboa, onde se mandou lançar, e tem sua
-sepultura, seis missas cantadas em cada
-anno</i>. E ordena, que a esmola das missas
-e azeite para as duas alampadas, se pague
-sempre pela fazenda real. Foi escondido
-seu corpo dentro do seio da terra em a
-casa do capitulo, e ainda que depois o trasladaram
-para sepultura alta, nem porisso
-(<i>tão esquecida a querem</i>) lhe puzeram ou
-brazão ou epitaphio, que a dê a conhecer.
-Só na pedra apparece este numero: 1545;
-mas não declara se é o tempo da morte, se
-o da trasladação. Defronte lhe fica uma vidraça,
-na qual se vêem de pintura as nossas
-quinas reaes, feita no anno 1541, como
-ella mesma diz.»<a id="FNanchor_76" href="#Footnote_76" class="fnanchor">[76]</a></p>
-
-<p><i>Tão esquecida a querem!</i> pondera frei
-Manuel da Esperança.</p>
-
-<p>Na sepultura d’essa mulher, que esteve
-para cingir duas coroas, podendo dizer-se
-que por alguns dias as cingiu, nem um<span class="pagenum"><a id="Page_249"></a>[249]</span>
-brazão, nem um epitaphio; apenas uma data,
-que suppomos ser a da trasladação!..</p>
-
-<p>Ao menos que, depois de tantos baldões,
-lhe não podiam tolher a paz do tumulo,
-porto seguro onde os naufragos do mundo
-logram emfim descançar, por mais que os
-vivos os esqueçam.</p>
-
-<p>Defronte do sepulcro, uma janella por
-onde o sol entrava... Bem precisado estava
-da amoravel visita da luz do céo o cadaver
-d’essa princeza, que só conheceu na
-terra a luz sinistra das procellas guerreiras
-e das tempestades diplomaticas!</p>
-
-<p>Mas o seu destino obedecia a um mysterioso
-e sinistro mobil, que nem na morte
-lhe permittia gosar absoluto descanço.</p>
-
-<p>Vê-se pela carta regia de D. Catharina—que
-todavia não pudemos encontrar na
-Torre do Tombo, nem nas gavetas, nem na
-collecção especial, nem no corpo chronologico—que
-a <i>Excellente Senhora</i> se mandara
-sepultar na egreja de Santa Clara, de
-Lisboa.</p>
-
-<p>Ora esta egreja foi derrubada pelo grande
-terremoto de 1755. Luiz Cardoso, no
-<i>Diccionario geographico de Portugal</i>, manuscripto
-existente na Torre do Tombo,<span class="pagenum"><a id="Page_250"></a>[250]</span>
-diz, no tomo <span class="allsmcap">XX</span>, livro 2.º, que o convento
-de Santa Clara ficou excessivamente damnificado
-com o terremoto, e que a egreja
-padeceu total ruina, ficando só em pé a parede
-da parte do norte.</p>
-
-<p>Assim se perderam e confundiram nas
-ruinas de Lisboa os restos mortaes da malfadada
-princeza.</p>
-
-<p>Depois do terremoto, as freiras, sobreviventes,
-de Santa Clara, passaram para o
-convento da Esperança, levando comsigo o
-que do seu cartorio poude ser salvo. Esses
-papeis acham-se hoje na Torre do Tombo,
-mas nada dizem com relação á <i>Excellente
-Senhora</i>, que nem depois de morta tivera o
-repoiso eterno concedido aos cadaveres!</p>
-
-<p class="tb">Ahi fica condensada, segundo os materiaes
-fornecidos pelos escriptores castelhanos
-e portuguezes, a biographia de uma
-princeza notavel do seculo <span class="allsmcap">XV</span>, princeza que
-foi causa e pretexto de muitos acontecimentos
-politicos d’essa epocha, e que, rainha
-sem reino, atravessou uma longa existencia
-profundamente accidentada de desgostos
-e contrariedades.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_251"></a>[251]</span></p>
-
-<p>Se as lagrimas, especialmente aquellas
-que se reprimem com nobre heroicidade
-pódem ser uma santificação, D. Joanna merece
-uma pagina no martyrologio das grandes
-dôres, no <i>Flos sanctorum</i> dos martyres,
-nobres ou plebeus, de que a historia
-conserva o nome.</p>
-
-<p>Cremos ser a primeira vez que se coordena
-uma monographia, de maiores dimensões,
-tanto quanto possivel completa,
-ácerca da <i>Excellente Senhora</i> e do seu
-tempo. Lopes de Mendonça ao fechar, nos
-<i>Annaes das sciencias e lettras</i><a id="FNanchor_77" href="#Footnote_77" class="fnanchor">[77]</a>, um interessante
-estudo sobre a batalha de Touro,
-promettia publicar, <i>brevemente</i>, outro estudo
-sobre a vida da princeza D. Joanna. A
-promessa não poude ser cumprida. Procurámos
-prehencher a lacuna, não certamente
-como o teria feito Lopes de Mendonça,
-mas como pudemos fazel-o. E se o publico
-receber benevolamente este trabalho, novos
-estudos historicos se lhe seguirão.</p>
-
-<p>Resta-nos apenas dizer que se conhece
-um retrato, qualquer que possa ser a sua
-authenticidade, da <i>Excellente Senhora</i>, copia<span class="pagenum"><a id="Page_252"></a>[252]</span>
-do que se acha na arvore genealogica
-de D. João <span class="allsmcap">I</span>, manuscripto n.º 12:531 do
-<i>British Museum</i>, de Londres. É o que vem
-nas <i>Rainhas de Portugal</i>, de Benevides,
-tomo <span class="allsmcap">I</span>, pag. 286.</p>
-
-<p class="titlepage">FIM</p>
-
-<hr />
-
-<h2>ERRATA IMPORTANTE</h2>
-
-<p>A <a href="#Page_124">pag. 124</a>, linha 15, sahiu por lapso,
-<i>Tejo</i> em vez de <i>rio</i>, e este rio, como é facil
-de ver pelo texto, não podia ser o Tejo,
-mas sim o Douro, em cuja margem direita
-assenta a cidade de Miranda (de que alli se
-fala), fronteira a Hespanha.</p>
-
-<hr />
-
-<div class="footnotes">
-
-<div class="chapter">
-
-<h2 class="nobreak">NOTAS</h2>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_1" href="#FNanchor_1" class="label">[1]</a> D. Affonso <span class="allsmcap">V</span> ordenou em 1456 que os restos
-mortaes de sua mãe viessem para a egreja do mosteiro
-da Batalha. Trouxeram-n’os Henrique <span class="allsmcap">IV</span> e D.
-Joanna, quando vieram a Portugal para se avistarem
-com Affonso <span class="allsmcap">V</span>, em Elvas.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_2" href="#FNanchor_2" class="label">[2]</a> <i>Provas da Historia genealogica</i>, tomo <span class="allsmcap">II</span>, pag. 18.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_3" href="#FNanchor_3" class="label">[3]</a> Damião de Goes, <i>Chronica do principe D. João</i>,
-cap. <span class="allsmcap">XXXV</span>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_4" href="#FNanchor_4" class="label">[4]</a> A mão de D. Isabel, de Castella, era tambem solicitada
-pelo principe D. Carlos, de Vianna.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_5" href="#FNanchor_5" class="label">[5]</a> O reino de Navarra passou da casa de Foix á casa
-de Albret, pelo casamento de Catharina de Foix, herdeira
-de Navarra, com João d’Albret (1484). Fernando,
-o <i>Catholico</i>, rei de Castella e Aragão, arrebatou
-a João d’Albret toda a Alta Navarra (1512), deixando-lhe
-apenas a parte da Navarra situada ao norte dos
-Pyrenéos, isto é, a Baixa Navarra.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_6" href="#FNanchor_6" class="label">[6]</a> Pina, <i>Chronica</i>, cap. <span class="allsmcap">CLIV</span>. Visconde de Santarem,
-<i>Quadro elementar</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 363.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_7" href="#FNanchor_7" class="label">[7]</a> Pina, <i>Chronica</i>, cap. <span class="allsmcap">CLVII</span>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_8" href="#FNanchor_8" class="label">[8]</a> Dava-se o nome de <i>hermandades</i> a uma especie
-de associações populares, que formavam entre si estas
-ou aquellas povoações de uma provincia ou reino,
-para se policiarem a si proprias, e defender-se das
-extorsões dos reis e dos nobres. No reinado de Fernando
-e Isabel, as <i>hermandades</i> foram organizadas e
-regulamentadas officialmente, em beneficio commum
-do throno e dos povos.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_9" href="#FNanchor_9" class="label">[9]</a> «Suponen algunos que la reina en este tiempo habia
-tenido con un sobrino del arzebispo, llamado don
-Pedro, flaquezas de la misma especie que las que antes
-le habiam atribuido con don Beltran de la Cueva.»
-Lafuente.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_10" href="#FNanchor_10" class="label">[10]</a> Visconde de Santarem, <i>Quadro elementar</i>, tomo
-<span class="allsmcap">I</span>, pag. 366.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_11" href="#FNanchor_11" class="label">[11]</a> <i>Chronica do principe D. João</i>, cap. <span class="allsmcap">XXXVIII</span>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_12" href="#FNanchor_12" class="label">[12]</a> Veja-se o <i>Quadro elementar</i>, tomo <span class="allsmcap">I</span>, pag. 366.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_13" href="#FNanchor_13" class="label">[13]</a> Diogo Clemencin publica-a na integra. <i>Memorias
-de la real académia de la historia</i>, tomo <span class="allsmcap">VI</span>, pag. 583.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_14" href="#FNanchor_14" class="label">[14]</a> Por este motivo ficaram os <i>ss</i> no escudo das suas
-armas.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_15" href="#FNanchor_15" class="label">[15]</a> O padre Flores antecipa o casamento um dia: 18
-de outubro, diz elle.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_16" href="#FNanchor_16" class="label">[16]</a> O visconde de Santarem diz: 1471 a 1473. (Tom.
-<span class="allsmcap">I</span> do <i>Quadro elementar</i>, pag. 367).</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_17" href="#FNanchor_17" class="label">[17]</a> <i>Chronica do senhor rey D. Affonso V</i>, capitulo
-<span class="allsmcap">CLXXI</span>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_18" href="#FNanchor_18" class="label">[18]</a> <i>Quadro elementar</i>, tomo <span class="allsmcap">I</span>, pag. 368.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_19" href="#FNanchor_19" class="label">[19]</a> A <i>Beltraneja</i>, no <i>Manifesto</i> dos seus direitos, a
-que mais de espaço nos referiremos, diz que ao rei
-Henrique foram ministradas ervas e peçonhas por
-trama dos isabelistas, como era notorio, havendo até
-quem prophetizasse qual o prazo em que o rei havia
-de morrer.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_20" href="#FNanchor_20" class="label">[20]</a> Lafuente, <i>Historia de España</i>, tom. 8.º, pag. 494.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_21" href="#FNanchor_21" class="label">[21]</a> Padre Flores, <i>Memorias de las reynas catolicas</i>,
-tom. <span class="allsmcap">II</span>, pag. 772.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_22" href="#FNanchor_22" class="label">[22]</a> Cap. <span class="allsmcap">CLXXIII</span>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_23" href="#FNanchor_23" class="label">[23]</a> <i>Elógio de la reina catolica Dona Isabel</i>, no tomo
-<span class="allsmcap">VI</span> das <i>Memorias de la Real Académia de la Historia</i>.
-Pag. 501.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_24" href="#FNanchor_24" class="label">[24]</a> <i>Quadro elementar</i>, tomo <span class="allsmcap">I</span>, pag. 369.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_25" href="#FNanchor_25" class="label">[25]</a> Benevides, <i>Rainhas de Portugal</i>, tomo <span class="allsmcap">I</span>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_26" href="#FNanchor_26" class="label">[26]</a> <i>Provas da hist. genealog.</i>, tom, <span class="allsmcap">II</span>, pag. 93.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_27" href="#FNanchor_27" class="label">[27]</a> Visconde de Santarem, <i>Quadro elementar</i>, tomo
-<span class="allsmcap">III</span>, pag. 107.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_28" href="#FNanchor_28" class="label">[28]</a> <i>Anales de la corona de Aragon</i>, livro <span class="allsmcap">XIX</span>, cap.
-<span class="allsmcap">XXVI</span>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_29" href="#FNanchor_29" class="label">[29]</a> <i>Historia de España</i>, tomo <span class="allsmcap">IX</span>, parte <span class="allsmcap">II</span>, livr. <span class="allsmcap">IV</span>,
-pag. 127.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_30" href="#FNanchor_30" class="label">[30]</a> Lafuente diz que os esponsaes se celebraram a
-12 de maio, mas o visconde de Santarem colloca-os
-entre os dias 25 e 30.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_31" href="#FNanchor_31" class="label">[31]</a> <i>Provas da historia genealogica</i>, tomo <span class="allsmcap">II</span>, pag. 60.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_32" href="#FNanchor_32" class="label">[32]</a> <i>Quadro elementar</i>, tomo <span class="allsmcap">I</span>, pag. 373.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_33" href="#FNanchor_33" class="label">[33]</a> Em recompensa d’este serviço, D. Isabel presenteou
-Cabrera com uma taça de oiro para a sua mesa,
-promettendo-lhe que no anniversario d’aquelle feliz
-acontecimento, elle e os seus successores teriam egual
-presente. (<i>Annaes das sciencias e lettras</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag.
-705).</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_34" href="#FNanchor_34" class="label">[34]</a> Lafuente.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_35" href="#FNanchor_35" class="label">[35]</a> Pina.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_36" href="#FNanchor_36" class="label">[36]</a> Pina, cap. <span class="allsmcap">CLXXXII</span> da <i>Chronica</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_37" href="#FNanchor_37" class="label">[37]</a> Damião de Goes, <i>Chronica do principe D. João</i>,
-cap. <span class="allsmcap">LXXIV</span>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_38" href="#FNanchor_38" class="label">[38]</a> Rebello da Silva, <i>Annaes das sciencias e lettras</i>,
-vol. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 683; <i>Provas da historia genealogica</i>,
-tomo <span class="allsmcap">II</span>, pag. 18 a 19.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_39" href="#FNanchor_39" class="label">[39]</a> <i>Chronica do principe D. João</i>, cap. <span class="allsmcap">LVIII</span>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_40" href="#FNanchor_40" class="label">[40]</a> <i>Quadro elementar</i>, tomo <span class="allsmcap">III</span>, pag. 125.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_41" href="#FNanchor_41" class="label">[41]</a> <i>Quadro elementar</i>, tom. <span class="allsmcap">III</span>, pag. 127.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_42" href="#FNanchor_42" class="label">[42]</a> «... de noite lhes veio recado de dentro da cidade
-em como o dicto Rey Dom Fernando partira
-aquella noite com sua gente, e hia a hum trato que
-tinha em a cidade de Touro; a qual coisa como fosse
-dicta por pessoa digna de ser crida, os dictos senhores
-Rey e Principe acordaram de atalhar, e levantarem
-do arrayal, e hirem á dicta cidade de Touro
-por entenderem que assim cumpria, e o puzeram logo
-em obra.»</p>
-
-<p><i>Relação que El-Rey D. João segundo mandou ao
-Conselho de Evora da batalha de Toro, etc. Annaes
-das sciencias e lettras</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 724.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_43" href="#FNanchor_43" class="label">[43]</a> A invocação de S. Christovão fôra devida á devoção
-especial de Jorge Correia, commendador de Pinheiro,
-que assim o lembrara ao principe D. João.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_44" href="#FNanchor_44" class="label">[44]</a> <i>Annaes das sciencias e lettras</i>, tomo <span class="allsmcap">I</span>, paginas
-714-723.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_45" href="#FNanchor_45" class="label">[45]</a> <i>Historia de España</i>, tom. <span class="allsmcap">IX</span>, pag. 138.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_46" href="#FNanchor_46" class="label">[46]</a> <i>Diccionario popular</i>, artigo <i>Duarte d’Almeida</i>,
-escripto pelo auctor d’esta <i>Memoria</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_47" href="#FNanchor_47" class="label">[47]</a> <i>Republicas</i>, n.º 8.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_48" href="#FNanchor_48" class="label">[48]</a> <i>Annaes das sciencias e lettras</i>, tomo <span class="allsmcap">I</span>, pag. 728,
-onde tambem se póde ver o <i>Regimento</i> que a procissão
-devia observar.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_49" href="#FNanchor_49" class="label">[49]</a> Damião de Goes, <i>Chronica do principe D. João</i>,
-cap. <span class="allsmcap">LXXX</span>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_50" href="#FNanchor_50" class="label">[50]</a> <i>Recueil des monuments inédits de l’histoire du
-thiers état.</i>—Avant-propos, pag. <span class="allsmcap">LXXIV</span>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_51" href="#FNanchor_51" class="label">[51]</a> <i>Historia de Portugal</i>, vol. <span class="allsmcap">III</span>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_52" href="#FNanchor_52" class="label">[52]</a> Zurita, <i>Anales</i>, tom. <span class="allsmcap">IV</span>, pag. 298.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_53" href="#FNanchor_53" class="label">[53]</a> Ruy de Pina, <i>Chronica</i>, cap. <span class="allsmcap">CCVII</span>; visconde de
-Santarem, <i>Quadro elementar</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 379.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_54" href="#FNanchor_54" class="label">[54]</a> Ruy de Pina, <i>Chronica</i>, cap. <span class="allsmcap">CCVII</span>; visconde de
-Santarem, <i>Quadro elementar</i>, tomo <span class="allsmcap">I</span>, pag. 379.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_55" href="#FNanchor_55" class="label">[55]</a> <i>Historia serafica</i>, tomo <span class="allsmcap">I</span>, pag. 526.</p>
-
-<p>Perguntei para Santarem por esta tradição. Um
-amigo meu, já hoje fallecido, respondia-me em 24 de
-abril de 1885: «Esta manhã fui pessoalmente ao convento
-das Claras em companhia do facultativo da
-casa, que entrou a fazer as necessarias indagações, e
-só obteve em resposta que effectivamente existe no
-edificio uma casa ou capella com um côro pequeno
-a que ainda hoje chamam <i>o corinho</i>, mas as freiras
-ignoram qualquer tradição a respeito d’essa casa.» O
-signatario da informação chamava-se José Candido
-Duarte da Silva.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_56" href="#FNanchor_56" class="label">[56]</a> <i>Chronica d’el-rei D. Affonso V</i>, pag. 245.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_57" href="#FNanchor_57" class="label">[57]</a> Pina, diz que o principe assistira sem o rei; Sousa,
-na <i>Hist. geneag.</i>, escreve que nem o rei nem o
-principe quizeram assistir. Duarte Nunes de Leão dá
-o principe como presente. Seguimos a opinião de Pina
-e Duarte Nunes, mesmo por ser a que melhor se
-coaduna com o caracter do principe D. João.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_58" href="#FNanchor_58" class="label">[58]</a> Amaral, <i>Memoria V para a historia da legislação
-e costumes de Portugal</i>; Rebello da Silva, <i>Annaes
-das sciencias e lettras</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_59" href="#FNanchor_59" class="label">[59]</a> Sobre o estado das classes servas na peninsula,
-leiam-se os importantissimos estudos de Herculano,
-no tomo <span class="allsmcap">I</span> dos <i>Annaes das sciencias e lettras</i>, e no
-terceiro volume da sua <i>Historia de Portugal</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_60" href="#FNanchor_60" class="label">[60]</a> Rebello da Silva, <i>Annaes das sciencias e lettras</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_61" href="#FNanchor_61" class="label">[61]</a> Michelet, <i>Précis de l’histoire moderne</i>, pag. 23.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_62" href="#FNanchor_62" class="label">[62]</a> <i>Vida e feitos de D. João II.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_63" href="#FNanchor_63" class="label">[63]</a> Vejam-se os documentos publicados no tomo <span class="allsmcap">II</span>
-das <i>Provas da historia genealogica</i>, pag. 8 e 51.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_64" href="#FNanchor_64" class="label">[64]</a> Innocencio diz que este opusculo é raro. Pudemos
-vel-o na bibliotheca nacional de Lisboa, onde
-existe. Na da academia real das sciencias não ha,
-porque fôra arrancado da miscellanea onde estava.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_65" href="#FNanchor_65" class="label">[65]</a> <i>Clemencin.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_66" href="#FNanchor_66" class="label">[66]</a> <i>Provas da historia genealogica</i>, tom. <span class="allsmcap">III</span>, pag.
-636.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_67" href="#FNanchor_67" class="label">[67]</a> <i>Annaes das sciencias e lettras</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 412
-e 551.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_68" href="#FNanchor_68" class="label">[68]</a> Dava-se o nome de <i>personatus</i> nos mosteiros ás
-dignidades, como por exemplo as de deão, thesoireiro,
-chantre, etc., ás quaes n’outras partes chamam
-<i>officia claustralia</i>. Ducange: <i>Glossarium</i>, vol. <span class="allsmcap">V</span>,
-pag. 214.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_69" href="#FNanchor_69" class="label">[69]</a> Baronius, <i>Annales ecclesiastici</i>, tomo <span class="allsmcap">XIX</span>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_70" href="#FNanchor_70" class="label">[70]</a> Tom. <span class="allsmcap">II</span>, pag. 79.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_71" href="#FNanchor_71" class="label">[71]</a> <i>Provas da historia genealogica</i>, tom, <span class="allsmcap">II</span>, pag. 94.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_72" href="#FNanchor_72" class="label">[72]</a> Camillo Castello Branco, <i>Narcoticos</i>, vol. <span class="allsmcap">I</span>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_73" href="#FNanchor_73" class="label">[73]</a> <i>Provas da historia genealogica</i>, tomo <span class="allsmcap">II</span>, pag. 71.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_74" href="#FNanchor_74" class="label">[74]</a> Tomo <span class="allsmcap">II</span>, pag. 76.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_75" href="#FNanchor_75" class="label">[75]</a> Benevides, nas <i>Rainhas de Portugal</i>, tomo <span class="allsmcap">I</span>,
-pag. 290, publíca o <i>fac-simile</i> da assignatura de D.
-Joanna.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_76" href="#FNanchor_76" class="label">[76]</a> <i>Historia seraphica</i>, tomo <span class="allsmcap">II</span>, pag. 133.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_77" href="#FNanchor_77" class="label">[77]</a> Vol. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 701-737.</p>
-
-</div>
-
-</div>
-
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-
-<p class="hanging"><i>Modelos de redacção, auxiliares do curso de portuguez
-e dos alumnos de instrucção primaria</i>, contendo:
-cartas sobre varios assumptos, narrações,
-descripções, etc., segundo os themas do <i>Manual de estylo</i>
-do sr. dr. Delphim Maria d’Oliveira Maya;
-1 vol., cartonado, 500 rs.</p>
-
-<p>Alem de ser proprio para leitura e analyse nas aulas,
-este livro do distincto professor de portuguez e
-francez é um excellente trabalho litterario para as familias,
-porque, a par da pureza de linguagem que o
-caracteriza, ha n’elle muito ensinamento pratico e
-moral aproveitavel tanto para pessoas adultas como
-para meninos e meninas cuja educação seja cuidada.</p>
-
-<p class="hanging"><i>Resumo da historia portugueza para uso das escholas
-d’instrucção primaria</i>; obra approvada pelo governo
-(2.ª edição): 1 vol., cartonado, 300 rs.</p>
-
-<p class="hanging"><i>Rudimentos de arithmetica e systema metrico</i>: 1 vol.,
-cartonado, 200 rs.</p>
-
-<p class="center smaller">JACOB BENSABAT</p>
-
-<p class="hanging"><i>Nova arithmetica e systema metrico das escholas primarias</i>,
-elaborados pelo systema analytico e inductivo,
-e illustrados com 21 gravuras: 1 vol., cartonado,
-400 rs.</p>
-
-<p>Esta nova obra do abalisado professor de francez
-e inglez, já vantajosamente conhecido por outra
-ordem de trabalhos didacticos e linguisticos, constitue
-indubitavelmente um progresso apreciavel n’esta
-importante materia da instrucção elementar.</p>
-
-</div>
-
-
-
-
-
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-
-
-<pre>
-
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-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Rainha sem reino, by Alberto Pimentel
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RAINHA SEM REINO ***
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-trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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-electronic works, harmless from all liability, costs and expenses,
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-or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or
-additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any
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-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
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-Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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-computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
-exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
-from people in all walks of life.
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-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
-assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
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-remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
-and permanent future for Project Gutenberg-tm and future
-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at
-www.gutenberg.org
-
-
-
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
-U.S. federal laws and your state's laws.
-
-The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the
-mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its
-volunteers and employees are scattered throughout numerous
-locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt
-Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to
-date contact information can be found at the Foundation's web site and
-official page at www.gutenberg.org/contact
-
-For additional contact information:
-
- Dr. Gregory B. Newby
- Chief Executive and Director
- gbnewby@pglaf.org
-
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
-Literary Archive Foundation
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-Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
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-increasing the number of public domain and licensed works that can be
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-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
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-state visit www.gutenberg.org/donate
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-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations. To
-donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
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-Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works.
-
-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of
-volunteer support.
-
-Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
-the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
-necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
-edition.
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-Most people start at our Web site which has the main PG search
-facility: www.gutenberg.org
-
-This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
-including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
-subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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