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If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: Rainha sem reino - (Estudo historico do seculo XV) - -Author: Alberto Pimentel - -Release Date: October 10, 2020 [EBook #63434] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RAINHA SEM REINO *** - - - - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - - - - - - - - - - -RAINHA SEM REINO - - - - -BARROS & FILHA, EDITORES - -RUA DO ALMADA, 104 A 114, PORTO - - -_Litteratura e polygraphia_ - - _Alliança helleno-latina_, discurso, por Emilio Castellar: 1 - vol., 200 rs. - - _Cartas a Luiza (moral, educação e costumes)_, por D. Maria - Amalia Vaz de Carvalho: 1 vol., 600 rs. - - _Diccionario de phrases latinas de uso mais vulgar_, por Brito - de Barros: 1 vol., 500 rs. - - _Farpões_, por Brito de Barros (2.ª edição): 2 tomos, 500 rs. - - _Mulheres_, romance, por Brito de Barros: 1 vol., a entrar no - prelo. - - _Pandemonio_, por Brito de Barros: 1 vol., 500 rs. - - _Rainha sem reino (estudo historico do seculo XV)_, por Alberto - Pimentel: 1 vol., 600 rs. - - _Uma vida perfeita_, por D. Maria Amalia Vaz de Carvalho: 1 - vol., a entrar no prelo. - - _Viagens no Chiado_, por Barros Lobo (_Beldemonio_): 1 vol., a - entrar no prelo. - -_Educação e ensino_ - - _Modelos de redacção, auxiliares do curso de portuguez e dos - alumnos d’instrucção primaria_, por Antonio Manuel Gomes: 1 - vol., cartonado, 500 rs. - - _Nova arithmetica e systema metrico das escholas primarias_, - por Jacob Bensabat: 1 vol., cartonado, 400 rs. - - _Resumo da historia portugueza para uso das escholas - d’instrucção primaria_, por Antonio Manuel Gomes; obra - approvada pelo governo (2.ª edição): 1 vol., cartonado, 300 rs. - - _Rudimentos de arithmetica e systema metrico_, por Antonio - Manuel Gomes: 1 vol., cartonado, 200 rs. - - - - - RAINHA - SEM REINO - - (ESTUDO HISTORICO DO SECULO XV) - - POR - ALBERTO PIMENTEL - - PORTO - BARROS & FILHA, EDITORES - RUA DO ALMADA, 104 A 114 - 1887 - - _Imprensa Civilização—Rua de Santo Ildefonso, 73 a 77_ - - - - -I - -SEGREDOS DA ALCOVA... - - -A infanta de Portugal, D. Joanna, filha de el-rei D. Duarte e da rainha -D. Leonor d’Aragão, nasceu posthuma, em março de 1439. Duas grandes -fatalidades pareceram cobrir com a sua aza negra o berço da infantasinha -portugueza: o lucto pela morte de seu pae, esse illustrado e infeliz -rei para quem a vida fôra pouco menos de um martyrio ininterrupto, e a -peste que então grassava em Lisboa, obrigando a côrte da rainha viuva a -retirar-se para Almada, onde a infanta nascera na quinta de Monte Olivete. - -Menos feliz do que sua irmã D. Philippa, que n’esse mesmo anno morrera -menina, tocada da peste, D. Joanna foi desabrochando as graças da sua -infancia no meio de uma côrte melancholica, perturbada pelas luctas -politicas da regencia, entregue ao cuidado da sua aia Maria Nogueira, -e, mais tarde, confiada á companhia da sua camareira-mór D. Isabel de -Menezes, mulher de Ruy de Mello, alcaide-mór de Elvas. - -Menina e moça, a infanta, extremamente bella, fazia lembrar uma flor que -vegeta á beira de um tumulo, porque essa côrte viuva, onde a _triste -reina_ não tinha uma hora de serenidade de espirito, não era, de feito, -mais do que o tumulo de todas as alegrias de familia, porque não as teve -a de D. Duarte, nem a de seu filho Affonso V. - -Chegando aos dezesete annos de edade, fôra D. Joanna pedida em casamento -por seu primo Henrique IV, de Castella, que tinha nascido a 5 de janeiro -de 1425, e fôra jurado principe das Asturias nas côrtes geraes de -Valhadolid com festas publicas. - -O bispo de Cuenca, que o baptizara, prégou sobre este thema: _Puer natus -est nobis._ Um menino nos nasceu. Mas apesar de nascer entre jubilos o -menino, que no throno de Castella devia succeder a seu pae D. João II, as -côrtes preoccuparam-se logo de resolver uma questão importantissima. Fôra -o caso, que D. João II havia casado com a infanta D. Maria, sua prima -carnal, filha de Fernando I, de Aragão, irmã de D. Leonor, casada com -D. Duarte, de Portugal, e que este casamento intromettera nos negocios -politicos de Castella os infantes de Aragão, especialmente D. João e D. -Henrique, que procuravam tomar ascendente no animo do rei, seu cunhado. - -D. Henrique, que era mestre de S. Tiago, e que aspirava a desposar, -como desposou, D. Catharina, irmã do rei D. João, foi até ao extremo de -assaltar o paço, e de querer aprisionar o rei. O infante D. Henrique -entrara preso na fortaleza de Móra, e D. João II representou ao rei de -Aragão, Affonso V, para que lhe entregasse os cavalleiros que tomaram -partido por D. Henrique. Mediaram negociações, e o rei de Aragão resolveu -finalmente invadir o reino de Castella. - -Fôra pois a noticia d’esta invasão o assumpto que preoccupara a attenção -das côrtes. Se o rei de Aragão se obstinasse em penetrar em Castella, -o que se havia de fazer? Resistir-lhe, decidiram as côrtes ao cabo de -longos debates. - -Vagara entretanto o throno de Navarra, a que o infante aragonez, D. João, -subira pelo seu casamento com a infanta D. Branca. Este incidente deu uma -nova face ás pendencias de D. João de Castella com D. Affonso de Aragão. -O infante D. Henrique reconquistara a liberdade, para continuar a lucta, -e o rei de Aragão dissolveu o exercito com que se havia preparado para -combater o adversario. - -Em 1425 nascera, como dissemos, da alliança de D. João II com sua prima -D. Maria, um infante, que recebeu o nome de Henrique. Era o quarto do -nome que devia succeder na coroa de Castella. - -A rainha D. Maria morreu envenenada, em Villecastin, a 15 de março de -1455. Pouco antes havia tambem fallecido em Toledo, crê-se que por -effeito de veneno, sua irmã a rainha D. Leonor, viuva de D. Duarte, de -Portugal. A morte d’estas duas princezas filia-se no apoio que poderiam -querer dar ou receber do infante D. Henrique, seu irmão. Não faltou -todavia em Portugal quem indiciasse o infante portuguez, D. Pedro, como -cumplice, senão auctor, da morte de sua cunhada D. Leonor de Aragão, -para evitar novos embaraços politicos á regencia, durante a menoridade -de Affonso V. Esta suspeita, lançada sobre o caracter do infante D. -Pedro, não conseguiu maculal-o perante a historia, porque são os proprios -chronistas hespanhoes, entre elles Flores, que apontam o condestavel -castelhano, D. Alvaro de Luna, como promotor do envenenamento de ambas as -princezas. O infante D. Pedro havia até annuido a que D. Leonor voltasse -para Portugal, mas a negociação mallograra-se pelo subito fallecimento da -rainha em Castella. - -Pelo que respeitava a esta senhora, receava D. Alvaro que influisse para -que seu irmão D. Henrique voltasse a Toledo, d’onde fôra expulso, porque -servindo a causa de seu irmão julgaria a rainha de Portugal favorecer a -sua propria causa contra o regente D. Pedro.[1] - -Quanto á rainha de Castella, D. Maria, pensou o condestavel D. Alvaro -em desembaraçar-se da sua influencia por um meio violento, aliás muito -vulgar então na côrte castelhana: o veneno. - -«Uma e outra, diz o padre Flores, morreram de veneno, segundo a -promptidão e effeitos da morte; pois que D. Leonor morreu de repente, -depois de tomar um remedio caseiro; D. Maria não sentiu maior enfermidade -que uma dor de cabeça, e ao quarto dia morreu. Os cadaveres de ambas -cobriram-se egualmente de vergões, e portanto se attribuiu a morte a -veneno. De mais a mais, vê-se do processo instaurado contra D. Alvaro de -Luna, que influira para que fosse ministrada peçonha ás duas rainhas.» - -O plano de D. Alvaro não falhara, porque logo depois da morte da rainha -feria-se a 29 de maio uma batalha junto a Olmedo. O rei venceu. D. -Henrique morreu, em Calatayud, do ferimento que recebera durante a -batalha, e D. Alvaro de Luna conseguira ser investido no mestrado de S. -Tiago, que o infante tivera. - -Fôra o condestavel D. Alvaro que negociara o segundo casamento de D. -João II, de Castella, com a infanta D. Isabel, filha do infante D. João -de Portugal e neta de D. João I. D’este segundo casamento nasceram a -infanta D. Isabel e o infante D. Affonso, que vieram a representar na -politica de Castella um papel importante, principalmente Isabel, que -sobreviveu ao irmão, e que pelo seu casamento com Fernando de Aragão -preparou a unidade hespanhola, finalmente realizada por Carlos V. - -Por agora, reportemo-nos ao nascimento de Henrique IV, successor do -throno de Castella. - -O menino tinha nascido, mas não nascera com elle a tranquillidade da -côrte de D. João II. Discussões de toda a ordem a agitavam. De mais -a mais, o condestavel D. Alvaro de Luna, valido do rei, tinha visto -levantarem-se contra elle todos quantos beneficiara, e a tal ponto o -combatiam, que o rei se viu obrigado a pactuar em Castronunho, acceitando -a imposição do desterro temporario de D. Alvaro. - -Mas não teve forças D. João II para romper com o valido. Saltou por -cima da concordata de Castronunho. Reagiram os confederados, e uma -nova reunião foi aprazada para Valhadolid. O principe das Asturias -assistiu, e concordou com os demais em que, por pedido do rei, se désse -salvo-conducto a D. Alvaro de Luna; mas, no dia seguinte, o principe -voltou-se para a politica dos confederados, impondo por sua vez condições -ao rei. - -Um tal procedimento causou grande escandalo na côrte. _Puer natus est -nobis._ D. João II não podia duvidar de que tinha um filho, e por -tal signal que lhe ia dando muito que fazer. É verdade que parecia -inspirar-se nas suggestões de um mau conselheiro; nem tudo era obra -propriamente sua. Dominava-o um donzel, de nome João Pacheco, seu valido, -filho de Affonso Telles Giron, senhor de Belmonte. - -Fôra o proprio condestavel D. Alvaro quem puzera este desagradecido -rapaz, seu pagem, ao lado do principe, e é curiosa a circumstancia de que -o condestavel dominava tanto o rei quanto o Pacheco dominava o principe. - -Mas o feitiço voltara-se contra o feiticeiro, e Pacheco, feito marquez de -Vilhena por D. João II, parecia agora aconselhar o principe a conspirar -contra a politica do rei, que era a politica do condestavel. O principe -das Asturias unira-se, pois, aos inimigos de D. Alvaro de Luna, que, -tendo sido valido, veio a acabar no cadafalso, como quasi todos os -validos em Castella. - -O mesmo rei, que o defendera, entregou-o aos seus inimigos e, depois de -o haver atraiçoado, mandou-o chorar pelos poetas da côrte. Um dos que -choraram por conta do rei foi João de Mena. - -D. João II pensou em arrancar o filho á influencia de Pacheco. Para isso -lembrou-se de um meio: casal-o. Casal-o de facto, entende-se, porque -D. Henrique já estava desposado com D. Branca de Navarra, como fôra -estipulado no tratado de paz feito entre os reis de Aragão, Navarra e -Castella. - -Fez-se o que o rei pensara. D. Branca viera para Valhadolid juntar-se com -o seu noivo. Realizaram-se festas esplendidas; houve saraus, banquetes, -cannas, torneios, montarias e toiros. Dir-se-ia que o reino estava -nadando em felicidade e paz. Mas, apesar das festas, o casamento de D. -Henrique com essa infeliz princeza, que devia ser esposa mallograda, -fôra tristemente agoirado. Os torneios e as festas deixaram uma lugubre -recordação, ensanguentada pela morte e pelos ferimentos de alguns -cavalleiros. As pontas das lanças, com que lidaram, eram de ferro -acerado, de modo que a lide sahiu a valer. - -Do casamento do principe das Asturias com D. Branca, de Navarra, não -houve filhos. O principe dava-se habitualmente a outro genero de -prazeres, segundo o testemunho de Mariana, e assim se explica a grande -privança em que vivera com João Pacheco. - -Quatorze annos já iam corridos sem que D. Branca désse successão. A voz -publica attribuia a culpa d’esta esterilidade a impotencia do principe, -e aos maus habitos adquiridos. Dizia-se geralmente que a pobre princeza -estava como nascera. Mas, no processo do divorcio, o fundamento official -é a impotencia relativa dos dois consortes. Questão de bruxedos, segundo -as idéas da epocha, mas não, por certo, segundo as idéas de Pacheco, que -outras razões teria. - -Posta a questão do divorcio no fôro ecclesiastico, pronunciou sentença de -nullidade Luiz da Cunha, que governava a egreja de Segovia. O processo -subiu por appellação a Roma, e o papa Nicolau V delegou seus poderes em -Affonso Corrilho, arcebispo de Toledo, que confirmou a sentença. - -D. Branca de Navarra foi, pois, despedida. Sahia de Castella como -entrara: sempre noiva. Atraz d’ella, sobre a cauda roçagante do seu -véo branco, arrastavam-se epigrammas grosseiros, satiras mordazes. Diz -Zurita que de Italia lhe mandavam os embaixadores aragonezes remedios -para combater a esterilidade, já depois de repudiada, como se foram para -cural-a de uma febre quartã! E Castella, vendo moribundo o seu rei, tinha -de acceitar um principe devasso e impotente, que lhe succedia. - -Em 1453 morria D. João II, e o principe descasado empunhava as redeas do -governo. A hereditariedade punha a coroa na cabeça de um mau filho e de -um mau esposo, que de mais a mais se affirmara poltrão desde os primeiros -tempos do seu reinado. - -Propoz-se D. Henrique renovar a guerra contra os moiros de Granada. -Preparou um exercito formidavel, fez-se rodear de uma guarda distincta -composta de tres mil e seiscentas lanças, a flor da nobreza de -Castella; porem ao approximar-se da _vega_ de Granada deu ordem para -que se evitasse todo o encontro com o inimigo. O exercito ficou -descontentissimo, chegou mesmo a lavrar entre elle o pensamento de se -apoderar da pessoa do rei, mas um filho do marquez de Santilhana avisou -da conspiração Henrique IV, que se retirou apressadamente para Cordova, e -d’ahi para Madrid. - -Henrique IV gostava da guerra... platonicamente, como das mulheres. -Lisonjeava-o ver-se commandando um poderoso exercito no meio da floresta -scintillante das lanças da sua guarda, mas a respeito de dar batalha, -nada! Amava muito a vida para arriscal-a; apenas, como hypocrita que -tambem era, dizia que por amar a vida dos outros os não queria sacrificar. - -Os invernos passava-os na côrte, ou nas cercanias de Madrid em festas -venatorias. A caça era o seu fraco e o seu forte. Quando a primavera -chegava, montava a cavallo, cingia a espada impolluta, e ia fazer um -passeio de recreio, com o seu exercito, até á _vega_ de Granada. As -vezes, por distracção, ia talando e incendiando os campos na passagem. - -A veiga de Granada era então muito falada em trovas e praticas. No -_Cancioneiro_, de Rezende, o poeta Nuno da Cunha, enfadado de tanto ouvir -falar na veiga de Granada, diz a Henrique de Almeida, que regressava de -Castella: - - Da Veiga lá de Granada - e das estejas da guerra - vos nam ey já de ouvir nada. - -Um anno, alguns jovens cavalleiros entraram em combate por sua conta e -risco. No recontro, ficou morto Garcilaso de la Vega. O rei agastou-se, e -então teve uns assomos ridiculos de traga-moiros: que incendiassem, que -devastassem tudo. O emir Aben Ismail viu-se forçado a pedir treguas, mas -a respeito de dar batalha campal, nada; Henrique IV continuava a amar -platonicamente a guerra... como as mulheres. - -Todas as phantasias poderia ter um rei impotente, menos a de tornar -a casar. Pois teve-a Henrique IV, tão extravagante era a sua cabeça. -E lançou as vistas para a infanta D. Joanna, de Portugal, sua prima, -princeza formosissima, a cujos dotes de corpo e de espirito todos os -historiadores castelhanos rendem encomiastica homenagem. - -Mas Henrique IV tinha o seu pensamento. Segundo Lafuente, talvez quizesse -desmentir a fama de impotente. Agora o que se não chega a perceber é o -pensamento a que cedeu Affonso V, dando a mão da princeza ao primo de -Castella, que tinha como marido os peores precedentes d’este mundo. - -É verdade que as condições do casamento eram vantajosas para Portugal, -porque Henrique IV contentava-se apenas com a pessoa da princeza, diz -Sousa na _Historia genealogica_. Em vez de pedir, offerecia como arrhas -vinte mil florins de oiro do cunho de Aragão, sendo Ciudad-Real a -hypotheca proposta e acceita; e mais as rendas da villa de Olmedo, para -ajuda da despesa da casa da infanta, e, para o mesmo fim, a annuidade de -milhão e meio de maravedis de moeda corrente. - -Affonso V não deu dote á irmã, a qual, porém, foi grandemente corrigida -da sua pessoa; custou tudo, até ser entregue a el-rei de Castella, trinta -mil dobras.[2] - -Nas capitulações, que se fizeram em Lisboa a 22 de janeiro de 1455, -presentes, de um e outro lado, Affonso V e o capellão-mór de Henrique -IV, foi estipulado que a infanta poderia fazer-se acompanhar de doze -damas portuguezas, uma dona, uma camareira, e todas as mais pessoas que -quizesse, obrigando-se o rei de Castella a remuneral-as conforme a sua -jerarchia. - -Havia-se ajustado nas capitulações, que a infanta seria entregue na -fronteira n’um periodo de tempo não superior a oitenta e um dias depois -dos desposorios. - -Cumpriu-se o contracto, e a infanta partiu, sendo acompanhada pela -condessa de Athouguia, D. Guiomar, e pelo conde D. Martinho, seu filho. - -Em Lisboa fizeram-se festas, segundo diz Pina, sem comtudo as -especificar, e, quando a nova rainha de Castella passava pela Landeira, -em direcção a Elvas, realizaram-se ahi justas em sua honra. - -Em Badajoz era D. Joanna esperada com luzido sequito pelo duque de -Medinacidonia. D’alli seguiram para Cordova, onde o rei estava, e onde os -noivos receberam a benção nupcial (maio de 1455). - -De Cordova passaram a Sevilha, e ahi houve cannas, justas, toiros, e -um torneio de cincoenta por cincoenta, de que foram chefes o duque de -Medinacidonia e o marquez de Vilhena. - -As festas da côrte, a que Henrique IV se abandonava n’um sybaritismo -insaciavel de testa coroada, redobraram de movimento e esplendor. Ora -em Madrid, ora em Segovia, sitios predilectos d’este bom rei, tão -madraço como os ultimos da raça merovingia, Henrique IV aturdia a noiva -com festas sumptuosas porventura no empenho de lhe fazer esquecer as -desillusões da alcova real. - -A pobre princeza cahiu de chofre n’este mundo de tentações e perigos -que ella desconhecia, que não tinha sido o da sua educação. O luxo e a -galanteria ostentavam-se em requintes de fascinação, estonteavam como -filtros allucinantes todas as cabeças, incluindo as mitradas. - -O rei era o primeiro a dar o exemplo de dissipação. - -De Henrique III, conta o nosso padre Manuel Bernardes, na _Nova -floresta_, que, vindo esfomeado da caça, não tivera que comer certo -dia. Disse-lhe o comprador que já não havia fornecedores que quizessem -continuar a fiar para a real senhoria. O rei despiu o gabão e mandou-o -empenhar por um pouco de carneiro. Os criados murmuraram do caso, -extranhando que o rei tivesse fome e os fidalgos se banqueteassem -lautamente, como n’essa mesma noite estava acontecendo no palacio do -arcebispo de Toledo. - -Henrique III, como isto ouvisse, sahiu disfarçado e entrou occultamente -no paço archiepiscopal, ao tempo que os grandes da côrte conversavam -jactanciosamente sobre as rendas da corôa, que cada um lograva. O rei -recolheu-se a palacio, e mandou postar n’um dos pateos interiores um -troço de seiscentos homens armados. - -Logo que luziu a manhã, expediu recado aos grandes senhores para que -sem demora lhe viessem falar, dizendo-se doente, e desejoso de fazer -testamento. Os fidalgos acudiram em chusma, e foram isolados n’uma sala -onde longo tempo esperaram. - -Finalmente, appareceu o rei, de aspecto terrivel, e espada em punho; e, -sem mais tir-te nem guar-te, perguntou a cada um de per si quantos reis -de Castella conheciam. Uns disseram que tres, outros que quatro, e ainda -outros que cinco. O rei fingiu-se admirado. «Sendo eu mais moço que todos -vós, replicou elle, conheço mais de vinte.» Os fidalgos responderam que -não entendiam sua alteza. Então Henrique III explicou, que todos elles -eram reis, porque se banqueteavam todas as noites, ao passo que elle, se -quizera comer carneiro, tivera de empenhar o gabão. E acabou gritando: -«Olá, gente da minha guarda!» - -Acudiram ás portas os soldados. Appareceu um algoz com o cepo, cutello e -cordas, prompto a funccionar. - -«Então, diz Bernardes, o arcebispo se lhe lançou aos pés, pedindo, em -nome de todos, perdão, e as vidas de mercê; e que no tocante ás fazendas, -cortasse por onde lhe parecesse.» - -O certo é que o rei perdoou. Mas as contas ficaram justas por então, e o -rei poude rehaver todos os castellos que, durante a sua menoridade, os -tutores haviam alheado. E alem dos castellos, cento e cincoenta contos de -maravedis. - -Henrique IV não era homem que tivesse resolução para imitar este exemplo -do seu homonymo. Em vez de tirar aos fidalgos para dar a si, tirava a si -para dar aos fidalgos. Por isso Garcia de Rezende, diz na _Miscellanea_: - - Mui poderoso e servido - El-rei Dom Henrique era, - Mui gran rico, mui querido, - Fôra mui obedecido, - Se governar se soubera. - Mas vimos-lhe tanto dar - E tanto deixar tomar - Os grandes toda Castella, - Que elles eram os reis d’ella, - Elle sem ter que reinar. - -Vem a ponto citar o caso de outro arcebispo que, á semelhança do de -Toledo na côrte de Henrique III, pompeava magnificencias na côrte de -Henrique IV. Referimo-nos ao de Sevilha, D. Affonso da Fonseca, que uma -noite, depois de ceia, fez servir á mesa duas bandejas coguladas de -anneis de oiro, cravejados de pedras preciosas, para que a rainha e as -suas damas tomassem os que lhe aprouvessem. - -D. Joanna sentiu porventura a febre do prazer invadir-lhe o espirito -n’uma perfida embriaguez, que principiou por aturdil-a, e que devia -necessariamente acabar por perdel-a, tanto mais que nenhum laço intimo, -d’estes que estreitam os affectos e criam raizes, a prendia a seu esposo. - -Henrique IV, embriagado tambem, esquecia-se de que era casado, e de que -a natureza lhe negara qualidades que o recommendassem aos olhos das -mulheres. Fingia ser o que não era, e exaggerava o fingimento, porque -galanteava com escandalo uma das damas da rainha, D. Guiomar de Castro, -filha bastarda de D. Alvaro de Castro, conde de Monsanto, portugueza -formosissima, que viera a casar accommodaticiamente com o conde de -Tervinho, primeiro duque de Nájara.[3] - -Julgava-se depreciado o rei por não ser tão completo como qualquer dos -seus vassallos, e mascarava-se de Tenorio, prophetizava Byron. Dava-se -a ostentação de uma amante como os velhos lords inglezes, exhaustos e -carunchosos, que vivem de se illudir a si proprios com as mulheres. Antes -d’esta D. Guiomar, já Henrique IV tivera por manceba uma Catharina de -Sandoval, que acabara por fazer abbadessa de um mosteiro de monjas, em -Toledo, sob color de que necessitavam ser reformadas. - -Boa disciplina podia impor ás monjas a barregã do rei! - -Mas Henrique IV não podia ter confiança nas mulheres, pela simples razão -de que ellas não podiam confiar n’elle. Catharina de Sandoval amava do -coração um homem, que não o rei. Chamava-se Affonso de Cordova. O rei, -como não pudesse competir com o seu rival, mandou-lhe cortar a cabeça em -Medina del Campo, e resolveu a questão. - -Agora voltara-se para a bella Guiomar, tão platonicamente, por certo, -como em tempo se voltara para a _vega_ de Granada. - -A rainha via-se enleada talvez n’uma duvida atroz. Quem teria razão? -Seria Branca de Navarra, repudiada e virgem, ou D. Guiomar de Castro, que -parecia inutilizar o rei para os seus deveres de marido? - -A pobre rainha decidiu-se por esta ultima hypothese, e um dia, não -podendo mais comsigo, segurou pelos cabellos a dama, e castigou-a -por sua propria mão. O escandalo estrondeou, dividiu-se a côrte em -partidos, um pela rainha, outro pela manceba. O arcebispo de Sevilha, -talvez mal succedido junto da rainha, apesar da galanteria dos anneis, -pronunciou-se, por vingar-se, a favor de D. Guiomar. E o rei, apagando -na alma de sua mulher a ultima noção do decoro conjugal, levou a manceba -para duas leguas da côrte, poz-lhe casa sumptuosa, e ia visital-a quando -lhe aprazia chancear-se de prendas que não tinha. - -Com este impulso mais, a rainha resvalara. Pelo menos a opinião publica -boquejava desconfianças a respeito de D. Beltrão de Lacueva, _hidalgo -de los mas generosos de Ubeda, y uno de los mas apuestos y gallardos -cabaleros de la córte, que comenzaba á gozar del favor del rey, y de paje -de lanza habia ascendido á moyordomo mayor_, diz Lafuente. - -Tal foi o gentil homem que a rainha, no pendor do seu abandono e no -estonteamento de uma côrte perigosa, encontrou no momento de resvalar. - - - - -II - -NA CÔRTE DE HENRIQUE IV - - -Estava-se então em pleno cyclo cavalheiresco. O valor dava as mãos á -poesia, na côrte de Castella. Muitos cavalleiros eram trovadores; não ser -nenhuma d’estas coisas, importava o mesmo que viver e morrer anonymo. A -magnificencia completava, como sabemos, as seducções da côrte, em que -D. Joanna, de Portugal, era duas vezes rainha, pela formosura e pelo -casamento. - -Os _passos de armas_ eram frequentes e notaveis. Propunham-se fazel-os -os cavalleiros que queriam dar prova publica de seu brio e destreza, em -honra de qualquer dama. Marcado o logar onde a lide devia realizar-se, o -cavalleiro reptava solemnemente quantos por alli _passassem_. - -O _passo de armas_ mais caracteristico d’aquelle tempo foi o de Suero de -Quinhones (1434). - -Uma noite, estando D. João II em Medina del Campo, folgando com a -côrte em sarau dançante, apresentou-se-lhe o nobre cavalleiro Suero de -Quinhones, acompanhado de mais nove gentis-homens, e pediu a el-rei -auctorização para, em honra da sua dama, fazer um _passo de armas_ quinze -dias antes e quinze dias depois da festa de S. Tiago, propondo-se os dez -quebrar trezentas lanças de ferro de Milão com todos os cavalleiros, -nacionaes e extrangeiros, que por alli passassem á ida ou á volta da -festa do grande apostolo. Todas as damas, que não fossem acompanhadas por -gentilhomem disposto a combater, perderiam a luva da mão direita. - -Lafuente traz a descripção minuciosa d’este celebre _passo_, do apparato -dos cavalleiros, do campo da lide, e dos combates que se travaram. Nem -menos de 68 aventureiros justaram com os dez mantenedores. Fizeram-se -setecentas e vinte e sete _carreiras_; mas faltou o tempo para quebrar -todas as trezentas lanças. Ficou a coisa reduzida a 166, e ninguem dirá -que foi pouco. - -O primeiro aventureiro que acceitou o repto foi messire Arnaldo de la -Floresta Bermejo, allemão, que correu seis carreiras e quebrou duas -lanças. - -Assim como um allemão vinha justar a Castella, muitos cavalleiros -castelhanos corriam mundo assistindo a todas as grandes festas e torneios -das côrtes da Europa. Tornou-se notavel como cavalleiro andante o -valoroso João de Merlo, honra da cavallaria castelhana. - -A recepção que em toda a parte se fazia aos cavalleiros andantes era -magnifica. - -De visita á côrte de Affonso V veio em 1446 o famoso cavalleiro -messire Jacques de Lalain, de Borgonha, que foi recebido com honras -verdadeiramente principescas. - -Os torneios eram muitas vezes cruentos. Taes foram os que mal-agoiraram -as nupcias de Henrique IV com D. Branca, de Navarra. O proprio D. Alvaro -de Luna, justando na acclamação de D. João II, cahiu gravemente ferido. - -Isto, quanto aos paladinos. Os trovadores, os cultores da gaya sciencia, -como se dizia, não eram menos numerosos que os paladinos. - -O proprio D. João II versejara. Attribuem-se-lhe umas trovas que -principiam assim: - - Amor, yo nunca pensé - que tan poderoso eras, - que podrias tener maneras - para trastornar la fé, - hasta agora que lo sé. - -A rainha D. Joanna ainda foi encontrar na côrte de Castella o celebre -marquez de Santilhana, auctor da conhecida carta ao condestavel de -Portugal, que póde considerar-se como uma verdadeira arte poetica -d’aquelle tempo. Como se vê por essa carta, o marquez de Santilhana, -D. Inigo Lopez de Mendonça, era um erudito; mas as suas composições -testemunhavam que, alem de conhecer profundamente a historia de toda a -gaya sciencia, era tambem um poeta. - -As suas _serranillas_ são verdadeiramente notaveis. Bastará um exemplo. -Certo dia o marquez, dirigindo-se para uma das suas expedições militares, -encontrou na serra uma zagala que pastorava os rebanhos de seu pae, D. -Diogo de Mendonça. Encantado da sua formosura, compoz esta bucolica, em -que todas as graças pastoris rescendem: - - Moza tan fermosa - non vi en la frontera - como una vaquera - de la Finojosa. - - ... - - En un verde prado - de rosas é flores - guardando ganado, - con otros pastores, - la vi tan fermosa, - que apenas creyera - que fuese vaquera - de la Finojosa. - -Quando as vaqueiras formosas eram assim galanteadas em trovas, não admira -que a rainha D. Joanna, não menos bella que a pastora de Finojosa, por -muito que o fosse, se convertesse n’uma especie de sol em torno do qual -girava todo o systema planetario da poesia castelhana, que extendeu a -sua influencia até Portugal. - -A côrte de Castella tornou-se um fóco de attracção, sobretudo para -Portugal. Os portuguezes que de lá vinham, impunham de castelhanos, tão -fascinados voltavam. Os poetas de cá motejavam-n’os porisso: - - Oh! que modo que trazeis - a desdenhar portuguez! - oh que graças contareis, - e tomareys - d’elas mesmas o invés. - -Jorge Manrique descreve bem todos os encantos da côrte de Castella, já -sobredoirados pela saudade de um bello tempo que passou: - - Las justas y los torneos, - Paramentos, bordaduras, - Y cimeras, - Fueron sino devaneos? - Qué fueron sino verduras - De las éras? - -Já D. Duarte quizera obstar á emigração fidalga para Castella. Por carta -dada em Obidos, em setembro de 1434, ordenou «que as pessoas que tiverem -rendas n’este reina, e viverem em Castella, se passem a viver a elle; e -não o fazendo, não possam levar as taes rendas para Castella, e não se -lhe pagarão, e acabe.» - -Mas os fidalgos portuguezes, zombando da lei, continuaram a deixar-se -fascinar por Castella. - -O duque de Alva compuzera um romance, _Nunca fue pena mayor_, e a rainha -desejara ver glosados os versos d’esse romance. O commendador Roman -impoz-se o encargo de glosador, por agradar á rainha: - - Dizem que a vuestro oido - agradó aquel dulçor, - de la cancion del sentido, - famoso, franco, sabido - Duque d’Alva, mi señor. - Por darle gracia famosa - y favor demasiado, - alta regina gloriosa - que aveis pedido la glosa - y que nunca os han glosado. - -Póde parecer extranho que todos os poetas da côrte não acudissem de -tropel a acceitar o repto poetico que lhes propunha a bella rainha. Mas -o commendador Roman, atravez do véo transparente da sua modestia, dá a -razão do caso: - - No saliendo delantero - de mil otros de consuno, - antes simple postrimero, - _mas porque supe primero_ - _la causa que otro ninguno_. - -Vê-se, ao contrario do que poderia presumir-se, que os poetas da corte -não desaproveitavam ensejo de vibrar a lyra em honra d’essa rainha, cuja -belleza, segundo a expressão do poeta commendador, não havia lingua que a -descrevesse, nem mão que a pintasse. - -Hoje, os commendadores não sabem dizer d’estas coisas. - -É, pois, n’esta côrte cavalheiresca e poetica, alem de ostentosa, que o -gentil Beltrão de Lacueva nos apparece. - -Quando o duque da Bretanha enviou uma embaixada a Henrique IV, -propondo-lhe alliança e amizade, quiz o rei obsequiar o embaixador com -luzidas festas, que se fizeram na casa de campo del Pardo. - -Quatro dias deslizaram em banquetes, torneios, justas e caçadas. Mas as -festas ainda não acabaram ahi. - -Ao quarto dia, quando a côrte regressava a Madrid, Beltrão de Lacueva -preparou um _passo de armas_ á Porta de Ferro, para que justassem todos -quantos regressavam do Pardo. - -D. Beltrão não quiz perder esta occasião de exhibir aos olhos da rainha, -por entre as pompas do torneio, a sua elegancia e destreza como grande -cavalleiro de gineta, notavel entre os eximios. - -Não era permittido aos gentis-homens da côrte, que acompanhavam damas, -passar alem sem que com D. Beltrão fizessem seis carreiras. Os que não -quizessem justar deixariam, como signal da sua deshonra, o guante da mão -direita. - -Sobre um arco de madeira havia muitas lettras lavradas a oiro, e o -cavalleiro que quebrava tres lanças, dirigia-se para o arco, e tomava a -lettra inicial do nome da sua dama. - -D. Beltrão com todos os outros cavalleiros luctou em honra de uma dama -mysteriosa, a dos seus pensamentos, de cuja inicial fez segredo. Mas -essa dama estava presente: era a rainha. - -Foi-se todo o dia n’esta festa, e o bom rei Henrique IV, tão contente -ficou com o _passo de armas_, em que o unico ferido foi elle... -moralmente, que por memoria fundou n’aquelle logar o mosteiro de S. -Jeronymo, acabado em 1464. - -Bom homem, o rei! - -A belleza da rainha, o seu papel importante entre o circulo dos poetas -da côrte, o abandono, em que se achava, de todo o affecto conjugal, a -corrupção do tempo e do paço, e o boquejar do mundo, especialmente o da -côrte, que é o mundo que mais boqueja e moteja, crearam em torno de D. -Joanna, de Portugal, uma lenda de devassidão romantica em que, por entre -anachronismos frisantes, figuram a rainha e o poeta João Rodrigues del -Padron. - -Resaltava das composições d’este trovador uma vaga anciedade de amar e -ser amado, que encontrou echo na sensibilidade vibratil da rainha. - -Um dia, de uma das janellas do paço, alguma dama mysteriosa deixou cahir -uma carta, quando o poeta passava. - -Padron guardou-a, e leu-a. Era nada menos que o convite para uma -entrevista nocturna: pelas duas horas da madrugada, o poeta devia estar á -porta falsa da cava, e bater com os dedos tres pancadas; o mais absoluto -segredo devia envolver esta aventura, sob pena de mallograr-se. - -Padron aconselhou-se com um amigo intimo, que se promptificou a -acompanhal-o, para o defender, se a sua vida corresse perigo. Padron foi, -fez o signal ajustado, a porta abriu-se, e recebeu-o, no mysterio da -escuridão, uma dama, cuja voz era doce como a musica. Sobre a capa d’elle -se sentaram, no chão, e ahi conversaram, cingidos um ao outro, negando-se -ella a quaesquer revelações, e insistindo na condição do segredo, que -devia ser inviolavel. - -De tres em tres dias avistar-se-iam, no mesmo sitio, dado o mesmo signal -na porta da cava. - -Padron confidenciou ao amigo o que se tinha passado, e um e outro, por -mais tratos que déssem á imaginação, não puderam sequer suspeitar quem a -dama fosse. - -Á terceira noite, nova entrevista. As mesmas instancias por parte do -poeta; a mesma reserva por parte da dama. Pediu-lhe elle uma madeixa de -cabello, cortou-a por sua propria mão; porêm nem Padron nem o seu amigo -puderam depois adivinhar de que dama da côrte fosse o cabello. - -O rei andava fóra: em côrtes, diz a lenda. Mas ia regressar, e a dama, -n’uma nova entrevista, annunciou ao poeta essa contrariedade, que o era -realmente, porque as chaves d’aquella porta ficavam na camara do rei. - -Conta a lenda que Padron, para experimentar de que jerarchia fosse a -dama, lhe pedira dinheiro, emquanto lhe tardava de casa. Tem a gente -o direito de suspeitar da intenção d’este pedido, pondo em duvida que -Padron não recorresse ao processo ignobil de um _mr. Alphonse_, poeta e -villão. - -N’outra noite, a dama deu-lhe as joias, mas recommendou-lhe que as -desmanchasse, porque eram da rainha, e podiam ser conhecidas. Padron -acceitou-as, e não diz a lenda que fossem restituidas. - -Entretanto, o rei chegara, e a porta da cava deixou de abrir-se. Mas o -poeta insistira sempre e, finalmente, de uma vez a porta abriu-se. - -Queixou-se Padron de que a dama levasse o receio de declarar-se até -á desconfiança affrontosa. A dama acabou por ceder, e fez uma nova -concessão. Estava proxima a festa de S. Pedro; que lhe désse elle uma -joia, que por ella a distinguiria na festa. Padron tinha apenas comsigo, -de que pudesse dispor, um cinto escarlate. Tirou-o, e deu-lh’o. A dama -afiançou-lhe que o poria em laço no cabello. - -Chegou o dia da festa. Padron e o seu amigo esperavam que a côrte se -dirigisse para a sala do throno. Ambos procuravam avidamente com os olhos -a dama do laço escarlate. Na cabeça da rainha o descobriu o amigo de -Padron, e fez signal ao poeta. A rainha surprehendeu esse movimento, e -o poeta, sem dar por isso, tão louco de alegria ficou, que nos torneios -d’esse dia se avantajou a todos os cavalleiros da côrte. - -Á noite, Padron bateu á porta da cava. A rainha, porque era ella a dama, -recebeu-o, mas para lhe censurar asperamente a sua indiscreção, e para o -ameaçar com a morte se não sahisse essa mesma noite de Castella. - -Padron obedeceu, e partiu com o coração despedaçado, chorando a sua -perdida felicidade, partindo só e triste, como elle proprio, segundo a -lenda, o diz na trova. - -... E assim iam corridos mais de seis annos de casamento esteril, quando, -em 1461, uma noticia inesperada explodiu: a rainha estava gravida. - -O rei Henrique delirou de contentamento, mas o paiz inteiro ria do jubilo -do rei, porque estava capacitado de que o esperado herdeiro do throno -era o fructo immoral dos amores adulterinos da rainha com D. Beltrão de -Lacueva. - -Porêm o rei continuou a delirar de jubilo, e ordenou que D. Joanna fosse -conduzida a Madrid, onde elle estava, devendo fazer a jornada n’uma -liteira, para que mais repoisada viesse. - -João Pacheco, marquez de Vilhena, e o arcebispo de Toledo, prevenindo -os conflictos politicos que deveriam derivar-se do parto da rainha, -aconselharam o rei a que chamasse para a côrte, onde melhor poderiam -ser educados, seus irmãos, D. Isabel, que tinha então dez annos, e D. -Affonso, que apenas contava oito, mas que, segundo o tratado de paz -feito entre Henrique IV e seu tio o rei de Navarra, deviam casar com D. -Fernando e D. Leonor, filhos d’este monarcha.[4] - -Em março de 1462, D. Joanna, de Portugal, deu á luz uma filha. O rei -ordenou que se fizessem festas pomposas. Era aquelle, para elle, um -presente do céo! diz Lafuente. E eu creio que fosse assim. - -A princezasinha recebeu o nome de Joanna. Baptizou-a o arcebispo de -Toledo, tendo por assistentes os de Calahorra, Carthagena e Osma. Foram -padrinhos o embaixador de França, conde de Armagnac, e o marquez de -Vilhena; madrinhas, a infanta D. Isabel, irmã do rei, já então aposentada -na côrte, e a marqueza de Vilhena. - -Contrastam singularmente com estes jubilos da côrte de Castella os -lacrimaveis episodios do passamento da rainha Branca, de Navarra, no -castello de Orthez. - -O principe de Vianna, D. Carlos, devia ser, por morte de seu pae, -herdeiro do throno de Navarra. O principe fallecera, transferindo á -irmã, a infeliz Branca, os direitos de successão; mas D. Branca não -nascera senão para soffrer. Só uma coroa lhe estava destinada: era a da -virgindade perpetua. - -A irmã mais nova de D. Branca, D. Leonor, tinha casado com o conde de -Foix, e parece que uma das condições secretas do casamento fôra que D. -Branca seria entregue ao conde, que a obrigaria a renunciar ao throno ou -a fazer-se freira, succedendo portanto D. Leonor ao rei, seu pae, logo -que elle morresse. - -O rei de Navarra não duvidou sacrificar a filha ao apoio que, em troca, -o conde de Foix lhe promettia dar contra o rei de Castella, e achando-se -com a infeliz Branca em Olite convidou-a a passar com elle os Pyrenéos, -sob pretexto de que projectava casal-a com o duque de Berri, irmão do rei -de França. - -Sabia Branca o que se passava, e recusou-se a ir, allegando ao pae, -segundo a expressão de Zurita, que não queria ser homicida de si mesma. O -rei arrancou então a mascara, e obrigou-a a partir á força, bem guardada -por pessoas da sua confiança. Poucos dias depois, o rei de Navarra -contratava definitivamente com o conde de Foix em Olite. - -D. Branca foi encerrada no mosteiro de Roncesvalles, e d’ahi teve meio -de protestar contra a usurpação que se lhe queria fazer, declarando que -por vontade propria declinaria os seus direitos no rei de Castella, que a -havia repudiado! - -O protesto inquietou a côrte de Navarra, como era natural, e a mallograda -rainha foi mandada transferir para S. João Pied de Port. - -Comprehendeu D. Branca que não se contentavam com usurpar-lhe os direitos -ao throno, mas que tambem a sua vida corria risco, e pediu a Henrique -IV, ao conde de Armagnac e ao condestavel de Navarra, que por meio da -força defendessem, se tanto fosse preciso, os seus direitos e a sua vida, -auctorizando-os a tratarem-lhe casamento com qualquer principe. - -Soube, porêm, D. Branca que o rei, seu pae, ia envial-a a S. Pelagio, no -Bearn. Então, julgando-se completamente perdida, escreveu a Henrique IV, -de Castella, o homem que a havia repudiado, cedendo n’elle todos os seus -direitos á coroa de Navarra. Essa carta, que tem a data de 30 de abril -de 1462, não póde lêr-se, segundo a expressão de um escriptor hespanhol, -sem que se enterneça o coração mais duro. Lafuente, referindo-se á carta -de Branca, diz que a infeliz princeza recordava a Henrique IV os antigos -vinculos que os haviam unido, e os crueis transes que atravessara desde -que fôra repudiada. Segundo Zurita, Branca pedia a Henrique IV que -vingasse a sua morte e a do principe Carlos. - -A que mãos de poltrão confiava a infeliz senhora tão nobre empresa! Vê-se -que a esposa repudiada ficara conhecendo tão pouco o rei como o marido. - -N’aquelle mesmo dia foi Branca, de Navarra, reconduzida ao castello de -Orthez, onde permaneceu encerrada mais de dois annos, sob a vigilancia de -uma dama da condessa de Foix, que acabou por envenenal-a. - -Todos os chronistas hespanhoes têem phrases de maviosa compaixão para com -a memoria da infeliz Branca. Citaremos apenas dois, Zurita, o chronista -de Aragão, e Flores, o chronista das rainhas castelhanas. Zurita recorda -que ella fôra repudiada pelo marido, perseguida pela irmã, e abhorrecida -pelo pae, e que não teve mais em quem depositar a sua ultima esperança -senão o homem de quem maior affronta havia recebido. Flores lembra que os -ultimos suspiros d’esta desventurada princeza «foram echos no céo para os -desgraçados fins dos condes de Foix, e dos seus descendentes», acabando o -reino de Navarra n’aquella familia.[5] - -E conclue dizendo que enterraram D. Branca na cathedral de Lescar, _desde -donde puede predicar á todo el mundo perpetuos desengaños_. - -Henrique IV, de Castella, impressionou-se pouco com a dilacerante carta -da infeliz Branca, sua primeira mulher. - -O céo ou Beltrão de Lacueva havia-lhe dado uma filha; bastava esta só -alegria para absorver-lhe todas as attenções. - -Dois mezes depois do baptizado, o rei ordenou que a infanta D. Joanna -fosse, em côrtes de Madrid, proclamada princeza das Asturias e herdeira -do throno. - -Muitos fidalgos não quizeram jurar; entre elles, D. Luiz de Lacerda, -conde de Medinaceli, a quem o rei prometteu mil vassallos para que -jurasse, sem que o conde cedesse. - -D. Affonso e D. Isabel, os jovens tios da infanta recem-nascida, juraram, -sujeitos, como estavam, á tutela do rei. - -A voz publica deu um cognome irrisorio á infanta. Chamou-lhe a -_Beltraneja_. Este cognome recordava a sua origem adulterina: -_Beltraneja_, a filha de Beltrão. Mas o rei Henrique nada d’isto sabia, -ou queria saber. No dia dos seus annos deu a Beltrão o senhorio de -Ledesma e o titulo de conde; chamou-o aos conselhos e governação do -reino, e... - -E estimulou-o d’este modo a atear cada vez mais, por cupidez de maiores -honras e proveitos, o fogo do seu amor á rainha. - -De feito, em 1463, foi declarado que D. Joanna ia novamente ser mãe. Mas -um caso imprevisto mallograra essa esperança. Referindo-se á rainha, diz -Lafuente: - -«Tinha o costume de humedecer e amaciar o cabello com um liquido, -sem duvida inflammavel, e um dia, achando-se na sua camara, um forte -raio de sol que entrava por uma janella e se projectava sobre a sua -cabeça, incendiou-lhe o cabello, de modo que se as damas não fossem tão -diligentes em acudir-lhe, haveria corrido o perigo de carbonizar-se. -Mas tanto bastou para que o susto antecipasse o parto de um feto de -seis mezes, que nasceu sem vida, e que pela circumstancia de ser varão -produziu no rei maior pesar. Fizeram-se sinistros agoiros sobre o caso, e -não faltou quem vaticinasse desgraças para o rei e a rainha.» - -Bem agoirado corria o tempo, mas era para D. Beltrão de Lacueva, que, -graças á posição a que se guindara, tratou casamento com uma filha do -marquez de Santilhana. D’este modo conseguia aparentar-se com a poderosa -familia dos Mendonças. Estava na esteira para o méstrado de S. Tiago. -Fazia sombra e receio ao marquez de Vilhena. Levantava-se n’um pedestal -de oiro, e a conspiração, tão vulgar em todas as côrtes, principalmente -na de Castella, principiava a minar-lhe o pedestal. - -Entretanto, sobre as finas hollandas e custosas sedas, que alfaiavam o -catresinho da princeza das Asturias cahia, como um enorme pingo de lama e -fel, a risada sarcastica das multidões, appellidando-a de _Beltraneja_. - -E essa alcunha havia de ficar-lhe para toda a vida, como um ridiculo -cruel agrilhoado ao seu triste destino. - - - - -III - -DRAMAS DA POLITICA - - -Affonso V, de Portugal, regressando de Ceuta em 1464, desembarcou em -Tavira, e dirigindo-se para o Alemtejo, passou a paschoa em Evora. D’ahi, -_com alguns senhores e fidalgos escolhidos secretamente_, diz Ruy de -Pina, foi em romaria a Santa Maria de Guadalupe, onde se avistou com sua -irmã D. Joanna e com Henrique IV, de Castella. - -O assumpto d’esta entrevista não era novo. Tratava-se de mais uma -alliança conjugal entre as duas casas reinantes de Portugal e Castella. - -Já em Gibraltar se tinham avistado Affonso V e Henrique IV, para identico -fim, no mez de janeiro, ao tempo da desastrosa escalada de Tanger, -ficando concertado que, a infanta D. Isabel casasse com el-rei D. Affonso -V, e a princeza das Asturias com o principe D. João, de Portugal, seu -primo.[6] - -Na conferencia da paschoa, em Guadalupe, tiveram os dois monarchas, bem -como a rainha D. Joanna, _as mesmas praticas e accordos de Gibraltar -sobre casamentos e lianças_, diz Ruy de Pina.[7] Esta nova conferencia, -tão proxima da outra, revela apenas o desejo que Henrique IV tinha de -encontrar em Affonso V, seu cunhado, um alliado que o protegesse contra -as revoltosas peripecias da politica de Castella, cada vez mais agitada. - -Henrique IV fizera a jornada de Guadalupe sem ouvir previamente o seu -antigo valido marquez de Vilhena, que principiava a decahir rapidamente, -offuscado por Beltrão de Lacueva, o novo astro da côrte. Vilhena não -perdoara a affronta, e aproveitara a ausencia do rei para conspirar -contra elle de parceria com o arcebispo de Toledo. - -O almirante D. Fradique e seu filho, os condes de Benavente, Placencia, -Alba e Paredes, o bispo de Coria e outros prelados, varios senhores e -cavalleiros adheriram á conspiração. O mestre de Calatrava, irmão do -marquez de Vilhena, propuzera-se sublevar a Andaluzia contra o rei. - -D. Henrique, surprehendido com este acontecimento, acobardou-se, e propoz -aos conspiradores que voltassem á côrte, que elle os informaria de -tudo o que se tinha passado com o rei de Portugal. Bem conheciam elles -a fraqueza do monarcha castelhano! Porisso responderam á proposta de -Henrique IV impondo condições, uma das quaes era a prisão do arcebispo -de Sevilha, que João Pacheco inculcava como figadal inimigo do rei. -Esta denuncia não passava de um ardil do marquez de Vilhena, porque -elle proprio mandara prevenir o arcebispo de que Henrique IV intentava -prendel-o. E assim conseguiria indispor contra o rei um prelado poderoso. -Tal era o plano de Vilhena: isolar o rei, indispondo-o com os seus mais -dedicados amigos. - -A fraqueza do rei alentava a ousadia dos conspiradores. - -«Uma noite, conta Lafuente, achando-se (Henrique IV) no seu palacio, -ouviu cahir com estrondo as portas do regio alcaçar, e ruido e alvoroto -de gentes que penetravam no palacio. Aturdido, o rei refugiou-se n’um -pequeno retrete em companhia de D. Beltrão de Lacueva, conde de Ledesma.» - -Não deixa de ser altamente comica esta camaradagem do rei e de Beltrão, -transidos de medo, no recinto pouco convidativo de um retrete, que, ainda -assim, não deixaria de convir-lhes na occasião. De mais a mais, ha o -que quer que seja de latrinario na baixeza do rei, lançado nos braços -do homem que a voz publica indigitava como pae da infanta D. Joanna. -Porisso, o logar era tão conveniente como proprio. O acaso tem ás vezes -razão. - -Lafuente prosegue: - -«Os que de tão tumultuosa maneira haviam invadido os aposentos reaes, -eram os condes de Benavente e de Paredes, o filho do almirante e outros -cavalleiros de conta, que, capitaneados por o de Vilhena, iam com animo -de apoderar-se dos infantes, e de prender o rei e D. Beltrão de Lacueva. -O de Vilhena entra só ao esconderijo do rei e, com a sua doble e arteira -politica, finge-se indignado d’aquelle insulto, e, como quem zomba -da debilidade do rei, excita-o a que não deixe de punir. «Parece-vos -bem, marquez, disse-lhe o rei, isto que se fez ás minhas portas? Pódes -estar certo de que já não tenho paciencia para mais.» Mas o resultado -limitou-se a uma esteril e passageira indignação, e a sahir o de Vilhena -com os seus impunemente do palacio, talvez por lhe não convir então levar -as coisas mais longe.» - -Henrique IV ou não conhecia o despeito de João Pacheco, vendo-se -supplantado pelo amante da rainha, ou, aconselhado por Beltrão, em quem -agora cegamente confiava, queria ageitar ao marquez de Vilhena occasião -de se comprometter e perder-se. - -Mas Beltrão de Lacueva, se assim aconselhava o rei, devia lembrar-se de -que entre Henrique IV e João Pacheco havia antigos laços de suspeitosa -amizade. Portanto, devia tambem metter em linha de conta esse factor -importantissimo. - -E, com effeito, um novo acontecimento veio demonstrar a sua importancia. - -Estavam em Segovia o rei, a rainha, a princeza das Asturias, os infantes -e Beltrão. Os conspiradores tinham-se combinado com um capitão da guarda -real e sua mulher, dama da infanta D. Isabel, para que por uma porta -secreta os introduzisse nos quartos da familia real, que seria presa, e -do favorito, que seria assassinado. - -O marquez de Vilhena entretinha o rei n’essa noite, conversando -serenamente com elle, á espera que a conspiração rebentasse. Mas a -conspiração descobriu-se, e Henrique IV contentou-se com ouvir sobre o -caso o marquez de Vilhena, que se fingia profundamente indignado contra -os condes de Placencia e Alba, co-réos na conspiração mallograda. - -Entretanto, o rei, sem forças para romper abertamente com o seu antigo -companheiro de prazeres, ia guindando ás supremas honras o amante da -rainha. Fizera-o, finalmente, grão-mestre de S. Tiago. Beltrão de Lacueva -attingia assim a alta posição social que D. Alvaro de Luna deixara -devoluta. - -João Pacheco revoltava-se cada vez mais, como valido decadente. Fizera -com que os condes de Placencia e Alba pedissem uma entrevista ao rei -entre S. Pedro de las Duenhas e Villacastin, sob pretexto de que -queriam reconciliar-se com o marquez de Vilhena, e ouvir o rei sobre -esse assumpto. Henrique IV annuiu com a maior docilidade, fazendo-se -acompanhar por Beltrão de Lacueva, pelo bispo de Calahorra, por outros -fidalgos mais, pela sua guarda real e por um esquadrão de quinhentas -lanças. - -Ainda d’esta vez escapou ao laço o pobre rei, porque dois mensageiros, -largando a todo o galope, correram a avisal-o do perigo a que se expunha. - -Em vista d’este novo desastre, os conspiradores, desfraldando o pendão -da revolta, foram acoitar-se em Burgos, e d’ahi formularam claramente as -suas accusações contra o rei, enviando-lh’as por carta para Valhadolid. -As principaes queixas dos conspiradores eram estas: haver nomeado -grão-mestre de S. Tiago Beltrão de Lacueva, com prejuizo do infante D. -Affonso, a quem o grão-mestrado pertencia, como filho do rei D. João; -_ter feito jurar herdeira do throno de Castella D. Joanna, devendo saber -que não era sua filha legitima_. Os conspiradores concluiam por pedir -como desaggravo que o infante D. Affonso fosse jurado herdeiro do throno. - -Pela primeira vez era a rainha formalmente accusada de adultera. Até -ahi, as murmurações, comquanto geraes, não tinham chegado á ousadia de -formular uma accusação categorica, dirigida ao proprio rei. Mas, desde -esse momento, as conveniencias respeitosas foram calcadas, e D. Joanna, -de Portugal, publicamente accusada de haver dado á luz uma filha de que -seu marido não era o pae. - -Se o rei D. Duarte fôra ainda vivo, morreria de pesar, elle, que, no -_Leal conselheiro_, escrevia a respeito da honestidade das mulheres -portuguezas: «... ao presente eu não sei, nem oiço mulher de cavalleiro, -nem outro homem de boa conta em todos meus reinos, que haja fama -contraria de sua honra em guarda de lealdade; e passaram de cem mulheres, -que el-rei e a rainha, meus senhores padre e madre, cujas almas Deus -haja, e nós, casamos de nossas casas, e prouve a Nosso Senhor que alguma, -que eu saiba, nunca falleceu em tal erro dês que foi casada...» - -Pois era justamente contra uma dama portugueza, não simples esposa de -cavalleiro, mas rainha de Castella pelo casamento, e filha de rei, de um -rei que era ao mesmo passo o auctor do _Leal conselheiro_, era contra D. -Joanna, de Portugal, que os revoltosos de Burgos publicamente fulminavam -a accusação de adultera, barregã de um valido, como outra rainha de -Castella, tambem portugueza, cujo amante, o pae de D. Leonor Telles, fôra -assassinado, por ordem de Pedro, o Cruel, quando á sahida da cidade de -Tóro dava o braço á rainha. - -Henrique IV, de instinctos menos carniceiros, não cuidou de assassinar -ninguem. Até, pelo contrario, se mostrou zangado com o bispo de Cuenca -por lhe aconselhar que punisse severamente os revoltosos. - -O pobre rei Henrique sanccionou a sua propria deshonra tão publicamente -quanto a accusação o fôra, concedendo uma entrevista aos conspiradores -entre as villas de Cigales e Cabezon, e accedendo a todas as imposições -que na entrevista lhe foram feitas. - -Obrigou-se o rei de Castella a entregar ao marquez de Vilhena o infante -D. Affonso, seu irmão, _para que fosse jurado herdeiro e successor dos -reinos_, com a condição de casar com a princeza D. Joanna; a fazer com -que Beltrão de Lacueva resignasse o mestrado de S. Tiago em proveito -do infante D. Affonso, e a nomear uma deputação de cinco membros que, -reunida em Medina del Campo, regularia todas as differenças entre o rei e -os dissidentes, que constituiam a liga revolucionaria. - -Assim aconteceu. D. Affonso foi jurado _legitimo successor do reino_; -Beltrão de Lacueva renunciou ao mestrado, mas o rei fel-o, em -compensação, duque de Albuquerque, doou-lhe varias villas, e arbitrou-lhe -uma renda sobre outras villas; finalmente, o rei nomeou os membros da -deputação, que lhe competia nomear, para que funccionassem com os membros -eleitos pela junta. - -Desde este momento estava reconhecida por Henrique IV a illegitimidade -de D. Joanna, a infeliz princeza para quem a vida tão tempestuosa -amanhecia, e a deshonra da rainha sua mãe. - -Mas Henrique IV não era homem que tivesse duvidas em mudar de opinião. -Em Madrid fizera jurar D. Joanna por herdeira; em Medina del Campo -concordava em que fosse jurado o infante D. Affonso. Porisso não admira -que, recolhendo de Medina, désse por nullo o convenio que acceitara, e -escrevesse aos da liga para que lhe restituissem o infante, seu irmão. - -O marquez de Vilhena e os seus responderam altivamente ás cartas do rei, -fazendo um simulacro de deposição de Henrique IV em Avila. O arcebispo de -Toledo, e varios fidalgos, por suas proprias mãos, arrancaram solenemente -as insignias reaes ao manequim, que representava o rei, e alçaram o -pregão de: _Castella por el-rei D. Affonso_. Em seguida todos beijaram a -mão ao infantesinho, que acabavam de acclamar. - -Quando Henrique IV soube isto rompeu em lastimas, citou palavras de Job, -accusou-se por haver alentado ingratos. - -Mas, como lastimas não valem, resolveu despachar cartas para todo o -reino a pedir soccorro. E uma grande parte do reino enviou-lh’o _para -castigar a enormidade do desacato_, diz Lafuente, já que o rei havia -deixado chegar as coisas a um tal extremo. Entre os fidalgos, que vieram -collocar-se ao lado de Henrique IV, contavam-se Beltrão de Lacueva, duque -de Albuquerque, e seu sogro, o marquez de Santilhana. - -Os sublevados sahiram de Avila por Penhaflor para acampar á vista de -Simancas; mas esta villa conservou-se firme ao rei, e os seus habitantes -parodiaram o feito de Avila simulando a deposição do arcebispo de Toledo, -ao qual cognominaram _Dom Oppas_, que era o nome do traidor, arcebispo de -Sevilha, no tempo do rei Rodrigo. E depois de arrastarem o manequim pelas -ruas, queimaram-n’o n’uma fogueira, ao som d’esta trova: - - Esta és Simancas, - Dom Oppas traidor; - Esta és Simancas, - Que no Penhaflor. - -Em vista d’esta attitude energica, os revoltosos retiraram. O rei, -apoiado na adhesão popular, poderia havel-os derrotado de vez. Mas, -encantado pelas seducções do marquez de Vilhena, a quem concedera uma -entrevista, licenciou o exercito sob condição de que a liga renunciaria á -acclamação do infante D. Affonso, e obedeceria ao rei. - -O que tinha feito, entretanto, por desaffrontar-se, a rainha de Castella, -D. Joanna, cuja honra era publicamente conspurcada? O que fizera, por -vingar sua irmã, o rei Affonso, de Portugal? - -D. Joanna avistou-se com seu irmão na provincia da Beira Baixa. Diz -o padre Flores que a infanta D. Isabel acompanhou a rainha, e que a -_Beltraneja_ ficara, entretanto, a bom recado, no alcaçar de Segovia. -O logar marcado para a entrevista foi a cidade da Guarda. Ahi expoz -a rainha de Castella a triste situação em que se encontrava, e as -difficuldades politicas em que seu marido se havia lançado. Como era -natural, o primeiro movimento de Affonso V foi de commiseração pela irmã, -mas, posto o negocio em côrtes, que na Guarda se reuniram, e a que D. -Joanna assistiu em nome do rei, seu irmão, a volubilidade de Henrique IV -não pesou menos na balança dos tres estados do que a deshonra da rainha -de Castella: «foi el-rei aconselhado, diz Pina, que em tal discordia -e empresa nem lianças se não entremettesse, da qual coisa com a mais -honestidade que poude se excusou.» - -E os factos occorridos em Castella vieram justificar este prudente -conselho dado a Affonso V. - -O rei Henrique, desprezando os fortes elementos de resistencia que o paiz -lhe offerecia, licenciou os seus soldados, que se retiraram indignados. -Fiado nas promessas do marquez de Vilhena, que, aliás, não cuidou de -cumpril-as, mandou buscar a _Beltraneja_ a Segovia, fel-a entrar em -Samora debaixo de pallio, e reuniu-se depois com a rainha e com a infanta -D. Isabel, que regressavam de Portugal, em Simancas. - -Toda Castella se resentia d’estes acontecimentos, a anarchia ia de foz em -fóra, os malfeitores assolavam as povoações que, para resistir-lhes, e -proteger-se a si proprias, faziam _hermandad_.[8] Porêm, no meio d’esta -_degringolade_ geral, custa a crer que ainda houvesse quem defendesse -o rei! Pois havia. Valhadolid, aproveitando uma sahida do almirante D. -Fradique com o infante D. Affonso, e a sua gente, sobre Arévalo, tomou de -novo voz por D. Henrique, que logo se foi lá metter, sendo recebido com -festas. - -Henrique IV não se fortalecia com estas demonstrações de agrado. A sua -fraqueza de espirito era tamanha, que acceitava todas quantas propostas -os adversarios lhe fizessem. - -Vejamos. Pedro Giron, mestre de Calatrava e irmão do marquez de Vilhena, -porventura já cansado de andar agitando a Andaluzia contra o rei, propoz -a Henrique IV, por intermedio do arcebispo de Sevilha, fazer pazes com -elle, obrigando-se a servil-o com tres mil lanças, a emprestar-lhe -sessenta mil dobras e a restituir-lhe o infante D. Affonso, sob a -humilhante condição de que lhe seria concedida em casamento a infanta D. -Isabel. - -Prompto! Henrique IV acceitou logo a proposta. Deu de mão a Beltrão de -Lacueva, e chamou para a côrte o mestre de Cacalatrava, tratando ao -mesmo tempo de obter de Roma a dispensa para que elle pudesse casar, -visto ser grão-mestre de uma ordem religiosa. - -Mas Henrique IV esquecia-se de que sua irmã Isabel, comquanto menina de -dezeseis annos, não era tão malleavel como elle. Mais nova ainda, depois -da entrevista de Guadalupe, oppuzera resistencia a casar-se com Affonso -V, allegando que era precisa licença das côrtes. Agora, mais desenvolvida -a sua energia de castelhana, não deixaria de oppor uma seria resistencia, -tanto mais que tinha a seu lado uma dama dedicadissima, D. Beatriz de -Bobadilha, a qual, tirando um punhal, dissera uma noite á infanta: -«Primeiro o cravarei eu no coração do mestre de Calatrava.» - -Pedro Giron, chamado pelo rei, apressou-se a jornadear de Almagro para -Madrid, com grande sequito de cavalleiros. Mas ao segundo dia de Jornada -adoeceu gravemente em Villarrubia, e a breve trecho morreu _com pouca -edificação christã_. Morreu raivando e praguejando, por não chegar a ver -realizado o seu ideal. - -Os chronistas castelhanos põem a virtude da infanta D. Isabel acima de -toda a suspeita n’esta morte. Cremos que fosse assim, mas é possivel que, -mesmo sem conhecimento da infanta, alguem envenenasse o grão-mestre de -Calatrava. - -A infanta D. Isabel poude, emfim, respirar, mas o estado anarchico do -paiz continuou o mesmo. Fizeram-se conferencias em Madrid, cidade que foi -posta em poder do arcebispo de Sevilha, entre o rei e os revoltosos. Não -deram resultado, como tantas outras conferencias. N’estas aguas turvas -só o marquez de Vilhena logrou pescar, porque um bello dia nomeou-se a -si proprio grão-mestre de S. Tiago, sem se importar com o rei, nem com -o principe Affonso, nem com a côrte, nem com o papa, mas importando-se -apenas com a sua muito alta e poderosa pessoa. - - - - -IV - -MÃE E FILHA - - -A anarchia continuava desenfreada. - -Se as coisas iam mal quando um só rei, o fraco D. Henrique, dominava em -Castella, muito peor corriam agora que dois reis adversarios, posto que -irmãos, dividiam o paiz em continuas luctas civis, duplamente fratricidas. - -Uma d’essas luctas travou-se a 20 de agosto de 1467, nas planicies de -Olmedo, entre os partidarios de Affonso e Henrique. - -No numero dos cavalleiros promptos a combater pelo rei Henrique estava -Beltrão de Lacueva. Sobre elle recahiam principalmente os odios dos -adversarios, e tanto que o arcebispo de Sevilha lhe enviou um mensageiro -com recado de que quarenta cavalleiros de D. Affonso e do arcebispo -de Toledo haviam feito voto solenne de matal-o no combate que ia -empenhar-se. Beltrão respondeu com altivez castelhana que reparasse bem -o mensageiro nas armas e insignias, que trazia vestidas, para que os que -alli o mandaram pudessem, por sua informação, reconhecer facilmente o -duque de Albuquerque. - -O combate travou-se com impeto, e o duque de Albuquerque defendeu-se -valorosamente dos golpes que lhe vibravam os que haviam jurado matal-o. -Valeu-lhe n’um aperto perigoso o marquez de Santilhana, seu sogro. O -duque portou-se bravamente; de um lado e do outro combateu-se com ardor; -porêm, no fim da peleja, a victoria não fôra decisiva nem para uns, nem -para outros. - -D. Affonso esteve no campo, combatendo entre os seus, mas D. Henrique -julgou mais prudente retirar-se, com trinta ou quarenta cavallos, para -uma povoação immediata. - -Um acontecimento politico veio, porêm, aggravar a situação do rei -Henrique: a infanta D. Isabel juntara-se com seu irmão D. Affonso. - -Vejamos qual era, pouco antes, a situação da familia real. - -A rainha com a infanta D. Isabel estavam em Segovia, e ahi tinham n’esse -momento todo o seu thesoiro e joias. A _Beltraneja_ havia sido entregue -ao conde de Tendilha, para que a guardasse em Buitrago. Os rebeldes -lograram tomar Segovia, e a rainha refugiara-se no castello, mas a -infanta D. Isabel teimou em ficar no palacio, a fim de poder juntar-se -com seu irmão. Foi o que succedeu. Tambem os rebeldes se apoderaram -do alcacer, sendo a rainha conduzida em refens, sob a vigilancia do -arcebispo de Sevilha, ao castello de Alaejos, onde iremos encontral-a. - -O acto praticado pela infanta D. Isabel parecia dever reforçar a attitude -dos affonsinos, mas não aconteceu assim, porque elles tinham no seu -proprio seio grandes elementos de discordia. Um d’esses elementos era -o marquez de Vilhena, cuja ambição abhorrecia aos seus mesmos amigos. -Porisso os condes de Placencia e Miranda e o arcebispo de Toledo -passaram-se para o partido do rei, e Vilhena correu risco de ser -assassinado pelo genro, o conde de Benavente. - -Um outro acontecimento, verdadeiramente inesperado, veio pôr em confusão -os affonsinos. A 5 de julho de 1468, estando D. Affonso na villa de -Cardenosa, a duas leguas de Avila, foi atacado de um somno profundissimo -logo depois de haver comido. Pela manhã, como não sahisse da camara, -foram chamal-o: estava morto. O veneno havia produzido o seu effeito. D. -Affonso morrera uma creança, quinze annos apenas. - -Os affonsinos, aturdidos com este golpe, recolheram-se a Avila. Ahi -pensaram no que deviam fazer. Resolveram offerecer o throno a D. Isabel, -mas a infanta respondeu com hombridade: que em quanto seu irmão D. -Henrique fosse vivo, o rei legitimo era elle. - -Desde esse momento a posição de Henrique IV seria facil, se elle -tivera mais energia. Podia impor-se, mas não fez assim. O marquez de -Vilhena propoz em nome dos conjurados prestar-lhe obediencia se o rei -consentisse em reconhecer D. Isabel como herdeira do throno. Henrique IV -annuiu logo. - -O marquez de Santilhana e todos os Mendonças, a cuja guarda estava -confiada a _Beltraneja_, indignaram-se com este procedimento do rei. -Sahiram immediatamente da côrte. A rainha D. Joanna estava, como -dissemos, em poder do arcebispo de Sevilha no castello de Alaejos, e -parece que um sobrinho do arcebispo, de nome D. Pedro, entretivera por -algum tempo os ocios da rainha captiva.[9] - -Mas os Mendonças encarregaram D. Luiz Furtado de arrancar a rainha ao -seu captiveiro. Uma noite, D. Joanna desceu por uma janella do castello, -ferindo-se na descida. Luiz Furtado pol-a sobre as ancas da mula, e a -largo trote a levou para Buitrago, onde sua filha estava. - -Entretanto concertava o rei com os confederados as bases do accordo: -D. Isabel seria jurada herdeira do throno, e ser-lhe-iam dadas para -seu corregimento varias cidades e villas; reunir-se-iam côrtes para -sanccionar estes actos; D. Isabel não seria constrangida a casar, -nem casaria sem consentimento do rei; a rainha considerar-se-ia como -divorciada, seria enviada para fóra do reino, e não poderia levar comsigo -a filha. - -Henrique IV acceitou de boamente todas estas condições humilhantes. Ouviu -ler o documento comprovativo da sua propria deshonra. «Item, porquanto -ao dicto senhor rei, e commumente em todos estes reinos e senhorios é -publico e manifesto, que a rainha D. Joanna, de um anno a esta parte, não -tem usado limpamente de sua pessoa como cumpre á honra do dicto senhor -rei, nem sua; e outrosim o dicto senhor rei é informado que não foi nem -está legitimamente casado com ella... etc.» Henrique IV assignou, e -dirigiu-se com sua irmã para o campo de Toros de Guisando, onde D. Isabel -foi solennemente jurada herdeira do throno, com assistencia de nobres e -prelados, e do legado pontificio que, em nome do papa, desligou todos os -presentes de quaesquer outros juramentos, que houvessem feito. - -O marquez de Vilhena aproveitou a occasião para ser confirmado na posse -do mestrado de S. Tiago, e o rei Henrique julgou-se por certo o mais -ditoso dos homens coroados. - -A rainha, tendo conhecimento da intervenção do legado pontificio no -reconhecimento dos direitos da infanta D. Isabel, enviou Luiz Furtado, o -seu salvador do castello de Alaejos, a protestar junto do representante -do papa, ameaçando-o de fazer subir o seu recurso a Roma, se elle a não -attendesse. A familia dos Mendonças, fiel ao partido da rainha, vira -com indignação tudo quanto se passava. O marquez de Vilhena soube-o, e -tratou logo de explorar a indignação dos Mendonças, a fim de obstar a que -a infanta D. Isabel viesse a casar com o infante D. Fernando de Aragão, -casamento a que a infanta se inclinava, e que o arcebispo de Toledo -promovia. Era uma razão de interesse pessoal, como sempre, a que demovia -n’este lance o marquez de Vilhena. Tinham sido encorporadas no seu -marquezado muitas das propriedades sequestradas aos infantes de Aragão, -e temia perdel-as pelo casamento da infanta com um principe d’aquella -casa real. Então o marquez de Vilhena não duvidou fortalecer com o seu -apoio o partido da rainha e, para obstar ao casamento que o contrariava, -renovou o antigo alvitre de que a infanta D. Isabel desposasse D. Affonso -V, de Portugal, e a princeza D. Joanna o principe herdeiro portuguez: no -caso da infanta não ter filhos de Affonso, o _Africano_, succederiam no -throno de Castella os que a _Beltraneja_ houvesse dado ao principe D. -João. - -Houve idéa de que a rainha D. Joanna viesse pessoalmente a Portugal -tratar d’estas allianças. Mas a pobre rainha, que continuava a ser -perseguida pelo arcebispo de Sevilha, a cujo poder lograra subtrahir-se, -receou que fosse esse um pretexto para não a deixarem voltar a Castella. -Venceu a rainha; não veio a Portugal. De mais a mais a infanta D. Isabel -tomara uma attitude energica, recusava tenazmente casar com Affonso V. - -Henrique IV, incoherente, como sempre, escreveu de seu proprio punho -ao papa para que não confirmasse a successão de D. Isabel; ao mesmo -passo sollicitava a confirmação pontificia aos direitos da _Beltraneja_. -Escrevia tambem ao rei de Portugal para que insistisse em desposar a -infanta.[10] «Estas cartas, diz o padre Flores, foram entregues ao -chronista D. Diogo Henriques de Castilho (a quem seguimos) para que -secreta e promptamente as levasse a Buitrago, onde estava a rainha com -sua filha, e fossem dirigidas com presteza a Lisboa e a Roma, como -aconteceu, com grande sentimento do arcebispo de Sevilha (quando o -soube), mas sem alvoroto, por mediar o mestre de S. Tiago.» - -Affonso V estava lançado no plano inclinado do desastre. Obedeceu -ao pedido. A historia do segundo casamento do rei portuguez, nunca -realizado, é uma serie de _fiascos_, como hoje dizemos; o egregio -vencedor de Africa collocara-se n’um terreno escorregadio, e fora -resvalando até abysmar-se no ridiculo. - -Segundo o testemunho de Lafuente, que se póde contraprovar em Damião -de Goes,[11] Affonso V enviara a Ocanha, onde estava Henrique IV, uma -_solenne embaixada_ a pedir a mão da infanta D. Isabel.[12] De Roma -chegara a vir uma bulla de Paulo II, dispensando para o matrimonio da -infanta D. Isabel com seu tio D. Affonso V.[13] Assim respondia o rei -portuguez á carta de seu cunhado. Mas essa embaixada solenne chegava -tarde a Castella. O arcebispo de Toledo apressara-se a tratar o casamento -da infanta com D. Fernando de Aragão, que já a esse tempo se intitulava -rei da Sicilia. - -O prelado não perdera tempo, nem podia perder, porque o marquez de -Vilhena e o rei estavam dispostos a vencer pela força a tenacidade -da infanta. Pensaram em mandal-a presa para o alcacer de Madrid, mas -recearam-se dos habitantes de Ocanha que ridicularizavam em chistes e -satiras as pretensões de um viuvo de trinta e sete annos, como era então -Affonso V, á mão de uma donzellinha de dezoito, que naturalmente lhe -preferia um rapaz da sua idade, a mais florente de vida. - -Era certo que, pelo tratado de Toros de Guisando, a infanta D. Isabel -não podia casar sem consentimento do rei, seu irmão. Mas o que valiam -tratados em Castella, sobretudo no tempo de Henrique IV, que tão depressa -os fazia como desfazia?! - -O arcebispo de Toledo não perdera tempo, dissemos nós. E não podia -perder, porque, alem de Affonso V, pretendiam a mão da infanta o duque de -Guyena, irmão de Luiz XI, e um irmão do rei Eduardo IV, de Inglaterra. - -O rei Henrique tivera que passar á Andaluzia, para socegar aquella -provincia. Antes de partir pediu á irmã que não abusasse da sua ausencia. -A infanta prometteu, mas por conselho do arcebispo, e a pretexto de -fazer trasladar para Avila o cadaver de seu irmão Affonso, sahiu de -Ocanha para o Madrigal, onde estava sua mãe, a rainha viuva. Estava, -porêm, em Madrigal o bispo de Burgos, sobrinho do marquez de Vilhena, -que andava com o rei pela Andaluzia. O bispo informava o tio do que se -passava. A espionagem era infatigavel; choviam as ameaças contra as -damas da infanta, e contra ella propria, que ia ser presa por ordem do -rei, quando o arcebispo de Toledo e o almirante D. Fradique conseguiram -arrancal-a á vigilancia dos espiões açulados pelo marquez de Vilhena, e -leval-a em triumpho para Valhadolid. - -O arcebispo fez partir emissarios de sua inteira confiança para Aragão -a chamar o infante D. Fernando. A viagem dos emissarios, que temiam -ser descobertos, foi accidentada de peripecias arriscadas. Chegaram -a Saragoça, e conferenciaram com o infante. Foi combinado, que este -partisse apenas acompanhado por seis cavalleiros, disfarçados de -mercadores, e que por outro caminho sahisse uma partida figurando uma -embaixada do rei de Aragão a Henrique IV. Sobre a falsa embaixada deviam -incidir as attenções do publico, e as vistas dos espiões de Henrique IV. - -Os seis cavalleiros jornadeavam de noite. O infante disfarçara-se em -criado; nas poisadas tratava dos cavallos, e servia á mesa. Foi assim que -os conspiradores conseguiram atravessar por entre os soldados do rei, -que cruzavam vigilantes as estradas, e passar incolumes sob a linha de -fortificações dos Mendonças, desde Almazan a Guadalajara. Uma noite, -porêm, o infante esteve em risco de ser victima. Chegaram ao burgo de -Osma, mortos de cançaço e frio. Chamaram á porta do castello do conde -de Trevinho, que era partidario de D. Isabel. A sentinella, julgando -serem inimigos, arrojou do alto do adarve uma pedra enorme, que passou -junto á cabeça do infante. O chronista Palencia, que era da partida, deu -então um grito; a sua voz foi reconhecida, e a porta do castello aberta. -Restaurada de forças, a cavalgada seguiu viagem, e dois dos cavalleiros -anteciparam-se para dar a boa nova á infanta. - -Chegaram aos ouvidos do rei os rumores da conspiração. Henrique IV -deu-se pressa em regressar da Andaluzia, e em Trujilho recebeu uma carta -de D. Isabel participando-lhe a sua resolução de casar com o infante -D. Fernando, e fazendo em nome de ambos muitos protestos de obediencia -ao rei se elle não contrariasse este casamento, cujas vantagens para a -monarchia a infanta ponderava. - -Fernando de Aragão completou a viagem com os quatro cavalleiros que lhe -restavam. Chegou de noite a Valhadolid, ás casas onde a infanta poisava. -O arcebispo de Toledo levou-o á presença de Isabel, e Gutierres de -Cárdenas, vendo entrar o infante, mancebo de dezoito annos, elegante e -robusto, exclamou: _Ese es, ese es._[14] - -O casamento effectuou-se d’ahi a poucos dias, a 19 de outubro de -1469.[15] Estava, pois, dado o primeiro passo para a unidade hespanhola; -esse casamento unia duas monarchias. - -Celebradas as nupcias, os noivos enviaram uma embaixada a Henrique IV, -participando-lhe que o casamento se havia realizado, remettendo-lhe copia -das capitulações matrimoniaes, e assegurando-lhe obediencia, no caso do -rei approvar o que estava feito. - -A colera de Henrique IV foi enorme. Não lhe ficou inferior a do marquez -de Vilhena, que havia perdido a partida. Toda a côrte era um vulcão de -odios, que explodiam. Esperava-se apenas a hora da vingança, e essa hora -pareceu haver soado quando uma embaixada de Luiz XI chegou, a pedir -a mão da _Beltraneja_ para o duque de Guyena, seu irmão e porventura -herdeiro, que a infanta D. Isabel havia rejeitado. - -Esta embaixada fortaleceu momentaneamente a causa da _Beltraneja_. - -Foi recebida com grandes festas e pompa. O cardeal de Albi, um dos -emissarios de Luiz XI, perguntou solennemente á rainha se a princeza -D. Joanna era effectivamente filha do rei Henrique IV. A que baixezas -tinham nascido predestinadas a irmã e a sobrinha de Affonso V! A rainha -respondeu affirmativamente. Depois repetiu a pergunta o rei, e D. Joanna -repetiu a affirmativa. Então todos os prelados e cavalleiros presentes -beijaram a mão da _Beltraneja_, outra vez reconhecida herdeira do throno. -A infanta D. Isabel, não obstante haver escripto uma nova carta de -conciliação ao rei, e appellado para a arbitragem do bom conde de Haro, -Fernandes de Velasco, que era tido em Castella como o mais serio caracter -d’aquelle tempo, foi desherdada. - -Henrique IV publicou contra sua irmã Isabel, já então mãe, um manifesto -injurioso; a infanta respondeu com outro, incriminando o procedimento -do rei. Entretanto nascera um filho de Luiz XI, o que afastava o conde -de Guyena da successão do throno de França. Chegaram, não obstante, a -fazer-se as capitulações matrimoniaes, mas o enthusiasmo de Henrique IV, -por esse casamento, esfriara desde que a Luiz XI nascera um filho. - -Diz o padre Flores que todas as diligencias se mallograram por ter -morrido o noivo da _Beltraneja_. Esta asserção carece de reparo. O duque -de Guyena só morreu, em Bordeus, em maio de 1472. Elle mesmo havia -manifestado tambem pouca vontade de realizar o casamento contractado, -chegando a solicitar a mão da herdeira do ducado de Borgonha. De parte -a parte havia frieza. Ruy de Pina vem em reforço do que dizemos, -noticiando varias embaixadas entre as côrtes de Portugal e Castella, em -1470 e 1471,[16] para tratar de casamentos. Mas como D. Isabel houvesse -casado com o infante de Aragão, rei da Sicilia, e o infante D. João, -de Portugal, houvesse casado em Setubal, a 22 de Janeiro de 1471, com -sua prima D. Leonor, Henrique IV e Affonso V avistaram-se _entre Elvas -e Badajoz_ para combinar o casamento da _Beltraneja_ com o rei de -Portugal.[17] - -D. Joanna e sua filha não assistiram a esta entrevista. Ficaram em -Escalona, acompanhadas pelo bispo de Burgos. - -Diz Pina que D. Isabel e D. Fernando enviaram embaixadores á entrevista, -a fim de obstarem ao casamento de Affonso V com sua sobrinha. O rei de -Portugal reuniu muitas vezes conselho para tratar d’este assumpto, mas -sempre, em quanto Henrique IV viveu, sobrevieram duvidas e receios de -graves complicações entre os dois paizes. - -O padre Flores escreve que, em todas estas negociações, o rei de Portugal -tinha grande desconfiança do mestre de S. Tiago. É natural que assim -fosse, mas tambem é natural que influisse no animo de Affonso V a -importancia que tinha realmente o partido de D. Isabel. - -Como quer que seja, a causa da _Beltraneja_ perdia terreno. Quatro novos -projectos de casamento se haviam frustrado: com o duque de Guyena, com -D. Fradique, filho do rei de Napoles, com D. Henrique Fortuna, primo -coirmão do marido de D. Isabel, e com D. Affonso, de Portugal. Mas, -alem d’estes, ainda houve um outro projecto mais antigo, como sabemos, -relativo ao infante D. Affonso, que morrera. Andava a mão da pobre -infanta em almoeda, e ninguem a queria! A familia dos Mendonças afrouxara -tambem no seu enthusiasmo pela causa da _Beltraneja_, logo que o rei lhe -arrancara a infanta para a confiar á guarda do mestre de S. Tiago. - -Ao passo que a má estrella da _Beltraneja_ parecia brilhar cada vez mais -sinistra no horizonte do seu triste destino, os partidarios de D. Isabel -logravam vantagens. Um d’elles, André de Cabrera, mordomo-mór do rei e -marido de D. Beatriz de Bobadilha, amiga dedicada de D. Isabel, pensou -em reconciliar o rei com a irmã. Soube-o fazer com fina diplomacia. D. -Beatriz foi a Aranda, disfarçada em camponeza, perguntar á infanta se -não teria duvida em avistar-se com o rei em Segovia. D. Isabel annuiu. -Cabrera venceu, por certo, sem grande difficuldade, as hesitações do -fraco rei Henrique. - -Os dois irmãos avistaram-se em Segovia. Era isto em dezembro de 1473. O -rei não só se reconciliou com a irmã, mas quiz honral-a publicamente, -levando de redea a mula, em que a infanta montava, atravez das ruas, -ao som de musicas festivas. O mestre de S. Tiago, desairado por estas -secretas negociações, retirou-se da côrte. - -Entretanto, a infanta D. Isabel, á qual viera juntar-se o infante de -Aragão, continuava a estar nas boas graças do rei. Banqueteavam-se -juntos, e foi n’um d’esses banquetes, dado por André de Cabrera que, no -domingo de _Reis_ de 1474, o rei se sentiu indisposto depois de ceia. -Fernando e Isabel visitavam na sua doença Henrique IV, mas não conseguiam -arrancar-lhe a confirmação dos seus direitos ao throno. Por sua parte, o -mestre de S. Tiago procurava desforrar-se do desaire recebido, procurando -infundir suspeitas de que os infantes houvessem envenenado o rei. - -Voltando á côrte, o grão-mestre induzia o rei a apoderar-se dos infantes, -e assim teria acontecido se o plano não fosse denunciado a Fernando e -Isabel. - -O rei melhorara, mas a sua saude tornara-se melindrosa. Não obstante, -João Pacheco, senhoreando outra vez o espirito de Henrique IV, fez com -que o rei o acompanhasse a Trujilho, para que o investisse na posse -d’aquella cidade, diz Lafuente; para concertarem d’alli secretamente o -casamento de D. Joanna com Affonso V, diz Zurita. - -É certo que João Fernandes da Silveira, depois barão de Alvito, chegou a -ir a Castella encarregado d’este negocio.[18] Mas a viagem aggravara os -padecimentos do rei. Retiraram porisso de Trujilho, mas, a duas leguas da -cidade, João Pacheco, acommettido de uma inflammação de garganta, morreu -deitando muito sangue pela bocca. - -A morte de João Pacheco, marquez de Vilhena e grão-mestre de S. Tiago, -impressionou o rei. Aquelle homem fôra o companheiro dos seus deboches -quando principe, e o instigador de grande parte dos seus actos como rei; -habituara-se a elle. Sentia-lhe agora a falta. Preso a esse cadaver -por laços torpes, honrara-lhe a seu modo a memoria, fazendo o filho de -João Pacheco marquez de Vilhena e grão-mestre de S. Tiago, sem sequer -consultar os cavalleiros da ordem. - -Levantaram-se reclamações e protestos, que o rei teve de reprimir com -varias expedições. Este esforço quebrantou-lhe as ultimas forças. -Abandonou a lucta, para voltar a Madrid, cada vez mais doente. Morreu a -11 de dezembro d’esse mesmo anno de 1474. - -Assim acabou, n’este rei fraco e nefando, a linha varonil da dynastia -Trastamara. - - - - -V - -POR CAUSA DE UMA COROA - - -O veneno, propinado ao rei Henrique durante as festas de Segovia em honra -de sua irmã D. Isabel,[19] produzira o desejado effeito, como vimos. O -rei fallecera em Madrid, onde estava sua filha D. Joanna entregue aos -cuidados do novo marquez de Vilhena, Diogo Lopes Pacheco. Mas a rainha -achava-se ausente, _apartada da côrte por seu deshonesto viver_.[20] - -Como quer que seja, vamos encontral-a, depois da morte do rei, habitando -um predio junto á egreja de S. Francisco, de Madrid, que fôra demolida -no anno de 1760. Parece que D. Joanna, sentindo o cançaço de uma vida -tempestuosa, procurara o refugio de uma especie de cenobio, d’onde, -em tribuna privativa, podia assistir aos officios religiosos que se -celebravam no templo. - -São mais ou menos suspeitos de paixão politica os historiadores -castelhanos, que se occupam do procedimento da rainha. Uns, como -Henriques de Castilho, pertencem á parcialidade do rei; outros, como -Pulgar, militavam na facção de D. Isabel. O padre Flores, querendo -mostrar-se imparcial, chama _pelago insondavel_ ao conceito que da -infeliz rainha se fazia em Castella. - -Um historiador portuguez, o auctor da _Historia genealogica_, escreve que -D. Joanna fôra «formosa, viva, e naturalmente alegre; era moça, e mais -desenvolta do que convinha á sua real pessoa, o que deu motivo a diversos -juizos, que se augmentaram pelo pouco caso que el-rei d’isso fazia; do -que nasceu alguns cuidarem, e outros fingirem, e lhe levantarem, que era -pouco honesta, e que el-rei lh’o consentia.» - -Um d’esses taes é Antonio de Lebrixa, o qual escreveu que era o proprio -Henrique IV que alcovitava a rainha a um seu privado (Beltrão de Lacueva). - -Damião de Goes censura Lebrixa por affirmar _ex cathedra, sem ser -testemunha de vista_, a infamia da rainha; mas acaba por dizer que a -fama da impotencia de Henrique IV era falsa, comquanto não houvesse sido -_testemunha de vista_, elle proprio... - -Nós estamos escrevendo a distancia de tempo a que os acontecimentos -avultam em todo o relevo da sua nudez historica. Cahiu já desfeito, pela -acçao implacavel dos seculos, o véo que a paixão politica entretece, e -que não deixa definir claramente os contornos mais salientes de qualquer -epocha, como a neblina envolve a ossada dos montes ao romper da manhã. - -Começamos por estudar serenamente a côrte de Henrique IV, devassa, -dissoluta, sensual. Esboçamos o perfil do rei, que presidia a esta côrte, -rei que se retouçava na podridão de prazeres sodomitas, e parecia talhado -de molde para deixar resvalar ao abysmo da deshonra a segunda mulher, -visto que não quizera repudial-a pelo mesmo motivo da primeira, a infeliz -Branca de Navarra. D. Joanna, de Portugal, era moça, formosa, alegre, -_viva_, como diz Antonio Caetano de Sousa. Cahiu no meio d’esta côrte, -como uma flor póde cahir em qualquer esterquilinio sotoposto ao jardim, -sobretudo quando a haste tem o geito de pender para esse lado, e uma -perfida viração a faz oscillar a cada lufada mais forte... - -Basta ir seguindo os acontecimentos, para ver descer a rainha pelo plano -inclinado do adulterio. Não é preciso ler os chronistas para copiar -d’elles a sua apreciação, mais ou menos apaixonada, mas apenas para que -nos guiem na successão dos acontecimentos. A critica é facil, resalta -luminosa e logica. Aconteceu-nos isto, confrontando os chronistas; o -mesmo acontecerá por certo ao leitor que tiver seguido passo a passo esta -narrativa. - -D. Joanna falleceu a 13 de junho de 1475, tendo apenas 36 annos de edade. -Matou-a o veneno ou o arrependimento; morreu ou mataram-n’a. E diz a -chronica que os reis catholicos, Isabel e Fernando, lhe mandaram fazer um -tumulo de marmore branco, cujo epitaphio dizia: - - _Aqui yace la mui excelente, esclarecida y poderosa Reyna de - Castilla Doña Juana, muger del muy excelente, esclarecido y - poderoso Rey Don Enrique IV. cuyas animas Dios aya: la qual - falleció dia de San Antonio de MCCCCLXXV. años._ - -Mais tarde, a habitação da rainha foi convertida em nave do templo; -chamava-se-lhe a capella da Aurora, e ficava do lado do Evangelho. Quando -a egreja de S. Francisco foi demolida, acharam-se os ossos da rainha -dentro de um cofre de madeira, mas não se sabe hoje o destino que tiveram -depois da demolição.[21] - -Assim se dispersaram os restos mortaes d’essa formosa dama portugueza, -que o berço em que nascera posthuma parecia haver malfadado para as -desventuras do thalamo, e do throno. - -Fizera Henrique IV testamento? - -Ruy de Pina, na _Chronica de D. Affonso V_,[22] diz que sim. - -«No fim do anno de mil quatrocentos setenta e quatro, palavras suas, -el-rei D. Henrique, de Castella, falleceu na villa de Madrid; foi -seu corpo levado ao mosteiro de Santa Maria de Guadalupe, onde na -capella-mór, á mão direita, jaz em sua real sepultura, como parece, e -da outra parte jaz a rainha D. Maria, sua mãe. _Fez el-rei D. Henrique -seu solenne e accordado testamento, em que declarou a princeza D. Joanna -por sua filha, e por rainha herdeira dos reinos de Castella, e o rei D. -Affonso por governador d’elles, pedindo-lhe finalmente que acceitasse a -dicta governança, e casasse com ella, o qual testamento foi logo trazido -a el-rei D. Affonso, que estava em Extremoz... etc._» - -Os chronistas castelhanos corrigem n’este ponto o chronista portuguez. - -Zurita diz positivamente nos _Anales_ que D. Henrique não deixou -testamento. - -O padre Castilho não faz menção de qualquer disposição testamentaria. -Affonso de Palencia diz que, perguntado o rei sobre quem lhe devia -succeder no throno, respondera que o secretario João Gonçalves revelaria -a sua intenção. Fernando de Pulgor refere que apenas indicara os -fidalgos a quem seria confiada a guarda de sua filha. Lucio Marineo -escreve que Henrique IV, sempre imprevidente, não deixara testamento. -Marianna conta que, perguntado o rei pelo seu confessor frei Pedro de -Mazuelos, respondera que reconhecia como herdeira a princeza D. Joanna, -a qual deixara recommendada a alguns fidalgos, inclusos os marquezes de -Santilhana e de Vilhena. A Lafuente parece arriscada esta asserção de -Marianna, que aliás vem copiada em Romey. - -Diogo Clemencin[23] é de todos os historiadores castelhanos o que mais -detida e lucidamente se occupa da questão do testamento de Henrique IV. - -Recorda a lenda, publicada por Galindes de Carvajal, de que o rei -Henrique fizera, ao morrer, testamento, no qual reconhecia como sua -successora D. Joanna, e de que esse documento fôra pelo secretario João -de Oviedo entregue a um padre que era cura de Santa Cruz, em Madrid. Não -querendo que o desapossassem de tão valioso deposito, o cura metteu-o -n’um cofre com outros papeis, e veio escondel-o perto de Almeida, em -Portugal. O bacharel Fernam Gomes de Herrera, amigo particular do cura, -conhecia o segredo, e revelou-o a D. Isabel a _Catholica_, quando já -estava moribunda. A rainha mandou o cura buscar o cofre, que chegou -quando ella já tinha morrido. O rei Fernando soube o que se passava, pelo -licenciado Zapata, a quem Herrera revelara o segredo. Diziam uns que o -testamento fôra queimado por ordem do rei; outros que ficara em poder -de Zapata. A Herrera teriam sido feitas varias mercês, em recompensa do -serviço que prestara. - -Clemencin refuta esta lenda com bons fundamentos, entre elles o não ser -citado por D. Joanna o testamento de Henrique IV quando ella allegava -todos os seus direitos em manifesto dirigido á cidade de Madrid (1475), -e a circumstancia de egual omissão no documento em que a _Beltraneja_ -transferiu para D. João III, de Portugal, todos esses direitos. - -Como quer que fosse, em torno da _Beltraneja_ agrupou-se um partido -defensor da sua legitimidade. Os caudilhos eram grandes e poderosos -senhores, posto não fossem numerosos: entre elles, o marquez de Vilhena, -menos habil, porêm mais intrepido que seu pae; o opulento duque de -Arévalo; o moço marquez de Cadiz, e o grão-mestre de Calatrava e seu -irmão. - -No partido contrario, militavam em favor de D. Isabel prelados e proceres -egualmente poderosos. Citaremos o arcebispo de Toledo, que foi quem -se apressou a communicar a Fernando o Catholico, em carta que Zurita -reproduz, a noticia do fallecimento de Henrique IV. - -Não deixa, comtudo, de ser curioso que este prelado se bandeasse depois -com o partido da _Beltraneja_, despeitado pelo ascendente, que no -espirito de Fernando e Isabel havia tomado o cardeal de Hespanha. - -Não seria, pois, uma copia do testamento, que parece não ter existido, -o que os partidarios da _Beltraneja_ enviaram a Affonso V, que estava -então em Extremoz; mas foi de certo uma mensagem solicitando o seu -apoio a troco do casamento com a infanta, sua sobrinha, e da coroa de -Castella.[24] - -Não me esquivarei a citar, a respeito d’esta mensagem, as palavras -do historiador hespanhol Lafuente, porque raras vezes um escriptor -extrangeiro é tão fiel e tão exacto nas suas apreciações. - -«A ninguem, tanto como ao monarcha portuguez, diz elle, podia lisonjear -uma tal proposta. De genio naturalmente cavalheiroso, desvanecido com -a denominação de _Africano_, que os seus triumphos contra os moiros -barbarescos lhe haviam valido, e um dos pretendentes anteriormente -repellidos pela rainha Isabel, Affonso acolheu com avidez um convite -que lhe proporcionava apresentar-se como reparador de um desaire, -que recebera da rainha, como vingador de um rival preferido, como o -campeão de uma princeza desgraçada, e como conquistador de uma coroa, -que, alcançada para sua sobrinha, havia de ver collocada na sua propria -cabeça. De modo que a empresa satisfazia simultaneamente o seu espirito -cavalheiresco, o seu orgulho offendido, a sua cobiça e ambição de gloria.» - -Conforma-se com o testemunho de Ruy de Pina o testemunho de Lafuente, -quando affirma que o principe herdeiro de Portugal, D. João, procurara -inflammar os brios guerreiros de seu pae, aconselhando-lhe a guerra -com Castella. Tambem concorda com o chronista portuguez o historiador -castelhano, quando refere que o duque de Bragança e o arcebispo de Lisboa -foram de parecer contrario ao do principe. O que é certo é que Affonso -V mandou a Castella o seu camareiro-mór, Lopo de Albuquerque (depois -conde de Penamacôr), encarregando-o de informar-se pessoalmente sobre -a importancia e valor que podiam ter os partidarios da _Beltraneja_. -O emissario de Affonso V recolheu com boas informações, depois de -praticar com os mais exaltados adversarios de D. Isabel, entre os quaes -se contava, como sabemos, o marquez de Vilhena. Não obstante as boas -novas com que Lopo de Albuquerque chegou a Evora, onde estava o rei, em -Janeiro de 1475, parece que de novo foram ainda ponderados a Affonso V os -inconvenientes da empresa; mas a fogosidade do principe venceu a opinião -dos que discordavam. - -O rei de Portugal mandou deitar pregão de guerra. Em Arronches devia -reunir-se o exercito, no mez de maio. N’esse sentido foram expedidas -ordens. Comtudo, alguem lembrou a Affonso V a conveniencia de mandar -primeiramente uma embaixada a Fernando e Isabel, reivindicando os -direitos de D. Joanna. Foi escolhido para esta commissão Ruy de Sousa, -que a desempenhou. Lafuente diz que Affonso V tivera a _arrogancia de -fazer uma intimação aos reis para que renunciassem a coroa em favor de D. -Joanna_. - -Nas disposições em que se encontrava Affonso V, é natural que mandasse -pôr a questão em termos categoricos. De mais a mais, como ainda teremos -occasião de mostrar, os embaixadores portuguezes não costumavam -sossobrar perante a altivez castelhana. N’um e n’outro paiz, as situações -estavam claramente definidas, porque se Affonso V convocara o exercito -para Arronches, em Segovia tinham sido alçados pendões reaes ao som de -_Castilla por el rey Don Herñando, y la reina Doña Isabel, su muger, -proprietaria destos reynos_. - -A resposta de Fernando e Isabel é facil de adivinhar. Responderam -mantendo os seus direitos, e requereram a Affonso V que não entrasse -em Castella. Diz Lafuente, que a intimação do rei de Portugal fôra -nobremente repellida, mas accrescenta que D. Isabel _dirigiu differentes -embaixadas a Affonso V, exhortando-o com palavras de moderação_ a que -desistisse da empresa. Os emissarios dos reis catholicos foram varios -religiosos, segundo Zurita. - -No mez de maio, estava o rei em Arronches, apercebido para a marcha. O -principe D. João acompanhou-o ao alto Alemtejo, onde concertaram, pae e -filho, negocios particulares e do Estado, para o caso do rei perecer em -combate. Foi em Portalegre, a 28 de abril, que Affonso V dictou o seu -testamento, escripto por frei João de S. Mamede, confessor do rei: «... -eu tenho determinado, diz Affonso, d’aqui a poucos dias entrar em os -reinos de Castella, com fundamento de casar com a rainha, minha sobrinha, -e isto por serviço de Deus e por melhor podermos defender seu direito, -segundo é já entre nós capitulado...» - -N’este curioso documento refere-se Affonso V aos enormes gastos que -foram feitos com o casamento de sua irmã D. Leonor com o imperador da -Allemanha, attribuindo-os á pouca edade que então tinha, e á falta de -experiencia. Declara ter dois filhos legitimos, a infanta D. Joanna, que -falleceu em Aveiro, com reputação de santa, posto a sua vida não fosse -inteiramente isenta de culpas,[25] e o principe D. João que, segundo os -estylos do reino, proclama herdeiro da coroa. - -Tambem em Portalegre, e primeiro que o seu testamento, assignara Affonso -V a carta regia pela qual declarava regente do reino seu filho, o infante -D. João.[26] - -Estavam já em Arronches pae e filho, quando chegou noticia de que D. -Leonor, mulher do principe herdeiro, havia dado á luz o infante D. -Affonso, que tão pouco vivera e tão desastrosamente acabara. «E por seu -nascimento, diz Ruy de Pina, declarou logo el-rei, sendo caso que o -principe D. João, seu filho, em sua vida fallecesse, a tempo que elle -rei tivesse outro filho lidimo _da rainha D. Joanna, sua esposa, com -quem havia de casar_, que ao dicto infante D. Affonso sempre pertencesse -e viesse a successão dos reinos de Portugal, e que para isso fosse logo -jurado e obedecido...» - -Tratou-se, pois, de entrar em Castella ao som de guerra. - -A fim de melhor garantir o successo da empresa, Affonso V tratou de -entender-se diplomaticamente com o rei de França, Luiz XI, como vamos ver. - -Em 1471, o marquez de Vilhena representou a Luiz XI pedindo-lhe que -auxiliasse o rei de Portugal. Expunha quaes eram as forças de que Affonso -V podia dispor: elle marquez, tres mil cavallos; o arcebispo de Toledo, -dois mil; o mestre de Calatrava, dois mil; o bispo de Calatrava, dois -mil; o bispo de Burgos, trezentos; o conde de Horoianna, trezentos; -D. Affonso, senhor de Montalvão, duzentos; D. Affonso e D. João, -filhos bastardos do mestre de S. Tiago, quatrocentos; D. Pedro de Porto -Carreiro, irmão do marquez, quatrocentos; a condessa, mãe da mulher do -marquez, trezentos; o duque de Arévalo, dois mil; o marquez de Cadiz, -genro do mestre de S. Tiago, mil e quinhentos; o duque de Sevilha, dois -mil; D. Affonso de Aguillar, seiscentos; o conde de Feria, quatrocentos. - -Toda esta gente de armas, com a que o rei de Portugal poria em movimento, -dava um exercito de trinta e dois mil homens. Accrescentava o emissario -do marquez de Vilhena que se o rei de França continuasse a fazer guerra -ao de Aragão, na Catalunha, elles o poriam em tal aperto que seria -obrigado a desistir das suas pretensões ao reino de Castella.[27] - -Vê-se, pois, que, contando com todos estes recursos, Affonso V não -procedeu tão levianamente como pretendem alguns chronistas castelhanos. - -Por sua parte, o rei de Portugal escreveu a Luiz XI, revelando-lhe as -intenções em que estava de desposar sua sobrinha D. Joanna, e declarar -guerra a Castella, promettendo que, se lograsse alcançar victoria, -ficariam cada vez mais estreitadas as relações de antiga amizade entre -as duas coroas de Castella e França. Passava-se isto a 8 de janeiro de -1475, e logo no fim d’esse mesmo mez tornava Affonso V a escrever a Luiz -XI, dizendo-lhe que receando qualquer demora na entrega da primeira -carta, escrevia de novo allegando os direitos de D. Joanna ao throno -de Castella, e pedindo-lhe favorecesse a causa d’esta princeza, cujo -triumpho seria mais conveniente á politica franceza do que a victoria do -ambicioso rei de Aragão. Participava haver pedido o auxilio do papa, e -rogava a Luiz XI que no mesmo sentido escrevesse ao pontifice. - -Em abril respondia Luiz XI accusando a recepção da primeira carta, de 8 -de janeiro, e dizendo que encarregara Olivier le Roux de vir a Portugal -responder aos artigos d’ella; que estando já Olivier a caminho, recebera -a segunda carta; que se dera pressa em escrever ao papa no sentido -desejado, despachando como portador um emissario para Roma. - -Effectivamente, chegara a Portugal mestre Olivier, o qual, em nome do seu -soberano, dissera a Affonso V que a respeito da alliança, que propunha -a Luiz XI, importava lembrar-se de que, tendo Portugal alliança com os -inglezes, antigos inimigos da França, era mister declarasse como e em -que fórma entendia a alliança proposta; que essa alliança, segundo os -precedentes estabelecidos entre Castella e França, não devia admittir -excepção de pessoas; que, attenta a visinhança dos dois paizes, convinha -á França auxiliar as pretensões de um principe que ficasse sendo seu -amigo e alliado; que o rei de Aragão, pae de D. Fernando, enviara a -França um embaixador com a proposta de paz e alliança, e de casamento -da filha do dicto rei de Aragão com o delfim; que o rei de França nada -decidira, e mandara um embaixador a Aragão para mais explicitamente -inteirar-se da substancia da proposta; que el-rei de Portugal bem sabia -como o de França o estimava e amava, de preferencia a qualquer outro; -que o reino de Portugal ficaria de futuro comprehendido na alliança que -houvesse de fazer-se entre a França e Castella; que no caso da alliança -se não realizar no sentido indicado, seria sempre util manter entre a -França e Portugal relações de paz, grande amor e amizade. - -O fecho das instrucções, copiadas pelo visconde de Santarem da -bibliotheca real de Pariz, diz o seguinte: «E tratando d’estas coisas, -o dicto mestre Olivier fará por saber _quem tem mais parcialidade e -poder, se el-rei de Portugal em razão da filha d’el-rei de Castella, ou -el-rei de Castella em razão da irmã, e de tudo quanto souber dará parte a -el-rei_.» - -Como se viu, Luiz XI entrincheirava-se detraz das mais astutas reservas -diplomaticas. Nada de categorico e consistente. Apenas a manifesta -intenção de querer aproveitar-se da ambição de Affonso V para romper a -alliança de Portugal com a Inglaterra. - -Estavam as coisas n’este pé, quando Affonso V sahiu de Portugal com -um exercito de cinco mil e seiscentos homens de cavallo, e quatorze -mil infantes. Lafuente diz que a cavallaria ia na força de cinco mil e -_setecentos_ homens. A differença é pequenissima. O principe D. João -acompanhou seu pae até á fronteira, e retirou depois, sabe Deus com que -profunda magua de o não poder seguir! - -Ruy de Pina, descrevendo a ordenança do exercito portuguez, diz que -ia na frente o adail-mór Diogo de Barros, com _certos ginetes por -descobridores_. Seguia-se o marechal D. Fernando Coutinho, como -_aposentador e assentador do arraial_. Depois, Vasco Chichorro, capitão -dos ginetes d’el-rei, logo seguido pelo conde de Penamacôr, capitão da -vanguarda real. Após, ia a carriagem e, depois d’ella, o rei, com poucas -pessoas da sua guarda, diz Goes, e um pagem que levava o guião com a -divisa real, um rodizio de moinho com gottas d’agua ao redor e esta -legenda _Jámais_, divisa que tomara pela sua primeira mulher, D. Isabel. -Na rectaguarda ia o duque de Guimarães, servindo de condestavel do reino. - -Tem razão Lafuente, quando diz que no exercito de Affonso V ia a fina -flor dos cavalleiros portuguezes. Assim era, com effeito. Alem dos -já citados, apontam os chronistas os condes de Faro, Loulé, Penella, -Monsanto, etc. - -Damião de Goes e Ruy de Pina referem que Affonso V chegara a Plasencia -sem que alguem pretendesse tomar-lhe o passo. Zurita diz, porêm, nos -_Annaes_, que se oppozeram ao exercito portuguez cêrca de mil cavalleiros -castelhanos, e que, «á entrada, em diversos recontros, derrubaram mais de -duzentos de cavallo, dos inimigos (os portuguezes)», chegando os capitães -a carregar até aos flancos do nosso exercito. - -Em Plasencia era esperado Affonso V pelo duque e duqueza de Arévalo -e pelo marquez de Vilhena, que lhe apresentou D. Joanna, a qual, por -ordem do marquez, tinha estado confiada á guarda de Pedro de Baeça. -Dizia este Baeça que os reis catholicos lhe tinham mandado offerecer, -por um irmão e pelo proprio pae do depositario, quatro contos de renda, -quatro mil vassallos com a villa de Torquemada, e o titulo de conde, com -promessas de casamento rico para o filho, se consentisse em entregar-lhes -a _Beltraneja_. Accrescentava que voltara com egual commissão o doutor -Rodrigo Maldonado, mas com maiores promessas, e que elle tudo recusara. - - - - -VI - -A BATALHA - - -Aposentou-se Affonso V com D. Joanna na fortaleza de Plasencia. Ahi -deslizaram alguns dias perdidos em _festas e prazeres_, diz Pina. Affonso -V iniciou a campanha de Castella por dois graves erros, reconhecidos -pelos proprios chronistas castelhanos. Zurita diz que se Affonso V, em -vez de entrar por Plasencia, tivesse entrado pela Andaluzia, Sevilha -não poderia resistir por muito tempo a um cêrco, e que, tendo elle por -si Sevilha, se renderiam logo outras cidades, favoraveis a D. Joanna, -ficando-lhe livre o caminho até aos confins do reino de Aragão; e -que se houvesse querido dirigir-se para Toledo, onde o arcebispo e o -marquez tinham poderio, haveria logrado chegar até Segovia. Accrescenta -que Affonso V se demorara nas festas de Plasencia mais do que lhe -convinha.[28] Lafuente escreve no mesmo sentido, dizendo que o rei de -Portugal, demorando-se em Plasencia e Arévalo, dera tempo a que Fernando -e Isabel supprissem á força de actividade a falta de dinheiro e de -apercebimentos de guerra.[29] - -Mas o que é certo é que Affonso V se demorou em Plasencia, onde celebrou -publicamente desposorios com sua sobrinha,[30] e ambos foram proclamados -reis de Castella, Leão e Portugal. Ruy de Pina observa «... e chamou á -rainha esposa, com a qual então nem depois nunca consumou o matrimonio, -por defeito de dispensação, que não tinha nem houve nunca.» Mais tarde -trataremos este ponto. Por agora, para não interromper a narrativa com -longas divagações, diremos que D. Affonso V tratou de fazer publicar o -_Manifesto_ dos direitos de D. Joanna ao throno de Castella. Sousa[31] -copiou-o de Zurita; tem a data de 30 de maio e é dirigido á _villa_ -de Madrid. N’esse documento, que é extenso e que está bem escripto, -D. Joanna historía todos os acontecimentos politicos do reinado de -Henrique IV, que o leitor já conhece. Accusa Fernando e Isabel de terem -envenenado ou mandado envenenar o rei. Insiste em que elle a reconhecera -publicamente como filha e herdeira, no leito da morte, porêm não fala -em testamento. Allude, com a desenvoltura que o assumpto requeria, á -supposta impotencia de seu pae, affirmando ás claras que elle _era hombre -poderoso para engendrar_. Referindo-se a seu tio e noivo, diz: «O que -tudo visto pelos dictos duque de Arévalo e marquez de Vilhena, como meus -tutores, guardadores, usando da lealdade e fidelidade que me devem, e -acatando, como o mais alto e mui poderoso principe D. Affonso, por a -graça de Deus rei de Portugal, e rei de Castella e de Leão, que agora é -meu senhor, e principe mui catholico, e de grande fama, exemplo e de grã -virtude e prudencia, para manter e governar estes dictos meus reinos, em -justiça e verdade, como cumpre ao serviço de Deus, e meu, e ao regimento, -e reparo, e restauração d’elles para o futuro, e conformando-se com a -vontade do dicto rei meu senhor, que em sua vida, com accordo de muitos -prelados e grandes, diversas vezes o negociou e procurou, accordaram e -assentaram com elle, que casasse, e celebrasse desposorio commigo: e para -isso viesse e entrasse n’estes dictos meus reinos como rei, e senhor -d’elles, como meu legitimo esposo, e marido. E estando eu na cidade de -Turgilho, sob a salvaguarda do dicto marquez de Vilhena, o dicto rei meu -senhor enviou seu embaixador e procurador com seu poder bastante, para -se desposar, e desposou commigo, em legitima e devida fórma: e depois, -estando n’esta cidade de Plasencia, ... dias do mez de maio d’este anno, -da data d’esta minha carta, o dicto rei meu senhor chegou á dicta cidade -por sua pessoa, e desposou-se e _dio las manos comigo_: e solennemente -jurou, e fez voto solenne, de nunca me sacar fóra d’estes dictos meus -reinos, nem sua senhoria sahir fóra d’elles, até, mediante a graça de -Deus, os acalmar e pacificar.» Noticía depois como se celebrara o acto -da acclamação, e ordena que, logo que aquella carta regia recebam, _se -ajuntem todos por pregão e alcem pendões pelo dicto rei D. Affonso_. -Diz constar-lhe que os _reis da Sicilia_ têem feito espalhar o boato -de que os portuguezes são por indole hostis aos castelhanos. Desmente -este boato, recorda o parentesco e amizade de Affonso V com a casa real -de Castella, e accentua que os portuguezes são christãos catholicos, e -obedientes á vontade do seu rei. - -Um dos pontos que melhor estão tratados no _Manifesto_, é o que se -refere á desobediencia de D. Isabel, tendo fugido da côrte para casar -com o rei da Sicilia, que era extrangeiro, não confederado, nem alliado -com Henrique IV, quando ella o não podia nem devia fazer, não só por -ser contra vontade do rei, mas tambem porque as leis do reino dispunham -que as donzellas, menores de vinte e cinco annos, não casassem sem -consentimento de seus paes e irmãos mais velhos. De mais a mais, Fernando -e Isabel eram parentes em grau prohibido, e não tinham obtido dispensação -apostolica. - -Lembra finalmente D. Joanna quanto Fernando e Isabel fizeram para se -apoderar do thesoiro real de Segovia, como se apoderaram de todo o oiro -e prata, joias, brocados e pannos, que deixara Henrique IV, não dando, -nem consentindo que se désse para o seu enterro e sepultura _o que para -qualquer pobre cavalleiro de seu reino se dera_, e tentando havel-a á mão -para a fazerem encarcerar perpetuamente ou porventura matar. - -Como se vê, o _Manifesto_ está habilmente redigido; procura ferir todas -as notas, tanto a da legalidade, como a da sentimentalidade. - -D. Affonso V tambem escrevera á cidade de Salamanca, sobre o direito de -D. Joanna á coroa de Castella,[32] e procurara apoiar-se na diplomacia -para corroborar o effeito que esperava colher da publicação dos -manifestos. - -De Plasencia enviou a França, como embaixadores, D. Alvaro de Athayde e -o licenciado João d’Elvas, com plenos poderes para negociarem a desejada -alliança. Philippe de Comines, que assistiu á audiencia dos embaixadores -portuguezes na côrte de França, accusa-os de não terem conhecido as -astucias de Luiz XI, de não terem ao menos suspeitado de que faltaria ás -suas promessas. Passa-lhes diploma de incapacidade, e o caso é que os -factos posteriores deram razão a Comines. - -Affonso V queria que Luiz XI, a quem D. João de Aragão tinha tomado o -condado de Roussillon, fizesse guerra a D. Fernando, pela fronteira -franceza, envolvendo assim Castella em duas invasões simultaneas. - -Tambem Affonso V enviou embaixadores a Roma, a fim de solicitarem do papa -a dispensação matrimonial de que carecia, para realizar o casamento com -sua sobrinha. - -Com estas armas julgava o rei portuguez ir ferindo o adversario. -Enganava-se. Fernando levantava em Valhadolid um exercito de quatro mil -homens de armas, oito mil ginetes e trinta mil peões, verdade seja que -pela maior parte mercenarios. Fôra D. Isabel quem obtivera as sommas -indispensaveis para equipamento do exercito, conseguindo que André -Cabrera lhe entregasse o thesoiro de Segovia;[33] Fernandes de Oviedo -não duvída affirmar, nas _Quincuagenas_, que estava na mão de Cabrera -fazer rainha a princeza Isabel ou a princeza Joanna, segundo elle se -decidisse a entregar o thesoiro, que continha cêrca de 10:000 marcos de -prata, a uma ou a outra princeza. Diz Zurita que o marquez de Vilhena -fizera grandes promessas a Cabrera por parte do rei de Portugal, chegando -a offerecer-lhe a renda annual e vitalicia de dez contos de maravedis, -e que elle os recusara, porque já em vida de Henrique IV era affecto á -causa de D. Isabel. - -O que é certo é que Cabrera entregara a D. Isabel o thesoiro de Segovia, -cohonestando este valioso auxilio com o pretexto de lhe dar a rainha sua -filha em refens. - -D. Isabel, apesar de se achar gravida a esse tempo, não descansava um -só momento; a fadiga fez com que tivesse um aborto no caminho de Toledo -para Tordesilhas. Tentou D. Isabel, em Alcalá de Henares, congraçar o -arcebispo de Toledo, mas o prelado mandou-lhe dizer que se ella entrasse -no paço por uma porta, elle sahiria por outra. - -Affonso V, depois de se refocillar nas festas de Plasencia, passava -a Arévalo, um pouco por lisonjear os duques, que lhe queriam dar -hospedagem, um pouco por em Plasencia não sobejarem os mantimentos. O que -é certo é que Affonso V resolvera aguardar em Arévalo os reforços que -deviam enviar-lhe os fidalgos castelhanos do seu partido, commettendo -assim a imprudencia de dar tempo a que Fernando pudesse organizar em -Valhadolid um exercito de _condottieri_, mais valioso pelo numero do que -pela disciplina. - -De Arévalo, seguiu Affonso V para Touro, seguro de que o alcaide João -de Ulhôa lhe abriria as portas da cidade. Assim aconteceu, mas a mulher -de um irmão d’este Ulhôa não quiz entregar o castello, pelo que -Affonso V lhe poz um apertado cerco. Entretanto Samora rendera-se aos -portuguezes, e Fernando, que com o seu exercito se tinha approximado -de Touro, reconhecendo que não podia luctar com vantagem, porque lhe -faltavam artilheria, posições e meios de communicação, deu ordem para -retirar. A retirada foi desordenada e desastrosa, dil-o Lafuente, e a -derrota haveria sido completa, se a cavallaria portugueza carregasse -sobre o inimigo.[34] Uma companhia de byscainhos chegou a suspeitar de -traição por parte dos generaes castelhanos, e violentamente foi arrancar -o rei de entre elles, quando todos estavam conferenciando n’uma egreja. -Ainda assim, Fernando soffrera, em sua gente e carriagem, muito damno e -perda.[35] - -O castello de Touro rendera-se, finalmente, ao apertado cerco que -lhe puzera Affonso V. Em varios pontos, aqui e alli, rompiam-se as -hostilidades; e os povos da Estremadura hespanhola e da Andaluzia -faziam varias incursões sobre Portugal, como represalia de guerra. Em -Burgos, a cidade estava por D. Isabel, mas o castello estava por D. -Joanna. Fernando, a fim de attenuar a má impressão de Touro, foi cercar -o castello, que se julgava uma posição importante, no presupposto de -que Luiz XI acommettesse por Guipuzcoa. Affonso V, a instancias da -duqueza de Arévalo e do arcebispo de Toledo, deixou D. Joanna em Samora, -e dirigiu-se a Burgos para soccorrer o castello. Encontrou, porêm, a -tomarem-lhe o passo reforços isabelistas em Baltanás, aos quaes Affonso -V deu combate, pondo cerco á villa. A peleja foi renhida. Os portuguezes -combatiam a pé, só o rei de Portugal estava a cavallo. Morreu ahi D. -Alvaro Coutinho, filho do marechal, mas em compensação ficou prisioneiro -o conde de Benavente, cunhado do marquez de Vilhena, que, por segurar a -vida, diz Pina, constrangidamente a veio em pessoa pedir a Affonso V, de -cima do muro, e o portuguez de viva voz lh’a outorgou. - -A condessa de Benavente, ao saber do captiveiro do marido, exaltou-se a -tal ponto que escreveu a Fernando o Catholico, pondo á sua disposição -e obediencia todas as villas e fortalezas dos seus estados, que eram -grandes. Assim, a paixão politica, como quasi sempre acontece nas guerras -civis, abria barreiras profundas no seio de uma mesma familia! A condessa -de Benavente era irmã do marquez de Vilhena. - -As finanças de Portugal e Castella estavam seriamente compromettidas, em -ambos os paizes, por causa da guerra. Isabel reunira côrtes em Medina -del Campo, no mez de agosto e, não podendo já impor aos povos novas -contribuições, appellou para o clero, propondo-lhe que entregasse ao -thesoiro a prata de todas as egrejas de Castella, promettendo remil-as -em tres annos por amortização de trinta contos de maravedis. O clero -annuiu promptamente. Por sua parte, Affonso V, depois de haver tomado a -villa de Cantalapiedra, e de se ter recolhido a Samora para hibernar, -tendo gasto já todos os recursos com que sahira de Portugal, teve de -«soccorrer-se aos dinheiros dos orfãos dos seus reinos, e a outros muitos -d’emprestimos particulares», que por seus officiaes foram logo levados a -Castella.[36] Accrescenta Ruy de Pina que o principe D. João, depois que -foi rei, pagou, como piedoso filho, todos estes encargos _quanto poude_. -Mas tambem D. João, quando resolveu ir soccorrer seu pae, teve de tomar -de emprestimo a prata das egrejas, a exemplo do que fizera em Castella -D. Isabel.[37] Esta desastrosa guerra parecia destinada a arruinar as -finanças de Portugal. Em treze mezes, o exercito mobilizado contra -Castella havia de custar ao paiz duzentas setenta e cinco mil dobras.[38] - -O principe D. João, ao mesmo passo que tinha de reger os negocios -internos do reino e de levantar recursos para acudir a seu pae, via-se -a braços com as incursões armadas que alguns cavalleiros castelhanos -faziam pela fronteira. Uma d’essas incursões dirigiu-se contra a villa -de Ouguella, morrendo na refrega o brioso fidalgo João da Silva, -camareiro-mór do principe. - -Em Castella, D. Isabel entabolava negociações com o alcaide das torres -e portas da ponte de Samora, para que se entregasse, procurando assim -arrancar a Affonso V uma das mais importantes fortificações que tinham -voz por elle. Fernando estava no cerco de Burgos, e, sabendo dos planos -de sua mulher, fingia-se doente para lhe dar tempo a negociar a compra do -alcaide da ponte de Samora. - -Affonso V havia mandado recado a seu filho para em Samora conferenciarem -sobre negocios de Estado. - -D. João deu-se pressa em partir, e já tinha chegádo a Miranda do Douro, -quando por Vasco Chichorro, o qual de noite atravessou o Tejo a nado, seu -pae lhe mandou dizer que retrocedesse, porque seria victima de traição na -passagem da ponte de Samora. Esta ponte tinha nos extremos duas torres -que estavam combinadas para apertar o principe real entre ambas, quando -elle passasse com a sua gente. Eis no que consistia a traição preparada -por Isabel. Affonso V indignou-se, e atacou os castelhanos, mas por este -facto teve occasião de reconhecer que não podia contar com a lealdade dos -habitantes de Samora, pelo que resolveu mudar-se, com a _Beltraneja_, -para Touro, onde o alcaide os recebeu amavelmente. - -O principe real ficou vivamente contrariado com o caso da ponte de -Samora, e pensou logo em tirar desforra d’esse projecto de attentado -contra a sua vida. Retirando sobre a cidade da Guarda, ahi reuniu -conselho, resolvendo-se enviar novos auxilios a D. Affonso V, para o que -foi preciso tomar, como dissemos, toda a prata das egrejas e mosteiros, -com excepção d’aquella que era indispensavel á dignidade do culto; bem -como se tomou dinheiro de emprestimo a particulares. E não sem grandes -dores e gemidos do povo, que o muito sentiam, diz Ruy de Pina. Feitos -estes preparativos, o principe D. João, deixando sua mulher como regente -do reino, partiu no mez de janeiro de 1476 para Castella, a encontrar-se -com o rei, ao qual ia reforçar, tomando na passagem a villa de S. -Felizes, que saqueou. - -Entretanto, el-rei D. Fernando e a rainha D. Isabel entraram em Samora, e -puzeram cerco ao castello, que tinha voz pelo rei de Portugal. O desejo -de Affonso V era ir em soccorro da fortaleza, que D. Fernando parecia -disposto a disputar-lhe palmo a palmo. - -D. Affonso estava em Touro, como sabemos, e logo que o principe D. João -ahi chegou pensou-se em ir effectivamente defender o castello de Samora, -mas, depois de ponderados os prós e os contras, achou-se que o melhor era -pôr cerco á ponte da outra banda do rio, causando assim grande damno a D. -Fernando e aos da cidade. - -Uma vez assenhorado de Samora, tratou Fernando de combater o castello, -que se conservava fiel a Affonso V, e d’ahi escreveu a seu pae, João II, -de Aragão, pedindo-lhe que mandasse auxilios para Burgos, cujo castello -não se tinha ainda rendido. - -Diz Lafuente, que Affonso V se não mostrara adverso a uma reconciliação, -sob condição de que lhe seriam entregues as praças de Touro e Samora, e -aggregada a Galliza a Portugal, mas que D. Isabel se recusara a alienar -um só palmo que fosse de territorio castelhano. - -Lafuente trata este assumpto muito por alto, mas Damião de Goes dá -interessantes pormenores que convem recordar. - -O cardeal de Castella, D. Pedro de Mendonça, escrevera a Affonso V -exhortando-o a fazer a paz, e offerecendo-se para medianeiro. Era facil -perceber que esta proposta partia dos reis catholicos, sob a impressão -de desanimo que produzira a precipitada retirada de Touro para Medina -del Campo. Affonso V annuiu, e perguntou se Isabel e Fernando tinham -conhecimento d’essa proposta, e quaes deveriam ser as condições da -paz. Respondeu o cardeal que Fernando e Isabel obtemperavam, mas que -as condições as formulasse Affonso V. O rei de Portugal pediu com -largueza, aproveitando a situação: queria Touro, Samora e a Galliza; -exigia uma indemnização de guerra, e a restituição de todas as honras e -estados que pertenciam aos fidalgos castelhanos bandeados com o partido -da _Beltraneja_. Isabel oppoz-se á alienação de qualquer territorio -castelhano, porêm sujeitava-se á indemnização de guerra e á rehabilitação -dos fidalgos castelhanos que estavam com Affonso V. Promettia tambem para -D. Joanna o dote que se arbitrasse, hypothecando a este encargo as terras -que fossem precisas. - -Damião de Goes, conclue: «Estes recados andaram por alguns dias de uma e -de outra parte, sem se em nada poder tomar conclusão, pelo que a guerra -se ateava cada vez mais, fazendo-se de uma e de outra parte grandes -damnos, sem se a tamanhos males poder dar algum remedio».[39] - -Seria talvez esta proposta de paz que fez com que Luiz XI procurasse -intimidar Fernando e Isabel. Diz Lafuente que Affonso V _havia -manhosamente entabolado tratos de mediação e de concordia_ com D. João -II, de Aragão, para entreter Fernando, emquanto o principe D. João não -chegava de Portugal com reforço, e Luiz XI não atacava pela fronteira -franceza o reino de Aragão. - -O que é certo é que Affonso V conseguira tratar com Luiz XI uma liga -offensiva contra o aragonez. Luiz XI aproveitava o ensejo para se -collocar n’uma posição que pudesse ser-lhe vantajosa em qualquer dos -casos. Assim, em setembro de 1475, ficara concertado que o rei de França -ajudaria ao de Portugal na conquista dos reinos de Castella e Leão, -com as condições seguintes: «Que todas as cidades, villas, logares, -castellos e fortalezas que fossem tomadas ou conquistadas por terra e -por mar pelas tropas d’el-rei de França, nos dominios do reino de Aragão -e de Valencia, seriam sem difficuldade entregues e restituidas a el-rei -de Portugal, e ficariam para sempre pertencendo a esta coroa. E pelo -mesmo teor que todas as cidades, villas, logares, castellos e fortalezas -do principado da Catalunha e condado do Roussillon e Sardenha, ilhas de -Mayorca, Minorca e Iviça, as quaes cahissem em poder dos portuguezes, -seriam entregues a el-rei de França, para ficarem para sempre annexas á -sua coroa.»[40] - -Luiz XI, tendo feito treguas com o duque de Borgonha, por um tratado em -que o rei de Portugal fôra incluido como alliado do duque, principiou a -dar maior attenção aos negocios da Peninsula, sob o doble ponto de vista -da sua exclusiva conveniencia. Foram, pois, renovados os antigos tratados -de paz e amizade entre os reinos de Castella e Leão e o de França, -figurando Affonso V na qualidade de rei de Castella. No mez de dezembro, -Luiz XI promulgara uma carta patente declarando ter resolvido mandar, em -auxilio do rei de Portugal, um bom e grande exercito, tanto por mar como -por terra, a Guipuzcoa e Byscaia, ou aonde fosse necessario, nomeando -para commandante em chefe da expedição a sire d’Albret (Alano Grande, pae -do rei de Navarra), com poderes amplissimos.[41] - -O que é certo é que Luiz XI, não obstante todas estas suas promessas, -se limitara a mandar para a fronteira hespanhola um exercito que -parecia manobrar de concerto com a doblez do _bom rei Luiz_, porisso -que, fazendo-lhe frente os guipuzcoanos e os byscainhos, retirava para -Bayona... á espera dos acontecimentos. - -Quando o principe D. João de Portugal, levando comsigo um exercito -de oito mil infantes e dois mil cavallos, _gente mal armada e pouco -aguerrida_, diz Lafuente, fôra juntar-se com seu pae em Touro, o castello -de Burgos, depois de haver sido atacado por D. Affonso de Aragão, irmão -de Fernando, rendia-se. E, segundo o testemunho do mesmo historiador, -pouco faltou para que a propria praça de Touro se entregasse a D. -Fernando, que uma noite se approximara dos muros da cidade com essa -esperança. Parece fóra de duvida, como mais adeante veremos, que D. -Fernando pensava em apoderar-se da pessoa da _Beltraneja_. - -É ainda Lafuente que nos diz, que D. Affonso V se _envalentonara_ tanto -com a chegada do filho, que enviou um arrogante manifesto ao papa, ao rei -de França e aos seus parciaes de Castella e Portugal, jactando-se de que -não tardaria a derrotar Fernando e Isabel. Não encontro, comtudo, nos -historiadores portuguezes noticia d’este _manifesto arrogante_. - -Deixemos, porêm, Affonso V e seu filho no cêrco que foram pôr á ponte -de Samora, na margem do Douro. D. Joanna havia ficado em Touro, sob a -guarda do duque de Bragança e do conde de Villa Real. Cruzava-se o fogo -dos portuguezes contra a ponte, com o dos castelhanos contra a margem -opposta. Procedentes de Burgos, tinham chegado de reforço aos castelhanos -D. Affonso de Aragão e o infante D. Henrique, aos quaes se unira o conde -de Benavente, livre já. A situação era dolorosa para ambos os exercitos, -ao mesmo tempo sitiados e sitiadores. - -Ruy de Pina diz que, n’estas circumstancias, houve uma entrevista, n’uma -insua do rio Douro, para concertos de paz, entre cavalleiros portuguezes -e castelhanos, mas que não foi possivel chegar a resultado satisfactorio. -Outra versão diz que a entrevista seria entre os dois reis, estando cada -um em sua barca, como acontecera com D. Fernando de Portugal e Henrique -III, de Castella, mas que, pela força da corrente, a barca de Affonso V -se não pudera approximar da barca que conduzia o marido de Isabel. - -O portuguez, conhecendo que a sua posição era insustentavel, porque -já os mantimentos iam escaceando, e porque recebeu denuncia de que D. -Fernando pensava em fazer uma sortida sobre Touro para apoderar-se de D. -Joanna,[42] resolveu levantar o acampamento na madrugada da primeira -sexta-feira de março de 1476, em direcção áquella cidade, depois de haver -cortado a extremidade da ponte de Samora. Esperava Affonso que o exercito -castelhano o seguisse. Assim aconteceu. Diz Pina que o principe D. João -ardia em desejos de dar batalha; o mesmo assevera Lafuente a respeito de -D. Fernando, apesar dos conselhos que lhe dava seu pae, o rei de Aragão, -o qual lhe recommendava o systema que empregou Fabio Maximo, _Cunctator_, -fatigando e desalentando os exercitos de Annibal. - -Não se enganou Affonso V. Fernando demorara-se apenas tres horas, o tempo -preciso para reparar o damno feito á ponte. Ao cahir da tarde, o exercito -castelhano avistou o exercito portuguez, a tres leguas de Touro, no -momento em que aquelle exercito sahia de um apertado passo entre o rio e -a serra. O conde de Loulé acudiu a escaramuçar com os castelhanos, para -lhes difficultar a passagem, mas ficou tão gravemente ferido que teve de -ser recolhido a Touro. - -Affonso V e seu filho prepararam-se então para dar batalha, posto que -muita da sua gente, mais avançada na marcha, já tivesse entrado em Touro, -e outra houvesse lá ficado de guarda a D. Joanna. - -O exercito portuguez dispoz-se d’este modo: na vanguarda, os continuos -e familiares da casa do rei, e alguns cavalleiros castelhanos, de que -era capitão Ruy Pereira; logo em seguida o conde de Faro D. Affonso com -a sua gente e outra que el-rei lhe ordenou; á esquerda da vanguarda -o principe D. João com a flor do exercito, seguindo-se a esta ala do -principe a do bispo de Evora, D. Garcia de Menezes, com muitos bésteiros -e espingardeiros; depois, o rei D. Affonso com a bandeira real, e á mão -esquerda o arcebispo de Toledo com a sua gente, logo seguido pela do -duque de Guimarães e do conde de Villa Real, commandando a retaguarda -D. João de Castro, conde de Monsanto. A peonagem ficara repartida por -quatro secções, toda da banda do rei. - -Vejamos agora qual a disposição do exercito castelhano. - -Na vanguarda, todos os continuos da casa real, e a gente da Galliza, -Ulmedo, Medina del Campo, Valhadolid, Salamanca, Ciudad Rodrigo e Samora, -sob o commando de D. Henrique, que levava a bandeira real de Castella e -Leão. Seguiam-se dez alas, quatro grandes e seis menores. - -Notou o principe D. João que uma das seis alas menores do exercito -castelhano se destacava como para de refresco acudir ás outras, se fosse -necessario. Assim fez tambem, mandando apartar a gente que julgou precisa -para o mesmo fim. - -Affonso V, depois de ter ordenado as alas do seu exercito, retirou-se, -por conselho dos seus, para um oiteiro, d’onde pudesse assistir á -batalha, e salvar-se a tempo no caso de desastre. - -Veiu então ao acampamento portuguez um rei de armas de D. Fernando -desafiar Affonso V. O portuguez respondeu: «Dizei ao principe da Sicilia -que é mais tempo de nos encontrarmos do que de mandar desafios.» - -A luz do dia principiava a faltar, não só porque o sol tocava o occaso, -mas tambem porque o céo se conservava carregado de grossas nuvens. Cahia -uma chuva miuda. O scenario d’este drama de odios politicos prestes a -desencadearem-se, era lugubre, como se vê. - -O principe D. João e D. Pedro de Menezes arremessaram-se impetuosamente -contra as alas menores do exercito de Castella. Gonçalo Vaz de -Castello-Branco fôra o primeiro portuguez que lograra romper as fileiras -castelhanas. O fumo das descargas augmentava a escuridão do ar. Gritos -de guerra, como rugidos de leões, atroavam o campo de batalha. Os nossos -invocavam S. Jorge e S. Christovão;[43] os castelhanos clamavam por S. -Tiago e S. Lazaro. _Traidores, aqui está o cardeal!_ gritava o cardeal de -Hespanha, provocando os castelhanos que pelejavam no exercito portuguez. -E um d’esses castelhanos era, como elle, um prelado da Egreja, o -arcebispo de Toledo. - -Rotas pelo esforço dos nossos as fileiras castelhanas, com uma bravura -que os proprios chronistas hespanhoes não podem desmentir, os soldados de -Fernando e Isabel acolheram-se, fugindo, ao centro do exercito. - -D. Affonso V, electrizado pelo enthusiasmo da contenda, lançara-se -no combate, seguido pelo conde de Faro. Lafuente diz que D. Fernando -investiu com furia contra o sitio onde se ostentava o estandarte real -dos portuguezes. Garcia de Rezende diz, porêm que D. Fernando, vendo -o desbarato que o principe D. João produzira no exercito castelhano, -tratou de acolher-se a Samora. Ruy de Pina faz egual affirmação. Segundo -a opinião de Lopes de Mendonça,[44] que de todo o ponto achamos fundada, -o consenso dos escriptores portuguezes dá-nos o direito de duvidar da -palavra de D. Fernando quando diz em carta dirigida á cidade de Baeza: -«E eu com os dictos grandes e cavalleiros que commigo se acharam na -batalha, estivemos no campo por espaço de tres ou quatro horas regendo -o campo, e assim me volvi com victoria e muita alegria a esta cidade de -Samora aonde cheguei á uma depois da meia noite, etc.» - -«Mesclaram-se então todas as lanças e todos os corpos, diz Lafuente, -pelejando com o encarniçamento de dois povos enfurecidos por uma antiga -rivalidade. O pendão das quinas portuguezas foi arrancado pelos esforços -do intrepido Pedro Vaz de Sottomayor; valoroso até ao extremo era o -alferes Duarte de Almeida que o desfraldava; depois de haver perdido o -braço direito, susteve com o esquerdo o pendão, e quando perdeu ambas -as mãos apertou-o fortemente entre os dentes até que perdeu a vida, -feito este que nos recorda outro só exemplo por nós consignado em nossa -historia.»[45] - -Pulgar diz que Duarte de Almeida fôra feito prisioneiro e conduzido -a Samora. Marianna affirma que a armadura d’este brioso cavalleiro -portuguez se via, ainda no seu tempo, na cathedral de Toledo, _como -trophéo d’aquella insigne façanha_. D. Fernando, na carta dirigida á -cidade de Baeza, diz, referindo-se ao rei de Portugal: «... foi derrubado -e tomado o seu pendão das armas reaes e morto o alferes...» - -Vejamos, porêm, o que d’esta façanha de Duarte d’Almeida tem podido -apurar a critica dos escriptores portuguezes até á hora em que escrevemos. - -Arrancado das mãos do alferes-mór, o estandarte portuguez seria o mais -completo testemunho da victoria castelhana, e fluctuando desenrolado -afugentaria, de vergonha e desalento, os soldados portuguezes. Mas Duarte -d’Almeida perfeitamente comprehendia a grande, a enorme responsabilidade -do seu posto. Bem sabia elle que preso áquelle estandarte andava desde -Santarem e Ourique, abençoado por Deus, o nome portuguez, e portanto -resolveu defender até á ultima gotta de sangue, se tanto fôra preciso, -esse precioso deposito que lhe confiara a patria. - -Aggridem, cercam, embrenham o valente alferes-mór as lanças castelhanas; -elle heroicamente resiste sobrepondo-se a essa cerrada floresta de -ferro, que lhe braceja contra o peito os seus farpões mortiferos. Todo o -empenho castelhano é arrancar-lhe o estandarte; portanto uma cutilada lhe -corta a mão direita. Vale-se da esquerda, e n’ella fecha o seu thesoiro. -Nova cutilada lhe decepa a mão esquerda. É um duello titanico, de um -contra mil, de um só homem contra um exercito. Duarte d’Almeida não -fraqueja, não cede, não cai. Toma o estandante portuguez entre os dentes, -e espera, defendendo-se, que lhe arranquem finalmente a vida para que -possam arrancar-lhe o estandarte. Multiplicam-se da parte dos castelhanos -os golpes, o desespero do inimigo attinge o seu maior grau, é indomavel, -feroz. Duarte d’Almeida cai, emfim, vencido pelos golpes repetidos e -certeiros, mas, como se não pudesse morrer um portuguez d’aquelles ás -mãos de castelhanos, Duarte d’Almeida não é ainda cadaver. - -Cahem em peso sobre o alferes-mór os inimigos; entre si disputam qual -ha de arrancar-lhe dos dentes, raivosamente cerrados, o estandarte -portuguez, que finalmente tremula na mão d’um fidalgo castelhano, -de appellido Sottomayor. Este improvisado porta-bandeira do rei -castelhano, alegremente corria, seguido d’um troço dos seus, para o lado -onde suppunha estar o rei Fernando, a fim de lhe entregar o glorioso -trophéo, quando o escudeiro portuguez Gonçalo Pires, com alguns poucos -portuguezes, acommette os de Castella, e arrebata a Sottomayor o -estandarte das quinas, travando-se entre todos combate que entre Gonçalo -Pires e Sottomayor foi singular. - -Entretanto Duarte d’Almeida era conduzido semimorto para o acampamento -inimigo, d’onde recebeu o primeiro curativo, e d’onde foi mandado para um -hospital de Castella. - -Regressando á patria, ao cabo de longos mezes, andava escripto nas -chronicas que elle não achara em Portugal _mais galardão que viver mais -pobre do que vivia antes_, como dizem, pouco mais ou menos, Duarte Nunes -e Damião de Goes, mas o sr. Camillo Castello Branco escreveu modernamente -nas _Noites d’insomnia_ ácerca do _Decepado_, com o proposito de mostrar -que elle não acabara tão pobre como se dizia. Conta este erudito -escriptor, que Duarte d’Almeida, voltando de Castella, onde fôra muito -honrado pelo rei Fernando, se recolhera ao castello de Villarigas, o -qual herdara de seu pae Pedro Lourenço d’Almeida, e não era o unico que -possuia, pois que tinha outro na quinta chamada de Cavallaria. Chegado a -Villarigas, o velho _Decepado_, que já ia adeantado em annos, encontrou -sua mulher D. Maria d’Azevedo, filha do senhor da Lousã, Rodrigo Affonso -Valente e de D. Leonor de Azevedo, que grandes haveres herdara de sua -tia D. Ignez Gomes d’Avellar, e á volta da esposa encontrou tambem o -_Decepado_ os seus dois filhos, Affonso e Ruy. Até aqui isto serve apenas -para mostrar que Duarte d’Almeida não vivia pobre _antes_ da batalha de -Touro, tanto mais que Affonso V, estando em Samora no anno anterior a -esta batalha, lhe fizera mercê, pelos seus grandes serviços, para elle -e seus filhos, de um reguengo no concelho de Lafões. Todavia quer-nos -parecer que a ingratidão da patria subsiste, porque Duarte d’Almeida -ficou com o que tinha e... com ambas as mãos de menos. Affonso V, esse, -se estivesse em Portugal, havel-o-ia galardoado largamente, porque era -um mãos rotas, e tanto que o principe D. João, prevendo as prodigalidades -de seu pae, obteve d’elle um documento que declarava nullas todas as -doações que fizesse durante a guerra de Castella, e que excedessem dez -mil réis de renda. O galardão concedido em Portugal a Gonçalo Pires foi -o appellido de _Bandeira_ e o brazão de armas com bandeira branca, tendo -no centro um leão rompente, de oiro. Mas no _Decepado_, que provavelmente -pouco sobreviveu ao seu regresso, ou em seus filhos, não se fala. Em -Castella é que effectivamente elle foi honrado, porque D. Fernando mandou -pendurar na cathedral de Toledo as armas de que havia sido despojado -Duarte d’Almeida, e em Samora foi tratado, quando prisioneiro, com -grandissima distincção.[46] - -O sr. A. X. Rodrigues Cordeiro, que, a proposito de uma visita recente -á cathedral de Toledo, escreveu um artigo sobre _Duarte d’Almeida_, dá -noticia de existir n’aquelle templo uma armadura completa de cavalleiro, -que se presume ser a do _Decepado_, e uma bandeira, que alguns dizem ser -a portugueza, mas que se não vê, por estar resguardada n’uma bolsa de -tela. - -O illustre escriptor, e nosso amigo, não duvida de que a armadura seja a -de Duarte d’Almeida, mas refuta que a bandeira seja a portugueza, visto -que Gonçalo Pires a arrancou heroicamente das mãos de Sottomayor, como -testemunham os nossos chronistas. A bandeira, que se não póde reconhecer -por estar encerrada na bolsa, será porventura a que os castelhanos -tomaram aos moiros na batalha do Salado.[47] - -Havia mais de uma hora que o combate durava, sem que a victoria -parecesse pender para qualquer dos dois exercitos, quando a ala esquerda -do castelhano correu a reforçar a hoste real. Então a retaguarda do -exercito portuguez, em que pelejava o arcebispo de Toledo, correspondendo -ao movimento do inimigo, correu a auxiliar Affonso V, engrossando a -fileira para aparar o embate. A peleja reaccendeu-se fogosa. Mas o -choque da fuzilaria e da cavallaria castelhanas foram de tal ordem, que -desconcertaram as fileiras portuguezas. - -Affonso V quiz, verdadeiramente allucinado, lançar-se contra o grosso do -exercito castelhano, onde certamente haveria encontrado a morte. Não lh’o -consentiram, porem, alguns fidalgos. - -A noite tinha, entretanto, cahido tenebrosa, como estivera o dia. E, -receosos de que alguma força castelhana lhes cortasse a retirada, os -fidalgos que acompanhavam o rei, partiram para Castro Nunho. - -Muitos cavalleiros portuguezes tentaram atravessar o Douro para -acolher-se a Touro. Talvez cerca de mil e duzentos morreram afogados -n’essa empresa, em que o desanimo devia quebrantar-lhes as forças. - -O principe D. João, reunida toda a gente que poude, deixou-se ficar no -campo até ao romper d’alva, tendo mandado accender fogueiras e soar os -clarins. O seu desejo era empenhar-se n’uma nova batalha. Mas o exercito -castelhano retirara para Samora, juntamente com o rei D. Fernando, ou -depois do rei. Assim, por conselho do arcebispo de Toledo, o principe, -que desejara demorar-se tres dias no campo, reduziu os tres dias a tres -horas, «por comparação que trouxe (o arcebispo) da resurreição de Nosso -Senhor, diz Ruy de Pina, que foi depois da morte tres dias não todos -inteiros.» - -É, porem, certo, que a batalha de Touro não tivera uma importancia -militar de tal ordem, que por si só pudesse resolver definitivamente -tão grave pendencia internacional. «A batalha de Touro, portanto, -escreve Lopes de Mendonça, em que ambos os adversarios se proclamaram -vencedores, parecendo á primeira vista ter sido decisiva para a questão, -não foi senão um successo de guerra, bastante duvidoso para qualquer -dos partidos, e que pouco significaria para o desenlace d’esta grave -lucta, se a causa de D. Affonso V não estivesse já perdida pela defecção -successiva dos seus partidarios, pelas repugnancias nacionaes contra o -dominio portuguez, e pela influencia que Isabel de dia para dia adquiria -entre a burguezia, e as classes populares.» - -É certo que deserções importantes tinham aggravado a situação de Affonso -V. O marquez de Vilhena, como Affonso, recusara o conselho de penetrar -com o exercito portuguez até Madrid; tratou, julgando perdida a causa -da _Beltraneja_, de bemquistar-se com Fernando e Isabel, mediante a -condição de lhe serem restituidas suas terras e rendas. Os duques de -Arévalo passaram-se tambem para o partido de Isabel. Só permanecera fiel -a Portugal o arcebispo de Toledo que, depois da refrega, se recolhera aos -seus estados, que tinham sido invadidos pelos exercitos de Castella. - -Lafuente faz sentir que as condições do exercito portuguez na batalha de -Touro lhe eram sobremodo favoraveis. - -Esta asserção é apenas um echo do que o proprio D. Fernando escrevera -na sua carta á cidade de Baeza: «... e como quer que muitos cavalleiros -dos que commigo estavam eram de parecer que eu não devia dar batalha -pelas muitas vantagens que o dicto meu adversario tinha para ella, assim -porque na verdade era _mais gente em numero que a que commigo estava, -como porque as minhas gentes iam cansadas e a mór parte da peonage que -commigo sahiu fôra deixada no caminho pela grande pressa que levavamos -para alcançal-o, e por não levar commigo artilheria alguma, e era quasi -sol posto e estava tão proxima a cidade de Touro d’onde elle e os seus se -podiam recolher sem muito damno, uma vez que fossem vencidos_...» - -É preciso contrapôr, porem, a estas considerações do rei de Castella -o que D. João de Portugal escreveu ao concelho de Evora sobre o mesmo -assumpto: «... e depois de todos assim de uma parte como da outra serem -em campo, _ainda que os contrarios tivessem vantagem, por terem as costas -em serra e por terem mais gente de pé, porquanto a sua_ (do rei D. -Affonso seu pae) _era já toda em a cidade de Touro, e assim mesmo alguma -de cavallo que fôra adeante com a fardage, pelo qual os contrarios tinham -de vantagem bem sete ou oito lanças_...» - -Assim, pois, acabou a batalha de Touro em que bem podiam ter succumbido -o rei e o principe de Portugal. Se tal houvesse acontecido, quem póde -calcular as complicações politicas em que se veria lançado o paiz, dadas -as represalias de Castella, e a menoridade do neto de Affonso V? - - - - -VII - -O RATO NAS MÃOS DO GATO - - -Dom Fernando retirou, como dissemos, para Samora, e avisou do resultado -da batalha sua mulher, que estava em Tordesilhas. D. Isabel, recebendo -a noticia, ordenou que se fizesse uma procissão, em acção de graças, -á egreja de S. Paulo, indo ella propria a pé, e descalça. Mais tarde, -Fernando e Isabel fundaram, pelo mesmo motivo, o mosteiro de _San Juan -de los Reyes_, obra grandiosa, diz Lafuente, que ainda hoje se admira, -apesar das deteriorações que tem soffrido. - -É para notar a circumstancia de que ambos os belligerantes se julgassem -vencedores, e agradecessem a Deus o triumpho alcançado. - -O principe D. João, de Portugal, depois de acclamado rei, ordenou ao -concelho de Evora que em cada anno, nos primeiros dias do mez de março, -se fizesse uma solenne procissão para commemorar a batalha de Touro. Diz -o documento: «... e querendo nós ácerca desto nom menos fazer grato e -reconhecer a Nosso Senhor o que em nossos dias e presenças nos fez de -mercês com a batalha que houvemos em o reyno de Castella entre Touro -e Samora; ordenamos e mandamos que daqui em deante em louvor de Nosso -Senhor, e da Bemaventurada Virgem Maria sua Madre, e de S. Jorge e de -S. Christovam que o dicto dia traziamos por nosso padroeiro e nome, que -em cada um anno nos dois dias de março em que foi a dicta batalha, a -Cleresia toda dessa cidade façaaes solenne procissão...» etc.[48] - -Frei Francisco Brandão diz que na batalha de Touro pertencera a Portugal -a gloria do vencimento, e a Castella o util da herança. É uma engenhosa -maneira de conciliar as coisas. - -Em Lisboa tambem se fazia uma procissão para commemorar a supposta -victoria de Touro. D. João II mandou suspender a procissão quando em -1491 seu filho casou com a filha de Fernando e Isabel, porque, por esse -casamento, _todalas coisas passadas ouverom fim_, diz o proprio D. João -II. - -É verdade que o voto da procissão podia até certo ponto explicar-se, -segundo as idéas do tempo, pelo facto de não ter soffrido damno algum a -pessoa do rei Affonso, de quem por algumas horas se ignorou o destino -na cidade de Touro, depois de finda a batalha. «Sendo já passado bom -pedaço do dia (seguinte), o principe chegou a Touro com a bandeira real -despregada, a o qual, como foi conhecido, o duque (de Guimarães) e o -conde (de Villa Real) vieram abrir as portas da cidade, e foi recebido -n’ella assim da rainha D. Joanna como de todas as mais pessoas com -assaz tristeza, por até então não terem novas nenhumas do que era feito -d’el-rei D. Affonso, e principalmente o duque de Guimarães que, depois -do principe ser em seu aposento, perante elle, e de todos os que com -elle estavam, depenando as barbas, e os cabellos da cabeça, fez grandes -prantos e lamentações, perguntando a os que fugiram da batalha, com -muitas lagrimas, por el-rei D. Affonso, dizendo-lhes que mal se poderiam -chamar cavalleiros, pois não sabiam dar conta nem recado de seu rei, -senhor e capitão, no que se passou um bom pedaço, sem o ninguem poder -acalentar, salvo o principe (postoque tivesse mór dor e tristeza que -nenhum dos da companhia), que com palavras prudentes fez tanto que o -duque cessou de se queixar mais do que o já tinha feito.»[49] - -Mas, quando estavam todos n’esta incerteza, chegou recado que o rei -mandava de Castro-Nunho ao principe. Logo, como a noticia foi recebida, -repicaram os sinos na cidade, soando trombetas e atabales, que _toda a -perda da batalha se teve por nada em comparação de ser salva a pessoa -d’el-rei_, diz Goes, phrase que até certo ponto póde explicar a origem da -procissão de Evora. - -Escreve Lafuente que o principe D. João recolheu a Portugal com -quatrocentos ginetes, «acompanhado de sua prima D. Joanna.» Os chronistas -portuguezes Ruy de Pina e Damião de Goes, parecendo este ultimo muito -bem informado, não dizem o mesmo. Segundo elles, o principe partiu na -semana santa de Touro para Castro Nunho, passando o rio em uma barca, e -os cavallos e bestas a nado, no sitio chamado Rico Vau. Na Paschoa estava -D. João em Miranda do Douro. D’ahi foi á Guarda, onde se avistou com -sua mulher D. Leonor. Descançou na Guarda alguns dias, sahindo depois -a correr todos os logares da fronteira, provendo ao que lhe parecia -necessario a fim de prevenir qualquer invasão. - -D. Fernando resolveu pôr cerco a Cantalapiedra, onde estavam ainda muitos -fidalgos portuguezes. E D. Affonso, que se conservava em Touro, sabendo -que D. Isabel havia de passar de Madrigal para Medina, preparou-lhe uma -cilada, _aforrado com seis mil lanças_, mas porque o duque de Bragança -com outros, antes de tempo se descobriram, os castelhanos, conhecendo a -cilada, recolheram precipitadamente a Madrigal. - -Abhorrecido por esta nova contrariedade, Affonso V partiu para Portugal -no principio do mez de junho de 1476, acompanhado pela _Beltraneja_. -Affonso V seguiu o itinerario de seu filho. Sahiu de Touro para Castro -Nunho, e veio passar a festa do Corpo de Deus a Miranda do Douro. Depois -ordenou que D. Joanna partisse para a Guarda, acompanhada do bispo de -Vizeu e do conde de Villa Real. Da Guarda, por ordem do rei, passou D. -Joanna para Coimbra, onde o principe D. João a visitou, e de Coimbra -passou finalmente para Abrantes, ao tempo que já o principe ia em caminho -do Porto, onde Affonso V estava fazendo preparativos de viagem para -França. - -Julgara Affonso V que, indo em pessoa pedir auxilio a Luiz XI, lograria -attrahil-o á sua causa mais efficazmente do que a diplomacia pudera -fazel-o. Do Porto, enviou a França Pedro de Sousa a notificar a sua -resolução ao rei Luiz, e, despedido o emissario, veio D. Affonso embarcar -em Lisboa no mez de agosto. A armada que o devia acompanhar compunha-se -de dezeseis navios, com dois mil e duzentos homens. O rei ia a bordo de -uma urca preparada para recebel-o. - -Arribou a Lagos a armada. Ahi, um celebre corsario francez d’esse tempo, -de nome Cullom, já antigo conhecido de Portugal por serviços prestados -em Ceuta, cumprimentou Affonso V, de quem foi recebido graciosamente. De -Lagos velejou a armada para Ceuta, e de Ceuta para França, com destino a -Marselha; chegada porem a Collioure, onde arribara por causa do tempo, -despediu-a Affonso V. Em Collioure, um capitão do exercito francez sahira -ao encontro do rei de Portugal para lhe dar as boas vindas em nome de -Luiz XI. - -De Collioure jornadeou Affonso V para Perpignan, onde com grandes -honras foi acolhido pelas auctoridades locaes. De Perpignan passou por -Narbonne, Montpellier, Besiers e Nimes, seguindo d’aqui para Leon, vindo -encontral-o ao caminho o duque de Bourbon. D. Affonso não entrou em -Leon por causa da peste, e logo em Roanne recebeu outro enviado do rei -que lhe dava as boas vindas. Depois dirigiu-se a Bruges, onde descançou -alguns dias, e novos enviados de Luiz XI foram encarregados de lhe -fazer companhia. O logar da entrevista dos dois monarchas devia ser -Tours, e para ahi se dirigiu Affonso V, mas Luiz XI, pretextando uma -romaria, deixou varios cortezãos encarregados de receber o rei portuguez. -Visivelmente Luiz XI queria preparar effeitos scenicos, fazer esperada a -sua presença, tomar-se desejado. - -Quando Affonso soube que Luiz XI se approximava, quiz sahir á rua, -ou pelo menos á escada, para o receber, mas o rei de França mandara -adeante dois fidalgos para impedir que Affonso V levasse tão longe a sua -cortezia. N’este facto revela-se perfeitamente o caracter de Luiz XI, -assim como o globo enorme do sol se espelha ás vezes n’uma pequena gotta -d’agua. Luiz XI fizera-se esperar; agora, mostrava-se requintadamente -cortez, quasi humilde. N’este traço está effectivamente concretizado o -caracter de Luiz XI, tal como elle resalta do perfil d’este rei traçado -pelos historiadores, e até pelos romancistas. O seu reinado foi um -combate de todos os dias, como diz Augustin Thierry,[50] pela causa da -unidade do poder e do nivelamento social, mas combate sustentado á -maneira dos selvagens, pela astucia e pela crueldade. D’ahi vem, observa -o historiador, a mistura de interesse e de repugnancia que excita em nós -este caracter tão extranhamente original. - -Finalmente os dois soberanos encontraram-se a meio de uma sala. A -_mise-en-scène_ d’esta entrevista é curiosa. «El-rei de França, diz Ruy -de Pina, vinha com um só barrete na cabeça, tendo já d’ella tirado um -chapéo e duas grandes carapuças, e trazia solto um saio curto de mau -panno, e á cinta uma espada d’armas muito comprida, com a guarnição -de ferro limada, e umas botas calçadas, e nos pés as esporas do mesmo -jaez da espada, e ao pescoço uma beca de chamalote amarello, forrada de -cordeiras brancas muito grosseiras, e suas calças brancas ante-talhadas -de muitas côres. E ambos os reis com barretes nas mãos se abraçavam -inclinando os joelhos muito baixos.» - -Como se vê, sobre ser original é pouco magnificente a _toilette_ do rei -de França. Accentua-se n’ella um tom de humildade, que convinha agora -a esse grande diplomata do seculo XV, para attrahir a si a victima -imprevidente. - -Depois de conversarem algum tempo, retiraram-se os dois soberanos a uma -camara, onde Luiz XI indicou a Affonso V o que sem perda de tempo elle -devia fazer. Era, a seu juizo, o seguinte: - -1.º Que o monarcha portuguez iria pedir ao duque de Borgonha, que então -estava em guerra com o de Lorena, que o ajudasse contra Castella, ou que -ao menos se compromettesse a não atacar o rei de França, que era pelo -duque de Lorena, emquanto Luiz XI guerreasse a favor do rei de Portugal. - -A inimizade de Luiz XI com o duque de Borgonha era antiga, e violenta. -Este duque havia despojado dos seus Estados o de Lorena, a quem Luiz XI -auxiliava secretamente contra o inimigo commum. - -«Quando D. Affonso V, escreve Pinheiro Chagas, intentava ingenuamente -reconciliar estes dois adversarios implacaveis, sitiara o duque de -Borgonha a cidade de Nancy, capital da Lorena, que se declarara pelo seu -legitimo senhor. Luiz XI ria-se _dans sa barbe_ da tentativa que o pobre -D. Affonso V ia emprehender, e esperava talvez que illudisse tambem -algum tanto Carlos de Borgonha, ao passo que as suas tropas caminhavam -secretamente com as do duque de Lorena, e que elle esperava, como o corvo -sinistro, os primeiros rumores d’uma derrota, para cahir sobre a presa -do campo de batalha, e cevar-se n’ella. Carlos de Borgonha, tinha só uma -filha, e Luiz esperava, com boas razões, apanhar-lhe a herança.»[51] - -2.º Que Affonso V obteria do papa a dispensa apostolica precisa para -casar com sua sobrinha D. Joanna, a fim de que elle pudesse _ir em sua -ajuda com menos cargo_, diz Ruy de Pina. Era esta mais uma astucia de -Luiz XI, porque elle bem sabia que Fernando e Isabel creariam em Roma -grandes difficuldades junto do Papa. Era um meio dilatorio, no fundo; um -expediente palliativo. - -A este tempo, já Luiz XI conhecia perfeitamente a credulidade -cavalleirosa de Affonso V. _Tomara-lhe o pulso_, como se diz em linguagem -vulgar. Começara então a fazer-lhe promessas e offerecimentos. Disse-lhe -que os castelhanos gostavam ás vezes de vender as fortalezas, e que -sempre lhe parecera melhor compral-as do que tomal-as. Que contasse com o -dinheiro que precisasse. E como fosse noite, e quando os dois sahiram da -camara já as tochas estivessem accesas, Luiz XI, imaginando proporcionar -a Affonso V uma noite bem passada, que o attrahisse mais para o prazer do -que para a questão de Castella, mandou pedir a Affonso V que acceitasse a -quantia de cincoenta mil escudos de oiro _para convidar qualquer gentil -dama, como era usança e cortezia de seu reino_. - -D. Affonso V recusou este offerecimento. Elle tinha tido uma educação -austera, sob a direcção de seu tio D. Pedro; havia estimado tanto D. -Isabel de Lencastre, sua mulher, que ella poude sempre resistir ás -malquerenças que tinha na côrte; elle era o guerreiro d’Africa, o -soldado, o homem forte; não estava costumado ao prazer, ás noites de -sensualidade que tanto embriagavam Luiz XI. Portanto recusara. - -A fim de tratar da dispensação para o casamento de Affonso V com sua -sobrinha D. Joanna, partiu para Roma uma embaixada composta de tres -representantes do rei de Portugal, os quaes iam animados da melhor fé, -e de dois do rei de França, os quaes naturalmente levavam instrucções -particulares para o pontifice. - -Ao mesmo tempo, Affonso V partia para Nancy, a fim de se avistar com -o duque de Borgonha, que, como já dissemos, estava em guerra com o de -Lorena, e acampado na baixa Allemanha. - -«E antes da sua partida, escreve Ruy de Pina, el-rei de França lhe disse -que pela pouca seguridade que tinha do duque de Borgonha, por ser muito -orgulhoso, duvidava que, tomando a cidade de Nancy, sobre que estava, -e destruindo o duque de Lorena, por seguir novidades quereria entrar -por França, e que com receios d’isto, pelos segurar, tinha sua gente na -frontaria, que daria causa a elle lhe não poder dar tanta ajuda, como sem -isso faria. Porem, que se por seu meio d’el-rei D. Affonso elles ambos -ficassem verdadeiros amigos, e se liassem por casamentos dos filhos, como -o duque por todas as razões devia querer, elle em sua ajuda poria a coroa -de França com todo o seu poder, e que el-rei devia requerer o duque, que -fosse com elle em pessoa; porque era bom capitão, e tinha muita gente e -singular intelligencia, e que sendo el-rei D. Affonso d’estas amizades -meio e segurador, cada um d’elles teria receio de os per si quebrar, pelo -não ter por contrario, _com os quaes muito cedo se faria pacifico rei de -Castella_.» - -Sobre o modo por que Affonso V foi recebido pelo conde de Borgonha, filho -de Philippe, o _Bom_, apartam-se as opiniões dos historiadores. - -Affonso V chegou ao acampamento a 29 de dezembro de 1476. - -A situação de Carlos de Borgonha era a esse tempo quasi insustentavel; o -desanimo lavrava no seu exercito, e a traição do conde de Campo Basso, -um perfido napolitano, preparava-lhe um laço. Não obstante, Carlos -recebeu de boa sombra o rei de Portugal, ao qual descreveu com vivas -côres o caracter astucioso de Luiz _XI_. Citou factos em abono d’estas -revelações, e contou a Affonso V como Luiz XI, aconselhando o pobre rei -portuguez a dirigir-se a Nancy, enviara logo atraz d’elle tropas de -soccorro ao duque de Lorena. Carlos de Borgonha mostrou-se altivamente -corajoso, dizendo que não se arrecearia de dar batalha a Luiz XI só com -um pagem; mas, para dar uma prova de affectuosa consideração a Affonso V, -não duvidava entrar em negociações de paz. - -Tal é a narração de Schœffer, e dos escriptores portuguezes. Mas tanto -Barante como Philippe de Commines dão outra versão, aliás muito mais -consentanea ao caracter de Carlos de Borgonha. Dizem estes chronistas que -elle respondera a Affonso V que sem demora se dirigisse a Pont-á-Mousson -para defender a cidade contra o duque de Lorena, o qual chegava da Suissa -com o seu exercito, emquanto elle Carlos de Borgonha esperaria o duque -deante de Nancy para o combater. - -Affonso V, surprehendido com a resposta, balbuciara desculpas: que não -tinha armadura, nem trouxera comsigo nenhum dos seus homens de armas. - -Desanimado, Affonso V partiu para Pariz. - -Entretanto chegava o duque de Lorena, e Carlos de Borgonha quiz dar-lhe -combate em campo raso. A traição do napolitano Basso vingara, e Carlos -cahira morto, com grande jubilo dos francezes, jubilo que contrastava com -a tristeza de Affonso V. - -E era fundada a tristeza do pobre rei portuguez. - -Luiz XI, sabendo da morte de Carlos de Borgonha, tratou de apossar-se -dos dominios que lhe pertenceram, de realizar a annexação por meio de -emissarios que para esse fim enviara ás cidades borgonhezas, e foi -installar-se em Arras, onde Affonso V lhe mandara pedir uma entrevista, -que foi concedida. - -Segundo o costume, não escacearam promessas nos labios de Luiz XI, mas -essas promessas eram todas mentirosas. Luiz XI importava-se então mais -com os despojos de Carlos de Borgonha do que com as pretensões de Affonso -V á coroa de Castella. - -Vimos que um dos assumptos tratados entre Luiz XI e Affonso V foram -as negociações a que devia proceder-se para obter em Roma a dispensa -indispensavel á consummação do matrimonio entre o rei de Portugal e sua -sobrinha. De feito, uma embaixada partiu para Roma, sendo composta do -conde de Penamacôr, de João Teixeira e Diogo de Saldanha, por parte de -Portugal, e de mr. de Saint-Vailler e do governador de Grenoble, por -parte da França. - -Partiram juntos, e por terra, os embaixadores, acompanhados de grande -sequito. O papa recebeu-os com muitas honras. - -Era natural, como dissemos, que os embaixadores de Luiz XI levassem -instrucções secretas para o pontifice. Ruy de Pina diz que o auxilio dado -por Luiz XI em Roma a Affonso V, n’esta pretensão, se houve sempre por -muito duvidoso. - -Fernando e Isabel contrariavam fortemente, junto da santa sé, a concessão -da dispensa pedida. O papa tergiversava com dilações, mas quando viu -desembaraçado o poder de Luiz XI pela morte de Carlos de Borgonha, -decidiu-se a conceder a dispensa em condições mais que muito duvidosas -para Affonso V. - -Permittia o pontifice que Affonso V pudesse casar _com qualquer donzella -que lhe fosse achegada em qualquer grau lateral de consanguinidade -ou affinidade, exceptuando o primeiro grau_. Esquivava-se o papa -artificiosamente a nomear D. Joanna, para não affirmar opinião sobre a -sua legitimidade. Mas não parava aqui a subtileza do pontifice; declarara -que concedia a licença apenas por comprazer com o rei de França, e que o -de Portugal não poderia aproveital-a sem que o rei de França fosse ouvido -como arbitro. - -Apertado mais tarde por Fernando e Isabel, que viram com maus olhos a -concessão de uma tal dispensa, o papa desculpou-se dizendo que n’aquelles -termos não a poderia negar a qualquer popular obscuro que a solicitasse; -que não deu a Affonso V o tratamento de rei de Castella, como elle -desejava; que não nomeou D. Joanna e que, porisso mesmo, a dispensa fôra -concedida em termos vagos; que havia declarado não querer que resultasse -d’ella prejuizo para terceiro, o qual se entendia ser o rei de Castella, -mas que, visto ser assim mesmo contestada, revogaria a licença que -concedera, o que fez por bulla patente enviada a D. Fernando no principio -do mez de dezembro de 1478.[52] - -Depois da entrevista de Arras, Affonso começou a comprehender que não -tinha sido mais que um simples joguete nas mãos de Luiz XI. De Arras, -dirigiu-se para Honfleur, onde demorou todo o mez de setembro, entregue a -uma violenta lucta moral, acabando por querer alienar todas as grandezas -mundanas, e passar a Jerusalem com proposito feito de nunca mais voltar a -Portugal. Todo esse tempo gastou-o Affonso V entregando-se a exercicios -religiosos e escrevendo apontamentos intimos, que cuidadosamente fechava -n’um cofre de que tinha a chave, e que se julgava serem uma especie de -codicillo, de appenso ao testamento que havia feito. - -Finalmente, n’uma manhã de setembro de 1477, o rei sahiu a cavallo, -como costumava, acompanhado por Soeiro Vaz e Pedro Pessoa, seis moços -de camara, e dois moços de esporas, ordenando ao seu capellão que o -fosse esperar na estrada, em logar determinado, onde effectivamente se -encontraram. - -Chegados ahi, Affonso V deu ordem a um dos moços d’esporas para que -retrocedesse a Honfleur, e entregasse, aos que n’essa localidade tinham -ficado, a chave do cofre, para que o abrissem, e lessem o que deixara -escripto. - -Do que no cofre se continha dá noticia Ruy de Pina: - -«... deixava uma carta para el-rei de França com remoques dissimulados, -reportados á sua desventura, em que tambem lhe dava conta do fundamento -que tivera para sua partida, que era servir a Deus; porque assim lhe -fizera voto de o fazer depois da morte da rainha, sua mulher, sendo o -principe seu filho em edade para reger seus reinos como era, pedindo-lhe -amparo, favor e ajuda para os seus, que em seus reinos ficavam. E outra -carta para o principe seu filho, em que lhe dava uma triste conta de sua -viagem, encommendando-lhe e mandando-lhe por sua benção, que logo se -alevantasse e intitulasse... rei. E outra d’esta substancia para todos os -do reino, que como o proprio e verdadeiro rei obedecessem ao principe. -E outra para os seus que ahi deixara, que estivessem á obediencia e -ordenança do conde de Faro, com que todos foram tão tristes, e fizeram -tão dolorosos prantos como a razão ensina, que em terras tão extranhas e -em tanto desamparo, e o rei tão amado devia ser.» - -As cartas dirigidas para Portugal foram logo enviadas ao principe por -Antão de Faria, e em virtude d’ellas se fez D. João acclamar rei de -Portugal, em Santarem, aos 10 de novembro de 1477. - -Quando os portuguezes que tinham ficado em Honfleur receberam aquellas -cartas, já estavam suspeitosos da demora de Affonso V, não obstante o seu -habito de sahir a cavallo todas as manhãs. - -Luiz XI tinha encarregado mr. de Lebret, fidalgo francez, de acompanhar -Affonso V e de responder pela sua pessoa. Quando mr. de Lebret soube -que o rei de Portugal havia desapparecido, mandou logo emissarios a -procural-o, accusando ao mesmo tempo os portuguezes de incuria na guarda -do seu soberano. Foi n’uma pequena aldeia da costa, uma villagem, diz -Ruy de Pina, que poude ser encontrado Affonso V, o qual, para não -ser descoberto, vivia em commum com os poucos criados que o seguiam. -O gentilhomem, que primeiro logrou encontral-o, e que se chamava -Robinet-le-Bœuf, acordou Affonso V, que estava dormindo, a fim de -melhor poder reconhecel-o, do que pediu desculpa ao rei de Portugal. -Surprehendido, Affonso V não tratou de dissimular por mais tempo a sua -identidade, e Robinet-le-Bœuf fez reunir immediatamente toda a gente -do logar, a fim de que ficasse guardando o rei, expedindo emissarios -com aviso a Luiz XI, aos portuguezes que tinham ficado em Honfleur, e -a mr. de Lebret. Dos portuguezes, o primeiro que appareceu foi o conde -de Penamacôr, que já andava em busca do rei. Affonso V mostrou-se a -principio teimoso em não renunciar á sua viagem á Terra Santa. O conde de -Penamacôr mandou porisso chamar o conde de Faro, e D. Alvaro seu irmão, a -fim de que viessem demovel-o, o que effectivamente conseguiram. - -Affonso V teve pejo de voltar a Honfleur, e portanto embarcou na angra de -Hogue, com destino a Portugal. Alguns dos navios que o acompanhavam, não -puderam aguentar a conserva, e chegaram primeiro, pelo que o principe D. -João, já acclamado rei, teve noticia da chegada de seu pae. Diz-se que -D. João II andava passeando á beira do Tejo, junto do paço de Santos, -com o duque de Bragança D. Fernando e com D. Jorge da Costa, mais tarde -cardeal de Alpedrinha, quando soube que seu pae havia chegado a Cascaes, -e que perguntara aos seus companheiros de passeio o que havia de fazer -n’aquelle lance. O duque respondeu que o dever de D. João II era receber -Affonso V como seu rei e seu pae. Então D. João apanhou do chão uma -pequena pedra, que atirou ao Tejo, e que foi por algum tempo cortando -a agua. D. Jorge da Costa disse, inclinando-se ao ouvido do duque: -«Aquella pedra não me ha de acertar a mim na cabeça.» E no dia seguinte -partiu para Roma, onde conseguiu chegar a grandes honras, e ter subida -importancia. - -Comprehende-se, no caracter forte e austero de D. João II este movimento -de indignação perante a fraqueza, a versatilidade de seu pae, que cedia -vergonhosamente á astucia de Luiz XI. Mas comprehende-se tambem que, -passada essa primeira impressão, fosse receber seu pae a Oeiras, e -reverentemente lhe entregasse o titulo de rei, de que já estava de posse. -Os caracteres como o de D. João II teem uma profunda comprehensão do seu -dever, embora, para o cumprir, hajam de dilacerar-se a si mesmos. - -Por sua parte, Affonso V, envergonhado das circumstancias em que se -achava, e das fluctuações do seu proprio espirito, queria que o filho -conservasse o titulo de rei, guardando elle para si o dos Algarves e das -conquistas de Africa; mas o principe não lh’o consentiu. - -Depois de estar em Lisboa algum tempo, Affonso V retirou-se para -Montemór-o-Novo, e d’ahi para Evora, e é notavel que, depois de tantos -desenganos, lhe tornasse a passar pelo espirito a idéa de continuar -devéras a guerra com Castella, que estava limitada a algumas incursões, e -de realizar definitivamente o seu casamento com D. Joanna. - -O principe contrariou-lhe ardentemente estes pianos, sobretudo o do -casamento. Era já tarde, entendia o principe; o que elle lamentava era -que seu pae não tivesse acceitado as primeiras propostas de Castella, em -tempo de Henrique IV, desposando D. Affonso a infanta D. Isabel, e elle -a infanta D. Joanna.[53] - -D. João, durante a ausencia de seu pae, havia sustentado a animosidade -com Castella, e mandara gente sua a descercar a villa de Alegrete, que -tinha sido sitiada por Affonso de Monroy, assim como mandara auxilio -a Touro e a Castro Nunho, que se conservavam fieis a D. Affonso V, -o qual, de França, dera ordem aos governadores d’essas fortalezas -castelhanas para se renderem. Elles vieram effectivamente para Portugal, -por escaparem á vingança de Fernando e Isabel, e da coroa portugueza -receberam auxilio e protecção. Todavia, o principe D. João comprehendia -perfeitamente que Portugal, sobretudo pelo pessimo estado das suas -finanças, não se achava habilitado a continuar uma guerra longa e aberta -com Castella. - -O alcaide-mór da villa de Moura, Lopo Vaz de Castello Branco, quiz -revoltar-se contra o rei de Portugal, porque no paiz lavrava um fermento -de indisciplina, que era estimulado pelas proprias fluctuações do poder -real, confiado a Affonso V. Foi mais tarde preciso o caracter de ferro de -D. João II para repor as coisas no seu antigo estado, e para arcar peito -a peito com quasi toda a nobreza do paiz. Lopo Vaz de Castello Branco -pagou com a vida a ousadia do seu procedimento. Era mais uma manifestação -da austeridade de caracter do principe, que não deixava nunca de punir a -rebellião dos seus inimigos. - -N’esta desgraçada pendencia com Castella, ainda Portugal teve de figurar -mais uma vez. Foi o caso que a condessa de Medellim, que seguia a causa -da princeza D. Joanna, fôra cercada nas suas fortalezas pelo mestre de S. -Tiago de Castella, e mandara pedir auxilio a Affonso V. Effectivamente -Portugal enviou-lhe soccorro, indo por capitão-mór da pequena expedição -o bispo de Evora, D. Garcia de Menezes. O mestre de S. Tiago deu batalha -ao bispo junto de Mérida, sendo o bispo vencido, ferido e preso, pois -que a desproporção das forças era enorme entre os dois exercitos. O -de Castella era muito superior. A guarda do bispo foi confiada a um -cavalleiro castelhano, que se deixou corromper, pelo que D. Garcia de -Menezes, podendo fugir, se recolheu a Medellim, onde, com os destroços da -expedição, se conservou ainda muito tempo cercado, até ao tratado de paz. - -A agitação era grande em ambos os paizes, e n’um e n’outro os -especuladores de occasião tratavam de tirar todo o partido possivel das -circumstancias, mirando á ganancia. Este estado de coisas, se era grave -para Portugal, não deixava comtudo de inquietar Fernando e Isabel. Então, -negociações secretas foram entaboladas para a paz, chegando a avistar-se -na villa de Alcantara, em Castella, a rainha D. Isabel com sua tia a -infanta D. Beatriz, de Portugal, viuva do infante D. Fernando. - -N’essa entrevista foi tratada a primeira combinação das pazes entre os -dois reinos. Mais tarde uma nova entrevista se realizou no Alemtejo entre -plenipotenciarios de Portugal e Castella, assentando-se que as pazes -seriam perpetuas. As condições estipuladas foram estas: - -1.ª Que D. Affonso deixaria de intitular-se rei de Castella e Leão, e -Fernando e Isabel, reis de Portugal; - -2.ª Que D. Joanna perderia todos os titulos de que se apossara, não se -chamando nem rainha nem infanta, salvo se viesse a casar com o principe -D. João de Castella, como ficou para resolver mais tarde; - -3.ª Que o antigo tratado de pazes feito com D. João I seria -convenientemente revisto e modificado; - -4.ª Que as cidades, villas e castellos que de um reino a outro houvessem -sido tomados, e assim os prisioneiros, seriam restituidos, soltos e -perdoados; - -5.ª Que em relação a determinadas pessoas e cavalleiros se fariam -capitulações especiaes, e que as fortalezas que nas fronteiras de um e -outro reino haviam sido construidas, seriam derrubadas; - -6.ª Que o senhorio da Guiné, desde o cabo de Nam e o Bojador até aos -indios inclusivamente, com todos os seus mares adjacentes, ilhas, costas -descobertas e por descobrir, com seus tratos, pescarias e resgates, assim -a ilha da Madeira e dos Açôres, Flores, Cabo Verde, e a conquista do -reino de Fez ficassem _in solidum_, e para sempre, ao rei de Portugal, e -que as ilhas das Canarias, e o reino de Granada ficassem _in solidum_ -aos reis de Castella, e seus successores, para sempre; - -7.ª Que para maior segurança d’este tratado, o infante D. Affonso, neto -de Affonso V, logo que fosse em edade de sete annos, casasse com a -infanta D. Isabel, filha primogenita dos reis de Castella, estabelecendo -qual o dote da princeza, e o modo de pagamento; - -8.ª Que d’ahi a certo tempo, a senhora D. Joanna, e assim os ditos -infantes, fossem postos em terçaria na villa de Moura, em poder da -infanta D. Beatriz; - -9.ª Que o principe D. João, filho dos reis de Castella, logo que chegasse -á edade de sete annos, casaria com aquella senhora, a qual passaria então -a chamar-se princeza, sendo convenientemente dotada; mas que se o dicto -principe D. João não quizesse casar com D. Joanna, ficaria ella livre da -terçaria, recebendo uma indemnização; - -10.ª Que a senhora D. Joanna logo fosse posta em terçaria, como fica -dicto, ou entrasse em um de cinco mosteiros que fossem indicados, -demorando-se ahi o anno de noviciado, acabado o qual escolheria uma de -duas coisas, ou _casar ou metter freira_, segundo a expressão popular. - -Estas pazes foram publicadas em setembro de 1479.[54] - -Importava dar cumprimento ás estipulações, mas os embaixadores hespanhoes -iam espaçando de dia para dia a entrega da infanta D. Isabel. - -Enfadou-se de taes delongas o principe D. João, de Portugal, e, estando -em Beja, enviou aos embaixadores de Castella duas folhas de papel, n’uma -das quaes estava escripta a palavra _guerra_, e na outra a palavra _paz_. -Perante esta corajosa resolução, os embaixadores castelhanos, obrigados a -responder categoricamente, decidiram-se a entregar a infanta D. Isabel, -que a mãe do duque de Vizeu, D. Beatriz, sahiu a receber, entregando -aos embaixadores em refens seu proprio filho D. Manuel, que depois foi -substituido pelo proprio duque, o qual a esse tempo estava doente. - - - - -VIII - -CASAR OU METTER FREIRA - - -De baldão em baldão, fluctuando n’um mar de incertezas, havendo -atravessado a existencia sob o peso de uma predestinação fatal, D. -Joanna, a _Beltraneja,_ via-se, finalmente, obrigada a tomar uma -resolução definitiva, _a escolher um de dois meios_, como diz Ruy de -Pina, _que para ella eram extremos de mortal sentimento_. - -Por muitas vezes parecera approximar-se do throno; por outras tantas -tivera que afastar-se d’elle. Em Castella fôra rainha durante o tempo -que vivem as rosas. Nunca lhe deixaram ter coração para amar, ser livre -como a mais obscura camponeza de qualquer dos dois reinos que a sua -coroa ephemera poderia ter abrangido. E todavia fôra esposa promettida -de muitos noivos, nenhum certamente escolhido com o assentimento do seu -coração. De um d’elles, seu tio Affonso V, chegara a compartir esperanças -e desalentos. Sem embargo, D. Joanna bem sabia pela licção da historia, -que a primeira mulher de seu tio arrastara uma vida profundamente -alanceada de intimos pesares. Sabia ou devia saber que D. Isabel de -Lencastre tivera por thalamo o leito de espinhos onde era obrigada a -repoisar ao lado d’aquelle a quem seu pae devêra a morte, e a quem os -amigos de seu pae deveram perseguição. Não era por que Affonso V tivesse -uma alma incapaz de comprehender as finas delicadezas do amor. Não. Elle -amara sua prima Isabel, e chegara mesmo a esquecer que ella era filha -do infeliz infante D. Pedro, a victima de Alfarrubeira. Conta-se que -D. Isabel, denunciando os primeiros symptomas da maternidade, sentira -estalar a esmeralda do seu annel de donzella, que trazia no dedo. -Lastimou-se a desventurosa princeza, certamente por haver gerado uma -creança, cujo avô fora assassinado por tolerancia do pae. Mas Affonso V -acudiu a tranquillizal-a com palavras de carinho, fazendo-lhe ver que -o nascimento de um filho valia bem uma pedra preciosa. E foi, sob esta -impressão affectuosa, que D. Affonso permittira que o cadaver de seu tio -fosse removido para o tumulo de familia, na egreja da Batalha. Affonso -não era, pois, um homem incapaz de sentir, e de amar. Mas a _Beltraneja_ -não poderia de certo amal-o; iria para elle levada pela força das -circumstancias, para não perder um throno que Affonso V ambicionava -ganhar. - -Esse casamento, a realizar-se, seria talvez um porto de abrigo depois -de tantos naufragios; uma taboa de salvação nos mares aparcelados -da vida. E, não obstante, partia-se agora essa fragil taboa que era -toda a esperança da pobre _Beltraneja_. A politica, o espectro que -tão cruelmente a perseguia, inclinava-se-lhe agora ao ouvido para -dizer-lhe, como Hamlet a Ophelia: «Entra n’um convento; faze-te freira, e -depressa...» - -Mas a _Beltraneja_ havia sido rainha ainda que por pouco tempo, fôra -rainha sem reino e sem throno, não podia comtudo esquecer-se facilmente -de que o fôra: uma esperança, quando é violentamente arrancada, traz -sempre comsigo, pegado ás raizes, um pedaço do coração. Porisso, a pobre -princeza chorou ao despir os brocados e sedas que até ahi envergara, ao -ver cahir a seus pés os cabellos por onde outr’ora as perolas serpejaram -em espiras phantasiosas. O seu coração era moço de mais para se resignar, -abatido, quando no convento de Santa Clara, de Santarem, o amortalharam -no habito monastico. - -D. Joanna chorava, choravam com ella os seus criados e familiares. - -No convento de Santarem _ainda hoje_, diz frei Manuel da Esperança, _se -vê uma casa, que foi sua, onde se rezam matinas dos dias menos solennes, -a qual por este respeito_ é chamada _o corinho_.[55] - -O principe D. João, endurecido pelos calculos ambiciosos da politica, -olhava mais para o futuro do que para as tranças da _Beltraneja_, que -cahiam despedaçadas no chão. Era que, segundo o tratado feito com -Castella, seu filho devia desposar a filha mais velha de Fernando e -Isabel. Assim, poderia chegar talvez ao mesmo ideal, a unificação de duas -coroas, por caminhos mais suaves. - -«O principe, que de se cumprirem as capitulações, diz Duarte Nunes, tinha -seus particulares interesses, e o casamento para seu filho, _e porventura -a successão dos reinos de Castella_, como depois pudera succeder, se o -juizo divino o não atalhara...»[56] - -Que importava que fosse preciso, para realizar esse _desideratum_, -esmagar o coração de uma pobre mulher? - -Affonso V, envergonhado de si proprio, deixou inteira liberdade de acção -ao filho. Pungia-o a consciencia dos seus erros. Sentia-se prostrado, de -mais no mundo... e talvez no reino. O seu tempo passara; o pobre rei era -o cadaver de si mesmo, apenas amortalhado nos trophéos conquistados em -Africa, e manchados em França. - -No principio do anno seguinte, de 1480, a peste, essa cruel e duradoira -peste que por tantos annos devia assolar Portugal, principiou a brandir o -seu gladio desolador. D. Joanna recebeu ordem de retirar-se do convento -de Santa Clara, de Santarem, para o de Evora, por fugir ao morticinio, -e, todavia, talvez que ella houvesse preferido ser uma das victimas do -terrivel flagello, que parecia mais apiedado da sua triste sina do que o -coração do principe D. João, seu primo. - -Elle, porem, queria poupar-lhe a vida, para não ver partir-se-lhe nas -mãos um poderoso instrumento de ambição politica. Se Castella procurasse -algum dia illudir as estipulações do tratado, D. Joanna serviria como -ameaça, a questão dos _seus direitos_ renasceria das proprias cinzas... -Era, pois, preciso que a _Beltraneja_ vivesse. Porisso, invadida Evora -pela peste, levaram D. Joanna para o Vimieiro, e do Vimieiro para Santa -Clara, de Coimbra. - -Graças a um documento por nós encontrado na Torre do Tombo, onde aliás -fizemos muitas outras investigações infructiferamente, conhecemos o -teor de negociações entaboladas entre Portugal e Castella para retirar -de Evora, quando a peste alli entrou, D. Joanna, já então officialmente -appellidada a _Excellente Senhora_. - -Esse documento (existente na cella M, ms. 1163, fl. 518) é uma carta -do principe D. João para Rodrigo Affonso, embaixador de Portugal em -Castella, escripta de Beja. - -Eis o seu conteúdo: - -«Rodrigo Affonço Amigo, nós o Princepe vos inviamos muito saudar: nos -soubemos hora per o Doutor Mestre Rodriguo como foi dito a hum frade em -confição que nesta villa fallecerão hora dous moços deste mal que anda, -e assim houvemos recado do Conde de Abrantes ha dous dias como em Evora -fallecerão hora duas outras pessoas desta morte em huma casa a qual -logo foi cerrada, e taypada a rua, e que estavão em grande sospeita, -e temor de o mal ser mais, por o qual os da Cidade se fasião prestes -para se sahir della se mais alguma couza acontecesse pedindo nos que lhe -mandassemos diser a maneira que terião com a muy Excellente Senhora minha -prima acerqua de sua estada alli ou partida para outra parte sobre o que -acordamos de vos logo escrever e vos faser saber como nosso fundamento -he se a couza mais for antes de vermos vosso recado se com a dita -Senhora nom podermos acabar que se venha aqui a esta Villa sendo seguro -de a poremos em algum lugar desta Comarqua, acerca donde nós estivermos -ataa veremos vosso recado do que lá acabais neste feito, per que se aos -Reys aprouver que se a dita Senhora esté fora dos sinco Mosteiros na -cappitulação limitados trabalharemos como esté em algum luguar desta -Comarqua porque nella nom ha mais luguares que tenhão Mosteiros de -Freiras tirando Evora e esta Villa, que Estremoz e Portalegre, e poderia -ser segundo este mal anda espalhado muito neste Reyno que nestes tambem -morrerião como já agora morrem em Souzel que he antre ambos como sabeis -e tam acerqua delles, compre que saibamos se em tal caso lhes prazeria -á dita Senhora estar em algum outro lugar desta Comarqua posto que -Mosteiro de Freiras nom tenha, estando com freiras e encerrada em forma -de Relligião e com sua guarda assim como a deve ter estando em cada hum -dos cinco Mosteiros porque nom prazendo aos Reys de dar seu consentimento -tal que proveja a dita Senhora minha prima poder estar nesta Comarqua e -Luguares della segundo vay aqui apontado sem nosso pejo com relevamento -do passado segundo forma da instrucção que levastes será necessario -que se vá a Coimbra como comvosco fallamos e para isto cumprir que muy -trigosamente hajais despacho, e nolo invieis logo a mais andar, ou se já -fordes despachado nolo traguais.» - -Havia-se completado um anno desde que D. Joanna vestira o habito; -restava-lhe professar ou entrar em terçaria. - -Ella ou alguem por ella optou pelo convento. De Castella vieram -embaixadores assistir á profissão, para assegurar-se d’esta parte do -tratado, diz um escriptor hespanhol, isto é, para levarem a Fernando e -Isabel a certeza de que as pretensões de D. Joanna á côrte de Castella -ficavam para todo o sempre encarceradas dentro das grades de um -mosteiro, e amortalhadas no burel de uma pobre freira, cujos laços -mundanos parecia deveriam, desde esse momento, ficar partidos de vez. Não -aconteceu inteiramente assim, como veremos. - -É certo ter D. Joanna dicto aos embaixadores castelhanos que _sin ninguna -premia, salvo de su propria voluntad queria vivir en religion e facer -profesion e fenescer en ella_. Seria, porem, completamente essa a sincera -expressão da sua alma? Não por certo. Essas palavras são transparentes, -revelam bem a altivez da mulher ferida no seu orgulho: ha n’ellas um -mixto de fel e de lagrimas. Ao pronuncial-as, o coração da _Beltraneja_ -devia despedaçar-se. Mais do que nunca se denuncia então o justo -desespero com que ella se revoltava contra os repetidos sacrificios que -exigiam da sua fraqueza. - -O principe D. João, de Portugal, sorria porventura, por entre dentes, -da credulidade dos embaixadores hespanhoes, que julgavam ser muralha -inexpugnavel a parede de um mosteiro, e prisões inquebrantaveis as grades -d’elle. - -Nas conversações particulares, que mantinha com os seus intimos, D. -Joanna deixava-se enternecer facilmente pelas lagrimas d’elles: a -mulher, revoltada contra o sacrificio, apparecia então. Ruy de Pina não -o dissimula quando noticía que foi precisa a intervenção do principe D. -João para que a profissão da _Beltraneja_ se realizasse, como realizou, a -15 de novembro de 1480, em Santa Clara, de Coimbra. - -Consummara-se o sacrificio. D. Joanna recebeu o véo preto das mãos de -frei Diogo de Abrantes. - -Em muitos olhos brilhava compassivo pranto; só D. João não chorava.[57] - -Affonso V, doente de melancholia, não assistira; não tivera forças para -tanto. Não tivera energia para resistir ás imposições de seu filho; mas -faltara-lhe tambem a coragem para assistir á profissão de sua sobrinha, -que elle proprio victimara. - -Logo em Coimbra, diz Damião de Goes na _Chronica do principe D. João_, -esteve para morrer _de pura melancholia_. Escapara por então, mas -fizera-se intratavel, misanthropo. Queria recolher-se ao mosteiro do -Varatojo, e professar. Assim acabaria por um duplo voto religioso este -triste drama do seu projectado casamento com a _Beltraneja_. Mas, antes -de realizar um tal plano, precisava avistar-se com o filho, que estava em -Beja: deviam tratar n’essa conferencia da convocação de côrtes geraes, -para que ellas reconhecessem D. João como rei. Affonso V partiu, pois, de -Coimbra para Beja no verão de 1481. Na entrevista, ficou resolvido que -as côrtes se convocassem para Estremoz, porque Lisboa e Evora estavam -assoladas pela peste. Tratado este negocio, D. Affonso V partiu, no -principio de agosto, de Beja para Cintra onde, solitario como desejaria -viver, devia esperar pela reunião das côrtes. - -Em Cintra, o rei foi acommettido de febres. Pouco era preciso para o -matar no estado de abatimento e desgosto em que se encontrava. O principe -acudiu logo a Cintra, mas os medicos desenganaram-n’o: o rei morria. -D. Affonso acceitou a morte como uma redempção: fez ao filho algumas -recommendações, deu-lhe conselhos. Pediu-lhe que protegesse a orfandade -da _Beltraneja_. E morreu, a 8 d’esse mez, com quarenta e nove annos de -edade. - -Acabara-se finalmente a tortura que lhe rasgara o coração a lentas -punhaladas. - -Poucos dias depois do fallecimento de Affonso V, nascia o filho que -D. Anna de Mendonça tivera do principe herdeiro D. João. D. Anna de -Mendonça, mulher muito fidalga e moça formosa de mui nobre geração, diz -Garcia de Rezende, servira como dama de honor da _Beltraneja_, andara na -sua casa. Ao passo que D. Joanna, casada e virgem, via fechada a dobra -do seu leito de noiva, jámais occupado, uma das suas damas de companhia -rendia-se ás seducções do principe D. João, menos disposto a guardar para -si a abstinencia de prazeres que exigia de sua prima. Era justamente na -roda da noiva mallograda de seu pae que o principe D. João ia procurar e -encontrar uma amante, com a qual corria a emboscar-se nas moitas floridas -de Cernache do Bom Jardim. Singulares ironias tem ás vezes o destino! - -D. João II, subindo ao throno, travou desde logo uma porfiada lucta com -a nobreza. Alexandre Herculano sustenta que a indole das instituições da -velha monarchia ovetense-leoneza, e das que d’ella procederam, não só -foi extranha, mas até repugnante á indole do feudalismo. Temos o maximo -respeito pela memoria do illustre historiador, mas n’este ponto não -concordamos inteiramente com a sua opinião. - -De passagem relembraremos, por fazer ao nosso proposito, que em Portugal, -os reis transmittiram por meio de concessões os direitos de soberania aos -senhores feudaes, creando, para assim dizer, outras tantas monarchias -quantos eram os donatarios, que, por esse facto, se chamaram senhores -de baraço e cutello, senhores de pendão e caldeira. Como prova do -enfraquecimento real entre nós, por effeito do poder feudal, bastará -citar um unico facto. Reinando Sancho II, Estêvam Pires de Molny possuia -um paço no logar de Carcavellos, na terra da Feira. Como o resto do -logar não fosse coitado, o mordomo do rei entrou n’elle para penhorar -um lavrador. Pois o senhor do paço arrastou o mordomo pela freguezia, -dizendo-lhe: «Cá por aqui é honra!» e depois enforcou-o.[58] - -Os senhores feudaes davam foraes e leis aos aldeões e villãos -(_villani_), taxavam a quantidade de fructos e a qualidade de serviços -que lhes deviam prestar, nomeavam juizes e tribunaes, e arbitravam penas; -d’aqui nasceu a escravidão da terra (_servitus glebæ_). Algumas vezes, -os donatarios concediam terras em feudos aos plebeus ou peões: a estes -beneficios chamava-se _feudos dos senhores ou subfeudos_.[59] - -Em virtude d’este regimen, e como se deprehende do que fica exposto, -temos nos primeiros tempos da monarchia as seguintes divisões sociaes -por classes: senhores feudaes ou fidalgos, plebeus ou peões, vassallos -ou servos. Desde o começo da realeza em Portugal, a acção do feudalismo, -e as luctas a que dava causa, accentuam-se de um modo nitido, segundo -cremos. Vemos os irmãos de Affonso II negar-lhe vassallagem, por um acto -de rebellião feudal. D. Sancho II deposto pelo clero e pela nobreza. -Por sua parte, os reis reagiam, procurando cercear as garantias dos -senhores feudaes. Affonso II supprime os tributos do _comestivel_ e das -_aliavas_; Affonso III cria os _juizes de fóra_, representantes do poder -real para inspeccionarem a administração da justiça nos territorios -feudaes; D. Diniz procurou oppor o seu manifesto espirito de justiça -á acção da prepotencia feudal; Affonso IV definiu a jurisdicção dos -donatarios no edito geral; D. Fernando tratou de cohibir as malfeitorias -que os fidalgos commettessem com armas; D. João I e D. Duarte recorrem -principalmente á _lei mental_, como a um poderoso meio de combate. -Affonso V, porem, como já tivemos occasião de ver, augmentou em larga -escala o poderio dos nobres, pelo abuso de concessões. Mas seu filho, D. -João II, estava talhado para oppor uma barreira gigante á onda crescente -e abusiva do regimen feudal. - -Coisa notavel! Pessoalmente, D. João II devia odiar Luiz XI pela maneira -doble e aviltante por que recebera em França seu pae; politicamente, -tomava-o como modelo n’essa lucta terrivel em que se achava empenhado, -salvas as differenças de caracter. João II imitou Luiz XI não só nos -rasgos mais principaes, mas até na dissimulação e crueldade; era comtudo -mais paciente, e porisso mesmo não arriscava os passos senão depois de -pisar terreno firme.[60] - -Os senhores feudaes, que em França acabavam de ajudar Carlos VII a -expulsar os inglezes, não eram por certo menos poderosos do que aquelles -que em Portugal haviam conseguido supplantar o infante D. Pedro. O duque -de Bragança era relativamente tão importante como o duque de Borgonha. -Esta identidade de circumstancias levou fatalmente João II a copiar, -melhorando-o, o exemplo de Luiz XI. - -Assim como o rei de França inicia o seu reinado proclamando a lucta com a -nobreza,[61] o de Portugal trata, depois de reunidas as primeiras côrtes -em Evora, de lançar a luva aos seus emulos, cuidando de regularizar a -fórma das menagens. Era o cartel para o repto; o aviso para a lucta. - -«Antes de se fazerem estas menagens, diz Garcia de Rezende,[62] el-rei -com o duque de Bragança e outros senhores, e pessoas do conselho, -praticou umas palavras que nas menagens haviam de dizer muitas vezes, _em -que houve muitas porfias, desgostos, descontentamentos, por lhe parecer -aspera fórma a que el-rei queria_...» - -Mas, não obstante a opposição do duque de Bragança, João II fez vingar o -novo formulario de menagens. - -Como claramente se póde ver do teor das menagens, a sua redacção bastava -para revelar as intenções do rei, e o duque de Bragança, querendo -protestar, mostra, como toda a outra nobreza, não conhecer D. João II: -julga-o fraco, parece-lhe que se acobardará perante a resistencia. - -O duque precisou dos titulos das suas doações para documentar o protesto, -e mandou buscal-os a Villa Viçosa, pelo veador da sua fazenda, João -Affonso, dando-lhe a chave de um cofre que continha todos os papeis de -segredo. - -João Affonso declinou esta grave commissão n’um filho seu, em quem -muito confiava. Na occasião em que o filho do veador andava procurando -no cofre, appareceu por acaso na sala Lopo de Figueiredo, escrivão da -fazenda do duque, o qual, a pedido do rapaz, o ajudou a procurar os -papeis. Depararam-se-lhe, porem, entre elles algumas cartas e instrucções -de Castella, e para os reis de Castella, com emendas e correcções feitas -pela lettra do duque. Lopo de Figueiredo poude escondel-os, mettendo-os -na manga do gibão. Em casa leu-os vagarosamente, e reconheceu que se não -havia enganado, pelo que immediatamente correu a Evora, a mostral-os ao -rei, que d’elles tomou conhecimento, dando-os a copiar a Antão de Faria, -e mandando-os pôr no cofre, onde estavam, por Lopo de Figueiredo. - -Eis aqui como o acaso, ou o _mysterio de Deus_, como diz Garcia de -Rezende, poz nas mãos de D. João II o fio de uma intriga, que era como -que o vendaval que devia atiçar o fogo da lucta travada entre elle e a -nobreza de Portugal. - -D. João II tinha um duplo motivo para, segundo o seu ponto de vista, -combater o duque de Bragança: em primeiro logar, atacava um dos maiores e -mais altivos potentados que faziam sombra á coroa real; em segundo logar, -desde que o duque se oppuzera a que Affonso V passasse a Castella, via -n’elle um parcial da causa, agora triumphante, de Fernando e Isabel. E -depois lembraram a D. João II as palavras duras do duque quando, depois -da batalha de Touro, se não sabia do destino de Affonso V. - -As cartas que o acaso trouxera ás mãos do rei, vieram fortalecel-o na -antiga suspeita. Desde esse momento, D. João II não pensou senão em -liquidar estas contas antigas. Espirito forte, caminhou resolutamente -para o seu ideal de vingança, umas vezes mostrando-se severo e -desconfiado com o duque de Bragança, outras vezes fingindo acreditar nos -seus protestos de obediencia e fidelidade. - -Mas, intimamente, D. João II julgava indispensavel prevenir-se com uma -arma poderosa para contraminar a connivencia do duque de Bragança com -Castella: essa arma era sua prima, D. Joanna, a _Beltraneja_ ou, como -agora lhe chamavam os castelhanos, _la Monja_. - -Pois bem. Sem hesitar um momento, D. João ordenou que abrissem a sua -prima as portas do mosteiro de Coimbra, e que ella vivesse no seculo com -a ostentação que ao seu nascimento era devida. - -E assim foi que, freira professa havia dois annos, D. Joanna, joguete -malfadado das ambições dos outros, voltou de novo ao mundo onde a -felicidade parecia apostada em mostrar-se-lhe tão esquiva como outr’ora, -quando ainda o véo preto lhe não cingia a bella cabeça juvenil. - -Mas o infante D. Affonso, filho unico de D. João II, estava nas terçarias -de Moura, como a princeza D. Isabel, filha dos reis catholicos. Era -preciso arrancal-o d’esse captiveiro, onde a sua vida poderia correr -perigo, tanto maior por certo quanta fosse a animosidade manifestada por -D. João II contra o duque de Bragança, que tinha, como sabemos, intimas -relações com a côrte de Castella. - -A fim de salvar a vida de seu filho, tratou D. João II de annullar as -terçarias, e para esse fim enviou a Fernando e Isabel uma embaixada -composta do barão de Alvito e de Ruy de Pina, o chronista, os quaes -começaram por pedir que o deposito dos principes fosse transferido para -um logar menos doentio do que a villa de Moura. - -Os reis de Castella, prevenidos pelo duque de Bragança das intenções de -D. João II, fizeram mallograr o exito d’esta primeira embaixada. - -Nova embaixada mandou D. João II a Castella, d’esta vez para que as -terçarias se mudassem _ou desfizessem_, dizendo mais o embaixador que, se -não parecia conveniente o casamento do principe portuguez com a infanta -D. Isabel, pela differença das edades, se effectuasse com a infanta D. -Joanna e que, a ser assim, fossem, em compensação, cedidas a Portugal as -ilhas Canarias, que el-rei sempre desejou para maior segurança da Guiné. - -A desconfiança dos reis de Castella, a respeito do de Portugal, tinha a -esse tempo subido de ponto, porisso que em Castella haviam sido presos -alguns portuguezes, que se diziam encarregados de negociar, por ordem -de D. João II, o casamento da _Excellente Senhora_ com o rei Phebo, de -Navarra. Fernando e Isabel queriam que os suppostos emissarios do rei de -Portugal fossem por elle punidos, porque só assim se convenceriam da boa -fé de D. João II. - -Esta exigencia dos reis de Castella não foi desde logo attendida pelo de -Portugal. - -Portanto, um problema inquietador principiou a preoccupar o espirito de -D. João II e d’aquelles que lhe eram dedicados: qual o melhor meio de -conseguir a annullação das terçarias de Moura? - -Uma das pessoas que deram o seu voto n’esta importante questão foi D. -Philippa de Lencastre, tia de D. João II, irmã de sua mãe, e religiosa de -Odivellas. - -Digamos d’esta senhora duas palavras. - -No testamento da rainha D. Isabel é D. Philippa, sua irmã, a principal -contemplada, pelo grande amor que lhe tinha, e porque a situação da -familia do infante D. Pedro, como do mesmo testamento se vê, era -precaria. Mas essa disposição testamentaria de D. Isabel iria, a -realizar-se, prejudicar a legitima devida a seus dois filhos. Não -obstante esta causa de nullidade do testamento, D. Affonso V estabeleceu -a sua cunhada uma tença de duzentos e vinte mil réis; e recommendou-a -nas disposições testamentarias que elle proprio fizera em Portalegre -antes de partir para Castella.[63] - -Frei Francisco Brandão diz que, não obstante a tença, D. Philippa passara -a vida _com não grande cabedal_, e que D. Affonso V bem pudera _ter -remedeado a prima que recommenda_. Como quer que seja, seu sobrinho D. -João II doou-lhe uma parte da renda da Villa de Alcolea de Sinca, no -principado da Catalunha. - -Depois da morte da rainha D. Isabel, D. Philippa esteve parte do tempo em -Coimbra, em casa de sua mãe, a viuva do infante D. Pedro; mais tarde veiu -para Lisboa onde acompanhou a educação de sua sobrinha D. Joanna. - -Havendo-se recolhido ao mosteiro de Odivellas, sem que aliás professasse, -foi de romaria a S. Tiago de Galliza, e morreu em Portugal no anno de -1497. Jaz na sacristia de Odivellas. - -Como iamos dizendo, esta senhora dera voto na questão das terçarias; -talvez lhe fosse solicitado por sua prima D. Beatriz. Frei Francisco -Brandão encontrou o documento, que nos transmittiu o voto de D. Philippa, -na torre do Tombo, entre os papeis de Fernão de Pina. Publicou-o com -o seguinte titulo: _Conselho e voto da senhora Dona Philippa filha do -infante Dom Pedro sobre as terçarias, e guerras de Castella. Com uma -breve noticia d’esta princeza, dirigido a el-rei Dom João IV, Nosso -Senhor._ Lisboa, 1643.[64] - -D. Philippa lamenta que o principe D. Affonso esteja nas terçarias com -prejuizo para a sua educação. Não aconselha que o tirem para fazer -guerra a Castella, mas não quer isso dizer que deixe de reconhecer as -vantagens de Portugal em qualquer lucta armada com Castella, tiradas da -historia do passado. Entende que um portuguez ha de valer sempre vinte -castelhanos com a ajuda de Deus. Recorda que se Affonso V foi a Touro, -varios castelhanos lh’o pediram. E remata dizendo: «E assi concludo: -sua paz deve ser desejada com grande razom, mas sua guerra que Deos nos -goarde, nem deve ser mui temida, quando sem causa procurarem metella em -obra, pois Deos, justiça, verdade, razoens humanaes som em nossa ajuda, e -a elles contrarios.» - -Emquanto variavam os pareceres a respeito das terçarias, D. João II -enviava terceira embaixada a Castella, encarregada de dar satisfacções -e desculpas aos soberanos d’aquelle paiz, que trataram de mostrar-se -satisfeitos com ellas, porque o seu maior desejo era tambem verem fóra -das terçarias a infanta D. Isabel, receosos de que a sua vida pudesse -ser penhor de alguma nova combinação politica. Ficou então assente que -as terçarias se desfariam, e que o principe D. Affonso casaria não com -a infanta D. Isabel, mas com a infanta D. Joanna, e que se lhe daria -maior dote por estar esta infanta mais afastada na linha de successão de -Castella. Outrosim ficou combinado que os reis de Castella mandariam na -proxima Paschoa embaixadores a Portugal para se tratar definitivamente da -resolução d’estas combinações. - -A familia real estava em Almeirim n’essa occasião. A rainha teve ahi um -mobito, e por este motivo a foram visitar muitos fidalgos, entre os quaes -o duque de Vizeu, seu irmão, e o de Bragança, a quem D. João II recebeu -de boa sombra. Não obstante, um dia chamou-o de parte á capella do paço, -e, na presença do bispo de Lamego, lhe disse que estava inteirado de que -elle tinha ligações suspeitas com Castella, mas que se essas combinações -eram filhas de um proposito errado, estava disposto a perdoal-as e -esquecel-as. Lembrou-lhe as obrigações que o duque devia á memoria de D. -Affonso V, de quem havia recebido largas honras, e patrimonio. E ainda -que se julgasse aggravado com o degredo do marquez, e a entrada dos -corregedores em suas terras, devia ser o primeiro a querer dar um exemplo -de obediencia e de respeito ao rei. - -O duque de Bragança imaginou que D. João II se deixaria embalar pelas -suas palavras; que o supporia um inimigo que retirava, que desalentava na -lucta; e, cheio de hypocrisia, respondeu affirmando os seus sentimentos -de estima e gratidão ao chefe do Estado. - -Enganava-se. - -O certo é que a nobreza julgou haver submettido aquelle forte inimigo das -suas regalias. Folgou com isso. Sahindo de Almeirim, os duques de Vizeu, -de Bragança e seus irmãos juntaram-se no Vimieiro, folgando com o que se -tinha passado, e entre si resolveram não deixar entrar os corregedores -nas suas terras. Sobre o mesmo assumpto, o marquez de Montemór, o conde -de Faro e D. Alvaro de Bragança tiveram entrevistas secretas no mosteiro -de Santa Maria do Espinheiro, em Evora, tomando-se notavel o marquez pela -exaltação, pelo odio com que sempre falava do rei. - -D. João II andava devidamente informado d’estas conspirações, mas, astuto -e reservado, pareceu-lhe melhor esperar. Porisso, deu ordem para que se -não fizesse a correição ás terras dos nobres, e até chegou a despachar -favoravelmente algumas pretensões do marquez, e do conde de Faro. - -D. João II preparava o laço, e esperava a presa. - -Entretanto, o duque de Bragança, em intelligencia com os reis de -Castella, continuava a conspirar. Um mensageiro castelhano veio -avistar-se secretamente a Portugal com o duque, combinando ambos -n’uma capitulação, da qual o marquez de Montemór teve conhecimento. -A capitulação dividia-se em dois pontos principaes: 1.º Que visto a -_Excellente Senhora_ não viver no rigor monastico a que era obrigada, -fosse entregue ao duque de Bragança ou a seus irmãos, para lhe fazerem -cumprir o que fosse honesto. 2.º Que fosse permittido aos subditos -castelhanos o irem negociar na Guiné. - -É claro que D. João II não podia annuir a estes pedidos, em primeiro -logar porque lhe arrancavam das mãos uma grande arma diplomatica, tal -era a _Excellente Senhora_; em segundo logar, porque abalaria o dominio -portuguez, na Africa, com a concessão feita aos castelhanos. - -Mas isso mesmo era o que Castella e o duque de Bragança queriam: porque -na propria recusa estava um pretexto para Fernando e Isabel declararem a -guerra, e para o duque se desculpar de não prestar auxilio a D. João II, -fingindo achar desarrazoada a recusa. - -As novas intelligencias do duque com os soberanos de Castella foram -descobertas a D. João II por Gaspar Infante, irmão de Pedro Infante, -familiar dos Braganças. D. João II, que já estava desconfiado, ficou -prevenido, mas não lhe convinha precipitar os acontecimentos, tanto -mais que tinha seu filho nas terçarias, e receava pela sua vida. Mas, -como a guerra de Granada absorvesse toda a attenção e recursos dos reis -catholicos,[65] um embaixador chegava a Portugal para tratar justamente -de desfazer as terçarias. Assentou-se pois no casamento do principe D. -Affonso com a infanta D. Joanna, filha segunda dos reis castelhanos. - -A este tempo voltava de Castella Pedro Infante com a correspondencia -secreta para o duque. O rei leu-a, e resolveu logo, visto que o obstaculo -que as terçarias offereciam ia desapparecer, prender o duque ou cercal-o -em qualquer logar que estivesse. «E para isso, escreve Garcia de -Rezende, houve logo secretamente muito dinheiro junto que trazia em sua -guarda roupa, e assim fez muitas das cartas, provisões, que em tal caso -havia de mandar pelo reino, e ás villas e castellos do duque e seus -alcaides-móres, o que tudo lhe aproveitou na noite que prendeu o duque -como adeante se dirá.» - -D. João II mandara procuradores seus a Moura buscar o principe. O duque -de Bragança, sabendo isto, foi encontrar-se com elles em Portel, e -alli lhes perguntou o que deveria fazer, visto que o principe passava -pelas suas terras. Os procuradores responderam que, para serenar de vez -certas differenças que tinha havido entre o rei e o duque, o que este -devia fazer era acompanhar o principe á côrte, servil-o e honral-o. Mas, -receosos de que o seu conselho desagradasse ao rei, mandaram, por meio -de postilhões que havia na estrada, consultal-o a este respeito. D. João -II respondeu que lhe aprazia muito que o duque fosse á côrte; o rei -respondeu em carta, não fechada, para que todos a pudessem ver, a fim de -armar á credulidade dos que a lessem. - -Desfeitas solennemente as terçarias em Moura, onde o duque de Bragança -já havia chegado, o principe foi entregue aos procuradores do rei de -Portugal, e a infanta D. Isabel aos procuradores do rei de Castella. - -Na jornada de Moura para Evora, onde estava a côrte, o principe D. -Affonso foi hospedado em Portel pelo duque de Bragança, que lhe fez -muitas honras. Fóra dos muros de Evora o rei sahiu a receber o principe, -que vinha acompanhado pelo duque de Bragança e pelo de Vizeu. A gente -que acompanhava o rei estava toda armada, porque D. João II ia em duvida -sobre se logo prenderia o duque ou não. - -Mas como o duque lhe parecesse tranquillo e nada desconfiado, D. João II -adiou o seu proposito. - -O rei mostrava-se extremamente alegre e despreoccupado. Houve em Evora -grandes festas pela recepção do principe e da infanta, e o rei em todas -tomou parte serenamente. Pelo que o duque, comquanto avisado pelo -marquez seu irmão e por outros fidalgos, para que desconfiasse do rei -e se salvasse, deixou-se ficar. Metteu-se de permeio o dia de _Corpus -Christi_, em que o rei continuou a mostrar-se despreoccupado, mas na -sexta-feira, indo o duque ao paço despedir-se do rei, achou-o despachando -com os desembargadores. D. João fez sentar o duque junto de si, emquanto -dava o despacho. Findo este, o duque conversou por algum tempo com o rei, -e aproveitou a occasião para pretender justificar-se de varios aleives -que lhe assacavam contra elle, pedindo-lhe que se informasse da verdade. -D. João II, depois de o ter ouvido, disse que aquella casa já ia estando -escura, e que, porisso, era melhor subirem á sua guarda roupa. Subiram, -e o rei disse então que folgava de o ouvir fazer tal requerimento, e que -effectivamente ia apurar a verdade, mas que julgava melhor que o duque se -conservasse alli, até que tudo estivesse apurado. - -O rei, sahindo, deixou por guardas ao duque, Ayres da Silva, -camareiro-mór, e Antão de Faria, camareiro. - -Então, o desanimo do duque foi grande. Ayres da Silva quiz consolal-o com -palavras banaes, mas o duque respondeu-lhe: «Senhor Ayres da Silva: um -homem tal como eu não se prende para o soltar.» - -Entretanto, D. João II fazia reunir em outra sala do paço os senhores, -principaes auctoridades e lettrados, aos quaes expoz os aggravos que -tinha do duque, lendo serenamente as cartas e instrucções apprehendidas. - -Logo que a noticia se espalhou na cidade, o povo correu aos pateos e -terreiros do palacio, protestando a el-rei a sua lealdade, e pedindo -justiça contra os que contra a sua vida houvessem attentado. - -No conselho decidiu-se que se segurasse bem a pessoa do duque; que a -coroa tomasse conta dos seus castellos e terras, e que se notificasse o -caso aos reis de Castella, sem comtudo alludir á causa da prisão. - -Tão profunda impressão causou em todo o paiz a prisão do duque, que os -alcaides dos seus castellos logo os entregaram a uma simples ordem do -rei. Esta observação, que Garcia de Rezende faz, pinta bem qual era o -prestigio da monarchia, e o fanatismo do povo pela pessoa de D. João II. - -O marquez de Montemór e o conde de Faro, logo que souberam o que se -passara, fugiram para Castella. Este ultimo pouco tempo sobreviveu em -Andaluzia. O outro irmão do duque, D. Alvaro de Bragança, recebeu ordem -do rei para sahir do reino, prohibindo-lhe comtudo que fosse residir em -Castella ou em Roma. Mas D. Alvaro, desobedecendo, deixou-se ficar em -Castella. - -A duqueza de Bragança, logo que soube da prisão do marido, mandou para -Castella os seus tres filhos, ficando ella em Villa Viçosa com D. -Margarida, sua filha. - -Entretanto, o duque continuava a estar preso na guarda roupa, sem ferros, -mas constantemente vigiado. Era alvo das maiores attenções por parte dos -familiares do rei, e tratado com a etiqueta devida ao seu nascimento. - -D. João II, por sua parte, mostrava-se pesaroso da situação em que estava -o duque, e resolvia entregar o caso á justiça, para que ella julgasse. - -A justiça! Bem sabia D. João II como ella procederia vergada á pressão -da sua auctoridade real! Mas o caracter reservado do rei levava-o a -proceder assim, sem pressa, sem precipitação, calculadamente. O facto de -entregar o duque a esse como arremedo de tribunal, mas em todo o caso, -apparentemente, á acção da justiça, mostrava ao povo que acima do poder -real pairava, como que a defendel-o, a justiça de Deus, manifestada pela -justiça da terra. - -Era um homem superior D. João II. - -É conhecido o final d’esta tragedia: o duque de Bragança acabou no -cadafalso levantado na praça de Evora. - -Diogo Pinheiro procurou rehabilitar a memoria do duque, escrevendo a sua -_defesa_;[66] mas outro documento, modernamente dado á estampa, o tratado -de Lopo de Figueiredo,[67] mostra que o duque de Bragança procurava -fortalecer-se contra o odio de D. João II, entabolando negociações -secretas com a côrte de Castella, e que á infanta D. Beatriz, mãe do -duque de Vizeu, não repugnavam os planos do Bragança. - - - - -IX - -O DEDO DE DEUS - - -O rei D. João, de Portugal, não perdia de vista os manejos da côrte de -Castella, que, tendo fallecido o rei de Navarra, procurava reunir os -differentes Estados ao norte da Peninsula, pedindo para o principe D. -João a mão de D. Catharina, em quem recahira a successão do reino de -Navarra. - -Assim, D. João II não duvidava ir arrancar á clausura monastica a -_Beltraneja_, para a aproveitar como ameaça que contivesse em respeito -e desconfiança os reis catholicos. A isso se refere um breve do papa -Innocencio VIII, do anno de 1487, a que Clemencin e Lopes de Mendonça -alludem, mas que não nos consta haja sido publicado na integra em -portuguez. Porisso o damos á estampa: - -«... Tendo chegado ha pouco ao nosso conhecimento, que alguns perversos, -cobiçosos de alterar a paz mencionada, não receiam persuadir a Joanna, -filha duvidosa do rei Henrique, e sua herdeira, que, largando o habito -religioso que tomou, saia do mosteiro e volte para a vida secular, e, -abjurando da profissão por ella tão solennemente feita, e com fingidas -desculpas de medo, e de protestos, que aliás affirma ter feito contra -a primeira asserção já dicta, se intitule rainha dos citados reinos, e -assim queira ser pelos outros intitulada, e que para a induzirem a um -tal fim não duvidam dar-lhe o nome e titulo de rainha; e sendo certo que -das frequentes e continuadas suggestões de taes individuos, a citada -Joanna algumas vezes com a importuna instancia se deixa vencer, e, ou -seja para agradar aos mesmos que a persuadem, e parecer que acredita -tudo quanto elles lhe dizem e pretendem gravar-lhe na mente, ou seja por -outro motivo, larga o véo negro que tomara, e com o qual tão patente -e publicamente se desposou com Jesus Christo, que é o mais excellente -de todos os filhos dos homens, e ficou sendo consagrada ao Senhor, -tanto dentro como fóra do mosteiro, no qual vivia, e se intitula e -faz intitular rainha dos referidos reinos, como lhe persuadiam, com -perigo das almas da mesma Joanna e dos que assim a aconselhavam, e com -pernicioso exemplo e escandalo de muitos: nós, pois, que ardentemente -desejamos, com o auxilio da divina clemencia, que entre os mencionados -reis de Hespanha e de Portugal, invictos defensores da fé catholica -n’aquelles Estados, a mencionada paz se consolide e vigore em todos os -tempos futuros para incremento da fé catholica, por cuja exaltação um -d’elles atacando o reino de Granada, e o outro, segundo o costume dos -catholicos reis seus progenitores, passando com seus subditos para as -regiões da Africa, trabalham com zelo inquebrantavel por combater com -os infieis, e por dilatar a mesma fé; receando que, se acontecesse que -as anteriores discordias entrassem a lavrar entre os mencionados reis, -estes tivessem occasião de desistir das luctas por elles respectivamente -emprehendidas contra os mesmos infieis, e de se afastarem de tão -salutifera obra, dando ensejo aos infieis não só de se apoderarem de novo -d’aquelles logares que já lhes tinham sido arrancados pelos referidos -reis, senão de invadirem hostilmente os logares circumvisinhos, habitados -pelos fieis, saquearem-n’os e sujeitarem-n’os áquella enxovalhadissima -raça, com grande mortandade e perda dos christãos: por motu proprio, e -não a pedido dos referidos rei Fernando e rainha Isabel, ou d’alguem em -nome d’elles, mas de nossa mera deliberação, confirmamos e approvamos por -auctoridade apostolica a mencionada profissão tão solennemente feita pela -referida Joanna, e todas e cada uma das materias a ella respectivas, que -se encontram exaradas nos mencionados instrumentos, e quantas d’ellas -se derivarem, se forem legitimamente feitas, e só nos termos em que o -forem, e as corroboramos com a força do presente escripto, e supprimos -todas e quaesquer faltas, se porventura algumas houve relativamente ás -solennidades d’este acto; e com os dictos motu proprio e auctoridade -ordenamos estrictamente á mesma Joanna, que não vá de encontro á dicta -profissão por ella tão solennemente feita, voltando de facto para o -seculo, nem saia do mosteiro das freiras de Santarem da dicta ordem, -para o qual ultimamente se passou, nem mesmo por pouco tempo, a não ser -por algumas das causas pelas quaes os institutos regulares da referida -ordem o permittem ás freiras professas n’ella, voltando para elle logo -que taes causas cessem; não podendo dentro ou fóra do seu mosteiro -largar o veo e habito da mencionada ordem, nem intitular-se rainha, ou -fazer ou permittir que assim pelos outros seja intitulada. E a todos -e a cada um dos christãos de qualquer estado, grau, ordem ou condição -que sejam, e em qualquer ordem ecclesiastica, até mesmo episcopal, -archiepiscopal, e cardinalicia, ou mundana, até mesmo de rei ou de rainha -que figurem, prohibimos com o mesmo motu proprio e auctoridade que sob -qualquer pretexto manifesta ou occultamente, directa ou indirectamente, -por si, por outro ou por outros, persuadam á mesma Joanna que saia do -referido mosteiro e ordem, e que volte para o seculo, e se trate como -secular, e que impugne a profissão por ella feita, e para este fim lhe -prestem por qualquer modo auxilio, conselho ou favor, ou a intitulem -rainha ou a façam assim intitular, quer verbalmente, quer por escripto -de qualquer fórma, sob pena d’interdicto, de prohibição d’entrada em -egreja, suspensão dos actos divinos e dos governos das suas egrejas, se -forem bispos e superiores; e se inferiores d’ellas, e ecclesiasticos -e seculares pertencentes ás ordens militares e a quaesquer ordens -isentas e não isentas, sob pena de excommunhão, e tambem da privação das -egrejas, mosteiros, priorados, preceptorias, dignidades, personados,[68] -administrações ou officios, etc., devendo incorrer em sentenças, censuras -e penas, das quaes não poderão ser absolvidos senão em artigo de morte, -e dada antes a devida satisfacção, etc. (_Addicionaram-se instrumentos -publicos a 15 de novembro de 1480 contendo os votos feitos por D. Joanna, -nos quaes tambem se descrevem os sagrados ritos então guardados_). Dada -em Roma, em S. Pedro, a 24 de junho, anno da Encarnação do Senhor 1487, e -terceiro do nosso pontificado.»[69] - -Não podemos deixar de notar, com Clemencin, a habilidade com que este -breve está redigido, porisso que, apontado contra D. João II, evita -dirigir-se-lhe directamente, antes elogia o rei de Portugal pelo seu -infatigavel zelo em continuar a guerra na Africa contra os infieis. - -Isabel a Catholica, mulher de espirito superior, conhecia perfeitamente -a estatura moral do seu antagonista. Porisso foi inclinando os -acontecimentos a uma solução pacifica, procurou approximar-se, quanto -poude, de D. João II, o qual não duvidou enviar-lhe um navio carregado -com todos os aviamentos de que os reis de Castella precisavam para -sustentar a guerra de Granada. - -O principe portuguez D. Affonso havia chegado aos quatorze annos, e a -infanta D. Isabel, filha dos reis catholicos, estava ainda solteira. D. -João II mandou perguntar se havia idéa de manter o antigo contracto de -casamento. A resposta, vinda de Castella, fôra affirmativa. Portugal era -para Castella um mau visinho, que importava ter em segurança. Convinha -liquidar, de uma vez para sempre, a interminavel questão da _Beltraneja_. - -Toda a gente sabe a pompa com que se realizou o casamento do principe -portuguez D. Affonso com a infanta castelhana D. Isabel. Excusamos -demorar-nos n’este ponto. Toda a gente sabe tambem quão breve fôra a -felicidade conjugal dos jovens esposos, subitamente anniquilada pelo -desastre que victimara em Santarem o principe D. Affonso, morrendo -arrastado pelo cavallo que montava. - -Garcia de Rezende recorda na _Miscellanea_ a rapida mutação das alegrias -do noivado em prantos e tristezas inesperados: - - Era de dezeseis annos - e casado de oito mezes, - perfeito entre os mundanos, - mui quisto dos castelhanos, - descanço dos portuguezes. - Uma triste terça-feira, - correndo uma carreira - em um cavallo, cahiu. - Nunca falou nem buliu, - e morreu d’esta maneira. - - Por sua grã formosura - foi no mundo nomeado - angelica creatura. - Nunca foi tal desventura, - nem principe tão amado; - em Castella e Portugal - foi tão sentido seu mal, - tão chorado em toda a Hespanha, - que foi tristeza tamanha, - que se não viu outra tal. - - Vi a princeza tornar - bem a revez do que veio. - Coisa muito de espantar - tão grã pressa, tal mudar - do tempo, tão grão rodeio! - Entrou a mais triumphosa, - mais real, mais grandiosa - que nunca se viu entrada; - sahiu mui desesperada, - mui triste, muito chorosa. - - Entrou com mil alegrias, - sahiu com grandes tristezas. - Tanto oiro e pedrarias - não se viu em nossos dias, - nem taes gastos, taes riquezas; - as galantes invenções - se tornaram em paixões, - os brocados em saial, - o prazer grande, geral - em nojos, lamentações. - -Os partidarios da _Beltraneja_ viram na desastrosa morte do principe D. -Affonso o dedo de Deus, o castigo do céo. Dil-o claramente Duarte Nunes -de Leão na _Chronica de D. Affonso V_: - -«... não tardou, que quando o principe D. João, d’ahi a pouco já feito -rei, casou o principe com tantos gostos, e tantas esperanças, no meio -dos contentamentos, e das maiores festas do mundo, viu seu unico filho, -que elle tão ternamente amava, morto, e arrastado de um cavallo, á vista -da mesma senhora D. Joanna, que do mosteiro o podia ver deitado em uma -pobre cama de palha de um pescador, onde acabou... tomando Deus, segundo -a todos pareceu, por aquella afflicta mulher a vingança.» - -Em verdade, dadas as crenças supersticiosas da epocha, tudo fazia -acreditar que a morte do principe D. Affonso fôra a justa punição dos -repetidos sacrificios impostos a D. Joanna, principalmente por D. João -II. Em Santarem vira ella cahir aos pés do altar os seus formosos -cabellos, e deante de si o vulto sereno e frio de D. João; agora, tambem -em Santarem, era o rei que chorava deante do cadaver do filho, como se -a Providencia houvesse querido vingar o passado na pessoa innocente do -principe. - -«Nem os reis de Castella, prosegue Duarte Nunes, ficaram depois sem seu -quinhão de castigo; porque o seu filho varão, unico herdeiro de tantos -reinos, na flor de sua edade, já casado, sem deixar successão, quasi -no tempo em que com a senhora D. Joanna seus paes o prometteram casar, -falleceu... E a princeza D. Isabel, filha maior dos dictos reis, cortados -seus cabellos, e vestida de pannos de burel, triste e anojada, se viu em -termos de tomar por vontade a vida, que á senhora D. Joanna fizeram tomar -por força, se com pregações a não converteram; mas sua vida foi de pouco -tempo.» - -Tambem Ruy de Pina, em linguagem dulcificada por toques de maviosa -tristeza, procura pôr em evidencia o castigo do céo, vendo resvalar ao -tumulo os primogenitos de Portugal e Castella, e _trocados os brocados -ricos, e hollandas delgadas_ que trouxera a infanta D. Isabel, _com pobre -burel e grossa estopa em que foi logo vestida_, depois da morte de D. -Affonso; _nem ficaram por cortar seus cabellos doirados com accidental -proposito de religião_. - -A punição parecia haver sido ordenada em identicas circumstancias do -delicto. Nem o episodio dos cabellos falta; em Santarem, as duas primas -houveram de despojar-se das suas tranças, uma para tomar o véo de monja, -a outra para tomar o véo de viuva. _É o dedo de Deus!_ dizia-se então. -E a phrase ficou como uma synthese dos factos, que em verdade parecem -providencialmente dispostos. - -Passaria no forte espirito de D. João II, alguma vez, a idéa de que a -morte de seu filho fôra realmente um castigo do céo? - -Eis o que ninguem póde saber ao certo. - -A verdade é que o rei sustentava, com grandeza, a casa da _Excellente -Senhora_, no seculo. Nas _Provas da historia genealogica_[70] vem a -relação das pessoas de que se compunha a casa de D. Joanna, e por essa -relação se vê que não tinha menos de oito damas, nove moças de camara, -sendo duas moiras, quatro donas, oito capellães e cantores, seis moços -de capella, sete moços da camara, quatro estribeiros, dois reposteiros, -afóra veador, contador, thesoireiro, comprador, mantieiro, cozinheiro, -lavadeira, alfaiate, physico e cirurgião. - -A dotação de D. Joanna, consignada no orçamento geral do Estado (despesa -ordinaria) em 1478, era de 1:400$000 réis. - -Onde habitava em Lisboa D. Joanna? Não pudemos averiguar. Sabe-se apenas -que no reinado de D. João II residia no Paço do Castello, e que ahi -falleceu, se bem que o documento d’essa epocha, a que nos encostamos, -e a que ainda teremos de alludir, diga: _onde ora poisa a serenissima -senhora_, o que faz suppor que nem sempre residira alli quando estava -fóra do convento. Mais adeante veremos que houve idéa de se construir um -palacio para sua residencia. - -Como se sabe, D. João II, morto o principe D. Affonso, empregou os -maiores esforços para deixar por herdeiro da coroa D. Jorge de Lencastre, -seu filho natural. - -Em segredo mandou a Castella pedir para elle a mão da filha mais nova dos -reis catholicos, D. Catharina, encarregando d’esta missão Lourenço da -Cunha. Com este casamento julgava D. João II garantir melhor a posição -futura do bastardo. - -Quando Lourenço da Cunha chegou á côrte castelhana, estava D. Fernando -doente, mas a rainha despachava os negocios. Foi, pois, ella que recebeu -o embaixador portuguez, o qual apresentou o pedido de D. João II. A -rainha respondeu, que sua filha não, mas que el-rei seu senhor tinha -uma filha bastarda, que lhe daria. Então Lourenço da Cunha replicou -altivamente: - -—Senhora, el-rei meu senhor não pretende tanto aparentar-se com el-rei D. -Fernando como com vossa alteza; porisso, se vossa alteza tem outra filha -bastarda, elle a tomará para seu filho. - -Quando Lourenço da Cunha recolheu a Portugal, D. João II premiou-lhe o -procedimento, fazendo-lhe mercê de uma commenda de Beja, Serpa e Moura, -tão vasta, que depois poude ser dividida em tres. - -Todos estes factos não passavam de leve pelo espirito da rainha D. -Isabel, sempre receosa de D. João II. Apesar da ousada resposta do -embaixador portuguez, e do acolhimento que lhe fez D. João, as relações -entre os dois paizes não foram interrompidas; pelo contrario, pensou-se -em seguir, por parte de Castella, o conselho do cardeal de Hespanha, -de que convinha casar agora mais do que nunca o principe D. João com a -_Excellente Senhora_. Em 1494, Fernando e Isabel não duvidavam assignar -o celebre tratado, feito com D. João II, sobre o que tocaria a cada uma -das duas coroas do que estava por descobrir no mar oceano.[71] E um anno -depois, quando D. João II morria, porventura envenenado por mestre João -de Mazagão combinado com o duque de Beja,[72] a rainha Isabel de Castella -resumia n’uma só phrase toda a biographia d’esse rei cujo caracter de -ferro ella perfeitamente conhecera: «Morreu _o homem_!» exclamara D. -Isabel ao saber do fallecimento de D. João II. - -Pois bem! Elle, o forte, o _homem_, não esqueceu no seu testamento a -fragil creatura que dobrara, como um vime, ao sabor da sua vontade -poderosa. - -Uma disposição testamentaria diz: - -«Item, ao dicto duque meu primo (D. Manuel) encommendo e rogo que honre e -trate bem a _Excellente Senhora_, minha prima, e que sempre a tenha bem -e honradamente como pertence á pessoa que é, e que foi, e do que lhe é -posto para sua mantença lhe não seja tirado nada em seus dias, estando -ella na maneira em que ora está.» - -D. Manuel não era homem que se preoccupasse com castigos do céo quando -queria fazer a sua vontade; estava enamorado da viuva do principe D. -Affonso, da filha mais velha dos reis catholicos, e tratou de negociar o -casamento sem se importar com _o dedo de Deus_, que bem poderia descer -pela segunda vez a impor-se sobre a cabeça da bella castelhana. - -Sabe-se que a infanta resistira a principio, e que por fim annuira pondo -por condição que fossem expulsos de Portugal os judeus e os moiros, -desatino economico que D. Manuel não duvidou praticar. - -Os reis de Castella tinham cinco filhos, a saber: D. João, casado com -Margarida d’Austria, e as infantas D. Isabel, D. Joanna, D. Maria e D. -Catharina. - -Ao tempo do casamento de D. Manuel com a princeza castelhana, o principe -D. João estava gravemente doente, achava-se n’um estado desesperado; -porisso, visto que D. Manuel tanto queria apressar essa união, a sua -noiva foi acompanhada até á fronteira pela rainha Isabel, ficando D. -Fernando a acompanhar o principe enfermo, quasi moribundo. - -Justamente na occasião em que os actos religiosos se realizavam em -Valencia d’Alcantara, chegou noticia do fallecimento do infante D. João, -o que fez aguar as poucas festas que estavam preparadas: poucas por -attenção ao desgosto que por motivo da doença do infante havia na côrte -de Castella. - -Ora, morrendo o herdeiro da coroa de Fernando e Isabel, os direitos de -successão passavam ao segundo filho, a infanta D. Isabel. Esta idéa não -podia deixar de preoccupar um espirito tão ambicioso como o do successor -de João II. Mas, por occasião da morte de seu marido, D. Margarida -ficara gravida de sete mezes. Eis aqui uma contrariedade para quem -não fosse tão feliz como D. Manuel. Para este homem venturoso, porem, -todas as difficuldades desappareciam: D. Margarida dera á luz uma -creança morta. Portanto, aqui temos D. Manuel e sua esposa com direito -a intitularem-se, como de facto fizeram, principes de Castella, Leão e -Aragão. - -A fim de serem jurados como taes, era preciso irem a Castella. As côrtes -nacionaes, com a concentração do poder real, realizada por D. João II, -tinham perdido muito da sua importancia, mas era este um dos casos em -que havia mister reunil-as. D. Manuel convocou-as portanto para Lisboa, -n’esse anno de 1498, e as côrtes auctorizaram effectivamente a ida dos -soberanos a Castella. - -Com effeito, a 29 de março d’esse anno, D. Manuel e sua esposa partiam -com grande e luzido sequito de pessoas nobres, ficando encarregada da -regencia do reino a rainha viuva D. Leonor. - -Logo que chegaram á fronteira de Castella, os reis de Portugal foram -recebidos pelo duque de Medina Sidonia, com apparatoso cortejo de -fidalgos, e assim acompanhados até Toledo, onde os reis catholicos -esperavam, e onde D. Manuel e D. Isabel foram, na Sé d’aquella cidade, -jurados por principes herdeiros dos reinos de Castella e Leão. - -Passados alguns dias, tanto Fernando e Isabel, como D. Manuel e sua -esposa, partiram para o Aragão, a fim d’estes ultimos serem jurados em -Saragoça, mas sobrevieram inconvenientes com que não contavam, e que -impediram a immediata realização da ceremonia que alli os levava. - -«Feita a entrada, escreve Goes, quizera el-rei D. Fernando, que logo ao -outro dia, que era domingo, jurassem os principes, mas os aragonezes -lh’o não consentiram por então, sobre o que houve muitas altercações, -excusando-se a el-rei, que não podiam fazer tal juramento sem serem -presentes os deputados de Valença e Barcellona, sobre o que el-rei -D. Fernando tornou a apertar com elles; por fim lhe responderam, -que jurariam os principes se lhes elle de novo confirmasse alguns -privilegios, que lhe tinha quebrado, do que os el-rei desenganou, sem -lhes querer conceder o que pediam, nem elles menos jurar os principes, -no que se passaram muitos desgostos e paixões, _por espaço de tres -mezes_. D’estas differenças uma das principaes foi dizerem que no reino -não podia succeder femea, senão varão, e que este havia de ser por -eleição dos Estados do reino, quando Deus ordenasse não deixar el-rei -filho varão herdeiro, e que para jurarem a princeza elles o não podiam -fazer sem os de Valença e Barcellona, que por só este respeito dilatavam -sua vinda, o que era signal manifesto de não quererem consentir no tal -juramento...» - -Este facto é interessante e importante considerado como symptoma de -reacção do espirito nacional contra a vontade imperiosa da coroa, que, -n’aquelle tempo, em toda a Peninsula hespanica se havia aureolado de -extranho prestigio, graças a D. João II em Portugal, e a Fernando e -Isabel em Castella. - -Succedeu então que a rainha D. Isabel, mulher de D. Manuel, deu á luz em -Saragoça um filho varão, que recebeu o nome de Miguel, e que desde logo -foi considerado o herdeiro presumptivo dos reinos de Portugal, Castella, -Leão, Sicilia e Aragão, facto este que veiu pôr termo ás reluctancias -até ahi apresentadas pelos de Aragão. Mas o nascimento d’este principe -custou a vida a sua mãe, que foi sepultada no mosteiro de S. Jeronymo, -em Saragoça. D. Manuel ainda se demorou alguns dias no Aragão, até que, -viuvo, regressou a Portugal no mez de setembro d’esse anno (1498). - -O infante D. Miguel foi acclamado e jurado em Castella e no Aragão, e, -para que tambem o fosse em Portugal, convocou D. Manuel os tres Estados -para o mez de março de 1499. Reunidas as côrtes, não quizeram ellas jurar -sem que o rei lhes promettesse, em nome do principe seu filho, que nunca -o regimento da justiça e fazenda do reino, e senhorios de Portugal, em -qualquer tempo, e por qualquer caso, seria dado nem concedido senão a -portuguezes, e o mesmo a respeito das capitanias dos logares de Africa, e -alcaiderias-móres das villas e castellos, o que el-rei concedeu. - -Quantas vezes, pois, estivera o reino de Portugal para fundir-se com o -de Castella em consequencia de allianças politicas e pessoaes, as mais -das vezes tendo por origem um casamento! Chega a ser assombroso que -todas essas combinações se mallograssem alfim, e que Portugal mantivesse -a sua independencia, apenas estrangulada n’um periodo de sessenta -annos, relativamente pequeno se attendermos á longa historia d’essas -combinações, e ainda mesmo á fundação da nossa nacionalidade. - -Garcia de Rezende diz: - - Vimos Portugal, Castella - quatro vezes adjuntados - por casamentos liados - principe natural d’ella - que herdava todos reynados, - todos vimos fallecer, - em breve tempo morrer - e nenhum durou tres annos, - portuguezes, castelhanos - já os Deus quer juntos ver. - -Refere-se Rezende a Affonso V, a seu neto D. Affonso, a D. Manuel e ao -principe D. Miguel, que falleceu em Granada com vinte e dois mezes de -edade, mallogrando-se assim, ainda d’esta vez, o projecto de unificação -das coroas de Portugal e Castella. - -Ao passo que Fernando e Isabel procuravam separar da causa da -_Beltraneja_ a familia real portugueza, a Providencia parecia querer -desconcertar as combinações e os calculos da politica: o nascimento do -infante D. Miguel custava a vida de sua mãe, e o proprio infante morria -tambem d’ahi a pouco tempo. - -Sempre debaixo do mesmo ponto de vista, pactuou-se o casamento de D. -Maria, terceira filha dos reis catholicos, com o viuvo D. Manoel. - -D’esta vez a Providencia permittiu que D. Maria vivesse, e désse á luz um -verdadeiro enxame de filhos. É que a Providencia parecia reservar para D. -Joanna, a pobre _Beltraneja_, uma compensação muito maior, uma desforra -completa e cabal. - -Oiçamos um escriptor hespanhol, Clemencin, no mais completo estudo que -se tem escripto em Hespanha ácerca dos reis catholicos. O testemunho é, -portanto, de todo o ponto insuspeito; porisso o reproduzimos na integra: - -«Foi opinião de alguns, segundo Zurita, que antes da rainha D. Isabel -fallecer, seu marido lhe prometteu, sob juramento, não casar outra vez. -Sem embargo, a pouco trecho da sua morte, entabolou o rei viuvo esta -negociação (_tratar do seu casamento com a Excellente Senhora_), enviando -para ella a Portugal D. Rodrigo Manrique. O objecto de tão extranha -solicitude, que desde logo afearam os parciaes do rei D. Philippe, o -_Formoso_, e que, como adverte o mesmo Zurita que não póde suspeitar-se -de desaffecto ao rei catholico, se divulgou mais do que este quizera, era -patente e manifesto: tomar a parte dos direitos de D. Joanna, fazel-os -valer contra os filhos que tinha tido de sua primeira mulher, despojal-os -da herança de Castella, e vingar-se assim de Philippe e dos grandes -castelhanos, que no maior numero preferiam o partido do genro ao do sogro. - -«São incalculaveis os disturbios, guerras civis e damnos que teriam -resultado d’este projectado casamento, se se houvesse realizado; mas -por fortuna de Hespanha, _D. Joanna não deu ouvidos á proposta do rei -D. Fernando, fosse aversão ao estado de matrimonio ou á pessoa do -pretendente, a quem não podia deixar de olhar como um dos principaes -auctores de suas desgraças_. Interveiu provavelmente na resolução de -D. Joanna o influxo da rainha de Portugal, D. Maria, a quem não podia -agradar este casamento, não só em respeito á memoria de sua defuncta mãe, -D. Isabel, nem em attenção a sua irmã que tinha succedido nos reinos de -Castella, mas tambem em consideração aos seus proprios direitos e aos de -seus filhos. - -«Mui curto espaço de tempo deveu medear entre o projecto de casamento -do rei catholico, e a morte de D. Isabel, occorrida a 26 de novembro de -1504. Para janeiro seguinte convocou côrtes o rei D. Fernando, na cidade -de Touro, cuja proximidade de Portugal, e a maior facilidade de negociar -e ajustar d’ahi o novo enlace, foram, segundo as apparencias, a causa da -escolha do sitio. O certo é que, tendo-se encerrado as côrtes em meado de -fevereiro, o rei, por seguir mais de perto as negociações com Portugal, -como diz Zurita, continuou em Touro até ao fim de abril, em que se -retirou para o interior de Castella; e isto denuncía que já então estava -desvanecido e mallogrado o negocio.» - -Em verdade, a escarnecida _Beltraneja_, a chasqueada _Monja_, não poderia -imaginar mais completa desforra, do que a de ver humilhado a seus pés -o rei catholico, o viuvo de Isabel, pedindo-lhe que consentisse em -desposal-a! - -A grandeza da reparação só é comparavel á grandeza do desdem com que essa -solicitação foi recebida, tanto mais que o espirito de D. Joanna não -conseguiu nunca transigir com a alienação dos seus direitos, reaes ou -suppostos, com a abdicação de todas as mundanidades ostentosas, de todas -as honras e titulos com que julgava poder condecorar-se. - -Ella considerava-se _rainha_, ainda quando rejeitava a mão de um rei; -ella continuava a assignar-se rainha, ainda quando se recusava a -subscrever um contracto de casamento com o viuvo de Isabel a Catholica. - -A sua nobre altivez levou-a por certo a recusar essa união, a preferir -conservar-se solteira, _rainha sem reino_, e moça de trinta e tres annos -apenas. - -Vira desdenhosa afastar-se o vulto de mais esse noivo, como já tinha -visto esfumarem-se no horizonte longinquo das suas recordações os vultos -de tantos outros noivos, o infante D. Affonso, de Castella, o duque de -Guiena, D. Fradique, de Napoles, D. Henrique, de Aragão, D. Affonso V, de -Portugal, o principe D. João, de Castella, o rei de Navarra, Francisco -Phebo!.. - -Uma cohorte de noivos... platonicos, que nem sequer com o halito chegaram -a macular a sua grinalda virginal de flores de laranjeira... - -E a morte, respeitando-a a ella, a todos foi ceifando. - - - - -X - -SEM PAZ NO TUMULO! - - -El-rei D. Manuel recommenda no seu testamento a _Excellente Senhora_, -como já o fizera o seu antecessor: «Item, pelo conjuncto devido que tenho -com a mui Excellente Senhora minha prima, e por suas muitas virtudes, e -pela obrigação em que por estes respeitos lhe são, e pelo carrego que -d’ella e de todas suas coisas com razão o rei de Portugal deve em todo -tempo ter, encommendo muito ao principe meu filho, que sempre d’ella -e de sua consolação tenha mui grande e especial carrego, visitando-a -e honrando, e tratando como ella o merece, por todas as razões -sobredictas, e em todas suas coisas seja alli tratada como eu sempre -folguei de o fazer, e é razão que assim se lhe faça, e aos deputados -ao governo encommendo e mando que emquanto no governo estiverem lhe -façam mui inteiramente pagar os dinheiros que tem de seu assentamento, -e n’aquella propria fórma e maneira que agora se lhe faz, e se melhor -lhe puder fazer, assim será mui bem que lhe seja feito, e muito lhe -encommendo que de isso, e de todo o que lhe cumprir tenham grande e -especial cuidado, e entre os mais principaes, isto lhe encommendo muito -em especial.» - -Um anno depois da morte de D. Manuel, isto é, em 1522, a _Excellente -Senhora_, intitulando-se rainha de Castella, fez doação solenne de todos -os seus direitos a el-rei D. João III, considerando-o como seu filho -legitimo, e universal herdeiro, visto ser «já em tanta edade constituida -que não era tempo para haver de casar, nem poder haver filho natural -legitimo descendente, que os dictos seus reinos e senhorios por seu -fallecimento haja de herdar». - -D. João III, que presente estava, acceitou, e recebeu, e prometteu ter -e manter os dictos reinos e senhorios de que a _Excellente Senhora_ lhe -fazia doação. - -Foram testemunhas d’este acto o barão de Alvito, veador da fazenda real, -Luiz da Silveira, do conselho de el-rei e seu guarda-mór, e Ruy Figueira, -veador da fazenda da mesma senhora. - -Subscreveu o auto o secretario Antonio Carneiro. - -D. João III approvou-o e confirmou-o.[73] - -A infeliz princeza ainda viveu oito annos. Falleceu em Lisboa, no paço da -Alcaçova ou do Castello, no anno de 1530, com sessenta e oito de edade. - -Do seu testamento, que existe na Torre do Tombo, gaveta 16, maço I, n.º -2, dá copia Antonio de Sousa nas _Provas da historia genealogica_.[74] - -D. Joanna ordena que o seu corpo seja amortalhado no habito de S. -Francisco e enterrado no mosteiro do Varatojo; deixa cem mil réis para -missas, outros cem para resgate de vinte e dois escravos moiros e, -finalmente, outros cem para os pobres e orfans envergonhados. Á capella -de Santa Clara, de Evora, deixa oito mil réis para uma missa diaria. - -A isto se limitam as suas disposições espirituaes. - -O resto são declarações de divida a differentes damas de sua casa, de -quantias que lhes promettera quando casaram; declarações de divida por -emprestimos contrahidos ou por serviços recebidos, e recommendações -ao rei de legados a varias pessoas suas protegidas, entre as quaes as -freiras que tivera por criadas. - -D. Joanna assigna: _Yo la reyna_.[75] - -A desventurosa princeza morrera, pois, abraçada ao seu titulo de rainha, -que, a bem dizer, nunca passara de uma ficção, titulo sem realidade -duradoira que lhe correspondesse e o justificasse. - -N’uma mensagem ao rei, appensa ao testamento, D. Joanna recorda que -fôra requerida para casar, e parece enviar-lhe documentos relativos a -essas negociações nupciaes. Dizem talvez respeito ao casamento que lhe -propuzera o viuvo de Isabel a Catholica. Mas, se nos não enganamos, ainda -mais uma vez se revela a fidalga altivez de D. Joanna, occultando o nome -de Fernando. - -Por essa mesma mensagem se vê que o rei lhe havia promettido mandar -construir casa propria, que lhe era muito necessaria, _e logo,_ expressão -sua. - -D. Joanna fez, porem, um segundo testamento, do qual encontramos noticia, -em termos que não admittem duvida, na _Historia seraphica_. É para -extranhar que nenhum dos seus biographos mencionasse a noticia a que nos -referimos, e pela qual se vê que a mallograda noiva de Affonso V mudara -de tenção quanto ao logar que escolheu para sepultura. - -«Diziam uns, escreve frei Manuel da Esperança, que estava no sobredicto -mosteiro de Santarem (Santa Clara); outros, no de Varatojo, como havia -disposto no primeiro testamento, que depois revogou. Porem a todos -desenganamos com a luz de uma carta de el-rei D. Sebastião, a qual -passou em seu nome a rainha D. Catharina, que governava por elle na sua -menor edade, em 18 de fevereiro de 1558. Diz n’ella, que sua tia a -_Excellente Senhora ordenou por seu testamento, que se dissessem para -sempre no mosteiro de Santa Clara, de Lisboa, onde se mandou lançar, e -tem sua sepultura, seis missas cantadas em cada anno_. E ordena, que a -esmola das missas e azeite para as duas alampadas, se pague sempre pela -fazenda real. Foi escondido seu corpo dentro do seio da terra em a casa -do capitulo, e ainda que depois o trasladaram para sepultura alta, nem -porisso (_tão esquecida a querem_) lhe puzeram ou brazão ou epitaphio, -que a dê a conhecer. Só na pedra apparece este numero: 1545; mas não -declara se é o tempo da morte, se o da trasladação. Defronte lhe fica uma -vidraça, na qual se vêem de pintura as nossas quinas reaes, feita no anno -1541, como ella mesma diz.»[76] - -_Tão esquecida a querem!_ pondera frei Manuel da Esperança. - -Na sepultura d’essa mulher, que esteve para cingir duas coroas, podendo -dizer-se que por alguns dias as cingiu, nem um brazão, nem um epitaphio; -apenas uma data, que suppomos ser a da trasladação!.. - -Ao menos que, depois de tantos baldões, lhe não podiam tolher a paz do -tumulo, porto seguro onde os naufragos do mundo logram emfim descançar, -por mais que os vivos os esqueçam. - -Defronte do sepulcro, uma janella por onde o sol entrava... Bem precisado -estava da amoravel visita da luz do céo o cadaver d’essa princeza, que -só conheceu na terra a luz sinistra das procellas guerreiras e das -tempestades diplomaticas! - -Mas o seu destino obedecia a um mysterioso e sinistro mobil, que nem na -morte lhe permittia gosar absoluto descanço. - -Vê-se pela carta regia de D. Catharina—que todavia não pudemos encontrar -na Torre do Tombo, nem nas gavetas, nem na collecção especial, nem no -corpo chronologico—que a _Excellente Senhora_ se mandara sepultar na -egreja de Santa Clara, de Lisboa. - -Ora esta egreja foi derrubada pelo grande terremoto de 1755. Luiz -Cardoso, no _Diccionario geographico de Portugal_, manuscripto existente -na Torre do Tombo, diz, no tomo XX, livro 2.º, que o convento de Santa -Clara ficou excessivamente damnificado com o terremoto, e que a egreja -padeceu total ruina, ficando só em pé a parede da parte do norte. - -Assim se perderam e confundiram nas ruinas de Lisboa os restos mortaes da -malfadada princeza. - -Depois do terremoto, as freiras, sobreviventes, de Santa Clara, passaram -para o convento da Esperança, levando comsigo o que do seu cartorio poude -ser salvo. Esses papeis acham-se hoje na Torre do Tombo, mas nada dizem -com relação á _Excellente Senhora_, que nem depois de morta tivera o -repoiso eterno concedido aos cadaveres! - - * * * * * - -Ahi fica condensada, segundo os materiaes fornecidos pelos escriptores -castelhanos e portuguezes, a biographia de uma princeza notavel do seculo -XV, princeza que foi causa e pretexto de muitos acontecimentos politicos -d’essa epocha, e que, rainha sem reino, atravessou uma longa existencia -profundamente accidentada de desgostos e contrariedades. - -Se as lagrimas, especialmente aquellas que se reprimem com nobre -heroicidade pódem ser uma santificação, D. Joanna merece uma pagina no -martyrologio das grandes dôres, no _Flos sanctorum_ dos martyres, nobres -ou plebeus, de que a historia conserva o nome. - -Cremos ser a primeira vez que se coordena uma monographia, de maiores -dimensões, tanto quanto possivel completa, ácerca da _Excellente Senhora_ -e do seu tempo. Lopes de Mendonça ao fechar, nos _Annaes das sciencias e -lettras_[77], um interessante estudo sobre a batalha de Touro, promettia -publicar, _brevemente_, outro estudo sobre a vida da princeza D. Joanna. -A promessa não poude ser cumprida. Procurámos prehencher a lacuna, -não certamente como o teria feito Lopes de Mendonça, mas como pudemos -fazel-o. E se o publico receber benevolamente este trabalho, novos -estudos historicos se lhe seguirão. - -Resta-nos apenas dizer que se conhece um retrato, qualquer que possa ser -a sua authenticidade, da _Excellente Senhora_, copia do que se acha -na arvore genealogica de D. João I, manuscripto n.º 12:531 do _British -Museum_, de Londres. É o que vem nas _Rainhas de Portugal_, de Benevides, -tomo I, pag. 286. - - -FIM - - - - -ERRATA IMPORTANTE - - -A pag. 124, linha 15, sahiu por lapso, _Tejo_ em vez de _rio_, e este -rio, como é facil de ver pelo texto, não podia ser o Tejo, mas sim o -Douro, em cuja margem direita assenta a cidade de Miranda (de que alli se -fala), fronteira a Hespanha. - - - - -NOTAS - - -[1] D. Affonso V ordenou em 1456 que os restos mortaes de sua mãe viessem -para a egreja do mosteiro da Batalha. Trouxeram-n’os Henrique IV e D. -Joanna, quando vieram a Portugal para se avistarem com Affonso V, em -Elvas. - -[2] _Provas da Historia genealogica_, tomo II, pag. 18. - -[3] Damião de Goes, _Chronica do principe D. João_, cap. XXXV. - -[4] A mão de D. Isabel, de Castella, era tambem solicitada pelo principe -D. Carlos, de Vianna. - -[5] O reino de Navarra passou da casa de Foix á casa de Albret, pelo -casamento de Catharina de Foix, herdeira de Navarra, com João d’Albret -(1484). Fernando, o _Catholico_, rei de Castella e Aragão, arrebatou a -João d’Albret toda a Alta Navarra (1512), deixando-lhe apenas a parte da -Navarra situada ao norte dos Pyrenéos, isto é, a Baixa Navarra. - -[6] Pina, _Chronica_, cap. CLIV. Visconde de Santarem, _Quadro -elementar_, tom. I, pag. 363. - -[7] Pina, _Chronica_, cap. CLVII. - -[8] Dava-se o nome de _hermandades_ a uma especie de associações -populares, que formavam entre si estas ou aquellas povoações de uma -provincia ou reino, para se policiarem a si proprias, e defender-se -das extorsões dos reis e dos nobres. No reinado de Fernando e Isabel, -as _hermandades_ foram organizadas e regulamentadas officialmente, em -beneficio commum do throno e dos povos. - -[9] «Suponen algunos que la reina en este tiempo habia tenido con un -sobrino del arzebispo, llamado don Pedro, flaquezas de la misma especie -que las que antes le habiam atribuido con don Beltran de la Cueva.» -Lafuente. - -[10] Visconde de Santarem, _Quadro elementar_, tomo I, pag. 366. - -[11] _Chronica do principe D. João_, cap. XXXVIII. - -[12] Veja-se o _Quadro elementar_, tomo I, pag. 366. - -[13] Diogo Clemencin publica-a na integra. _Memorias de la real académia -de la historia_, tomo VI, pag. 583. - -[14] Por este motivo ficaram os _ss_ no escudo das suas armas. - -[15] O padre Flores antecipa o casamento um dia: 18 de outubro, diz elle. - -[16] O visconde de Santarem diz: 1471 a 1473. (Tom. I do _Quadro -elementar_, pag. 367). - -[17] _Chronica do senhor rey D. Affonso V_, capitulo CLXXI. - -[18] _Quadro elementar_, tomo I, pag. 368. - -[19] A _Beltraneja_, no _Manifesto_ dos seus direitos, a que mais de -espaço nos referiremos, diz que ao rei Henrique foram ministradas ervas -e peçonhas por trama dos isabelistas, como era notorio, havendo até quem -prophetizasse qual o prazo em que o rei havia de morrer. - -[20] Lafuente, _Historia de España_, tom. 8.º, pag. 494. - -[21] Padre Flores, _Memorias de las reynas catolicas_, tom. II, pag. 772. - -[22] Cap. CLXXIII. - -[23] _Elógio de la reina catolica Dona Isabel_, no tomo VI das _Memorias -de la Real Académia de la Historia_. Pag. 501. - -[24] _Quadro elementar_, tomo I, pag. 369. - -[25] Benevides, _Rainhas de Portugal_, tomo I. - -[26] _Provas da hist. genealog._, tom, II, pag. 93. - -[27] Visconde de Santarem, _Quadro elementar_, tomo III, pag. 107. - -[28] _Anales de la corona de Aragon_, livro XIX, cap. XXVI. - -[29] _Historia de España_, tomo IX, parte II, livr. IV, pag. 127. - -[30] Lafuente diz que os esponsaes se celebraram a 12 de maio, mas o -visconde de Santarem colloca-os entre os dias 25 e 30. - -[31] _Provas da historia genealogica_, tomo II, pag. 60. - -[32] _Quadro elementar_, tomo I, pag. 373. - -[33] Em recompensa d’este serviço, D. Isabel presenteou Cabrera com -uma taça de oiro para a sua mesa, promettendo-lhe que no anniversario -d’aquelle feliz acontecimento, elle e os seus successores teriam egual -presente. (_Annaes das sciencias e lettras_, tom. I, pag. 705). - -[34] Lafuente. - -[35] Pina. - -[36] Pina, cap. CLXXXII da _Chronica_. - -[37] Damião de Goes, _Chronica do principe D. João_, cap. LXXIV. - -[38] Rebello da Silva, _Annaes das sciencias e lettras_, vol. I, pag. -683; _Provas da historia genealogica_, tomo II, pag. 18 a 19. - -[39] _Chronica do principe D. João_, cap. LVIII. - -[40] _Quadro elementar_, tomo III, pag. 125. - -[41] _Quadro elementar_, tom. III, pag. 127. - -[42] «... de noite lhes veio recado de dentro da cidade em como o dicto -Rey Dom Fernando partira aquella noite com sua gente, e hia a hum trato -que tinha em a cidade de Touro; a qual coisa como fosse dicta por pessoa -digna de ser crida, os dictos senhores Rey e Principe acordaram de -atalhar, e levantarem do arrayal, e hirem á dicta cidade de Touro por -entenderem que assim cumpria, e o puzeram logo em obra.» - -_Relação que El-Rey D. João segundo mandou ao Conselho de Evora da -batalha de Toro, etc. Annaes das sciencias e lettras_, tom. I, pag. 724. - -[43] A invocação de S. Christovão fôra devida á devoção especial de Jorge -Correia, commendador de Pinheiro, que assim o lembrara ao principe D. -João. - -[44] _Annaes das sciencias e lettras_, tomo I, paginas 714-723. - -[45] _Historia de España_, tom. IX, pag. 138. - -[46] _Diccionario popular_, artigo _Duarte d’Almeida_, escripto pelo -auctor d’esta _Memoria_. - -[47] _Republicas_, n.º 8. - -[48] _Annaes das sciencias e lettras_, tomo I, pag. 728, onde tambem se -póde ver o _Regimento_ que a procissão devia observar. - -[49] Damião de Goes, _Chronica do principe D. João_, cap. LXXX. - -[50] _Recueil des monuments inédits de l’histoire du thiers -état._—Avant-propos, pag. LXXIV. - -[51] _Historia de Portugal_, vol. III. - -[52] Zurita, _Anales_, tom. IV, pag. 298. - -[53] Ruy de Pina, _Chronica_, cap. CCVII; visconde de Santarem, _Quadro -elementar_, tom. I, pag. 379. - -[54] Ruy de Pina, _Chronica_, cap. CCVII; visconde de Santarem, _Quadro -elementar_, tomo I, pag. 379. - -[55] _Historia serafica_, tomo I, pag. 526. - -Perguntei para Santarem por esta tradição. Um amigo meu, já hoje -fallecido, respondia-me em 24 de abril de 1885: «Esta manhã fui -pessoalmente ao convento das Claras em companhia do facultativo da casa, -que entrou a fazer as necessarias indagações, e só obteve em resposta que -effectivamente existe no edificio uma casa ou capella com um côro pequeno -a que ainda hoje chamam _o corinho_, mas as freiras ignoram qualquer -tradição a respeito d’essa casa.» O signatario da informação chamava-se -José Candido Duarte da Silva. - -[56] _Chronica d’el-rei D. Affonso V_, pag. 245. - -[57] Pina, diz que o principe assistira sem o rei; Sousa, na _Hist. -geneag._, escreve que nem o rei nem o principe quizeram assistir. Duarte -Nunes de Leão dá o principe como presente. Seguimos a opinião de Pina e -Duarte Nunes, mesmo por ser a que melhor se coaduna com o caracter do -principe D. João. - -[58] Amaral, _Memoria V para a historia da legislação e costumes de -Portugal_; Rebello da Silva, _Annaes das sciencias e lettras_. - -[59] Sobre o estado das classes servas na peninsula, leiam-se os -importantissimos estudos de Herculano, no tomo I dos _Annaes das -sciencias e lettras_, e no terceiro volume da sua _Historia de Portugal_. - -[60] Rebello da Silva, _Annaes das sciencias e lettras_. - -[61] Michelet, _Précis de l’histoire moderne_, pag. 23. - -[62] _Vida e feitos de D. João II._ - -[63] Vejam-se os documentos publicados no tomo II das _Provas da historia -genealogica_, pag. 8 e 51. - -[64] Innocencio diz que este opusculo é raro. Pudemos vel-o na -bibliotheca nacional de Lisboa, onde existe. Na da academia real das -sciencias não ha, porque fôra arrancado da miscellanea onde estava. - -[65] _Clemencin._ - -[66] _Provas da historia genealogica_, tom. III, pag. 636. - -[67] _Annaes das sciencias e lettras_, tom. I, pag. 412 e 551. - -[68] Dava-se o nome de _personatus_ nos mosteiros ás dignidades, como por -exemplo as de deão, thesoireiro, chantre, etc., ás quaes n’outras partes -chamam _officia claustralia_. Ducange: _Glossarium_, vol. V, pag. 214. - -[69] Baronius, _Annales ecclesiastici_, tomo XIX. - -[70] Tom. II, pag. 79. - -[71] _Provas da historia genealogica_, tom, II, pag. 94. - -[72] Camillo Castello Branco, _Narcoticos_, vol. I. - -[73] _Provas da historia genealogica_, tomo II, pag. 71. - -[74] Tomo II, pag. 76. - -[75] Benevides, nas _Rainhas de Portugal_, tomo I, pag. 290, publíca o -_fac-simile_ da assignatura de D. Joanna. - -[76] _Historia seraphica_, tomo II, pag. 133. - -[77] Vol. I, pag. 701-737. - - - - -BARROS & FILHA, EDITORES - -RUA DO ALMADA, 104 A 114, PORTO - - -LITTERATURA E POLYGRAPHIA - -ALBERTO PIMENTEL - - _Rainha sem reino (estudo historico do seculo XV)_; trabalho - eximio cujo entrecho romantico, rigorosamente historico, - desperta profundo interesse pelas revelações importantes e - novas do reinado de D. Affonso V, em conflicto com a côrte de - Castella: 1 vol., 600 rs. - -BARROS LOBO - -(BELDEMONIO) - - _Viagens no Chiado_; descripção pittoresca e faiscante da alta - vida lisboeta nas suas relações externas; scenas de costumes, - retratos litterarios de personagens em evidencia, etc.: 1 vol., - no prelo. - -BRITO DE BARROS - - _Diccionario de phrases latinas de uso mais vulgar_; livro util - e muito curioso, indispensavel a todas as pessoas que lêem; - revisto por um distincto professor de latim em Coimbra: 1 vol., - 500 rs. - - _Farpões_ (2.ª edição); obra de muita originalidade litteraria, - tanto pela fórma como pelo vigor da phrase: 2 tomos, 500 rs. - - _Mulheres_; romance da vida contemporanea. A entrar no prelo. - - _Pandemonio_; obra amena, critica e philosophica, de um grande - interesse moral e social: 1 vol., 500 rs. - -EMILIO CASTELLAR - - _Alliança helleno-latina (em vulgar)_; notabilissimo discurso - que o eminente orador hespanhol pronunciou em Pariz no dia - 4 de novembro de 1886, cujo assumpto, elevado e sympathico, - interessa profundamente á familia portugueza: 1 vol., 200 - rs.—_Tiragem especial de 25 exemplares numerados, para os - camoneanos, 1$000 rs._ - -MARIA AMALIA - -(D. MARIA AMALIA VAZ DE CARVALHO) - - _Cartas a Luiza (moral, educação e costumes)_; formoso livro - consagrado ás senhoras e familias, escripto n’um estylo - elegante com a lucidez e genial criterio que caracterizam o - espirito gentil da sua talentosa auctora: 1 vol., 600 rs. - - _Uma vida perfeita_; episodio moral e commovente, que põe em - evidencia synthetica, n’uma mulher de espirito forte, a exacta - comprehensão do dever e dos santos principios da tolerancia - religiosa em lucta aberta com os exaggeros crueis do fanatismo - indomito. A entrar no prelo. - -EDUCAÇÃO E ENSINO - -ANTONIO MANUEL GOMES - - _Modelos de redacção, auxiliares do curso de portuguez e dos - alumnos de instrucção primaria_, contendo: cartas sobre varios - assumptos, narrações, descripções, etc., segundo os themas do - _Manual de estylo_ do sr. dr. Delphim Maria d’Oliveira Maya; 1 - vol., cartonado, 500 rs. - - Alem de ser proprio para leitura e analyse nas aulas, este - livro do distincto professor de portuguez e francez é um - excellente trabalho litterario para as familias, porque, a - par da pureza de linguagem que o caracteriza, ha n’elle muito - ensinamento pratico e moral aproveitavel tanto para pessoas - adultas como para meninos e meninas cuja educação seja cuidada. - - _Resumo da historia portugueza para uso das escholas - d’instrucção primaria_; obra approvada pelo governo (2.ª - edição): 1 vol., cartonado, 300 rs. - - _Rudimentos de arithmetica e systema metrico_: 1 vol., - cartonado, 200 rs. - -JACOB BENSABAT - - _Nova arithmetica e systema metrico das escholas primarias_, - elaborados pelo systema analytico e inductivo, e illustrados - com 21 gravuras: 1 vol., cartonado, 400 rs. - - Esta nova obra do abalisado professor de francez e inglez, - já vantajosamente conhecido por outra ordem de trabalhos - didacticos e linguisticos, constitue indubitavelmente um - progresso apreciavel n’esta importante materia da instrucção - elementar. - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Rainha sem reino, by Alberto Pimentel - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RAINHA SEM REINO *** - -***** This file should be named 63434-0.txt or 63434-0.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/3/4/3/63434/ - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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You may copy it, give it away or re-use it under the terms of -the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: Rainha sem reino - (Estudo historico do seculo XV) - -Author: Alberto Pimentel - -Release Date: October 10, 2020 [EBook #63434] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RAINHA SEM REINO *** - - - - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - - - - - - -</pre> - - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_1"></a>[1]</span></p> - -<h1>RAINHA SEM REINO</h1> - -<hr /> - -<div class="ad"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_2"></a>[2]</span></p> - -<p class="center larger">BARROS & FILHA, EDITORES</p> - -<p class="center smaller">RUA DO ALMADA, 104 A 114, PORTO</p> - -<p class="center"><i>Litteratura e polygraphia</i></p> - -<p class="hanging"><i>Alliança helleno-latina</i>, discurso, por Emilio Castellar: -1 vol., 200 rs.</p> - -<p class="hanging"><i>Cartas a Luiza (moral, educação e costumes)</i>, por -D. Maria Amalia Vaz de Carvalho: 1 vol., 600 rs.</p> - -<p class="hanging"><i>Diccionario de phrases latinas de uso mais vulgar</i>, -por Brito de Barros: 1 vol., 500 rs.</p> - -<p class="hanging"><i>Farpões</i>, por Brito de Barros (2.ª edição): 2 tomos, -500 rs.</p> - -<p class="hanging"><i>Mulheres</i>, romance, por Brito de Barros: 1 vol., a -entrar no prelo.</p> - -<p class="hanging"><i>Pandemonio</i>, por Brito de Barros: 1 vol., 500 rs.</p> - -<p class="hanging"><i>Rainha sem reino (estudo historico do seculo XV)</i>, por -Alberto Pimentel: 1 vol., 600 rs.</p> - -<p class="hanging"><i>Uma vida perfeita</i>, por D. Maria Amalia Vaz de -Carvalho: 1 vol., a entrar no prelo.</p> - -<p class="hanging"><i>Viagens no Chiado</i>, por Barros Lobo (<i>Beldemonio</i>): -1 vol., a entrar no prelo.</p> - -<p class="center"><i>Educação e ensino</i></p> - -<p class="hanging"><i>Modelos de redacção, auxiliares do curso de portuguez -e dos alumnos d’instrucção primaria</i>, por Antonio -Manuel Gomes: 1 vol., cartonado, 500 rs.</p> - -<p class="hanging"><i>Nova arithmetica e systema metrico das escholas primarias</i>, -por Jacob Bensabat: 1 vol., cartonado, -400 rs.</p> - -<p class="hanging"><i>Resumo da historia portugueza para uso das escholas -d’instrucção primaria</i>, por Antonio Manuel Gomes; -obra approvada pelo governo (2.ª edição): 1 -vol., cartonado, 300 rs.</p> - -<p class="hanging"><i>Rudimentos de arithmetica e systema metrico</i>, por -Antonio Manuel Gomes: 1 vol., cartonado, 200 rs.</p> - -</div> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_3"></a>[3]</span></p> - -<p class="titlepage larger"><span class="smaller">RAINHA</span><br /> -SEM REINO</p> - -<p class="titlepage smaller">(ESTUDO HISTORICO DO SECULO XV)</p> - -<p class="titlepage"><span class="smaller">POR</span><br /> -ALBERTO PIMENTEL</p> - -<p class="titlepage">PORTO<br /> -<span class="smaller">BARROS & FILHA, EDITORES<br /> -RUA DO ALMADA, 104 A 114<br /> -1887</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_4"></a>[4]</span></p> - -<p class="titlepage smaller"><i>Imprensa Civilização—Rua de Santo Ildefonso, 73 a 77</i></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_5"></a>[5]</span></p> - -<h2 class="nobreak">I<br /> -<span class="smaller">SEGREDOS DA ALCOVA...</span></h2> - -</div> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-a.jpg" width="100" height="100" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">A infanta de Portugal, D. Joanna, -filha de el-rei D. Duarte e -da rainha D. Leonor d’Aragão, -nasceu posthuma, em março de -1439. Duas grandes fatalidades pareceram -cobrir com a sua aza negra o berço da infantasinha -portugueza: o lucto pela morte -de seu pae, esse illustrado e infeliz rei para -quem a vida fôra pouco menos de um martyrio -ininterrupto, e a peste que então grassava -em Lisboa, obrigando a côrte da rainha -viuva a retirar-se para Almada, onde a -infanta nascera na quinta de Monte Olivete.</p> - -<p>Menos feliz do que sua irmã D. Philippa,<span class="pagenum"><a id="Page_6"></a>[6]</span> -que n’esse mesmo anno morrera menina, -tocada da peste, D. Joanna foi desabrochando -as graças da sua infancia no meio -de uma côrte melancholica, perturbada pelas -luctas politicas da regencia, entregue -ao cuidado da sua aia Maria Nogueira, e, -mais tarde, confiada á companhia da sua -camareira-mór D. Isabel de Menezes, mulher -de Ruy de Mello, alcaide-mór de Elvas.</p> - -<p>Menina e moça, a infanta, extremamente -bella, fazia lembrar uma flor que vegeta -á beira de um tumulo, porque essa côrte -viuva, onde a <i>triste reina</i> não tinha uma -hora de serenidade de espirito, não era, de -feito, mais do que o tumulo de todas as -alegrias de familia, porque não as teve a -de D. Duarte, nem a de seu filho Affonso <span class="allsmcap">V</span>.</p> - -<p>Chegando aos dezesete annos de edade, -fôra D. Joanna pedida em casamento por -seu primo Henrique <span class="smcap">iv</span>, de Castella, que tinha -nascido a 5 de janeiro de 1425, e fôra -jurado principe das Asturias nas côrtes geraes -de Valhadolid com festas publicas.</p> - -<p>O bispo de Cuenca, que o baptizara, prégou -sobre este thema: <i>Puer natus est nobis.</i> -Um menino nos nasceu. Mas apesar<span class="pagenum"><a id="Page_7"></a>[7]</span> -de nascer entre jubilos o menino, que no -throno de Castella devia succeder a seu -pae D. João <span class="allsmcap">II</span>, as côrtes preoccuparam-se -logo de resolver uma questão importantissima. -Fôra o caso, que D. João <span class="allsmcap">II</span> havia casado -com a infanta D. Maria, sua prima -carnal, filha de Fernando <span class="allsmcap">I</span>, de Aragão, irmã -de D. Leonor, casada com D. Duarte, de -Portugal, e que este casamento intromettera -nos negocios politicos de Castella os infantes -de Aragão, especialmente D. João e -D. Henrique, que procuravam tomar ascendente -no animo do rei, seu cunhado.</p> - -<p>D. Henrique, que era mestre de S. Tiago, -e que aspirava a desposar, como desposou, -D. Catharina, irmã do rei D. João, -foi até ao extremo de assaltar o paço, e de -querer aprisionar o rei. O infante D. Henrique -entrara preso na fortaleza de Móra, e -D. João <span class="allsmcap">II</span> representou ao rei de Aragão, Affonso -<span class="allsmcap">V</span>, para que lhe entregasse os cavalleiros -que tomaram partido por D. Henrique. -Mediaram negociações, e o rei de -Aragão resolveu finalmente invadir o reino -de Castella.</p> - -<p>Fôra pois a noticia d’esta invasão o assumpto -que preoccupara a attenção das<span class="pagenum"><a id="Page_8"></a>[8]</span> -côrtes. Se o rei de Aragão se obstinasse -em penetrar em Castella, o que se havia de -fazer? Resistir-lhe, decidiram as côrtes ao -cabo de longos debates.</p> - -<p>Vagara entretanto o throno de Navarra, a -que o infante aragonez, D. João, subira pelo -seu casamento com a infanta D. Branca. -Este incidente deu uma nova face ás pendencias -de D. João de Castella com D. Affonso -de Aragão. O infante D. Henrique -reconquistara a liberdade, para continuar a -lucta, e o rei de Aragão dissolveu o exercito -com que se havia preparado para combater -o adversario.</p> - -<p>Em 1425 nascera, como dissemos, da alliança -de D. João <span class="allsmcap">II</span> com sua prima D. Maria, -um infante, que recebeu o nome de -Henrique. Era o quarto do nome que devia -succeder na coroa de Castella.</p> - -<p>A rainha D. Maria morreu envenenada, -em Villecastin, a 15 de março de 1455. Pouco -antes havia tambem fallecido em Toledo, -crê-se que por effeito de veneno, sua -irmã a rainha D. Leonor, viuva de D. Duarte, -de Portugal. A morte d’estas duas princezas -filia-se no apoio que poderiam querer -dar ou receber do infante D. Henrique, -seu irmão. Não faltou todavia em Portugal<span class="pagenum"><a id="Page_9"></a>[9]</span> -quem indiciasse o infante portuguez, D. Pedro, -como cumplice, senão auctor, da morte -de sua cunhada D. Leonor de Aragão, -para evitar novos embaraços politicos á regencia, -durante a menoridade de Affonso -<span class="allsmcap">V</span>. Esta suspeita, lançada sobre o caracter -do infante D. Pedro, não conseguiu maculal-o -perante a historia, porque são os proprios -chronistas hespanhoes, entre elles -Flores, que apontam o condestavel castelhano, -D. Alvaro de Luna, como promotor -do envenenamento de ambas as princezas. -O infante D. Pedro havia até annuido a -que D. Leonor voltasse para Portugal, mas -a negociação mallograra-se pelo subito fallecimento -da rainha em Castella.</p> - -<p>Pelo que respeitava a esta senhora, receava -D. Alvaro que influisse para que -seu irmão D. Henrique voltasse a Toledo, -d’onde fôra expulso, porque servindo a -causa de seu irmão julgaria a rainha de -Portugal favorecer a sua propria causa contra -o regente D. Pedro.<a id="FNanchor_1" href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_10"></a>[10]</span></p> - -<p>Quanto á rainha de Castella, D. Maria, -pensou o condestavel D. Alvaro em desembaraçar-se -da sua influencia por um meio -violento, aliás muito vulgar então na côrte -castelhana: o veneno.</p> - -<p>«Uma e outra, diz o padre Flores, morreram -de veneno, segundo a promptidão e -effeitos da morte; pois que D. Leonor morreu -de repente, depois de tomar um remedio -caseiro; D. Maria não sentiu maior -enfermidade que uma dor de cabeça, e ao -quarto dia morreu. Os cadaveres de ambas -cobriram-se egualmente de vergões, e portanto -se attribuiu a morte a veneno. De -mais a mais, vê-se do processo instaurado -contra D. Alvaro de Luna, que influira para -que fosse ministrada peçonha ás duas rainhas.»</p> - -<p>O plano de D. Alvaro não falhara, porque -logo depois da morte da rainha feria-se -a 29 de maio uma batalha junto a Olmedo. -O rei venceu. D. Henrique morreu, -em Calatayud, do ferimento que recebera -durante a batalha, e D. Alvaro de Luna -conseguira ser investido no mestrado de -S. Tiago, que o infante tivera.</p> - -<p>Fôra o condestavel D. Alvaro que negociara<span class="pagenum"><a id="Page_11"></a>[11]</span> -o segundo casamento de D. João <span class="smcap">ii</span>, -de Castella, com a infanta D. Isabel, filha -do infante D. João de Portugal e neta de D. -João <span class="allsmcap">I</span>. D’este segundo casamento nasceram -a infanta D. Isabel e o infante D. Affonso, -que vieram a representar na politica de -Castella um papel importante, principalmente -Isabel, que sobreviveu ao irmão, e que -pelo seu casamento com Fernando de Aragão -preparou a unidade hespanhola, finalmente -realizada por Carlos <span class="allsmcap">V</span>.</p> - -<p>Por agora, reportemo-nos ao nascimento -de Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, successor do throno de -Castella.</p> - -<p>O menino tinha nascido, mas não nascera -com elle a tranquillidade da côrte de D. -João <span class="allsmcap">II</span>. Discussões de toda a ordem a agitavam. -De mais a mais, o condestavel D. -Alvaro de Luna, valido do rei, tinha visto -levantarem-se contra elle todos quantos beneficiara, -e a tal ponto o combatiam, que o -rei se viu obrigado a pactuar em Castronunho, -acceitando a imposição do desterro -temporario de D. Alvaro.</p> - -<p>Mas não teve forças D. João <span class="allsmcap">II</span> para romper -com o valido. Saltou por cima da concordata -de Castronunho. Reagiram os confederados,<span class="pagenum"><a id="Page_12"></a>[12]</span> -e uma nova reunião foi aprazada -para Valhadolid. O principe das Asturias -assistiu, e concordou com os demais em -que, por pedido do rei, se désse salvo-conducto -a D. Alvaro de Luna; mas, no dia -seguinte, o principe voltou-se para a politica -dos confederados, impondo por sua vez -condições ao rei.</p> - -<p>Um tal procedimento causou grande escandalo -na côrte. <i>Puer natus est nobis.</i> D. -João <span class="allsmcap">II</span> não podia duvidar de que tinha -um filho, e por tal signal que lhe ia dando -muito que fazer. É verdade que parecia inspirar-se -nas suggestões de um mau conselheiro; -nem tudo era obra propriamente sua. -Dominava-o um donzel, de nome João Pacheco, -seu valido, filho de Affonso Telles -Giron, senhor de Belmonte.</p> - -<p>Fôra o proprio condestavel D. Alvaro -quem puzera este desagradecido rapaz, seu -pagem, ao lado do principe, e é curiosa a -circumstancia de que o condestavel dominava -tanto o rei quanto o Pacheco dominava -o principe.</p> - -<p>Mas o feitiço voltara-se contra o feiticeiro, -e Pacheco, feito marquez de Vilhena por -D. João <span class="allsmcap">II</span>, parecia agora aconselhar o principe<span class="pagenum"><a id="Page_13"></a>[13]</span> -a conspirar contra a politica do rei, -que era a politica do condestavel. O principe -das Asturias unira-se, pois, aos inimigos -de D. Alvaro de Luna, que, tendo sido -valido, veio a acabar no cadafalso, como -quasi todos os validos em Castella.</p> - -<p>O mesmo rei, que o defendera, entregou-o -aos seus inimigos e, depois de o haver -atraiçoado, mandou-o chorar pelos poetas -da côrte. Um dos que choraram por -conta do rei foi João de Mena.</p> - -<p>D. João <span class="allsmcap">II</span> pensou em arrancar o filho á -influencia de Pacheco. Para isso lembrou-se -de um meio: casal-o. Casal-o de facto, -entende-se, porque D. Henrique já estava -desposado com D. Branca de Navarra, como -fôra estipulado no tratado de paz feito -entre os reis de Aragão, Navarra e Castella.</p> - -<p>Fez-se o que o rei pensara. D. Branca -viera para Valhadolid juntar-se com o seu -noivo. Realizaram-se festas esplendidas; houve -saraus, banquetes, cannas, torneios, montarias -e toiros. Dir-se-ia que o reino estava -nadando em felicidade e paz. Mas, apesar -das festas, o casamento de D. Henrique -com essa infeliz princeza, que devia ser esposa<span class="pagenum"><a id="Page_14"></a>[14]</span> -mallograda, fôra tristemente agoirado. -Os torneios e as festas deixaram uma lugubre -recordação, ensanguentada pela morte -e pelos ferimentos de alguns cavalleiros. -As pontas das lanças, com que lidaram, eram -de ferro acerado, de modo que a lide sahiu -a valer.</p> - -<p>Do casamento do principe das Asturias -com D. Branca, de Navarra, não houve filhos. -O principe dava-se habitualmente a -outro genero de prazeres, segundo o testemunho -de Mariana, e assim se explica a -grande privança em que vivera com João -Pacheco.</p> - -<p>Quatorze annos já iam corridos sem que -D. Branca désse successão. A voz publica -attribuia a culpa d’esta esterilidade a impotencia -do principe, e aos maus habitos -adquiridos. Dizia-se geralmente que a pobre -princeza estava como nascera. Mas, no -processo do divorcio, o fundamento official -é a impotencia relativa dos dois consortes. -Questão de bruxedos, segundo as idéas da -epocha, mas não, por certo, segundo as -idéas de Pacheco, que outras razões teria.</p> - -<p>Posta a questão do divorcio no fôro ecclesiastico, -pronunciou sentença de nullidade<span class="pagenum"><a id="Page_15"></a>[15]</span> -Luiz da Cunha, que governava a egreja de -Segovia. O processo subiu por appellação -a Roma, e o papa Nicolau <span class="allsmcap">V</span> delegou seus -poderes em Affonso Corrilho, arcebispo de -Toledo, que confirmou a sentença.</p> - -<p>D. Branca de Navarra foi, pois, despedida. -Sahia de Castella como entrara: sempre -noiva. Atraz d’ella, sobre a cauda roçagante -do seu véo branco, arrastavam-se epigrammas -grosseiros, satiras mordazes. Diz -Zurita que de Italia lhe mandavam os embaixadores -aragonezes remedios para combater -a esterilidade, já depois de repudiada, -como se foram para cural-a de uma febre -quartã! E Castella, vendo moribundo o -seu rei, tinha de acceitar um principe devasso -e impotente, que lhe succedia.</p> - -<p>Em 1453 morria D. João <span class="allsmcap">II</span>, e o principe -descasado empunhava as redeas do governo. -A hereditariedade punha a coroa na cabeça -de um mau filho e de um mau esposo, -que de mais a mais se affirmara poltrão -desde os primeiros tempos do seu reinado.</p> - -<p>Propoz-se D. Henrique renovar a guerra -contra os moiros de Granada. Preparou -um exercito formidavel, fez-se rodear de -uma guarda distincta composta de tres mil e<span class="pagenum"><a id="Page_16"></a>[16]</span> -seiscentas lanças, a flor da nobreza de Castella; -porem ao approximar-se da <i>vega</i> de -Granada deu ordem para que se evitasse todo -o encontro com o inimigo. O exercito ficou -descontentissimo, chegou mesmo a lavrar -entre elle o pensamento de se apoderar -da pessoa do rei, mas um filho do marquez -de Santilhana avisou da conspiração -Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, que se retirou apressadamente -para Cordova, e d’ahi para Madrid.</p> - -<p>Henrique <span class="allsmcap">IV</span> gostava da guerra... platonicamente, -como das mulheres. Lisonjeava-o -ver-se commandando um poderoso -exercito no meio da floresta scintillante -das lanças da sua guarda, mas a respeito -de dar batalha, nada! Amava muito a vida -para arriscal-a; apenas, como hypocrita que -tambem era, dizia que por amar a vida dos -outros os não queria sacrificar.</p> - -<p>Os invernos passava-os na côrte, ou nas -cercanias de Madrid em festas venatorias. -A caça era o seu fraco e o seu forte. -Quando a primavera chegava, montava a -cavallo, cingia a espada impolluta, e ia fazer -um passeio de recreio, com o seu exercito, -até á <i>vega</i> de Granada. As vezes, por<span class="pagenum"><a id="Page_17"></a>[17]</span> -distracção, ia talando e incendiando os campos -na passagem.</p> - -<p>A veiga de Granada era então muito falada -em trovas e praticas. No <i>Cancioneiro</i>, -de Rezende, o poeta Nuno da Cunha, enfadado -de tanto ouvir falar na veiga de Granada, -diz a Henrique de Almeida, que regressava -de Castella:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0">Da Veiga lá de Granada</div> - <div class="verse indent0">e das estejas da guerra</div> - <div class="verse indent0">vos nam ey já de ouvir nada.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p>Um anno, alguns jovens cavalleiros entraram -em combate por sua conta e risco. -No recontro, ficou morto Garcilaso de la -Vega. O rei agastou-se, e então teve uns -assomos ridiculos de traga-moiros: que incendiassem, -que devastassem tudo. O emir -Aben Ismail viu-se forçado a pedir treguas, -mas a respeito de dar batalha campal, nada; -Henrique <span class="allsmcap">IV</span> continuava a amar platonicamente -a guerra... como as mulheres.</p> - -<p>Todas as phantasias poderia ter um rei -impotente, menos a de tornar a casar. Pois -teve-a Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, tão extravagante era a -sua cabeça. E lançou as vistas para a infanta -D. Joanna, de Portugal, sua prima, princeza<span class="pagenum"><a id="Page_18"></a>[18]</span> -formosissima, a cujos dotes de corpo -e de espirito todos os historiadores castelhanos -rendem encomiastica homenagem.</p> - -<p>Mas Henrique <span class="allsmcap">IV</span> tinha o seu pensamento. -Segundo Lafuente, talvez quizesse desmentir -a fama de impotente. Agora o que -se não chega a perceber é o pensamento a -que cedeu Affonso <span class="allsmcap">V</span>, dando a mão da princeza -ao primo de Castella, que tinha como -marido os peores precedentes d’este mundo.</p> - -<p>É verdade que as condições do casamento -eram vantajosas para Portugal, porque -Henrique <span class="allsmcap">IV</span> contentava-se apenas com a -pessoa da princeza, diz Sousa na <i>Historia -genealogica</i>. Em vez de pedir, offerecia -como arrhas vinte mil florins de oiro do -cunho de Aragão, sendo Ciudad-Real a hypotheca -proposta e acceita; e mais as rendas -da villa de Olmedo, para ajuda da despesa -da casa da infanta, e, para o mesmo -fim, a annuidade de milhão e meio de maravedis -de moeda corrente.</p> - -<p>Affonso <span class="allsmcap">V</span> não deu dote á irmã, a qual, -porém, foi grandemente corrigida da sua -pessoa; custou tudo, até ser entregue a el-rei -de Castella, trinta mil dobras.<a id="FNanchor_2" href="#Footnote_2" class="fnanchor">[2]</a></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_19"></a>[19]</span></p> - -<p>Nas capitulações, que se fizeram em Lisboa -a 22 de janeiro de 1455, presentes, de -um e outro lado, Affonso <span class="allsmcap">V</span> e o capellão-mór -de Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, foi estipulado que a -infanta poderia fazer-se acompanhar de doze -damas portuguezas, uma dona, uma camareira, -e todas as mais pessoas que quizesse, -obrigando-se o rei de Castella a remuneral-as -conforme a sua jerarchia.</p> - -<p>Havia-se ajustado nas capitulações, que a -infanta seria entregue na fronteira n’um periodo -de tempo não superior a oitenta e um -dias depois dos desposorios.</p> - -<p>Cumpriu-se o contracto, e a infanta partiu, -sendo acompanhada pela condessa de -Athouguia, D. Guiomar, e pelo conde D. -Martinho, seu filho.</p> - -<p>Em Lisboa fizeram-se festas, segundo diz -Pina, sem comtudo as especificar, e, quando -a nova rainha de Castella passava pela -Landeira, em direcção a Elvas, realizaram-se -ahi justas em sua honra.</p> - -<p>Em Badajoz era D. Joanna esperada com -luzido sequito pelo duque de Medinacidonia. -D’alli seguiram para Cordova, onde o -rei estava, e onde os noivos receberam a -benção nupcial (maio de 1455).</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_20"></a>[20]</span></p> - -<p>De Cordova passaram a Sevilha, e ahi -houve cannas, justas, toiros, e um torneio -de cincoenta por cincoenta, de que foram -chefes o duque de Medinacidonia e o marquez -de Vilhena.</p> - -<p>As festas da côrte, a que Henrique <span class="allsmcap">IV</span> se -abandonava n’um sybaritismo insaciavel de -testa coroada, redobraram de movimento e -esplendor. Ora em Madrid, ora em Segovia, -sitios predilectos d’este bom rei, tão madraço -como os ultimos da raça merovingia, -Henrique <span class="allsmcap">IV</span> aturdia a noiva com festas -sumptuosas porventura no empenho de lhe -fazer esquecer as desillusões da alcova real.</p> - -<p>A pobre princeza cahiu de chofre n’este -mundo de tentações e perigos que ella desconhecia, -que não tinha sido o da sua educação. -O luxo e a galanteria ostentavam-se -em requintes de fascinação, estonteavam -como filtros allucinantes todas as cabeças, -incluindo as mitradas.</p> - -<p>O rei era o primeiro a dar o exemplo de -dissipação.</p> - -<p>De Henrique <span class="allsmcap">III</span>, conta o nosso padre Manuel -Bernardes, na <i>Nova floresta</i>, que, vindo -esfomeado da caça, não tivera que comer -certo dia. Disse-lhe o comprador que<span class="pagenum"><a id="Page_21"></a>[21]</span> -já não havia fornecedores que quizessem -continuar a fiar para a real senhoria. O rei -despiu o gabão e mandou-o empenhar por -um pouco de carneiro. Os criados murmuraram -do caso, extranhando que o rei tivesse -fome e os fidalgos se banqueteassem lautamente, -como n’essa mesma noite estava -acontecendo no palacio do arcebispo de -Toledo.</p> - -<p>Henrique <span class="allsmcap">III</span>, como isto ouvisse, sahiu -disfarçado e entrou occultamente no paço -archiepiscopal, ao tempo que os grandes -da côrte conversavam jactanciosamente sobre -as rendas da corôa, que cada um lograva. -O rei recolheu-se a palacio, e mandou -postar n’um dos pateos interiores um troço -de seiscentos homens armados.</p> - -<p>Logo que luziu a manhã, expediu recado -aos grandes senhores para que sem demora -lhe viessem falar, dizendo-se doente, e desejoso -de fazer testamento. Os fidalgos acudiram -em chusma, e foram isolados n’uma -sala onde longo tempo esperaram.</p> - -<p>Finalmente, appareceu o rei, de aspecto -terrivel, e espada em punho; e, sem mais -tir-te nem guar-te, perguntou a cada um de -per si quantos reis de Castella conheciam.<span class="pagenum"><a id="Page_22"></a>[22]</span> -Uns disseram que tres, outros que quatro, -e ainda outros que cinco. O rei fingiu-se -admirado. «Sendo eu mais moço que todos -vós, replicou elle, conheço mais de vinte.» -Os fidalgos responderam que não entendiam -sua alteza. Então Henrique <span class="allsmcap">III</span> explicou, -que todos elles eram reis, porque se -banqueteavam todas as noites, ao passo -que elle, se quizera comer carneiro, tivera -de empenhar o gabão. E acabou gritando: -«Olá, gente da minha guarda!»</p> - -<p>Acudiram ás portas os soldados. Appareceu -um algoz com o cepo, cutello e cordas, -prompto a funccionar.</p> - -<p>«Então, diz Bernardes, o arcebispo se -lhe lançou aos pés, pedindo, em nome de -todos, perdão, e as vidas de mercê; e que -no tocante ás fazendas, cortasse por onde -lhe parecesse.»</p> - -<p>O certo é que o rei perdoou. Mas as contas -ficaram justas por então, e o rei poude -rehaver todos os castellos que, durante a -sua menoridade, os tutores haviam alheado. -E alem dos castellos, cento e cincoenta -contos de maravedis.</p> - -<p>Henrique <span class="allsmcap">IV</span> não era homem que tivesse -resolução para imitar este exemplo do seu<span class="pagenum"><a id="Page_23"></a>[23]</span> -homonymo. Em vez de tirar aos fidalgos -para dar a si, tirava a si para dar aos fidalgos. -Por isso Garcia de Rezende, diz na -<i>Miscellanea</i>:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0">Mui poderoso e servido</div> - <div class="verse indent0">El-rei Dom Henrique era,</div> - <div class="verse indent0">Mui gran rico, mui querido,</div> - <div class="verse indent0">Fôra mui obedecido,</div> - <div class="verse indent0">Se governar se soubera.</div> - <div class="verse indent0">Mas vimos-lhe tanto dar</div> - <div class="verse indent0">E tanto deixar tomar</div> - <div class="verse indent0">Os grandes toda Castella,</div> - <div class="verse indent0">Que elles eram os reis d’ella,</div> - <div class="verse indent0">Elle sem ter que reinar.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p>Vem a ponto citar o caso de outro arcebispo -que, á semelhança do de Toledo na -côrte de Henrique <span class="allsmcap">III</span>, pompeava magnificencias -na côrte de Henrique <span class="allsmcap">IV</span>. Referimo-nos -ao de Sevilha, D. Affonso da Fonseca, -que uma noite, depois de ceia, fez servir á -mesa duas bandejas coguladas de anneis -de oiro, cravejados de pedras preciosas, -para que a rainha e as suas damas tomassem -os que lhe aprouvessem.</p> - -<p>D. Joanna sentiu porventura a febre do -prazer invadir-lhe o espirito n’uma perfida -embriaguez, que principiou por aturdil-a, e<span class="pagenum"><a id="Page_24"></a>[24]</span> -que devia necessariamente acabar por perdel-a, -tanto mais que nenhum laço intimo, -d’estes que estreitam os affectos e criam -raizes, a prendia a seu esposo.</p> - -<p>Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, embriagado tambem, esquecia-se -de que era casado, e de que a natureza -lhe negara qualidades que o recommendassem -aos olhos das mulheres. Fingia -ser o que não era, e exaggerava o fingimento, -porque galanteava com escandalo -uma das damas da rainha, D. Guiomar de -Castro, filha bastarda de D. Alvaro de Castro, -conde de Monsanto, portugueza formosissima, -que viera a casar accommodaticiamente -com o conde de Tervinho, primeiro -duque de Nájara.<a id="FNanchor_3" href="#Footnote_3" class="fnanchor">[3]</a></p> - -<p>Julgava-se depreciado o rei por não ser -tão completo como qualquer dos seus vassallos, -e mascarava-se de Tenorio, prophetizava -Byron. Dava-se a ostentação de uma -amante como os velhos lords inglezes, exhaustos -e carunchosos, que vivem de se illudir -a si proprios com as mulheres. Antes d’esta -D. Guiomar, já Henrique <span class="allsmcap">IV</span> tivera por -manceba uma Catharina de Sandoval, que<span class="pagenum"><a id="Page_25"></a>[25]</span> -acabara por fazer abbadessa de um mosteiro -de monjas, em Toledo, sob color de que necessitavam -ser reformadas.</p> - -<p>Boa disciplina podia impor ás monjas a -barregã do rei!</p> - -<p>Mas Henrique <span class="allsmcap">IV</span> não podia ter confiança -nas mulheres, pela simples razão de que -ellas não podiam confiar n’elle. Catharina -de Sandoval amava do coração um homem, -que não o rei. Chamava-se Affonso de Cordova. -O rei, como não pudesse competir -com o seu rival, mandou-lhe cortar a cabeça -em Medina del Campo, e resolveu a -questão.</p> - -<p>Agora voltara-se para a bella Guiomar, -tão platonicamente, por certo, como em tempo -se voltara para a <i>vega</i> de Granada.</p> - -<p>A rainha via-se enleada talvez n’uma duvida -atroz. Quem teria razão? Seria Branca -de Navarra, repudiada e virgem, ou D. -Guiomar de Castro, que parecia inutilizar o -rei para os seus deveres de marido?</p> - -<p>A pobre rainha decidiu-se por esta ultima -hypothese, e um dia, não podendo mais -comsigo, segurou pelos cabellos a dama, e -castigou-a por sua propria mão. O escandalo -estrondeou, dividiu-se a côrte em partidos,<span class="pagenum"><a id="Page_26"></a>[26]</span> -um pela rainha, outro pela manceba. -O arcebispo de Sevilha, talvez mal succedido -junto da rainha, apesar da galanteria -dos anneis, pronunciou-se, por vingar-se, a -favor de D. Guiomar. E o rei, apagando na -alma de sua mulher a ultima noção do decoro -conjugal, levou a manceba para duas -leguas da côrte, poz-lhe casa sumptuosa, e -ia visital-a quando lhe aprazia chancear-se -de prendas que não tinha.</p> - -<p>Com este impulso mais, a rainha resvalara. -Pelo menos a opinião publica boquejava -desconfianças a respeito de D. Beltrão -de Lacueva, <i>hidalgo de los mas generosos -de Ubeda, y uno de los mas apuestos y gallardos -cabaleros de la córte, que comenzaba -á gozar del favor del rey, y de paje de -lanza habia ascendido á moyordomo mayor</i>, -diz Lafuente.</p> - -<p>Tal foi o gentil homem que a rainha, no -pendor do seu abandono e no estonteamento -de uma côrte perigosa, encontrou no momento -de resvalar.</p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_27"></a>[27]</span></p> - -<h2 class="nobreak">II<br /> -<span class="smaller">NA CÔRTE DE HENRIQUE IV</span></h2> - -</div> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-e.jpg" width="100" height="100" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">Estava-se então em pleno cyclo -cavalheiresco. O valor dava as -mãos á poesia, na côrte de Castella. -Muitos cavalleiros eram -trovadores; não ser nenhuma d’estas coisas, -importava o mesmo que viver e morrer anonymo. -A magnificencia completava, como -sabemos, as seducções da côrte, em que -D. Joanna, de Portugal, era duas vezes rainha, -pela formosura e pelo casamento.</p> - -<p>Os <i>passos de armas</i> eram frequentes e -notaveis. Propunham-se fazel-os os cavalleiros -que queriam dar prova publica de<span class="pagenum"><a id="Page_28"></a>[28]</span> -seu brio e destreza, em honra de qualquer -dama. Marcado o logar onde a lide devia -realizar-se, o cavalleiro reptava solemnemente -quantos por alli <i>passassem</i>.</p> - -<p>O <i>passo de armas</i> mais caracteristico -d’aquelle tempo foi o de Suero de Quinhones -(1434).</p> - -<p>Uma noite, estando D. João <span class="allsmcap">II</span> em Medina -del Campo, folgando com a côrte em -sarau dançante, apresentou-se-lhe o nobre -cavalleiro Suero de Quinhones, acompanhado -de mais nove gentis-homens, e pediu a -el-rei auctorização para, em honra da sua -dama, fazer um <i>passo de armas</i> quinze dias -antes e quinze dias depois da festa de S. -Tiago, propondo-se os dez quebrar trezentas -lanças de ferro de Milão com todos os -cavalleiros, nacionaes e extrangeiros, que -por alli passassem á ida ou á volta da festa -do grande apostolo. Todas as damas, que -não fossem acompanhadas por gentilhomem -disposto a combater, perderiam a luva -da mão direita.</p> - -<p>Lafuente traz a descripção minuciosa d’este -celebre <i>passo</i>, do apparato dos cavalleiros, -do campo da lide, e dos combates que -se travaram. Nem menos de 68 aventureiros<span class="pagenum"><a id="Page_29"></a>[29]</span> -justaram com os dez mantenedores. Fizeram-se -setecentas e vinte e sete <i>carreiras</i>; -mas faltou o tempo para quebrar todas -as trezentas lanças. Ficou a coisa reduzida -a 166, e ninguem dirá que foi pouco.</p> - -<p>O primeiro aventureiro que acceitou o -repto foi messire Arnaldo de la Floresta -Bermejo, allemão, que correu seis carreiras -e quebrou duas lanças.</p> - -<p>Assim como um allemão vinha justar a -Castella, muitos cavalleiros castelhanos corriam -mundo assistindo a todas as grandes -festas e torneios das côrtes da Europa. Tornou-se -notavel como cavalleiro andante o -valoroso João de Merlo, honra da cavallaria -castelhana.</p> - -<p>A recepção que em toda a parte se fazia -aos cavalleiros andantes era magnifica.</p> - -<p>De visita á côrte de Affonso <span class="allsmcap">V</span> veio em -1446 o famoso cavalleiro messire Jacques -de Lalain, de Borgonha, que foi recebido -com honras verdadeiramente principescas.</p> - -<p>Os torneios eram muitas vezes cruentos. -Taes foram os que mal-agoiraram as nupcias -de Henrique <span class="allsmcap">IV</span> com D. Branca, de -Navarra. O proprio D. Alvaro de Luna,<span class="pagenum"><a id="Page_30"></a>[30]</span> -justando na acclamação de D. João <span class="allsmcap">II</span>, cahiu -gravemente ferido.</p> - -<p>Isto, quanto aos paladinos. Os trovadores, -os cultores da gaya sciencia, como se -dizia, não eram menos numerosos que os -paladinos.</p> - -<p>O proprio D. João <span class="allsmcap">II</span> versejara. Attribuem-se-lhe -umas trovas que principiam -assim:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0">Amor, yo nunca pensé</div> - <div class="verse indent0">que tan poderoso eras,</div> - <div class="verse indent0">que podrias tener maneras</div> - <div class="verse indent0">para trastornar la fé,</div> - <div class="verse indent0">hasta agora que lo sé.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p>A rainha D. Joanna ainda foi encontrar -na côrte de Castella o celebre marquez de -Santilhana, auctor da conhecida carta ao -condestavel de Portugal, que póde considerar-se -como uma verdadeira arte poetica -d’aquelle tempo. Como se vê por essa carta, -o marquez de Santilhana, D. Inigo Lopez -de Mendonça, era um erudito; mas as -suas composições testemunhavam que, alem -de conhecer profundamente a historia de -toda a gaya sciencia, era tambem um poeta.</p> - -<p>As suas <i>serranillas</i> são verdadeiramente<span class="pagenum"><a id="Page_31"></a>[31]</span> -notaveis. Bastará um exemplo. Certo dia o -marquez, dirigindo-se para uma das suas -expedições militares, encontrou na serra -uma zagala que pastorava os rebanhos de -seu pae, D. Diogo de Mendonça. Encantado -da sua formosura, compoz esta bucolica, -em que todas as graças pastoris rescendem:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0">Moza tan fermosa</div> - <div class="verse indent0">non vi en la frontera</div> - <div class="verse indent0">como una vaquera</div> - <div class="verse indent0">de la Finojosa.</div> - </div> - <div class="stanza"> - <div class="verse center">...</div> - </div> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0">En un verde prado</div> - <div class="verse indent0">de rosas é flores</div> - <div class="verse indent0">guardando ganado,</div> - <div class="verse indent0">con otros pastores,</div> - <div class="verse indent0">la vi tan fermosa,</div> - <div class="verse indent0">que apenas creyera</div> - <div class="verse indent0">que fuese vaquera</div> - <div class="verse indent0">de la Finojosa.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p>Quando as vaqueiras formosas eram assim -galanteadas em trovas, não admira que -a rainha D. Joanna, não menos bella que a -pastora de Finojosa, por muito que o fosse, -se convertesse n’uma especie de sol em -torno do qual girava todo o systema planetario<span class="pagenum"><a id="Page_32"></a>[32]</span> -da poesia castelhana, que extendeu a -sua influencia até Portugal.</p> - -<p>A côrte de Castella tornou-se um fóco -de attracção, sobretudo para Portugal. Os -portuguezes que de lá vinham, impunham -de castelhanos, tão fascinados voltavam. Os -poetas de cá motejavam-n’os porisso:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0">Oh! que modo que trazeis</div> - <div class="verse indent0">a desdenhar portuguez!</div> - <div class="verse indent0">oh que graças contareis,</div> - <div class="verse indent0">e tomareys</div> - <div class="verse indent0">d’elas mesmas o invés.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p>Jorge Manrique descreve bem todos os -encantos da côrte de Castella, já sobredoirados -pela saudade de um bello tempo que -passou:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0">Las justas y los torneos,</div> - <div class="verse indent0">Paramentos, bordaduras,</div> - <div class="verse indent0">Y cimeras,</div> - <div class="verse indent0">Fueron sino devaneos?</div> - <div class="verse indent0">Qué fueron sino verduras</div> - <div class="verse indent0">De las éras?</div> - </div> -</div> -</div> - -<p>Já D. Duarte quizera obstar á emigração -fidalga para Castella. Por carta dada em -Obidos, em setembro de 1434, ordenou<span class="pagenum"><a id="Page_33"></a>[33]</span> -«que as pessoas que tiverem rendas n’este -reina, e viverem em Castella, se passem a -viver a elle; e não o fazendo, não possam -levar as taes rendas para Castella, e não se -lhe pagarão, e acabe.»</p> - -<p>Mas os fidalgos portuguezes, zombando -da lei, continuaram a deixar-se fascinar por -Castella.</p> - -<p>O duque de Alva compuzera um romance, -<i>Nunca fue pena mayor</i>, e a rainha desejara -ver glosados os versos d’esse romance. -O commendador Roman impoz-se o encargo -de glosador, por agradar á rainha:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0">Dizem que a vuestro oido</div> - <div class="verse indent0">agradó aquel dulçor,</div> - <div class="verse indent0">de la cancion del sentido,</div> - <div class="verse indent0">famoso, franco, sabido</div> - <div class="verse indent0">Duque d’Alva, mi señor.</div> - <div class="verse indent0">Por darle gracia famosa</div> - <div class="verse indent0">y favor demasiado,</div> - <div class="verse indent0">alta regina gloriosa</div> - <div class="verse indent0">que aveis pedido la glosa</div> - <div class="verse indent0">y que nunca os han glosado.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p>Póde parecer extranho que todos os poetas -da côrte não acudissem de tropel a acceitar -o repto poetico que lhes propunha a -bella rainha. Mas o commendador Roman,<span class="pagenum"><a id="Page_34"></a>[34]</span> -atravez do véo transparente da sua modestia, -dá a razão do caso:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0">No saliendo delantero</div> - <div class="verse indent0">de mil otros de consuno,</div> - <div class="verse indent0">antes simple postrimero,</div> - <div class="verse indent0"><i>mas porque supe primero</i></div> - <div class="verse indent0"><i>la causa que otro ninguno</i>.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p>Vê-se, ao contrario do que poderia presumir-se, -que os poetas da corte não desaproveitavam -ensejo de vibrar a lyra em -honra d’essa rainha, cuja belleza, segundo -a expressão do poeta commendador, não -havia lingua que a descrevesse, nem mão -que a pintasse.</p> - -<p>Hoje, os commendadores não sabem dizer -d’estas coisas.</p> - -<p>É, pois, n’esta côrte cavalheiresca e poetica, -alem de ostentosa, que o gentil Beltrão -de Lacueva nos apparece.</p> - -<p>Quando o duque da Bretanha enviou uma -embaixada a Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, propondo-lhe alliança -e amizade, quiz o rei obsequiar o -embaixador com luzidas festas, que se fizeram -na casa de campo del Pardo.</p> - -<p>Quatro dias deslizaram em banquetes,<span class="pagenum"><a id="Page_35"></a>[35]</span> -torneios, justas e caçadas. Mas as festas -ainda não acabaram ahi.</p> - -<p>Ao quarto dia, quando a côrte regressava -a Madrid, Beltrão de Lacueva preparou -um <i>passo de armas</i> á Porta de Ferro, para -que justassem todos quantos regressavam -do Pardo.</p> - -<p>D. Beltrão não quiz perder esta occasião -de exhibir aos olhos da rainha, por entre -as pompas do torneio, a sua elegancia e -destreza como grande cavalleiro de gineta, -notavel entre os eximios.</p> - -<p>Não era permittido aos gentis-homens da -côrte, que acompanhavam damas, passar -alem sem que com D. Beltrão fizessem -seis carreiras. Os que não quizessem justar -deixariam, como signal da sua deshonra, o -guante da mão direita.</p> - -<p>Sobre um arco de madeira havia muitas -lettras lavradas a oiro, e o cavalleiro que -quebrava tres lanças, dirigia-se para o arco, -e tomava a lettra inicial do nome da sua -dama.</p> - -<p>D. Beltrão com todos os outros cavalleiros -luctou em honra de uma dama mysteriosa, -a dos seus pensamentos, de cuja inicial<span class="pagenum"><a id="Page_36"></a>[36]</span> -fez segredo. Mas essa dama estava presente: -era a rainha.</p> - -<p>Foi-se todo o dia n’esta festa, e o bom -rei Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, tão contente ficou com -o <i>passo de armas</i>, em que o unico ferido -foi elle... moralmente, que por memoria -fundou n’aquelle logar o mosteiro de S. Jeronymo, -acabado em 1464.</p> - -<p>Bom homem, o rei!</p> - -<p>A belleza da rainha, o seu papel importante -entre o circulo dos poetas da côrte, o -abandono, em que se achava, de todo o -affecto conjugal, a corrupção do tempo e -do paço, e o boquejar do mundo, especialmente -o da côrte, que é o mundo que mais -boqueja e moteja, crearam em torno de D. -Joanna, de Portugal, uma lenda de devassidão -romantica em que, por entre anachronismos -frisantes, figuram a rainha e o poeta -João Rodrigues del Padron.</p> - -<p>Resaltava das composições d’este trovador -uma vaga anciedade de amar e ser -amado, que encontrou echo na sensibilidade -vibratil da rainha.</p> - -<p>Um dia, de uma das janellas do paço, alguma -dama mysteriosa deixou cahir uma -carta, quando o poeta passava.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_37"></a>[37]</span></p> - -<p>Padron guardou-a, e leu-a. Era nada menos -que o convite para uma entrevista nocturna: -pelas duas horas da madrugada, o -poeta devia estar á porta falsa da cava, e -bater com os dedos tres pancadas; o mais -absoluto segredo devia envolver esta aventura, -sob pena de mallograr-se.</p> - -<p>Padron aconselhou-se com um amigo intimo, -que se promptificou a acompanhal-o, -para o defender, se a sua vida corresse perigo. -Padron foi, fez o signal ajustado, a -porta abriu-se, e recebeu-o, no mysterio da -escuridão, uma dama, cuja voz era doce -como a musica. Sobre a capa d’elle se sentaram, -no chão, e ahi conversaram, cingidos -um ao outro, negando-se ella a quaesquer -revelações, e insistindo na condição -do segredo, que devia ser inviolavel.</p> - -<p>De tres em tres dias avistar-se-iam, no -mesmo sitio, dado o mesmo signal na porta -da cava.</p> - -<p>Padron confidenciou ao amigo o que se -tinha passado, e um e outro, por mais tratos -que déssem á imaginação, não puderam -sequer suspeitar quem a dama fosse.</p> - -<p>Á terceira noite, nova entrevista. As mesmas -instancias por parte do poeta; a mesma<span class="pagenum"><a id="Page_38"></a>[38]</span> -reserva por parte da dama. Pediu-lhe -elle uma madeixa de cabello, cortou-a por -sua propria mão; porêm nem Padron nem o -seu amigo puderam depois adivinhar de -que dama da côrte fosse o cabello.</p> - -<p>O rei andava fóra: em côrtes, diz a lenda. -Mas ia regressar, e a dama, n’uma nova -entrevista, annunciou ao poeta essa contrariedade, -que o era realmente, porque as -chaves d’aquella porta ficavam na camara -do rei.</p> - -<p>Conta a lenda que Padron, para experimentar -de que jerarchia fosse a dama, lhe -pedira dinheiro, emquanto lhe tardava de -casa. Tem a gente o direito de suspeitar da -intenção d’este pedido, pondo em duvida -que Padron não recorresse ao processo -ignobil de um <i>mr. Alphonse</i>, poeta e villão.</p> - -<p>N’outra noite, a dama deu-lhe as joias, -mas recommendou-lhe que as desmanchasse, -porque eram da rainha, e podiam ser -conhecidas. Padron acceitou-as, e não diz -a lenda que fossem restituidas.</p> - -<p>Entretanto, o rei chegara, e a porta da -cava deixou de abrir-se. Mas o poeta insistira -sempre e, finalmente, de uma vez a -porta abriu-se.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_39"></a>[39]</span></p> - -<p>Queixou-se Padron de que a dama levasse -o receio de declarar-se até á desconfiança -affrontosa. A dama acabou por ceder, -e fez uma nova concessão. Estava proxima -a festa de S. Pedro; que lhe désse -elle uma joia, que por ella a distinguiria -na festa. Padron tinha apenas comsigo, de -que pudesse dispor, um cinto escarlate. Tirou-o, -e deu-lh’o. A dama afiançou-lhe que -o poria em laço no cabello.</p> - -<p>Chegou o dia da festa. Padron e o seu -amigo esperavam que a côrte se dirigisse -para a sala do throno. Ambos procuravam -avidamente com os olhos a dama do laço -escarlate. Na cabeça da rainha o descobriu -o amigo de Padron, e fez signal ao poeta. -A rainha surprehendeu esse movimento, e -o poeta, sem dar por isso, tão louco de -alegria ficou, que nos torneios d’esse dia -se avantajou a todos os cavalleiros da côrte.</p> - -<p>Á noite, Padron bateu á porta da cava. -A rainha, porque era ella a dama, recebeu-o, -mas para lhe censurar asperamente -a sua indiscreção, e para o ameaçar com -a morte se não sahisse essa mesma noite -de Castella.</p> - -<p>Padron obedeceu, e partiu com o coração<span class="pagenum"><a id="Page_40"></a>[40]</span> -despedaçado, chorando a sua perdida -felicidade, partindo só e triste, como elle -proprio, segundo a lenda, o diz na trova.</p> - -<p>... E assim iam corridos mais de seis -annos de casamento esteril, quando, em -1461, uma noticia inesperada explodiu: a -rainha estava gravida.</p> - -<p>O rei Henrique delirou de contentamento, -mas o paiz inteiro ria do jubilo do rei, -porque estava capacitado de que o esperado -herdeiro do throno era o fructo immoral -dos amores adulterinos da rainha com -D. Beltrão de Lacueva.</p> - -<p>Porêm o rei continuou a delirar de jubilo, -e ordenou que D. Joanna fosse conduzida -a Madrid, onde elle estava, devendo fazer -a jornada n’uma liteira, para que mais repoisada -viesse.</p> - -<p>João Pacheco, marquez de Vilhena, e o -arcebispo de Toledo, prevenindo os conflictos -politicos que deveriam derivar-se do -parto da rainha, aconselharam o rei a que -chamasse para a côrte, onde melhor poderiam -ser educados, seus irmãos, D. Isabel, -que tinha então dez annos, e D. Affonso, -que apenas contava oito, mas que, segundo -o tratado de paz feito entre Henrique<span class="pagenum"><a id="Page_41"></a>[41]</span> -<span class="allsmcap">IV</span> e seu tio o rei de Navarra, deviam casar -com D. Fernando e D. Leonor, filhos d’este -monarcha.<a id="FNanchor_4" href="#Footnote_4" class="fnanchor">[4]</a></p> - -<p>Em março de 1462, D. Joanna, de Portugal, -deu á luz uma filha. O rei ordenou -que se fizessem festas pomposas. Era aquelle, -para elle, um presente do céo! diz Lafuente. -E eu creio que fosse assim.</p> - -<p>A princezasinha recebeu o nome de Joanna. -Baptizou-a o arcebispo de Toledo, tendo -por assistentes os de Calahorra, Carthagena -e Osma. Foram padrinhos o embaixador -de França, conde de Armagnac, e o -marquez de Vilhena; madrinhas, a infanta -D. Isabel, irmã do rei, já então aposentada -na côrte, e a marqueza de Vilhena.</p> - -<p>Contrastam singularmente com estes jubilos -da côrte de Castella os lacrimaveis -episodios do passamento da rainha Branca, -de Navarra, no castello de Orthez.</p> - -<p>O principe de Vianna, D. Carlos, devia -ser, por morte de seu pae, herdeiro do -throno de Navarra. O principe fallecera, -transferindo á irmã, a infeliz Branca, os direitos -de successão; mas D. Branca não<span class="pagenum"><a id="Page_42"></a>[42]</span> -nascera senão para soffrer. Só uma coroa -lhe estava destinada: era a da virgindade -perpetua.</p> - -<p>A irmã mais nova de D. Branca, D. Leonor, -tinha casado com o conde de Foix, e -parece que uma das condições secretas do -casamento fôra que D. Branca seria entregue -ao conde, que a obrigaria a renunciar -ao throno ou a fazer-se freira, succedendo -portanto D. Leonor ao rei, seu pae, logo -que elle morresse.</p> - -<p>O rei de Navarra não duvidou sacrificar -a filha ao apoio que, em troca, o conde de -Foix lhe promettia dar contra o rei de Castella, -e achando-se com a infeliz Branca -em Olite convidou-a a passar com elle os -Pyrenéos, sob pretexto de que projectava -casal-a com o duque de Berri, irmão do rei -de França.</p> - -<p>Sabia Branca o que se passava, e recusou-se -a ir, allegando ao pae, segundo a -expressão de Zurita, que não queria ser -homicida de si mesma. O rei arrancou então -a mascara, e obrigou-a a partir á força, -bem guardada por pessoas da sua confiança. -Poucos dias depois, o rei de Navarra<span class="pagenum"><a id="Page_43"></a>[43]</span> -contratava definitivamente com o conde de -Foix em Olite.</p> - -<p>D. Branca foi encerrada no mosteiro de -Roncesvalles, e d’ahi teve meio de protestar -contra a usurpação que se lhe queria -fazer, declarando que por vontade propria -declinaria os seus direitos no rei de Castella, -que a havia repudiado!</p> - -<p>O protesto inquietou a côrte de Navarra, -como era natural, e a mallograda rainha -foi mandada transferir para S. João Pied de -Port.</p> - -<p>Comprehendeu D. Branca que não se -contentavam com usurpar-lhe os direitos -ao throno, mas que tambem a sua vida -corria risco, e pediu a Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, ao -conde de Armagnac e ao condestavel de -Navarra, que por meio da força defendessem, -se tanto fosse preciso, os seus direitos -e a sua vida, auctorizando-os a tratarem-lhe -casamento com qualquer principe.</p> - -<p>Soube, porêm, D. Branca que o rei, seu -pae, ia envial-a a S. Pelagio, no Bearn. Então, -julgando-se completamente perdida, escreveu -a Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, de Castella, o homem -que a havia repudiado, cedendo n’elle -todos os seus direitos á coroa de Navarra.<span class="pagenum"><a id="Page_44"></a>[44]</span> -Essa carta, que tem a data de 30 de abril -de 1462, não póde lêr-se, segundo a expressão -de um escriptor hespanhol, sem -que se enterneça o coração mais duro. Lafuente, -referindo-se á carta de Branca, diz -que a infeliz princeza recordava a Henrique -<span class="allsmcap">IV</span> os antigos vinculos que os haviam -unido, e os crueis transes que atravessara -desde que fôra repudiada. Segundo Zurita, -Branca pedia a Henrique <span class="allsmcap">IV</span> que vingasse -a sua morte e a do principe Carlos.</p> - -<p>A que mãos de poltrão confiava a infeliz -senhora tão nobre empresa! Vê-se que a -esposa repudiada ficara conhecendo tão -pouco o rei como o marido.</p> - -<p>N’aquelle mesmo dia foi Branca, de Navarra, -reconduzida ao castello de Orthez, -onde permaneceu encerrada mais de dois -annos, sob a vigilancia de uma dama da -condessa de Foix, que acabou por envenenal-a.</p> - -<p>Todos os chronistas hespanhoes têem -phrases de maviosa compaixão para com -a memoria da infeliz Branca. Citaremos -apenas dois, Zurita, o chronista de Aragão, -e Flores, o chronista das rainhas castelhanas. -Zurita recorda que ella fôra repudiada<span class="pagenum"><a id="Page_45"></a>[45]</span> -pelo marido, perseguida pela irmã, e -abhorrecida pelo pae, e que não teve mais -em quem depositar a sua ultima esperança -senão o homem de quem maior affronta -havia recebido. Flores lembra que os ultimos -suspiros d’esta desventurada princeza -«foram echos no céo para os desgraçados -fins dos condes de Foix, e dos seus descendentes», -acabando o reino de Navarra -n’aquella familia.<a id="FNanchor_5" href="#Footnote_5" class="fnanchor">[5]</a></p> - -<p>E conclue dizendo que enterraram D. -Branca na cathedral de Lescar, <i>desde donde -puede predicar á todo el mundo perpetuos -desengaños</i>.</p> - -<p>Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, de Castella, impressionou-se -pouco com a dilacerante carta da infeliz -Branca, sua primeira mulher.</p> - -<p>O céo ou Beltrão de Lacueva havia-lhe -dado uma filha; bastava esta só alegria para -absorver-lhe todas as attenções.</p> - -<p>Dois mezes depois do baptizado, o rei<span class="pagenum"><a id="Page_46"></a>[46]</span> -ordenou que a infanta D. Joanna fosse, em -côrtes de Madrid, proclamada princeza das -Asturias e herdeira do throno.</p> - -<p>Muitos fidalgos não quizeram jurar; entre -elles, D. Luiz de Lacerda, conde de -Medinaceli, a quem o rei prometteu mil -vassallos para que jurasse, sem que o conde -cedesse.</p> - -<p>D. Affonso e D. Isabel, os jovens tios da -infanta recem-nascida, juraram, sujeitos, como -estavam, á tutela do rei.</p> - -<p>A voz publica deu um cognome irrisorio -á infanta. Chamou-lhe a <i>Beltraneja</i>. Este -cognome recordava a sua origem adulterina: -<i>Beltraneja</i>, a filha de Beltrão. Mas o -rei Henrique nada d’isto sabia, ou queria -saber. No dia dos seus annos deu a Beltrão -o senhorio de Ledesma e o titulo de -conde; chamou-o aos conselhos e governação -do reino, e...</p> - -<p>E estimulou-o d’este modo a atear cada -vez mais, por cupidez de maiores honras e -proveitos, o fogo do seu amor á rainha.</p> - -<p>De feito, em 1463, foi declarado que D. -Joanna ia novamente ser mãe. Mas um caso -imprevisto mallograra essa esperança. Referindo-se -á rainha, diz Lafuente:</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_47"></a>[47]</span></p> - -<p>«Tinha o costume de humedecer e amaciar -o cabello com um liquido, sem duvida -inflammavel, e um dia, achando-se na sua -camara, um forte raio de sol que entrava -por uma janella e se projectava sobre -a sua cabeça, incendiou-lhe o cabello, de -modo que se as damas não fossem tão diligentes -em acudir-lhe, haveria corrido o perigo -de carbonizar-se. Mas tanto bastou -para que o susto antecipasse o parto de -um feto de seis mezes, que nasceu sem -vida, e que pela circumstancia de ser varão -produziu no rei maior pesar. Fizeram-se sinistros -agoiros sobre o caso, e não faltou -quem vaticinasse desgraças para o rei e a -rainha.»</p> - -<p>Bem agoirado corria o tempo, mas era -para D. Beltrão de Lacueva, que, graças á -posição a que se guindara, tratou casamento -com uma filha do marquez de Santilhana. -D’este modo conseguia aparentar-se -com a poderosa familia dos Mendonças. Estava -na esteira para o méstrado de S. -Tiago. Fazia sombra e receio ao marquez -de Vilhena. Levantava-se n’um pedestal de -oiro, e a conspiração, tão vulgar em todas<span class="pagenum"><a id="Page_48"></a>[48]</span> -as côrtes, principalmente na de Castella, -principiava a minar-lhe o pedestal.</p> - -<p>Entretanto, sobre as finas hollandas e -custosas sedas, que alfaiavam o catresinho -da princeza das Asturias cahia, como um -enorme pingo de lama e fel, a risada sarcastica -das multidões, appellidando-a de -<i>Beltraneja</i>.</p> - -<p>E essa alcunha havia de ficar-lhe para -toda a vida, como um ridiculo cruel agrilhoado -ao seu triste destino.</p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_49"></a>[49]</span></p> - -<h2 class="nobreak">III<br /> -<span class="smaller">DRAMAS DA POLITICA</span></h2> - -</div> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-a.jpg" width="100" height="100" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">Affonso <span class="allsmcap">V</span>, de Portugal, regressando -de Ceuta em 1464, desembarcou -em Tavira, e dirigindo-se -para o Alemtejo, passou -a paschoa em Evora. D’ahi, <i>com alguns -senhores e fidalgos escolhidos secretamente</i>, -diz Ruy de Pina, foi em romaria a Santa -Maria de Guadalupe, onde se avistou -com sua irmã D. Joanna e com Henrique -<span class="allsmcap">IV</span>, de Castella.</p> - -<p>O assumpto d’esta entrevista não era novo. -Tratava-se de mais uma alliança conjugal -entre as duas casas reinantes de Portugal -e Castella.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_50"></a>[50]</span></p> - -<p>Já em Gibraltar se tinham avistado Affonso -<span class="allsmcap">V</span> e Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, para identico fim, -no mez de janeiro, ao tempo da desastrosa -escalada de Tanger, ficando concertado que, -a infanta D. Isabel casasse com el-rei D. -Affonso <span class="allsmcap">V</span>, e a princeza das Asturias com o -principe D. João, de Portugal, seu primo.<a id="FNanchor_6" href="#Footnote_6" class="fnanchor">[6]</a></p> - -<p>Na conferencia da paschoa, em Guadalupe, -tiveram os dois monarchas, bem como -a rainha D. Joanna, <i>as mesmas praticas -e accordos de Gibraltar sobre casamentos -e lianças</i>, diz Ruy de Pina.<a id="FNanchor_7" href="#Footnote_7" class="fnanchor">[7]</a> Esta -nova conferencia, tão proxima da outra, revela -apenas o desejo que Henrique <span class="allsmcap">IV</span> tinha -de encontrar em Affonso <span class="allsmcap">V</span>, seu cunhado, -um alliado que o protegesse contra as -revoltosas peripecias da politica de Castella, -cada vez mais agitada.</p> - -<p>Henrique <span class="allsmcap">IV</span> fizera a jornada de Guadalupe -sem ouvir previamente o seu antigo -valido marquez de Vilhena, que principiava -a decahir rapidamente, offuscado por -Beltrão de Lacueva, o novo astro da côrte. -Vilhena não perdoara a affronta, e aproveitara<span class="pagenum"><a id="Page_51"></a>[51]</span> -a ausencia do rei para conspirar -contra elle de parceria com o arcebispo de -Toledo.</p> - -<p>O almirante D. Fradique e seu filho, os -condes de Benavente, Placencia, Alba e -Paredes, o bispo de Coria e outros prelados, -varios senhores e cavalleiros adheriram -á conspiração. O mestre de Calatrava, -irmão do marquez de Vilhena, propuzera-se -sublevar a Andaluzia contra o rei.</p> - -<p>D. Henrique, surprehendido com este -acontecimento, acobardou-se, e propoz aos -conspiradores que voltassem á côrte, que -elle os informaria de tudo o que se tinha -passado com o rei de Portugal. Bem conheciam -elles a fraqueza do monarcha castelhano! -Porisso responderam á proposta -de Henrique <span class="allsmcap">IV</span> impondo condições, uma -das quaes era a prisão do arcebispo de Sevilha, -que João Pacheco inculcava como figadal -inimigo do rei. Esta denuncia não -passava de um ardil do marquez de Vilhena, -porque elle proprio mandara prevenir -o arcebispo de que Henrique <span class="allsmcap">IV</span> intentava -prendel-o. E assim conseguiria indispor contra -o rei um prelado poderoso. Tal era o<span class="pagenum"><a id="Page_52"></a>[52]</span> -plano de Vilhena: isolar o rei, indispondo-o -com os seus mais dedicados amigos.</p> - -<p>A fraqueza do rei alentava a ousadia dos -conspiradores.</p> - -<p>«Uma noite, conta Lafuente, achando-se -(Henrique <span class="allsmcap">IV</span>) no seu palacio, ouviu cahir -com estrondo as portas do regio alcaçar, e -ruido e alvoroto de gentes que penetravam -no palacio. Aturdido, o rei refugiou-se n’um -pequeno retrete em companhia de D. Beltrão -de Lacueva, conde de Ledesma.»</p> - -<p>Não deixa de ser altamente comica esta -camaradagem do rei e de Beltrão, transidos -de medo, no recinto pouco convidativo de -um retrete, que, ainda assim, não deixaria -de convir-lhes na occasião. De mais a mais, -ha o que quer que seja de latrinario na -baixeza do rei, lançado nos braços do homem -que a voz publica indigitava como -pae da infanta D. Joanna. Porisso, o logar -era tão conveniente como proprio. O acaso -tem ás vezes razão.</p> - -<p>Lafuente prosegue:</p> - -<p>«Os que de tão tumultuosa maneira haviam -invadido os aposentos reaes, eram os -condes de Benavente e de Paredes, o filho -do almirante e outros cavalleiros de conta,<span class="pagenum"><a id="Page_53"></a>[53]</span> -que, capitaneados por o de Vilhena, iam -com animo de apoderar-se dos infantes, e -de prender o rei e D. Beltrão de Lacueva. -O de Vilhena entra só ao esconderijo do rei -e, com a sua doble e arteira politica, finge-se -indignado d’aquelle insulto, e, como -quem zomba da debilidade do rei, excita-o -a que não deixe de punir. «Parece-vos bem, -marquez, disse-lhe o rei, isto que se fez ás -minhas portas? Pódes estar certo de que já -não tenho paciencia para mais.» Mas o resultado -limitou-se a uma esteril e passageira -indignação, e a sahir o de Vilhena com -os seus impunemente do palacio, talvez por -lhe não convir então levar as coisas mais -longe.»</p> - -<p>Henrique <span class="allsmcap">IV</span> ou não conhecia o despeito -de João Pacheco, vendo-se supplantado pelo -amante da rainha, ou, aconselhado por -Beltrão, em quem agora cegamente confiava, -queria ageitar ao marquez de Vilhena -occasião de se comprometter e perder-se.</p> - -<p>Mas Beltrão de Lacueva, se assim aconselhava -o rei, devia lembrar-se de que entre -Henrique <span class="allsmcap">IV</span> e João Pacheco havia antigos -laços de suspeitosa amizade. Portanto,<span class="pagenum"><a id="Page_54"></a>[54]</span> -devia tambem metter em linha de conta -esse factor importantissimo.</p> - -<p>E, com effeito, um novo acontecimento -veio demonstrar a sua importancia.</p> - -<p>Estavam em Segovia o rei, a rainha, a -princeza das Asturias, os infantes e Beltrão. -Os conspiradores tinham-se combinado -com um capitão da guarda real e sua -mulher, dama da infanta D. Isabel, para -que por uma porta secreta os introduzisse -nos quartos da familia real, que seria presa, -e do favorito, que seria assassinado.</p> - -<p>O marquez de Vilhena entretinha o rei -n’essa noite, conversando serenamente com -elle, á espera que a conspiração rebentasse. -Mas a conspiração descobriu-se, e Henrique -<span class="allsmcap">IV</span> contentou-se com ouvir sobre o caso -o marquez de Vilhena, que se fingia -profundamente indignado contra os condes -de Placencia e Alba, co-réos na conspiração -mallograda.</p> - -<p>Entretanto, o rei, sem forças para romper -abertamente com o seu antigo companheiro -de prazeres, ia guindando ás supremas -honras o amante da rainha. Fizera-o, -finalmente, grão-mestre de S. Tiago. -Beltrão de Lacueva attingia assim a alta<span class="pagenum"><a id="Page_55"></a>[55]</span> -posição social que D. Alvaro de Luna deixara -devoluta.</p> - -<p>João Pacheco revoltava-se cada vez mais, -como valido decadente. Fizera com que os -condes de Placencia e Alba pedissem uma -entrevista ao rei entre S. Pedro de las -Duenhas e Villacastin, sob pretexto de que -queriam reconciliar-se com o marquez de -Vilhena, e ouvir o rei sobre esse assumpto. -Henrique <span class="allsmcap">IV</span> annuiu com a maior docilidade, -fazendo-se acompanhar por Beltrão de -Lacueva, pelo bispo de Calahorra, por outros -fidalgos mais, pela sua guarda real e -por um esquadrão de quinhentas lanças.</p> - -<p>Ainda d’esta vez escapou ao laço o pobre -rei, porque dois mensageiros, largando -a todo o galope, correram a avisal-o do perigo -a que se expunha.</p> - -<p>Em vista d’este novo desastre, os conspiradores, -desfraldando o pendão da revolta, -foram acoitar-se em Burgos, e d’ahi formularam -claramente as suas accusações contra -o rei, enviando-lh’as por carta para Valhadolid. -As principaes queixas dos conspiradores -eram estas: haver nomeado grão-mestre -de S. Tiago Beltrão de Lacueva, -com prejuizo do infante D. Affonso, a quem<span class="pagenum"><a id="Page_56"></a>[56]</span> -o grão-mestrado pertencia, como filho do -rei D. João; <i>ter feito jurar herdeira do -throno de Castella D. Joanna, devendo saber -que não era sua filha legitima</i>. Os -conspiradores concluiam por pedir como -desaggravo que o infante D. Affonso fosse -jurado herdeiro do throno.</p> - -<p>Pela primeira vez era a rainha formalmente -accusada de adultera. Até ahi, as -murmurações, comquanto geraes, não tinham -chegado á ousadia de formular uma -accusação categorica, dirigida ao proprio -rei. Mas, desde esse momento, as conveniencias -respeitosas foram calcadas, e D. -Joanna, de Portugal, publicamente accusada -de haver dado á luz uma filha de que -seu marido não era o pae.</p> - -<p>Se o rei D. Duarte fôra ainda vivo, morreria -de pesar, elle, que, no <i>Leal conselheiro</i>, -escrevia a respeito da honestidade das -mulheres portuguezas: «... ao presente eu -não sei, nem oiço mulher de cavalleiro, -nem outro homem de boa conta em todos -meus reinos, que haja fama contraria de -sua honra em guarda de lealdade; e passaram -de cem mulheres, que el-rei e a rainha, -meus senhores padre e madre, cujas<span class="pagenum"><a id="Page_57"></a>[57]</span> -almas Deus haja, e nós, casamos de nossas -casas, e prouve a Nosso Senhor que alguma, -que eu saiba, nunca falleceu em tal erro -dês que foi casada...»</p> - -<p>Pois era justamente contra uma dama -portugueza, não simples esposa de cavalleiro, -mas rainha de Castella pelo casamento, -e filha de rei, de um rei que era ao -mesmo passo o auctor do <i>Leal conselheiro</i>, -era contra D. Joanna, de Portugal, que os -revoltosos de Burgos publicamente fulminavam -a accusação de adultera, barregã de -um valido, como outra rainha de Castella, -tambem portugueza, cujo amante, o pae de -D. Leonor Telles, fôra assassinado, por ordem -de Pedro, o Cruel, quando á sahida -da cidade de Tóro dava o braço á rainha.</p> - -<p>Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, de instinctos menos carniceiros, -não cuidou de assassinar ninguem. -Até, pelo contrario, se mostrou zangado -com o bispo de Cuenca por lhe aconselhar -que punisse severamente os revoltosos.</p> - -<p>O pobre rei Henrique sanccionou a sua -propria deshonra tão publicamente quanto -a accusação o fôra, concedendo uma entrevista -aos conspiradores entre as villas de -Cigales e Cabezon, e accedendo a todas as<span class="pagenum"><a id="Page_58"></a>[58]</span> -imposições que na entrevista lhe foram feitas.</p> - -<p>Obrigou-se o rei de Castella a entregar -ao marquez de Vilhena o infante D. Affonso, -seu irmão, <i>para que fosse jurado herdeiro -e successor dos reinos</i>, com a condição -de casar com a princeza D. Joanna; a -fazer com que Beltrão de Lacueva resignasse -o mestrado de S. Tiago em proveito -do infante D. Affonso, e a nomear -uma deputação de cinco membros que, reunida -em Medina del Campo, regularia todas -as differenças entre o rei e os dissidentes, -que constituiam a liga revolucionaria.</p> - -<p>Assim aconteceu. D. Affonso foi jurado -<i>legitimo successor do reino</i>; Beltrão de Lacueva -renunciou ao mestrado, mas o rei -fel-o, em compensação, duque de Albuquerque, -doou-lhe varias villas, e arbitrou-lhe -uma renda sobre outras villas; finalmente, -o rei nomeou os membros da deputação, -que lhe competia nomear, para que -funccionassem com os membros eleitos pela -junta.</p> - -<p>Desde este momento estava reconhecida -por Henrique <span class="allsmcap">IV</span> a illegitimidade de D. Joanna, -a infeliz princeza para quem a vida tão<span class="pagenum"><a id="Page_59"></a>[59]</span> -tempestuosa amanhecia, e a deshonra da -rainha sua mãe.</p> - -<p>Mas Henrique <span class="allsmcap">IV</span> não era homem que tivesse -duvidas em mudar de opinião. Em -Madrid fizera jurar D. Joanna por herdeira; -em Medina del Campo concordava em que -fosse jurado o infante D. Affonso. Porisso -não admira que, recolhendo de Medina, désse -por nullo o convenio que acceitara, e -escrevesse aos da liga para que lhe restituissem -o infante, seu irmão.</p> - -<p>O marquez de Vilhena e os seus responderam -altivamente ás cartas do rei, fazendo -um simulacro de deposição de Henrique <span class="allsmcap">IV</span> -em Avila. O arcebispo de Toledo, e varios -fidalgos, por suas proprias mãos, arrancaram -solenemente as insignias reaes ao -manequim, que representava o rei, e alçaram -o pregão de: <i>Castella por el-rei D. -Affonso</i>. Em seguida todos beijaram a mão -ao infantesinho, que acabavam de acclamar.</p> - -<p>Quando Henrique <span class="allsmcap">IV</span> soube isto rompeu -em lastimas, citou palavras de Job, accusou-se -por haver alentado ingratos.</p> - -<p>Mas, como lastimas não valem, resolveu -despachar cartas para todo o reino a pedir -soccorro. E uma grande parte do reino<span class="pagenum"><a id="Page_60"></a>[60]</span> -enviou-lh’o <i>para castigar a enormidade do -desacato</i>, diz Lafuente, já que o rei havia -deixado chegar as coisas a um tal extremo. -Entre os fidalgos, que vieram collocar-se -ao lado de Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, contavam-se Beltrão -de Lacueva, duque de Albuquerque, -e seu sogro, o marquez de Santilhana.</p> - -<p>Os sublevados sahiram de Avila por Penhaflor -para acampar á vista de Simancas; -mas esta villa conservou-se firme ao rei, e -os seus habitantes parodiaram o feito de -Avila simulando a deposição do arcebispo -de Toledo, ao qual cognominaram <i>Dom -Oppas</i>, que era o nome do traidor, arcebispo -de Sevilha, no tempo do rei Rodrigo. E -depois de arrastarem o manequim pelas -ruas, queimaram-n’o n’uma fogueira, ao som -d’esta trova:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0">Esta és Simancas,</div> - <div class="verse indent0">Dom Oppas traidor;</div> - <div class="verse indent0">Esta és Simancas,</div> - <div class="verse indent0">Que no Penhaflor.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p>Em vista d’esta attitude energica, os revoltosos -retiraram. O rei, apoiado na adhesão -popular, poderia havel-os derrotado de -vez. Mas, encantado pelas seducções do<span class="pagenum"><a id="Page_61"></a>[61]</span> -marquez de Vilhena, a quem concedera -uma entrevista, licenciou o exercito sob -condição de que a liga renunciaria á acclamação -do infante D. Affonso, e obedeceria -ao rei.</p> - -<p>O que tinha feito, entretanto, por desaffrontar-se, -a rainha de Castella, D. Joanna, -cuja honra era publicamente conspurcada? -O que fizera, por vingar sua irmã, o rei -Affonso, de Portugal?</p> - -<p>D. Joanna avistou-se com seu irmão na -provincia da Beira Baixa. Diz o padre Flores -que a infanta D. Isabel acompanhou a -rainha, e que a <i>Beltraneja</i> ficara, entretanto, -a bom recado, no alcaçar de Segovia. O logar -marcado para a entrevista foi a cidade -da Guarda. Ahi expoz a rainha de Castella -a triste situação em que se encontrava, e -as difficuldades politicas em que seu marido -se havia lançado. Como era natural, o primeiro -movimento de Affonso <span class="allsmcap">V</span> foi de commiseração -pela irmã, mas, posto o negocio -em côrtes, que na Guarda se reuniram, e a -que D. Joanna assistiu em nome do rei, seu -irmão, a volubilidade de Henrique <span class="allsmcap">IV</span> não -pesou menos na balança dos tres estados -do que a deshonra da rainha de Castella:<span class="pagenum"><a id="Page_62"></a>[62]</span> -«foi el-rei aconselhado, diz Pina, que em -tal discordia e empresa nem lianças se não -entremettesse, da qual coisa com a mais -honestidade que poude se excusou.»</p> - -<p>E os factos occorridos em Castella vieram -justificar este prudente conselho dado -a Affonso <span class="allsmcap">V</span>.</p> - -<p>O rei Henrique, desprezando os fortes -elementos de resistencia que o paiz lhe -offerecia, licenciou os seus soldados, que -se retiraram indignados. Fiado nas promessas -do marquez de Vilhena, que, aliás, não -cuidou de cumpril-as, mandou buscar a <i>Beltraneja</i> -a Segovia, fel-a entrar em Samora -debaixo de pallio, e reuniu-se depois com -a rainha e com a infanta D. Isabel, que regressavam -de Portugal, em Simancas.</p> - -<p>Toda Castella se resentia d’estes acontecimentos, -a anarchia ia de foz em fóra, os -malfeitores assolavam as povoações que, -para resistir-lhes, e proteger-se a si proprias, -faziam <i>hermandad</i>.<a id="FNanchor_8" href="#Footnote_8" class="fnanchor">[8]</a> Porêm, no meio<span class="pagenum"><a id="Page_63"></a>[63]</span> -d’esta <i>degringolade</i> geral, custa a crer que -ainda houvesse quem defendesse o rei! -Pois havia. Valhadolid, aproveitando uma -sahida do almirante D. Fradique com o infante -D. Affonso, e a sua gente, sobre Arévalo, -tomou de novo voz por D. Henrique, -que logo se foi lá metter, sendo recebido -com festas.</p> - -<p>Henrique <span class="allsmcap">IV</span> não se fortalecia com estas -demonstrações de agrado. A sua fraqueza -de espirito era tamanha, que acceitava todas -quantas propostas os adversarios lhe -fizessem.</p> - -<p>Vejamos. Pedro Giron, mestre de Calatrava -e irmão do marquez de Vilhena, porventura -já cansado de andar agitando a -Andaluzia contra o rei, propoz a Henrique -<span class="allsmcap">IV</span>, por intermedio do arcebispo de Sevilha, -fazer pazes com elle, obrigando-se a servil-o -com tres mil lanças, a emprestar-lhe -sessenta mil dobras e a restituir-lhe o infante -D. Affonso, sob a humilhante condição -de que lhe seria concedida em casamento -a infanta D. Isabel.</p> - -<p>Prompto! Henrique <span class="allsmcap">IV</span> acceitou logo a -proposta. Deu de mão a Beltrão de Lacueva, -e chamou para a côrte o mestre de<span class="pagenum"><a id="Page_64"></a>[64]</span> -Cacalatrava, tratando ao mesmo tempo de obter -de Roma a dispensa para que elle pudesse -casar, visto ser grão-mestre de uma ordem -religiosa.</p> - -<p>Mas Henrique <span class="allsmcap">IV</span> esquecia-se de que sua -irmã Isabel, comquanto menina de dezeseis -annos, não era tão malleavel como elle. -Mais nova ainda, depois da entrevista de -Guadalupe, oppuzera resistencia a casar-se -com Affonso <span class="allsmcap">V</span>, allegando que era precisa -licença das côrtes. Agora, mais desenvolvida -a sua energia de castelhana, não deixaria -de oppor uma seria resistencia, tanto -mais que tinha a seu lado uma dama dedicadissima, -D. Beatriz de Bobadilha, a qual, -tirando um punhal, dissera uma noite á infanta: -«Primeiro o cravarei eu no coração -do mestre de Calatrava.»</p> - -<p>Pedro Giron, chamado pelo rei, apressou-se -a jornadear de Almagro para Madrid, -com grande sequito de cavalleiros. -Mas ao segundo dia de Jornada adoeceu -gravemente em Villarrubia, e a breve trecho -morreu <i>com pouca edificação christã</i>. -Morreu raivando e praguejando, por não -chegar a ver realizado o seu ideal.</p> - -<p>Os chronistas castelhanos põem a virtude<span class="pagenum"><a id="Page_65"></a>[65]</span> -da infanta D. Isabel acima de toda a -suspeita n’esta morte. Cremos que fosse -assim, mas é possivel que, mesmo sem conhecimento -da infanta, alguem envenenasse -o grão-mestre de Calatrava.</p> - -<p>A infanta D. Isabel poude, emfim, respirar, -mas o estado anarchico do paiz continuou -o mesmo. Fizeram-se conferencias em -Madrid, cidade que foi posta em poder do -arcebispo de Sevilha, entre o rei e os revoltosos. -Não deram resultado, como tantas -outras conferencias. N’estas aguas turvas -só o marquez de Vilhena logrou pescar, -porque um bello dia nomeou-se a si proprio -grão-mestre de S. Tiago, sem se importar -com o rei, nem com o principe Affonso, -nem com a côrte, nem com o papa, -mas importando-se apenas com a sua muito -alta e poderosa pessoa.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_66"></a>[66]</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_67"></a>[67]</span></p> - -<h2 class="nobreak">IV<br /> -<span class="smaller">MÃE E FILHA</span></h2> - -</div> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-a.jpg" width="100" height="100" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">A anarchia continuava desenfreada.</p> - -<p>Se as coisas iam mal quando -um só rei, o fraco D. Henrique, -dominava em Castella, muito peor -corriam agora que dois reis adversarios, -posto que irmãos, dividiam o paiz em continuas -luctas civis, duplamente fratricidas.</p> - -<p>Uma d’essas luctas travou-se a 20 de -agosto de 1467, nas planicies de Olmedo, -entre os partidarios de Affonso e Henrique.</p> - -<p>No numero dos cavalleiros promptos a -combater pelo rei Henrique estava Beltrão -de Lacueva. Sobre elle recahiam principalmente<span class="pagenum"><a id="Page_68"></a>[68]</span> -os odios dos adversarios, e tanto -que o arcebispo de Sevilha lhe enviou um -mensageiro com recado de que quarenta -cavalleiros de D. Affonso e do arcebispo -de Toledo haviam feito voto solenne de -matal-o no combate que ia empenhar-se. -Beltrão respondeu com altivez castelhana -que reparasse bem o mensageiro nas armas -e insignias, que trazia vestidas, para -que os que alli o mandaram pudessem, por -sua informação, reconhecer facilmente o -duque de Albuquerque.</p> - -<p>O combate travou-se com impeto, e o -duque de Albuquerque defendeu-se valorosamente -dos golpes que lhe vibravam os -que haviam jurado matal-o. Valeu-lhe n’um -aperto perigoso o marquez de Santilhana, -seu sogro. O duque portou-se bravamente; -de um lado e do outro combateu-se com -ardor; porêm, no fim da peleja, a victoria -não fôra decisiva nem para uns, nem para -outros.</p> - -<p>D. Affonso esteve no campo, combatendo -entre os seus, mas D. Henrique julgou -mais prudente retirar-se, com trinta ou quarenta -cavallos, para uma povoação immediata.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_69"></a>[69]</span></p> - -<p>Um acontecimento politico veio, porêm, -aggravar a situação do rei Henrique: a infanta -D. Isabel juntara-se com seu irmão -D. Affonso.</p> - -<p>Vejamos qual era, pouco antes, a situação -da familia real.</p> - -<p>A rainha com a infanta D. Isabel estavam -em Segovia, e ahi tinham n’esse momento -todo o seu thesoiro e joias. A <i>Beltraneja</i> -havia sido entregue ao conde de -Tendilha, para que a guardasse em Buitrago. -Os rebeldes lograram tomar Segovia, e -a rainha refugiara-se no castello, mas a infanta -D. Isabel teimou em ficar no palacio, -a fim de poder juntar-se com seu irmão. -Foi o que succedeu. Tambem os rebeldes -se apoderaram do alcacer, sendo a rainha -conduzida em refens, sob a vigilancia do -arcebispo de Sevilha, ao castello de Alaejos, -onde iremos encontral-a.</p> - -<p>O acto praticado pela infanta D. Isabel -parecia dever reforçar a attitude dos affonsinos, -mas não aconteceu assim, porque elles -tinham no seu proprio seio grandes elementos -de discordia. Um d’esses elementos -era o marquez de Vilhena, cuja ambição -abhorrecia aos seus mesmos amigos. Porisso<span class="pagenum"><a id="Page_70"></a>[70]</span> -os condes de Placencia e Miranda e o arcebispo -de Toledo passaram-se para o partido -do rei, e Vilhena correu risco de ser assassinado -pelo genro, o conde de Benavente.</p> - -<p>Um outro acontecimento, verdadeiramente -inesperado, veio pôr em confusão os affonsinos. -A 5 de julho de 1468, estando D. -Affonso na villa de Cardenosa, a duas leguas -de Avila, foi atacado de um somno -profundissimo logo depois de haver comido. -Pela manhã, como não sahisse da camara, -foram chamal-o: estava morto. O veneno -havia produzido o seu effeito. D. Affonso -morrera uma creança, quinze annos -apenas.</p> - -<p>Os affonsinos, aturdidos com este golpe, -recolheram-se a Avila. Ahi pensaram no -que deviam fazer. Resolveram offerecer o -throno a D. Isabel, mas a infanta respondeu -com hombridade: que em quanto seu -irmão D. Henrique fosse vivo, o rei legitimo -era elle.</p> - -<p>Desde esse momento a posição de Henrique -<span class="smcap">iv</span> seria facil, se elle tivera mais energia. -Podia impor-se, mas não fez assim. -O marquez de Vilhena propoz em nome -dos conjurados prestar-lhe obediencia se<span class="pagenum"><a id="Page_71"></a>[71]</span> -o rei consentisse em reconhecer D. Isabel -como herdeira do throno. Henrique <span class="smcap">iv</span> annuiu -logo.</p> - -<p>O marquez de Santilhana e todos os -Mendonças, a cuja guarda estava confiada a -<i>Beltraneja</i>, indignaram-se com este procedimento -do rei. Sahiram immediatamente -da côrte. A rainha D. Joanna estava, como -dissemos, em poder do arcebispo de Sevilha -no castello de Alaejos, e parece que -um sobrinho do arcebispo, de nome D. Pedro, -entretivera por algum tempo os ocios -da rainha captiva.<a id="FNanchor_9" href="#Footnote_9" class="fnanchor">[9]</a></p> - -<p>Mas os Mendonças encarregaram D. Luiz -Furtado de arrancar a rainha ao seu captiveiro. -Uma noite, D. Joanna desceu por -uma janella do castello, ferindo-se na descida. -Luiz Furtado pol-a sobre as ancas da -mula, e a largo trote a levou para Buitrago, -onde sua filha estava.</p> - -<p>Entretanto concertava o rei com os confederados -as bases do accordo: D. Isabel<span class="pagenum"><a id="Page_72"></a>[72]</span> -seria jurada herdeira do throno, e ser-lhe-iam -dadas para seu corregimento varias cidades -e villas; reunir-se-iam côrtes para -sanccionar estes actos; D. Isabel não seria -constrangida a casar, nem casaria sem consentimento -do rei; a rainha considerar-se-ia -como divorciada, seria enviada para fóra -do reino, e não poderia levar comsigo a filha.</p> - -<p>Henrique <span class="allsmcap">IV</span> acceitou de boamente todas -estas condições humilhantes. Ouviu ler -o documento comprovativo da sua propria -deshonra. «Item, porquanto ao dicto senhor -rei, e commumente em todos estes reinos e -senhorios é publico e manifesto, que a rainha -D. Joanna, de um anno a esta parte, -não tem usado limpamente de sua pessoa -como cumpre á honra do dicto senhor rei, -nem sua; e outrosim o dicto senhor rei é informado -que não foi nem está legitimamente -casado com ella... etc.» Henrique -<span class="allsmcap">IV</span> assignou, e dirigiu-se com sua irmã para -o campo de Toros de Guisando, onde D. -Isabel foi solennemente jurada herdeira do -throno, com assistencia de nobres e prelados, -e do legado pontificio que, em nome -do papa, desligou todos os presentes de<span class="pagenum"><a id="Page_73"></a>[73]</span> -quaesquer outros juramentos, que houvessem -feito.</p> - -<p>O marquez de Vilhena aproveitou a occasião -para ser confirmado na posse do -mestrado de S. Tiago, e o rei Henrique -julgou-se por certo o mais ditoso dos homens -coroados.</p> - -<p>A rainha, tendo conhecimento da intervenção -do legado pontificio no reconhecimento -dos direitos da infanta D. Isabel, enviou -Luiz Furtado, o seu salvador do castello -de Alaejos, a protestar junto do representante -do papa, ameaçando-o de fazer -subir o seu recurso a Roma, se elle a não -attendesse. A familia dos Mendonças, fiel ao -partido da rainha, vira com indignação tudo -quanto se passava. O marquez de Vilhena -soube-o, e tratou logo de explorar a indignação -dos Mendonças, a fim de obstar a -que a infanta D. Isabel viesse a casar com -o infante D. Fernando de Aragão, casamento -a que a infanta se inclinava, e que -o arcebispo de Toledo promovia. Era uma -razão de interesse pessoal, como sempre, a -que demovia n’este lance o marquez de Vilhena. -Tinham sido encorporadas no seu -marquezado muitas das propriedades<span class="pagenum"><a id="Page_74"></a>[74]</span> -sequestradas aos infantes de Aragão, e temia -perdel-as pelo casamento da infanta com -um principe d’aquella casa real. Então o -marquez de Vilhena não duvidou fortalecer -com o seu apoio o partido da rainha e, para -obstar ao casamento que o contrariava, -renovou o antigo alvitre de que a infanta -D. Isabel desposasse D. Affonso <span class="allsmcap">V</span>, de Portugal, -e a princeza D. Joanna o principe -herdeiro portuguez: no caso da infanta não -ter filhos de Affonso, o <i>Africano</i>, succederiam -no throno de Castella os que a <i>Beltraneja</i> -houvesse dado ao principe D. João.</p> - -<p>Houve idéa de que a rainha D. Joanna -viesse pessoalmente a Portugal tratar d’estas -allianças. Mas a pobre rainha, que continuava -a ser perseguida pelo arcebispo de -Sevilha, a cujo poder lograra subtrahir-se, -receou que fosse esse um pretexto para -não a deixarem voltar a Castella. Venceu a -rainha; não veio a Portugal. De mais a mais -a infanta D. Isabel tomara uma attitude -energica, recusava tenazmente casar com -Affonso <span class="allsmcap">V</span>.</p> - -<p>Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, incoherente, como sempre, -escreveu de seu proprio punho ao papa -para que não confirmasse a successão de<span class="pagenum"><a id="Page_75"></a>[75]</span> -D. Isabel; ao mesmo passo sollicitava a -confirmação pontificia aos direitos da <i>Beltraneja</i>. -Escrevia tambem ao rei de Portugal -para que insistisse em desposar a infanta.<a id="FNanchor_10" href="#Footnote_10" class="fnanchor">[10]</a> -«Estas cartas, diz o padre Flores, -foram entregues ao chronista D. Diogo -Henriques de Castilho (a quem seguimos) -para que secreta e promptamente as levasse -a Buitrago, onde estava a rainha com sua -filha, e fossem dirigidas com presteza a Lisboa -e a Roma, como aconteceu, com grande -sentimento do arcebispo de Sevilha (quando -o soube), mas sem alvoroto, por mediar o -mestre de S. Tiago.»</p> - -<p>Affonso <span class="allsmcap">V</span> estava lançado no plano inclinado -do desastre. Obedeceu ao pedido. A -historia do segundo casamento do rei portuguez, -nunca realizado, é uma serie de -<i>fiascos</i>, como hoje dizemos; o egregio vencedor -de Africa collocara-se n’um terreno -escorregadio, e fora resvalando até abysmar-se -no ridiculo.</p> - -<p>Segundo o testemunho de Lafuente, que -se póde contraprovar em Damião de Goes,<a id="FNanchor_11" href="#Footnote_11" class="fnanchor">[11]</a><span class="pagenum"><a id="Page_76"></a>[76]</span> -Affonso <span class="allsmcap">V</span> enviara a Ocanha, onde estava -Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, uma <i>solenne embaixada</i> a pedir -a mão da infanta D. Isabel.<a id="FNanchor_12" href="#Footnote_12" class="fnanchor">[12]</a> De Roma -chegara a vir uma bulla de Paulo <span class="allsmcap">II</span>, dispensando -para o matrimonio da infanta D. -Isabel com seu tio D. Affonso <span class="allsmcap">V</span>.<a id="FNanchor_13" href="#Footnote_13" class="fnanchor">[13]</a> Assim -respondia o rei portuguez á carta de seu -cunhado. Mas essa embaixada solenne chegava -tarde a Castella. O arcebispo de Toledo -apressara-se a tratar o casamento da -infanta com D. Fernando de Aragão, que -já a esse tempo se intitulava rei da Sicilia.</p> - -<p>O prelado não perdera tempo, nem podia -perder, porque o marquez de Vilhena e o -rei estavam dispostos a vencer pela força a -tenacidade da infanta. Pensaram em mandal-a -presa para o alcacer de Madrid, mas -recearam-se dos habitantes de Ocanha que -ridicularizavam em chistes e satiras as pretensões -de um viuvo de trinta e sete annos, -como era então Affonso <span class="allsmcap">V</span>, á mão de uma -donzellinha de dezoito, que naturalmente -lhe preferia um rapaz da sua idade, a mais -florente de vida.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_77"></a>[77]</span></p> - -<p>Era certo que, pelo tratado de Toros de -Guisando, a infanta D. Isabel não podia casar -sem consentimento do rei, seu irmão. -Mas o que valiam tratados em Castella, sobretudo -no tempo de Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, que tão -depressa os fazia como desfazia?!</p> - -<p>O arcebispo de Toledo não perdera tempo, -dissemos nós. E não podia perder, porque, -alem de Affonso <span class="allsmcap">V</span>, pretendiam a mão da infanta -o duque de Guyena, irmão de Luiz -<span class="allsmcap">XI</span>, e um irmão do rei Eduardo <span class="allsmcap">IV</span>, de Inglaterra.</p> - -<p>O rei Henrique tivera que passar á Andaluzia, -para socegar aquella provincia. Antes -de partir pediu á irmã que não abusasse -da sua ausencia. A infanta prometteu, mas -por conselho do arcebispo, e a pretexto de -fazer trasladar para Avila o cadaver de seu -irmão Affonso, sahiu de Ocanha para o Madrigal, -onde estava sua mãe, a rainha viuva. -Estava, porêm, em Madrigal o bispo de Burgos, -sobrinho do marquez de Vilhena, que -andava com o rei pela Andaluzia. O bispo -informava o tio do que se passava. A espionagem -era infatigavel; choviam as ameaças -contra as damas da infanta, e contra ella -propria, que ia ser presa por ordem do rei,<span class="pagenum"><a id="Page_78"></a>[78]</span> -quando o arcebispo de Toledo e o almirante -D. Fradique conseguiram arrancal-a á -vigilancia dos espiões açulados pelo marquez -de Vilhena, e leval-a em triumpho para -Valhadolid.</p> - -<p>O arcebispo fez partir emissarios de sua -inteira confiança para Aragão a chamar o -infante D. Fernando. A viagem dos emissarios, -que temiam ser descobertos, foi accidentada -de peripecias arriscadas. Chegaram -a Saragoça, e conferenciaram com o -infante. Foi combinado, que este partisse -apenas acompanhado por seis cavalleiros, -disfarçados de mercadores, e que por outro -caminho sahisse uma partida figurando uma -embaixada do rei de Aragão a Henrique <span class="allsmcap">IV</span>. -Sobre a falsa embaixada deviam incidir as -attenções do publico, e as vistas dos espiões -de Henrique <span class="allsmcap">IV</span>.</p> - -<p>Os seis cavalleiros jornadeavam de noite. -O infante disfarçara-se em criado; nas poisadas -tratava dos cavallos, e servia á mesa. -Foi assim que os conspiradores conseguiram -atravessar por entre os soldados do rei, -que cruzavam vigilantes as estradas, e passar -incolumes sob a linha de fortificações -dos Mendonças, desde Almazan a Guadalajara.<span class="pagenum"><a id="Page_79"></a>[79]</span> -Uma noite, porêm, o infante esteve em -risco de ser victima. Chegaram ao burgo de -Osma, mortos de cançaço e frio. Chamaram -á porta do castello do conde de Trevinho, -que era partidario de D. Isabel. A sentinella, -julgando serem inimigos, arrojou do alto do -adarve uma pedra enorme, que passou junto -á cabeça do infante. O chronista Palencia, -que era da partida, deu então um grito; a -sua voz foi reconhecida, e a porta do castello -aberta. Restaurada de forças, a cavalgada -seguiu viagem, e dois dos cavalleiros -anteciparam-se para dar a boa nova á infanta.</p> - -<p>Chegaram aos ouvidos do rei os rumores -da conspiração. Henrique <span class="allsmcap">IV</span> deu-se pressa -em regressar da Andaluzia, e em Trujilho -recebeu uma carta de D. Isabel participando-lhe -a sua resolução de casar com o infante -D. Fernando, e fazendo em nome de -ambos muitos protestos de obediencia ao -rei se elle não contrariasse este casamento, -cujas vantagens para a monarchia a infanta -ponderava.</p> - -<p>Fernando de Aragão completou a viagem -com os quatro cavalleiros que lhe restavam. -Chegou de noite a Valhadolid, ás casas onde<span class="pagenum"><a id="Page_80"></a>[80]</span> -a infanta poisava. O arcebispo de Toledo levou-o -á presença de Isabel, e Gutierres de -Cárdenas, vendo entrar o infante, mancebo -de dezoito annos, elegante e robusto, exclamou: -<i>Ese es, ese es.</i><a id="FNanchor_14" href="#Footnote_14" class="fnanchor">[14]</a></p> - -<p>O casamento effectuou-se d’ahi a poucos -dias, a 19 de outubro de 1469.<a id="FNanchor_15" href="#Footnote_15" class="fnanchor">[15]</a> Estava, pois, -dado o primeiro passo para a unidade hespanhola; -esse casamento unia duas monarchias.</p> - -<p>Celebradas as nupcias, os noivos enviaram -uma embaixada a Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, participando-lhe -que o casamento se havia realizado, -remettendo-lhe copia das capitulações -matrimoniaes, e assegurando-lhe obediencia, -no caso do rei approvar o que estava feito.</p> - -<p>A colera de Henrique <span class="allsmcap">IV</span> foi enorme. Não -lhe ficou inferior a do marquez de Vilhena, -que havia perdido a partida. Toda a côrte -era um vulcão de odios, que explodiam. Esperava-se -apenas a hora da vingança, e essa -hora pareceu haver soado quando uma -embaixada de Luiz <span class="allsmcap">XI</span> chegou, a pedir a<span class="pagenum"><a id="Page_81"></a>[81]</span> -mão da <i>Beltraneja</i> para o duque de Guyena, -seu irmão e porventura herdeiro, que a -infanta D. Isabel havia rejeitado.</p> - -<p>Esta embaixada fortaleceu momentaneamente -a causa da <i>Beltraneja</i>.</p> - -<p>Foi recebida com grandes festas e pompa. -O cardeal de Albi, um dos emissarios -de Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, perguntou solennemente á rainha -se a princeza D. Joanna era effectivamente -filha do rei Henrique <span class="allsmcap">IV</span>. A que baixezas -tinham nascido predestinadas a irmã -e a sobrinha de Affonso <span class="allsmcap">V</span>! A rainha respondeu -affirmativamente. Depois repetiu a -pergunta o rei, e D. Joanna repetiu a affirmativa. -Então todos os prelados e cavalleiros -presentes beijaram a mão da <i>Beltraneja</i>, -outra vez reconhecida herdeira do throno. -A infanta D. Isabel, não obstante haver -escripto uma nova carta de conciliação ao -rei, e appellado para a arbitragem do bom -conde de Haro, Fernandes de Velasco, que -era tido em Castella como o mais serio caracter -d’aquelle tempo, foi desherdada.</p> - -<p>Henrique <span class="allsmcap">IV</span> publicou contra sua irmã -Isabel, já então mãe, um manifesto injurioso; -a infanta respondeu com outro, incriminando -o procedimento do rei. Entretanto<span class="pagenum"><a id="Page_82"></a>[82]</span> -nascera um filho de Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, o que afastava -o conde de Guyena da successão do -throno de França. Chegaram, não obstante, -a fazer-se as capitulações matrimoniaes, -mas o enthusiasmo de Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, por esse -casamento, esfriara desde que a Luiz <span class="allsmcap">XI</span> -nascera um filho.</p> - -<p>Diz o padre Flores que todas as diligencias -se mallograram por ter morrido o noivo -da <i>Beltraneja</i>. Esta asserção carece de -reparo. O duque de Guyena só morreu, em -Bordeus, em maio de 1472. Elle mesmo havia -manifestado tambem pouca vontade de -realizar o casamento contractado, chegando -a solicitar a mão da herdeira do ducado de -Borgonha. De parte a parte havia frieza. -Ruy de Pina vem em reforço do que dizemos, -noticiando varias embaixadas entre as -côrtes de Portugal e Castella, em 1470 e -1471,<a id="FNanchor_16" href="#Footnote_16" class="fnanchor">[16]</a> para tratar de casamentos. Mas como -D. Isabel houvesse casado com o infante -de Aragão, rei da Sicilia, e o infante D. -João, de Portugal, houvesse casado em Setubal, -a 22 de Janeiro de 1471, com sua prima -D. Leonor, Henrique <span class="allsmcap">IV</span> e Affonso <span class="allsmcap">V<span class="pagenum"><a id="Page_83"></a>[83]</span></span> -avistaram-se <i>entre Elvas e Badajoz</i> para -combinar o casamento da <i>Beltraneja</i> com -o rei de Portugal.<a id="FNanchor_17" href="#Footnote_17" class="fnanchor">[17]</a></p> - -<p>D. Joanna e sua filha não assistiram a -esta entrevista. Ficaram em Escalona, acompanhadas -pelo bispo de Burgos.</p> - -<p>Diz Pina que D. Isabel e D. Fernando -enviaram embaixadores á entrevista, a fim -de obstarem ao casamento de Affonso <span class="allsmcap">V</span> -com sua sobrinha. O rei de Portugal reuniu -muitas vezes conselho para tratar d’este -assumpto, mas sempre, em quanto Henrique -<span class="allsmcap">IV</span> viveu, sobrevieram duvidas e receios -de graves complicações entre os dois -paizes.</p> - -<p>O padre Flores escreve que, em todas -estas negociações, o rei de Portugal tinha -grande desconfiança do mestre de S. Tiago. -É natural que assim fosse, mas tambem -é natural que influisse no animo de -Affonso <span class="allsmcap">V</span> a importancia que tinha realmente -o partido de D. Isabel.</p> - -<p>Como quer que seja, a causa da <i>Beltraneja</i> -perdia terreno. Quatro novos projectos<span class="pagenum"><a id="Page_84"></a>[84]</span> -de casamento se haviam frustrado: -com o duque de Guyena, com D. Fradique, -filho do rei de Napoles, com D. Henrique -Fortuna, primo coirmão do marido de -D. Isabel, e com D. Affonso, de Portugal. -Mas, alem d’estes, ainda houve um outro -projecto mais antigo, como sabemos, relativo -ao infante D. Affonso, que morrera. -Andava a mão da pobre infanta em almoeda, -e ninguem a queria! A familia dos Mendonças -afrouxara tambem no seu enthusiasmo -pela causa da <i>Beltraneja</i>, logo que o -rei lhe arrancara a infanta para a confiar á -guarda do mestre de S. Tiago.</p> - -<p>Ao passo que a má estrella da <i>Beltraneja</i> -parecia brilhar cada vez mais sinistra -no horizonte do seu triste destino, os partidarios -de D. Isabel logravam vantagens. -Um d’elles, André de Cabrera, mordomo-mór -do rei e marido de D. Beatriz de Bobadilha, -amiga dedicada de D. Isabel, pensou -em reconciliar o rei com a irmã. Soube-o -fazer com fina diplomacia. D. Beatriz -foi a Aranda, disfarçada em camponeza, -perguntar á infanta se não teria duvida em -avistar-se com o rei em Segovia. D. Isabel -annuiu. Cabrera venceu, por certo, sem<span class="pagenum"><a id="Page_85"></a>[85]</span> -grande difficuldade, as hesitações do fraco -rei Henrique.</p> - -<p>Os dois irmãos avistaram-se em Segovia. -Era isto em dezembro de 1473. O rei não -só se reconciliou com a irmã, mas quiz honral-a -publicamente, levando de redea a mula, -em que a infanta montava, atravez das ruas, -ao som de musicas festivas. O mestre de S. -Tiago, desairado por estas secretas negociações, -retirou-se da côrte.</p> - -<p>Entretanto, a infanta D. Isabel, á qual -viera juntar-se o infante de Aragão, continuava -a estar nas boas graças do rei. Banqueteavam-se -juntos, e foi n’um d’esses banquetes, -dado por André de Cabrera que, -no domingo de <i>Reis</i> de 1474, o rei se sentiu -indisposto depois de ceia. Fernando e -Isabel visitavam na sua doença Henrique -<span class="allsmcap">IV</span>, mas não conseguiam arrancar-lhe a confirmação -dos seus direitos ao throno. Por -sua parte, o mestre de S. Tiago procurava -desforrar-se do desaire recebido, procurando -infundir suspeitas de que os infantes -houvessem envenenado o rei.</p> - -<p>Voltando á côrte, o grão-mestre induzia -o rei a apoderar-se dos infantes, e assim<span class="pagenum"><a id="Page_86"></a>[86]</span> -teria acontecido se o plano não fosse denunciado -a Fernando e Isabel.</p> - -<p>O rei melhorara, mas a sua saude tornara-se -melindrosa. Não obstante, João Pacheco, -senhoreando outra vez o espirito de -Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, fez com que o rei o acompanhasse -a Trujilho, para que o investisse na -posse d’aquella cidade, diz Lafuente; para -concertarem d’alli secretamente o casamento -de D. Joanna com Affonso <span class="allsmcap">V</span>, diz Zurita.</p> - -<p>É certo que João Fernandes da Silveira, -depois barão de Alvito, chegou a ir a Castella -encarregado d’este negocio.<a id="FNanchor_18" href="#Footnote_18" class="fnanchor">[18]</a> Mas a -viagem aggravara os padecimentos do rei. -Retiraram porisso de Trujilho, mas, a duas -leguas da cidade, João Pacheco, acommettido -de uma inflammação de garganta, morreu -deitando muito sangue pela bocca.</p> - -<p>A morte de João Pacheco, marquez de -Vilhena e grão-mestre de S. Tiago, impressionou -o rei. Aquelle homem fôra o companheiro -dos seus deboches quando principe, -e o instigador de grande parte dos seus -actos como rei; habituara-se a elle. Sentia-lhe -agora a falta. Preso a esse cadaver por<span class="pagenum"><a id="Page_87"></a>[87]</span> -laços torpes, honrara-lhe a seu modo a memoria, -fazendo o filho de João Pacheco -marquez de Vilhena e grão-mestre de S. -Tiago, sem sequer consultar os cavalleiros -da ordem.</p> - -<p>Levantaram-se reclamações e protestos, -que o rei teve de reprimir com varias expedições. -Este esforço quebrantou-lhe as -ultimas forças. Abandonou a lucta, para voltar -a Madrid, cada vez mais doente. Morreu -a 11 de dezembro d’esse mesmo anno de -1474.</p> - -<p>Assim acabou, n’este rei fraco e nefando, -a linha varonil da dynastia Trastamara.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_88"></a>[88]</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_89"></a>[89]</span></p> - -<h2 class="nobreak">V<br /> -<span class="smaller">POR CAUSA DE UMA COROA</span></h2> - -</div> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-o.jpg" width="100" height="100" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">O veneno, propinado ao rei Henrique -durante as festas de Segovia -em honra de sua irmã D. -Isabel,<a id="FNanchor_19" href="#Footnote_19" class="fnanchor">[19]</a> produzira o desejado -effeito, como vimos. O rei fallecera em Madrid, -onde estava sua filha D. Joanna entregue -aos cuidados do novo marquez de -Vilhena, Diogo Lopes Pacheco. Mas a rainha<span class="pagenum"><a id="Page_90"></a>[90]</span> -achava-se ausente, <i>apartada da côrte -por seu deshonesto viver</i>.<a id="FNanchor_20" href="#Footnote_20" class="fnanchor">[20]</a></p> - -<p>Como quer que seja, vamos encontral-a, -depois da morte do rei, habitando um predio -junto á egreja de S. Francisco, de Madrid, -que fôra demolida no anno de 1760. -Parece que D. Joanna, sentindo o cançaço -de uma vida tempestuosa, procurara o refugio -de uma especie de cenobio, d’onde, -em tribuna privativa, podia assistir aos officios -religiosos que se celebravam no templo.</p> - -<p>São mais ou menos suspeitos de paixão -politica os historiadores castelhanos, que -se occupam do procedimento da rainha. -Uns, como Henriques de Castilho, pertencem -á parcialidade do rei; outros, como -Pulgar, militavam na facção de D. Isabel. -O padre Flores, querendo mostrar-se imparcial, -chama <i>pelago insondavel</i> ao conceito -que da infeliz rainha se fazia em Castella.</p> - -<p>Um historiador portuguez, o auctor da -<i>Historia genealogica</i>, escreve que D. Joanna -fôra «formosa, viva, e naturalmente alegre;<span class="pagenum"><a id="Page_91"></a>[91]</span> -era moça, e mais desenvolta do que -convinha á sua real pessoa, o que deu motivo -a diversos juizos, que se augmentaram -pelo pouco caso que el-rei d’isso fazia; do -que nasceu alguns cuidarem, e outros fingirem, -e lhe levantarem, que era pouco honesta, -e que el-rei lh’o consentia.»</p> - -<p>Um d’esses taes é Antonio de Lebrixa, o -qual escreveu que era o proprio Henrique -<span class="allsmcap">IV</span> que alcovitava a rainha a um seu privado -(Beltrão de Lacueva).</p> - -<p>Damião de Goes censura Lebrixa por affirmar -<i>ex cathedra, sem ser testemunha de -vista</i>, a infamia da rainha; mas acaba por -dizer que a fama da impotencia de Henrique -<span class="allsmcap">IV</span> era falsa, comquanto não houvesse -sido <i>testemunha de vista</i>, elle proprio...</p> - -<p>Nós estamos escrevendo a distancia de -tempo a que os acontecimentos avultam -em todo o relevo da sua nudez historica. -Cahiu já desfeito, pela acçao implacavel dos -seculos, o véo que a paixão politica entretece, -e que não deixa definir claramente os -contornos mais salientes de qualquer epocha, -como a neblina envolve a ossada dos -montes ao romper da manhã.</p> - -<p>Começamos por estudar serenamente a<span class="pagenum"><a id="Page_92"></a>[92]</span> -côrte de Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, devassa, dissoluta, -sensual. Esboçamos o perfil do rei, que presidia -a esta côrte, rei que se retouçava na -podridão de prazeres sodomitas, e parecia -talhado de molde para deixar resvalar ao -abysmo da deshonra a segunda mulher, -visto que não quizera repudial-a pelo mesmo -motivo da primeira, a infeliz Branca de -Navarra. D. Joanna, de Portugal, era moça, -formosa, alegre, <i>viva</i>, como diz Antonio -Caetano de Sousa. Cahiu no meio d’esta -côrte, como uma flor póde cahir em qualquer -esterquilinio sotoposto ao jardim, sobretudo -quando a haste tem o geito de -pender para esse lado, e uma perfida viração -a faz oscillar a cada lufada mais forte...</p> - -<p>Basta ir seguindo os acontecimentos, para -ver descer a rainha pelo plano inclinado -do adulterio. Não é preciso ler os -chronistas para copiar d’elles a sua apreciação, -mais ou menos apaixonada, mas apenas -para que nos guiem na successão dos -acontecimentos. A critica é facil, resalta luminosa -e logica. Aconteceu-nos isto, confrontando -os chronistas; o mesmo acontecerá -por certo ao leitor que tiver seguido -passo a passo esta narrativa.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_93"></a>[93]</span></p> - -<p>D. Joanna falleceu a 13 de junho de 1475, -tendo apenas 36 annos de edade. Matou-a o -veneno ou o arrependimento; morreu ou -mataram-n’a. E diz a chronica que os reis -catholicos, Isabel e Fernando, lhe mandaram -fazer um tumulo de marmore branco, -cujo epitaphio dizia:</p> - -<div class="blockquote"> - -<p><i>Aqui yace la mui excelente, esclarecida y -poderosa Reyna de Castilla Doña Juana, -muger del muy excelente, esclarecido y -poderoso Rey Don Enrique IV. cuyas animas -Dios aya: la qual falleció dia de San -Antonio de MCCCCLXXV. años.</i></p> - -</div> - -<p>Mais tarde, a habitação da rainha foi convertida -em nave do templo; chamava-se-lhe -a capella da Aurora, e ficava do lado do -Evangelho. Quando a egreja de S. Francisco -foi demolida, acharam-se os ossos da -rainha dentro de um cofre de madeira, mas -não se sabe hoje o destino que tiveram depois -da demolição.<a id="FNanchor_21" href="#Footnote_21" class="fnanchor">[21]</a></p> - -<p>Assim se dispersaram os restos mortaes -d’essa formosa dama portugueza, que o berço<span class="pagenum"><a id="Page_94"></a>[94]</span> -em que nascera posthuma parecia haver -malfadado para as desventuras do thalamo, -e do throno.</p> - -<p>Fizera Henrique <span class="allsmcap">IV</span> testamento?</p> - -<p>Ruy de Pina, na <i>Chronica de D. Affonso -V</i>,<a id="FNanchor_22" href="#Footnote_22" class="fnanchor">[22]</a> diz que sim.</p> - -<p>«No fim do anno de mil quatrocentos -setenta e quatro, palavras suas, el-rei D. -Henrique, de Castella, falleceu na villa de -Madrid; foi seu corpo levado ao mosteiro -de Santa Maria de Guadalupe, onde na capella-mór, -á mão direita, jaz em sua real -sepultura, como parece, e da outra parte -jaz a rainha D. Maria, sua mãe. <i>Fez el-rei -D. Henrique seu solenne e accordado testamento, -em que declarou a princeza D. -Joanna por sua filha, e por rainha herdeira -dos reinos de Castella, e o rei D. Affonso -por governador d’elles, pedindo-lhe finalmente -que acceitasse a dicta governança, -e casasse com ella, o qual testamento -foi logo trazido a el-rei D. Affonso, que -estava em Extremoz... etc.</i>»</p> - -<p>Os chronistas castelhanos corrigem n’este -ponto o chronista portuguez.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_95"></a>[95]</span></p> - -<p>Zurita diz positivamente nos <i>Anales</i> que -D. Henrique não deixou testamento.</p> - -<p>O padre Castilho não faz menção de qualquer -disposição testamentaria. Affonso de -Palencia diz que, perguntado o rei sobre -quem lhe devia succeder no throno, respondera -que o secretario João Gonçalves -revelaria a sua intenção. Fernando de Pulgor -refere que apenas indicara os fidalgos -a quem seria confiada a guarda de sua filha. -Lucio Marineo escreve que Henrique -<span class="allsmcap">IV</span>, sempre imprevidente, não deixara testamento. -Marianna conta que, perguntado o -rei pelo seu confessor frei Pedro de Mazuelos, -respondera que reconhecia como -herdeira a princeza D. Joanna, a qual deixara -recommendada a alguns fidalgos, inclusos -os marquezes de Santilhana e de Vilhena. -A Lafuente parece arriscada esta -asserção de Marianna, que aliás vem copiada -em Romey.</p> - -<p>Diogo Clemencin<a id="FNanchor_23" href="#Footnote_23" class="fnanchor">[23]</a> é de todos os historiadores -castelhanos o que mais detida e<span class="pagenum"><a id="Page_96"></a>[96]</span> -lucidamente se occupa da questão do testamento -de Henrique <span class="allsmcap">IV</span>.</p> - -<p>Recorda a lenda, publicada por Galindes -de Carvajal, de que o rei Henrique fizera, -ao morrer, testamento, no qual reconhecia -como sua successora D. Joanna, e -de que esse documento fôra pelo secretario -João de Oviedo entregue a um padre -que era cura de Santa Cruz, em Madrid. -Não querendo que o desapossassem de tão -valioso deposito, o cura metteu-o n’um cofre -com outros papeis, e veio escondel-o -perto de Almeida, em Portugal. O bacharel -Fernam Gomes de Herrera, amigo particular -do cura, conhecia o segredo, e revelou-o -a D. Isabel a <i>Catholica</i>, quando já -estava moribunda. A rainha mandou o cura -buscar o cofre, que chegou quando ella já -tinha morrido. O rei Fernando soube o que -se passava, pelo licenciado Zapata, a quem -Herrera revelara o segredo. Diziam uns que -o testamento fôra queimado por ordem do -rei; outros que ficara em poder de Zapata. -A Herrera teriam sido feitas varias mercês, -em recompensa do serviço que prestara.</p> - -<p>Clemencin refuta esta lenda com bons -fundamentos, entre elles o não ser citado<span class="pagenum"><a id="Page_97"></a>[97]</span> -por D. Joanna o testamento de Henrique -<span class="allsmcap">IV</span> quando ella allegava todos os seus direitos -em manifesto dirigido á cidade de -Madrid (1475), e a circumstancia de egual -omissão no documento em que a <i>Beltraneja</i> -transferiu para D. João <span class="allsmcap">III</span>, de Portugal, -todos esses direitos.</p> - -<p>Como quer que fosse, em torno da <i>Beltraneja</i> -agrupou-se um partido defensor da -sua legitimidade. Os caudilhos eram grandes -e poderosos senhores, posto não fossem -numerosos: entre elles, o marquez de -Vilhena, menos habil, porêm mais intrepido -que seu pae; o opulento duque de Arévalo; -o moço marquez de Cadiz, e o grão-mestre -de Calatrava e seu irmão.</p> - -<p>No partido contrario, militavam em favor -de D. Isabel prelados e proceres egualmente -poderosos. Citaremos o arcebispo de Toledo, -que foi quem se apressou a communicar -a Fernando o Catholico, em carta que -Zurita reproduz, a noticia do fallecimento -de Henrique <span class="allsmcap">IV</span>.</p> - -<p>Não deixa, comtudo, de ser curioso que -este prelado se bandeasse depois com o partido -da <i>Beltraneja</i>, despeitado pelo ascendente,<span class="pagenum"><a id="Page_98"></a>[98]</span> -que no espirito de Fernando e Isabel -havia tomado o cardeal de Hespanha.</p> - -<p>Não seria, pois, uma copia do testamento, -que parece não ter existido, o que os -partidarios da <i>Beltraneja</i> enviaram a Affonso -<span class="allsmcap">V</span>, que estava então em Extremoz; mas -foi de certo uma mensagem solicitando o -seu apoio a troco do casamento com a infanta, -sua sobrinha, e da coroa de Castella.<a id="FNanchor_24" href="#Footnote_24" class="fnanchor">[24]</a></p> - -<p>Não me esquivarei a citar, a respeito -d’esta mensagem, as palavras do historiador -hespanhol Lafuente, porque raras vezes -um escriptor extrangeiro é tão fiel e -tão exacto nas suas apreciações.</p> - -<p>«A ninguem, tanto como ao monarcha -portuguez, diz elle, podia lisonjear uma tal -proposta. De genio naturalmente cavalheiroso, -desvanecido com a denominação de -<i>Africano</i>, que os seus triumphos contra os -moiros barbarescos lhe haviam valido, e -um dos pretendentes anteriormente repellidos -pela rainha Isabel, Affonso acolheu com -avidez um convite que lhe proporcionava -apresentar-se como reparador de um desaire,<span class="pagenum"><a id="Page_99"></a>[99]</span> -que recebera da rainha, como vingador -de um rival preferido, como o campeão de -uma princeza desgraçada, e como conquistador -de uma coroa, que, alcançada para -sua sobrinha, havia de ver collocada na -sua propria cabeça. De modo que a empresa -satisfazia simultaneamente o seu espirito -cavalheiresco, o seu orgulho offendido, -a sua cobiça e ambição de gloria.»</p> - -<p>Conforma-se com o testemunho de Ruy -de Pina o testemunho de Lafuente, quando -affirma que o principe herdeiro de Portugal, -D. João, procurara inflammar os brios -guerreiros de seu pae, aconselhando-lhe a -guerra com Castella. Tambem concorda -com o chronista portuguez o historiador -castelhano, quando refere que o duque de -Bragança e o arcebispo de Lisboa foram -de parecer contrario ao do principe. O que -é certo é que Affonso <span class="allsmcap">V</span> mandou a Castella -o seu camareiro-mór, Lopo de Albuquerque -(depois conde de Penamacôr), encarregando-o -de informar-se pessoalmente sobre a -importancia e valor que podiam ter os partidarios -da <i>Beltraneja</i>. O emissario de Affonso -<span class="allsmcap">V</span> recolheu com boas informações, depois -de praticar com os mais exaltados adversarios<span class="pagenum"><a id="Page_100"></a>[100]</span> -de D. Isabel, entre os quaes se contava, -como sabemos, o marquez de Vilhena. -Não obstante as boas novas com que Lopo -de Albuquerque chegou a Evora, onde estava -o rei, em Janeiro de 1475, parece que -de novo foram ainda ponderados a Affonso -<span class="allsmcap">V</span> os inconvenientes da empresa; mas a fogosidade -do principe venceu a opinião dos -que discordavam.</p> - -<p>O rei de Portugal mandou deitar pregão -de guerra. Em Arronches devia reunir-se o -exercito, no mez de maio. N’esse sentido -foram expedidas ordens. Comtudo, alguem -lembrou a Affonso <span class="allsmcap">V</span> a conveniencia de mandar -primeiramente uma embaixada a Fernando -e Isabel, reivindicando os direitos de D. -Joanna. Foi escolhido para esta commissão -Ruy de Sousa, que a desempenhou. Lafuente -diz que Affonso <span class="allsmcap">V</span> tivera a <i>arrogancia -de fazer uma intimação aos reis para -que renunciassem a coroa em favor de D. -Joanna</i>.</p> - -<p>Nas disposições em que se encontrava -Affonso <span class="allsmcap">V</span>, é natural que mandasse pôr a -questão em termos categoricos. De mais a -mais, como ainda teremos occasião de mostrar, -os embaixadores portuguezes não costumavam<span class="pagenum"><a id="Page_101"></a>[101]</span> -sossobrar perante a altivez castelhana. -N’um e n’outro paiz, as situações estavam -claramente definidas, porque se Affonso -<span class="allsmcap">V</span> convocara o exercito para Arronches, -em Segovia tinham sido alçados pendões -reaes ao som de <i>Castilla por el rey Don -Herñando, y la reina Doña Isabel, su muger, -proprietaria destos reynos</i>.</p> - -<p>A resposta de Fernando e Isabel é facil -de adivinhar. Responderam mantendo os -seus direitos, e requereram a Affonso <span class="allsmcap">V</span> que -não entrasse em Castella. Diz Lafuente, que -a intimação do rei de Portugal fôra nobremente -repellida, mas accrescenta que D. -Isabel <i>dirigiu differentes embaixadas a -Affonso <span class="allsmcap">V</span>, exhortando-o com palavras de -moderação</i> a que desistisse da empresa. Os -emissarios dos reis catholicos foram varios -religiosos, segundo Zurita.</p> - -<p>No mez de maio, estava o rei em Arronches, -apercebido para a marcha. O principe -D. João acompanhou-o ao alto Alemtejo, -onde concertaram, pae e filho, negocios -particulares e do Estado, para o caso do -rei perecer em combate. Foi em Portalegre, -a 28 de abril, que Affonso <span class="allsmcap">V</span> dictou o -seu testamento, escripto por frei João de S.<span class="pagenum"><a id="Page_102"></a>[102]</span> -Mamede, confessor do rei: «... eu tenho -determinado, diz Affonso, d’aqui a poucos -dias entrar em os reinos de Castella, com -fundamento de casar com a rainha, minha -sobrinha, e isto por serviço de Deus e por -melhor podermos defender seu direito, segundo -é já entre nós capitulado...»</p> - -<p>N’este curioso documento refere-se Affonso -<span class="allsmcap">V</span> aos enormes gastos que foram feitos -com o casamento de sua irmã D. Leonor -com o imperador da Allemanha, attribuindo-os -á pouca edade que então tinha, e á -falta de experiencia. Declara ter dois filhos -legitimos, a infanta D. Joanna, que falleceu -em Aveiro, com reputação de santa, posto -a sua vida não fosse inteiramente isenta -de culpas,<a id="FNanchor_25" href="#Footnote_25" class="fnanchor">[25]</a> e o principe D. João que, segundo -os estylos do reino, proclama herdeiro -da coroa.</p> - -<p>Tambem em Portalegre, e primeiro que -o seu testamento, assignara Affonso <span class="allsmcap">V</span> a -carta regia pela qual declarava regente do -reino seu filho, o infante D. João.<a id="FNanchor_26" href="#Footnote_26" class="fnanchor">[26]</a></p> - -<p>Estavam já em Arronches pae e filho, -quando chegou noticia de que D. Leonor,<span class="pagenum"><a id="Page_103"></a>[103]</span> -mulher do principe herdeiro, havia dado á -luz o infante D. Affonso, que tão pouco vivera -e tão desastrosamente acabara. «E por -seu nascimento, diz Ruy de Pina, declarou -logo el-rei, sendo caso que o principe D. -João, seu filho, em sua vida fallecesse, a -tempo que elle rei tivesse outro filho lidimo -<i>da rainha D. Joanna, sua esposa, com -quem havia de casar</i>, que ao dicto infante -D. Affonso sempre pertencesse e viesse a -successão dos reinos de Portugal, e que -para isso fosse logo jurado e obedecido...»</p> - -<p>Tratou-se, pois, de entrar em Castella ao -som de guerra.</p> - -<p>A fim de melhor garantir o successo da -empresa, Affonso <span class="allsmcap">V</span> tratou de entender-se -diplomaticamente com o rei de França, Luiz -<span class="allsmcap">XI</span>, como vamos ver.</p> - -<p>Em 1471, o marquez de Vilhena representou -a Luiz <span class="allsmcap">XI</span> pedindo-lhe que auxiliasse -o rei de Portugal. Expunha quaes eram -as forças de que Affonso <span class="allsmcap">V</span> podia dispor: -elle marquez, tres mil cavallos; o arcebispo -de Toledo, dois mil; o mestre de Calatrava, -dois mil; o bispo de Calatrava, dois -mil; o bispo de Burgos, trezentos; o conde -de Horoianna, trezentos; D. Affonso, senhor<span class="pagenum"><a id="Page_104"></a>[104]</span> -de Montalvão, duzentos; D. Affonso e D. -João, filhos bastardos do mestre de S. Tiago, -quatrocentos; D. Pedro de Porto Carreiro, -irmão do marquez, quatrocentos; a -condessa, mãe da mulher do marquez, trezentos; -o duque de Arévalo, dois mil; o -marquez de Cadiz, genro do mestre de S. -Tiago, mil e quinhentos; o duque de Sevilha, -dois mil; D. Affonso de Aguillar, seiscentos; -o conde de Feria, quatrocentos.</p> - -<p>Toda esta gente de armas, com a que o -rei de Portugal poria em movimento, dava -um exercito de trinta e dois mil homens. Accrescentava -o emissario do marquez de Vilhena -que se o rei de França continuasse a -fazer guerra ao de Aragão, na Catalunha, -elles o poriam em tal aperto que seria -obrigado a desistir das suas pretensões ao -reino de Castella.<a id="FNanchor_27" href="#Footnote_27" class="fnanchor">[27]</a></p> - -<p>Vê-se, pois, que, contando com todos estes -recursos, Affonso <span class="allsmcap">V</span> não procedeu tão -levianamente como pretendem alguns chronistas -castelhanos.</p> - -<p>Por sua parte, o rei de Portugal escreveu -a Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, revelando-lhe as intenções<span class="pagenum"><a id="Page_105"></a>[105]</span> -em que estava de desposar sua sobrinha -D. Joanna, e declarar guerra a Castella, -promettendo que, se lograsse alcançar victoria, -ficariam cada vez mais estreitadas -as relações de antiga amizade entre as duas -coroas de Castella e França. Passava-se -isto a 8 de janeiro de 1475, e logo no fim -d’esse mesmo mez tornava Affonso <span class="allsmcap">V</span> a escrever -a Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, dizendo-lhe que receando -qualquer demora na entrega da primeira -carta, escrevia de novo allegando os direitos -de D. Joanna ao throno de Castella, e -pedindo-lhe favorecesse a causa d’esta princeza, -cujo triumpho seria mais conveniente -á politica franceza do que a victoria do ambicioso -rei de Aragão. Participava haver -pedido o auxilio do papa, e rogava a Luiz -<span class="allsmcap">XI</span> que no mesmo sentido escrevesse ao -pontifice.</p> - -<p>Em abril respondia Luiz <span class="allsmcap">XI</span> accusando a -recepção da primeira carta, de 8 de janeiro, -e dizendo que encarregara Olivier le -Roux de vir a Portugal responder aos artigos -d’ella; que estando já Olivier a caminho, -recebera a segunda carta; que se -dera pressa em escrever ao papa no sentido<span class="pagenum"><a id="Page_106"></a>[106]</span> -desejado, despachando como portador -um emissario para Roma.</p> - -<p>Effectivamente, chegara a Portugal mestre -Olivier, o qual, em nome do seu soberano, -dissera a Affonso <span class="allsmcap">V</span> que a respeito da -alliança, que propunha a Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, importava -lembrar-se de que, tendo Portugal alliança -com os inglezes, antigos inimigos da França, -era mister declarasse como e em que -fórma entendia a alliança proposta; que essa -alliança, segundo os precedentes estabelecidos -entre Castella e França, não devia -admittir excepção de pessoas; que, attenta a -visinhança dos dois paizes, convinha á França -auxiliar as pretensões de um principe -que ficasse sendo seu amigo e alliado; que -o rei de Aragão, pae de D. Fernando, enviara -a França um embaixador com a proposta -de paz e alliança, e de casamento da -filha do dicto rei de Aragão com o delfim; -que o rei de França nada decidira, e mandara -um embaixador a Aragão para mais -explicitamente inteirar-se da substancia da -proposta; que el-rei de Portugal bem sabia -como o de França o estimava e amava, de -preferencia a qualquer outro; que o reino -de Portugal ficaria de futuro comprehendido<span class="pagenum"><a id="Page_107"></a>[107]</span> -na alliança que houvesse de fazer-se entre -a França e Castella; que no caso da alliança -se não realizar no sentido indicado, -seria sempre util manter entre a França e -Portugal relações de paz, grande amor e -amizade.</p> - -<p>O fecho das instrucções, copiadas pelo -visconde de Santarem da bibliotheca real -de Pariz, diz o seguinte: «E tratando d’estas -coisas, o dicto mestre Olivier fará por -saber <i>quem tem mais parcialidade e poder, -se el-rei de Portugal em razão da filha -d’el-rei de Castella, ou el-rei de Castella -em razão da irmã, e de tudo quanto souber -dará parte a el-rei</i>.»</p> - -<p>Como se viu, Luiz <span class="allsmcap">XI</span> entrincheirava-se -detraz das mais astutas reservas diplomaticas. -Nada de categorico e consistente. Apenas -a manifesta intenção de querer aproveitar-se -da ambição de Affonso <span class="allsmcap">V</span> para romper -a alliança de Portugal com a Inglaterra.</p> - -<p>Estavam as coisas n’este pé, quando -Affonso <span class="allsmcap">V</span> sahiu de Portugal com um exercito -de cinco mil e seiscentos homens de -cavallo, e quatorze mil infantes. Lafuente -diz que a cavallaria ia na força de cinco -mil e <i>setecentos</i> homens. A differença é<span class="pagenum"><a id="Page_108"></a>[108]</span> -pequenissima. O principe D. João acompanhou -seu pae até á fronteira, e retirou depois, -sabe Deus com que profunda magua -de o não poder seguir!</p> - -<p>Ruy de Pina, descrevendo a ordenança -do exercito portuguez, diz que ia na frente -o adail-mór Diogo de Barros, com <i>certos -ginetes por descobridores</i>. Seguia-se o marechal -D. Fernando Coutinho, como <i>aposentador -e assentador do arraial</i>. Depois, -Vasco Chichorro, capitão dos ginetes d’el-rei, -logo seguido pelo conde de Penamacôr, -capitão da vanguarda real. Após, ia a -carriagem e, depois d’ella, o rei, com poucas -pessoas da sua guarda, diz Goes, e um -pagem que levava o guião com a divisa -real, um rodizio de moinho com gottas -d’agua ao redor e esta legenda <i>Jámais</i>, -divisa que tomara pela sua primeira mulher, -D. Isabel. Na rectaguarda ia o duque de Guimarães, -servindo de condestavel do reino.</p> - -<p>Tem razão Lafuente, quando diz que no -exercito de Affonso <span class="allsmcap">V</span> ia a fina flor dos cavalleiros -portuguezes. Assim era, com effeito. -Alem dos já citados, apontam os chronistas -os condes de Faro, Loulé, Penella, -Monsanto, etc.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_109"></a>[109]</span></p> - -<p>Damião de Goes e Ruy de Pina referem -que Affonso <span class="allsmcap">V</span> chegara a Plasencia sem -que alguem pretendesse tomar-lhe o passo. -Zurita diz, porêm, nos <i>Annaes</i>, que se oppozeram -ao exercito portuguez cêrca de mil -cavalleiros castelhanos, e que, «á entrada, -em diversos recontros, derrubaram mais de -duzentos de cavallo, dos inimigos (os portuguezes)», -chegando os capitães a carregar -até aos flancos do nosso exercito.</p> - -<p>Em Plasencia era esperado Affonso <span class="allsmcap">V</span> -pelo duque e duqueza de Arévalo e pelo -marquez de Vilhena, que lhe apresentou -D. Joanna, a qual, por ordem do marquez, -tinha estado confiada á guarda de Pedro -de Baeça. Dizia este Baeça que os reis catholicos -lhe tinham mandado offerecer, por -um irmão e pelo proprio pae do depositario, -quatro contos de renda, quatro mil vassallos -com a villa de Torquemada, e o titulo -de conde, com promessas de casamento -rico para o filho, se consentisse em entregar-lhes -a <i>Beltraneja</i>. Accrescentava que -voltara com egual commissão o doutor Rodrigo -Maldonado, mas com maiores promessas, -e que elle tudo recusara.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_110"></a>[110]</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_111"></a>[111]</span></p> - -<h2 class="nobreak">VI<br /> -<span class="smaller">A BATALHA</span></h2> - -</div> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-a.jpg" width="100" height="100" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">Aposentou-se Affonso <span class="allsmcap">V</span> com D. -Joanna na fortaleza de Plasencia. -Ahi deslizaram alguns dias -perdidos em <i>festas e prazeres</i>, -diz Pina. Affonso <span class="allsmcap">V</span> iniciou a campanha de -Castella por dois graves erros, reconhecidos -pelos proprios chronistas castelhanos. -Zurita diz que se Affonso <span class="allsmcap">V</span>, em vez de entrar -por Plasencia, tivesse entrado pela Andaluzia, -Sevilha não poderia resistir por -muito tempo a um cêrco, e que, tendo elle -por si Sevilha, se renderiam logo outras cidades, -favoraveis a D. Joanna, ficando-lhe -livre o caminho até aos confins do reino de<span class="pagenum"><a id="Page_112"></a>[112]</span> -Aragão; e que se houvesse querido dirigir-se -para Toledo, onde o arcebispo e o marquez -tinham poderio, haveria logrado chegar -até Segovia. Accrescenta que Affonso -<span class="allsmcap">V</span> se demorara nas festas de Plasencia mais -do que lhe convinha.<a id="FNanchor_28" href="#Footnote_28" class="fnanchor">[28]</a> Lafuente escreve no -mesmo sentido, dizendo que o rei de Portugal, -demorando-se em Plasencia e Arévalo, -dera tempo a que Fernando e Isabel -supprissem á força de actividade a falta de -dinheiro e de apercebimentos de guerra.<a id="FNanchor_29" href="#Footnote_29" class="fnanchor">[29]</a></p> - -<p>Mas o que é certo é que Affonso <span class="allsmcap">V</span> se -demorou em Plasencia, onde celebrou publicamente -desposorios com sua sobrinha,<a id="FNanchor_30" href="#Footnote_30" class="fnanchor">[30]</a> -e ambos foram proclamados reis de Castella, -Leão e Portugal. Ruy de Pina observa -«... e chamou á rainha esposa, com a -qual então nem depois nunca consumou o -matrimonio, por defeito de dispensação, que -não tinha nem houve nunca.» Mais tarde -trataremos este ponto. Por agora, para não<span class="pagenum"><a id="Page_113"></a>[113]</span> -interromper a narrativa com longas divagações, -diremos que D. Affonso <span class="allsmcap">V</span> tratou de -fazer publicar o <i>Manifesto</i> dos direitos de -D. Joanna ao throno de Castella. Sousa<a id="FNanchor_31" href="#Footnote_31" class="fnanchor">[31]</a> -copiou-o de Zurita; tem a data de 30 de -maio e é dirigido á <i>villa</i> de Madrid. N’esse -documento, que é extenso e que está bem -escripto, D. Joanna historía todos os acontecimentos -politicos do reinado de Henrique -<span class="allsmcap">IV</span>, que o leitor já conhece. Accusa Fernando -e Isabel de terem envenenado ou -mandado envenenar o rei. Insiste em que -elle a reconhecera publicamente como filha -e herdeira, no leito da morte, porêm não -fala em testamento. Allude, com a desenvoltura -que o assumpto requeria, á supposta -impotencia de seu pae, affirmando ás -claras que elle <i>era hombre poderoso para -engendrar</i>. Referindo-se a seu tio e noivo, -diz: «O que tudo visto pelos dictos duque -de Arévalo e marquez de Vilhena, como -meus tutores, guardadores, usando da lealdade -e fidelidade que me devem, e acatando, -como o mais alto e mui poderoso principe -D. Affonso, por a graça de Deus rei<span class="pagenum"><a id="Page_114"></a>[114]</span> -de Portugal, e rei de Castella e de Leão, -que agora é meu senhor, e principe mui -catholico, e de grande fama, exemplo e de -grã virtude e prudencia, para manter e -governar estes dictos meus reinos, em justiça -e verdade, como cumpre ao serviço de -Deus, e meu, e ao regimento, e reparo, e -restauração d’elles para o futuro, e conformando-se -com a vontade do dicto rei meu -senhor, que em sua vida, com accordo de -muitos prelados e grandes, diversas vezes -o negociou e procurou, accordaram e assentaram -com elle, que casasse, e celebrasse -desposorio commigo: e para isso viesse e entrasse -n’estes dictos meus reinos como rei, -e senhor d’elles, como meu legitimo esposo, -e marido. E estando eu na cidade de -Turgilho, sob a salvaguarda do dicto marquez -de Vilhena, o dicto rei meu senhor enviou -seu embaixador e procurador com seu -poder bastante, para se desposar, e desposou -commigo, em legitima e devida fórma: e -depois, estando n’esta cidade de Plasencia, -... dias do mez de maio d’este anno, -da data d’esta minha carta, o dicto rei meu -senhor chegou á dicta cidade por sua pessoa, -e desposou-se e <i>dio las manos comigo</i>:<span class="pagenum"><a id="Page_115"></a>[115]</span> -e solennemente jurou, e fez voto solenne, -de nunca me sacar fóra d’estes dictos meus -reinos, nem sua senhoria sahir fóra d’elles, -até, mediante a graça de Deus, os acalmar -e pacificar.» Noticía depois como se celebrara -o acto da acclamação, e ordena que, -logo que aquella carta regia recebam, <i>se -ajuntem todos por pregão e alcem pendões -pelo dicto rei D. Affonso</i>. Diz constar-lhe -que os <i>reis da Sicilia</i> têem feito espalhar -o boato de que os portuguezes são por indole -hostis aos castelhanos. Desmente este -boato, recorda o parentesco e amizade de -Affonso <span class="allsmcap">V</span> com a casa real de Castella, e -accentua que os portuguezes são christãos -catholicos, e obedientes á vontade do seu -rei.</p> - -<p>Um dos pontos que melhor estão tratados -no <i>Manifesto</i>, é o que se refere á desobediencia -de D. Isabel, tendo fugido da -côrte para casar com o rei da Sicilia, que -era extrangeiro, não confederado, nem alliado -com Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, quando ella o não podia -nem devia fazer, não só por ser contra -vontade do rei, mas tambem porque as leis -do reino dispunham que as donzellas, menores -de vinte e cinco annos, não casassem<span class="pagenum"><a id="Page_116"></a>[116]</span> -sem consentimento de seus paes e irmãos -mais velhos. De mais a mais, Fernando e -Isabel eram parentes em grau prohibido, e -não tinham obtido dispensação apostolica.</p> - -<p>Lembra finalmente D. Joanna quanto Fernando -e Isabel fizeram para se apoderar -do thesoiro real de Segovia, como se apoderaram -de todo o oiro e prata, joias, brocados -e pannos, que deixara Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, -não dando, nem consentindo que se désse -para o seu enterro e sepultura <i>o que -para qualquer pobre cavalleiro de seu reino -se dera</i>, e tentando havel-a á mão para a -fazerem encarcerar perpetuamente ou porventura -matar.</p> - -<p>Como se vê, o <i>Manifesto</i> está habilmente -redigido; procura ferir todas as notas, -tanto a da legalidade, como a da sentimentalidade.</p> - -<p>D. Affonso <span class="allsmcap">V</span> tambem escrevera á cidade -de Salamanca, sobre o direito de D. Joanna -á coroa de Castella,<a id="FNanchor_32" href="#Footnote_32" class="fnanchor">[32]</a> e procurara apoiar-se -na diplomacia para corroborar o effeito -que esperava colher da publicação dos manifestos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_117"></a>[117]</span></p> - -<p>De Plasencia enviou a França, como embaixadores, -D. Alvaro de Athayde e o licenciado -João d’Elvas, com plenos poderes -para negociarem a desejada alliança. Philippe -de Comines, que assistiu á audiencia -dos embaixadores portuguezes na côrte de -França, accusa-os de não terem conhecido -as astucias de Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, de não terem ao -menos suspeitado de que faltaria ás suas -promessas. Passa-lhes diploma de incapacidade, -e o caso é que os factos posteriores -deram razão a Comines.</p> - -<p>Affonso <span class="allsmcap">V</span> queria que Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, a quem D. -João de Aragão tinha tomado o condado -de Roussillon, fizesse guerra a D. Fernando, -pela fronteira franceza, envolvendo -assim Castella em duas invasões simultaneas.</p> - -<p>Tambem Affonso <span class="allsmcap">V</span> enviou embaixadores -a Roma, a fim de solicitarem do papa a dispensação -matrimonial de que carecia, para -realizar o casamento com sua sobrinha.</p> - -<p>Com estas armas julgava o rei portuguez -ir ferindo o adversario. Enganava-se. -Fernando levantava em Valhadolid um exercito -de quatro mil homens de armas, oito -mil ginetes e trinta mil peões, verdade seja<span class="pagenum"><a id="Page_118"></a>[118]</span> -que pela maior parte mercenarios. Fôra D. -Isabel quem obtivera as sommas indispensaveis -para equipamento do exercito, conseguindo -que André Cabrera lhe entregasse -o thesoiro de Segovia;<a id="FNanchor_33" href="#Footnote_33" class="fnanchor">[33]</a> Fernandes -de Oviedo não duvída affirmar, nas <i>Quincuagenas</i>, -que estava na mão de Cabrera -fazer rainha a princeza Isabel ou a princeza -Joanna, segundo elle se decidisse a entregar -o thesoiro, que continha cêrca de -10:000 marcos de prata, a uma ou a outra -princeza. Diz Zurita que o marquez de Vilhena -fizera grandes promessas a Cabrera -por parte do rei de Portugal, chegando a -offerecer-lhe a renda annual e vitalicia de -dez contos de maravedis, e que elle os recusara, -porque já em vida de Henrique <span class="allsmcap">IV</span> -era affecto á causa de D. Isabel.</p> - -<p>O que é certo é que Cabrera entregara -a D. Isabel o thesoiro de Segovia, cohonestando -este valioso auxilio com o pretexto -de lhe dar a rainha sua filha em refens.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_119"></a>[119]</span></p> - -<p>D. Isabel, apesar de se achar gravida a -esse tempo, não descansava um só momento; -a fadiga fez com que tivesse um aborto -no caminho de Toledo para Tordesilhas. -Tentou D. Isabel, em Alcalá de Henares, -congraçar o arcebispo de Toledo, mas o -prelado mandou-lhe dizer que se ella entrasse -no paço por uma porta, elle sahiria -por outra.</p> - -<p>Affonso <span class="allsmcap">V</span>, depois de se refocillar nas festas -de Plasencia, passava a Arévalo, um -pouco por lisonjear os duques, que lhe -queriam dar hospedagem, um pouco por -em Plasencia não sobejarem os mantimentos. -O que é certo é que Affonso <span class="allsmcap">V</span> resolvera -aguardar em Arévalo os reforços -que deviam enviar-lhe os fidalgos castelhanos -do seu partido, commettendo assim a -imprudencia de dar tempo a que Fernando -pudesse organizar em Valhadolid um exercito -de <i>condottieri</i>, mais valioso pelo numero -do que pela disciplina.</p> - -<p>De Arévalo, seguiu Affonso <span class="allsmcap">V</span> para Touro, -seguro de que o alcaide João de Ulhôa lhe -abriria as portas da cidade. Assim aconteceu, -mas a mulher de um irmão d’este -Ulhôa não quiz entregar o castello, pelo<span class="pagenum"><a id="Page_120"></a>[120]</span> -que Affonso <span class="allsmcap">V</span> lhe poz um apertado cerco. -Entretanto Samora rendera-se aos portuguezes, -e Fernando, que com o seu exercito -se tinha approximado de Touro, reconhecendo -que não podia luctar com vantagem, -porque lhe faltavam artilheria, posições e -meios de communicação, deu ordem para -retirar. A retirada foi desordenada e desastrosa, -dil-o Lafuente, e a derrota haveria -sido completa, se a cavallaria portugueza -carregasse sobre o inimigo.<a id="FNanchor_34" href="#Footnote_34" class="fnanchor">[34]</a> Uma companhia -de byscainhos chegou a suspeitar de -traição por parte dos generaes castelhanos, -e violentamente foi arrancar o rei de entre -elles, quando todos estavam conferenciando -n’uma egreja. Ainda assim, Fernando -soffrera, em sua gente e carriagem, muito -damno e perda.<a id="FNanchor_35" href="#Footnote_35" class="fnanchor">[35]</a></p> - -<p>O castello de Touro rendera-se, finalmente, -ao apertado cerco que lhe puzera Affonso -<span class="allsmcap">V</span>. Em varios pontos, aqui e alli, rompiam-se -as hostilidades; e os povos da Estremadura -hespanhola e da Andaluzia faziam -varias incursões sobre Portugal, como -represalia de guerra. Em Burgos, a cidade<span class="pagenum"><a id="Page_121"></a>[121]</span> -estava por D. Isabel, mas o castello estava -por D. Joanna. Fernando, a fim de attenuar -a má impressão de Touro, foi cercar o castello, -que se julgava uma posição importante, -no presupposto de que Luiz <span class="allsmcap">XI</span> acommettesse -por Guipuzcoa. Affonso <span class="allsmcap">V</span>, a instancias -da duqueza de Arévalo e do arcebispo -de Toledo, deixou D. Joanna em Samora, -e dirigiu-se a Burgos para soccorrer -o castello. Encontrou, porêm, a tomarem-lhe -o passo reforços isabelistas em Baltanás, -aos quaes Affonso <span class="allsmcap">V</span> deu combate, pondo -cerco á villa. A peleja foi renhida. Os portuguezes -combatiam a pé, só o rei de Portugal -estava a cavallo. Morreu ahi D. Alvaro -Coutinho, filho do marechal, mas em -compensação ficou prisioneiro o conde de -Benavente, cunhado do marquez de Vilhena, -que, por segurar a vida, diz Pina, constrangidamente -a veio em pessoa pedir a -Affonso <span class="allsmcap">V</span>, de cima do muro, e o portuguez -de viva voz lh’a outorgou.</p> - -<p>A condessa de Benavente, ao saber do -captiveiro do marido, exaltou-se a tal ponto -que escreveu a Fernando o Catholico, pondo -á sua disposição e obediencia todas as -villas e fortalezas dos seus estados, que<span class="pagenum"><a id="Page_122"></a>[122]</span> -eram grandes. Assim, a paixão politica, -como quasi sempre acontece nas guerras -civis, abria barreiras profundas no seio de -uma mesma familia! A condessa de Benavente -era irmã do marquez de Vilhena.</p> - -<p>As finanças de Portugal e Castella estavam -seriamente compromettidas, em ambos -os paizes, por causa da guerra. Isabel reunira -côrtes em Medina del Campo, no mez -de agosto e, não podendo já impor aos povos -novas contribuições, appellou para o -clero, propondo-lhe que entregasse ao thesoiro -a prata de todas as egrejas de Castella, -promettendo remil-as em tres annos -por amortização de trinta contos de maravedis. -O clero annuiu promptamente. Por -sua parte, Affonso <span class="allsmcap">V</span>, depois de haver tomado -a villa de Cantalapiedra, e de se ter -recolhido a Samora para hibernar, tendo -gasto já todos os recursos com que sahira -de Portugal, teve de «soccorrer-se aos dinheiros -dos orfãos dos seus reinos, e a -outros muitos d’emprestimos particulares», -que por seus officiaes foram logo levados a -Castella.<a id="FNanchor_36" href="#Footnote_36" class="fnanchor">[36]</a> Accrescenta Ruy de Pina que<span class="pagenum"><a id="Page_123"></a>[123]</span> -o principe D. João, depois que foi rei, pagou, -como piedoso filho, todos estes encargos -<i>quanto poude</i>. Mas tambem D. João, -quando resolveu ir soccorrer seu pae, teve -de tomar de emprestimo a prata das egrejas, -a exemplo do que fizera em Castella -D. Isabel.<a id="FNanchor_37" href="#Footnote_37" class="fnanchor">[37]</a> Esta desastrosa guerra parecia -destinada a arruinar as finanças de Portugal. -Em treze mezes, o exercito mobilizado -contra Castella havia de custar ao paiz duzentas -setenta e cinco mil dobras.<a id="FNanchor_38" href="#Footnote_38" class="fnanchor">[38]</a></p> - -<p>O principe D. João, ao mesmo passo que -tinha de reger os negocios internos do reino -e de levantar recursos para acudir a seu -pae, via-se a braços com as incursões armadas -que alguns cavalleiros castelhanos faziam -pela fronteira. Uma d’essas incursões -dirigiu-se contra a villa de Ouguella, morrendo -na refrega o brioso fidalgo João da -Silva, camareiro-mór do principe.</p> - -<p>Em Castella, D. Isabel entabolava negociações -com o alcaide das torres e portas<span class="pagenum"><a id="Page_124"></a>[124]</span> -da ponte de Samora, para que se entregasse, -procurando assim arrancar a Affonso -<span class="allsmcap">V</span> uma das mais importantes fortificações -que tinham voz por elle. Fernando estava -no cerco de Burgos, e, sabendo dos planos -de sua mulher, fingia-se doente para -lhe dar tempo a negociar a compra do alcaide -da ponte de Samora.</p> - -<p>Affonso <span class="allsmcap">V</span> havia mandado recado a seu -filho para em Samora conferenciarem sobre -negocios de Estado.</p> - -<p>D. João deu-se pressa em partir, e já tinha -chegádo a Miranda do Douro, quando -por Vasco Chichorro, o qual de noite atravessou -o Tejo a nado, seu pae lhe mandou -dizer que retrocedesse, porque seria victima -de traição na passagem da ponte de -Samora. Esta ponte tinha nos extremos duas -torres que estavam combinadas para apertar -o principe real entre ambas, quando -elle passasse com a sua gente. Eis no que -consistia a traição preparada por Isabel. -Affonso <span class="allsmcap">V</span> indignou-se, e atacou os castelhanos, -mas por este facto teve occasião de -reconhecer que não podia contar com a -lealdade dos habitantes de Samora, pelo -que resolveu mudar-se, com a <i>Beltraneja</i>,<span class="pagenum"><a id="Page_125"></a>[125]</span> -para Touro, onde o alcaide os recebeu amavelmente.</p> - -<p>O principe real ficou vivamente contrariado -com o caso da ponte de Samora, e -pensou logo em tirar desforra d’esse projecto -de attentado contra a sua vida. Retirando -sobre a cidade da Guarda, ahi reuniu -conselho, resolvendo-se enviar novos auxilios -a D. Affonso <span class="allsmcap">V</span>, para o que foi preciso -tomar, como dissemos, toda a prata das -egrejas e mosteiros, com excepção d’aquella -que era indispensavel á dignidade do culto; -bem como se tomou dinheiro de emprestimo -a particulares. E não sem grandes -dores e gemidos do povo, que o muito sentiam, -diz Ruy de Pina. Feitos estes preparativos, -o principe D. João, deixando sua -mulher como regente do reino, partiu no -mez de janeiro de 1476 para Castella, a -encontrar-se com o rei, ao qual ia reforçar, -tomando na passagem a villa de S. Felizes, -que saqueou.</p> - -<p>Entretanto, el-rei D. Fernando e a rainha -D. Isabel entraram em Samora, e puzeram -cerco ao castello, que tinha voz pelo rei de -Portugal. O desejo de Affonso <span class="allsmcap">V</span> era ir em<span class="pagenum"><a id="Page_126"></a>[126]</span> -soccorro da fortaleza, que D. Fernando parecia -disposto a disputar-lhe palmo a palmo.</p> - -<p>D. Affonso estava em Touro, como sabemos, -e logo que o principe D. João ahi chegou -pensou-se em ir effectivamente defender -o castello de Samora, mas, depois de -ponderados os prós e os contras, achou-se -que o melhor era pôr cerco á ponte da outra -banda do rio, causando assim grande -damno a D. Fernando e aos da cidade.</p> - -<p>Uma vez assenhorado de Samora, tratou -Fernando de combater o castello, que se -conservava fiel a Affonso <span class="allsmcap">V</span>, e d’ahi escreveu -a seu pae, João <span class="allsmcap">II</span>, de Aragão, pedindo-lhe -que mandasse auxilios para Burgos, -cujo castello não se tinha ainda rendido.</p> - -<p>Diz Lafuente, que Affonso <span class="allsmcap">V</span> se não mostrara -adverso a uma reconciliação, sob condição -de que lhe seriam entregues as praças -de Touro e Samora, e aggregada a Galliza -a Portugal, mas que D. Isabel se recusara -a alienar um só palmo que fosse de -territorio castelhano.</p> - -<p>Lafuente trata este assumpto muito por -alto, mas Damião de Goes dá interessantes -pormenores que convem recordar.</p> - -<p>O cardeal de Castella, D. Pedro de Mendonça,<span class="pagenum"><a id="Page_127"></a>[127]</span> -escrevera a Affonso <span class="allsmcap">V</span> exhortando-o -a fazer a paz, e offerecendo-se para medianeiro. -Era facil perceber que esta proposta -partia dos reis catholicos, sob a impressão -de desanimo que produzira a precipitada -retirada de Touro para Medina del Campo. -Affonso <span class="allsmcap">V</span> annuiu, e perguntou se Isabel e -Fernando tinham conhecimento d’essa proposta, -e quaes deveriam ser as condições -da paz. Respondeu o cardeal que Fernando -e Isabel obtemperavam, mas que as -condições as formulasse Affonso <span class="allsmcap">V</span>. O rei -de Portugal pediu com largueza, aproveitando -a situação: queria Touro, Samora e a -Galliza; exigia uma indemnização de guerra, -e a restituição de todas as honras e estados -que pertenciam aos fidalgos castelhanos -bandeados com o partido da <i>Beltraneja</i>. -Isabel oppoz-se á alienação de qualquer -territorio castelhano, porêm sujeitava-se á indemnização -de guerra e á rehabilitação dos -fidalgos castelhanos que estavam com Affonso -<span class="allsmcap">V</span>. Promettia tambem para D. Joanna -o dote que se arbitrasse, hypothecando a -este encargo as terras que fossem precisas.</p> - -<p>Damião de Goes, conclue: «Estes recados -andaram por alguns dias de uma e de<span class="pagenum"><a id="Page_128"></a>[128]</span> -outra parte, sem se em nada poder tomar -conclusão, pelo que a guerra se ateava -cada vez mais, fazendo-se de uma e de outra -parte grandes damnos, sem se a tamanhos -males poder dar algum remedio».<a id="FNanchor_39" href="#Footnote_39" class="fnanchor">[39]</a></p> - -<p>Seria talvez esta proposta de paz que fez -com que Luiz <span class="allsmcap">XI</span> procurasse intimidar Fernando -e Isabel. Diz Lafuente que Affonso -<span class="allsmcap">V</span> <i>havia manhosamente entabolado tratos -de mediação e de concordia</i> com D. João -<span class="allsmcap">II</span>, de Aragão, para entreter Fernando, emquanto -o principe D. João não chegava de -Portugal com reforço, e Luiz <span class="allsmcap">XI</span> não atacava -pela fronteira franceza o reino de Aragão.</p> - -<p>O que é certo é que Affonso <span class="allsmcap">V</span> conseguira -tratar com Luiz <span class="allsmcap">XI</span> uma liga offensiva -contra o aragonez. Luiz <span class="allsmcap">XI</span> aproveitava o -ensejo para se collocar n’uma posição que -pudesse ser-lhe vantajosa em qualquer dos -casos. Assim, em setembro de 1475, ficara -concertado que o rei de França ajudaria ao -de Portugal na conquista dos reinos de -Castella e Leão, com as condições seguintes: -«Que todas as cidades, villas, logares,<span class="pagenum"><a id="Page_129"></a>[129]</span> -castellos e fortalezas que fossem tomadas -ou conquistadas por terra e por mar pelas -tropas d’el-rei de França, nos dominios do -reino de Aragão e de Valencia, seriam sem -difficuldade entregues e restituidas a el-rei -de Portugal, e ficariam para sempre pertencendo -a esta coroa. E pelo mesmo teor -que todas as cidades, villas, logares, castellos -e fortalezas do principado da Catalunha -e condado do Roussillon e Sardenha, -ilhas de Mayorca, Minorca e Iviça, as quaes -cahissem em poder dos portuguezes, seriam -entregues a el-rei de França, para ficarem -para sempre annexas á sua coroa.»<a id="FNanchor_40" href="#Footnote_40" class="fnanchor">[40]</a></p> - -<p>Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, tendo feito treguas com o duque -de Borgonha, por um tratado em que o rei -de Portugal fôra incluido como alliado do -duque, principiou a dar maior attenção aos -negocios da Peninsula, sob o doble ponto -de vista da sua exclusiva conveniencia. Foram, -pois, renovados os antigos tratados de -paz e amizade entre os reinos de Castella -e Leão e o de França, figurando Affonso <span class="allsmcap">V</span> -na qualidade de rei de Castella. No mez -de dezembro, Luiz <span class="allsmcap">XI</span> promulgara uma carta<span class="pagenum"><a id="Page_130"></a>[130]</span> -patente declarando ter resolvido mandar, -em auxilio do rei de Portugal, um -bom e grande exercito, tanto por mar como -por terra, a Guipuzcoa e Byscaia, ou aonde -fosse necessario, nomeando para commandante -em chefe da expedição a sire d’Albret -(Alano Grande, pae do rei de Navarra), -com poderes amplissimos.<a id="FNanchor_41" href="#Footnote_41" class="fnanchor">[41]</a></p> - -<p>O que é certo é que Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, não obstante -todas estas suas promessas, se limitara -a mandar para a fronteira hespanhola -um exercito que parecia manobrar de concerto -com a doblez do <i>bom rei Luiz</i>, porisso -que, fazendo-lhe frente os guipuzcoanos -e os byscainhos, retirava para Bayona... -á espera dos acontecimentos.</p> - -<p>Quando o principe D. João de Portugal, -levando comsigo um exercito de oito mil -infantes e dois mil cavallos, <i>gente mal armada -e pouco aguerrida</i>, diz Lafuente, fôra -juntar-se com seu pae em Touro, o castello -de Burgos, depois de haver sido atacado -por D. Affonso de Aragão, irmão de Fernando, -rendia-se. E, segundo o testemunho -do mesmo historiador, pouco faltou para<span class="pagenum"><a id="Page_131"></a>[131]</span> -que a propria praça de Touro se entregasse -a D. Fernando, que uma noite se approximara -dos muros da cidade com essa esperança. -Parece fóra de duvida, como mais -adeante veremos, que D. Fernando pensava -em apoderar-se da pessoa da <i>Beltraneja</i>.</p> - -<p>É ainda Lafuente que nos diz, que D. -Affonso <span class="allsmcap">V</span> se <i>envalentonara</i> tanto com a -chegada do filho, que enviou um arrogante -manifesto ao papa, ao rei de França e -aos seus parciaes de Castella e Portugal, -jactando-se de que não tardaria a derrotar -Fernando e Isabel. Não encontro, comtudo, -nos historiadores portuguezes noticia -d’este <i>manifesto arrogante</i>.</p> - -<p>Deixemos, porêm, Affonso <span class="allsmcap">V</span> e seu filho -no cêrco que foram pôr á ponte de Samora, -na margem do Douro. D. Joanna havia -ficado em Touro, sob a guarda do duque de -Bragança e do conde de Villa Real. Cruzava-se -o fogo dos portuguezes contra a -ponte, com o dos castelhanos contra a margem -opposta. Procedentes de Burgos, tinham -chegado de reforço aos castelhanos -D. Affonso de Aragão e o infante D. Henrique, -aos quaes se unira o conde de Benavente,<span class="pagenum"><a id="Page_132"></a>[132]</span> -livre já. A situação era dolorosa -para ambos os exercitos, ao mesmo tempo -sitiados e sitiadores.</p> - -<p>Ruy de Pina diz que, n’estas circumstancias, -houve uma entrevista, n’uma insua -do rio Douro, para concertos de paz, entre -cavalleiros portuguezes e castelhanos, mas -que não foi possivel chegar a resultado satisfactorio. -Outra versão diz que a entrevista -seria entre os dois reis, estando cada -um em sua barca, como acontecera com D. -Fernando de Portugal e Henrique <span class="allsmcap">III</span>, de -Castella, mas que, pela força da corrente, -a barca de Affonso <span class="allsmcap">V</span> se não pudera approximar -da barca que conduzia o marido de -Isabel.</p> - -<p>O portuguez, conhecendo que a sua posição -era insustentavel, porque já os mantimentos -iam escaceando, e porque recebeu -denuncia de que D. Fernando pensava -em fazer uma sortida sobre Touro para apoderar-se -de D. Joanna,<a id="FNanchor_42" href="#Footnote_42" class="fnanchor">[42]</a> resolveu levantar<span class="pagenum"><a id="Page_133"></a>[133]</span> -o acampamento na madrugada da primeira -sexta-feira de março de 1476, em direcção -áquella cidade, depois de haver cortado a -extremidade da ponte de Samora. Esperava -Affonso que o exercito castelhano o seguisse. -Assim aconteceu. Diz Pina que o -principe D. João ardia em desejos de dar -batalha; o mesmo assevera Lafuente a respeito -de D. Fernando, apesar dos conselhos -que lhe dava seu pae, o rei de Aragão, -o qual lhe recommendava o systema -que empregou Fabio Maximo, <i>Cunctator</i>, -fatigando e desalentando os exercitos de -Annibal.</p> - -<p>Não se enganou Affonso <span class="allsmcap">V</span>. Fernando demorara-se -apenas tres horas, o tempo preciso -para reparar o damno feito á ponte. Ao -cahir da tarde, o exercito castelhano avistou -o exercito portuguez, a tres leguas de -Touro, no momento em que aquelle exercito -sahia de um apertado passo entre o -rio e a serra. O conde de Loulé acudiu a<span class="pagenum"><a id="Page_134"></a>[134]</span> -escaramuçar com os castelhanos, para lhes -difficultar a passagem, mas ficou tão gravemente -ferido que teve de ser recolhido a -Touro.</p> - -<p>Affonso <span class="allsmcap">V</span> e seu filho prepararam-se então -para dar batalha, posto que muita da -sua gente, mais avançada na marcha, já tivesse -entrado em Touro, e outra houvesse -lá ficado de guarda a D. Joanna.</p> - -<p>O exercito portuguez dispoz-se d’este modo: -na vanguarda, os continuos e familiares -da casa do rei, e alguns cavalleiros castelhanos, -de que era capitão Ruy Pereira; -logo em seguida o conde de Faro D. Affonso -com a sua gente e outra que el-rei lhe -ordenou; á esquerda da vanguarda o principe -D. João com a flor do exercito, seguindo-se -a esta ala do principe a do bispo de -Evora, D. Garcia de Menezes, com muitos -bésteiros e espingardeiros; depois, o rei D. -Affonso com a bandeira real, e á mão esquerda -o arcebispo de Toledo com a sua -gente, logo seguido pela do duque de Guimarães -e do conde de Villa Real, commandando -a retaguarda D. João de Castro, -conde de Monsanto. A peonagem ficara repartida<span class="pagenum"><a id="Page_135"></a>[135]</span> -por quatro secções, toda da banda -do rei.</p> - -<p>Vejamos agora qual a disposição do exercito -castelhano.</p> - -<p>Na vanguarda, todos os continuos da casa -real, e a gente da Galliza, Ulmedo, Medina -del Campo, Valhadolid, Salamanca, Ciudad -Rodrigo e Samora, sob o commando de D. -Henrique, que levava a bandeira real de -Castella e Leão. Seguiam-se dez alas, quatro -grandes e seis menores.</p> - -<p>Notou o principe D. João que uma das -seis alas menores do exercito castelhano -se destacava como para de refresco acudir -ás outras, se fosse necessario. Assim fez -tambem, mandando apartar a gente que -julgou precisa para o mesmo fim.</p> - -<p>Affonso <span class="allsmcap">V</span>, depois de ter ordenado as alas -do seu exercito, retirou-se, por conselho -dos seus, para um oiteiro, d’onde pudesse -assistir á batalha, e salvar-se a tempo no -caso de desastre.</p> - -<p>Veiu então ao acampamento portuguez -um rei de armas de D. Fernando desafiar -Affonso <span class="allsmcap">V</span>. O portuguez respondeu: «Dizei -ao principe da Sicilia que é mais tempo de<span class="pagenum"><a id="Page_136"></a>[136]</span> -nos encontrarmos do que de mandar desafios.»</p> - -<p>A luz do dia principiava a faltar, não só -porque o sol tocava o occaso, mas tambem -porque o céo se conservava carregado de -grossas nuvens. Cahia uma chuva miuda. -O scenario d’este drama de odios politicos -prestes a desencadearem-se, era lugubre, -como se vê.</p> - -<p>O principe D. João e D. Pedro de Menezes -arremessaram-se impetuosamente contra -as alas menores do exercito de Castella. -Gonçalo Vaz de Castello-Branco fôra o -primeiro portuguez que lograra romper as -fileiras castelhanas. O fumo das descargas -augmentava a escuridão do ar. Gritos de -guerra, como rugidos de leões, atroavam o -campo de batalha. Os nossos invocavam S. -Jorge e S. Christovão;<a id="FNanchor_43" href="#Footnote_43" class="fnanchor">[43]</a> os castelhanos clamavam -por S. Tiago e S. Lazaro. <i>Traidores, -aqui está o cardeal!</i> gritava o cardeal -de Hespanha, provocando os castelhanos -que pelejavam no exercito portuguez. -E um d’esses castelhanos era, como elle,<span class="pagenum"><a id="Page_137"></a>[137]</span> -um prelado da Egreja, o arcebispo de Toledo.</p> - -<p>Rotas pelo esforço dos nossos as fileiras -castelhanas, com uma bravura que os proprios -chronistas hespanhoes não podem -desmentir, os soldados de Fernando e Isabel -acolheram-se, fugindo, ao centro do -exercito.</p> - -<p>D. Affonso <span class="allsmcap">V</span>, electrizado pelo enthusiasmo -da contenda, lançara-se no combate, -seguido pelo conde de Faro. Lafuente diz -que D. Fernando investiu com furia contra -o sitio onde se ostentava o estandarte -real dos portuguezes. Garcia de Rezende -diz, porêm que D. Fernando, vendo o desbarato -que o principe D. João produzira -no exercito castelhano, tratou de acolher-se -a Samora. Ruy de Pina faz egual affirmação. -Segundo a opinião de Lopes de -Mendonça,<a id="FNanchor_44" href="#Footnote_44" class="fnanchor">[44]</a> que de todo o ponto achamos -fundada, o consenso dos escriptores portuguezes -dá-nos o direito de duvidar da palavra -de D. Fernando quando diz em carta -dirigida á cidade de Baeza: «E eu com os -dictos grandes e cavalleiros que commigo<span class="pagenum"><a id="Page_138"></a>[138]</span> -se acharam na batalha, estivemos no campo -por espaço de tres ou quatro horas regendo -o campo, e assim me volvi com victoria -e muita alegria a esta cidade de Samora -aonde cheguei á uma depois da meia -noite, etc.»</p> - -<p>«Mesclaram-se então todas as lanças e todos -os corpos, diz Lafuente, pelejando com -o encarniçamento de dois povos enfurecidos -por uma antiga rivalidade. O pendão -das quinas portuguezas foi arrancado pelos -esforços do intrepido Pedro Vaz de Sottomayor; -valoroso até ao extremo era o alferes -Duarte de Almeida que o desfraldava; -depois de haver perdido o braço direito, -susteve com o esquerdo o pendão, e quando -perdeu ambas as mãos apertou-o fortemente -entre os dentes até que perdeu a -vida, feito este que nos recorda outro só -exemplo por nós consignado em nossa historia.»<a id="FNanchor_45" href="#Footnote_45" class="fnanchor">[45]</a></p> - -<p>Pulgar diz que Duarte de Almeida fôra -feito prisioneiro e conduzido a Samora. Marianna -affirma que a armadura d’este brioso -cavalleiro portuguez se via, ainda no<span class="pagenum"><a id="Page_139"></a>[139]</span> -seu tempo, na cathedral de Toledo, <i>como -trophéo d’aquella insigne façanha</i>. D. Fernando, -na carta dirigida á cidade de Baeza, -diz, referindo-se ao rei de Portugal: -«... foi derrubado e tomado o seu pendão -das armas reaes e morto o alferes...»</p> - -<p>Vejamos, porêm, o que d’esta façanha de -Duarte d’Almeida tem podido apurar a critica -dos escriptores portuguezes até á hora -em que escrevemos.</p> - -<p>Arrancado das mãos do alferes-mór, o -estandarte portuguez seria o mais completo -testemunho da victoria castelhana, e -fluctuando desenrolado afugentaria, de vergonha -e desalento, os soldados portuguezes. -Mas Duarte d’Almeida perfeitamente -comprehendia a grande, a enorme responsabilidade -do seu posto. Bem sabia elle que -preso áquelle estandarte andava desde Santarem -e Ourique, abençoado por Deus, o -nome portuguez, e portanto resolveu defender -até á ultima gotta de sangue, se tanto -fôra preciso, esse precioso deposito que -lhe confiara a patria.</p> - -<p>Aggridem, cercam, embrenham o valente -alferes-mór as lanças castelhanas; elle -heroicamente resiste sobrepondo-se a essa<span class="pagenum"><a id="Page_140"></a>[140]</span> -cerrada floresta de ferro, que lhe braceja -contra o peito os seus farpões mortiferos. -Todo o empenho castelhano é arrancar-lhe -o estandarte; portanto uma cutilada lhe corta -a mão direita. Vale-se da esquerda, e -n’ella fecha o seu thesoiro. Nova cutilada -lhe decepa a mão esquerda. É um duello -titanico, de um contra mil, de um só homem -contra um exercito. Duarte d’Almeida -não fraqueja, não cede, não cai. Toma -o estandante portuguez entre os dentes, e -espera, defendendo-se, que lhe arranquem -finalmente a vida para que possam arrancar-lhe -o estandarte. Multiplicam-se da parte -dos castelhanos os golpes, o desespero -do inimigo attinge o seu maior grau, é indomavel, -feroz. Duarte d’Almeida cai, emfim, -vencido pelos golpes repetidos e certeiros, -mas, como se não pudesse morrer -um portuguez d’aquelles ás mãos de castelhanos, -Duarte d’Almeida não é ainda cadaver.</p> - -<p>Cahem em peso sobre o alferes-mór os -inimigos; entre si disputam qual ha de arrancar-lhe -dos dentes, raivosamente cerrados, o -estandarte portuguez, que finalmente tremula -na mão d’um fidalgo castelhano, de<span class="pagenum"><a id="Page_141"></a>[141]</span> -appellido Sottomayor. Este improvisado porta-bandeira -do rei castelhano, alegremente -corria, seguido d’um troço dos seus, para o -lado onde suppunha estar o rei Fernando, -a fim de lhe entregar o glorioso trophéo, -quando o escudeiro portuguez Gonçalo Pires, -com alguns poucos portuguezes, acommette -os de Castella, e arrebata a Sottomayor -o estandarte das quinas, travando-se -entre todos combate que entre Gonçalo -Pires e Sottomayor foi singular.</p> - -<p>Entretanto Duarte d’Almeida era conduzido -semimorto para o acampamento inimigo, -d’onde recebeu o primeiro curativo, e -d’onde foi mandado para um hospital de -Castella.</p> - -<p>Regressando á patria, ao cabo de longos -mezes, andava escripto nas chronicas que -elle não achara em Portugal <i>mais galardão -que viver mais pobre do que vivia antes</i>, -como dizem, pouco mais ou menos, -Duarte Nunes e Damião de Goes, mas o sr. -Camillo Castello Branco escreveu modernamente -nas <i>Noites d’insomnia</i> ácerca do -<i>Decepado</i>, com o proposito de mostrar que -elle não acabara tão pobre como se dizia. -Conta este erudito escriptor, que Duarte<span class="pagenum"><a id="Page_142"></a>[142]</span> -d’Almeida, voltando de Castella, onde -fôra muito honrado pelo rei Fernando, se -recolhera ao castello de Villarigas, o qual -herdara de seu pae Pedro Lourenço d’Almeida, -e não era o unico que possuia, pois -que tinha outro na quinta chamada de Cavallaria. -Chegado a Villarigas, o velho <i>Decepado</i>, -que já ia adeantado em annos, encontrou -sua mulher D. Maria d’Azevedo, -filha do senhor da Lousã, Rodrigo Affonso -Valente e de D. Leonor de Azevedo, que -grandes haveres herdara de sua tia D. Ignez -Gomes d’Avellar, e á volta da esposa encontrou -tambem o <i>Decepado</i> os seus dois -filhos, Affonso e Ruy. Até aqui isto serve -apenas para mostrar que Duarte d’Almeida -não vivia pobre <i>antes</i> da batalha de Touro, -tanto mais que Affonso <span class="allsmcap">V</span>, estando em -Samora no anno anterior a esta batalha, lhe -fizera mercê, pelos seus grandes serviços, -para elle e seus filhos, de um reguengo no -concelho de Lafões. Todavia quer-nos parecer -que a ingratidão da patria subsiste, -porque Duarte d’Almeida ficou com o que -tinha e... com ambas as mãos de menos. Affonso -<span class="allsmcap">V</span>, esse, se estivesse em Portugal, havel-o-ia -galardoado largamente, porque era<span class="pagenum"><a id="Page_143"></a>[143]</span> -um mãos rotas, e tanto que o principe D. -João, prevendo as prodigalidades de seu -pae, obteve d’elle um documento que declarava -nullas todas as doações que fizesse -durante a guerra de Castella, e que excedessem -dez mil réis de renda. O galardão -concedido em Portugal a Gonçalo Pires foi -o appellido de <i>Bandeira</i> e o brazão de armas -com bandeira branca, tendo no centro -um leão rompente, de oiro. Mas no <i>Decepado</i>, -que provavelmente pouco sobreviveu -ao seu regresso, ou em seus filhos, -não se fala. Em Castella é que effectivamente -elle foi honrado, porque D. Fernando -mandou pendurar na cathedral de Toledo -as armas de que havia sido despojado -Duarte d’Almeida, e em Samora foi tratado, -quando prisioneiro, com grandissima -distincção.<a id="FNanchor_46" href="#Footnote_46" class="fnanchor">[46]</a></p> - -<p>O sr. A. X. Rodrigues Cordeiro, que, a -proposito de uma visita recente á cathedral -de Toledo, escreveu um artigo sobre <i>Duarte -d’Almeida</i>, dá noticia de existir n’aquelle -templo uma armadura completa de cavalleiro, -que se presume ser a do <i>Decepado</i>,<span class="pagenum"><a id="Page_144"></a>[144]</span> -e uma bandeira, que alguns dizem ser a -portugueza, mas que se não vê, por estar -resguardada n’uma bolsa de tela.</p> - -<p>O illustre escriptor, e nosso amigo, não -duvida de que a armadura seja a de Duarte -d’Almeida, mas refuta que a bandeira -seja a portugueza, visto que Gonçalo Pires -a arrancou heroicamente das mãos de Sottomayor, -como testemunham os nossos chronistas. -A bandeira, que se não póde reconhecer -por estar encerrada na bolsa, será -porventura a que os castelhanos tomaram -aos moiros na batalha do Salado.<a id="FNanchor_47" href="#Footnote_47" class="fnanchor">[47]</a></p> - -<p>Havia mais de uma hora que o combate -durava, sem que a victoria parecesse pender -para qualquer dos dois exercitos, quando -a ala esquerda do castelhano correu a -reforçar a hoste real. Então a retaguarda -do exercito portuguez, em que pelejava o -arcebispo de Toledo, correspondendo ao -movimento do inimigo, correu a auxiliar -Affonso <span class="allsmcap">V</span>, engrossando a fileira para aparar -o embate. A peleja reaccendeu-se fogosa. -Mas o choque da fuzilaria e da cavallaria<span class="pagenum"><a id="Page_145"></a>[145]</span> -castelhanas foram de tal ordem, -que desconcertaram as fileiras portuguezas.</p> - -<p>Affonso <span class="allsmcap">V</span> quiz, verdadeiramente allucinado, -lançar-se contra o grosso do exercito -castelhano, onde certamente haveria encontrado -a morte. Não lh’o consentiram, porem, -alguns fidalgos.</p> - -<p>A noite tinha, entretanto, cahido tenebrosa, -como estivera o dia. E, receosos de -que alguma força castelhana lhes cortasse -a retirada, os fidalgos que acompanhavam -o rei, partiram para Castro Nunho.</p> - -<p>Muitos cavalleiros portuguezes tentaram -atravessar o Douro para acolher-se a Touro. -Talvez cerca de mil e duzentos morreram -afogados n’essa empresa, em que o -desanimo devia quebrantar-lhes as forças.</p> - -<p>O principe D. João, reunida toda a gente -que poude, deixou-se ficar no campo até -ao romper d’alva, tendo mandado accender -fogueiras e soar os clarins. O seu desejo -era empenhar-se n’uma nova batalha. Mas -o exercito castelhano retirara para Samora, -juntamente com o rei D. Fernando, ou depois -do rei. Assim, por conselho do arcebispo -de Toledo, o principe, que desejara -demorar-se tres dias no campo, reduziu os<span class="pagenum"><a id="Page_146"></a>[146]</span> -tres dias a tres horas, «por comparação que -trouxe (o arcebispo) da resurreição de Nosso -Senhor, diz Ruy de Pina, que foi depois -da morte tres dias não todos inteiros.»</p> - -<p>É, porem, certo, que a batalha de Touro -não tivera uma importancia militar de tal -ordem, que por si só pudesse resolver definitivamente -tão grave pendencia internacional. -«A batalha de Touro, portanto, escreve -Lopes de Mendonça, em que ambos -os adversarios se proclamaram vencedores, -parecendo á primeira vista ter sido decisiva -para a questão, não foi senão um successo -de guerra, bastante duvidoso para -qualquer dos partidos, e que pouco significaria -para o desenlace d’esta grave lucta, -se a causa de D. Affonso <span class="allsmcap">V</span> não estivesse -já perdida pela defecção successiva dos -seus partidarios, pelas repugnancias nacionaes -contra o dominio portuguez, e pela -influencia que Isabel de dia para dia adquiria -entre a burguezia, e as classes populares.»</p> - -<p>É certo que deserções importantes tinham -aggravado a situação de Affonso <span class="allsmcap">V</span>. O marquez -de Vilhena, como Affonso, recusara o -conselho de penetrar com o exercito portuguez<span class="pagenum"><a id="Page_147"></a>[147]</span> -até Madrid; tratou, julgando perdida -a causa da <i>Beltraneja</i>, de bemquistar-se -com Fernando e Isabel, mediante a condição -de lhe serem restituidas suas terras -e rendas. Os duques de Arévalo passaram-se -tambem para o partido de Isabel. Só -permanecera fiel a Portugal o arcebispo de -Toledo que, depois da refrega, se recolhera -aos seus estados, que tinham sido invadidos -pelos exercitos de Castella.</p> - -<p>Lafuente faz sentir que as condições do -exercito portuguez na batalha de Touro lhe -eram sobremodo favoraveis.</p> - -<p>Esta asserção é apenas um echo do que -o proprio D. Fernando escrevera na sua -carta á cidade de Baeza: «... e como quer -que muitos cavalleiros dos que commigo estavam -eram de parecer que eu não devia -dar batalha pelas muitas vantagens que o -dicto meu adversario tinha para ella, assim -porque na verdade era <i>mais gente em numero -que a que commigo estava, como porque -as minhas gentes iam cansadas e a -mór parte da peonage que commigo sahiu -fôra deixada no caminho pela grande pressa -que levavamos para alcançal-o, e por -não levar commigo artilheria alguma, e<span class="pagenum"><a id="Page_148"></a>[148]</span> -era quasi sol posto e estava tão proxima a -cidade de Touro d’onde elle e os seus se -podiam recolher sem muito damno, uma -vez que fossem vencidos</i>...»</p> - -<p>É preciso contrapôr, porem, a estas considerações -do rei de Castella o que D. João -de Portugal escreveu ao concelho de Evora -sobre o mesmo assumpto: «... e depois -de todos assim de uma parte como da outra -serem em campo, <i>ainda que os contrarios -tivessem vantagem, por terem as costas -em serra e por terem mais gente de -pé, porquanto a sua</i> (do rei D. Affonso seu -pae) <i>era já toda em a cidade de Touro, e -assim mesmo alguma de cavallo que fôra -adeante com a fardage, pelo qual os contrarios -tinham de vantagem bem sete ou -oito lanças</i>...»</p> - -<p>Assim, pois, acabou a batalha de Touro -em que bem podiam ter succumbido o rei -e o principe de Portugal. Se tal houvesse -acontecido, quem póde calcular as complicações -politicas em que se veria lançado o -paiz, dadas as represalias de Castella, e a -menoridade do neto de Affonso <span class="allsmcap">V</span>?</p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_149"></a>[149]</span></p> - -<h2 class="nobreak">VII<br /> -<span class="smaller">O RATO NAS MÃOS DO GATO</span></h2> - -</div> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-d.jpg" width="100" height="100" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">Dom Fernando retirou, como dissemos, -para Samora, e avisou -do resultado da batalha sua mulher, -que estava em Tordesilhas. -D. Isabel, recebendo a noticia, ordenou -que se fizesse uma procissão, em acção de -graças, á egreja de S. Paulo, indo ella propria -a pé, e descalça. Mais tarde, Fernando -e Isabel fundaram, pelo mesmo motivo, o -mosteiro de <i>San Juan de los Reyes</i>, obra -grandiosa, diz Lafuente, que ainda hoje se -admira, apesar das deteriorações que tem -soffrido.</p> - -<p>É para notar a circumstancia de que ambos<span class="pagenum"><a id="Page_150"></a>[150]</span> -os belligerantes se julgassem vencedores, -e agradecessem a Deus o triumpho alcançado.</p> - -<p>O principe D. João, de Portugal, depois -de acclamado rei, ordenou ao concelho de -Evora que em cada anno, nos primeiros dias -do mez de março, se fizesse uma solenne -procissão para commemorar a batalha de -Touro. Diz o documento: «... e querendo -nós ácerca desto nom menos fazer grato e -reconhecer a Nosso Senhor o que em nossos -dias e presenças nos fez de mercês com -a batalha que houvemos em o reyno de -Castella entre Touro e Samora; ordenamos -e mandamos que daqui em deante em louvor -de Nosso Senhor, e da Bemaventurada -Virgem Maria sua Madre, e de S. Jorge e -de S. Christovam que o dicto dia traziamos -por nosso padroeiro e nome, que em cada -um anno nos dois dias de março em que -foi a dicta batalha, a Cleresia toda dessa -cidade façaaes solenne procissão...» etc.<a id="FNanchor_48" href="#Footnote_48" class="fnanchor">[48]</a></p> - -<p>Frei Francisco Brandão diz que na batalha -de Touro pertencera a Portugal a gloria<span class="pagenum"><a id="Page_151"></a>[151]</span> -do vencimento, e a Castella o util da -herança. É uma engenhosa maneira de conciliar -as coisas.</p> - -<p>Em Lisboa tambem se fazia uma procissão -para commemorar a supposta victoria -de Touro. D. João <span class="allsmcap">II</span> mandou suspender a -procissão quando em 1491 seu filho casou -com a filha de Fernando e Isabel, porque, -por esse casamento, <i>todalas coisas passadas -ouverom fim</i>, diz o proprio D. João <span class="allsmcap">II</span>.</p> - -<p>É verdade que o voto da procissão podia -até certo ponto explicar-se, segundo as -idéas do tempo, pelo facto de não ter soffrido -damno algum a pessoa do rei Affonso, -de quem por algumas horas se ignorou o -destino na cidade de Touro, depois de finda -a batalha. «Sendo já passado bom pedaço -do dia (seguinte), o principe chegou -a Touro com a bandeira real despregada, a -o qual, como foi conhecido, o duque (de -Guimarães) e o conde (de Villa Real) vieram -abrir as portas da cidade, e foi recebido -n’ella assim da rainha D. Joanna como -de todas as mais pessoas com assaz tristeza, -por até então não terem novas nenhumas -do que era feito d’el-rei D. Affonso, e -principalmente o duque de Guimarães que,<span class="pagenum"><a id="Page_152"></a>[152]</span> -depois do principe ser em seu aposento, -perante elle, e de todos os que com elle -estavam, depenando as barbas, e os cabellos -da cabeça, fez grandes prantos e lamentações, -perguntando a os que fugiram -da batalha, com muitas lagrimas, por el-rei -D. Affonso, dizendo-lhes que mal se poderiam -chamar cavalleiros, pois não sabiam -dar conta nem recado de seu rei, senhor e -capitão, no que se passou um bom pedaço, -sem o ninguem poder acalentar, salvo o -principe (postoque tivesse mór dor e tristeza -que nenhum dos da companhia), que -com palavras prudentes fez tanto que o duque -cessou de se queixar mais do que o já -tinha feito.»<a id="FNanchor_49" href="#Footnote_49" class="fnanchor">[49]</a></p> - -<p>Mas, quando estavam todos n’esta incerteza, -chegou recado que o rei mandava de -Castro-Nunho ao principe. Logo, como a noticia -foi recebida, repicaram os sinos na cidade, -soando trombetas e atabales, que <i>toda -a perda da batalha se teve por nada em -comparação de ser salva a pessoa d’el-rei</i>, -diz Goes, phrase que até certo ponto póde -explicar a origem da procissão de Evora.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_153"></a>[153]</span></p> - -<p>Escreve Lafuente que o principe D. João -recolheu a Portugal com quatrocentos ginetes, -«acompanhado de sua prima D. Joanna.» -Os chronistas portuguezes Ruy de -Pina e Damião de Goes, parecendo este -ultimo muito bem informado, não dizem o -mesmo. Segundo elles, o principe partiu na -semana santa de Touro para Castro Nunho, -passando o rio em uma barca, e os cavallos -e bestas a nado, no sitio chamado Rico -Vau. Na Paschoa estava D. João em Miranda -do Douro. D’ahi foi á Guarda, onde se -avistou com sua mulher D. Leonor. Descançou -na Guarda alguns dias, sahindo depois -a correr todos os logares da fronteira, -provendo ao que lhe parecia necessario a -fim de prevenir qualquer invasão.</p> - -<p>D. Fernando resolveu pôr cerco a Cantalapiedra, -onde estavam ainda muitos fidalgos -portuguezes. E D. Affonso, que se -conservava em Touro, sabendo que D. Isabel -havia de passar de Madrigal para Medina, -preparou-lhe uma cilada, <i>aforrado -com seis mil lanças</i>, mas porque o duque -de Bragança com outros, antes de tempo se -descobriram, os castelhanos, conhecendo a<span class="pagenum"><a id="Page_154"></a>[154]</span> -cilada, recolheram precipitadamente a Madrigal.</p> - -<p>Abhorrecido por esta nova contrariedade, -Affonso <span class="allsmcap">V</span> partiu para Portugal no principio -do mez de junho de 1476, acompanhado -pela <i>Beltraneja</i>. Affonso <span class="allsmcap">V</span> seguiu o itinerario -de seu filho. Sahiu de Touro para -Castro Nunho, e veio passar a festa do Corpo -de Deus a Miranda do Douro. Depois -ordenou que D. Joanna partisse para a -Guarda, acompanhada do bispo de Vizeu -e do conde de Villa Real. Da Guarda, por -ordem do rei, passou D. Joanna para Coimbra, -onde o principe D. João a visitou, e -de Coimbra passou finalmente para Abrantes, -ao tempo que já o principe ia em caminho -do Porto, onde Affonso <span class="allsmcap">V</span> estava fazendo -preparativos de viagem para França.</p> - -<p>Julgara Affonso <span class="allsmcap">V</span> que, indo em pessoa -pedir auxilio a Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, lograria attrahil-o á -sua causa mais efficazmente do que a diplomacia -pudera fazel-o. Do Porto, enviou -a França Pedro de Sousa a notificar a sua -resolução ao rei Luiz, e, despedido o emissario, -veio D. Affonso embarcar em Lisboa -no mez de agosto. A armada que o devia -acompanhar compunha-se de dezeseis navios,<span class="pagenum"><a id="Page_155"></a>[155]</span> -com dois mil e duzentos homens. O -rei ia a bordo de uma urca preparada para -recebel-o.</p> - -<p>Arribou a Lagos a armada. Ahi, um celebre -corsario francez d’esse tempo, de nome -Cullom, já antigo conhecido de Portugal -por serviços prestados em Ceuta, cumprimentou -Affonso <span class="allsmcap">V</span>, de quem foi recebido -graciosamente. De Lagos velejou a armada -para Ceuta, e de Ceuta para França, -com destino a Marselha; chegada porem a -Collioure, onde arribara por causa do tempo, -despediu-a Affonso <span class="allsmcap">V</span>. Em Collioure, -um capitão do exercito francez sahira ao -encontro do rei de Portugal para lhe dar -as boas vindas em nome de Luiz <span class="allsmcap">XI</span>.</p> - -<p>De Collioure jornadeou Affonso <span class="allsmcap">V</span> para -Perpignan, onde com grandes honras foi -acolhido pelas auctoridades locaes. De Perpignan -passou por Narbonne, Montpellier, -Besiers e Nimes, seguindo d’aqui para -Leon, vindo encontral-o ao caminho o duque -de Bourbon. D. Affonso não entrou -em Leon por causa da peste, e logo em -Roanne recebeu outro enviado do rei que -lhe dava as boas vindas. Depois dirigiu-se -a Bruges, onde descançou alguns dias, e<span class="pagenum"><a id="Page_156"></a>[156]</span> -novos enviados de Luiz <span class="allsmcap">XI</span> foram encarregados -de lhe fazer companhia. O logar da -entrevista dos dois monarchas devia ser -Tours, e para ahi se dirigiu Affonso <span class="allsmcap">V</span>, mas -Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, pretextando uma romaria, deixou -varios cortezãos encarregados de receber o -rei portuguez. Visivelmente Luiz <span class="allsmcap">XI</span> queria -preparar effeitos scenicos, fazer esperada a -sua presença, tomar-se desejado.</p> - -<p>Quando Affonso soube que Luiz <span class="allsmcap">XI</span> se -approximava, quiz sahir á rua, ou pelo menos -á escada, para o receber, mas o rei de -França mandara adeante dois fidalgos para -impedir que Affonso <span class="allsmcap">V</span> levasse tão longe a -sua cortezia. N’este facto revela-se perfeitamente -o caracter de Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, assim como o -globo enorme do sol se espelha ás vezes -n’uma pequena gotta d’agua. Luiz <span class="allsmcap">XI</span> fizera-se -esperar; agora, mostrava-se requintadamente -cortez, quasi humilde. N’este traço -está effectivamente concretizado o caracter -de Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, tal como elle resalta do perfil -d’este rei traçado pelos historiadores, e até -pelos romancistas. O seu reinado foi um -combate de todos os dias, como diz Augustin -Thierry,<a id="FNanchor_50" href="#Footnote_50" class="fnanchor">[50]</a> pela causa da unidade do<span class="pagenum"><a id="Page_157"></a>[157]</span> -poder e do nivelamento social, mas combate -sustentado á maneira dos selvagens, -pela astucia e pela crueldade. D’ahi vem, -observa o historiador, a mistura de interesse -e de repugnancia que excita em nós -este caracter tão extranhamente original.</p> - -<p>Finalmente os dois soberanos encontraram-se -a meio de uma sala. A <i>mise-en-scène</i> -d’esta entrevista é curiosa. «El-rei de -França, diz Ruy de Pina, vinha com um só -barrete na cabeça, tendo já d’ella tirado -um chapéo e duas grandes carapuças, e -trazia solto um saio curto de mau panno, e -á cinta uma espada d’armas muito comprida, -com a guarnição de ferro limada, e -umas botas calçadas, e nos pés as esporas -do mesmo jaez da espada, e ao pescoço -uma beca de chamalote amarello, forrada -de cordeiras brancas muito grosseiras, e -suas calças brancas ante-talhadas de muitas -côres. E ambos os reis com barretes -nas mãos se abraçavam inclinando os joelhos -muito baixos.»</p> - -<p>Como se vê, sobre ser original é pouco -magnificente a <i>toilette</i> do rei de França. -Accentua-se n’ella um tom de humildade, -que convinha agora a esse grande diplomata<span class="pagenum"><a id="Page_158"></a>[158]</span> -do seculo <span class="allsmcap">XV</span>, para attrahir a si a victima -imprevidente.</p> - -<p>Depois de conversarem algum tempo, retiraram-se -os dois soberanos a uma camara, -onde Luiz <span class="allsmcap">XI</span> indicou a Affonso <span class="allsmcap">V</span> o que -sem perda de tempo elle devia fazer. Era, -a seu juizo, o seguinte:</p> - -<p>1.º Que o monarcha portuguez iria pedir -ao duque de Borgonha, que então estava -em guerra com o de Lorena, que o ajudasse -contra Castella, ou que ao menos se -compromettesse a não atacar o rei de França, -que era pelo duque de Lorena, emquanto -Luiz <span class="allsmcap">XI</span> guerreasse a favor do rei -de Portugal.</p> - -<p>A inimizade de Luiz <span class="allsmcap">XI</span> com o duque de -Borgonha era antiga, e violenta. Este duque -havia despojado dos seus Estados o de -Lorena, a quem Luiz <span class="allsmcap">XI</span> auxiliava secretamente -contra o inimigo commum.</p> - -<p>«Quando D. Affonso <span class="allsmcap">V</span>, escreve Pinheiro -Chagas, intentava ingenuamente reconciliar -estes dois adversarios implacaveis, sitiara o -duque de Borgonha a cidade de Nancy, -capital da Lorena, que se declarara pelo -seu legitimo senhor. Luiz <span class="allsmcap">XI</span> ria-se <i>dans sa -barbe</i> da tentativa que o pobre D. Affonso<span class="pagenum"><a id="Page_159"></a>[159]</span> -<span class="allsmcap">V</span> ia emprehender, e esperava talvez que -illudisse tambem algum tanto Carlos de -Borgonha, ao passo que as suas tropas caminhavam -secretamente com as do duque -de Lorena, e que elle esperava, como o -corvo sinistro, os primeiros rumores d’uma -derrota, para cahir sobre a presa do campo -de batalha, e cevar-se n’ella. Carlos de -Borgonha, tinha só uma filha, e Luiz esperava, -com boas razões, apanhar-lhe a herança.»<a id="FNanchor_51" href="#Footnote_51" class="fnanchor">[51]</a></p> - -<p>2.º Que Affonso <span class="allsmcap">V</span> obteria do papa a dispensa -apostolica precisa para casar com -sua sobrinha D. Joanna, a fim de que elle -pudesse <i>ir em sua ajuda com menos cargo</i>, -diz Ruy de Pina. Era esta mais uma -astucia de Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, porque elle bem sabia que -Fernando e Isabel creariam em Roma grandes -difficuldades junto do Papa. Era um -meio dilatorio, no fundo; um expediente -palliativo.</p> - -<p>A este tempo, já Luiz <span class="allsmcap">XI</span> conhecia perfeitamente -a credulidade cavalleirosa de -Affonso <span class="allsmcap">V</span>. <i>Tomara-lhe o pulso</i>, como se -diz em linguagem vulgar. Começara então<span class="pagenum"><a id="Page_160"></a>[160]</span> -a fazer-lhe promessas e offerecimentos. -Disse-lhe que os castelhanos gostavam ás -vezes de vender as fortalezas, e que sempre -lhe parecera melhor compral-as do que -tomal-as. Que contasse com o dinheiro que -precisasse. E como fosse noite, e quando -os dois sahiram da camara já as tochas estivessem -accesas, Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, imaginando proporcionar -a Affonso <span class="allsmcap">V</span> uma noite bem passada, -que o attrahisse mais para o prazer -do que para a questão de Castella, mandou -pedir a Affonso <span class="allsmcap">V</span> que acceitasse a quantia -de cincoenta mil escudos de oiro <i>para -convidar qualquer gentil dama, como era -usança e cortezia de seu reino</i>.</p> - -<p>D. Affonso <span class="allsmcap">V</span> recusou este offerecimento. -Elle tinha tido uma educação austera, sob -a direcção de seu tio D. Pedro; havia estimado -tanto D. Isabel de Lencastre, sua -mulher, que ella poude sempre resistir ás -malquerenças que tinha na côrte; elle era -o guerreiro d’Africa, o soldado, o homem -forte; não estava costumado ao prazer, ás -noites de sensualidade que tanto embriagavam -Luiz <span class="allsmcap">XI</span>. Portanto recusara.</p> - -<p>A fim de tratar da dispensação para o casamento -de Affonso <span class="allsmcap">V</span> com sua sobrinha<span class="pagenum"><a id="Page_161"></a>[161]</span> -D. Joanna, partiu para Roma uma embaixada -composta de tres representantes do rei -de Portugal, os quaes iam animados da -melhor fé, e de dois do rei de França, os -quaes naturalmente levavam instrucções -particulares para o pontifice.</p> - -<p>Ao mesmo tempo, Affonso <span class="allsmcap">V</span> partia para -Nancy, a fim de se avistar com o duque de -Borgonha, que, como já dissemos, estava -em guerra com o de Lorena, e acampado -na baixa Allemanha.</p> - -<p>«E antes da sua partida, escreve Ruy de -Pina, el-rei de França lhe disse que pela -pouca seguridade que tinha do duque de -Borgonha, por ser muito orgulhoso, duvidava -que, tomando a cidade de Nancy, sobre -que estava, e destruindo o duque de -Lorena, por seguir novidades quereria entrar -por França, e que com receios d’isto, -pelos segurar, tinha sua gente na frontaria, -que daria causa a elle lhe não poder dar -tanta ajuda, como sem isso faria. Porem, -que se por seu meio d’el-rei D. Affonso -elles ambos ficassem verdadeiros amigos, e -se liassem por casamentos dos filhos, como -o duque por todas as razões devia querer, -elle em sua ajuda poria a coroa de França<span class="pagenum"><a id="Page_162"></a>[162]</span> -com todo o seu poder, e que el-rei devia -requerer o duque, que fosse com elle em -pessoa; porque era bom capitão, e tinha -muita gente e singular intelligencia, e que -sendo el-rei D. Affonso d’estas amizades -meio e segurador, cada um d’elles teria receio -de os per si quebrar, pelo não ter por -contrario, <i>com os quaes muito cedo se faria -pacifico rei de Castella</i>.»</p> - -<p>Sobre o modo por que Affonso <span class="allsmcap">V</span> foi recebido -pelo conde de Borgonha, filho de -Philippe, o <i>Bom</i>, apartam-se as opiniões -dos historiadores.</p> - -<p>Affonso <span class="allsmcap">V</span> chegou ao acampamento a 29 -de dezembro de 1476.</p> - -<p>A situação de Carlos de Borgonha era a -esse tempo quasi insustentavel; o desanimo -lavrava no seu exercito, e a traição do conde -de Campo Basso, um perfido napolitano, -preparava-lhe um laço. Não obstante, -Carlos recebeu de boa sombra o rei de Portugal, -ao qual descreveu com vivas côres -o caracter astucioso de Luiz <i>XI</i>. Citou factos -em abono d’estas revelações, e contou a -Affonso <span class="allsmcap">V</span> como Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, aconselhando o -pobre rei portuguez a dirigir-se a Nancy, -enviara logo atraz d’elle tropas de soccorro<span class="pagenum"><a id="Page_163"></a>[163]</span> -ao duque de Lorena. Carlos de Borgonha -mostrou-se altivamente corajoso, dizendo -que não se arrecearia de dar batalha a -Luiz <span class="allsmcap">XI</span> só com um pagem; mas, para dar -uma prova de affectuosa consideração a -Affonso <span class="allsmcap">V</span>, não duvidava entrar em negociações -de paz.</p> - -<p>Tal é a narração de Schœffer, e dos escriptores -portuguezes. Mas tanto Barante -como Philippe de Commines dão outra versão, -aliás muito mais consentanea ao caracter -de Carlos de Borgonha. Dizem estes -chronistas que elle respondera a Affonso -<span class="allsmcap">V</span> que sem demora se dirigisse a Pont-á-Mousson -para defender a cidade contra o -duque de Lorena, o qual chegava da Suissa -com o seu exercito, emquanto elle Carlos -de Borgonha esperaria o duque deante -de Nancy para o combater.</p> - -<p>Affonso <span class="allsmcap">V</span>, surprehendido com a resposta, -balbuciara desculpas: que não tinha armadura, -nem trouxera comsigo nenhum dos -seus homens de armas.</p> - -<p>Desanimado, Affonso <span class="allsmcap">V</span> partiu para Pariz.</p> - -<p>Entretanto chegava o duque de Lorena, -e Carlos de Borgonha quiz dar-lhe combate -em campo raso. A traição do napolitano<span class="pagenum"><a id="Page_164"></a>[164]</span> -Basso vingara, e Carlos cahira morto, com -grande jubilo dos francezes, jubilo que -contrastava com a tristeza de Affonso <span class="allsmcap">V</span>.</p> - -<p>E era fundada a tristeza do pobre rei -portuguez.</p> - -<p>Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, sabendo da morte de Carlos de -Borgonha, tratou de apossar-se dos dominios -que lhe pertenceram, de realizar a annexação -por meio de emissarios que para -esse fim enviara ás cidades borgonhezas, e -foi installar-se em Arras, onde Affonso <span class="allsmcap">V</span> -lhe mandara pedir uma entrevista, que foi -concedida.</p> - -<p>Segundo o costume, não escacearam promessas -nos labios de Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, mas essas -promessas eram todas mentirosas. Luiz <span class="allsmcap">XI</span> -importava-se então mais com os despojos -de Carlos de Borgonha do que com as -pretensões de Affonso <span class="allsmcap">V</span> á coroa de Castella.</p> - -<p>Vimos que um dos assumptos tratados -entre Luiz <span class="allsmcap">XI</span> e Affonso <span class="allsmcap">V</span> foram as negociações -a que devia proceder-se para obter -em Roma a dispensa indispensavel á consummação -do matrimonio entre o rei de Portugal -e sua sobrinha. De feito, uma embaixada -partiu para Roma, sendo composta do<span class="pagenum"><a id="Page_165"></a>[165]</span> -conde de Penamacôr, de João Teixeira e -Diogo de Saldanha, por parte de Portugal, -e de mr. de Saint-Vailler e do governador -de Grenoble, por parte da França.</p> - -<p>Partiram juntos, e por terra, os embaixadores, -acompanhados de grande sequito. O -papa recebeu-os com muitas honras.</p> - -<p>Era natural, como dissemos, que os embaixadores -de Luiz <span class="allsmcap">XI</span> levassem instrucções -secretas para o pontifice. Ruy de Pina diz -que o auxilio dado por Luiz <span class="allsmcap">XI</span> em Roma a -Affonso <span class="allsmcap">V</span>, n’esta pretensão, se houve sempre -por muito duvidoso.</p> - -<p>Fernando e Isabel contrariavam fortemente, -junto da santa sé, a concessão da -dispensa pedida. O papa tergiversava com -dilações, mas quando viu desembaraçado -o poder de Luiz <span class="allsmcap">XI</span> pela morte de Carlos -de Borgonha, decidiu-se a conceder a dispensa -em condições mais que muito duvidosas -para Affonso <span class="allsmcap">V</span>.</p> - -<p>Permittia o pontifice que Affonso <span class="allsmcap">V</span> pudesse -casar <i>com qualquer donzella que lhe -fosse achegada em qualquer grau lateral -de consanguinidade ou affinidade, exceptuando -o primeiro grau</i>. Esquivava-se o -papa artificiosamente a nomear D. Joanna,<span class="pagenum"><a id="Page_166"></a>[166]</span> -para não affirmar opinião sobre a sua legitimidade. -Mas não parava aqui a subtileza -do pontifice; declarara que concedia a licença -apenas por comprazer com o rei de -França, e que o de Portugal não poderia -aproveital-a sem que o rei de França fosse -ouvido como arbitro.</p> - -<p>Apertado mais tarde por Fernando e Isabel, -que viram com maus olhos a concessão -de uma tal dispensa, o papa desculpou-se -dizendo que n’aquelles termos não a poderia -negar a qualquer popular obscuro -que a solicitasse; que não deu a Affonso <span class="allsmcap">V</span> -o tratamento de rei de Castella, como elle -desejava; que não nomeou D. Joanna e -que, porisso mesmo, a dispensa fôra concedida -em termos vagos; que havia declarado -não querer que resultasse d’ella prejuizo -para terceiro, o qual se entendia ser o rei -de Castella, mas que, visto ser assim mesmo -contestada, revogaria a licença que -concedera, o que fez por bulla patente enviada -a D. Fernando no principio do mez -de dezembro de 1478.<a id="FNanchor_52" href="#Footnote_52" class="fnanchor">[52]</a></p> - -<p>Depois da entrevista de Arras, Affonso<span class="pagenum"><a id="Page_167"></a>[167]</span> -começou a comprehender que não tinha -sido mais que um simples joguete nas -mãos de Luiz <span class="allsmcap">XI</span>. De Arras, dirigiu-se para -Honfleur, onde demorou todo o mez de setembro, -entregue a uma violenta lucta moral, -acabando por querer alienar todas as -grandezas mundanas, e passar a Jerusalem -com proposito feito de nunca mais voltar a -Portugal. Todo esse tempo gastou-o Affonso -<span class="allsmcap">V</span> entregando-se a exercicios religiosos -e escrevendo apontamentos intimos, que -cuidadosamente fechava n’um cofre de que -tinha a chave, e que se julgava serem uma -especie de codicillo, de appenso ao testamento -que havia feito.</p> - -<p>Finalmente, n’uma manhã de setembro -de 1477, o rei sahiu a cavallo, como costumava, -acompanhado por Soeiro Vaz e Pedro -Pessoa, seis moços de camara, e dois -moços de esporas, ordenando ao seu capellão -que o fosse esperar na estrada, em logar -determinado, onde effectivamente se -encontraram.</p> - -<p>Chegados ahi, Affonso <span class="allsmcap">V</span> deu ordem a -um dos moços d’esporas para que retrocedesse -a Honfleur, e entregasse, aos que -n’essa localidade tinham ficado, a chave do<span class="pagenum"><a id="Page_168"></a>[168]</span> -cofre, para que o abrissem, e lessem o que -deixara escripto.</p> - -<p>Do que no cofre se continha dá noticia -Ruy de Pina:</p> - -<p>«... deixava uma carta para el-rei de -França com remoques dissimulados, reportados -á sua desventura, em que tambem -lhe dava conta do fundamento que tivera -para sua partida, que era servir a Deus; -porque assim lhe fizera voto de o fazer depois -da morte da rainha, sua mulher, sendo -o principe seu filho em edade para reger -seus reinos como era, pedindo-lhe amparo, -favor e ajuda para os seus, que em seus -reinos ficavam. E outra carta para o principe -seu filho, em que lhe dava uma triste -conta de sua viagem, encommendando-lhe -e mandando-lhe por sua benção, que logo -se alevantasse e intitulasse... rei. E outra -d’esta substancia para todos os do reino, -que como o proprio e verdadeiro rei obedecessem -ao principe. E outra para os seus -que ahi deixara, que estivessem á obediencia -e ordenança do conde de Faro, com -que todos foram tão tristes, e fizeram tão -dolorosos prantos como a razão ensina,<span class="pagenum"><a id="Page_169"></a>[169]</span> -que em terras tão extranhas e em tanto -desamparo, e o rei tão amado devia ser.»</p> - -<p>As cartas dirigidas para Portugal foram -logo enviadas ao principe por Antão de Faria, -e em virtude d’ellas se fez D. João acclamar -rei de Portugal, em Santarem, aos -10 de novembro de 1477.</p> - -<p>Quando os portuguezes que tinham ficado -em Honfleur receberam aquellas cartas, -já estavam suspeitosos da demora de -Affonso <span class="allsmcap">V</span>, não obstante o seu habito de -sahir a cavallo todas as manhãs.</p> - -<p>Luiz <span class="allsmcap">XI</span> tinha encarregado mr. de Lebret, -fidalgo francez, de acompanhar Affonso <span class="allsmcap">V</span> -e de responder pela sua pessoa. Quando -mr. de Lebret soube que o rei de Portugal -havia desapparecido, mandou logo emissarios -a procural-o, accusando ao mesmo -tempo os portuguezes de incuria na guarda -do seu soberano. Foi n’uma pequena aldeia -da costa, uma villagem, diz Ruy de Pina, -que poude ser encontrado Affonso <span class="allsmcap">V</span>, o -qual, para não ser descoberto, vivia em -commum com os poucos criados que o seguiam. -O gentilhomem, que primeiro logrou -encontral-o, e que se chamava Robinet-le-Bœuf, -acordou Affonso <span class="allsmcap">V</span>, que estava<span class="pagenum"><a id="Page_170"></a>[170]</span> -dormindo, a fim de melhor poder reconhecel-o, -do que pediu desculpa ao rei de -Portugal. Surprehendido, Affonso <span class="allsmcap">V</span> não -tratou de dissimular por mais tempo a sua -identidade, e Robinet-le-Bœuf fez reunir -immediatamente toda a gente do logar, -a fim de que ficasse guardando o rei, expedindo -emissarios com aviso a Luiz <span class="allsmcap">XI</span>, aos -portuguezes que tinham ficado em Honfleur, -e a mr. de Lebret. Dos portuguezes, -o primeiro que appareceu foi o conde de -Penamacôr, que já andava em busca do -rei. Affonso <span class="allsmcap">V</span> mostrou-se a principio teimoso -em não renunciar á sua viagem á -Terra Santa. O conde de Penamacôr mandou -porisso chamar o conde de Faro, e D. -Alvaro seu irmão, a fim de que viessem demovel-o, -o que effectivamente conseguiram.</p> - -<p>Affonso <span class="allsmcap">V</span> teve pejo de voltar a Honfleur, -e portanto embarcou na angra de Hogue, -com destino a Portugal. Alguns dos -navios que o acompanhavam, não puderam -aguentar a conserva, e chegaram primeiro, -pelo que o principe D. João, já acclamado -rei, teve noticia da chegada de seu pae. -Diz-se que D. João <span class="allsmcap">II</span> andava passeando á -beira do Tejo, junto do paço de Santos,<span class="pagenum"><a id="Page_171"></a>[171]</span> -com o duque de Bragança D. Fernando e -com D. Jorge da Costa, mais tarde cardeal -de Alpedrinha, quando soube que seu pae -havia chegado a Cascaes, e que perguntara -aos seus companheiros de passeio o que -havia de fazer n’aquelle lance. O duque -respondeu que o dever de D. João <span class="allsmcap">II</span> era -receber Affonso <span class="allsmcap">V</span> como seu rei e seu pae. -Então D. João apanhou do chão uma pequena -pedra, que atirou ao Tejo, e que foi -por algum tempo cortando a agua. D. Jorge -da Costa disse, inclinando-se ao ouvido -do duque: «Aquella pedra não me ha de -acertar a mim na cabeça.» E no dia seguinte -partiu para Roma, onde conseguiu chegar -a grandes honras, e ter subida importancia.</p> - -<p>Comprehende-se, no caracter forte e austero -de D. João <span class="allsmcap">II</span> este movimento de indignação -perante a fraqueza, a versatilidade -de seu pae, que cedia vergonhosamente á -astucia de Luiz <span class="allsmcap">XI</span>. Mas comprehende-se -tambem que, passada essa primeira impressão, -fosse receber seu pae a Oeiras, e reverentemente -lhe entregasse o titulo de rei, -de que já estava de posse. Os caracteres<span class="pagenum"><a id="Page_172"></a>[172]</span> -como o de D. João <span class="allsmcap">II</span> teem uma profunda -comprehensão do seu dever, embora, para -o cumprir, hajam de dilacerar-se a si mesmos.</p> - -<p>Por sua parte, Affonso <span class="allsmcap">V</span>, envergonhado -das circumstancias em que se achava, e -das fluctuações do seu proprio espirito, -queria que o filho conservasse o titulo de -rei, guardando elle para si o dos Algarves -e das conquistas de Africa; mas o principe -não lh’o consentiu.</p> - -<p>Depois de estar em Lisboa algum tempo, -Affonso <span class="allsmcap">V</span> retirou-se para Montemór-o-Novo, -e d’ahi para Evora, e é notavel que, -depois de tantos desenganos, lhe tornasse -a passar pelo espirito a idéa de continuar -devéras a guerra com Castella, que estava -limitada a algumas incursões, e de realizar -definitivamente o seu casamento com D. -Joanna.</p> - -<p>O principe contrariou-lhe ardentemente -estes pianos, sobretudo o do casamento. -Era já tarde, entendia o principe; o que -elle lamentava era que seu pae não tivesse -acceitado as primeiras propostas de Castella, -em tempo de Henrique <span class="allsmcap">IV</span>, desposando<span class="pagenum"><a id="Page_173"></a>[173]</span> -D. Affonso a infanta D. Isabel, e elle a infanta -D. Joanna.<a id="FNanchor_53" href="#Footnote_53" class="fnanchor">[53]</a></p> - -<p>D. João, durante a ausencia de seu pae, -havia sustentado a animosidade com Castella, -e mandara gente sua a descercar a -villa de Alegrete, que tinha sido sitiada -por Affonso de Monroy, assim como mandara -auxilio a Touro e a Castro Nunho, que -se conservavam fieis a D. Affonso <span class="allsmcap">V</span>, o -qual, de França, dera ordem aos governadores -d’essas fortalezas castelhanas para se -renderem. Elles vieram effectivamente para -Portugal, por escaparem á vingança de -Fernando e Isabel, e da coroa portugueza -receberam auxilio e protecção. Todavia, o -principe D. João comprehendia perfeitamente -que Portugal, sobretudo pelo pessimo -estado das suas finanças, não se achava -habilitado a continuar uma guerra longa -e aberta com Castella.</p> - -<p>O alcaide-mór da villa de Moura, Lopo -Vaz de Castello Branco, quiz revoltar-se -contra o rei de Portugal, porque no paiz -lavrava um fermento de indisciplina, que -era estimulado pelas proprias fluctuações<span class="pagenum"><a id="Page_174"></a>[174]</span> -do poder real, confiado a Affonso <span class="allsmcap">V</span>. Foi -mais tarde preciso o caracter de ferro de -D. João <span class="allsmcap">II</span> para repor as coisas no seu antigo -estado, e para arcar peito a peito com -quasi toda a nobreza do paiz. Lopo Vaz de -Castello Branco pagou com a vida a ousadia -do seu procedimento. Era mais uma -manifestação da austeridade de caracter do -principe, que não deixava nunca de punir -a rebellião dos seus inimigos.</p> - -<p>N’esta desgraçada pendencia com Castella, -ainda Portugal teve de figurar mais -uma vez. Foi o caso que a condessa de -Medellim, que seguia a causa da princeza -D. Joanna, fôra cercada nas suas fortalezas -pelo mestre de S. Tiago de Castella, e -mandara pedir auxilio a Affonso <span class="allsmcap">V</span>. Effectivamente -Portugal enviou-lhe soccorro, indo -por capitão-mór da pequena expedição o -bispo de Evora, D. Garcia de Menezes. O -mestre de S. Tiago deu batalha ao bispo -junto de Mérida, sendo o bispo vencido, ferido -e preso, pois que a desproporção das -forças era enorme entre os dois exercitos. -O de Castella era muito superior. A guarda -do bispo foi confiada a um cavalleiro -castelhano, que se deixou corromper, pelo<span class="pagenum"><a id="Page_175"></a>[175]</span> -que D. Garcia de Menezes, podendo fugir, -se recolheu a Medellim, onde, com os destroços -da expedição, se conservou ainda -muito tempo cercado, até ao tratado de -paz.</p> - -<p>A agitação era grande em ambos os -paizes, e n’um e n’outro os especuladores -de occasião tratavam de tirar todo o -partido possivel das circumstancias, mirando -á ganancia. Este estado de coisas, se -era grave para Portugal, não deixava comtudo -de inquietar Fernando e Isabel. Então, -negociações secretas foram entaboladas -para a paz, chegando a avistar-se na -villa de Alcantara, em Castella, a rainha D. -Isabel com sua tia a infanta D. Beatriz, de -Portugal, viuva do infante D. Fernando.</p> - -<p>N’essa entrevista foi tratada a primeira -combinação das pazes entre os dois reinos. -Mais tarde uma nova entrevista se realizou -no Alemtejo entre plenipotenciarios de Portugal -e Castella, assentando-se que as pazes -seriam perpetuas. As condições estipuladas -foram estas:</p> - -<p>1.ª Que D. Affonso deixaria de intitular-se -rei de Castella e Leão, e Fernando e -Isabel, reis de Portugal;</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_176"></a>[176]</span></p> - -<p>2.ª Que D. Joanna perderia todos os titulos -de que se apossara, não se chamando -nem rainha nem infanta, salvo se viesse a -casar com o principe D. João de Castella, -como ficou para resolver mais tarde;</p> - -<p>3.ª Que o antigo tratado de pazes feito -com D. João <span class="allsmcap">I</span> seria convenientemente revisto -e modificado;</p> - -<p>4.ª Que as cidades, villas e castellos -que de um reino a outro houvessem sido -tomados, e assim os prisioneiros, seriam -restituidos, soltos e perdoados;</p> - -<p>5.ª Que em relação a determinadas pessoas -e cavalleiros se fariam capitulações -especiaes, e que as fortalezas que nas fronteiras -de um e outro reino haviam sido -construidas, seriam derrubadas;</p> - -<p>6.ª Que o senhorio da Guiné, desde o -cabo de Nam e o Bojador até aos indios -inclusivamente, com todos os seus mares -adjacentes, ilhas, costas descobertas e por -descobrir, com seus tratos, pescarias e resgates, -assim a ilha da Madeira e dos Açôres, -Flores, Cabo Verde, e a conquista do -reino de Fez ficassem <i>in solidum</i>, e para -sempre, ao rei de Portugal, e que as ilhas -das Canarias, e o reino de Granada ficassem<span class="pagenum"><a id="Page_177"></a>[177]</span> -<i>in solidum</i> aos reis de Castella, e seus -successores, para sempre;</p> - -<p>7.ª Que para maior segurança d’este -tratado, o infante D. Affonso, neto de Affonso -<span class="allsmcap">V</span>, logo que fosse em edade de sete -annos, casasse com a infanta D. Isabel, filha -primogenita dos reis de Castella, estabelecendo -qual o dote da princeza, e o modo -de pagamento;</p> - -<p>8.ª Que d’ahi a certo tempo, a senhora -D. Joanna, e assim os ditos infantes, fossem -postos em terçaria na villa de Moura, em -poder da infanta D. Beatriz;</p> - -<p>9.ª Que o principe D. João, filho dos -reis de Castella, logo que chegasse á edade -de sete annos, casaria com aquella senhora, -a qual passaria então a chamar-se princeza, -sendo convenientemente dotada; mas -que se o dicto principe D. João não quizesse -casar com D. Joanna, ficaria ella livre -da terçaria, recebendo uma indemnização;</p> - -<p>10.ª Que a senhora D. Joanna logo fosse -posta em terçaria, como fica dicto, ou entrasse -em um de cinco mosteiros que fossem -indicados, demorando-se ahi o anno -de noviciado, acabado o qual escolheria<span class="pagenum"><a id="Page_178"></a>[178]</span> -uma de duas coisas, ou <i>casar ou metter -freira</i>, segundo a expressão popular.</p> - -<p>Estas pazes foram publicadas em setembro -de 1479.<a id="FNanchor_54" href="#Footnote_54" class="fnanchor">[54]</a></p> - -<p>Importava dar cumprimento ás estipulações, -mas os embaixadores hespanhoes iam -espaçando de dia para dia a entrega da infanta -D. Isabel.</p> - -<p>Enfadou-se de taes delongas o principe -D. João, de Portugal, e, estando em Beja, -enviou aos embaixadores de Castella duas -folhas de papel, n’uma das quaes estava escripta -a palavra <i>guerra</i>, e na outra a palavra -<i>paz</i>. Perante esta corajosa resolução, -os embaixadores castelhanos, obrigados a -responder categoricamente, decidiram-se a -entregar a infanta D. Isabel, que a mãe -do duque de Vizeu, D. Beatriz, sahiu a receber, -entregando aos embaixadores em -refens seu proprio filho D. Manuel, que depois -foi substituido pelo proprio duque, o -qual a esse tempo estava doente.</p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_179"></a>[179]</span></p> - -<h2 class="nobreak">VIII<br /> -<span class="smaller">CASAR OU METTER FREIRA</span></h2> - -</div> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-d.jpg" width="100" height="100" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">De baldão em baldão, fluctuando -n’um mar de incertezas, havendo -atravessado a existencia -sob o peso de uma predestinação -fatal, D. Joanna, a <i>Beltraneja,</i> via-se, finalmente, -obrigada a tomar uma resolução -definitiva, <i>a escolher um de dois meios</i>, como -diz Ruy de Pina, <i>que para ella eram -extremos de mortal sentimento</i>.</p> - -<p>Por muitas vezes parecera approximar-se -do throno; por outras tantas tivera que -afastar-se d’elle. Em Castella fôra rainha -durante o tempo que vivem as rosas. Nunca -lhe deixaram ter coração para amar, ser<span class="pagenum"><a id="Page_180"></a>[180]</span> -livre como a mais obscura camponeza de -qualquer dos dois reinos que a sua coroa -ephemera poderia ter abrangido. E todavia -fôra esposa promettida de muitos noivos, -nenhum certamente escolhido com o -assentimento do seu coração. De um d’elles, -seu tio Affonso <span class="allsmcap">V</span>, chegara a compartir -esperanças e desalentos. Sem embargo, D. -Joanna bem sabia pela licção da historia, -que a primeira mulher de seu tio arrastara -uma vida profundamente alanceada de intimos -pesares. Sabia ou devia saber que D. -Isabel de Lencastre tivera por thalamo o -leito de espinhos onde era obrigada a repoisar -ao lado d’aquelle a quem seu pae -devêra a morte, e a quem os amigos de -seu pae deveram perseguição. Não era por -que Affonso <span class="allsmcap">V</span> tivesse uma alma incapaz de -comprehender as finas delicadezas do amor. -Não. Elle amara sua prima Isabel, e chegara -mesmo a esquecer que ella era filha do -infeliz infante D. Pedro, a victima de Alfarrubeira. -Conta-se que D. Isabel, denunciando -os primeiros symptomas da maternidade, -sentira estalar a esmeralda do seu -annel de donzella, que trazia no dedo. Lastimou-se -a desventurosa princeza, certamente<span class="pagenum"><a id="Page_181"></a>[181]</span> -por haver gerado uma creança, cujo -avô fora assassinado por tolerancia do pae. -Mas Affonso <span class="allsmcap">V</span> acudiu a tranquillizal-a com -palavras de carinho, fazendo-lhe ver que o -nascimento de um filho valia bem uma pedra -preciosa. E foi, sob esta impressão affectuosa, -que D. Affonso permittira que o -cadaver de seu tio fosse removido para o -tumulo de familia, na egreja da Batalha. -Affonso não era, pois, um homem incapaz -de sentir, e de amar. Mas a <i>Beltraneja</i> não -poderia de certo amal-o; iria para elle levada -pela força das circumstancias, para não -perder um throno que Affonso <span class="allsmcap">V</span> ambicionava -ganhar.</p> - -<p>Esse casamento, a realizar-se, seria talvez -um porto de abrigo depois de tantos naufragios; -uma taboa de salvação nos mares -aparcelados da vida. E, não obstante, partia-se -agora essa fragil taboa que era toda -a esperança da pobre <i>Beltraneja</i>. A politica, -o espectro que tão cruelmente a perseguia, -inclinava-se-lhe agora ao ouvido para -dizer-lhe, como Hamlet a Ophelia: «Entra -n’um convento; faze-te freira, e depressa...»</p> - -<p>Mas a <i>Beltraneja</i> havia sido rainha ainda<span class="pagenum"><a id="Page_182"></a>[182]</span> -que por pouco tempo, fôra rainha sem -reino e sem throno, não podia comtudo esquecer-se -facilmente de que o fôra: uma -esperança, quando é violentamente arrancada, -traz sempre comsigo, pegado ás raizes, -um pedaço do coração. Porisso, a pobre -princeza chorou ao despir os brocados -e sedas que até ahi envergara, ao ver cahir -a seus pés os cabellos por onde outr’ora -as perolas serpejaram em espiras phantasiosas. -O seu coração era moço de mais para -se resignar, abatido, quando no convento -de Santa Clara, de Santarem, o amortalharam -no habito monastico.</p> - -<p>D. Joanna chorava, choravam com ella -os seus criados e familiares.</p> - -<p>No convento de Santarem <i>ainda hoje</i>, -diz frei Manuel da Esperança, <i>se vê uma -casa, que foi sua, onde se rezam matinas -dos dias menos solennes, a qual por este -respeito</i> é chamada <i>o corinho</i>.<a id="FNanchor_55" href="#Footnote_55" class="fnanchor">[55]</a></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_183"></a>[183]</span></p> - -<p>O principe D. João, endurecido pelos -calculos ambiciosos da politica, olhava mais -para o futuro do que para as tranças da -<i>Beltraneja</i>, que cahiam despedaçadas no -chão. Era que, segundo o tratado feito com -Castella, seu filho devia desposar a filha -mais velha de Fernando e Isabel. Assim, -poderia chegar talvez ao mesmo ideal, a -unificação de duas coroas, por caminhos -mais suaves.</p> - -<p>«O principe, que de se cumprirem as capitulações, -diz Duarte Nunes, tinha seus -particulares interesses, e o casamento para -seu filho, <i>e porventura a successão dos -reinos de Castella</i>, como depois pudera -succeder, se o juizo divino o não atalhara...»<a id="FNanchor_56" href="#Footnote_56" class="fnanchor">[56]</a></p> - -<p>Que importava que fosse preciso, para -realizar esse <i>desideratum</i>, esmagar o coração -de uma pobre mulher?</p> - -<p>Affonso <span class="allsmcap">V</span>, envergonhado de si proprio, -deixou inteira liberdade de acção ao filho.<span class="pagenum"><a id="Page_184"></a>[184]</span> -Pungia-o a consciencia dos seus erros. -Sentia-se prostrado, de mais no mundo... -e talvez no reino. O seu tempo passara; o -pobre rei era o cadaver de si mesmo, apenas -amortalhado nos trophéos conquistados -em Africa, e manchados em França.</p> - -<p>No principio do anno seguinte, de 1480, -a peste, essa cruel e duradoira peste que -por tantos annos devia assolar Portugal, principiou -a brandir o seu gladio desolador. D. -Joanna recebeu ordem de retirar-se do convento -de Santa Clara, de Santarem, para o -de Evora, por fugir ao morticinio, e, todavia, -talvez que ella houvesse preferido ser -uma das victimas do terrivel flagello, que -parecia mais apiedado da sua triste sina do -que o coração do principe D. João, seu primo.</p> - -<p>Elle, porem, queria poupar-lhe a vida, -para não ver partir-se-lhe nas mãos um poderoso -instrumento de ambição politica. Se -Castella procurasse algum dia illudir as estipulações -do tratado, D. Joanna serviria -como ameaça, a questão dos <i>seus direitos</i> -renasceria das proprias cinzas... Era, pois, -preciso que a <i>Beltraneja</i> vivesse. Porisso, -invadida Evora pela peste, levaram D. Joanna<span class="pagenum"><a id="Page_185"></a>[185]</span> -para o Vimieiro, e do Vimieiro para Santa -Clara, de Coimbra.</p> - -<p>Graças a um documento por nós encontrado -na Torre do Tombo, onde aliás fizemos -muitas outras investigações infructiferamente, -conhecemos o teor de negociações -entaboladas entre Portugal e Castella -para retirar de Evora, quando a peste alli -entrou, D. Joanna, já então officialmente -appellidada a <i>Excellente Senhora</i>.</p> - -<p>Esse documento (existente na cella M, -ms. 1163, fl. 518) é uma carta do principe -D. João para Rodrigo Affonso, embaixador -de Portugal em Castella, escripta de Beja.</p> - -<p>Eis o seu conteúdo:</p> - -<p>«Rodrigo Affonço Amigo, nós o Princepe -vos inviamos muito saudar: nos soubemos -hora per o Doutor Mestre Rodriguo -como foi dito a hum frade em confição que -nesta villa fallecerão hora dous moços deste -mal que anda, e assim houvemos recado -do Conde de Abrantes ha dous dias como -em Evora fallecerão hora duas outras pessoas -desta morte em huma casa a qual -logo foi cerrada, e taypada a rua, e que -estavão em grande sospeita, e temor de o -mal ser mais, por o qual os da Cidade se<span class="pagenum"><a id="Page_186"></a>[186]</span> -fasião prestes para se sahir della se mais -alguma couza acontecesse pedindo nos que -lhe mandassemos diser a maneira que terião -com a muy Excellente Senhora minha -prima acerqua de sua estada alli ou partida -para outra parte sobre o que acordamos -de vos logo escrever e vos faser saber -como nosso fundamento he se a couza -mais for antes de vermos vosso recado se -com a dita Senhora nom podermos acabar -que se venha aqui a esta Villa sendo seguro -de a poremos em algum lugar desta -Comarqua, acerca donde nós estivermos -ataa veremos vosso recado do que lá acabais -neste feito, per que se aos Reys aprouver -que se a dita Senhora esté fora dos -sinco Mosteiros na cappitulação limitados -trabalharemos como esté em algum luguar -desta Comarqua porque nella nom ha mais -luguares que tenhão Mosteiros de Freiras -tirando Evora e esta Villa, que Estremoz e -Portalegre, e poderia ser segundo este mal -anda espalhado muito neste Reyno que -nestes tambem morrerião como já agora -morrem em Souzel que he antre ambos -como sabeis e tam acerqua delles, compre -que saibamos se em tal caso lhes prazeria<span class="pagenum"><a id="Page_187"></a>[187]</span> -á dita Senhora estar em algum outro lugar -desta Comarqua posto que Mosteiro de -Freiras nom tenha, estando com freiras e -encerrada em forma de Relligião e com -sua guarda assim como a deve ter estando -em cada hum dos cinco Mosteiros porque -nom prazendo aos Reys de dar seu consentimento -tal que proveja a dita Senhora -minha prima poder estar nesta Comarqua -e Luguares della segundo vay aqui apontado -sem nosso pejo com relevamento do -passado segundo forma da instrucção que -levastes será necessario que se vá a Coimbra -como comvosco fallamos e para isto -cumprir que muy trigosamente hajais despacho, -e nolo invieis logo a mais andar, ou -se já fordes despachado nolo traguais.»</p> - -<p>Havia-se completado um anno desde que -D. Joanna vestira o habito; restava-lhe professar -ou entrar em terçaria.</p> - -<p>Ella ou alguem por ella optou pelo convento. -De Castella vieram embaixadores -assistir á profissão, para assegurar-se d’esta -parte do tratado, diz um escriptor hespanhol, -isto é, para levarem a Fernando e -Isabel a certeza de que as pretensões de -D. Joanna á côrte de Castella ficavam para<span class="pagenum"><a id="Page_188"></a>[188]</span> -todo o sempre encarceradas dentro das grades -de um mosteiro, e amortalhadas no burel -de uma pobre freira, cujos laços mundanos -parecia deveriam, desde esse momento, -ficar partidos de vez. Não aconteceu -inteiramente assim, como veremos.</p> - -<p>É certo ter D. Joanna dicto aos embaixadores -castelhanos que <i>sin ninguna premia, -salvo de su propria voluntad queria vivir -en religion e facer profesion e fenescer en -ella</i>. Seria, porem, completamente essa a -sincera expressão da sua alma? Não por -certo. Essas palavras são transparentes, revelam -bem a altivez da mulher ferida no -seu orgulho: ha n’ellas um mixto de fel e -de lagrimas. Ao pronuncial-as, o coração -da <i>Beltraneja</i> devia despedaçar-se. Mais do -que nunca se denuncia então o justo desespero -com que ella se revoltava contra -os repetidos sacrificios que exigiam da sua -fraqueza.</p> - -<p>O principe D. João, de Portugal, sorria -porventura, por entre dentes, da credulidade -dos embaixadores hespanhoes, que julgavam -ser muralha inexpugnavel a parede de -um mosteiro, e prisões inquebrantaveis as -grades d’elle.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_189"></a>[189]</span></p> - -<p>Nas conversações particulares, que mantinha -com os seus intimos, D. Joanna deixava-se -enternecer facilmente pelas lagrimas -d’elles: a mulher, revoltada contra o -sacrificio, apparecia então. Ruy de Pina não -o dissimula quando noticía que foi precisa -a intervenção do principe D. João para que -a profissão da <i>Beltraneja</i> se realizasse, como -realizou, a 15 de novembro de 1480, em -Santa Clara, de Coimbra.</p> - -<p>Consummara-se o sacrificio. D. Joanna -recebeu o véo preto das mãos de frei Diogo -de Abrantes.</p> - -<p>Em muitos olhos brilhava compassivo -pranto; só D. João não chorava.<a id="FNanchor_57" href="#Footnote_57" class="fnanchor">[57]</a></p> - -<p>Affonso <span class="allsmcap">V</span>, doente de melancholia, não assistira; -não tivera forças para tanto. Não tivera -energia para resistir ás imposições de -seu filho; mas faltara-lhe tambem a coragem -para assistir á profissão de sua sobrinha, -que elle proprio victimara.</p> - -<p>Logo em Coimbra, diz Damião de Goes<span class="pagenum"><a id="Page_190"></a>[190]</span> -na <i>Chronica do principe D. João</i>, esteve -para morrer <i>de pura melancholia</i>. Escapara -por então, mas fizera-se intratavel, misanthropo. -Queria recolher-se ao mosteiro do -Varatojo, e professar. Assim acabaria por -um duplo voto religioso este triste drama -do seu projectado casamento com a <i>Beltraneja</i>. -Mas, antes de realizar um tal plano, -precisava avistar-se com o filho, que -estava em Beja: deviam tratar n’essa conferencia -da convocação de côrtes geraes, para -que ellas reconhecessem D. João como -rei. Affonso <span class="allsmcap">V</span> partiu, pois, de Coimbra para -Beja no verão de 1481. Na entrevista, -ficou resolvido que as côrtes se convocassem -para Estremoz, porque Lisboa e Evora -estavam assoladas pela peste. Tratado -este negocio, D. Affonso <span class="allsmcap">V</span> partiu, no principio -de agosto, de Beja para Cintra onde, -solitario como desejaria viver, devia esperar -pela reunião das côrtes.</p> - -<p>Em Cintra, o rei foi acommettido de febres. -Pouco era preciso para o matar no -estado de abatimento e desgosto em que se -encontrava. O principe acudiu logo a Cintra, -mas os medicos desenganaram-n’o: o -rei morria. D. Affonso acceitou a morte<span class="pagenum"><a id="Page_191"></a>[191]</span> -como uma redempção: fez ao filho algumas -recommendações, deu-lhe conselhos. -Pediu-lhe que protegesse a orfandade da -<i>Beltraneja</i>. E morreu, a 8 d’esse mez, com -quarenta e nove annos de edade.</p> - -<p>Acabara-se finalmente a tortura que lhe -rasgara o coração a lentas punhaladas.</p> - -<p>Poucos dias depois do fallecimento de -Affonso <span class="allsmcap">V</span>, nascia o filho que D. Anna de -Mendonça tivera do principe herdeiro D. -João. D. Anna de Mendonça, mulher muito -fidalga e moça formosa de mui nobre geração, -diz Garcia de Rezende, servira como -dama de honor da <i>Beltraneja</i>, andara na -sua casa. Ao passo que D. Joanna, casada -e virgem, via fechada a dobra do seu leito -de noiva, jámais occupado, uma das suas -damas de companhia rendia-se ás seducções -do principe D. João, menos disposto -a guardar para si a abstinencia de prazeres -que exigia de sua prima. Era justamente -na roda da noiva mallograda de -seu pae que o principe D. João ia procurar -e encontrar uma amante, com a qual -corria a emboscar-se nas moitas floridas de -Cernache do Bom Jardim. Singulares ironias -tem ás vezes o destino!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_192"></a>[192]</span></p> - -<p>D. João <span class="allsmcap">II</span>, subindo ao throno, travou -desde logo uma porfiada lucta com a nobreza. -Alexandre Herculano sustenta que -a indole das instituições da velha monarchia -ovetense-leoneza, e das que d’ella procederam, -não só foi extranha, mas até repugnante -á indole do feudalismo. Temos o -maximo respeito pela memoria do illustre -historiador, mas n’este ponto não concordamos -inteiramente com a sua opinião.</p> - -<p>De passagem relembraremos, por fazer -ao nosso proposito, que em Portugal, os -reis transmittiram por meio de concessões -os direitos de soberania aos senhores feudaes, -creando, para assim dizer, outras tantas -monarchias quantos eram os donatarios, -que, por esse facto, se chamaram senhores -de baraço e cutello, senhores de pendão e -caldeira. Como prova do enfraquecimento -real entre nós, por effeito do poder feudal, -bastará citar um unico facto. Reinando Sancho -<span class="allsmcap">II</span>, Estêvam Pires de Molny possuia -um paço no logar de Carcavellos, na terra -da Feira. Como o resto do logar não fosse -coitado, o mordomo do rei entrou n’elle -para penhorar um lavrador. Pois o senhor -do paço arrastou o mordomo pela freguezia,<span class="pagenum"><a id="Page_193"></a>[193]</span> -dizendo-lhe: «Cá por aqui é honra!» e -depois enforcou-o.<a id="FNanchor_58" href="#Footnote_58" class="fnanchor">[58]</a></p> - -<p>Os senhores feudaes davam foraes e leis -aos aldeões e villãos (<i>villani</i>), taxavam a -quantidade de fructos e a qualidade de -serviços que lhes deviam prestar, nomeavam -juizes e tribunaes, e arbitravam penas; -d’aqui nasceu a escravidão da terra (<i>servitus -glebæ</i>). Algumas vezes, os donatarios -concediam terras em feudos aos plebeus ou -peões: a estes beneficios chamava-se <i>feudos -dos senhores ou subfeudos</i>.<a id="FNanchor_59" href="#Footnote_59" class="fnanchor">[59]</a></p> - -<p>Em virtude d’este regimen, e como se -deprehende do que fica exposto, temos nos -primeiros tempos da monarchia as seguintes -divisões sociaes por classes: senhores -feudaes ou fidalgos, plebeus ou peões, vassallos -ou servos. Desde o começo da realeza -em Portugal, a acção do feudalismo, -e as luctas a que dava causa, accentuam-se -de um modo nitido, segundo cremos.<span class="pagenum"><a id="Page_194"></a>[194]</span> -Vemos os irmãos de Affonso <span class="allsmcap">II</span> negar-lhe -vassallagem, por um acto de rebellião -feudal. D. Sancho <span class="allsmcap">II</span> deposto pelo clero e -pela nobreza. Por sua parte, os reis reagiam, -procurando cercear as garantias dos -senhores feudaes. Affonso <span class="allsmcap">II</span> supprime os -tributos do <i>comestivel</i> e das <i>aliavas</i>; Affonso -<span class="allsmcap">III</span> cria os <i>juizes de fóra</i>, representantes -do poder real para inspeccionarem a administração -da justiça nos territorios feudaes; -D. Diniz procurou oppor o seu manifesto -espirito de justiça á acção da prepotencia -feudal; Affonso <span class="allsmcap">IV</span> definiu a jurisdicção dos -donatarios no edito geral; D. Fernando tratou -de cohibir as malfeitorias que os fidalgos -commettessem com armas; D. João <span class="allsmcap">I</span> e -D. Duarte recorrem principalmente á <i>lei -mental</i>, como a um poderoso meio de combate. -Affonso <span class="allsmcap">V</span>, porem, como já tivemos -occasião de ver, augmentou em larga escala -o poderio dos nobres, pelo abuso de -concessões. Mas seu filho, D. João <span class="allsmcap">II</span>, estava -talhado para oppor uma barreira gigante -á onda crescente e abusiva do regimen -feudal.</p> - -<p>Coisa notavel! Pessoalmente, D. João <span class="allsmcap">II</span> -devia odiar Luiz <span class="allsmcap">XI</span> pela maneira doble e<span class="pagenum"><a id="Page_195"></a>[195]</span> -aviltante por que recebera em França seu -pae; politicamente, tomava-o como modelo -n’essa lucta terrivel em que se achava empenhado, -salvas as differenças de caracter. -João <span class="allsmcap">II</span> imitou Luiz <span class="allsmcap">XI</span> não só nos rasgos -mais principaes, mas até na dissimulação -e crueldade; era comtudo mais paciente, e -porisso mesmo não arriscava os passos senão -depois de pisar terreno firme.<a id="FNanchor_60" href="#Footnote_60" class="fnanchor">[60]</a></p> - -<p>Os senhores feudaes, que em França acabavam -de ajudar Carlos <span class="allsmcap">VII</span> a expulsar os -inglezes, não eram por certo menos poderosos -do que aquelles que em Portugal -haviam conseguido supplantar o infante D. -Pedro. O duque de Bragança era relativamente -tão importante como o duque de -Borgonha. Esta identidade de circumstancias -levou fatalmente João <span class="allsmcap">II</span> a copiar, melhorando-o, -o exemplo de Luiz <span class="allsmcap">XI</span>.</p> - -<p>Assim como o rei de França inicia o seu -reinado proclamando a lucta com a nobreza,<a id="FNanchor_61" href="#Footnote_61" class="fnanchor">[61]</a> -o de Portugal trata, depois de reunidas -as primeiras côrtes em Evora, de lançar -a luva aos seus emulos, cuidando de<span class="pagenum"><a id="Page_196"></a>[196]</span> -regularizar a fórma das menagens. Era o cartel -para o repto; o aviso para a lucta.</p> - -<p>«Antes de se fazerem estas menagens, -diz Garcia de Rezende,<a id="FNanchor_62" href="#Footnote_62" class="fnanchor">[62]</a> el-rei com o duque -de Bragança e outros senhores, e pessoas -do conselho, praticou umas palavras -que nas menagens haviam de dizer muitas -vezes, <i>em que houve muitas porfias, desgostos, -descontentamentos, por lhe parecer -aspera fórma a que el-rei queria</i>...»</p> - -<p>Mas, não obstante a opposição do duque -de Bragança, João <span class="allsmcap">II</span> fez vingar o novo formulario -de menagens.</p> - -<p>Como claramente se póde ver do teor -das menagens, a sua redacção bastava para -revelar as intenções do rei, e o duque de -Bragança, querendo protestar, mostra, como -toda a outra nobreza, não conhecer D. João -<span class="allsmcap">II</span>: julga-o fraco, parece-lhe que se acobardará -perante a resistencia.</p> - -<p>O duque precisou dos titulos das suas doações -para documentar o protesto, e mandou -buscal-os a Villa Viçosa, pelo veador -da sua fazenda, João Affonso, dando-lhe a -chave de um cofre que continha todos os -papeis de segredo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_197"></a>[197]</span></p> - -<p>João Affonso declinou esta grave commissão -n’um filho seu, em quem muito confiava. -Na occasião em que o filho do veador -andava procurando no cofre, appareceu -por acaso na sala Lopo de Figueiredo, -escrivão da fazenda do duque, o qual, a -pedido do rapaz, o ajudou a procurar os -papeis. Depararam-se-lhe, porem, entre elles -algumas cartas e instrucções de Castella, e -para os reis de Castella, com emendas e -correcções feitas pela lettra do duque. Lopo -de Figueiredo poude escondel-os, mettendo-os -na manga do gibão. Em casa leu-os -vagarosamente, e reconheceu que se não -havia enganado, pelo que immediatamente -correu a Evora, a mostral-os ao rei, que -d’elles tomou conhecimento, dando-os a copiar -a Antão de Faria, e mandando-os pôr -no cofre, onde estavam, por Lopo de Figueiredo.</p> - -<p>Eis aqui como o acaso, ou o <i>mysterio de -Deus</i>, como diz Garcia de Rezende, poz -nas mãos de D. João <span class="allsmcap">II</span> o fio de uma intriga, -que era como que o vendaval que devia -atiçar o fogo da lucta travada entre elle -e a nobreza de Portugal.</p> - -<p>D. João <span class="allsmcap">II</span> tinha um duplo motivo para,<span class="pagenum"><a id="Page_198"></a>[198]</span> -segundo o seu ponto de vista, combater o -duque de Bragança: em primeiro logar, atacava -um dos maiores e mais altivos potentados -que faziam sombra á coroa real; em -segundo logar, desde que o duque se oppuzera -a que Affonso <span class="allsmcap">V</span> passasse a Castella, -via n’elle um parcial da causa, agora -triumphante, de Fernando e Isabel. E depois -lembraram a D. João <span class="allsmcap">II</span> as palavras -duras do duque quando, depois da batalha -de Touro, se não sabia do destino de Affonso -<span class="allsmcap">V</span>.</p> - -<p>As cartas que o acaso trouxera ás mãos -do rei, vieram fortalecel-o na antiga suspeita. -Desde esse momento, D. João <span class="allsmcap">II</span> não -pensou senão em liquidar estas contas antigas. -Espirito forte, caminhou resolutamente -para o seu ideal de vingança, umas vezes -mostrando-se severo e desconfiado com -o duque de Bragança, outras vezes fingindo -acreditar nos seus protestos de obediencia -e fidelidade.</p> - -<p>Mas, intimamente, D. João <span class="allsmcap">II</span> julgava indispensavel -prevenir-se com uma arma poderosa -para contraminar a connivencia do -duque de Bragança com Castella: essa arma -era sua prima, D. Joanna, a <i>Beltraneja</i><span class="pagenum"><a id="Page_199"></a>[199]</span> -ou, como agora lhe chamavam os castelhanos, -<i>la Monja</i>.</p> - -<p>Pois bem. Sem hesitar um momento, D. -João ordenou que abrissem a sua prima as -portas do mosteiro de Coimbra, e que ella -vivesse no seculo com a ostentação que ao -seu nascimento era devida.</p> - -<p>E assim foi que, freira professa havia -dois annos, D. Joanna, joguete malfadado -das ambições dos outros, voltou de novo -ao mundo onde a felicidade parecia apostada -em mostrar-se-lhe tão esquiva como -outr’ora, quando ainda o véo preto lhe não -cingia a bella cabeça juvenil.</p> - -<p>Mas o infante D. Affonso, filho unico de -D. João <span class="allsmcap">II</span>, estava nas terçarias de Moura, -como a princeza D. Isabel, filha dos reis -catholicos. Era preciso arrancal-o d’esse -captiveiro, onde a sua vida poderia correr -perigo, tanto maior por certo quanta fosse -a animosidade manifestada por D. João <span class="allsmcap">II</span> -contra o duque de Bragança, que tinha, -como sabemos, intimas relações com a côrte -de Castella.</p> - -<p>A fim de salvar a vida de seu filho, tratou -D. João <span class="allsmcap">II</span> de annullar as terçarias, e -para esse fim enviou a Fernando e Isabel<span class="pagenum"><a id="Page_200"></a>[200]</span> -uma embaixada composta do barão de Alvito -e de Ruy de Pina, o chronista, os -quaes começaram por pedir que o deposito -dos principes fosse transferido para um logar -menos doentio do que a villa de Moura.</p> - -<p>Os reis de Castella, prevenidos pelo duque -de Bragança das intenções de D. João -<span class="allsmcap">II</span>, fizeram mallograr o exito d’esta primeira -embaixada.</p> - -<p>Nova embaixada mandou D. João <span class="allsmcap">II</span> a -Castella, d’esta vez para que as terçarias -se mudassem <i>ou desfizessem</i>, dizendo mais -o embaixador que, se não parecia conveniente -o casamento do principe portuguez -com a infanta D. Isabel, pela differença das -edades, se effectuasse com a infanta D. -Joanna e que, a ser assim, fossem, em -compensação, cedidas a Portugal as ilhas -Canarias, que el-rei sempre desejou para -maior segurança da Guiné.</p> - -<p>A desconfiança dos reis de Castella, a -respeito do de Portugal, tinha a esse tempo -subido de ponto, porisso que em Castella -haviam sido presos alguns portuguezes, -que se diziam encarregados de negociar, -por ordem de D. João <span class="allsmcap">II</span>, o casamento -da <i>Excellente Senhora</i> com o rei<span class="pagenum"><a id="Page_201"></a>[201]</span> -Phebo, de Navarra. Fernando e Isabel queriam -que os suppostos emissarios do rei de -Portugal fossem por elle punidos, porque -só assim se convenceriam da boa fé de D. -João <span class="allsmcap">II</span>.</p> - -<p>Esta exigencia dos reis de Castella não -foi desde logo attendida pelo de Portugal.</p> - -<p>Portanto, um problema inquietador principiou -a preoccupar o espirito de D. João -<span class="allsmcap">II</span> e d’aquelles que lhe eram dedicados: -qual o melhor meio de conseguir a annullação -das terçarias de Moura?</p> - -<p>Uma das pessoas que deram o seu voto -n’esta importante questão foi D. Philippa de -Lencastre, tia de D. João <span class="allsmcap">II</span>, irmã de sua -mãe, e religiosa de Odivellas.</p> - -<p>Digamos d’esta senhora duas palavras.</p> - -<p>No testamento da rainha D. Isabel é D. -Philippa, sua irmã, a principal contemplada, -pelo grande amor que lhe tinha, e porque -a situação da familia do infante D. Pedro, -como do mesmo testamento se vê, era precaria. -Mas essa disposição testamentaria de -D. Isabel iria, a realizar-se, prejudicar a legitima -devida a seus dois filhos. Não obstante -esta causa de nullidade do testamento, -D. Affonso <span class="allsmcap">V</span> estabeleceu a sua cunhada<span class="pagenum"><a id="Page_202"></a>[202]</span> -uma tença de duzentos e vinte mil réis; e -recommendou-a nas disposições testamentarias -que elle proprio fizera em Portalegre -antes de partir para Castella.<a id="FNanchor_63" href="#Footnote_63" class="fnanchor">[63]</a></p> - -<p>Frei Francisco Brandão diz que, não obstante -a tença, D. Philippa passara a vida <i>com -não grande cabedal</i>, e que D. Affonso <span class="allsmcap">V</span> -bem pudera <i>ter remedeado a prima que recommenda</i>. -Como quer que seja, seu sobrinho -D. João <span class="allsmcap">II</span> doou-lhe uma parte da renda -da Villa de Alcolea de Sinca, no principado -da Catalunha.</p> - -<p>Depois da morte da rainha D. Isabel, D. -Philippa esteve parte do tempo em Coimbra, -em casa de sua mãe, a viuva do infante -D. Pedro; mais tarde veiu para Lisboa -onde acompanhou a educação de sua sobrinha -D. Joanna.</p> - -<p>Havendo-se recolhido ao mosteiro de -Odivellas, sem que aliás professasse, foi de -romaria a S. Tiago de Galliza, e morreu -em Portugal no anno de 1497. Jaz na sacristia -de Odivellas.</p> - -<p>Como iamos dizendo, esta senhora dera -voto na questão das terçarias; talvez lhe -<span class="pagenum"><a id="Page_203"></a>[203]</span>fosse solicitado por sua prima D. Beatriz. -Frei Francisco Brandão encontrou o documento, -que nos transmittiu o voto de D. -Philippa, na torre do Tombo, entre os papeis -de Fernão de Pina. Publicou-o com o -seguinte titulo: <i>Conselho e voto da senhora -Dona Philippa filha do infante Dom Pedro -sobre as terçarias, e guerras de Castella. -Com uma breve noticia d’esta princeza, -dirigido a el-rei Dom João IV, Nosso -Senhor.</i> Lisboa, 1643.<a id="FNanchor_64" href="#Footnote_64" class="fnanchor">[64]</a></p> - -<p>D. Philippa lamenta que o principe D. -Affonso esteja nas terçarias com prejuizo -para a sua educação. Não aconselha que o -tirem para fazer guerra a Castella, mas não -quer isso dizer que deixe de reconhecer as -vantagens de Portugal em qualquer lucta -armada com Castella, tiradas da historia do -passado. Entende que um portuguez ha de -valer sempre vinte castelhanos com a ajuda -de Deus. Recorda que se Affonso <span class="allsmcap">V</span> foi -a Touro, varios castelhanos lh’o pediram. -E remata dizendo: «E assi concludo: sua<span class="pagenum"><a id="Page_204"></a>[204]</span> -paz deve ser desejada com grande razom, -mas sua guerra que Deos nos goarde, nem -deve ser mui temida, quando sem causa -procurarem metella em obra, pois Deos, -justiça, verdade, razoens humanaes som em -nossa ajuda, e a elles contrarios.»</p> - -<p>Emquanto variavam os pareceres a respeito -das terçarias, D. João <span class="allsmcap">II</span> enviava terceira -embaixada a Castella, encarregada de -dar satisfacções e desculpas aos soberanos -d’aquelle paiz, que trataram de mostrar-se -satisfeitos com ellas, porque o seu maior -desejo era tambem verem fóra das terçarias -a infanta D. Isabel, receosos de que a -sua vida pudesse ser penhor de alguma -nova combinação politica. Ficou então assente -que as terçarias se desfariam, e que -o principe D. Affonso casaria não com a -infanta D. Isabel, mas com a infanta D. -Joanna, e que se lhe daria maior dote por -estar esta infanta mais afastada na linha -de successão de Castella. Outrosim ficou -combinado que os reis de Castella mandariam -na proxima Paschoa embaixadores a -Portugal para se tratar definitivamente da -resolução d’estas combinações.</p> - -<p>A familia real estava em Almeirim n’essa<span class="pagenum"><a id="Page_205"></a>[205]</span> -occasião. A rainha teve ahi um mobito, e -por este motivo a foram visitar muitos fidalgos, -entre os quaes o duque de Vizeu, -seu irmão, e o de Bragança, a quem D. -João <span class="allsmcap">II</span> recebeu de boa sombra. Não obstante, -um dia chamou-o de parte á capella -do paço, e, na presença do bispo de Lamego, -lhe disse que estava inteirado de -que elle tinha ligações suspeitas com Castella, -mas que se essas combinações eram -filhas de um proposito errado, estava disposto -a perdoal-as e esquecel-as. Lembrou-lhe -as obrigações que o duque devia á memoria -de D. Affonso <span class="allsmcap">V</span>, de quem havia recebido -largas honras, e patrimonio. E ainda -que se julgasse aggravado com o degredo -do marquez, e a entrada dos corregedores -em suas terras, devia ser o primeiro -a querer dar um exemplo de obediencia -e de respeito ao rei.</p> - -<p>O duque de Bragança imaginou que D. -João <span class="allsmcap">II</span> se deixaria embalar pelas suas palavras; -que o supporia um inimigo que retirava, -que desalentava na lucta; e, cheio de -hypocrisia, respondeu affirmando os seus -sentimentos de estima e gratidão ao chefe -do Estado.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_206"></a>[206]</span></p> - -<p>Enganava-se.</p> - -<p>O certo é que a nobreza julgou haver -submettido aquelle forte inimigo das suas -regalias. Folgou com isso. Sahindo de Almeirim, -os duques de Vizeu, de Bragança e -seus irmãos juntaram-se no Vimieiro, folgando -com o que se tinha passado, e entre -si resolveram não deixar entrar os corregedores -nas suas terras. Sobre o mesmo -assumpto, o marquez de Montemór, o conde -de Faro e D. Alvaro de Bragança tiveram -entrevistas secretas no mosteiro de Santa -Maria do Espinheiro, em Evora, tomando-se -notavel o marquez pela exaltação, pelo odio -com que sempre falava do rei.</p> - -<p>D. João <span class="allsmcap">II</span> andava devidamente informado -d’estas conspirações, mas, astuto e reservado, -pareceu-lhe melhor esperar. Porisso, -deu ordem para que se não fizesse a correição -ás terras dos nobres, e até chegou a -despachar favoravelmente algumas pretensões -do marquez, e do conde de Faro.</p> - -<p>D. João <span class="allsmcap">II</span> preparava o laço, e esperava -a presa.</p> - -<p>Entretanto, o duque de Bragança, em intelligencia -com os reis de Castella, continuava -a conspirar. Um mensageiro castelhano<span class="pagenum"><a id="Page_207"></a>[207]</span> -veio avistar-se secretamente a Portugal -com o duque, combinando ambos n’uma -capitulação, da qual o marquez de Montemór -teve conhecimento. A capitulação dividia-se -em dois pontos principaes: 1.º Que -visto a <i>Excellente Senhora</i> não viver no rigor -monastico a que era obrigada, fosse -entregue ao duque de Bragança ou a seus -irmãos, para lhe fazerem cumprir o que -fosse honesto. 2.º Que fosse permittido aos -subditos castelhanos o irem negociar na -Guiné.</p> - -<p>É claro que D. João <span class="allsmcap">II</span> não podia annuir -a estes pedidos, em primeiro logar porque -lhe arrancavam das mãos uma grande arma -diplomatica, tal era a <i>Excellente Senhora</i>; -em segundo logar, porque abalaria o dominio -portuguez, na Africa, com a concessão -feita aos castelhanos.</p> - -<p>Mas isso mesmo era o que Castella e o -duque de Bragança queriam: porque na -propria recusa estava um pretexto para Fernando -e Isabel declararem a guerra, e para -o duque se desculpar de não prestar auxilio -a D. João <span class="allsmcap">II</span>, fingindo achar desarrazoada -a recusa.</p> - -<p>As novas intelligencias do duque com<span class="pagenum"><a id="Page_208"></a>[208]</span> -os soberanos de Castella foram descobertas -a D. João <span class="allsmcap">II</span> por Gaspar Infante, irmão -de Pedro Infante, familiar dos Braganças. D. -João <span class="allsmcap">II</span>, que já estava desconfiado, ficou -prevenido, mas não lhe convinha precipitar -os acontecimentos, tanto mais que tinha -seu filho nas terçarias, e receava pela -sua vida. Mas, como a guerra de Granada -absorvesse toda a attenção e recursos dos -reis catholicos,<a id="FNanchor_65" href="#Footnote_65" class="fnanchor">[65]</a> um embaixador chegava -a Portugal para tratar justamente de desfazer -as terçarias. Assentou-se pois no casamento -do principe D. Affonso com a infanta -D. Joanna, filha segunda dos reis castelhanos.</p> - -<p>A este tempo voltava de Castella Pedro -Infante com a correspondencia secreta para -o duque. O rei leu-a, e resolveu logo, visto -que o obstaculo que as terçarias offereciam -ia desapparecer, prender o duque ou cercal-o -em qualquer logar que estivesse. «E -para isso, escreve Garcia de Rezende, houve -logo secretamente muito dinheiro junto -que trazia em sua guarda roupa, e assim -fez muitas das cartas, provisões, que em -tal caso havia de mandar pelo reino, e ás<span class="pagenum"><a id="Page_209"></a>[209]</span> -villas e castellos do duque e seus alcaides-móres, -o que tudo lhe aproveitou na noite -que prendeu o duque como adeante se -dirá.»</p> - -<p>D. João <span class="allsmcap">II</span> mandara procuradores seus a -Moura buscar o principe. O duque de Bragança, -sabendo isto, foi encontrar-se com -elles em Portel, e alli lhes perguntou o que -deveria fazer, visto que o principe passava -pelas suas terras. Os procuradores responderam -que, para serenar de vez certas differenças -que tinha havido entre o rei e o -duque, o que este devia fazer era acompanhar -o principe á côrte, servil-o e honral-o. -Mas, receosos de que o seu conselho desagradasse -ao rei, mandaram, por meio de -postilhões que havia na estrada, consultal-o -a este respeito. D. João <span class="allsmcap">II</span> respondeu que -lhe aprazia muito que o duque fosse á côrte; -o rei respondeu em carta, não fechada, -para que todos a pudessem ver, a fim de -armar á credulidade dos que a lessem.</p> - -<p>Desfeitas solennemente as terçarias em -Moura, onde o duque de Bragança já havia -chegado, o principe foi entregue aos procuradores -do rei de Portugal, e a infanta D. -Isabel aos procuradores do rei de Castella.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_210"></a>[210]</span></p> - -<p>Na jornada de Moura para Evora, onde -estava a côrte, o principe D. Affonso foi -hospedado em Portel pelo duque de Bragança, -que lhe fez muitas honras. Fóra dos -muros de Evora o rei sahiu a receber o -principe, que vinha acompanhado pelo duque -de Bragança e pelo de Vizeu. A gente -que acompanhava o rei estava toda armada, -porque D. João <span class="allsmcap">II</span> ia em duvida sobre -se logo prenderia o duque ou não.</p> - -<p>Mas como o duque lhe parecesse tranquillo -e nada desconfiado, D. João <span class="allsmcap">II</span> adiou -o seu proposito.</p> - -<p>O rei mostrava-se extremamente alegre e -despreoccupado. Houve em Evora grandes -festas pela recepção do principe e da infanta, -e o rei em todas tomou parte serenamente. -Pelo que o duque, comquanto -avisado pelo marquez seu irmão e por outros -fidalgos, para que desconfiasse do rei -e se salvasse, deixou-se ficar. Metteu-se de -permeio o dia de <i>Corpus Christi</i>, em que o -rei continuou a mostrar-se despreoccupado, -mas na sexta-feira, indo o duque ao -paço despedir-se do rei, achou-o despachando -com os desembargadores. D. João -fez sentar o duque junto de si, emquanto<span class="pagenum"><a id="Page_211"></a>[211]</span> -dava o despacho. Findo este, o duque conversou -por algum tempo com o rei, e aproveitou -a occasião para pretender justificar-se -de varios aleives que lhe assacavam -contra elle, pedindo-lhe que se informasse -da verdade. D. João <span class="allsmcap">II</span>, depois de o ter ouvido, -disse que aquella casa já ia estando -escura, e que, porisso, era melhor subirem -á sua guarda roupa. Subiram, e o rei disse -então que folgava de o ouvir fazer tal requerimento, -e que effectivamente ia apurar -a verdade, mas que julgava melhor que o -duque se conservasse alli, até que tudo -estivesse apurado.</p> - -<p>O rei, sahindo, deixou por guardas ao -duque, Ayres da Silva, camareiro-mór, e -Antão de Faria, camareiro.</p> - -<p>Então, o desanimo do duque foi grande. -Ayres da Silva quiz consolal-o com palavras -banaes, mas o duque respondeu-lhe: -«Senhor Ayres da Silva: um homem tal -como eu não se prende para o soltar.»</p> - -<p>Entretanto, D. João <span class="allsmcap">II</span> fazia reunir em -outra sala do paço os senhores, principaes -auctoridades e lettrados, aos quaes expoz -os aggravos que tinha do duque, lendo<span class="pagenum"><a id="Page_212"></a>[212]</span> -serenamente as cartas e instrucções apprehendidas.</p> - -<p>Logo que a noticia se espalhou na cidade, -o povo correu aos pateos e terreiros -do palacio, protestando a el-rei a sua lealdade, -e pedindo justiça contra os que contra -a sua vida houvessem attentado.</p> - -<p>No conselho decidiu-se que se segurasse -bem a pessoa do duque; que a coroa -tomasse conta dos seus castellos e terras, -e que se notificasse o caso aos reis de -Castella, sem comtudo alludir á causa da -prisão.</p> - -<p>Tão profunda impressão causou em todo -o paiz a prisão do duque, que os alcaides -dos seus castellos logo os entregaram a -uma simples ordem do rei. Esta observação, -que Garcia de Rezende faz, pinta bem -qual era o prestigio da monarchia, e o fanatismo -do povo pela pessoa de D. João <span class="allsmcap">II</span>.</p> - -<p>O marquez de Montemór e o conde de -Faro, logo que souberam o que se passara, -fugiram para Castella. Este ultimo pouco -tempo sobreviveu em Andaluzia. O outro -irmão do duque, D. Alvaro de Bragança, -recebeu ordem do rei para sahir do -reino, prohibindo-lhe comtudo que fosse residir<span class="pagenum"><a id="Page_213"></a>[213]</span> -em Castella ou em Roma. Mas D. Alvaro, -desobedecendo, deixou-se ficar em -Castella.</p> - -<p>A duqueza de Bragança, logo que soube -da prisão do marido, mandou para Castella -os seus tres filhos, ficando ella em Villa -Viçosa com D. Margarida, sua filha.</p> - -<p>Entretanto, o duque continuava a estar -preso na guarda roupa, sem ferros, mas -constantemente vigiado. Era alvo das maiores -attenções por parte dos familiares do -rei, e tratado com a etiqueta devida ao seu -nascimento.</p> - -<p>D. João <span class="allsmcap">II</span>, por sua parte, mostrava-se -pesaroso da situação em que estava o duque, -e resolvia entregar o caso á justiça, -para que ella julgasse.</p> - -<p>A justiça! Bem sabia D. João <span class="allsmcap">II</span> como -ella procederia vergada á pressão da sua -auctoridade real! Mas o caracter reservado -do rei levava-o a proceder assim, sem pressa, -sem precipitação, calculadamente. O facto -de entregar o duque a esse como arremedo -de tribunal, mas em todo o caso, -apparentemente, á acção da justiça, mostrava -ao povo que acima do poder real pairava,<span class="pagenum"><a id="Page_214"></a>[214]</span> -como que a defendel-o, a justiça de -Deus, manifestada pela justiça da terra.</p> - -<p>Era um homem superior D. João <span class="allsmcap">II</span>.</p> - -<p>É conhecido o final d’esta tragedia: o -duque de Bragança acabou no cadafalso -levantado na praça de Evora.</p> - -<p>Diogo Pinheiro procurou rehabilitar a -memoria do duque, escrevendo a sua <i>defesa</i>;<a id="FNanchor_66" href="#Footnote_66" class="fnanchor">[66]</a> -mas outro documento, modernamente -dado á estampa, o tratado de Lopo de -Figueiredo,<a id="FNanchor_67" href="#Footnote_67" class="fnanchor">[67]</a> mostra que o duque de Bragança -procurava fortalecer-se contra o odio -de D. João <span class="allsmcap">II</span>, entabolando negociações secretas -com a côrte de Castella, e que á infanta -D. Beatriz, mãe do duque de Vizeu, -não repugnavam os planos do Bragança.</p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_215"></a>[215]</span></p> - -<h2 class="nobreak">IX<br /> -<span class="smaller">O DEDO DE DEUS</span></h2> - -</div> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-o.jpg" width="100" height="100" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">O rei D. João, de Portugal, não -perdia de vista os manejos da -côrte de Castella, que, tendo -fallecido o rei de Navarra, procurava -reunir os differentes Estados ao norte -da Peninsula, pedindo para o principe -D. João a mão de D. Catharina, em quem -recahira a successão do reino de Navarra.</p> - -<p>Assim, D. João <span class="allsmcap">II</span> não duvidava ir arrancar -á clausura monastica a <i>Beltraneja</i>, para -a aproveitar como ameaça que contivesse -em respeito e desconfiança os reis catholicos. -A isso se refere um breve do papa -Innocencio <span class="allsmcap">VIII</span>, do anno de 1487, a que<span class="pagenum"><a id="Page_216"></a>[216]</span> -Clemencin e Lopes de Mendonça alludem, -mas que não nos consta haja sido publicado -na integra em portuguez. Porisso o damos -á estampa:</p> - -<p>«... Tendo chegado ha pouco ao nosso conhecimento, -que alguns perversos, cobiçosos -de alterar a paz mencionada, não receiam -persuadir a Joanna, filha duvidosa -do rei Henrique, e sua herdeira, que, largando -o habito religioso que tomou, saia do -mosteiro e volte para a vida secular, e, -abjurando da profissão por ella tão solennemente -feita, e com fingidas desculpas -de medo, e de protestos, que aliás affirma -ter feito contra a primeira asserção já dicta, -se intitule rainha dos citados reinos, e -assim queira ser pelos outros intitulada, e -que para a induzirem a um tal fim não duvidam -dar-lhe o nome e titulo de rainha; e -sendo certo que das frequentes e continuadas -suggestões de taes individuos, a citada -Joanna algumas vezes com a importuna -instancia se deixa vencer, e, ou seja para -agradar aos mesmos que a persuadem, e -parecer que acredita tudo quanto elles lhe -dizem e pretendem gravar-lhe na mente, -ou seja por outro motivo, larga o véo negro<span class="pagenum"><a id="Page_217"></a>[217]</span> -que tomara, e com o qual tão patente -e publicamente se desposou com Jesus -Christo, que é o mais excellente de todos -os filhos dos homens, e ficou sendo consagrada -ao Senhor, tanto dentro como fóra -do mosteiro, no qual vivia, e se intitula e -faz intitular rainha dos referidos reinos, -como lhe persuadiam, com perigo das almas -da mesma Joanna e dos que assim a -aconselhavam, e com pernicioso exemplo e -escandalo de muitos: nós, pois, que ardentemente -desejamos, com o auxilio da divina -clemencia, que entre os mencionados reis -de Hespanha e de Portugal, invictos defensores -da fé catholica n’aquelles Estados, a -mencionada paz se consolide e vigore em -todos os tempos futuros para incremento -da fé catholica, por cuja exaltação um d’elles -atacando o reino de Granada, e o outro, -segundo o costume dos catholicos reis -seus progenitores, passando com seus subditos -para as regiões da Africa, trabalham -com zelo inquebrantavel por combater com -os infieis, e por dilatar a mesma fé; receando -que, se acontecesse que as anteriores -discordias entrassem a lavrar entre os mencionados -reis, estes tivessem occasião de<span class="pagenum"><a id="Page_218"></a>[218]</span> -desistir das luctas por elles respectivamente -emprehendidas contra os mesmos infieis, -e de se afastarem de tão salutifera obra, -dando ensejo aos infieis não só de se apoderarem -de novo d’aquelles logares que já -lhes tinham sido arrancados pelos referidos -reis, senão de invadirem hostilmente os logares -circumvisinhos, habitados pelos fieis, -saquearem-n’os e sujeitarem-n’os áquella -enxovalhadissima raça, com grande mortandade -e perda dos christãos: por motu -proprio, e não a pedido dos referidos rei -Fernando e rainha Isabel, ou d’alguem em -nome d’elles, mas de nossa mera deliberação, -confirmamos e approvamos por auctoridade -apostolica a mencionada profissão -tão solennemente feita pela referida Joanna, -e todas e cada uma das materias a ella -respectivas, que se encontram exaradas nos -mencionados instrumentos, e quantas d’ellas -se derivarem, se forem legitimamente -feitas, e só nos termos em que o forem, e -as corroboramos com a força do presente -escripto, e supprimos todas e quaesquer -faltas, se porventura algumas houve relativamente -ás solennidades d’este acto; e com -os dictos motu proprio e auctoridade ordenamos<span class="pagenum"><a id="Page_219"></a>[219]</span> -estrictamente á mesma Joanna, que -não vá de encontro á dicta profissão por -ella tão solennemente feita, voltando de -facto para o seculo, nem saia do mosteiro -das freiras de Santarem da dicta ordem, -para o qual ultimamente se passou, nem -mesmo por pouco tempo, a não ser por algumas -das causas pelas quaes os institutos -regulares da referida ordem o permittem -ás freiras professas n’ella, voltando para -elle logo que taes causas cessem; não podendo -dentro ou fóra do seu mosteiro largar -o veo e habito da mencionada ordem, -nem intitular-se rainha, ou fazer ou permittir -que assim pelos outros seja intitulada. -E a todos e a cada um dos christãos de -qualquer estado, grau, ordem ou condição -que sejam, e em qualquer ordem ecclesiastica, -até mesmo episcopal, archiepiscopal, -e cardinalicia, ou mundana, até mesmo de -rei ou de rainha que figurem, prohibimos -com o mesmo motu proprio e auctoridade -que sob qualquer pretexto manifesta ou -occultamente, directa ou indirectamente, por -si, por outro ou por outros, persuadam á -mesma Joanna que saia do referido mosteiro -e ordem, e que volte para o seculo,<span class="pagenum"><a id="Page_220"></a>[220]</span> -e se trate como secular, e que impugne a -profissão por ella feita, e para este fim lhe -prestem por qualquer modo auxilio, conselho -ou favor, ou a intitulem rainha ou a -façam assim intitular, quer verbalmente, -quer por escripto de qualquer fórma, sob -pena d’interdicto, de prohibição d’entrada -em egreja, suspensão dos actos divinos e -dos governos das suas egrejas, se forem -bispos e superiores; e se inferiores d’ellas, -e ecclesiasticos e seculares pertencentes ás -ordens militares e a quaesquer ordens isentas -e não isentas, sob pena de excommunhão, -e tambem da privação das egrejas, -mosteiros, priorados, preceptorias, dignidades, -personados,<a id="FNanchor_68" href="#Footnote_68" class="fnanchor">[68]</a> administrações ou officios, -etc., devendo incorrer em sentenças, -censuras e penas, das quaes não poderão -ser absolvidos senão em artigo de morte, -e dada antes a devida satisfacção, etc. -(<i>Addicionaram-se instrumentos publicos a -15 de novembro de 1480 contendo os votos -feitos por D. Joanna, nos quaes tambem<span class="pagenum"><a id="Page_221"></a>[221]</span> -se descrevem os sagrados ritos então -guardados</i>). Dada em Roma, em S. Pedro, -a 24 de junho, anno da Encarnação do Senhor -1487, e terceiro do nosso pontificado.»<a id="FNanchor_69" href="#Footnote_69" class="fnanchor">[69]</a></p> - -<p>Não podemos deixar de notar, com Clemencin, -a habilidade com que este breve -está redigido, porisso que, apontado contra -D. João <span class="allsmcap">II</span>, evita dirigir-se-lhe directamente, -antes elogia o rei de Portugal pelo seu infatigavel -zelo em continuar a guerra na -Africa contra os infieis.</p> - -<p>Isabel a Catholica, mulher de espirito -superior, conhecia perfeitamente a estatura -moral do seu antagonista. Porisso foi -inclinando os acontecimentos a uma solução -pacifica, procurou approximar-se, quanto -poude, de D. João <span class="allsmcap">II</span>, o qual não duvidou -enviar-lhe um navio carregado com -todos os aviamentos de que os reis de Castella -precisavam para sustentar a guerra de -Granada.</p> - -<p>O principe portuguez D. Affonso havia -chegado aos quatorze annos, e a infanta -D. Isabel, filha dos reis catholicos, estava<span class="pagenum"><a id="Page_222"></a>[222]</span> -ainda solteira. D. João <span class="allsmcap">II</span> mandou perguntar -se havia idéa de manter o antigo contracto -de casamento. A resposta, vinda de -Castella, fôra affirmativa. Portugal era para -Castella um mau visinho, que importava -ter em segurança. Convinha liquidar, de -uma vez para sempre, a interminavel questão -da <i>Beltraneja</i>.</p> - -<p>Toda a gente sabe a pompa com que se -realizou o casamento do principe portuguez -D. Affonso com a infanta castelhana -D. Isabel. Excusamos demorar-nos n’este -ponto. Toda a gente sabe tambem quão -breve fôra a felicidade conjugal dos jovens -esposos, subitamente anniquilada pelo desastre -que victimara em Santarem o principe -D. Affonso, morrendo arrastado pelo -cavallo que montava.</p> - -<p>Garcia de Rezende recorda na <i>Miscellanea</i> -a rapida mutação das alegrias do noivado -em prantos e tristezas inesperados:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0">Era de dezeseis annos</div> - <div class="verse indent0">e casado de oito mezes,</div> - <div class="verse indent0">perfeito entre os mundanos,</div> - <div class="verse indent0">mui quisto dos castelhanos,</div> - <div class="verse indent0">descanço dos portuguezes.</div><span class="pagenum"><a id="Page_223"></a>[223]</span> - <div class="verse indent0">Uma triste terça-feira,</div> - <div class="verse indent0">correndo uma carreira</div> - <div class="verse indent0">em um cavallo, cahiu.</div> - <div class="verse indent0">Nunca falou nem buliu,</div> - <div class="verse indent0">e morreu d’esta maneira.</div> - </div> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0">Por sua grã formosura</div> - <div class="verse indent0">foi no mundo nomeado</div> - <div class="verse indent0">angelica creatura.</div> - <div class="verse indent0">Nunca foi tal desventura,</div> - <div class="verse indent0">nem principe tão amado;</div> - <div class="verse indent0">em Castella e Portugal</div> - <div class="verse indent0">foi tão sentido seu mal,</div> - <div class="verse indent0">tão chorado em toda a Hespanha,</div> - <div class="verse indent0">que foi tristeza tamanha,</div> - <div class="verse indent0">que se não viu outra tal.</div> - </div> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0">Vi a princeza tornar</div> - <div class="verse indent0">bem a revez do que veio.</div> - <div class="verse indent0">Coisa muito de espantar</div> - <div class="verse indent0">tão grã pressa, tal mudar</div> - <div class="verse indent0">do tempo, tão grão rodeio!</div> - <div class="verse indent0">Entrou a mais triumphosa,</div> - <div class="verse indent0">mais real, mais grandiosa</div> - <div class="verse indent0">que nunca se viu entrada;</div> - <div class="verse indent0">sahiu mui desesperada,</div> - <div class="verse indent0">mui triste, muito chorosa.</div> - </div> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0">Entrou com mil alegrias,</div> - <div class="verse indent0">sahiu com grandes tristezas.</div> - <div class="verse indent0">Tanto oiro e pedrarias</div> - <div class="verse indent0">não se viu em nossos dias,</div> - <div class="verse indent0">nem taes gastos, taes riquezas;</div><span class="pagenum"><a id="Page_224"></a>[224]</span> - <div class="verse indent0">as galantes invenções</div> - <div class="verse indent0">se tornaram em paixões,</div> - <div class="verse indent0">os brocados em saial,</div> - <div class="verse indent0">o prazer grande, geral</div> - <div class="verse indent0">em nojos, lamentações.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p>Os partidarios da <i>Beltraneja</i> viram na -desastrosa morte do principe D. Affonso o -dedo de Deus, o castigo do céo. Dil-o claramente -Duarte Nunes de Leão na <i>Chronica -de D. Affonso V</i>:</p> - -<p>«... não tardou, que quando o principe -D. João, d’ahi a pouco já feito rei, casou o -principe com tantos gostos, e tantas esperanças, -no meio dos contentamentos, e das -maiores festas do mundo, viu seu unico filho, -que elle tão ternamente amava, morto, -e arrastado de um cavallo, á vista da mesma -senhora D. Joanna, que do mosteiro o -podia ver deitado em uma pobre cama de -palha de um pescador, onde acabou... tomando -Deus, segundo a todos pareceu, por -aquella afflicta mulher a vingança.»</p> - -<p>Em verdade, dadas as crenças supersticiosas -da epocha, tudo fazia acreditar que a -morte do principe D. Affonso fôra a justa -punição dos repetidos sacrificios impostos -a D. Joanna, principalmente por D. João <span class="allsmcap">II</span>.<span class="pagenum"><a id="Page_225"></a>[225]</span> -Em Santarem vira ella cahir aos pés do altar -os seus formosos cabellos, e deante de -si o vulto sereno e frio de D. João; agora, -tambem em Santarem, era o rei que chorava -deante do cadaver do filho, como se -a Providencia houvesse querido vingar o -passado na pessoa innocente do principe.</p> - -<p>«Nem os reis de Castella, prosegue Duarte -Nunes, ficaram depois sem seu quinhão -de castigo; porque o seu filho varão, unico -herdeiro de tantos reinos, na flor de sua -edade, já casado, sem deixar successão, quasi -no tempo em que com a senhora D. -Joanna seus paes o prometteram casar, falleceu... -E a princeza D. Isabel, filha maior -dos dictos reis, cortados seus cabellos, e -vestida de pannos de burel, triste e anojada, -se viu em termos de tomar por vontade -a vida, que á senhora D. Joanna fizeram -tomar por força, se com pregações a -não converteram; mas sua vida foi de pouco -tempo.»</p> - -<p>Tambem Ruy de Pina, em linguagem dulcificada -por toques de maviosa tristeza, procura -pôr em evidencia o castigo do céo, -vendo resvalar ao tumulo os primogenitos -de Portugal e Castella, e <i>trocados os brocados<span class="pagenum"><a id="Page_226"></a>[226]</span> -ricos, e hollandas delgadas</i> que trouxera -a infanta D. Isabel, <i>com pobre burel -e grossa estopa em que foi logo vestida</i>, -depois da morte de D. Affonso; <i>nem ficaram -por cortar seus cabellos doirados com -accidental proposito de religião</i>.</p> - -<p>A punição parecia haver sido ordenada -em identicas circumstancias do delicto. Nem -o episodio dos cabellos falta; em Santarem, -as duas primas houveram de despojar-se -das suas tranças, uma para tomar o véo de -monja, a outra para tomar o véo de viuva. -<i>É o dedo de Deus!</i> dizia-se então. E a -phrase ficou como uma synthese dos factos, -que em verdade parecem providencialmente -dispostos.</p> - -<p>Passaria no forte espirito de D. João <span class="allsmcap">II</span>, -alguma vez, a idéa de que a morte de seu -filho fôra realmente um castigo do céo?</p> - -<p>Eis o que ninguem póde saber ao certo.</p> - -<p>A verdade é que o rei sustentava, com -grandeza, a casa da <i>Excellente Senhora</i>, -no seculo. Nas <i>Provas da historia genealogica</i><a id="FNanchor_70" href="#Footnote_70" class="fnanchor">[70]</a> -vem a relação das pessoas de que -se compunha a casa de D. Joanna, e por<span class="pagenum"><a id="Page_227"></a>[227]</span> -essa relação se vê que não tinha menos -de oito damas, nove moças de camara, sendo -duas moiras, quatro donas, oito capellães -e cantores, seis moços de capella, sete -moços da camara, quatro estribeiros, dois -reposteiros, afóra veador, contador, thesoireiro, -comprador, mantieiro, cozinheiro, lavadeira, -alfaiate, physico e cirurgião.</p> - -<p>A dotação de D. Joanna, consignada no -orçamento geral do Estado (despesa ordinaria) -em 1478, era de 1:400$000 réis.</p> - -<p>Onde habitava em Lisboa D. Joanna? Não -pudemos averiguar. Sabe-se apenas que no -reinado de D. João <span class="allsmcap">II</span> residia no Paço do -Castello, e que ahi falleceu, se bem que o -documento d’essa epocha, a que nos encostamos, -e a que ainda teremos de alludir, -diga: <i>onde ora poisa a serenissima senhora</i>, -o que faz suppor que nem sempre residira -alli quando estava fóra do convento. -Mais adeante veremos que houve idéa de -se construir um palacio para sua residencia.</p> - -<p>Como se sabe, D. João <span class="allsmcap">II</span>, morto o principe -D. Affonso, empregou os maiores esforços -para deixar por herdeiro da coroa -D. Jorge de Lencastre, seu filho natural.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_228"></a>[228]</span></p> - -<p>Em segredo mandou a Castella pedir -para elle a mão da filha mais nova dos -reis catholicos, D. Catharina, encarregando -d’esta missão Lourenço da Cunha. Com -este casamento julgava D. João <span class="allsmcap">II</span> garantir -melhor a posição futura do bastardo.</p> - -<p>Quando Lourenço da Cunha chegou á -côrte castelhana, estava D. Fernando doente, -mas a rainha despachava os negocios. -Foi, pois, ella que recebeu o embaixador -portuguez, o qual apresentou o pedido de -D. João <span class="allsmcap">II</span>. A rainha respondeu, que sua -filha não, mas que el-rei seu senhor tinha -uma filha bastarda, que lhe daria. Então -Lourenço da Cunha replicou altivamente:</p> - -<p>—Senhora, el-rei meu senhor não pretende -tanto aparentar-se com el-rei D. Fernando -como com vossa alteza; porisso, se -vossa alteza tem outra filha bastarda, elle -a tomará para seu filho.</p> - -<p>Quando Lourenço da Cunha recolheu a -Portugal, D. João <span class="allsmcap">II</span> premiou-lhe o procedimento, -fazendo-lhe mercê de uma commenda -de Beja, Serpa e Moura, tão vasta, -que depois poude ser dividida em tres.</p> - -<p>Todos estes factos não passavam de leve -pelo espirito da rainha D. Isabel, sempre<span class="pagenum"><a id="Page_229"></a>[229]</span> -receosa de D. João <span class="allsmcap">II</span>. Apesar da ousada -resposta do embaixador portuguez, e do -acolhimento que lhe fez D. João, as relações -entre os dois paizes não foram interrompidas; -pelo contrario, pensou-se em seguir, -por parte de Castella, o conselho do -cardeal de Hespanha, de que convinha casar -agora mais do que nunca o principe -D. João com a <i>Excellente Senhora</i>. Em -1494, Fernando e Isabel não duvidavam -assignar o celebre tratado, feito com D. -João <span class="allsmcap">II</span>, sobre o que tocaria a cada uma das -duas coroas do que estava por descobrir -no mar oceano.<a id="FNanchor_71" href="#Footnote_71" class="fnanchor">[71]</a> E um anno depois, quando -D. João <span class="allsmcap">II</span> morria, porventura envenenado -por mestre João de Mazagão combinado -com o duque de Beja,<a id="FNanchor_72" href="#Footnote_72" class="fnanchor">[72]</a> a rainha Isabel -de Castella resumia n’uma só phrase toda -a biographia d’esse rei cujo caracter de -ferro ella perfeitamente conhecera: «Morreu -<i>o homem</i>!» exclamara D. Isabel ao saber -do fallecimento de D. João <span class="allsmcap">II</span>.</p> - -<p>Pois bem! Elle, o forte, o <i>homem</i>, não -esqueceu no seu testamento a fragil creatura<span class="pagenum"><a id="Page_230"></a>[230]</span> -que dobrara, como um vime, ao sabor -da sua vontade poderosa.</p> - -<p>Uma disposição testamentaria diz:</p> - -<p>«Item, ao dicto duque meu primo (D. -Manuel) encommendo e rogo que honre e -trate bem a <i>Excellente Senhora</i>, minha prima, -e que sempre a tenha bem e honradamente -como pertence á pessoa que é, e -que foi, e do que lhe é posto para sua -mantença lhe não seja tirado nada em seus -dias, estando ella na maneira em que ora -está.»</p> - -<p>D. Manuel não era homem que se preoccupasse -com castigos do céo quando -queria fazer a sua vontade; estava enamorado -da viuva do principe D. Affonso, da -filha mais velha dos reis catholicos, e tratou -de negociar o casamento sem se importar -com <i>o dedo de Deus</i>, que bem poderia -descer pela segunda vez a impor-se -sobre a cabeça da bella castelhana.</p> - -<p>Sabe-se que a infanta resistira a principio, -e que por fim annuira pondo por condição -que fossem expulsos de Portugal os -judeus e os moiros, desatino economico -que D. Manuel não duvidou praticar.</p> - -<p>Os reis de Castella tinham cinco filhos,<span class="pagenum"><a id="Page_231"></a>[231]</span> -a saber: D. João, casado com Margarida -d’Austria, e as infantas D. Isabel, D. Joanna, -D. Maria e D. Catharina.</p> - -<p>Ao tempo do casamento de D. Manuel -com a princeza castelhana, o principe D. -João estava gravemente doente, achava-se -n’um estado desesperado; porisso, visto que -D. Manuel tanto queria apressar essa união, -a sua noiva foi acompanhada até á fronteira -pela rainha Isabel, ficando D. Fernando -a acompanhar o principe enfermo, quasi -moribundo.</p> - -<p>Justamente na occasião em que os actos -religiosos se realizavam em Valencia d’Alcantara, -chegou noticia do fallecimento do -infante D. João, o que fez aguar as poucas -festas que estavam preparadas: poucas por -attenção ao desgosto que por motivo da -doença do infante havia na côrte de Castella.</p> - -<p>Ora, morrendo o herdeiro da coroa de -Fernando e Isabel, os direitos de successão -passavam ao segundo filho, a infanta -D. Isabel. Esta idéa não podia deixar de -preoccupar um espirito tão ambicioso como -o do successor de João <span class="allsmcap">II</span>. Mas, por occasião -da morte de seu marido, D. Margarida<span class="pagenum"><a id="Page_232"></a>[232]</span> -ficara gravida de sete mezes. Eis aqui uma -contrariedade para quem não fosse tão feliz -como D. Manuel. Para este homem venturoso, -porem, todas as difficuldades desappareciam: -D. Margarida dera á luz uma -creança morta. Portanto, aqui temos D. Manuel -e sua esposa com direito a intitularem-se, -como de facto fizeram, principes de -Castella, Leão e Aragão.</p> - -<p>A fim de serem jurados como taes, era -preciso irem a Castella. As côrtes nacionaes, -com a concentração do poder real, -realizada por D. João <span class="allsmcap">II</span>, tinham perdido -muito da sua importancia, mas era este um -dos casos em que havia mister reunil-as. D. -Manuel convocou-as portanto para Lisboa, -n’esse anno de 1498, e as côrtes auctorizaram -effectivamente a ida dos soberanos a -Castella.</p> - -<p>Com effeito, a 29 de março d’esse anno, -D. Manuel e sua esposa partiam com -grande e luzido sequito de pessoas nobres, -ficando encarregada da regencia do reino -a rainha viuva D. Leonor.</p> - -<p>Logo que chegaram á fronteira de Castella, -os reis de Portugal foram recebidos -pelo duque de Medina Sidonia, com apparatoso<span class="pagenum"><a id="Page_233"></a>[233]</span> -cortejo de fidalgos, e assim acompanhados -até Toledo, onde os reis catholicos -esperavam, e onde D. Manuel e D. Isabel -foram, na Sé d’aquella cidade, jurados por -principes herdeiros dos reinos de Castella -e Leão.</p> - -<p>Passados alguns dias, tanto Fernando e -Isabel, como D. Manuel e sua esposa, partiram -para o Aragão, a fim d’estes ultimos -serem jurados em Saragoça, mas sobrevieram -inconvenientes com que não contavam, -e que impediram a immediata realização da -ceremonia que alli os levava.</p> - -<p>«Feita a entrada, escreve Goes, quizera -el-rei D. Fernando, que logo ao outro dia, -que era domingo, jurassem os principes, -mas os aragonezes lh’o não consentiram por -então, sobre o que houve muitas altercações, -excusando-se a el-rei, que não podiam -fazer tal juramento sem serem presentes os -deputados de Valença e Barcellona, sobre -o que el-rei D. Fernando tornou a apertar -com elles; por fim lhe responderam, que -jurariam os principes se lhes elle de novo -confirmasse alguns privilegios, que lhe tinha -quebrado, do que os el-rei desenganou, -sem lhes querer conceder o que pediam,<span class="pagenum"><a id="Page_234"></a>[234]</span> -nem elles menos jurar os principes, -no que se passaram muitos desgostos e -paixões, <i>por espaço de tres mezes</i>. D’estas -differenças uma das principaes foi dizerem -que no reino não podia succeder femea, senão -varão, e que este havia de ser por eleição -dos Estados do reino, quando Deus ordenasse -não deixar el-rei filho varão herdeiro, -e que para jurarem a princeza elles -o não podiam fazer sem os de Valença e -Barcellona, que por só este respeito dilatavam -sua vinda, o que era signal manifesto -de não quererem consentir no tal juramento...»</p> - -<p>Este facto é interessante e importante considerado -como symptoma de reacção do -espirito nacional contra a vontade imperiosa -da coroa, que, n’aquelle tempo, em toda -a Peninsula hespanica se havia aureolado -de extranho prestigio, graças a D. João <span class="allsmcap">II</span> -em Portugal, e a Fernando e Isabel em -Castella.</p> - -<p>Succedeu então que a rainha D. Isabel, -mulher de D. Manuel, deu á luz em Saragoça -um filho varão, que recebeu o nome -de Miguel, e que desde logo foi considerado -o herdeiro presumptivo dos reinos de<span class="pagenum"><a id="Page_235"></a>[235]</span> -Portugal, Castella, Leão, Sicilia e Aragão, -facto este que veiu pôr termo ás reluctancias -até ahi apresentadas pelos de Aragão. -Mas o nascimento d’este principe custou a -vida a sua mãe, que foi sepultada no mosteiro -de S. Jeronymo, em Saragoça. D. Manuel -ainda se demorou alguns dias no Aragão, -até que, viuvo, regressou a Portugal -no mez de setembro d’esse anno (1498).</p> - -<p>O infante D. Miguel foi acclamado e jurado -em Castella e no Aragão, e, para que -tambem o fosse em Portugal, convocou D. -Manuel os tres Estados para o mez de março -de 1499. Reunidas as côrtes, não quizeram -ellas jurar sem que o rei lhes promettesse, -em nome do principe seu filho, que -nunca o regimento da justiça e fazenda do -reino, e senhorios de Portugal, em qualquer -tempo, e por qualquer caso, seria dado -nem concedido senão a portuguezes, e o -mesmo a respeito das capitanias dos logares -de Africa, e alcaiderias-móres das villas -e castellos, o que el-rei concedeu.</p> - -<p>Quantas vezes, pois, estivera o reino de -Portugal para fundir-se com o de Castella -em consequencia de allianças politicas e pessoaes, -as mais das vezes tendo por origem<span class="pagenum"><a id="Page_236"></a>[236]</span> -um casamento! Chega a ser assombroso -que todas essas combinações se mallograssem -alfim, e que Portugal mantivesse a sua -independencia, apenas estrangulada n’um -periodo de sessenta annos, relativamente -pequeno se attendermos á longa historia -d’essas combinações, e ainda mesmo á fundação -da nossa nacionalidade.</p> - -<p>Garcia de Rezende diz:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0">Vimos Portugal, Castella</div> - <div class="verse indent0">quatro vezes adjuntados</div> - <div class="verse indent0">por casamentos liados</div> - <div class="verse indent0">principe natural d’ella</div> - <div class="verse indent0">que herdava todos reynados,</div> - <div class="verse indent0">todos vimos fallecer,</div> - <div class="verse indent0">em breve tempo morrer</div> - <div class="verse indent0">e nenhum durou tres annos,</div> - <div class="verse indent0">portuguezes, castelhanos</div> - <div class="verse indent0">já os Deus quer juntos ver.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p>Refere-se Rezende a Affonso <span class="allsmcap">V</span>, a seu -neto D. Affonso, a D. Manuel e ao principe -D. Miguel, que falleceu em Granada -com vinte e dois mezes de edade, mallogrando-se -assim, ainda d’esta vez, o projecto -de unificação das coroas de Portugal e -Castella.</p> - -<p>Ao passo que Fernando e Isabel procuravam<span class="pagenum"><a id="Page_237"></a>[237]</span> -separar da causa da <i>Beltraneja</i> a -familia real portugueza, a Providencia parecia -querer desconcertar as combinações -e os calculos da politica: o nascimento do -infante D. Miguel custava a vida de sua -mãe, e o proprio infante morria tambem -d’ahi a pouco tempo.</p> - -<p>Sempre debaixo do mesmo ponto de vista, -pactuou-se o casamento de D. Maria, -terceira filha dos reis catholicos, com o -viuvo D. Manoel.</p> - -<p>D’esta vez a Providencia permittiu que -D. Maria vivesse, e désse á luz um verdadeiro -enxame de filhos. É que a Providencia -parecia reservar para D. Joanna, a pobre -<i>Beltraneja</i>, uma compensação muito -maior, uma desforra completa e cabal.</p> - -<p>Oiçamos um escriptor hespanhol, Clemencin, -no mais completo estudo que se -tem escripto em Hespanha ácerca dos reis -catholicos. O testemunho é, portanto, de -todo o ponto insuspeito; porisso o reproduzimos -na integra:</p> - -<p>«Foi opinião de alguns, segundo Zurita, -que antes da rainha D. Isabel fallecer, seu -marido lhe prometteu, sob juramento, não -casar outra vez. Sem embargo, a pouco<span class="pagenum"><a id="Page_238"></a>[238]</span> -trecho da sua morte, entabolou o rei viuvo -esta negociação (<i>tratar do seu casamento -com a Excellente Senhora</i>), enviando para -ella a Portugal D. Rodrigo Manrique. O -objecto de tão extranha solicitude, que -desde logo afearam os parciaes do rei D. -Philippe, o <i>Formoso</i>, e que, como adverte o -mesmo Zurita que não póde suspeitar-se -de desaffecto ao rei catholico, se divulgou -mais do que este quizera, era patente e -manifesto: tomar a parte dos direitos de D. -Joanna, fazel-os valer contra os filhos que -tinha tido de sua primeira mulher, despojal-os -da herança de Castella, e vingar-se -assim de Philippe e dos grandes castelhanos, -que no maior numero preferiam o -partido do genro ao do sogro.</p> - -<p>«São incalculaveis os disturbios, guerras -civis e damnos que teriam resultado d’este -projectado casamento, se se houvesse realizado; -mas por fortuna de Hespanha, <i>D. -Joanna não deu ouvidos á proposta do rei -D. Fernando, fosse aversão ao estado de -matrimonio ou á pessoa do pretendente, -a quem não podia deixar de olhar como -um dos principaes auctores de suas desgraças</i>. -Interveiu provavelmente na resolução<span class="pagenum"><a id="Page_239"></a>[239]</span> -de D. Joanna o influxo da rainha de -Portugal, D. Maria, a quem não podia -agradar este casamento, não só em respeito -á memoria de sua defuncta mãe, D. Isabel, -nem em attenção a sua irmã que tinha -succedido nos reinos de Castella, mas tambem -em consideração aos seus proprios direitos -e aos de seus filhos.</p> - -<p>«Mui curto espaço de tempo deveu medear -entre o projecto de casamento do rei -catholico, e a morte de D. Isabel, occorrida -a 26 de novembro de 1504. Para janeiro -seguinte convocou côrtes o rei D. Fernando, -na cidade de Touro, cuja proximidade -de Portugal, e a maior facilidade de -negociar e ajustar d’ahi o novo enlace, foram, -segundo as apparencias, a causa da -escolha do sitio. O certo é que, tendo-se -encerrado as côrtes em meado de fevereiro, -o rei, por seguir mais de perto as negociações -com Portugal, como diz Zurita, -continuou em Touro até ao fim de abril, -em que se retirou para o interior de Castella; -e isto denuncía que já então estava -desvanecido e mallogrado o negocio.»</p> - -<p>Em verdade, a escarnecida <i>Beltraneja</i>, a -chasqueada <i>Monja</i>, não poderia imaginar<span class="pagenum"><a id="Page_240"></a>[240]</span> -mais completa desforra, do que a de ver -humilhado a seus pés o rei catholico, o -viuvo de Isabel, pedindo-lhe que consentisse -em desposal-a!</p> - -<p>A grandeza da reparação só é comparavel -á grandeza do desdem com que essa -solicitação foi recebida, tanto mais que o -espirito de D. Joanna não conseguiu nunca -transigir com a alienação dos seus direitos, -reaes ou suppostos, com a abdicação de -todas as mundanidades ostentosas, de todas -as honras e titulos com que julgava -poder condecorar-se.</p> - -<p>Ella considerava-se <i>rainha</i>, ainda quando -rejeitava a mão de um rei; ella continuava -a assignar-se rainha, ainda quando -se recusava a subscrever um contracto de -casamento com o viuvo de Isabel a Catholica.</p> - -<p>A sua nobre altivez levou-a por certo a -recusar essa união, a preferir conservar-se -solteira, <i>rainha sem reino</i>, e moça de trinta -e tres annos apenas.</p> - -<p>Vira desdenhosa afastar-se o vulto de -mais esse noivo, como já tinha visto esfumarem-se -no horizonte longinquo das suas -recordações os vultos de tantos outros noivos,<span class="pagenum"><a id="Page_241"></a>[241]</span> -o infante D. Affonso, de Castella, o -duque de Guiena, D. Fradique, de Napoles, -D. Henrique, de Aragão, D. Affonso <span class="allsmcap">V</span>, -de Portugal, o principe D. João, de Castella, -o rei de Navarra, Francisco Phebo!..</p> - -<p>Uma cohorte de noivos... platonicos, -que nem sequer com o halito chegaram a -macular a sua grinalda virginal de flores -de laranjeira...</p> - -<p>E a morte, respeitando-a a ella, a todos -foi ceifando.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_242"></a>[242]</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_243"></a>[243]</span></p> - -<h2 class="nobreak">X<br /> -<span class="smaller">SEM PAZ NO TUMULO!</span></h2> - -</div> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-e.jpg" width="100" height="100" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">El-rei D. Manuel recommenda no -seu testamento a <i>Excellente Senhora</i>, -como já o fizera o seu -antecessor: «Item, pelo conjuncto -devido que tenho com a mui Excellente -Senhora minha prima, e por suas muitas virtudes, -e pela obrigação em que por estes -respeitos lhe são, e pelo carrego que d’ella -e de todas suas coisas com razão o rei de -Portugal deve em todo tempo ter, encommendo -muito ao principe meu filho, que -sempre d’ella e de sua consolação tenha -mui grande e especial carrego, visitando-a -e honrando, e tratando como ella o merece,<span class="pagenum"><a id="Page_244"></a>[244]</span> -por todas as razões sobredictas, e em -todas suas coisas seja alli tratada como eu -sempre folguei de o fazer, e é razão que -assim se lhe faça, e aos deputados ao governo -encommendo e mando que emquanto -no governo estiverem lhe façam mui inteiramente -pagar os dinheiros que tem de -seu assentamento, e n’aquella propria fórma -e maneira que agora se lhe faz, e se -melhor lhe puder fazer, assim será mui -bem que lhe seja feito, e muito lhe encommendo -que de isso, e de todo o que -lhe cumprir tenham grande e especial cuidado, -e entre os mais principaes, isto lhe -encommendo muito em especial.»</p> - -<p>Um anno depois da morte de D. Manuel, -isto é, em 1522, a <i>Excellente Senhora</i>, intitulando-se -rainha de Castella, fez doação -solenne de todos os seus direitos a el-rei -D. João <span class="allsmcap">III</span>, considerando-o como seu filho -legitimo, e universal herdeiro, visto ser «já -em tanta edade constituida que não era tempo -para haver de casar, nem poder haver -filho natural legitimo descendente, que os -dictos seus reinos e senhorios por seu fallecimento -haja de herdar».</p> - -<p>D. João <span class="allsmcap">III</span>, que presente estava, acceitou,<span class="pagenum"><a id="Page_245"></a>[245]</span> -e recebeu, e prometteu ter e manter os dictos -reinos e senhorios de que a <i>Excellente -Senhora</i> lhe fazia doação.</p> - -<p>Foram testemunhas d’este acto o barão -de Alvito, veador da fazenda real, Luiz da -Silveira, do conselho de el-rei e seu guarda-mór, -e Ruy Figueira, veador da fazenda -da mesma senhora.</p> - -<p>Subscreveu o auto o secretario Antonio -Carneiro.</p> - -<p>D. João <span class="allsmcap">III</span> approvou-o e confirmou-o.<a id="FNanchor_73" href="#Footnote_73" class="fnanchor">[73]</a></p> - -<p>A infeliz princeza ainda viveu oito annos. -Falleceu em Lisboa, no paço da Alcaçova -ou do Castello, no anno de 1530, com -sessenta e oito de edade.</p> - -<p>Do seu testamento, que existe na Torre -do Tombo, gaveta 16, maço I, n.º 2, dá copia -Antonio de Sousa nas <i>Provas da historia -genealogica</i>.<a id="FNanchor_74" href="#Footnote_74" class="fnanchor">[74]</a></p> - -<p>D. Joanna ordena que o seu corpo seja -amortalhado no habito de S. Francisco e -enterrado no mosteiro do Varatojo; deixa -cem mil réis para missas, outros cem para -resgate de vinte e dois escravos moiros e,<span class="pagenum"><a id="Page_246"></a>[246]</span> -finalmente, outros cem para os pobres e -orfans envergonhados. Á capella de Santa -Clara, de Evora, deixa oito mil réis para -uma missa diaria.</p> - -<p>A isto se limitam as suas disposições espirituaes.</p> - -<p>O resto são declarações de divida a differentes -damas de sua casa, de quantias que -lhes promettera quando casaram; declarações -de divida por emprestimos contrahidos -ou por serviços recebidos, e recommendações -ao rei de legados a varias pessoas -suas protegidas, entre as quaes as freiras -que tivera por criadas.</p> - -<p>D. Joanna assigna: <i>Yo la reyna</i>.<a id="FNanchor_75" href="#Footnote_75" class="fnanchor">[75]</a></p> - -<p>A desventurosa princeza morrera, pois, -abraçada ao seu titulo de rainha, que, a -bem dizer, nunca passara de uma ficção, -titulo sem realidade duradoira que lhe correspondesse -e o justificasse.</p> - -<p>N’uma mensagem ao rei, appensa ao testamento, -D. Joanna recorda que fôra requerida -para casar, e parece enviar-lhe documentos -relativos a essas negociações nupciaes<span class="pagenum"><a id="Page_247"></a>[247]</span>. -Dizem talvez respeito ao casamento -que lhe propuzera o viuvo de Isabel a Catholica. -Mas, se nos não enganamos, ainda -mais uma vez se revela a fidalga altivez de -D. Joanna, occultando o nome de Fernando.</p> - -<p>Por essa mesma mensagem se vê que o -rei lhe havia promettido mandar construir -casa propria, que lhe era muito necessaria, -<i>e logo,</i> expressão sua.</p> - -<p>D. Joanna fez, porem, um segundo testamento, -do qual encontramos noticia, em termos -que não admittem duvida, na <i>Historia -seraphica</i>. É para extranhar que nenhum -dos seus biographos mencionasse a noticia -a que nos referimos, e pela qual se vê que -a mallograda noiva de Affonso <span class="allsmcap">V</span> mudara de -tenção quanto ao logar que escolheu para -sepultura.</p> - -<p>«Diziam uns, escreve frei Manuel da Esperança, -que estava no sobredicto mosteiro -de Santarem (Santa Clara); outros, no de -Varatojo, como havia disposto no primeiro -testamento, que depois revogou. Porem -a todos desenganamos com a luz de uma -carta de el-rei D. Sebastião, a qual passou -em seu nome a rainha D. Catharina, -que governava por elle na sua menor edade,<span class="pagenum"><a id="Page_248"></a>[248]</span> -em 18 de fevereiro de 1558. Diz n’ella, -que sua tia a <i>Excellente Senhora ordenou -por seu testamento, que se dissessem para -sempre no mosteiro de Santa Clara, de -Lisboa, onde se mandou lançar, e tem sua -sepultura, seis missas cantadas em cada -anno</i>. E ordena, que a esmola das missas -e azeite para as duas alampadas, se pague -sempre pela fazenda real. Foi escondido -seu corpo dentro do seio da terra em a -casa do capitulo, e ainda que depois o trasladaram -para sepultura alta, nem porisso -(<i>tão esquecida a querem</i>) lhe puzeram ou -brazão ou epitaphio, que a dê a conhecer. -Só na pedra apparece este numero: 1545; -mas não declara se é o tempo da morte, se -o da trasladação. Defronte lhe fica uma vidraça, -na qual se vêem de pintura as nossas -quinas reaes, feita no anno 1541, como -ella mesma diz.»<a id="FNanchor_76" href="#Footnote_76" class="fnanchor">[76]</a></p> - -<p><i>Tão esquecida a querem!</i> pondera frei -Manuel da Esperança.</p> - -<p>Na sepultura d’essa mulher, que esteve -para cingir duas coroas, podendo dizer-se -que por alguns dias as cingiu, nem um<span class="pagenum"><a id="Page_249"></a>[249]</span> -brazão, nem um epitaphio; apenas uma data, -que suppomos ser a da trasladação!..</p> - -<p>Ao menos que, depois de tantos baldões, -lhe não podiam tolher a paz do tumulo, -porto seguro onde os naufragos do mundo -logram emfim descançar, por mais que os -vivos os esqueçam.</p> - -<p>Defronte do sepulcro, uma janella por -onde o sol entrava... Bem precisado estava -da amoravel visita da luz do céo o cadaver -d’essa princeza, que só conheceu na -terra a luz sinistra das procellas guerreiras -e das tempestades diplomaticas!</p> - -<p>Mas o seu destino obedecia a um mysterioso -e sinistro mobil, que nem na morte -lhe permittia gosar absoluto descanço.</p> - -<p>Vê-se pela carta regia de D. Catharina—que -todavia não pudemos encontrar na -Torre do Tombo, nem nas gavetas, nem na -collecção especial, nem no corpo chronologico—que -a <i>Excellente Senhora</i> se mandara -sepultar na egreja de Santa Clara, de -Lisboa.</p> - -<p>Ora esta egreja foi derrubada pelo grande -terremoto de 1755. Luiz Cardoso, no -<i>Diccionario geographico de Portugal</i>, manuscripto -existente na Torre do Tombo,<span class="pagenum"><a id="Page_250"></a>[250]</span> -diz, no tomo <span class="allsmcap">XX</span>, livro 2.º, que o convento -de Santa Clara ficou excessivamente damnificado -com o terremoto, e que a egreja -padeceu total ruina, ficando só em pé a parede -da parte do norte.</p> - -<p>Assim se perderam e confundiram nas -ruinas de Lisboa os restos mortaes da malfadada -princeza.</p> - -<p>Depois do terremoto, as freiras, sobreviventes, -de Santa Clara, passaram para o -convento da Esperança, levando comsigo o -que do seu cartorio poude ser salvo. Esses -papeis acham-se hoje na Torre do Tombo, -mas nada dizem com relação á <i>Excellente -Senhora</i>, que nem depois de morta tivera o -repoiso eterno concedido aos cadaveres!</p> - -<p class="tb">Ahi fica condensada, segundo os materiaes -fornecidos pelos escriptores castelhanos -e portuguezes, a biographia de uma -princeza notavel do seculo <span class="allsmcap">XV</span>, princeza que -foi causa e pretexto de muitos acontecimentos -politicos d’essa epocha, e que, rainha -sem reino, atravessou uma longa existencia -profundamente accidentada de desgostos -e contrariedades.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_251"></a>[251]</span></p> - -<p>Se as lagrimas, especialmente aquellas -que se reprimem com nobre heroicidade -pódem ser uma santificação, D. Joanna merece -uma pagina no martyrologio das grandes -dôres, no <i>Flos sanctorum</i> dos martyres, -nobres ou plebeus, de que a historia -conserva o nome.</p> - -<p>Cremos ser a primeira vez que se coordena -uma monographia, de maiores dimensões, -tanto quanto possivel completa, -ácerca da <i>Excellente Senhora</i> e do seu -tempo. Lopes de Mendonça ao fechar, nos -<i>Annaes das sciencias e lettras</i><a id="FNanchor_77" href="#Footnote_77" class="fnanchor">[77]</a>, um interessante -estudo sobre a batalha de Touro, -promettia publicar, <i>brevemente</i>, outro estudo -sobre a vida da princeza D. Joanna. A -promessa não poude ser cumprida. Procurámos -prehencher a lacuna, não certamente -como o teria feito Lopes de Mendonça, -mas como pudemos fazel-o. E se o publico -receber benevolamente este trabalho, novos -estudos historicos se lhe seguirão.</p> - -<p>Resta-nos apenas dizer que se conhece -um retrato, qualquer que possa ser a sua -authenticidade, da <i>Excellente Senhora</i>, copia<span class="pagenum"><a id="Page_252"></a>[252]</span> -do que se acha na arvore genealogica -de D. João <span class="allsmcap">I</span>, manuscripto n.º 12:531 do -<i>British Museum</i>, de Londres. É o que vem -nas <i>Rainhas de Portugal</i>, de Benevides, -tomo <span class="allsmcap">I</span>, pag. 286.</p> - -<p class="titlepage">FIM</p> - -<hr /> - -<h2>ERRATA IMPORTANTE</h2> - -<p>A <a href="#Page_124">pag. 124</a>, linha 15, sahiu por lapso, -<i>Tejo</i> em vez de <i>rio</i>, e este rio, como é facil -de ver pelo texto, não podia ser o Tejo, -mas sim o Douro, em cuja margem direita -assenta a cidade de Miranda (de que alli se -fala), fronteira a Hespanha.</p> - -<hr /> - -<div class="footnotes"> - -<div class="chapter"> - -<h2 class="nobreak">NOTAS</h2> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_1" href="#FNanchor_1" class="label">[1]</a> D. Affonso <span class="allsmcap">V</span> ordenou em 1456 que os restos -mortaes de sua mãe viessem para a egreja do mosteiro -da Batalha. Trouxeram-n’os Henrique <span class="allsmcap">IV</span> e D. -Joanna, quando vieram a Portugal para se avistarem -com Affonso <span class="allsmcap">V</span>, em Elvas.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_2" href="#FNanchor_2" class="label">[2]</a> <i>Provas da Historia genealogica</i>, tomo <span class="allsmcap">II</span>, pag. 18.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_3" href="#FNanchor_3" class="label">[3]</a> Damião de Goes, <i>Chronica do principe D. João</i>, -cap. <span class="allsmcap">XXXV</span>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_4" href="#FNanchor_4" class="label">[4]</a> A mão de D. Isabel, de Castella, era tambem solicitada -pelo principe D. Carlos, de Vianna.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_5" href="#FNanchor_5" class="label">[5]</a> O reino de Navarra passou da casa de Foix á casa -de Albret, pelo casamento de Catharina de Foix, herdeira -de Navarra, com João d’Albret (1484). Fernando, -o <i>Catholico</i>, rei de Castella e Aragão, arrebatou -a João d’Albret toda a Alta Navarra (1512), deixando-lhe -apenas a parte da Navarra situada ao norte dos -Pyrenéos, isto é, a Baixa Navarra.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_6" href="#FNanchor_6" class="label">[6]</a> Pina, <i>Chronica</i>, cap. <span class="allsmcap">CLIV</span>. Visconde de Santarem, -<i>Quadro elementar</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 363.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_7" href="#FNanchor_7" class="label">[7]</a> Pina, <i>Chronica</i>, cap. <span class="allsmcap">CLVII</span>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_8" href="#FNanchor_8" class="label">[8]</a> Dava-se o nome de <i>hermandades</i> a uma especie -de associações populares, que formavam entre si estas -ou aquellas povoações de uma provincia ou reino, -para se policiarem a si proprias, e defender-se das -extorsões dos reis e dos nobres. No reinado de Fernando -e Isabel, as <i>hermandades</i> foram organizadas e -regulamentadas officialmente, em beneficio commum -do throno e dos povos.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_9" href="#FNanchor_9" class="label">[9]</a> «Suponen algunos que la reina en este tiempo habia -tenido con un sobrino del arzebispo, llamado don -Pedro, flaquezas de la misma especie que las que antes -le habiam atribuido con don Beltran de la Cueva.» -Lafuente.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_10" href="#FNanchor_10" class="label">[10]</a> Visconde de Santarem, <i>Quadro elementar</i>, tomo -<span class="allsmcap">I</span>, pag. 366.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_11" href="#FNanchor_11" class="label">[11]</a> <i>Chronica do principe D. João</i>, cap. <span class="allsmcap">XXXVIII</span>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_12" href="#FNanchor_12" class="label">[12]</a> Veja-se o <i>Quadro elementar</i>, tomo <span class="allsmcap">I</span>, pag. 366.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_13" href="#FNanchor_13" class="label">[13]</a> Diogo Clemencin publica-a na integra. <i>Memorias -de la real académia de la historia</i>, tomo <span class="allsmcap">VI</span>, pag. 583.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_14" href="#FNanchor_14" class="label">[14]</a> Por este motivo ficaram os <i>ss</i> no escudo das suas -armas.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_15" href="#FNanchor_15" class="label">[15]</a> O padre Flores antecipa o casamento um dia: 18 -de outubro, diz elle.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_16" href="#FNanchor_16" class="label">[16]</a> O visconde de Santarem diz: 1471 a 1473. (Tom. -<span class="allsmcap">I</span> do <i>Quadro elementar</i>, pag. 367).</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_17" href="#FNanchor_17" class="label">[17]</a> <i>Chronica do senhor rey D. Affonso V</i>, capitulo -<span class="allsmcap">CLXXI</span>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_18" href="#FNanchor_18" class="label">[18]</a> <i>Quadro elementar</i>, tomo <span class="allsmcap">I</span>, pag. 368.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_19" href="#FNanchor_19" class="label">[19]</a> A <i>Beltraneja</i>, no <i>Manifesto</i> dos seus direitos, a -que mais de espaço nos referiremos, diz que ao rei -Henrique foram ministradas ervas e peçonhas por -trama dos isabelistas, como era notorio, havendo até -quem prophetizasse qual o prazo em que o rei havia -de morrer.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_20" href="#FNanchor_20" class="label">[20]</a> Lafuente, <i>Historia de España</i>, tom. 8.º, pag. 494.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_21" href="#FNanchor_21" class="label">[21]</a> Padre Flores, <i>Memorias de las reynas catolicas</i>, -tom. <span class="allsmcap">II</span>, pag. 772.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_22" href="#FNanchor_22" class="label">[22]</a> Cap. <span class="allsmcap">CLXXIII</span>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_23" href="#FNanchor_23" class="label">[23]</a> <i>Elógio de la reina catolica Dona Isabel</i>, no tomo -<span class="allsmcap">VI</span> das <i>Memorias de la Real Académia de la Historia</i>. -Pag. 501.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_24" href="#FNanchor_24" class="label">[24]</a> <i>Quadro elementar</i>, tomo <span class="allsmcap">I</span>, pag. 369.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_25" href="#FNanchor_25" class="label">[25]</a> Benevides, <i>Rainhas de Portugal</i>, tomo <span class="allsmcap">I</span>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_26" href="#FNanchor_26" class="label">[26]</a> <i>Provas da hist. genealog.</i>, tom, <span class="allsmcap">II</span>, pag. 93.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_27" href="#FNanchor_27" class="label">[27]</a> Visconde de Santarem, <i>Quadro elementar</i>, tomo -<span class="allsmcap">III</span>, pag. 107.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_28" href="#FNanchor_28" class="label">[28]</a> <i>Anales de la corona de Aragon</i>, livro <span class="allsmcap">XIX</span>, cap. -<span class="allsmcap">XXVI</span>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_29" href="#FNanchor_29" class="label">[29]</a> <i>Historia de España</i>, tomo <span class="allsmcap">IX</span>, parte <span class="allsmcap">II</span>, livr. <span class="allsmcap">IV</span>, -pag. 127.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_30" href="#FNanchor_30" class="label">[30]</a> Lafuente diz que os esponsaes se celebraram a -12 de maio, mas o visconde de Santarem colloca-os -entre os dias 25 e 30.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_31" href="#FNanchor_31" class="label">[31]</a> <i>Provas da historia genealogica</i>, tomo <span class="allsmcap">II</span>, pag. 60.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_32" href="#FNanchor_32" class="label">[32]</a> <i>Quadro elementar</i>, tomo <span class="allsmcap">I</span>, pag. 373.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_33" href="#FNanchor_33" class="label">[33]</a> Em recompensa d’este serviço, D. Isabel presenteou -Cabrera com uma taça de oiro para a sua mesa, -promettendo-lhe que no anniversario d’aquelle feliz -acontecimento, elle e os seus successores teriam egual -presente. (<i>Annaes das sciencias e lettras</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. -705).</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_34" href="#FNanchor_34" class="label">[34]</a> Lafuente.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_35" href="#FNanchor_35" class="label">[35]</a> Pina.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_36" href="#FNanchor_36" class="label">[36]</a> Pina, cap. <span class="allsmcap">CLXXXII</span> da <i>Chronica</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_37" href="#FNanchor_37" class="label">[37]</a> Damião de Goes, <i>Chronica do principe D. João</i>, -cap. <span class="allsmcap">LXXIV</span>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_38" href="#FNanchor_38" class="label">[38]</a> Rebello da Silva, <i>Annaes das sciencias e lettras</i>, -vol. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 683; <i>Provas da historia genealogica</i>, -tomo <span class="allsmcap">II</span>, pag. 18 a 19.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_39" href="#FNanchor_39" class="label">[39]</a> <i>Chronica do principe D. João</i>, cap. <span class="allsmcap">LVIII</span>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_40" href="#FNanchor_40" class="label">[40]</a> <i>Quadro elementar</i>, tomo <span class="allsmcap">III</span>, pag. 125.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_41" href="#FNanchor_41" class="label">[41]</a> <i>Quadro elementar</i>, tom. <span class="allsmcap">III</span>, pag. 127.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_42" href="#FNanchor_42" class="label">[42]</a> «... de noite lhes veio recado de dentro da cidade -em como o dicto Rey Dom Fernando partira -aquella noite com sua gente, e hia a hum trato que -tinha em a cidade de Touro; a qual coisa como fosse -dicta por pessoa digna de ser crida, os dictos senhores -Rey e Principe acordaram de atalhar, e levantarem -do arrayal, e hirem á dicta cidade de Touro -por entenderem que assim cumpria, e o puzeram logo -em obra.»</p> - -<p><i>Relação que El-Rey D. João segundo mandou ao -Conselho de Evora da batalha de Toro, etc. Annaes -das sciencias e lettras</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 724.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_43" href="#FNanchor_43" class="label">[43]</a> A invocação de S. Christovão fôra devida á devoção -especial de Jorge Correia, commendador de Pinheiro, -que assim o lembrara ao principe D. João.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_44" href="#FNanchor_44" class="label">[44]</a> <i>Annaes das sciencias e lettras</i>, tomo <span class="allsmcap">I</span>, paginas -714-723.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_45" href="#FNanchor_45" class="label">[45]</a> <i>Historia de España</i>, tom. <span class="allsmcap">IX</span>, pag. 138.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_46" href="#FNanchor_46" class="label">[46]</a> <i>Diccionario popular</i>, artigo <i>Duarte d’Almeida</i>, -escripto pelo auctor d’esta <i>Memoria</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_47" href="#FNanchor_47" class="label">[47]</a> <i>Republicas</i>, n.º 8.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_48" href="#FNanchor_48" class="label">[48]</a> <i>Annaes das sciencias e lettras</i>, tomo <span class="allsmcap">I</span>, pag. 728, -onde tambem se póde ver o <i>Regimento</i> que a procissão -devia observar.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_49" href="#FNanchor_49" class="label">[49]</a> Damião de Goes, <i>Chronica do principe D. João</i>, -cap. <span class="allsmcap">LXXX</span>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_50" href="#FNanchor_50" class="label">[50]</a> <i>Recueil des monuments inédits de l’histoire du -thiers état.</i>—Avant-propos, pag. <span class="allsmcap">LXXIV</span>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_51" href="#FNanchor_51" class="label">[51]</a> <i>Historia de Portugal</i>, vol. <span class="allsmcap">III</span>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_52" href="#FNanchor_52" class="label">[52]</a> Zurita, <i>Anales</i>, tom. <span class="allsmcap">IV</span>, pag. 298.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_53" href="#FNanchor_53" class="label">[53]</a> Ruy de Pina, <i>Chronica</i>, cap. <span class="allsmcap">CCVII</span>; visconde de -Santarem, <i>Quadro elementar</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 379.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_54" href="#FNanchor_54" class="label">[54]</a> Ruy de Pina, <i>Chronica</i>, cap. <span class="allsmcap">CCVII</span>; visconde de -Santarem, <i>Quadro elementar</i>, tomo <span class="allsmcap">I</span>, pag. 379.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_55" href="#FNanchor_55" class="label">[55]</a> <i>Historia serafica</i>, tomo <span class="allsmcap">I</span>, pag. 526.</p> - -<p>Perguntei para Santarem por esta tradição. Um -amigo meu, já hoje fallecido, respondia-me em 24 de -abril de 1885: «Esta manhã fui pessoalmente ao convento -das Claras em companhia do facultativo da -casa, que entrou a fazer as necessarias indagações, e -só obteve em resposta que effectivamente existe no -edificio uma casa ou capella com um côro pequeno -a que ainda hoje chamam <i>o corinho</i>, mas as freiras -ignoram qualquer tradição a respeito d’essa casa.» O -signatario da informação chamava-se José Candido -Duarte da Silva.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_56" href="#FNanchor_56" class="label">[56]</a> <i>Chronica d’el-rei D. Affonso V</i>, pag. 245.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_57" href="#FNanchor_57" class="label">[57]</a> Pina, diz que o principe assistira sem o rei; Sousa, -na <i>Hist. geneag.</i>, escreve que nem o rei nem o -principe quizeram assistir. Duarte Nunes de Leão dá -o principe como presente. Seguimos a opinião de Pina -e Duarte Nunes, mesmo por ser a que melhor se -coaduna com o caracter do principe D. João.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_58" href="#FNanchor_58" class="label">[58]</a> Amaral, <i>Memoria V para a historia da legislação -e costumes de Portugal</i>; Rebello da Silva, <i>Annaes -das sciencias e lettras</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_59" href="#FNanchor_59" class="label">[59]</a> Sobre o estado das classes servas na peninsula, -leiam-se os importantissimos estudos de Herculano, -no tomo <span class="allsmcap">I</span> dos <i>Annaes das sciencias e lettras</i>, e no -terceiro volume da sua <i>Historia de Portugal</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_60" href="#FNanchor_60" class="label">[60]</a> Rebello da Silva, <i>Annaes das sciencias e lettras</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_61" href="#FNanchor_61" class="label">[61]</a> Michelet, <i>Précis de l’histoire moderne</i>, pag. 23.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_62" href="#FNanchor_62" class="label">[62]</a> <i>Vida e feitos de D. João II.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_63" href="#FNanchor_63" class="label">[63]</a> Vejam-se os documentos publicados no tomo <span class="allsmcap">II</span> -das <i>Provas da historia genealogica</i>, pag. 8 e 51.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_64" href="#FNanchor_64" class="label">[64]</a> Innocencio diz que este opusculo é raro. Pudemos -vel-o na bibliotheca nacional de Lisboa, onde -existe. Na da academia real das sciencias não ha, -porque fôra arrancado da miscellanea onde estava.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_65" href="#FNanchor_65" class="label">[65]</a> <i>Clemencin.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_66" href="#FNanchor_66" class="label">[66]</a> <i>Provas da historia genealogica</i>, tom. <span class="allsmcap">III</span>, pag. -636.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_67" href="#FNanchor_67" class="label">[67]</a> <i>Annaes das sciencias e lettras</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 412 -e 551.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_68" href="#FNanchor_68" class="label">[68]</a> Dava-se o nome de <i>personatus</i> nos mosteiros ás -dignidades, como por exemplo as de deão, thesoireiro, -chantre, etc., ás quaes n’outras partes chamam -<i>officia claustralia</i>. Ducange: <i>Glossarium</i>, vol. <span class="allsmcap">V</span>, -pag. 214.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_69" href="#FNanchor_69" class="label">[69]</a> Baronius, <i>Annales ecclesiastici</i>, tomo <span class="allsmcap">XIX</span>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_70" href="#FNanchor_70" class="label">[70]</a> Tom. <span class="allsmcap">II</span>, pag. 79.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_71" href="#FNanchor_71" class="label">[71]</a> <i>Provas da historia genealogica</i>, tom, <span class="allsmcap">II</span>, pag. 94.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_72" href="#FNanchor_72" class="label">[72]</a> Camillo Castello Branco, <i>Narcoticos</i>, vol. <span class="allsmcap">I</span>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_73" href="#FNanchor_73" class="label">[73]</a> <i>Provas da historia genealogica</i>, tomo <span class="allsmcap">II</span>, pag. 71.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_74" href="#FNanchor_74" class="label">[74]</a> Tomo <span class="allsmcap">II</span>, pag. 76.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_75" href="#FNanchor_75" class="label">[75]</a> Benevides, nas <i>Rainhas de Portugal</i>, tomo <span class="allsmcap">I</span>, -pag. 290, publíca o <i>fac-simile</i> da assignatura de D. -Joanna.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_76" href="#FNanchor_76" class="label">[76]</a> <i>Historia seraphica</i>, tomo <span class="allsmcap">II</span>, pag. 133.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_77" href="#FNanchor_77" class="label">[77]</a> Vol. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 701-737.</p> - -</div> - -</div> - -<hr /> - -<div class="ad"> - -<p class="center larger">BARROS & FILHA, EDITORES</p> - -<p class="center smaller">RUA DO ALMADA, 104 A 114, PORTO</p> - -<p class="center">LITTERATURA E POLYGRAPHIA</p> - -<p class="center smaller">ALBERTO PIMENTEL</p> - -<p class="hanging"><i>Rainha sem reino (estudo historico do seculo XV)</i>; -trabalho eximio cujo entrecho romantico, rigorosamente -historico, desperta profundo interesse pelas -revelações importantes e novas do reinado de D. -Affonso V, em conflicto com a côrte de Castella: -1 vol., 600 rs.</p> - -<p class="center smaller">BARROS LOBO</p> - -<p class="center smaller">(BELDEMONIO)</p> - -<p class="hanging"><i>Viagens no Chiado</i>; descripção pittoresca e faiscante -da alta vida lisboeta nas suas relações externas; -scenas de costumes, retratos litterarios de personagens -em evidencia, etc.: 1 vol., no prelo.</p> - -<p class="center smaller">BRITO DE BARROS</p> - -<p class="hanging"><i>Diccionario de phrases latinas de uso mais vulgar</i>; -livro util e muito curioso, indispensavel a todas as -pessoas que lêem; revisto por um distincto professor -de latim em Coimbra: 1 vol., 500 rs.</p> - -<p class="hanging"><i>Farpões</i> (2.ª edição); obra de muita originalidade litteraria, -tanto pela fórma como pelo vigor da phrase: -2 tomos, 500 rs.</p> - -<p class="hanging"><i>Mulheres</i>; romance da vida contemporanea. 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