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- Contos E Phantasias, by Maria Amalia Vaz de Carvalho&mdash;A Project Gutenberg eBook
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-
-<pre>
-
-Project Gutenberg's Contos e Phantasias, by Maria Amalia Vaz de Carvalho
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
-to check the laws of the country where you are located before using this ebook.
-
-Title: Contos e Phantasias
-
-Author: Maria Amalia Vaz de Carvalho
-
-Release Date: October 8, 2020 [EBook #63406]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS E PHANTASIAS ***
-
-
-
-
-Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
-produced from scanned images of public domain material
-from the Google Books project.)
-
-
-
-
-
-
-</pre>
-
-
-<h1>CONTOS E PHANTASIAS</h1>
-
-<div class="chapter">
-<hr class="chap" />
-</div>
-
-<p class="ph3">D. MARIA AMALIA VAZ DE CARVALHO</p>
-<hr class="tb" />
-<p class="ph1">CONTOS<br /><small><small>E</small></small><br />PHANTASIAS</p>
-<hr class="r5" />
-<p class="center">2.<sup>a</sup> EDIÇÃO</p>
-<hr class="r5" />
-<p class="ph3">LISBOA</p>
-<p class="ph4">PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA<br />
-<small>LIVRARIA EDITORA</small><br />
-Rua Augusta&mdash;50, 52 e 54<br />
-1905</p>
-
-<div class="chapter">
-<hr class="chap" />
-</div>
-
-<p class="ph3">LISBOA</p>
-<p class="smcap ph4">Officinas Typographica e de Encadernação</p>
-<p class="ph4"><small>Movidas a vapor<br />
-DA</small><br />
-Parceria Antonio Maria Pereira<br />
-<i>Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.<sup>o</sup></i><br />
-1905</p>
-
-<div class="chapter">
-<hr class="chap" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak">PRIMEIRA PARTE</h2>
-
-<div class="chapter">
-<hr class="chap" />
-</div>
-
-<h3 id="UMA_HISTORIA_VERDADEIRA">UMA HISTORIA VERDADEIRA</h3>
-
-<h4>I</h4>
-
-<p>Era uma physionomia incaracteristica, apagada,
-tristissima.</p>
-
-<p>Não se podia dizer a idade que tinha, nem mesmo
-se tinha idade.</p>
-
-<p>Tanto podia ter trinta ou quarenta como setenta
-annos.</p>
-
-<p>Curvado pela idade ou pelos desgostos? Encanecido
-porque os annos tinham corrido por sobre
-a cabeça d'elle, ou porque lhe tinham pesado duplamente
-sobre os hombros debeis?</p>
-
-<p>Quem o podia dizer?</p>
-
-<p>Era uma organisação acanhada e rachitica, podia
-mesmo chamar-se incompleta.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_8" id="Page_8">[8]</a></span></p>
-
-<p>Para elle com certeza que a adolescencia não
-tivera as suas madrugadas azues tão gorgeadas e
-tão festivas, nem a virilidade tivera a fanfarra estridente
-dos seus clarins, a florescencia escarlate
-dos seus rosaes voluptuosos.</p>
-
-<p>Tinha sempre vivido debaixo de uma estranha
-pressão dolorosa.</p>
-
-<p>Dependêra de todos primeiro porque era fraco
-e inerme, depois porque fôra pobre, dependente,
-sem aquella aspera dignidade que os atrictos da
-vida tornam mais rude e que é a armadura moral
-que salvaguarda o homem nos duros combates sociaes.</p>
-
-<p>Nasceu n'uma casa opulenta que lhe não pertencia,
-cresceu no meio de um luxo de que seus paes
-erão parasitas voluntarios e de que elle era... parasita
-inconsciente.</p>
-
-<p>Começára por ter medo de tudo e de todos; um
-medo que não raciocinava, que não sabia, que não
-indagava mesmo a sua propria origem.</p>
-
-<p>Nasceu assustadiço, como certos animaes silvestres,
-e toda a vida conservou a mesma expressão
-inquieta e medrosa da lebre perseguida.</p>
-
-<p>Em primeiro lugar tinha medo de seu pae; um
-homem alto, espadaúdo, plethorico, de voz grossa
-e modos brutaes, que comia como um abbade, que
-bebia como um <i>lansquenete</i>, que praguejava como<span class="pagenum"><a name="Page_9" id="Page_9">[9]</a></span>
-um carreiro, e que se vingava nos poucos entes
-que tinha debaixo do seu dominio, das complacencias
-servis que era obrigado a mostrar aos que o
-mantinham n'aquella farta ociosidade de commensal
-que só goza e não paga.</p>
-
-<p>Depois tinha medo de sua tia; a dona da casa,
-a <i>senhora</i>, a suzerana ante a qual todos se curvavam
-submissos.</p>
-
-<p>E no emtanto ella era bonita, delgada, flexivel,
-muito branca.</p>
-
-<p>Uma figura ideal de pintor inglez.</p>
-
-<p>Mas que culpa tinha elle, o pequenino parea, se
-os olhos d'essa graciosa e delicada senhora lhe pareciam
-frios e metalicos, com umas scintillações
-azuladas como as do aço fino? se as suas mãos
-esguias e brancas se lhe affiguravam duas tenazes
-que podiam apertal-o, apertal-o até o torcerem
-todo, até o esphacelarem e fazerem d'elle, do seu
-pequeno corpo tão fraquinho, uma grotesca massa
-informe, que o mundo inteiro pisasse, onde o mundo
-inteiro cuspisse!</p>
-
-<p>Seria allucinação d'aquelle cerebro enfermo e
-condemnado ás scismas doentias?</p>
-
-<p>Quem sabe?</p>
-
-<p>O caso é que o sentia, e que nunca pudera esquivar-se
-a essa preoccupação intensa e dilacerante!</p>
-
-<p>Um d'estes dous entes que dominaram de estranho<span class="pagenum"><a name="Page_10" id="Page_10">[10]</a></span>
-terror a sua infancia, maltratava-o nas explosões
-brutaes de seu temperamento de touro bravo.</p>
-
-<p>O outro&mdash;a senhora&mdash;muito altiva, muito fria,
-muito desdenhosa, nem sequer lhe fallava.</p>
-
-<p>Olhava-o ás vezes como se olha para um animal
-repugnante, para um sapo, ou para uma carocha,
-e passava adiante, imperturbavel e olympica.</p>
-
-<p>Havia, porém, um outro sêr, dos que mais em
-contacto estavam com elle, que nem o maltratava,
-nem o desprezava com a glacial frieza do seu
-desdem.</p>
-
-<p>E comtudo era d'esse que elle tinha ainda mais
-medo.</p>
-
-<p>Era seu tio; uma figura original, uma physionomia
-de titan que por um engano qualquer da natureza
-não pôde conseguir passar de anão.</p>
-
-<p>Seu tio!... Como esta individualidade extraordinariamente
-accentuada, como este rosto ironico,
-irregular, convulsionado, dominou para sempre o
-destino obscuro da infeliz creança que eu conheci
-já velho!</p>
-
-<p>Seu tio não o perseguia nem lhe manifestava
-uma repugnancia muda, pelo contrario.</p>
-
-<p>Chamava-o continuamente para o pé de si, ensinava-lhe,
-quando estava só, palavras, esgares, visagens
-grotescas que lhe fazia repetir diante de<span class="pagenum"><a name="Page_11" id="Page_11">[11]</a></span>
-gente, n'um côro de gargalhadas asperas e hostis
-como gumes de espadas!</p>
-
-<p>Vestia-o de um modo desusado e extravagante,
-vestia-o de marujo, de escossez, com as suas pequenas
-pernas magras, trigueiras, ossudas, n'uma
-nudez friorenta que lhe doia, e o fazia tiritar;
-vestia-o de tyrolez, o que lhe dava um aspecto
-comico, que arrebentava com riso a criadagem.</p>
-
-<p>Ás vezes nos seus dias de melhor humor sahia
-com elle, que tinha apenas sete annos de idade,
-de casaca, chapéo-alto, e berloques na cadeia do
-relogio.</p>
-
-<p>Tinha tempos em que não podia passar sem a
-sua companhia; a creança era a unica distracção
-do anão.</p>
-
-<p>As caricias d'esse homem singular, de olhar faiscante,
-de cabelladura revolta e electrica, de voz
-sonora e rica de inflexões estranhas, doíam, porém,
-ao pequeno muito mais do que os desprezos
-ou os máos tratos dos outros.</p>
-
-<p>Ao pé d'estes sentia-se perseguido, ao pé d'aquelle
-sentia-se humilhado.</p>
-
-<p>Um dia o marquez&mdash;o tio do pequeno Thadeu
-era marquez,&mdash;achou comico mandar introduzir a
-creança no cofre acharoado que havia junto ao fogão
-do gabinete de trabalho, destinado a guardar
-a lenha ou o carvão que se consumia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_12" id="Page_12">[12]</a></span></p>
-
-<p>De minuto em minuto abria-se a tampa e sahia a
-cara vermelha e congestionada do pequeno, uma
-cara de animal assustado, o que divertia extraordinariamente
-as visitas.</p>
-
-<p>Outra vez, n'uma ceia alegre em que havia rios
-de <i>champagne</i> e risadas crystallinas de mulheres,
-Thadeu com um fato de meia preta a cobril-o todo
-e dous castiçaes nas pequenas mãos, servia de centro
-agachado n'uma posição grotesca no meio da
-meza.</p>
-
-<p>Sahiu d'alli com uma febre que o teve um mez
-entre a morte e a vida, delirante, sem conhecer
-ninguem, com a mãe debulhada em lagrimas á
-cabeceira.</p>
-
-<p>Mas Thadeu não gostava de sua mãe.</p>
-
-<p>Era uma creatura tão debil como elle, pallida
-como uma defunta, inerme, estupida, sem vontade.</p>
-
-<p>As lobas defendem os seus filhos, a mãe de Thadeu
-não o sabia defender!</p>
-
-<p>Entregava-o ás coleras descompostas do pae; aos
-desprezos gelidos da tia; aos caprichos monstruosamente
-comicos do marquez; ás apupadas brutaes
-das aias e dos lacaios; aos risos das visitas; ao
-pasmo desprezador das outras creanças, que iam
-áquella casa opulenta e ruidosa acompanhadas por
-seus paes, vestidas de velludo, com plumas nos seus
-lindos chapéus, o ar grave de meninos bem creados,<span class="pagenum"><a name="Page_13" id="Page_13">[13]</a></span>
-e que não tinham licença de brincar com aquelle
-pequeno histrião, feio, ridiculo, doente, com gesto
-de epileptico, com fatos de palhaço e com soluços
-de martyr.</p>
-
-
-<h4>II</h4>
-
-<p>Um dia, porém, fez-se na vida atormentada e
-tempestuosa do pequeno Thadeu uma claridade de
-luar, uma claridade opalisada e doce.</p>
-
-<p>Houve treguas nos seus varios martyrios, e sua
-mãe, n'uma bella manhã de primavera em que os
-passaros cantavam ao desafio nas grandes arvores
-do jardim, levou-o pela mão, pé ante pé, a um quarto
-forrado de setim côr de rosa, um quarto digno de
-servir de habitação á fada mais linda que uma phantasia
-de poeta oriental houvesse imaginado.</p>
-
-<p>N'aquelle quarto havia um ninho todo branco
-feito de rendas, de fitas de setim, de pennugem
-de passaros, e n'esse ninho dormia uma creancinha
-que parecia uma rosa.</p>
-
-<p>&mdash;É tua prima; murmurou baixinho a mãe de
-Thadeu, emquanto este, mudo, surpreso, extasiado,
-fitava os seus olhos vitreos, onde o jubilo acendia
-uma luz desusada, nos grandes olhos luminosos e
-pasmados do <i>bébé</i> que acordára.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_14" id="Page_14">[14]</a></span></p>
-
-<p>Oh! como Thadeu adorava aquella creança!
-Como na sua vida houve de repente um ficto, uma
-esperança, uma luz!</p>
-
-<p>Sua tia, uma vez em que a <i>bebé</i> chorava muito
-nos braços da ama, dissera a Thadeu com uma voz
-menos glacial do que o costume:</p>
-
-<p>&mdash;Thadeu, brinca com a prima a vêr se ella se
-cala.</p>
-
-<p>E elle fizera calar a rabujenta pequerrucha.</p>
-
-<p>Desde esse dia soube-se que a <i>menina</i> tinha o
-insolito capricho de adorar Thadeu, de rir quando
-elle estava de joelhos dobrado sobre o seu berço,
-de chorar quando alguem o levava d'alli para fóra.</p>
-
-<p>A ama tomou o costume de o chamar e de o fazer
-estar horas e horas a entreter a <i>menina</i>.</p>
-
-<p>Ao principio elle fazia-lhe carêtas e momices,
-como as que usava fazer para divertir seu tio; depois,
-sem bem perceber porque, adoptou outro systema
-inteiramente opposto.</p>
-
-<p>Percebeu que a pequenina não queria um bôbo,
-como esse espirito embotado e pervertido que o
-victimára com os seus caprichos. O que a <i>bebé</i> queria,
-na ingenuidade adoravel do seu despotismo
-infantil, era um companheiro de seus brinquedos,
-um socio, um escravo que a adorasse.</p>
-
-<p>Thadeu era tudo para ella: queria-o perto da
-grande tina em que tomava o seu banho de manhã;<span class="pagenum"><a name="Page_15" id="Page_15">[15]</a></span>
-queria-o junto da pequena mesa de nacar onde a
-ama lhe dava as sopinhas; queria-o no berço ao
-adormecer; queria-o no jardim, á sombra das arvores,
-sobre a arêa finissima, onde se rolava,
-vestida de rendas brancas, a rir como uma perdida.</p>
-
-<p>Chamaram-lhe Margarida.</p>
-
-<p>Margarida quer dizer perola, e Thadeu, que vira
-muitas vezes sua tia vestida de baile, achava um
-nome muito bem posto áquella creança branca,
-transparente, loura, idealmente graciosa.</p>
-
-<p>Oh! Thadeu ainda andava muita vez vestido
-de marujo, de granadeiro, de tyrolez e de alferes,
-ainda o introduziam no cofre da lenha, ainda o faziam
-fumar um charuto depois de jantar, cheio de
-ancias, de nauseas, de gritos abafados de angustia!...
-Mas que importava!</p>
-
-<p>Logo que podia escapava-se para o quarto da fada,
-para o estojo côr de rosa da sua <i>perola</i>, da sua
-Margarida, e então eram risadas sem fim, eram
-corridas delirantes por sobre o tapete, era um papaguear
-de duas aves felizes.</p>
-
-<p>Margarida com a idade ia-se fazendo despotica.</p>
-
-<p>Pudera!</p>
-
-<p>Ou ella não fosse mulher, e estremecida pelo seu
-humilde escravo!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_16" id="Page_16">[16]</a></span></p>
-
-<p>Mas era assim mesmo que elle a queria.</p>
-
-<p>Quando as mãosinhas polpudas e brancas de
-Margarida lhe batiam, Thadeu sentia-se feliz como
-um rei.</p>
-
-<p>Quando ella o obrigava a agachar-se no chão
-para lhe servir de jumento, o rapazinho tinha tentações
-de rinchar de prazer, fazendo o passo bem
-ao vivo.</p>
-
-<p>Porque no fim de contas, apezar de todas as suas
-adoraveis crueldades, Margarida gostava d'elle.</p>
-
-<p>A presença de Thadeu illuminava de risos o seu
-rosto oval coroado de cabellos louros annellados, o
-seu rosto a um tempo angelico e gaiato!</p>
-
-<p>Margarida não o achava feio, nem tolo, nem ridiculo,
-nem doente.</p>
-
-<p>Não desprezava a fraqueza dos seus braços, nem
-a pobreza absoluta da sua imaginação.</p>
-
-<p>Pelo contrario! Admirava o!</p>
-
-<p>Sim; ella dera-lhe essa sensação poderosa e extraordinaria,
-a sensação dos que se vêem admirados
-com ingenua confiança.</p>
-
-<p>Margarida pedia-lhe cousas enormes, com uma
-serenidade ineffavel de crente!</p>
-
-<p>Pedira-lhe um ninho de melros, e o que é mais!
-conseguira que elle tão medroso, tão debil, tão assustado,
-trepasse pelos braços nodosos de uma
-grande arvore e lh'o fosse buscar lá cima.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_17" id="Page_17">[17]</a></span></p>
-
-<p>Que triumpho este d'ella, ao ver satisfeito o seu
-capricho! mas que triumpho maior ainda o d'elle
-ao comprehender, que alcançara essa cousa prodigiosa,
-que nem nos sonhos mais arrojados das suas
-noites de febre elle ousara até ali conceber!</p>
-
-<p>Um dia Margarida, em frente d'aquelle rasgo
-assombroso de valentia que collocara Thadeu ao
-lado dos maiores heroes, puzera se grave, meditativa,
-e apontando com serena magestade para a
-lua que se reflectia n'um tanque do jardim, pedira
-a lua ao seu amigo Thadeu!</p>
-
-<p>Está claro que elle lh'a não pôde dar, mas gostou
-d'aquillo!</p>
-
-<p>Percebeu que o julgavam capaz de cousas grandes,
-de levar a cabo emprezas impossiveis, e esta
-idéa que alguem tinha da sua força, fê-lo crescer
-aos seus proprios olhos.</p>
-
-<p>O marquez conhecendo que o pequeno deixára
-de ser seu joguete, simplesmente para ser joguete
-de sua filha e herdeira, applaudiu-se de lhe haver
-dado aquella educação especial, e prohibiu que o
-distrahissem, fosse sob que pretexto fosse, das
-suas novas funcções.</p>
-
-<p>Margarida era ainda muito pequenina para entreter
-os paes.</p>
-
-<p>Elle precisava das excitações da politica, das
-luctas do parlamento, dos sorrisos falsos ou verdadeiros,<span class="pagenum"><a name="Page_18" id="Page_18">[18]</a></span>
-caros ou baratos das formosas mulheres,
-do jogo, da ambição, do amor, da violencia corrosiva
-de todas as pequenas e grandes paixões!</p>
-
-<p>Ella precisava do luxo, das joias que scintillam,
-das sedas que se quebram em ondulações brilhantes,
-do côro das adulações mentidas, de todas as
-ephemeras alegrias que só o mundo lhe podia dar.</p>
-
-<p>Para ambos Margarida seria um remorso, se a
-não vissem tão nedia, tão roliça, tão alegre, com
-chispas de travessura maliciosa no olhar, sempre
-acompanhada do seu pequeno amigo, submisso e
-fiel como um cão.</p>
-
-<p>Deixaram-os, pois, crescer e viver juntos sob o
-olhar das aias, sempre um pouco hostil para Thadeu
-e por isso tanto mais insuspeito.</p>
-
-<p>Foi o verdadeiro paraiso que este conheceu na
-terra, foi a sua idade de ouro.</p>
-
-<p>Ha entes que nunca nem por um instante só conheceram
-a completa ventura.</p>
-
-<p>São de todos os mais desgraçados.</p>
-
-<p>Thadeu mais tarde podia ao menos recordar-se!</p>
-
-<p>E elle sabia apreciar tão bem aquellas alegrias
-que em manhã abençoada tinham cahido sobre a
-sua pobre cabeça!...</p>
-
-<p>Um dia Margarida travessa e caprichosa como
-era, desattendendo todas as advertencias de Thadeu,
-deixara-se cahir dentro do tanque do jardim.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_19" id="Page_19">[19]</a></span></p>
-
-<p>O pequeno não sabia nadar.</p>
-
-<p>Que importa!</p>
-
-<p>Sem premeditação, sem raciocinio, obedecendo
-a um instincto de dedicação inteiramente canina,
-deitou-se n'agua atrás d'ella.</p>
-
-<p>As criadas, acudindo, tiraram do tanque as duas
-creanças abraçadas.</p>
-
-<p>Imagine-se o que iria em casa!</p>
-
-<p>Thadeu, castigado severamente, não quiz condemnar
-a sua amiguinha, para se salvar a si.</p>
-
-<p>Foi ella que, soberba, graciosa, com a sua magestade
-de pequena rainha, disse aos paes:</p>
-
-<p>&mdash;Não batam n'elle. Elle pediu-me que não
-fosse. Eu é que quiz ir.</p>
-
-<p>Acharam-na adoravel; encheram-na de caricias
-e de gulodices, mas ninguem pensou na acção tão
-simples e tão heroica do pequeno Thadeu, a quem
-tinham posto a alcunha de <i>medroso</i>.</p>
-
-
-
-<h4>III</h4>
-
-
-<p>Foi assim que Margarida fez nove annos.</p>
-
-<p>Era linda e indomita.</p>
-
-<p>Tinha um corpo airoso, flexivel e forte.</p>
-
-<p>Ninguem opprimira nunca aquella altiva natureza
-aristocratica.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_20" id="Page_20">[20]</a></span></p>
-
-<p>D'ahi a sua isenção, a liberdade dos seus movimentos,
-o fulgor radioso dos seus grandes olhos
-azues, onde um observador veria talvez as scintillações
-metallicas que davam tamanha dureza ao
-olhar de sua mãe.</p>
-
-<p>Margarida tinha uma vontade de ferro, e uns
-nervos de mulher caprichosa.</p>
-
-<p>Quando a professora allemã que seus paes mandaram
-buscar, quiz sujeitar o seu espirito a uma
-certa disciplina, Margarida revoltou-se n'um impeto
-de insubordinação selvatica.</p>
-
-<p>Tivera criadas que a serviam, um escravo que
-tremia diante d'ella, e paes que transigiam com
-todos os seus pequenos desejos de creança.</p>
-
-<p>Dera-se bem n'aquelle meio, não queria outro,
-não o aceitava, nem curvaria a sua cabecinha erecta
-e firme com uma aureola de anneis de ouro a
-cerca-la, a nenhum dominio que não fosse o da
-sua vontade.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Um dia Thadeu ouviu fallar vagamente n'uma
-viagem que seus tios iam fazer ao estrangeiro, e
-viu começar os preparativos para ella.</p>
-
-<p>Ficou no céo.</p>
-
-<p>Viveria só na grande casa com Margarida e o
-rancho dos criados.</p>
-
-<p>Seriam livres.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_21" id="Page_21">[21]</a></span></p>
-
-<p>Ella teria um balouço no jardim, uma rede
-brazileira no kiosque, e um barquinho no lago.</p>
-
-<p>Eram os seus tres sonhos ainda irrealizados.</p>
-
-<p>Thadeu dirigiria todos os trabalhos.</p>
-
-<p>Diria aos operarios que tinha dezeseis annos, e
-que era sobrinho do marquez.</p>
-
-<p>Os operarios haviam de respeital-o.</p>
-
-<p>Elles não tinham precisão nenhuma de se rir do
-seu corpo enfezado e rachitico.</p>
-
-<p>Não é preciso ser-se athletico para se ser respeitado
-pelos homens a quem se paga.</p>
-
-<p>Thadeu havia de arranjar algum meio de lhes
-pagar.</p>
-
-<p>Andava então doente, exquisito, com uma excitação
-nervosa que o torturava.</p>
-
-<p>O seu affecto por Margarida tivera uma recrudescencia
-violenta e dolorosa.</p>
-
-<p>Tinha vagos presentimentos que o faziam chorar.</p>
-
-<p>Parecêra-lhe que sua tia, uma vez, ao encontral-o
-n'um corredor, olhára para elle com uma
-aguda ironia malevola.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>&mdash;Não sabes, Thadeu? gritou Margarida entrando
-como um raio de sol no quarto onde costumava
-brincar com o primo. Não sabes?&mdash;E
-atirou-lhe negligentemente aos pés com um feixe
-de flôres e de folhas verdes que estivera colhendo<span class="pagenum"><a name="Page_22" id="Page_22">[22]</a></span>
-na quinta.&mdash;Tambem eu vou com o papá e a mamã.
-Vamos a Paris... muito longe... muito longe...
-Estive á escuta... percebi umas cousas
-mas não percebi outras. Fallaram n'um convento...
-no <i>Sacré Cœur</i>... Sabes o que é?...</p>
-
-<p>Thadeu sabia.</p>
-
-<p>Não disse nada, mas no outro dia não pôde levantar-se
-da cama.</p>
-
-<p>Tinha dôres em todo o corpo e um grande cançasso,
-como de quem deu uma larga caminhada.</p>
-
-<p>Gemia baixinho abrazado em febre, e quando
-pediu muito humildemente, com medo de recusa,
-para ver Margarida, disseram-lhe que a doença
-d'elle podia pegar-se e que as meninas não iam ao
-quarto dos homens.</p>
-
-<p>Pois isto é um homem? pensava Thadeu desolado.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Margarida de endoudecida com a mudança, com
-o movimento, com a espectativa de uma existencia
-desconhecida e nova, esqueceu-se completamente
-do enfermo.</p>
-
-<p>Partiu sem pedir sequer para lhe dizer adeus!...</p>
-
-<p>Quando Thadeu ao cabo de um mez de doença
-sahiu do quarto com o rosto macilento, abatido,
-cançado, como o de um velho, com a espinha dobrada
-e as magras pernas vacillantes, pediu para<span class="pagenum"><a name="Page_23" id="Page_23">[23]</a></span>
-ir ao quarto onde brincava com a sua <i>perola</i>, e
-agachou-se a um cantinho a chorar com uns uivos
-dolorosos, com uns uivos caninos que faziam mal.</p>
-
-<p>Sentia-se para sempre só...</p>
-
-
-
-
-<h4>IV</h4>
-
-
-<p>O marquez tinha ido sósinho para França. Fôra,
-ao que se dizia, buscar a filha ao <i>Sacré-Cœur</i>.</p>
-
-<p>A educação de Margarida devia estar completa.
-Fôra-se embora com nove annos de idade, e haviam
-já passado sete depois que ella partira.</p>
-
-<p>Sete annos! que longo periodo!</p>
-
-<p>A casa dos marquezes era pouco mais ou menos
-a mesma cousa.</p>
-
-<p>Thadeu perdêra sua mãe, mas aquella figura
-apagada, melancolica, de uma debilidade de valetudinaria,
-pouca falta havia feito no palacio illuminado
-e radioso.</p>
-
-<p>O marquez aconselhado por alguma pessoa de
-juizo e de caridade tinha consentido a que logo
-depois da partida de Margarida seu sobrinho entrasse
-para um collegio.</p>
-
-<p>Tambem já lhe não servia para nada.</p>
-
-<p>Com o seu corpo magro e desengonçado, um
-corpo de funambulo, um corpo de grotesco, tinha<span class="pagenum"><a name="Page_24" id="Page_24">[24]</a></span>
-melancolias <i>quixotescas</i> que incommodavam quem
-o via.</p>
-
-<p>Os criados deram por mais de uma vez com o
-rapazola a chorar de bruços n'um recanto do jardim,
-chamado o <i>canteiro de Margarida</i>.</p>
-
-<p>Era um pequeno espaço semeado de flôres, onde
-principalmente abundavam os malmequeres brancos
-que tinham o poetico nome da filha do marquez.</p>
-
-<p>Havia ali uma grande arvore, um castanheiro
-copado cuja rama folhuda abrigava as longas scismas
-dolorosas de Thadeu.</p>
-
-<p>Não se podia consolar!</p>
-
-<p>Era ali n'aquelle sitio fresco, esmaltado de flores,
-exhalando um cheiro agreste e sadio, que elle
-se deixava ficar horas e horas esquecido de todos,
-n'uma especie de lethargo bestial, o lethargo de
-um animal ferido.</p>
-
-<p>E desfiava na memoria todo o seu passado,
-toda a vida que vivêra, abandonado, desprezado,
-perseguido de chufas ou de maus tratos, de caprichos
-humilhantes, ou de observações glacialmente
-desdenhosas.</p>
-
-<p>Só <i>ella</i> nunca o ferira! só ella fôra no seu viver
-de cão apedrejado um consolo dulcissimo! uma
-nesga do céo que se entreabrira!</p>
-
-<p>Só <i>ella</i> nunca se tinha rido á custa d'elle, e fôra<span class="pagenum"><a name="Page_25" id="Page_25">[25]</a></span>
-elle&mdash;o misero, o abandonado, o enfermo&mdash;que
-tivera o primeiro sorriso d'aquella boquinha de
-rosas, o primeiro beijo d'aquelles labios frescos e
-humidos de leite!</p>
-
-<p>Era feio, era rachitico, era estupido e desastrado.</p>
-
-<p>Todos o conheciam, todos o repetiam em alto e
-bom som para que elle o não ignorasse, mas <i>ella</i>
-amava-o; ella não o dizia, não o pensava, não o
-tinha notado sequer!</p>
-
-<p>Para <i>ella</i> era forte, e grande, e poderoso!</p>
-
-<p>A elle é que Margarida confiára sempre os seus
-desejos, os seus sonhos, os seus affectos de creança
-mimosa.</p>
-
-<p>Ralhava-lhe ás vezes, batia-lhe, quando aspirava
-ao impossivel que Thadeu lhe não podia dar, mas
-as creanças ricas têm horas de tedio só comparaveis
-ás horas sinistras de um imperador romano,
-e Thadeu comprehendia isso tanto, que antes queria
-as coleras, do que os desalentos rapidos e violentissimos
-da sua <i>perola</i>.</p>
-
-<p>Tudo que houvera bom na sua vida lhe tinha
-vindo d'ella.</p>
-
-<p>Dos outros&mdash;nada!</p>
-
-<p>E elle odiava todos os outros, só para poder adoral-a
-com um culto exclusivo de negro pelo seu
-<i>fetiche</i>.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_26" id="Page_26">[26]</a></span></p>
-
-<p>Não perguntava noticias; para que?</p>
-
-<p>Tinha a certeza intima de que lh'as não dariam
-completas nem verdadeiras.</p>
-
-<p>Antes não queria saber nada, do que banalisar
-a sua idolatria, revelando-a a seus <i>inimigos</i>.</p>
-
-<p>Ella tambem lhe não escrevêra, o que o não
-surprehendera nada.</p>
-
-<p>Estava tão costumado a ser <i>uma cousa</i> inutil e
-desprezada, que nunca lhe viera á idéa a possibilidade
-sequer de possuir uma carta <i>d'ella</i>.</p>
-
-<p>No entanto ia adoecendo, definhando, parecia
-uma sombra.</p>
-
-<p>Um medico que o viu torceu o nariz, e deu
-claramente a entender que <i>aquillo</i> nunca chegaria
-a ser um homem.</p>
-
-<p>Foi então que se lembraram de o mandar para
-um collegio, em primeiro lugar para não terem o
-desgosto de o vêr a cada passo, em segundo lugar
-para o distrahirem da idéa fixa que o estava consumindo.</p>
-
-<p>No primeiro dia em que Thadeu fez a sua entrada
-no collegio houve uma tal galhofa, um gaudio
-tão extraordinario entre a rapaziada, que os
-professores para manterem a ordem tiveram de
-empregar severos castigos.</p>
-
-<p>Não havia meio de o vêr sem rir.</p>
-
-<p>Tinha um <i>tic</i> nervoso a um canto da bocca, tinha<span class="pagenum"><a name="Page_27" id="Page_27">[27]</a></span>
-os olhos de vidro embaciado, tinha as pernas
-muito magras e muito cambadas, e um modo de
-fallar timido, acanhado, medroso que era de fazer
-morrer de riso os rapazes.</p>
-
-<p>Os proprios mestres tinham de fazer esforço
-para se não rirem quando o viam.</p>
-
-<p>Na hora de recreio tornou-se a victima, o bode
-expiatorio do collegio.</p>
-
-<p>Um dia, porém, a brincadeira attingiu taes proporções
-que degenerou em perversa brutalidade.</p>
-
-<p>Thadeu cahiu no chão extenuado a lançar jorros
-de sangue pelo nariz.</p>
-
-<p>Do grupo estupefacto e arrependido dos collegiaes
-destacou-se então um, o mais velho, o mais
-valente o que nunca entrava n'aquellas farçadas
-brutaes, e disse com voz decidida:</p>
-
-<p>&mdash;Tomo esse pobre diabo debaixo da minha
-protecção. O primeiro que lhe tocar tem os ossos
-n'um feixe.</p>
-
-<p>Ninguem se atreveu a responder uma palavra.</p>
-
-<p>Henrique de Souza era temido e respeitado.</p>
-
-<p>Nas aulas era o primeiro; nas brincadeiras era
-o mais forte; na lucta era o mais destemido.</p>
-
-<p>Orphão de pae, era sustentado no collegio pelo
-trabalho insano da mãe e da irmã mais velha que
-se haviam feito costureiras para o poderem educar.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_28" id="Page_28">[28]</a></span></p>
-
-<p>Henrique fizera-se homem antes de tempo.</p>
-
-<p>O seu pensamento fixo era poder pagar a divida
-sagrada que contrahira com as duas heroicas e dedicadas
-mulheres.</p>
-
-<p>Quando Thadeu despertou do desmaio em que
-a fraqueza o mergulhára, fixou os seus tristes
-olhos esgazeados e humildes na physionomia meiga
-e viril de Henrique.</p>
-
-<p>Comprehendeu que tinha achado um amigo e
-cahiu-lhe nos braços a soluçar.</p>
-
-
-
-<h4>V</h4>
-
-
-<p>Thadeu conservára-se cinco annos no collegio, e
-sahira de lá um pouco mais forte e um pouco menos
-desgraçado.</p>
-
-<p>Henrique, que havia tres annos tinha completado
-a sua educação, e que agora cursava a escola
-de medicina, nunca deixára de o ir visitar de
-tempos a tempos, levando-o muitas vezes por occasião
-das férias a passar o dia em casa de sua
-mãe.</p>
-
-<p>O moço estudante de medicina dava lições de
-francez e inglez nas horas vagas, para augmentar
-os minguados recursos da familia, e como um tio
-que morrera lhe tivesse deixado uma pequena pensão,<span class="pagenum"><a name="Page_29" id="Page_29">[29]</a></span>
-viviam agora todos tres mais desaffogadamente.</p>
-
-<p>Occupavam uma casa pequenina mas muito aceiada
-e quasi nova; tinham um quintal com tres gallinhas,
-um casal de pombos e um canteirinho semeado
-de flôres.</p>
-
-<p>O trabalho da casa era a mãe de Henrique quem
-o fazia; a irmã costurava e bordava para fóra, o
-irmão vivia de estudar e de esperar.</p>
-
-<p>Muito unidos, muito resignados; em certos momentos
-mesmo, muito alegres, d'uma alegria serena
-e doce, a alegria dos corações honrados que
-confiam na providencia de Deus!</p>
-
-<p>Henrique era formoso sem dar por isso. O unico
-modo possivel de um homem ser formoso.</p>
-
-<p>Joanninha, a irmã, que já fizera vinte e sete annos,
-era uma doce e casta physionomia de virgem
-que tem padecido muito.</p>
-
-<p>Nos seus grandes olhos melancolicos havia a
-tranquilla doçura dos que repouzam depois de uma
-lucta esmagadora.</p>
-
-<p>Tinha a certeza de que havia na terra alegrias
-que nunca seriam d'ella, e no entretanto não se
-revoltára; puzera n'outro ponto mais alto a sua
-mira.</p>
-
-<p>Desdobrára a sua individualidade, vivia da vida
-e das esperanças de seu irmão.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_30" id="Page_30">[30]</a></span></p>
-
-<p>N'este interior recolhido e casto, Thadeu sentiu
-pela primeira vez acordar a consciencia.</p>
-
-<p>Soffria muito ali pelas comparações dolorosas
-que fazia, mas comprehendeu que n'esse mesmo
-soffrimento havia um progresso do seu espirito e
-affeiçoou-se ás torturas que elle lhe dava.</p>
-
-<p>O trabalho era a lei d'aquella casa, e Thadeu
-não sabia trabalhar.</p>
-
-<p>Ali concebia-se a vida de um modo elevado e
-justo, a dignidade do homem estava identificada
-com a sua independencia, e Thadeu não passava
-de um parasita.</p>
-
-<p>Aprendeu na convivencia de Henrique e de sua
-mãe e irmã muito mais do que aprendêra em todos
-os 18 annos de sua desconsolada existencia.</p>
-
-<p>Determinou ter uma occupação, um officio, exercer
-um trabalho qualquer, mas bem depressa adquirio
-a desoladora certeza de que a sua fraqueza physica
-o tornava incapaz de qualquer esforço aturado
-e violento.</p>
-
-<p>Com vinte e tres annos conseguira tão sómente,
-por fim de porfiada lucta, ser uma especie de caixeiro
-de guarda-livros de seu tio.</p>
-
-<p>Aprendeu a fazer bem contas, e tornou-se util
-n'aquella desordenada administração de uma casa
-collossal.</p>
-
-<p>Isto não era de certo cousa que satisfizesse as<span class="pagenum"><a name="Page_31" id="Page_31">[31]</a></span>
-ambições de outro qualquer, mas para elle isto já
-era uma grande, uma sublime conquista.</p>
-
-<p>Ganhava o pão que comia.</p>
-
-<p>Era um escripturario humilde, mas tinha direito
-a dizer que não dependia de ninguem.</p>
-
-
-
-<h4>VI</h4>
-
-
-<p>No dia em que Thadeu soube que Margarida ia
-chegar, a sensação que fez vibrar todo o seu sêr,
-foi violenta de mais para que possa ser descripta.</p>
-
-<p>Acudiram-lhe em tropel, desordenadamente,
-n'uma confusão louca, todas as lembranças do
-passado, todas as queridas visões d'aquelles nove
-annos de extase que elle vivêra.</p>
-
-<p>Estava tudo intacto n'um cantinho luminoso da
-sua alma, onde elle não entrava com medo de fazer
-fugir as avesinhas azues que eram as suas
-saudades.</p>
-
-<p>Margarida! Bebé! A sua alegria! A loura cabecinha
-encaracollada, os olhos côr de azul, limpidos,
-transparentes, crystallinos, como um céo de
-primavera! os pequeninos braços gordos e nedios!
-a boquinha risonha! a voz musical, uma voz de
-cotovia acordando os écos da alvorada!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_32" id="Page_32">[32]</a></span></p>
-
-<p>Todo aquelle conjuncto de graças ia ser d'elle
-outra vez.</p>
-
-<p>Com que delicia soffrega elle não beijaria os pézinhos
-da sua fada pequenina e loura!</p>
-
-<p>Como lhe contaria tudo que tinha passado longe
-d'ella!</p>
-
-<p>As saudades sem consolo, as lagrimas que chorára,
-as humilhações que soffrêra no meio d'aquelles
-perversos de faces rosadas e imberbes, que se
-tinham constituido em algozes da sua fraqueza e
-do seu desamparo!</p>
-
-<p>Oh! amal-a-hia tanto e tanto, que ella havia de
-dar-lhe por força um bocadinho de affecto, e esse
-bocadinho só bastaria a torna-lo mais feliz do que
-um rei.</p>
-
-<p>Margarida!</p>
-
-<p>E ao repetir baixinho com um calafrio de prazer
-este nome querido, via saltar n'um raio de sol
-uma figurinha esbelta, graciosa, de fato muito curto
-e muito simples, um vestido branco, um cinto azul,
-um bibe de cercadura bordada, onde as amoras
-colhidas por elle tinham posto uma mancha vermelha,
-com os espessos cabellos louros em anneis
-soltos, e uma risada a vibrar ainda em torno d'ella
-como um rosario de perolas que se desfiasse dentro
-de um cofre de crystal.</p>
-
-<p>Henrique julgou que elle endoudecia, e Joanninha<span class="pagenum"><a name="Page_33" id="Page_33">[33]</a></span>
-com a sua voz velada, onde havia uns toques
-de doçura maternal, dizia-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;Mas olhe que ella é uma senhora! Já não
-póde ser a mesma. Não tenha uma esperança que
-vai converter-se-lhe em martyrio!</p>
-
-<p>&mdash;A minha Margarida, repetia elle alheiado,
-meio louco! A minha filhinha adorada! Nunca tive
-uma alegria que d'ella me não viesse! Todos me
-tratavam mal, só ella gostava de mim e me queria
-sempre ao seu lado. Has de vêl-a, meu Henrique,
-verás se ha no mundo uma creança mais linda,
-mais mimosa, é uma fada, é uma <i>perola</i>, é a minha
-unica amiga n'este mundo!</p>
-
-
-
-
-<h4>VII</h4>
-
-
-<p>No dia seguinte á hora em que uma brilhante
-festa de familia, uma especie de baile muito intimo,
-reunia nas salas do marquez todos os parentes,
-alliados e amigos que vinham solemnisar a
-chegada da sua filha e herdeira, Thadeu na pequenina
-sala de jantar de Henrique, dobrado sobre o
-peitoril da janella n'uma postura de desolação e de
-abandono, soluçava baixinho, ao pé de Joanninha,
-que tentava em vão consolal-o.</p>
-
-<p>Estava de casaca, coitadinho; Joanna não seria<span class="pagenum"><a name="Page_34" id="Page_34">[34]</a></span>
-capaz de rir do desgraçado, mas como a casaca
-lhe ficava mal!</p>
-
-<p>Tinha-se vestido para assistir ao jantar.</p>
-
-<p>Antes do jantar não conseguira vêr Margarida.</p>
-
-<p>&mdash;A sr.<sup>a</sup> D. Margarida vinha muito cançada,
-estava no seu quarto. Dormia. Não havia ordem
-de a acordar.</p>
-
-<p>Eis as seccas respostas que as criadas,&mdash;aquellas
-perversas&mdash;tinham dado ás supplicas phreneticas
-do pobre Thadeu.</p>
-
-<p>Emquanto a ir ao encontro d'ella como tanto
-sonhára, não tinha podido.</p>
-
-<p>Seu tio, agora que lhe descobrira algum prestimo&mdash;muito
-secundario, é verdade, mas um prestimo
-em todo o caso&mdash;abusava d'elle horrorosamente.</p>
-
-<p>Tinha-o tornado uma machina de fazer contas,
-contas de sommar, de repartir, de multiplicar, o
-inferno!</p>
-
-<p>Não pudera ir, mas esperava vê-la logo que ella
-chegasse, vê-la só, poder beijar-lhe as mãos, a
-testa, os cabellos, os pés! Vesti-la toda de beijos
-como d'antes!</p>
-
-<p>E depois sabia que tambem ella havia de ter
-saudades! Que tambem se havia de lembrar muito
-do seu amigo, do seu Thadeu, do seu cão fiel!</p>
-
-<p>Estava impaciente, estava no ar. Mas quando<span class="pagenum"><a name="Page_35" id="Page_35">[35]</a></span>
-teve a certeza de que só a veria na sala, foi vestir-se
-logo, envergou uma casaca de seu pae que
-este mandára arranjar para elle, uma casaca muito
-larga, já fóra da moda, de panno azulado.</p>
-
-<p>Que lhe importava! Ia vê-la!</p>
-
-<p>Vê-la era o céo.</p>
-
-<p>Vinha-lhe á lembrança aquelle ninho de melros
-que apanhára um dia&mdash;sabe Deus com que trabalho&mdash;para
-lhe dar, e o dia em que ella lhe pedira
-a lua com uma gravidade tão comica, apontando
-para o tanque, e o balouço que ambos tinham
-projectado fazer, e as historias que elle lhe contava
-debaixo do castanheiro á tarde, emquanto que
-a musica do piano suspirava ao longe, e havia no
-ar uns rumores indefinidos de que ella lhe perguntava
-a explicação.</p>
-
-<p>&mdash;São os passarinhos que andam a arranjar-se
-para se deitarem a dormir dentro dos seus ninhos&mdash;costumava
-dizer Thadeu.</p>
-
-<p>E ella ria-se virando a cabeça muito esperta para
-a cupula do castanheiro, a ver se descobria como
-se faz a <i>toilette</i> nocturna dos passarinhos.</p>
-
-<p>Entrára emfim na sala.</p>
-
-<p>Havia grupos aqui e ali. Graves politicos que
-discutiam, financeiros de abdomen volumoso, matronas
-severas, moços elegantes, e no meio de tudo
-um bando de raparigas alegres, garridas, a chilrearem,<span class="pagenum"><a name="Page_36" id="Page_36">[36]</a></span>
-a rirem e a cochicharem entre si, contentes
-da nova companheira que lhes chegava de longe,
-mas muito mais contentes ainda d'aquella atmosphera
-festiva e perfumada que as envolvia.</p>
-
-<p>No meio d'esse grupo encantador é que <i>ella</i> estava
-de pé.</p>
-
-<p>Um corpo deliciosamente modelado, de uma
-graça franzina e toda moderna.</p>
-
-<p>Tinha um vestido de <i>foulard</i> muito justo, muito
-elegante, e no meio dos rôlos do seu crespo cabello
-louro aninhava-se uma rosa vermelha, uma
-rosa côr de sangue.</p>
-
-<p>Os olhos azues, altivos e desdenhosamente fixos
-lembravam... os olhos metallicos de sua mãe.</p>
-
-<p>Pois era aquella a sua Margarida?!</p>
-
-<p>Era.</p>
-
-<p>Não lhe restava a menor duvida. Apesar de todas
-as differenças tinha-a conhecido logo.</p>
-
-<p>A sua limpida testa de creança um pouco curta,
-indicio de obstinação e de capricho; a sua bocca
-pequenina, até alguma cousa dos seus gestos antigos,
-tudo trouxe ao coração de Thadeu uma lufada
-de saudades irresistivel.</p>
-
-<p>Correu para ella como doudo, atravessou pelo
-meio de toda aquella gente, sem a menor timidez,
-sem o menor receio, sem notar sequer o espanto
-que a sua comica apparição tinha excitado.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_37" id="Page_37">[37]</a></span></p>
-
-<p>As raparigas que faziam um circulo em torno de
-Margarida separaram-se n'uma subita explosão de
-risadinhas, e ella, olhando muito fixa para Thadeu,
-exclamou rindo, rindo sem poder mais:</p>
-
-<p>&mdash;Ih! credo, primo Thadeu, que casaca!...
-que figura!... Pelo amor de Deus vá já tirar essa
-casaca e venha depois!</p>
-
-<p>E ria, ria sem disfarce, emquanto elle com os
-braços quebrados, o rosto estupido, a physionomia
-espavorida, sentia dentro de sua pobre alma sem
-consolo esphacelar-se, desfazer-se, diluir-se em lagrimas
-de fel a ultima esperança da sua vida!</p>
-
-
-
-<h4>VIII</h4>
-
-
-<p>Tres dias depois, Margarida, que se esquecêra
-completamente d'aquelle insignificante episodio em
-que Thadeu figurára, encontrou-o por acaso na
-Baixa, onde andava fazendo compras com sua mãe,
-ao lado de Henrique, que para o distrahir tinha
-ultimamente fingido precisar absolutamente da sua
-companhia.</p>
-
-<p>Margarida sahia de uma loja e ia a saltar ligeira,
-elegante com a sua graça parisiense para dentro
-do <i>coupé</i> delicioso que, de proposito para a filha,
-o marquez havia encommendado mezes antes á<span class="pagenum"><a name="Page_38" id="Page_38">[38]</a></span>
-casa Binder, e que dous finos cavallos inglezes
-esplendidamente ajaezados faziam voar pelas ruas
-da nossa pacata Lisboa.</p>
-
-<p>A vista de Thadeu despertou-lhe umas poucas
-de idéas que ainda não lhe tinham occorrido.</p>
-
-<p>Lembrou-se, por exemplo, de que não o vira
-mais, desde o instante em que elle se apresentára
-diante d'ella com uns transportes ridiculos e uma
-<i>toilette</i> horrorosa, na sala povoada pelas suas novas
-amigas, tão ironicas, tão cruelmente maliciosas...</p>
-
-<p>Por que não tornára ella a vê-lo? Tinha-lhe
-esquecido perguntar por elle, fôra muito ingrata...</p>
-
-<p>E sem raciocinar aquelle impulso estranho, parou,
-esperou em uma attitude de <i>coquetterie</i> irresistivel
-que os dous amigos se approximassem,
-visto que ambos caminhavam na direcção em que
-ella estava, e estendendo a Thadeu a sua mão esguia
-e fina, a sua mão de loura, enluvada de pellica
-côr de bronze, disse com uma expressão de
-finura e malicia intraduzivel:</p>
-
-<p>&mdash;Então seu ingrato! Não me tem querido apparecer!
-Por onde tem andado?</p>
-
-<p>E ficou a olhar para elle, como quem espera alguma
-cousa, interrogadora, fascinante, sempre aristocratica.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_39" id="Page_39">[39]</a></span></p>
-
-<p>A marqueza, que já estava dentro do trem,
-murmurou levemente enfastiada:</p>
-
-<p>&mdash;Então, Margarida, ficamos aqui?...</p>
-
-<p>E Thadeu córando, balbuciando, resmoneava
-confusamente uma banal desculpa.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Margarida saltou emfim o estribo que o criado
-conservava desdobrado, envolvendo n'um olhar
-magnetico dos seus scintillantes olhos azues, a
-bella e viril figura de Henrique de Sousa, que
-presenciára mudo aquella scena inexplicavel.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-
-
-<h4>IX</h4>
-
-
-<p>Uma noite em S. Carlos estreiava-se uma celebridade
-lyrica na <i>Norma</i>, que então estava muito
-na voga.</p>
-
-<p>Henrique vivamente instado pela mãe e pela
-irmã e tambem um pouco pelo seu proprio desejo,
-determinou ir ouvir a opera adoravel, que é uma
-verdadeira perola musical.</p>
-
-<p>Havia tempos que elle andava nervoso e inquieto.</p>
-
-<p>Não sabia bem o que tinha mas sentia-se mal.</p>
-
-<p>Tinha impaciencias nervosas que nunca havia<span class="pagenum"><a name="Page_40" id="Page_40">[40]</a></span>
-conhecido no seu organismo equilibrado e harmonico.</p>
-
-<p>Surprehendia-se ás vezes doentiamente, a fazer
-planos impossiveis antes de adormecer; a imaginar
-quanto seria bom ser muito rico, viver na alta
-roda, n'aquella esphera aristocratica e distincta
-em que se não trabalha, em que se falla de um
-modo especial e caracteristico, com termos escolhidos,
-com inflexões muito mais suaves, com uns
-certos desdens que d'antes lhe pareciam ridiculos
-e que lhe estavam agora parecendo superiormente
-requintados. Ter um palacete com alguns salões
-apainelados em cuja escadaria de marmore povoada
-de estatuas e de plantas raras, se aprumassem
-espadanados lacaios de farda; ter equipagens
-luxuosas, ter uma mulher loura, franzina, de testa
-curta, de olhos piscos, com um sorriso felino, quasi
-cruel nos labios vermelhos, e um corpo flexivel,
-delicado, <i>mignon</i> de estatueta de <i>biscuit</i>... Uma
-mulher que se chamasse Margarida.»</p>
-
-<p>N'este ponto da sua scisma Henrique suspendia-se
-como que sentindo a estranha impressão de
-quem vae caminhando por uma estrada lisa e de
-apparencias tranquilisadoras, e encontra de repente,
-debaixo dos pés, quando menos o espera
-um reptil desconhecido.</p>
-
-<p>Margarida! que tinha elle com Margarida?!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_41" id="Page_41">[41]</a></span></p>
-
-<p>Lembrava-se que a desprezára e amaldiçoára
-no dia em que vira chegar a sua casa, pallido,
-desfeito, com uma casaca grotesca e uns olhos inchados
-e vermelhos de chorar, o seu pobre amigo
-Thadeu, que na vespera o tinha deixado tão louco
-de alegria e tão triumphante de felicidade!</p>
-
-<p>Margarida!</p>
-
-<p>Vira-a depois loura, elegante, com o seu desdenhoso
-olhar de myope, subir com ligeiresa fidalga
-o estribo de uma carruagem, descobrindo os finos
-bordados das suas saias, o pequeno pé primorosamente
-calçado, todo um poema de mysteriosas elegancias.</p>
-
-<p>Nunca mais a vira, nunca mais desejára vêl-a!</p>
-
-<p>Para que?</p>
-
-<p>Ella lá tão em cima, elle cá em baixo lidando,
-tressuando, luctando para alcançar... o que talvez
-não tivesse nunca!</p>
-
-<p>Um nome, uma posição, o pão de sua mãe e de
-sua irmã, sem amarguras e sem pequenas privações
-humilhantes!</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>N'aquella noite em S. Carlos a musica sentimental
-e enervante de Bellini, o contacto de todo
-aquelle mundo ocioso e rico ainda o tornava mais
-nervoso e excitado. Estava quasi arrependido de
-ter vindo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_42" id="Page_42">[42]</a></span></p>
-
-<p>N'isto sentiu que lhe batiam no hombro e uma
-voz aflautada, uma voz <i>tremelicante</i>, com inflexões
-muito alegres, disse-lhe ao ouvido:</p>
-
-<p>&mdash;Anda cá acima, pediram-me para te vir buscar,
-para te apresentar; gostam muito de ti! Não
-imaginas como és estimado pela minha querida
-Margarida, desde que soube que tens sido o meu
-unico amigo, o meu auxilio na vida, aquelle a quem
-mais devo depois d'ella.</p>
-
-<p>E Thadeu, porque era elle, arrastava pelos corredores
-das frisas Henrique surprehendido, contrariado,
-com uma estranha sensação de desconforto
-a comprimir-lhe fortemente o peito.</p>
-
-
-
-<h4>X</h4>
-
-
-<p>Na frisa, radiante de mocidade, de fina distincção,
-com todos os requintes da moda a fazer
-realçar a sua belleza moderna, fragil, quebradiça,
-alguma cousa amaneirada estava Margarida.</p>
-
-<p>A marqueza ao lado d'ella conversava com um
-velho diplomata.</p>
-
-<p>Á entrada dos dous a mãe teve um comprimento
-um pouco secco, a filha um sorriso de graça
-adoravel, de garridice innata mas irresistivel.</p>
-
-<p>&mdash;Quiz vêl-o porque soube que tem sido muito<span class="pagenum"><a name="Page_43" id="Page_43">[43]</a></span>
-bom para Thadeu, excellente mesmo. Elle contou-me
-tudo.</p>
-
-<p>Pobre rapaz! <i>poor dear boy!</i> e sorriu-se outra
-vez com um aspecto bondoso e protector que a
-transfigurou por instantes.</p>
-
-<p>&mdash;Eu tinha-me esquecido, o Thadeu é que se
-lembrava de tudo. Fez-me reviver a minha infancia.
-Sempre é bom. Agora já estou tão velha que
-acho immensa graça a estas recordações do passado.</p>
-
-<p>E graciosa, maternal, afastando toda e qualquer
-idéa que não traduzisse uma solicitude encantadora
-para o seu companheiro da infancia, Margarida
-foi o que seria a noiva idealisada pelo austero
-coração de Henrique.</p>
-
-<p>E d'ali em diante o amigo de Thadeu deixava-se
-arrastar de oito em oito dias até o palacete dos
-marquezes.</p>
-
-<p>Era ali optimamente recebido.</p>
-
-<p>Margarida, adorada pelos paes, dava a lei em
-casa. Sabiam-n'a voluntariosa, cheia de caprichos
-e de phantasias, tinham medo de irrital-a resistindo-lhe.</p>
-
-<p>Depois, Henrique com as suas maneiras de
-<i>gentleman</i>, com a gravidade desaffectada do seu
-porte, com os generosos ardores da sua rica organisação,
-revelava-se o que era: um homem de futuro,<span class="pagenum"><a name="Page_44" id="Page_44">[44]</a></span>
-um homem que havia de ter nome mais tarde.</p>
-
-<p>O marquez, cynico como a vida o tornára, era
-juiz excellente n'este assumpto.</p>
-
-<p>Conhecia um <i>homem</i> depois de duas horas de
-conversação.</p>
-
-<p>As proprias severidades do moço, amollecidas
-agora ao contacto da perturbadora formosura de
-Margarida, agradavam ao marquez como uma cousa
-nova, picante, inteiramente imprevista para elle.</p>
-
-<p>Thadeu nadava em um jubilo celeste.</p>
-
-<p>Era muito bem tratado; Margarida tinha com
-elle umas garridices angelicas que ás vezes o deixavam
-pallido e suffocado, encostado a uma arvore
-ou a um banco do jardim para não cahir no
-meio do chão desfeito em lagrimas.</p>
-
-<p>Thadeu tinha agora de vez em quando um odio
-selvagem á sua mesquinha e enfezada personalidade.</p>
-
-<p>Se elle não fosse como era... se fosse alto, esbelto,
-forte... póde ser... tem-se visto tanta
-cousa...</p>
-
-<p>E tambem ficava absorto, idiota, seguindo com
-um olhar esgazeado umas visões que o iam enlouquecendo.</p>
-
-<p>Ella no emtanto vinha alegre, radiosa, cheia de
-vida, com o seu vestido de <i>foulard</i> côr de carne
-a desenhar-lhe as fórmas flexiveis, com uma rosa<span class="pagenum"><a name="Page_45" id="Page_45">[45]</a></span>
-nos seus cabellos louros, dava-lhe o braço, e arrastava-o
-enlevado e estupido pelas alamedas do
-jardim.</p>
-
-<p>&mdash;Conta-me lá o que tu fazias quando eu cá
-não estava! conta-me em que pensavas. Estavas
-muito triste? Quando é que viste pela primeira
-vez o teu amigo Henrique? Que lhe dizias tu de
-mim? E elle?... elle que idéa fazia d'esta endiabrada
-pessoa que tu lhe descreveste tanta vez com
-a tua phantasia de poeta&mdash;porque tu quando se
-trata de mim és poeta, meu pobre Thadeu!&mdash;Anda,
-falla, conta-me o que vocês faziam, gosto
-tanto de te ouvir!</p>
-
-<p>E toda dobrada sobre o hombro d'elle, meiga,
-electrica, fascinadora, com meneios de serpente,
-levava horas passeando pelo braço de Thadeu.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Um anno depois d'esta época, Margarida declarava
-terminantemente aos paes que voltava para
-França, que ia morrer freira no convento onde
-vivêra educanda, se elles a não casassem com
-Henrique.</p>
-
-<p>E dizia-lhes estas palavras n'uma tal violencia
-de gritos e de soluços, tão magra, tão empallidecida
-n'aquella lucta intima de doze longos mezes,
-que o marquez encolheu os hombros com a suprema
-indifferença que fazia d'elle um <i>viveur</i>, e que<span class="pagenum"><a name="Page_46" id="Page_46">[46]</a></span>
-a marqueza animada pela placidez do marido ao
-encarar esta questão magna, declarou á filha, hoje
-seus unicos amores, que ia fazer tudo para lhe
-dar o noivo da sua alma, o escolhido pela sua ardente
-paixão juvenil.</p>
-
-<p>Teve medo de ver a filha definhar-lhe e morrer-lhe
-nos braços. Via-a tão abatida, tão triste,
-tão enfastiada da vida, que a idéa de perdêl-a sobrelevou
-a todos os seus escrupulos de rica e de
-fidalga.</p>
-
-<p>Margarida auctorisada pelos paes pôde dizer a
-Henrique, que o amava!</p>
-
-<p>Quanto amor! que enthusiasmo febril n'este sublime
-impudor da creança opulenta, formosa, aristocratica,
-disputada por dezenas de noivos tão ricos
-e tão nobres como ella, que vem espontaneamente
-offerecer a sua mão e a sua vida inteira ao
-obscuro plebeu que passa confundido no meio das
-multidões desconhecidas!</p>
-
-<p>E esse impudor ninguem mais fidalga e altivamente
-do que Margarida o soube ter.</p>
-
-<p>Sabia-se adorada, estremecida, sabia que um
-riso d'ella bastaria para as alegrias e para as torturas
-de uma semana passada por Henrique na
-labutação da sua mesquinha existencia; mas sabia
-tambem que elle era tão grande, tão forte, tão orgulhoso
-e digno que podia morrer, mas que morreria<span class="pagenum"><a name="Page_47" id="Page_47">[47]</a></span>
-calado, sem que uma palavra revelasse o seu
-martyrio!</p>
-
-<p>&mdash;Thadeu, meu querido Thadeu, meu amiguinho,
-tenho sido muito má, não tenho querido contar-te
-nada com medo de que lhe dissesses a <i>elle</i>
-alguma cousa. Eu queria ser a primeira a dizer-lh'o,
-queria gozar do seu sorriso, do seu olhar de
-anjo, de martyr beatificado, do seu olhar que me
-enlouqueceu para sempre... Agora digo-te, já não
-tenho motivo nenhum para t'o esconder.</p>
-
-<p>Vou casar-me, vou ser d'elle, só d'elle... levar-te-hei
-comnosco... Olha que foi elle que m'o
-pediu... Vê como elle é bom. Eu a fallar a verdade
-estava tão douda que nem me lembrei de similhante
-cousa; mas elle fallou logo em ti, foi a
-sua primeira vontade! Adoro-te visto que elle é
-teu amigo. Has de aborrecer-me ás vezes, meu pobre
-Thadeu, porque nunca entendes a tempo quando
-deves ir-te embora, mas eu hei de educar-te.
-Verás! Viveremos todos tres. Nunca mais te hei
-de tratar mal! nunca mais me hei de rir da tua
-casaca. E, a proposito, tu ainda a tens, aquella
-malfadada casaca? Não me faças rir no dia do
-meu casamento, pelo amor de Deus manda fazer
-uma nova para esse dia. Não tenhas medo de gastar.
-Eu tenho muito. Sou rica, muito rica, somos
-todos tres muito ricos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_48" id="Page_48">[48]</a></span></p>
-
-<p>E douda, anhelante, no delirio da creança que
-venceu a sua primeira teima, na dilatação ampla
-de uma alma que conquistou o seu desejo supremo,
-Margarida expandia n'estas palavras diffusas,
-incoherentes, sem nexo, toda a felicidade que era
-hoje d'ella e que julgava eterna.</p>
-
-<p>Thadeu escutava com o olhar morto e vidrado
-de um somnambulo.</p>
-
-<p>Depois emmudecido por uma dôr aguda que lhe
-rasgava as carnes de todo o seu corpo como um
-punhal de muitas laminas, sahiu do quarto cambaleando
-como um ebrio.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>No dia do casamento de Henrique houve dous
-entes que na humilde tristeza de uma pobre casa,
-choravam unidos todas as lagrimas da sua alma.</p>
-
-<p>A um d'esses entes pungia-o uma angustia dilacerante
-demais para que a palavra humana a pudesse
-traduzir.</p>
-
-<p>A outro sobresaltava-o um presentimento horrivel,
-como que um dobrar de finados que lhe écoava
-lá dentro, e ao qual não podia fechar os ouvidos.</p>
-
-<p>Esses dous entes esquecidos, voluntariamente
-afastados das pompas principescas d'aquelle dia,
-das festas d'aquella solemnidade esplendida eram
-Thadeu e a irmã de Henrique.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_49" id="Page_49">[49]</a></span></p>
-
-
-
-
-<h4>XI</h4>
-
-
-<p>De feito havia já cinco annos que viviam juntos
-em uma casa espaçosa e lindissima de Buenos-Ayres.</p>
-
-<p>Henrique pedira com tão meigas e sentidas palavras
-a Thadeu para que elle os não deixasse, que
-depois da viagem de rigor feita pelos noivos á Suissa
-e á Italia o <i>bom cão fiel</i> foi viver junto d'elles.</p>
-
-<p>As investigações da sciencia, o estudo paciente
-dos homens e das cousas, altas aspirações inspiradas
-pelo marquez a uma gloriosa carreira politica,
-absorviam Henrique, emquanto que Thadeu mais
-amadurecido agora pela experiencia da vida, administrava
-a casa, tomava contas aos feitores e criados,
-punha em ordem os róes, recebia os rendimentos,
-pagava aos fornecedores, era por assim
-dizer o mordomo mór da opulenta fortuna da sua
-companheira de infancia.</p>
-
-<p>Margarida continuava a ser o enlevo e o mimo
-de quantos viviam junto d'ella.</p>
-
-<p>De uma organisação delicada, nervosa e vibratil,
-com um aspecto infantil, que infundia uma vaga
-e doce idéa de protecção; boa, d'esta bondade superficial
-e egoista, que consiste em não gostar de
-ver ninguem triste ao pé de si, todos os seus caprichos<span class="pagenum"><a name="Page_50" id="Page_50">[50]</a></span>
-se convertiam n'outras tantas graças, todas
-as suas exigencias se impunham com a tyrannia
-adoravel de uma supplica!</p>
-
-<p>O marido tinha por Margarida aquella paixão
-deleteria e quasi covarde, que ella lhe inspirára
-logo no primeiro dia.</p>
-
-<p>Não sabia resistir senão a muito custo, a um
-olhar d'aquelles olhos humidos e radiantes, a um
-sorriso d'aquelles labios vermelhos, a um gesto
-d'aquellas mãos finas, esguias, pallidas, da suave
-pallidez dos lyrios.</p>
-
-<p>Não era bem amor, era uma fascinação, uma
-embriaguez, uma d'estas doenças que exercem no
-cerebro a sua acção paralysadora.</p>
-
-<p>Margarida que nenhuma força superior tentava
-dominar, déra expansão completa a todos os caprichos
-da sua colorida e quente phantasia.</p>
-
-<p>Adorava o luxo, as cousas d'arte, a musica, as
-flores raras, frequentava muito o alto mundo onde
-era requestadissima, vivia na perpetua idolatria de
-si propria, que a pouco e pouco a inutilisava para
-os graves deveres da vida.</p>
-
-<p>Thadeu no meio da sua céga e embrutecedora
-adoração obedecia-lhe como um escravo. Só elle
-sabia as despezas collossaes, as extravagancias
-principescas d'aquella pequenina pessoa, activa,
-graciosa, phantasista como um poeta oriental.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_51" id="Page_51">[51]</a></span></p>
-
-<p>Mas economisava ridiculamente em todas as verbas,
-para que <i>ella</i>, a rainha, a <i>perola</i>, a <i>Margarita</i>
-dos seus sonhos d'outro tempo não franzisse um
-minuto a sua testa curta, a sua testa de teimosa,
-na contrariedade de um desejo insaciado.</p>
-
-<p>E ella estava tão habituada á submissão e á humildade
-d'aquelle pária, que o tratava como um
-traste, um objecto seu, com o qual não tinha de
-mostrar o minimo constrangimento, a minima attenção
-affectuosa.</p>
-
-<p>&mdash;Thadeu, quero isto! Thadeu, quero aquillo!
-Thadeu, vi hoje na loja de F. um adereço de um
-conto de réis. Se o não mandar buscar até ámanhã
-vendem-n'o. Eu quero-o. Não me deixes ficar
-sem elle. Fazias-me chorar!</p>
-
-<p>Não lhe pedia a lua como em outro tempo, mas
-quantas vezes lhe pedia cousas quasi tão inacessiveis
-como a lua!</p>
-
-<p>Margarida tinha dous filhos. Um menino e uma
-menina. Dous cherubins.</p>
-
-<p>Mais meigos do que a mãe nunca fôra, mais doceis,
-mais tranquillos, tendo no olhar a serenidade
-melancolica do olhar de seu pae!</p>
-
-<p>Thadeu envelhecido, de uma velhice precoce que
-assombrava os que o haviam conhecido na infancia,
-tinha por essas duas creanças um louco amor
-de avô.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_52" id="Page_52">[52]</a></span></p>
-
-<p>Aquelles quatro seres eram a sua vida.</p>
-
-<p>Fundia-os a todos na mesma adoração apaixonada
-e timida.</p>
-
-<p>Vivia d'elles e para elles.</p>
-
-<p>Henrique era o seu respeito. Margarida o idolo
-do seu passado, os dous cherubins louros, a unica
-esperança suave do seu futuro.</p>
-
-<p>Sacrificar-se, esquecer-se, abnegar de si, eis o
-modo obscuro e sublime pelo qual elle sabia querer!</p>
-
-<p>Mas os dous pequeninos que não eram turbulentos
-nem crueis, tinham nas suas caricias inconscientes
-o balsamo poderoso, o balsamo divino para
-as chagas occultas d'aquelle coração que a vida
-ulcerára tanto e tanto.</p>
-
-
-
-<h4>XII</h4>
-
-
-<p>Desde algum tempo que Thadeu andava inquieto.</p>
-
-<p>Com o seu faro finissimo de rafeiro fiel presentia
-no ar um perigo desconhecido, alguma cousa
-de mysterioso e de sinistro, que ouvia rugir ao
-longe como no fundo de uma voragem.</p>
-
-<p>Na apparencia todos viviam tranquillos:</p>
-
-<p>Henrique sempre bom, sério, pensativo, de uma
-indulgencia de forte, de uma doçura de heroe.</p>
-
-<p>Margarida sempre buliçosa, inquieta, cheia de<span class="pagenum"><a name="Page_53" id="Page_53">[53]</a></span>
-desejos infantis, de caprichos, de alegrias ruidosas
-ou de melancolias subitas que ás vezes no silencio
-da sala fôfa e discreta pareciam a Thadeu um
-grito de alarme na monotonia do deserto.</p>
-
-<p>As criancinhas... sempre os seus mais dôces amores,
-aquelles de que jámais lhe proviera uma amargura.</p>
-
-<p>Quando Thadeu pensava que podia uma fatalidade
-qualquer separal-o dos seus dous anjos, desatava
-a chorar como um perdido na solidão do seu quarto.</p>
-
-
-
-
-<h4>XIII</h4>
-
-
-<p>Elle estava sentado ao pé da mesa. Primeiro estivera
-fazendo contas, róes de casa, agora pendia-lhe
-a cabeça embevecido n'uma vaga scisma.</p>
-
-<p>Sem saber explicar por que, n'aquelle dia lembravam-lhe
-tantas cousas do seu passado!...</p>
-
-<p>Sentia dentro de si uns vagos assomos de revolta,
-lembrando-se das humilhações que padecêra,
-dos tratos com que lhe haviam enfraquecido o corpo
-e atrophiado a intelligencia. Depois... na sua vida,
-até ali obscura e dolorosa, surgia de repente
-envolta nas rendas brancas do seu berço uma visão
-deliciosa, uma pequena fada, a sua amiguinha,
-a sua Margarida!...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_54" id="Page_54">[54]</a></span></p>
-
-<p>Como fôra feliz com ella e por amor d'ella...</p>
-
-<p>Comtudo... pensando bem... para essa felicidade
-chymerica fôra elle quem fornecêra todos os
-elementos. Ella nunca vira no pobre Thadeu senão
-um instrumento dos seus caprichos, um escravo
-das suas vontades...</p>
-
-<p>Em todas as delicias com que dourara a sua
-vida não havia uma só que fosse nascida da vontade
-de ser-lhe boa, util, consoladora!...</p>
-
-<p>&mdash;É verdade, murmurava o pobre doudo, é verdade!
-Ella nunca teve coração!</p>
-
-<p>E suspendeu-se como que aterrado d'aquella
-blasphemia.</p>
-
-<p>N'este momento Margarida entrava pelo quarto
-de Thadeu, pallida como um cadaver, com os grandes
-olhos dilatados n'uma expressão de indescriptivel
-pavor.</p>
-
-<p>Agarrou-se-lhe ao braço e disse lhe baixo, n'uma
-voz estrangulada e rouca:</p>
-
-<p>&mdash;Henrique chegou da quinta. Eu não o esperava.
-Contava que elle viesse ámanhã. No meu gabinete
-ha uma pessoa que deve sahir sem que meu
-marido a veja. Ouves? Estou perdida... Estava
-perdida mas lembrei-me de ti... Salva-me...</p>
-
-<p>Não me digas nem uma palavra, proseguio vendo
-que elle ia fallar. Uma demora de segundos perde-me
-sem remissão.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_55" id="Page_55">[55]</a></span></p>
-
-<p>E sahiu com o seu passo miudinho, o seu passo
-<i>chic</i>, aprendido de passagem nos <i>boulevards</i> de
-Pariz.</p>
-
-<p>Thadeu sahiu do quarto, e quando tornou a entrar
-ali, acompanhava-o um moço muito pallido,
-de bigode louro, cabello cuidadosamente frisado e
-<i>toilette</i> irreprehensivel.</p>
-
-<p>Não trocaram uma palavra. Thadeu apontou-lhe
-para uma cadeira, fechou a porta do quarto á chave
-e sentou-se junto da janella, que dava sobre o jardim.</p>
-
-<p>Era em plena primavera. Pela janella aberta entrava
-um perfume vago e subtil, um perfume de
-rosas, de madresilva e de baunilha em flôr.</p>
-
-<p>Ouvia-se o rir e o chilrear das duas creanças, e
-entre as ramarias entrelaçadas dos grandes arbustos
-exoticos, Thadeu viu passar com os seus meneios
-serpentinos, o seu vestido branco, a sua cabelladura
-d'ouro, a figura esbelta de Margarida
-pendida ao braço do esposo com quem fallava baixinho.</p>
-
-<p>Foi a ultima visão que teve d'ella.</p>
-
-<p>Uma visão de perfidia felina e de felina formosura.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_56" id="Page_56">[56]</a></span></p>
-
-
-
-
-<h4>XIV</h4>
-
-
-<p>&mdash;Deixe-se estar quieto. Não vê que não póde sahir
-d'este quarto senão á noite? pronunciou a voz
-enrouquecida de Thadeu.</p>
-
-<p>E sem dar mais attenção ao seu odioso hospede,
-poz-se a arranjar papeis, uma trouxa de roupa,
-algumas velhas reliquias, os retratos dos seus dous
-pequeninos, dos seus <i>netos</i> como elle lhes chamava.</p>
-
-<p>Depois despregou da parede as duas photographias
-de Henrique e de Margarida. A d'elle beijou-a,
-e guardou-a com as dos pequeninos. A
-d'ella... approximou-a d'uma vela que acendêra
-e deixou-a arder até que ficaram só cinzas. Estava
-medonhamente livido.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Era noite: sentiu o rumor conhecido da hora de
-jantar, esperou que o criado viesse chamal-o e respondeu-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;Diga aos senhores que jantem. Eu hoje estou
-convidado fóra, não os posso acompanhar.</p>
-
-<p>Olhou para o homem que alli estava na mudez estupida
-dos malvados, que são ridiculos, e disse-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;Venha d'ahi.</p>
-
-<p>Sahiram juntos.</p>
-
-<p>Thadeu nunca mais voltou; não pôde.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_57" id="Page_57">[57]</a></span></p>
-
-<p>Pediu a esmola de um agasalho á irmã de Henrique,
-e achou meio de fazer n'um escriptorio cópias
-que lhe rendem tres tostões diarios!</p>
-
-<p>D'isso come e d'isso se veste.</p>
-
-<p>Fingiu-se offendido com Henrique por uma duvida
-mesquinha de contas, que este nunca chegou
-a perceber.</p>
-
-<p>Aceitou o papel degradante do ingrato que morde
-a mão que o soccorreu.</p>
-
-<p>Ninguem pôde nunca arrancar-lhe nem uma palavra
-do seu segredo.</p>
-
-<p>Tem 35 annos e dão-lhe setenta.</p>
-
-<p>As poucas pessoas que o vêem ou o desprezam
-por absolutamente insignificante ou têm por elle a
-commiseração que inspira um idiota.</p>
-
-
-
-<div class="chapter">
-<hr class="chap" />
-</div>
-
-
-<h3 id="O_TIO_SEBASTIAO">O TIO SEBASTIÃO</h3>
-
-
-
-<h4>I</h4>
-
-<p>Não havia cousa que mais alegrasse o tio Sebastião,
-um velhito que conheci em uma aldeia
-perto de Braga, do que fallarem-lhe no filho que
-estudava em Coimbra.</p>
-
-<p>Sorriam-se-lhe os olhos, e um contentamento intraduzivel
-espelhava-se-lhe no rosto.</p>
-
-<p>Quando lhe elogiavam o caracter, o talento, a
-bondade e a applicação do rapaz, elle fingia que
-não acreditava, dizia que não era tanto assim...
-e repetia:</p>
-
-<p>&mdash;Favores, meu amigo, favores...</p>
-
-<p>Mas lá no intimo agradecia aquillo tudo, e tinha
-vontade de apertar nos braços a pessoa que<span class="pagenum"><a name="Page_60" id="Page_60">[60]</a></span>
-fallava com tamanho louvor do filho estremecido.</p>
-
-<p>Quando elle descobria o seu fraco, era quando
-lhe elogiavam na presença outro rapaz, outro estudante.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, sim, mas como o meu! Não é porque o
-rapaz seja meu filho, mas disse-me o prior, e olhe
-que o prior não é tôlo nenhum, pois disse-me o
-prior que o meu pequeno era o melhor estudante
-que andava nas aulas de Braga, que lh'o tinham
-dito os proprios mestres. Aquillo tem uma memoria!
-E então lêr! Ás vezes estava horas e horas
-a ouvil-o, fazia gôsto. O talho da lettra já foi melhor,
-isso foi, mas o prior, a quem eu disse isto,
-consolou-me, dizendo-me que todos os doutores
-tinham má lettra. Assim será, mas as primeiras
-cartas que o pequeno me escreveu, quando foi para
-o estudo, podem mostrar-se... Quer você vêr uma
-d'essas cartas?...</p>
-
-<p>Toda a gente da aldeia gostava do velho, e não
-havia uma só pessoa que para o lisongear, ao encontral-o,
-lhe não perguntasse pelo filho.</p>
-
-<p>&mdash;Obrigado, vae bom! e com um sorriso doce,
-enternecido e caridoso envolvia o da pergunta.</p>
-
-<p>O tempo das ferias, sobretudo as do Natal, que
-é quando se mata o porco, e se fazem filhós, e se
-conversa animadamente em volta da lareira, era
-anciosa e impacientemente esperado pelo velho;<span class="pagenum"><a name="Page_61" id="Page_61">[61]</a></span>
-todas as noutes ia ao reportorio, que tinha á cabeceira
-da cama, e pondo uma cruz no dia que
-findára, dizia jubiloso:</p>
-
-<p>&mdash;É de menos um!</p>
-
-<p>Na vespera da chegada do filho, era uma azafama,
-um revolver as velhas arcas de onde se exala
-um forte cheiro de maçãs camoezas, e um andar
-tudo n'uma poeira n'aquella casa.</p>
-
-<p>&mdash;Esta cama não tem roupa bastante, Joanna,
-dizia para a creada; vá buscar mais um cobertor!</p>
-
-<p>E alisava a colcha, endireitando a fronha da travesseirinha,
-e repetindo:</p>
-
-<p>&mdash;O estudante é muito mimoso, e depois faz frio
-que não é brincadeira!</p>
-
-<p>Ia á cosinha, era preciso comprar isto e mais
-aquillo. Examinava os armarios, passava revista
-aos frascos das compotas, e punha de banda as
-garrafas de vinho antigo.</p>
-
-<p>&mdash;Não que elle gosta do que é bom!</p>
-
-<p>Na rua não esperava que lhe perguntassem pelo
-filho:</p>
-
-<p>&mdash;Chega ámanhã, chega ámanhã!</p>
-
-<p>As ancias eram no dia da chegada. Vinha para
-a porta, esfregando as mãos, rutilante de prazer.
-Todo o pobre que passava tinha uma esmola, todo
-o transeunte um cumprimento benevolo e affavel.<span class="pagenum"><a name="Page_62" id="Page_62">[62]</a></span>
-Os visinhos exploravam aquelle grandissimo e sagrado
-affecto.</p>
-
-<p>&mdash;Com que então é hoje, hein?</p>
-
-<p>&mdash;É verdade, pelo menos assim o espero. Queira
-Deus que lhe não succeda alguma no caminho.
-Isto de rapazes...</p>
-
-<p>&mdash;Ha rapazes e rapazes. O seu é uma joia...</p>
-
-<p>&mdash;Sim, sim, mas ha más companhias...</p>
-
-<p>&mdash;Qual! E então o juizo e o talento para que
-servem? Eu tenho ido com elle algumas vezes a
-Braga, e bem vejo as pessoas com quem o seu
-menino se dá. É tudo gente da melhor. E não lhe
-fazem favor. Todos me gabam a sabedoria do seu
-estudante, todos...</p>
-
-<p>&mdash;E eu que o diga, affirmava outro.</p>
-
-<p>&mdash;Então porque não entram? Vejam se apanham
-um catharral! Está muito frio. Ó Joanna,
-traze duas malgas d'aquelle vinho que sabes, e não
-te esqueças de trazer uma talhada de presunto.
-Vão beber pinga de substancia! Este é do tal que
-faz peito, hê, hê, hê!</p>
-
-<p>&mdash;Com que então&mdash;diziam os biltres&mdash;á saude
-do sr. doutor!</p>
-
-<p>&mdash;Que Deus fará! Tornava o bom do lavrador,
-com as lagrimas nos olhos. Mas eu não tenho
-malga, traze-me tambem uma, que quero beber á
-saude aqui dos amigos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_63" id="Page_63">[63]</a></span></p>
-
-<p>E bebia de um trago, valentemente, com alma.</p>
-
-<p>O estudante ás vezes, na vinda de Coimbra,
-chegava a Braga, onde tinha amigos e condiscipulos
-antigos, e ficava mais um dia. De fórma que o
-velho esperava, e ia deitar-se cheio de cuidados;
-não pregava olho toda a noute.</p>
-
-<p>A Joanna, que bebera o mesmo leite que Sebastião,
-ouvindo-o gemer e suspirar, erguia-se, e perguntava-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;Tem alguma cousa, sô Sebastião?</p>
-
-<p>&mdash;Que é? O estudante chegou? Já me levanto,
-traze-me a candeia!</p>
-
-<p>E era preciso que a velha lhe explicasse tudo, e
-que o emballasse carinhosamente com aquellas doces
-palavras com que as mães adormecem os filhos
-rabugentos.</p>
-
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>O tio Sebastião, quando casou, tinha cincoenta
-annos, uns cincoenta annos limpos e rijos como não
-ha ahi muitos trinta.</p>
-
-<p>Emquanto a mãe foi viva, não lhe quiz dar nóra.</p>
-
-<p>&mdash;Nada! dizia ás pessoas que lhe aconselhavam
-o casamento, nada! Que lucro eu com isso? A velhinha
-podia não se dar com o genio da mulher
-que eu trouxesse para casa e isso era o inferno<span class="pagenum"><a name="Page_64" id="Page_64">[64]</a></span>
-para mim. Quem manda n'aquella casa é minha
-mãe, e ha-de mandar em quanto fôr viva. Ella
-ralha, ella grita, ella dá por paus e por pedras,
-por dá cá aquella palha. Deixal-a! Quando rabuja
-de mais, saio de casa, e a Joanna que a ature!
-São mulheres, e lá se entendem. Se eu me casasse,
-tinha de acudir por uma ou por outra... Nada!
-boi solto lambe-se todo...</p>
-
-<p>E ainda solteiro fechou os olhos da mãe que lhe
-morreu nos braços.</p>
-
-<p>Joanna ficou senhora de tudo. Era ella que olhava
-pela casa, que dava ordens, a verdadeira dona da
-casa emfim. Aquelle novo modo de vida, porém,
-começou a pesar-lhe, entrou a ter saudades do antigo
-jugo, queria receber ordens e não dal-as; a
-domesticidade era para ella um habito de que não
-havia desacostumal-a.</p>
-
-<p>&mdash;Sabe o que mais, sô Sebastião? disse ella um
-dia ao patrão. O tempo das rapasiadas passou. Por
-que não toma estado? Moças é que não faltam. É
-verdade que o mundo vai perdido de todo, mas
-ainda ha raparigas perfeitas e tementes a Deus.</p>
-
-<p>&mdash;Endoudeceste, Joanna! Eu caso me lá, n'esta
-edade! Só se fôr comtigo...</p>
-
-<p>&mdash;Lá começa elle com as tolices do costume.</p>
-
-<p>Agua molle em pedra dura...</p>
-
-<p>O tio Sebastião entrou um dia em casa com noiva.<span class="pagenum"><a name="Page_65" id="Page_65">[65]</a></span>
-Era orphã de pae e mãe, era pobre, não tinha
-parentes a não ser um irmão que fôra para o Brazil,
-e de quem não havia noticias ha muito tempo; contava
-trinta e tantos annos, mas era madrugadôra
-como um gallo, direita como um vime, e valia por
-dous homens no amanho da vida.</p>
-
-<p>Quando o tio Sebastião lhe fallou em casamento,
-ella fez-se vermelha como uma papoula, hesitou
-um momento, e atirando com a fouce com que andava
-a cegar fêno, lançou-se-lhe nos braços, e n'um
-amplexo formidavel de leôa, rompeu com isto:</p>
-
-<p>&mdash;Esperava esta felicidade ha dez annos. Abrace-me,
-sô Sebastião, que se não fosse comsigo, não
-me casava senão com a cóva.</p>
-
-<p>Vinha de longe o affecto d'esta mulher pelo bondoso
-homem.</p>
-
-<p>O pae de Carlota cahiu entrevado; o tio Sebastião
-ao passar-lhe um dia á porta ouviu choros e
-lamentações; entrou e soube que havia alli necessidade
-e quasi fome; a filha unica do invalido,
-Carlota, tinha de ficar á cabeceira do catre; as
-ultimas economias haviam-se extinguido pouco a
-pouco.</p>
-
-<p>O tio Sebastião soccorreu aquella gente, mandou
-chamar o medico a Villa Verde, pagou os remedios
-da botica e por fim o enterro do infeliz.</p>
-
-<p>Entre as poucas pessoas que acompanharam á<span class="pagenum"><a name="Page_66" id="Page_66">[66]</a></span>
-egreja o modesto ataúde, ia o tio Sebastião curvado,
-melancolico, com o seu rosto barbeado, e
-cheio de bondade e lhaneza.</p>
-
-<p>Carlota, que chorava a um canto do albergue,
-com as mãos atadas á cabeça despenteada, ao vêr
-entrar o bemfeitor, não lhe agradeceu as esmolas
-com palavras ociosas&mdash;arrastou-se para elle de
-joelhos, e agarrando-lhe nas mãos beijou-as com
-devota soffreguidão.</p>
-
-<p>Passados tempos o tio Sebastião esquecera-se
-d'aquelle episodio, e nem sequer reparou que a
-melhor cantadeira do logar, que inquestionavelmente
-era a Carlota, deixava de cantar todas as
-vezes que elle passava por uma certa azinhaga...</p>
-
-<p>Se elle volvesse o rosto veria no meio das hervas
-altas e humidas, ou em cima dos castanheiros
-folhudos e entrelaçados de pampanos, um vulto
-de mulher voltado para elle, a devoral-o com a
-vista, a seguil-o, a banhal-o na luz cariciosa de
-um longo olhar enamorado.</p>
-
-<p>Não deu por tal o tio Sebastião; Joanna, porém,
-que era amiga de Carlota, adivinhou o segredo, e
-o resultado sabe-o o leitor.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_67" id="Page_67">[67]</a></span></p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>Tres annos depois do casamento o tio Sebastião
-enviuvára.</p>
-
-<p>Ficou-lhe um filho, uma creancinha loura e adoravel,
-o vivo retrato da mãe.</p>
-
-<p>O lavrador concentrava no pequeno todos os
-affectos, amava-o até á insania.</p>
-
-<p>O rapaz cresceu rodeado de caricias, de mimos
-e de ternos cuidados.</p>
-
-<p>Não havia vontade que se lhe não fizesse. Era
-um pequeno rei despotico a cuja voz o pae e a velha
-Joanna se curvavam com cega obediencia.</p>
-
-<p>Ao completar seis annos, por conselho do prior,
-começou o pequeno a estudar as primeiras lettras
-com o professor régio da freguezia.</p>
-
-<p>&mdash;Temos homem, dizia o prior ao velho; o rapaz
-vae bem, estuda e aprende com facilidade.</p>
-
-<p>&mdash;Quando me lembro que posso morrer sem o
-ouvir cantar a missa nova, parece-me que estalo
-de pena.</p>
-
-<p>&mdash;Ó senhor prior, o meu rapaz dava ou não
-dava um padre de mão cheia?</p>
-
-<p>Era para padre que o velho destinava o filho,
-sonhava todas as noutes com a sua primeira missa,<span class="pagenum"><a name="Page_68" id="Page_68">[68]</a></span>
-via-o com as vestimentas engommadas e duras do
-sacerdocio, deante do altar da egreja da freguezia,
-no meio de nuvens de incenso, emquanto os padres
-cantarolavam ao som plangente e arrastado do orgão,
-e os sinos tangiam alegres repiques, e subiam
-ao ar as girandolas de foguetes impregnando de
-um espesso cheiro de polvora o adro enramilhetado
-de murtas...</p>
-
-<p>Prompto nas primeiras lettras, foi o pequeno Sebastião
-para Braga onde se matriculou no lyceu.</p>
-
-<p>N'este entrementes chegou do Brazil o irmão de
-Carlota. Foi á aldeia natal, procurou os parentes,
-e soube que todos tinham fallecido, restando-lhe
-tão sómente um sobrinho.</p>
-
-<p>O brazileiro era solteiro, e doente; não vinha
-millionario, mas tinha mais do que o sufficiente
-para dar uma bonita carreira ao estudante.</p>
-
-<p>&mdash;Olhe, mano, disse ao cunhado, deixe isso ao
-meu cuidado, eu me encarrego do menino. O bem
-que desejava fazer a meus paes, que infelizmente
-não encontrei, hei de revertel-o em favor de meu
-sobrinho.</p>
-
-<p>Uma condicção exijo: não quero que o rapaz se
-ordene. Quero dizer, se isso fôr da sua vontade,
-d'elle, não me opponho, mas deixemos o tempo ao
-tempo. Cá a minha opinião é que elle deve estudar
-medicina. Os medicos ganham muito dinheiro<span class="pagenum"><a name="Page_69" id="Page_69">[69]</a></span>
-em toda a parte, e no Brazil sobretudo, onde o
-mais réles tem carruagem. Está por isto? O rapaz
-quando acabar os estudos em Braga vae para
-Coimbra?</p>
-
-<p>O tio Sebastião custou a descer d'aquelle sonho
-em que andára tantos annos embevecido. Mas por
-fim cedeu.</p>
-
-<p>O brazileiro demorou-se alguns annos ainda em
-Portugal. A quebra, porém, de uma casa importante
-do Rio chamou-o ao Brazil, para onde partiu deixando
-ao sobrinho, que até então se havia portado
-com singular e exemplarissimo discernimento, ordem
-franca para receber tudo que lhe fosse preciso
-n'uma das casas mais acreditadas do Porto.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>Um dos estudantes que mais dinheiro gastava
-em Coimbra por aquelles tempos era Sebastião
-Alves, a quem a convivencia com os rapazes oriundos
-das mais nobres familias de Portugal empavonára
-e envaidecêra extremamente.</p>
-
-<p>No seu quarto, que elle adornára com excessivo
-e inaudito luxo para um estudante, reuniam-se todos
-os que sobresahiam em Coimbra pela fidalguia,
-pela força, e pela estroinice.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_70" id="Page_70">[70]</a></span></p>
-
-<p>Sebastião entrou a ser explorado; pediam-lhe
-dinheiro que nunca era restituido, vestiam-lhe o
-fato, calçavam-lhe as botas, e comiam-lhe ceias
-abundantes e regadas de vinhos caros.</p>
-
-<p>Com aquella vida era incompativel o estudo e a
-reflexão. Deixou de ir ás aulas. Enganava o tio e
-o pae, enviando-lhes certidões falsas dos <i>actos</i> que
-nunca fizera.</p>
-
-<p>Havia dous annos já que não ia á aldeia, cujo
-viver lhe aborrecia e se lhe figurava mesquinho e
-chato.</p>
-
-<p>Quando os estudantes partiam para férias, contentes
-e alegres para os abraços da familia, Sebastião
-Alves deixava tambem Coimbra, percorria
-as praias, ia ao Porto, a Cintra, ao Bussaco.</p>
-
-<p>Aquella vida inutil e varia era de quando em
-quando remordida pelo remorso, todas as vezes
-que o vadio recebia as cartas do pae, que, apesar
-de não terem ortographia, e de serem escriptas
-com uma lettra grotesca e pesada, lhe avivavam
-o entranhado amor com que elle era querido por
-aquelle amantissimo coração de velho.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_71" id="Page_71">[71]</a></span></p>
-
-
-
-
-<h4>II</h4>
-
-
-<p>O brazileiro voltára a Portugal. Em Santa Apolonia
-comprou bilhete para Coimbra, mas adormecendo
-profundamente só acordou quando ouviu um
-empregado gritar: Granja!</p>
-
-<p>&mdash;É o mesmo, disse comsigo. Até é melhor.
-Fico no Porto, e escrevo ao Sebastião que venha
-ter commigo se quer ir vêr o filho a Coimbra.</p>
-
-<p>Escreveu. Se o tio Sebastião queria ir a Coimbra!
-N'isso pensava elle havia semanas, porque já
-não podia com as saudades.</p>
-
-<p>&mdash;Já cá estão dous carros e uns pósinhos, dizia
-elle, se não fosse isto, quem ia vêr o rapaz era o
-filho de minha mãe...</p>
-
-<p>O convite do cunhado alvoroçára-o de alegria e
-de desusado contentamento. Ria alto, andava radiante,
-cantava:</p>
-
-<div class="poetry-container">
- <div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse">Á uma hora nasci,</div>
- <div class="verse">Ás duas fui baptisado,</div>
- <div class="verse">Ás tres andava de amores,</div>
- <div class="verse">Ás quatro estava casado.</div>
- </div>
- </div>
-</div>
-
-<p>&mdash;Queres tu vir d'ahi, Joanna? dizia elle para
-a creada que lhe arranjava a mala.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_72" id="Page_72">[72]</a></span></p>
-
-<p>É verdade, ó Joanna, não te lembras assim de
-uma cousa que o estudante goste? Uma cousa bonita...</p>
-
-<p>A creada que era gulosa, lembrava-lhe marmelada,
-doce de ginja, pêras de calda...</p>
-
-<p>&mdash;Upa! cousa melhor...</p>
-
-<p>&mdash;Quer saber? disse a velha, com os olhos accesos
-de quem achou um thesouro, e a mim que
-me não lembrou logo! Eu cá se fosse o sô Sebastião
-comprava uma medalha de ouro como a que
-o sr. Morgado traz no cordão do relogio; mettia-lhe
-dentro o retrato da fallecida, e levava isso ao
-menino que ha de ficar no ceu ao vêr a mãesinha
-que Deus lhe levou.</p>
-
-<p>O tio Sebastião approvou a ideia. O retrato foi
-tirado da parede, tinha sido feito em Braga, logo
-nos primeiros tempos do casamento. Representava
-Carlota vestida com uma saia de seda preta, lustrosa,
-cheia de vincos, com grossas arrecadas, e
-uns enormes grilhões no peito largo e afflante, os
-pés nús n'umas chinellas bicudas de verniz. Na
-mão direita tinha um lenço cheio de bordados, tufado.
-A esquerda descançava nas costas de uma
-cadeira, e os grossos dedos d'essa mão pendiam
-para a palhinha, lanzudos, reluzentes de anneis.
-Nos olhos de Carlota havia o espanto de quem vê
-bruxaria, uma especie de pavôr disfarçado.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_73" id="Page_73">[73]</a></span></p>
-
-<p>O lavrador pegou no retrato, e esteve a olhar
-para a mulher. Não chorou, nem teve saudades,
-estava absorvido por um sentimento superior.</p>
-
-<p>&mdash;Ó Joanna, mas o retrato é grande e a medalha
-pequena. Eu não tenho alma de degolar o retrato...</p>
-
-<p>A creada sorriu-se.</p>
-
-<p>&mdash;Pois leve o retrato e a medalha ao menino,
-e elle lá que o mande arranjar...</p>
-
-<p>Na manhã seguinte almoçava o tio Sebastião
-com o cunhado, e partia n'essa mesma tarde para
-Coimbra, onde chegaram de noute. O brazileiro,
-cheio de cansaço, adoentado, propoz que se adiasse
-a visita ao estudante para o outro dia. Que
-eram horas d'elle estar a estudar; que não era
-bom distrahil-o das suas obrigações. O tio Sebastião,
-porém, não se convenceu. Disse que iria só,
-que não podia esperar, que não dormiria bem sem
-dar um abraço no filho. Partiram ambos.</p>
-
-<p>Os viajantes bateram á porta da casa de Sebastião
-Alves, maravilhados de verem as janellas
-abertas e a casa completamente ás escuras. Ninguem
-lhes respondeu.</p>
-
-<p>Bateram de novo.</p>
-
-<p>Uma visinha com a sua voz fina e cantada perguntou
-o que desejavam, e explicou que o sr. Sebastião
-Alves tinha ido ceiar com uns amigos a
-uma hospedaria da baixa.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_74" id="Page_74">[74]</a></span></p>
-
-<p>Perguntou o brazileiro onde era essa hospedaria,
-e para lá se encaminhou com o ancioso companheiro,
-que ao vel-o meditativo resmungava
-como que para attenuar a extravagancia:</p>
-
-<p>&mdash;Rapazes! um dia não são dias.</p>
-
-<p>As ruas da alta estavam solemnemente silenciosas,
-os transeuntes eram raros.</p>
-
-<p>Ao passarem por uma casa, cujo primeiro andar
-tinha as janellas abertas, viram um estudante com
-a cabeça encostada ás mãos, absorvido e com os
-olhos n'uns livros...</p>
-
-<p>&mdash;Aquelle tambem é rapaz, tornou o brazileiro
-com gesto sentencioso, mas faz a sua obrigação.
-Quem vem para aqui é para estudar...</p>
-
-<p>Ao subirem as escadas da hospedaria ouviram
-um grande rumor, vivas, e <i>hurrahs</i> freneticos e
-enthusiasticos; os creados açodados, vermelhos,
-passavam com largas travessas fumegantes...</p>
-
-<p>&mdash;Desejamos saber, disse o brazileiro a um dos
-creados, se o sr. Sebastião Alves está aqui.</p>
-
-<p>&mdash;Está, sim senhor, se lhe querem fallar, vou
-dar-lhe parte...</p>
-
-<p>O brazileiro tirou meia corôa da bolsa de prata,
-e dando-a ao creado continuou:</p>
-
-<p>&mdash;Não queremos perturbar o sr. Sebastião, fallar-lhe-hemos
-depois. O que desejamos é um quarto
-onde possamos esperar até que finde a ceia. Faça<span class="pagenum"><a name="Page_75" id="Page_75">[75]</a></span>
-favor de lhe não revelar que estamos aqui, é uma
-surpreza que queremos fazer ao estudante; e sorriu
-contrafeito.</p>
-
-<p>O creado conduziu-os a uma sala, separada
-d'aquella em que os estudantes ceiavam simplesmente
-por uma porta.</p>
-
-<p>O tio Sebastião tinha o coração aos pulos dentro
-do peito.</p>
-
-<p>&mdash;Eu vou lá; dizia baixo com a voz tremula,
-quero vel-o.</p>
-
-<p>O cunhado conteve-o.</p>
-
-<p>&mdash;Espreite pelo buraco d'essa fechadura que já
-o vê.</p>
-
-<p>O velho curvou-se e olhou.</p>
-
-<p>&mdash;Lá está elle! lá o vejo. Está mais magro...
-aquillo talvez seja do estudo. Coitado! Mas que
-chibante que elle anda! Os outros ao pé d'elle parecem
-uns pobretões! Um até tem a vestea toda
-rota e cheia de nodoas. Aquillo que elles trazem
-é assim a modo de batina de padre... pois não é?
-Espera, ó mano! lá vae o meu filho levantar-se.
-Ó meu rico filho da minha alma!</p>
-
-<p>Sebastião levantára-se de facto para fazer um
-brinde.</p>
-
-<p>Tinham bebido á saude das mulheres, do amor,
-da gloria, do talento...</p>
-
-<p>Sebastião, um tanto inflammado de repetidas libações,<span class="pagenum"><a name="Page_76" id="Page_76">[76]</a></span>
-fez uma saude a um velho que estava sentado
-á meza, um pouco distanciado do grupo dos
-estudantes.</p>
-
-<p>O brinde foi estrepitosamente victoriado.</p>
-
-<p>O velho agradeceu n'estes termos:</p>
-
-<p>«Muito obrigado, meus senhores! Reconhecido
-pela deferencia com que me honram, consintam
-que beba á saude do pae do cavalheiro que me
-brindou.»</p>
-
-<p>O brazileiro disse:</p>
-
-<p>&mdash;Tome, mano! aquillo é comsigo!</p>
-
-<p>&mdash;Mas eu vou lá, vou dar um abraço n'aquelle
-honrado homem que se lembrou de mim...</p>
-
-<p>Os estudantes ergueram os copos.</p>
-
-<p>&mdash;Á saude de teu pae, clamaram.</p>
-
-<p>&mdash;Que infelizmente está longe, disse commovido
-pelo vinho Sebastião Alves.</p>
-
-<p>&mdash;Longe! qual longe, nem meio longe, tartamudeou
-o tio Sebastião, e ia para lançar-se pelo
-corredor fóra, quando o brazileiro de novo o reteve.</p>
-
-<p>&mdash;Espere homem! o rapaz talvez fique envergonhado
-se lhe apparecermos assim de repente.</p>
-
-<p>&mdash;É verdade, meus senhores, disse um dos da
-roda, um que passava por orador e que gostava
-de fazer estylo.</p>
-
-<p>«O pae de Sebastião está longe, vive em plagas<span class="pagenum"><a name="Page_77" id="Page_77">[77]</a></span>
-distantes, em terra de Santa Cruz n'esse paiz uberrimo,
-monstruoso, gigante, que se chama o Brazil,
-e onde os nossos recebem uma hospitalidade tão
-franca e tão generosa. Brindando ao pae de Sebastião,
-brindo aos nossos irmãos de além-mar.»</p>
-
-<p>&mdash;O que diz elle? resmungou o tio Sebastião,
-que eu estou no Brazil? Não é má!... e atabafava
-o riso.</p>
-
-<p>O brazileiro comprehendeu tudo e murmurou:
-canalha!...</p>
-
-<p>Um dos rapazes que fôra condiscipulo de Sebastião
-em Braga, voltando-se para este, disse:</p>
-
-<p>&mdash;É verdade, ó Sebastião, aquelle velhinho que
-uma vez te acompanhou á mala posta, e que eu vi
-a chorar como uma creança na rua da Conega
-quando se despediu de ti, era teu avô? Muito gostei
-eu do velhinho. Parece que o estou a vêr a
-acenar-te com o lenço, correndo com as suas pernas
-tropegas e cansadas atraz da carroagem, a
-dizer: O Senhor vá na tua companhia!</p>
-
-<p>Sebastião avincou o rosto, um rubor subito incendiou-lhe
-as faces, e partindo uma noz, respondeu:</p>
-
-<p>&mdash;Esse velho era caseiro de uma quinta que
-meu pae comprou quando esteve ultimamente em
-Portugal.</p>
-
-<p>O tio Sebastião voltou-se para o brazileiro. Estava<span class="pagenum"><a name="Page_78" id="Page_78">[78]</a></span>
-livido, tinha os labios apertadamente unidos,
-os olhos injectados de sangue. Esteve um segundo,
-com os olhos fitos nos do cunhado, sem poder articular
-uma palavra, bamboleando a cabeça, respirando
-offegantemente pelas narinas palpitantes e
-dilatadas; depois cahiu nos braços do cunhado e
-prorompeu n'um soluçar dilacerante e pungitivo:</p>
-
-<p>&mdash;Ingrato! ingrato!</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Quando o tio Sebastião chegou á sua aldeia,
-vinha pallido, desfeito, parecia desenterrado.</p>
-
-<p>A velha Joanna assustada perguntou-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;Que foi? que foi? E o menino?</p>
-
-<p>&mdash;Morreu!</p>
-
-<div class="chapter">
-<hr class="chap" />
-</div>
-
-<h3 id="O_ANNEL_DO_DIPLOMATA">O ANNEL DO DIPLOMATA</h3>
-
-
-<p>&mdash;Parecia que vendia saude... tão forte que
-era!...</p>
-
-<p>&mdash;É verdade! quem o havia de dizer!</p>
-
-<p>&mdash;Era uma creança ainda, pouco mais tinha de
-setenta annos, volveu outro que, pela figura e pelo
-andar tropego e vacillante, denotava ter os seus
-oitenta, bem puxados.</p>
-
-<p>&mdash;E olhe que era um bom homem! Você não
-viu como a filha chorava quando o pozemos em
-cima da cama? Cortava o coração, coitadita!</p>
-
-<p>&mdash;E honradinho! Eu sei cá! Poucos se topam
-por ahi com tão bons sentimentos e com cara tão
-limpa...</p>
-
-<p>&mdash;Lá isso!...</p>
-
-<p>&mdash;Não, que quem sahe aos seus não degenera!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_80" id="Page_80">[80]</a></span></p>
-
-<p>&mdash;Era muito amigo da pobreza! tartamudeou
-uma velha.</p>
-
-<p>&mdash;Ó Christo! era o pai da pobreza, é o que
-vossemecê deve dizer, tia Joaquina.</p>
-
-<p>&mdash;E depois olhe que era o melhor letrado d'estas
-oito leguas em redondo.</p>
-
-<p>&mdash;Aquillo era um <i>selvage</i>...</p>
-
-<p>Assim fallavam alguns individuos pertencentes
-a diversas cathegorias da pequena sociedade da
-villa de X***, descendo as escadas da casa do
-advogado Vasconcellos que cahira mortalmente fulminado
-por uma congestão cerebral, no momento
-em que defendia calorosamente um individuo que
-n'uma allucinação brutal de ciume assassinára a
-mulher e dous filhitos.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>O advogado Vasconcellos morrêra pobre, sorte
-de todos os causidicos de provincia, que logram
-vencer, quando muito, por mez, o que qualquer
-dos collegas de Lisboa e Porto dá aos seus agaloados
-trintanarios.</p>
-
-<p>Filho segundo de uma casa de bom nome na
-provincia do Minho, cursava canones e leis na Universidade,
-no anno de 1828, emigrando n'esse<span class="pagenum"><a name="Page_81" id="Page_81">[81]</a></span>
-mesmo anno, e vindo terminar o curso mais tarde,
-depois de ter defendido a causa da liberdade,
-de parceria com outros condiscipulos, que tão assignaladamente
-se distinguiram depois na politica,
-nas armas e nas lettras.</p>
-
-<p>Depois de formado, recolheu-se á sua villa natal,
-e não podendo contar com a mezada que seu
-irmão lhe arbitrára, visto que os rendimentos da
-casa mal chegavam para a alimentação e sustento
-do primogenito, abriu banca de advogado, dependurando
-de um dos lados da estante de pinho, encimada
-pela pasta verde e encarnada de quintanista,
-a lata com os seus pergaminhos de bacharel
-<i>in utroque</i>, e de outro lado a farda impregnada da
-polvora de vinte combates e varada pelas balas
-dos servidores d'el-rei nosso senhor, no cerco do
-Porto.</p>
-
-<p>A formosa irlandeza que o acompanhára no exilio,
-e que lhe foi denodada companheira nas asperas
-provações da vida, morreu-lhe pouco tempo
-depois, deixando-lhe dous filhos, um rapaz e uma
-menina.</p>
-
-<p>Tanto um como outro eram educados com sollicitude
-e esmero, que para a educação dos dous
-não se forrava aquelle pae amantissimo nem a despezas
-nem a trabalhos.</p>
-
-<p>O rapaz foi para Coimbra, e a menina para o<span class="pagenum"><a name="Page_82" id="Page_82">[82]</a></span>
-convento das Salesias em Lisboa, de onde recolheu
-quando o irmão entrava para o primeiro anno juridico.</p>
-
-<p>&mdash;É preciso estudar, Antonio, olha que se eu
-não tivesse aquellas cartas, tinha de andar a cavar
-nas hortas de meu irmão, ou de esmolar nas escadas
-ignobeis das secretarias um logar de porteiro
-ou de amanuense, e isto ainda assim, apresentando
-como documento dos meus serviços aquella
-farda...</p>
-
-<p>Não eram necessarios estes conselhos. Antonio
-de Vasconcellos foi sempre um sisudo moço, estudioso,
-o que não quer dizer que aquella mocidade
-fosse bisonha e avessa ás ridentes alegrias dos
-vinte annos.</p>
-
-<p>Pobre da arvore que ao sorrir da primavera se
-não estrelleja de flores, e em cujos ramos folhudos
-e a revêrem seiva não cantam as toutinegras e não
-assobiam os melros!</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Recolhia-se á sua casa, em Coimbra, o moço estudante,
-alegre e contente de si por ter correspondido
-bizarramente, n'uma sabbatina, ao alto conceito
-em que o curso o tinha, quando lhe entregaram
-uma parte telegraphica.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_83" id="Page_83">[83]</a></span></p>
-
-<p>Rasgou alvoroçadamente o sobrescripto, leu e
-empallideceu horrivelmente.</p>
-
-<p>&mdash;Meu querido pae! murmurou, e curvado sobre
-a sua mesa de estudo deixou cahir a cabeça
-nos punhos fechados. Pobre pae! pobre pae! que
-me não chegou a ver bacharel!</p>
-
-<p>Na manhã do dia seguinte entrava por casa
-dentro, ao passo que descia as escadas o caixão
-em que vinha mettido o pae.</p>
-
-<p>Quizeram-no affastar, esconder-lhe aquelle espectaculo
-lutuoso, mas elle resistiu, e abraçado ao
-cadaver do pae chorava como choram os que de
-repente sentem que o braço amoravel que os guiava
-n'esta vida enfraquece e esfria para sempre,
-deixando-os na mais desconsolada e algida das solidões.</p>
-
-<p>Amparado nos braços de um amigo da infancia,
-entrou no aposento em que a irmã pallida e desfeita
-expedia gritos clamorosos e hystericos.</p>
-
-<p>&mdash;Sósinha, repetia a misera, sósinha!</p>
-
-<p>&mdash;E eu, minha querida Francisca? Não te lembraste
-do teu irmão? disse o moço engulindo as
-lagrimas, e fazendo-se forte para dar coragem á
-desgraçada menina.</p>
-
-<p>Assim no alto mar quando o temporal arripia e
-ennovela as ondas, e o velame bate nos mastros
-com o ruido molhado das azas de uma ave que se<span class="pagenum"><a name="Page_84" id="Page_84">[84]</a></span>
-afoga, e a marinhagem assustada grita e pragueja
-ante a morte proxima e inevitavel, o capitão que
-tem filhos e esposa, longe n'uma pequena aldeia á
-beira-mar, dá ordens com voz tranquilla, e commanda
-a manobra com a serenidade de quem vê
-perto as aguas quietas e espelhadas do ancoradouro.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Volvidos alguns dias, desceu o estudante ao escriptorio.
-Examinou as gavetas e os moveis, a vêr
-se o pae havia feito as suas ultimas disposições.
-Não encontrou senão minutas, autos, libellos em
-principio, considerações juridicas.</p>
-
-<p>&mdash;Parece-me que o estou vendo! A ultima vez
-que o vi, estava aqui sentado e perguntou-me a
-rir se eu sabia o que era um libello!&mdash;disse o
-moço para a irmã, que o acompanhava.&mdash;Respondi-lhe,
-e elle tornou:</p>
-
-<p>&mdash;Caspité! Pois olha, que quando deixei Coimbra
-não o sabia. A minha universidade foi esta
-banca. Aqui é que se aprende, deixa lá! E depois
-tu verás!</p>
-
-<p>Mal sabia elle que eu nunca havia de vêr isso...</p>
-
-<p>&mdash;E porque, Antonio?</p>
-
-<p>&mdash;Porque? porque estamos pobrissimos. O pae<span class="pagenum"><a name="Page_85" id="Page_85">[85]</a></span>
-morreu honrado, mas sem recursos. O que nos
-resta, filha, são umas cincoenta moedas, que a
-nossa velha Joanna ajuntou com as soldadas ganhas
-no serviço da casa de nossos avós, e n'esta...
-casa que é hoje d'ella, porque é ella que nos tem
-sustentado desde que nos faltou o nosso querido
-amigo...</p>
-
-<p>Bateram n'este momento á porta do escriptorio,
-Antonio de Vasconcellos foi abrir. Appareceu no
-limiar da porta um lavrador que disse, desbarretando-se:</p>
-
-<p>&mdash;Queria dar uma palavra ao sr. doutor...</p>
-
-<p>&mdash;Meu pae falleceu esta semana...</p>
-
-<p>&mdash;O que! E eu que o vi ainda ha dias tão fero
-e rijo! Em nome do Padre e do Filho... É o
-que nós somos n'este mundo... Que Deus o tenha
-na sua gloria, que era um homem ás direitas...
-Então queira perdoar.</p>
-
-<p>E sahiu emquanto os dous com os olhares atados
-um no outro, perguntavam n'aquella muda linguagem,
-o que seria d'elles desamparados e sós
-n'aquelle temporal, que tão a subitas lhes escurecera
-o azul sereno da vida.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_86" id="Page_86">[86]</a></span></p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Alguns amigos do advogado e um parocho d'aquellas
-circumvisinhanças, reunidos n'um sagrado
-pensamento, ajustaram entre si dar uma mensalidade
-a Antonio de Vasconcellos, que a rogos da
-irmã acceitou aquelles adiantamentos como uma
-divida que satisfaria mais tarde.</p>
-
-<p>Temos o nosso estudante formado e prompto.
-Logo que se viu senhor dos titulos alcançados pelo
-seu estudo e applicação, foi á villa natal agradecer
-aos que o haviam tão evangelicamente amparado,
-e, por conselhos de um condiscipulo, dirigiu-se a
-Lisboa, onde fixou residencia, e entrou a frequentar
-o escriptorio de um dos advogados de mais
-renome no fôro da capital.</p>
-
-<p>Ir para a provincia trabalhar como um mouro,
-estudar como um benedictino; para que? O resultado
-conhecêra-o elle, que o exemplo lhe fôra
-mais que manifesto na propria familia. Em Lisboa
-encontraria campo mais dilatado onde desafogar
-as suas altas aspirações.</p>
-
-<p>O peior seria o primeiro anno e ainda o segundo,
-mas depois acudiriam os clientes, e o seu nome<span class="pagenum"><a name="Page_87" id="Page_87">[87]</a></span>
-adquiriria a gloriosa reputação com que outros
-de menos talento se ufanavam.</p>
-
-<p>&mdash;Ao principio, Francisca, dizia o moço doutor,
-não correrá tudo á medida dos nossos desejos, mas
-tu has de ter muita coragem, não é assim? Quando
-eu entrar em casa, e vir um sorriso na tua boca,
-verás como me lanço ao trabalho com vontade e
-com intrepidez...</p>
-
-<p>Pobre creança!</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>N'aquella época chegara a Lisboa um individuo
-que fôra o mais perdulario dos <i>leões</i> da Lisboa de
-ha trinta annos, e que presentemente occupava um
-elevado lugar diplomatico em uma côrte estrangeira.</p>
-
-<p>Contavam-se d'este homem excentricidades que
-fariam morrer de inveja o mais fastiente e <i>spleenetico</i>
-dos <i>lords</i>. Batera-se vinte vezes e por motivos
-diversos, por questões de jogo, por questões
-de mulheres, e por questões de politica.</p>
-
-<p>Espirituoso, valente e rico, passou pelo mais
-bem acabado producto do seu tempo e do seu meio.</p>
-
-<p>Agora velho mas sempre original e taful, era
-estimado por todos, querido nas salas, temido ainda
-na imprensa e respeitado pelos politicos a quem<span class="pagenum"><a name="Page_88" id="Page_88">[88]</a></span>
-asseteava com o acre azedume de quem já mourejou
-nos bastidores da politica, e lhes conhece de
-sobejo os fumosos mysterios.</p>
-
-<p>Estava Antonio de Vasconcellos no Chiado, conversando
-com um condiscipulo, quando o diplomata
-se apeou de um trem, e se deteve a conversar alguns
-instantes com umas senhoras que iam passando.</p>
-
-<p>&mdash;Sabes quem é aquelle sujeito? perguntou-lhe
-o condiscipulo.</p>
-
-<p>&mdash;Não.</p>
-
-<p>&mdash;É Jorge de Alvim. O velho mais moço que
-passeia n'esta cidade sorumbatica e sôrna...</p>
-
-<p>&mdash;Esse nome não me é estranho. Foi condiscipulo
-de meu pae que o estimava e tinha em grande
-conta, e até se me não engano, queimei uma
-larga correspondencia travada entre aquelle homem
-e meu pae. A elle pessoalmente não conhecia,
-mas é sympathico.</p>
-
-<p>&mdash;E homem de grande influencia politica.</p>
-
-<p>N'este momento o cavalheiro F. e o ministro
-L. que passavam, acercaram-se do diplomata e
-demoraram-se com elle em palestra em que pareciam
-enlevados.</p>
-
-<p>&mdash;Repara tu como elles o tratam! concluiu o
-condiscipulo de Vasconcellos ao dar-lhe o aperto
-de mão de despedida.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_89" id="Page_89">[89]</a></span></p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>&mdash;Sempre me decido, Francisca.</p>
-
-<p>&mdash;Pois vae, Antonio, vae que não deshonra pedir
-trabalho e protecção...</p>
-
-<p>&mdash;Receber-me-ha elle bem?</p>
-
-<p>&mdash;Quem te não ha de receber bem, tôlo? vae
-que eu fico a pedir a Deus por ti!</p>
-
-<p>Antonio de Vasconcellos foi e fallou com o velho
-amigo de seu pae, Jorge Alvim. Contou-lhe
-toda a sua vida trabalhosa, as luctas obscuras, as
-miserias que affrontára, descreveu-lhe a núa e
-triste agua-furtada em que viviam, elle e a irmã,
-as longas e plumbeas noites mal dormidas, a costura
-mal remunerada, a dureza dos senhorios.</p>
-
-<p>E no gabinete cheio de conforto e de luxo aquellas
-palavras tristes, desesperadas e expirantes soavam
-lugubremente como um grito de agonia nas
-alegrias de um noivado...</p>
-
-<p>&mdash;V. ex.<sup>a</sup> não sabia de uma cousa que lhe vou
-agora dizer. Seu pae salvou-me da morte uma vez
-no cerco do Porto, eu salval-o-hei custe o que custar
-das... garras da...</p>
-
-<p>&mdash;Miseria, disse o moço com o rosto ligeiramente
-carminado.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_90" id="Page_90">[90]</a></span></p>
-
-<p>&mdash;Pois seja assim! Começaremos a combater o
-monstro hoje mesmo. Para isso é preciso que V.
-Ex.<sup>a</sup> envergue as armas proprias para combates
-d'esta ordem. Em vez do arnez, do broquel, das
-cannelleiras e do elmo, aconselho-lhe que se vista
-com elegancia igual á sua gentileza, porque vae
-combater a féra no salão da mais elegante senhora
-de Lisboa, e ante a presença das nossas mais
-acentuadas celebridades politicas e litterarias. Até
-logo, não é assim? disse o velho estendendo com
-uma graça adoravel a mão a Antonio de Vasconcellos
-que desceu as escadas enceradas com o coração
-cheio de sol e de alegria.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>&mdash;Não estejas triste, a casaca fica-te bem, não
-está muito nova, mas ninguem repara. Põe este
-botão de rosa na casa. É bonito. Vaes mesmo um
-taful&mdash;dizia a irmã de Antonio de Vasconcellos
-recuando e examinando amoravelmente o moço.</p>
-
-<p>Depois, com um gesto impregnado de um mixto
-singular de protecção e de doce auctoridade, continuou:</p>
-
-<p>&mdash;Prohibo-te que estejas com essa cara desconsolada.<span class="pagenum"><a name="Page_91" id="Page_91">[91]</a></span>
-Digo-te eu que és o mais bonito que lá
-apparece. Depois m'o contarás.</p>
-
-<p>E conversando e rindo n'um abandono divino e
-infantil, aquelles dous camaradas na adversidade,
-edificavam castellos de ventura, esquecidos de que
-o padeiro n'aquelle dia recusara fiar-lhes mais
-pão. Oh mocidade!</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Jorge de Alvim n'aquelle dia parecia exceder-se
-a si proprio, tão brilhantes eram as suas respostas,
-tão finas as suas ironias, tão cheias de sal as anedoctas
-com que encantava os conselheiros, ministros
-e jornalistas que estavam á mesa da elegante
-condessa de X***.</p>
-
-<p>Fallou-se em diamantes. Jorge de Alvim desde
-logo entrou a historiar casos e anedoctas a tal respeito.
-Narrou as aventuras de diamantes que se
-tornaram celebres pelas peregrinações em que andaram,
-e assim precisou com uma erudição graciosa
-a historia do <i>Sancy</i>, diamante que foi de
-Carlos o Temerario, e que das mãos d'este passou
-para as de um Duque de Florença e depois para
-o poder do Prior do Crato, que o empenhou ao
-intendente das finanças em França, Harley de
-Sancy, de onde lhe proveio o nome.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_92" id="Page_92">[92]</a></span></p>
-
-<p>&mdash;Ainda aqui não pára, minhas senhoras, a
-odysséa d'esta pedra. Harley de Sancy quando
-Henrique IV de França antes de ser reconhecido
-se achou em grandes apuros de dinheiro, mandou
-vender esse diamante aos judeus de Metz. O homem
-encarregado de tão preciosa missão, cahindo
-nas mãos de uma quadrilha de bandidos, e receiando
-que lhe roubassem o thesouro que levava,
-engulira a pedra...</p>
-
-<p>&mdash;Ora essa! disse a dona da casa.</p>
-
-<p>&mdash;Verdade pura, minha senhora. O cadaver foi
-descoberto passados tempos no bosque de Dôls, e
-aberto o ventre, acharam o diamante que foi vendido
-a Jacques II de Inglaterra, de cujo poder
-passou para o de Luiz XIV.</p>
-
-<p>&mdash;E depois? disse uma das senhoras. Não póde
-parar ahi esse longo peregrinar de que V. Ex.<sup>a</sup>
-está sendo um Fernão Mendes...</p>
-
-<p>&mdash;Minto?... pois seja assim. O que posso afiançar
-a V. Ex.<sup>a</sup> é que esta pedra, depois de varias
-e encontradas vicissitudes acabou por onde acabou
-a esposa de Meneláu... Foi roubada, e hoje pára
-nas mãos dos Russos.</p>
-
-<p>&mdash;Justamente o que mais dia menos dia succederá
-ao seu magnifico annel, Sr. Jorge de Alvim,
-tornou a mesma interruptora, dardejando um olhar
-guloso e felino á pedra do annel<span class="pagenum"><a name="Page_93" id="Page_93">[93]</a></span>...</p>
-
-<p>&mdash;E é verdade que é lindissimo e de appetite
-o seu annel; deixa-m'o ver, Sr. Alvim? disse uma
-das senhoras que estava ao lado de Antonio de
-Vasconcellos.</p>
-
-<p>O annel foi passando de mão em mão crivado
-de admirações e de quentes cobiças...</p>
-
-<p>A conversação tomára outro rumo; era o momento
-dos <i>toasts</i>, e então Alvim explicou uma
-usança que lá fóra estava agora muito em moda
-nos jantares da alta vida, a <i>taça da amizade</i>.</p>
-
-<p>Ia a descrever este costume elegante quando a
-senhora que estava á esquerda de Vasconcellos
-soltou um grito.</p>
-
-<p>&mdash;Ah!</p>
-
-<p>&mdash;Que foi? O que foi? repetiram em roda.</p>
-
-<p>&mdash;Tinha aqui o annel e desappareceu-me!</p>
-
-<p>Levantaram-se pratos, arredaram-se cadeiras,
-houve varias conjecturas.</p>
-
-<p>&mdash;Estaria aqui? talvez estivesse ali...</p>
-
-<p>E sempre debalde.</p>
-
-<p>Ergueram-se todos, sem cerimonia, turbulentamente,
-como da mesa de um hotel...</p>
-
-<p>O annel não apparecia.</p>
-
-<p>Um dos convivas, celebre no fôro, começou a
-examinar o rosto de cada criado, como quem tenta
-descobrir o author de um crime.</p>
-
-<p>&mdash;Uma joia tão rica!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_94" id="Page_94">[94]</a></span></p>
-
-<p>&mdash;Não está alli por menos de duzentas libras,
-affirmou um banqueiro.</p>
-
-<p>&mdash;Ora, pelo amor de Deus, meus senhores, volveu
-o velho casquilho. O meu annel que julgo não
-tem ainda por ora aventuras, ouvindo as minhas
-narrativas de ha pouco encheu-se de brios, e quiz
-provar aos incredulos que tambem lhe estão reservados
-altos destinos... Vou propôr a V. Ex.<sup>as</sup>
-uma cousa que lhes parecerá excentrica, mas que
-me relevarão, já que em Lisboa passo por um ente
-singular e extraordinario. Ahi vai a singular excentricidade
-que me passou pela cabeça: ao sahir
-d'esta sala hão de todos deixar-se revistar pelos
-donos da casa. Rejeitam ou approvam?</p>
-
-<p>Ouvindo aquella proposta exquisita e quasi que
-offensiva, alguns sorriram, indignaram-se outros,
-franzindo os sobrolhos, e um pesado silencio constrangido
-cahiu n'aquella sala ha pouco tão sonora
-de vozes, de risos e do fino tilintar da prata e dos
-crystaes.</p>
-
-<p>&mdash;Peço perdão, mas opponho-me e rejeito essa
-proposta!</p>
-
-<p>Quem assim fallava era Antonio de Vasconcellos.
-Estava pallido como a morte, tentava sorrir,
-mas os dentes cerravam-se-lhe nervosamente, e
-os cabellos empastavam-se-lhe na testa gotejando
-suor.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_95" id="Page_95">[95]</a></span></p>
-
-<p>&mdash;Seria elle? disse a dona da casa baixo, e
-fitando-o tristemente.</p>
-
-<p>E toda a gente que o ouvira como que por instincto
-affastou-se do pobre moço.</p>
-
-<p>Podia ser, que fosse elle. Era pobre, pois não
-viam isso claramente?</p>
-
-<p>Os olhos de todas as mulheres que alli estavam
-começaram então desapiedadamente a analysal-o
-por miudo, e passavam-lhe em revista a casaca
-cossada, a pouca finura da camisa, a gravata branca
-ligeiramente encardida, as joelheiras luzidias das
-calças pretas.</p>
-
-<p>&mdash;E não é feio rapaz!</p>
-
-<p>&mdash;Pois sim, mas Lacenaire tambem não era feio,
-volveu outra menos caridosa e mais letrada.</p>
-
-<p>Antonio de Vasconcellos approximou-se de Jorge
-de Alvim, e baixo com voz concentrada disse lhe:</p>
-
-<p>&mdash;Uma palavra, Sr. Alvim, desejo dar-lhe uma
-palavra...</p>
-
-<p>&mdash;É melhor mais tarde... depois..., replicou
-desdenhosamente Jorge de Alvim.</p>
-
-<p>Repararam todos na insistencia de Antonio de
-Vasconcellos, e as suspeitas mais e mais se enraizaram
-no espirito dos convivas.</p>
-
-<p>O pobre rapaz, que conhecia a falsa posição em
-que se collocara com a sua phrase, sentia-se humilhado
-e como que vendido n'aquelle meio.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_96" id="Page_96">[96]</a></span></p>
-
-<p>Os proprios criados olhavam-no com manifesto
-desprezo.</p>
-
-<p>Vasconcellos disse ainda ao diplomata:</p>
-
-<p>&mdash;Sr. Jorge de Alvim, pela ultima vez, quer
-ouvir-me?</p>
-
-<p>&mdash;Homem, já sei; é pobre, teve uma fascinação,
-já li isso não sei aonde... Ah! já sei...
-n'um conto de Balzac...</p>
-
-<p>E voltou-lhe as costas.</p>
-
-<p>N'esse instante uma voz entaramellada e rouca
-echoou na sala:</p>
-
-<p>&mdash;Peço que me escutem! como sou o unico pobre
-que aqui está, e como todas as circumstancias
-são em meu desfavor, podem julgar que fui eu que
-roubei esse annel. Se não consenti na proposta feita
-pelo Sr. Jorge de Alvim,&mdash;e na pallidez do seu
-rosto destacavam-se duas rosas de pejo,&mdash;foi porque,
-se me revistassem, encontravam-me no bolso
-isto que eu furtei para levar á minha irmã que
-não come desde hontem... disse o mancebo tirando
-da algibeira um pão.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Houve um grande e profundo silencio angustioso.
-A condessa foi a primeira a rompel-o adiantando-se
-para Vasconcellos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_97" id="Page_97">[97]</a></span></p>
-
-<p>&mdash;Pobre rapaz!...</p>
-
-<p>E com o movimento que fez, um objecto brilhante
-faiscou nas franjas do seu vestido.</p>
-
-<p>&mdash;Permitta-me V. Ex.<sup>a</sup>, condessa, disse o banqueiro
-abaixando-se e desprendendo das franjas o
-objecto que reluzia e chispava: aqui está o annel.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Antonio de Vasconcellos occupa hoje com geral
-applauso e com grandes creditos o lugar de secretario,
-na embaixada de que é ministro seu amigo
-e cunhado Jorge de Alvim.</p>
-
-
-<div class="chapter">
-<hr class="chap" />
-</div>
-
-
-
-<h3 id="A_ESCOLHA_DE_GASTAO">A ESCOLHA DE GASTÃO</h3>
-
-
-<p>Fez verdadeiramente o que se chama <i>escandalo</i>,
-em todas as salas da alta roda, o casamento do filho
-do visconde das Lagôas.</p>
-
-<p>O visconde, cujo nome primitivo era João do
-Moinho Novo, e que depois não sei porque artes
-se appellidava João Silveira, fôra para o Brazil
-muito moço, creio que com dezoito annos, e voltára
-de lá com cincoenta e archi-millionario.</p>
-
-<p><i>Rosnava-se</i> muito ácerca das origens d'esta nebulosa
-e extraordinaria fortuna.</p>
-
-<p>Uns fallavam de escravatura, alguns de contrabando,
-todos de negocios pouco lisos e pouco licitos.
-No fim de contas, porém, o principal é que
-uma pessoa seja muito rica.</p>
-
-<p>Lá o <i>como</i> e <i>porquê</i> são questões secundarias,<span class="pagenum"><a name="Page_100" id="Page_100">[100]</a></span>
-com que se preoccupam muito os invejosos, e um
-pouco os escrupulosos.</p>
-
-<p>O resto das pessoas, e já se vê que são muitas,
-essas nem para ahi voltam os olhos.</p>
-
-<p>Acham este esmiuçar impertinente das vidas
-alheias além de enfadonho pouco aristocratico.</p>
-
-<p>O visconde passava o verão na provincia do
-Minho, n'uma povoação perto de Vianna, onde
-comprára um velho palacio, cuja frontaria ennegrecida
-elle mandára cuidadosamente caiar.</p>
-
-<p>O portão do palacio era encimado pelo brazão
-d'armas da familia arruinada a que pertencêra. O
-visconde, que não quizera conservar mais nada
-intacto, teve a caridosa lembrança de o conservar
-a elle.</p>
-
-<p>Mandou-o limpar das hervas e dos musgos damninhos
-que se tinham introduzido entre as fisgas
-da pedra, e dos ninhos que a phantasia errante
-das andorinhas alli armára no estio.</p>
-
-<p>Depois de limpo pareceu-lhe um ornato sympathico
-e nada contradictorio com os seus gostos
-plebeus, e deixou-o alli ficar, com tenção firme de
-o cobrir de crepe, no caso de lhe morrer algum
-dos seus.</p>
-
-<p>Foi depois d'isto que se decidiu a pedir ou por
-outra a comprar, dos poderes publicos complacentes
-o seu titulo de visconde.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_101" id="Page_101">[101]</a></span></p>
-
-<p>O mais modificou-o e transformou-o á sua vontade.</p>
-
-<p>Detestava as ruinas por instincto.</p>
-
-<p>As vastas salas apainelladas e forradas de custosos
-pannos de Arrás, mandou-as estucar á moderna,
-de côres claras e alegres, vendendo a um amador
-de curiosas velharias,&mdash;o mais caro que poude,
-já se entende&mdash;aquellas colgaduras ennegrecidas
-e esfiadas, cujo merito não havia nunca logrado
-perceber.</p>
-
-<p>Vendeu igualmente a velha mobilia, que punha
-como que um perfume de grandeza extincta no arruinado
-casarão, as credencias marchetadas, os tremós
-de espelho partido ao meio, e em cuja moldura
-dançavam estranhas figurinhas, as cadeiras
-abbaciaes de couro e pregaria amarella, os cofres
-de pau santo, os tamboretes de carvalho, as reliquias
-d'um mundo que desabára.</p>
-
-<p>Os dominios do visconde depois de transfigurados
-pelo seu opulento proprietario perderam
-aquelle aspecto desolador, saudoso e melancolico
-que os recommendava aos artistas e aos... morcegos.</p>
-
-<p>Ninguem por mais phantasioso e poeta que fosse,
-seria capaz de evocar na sombra dos longos corredores
-claustraes, uma d'aquellas figuras que são a
-graça mysteriosa do passado.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_102" id="Page_102">[102]</a></span></p>
-
-<p>Uma castellã pallida e esguia, sustendo nas suas
-mãos de marfim o missal de ricas illuminuras...
-Um pagem louro e namorado, embevecido no sonho
-de longinquas aventuras e de impossiveis
-amores... Um vulto de abbade austero e glacial,
-trazendo para o meio do mundo a gelida mortalha
-da sua piedade monastica...</p>
-
-<p>Nenhuma d'essas visões podia agora evocar-se.</p>
-
-<p>Foram derrubadas as arvores silvestres cuja
-sombra envolvia o palacio n'uma austera solidão;
-arrancaram-se as heras possantes que cobriam
-com o manto vigoroso da sua folhagem verde-negra
-os muros gastos e esburacados; calçaram
-e ladrilharam os pateos por onde a herva crescia
-indomada e livre, e onde fontes enormes choravam
-dia e noite com uma triste e somnolenta melopeia.</p>
-
-<p>Um jardineiro inglez veio de proposito cortar
-as moitas de buxo espesso do jardim, onde umas
-estatuas de pedras mutiladas e musgosas pareciam
-ainda relembrar no desamparo da sua nudez
-friorenta, uma vida inteira que o passado abysmára.</p>
-
-<p>Aquella desolação das ruinas e aquelle indomito
-luxo da natureza entregue a si, foram substituidos
-por todas as graças e coquettismos da moderna
-jardinagem.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_103" id="Page_103">[103]</a></span></p>
-
-<p>Uma estufa de plantas raras, de extranho colorido,
-de fórmas phantasticas e inquietadoras, de
-cheiro irritante e acre; taboleiros de <i>gazon</i> d'uma
-frescura esmeraldina, camelias, rosas, trepadeiras
-floridas, tudo que as tyrannias da arte teem misturado
-nas liberdades da Natureza.</p>
-
-<p>O visconde depois de haver-se rodeado de tudo
-que póde tornar aos ricos a vida não só aprazivel
-o que é pouco, mas invejavel o que é muitissimo,
-começou a grangear relações, e a receber com bizarra
-hospitalidade os amigos que durante o inverno
-adquiria nas salas da capital.</p>
-
-<p>Em Lisboa não era menos rica, nem menos confortavel,
-a habitação do millionario.</p>
-
-<p>Vastos salões ricamente mobilados, equipagens
-de alto estylo, criadagem insolente e ociosa, escadarias
-alcatifadas, bailes e ceias onde toda a côrte
-concorria tão cheia de curiosidade como de gulodice,
-jantares aos quaes eram convidados os ministros,
-os titulares, os diplomatas estrangeiros e
-os funccionarios mais influentes, tudo emfim que
-póde dar á vida um aspecto opulento e principesco,
-tudo que constitue o orgulho supremo dos mediocres
-e a inveja brutal dos ambiciosos.</p>
-
-<p>De resto o dono da casa era tão pouco conhecido
-da maioria dos frequentadores das suas festas,
-que mais d'um o tomou pelo criado de si<span class="pagenum"><a name="Page_104" id="Page_104">[104]</a></span>
-mesmo, e lhe pediu com desdenhosa insolencia, o
-paletot, ou um copo de agua.</p>
-
-<p>O visconde enviuvára antes de deixar o Brazil,
-e os que haviam conhecido sua mulher, não lamentavam
-que a pobre senhora fosse dispensada
-pela Providencia de assistir á espectaculosa <i>mise-en-scéne</i>
-da vida dos que tinham sido seus.</p>
-
-<p>O visconde tivera do seu matrimonio, duas filhas
-e dois filhos.</p>
-
-<p>Na epocha em que elle maior ostentação desenvolvia,
-teriam as meninas dezoito a vinte annos.</p>
-
-<p>Tinham sido educadas em casa, por uma mestra
-franceza escolhida pelo pae. Vestiam-se da <i>Aline</i>,
-quando não mandavam vir directamente de Pariz
-as suas <i>toilettes</i> extraordinarias, e sempre muito
-além da moda.</p>
-
-<p>Usavam tudo que havia de mais excentrico. Os
-chapeus mais pequenos, ou os chapeus de mais
-largas abas, os vestidos que deixassem vêr o pé
-todo, ou os vestidos cuja cauda roçagante lembrasse
-um manto de rainha... de theatro.</p>
-
-<p>Havia tempos em que usavam na cabeça o cabello
-de uma duzia de mulheres, e outros tempos
-em que appareciam de repente de cabello cortado
-como os rapazes, encaracollado e de risco ao
-lado.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_105" id="Page_105">[105]</a></span></p>
-
-<p>Timbravam em não se parecer com mais ninguem.</p>
-
-<p>Mas não podiam eximir-se a um defeito especial
-que as fazia darem muito na vista. Occupavam-se
-extremamente de si.</p>
-
-<p>Fallavam do seu <i>boudoir</i>, das suas <i>toilettes</i>, das
-meias de sêda de tres libras ou doze mil réis&mdash;as
-unicas que traziam&mdash;, do elegante <i>edredon</i> do
-seu leito, das finas perfumarias do seu toucador.</p>
-
-<p>Isto fazia rir com riso amarello as <i>amigas</i> mais
-intimas, que diante de gente, costumavam <i>puxar-lhes
-pela lingua</i>.</p>
-
-<p>De resto as filhas do visconde seguiam rigorosamente
-os preceitos e regras da <i>alta-vida</i>.</p>
-
-<p>Tinham assignatura em S. Carlos, para serem
-vistas, e frequentavam assiduamente a egreja, para
-se parecerem com as filhas de condes pallidas e
-anemicas, cujo luxo superior é a devoção e a caridade,
-diluidas ambas as cousas em pequeninas
-praticas de todos os dias.</p>
-
-<p>Sabiam conversar pouco mais ou menos sobre
-tudo, sendo no fundo d'uma crassa ignorancia
-ácerca de todas as cousas.</p>
-
-<p>Como dissemos fôra franceza a mestra que as
-dirigira. Dera-lhes o verniz da educação, e mais
-nada.</p>
-
-<p>De linguas sabiam o bastante para conversarem<span class="pagenum"><a name="Page_106" id="Page_106">[106]</a></span>
-com os diplomatas; de musica, para criticarem o
-physico das cantoras; de artes para revellarem a
-cada instante a negação profunda que tinham para
-o bello.</p>
-
-<p>Respeitavam e invejavam todas as superioridades
-sociaes; o dinheiro, a fidalguia herdada ou
-comprada, a posição, as honras, a formosura.</p>
-
-<p>Desprezavam profundamente uma só cousa: a
-pobreza.</p>
-
-<p>Quando viam alguem pobre, pouca ou nenhuma
-attenção lhe prestavam; mas se esse <i>alguem</i> tivesse
-a inaudita ousadia de apresentar uma ideia,
-uma opinião, um juizo, de contrarial-as, de escarnecer
-alguma das cousas que ellas acima de tudo
-reverenciavam viam-as então revellar um pasmo
-sincero, um espanto que tinha o seu quê de tragicamente
-ridiculo.</p>
-
-<p>Um dia ouviu alguem a uma d'ellas este aphorismo
-extraordinario.</p>
-
-<p><i>Quem é pobre não tem opinião.</i></p>
-
-<p>E tinham um modo de levantar a voz, de alçar
-altivamente a cabeça, de sublinhar vigorosamente
-as palavras, que mais do que tudo confirmava que
-ellas como pessoas que possuiam duzentos mil réis
-por mez, só para os seus alfinetes, não tinham
-nunca imaginado sequer a possibilidade de não terem
-razão.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_107" id="Page_107">[107]</a></span></p>
-
-<p>Era uma maneira não menos auctoritaria, porém
-menos correcta de dizer o que á senhora de Stael
-disse um dia a duqueza de la Ferté.</p>
-
-<p><i>Il n'y a que moi, chère amie, qui aie toujours raison.</i></p>
-
-<p>Ahi estão pouco mais ou menos as duas filhas
-do visconde.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>O filho mais velho, que partilhara no Brazil os
-primeiros trabalhos e as primeiras luctas de seu
-pae, adquirira com a victoria d'elle, que era tambem
-sua, o mesmo ar de ingenua superioridade.</p>
-
-<p>Tinham trazido do Brazil uma fortuna collossal,
-logo tinham o direito de dominarem onde quer que
-estivessem.</p>
-
-<p>Toda a gente que frequentava a casa d'elles,
-que lhes aturava a impertinencia boçal, confirmava
-pela sua servil condescendencia esta convicção;
-porque é pois que não haviam de a sentir?</p>
-
-<p>O primogenito do visconde occupava-se muito,
-com verdadeira alegria de seu pae, de cifras e de
-operações bancarias; jogava em fundos extrangeiros,
-tinha a vocação mercantil pronunciadissima,
-e nos intervallos que estas occupações transcendentes
-lhe deixavam, governava um carro, e mandava
-<i>correr</i> os seus cavallos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_108" id="Page_108">[108]</a></span></p>
-
-<p>Estivera em Londres, quando lá fôra deixar
-n'um collegio o seu irmão mais novo, e voltara
-com certas aspirações a <i>gentleman rider</i>.</p>
-
-<p>Fallava pouco, com ar sacudido, apressado, sentencioso.</p>
-
-<p>Usava suissas e vestia d'um alfaiate inglez. Queria
-ser homem sério, respeitavel, homem de pezo,
-e pensava n'uma candidatura como n'um pedestal
-proprio para as suas attitudes.</p>
-
-<p>É no meio d'esta familia admiravelmente feita
-para a sua epocha e para a posição que tem, que
-vamos encontrar Gastão, o ultimo filho do visconde,
-um phenomeno destinado a contrariar tudo
-que se tem dito e escripto sobre a lei da hereditariedade.</p>
-
-<p>Gastão tem vinte e um annos, é alto, delgado,
-d'uma constituição tão delicada e nervosa, que ao
-lado de suas irmãs com o seu ar masculino e as
-suas inflexões duras, elle é que parece a mulher e
-ellas é que parecem os homens.</p>
-
-<p>Dizem os que um dia se atreveram a chasqueal-o
-pelo ar timido e suave que apparenta, que
-nos seus olhos azues, d'uma expressão triste e soffredôra,
-passou um relampago de colera, pouco
-tranquilisador para os que abusarem da sua excellente
-educação.</p>
-
-<p>Gastão da Silveira, chegara havia pouco d'uma<span class="pagenum"><a name="Page_109" id="Page_109">[109]</a></span>
-viagem que fizera pela Europa, depois de concluir
-a sua formatura n'uma Universidade de Inglaterra.</p>
-
-<p>Da sua familia não sabia senão que era rica, e
-que vivia grandemente, como elle tinha visto viver
-os opulentos banqueiros inglezes, nas suas deliciosas
-casas dos arrabaldes da cidade, confortaveis
-e luxuosas.</p>
-
-<p>Esta informação não lhe faltava porque seu pae,
-suas irmãs, seu irmão mais velho, nunca se cançavam
-de lh'a repetir em todas as cartas.</p>
-
-<p>Isto porém não bastava a Gastão. O que elle desejaria
-profundamente, era conhecer a fundo o caracter
-dos seus, e o que d'esse caracter lhe revellavam
-as cartas seccas e laconicas de que fallamos,
-teimava elle na sua fé juvenil, em não o acceitar
-como prova ou como manifestação.</p>
-
-<p>Tinha pelos seus amigos e condiscipulos conhecido
-a vida ingleza em relação á familia, fôra convidado
-para passar as ferias, em casa de ricos industriaes
-na companhia de alguns dos seus mais
-caros collegas de estudo, e podera conceber um
-ideal realisavel, de paz, de conchêgo, de conforto
-domestico, que anciava encontrar no seio da sua
-familia.</p>
-
-<p>Tinham-lhe dito que seu pae ganhara pelo trabalho
-a grande fortuna que possuia, e Gastão habituado<span class="pagenum"><a name="Page_110" id="Page_110">[110]</a></span>
-a observar a actividade enorme, incansavel,
-persistente, a fecunda actividade ingleza, sentira
-crescer o amor pelo visconde ao saber a tenacidade
-com que elle trabalhara.</p>
-
-<p>Intelligente, d'uma intelligencia fina e delicada,
-a viagem que fizera desenvolvera-lhe o espirito, e
-afinara-lhe o gosto.</p>
-
-<p>Voltava cheio de ideias, de factos, de noções
-praticas, respeitando acima de tudo a intelligencia,
-e a dignidade da vida.</p>
-
-<p>Como homem educado ao contacto da vida inglesa,
-avaliava o dinheiro mas não como um fim,
-simplesmente como um meio, o mais energico e
-infallivel dos meios para chegar a grandes fins.</p>
-
-<p>No dia em que Gastão conheceu seu pae e seus
-irmãos imaginem a dolorosa surpresa que elle sentiria.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>No animo do visconde e de seus filhos excitou
-porém o apparecimento d'aquelle bello moço de
-maneiras distinctas, affavelmente dignas, de espirito
-superiormente cultivado, de conhecimentos
-scientificos excepcionalmente desenvolvidos, a mais
-agradavel das impressões.</p>
-
-<p>Um irmão d'aquelles, um filho de tal maneira<span class="pagenum"><a name="Page_111" id="Page_111">[111]</a></span>
-elegante e fino, dava-lhes honra, dava-lhes importancia
-e realce. Se fosse um extranho ter-lhe-hiam
-inveja, mas emfim, Gastão pertencia-lhes, era d'elles,
-a sua graça, a sua superioridade, a sua distincção
-communicava-se-lhes, <i>destingia</i> sobre as
-suas pessoas.</p>
-
-<p>O visconde pensava que no fim de contas o que
-constituia o especial encanto do filho, a educação,
-fôra elle quem a comprára muitissimo cara.</p>
-
-<p>Podia orgulhar-se de Gastão diante dos extranhos
-mas queria dominal-o, subordinar as opiniões
-d'elle ás suas, mostrar lhe bem claro, que o adorava
-pelo que elle transmittia a sua vida de elegante
-e de superior, mas que o considerava um
-objecto raro adquirido por muito bom preço, e do
-qual dispunha absolutamente.</p>
-
-<p>As <i>manas</i>, essas não occultaram no primeiro momento
-de enthusiasmo que a posse de Gastão lhes
-dava muito mais <i>chic</i> do que a posse do seu <i>coupé</i>
-novo tirado por dois cavallos inglezes <i>pur sang</i> e
-cujos arreios irreprehensiveis tinham sido louvados
-pelo embaixador de França.</p>
-
-<p>&mdash;Ora tu verás, dizia a mais velha para a outra,
-que as Pimentas em vendo Gastão ficam de
-<i>fel e vinagre</i>. Repara bem para a cara que ellas
-fazem, sobretudo se vierem acompanhadas do <i>mano</i>,
-d'aquelle Leopoldo, de olhos vesgos, de quem<span class="pagenum"><a name="Page_112" id="Page_112">[112]</a></span>
-toda gente se ri, e que ainda não acertou a fazer
-uma conta de sommar.</p>
-
-<p>E exhibiam o irmão pelas salas das suas <i>amigas</i>,
-sob pretexto de que não tinham quem as acompanhasse,
-e repetiam <i>em segrêdo</i> a todas as pessoas
-do seu conhecimento:</p>
-
-<p>&mdash;Não fazem ideia! O mano Gastão é um poço
-de sciencia. Sabe todas as linguas. Eu creio que
-elle até sabe sanskrito. O papá gastou immenso,
-mas que educação que elle lhe deu!</p>
-
-<p>E por aqui adiante uma ladainha em que se confundiam
-a <i>sciencia do mano</i>, os <i>gastos</i> do papá, a
-inveja que todos tinham d'ambos, e a gloria que
-a ellas provinha da inveja, dos gastos e da sciencia.</p>
-
-<p>Gastão tornara-se o luxo superior da familia.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Foi por esse tempo que o visconde entendeu
-que era necessario casar o filho mais novo, visto
-que o mais velho dissera com desdem supremo que
-só se atiraria a esse abysmo do casamento, quando
-tivesse completado os seus folgados quarenta annos.</p>
-
-<p>&mdash;Quando Gastão casar, as pequenas poderão
-frequentar mais os bailes, os saraus e os passeios.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_113" id="Page_113">[113]</a></span></p>
-
-<p>Eu gosto de receber em casa; não me incommodo
-com isso, mas lá para andar sempre pelo
-meio da rua é que não estou. E depois Gastão
-póde fazer um casamento esplendido. Está n'esses
-casos por todos os motivos.</p>
-
-<p>E foi resolvido em conselho de familia, que Gastão
-tomasse estado.</p>
-
-<p>A casa do visconde das Lagôas tornou-se a
-<i>mansão de todos os prazeres</i>, como o bom do homem
-dizia na praça aos seus amigos titulares e
-merceeiros. Bailes, jantares, <i>petites sauteries intimes</i>,
-concertos, a fortuna!</p>
-
-<p>A <i>leôa</i> d'estas reuniões, que os noticiaristas immortalisavam
-na secção da alta elegancia mundana,
-chamava-se Clotilde de Magalhães. O pae ambicionava
-um titulo que ainda não tinha podido
-alcançar <i>dos governos</i>, mas que mediante um avultado
-donativo a não sei que estabelecimento bafejado
-pelo favor da côrte, lhe fôra promettido para
-muito breve.</p>
-
-<p>O conselheiro Magalhães dissera porém ao seu
-amigo o visconde das Lagôas, que essa promessa
-lhe não bastava, que o que elle queria e alcançaria
-decerto, visto que ao dinheiro nada é impossivel,
-era um titulo em duas vidas, um titulo que
-elle podesse transmittir a sua filha e portanto a
-seu genro.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_114" id="Page_114">[114]</a></span></p>
-
-<p>O visconde ouviu e comprehendeu.</p>
-
-<p>Desde esse dia as duas familias acariciaram
-como uma esperança lisongeira, o projecto de enlace
-entre Clotilde de Magalhães, a filha unica
-d'esse conselheiro millionario, e Gastão da Silveira,
-o elegante filho do visconde das Lagôas.</p>
-
-<p>Clotilde tinha vinte e dous annos. Uma esplendida
-physionomia peninsular illuminada por um
-par de olhos negros, dos que ateariam incendios
-ha trinta annos no seio apaixonado dos tetricos
-trovadores.</p>
-
-<p>Era intelligente o bastante para occultar o soberano
-orgulho, que lhe esterilisava o coração.</p>
-
-<p>Tudo quanto a educação das salas tem de mais
-requintado e precioso possuia-o Clotilde em larga
-escala.</p>
-
-<p>Manejava facilmente duas ou tres linguas, cantava
-com uma voz de contralto quente e apaixonada
-as arias mais enervantes dos mestres italianos,
-dançava com uma perfeição de attitudes que
-a tornavam celebre nos salões, vestia-se bem, sem
-excentricidades e sem plebeismos de mau gosto.</p>
-
-<p>As filhas do visconde das Lagôas invejavam-na
-ardentemente conhecendo-lhe a superioridade dominadora,
-mas fingiam adoral-a, porque da frequencia
-de Clotilde em casa d'ellas, resultava
-grande animação para as suas <i>soirées</i>.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_115" id="Page_115">[115]</a></span></p>
-
-<p>Clotilde que era caridosa em certas horas, e que
-ostentava o capricho da <i>protecção</i>, tinha em sua
-casa, como companheira, pupilla ou o que quer que
-fosse, uma parenta pobre de sua fallecida mãe.</p>
-
-<p>Muitas vezes a levava comsigo ás reuniões mais
-intimas talvez por um refinado instincto de garridice.</p>
-
-<p>Tão admiravel e triumphante era a belleza de
-Clotilde, como doce, modesta, soffredora, era a
-apparencia de Angelina. D'este contraste que a
-todos os olhos se impunha, resultavam sempre
-grandes alegrias de amor proprio para a elegante
-herdeira.</p>
-
-<p>Angelina tinha pois uma dupla missão, inteiramente
-passiva. Fazer sobresahir a bondade de
-Clotilde e a sua formosura.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Quando Clotilde conheceu mais de perto aquelle
-que seu pae lhe promettera muito brevemente para
-esposo, comprehendeu logo, com a rara perspicacia
-que a distinguia, que o que na sua pessoa havia
-de mais brilhante e admirado pouca ou nenhuma
-influencia exerceria no coração d'elle.</p>
-
-<p>Uma noite em que a filha do conselheiro Magalhães<span class="pagenum"><a name="Page_116" id="Page_116">[116]</a></span>
-estivera mais rodeada de admirações lorpas e
-de cultos banaes, em que, ebria d'esse grosseiro incenso
-das salas, ella exhibira todas as suas raras e
-distinctas prendas de mulher bonita e de mulher garrida,
-ousou sorrindo perguntar a Gastão, que mais
-d'uma vez a tinha olhado com mal disfarçada ironia:</p>
-
-<p>&mdash;Não me dirá qual é o seu ideal de mulher?
-Vejo-o sempre tão reservadamente cortez com todas
-as senhoras, que ainda não percebi o que é
-preciso ser para lhe agradar.</p>
-
-<p>&mdash;Meu Deus! não ha nada mais facil&mdash;respondeu
-o moço fictando o olhar limpido e honesto
-no altivo olhar de Clotilde.&mdash;É preciso ser uma
-mulher em quem ninguem repare.</p>
-
-<p>&mdash;Julguei que a mediocridade o não captivava
-a esse ponto&mdash;volveu Clotilde mordendo os beiços
-de colera.</p>
-
-<p>&mdash;Mas é que não é ser mediocre ser modesta.
-É que a mulher que gosta de brilhar, não sabe o
-que é sacrificio e abnegação, é que para mim todos
-os encantos que se apreciam nas salas, não
-valem um bom e candido coração que saiba amar-me
-e viver só para mim.</p>
-
-<p>Não se póde dizer que Clotilde adorava Gastão,
-mas emfim a verdade é que gostava muito d'elle.
-Achava-o superior, correcto, distincto, d'uma aristocracia
-innata que a encantava.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_117" id="Page_117">[117]</a></span></p>
-
-<p>Achava-o digno de si.</p>
-
-<p>Não lhe sacrificaria nenhum dos seus triumphos,
-nenhuma das suas vaidades, nenhum dos seus gozos,
-mas sacrificava-lhe com certeza todos os seus
-adoradores.</p>
-
-<p>Ser mulher d'elle era para ella um sonho radioso.</p>
-
-<p>Discordavam, porém, em tudo, nos gostos, nas
-ideias, nos sentimentos, na maneira de entenderem
-a vida.</p>
-
-<p>Clotilde na arte preferia tudo que é brilhante e
-apparatoso; Gastão amava tudo quanto é grande
-e dedicado. Clotilde só vivia no meio das opulencias
-sociaes; Gastão tinha a ambição das alegrias
-intimas e ignoradas.</p>
-
-<p>Ella gostava do incenso de todas as lisonjas por
-mais grosseiramente capitoso que fosse; elle mais
-d'uma vez dissera que achava ignobil da parte
-d'uma mulher consentir que um sujeito de casaca,
-engravatado e ridiculo, tivesse a audacia de lhe
-declarar perto do ouvido que a estava achando
-formosa e cubiçavel.</p>
-
-<p>&mdash;Só digo finezas ás mulheres a quem desprezo.
-São as unicas que nos dão direito de lhes dizermos
-o que nos passa pela cabeça.</p>
-
-<p>Um homem que diz cousas ternas a uma senhora,
-fazendo <i>boquinhas</i> e phrases romanticas, insulta-a
-d'um modo indigno.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_118" id="Page_118">[118]</a></span></p>
-
-<p>Como é que as mulheres são tão absurdamente
-educadas que não percebem isto?</p>
-
-<p>Um dia perguntaram a Gastão diante de Clotilde
-se gostava da musica italiana.</p>
-
-<p>&mdash;Conforme! Gosto do bom que ha em todas as
-escolas. N'esse ponto sou ecletico e creio que todos
-o deviam ser. Agora a musica italiana das salas
-acho-a ridicula e pouco decente. Uma senhora a cantar
-arias em que se falla de <i>amor</i>, de <i>paixão</i>, de <i>extasis
-inolvidaveis</i>, etc., que diz <i>io t'amo</i> revirando os
-olhos ao primeiro sujeito que passa, perdeu o direito
-a que um homem serio a escolha para sua mulher.</p>
-
-<p>Desde esse dia Clotilde deixou de cantar.</p>
-
-<p>Gastão não percebeu o sacrificio, ou pelo menos
-não mostrou que o percebera.</p>
-
-<p>Era um espirito logico e recto, e tinha o defeito
-de se guiar na vida pelas opiniões que professava.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Dançavam todos em casa do visconde das Lagôas,
-e junto d'uma pequena mesa de trabalho,
-no gabinete das filhas do visconde, uma figura
-loura e delicadissima, inclinada sobre um album
-de retratos, parecia ignorada e esquecida de toda
-aquella multidão que se divertia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_119" id="Page_119">[119]</a></span></p>
-
-<p>&mdash;Porque não dança, senhora D. Angelina?
-perguntou jovialmente a voz de Gastão. Se eu lhe
-pedir que seja meu par, recusa-me?</p>
-
-<p>&mdash;Recuso, respondeu ella docemente, e uma côr
-viva tingiu-lhe as faces.</p>
-
-<p>Recuso por muitas razões. Em primeiro lugar é
-um pouco extranho dançar quando se tem a posição
-que eu tenho, porque emfim eu não sou mais
-que uma <i>dame de compagnie</i>, uma aia, uma governante
-ou como queiram chamar-me, de casa dos
-meus caridosos parentes.&mdash;Ao dizer isto, talvez
-involuntariamente, na voz de Angelina havia umas
-inflexões de amargura resignada.</p>
-
-<p>&mdash;Depois&mdash;continuou&mdash;não danço porque me
-faria mal. Dóe-me muito o peito!</p>
-
-<p>Gastão sentiu dentro d'alma como que a brotar
-subitamente, um sentimento que lhe era desconhecido
-e em que havia dó, tristeza, admiração, um enternecimento
-sem nome que lhe embargava a voz.</p>
-
-<p>Angelina era tão delgada, tão fragil, d'uma physionomia
-tão delicadamente melancolica!</p>
-
-<p>Para tudo a fizera o destino, menos para combater
-e para luctar. A desgraça despedaçara-a sem
-que ella tentasse resistir-lhe sequer.</p>
-
-<p>Como seria doce protegel-a, guial-a na vida,
-abrigal-a no peito contra os embates hostis da
-adversidade!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_120" id="Page_120">[120]</a></span></p>
-
-<p>Era assim que Gastão havia sonhado uma adoravel
-e submissa mulherzinha, com aquelle olhar
-largo e limpido que lembrava um lago da Suissa,
-com aquelles louros cabellos ondados emmoldurando
-uma testa setinosa e côr de marfim.</p>
-
-<p>Trocaram mais duas ou tres palavras, e depois
-separaram-se de novo. Angelina talvez ficasse a
-scismar, que nunca mais teria occasião de ver postos
-nos seus uns olhos onde se lesse tão doce e
-tão honesta sympathia.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>O visconde das Lagôas convidou a familia do
-conselheiro para estar um mez na sua quinta do
-Alto Minho.</p>
-
-<p>Angelina acompanhou naturalmente a sua gentil
-parenta e protectora.</p>
-
-<p>No campo estabelecem-se facilmente intimidades
-que na cidade parecem inconvenientes e impossiveis.</p>
-
-<p>Gastão entre aquellas duas bellas creaturas,
-d'uma belleza tão diversa como diversos eram os
-caracteres, poude apreciar e aquilatar a alma e o
-coração de ambas.</p>
-
-<p>Durante um mez Clotilde foi a rainha acclamada<span class="pagenum"><a name="Page_121" id="Page_121">[121]</a></span>
-e triumphante do solar provinciano povoado de numerosos
-hospedes que alternadamente chegavam,
-ou partiam.</p>
-
-<p>Era ella quem organisava as festas, quem dirigia
-as partidas, quem inventava as distrações e os
-jogos. Activa, intelligente, soberanamente caprichosa,
-ser dominada por ella constituia uma seducção.
-Emquanto assim era o centro da animação
-festiva que se notava na opulenta casa do visconde,
-Clotilde empregava para captivar Gastão todos
-os seus artificios de sereia.</p>
-
-<p>Envolvia-o no magnetismo irresistivel dos seus
-sorrisos mysteriosos, do seu espirito acerado e
-mordaz, da sua graça magestosa e altiva.</p>
-
-<p>Punha aos pés d'elle todas as homenagens de
-que era objecto.</p>
-
-<p>Ás vezes á noite, sentava-se á meza com o desleixo
-creoulo que sabia fingir, e punha-se a desenhar,
-com uma <i>verve</i> comica imcomparavel, as caricaturas
-dos galans suspirosos que a cercavam.
-Depois, conscia de que a sua mão valia um milhão,
-e sem attender aos desesperos que excitava,
-offerecia a Gastão os desenhos com um gesto ironico
-e submisso de que só ella possuia o segredo
-encantador.</p>
-
-<p>Os serões animava-os com a sua presença, com
-a sua voz, com a sua mestria musical, com os seus<span class="pagenum"><a name="Page_122" id="Page_122">[122]</a></span>
-conhecimentos variados adquiridos nas viagens e
-nas leituras.</p>
-
-<p>Angelina voluntariamente occulta no canto mais
-escuro da sala, assistia a todo este jogo brilhantissimo
-com a silenciosa resignação de quem se
-sente para sempre expulsa de todos os prazeres
-da vida.</p>
-
-<p>Nem sequer percebia que era para o lugar em
-que ella trabalhava, que os olhos de Gastão se
-dirigiam constantemente, e que elle tão desdenhoso
-e tão ironico para com as outras, lhe fallava
-sempre timidamente, respeitosamente, como os devotos
-fallam com o seu Deus, como as mães fallam
-com os seus filhos doentes.</p>
-
-<p>Houve um dia em que uma resposta quasi insolente
-de Clotilde a fez padecer muito.</p>
-
-<p>Arrazaram-se-lhe os olhos de lagrimas, levantou-se
-e foi encostar-se á varanda toda enredada
-de trepadeiras que dava sobre o jardim.</p>
-
-<p>Não percebeu que a crueldade de Clotilde significava
-um despeito, um ciume, talvez uma agonia
-profunda de amor proprio! Pensou sómente que a
-herdeira rica e poderosa insultava diante da sua
-familia, diante do seu noivo, a orphã desamparada,
-e chamou baixinho por sua mãe, pedindo lhe
-que a levasse comsigo para o ceu.</p>
-
-<p>Então uma voz grave, sonora e viril, a voz d'um<span class="pagenum"><a name="Page_123" id="Page_123">[123]</a></span>
-homem de coração e de coragem, murmurou perto
-d'ella:</p>
-
-<p>&mdash;Quer ser minha mulher, Angelina? Ha muitos
-dias que tenho vontade de fazer-lhe esta pergunta
-e não me atrevia!</p>
-
-<p>É que se me recusar, juro-lhe que me dá um desgosto
-muito grande! Não faz idéa! Parece-me que
-a conheço desde que nasci, que nunca vi outra mulher,
-que nunca achei possivel ter outra esposa...
-Talvez não creia... mas olhe... hei de fazel-a
-muito feliz... hei de amal-a com uma devoção tão
-profunda...</p>
-
-<p>Angelina não o deixou concluir. Tapou-lhe a
-bocca com uma das suas mãos diaphanas, e pallida,
-a tremer, deixou-lhe cahir a cabeça sobre o
-peito a soluçar..............................</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>A familia de Gastão quando o moço lhe participou
-a resolução definitiva que adoptára, repelliu-o
-do seu gremio illustre com o mais indignado espanto.</p>
-
-<p>Aquelle mesquinho enlace que vinha destruir
-tantas esperanças pomposas, era para todos uma
-vergonha.</p>
-
-<p>O visconde, as duas manas, o irmão mais velho,
-o conselheiro Magalhães, tudo se revoltára contra
-o que chamavam o <i>romantismo</i> de Gastão.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_124" id="Page_124">[124]</a></span></p>
-
-<p>Só uma pessoa o acceitou sem colera e sem protestos.</p>
-
-<p>Foi Clotilde.</p>
-
-<p>Quiz ella propria conduzir á egreja a sua juvenil
-protegida, e até á ultima hora teve para com
-ella e para com o homem a quem um dia no intimo
-do coração chamára&mdash;o seu noivo&mdash;uma attitude
-irreprehensivel de serena dignidade.</p>
-
-<p>Gastão e Angelina vivem n'uma deliciosa casinha
-em Buenos-Ayres, onde ha dias os visitei.</p>
-
-<p>Elle alcançou uma excellente collocação n'uma
-casa bancaria; ella tem o singular segredo de ser
-economica com elegancia e laboriosa com gentil
-dignidade.</p>
-
-<p>São ambos felizes como dois leaes corações que
-se estremecem e se entendem.</p>
-
-<p>No seu gabinete confortavel e artisticamente arranjado
-pelas mãos de Angelina, quantas vezes á
-noite no tranquillo recolhimento do serão commum,
-os dois noivos não lamentam a sorte dos seus parentes
-millionarios!</p>
-
-<p>Clotilde não casou ainda nem casará talvez.</p>
-
-<p>Apparece em todas as festas, em todos os bailes,
-em todos os theatros, sempre com o seu eterno
-sorriso mordaz nos labios empallidecidos.</p>
-
-<p>Ha porém quem julgue lêr na sua bella physionomia
-altiva, uns toques de intraduzivel soffrimento.</p>
-
-<div class="chapter">
-<hr class="chap" />
-</div>
-
-
-<h3 id="O_ROMANCE_DE_ADELINA">O ROMANCE DE ADELINA</h3>
-
-<p>(FRAGMENTOS DE CARTAS)</p>
-
-
-<p>Meu pae, minha mãe, as pessoas que me cercam
-dizem-me continuamente que a vida é triste, que o
-dever tem sempre um aspecto difficil, que as chiméras
-da nossa imaginação nunca chegam a realizar-se...</p>
-
-<p>Eu ouço-os, mas affirmo-te que não estou nada
-convencida.</p>
-
-<p>Supponho ás vezes que vejo a existencia pelo
-avesso, que tenho um modo muito extravagante de
-comprehender as cousas.</p>
-
-<p>Ouço por exemplo chamar <i>romanescas</i> a todas
-as mulheres loucas ou desgraçadas.</p>
-
-<p>Ás que deixam seus maridos para seguir um<span class="pagenum"><a name="Page_126" id="Page_126">[126]</a></span>
-sujeito de bigode e collete branco que lhes recitou
-versos ao piano entre dois candelabros; ás que
-andam toda a vida á procura de um <i>ideal</i> que ora
-encontram ora deixam, percebendo que se enganaram;
-ás que usam olheiras e cabellos cahidos,
-e fallam do seu <i>desespero</i> inconsolado entre uma
-quadrilha e uma valsa.</p>
-
-<p>Para mim essas mulheres são tudo menos romanescas.</p>
-
-<p>Sabes ao que eu chamo romantismo?</p>
-
-<p>A uma aspiração delicada, a tudo que é bello e
-bom. A um desejo ardente de perfeição que se não
-satisfaz facilmente. A uma tendencia para idealisar
-os deveres e os sentimentos.</p>
-
-<p>Crê, minha boa Thereza, que não ha ninguem
-mais romantica do que eu!</p>
-
-<p>Chego ás vezes a ter medo de que isto seja um
-pendor funesto que me arraste a algum desvario.</p>
-
-<p>No outro dia casou aqui uma prima minha.</p>
-
-<p>É uma galante rapariga, bem educada e intelligente.</p>
-
-<p>Encontrou o noivo uma duzia de vezes, elle pediu-lhe
-licença para confessar aos paes que a amava
-muito.</p>
-
-<p>D'alli a dous mezes, concluidos os preparativos,
-casaram-se.</p>
-
-<p>Não se conhecem nada, mas como as fortunas,<span class="pagenum"><a name="Page_127" id="Page_127">[127]</a></span>
-as idades, e as posições dos paes estavam em harmonia,
-concluiram que se haviam de dar optimamente.</p>
-
-<p>Aquelle casamento que agradou a toda a gente,
-consternou-me a mim.</p>
-
-<p>O meu casamento ha de ser o unico romance
-da minha vida, mas affirmo-te que o quero bem
-longo, bem completo. Quero que as suas paginas
-luminosas lidas uma vez me dourem de mysteriosa
-claridade todo o futuro. Quero amar o meu noivo
-para adorar eternamente o meu marido.</p>
-
-<p>Dizem que o dever é sempre custoso de cumprir.</p>
-
-<p>Conforme!</p>
-
-<p>Eu tenho dezoito annos, e nunca até hoje liguei
-á ideia do dever uma ideia que não fosse de satisfação
-intima.</p>
-
-<p>Sou tão feliz em amar meus paes, em soccorrer
-os desgraçados, em cultivar o meu espirito, em
-sacrificar os meus prazeres aos prazeres de alguem!</p>
-
-<p>O sacrificio seja elle de que genero fôr, parece-me
-uma dôr suave, uma sensação de pungitiva
-delicia, que nos eleva e nos engrandece.</p>
-
-<p>Só os que sabem sacrificar-se affirmam a sua
-superioridade.</p>
-
-<p>Tenho medo de ser criminosamente aristocrata.</p>
-
-<p>Parece-me que assim como as pessoas bem educadas<span class="pagenum"><a name="Page_128" id="Page_128">[128]</a></span>
-nunca se deixam avassallar pela gula, pela
-violencia dos appetites grosseiros, assim as almas
-finas não devem entregar-se a uma ambição desregrada
-de prazeres.</p>
-
-<p>Soffrer é uma condição humana, mas ha soffrimentos
-que são a mais requintada das doçuras.</p>
-
-<p>Ás vezes olho para minha mãe e lembro-me que
-se pudesse trocar a minha robustez pela sua debil
-saude, a minha cabelleira densa e loura pelos seus
-lindos cabellos brancos, a minha alegria exhuberante
-pelo seu sorriso meigo e soffredor, conheceria
-um gráo de felicidade mais puro, mais alto do que
-todos os gozos que até agora experimentei.</p>
-
-<p>E no emtanto ao dar-lhe a minha mocidade, ao
-receber em troca a sua velhice, de certo que sentiria
-infinitas saudades!</p>
-
-<p>Não se renuncia friamente a todas as esperanças
-do futuro!</p>
-
-<p>Seria, porém, uma das taes dôres que eu amo,
-uma d'aquellas tristezas divinas que fazem bem á
-alma e como que a depuram das imperfeições da
-terra.</p>
-
-<p>Será isto romantismo, Theresa?</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Andam commigo agora de baile em baile, de
-<i>soirée</i> em jantar.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_129" id="Page_129">[129]</a></span></p>
-
-<p>Imaginam que me enganam, os queridos velhinhos!</p>
-
-<p>Elles que gostam tanto do cantinho do fogão,
-onde conversam, e se recordam de tudo que passou,
-fingem um subito e inexplicavel desejo de distrações
-mundanas.</p>
-
-<p>Eu sigo-os com um sorriso malicioso que ás vezes
-os assusta.</p>
-
-<p>Sabes as minhas ideias, não é verdade?</p>
-
-<p>Que garantias de futuro me daria a mim um
-marido apanhado a laço á luz dos lustres dourados,
-em uma sala de baile frivola e banal?</p>
-
-<p>Não é ahi que eu encontrarei de certo o noivo
-da minha alma!</p>
-
-<p>Porque é que se não poderá alliar a poesia do
-coração com os deveres da realidade? Não entendo
-isto!</p>
-
-<p>Pois só serão deliciosos os amores vedados?</p>
-
-<p>A mim parece-me que a vida com o seu cortejo
-de dores, de deveres, de sacrificios, de affectos, a
-vida com a sua manhã purpurea e gorgeada, com
-o seu meio dia luminoso em que rompe em ondas
-crystallinas a musica triumphante dos vinte annos,
-com a sua tarde melancolica d'uma doçura
-indefinida e dubia, com a sua noite emfim, noite
-estrellada e calma, em que esmorecem e expiram
-todos os rumores da terra, é como que um poema<span class="pagenum"><a name="Page_130" id="Page_130">[130]</a></span>
-completo, uma symphonia em que ha todas as notas,
-todos os tons, todas as expressões.</p>
-
-<p>Os que amaldiçoam a vida, ou querem fugir das
-suas commoções naturaes, procurando n'um meio
-artificial, n'uma atmosphera de estufa outros gozos,
-outros prazeres, outras angustias, são esses
-que não entendem a opulencia harmoniosa da criação!</p>
-
-<p>Ser filha, e noiva e esposa e mãe! onde acharemos
-estados da alma mais completos que aquelles
-que resultam naturalmente d'estes modos de ser?</p>
-
-<p>Aqui ha tudo! Alegrias, dôres, sobre-saltos, esperanças,
-sonhos, arrebatamentos, extasis ineffaveis!</p>
-
-<p>Não proscrevamos o romance da vida, pelo contrario
-identifiquemol-o com a vida!</p>
-
-<p>Ponhamos no nosso modo de sentir a maior porção
-de ideal, a que sejamos accessiveis.</p>
-
-<p>Pensar que o dever só póde comprehender-se
-<i>terra a terra</i> é amesquinhar e rebaixar o dever!</p>
-
-<p>A paixão não precisa de ser criminosa para nos
-dar gozos supremos; creio mesmo que é o crime
-que a torna amarga aos labios e dolorosa ao coração!</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Perguntavas-me no outro dia maliciosamente se<span class="pagenum"><a name="Page_131" id="Page_131">[131]</a></span>
-eu faço a minha leitura predilecta da <i>Moral em
-acção</i>.</p>
-
-<p>Não faço.</p>
-
-<p>Se ha cousa que eu acho desmoralisador é um
-tratado de moral <i>chaufé à froid</i>.</p>
-
-<p>Sabes quem são os meus mestres do bom e do
-bello? São Beethoven, Mozart, Hayden, os meus
-queridos e nobres artistas.</p>
-
-<p>Cada dia me deixo levar mais apaixonadamente
-por este amor da musica que me consola, e me levanta
-e por assim dizer me realiza todos os sonhos
-ambiciosos da minha alma.</p>
-
-<p>Presinto que se chegar na vida para mim uma
-hora sombria em que veja por terra os meus idolos,
-a musica me ha de consolar de tudo!</p>
-
-<p>Ha pessoas que choram com a musica. Foge
-sempre da musica que faz chorar. É enervante, é
-perigosa e traiçoeira.</p>
-
-<p>Mozart e Beethoven não enfraquecem, fortificam.
-Dão-nos á alma como um grande banho de
-ar puro.</p>
-
-<p>Fazem-nos subir ás alturas immaculadas e de lá
-ver tudo que é pequeno, ephemero, transitorio aos
-nossos pés.</p>
-
-<p>Ó Beethoven, se eu alguma vez fôr trahida envolve-me
-nas tuas azas de luz!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_132" id="Page_132">[132]</a></span></p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Não te disse eu que o meu romance existia algures,
-n'um mysterioso recanto onde eu ainda não
-déra com elle?</p>
-
-<p>Não me enganei.</p>
-
-<p>Existe.</p>
-
-<p>Tem vinte e cinco annos, ha muita gente que
-diz que elle é feio. Eu acho-o simplesmente adoravel.</p>
-
-<p>Tem uns bellos olhos escuros que a paixão illumina,
-de que a ironia faz chispar faiscas sombrias,
-e que em horas de embevecimento e de ternura
-tem segredos doces de uma bondade ineffavel! Tem
-uma testa larga e pensativa, e uma boca desdenhosa
-como se o sarcasmo a houvesse affeiçoado.</p>
-
-<p>Acham-lhe innumeros defeitos, eu acho-lhe sómente
-alguns.</p>
-
-<p>Mas é para aquelles que a vida endureceu e
-azedou, que as almas moças devem abrir os mananciaes
-da sua fé.</p>
-
-<p>Hontem disse-me, depois de me ter ouvido tocar
-piano durante tres horas, que eu lhe fizera
-tanto bem, que se esquecia por amor de mim do
-mal que todos os outros lhe tinham feito.</p>
-
-<p>Estas palavras que em outra boca seriam uma
-banalidade, na boca d'elle pareceram-me um juramento
-que vinculava para sempre as nossas duas
-vidas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_133" id="Page_133">[133]</a></span></p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Tres annos de silencio! Como é que tu has de
-perdoar-me, Thereza!</p>
-
-<p>Mas se eu te disser uma cousa, só uma cousa,
-perdôas-me de certo.</p>
-
-<p>Sou muito infeliz.</p>
-
-<p>Quiz talvez realizar o impossivel, quiz achar no
-amor de meu marido o conjuncto de todos os amores
-de que eu me sentia capaz.</p>
-
-<p>Fiz tudo para conservar a felicidade, e a felicidade
-fugiu-me.</p>
-
-<p><i>Elle</i> vê em mim um pezo, uma prisão, talvez
-que um grande desapontamento.</p>
-
-<p>Nunca me queixo. Para que?</p>
-
-<p>A gente não deve queixar se, porque é uma humilhação
-escusada e inutil.</p>
-
-<p>Procuro convencer-me de que na vida de todas
-as mulheres ha d'estes cilicios occultos que ellas
-supportam ageitando nos labios um sorriso heroico.</p>
-
-<p>Não renego nenhuma das minhas ideias. O dever
-consola, o dever compensa.</p>
-
-<p>Não comprehendo que, porque um faltou ao
-contrato ideal que fez com a consciencia, o outro
-deva faltar tambem.</p>
-
-<p>Emquanto <i>elle</i> me quizer junto de si, hei de
-dar-lhe toda a minha vida, feliz d'este sacrificio
-sem paga.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_134" id="Page_134">[134]</a></span></p>
-
-<p>Illudi-me porque lhe quiz muito, e perdôo-lhe
-por que me illudi.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Hontem, minha mãe, a pobre velhinha que succumbe
-ás agonias da sua recente viuvez, dizia-me
-diante do berço de meu filho desamparado, do meu
-orphãozinho, cujo pae vive ainda:&mdash;Acabou-se tudo!
-Naufragámos todos tres!</p>
-
-<p>Pelo contrario! Agora é que tudo começa!</p>
-
-<p>Não imaginas a coragem e a energia que eu
-sinto em mim!</p>
-
-<p>Sou eu, minha mãe e meu filho.</p>
-
-<p>Uma quasi que perdeu a consciencia, o outro
-não a tem ainda. Sou eu que preciso pensar e trabalhar
-por todos tres.</p>
-
-<p>Na grande desgraça que me feriu, a ideia de
-que sou necessaria, de que me tornei indispensavel
-aos entes a quem mais quero, inoculou-me no
-espirito dilacerado uma força superior.</p>
-
-<p>Mas como foi que tudo isto succedeu? perguntas
-tu cheia de pasmo.</p>
-
-<p>Não sei! Uma mulher que passou, uma artista
-que tinha em talento o que lhe faltava em coração
-e que o levou atrás de si, satelite desprezivel, de
-um astro cahido.</p>
-
-<p>Não tenho saudades d'elle, crê que não tenho.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_135" id="Page_135">[135]</a></span></p>
-
-<p>O homem que eu amei era uma nobre e digna
-creatura, incapaz de transigir com a honra, e de
-submetter-se á tyrannia dos appetites brutaes.</p>
-
-<p>Tinha defeitos, era violento, apaixonado, irascivel,
-mas era honesto.</p>
-
-<p>Esse homem morreu, ou não existiu nunca.</p>
-
-<p>O que fugiu não se parecia com elle.</p>
-
-<p>Quando estou só, estremeço ás vezes com um
-asco intraduzivel de mim propria.</p>
-
-<p>Quem é que se consola das maculas de um tal
-amor?</p>
-
-<p>Não te disse eu, que se tudo me faltasse, os
-meus velhos mestres, os meus amigos, as almas
-sonoras e transparentes que sabem traduzir em
-sons tudo que ha de bello na natureza, as côres,
-os perfumes, as linhas, o mundo da materia e o
-mundo do espirito; não te disse eu que elles me
-consolariam e me haviam de amparar?!</p>
-
-<p>Chegou o momento supremo.</p>
-
-<p>Chamei os e não faltaram ao meu apello.</p>
-
-<p>Mostrei-lhes o meu coração partido, o meu orgulho
-machucado, as minhas illusões desfeitas e
-disse-lhes: Consolai-me! Mostrei-lhes o meu filho
-pequenino, e a minha mãe decrepita, e disse-lhes:
-dae-lhes pão!</p>
-
-<p>E ouviram-me as almas adoraveis!</p>
-
-<p>Sinto em mim a virilidade augusta dos fortes.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_136" id="Page_136">[136]</a></span></p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>O meu Arthur tem hoje quinze annos.</p>
-
-<p>É um formoso adolescente, louro e timido como
-uma virgem.</p>
-
-<p>Vivemos eu e elle n'uma casinha de um bairro
-tranquillo e retirado.</p>
-
-<p>De dia elle frequenta o lyceu, e eu dou as minhas
-lições de musica, á noite lemos, conversamos
-e tocamos juntos.</p>
-
-<p>Todos os annos, n'um dia certo, fazemos uma
-romagem piedosa.</p>
-
-<p>Vamos visitar ao cemiterio o tumulo de pedra,
-pobre e modesto, onde dorme o seu tranquillo
-somno a minha querida mãe.</p>
-
-<p>Foram serenos e doces os ultimos dias que ella
-viveu na terra.</p>
-
-<p>Ajudou a crear o meu Arthur, que era tão endiabrado
-e travesso como hoje é tranquillo e scismador!</p>
-
-<p>Eu sahia de casa muito cedo, e deixava-os a
-ambos juntos a papaguearem alegremente, porque
-não ha nada que illumine a tristeza dos velhos
-como a alegria dos netos.</p>
-
-<p>Ao principio era-me doloroso aquelle monotono
-trabalho de ensinar os principios de musica, mas
-quando vi desenvolver-se em casa o conforto devido<span class="pagenum"><a name="Page_137" id="Page_137">[137]</a></span>
-aos meus pertinazes esforços, cobrei nova
-coragem e alentos novos.</p>
-
-<p>Sahia com mais animo e voltava com mais alegria.</p>
-
-<p>Em mim faziam-se dous trabalhos: Procurava
-afazer-me á minha nova existencia e apagar da
-memoria o meu passado enganoso.</p>
-
-<p>Tivera o meu romance, e o romance deixára-me
-na boca o travor amargo das cousas insalubres!</p>
-
-<p>Em todo o caso nunca me arrependi de ter aspirado
-a saciar a minha sêde de ideal nas fontes
-puras do coração.</p>
-
-<p>Era mais feliz na minha infelicidade que os outros
-nas suas alegrias!</p>
-
-<p>A minha vida de professora, fazendo-me penetrar
-em muitas casas diversas, deu-me ensejo para
-conhecer melhor o mundo.</p>
-
-<p>Encontrei muita gente alegre e satisfeita que
-me causou profundo dó.</p>
-
-<p>Marido e mulher separados pelas ideias moraes,
-pelas crenças religiosas, pelas occupações, pelas
-indoles diversas, pelo modo antithectico de encarar
-as cousas; unidos sómente por um laço, o habito;
-por uma força, as conveniencias sociaes.</p>
-
-<p>Oh! antes o meu desamparo, antes o abandono
-em que eu fiquei na flôr da vida!</p>
-
-<p>Conheci muitas mulheres que procuravam no<span class="pagenum"><a name="Page_138" id="Page_138">[138]</a></span>
-turbilhão mundano consolação para intimas tristezas;
-outras, que me confessaram chorando, que a
-ingratidão e a inconstancia do marido as arrastára
-á perdição, ao desprezo de si proprias.</p>
-
-<p>Não as repelli, porque não tinha direito para
-ser implacavel; lamentei-as, não porque as achasse
-dignas de lastima, mas porque me pareciam dignas
-de desdem!</p>
-
-<p>Como se o crime posterior da mulher não fosse
-a justificação do crime anterior do marido!</p>
-
-<p>Ser boa e digna e virtuosa, quando tudo nos
-ajuda a isso, grande milagre!</p>
-
-<p>Na solidão, no abandono, na injustiça do mundo,
-é que a honestidade da mulher se acrisola!</p>
-
-<p>Se meu marido não houvesse fugido de mim,
-deixando-me nos braços uma creancinha de mezes,
-como poderia eu conhecer as luctas da vida e ter
-sahido triumphante das provações da desgraça?</p>
-
-<p>Não imaginas, querida amiga, como hoje é doce
-e tranquillo o meu outomno!</p>
-
-<p>Em primeiro lugar o querido anjo que eu eduquei
-sósinha, depois a musica, as flôres e os bons
-livros. Falta-me a minha mãe querida, mas essa
-morreu abençoando-me!</p>
-
-<p>Ao domingo, quando eu e Arthur nos achamos
-bem sós, no nosso pequeno gabinete de trabalho,
-chego a conceber a beatitude do paraizo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_139" id="Page_139">[139]</a></span></p>
-
-<p>Sento-me ao piano e toco, toco até me sentir
-sem forças.</p>
-
-<p>Converso longamente com os amigos da minha
-mocidade, com os que me vestiram a alma da
-crystallina armadura que resistiu a todos os attrictos
-da miseria humana.</p>
-
-<p>Conto-lhes as luminosas aspirações da minha
-adolescencia, a ideia que eu fazia da abnegação,
-do amor, do sacrificio; e os esforços que empreguei
-para me cingir sempre a essa ideia levantada
-e superior.</p>
-
-<p>Conto-lhes o bello instante radioso em que na
-minha vida desabrochou a flôr mysteriosa que
-elles me haviam ensinado a julgar o premio mais
-dôce de um coração cheio de fé. E com que extremos
-eu cultivei essa flôr que um dia se desfez
-em cinzas nas minhas tremulas mãos! E como a
-doce illusão de a possuir me fizera melhor!</p>
-
-<p>Depois conto-lhes a tempestade que subitamente
-fez sobre mim a sua explosão sinistra, e o meu
-desamparo e a minha dôr fulminadora, e a vacillação
-tremenda em que eu vi tudo que julgara immutavel
-prestes a desabar, deixando-me só ruinas!</p>
-
-<p>Foi então que o amor d'elles me salvou, foi então
-que as suas vozes divinas me chamaram, e
-que, na esphera elevada em que elles moram, eu<span class="pagenum"><a name="Page_140" id="Page_140">[140]</a></span>
-me senti penetrar da calmaria adormecedora de
-todas as paixões ruins!</p>
-
-<p>No outro dia, depois de tocar duas horas, esquecida
-de tudo, procurei meu filho e achei-o de
-joelhos ao pé de mim.</p>
-
-<p>Tinha a gentil cabeça loura mergulhada nos
-meus vestidos, e, quando levantou os olhos cheios
-de lagrimas, disse-me com uma voz em que se
-fundiam todas as musicas:</p>
-
-<p>&mdash;Ó mãe, Deus te abençôe, porque foste ultrajada
-e trahida, e eu posso amar-te e respeitar-te.</p>
-
-<div class="chapter">
-<hr class="chap" />
-</div>
-
-
-<h3 id="A_CIGANA">A CIGANA</h3>
-
-
-<p>Quando o gageiro gritou do alto das vergas&mdash;terra!&mdash;toda
-a gente que vinha a bordo da galera
-<i>Terrivel</i> sentiu uma grande e indefinida alegria.</p>
-
-<p>Subiram uns para o tombadilho, outros deixaram-se
-ficar no convez, e os passageiros da prôa,
-os mais pobres, encarapitaram-se na amurada; começaram
-todos a olhar com uma anciedade febril
-para a facha escura que a pouco e pouco avultava
-no horizonte.</p>
-
-<p>A viagem tinha sido longa; a galera levára cincoenta
-dias a chegar do Rio de Janeiro.</p>
-
-<p>Mas, todas essas penas, todo esse aborrecimento
-que assaltam o viajante que durante dias e dias
-não vê mais que o céo e o mar, desapparecem<span class="pagenum"><a name="Page_142" id="Page_142">[142]</a></span>
-como que por encanto ante essa palavra magica,
-solta pelo gageiro&mdash;terra!</p>
-
-<p>Os passageiros eram, na maior parte, gente de
-baixa condição e de ambições modestas: tinham
-sido no Brazil carroceiros, feitores de roça, carpinteiros
-e pedreiros.</p>
-
-<p>Vinham com pouco dinheiro, mas traziam grande
-abundancia de saudades; tinham soffrido, padecido
-longe da patria, mas como ella os ia compensar de
-todas essas amarguras!</p>
-
-<p>A alegria bailava em todos os olhos.</p>
-
-<p>Ah! o capitão Navarro, apezar de ter feito
-aquella viagem cincoenta vezes, tambem vinha
-contente e esfregava as mãos, tomado de um jubilo
-desmedido.</p>
-
-<p>Quando o piloto se correspondia com o castello
-da barra, o capitão impaciente, mas sem perder o
-seu aspecto risonho e benevolo, perguntava:</p>
-
-<p>&mdash;Deixam-nos ou não nos deixam entrar a
-barra?</p>
-
-<p>&mdash;Estão-me agora a perguntar se morreu alguem
-a bordo.</p>
-
-<p>&mdash;Ora essa! Morto estou eu por me vêr em
-Massarellos. Querem vêr que ainda temos que ir
-dar com os ossos em Vigo? Com mil bombas! Era
-o que me faltava agora!</p>
-
-<p>Mas não aconteceu o que o capitão receiava:<span class="pagenum"><a name="Page_143" id="Page_143">[143]</a></span>
-do castello fizeram signal que a galera podia entrar,
-e foi com uma voz vibrante de enthusiasmo
-e de um prazer intenso que o capitão commandou
-a manobra.</p>
-
-<p>A galera como um cavallo que obedece facilmente
-á pericia de um optimo cavalleiro, proejou
-a barra em meio das exclamações dos impacientes
-e saudosos passageiros.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>A galera fundeou defronte de Massarellos.</p>
-
-<p>No dia seguinte, já não havia alli senão parte
-da tripulação e um ou outro marinheiro que não
-tinha familia e que olhava para o cáes com repugnancia
-e com desdem.</p>
-
-<p>As capoeiras em redor do tombadilho estavam
-despovoadas, a roda do leme reluzia ao sol, parada,
-sem movimento, as tampas enceradas da
-meia laranja abriam-se como as azas de uma
-enorme borboleta em repouso, e as mangueiras de
-linho cheias, retezadas, levavam o ar á camara e
-ao porão.</p>
-
-<p>Um bello dia de agosto!</p>
-
-<p>O capitão Navarro assistia ao descarregar sentado
-em uma barrica de farinha de mandioca; o<span class="pagenum"><a name="Page_144" id="Page_144">[144]</a></span>
-contra-mestre no portaló olhava mais lentamente
-para o Douro como quem procura enxergar uma
-cousa desejada e cubiçada.</p>
-
-<p>&mdash;Ainda nada? perguntou o capitão.</p>
-
-<p>&mdash;Admira, capitão! Das outras veses pouco se
-deixa esperar essa visita.</p>
-
-<p>E com a mão em quebra-luz continuava a observar
-o movimento dos botes e das catraias.</p>
-
-<p>De repente, a <i>Cigana</i>, uma cadella de fila que
-era o idolo de toda a tripulação do navio, deu um
-salto, subiu as escadas do portaló, e alongando o
-pescoço, meneou festivamente a cauda e ladrou de
-contente...</p>
-
-<p>Era um latir alegre e de boa feição, o latir que
-ouvimos aos cães das nossas casas, quando recolhemos
-depois de longa ausencia.</p>
-
-<p>&mdash;Espera! disse o contra-mestre, a <i>Cigana</i> tem
-faro. Ahi vem a sua gente, capitão!</p>
-
-<p>Navarro ergueu-se, olhou e viu um barco que,
-á força de remos, se dirigia para a galera.</p>
-
-<p>&mdash;Até que emfim! disse o capitão, e desceu
-cheio de contentamento as escadas do portaló...</p>
-
-<p>A cadella, vendo descer o dono, acompanhou-o
-e saltou ao mesmo tempo que elle para o interior
-do barco.</p>
-
-<p>O contra-mestre olhava de cima aquelle quadro
-e murmurava entre alegre e melancolico:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_145" id="Page_145">[145]</a></span></p>
-
-<p>&mdash;Parece que é bom ter familia e ter uma pequerrucha
-bonita como a do capitão que nos venha
-dar um abraço quando vimos de longe...</p>
-
-<p>&mdash;Assim será, meu contra-mestre, mas quando
-essa filha vem de luto, devendo vir vestida de côres
-alegres; quando ella nos vem dizer com a voz
-abafada em lagrimas e soluços&mdash;a mamã morreu!&mdash;não
-me parece que seja muito para invejar,
-meu rude celibatario, que não tens outro affecto
-senão pela tua galera e pelo mar, a quem confiaste
-a tua mocidade e a quem confiarás um dia
-o repouso do teu corpo!</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>De sorte que aquelle momento tão appetecido
-pelo capitão foi-lhe amargurado pela noticia da
-morte da mulher que elle extremecia devéras.</p>
-
-<p>Eram quatro os affectos do capitão: a mulher,
-a filha, a <i>Cigana</i> e a sua bonita e garbosa galera.</p>
-
-<p>O primeiro affecto desapparecêra, restavam-lhe
-ainda os tres; não tinha muito que se queixar do
-destino: a galera ali estava capaz ainda de arrostar
-com sessenta viagens, a filha dependurava-se-lhe
-do peito amplo e largo, cheia de viço e de adoravel
-meiguice, e aos pés de ambos, rojava-se latindo<span class="pagenum"><a name="Page_146" id="Page_146">[146]</a></span>
-baixo a <i>Cigana</i>, acariciando-os com os olhos
-onde havia o indefinido das vagas, e como que
-um lampejo humedecido de uma ternura doce e
-humana.</p>
-
-<p>A filha de Navarro, depois de haver chorado
-no seio do pae, abaixou-se e passou a mão pela
-cabeça da cadella.</p>
-
-<p>&mdash;Quando partir de novo, papá, deixe-me a <i>Cigana</i>,
-sim? A mamã era tão amiga d'ella!</p>
-
-<p>A <i>Cigana</i>, parecendo comprehender aquellas palavras,
-endireitou-se, e pousando as patas no collo
-da menina, beijou-lhe carinhosamente as mãos...</p>
-
-<p>Quando Navarro chegava do Brazil e ia passar
-algum tempo a Lessa com a familia, levava sempre
-em sua companhia o seu querido animal! Imagine-se
-como este seria amimado, festejado e cheio
-de affagos quando souberam que uma vez no alto
-mar...</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>Não sei quantas milhas devorava n'esse momento
-a galera.</p>
-
-<p>Era meio-dia, fazia um sol de rachar, os marinheiros
-á prôa comiam o rancho, e na tolda não
-estava senão o capitão, a <i>Cigana</i>, e o homem do
-leme.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_147" id="Page_147">[147]</a></span></p>
-
-<p>O piloto fôra buscar ao seu beliche um mappa
-que o capitão lhe pedira, e demorara-se mais que
-o tempo necessario. Navarro ergueu-se do banco
-de vime e encostou se ás grades da ré.</p>
-
-<p>Como foi aquillo? Vertigem? Congestão cerebral?</p>
-
-<p>Foi elle encostar-se á grade, estar alli cousa de
-dous ou tres minutos, e de subito borcar-se-lhe o
-corpo nas ondas...</p>
-
-<p>O homem do leme viu aquillo, e afflictivamente
-exclamou:</p>
-
-<p>&mdash;Jesus! acudam!</p>
-
-<p>E quando os passageiros correram ao tombadilho
-e a tripulação veiu saber o que succedera, o
-piloto, pallido e assustado, mandou colher todo o
-pano; podia vêr-se ao longe em meio das aguas,
-que faiscavam e transluziam os raios do sol, um
-ponto negro e que pouco a pouco parecia affastar-se,
-affastar-se...</p>
-
-<p>Os dous escaleres da ré foram descidos ao mar,
-e dentro d'elles os mais robustos dos tripulantes.</p>
-
-<p>&mdash;A modo que elle não estava bom! disse o
-homem do leme. Que eu só reparei n'elle quando
-o vi no ar...</p>
-
-<p>&mdash;Deitem-lhe a boia! gritou o contra-mestre.</p>
-
-<p>N'aquelle momento de anciedade, procurou-se a
-boia e não se encontrou.</p>
-
-<p>O contra-mestre estava desesperado, as pragas<span class="pagenum"><a name="Page_148" id="Page_148">[148]</a></span>
-mais violentas sahiam-lhe em borbotões por entre
-os dentes, que apertavam estreitamente o tubo
-fumoso do cachimbo.</p>
-
-<p>O navio afrouxára a sua marcha, comtudo os
-escaleres ainda iam bastante longe do ponto negro
-que todos julgavam ser o capitão.</p>
-
-<p>&mdash;Lá bom nadador é elle, dizia o contra-mestre,
-mas se ha tubarões assim! e reunia os dedos
-em pinha.</p>
-
-<p>Estendia os braços, dependurava-se da grade
-da pôpa, e com gestos anciosos tentava animar os
-marinheiros dos escaleres.</p>
-
-<p>&mdash;Força, rapazes!</p>
-
-<p>No rosto de todos os passageiros lia-se um
-grande terror e uma pena profunda.</p>
-
-<p>Era impossivel escapar. O capitão apesar de
-bom nadador já estava velho e cançado, depois
-os tubarões...</p>
-
-<p>Os marinheiros contavam casos horrendos que
-haviam presenciado, e em que figuravam esses
-assanhados tigres do mar.</p>
-
-<p>&mdash;Valha-nos o senhor de Mattosinhos! conclamavam
-n'um grito lancinante aquelles homens,
-que tantas vezes tinham luctado heroicamente
-contra as colericas sanhas da tempestade, e que
-adoravam o bondoso velho, o seu capitão.</p>
-
-<p>O ponto negro ia-se distinguindo mais nitidamente:<span class="pagenum"><a name="Page_149" id="Page_149">[149]</a></span>
-ás vezes afundava-se, outras vezes immergia-se;
-e emquanto os escaleres voavam, o contra-mestre
-continuava a gritar, posto que as suas
-vozes já não pudessem ser ouvidas pelos que iam
-em salvamento de Navarro.</p>
-
-<p>Quando o vulto vinha a distancia de uma milha
-o contra-mestre exclamou, affirmando a vista:</p>
-
-<p>&mdash;Ou eu me engano, ou o capitão não vem sósinho...
-esperem! é a <i>Cigana</i> que traz a reboque
-o patrão!...</p>
-
-<p>Era a <i>Cigana</i> effectivamente. Quando o velho
-cahira ao mar, o animal atirara-se logo atrás, e
-mergulhando conseguira apertar nos dentes as
-roupas do capitão, e desde esse instante nunca
-mais o largára.</p>
-
-<p>Quando os escaleres se aproximaram dos dous,
-a pobre <i>Cigana</i> estava quasi exhausta e sem
-forças.</p>
-
-<p>Arrancaram-lhe a custo da boca o seu querido
-fardo e ella continuou a nadar frouxamente sem
-poder resistir ás ondas que a levavam de chofre
-de encontro aos escaleres.</p>
-
-<p>Quiz subir, galgar a borda de um dos escaleres,
-e não pôde, resvalou na agua, ganindo dolorosamente,
-sendo preciso que um dos marinheiros a
-empolgasse com força, arrebatando-a assim á morte
-inevitavel.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_150" id="Page_150">[150]</a></span></p>
-
-<p>Da galera, applaudiram a acção da <i>Cigana</i>, e
-quando ella e o capitão chegaram, não sei bem
-qual dos dous foi mais abraçado.</p>
-
-<p>&mdash;Bravo, <i>Cigana</i>! exclamou o contra-mestre,
-não ha homem que te valha. Dá cá um abraço!</p>
-
-<p>O capitão foi levado por dous marinheiros para
-a sua camara, emquanto a <i>Cigana</i>, resfolegando
-alto, com os olhos embaciados, o corpo escorrendo
-agua e todo tremulo, tentava arrastar-se para onde
-lhe levavam o dono.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>Ora, aqui está porque a <i>Cigana</i> era tão querida
-e estimada na pequena e alegre casa do capitão
-em Lessa, e aqui está a razão por que a
-filha do velho e bondoso Navarro lhe pedia com
-tão amavel meiguice que deixasse ficar a <i>Cigana</i>
-quando para a outra vez tivesse de fazer viagem.</p>
-
-<p>Quando a galera <i>Terrivel</i> partiu, não levava a
-seu bordo nem o capitão nem a <i>Cigana</i>. Porque?</p>
-
-<p>Se o leitor é pae diga-me, se no caso do capitão
-Navarro, teria forças de fazer-se ao largo e deixar
-sósinha uma filha de quinze annos, graciosa e
-encantadora.</p>
-
-<p>Não tinha forças para tal, acreditamos.</p>
-
-<p>Ao capitão succedeu o mesmo. Despediu-se dos<span class="pagenum"><a name="Page_151" id="Page_151">[151]</a></span>
-seus companheiros, chorou quando viu pela primeira
-vez a <i>Terrivel</i> fazer-se de vela sem elle,
-mas ficou em terra.</p>
-
-<p>Tinha saudades, isso tinha, do mar, da solidão
-magestosa das aguas, da melancolia das horas da
-calma, das tempestades que, de quando em quando,
-o visitavam, mas fitava os olhos azues da filha
-e bebia n'elles consolações que lhe amorteciam
-essas maguas.</p>
-
-<p>Ás vezes, sahia de casa acompanhado pela <i>Cigana</i>,
-e ficava-se á beira do mar, observando os
-navios que passavam a distancia, absorvendo a
-plenos pulmões o saudavel ar maritimo, regalava-se
-conversando com os pescadores e com os
-embarcadiços, e n'essas tardes recolhia mais alegre
-e com o corpo mais direito e rejuvenescido.</p>
-
-<p>Outras vezes, ia n'um bote pelo amenissimo rio
-Lessa acima, e n'essas excursões levava quasi
-sempre a sua querida Luiza, e quasi sempre
-n'esses passeios em que elle contava á filha as
-peripecias de toda a sua vida trabalhosa, encontrava-se
-com outro bote em que ia ao leme um
-moço de vinte annos, elegante e galhardo que o
-comprimentava respeitosamente.</p>
-
-<p>Á terceira vez que aquelle encontro se deu, o
-velho disse á filha:</p>
-
-<p>&mdash;Não sei se conheço aquelle moço? É o filho<span class="pagenum"><a name="Page_152" id="Page_152">[152]</a></span>
-unico de um meu antigo companheiro. O pae está
-rico, está. Eu tambem por aquelle preço podia
-estar como elle ou melhor. Que se elle tem muito
-de seu, a mim m'o deve. Joaquim Antonio Ferreira,
-que depois foi feito Conde da Guaratiba,
-bem queria que eu fosse capitão de uma sua barca,
-recusei, porém, sempre, e apresentei-lhe um
-dia Gouvêa, o pae d'esse rapaz, que afinal de
-contas depois de seis ou sete viagens felizes á
-Africa, deixa a vida do mar e foi um dos que
-mais lotes de escravos levava aos armazens de
-Vallongo... Ser rico á custa de tantas lagrimas
-não era para o filho de meu pae...</p>
-
-<p>E aqui entrava o capitão a contar a Luiza cousas
-da sua mocidade, e absorvido n'essas recordações
-não reparava que a filha seguia com a
-vista anciosa o barco em que ia o herdeiro do
-millionario Gouvêa.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>Luiza amava, e amava com o primeiro e grande
-affecto de quinze annos.</p>
-
-<p>Segregada das moças da sua idade, não tinha a
-quem confiar tantos e tão amantissimos segredos:
-embriagada por aquelle amor, deixava-se ir deliciosamente
-pela correnteza, sem medo de encontrar<span class="pagenum"><a name="Page_153" id="Page_153">[153]</a></span>
-um dia a voragem que a tragasse, o abysmo
-em que se lhe afundasse a honra e a vida.</p>
-
-<p>Nunca tinha fallado ao noivo da sua alma; via-o
-de longe, ora passar a cavallo pela rua em que
-morava, ora no rio quando o pae a levava aos costumados
-passeios.</p>
-
-<p>Conhecia-o pelas cartas, que lia, relia e decorava,
-e a todas ellas respondêra, menos á ultima cujo
-conteudo a trazia surpreza, enlevada, vibrante...</p>
-
-<p>O não responder a essa carta era como que um
-assentimento a um pedido que n'ella se fazia.</p>
-
-<p>O velho capitão n'essa noite pedira á filha que
-lhe lesse uns livros de viagem. Luiza lia perfeitamente,
-com uma entoação harmoniosissima, e dando
-com a voz um relevo maravilhoso á narrativa. O
-capitão, com o corpo reclinado na poltrona, o cachimbo
-apertado nos dentes, e a cabeça da <i>Cigana</i>
-nos joelhos, sorria na plena beatitude de um goso
-indefinido. De vez em quando, accordava d'aquella
-deliciosa somnolencia e emendava as incoherencias
-e os enganos do escriptor.</p>
-
-<p>&mdash;Nada, nada, isso não é assim. Venham cá
-dizer-m'o a mim, que passei por esse ponto mais
-de trinta vezes...</p>
-
-<p>Ás dez horas serviu-se o chá, a <i>Cigana</i> foi levada
-para o quintal, e Luiza acompanhou o pae
-até ao limiar do quarto.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_154" id="Page_154">[154]</a></span></p>
-
-<p>&mdash;Deus te abençôe, minha filha, disse o velho
-ao despedir-se, e beijou Luiza na testa.</p>
-
-<p>&mdash;Hoje tenho pouco somno, papá, fico ainda a
-lêr um bocadito na sala, se o papá quizer alguma
-cousa chame-me, sim? Vou acabar de lêr este livro,
-acho-o muito bonito. Gosto tanto da vida do mar!</p>
-
-<p>&mdash;Filho de peixe sabe nadar, volveu o capitão
-sorrindo com o divino sorriso dos paes, que se
-crêem unicos senhores dos affectos dos filhos.</p>
-
-<p>Passada meia hora, ouviu-se no quintal o ladrar
-continuo, frenetico e raivoso da <i>Cigana</i>.</p>
-
-<p>O capitão gritou da cama:</p>
-
-<p>&mdash;O que é aquillo, filha? A <i>Cigana</i> está hoje
-como nunca a vi. Vai socegal-a, se não tens somno,
-e prende-a. Naturalmente os pescadores saltaram-me
-á fructa. É o que é. Deixal-os lá, coitados!
-Estes dias tem havido pouco peixe. Não vá
-a <i>Cigana</i> fazer alguma das suas... Ora vae, anda,
-tem paciencia... Eu não vou porque me sinto
-fatigado e exquisito hoje... A <i>Cigana</i> ouvindo-te,
-socega...</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>Luiza desceu ao pateo.</p>
-
-<p>Abriu com mão tremula a cancella e encostou-se
-vacillante, agitada e convulsa ao muro. O ladrar<span class="pagenum"><a name="Page_155" id="Page_155">[155]</a></span>
-da cadella cessára. Adiantou-se. No fundo do jardim
-sob a latada, um vulto cosia-se com a parede.
-A pobre menina levou as mãos ao peito, como para
-socegar a douda violencia do coração que parecia
-suffocal-a; quiz fallar e não pôde. O corpo vergava-se-lhe
-frouxo, molle, sem forças...</p>
-
-<p>De repente sahiu das sombras das arvores a
-<i>Cigana</i>, que se arrastou para Luiza, ganindo dilacerantemente,
-movendo com difficuldade a cauda,
-com a parte posterior do corpo quasi paralytica,
-escorrendo-lhe da boca uma baba espessa, com os
-olhos dilatados desmedidamente...</p>
-
-<p>N'aquelle olhar que a claridade da lua deixava
-distinguir havia um pedido, uma supplica.</p>
-
-<p>&mdash;<i>Cigana!</i> exclamou Luiza.</p>
-
-<p>Ouvindo aquella voz, a cadella, que se sustentava
-difficilmente nas patas dianteiras, ergueu
-ainda, por um supremo esforço, a cabeça, e, tomada
-de uma ancia afflictiva, convulsionando-se-lhe
-o corpo n'um estremecimento instantaneo, soltou
-um gemido rouco, escabujou violentamente, e
-cahiu morta aos pés da filha do capitão.</p>
-
-<p>&mdash;A sua <i>Cigana</i> é muito má, mas ainda é mais
-gulosa, disse o vulto que se escondia sob a latada.</p>
-
-<p>&mdash;Que mal lhe fez este animal, sr. Gouvêa?
-perguntou reprehensivamente Luiza, estrangulando-se-lhe
-a voz na garganta.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_156" id="Page_156">[156]</a></span></p>
-
-<p>&mdash;Boa pergunta! Não subisse eu tão depressa
-para o muro e estava asseiado a estas horas! O
-demonio do bicho! Mas vinha prevenido, atirei-lhe
-uma bola, que lhe soube como se fosse manteiga.
-Ora deixe lá o cão, querida, não se faça
-piégas...</p>
-
-<p>Luiza interrompeu bruscamente aquellas palavras
-tolissimas, e endireitando o corpo, ergueu a
-voz quebrada pelas lagrimas:</p>
-
-<p>&mdash;Saia, saia depressa; se não quer que meu
-pae o venha aqui matar sem ser tão cobardemente
-como o senhor acaba de matar a minha pobre <i>Cigana</i>.</p>
-
-<p>E emquanto o vulto marinhava pelo muro, a
-desditosa creatura abraçava a <i>Cigana</i>, e chorava
-como sómente uma vez em vida chorára, quando
-lhe levaram para fóra de casa o corpo de sua mãe.</p>
-
-<p>&mdash;<i>Cigana</i>, minha pobre <i>Cigana</i>! repetia Luiza,
-fui eu que te matei!</p>
-
-<p>Ao outro dia murmurava o capitão, fingindo-se
-sereno e forte para poder consolar a filha:</p>
-
-<p>&mdash;Vão lá depois fazer bem... Eu mandava
-prender a <i>Cigana</i> para que não fizesse mal a ninguem,
-e pagaram-me d'esta fórma!...</p>
-
-<p>E o velho, para não chorar tambem, fingia que
-não reparava nas lagrimas que rolavam como perolas
-pelo rosto descolorido e pallido da filha.</p>
-
-<div class="chapter">
-<hr class="chap" />
-</div>
-
-
-<h3 id="DUAS_FACES_DE_UMA_MEDALHA">DUAS FACES DE UMA MEDALHA</h3>
-
-
-<p>Ella tinha já feito vinte e cinco annos, elle contava
-apenas vinte e dous.</p>
-
-<p>Era uma creança triste e ambiciosa.</p>
-
-<p>Sonhava no impossivel, e n'esse sonho creava
-forças heroicas para todas as luctas da realidade.</p>
-
-<p>Margarida distinguira-o no meio de todos os homens
-ricos, elegantes, nobres ou poderosos, que a
-rodeavam e acclamavam rainha.</p>
-
-<p>É que na fronte d'elle, já cavada por duas
-linhas profundas, lia o que não lera ainda nos outros&mdash;o
-pensamento e a energia.</p>
-
-<p>Sabia, porém, que seu pae, o banqueiro millionario,
-só a daria com prazer a quem trouxesse
-mais lustre ou mais dinheiro á sua casa, e timida,
-melancolica, sem disposições para as luctas da vida,<span class="pagenum"><a name="Page_158" id="Page_158">[158]</a></span>
-repugnava-lhe tudo que fosse combate ou resistencia.</p>
-
-<p>Tinha sido doente desde pequenina, era um organismo
-nervoso e delicado, cheio de caprichos
-inconscientes, mais artistico do que reflexivo.</p>
-
-<p>Gostava de musica, de flores, de versos, das
-cousas bellas e harmoniosas, tinha um vago desdem
-silencioso por tudo quanto via ser o enlevo e
-a preoccupação exclusiva dos seus.</p>
-
-<p>O dinheiro! sempre o dinheiro!</p>
-
-<p>Ninguem fallava em torno d'ella senão em dinheiro,
-e no entanto ella, que vivia n'um voluptuoso
-ninho de princeza de conto de fadas, tinha pelo
-dinheiro em si o mais soberano desdem.</p>
-
-<p>Salvava-a isto da vulgaridade que mais ou menos
-contamina as mulheres ricas.</p>
-
-<p>Margarida no inverno vivia em Lisboa.</p>
-
-<p>Tinha então a vida futil e ociosa de todas as
-rainhas da alta vida.</p>
-
-<p>Ia muito a S. Carlos, recebia n'uma certa noite
-da semana, presidia aos jantares dados por seu
-pae, ia passar muitas noites fóra, fazia compras,
-corria as modistas acompanhada sempre por miss
-Brown, uma correcta ingleza de sacca-rolhas côr
-de açafrão, que seu pae descobrira felizmente
-n'uma das suas viagens a Londres.</p>
-
-<p>No meio d'esta vida artificial tão vazia e tão fatigante<span class="pagenum"><a name="Page_159" id="Page_159">[159]</a></span>
-ao mesmo tempo, que lugar havia para
-que ella pensasse, sentisse, desejasse alguma cousa
-para fóra do circulo estreito que a encerrava?</p>
-
-<p>Margarida deixava-se viver.</p>
-
-<p>Um dia, porém, n'um baile, apresentaram-lhe
-Eduardo de C., e depois de meia hora de conversação
-sentiu por elle o que não sentira ainda por
-nenhum outro.</p>
-
-<p>Ficaram conhecidos.</p>
-
-<p>Elle na sombra, de longe, já se vê; ella lá em
-cima na plena irradiação da sua graça, da sua formosura,
-da sua opulencia, de todo o seu esplendor.</p>
-
-<p>Cumprimentavam-se com uns toques de familiaridade,
-e n'um ou n'outro baile d'estes a que
-vae <i>toda a gente</i>, a boa e a má, tinham-se apertado
-a mão mutuamente, e tinham trocado algumas
-phrases affectuosas.</p>
-
-<p>No verão, o pae de Margarida, que tinha propriedades
-em varios pontos de Portugal, consultava
-a filha para que lhe indicasse a quinta em
-que mais gostaria de passar as calmas do estio.</p>
-
-<p>Pouco tempo depois do encontro com Eduardo,
-Margarida, disse a seu pae, que a consultava como
-de costume:</p>
-
-<p>&mdash;Este anno vamos para o Minho, sim? Sinto-me
-tão fraca, tão doente! O ar do Minho ha
-de por força fazer-me bem.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_160" id="Page_160">[160]</a></span></p>
-
-<p>É verdade que nas vesperas, n'um baile,
-Eduardo dissera-lhe, approximando-se d'ella:</p>
-
-<p>&mdash;Peço licença para apresentar a v. exc.<sup>a</sup> as
-minhas despedidas. Alcancei uma collocação em
-Vianna do Castello, e parto para alli um dia d'estes.</p>
-
-<p>&mdash;Vianna! pensou Margarida emquanto dous
-raios de alegria se accendiam nas suas pupillas de
-um azul sombrio.</p>
-
-<p>&mdash;É em Vianna a nossa quinta.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>Partiram.</p>
-
-<p>Na provincia a intimidade estabelece-se forçadamente
-entre pessoas que não pertencem ás mesmas
-camadas sociaes.</p>
-
-<p>Para se admittir um sujeito em qualquer sala de
-provincia exige-se simplesmente que tenha uma
-educação limpa, e que possua alguma <i>prenda de
-sociedade</i>.</p>
-
-<p>Em Vianna, na sala do grande banqueiro tão
-altivo e tão inaccessivel, reuniam-se não só os fidalgos
-mais primorosos das cercanias, como tambem
-os humildes funccionarios do Estado, que por
-aquellas regiões se achavam accommodados.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_161" id="Page_161">[161]</a></span></p>
-
-<p>Margarida, com o seu porte de soberana, o seu
-sorriso altivo e distrahido, a graça ondeante da
-sua gentil figura, recebia a todos com a mesma
-benevola indifferença.</p>
-
-<p>Todos a contemplavam fascinados e quasi medrosos.</p>
-
-<p>Ninguem se atrevia a dirigir-lhe finezas banaes:
-de tal modo o olhar d'ella sabia tornar-se glacial,
-logo que adivinhava a pretenção de um namorado
-na amabilidade um tanto desastrada de algum dos
-seus convivas provincianos.</p>
-
-<p>&mdash;Não ha aqui um empregado chamado Eduardo
-de C.? perguntava um dia na sala a elegante filha
-do banqueiro.</p>
-
-<p>&mdash;Ha. Um rapaz muito estudioso, muito concentrado,
-que desenha muito bem, acudiu espevitadamente
-d'alli uma menina que fazia as delicias
-das <i>soirées</i> de Vianna, pela sua voz de falsete
-sempre prompta a torturar os ouvidos do proximo.
-Conhece-o?</p>
-
-<p>&mdash;Foi-me apresentado este inverno em Lisboa;
-respondeu Margarida.</p>
-
-<p>E accrescentou mentalmente:&mdash;Quem me dera
-que elle aqui apparecesse! Como me distrahiria
-de tudo isto que me cérca.</p>
-
-<p><i>Isto</i> era uma duzia de <i>cavalheiros</i> da <i>provincia</i>
-acompanhados das suas respectivas esposas ou <i>manas</i>,<span class="pagenum"><a name="Page_162" id="Page_162">[162]</a></span>
-tudo gente preoccupada dos interesses mais
-mesquinhos, das pequenas intrigas mais pueris, fallando,
-gesticulando, dançando, tocando, cantando,
-murmurando e constituindo a unica diversão das
-noites de Margarida.</p>
-
-<p>Não sabemos de que traças usou a gentil lisboeta:
-sabemos que algumas noites depois d'esta,
-Eduardo de C. era apresentado por um fidalgote,
-aspirante e litterato, na sala do banqueiro.</p>
-
-<p>Desde esse dia elle e Margarida formaram em
-commum uma especie de refugio contra a frivola
-banalidade d'aquellas noites.</p>
-
-<p>Eduardo desenhava com muito chiste caricaturas
-e graciosos <i>croquis</i>, que Margarida guardava
-contentissima; ella cantava com a sua voz meiga
-e flexivel algumas simples melodias allemãs, ou
-tocava as musicas dos velhos mestres classicos, tão
-queridos de Eduardo.</p>
-
-<p>Fallavam a respeito de tudo com a liberdade
-de pessoas que se entendem e apreciam.</p>
-
-<p>Discutiam litteratura, musica e versos.</p>
-
-<p>Ás vezes fallavam ambos do futuro.</p>
-
-<p>&mdash;Que tem tenção de fazer? perguntava Margarida.</p>
-
-<p>&mdash;Ora! Não sei bem. Com certeza hei de fazer
-alguma cousa. Ando a crear forças para a lucta.
-Ha de ser tenaz, ha de ser terrivel, bem sei, mas
-eu hei de vencer!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_163" id="Page_163">[163]</a></span></p>
-
-<p>&mdash;Quer que lhe dê um talisman para entrar no
-fogo?</p>
-
-<p>Elle envolveu-a em um olhar ardente; depois,
-baixando a vista, respondeu quasi com violencia:</p>
-
-<p>&mdash;Não brinque comigo. Olhe, que me faz muito
-mal.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>Margarida sabia que era amada.</p>
-
-<p>Tambem ella sentia por elle o que nunca sentira,
-mas não tinha coragem para resistir ás ordens
-de seu pae.</p>
-
-<p>Por esse tempo andava elle a arranjar o casamento
-da filha com o conde de V., um moço que
-tinha nas veias o sangue dos reis godos, e na cabeça
-a mais crassa estupidez de que ha memoria
-desde o tempo dos ditos.</p>
-
-<p>Margarida sabia ou suspeitava do caso, mas deixava-se
-ir n'uma indolencia de crioula á mercê
-dos acontecimentos da sua vida.</p>
-
-<p>Ao pé de Eduardo sentia-se bem, e quando elle
-a fixava com o seu bello olhar de ambicioso e de
-pensador, Margarida esquecia-se de tudo que não
-fosse a delicia de ser preferida por aquelle homem.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_164" id="Page_164">[164]</a></span></p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>N'uma noite em que os hospedes habituaes estavam
-na sala, e em que junto da meza redonda
-do serão Eduardo e Margarida liam esquecidos de
-tudo que os cercava, felizes, despreoccupados como
-os dous amantes do florentino, ouviu-se o rodar de
-uma carruagem que parava á porta do palacio.</p>
-
-<p>O banqueiro levantou-se rapidamente da banca
-do voltarete e sahiu da sala relanceando para a filha
-um olhar de esconso.</p>
-
-<p>Margarida, sem saber porque, fez-se pallida
-como uma morta.</p>
-
-<p>&mdash;Ó meu amigo&mdash;exclamou n'um impeto ardente,
-irresistivel, que não soube conter,&mdash;chegou
-o fim da nossa felicidade!</p>
-
-<p>Eduardo olhou para ella desvairado.</p>
-
-<p>&mdash;Que diz? que é isso? a que se refere?</p>
-
-<p>N'este momento entrava na sala o pae de Margarida
-dando a direita ao ultimo herdeiro de nobres
-avoengos.</p>
-
-<p>&mdash;O sr. conde de V... pronunciou com o orgulho
-humilde dos burguezes ambiciosos de honrarias
-sociaes, apresentando o recem-chegado a
-toda a companhia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_165" id="Page_165">[165]</a></span></p>
-
-<p>Margarida accolheu-o com um sorriso gelado.</p>
-
-<p>Conhecia-o, sabia que o pae queria pôr-lhe sobre
-a cabeça loura e altiva uma corôa de condessa,
-e sentiu que dentro d'alma lhe estalava uma corda
-que nunca mais tornaria a vibrar!</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>D'alli a seis mezes todos os jornaes annunciavam
-na secção do <i>high-life</i> o casamento da filha do banqueiro
-opulento com o neto dos heroes medievicos.</p>
-
-<p>Os noticiaristas fundavam as mais ardentes esperanças
-n'este consorcio que alliava o sangue nobilissimo
-e a fortuna collossal, e contavam com
-grandes minudencias as pompas d'aquella festa
-principesca, os presentes riquissimos que a noiva
-recebera, a <i>toilette</i> d'esta, a alegria dos numerosos
-convidados, etc., etc.</p>
-
-<p>O que ninguem sabia é que esse casamento despedaçára
-duas vidas!</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>No fim de dez annos o conde de V... déra cabo
-do dote da mulher, e da vida do sogro, que morreu
-amaldiçoando-o.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_166" id="Page_166">[166]</a></span></p>
-
-<p>Continuava, porém, <i>la vie à grandes guides</i>, que
-tinha começado no dia seguinte ao seu noivado, e
-já havia quem calculasse muito pela rama por
-quanto tempo podia durar ainda a desenfreada orgia
-d'aquella existencia de <i>Marialva</i> estupido.</p>
-
-<p>Em casa da condessa o luxo não se modificára
-com as aproximações da pobreza.</p>
-
-<p>No olhar d'ella divisava-se uma profunda e desdenhosa
-indifferença da vida.</p>
-
-<p>Nem o amor maternal conseguira salval-a do
-desespero.</p>
-
-<p>Ligada a um homem que desprezava do intimo
-d'alma, entristecida para sempre por uma d'estas
-recordações que lavram dia a dia, e que por fim
-se apossam de uma existencia inteira, Margarida
-procurava esquecer-se de si, aturdir-se no turbilhão
-das festas mundanas.</p>
-
-<p>Os filhinhos estavam entregues ao cuidado
-d'aquella pobre miss Brown que ao vêr o abandono
-dos pobres anjos, innocentes das culpas de
-seus paes, se dedicára por elles com a abnegação
-profunda de que só é capaz uma ingleza feia!</p>
-
-<p>Margarida passeava de carruagem, ia ao theatro,
-ao paço, aos bailes, ás festas de beneficencia,
-vendia nos bazares de caridade elegante, fazia e
-recebia visitas, e de vez em quando, se no meio
-d'este turbilhão avistava o marido, media-o de alto<span class="pagenum"><a name="Page_167" id="Page_167">[167]</a></span>
-a baixo com um olhar de profundo e inconcebivel
-tedio!</p>
-
-<p>Eduardo durante estes dez annos tambem soffrera
-grandes modificações na sua vida.</p>
-
-<p>Luctara como um homem, e soubera vencer a
-mediocridade do seu nascimento e da sua posição.</p>
-
-<p>No instante em que aquella que elle um dia amara
-como a noiva estremecida da sua alma, sentia vagamente
-afundar-se no sorvedouro negro da miseria,
-elle recusara altivamente uma pasta de ministro
-e uma noiva brazileira, possuidora de duzentos
-contos fortes, isto depois de uma sessão legislativa,
-em que a sua palavra viva, nervosa, eloquente,
-colorida e artistica havia deslumbrado o
-paiz.</p>
-
-<p>&mdash;Não me vendo por dinheiro, nem pelas honras
-mentirosas com que os tolos lançam poeira á
-cara uns dos outros; respondera a quem o interrogava
-espantado ácerca d'estas duas recusas.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>Alguem, que me contou este vulgar episodio da
-vida moderna, mostrou-me o fragmento de uma
-carta que Margarida escreveu doze annos depois
-de casada a uma socia das suas antigas alegrias.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_168" id="Page_168">[168]</a></span></p>
-
-<p>«É a ti que prefiro escrever. Conheceste-me
-solteira, feliz, idolo de um pae, que, ai de mim!
-se perdeu e me perdeu pela vaidade. Has de ter
-dó de mim.</p>
-
-<p>«Tenho dois filhos e preciso ganhar honestamente
-o pão que elles hão de comer!</p>
-
-<p>«Presinto o teu espanto, as tuas interrogações,
-os brados afflictivos da tua surpreza!</p>
-
-<p>«Não me perguntes nada.</p>
-
-<p>«Pergunta-o se quizeres, a essa Lisboa, que assistiu
-ao louco esphacelar de uma fortuna enorme,
-com o sorriso banal e adulador que ella tem
-para todos os perdularios.</p>
-
-<p>«Sabes a educação que recebi.</p>
-
-<p>«Creio que seria uma mestra capaz de cumprir
-com a minha ardua missão.</p>
-
-<p>«Em nome dos teus louros pequeninos, tão fartos
-de gulodices e de beijos, arranja-me algum
-meio de ganhar um pedaço de pão para os meus
-filhos.»</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>Dava lições!</p>
-
-<p>A brilhante Condessa de V..., a filha adorada
-de um dos homens mais ricos de Lisboa, a rainha
-dos salões luxuosos, a <i>estrella</i> mais fulgurante do
-alto mundo, dava lições para sustentar os dous<span class="pagenum"><a name="Page_169" id="Page_169">[169]</a></span>
-filhos que lhe restavam, unicos vestigios de um
-passado de pomposas mentiras.</p>
-
-<p>O infortunio nobremente supportado transfigurara
-aquelle rosto desdenhoso e soberbo de garrida
-mundana.</p>
-
-<p>Deixára de ser rainha e levantára-se martyr!</p>
-
-<p>Levantava-se de manhã muito cedo, bebia á pressa
-uma chicara de café, que a sua fiel Miss Brown, companheira
-dos triumphos e das desventuras lhe preparava
-por suas proprias mãos, e sahia, modestamente
-vestida de preto, a cumprir a sua improba tarefa.</p>
-
-<p>Só voltava a casa de noite.</p>
-
-<p>Divulgára-se rapidamente a noticia d'aquella excepcional
-desventura, e muita gente, que vira com
-desprazer a prodigalidade da caprichosa condessa,
-compadecia se agora, sem pensamento reservado,
-d'aquella digna e santa expiação.</p>
-
-<p>Margarida tinha muitas discipulas.</p>
-
-<p>Fazia pena vel-a, muito delgada, quasi diaphana,
-com os olhos pisados, as faces córadas pelo
-cansaço e pela febre, e um sorriso triste resignado,
-humilde, n'aquelles labios que tinham sabido
-tregeitar com tão altivo desdem.</p>
-
-<p>Era sempre a mesma alma sem energia.</p>
-
-<p>Não esperava cousa nenhuma da terra senão a
-morte, levando a consciencia de ter expiado os erros
-do seu orgulho.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_170" id="Page_170">[170]</a></span></p>
-
-<p>Cumpria uma penitencia, não encetava uma lucta
-heroica de que esperasse sahir vencedora.</p>
-
-<p>N'uma tarde do mez de janeiro, chuvosa, humida
-e fria, Margarida subia a muito custo a calçada
-de S. Bento, em Lisboa, onde morava uma das
-suas discipulas.</p>
-
-<p>A rua, viscosa e lamacenta, inspirava-lhe aquella
-repugnancia patricia, que a infeliz ainda não soubera
-vencer.</p>
-
-<p>A atmosphera plumbea e carregada dava-lhe ao
-coração uma dose de invencivel tristeza.</p>
-
-<p>Sentia-se predisposta para as recordações cruciantes
-para as inuteis fluctuações de um sonho
-que se extinguira.</p>
-
-<p>Comprehendia com angustia que lhe faltava coragem
-para levar a cabo o doloroso dever que a
-si propria impuzera.</p>
-
-<p>Oh! ella bem sabia que a sua alma não era da
-tempera das que luctam e se sacrificam!...</p>
-
-<p>N'isto uma carroagem elegante descia a calçada
-ao passo de dous formosos cavallos inglezes.</p>
-
-<p>Margarida, vendo a alguns passos o correio agaloado,
-percebeu que era um ministro e, sem querer,
-movida por um impulso subito, levantou os
-olhos e fitou os no homem que ia dentro do trem.</p>
-
-<p>O que ella sentiu não se explica.</p>
-
-<p>O ministro era Eduardo de C.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_171" id="Page_171">[171]</a></span></p>
-
-<p>Os olhos dos dous encontraram-se.</p>
-
-<p>Margarida quiz saborear a voluptuosa tortura
-de vêr n'esses olhos o brilho de um satanico orgulho,
-de um triumpho sinistro e mau.</p>
-
-<p>Não viu!</p>
-
-<p>Eduardo teve tempo de inundal-a em um d'estes
-olhares doces, unctuosos, cheios de misericordia,
-de doçura, de perdão; em um d'estes olhares que
-só podem comparar-se ao olhar do Christo redimindo
-a Magdalena!</p>
-
-<p>Só de longe a tinha visto de vez em quando nas
-salas do alto mundo: nunca lhe fallara então; não
-quiz humilhal-a fallando-lhe agora!</p>
-
-<p>Ella sentiu que se lhe despedaçara no peito alguma
-cousa indispensavel á vida.</p>
-
-<p>Apertou em torno do corpo friorento e emmagrecido
-as pregas do seu pobre chale preto, abaixou
-a cabeça instinctivamente, como se fizesse
-pender para a terra um pezo estranho, e continuou
-a subir devagarinho, arrimando-se á parede,
-aquella eterna calçada, cheia de agua e de lama.</p>
-
-<p>Cahia uma chuva fria e miuda que lhe encharcava
-o fato.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_172" id="Page_172">[172]</a></span></p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>Um mez depois, da casa pequenina de Margarida
-sahia um enterro aceiado e modesto.</p>
-
-<p>Era o enterro d'ella.</p>
-
-<p>Miss Brown explicava que a pobre senhora voltara
-uma noite muito constipada das lições, que
-teimara em sahir ainda no dia seguinte, mas que
-tivera de recolher-se á cama, onde penou pouco
-menos de um mez.</p>
-
-<p>O enterro de Margarida levava por acompanhamento
-unico uma carruagem sem brazão.</p>
-
-<p>N'essa carruagem ia Eduardo de C.</p>
-
-<p>Margarida, antes de morrer, escrevera-lhe uma
-carta cujas supplicas dolorosas iam apagadas pelas
-lagrimas.</p>
-
-<p>Os dous orphãos de Margarida estão agora a
-educar-se em um dos melhores collegios de Lisboa,
-e todas as despezas da sua educação são pagas por
-um protector invisivel e mysterioso.</p>
-
-<p>Ha quem dê a essa Providencia ignota o nome
-sympathico e hoje glorioso e querido de Eduardo
-de C.</p>
-
-<div class="chapter">
-<hr class="chap" />
-</div>
-
-
-<h3 id="A_TIA_IZABEL">A TIA IZABEL</h3>
-
-
-<p>Conhecia-a em casa de uma familia amiga da minha.</p>
-
-<p>Affirmavam os que a tinham conhecido em menina,
-que fôra bonita; a mim parecia-me simplesmente
-sympathica.</p>
-
-<p>Era alta, magra, loura e muito branca, uma physionomia
-serena e melancolica, sem muito relevo,
-mas com muita doçura.</p>
-
-<p>Andava sempre vestida de escuro, com uma
-simplicidade em que transpareciam, porventura,
-vislumbres de antigas elegancias.</p>
-
-<p>Ao olhar para ella conhecia-se que havia de ter
-gostado de certas puerilidades mundanas, de se
-vestir e pentear bem, por exemplo, de ser citada
-pelo esmero do seu gosto, e pela distincção finissima
-de suas maneiras.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_174" id="Page_174">[174]</a></span></p>
-
-<p>Hoje todas as vaidades se tinham apagado; fizera
-quarenta annos, e acolhêra-os com resignação,
-com dignidade, com uma certa graça melancolica
-que lhe ficava muito bem.</p>
-
-<p>Nenhum dos rapazes que frequentavam aquella
-casa se atrevia a chamar-lhe <i>solteirona</i>.</p>
-
-<p>A <i>solteirona</i> é a mulher solteira que não sabe
-acceitar resignada as amarguras da sua isolação,
-e as converte em ridiculos quando as não converte
-em pessimas qualidades.</p>
-
-<p>A <i>solteirona</i> é pretenciosa, presumida, avida de
-attrahir a attenção, revolve os olhos sentimentalmente,
-lê romances, come gulodices, tem um <i>king
-charles</i> e inveja tudo o que é moço, radiante, feliz,
-tudo que tem esperanças e para quem o futuro desabrocha
-em promessas.</p>
-
-<p>A <i>solteirona</i> é egoista, incommodam-na como
-uma injuria que lhe é particularmente dirigida todas
-as alegrias que não tem, persegue-a atrozmente
-a aspiração irrequieta a um pobre marido
-que podesse atormentar á vontade; sente-se na
-vida como n'uma casa que não é sua; d'aqui o seu
-mau humor continuado que torna d'ella quasi sempre
-o flagello da familia onde se sente pária!</p>
-
-<p>A tia Izabel, porém, não era nada d'isto, pelo
-contrario.</p>
-
-<p>Tinha para os sobrinhos um coração que, sem<span class="pagenum"><a name="Page_175" id="Page_175">[175]</a></span>
-ser de mãe, encerrava muito de maternal, sobretudo
-no que as mães têem de indulgente!</p>
-
-<p>Nunca a vi colerica, nunca a vi tambem excessivamente
-animada.</p>
-
-<p>Não se ria, mas tinha habitualmente um sorriso
-placido, quasi distrahido, o sorriso de quem se
-sente um pouco estranha a todas as alegrias que
-a rodeiam, mas que nem por isso deseja projectar
-as suas sombras na luz que os outros espalham em
-torno d'ella.</p>
-
-<p>Era muito estimada pelo irmão, pela cunhada e
-pelos sobrinhos, uns traquinas que andavam sempre
-a recorrer á sua inexgotavel paciencia, e que
-nunca foram expulsos com um gesto de irritação
-ou de desamor.</p>
-
-<p>Sabia a difficil sciencia de se tornar util a todos,
-quasi indispensavel; estreitando d'este modo os
-laços que a prendiam aos seus, tornando-os por
-assim dizer inquebrantaveis:</p>
-
-<p>Sentia-se assim menos só!</p>
-
-<p>Nos jantares de familia os melhores pratos eram
-sempre executados debaixo da sua direcção; era
-ella quem fazia o <i>menu</i>, quem distribuia os lugares,
-quem presidia a todos os arranjos de casa.</p>
-
-<p>Encarregava-se das tarefas mais enfadonhas,
-d'aquella parte aborrecida que tem uma festa e
-que as donas da casa acceitam com tédio, mas que<span class="pagenum"><a name="Page_176" id="Page_176">[176]</a></span>
-lhes é mais tarde compensada no applauso, na satisfação,
-ás vezes mesmo na inveja disfarçada em
-risos dos seus convivas.</p>
-
-<p>N'essas occasiões solemnes em que ninguem dava
-por ella, creio que se permittia um instante de innocente
-amor proprio, vendo a meza bonita, bem
-disposta, com a elegante e symetrica poesia das
-grandes jarras do Japão cheias de flores, dos crystaes
-facetados onde o vinho tomava as olympicas
-apparencias do nectar, da bella louça da China de
-lavores extravagantes e phantasiosos, da roupa
-fresca, pesada, macia, de linho da Russia adamascado,
-tendo bordadas iniciaes... que não eram as
-d'ella.</p>
-
-<p>Depois voltava para o seu logar secundario, obscuro,
-e voltava de boamente com simplicidade despreoccupada.</p>
-
-<p>Estava sempre bem com todos, sem se curvar
-obsequiosamente diante de alguem.</p>
-
-<p>Tinha mesmo um modo seu de dizer as verdades
-com firmeza e com brandura, sem transigencias
-cobardes, sem severidade excessiva.</p>
-
-<p>Quando havia em casa um doente, sentava-se-lhe
-tranquillamente á cabeceira, fazia-lhe sentir
-com discreta suavidade a sua influencia boa, perdia
-as noites com um aspecto de intrepidez e de
-meiguices; era inapreciavel emfim.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_177" id="Page_177">[177]</a></span></p>
-
-<p>Tinha uma infinidade de pequenas idéas que punha
-em pratica e de cada uma das quaes resultava
-um allivio para o doente: arranjava as almofadas,
-aconchegava as roupas do leito, dir-se-hia
-que a sua mão esguia, branca, um pouco secca,
-tinha o segredo de verter balsamo em todas as feridas
-de um corpo enfermo.</p>
-
-<p>Na convalescença lia alto.</p>
-
-<p>Escolhia muito bem os livros, tinha a maravilhosa
-intuição de todas as necessidades de um espirito
-adormecido, n'aquella dubia luz crepuscular
-da doença physica.</p>
-
-<p>A sua voz vellada, sem grande sonoridade, tinha
-umas notas macias que entravam até ao fundo
-do coração e que o amolleciam docemente.</p>
-
-<p>Ainda nos desgostos de familia, na hora das crises
-e das catastrophes era para ella que instinctivamente
-todos os braços se estendiam.</p>
-
-<p>É que ella, com o seu passo miudinho, o seu ar
-sereno, os seus habitos methodicos, nem diante das
-maximas catastrophes perdia a placidez necessaria.</p>
-
-<p>Uma das suas particularidades mais accentuadas
-era a repugnancia pelo barulho, pelo espalhafato,
-por todas as exterioridades apparatosas.</p>
-
-<p>Andava, fallava, trabalhava, movia-se sempre
-devagarinho.</p>
-
-<p>Lembro-me perfeitamente do quarto d'ella, como<span class="pagenum"><a name="Page_178" id="Page_178">[178]</a></span>
-d'uma especie de pequeno sanctuario onde poucas
-vezes penetravam as travêssas creanças de quem
-ella era como que segunda mãe.</p>
-
-<p>Quando eu acertava de lá entrar com ellas, emquanto
-a pequenada corria de um lado para outro,
-vendo, tocando tudo, perguntando informações de
-todas as cousas, eu observava callada com o meu
-olhar de mais velha, mais penetrante e mais curioso.</p>
-
-<p>Tudo alli era limpo, aceiado mas tudo antigo,
-datando sem duvida da sua adolescencia, do tempo
-em que ella fôra feliz, porventura requestada e
-formosa.</p>
-
-<p>A alcova branca, discreta, com o seu oratorio
-de pau santo, cheio de bellas imagens, a Virgem
-risonha e loura com o menino nos braços, o Christo
-macerado e sangrento com a expressão de sobre-humana
-agonia no amortecido olhar.</p>
-
-<p>No gabinete contiguo as cortinas, os reposteiros
-de chita, as poltronas, as pequeninas mezas cobertas
-com os seus panos de <i>crochet</i>, as estantes de livros,
-tudo emfim era bem conservado, sem ser novo;
-via-se que tinha sido o objecto de attentos
-cuidados, que todas aquellas cousas mudas haviam
-sido as companheiras unicas de uma existencia
-concentrada e solitaria.</p>
-
-<p>Nas paredes, sobre as pequenas <i>étagères</i>, muitos<span class="pagenum"><a name="Page_179" id="Page_179">[179]</a></span>
-retratos, todo um cortejo moço e triumphante que
-passava ao longe.</p>
-
-<p>Exhalava se d'aquelles objectos tão esmeradamente
-cuidados, um vago, um indistincto perfume
-de saudade, como d'um herbario de flôres seccas,
-colhidas entre risos de crystal, nos dias radiantes
-da primavera...</p>
-
-<p>Os pequenos então, com a sua inconsciente crueldade
-infantil, faziam mil perguntas, impacientes,
-curiosas...</p>
-
-<p>&mdash;Quem era esta menina, tia Izabel? tem um vestido
-de seda decotado e na mão um malmequer que
-está desfolhando. Como ella scisma tão embebecida!
-Em que scismaria ella, minha tia?</p>
-
-<p>&mdash;No futuro!... respondia ella sorrindo com o
-seu bello sorriso intraduzivel em que havia talvez
-muitas saudades.</p>
-
-<p>&mdash;Que é feito d'ella? Era sua amiga, não era?
-Porque é que a não vem cá vêr nunca?</p>
-
-<p>&mdash;Ao principio veio, depois casou-se; o marido
-levou-a a viajar, foram muito longe, divertiram-se,
-provavelmente ella esqueceu-se. Quando voltou
-trazia um filho, um <i>baby</i> louro e côr de rosa
-como o teu irmãosinho Arthur. Só o vi uma vez.
-As creanças absorvem muito as mães, por causa
-d'ellas esquecem-se de tudo, até das amigas da infancia.
-Hoje só sei que é muito feliz, e quando tenho<span class="pagenum"><a name="Page_180" id="Page_180">[180]</a></span>
-saudades olho para o retrato d'ella!... Fômos
-tão amigas!</p>
-
-<p>E callava-se baixando os olhos, receiosa de que
-a vissem contemplar com demasiado enlevo os
-dias que já não podiam voltar.</p>
-
-<p>Todos aquelles retratos tinham uma historia.</p>
-
-<p>Aquelle cortejo de juvenis visões louras, morenas,
-travêssas ou melancolicas faziam parte do passado,
-por isso lhes queria tanto.</p>
-
-<p>Umas tinham casado, eram felizes, viviam absorvidas
-pelo divino egoismo da familia, todas entregues
-ao bem estar dos seus, aos interesses, ás alegrias,
-ás dôres do seu pequeno circulo de affectos.</p>
-
-<p>Outras tinham morrido; eram as que alli nos
-appareciam mais pallidas, com um vago reflexo de
-luz febril nos olhos pasmados e pensativos.</p>
-
-<p>Tinham morrido na plena florescencia do seu
-imaginar juvenil, levando para a cova, como levariam
-uma flôr ainda constellada pelos orvalhos matinaes,
-a dôce chymera que nenhum sôpro brutal
-lhes havia desfeito.</p>
-
-<p>Fecharam os olhos cercados por todas as apparições
-fulgidas, que envolvem a mocidade como
-n'um circulo de estrellas, e foram despertar&mdash;quem
-sabe! n'outras regiões de que ninguem ainda
-voltou, do sonho feliz que haviam começado na
-terra.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_181" id="Page_181">[181]</a></span></p>
-
-<p>Não eram essas as menos bemfadadas.</p>
-
-<p>Ella, porém, ficára só.</p>
-
-<p>Porquê?</p>
-
-<p>Condemnação de que não conhecia o implacavel
-segredo!</p>
-
-<p>Tambem fôra môça, tambem tivera crenças, esperanças,
-pequenos sobresaltos de amor proprio,
-ephemeras vaidades de quem se julgara querida!</p>
-
-<p>Estremecera muita vez, ao sentir abrir uma
-porta, echoar um passo ligeiro e firme nos vastos
-corredores, vibrar uma voz viril, grave e terna!</p>
-
-<p>Tivera rubores subitos, sentindo pousar na sua
-fronte branca, a luz d'um olhar quente e caricioso;
-colhêra uma rosa, prendera nos cabellos um
-cacho de madresilva, vestira um dia um certo vestido
-branco, cheia de alegria, agradecendo a Deus
-ter feito a vida tão boa, o céu tão azul, o cheiro
-das arvores tão penetrante e tão sadio!</p>
-
-<p>Olhava n'este tempo para as creanças, beijava-as
-como a ensaiar as graças da maternidade,
-fazia-lhes festas, pensando que tambem havia de
-ter um dia uns pequeninos como aquelles, que lhes
-havia de querer muito, e leval-os a passear, seguida
-pelo olhar invejoso das outras mães...
-cujos filhos seriam forçosamente feios.</p>
-
-<p>Então consultava comsigo mesma o systema de
-educação que adoptaria, e o modo porque os havia<span class="pagenum"><a name="Page_182" id="Page_182">[182]</a></span>
-de vestir, e concluia vendo-os entrar para a
-Universidade, n'um dia de muitas lagrimas e de
-muitos dilaceramentos, altos, esbeltos, um pouco
-altivos, com um buçosinho louro, appetitoso como
-a pennugem d'um pecego mal maduro.</p>
-
-<p>Foram-se-lhe dias e dias n'este sonhar que a entretinha,
-como a leitura d'um romance cujo interesse
-nunca afrouxa.</p>
-
-<p>Um dia, porém, por acaso viu-se ao espelho, e
-despediu-lhe o seio um grito de angustia.</p>
-
-<p>Despontava-lhe entre os fártos cabellos louros,
-o primeiro cabello branco, um fio de prata, tenue,
-quasi imperceptivel, uma cousa em que ninguem
-reparava.</p>
-
-<p>Reparou ella.</p>
-
-<p>Reparou tambem n'esse momento que todas ou
-quasi todas as companheiras tinham casado, que
-muitas das suas illusões se tinham desfeito ás asperas
-nortadas da realidade, que se ia sentindo na
-vida muito só.</p>
-
-<p>Teve umas horas de lucta, de revolta, quasi de
-desespero.</p>
-
-<p>Alguem, ou <i>alguem</i> invisivel em que ella sempre
-acreditára, mandou-lhe a força, porque lhe mandou
-a resignação!</p>
-
-<p>Quando o pae lhe morreu veio para casa dos irmãos,
-e a pouco e pouco achou em si a fonte de<span class="pagenum"><a name="Page_183" id="Page_183">[183]</a></span>
-todas as riquezas mysteriosas, que espalhava pelos
-affectos que o seu coração adoptou!</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Eis pouco mais ou menos a <i>historia da tia Izabel</i>.</p>
-
-<div class="chapter">
-<hr class="chap" />
-</div>
-
-<h3 id="O_MELHOR_SOMNO_DO_MILLIONARIO">O MELHOR SOMNO DO MILLIONARIO</h3>
-
-
-<p>Tinha ido para o Brazil ha muitos annos.</p>
-
-<p>Ainda havia frades em Portugal e fôra até um
-seu tio frade que o acompanhara a bordo de um
-brigue e que lhe dissera com voz solemne e sentenciosa,
-no momento da despedida, estendendo os
-braços n'um largo gesto de pregador:</p>
-
-<p>&mdash;Deus te leve a salvamento, Francisco!</p>
-
-<p>O sr. Francisco Cerqueira lembrava-se de todos
-os pormenores e incidentes trabalhosos da jornada
-que elle fizera desde a sua pequena e risonha
-aldeia minhota até Lisboa.</p>
-
-<p>Era um gosto ouvil-o á mesa, ao domingo, quando
-o armazem repousava na sua humidade claustral,
-e não se ouvia o estrepitoso labutar dos negros<span class="pagenum"><a name="Page_186" id="Page_186">[186]</a></span>
-carregadores, a voz arrastada dos Mineiros
-freguezes da casa, e a melopéa das quitandeiras
-na rua.</p>
-
-<p>Os socios muito mais moços que Cerqueira <i>puxavam-lhe
-pela lingua</i> conforme a pittoresca locução
-do povo, e á sobremesa, recostados, com os
-charutos accesos, ouviam-no discretear alegremente.</p>
-
-<p>Lembrava-se de tudo o sr. Cerqueira. Era uma
-chronica viva. Recordava-se da sua aldeia, narrava
-historias da sua infancia, descrevia com rudes
-mas pittorescas phrases a aula de primeiras letras,
-o abbade da freguezia, as proezas do tio frade,
-que com um varapáo nas unhas era homem para varrer
-toda uma feira, e enternecia-se até ás lagrimas,
-quando tocava no assumpto de despedida da mãe.</p>
-
-<p>&mdash;Ah! vocês não imaginam! Não me sahe d'aqui!
-Parece que tenho um nó na garganta, quando me
-lembro d'aquelle momento. Abraçava-me a chorar
-e a soluçar que era uma cousa por maior! Inda
-me parece que a vejo ao pé das carvalheiras do adro
-da igreja, estendendo-me os braços de longe e gritando
-suffocada:</p>
-
-<p>&mdash;Ah! rico filho, rico filho da minha alma!...</p>
-
-<p>Que idade terá ella hoje? Ora, espera, eu tenho
-cincoenta e seis; ella, pelas minhas contas,
-vem a ter os seus setenta bem puxados... quem
-me dera vêl-a!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_187" id="Page_187">[187]</a></span></p>
-
-<p>&mdash;Mas, <i>seu</i> Cerqueira, nada mais facil! Por que
-se não resolve? Em dezoito dias está lá...</p>
-
-<p>&mdash;Sim, é verdade.</p>
-
-<p>E ficava triste e meditabundo por instantes...</p>
-
-<p>&mdash;Mas tenho medo de chegar e de não a encontrar.
-O unico motivo que me leva á Europa, é ella,
-a pobre velhinha... É o unico parente que tenho,
-que não sei se vocês sabem, que da nossa familia
-restamos tão sómente nós, ella e eu... a minha
-terra é aqui, para aqui vim creança, e aqui
-me fiz gente... Que vou eu fazer á Europa, não
-me dirão?</p>
-
-<p>Isto dizia o sr. Cerqueira; mas o que se lhe passava
-no intimo era bem diverso. Tinha saudades,
-tinha-as e bem fundas da aldeia em que nascêra e
-da casa em que se creára.</p>
-
-<p>Porque a sua vida fôra um luctar sem treguas,
-um batalhar decidido e um inferno, á sahida do
-qual elle contava, como o mythologico Orpheu,
-rever as appetecidas Eurydices&mdash;a mãe e a patria...</p>
-
-<p>Escrevia á mãe de tres em tres mezes, e nunca
-deixava de lhe recommendar que conservasse tal
-e qual como estava a casita, e que não mexesse
-nunca no leito em que elle dormira nos annos proximos
-á partida para o Brazil.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_188" id="Page_188">[188]</a></span></p>
-
-<p>«Porque desejo morrer n'elle», escrevia Cerqueira
-á mãe amantissima.</p>
-
-<p>E ia-se deixando ficar.</p>
-
-<p>Por duas vezes os socios estiveram em Portugal,
-mas o nosso Cerqueira não se decidia.</p>
-
-<p>Ás vezes parecia tomado de uma forte resolução,
-e, ouvindo as descripções das viagens dos socios:</p>
-
-<p>&mdash;Homem, parece-me que sempre me resolvo!</p>
-
-<p>No outro dia, porém, lá andava pelos armazens
-mourejando, dando ordens, e n'aquella atmosphera
-de trabalho vivificante e saudavel parecia transfigurado
-e como que esquecido da promessa que a
-si proprio fizera.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>Um dia, quando o sr. Cerqueira encarapitado
-no alto banco de palhinha sobre a secretária, revendo
-se na sua bella letra ingleza e floreada, entrou
-no escriptorio um dos caixeiros annunciando-lhe
-que estava alli um sujeito que desejava fallar-lhe.</p>
-
-<p>Cerqueira collocou a penna atraz da orelha, puxou
-do lenço vermelho, e abrindo a caixa enterrou<span class="pagenum"><a name="Page_189" id="Page_189">[189]</a></span>
-unidos, no tabaco, o pollegar e o index, e mal acabava
-de absorver a pitada pela narina direita, tamburinando
-voluptuosamente com os restantes dedos
-na esquerda, quando lhe surgiu á porta um
-rapaz bem trajado e modesto, que figurava ter
-quando muito dezeseis annos.</p>
-
-<p>&mdash;Creio que fallo ao snr. Francisco Cerqueira?</p>
-
-<p>&mdash;É verdade.</p>
-
-<p>&mdash;Cheguei hoje de Portugal e trago-lhe esta carta.</p>
-
-<p>E o rapaz desabotoando o fraque, tirou do bolso
-uma carta que entregou respeitosamente ao negociante.</p>
-
-<p>Olhou attento para a lettra do sobrescripto e sorriu-se;
-um bom sorriso beatifico e dourado de mocidade
-que lhe illuminou o semblante.</p>
-
-<p>Depois abriu a carta, desdobrou-a e collocando-a
-ante o rosto começou a lêl-a devagar, como
-que saboreando cada palavra e cada phrase. Ás
-vezes parava, e como um namorado que espreita
-por cima d'um muro, erguia os olhos acima do papel
-e examinava attentamente o rapaz, que se conservava
-de olhos baixos, direito e tranquillo.</p>
-
-<p>Chegando ao fim da carta, voltava de novo a
-lêl-a. Era como que um conversar com aquellas
-letras que vinham de longe e que lhe traziam um
-pouco de perfume das larangeiras do paiz natal, e
-um tudo nada das lagrimas de sua mãe.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_190" id="Page_190">[190]</a></span></p>
-
-<p>&mdash;Queira sentar-se, disse benevolamente o commerciante
-ao mancebo.</p>
-
-<p>E continuou a ler. A carta era pequena, mas
-n'aquellas letras arrevesadas e tremulas elle via
-um rosto, umas feições adoradas, e logo depois como
-nas tintas esbatidas e aereas de um sonho de
-convalescente, levantava-se uma figura de mulher
-ainda moça e vigorosa, ao pé de umas carvalheiras,
-e essa mulher estendia-lhe os braços e dizia-lhe
-de longe com uma voz entrecortada de lagrimas:</p>
-
-<p>&mdash;«Ah! rico filho, rico filho da minh'alma!»</p>
-
-<p>Arrancado d'aquella visão, o sr. Cerqueira dobrou
-a carta devagar com as mesmas dobras, abriu
-a larga carteira de marroquim vermelho e collocou-a
-com grande cuidado n'um determinado compartimento.</p>
-
-<p>Em seguida levantou-se e pitadeando de novo:</p>
-
-<p>&mdash;Olhe, o nosso guarda-livros vai espairecer
-até Buenos-Ayres, e creio que por lá ficará. Coitado!
-aquillo vai mal!... Quer o senhor occupar
-esse lugar n'esta casa?</p>
-
-<p>O moço acceitou reconhecido, e ia a levantar-se
-quando um preto velho em mangas de camisa abriu
-a porta do escriptorio:</p>
-
-<p>&mdash;O jantar está na mesa, nhônhô<span class="pagenum"><a name="Page_191" id="Page_191">[191]</a></span>...</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>Passados dias notaram os socios do sr. Cerqueira
-que este não parava em casa um instante. Sahia
-frequentemente, andava mais contente e lepido
-que o costume. Pouco fallava ao jantar; de communicativo
-que era, tornara-se recolhido comsigo,
-mas no olhar lampejava-lhe uma doce e ineffavel
-alegria.</p>
-
-<p>Ora que fazia o sr. Cerqueira?</p>
-
-<p>Andava envolvido n'uma terrivel conspiração,
-queria desfazer-se, desligar-se dos queridos laços,
-creados pela sua longa e trabalhosa vida de perto
-de quarenta annos, n'aquella terra a que elle de
-entranhas queria, e aonde aportara pobre, desprotegido,
-sem recursos...</p>
-
-<p>Logo pela manhã, depois de dar as suas ordens
-no escriptorio, mettia-se a caminho, percorria as
-ruas, examinando attentamente cousas que antes
-lhe haviam passado desapercebidas.</p>
-
-<p>Entrando nos <i>americanos</i>, dirigia-se aos formosos
-arrabaldes da côrte...</p>
-
-<p>Lembrava-se então das suas merendas saudosas
-e illuminadas pelo sol dos vinte annos, no morro
-de Santa Thereza, nas chacaras ridentes do Botafogo,
-á sombra das arvores do Corcovado.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_192" id="Page_192">[192]</a></span></p>
-
-<p>E passava distrahido sem corresponder aos frequentes
-e affaveis cumprimentos que lhe faziam os
-conhecidos e amigos, do alto da imperial dos omnibus,
-ou da plata-forma dos <i>americanos</i>.</p>
-
-<p>Alguns dos companheiros dos seus passeios e
-folguedos da mocidade tinham morrido, outros haviam
-deixado o Brazil e viviam na Europa, em
-Portugal.</p>
-
-<p>&mdash;Como poderam elles deixar isto sem saudade?
-É verdade que eu gostava de morrer lá, onde
-nasci, na minha pobre aldeia, ao pé de minha mãe...
-pensava o sr. Cerqueira.</p>
-
-<p>E á hora do jantar, já não havia o conversar, e
-aquelle teimoso questionar que tanto alegrava os
-dois socios!</p>
-
-<p>É que o sr. Cerqueira continuava a fallar comsigo
-e a passar uma a uma pelos dedos as contas
-do mystico rosario das suas saudades...</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>Uma tarde os socios de Cerqueira bateram-lhe á
-porta do quarto. Houve uma certa demora em se
-abrir essa porta. Insistiram. Cerqueira veio emfim
-saber o que era.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_193" id="Page_193">[193]</a></span></p>
-
-<p>Entraram os dous e recuaram surprehendidos
-ante a mudança que observaram.</p>
-
-<p>No meio do quarto estava uma grande mala escura
-cravejada de pregos amarellos; em cima do canapé
-esgarçado avultavam montes de roupa branca,
-e pequenas malas inglezas com fechos dourados e
-reluzentes. As gavetas da commoda estavam corridas,
-havia n'aquelle quarto em fim a apparencia
-d'uma casa saqueada...</p>
-
-<p>&mdash;O que é isto, <i>seu</i> Cerqueira?</p>
-
-<p>&mdash;É o que vocês estão vendo. Ámanhã é o
-dia da partida... Resolvi-me emfim...</p>
-
-<p>&mdash;E eu que tinha apostado aqui com o <i>seu</i> Fernandes
-que você nunca se resolvia...</p>
-
-<p>&mdash;Pois, meu amigo, perdeu a aposta, cortou o
-Cerqueira, sorvendo sybariticamente uma pitada.</p>
-
-<p>Na manhã do dia seguinte, no tombadilho d'um
-dos vapores da Companhia do Pacifico, emquanto
-os dous socios do Cerqueira riam e diziam facecias,
-deitando com ares de casquilhos atabalhoados
-as lunetas a algumas francezas, que, com os
-seus vestidos de fazendas claras animavam alegremente
-aquelle conjunto de pessoas possuidas de
-tão estranhos e contradictorios sentimentos, o nosso
-viajante olhava com os olhos de quem se despede
-de um sitio amado para os armazens, para
-os trapiches que se retratavam nas aguas da bahia,<span class="pagenum"><a name="Page_194" id="Page_194">[194]</a></span>
-para as torres das egrejas que se arrendavam
-nitidamente no claro céo azul.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>Em Lisboa pouco se demorou.</p>
-
-<p>No hotel, alguns amigos quizeram prendel-o ainda,
-tentando-o com o theatro lyrico, com Cintra e
-com as poucas fascinações baratas de Lisboa.</p>
-
-<p>Cerqueira resistiu, e n'uma bella manhã, mettido
-em uma diligencia que partia de Braga, dirigiu-se
-para Ponte de Lima. Aqui alugando uma cavalgadura
-endireitou para a aldeia em que nascêra.</p>
-
-<p>A meio caminho apeou-se, despediu o homem
-que o acompanhara, e deitando ao hombro uma
-pequena mala que trouxera, encaminhou-se para o
-seu lugar.</p>
-
-<p>Seriam quando muito duas horas da tarde. O
-calor era grande. Pouca gente na estrada. Cerqueira
-parou a contemplar o quadro.</p>
-
-<p>De um dos lados do caminho viam-se algumas
-raparigas com largos chapéos desabados e saias
-apanhadas segando herva, á compita, e misturando
-o seu canto ao metalico e monotono cantar das
-cigarras...</p>
-
-<p>Do outro lado, um rapazito meio nú, de carapuça,<span class="pagenum"><a name="Page_195" id="Page_195">[195]</a></span>
-sentado no chão, estava de guarda a meia
-duzia de bois que pastavam tranquillamente na
-herva macia e tenra...</p>
-
-<p>De vez em vez, quando um dos bois se approximava
-de algum castanheiro, o rapaz agarrava de
-um calhau, e atirando-lhe rasteiramente, gritava:</p>
-
-<p>&mdash;Eh! malhado...</p>
-
-<p>&mdash;Quantas vezes eu tambem guardei as vaccas
-da nossa casa! pensou Cerqueira.</p>
-
-<p>&mdash;Seu moço, venha cá, disse para o rapaz, venha
-cá, menino!</p>
-
-<p>O rapaz olhou para o forasteiro com um olhar
-estupido e embezerrado e deixou-se ficar.</p>
-
-<p>&mdash;Venha cá, menino, que lhe não quero mal...</p>
-
-<p>O pequeno não se movia.</p>
-
-<p>&mdash;O rapaz é mouco, disse comsigo o viajante,
-e como quem conhece o coração humano, tirou a
-bolsa e mostrou-lhe uma moeda de prata.</p>
-
-<p>&mdash;Queres isto?</p>
-
-<p>De um salto o rapaz poz-se a pé, tirou a carapuça,
-e coçando a cabeça aproximou-se.</p>
-
-<p>&mdash;Diga-me uma cousa, menino, é aqui do lugar?</p>
-
-<p>&mdash;Saiba vossemecê que sim senhor.</p>
-
-<p>&mdash;Conhece a tia Genoveva?</p>
-
-<p>&mdash;Uma que é assim a modo bexigosa, e já muito
-velhinha?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_196" id="Page_196">[196]</a></span></p>
-
-<p>&mdash;Essa mesma.</p>
-
-<p>&mdash;Olhe, ainda ha pouco a vi passar da banda
-do rio... São horas de a topar em casa...</p>
-
-<p>Cerqueira estava emfim tranquillo.</p>
-
-<p>Desapparecera o receio de não encontrar a querida
-velhinha.</p>
-
-<p>Verdade é que podia ter tido novas d'ella em
-Lisboa escrevendo ao abbade, mas queria fazer
-uma supreza, chegar de improviso.</p>
-
-<p>Áquella hora as aldeias do Minho são silenciosas
-e calmas, e ha n'ellas como que a intima paz
-das fabricas ao domingo.</p>
-
-<p>Os homens andam no campo, as mulheres, quando
-os não acompanham, estão nos lavadouros ensaboando,
-e poucas pessoas, a não serem os velhos e
-algumas creanças, ficam em casa.</p>
-
-<p>Na sombria humidade das tabernas descobre se a
-taberneira fiando, emquanto no quinteiro proximo
-os porcos com os focinhos semi-enterrados na lama
-grunhem voluptuosamente.</p>
-
-<p>Um ou outro cavalleiro que passa ás vezes pela
-estrada n'um choito endiabrado, com o páo de
-choupa apertado nos joelhos, levantando uma nuvem
-de poeira dourada. E é então que os cães
-acordam aquelle silencio, latindo e correndo atrás
-dos cavalleiros, e que apparecem ás janellas e ás
-portas as raras pessoas que ficaram em casa.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_197" id="Page_197">[197]</a></span></p>
-
-<p>Quando Cerqueira bateu á porta da casa pulava-lhe
-o coração de um modo desusado.</p>
-
-<p>&mdash;Quem é?</p>
-
-<p>&mdash;Alguem é, respondeu o viajante.</p>
-
-<p>&mdash;Pois empurre o postigo, puxe pela aldraba e
-entre, se isso o não incommoda.</p>
-
-<p>Assim o fez o nosso Cerqueira e entrou na saleta
-em que a tia Genoveva dobava...</p>
-
-<p>Ante aquelle homem estranho, a velha surprehendida
-parou, e pondo uma das mãos diante dos
-olhos como uma palla:</p>
-
-<p>&mdash;Que me quer vossemecê?</p>
-
-<p>&mdash;Um abraço e um beijo, balbuciou o que entrara
-com voz enternecida e expirante...</p>
-
-<p>&mdash;Elle que diz? Ó Christo!</p>
-
-<p>E levantando-se foi direita á janella para chamar
-por soccorro imaginando vêr-se a braços com
-um doudo.</p>
-
-<p>&mdash;Olhe que não estou doudo, santinha! Venho de
-longe e trago-lhe um beijo e um abraço de uma
-pessoa que é muito sua amiga.</p>
-
-<p>&mdash;Do meu Francisco? exclamou a velha. Venham
-de lá não só um mas muitos abraços, que
-elle no dinheiro é mais generoso, valha-o Deus!
-Um só abraço!</p>
-
-<p>E a velhita apertou nos braços Cerqueira, que
-com as lagrimas nos olhos murmurava:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_198" id="Page_198">[198]</a></span></p>
-
-<p>&mdash;E eu que pensei que me conhecia! Pois não
-me conhece, minha mãe? Eu é que sou o seu Francisco,
-sou eu, repare bem...</p>
-
-<p>A velha então explodiu um alto e clamoroso
-grito, e chorando e rindo, cahiu nos braços do filho.</p>
-
-<p>&mdash;Agora conheço, sim, estava tonta! Esta cabeça!
-Mas se tu eras uns <i>dez réis</i> de gente quando
-abalaste d'aqui... Onde está a tua roupa? Já
-jantaste? Cá a gente janta ao meio dia, mas arranja-se
-tudo, não tem duvida... a Joanna foi á
-cidade, vou eu mesma matar uma gallinha...
-Tens fome? deves ter, sim? A minha cabeça...
-a minha cabeça! O meu Francisco! Mas porque
-me não mandaste dizer que chegavas, rapaz? Valha-te
-Deus, manicanso!...</p>
-
-<p>E a tia Genoveva no meio do seu contentamento
-sahia da sala para logo voltar, amontoando perguntas
-sem nexo.</p>
-
-<p>&mdash;Gostas d'isto? gostas d'aquillo? Do que vaes
-gostar é do vinho, é do nosso <i>caco de salsa</i> e sahiu-me
-d'aquella casta! O presunto vamos com
-Deus, que tambem me sahiu bom. Vaes provar...
-Ora o peccado do rapaz que me não avisou de
-nada!</p>
-
-<p>E sahia para d'ahi a pouco voltar com a mesma
-abundancia de perguntas e de phrases penetradas
-de amoravel reprehensão<span class="pagenum"><a name="Page_199" id="Page_199">[199]</a></span>...</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>Oh! que bom e que intimo foi aquelle jantar!</p>
-
-<p>A sala alegre e caiada de branco, a toalha aspera,
-grossa e nevada, os talheres de cabo d'osso
-fabricados em Guimarães, os copos com um friso
-dourado nas bordas, as janellas abertas e dando
-para os campos onde cahiam suavemente as tintas
-do sol posto, tudo dava uma quieta e serena beatitude
-ao coração do <i>brazileiro</i>.</p>
-
-<p>A mãe encostada ao espaldar da cadeira em que
-estava sentado o filho servia-o com muito carinho,
-fazendo-lhe perguntas sem conta a que elle respondia
-com o rosto inundado e clareado pelas lembranças
-de um passado que as palavras da mãe
-evocavam renascido.</p>
-
-<p>Depois coube-lhe a elle fazer tambem perguntas:
-o que era feito d'este, se ainda era vivo
-aquelle, se no sitio de tal ainda existiam aquellas
-carvalheiras onde havia d'antes tanto ninho de
-melro, e se uma casára, e outra tinha muitos filhos,
-eu sei! um mundo de recordações e de saudades!</p>
-
-<p>E com o olhar humedecido, Cerqueira percorria
-tudo, o velho armario pintado, as grades da varanda,<span class="pagenum"><a name="Page_200" id="Page_200">[200]</a></span>
-as medas levantadas no meio da sombria
-verdura dos campos...</p>
-
-<p>Ia cahindo a noite, ouvia-se já na aldeia um
-certo borborinho de vida, vinham da estrada trechos
-ruidosos de conversações. Recolhiam do campo os
-trabalhadores.</p>
-
-<p>E os dois a conversar ainda!</p>
-
-<p>&mdash;E a Joanna que não chega da cidade! É
-sempre assim!</p>
-
-<p>Quando ha pressa é que não vem... Queres tu
-dar uma volta pelo lugar, Francisco?</p>
-
-<p>&mdash;Nada, minha mãe! Este dia é só para si.
-Inda bem que ninguem me viu, e que se não sabe
-que cheguei... Conversemos, tenho tanto que dizer,
-tanto que ouvir...</p>
-
-<p>Entrelaçava-se de novo a conversa, e assim estiveram
-até que a velha disse:</p>
-
-<p>&mdash;E então não querem vêr que o rapaz quer
-tirar-me dos meus habitos! São horas de deitar.
-Vou fazer-te a cama, está ahi quedo que eu já
-volto.</p>
-
-<p>Voltou d'ahi a pouco com um candieiro de tres
-bicos. A luz batia-lhe no engelhado rosto cheio de
-bondade, e um sorriso de ventura brincava-lhe nos
-olhos e na bocca.</p>
-
-<p>E, empuxado suavemente pela mãe, o brazileiro
-entrou no quarto que lhe estivera preparando.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_201" id="Page_201">[201]</a></span></p>
-
-<p>A velha abeirou-se da cama, desdobrou as roupas,
-ageitou a travesseirinha de largos bordados
-tesos e engommados, e voltando-se para o filho que
-examinava tudo curiosamente:</p>
-
-<p>&mdash;Agora toca a deitar! Tenho tanta pena que
-me não trouxesses uma nora! pois eu creio que lá
-no Brazil ha muitas moças bonitas, pois não ha?</p>
-
-<p>O brazileiro sorria-se, e a mãe incansavel enchia-o
-de perguntas, de mimos, de recommendações,
-até que sahiu abençoando-o com toda a sua alma,
-rude mas extremosa.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>Francisco Cerqueira deitou-se, e ainda que lhe
-parecesse que o haviam de incommodar os pesados
-lençoes de linho duros e asperos, adormeceu
-profundamente.</p>
-
-<p>Sonhou. Estava no Brazil, os socios tinham chegado
-da Europa, vinham queimados da viagem,
-mas contentes; contavam anecdotas e casos succedidos
-durante o passeio.</p>
-
-<p>Que Portugal era um jardim, o Minho sobretudo!
-não se fazia ideia.</p>
-
-<p>Narravam a maneira como tinham sido recebidos
-na aldeia natal, as festas, as alegrias da chegada,<span class="pagenum"><a name="Page_202" id="Page_202">[202]</a></span>
-as noites de esfolhada, as romarias ruidosas...
-Cerqueira ouvia-os, e lá por dentro do coração,
-sentia a grande e plumbea nostalgia do paiz
-natal... Se eu pudesse lá ir! Mas para que? Estou
-velho... e depois póde ser que a velhinha já
-não viva!...</p>
-
-<p>E continuava a trabalhar, a dar ordens no humido
-armazem sombrio entre os escravos...</p>
-
-<p>N'isto saccudiram-no uma, duas vezes, tres vezes...</p>
-
-<p>&mdash;Ó grande mandrião, pois isto são horas de
-dormir ainda? Olha que já estou a pé ha duas horas!
-Na cozinha vae tudo raso com trabalho! Arriba,
-homem! Não tens vergonha, dorminhoco?</p>
-
-<p>E o <i>brazileiro</i>, estendendo os braços e esfregando
-os olhos com os punhos fechados, perguntou bocejando:</p>
-
-<p>&mdash;Que horas são?</p>
-
-<p>&mdash;Dez horas, grandecissimo perguiçoso!</p>
-
-<p>&mdash;Ha quarenta annos que não durmo um somno
-tão bom, minha mãe!</p>
-
-<div class="chapter">
-<hr class="chap" />
-</div>
-
-<h3 id="A_PERCEPTORA">A PERCEPTORA</h3>
-
-
-<p>Chamava-se Martha de Vasconcellos.</p>
-
-<p>Era alta, loura, delicada como uma figura de
-<i>Keepsake</i>.</p>
-
-<p>Uma physionomia suave e infantil que captivava
-pelo seu encanto inconsciente.</p>
-
-<p>Á primeira vista, nas <i>soirées</i> semanaes do commendador
-Gonçalves, vestida de branco, com um
-simples velludo negro nos seus cabellos crespos de
-um louro fulvo e ardente, parecia uma creança
-despreoccupada e frivola.</p>
-
-<p>Não o era.</p>
-
-<p>Quem a conhecesse de perto sabia que ella tinha
-a seriedade precoce dos que já padeceram
-muito.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_204" id="Page_204">[204]</a></span></p>
-
-<p>Nenhuma sentimentalidade falsa no seu olhar
-azul, meigo e pensativo. Nenhuma ideia errada,
-nenhuma chiméra juvenil na sua cabecinha d'uma
-lucidez singular.</p>
-
-<p>Sabia conservar-se na sombra, sem deixar de
-ser digna; tinha a consciencia da mesquinhez do seu
-destino, sem ter nunca aprendido a ser humilde.</p>
-
-<p>Pouco fallavam com ella, e no entanto parecia
-não dar pelo desdem quasi brutal de toda aquella
-gente que a cercava.</p>
-
-<p>Tinha um modo docil e meio risonho de sentar-se
-ao piano, e tocava uma noite inteira valsas,
-contradanças, lanceiros, que outras dançavam, na
-expansão da sua alegria burgueza.</p>
-
-<p>Nunca lhe perguntavam se estava cançada, nunca
-lhe davam a menor mostra de interesse ou de
-sympathia.</p>
-
-<p>Pagavam-lhe integral e generosamente, tinham
-direito aos serviços correspondentes a essa remuneração.</p>
-
-<p>As suas relações paravam aqui.</p>
-
-<p>Não sabiam se ella tinha uma alma, se essa alma
-se iria azedando a pouco e pouco ao contacto
-d'aquella indifferença cruel; não sabiam do seu
-passado senão que era honesto e puro, nunca pensavam
-no seu futuro senão vendo-a eternamente
-curvada ao pezo do mesmo destino ingrato.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_205" id="Page_205">[205]</a></span></p>
-
-<p>Martha era mestra de duas filhas do commendador,
-duas rapariguinhas de treze a quinze annos,
-muito presumidas da sua riqueza, muito vaidosas
-do seu luxo, das carruagens em que andavam,
-dos vestidos de seda que vestiam, das festas com
-que os paes alteravam de vez em quando a chata
-monotonia do seu viver de negociantes retirados.</p>
-
-<p>O commendador tinha um filho muito mais velho
-do que as irmãs, que se educára na Allemanha;
-e que depois de viajar pela Europa inteira,
-havia regressado emfim á casa paterna, onde, aqui
-para nós, se enfastiava poderosamente.</p>
-
-<p>O commendador queria dar tambem ás filhas
-uma educação brilhante, uma educação que correspondesse
-ás dimensões da sua <i>burra</i>, eis porque,
-depois de as tirar do convento, onde tinham estado
-até áquella idade, escolhera para professora
-Martha de Vasconcellos.</p>
-
-<p>De resto as idéas do commendador e da mulher
-sobre a educação de suas filhas, não eram das mais
-engenhosas e atiladas.</p>
-
-<p>A pobre gente&mdash;n'este caso, <i>pobre</i> significa riquissima&mdash;a
-pobre gente não era obrigada a ter
-um ideal muito levantado.</p>
-
-<p>Sabiam que a filha do barão de tal tocava pianno,
-e queriam que suas filhas soubessem tocar muito
-melhor.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_206" id="Page_206">[206]</a></span></p>
-
-<p>Tinham ouvido louvar os desenhos da menina
-<i>Fulana</i> e juraram aos seus deuses que as suas meninas
-lhe haviam de levar a palma.</p>
-
-<p>Não tinham ideias absolutas, tinham simplesmente
-ideias relativas.</p>
-
-<p>Excitar a admiração parecia-lhes uma cousa réles
-e insignificante; o que elles queriam era excitar
-a inveja.</p>
-
-<p>As pequenas comprehendiam isto maravilhosamente.</p>
-
-<p>Em vendo uma amiga da infancia, uma conhecida
-qualquer com um vestido mais bonito ou com
-uma prenda intellectual mais preciosa, tinham ataques
-de desespero surdo.</p>
-
-<p>Ralava-as uma vaga inveja de todos os esplendores
-sociaes.</p>
-
-<p>Andavam á busca de gente a quem podessem
-offuscar.</p>
-
-<p>Eram simplesmente ridiculas!</p>
-
-<p>Ás vezes entravam no quarto de Martha e diziam-lhe
-n'um transporte de colera:</p>
-
-<p>&mdash;Quero saber allemão. A Mariquinhas sabe
-allemão, emquanto eu não sei.</p>
-
-<p>&mdash;Quero aprender a bordar de matiz, a Julia
-fez um quadro que eu não sei fazer.</p>
-
-<p>Era assim que iam progredindo no estudo.</p>
-
-<p>Marta conformava-se docilmente ás aspirações<span class="pagenum"><a name="Page_207" id="Page_207">[207]</a></span>
-das discipulas: ensinava-lhes tudo o que sabia,
-mas o que ella de todo não pudera, era inocular-lhes
-a vida interior que animava e coordenava todos
-os seus conhecimentos adquiridos ou intuitivos.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>Dizia-se que Marta conhecera melhores dias, affirmava-se
-mesmo que não fôra para servir de mestra
-a burguezinhas pretenciosas que seu pae, um
-pae extremoso, lhe adornára o espirito de todos
-os primores de uma educação excepcional.</p>
-
-<p>Conhecia as linguas modernas, mas não como
-as conhecem as meninas que por ahi conversam
-com os diplomatas, resumindo n'isso todas as suas
-ambições de estudo.</p>
-
-<p>Penetrára no espirito d'ellas, comprehendera o
-genio especial de cada uma, sabia de cór e escolhia
-principalmente os poetas que synthetisam uma
-nacionalidade ou uma civilisação.</p>
-
-<p>Tinham-lhe ensinado a raciocinar, a pensar, a
-estudar a fundo todos os problemas em que outras
-mulheres tocam sómente ao de leve.</p>
-
-<p>A curiosidade natural ao espirito feminino, essa
-qualidade preciosa, que, descurada, se torna quasi
-sempre em um vicio antipathico, fôra n'ella tão<span class="pagenum"><a name="Page_208" id="Page_208">[208]</a></span>
-bem dirigida, disciplinada com tal mestria, que se
-tornára em fonte dos mais puros gozos do seu espirito.</p>
-
-<p>Não sabia <i>can-cans</i> de salão, sabia o que dizem
-na sua muda lingua os astros e as plantas; não
-tentara penetrar na vida intima das suas amigas,
-contentava-se em saber a vida intima da Creação.</p>
-
-<p>Nunca lhe viera á idéa penetrar com o espirito
-no pélago revolto das paixões insalubres; a sua
-curiosidade insaciada debruçava-se de melhor vontade
-no pélago profundo das ondas, a quem horas
-e horas perguntava pelas mysteriosas riquezas do
-seu seio.</p>
-
-<p>No meio d'isto, despretenciosa e simples, julgando-se
-a mais ignorante das creaturinhas do
-bom Deus, não sabendo que era artista, que era
-intelligente, que tinha alma capaz de entender todas
-as grandes cousas.</p>
-
-<p>O pae, que a vinha ver muitas vezes á casa da
-senhora a quem na infancia a confiára, disse-lhe
-um dia com o pejo a ruborisar-lhe as faces, com
-lagrimas a marejarem-lhe os olhos, que ella era
-uma filha natural, mas que tencionava reconhecel-a,
-regularisar a sua posição, dar-lhe todos os
-direitos que ella por tantissimos lados merecia.</p>
-
-<p>A adoravel creança não o percebeu.</p>
-
-<p>Então&mdash;castigo terrivel das suas culpas&mdash;o pae<span class="pagenum"><a name="Page_209" id="Page_209">[209]</a></span>
-teve de explicar, de fazer comprehender áquelles
-castos ouvidos de quinze annos uma historia deploravel,
-a historia do seu crime!</p>
-
-<p>Martha escutou-o n'um silencio dolorido, com
-uma expressão de doçura triste no olhar.</p>
-
-<p>Depois abraçou-o melhor ainda que nos outros
-dias, porque até alli só tivera muito que agradecer
-e d'alli por diante sentia vagamente que tinha
-muito que perdoar.</p>
-
-<p>&mdash;E minha mãe?&mdash;perguntou depois com uma
-tremura na voz.</p>
-
-<p>&mdash;Tua mãe morreu.</p>
-
-<p>O pae de Martha era casado, tinha filhos, vivia
-para sempre longe d'ella nas tranquillas alegrias
-da familia, uma familia em que ella só podia ser
-a intrusa!</p>
-
-<p>Desde esse dia Martha estudou com dobrado
-afinco, aprendeu com uma ancia dolorosa, com um
-não sei quê de impaciencia inexplicada.</p>
-
-<p>Sentia que havia de ter muito que soffrer, muito
-que luctar.</p>
-
-<p>Tratou de robustecer a alma e de dilatar o espirito.</p>
-
-<p>Era uma especie de iniciação heroica.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_210" id="Page_210">[210]</a></span></p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>O pae de Martha morreu.</p>
-
-<p>Um dia, ao acabar de jantar, cahiu para o lado
-inesperadamente, fulminado pela ruptura d'um
-aneurisma.</p>
-
-<p>A morte surprehendera-o. Não tinha tido tempo
-de fazer nada em favor da sua desvalida Martha.</p>
-
-<p>Oito dias depois, entrava esta, vestida de luto,
-muito pallida, mas com uma expressão estranha
-de firmeza no olhar, em casa do commendador
-Gonçalves.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>Julião, o filho do commendador, tinha 23 annos
-quando Martha foi para casa do pae. Ao
-principio pouco reparou n'ella. Imaginava-a uma
-mestra como as outras, o mesmo livro tirado a
-centenas de exemplares. Reconheceu sómente que
-era um pouco mais bonita que a generalidade das
-suas collegas.</p>
-
-<p>Um dia, porém, que elle lia Gœthe no original,
-e que uma phrase obscura do poeta o fazia parar
-na leitura um tanto impacientado e confuso, lembrou-se&mdash;acaso
-ou presentimento&mdash;de recorrer
-á mestra de allemão de suas irmãs.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_211" id="Page_211">[211]</a></span></p>
-
-<p>Entrou na sala de estudo, com um certo desdem
-a transparecer-lhe na physionomia.</p>
-
-<p>Póde ser-se educado na Allemanha e não comprehender
-o <i>Fausto</i>: o que era no emtanto absolutamente
-impossivel, na opinião do moço, era não
-ter nunca estado na Allemanha e conhecer Gœthe
-como um poeta nosso compatriota.</p>
-
-<p>Martha conhecia-o.</p>
-
-<p>Pegou no livro que Julião lhe estendia, deitou
-um relance de olhos para o verso de que se tratava,
-e depois, com um sorriso não isento de certa
-malicia innocente, explicou a Julião a ideia do
-poeta.</p>
-
-<p>Havia tanta clareza nas suas palavras, uma tão
-superior intuição artistica nos seus rapidos e despretenciosos
-commentarios, que o moço olhou para
-ella devéras espantado.</p>
-
-<p>Pareceu-lhe que a via pela primeira vez.</p>
-
-<p>Não lh'o disse, porém; pelo contrario, sentiu uma
-especie de surda irritação ao perceber a sua inferioridade
-intellectual perante aquella creança tão
-simples, e que todos olhavam com tamanho desdem.</p>
-
-<p>Martha percebeu porventura a impressão que
-despertára; o caso é que a malicia que lhe chispava
-no olhar accentuou-se com um indeciso cambiante
-de ironia.</p>
-
-<p>«A pequena creio que se atreve a fazer escarneo<span class="pagenum"><a name="Page_212" id="Page_212">[212]</a></span>
-de mim», pensou Julião, sahindo da sala,
-onde a juvenil perceptora ficou com as discipulas.</p>
-
-<p>Desde esse dia Julião e Martha observaram-se
-mutuamente com mais attenção.</p>
-
-<p>Elle achava-a graciosa, sympathica e boa sobretudo,
-tinha muita pena d'ella, ao vêl-a desdenhada
-por tanta gente que lhe era inferior na intelligencia,
-na coragem, na distinção, em tudo que póde
-tornar adoravel uma mulher.</p>
-
-<p>Martha sentia-se silenciosamente comprehendida,
-e agradecia áquelle moço esbelto e pensativo
-as delicadezas mudas com que a compensava do
-desamor de todos os mais.</p>
-
-<p>Tocou então para elle as mais doces e sentidas
-musicas que sabia; os apaixonados <i>nocturnos</i> de
-Chopin, as queixosas melodias de Schübert, as
-sonatas mais bellas d'esse sublime surdo chamado
-Beethowen.</p>
-
-<p>Conversavam um com o outro através da musica,
-sem nunca se fallarem de outro modo senão
-nas cousas mais banaes da vida de todos os dias.</p>
-
-<p>Á tarde, depois de jantar, emquanto o commendador
-resonava a sua sésta sobre a prosa elegante
-do <i>Diario de Noticias</i>, emquanto a <i>commendadora</i>
-meditava o rol d'aquelle dia, digerindo um bom
-jantar, e um ataque de furia contra as suas criadas
-presentes e futuras, emquanto as meninas debruçadas<span class="pagenum"><a name="Page_213" id="Page_213">[213]</a></span>
-á janella, trocavam substanciosos commentarios
-ácerca de um alferes que morava no
-predio fronteiro, e de uma menina muito <i>namoradeira</i>
-que morava no predio do lado, Martha, sentada
-ao piano, desfiava sósinha o longo rosario
-das suas saudades.</p>
-
-<p>Julião ouvia-a, fingindo ler um jornal ou um livro,
-e a apaixonada artista bem comprehendia que
-uma alma a estava escutando, e que essas limpidas
-notas que ella arrancava ao piano iam vibrar
-divinamente em um coração que a entendia.</p>
-
-<p>Tudo os separava na terra: o orgulho feroz de
-uma familia de <i>parvenus</i>, o santo orgulho d'ella,
-não menos implacavel, porém muito mais nobre,
-os preconceitos, o dinheiro, quasi que a honra;
-mas, que importava?</p>
-
-<p>Podiam entender-se e amar-se através d'isso tudo.</p>
-
-<p>E Martha, empallidecida pelas commoções que
-lhe agitavam a sua alma de artista, com uma expressão
-soffredora e apaixonada nos seus bellos
-olhos d'um azul escuro, contava a meia voz n'aquella
-linguagem ineffavel as suas dôres, as suas
-humilhações, as suas lembranças, todas as alegrias
-que tivera, tudo que ella havia esperado na terra
-e que um dia se lhe havia desfeito nas mãos, deixando-lhe
-apenas uma immensa, uma desoladora,
-uma eterna saudade!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_214" id="Page_214">[214]</a></span></p>
-
-<p>Ás vezes o piano chorava com uma desesperação
-tão inconsolavel e tão profunda, que Julião tinha
-desejos de erguer-se da cadeira em que estava,
-de protestar contra os energicos lamentos que
-traduziam a dôr insanavel de um destino, e de
-gritar:</p>
-
-<p>&mdash;Aqui me tem, prompto a luctar peito a peito
-contra o seu infortunio, e a vencêl-o.</p>
-
-<p>Mas não se atrevia!</p>
-
-<p>Que diriam todos, que diria seu pae, que diria
-a propria Martha?</p>
-
-<p>Quem lhe dava a elle direitos de interpretar
-d'aquelle modo a sublime execução d'essa artista
-ignorada?</p>
-
-<p>Quem pudera affirmar-lhe que era pessoal essa
-dôr mysteriosa que tinha soluços tão doces, queixas
-tão resignadas e tão mansas, lamentações de
-tão ineffavel ternura?</p>
-
-<p>Um dia Julião quiz sondar o coração tão calado
-da pobre mestra. Procurou fazer-lhe umas perguntas
-que não fossem por demais indiscretas.</p>
-
-<p>Martha desatou a rir.</p>
-
-<p>É verdade que no meio da sua crystallina risada
-os olhos se lhe afogaram em lagrimas; mas
-n'esse instante Julião sentia-se tão envergonhado
-da curiosidade que revelára, que se não atreveu
-a olhar para a sua interlocutora.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_215" id="Page_215">[215]</a></span></p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>O commendador Gonçalves era ambicioso.</p>
-
-<p>Pudera!</p>
-
-<p>Ou não fosse elle <i>commendador</i>.</p>
-
-<p>Estava riquissimo, mas queria que os filhos fossem
-ainda mais ricos do que elle.</p>
-
-<p>Para isso andára a moirejar a vida inteira, por
-isso se sustentára de pão negro e de bacalhau durante
-os annos mais florentes da mocidade!</p>
-
-<p>O seu mais intimo amigo, possuidor de um baronato,
-de avultada riqueza e de uma filha unica
-tão prendada como elle desejava as suas, fallou-lhe
-um dia disfarçamente, com certa labia, a respeito
-de Julião.</p>
-
-<p><i>A meio entendedor meia palavra basta</i>; d'ahi a
-quatro mezes o commendador dava uma pequena
-<i>soirée</i> intima, em que a menina Adriana, filha do
-sr. Barão de X, e chegada havia dias do <i>Sacré
-Cœur</i>, era apresentada ao seu futuro noivo, o Sr.
-Julião Gonçalves.</p>
-
-<p>Estavam só pessoas de familia em casa do commendador.</p>
-
-<p>Elle, a mulher, as duas filhas, o filho e Martha.
-Emquanto ao barão, viera simplesmente acompanhado
-pela filha.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_216" id="Page_216">[216]</a></span></p>
-
-<p>Adriana era... o que d'alli a alguns annos haviam
-de ser as futuras cunhadas.</p>
-
-<p>Tinha a mais umas tincturas de <i>coquetterie</i> parisiense,
-<i>coquetterie</i> mal ensaiada, mais collegial do
-que mundana.</p>
-
-<p>Não se iguala nem se descreve o desdem com
-que ella cumprimentou Martha. Era uma vingança
-retrospectiva do que as suas proprias mestras lhe
-haviam feito passar.</p>
-
-<p>Nos olhos azues de Martha passou um relampago
-de colera fugitiva, mas não disse nada. O que
-havia ella de dizer áquella gente, que a considerava
-um traste... bem pago?</p>
-
-<p>Adriana, a quem cabiam as honras da noite,
-sentou-se ao piano e tocou.</p>
-
-<p>Tocou as musicas de Martha, com a agilidade
-e com o brio de uma pianista experimentada.</p>
-
-<p>Depois, levantando-se no meio de palmas e de
-bravos, indicou á mestra o lugar que deixára n'uma
-especie de altivo desafio.</p>
-
-<p>É que uma das irmãs de Julião lhe dissera n'um
-risinho de malicia, que o irmão gostava muito de
-ouvir Martha.</p>
-
-<p>A moça levantou-se com um gesto automatico,
-sentou-se ao piano e sem mesmo olhar para as musicas
-dispersas principiou a tocar.</p>
-
-<p>Foi um adeus soluçante, cheio de lagrimas, onde<span class="pagenum"><a name="Page_217" id="Page_217">[217]</a></span>
-a espaços passavam como brisas refrigerantes,
-umas vozes indizivelmente cariciosas!</p>
-
-<p>Foi uma historia muito triste, que ainda ninguem
-tinha ouvido até alli, a historia de um coração
-despedaçado!</p>
-
-<p>Como ella lhe havia querido, ao seu bello sonho
-desfeito, e com que dilacerante agonia lhe dizia
-para sempre adeus!</p>
-
-<p>Na sala havia um silencio angustioso e profundo.</p>
-
-<p>O silencio inconsciente que inspiram as grandes
-commoções.</p>
-
-<p>Desde esse dia nunca mais ninguem ouviu a
-querida voz de Martha, aquella voz que tinha por
-interpretes os mais sublimes artistas do mundo.</p>
-
-<p>Ella continúa a dar lições ás filhas do commendador,
-e ha no seu sorriso uma expressão divinamente
-dolorida, quando falla com Adriana, a feliz
-esposa de Julião.</p>
-
-<div class="chapter">
-<hr class="chap" />
-</div>
-
-<h3 id="A_MORTE_DE_BERTHA">A MORTE DE BERTHA</h3>
-
-<p>(A NALY)</p>
-
-
-<p>Minha Naly, ás vezes nos teus dias de bom humor,
-e sobre tudo nos raros dias em que estás um
-pouco menos traquinas, vens sentar-te ao pé de
-mim, n'um banco pequenino, e pegando n'um livro,&mdash;o
-teu livro de grandes bonecos coloridos&mdash;, finges
-que estás lendo umas cousas que a tua inquieta
-phantasiasinha de duende te representa, escriptas
-n'aquellas paginas ainda mudas para os
-olhos da tua intelligencia.</p>
-
-<p>Com o teu adoravel instincto imitador, arremedas-me
-inconscientemente.</p>
-
-<p>És o meu epigramma vivo, um delicioso epigramma
-de olhos garços muito abertos, muito intelligentes,
-muito maganos, como ainda não vi outros
-em ninguem. Hontem, porém, estavas estranhamente
-curiosa.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_220" id="Page_220">[220]</a></span></p>
-
-<p>Não te bastava o que fingias ler, querias mais,
-querias que alguem inventasse por tua conta e
-risco, <i>fingisse ler</i> para que tu ouvisses.</p>
-
-<p>Levantaste a loura cabeça inquieta, e disseste
-com a voz que os anjos costumam ensinar ás creanças:</p>
-
-<p>&mdash;Contas-me uma historia?</p>
-
-<p>Que historia te hei de eu contar, Naly? Com a
-tua alma de quatro annos, tão limpa, tão transparente,
-tão cheia de ignorancias ideaes; com a
-tua alma de flôr, só se entende a linguagem dos
-lyrios, só podem comprehender-se cantos feitos de
-luar, de perfumes, de cantos de aves, alguma cousa
-etherea, que eu te não sei dizer.</p>
-
-<p>Venho contar-te esta historia para tu a leres
-mais tarde, quando a mão de alguem&mdash;pede a
-Deus que seja a mão de tua mãe, Naly&mdash;houver
-arrancado ao teu doce espirito de borboleta o
-pollen immaculado e scintillante com que Deus o
-polvilhou e que tem um nome lindo, sabes qual?&mdash;a
-ignorancia!</p>
-
-<p>Então saberás o que significam estas linhas escuras,
-alinhadas symetricamente na brancura do
-papel; terás chorado muita lagrima, meu anjo! a
-aprender cada uma d'estas letras, que hoje interpretas
-conforme te inspira a tua vagabunda e caprichosa
-imaginação!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_221" id="Page_221">[221]</a></span></p>
-
-<p>E sentada n'uma cadeira grande, muito direita,
-um pouco revestida da elevada importancia do teu
-cargo de ledôra, repetirás alto á tua irmã pequenina
-este conto verdadeiro que em tua intenção
-aqui venho traçar hoje.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>A pequena Bertha tinha cinco annos, um só
-mais do que os que hoje contas, Naly.</p>
-
-<p>Era como tu, loura, muito loura; dera-lhe Nossa
-Senhora uma cabelleira de anjo, fulva, luminosa,
-feita de pequeninos anneis que se enroscavam, e
-que scintillavam ao sol, formando em torno d'ella
-como que um esplendor de gloria.</p>
-
-<p>Os olhos muito grandes, transparentes, azues
-pareciam ter no fundo um segredo de doce tristeza.
-Um segredo que ella havia de saber muito cedo...
-no céo!</p>
-
-<p>O seu pequeno corpo, macio, feito da brancura
-das assucenas que desabrocham em maio, exhalava
-como que um aroma de flôr.</p>
-
-<p>Bem vês que Bertha era linda! Um amor! O
-orgulho e a ventura dos paes que se reviam n'ella.</p>
-
-<p>Vivia n'uma grande casa aristocratica, discreta,<span class="pagenum"><a name="Page_222" id="Page_222">[222]</a></span>
-forrada de colgaduras, de tapetes, de bellos quadros
-antigos.</p>
-
-<p>Descendo os degraus de marmore da casa em
-que ella jantava, entre o pae e a mãe, na sua cadeirinha
-de pés muito altos, ia ter a um grande
-jardim cheio de arvores cuidadas e decotadas pela
-mão habil de um jardineiro inglez.</p>
-
-<p>Muito gostava do seu jardim a pequenina Bertha!</p>
-
-<p>Imagina tu se ella não havia de gostar, Naly!</p>
-
-<p>Havia lá tantas flôres, tantas flôres! e depois
-eram de tantos feitios! Umas triumphantes, purpurinas,
-como se as tingisse um sangue novo e
-generoso, outras tão brancas como os braços eburneos
-da mãe de Bertha, algumas tinham uma pallidez
-fina e morbida, que lembrava a das bellas
-senhoras que ella via passar resvalando como sombras
-gentis, pelos atapetados salões da sua casa.
-Outras eram, de uma côr de rosa desmaiada e
-doce, que acariciava os olhos de quem as via.</p>
-
-<p>As campanulas azues, esbeltas, ephemeras, lembrando
-pequeninos calices de crystal da Bohemia,
-trepavam amorosamente em volta dos troncos
-mais robustos que as cercavam; as margaritas
-com a sua alvura <i>mate</i> e o seu feitio de estrellas
-resaltavam n'um adoravel contraste da verdura
-clara e fresca dos taboleiros de relva.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_223" id="Page_223">[223]</a></span></p>
-
-<p>Havia flôres muito direitas e esbeltas no pedunculo
-delgado, que faziam scismar Bertha,&mdash;não sei
-bem porquê&mdash;, nas lindas princezas dos contos de
-fadas, que vivem nos seus palacios á beira do
-mar, escondidas, discretas e cheias de magestosa
-gentileza.</p>
-
-<p>As camelias com a victoriosa belleza do seu teclado
-de côres vivas e tão varias, lembravam a
-Bertha a musica que ella ouvira uma vez, n'um
-dia de parada, no desfilar apparatoso das tropas,
-musica brilhante, sonora, marcial, feita do estridor
-dos clarins, da fanfarra triumphante dos instrumentos
-de cobre, de todas as notas bellicas que rebentavam
-no espaço, como que n'uma explosão harmonica
-e sonora!</p>
-
-<p>Gostava muito das violetas&mdash;pequeninas e modestas,
-denunciando-se a medo pelo seu rasto de
-perfumes,&mdash;e que ella costumava procurar nas
-hervas para encher com ellas a jarra de porcellana
-de Sèvres, que havia sempre sobre a mesa de costura
-de sua mãe.</p>
-
-<p>E não penses tu que gostava menos das arvores!
-oh! a alma de Bertha expandia-se naturalmente
-para tudo que é bom e que é bello.</p>
-
-<p>Levava horas a espreitar através dos ramos delicadamente
-recortados pela thesoura do Celeste
-Jardineiro, o alto céo azul, tão cheio de luz, e<span class="pagenum"><a name="Page_224" id="Page_224">[224]</a></span>
-que sem ella saber porque, a estava chamando
-sempre!</p>
-
-<p>Depois nas arvores é que vivem os passaros, é
-alli que elles dependuram os ninhos, que elles
-modulam as suas cantigas sem <i>libretto</i>, que elles
-cantam a quem passa as suas alegrias e as suas
-saudades.</p>
-
-<p>As arvores são boas, hospitaleiras e carinhosas,
-como se tivessem uma alma occulta sob a rugosa
-cortiça dos seus troncos.</p>
-
-<p>Ellas dão sombra, dão frescura, dão fructos, dão
-flôr, dão um bom cheiro sadio, que reconforta e
-alegra; as arvores, minha Naly, são as nossas melhores
-amigas.</p>
-
-<p>Tu has de saber mais tarde, que no mundo ha
-muito riso falso, muita amizade fingida, muita
-cousa que a gente julga solida, e que no fim de
-contas está construida sobre a areia; mas os vegetaes,
-os eternos amigos do homem, os que o nutrem
-e se nutrem d'elle, oh! esses nunca nos mentem
-nem atraiçoam, nem dão conselhos máus!</p>
-
-<p>O jardim era, pois, para a nossa Bertha um
-mundo riquissimo, um mundo mysterioso, onde a
-vida palpitava, no insecto, na planta, no musgo,
-na ave, na terra fecunda e robusta, na arvore frondosa,
-na agua limpida e corrente, em tudo que
-rescende e murmura, e canta, e pullula, em tudo<span class="pagenum"><a name="Page_225" id="Page_225">[225]</a></span>
-que enlaça a alma do homem n'uma cadeia feita
-de embevecimentos magicos.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>E as boas horas passadas no <i>gabinete azul</i>, o
-que ellas não valiam para o pequenino coração de
-Bertha!</p>
-
-<p>Sabes o que era o gabinete azul? era a saleta
-toda forrada e estofada de setim azul, em que a
-mãe da nossa pequenina se conservava habitualmente.</p>
-
-<p>Chamava-se Margarida a mãe de Bertha, e era
-formosa, de uma delicada e fragil formosura, que
-despertava ao vel-a instinctos de piedade e de protecção.</p>
-
-<p>Alta, esbelta, levemente scismadora, como quem
-tem cuidados que a preoccupem, sempre vestida de
-seda com punhos de cabeção de rendas finas, um
-pouco amarelladas, que punham na <i>toilette</i> de casa
-uns toques de aristocratica distincção. Nos cabellos
-bastos, louros e frisados, uma flôr quasi sempre
-colhida por Bertha.</p>
-
-<p>O pae, esse era forte, robusto e sadio, mas tinha
-a virtude dos valentes: a bondade. N'aquella
-physionomia accentuada e trigueira o sorriso era<span class="pagenum"><a name="Page_226" id="Page_226">[226]</a></span>
-tão doce que lembrava o desabrochar de um lyrio.</p>
-
-<p>Não estava muito em casa, tinha que fazer fóra,
-andava ganhando a vida de elegancias e de confortos,
-que viviam inconscientes, innocentemente
-egoistas, os seus dous frageis amores&mdash;a mulher
-e a filha.</p>
-
-<p>Mas quando elle estava, que festa!</p>
-
-<p>Bertha, ora ennovellada aos pés da mãe, nas
-felpas avelludadas do tapete, e com os grandes
-olhos curiosos fitos nos d'ella, ora folheando um
-grande livro de imagens&mdash;como o teu, minha
-Naly&mdash;, ora empoleirada no espaldar da larga poltrona
-onde o pae estava sentado, e passando-lhe a
-pequenina mão crestada pela cabelladura revolta e
-crespa, Bertha era a mais feliz das creaturinhas
-do bom Deus!</p>
-
-<p>Era um gosto vel-os alli a todos tres, na intimidade
-d'aquelle viver de familia!</p>
-
-<p>Margarida, ao principio, trabalhava sempre; n'uns
-dias, um vestidinho para a sua querida filha, n'outros
-dias, um pequeno objecto galante e mimoso
-para o escriptorio do seu marido; de tempos a
-tempos um enxoval para uma pobresinha, um enxoval
-muito aceiado, que Bertha dobrava e desdobrava,
-que servia de thema para longas interrogações,
-e como que iniciação da creança na doce
-caridade de sua mãe.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_227" id="Page_227">[227]</a></span></p>
-
-<p>O pae, quando voltava, tinha sempre tanto que
-contar!</p>
-
-<p>Gente que vira, casos que lhe haviam succedido!
-planos de futuro que andava devaneando, e depois
-risos, brinquedos, correrias atrás do diabrete da
-Berthazinha, eu sei!... o demonio a quatro!</p>
-
-<p>Havia alli um conchego tepido, uma alegria,
-uma benção de Deus, repartida por tres almas, e
-que parecia reflectir-se nas cousas mudas que o
-cercavam servindo lhe de elegante e rendilhada
-moldura.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>Queres tu saber, Naly? Bertha tinha um defeito.
-Era um bocadinho egoista. Um egoismo de tres,
-já se entende, porque ella não sabia separar a sua
-vida da de seus paes.</p>
-
-<p>Uma das manifestações mais claras d'este egoismo
-era a repugnancia que tinha pelos estranhos.</p>
-
-<p>Sentia frio ao pé d'elles; fugia muito pensativa
-e muito arisca quando via um indifferente interpôr-se
-importunamente entre ella e as caricias que
-eram o seu alimento de todos os instantes.</p>
-
-<p>Mas a pessoa que mais lhe aggravava esta impressão
-hostil, era um primo que por aquelle tempo
-começara a frequentar mais a casa.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_228" id="Page_228">[228]</a></span></p>
-
-<p>Um moço, alto, elegante, bem parecido, muito
-fallador n'umas horas de expansão, muito concentrado
-n'outras horas, de bigode retorcido e triumphante,
-olhares que sabiam ser doces, e que eram
-quasi sempre altivos.</p>
-
-<p>E, comtudo, que meigo que elle era para Bertha,
-espreitando-lhe os caprichos, conformando-se
-com as brincadeiras d'ella, trazendo-lhe <i>bonitos</i>, flores,
-cousas novas, delicadas, que ella não vira
-nunca, e que, no emtanto, vindas da mão d'elle
-lhe desagradavam instinctivamente.</p>
-
-<p>É que tambem o <i>primo</i> tornara-se d'uma assiduidade
-irritante!</p>
-
-<p><i>Primo</i> para aqui, <i>primo</i> para alli, toda a
-gente gostava d'elle, para cada pessoa tinha um
-dito amavel, uma intenção delicada, uma lisonja
-habilmente escondida!</p>
-
-<p>Tratavam-n'o por <i>tu</i>, era admittido nas festas
-intimas da familia, ia ao jardim apanhar flores,
-acompanhava a <i>mamã</i> ao theatro! Uma usurpação
-em fórma, uma usurpação revestida de todas as
-circumstancias aggravantes!</p>
-
-<p>E depois usava essencias.</p>
-
-<p>Bertha declarara com ar solemne e magestoso,
-que embirrava muito com o primo, porque elle
-cheirava a <i>pat-chouly</i>.</p>
-
-<p>E ella que andava habituada aos aromas frescos<span class="pagenum"><a name="Page_229" id="Page_229">[229]</a></span>
-e sadios da livre natureza, não podia supportar
-aquelle cheiro de essencias requintadas, a que
-dava este nome generico e detestado.</p>
-
-<p>A <i>mamã</i> por ter de atural-o a cada instante, renunciára
-aos seus dôces trabalhos d'outro tempo,
-de que Bertha gostava tanto, e que davam ás suas
-mãosinhas travessas a sensação grata das sedas,
-das bonitas fazendas desdobradas sobre o estofo
-das poltronas, de todas as graciosas cousas com
-que podia brincar.</p>
-
-<p>Andava triste a sua adorada mãesinha.</p>
-
-<p>Tinha horas de melancholia morbida em que a
-cabeça lhe cahia no peito, como se tivesse dentro
-estranho pezo. E ficava-se horas e horas calada e
-desfallecida, com um livro aberto no regaço, ou
-com um trabalho apenas começado cahido aos pés,
-sem ouvir o papaguear festivo da sua pequena Bertha.</p>
-
-<p>Quando voltava a si d'aquellas scismas doentias,
-parecia acordar d'um mau sonho, passava a mão
-pela testa, bebia agua, muita agua, e beijava a filha
-com um arrebatamento que lhe fazia mal.</p>
-
-<p>A pequenita enfastiava-se!</p>
-
-<p>Pudéra!</p>
-
-<p>Fugia só para o jardim, sem que uma voz sollicita
-e assustada a chamasse de longe, sem que uns
-olhos inquietos a velassem de perto, e punha-se<span class="pagenum"><a name="Page_230" id="Page_230">[230]</a></span>
-n'uma indistincta e muda linguagem que só as suas
-flores entendiam a queixar-se das tristezas vagas,
-que a definhavam longe do calor que d'antes a acalentava
-e aquecia.</p>
-
-<p>As tardes do <i>gabinete azul</i>, os principios da noite,
-quando cahia do alto dos céos a penumbra indecisa
-e dubia do crepusculo, tudo aquillo perdera
-a sua graça, a sua antiga e ideal doçura!</p>
-
-<p>No silencio constrangido da saleta, retiniam então
-os passos conquistadores do <i>intruso</i>, e Bertha
-com vontade de romper em soluços, pedia muito
-depressa que a fossem deitar.</p>
-
-<p>Chamava-se a creada, vinha, levava-a pela mão,
-amuada, e ella, ao aconchegar-se nas roupinhas do
-seu leito, sentia ainda uma estranha impressão de
-desconforto e de frio. Era o beijo distrahido e formalista,
-que lhe haviam imprimido na testa os labios
-quentes, seccos e febris de sua mãe.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>Era noite de festa para Berthazinha.</p>
-
-<p>Estavam sós todos tres no <i>gabinete azul</i>, o paraiso
-d'outr'ora, onde agora não havia senão flores...
-que ella não colhêra!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_231" id="Page_231">[231]</a></span></p>
-
-<p>Bertha alcançara licença para se deitar ás nove
-horas.</p>
-
-<p>Que bom!</p>
-
-<p>Um longo serão de risos, de conversas sem tom
-nem som, de tagarelice inextinguivel. O livro das
-grandes imagens, a boneca deitada no tapete, uma
-profusão de <i>bonitos</i> de todos os feitios&mdash;alguns, por
-peccados de Bertha, tinha-lh'os dado o negregado
-primo! emfim por aquelle dia, Bertha estava magnanima.
-Perdoava-lhes o virem da mão de quem
-vinham!&mdash;e elles dous, os dous amores, o <i>papá</i>
-e a <i>mamã</i> ao fogão, conversando com a intimidade
-feliz de quem se quer muito!</p>
-
-<p>É verdade que a mamã estava pallida, tinha
-até nos olhos umas orlas rôxas que pareciam de
-febre, e uma luz exquisita que lembrava aquelles
-clarões subitos e phosphoricos, que costumam accender
-as bruxas, quando fazem os seus encantamentos
-e <i>maus olhados</i>.</p>
-
-<p>Oh! mas que importavam a Bertha symptomas
-que ella não via!</p>
-
-<p>Estava contente, contente, e ia-se enthusiasmando
-a pouco e pouco, á proporção que a alegria lhe
-inundava como uma onda a pequenina alma luminosa!</p>
-
-<p>Um beijo no papá, uma festinha na mamã, e
-aqui desmanchava um canudo, acolá despregava<span class="pagenum"><a name="Page_232" id="Page_232">[232]</a></span>
-um alfinete, depois fechava um livro que ia começar
-a ler, amarrotava uma renda, trepava para
-cima d'uma cadeira!</p>
-
-<p>Que anjo! que demonico, feito d'um bocadinho
-de azul!</p>
-
-<p>N'isto, por um movimento rapido e imprevisto,
-atirou-se ao collo da mãe, mergulhou a mãosinha
-no decote quadrado do vestido, amachucou uma
-rosa, que ali parecia aninhar-se no meio das rendas,
-e arrancou com gesto triumphante um papel,
-um papel côr de perola amarrotado.</p>
-
-<p>&mdash;Oh! gritou a mãe, fazendo-se mais branca do
-que a cal; dá cá, dá cá, isso é-me preciso.</p>
-
-<p>Quem disse lá que ella respondia!</p>
-
-<p>Fugira rindo, rindo como uma doudinha, e fôra
-esconder-se entre os joelhos do pae, agitando com
-um gesto de graça inimitavel o roubado trophéo.</p>
-
-<p>A mãe erguêra-se convulsa, tremula, com tamanho
-desvairamento e tamanha angustia no olhar
-e na voz, que dir-se-hia que a esmagava uma catastrophe
-imprevista e tremenda.</p>
-
-<p>&mdash;Dá cá, dá cá, murmurou ainda desfallecida
-e supplicante.</p>
-
-<p>&mdash;Papá, papá, esconde tu, respondia Bertha,
-n'uma convulsão de riso. Ih! cheira a <i>pat-chouly</i>,
-cheira a <i>pat-chouly</i>.</p>
-
-<p>Elle e ella, a mãe e o pae, olharam-se.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_233" id="Page_233">[233]</a></span></p>
-
-<p>Tu nunca viste um olhar assim, Naly, nem eu,
-e Deus nos defenda de o vermos nunca!</p>
-
-<p>Foi mudo, foi longo, foi sinistro! Um poema de
-agonias silenciosas!</p>
-
-<p>Depois o pae de Bertha, afastando a creança
-com um gesto lento, desdobrou o papel e leu.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>Já lá vai um anno depois d'aquella noite de festa,
-em que Bertha alcançou licença para se deitar ás
-nove horas.</p>
-
-<p>N'um anno quantas differenças póde fazer uma
-existencia!</p>
-
-<p>É muda e triste a casa onde vimos tantos risos,
-está descuidado e cheio de hervas o jardim
-onde brincava um pequenino sêr feito da luz das
-auroras, e da innocencia dos lyrios.</p>
-
-<p>Bertha está doente.</p>
-
-<p>Na sua alcova branca e silenciosa, á luz dubia
-de uma lamparina de jaspe, vela uma criada, emquanto
-a loura pequenina fita no tecto os grandes
-olhos azues e parece seguir as visões phantasticas
-de um sonho de febre.</p>
-
-<p>Ao principio era feliz, muito feliz. Quem e que
-viera destruir todas aquellas alegrias que pareciam<span class="pagenum"><a name="Page_234" id="Page_234">[234]</a></span>
-querer durar sempre? A pobre doentinha não o
-sabia.</p>
-
-<p>Diante dos olhos d'ella dançava teimosamente
-um grande demonio escuro, com muitos <i>bonitos</i>
-nas mãos e com um bigode retorcido e triumphante.</p>
-
-<p>Que vinha fazer alli aquelle demonio? Quem
-póde explicar o que são as visões de um delirio!</p>
-
-<p>Depois uma certa noite, doce, allumiada, festiva.
-Que succedêra n'essa noite? Meu Deus! Ella
-brincára muito, ainda mais que o seu costume. Não
-lhe lembrava mais nada, senão que fôra deitar-se
-a chorar. Tambem não sabia porquê.</p>
-
-<p>Desde então é que a sua vida mudára.</p>
-
-<p>O pae repellia-a de si, sempre que ella lhe estendia
-os bracinhos, empurrava-a quando ella queria
-beijal-o!</p>
-
-<p>Nunca mais houvera os serões do gabinete azul,
-nunca mais ouvira aquella voz paterna, tão grave,
-tão meiga, tão musical, acaricial-a como antigamente!</p>
-
-<p>E a mãe?... A mãe definhava sósinha, mas
-n'aquella tristeza desolada, não admittia os beijos
-da sua Bertha d'outro tempo.</p>
-
-<p>Um dia dissera-lhe asperamente, com um brilho
-secco no olhar:</p>
-
-<p>&mdash;Vae-te d'aqui! És a causa da minha desgraça
-toda.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_235" id="Page_235">[235]</a></span></p>
-
-<p>Bertha não percebeu o que aquellas palavras significavam,
-mas percebeu o ar com que foram ditas!</p>
-
-<p>Nunca mais foi ao jardim! nunca mais viu a
-capoeira nem o viveiro dos canarios, nem os peixinhos
-vermelhos do tanque!</p>
-
-<p>Tinha sempre frio, muito frio.</p>
-
-<p>Tiritava horas e horas a um canto da <i>casa de
-engommar</i> onde as criadas riam e palestravam indifferentes,
-com uma expressão de espanto, de surpresa,
-de desolação selvagem no olhar!</p>
-
-<p>Parecia-lhe a ella que tambem estava na vida como
-uma intrusa. O que viera ella cá fazer? Por
-que se não ia embora?</p>
-
-<p>Sentia que alguem estava á espera d'ella, lá em
-cima, n'um sitio onde havia muito azul, muitas
-flôres, um jardim mais bonito que o que fôra d'ella,
-uns serões mais placidos e mais cheios de risos e
-de caricias que os amados serões de outro tempo...
-que não podiam voltar!</p>
-
-<p>E abrindo os braços, fez um doce gesto de ave
-espavorida que vae levantar o vôo para o infinito!</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>&mdash;Ai! a menina que vae morrer!&mdash;bradou a
-criada com muita ancia.&mdash;Chamem a senhora,<span class="pagenum"><a name="Page_236" id="Page_236">[236]</a></span>
-chamem o senhor, este anjinho diz que lhes quer
-dizer adeus!</p>
-
-<p>Ouviam-se portas que se abriam, vozes angustiosas
-que chamavam... depois, por duas portas
-differentes, entraram duas pessoas.</p>
-
-<p>Dous espectros do que tinham sido.</p>
-
-<p>Olharam-se como que admirados de se verem
-alli juntos!</p>
-
-<p>Miraram-se curiosamente como para sondarem
-os grandes abysmos que os separavam dos dias
-d'outr'ora!</p>
-
-<p>Depois sem quererem, olharam ambos movidos
-pelo mesmo impulso para o pequeno leito de cortinados
-brancos.</p>
-
-<p>Uma voz dulcissima, toda mimo e toda supplica,
-chamou-os d'alli:</p>
-
-<p>&mdash;Papá! mamã! adeus! Digam-me que são
-meus amigos agora que eu vou morrer! Como
-é bom ir para o céo! Nunca mais hei-de ter
-frio!...</p>
-
-<p>Se não fosse a voz e a expressão divina d'aquelle
-olhar, quem diria que aquella que fallava era
-a pequenina Bertha!</p>
-
-<p>&mdash;Ó papá, console a mamã, já que eu me vou
-embora! Voltem para o gabinete azul, e ao serão
-não se esqueçam de fallar de mim!</p>
-
-<p>Puxou-os a ambos com uma força que não parecia<span class="pagenum"><a name="Page_237" id="Page_237">[237]</a></span>
-já d'este mundo, e abraçou-os unidos contra
-o coração!</p>
-
-<p>Todos tres como d'antes!</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Quando ambos se ergueram d'aquelle supremo
-abraço, os bracinhos d'ella tinham afrouxado e cahido.</p>
-
-<p>&mdash;Perdôa-me pela nossa filha que morreu! soluçou
-a voz d'aquella mãe dolorida!</p>
-
-<p>&mdash;Perdão! papá! ciciou como uma caricia de aragem
-uma voz que ninguem soube dizer se vinha
-da terra se do céo.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>FIM DA PRIMEIRA PARTE</p>
-
-
-<div class="chapter">
-<hr class="chap" />
-</div>
-
-<h2>SEGUNDA PARTE</h2>
-
-
-
-<div class="chapter">
-<hr class="chap" />
-</div>
-
-
-
-<h3 id="A_PROPOSITO_DE_UM_LIVRO">A PROPOSITO DE UM LIVRO</h3>
-
-
-<p>Ha momentos em que eu não posso deixar de
-me sentir desconsolada. Parece-me n'esses momentos
-que a humanidade está passando por uma das
-crises mais graves da sua vida de tantos seculos.</p>
-
-<p>E quem terá forças para conservar-se espectador
-indifferente d'essa dolorosa tragedia de que é theatro
-o mundo inteiro!</p>
-
-<p>Theorias que se atropellam e se contradizem,
-systemas politicos que mutuamente se combatem,
-opiniões tão variadas, ácerca das cousas graves e
-das cousas insignificantes, que não nos resta meio
-algum de descortinar a verdade em meio de tão
-babylonica confusão.</p>
-
-<p>Na pratica o desmentido formal e permanente a
-todas as doutrinas que se prégam e se propagam!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_242" id="Page_242">[242]</a></span></p>
-
-<p>Celebra-se a apotheose da familia, e a familia
-decadente, desnorteada, desunida, apresenta o reflexo
-fiel d'esta quadra de desalento e de incerteza!</p>
-
-<p>Emquanto os sonhadores erguem um altar á justiça,
-como á deusa moderna que mais cultos merece,
-a injustiça acclamada, protegida, triumphante
-campeia n'este mundo onde a victoria já não pertence
-ao mais forte, mas sim ao mais astuto!</p>
-
-<p>A politica, que parecia dever ser aquella sciencia
-complexa e respeitavel de conduzir as sociedades
-ao mais alto grau de aperfeiçoamento material
-e moral, não é senão um mercado abjecto,
-onde se debatem os mesquinhos interesses individuaes,
-não aquelles interesses que são a base do
-bem collectivo, mas os que se traduzem na exploração
-do homem pelo homem.</p>
-
-<p>A guerra aqui acesa e selvagem, de uma selvageria
-refinada e scientifica, acolá disfarçada e hypocrita,
-arma-se por toda a parte, como nos seculos
-que lá vão, egualmente funesta, embora a revistam
-mais prestigiosos aspectos.</p>
-
-<p>Falla-se em paz, em fraternidade universal, préga-se
-uma religião humana que parece querer e
-dever supprir a religião divina, mas os modernos
-crentes d'esse dogma que assenta no direito, na
-justiça, no amor universal, atraiçoam tanto as suas<span class="pagenum"><a name="Page_243" id="Page_243">[243]</a></span>
-doutrinas, como atraiçoavam a sua fé os catholicos
-mal esclarecidos das épocas de ascetismo rude, e
-de fanatica superstição.</p>
-
-<p>Para onde vamos nós?</p>
-
-<p>Se vamos para o Bem, o que é que origina esta
-dolorosa inquietação, que avassalla e confrange todas
-as almas, este contraste incomprehensivel, entre
-o que se pratica e o que se pensa?</p>
-
-<p>Se vamos para o Mal, para que nos fallam do
-progresso, da perfectibilidade humana, das conquistas
-da civilisação, dos arrojos felizes da sciencia,
-de tudo que parece preparar ao homem uma
-quadra luminosa, feliz, nunca realisada até agora?</p>
-
-<p>D'antes, n'estas horas de duvida, de angustia
-oppressiva, iamos nós procurar consolação na palavra
-animadora e harmoniosa dos que, com os
-olhos fitos na estrella do ideal, indicavam ao
-homem o rumo que elle tinha a seguir, para não
-se perder na sua gloriosa ascenção.</p>
-
-<p>Hoje, esses pilotos da náu do futuro estão mudos
-ou descrêem tambem!</p>
-
-<p>Mais doloroso ainda que o silencio desalentado,
-é o rictus sarcastico com que elles assistem á lucta
-estranha e confusa de tantos elementos contradictorios
-e incompativeis.</p>
-
-<p>Depois a litteratura, que é o espelho da alma<span class="pagenum"><a name="Page_244" id="Page_244">[244]</a></span>
-das sociedades, é hoje por toda a parte um brado
-unanime de negação.</p>
-
-<p>Não reconstrue, não modifica o que está feito,
-trata de o desmoronar pedra por pedra!</p>
-
-<p>Ha um homem em França que refaz, collocado
-n'um ponto de vista diverso, a obra collossal de
-Balsac.</p>
-
-<p>O romancista mais admiravel da França, aquelle
-que fez do romance um ramo das sciencias sociaes,
-fez n'um momento, que tem por força de ficar, a
-synthese de sua época.</p>
-
-<p>Pintou, e com que potencia da verdade! os reis,
-e os operarios, as duquezas sentimentaes, e os artistas
-convulsionados pela <i>nevrose</i> do seu tempo,
-os politicos, os sabios, os pensadores, os litteratos;
-as peccadoras do alto mundo, e as peccadoras do
-mundo equivoco; os financeiros, e os luctadores
-ambiciosos; os que vinham perder a alma e gastar
-o corpo n'essa Pariz electrica e absorvente, que
-attrahe os genios e os monstros, e os que vinham
-alli conquistar a fortuna, o poder, a soberania
-omnipotente.</p>
-
-<p>Na sua obra complexa, enorme, que ás vezes
-tem na distancia um não sei que de monstruoso,
-encontra-se viva, palpitante, com os seus vicios,
-com as suas paixões, com o seu talento ardente,
-com a sua magnetica e irresistivel seducção, uma<span class="pagenum"><a name="Page_245" id="Page_245">[245]</a></span>
-das épocas mais caracteristicas da civilisação da
-França, o que significa a civilisação da Europa.</p>
-
-<p>Se em Balzac encontramos as florescencias rubras
-do mal, nem por isso nos seduzem menos as
-suavidades castas da virtude.</p>
-
-<p>Ao pé de Madame de Marneffe, a pequenina e
-graciosa féra parisiense, felina e nervosa, com caricias
-que mordem e furores que acariciam, ha a
-doce figura de Eugenia Grandet, a mais dolorosa
-virgem, que a imaginação moderna ainda concebeu
-e idealisou.</p>
-
-<p>Ao pé de Luciano de Rubempré o ambicioso effeminado
-e morbido; de Vautrin o brutal luctador
-que seria um <i>condottiere</i> do seculo XVI e que só
-póde ser um forçado no seculo XIX; ao pé de
-Marsay o politico sagaz, que faz dos homens, das
-mulheres e das cousas, meros instrumentos da sua
-fortuna, que não tem lei nem fé, e que é capaz de
-assassinar com um sorriso de <i>dandy</i>, temos d'Arthés
-o pensador austero, e pobre escriptor para
-quem a litteratura é um magisterio e não um officio,
-temos Cesar Birotteau, a sublimidade burgueza,
-o honesto commerciante que tem palavra
-de duque, que é perfumista com a mesma nobreza
-de abnegação e de honradez, com que se é sacerdote,
-e que glorifica toda uma classe de que se
-riem os frivolos, sem saber quanta heroicidade é<span class="pagenum"><a name="Page_246" id="Page_246">[246]</a></span>
-precisa para saber guardar immaculada em um peito
-de burguez, a honra de um paladino.</p>
-
-<p>Dizem que o vicio pollula na obra de Balzac
-com uma exhuberancia de vegetação inacreditavel.</p>
-
-<p>Elle não foi mais do que o analysta apaixonado
-da sua época.</p>
-
-<p>Adorou-a pelo que ella tinha de grande, comprehendeu
-que lhe podia desnudar as chagas, visto
-que ao lado d'ellas podia mostrar tão admiraveis
-bellezas.</p>
-
-<p>Foi implacavel na sua justiça.</p>
-
-<p>O seu tempo seduziu-o pelo que havia de brilhante
-nos seus vicios, de fecundo e poderoso nas
-suas paixões, de arrebatado e creador no seu genio,
-de raro e dedicado nas suas virtudes.</p>
-
-<p>Hoje no artista que segue as pisadas de Balsac,
-que não tem a sua potencia creadora, mas que
-tem como elle, e talvez mais methodicamente do
-que elle, o estudo paciente e investigador, que vemos
-nós que possa dar-nos aquella sensação de
-prazer agudo que a leitura conscienciosa de Balzac
-dá a um verdadeiro artista?</p>
-
-<p>Emilio Zola tambem descreve a sua época.</p>
-
-<p>É artista, porque sente e sabe fazer sentir.</p>
-
-<p>Diz-se imparcial!</p>
-
-<p>Faz viver nos seus livros a sociedade de que faz
-parte; entra nos palacetes de pedraria rendilhada<span class="pagenum"><a name="Page_247" id="Page_247">[247]</a></span>
-dos modernos financeiros, os reis do mundo actual,
-percorre os salões doirados e os <i>boudoirs</i> phantasistas,
-as salas de jantar, onde se reunem as reliquias
-mais preciosas de umas poucas de civilisações,
-janta nos <i>restaurantes</i> de mais fama, visita
-nos seus camarotes da <i>opera</i> ou dos <i>italianos</i> as
-mundanas mais elegantes, as <i>hautes gommeuses</i> mais
-admiradas e invejadas, está no segredo de todas
-as operações da Bolsa, escutou a uma porta todas
-as combinações e convenios diplomaticos, penetrou
-com a sua perspicacia tenaz no interior da alma
-que anima o seu tempo, fallou com os artistas,
-com os sabios, com os poetas, com as mulheres;
-subiu aos oitavos andares onde dormem amalgamados
-n'uma dolorosa e medonha promiscuidade os miseraveis
-d'essa Pariz, cuja superficie é tão seductora
-e tão brilhante; viu os farrapos que cobriam o corpo
-d'esses indigentes, e os vermes que corroiam a
-alma d'esses parias; escutou as perfumadas confidencias
-que murmuram devagarinho uns labios
-frescos e vermelhos, por detraz d'um leque onde
-dançam a <i>gavotte</i> umas pastorinhas de Watteau.</p>
-
-<p>Observou de perto o que ha de mais brilhante
-e o que ha de mais abjecto, o que ha de mais puro
-e o que ha de mais ignobil.</p>
-
-<p>D'essa observação tão variada e tão completa
-que resultado colheu?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_248" id="Page_248">[248]</a></span></p>
-
-<p>Não o posso dizer ao certo, sei só que não ha
-nada mais desolador e mais triste do que a leitura
-d'um livro de Zola.</p>
-
-<p>E Zola é, depois de Tlambert, o grande <i>mestre</i>
-que morreu, o escriptor de mais pulso da moderna
-geração realista.</p>
-
-<p>Os outros não téem o talento d'elle, não téem o
-alcance funesto ou bom, mas em todo o caso poderosissimo
-da sua obra, não téem a sua paciencia
-de benedictino, exercida com os processos da nova
-escola.</p>
-
-<p>Isto não é dizer mal dos que trabalham agora,
-é notar e assignalar um dos symptomas da confusão
-que hoje nos desnorteia.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Acudiam-me todos estes pensamentos, imagina
-como, leitora?</p>
-
-<p>Ao lêr um novo livro de Feuillet, ultimamente
-publicado em Pariz <i>Le journal d'une femme</i>.</p>
-
-<p>Feuillet é por excellencia o escriptor elegante e
-delicado.</p>
-
-<p>No fundo, póde ser que a obra d'elle tomada no
-seu conjuncto não seja de uma moralidade tão cauterisadora
-como a que resulta dos livros de Zola.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_249" id="Page_249">[249]</a></span></p>
-
-<p>Ninguem diga que Zola é um escriptor immoral,
-não; elle é simplesmente um escriptor mysantropo:
-vê as cousas pelo lado mais negro, e as
-suas bachanaes, nuas como são, não téem effeitos
-enervantes, doem como um caustico applicado sobre
-uma ulcera aberta.</p>
-
-<p>Ao lel-o, a gente não tem de certo tentações de
-imitar os seus deploraveis heroes; pelo contrario.
-Sente-se ferida, humilhada, quasi que angustiada,
-e exclama tristemente: Meu Deus! pois a humanidade
-é isto!</p>
-
-<p>Octavio Feuillet é, por assim dizer, o contraste
-do seu illustre contemporaneo.</p>
-
-<p>Escreve das mulheres e para as mulheres com
-penna d'ouro e nacar.</p>
-
-<p>Feuillet é o ultimo romantico, depois do romantismo
-ter morrido, como Balzac é o primeiro realista
-antes do <i>realismo</i> nascer.</p>
-
-<p>Para Feuillet, o delicado observador, as paixões
-são doenças da alma; para Zola, o anatomista implacavel,
-as paixões são doenças do corpo.</p>
-
-<p>O convulso e repugnante hysterismo das mulheres
-de Zola não tem nada que vêr com a sentimentalidade
-melancolica das mulheres de Feuillet.</p>
-
-<p>Nenhuma d'ellas&mdash;deixe-se isto bem claramente
-registrado para honra e felicidade do sexo feminino&mdash;nenhuma
-d'ellas é a verdadeira mulher, a que<span class="pagenum"><a name="Page_250" id="Page_250">[250]</a></span>
-tinha a obrigação de ser a mulher do futuro, já
-me não atrevo a dizer da que o será.</p>
-
-<p>Octavio Feuillet, que está talvez perto demais
-das cruas pinturas do realismo, intentou n'este seu
-ultimo livro, chamado <i>Le journal d'une femme</i>,
-rehabilitar as ideias romanticas, que visto perderem
-tantas mulheres, podem tambem salvar algumas.</p>
-
-<p>Elle que sabe tão bem dar vida ás suas pallidas
-e nervosas heroinas, que téem na bocca o sorriso
-da esphinge, que téem na voz uns feitiços mysteriosos,
-que téem no gesto uma graça irrequieta e
-caprichosa, que sabem arrastar o homem até á
-beira do crime com um aceno das suas mãos esguias
-e aristocratas, elle, o creador do Conde de
-Camors, esse ultimo producto da litteratura byroniana,
-que endoudeceu de <i>amor litterario</i> tanta
-mulher, eil-o que se propõe d'esta vez o difficil
-thema de explicar a que nobres e altos sacrificios
-o <i>romantismo</i> bem entendido póde levantar uma
-mulher.</p>
-
-<p>Foi arrojada a empreza; arrojada, mas feliz.</p>
-
-<p><i>Le journal d'une femme</i>, livro que eu já d'aqui
-recommendo a todas as minhas leitoras, é uma joia
-admiravel, cinzelada pela mão de um artista de
-coração.</p>
-
-<p>E depois são taes os exageros e desmandos da<span class="pagenum"><a name="Page_251" id="Page_251">[251]</a></span>
-chamada <i>escola realista</i>, é tal o amesquinhamento
-a que ella reduz a humanidade, que é bom que
-um escriptor de tão prestigiosa eloquencia como é
-<i>Octavio Feuillet</i> mostre que, no fim de contas, nem
-tudo era mau na geração que os moços de hoje
-tentam desthronar com tão arrogante desdem.</p>
-
-<p>Roubar ao homem e sobretudo á mulher aquelle
-ideal em que até agora todos punham a mira embora
-o julgassem inacessivel, é despir a vida das
-poucas flôres que ella póde ter.</p>
-
-<p>Não; o homem não é só um ser organisado que
-pensa, é tambem uma alma que ama, espera e crê!</p>
-
-<p>N'esta era de transformação e de incerta claridade,
-é bom que uma voz se erga e diga bem alto
-que a paixão só é criminosa quando mal dirigida,
-que o excesso do sentimento só é ridiculo quando
-mal applicado, que a abnegação inteira e absoluta
-tem gozos superiores a todos os gozos da materia,
-e que as almas boas e as almas grandes descobriram
-uma linguagem mysteriosa, na qual fallam
-com Deus.</p>
-
-<p>Não basta descrever minuciosamente com uma
-perversão de gosto, devéras deploravel, tudo que
-ha mau, grotesco, ou vicioso na creação; não basta
-ter em si tão accentuada preoccupação horrivel,
-que se deseje vêr com o microscopio do naturalista,
-para bem lhe distinguir os defeitos, as anfractuosidades,<span class="pagenum"><a name="Page_252" id="Page_252">[252]</a></span>
-as maculas, os vermes, de tudo
-que á simples vista seria harmonioso e bello.</p>
-
-<p>Áquelle a quem se roubam todas as illusões salutares
-cumpre apontar para algum bem que ainda
-lhe ficará na terra, bem verdadeiro que o compense
-de todas as suas perdidas alegrias mentirosas!</p>
-
-<p>Não basta negar, é necessario affirmar com convicção
-robusta; não basta demolir, é preciso ao
-lado dos edificios que se derrubam e desmoronam
-construir novos edificios mais ricos e mais seguros.</p>
-
-<p>Octavio Feuillet fez este livro, como um protesto
-de escola, sem comtudo perder com esta qualidade
-um tanto dogmatica, o seu interesse dramatico,
-a vida intensa, tão indispensavel ás verdadeiras
-obras d'arte.</p>
-
-<p>Dado o caso de se chamar romantismo ao excesso
-de certos e determinados sentimentos, á concepção
-mais ou menos chimerica que temos das
-cousas da vida, resta provar se o romantismo póde
-ou não póde ser nocivo conforme o terreno em que
-medrar e o meio em que se desenvolver.</p>
-
-<p>A principal heroina do romance, aquella que escreve
-o seu Diario, ao qual dá o titulo de livro, é
-uma rapariga apaixonadamente romantica, tudo
-quanto ha mais romantico, quer dizer tudo quanto
-ha de menos pratico e real.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_253" id="Page_253">[253]</a></span></p>
-
-<p>Por isso sendo moça, formosissima, sentindo
-cantar dentro da sua alma a festiva e triumphante
-symphonia dos vinte annos, tendo uma d'estas bellezas
-caracteristicas que dão a certas mulheres
-um aspecto de deusas, amando com aquella primeira
-e casta ternura das virgens um homem em
-tudo digno d'ella, sacrifica todas estas superioridades
-da natureza, todas estas radiosas promessas
-de felicidade a quem? a que?</p>
-
-<p>A um pobre mutilado que morria de amor por
-ella, a um soldado que voltára da guerra sem uma
-perna e sem um braço, informe, grotesco, irremediavelmente
-desgraçado, e que, assim mesmo do
-fundo do abysmo em que o destino o lançára, ousou
-amar aquella mulher olympica, e teve a audacia
-de tentar morrer por causa d'ella.</p>
-
-<p>Emquanto elle viveu, foi-lhe fiel como as mulheres
-dignas o sabem ser, consolou-o de tudo que
-perdera, levou a luz da sua caridade bemdita aos
-antros em que aquella pobre alma se debatera inutilmente
-por tanto tempo.</p>
-
-<p>Mais tarde quando o marido morre, abençoando-a
-como se abençôa um anjo, ella, livre de novo, torna
-a encontrar o homem que amou uma vez, e que
-não soube esquecer.</p>
-
-<p>Esse é então marido da amiga, da infancia, da
-juvenil viuva.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_254" id="Page_254">[254]</a></span></p>
-
-<p>Não são felizes, os dous, mas ella, a intrepida, a
-caridosa creatura, lá está tentando da abnegação
-de cada um d'elles fazer a felicidade de ambos.</p>
-
-<p>Não o consegue, e quando a amiga, culpada e
-arrependida se mata para fugir ao horror de mentir
-eternamente a seu marido, só ella no mundo
-recebe a confidencia do seu crime, confidencia que
-n'uma carta repassada de dôr a douda creança lhe
-pede que transmitta ao esposo ultrajado.</p>
-
-<p>Ficaram ambos livres em face um do outro, ambos
-viuvos, ambos tendo cumprido a missão que o
-destino lhe confiára.</p>
-
-<p>Nada os desune agora, nada, a não ser uma duvida
-que punge o animo d'aquelle, que hoje ella
-ama perdidamente com a paixão concentrada de
-tantos annos de sacrificio.</p>
-
-<p>&mdash;Porque foi que a minha mulher se matou?
-pergunta elle então. Ás vezes lembro-me que foi
-talvez o desamor que eu não soube occultar bastante.
-Se assim fôr, fugirei. Não quero gozar uma
-ventura de que não sou digno. Se eu matei uma
-innocente e casta creança, quem me dá direito a
-ser ainda feliz na terra?</p>
-
-<p>Só ella o sabe, só d'ella depende aquella ventura
-divina, de que o dever e a caridade a fizeram
-fugir n'outro tempo.</p>
-
-<p>Pois a ninguem revelou o segredo da sua amiga<span class="pagenum"><a name="Page_255" id="Page_255">[255]</a></span>
-morta, da doce creatura que a paixão fustigara e
-que a paixão matou!</p>
-
-<p>Calou-se, deixou que o noivo da sua alma se affastasse
-para sempre, pungido por um remorso que
-o separava da ventura, e olhando para o berço da
-filha escreveu estas palavras que vertem lagrimas,
-as santas lagrimas, que os <i>realistas</i> não conhecem:</p>
-
-<p>«Restas-me tu, minha filha... Escrevo estas
-linhas ao pé do teu bercinho... Espero que um
-dia estas paginas façam parte do teu enxoval de
-noiva; talvez ellas te digam que queiras muito á
-tua pobre mãe, tão romantica!... D'ella saberás
-talvez que a paixão e o romance podem ser bons,
-com a ajuda de Deus, porque elevam os corações
-e ensinam-lhes os deveres superiores, os grandes
-sacrificios, as elevadas alegrias da vida. É verdade
-que eu chóro ao dizer-te isto, mas olha que
-ha lagrimas que causam inveja aos anjos.</p>
-
-
-<div class="chapter">
-<hr class="chap" />
-</div>
-
-
-<h3 id="MADAME_DE_BALSAC">MADAME DE BALSAC</h3>
-
-
-<h4>I</h4>
-
-<p>Ha tempo annunciaram os jornaes que a viuva
-do grande romancista vinha fazer uma viagem á
-Peninsula e que partira já de Paris em direcção á
-capital de Hespanha.</p>
-
-<p>Senti então um impeto de curiosidade verdadeiramente
-irresistivel.</p>
-
-<p>Pensei em vêr a deliciosa russa e em conhecer
-n'ella humanado e visivel, um de aquelles immoredouros
-typos femininos, de que Balsac foi o analysta
-assombroso, se é que não foi o phantastico
-creador.</p>
-
-<p>Em Madame de Balsac havia de haver por força
-muito d'aquelle homem que é o producto mais<span class="pagenum"><a name="Page_258" id="Page_258">[258]</a></span>
-genuino da sua época e do seu meio; homem prodigio,
-que era ao mesmo tempo o espirito mais
-sceptico e o mais supersticioso, o mais corrupto e
-o mais infantil, o mais cultivado e o mais ignorante,
-o mais positivo e o mais phantasista, o mais
-atrozmente eivado de todos os venenos corrosivos
-da civilisação moderna, e o mais primitivo e adoravelmente
-poetico que existe no mundo da
-Arte.</p>
-
-<p>Ella conhecera-o por muitos annos, mesmo antes
-de ser sua mulher, amparara-o muitas vezes nas
-suas luctas cyclopicas contra os modernos monstros&mdash;a
-Divida, a Calumnia, a Inveja&mdash;e tantos
-outros que lhe retalhavam o coração com as garras
-sanguinarias; acolhera-o muitas outras, cançado,
-vencido, aniquillado, depois de uma d'aquellas
-vertiginosas viagens pelos mundos chymericos do
-Impossivel; vira-o partir montado no fogoso Pegaso
-do sonho. Imaginario terrivel, moderno e mais
-complicado D. Quichote, em busca de tesouros
-que nunca existiram, de fabulosas hypotheses em
-que ninguem acreditava, de ideaes entrevistos que
-lhe davam o deslumbramento extatico e paradisiaco;
-ouvira-lhe depois no seu regresso ao mundo
-da realidade o rir estrondoso e <i>rabelaisiano</i>, rir
-de um gigante em horas de gaudio, rir só digno
-d'aquella natureza robusta e fecunda em contrastes,<span class="pagenum"><a name="Page_259" id="Page_259">[259]</a></span>
-que tinha todos os requintes aristocraticos e
-todas as grossas expansões plebeias; conheçera-o
-a fundo, debaixo de todos os aspectos, e aos meus
-olhos havia n'ella uma attração extranha e magnetica
-como quem visitou o antro de um leão e o
-domou meigo e dôce aos seus pés pequeninos.</p>
-
-<p>Levei então horas e horas ideiando o meio porque
-me havia de approximar, eu obscura e desconhecida
-da illustre mulher, duplamente celebre pelo
-merito pessoal, e pelo genio de que era como que
-o reflexo vivo.</p>
-
-<p>Quando estava no meio d'estas locubrações inoffensivas
-aconteceu o que era de esperar: a condessa
-Hanskan de Balsac, entendeu que Portugal,
-o Portugal tão querido dos poetas patriotas, não
-era digno de uma visita sua.</p>
-
-<p>Resignei-me, portanto, a conhecêl-a sómente
-atravez de um livro que é a obra-prima de Balsac,
-o auctor de tantas obras primas que não morrem.</p>
-
-<p>Este livro é a <i>Correspondencia</i> do grande escriptor,
-publicada ha pouco pela casa Calmann Levy.</p>
-
-<p>Não conhecemos, podemos affoitamente confessal-o,
-livro mais dramatico, mais cheio de vida e
-de interesse, mais <i>empoignant</i>, permitta-se-nos o
-expressivo francezismo.</p>
-
-<p>N'estes dous volumes de cartas apparece-nos
-Balsac em toda a potencia da sua extraordinaria<span class="pagenum"><a name="Page_260" id="Page_260">[260]</a></span>
-individualidade, e conhecer Balsac é como que conhecer
-a sua época, a sociedade que o produziu e
-formou, os vicios, virtudes, preoccupações, sentimentos,
-ideias e paixões do seculo extraordinario,
-de que elle é a synthese mais completa, seculo
-agitado por esse poder fecundo e malefico chamado
-<i>Oiro</i> que tamanha influencia exerceu na vida
-intima de Balsac.</p>
-
-<p>Nos livros devidos á penna do fecundo escriptor,
-o oiro com o seu brilho fulvo, com as suas tentações
-diabolicas, com o seu cortejo de visões sinistras
-ou luminosas, com as suas miragens attrahentes
-e enganadoras, com as paixões phreneticas que
-elle cria, que elle excita, que elle exacerba, com
-os milagres de que é a fonte tantas vezes turva,
-com os explendores de que é o mais perfeito creador,
-o oiro, esse inimigo, esse auxiliar, esse idolo
-humano, scintilla, tremeluz, precipita-se em cascatas
-fulgidas, doira com o seu reflexo infernal todas
-as cousas, communica um não sei que de vertiginoso
-e satanico a todas as creaturas e a todos
-os objectos, produz allucinações doentias que desorientam
-e desvairam.</p>
-
-<p>Esta preoccupação, que tanto nos espanta nos
-romances eminentemente modernos de pintor mais
-perfeito e mais <i>realista</i> que a sociedade franceza
-do seculo XIX encontrou, transparece, na existencia<span class="pagenum"><a name="Page_261" id="Page_261">[261]</a></span>
-inteira do homem, e explica-se por todos os
-factos do seu agitado viver.</p>
-
-<p>Ganhar dinheiro, muito dinheiro, o que bastasse
-para saciar as ambições mais desregradas, os desejos
-mais insensatos, o ideal de luxo mais artistico
-e requintado, os sonhos mais orientaes de um
-<i>nababo</i> ebrio de <i>haschish</i>, eis o ficto que preencheu
-a vida de Balsac.</p>
-
-<p>Á primeira vista a gente imagina que o escriptor
-lhe sacrificou e subordinou tudo o mais.</p>
-
-<p>Engano!</p>
-
-<p>Emquanto aquella phantasia desenfreada e febril
-revolvia milhões, aspirava á opulencia das <i>Mil e
-uma noites</i>, se lançava nas mais doidas especulações,
-escavava minas que não havia, procurava
-thesouros occultos, se exhauria emfim n'uma lucta
-impossivel e tenaz contra a mediocridade da sua
-fortuna, o escriptor severo e consciencioso não sacrificava
-ao ganho nem uma diminuta parcella da
-sua legitima gloria.</p>
-
-<p>Os editores ajustavam pagar-lhe um livro por
-certa e determinada quantia, muitas vezes vantajosa
-para o orçamento do poeta, mas conhecendo-lhe
-a singularidade do caracter especificavam no
-contracto que o auctor só teria direito a receber
-um certo numero de provas, e que, excedido elle,
-as correcções seriam por sua conta.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_262" id="Page_262">[262]</a></span></p>
-
-<p>Muitas vezes todo o preço do romance era esgotado
-nas correcções que Balsac fazia á sua custa,
-tão elevada era a ideia que elle tinha da perfeição
-da Arte.</p>
-
-<p>Esmagado debaixo do peso das dividas, que todos
-os dias pagava e todos os dias cresciam, trabalhou
-como um titan, trabalhou sem descanço,
-sem treguas, com phrenezi, com paixão, com tenacidade
-de que só era capaz aquelle organismo
-d'uma robustez antiga, e ao mesmo tempo vibratil,
-nervoso, delicado como o de uma mulher.</p>
-
-<p>Chegou a escrever consecutivamente e sem descanço
-pelo espaço de quarenta e oito horas, conservando-se
-n'uma exaltação artificial, produzida
-pelo fortissimo café, que bebia em grandes doses.</p>
-
-<p>Quem deixaria de succumbir a esta vida de
-martyrio?</p>
-
-<p>Apesar do seu estranho vigor, aos cincoenta e
-um annos Balsac succumbia a um aneurisma,
-tendo produzido dezenas e dezenas de obras admiraveis,
-que bastariam, repartidas, para constituir
-a fama de vinte escriptores.</p>
-
-<p>Morreu com a penna na mão, tendo attingido as
-duas ambições supremas da sua vida; morreu sendo
-<i>amado</i> e sendo <i>celebre</i>, mas morreu antes de haver
-podido saborear no repouso e na dilatação tranquilla
-da alma o <i>amor</i> conquistado em annos e<span class="pagenum"><a name="Page_263" id="Page_263">[263]</a></span>
-annos de servidão cavalleiresca, de castidade monastica,
-de paixão secreta e delicada; a <i>celebridade</i>
-adquirida em trinta annos do mais infatigavel e
-violento labutar que ainda um espirito de homem
-concebeu e realisou.</p>
-
-<p>Quanto mais se estuda aquella vida singular,
-maior pasmo nos avassalla o entendimento.</p>
-
-<p>Todo elle era contrastes incomprehensiveis, dos
-quaes, no entanto, tinha a consciencia definida e
-clara.</p>
-
-<p>Pondo na bocca d'um dos seus protagonistas
-pensamentos que eram seus, diz elle analysando a
-sua propria vida:</p>
-
-<p>«Amante effeminado da preguiça oriental, namorado
-dos meus sonhos, sensual por temperamento,
-trabalhei sempre sem repouso, recusando-me a todos
-os gozos da vida parisiense; guloso, fui sobrio;
-gostando dos grandes passeios, das longas viagens
-maritimas, desejando conhecer todos os paizes da
-terra, vivi constantemente immovel, sedentario,
-com a penna na mão, amarrado á banca do trabalho;
-fallador, loquaz, communicativo, ia escutar
-em silencio os professores nos cursos publicos da
-bibliotheca e do museu; vivi solitario como um
-monge benedictino, e a mulher no entanto era a
-minha chimera unica, chimera sempre acariciada,
-e sempre esquiva.»</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_264" id="Page_264">[264]</a></span></p>
-
-<p>O que elle aqui não diz, mas o que mais d'uma
-vez lhe foge dos labios e dos biccos da penna,
-n'um grito doloroso e dilacerante de agonia prophetica,
-é que a morte implacavel ha de vir colhel-o
-no instante em que elle já extenuado de tantas
-luctas ia tocar a méta do seu desejar infrene.</p>
-
-<p>O que torna mais digno de um curioso estudo a
-indole litteraria de Balsac é a revelação feita pelos
-seus amigos e confirmada por elle proprio, da excessiva
-difficuldade, que o romancista encontrava
-para achar um molde adequado ao seu pensamento
-tão profundo e complexo.</p>
-
-<p>A palavra trahia-o a cada instante, a lingua,
-como a Galatheia da fabula, recusava-se a ceder
-ás febris solicitações do seu pensamento, fugia-lhe
-ondeante e caprichosa, e elle impotente, desesperado,
-ardendo em febre, luctava noites e noites
-com a fórma tyrannica que se não queria deixar
-domar!</p>
-
-<p>«N'essas batalhas nocturnas,&mdash;diz Théophile
-Gauthier, no admiravel estudo que consagrou a
-Balsac,&mdash;e das quaes o escriptor acabava de manhã
-despedaçado, mas vencedor, quando o lume do
-fogão se apagava e a atmosphera arrefecia, a cabeça
-d'elle exhalava fumo, e do seu corpo sahia
-uma especie de nevoeiro vizivel como do corpo
-dos cavallos em tempo de inverno.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_265" id="Page_265">[265]</a></span></p>
-
-<p>«Ás vezes uma só phrase occupava uma vigilia
-inteira; era empolgada, tornada a empolgar, torcida,
-amassada, martellada, allongada, encurtada,
-escripta de mil modos differentes, e coisa notavel!
-a fórma necessaria, absoluta, não apparecia senão
-depois de se haverem exgotado as fórmas approximativas.
-O metal, sem duvida, corria muitas vezes
-de um jacto mais cheio e mais solido, mas poucas
-paginas existem de Balsac que ficassem exactamente
-iguaes ao primeiro rascunho.»</p>
-
-
-<h4>II</h4>
-
-<p>É ainda Théophile Gauthier quem nos deixou
-de Balsac o retrato mais expressivo, aquelle que
-se nos affigura mais fiel.</p>
-
-<p>«Usava elle sempre, diz o escriptor já citado, em
-vez de <i>robe de chambre</i>, o habito de cachemira ou
-de flanella branca, preso á cintura por um cordão
-grosso, com o qual, mais tarde, se fez retratar por
-Luiz Boulanger.</p>
-
-<p>«Que phantasia o levára a escolher de preferencia
-aquelle vestuario que nunca mais deixou? Não
-o saberemos dizer.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_266" id="Page_266">[266]</a></span></p>
-
-<p>«Talvez que elle aos seus olhos symbolisasse a
-vida claustral a que o seu trabalho o condemnava,
-e, benedictino do romance, adoptara o trajo da
-sua vocação.</p>
-
-<p>«Como quer que seja, a verdade é que lhe ficava
-muito bem.</p>
-
-<p>«Gabava-se sempre mostrando-nos as suas mangas
-intactas, de não lhes haver jámais manchado
-a alvura com a menor nodoa de tinta, porque, dizia
-elle, «o verdadeiro homem de lettras deve ser
-aceiado no trabalho.»</p>
-
-<p>«O habito, um pouco aberto, deixava-lhe vêr o
-pescoço de athleta ou de touro, redondo como um
-troço de columna, sem musculos salientes, e de
-uma alvura assetinada, que fazia perfeito contraste
-com o tom mais colorido das faces.</p>
-
-<p>«N'essa época, Balsac, em todo o vigor da sua
-virilidade, apresentava indicios de uma saude violenta,
-pouco em harmonia com a pallidez esverdeada
-que o romantismo tinha posto á moda.</p>
-
-<p>«O puro sangue da Touraine fustigava-lhe as
-faces tintas de purpura vivaz, e dava-lhe um colorido
-quente aos grossos labios bondosos e espessos,
-tão accessiveis ao riso; um pequeno bigode e
-uma pêra impercetivel accentuavam-lhe os contornos
-sem os esconder; o nariz quadrado na extremidade,
-repartido em dois lobulos, de narinas amplas<span class="pagenum"><a name="Page_267" id="Page_267">[267]</a></span>
-e dilatadas, tinha um caracter inteiramente
-original e unico; a ponto de Balsac dizer a David
-de Angers em quanto este lhe modelava o busto:
-«Dê attenção ao meu nariz;&mdash;o meu nariz é um
-mundo!»</p>
-
-<p>«A testa era bella, vasta, nobilissima, muito
-mais branca do que o rosto, sem rugas, a não ser
-um sulco perpendicular; as protuberancias da memoria
-dos logares formavam uma saliencia pronunciadissima,
-por cima das arcadas superciliarias;
-os cabellos longos, abundantes, asperos e negros,
-arripiavam-se para traz como uma juba leonina.</p>
-
-<p>«Quanto aos olhos nunca houve outros que se parecessem
-com os d'elle.</p>
-
-<p>«Tinham uma vida, uma luz, um magnetismo inconcebiveis.</p>
-
-<p>«Apesar das longas vigilias nocturnas, a esclerotica
-conservava-se-lhe pura, limpida, azulada,
-como a de uma creança, ou a de uma virgem, e
-engastava dois diamantes negros, a espaços allumiados
-por oppulentos reflexos de ouro. Eram
-olhos para fazerem baixar as palpebras ás aguias;
-olhos capazes de lerem atravez das paredes e dos
-corações, de fulminarem uma féra furiosa: olhos
-de soberano, de vidente e de domador!»</p>
-
-<p>Madame de Girardin, no seu romance intitulado:<span class="pagenum"><a name="Page_268" id="Page_268">[268]</a></span>
-<i>A bengala do snr. de Balsac</i>, falla d'estes
-olhos esplendidos:</p>
-
-<p>«<i>Tancredo avistou então no cabo d'esta especie de
-masso, turquezas e ouro, cinzeladuras maravilhosas;
-e por detraz de tudo isto dois grandes olhos negros
-mais brilhantes que todas as pedrarias.</i></p>
-
-<p>«Logo que a gente encontrava o olhar d'estes
-olhos extraordinarios, não podia notar sequer o
-que as outras feições tinham de trivial ou de irregular.</p>
-
-<p>«As mãos de Balsac eram de rara formosura,
-verdadeiras mãos de prelado, brancas, de dedos
-pequenos e redondinhos, unhas roseas e brilhantes;
-era muito presumido d'ellas, e sorria-se de prazer
-quando via que as notavam».</p>
-
-<p>Diante d'este retrato é mais facil comprehender
-o escriptor com a sua admiravel potencia intellectual,
-e as suas pequenas manias pueris; sympathico,
-bom, com vaidades inoffensivas, e austeros
-orgulhos, sedento de um affecto <i>unico</i>, e de uma
-<i>celebridade</i> que fosse só d'elle.</p>
-
-<p>Nas suas cartas de uma eloquencia irresistivel,
-volteiam constantemente as duas grandes preoccupações
-da sua vida&mdash;<i>a gloria</i> e <i>a mulher</i>!</p>
-
-<p>«Tenho a alma profundamente triste, escreve
-elle. Só o trabalho me ampara na vida. Não haverá
-para mim no mundo a mulher a que eu aspiro? As<span class="pagenum"><a name="Page_269" id="Page_269">[269]</a></span>
-minhas melancolias e tedios physicos cada dia se
-aggravam mais, se tornam mais longos e mais frequentes.
-Cahir d'este trabalho esmagador ao <i>nada</i>
-mais completo! não ter nunca ao pé de mim aquelle
-doce e carinhoso espirito da mulher, por quem tenho
-feito tanto!»</p>
-
-<p>E fez! digam o que disserem os seus detractores,
-ninguem como elle comprehendeu a mulher,&mdash;principalmente
-a mulher do seu tempo,&mdash;nas
-suas fraquezas, nos seus crimes, nas suas delicadezas
-occultas, nas suas aspirações morbidas e
-doentias, nas exigencias despoticas da sua alma e
-dos seus nervos, nas abnegações sublimes de todo
-o seu sêr, nas suas vaidades ferozes, no esquecimento
-absoluto, na abdicação completa de qualquer
-egoismo, em tudo emfim que ella tem de
-bello e de feio, de grandioso e de ridiculo, de puro
-e de maculado.</p>
-
-<p>Que o digam Eugenia Grandet, a mais doce e
-mais melancolica das suas creações; <i>La Fossette</i>,
-idylica visão tão sympathica como a Mignon, e mais
-real do que ella; a condessa de Morsauf, a martyr
-do dever; a viscondessa de Bauseant, a duqueza
-de Langeais, madame de Restaud, lady Dudley, a
-monumental Valeria Marneffe, e tantas outras,
-tragicas peccadoras, fascinantes, demonios que
-teem filtros na voz e no olhar; productos de uma<span class="pagenum"><a name="Page_270" id="Page_270">[270]</a></span>
-civilisação gasta e apodrecida; figuras typicas que
-hão de ficar umas, caracteristicas da sua época e
-do seu meio, outras, eternas e sempre verdadeiras
-como a humanidade!</p>
-
-<p>Em Balsac ha muitas vezes expansões de candido
-orgulho que seriam ridiculas n'outro homem,
-e que a elle o tornam mais sympathico.</p>
-
-<p>Tem mais do que a consciencia clara do seu valor,
-tem uma confiança enorme em si, no seu talento,
-na sua obra, na sua missão.</p>
-
-<p>Imagina-se apto para todos os misteres, julga-se
-não só um grande romancista, mas alguma cousa
-menos&mdash;um grande politico!</p>
-
-<p>Escrevendo <i>Seraphita</i> e <i>Luiz Lambert</i>, duas
-obras que lhe foram inspiradas pelas suas leituras
-de philosophia espiritualista, e pelas tendencias
-<i>Swedenborgistas</i> que houve n'elle n'um dado momento
-da sua existencia, tão <i>intellectualmente</i> accidentada,
-julga preencher uma grande lacuna, produzir
-alguma cousa de grande que os seculos vindouros
-possam pôr ao lado do Fausto!</p>
-
-<p>Curiosa illusão do genio!</p>
-
-<p>Como se houvesse nada menos nebuloso, menos
-metaphysico do que esse vigoroso <i>realista</i>, observador
-potente para quem a vida com todas as paixões
-que a convulsionam e agitam não conservou
-um unico segredo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_271" id="Page_271">[271]</a></span></p>
-
-
-<h4>III</h4>
-
-<p>São de 1835 as primeiras cartas que na <i>Correspondencia</i>
-de Balsac apparecem dirigidas a madame
-Hanska, se bem que já de mais tempo dactassem
-as suas relações de pura e platonica amisade com
-a elegante e fidalga mulher, que muito mais tarde
-foi sua esposa.</p>
-
-<p>Duram cerca de dezesete a dezoito annos estas
-relações que o tempo modificou, e estreitou tão
-profundamente, mas desde a época em que esta
-mulher superior apparece no seu destino, a vida
-de Balsac tem um profundo e apaixonado interesse.</p>
-
-<p>Vinte horas por dia trabalhava elle então, para
-conseguir encher aquelle horrivel tonnel das Danaides,
-que era a sua divida!</p>
-
-<p>Apesar d'isso, lograva ainda roubar alguns instantes
-a este agro labutar, para escrever umas
-cartas que todos os criticos hão de consultar no
-futuro, para conhecerem a fundo a vida e o caracter
-do prodigioso escriptor.</p>
-
-<p>São caricias ideaes, interrompidas por calculos<span class="pagenum"><a name="Page_272" id="Page_272">[272]</a></span>
-monetarios, são queixas dilacerantes a que se segue
-uma longa risada de inoffensiva ironia; porque
-elle, que soube pintar tão bem os cynicos, os
-depravados, os terriveis escarnecedores, cujo riso
-corroia como um caustico, era no intimo bom,
-quasi infantil; depois confidencias, esperanças, sonhos
-politicos, sonhos financeiros, sonhos industriaes,
-planos gigantescos de trabalho, phantasias
-de artista, desejos de mulher garrida e bonita,
-observações profundas, divagações poeticas, melancolias
-de alma solitaria que ninguem na terra sabia
-entender.</p>
-
-<p>Entendia o ella, a adoravel slava, que vêmos
-atravez d'estas cartas, altiva para todos, consoladora
-e maternal para elle; grave, magestosa, fidalga
-como a sua velha raça, e no entanto cheia
-de graciosas delicadezas, que endoideciam de jubilo
-e de amor o plebeu namorado de todos os requintes
-aristocraticos, o trabalhador eternamente exilado
-de todas as alegrias do amor, o artista que
-tão bem sabia avaliar o lado elevado e bello de
-todos os sentimentos.</p>
-
-<p>É um estudo interessante e curiosissimo vêr
-como o tom ao principio respeitosamente affectuoso
-das cartas de Balsac vae seguindo gradações successivas
-e harmonicas, tornando-se terno, apaixonado,
-confiante, expansivamente amoroso.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_273" id="Page_273">[273]</a></span></p>
-
-<p>É que madame Hanska, quando elle a conheceu,
-é uma senhora casada e sinceramente virtuosa.</p>
-
-<p>O adoravel <i>monstro</i> parisiense de juba de leão e
-olhos de brilho fulvo e diamantino, poude attrahir-lhe
-a curiosidade, excitar-lhe a imaginação, seduzir-lhe
-o espirito, mas parou aqui o seu terrivel
-poder!</p>
-
-<p>E só depois de viuva, quando, sem crime, a altiva
-dama póde entregar-se á tendencia tão violenta
-do seu coração, é que ella o acolhe com o
-abandono de mulher amada e amante, que lhe
-deixa conceber esperanças que o fascinam, e que
-por fim as corôas, dando a sua fina mão branca,
-esguia, principesca, ao pobre artista, ao louco
-aventureiro do genio, que tão fiel e estremecidamente
-lhe quiz, em longos annos de casta abstenção.</p>
-
-<p>Mas elle trabalhara, luctara, padecera tanto;
-por tanto tempo desejara aquelle enlace, que era
-ao mesmo tempo a realização das suas chymeras
-de ambicioso, e dos seus sonhos de homem e de
-poeta; empregára tão violentos esforços para pagar
-até ao ultimo ceitil a sua enorme divida, para
-entrar desassombrado e digno na vida conjugal,
-em que, aos olhos d'esta sociedade ignorante, elle
-dava tão pouco e recebia tanto; realisára taes<span class="pagenum"><a name="Page_274" id="Page_274">[274]</a></span>
-prodigios para mobilar, como um artista millionario,
-o ninho em que havia de receber a adorada
-mulher que deixava por elle as pompas seculares
-da sua vida opulenta, que succumbiu ao excesso
-das fadigas e que ao tocar com os labios sofregos
-o pômo tantas vezes sonhado, o sentiu esvaír-se
-em cinzas, como em cinzas se esvaía a sua vitalidade
-opulenta!</p>
-
-<p>É esta lucta d'um tragico sublime, mais interessante
-do que todos os romances que Balsac escreveu,
-que se desenrolla com uma belleza maravilhosa
-na sua <i>Correspondencia</i>, cuja leitura aconselhamos
-sem hesitação a todas as nossas leitoras,
-cousa que não fariamos a respeito da obra do escriptor,
-apesar da sua incontestavel e radiante
-formosura.</p>
-
-<p>É preciso ler estes dois volumes para saber
-como o grande romancista soffreu e como se compram
-caras as glorias do genio, tão invejadas pela
-turba.</p>
-
-<p>«Não tenho nem uma hora para chorar, nem
-uma noite para descançar!», diz elle n'uma das
-suas cartas.</p>
-
-<p>Madame Hanska é comtudo para o titan, infatigavel
-e sempre vencedor, a suprema doçura, o
-balsamo ineffavel de todos os instantes.</p>
-
-<p>«<i>Ó</i> minha querida alma fraternal, tu és a santa,<span class="pagenum"><a name="Page_275" id="Page_275">[275]</a></span>
-a nobre, a dedicada creatura a quem eu entrego
-toda a minha vida e toda a minha felicidade com
-a mais ampla confiança! Tu és o pharol, a estrella
-luminosa e <i>la sicura richezza senza brama</i>! Em ti
-comprehendo tudo, até as tuas tristezas e por isso
-as amo tanto! Comtigo a <i>sociedade moral</i> não existe!
-eis o grande segredo, o segredo supremo de
-felicidade.»</p>
-
-<p>Mas para que havemos de fazer citações sempre
-incompletas e sempre inuteis?</p>
-
-<p>Quem quizer conhecer a que foi esposa e hoje é
-viuva d'um dos maiores genios da França, que
-leia o livro de que temos extrahido rapidos trechos.</p>
-
-<p>Vel-a-ha serena, intelligente, instruida, não bella
-d'aquella belleza juvenil, que agrada aos mais profanos,
-mas da grave formosura, que envolve o outomno
-da mulher n'uma nuvem de indefinivel saudade,
-sabendo curvar a sua gentil e orgulhosa cabeça
-de <i>madonna</i> ao jugo d'uma elevada ternura,
-e comtudo conservar intacta a sua dignidade de
-senhora, duplamente illustre pela virtude e pelo
-nascimento; tendo para o genio a admiração e a
-indulgencia; comprehendendo com uma finura toda
-feminil, feita de talento e de experiencia, o que ha
-de infantil n'um grande homem, o que ha de fraqueza
-n'uma potencia intellectual, abdicando todas<span class="pagenum"><a name="Page_276" id="Page_276">[276]</a></span>
-as falsas vaidades, cultivando em si todos os verdadeiros
-orgulhos, n'uma palavra a mulher completa,
-tal como a sonhamos e como quereriamos
-vel-a mais vezes realisada.</p>
-
-<div class="chapter">
-<hr class="chap" />
-</div>
-
-
-<h3 id="LINCOLN_E_GRANT">LINCOLN E GRANT</h3>
-
-
-<p>De vez em quando a tela monotona d'esta nossa
-vida de Lisboa, unicamente bordada de pequeninos
-<i>cancans</i> politicos, litterarios e sociaes, rompe-se
-com a chegada, ou para melhor dizer, com a passagem
-de um viajante illustre.</p>
-
-<p>Em geral os viajantes que por cá apparecem
-não <i>chegam</i>, <i>passam</i>.</p>
-
-<p>É mais verdadeiro o verbo, embora lisongeie
-muito menos a vaidade nacional.</p>
-
-<p>Este nosso modesto <i>Jardim da Europa á beira-mar
-plantado</i>, como a caridosa phantasia do poeta
-do <i>D. Jayme</i> lhe chamou, tem poucos attractivos
-que chamem os viajantes.</p>
-
-<p>D'entre os que nos teem visitado, só um, e esse
-na sua qualidade de mulher tinha amplo direito
-para se entreter com devaneios illusorios, só<span class="pagenum"><a name="Page_278" id="Page_278">[278]</a></span>
-um&mdash;M.<sup>me</sup> Ratazzi&mdash;descobriu em nós qualidades
-extraordinarias que nos vaticinam brilhante futuro,
-além de nos dotar de genios pouco vulgares,
-de obscuros Shakespeares, para quem soará brevemente
-a hora gloriosa da fama universal.</p>
-
-<p>A propria M.<sup>me</sup> Ratazzi se offereceu bizarramente
-para apressar essa hora, que já ia tardando,
-não só pondo em prosa franceza a prosa dos
-nossos escriptores, como tambem encarregando-se
-ella propria de personalisar, n'um dos eternos <i>theatrinhos</i>
-que anda armando por toda a parte, as
-creações mais ou menos formosas dos ditos Shakespeares,
-desconhecidos.</p>
-
-<p>Será bom que a gente peça a Deus d'aqui por
-diante nas suas orações mais fervorosas não excitar
-a dedicada admiração d'aquella illustre, mas
-indiscreta dama!</p>
-
-<p>Quem lhe manda a ella andar apreguando lá
-por fóra nossas glorias!</p>
-
-<p>Nós bastamos ao menos para nos applaudirmos
-mutuamente.</p>
-
-<p>A que vem, porém, todas estas divagações? pergunta
-de certo a leitora.</p>
-
-<p>E pergunta com muita justiça, porque a minha
-imaginação, está <i>folle du logis</i> indisciplinada, não
-tem direito para cansar assim a benevola attenção
-dos que me lêem.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_279" id="Page_279">[279]</a></span></p>
-
-<p>Vinha tudo isto a proposito de ter estado ha
-pouco entre nós, vindo embarcar no nosso porto,
-o general Ulysses Grant, um dos vultos mais importantes
-da moderna historia.</p>
-
-<p>O apparecimento d'este homem modesto, que foi
-um heróe, além de ser um grande cidadão, pouca
-ou nenhuma impressão produziu no espirito dos
-lisboetas.</p>
-
-<p>Porque, emfim, sejamos justos, o general Grant
-que direito podia ter á fervida admiração dos seus
-contemporaneos?</p>
-
-<p>O general Grant não inventou, como o seu patricio
-Boyton, um apparelho de borracha para andar
-por cima d'agua; o general Grant não é um
-palhaço afamado dos que attrahem o <i>High life</i> ao
-circo Price; o general Grant não tem nem a voz
-de <i>Manrico</i> ou de <i>Arthur</i>, nem a capa e o chapeu
-de pluma d'estes cavalheiros; o general Grant não
-passa de um homem muito vulgar, que salvou o
-seu paiz na guerra, e que o reconstruiu, desenvolveu,
-fortificou e engrandeceu durante a paz!</p>
-
-<p>Que significarão estas cousas para quem só gosta
-de aventureiros e de <i>poseurs</i>?</p>
-
-<p>Nós, porém, é que, lendo que chegara á cidade
-em que vivemos o ex-presidente dos Estados-Unidos
-da America, tivemos curiosidade de lançar um
-relance de olhos, comquanto rapido, sobre a vida<span class="pagenum"><a name="Page_280" id="Page_280">[280]</a></span>
-d'esse homem singular, d'esse moderno luctador,
-vida que se nos afigura um estudo proprio para
-levantar e robustecer o espirito dos que acreditam
-nos futuros destinos da democracia.</p>
-
-<p>Não é possivel separar na historia os dous nomes
-de Lincoln e de Grant.</p>
-
-<p>Ambos combateram pela mesma nobre causa,
-ambos concorreram igualmente para o seu grande
-e difinitivo triumpho.</p>
-
-<p>O nome de Lincoln tem a suprema aureola que
-dá o martyrio, o nome de Grant tem o prestigio
-fascinador que dá a heroicidade.</p>
-
-<p>Nenhum conhece o apparato, a ostentação,
-esta humilde vaidade que torna os povos latinos
-tão doudamente namorados de tudo que fulgura.</p>
-
-<p>Ambos elles pertencem profundamente, mais
-ainda pelo caracter do que pelo nascimento, ao
-paiz de que são filhos.</p>
-
-<p>Paiz estranho, gigantesco, sempre agitado, onde
-o homem tem campo vasto para desenvolver a sua
-multipla actividade, para exercitar e pelo exercicio
-permanente robustecer as suas varias e complexas
-faculdades, e onde, tendo de dever sómente
-ás suas forças individuaes a elevação a que forçosamente
-aspira, elle tem de empregar n'essa lucta
-de ambições fecundas todos os recursos, todas as<span class="pagenum"><a name="Page_281" id="Page_281">[281]</a></span>
-energias da sua intelligencia, todas as riquezas da
-sua organisação.</p>
-
-<p>O que ha de extraordinario n'estes dous homens
-é que ambos alcançaram o mesmo fim, ambos partiram
-da mesma origem, e comtudo não ha nada
-mais divergente do que o caracter d'elles e os meios
-que empregaram para subir ao mesmo posto supremo
-da sua nação.</p>
-
-<p>É fóra de toda a duvida que hoje a ideia democratica
-tende a triumphar por toda a parte.</p>
-
-<p>É uma ideia que germinou ha dezenove seculos,
-e que, antes de bracejar e florir á luz crua do dia,
-lançou até ás entranhas da terra as suas raizes
-vigorosas, cresceu, medrou, sugou a mais exhuberante
-e a mais substanciosa seiva, minou lentamente
-tudo que lhe ficava em torno, e, quando
-emfim appareceu a todos os olhos, já vinha forte
-e robusta demais para que ousassem derrubal-a.</p>
-
-<p>A democracia não é um modo de ser transitorio
-das sociedades modernas; quando as leis e os costumes,
-quando os acontecimentos e os homens, se
-modificaram e transformaram á sua grande voz,
-já ella tinha direito de asylo em todas as consciencias.</p>
-
-<p>Os que a repulsam não desconhecem o feio crime
-que perpetram.</p>
-
-<p>Os que a atacam são movidos pelo seu proprio<span class="pagenum"><a name="Page_282" id="Page_282">[282]</a></span>
-interesse, que ella muitas vezes tem de magoar ou
-de destruir, mas nunca pela sinceridade das suas
-convicções.</p>
-
-<p>A democracia bem entendida não póde separar-se
-da ideia da justiça.</p>
-
-<p>Desde que uma despontou sobre a terra, outra
-começou a apparecer imponente e irresistivel ao
-espirito dos que sabem ler em vagos prenuncios as
-transformações fataes de que teem de ser theatro
-as sociedades.</p>
-
-<p>A democracia não está, pois, destinada a morrer
-como as outras fórmas sociaes que a precederam,
-e que não foram senão a lenta preparação do seu
-triumpho, comquanto pareçam as suas inimigas
-irreconciliaveis.</p>
-
-<p>Entre os elementos que constituiram o passado,
-e os que vão constituir o futuro, não ha inimizade,
-ha incompatibilidade.</p>
-
-<p>Uns teem de succumbir para que os outros
-triumphem, eis tudo.</p>
-
-<p>N'esta grande evolução que nunca pára, o que
-ás vezes se nos afigura mais contrario a uma causa
-é justamente aquillo que lhe está preparando a victoria
-absoluta.</p>
-
-<p>É bom que tenhamos isto sempre bem presente,
-para que não sejamos accintosamente inimigos do
-que foi, nem loucamente vaidosos do que vai ser.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_283" id="Page_283">[283]</a></span></p>
-
-<p>Os acontecimentos não são nunca o resultado de
-uma causa isolada; são a consequencia fatal de
-uma lei relacionada com todas as outras, parte
-que está em perfeita harmonia com o seu conjuncto.</p>
-
-<p>A geração de hoje, e a que foi sua predecessora,
-fizeram muito, é verdade, em favor da causa
-democratica, porém não foram ellas que no curto
-espaço de um seculo semearam o germen, regaram
-a planta, a viram transformada em arvore gigantesca,
-e lhe colheram os fructos abençoados.</p>
-
-<p>Seria demais para tão pouco tempo.</p>
-
-<p>É bom que o repitamos: ha dezenove seculos
-que a humanidade caminha, sem parar um só instante.</p>
-
-<p>Tem tido dias que podem chamar-se seculos, e
-em compensação tem tido seculos que pódem chamar-se
-dias; em todo o caso, é porque ella ainda
-não estacionou que hoje avista emfim o ponto a
-que se dirigia.</p>
-
-<p>Tenhamos o santo orgulho do que temos feito,
-mas não desprezemos o que os outros fizeram antes
-de nós.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_284" id="Page_284">[284]</a></span></p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>A America é o paiz em que o pensamento democratico
-tem tido mais pratica e mais positiva
-realização.</p>
-
-<p>Sem entrarmos em considerações que seriam inopportunas,
-sem analysarmos todas as condicções
-excepcionaes que favoreciam este povo, para que
-elle pudesse, mais do que nenhum outro, dar uma
-forma real ao que tem sido o sonho de tantos utopistas
-e de tantos martyres, basta-nos percorrer
-rapidamente a vida dos dous homens notaveis de
-que fallamos para conhecermos a fundo quanto os
-costumes, as ideias, as leis, os sentimentos do
-povo americano estão profundamente penetrados
-do principio da <i>igualdade de condições</i>, que é no
-fim de contas a base de toda a verdadeira democracia.</p>
-
-<p>Tanto Lincoln como Grant sahiram das mais
-humildes posições sociaes.</p>
-
-<p>Lincoln foi até aos vinte annos carpinteiro e
-barqueiro; Grant foi até aos trinta e tantos annos
-operario como seu pae, operario humilde e obscuro.</p>
-
-<p>Se me perguntarem qual dos dous me inspira
-mais sympathia, responderei que prefiro Lincoln.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_285" id="Page_285">[285]</a></span></p>
-
-<p>Ambos teem a suprema distincção da honestidade,
-esta virtude moderna, que é indispensavel
-aos grandes homens, os quaes tinham d'antes ampla
-licença para serem aventureiros felizes, sem
-por isso deixarem de ser admiraveis e admirados.</p>
-
-<p>Mas, emquanto Grant é simplesmente um homem
-de energia inquebrantavel, e de espirito positivo
-e clarissimo, Lincoln, que é tambem isso,
-é mais ainda do que isso, porque é uma alma de
-poeta.</p>
-
-<p>De poeta, sim; não se riam, minhas queridas
-leitoras.</p>
-
-<p>A poesia que se escreve é muito inferior áquella
-que se sente e que se pratica.</p>
-
-<p>Não admira que a alma do martyr americano se
-colorisse na mocidade de todas as tintas opulentas
-da genuina poesia.</p>
-
-<p>Elle conhecêra de perto a natureza grandiosa
-do seu paiz; ouvira, humilde, pobre, talvez inconsciente,
-o que diz no silencio das noites ou no
-acordar festivo das madrugadas a voz sonora, grave,
-religiosa das florestas insondaveis.</p>
-
-<p>Depois, o seu primeiro livro, aquelle em que
-aprendeu a lêr na obscura escola da terra em que
-vivia, o que mais o inspirou, o que lhe deu adoraveis
-côres para as suas tão finas parabolas, eloquencia
-e uncção para advogar a causa de tantos<span class="pagenum"><a name="Page_286" id="Page_286">[286]</a></span>
-milhões de parias, arrojo, audacia e valor para
-proclamar a redempção dos seus irmãos escravos&mdash;e
-escravos na terra onde uns poucos de homens
-intemeratos tinham vindo erguer o estandarte da
-liberdade, desconhecido na Europa&mdash;o livro, emfim,
-da sua mocidade foi a Biblia, o grande, o immutavel
-poema, o maior de todos, porque não é o
-poema de um homem, é o poema de um povo.</p>
-
-<p>Lincoln teve, como todos os poetas do coração,
-o culto mais profundo pela mãe.</p>
-
-<p>&mdash;Tudo que sou a ella lh'o devo,&mdash;dizia.</p>
-
-<p>E, no entanto, ella morrêra-lhe quando o filho
-contava apenas dez annos, e fôra em vida uma
-creatura simples, uma alma ingenua e ignorante.</p>
-
-<p>Quem póde, porém, affirmar que não existisse
-uma communhão mysteriosa entre a alma da mãe
-e o espirito do filho!</p>
-
-<p>Quem sabe se a ella lhe faltou apenas cultivo
-esmerado para ser uma creatura superior, e se a
-creança rude e obscura, que foi mais tarde o grande
-homem e o grande martyr, não deveu as qualidades
-que o tornaram tão distincto á influencia occulta
-da que o gerou no seio?</p>
-
-<p>Como quer que seja, a verdade é que o pobre
-operario conseguiu á força de estudo&mdash;estudo
-ainda assim que nada teve de methodico&mdash;improvisar-se
-advogado.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_287" id="Page_287">[287]</a></span></p>
-
-<p>Lincoln n'esta nova posição, conquistada pela
-sua energica vontade, tinha uma singularidade que
-deve espantar altamente: só acceitava a defeza de
-causas justas.</p>
-
-<p>A feição mais caracteristica do espirito de Lincoln
-é uma jovialidade conceituosa, uma malicia
-benevola, uma graça de moralista, que faz das fabulas
-e das parabolas armas infalliveis de argumentação.</p>
-
-<p>Nunca se deu ao trabalho de improvisar arrojos
-de eloquencia, tinha sempre ao serviço das
-suas convicções umas anecdotas a um tempo cheias
-de graça e de bom senso, umas pequenas historias
-que deitavam por terra toda a laboriosa rethorica
-dos adversarios.</p>
-
-<p>Aos trinta annos o advogado modesto viu-se de
-repente orador popular e candidato á legislatura
-da sua terra.</p>
-
-<p>Não que elle fizesse nenhum d'esses discursos
-tribunicios que arrastam e enthusiasmam as massas,
-mas sempre pela força irresistivel do seu bom
-senso, que era tão raro e tão completo, que o punha
-a par dos homens de genio.</p>
-
-<p>Todos conhecem a vida de Lincoln, que, depois
-de ser um dos oradores mais populares e mais
-queridos das reuniões publicas do seu paiz, foi
-duas vezes eleito presidente dos Estados-Unidos,<span class="pagenum"><a name="Page_288" id="Page_288">[288]</a></span>
-e durante os ultimos annos da sua vida gloriosa
-sustentou e venceu uma das guerras mais assoladoras
-dos modernos tempos, e arrancou da terra
-que lhe deu o sêr essa lepra&mdash;hoje felizmente
-desconhecida no mundo civilisado&mdash;que se chama
-escravidão!</p>
-
-<p>Foi pouco tempo depois de ter assignado o decreto
-que remia dos horrores do captiveiro quatro
-milhões de desgraçados, que Lincoln, um dos heróes
-da humanidade, um dos santos, um dos conquistadores,
-um dos martyres de que falla com
-mais louvor a historia, cahiu morto, ás mãos covardes
-de um assassino!</p>
-
-<p>Nada mais pathetico e de uma tristeza mais
-commovente e mais profunda do que a descripção
-do funeral do libertador da patria, do grande
-emancipador da raça escrava.</p>
-
-<p>O seu cadaver, consagrado pela admiração
-d'esse povo gigante, foi levado de capital em capital,
-desde Washington até á pequenina cidade de
-Springffel, patria de sua mocidade laboriosa e humilde.</p>
-
-<p>Foi um caminho de triumpho, que lembrava,
-mas de bem diverso modo, o caminho que elle andara
-em vida, desde a sua terra pequena e pobre,
-até á grande capital, onde o tinham levantado á
-primeira magistratura do paiz.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_289" id="Page_289">[289]</a></span></p>
-
-<p>D'alli voltava elle agora, martyr da sua causa
-que era a causa da patria, da humanidade da pura
-democracia, e que deixára vencedora e triumphante.</p>
-
-<p>Não póde haver existencia mais cheia, não póde
-haver gloria mais pura, nao póde haver destino
-mais digno de admiração.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Grant, que fôra desconhecido até muito mais
-tarde do que Lincoln, revelou-se d'outro modo á
-attenção dos seus patricios.</p>
-
-<p>Longe de ter a facilidade graciosa do espirito
-do seu predecessor, o espirito de Grant era acanhado
-e silencioso. Na infancia e na mocidade nenhuma
-superioridade visivel o distinguia dos seus
-companheiros.</p>
-
-<p>Educado á custa do Estado na escola de West-Point,
-sahio d'alli como alferes graduado do 4.<sup>o</sup>
-regimento de infanteria, e partindo para a guerra
-do Mexico, distinguiu-se ás ordens do general Taylor
-no cerco de Vera Cruz.</p>
-
-<p>Depois de sete annos de serviço, em que se
-mostrou sempre militar valente, pediu a sua demissão,
-e estabeleceu-se como simples rendeiro no
-Missouri, proximo de S. Luiz.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_290" id="Page_290">[290]</a></span></p>
-
-<p>Muito pobre, se bem que muito trabalhador,
-tendo já quatro filhos, Grant não tinha remedio
-senão ir elle proprio vender as madeiras da sua
-matta á cidade de S. Luiz, e muitos habitantes
-d'essa cidade se hão de lembrar ainda de vêr aquelle
-homem agil, laborioso, calado, quasi mudo, passar
-na sua carroça, ao galope dos cavallos, que
-sempre teve bons, descarregar a lenha que trazia,
-e partir de novo, tão mal trajado, que muitos dos
-seus antigos camaradas do exercito se envergonhavam
-de se darem por conhecidos d'aquelle grotesco
-figurão.</p>
-
-<p>Não lhe correu, porém, favoravel a fortuna, apesar
-da energia com que elle trabalhava.</p>
-
-<p>E o futuro presidente dos Estados-Unidos, cançado
-de luctar em vão contra a má sorte, voltou
-para junto da sua familia, que toda vivia do commercio
-dos couros, e começou tambem a trabalhar
-n'este humilde ramo de industria.</p>
-
-<p>Foi d'esta posição, de que na nossa aristocratica
-Europa ninguem era capaz de sahir, por mais que
-soubesse e por mais que valesse, que Grant subiu
-a commandante em chefe do exercito dos Estados-Unidos,
-e depois a presidente da Republica.</p>
-
-<p>Como? porque?</p>
-
-<p>Eis o que só se comprehende comprehendendo
-bem a indole do povo americano.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_291" id="Page_291">[291]</a></span></p>
-
-<p>Subiu mesmo pelos motivos que entre nós inutilisam
-os homens.</p>
-
-<p>Subiu porque conhecia a miseria e o trabalho;
-por que não o amedrontava o perigo, porque tinha
-a energia concentrada e omnipotente dos que,
-tendo nascido para altas emprezas, são longos tempos
-esmagados pela desgraça.</p>
-
-<p>Elle era destemido e energico, tinha&mdash;não a
-instrucção&mdash;mas a intuição guerreira; antes d'elle
-o norte fôra sempre vencido pelo sul, na terrivel
-guerra civil, que começára em 1861; depois d'elle
-apparecer succederam-se rapidas e brilhantes as
-victorias do norte.</p>
-
-<p>Em 1865 a auctoridade federal restabelecia-se
-em todo o territorio dos Estados-Unidos, o
-general Lee aceitava a capitulação de Richmond,
-e Lincoln entrara na cidade que o fogo destruira,
-descobrindo-se diante dos miseraveis negros,
-que recebiam pela primeira vez n'aquella homenagem,
-a confirmação da sua dignidade de homens.</p>
-
-<p>Foi um anno de triumphos devidos á audaciosa
-iniciativa do general Grant, que além da bravura
-do soldado, tinha em alto grau a bravura do general.</p>
-
-<p>Tão excepcional foi sempre a sua energia, como
-são raras as suas palavras.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_292" id="Page_292">[292]</a></span></p>
-
-<p>Os seus ditos, de uma concisão antiga, nas horas
-de crise de sua vida, são dignos de ficarem registrados
-pela historia.</p>
-
-<p>Nenhuma ostentação, nenhuma pretenção nos
-seus modos excepcionaes.</p>
-
-<p>Na carreira triumphal de militar e de cidadão
-conservou o seu feitio de rude agricultor ou de
-obscuro operario.</p>
-
-<p>Não admira que a morte de Lincoln désse o posto
-supremo a Grant.</p>
-
-<p>Lincoln fôra o advogado de uma causa da qual
-Grant foi o guerreiro.</p>
-
-<p>A herança era logica a natural.</p>
-
-<p>Quando o elegeram presidente, Grant respondeu
-com esta simples carta á communicação que
-recebera:</p>
-
-<p>«Procurarei applicar as leis com boa fé, e serei
-economico. Tenhamos paz, emfim.»</p>
-
-<p>Esta carta define-o.</p>
-
-<p>Elle não tinha levantadas theorias, não tinha
-planos concebidos, não tinha presumpçosos systemas.</p>
-
-<p>Estava resolvido a ter economia, boa fé, respeito
-ás leis.</p>
-
-<p>Todo o segredo de uma administração magistral.</p>
-
-<p>E quantos obstaculos encontrára!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_293" id="Page_293">[293]</a></span></p>
-
-<p>Tudo em roda d'elle eram vestigios do assolador
-flagello que passára, desvastação, fome, miseria;
-que vasto campo, e ao mesmo tempo que missão
-perigosa e difficil!</p>
-
-<p>Pois cumpriu-a.</p>
-
-<p>Cinco annos depois de finda a guerra já o exercito
-estava dispersado; mais de oito mil homens
-tinham ido com os seus braços dar um novo impulso
-á agricultura, á industria, ao commercio, a
-todos os ramos uteis da actividade de um povo.</p>
-
-<p>As leis eram rigorosamente executadas, a divida
-diminuira, a protecção aos antigos escravos estava
-plenamente confirmada, a America emfim entrava
-definitivamente em uma phase de reconstrução
-e de prosperidade.</p>
-
-<p>E tudo isto se devia á energia, á intelligencia,
-á actividade de um só homem.</p>
-
-<p>E este homem, tão modesto na apparencia, tão
-laconico nas fallas, tão simples no viver, este homem
-que recusa recompensas apparatosas, porque
-julga que a suprema recompensa é a da propria
-consciencia, este homem que póde apresentar-se
-como a personalisação da democracia moderna, é
-o mesmo que Lisboa ha pouco viu passar com a
-estupida e distrahida indifferença que ella tem para
-tudo que é verdadeiramente grande, e por isso
-mesmo despretencioso e simples.</p>
-
-<div class="chapter">
-<hr class="chap" />
-</div>
-
-<h3 id="AS_FILHAS_DE_VICTOR_HUGO">AS FILHAS DE VICTOR HUGO</h3>
-
-
-<p>Ha pouco tempo um escriptor francez desconhecido
-entre nós, o sr. Gustavo Rivet, publicou um
-livro intitulado <i>Victor Hugo chez lui</i>, no qual pinta
-o grande poeta francez, surprehendido, por assim
-dizer, na intimidade dos seus pensamentos, de seus
-gostos, das suas attitudes mais familiares.</p>
-
-<p>Desce do pedestal onde a nossa phantasia se
-compraz em o collocar, o poeta da <i>Lenda dos Seculos</i>,
-e mostra-nol-o com a <i>robe de chambre</i> e os
-pantufos de qualquer honesto <i>rentier</i> do Marais.</p>
-
-<p>Victor Hugo não perde em ser visto assim.</p>
-
-<p>A sua alma amantissima, desnudada diante do
-nosso olhar corresponde positivamente a tudo que
-d'ella esperavamos.</p>
-
-<p>O avô brincando no tapete do seu quarto de
-trabalho com a graciosa Joanninha que a <i>Art d'être
-grand père</i> immortalisou, não desmente de modo
-algum o justiceiro implacavel dos <i>Châtiments</i>.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_296" id="Page_296">[296]</a></span></p>
-
-<p>Comtudo não é o pae de familia, que nós vamos
-hoje estudar em Victor Hugo, como o nosso
-titulo um tanto phantasista parece estar indicando.</p>
-
-<p><i>As filhas de Victor Hugo</i>, que nós tentaremos
-apresentar diante dos olhos das leitoras, não são
-as filhas do seu matrimonio de simples mortal, são
-as radiosas filhas do seu genio, as visões illuminadas
-que elle evocou com palavras de mysterioso
-encantamento d'esse Olympo inaccessivel onde vivem
-e nascem as creações immortaes dos grandes
-artistas.</p>
-
-<p>Para nós que temos vivido da palavra do mestre,
-que temos seguido com enternecimento apaixonado
-todas as phases do seu espirito, essas mulheres
-ideaes é que são as suas verdadeiras filhas.
-Que nos importam as outras no fim de contas, se
-atravez d'estas é que elle se revelou tal como é?</p>
-
-<p>Todos os artistas de primeira ordem criam um
-typo de mulher, em que consubstanciam e sinthethisam
-todos os sonhos que tiveram, todas as aspirações
-que tem concebido.</p>
-
-<p>A mulher que elles fazem viver com a penna, se
-são poetas, com o escopro ou com o pincel, se são
-estatuarios ou pintores, não é como alguns querem
-que seja, a mulher que elles amaram: é mais do
-que isso, é a mulher que elles queriam amar!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_297" id="Page_297">[297]</a></span></p>
-
-<p>Para essa é que a sua lyra tem cantos mais ardentes,
-o seu cinzel mais avelludadas caricias, a
-sua palêta côres mais suaves, a sua penna traços
-mais vivos, analyses mais delicadas, intenções mais
-graciosas e mais finas.</p>
-
-<p>E como o coração dos homens é tão vasto que
-n'elle cabem dous cultos que se não prejudicam
-mutuamente, quasi sempre esses artistas de que
-fallamos tratam com o mesmo primoroso esmero
-dous typos de mulher bem diversos, e que representam
-como a dupla face do seu modo de sentir.</p>
-
-<p>Um d'elles personifica a virginal creança cujas
-seducções mais irresistiveis se chamam innocencia,
-pudor, candura, ou ignorancia; lyrios que o orvalho
-da manhã corôa com um diadema de perolas,
-lyrios que uma aragem mais quente crestaria, e
-que o contacto de uns dedos brutaes lançaria por
-terra murchos e amarrotados. Outro, a mulher na
-plena posse da sua perigosa soberania, a mulher
-sereia que encanta e embriaga e mata, consciente
-dos seus maleficios, e gosando do seu fatal poder!</p>
-
-<p>Consoante o espirito do artista se enamora da
-sombria belleza do mal, ou da immaculada candura
-do bem, assim elle trata com mais delicada predileção
-o <i>eterno feminino</i> que representa uma das faces
-do mesmo problema insoluvel.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_298" id="Page_298">[298]</a></span></p>
-
-<p>Porque o homem grande ou pequeno, intelligente
-ou mediocre, ha de sempre amar a mulher debaixo
-de qualquer d'estas duas formas, ou antes debaixo
-d'ellas ambas.</p>
-
-<p>Até os bons nas suas horas de perversão, nas
-crises em que no coração d'elles triumpha a <i>porção
-de dominio</i> que ha até mesmo na alma dos anjos,
-hão de sentir-se attrahidos por este mysterio
-luminoso e sombrio, que na arte pagã se chamou
-Circe ou Helena, que na edade média foi Melusina,
-que na Renascença foi Imperia ou Lucrecia
-Borgia, que os modernos emfim conhecem debaixo
-de tantos nomes, que o genio de tantos homens
-tem revestido de prestigio magico e de superior
-fascinação.</p>
-
-<p>Os maus... escusado é dizer que os maus, só
-n'essas mulheres symbolos do mal, symbolos de
-todas as seducções insalubres, hão de achar a graça
-magnetica que arrasta e que enlouquece.</p>
-
-<p>Não é por isso de admirar que todos os poetas
-as tenham cantado, que todos os romancistas as tenham
-descripto, mas na feição peculiar que cada
-um d'elles dá ao modo por que as estuda e as
-pinta, é que consiste a superioridade ou inferioridade
-do eterno typo.</p>
-
-<p>Quanto ás outras, ás boas, ás candidas, ás angelicas,
-poucos as comprehendem na sua genuina<span class="pagenum"><a name="Page_299" id="Page_299">[299]</a></span>
-e original pureza, e os que as souberam comprehender
-teem produzido obras primas!</p>
-
-<p>Shakespeare é o poeta a quem se deve uma galeria
-mais radiosa e pura d'estas divinas creanças impeccaveis.</p>
-
-<p>Umas absortas n'um sonho de eterna tristeza,
-envoltas como que n'um presentimento de inevitavel
-desdita, como Ophelia ou Desdemona; outras
-deixando florir nos labios frescos a rubra flôr da
-alegria matinal, mas todas lindas, e meigas e innocentes,
-todas fazendo crer no bem até os mais
-cynicos.</p>
-
-<p>Victor Hugo tem, como Shakspeare, d'estas
-criações risonhas e sympathicas.</p>
-
-<p>As mulheres de um como as mulheres do outro,
-téem na alma um pouco da alma das aves.</p>
-
-<p>Téem a ligeireza alada do sonho, téem a graça
-imponderavel das visões.</p>
-
-<p>Não ha ninguem que não quizesse ter por filha
-uma d'essas creanças borboletas; não sei se todas
-as quereriam para esposas.</p>
-
-<p>E no entanto são boas, de uma doce bondade inconsciente
-que d'ellas se exhala como o aroma se
-exhala da flôr; mas tambem as creanças são boas,
-e comtudo ninguem como ellas sabe ser engenhosamente
-cruel.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_300" id="Page_300">[300]</a></span></p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>Victor Hugo com a sua alma de forte, que não
-precisa de auxilio, e não precisa de guia, não comprehende
-a mulher como os modernos aspiram a
-encontral-a.</p>
-
-<p>Não quer a companheira robusta d'esse athleta
-moral, que é o luctador de hoje; não quer a mulher
-de animo reflectido, de coragem viril, de consciencia
-illuminada e austera, que na hora do perigo
-ou na hora da vacilação criminosa, arrasta ao
-impulso da sua voz o espirito do homem esmorecido
-ou duvidoso.</p>
-
-<p>Elle, cuja vida tem sido uma ascenção progressiva
-para o bem, elle, que não precisa d'outra bussola
-que não seja a luz interior que nunca se apaga
-nem bruxoleia, não teve necessidade de crear
-ao lado de Marius, ao lado de Didier, ao lado de
-Gennaro, ao lado dos seus altivos heroes, uma mulher
-forte que os auxiliasse e fortalecesse na grande
-lucta do bem!</p>
-
-<p>Oh! não era de força que elles careciam.</p>
-
-<p>Era de luz nas sombras do seu caminho sombrio!</p>
-
-<p>Didier saberia resistir ás seducções da criminosa
-voluptuosidade; Hernani saberia responder<span class="pagenum"><a name="Page_301" id="Page_301">[301]</a></span>
-ao sinistro som da trompa funeraria; Gennaro saberia
-confessar as suas indignações austeras e os
-seus odios inquebrantaveis; Marius saberia amar
-a honra impolluta como as virgens, brilhante como
-as espadas, implacavel como a eterna justiça.</p>
-
-<p>Do que elles precisavam era de risos, de flôres,
-de caricias e de beijos.</p>
-
-<p>Precisavam de quem os arrancasse á contemplação
-do seu deslumbramento ideal e lhes dissesse
-ao ouvido ternamente, melodiosamente:</p>
-
-<p>&mdash;Olha! eu sou a graça, sou a poesia, sou o
-esquecimento, sou a embriaguez. Tenho só um nome,
-que vale por todos e a todos sobreleva: eu
-sou o amor!</p>
-
-<p>E não são mais nada as mulheres creadas pelo
-genio portentoso de Hugo!</p>
-
-<p>O amor, sempre o amor.</p>
-
-<p>O amor egoista, o amor cego, o amor absorvente,
-exclusivo, com os seus pudores instinctivos,
-as suas ignorancias virginaes e as suas aspirações
-insaciadas a fatalidade irresistivel da sua força!</p>
-
-<p>No seu primeiro drama, Hugo todo imbuido das
-ideias cavalleirescas do <i>romanceiro</i>, creou um typo
-de mulher que é talvez um dos mais bellos da sua
-formosa e radiante galeria.</p>
-
-<p><i>Dona Sol</i> sabe amar impetuosamente, ardentemente,
-e n'esse amor que é a nota predominante<span class="pagenum"><a name="Page_302" id="Page_302">[302]</a></span>
-do seu caracter, encontra força para todas as resistencias
-viris.</p>
-
-<p>Como ella é dôce e humilde enlaçada pelos braços
-valentes do seu <i>senhor</i>, do seu leão das montanhas,
-do seu principe bandido, do seu rebelde e
-indomavel cavalleiro!</p>
-
-<p>Sorrisos, olhares, vozes, caricias, tudo é de velludo!</p>
-
-<p>Um desejo d'elle, tem-na escrava! no entanto
-sabe por instincto, que elle o heroe, o forte lhe não
-póde pedir cousa alguma que a filha de um paladino
-das Hespanhas deva recusar envergonhada.</p>
-
-<p>Quem dirá que aquella graça póde fazer-se indignação,
-que aquella flexibilidade ondeante póde
-transformar-se em revolta implacavel?</p>
-
-<p>É que n'ella ha de tudo! porém esse <i>tudo</i> é simplesmente
-amor.</p>
-
-<p>Appareça outro que a requeste, outro que ouse
-amal-a, e a pomba saberá ser leôa, para defender
-o seu thesouro!</p>
-
-<p>Mas de que lhe vem a força com que ella domina,
-a indignação austera que a transfigura? Do
-coração.</p>
-
-<p>As mulheres de Hugo não pensam, não raciocinam,
-amam! Isso lhes basta.</p>
-
-<p>E se a fome ás vezes as perde, se a maldade e<span class="pagenum"><a name="Page_303" id="Page_303">[303]</a></span>
-a perfidia do homem as arrasta, nunca o amor
-deixou de as redimir.</p>
-
-<p>Para ellas o amor não é a perdição, é o resgate!</p>
-
-<p>Vêde Marion, a cortezã incredula, a serpente de
-enganosas caricias, que um sentimento verdadeiro
-purifica e exalta, e que d'elle recebe uma nova e
-mysteriosa virgindade! Vêde Eponine, a filha das
-lamas de Pariz, a quem um olhar de Marius inocula
-o amor, o sacrificio, a abnegação e a heroicidade!</p>
-
-<p>Mas&mdash;contradicção á primeira vista inexplicavel
-e que no fundo tem talvez uma significação sublime&mdash;o
-amor que transfigura e santifica e illumina
-as peccadoras, torna egoistas, torna ingratas
-as puras!</p>
-
-<p>Eponine immola-se, porque ama, e Cosette, porque
-ama, esquece tudo que não seja o seu amor,
-e com a mesma pequena mão com que abre a
-Marius os paraisos inacessiveis enterra o punhal
-no seio de João Valjean!</p>
-
-<p>Marion, de Magdalena impudica e triumphante,
-levanta-se Magdalena arrependida e piedosa, e
-Esmeralda não tem a esmola, a caridade de um
-sorriso bom para Quasimodo!</p>
-
-<p>Porque?</p>
-
-<p>Ah! é que umas são a ignorancia na sua perfeição<span class="pagenum"><a name="Page_304" id="Page_304">[304]</a></span>
-mais divina, outras guardam na bocca o
-gosto amargo de todos os fructos vedados que
-teem devorado!</p>
-
-<p>Umas não conhecem nada para além da nuvem
-iriada que as envolve e lhes intercepta o mundo,
-outras possuem a medonha sciencia que é feita de
-todas as decepções, de todas as agonias, de todos
-os tedios, de todos os remorsos, de todas as nauseas
-da vergonha e do desprezo proprio!</p>
-
-<p>Umas entram no amor, triumphantes, immaculadas,
-curiosas, ébrias de harmonias nunca ouvidas,
-sedentas de alegrias nunca sonhadas, absortas pela
-radiante visão que as transporta a mundos desconhecidos.</p>
-
-<p>Viviam d'antes? tinham affectos? prazeres? distracções?</p>
-
-<p>Não sabem.</p>
-
-<p>Sabem que as inundou a luz de um olhar, e
-que, a essa luz, viram o que nunca tinham visto,
-esqueceram tudo mais que fôra seu.</p>
-
-<p>As outras vão alli á porta d'aquella região de
-que hão de ser as eternas exiladas, pedir a esmola
-de um perdão, a caridade de umas horas de
-esquecimento.</p>
-
-<p>E em troca d'esse consolo supremo a que se
-julgam sem direito, são capazes de todos os sacrificios,
-de todos os renunciamentos sublimes que<span class="pagenum"><a name="Page_305" id="Page_305">[305]</a></span>
-inventa a mulher depois de ter perdido a esperança
-de ser feliz.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>Leitora, estás cansada das chatas e incaracteristicas
-figuras que tens encontrado na vida real?
-Entristecem-te dolorosamente os typos hediondos
-ou repugnantes da moderna arte?</p>
-
-<p>As Gervasias, as Bovarys, as Fannys, as peccadoras
-da França juvenil?</p>
-
-<p>Pois bem, deixa que desfile por diante do teu
-olhar pensativo a gloriosa legião das filhas de Victor
-Hugo.</p>
-
-<p>Oh! crê que não aprenderás com ellas cousa
-alguma que rebaixe o teu espirito, que fira o teu
-coração, que surprehenda cruelmente o teu entendimento.</p>
-
-<p>Ellas sabem todas o que é o amor, muitas o que
-é o arrependimento, o remorso, a vergonha, a expiação;
-nenhuma sabe o que é o triumpho impudico
-do vicio, a ostentação criminosa das vaidades
-mundanas, a impenitencia immoral das que
-medram no meio do crime.</p>
-
-<p>As peccadoras contar-te-hão a dolorosa historia
-das suas amarguras, as virgens a doçura sonhadora
-dos seus extasis!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_306" id="Page_306">[306]</a></span></p>
-
-<p>Amaram, acreditaram, sentiram na plenitude
-do coração que a vida é boa, e que o paraiso póde
-encontrar-se n'um canto da terra.</p>
-
-<p>Não sabem nada de <i>toilettes</i>, de pequenas intrigas,
-de namoros, de vicios mesquinhos, de invejas
-e de tagarelices; atravessaram o mundo com
-os olhos fitos n'outros olhos, com as mãos enlaçadas
-n'outras mãos, com a alma a cantar-lhes um
-<i>hosanna</i> de mysticos arroubos!</p>
-
-<p>Se queres estudar os escaninhos caprichosos de um
-coração de mulher bonita e garrida, não as procures,
-mas tambem lhes não peças que te fallem nos nossos
-piedosos e obscuros deveres de todos os dias.</p>
-
-<p>São as hallucinadas do amor! Arrastou-as uma
-tempestade para outras espheras ardentes onde se
-não vive a vida que conhecemos!</p>
-
-<p>Vê tu&mdash;Esmeralda! que bem posto nome!</p>
-
-<p>Toda ella scintilla ao sol como a pedra preciosa
-que lhe serviu de baptismo; os seus dedos de <i>gitana</i>
-crestados e finos arrancam ao pandeiro do
-seu paiz doidos e extranhos sons! Fascina com
-um olhar inconsciente dos seus olhos de velludo,
-com uma nota da sua voz crystallina, com um meneio
-do seu corpo de serpente.</p>
-
-<p>Que sabe ella da vida? Nada; a não ser que a
-vida é bella, visto que ha dous olhos que ao fixar
-nos seus os banharam de fulgor!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_307" id="Page_307">[307]</a></span></p>
-
-<p>E Cosette! vive ao pé d'ella um enygma sombrio!
-um espirito sobrehumano! um luctador d'estas
-luctas interiores cujo reflexo se estampa na
-frente que as encerra.</p>
-
-<p>Ella nunca interrogou essa alma, e nunca tentou
-decifrar esse enygma, e nunca sequer comprehendeu
-a existencia d'essas luctas.</p>
-
-<p>Ao seu companheiro triste, humilde, heroico,
-adoravel ella deve durante quinze annos a ventura
-mais perfeita que póde gosar-se na terra.</p>
-
-<p>Satisfez-lhe todos os desejos; todos os brinquedos
-d'aquella fada, encarregou-se de os fornecer
-a natureza na liberdade plena, nos seus idyllios
-primaveris! Estava na escuridão, e deram-lhe luz;
-era escrava fizeram-n'a rainha.</p>
-
-<p>Não importa! Marius appareceu e Cosette louca,
-deslumbrada, esquecida, deixa morrer de dôr
-o amigo da sua risonha mocidade.</p>
-
-<p>É má?</p>
-
-<p>Não; é ignorante. Não sabe que se morre visto
-que elle vive na posse de uma ventura que nunca
-até alli conhecera.</p>
-
-<p>Não sabe que se tem saudades, porque ao pé de
-Marius nunca esse espinho lhe mordeu no coração!</p>
-
-<p>Pois é possivel ser desgraçado quando eu sou
-tão feliz! pergunta tacitamente com barbaridade
-que se ignora, cada um dos sorrisos de ventura<span class="pagenum"><a name="Page_308" id="Page_308">[308]</a></span>
-que ella atirara em redor de si, sem se importar
-onde lhe vão cahir!</p>
-
-<p>Ai! Cosette, Cosette! eu gosto de ti, borboleta,
-ébria de luz! és uma das visões luminosas que ficarás
-para sempre moça e querida! és uma estatua
-branca que ninguem ousará mutilar e que os seculos
-verão erguida no teu pedestal de flôres! Mas
-como eu te amaria muito mais ainda se em vez
-de seres o Amor fosses o Sacrificio!</p>
-
-<p>Um dia Victor Hugo pediu ás neblinas matinaes
-dos climas do norte, uma porção de renda branca
-e transparente com que ellas corôam a crista das
-montanhas e... fez Déa!</p>
-
-<p>Que doce, vaporosa e lendaria visão!</p>
-
-<p>Não ha n'ella cousa alguma que seja realidade!</p>
-
-<p>Toca na terra ao de leve; não tanto que pareça
-filha d'ella, não tão pouco que lhe não seja dado
-consolar alguem votado ás dores sem consolo.</p>
-
-<p>É cega!</p>
-
-<p>Amada por um monstro sabe verter-lhe n'alma
-as alegrias de um Deus!</p>
-
-<p>Não vê o homem que a ama, vê o amor de que
-elle a veste!</p>
-
-<p>Abençoada cegueira que faz dous felizes!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_309" id="Page_309">[309]</a></span></p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>Ao lado d'ella&mdash;supremo contraste!&mdash;sorri Josiane
-com o seu sorriso de deusa pagã!</p>
-
-<p>No olho azul da patricia ingleza scintilla em
-chispas uma diabolica ironia.</p>
-
-<p>Josiane é a amante do impossivel! Procura o
-que nunca ninguem achou!</p>
-
-<p>Quer um sonho que a sacie, o amor de um Titan,
-ou de um cyclope, o amor de Apollo ou de
-Polyphemo!</p>
-
-<p>Estranha figura, producto doentio de uma noite
-de febre!</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>Dona Sol, Maria de Neuburgo, Marion, Eponine,
-Cosette, Déa, quantas figuras radiosas, quantas
-humanições esplendidas da mulher sonhada!</p>
-
-<p>Nas horas de desalento ou de amarga duvida,
-nas horas em que as miserias que nos cercam, nos
-fizeram encarar a vida pelo seu aspecto mais desolado
-e mais escuro olhemos para ellas!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_310" id="Page_310">[310]</a></span></p>
-
-<p>Dir-nos-hão os poetas de hoje que ellas não existem,
-e, o que é peior, que ellas não puderam existir
-nunca.</p>
-
-<p>Oh! é bem triste, é bem esteril a arte que só
-trata de rebaixar o que em nós é de mais elevada
-essencia, e só quer que vejamos a fatalidade brutal
-do instincto, onde viamos d'antes a fatalidade
-mais nobre do sentimento.</p>
-
-<p>Não acreditemos o que elles nos dizem, porque
-na sua preoccupação exagerada do horrivel, elles
-mentem muito mais do que os outros mentiam na
-sua preoccupação exagerada do bello!</p>
-
-<p>Estes reunindo todos os vicios e hediondezas
-que encontraram dispersos n'uma só figura, conseguem
-apenas crear... um monstro, um ser hybrido
-e infecundo que a ninguem aproveita!</p>
-
-<p>Os outros synthetisando n'uma filha do seu genio
-as harmonias, as feições, os encantos, que estudaram
-e amaram em toda a natureza, conseguiram
-alguma coisa mais!</p>
-
-<p>Crearam o ideal immutavel e eterno e ensinaram-nos
-a fitar n'elle os olhos da nossa alma, e a
-invocal-o como um consolo adoravel nas nossas horas
-de desalento e de agonia.</p>
-
-
-<p class="ph4">FIM</p>
-
-<div class="chapter">
-<hr class="chap" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak">INDICE</h2>
-
- <table summary="Indice">
- <tr><td colspan="3" class="center pb1">PRIMEIRA PARTE</td></tr>
- <tr><td></td><td></td><td class="pag"><small>PAG.</small></td></tr>
- <tr><td class="chp">I &mdash;</td><td class="tit"><a href="#UMA_HISTORIA_VERDADEIRA">Uma historia verdadeira</a></td><td class="pag">7</td></tr>
- <tr><td class="chp">II &mdash;</td><td class="tit"><a href="#O_TIO_SEBASTIAO">O tio Sebastião</a></td><td class="pag">59</td></tr>
- <tr><td class="chp">III &mdash;</td><td class="tit"><a href="#O_ANNEL_DO_DIPLOMATA">O annel do diplomata </a></td><td class="pag">79</td></tr>
- <tr><td class="chp">IV &mdash;</td><td class="tit"><a href="#A_ESCOLHA_DE_GASTAO">A escolha de Gastão</a></td><td class="pag">99</td></tr>
- <tr><td class="chp">V &mdash;</td><td class="tit"><a href="#O_ROMANCE_DE_ADELINA">O romance de Adelina</a></td><td class="pag">125</td></tr>
- <tr><td class="chp">VI &mdash;</td><td class="tit"><a href="#A_CIGANA">A Cigana</a></td><td class="pag">141</td></tr>
- <tr><td class="chp">VII &mdash;</td><td class="tit"><a href="#DUAS_FACES_DE_UMA_MEDALHA">Duas faces de uma medalha</a></td><td class="pag">157</td></tr>
- <tr><td class="chp">VIII &mdash;</td><td class="tit"><a href="#A_TIA_IZABEL">A tia Izabel</a></td><td class="pag">173</td></tr>
- <tr><td class="chp">IX &mdash;</td><td class="tit"><a href="#O_MELHOR_SOMNO_DO_MILLIONARIO">O melhor somno do millionario</a></td><td class="pag">185</td></tr>
- <tr><td class="chp">X &mdash;</td><td class="tit"><a href="#A_PERCEPTORA">A perceptora</a></td><td class="pag">203</td></tr>
- <tr><td class="chp">XI &mdash;</td><td class="tit"><a href="#A_MORTE_DE_BERTHA">A morte de Bertha</a></td><td class="pag">219</td></tr>
- <tr><td colspan="3" class="center pt1 pb1">SEGUNDA PARTE</td></tr>
- <tr><td class="chp">I &mdash;</td><td class="tit"><a href="#A_PROPOSITO_DE_UM_LIVRO">A proposito de um livro</a></td><td class="pag">241</td></tr>
- <tr><td class="chp">II &mdash;</td><td class="tit"><a href="#MADAME_DE_BALSAC">Madame de Balsac</a></td><td class="pag">257</td></tr>
- <tr><td class="chp">III &mdash;</td><td class="tit"><a href="#LINCOLN_E_GRANT">Lincoln e Grant</a></td><td class="pag">277</td></tr>
- <tr><td class="chp">IV &mdash;</td><td class="tit"><a href="#AS_FILHAS_DE_VICTOR_HUGO">As filhas de Victor Hugo</a></td><td class="pag">295</td></tr>
- </table>
-
-<hr class="full" />
-
-
-
-
-
-
-
-
-<pre>
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Contos e Phantasias, by
-Maria Amalia Vaz de Carvalho
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS E PHANTASIAS ***
-
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-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
-
-Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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-exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
-from people in all walks of life.
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-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
-assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
-goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
-remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
-and permanent future for Project Gutenberg-tm and future
-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at
-www.gutenberg.org
-
-
-
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
-U.S. federal laws and your state's laws.
-
-The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the
-mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its
-volunteers and employees are scattered throughout numerous
-locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt
-Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to
-date contact information can be found at the Foundation's web site and
-official page at www.gutenberg.org/contact
-
-For additional contact information:
-
- Dr. Gregory B. Newby
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- gbnewby@pglaf.org
-
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
-Literary Archive Foundation
-
-Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
-spread public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
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-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
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-with these requirements. We do not solicit donations in locations
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-
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-any statements concerning tax treatment of donations received from
-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
-
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-ways including checks, online payments and credit card donations. To
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-
-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of
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-Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
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