diff options
Diffstat (limited to 'old/63406-h/63406-h.htm')
| -rw-r--r-- | old/63406-h/63406-h.htm | 10415 |
1 files changed, 0 insertions, 10415 deletions
diff --git a/old/63406-h/63406-h.htm b/old/63406-h/63406-h.htm deleted file mode 100644 index dcc8778..0000000 --- a/old/63406-h/63406-h.htm +++ /dev/null @@ -1,10415 +0,0 @@ -<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" - "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> -<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml" xml:lang="pt" lang="pt"> - <head> - <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html;charset=utf-8" /> - <meta http-equiv="Content-Style-Type" content="text/css" /> - <title> - Contos E Phantasias, by Maria Amalia Vaz de Carvalho—A Project Gutenberg eBook - </title> - <link rel="coverpage" href="images/cover.jpg" /> - <style type="text/css"> - -body { - margin-left: 10%; - margin-right: 10%; -} - - h1,h2,h3,h4 { - text-align: center; /* all headings centered */ - clear: both; -} - -.ph1, .ph3, .ph4 { text-align: center; text-indent: 0em; font-weight: bold; } -.ph1 { font-size: xx-large; margin: .67em auto; } -.ph3 { font-size: large; margin: .83em auto; } -.ph4 { font-size: medium; margin: 1.12em auto; } - -p { - margin-top: .51em; - text-align: justify; - margin-bottom: .49em; -} - -hr { - width: 33%; - margin-top: 2em; - margin-bottom: 2em; - margin-left: 33.5%; - margin-right: 33.5%; - clear: both; -} - -hr.tb {width: 45%; margin-left: 27.5%; margin-right: 27.5%;} -hr.chap {width: 65%; margin-left: 17.5%; margin-right: 17.5%;} -@media handheld, print { - hr.chap {display:none; visibility: hidden;} -} -hr.full {width: 95%; margin-left: 2.5%; margin-right: 2.5%;} - -hr.r5 {width: 5%; margin-top: 1em; margin-bottom: 1em; margin-left: 47.5%; margin-right: 47.5%;} - -div.chapter {page-break-before: always;} -h2.nobreak {page-break-before: avoid;} - -table { - margin-left: auto; - margin-right: auto; -} -.pt1 {padding-top: 1em;} -.pb1 {padding-bottom: 1em;} -.chp {text-align:right; vertical-align:top; width: 3em;} -.tit {text-align:left; vertical-align:top;} -.pag {text-align:right; vertical-align:bottom; width: 3em;} - -.pagenum { /* uncomment the next line for invisible page numbers */ - /* visibility: hidden; */ - position: absolute; - left: 92%; - font-size: smaller; - text-align: right; - font-style: normal; - font-weight: normal; - font-variant: normal; -} /* page numbers */ - -.center {text-align: center;} - -.smcap {font-variant: small-caps;} - -/* Poetry */ -.poetry-container {text-align: center;} -.poetry {text-align: left; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} -.poetry {display: inline-block;} -.poetry .stanza {margin: 1em auto;} -.poetry .verse {text-indent: -3em; padding-left: 3em;} -/* large inline blocks don't split well on paged devices */ -@media handheld, print { .poetry {display: block;} } - - </style> - </head> -<body> - - -<pre> - -Project Gutenberg's Contos e Phantasias, by Maria Amalia Vaz de Carvalho - -This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most -other parts of the world at no cost and with almost no restrictions -whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of -the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: Contos e Phantasias - -Author: Maria Amalia Vaz de Carvalho - -Release Date: October 8, 2020 [EBook #63406] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS E PHANTASIAS *** - - - - -Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - - - - - - -</pre> - - -<h1>CONTOS E PHANTASIAS</h1> - -<div class="chapter"> -<hr class="chap" /> -</div> - -<p class="ph3">D. MARIA AMALIA VAZ DE CARVALHO</p> -<hr class="tb" /> -<p class="ph1">CONTOS<br /><small><small>E</small></small><br />PHANTASIAS</p> -<hr class="r5" /> -<p class="center">2.<sup>a</sup> EDIÇÃO</p> -<hr class="r5" /> -<p class="ph3">LISBOA</p> -<p class="ph4">PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA<br /> -<small>LIVRARIA EDITORA</small><br /> -Rua Augusta—50, 52 e 54<br /> -1905</p> - -<div class="chapter"> -<hr class="chap" /> -</div> - -<p class="ph3">LISBOA</p> -<p class="smcap ph4">Officinas Typographica e de Encadernação</p> -<p class="ph4"><small>Movidas a vapor<br /> -DA</small><br /> -Parceria Antonio Maria Pereira<br /> -<i>Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.<sup>o</sup></i><br /> -1905</p> - -<div class="chapter"> -<hr class="chap" /> -</div> - -<h2 class="nobreak">PRIMEIRA PARTE</h2> - -<div class="chapter"> -<hr class="chap" /> -</div> - -<h3 id="UMA_HISTORIA_VERDADEIRA">UMA HISTORIA VERDADEIRA</h3> - -<h4>I</h4> - -<p>Era uma physionomia incaracteristica, apagada, -tristissima.</p> - -<p>Não se podia dizer a idade que tinha, nem mesmo -se tinha idade.</p> - -<p>Tanto podia ter trinta ou quarenta como setenta -annos.</p> - -<p>Curvado pela idade ou pelos desgostos? Encanecido -porque os annos tinham corrido por sobre -a cabeça d'elle, ou porque lhe tinham pesado duplamente -sobre os hombros debeis?</p> - -<p>Quem o podia dizer?</p> - -<p>Era uma organisação acanhada e rachitica, podia -mesmo chamar-se incompleta.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_8" id="Page_8">[8]</a></span></p> - -<p>Para elle com certeza que a adolescencia não -tivera as suas madrugadas azues tão gorgeadas e -tão festivas, nem a virilidade tivera a fanfarra estridente -dos seus clarins, a florescencia escarlate -dos seus rosaes voluptuosos.</p> - -<p>Tinha sempre vivido debaixo de uma estranha -pressão dolorosa.</p> - -<p>Dependêra de todos primeiro porque era fraco -e inerme, depois porque fôra pobre, dependente, -sem aquella aspera dignidade que os atrictos da -vida tornam mais rude e que é a armadura moral -que salvaguarda o homem nos duros combates sociaes.</p> - -<p>Nasceu n'uma casa opulenta que lhe não pertencia, -cresceu no meio de um luxo de que seus paes -erão parasitas voluntarios e de que elle era... parasita -inconsciente.</p> - -<p>Começára por ter medo de tudo e de todos; um -medo que não raciocinava, que não sabia, que não -indagava mesmo a sua propria origem.</p> - -<p>Nasceu assustadiço, como certos animaes silvestres, -e toda a vida conservou a mesma expressão -inquieta e medrosa da lebre perseguida.</p> - -<p>Em primeiro lugar tinha medo de seu pae; um -homem alto, espadaúdo, plethorico, de voz grossa -e modos brutaes, que comia como um abbade, que -bebia como um <i>lansquenete</i>, que praguejava como<span class="pagenum"><a name="Page_9" id="Page_9">[9]</a></span> -um carreiro, e que se vingava nos poucos entes -que tinha debaixo do seu dominio, das complacencias -servis que era obrigado a mostrar aos que o -mantinham n'aquella farta ociosidade de commensal -que só goza e não paga.</p> - -<p>Depois tinha medo de sua tia; a dona da casa, -a <i>senhora</i>, a suzerana ante a qual todos se curvavam -submissos.</p> - -<p>E no emtanto ella era bonita, delgada, flexivel, -muito branca.</p> - -<p>Uma figura ideal de pintor inglez.</p> - -<p>Mas que culpa tinha elle, o pequenino parea, se -os olhos d'essa graciosa e delicada senhora lhe pareciam -frios e metalicos, com umas scintillações -azuladas como as do aço fino? se as suas mãos -esguias e brancas se lhe affiguravam duas tenazes -que podiam apertal-o, apertal-o até o torcerem -todo, até o esphacelarem e fazerem d'elle, do seu -pequeno corpo tão fraquinho, uma grotesca massa -informe, que o mundo inteiro pisasse, onde o mundo -inteiro cuspisse!</p> - -<p>Seria allucinação d'aquelle cerebro enfermo e -condemnado ás scismas doentias?</p> - -<p>Quem sabe?</p> - -<p>O caso é que o sentia, e que nunca pudera esquivar-se -a essa preoccupação intensa e dilacerante!</p> - -<p>Um d'estes dous entes que dominaram de estranho<span class="pagenum"><a name="Page_10" id="Page_10">[10]</a></span> -terror a sua infancia, maltratava-o nas explosões -brutaes de seu temperamento de touro bravo.</p> - -<p>O outro—a senhora—muito altiva, muito fria, -muito desdenhosa, nem sequer lhe fallava.</p> - -<p>Olhava-o ás vezes como se olha para um animal -repugnante, para um sapo, ou para uma carocha, -e passava adiante, imperturbavel e olympica.</p> - -<p>Havia, porém, um outro sêr, dos que mais em -contacto estavam com elle, que nem o maltratava, -nem o desprezava com a glacial frieza do seu -desdem.</p> - -<p>E comtudo era d'esse que elle tinha ainda mais -medo.</p> - -<p>Era seu tio; uma figura original, uma physionomia -de titan que por um engano qualquer da natureza -não pôde conseguir passar de anão.</p> - -<p>Seu tio!... Como esta individualidade extraordinariamente -accentuada, como este rosto ironico, -irregular, convulsionado, dominou para sempre o -destino obscuro da infeliz creança que eu conheci -já velho!</p> - -<p>Seu tio não o perseguia nem lhe manifestava -uma repugnancia muda, pelo contrario.</p> - -<p>Chamava-o continuamente para o pé de si, ensinava-lhe, -quando estava só, palavras, esgares, visagens -grotescas que lhe fazia repetir diante de<span class="pagenum"><a name="Page_11" id="Page_11">[11]</a></span> -gente, n'um côro de gargalhadas asperas e hostis -como gumes de espadas!</p> - -<p>Vestia-o de um modo desusado e extravagante, -vestia-o de marujo, de escossez, com as suas pequenas -pernas magras, trigueiras, ossudas, n'uma -nudez friorenta que lhe doia, e o fazia tiritar; -vestia-o de tyrolez, o que lhe dava um aspecto -comico, que arrebentava com riso a criadagem.</p> - -<p>Ás vezes nos seus dias de melhor humor sahia -com elle, que tinha apenas sete annos de idade, -de casaca, chapéo-alto, e berloques na cadeia do -relogio.</p> - -<p>Tinha tempos em que não podia passar sem a -sua companhia; a creança era a unica distracção -do anão.</p> - -<p>As caricias d'esse homem singular, de olhar faiscante, -de cabelladura revolta e electrica, de voz -sonora e rica de inflexões estranhas, doíam, porém, -ao pequeno muito mais do que os desprezos -ou os máos tratos dos outros.</p> - -<p>Ao pé d'estes sentia-se perseguido, ao pé d'aquelle -sentia-se humilhado.</p> - -<p>Um dia o marquez—o tio do pequeno Thadeu -era marquez,—achou comico mandar introduzir a -creança no cofre acharoado que havia junto ao fogão -do gabinete de trabalho, destinado a guardar -a lenha ou o carvão que se consumia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_12" id="Page_12">[12]</a></span></p> - -<p>De minuto em minuto abria-se a tampa e sahia a -cara vermelha e congestionada do pequeno, uma -cara de animal assustado, o que divertia extraordinariamente -as visitas.</p> - -<p>Outra vez, n'uma ceia alegre em que havia rios -de <i>champagne</i> e risadas crystallinas de mulheres, -Thadeu com um fato de meia preta a cobril-o todo -e dous castiçaes nas pequenas mãos, servia de centro -agachado n'uma posição grotesca no meio da -meza.</p> - -<p>Sahiu d'alli com uma febre que o teve um mez -entre a morte e a vida, delirante, sem conhecer -ninguem, com a mãe debulhada em lagrimas á -cabeceira.</p> - -<p>Mas Thadeu não gostava de sua mãe.</p> - -<p>Era uma creatura tão debil como elle, pallida -como uma defunta, inerme, estupida, sem vontade.</p> - -<p>As lobas defendem os seus filhos, a mãe de Thadeu -não o sabia defender!</p> - -<p>Entregava-o ás coleras descompostas do pae; aos -desprezos gelidos da tia; aos caprichos monstruosamente -comicos do marquez; ás apupadas brutaes -das aias e dos lacaios; aos risos das visitas; ao -pasmo desprezador das outras creanças, que iam -áquella casa opulenta e ruidosa acompanhadas por -seus paes, vestidas de velludo, com plumas nos seus -lindos chapéus, o ar grave de meninos bem creados,<span class="pagenum"><a name="Page_13" id="Page_13">[13]</a></span> -e que não tinham licença de brincar com aquelle -pequeno histrião, feio, ridiculo, doente, com gesto -de epileptico, com fatos de palhaço e com soluços -de martyr.</p> - - -<h4>II</h4> - -<p>Um dia, porém, fez-se na vida atormentada e -tempestuosa do pequeno Thadeu uma claridade de -luar, uma claridade opalisada e doce.</p> - -<p>Houve treguas nos seus varios martyrios, e sua -mãe, n'uma bella manhã de primavera em que os -passaros cantavam ao desafio nas grandes arvores -do jardim, levou-o pela mão, pé ante pé, a um quarto -forrado de setim côr de rosa, um quarto digno de -servir de habitação á fada mais linda que uma phantasia -de poeta oriental houvesse imaginado.</p> - -<p>N'aquelle quarto havia um ninho todo branco -feito de rendas, de fitas de setim, de pennugem -de passaros, e n'esse ninho dormia uma creancinha -que parecia uma rosa.</p> - -<p>—É tua prima; murmurou baixinho a mãe de -Thadeu, emquanto este, mudo, surpreso, extasiado, -fitava os seus olhos vitreos, onde o jubilo acendia -uma luz desusada, nos grandes olhos luminosos e -pasmados do <i>bébé</i> que acordára.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_14" id="Page_14">[14]</a></span></p> - -<p>Oh! como Thadeu adorava aquella creança! -Como na sua vida houve de repente um ficto, uma -esperança, uma luz!</p> - -<p>Sua tia, uma vez em que a <i>bebé</i> chorava muito -nos braços da ama, dissera a Thadeu com uma voz -menos glacial do que o costume:</p> - -<p>—Thadeu, brinca com a prima a vêr se ella se -cala.</p> - -<p>E elle fizera calar a rabujenta pequerrucha.</p> - -<p>Desde esse dia soube-se que a <i>menina</i> tinha o -insolito capricho de adorar Thadeu, de rir quando -elle estava de joelhos dobrado sobre o seu berço, -de chorar quando alguem o levava d'alli para fóra.</p> - -<p>A ama tomou o costume de o chamar e de o fazer -estar horas e horas a entreter a <i>menina</i>.</p> - -<p>Ao principio elle fazia-lhe carêtas e momices, -como as que usava fazer para divertir seu tio; depois, -sem bem perceber porque, adoptou outro systema -inteiramente opposto.</p> - -<p>Percebeu que a pequenina não queria um bôbo, -como esse espirito embotado e pervertido que o -victimára com os seus caprichos. O que a <i>bebé</i> queria, -na ingenuidade adoravel do seu despotismo -infantil, era um companheiro de seus brinquedos, -um socio, um escravo que a adorasse.</p> - -<p>Thadeu era tudo para ella: queria-o perto da -grande tina em que tomava o seu banho de manhã;<span class="pagenum"><a name="Page_15" id="Page_15">[15]</a></span> -queria-o junto da pequena mesa de nacar onde a -ama lhe dava as sopinhas; queria-o no berço ao -adormecer; queria-o no jardim, á sombra das arvores, -sobre a arêa finissima, onde se rolava, -vestida de rendas brancas, a rir como uma perdida.</p> - -<p>Chamaram-lhe Margarida.</p> - -<p>Margarida quer dizer perola, e Thadeu, que vira -muitas vezes sua tia vestida de baile, achava um -nome muito bem posto áquella creança branca, -transparente, loura, idealmente graciosa.</p> - -<p>Oh! Thadeu ainda andava muita vez vestido -de marujo, de granadeiro, de tyrolez e de alferes, -ainda o introduziam no cofre da lenha, ainda o faziam -fumar um charuto depois de jantar, cheio de -ancias, de nauseas, de gritos abafados de angustia!... -Mas que importava!</p> - -<p>Logo que podia escapava-se para o quarto da fada, -para o estojo côr de rosa da sua <i>perola</i>, da sua -Margarida, e então eram risadas sem fim, eram -corridas delirantes por sobre o tapete, era um papaguear -de duas aves felizes.</p> - -<p>Margarida com a idade ia-se fazendo despotica.</p> - -<p>Pudera!</p> - -<p>Ou ella não fosse mulher, e estremecida pelo seu -humilde escravo!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_16" id="Page_16">[16]</a></span></p> - -<p>Mas era assim mesmo que elle a queria.</p> - -<p>Quando as mãosinhas polpudas e brancas de -Margarida lhe batiam, Thadeu sentia-se feliz como -um rei.</p> - -<p>Quando ella o obrigava a agachar-se no chão -para lhe servir de jumento, o rapazinho tinha tentações -de rinchar de prazer, fazendo o passo bem -ao vivo.</p> - -<p>Porque no fim de contas, apezar de todas as suas -adoraveis crueldades, Margarida gostava d'elle.</p> - -<p>A presença de Thadeu illuminava de risos o seu -rosto oval coroado de cabellos louros annellados, o -seu rosto a um tempo angelico e gaiato!</p> - -<p>Margarida não o achava feio, nem tolo, nem ridiculo, -nem doente.</p> - -<p>Não desprezava a fraqueza dos seus braços, nem -a pobreza absoluta da sua imaginação.</p> - -<p>Pelo contrario! Admirava o!</p> - -<p>Sim; ella dera-lhe essa sensação poderosa e extraordinaria, -a sensação dos que se vêem admirados -com ingenua confiança.</p> - -<p>Margarida pedia-lhe cousas enormes, com uma -serenidade ineffavel de crente!</p> - -<p>Pedira-lhe um ninho de melros, e o que é mais! -conseguira que elle tão medroso, tão debil, tão assustado, -trepasse pelos braços nodosos de uma -grande arvore e lh'o fosse buscar lá cima.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_17" id="Page_17">[17]</a></span></p> - -<p>Que triumpho este d'ella, ao ver satisfeito o seu -capricho! mas que triumpho maior ainda o d'elle -ao comprehender, que alcançara essa cousa prodigiosa, -que nem nos sonhos mais arrojados das suas -noites de febre elle ousara até ali conceber!</p> - -<p>Um dia Margarida, em frente d'aquelle rasgo -assombroso de valentia que collocara Thadeu ao -lado dos maiores heroes, puzera se grave, meditativa, -e apontando com serena magestade para a -lua que se reflectia n'um tanque do jardim, pedira -a lua ao seu amigo Thadeu!</p> - -<p>Está claro que elle lh'a não pôde dar, mas gostou -d'aquillo!</p> - -<p>Percebeu que o julgavam capaz de cousas grandes, -de levar a cabo emprezas impossiveis, e esta -idéa que alguem tinha da sua força, fê-lo crescer -aos seus proprios olhos.</p> - -<p>O marquez conhecendo que o pequeno deixára -de ser seu joguete, simplesmente para ser joguete -de sua filha e herdeira, applaudiu-se de lhe haver -dado aquella educação especial, e prohibiu que o -distrahissem, fosse sob que pretexto fosse, das -suas novas funcções.</p> - -<p>Margarida era ainda muito pequenina para entreter -os paes.</p> - -<p>Elle precisava das excitações da politica, das -luctas do parlamento, dos sorrisos falsos ou verdadeiros,<span class="pagenum"><a name="Page_18" id="Page_18">[18]</a></span> -caros ou baratos das formosas mulheres, -do jogo, da ambição, do amor, da violencia corrosiva -de todas as pequenas e grandes paixões!</p> - -<p>Ella precisava do luxo, das joias que scintillam, -das sedas que se quebram em ondulações brilhantes, -do côro das adulações mentidas, de todas as -ephemeras alegrias que só o mundo lhe podia dar.</p> - -<p>Para ambos Margarida seria um remorso, se a -não vissem tão nedia, tão roliça, tão alegre, com -chispas de travessura maliciosa no olhar, sempre -acompanhada do seu pequeno amigo, submisso e -fiel como um cão.</p> - -<p>Deixaram-os, pois, crescer e viver juntos sob o -olhar das aias, sempre um pouco hostil para Thadeu -e por isso tanto mais insuspeito.</p> - -<p>Foi o verdadeiro paraiso que este conheceu na -terra, foi a sua idade de ouro.</p> - -<p>Ha entes que nunca nem por um instante só conheceram -a completa ventura.</p> - -<p>São de todos os mais desgraçados.</p> - -<p>Thadeu mais tarde podia ao menos recordar-se!</p> - -<p>E elle sabia apreciar tão bem aquellas alegrias -que em manhã abençoada tinham cahido sobre a -sua pobre cabeça!...</p> - -<p>Um dia Margarida travessa e caprichosa como -era, desattendendo todas as advertencias de Thadeu, -deixara-se cahir dentro do tanque do jardim.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_19" id="Page_19">[19]</a></span></p> - -<p>O pequeno não sabia nadar.</p> - -<p>Que importa!</p> - -<p>Sem premeditação, sem raciocinio, obedecendo -a um instincto de dedicação inteiramente canina, -deitou-se n'agua atrás d'ella.</p> - -<p>As criadas, acudindo, tiraram do tanque as duas -creanças abraçadas.</p> - -<p>Imagine-se o que iria em casa!</p> - -<p>Thadeu, castigado severamente, não quiz condemnar -a sua amiguinha, para se salvar a si.</p> - -<p>Foi ella que, soberba, graciosa, com a sua magestade -de pequena rainha, disse aos paes:</p> - -<p>—Não batam n'elle. Elle pediu-me que não -fosse. Eu é que quiz ir.</p> - -<p>Acharam-na adoravel; encheram-na de caricias -e de gulodices, mas ninguem pensou na acção tão -simples e tão heroica do pequeno Thadeu, a quem -tinham posto a alcunha de <i>medroso</i>.</p> - - - -<h4>III</h4> - - -<p>Foi assim que Margarida fez nove annos.</p> - -<p>Era linda e indomita.</p> - -<p>Tinha um corpo airoso, flexivel e forte.</p> - -<p>Ninguem opprimira nunca aquella altiva natureza -aristocratica.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_20" id="Page_20">[20]</a></span></p> - -<p>D'ahi a sua isenção, a liberdade dos seus movimentos, -o fulgor radioso dos seus grandes olhos -azues, onde um observador veria talvez as scintillações -metallicas que davam tamanha dureza ao -olhar de sua mãe.</p> - -<p>Margarida tinha uma vontade de ferro, e uns -nervos de mulher caprichosa.</p> - -<p>Quando a professora allemã que seus paes mandaram -buscar, quiz sujeitar o seu espirito a uma -certa disciplina, Margarida revoltou-se n'um impeto -de insubordinação selvatica.</p> - -<p>Tivera criadas que a serviam, um escravo que -tremia diante d'ella, e paes que transigiam com -todos os seus pequenos desejos de creança.</p> - -<p>Dera-se bem n'aquelle meio, não queria outro, -não o aceitava, nem curvaria a sua cabecinha erecta -e firme com uma aureola de anneis de ouro a -cerca-la, a nenhum dominio que não fosse o da -sua vontade.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Um dia Thadeu ouviu fallar vagamente n'uma -viagem que seus tios iam fazer ao estrangeiro, e -viu começar os preparativos para ella.</p> - -<p>Ficou no céo.</p> - -<p>Viveria só na grande casa com Margarida e o -rancho dos criados.</p> - -<p>Seriam livres.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_21" id="Page_21">[21]</a></span></p> - -<p>Ella teria um balouço no jardim, uma rede -brazileira no kiosque, e um barquinho no lago.</p> - -<p>Eram os seus tres sonhos ainda irrealizados.</p> - -<p>Thadeu dirigiria todos os trabalhos.</p> - -<p>Diria aos operarios que tinha dezeseis annos, e -que era sobrinho do marquez.</p> - -<p>Os operarios haviam de respeital-o.</p> - -<p>Elles não tinham precisão nenhuma de se rir do -seu corpo enfezado e rachitico.</p> - -<p>Não é preciso ser-se athletico para se ser respeitado -pelos homens a quem se paga.</p> - -<p>Thadeu havia de arranjar algum meio de lhes -pagar.</p> - -<p>Andava então doente, exquisito, com uma excitação -nervosa que o torturava.</p> - -<p>O seu affecto por Margarida tivera uma recrudescencia -violenta e dolorosa.</p> - -<p>Tinha vagos presentimentos que o faziam chorar.</p> - -<p>Parecêra-lhe que sua tia, uma vez, ao encontral-o -n'um corredor, olhára para elle com uma -aguda ironia malevola.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>—Não sabes, Thadeu? gritou Margarida entrando -como um raio de sol no quarto onde costumava -brincar com o primo. Não sabes?—E -atirou-lhe negligentemente aos pés com um feixe -de flôres e de folhas verdes que estivera colhendo<span class="pagenum"><a name="Page_22" id="Page_22">[22]</a></span> -na quinta.—Tambem eu vou com o papá e a mamã. -Vamos a Paris... muito longe... muito longe... -Estive á escuta... percebi umas cousas -mas não percebi outras. Fallaram n'um convento... -no <i>Sacré Cœur</i>... Sabes o que é?...</p> - -<p>Thadeu sabia.</p> - -<p>Não disse nada, mas no outro dia não pôde levantar-se -da cama.</p> - -<p>Tinha dôres em todo o corpo e um grande cançasso, -como de quem deu uma larga caminhada.</p> - -<p>Gemia baixinho abrazado em febre, e quando -pediu muito humildemente, com medo de recusa, -para ver Margarida, disseram-lhe que a doença -d'elle podia pegar-se e que as meninas não iam ao -quarto dos homens.</p> - -<p>Pois isto é um homem? pensava Thadeu desolado.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Margarida de endoudecida com a mudança, com -o movimento, com a espectativa de uma existencia -desconhecida e nova, esqueceu-se completamente -do enfermo.</p> - -<p>Partiu sem pedir sequer para lhe dizer adeus!...</p> - -<p>Quando Thadeu ao cabo de um mez de doença -sahiu do quarto com o rosto macilento, abatido, -cançado, como o de um velho, com a espinha dobrada -e as magras pernas vacillantes, pediu para<span class="pagenum"><a name="Page_23" id="Page_23">[23]</a></span> -ir ao quarto onde brincava com a sua <i>perola</i>, e -agachou-se a um cantinho a chorar com uns uivos -dolorosos, com uns uivos caninos que faziam mal.</p> - -<p>Sentia-se para sempre só...</p> - - - - -<h4>IV</h4> - - -<p>O marquez tinha ido sósinho para França. Fôra, -ao que se dizia, buscar a filha ao <i>Sacré-Cœur</i>.</p> - -<p>A educação de Margarida devia estar completa. -Fôra-se embora com nove annos de idade, e haviam -já passado sete depois que ella partira.</p> - -<p>Sete annos! que longo periodo!</p> - -<p>A casa dos marquezes era pouco mais ou menos -a mesma cousa.</p> - -<p>Thadeu perdêra sua mãe, mas aquella figura -apagada, melancolica, de uma debilidade de valetudinaria, -pouca falta havia feito no palacio illuminado -e radioso.</p> - -<p>O marquez aconselhado por alguma pessoa de -juizo e de caridade tinha consentido a que logo -depois da partida de Margarida seu sobrinho entrasse -para um collegio.</p> - -<p>Tambem já lhe não servia para nada.</p> - -<p>Com o seu corpo magro e desengonçado, um -corpo de funambulo, um corpo de grotesco, tinha<span class="pagenum"><a name="Page_24" id="Page_24">[24]</a></span> -melancolias <i>quixotescas</i> que incommodavam quem -o via.</p> - -<p>Os criados deram por mais de uma vez com o -rapazola a chorar de bruços n'um recanto do jardim, -chamado o <i>canteiro de Margarida</i>.</p> - -<p>Era um pequeno espaço semeado de flôres, onde -principalmente abundavam os malmequeres brancos -que tinham o poetico nome da filha do marquez.</p> - -<p>Havia ali uma grande arvore, um castanheiro -copado cuja rama folhuda abrigava as longas scismas -dolorosas de Thadeu.</p> - -<p>Não se podia consolar!</p> - -<p>Era ali n'aquelle sitio fresco, esmaltado de flores, -exhalando um cheiro agreste e sadio, que elle -se deixava ficar horas e horas esquecido de todos, -n'uma especie de lethargo bestial, o lethargo de -um animal ferido.</p> - -<p>E desfiava na memoria todo o seu passado, -toda a vida que vivêra, abandonado, desprezado, -perseguido de chufas ou de maus tratos, de caprichos -humilhantes, ou de observações glacialmente -desdenhosas.</p> - -<p>Só <i>ella</i> nunca o ferira! só ella fôra no seu viver -de cão apedrejado um consolo dulcissimo! uma -nesga do céo que se entreabrira!</p> - -<p>Só <i>ella</i> nunca se tinha rido á custa d'elle, e fôra<span class="pagenum"><a name="Page_25" id="Page_25">[25]</a></span> -elle—o misero, o abandonado, o enfermo—que -tivera o primeiro sorriso d'aquella boquinha de -rosas, o primeiro beijo d'aquelles labios frescos e -humidos de leite!</p> - -<p>Era feio, era rachitico, era estupido e desastrado.</p> - -<p>Todos o conheciam, todos o repetiam em alto e -bom som para que elle o não ignorasse, mas <i>ella</i> -amava-o; ella não o dizia, não o pensava, não o -tinha notado sequer!</p> - -<p>Para <i>ella</i> era forte, e grande, e poderoso!</p> - -<p>A elle é que Margarida confiára sempre os seus -desejos, os seus sonhos, os seus affectos de creança -mimosa.</p> - -<p>Ralhava-lhe ás vezes, batia-lhe, quando aspirava -ao impossivel que Thadeu lhe não podia dar, mas -as creanças ricas têm horas de tedio só comparaveis -ás horas sinistras de um imperador romano, -e Thadeu comprehendia isso tanto, que antes queria -as coleras, do que os desalentos rapidos e violentissimos -da sua <i>perola</i>.</p> - -<p>Tudo que houvera bom na sua vida lhe tinha -vindo d'ella.</p> - -<p>Dos outros—nada!</p> - -<p>E elle odiava todos os outros, só para poder adoral-a -com um culto exclusivo de negro pelo seu -<i>fetiche</i>.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_26" id="Page_26">[26]</a></span></p> - -<p>Não perguntava noticias; para que?</p> - -<p>Tinha a certeza intima de que lh'as não dariam -completas nem verdadeiras.</p> - -<p>Antes não queria saber nada, do que banalisar -a sua idolatria, revelando-a a seus <i>inimigos</i>.</p> - -<p>Ella tambem lhe não escrevêra, o que o não -surprehendera nada.</p> - -<p>Estava tão costumado a ser <i>uma cousa</i> inutil e -desprezada, que nunca lhe viera á idéa a possibilidade -sequer de possuir uma carta <i>d'ella</i>.</p> - -<p>No entanto ia adoecendo, definhando, parecia -uma sombra.</p> - -<p>Um medico que o viu torceu o nariz, e deu -claramente a entender que <i>aquillo</i> nunca chegaria -a ser um homem.</p> - -<p>Foi então que se lembraram de o mandar para -um collegio, em primeiro lugar para não terem o -desgosto de o vêr a cada passo, em segundo lugar -para o distrahirem da idéa fixa que o estava consumindo.</p> - -<p>No primeiro dia em que Thadeu fez a sua entrada -no collegio houve uma tal galhofa, um gaudio -tão extraordinario entre a rapaziada, que os -professores para manterem a ordem tiveram de -empregar severos castigos.</p> - -<p>Não havia meio de o vêr sem rir.</p> - -<p>Tinha um <i>tic</i> nervoso a um canto da bocca, tinha<span class="pagenum"><a name="Page_27" id="Page_27">[27]</a></span> -os olhos de vidro embaciado, tinha as pernas -muito magras e muito cambadas, e um modo de -fallar timido, acanhado, medroso que era de fazer -morrer de riso os rapazes.</p> - -<p>Os proprios mestres tinham de fazer esforço -para se não rirem quando o viam.</p> - -<p>Na hora de recreio tornou-se a victima, o bode -expiatorio do collegio.</p> - -<p>Um dia, porém, a brincadeira attingiu taes proporções -que degenerou em perversa brutalidade.</p> - -<p>Thadeu cahiu no chão extenuado a lançar jorros -de sangue pelo nariz.</p> - -<p>Do grupo estupefacto e arrependido dos collegiaes -destacou-se então um, o mais velho, o mais -valente o que nunca entrava n'aquellas farçadas -brutaes, e disse com voz decidida:</p> - -<p>—Tomo esse pobre diabo debaixo da minha -protecção. O primeiro que lhe tocar tem os ossos -n'um feixe.</p> - -<p>Ninguem se atreveu a responder uma palavra.</p> - -<p>Henrique de Souza era temido e respeitado.</p> - -<p>Nas aulas era o primeiro; nas brincadeiras era -o mais forte; na lucta era o mais destemido.</p> - -<p>Orphão de pae, era sustentado no collegio pelo -trabalho insano da mãe e da irmã mais velha que -se haviam feito costureiras para o poderem educar.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_28" id="Page_28">[28]</a></span></p> - -<p>Henrique fizera-se homem antes de tempo.</p> - -<p>O seu pensamento fixo era poder pagar a divida -sagrada que contrahira com as duas heroicas e dedicadas -mulheres.</p> - -<p>Quando Thadeu despertou do desmaio em que -a fraqueza o mergulhára, fixou os seus tristes -olhos esgazeados e humildes na physionomia meiga -e viril de Henrique.</p> - -<p>Comprehendeu que tinha achado um amigo e -cahiu-lhe nos braços a soluçar.</p> - - - -<h4>V</h4> - - -<p>Thadeu conservára-se cinco annos no collegio, e -sahira de lá um pouco mais forte e um pouco menos -desgraçado.</p> - -<p>Henrique, que havia tres annos tinha completado -a sua educação, e que agora cursava a escola -de medicina, nunca deixára de o ir visitar de -tempos a tempos, levando-o muitas vezes por occasião -das férias a passar o dia em casa de sua -mãe.</p> - -<p>O moço estudante de medicina dava lições de -francez e inglez nas horas vagas, para augmentar -os minguados recursos da familia, e como um tio -que morrera lhe tivesse deixado uma pequena pensão,<span class="pagenum"><a name="Page_29" id="Page_29">[29]</a></span> -viviam agora todos tres mais desaffogadamente.</p> - -<p>Occupavam uma casa pequenina mas muito aceiada -e quasi nova; tinham um quintal com tres gallinhas, -um casal de pombos e um canteirinho semeado -de flôres.</p> - -<p>O trabalho da casa era a mãe de Henrique quem -o fazia; a irmã costurava e bordava para fóra, o -irmão vivia de estudar e de esperar.</p> - -<p>Muito unidos, muito resignados; em certos momentos -mesmo, muito alegres, d'uma alegria serena -e doce, a alegria dos corações honrados que -confiam na providencia de Deus!</p> - -<p>Henrique era formoso sem dar por isso. O unico -modo possivel de um homem ser formoso.</p> - -<p>Joanninha, a irmã, que já fizera vinte e sete annos, -era uma doce e casta physionomia de virgem -que tem padecido muito.</p> - -<p>Nos seus grandes olhos melancolicos havia a -tranquilla doçura dos que repouzam depois de uma -lucta esmagadora.</p> - -<p>Tinha a certeza de que havia na terra alegrias -que nunca seriam d'ella, e no entretanto não se -revoltára; puzera n'outro ponto mais alto a sua -mira.</p> - -<p>Desdobrára a sua individualidade, vivia da vida -e das esperanças de seu irmão.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_30" id="Page_30">[30]</a></span></p> - -<p>N'este interior recolhido e casto, Thadeu sentiu -pela primeira vez acordar a consciencia.</p> - -<p>Soffria muito ali pelas comparações dolorosas -que fazia, mas comprehendeu que n'esse mesmo -soffrimento havia um progresso do seu espirito e -affeiçoou-se ás torturas que elle lhe dava.</p> - -<p>O trabalho era a lei d'aquella casa, e Thadeu -não sabia trabalhar.</p> - -<p>Ali concebia-se a vida de um modo elevado e -justo, a dignidade do homem estava identificada -com a sua independencia, e Thadeu não passava -de um parasita.</p> - -<p>Aprendeu na convivencia de Henrique e de sua -mãe e irmã muito mais do que aprendêra em todos -os 18 annos de sua desconsolada existencia.</p> - -<p>Determinou ter uma occupação, um officio, exercer -um trabalho qualquer, mas bem depressa adquirio -a desoladora certeza de que a sua fraqueza physica -o tornava incapaz de qualquer esforço aturado -e violento.</p> - -<p>Com vinte e tres annos conseguira tão sómente, -por fim de porfiada lucta, ser uma especie de caixeiro -de guarda-livros de seu tio.</p> - -<p>Aprendeu a fazer bem contas, e tornou-se util -n'aquella desordenada administração de uma casa -collossal.</p> - -<p>Isto não era de certo cousa que satisfizesse as<span class="pagenum"><a name="Page_31" id="Page_31">[31]</a></span> -ambições de outro qualquer, mas para elle isto já -era uma grande, uma sublime conquista.</p> - -<p>Ganhava o pão que comia.</p> - -<p>Era um escripturario humilde, mas tinha direito -a dizer que não dependia de ninguem.</p> - - - -<h4>VI</h4> - - -<p>No dia em que Thadeu soube que Margarida ia -chegar, a sensação que fez vibrar todo o seu sêr, -foi violenta de mais para que possa ser descripta.</p> - -<p>Acudiram-lhe em tropel, desordenadamente, -n'uma confusão louca, todas as lembranças do -passado, todas as queridas visões d'aquelles nove -annos de extase que elle vivêra.</p> - -<p>Estava tudo intacto n'um cantinho luminoso da -sua alma, onde elle não entrava com medo de fazer -fugir as avesinhas azues que eram as suas -saudades.</p> - -<p>Margarida! Bebé! A sua alegria! A loura cabecinha -encaracollada, os olhos côr de azul, limpidos, -transparentes, crystallinos, como um céo de -primavera! os pequeninos braços gordos e nedios! -a boquinha risonha! a voz musical, uma voz de -cotovia acordando os écos da alvorada!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_32" id="Page_32">[32]</a></span></p> - -<p>Todo aquelle conjuncto de graças ia ser d'elle -outra vez.</p> - -<p>Com que delicia soffrega elle não beijaria os pézinhos -da sua fada pequenina e loura!</p> - -<p>Como lhe contaria tudo que tinha passado longe -d'ella!</p> - -<p>As saudades sem consolo, as lagrimas que chorára, -as humilhações que soffrêra no meio d'aquelles -perversos de faces rosadas e imberbes, que se -tinham constituido em algozes da sua fraqueza e -do seu desamparo!</p> - -<p>Oh! amal-a-hia tanto e tanto, que ella havia de -dar-lhe por força um bocadinho de affecto, e esse -bocadinho só bastaria a torna-lo mais feliz do que -um rei.</p> - -<p>Margarida!</p> - -<p>E ao repetir baixinho com um calafrio de prazer -este nome querido, via saltar n'um raio de sol -uma figurinha esbelta, graciosa, de fato muito curto -e muito simples, um vestido branco, um cinto azul, -um bibe de cercadura bordada, onde as amoras -colhidas por elle tinham posto uma mancha vermelha, -com os espessos cabellos louros em anneis -soltos, e uma risada a vibrar ainda em torno d'ella -como um rosario de perolas que se desfiasse dentro -de um cofre de crystal.</p> - -<p>Henrique julgou que elle endoudecia, e Joanninha<span class="pagenum"><a name="Page_33" id="Page_33">[33]</a></span> -com a sua voz velada, onde havia uns toques -de doçura maternal, dizia-lhe:</p> - -<p>—Mas olhe que ella é uma senhora! Já não -póde ser a mesma. Não tenha uma esperança que -vai converter-se-lhe em martyrio!</p> - -<p>—A minha Margarida, repetia elle alheiado, -meio louco! A minha filhinha adorada! Nunca tive -uma alegria que d'ella me não viesse! Todos me -tratavam mal, só ella gostava de mim e me queria -sempre ao seu lado. Has de vêl-a, meu Henrique, -verás se ha no mundo uma creança mais linda, -mais mimosa, é uma fada, é uma <i>perola</i>, é a minha -unica amiga n'este mundo!</p> - - - - -<h4>VII</h4> - - -<p>No dia seguinte á hora em que uma brilhante -festa de familia, uma especie de baile muito intimo, -reunia nas salas do marquez todos os parentes, -alliados e amigos que vinham solemnisar a -chegada da sua filha e herdeira, Thadeu na pequenina -sala de jantar de Henrique, dobrado sobre o -peitoril da janella n'uma postura de desolação e de -abandono, soluçava baixinho, ao pé de Joanninha, -que tentava em vão consolal-o.</p> - -<p>Estava de casaca, coitadinho; Joanna não seria<span class="pagenum"><a name="Page_34" id="Page_34">[34]</a></span> -capaz de rir do desgraçado, mas como a casaca -lhe ficava mal!</p> - -<p>Tinha-se vestido para assistir ao jantar.</p> - -<p>Antes do jantar não conseguira vêr Margarida.</p> - -<p>—A sr.<sup>a</sup> D. Margarida vinha muito cançada, -estava no seu quarto. Dormia. Não havia ordem -de a acordar.</p> - -<p>Eis as seccas respostas que as criadas,—aquellas -perversas—tinham dado ás supplicas phreneticas -do pobre Thadeu.</p> - -<p>Emquanto a ir ao encontro d'ella como tanto -sonhára, não tinha podido.</p> - -<p>Seu tio, agora que lhe descobrira algum prestimo—muito -secundario, é verdade, mas um prestimo -em todo o caso—abusava d'elle horrorosamente.</p> - -<p>Tinha-o tornado uma machina de fazer contas, -contas de sommar, de repartir, de multiplicar, o -inferno!</p> - -<p>Não pudera ir, mas esperava vê-la logo que ella -chegasse, vê-la só, poder beijar-lhe as mãos, a -testa, os cabellos, os pés! Vesti-la toda de beijos -como d'antes!</p> - -<p>E depois sabia que tambem ella havia de ter -saudades! Que tambem se havia de lembrar muito -do seu amigo, do seu Thadeu, do seu cão fiel!</p> - -<p>Estava impaciente, estava no ar. Mas quando<span class="pagenum"><a name="Page_35" id="Page_35">[35]</a></span> -teve a certeza de que só a veria na sala, foi vestir-se -logo, envergou uma casaca de seu pae que -este mandára arranjar para elle, uma casaca muito -larga, já fóra da moda, de panno azulado.</p> - -<p>Que lhe importava! Ia vê-la!</p> - -<p>Vê-la era o céo.</p> - -<p>Vinha-lhe á lembrança aquelle ninho de melros -que apanhára um dia—sabe Deus com que trabalho—para -lhe dar, e o dia em que ella lhe pedira -a lua com uma gravidade tão comica, apontando -para o tanque, e o balouço que ambos tinham -projectado fazer, e as historias que elle lhe contava -debaixo do castanheiro á tarde, emquanto que -a musica do piano suspirava ao longe, e havia no -ar uns rumores indefinidos de que ella lhe perguntava -a explicação.</p> - -<p>—São os passarinhos que andam a arranjar-se -para se deitarem a dormir dentro dos seus ninhos—costumava -dizer Thadeu.</p> - -<p>E ella ria-se virando a cabeça muito esperta para -a cupula do castanheiro, a ver se descobria como -se faz a <i>toilette</i> nocturna dos passarinhos.</p> - -<p>Entrára emfim na sala.</p> - -<p>Havia grupos aqui e ali. Graves politicos que -discutiam, financeiros de abdomen volumoso, matronas -severas, moços elegantes, e no meio de tudo -um bando de raparigas alegres, garridas, a chilrearem,<span class="pagenum"><a name="Page_36" id="Page_36">[36]</a></span> -a rirem e a cochicharem entre si, contentes -da nova companheira que lhes chegava de longe, -mas muito mais contentes ainda d'aquella atmosphera -festiva e perfumada que as envolvia.</p> - -<p>No meio d'esse grupo encantador é que <i>ella</i> estava -de pé.</p> - -<p>Um corpo deliciosamente modelado, de uma -graça franzina e toda moderna.</p> - -<p>Tinha um vestido de <i>foulard</i> muito justo, muito -elegante, e no meio dos rôlos do seu crespo cabello -louro aninhava-se uma rosa vermelha, uma -rosa côr de sangue.</p> - -<p>Os olhos azues, altivos e desdenhosamente fixos -lembravam... os olhos metallicos de sua mãe.</p> - -<p>Pois era aquella a sua Margarida?!</p> - -<p>Era.</p> - -<p>Não lhe restava a menor duvida. Apesar de todas -as differenças tinha-a conhecido logo.</p> - -<p>A sua limpida testa de creança um pouco curta, -indicio de obstinação e de capricho; a sua bocca -pequenina, até alguma cousa dos seus gestos antigos, -tudo trouxe ao coração de Thadeu uma lufada -de saudades irresistivel.</p> - -<p>Correu para ella como doudo, atravessou pelo -meio de toda aquella gente, sem a menor timidez, -sem o menor receio, sem notar sequer o espanto -que a sua comica apparição tinha excitado.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_37" id="Page_37">[37]</a></span></p> - -<p>As raparigas que faziam um circulo em torno de -Margarida separaram-se n'uma subita explosão de -risadinhas, e ella, olhando muito fixa para Thadeu, -exclamou rindo, rindo sem poder mais:</p> - -<p>—Ih! credo, primo Thadeu, que casaca!... -que figura!... Pelo amor de Deus vá já tirar essa -casaca e venha depois!</p> - -<p>E ria, ria sem disfarce, emquanto elle com os -braços quebrados, o rosto estupido, a physionomia -espavorida, sentia dentro de sua pobre alma sem -consolo esphacelar-se, desfazer-se, diluir-se em lagrimas -de fel a ultima esperança da sua vida!</p> - - - -<h4>VIII</h4> - - -<p>Tres dias depois, Margarida, que se esquecêra -completamente d'aquelle insignificante episodio em -que Thadeu figurára, encontrou-o por acaso na -Baixa, onde andava fazendo compras com sua mãe, -ao lado de Henrique, que para o distrahir tinha -ultimamente fingido precisar absolutamente da sua -companhia.</p> - -<p>Margarida sahia de uma loja e ia a saltar ligeira, -elegante com a sua graça parisiense para dentro -do <i>coupé</i> delicioso que, de proposito para a filha, -o marquez havia encommendado mezes antes á<span class="pagenum"><a name="Page_38" id="Page_38">[38]</a></span> -casa Binder, e que dous finos cavallos inglezes -esplendidamente ajaezados faziam voar pelas ruas -da nossa pacata Lisboa.</p> - -<p>A vista de Thadeu despertou-lhe umas poucas -de idéas que ainda não lhe tinham occorrido.</p> - -<p>Lembrou-se, por exemplo, de que não o vira -mais, desde o instante em que elle se apresentára -diante d'ella com uns transportes ridiculos e uma -<i>toilette</i> horrorosa, na sala povoada pelas suas novas -amigas, tão ironicas, tão cruelmente maliciosas...</p> - -<p>Por que não tornára ella a vê-lo? Tinha-lhe -esquecido perguntar por elle, fôra muito ingrata...</p> - -<p>E sem raciocinar aquelle impulso estranho, parou, -esperou em uma attitude de <i>coquetterie</i> irresistivel -que os dous amigos se approximassem, -visto que ambos caminhavam na direcção em que -ella estava, e estendendo a Thadeu a sua mão esguia -e fina, a sua mão de loura, enluvada de pellica -côr de bronze, disse com uma expressão de -finura e malicia intraduzivel:</p> - -<p>—Então seu ingrato! Não me tem querido apparecer! -Por onde tem andado?</p> - -<p>E ficou a olhar para elle, como quem espera alguma -cousa, interrogadora, fascinante, sempre aristocratica.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_39" id="Page_39">[39]</a></span></p> - -<p>A marqueza, que já estava dentro do trem, -murmurou levemente enfastiada:</p> - -<p>—Então, Margarida, ficamos aqui?...</p> - -<p>E Thadeu córando, balbuciando, resmoneava -confusamente uma banal desculpa.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Margarida saltou emfim o estribo que o criado -conservava desdobrado, envolvendo n'um olhar -magnetico dos seus scintillantes olhos azues, a -bella e viril figura de Henrique de Sousa, que -presenciára mudo aquella scena inexplicavel.</p> - -<hr class="tb" /> - - - -<h4>IX</h4> - - -<p>Uma noite em S. Carlos estreiava-se uma celebridade -lyrica na <i>Norma</i>, que então estava muito -na voga.</p> - -<p>Henrique vivamente instado pela mãe e pela -irmã e tambem um pouco pelo seu proprio desejo, -determinou ir ouvir a opera adoravel, que é uma -verdadeira perola musical.</p> - -<p>Havia tempos que elle andava nervoso e inquieto.</p> - -<p>Não sabia bem o que tinha mas sentia-se mal.</p> - -<p>Tinha impaciencias nervosas que nunca havia<span class="pagenum"><a name="Page_40" id="Page_40">[40]</a></span> -conhecido no seu organismo equilibrado e harmonico.</p> - -<p>Surprehendia-se ás vezes doentiamente, a fazer -planos impossiveis antes de adormecer; a imaginar -quanto seria bom ser muito rico, viver na alta -roda, n'aquella esphera aristocratica e distincta -em que se não trabalha, em que se falla de um -modo especial e caracteristico, com termos escolhidos, -com inflexões muito mais suaves, com uns -certos desdens que d'antes lhe pareciam ridiculos -e que lhe estavam agora parecendo superiormente -requintados. Ter um palacete com alguns salões -apainelados em cuja escadaria de marmore povoada -de estatuas e de plantas raras, se aprumassem -espadanados lacaios de farda; ter equipagens -luxuosas, ter uma mulher loura, franzina, de testa -curta, de olhos piscos, com um sorriso felino, quasi -cruel nos labios vermelhos, e um corpo flexivel, -delicado, <i>mignon</i> de estatueta de <i>biscuit</i>... Uma -mulher que se chamasse Margarida.»</p> - -<p>N'este ponto da sua scisma Henrique suspendia-se -como que sentindo a estranha impressão de -quem vae caminhando por uma estrada lisa e de -apparencias tranquilisadoras, e encontra de repente, -debaixo dos pés, quando menos o espera -um reptil desconhecido.</p> - -<p>Margarida! que tinha elle com Margarida?!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_41" id="Page_41">[41]</a></span></p> - -<p>Lembrava-se que a desprezára e amaldiçoára -no dia em que vira chegar a sua casa, pallido, -desfeito, com uma casaca grotesca e uns olhos inchados -e vermelhos de chorar, o seu pobre amigo -Thadeu, que na vespera o tinha deixado tão louco -de alegria e tão triumphante de felicidade!</p> - -<p>Margarida!</p> - -<p>Vira-a depois loura, elegante, com o seu desdenhoso -olhar de myope, subir com ligeiresa fidalga -o estribo de uma carruagem, descobrindo os finos -bordados das suas saias, o pequeno pé primorosamente -calçado, todo um poema de mysteriosas elegancias.</p> - -<p>Nunca mais a vira, nunca mais desejára vêl-a!</p> - -<p>Para que?</p> - -<p>Ella lá tão em cima, elle cá em baixo lidando, -tressuando, luctando para alcançar... o que talvez -não tivesse nunca!</p> - -<p>Um nome, uma posição, o pão de sua mãe e de -sua irmã, sem amarguras e sem pequenas privações -humilhantes!</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>N'aquella noite em S. Carlos a musica sentimental -e enervante de Bellini, o contacto de todo -aquelle mundo ocioso e rico ainda o tornava mais -nervoso e excitado. Estava quasi arrependido de -ter vindo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_42" id="Page_42">[42]</a></span></p> - -<p>N'isto sentiu que lhe batiam no hombro e uma -voz aflautada, uma voz <i>tremelicante</i>, com inflexões -muito alegres, disse-lhe ao ouvido:</p> - -<p>—Anda cá acima, pediram-me para te vir buscar, -para te apresentar; gostam muito de ti! Não -imaginas como és estimado pela minha querida -Margarida, desde que soube que tens sido o meu -unico amigo, o meu auxilio na vida, aquelle a quem -mais devo depois d'ella.</p> - -<p>E Thadeu, porque era elle, arrastava pelos corredores -das frisas Henrique surprehendido, contrariado, -com uma estranha sensação de desconforto -a comprimir-lhe fortemente o peito.</p> - - - -<h4>X</h4> - - -<p>Na frisa, radiante de mocidade, de fina distincção, -com todos os requintes da moda a fazer -realçar a sua belleza moderna, fragil, quebradiça, -alguma cousa amaneirada estava Margarida.</p> - -<p>A marqueza ao lado d'ella conversava com um -velho diplomata.</p> - -<p>Á entrada dos dous a mãe teve um comprimento -um pouco secco, a filha um sorriso de graça -adoravel, de garridice innata mas irresistivel.</p> - -<p>—Quiz vêl-o porque soube que tem sido muito<span class="pagenum"><a name="Page_43" id="Page_43">[43]</a></span> -bom para Thadeu, excellente mesmo. Elle contou-me -tudo.</p> - -<p>Pobre rapaz! <i>poor dear boy!</i> e sorriu-se outra -vez com um aspecto bondoso e protector que a -transfigurou por instantes.</p> - -<p>—Eu tinha-me esquecido, o Thadeu é que se -lembrava de tudo. Fez-me reviver a minha infancia. -Sempre é bom. Agora já estou tão velha que -acho immensa graça a estas recordações do passado.</p> - -<p>E graciosa, maternal, afastando toda e qualquer -idéa que não traduzisse uma solicitude encantadora -para o seu companheiro da infancia, Margarida -foi o que seria a noiva idealisada pelo austero -coração de Henrique.</p> - -<p>E d'ali em diante o amigo de Thadeu deixava-se -arrastar de oito em oito dias até o palacete dos -marquezes.</p> - -<p>Era ali optimamente recebido.</p> - -<p>Margarida, adorada pelos paes, dava a lei em -casa. Sabiam-n'a voluntariosa, cheia de caprichos -e de phantasias, tinham medo de irrital-a resistindo-lhe.</p> - -<p>Depois, Henrique com as suas maneiras de -<i>gentleman</i>, com a gravidade desaffectada do seu -porte, com os generosos ardores da sua rica organisação, -revelava-se o que era: um homem de futuro,<span class="pagenum"><a name="Page_44" id="Page_44">[44]</a></span> -um homem que havia de ter nome mais tarde.</p> - -<p>O marquez, cynico como a vida o tornára, era -juiz excellente n'este assumpto.</p> - -<p>Conhecia um <i>homem</i> depois de duas horas de -conversação.</p> - -<p>As proprias severidades do moço, amollecidas -agora ao contacto da perturbadora formosura de -Margarida, agradavam ao marquez como uma cousa -nova, picante, inteiramente imprevista para elle.</p> - -<p>Thadeu nadava em um jubilo celeste.</p> - -<p>Era muito bem tratado; Margarida tinha com -elle umas garridices angelicas que ás vezes o deixavam -pallido e suffocado, encostado a uma arvore -ou a um banco do jardim para não cahir no -meio do chão desfeito em lagrimas.</p> - -<p>Thadeu tinha agora de vez em quando um odio -selvagem á sua mesquinha e enfezada personalidade.</p> - -<p>Se elle não fosse como era... se fosse alto, esbelto, -forte... póde ser... tem-se visto tanta -cousa...</p> - -<p>E tambem ficava absorto, idiota, seguindo com -um olhar esgazeado umas visões que o iam enlouquecendo.</p> - -<p>Ella no emtanto vinha alegre, radiosa, cheia de -vida, com o seu vestido de <i>foulard</i> côr de carne -a desenhar-lhe as fórmas flexiveis, com uma rosa<span class="pagenum"><a name="Page_45" id="Page_45">[45]</a></span> -nos seus cabellos louros, dava-lhe o braço, e arrastava-o -enlevado e estupido pelas alamedas do -jardim.</p> - -<p>—Conta-me lá o que tu fazias quando eu cá -não estava! conta-me em que pensavas. Estavas -muito triste? Quando é que viste pela primeira -vez o teu amigo Henrique? Que lhe dizias tu de -mim? E elle?... elle que idéa fazia d'esta endiabrada -pessoa que tu lhe descreveste tanta vez com -a tua phantasia de poeta—porque tu quando se -trata de mim és poeta, meu pobre Thadeu!—Anda, -falla, conta-me o que vocês faziam, gosto -tanto de te ouvir!</p> - -<p>E toda dobrada sobre o hombro d'elle, meiga, -electrica, fascinadora, com meneios de serpente, -levava horas passeando pelo braço de Thadeu.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Um anno depois d'esta época, Margarida declarava -terminantemente aos paes que voltava para -França, que ia morrer freira no convento onde -vivêra educanda, se elles a não casassem com -Henrique.</p> - -<p>E dizia-lhes estas palavras n'uma tal violencia -de gritos e de soluços, tão magra, tão empallidecida -n'aquella lucta intima de doze longos mezes, -que o marquez encolheu os hombros com a suprema -indifferença que fazia d'elle um <i>viveur</i>, e que<span class="pagenum"><a name="Page_46" id="Page_46">[46]</a></span> -a marqueza animada pela placidez do marido ao -encarar esta questão magna, declarou á filha, hoje -seus unicos amores, que ia fazer tudo para lhe -dar o noivo da sua alma, o escolhido pela sua ardente -paixão juvenil.</p> - -<p>Teve medo de ver a filha definhar-lhe e morrer-lhe -nos braços. Via-a tão abatida, tão triste, -tão enfastiada da vida, que a idéa de perdêl-a sobrelevou -a todos os seus escrupulos de rica e de -fidalga.</p> - -<p>Margarida auctorisada pelos paes pôde dizer a -Henrique, que o amava!</p> - -<p>Quanto amor! que enthusiasmo febril n'este sublime -impudor da creança opulenta, formosa, aristocratica, -disputada por dezenas de noivos tão ricos -e tão nobres como ella, que vem espontaneamente -offerecer a sua mão e a sua vida inteira ao -obscuro plebeu que passa confundido no meio das -multidões desconhecidas!</p> - -<p>E esse impudor ninguem mais fidalga e altivamente -do que Margarida o soube ter.</p> - -<p>Sabia-se adorada, estremecida, sabia que um -riso d'ella bastaria para as alegrias e para as torturas -de uma semana passada por Henrique na -labutação da sua mesquinha existencia; mas sabia -tambem que elle era tão grande, tão forte, tão orgulhoso -e digno que podia morrer, mas que morreria<span class="pagenum"><a name="Page_47" id="Page_47">[47]</a></span> -calado, sem que uma palavra revelasse o seu -martyrio!</p> - -<p>—Thadeu, meu querido Thadeu, meu amiguinho, -tenho sido muito má, não tenho querido contar-te -nada com medo de que lhe dissesses a <i>elle</i> -alguma cousa. Eu queria ser a primeira a dizer-lh'o, -queria gozar do seu sorriso, do seu olhar de -anjo, de martyr beatificado, do seu olhar que me -enlouqueceu para sempre... Agora digo-te, já não -tenho motivo nenhum para t'o esconder.</p> - -<p>Vou casar-me, vou ser d'elle, só d'elle... levar-te-hei -comnosco... Olha que foi elle que m'o -pediu... Vê como elle é bom. Eu a fallar a verdade -estava tão douda que nem me lembrei de similhante -cousa; mas elle fallou logo em ti, foi a -sua primeira vontade! Adoro-te visto que elle é -teu amigo. Has de aborrecer-me ás vezes, meu pobre -Thadeu, porque nunca entendes a tempo quando -deves ir-te embora, mas eu hei de educar-te. -Verás! Viveremos todos tres. Nunca mais te hei -de tratar mal! nunca mais me hei de rir da tua -casaca. E, a proposito, tu ainda a tens, aquella -malfadada casaca? Não me faças rir no dia do -meu casamento, pelo amor de Deus manda fazer -uma nova para esse dia. Não tenhas medo de gastar. -Eu tenho muito. Sou rica, muito rica, somos -todos tres muito ricos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_48" id="Page_48">[48]</a></span></p> - -<p>E douda, anhelante, no delirio da creança que -venceu a sua primeira teima, na dilatação ampla -de uma alma que conquistou o seu desejo supremo, -Margarida expandia n'estas palavras diffusas, -incoherentes, sem nexo, toda a felicidade que era -hoje d'ella e que julgava eterna.</p> - -<p>Thadeu escutava com o olhar morto e vidrado -de um somnambulo.</p> - -<p>Depois emmudecido por uma dôr aguda que lhe -rasgava as carnes de todo o seu corpo como um -punhal de muitas laminas, sahiu do quarto cambaleando -como um ebrio.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>No dia do casamento de Henrique houve dous -entes que na humilde tristeza de uma pobre casa, -choravam unidos todas as lagrimas da sua alma.</p> - -<p>A um d'esses entes pungia-o uma angustia dilacerante -demais para que a palavra humana a pudesse -traduzir.</p> - -<p>A outro sobresaltava-o um presentimento horrivel, -como que um dobrar de finados que lhe écoava -lá dentro, e ao qual não podia fechar os ouvidos.</p> - -<p>Esses dous entes esquecidos, voluntariamente -afastados das pompas principescas d'aquelle dia, -das festas d'aquella solemnidade esplendida eram -Thadeu e a irmã de Henrique.</p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_49" id="Page_49">[49]</a></span></p> - - - - -<h4>XI</h4> - - -<p>De feito havia já cinco annos que viviam juntos -em uma casa espaçosa e lindissima de Buenos-Ayres.</p> - -<p>Henrique pedira com tão meigas e sentidas palavras -a Thadeu para que elle os não deixasse, que -depois da viagem de rigor feita pelos noivos á Suissa -e á Italia o <i>bom cão fiel</i> foi viver junto d'elles.</p> - -<p>As investigações da sciencia, o estudo paciente -dos homens e das cousas, altas aspirações inspiradas -pelo marquez a uma gloriosa carreira politica, -absorviam Henrique, emquanto que Thadeu mais -amadurecido agora pela experiencia da vida, administrava -a casa, tomava contas aos feitores e criados, -punha em ordem os róes, recebia os rendimentos, -pagava aos fornecedores, era por assim -dizer o mordomo mór da opulenta fortuna da sua -companheira de infancia.</p> - -<p>Margarida continuava a ser o enlevo e o mimo -de quantos viviam junto d'ella.</p> - -<p>De uma organisação delicada, nervosa e vibratil, -com um aspecto infantil, que infundia uma vaga -e doce idéa de protecção; boa, d'esta bondade superficial -e egoista, que consiste em não gostar de -ver ninguem triste ao pé de si, todos os seus caprichos<span class="pagenum"><a name="Page_50" id="Page_50">[50]</a></span> -se convertiam n'outras tantas graças, todas -as suas exigencias se impunham com a tyrannia -adoravel de uma supplica!</p> - -<p>O marido tinha por Margarida aquella paixão -deleteria e quasi covarde, que ella lhe inspirára -logo no primeiro dia.</p> - -<p>Não sabia resistir senão a muito custo, a um -olhar d'aquelles olhos humidos e radiantes, a um -sorriso d'aquelles labios vermelhos, a um gesto -d'aquellas mãos finas, esguias, pallidas, da suave -pallidez dos lyrios.</p> - -<p>Não era bem amor, era uma fascinação, uma -embriaguez, uma d'estas doenças que exercem no -cerebro a sua acção paralysadora.</p> - -<p>Margarida que nenhuma força superior tentava -dominar, déra expansão completa a todos os caprichos -da sua colorida e quente phantasia.</p> - -<p>Adorava o luxo, as cousas d'arte, a musica, as -flores raras, frequentava muito o alto mundo onde -era requestadissima, vivia na perpetua idolatria de -si propria, que a pouco e pouco a inutilisava para -os graves deveres da vida.</p> - -<p>Thadeu no meio da sua céga e embrutecedora -adoração obedecia-lhe como um escravo. Só elle -sabia as despezas collossaes, as extravagancias -principescas d'aquella pequenina pessoa, activa, -graciosa, phantasista como um poeta oriental.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_51" id="Page_51">[51]</a></span></p> - -<p>Mas economisava ridiculamente em todas as verbas, -para que <i>ella</i>, a rainha, a <i>perola</i>, a <i>Margarita</i> -dos seus sonhos d'outro tempo não franzisse um -minuto a sua testa curta, a sua testa de teimosa, -na contrariedade de um desejo insaciado.</p> - -<p>E ella estava tão habituada á submissão e á humildade -d'aquelle pária, que o tratava como um -traste, um objecto seu, com o qual não tinha de -mostrar o minimo constrangimento, a minima attenção -affectuosa.</p> - -<p>—Thadeu, quero isto! Thadeu, quero aquillo! -Thadeu, vi hoje na loja de F. um adereço de um -conto de réis. Se o não mandar buscar até ámanhã -vendem-n'o. Eu quero-o. Não me deixes ficar -sem elle. Fazias-me chorar!</p> - -<p>Não lhe pedia a lua como em outro tempo, mas -quantas vezes lhe pedia cousas quasi tão inacessiveis -como a lua!</p> - -<p>Margarida tinha dous filhos. Um menino e uma -menina. Dous cherubins.</p> - -<p>Mais meigos do que a mãe nunca fôra, mais doceis, -mais tranquillos, tendo no olhar a serenidade -melancolica do olhar de seu pae!</p> - -<p>Thadeu envelhecido, de uma velhice precoce que -assombrava os que o haviam conhecido na infancia, -tinha por essas duas creanças um louco amor -de avô.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_52" id="Page_52">[52]</a></span></p> - -<p>Aquelles quatro seres eram a sua vida.</p> - -<p>Fundia-os a todos na mesma adoração apaixonada -e timida.</p> - -<p>Vivia d'elles e para elles.</p> - -<p>Henrique era o seu respeito. Margarida o idolo -do seu passado, os dous cherubins louros, a unica -esperança suave do seu futuro.</p> - -<p>Sacrificar-se, esquecer-se, abnegar de si, eis o -modo obscuro e sublime pelo qual elle sabia querer!</p> - -<p>Mas os dous pequeninos que não eram turbulentos -nem crueis, tinham nas suas caricias inconscientes -o balsamo poderoso, o balsamo divino para -as chagas occultas d'aquelle coração que a vida -ulcerára tanto e tanto.</p> - - - -<h4>XII</h4> - - -<p>Desde algum tempo que Thadeu andava inquieto.</p> - -<p>Com o seu faro finissimo de rafeiro fiel presentia -no ar um perigo desconhecido, alguma cousa -de mysterioso e de sinistro, que ouvia rugir ao -longe como no fundo de uma voragem.</p> - -<p>Na apparencia todos viviam tranquillos:</p> - -<p>Henrique sempre bom, sério, pensativo, de uma -indulgencia de forte, de uma doçura de heroe.</p> - -<p>Margarida sempre buliçosa, inquieta, cheia de<span class="pagenum"><a name="Page_53" id="Page_53">[53]</a></span> -desejos infantis, de caprichos, de alegrias ruidosas -ou de melancolias subitas que ás vezes no silencio -da sala fôfa e discreta pareciam a Thadeu um -grito de alarme na monotonia do deserto.</p> - -<p>As criancinhas... sempre os seus mais dôces amores, -aquelles de que jámais lhe proviera uma amargura.</p> - -<p>Quando Thadeu pensava que podia uma fatalidade -qualquer separal-o dos seus dous anjos, desatava -a chorar como um perdido na solidão do seu quarto.</p> - - - - -<h4>XIII</h4> - - -<p>Elle estava sentado ao pé da mesa. Primeiro estivera -fazendo contas, róes de casa, agora pendia-lhe -a cabeça embevecido n'uma vaga scisma.</p> - -<p>Sem saber explicar por que, n'aquelle dia lembravam-lhe -tantas cousas do seu passado!...</p> - -<p>Sentia dentro de si uns vagos assomos de revolta, -lembrando-se das humilhações que padecêra, -dos tratos com que lhe haviam enfraquecido o corpo -e atrophiado a intelligencia. Depois... na sua vida, -até ali obscura e dolorosa, surgia de repente -envolta nas rendas brancas do seu berço uma visão -deliciosa, uma pequena fada, a sua amiguinha, -a sua Margarida!...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_54" id="Page_54">[54]</a></span></p> - -<p>Como fôra feliz com ella e por amor d'ella...</p> - -<p>Comtudo... pensando bem... para essa felicidade -chymerica fôra elle quem fornecêra todos os -elementos. Ella nunca vira no pobre Thadeu senão -um instrumento dos seus caprichos, um escravo -das suas vontades...</p> - -<p>Em todas as delicias com que dourara a sua -vida não havia uma só que fosse nascida da vontade -de ser-lhe boa, util, consoladora!...</p> - -<p>—É verdade, murmurava o pobre doudo, é verdade! -Ella nunca teve coração!</p> - -<p>E suspendeu-se como que aterrado d'aquella -blasphemia.</p> - -<p>N'este momento Margarida entrava pelo quarto -de Thadeu, pallida como um cadaver, com os grandes -olhos dilatados n'uma expressão de indescriptivel -pavor.</p> - -<p>Agarrou-se-lhe ao braço e disse lhe baixo, n'uma -voz estrangulada e rouca:</p> - -<p>—Henrique chegou da quinta. Eu não o esperava. -Contava que elle viesse ámanhã. No meu gabinete -ha uma pessoa que deve sahir sem que meu -marido a veja. Ouves? Estou perdida... Estava -perdida mas lembrei-me de ti... Salva-me...</p> - -<p>Não me digas nem uma palavra, proseguio vendo -que elle ia fallar. Uma demora de segundos perde-me -sem remissão.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_55" id="Page_55">[55]</a></span></p> - -<p>E sahiu com o seu passo miudinho, o seu passo -<i>chic</i>, aprendido de passagem nos <i>boulevards</i> de -Pariz.</p> - -<p>Thadeu sahiu do quarto, e quando tornou a entrar -ali, acompanhava-o um moço muito pallido, -de bigode louro, cabello cuidadosamente frisado e -<i>toilette</i> irreprehensivel.</p> - -<p>Não trocaram uma palavra. Thadeu apontou-lhe -para uma cadeira, fechou a porta do quarto á chave -e sentou-se junto da janella, que dava sobre o jardim.</p> - -<p>Era em plena primavera. Pela janella aberta entrava -um perfume vago e subtil, um perfume de -rosas, de madresilva e de baunilha em flôr.</p> - -<p>Ouvia-se o rir e o chilrear das duas creanças, e -entre as ramarias entrelaçadas dos grandes arbustos -exoticos, Thadeu viu passar com os seus meneios -serpentinos, o seu vestido branco, a sua cabelladura -d'ouro, a figura esbelta de Margarida -pendida ao braço do esposo com quem fallava baixinho.</p> - -<p>Foi a ultima visão que teve d'ella.</p> - -<p>Uma visão de perfidia felina e de felina formosura.</p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_56" id="Page_56">[56]</a></span></p> - - - - -<h4>XIV</h4> - - -<p>—Deixe-se estar quieto. Não vê que não póde sahir -d'este quarto senão á noite? pronunciou a voz -enrouquecida de Thadeu.</p> - -<p>E sem dar mais attenção ao seu odioso hospede, -poz-se a arranjar papeis, uma trouxa de roupa, -algumas velhas reliquias, os retratos dos seus dous -pequeninos, dos seus <i>netos</i> como elle lhes chamava.</p> - -<p>Depois despregou da parede as duas photographias -de Henrique e de Margarida. A d'elle beijou-a, -e guardou-a com as dos pequeninos. A -d'ella... approximou-a d'uma vela que acendêra -e deixou-a arder até que ficaram só cinzas. Estava -medonhamente livido.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Era noite: sentiu o rumor conhecido da hora de -jantar, esperou que o criado viesse chamal-o e respondeu-lhe:</p> - -<p>—Diga aos senhores que jantem. Eu hoje estou -convidado fóra, não os posso acompanhar.</p> - -<p>Olhou para o homem que alli estava na mudez estupida -dos malvados, que são ridiculos, e disse-lhe:</p> - -<p>—Venha d'ahi.</p> - -<p>Sahiram juntos.</p> - -<p>Thadeu nunca mais voltou; não pôde.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_57" id="Page_57">[57]</a></span></p> - -<p>Pediu a esmola de um agasalho á irmã de Henrique, -e achou meio de fazer n'um escriptorio cópias -que lhe rendem tres tostões diarios!</p> - -<p>D'isso come e d'isso se veste.</p> - -<p>Fingiu-se offendido com Henrique por uma duvida -mesquinha de contas, que este nunca chegou -a perceber.</p> - -<p>Aceitou o papel degradante do ingrato que morde -a mão que o soccorreu.</p> - -<p>Ninguem pôde nunca arrancar-lhe nem uma palavra -do seu segredo.</p> - -<p>Tem 35 annos e dão-lhe setenta.</p> - -<p>As poucas pessoas que o vêem ou o desprezam -por absolutamente insignificante ou têm por elle a -commiseração que inspira um idiota.</p> - - - -<div class="chapter"> -<hr class="chap" /> -</div> - - -<h3 id="O_TIO_SEBASTIAO">O TIO SEBASTIÃO</h3> - - - -<h4>I</h4> - -<p>Não havia cousa que mais alegrasse o tio Sebastião, -um velhito que conheci em uma aldeia -perto de Braga, do que fallarem-lhe no filho que -estudava em Coimbra.</p> - -<p>Sorriam-se-lhe os olhos, e um contentamento intraduzivel -espelhava-se-lhe no rosto.</p> - -<p>Quando lhe elogiavam o caracter, o talento, a -bondade e a applicação do rapaz, elle fingia que -não acreditava, dizia que não era tanto assim... -e repetia:</p> - -<p>—Favores, meu amigo, favores...</p> - -<p>Mas lá no intimo agradecia aquillo tudo, e tinha -vontade de apertar nos braços a pessoa que<span class="pagenum"><a name="Page_60" id="Page_60">[60]</a></span> -fallava com tamanho louvor do filho estremecido.</p> - -<p>Quando elle descobria o seu fraco, era quando -lhe elogiavam na presença outro rapaz, outro estudante.</p> - -<p>—Sim, sim, mas como o meu! Não é porque o -rapaz seja meu filho, mas disse-me o prior, e olhe -que o prior não é tôlo nenhum, pois disse-me o -prior que o meu pequeno era o melhor estudante -que andava nas aulas de Braga, que lh'o tinham -dito os proprios mestres. Aquillo tem uma memoria! -E então lêr! Ás vezes estava horas e horas -a ouvil-o, fazia gôsto. O talho da lettra já foi melhor, -isso foi, mas o prior, a quem eu disse isto, -consolou-me, dizendo-me que todos os doutores -tinham má lettra. Assim será, mas as primeiras -cartas que o pequeno me escreveu, quando foi para -o estudo, podem mostrar-se... Quer você vêr uma -d'essas cartas?...</p> - -<p>Toda a gente da aldeia gostava do velho, e não -havia uma só pessoa que para o lisongear, ao encontral-o, -lhe não perguntasse pelo filho.</p> - -<p>—Obrigado, vae bom! e com um sorriso doce, -enternecido e caridoso envolvia o da pergunta.</p> - -<p>O tempo das ferias, sobretudo as do Natal, que -é quando se mata o porco, e se fazem filhós, e se -conversa animadamente em volta da lareira, era -anciosa e impacientemente esperado pelo velho;<span class="pagenum"><a name="Page_61" id="Page_61">[61]</a></span> -todas as noutes ia ao reportorio, que tinha á cabeceira -da cama, e pondo uma cruz no dia que -findára, dizia jubiloso:</p> - -<p>—É de menos um!</p> - -<p>Na vespera da chegada do filho, era uma azafama, -um revolver as velhas arcas de onde se exala -um forte cheiro de maçãs camoezas, e um andar -tudo n'uma poeira n'aquella casa.</p> - -<p>—Esta cama não tem roupa bastante, Joanna, -dizia para a creada; vá buscar mais um cobertor!</p> - -<p>E alisava a colcha, endireitando a fronha da travesseirinha, -e repetindo:</p> - -<p>—O estudante é muito mimoso, e depois faz frio -que não é brincadeira!</p> - -<p>Ia á cosinha, era preciso comprar isto e mais -aquillo. Examinava os armarios, passava revista -aos frascos das compotas, e punha de banda as -garrafas de vinho antigo.</p> - -<p>—Não que elle gosta do que é bom!</p> - -<p>Na rua não esperava que lhe perguntassem pelo -filho:</p> - -<p>—Chega ámanhã, chega ámanhã!</p> - -<p>As ancias eram no dia da chegada. Vinha para -a porta, esfregando as mãos, rutilante de prazer. -Todo o pobre que passava tinha uma esmola, todo -o transeunte um cumprimento benevolo e affavel.<span class="pagenum"><a name="Page_62" id="Page_62">[62]</a></span> -Os visinhos exploravam aquelle grandissimo e sagrado -affecto.</p> - -<p>—Com que então é hoje, hein?</p> - -<p>—É verdade, pelo menos assim o espero. Queira -Deus que lhe não succeda alguma no caminho. -Isto de rapazes...</p> - -<p>—Ha rapazes e rapazes. O seu é uma joia...</p> - -<p>—Sim, sim, mas ha más companhias...</p> - -<p>—Qual! E então o juizo e o talento para que -servem? Eu tenho ido com elle algumas vezes a -Braga, e bem vejo as pessoas com quem o seu -menino se dá. É tudo gente da melhor. E não lhe -fazem favor. Todos me gabam a sabedoria do seu -estudante, todos...</p> - -<p>—E eu que o diga, affirmava outro.</p> - -<p>—Então porque não entram? Vejam se apanham -um catharral! Está muito frio. Ó Joanna, -traze duas malgas d'aquelle vinho que sabes, e não -te esqueças de trazer uma talhada de presunto. -Vão beber pinga de substancia! Este é do tal que -faz peito, hê, hê, hê!</p> - -<p>—Com que então—diziam os biltres—á saude -do sr. doutor!</p> - -<p>—Que Deus fará! Tornava o bom do lavrador, -com as lagrimas nos olhos. Mas eu não tenho -malga, traze-me tambem uma, que quero beber á -saude aqui dos amigos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_63" id="Page_63">[63]</a></span></p> - -<p>E bebia de um trago, valentemente, com alma.</p> - -<p>O estudante ás vezes, na vinda de Coimbra, -chegava a Braga, onde tinha amigos e condiscipulos -antigos, e ficava mais um dia. De fórma que o -velho esperava, e ia deitar-se cheio de cuidados; -não pregava olho toda a noute.</p> - -<p>A Joanna, que bebera o mesmo leite que Sebastião, -ouvindo-o gemer e suspirar, erguia-se, e perguntava-lhe:</p> - -<p>—Tem alguma cousa, sô Sebastião?</p> - -<p>—Que é? O estudante chegou? Já me levanto, -traze-me a candeia!</p> - -<p>E era preciso que a velha lhe explicasse tudo, e -que o emballasse carinhosamente com aquellas doces -palavras com que as mães adormecem os filhos -rabugentos.</p> - - -<hr class="r5" /> - -<p>O tio Sebastião, quando casou, tinha cincoenta -annos, uns cincoenta annos limpos e rijos como não -ha ahi muitos trinta.</p> - -<p>Emquanto a mãe foi viva, não lhe quiz dar nóra.</p> - -<p>—Nada! dizia ás pessoas que lhe aconselhavam -o casamento, nada! Que lucro eu com isso? A velhinha -podia não se dar com o genio da mulher -que eu trouxesse para casa e isso era o inferno<span class="pagenum"><a name="Page_64" id="Page_64">[64]</a></span> -para mim. Quem manda n'aquella casa é minha -mãe, e ha-de mandar em quanto fôr viva. Ella -ralha, ella grita, ella dá por paus e por pedras, -por dá cá aquella palha. Deixal-a! Quando rabuja -de mais, saio de casa, e a Joanna que a ature! -São mulheres, e lá se entendem. Se eu me casasse, -tinha de acudir por uma ou por outra... Nada! -boi solto lambe-se todo...</p> - -<p>E ainda solteiro fechou os olhos da mãe que lhe -morreu nos braços.</p> - -<p>Joanna ficou senhora de tudo. Era ella que olhava -pela casa, que dava ordens, a verdadeira dona da -casa emfim. Aquelle novo modo de vida, porém, -começou a pesar-lhe, entrou a ter saudades do antigo -jugo, queria receber ordens e não dal-as; a -domesticidade era para ella um habito de que não -havia desacostumal-a.</p> - -<p>—Sabe o que mais, sô Sebastião? disse ella um -dia ao patrão. O tempo das rapasiadas passou. Por -que não toma estado? Moças é que não faltam. É -verdade que o mundo vai perdido de todo, mas -ainda ha raparigas perfeitas e tementes a Deus.</p> - -<p>—Endoudeceste, Joanna! Eu caso me lá, n'esta -edade! Só se fôr comtigo...</p> - -<p>—Lá começa elle com as tolices do costume.</p> - -<p>Agua molle em pedra dura...</p> - -<p>O tio Sebastião entrou um dia em casa com noiva.<span class="pagenum"><a name="Page_65" id="Page_65">[65]</a></span> -Era orphã de pae e mãe, era pobre, não tinha -parentes a não ser um irmão que fôra para o Brazil, -e de quem não havia noticias ha muito tempo; contava -trinta e tantos annos, mas era madrugadôra -como um gallo, direita como um vime, e valia por -dous homens no amanho da vida.</p> - -<p>Quando o tio Sebastião lhe fallou em casamento, -ella fez-se vermelha como uma papoula, hesitou -um momento, e atirando com a fouce com que andava -a cegar fêno, lançou-se-lhe nos braços, e n'um -amplexo formidavel de leôa, rompeu com isto:</p> - -<p>—Esperava esta felicidade ha dez annos. Abrace-me, -sô Sebastião, que se não fosse comsigo, não -me casava senão com a cóva.</p> - -<p>Vinha de longe o affecto d'esta mulher pelo bondoso -homem.</p> - -<p>O pae de Carlota cahiu entrevado; o tio Sebastião -ao passar-lhe um dia á porta ouviu choros e -lamentações; entrou e soube que havia alli necessidade -e quasi fome; a filha unica do invalido, -Carlota, tinha de ficar á cabeceira do catre; as -ultimas economias haviam-se extinguido pouco a -pouco.</p> - -<p>O tio Sebastião soccorreu aquella gente, mandou -chamar o medico a Villa Verde, pagou os remedios -da botica e por fim o enterro do infeliz.</p> - -<p>Entre as poucas pessoas que acompanharam á<span class="pagenum"><a name="Page_66" id="Page_66">[66]</a></span> -egreja o modesto ataúde, ia o tio Sebastião curvado, -melancolico, com o seu rosto barbeado, e -cheio de bondade e lhaneza.</p> - -<p>Carlota, que chorava a um canto do albergue, -com as mãos atadas á cabeça despenteada, ao vêr -entrar o bemfeitor, não lhe agradeceu as esmolas -com palavras ociosas—arrastou-se para elle de -joelhos, e agarrando-lhe nas mãos beijou-as com -devota soffreguidão.</p> - -<p>Passados tempos o tio Sebastião esquecera-se -d'aquelle episodio, e nem sequer reparou que a -melhor cantadeira do logar, que inquestionavelmente -era a Carlota, deixava de cantar todas as -vezes que elle passava por uma certa azinhaga...</p> - -<p>Se elle volvesse o rosto veria no meio das hervas -altas e humidas, ou em cima dos castanheiros -folhudos e entrelaçados de pampanos, um vulto -de mulher voltado para elle, a devoral-o com a -vista, a seguil-o, a banhal-o na luz cariciosa de -um longo olhar enamorado.</p> - -<p>Não deu por tal o tio Sebastião; Joanna, porém, -que era amiga de Carlota, adivinhou o segredo, e -o resultado sabe-o o leitor.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_67" id="Page_67">[67]</a></span></p> - -<hr class="r5" /> - -<p>Tres annos depois do casamento o tio Sebastião -enviuvára.</p> - -<p>Ficou-lhe um filho, uma creancinha loura e adoravel, -o vivo retrato da mãe.</p> - -<p>O lavrador concentrava no pequeno todos os -affectos, amava-o até á insania.</p> - -<p>O rapaz cresceu rodeado de caricias, de mimos -e de ternos cuidados.</p> - -<p>Não havia vontade que se lhe não fizesse. Era -um pequeno rei despotico a cuja voz o pae e a velha -Joanna se curvavam com cega obediencia.</p> - -<p>Ao completar seis annos, por conselho do prior, -começou o pequeno a estudar as primeiras lettras -com o professor régio da freguezia.</p> - -<p>—Temos homem, dizia o prior ao velho; o rapaz -vae bem, estuda e aprende com facilidade.</p> - -<p>—Quando me lembro que posso morrer sem o -ouvir cantar a missa nova, parece-me que estalo -de pena.</p> - -<p>—Ó senhor prior, o meu rapaz dava ou não -dava um padre de mão cheia?</p> - -<p>Era para padre que o velho destinava o filho, -sonhava todas as noutes com a sua primeira missa,<span class="pagenum"><a name="Page_68" id="Page_68">[68]</a></span> -via-o com as vestimentas engommadas e duras do -sacerdocio, deante do altar da egreja da freguezia, -no meio de nuvens de incenso, emquanto os padres -cantarolavam ao som plangente e arrastado do orgão, -e os sinos tangiam alegres repiques, e subiam -ao ar as girandolas de foguetes impregnando de -um espesso cheiro de polvora o adro enramilhetado -de murtas...</p> - -<p>Prompto nas primeiras lettras, foi o pequeno Sebastião -para Braga onde se matriculou no lyceu.</p> - -<p>N'este entrementes chegou do Brazil o irmão de -Carlota. Foi á aldeia natal, procurou os parentes, -e soube que todos tinham fallecido, restando-lhe -tão sómente um sobrinho.</p> - -<p>O brazileiro era solteiro, e doente; não vinha -millionario, mas tinha mais do que o sufficiente -para dar uma bonita carreira ao estudante.</p> - -<p>—Olhe, mano, disse ao cunhado, deixe isso ao -meu cuidado, eu me encarrego do menino. O bem -que desejava fazer a meus paes, que infelizmente -não encontrei, hei de revertel-o em favor de meu -sobrinho.</p> - -<p>Uma condicção exijo: não quero que o rapaz se -ordene. Quero dizer, se isso fôr da sua vontade, -d'elle, não me opponho, mas deixemos o tempo ao -tempo. Cá a minha opinião é que elle deve estudar -medicina. Os medicos ganham muito dinheiro<span class="pagenum"><a name="Page_69" id="Page_69">[69]</a></span> -em toda a parte, e no Brazil sobretudo, onde o -mais réles tem carruagem. Está por isto? O rapaz -quando acabar os estudos em Braga vae para -Coimbra?</p> - -<p>O tio Sebastião custou a descer d'aquelle sonho -em que andára tantos annos embevecido. Mas por -fim cedeu.</p> - -<p>O brazileiro demorou-se alguns annos ainda em -Portugal. A quebra, porém, de uma casa importante -do Rio chamou-o ao Brazil, para onde partiu deixando -ao sobrinho, que até então se havia portado -com singular e exemplarissimo discernimento, ordem -franca para receber tudo que lhe fosse preciso -n'uma das casas mais acreditadas do Porto.</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>Um dos estudantes que mais dinheiro gastava -em Coimbra por aquelles tempos era Sebastião -Alves, a quem a convivencia com os rapazes oriundos -das mais nobres familias de Portugal empavonára -e envaidecêra extremamente.</p> - -<p>No seu quarto, que elle adornára com excessivo -e inaudito luxo para um estudante, reuniam-se todos -os que sobresahiam em Coimbra pela fidalguia, -pela força, e pela estroinice.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_70" id="Page_70">[70]</a></span></p> - -<p>Sebastião entrou a ser explorado; pediam-lhe -dinheiro que nunca era restituido, vestiam-lhe o -fato, calçavam-lhe as botas, e comiam-lhe ceias -abundantes e regadas de vinhos caros.</p> - -<p>Com aquella vida era incompativel o estudo e a -reflexão. Deixou de ir ás aulas. Enganava o tio e -o pae, enviando-lhes certidões falsas dos <i>actos</i> que -nunca fizera.</p> - -<p>Havia dous annos já que não ia á aldeia, cujo -viver lhe aborrecia e se lhe figurava mesquinho e -chato.</p> - -<p>Quando os estudantes partiam para férias, contentes -e alegres para os abraços da familia, Sebastião -Alves deixava tambem Coimbra, percorria -as praias, ia ao Porto, a Cintra, ao Bussaco.</p> - -<p>Aquella vida inutil e varia era de quando em -quando remordida pelo remorso, todas as vezes -que o vadio recebia as cartas do pae, que, apesar -de não terem ortographia, e de serem escriptas -com uma lettra grotesca e pesada, lhe avivavam -o entranhado amor com que elle era querido por -aquelle amantissimo coração de velho.</p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_71" id="Page_71">[71]</a></span></p> - - - - -<h4>II</h4> - - -<p>O brazileiro voltára a Portugal. Em Santa Apolonia -comprou bilhete para Coimbra, mas adormecendo -profundamente só acordou quando ouviu um -empregado gritar: Granja!</p> - -<p>—É o mesmo, disse comsigo. Até é melhor. -Fico no Porto, e escrevo ao Sebastião que venha -ter commigo se quer ir vêr o filho a Coimbra.</p> - -<p>Escreveu. Se o tio Sebastião queria ir a Coimbra! -N'isso pensava elle havia semanas, porque já -não podia com as saudades.</p> - -<p>—Já cá estão dous carros e uns pósinhos, dizia -elle, se não fosse isto, quem ia vêr o rapaz era o -filho de minha mãe...</p> - -<p>O convite do cunhado alvoroçára-o de alegria e -de desusado contentamento. Ria alto, andava radiante, -cantava:</p> - -<div class="poetry-container"> - <div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse">Á uma hora nasci,</div> - <div class="verse">Ás duas fui baptisado,</div> - <div class="verse">Ás tres andava de amores,</div> - <div class="verse">Ás quatro estava casado.</div> - </div> - </div> -</div> - -<p>—Queres tu vir d'ahi, Joanna? dizia elle para -a creada que lhe arranjava a mala.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_72" id="Page_72">[72]</a></span></p> - -<p>É verdade, ó Joanna, não te lembras assim de -uma cousa que o estudante goste? Uma cousa bonita...</p> - -<p>A creada que era gulosa, lembrava-lhe marmelada, -doce de ginja, pêras de calda...</p> - -<p>—Upa! cousa melhor...</p> - -<p>—Quer saber? disse a velha, com os olhos accesos -de quem achou um thesouro, e a mim que -me não lembrou logo! Eu cá se fosse o sô Sebastião -comprava uma medalha de ouro como a que -o sr. Morgado traz no cordão do relogio; mettia-lhe -dentro o retrato da fallecida, e levava isso ao -menino que ha de ficar no ceu ao vêr a mãesinha -que Deus lhe levou.</p> - -<p>O tio Sebastião approvou a ideia. O retrato foi -tirado da parede, tinha sido feito em Braga, logo -nos primeiros tempos do casamento. Representava -Carlota vestida com uma saia de seda preta, lustrosa, -cheia de vincos, com grossas arrecadas, e -uns enormes grilhões no peito largo e afflante, os -pés nús n'umas chinellas bicudas de verniz. Na -mão direita tinha um lenço cheio de bordados, tufado. -A esquerda descançava nas costas de uma -cadeira, e os grossos dedos d'essa mão pendiam -para a palhinha, lanzudos, reluzentes de anneis. -Nos olhos de Carlota havia o espanto de quem vê -bruxaria, uma especie de pavôr disfarçado.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_73" id="Page_73">[73]</a></span></p> - -<p>O lavrador pegou no retrato, e esteve a olhar -para a mulher. Não chorou, nem teve saudades, -estava absorvido por um sentimento superior.</p> - -<p>—Ó Joanna, mas o retrato é grande e a medalha -pequena. Eu não tenho alma de degolar o retrato...</p> - -<p>A creada sorriu-se.</p> - -<p>—Pois leve o retrato e a medalha ao menino, -e elle lá que o mande arranjar...</p> - -<p>Na manhã seguinte almoçava o tio Sebastião -com o cunhado, e partia n'essa mesma tarde para -Coimbra, onde chegaram de noute. O brazileiro, -cheio de cansaço, adoentado, propoz que se adiasse -a visita ao estudante para o outro dia. Que -eram horas d'elle estar a estudar; que não era -bom distrahil-o das suas obrigações. O tio Sebastião, -porém, não se convenceu. Disse que iria só, -que não podia esperar, que não dormiria bem sem -dar um abraço no filho. Partiram ambos.</p> - -<p>Os viajantes bateram á porta da casa de Sebastião -Alves, maravilhados de verem as janellas -abertas e a casa completamente ás escuras. Ninguem -lhes respondeu.</p> - -<p>Bateram de novo.</p> - -<p>Uma visinha com a sua voz fina e cantada perguntou -o que desejavam, e explicou que o sr. Sebastião -Alves tinha ido ceiar com uns amigos a -uma hospedaria da baixa.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_74" id="Page_74">[74]</a></span></p> - -<p>Perguntou o brazileiro onde era essa hospedaria, -e para lá se encaminhou com o ancioso companheiro, -que ao vel-o meditativo resmungava -como que para attenuar a extravagancia:</p> - -<p>—Rapazes! um dia não são dias.</p> - -<p>As ruas da alta estavam solemnemente silenciosas, -os transeuntes eram raros.</p> - -<p>Ao passarem por uma casa, cujo primeiro andar -tinha as janellas abertas, viram um estudante com -a cabeça encostada ás mãos, absorvido e com os -olhos n'uns livros...</p> - -<p>—Aquelle tambem é rapaz, tornou o brazileiro -com gesto sentencioso, mas faz a sua obrigação. -Quem vem para aqui é para estudar...</p> - -<p>Ao subirem as escadas da hospedaria ouviram -um grande rumor, vivas, e <i>hurrahs</i> freneticos e -enthusiasticos; os creados açodados, vermelhos, -passavam com largas travessas fumegantes...</p> - -<p>—Desejamos saber, disse o brazileiro a um dos -creados, se o sr. Sebastião Alves está aqui.</p> - -<p>—Está, sim senhor, se lhe querem fallar, vou -dar-lhe parte...</p> - -<p>O brazileiro tirou meia corôa da bolsa de prata, -e dando-a ao creado continuou:</p> - -<p>—Não queremos perturbar o sr. Sebastião, fallar-lhe-hemos -depois. O que desejamos é um quarto -onde possamos esperar até que finde a ceia. Faça<span class="pagenum"><a name="Page_75" id="Page_75">[75]</a></span> -favor de lhe não revelar que estamos aqui, é uma -surpreza que queremos fazer ao estudante; e sorriu -contrafeito.</p> - -<p>O creado conduziu-os a uma sala, separada -d'aquella em que os estudantes ceiavam simplesmente -por uma porta.</p> - -<p>O tio Sebastião tinha o coração aos pulos dentro -do peito.</p> - -<p>—Eu vou lá; dizia baixo com a voz tremula, -quero vel-o.</p> - -<p>O cunhado conteve-o.</p> - -<p>—Espreite pelo buraco d'essa fechadura que já -o vê.</p> - -<p>O velho curvou-se e olhou.</p> - -<p>—Lá está elle! lá o vejo. Está mais magro... -aquillo talvez seja do estudo. Coitado! Mas que -chibante que elle anda! Os outros ao pé d'elle parecem -uns pobretões! Um até tem a vestea toda -rota e cheia de nodoas. Aquillo que elles trazem -é assim a modo de batina de padre... pois não é? -Espera, ó mano! lá vae o meu filho levantar-se. -Ó meu rico filho da minha alma!</p> - -<p>Sebastião levantára-se de facto para fazer um -brinde.</p> - -<p>Tinham bebido á saude das mulheres, do amor, -da gloria, do talento...</p> - -<p>Sebastião, um tanto inflammado de repetidas libações,<span class="pagenum"><a name="Page_76" id="Page_76">[76]</a></span> -fez uma saude a um velho que estava sentado -á meza, um pouco distanciado do grupo dos -estudantes.</p> - -<p>O brinde foi estrepitosamente victoriado.</p> - -<p>O velho agradeceu n'estes termos:</p> - -<p>«Muito obrigado, meus senhores! Reconhecido -pela deferencia com que me honram, consintam -que beba á saude do pae do cavalheiro que me -brindou.»</p> - -<p>O brazileiro disse:</p> - -<p>—Tome, mano! aquillo é comsigo!</p> - -<p>—Mas eu vou lá, vou dar um abraço n'aquelle -honrado homem que se lembrou de mim...</p> - -<p>Os estudantes ergueram os copos.</p> - -<p>—Á saude de teu pae, clamaram.</p> - -<p>—Que infelizmente está longe, disse commovido -pelo vinho Sebastião Alves.</p> - -<p>—Longe! qual longe, nem meio longe, tartamudeou -o tio Sebastião, e ia para lançar-se pelo -corredor fóra, quando o brazileiro de novo o reteve.</p> - -<p>—Espere homem! o rapaz talvez fique envergonhado -se lhe apparecermos assim de repente.</p> - -<p>—É verdade, meus senhores, disse um dos da -roda, um que passava por orador e que gostava -de fazer estylo.</p> - -<p>«O pae de Sebastião está longe, vive em plagas<span class="pagenum"><a name="Page_77" id="Page_77">[77]</a></span> -distantes, em terra de Santa Cruz n'esse paiz uberrimo, -monstruoso, gigante, que se chama o Brazil, -e onde os nossos recebem uma hospitalidade tão -franca e tão generosa. Brindando ao pae de Sebastião, -brindo aos nossos irmãos de além-mar.»</p> - -<p>—O que diz elle? resmungou o tio Sebastião, -que eu estou no Brazil? Não é má!... e atabafava -o riso.</p> - -<p>O brazileiro comprehendeu tudo e murmurou: -canalha!...</p> - -<p>Um dos rapazes que fôra condiscipulo de Sebastião -em Braga, voltando-se para este, disse:</p> - -<p>—É verdade, ó Sebastião, aquelle velhinho que -uma vez te acompanhou á mala posta, e que eu vi -a chorar como uma creança na rua da Conega -quando se despediu de ti, era teu avô? Muito gostei -eu do velhinho. Parece que o estou a vêr a -acenar-te com o lenço, correndo com as suas pernas -tropegas e cansadas atraz da carroagem, a -dizer: O Senhor vá na tua companhia!</p> - -<p>Sebastião avincou o rosto, um rubor subito incendiou-lhe -as faces, e partindo uma noz, respondeu:</p> - -<p>—Esse velho era caseiro de uma quinta que -meu pae comprou quando esteve ultimamente em -Portugal.</p> - -<p>O tio Sebastião voltou-se para o brazileiro. Estava<span class="pagenum"><a name="Page_78" id="Page_78">[78]</a></span> -livido, tinha os labios apertadamente unidos, -os olhos injectados de sangue. Esteve um segundo, -com os olhos fitos nos do cunhado, sem poder articular -uma palavra, bamboleando a cabeça, respirando -offegantemente pelas narinas palpitantes e -dilatadas; depois cahiu nos braços do cunhado e -prorompeu n'um soluçar dilacerante e pungitivo:</p> - -<p>—Ingrato! ingrato!</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Quando o tio Sebastião chegou á sua aldeia, -vinha pallido, desfeito, parecia desenterrado.</p> - -<p>A velha Joanna assustada perguntou-lhe:</p> - -<p>—Que foi? que foi? E o menino?</p> - -<p>—Morreu!</p> - -<div class="chapter"> -<hr class="chap" /> -</div> - -<h3 id="O_ANNEL_DO_DIPLOMATA">O ANNEL DO DIPLOMATA</h3> - - -<p>—Parecia que vendia saude... tão forte que -era!...</p> - -<p>—É verdade! quem o havia de dizer!</p> - -<p>—Era uma creança ainda, pouco mais tinha de -setenta annos, volveu outro que, pela figura e pelo -andar tropego e vacillante, denotava ter os seus -oitenta, bem puxados.</p> - -<p>—E olhe que era um bom homem! Você não -viu como a filha chorava quando o pozemos em -cima da cama? Cortava o coração, coitadita!</p> - -<p>—E honradinho! Eu sei cá! Poucos se topam -por ahi com tão bons sentimentos e com cara tão -limpa...</p> - -<p>—Lá isso!...</p> - -<p>—Não, que quem sahe aos seus não degenera!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_80" id="Page_80">[80]</a></span></p> - -<p>—Era muito amigo da pobreza! tartamudeou -uma velha.</p> - -<p>—Ó Christo! era o pai da pobreza, é o que -vossemecê deve dizer, tia Joaquina.</p> - -<p>—E depois olhe que era o melhor letrado d'estas -oito leguas em redondo.</p> - -<p>—Aquillo era um <i>selvage</i>...</p> - -<p>Assim fallavam alguns individuos pertencentes -a diversas cathegorias da pequena sociedade da -villa de X***, descendo as escadas da casa do -advogado Vasconcellos que cahira mortalmente fulminado -por uma congestão cerebral, no momento -em que defendia calorosamente um individuo que -n'uma allucinação brutal de ciume assassinára a -mulher e dous filhitos.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>O advogado Vasconcellos morrêra pobre, sorte -de todos os causidicos de provincia, que logram -vencer, quando muito, por mez, o que qualquer -dos collegas de Lisboa e Porto dá aos seus agaloados -trintanarios.</p> - -<p>Filho segundo de uma casa de bom nome na -provincia do Minho, cursava canones e leis na Universidade, -no anno de 1828, emigrando n'esse<span class="pagenum"><a name="Page_81" id="Page_81">[81]</a></span> -mesmo anno, e vindo terminar o curso mais tarde, -depois de ter defendido a causa da liberdade, -de parceria com outros condiscipulos, que tão assignaladamente -se distinguiram depois na politica, -nas armas e nas lettras.</p> - -<p>Depois de formado, recolheu-se á sua villa natal, -e não podendo contar com a mezada que seu -irmão lhe arbitrára, visto que os rendimentos da -casa mal chegavam para a alimentação e sustento -do primogenito, abriu banca de advogado, dependurando -de um dos lados da estante de pinho, encimada -pela pasta verde e encarnada de quintanista, -a lata com os seus pergaminhos de bacharel -<i>in utroque</i>, e de outro lado a farda impregnada da -polvora de vinte combates e varada pelas balas -dos servidores d'el-rei nosso senhor, no cerco do -Porto.</p> - -<p>A formosa irlandeza que o acompanhára no exilio, -e que lhe foi denodada companheira nas asperas -provações da vida, morreu-lhe pouco tempo -depois, deixando-lhe dous filhos, um rapaz e uma -menina.</p> - -<p>Tanto um como outro eram educados com sollicitude -e esmero, que para a educação dos dous -não se forrava aquelle pae amantissimo nem a despezas -nem a trabalhos.</p> - -<p>O rapaz foi para Coimbra, e a menina para o<span class="pagenum"><a name="Page_82" id="Page_82">[82]</a></span> -convento das Salesias em Lisboa, de onde recolheu -quando o irmão entrava para o primeiro anno juridico.</p> - -<p>—É preciso estudar, Antonio, olha que se eu -não tivesse aquellas cartas, tinha de andar a cavar -nas hortas de meu irmão, ou de esmolar nas escadas -ignobeis das secretarias um logar de porteiro -ou de amanuense, e isto ainda assim, apresentando -como documento dos meus serviços aquella -farda...</p> - -<p>Não eram necessarios estes conselhos. Antonio -de Vasconcellos foi sempre um sisudo moço, estudioso, -o que não quer dizer que aquella mocidade -fosse bisonha e avessa ás ridentes alegrias dos -vinte annos.</p> - -<p>Pobre da arvore que ao sorrir da primavera se -não estrelleja de flores, e em cujos ramos folhudos -e a revêrem seiva não cantam as toutinegras e não -assobiam os melros!</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Recolhia-se á sua casa, em Coimbra, o moço estudante, -alegre e contente de si por ter correspondido -bizarramente, n'uma sabbatina, ao alto conceito -em que o curso o tinha, quando lhe entregaram -uma parte telegraphica.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_83" id="Page_83">[83]</a></span></p> - -<p>Rasgou alvoroçadamente o sobrescripto, leu e -empallideceu horrivelmente.</p> - -<p>—Meu querido pae! murmurou, e curvado sobre -a sua mesa de estudo deixou cahir a cabeça -nos punhos fechados. Pobre pae! pobre pae! que -me não chegou a ver bacharel!</p> - -<p>Na manhã do dia seguinte entrava por casa -dentro, ao passo que descia as escadas o caixão -em que vinha mettido o pae.</p> - -<p>Quizeram-no affastar, esconder-lhe aquelle espectaculo -lutuoso, mas elle resistiu, e abraçado ao -cadaver do pae chorava como choram os que de -repente sentem que o braço amoravel que os guiava -n'esta vida enfraquece e esfria para sempre, -deixando-os na mais desconsolada e algida das solidões.</p> - -<p>Amparado nos braços de um amigo da infancia, -entrou no aposento em que a irmã pallida e desfeita -expedia gritos clamorosos e hystericos.</p> - -<p>—Sósinha, repetia a misera, sósinha!</p> - -<p>—E eu, minha querida Francisca? Não te lembraste -do teu irmão? disse o moço engulindo as -lagrimas, e fazendo-se forte para dar coragem á -desgraçada menina.</p> - -<p>Assim no alto mar quando o temporal arripia e -ennovela as ondas, e o velame bate nos mastros -com o ruido molhado das azas de uma ave que se<span class="pagenum"><a name="Page_84" id="Page_84">[84]</a></span> -afoga, e a marinhagem assustada grita e pragueja -ante a morte proxima e inevitavel, o capitão que -tem filhos e esposa, longe n'uma pequena aldeia á -beira-mar, dá ordens com voz tranquilla, e commanda -a manobra com a serenidade de quem vê -perto as aguas quietas e espelhadas do ancoradouro.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Volvidos alguns dias, desceu o estudante ao escriptorio. -Examinou as gavetas e os moveis, a vêr -se o pae havia feito as suas ultimas disposições. -Não encontrou senão minutas, autos, libellos em -principio, considerações juridicas.</p> - -<p>—Parece-me que o estou vendo! A ultima vez -que o vi, estava aqui sentado e perguntou-me a -rir se eu sabia o que era um libello!—disse o -moço para a irmã, que o acompanhava.—Respondi-lhe, -e elle tornou:</p> - -<p>—Caspité! Pois olha, que quando deixei Coimbra -não o sabia. A minha universidade foi esta -banca. Aqui é que se aprende, deixa lá! E depois -tu verás!</p> - -<p>Mal sabia elle que eu nunca havia de vêr isso...</p> - -<p>—E porque, Antonio?</p> - -<p>—Porque? porque estamos pobrissimos. O pae<span class="pagenum"><a name="Page_85" id="Page_85">[85]</a></span> -morreu honrado, mas sem recursos. O que nos -resta, filha, são umas cincoenta moedas, que a -nossa velha Joanna ajuntou com as soldadas ganhas -no serviço da casa de nossos avós, e n'esta... -casa que é hoje d'ella, porque é ella que nos tem -sustentado desde que nos faltou o nosso querido -amigo...</p> - -<p>Bateram n'este momento á porta do escriptorio, -Antonio de Vasconcellos foi abrir. Appareceu no -limiar da porta um lavrador que disse, desbarretando-se:</p> - -<p>—Queria dar uma palavra ao sr. doutor...</p> - -<p>—Meu pae falleceu esta semana...</p> - -<p>—O que! E eu que o vi ainda ha dias tão fero -e rijo! Em nome do Padre e do Filho... É o -que nós somos n'este mundo... Que Deus o tenha -na sua gloria, que era um homem ás direitas... -Então queira perdoar.</p> - -<p>E sahiu emquanto os dous com os olhares atados -um no outro, perguntavam n'aquella muda linguagem, -o que seria d'elles desamparados e sós -n'aquelle temporal, que tão a subitas lhes escurecera -o azul sereno da vida.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_86" id="Page_86">[86]</a></span></p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Alguns amigos do advogado e um parocho d'aquellas -circumvisinhanças, reunidos n'um sagrado -pensamento, ajustaram entre si dar uma mensalidade -a Antonio de Vasconcellos, que a rogos da -irmã acceitou aquelles adiantamentos como uma -divida que satisfaria mais tarde.</p> - -<p>Temos o nosso estudante formado e prompto. -Logo que se viu senhor dos titulos alcançados pelo -seu estudo e applicação, foi á villa natal agradecer -aos que o haviam tão evangelicamente amparado, -e, por conselhos de um condiscipulo, dirigiu-se a -Lisboa, onde fixou residencia, e entrou a frequentar -o escriptorio de um dos advogados de mais -renome no fôro da capital.</p> - -<p>Ir para a provincia trabalhar como um mouro, -estudar como um benedictino; para que? O resultado -conhecêra-o elle, que o exemplo lhe fôra -mais que manifesto na propria familia. Em Lisboa -encontraria campo mais dilatado onde desafogar -as suas altas aspirações.</p> - -<p>O peior seria o primeiro anno e ainda o segundo, -mas depois acudiriam os clientes, e o seu nome<span class="pagenum"><a name="Page_87" id="Page_87">[87]</a></span> -adquiriria a gloriosa reputação com que outros -de menos talento se ufanavam.</p> - -<p>—Ao principio, Francisca, dizia o moço doutor, -não correrá tudo á medida dos nossos desejos, mas -tu has de ter muita coragem, não é assim? Quando -eu entrar em casa, e vir um sorriso na tua boca, -verás como me lanço ao trabalho com vontade e -com intrepidez...</p> - -<p>Pobre creança!</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>N'aquella época chegara a Lisboa um individuo -que fôra o mais perdulario dos <i>leões</i> da Lisboa de -ha trinta annos, e que presentemente occupava um -elevado lugar diplomatico em uma côrte estrangeira.</p> - -<p>Contavam-se d'este homem excentricidades que -fariam morrer de inveja o mais fastiente e <i>spleenetico</i> -dos <i>lords</i>. Batera-se vinte vezes e por motivos -diversos, por questões de jogo, por questões -de mulheres, e por questões de politica.</p> - -<p>Espirituoso, valente e rico, passou pelo mais -bem acabado producto do seu tempo e do seu meio.</p> - -<p>Agora velho mas sempre original e taful, era -estimado por todos, querido nas salas, temido ainda -na imprensa e respeitado pelos politicos a quem<span class="pagenum"><a name="Page_88" id="Page_88">[88]</a></span> -asseteava com o acre azedume de quem já mourejou -nos bastidores da politica, e lhes conhece de -sobejo os fumosos mysterios.</p> - -<p>Estava Antonio de Vasconcellos no Chiado, conversando -com um condiscipulo, quando o diplomata -se apeou de um trem, e se deteve a conversar alguns -instantes com umas senhoras que iam passando.</p> - -<p>—Sabes quem é aquelle sujeito? perguntou-lhe -o condiscipulo.</p> - -<p>—Não.</p> - -<p>—É Jorge de Alvim. O velho mais moço que -passeia n'esta cidade sorumbatica e sôrna...</p> - -<p>—Esse nome não me é estranho. Foi condiscipulo -de meu pae que o estimava e tinha em grande -conta, e até se me não engano, queimei uma -larga correspondencia travada entre aquelle homem -e meu pae. A elle pessoalmente não conhecia, -mas é sympathico.</p> - -<p>—E homem de grande influencia politica.</p> - -<p>N'este momento o cavalheiro F. e o ministro -L. que passavam, acercaram-se do diplomata e -demoraram-se com elle em palestra em que pareciam -enlevados.</p> - -<p>—Repara tu como elles o tratam! concluiu o -condiscipulo de Vasconcellos ao dar-lhe o aperto -de mão de despedida.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_89" id="Page_89">[89]</a></span></p> - -<hr class="tb" /> - -<p>—Sempre me decido, Francisca.</p> - -<p>—Pois vae, Antonio, vae que não deshonra pedir -trabalho e protecção...</p> - -<p>—Receber-me-ha elle bem?</p> - -<p>—Quem te não ha de receber bem, tôlo? vae -que eu fico a pedir a Deus por ti!</p> - -<p>Antonio de Vasconcellos foi e fallou com o velho -amigo de seu pae, Jorge Alvim. Contou-lhe -toda a sua vida trabalhosa, as luctas obscuras, as -miserias que affrontára, descreveu-lhe a núa e -triste agua-furtada em que viviam, elle e a irmã, -as longas e plumbeas noites mal dormidas, a costura -mal remunerada, a dureza dos senhorios.</p> - -<p>E no gabinete cheio de conforto e de luxo aquellas -palavras tristes, desesperadas e expirantes soavam -lugubremente como um grito de agonia nas -alegrias de um noivado...</p> - -<p>—V. ex.<sup>a</sup> não sabia de uma cousa que lhe vou -agora dizer. Seu pae salvou-me da morte uma vez -no cerco do Porto, eu salval-o-hei custe o que custar -das... garras da...</p> - -<p>—Miseria, disse o moço com o rosto ligeiramente -carminado.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_90" id="Page_90">[90]</a></span></p> - -<p>—Pois seja assim! Começaremos a combater o -monstro hoje mesmo. Para isso é preciso que V. -Ex.<sup>a</sup> envergue as armas proprias para combates -d'esta ordem. Em vez do arnez, do broquel, das -cannelleiras e do elmo, aconselho-lhe que se vista -com elegancia igual á sua gentileza, porque vae -combater a féra no salão da mais elegante senhora -de Lisboa, e ante a presença das nossas mais -acentuadas celebridades politicas e litterarias. Até -logo, não é assim? disse o velho estendendo com -uma graça adoravel a mão a Antonio de Vasconcellos -que desceu as escadas enceradas com o coração -cheio de sol e de alegria.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>—Não estejas triste, a casaca fica-te bem, não -está muito nova, mas ninguem repara. Põe este -botão de rosa na casa. É bonito. Vaes mesmo um -taful—dizia a irmã de Antonio de Vasconcellos -recuando e examinando amoravelmente o moço.</p> - -<p>Depois, com um gesto impregnado de um mixto -singular de protecção e de doce auctoridade, continuou:</p> - -<p>—Prohibo-te que estejas com essa cara desconsolada.<span class="pagenum"><a name="Page_91" id="Page_91">[91]</a></span> -Digo-te eu que és o mais bonito que lá -apparece. Depois m'o contarás.</p> - -<p>E conversando e rindo n'um abandono divino e -infantil, aquelles dous camaradas na adversidade, -edificavam castellos de ventura, esquecidos de que -o padeiro n'aquelle dia recusara fiar-lhes mais -pão. Oh mocidade!</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Jorge de Alvim n'aquelle dia parecia exceder-se -a si proprio, tão brilhantes eram as suas respostas, -tão finas as suas ironias, tão cheias de sal as anedoctas -com que encantava os conselheiros, ministros -e jornalistas que estavam á mesa da elegante -condessa de X***.</p> - -<p>Fallou-se em diamantes. Jorge de Alvim desde -logo entrou a historiar casos e anedoctas a tal respeito. -Narrou as aventuras de diamantes que se -tornaram celebres pelas peregrinações em que andaram, -e assim precisou com uma erudição graciosa -a historia do <i>Sancy</i>, diamante que foi de -Carlos o Temerario, e que das mãos d'este passou -para as de um Duque de Florença e depois para -o poder do Prior do Crato, que o empenhou ao -intendente das finanças em França, Harley de -Sancy, de onde lhe proveio o nome.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_92" id="Page_92">[92]</a></span></p> - -<p>—Ainda aqui não pára, minhas senhoras, a -odysséa d'esta pedra. Harley de Sancy quando -Henrique IV de França antes de ser reconhecido -se achou em grandes apuros de dinheiro, mandou -vender esse diamante aos judeus de Metz. O homem -encarregado de tão preciosa missão, cahindo -nas mãos de uma quadrilha de bandidos, e receiando -que lhe roubassem o thesouro que levava, -engulira a pedra...</p> - -<p>—Ora essa! disse a dona da casa.</p> - -<p>—Verdade pura, minha senhora. O cadaver foi -descoberto passados tempos no bosque de Dôls, e -aberto o ventre, acharam o diamante que foi vendido -a Jacques II de Inglaterra, de cujo poder -passou para o de Luiz XIV.</p> - -<p>—E depois? disse uma das senhoras. Não póde -parar ahi esse longo peregrinar de que V. Ex.<sup>a</sup> -está sendo um Fernão Mendes...</p> - -<p>—Minto?... pois seja assim. O que posso afiançar -a V. Ex.<sup>a</sup> é que esta pedra, depois de varias -e encontradas vicissitudes acabou por onde acabou -a esposa de Meneláu... Foi roubada, e hoje pára -nas mãos dos Russos.</p> - -<p>—Justamente o que mais dia menos dia succederá -ao seu magnifico annel, Sr. Jorge de Alvim, -tornou a mesma interruptora, dardejando um olhar -guloso e felino á pedra do annel<span class="pagenum"><a name="Page_93" id="Page_93">[93]</a></span>...</p> - -<p>—E é verdade que é lindissimo e de appetite -o seu annel; deixa-m'o ver, Sr. Alvim? disse uma -das senhoras que estava ao lado de Antonio de -Vasconcellos.</p> - -<p>O annel foi passando de mão em mão crivado -de admirações e de quentes cobiças...</p> - -<p>A conversação tomára outro rumo; era o momento -dos <i>toasts</i>, e então Alvim explicou uma -usança que lá fóra estava agora muito em moda -nos jantares da alta vida, a <i>taça da amizade</i>.</p> - -<p>Ia a descrever este costume elegante quando a -senhora que estava á esquerda de Vasconcellos -soltou um grito.</p> - -<p>—Ah!</p> - -<p>—Que foi? O que foi? repetiram em roda.</p> - -<p>—Tinha aqui o annel e desappareceu-me!</p> - -<p>Levantaram-se pratos, arredaram-se cadeiras, -houve varias conjecturas.</p> - -<p>—Estaria aqui? talvez estivesse ali...</p> - -<p>E sempre debalde.</p> - -<p>Ergueram-se todos, sem cerimonia, turbulentamente, -como da mesa de um hotel...</p> - -<p>O annel não apparecia.</p> - -<p>Um dos convivas, celebre no fôro, começou a -examinar o rosto de cada criado, como quem tenta -descobrir o author de um crime.</p> - -<p>—Uma joia tão rica!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_94" id="Page_94">[94]</a></span></p> - -<p>—Não está alli por menos de duzentas libras, -affirmou um banqueiro.</p> - -<p>—Ora, pelo amor de Deus, meus senhores, volveu -o velho casquilho. O meu annel que julgo não -tem ainda por ora aventuras, ouvindo as minhas -narrativas de ha pouco encheu-se de brios, e quiz -provar aos incredulos que tambem lhe estão reservados -altos destinos... Vou propôr a V. Ex.<sup>as</sup> -uma cousa que lhes parecerá excentrica, mas que -me relevarão, já que em Lisboa passo por um ente -singular e extraordinario. Ahi vai a singular excentricidade -que me passou pela cabeça: ao sahir -d'esta sala hão de todos deixar-se revistar pelos -donos da casa. Rejeitam ou approvam?</p> - -<p>Ouvindo aquella proposta exquisita e quasi que -offensiva, alguns sorriram, indignaram-se outros, -franzindo os sobrolhos, e um pesado silencio constrangido -cahiu n'aquella sala ha pouco tão sonora -de vozes, de risos e do fino tilintar da prata e dos -crystaes.</p> - -<p>—Peço perdão, mas opponho-me e rejeito essa -proposta!</p> - -<p>Quem assim fallava era Antonio de Vasconcellos. -Estava pallido como a morte, tentava sorrir, -mas os dentes cerravam-se-lhe nervosamente, e -os cabellos empastavam-se-lhe na testa gotejando -suor.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_95" id="Page_95">[95]</a></span></p> - -<p>—Seria elle? disse a dona da casa baixo, e -fitando-o tristemente.</p> - -<p>E toda a gente que o ouvira como que por instincto -affastou-se do pobre moço.</p> - -<p>Podia ser, que fosse elle. Era pobre, pois não -viam isso claramente?</p> - -<p>Os olhos de todas as mulheres que alli estavam -começaram então desapiedadamente a analysal-o -por miudo, e passavam-lhe em revista a casaca -cossada, a pouca finura da camisa, a gravata branca -ligeiramente encardida, as joelheiras luzidias das -calças pretas.</p> - -<p>—E não é feio rapaz!</p> - -<p>—Pois sim, mas Lacenaire tambem não era feio, -volveu outra menos caridosa e mais letrada.</p> - -<p>Antonio de Vasconcellos approximou-se de Jorge -de Alvim, e baixo com voz concentrada disse lhe:</p> - -<p>—Uma palavra, Sr. Alvim, desejo dar-lhe uma -palavra...</p> - -<p>—É melhor mais tarde... depois..., replicou -desdenhosamente Jorge de Alvim.</p> - -<p>Repararam todos na insistencia de Antonio de -Vasconcellos, e as suspeitas mais e mais se enraizaram -no espirito dos convivas.</p> - -<p>O pobre rapaz, que conhecia a falsa posição em -que se collocara com a sua phrase, sentia-se humilhado -e como que vendido n'aquelle meio.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_96" id="Page_96">[96]</a></span></p> - -<p>Os proprios criados olhavam-no com manifesto -desprezo.</p> - -<p>Vasconcellos disse ainda ao diplomata:</p> - -<p>—Sr. Jorge de Alvim, pela ultima vez, quer -ouvir-me?</p> - -<p>—Homem, já sei; é pobre, teve uma fascinação, -já li isso não sei aonde... Ah! já sei... -n'um conto de Balzac...</p> - -<p>E voltou-lhe as costas.</p> - -<p>N'esse instante uma voz entaramellada e rouca -echoou na sala:</p> - -<p>—Peço que me escutem! como sou o unico pobre -que aqui está, e como todas as circumstancias -são em meu desfavor, podem julgar que fui eu que -roubei esse annel. Se não consenti na proposta feita -pelo Sr. Jorge de Alvim,—e na pallidez do seu -rosto destacavam-se duas rosas de pejo,—foi porque, -se me revistassem, encontravam-me no bolso -isto que eu furtei para levar á minha irmã que -não come desde hontem... disse o mancebo tirando -da algibeira um pão.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Houve um grande e profundo silencio angustioso. -A condessa foi a primeira a rompel-o adiantando-se -para Vasconcellos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_97" id="Page_97">[97]</a></span></p> - -<p>—Pobre rapaz!...</p> - -<p>E com o movimento que fez, um objecto brilhante -faiscou nas franjas do seu vestido.</p> - -<p>—Permitta-me V. Ex.<sup>a</sup>, condessa, disse o banqueiro -abaixando-se e desprendendo das franjas o -objecto que reluzia e chispava: aqui está o annel.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Antonio de Vasconcellos occupa hoje com geral -applauso e com grandes creditos o lugar de secretario, -na embaixada de que é ministro seu amigo -e cunhado Jorge de Alvim.</p> - - -<div class="chapter"> -<hr class="chap" /> -</div> - - - -<h3 id="A_ESCOLHA_DE_GASTAO">A ESCOLHA DE GASTÃO</h3> - - -<p>Fez verdadeiramente o que se chama <i>escandalo</i>, -em todas as salas da alta roda, o casamento do filho -do visconde das Lagôas.</p> - -<p>O visconde, cujo nome primitivo era João do -Moinho Novo, e que depois não sei porque artes -se appellidava João Silveira, fôra para o Brazil -muito moço, creio que com dezoito annos, e voltára -de lá com cincoenta e archi-millionario.</p> - -<p><i>Rosnava-se</i> muito ácerca das origens d'esta nebulosa -e extraordinaria fortuna.</p> - -<p>Uns fallavam de escravatura, alguns de contrabando, -todos de negocios pouco lisos e pouco licitos. -No fim de contas, porém, o principal é que -uma pessoa seja muito rica.</p> - -<p>Lá o <i>como</i> e <i>porquê</i> são questões secundarias,<span class="pagenum"><a name="Page_100" id="Page_100">[100]</a></span> -com que se preoccupam muito os invejosos, e um -pouco os escrupulosos.</p> - -<p>O resto das pessoas, e já se vê que são muitas, -essas nem para ahi voltam os olhos.</p> - -<p>Acham este esmiuçar impertinente das vidas -alheias além de enfadonho pouco aristocratico.</p> - -<p>O visconde passava o verão na provincia do -Minho, n'uma povoação perto de Vianna, onde -comprára um velho palacio, cuja frontaria ennegrecida -elle mandára cuidadosamente caiar.</p> - -<p>O portão do palacio era encimado pelo brazão -d'armas da familia arruinada a que pertencêra. O -visconde, que não quizera conservar mais nada -intacto, teve a caridosa lembrança de o conservar -a elle.</p> - -<p>Mandou-o limpar das hervas e dos musgos damninhos -que se tinham introduzido entre as fisgas -da pedra, e dos ninhos que a phantasia errante -das andorinhas alli armára no estio.</p> - -<p>Depois de limpo pareceu-lhe um ornato sympathico -e nada contradictorio com os seus gostos -plebeus, e deixou-o alli ficar, com tenção firme de -o cobrir de crepe, no caso de lhe morrer algum -dos seus.</p> - -<p>Foi depois d'isto que se decidiu a pedir ou por -outra a comprar, dos poderes publicos complacentes -o seu titulo de visconde.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_101" id="Page_101">[101]</a></span></p> - -<p>O mais modificou-o e transformou-o á sua vontade.</p> - -<p>Detestava as ruinas por instincto.</p> - -<p>As vastas salas apainelladas e forradas de custosos -pannos de Arrás, mandou-as estucar á moderna, -de côres claras e alegres, vendendo a um amador -de curiosas velharias,—o mais caro que poude, -já se entende—aquellas colgaduras ennegrecidas -e esfiadas, cujo merito não havia nunca logrado -perceber.</p> - -<p>Vendeu igualmente a velha mobilia, que punha -como que um perfume de grandeza extincta no arruinado -casarão, as credencias marchetadas, os tremós -de espelho partido ao meio, e em cuja moldura -dançavam estranhas figurinhas, as cadeiras -abbaciaes de couro e pregaria amarella, os cofres -de pau santo, os tamboretes de carvalho, as reliquias -d'um mundo que desabára.</p> - -<p>Os dominios do visconde depois de transfigurados -pelo seu opulento proprietario perderam -aquelle aspecto desolador, saudoso e melancolico -que os recommendava aos artistas e aos... morcegos.</p> - -<p>Ninguem por mais phantasioso e poeta que fosse, -seria capaz de evocar na sombra dos longos corredores -claustraes, uma d'aquellas figuras que são a -graça mysteriosa do passado.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_102" id="Page_102">[102]</a></span></p> - -<p>Uma castellã pallida e esguia, sustendo nas suas -mãos de marfim o missal de ricas illuminuras... -Um pagem louro e namorado, embevecido no sonho -de longinquas aventuras e de impossiveis -amores... Um vulto de abbade austero e glacial, -trazendo para o meio do mundo a gelida mortalha -da sua piedade monastica...</p> - -<p>Nenhuma d'essas visões podia agora evocar-se.</p> - -<p>Foram derrubadas as arvores silvestres cuja -sombra envolvia o palacio n'uma austera solidão; -arrancaram-se as heras possantes que cobriam -com o manto vigoroso da sua folhagem verde-negra -os muros gastos e esburacados; calçaram -e ladrilharam os pateos por onde a herva crescia -indomada e livre, e onde fontes enormes choravam -dia e noite com uma triste e somnolenta melopeia.</p> - -<p>Um jardineiro inglez veio de proposito cortar -as moitas de buxo espesso do jardim, onde umas -estatuas de pedras mutiladas e musgosas pareciam -ainda relembrar no desamparo da sua nudez -friorenta, uma vida inteira que o passado abysmára.</p> - -<p>Aquella desolação das ruinas e aquelle indomito -luxo da natureza entregue a si, foram substituidos -por todas as graças e coquettismos da moderna -jardinagem.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_103" id="Page_103">[103]</a></span></p> - -<p>Uma estufa de plantas raras, de extranho colorido, -de fórmas phantasticas e inquietadoras, de -cheiro irritante e acre; taboleiros de <i>gazon</i> d'uma -frescura esmeraldina, camelias, rosas, trepadeiras -floridas, tudo que as tyrannias da arte teem misturado -nas liberdades da Natureza.</p> - -<p>O visconde depois de haver-se rodeado de tudo -que póde tornar aos ricos a vida não só aprazivel -o que é pouco, mas invejavel o que é muitissimo, -começou a grangear relações, e a receber com bizarra -hospitalidade os amigos que durante o inverno -adquiria nas salas da capital.</p> - -<p>Em Lisboa não era menos rica, nem menos confortavel, -a habitação do millionario.</p> - -<p>Vastos salões ricamente mobilados, equipagens -de alto estylo, criadagem insolente e ociosa, escadarias -alcatifadas, bailes e ceias onde toda a côrte -concorria tão cheia de curiosidade como de gulodice, -jantares aos quaes eram convidados os ministros, -os titulares, os diplomatas estrangeiros e -os funccionarios mais influentes, tudo emfim que -póde dar á vida um aspecto opulento e principesco, -tudo que constitue o orgulho supremo dos mediocres -e a inveja brutal dos ambiciosos.</p> - -<p>De resto o dono da casa era tão pouco conhecido -da maioria dos frequentadores das suas festas, -que mais d'um o tomou pelo criado de si<span class="pagenum"><a name="Page_104" id="Page_104">[104]</a></span> -mesmo, e lhe pediu com desdenhosa insolencia, o -paletot, ou um copo de agua.</p> - -<p>O visconde enviuvára antes de deixar o Brazil, -e os que haviam conhecido sua mulher, não lamentavam -que a pobre senhora fosse dispensada -pela Providencia de assistir á espectaculosa <i>mise-en-scéne</i> -da vida dos que tinham sido seus.</p> - -<p>O visconde tivera do seu matrimonio, duas filhas -e dois filhos.</p> - -<p>Na epocha em que elle maior ostentação desenvolvia, -teriam as meninas dezoito a vinte annos.</p> - -<p>Tinham sido educadas em casa, por uma mestra -franceza escolhida pelo pae. Vestiam-se da <i>Aline</i>, -quando não mandavam vir directamente de Pariz -as suas <i>toilettes</i> extraordinarias, e sempre muito -além da moda.</p> - -<p>Usavam tudo que havia de mais excentrico. Os -chapeus mais pequenos, ou os chapeus de mais -largas abas, os vestidos que deixassem vêr o pé -todo, ou os vestidos cuja cauda roçagante lembrasse -um manto de rainha... de theatro.</p> - -<p>Havia tempos em que usavam na cabeça o cabello -de uma duzia de mulheres, e outros tempos -em que appareciam de repente de cabello cortado -como os rapazes, encaracollado e de risco ao -lado.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_105" id="Page_105">[105]</a></span></p> - -<p>Timbravam em não se parecer com mais ninguem.</p> - -<p>Mas não podiam eximir-se a um defeito especial -que as fazia darem muito na vista. Occupavam-se -extremamente de si.</p> - -<p>Fallavam do seu <i>boudoir</i>, das suas <i>toilettes</i>, das -meias de sêda de tres libras ou doze mil réis—as -unicas que traziam—, do elegante <i>edredon</i> do -seu leito, das finas perfumarias do seu toucador.</p> - -<p>Isto fazia rir com riso amarello as <i>amigas</i> mais -intimas, que diante de gente, costumavam <i>puxar-lhes -pela lingua</i>.</p> - -<p>De resto as filhas do visconde seguiam rigorosamente -os preceitos e regras da <i>alta-vida</i>.</p> - -<p>Tinham assignatura em S. Carlos, para serem -vistas, e frequentavam assiduamente a egreja, para -se parecerem com as filhas de condes pallidas e -anemicas, cujo luxo superior é a devoção e a caridade, -diluidas ambas as cousas em pequeninas -praticas de todos os dias.</p> - -<p>Sabiam conversar pouco mais ou menos sobre -tudo, sendo no fundo d'uma crassa ignorancia -ácerca de todas as cousas.</p> - -<p>Como dissemos fôra franceza a mestra que as -dirigira. Dera-lhes o verniz da educação, e mais -nada.</p> - -<p>De linguas sabiam o bastante para conversarem<span class="pagenum"><a name="Page_106" id="Page_106">[106]</a></span> -com os diplomatas; de musica, para criticarem o -physico das cantoras; de artes para revellarem a -cada instante a negação profunda que tinham para -o bello.</p> - -<p>Respeitavam e invejavam todas as superioridades -sociaes; o dinheiro, a fidalguia herdada ou -comprada, a posição, as honras, a formosura.</p> - -<p>Desprezavam profundamente uma só cousa: a -pobreza.</p> - -<p>Quando viam alguem pobre, pouca ou nenhuma -attenção lhe prestavam; mas se esse <i>alguem</i> tivesse -a inaudita ousadia de apresentar uma ideia, -uma opinião, um juizo, de contrarial-as, de escarnecer -alguma das cousas que ellas acima de tudo -reverenciavam viam-as então revellar um pasmo -sincero, um espanto que tinha o seu quê de tragicamente -ridiculo.</p> - -<p>Um dia ouviu alguem a uma d'ellas este aphorismo -extraordinario.</p> - -<p><i>Quem é pobre não tem opinião.</i></p> - -<p>E tinham um modo de levantar a voz, de alçar -altivamente a cabeça, de sublinhar vigorosamente -as palavras, que mais do que tudo confirmava que -ellas como pessoas que possuiam duzentos mil réis -por mez, só para os seus alfinetes, não tinham -nunca imaginado sequer a possibilidade de não terem -razão.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_107" id="Page_107">[107]</a></span></p> - -<p>Era uma maneira não menos auctoritaria, porém -menos correcta de dizer o que á senhora de Stael -disse um dia a duqueza de la Ferté.</p> - -<p><i>Il n'y a que moi, chère amie, qui aie toujours raison.</i></p> - -<p>Ahi estão pouco mais ou menos as duas filhas -do visconde.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>O filho mais velho, que partilhara no Brazil os -primeiros trabalhos e as primeiras luctas de seu -pae, adquirira com a victoria d'elle, que era tambem -sua, o mesmo ar de ingenua superioridade.</p> - -<p>Tinham trazido do Brazil uma fortuna collossal, -logo tinham o direito de dominarem onde quer que -estivessem.</p> - -<p>Toda a gente que frequentava a casa d'elles, -que lhes aturava a impertinencia boçal, confirmava -pela sua servil condescendencia esta convicção; -porque é pois que não haviam de a sentir?</p> - -<p>O primogenito do visconde occupava-se muito, -com verdadeira alegria de seu pae, de cifras e de -operações bancarias; jogava em fundos extrangeiros, -tinha a vocação mercantil pronunciadissima, -e nos intervallos que estas occupações transcendentes -lhe deixavam, governava um carro, e mandava -<i>correr</i> os seus cavallos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_108" id="Page_108">[108]</a></span></p> - -<p>Estivera em Londres, quando lá fôra deixar -n'um collegio o seu irmão mais novo, e voltara -com certas aspirações a <i>gentleman rider</i>.</p> - -<p>Fallava pouco, com ar sacudido, apressado, sentencioso.</p> - -<p>Usava suissas e vestia d'um alfaiate inglez. Queria -ser homem sério, respeitavel, homem de pezo, -e pensava n'uma candidatura como n'um pedestal -proprio para as suas attitudes.</p> - -<p>É no meio d'esta familia admiravelmente feita -para a sua epocha e para a posição que tem, que -vamos encontrar Gastão, o ultimo filho do visconde, -um phenomeno destinado a contrariar tudo -que se tem dito e escripto sobre a lei da hereditariedade.</p> - -<p>Gastão tem vinte e um annos, é alto, delgado, -d'uma constituição tão delicada e nervosa, que ao -lado de suas irmãs com o seu ar masculino e as -suas inflexões duras, elle é que parece a mulher e -ellas é que parecem os homens.</p> - -<p>Dizem os que um dia se atreveram a chasqueal-o -pelo ar timido e suave que apparenta, que -nos seus olhos azues, d'uma expressão triste e soffredôra, -passou um relampago de colera, pouco -tranquilisador para os que abusarem da sua excellente -educação.</p> - -<p>Gastão da Silveira, chegara havia pouco d'uma<span class="pagenum"><a name="Page_109" id="Page_109">[109]</a></span> -viagem que fizera pela Europa, depois de concluir -a sua formatura n'uma Universidade de Inglaterra.</p> - -<p>Da sua familia não sabia senão que era rica, e -que vivia grandemente, como elle tinha visto viver -os opulentos banqueiros inglezes, nas suas deliciosas -casas dos arrabaldes da cidade, confortaveis -e luxuosas.</p> - -<p>Esta informação não lhe faltava porque seu pae, -suas irmãs, seu irmão mais velho, nunca se cançavam -de lh'a repetir em todas as cartas.</p> - -<p>Isto porém não bastava a Gastão. O que elle desejaria -profundamente, era conhecer a fundo o caracter -dos seus, e o que d'esse caracter lhe revellavam -as cartas seccas e laconicas de que fallamos, -teimava elle na sua fé juvenil, em não o acceitar -como prova ou como manifestação.</p> - -<p>Tinha pelos seus amigos e condiscipulos conhecido -a vida ingleza em relação á familia, fôra convidado -para passar as ferias, em casa de ricos industriaes -na companhia de alguns dos seus mais -caros collegas de estudo, e podera conceber um -ideal realisavel, de paz, de conchêgo, de conforto -domestico, que anciava encontrar no seio da sua -familia.</p> - -<p>Tinham-lhe dito que seu pae ganhara pelo trabalho -a grande fortuna que possuia, e Gastão habituado<span class="pagenum"><a name="Page_110" id="Page_110">[110]</a></span> -a observar a actividade enorme, incansavel, -persistente, a fecunda actividade ingleza, sentira -crescer o amor pelo visconde ao saber a tenacidade -com que elle trabalhara.</p> - -<p>Intelligente, d'uma intelligencia fina e delicada, -a viagem que fizera desenvolvera-lhe o espirito, e -afinara-lhe o gosto.</p> - -<p>Voltava cheio de ideias, de factos, de noções -praticas, respeitando acima de tudo a intelligencia, -e a dignidade da vida.</p> - -<p>Como homem educado ao contacto da vida inglesa, -avaliava o dinheiro mas não como um fim, -simplesmente como um meio, o mais energico e -infallivel dos meios para chegar a grandes fins.</p> - -<p>No dia em que Gastão conheceu seu pae e seus -irmãos imaginem a dolorosa surpresa que elle sentiria.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>No animo do visconde e de seus filhos excitou -porém o apparecimento d'aquelle bello moço de -maneiras distinctas, affavelmente dignas, de espirito -superiormente cultivado, de conhecimentos -scientificos excepcionalmente desenvolvidos, a mais -agradavel das impressões.</p> - -<p>Um irmão d'aquelles, um filho de tal maneira<span class="pagenum"><a name="Page_111" id="Page_111">[111]</a></span> -elegante e fino, dava-lhes honra, dava-lhes importancia -e realce. Se fosse um extranho ter-lhe-hiam -inveja, mas emfim, Gastão pertencia-lhes, era d'elles, -a sua graça, a sua superioridade, a sua distincção -communicava-se-lhes, <i>destingia</i> sobre as -suas pessoas.</p> - -<p>O visconde pensava que no fim de contas o que -constituia o especial encanto do filho, a educação, -fôra elle quem a comprára muitissimo cara.</p> - -<p>Podia orgulhar-se de Gastão diante dos extranhos -mas queria dominal-o, subordinar as opiniões -d'elle ás suas, mostrar lhe bem claro, que o adorava -pelo que elle transmittia a sua vida de elegante -e de superior, mas que o considerava um -objecto raro adquirido por muito bom preço, e do -qual dispunha absolutamente.</p> - -<p>As <i>manas</i>, essas não occultaram no primeiro momento -de enthusiasmo que a posse de Gastão lhes -dava muito mais <i>chic</i> do que a posse do seu <i>coupé</i> -novo tirado por dois cavallos inglezes <i>pur sang</i> e -cujos arreios irreprehensiveis tinham sido louvados -pelo embaixador de França.</p> - -<p>—Ora tu verás, dizia a mais velha para a outra, -que as Pimentas em vendo Gastão ficam de -<i>fel e vinagre</i>. Repara bem para a cara que ellas -fazem, sobretudo se vierem acompanhadas do <i>mano</i>, -d'aquelle Leopoldo, de olhos vesgos, de quem<span class="pagenum"><a name="Page_112" id="Page_112">[112]</a></span> -toda gente se ri, e que ainda não acertou a fazer -uma conta de sommar.</p> - -<p>E exhibiam o irmão pelas salas das suas <i>amigas</i>, -sob pretexto de que não tinham quem as acompanhasse, -e repetiam <i>em segrêdo</i> a todas as pessoas -do seu conhecimento:</p> - -<p>—Não fazem ideia! O mano Gastão é um poço -de sciencia. Sabe todas as linguas. Eu creio que -elle até sabe sanskrito. O papá gastou immenso, -mas que educação que elle lhe deu!</p> - -<p>E por aqui adiante uma ladainha em que se confundiam -a <i>sciencia do mano</i>, os <i>gastos</i> do papá, a -inveja que todos tinham d'ambos, e a gloria que -a ellas provinha da inveja, dos gastos e da sciencia.</p> - -<p>Gastão tornara-se o luxo superior da familia.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Foi por esse tempo que o visconde entendeu -que era necessario casar o filho mais novo, visto -que o mais velho dissera com desdem supremo que -só se atiraria a esse abysmo do casamento, quando -tivesse completado os seus folgados quarenta annos.</p> - -<p>—Quando Gastão casar, as pequenas poderão -frequentar mais os bailes, os saraus e os passeios.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_113" id="Page_113">[113]</a></span></p> - -<p>Eu gosto de receber em casa; não me incommodo -com isso, mas lá para andar sempre pelo -meio da rua é que não estou. E depois Gastão -póde fazer um casamento esplendido. Está n'esses -casos por todos os motivos.</p> - -<p>E foi resolvido em conselho de familia, que Gastão -tomasse estado.</p> - -<p>A casa do visconde das Lagôas tornou-se a -<i>mansão de todos os prazeres</i>, como o bom do homem -dizia na praça aos seus amigos titulares e -merceeiros. Bailes, jantares, <i>petites sauteries intimes</i>, -concertos, a fortuna!</p> - -<p>A <i>leôa</i> d'estas reuniões, que os noticiaristas immortalisavam -na secção da alta elegancia mundana, -chamava-se Clotilde de Magalhães. O pae ambicionava -um titulo que ainda não tinha podido -alcançar <i>dos governos</i>, mas que mediante um avultado -donativo a não sei que estabelecimento bafejado -pelo favor da côrte, lhe fôra promettido para -muito breve.</p> - -<p>O conselheiro Magalhães dissera porém ao seu -amigo o visconde das Lagôas, que essa promessa -lhe não bastava, que o que elle queria e alcançaria -decerto, visto que ao dinheiro nada é impossivel, -era um titulo em duas vidas, um titulo que -elle podesse transmittir a sua filha e portanto a -seu genro.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_114" id="Page_114">[114]</a></span></p> - -<p>O visconde ouviu e comprehendeu.</p> - -<p>Desde esse dia as duas familias acariciaram -como uma esperança lisongeira, o projecto de enlace -entre Clotilde de Magalhães, a filha unica -d'esse conselheiro millionario, e Gastão da Silveira, -o elegante filho do visconde das Lagôas.</p> - -<p>Clotilde tinha vinte e dous annos. Uma esplendida -physionomia peninsular illuminada por um -par de olhos negros, dos que ateariam incendios -ha trinta annos no seio apaixonado dos tetricos -trovadores.</p> - -<p>Era intelligente o bastante para occultar o soberano -orgulho, que lhe esterilisava o coração.</p> - -<p>Tudo quanto a educação das salas tem de mais -requintado e precioso possuia-o Clotilde em larga -escala.</p> - -<p>Manejava facilmente duas ou tres linguas, cantava -com uma voz de contralto quente e apaixonada -as arias mais enervantes dos mestres italianos, -dançava com uma perfeição de attitudes que -a tornavam celebre nos salões, vestia-se bem, sem -excentricidades e sem plebeismos de mau gosto.</p> - -<p>As filhas do visconde das Lagôas invejavam-na -ardentemente conhecendo-lhe a superioridade dominadora, -mas fingiam adoral-a, porque da frequencia -de Clotilde em casa d'ellas, resultava -grande animação para as suas <i>soirées</i>.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_115" id="Page_115">[115]</a></span></p> - -<p>Clotilde que era caridosa em certas horas, e que -ostentava o capricho da <i>protecção</i>, tinha em sua -casa, como companheira, pupilla ou o que quer que -fosse, uma parenta pobre de sua fallecida mãe.</p> - -<p>Muitas vezes a levava comsigo ás reuniões mais -intimas talvez por um refinado instincto de garridice.</p> - -<p>Tão admiravel e triumphante era a belleza de -Clotilde, como doce, modesta, soffredora, era a -apparencia de Angelina. D'este contraste que a -todos os olhos se impunha, resultavam sempre -grandes alegrias de amor proprio para a elegante -herdeira.</p> - -<p>Angelina tinha pois uma dupla missão, inteiramente -passiva. Fazer sobresahir a bondade de -Clotilde e a sua formosura.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Quando Clotilde conheceu mais de perto aquelle -que seu pae lhe promettera muito brevemente para -esposo, comprehendeu logo, com a rara perspicacia -que a distinguia, que o que na sua pessoa havia -de mais brilhante e admirado pouca ou nenhuma -influencia exerceria no coração d'elle.</p> - -<p>Uma noite em que a filha do conselheiro Magalhães<span class="pagenum"><a name="Page_116" id="Page_116">[116]</a></span> -estivera mais rodeada de admirações lorpas e -de cultos banaes, em que, ebria d'esse grosseiro incenso -das salas, ella exhibira todas as suas raras e -distinctas prendas de mulher bonita e de mulher garrida, -ousou sorrindo perguntar a Gastão, que mais -d'uma vez a tinha olhado com mal disfarçada ironia:</p> - -<p>—Não me dirá qual é o seu ideal de mulher? -Vejo-o sempre tão reservadamente cortez com todas -as senhoras, que ainda não percebi o que é -preciso ser para lhe agradar.</p> - -<p>—Meu Deus! não ha nada mais facil—respondeu -o moço fictando o olhar limpido e honesto -no altivo olhar de Clotilde.—É preciso ser uma -mulher em quem ninguem repare.</p> - -<p>—Julguei que a mediocridade o não captivava -a esse ponto—volveu Clotilde mordendo os beiços -de colera.</p> - -<p>—Mas é que não é ser mediocre ser modesta. -É que a mulher que gosta de brilhar, não sabe o -que é sacrificio e abnegação, é que para mim todos -os encantos que se apreciam nas salas, não -valem um bom e candido coração que saiba amar-me -e viver só para mim.</p> - -<p>Não se póde dizer que Clotilde adorava Gastão, -mas emfim a verdade é que gostava muito d'elle. -Achava-o superior, correcto, distincto, d'uma aristocracia -innata que a encantava.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_117" id="Page_117">[117]</a></span></p> - -<p>Achava-o digno de si.</p> - -<p>Não lhe sacrificaria nenhum dos seus triumphos, -nenhuma das suas vaidades, nenhum dos seus gozos, -mas sacrificava-lhe com certeza todos os seus -adoradores.</p> - -<p>Ser mulher d'elle era para ella um sonho radioso.</p> - -<p>Discordavam, porém, em tudo, nos gostos, nas -ideias, nos sentimentos, na maneira de entenderem -a vida.</p> - -<p>Clotilde na arte preferia tudo que é brilhante e -apparatoso; Gastão amava tudo quanto é grande -e dedicado. Clotilde só vivia no meio das opulencias -sociaes; Gastão tinha a ambição das alegrias -intimas e ignoradas.</p> - -<p>Ella gostava do incenso de todas as lisonjas por -mais grosseiramente capitoso que fosse; elle mais -d'uma vez dissera que achava ignobil da parte -d'uma mulher consentir que um sujeito de casaca, -engravatado e ridiculo, tivesse a audacia de lhe -declarar perto do ouvido que a estava achando -formosa e cubiçavel.</p> - -<p>—Só digo finezas ás mulheres a quem desprezo. -São as unicas que nos dão direito de lhes dizermos -o que nos passa pela cabeça.</p> - -<p>Um homem que diz cousas ternas a uma senhora, -fazendo <i>boquinhas</i> e phrases romanticas, insulta-a -d'um modo indigno.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_118" id="Page_118">[118]</a></span></p> - -<p>Como é que as mulheres são tão absurdamente -educadas que não percebem isto?</p> - -<p>Um dia perguntaram a Gastão diante de Clotilde -se gostava da musica italiana.</p> - -<p>—Conforme! Gosto do bom que ha em todas as -escolas. N'esse ponto sou ecletico e creio que todos -o deviam ser. Agora a musica italiana das salas -acho-a ridicula e pouco decente. Uma senhora a cantar -arias em que se falla de <i>amor</i>, de <i>paixão</i>, de <i>extasis -inolvidaveis</i>, etc., que diz <i>io t'amo</i> revirando os -olhos ao primeiro sujeito que passa, perdeu o direito -a que um homem serio a escolha para sua mulher.</p> - -<p>Desde esse dia Clotilde deixou de cantar.</p> - -<p>Gastão não percebeu o sacrificio, ou pelo menos -não mostrou que o percebera.</p> - -<p>Era um espirito logico e recto, e tinha o defeito -de se guiar na vida pelas opiniões que professava.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Dançavam todos em casa do visconde das Lagôas, -e junto d'uma pequena mesa de trabalho, -no gabinete das filhas do visconde, uma figura -loura e delicadissima, inclinada sobre um album -de retratos, parecia ignorada e esquecida de toda -aquella multidão que se divertia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_119" id="Page_119">[119]</a></span></p> - -<p>—Porque não dança, senhora D. Angelina? -perguntou jovialmente a voz de Gastão. Se eu lhe -pedir que seja meu par, recusa-me?</p> - -<p>—Recuso, respondeu ella docemente, e uma côr -viva tingiu-lhe as faces.</p> - -<p>Recuso por muitas razões. Em primeiro lugar é -um pouco extranho dançar quando se tem a posição -que eu tenho, porque emfim eu não sou mais -que uma <i>dame de compagnie</i>, uma aia, uma governante -ou como queiram chamar-me, de casa dos -meus caridosos parentes.—Ao dizer isto, talvez -involuntariamente, na voz de Angelina havia umas -inflexões de amargura resignada.</p> - -<p>—Depois—continuou—não danço porque me -faria mal. Dóe-me muito o peito!</p> - -<p>Gastão sentiu dentro d'alma como que a brotar -subitamente, um sentimento que lhe era desconhecido -e em que havia dó, tristeza, admiração, um enternecimento -sem nome que lhe embargava a voz.</p> - -<p>Angelina era tão delgada, tão fragil, d'uma physionomia -tão delicadamente melancolica!</p> - -<p>Para tudo a fizera o destino, menos para combater -e para luctar. A desgraça despedaçara-a sem -que ella tentasse resistir-lhe sequer.</p> - -<p>Como seria doce protegel-a, guial-a na vida, -abrigal-a no peito contra os embates hostis da -adversidade!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_120" id="Page_120">[120]</a></span></p> - -<p>Era assim que Gastão havia sonhado uma adoravel -e submissa mulherzinha, com aquelle olhar -largo e limpido que lembrava um lago da Suissa, -com aquelles louros cabellos ondados emmoldurando -uma testa setinosa e côr de marfim.</p> - -<p>Trocaram mais duas ou tres palavras, e depois -separaram-se de novo. Angelina talvez ficasse a -scismar, que nunca mais teria occasião de ver postos -nos seus uns olhos onde se lesse tão doce e -tão honesta sympathia.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>O visconde das Lagôas convidou a familia do -conselheiro para estar um mez na sua quinta do -Alto Minho.</p> - -<p>Angelina acompanhou naturalmente a sua gentil -parenta e protectora.</p> - -<p>No campo estabelecem-se facilmente intimidades -que na cidade parecem inconvenientes e impossiveis.</p> - -<p>Gastão entre aquellas duas bellas creaturas, -d'uma belleza tão diversa como diversos eram os -caracteres, poude apreciar e aquilatar a alma e o -coração de ambas.</p> - -<p>Durante um mez Clotilde foi a rainha acclamada<span class="pagenum"><a name="Page_121" id="Page_121">[121]</a></span> -e triumphante do solar provinciano povoado de numerosos -hospedes que alternadamente chegavam, -ou partiam.</p> - -<p>Era ella quem organisava as festas, quem dirigia -as partidas, quem inventava as distrações e os -jogos. Activa, intelligente, soberanamente caprichosa, -ser dominada por ella constituia uma seducção. -Emquanto assim era o centro da animação -festiva que se notava na opulenta casa do visconde, -Clotilde empregava para captivar Gastão todos -os seus artificios de sereia.</p> - -<p>Envolvia-o no magnetismo irresistivel dos seus -sorrisos mysteriosos, do seu espirito acerado e -mordaz, da sua graça magestosa e altiva.</p> - -<p>Punha aos pés d'elle todas as homenagens de -que era objecto.</p> - -<p>Ás vezes á noite, sentava-se á meza com o desleixo -creoulo que sabia fingir, e punha-se a desenhar, -com uma <i>verve</i> comica imcomparavel, as caricaturas -dos galans suspirosos que a cercavam. -Depois, conscia de que a sua mão valia um milhão, -e sem attender aos desesperos que excitava, -offerecia a Gastão os desenhos com um gesto ironico -e submisso de que só ella possuia o segredo -encantador.</p> - -<p>Os serões animava-os com a sua presença, com -a sua voz, com a sua mestria musical, com os seus<span class="pagenum"><a name="Page_122" id="Page_122">[122]</a></span> -conhecimentos variados adquiridos nas viagens e -nas leituras.</p> - -<p>Angelina voluntariamente occulta no canto mais -escuro da sala, assistia a todo este jogo brilhantissimo -com a silenciosa resignação de quem se -sente para sempre expulsa de todos os prazeres -da vida.</p> - -<p>Nem sequer percebia que era para o lugar em -que ella trabalhava, que os olhos de Gastão se -dirigiam constantemente, e que elle tão desdenhoso -e tão ironico para com as outras, lhe fallava -sempre timidamente, respeitosamente, como os devotos -fallam com o seu Deus, como as mães fallam -com os seus filhos doentes.</p> - -<p>Houve um dia em que uma resposta quasi insolente -de Clotilde a fez padecer muito.</p> - -<p>Arrazaram-se-lhe os olhos de lagrimas, levantou-se -e foi encostar-se á varanda toda enredada -de trepadeiras que dava sobre o jardim.</p> - -<p>Não percebeu que a crueldade de Clotilde significava -um despeito, um ciume, talvez uma agonia -profunda de amor proprio! Pensou sómente que a -herdeira rica e poderosa insultava diante da sua -familia, diante do seu noivo, a orphã desamparada, -e chamou baixinho por sua mãe, pedindo lhe -que a levasse comsigo para o ceu.</p> - -<p>Então uma voz grave, sonora e viril, a voz d'um<span class="pagenum"><a name="Page_123" id="Page_123">[123]</a></span> -homem de coração e de coragem, murmurou perto -d'ella:</p> - -<p>—Quer ser minha mulher, Angelina? Ha muitos -dias que tenho vontade de fazer-lhe esta pergunta -e não me atrevia!</p> - -<p>É que se me recusar, juro-lhe que me dá um desgosto -muito grande! Não faz idéa! Parece-me que -a conheço desde que nasci, que nunca vi outra mulher, -que nunca achei possivel ter outra esposa... -Talvez não creia... mas olhe... hei de fazel-a -muito feliz... hei de amal-a com uma devoção tão -profunda...</p> - -<p>Angelina não o deixou concluir. Tapou-lhe a -bocca com uma das suas mãos diaphanas, e pallida, -a tremer, deixou-lhe cahir a cabeça sobre o -peito a soluçar..............................</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>A familia de Gastão quando o moço lhe participou -a resolução definitiva que adoptára, repelliu-o -do seu gremio illustre com o mais indignado espanto.</p> - -<p>Aquelle mesquinho enlace que vinha destruir -tantas esperanças pomposas, era para todos uma -vergonha.</p> - -<p>O visconde, as duas manas, o irmão mais velho, -o conselheiro Magalhães, tudo se revoltára contra -o que chamavam o <i>romantismo</i> de Gastão.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_124" id="Page_124">[124]</a></span></p> - -<p>Só uma pessoa o acceitou sem colera e sem protestos.</p> - -<p>Foi Clotilde.</p> - -<p>Quiz ella propria conduzir á egreja a sua juvenil -protegida, e até á ultima hora teve para com -ella e para com o homem a quem um dia no intimo -do coração chamára—o seu noivo—uma attitude -irreprehensivel de serena dignidade.</p> - -<p>Gastão e Angelina vivem n'uma deliciosa casinha -em Buenos-Ayres, onde ha dias os visitei.</p> - -<p>Elle alcançou uma excellente collocação n'uma -casa bancaria; ella tem o singular segredo de ser -economica com elegancia e laboriosa com gentil -dignidade.</p> - -<p>São ambos felizes como dois leaes corações que -se estremecem e se entendem.</p> - -<p>No seu gabinete confortavel e artisticamente arranjado -pelas mãos de Angelina, quantas vezes á -noite no tranquillo recolhimento do serão commum, -os dois noivos não lamentam a sorte dos seus parentes -millionarios!</p> - -<p>Clotilde não casou ainda nem casará talvez.</p> - -<p>Apparece em todas as festas, em todos os bailes, -em todos os theatros, sempre com o seu eterno -sorriso mordaz nos labios empallidecidos.</p> - -<p>Ha porém quem julgue lêr na sua bella physionomia -altiva, uns toques de intraduzivel soffrimento.</p> - -<div class="chapter"> -<hr class="chap" /> -</div> - - -<h3 id="O_ROMANCE_DE_ADELINA">O ROMANCE DE ADELINA</h3> - -<p>(FRAGMENTOS DE CARTAS)</p> - - -<p>Meu pae, minha mãe, as pessoas que me cercam -dizem-me continuamente que a vida é triste, que o -dever tem sempre um aspecto difficil, que as chiméras -da nossa imaginação nunca chegam a realizar-se...</p> - -<p>Eu ouço-os, mas affirmo-te que não estou nada -convencida.</p> - -<p>Supponho ás vezes que vejo a existencia pelo -avesso, que tenho um modo muito extravagante de -comprehender as cousas.</p> - -<p>Ouço por exemplo chamar <i>romanescas</i> a todas -as mulheres loucas ou desgraçadas.</p> - -<p>Ás que deixam seus maridos para seguir um<span class="pagenum"><a name="Page_126" id="Page_126">[126]</a></span> -sujeito de bigode e collete branco que lhes recitou -versos ao piano entre dois candelabros; ás que -andam toda a vida á procura de um <i>ideal</i> que ora -encontram ora deixam, percebendo que se enganaram; -ás que usam olheiras e cabellos cahidos, -e fallam do seu <i>desespero</i> inconsolado entre uma -quadrilha e uma valsa.</p> - -<p>Para mim essas mulheres são tudo menos romanescas.</p> - -<p>Sabes ao que eu chamo romantismo?</p> - -<p>A uma aspiração delicada, a tudo que é bello e -bom. A um desejo ardente de perfeição que se não -satisfaz facilmente. A uma tendencia para idealisar -os deveres e os sentimentos.</p> - -<p>Crê, minha boa Thereza, que não ha ninguem -mais romantica do que eu!</p> - -<p>Chego ás vezes a ter medo de que isto seja um -pendor funesto que me arraste a algum desvario.</p> - -<p>No outro dia casou aqui uma prima minha.</p> - -<p>É uma galante rapariga, bem educada e intelligente.</p> - -<p>Encontrou o noivo uma duzia de vezes, elle pediu-lhe -licença para confessar aos paes que a amava -muito.</p> - -<p>D'alli a dous mezes, concluidos os preparativos, -casaram-se.</p> - -<p>Não se conhecem nada, mas como as fortunas,<span class="pagenum"><a name="Page_127" id="Page_127">[127]</a></span> -as idades, e as posições dos paes estavam em harmonia, -concluiram que se haviam de dar optimamente.</p> - -<p>Aquelle casamento que agradou a toda a gente, -consternou-me a mim.</p> - -<p>O meu casamento ha de ser o unico romance -da minha vida, mas affirmo-te que o quero bem -longo, bem completo. Quero que as suas paginas -luminosas lidas uma vez me dourem de mysteriosa -claridade todo o futuro. Quero amar o meu noivo -para adorar eternamente o meu marido.</p> - -<p>Dizem que o dever é sempre custoso de cumprir.</p> - -<p>Conforme!</p> - -<p>Eu tenho dezoito annos, e nunca até hoje liguei -á ideia do dever uma ideia que não fosse de satisfação -intima.</p> - -<p>Sou tão feliz em amar meus paes, em soccorrer -os desgraçados, em cultivar o meu espirito, em -sacrificar os meus prazeres aos prazeres de alguem!</p> - -<p>O sacrificio seja elle de que genero fôr, parece-me -uma dôr suave, uma sensação de pungitiva -delicia, que nos eleva e nos engrandece.</p> - -<p>Só os que sabem sacrificar-se affirmam a sua -superioridade.</p> - -<p>Tenho medo de ser criminosamente aristocrata.</p> - -<p>Parece-me que assim como as pessoas bem educadas<span class="pagenum"><a name="Page_128" id="Page_128">[128]</a></span> -nunca se deixam avassallar pela gula, pela -violencia dos appetites grosseiros, assim as almas -finas não devem entregar-se a uma ambição desregrada -de prazeres.</p> - -<p>Soffrer é uma condição humana, mas ha soffrimentos -que são a mais requintada das doçuras.</p> - -<p>Ás vezes olho para minha mãe e lembro-me que -se pudesse trocar a minha robustez pela sua debil -saude, a minha cabelleira densa e loura pelos seus -lindos cabellos brancos, a minha alegria exhuberante -pelo seu sorriso meigo e soffredor, conheceria -um gráo de felicidade mais puro, mais alto do que -todos os gozos que até agora experimentei.</p> - -<p>E no emtanto ao dar-lhe a minha mocidade, ao -receber em troca a sua velhice, de certo que sentiria -infinitas saudades!</p> - -<p>Não se renuncia friamente a todas as esperanças -do futuro!</p> - -<p>Seria, porém, uma das taes dôres que eu amo, -uma d'aquellas tristezas divinas que fazem bem á -alma e como que a depuram das imperfeições da -terra.</p> - -<p>Será isto romantismo, Theresa?</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Andam commigo agora de baile em baile, de -<i>soirée</i> em jantar.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_129" id="Page_129">[129]</a></span></p> - -<p>Imaginam que me enganam, os queridos velhinhos!</p> - -<p>Elles que gostam tanto do cantinho do fogão, -onde conversam, e se recordam de tudo que passou, -fingem um subito e inexplicavel desejo de distrações -mundanas.</p> - -<p>Eu sigo-os com um sorriso malicioso que ás vezes -os assusta.</p> - -<p>Sabes as minhas ideias, não é verdade?</p> - -<p>Que garantias de futuro me daria a mim um -marido apanhado a laço á luz dos lustres dourados, -em uma sala de baile frivola e banal?</p> - -<p>Não é ahi que eu encontrarei de certo o noivo -da minha alma!</p> - -<p>Porque é que se não poderá alliar a poesia do -coração com os deveres da realidade? Não entendo -isto!</p> - -<p>Pois só serão deliciosos os amores vedados?</p> - -<p>A mim parece-me que a vida com o seu cortejo -de dores, de deveres, de sacrificios, de affectos, a -vida com a sua manhã purpurea e gorgeada, com -o seu meio dia luminoso em que rompe em ondas -crystallinas a musica triumphante dos vinte annos, -com a sua tarde melancolica d'uma doçura -indefinida e dubia, com a sua noite emfim, noite -estrellada e calma, em que esmorecem e expiram -todos os rumores da terra, é como que um poema<span class="pagenum"><a name="Page_130" id="Page_130">[130]</a></span> -completo, uma symphonia em que ha todas as notas, -todos os tons, todas as expressões.</p> - -<p>Os que amaldiçoam a vida, ou querem fugir das -suas commoções naturaes, procurando n'um meio -artificial, n'uma atmosphera de estufa outros gozos, -outros prazeres, outras angustias, são esses -que não entendem a opulencia harmoniosa da criação!</p> - -<p>Ser filha, e noiva e esposa e mãe! onde acharemos -estados da alma mais completos que aquelles -que resultam naturalmente d'estes modos de ser?</p> - -<p>Aqui ha tudo! Alegrias, dôres, sobre-saltos, esperanças, -sonhos, arrebatamentos, extasis ineffaveis!</p> - -<p>Não proscrevamos o romance da vida, pelo contrario -identifiquemol-o com a vida!</p> - -<p>Ponhamos no nosso modo de sentir a maior porção -de ideal, a que sejamos accessiveis.</p> - -<p>Pensar que o dever só póde comprehender-se -<i>terra a terra</i> é amesquinhar e rebaixar o dever!</p> - -<p>A paixão não precisa de ser criminosa para nos -dar gozos supremos; creio mesmo que é o crime -que a torna amarga aos labios e dolorosa ao coração!</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Perguntavas-me no outro dia maliciosamente se<span class="pagenum"><a name="Page_131" id="Page_131">[131]</a></span> -eu faço a minha leitura predilecta da <i>Moral em -acção</i>.</p> - -<p>Não faço.</p> - -<p>Se ha cousa que eu acho desmoralisador é um -tratado de moral <i>chaufé à froid</i>.</p> - -<p>Sabes quem são os meus mestres do bom e do -bello? São Beethoven, Mozart, Hayden, os meus -queridos e nobres artistas.</p> - -<p>Cada dia me deixo levar mais apaixonadamente -por este amor da musica que me consola, e me levanta -e por assim dizer me realiza todos os sonhos -ambiciosos da minha alma.</p> - -<p>Presinto que se chegar na vida para mim uma -hora sombria em que veja por terra os meus idolos, -a musica me ha de consolar de tudo!</p> - -<p>Ha pessoas que choram com a musica. Foge -sempre da musica que faz chorar. É enervante, é -perigosa e traiçoeira.</p> - -<p>Mozart e Beethoven não enfraquecem, fortificam. -Dão-nos á alma como um grande banho de -ar puro.</p> - -<p>Fazem-nos subir ás alturas immaculadas e de lá -ver tudo que é pequeno, ephemero, transitorio aos -nossos pés.</p> - -<p>Ó Beethoven, se eu alguma vez fôr trahida envolve-me -nas tuas azas de luz!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_132" id="Page_132">[132]</a></span></p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Não te disse eu que o meu romance existia algures, -n'um mysterioso recanto onde eu ainda não -déra com elle?</p> - -<p>Não me enganei.</p> - -<p>Existe.</p> - -<p>Tem vinte e cinco annos, ha muita gente que -diz que elle é feio. Eu acho-o simplesmente adoravel.</p> - -<p>Tem uns bellos olhos escuros que a paixão illumina, -de que a ironia faz chispar faiscas sombrias, -e que em horas de embevecimento e de ternura -tem segredos doces de uma bondade ineffavel! Tem -uma testa larga e pensativa, e uma boca desdenhosa -como se o sarcasmo a houvesse affeiçoado.</p> - -<p>Acham-lhe innumeros defeitos, eu acho-lhe sómente -alguns.</p> - -<p>Mas é para aquelles que a vida endureceu e -azedou, que as almas moças devem abrir os mananciaes -da sua fé.</p> - -<p>Hontem disse-me, depois de me ter ouvido tocar -piano durante tres horas, que eu lhe fizera -tanto bem, que se esquecia por amor de mim do -mal que todos os outros lhe tinham feito.</p> - -<p>Estas palavras que em outra boca seriam uma -banalidade, na boca d'elle pareceram-me um juramento -que vinculava para sempre as nossas duas -vidas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_133" id="Page_133">[133]</a></span></p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Tres annos de silencio! Como é que tu has de -perdoar-me, Thereza!</p> - -<p>Mas se eu te disser uma cousa, só uma cousa, -perdôas-me de certo.</p> - -<p>Sou muito infeliz.</p> - -<p>Quiz talvez realizar o impossivel, quiz achar no -amor de meu marido o conjuncto de todos os amores -de que eu me sentia capaz.</p> - -<p>Fiz tudo para conservar a felicidade, e a felicidade -fugiu-me.</p> - -<p><i>Elle</i> vê em mim um pezo, uma prisão, talvez -que um grande desapontamento.</p> - -<p>Nunca me queixo. Para que?</p> - -<p>A gente não deve queixar se, porque é uma humilhação -escusada e inutil.</p> - -<p>Procuro convencer-me de que na vida de todas -as mulheres ha d'estes cilicios occultos que ellas -supportam ageitando nos labios um sorriso heroico.</p> - -<p>Não renego nenhuma das minhas ideias. O dever -consola, o dever compensa.</p> - -<p>Não comprehendo que, porque um faltou ao -contrato ideal que fez com a consciencia, o outro -deva faltar tambem.</p> - -<p>Emquanto <i>elle</i> me quizer junto de si, hei de -dar-lhe toda a minha vida, feliz d'este sacrificio -sem paga.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_134" id="Page_134">[134]</a></span></p> - -<p>Illudi-me porque lhe quiz muito, e perdôo-lhe -por que me illudi.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Hontem, minha mãe, a pobre velhinha que succumbe -ás agonias da sua recente viuvez, dizia-me -diante do berço de meu filho desamparado, do meu -orphãozinho, cujo pae vive ainda:—Acabou-se tudo! -Naufragámos todos tres!</p> - -<p>Pelo contrario! Agora é que tudo começa!</p> - -<p>Não imaginas a coragem e a energia que eu -sinto em mim!</p> - -<p>Sou eu, minha mãe e meu filho.</p> - -<p>Uma quasi que perdeu a consciencia, o outro -não a tem ainda. Sou eu que preciso pensar e trabalhar -por todos tres.</p> - -<p>Na grande desgraça que me feriu, a ideia de -que sou necessaria, de que me tornei indispensavel -aos entes a quem mais quero, inoculou-me no -espirito dilacerado uma força superior.</p> - -<p>Mas como foi que tudo isto succedeu? perguntas -tu cheia de pasmo.</p> - -<p>Não sei! Uma mulher que passou, uma artista -que tinha em talento o que lhe faltava em coração -e que o levou atrás de si, satelite desprezivel, de -um astro cahido.</p> - -<p>Não tenho saudades d'elle, crê que não tenho.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_135" id="Page_135">[135]</a></span></p> - -<p>O homem que eu amei era uma nobre e digna -creatura, incapaz de transigir com a honra, e de -submetter-se á tyrannia dos appetites brutaes.</p> - -<p>Tinha defeitos, era violento, apaixonado, irascivel, -mas era honesto.</p> - -<p>Esse homem morreu, ou não existiu nunca.</p> - -<p>O que fugiu não se parecia com elle.</p> - -<p>Quando estou só, estremeço ás vezes com um -asco intraduzivel de mim propria.</p> - -<p>Quem é que se consola das maculas de um tal -amor?</p> - -<p>Não te disse eu, que se tudo me faltasse, os -meus velhos mestres, os meus amigos, as almas -sonoras e transparentes que sabem traduzir em -sons tudo que ha de bello na natureza, as côres, -os perfumes, as linhas, o mundo da materia e o -mundo do espirito; não te disse eu que elles me -consolariam e me haviam de amparar?!</p> - -<p>Chegou o momento supremo.</p> - -<p>Chamei os e não faltaram ao meu apello.</p> - -<p>Mostrei-lhes o meu coração partido, o meu orgulho -machucado, as minhas illusões desfeitas e -disse-lhes: Consolai-me! Mostrei-lhes o meu filho -pequenino, e a minha mãe decrepita, e disse-lhes: -dae-lhes pão!</p> - -<p>E ouviram-me as almas adoraveis!</p> - -<p>Sinto em mim a virilidade augusta dos fortes.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_136" id="Page_136">[136]</a></span></p> - -<hr class="tb" /> - -<p>O meu Arthur tem hoje quinze annos.</p> - -<p>É um formoso adolescente, louro e timido como -uma virgem.</p> - -<p>Vivemos eu e elle n'uma casinha de um bairro -tranquillo e retirado.</p> - -<p>De dia elle frequenta o lyceu, e eu dou as minhas -lições de musica, á noite lemos, conversamos -e tocamos juntos.</p> - -<p>Todos os annos, n'um dia certo, fazemos uma -romagem piedosa.</p> - -<p>Vamos visitar ao cemiterio o tumulo de pedra, -pobre e modesto, onde dorme o seu tranquillo -somno a minha querida mãe.</p> - -<p>Foram serenos e doces os ultimos dias que ella -viveu na terra.</p> - -<p>Ajudou a crear o meu Arthur, que era tão endiabrado -e travesso como hoje é tranquillo e scismador!</p> - -<p>Eu sahia de casa muito cedo, e deixava-os a -ambos juntos a papaguearem alegremente, porque -não ha nada que illumine a tristeza dos velhos -como a alegria dos netos.</p> - -<p>Ao principio era-me doloroso aquelle monotono -trabalho de ensinar os principios de musica, mas -quando vi desenvolver-se em casa o conforto devido<span class="pagenum"><a name="Page_137" id="Page_137">[137]</a></span> -aos meus pertinazes esforços, cobrei nova -coragem e alentos novos.</p> - -<p>Sahia com mais animo e voltava com mais alegria.</p> - -<p>Em mim faziam-se dous trabalhos: Procurava -afazer-me á minha nova existencia e apagar da -memoria o meu passado enganoso.</p> - -<p>Tivera o meu romance, e o romance deixára-me -na boca o travor amargo das cousas insalubres!</p> - -<p>Em todo o caso nunca me arrependi de ter aspirado -a saciar a minha sêde de ideal nas fontes -puras do coração.</p> - -<p>Era mais feliz na minha infelicidade que os outros -nas suas alegrias!</p> - -<p>A minha vida de professora, fazendo-me penetrar -em muitas casas diversas, deu-me ensejo para -conhecer melhor o mundo.</p> - -<p>Encontrei muita gente alegre e satisfeita que -me causou profundo dó.</p> - -<p>Marido e mulher separados pelas ideias moraes, -pelas crenças religiosas, pelas occupações, pelas -indoles diversas, pelo modo antithectico de encarar -as cousas; unidos sómente por um laço, o habito; -por uma força, as conveniencias sociaes.</p> - -<p>Oh! antes o meu desamparo, antes o abandono -em que eu fiquei na flôr da vida!</p> - -<p>Conheci muitas mulheres que procuravam no<span class="pagenum"><a name="Page_138" id="Page_138">[138]</a></span> -turbilhão mundano consolação para intimas tristezas; -outras, que me confessaram chorando, que a -ingratidão e a inconstancia do marido as arrastára -á perdição, ao desprezo de si proprias.</p> - -<p>Não as repelli, porque não tinha direito para -ser implacavel; lamentei-as, não porque as achasse -dignas de lastima, mas porque me pareciam dignas -de desdem!</p> - -<p>Como se o crime posterior da mulher não fosse -a justificação do crime anterior do marido!</p> - -<p>Ser boa e digna e virtuosa, quando tudo nos -ajuda a isso, grande milagre!</p> - -<p>Na solidão, no abandono, na injustiça do mundo, -é que a honestidade da mulher se acrisola!</p> - -<p>Se meu marido não houvesse fugido de mim, -deixando-me nos braços uma creancinha de mezes, -como poderia eu conhecer as luctas da vida e ter -sahido triumphante das provações da desgraça?</p> - -<p>Não imaginas, querida amiga, como hoje é doce -e tranquillo o meu outomno!</p> - -<p>Em primeiro lugar o querido anjo que eu eduquei -sósinha, depois a musica, as flôres e os bons -livros. Falta-me a minha mãe querida, mas essa -morreu abençoando-me!</p> - -<p>Ao domingo, quando eu e Arthur nos achamos -bem sós, no nosso pequeno gabinete de trabalho, -chego a conceber a beatitude do paraizo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_139" id="Page_139">[139]</a></span></p> - -<p>Sento-me ao piano e toco, toco até me sentir -sem forças.</p> - -<p>Converso longamente com os amigos da minha -mocidade, com os que me vestiram a alma da -crystallina armadura que resistiu a todos os attrictos -da miseria humana.</p> - -<p>Conto-lhes as luminosas aspirações da minha -adolescencia, a ideia que eu fazia da abnegação, -do amor, do sacrificio; e os esforços que empreguei -para me cingir sempre a essa ideia levantada -e superior.</p> - -<p>Conto-lhes o bello instante radioso em que na -minha vida desabrochou a flôr mysteriosa que -elles me haviam ensinado a julgar o premio mais -dôce de um coração cheio de fé. E com que extremos -eu cultivei essa flôr que um dia se desfez -em cinzas nas minhas tremulas mãos! E como a -doce illusão de a possuir me fizera melhor!</p> - -<p>Depois conto-lhes a tempestade que subitamente -fez sobre mim a sua explosão sinistra, e o meu -desamparo e a minha dôr fulminadora, e a vacillação -tremenda em que eu vi tudo que julgara immutavel -prestes a desabar, deixando-me só ruinas!</p> - -<p>Foi então que o amor d'elles me salvou, foi então -que as suas vozes divinas me chamaram, e -que, na esphera elevada em que elles moram, eu<span class="pagenum"><a name="Page_140" id="Page_140">[140]</a></span> -me senti penetrar da calmaria adormecedora de -todas as paixões ruins!</p> - -<p>No outro dia, depois de tocar duas horas, esquecida -de tudo, procurei meu filho e achei-o de -joelhos ao pé de mim.</p> - -<p>Tinha a gentil cabeça loura mergulhada nos -meus vestidos, e, quando levantou os olhos cheios -de lagrimas, disse-me com uma voz em que se -fundiam todas as musicas:</p> - -<p>—Ó mãe, Deus te abençôe, porque foste ultrajada -e trahida, e eu posso amar-te e respeitar-te.</p> - -<div class="chapter"> -<hr class="chap" /> -</div> - - -<h3 id="A_CIGANA">A CIGANA</h3> - - -<p>Quando o gageiro gritou do alto das vergas—terra!—toda -a gente que vinha a bordo da galera -<i>Terrivel</i> sentiu uma grande e indefinida alegria.</p> - -<p>Subiram uns para o tombadilho, outros deixaram-se -ficar no convez, e os passageiros da prôa, -os mais pobres, encarapitaram-se na amurada; começaram -todos a olhar com uma anciedade febril -para a facha escura que a pouco e pouco avultava -no horizonte.</p> - -<p>A viagem tinha sido longa; a galera levára cincoenta -dias a chegar do Rio de Janeiro.</p> - -<p>Mas, todas essas penas, todo esse aborrecimento -que assaltam o viajante que durante dias e dias -não vê mais que o céo e o mar, desapparecem<span class="pagenum"><a name="Page_142" id="Page_142">[142]</a></span> -como que por encanto ante essa palavra magica, -solta pelo gageiro—terra!</p> - -<p>Os passageiros eram, na maior parte, gente de -baixa condição e de ambições modestas: tinham -sido no Brazil carroceiros, feitores de roça, carpinteiros -e pedreiros.</p> - -<p>Vinham com pouco dinheiro, mas traziam grande -abundancia de saudades; tinham soffrido, padecido -longe da patria, mas como ella os ia compensar de -todas essas amarguras!</p> - -<p>A alegria bailava em todos os olhos.</p> - -<p>Ah! o capitão Navarro, apezar de ter feito -aquella viagem cincoenta vezes, tambem vinha -contente e esfregava as mãos, tomado de um jubilo -desmedido.</p> - -<p>Quando o piloto se correspondia com o castello -da barra, o capitão impaciente, mas sem perder o -seu aspecto risonho e benevolo, perguntava:</p> - -<p>—Deixam-nos ou não nos deixam entrar a -barra?</p> - -<p>—Estão-me agora a perguntar se morreu alguem -a bordo.</p> - -<p>—Ora essa! Morto estou eu por me vêr em -Massarellos. Querem vêr que ainda temos que ir -dar com os ossos em Vigo? Com mil bombas! Era -o que me faltava agora!</p> - -<p>Mas não aconteceu o que o capitão receiava:<span class="pagenum"><a name="Page_143" id="Page_143">[143]</a></span> -do castello fizeram signal que a galera podia entrar, -e foi com uma voz vibrante de enthusiasmo -e de um prazer intenso que o capitão commandou -a manobra.</p> - -<p>A galera como um cavallo que obedece facilmente -á pericia de um optimo cavalleiro, proejou -a barra em meio das exclamações dos impacientes -e saudosos passageiros.</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>A galera fundeou defronte de Massarellos.</p> - -<p>No dia seguinte, já não havia alli senão parte -da tripulação e um ou outro marinheiro que não -tinha familia e que olhava para o cáes com repugnancia -e com desdem.</p> - -<p>As capoeiras em redor do tombadilho estavam -despovoadas, a roda do leme reluzia ao sol, parada, -sem movimento, as tampas enceradas da -meia laranja abriam-se como as azas de uma -enorme borboleta em repouso, e as mangueiras de -linho cheias, retezadas, levavam o ar á camara e -ao porão.</p> - -<p>Um bello dia de agosto!</p> - -<p>O capitão Navarro assistia ao descarregar sentado -em uma barrica de farinha de mandioca; o<span class="pagenum"><a name="Page_144" id="Page_144">[144]</a></span> -contra-mestre no portaló olhava mais lentamente -para o Douro como quem procura enxergar uma -cousa desejada e cubiçada.</p> - -<p>—Ainda nada? perguntou o capitão.</p> - -<p>—Admira, capitão! Das outras veses pouco se -deixa esperar essa visita.</p> - -<p>E com a mão em quebra-luz continuava a observar -o movimento dos botes e das catraias.</p> - -<p>De repente, a <i>Cigana</i>, uma cadella de fila que -era o idolo de toda a tripulação do navio, deu um -salto, subiu as escadas do portaló, e alongando o -pescoço, meneou festivamente a cauda e ladrou de -contente...</p> - -<p>Era um latir alegre e de boa feição, o latir que -ouvimos aos cães das nossas casas, quando recolhemos -depois de longa ausencia.</p> - -<p>—Espera! disse o contra-mestre, a <i>Cigana</i> tem -faro. Ahi vem a sua gente, capitão!</p> - -<p>Navarro ergueu-se, olhou e viu um barco que, -á força de remos, se dirigia para a galera.</p> - -<p>—Até que emfim! disse o capitão, e desceu -cheio de contentamento as escadas do portaló...</p> - -<p>A cadella, vendo descer o dono, acompanhou-o -e saltou ao mesmo tempo que elle para o interior -do barco.</p> - -<p>O contra-mestre olhava de cima aquelle quadro -e murmurava entre alegre e melancolico:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_145" id="Page_145">[145]</a></span></p> - -<p>—Parece que é bom ter familia e ter uma pequerrucha -bonita como a do capitão que nos venha -dar um abraço quando vimos de longe...</p> - -<p>—Assim será, meu contra-mestre, mas quando -essa filha vem de luto, devendo vir vestida de côres -alegres; quando ella nos vem dizer com a voz -abafada em lagrimas e soluços—a mamã morreu!—não -me parece que seja muito para invejar, -meu rude celibatario, que não tens outro affecto -senão pela tua galera e pelo mar, a quem confiaste -a tua mocidade e a quem confiarás um dia -o repouso do teu corpo!</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>De sorte que aquelle momento tão appetecido -pelo capitão foi-lhe amargurado pela noticia da -morte da mulher que elle extremecia devéras.</p> - -<p>Eram quatro os affectos do capitão: a mulher, -a filha, a <i>Cigana</i> e a sua bonita e garbosa galera.</p> - -<p>O primeiro affecto desapparecêra, restavam-lhe -ainda os tres; não tinha muito que se queixar do -destino: a galera ali estava capaz ainda de arrostar -com sessenta viagens, a filha dependurava-se-lhe -do peito amplo e largo, cheia de viço e de adoravel -meiguice, e aos pés de ambos, rojava-se latindo<span class="pagenum"><a name="Page_146" id="Page_146">[146]</a></span> -baixo a <i>Cigana</i>, acariciando-os com os olhos -onde havia o indefinido das vagas, e como que -um lampejo humedecido de uma ternura doce e -humana.</p> - -<p>A filha de Navarro, depois de haver chorado -no seio do pae, abaixou-se e passou a mão pela -cabeça da cadella.</p> - -<p>—Quando partir de novo, papá, deixe-me a <i>Cigana</i>, -sim? A mamã era tão amiga d'ella!</p> - -<p>A <i>Cigana</i>, parecendo comprehender aquellas palavras, -endireitou-se, e pousando as patas no collo -da menina, beijou-lhe carinhosamente as mãos...</p> - -<p>Quando Navarro chegava do Brazil e ia passar -algum tempo a Lessa com a familia, levava sempre -em sua companhia o seu querido animal! Imagine-se -como este seria amimado, festejado e cheio -de affagos quando souberam que uma vez no alto -mar...</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>Não sei quantas milhas devorava n'esse momento -a galera.</p> - -<p>Era meio-dia, fazia um sol de rachar, os marinheiros -á prôa comiam o rancho, e na tolda não -estava senão o capitão, a <i>Cigana</i>, e o homem do -leme.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_147" id="Page_147">[147]</a></span></p> - -<p>O piloto fôra buscar ao seu beliche um mappa -que o capitão lhe pedira, e demorara-se mais que -o tempo necessario. Navarro ergueu-se do banco -de vime e encostou se ás grades da ré.</p> - -<p>Como foi aquillo? Vertigem? Congestão cerebral?</p> - -<p>Foi elle encostar-se á grade, estar alli cousa de -dous ou tres minutos, e de subito borcar-se-lhe o -corpo nas ondas...</p> - -<p>O homem do leme viu aquillo, e afflictivamente -exclamou:</p> - -<p>—Jesus! acudam!</p> - -<p>E quando os passageiros correram ao tombadilho -e a tripulação veiu saber o que succedera, o -piloto, pallido e assustado, mandou colher todo o -pano; podia vêr-se ao longe em meio das aguas, -que faiscavam e transluziam os raios do sol, um -ponto negro e que pouco a pouco parecia affastar-se, -affastar-se...</p> - -<p>Os dous escaleres da ré foram descidos ao mar, -e dentro d'elles os mais robustos dos tripulantes.</p> - -<p>—A modo que elle não estava bom! disse o -homem do leme. Que eu só reparei n'elle quando -o vi no ar...</p> - -<p>—Deitem-lhe a boia! gritou o contra-mestre.</p> - -<p>N'aquelle momento de anciedade, procurou-se a -boia e não se encontrou.</p> - -<p>O contra-mestre estava desesperado, as pragas<span class="pagenum"><a name="Page_148" id="Page_148">[148]</a></span> -mais violentas sahiam-lhe em borbotões por entre -os dentes, que apertavam estreitamente o tubo -fumoso do cachimbo.</p> - -<p>O navio afrouxára a sua marcha, comtudo os -escaleres ainda iam bastante longe do ponto negro -que todos julgavam ser o capitão.</p> - -<p>—Lá bom nadador é elle, dizia o contra-mestre, -mas se ha tubarões assim! e reunia os dedos -em pinha.</p> - -<p>Estendia os braços, dependurava-se da grade -da pôpa, e com gestos anciosos tentava animar os -marinheiros dos escaleres.</p> - -<p>—Força, rapazes!</p> - -<p>No rosto de todos os passageiros lia-se um -grande terror e uma pena profunda.</p> - -<p>Era impossivel escapar. O capitão apesar de -bom nadador já estava velho e cançado, depois -os tubarões...</p> - -<p>Os marinheiros contavam casos horrendos que -haviam presenciado, e em que figuravam esses -assanhados tigres do mar.</p> - -<p>—Valha-nos o senhor de Mattosinhos! conclamavam -n'um grito lancinante aquelles homens, -que tantas vezes tinham luctado heroicamente -contra as colericas sanhas da tempestade, e que -adoravam o bondoso velho, o seu capitão.</p> - -<p>O ponto negro ia-se distinguindo mais nitidamente:<span class="pagenum"><a name="Page_149" id="Page_149">[149]</a></span> -ás vezes afundava-se, outras vezes immergia-se; -e emquanto os escaleres voavam, o contra-mestre -continuava a gritar, posto que as suas -vozes já não pudessem ser ouvidas pelos que iam -em salvamento de Navarro.</p> - -<p>Quando o vulto vinha a distancia de uma milha -o contra-mestre exclamou, affirmando a vista:</p> - -<p>—Ou eu me engano, ou o capitão não vem sósinho... -esperem! é a <i>Cigana</i> que traz a reboque -o patrão!...</p> - -<p>Era a <i>Cigana</i> effectivamente. Quando o velho -cahira ao mar, o animal atirara-se logo atrás, e -mergulhando conseguira apertar nos dentes as -roupas do capitão, e desde esse instante nunca -mais o largára.</p> - -<p>Quando os escaleres se aproximaram dos dous, -a pobre <i>Cigana</i> estava quasi exhausta e sem -forças.</p> - -<p>Arrancaram-lhe a custo da boca o seu querido -fardo e ella continuou a nadar frouxamente sem -poder resistir ás ondas que a levavam de chofre -de encontro aos escaleres.</p> - -<p>Quiz subir, galgar a borda de um dos escaleres, -e não pôde, resvalou na agua, ganindo dolorosamente, -sendo preciso que um dos marinheiros a -empolgasse com força, arrebatando-a assim á morte -inevitavel.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_150" id="Page_150">[150]</a></span></p> - -<p>Da galera, applaudiram a acção da <i>Cigana</i>, e -quando ella e o capitão chegaram, não sei bem -qual dos dous foi mais abraçado.</p> - -<p>—Bravo, <i>Cigana</i>! exclamou o contra-mestre, -não ha homem que te valha. Dá cá um abraço!</p> - -<p>O capitão foi levado por dous marinheiros para -a sua camara, emquanto a <i>Cigana</i>, resfolegando -alto, com os olhos embaciados, o corpo escorrendo -agua e todo tremulo, tentava arrastar-se para onde -lhe levavam o dono.</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>Ora, aqui está porque a <i>Cigana</i> era tão querida -e estimada na pequena e alegre casa do capitão -em Lessa, e aqui está a razão por que a -filha do velho e bondoso Navarro lhe pedia com -tão amavel meiguice que deixasse ficar a <i>Cigana</i> -quando para a outra vez tivesse de fazer viagem.</p> - -<p>Quando a galera <i>Terrivel</i> partiu, não levava a -seu bordo nem o capitão nem a <i>Cigana</i>. Porque?</p> - -<p>Se o leitor é pae diga-me, se no caso do capitão -Navarro, teria forças de fazer-se ao largo e deixar -sósinha uma filha de quinze annos, graciosa e -encantadora.</p> - -<p>Não tinha forças para tal, acreditamos.</p> - -<p>Ao capitão succedeu o mesmo. Despediu-se dos<span class="pagenum"><a name="Page_151" id="Page_151">[151]</a></span> -seus companheiros, chorou quando viu pela primeira -vez a <i>Terrivel</i> fazer-se de vela sem elle, -mas ficou em terra.</p> - -<p>Tinha saudades, isso tinha, do mar, da solidão -magestosa das aguas, da melancolia das horas da -calma, das tempestades que, de quando em quando, -o visitavam, mas fitava os olhos azues da filha -e bebia n'elles consolações que lhe amorteciam -essas maguas.</p> - -<p>Ás vezes, sahia de casa acompanhado pela <i>Cigana</i>, -e ficava-se á beira do mar, observando os -navios que passavam a distancia, absorvendo a -plenos pulmões o saudavel ar maritimo, regalava-se -conversando com os pescadores e com os -embarcadiços, e n'essas tardes recolhia mais alegre -e com o corpo mais direito e rejuvenescido.</p> - -<p>Outras vezes, ia n'um bote pelo amenissimo rio -Lessa acima, e n'essas excursões levava quasi -sempre a sua querida Luiza, e quasi sempre -n'esses passeios em que elle contava á filha as -peripecias de toda a sua vida trabalhosa, encontrava-se -com outro bote em que ia ao leme um -moço de vinte annos, elegante e galhardo que o -comprimentava respeitosamente.</p> - -<p>Á terceira vez que aquelle encontro se deu, o -velho disse á filha:</p> - -<p>—Não sei se conheço aquelle moço? É o filho<span class="pagenum"><a name="Page_152" id="Page_152">[152]</a></span> -unico de um meu antigo companheiro. O pae está -rico, está. Eu tambem por aquelle preço podia -estar como elle ou melhor. Que se elle tem muito -de seu, a mim m'o deve. Joaquim Antonio Ferreira, -que depois foi feito Conde da Guaratiba, -bem queria que eu fosse capitão de uma sua barca, -recusei, porém, sempre, e apresentei-lhe um -dia Gouvêa, o pae d'esse rapaz, que afinal de -contas depois de seis ou sete viagens felizes á -Africa, deixa a vida do mar e foi um dos que -mais lotes de escravos levava aos armazens de -Vallongo... Ser rico á custa de tantas lagrimas -não era para o filho de meu pae...</p> - -<p>E aqui entrava o capitão a contar a Luiza cousas -da sua mocidade, e absorvido n'essas recordações -não reparava que a filha seguia com a -vista anciosa o barco em que ia o herdeiro do -millionario Gouvêa.</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>Luiza amava, e amava com o primeiro e grande -affecto de quinze annos.</p> - -<p>Segregada das moças da sua idade, não tinha a -quem confiar tantos e tão amantissimos segredos: -embriagada por aquelle amor, deixava-se ir deliciosamente -pela correnteza, sem medo de encontrar<span class="pagenum"><a name="Page_153" id="Page_153">[153]</a></span> -um dia a voragem que a tragasse, o abysmo -em que se lhe afundasse a honra e a vida.</p> - -<p>Nunca tinha fallado ao noivo da sua alma; via-o -de longe, ora passar a cavallo pela rua em que -morava, ora no rio quando o pae a levava aos costumados -passeios.</p> - -<p>Conhecia-o pelas cartas, que lia, relia e decorava, -e a todas ellas respondêra, menos á ultima cujo -conteudo a trazia surpreza, enlevada, vibrante...</p> - -<p>O não responder a essa carta era como que um -assentimento a um pedido que n'ella se fazia.</p> - -<p>O velho capitão n'essa noite pedira á filha que -lhe lesse uns livros de viagem. Luiza lia perfeitamente, -com uma entoação harmoniosissima, e dando -com a voz um relevo maravilhoso á narrativa. O -capitão, com o corpo reclinado na poltrona, o cachimbo -apertado nos dentes, e a cabeça da <i>Cigana</i> -nos joelhos, sorria na plena beatitude de um goso -indefinido. De vez em quando, accordava d'aquella -deliciosa somnolencia e emendava as incoherencias -e os enganos do escriptor.</p> - -<p>—Nada, nada, isso não é assim. Venham cá -dizer-m'o a mim, que passei por esse ponto mais -de trinta vezes...</p> - -<p>Ás dez horas serviu-se o chá, a <i>Cigana</i> foi levada -para o quintal, e Luiza acompanhou o pae -até ao limiar do quarto.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_154" id="Page_154">[154]</a></span></p> - -<p>—Deus te abençôe, minha filha, disse o velho -ao despedir-se, e beijou Luiza na testa.</p> - -<p>—Hoje tenho pouco somno, papá, fico ainda a -lêr um bocadito na sala, se o papá quizer alguma -cousa chame-me, sim? Vou acabar de lêr este livro, -acho-o muito bonito. Gosto tanto da vida do mar!</p> - -<p>—Filho de peixe sabe nadar, volveu o capitão -sorrindo com o divino sorriso dos paes, que se -crêem unicos senhores dos affectos dos filhos.</p> - -<p>Passada meia hora, ouviu-se no quintal o ladrar -continuo, frenetico e raivoso da <i>Cigana</i>.</p> - -<p>O capitão gritou da cama:</p> - -<p>—O que é aquillo, filha? A <i>Cigana</i> está hoje -como nunca a vi. Vai socegal-a, se não tens somno, -e prende-a. Naturalmente os pescadores saltaram-me -á fructa. É o que é. Deixal-os lá, coitados! -Estes dias tem havido pouco peixe. Não vá -a <i>Cigana</i> fazer alguma das suas... Ora vae, anda, -tem paciencia... Eu não vou porque me sinto -fatigado e exquisito hoje... A <i>Cigana</i> ouvindo-te, -socega...</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>Luiza desceu ao pateo.</p> - -<p>Abriu com mão tremula a cancella e encostou-se -vacillante, agitada e convulsa ao muro. O ladrar<span class="pagenum"><a name="Page_155" id="Page_155">[155]</a></span> -da cadella cessára. Adiantou-se. No fundo do jardim -sob a latada, um vulto cosia-se com a parede. -A pobre menina levou as mãos ao peito, como para -socegar a douda violencia do coração que parecia -suffocal-a; quiz fallar e não pôde. O corpo vergava-se-lhe -frouxo, molle, sem forças...</p> - -<p>De repente sahiu das sombras das arvores a -<i>Cigana</i>, que se arrastou para Luiza, ganindo dilacerantemente, -movendo com difficuldade a cauda, -com a parte posterior do corpo quasi paralytica, -escorrendo-lhe da boca uma baba espessa, com os -olhos dilatados desmedidamente...</p> - -<p>N'aquelle olhar que a claridade da lua deixava -distinguir havia um pedido, uma supplica.</p> - -<p>—<i>Cigana!</i> exclamou Luiza.</p> - -<p>Ouvindo aquella voz, a cadella, que se sustentava -difficilmente nas patas dianteiras, ergueu -ainda, por um supremo esforço, a cabeça, e, tomada -de uma ancia afflictiva, convulsionando-se-lhe -o corpo n'um estremecimento instantaneo, soltou -um gemido rouco, escabujou violentamente, e -cahiu morta aos pés da filha do capitão.</p> - -<p>—A sua <i>Cigana</i> é muito má, mas ainda é mais -gulosa, disse o vulto que se escondia sob a latada.</p> - -<p>—Que mal lhe fez este animal, sr. Gouvêa? -perguntou reprehensivamente Luiza, estrangulando-se-lhe -a voz na garganta.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_156" id="Page_156">[156]</a></span></p> - -<p>—Boa pergunta! Não subisse eu tão depressa -para o muro e estava asseiado a estas horas! O -demonio do bicho! Mas vinha prevenido, atirei-lhe -uma bola, que lhe soube como se fosse manteiga. -Ora deixe lá o cão, querida, não se faça -piégas...</p> - -<p>Luiza interrompeu bruscamente aquellas palavras -tolissimas, e endireitando o corpo, ergueu a -voz quebrada pelas lagrimas:</p> - -<p>—Saia, saia depressa; se não quer que meu -pae o venha aqui matar sem ser tão cobardemente -como o senhor acaba de matar a minha pobre <i>Cigana</i>.</p> - -<p>E emquanto o vulto marinhava pelo muro, a -desditosa creatura abraçava a <i>Cigana</i>, e chorava -como sómente uma vez em vida chorára, quando -lhe levaram para fóra de casa o corpo de sua mãe.</p> - -<p>—<i>Cigana</i>, minha pobre <i>Cigana</i>! repetia Luiza, -fui eu que te matei!</p> - -<p>Ao outro dia murmurava o capitão, fingindo-se -sereno e forte para poder consolar a filha:</p> - -<p>—Vão lá depois fazer bem... Eu mandava -prender a <i>Cigana</i> para que não fizesse mal a ninguem, -e pagaram-me d'esta fórma!...</p> - -<p>E o velho, para não chorar tambem, fingia que -não reparava nas lagrimas que rolavam como perolas -pelo rosto descolorido e pallido da filha.</p> - -<div class="chapter"> -<hr class="chap" /> -</div> - - -<h3 id="DUAS_FACES_DE_UMA_MEDALHA">DUAS FACES DE UMA MEDALHA</h3> - - -<p>Ella tinha já feito vinte e cinco annos, elle contava -apenas vinte e dous.</p> - -<p>Era uma creança triste e ambiciosa.</p> - -<p>Sonhava no impossivel, e n'esse sonho creava -forças heroicas para todas as luctas da realidade.</p> - -<p>Margarida distinguira-o no meio de todos os homens -ricos, elegantes, nobres ou poderosos, que a -rodeavam e acclamavam rainha.</p> - -<p>É que na fronte d'elle, já cavada por duas -linhas profundas, lia o que não lera ainda nos outros—o -pensamento e a energia.</p> - -<p>Sabia, porém, que seu pae, o banqueiro millionario, -só a daria com prazer a quem trouxesse -mais lustre ou mais dinheiro á sua casa, e timida, -melancolica, sem disposições para as luctas da vida,<span class="pagenum"><a name="Page_158" id="Page_158">[158]</a></span> -repugnava-lhe tudo que fosse combate ou resistencia.</p> - -<p>Tinha sido doente desde pequenina, era um organismo -nervoso e delicado, cheio de caprichos -inconscientes, mais artistico do que reflexivo.</p> - -<p>Gostava de musica, de flores, de versos, das -cousas bellas e harmoniosas, tinha um vago desdem -silencioso por tudo quanto via ser o enlevo e -a preoccupação exclusiva dos seus.</p> - -<p>O dinheiro! sempre o dinheiro!</p> - -<p>Ninguem fallava em torno d'ella senão em dinheiro, -e no entanto ella, que vivia n'um voluptuoso -ninho de princeza de conto de fadas, tinha pelo -dinheiro em si o mais soberano desdem.</p> - -<p>Salvava-a isto da vulgaridade que mais ou menos -contamina as mulheres ricas.</p> - -<p>Margarida no inverno vivia em Lisboa.</p> - -<p>Tinha então a vida futil e ociosa de todas as -rainhas da alta vida.</p> - -<p>Ia muito a S. Carlos, recebia n'uma certa noite -da semana, presidia aos jantares dados por seu -pae, ia passar muitas noites fóra, fazia compras, -corria as modistas acompanhada sempre por miss -Brown, uma correcta ingleza de sacca-rolhas côr -de açafrão, que seu pae descobrira felizmente -n'uma das suas viagens a Londres.</p> - -<p>No meio d'esta vida artificial tão vazia e tão fatigante<span class="pagenum"><a name="Page_159" id="Page_159">[159]</a></span> -ao mesmo tempo, que lugar havia para -que ella pensasse, sentisse, desejasse alguma cousa -para fóra do circulo estreito que a encerrava?</p> - -<p>Margarida deixava-se viver.</p> - -<p>Um dia, porém, n'um baile, apresentaram-lhe -Eduardo de C., e depois de meia hora de conversação -sentiu por elle o que não sentira ainda por -nenhum outro.</p> - -<p>Ficaram conhecidos.</p> - -<p>Elle na sombra, de longe, já se vê; ella lá em -cima na plena irradiação da sua graça, da sua formosura, -da sua opulencia, de todo o seu esplendor.</p> - -<p>Cumprimentavam-se com uns toques de familiaridade, -e n'um ou n'outro baile d'estes a que -vae <i>toda a gente</i>, a boa e a má, tinham-se apertado -a mão mutuamente, e tinham trocado algumas -phrases affectuosas.</p> - -<p>No verão, o pae de Margarida, que tinha propriedades -em varios pontos de Portugal, consultava -a filha para que lhe indicasse a quinta em -que mais gostaria de passar as calmas do estio.</p> - -<p>Pouco tempo depois do encontro com Eduardo, -Margarida, disse a seu pae, que a consultava como -de costume:</p> - -<p>—Este anno vamos para o Minho, sim? Sinto-me -tão fraca, tão doente! O ar do Minho ha -de por força fazer-me bem.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_160" id="Page_160">[160]</a></span></p> - -<p>É verdade que nas vesperas, n'um baile, -Eduardo dissera-lhe, approximando-se d'ella:</p> - -<p>—Peço licença para apresentar a v. exc.<sup>a</sup> as -minhas despedidas. Alcancei uma collocação em -Vianna do Castello, e parto para alli um dia d'estes.</p> - -<p>—Vianna! pensou Margarida emquanto dous -raios de alegria se accendiam nas suas pupillas de -um azul sombrio.</p> - -<p>—É em Vianna a nossa quinta.</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>Partiram.</p> - -<p>Na provincia a intimidade estabelece-se forçadamente -entre pessoas que não pertencem ás mesmas -camadas sociaes.</p> - -<p>Para se admittir um sujeito em qualquer sala de -provincia exige-se simplesmente que tenha uma -educação limpa, e que possua alguma <i>prenda de -sociedade</i>.</p> - -<p>Em Vianna, na sala do grande banqueiro tão -altivo e tão inaccessivel, reuniam-se não só os fidalgos -mais primorosos das cercanias, como tambem -os humildes funccionarios do Estado, que por -aquellas regiões se achavam accommodados.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_161" id="Page_161">[161]</a></span></p> - -<p>Margarida, com o seu porte de soberana, o seu -sorriso altivo e distrahido, a graça ondeante da -sua gentil figura, recebia a todos com a mesma -benevola indifferença.</p> - -<p>Todos a contemplavam fascinados e quasi medrosos.</p> - -<p>Ninguem se atrevia a dirigir-lhe finezas banaes: -de tal modo o olhar d'ella sabia tornar-se glacial, -logo que adivinhava a pretenção de um namorado -na amabilidade um tanto desastrada de algum dos -seus convivas provincianos.</p> - -<p>—Não ha aqui um empregado chamado Eduardo -de C.? perguntava um dia na sala a elegante filha -do banqueiro.</p> - -<p>—Ha. Um rapaz muito estudioso, muito concentrado, -que desenha muito bem, acudiu espevitadamente -d'alli uma menina que fazia as delicias -das <i>soirées</i> de Vianna, pela sua voz de falsete -sempre prompta a torturar os ouvidos do proximo. -Conhece-o?</p> - -<p>—Foi-me apresentado este inverno em Lisboa; -respondeu Margarida.</p> - -<p>E accrescentou mentalmente:—Quem me dera -que elle aqui apparecesse! Como me distrahiria -de tudo isto que me cérca.</p> - -<p><i>Isto</i> era uma duzia de <i>cavalheiros</i> da <i>provincia</i> -acompanhados das suas respectivas esposas ou <i>manas</i>,<span class="pagenum"><a name="Page_162" id="Page_162">[162]</a></span> -tudo gente preoccupada dos interesses mais -mesquinhos, das pequenas intrigas mais pueris, fallando, -gesticulando, dançando, tocando, cantando, -murmurando e constituindo a unica diversão das -noites de Margarida.</p> - -<p>Não sabemos de que traças usou a gentil lisboeta: -sabemos que algumas noites depois d'esta, -Eduardo de C. era apresentado por um fidalgote, -aspirante e litterato, na sala do banqueiro.</p> - -<p>Desde esse dia elle e Margarida formaram em -commum uma especie de refugio contra a frivola -banalidade d'aquellas noites.</p> - -<p>Eduardo desenhava com muito chiste caricaturas -e graciosos <i>croquis</i>, que Margarida guardava -contentissima; ella cantava com a sua voz meiga -e flexivel algumas simples melodias allemãs, ou -tocava as musicas dos velhos mestres classicos, tão -queridos de Eduardo.</p> - -<p>Fallavam a respeito de tudo com a liberdade -de pessoas que se entendem e apreciam.</p> - -<p>Discutiam litteratura, musica e versos.</p> - -<p>Ás vezes fallavam ambos do futuro.</p> - -<p>—Que tem tenção de fazer? perguntava Margarida.</p> - -<p>—Ora! Não sei bem. Com certeza hei de fazer -alguma cousa. Ando a crear forças para a lucta. -Ha de ser tenaz, ha de ser terrivel, bem sei, mas -eu hei de vencer!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_163" id="Page_163">[163]</a></span></p> - -<p>—Quer que lhe dê um talisman para entrar no -fogo?</p> - -<p>Elle envolveu-a em um olhar ardente; depois, -baixando a vista, respondeu quasi com violencia:</p> - -<p>—Não brinque comigo. Olhe, que me faz muito -mal.</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>Margarida sabia que era amada.</p> - -<p>Tambem ella sentia por elle o que nunca sentira, -mas não tinha coragem para resistir ás ordens -de seu pae.</p> - -<p>Por esse tempo andava elle a arranjar o casamento -da filha com o conde de V., um moço que -tinha nas veias o sangue dos reis godos, e na cabeça -a mais crassa estupidez de que ha memoria -desde o tempo dos ditos.</p> - -<p>Margarida sabia ou suspeitava do caso, mas deixava-se -ir n'uma indolencia de crioula á mercê -dos acontecimentos da sua vida.</p> - -<p>Ao pé de Eduardo sentia-se bem, e quando elle -a fixava com o seu bello olhar de ambicioso e de -pensador, Margarida esquecia-se de tudo que não -fosse a delicia de ser preferida por aquelle homem.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_164" id="Page_164">[164]</a></span></p> - -<hr class="r5" /> - -<p>N'uma noite em que os hospedes habituaes estavam -na sala, e em que junto da meza redonda -do serão Eduardo e Margarida liam esquecidos de -tudo que os cercava, felizes, despreoccupados como -os dous amantes do florentino, ouviu-se o rodar de -uma carruagem que parava á porta do palacio.</p> - -<p>O banqueiro levantou-se rapidamente da banca -do voltarete e sahiu da sala relanceando para a filha -um olhar de esconso.</p> - -<p>Margarida, sem saber porque, fez-se pallida -como uma morta.</p> - -<p>—Ó meu amigo—exclamou n'um impeto ardente, -irresistivel, que não soube conter,—chegou -o fim da nossa felicidade!</p> - -<p>Eduardo olhou para ella desvairado.</p> - -<p>—Que diz? que é isso? a que se refere?</p> - -<p>N'este momento entrava na sala o pae de Margarida -dando a direita ao ultimo herdeiro de nobres -avoengos.</p> - -<p>—O sr. conde de V... pronunciou com o orgulho -humilde dos burguezes ambiciosos de honrarias -sociaes, apresentando o recem-chegado a -toda a companhia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_165" id="Page_165">[165]</a></span></p> - -<p>Margarida accolheu-o com um sorriso gelado.</p> - -<p>Conhecia-o, sabia que o pae queria pôr-lhe sobre -a cabeça loura e altiva uma corôa de condessa, -e sentiu que dentro d'alma lhe estalava uma corda -que nunca mais tornaria a vibrar!</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>D'alli a seis mezes todos os jornaes annunciavam -na secção do <i>high-life</i> o casamento da filha do banqueiro -opulento com o neto dos heroes medievicos.</p> - -<p>Os noticiaristas fundavam as mais ardentes esperanças -n'este consorcio que alliava o sangue nobilissimo -e a fortuna collossal, e contavam com -grandes minudencias as pompas d'aquella festa -principesca, os presentes riquissimos que a noiva -recebera, a <i>toilette</i> d'esta, a alegria dos numerosos -convidados, etc., etc.</p> - -<p>O que ninguem sabia é que esse casamento despedaçára -duas vidas!</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>No fim de dez annos o conde de V... déra cabo -do dote da mulher, e da vida do sogro, que morreu -amaldiçoando-o.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_166" id="Page_166">[166]</a></span></p> - -<p>Continuava, porém, <i>la vie à grandes guides</i>, que -tinha começado no dia seguinte ao seu noivado, e -já havia quem calculasse muito pela rama por -quanto tempo podia durar ainda a desenfreada orgia -d'aquella existencia de <i>Marialva</i> estupido.</p> - -<p>Em casa da condessa o luxo não se modificára -com as aproximações da pobreza.</p> - -<p>No olhar d'ella divisava-se uma profunda e desdenhosa -indifferença da vida.</p> - -<p>Nem o amor maternal conseguira salval-a do -desespero.</p> - -<p>Ligada a um homem que desprezava do intimo -d'alma, entristecida para sempre por uma d'estas -recordações que lavram dia a dia, e que por fim -se apossam de uma existencia inteira, Margarida -procurava esquecer-se de si, aturdir-se no turbilhão -das festas mundanas.</p> - -<p>Os filhinhos estavam entregues ao cuidado -d'aquella pobre miss Brown que ao vêr o abandono -dos pobres anjos, innocentes das culpas de -seus paes, se dedicára por elles com a abnegação -profunda de que só é capaz uma ingleza feia!</p> - -<p>Margarida passeava de carruagem, ia ao theatro, -ao paço, aos bailes, ás festas de beneficencia, -vendia nos bazares de caridade elegante, fazia e -recebia visitas, e de vez em quando, se no meio -d'este turbilhão avistava o marido, media-o de alto<span class="pagenum"><a name="Page_167" id="Page_167">[167]</a></span> -a baixo com um olhar de profundo e inconcebivel -tedio!</p> - -<p>Eduardo durante estes dez annos tambem soffrera -grandes modificações na sua vida.</p> - -<p>Luctara como um homem, e soubera vencer a -mediocridade do seu nascimento e da sua posição.</p> - -<p>No instante em que aquella que elle um dia amara -como a noiva estremecida da sua alma, sentia vagamente -afundar-se no sorvedouro negro da miseria, -elle recusara altivamente uma pasta de ministro -e uma noiva brazileira, possuidora de duzentos -contos fortes, isto depois de uma sessão legislativa, -em que a sua palavra viva, nervosa, eloquente, -colorida e artistica havia deslumbrado o -paiz.</p> - -<p>—Não me vendo por dinheiro, nem pelas honras -mentirosas com que os tolos lançam poeira á -cara uns dos outros; respondera a quem o interrogava -espantado ácerca d'estas duas recusas.</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>Alguem, que me contou este vulgar episodio da -vida moderna, mostrou-me o fragmento de uma -carta que Margarida escreveu doze annos depois -de casada a uma socia das suas antigas alegrias.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_168" id="Page_168">[168]</a></span></p> - -<p>«É a ti que prefiro escrever. Conheceste-me -solteira, feliz, idolo de um pae, que, ai de mim! -se perdeu e me perdeu pela vaidade. Has de ter -dó de mim.</p> - -<p>«Tenho dois filhos e preciso ganhar honestamente -o pão que elles hão de comer!</p> - -<p>«Presinto o teu espanto, as tuas interrogações, -os brados afflictivos da tua surpreza!</p> - -<p>«Não me perguntes nada.</p> - -<p>«Pergunta-o se quizeres, a essa Lisboa, que assistiu -ao louco esphacelar de uma fortuna enorme, -com o sorriso banal e adulador que ella tem -para todos os perdularios.</p> - -<p>«Sabes a educação que recebi.</p> - -<p>«Creio que seria uma mestra capaz de cumprir -com a minha ardua missão.</p> - -<p>«Em nome dos teus louros pequeninos, tão fartos -de gulodices e de beijos, arranja-me algum -meio de ganhar um pedaço de pão para os meus -filhos.»</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>Dava lições!</p> - -<p>A brilhante Condessa de V..., a filha adorada -de um dos homens mais ricos de Lisboa, a rainha -dos salões luxuosos, a <i>estrella</i> mais fulgurante do -alto mundo, dava lições para sustentar os dous<span class="pagenum"><a name="Page_169" id="Page_169">[169]</a></span> -filhos que lhe restavam, unicos vestigios de um -passado de pomposas mentiras.</p> - -<p>O infortunio nobremente supportado transfigurara -aquelle rosto desdenhoso e soberbo de garrida -mundana.</p> - -<p>Deixára de ser rainha e levantára-se martyr!</p> - -<p>Levantava-se de manhã muito cedo, bebia á pressa -uma chicara de café, que a sua fiel Miss Brown, companheira -dos triumphos e das desventuras lhe preparava -por suas proprias mãos, e sahia, modestamente -vestida de preto, a cumprir a sua improba tarefa.</p> - -<p>Só voltava a casa de noite.</p> - -<p>Divulgára-se rapidamente a noticia d'aquella excepcional -desventura, e muita gente, que vira com -desprazer a prodigalidade da caprichosa condessa, -compadecia se agora, sem pensamento reservado, -d'aquella digna e santa expiação.</p> - -<p>Margarida tinha muitas discipulas.</p> - -<p>Fazia pena vel-a, muito delgada, quasi diaphana, -com os olhos pisados, as faces córadas pelo -cansaço e pela febre, e um sorriso triste resignado, -humilde, n'aquelles labios que tinham sabido -tregeitar com tão altivo desdem.</p> - -<p>Era sempre a mesma alma sem energia.</p> - -<p>Não esperava cousa nenhuma da terra senão a -morte, levando a consciencia de ter expiado os erros -do seu orgulho.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_170" id="Page_170">[170]</a></span></p> - -<p>Cumpria uma penitencia, não encetava uma lucta -heroica de que esperasse sahir vencedora.</p> - -<p>N'uma tarde do mez de janeiro, chuvosa, humida -e fria, Margarida subia a muito custo a calçada -de S. Bento, em Lisboa, onde morava uma das -suas discipulas.</p> - -<p>A rua, viscosa e lamacenta, inspirava-lhe aquella -repugnancia patricia, que a infeliz ainda não soubera -vencer.</p> - -<p>A atmosphera plumbea e carregada dava-lhe ao -coração uma dose de invencivel tristeza.</p> - -<p>Sentia-se predisposta para as recordações cruciantes -para as inuteis fluctuações de um sonho -que se extinguira.</p> - -<p>Comprehendia com angustia que lhe faltava coragem -para levar a cabo o doloroso dever que a -si propria impuzera.</p> - -<p>Oh! ella bem sabia que a sua alma não era da -tempera das que luctam e se sacrificam!...</p> - -<p>N'isto uma carroagem elegante descia a calçada -ao passo de dous formosos cavallos inglezes.</p> - -<p>Margarida, vendo a alguns passos o correio agaloado, -percebeu que era um ministro e, sem querer, -movida por um impulso subito, levantou os -olhos e fitou os no homem que ia dentro do trem.</p> - -<p>O que ella sentiu não se explica.</p> - -<p>O ministro era Eduardo de C.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_171" id="Page_171">[171]</a></span></p> - -<p>Os olhos dos dous encontraram-se.</p> - -<p>Margarida quiz saborear a voluptuosa tortura -de vêr n'esses olhos o brilho de um satanico orgulho, -de um triumpho sinistro e mau.</p> - -<p>Não viu!</p> - -<p>Eduardo teve tempo de inundal-a em um d'estes -olhares doces, unctuosos, cheios de misericordia, -de doçura, de perdão; em um d'estes olhares que -só podem comparar-se ao olhar do Christo redimindo -a Magdalena!</p> - -<p>Só de longe a tinha visto de vez em quando nas -salas do alto mundo: nunca lhe fallara então; não -quiz humilhal-a fallando-lhe agora!</p> - -<p>Ella sentiu que se lhe despedaçara no peito alguma -cousa indispensavel á vida.</p> - -<p>Apertou em torno do corpo friorento e emmagrecido -as pregas do seu pobre chale preto, abaixou -a cabeça instinctivamente, como se fizesse -pender para a terra um pezo estranho, e continuou -a subir devagarinho, arrimando-se á parede, -aquella eterna calçada, cheia de agua e de lama.</p> - -<p>Cahia uma chuva fria e miuda que lhe encharcava -o fato.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_172" id="Page_172">[172]</a></span></p> - -<hr class="r5" /> - -<p>Um mez depois, da casa pequenina de Margarida -sahia um enterro aceiado e modesto.</p> - -<p>Era o enterro d'ella.</p> - -<p>Miss Brown explicava que a pobre senhora voltara -uma noite muito constipada das lições, que -teimara em sahir ainda no dia seguinte, mas que -tivera de recolher-se á cama, onde penou pouco -menos de um mez.</p> - -<p>O enterro de Margarida levava por acompanhamento -unico uma carruagem sem brazão.</p> - -<p>N'essa carruagem ia Eduardo de C.</p> - -<p>Margarida, antes de morrer, escrevera-lhe uma -carta cujas supplicas dolorosas iam apagadas pelas -lagrimas.</p> - -<p>Os dous orphãos de Margarida estão agora a -educar-se em um dos melhores collegios de Lisboa, -e todas as despezas da sua educação são pagas por -um protector invisivel e mysterioso.</p> - -<p>Ha quem dê a essa Providencia ignota o nome -sympathico e hoje glorioso e querido de Eduardo -de C.</p> - -<div class="chapter"> -<hr class="chap" /> -</div> - - -<h3 id="A_TIA_IZABEL">A TIA IZABEL</h3> - - -<p>Conhecia-a em casa de uma familia amiga da minha.</p> - -<p>Affirmavam os que a tinham conhecido em menina, -que fôra bonita; a mim parecia-me simplesmente -sympathica.</p> - -<p>Era alta, magra, loura e muito branca, uma physionomia -serena e melancolica, sem muito relevo, -mas com muita doçura.</p> - -<p>Andava sempre vestida de escuro, com uma -simplicidade em que transpareciam, porventura, -vislumbres de antigas elegancias.</p> - -<p>Ao olhar para ella conhecia-se que havia de ter -gostado de certas puerilidades mundanas, de se -vestir e pentear bem, por exemplo, de ser citada -pelo esmero do seu gosto, e pela distincção finissima -de suas maneiras.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_174" id="Page_174">[174]</a></span></p> - -<p>Hoje todas as vaidades se tinham apagado; fizera -quarenta annos, e acolhêra-os com resignação, -com dignidade, com uma certa graça melancolica -que lhe ficava muito bem.</p> - -<p>Nenhum dos rapazes que frequentavam aquella -casa se atrevia a chamar-lhe <i>solteirona</i>.</p> - -<p>A <i>solteirona</i> é a mulher solteira que não sabe -acceitar resignada as amarguras da sua isolação, -e as converte em ridiculos quando as não converte -em pessimas qualidades.</p> - -<p>A <i>solteirona</i> é pretenciosa, presumida, avida de -attrahir a attenção, revolve os olhos sentimentalmente, -lê romances, come gulodices, tem um <i>king -charles</i> e inveja tudo o que é moço, radiante, feliz, -tudo que tem esperanças e para quem o futuro desabrocha -em promessas.</p> - -<p>A <i>solteirona</i> é egoista, incommodam-na como -uma injuria que lhe é particularmente dirigida todas -as alegrias que não tem, persegue-a atrozmente -a aspiração irrequieta a um pobre marido -que podesse atormentar á vontade; sente-se na -vida como n'uma casa que não é sua; d'aqui o seu -mau humor continuado que torna d'ella quasi sempre -o flagello da familia onde se sente pária!</p> - -<p>A tia Izabel, porém, não era nada d'isto, pelo -contrario.</p> - -<p>Tinha para os sobrinhos um coração que, sem<span class="pagenum"><a name="Page_175" id="Page_175">[175]</a></span> -ser de mãe, encerrava muito de maternal, sobretudo -no que as mães têem de indulgente!</p> - -<p>Nunca a vi colerica, nunca a vi tambem excessivamente -animada.</p> - -<p>Não se ria, mas tinha habitualmente um sorriso -placido, quasi distrahido, o sorriso de quem se -sente um pouco estranha a todas as alegrias que -a rodeiam, mas que nem por isso deseja projectar -as suas sombras na luz que os outros espalham em -torno d'ella.</p> - -<p>Era muito estimada pelo irmão, pela cunhada e -pelos sobrinhos, uns traquinas que andavam sempre -a recorrer á sua inexgotavel paciencia, e que -nunca foram expulsos com um gesto de irritação -ou de desamor.</p> - -<p>Sabia a difficil sciencia de se tornar util a todos, -quasi indispensavel; estreitando d'este modo os -laços que a prendiam aos seus, tornando-os por -assim dizer inquebrantaveis:</p> - -<p>Sentia-se assim menos só!</p> - -<p>Nos jantares de familia os melhores pratos eram -sempre executados debaixo da sua direcção; era -ella quem fazia o <i>menu</i>, quem distribuia os lugares, -quem presidia a todos os arranjos de casa.</p> - -<p>Encarregava-se das tarefas mais enfadonhas, -d'aquella parte aborrecida que tem uma festa e -que as donas da casa acceitam com tédio, mas que<span class="pagenum"><a name="Page_176" id="Page_176">[176]</a></span> -lhes é mais tarde compensada no applauso, na satisfação, -ás vezes mesmo na inveja disfarçada em -risos dos seus convivas.</p> - -<p>N'essas occasiões solemnes em que ninguem dava -por ella, creio que se permittia um instante de innocente -amor proprio, vendo a meza bonita, bem -disposta, com a elegante e symetrica poesia das -grandes jarras do Japão cheias de flores, dos crystaes -facetados onde o vinho tomava as olympicas -apparencias do nectar, da bella louça da China de -lavores extravagantes e phantasiosos, da roupa -fresca, pesada, macia, de linho da Russia adamascado, -tendo bordadas iniciaes... que não eram as -d'ella.</p> - -<p>Depois voltava para o seu logar secundario, obscuro, -e voltava de boamente com simplicidade despreoccupada.</p> - -<p>Estava sempre bem com todos, sem se curvar -obsequiosamente diante de alguem.</p> - -<p>Tinha mesmo um modo seu de dizer as verdades -com firmeza e com brandura, sem transigencias -cobardes, sem severidade excessiva.</p> - -<p>Quando havia em casa um doente, sentava-se-lhe -tranquillamente á cabeceira, fazia-lhe sentir -com discreta suavidade a sua influencia boa, perdia -as noites com um aspecto de intrepidez e de -meiguices; era inapreciavel emfim.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_177" id="Page_177">[177]</a></span></p> - -<p>Tinha uma infinidade de pequenas idéas que punha -em pratica e de cada uma das quaes resultava -um allivio para o doente: arranjava as almofadas, -aconchegava as roupas do leito, dir-se-hia -que a sua mão esguia, branca, um pouco secca, -tinha o segredo de verter balsamo em todas as feridas -de um corpo enfermo.</p> - -<p>Na convalescença lia alto.</p> - -<p>Escolhia muito bem os livros, tinha a maravilhosa -intuição de todas as necessidades de um espirito -adormecido, n'aquella dubia luz crepuscular -da doença physica.</p> - -<p>A sua voz vellada, sem grande sonoridade, tinha -umas notas macias que entravam até ao fundo -do coração e que o amolleciam docemente.</p> - -<p>Ainda nos desgostos de familia, na hora das crises -e das catastrophes era para ella que instinctivamente -todos os braços se estendiam.</p> - -<p>É que ella, com o seu passo miudinho, o seu ar -sereno, os seus habitos methodicos, nem diante das -maximas catastrophes perdia a placidez necessaria.</p> - -<p>Uma das suas particularidades mais accentuadas -era a repugnancia pelo barulho, pelo espalhafato, -por todas as exterioridades apparatosas.</p> - -<p>Andava, fallava, trabalhava, movia-se sempre -devagarinho.</p> - -<p>Lembro-me perfeitamente do quarto d'ella, como<span class="pagenum"><a name="Page_178" id="Page_178">[178]</a></span> -d'uma especie de pequeno sanctuario onde poucas -vezes penetravam as travêssas creanças de quem -ella era como que segunda mãe.</p> - -<p>Quando eu acertava de lá entrar com ellas, emquanto -a pequenada corria de um lado para outro, -vendo, tocando tudo, perguntando informações de -todas as cousas, eu observava callada com o meu -olhar de mais velha, mais penetrante e mais curioso.</p> - -<p>Tudo alli era limpo, aceiado mas tudo antigo, -datando sem duvida da sua adolescencia, do tempo -em que ella fôra feliz, porventura requestada e -formosa.</p> - -<p>A alcova branca, discreta, com o seu oratorio -de pau santo, cheio de bellas imagens, a Virgem -risonha e loura com o menino nos braços, o Christo -macerado e sangrento com a expressão de sobre-humana -agonia no amortecido olhar.</p> - -<p>No gabinete contiguo as cortinas, os reposteiros -de chita, as poltronas, as pequeninas mezas cobertas -com os seus panos de <i>crochet</i>, as estantes de livros, -tudo emfim era bem conservado, sem ser novo; -via-se que tinha sido o objecto de attentos -cuidados, que todas aquellas cousas mudas haviam -sido as companheiras unicas de uma existencia -concentrada e solitaria.</p> - -<p>Nas paredes, sobre as pequenas <i>étagères</i>, muitos<span class="pagenum"><a name="Page_179" id="Page_179">[179]</a></span> -retratos, todo um cortejo moço e triumphante que -passava ao longe.</p> - -<p>Exhalava se d'aquelles objectos tão esmeradamente -cuidados, um vago, um indistincto perfume -de saudade, como d'um herbario de flôres seccas, -colhidas entre risos de crystal, nos dias radiantes -da primavera...</p> - -<p>Os pequenos então, com a sua inconsciente crueldade -infantil, faziam mil perguntas, impacientes, -curiosas...</p> - -<p>—Quem era esta menina, tia Izabel? tem um vestido -de seda decotado e na mão um malmequer que -está desfolhando. Como ella scisma tão embebecida! -Em que scismaria ella, minha tia?</p> - -<p>—No futuro!... respondia ella sorrindo com o -seu bello sorriso intraduzivel em que havia talvez -muitas saudades.</p> - -<p>—Que é feito d'ella? Era sua amiga, não era? -Porque é que a não vem cá vêr nunca?</p> - -<p>—Ao principio veio, depois casou-se; o marido -levou-a a viajar, foram muito longe, divertiram-se, -provavelmente ella esqueceu-se. Quando voltou -trazia um filho, um <i>baby</i> louro e côr de rosa -como o teu irmãosinho Arthur. Só o vi uma vez. -As creanças absorvem muito as mães, por causa -d'ellas esquecem-se de tudo, até das amigas da infancia. -Hoje só sei que é muito feliz, e quando tenho<span class="pagenum"><a name="Page_180" id="Page_180">[180]</a></span> -saudades olho para o retrato d'ella!... Fômos -tão amigas!</p> - -<p>E callava-se baixando os olhos, receiosa de que -a vissem contemplar com demasiado enlevo os -dias que já não podiam voltar.</p> - -<p>Todos aquelles retratos tinham uma historia.</p> - -<p>Aquelle cortejo de juvenis visões louras, morenas, -travêssas ou melancolicas faziam parte do passado, -por isso lhes queria tanto.</p> - -<p>Umas tinham casado, eram felizes, viviam absorvidas -pelo divino egoismo da familia, todas entregues -ao bem estar dos seus, aos interesses, ás alegrias, -ás dôres do seu pequeno circulo de affectos.</p> - -<p>Outras tinham morrido; eram as que alli nos -appareciam mais pallidas, com um vago reflexo de -luz febril nos olhos pasmados e pensativos.</p> - -<p>Tinham morrido na plena florescencia do seu -imaginar juvenil, levando para a cova, como levariam -uma flôr ainda constellada pelos orvalhos matinaes, -a dôce chymera que nenhum sôpro brutal -lhes havia desfeito.</p> - -<p>Fecharam os olhos cercados por todas as apparições -fulgidas, que envolvem a mocidade como -n'um circulo de estrellas, e foram despertar—quem -sabe! n'outras regiões de que ninguem ainda -voltou, do sonho feliz que haviam começado na -terra.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_181" id="Page_181">[181]</a></span></p> - -<p>Não eram essas as menos bemfadadas.</p> - -<p>Ella, porém, ficára só.</p> - -<p>Porquê?</p> - -<p>Condemnação de que não conhecia o implacavel -segredo!</p> - -<p>Tambem fôra môça, tambem tivera crenças, esperanças, -pequenos sobresaltos de amor proprio, -ephemeras vaidades de quem se julgara querida!</p> - -<p>Estremecera muita vez, ao sentir abrir uma -porta, echoar um passo ligeiro e firme nos vastos -corredores, vibrar uma voz viril, grave e terna!</p> - -<p>Tivera rubores subitos, sentindo pousar na sua -fronte branca, a luz d'um olhar quente e caricioso; -colhêra uma rosa, prendera nos cabellos um -cacho de madresilva, vestira um dia um certo vestido -branco, cheia de alegria, agradecendo a Deus -ter feito a vida tão boa, o céu tão azul, o cheiro -das arvores tão penetrante e tão sadio!</p> - -<p>Olhava n'este tempo para as creanças, beijava-as -como a ensaiar as graças da maternidade, -fazia-lhes festas, pensando que tambem havia de -ter um dia uns pequeninos como aquelles, que lhes -havia de querer muito, e leval-os a passear, seguida -pelo olhar invejoso das outras mães... -cujos filhos seriam forçosamente feios.</p> - -<p>Então consultava comsigo mesma o systema de -educação que adoptaria, e o modo porque os havia<span class="pagenum"><a name="Page_182" id="Page_182">[182]</a></span> -de vestir, e concluia vendo-os entrar para a -Universidade, n'um dia de muitas lagrimas e de -muitos dilaceramentos, altos, esbeltos, um pouco -altivos, com um buçosinho louro, appetitoso como -a pennugem d'um pecego mal maduro.</p> - -<p>Foram-se-lhe dias e dias n'este sonhar que a entretinha, -como a leitura d'um romance cujo interesse -nunca afrouxa.</p> - -<p>Um dia, porém, por acaso viu-se ao espelho, e -despediu-lhe o seio um grito de angustia.</p> - -<p>Despontava-lhe entre os fártos cabellos louros, -o primeiro cabello branco, um fio de prata, tenue, -quasi imperceptivel, uma cousa em que ninguem -reparava.</p> - -<p>Reparou ella.</p> - -<p>Reparou tambem n'esse momento que todas ou -quasi todas as companheiras tinham casado, que -muitas das suas illusões se tinham desfeito ás asperas -nortadas da realidade, que se ia sentindo na -vida muito só.</p> - -<p>Teve umas horas de lucta, de revolta, quasi de -desespero.</p> - -<p>Alguem, ou <i>alguem</i> invisivel em que ella sempre -acreditára, mandou-lhe a força, porque lhe mandou -a resignação!</p> - -<p>Quando o pae lhe morreu veio para casa dos irmãos, -e a pouco e pouco achou em si a fonte de<span class="pagenum"><a name="Page_183" id="Page_183">[183]</a></span> -todas as riquezas mysteriosas, que espalhava pelos -affectos que o seu coração adoptou!</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Eis pouco mais ou menos a <i>historia da tia Izabel</i>.</p> - -<div class="chapter"> -<hr class="chap" /> -</div> - -<h3 id="O_MELHOR_SOMNO_DO_MILLIONARIO">O MELHOR SOMNO DO MILLIONARIO</h3> - - -<p>Tinha ido para o Brazil ha muitos annos.</p> - -<p>Ainda havia frades em Portugal e fôra até um -seu tio frade que o acompanhara a bordo de um -brigue e que lhe dissera com voz solemne e sentenciosa, -no momento da despedida, estendendo os -braços n'um largo gesto de pregador:</p> - -<p>—Deus te leve a salvamento, Francisco!</p> - -<p>O sr. Francisco Cerqueira lembrava-se de todos -os pormenores e incidentes trabalhosos da jornada -que elle fizera desde a sua pequena e risonha -aldeia minhota até Lisboa.</p> - -<p>Era um gosto ouvil-o á mesa, ao domingo, quando -o armazem repousava na sua humidade claustral, -e não se ouvia o estrepitoso labutar dos negros<span class="pagenum"><a name="Page_186" id="Page_186">[186]</a></span> -carregadores, a voz arrastada dos Mineiros -freguezes da casa, e a melopéa das quitandeiras -na rua.</p> - -<p>Os socios muito mais moços que Cerqueira <i>puxavam-lhe -pela lingua</i> conforme a pittoresca locução -do povo, e á sobremesa, recostados, com os -charutos accesos, ouviam-no discretear alegremente.</p> - -<p>Lembrava-se de tudo o sr. Cerqueira. Era uma -chronica viva. Recordava-se da sua aldeia, narrava -historias da sua infancia, descrevia com rudes -mas pittorescas phrases a aula de primeiras letras, -o abbade da freguezia, as proezas do tio frade, -que com um varapáo nas unhas era homem para varrer -toda uma feira, e enternecia-se até ás lagrimas, -quando tocava no assumpto de despedida da mãe.</p> - -<p>—Ah! vocês não imaginam! Não me sahe d'aqui! -Parece que tenho um nó na garganta, quando me -lembro d'aquelle momento. Abraçava-me a chorar -e a soluçar que era uma cousa por maior! Inda -me parece que a vejo ao pé das carvalheiras do adro -da igreja, estendendo-me os braços de longe e gritando -suffocada:</p> - -<p>—Ah! rico filho, rico filho da minha alma!...</p> - -<p>Que idade terá ella hoje? Ora, espera, eu tenho -cincoenta e seis; ella, pelas minhas contas, -vem a ter os seus setenta bem puxados... quem -me dera vêl-a!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_187" id="Page_187">[187]</a></span></p> - -<p>—Mas, <i>seu</i> Cerqueira, nada mais facil! Por que -se não resolve? Em dezoito dias está lá...</p> - -<p>—Sim, é verdade.</p> - -<p>E ficava triste e meditabundo por instantes...</p> - -<p>—Mas tenho medo de chegar e de não a encontrar. -O unico motivo que me leva á Europa, é ella, -a pobre velhinha... É o unico parente que tenho, -que não sei se vocês sabem, que da nossa familia -restamos tão sómente nós, ella e eu... a minha -terra é aqui, para aqui vim creança, e aqui -me fiz gente... Que vou eu fazer á Europa, não -me dirão?</p> - -<p>Isto dizia o sr. Cerqueira; mas o que se lhe passava -no intimo era bem diverso. Tinha saudades, -tinha-as e bem fundas da aldeia em que nascêra e -da casa em que se creára.</p> - -<p>Porque a sua vida fôra um luctar sem treguas, -um batalhar decidido e um inferno, á sahida do -qual elle contava, como o mythologico Orpheu, -rever as appetecidas Eurydices—a mãe e a patria...</p> - -<p>Escrevia á mãe de tres em tres mezes, e nunca -deixava de lhe recommendar que conservasse tal -e qual como estava a casita, e que não mexesse -nunca no leito em que elle dormira nos annos proximos -á partida para o Brazil.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_188" id="Page_188">[188]</a></span></p> - -<p>«Porque desejo morrer n'elle», escrevia Cerqueira -á mãe amantissima.</p> - -<p>E ia-se deixando ficar.</p> - -<p>Por duas vezes os socios estiveram em Portugal, -mas o nosso Cerqueira não se decidia.</p> - -<p>Ás vezes parecia tomado de uma forte resolução, -e, ouvindo as descripções das viagens dos socios:</p> - -<p>—Homem, parece-me que sempre me resolvo!</p> - -<p>No outro dia, porém, lá andava pelos armazens -mourejando, dando ordens, e n'aquella atmosphera -de trabalho vivificante e saudavel parecia transfigurado -e como que esquecido da promessa que a -si proprio fizera.</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>Um dia, quando o sr. Cerqueira encarapitado -no alto banco de palhinha sobre a secretária, revendo -se na sua bella letra ingleza e floreada, entrou -no escriptorio um dos caixeiros annunciando-lhe -que estava alli um sujeito que desejava fallar-lhe.</p> - -<p>Cerqueira collocou a penna atraz da orelha, puxou -do lenço vermelho, e abrindo a caixa enterrou<span class="pagenum"><a name="Page_189" id="Page_189">[189]</a></span> -unidos, no tabaco, o pollegar e o index, e mal acabava -de absorver a pitada pela narina direita, tamburinando -voluptuosamente com os restantes dedos -na esquerda, quando lhe surgiu á porta um -rapaz bem trajado e modesto, que figurava ter -quando muito dezeseis annos.</p> - -<p>—Creio que fallo ao snr. Francisco Cerqueira?</p> - -<p>—É verdade.</p> - -<p>—Cheguei hoje de Portugal e trago-lhe esta carta.</p> - -<p>E o rapaz desabotoando o fraque, tirou do bolso -uma carta que entregou respeitosamente ao negociante.</p> - -<p>Olhou attento para a lettra do sobrescripto e sorriu-se; -um bom sorriso beatifico e dourado de mocidade -que lhe illuminou o semblante.</p> - -<p>Depois abriu a carta, desdobrou-a e collocando-a -ante o rosto começou a lêl-a devagar, como -que saboreando cada palavra e cada phrase. Ás -vezes parava, e como um namorado que espreita -por cima d'um muro, erguia os olhos acima do papel -e examinava attentamente o rapaz, que se conservava -de olhos baixos, direito e tranquillo.</p> - -<p>Chegando ao fim da carta, voltava de novo a -lêl-a. Era como que um conversar com aquellas -letras que vinham de longe e que lhe traziam um -pouco de perfume das larangeiras do paiz natal, e -um tudo nada das lagrimas de sua mãe.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_190" id="Page_190">[190]</a></span></p> - -<p>—Queira sentar-se, disse benevolamente o commerciante -ao mancebo.</p> - -<p>E continuou a ler. A carta era pequena, mas -n'aquellas letras arrevesadas e tremulas elle via -um rosto, umas feições adoradas, e logo depois como -nas tintas esbatidas e aereas de um sonho de -convalescente, levantava-se uma figura de mulher -ainda moça e vigorosa, ao pé de umas carvalheiras, -e essa mulher estendia-lhe os braços e dizia-lhe -de longe com uma voz entrecortada de lagrimas:</p> - -<p>—«Ah! rico filho, rico filho da minh'alma!»</p> - -<p>Arrancado d'aquella visão, o sr. Cerqueira dobrou -a carta devagar com as mesmas dobras, abriu -a larga carteira de marroquim vermelho e collocou-a -com grande cuidado n'um determinado compartimento.</p> - -<p>Em seguida levantou-se e pitadeando de novo:</p> - -<p>—Olhe, o nosso guarda-livros vai espairecer -até Buenos-Ayres, e creio que por lá ficará. Coitado! -aquillo vai mal!... Quer o senhor occupar -esse lugar n'esta casa?</p> - -<p>O moço acceitou reconhecido, e ia a levantar-se -quando um preto velho em mangas de camisa abriu -a porta do escriptorio:</p> - -<p>—O jantar está na mesa, nhônhô<span class="pagenum"><a name="Page_191" id="Page_191">[191]</a></span>...</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>Passados dias notaram os socios do sr. Cerqueira -que este não parava em casa um instante. Sahia -frequentemente, andava mais contente e lepido -que o costume. Pouco fallava ao jantar; de communicativo -que era, tornara-se recolhido comsigo, -mas no olhar lampejava-lhe uma doce e ineffavel -alegria.</p> - -<p>Ora que fazia o sr. Cerqueira?</p> - -<p>Andava envolvido n'uma terrivel conspiração, -queria desfazer-se, desligar-se dos queridos laços, -creados pela sua longa e trabalhosa vida de perto -de quarenta annos, n'aquella terra a que elle de -entranhas queria, e aonde aportara pobre, desprotegido, -sem recursos...</p> - -<p>Logo pela manhã, depois de dar as suas ordens -no escriptorio, mettia-se a caminho, percorria as -ruas, examinando attentamente cousas que antes -lhe haviam passado desapercebidas.</p> - -<p>Entrando nos <i>americanos</i>, dirigia-se aos formosos -arrabaldes da côrte...</p> - -<p>Lembrava-se então das suas merendas saudosas -e illuminadas pelo sol dos vinte annos, no morro -de Santa Thereza, nas chacaras ridentes do Botafogo, -á sombra das arvores do Corcovado.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_192" id="Page_192">[192]</a></span></p> - -<p>E passava distrahido sem corresponder aos frequentes -e affaveis cumprimentos que lhe faziam os -conhecidos e amigos, do alto da imperial dos omnibus, -ou da plata-forma dos <i>americanos</i>.</p> - -<p>Alguns dos companheiros dos seus passeios e -folguedos da mocidade tinham morrido, outros haviam -deixado o Brazil e viviam na Europa, em -Portugal.</p> - -<p>—Como poderam elles deixar isto sem saudade? -É verdade que eu gostava de morrer lá, onde -nasci, na minha pobre aldeia, ao pé de minha mãe... -pensava o sr. Cerqueira.</p> - -<p>E á hora do jantar, já não havia o conversar, e -aquelle teimoso questionar que tanto alegrava os -dois socios!</p> - -<p>É que o sr. Cerqueira continuava a fallar comsigo -e a passar uma a uma pelos dedos as contas -do mystico rosario das suas saudades...</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>Uma tarde os socios de Cerqueira bateram-lhe á -porta do quarto. Houve uma certa demora em se -abrir essa porta. Insistiram. Cerqueira veio emfim -saber o que era.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_193" id="Page_193">[193]</a></span></p> - -<p>Entraram os dous e recuaram surprehendidos -ante a mudança que observaram.</p> - -<p>No meio do quarto estava uma grande mala escura -cravejada de pregos amarellos; em cima do canapé -esgarçado avultavam montes de roupa branca, -e pequenas malas inglezas com fechos dourados e -reluzentes. As gavetas da commoda estavam corridas, -havia n'aquelle quarto em fim a apparencia -d'uma casa saqueada...</p> - -<p>—O que é isto, <i>seu</i> Cerqueira?</p> - -<p>—É o que vocês estão vendo. Ámanhã é o -dia da partida... Resolvi-me emfim...</p> - -<p>—E eu que tinha apostado aqui com o <i>seu</i> Fernandes -que você nunca se resolvia...</p> - -<p>—Pois, meu amigo, perdeu a aposta, cortou o -Cerqueira, sorvendo sybariticamente uma pitada.</p> - -<p>Na manhã do dia seguinte, no tombadilho d'um -dos vapores da Companhia do Pacifico, emquanto -os dous socios do Cerqueira riam e diziam facecias, -deitando com ares de casquilhos atabalhoados -as lunetas a algumas francezas, que, com os -seus vestidos de fazendas claras animavam alegremente -aquelle conjunto de pessoas possuidas de -tão estranhos e contradictorios sentimentos, o nosso -viajante olhava com os olhos de quem se despede -de um sitio amado para os armazens, para -os trapiches que se retratavam nas aguas da bahia,<span class="pagenum"><a name="Page_194" id="Page_194">[194]</a></span> -para as torres das egrejas que se arrendavam -nitidamente no claro céo azul.</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>Em Lisboa pouco se demorou.</p> - -<p>No hotel, alguns amigos quizeram prendel-o ainda, -tentando-o com o theatro lyrico, com Cintra e -com as poucas fascinações baratas de Lisboa.</p> - -<p>Cerqueira resistiu, e n'uma bella manhã, mettido -em uma diligencia que partia de Braga, dirigiu-se -para Ponte de Lima. Aqui alugando uma cavalgadura -endireitou para a aldeia em que nascêra.</p> - -<p>A meio caminho apeou-se, despediu o homem -que o acompanhara, e deitando ao hombro uma -pequena mala que trouxera, encaminhou-se para o -seu lugar.</p> - -<p>Seriam quando muito duas horas da tarde. O -calor era grande. Pouca gente na estrada. Cerqueira -parou a contemplar o quadro.</p> - -<p>De um dos lados do caminho viam-se algumas -raparigas com largos chapéos desabados e saias -apanhadas segando herva, á compita, e misturando -o seu canto ao metalico e monotono cantar das -cigarras...</p> - -<p>Do outro lado, um rapazito meio nú, de carapuça,<span class="pagenum"><a name="Page_195" id="Page_195">[195]</a></span> -sentado no chão, estava de guarda a meia -duzia de bois que pastavam tranquillamente na -herva macia e tenra...</p> - -<p>De vez em vez, quando um dos bois se approximava -de algum castanheiro, o rapaz agarrava de -um calhau, e atirando-lhe rasteiramente, gritava:</p> - -<p>—Eh! malhado...</p> - -<p>—Quantas vezes eu tambem guardei as vaccas -da nossa casa! pensou Cerqueira.</p> - -<p>—Seu moço, venha cá, disse para o rapaz, venha -cá, menino!</p> - -<p>O rapaz olhou para o forasteiro com um olhar -estupido e embezerrado e deixou-se ficar.</p> - -<p>—Venha cá, menino, que lhe não quero mal...</p> - -<p>O pequeno não se movia.</p> - -<p>—O rapaz é mouco, disse comsigo o viajante, -e como quem conhece o coração humano, tirou a -bolsa e mostrou-lhe uma moeda de prata.</p> - -<p>—Queres isto?</p> - -<p>De um salto o rapaz poz-se a pé, tirou a carapuça, -e coçando a cabeça aproximou-se.</p> - -<p>—Diga-me uma cousa, menino, é aqui do lugar?</p> - -<p>—Saiba vossemecê que sim senhor.</p> - -<p>—Conhece a tia Genoveva?</p> - -<p>—Uma que é assim a modo bexigosa, e já muito -velhinha?</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_196" id="Page_196">[196]</a></span></p> - -<p>—Essa mesma.</p> - -<p>—Olhe, ainda ha pouco a vi passar da banda -do rio... São horas de a topar em casa...</p> - -<p>Cerqueira estava emfim tranquillo.</p> - -<p>Desapparecera o receio de não encontrar a querida -velhinha.</p> - -<p>Verdade é que podia ter tido novas d'ella em -Lisboa escrevendo ao abbade, mas queria fazer -uma supreza, chegar de improviso.</p> - -<p>Áquella hora as aldeias do Minho são silenciosas -e calmas, e ha n'ellas como que a intima paz -das fabricas ao domingo.</p> - -<p>Os homens andam no campo, as mulheres, quando -os não acompanham, estão nos lavadouros ensaboando, -e poucas pessoas, a não serem os velhos e -algumas creanças, ficam em casa.</p> - -<p>Na sombria humidade das tabernas descobre se a -taberneira fiando, emquanto no quinteiro proximo -os porcos com os focinhos semi-enterrados na lama -grunhem voluptuosamente.</p> - -<p>Um ou outro cavalleiro que passa ás vezes pela -estrada n'um choito endiabrado, com o páo de -choupa apertado nos joelhos, levantando uma nuvem -de poeira dourada. E é então que os cães -acordam aquelle silencio, latindo e correndo atrás -dos cavalleiros, e que apparecem ás janellas e ás -portas as raras pessoas que ficaram em casa.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_197" id="Page_197">[197]</a></span></p> - -<p>Quando Cerqueira bateu á porta da casa pulava-lhe -o coração de um modo desusado.</p> - -<p>—Quem é?</p> - -<p>—Alguem é, respondeu o viajante.</p> - -<p>—Pois empurre o postigo, puxe pela aldraba e -entre, se isso o não incommoda.</p> - -<p>Assim o fez o nosso Cerqueira e entrou na saleta -em que a tia Genoveva dobava...</p> - -<p>Ante aquelle homem estranho, a velha surprehendida -parou, e pondo uma das mãos diante dos -olhos como uma palla:</p> - -<p>—Que me quer vossemecê?</p> - -<p>—Um abraço e um beijo, balbuciou o que entrara -com voz enternecida e expirante...</p> - -<p>—Elle que diz? Ó Christo!</p> - -<p>E levantando-se foi direita á janella para chamar -por soccorro imaginando vêr-se a braços com -um doudo.</p> - -<p>—Olhe que não estou doudo, santinha! Venho de -longe e trago-lhe um beijo e um abraço de uma -pessoa que é muito sua amiga.</p> - -<p>—Do meu Francisco? exclamou a velha. Venham -de lá não só um mas muitos abraços, que -elle no dinheiro é mais generoso, valha-o Deus! -Um só abraço!</p> - -<p>E a velhita apertou nos braços Cerqueira, que -com as lagrimas nos olhos murmurava:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_198" id="Page_198">[198]</a></span></p> - -<p>—E eu que pensei que me conhecia! Pois não -me conhece, minha mãe? Eu é que sou o seu Francisco, -sou eu, repare bem...</p> - -<p>A velha então explodiu um alto e clamoroso -grito, e chorando e rindo, cahiu nos braços do filho.</p> - -<p>—Agora conheço, sim, estava tonta! Esta cabeça! -Mas se tu eras uns <i>dez réis</i> de gente quando -abalaste d'aqui... Onde está a tua roupa? Já -jantaste? Cá a gente janta ao meio dia, mas arranja-se -tudo, não tem duvida... a Joanna foi á -cidade, vou eu mesma matar uma gallinha... -Tens fome? deves ter, sim? A minha cabeça... -a minha cabeça! O meu Francisco! Mas porque -me não mandaste dizer que chegavas, rapaz? Valha-te -Deus, manicanso!...</p> - -<p>E a tia Genoveva no meio do seu contentamento -sahia da sala para logo voltar, amontoando perguntas -sem nexo.</p> - -<p>—Gostas d'isto? gostas d'aquillo? Do que vaes -gostar é do vinho, é do nosso <i>caco de salsa</i> e sahiu-me -d'aquella casta! O presunto vamos com -Deus, que tambem me sahiu bom. Vaes provar... -Ora o peccado do rapaz que me não avisou de -nada!</p> - -<p>E sahia para d'ahi a pouco voltar com a mesma -abundancia de perguntas e de phrases penetradas -de amoravel reprehensão<span class="pagenum"><a name="Page_199" id="Page_199">[199]</a></span>...</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>Oh! que bom e que intimo foi aquelle jantar!</p> - -<p>A sala alegre e caiada de branco, a toalha aspera, -grossa e nevada, os talheres de cabo d'osso -fabricados em Guimarães, os copos com um friso -dourado nas bordas, as janellas abertas e dando -para os campos onde cahiam suavemente as tintas -do sol posto, tudo dava uma quieta e serena beatitude -ao coração do <i>brazileiro</i>.</p> - -<p>A mãe encostada ao espaldar da cadeira em que -estava sentado o filho servia-o com muito carinho, -fazendo-lhe perguntas sem conta a que elle respondia -com o rosto inundado e clareado pelas lembranças -de um passado que as palavras da mãe -evocavam renascido.</p> - -<p>Depois coube-lhe a elle fazer tambem perguntas: -o que era feito d'este, se ainda era vivo -aquelle, se no sitio de tal ainda existiam aquellas -carvalheiras onde havia d'antes tanto ninho de -melro, e se uma casára, e outra tinha muitos filhos, -eu sei! um mundo de recordações e de saudades!</p> - -<p>E com o olhar humedecido, Cerqueira percorria -tudo, o velho armario pintado, as grades da varanda,<span class="pagenum"><a name="Page_200" id="Page_200">[200]</a></span> -as medas levantadas no meio da sombria -verdura dos campos...</p> - -<p>Ia cahindo a noite, ouvia-se já na aldeia um -certo borborinho de vida, vinham da estrada trechos -ruidosos de conversações. Recolhiam do campo os -trabalhadores.</p> - -<p>E os dois a conversar ainda!</p> - -<p>—E a Joanna que não chega da cidade! É -sempre assim!</p> - -<p>Quando ha pressa é que não vem... Queres tu -dar uma volta pelo lugar, Francisco?</p> - -<p>—Nada, minha mãe! Este dia é só para si. -Inda bem que ninguem me viu, e que se não sabe -que cheguei... Conversemos, tenho tanto que dizer, -tanto que ouvir...</p> - -<p>Entrelaçava-se de novo a conversa, e assim estiveram -até que a velha disse:</p> - -<p>—E então não querem vêr que o rapaz quer -tirar-me dos meus habitos! São horas de deitar. -Vou fazer-te a cama, está ahi quedo que eu já -volto.</p> - -<p>Voltou d'ahi a pouco com um candieiro de tres -bicos. A luz batia-lhe no engelhado rosto cheio de -bondade, e um sorriso de ventura brincava-lhe nos -olhos e na bocca.</p> - -<p>E, empuxado suavemente pela mãe, o brazileiro -entrou no quarto que lhe estivera preparando.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_201" id="Page_201">[201]</a></span></p> - -<p>A velha abeirou-se da cama, desdobrou as roupas, -ageitou a travesseirinha de largos bordados -tesos e engommados, e voltando-se para o filho que -examinava tudo curiosamente:</p> - -<p>—Agora toca a deitar! Tenho tanta pena que -me não trouxesses uma nora! pois eu creio que lá -no Brazil ha muitas moças bonitas, pois não ha?</p> - -<p>O brazileiro sorria-se, e a mãe incansavel enchia-o -de perguntas, de mimos, de recommendações, -até que sahiu abençoando-o com toda a sua alma, -rude mas extremosa.</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>Francisco Cerqueira deitou-se, e ainda que lhe -parecesse que o haviam de incommodar os pesados -lençoes de linho duros e asperos, adormeceu -profundamente.</p> - -<p>Sonhou. Estava no Brazil, os socios tinham chegado -da Europa, vinham queimados da viagem, -mas contentes; contavam anecdotas e casos succedidos -durante o passeio.</p> - -<p>Que Portugal era um jardim, o Minho sobretudo! -não se fazia ideia.</p> - -<p>Narravam a maneira como tinham sido recebidos -na aldeia natal, as festas, as alegrias da chegada,<span class="pagenum"><a name="Page_202" id="Page_202">[202]</a></span> -as noites de esfolhada, as romarias ruidosas... -Cerqueira ouvia-os, e lá por dentro do coração, -sentia a grande e plumbea nostalgia do paiz -natal... Se eu pudesse lá ir! Mas para que? Estou -velho... e depois póde ser que a velhinha já -não viva!...</p> - -<p>E continuava a trabalhar, a dar ordens no humido -armazem sombrio entre os escravos...</p> - -<p>N'isto saccudiram-no uma, duas vezes, tres vezes...</p> - -<p>—Ó grande mandrião, pois isto são horas de -dormir ainda? Olha que já estou a pé ha duas horas! -Na cozinha vae tudo raso com trabalho! Arriba, -homem! Não tens vergonha, dorminhoco?</p> - -<p>E o <i>brazileiro</i>, estendendo os braços e esfregando -os olhos com os punhos fechados, perguntou bocejando:</p> - -<p>—Que horas são?</p> - -<p>—Dez horas, grandecissimo perguiçoso!</p> - -<p>—Ha quarenta annos que não durmo um somno -tão bom, minha mãe!</p> - -<div class="chapter"> -<hr class="chap" /> -</div> - -<h3 id="A_PERCEPTORA">A PERCEPTORA</h3> - - -<p>Chamava-se Martha de Vasconcellos.</p> - -<p>Era alta, loura, delicada como uma figura de -<i>Keepsake</i>.</p> - -<p>Uma physionomia suave e infantil que captivava -pelo seu encanto inconsciente.</p> - -<p>Á primeira vista, nas <i>soirées</i> semanaes do commendador -Gonçalves, vestida de branco, com um -simples velludo negro nos seus cabellos crespos de -um louro fulvo e ardente, parecia uma creança -despreoccupada e frivola.</p> - -<p>Não o era.</p> - -<p>Quem a conhecesse de perto sabia que ella tinha -a seriedade precoce dos que já padeceram -muito.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_204" id="Page_204">[204]</a></span></p> - -<p>Nenhuma sentimentalidade falsa no seu olhar -azul, meigo e pensativo. Nenhuma ideia errada, -nenhuma chiméra juvenil na sua cabecinha d'uma -lucidez singular.</p> - -<p>Sabia conservar-se na sombra, sem deixar de -ser digna; tinha a consciencia da mesquinhez do seu -destino, sem ter nunca aprendido a ser humilde.</p> - -<p>Pouco fallavam com ella, e no entanto parecia -não dar pelo desdem quasi brutal de toda aquella -gente que a cercava.</p> - -<p>Tinha um modo docil e meio risonho de sentar-se -ao piano, e tocava uma noite inteira valsas, -contradanças, lanceiros, que outras dançavam, na -expansão da sua alegria burgueza.</p> - -<p>Nunca lhe perguntavam se estava cançada, nunca -lhe davam a menor mostra de interesse ou de -sympathia.</p> - -<p>Pagavam-lhe integral e generosamente, tinham -direito aos serviços correspondentes a essa remuneração.</p> - -<p>As suas relações paravam aqui.</p> - -<p>Não sabiam se ella tinha uma alma, se essa alma -se iria azedando a pouco e pouco ao contacto -d'aquella indifferença cruel; não sabiam do seu -passado senão que era honesto e puro, nunca pensavam -no seu futuro senão vendo-a eternamente -curvada ao pezo do mesmo destino ingrato.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_205" id="Page_205">[205]</a></span></p> - -<p>Martha era mestra de duas filhas do commendador, -duas rapariguinhas de treze a quinze annos, -muito presumidas da sua riqueza, muito vaidosas -do seu luxo, das carruagens em que andavam, -dos vestidos de seda que vestiam, das festas com -que os paes alteravam de vez em quando a chata -monotonia do seu viver de negociantes retirados.</p> - -<p>O commendador tinha um filho muito mais velho -do que as irmãs, que se educára na Allemanha; -e que depois de viajar pela Europa inteira, -havia regressado emfim á casa paterna, onde, aqui -para nós, se enfastiava poderosamente.</p> - -<p>O commendador queria dar tambem ás filhas -uma educação brilhante, uma educação que correspondesse -ás dimensões da sua <i>burra</i>, eis porque, -depois de as tirar do convento, onde tinham estado -até áquella idade, escolhera para professora -Martha de Vasconcellos.</p> - -<p>De resto as idéas do commendador e da mulher -sobre a educação de suas filhas, não eram das mais -engenhosas e atiladas.</p> - -<p>A pobre gente—n'este caso, <i>pobre</i> significa riquissima—a -pobre gente não era obrigada a ter -um ideal muito levantado.</p> - -<p>Sabiam que a filha do barão de tal tocava pianno, -e queriam que suas filhas soubessem tocar muito -melhor.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_206" id="Page_206">[206]</a></span></p> - -<p>Tinham ouvido louvar os desenhos da menina -<i>Fulana</i> e juraram aos seus deuses que as suas meninas -lhe haviam de levar a palma.</p> - -<p>Não tinham ideias absolutas, tinham simplesmente -ideias relativas.</p> - -<p>Excitar a admiração parecia-lhes uma cousa réles -e insignificante; o que elles queriam era excitar -a inveja.</p> - -<p>As pequenas comprehendiam isto maravilhosamente.</p> - -<p>Em vendo uma amiga da infancia, uma conhecida -qualquer com um vestido mais bonito ou com -uma prenda intellectual mais preciosa, tinham ataques -de desespero surdo.</p> - -<p>Ralava-as uma vaga inveja de todos os esplendores -sociaes.</p> - -<p>Andavam á busca de gente a quem podessem -offuscar.</p> - -<p>Eram simplesmente ridiculas!</p> - -<p>Ás vezes entravam no quarto de Martha e diziam-lhe -n'um transporte de colera:</p> - -<p>—Quero saber allemão. A Mariquinhas sabe -allemão, emquanto eu não sei.</p> - -<p>—Quero aprender a bordar de matiz, a Julia -fez um quadro que eu não sei fazer.</p> - -<p>Era assim que iam progredindo no estudo.</p> - -<p>Marta conformava-se docilmente ás aspirações<span class="pagenum"><a name="Page_207" id="Page_207">[207]</a></span> -das discipulas: ensinava-lhes tudo o que sabia, -mas o que ella de todo não pudera, era inocular-lhes -a vida interior que animava e coordenava todos -os seus conhecimentos adquiridos ou intuitivos.</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>Dizia-se que Marta conhecera melhores dias, affirmava-se -mesmo que não fôra para servir de mestra -a burguezinhas pretenciosas que seu pae, um -pae extremoso, lhe adornára o espirito de todos -os primores de uma educação excepcional.</p> - -<p>Conhecia as linguas modernas, mas não como -as conhecem as meninas que por ahi conversam -com os diplomatas, resumindo n'isso todas as suas -ambições de estudo.</p> - -<p>Penetrára no espirito d'ellas, comprehendera o -genio especial de cada uma, sabia de cór e escolhia -principalmente os poetas que synthetisam uma -nacionalidade ou uma civilisação.</p> - -<p>Tinham-lhe ensinado a raciocinar, a pensar, a -estudar a fundo todos os problemas em que outras -mulheres tocam sómente ao de leve.</p> - -<p>A curiosidade natural ao espirito feminino, essa -qualidade preciosa, que, descurada, se torna quasi -sempre em um vicio antipathico, fôra n'ella tão<span class="pagenum"><a name="Page_208" id="Page_208">[208]</a></span> -bem dirigida, disciplinada com tal mestria, que se -tornára em fonte dos mais puros gozos do seu espirito.</p> - -<p>Não sabia <i>can-cans</i> de salão, sabia o que dizem -na sua muda lingua os astros e as plantas; não -tentara penetrar na vida intima das suas amigas, -contentava-se em saber a vida intima da Creação.</p> - -<p>Nunca lhe viera á idéa penetrar com o espirito -no pélago revolto das paixões insalubres; a sua -curiosidade insaciada debruçava-se de melhor vontade -no pélago profundo das ondas, a quem horas -e horas perguntava pelas mysteriosas riquezas do -seu seio.</p> - -<p>No meio d'isto, despretenciosa e simples, julgando-se -a mais ignorante das creaturinhas do -bom Deus, não sabendo que era artista, que era -intelligente, que tinha alma capaz de entender todas -as grandes cousas.</p> - -<p>O pae, que a vinha ver muitas vezes á casa da -senhora a quem na infancia a confiára, disse-lhe -um dia com o pejo a ruborisar-lhe as faces, com -lagrimas a marejarem-lhe os olhos, que ella era -uma filha natural, mas que tencionava reconhecel-a, -regularisar a sua posição, dar-lhe todos os -direitos que ella por tantissimos lados merecia.</p> - -<p>A adoravel creança não o percebeu.</p> - -<p>Então—castigo terrivel das suas culpas—o pae<span class="pagenum"><a name="Page_209" id="Page_209">[209]</a></span> -teve de explicar, de fazer comprehender áquelles -castos ouvidos de quinze annos uma historia deploravel, -a historia do seu crime!</p> - -<p>Martha escutou-o n'um silencio dolorido, com -uma expressão de doçura triste no olhar.</p> - -<p>Depois abraçou-o melhor ainda que nos outros -dias, porque até alli só tivera muito que agradecer -e d'alli por diante sentia vagamente que tinha -muito que perdoar.</p> - -<p>—E minha mãe?—perguntou depois com uma -tremura na voz.</p> - -<p>—Tua mãe morreu.</p> - -<p>O pae de Martha era casado, tinha filhos, vivia -para sempre longe d'ella nas tranquillas alegrias -da familia, uma familia em que ella só podia ser -a intrusa!</p> - -<p>Desde esse dia Martha estudou com dobrado -afinco, aprendeu com uma ancia dolorosa, com um -não sei quê de impaciencia inexplicada.</p> - -<p>Sentia que havia de ter muito que soffrer, muito -que luctar.</p> - -<p>Tratou de robustecer a alma e de dilatar o espirito.</p> - -<p>Era uma especie de iniciação heroica.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_210" id="Page_210">[210]</a></span></p> - -<hr class="r5" /> - -<p>O pae de Martha morreu.</p> - -<p>Um dia, ao acabar de jantar, cahiu para o lado -inesperadamente, fulminado pela ruptura d'um -aneurisma.</p> - -<p>A morte surprehendera-o. Não tinha tido tempo -de fazer nada em favor da sua desvalida Martha.</p> - -<p>Oito dias depois, entrava esta, vestida de luto, -muito pallida, mas com uma expressão estranha -de firmeza no olhar, em casa do commendador -Gonçalves.</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>Julião, o filho do commendador, tinha 23 annos -quando Martha foi para casa do pae. Ao -principio pouco reparou n'ella. Imaginava-a uma -mestra como as outras, o mesmo livro tirado a -centenas de exemplares. Reconheceu sómente que -era um pouco mais bonita que a generalidade das -suas collegas.</p> - -<p>Um dia, porém, que elle lia Gœthe no original, -e que uma phrase obscura do poeta o fazia parar -na leitura um tanto impacientado e confuso, lembrou-se—acaso -ou presentimento—de recorrer -á mestra de allemão de suas irmãs.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_211" id="Page_211">[211]</a></span></p> - -<p>Entrou na sala de estudo, com um certo desdem -a transparecer-lhe na physionomia.</p> - -<p>Póde ser-se educado na Allemanha e não comprehender -o <i>Fausto</i>: o que era no emtanto absolutamente -impossivel, na opinião do moço, era não -ter nunca estado na Allemanha e conhecer Gœthe -como um poeta nosso compatriota.</p> - -<p>Martha conhecia-o.</p> - -<p>Pegou no livro que Julião lhe estendia, deitou -um relance de olhos para o verso de que se tratava, -e depois, com um sorriso não isento de certa -malicia innocente, explicou a Julião a ideia do -poeta.</p> - -<p>Havia tanta clareza nas suas palavras, uma tão -superior intuição artistica nos seus rapidos e despretenciosos -commentarios, que o moço olhou para -ella devéras espantado.</p> - -<p>Pareceu-lhe que a via pela primeira vez.</p> - -<p>Não lh'o disse, porém; pelo contrario, sentiu uma -especie de surda irritação ao perceber a sua inferioridade -intellectual perante aquella creança tão -simples, e que todos olhavam com tamanho desdem.</p> - -<p>Martha percebeu porventura a impressão que -despertára; o caso é que a malicia que lhe chispava -no olhar accentuou-se com um indeciso cambiante -de ironia.</p> - -<p>«A pequena creio que se atreve a fazer escarneo<span class="pagenum"><a name="Page_212" id="Page_212">[212]</a></span> -de mim», pensou Julião, sahindo da sala, -onde a juvenil perceptora ficou com as discipulas.</p> - -<p>Desde esse dia Julião e Martha observaram-se -mutuamente com mais attenção.</p> - -<p>Elle achava-a graciosa, sympathica e boa sobretudo, -tinha muita pena d'ella, ao vêl-a desdenhada -por tanta gente que lhe era inferior na intelligencia, -na coragem, na distinção, em tudo que póde -tornar adoravel uma mulher.</p> - -<p>Martha sentia-se silenciosamente comprehendida, -e agradecia áquelle moço esbelto e pensativo -as delicadezas mudas com que a compensava do -desamor de todos os mais.</p> - -<p>Tocou então para elle as mais doces e sentidas -musicas que sabia; os apaixonados <i>nocturnos</i> de -Chopin, as queixosas melodias de Schübert, as -sonatas mais bellas d'esse sublime surdo chamado -Beethowen.</p> - -<p>Conversavam um com o outro através da musica, -sem nunca se fallarem de outro modo senão -nas cousas mais banaes da vida de todos os dias.</p> - -<p>Á tarde, depois de jantar, emquanto o commendador -resonava a sua sésta sobre a prosa elegante -do <i>Diario de Noticias</i>, emquanto a <i>commendadora</i> -meditava o rol d'aquelle dia, digerindo um bom -jantar, e um ataque de furia contra as suas criadas -presentes e futuras, emquanto as meninas debruçadas<span class="pagenum"><a name="Page_213" id="Page_213">[213]</a></span> -á janella, trocavam substanciosos commentarios -ácerca de um alferes que morava no -predio fronteiro, e de uma menina muito <i>namoradeira</i> -que morava no predio do lado, Martha, sentada -ao piano, desfiava sósinha o longo rosario -das suas saudades.</p> - -<p>Julião ouvia-a, fingindo ler um jornal ou um livro, -e a apaixonada artista bem comprehendia que -uma alma a estava escutando, e que essas limpidas -notas que ella arrancava ao piano iam vibrar -divinamente em um coração que a entendia.</p> - -<p>Tudo os separava na terra: o orgulho feroz de -uma familia de <i>parvenus</i>, o santo orgulho d'ella, -não menos implacavel, porém muito mais nobre, -os preconceitos, o dinheiro, quasi que a honra; -mas, que importava?</p> - -<p>Podiam entender-se e amar-se através d'isso tudo.</p> - -<p>E Martha, empallidecida pelas commoções que -lhe agitavam a sua alma de artista, com uma expressão -soffredora e apaixonada nos seus bellos -olhos d'um azul escuro, contava a meia voz n'aquella -linguagem ineffavel as suas dôres, as suas -humilhações, as suas lembranças, todas as alegrias -que tivera, tudo que ella havia esperado na terra -e que um dia se lhe havia desfeito nas mãos, deixando-lhe -apenas uma immensa, uma desoladora, -uma eterna saudade!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_214" id="Page_214">[214]</a></span></p> - -<p>Ás vezes o piano chorava com uma desesperação -tão inconsolavel e tão profunda, que Julião tinha -desejos de erguer-se da cadeira em que estava, -de protestar contra os energicos lamentos que -traduziam a dôr insanavel de um destino, e de -gritar:</p> - -<p>—Aqui me tem, prompto a luctar peito a peito -contra o seu infortunio, e a vencêl-o.</p> - -<p>Mas não se atrevia!</p> - -<p>Que diriam todos, que diria seu pae, que diria -a propria Martha?</p> - -<p>Quem lhe dava a elle direitos de interpretar -d'aquelle modo a sublime execução d'essa artista -ignorada?</p> - -<p>Quem pudera affirmar-lhe que era pessoal essa -dôr mysteriosa que tinha soluços tão doces, queixas -tão resignadas e tão mansas, lamentações de -tão ineffavel ternura?</p> - -<p>Um dia Julião quiz sondar o coração tão calado -da pobre mestra. Procurou fazer-lhe umas perguntas -que não fossem por demais indiscretas.</p> - -<p>Martha desatou a rir.</p> - -<p>É verdade que no meio da sua crystallina risada -os olhos se lhe afogaram em lagrimas; mas -n'esse instante Julião sentia-se tão envergonhado -da curiosidade que revelára, que se não atreveu -a olhar para a sua interlocutora.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_215" id="Page_215">[215]</a></span></p> - -<hr class="r5" /> - -<p>O commendador Gonçalves era ambicioso.</p> - -<p>Pudera!</p> - -<p>Ou não fosse elle <i>commendador</i>.</p> - -<p>Estava riquissimo, mas queria que os filhos fossem -ainda mais ricos do que elle.</p> - -<p>Para isso andára a moirejar a vida inteira, por -isso se sustentára de pão negro e de bacalhau durante -os annos mais florentes da mocidade!</p> - -<p>O seu mais intimo amigo, possuidor de um baronato, -de avultada riqueza e de uma filha unica -tão prendada como elle desejava as suas, fallou-lhe -um dia disfarçamente, com certa labia, a respeito -de Julião.</p> - -<p><i>A meio entendedor meia palavra basta</i>; d'ahi a -quatro mezes o commendador dava uma pequena -<i>soirée</i> intima, em que a menina Adriana, filha do -sr. Barão de X, e chegada havia dias do <i>Sacré -Cœur</i>, era apresentada ao seu futuro noivo, o Sr. -Julião Gonçalves.</p> - -<p>Estavam só pessoas de familia em casa do commendador.</p> - -<p>Elle, a mulher, as duas filhas, o filho e Martha. -Emquanto ao barão, viera simplesmente acompanhado -pela filha.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_216" id="Page_216">[216]</a></span></p> - -<p>Adriana era... o que d'alli a alguns annos haviam -de ser as futuras cunhadas.</p> - -<p>Tinha a mais umas tincturas de <i>coquetterie</i> parisiense, -<i>coquetterie</i> mal ensaiada, mais collegial do -que mundana.</p> - -<p>Não se iguala nem se descreve o desdem com -que ella cumprimentou Martha. Era uma vingança -retrospectiva do que as suas proprias mestras lhe -haviam feito passar.</p> - -<p>Nos olhos azues de Martha passou um relampago -de colera fugitiva, mas não disse nada. O que -havia ella de dizer áquella gente, que a considerava -um traste... bem pago?</p> - -<p>Adriana, a quem cabiam as honras da noite, -sentou-se ao piano e tocou.</p> - -<p>Tocou as musicas de Martha, com a agilidade -e com o brio de uma pianista experimentada.</p> - -<p>Depois, levantando-se no meio de palmas e de -bravos, indicou á mestra o lugar que deixára n'uma -especie de altivo desafio.</p> - -<p>É que uma das irmãs de Julião lhe dissera n'um -risinho de malicia, que o irmão gostava muito de -ouvir Martha.</p> - -<p>A moça levantou-se com um gesto automatico, -sentou-se ao piano e sem mesmo olhar para as musicas -dispersas principiou a tocar.</p> - -<p>Foi um adeus soluçante, cheio de lagrimas, onde<span class="pagenum"><a name="Page_217" id="Page_217">[217]</a></span> -a espaços passavam como brisas refrigerantes, -umas vozes indizivelmente cariciosas!</p> - -<p>Foi uma historia muito triste, que ainda ninguem -tinha ouvido até alli, a historia de um coração -despedaçado!</p> - -<p>Como ella lhe havia querido, ao seu bello sonho -desfeito, e com que dilacerante agonia lhe dizia -para sempre adeus!</p> - -<p>Na sala havia um silencio angustioso e profundo.</p> - -<p>O silencio inconsciente que inspiram as grandes -commoções.</p> - -<p>Desde esse dia nunca mais ninguem ouviu a -querida voz de Martha, aquella voz que tinha por -interpretes os mais sublimes artistas do mundo.</p> - -<p>Ella continúa a dar lições ás filhas do commendador, -e ha no seu sorriso uma expressão divinamente -dolorida, quando falla com Adriana, a feliz -esposa de Julião.</p> - -<div class="chapter"> -<hr class="chap" /> -</div> - -<h3 id="A_MORTE_DE_BERTHA">A MORTE DE BERTHA</h3> - -<p>(A NALY)</p> - - -<p>Minha Naly, ás vezes nos teus dias de bom humor, -e sobre tudo nos raros dias em que estás um -pouco menos traquinas, vens sentar-te ao pé de -mim, n'um banco pequenino, e pegando n'um livro,—o -teu livro de grandes bonecos coloridos—, finges -que estás lendo umas cousas que a tua inquieta -phantasiasinha de duende te representa, escriptas -n'aquellas paginas ainda mudas para os -olhos da tua intelligencia.</p> - -<p>Com o teu adoravel instincto imitador, arremedas-me -inconscientemente.</p> - -<p>És o meu epigramma vivo, um delicioso epigramma -de olhos garços muito abertos, muito intelligentes, -muito maganos, como ainda não vi outros -em ninguem. Hontem, porém, estavas estranhamente -curiosa.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_220" id="Page_220">[220]</a></span></p> - -<p>Não te bastava o que fingias ler, querias mais, -querias que alguem inventasse por tua conta e -risco, <i>fingisse ler</i> para que tu ouvisses.</p> - -<p>Levantaste a loura cabeça inquieta, e disseste -com a voz que os anjos costumam ensinar ás creanças:</p> - -<p>—Contas-me uma historia?</p> - -<p>Que historia te hei de eu contar, Naly? Com a -tua alma de quatro annos, tão limpa, tão transparente, -tão cheia de ignorancias ideaes; com a -tua alma de flôr, só se entende a linguagem dos -lyrios, só podem comprehender-se cantos feitos de -luar, de perfumes, de cantos de aves, alguma cousa -etherea, que eu te não sei dizer.</p> - -<p>Venho contar-te esta historia para tu a leres -mais tarde, quando a mão de alguem—pede a -Deus que seja a mão de tua mãe, Naly—houver -arrancado ao teu doce espirito de borboleta o -pollen immaculado e scintillante com que Deus o -polvilhou e que tem um nome lindo, sabes qual?—a -ignorancia!</p> - -<p>Então saberás o que significam estas linhas escuras, -alinhadas symetricamente na brancura do -papel; terás chorado muita lagrima, meu anjo! a -aprender cada uma d'estas letras, que hoje interpretas -conforme te inspira a tua vagabunda e caprichosa -imaginação!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_221" id="Page_221">[221]</a></span></p> - -<p>E sentada n'uma cadeira grande, muito direita, -um pouco revestida da elevada importancia do teu -cargo de ledôra, repetirás alto á tua irmã pequenina -este conto verdadeiro que em tua intenção -aqui venho traçar hoje.</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>A pequena Bertha tinha cinco annos, um só -mais do que os que hoje contas, Naly.</p> - -<p>Era como tu, loura, muito loura; dera-lhe Nossa -Senhora uma cabelleira de anjo, fulva, luminosa, -feita de pequeninos anneis que se enroscavam, e -que scintillavam ao sol, formando em torno d'ella -como que um esplendor de gloria.</p> - -<p>Os olhos muito grandes, transparentes, azues -pareciam ter no fundo um segredo de doce tristeza. -Um segredo que ella havia de saber muito cedo... -no céo!</p> - -<p>O seu pequeno corpo, macio, feito da brancura -das assucenas que desabrocham em maio, exhalava -como que um aroma de flôr.</p> - -<p>Bem vês que Bertha era linda! Um amor! O -orgulho e a ventura dos paes que se reviam n'ella.</p> - -<p>Vivia n'uma grande casa aristocratica, discreta,<span class="pagenum"><a name="Page_222" id="Page_222">[222]</a></span> -forrada de colgaduras, de tapetes, de bellos quadros -antigos.</p> - -<p>Descendo os degraus de marmore da casa em -que ella jantava, entre o pae e a mãe, na sua cadeirinha -de pés muito altos, ia ter a um grande -jardim cheio de arvores cuidadas e decotadas pela -mão habil de um jardineiro inglez.</p> - -<p>Muito gostava do seu jardim a pequenina Bertha!</p> - -<p>Imagina tu se ella não havia de gostar, Naly!</p> - -<p>Havia lá tantas flôres, tantas flôres! e depois -eram de tantos feitios! Umas triumphantes, purpurinas, -como se as tingisse um sangue novo e -generoso, outras tão brancas como os braços eburneos -da mãe de Bertha, algumas tinham uma pallidez -fina e morbida, que lembrava a das bellas -senhoras que ella via passar resvalando como sombras -gentis, pelos atapetados salões da sua casa. -Outras eram, de uma côr de rosa desmaiada e -doce, que acariciava os olhos de quem as via.</p> - -<p>As campanulas azues, esbeltas, ephemeras, lembrando -pequeninos calices de crystal da Bohemia, -trepavam amorosamente em volta dos troncos -mais robustos que as cercavam; as margaritas -com a sua alvura <i>mate</i> e o seu feitio de estrellas -resaltavam n'um adoravel contraste da verdura -clara e fresca dos taboleiros de relva.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_223" id="Page_223">[223]</a></span></p> - -<p>Havia flôres muito direitas e esbeltas no pedunculo -delgado, que faziam scismar Bertha,—não sei -bem porquê—, nas lindas princezas dos contos de -fadas, que vivem nos seus palacios á beira do -mar, escondidas, discretas e cheias de magestosa -gentileza.</p> - -<p>As camelias com a victoriosa belleza do seu teclado -de côres vivas e tão varias, lembravam a -Bertha a musica que ella ouvira uma vez, n'um -dia de parada, no desfilar apparatoso das tropas, -musica brilhante, sonora, marcial, feita do estridor -dos clarins, da fanfarra triumphante dos instrumentos -de cobre, de todas as notas bellicas que rebentavam -no espaço, como que n'uma explosão harmonica -e sonora!</p> - -<p>Gostava muito das violetas—pequeninas e modestas, -denunciando-se a medo pelo seu rasto de -perfumes,—e que ella costumava procurar nas -hervas para encher com ellas a jarra de porcellana -de Sèvres, que havia sempre sobre a mesa de costura -de sua mãe.</p> - -<p>E não penses tu que gostava menos das arvores! -oh! a alma de Bertha expandia-se naturalmente -para tudo que é bom e que é bello.</p> - -<p>Levava horas a espreitar através dos ramos delicadamente -recortados pela thesoura do Celeste -Jardineiro, o alto céo azul, tão cheio de luz, e<span class="pagenum"><a name="Page_224" id="Page_224">[224]</a></span> -que sem ella saber porque, a estava chamando -sempre!</p> - -<p>Depois nas arvores é que vivem os passaros, é -alli que elles dependuram os ninhos, que elles -modulam as suas cantigas sem <i>libretto</i>, que elles -cantam a quem passa as suas alegrias e as suas -saudades.</p> - -<p>As arvores são boas, hospitaleiras e carinhosas, -como se tivessem uma alma occulta sob a rugosa -cortiça dos seus troncos.</p> - -<p>Ellas dão sombra, dão frescura, dão fructos, dão -flôr, dão um bom cheiro sadio, que reconforta e -alegra; as arvores, minha Naly, são as nossas melhores -amigas.</p> - -<p>Tu has de saber mais tarde, que no mundo ha -muito riso falso, muita amizade fingida, muita -cousa que a gente julga solida, e que no fim de -contas está construida sobre a areia; mas os vegetaes, -os eternos amigos do homem, os que o nutrem -e se nutrem d'elle, oh! esses nunca nos mentem -nem atraiçoam, nem dão conselhos máus!</p> - -<p>O jardim era, pois, para a nossa Bertha um -mundo riquissimo, um mundo mysterioso, onde a -vida palpitava, no insecto, na planta, no musgo, -na ave, na terra fecunda e robusta, na arvore frondosa, -na agua limpida e corrente, em tudo que -rescende e murmura, e canta, e pullula, em tudo<span class="pagenum"><a name="Page_225" id="Page_225">[225]</a></span> -que enlaça a alma do homem n'uma cadeia feita -de embevecimentos magicos.</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>E as boas horas passadas no <i>gabinete azul</i>, o -que ellas não valiam para o pequenino coração de -Bertha!</p> - -<p>Sabes o que era o gabinete azul? era a saleta -toda forrada e estofada de setim azul, em que a -mãe da nossa pequenina se conservava habitualmente.</p> - -<p>Chamava-se Margarida a mãe de Bertha, e era -formosa, de uma delicada e fragil formosura, que -despertava ao vel-a instinctos de piedade e de protecção.</p> - -<p>Alta, esbelta, levemente scismadora, como quem -tem cuidados que a preoccupem, sempre vestida de -seda com punhos de cabeção de rendas finas, um -pouco amarelladas, que punham na <i>toilette</i> de casa -uns toques de aristocratica distincção. Nos cabellos -bastos, louros e frisados, uma flôr quasi sempre -colhida por Bertha.</p> - -<p>O pae, esse era forte, robusto e sadio, mas tinha -a virtude dos valentes: a bondade. N'aquella -physionomia accentuada e trigueira o sorriso era<span class="pagenum"><a name="Page_226" id="Page_226">[226]</a></span> -tão doce que lembrava o desabrochar de um lyrio.</p> - -<p>Não estava muito em casa, tinha que fazer fóra, -andava ganhando a vida de elegancias e de confortos, -que viviam inconscientes, innocentemente -egoistas, os seus dous frageis amores—a mulher -e a filha.</p> - -<p>Mas quando elle estava, que festa!</p> - -<p>Bertha, ora ennovellada aos pés da mãe, nas -felpas avelludadas do tapete, e com os grandes -olhos curiosos fitos nos d'ella, ora folheando um -grande livro de imagens—como o teu, minha -Naly—, ora empoleirada no espaldar da larga poltrona -onde o pae estava sentado, e passando-lhe a -pequenina mão crestada pela cabelladura revolta e -crespa, Bertha era a mais feliz das creaturinhas -do bom Deus!</p> - -<p>Era um gosto vel-os alli a todos tres, na intimidade -d'aquelle viver de familia!</p> - -<p>Margarida, ao principio, trabalhava sempre; n'uns -dias, um vestidinho para a sua querida filha, n'outros -dias, um pequeno objecto galante e mimoso -para o escriptorio do seu marido; de tempos a -tempos um enxoval para uma pobresinha, um enxoval -muito aceiado, que Bertha dobrava e desdobrava, -que servia de thema para longas interrogações, -e como que iniciação da creança na doce -caridade de sua mãe.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_227" id="Page_227">[227]</a></span></p> - -<p>O pae, quando voltava, tinha sempre tanto que -contar!</p> - -<p>Gente que vira, casos que lhe haviam succedido! -planos de futuro que andava devaneando, e depois -risos, brinquedos, correrias atrás do diabrete da -Berthazinha, eu sei!... o demonio a quatro!</p> - -<p>Havia alli um conchego tepido, uma alegria, -uma benção de Deus, repartida por tres almas, e -que parecia reflectir-se nas cousas mudas que o -cercavam servindo lhe de elegante e rendilhada -moldura.</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>Queres tu saber, Naly? Bertha tinha um defeito. -Era um bocadinho egoista. Um egoismo de tres, -já se entende, porque ella não sabia separar a sua -vida da de seus paes.</p> - -<p>Uma das manifestações mais claras d'este egoismo -era a repugnancia que tinha pelos estranhos.</p> - -<p>Sentia frio ao pé d'elles; fugia muito pensativa -e muito arisca quando via um indifferente interpôr-se -importunamente entre ella e as caricias que -eram o seu alimento de todos os instantes.</p> - -<p>Mas a pessoa que mais lhe aggravava esta impressão -hostil, era um primo que por aquelle tempo -começara a frequentar mais a casa.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_228" id="Page_228">[228]</a></span></p> - -<p>Um moço, alto, elegante, bem parecido, muito -fallador n'umas horas de expansão, muito concentrado -n'outras horas, de bigode retorcido e triumphante, -olhares que sabiam ser doces, e que eram -quasi sempre altivos.</p> - -<p>E, comtudo, que meigo que elle era para Bertha, -espreitando-lhe os caprichos, conformando-se -com as brincadeiras d'ella, trazendo-lhe <i>bonitos</i>, flores, -cousas novas, delicadas, que ella não vira -nunca, e que, no emtanto, vindas da mão d'elle -lhe desagradavam instinctivamente.</p> - -<p>É que tambem o <i>primo</i> tornara-se d'uma assiduidade -irritante!</p> - -<p><i>Primo</i> para aqui, <i>primo</i> para alli, toda a -gente gostava d'elle, para cada pessoa tinha um -dito amavel, uma intenção delicada, uma lisonja -habilmente escondida!</p> - -<p>Tratavam-n'o por <i>tu</i>, era admittido nas festas -intimas da familia, ia ao jardim apanhar flores, -acompanhava a <i>mamã</i> ao theatro! Uma usurpação -em fórma, uma usurpação revestida de todas as -circumstancias aggravantes!</p> - -<p>E depois usava essencias.</p> - -<p>Bertha declarara com ar solemne e magestoso, -que embirrava muito com o primo, porque elle -cheirava a <i>pat-chouly</i>.</p> - -<p>E ella que andava habituada aos aromas frescos<span class="pagenum"><a name="Page_229" id="Page_229">[229]</a></span> -e sadios da livre natureza, não podia supportar -aquelle cheiro de essencias requintadas, a que -dava este nome generico e detestado.</p> - -<p>A <i>mamã</i> por ter de atural-o a cada instante, renunciára -aos seus dôces trabalhos d'outro tempo, -de que Bertha gostava tanto, e que davam ás suas -mãosinhas travessas a sensação grata das sedas, -das bonitas fazendas desdobradas sobre o estofo -das poltronas, de todas as graciosas cousas com -que podia brincar.</p> - -<p>Andava triste a sua adorada mãesinha.</p> - -<p>Tinha horas de melancholia morbida em que a -cabeça lhe cahia no peito, como se tivesse dentro -estranho pezo. E ficava-se horas e horas calada e -desfallecida, com um livro aberto no regaço, ou -com um trabalho apenas começado cahido aos pés, -sem ouvir o papaguear festivo da sua pequena Bertha.</p> - -<p>Quando voltava a si d'aquellas scismas doentias, -parecia acordar d'um mau sonho, passava a mão -pela testa, bebia agua, muita agua, e beijava a filha -com um arrebatamento que lhe fazia mal.</p> - -<p>A pequenita enfastiava-se!</p> - -<p>Pudéra!</p> - -<p>Fugia só para o jardim, sem que uma voz sollicita -e assustada a chamasse de longe, sem que uns -olhos inquietos a velassem de perto, e punha-se<span class="pagenum"><a name="Page_230" id="Page_230">[230]</a></span> -n'uma indistincta e muda linguagem que só as suas -flores entendiam a queixar-se das tristezas vagas, -que a definhavam longe do calor que d'antes a acalentava -e aquecia.</p> - -<p>As tardes do <i>gabinete azul</i>, os principios da noite, -quando cahia do alto dos céos a penumbra indecisa -e dubia do crepusculo, tudo aquillo perdera -a sua graça, a sua antiga e ideal doçura!</p> - -<p>No silencio constrangido da saleta, retiniam então -os passos conquistadores do <i>intruso</i>, e Bertha -com vontade de romper em soluços, pedia muito -depressa que a fossem deitar.</p> - -<p>Chamava-se a creada, vinha, levava-a pela mão, -amuada, e ella, ao aconchegar-se nas roupinhas do -seu leito, sentia ainda uma estranha impressão de -desconforto e de frio. Era o beijo distrahido e formalista, -que lhe haviam imprimido na testa os labios -quentes, seccos e febris de sua mãe.</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>Era noite de festa para Berthazinha.</p> - -<p>Estavam sós todos tres no <i>gabinete azul</i>, o paraiso -d'outr'ora, onde agora não havia senão flores... -que ella não colhêra!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_231" id="Page_231">[231]</a></span></p> - -<p>Bertha alcançara licença para se deitar ás nove -horas.</p> - -<p>Que bom!</p> - -<p>Um longo serão de risos, de conversas sem tom -nem som, de tagarelice inextinguivel. O livro das -grandes imagens, a boneca deitada no tapete, uma -profusão de <i>bonitos</i> de todos os feitios—alguns, por -peccados de Bertha, tinha-lh'os dado o negregado -primo! emfim por aquelle dia, Bertha estava magnanima. -Perdoava-lhes o virem da mão de quem -vinham!—e elles dous, os dous amores, o <i>papá</i> -e a <i>mamã</i> ao fogão, conversando com a intimidade -feliz de quem se quer muito!</p> - -<p>É verdade que a mamã estava pallida, tinha -até nos olhos umas orlas rôxas que pareciam de -febre, e uma luz exquisita que lembrava aquelles -clarões subitos e phosphoricos, que costumam accender -as bruxas, quando fazem os seus encantamentos -e <i>maus olhados</i>.</p> - -<p>Oh! mas que importavam a Bertha symptomas -que ella não via!</p> - -<p>Estava contente, contente, e ia-se enthusiasmando -a pouco e pouco, á proporção que a alegria lhe -inundava como uma onda a pequenina alma luminosa!</p> - -<p>Um beijo no papá, uma festinha na mamã, e -aqui desmanchava um canudo, acolá despregava<span class="pagenum"><a name="Page_232" id="Page_232">[232]</a></span> -um alfinete, depois fechava um livro que ia começar -a ler, amarrotava uma renda, trepava para -cima d'uma cadeira!</p> - -<p>Que anjo! que demonico, feito d'um bocadinho -de azul!</p> - -<p>N'isto, por um movimento rapido e imprevisto, -atirou-se ao collo da mãe, mergulhou a mãosinha -no decote quadrado do vestido, amachucou uma -rosa, que ali parecia aninhar-se no meio das rendas, -e arrancou com gesto triumphante um papel, -um papel côr de perola amarrotado.</p> - -<p>—Oh! gritou a mãe, fazendo-se mais branca do -que a cal; dá cá, dá cá, isso é-me preciso.</p> - -<p>Quem disse lá que ella respondia!</p> - -<p>Fugira rindo, rindo como uma doudinha, e fôra -esconder-se entre os joelhos do pae, agitando com -um gesto de graça inimitavel o roubado trophéo.</p> - -<p>A mãe erguêra-se convulsa, tremula, com tamanho -desvairamento e tamanha angustia no olhar -e na voz, que dir-se-hia que a esmagava uma catastrophe -imprevista e tremenda.</p> - -<p>—Dá cá, dá cá, murmurou ainda desfallecida -e supplicante.</p> - -<p>—Papá, papá, esconde tu, respondia Bertha, -n'uma convulsão de riso. Ih! cheira a <i>pat-chouly</i>, -cheira a <i>pat-chouly</i>.</p> - -<p>Elle e ella, a mãe e o pae, olharam-se.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_233" id="Page_233">[233]</a></span></p> - -<p>Tu nunca viste um olhar assim, Naly, nem eu, -e Deus nos defenda de o vermos nunca!</p> - -<p>Foi mudo, foi longo, foi sinistro! Um poema de -agonias silenciosas!</p> - -<p>Depois o pae de Bertha, afastando a creança -com um gesto lento, desdobrou o papel e leu.</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>Já lá vai um anno depois d'aquella noite de festa, -em que Bertha alcançou licença para se deitar ás -nove horas.</p> - -<p>N'um anno quantas differenças póde fazer uma -existencia!</p> - -<p>É muda e triste a casa onde vimos tantos risos, -está descuidado e cheio de hervas o jardim -onde brincava um pequenino sêr feito da luz das -auroras, e da innocencia dos lyrios.</p> - -<p>Bertha está doente.</p> - -<p>Na sua alcova branca e silenciosa, á luz dubia -de uma lamparina de jaspe, vela uma criada, emquanto -a loura pequenina fita no tecto os grandes -olhos azues e parece seguir as visões phantasticas -de um sonho de febre.</p> - -<p>Ao principio era feliz, muito feliz. Quem e que -viera destruir todas aquellas alegrias que pareciam<span class="pagenum"><a name="Page_234" id="Page_234">[234]</a></span> -querer durar sempre? A pobre doentinha não o -sabia.</p> - -<p>Diante dos olhos d'ella dançava teimosamente -um grande demonio escuro, com muitos <i>bonitos</i> -nas mãos e com um bigode retorcido e triumphante.</p> - -<p>Que vinha fazer alli aquelle demonio? Quem -póde explicar o que são as visões de um delirio!</p> - -<p>Depois uma certa noite, doce, allumiada, festiva. -Que succedêra n'essa noite? Meu Deus! Ella -brincára muito, ainda mais que o seu costume. Não -lhe lembrava mais nada, senão que fôra deitar-se -a chorar. Tambem não sabia porquê.</p> - -<p>Desde então é que a sua vida mudára.</p> - -<p>O pae repellia-a de si, sempre que ella lhe estendia -os bracinhos, empurrava-a quando ella queria -beijal-o!</p> - -<p>Nunca mais houvera os serões do gabinete azul, -nunca mais ouvira aquella voz paterna, tão grave, -tão meiga, tão musical, acaricial-a como antigamente!</p> - -<p>E a mãe?... A mãe definhava sósinha, mas -n'aquella tristeza desolada, não admittia os beijos -da sua Bertha d'outro tempo.</p> - -<p>Um dia dissera-lhe asperamente, com um brilho -secco no olhar:</p> - -<p>—Vae-te d'aqui! És a causa da minha desgraça -toda.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_235" id="Page_235">[235]</a></span></p> - -<p>Bertha não percebeu o que aquellas palavras significavam, -mas percebeu o ar com que foram ditas!</p> - -<p>Nunca mais foi ao jardim! nunca mais viu a -capoeira nem o viveiro dos canarios, nem os peixinhos -vermelhos do tanque!</p> - -<p>Tinha sempre frio, muito frio.</p> - -<p>Tiritava horas e horas a um canto da <i>casa de -engommar</i> onde as criadas riam e palestravam indifferentes, -com uma expressão de espanto, de surpresa, -de desolação selvagem no olhar!</p> - -<p>Parecia-lhe a ella que tambem estava na vida como -uma intrusa. O que viera ella cá fazer? Por -que se não ia embora?</p> - -<p>Sentia que alguem estava á espera d'ella, lá em -cima, n'um sitio onde havia muito azul, muitas -flôres, um jardim mais bonito que o que fôra d'ella, -uns serões mais placidos e mais cheios de risos e -de caricias que os amados serões de outro tempo... -que não podiam voltar!</p> - -<p>E abrindo os braços, fez um doce gesto de ave -espavorida que vae levantar o vôo para o infinito!</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>—Ai! a menina que vae morrer!—bradou a -criada com muita ancia.—Chamem a senhora,<span class="pagenum"><a name="Page_236" id="Page_236">[236]</a></span> -chamem o senhor, este anjinho diz que lhes quer -dizer adeus!</p> - -<p>Ouviam-se portas que se abriam, vozes angustiosas -que chamavam... depois, por duas portas -differentes, entraram duas pessoas.</p> - -<p>Dous espectros do que tinham sido.</p> - -<p>Olharam-se como que admirados de se verem -alli juntos!</p> - -<p>Miraram-se curiosamente como para sondarem -os grandes abysmos que os separavam dos dias -d'outr'ora!</p> - -<p>Depois sem quererem, olharam ambos movidos -pelo mesmo impulso para o pequeno leito de cortinados -brancos.</p> - -<p>Uma voz dulcissima, toda mimo e toda supplica, -chamou-os d'alli:</p> - -<p>—Papá! mamã! adeus! Digam-me que são -meus amigos agora que eu vou morrer! Como -é bom ir para o céo! Nunca mais hei-de ter -frio!...</p> - -<p>Se não fosse a voz e a expressão divina d'aquelle -olhar, quem diria que aquella que fallava era -a pequenina Bertha!</p> - -<p>—Ó papá, console a mamã, já que eu me vou -embora! Voltem para o gabinete azul, e ao serão -não se esqueçam de fallar de mim!</p> - -<p>Puxou-os a ambos com uma força que não parecia<span class="pagenum"><a name="Page_237" id="Page_237">[237]</a></span> -já d'este mundo, e abraçou-os unidos contra -o coração!</p> - -<p>Todos tres como d'antes!</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Quando ambos se ergueram d'aquelle supremo -abraço, os bracinhos d'ella tinham afrouxado e cahido.</p> - -<p>—Perdôa-me pela nossa filha que morreu! soluçou -a voz d'aquella mãe dolorida!</p> - -<p>—Perdão! papá! ciciou como uma caricia de aragem -uma voz que ninguem soube dizer se vinha -da terra se do céo.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>FIM DA PRIMEIRA PARTE</p> - - -<div class="chapter"> -<hr class="chap" /> -</div> - -<h2>SEGUNDA PARTE</h2> - - - -<div class="chapter"> -<hr class="chap" /> -</div> - - - -<h3 id="A_PROPOSITO_DE_UM_LIVRO">A PROPOSITO DE UM LIVRO</h3> - - -<p>Ha momentos em que eu não posso deixar de -me sentir desconsolada. Parece-me n'esses momentos -que a humanidade está passando por uma das -crises mais graves da sua vida de tantos seculos.</p> - -<p>E quem terá forças para conservar-se espectador -indifferente d'essa dolorosa tragedia de que é theatro -o mundo inteiro!</p> - -<p>Theorias que se atropellam e se contradizem, -systemas politicos que mutuamente se combatem, -opiniões tão variadas, ácerca das cousas graves e -das cousas insignificantes, que não nos resta meio -algum de descortinar a verdade em meio de tão -babylonica confusão.</p> - -<p>Na pratica o desmentido formal e permanente a -todas as doutrinas que se prégam e se propagam!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_242" id="Page_242">[242]</a></span></p> - -<p>Celebra-se a apotheose da familia, e a familia -decadente, desnorteada, desunida, apresenta o reflexo -fiel d'esta quadra de desalento e de incerteza!</p> - -<p>Emquanto os sonhadores erguem um altar á justiça, -como á deusa moderna que mais cultos merece, -a injustiça acclamada, protegida, triumphante -campeia n'este mundo onde a victoria já não pertence -ao mais forte, mas sim ao mais astuto!</p> - -<p>A politica, que parecia dever ser aquella sciencia -complexa e respeitavel de conduzir as sociedades -ao mais alto grau de aperfeiçoamento material -e moral, não é senão um mercado abjecto, -onde se debatem os mesquinhos interesses individuaes, -não aquelles interesses que são a base do -bem collectivo, mas os que se traduzem na exploração -do homem pelo homem.</p> - -<p>A guerra aqui acesa e selvagem, de uma selvageria -refinada e scientifica, acolá disfarçada e hypocrita, -arma-se por toda a parte, como nos seculos -que lá vão, egualmente funesta, embora a revistam -mais prestigiosos aspectos.</p> - -<p>Falla-se em paz, em fraternidade universal, préga-se -uma religião humana que parece querer e -dever supprir a religião divina, mas os modernos -crentes d'esse dogma que assenta no direito, na -justiça, no amor universal, atraiçoam tanto as suas<span class="pagenum"><a name="Page_243" id="Page_243">[243]</a></span> -doutrinas, como atraiçoavam a sua fé os catholicos -mal esclarecidos das épocas de ascetismo rude, e -de fanatica superstição.</p> - -<p>Para onde vamos nós?</p> - -<p>Se vamos para o Bem, o que é que origina esta -dolorosa inquietação, que avassalla e confrange todas -as almas, este contraste incomprehensivel, entre -o que se pratica e o que se pensa?</p> - -<p>Se vamos para o Mal, para que nos fallam do -progresso, da perfectibilidade humana, das conquistas -da civilisação, dos arrojos felizes da sciencia, -de tudo que parece preparar ao homem uma -quadra luminosa, feliz, nunca realisada até agora?</p> - -<p>D'antes, n'estas horas de duvida, de angustia -oppressiva, iamos nós procurar consolação na palavra -animadora e harmoniosa dos que, com os -olhos fitos na estrella do ideal, indicavam ao -homem o rumo que elle tinha a seguir, para não -se perder na sua gloriosa ascenção.</p> - -<p>Hoje, esses pilotos da náu do futuro estão mudos -ou descrêem tambem!</p> - -<p>Mais doloroso ainda que o silencio desalentado, -é o rictus sarcastico com que elles assistem á lucta -estranha e confusa de tantos elementos contradictorios -e incompativeis.</p> - -<p>Depois a litteratura, que é o espelho da alma<span class="pagenum"><a name="Page_244" id="Page_244">[244]</a></span> -das sociedades, é hoje por toda a parte um brado -unanime de negação.</p> - -<p>Não reconstrue, não modifica o que está feito, -trata de o desmoronar pedra por pedra!</p> - -<p>Ha um homem em França que refaz, collocado -n'um ponto de vista diverso, a obra collossal de -Balsac.</p> - -<p>O romancista mais admiravel da França, aquelle -que fez do romance um ramo das sciencias sociaes, -fez n'um momento, que tem por força de ficar, a -synthese de sua época.</p> - -<p>Pintou, e com que potencia da verdade! os reis, -e os operarios, as duquezas sentimentaes, e os artistas -convulsionados pela <i>nevrose</i> do seu tempo, -os politicos, os sabios, os pensadores, os litteratos; -as peccadoras do alto mundo, e as peccadoras do -mundo equivoco; os financeiros, e os luctadores -ambiciosos; os que vinham perder a alma e gastar -o corpo n'essa Pariz electrica e absorvente, que -attrahe os genios e os monstros, e os que vinham -alli conquistar a fortuna, o poder, a soberania -omnipotente.</p> - -<p>Na sua obra complexa, enorme, que ás vezes -tem na distancia um não sei que de monstruoso, -encontra-se viva, palpitante, com os seus vicios, -com as suas paixões, com o seu talento ardente, -com a sua magnetica e irresistivel seducção, uma<span class="pagenum"><a name="Page_245" id="Page_245">[245]</a></span> -das épocas mais caracteristicas da civilisação da -França, o que significa a civilisação da Europa.</p> - -<p>Se em Balzac encontramos as florescencias rubras -do mal, nem por isso nos seduzem menos as -suavidades castas da virtude.</p> - -<p>Ao pé de Madame de Marneffe, a pequenina e -graciosa féra parisiense, felina e nervosa, com caricias -que mordem e furores que acariciam, ha a -doce figura de Eugenia Grandet, a mais dolorosa -virgem, que a imaginação moderna ainda concebeu -e idealisou.</p> - -<p>Ao pé de Luciano de Rubempré o ambicioso effeminado -e morbido; de Vautrin o brutal luctador -que seria um <i>condottiere</i> do seculo XVI e que só -póde ser um forçado no seculo XIX; ao pé de -Marsay o politico sagaz, que faz dos homens, das -mulheres e das cousas, meros instrumentos da sua -fortuna, que não tem lei nem fé, e que é capaz de -assassinar com um sorriso de <i>dandy</i>, temos d'Arthés -o pensador austero, e pobre escriptor para -quem a litteratura é um magisterio e não um officio, -temos Cesar Birotteau, a sublimidade burgueza, -o honesto commerciante que tem palavra -de duque, que é perfumista com a mesma nobreza -de abnegação e de honradez, com que se é sacerdote, -e que glorifica toda uma classe de que se -riem os frivolos, sem saber quanta heroicidade é<span class="pagenum"><a name="Page_246" id="Page_246">[246]</a></span> -precisa para saber guardar immaculada em um peito -de burguez, a honra de um paladino.</p> - -<p>Dizem que o vicio pollula na obra de Balzac -com uma exhuberancia de vegetação inacreditavel.</p> - -<p>Elle não foi mais do que o analysta apaixonado -da sua época.</p> - -<p>Adorou-a pelo que ella tinha de grande, comprehendeu -que lhe podia desnudar as chagas, visto -que ao lado d'ellas podia mostrar tão admiraveis -bellezas.</p> - -<p>Foi implacavel na sua justiça.</p> - -<p>O seu tempo seduziu-o pelo que havia de brilhante -nos seus vicios, de fecundo e poderoso nas -suas paixões, de arrebatado e creador no seu genio, -de raro e dedicado nas suas virtudes.</p> - -<p>Hoje no artista que segue as pisadas de Balsac, -que não tem a sua potencia creadora, mas que -tem como elle, e talvez mais methodicamente do -que elle, o estudo paciente e investigador, que vemos -nós que possa dar-nos aquella sensação de -prazer agudo que a leitura conscienciosa de Balzac -dá a um verdadeiro artista?</p> - -<p>Emilio Zola tambem descreve a sua época.</p> - -<p>É artista, porque sente e sabe fazer sentir.</p> - -<p>Diz-se imparcial!</p> - -<p>Faz viver nos seus livros a sociedade de que faz -parte; entra nos palacetes de pedraria rendilhada<span class="pagenum"><a name="Page_247" id="Page_247">[247]</a></span> -dos modernos financeiros, os reis do mundo actual, -percorre os salões doirados e os <i>boudoirs</i> phantasistas, -as salas de jantar, onde se reunem as reliquias -mais preciosas de umas poucas de civilisações, -janta nos <i>restaurantes</i> de mais fama, visita -nos seus camarotes da <i>opera</i> ou dos <i>italianos</i> as -mundanas mais elegantes, as <i>hautes gommeuses</i> mais -admiradas e invejadas, está no segredo de todas -as operações da Bolsa, escutou a uma porta todas -as combinações e convenios diplomaticos, penetrou -com a sua perspicacia tenaz no interior da alma -que anima o seu tempo, fallou com os artistas, -com os sabios, com os poetas, com as mulheres; -subiu aos oitavos andares onde dormem amalgamados -n'uma dolorosa e medonha promiscuidade os miseraveis -d'essa Pariz, cuja superficie é tão seductora -e tão brilhante; viu os farrapos que cobriam o corpo -d'esses indigentes, e os vermes que corroiam a -alma d'esses parias; escutou as perfumadas confidencias -que murmuram devagarinho uns labios -frescos e vermelhos, por detraz d'um leque onde -dançam a <i>gavotte</i> umas pastorinhas de Watteau.</p> - -<p>Observou de perto o que ha de mais brilhante -e o que ha de mais abjecto, o que ha de mais puro -e o que ha de mais ignobil.</p> - -<p>D'essa observação tão variada e tão completa -que resultado colheu?</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_248" id="Page_248">[248]</a></span></p> - -<p>Não o posso dizer ao certo, sei só que não ha -nada mais desolador e mais triste do que a leitura -d'um livro de Zola.</p> - -<p>E Zola é, depois de Tlambert, o grande <i>mestre</i> -que morreu, o escriptor de mais pulso da moderna -geração realista.</p> - -<p>Os outros não téem o talento d'elle, não téem o -alcance funesto ou bom, mas em todo o caso poderosissimo -da sua obra, não téem a sua paciencia -de benedictino, exercida com os processos da nova -escola.</p> - -<p>Isto não é dizer mal dos que trabalham agora, -é notar e assignalar um dos symptomas da confusão -que hoje nos desnorteia.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Acudiam-me todos estes pensamentos, imagina -como, leitora?</p> - -<p>Ao lêr um novo livro de Feuillet, ultimamente -publicado em Pariz <i>Le journal d'une femme</i>.</p> - -<p>Feuillet é por excellencia o escriptor elegante e -delicado.</p> - -<p>No fundo, póde ser que a obra d'elle tomada no -seu conjuncto não seja de uma moralidade tão cauterisadora -como a que resulta dos livros de Zola.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_249" id="Page_249">[249]</a></span></p> - -<p>Ninguem diga que Zola é um escriptor immoral, -não; elle é simplesmente um escriptor mysantropo: -vê as cousas pelo lado mais negro, e as -suas bachanaes, nuas como são, não téem effeitos -enervantes, doem como um caustico applicado sobre -uma ulcera aberta.</p> - -<p>Ao lel-o, a gente não tem de certo tentações de -imitar os seus deploraveis heroes; pelo contrario. -Sente-se ferida, humilhada, quasi que angustiada, -e exclama tristemente: Meu Deus! pois a humanidade -é isto!</p> - -<p>Octavio Feuillet é, por assim dizer, o contraste -do seu illustre contemporaneo.</p> - -<p>Escreve das mulheres e para as mulheres com -penna d'ouro e nacar.</p> - -<p>Feuillet é o ultimo romantico, depois do romantismo -ter morrido, como Balzac é o primeiro realista -antes do <i>realismo</i> nascer.</p> - -<p>Para Feuillet, o delicado observador, as paixões -são doenças da alma; para Zola, o anatomista implacavel, -as paixões são doenças do corpo.</p> - -<p>O convulso e repugnante hysterismo das mulheres -de Zola não tem nada que vêr com a sentimentalidade -melancolica das mulheres de Feuillet.</p> - -<p>Nenhuma d'ellas—deixe-se isto bem claramente -registrado para honra e felicidade do sexo feminino—nenhuma -d'ellas é a verdadeira mulher, a que<span class="pagenum"><a name="Page_250" id="Page_250">[250]</a></span> -tinha a obrigação de ser a mulher do futuro, já -me não atrevo a dizer da que o será.</p> - -<p>Octavio Feuillet, que está talvez perto demais -das cruas pinturas do realismo, intentou n'este seu -ultimo livro, chamado <i>Le journal d'une femme</i>, -rehabilitar as ideias romanticas, que visto perderem -tantas mulheres, podem tambem salvar algumas.</p> - -<p>Elle que sabe tão bem dar vida ás suas pallidas -e nervosas heroinas, que téem na bocca o sorriso -da esphinge, que téem na voz uns feitiços mysteriosos, -que téem no gesto uma graça irrequieta e -caprichosa, que sabem arrastar o homem até á -beira do crime com um aceno das suas mãos esguias -e aristocratas, elle, o creador do Conde de -Camors, esse ultimo producto da litteratura byroniana, -que endoudeceu de <i>amor litterario</i> tanta -mulher, eil-o que se propõe d'esta vez o difficil -thema de explicar a que nobres e altos sacrificios -o <i>romantismo</i> bem entendido póde levantar uma -mulher.</p> - -<p>Foi arrojada a empreza; arrojada, mas feliz.</p> - -<p><i>Le journal d'une femme</i>, livro que eu já d'aqui -recommendo a todas as minhas leitoras, é uma joia -admiravel, cinzelada pela mão de um artista de -coração.</p> - -<p>E depois são taes os exageros e desmandos da<span class="pagenum"><a name="Page_251" id="Page_251">[251]</a></span> -chamada <i>escola realista</i>, é tal o amesquinhamento -a que ella reduz a humanidade, que é bom que -um escriptor de tão prestigiosa eloquencia como é -<i>Octavio Feuillet</i> mostre que, no fim de contas, nem -tudo era mau na geração que os moços de hoje -tentam desthronar com tão arrogante desdem.</p> - -<p>Roubar ao homem e sobretudo á mulher aquelle -ideal em que até agora todos punham a mira embora -o julgassem inacessivel, é despir a vida das -poucas flôres que ella póde ter.</p> - -<p>Não; o homem não é só um ser organisado que -pensa, é tambem uma alma que ama, espera e crê!</p> - -<p>N'esta era de transformação e de incerta claridade, -é bom que uma voz se erga e diga bem alto -que a paixão só é criminosa quando mal dirigida, -que o excesso do sentimento só é ridiculo quando -mal applicado, que a abnegação inteira e absoluta -tem gozos superiores a todos os gozos da materia, -e que as almas boas e as almas grandes descobriram -uma linguagem mysteriosa, na qual fallam -com Deus.</p> - -<p>Não basta descrever minuciosamente com uma -perversão de gosto, devéras deploravel, tudo que -ha mau, grotesco, ou vicioso na creação; não basta -ter em si tão accentuada preoccupação horrivel, -que se deseje vêr com o microscopio do naturalista, -para bem lhe distinguir os defeitos, as anfractuosidades,<span class="pagenum"><a name="Page_252" id="Page_252">[252]</a></span> -as maculas, os vermes, de tudo -que á simples vista seria harmonioso e bello.</p> - -<p>Áquelle a quem se roubam todas as illusões salutares -cumpre apontar para algum bem que ainda -lhe ficará na terra, bem verdadeiro que o compense -de todas as suas perdidas alegrias mentirosas!</p> - -<p>Não basta negar, é necessario affirmar com convicção -robusta; não basta demolir, é preciso ao -lado dos edificios que se derrubam e desmoronam -construir novos edificios mais ricos e mais seguros.</p> - -<p>Octavio Feuillet fez este livro, como um protesto -de escola, sem comtudo perder com esta qualidade -um tanto dogmatica, o seu interesse dramatico, -a vida intensa, tão indispensavel ás verdadeiras -obras d'arte.</p> - -<p>Dado o caso de se chamar romantismo ao excesso -de certos e determinados sentimentos, á concepção -mais ou menos chimerica que temos das -cousas da vida, resta provar se o romantismo póde -ou não póde ser nocivo conforme o terreno em que -medrar e o meio em que se desenvolver.</p> - -<p>A principal heroina do romance, aquella que escreve -o seu Diario, ao qual dá o titulo de livro, é -uma rapariga apaixonadamente romantica, tudo -quanto ha mais romantico, quer dizer tudo quanto -ha de menos pratico e real.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_253" id="Page_253">[253]</a></span></p> - -<p>Por isso sendo moça, formosissima, sentindo -cantar dentro da sua alma a festiva e triumphante -symphonia dos vinte annos, tendo uma d'estas bellezas -caracteristicas que dão a certas mulheres -um aspecto de deusas, amando com aquella primeira -e casta ternura das virgens um homem em -tudo digno d'ella, sacrifica todas estas superioridades -da natureza, todas estas radiosas promessas -de felicidade a quem? a que?</p> - -<p>A um pobre mutilado que morria de amor por -ella, a um soldado que voltára da guerra sem uma -perna e sem um braço, informe, grotesco, irremediavelmente -desgraçado, e que, assim mesmo do -fundo do abysmo em que o destino o lançára, ousou -amar aquella mulher olympica, e teve a audacia -de tentar morrer por causa d'ella.</p> - -<p>Emquanto elle viveu, foi-lhe fiel como as mulheres -dignas o sabem ser, consolou-o de tudo que -perdera, levou a luz da sua caridade bemdita aos -antros em que aquella pobre alma se debatera inutilmente -por tanto tempo.</p> - -<p>Mais tarde quando o marido morre, abençoando-a -como se abençôa um anjo, ella, livre de novo, torna -a encontrar o homem que amou uma vez, e que -não soube esquecer.</p> - -<p>Esse é então marido da amiga, da infancia, da -juvenil viuva.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_254" id="Page_254">[254]</a></span></p> - -<p>Não são felizes, os dous, mas ella, a intrepida, a -caridosa creatura, lá está tentando da abnegação -de cada um d'elles fazer a felicidade de ambos.</p> - -<p>Não o consegue, e quando a amiga, culpada e -arrependida se mata para fugir ao horror de mentir -eternamente a seu marido, só ella no mundo -recebe a confidencia do seu crime, confidencia que -n'uma carta repassada de dôr a douda creança lhe -pede que transmitta ao esposo ultrajado.</p> - -<p>Ficaram ambos livres em face um do outro, ambos -viuvos, ambos tendo cumprido a missão que o -destino lhe confiára.</p> - -<p>Nada os desune agora, nada, a não ser uma duvida -que punge o animo d'aquelle, que hoje ella -ama perdidamente com a paixão concentrada de -tantos annos de sacrificio.</p> - -<p>—Porque foi que a minha mulher se matou? -pergunta elle então. Ás vezes lembro-me que foi -talvez o desamor que eu não soube occultar bastante. -Se assim fôr, fugirei. Não quero gozar uma -ventura de que não sou digno. Se eu matei uma -innocente e casta creança, quem me dá direito a -ser ainda feliz na terra?</p> - -<p>Só ella o sabe, só d'ella depende aquella ventura -divina, de que o dever e a caridade a fizeram -fugir n'outro tempo.</p> - -<p>Pois a ninguem revelou o segredo da sua amiga<span class="pagenum"><a name="Page_255" id="Page_255">[255]</a></span> -morta, da doce creatura que a paixão fustigara e -que a paixão matou!</p> - -<p>Calou-se, deixou que o noivo da sua alma se affastasse -para sempre, pungido por um remorso que -o separava da ventura, e olhando para o berço da -filha escreveu estas palavras que vertem lagrimas, -as santas lagrimas, que os <i>realistas</i> não conhecem:</p> - -<p>«Restas-me tu, minha filha... Escrevo estas -linhas ao pé do teu bercinho... Espero que um -dia estas paginas façam parte do teu enxoval de -noiva; talvez ellas te digam que queiras muito á -tua pobre mãe, tão romantica!... D'ella saberás -talvez que a paixão e o romance podem ser bons, -com a ajuda de Deus, porque elevam os corações -e ensinam-lhes os deveres superiores, os grandes -sacrificios, as elevadas alegrias da vida. É verdade -que eu chóro ao dizer-te isto, mas olha que -ha lagrimas que causam inveja aos anjos.</p> - - -<div class="chapter"> -<hr class="chap" /> -</div> - - -<h3 id="MADAME_DE_BALSAC">MADAME DE BALSAC</h3> - - -<h4>I</h4> - -<p>Ha tempo annunciaram os jornaes que a viuva -do grande romancista vinha fazer uma viagem á -Peninsula e que partira já de Paris em direcção á -capital de Hespanha.</p> - -<p>Senti então um impeto de curiosidade verdadeiramente -irresistivel.</p> - -<p>Pensei em vêr a deliciosa russa e em conhecer -n'ella humanado e visivel, um de aquelles immoredouros -typos femininos, de que Balsac foi o analysta -assombroso, se é que não foi o phantastico -creador.</p> - -<p>Em Madame de Balsac havia de haver por força -muito d'aquelle homem que é o producto mais<span class="pagenum"><a name="Page_258" id="Page_258">[258]</a></span> -genuino da sua época e do seu meio; homem prodigio, -que era ao mesmo tempo o espirito mais -sceptico e o mais supersticioso, o mais corrupto e -o mais infantil, o mais cultivado e o mais ignorante, -o mais positivo e o mais phantasista, o mais -atrozmente eivado de todos os venenos corrosivos -da civilisação moderna, e o mais primitivo e adoravelmente -poetico que existe no mundo da -Arte.</p> - -<p>Ella conhecera-o por muitos annos, mesmo antes -de ser sua mulher, amparara-o muitas vezes nas -suas luctas cyclopicas contra os modernos monstros—a -Divida, a Calumnia, a Inveja—e tantos -outros que lhe retalhavam o coração com as garras -sanguinarias; acolhera-o muitas outras, cançado, -vencido, aniquillado, depois de uma d'aquellas -vertiginosas viagens pelos mundos chymericos do -Impossivel; vira-o partir montado no fogoso Pegaso -do sonho. Imaginario terrivel, moderno e mais -complicado D. Quichote, em busca de tesouros -que nunca existiram, de fabulosas hypotheses em -que ninguem acreditava, de ideaes entrevistos que -lhe davam o deslumbramento extatico e paradisiaco; -ouvira-lhe depois no seu regresso ao mundo -da realidade o rir estrondoso e <i>rabelaisiano</i>, rir -de um gigante em horas de gaudio, rir só digno -d'aquella natureza robusta e fecunda em contrastes,<span class="pagenum"><a name="Page_259" id="Page_259">[259]</a></span> -que tinha todos os requintes aristocraticos e -todas as grossas expansões plebeias; conheçera-o -a fundo, debaixo de todos os aspectos, e aos meus -olhos havia n'ella uma attração extranha e magnetica -como quem visitou o antro de um leão e o -domou meigo e dôce aos seus pés pequeninos.</p> - -<p>Levei então horas e horas ideiando o meio porque -me havia de approximar, eu obscura e desconhecida -da illustre mulher, duplamente celebre pelo -merito pessoal, e pelo genio de que era como que -o reflexo vivo.</p> - -<p>Quando estava no meio d'estas locubrações inoffensivas -aconteceu o que era de esperar: a condessa -Hanskan de Balsac, entendeu que Portugal, -o Portugal tão querido dos poetas patriotas, não -era digno de uma visita sua.</p> - -<p>Resignei-me, portanto, a conhecêl-a sómente -atravez de um livro que é a obra-prima de Balsac, -o auctor de tantas obras primas que não morrem.</p> - -<p>Este livro é a <i>Correspondencia</i> do grande escriptor, -publicada ha pouco pela casa Calmann Levy.</p> - -<p>Não conhecemos, podemos affoitamente confessal-o, -livro mais dramatico, mais cheio de vida e -de interesse, mais <i>empoignant</i>, permitta-se-nos o -expressivo francezismo.</p> - -<p>N'estes dous volumes de cartas apparece-nos -Balsac em toda a potencia da sua extraordinaria<span class="pagenum"><a name="Page_260" id="Page_260">[260]</a></span> -individualidade, e conhecer Balsac é como que conhecer -a sua época, a sociedade que o produziu e -formou, os vicios, virtudes, preoccupações, sentimentos, -ideias e paixões do seculo extraordinario, -de que elle é a synthese mais completa, seculo -agitado por esse poder fecundo e malefico chamado -<i>Oiro</i> que tamanha influencia exerceu na vida -intima de Balsac.</p> - -<p>Nos livros devidos á penna do fecundo escriptor, -o oiro com o seu brilho fulvo, com as suas tentações -diabolicas, com o seu cortejo de visões sinistras -ou luminosas, com as suas miragens attrahentes -e enganadoras, com as paixões phreneticas que -elle cria, que elle excita, que elle exacerba, com -os milagres de que é a fonte tantas vezes turva, -com os explendores de que é o mais perfeito creador, -o oiro, esse inimigo, esse auxiliar, esse idolo -humano, scintilla, tremeluz, precipita-se em cascatas -fulgidas, doira com o seu reflexo infernal todas -as cousas, communica um não sei que de vertiginoso -e satanico a todas as creaturas e a todos -os objectos, produz allucinações doentias que desorientam -e desvairam.</p> - -<p>Esta preoccupação, que tanto nos espanta nos -romances eminentemente modernos de pintor mais -perfeito e mais <i>realista</i> que a sociedade franceza -do seculo XIX encontrou, transparece, na existencia<span class="pagenum"><a name="Page_261" id="Page_261">[261]</a></span> -inteira do homem, e explica-se por todos os -factos do seu agitado viver.</p> - -<p>Ganhar dinheiro, muito dinheiro, o que bastasse -para saciar as ambições mais desregradas, os desejos -mais insensatos, o ideal de luxo mais artistico -e requintado, os sonhos mais orientaes de um -<i>nababo</i> ebrio de <i>haschish</i>, eis o ficto que preencheu -a vida de Balsac.</p> - -<p>Á primeira vista a gente imagina que o escriptor -lhe sacrificou e subordinou tudo o mais.</p> - -<p>Engano!</p> - -<p>Emquanto aquella phantasia desenfreada e febril -revolvia milhões, aspirava á opulencia das <i>Mil e -uma noites</i>, se lançava nas mais doidas especulações, -escavava minas que não havia, procurava -thesouros occultos, se exhauria emfim n'uma lucta -impossivel e tenaz contra a mediocridade da sua -fortuna, o escriptor severo e consciencioso não sacrificava -ao ganho nem uma diminuta parcella da -sua legitima gloria.</p> - -<p>Os editores ajustavam pagar-lhe um livro por -certa e determinada quantia, muitas vezes vantajosa -para o orçamento do poeta, mas conhecendo-lhe -a singularidade do caracter especificavam no -contracto que o auctor só teria direito a receber -um certo numero de provas, e que, excedido elle, -as correcções seriam por sua conta.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_262" id="Page_262">[262]</a></span></p> - -<p>Muitas vezes todo o preço do romance era esgotado -nas correcções que Balsac fazia á sua custa, -tão elevada era a ideia que elle tinha da perfeição -da Arte.</p> - -<p>Esmagado debaixo do peso das dividas, que todos -os dias pagava e todos os dias cresciam, trabalhou -como um titan, trabalhou sem descanço, -sem treguas, com phrenezi, com paixão, com tenacidade -de que só era capaz aquelle organismo -d'uma robustez antiga, e ao mesmo tempo vibratil, -nervoso, delicado como o de uma mulher.</p> - -<p>Chegou a escrever consecutivamente e sem descanço -pelo espaço de quarenta e oito horas, conservando-se -n'uma exaltação artificial, produzida -pelo fortissimo café, que bebia em grandes doses.</p> - -<p>Quem deixaria de succumbir a esta vida de -martyrio?</p> - -<p>Apesar do seu estranho vigor, aos cincoenta e -um annos Balsac succumbia a um aneurisma, -tendo produzido dezenas e dezenas de obras admiraveis, -que bastariam, repartidas, para constituir -a fama de vinte escriptores.</p> - -<p>Morreu com a penna na mão, tendo attingido as -duas ambições supremas da sua vida; morreu sendo -<i>amado</i> e sendo <i>celebre</i>, mas morreu antes de haver -podido saborear no repouso e na dilatação tranquilla -da alma o <i>amor</i> conquistado em annos e<span class="pagenum"><a name="Page_263" id="Page_263">[263]</a></span> -annos de servidão cavalleiresca, de castidade monastica, -de paixão secreta e delicada; a <i>celebridade</i> -adquirida em trinta annos do mais infatigavel e -violento labutar que ainda um espirito de homem -concebeu e realisou.</p> - -<p>Quanto mais se estuda aquella vida singular, -maior pasmo nos avassalla o entendimento.</p> - -<p>Todo elle era contrastes incomprehensiveis, dos -quaes, no entanto, tinha a consciencia definida e -clara.</p> - -<p>Pondo na bocca d'um dos seus protagonistas -pensamentos que eram seus, diz elle analysando a -sua propria vida:</p> - -<p>«Amante effeminado da preguiça oriental, namorado -dos meus sonhos, sensual por temperamento, -trabalhei sempre sem repouso, recusando-me a todos -os gozos da vida parisiense; guloso, fui sobrio; -gostando dos grandes passeios, das longas viagens -maritimas, desejando conhecer todos os paizes da -terra, vivi constantemente immovel, sedentario, -com a penna na mão, amarrado á banca do trabalho; -fallador, loquaz, communicativo, ia escutar -em silencio os professores nos cursos publicos da -bibliotheca e do museu; vivi solitario como um -monge benedictino, e a mulher no entanto era a -minha chimera unica, chimera sempre acariciada, -e sempre esquiva.»</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_264" id="Page_264">[264]</a></span></p> - -<p>O que elle aqui não diz, mas o que mais d'uma -vez lhe foge dos labios e dos biccos da penna, -n'um grito doloroso e dilacerante de agonia prophetica, -é que a morte implacavel ha de vir colhel-o -no instante em que elle já extenuado de tantas -luctas ia tocar a méta do seu desejar infrene.</p> - -<p>O que torna mais digno de um curioso estudo a -indole litteraria de Balsac é a revelação feita pelos -seus amigos e confirmada por elle proprio, da excessiva -difficuldade, que o romancista encontrava -para achar um molde adequado ao seu pensamento -tão profundo e complexo.</p> - -<p>A palavra trahia-o a cada instante, a lingua, -como a Galatheia da fabula, recusava-se a ceder -ás febris solicitações do seu pensamento, fugia-lhe -ondeante e caprichosa, e elle impotente, desesperado, -ardendo em febre, luctava noites e noites -com a fórma tyrannica que se não queria deixar -domar!</p> - -<p>«N'essas batalhas nocturnas,—diz Théophile -Gauthier, no admiravel estudo que consagrou a -Balsac,—e das quaes o escriptor acabava de manhã -despedaçado, mas vencedor, quando o lume do -fogão se apagava e a atmosphera arrefecia, a cabeça -d'elle exhalava fumo, e do seu corpo sahia -uma especie de nevoeiro vizivel como do corpo -dos cavallos em tempo de inverno.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_265" id="Page_265">[265]</a></span></p> - -<p>«Ás vezes uma só phrase occupava uma vigilia -inteira; era empolgada, tornada a empolgar, torcida, -amassada, martellada, allongada, encurtada, -escripta de mil modos differentes, e coisa notavel! -a fórma necessaria, absoluta, não apparecia senão -depois de se haverem exgotado as fórmas approximativas. -O metal, sem duvida, corria muitas vezes -de um jacto mais cheio e mais solido, mas poucas -paginas existem de Balsac que ficassem exactamente -iguaes ao primeiro rascunho.»</p> - - -<h4>II</h4> - -<p>É ainda Théophile Gauthier quem nos deixou -de Balsac o retrato mais expressivo, aquelle que -se nos affigura mais fiel.</p> - -<p>«Usava elle sempre, diz o escriptor já citado, em -vez de <i>robe de chambre</i>, o habito de cachemira ou -de flanella branca, preso á cintura por um cordão -grosso, com o qual, mais tarde, se fez retratar por -Luiz Boulanger.</p> - -<p>«Que phantasia o levára a escolher de preferencia -aquelle vestuario que nunca mais deixou? Não -o saberemos dizer.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_266" id="Page_266">[266]</a></span></p> - -<p>«Talvez que elle aos seus olhos symbolisasse a -vida claustral a que o seu trabalho o condemnava, -e, benedictino do romance, adoptara o trajo da -sua vocação.</p> - -<p>«Como quer que seja, a verdade é que lhe ficava -muito bem.</p> - -<p>«Gabava-se sempre mostrando-nos as suas mangas -intactas, de não lhes haver jámais manchado -a alvura com a menor nodoa de tinta, porque, dizia -elle, «o verdadeiro homem de lettras deve ser -aceiado no trabalho.»</p> - -<p>«O habito, um pouco aberto, deixava-lhe vêr o -pescoço de athleta ou de touro, redondo como um -troço de columna, sem musculos salientes, e de -uma alvura assetinada, que fazia perfeito contraste -com o tom mais colorido das faces.</p> - -<p>«N'essa época, Balsac, em todo o vigor da sua -virilidade, apresentava indicios de uma saude violenta, -pouco em harmonia com a pallidez esverdeada -que o romantismo tinha posto á moda.</p> - -<p>«O puro sangue da Touraine fustigava-lhe as -faces tintas de purpura vivaz, e dava-lhe um colorido -quente aos grossos labios bondosos e espessos, -tão accessiveis ao riso; um pequeno bigode e -uma pêra impercetivel accentuavam-lhe os contornos -sem os esconder; o nariz quadrado na extremidade, -repartido em dois lobulos, de narinas amplas<span class="pagenum"><a name="Page_267" id="Page_267">[267]</a></span> -e dilatadas, tinha um caracter inteiramente -original e unico; a ponto de Balsac dizer a David -de Angers em quanto este lhe modelava o busto: -«Dê attenção ao meu nariz;—o meu nariz é um -mundo!»</p> - -<p>«A testa era bella, vasta, nobilissima, muito -mais branca do que o rosto, sem rugas, a não ser -um sulco perpendicular; as protuberancias da memoria -dos logares formavam uma saliencia pronunciadissima, -por cima das arcadas superciliarias; -os cabellos longos, abundantes, asperos e negros, -arripiavam-se para traz como uma juba leonina.</p> - -<p>«Quanto aos olhos nunca houve outros que se parecessem -com os d'elle.</p> - -<p>«Tinham uma vida, uma luz, um magnetismo inconcebiveis.</p> - -<p>«Apesar das longas vigilias nocturnas, a esclerotica -conservava-se-lhe pura, limpida, azulada, -como a de uma creança, ou a de uma virgem, e -engastava dois diamantes negros, a espaços allumiados -por oppulentos reflexos de ouro. Eram -olhos para fazerem baixar as palpebras ás aguias; -olhos capazes de lerem atravez das paredes e dos -corações, de fulminarem uma féra furiosa: olhos -de soberano, de vidente e de domador!»</p> - -<p>Madame de Girardin, no seu romance intitulado:<span class="pagenum"><a name="Page_268" id="Page_268">[268]</a></span> -<i>A bengala do snr. de Balsac</i>, falla d'estes -olhos esplendidos:</p> - -<p>«<i>Tancredo avistou então no cabo d'esta especie de -masso, turquezas e ouro, cinzeladuras maravilhosas; -e por detraz de tudo isto dois grandes olhos negros -mais brilhantes que todas as pedrarias.</i></p> - -<p>«Logo que a gente encontrava o olhar d'estes -olhos extraordinarios, não podia notar sequer o -que as outras feições tinham de trivial ou de irregular.</p> - -<p>«As mãos de Balsac eram de rara formosura, -verdadeiras mãos de prelado, brancas, de dedos -pequenos e redondinhos, unhas roseas e brilhantes; -era muito presumido d'ellas, e sorria-se de prazer -quando via que as notavam».</p> - -<p>Diante d'este retrato é mais facil comprehender -o escriptor com a sua admiravel potencia intellectual, -e as suas pequenas manias pueris; sympathico, -bom, com vaidades inoffensivas, e austeros -orgulhos, sedento de um affecto <i>unico</i>, e de uma -<i>celebridade</i> que fosse só d'elle.</p> - -<p>Nas suas cartas de uma eloquencia irresistivel, -volteiam constantemente as duas grandes preoccupações -da sua vida—<i>a gloria</i> e <i>a mulher</i>!</p> - -<p>«Tenho a alma profundamente triste, escreve -elle. Só o trabalho me ampara na vida. Não haverá -para mim no mundo a mulher a que eu aspiro? As<span class="pagenum"><a name="Page_269" id="Page_269">[269]</a></span> -minhas melancolias e tedios physicos cada dia se -aggravam mais, se tornam mais longos e mais frequentes. -Cahir d'este trabalho esmagador ao <i>nada</i> -mais completo! não ter nunca ao pé de mim aquelle -doce e carinhoso espirito da mulher, por quem tenho -feito tanto!»</p> - -<p>E fez! digam o que disserem os seus detractores, -ninguem como elle comprehendeu a mulher,—principalmente -a mulher do seu tempo,—nas -suas fraquezas, nos seus crimes, nas suas delicadezas -occultas, nas suas aspirações morbidas e -doentias, nas exigencias despoticas da sua alma e -dos seus nervos, nas abnegações sublimes de todo -o seu sêr, nas suas vaidades ferozes, no esquecimento -absoluto, na abdicação completa de qualquer -egoismo, em tudo emfim que ella tem de -bello e de feio, de grandioso e de ridiculo, de puro -e de maculado.</p> - -<p>Que o digam Eugenia Grandet, a mais doce e -mais melancolica das suas creações; <i>La Fossette</i>, -idylica visão tão sympathica como a Mignon, e mais -real do que ella; a condessa de Morsauf, a martyr -do dever; a viscondessa de Bauseant, a duqueza -de Langeais, madame de Restaud, lady Dudley, a -monumental Valeria Marneffe, e tantas outras, -tragicas peccadoras, fascinantes, demonios que -teem filtros na voz e no olhar; productos de uma<span class="pagenum"><a name="Page_270" id="Page_270">[270]</a></span> -civilisação gasta e apodrecida; figuras typicas que -hão de ficar umas, caracteristicas da sua época e -do seu meio, outras, eternas e sempre verdadeiras -como a humanidade!</p> - -<p>Em Balsac ha muitas vezes expansões de candido -orgulho que seriam ridiculas n'outro homem, -e que a elle o tornam mais sympathico.</p> - -<p>Tem mais do que a consciencia clara do seu valor, -tem uma confiança enorme em si, no seu talento, -na sua obra, na sua missão.</p> - -<p>Imagina-se apto para todos os misteres, julga-se -não só um grande romancista, mas alguma cousa -menos—um grande politico!</p> - -<p>Escrevendo <i>Seraphita</i> e <i>Luiz Lambert</i>, duas -obras que lhe foram inspiradas pelas suas leituras -de philosophia espiritualista, e pelas tendencias -<i>Swedenborgistas</i> que houve n'elle n'um dado momento -da sua existencia, tão <i>intellectualmente</i> accidentada, -julga preencher uma grande lacuna, produzir -alguma cousa de grande que os seculos vindouros -possam pôr ao lado do Fausto!</p> - -<p>Curiosa illusão do genio!</p> - -<p>Como se houvesse nada menos nebuloso, menos -metaphysico do que esse vigoroso <i>realista</i>, observador -potente para quem a vida com todas as paixões -que a convulsionam e agitam não conservou -um unico segredo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_271" id="Page_271">[271]</a></span></p> - - -<h4>III</h4> - -<p>São de 1835 as primeiras cartas que na <i>Correspondencia</i> -de Balsac apparecem dirigidas a madame -Hanska, se bem que já de mais tempo dactassem -as suas relações de pura e platonica amisade com -a elegante e fidalga mulher, que muito mais tarde -foi sua esposa.</p> - -<p>Duram cerca de dezesete a dezoito annos estas -relações que o tempo modificou, e estreitou tão -profundamente, mas desde a época em que esta -mulher superior apparece no seu destino, a vida -de Balsac tem um profundo e apaixonado interesse.</p> - -<p>Vinte horas por dia trabalhava elle então, para -conseguir encher aquelle horrivel tonnel das Danaides, -que era a sua divida!</p> - -<p>Apesar d'isso, lograva ainda roubar alguns instantes -a este agro labutar, para escrever umas -cartas que todos os criticos hão de consultar no -futuro, para conhecerem a fundo a vida e o caracter -do prodigioso escriptor.</p> - -<p>São caricias ideaes, interrompidas por calculos<span class="pagenum"><a name="Page_272" id="Page_272">[272]</a></span> -monetarios, são queixas dilacerantes a que se segue -uma longa risada de inoffensiva ironia; porque -elle, que soube pintar tão bem os cynicos, os -depravados, os terriveis escarnecedores, cujo riso -corroia como um caustico, era no intimo bom, -quasi infantil; depois confidencias, esperanças, sonhos -politicos, sonhos financeiros, sonhos industriaes, -planos gigantescos de trabalho, phantasias -de artista, desejos de mulher garrida e bonita, -observações profundas, divagações poeticas, melancolias -de alma solitaria que ninguem na terra sabia -entender.</p> - -<p>Entendia o ella, a adoravel slava, que vêmos -atravez d'estas cartas, altiva para todos, consoladora -e maternal para elle; grave, magestosa, fidalga -como a sua velha raça, e no entanto cheia -de graciosas delicadezas, que endoideciam de jubilo -e de amor o plebeu namorado de todos os requintes -aristocraticos, o trabalhador eternamente exilado -de todas as alegrias do amor, o artista que -tão bem sabia avaliar o lado elevado e bello de -todos os sentimentos.</p> - -<p>É um estudo interessante e curiosissimo vêr -como o tom ao principio respeitosamente affectuoso -das cartas de Balsac vae seguindo gradações successivas -e harmonicas, tornando-se terno, apaixonado, -confiante, expansivamente amoroso.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_273" id="Page_273">[273]</a></span></p> - -<p>É que madame Hanska, quando elle a conheceu, -é uma senhora casada e sinceramente virtuosa.</p> - -<p>O adoravel <i>monstro</i> parisiense de juba de leão e -olhos de brilho fulvo e diamantino, poude attrahir-lhe -a curiosidade, excitar-lhe a imaginação, seduzir-lhe -o espirito, mas parou aqui o seu terrivel -poder!</p> - -<p>E só depois de viuva, quando, sem crime, a altiva -dama póde entregar-se á tendencia tão violenta -do seu coração, é que ella o acolhe com o -abandono de mulher amada e amante, que lhe -deixa conceber esperanças que o fascinam, e que -por fim as corôas, dando a sua fina mão branca, -esguia, principesca, ao pobre artista, ao louco -aventureiro do genio, que tão fiel e estremecidamente -lhe quiz, em longos annos de casta abstenção.</p> - -<p>Mas elle trabalhara, luctara, padecera tanto; -por tanto tempo desejara aquelle enlace, que era -ao mesmo tempo a realização das suas chymeras -de ambicioso, e dos seus sonhos de homem e de -poeta; empregára tão violentos esforços para pagar -até ao ultimo ceitil a sua enorme divida, para -entrar desassombrado e digno na vida conjugal, -em que, aos olhos d'esta sociedade ignorante, elle -dava tão pouco e recebia tanto; realisára taes<span class="pagenum"><a name="Page_274" id="Page_274">[274]</a></span> -prodigios para mobilar, como um artista millionario, -o ninho em que havia de receber a adorada -mulher que deixava por elle as pompas seculares -da sua vida opulenta, que succumbiu ao excesso -das fadigas e que ao tocar com os labios sofregos -o pômo tantas vezes sonhado, o sentiu esvaír-se -em cinzas, como em cinzas se esvaía a sua vitalidade -opulenta!</p> - -<p>É esta lucta d'um tragico sublime, mais interessante -do que todos os romances que Balsac escreveu, -que se desenrolla com uma belleza maravilhosa -na sua <i>Correspondencia</i>, cuja leitura aconselhamos -sem hesitação a todas as nossas leitoras, -cousa que não fariamos a respeito da obra do escriptor, -apesar da sua incontestavel e radiante -formosura.</p> - -<p>É preciso ler estes dois volumes para saber -como o grande romancista soffreu e como se compram -caras as glorias do genio, tão invejadas pela -turba.</p> - -<p>«Não tenho nem uma hora para chorar, nem -uma noite para descançar!», diz elle n'uma das -suas cartas.</p> - -<p>Madame Hanska é comtudo para o titan, infatigavel -e sempre vencedor, a suprema doçura, o -balsamo ineffavel de todos os instantes.</p> - -<p>«<i>Ó</i> minha querida alma fraternal, tu és a santa,<span class="pagenum"><a name="Page_275" id="Page_275">[275]</a></span> -a nobre, a dedicada creatura a quem eu entrego -toda a minha vida e toda a minha felicidade com -a mais ampla confiança! Tu és o pharol, a estrella -luminosa e <i>la sicura richezza senza brama</i>! Em ti -comprehendo tudo, até as tuas tristezas e por isso -as amo tanto! Comtigo a <i>sociedade moral</i> não existe! -eis o grande segredo, o segredo supremo de -felicidade.»</p> - -<p>Mas para que havemos de fazer citações sempre -incompletas e sempre inuteis?</p> - -<p>Quem quizer conhecer a que foi esposa e hoje é -viuva d'um dos maiores genios da França, que -leia o livro de que temos extrahido rapidos trechos.</p> - -<p>Vel-a-ha serena, intelligente, instruida, não bella -d'aquella belleza juvenil, que agrada aos mais profanos, -mas da grave formosura, que envolve o outomno -da mulher n'uma nuvem de indefinivel saudade, -sabendo curvar a sua gentil e orgulhosa cabeça -de <i>madonna</i> ao jugo d'uma elevada ternura, -e comtudo conservar intacta a sua dignidade de -senhora, duplamente illustre pela virtude e pelo -nascimento; tendo para o genio a admiração e a -indulgencia; comprehendendo com uma finura toda -feminil, feita de talento e de experiencia, o que ha -de infantil n'um grande homem, o que ha de fraqueza -n'uma potencia intellectual, abdicando todas<span class="pagenum"><a name="Page_276" id="Page_276">[276]</a></span> -as falsas vaidades, cultivando em si todos os verdadeiros -orgulhos, n'uma palavra a mulher completa, -tal como a sonhamos e como quereriamos -vel-a mais vezes realisada.</p> - -<div class="chapter"> -<hr class="chap" /> -</div> - - -<h3 id="LINCOLN_E_GRANT">LINCOLN E GRANT</h3> - - -<p>De vez em quando a tela monotona d'esta nossa -vida de Lisboa, unicamente bordada de pequeninos -<i>cancans</i> politicos, litterarios e sociaes, rompe-se -com a chegada, ou para melhor dizer, com a passagem -de um viajante illustre.</p> - -<p>Em geral os viajantes que por cá apparecem -não <i>chegam</i>, <i>passam</i>.</p> - -<p>É mais verdadeiro o verbo, embora lisongeie -muito menos a vaidade nacional.</p> - -<p>Este nosso modesto <i>Jardim da Europa á beira-mar -plantado</i>, como a caridosa phantasia do poeta -do <i>D. Jayme</i> lhe chamou, tem poucos attractivos -que chamem os viajantes.</p> - -<p>D'entre os que nos teem visitado, só um, e esse -na sua qualidade de mulher tinha amplo direito -para se entreter com devaneios illusorios, só<span class="pagenum"><a name="Page_278" id="Page_278">[278]</a></span> -um—M.<sup>me</sup> Ratazzi—descobriu em nós qualidades -extraordinarias que nos vaticinam brilhante futuro, -além de nos dotar de genios pouco vulgares, -de obscuros Shakespeares, para quem soará brevemente -a hora gloriosa da fama universal.</p> - -<p>A propria M.<sup>me</sup> Ratazzi se offereceu bizarramente -para apressar essa hora, que já ia tardando, -não só pondo em prosa franceza a prosa dos -nossos escriptores, como tambem encarregando-se -ella propria de personalisar, n'um dos eternos <i>theatrinhos</i> -que anda armando por toda a parte, as -creações mais ou menos formosas dos ditos Shakespeares, -desconhecidos.</p> - -<p>Será bom que a gente peça a Deus d'aqui por -diante nas suas orações mais fervorosas não excitar -a dedicada admiração d'aquella illustre, mas -indiscreta dama!</p> - -<p>Quem lhe manda a ella andar apreguando lá -por fóra nossas glorias!</p> - -<p>Nós bastamos ao menos para nos applaudirmos -mutuamente.</p> - -<p>A que vem, porém, todas estas divagações? pergunta -de certo a leitora.</p> - -<p>E pergunta com muita justiça, porque a minha -imaginação, está <i>folle du logis</i> indisciplinada, não -tem direito para cansar assim a benevola attenção -dos que me lêem.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_279" id="Page_279">[279]</a></span></p> - -<p>Vinha tudo isto a proposito de ter estado ha -pouco entre nós, vindo embarcar no nosso porto, -o general Ulysses Grant, um dos vultos mais importantes -da moderna historia.</p> - -<p>O apparecimento d'este homem modesto, que foi -um heróe, além de ser um grande cidadão, pouca -ou nenhuma impressão produziu no espirito dos -lisboetas.</p> - -<p>Porque, emfim, sejamos justos, o general Grant -que direito podia ter á fervida admiração dos seus -contemporaneos?</p> - -<p>O general Grant não inventou, como o seu patricio -Boyton, um apparelho de borracha para andar -por cima d'agua; o general Grant não é um -palhaço afamado dos que attrahem o <i>High life</i> ao -circo Price; o general Grant não tem nem a voz -de <i>Manrico</i> ou de <i>Arthur</i>, nem a capa e o chapeu -de pluma d'estes cavalheiros; o general Grant não -passa de um homem muito vulgar, que salvou o -seu paiz na guerra, e que o reconstruiu, desenvolveu, -fortificou e engrandeceu durante a paz!</p> - -<p>Que significarão estas cousas para quem só gosta -de aventureiros e de <i>poseurs</i>?</p> - -<p>Nós, porém, é que, lendo que chegara á cidade -em que vivemos o ex-presidente dos Estados-Unidos -da America, tivemos curiosidade de lançar um -relance de olhos, comquanto rapido, sobre a vida<span class="pagenum"><a name="Page_280" id="Page_280">[280]</a></span> -d'esse homem singular, d'esse moderno luctador, -vida que se nos afigura um estudo proprio para -levantar e robustecer o espirito dos que acreditam -nos futuros destinos da democracia.</p> - -<p>Não é possivel separar na historia os dous nomes -de Lincoln e de Grant.</p> - -<p>Ambos combateram pela mesma nobre causa, -ambos concorreram igualmente para o seu grande -e difinitivo triumpho.</p> - -<p>O nome de Lincoln tem a suprema aureola que -dá o martyrio, o nome de Grant tem o prestigio -fascinador que dá a heroicidade.</p> - -<p>Nenhum conhece o apparato, a ostentação, -esta humilde vaidade que torna os povos latinos -tão doudamente namorados de tudo que fulgura.</p> - -<p>Ambos elles pertencem profundamente, mais -ainda pelo caracter do que pelo nascimento, ao -paiz de que são filhos.</p> - -<p>Paiz estranho, gigantesco, sempre agitado, onde -o homem tem campo vasto para desenvolver a sua -multipla actividade, para exercitar e pelo exercicio -permanente robustecer as suas varias e complexas -faculdades, e onde, tendo de dever sómente -ás suas forças individuaes a elevação a que forçosamente -aspira, elle tem de empregar n'essa lucta -de ambições fecundas todos os recursos, todas as<span class="pagenum"><a name="Page_281" id="Page_281">[281]</a></span> -energias da sua intelligencia, todas as riquezas da -sua organisação.</p> - -<p>O que ha de extraordinario n'estes dous homens -é que ambos alcançaram o mesmo fim, ambos partiram -da mesma origem, e comtudo não ha nada -mais divergente do que o caracter d'elles e os meios -que empregaram para subir ao mesmo posto supremo -da sua nação.</p> - -<p>É fóra de toda a duvida que hoje a ideia democratica -tende a triumphar por toda a parte.</p> - -<p>É uma ideia que germinou ha dezenove seculos, -e que, antes de bracejar e florir á luz crua do dia, -lançou até ás entranhas da terra as suas raizes -vigorosas, cresceu, medrou, sugou a mais exhuberante -e a mais substanciosa seiva, minou lentamente -tudo que lhe ficava em torno, e, quando -emfim appareceu a todos os olhos, já vinha forte -e robusta demais para que ousassem derrubal-a.</p> - -<p>A democracia não é um modo de ser transitorio -das sociedades modernas; quando as leis e os costumes, -quando os acontecimentos e os homens, se -modificaram e transformaram á sua grande voz, -já ella tinha direito de asylo em todas as consciencias.</p> - -<p>Os que a repulsam não desconhecem o feio crime -que perpetram.</p> - -<p>Os que a atacam são movidos pelo seu proprio<span class="pagenum"><a name="Page_282" id="Page_282">[282]</a></span> -interesse, que ella muitas vezes tem de magoar ou -de destruir, mas nunca pela sinceridade das suas -convicções.</p> - -<p>A democracia bem entendida não póde separar-se -da ideia da justiça.</p> - -<p>Desde que uma despontou sobre a terra, outra -começou a apparecer imponente e irresistivel ao -espirito dos que sabem ler em vagos prenuncios as -transformações fataes de que teem de ser theatro -as sociedades.</p> - -<p>A democracia não está, pois, destinada a morrer -como as outras fórmas sociaes que a precederam, -e que não foram senão a lenta preparação do seu -triumpho, comquanto pareçam as suas inimigas -irreconciliaveis.</p> - -<p>Entre os elementos que constituiram o passado, -e os que vão constituir o futuro, não ha inimizade, -ha incompatibilidade.</p> - -<p>Uns teem de succumbir para que os outros -triumphem, eis tudo.</p> - -<p>N'esta grande evolução que nunca pára, o que -ás vezes se nos afigura mais contrario a uma causa -é justamente aquillo que lhe está preparando a victoria -absoluta.</p> - -<p>É bom que tenhamos isto sempre bem presente, -para que não sejamos accintosamente inimigos do -que foi, nem loucamente vaidosos do que vai ser.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_283" id="Page_283">[283]</a></span></p> - -<p>Os acontecimentos não são nunca o resultado de -uma causa isolada; são a consequencia fatal de -uma lei relacionada com todas as outras, parte -que está em perfeita harmonia com o seu conjuncto.</p> - -<p>A geração de hoje, e a que foi sua predecessora, -fizeram muito, é verdade, em favor da causa -democratica, porém não foram ellas que no curto -espaço de um seculo semearam o germen, regaram -a planta, a viram transformada em arvore gigantesca, -e lhe colheram os fructos abençoados.</p> - -<p>Seria demais para tão pouco tempo.</p> - -<p>É bom que o repitamos: ha dezenove seculos -que a humanidade caminha, sem parar um só instante.</p> - -<p>Tem tido dias que podem chamar-se seculos, e -em compensação tem tido seculos que pódem chamar-se -dias; em todo o caso, é porque ella ainda -não estacionou que hoje avista emfim o ponto a -que se dirigia.</p> - -<p>Tenhamos o santo orgulho do que temos feito, -mas não desprezemos o que os outros fizeram antes -de nós.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_284" id="Page_284">[284]</a></span></p> - -<hr class="r5" /> - -<p>A America é o paiz em que o pensamento democratico -tem tido mais pratica e mais positiva -realização.</p> - -<p>Sem entrarmos em considerações que seriam inopportunas, -sem analysarmos todas as condicções -excepcionaes que favoreciam este povo, para que -elle pudesse, mais do que nenhum outro, dar uma -forma real ao que tem sido o sonho de tantos utopistas -e de tantos martyres, basta-nos percorrer -rapidamente a vida dos dous homens notaveis de -que fallamos para conhecermos a fundo quanto os -costumes, as ideias, as leis, os sentimentos do -povo americano estão profundamente penetrados -do principio da <i>igualdade de condições</i>, que é no -fim de contas a base de toda a verdadeira democracia.</p> - -<p>Tanto Lincoln como Grant sahiram das mais -humildes posições sociaes.</p> - -<p>Lincoln foi até aos vinte annos carpinteiro e -barqueiro; Grant foi até aos trinta e tantos annos -operario como seu pae, operario humilde e obscuro.</p> - -<p>Se me perguntarem qual dos dous me inspira -mais sympathia, responderei que prefiro Lincoln.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_285" id="Page_285">[285]</a></span></p> - -<p>Ambos teem a suprema distincção da honestidade, -esta virtude moderna, que é indispensavel -aos grandes homens, os quaes tinham d'antes ampla -licença para serem aventureiros felizes, sem -por isso deixarem de ser admiraveis e admirados.</p> - -<p>Mas, emquanto Grant é simplesmente um homem -de energia inquebrantavel, e de espirito positivo -e clarissimo, Lincoln, que é tambem isso, -é mais ainda do que isso, porque é uma alma de -poeta.</p> - -<p>De poeta, sim; não se riam, minhas queridas -leitoras.</p> - -<p>A poesia que se escreve é muito inferior áquella -que se sente e que se pratica.</p> - -<p>Não admira que a alma do martyr americano se -colorisse na mocidade de todas as tintas opulentas -da genuina poesia.</p> - -<p>Elle conhecêra de perto a natureza grandiosa -do seu paiz; ouvira, humilde, pobre, talvez inconsciente, -o que diz no silencio das noites ou no -acordar festivo das madrugadas a voz sonora, grave, -religiosa das florestas insondaveis.</p> - -<p>Depois, o seu primeiro livro, aquelle em que -aprendeu a lêr na obscura escola da terra em que -vivia, o que mais o inspirou, o que lhe deu adoraveis -côres para as suas tão finas parabolas, eloquencia -e uncção para advogar a causa de tantos<span class="pagenum"><a name="Page_286" id="Page_286">[286]</a></span> -milhões de parias, arrojo, audacia e valor para -proclamar a redempção dos seus irmãos escravos—e -escravos na terra onde uns poucos de homens -intemeratos tinham vindo erguer o estandarte da -liberdade, desconhecido na Europa—o livro, emfim, -da sua mocidade foi a Biblia, o grande, o immutavel -poema, o maior de todos, porque não é o -poema de um homem, é o poema de um povo.</p> - -<p>Lincoln teve, como todos os poetas do coração, -o culto mais profundo pela mãe.</p> - -<p>—Tudo que sou a ella lh'o devo,—dizia.</p> - -<p>E, no entanto, ella morrêra-lhe quando o filho -contava apenas dez annos, e fôra em vida uma -creatura simples, uma alma ingenua e ignorante.</p> - -<p>Quem póde, porém, affirmar que não existisse -uma communhão mysteriosa entre a alma da mãe -e o espirito do filho!</p> - -<p>Quem sabe se a ella lhe faltou apenas cultivo -esmerado para ser uma creatura superior, e se a -creança rude e obscura, que foi mais tarde o grande -homem e o grande martyr, não deveu as qualidades -que o tornaram tão distincto á influencia occulta -da que o gerou no seio?</p> - -<p>Como quer que seja, a verdade é que o pobre -operario conseguiu á força de estudo—estudo -ainda assim que nada teve de methodico—improvisar-se -advogado.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_287" id="Page_287">[287]</a></span></p> - -<p>Lincoln n'esta nova posição, conquistada pela -sua energica vontade, tinha uma singularidade que -deve espantar altamente: só acceitava a defeza de -causas justas.</p> - -<p>A feição mais caracteristica do espirito de Lincoln -é uma jovialidade conceituosa, uma malicia -benevola, uma graça de moralista, que faz das fabulas -e das parabolas armas infalliveis de argumentação.</p> - -<p>Nunca se deu ao trabalho de improvisar arrojos -de eloquencia, tinha sempre ao serviço das -suas convicções umas anecdotas a um tempo cheias -de graça e de bom senso, umas pequenas historias -que deitavam por terra toda a laboriosa rethorica -dos adversarios.</p> - -<p>Aos trinta annos o advogado modesto viu-se de -repente orador popular e candidato á legislatura -da sua terra.</p> - -<p>Não que elle fizesse nenhum d'esses discursos -tribunicios que arrastam e enthusiasmam as massas, -mas sempre pela força irresistivel do seu bom -senso, que era tão raro e tão completo, que o punha -a par dos homens de genio.</p> - -<p>Todos conhecem a vida de Lincoln, que, depois -de ser um dos oradores mais populares e mais -queridos das reuniões publicas do seu paiz, foi -duas vezes eleito presidente dos Estados-Unidos,<span class="pagenum"><a name="Page_288" id="Page_288">[288]</a></span> -e durante os ultimos annos da sua vida gloriosa -sustentou e venceu uma das guerras mais assoladoras -dos modernos tempos, e arrancou da terra -que lhe deu o sêr essa lepra—hoje felizmente -desconhecida no mundo civilisado—que se chama -escravidão!</p> - -<p>Foi pouco tempo depois de ter assignado o decreto -que remia dos horrores do captiveiro quatro -milhões de desgraçados, que Lincoln, um dos heróes -da humanidade, um dos santos, um dos conquistadores, -um dos martyres de que falla com -mais louvor a historia, cahiu morto, ás mãos covardes -de um assassino!</p> - -<p>Nada mais pathetico e de uma tristeza mais -commovente e mais profunda do que a descripção -do funeral do libertador da patria, do grande -emancipador da raça escrava.</p> - -<p>O seu cadaver, consagrado pela admiração -d'esse povo gigante, foi levado de capital em capital, -desde Washington até á pequenina cidade de -Springffel, patria de sua mocidade laboriosa e humilde.</p> - -<p>Foi um caminho de triumpho, que lembrava, -mas de bem diverso modo, o caminho que elle andara -em vida, desde a sua terra pequena e pobre, -até á grande capital, onde o tinham levantado á -primeira magistratura do paiz.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_289" id="Page_289">[289]</a></span></p> - -<p>D'alli voltava elle agora, martyr da sua causa -que era a causa da patria, da humanidade da pura -democracia, e que deixára vencedora e triumphante.</p> - -<p>Não póde haver existencia mais cheia, não póde -haver gloria mais pura, nao póde haver destino -mais digno de admiração.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Grant, que fôra desconhecido até muito mais -tarde do que Lincoln, revelou-se d'outro modo á -attenção dos seus patricios.</p> - -<p>Longe de ter a facilidade graciosa do espirito -do seu predecessor, o espirito de Grant era acanhado -e silencioso. Na infancia e na mocidade nenhuma -superioridade visivel o distinguia dos seus -companheiros.</p> - -<p>Educado á custa do Estado na escola de West-Point, -sahio d'alli como alferes graduado do 4.<sup>o</sup> -regimento de infanteria, e partindo para a guerra -do Mexico, distinguiu-se ás ordens do general Taylor -no cerco de Vera Cruz.</p> - -<p>Depois de sete annos de serviço, em que se -mostrou sempre militar valente, pediu a sua demissão, -e estabeleceu-se como simples rendeiro no -Missouri, proximo de S. Luiz.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_290" id="Page_290">[290]</a></span></p> - -<p>Muito pobre, se bem que muito trabalhador, -tendo já quatro filhos, Grant não tinha remedio -senão ir elle proprio vender as madeiras da sua -matta á cidade de S. Luiz, e muitos habitantes -d'essa cidade se hão de lembrar ainda de vêr aquelle -homem agil, laborioso, calado, quasi mudo, passar -na sua carroça, ao galope dos cavallos, que -sempre teve bons, descarregar a lenha que trazia, -e partir de novo, tão mal trajado, que muitos dos -seus antigos camaradas do exercito se envergonhavam -de se darem por conhecidos d'aquelle grotesco -figurão.</p> - -<p>Não lhe correu, porém, favoravel a fortuna, apesar -da energia com que elle trabalhava.</p> - -<p>E o futuro presidente dos Estados-Unidos, cançado -de luctar em vão contra a má sorte, voltou -para junto da sua familia, que toda vivia do commercio -dos couros, e começou tambem a trabalhar -n'este humilde ramo de industria.</p> - -<p>Foi d'esta posição, de que na nossa aristocratica -Europa ninguem era capaz de sahir, por mais que -soubesse e por mais que valesse, que Grant subiu -a commandante em chefe do exercito dos Estados-Unidos, -e depois a presidente da Republica.</p> - -<p>Como? porque?</p> - -<p>Eis o que só se comprehende comprehendendo -bem a indole do povo americano.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_291" id="Page_291">[291]</a></span></p> - -<p>Subiu mesmo pelos motivos que entre nós inutilisam -os homens.</p> - -<p>Subiu porque conhecia a miseria e o trabalho; -por que não o amedrontava o perigo, porque tinha -a energia concentrada e omnipotente dos que, -tendo nascido para altas emprezas, são longos tempos -esmagados pela desgraça.</p> - -<p>Elle era destemido e energico, tinha—não a -instrucção—mas a intuição guerreira; antes d'elle -o norte fôra sempre vencido pelo sul, na terrivel -guerra civil, que começára em 1861; depois d'elle -apparecer succederam-se rapidas e brilhantes as -victorias do norte.</p> - -<p>Em 1865 a auctoridade federal restabelecia-se -em todo o territorio dos Estados-Unidos, o -general Lee aceitava a capitulação de Richmond, -e Lincoln entrara na cidade que o fogo destruira, -descobrindo-se diante dos miseraveis negros, -que recebiam pela primeira vez n'aquella homenagem, -a confirmação da sua dignidade de homens.</p> - -<p>Foi um anno de triumphos devidos á audaciosa -iniciativa do general Grant, que além da bravura -do soldado, tinha em alto grau a bravura do general.</p> - -<p>Tão excepcional foi sempre a sua energia, como -são raras as suas palavras.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_292" id="Page_292">[292]</a></span></p> - -<p>Os seus ditos, de uma concisão antiga, nas horas -de crise de sua vida, são dignos de ficarem registrados -pela historia.</p> - -<p>Nenhuma ostentação, nenhuma pretenção nos -seus modos excepcionaes.</p> - -<p>Na carreira triumphal de militar e de cidadão -conservou o seu feitio de rude agricultor ou de -obscuro operario.</p> - -<p>Não admira que a morte de Lincoln désse o posto -supremo a Grant.</p> - -<p>Lincoln fôra o advogado de uma causa da qual -Grant foi o guerreiro.</p> - -<p>A herança era logica a natural.</p> - -<p>Quando o elegeram presidente, Grant respondeu -com esta simples carta á communicação que -recebera:</p> - -<p>«Procurarei applicar as leis com boa fé, e serei -economico. Tenhamos paz, emfim.»</p> - -<p>Esta carta define-o.</p> - -<p>Elle não tinha levantadas theorias, não tinha -planos concebidos, não tinha presumpçosos systemas.</p> - -<p>Estava resolvido a ter economia, boa fé, respeito -ás leis.</p> - -<p>Todo o segredo de uma administração magistral.</p> - -<p>E quantos obstaculos encontrára!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_293" id="Page_293">[293]</a></span></p> - -<p>Tudo em roda d'elle eram vestigios do assolador -flagello que passára, desvastação, fome, miseria; -que vasto campo, e ao mesmo tempo que missão -perigosa e difficil!</p> - -<p>Pois cumpriu-a.</p> - -<p>Cinco annos depois de finda a guerra já o exercito -estava dispersado; mais de oito mil homens -tinham ido com os seus braços dar um novo impulso -á agricultura, á industria, ao commercio, a -todos os ramos uteis da actividade de um povo.</p> - -<p>As leis eram rigorosamente executadas, a divida -diminuira, a protecção aos antigos escravos estava -plenamente confirmada, a America emfim entrava -definitivamente em uma phase de reconstrução -e de prosperidade.</p> - -<p>E tudo isto se devia á energia, á intelligencia, -á actividade de um só homem.</p> - -<p>E este homem, tão modesto na apparencia, tão -laconico nas fallas, tão simples no viver, este homem -que recusa recompensas apparatosas, porque -julga que a suprema recompensa é a da propria -consciencia, este homem que póde apresentar-se -como a personalisação da democracia moderna, é -o mesmo que Lisboa ha pouco viu passar com a -estupida e distrahida indifferença que ella tem para -tudo que é verdadeiramente grande, e por isso -mesmo despretencioso e simples.</p> - -<div class="chapter"> -<hr class="chap" /> -</div> - -<h3 id="AS_FILHAS_DE_VICTOR_HUGO">AS FILHAS DE VICTOR HUGO</h3> - - -<p>Ha pouco tempo um escriptor francez desconhecido -entre nós, o sr. Gustavo Rivet, publicou um -livro intitulado <i>Victor Hugo chez lui</i>, no qual pinta -o grande poeta francez, surprehendido, por assim -dizer, na intimidade dos seus pensamentos, de seus -gostos, das suas attitudes mais familiares.</p> - -<p>Desce do pedestal onde a nossa phantasia se -compraz em o collocar, o poeta da <i>Lenda dos Seculos</i>, -e mostra-nol-o com a <i>robe de chambre</i> e os -pantufos de qualquer honesto <i>rentier</i> do Marais.</p> - -<p>Victor Hugo não perde em ser visto assim.</p> - -<p>A sua alma amantissima, desnudada diante do -nosso olhar corresponde positivamente a tudo que -d'ella esperavamos.</p> - -<p>O avô brincando no tapete do seu quarto de -trabalho com a graciosa Joanninha que a <i>Art d'être -grand père</i> immortalisou, não desmente de modo -algum o justiceiro implacavel dos <i>Châtiments</i>.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_296" id="Page_296">[296]</a></span></p> - -<p>Comtudo não é o pae de familia, que nós vamos -hoje estudar em Victor Hugo, como o nosso -titulo um tanto phantasista parece estar indicando.</p> - -<p><i>As filhas de Victor Hugo</i>, que nós tentaremos -apresentar diante dos olhos das leitoras, não são -as filhas do seu matrimonio de simples mortal, são -as radiosas filhas do seu genio, as visões illuminadas -que elle evocou com palavras de mysterioso -encantamento d'esse Olympo inaccessivel onde vivem -e nascem as creações immortaes dos grandes -artistas.</p> - -<p>Para nós que temos vivido da palavra do mestre, -que temos seguido com enternecimento apaixonado -todas as phases do seu espirito, essas mulheres -ideaes é que são as suas verdadeiras filhas. -Que nos importam as outras no fim de contas, se -atravez d'estas é que elle se revelou tal como é?</p> - -<p>Todos os artistas de primeira ordem criam um -typo de mulher, em que consubstanciam e sinthethisam -todos os sonhos que tiveram, todas as aspirações -que tem concebido.</p> - -<p>A mulher que elles fazem viver com a penna, se -são poetas, com o escopro ou com o pincel, se são -estatuarios ou pintores, não é como alguns querem -que seja, a mulher que elles amaram: é mais do -que isso, é a mulher que elles queriam amar!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_297" id="Page_297">[297]</a></span></p> - -<p>Para essa é que a sua lyra tem cantos mais ardentes, -o seu cinzel mais avelludadas caricias, a -sua palêta côres mais suaves, a sua penna traços -mais vivos, analyses mais delicadas, intenções mais -graciosas e mais finas.</p> - -<p>E como o coração dos homens é tão vasto que -n'elle cabem dous cultos que se não prejudicam -mutuamente, quasi sempre esses artistas de que -fallamos tratam com o mesmo primoroso esmero -dous typos de mulher bem diversos, e que representam -como a dupla face do seu modo de sentir.</p> - -<p>Um d'elles personifica a virginal creança cujas -seducções mais irresistiveis se chamam innocencia, -pudor, candura, ou ignorancia; lyrios que o orvalho -da manhã corôa com um diadema de perolas, -lyrios que uma aragem mais quente crestaria, e -que o contacto de uns dedos brutaes lançaria por -terra murchos e amarrotados. Outro, a mulher na -plena posse da sua perigosa soberania, a mulher -sereia que encanta e embriaga e mata, consciente -dos seus maleficios, e gosando do seu fatal poder!</p> - -<p>Consoante o espirito do artista se enamora da -sombria belleza do mal, ou da immaculada candura -do bem, assim elle trata com mais delicada predileção -o <i>eterno feminino</i> que representa uma das faces -do mesmo problema insoluvel.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_298" id="Page_298">[298]</a></span></p> - -<p>Porque o homem grande ou pequeno, intelligente -ou mediocre, ha de sempre amar a mulher debaixo -de qualquer d'estas duas formas, ou antes debaixo -d'ellas ambas.</p> - -<p>Até os bons nas suas horas de perversão, nas -crises em que no coração d'elles triumpha a <i>porção -de dominio</i> que ha até mesmo na alma dos anjos, -hão de sentir-se attrahidos por este mysterio -luminoso e sombrio, que na arte pagã se chamou -Circe ou Helena, que na edade média foi Melusina, -que na Renascença foi Imperia ou Lucrecia -Borgia, que os modernos emfim conhecem debaixo -de tantos nomes, que o genio de tantos homens -tem revestido de prestigio magico e de superior -fascinação.</p> - -<p>Os maus... escusado é dizer que os maus, só -n'essas mulheres symbolos do mal, symbolos de -todas as seducções insalubres, hão de achar a graça -magnetica que arrasta e que enlouquece.</p> - -<p>Não é por isso de admirar que todos os poetas -as tenham cantado, que todos os romancistas as tenham -descripto, mas na feição peculiar que cada -um d'elles dá ao modo por que as estuda e as -pinta, é que consiste a superioridade ou inferioridade -do eterno typo.</p> - -<p>Quanto ás outras, ás boas, ás candidas, ás angelicas, -poucos as comprehendem na sua genuina<span class="pagenum"><a name="Page_299" id="Page_299">[299]</a></span> -e original pureza, e os que as souberam comprehender -teem produzido obras primas!</p> - -<p>Shakespeare é o poeta a quem se deve uma galeria -mais radiosa e pura d'estas divinas creanças impeccaveis.</p> - -<p>Umas absortas n'um sonho de eterna tristeza, -envoltas como que n'um presentimento de inevitavel -desdita, como Ophelia ou Desdemona; outras -deixando florir nos labios frescos a rubra flôr da -alegria matinal, mas todas lindas, e meigas e innocentes, -todas fazendo crer no bem até os mais -cynicos.</p> - -<p>Victor Hugo tem, como Shakspeare, d'estas -criações risonhas e sympathicas.</p> - -<p>As mulheres de um como as mulheres do outro, -téem na alma um pouco da alma das aves.</p> - -<p>Téem a ligeireza alada do sonho, téem a graça -imponderavel das visões.</p> - -<p>Não ha ninguem que não quizesse ter por filha -uma d'essas creanças borboletas; não sei se todas -as quereriam para esposas.</p> - -<p>E no entanto são boas, de uma doce bondade inconsciente -que d'ellas se exhala como o aroma se -exhala da flôr; mas tambem as creanças são boas, -e comtudo ninguem como ellas sabe ser engenhosamente -cruel.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_300" id="Page_300">[300]</a></span></p> - -<hr class="r5" /> - -<p>Victor Hugo com a sua alma de forte, que não -precisa de auxilio, e não precisa de guia, não comprehende -a mulher como os modernos aspiram a -encontral-a.</p> - -<p>Não quer a companheira robusta d'esse athleta -moral, que é o luctador de hoje; não quer a mulher -de animo reflectido, de coragem viril, de consciencia -illuminada e austera, que na hora do perigo -ou na hora da vacilação criminosa, arrasta ao -impulso da sua voz o espirito do homem esmorecido -ou duvidoso.</p> - -<p>Elle, cuja vida tem sido uma ascenção progressiva -para o bem, elle, que não precisa d'outra bussola -que não seja a luz interior que nunca se apaga -nem bruxoleia, não teve necessidade de crear -ao lado de Marius, ao lado de Didier, ao lado de -Gennaro, ao lado dos seus altivos heroes, uma mulher -forte que os auxiliasse e fortalecesse na grande -lucta do bem!</p> - -<p>Oh! não era de força que elles careciam.</p> - -<p>Era de luz nas sombras do seu caminho sombrio!</p> - -<p>Didier saberia resistir ás seducções da criminosa -voluptuosidade; Hernani saberia responder<span class="pagenum"><a name="Page_301" id="Page_301">[301]</a></span> -ao sinistro som da trompa funeraria; Gennaro saberia -confessar as suas indignações austeras e os -seus odios inquebrantaveis; Marius saberia amar -a honra impolluta como as virgens, brilhante como -as espadas, implacavel como a eterna justiça.</p> - -<p>Do que elles precisavam era de risos, de flôres, -de caricias e de beijos.</p> - -<p>Precisavam de quem os arrancasse á contemplação -do seu deslumbramento ideal e lhes dissesse -ao ouvido ternamente, melodiosamente:</p> - -<p>—Olha! eu sou a graça, sou a poesia, sou o -esquecimento, sou a embriaguez. Tenho só um nome, -que vale por todos e a todos sobreleva: eu -sou o amor!</p> - -<p>E não são mais nada as mulheres creadas pelo -genio portentoso de Hugo!</p> - -<p>O amor, sempre o amor.</p> - -<p>O amor egoista, o amor cego, o amor absorvente, -exclusivo, com os seus pudores instinctivos, -as suas ignorancias virginaes e as suas aspirações -insaciadas a fatalidade irresistivel da sua força!</p> - -<p>No seu primeiro drama, Hugo todo imbuido das -ideias cavalleirescas do <i>romanceiro</i>, creou um typo -de mulher que é talvez um dos mais bellos da sua -formosa e radiante galeria.</p> - -<p><i>Dona Sol</i> sabe amar impetuosamente, ardentemente, -e n'esse amor que é a nota predominante<span class="pagenum"><a name="Page_302" id="Page_302">[302]</a></span> -do seu caracter, encontra força para todas as resistencias -viris.</p> - -<p>Como ella é dôce e humilde enlaçada pelos braços -valentes do seu <i>senhor</i>, do seu leão das montanhas, -do seu principe bandido, do seu rebelde e -indomavel cavalleiro!</p> - -<p>Sorrisos, olhares, vozes, caricias, tudo é de velludo!</p> - -<p>Um desejo d'elle, tem-na escrava! no entanto -sabe por instincto, que elle o heroe, o forte lhe não -póde pedir cousa alguma que a filha de um paladino -das Hespanhas deva recusar envergonhada.</p> - -<p>Quem dirá que aquella graça póde fazer-se indignação, -que aquella flexibilidade ondeante póde -transformar-se em revolta implacavel?</p> - -<p>É que n'ella ha de tudo! porém esse <i>tudo</i> é simplesmente -amor.</p> - -<p>Appareça outro que a requeste, outro que ouse -amal-a, e a pomba saberá ser leôa, para defender -o seu thesouro!</p> - -<p>Mas de que lhe vem a força com que ella domina, -a indignação austera que a transfigura? Do -coração.</p> - -<p>As mulheres de Hugo não pensam, não raciocinam, -amam! Isso lhes basta.</p> - -<p>E se a fome ás vezes as perde, se a maldade e<span class="pagenum"><a name="Page_303" id="Page_303">[303]</a></span> -a perfidia do homem as arrasta, nunca o amor -deixou de as redimir.</p> - -<p>Para ellas o amor não é a perdição, é o resgate!</p> - -<p>Vêde Marion, a cortezã incredula, a serpente de -enganosas caricias, que um sentimento verdadeiro -purifica e exalta, e que d'elle recebe uma nova e -mysteriosa virgindade! Vêde Eponine, a filha das -lamas de Pariz, a quem um olhar de Marius inocula -o amor, o sacrificio, a abnegação e a heroicidade!</p> - -<p>Mas—contradicção á primeira vista inexplicavel -e que no fundo tem talvez uma significação sublime—o -amor que transfigura e santifica e illumina -as peccadoras, torna egoistas, torna ingratas -as puras!</p> - -<p>Eponine immola-se, porque ama, e Cosette, porque -ama, esquece tudo que não seja o seu amor, -e com a mesma pequena mão com que abre a -Marius os paraisos inacessiveis enterra o punhal -no seio de João Valjean!</p> - -<p>Marion, de Magdalena impudica e triumphante, -levanta-se Magdalena arrependida e piedosa, e -Esmeralda não tem a esmola, a caridade de um -sorriso bom para Quasimodo!</p> - -<p>Porque?</p> - -<p>Ah! é que umas são a ignorancia na sua perfeição<span class="pagenum"><a name="Page_304" id="Page_304">[304]</a></span> -mais divina, outras guardam na bocca o -gosto amargo de todos os fructos vedados que -teem devorado!</p> - -<p>Umas não conhecem nada para além da nuvem -iriada que as envolve e lhes intercepta o mundo, -outras possuem a medonha sciencia que é feita de -todas as decepções, de todas as agonias, de todos -os tedios, de todos os remorsos, de todas as nauseas -da vergonha e do desprezo proprio!</p> - -<p>Umas entram no amor, triumphantes, immaculadas, -curiosas, ébrias de harmonias nunca ouvidas, -sedentas de alegrias nunca sonhadas, absortas pela -radiante visão que as transporta a mundos desconhecidos.</p> - -<p>Viviam d'antes? tinham affectos? prazeres? distracções?</p> - -<p>Não sabem.</p> - -<p>Sabem que as inundou a luz de um olhar, e -que, a essa luz, viram o que nunca tinham visto, -esqueceram tudo mais que fôra seu.</p> - -<p>As outras vão alli á porta d'aquella região de -que hão de ser as eternas exiladas, pedir a esmola -de um perdão, a caridade de umas horas de -esquecimento.</p> - -<p>E em troca d'esse consolo supremo a que se -julgam sem direito, são capazes de todos os sacrificios, -de todos os renunciamentos sublimes que<span class="pagenum"><a name="Page_305" id="Page_305">[305]</a></span> -inventa a mulher depois de ter perdido a esperança -de ser feliz.</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>Leitora, estás cansada das chatas e incaracteristicas -figuras que tens encontrado na vida real? -Entristecem-te dolorosamente os typos hediondos -ou repugnantes da moderna arte?</p> - -<p>As Gervasias, as Bovarys, as Fannys, as peccadoras -da França juvenil?</p> - -<p>Pois bem, deixa que desfile por diante do teu -olhar pensativo a gloriosa legião das filhas de Victor -Hugo.</p> - -<p>Oh! crê que não aprenderás com ellas cousa -alguma que rebaixe o teu espirito, que fira o teu -coração, que surprehenda cruelmente o teu entendimento.</p> - -<p>Ellas sabem todas o que é o amor, muitas o que -é o arrependimento, o remorso, a vergonha, a expiação; -nenhuma sabe o que é o triumpho impudico -do vicio, a ostentação criminosa das vaidades -mundanas, a impenitencia immoral das que -medram no meio do crime.</p> - -<p>As peccadoras contar-te-hão a dolorosa historia -das suas amarguras, as virgens a doçura sonhadora -dos seus extasis!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_306" id="Page_306">[306]</a></span></p> - -<p>Amaram, acreditaram, sentiram na plenitude -do coração que a vida é boa, e que o paraiso póde -encontrar-se n'um canto da terra.</p> - -<p>Não sabem nada de <i>toilettes</i>, de pequenas intrigas, -de namoros, de vicios mesquinhos, de invejas -e de tagarelices; atravessaram o mundo com -os olhos fitos n'outros olhos, com as mãos enlaçadas -n'outras mãos, com a alma a cantar-lhes um -<i>hosanna</i> de mysticos arroubos!</p> - -<p>Se queres estudar os escaninhos caprichosos de um -coração de mulher bonita e garrida, não as procures, -mas tambem lhes não peças que te fallem nos nossos -piedosos e obscuros deveres de todos os dias.</p> - -<p>São as hallucinadas do amor! Arrastou-as uma -tempestade para outras espheras ardentes onde se -não vive a vida que conhecemos!</p> - -<p>Vê tu—Esmeralda! que bem posto nome!</p> - -<p>Toda ella scintilla ao sol como a pedra preciosa -que lhe serviu de baptismo; os seus dedos de <i>gitana</i> -crestados e finos arrancam ao pandeiro do -seu paiz doidos e extranhos sons! Fascina com -um olhar inconsciente dos seus olhos de velludo, -com uma nota da sua voz crystallina, com um meneio -do seu corpo de serpente.</p> - -<p>Que sabe ella da vida? Nada; a não ser que a -vida é bella, visto que ha dous olhos que ao fixar -nos seus os banharam de fulgor!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_307" id="Page_307">[307]</a></span></p> - -<p>E Cosette! vive ao pé d'ella um enygma sombrio! -um espirito sobrehumano! um luctador d'estas -luctas interiores cujo reflexo se estampa na -frente que as encerra.</p> - -<p>Ella nunca interrogou essa alma, e nunca tentou -decifrar esse enygma, e nunca sequer comprehendeu -a existencia d'essas luctas.</p> - -<p>Ao seu companheiro triste, humilde, heroico, -adoravel ella deve durante quinze annos a ventura -mais perfeita que póde gosar-se na terra.</p> - -<p>Satisfez-lhe todos os desejos; todos os brinquedos -d'aquella fada, encarregou-se de os fornecer -a natureza na liberdade plena, nos seus idyllios -primaveris! Estava na escuridão, e deram-lhe luz; -era escrava fizeram-n'a rainha.</p> - -<p>Não importa! Marius appareceu e Cosette louca, -deslumbrada, esquecida, deixa morrer de dôr -o amigo da sua risonha mocidade.</p> - -<p>É má?</p> - -<p>Não; é ignorante. Não sabe que se morre visto -que elle vive na posse de uma ventura que nunca -até alli conhecera.</p> - -<p>Não sabe que se tem saudades, porque ao pé de -Marius nunca esse espinho lhe mordeu no coração!</p> - -<p>Pois é possivel ser desgraçado quando eu sou -tão feliz! pergunta tacitamente com barbaridade -que se ignora, cada um dos sorrisos de ventura<span class="pagenum"><a name="Page_308" id="Page_308">[308]</a></span> -que ella atirara em redor de si, sem se importar -onde lhe vão cahir!</p> - -<p>Ai! Cosette, Cosette! eu gosto de ti, borboleta, -ébria de luz! és uma das visões luminosas que ficarás -para sempre moça e querida! és uma estatua -branca que ninguem ousará mutilar e que os seculos -verão erguida no teu pedestal de flôres! Mas -como eu te amaria muito mais ainda se em vez -de seres o Amor fosses o Sacrificio!</p> - -<p>Um dia Victor Hugo pediu ás neblinas matinaes -dos climas do norte, uma porção de renda branca -e transparente com que ellas corôam a crista das -montanhas e... fez Déa!</p> - -<p>Que doce, vaporosa e lendaria visão!</p> - -<p>Não ha n'ella cousa alguma que seja realidade!</p> - -<p>Toca na terra ao de leve; não tanto que pareça -filha d'ella, não tão pouco que lhe não seja dado -consolar alguem votado ás dores sem consolo.</p> - -<p>É cega!</p> - -<p>Amada por um monstro sabe verter-lhe n'alma -as alegrias de um Deus!</p> - -<p>Não vê o homem que a ama, vê o amor de que -elle a veste!</p> - -<p>Abençoada cegueira que faz dous felizes!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_309" id="Page_309">[309]</a></span></p> - -<hr class="r5" /> - -<p>Ao lado d'ella—supremo contraste!—sorri Josiane -com o seu sorriso de deusa pagã!</p> - -<p>No olho azul da patricia ingleza scintilla em -chispas uma diabolica ironia.</p> - -<p>Josiane é a amante do impossivel! Procura o -que nunca ninguem achou!</p> - -<p>Quer um sonho que a sacie, o amor de um Titan, -ou de um cyclope, o amor de Apollo ou de -Polyphemo!</p> - -<p>Estranha figura, producto doentio de uma noite -de febre!</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>Dona Sol, Maria de Neuburgo, Marion, Eponine, -Cosette, Déa, quantas figuras radiosas, quantas -humanições esplendidas da mulher sonhada!</p> - -<p>Nas horas de desalento ou de amarga duvida, -nas horas em que as miserias que nos cercam, nos -fizeram encarar a vida pelo seu aspecto mais desolado -e mais escuro olhemos para ellas!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_310" id="Page_310">[310]</a></span></p> - -<p>Dir-nos-hão os poetas de hoje que ellas não existem, -e, o que é peior, que ellas não puderam existir -nunca.</p> - -<p>Oh! é bem triste, é bem esteril a arte que só -trata de rebaixar o que em nós é de mais elevada -essencia, e só quer que vejamos a fatalidade brutal -do instincto, onde viamos d'antes a fatalidade -mais nobre do sentimento.</p> - -<p>Não acreditemos o que elles nos dizem, porque -na sua preoccupação exagerada do horrivel, elles -mentem muito mais do que os outros mentiam na -sua preoccupação exagerada do bello!</p> - -<p>Estes reunindo todos os vicios e hediondezas -que encontraram dispersos n'uma só figura, conseguem -apenas crear... um monstro, um ser hybrido -e infecundo que a ninguem aproveita!</p> - -<p>Os outros synthetisando n'uma filha do seu genio -as harmonias, as feições, os encantos, que estudaram -e amaram em toda a natureza, conseguiram -alguma coisa mais!</p> - -<p>Crearam o ideal immutavel e eterno e ensinaram-nos -a fitar n'elle os olhos da nossa alma, e a -invocal-o como um consolo adoravel nas nossas horas -de desalento e de agonia.</p> - - -<p class="ph4">FIM</p> - -<div class="chapter"> -<hr class="chap" /> -</div> - -<h2 class="nobreak">INDICE</h2> - - <table summary="Indice"> - <tr><td colspan="3" class="center pb1">PRIMEIRA PARTE</td></tr> - <tr><td></td><td></td><td class="pag"><small>PAG.</small></td></tr> - <tr><td class="chp">I —</td><td class="tit"><a href="#UMA_HISTORIA_VERDADEIRA">Uma historia verdadeira</a></td><td class="pag">7</td></tr> - <tr><td class="chp">II —</td><td class="tit"><a href="#O_TIO_SEBASTIAO">O tio Sebastião</a></td><td class="pag">59</td></tr> - <tr><td class="chp">III —</td><td class="tit"><a href="#O_ANNEL_DO_DIPLOMATA">O annel do diplomata </a></td><td class="pag">79</td></tr> - <tr><td class="chp">IV —</td><td class="tit"><a href="#A_ESCOLHA_DE_GASTAO">A escolha de Gastão</a></td><td class="pag">99</td></tr> - <tr><td class="chp">V —</td><td class="tit"><a href="#O_ROMANCE_DE_ADELINA">O romance de Adelina</a></td><td class="pag">125</td></tr> - <tr><td class="chp">VI —</td><td class="tit"><a href="#A_CIGANA">A Cigana</a></td><td class="pag">141</td></tr> - <tr><td class="chp">VII —</td><td class="tit"><a href="#DUAS_FACES_DE_UMA_MEDALHA">Duas faces de uma medalha</a></td><td class="pag">157</td></tr> - <tr><td class="chp">VIII —</td><td class="tit"><a href="#A_TIA_IZABEL">A tia Izabel</a></td><td class="pag">173</td></tr> - <tr><td class="chp">IX —</td><td class="tit"><a href="#O_MELHOR_SOMNO_DO_MILLIONARIO">O melhor somno do millionario</a></td><td class="pag">185</td></tr> - <tr><td class="chp">X —</td><td class="tit"><a href="#A_PERCEPTORA">A perceptora</a></td><td class="pag">203</td></tr> - <tr><td class="chp">XI —</td><td class="tit"><a href="#A_MORTE_DE_BERTHA">A morte de Bertha</a></td><td class="pag">219</td></tr> - <tr><td colspan="3" class="center pt1 pb1">SEGUNDA PARTE</td></tr> - <tr><td class="chp">I —</td><td class="tit"><a href="#A_PROPOSITO_DE_UM_LIVRO">A proposito de um livro</a></td><td class="pag">241</td></tr> - <tr><td class="chp">II —</td><td class="tit"><a href="#MADAME_DE_BALSAC">Madame de Balsac</a></td><td class="pag">257</td></tr> - <tr><td class="chp">III —</td><td class="tit"><a href="#LINCOLN_E_GRANT">Lincoln e Grant</a></td><td class="pag">277</td></tr> - <tr><td class="chp">IV —</td><td class="tit"><a href="#AS_FILHAS_DE_VICTOR_HUGO">As filhas de Victor Hugo</a></td><td class="pag">295</td></tr> - </table> - -<hr class="full" /> - - - - - - - - -<pre> - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Contos e Phantasias, by -Maria Amalia Vaz de Carvalho - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS E PHANTASIAS *** - -***** This file should be named 63406-h.htm or 63406-h.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/3/4/0/63406/ - -Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm -concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, -and may not be used if you charge for the eBooks, unless you receive -specific permission. If you do not charge anything for copies of this -eBook, complying with the rules is very easy. You may use this eBook -for nearly any purpose such as creation of derivative works, reports, -performances and research. They may be modified and printed and given -away--you may do practically ANYTHING in the United States with eBooks -not protected by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the -trademark license, especially commercial redistribution. - -START: FULL LICENSE - -THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE -PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK - -To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase "Project -Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg-tm License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. - -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project -Gutenberg-tm electronic works - -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all -the terms of this agreement, you must cease using and return or -destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your -possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a -Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound -by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the -person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph -1.E.8. - -1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be -used on or associated in any way with an electronic work by people who -agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few -things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works -even without complying with the full terms of this agreement. See -paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project -Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this -agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm -electronic works. See paragraph 1.E below. - -1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the -Foundation" or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection -of Project Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual -works in the collection are in the public domain in the United -States. If an individual work is unprotected by copyright law in the -United States and you are located in the United States, we do not -claim a right to prevent you from copying, distributing, performing, -displaying or creating derivative works based on the work as long as -all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope -that you will support the Project Gutenberg-tm mission of promoting -free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg-tm -works in compliance with the terms of this agreement for keeping the -Project Gutenberg-tm name associated with the work. You can easily -comply with the terms of this agreement by keeping this work in the -same format with its attached full Project Gutenberg-tm License when -you share it without charge with others. - -1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern -what you can do with this work. Copyright laws in most countries are -in a constant state of change. If you are outside the United States, -check the laws of your country in addition to the terms of this -agreement before downloading, copying, displaying, performing, -distributing or creating derivative works based on this work or any -other Project Gutenberg-tm work. The Foundation makes no -representations concerning the copyright status of any work in any -country outside the United States. - -1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: - -1.E.1. The following sentence, with active links to, or other -immediate access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear -prominently whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work -on which the phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the -phrase "Project Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, -performed, viewed, copied or distributed: - - This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and - most other parts of the world at no cost and with almost no - restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it - under the terms of the Project Gutenberg License included with this - eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the - United States, you'll have to check the laws of the country where you - are located before using this ebook. - -1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is -derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not -contain a notice indicating that it is posted with permission of the -copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in -the United States without paying any fees or charges. If you are -redistributing or providing access to a work with the phrase "Project -Gutenberg" associated with or appearing on the work, you must comply -either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or -obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg-tm -trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9. - -1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted -with the permission of the copyright holder, your use and distribution -must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any -additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms -will be linked to the Project Gutenberg-tm License for all works -posted with the permission of the copyright holder found at the -beginning of this work. - -1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm -License terms from this work, or any files containing a part of this -work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. - -1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this -electronic work, or any part of this electronic work, without -prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with -active links or immediate access to the full terms of the Project -Gutenberg-tm License. - -1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, -compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including -any word processing or hypertext form. However, if you provide access -to or distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format -other than "Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official -version posted on the official Project Gutenberg-tm web site -(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense -to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means -of obtaining a copy upon request, of the work in its original "Plain -Vanilla ASCII" or other form. Any alternate format must include the -full Project Gutenberg-tm License as specified in paragraph 1.E.1. - -1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, -performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works -unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. - -1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing -access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works -provided that - -* You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from - the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method - you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed - to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he has - agreed to donate royalties under this paragraph to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid - within 60 days following each date on which you prepare (or are - legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty - payments should be clearly marked as such and sent to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in - Section 4, "Information about donations to the Project Gutenberg - Literary Archive Foundation." - -* You provide a full refund of any money paid by a user who notifies - you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he - does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm - License. You must require such a user to return or destroy all - copies of the works possessed in a physical medium and discontinue - all use of and all access to other copies of Project Gutenberg-tm - works. - -* You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of - any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the - electronic work is discovered and reported to you within 90 days of - receipt of the work. - -* You comply with all other terms of this agreement for free - distribution of Project Gutenberg-tm works. - -1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project -Gutenberg-tm electronic work or group of works on different terms than -are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing -from both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and The -Project Gutenberg Trademark LLC, the owner of the Project Gutenberg-tm -trademark. Contact the Foundation as set forth in Section 3 below. - -1.F. - -1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable -effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread -works not protected by U.S. copyright law in creating the Project -Gutenberg-tm collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm -electronic works, and the medium on which they may be stored, may -contain "Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate -or corrupt data, transcription errors, a copyright or other -intellectual property infringement, a defective or damaged disk or -other medium, a computer virus, or computer codes that damage or -cannot be read by your equipment. - -1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right -of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project -Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project -Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all -liability to you for damages, costs and expenses, including legal -fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT -LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE -PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE -TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE -LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR -INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH -DAMAGE. - -1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a -defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can -receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a -written explanation to the person you received the work from. If you -received the work on a physical medium, you must return the medium -with your written explanation. The person or entity that provided you -with the defective work may elect to provide a replacement copy in -lieu of a refund. If you received the work electronically, the person -or entity providing it to you may choose to give you a second -opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If -the second copy is also defective, you may demand a refund in writing -without further opportunities to fix the problem. - -1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth -in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO -OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT -LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. - -1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied -warranties or the exclusion or limitation of certain types of -damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement -violates the law of the state applicable to this agreement, the -agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or -limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or -unenforceability of any provision of this agreement shall not void the -remaining provisions. - -1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the -trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone -providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in -accordance with this agreement, and any volunteers associated with the -production, promotion and distribution of Project Gutenberg-tm -electronic works, harmless from all liability, costs and expenses, -including legal fees, that arise directly or indirectly from any of -the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this -or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or -additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any -Defect you cause. - -Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm - -Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of -electronic works in formats readable by the widest variety of -computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It -exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations -from people in all walks of life. - -Volunteers and financial support to provide volunteers with the -assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's -goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will -remain freely available for generations to come. In 2001, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure -and permanent future for Project Gutenberg-tm and future -generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see -Sections 3 and 4 and the Foundation information page at -www.gutenberg.org - - - -Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation - -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by -U.S. federal laws and your state's laws. - -The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the -mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its -volunteers and employees are scattered throughout numerous -locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt -Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to -date contact information can be found at the Foundation's web site and -official page at www.gutenberg.org/contact - -For additional contact information: - - Dr. Gregory B. Newby - Chief Executive and Director - gbnewby@pglaf.org - -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide -spread public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. - -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. We do not solicit donations in locations -where we have not received written confirmation of compliance. To SEND -DONATIONS or determine the status of compliance for any particular -state visit www.gutenberg.org/donate - -While we cannot and do not solicit contributions from states where we -have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition -against accepting unsolicited donations from donors in such states who -approach us with offers to donate. - -International donations are gratefully accepted, but we cannot make -any statements concerning tax treatment of donations received from -outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. - -Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation -methods and addresses. Donations are accepted in a number of other -ways including checks, online payments and credit card donations. To -donate, please visit: www.gutenberg.org/donate - -Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works. - -Professor Michael S. Hart was the originator of the Project -Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of -volunteer support. - -Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. - -Most people start at our Web site which has the main PG search -facility: www.gutenberg.org - -This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. - - - -</pre> - -</body> -</html> |
