summaryrefslogtreecommitdiff
path: root/old/63406-0.txt
diff options
context:
space:
mode:
Diffstat (limited to 'old/63406-0.txt')
-rw-r--r--old/63406-0.txt8074
1 files changed, 0 insertions, 8074 deletions
diff --git a/old/63406-0.txt b/old/63406-0.txt
deleted file mode 100644
index 4d8c7c7..0000000
--- a/old/63406-0.txt
+++ /dev/null
@@ -1,8074 +0,0 @@
-Project Gutenberg's Contos e Phantasias, by Maria Amalia Vaz de Carvalho
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
-to check the laws of the country where you are located before using this ebook.
-
-Title: Contos e Phantasias
-
-Author: Maria Amalia Vaz de Carvalho
-
-Release Date: October 8, 2020 [EBook #63406]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS E PHANTASIAS ***
-
-
-
-
-Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
-produced from scanned images of public domain material
-from the Google Books project.)
-
-
-
-
-
-
-
-
-
- CONTOS E PHANTASIAS
-
-
-
-
- D. MARIA AMALIA VAZ DE CARVALHO
-
-
- CONTOS
-
- E
-
- PHANTASIAS
-
-
- 2.ª EDIÇÃO
-
-
- LISBOA
-
- PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA
-
- LIVRARIA EDITORA
-
- Rua Augusta--50, 52 e 54
-
- 1905
-
-
-
-
- LISBOA
-
- OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO
-
- Movidas a vapor
- DA
- Parceria Antonio Maria Pereira
-
- _Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.º_
-
- 1905
-
-
-
-
-PRIMEIRA PARTE
-
-
-
-
-UMA HISTORIA VERDADEIRA
-
-
-I
-
-Era uma physionomia incaracteristica, apagada, tristissima.
-
-Não se podia dizer a idade que tinha, nem mesmo se tinha idade.
-
-Tanto podia ter trinta ou quarenta como setenta annos.
-
-Curvado pela idade ou pelos desgostos? Encanecido porque os annos tinham
-corrido por sobre a cabeça d'elle, ou porque lhe tinham pesado
-duplamente sobre os hombros debeis?
-
-Quem o podia dizer?
-
-Era uma organisação acanhada e rachitica, podia mesmo chamar-se
-incompleta.
-
-Para elle com certeza que a adolescencia não tivera as suas madrugadas
-azues tão gorgeadas e tão festivas, nem a virilidade tivera a fanfarra
-estridente dos seus clarins, a florescencia escarlate dos seus rosaes
-voluptuosos.
-
-Tinha sempre vivido debaixo de uma estranha pressão dolorosa.
-
-Dependêra de todos primeiro porque era fraco e inerme, depois porque
-fôra pobre, dependente, sem aquella aspera dignidade que os atrictos da
-vida tornam mais rude e que é a armadura moral que salvaguarda o homem
-nos duros combates sociaes.
-
-Nasceu n'uma casa opulenta que lhe não pertencia, cresceu no meio de um
-luxo de que seus paes erão parasitas voluntarios e de que elle era...
-parasita inconsciente.
-
-Começára por ter medo de tudo e de todos; um medo que não raciocinava,
-que não sabia, que não indagava mesmo a sua propria origem.
-
-Nasceu assustadiço, como certos animaes silvestres, e toda a vida
-conservou a mesma expressão inquieta e medrosa da lebre perseguida.
-
-Em primeiro lugar tinha medo de seu pae; um homem alto, espadaúdo,
-plethorico, de voz grossa e modos brutaes, que comia como um abbade, que
-bebia como um _lansquenete_, que praguejava como um carreiro, e que se
-vingava nos poucos entes que tinha debaixo do seu dominio, das
-complacencias servis que era obrigado a mostrar aos que o mantinham
-n'aquella farta ociosidade de commensal que só goza e não paga.
-
-Depois tinha medo de sua tia; a dona da casa, a _senhora_, a suzerana
-ante a qual todos se curvavam submissos.
-
-E no emtanto ella era bonita, delgada, flexivel, muito branca.
-
-Uma figura ideal de pintor inglez.
-
-Mas que culpa tinha elle, o pequenino parea, se os olhos d'essa graciosa
-e delicada senhora lhe pareciam frios e metalicos, com umas
-scintillações azuladas como as do aço fino? se as suas mãos esguias e
-brancas se lhe affiguravam duas tenazes que podiam apertal-o, apertal-o
-até o torcerem todo, até o esphacelarem e fazerem d'elle, do seu pequeno
-corpo tão fraquinho, uma grotesca massa informe, que o mundo inteiro
-pisasse, onde o mundo inteiro cuspisse!
-
-Seria allucinação d'aquelle cerebro enfermo e condemnado ás scismas
-doentias?
-
-Quem sabe?
-
-O caso é que o sentia, e que nunca pudera esquivar-se a essa
-preoccupação intensa e dilacerante!
-
-Um d'estes dous entes que dominaram de estranho terror a sua infancia,
-maltratava-o nas explosões brutaes de seu temperamento de touro bravo.
-
-O outro--a senhora--muito altiva, muito fria, muito desdenhosa, nem
-sequer lhe fallava.
-
-Olhava-o ás vezes como se olha para um animal repugnante, para um sapo,
-ou para uma carocha, e passava adiante, imperturbavel e olympica.
-
-Havia, porém, um outro sêr, dos que mais em contacto estavam com elle,
-que nem o maltratava, nem o desprezava com a glacial frieza do seu
-desdem.
-
-E comtudo era d'esse que elle tinha ainda mais medo.
-
-Era seu tio; uma figura original, uma physionomia de titan que por um
-engano qualquer da natureza não pôde conseguir passar de anão.
-
-Seu tio!... Como esta individualidade extraordinariamente accentuada,
-como este rosto ironico, irregular, convulsionado, dominou para sempre o
-destino obscuro da infeliz creança que eu conheci já velho!
-
-Seu tio não o perseguia nem lhe manifestava uma repugnancia muda, pelo
-contrario.
-
-Chamava-o continuamente para o pé de si, ensinava-lhe, quando estava só,
-palavras, esgares, visagens grotescas que lhe fazia repetir diante de
-gente, n'um côro de gargalhadas asperas e hostis como gumes de espadas!
-
-Vestia-o de um modo desusado e extravagante, vestia-o de marujo, de
-escossez, com as suas pequenas pernas magras, trigueiras, ossudas, n'uma
-nudez friorenta que lhe doia, e o fazia tiritar; vestia-o de tyrolez, o
-que lhe dava um aspecto comico, que arrebentava com riso a criadagem.
-
-Ás vezes nos seus dias de melhor humor sahia com elle, que tinha apenas
-sete annos de idade, de casaca, chapéo-alto, e berloques na cadeia do
-relogio.
-
-Tinha tempos em que não podia passar sem a sua companhia; a creança era
-a unica distracção do anão.
-
-As caricias d'esse homem singular, de olhar faiscante, de cabelladura
-revolta e electrica, de voz sonora e rica de inflexões estranhas, doíam,
-porém, ao pequeno muito mais do que os desprezos ou os máos tratos dos
-outros.
-
-Ao pé d'estes sentia-se perseguido, ao pé d'aquelle sentia-se humilhado.
-
-Um dia o marquez--o tio do pequeno Thadeu era marquez,--achou comico
-mandar introduzir a creança no cofre acharoado que havia junto ao fogão
-do gabinete de trabalho, destinado a guardar a lenha ou o carvão que se
-consumia.
-
-De minuto em minuto abria-se a tampa e sahia a cara vermelha e
-congestionada do pequeno, uma cara de animal assustado, o que divertia
-extraordinariamente as visitas.
-
-Outra vez, n'uma ceia alegre em que havia rios de _champagne_ e risadas
-crystallinas de mulheres, Thadeu com um fato de meia preta a cobril-o
-todo e dous castiçaes nas pequenas mãos, servia de centro agachado n'uma
-posição grotesca no meio da meza.
-
-Sahiu d'alli com uma febre que o teve um mez entre a morte e a vida,
-delirante, sem conhecer ninguem, com a mãe debulhada em lagrimas á
-cabeceira.
-
-Mas Thadeu não gostava de sua mãe.
-
-Era uma creatura tão debil como elle, pallida como uma defunta, inerme,
-estupida, sem vontade.
-
-As lobas defendem os seus filhos, a mãe de Thadeu não o sabia defender!
-
-Entregava-o ás coleras descompostas do pae; aos desprezos gelidos da
-tia; aos caprichos monstruosamente comicos do marquez; ás apupadas
-brutaes das aias e dos lacaios; aos risos das visitas; ao pasmo
-desprezador das outras creanças, que iam áquella casa opulenta e ruidosa
-acompanhadas por seus paes, vestidas de velludo, com plumas nos seus
-lindos chapéus, o ar grave de meninos bem creados, e que não tinham
-licença de brincar com aquelle pequeno histrião, feio, ridiculo, doente,
-com gesto de epileptico, com fatos de palhaço e com soluços de martyr.
-
-
-II
-
-Um dia, porém, fez-se na vida atormentada e tempestuosa do pequeno
-Thadeu uma claridade de luar, uma claridade opalisada e doce.
-
-Houve treguas nos seus varios martyrios, e sua mãe, n'uma bella manhã de
-primavera em que os passaros cantavam ao desafio nas grandes arvores do
-jardim, levou-o pela mão, pé ante pé, a um quarto forrado de setim côr
-de rosa, um quarto digno de servir de habitação á fada mais linda que
-uma phantasia de poeta oriental houvesse imaginado.
-
-N'aquelle quarto havia um ninho todo branco feito de rendas, de fitas de
-setim, de pennugem de passaros, e n'esse ninho dormia uma creancinha que
-parecia uma rosa.
-
---É tua prima; murmurou baixinho a mãe de Thadeu, emquanto este, mudo,
-surpreso, extasiado, fitava os seus olhos vitreos, onde o jubilo acendia
-uma luz desusada, nos grandes olhos luminosos e pasmados do _bébé_ que
-acordára.
-
-Oh! como Thadeu adorava aquella creança! Como na sua vida houve de
-repente um ficto, uma esperança, uma luz!
-
-Sua tia, uma vez em que a _bebé_ chorava muito nos braços da ama,
-dissera a Thadeu com uma voz menos glacial do que o costume:
-
---Thadeu, brinca com a prima a vêr se ella se cala.
-
-E elle fizera calar a rabujenta pequerrucha.
-
-Desde esse dia soube-se que a _menina_ tinha o insolito capricho de
-adorar Thadeu, de rir quando elle estava de joelhos dobrado sobre o seu
-berço, de chorar quando alguem o levava d'alli para fóra.
-
-A ama tomou o costume de o chamar e de o fazer estar horas e horas a
-entreter a _menina_.
-
-Ao principio elle fazia-lhe carêtas e momices, como as que usava fazer
-para divertir seu tio; depois, sem bem perceber porque, adoptou outro
-systema inteiramente opposto.
-
-Percebeu que a pequenina não queria um bôbo, como esse espirito embotado
-e pervertido que o victimára com os seus caprichos. O que a _bebé_
-queria, na ingenuidade adoravel do seu despotismo infantil, era um
-companheiro de seus brinquedos, um socio, um escravo que a adorasse.
-
-Thadeu era tudo para ella: queria-o perto da grande tina em que tomava o
-seu banho de manhã; queria-o junto da pequena mesa de nacar onde a ama
-lhe dava as sopinhas; queria-o no berço ao adormecer; queria-o no
-jardim, á sombra das arvores, sobre a arêa finissima, onde se rolava,
-vestida de rendas brancas, a rir como uma perdida.
-
-Chamaram-lhe Margarida.
-
-Margarida quer dizer perola, e Thadeu, que vira muitas vezes sua tia
-vestida de baile, achava um nome muito bem posto áquella creança branca,
-transparente, loura, idealmente graciosa.
-
-Oh! Thadeu ainda andava muita vez vestido de marujo, de granadeiro, de
-tyrolez e de alferes, ainda o introduziam no cofre da lenha, ainda o
-faziam fumar um charuto depois de jantar, cheio de ancias, de nauseas,
-de gritos abafados de angustia!... Mas que importava!
-
-Logo que podia escapava-se para o quarto da fada, para o estojo côr de
-rosa da sua _perola_, da sua Margarida, e então eram risadas sem fim,
-eram corridas delirantes por sobre o tapete, era um papaguear de duas
-aves felizes.
-
-Margarida com a idade ia-se fazendo despotica.
-
-Pudera!
-
-Ou ella não fosse mulher, e estremecida pelo seu humilde escravo!
-
-Mas era assim mesmo que elle a queria.
-
-Quando as mãosinhas polpudas e brancas de Margarida lhe batiam, Thadeu
-sentia-se feliz como um rei.
-
-Quando ella o obrigava a agachar-se no chão para lhe servir de jumento,
-o rapazinho tinha tentações de rinchar de prazer, fazendo o passo bem ao
-vivo.
-
-Porque no fim de contas, apezar de todas as suas adoraveis crueldades,
-Margarida gostava d'elle.
-
-A presença de Thadeu illuminava de risos o seu rosto oval coroado de
-cabellos louros annellados, o seu rosto a um tempo angelico e gaiato!
-
-Margarida não o achava feio, nem tolo, nem ridiculo, nem doente.
-
-Não desprezava a fraqueza dos seus braços, nem a pobreza absoluta da sua
-imaginação.
-
-Pelo contrario! Admirava o!
-
-Sim; ella dera-lhe essa sensação poderosa e extraordinaria, a sensação
-dos que se vêem admirados com ingenua confiança.
-
-Margarida pedia-lhe cousas enormes, com uma serenidade ineffavel de
-crente!
-
-Pedira-lhe um ninho de melros, e o que é mais! conseguira que elle tão
-medroso, tão debil, tão assustado, trepasse pelos braços nodosos de uma
-grande arvore e lh'o fosse buscar lá cima.
-
-Que triumpho este d'ella, ao ver satisfeito o seu capricho! mas que
-triumpho maior ainda o d'elle ao comprehender, que alcançara essa cousa
-prodigiosa, que nem nos sonhos mais arrojados das suas noites de febre
-elle ousara até ali conceber!
-
-Um dia Margarida, em frente d'aquelle rasgo assombroso de valentia que
-collocara Thadeu ao lado dos maiores heroes, puzera se grave,
-meditativa, e apontando com serena magestade para a lua que se reflectia
-n'um tanque do jardim, pedira a lua ao seu amigo Thadeu!
-
-Está claro que elle lh'a não pôde dar, mas gostou d'aquillo!
-
-Percebeu que o julgavam capaz de cousas grandes, de levar a cabo
-emprezas impossiveis, e esta idéa que alguem tinha da sua força, fê-lo
-crescer aos seus proprios olhos.
-
-O marquez conhecendo que o pequeno deixára de ser seu joguete,
-simplesmente para ser joguete de sua filha e herdeira, applaudiu-se de
-lhe haver dado aquella educação especial, e prohibiu que o distrahissem,
-fosse sob que pretexto fosse, das suas novas funcções.
-
-Margarida era ainda muito pequenina para entreter os paes.
-
-Elle precisava das excitações da politica, das luctas do parlamento, dos
-sorrisos falsos ou verdadeiros, caros ou baratos das formosas mulheres,
-do jogo, da ambição, do amor, da violencia corrosiva de todas as
-pequenas e grandes paixões!
-
-Ella precisava do luxo, das joias que scintillam, das sedas que se
-quebram em ondulações brilhantes, do côro das adulações mentidas, de
-todas as ephemeras alegrias que só o mundo lhe podia dar.
-
-Para ambos Margarida seria um remorso, se a não vissem tão nedia, tão
-roliça, tão alegre, com chispas de travessura maliciosa no olhar, sempre
-acompanhada do seu pequeno amigo, submisso e fiel como um cão.
-
-Deixaram-os, pois, crescer e viver juntos sob o olhar das aias, sempre
-um pouco hostil para Thadeu e por isso tanto mais insuspeito.
-
-Foi o verdadeiro paraiso que este conheceu na terra, foi a sua idade de
-ouro.
-
-Ha entes que nunca nem por um instante só conheceram a completa ventura.
-
-São de todos os mais desgraçados.
-
-Thadeu mais tarde podia ao menos recordar-se!
-
-E elle sabia apreciar tão bem aquellas alegrias que em manhã abençoada
-tinham cahido sobre a sua pobre cabeça!...
-
-Um dia Margarida travessa e caprichosa como era, desattendendo todas as
-advertencias de Thadeu, deixara-se cahir dentro do tanque do jardim.
-
-O pequeno não sabia nadar.
-
-Que importa!
-
-Sem premeditação, sem raciocinio, obedecendo a um instincto de dedicação
-inteiramente canina, deitou-se n'agua atrás d'ella.
-
-As criadas, acudindo, tiraram do tanque as duas creanças abraçadas.
-
-Imagine-se o que iria em casa!
-
-Thadeu, castigado severamente, não quiz condemnar a sua amiguinha, para
-se salvar a si.
-
-Foi ella que, soberba, graciosa, com a sua magestade de pequena rainha,
-disse aos paes:
-
---Não batam n'elle. Elle pediu-me que não fosse. Eu é que quiz ir.
-
-Acharam-na adoravel; encheram-na de caricias e de gulodices, mas ninguem
-pensou na acção tão simples e tão heroica do pequeno Thadeu, a quem
-tinham posto a alcunha de _medroso_.
-
-
-III
-
-Foi assim que Margarida fez nove annos.
-
-Era linda e indomita.
-
-Tinha um corpo airoso, flexivel e forte.
-
-Ninguem opprimira nunca aquella altiva natureza aristocratica.
-
-D'ahi a sua isenção, a liberdade dos seus movimentos, o fulgor radioso
-dos seus grandes olhos azues, onde um observador veria talvez as
-scintillações metallicas que davam tamanha dureza ao olhar de sua mãe.
-
-Margarida tinha uma vontade de ferro, e uns nervos de mulher caprichosa.
-
-Quando a professora allemã que seus paes mandaram buscar, quiz sujeitar
-o seu espirito a uma certa disciplina, Margarida revoltou-se n'um impeto
-de insubordinação selvatica.
-
-Tivera criadas que a serviam, um escravo que tremia diante d'ella, e
-paes que transigiam com todos os seus pequenos desejos de creança.
-
-Dera-se bem n'aquelle meio, não queria outro, não o aceitava, nem
-curvaria a sua cabecinha erecta e firme com uma aureola de anneis de
-ouro a cerca-la, a nenhum dominio que não fosse o da sua vontade.
-
- * * * * *
-
-Um dia Thadeu ouviu fallar vagamente n'uma viagem que seus tios iam
-fazer ao estrangeiro, e viu começar os preparativos para ella.
-
-Ficou no céo.
-
-Viveria só na grande casa com Margarida e o rancho dos criados.
-
-Seriam livres.
-
-Ella teria um balouço no jardim, uma rede brazileira no kiosque, e um
-barquinho no lago.
-
-Eram os seus tres sonhos ainda irrealizados.
-
-Thadeu dirigiria todos os trabalhos.
-
-Diria aos operarios que tinha dezeseis annos, e que era sobrinho do
-marquez.
-
-Os operarios haviam de respeital-o.
-
-Elles não tinham precisão nenhuma de se rir do seu corpo enfezado e
-rachitico.
-
-Não é preciso ser-se athletico para se ser respeitado pelos homens a
-quem se paga.
-
-Thadeu havia de arranjar algum meio de lhes pagar.
-
-Andava então doente, exquisito, com uma excitação nervosa que o
-torturava.
-
-O seu affecto por Margarida tivera uma recrudescencia violenta e
-dolorosa.
-
-Tinha vagos presentimentos que o faziam chorar.
-
-Parecêra-lhe que sua tia, uma vez, ao encontral-o n'um corredor, olhára
-para elle com uma aguda ironia malevola.
-
- * * * * *
-
---Não sabes, Thadeu? gritou Margarida entrando como um raio de sol no
-quarto onde costumava brincar com o primo. Não sabes?--E atirou-lhe
-negligentemente aos pés com um feixe de flôres e de folhas verdes que
-estivera colhendo na quinta.--Tambem eu vou com o papá e a mamã. Vamos
-a Paris... muito longe... muito longe... Estive á escuta... percebi umas
-cousas mas não percebi outras. Fallaram n'um convento... no _Sacré
-Cœur_... Sabes o que é?...
-
-Thadeu sabia.
-
-Não disse nada, mas no outro dia não pôde levantar-se da cama.
-
-Tinha dôres em todo o corpo e um grande cançasso, como de quem deu uma
-larga caminhada.
-
-Gemia baixinho abrazado em febre, e quando pediu muito humildemente, com
-medo de recusa, para ver Margarida, disseram-lhe que a doença d'elle
-podia pegar-se e que as meninas não iam ao quarto dos homens.
-
-Pois isto é um homem? pensava Thadeu desolado.
-
- * * * * *
-
-Margarida de endoudecida com a mudança, com o movimento, com a
-espectativa de uma existencia desconhecida e nova, esqueceu-se
-completamente do enfermo.
-
-Partiu sem pedir sequer para lhe dizer adeus!...
-
-Quando Thadeu ao cabo de um mez de doença sahiu do quarto com o rosto
-macilento, abatido, cançado, como o de um velho, com a espinha dobrada e
-as magras pernas vacillantes, pediu para ir ao quarto onde brincava com
-a sua _perola_, e agachou-se a um cantinho a chorar com uns uivos
-dolorosos, com uns uivos caninos que faziam mal.
-
-Sentia-se para sempre só...
-
-
-IV
-
-O marquez tinha ido sósinho para França. Fôra, ao que se dizia, buscar a
-filha ao _Sacré-Cœur_.
-
-A educação de Margarida devia estar completa. Fôra-se embora com nove
-annos de idade, e haviam já passado sete depois que ella partira.
-
-Sete annos! que longo periodo!
-
-A casa dos marquezes era pouco mais ou menos a mesma cousa.
-
-Thadeu perdêra sua mãe, mas aquella figura apagada, melancolica, de uma
-debilidade de valetudinaria, pouca falta havia feito no palacio
-illuminado e radioso.
-
-O marquez aconselhado por alguma pessoa de juizo e de caridade tinha
-consentido a que logo depois da partida de Margarida seu sobrinho
-entrasse para um collegio.
-
-Tambem já lhe não servia para nada.
-
-Com o seu corpo magro e desengonçado, um corpo de funambulo, um corpo de
-grotesco, tinha melancolias _quixotescas_ que incommodavam quem o via.
-
-Os criados deram por mais de uma vez com o rapazola a chorar de bruços
-n'um recanto do jardim, chamado o _canteiro de Margarida_.
-
-Era um pequeno espaço semeado de flôres, onde principalmente abundavam
-os malmequeres brancos que tinham o poetico nome da filha do marquez.
-
-Havia ali uma grande arvore, um castanheiro copado cuja rama folhuda
-abrigava as longas scismas dolorosas de Thadeu.
-
-Não se podia consolar!
-
-Era ali n'aquelle sitio fresco, esmaltado de flores, exhalando um cheiro
-agreste e sadio, que elle se deixava ficar horas e horas esquecido de
-todos, n'uma especie de lethargo bestial, o lethargo de um animal
-ferido.
-
-E desfiava na memoria todo o seu passado, toda a vida que vivêra,
-abandonado, desprezado, perseguido de chufas ou de maus tratos, de
-caprichos humilhantes, ou de observações glacialmente desdenhosas.
-
-Só _ella_ nunca o ferira! só ella fôra no seu viver de cão apedrejado um
-consolo dulcissimo! uma nesga do céo que se entreabrira!
-
-Só _ella_ nunca se tinha rido á custa d'elle, e fôra elle--o misero, o
-abandonado, o enfermo--que tivera o primeiro sorriso d'aquella boquinha
-de rosas, o primeiro beijo d'aquelles labios frescos e humidos de leite!
-
-Era feio, era rachitico, era estupido e desastrado.
-
-Todos o conheciam, todos o repetiam em alto e bom som para que elle o
-não ignorasse, mas _ella_ amava-o; ella não o dizia, não o pensava, não
-o tinha notado sequer!
-
-Para _ella_ era forte, e grande, e poderoso!
-
-A elle é que Margarida confiára sempre os seus desejos, os seus sonhos,
-os seus affectos de creança mimosa.
-
-Ralhava-lhe ás vezes, batia-lhe, quando aspirava ao impossivel que
-Thadeu lhe não podia dar, mas as creanças ricas têm horas de tedio só
-comparaveis ás horas sinistras de um imperador romano, e Thadeu
-comprehendia isso tanto, que antes queria as coleras, do que os
-desalentos rapidos e violentissimos da sua _perola_.
-
-Tudo que houvera bom na sua vida lhe tinha vindo d'ella.
-
-Dos outros--nada!
-
-E elle odiava todos os outros, só para poder adoral-a com um culto
-exclusivo de negro pelo seu _fetiche_.
-
-Não perguntava noticias; para que?
-
-Tinha a certeza intima de que lh'as não dariam completas nem
-verdadeiras.
-
-Antes não queria saber nada, do que banalisar a sua idolatria,
-revelando-a a seus _inimigos_.
-
-Ella tambem lhe não escrevêra, o que o não surprehendera nada.
-
-Estava tão costumado a ser _uma cousa_ inutil e desprezada, que nunca
-lhe viera á idéa a possibilidade sequer de possuir uma carta _d'ella_.
-
-No entanto ia adoecendo, definhando, parecia uma sombra.
-
-Um medico que o viu torceu o nariz, e deu claramente a entender que
-_aquillo_ nunca chegaria a ser um homem.
-
-Foi então que se lembraram de o mandar para um collegio, em primeiro
-lugar para não terem o desgosto de o vêr a cada passo, em segundo lugar
-para o distrahirem da idéa fixa que o estava consumindo.
-
-No primeiro dia em que Thadeu fez a sua entrada no collegio houve uma
-tal galhofa, um gaudio tão extraordinario entre a rapaziada, que os
-professores para manterem a ordem tiveram de empregar severos castigos.
-
-Não havia meio de o vêr sem rir.
-
-Tinha um _tic_ nervoso a um canto da bocca, tinha os olhos de vidro
-embaciado, tinha as pernas muito magras e muito cambadas, e um modo de
-fallar timido, acanhado, medroso que era de fazer morrer de riso os
-rapazes.
-
-Os proprios mestres tinham de fazer esforço para se não rirem quando o
-viam.
-
-Na hora de recreio tornou-se a victima, o bode expiatorio do collegio.
-
-Um dia, porém, a brincadeira attingiu taes proporções que degenerou em
-perversa brutalidade.
-
-Thadeu cahiu no chão extenuado a lançar jorros de sangue pelo nariz.
-
-Do grupo estupefacto e arrependido dos collegiaes destacou-se então um,
-o mais velho, o mais valente o que nunca entrava n'aquellas farçadas
-brutaes, e disse com voz decidida:
-
---Tomo esse pobre diabo debaixo da minha protecção. O primeiro que lhe
-tocar tem os ossos n'um feixe.
-
-Ninguem se atreveu a responder uma palavra.
-
-Henrique de Souza era temido e respeitado.
-
-Nas aulas era o primeiro; nas brincadeiras era o mais forte; na lucta
-era o mais destemido.
-
-Orphão de pae, era sustentado no collegio pelo trabalho insano da mãe e
-da irmã mais velha que se haviam feito costureiras para o poderem
-educar.
-
-Henrique fizera-se homem antes de tempo.
-
-O seu pensamento fixo era poder pagar a divida sagrada que contrahira
-com as duas heroicas e dedicadas mulheres.
-
-Quando Thadeu despertou do desmaio em que a fraqueza o mergulhára, fixou
-os seus tristes olhos esgazeados e humildes na physionomia meiga e viril
-de Henrique.
-
-Comprehendeu que tinha achado um amigo e cahiu-lhe nos braços a soluçar.
-
-
-V
-
-Thadeu conservára-se cinco annos no collegio, e sahira de lá um pouco
-mais forte e um pouco menos desgraçado.
-
-Henrique, que havia tres annos tinha completado a sua educação, e que
-agora cursava a escola de medicina, nunca deixára de o ir visitar de
-tempos a tempos, levando-o muitas vezes por occasião das férias a passar
-o dia em casa de sua mãe.
-
-O moço estudante de medicina dava lições de francez e inglez nas horas
-vagas, para augmentar os minguados recursos da familia, e como um tio
-que morrera lhe tivesse deixado uma pequena pensão, viviam agora todos
-tres mais desaffogadamente.
-
-Occupavam uma casa pequenina mas muito aceiada e quasi nova; tinham um
-quintal com tres gallinhas, um casal de pombos e um canteirinho semeado
-de flôres.
-
-O trabalho da casa era a mãe de Henrique quem o fazia; a irmã costurava
-e bordava para fóra, o irmão vivia de estudar e de esperar.
-
-Muito unidos, muito resignados; em certos momentos mesmo, muito alegres,
-d'uma alegria serena e doce, a alegria dos corações honrados que confiam
-na providencia de Deus!
-
-Henrique era formoso sem dar por isso. O unico modo possivel de um homem
-ser formoso.
-
-Joanninha, a irmã, que já fizera vinte e sete annos, era uma doce e
-casta physionomia de virgem que tem padecido muito.
-
-Nos seus grandes olhos melancolicos havia a tranquilla doçura dos que
-repouzam depois de uma lucta esmagadora.
-
-Tinha a certeza de que havia na terra alegrias que nunca seriam d'ella,
-e no entretanto não se revoltára; puzera n'outro ponto mais alto a sua
-mira.
-
-Desdobrára a sua individualidade, vivia da vida e das esperanças de seu
-irmão.
-
-N'este interior recolhido e casto, Thadeu sentiu pela primeira vez
-acordar a consciencia.
-
-Soffria muito ali pelas comparações dolorosas que fazia, mas
-comprehendeu que n'esse mesmo soffrimento havia um progresso do seu
-espirito e affeiçoou-se ás torturas que elle lhe dava.
-
-O trabalho era a lei d'aquella casa, e Thadeu não sabia trabalhar.
-
-Ali concebia-se a vida de um modo elevado e justo, a dignidade do homem
-estava identificada com a sua independencia, e Thadeu não passava de um
-parasita.
-
-Aprendeu na convivencia de Henrique e de sua mãe e irmã muito mais do
-que aprendêra em todos os 18 annos de sua desconsolada existencia.
-
-Determinou ter uma occupação, um officio, exercer um trabalho qualquer,
-mas bem depressa adquirio a desoladora certeza de que a sua fraqueza
-physica o tornava incapaz de qualquer esforço aturado e violento.
-
-Com vinte e tres annos conseguira tão sómente, por fim de porfiada
-lucta, ser uma especie de caixeiro de guarda-livros de seu tio.
-
-Aprendeu a fazer bem contas, e tornou-se util n'aquella desordenada
-administração de uma casa collossal.
-
-Isto não era de certo cousa que satisfizesse as ambições de outro
-qualquer, mas para elle isto já era uma grande, uma sublime conquista.
-
-Ganhava o pão que comia.
-
-Era um escripturario humilde, mas tinha direito a dizer que não dependia
-de ninguem.
-
-
-VI
-
-No dia em que Thadeu soube que Margarida ia chegar, a sensação que fez
-vibrar todo o seu sêr, foi violenta de mais para que possa ser
-descripta.
-
-Acudiram-lhe em tropel, desordenadamente, n'uma confusão louca, todas as
-lembranças do passado, todas as queridas visões d'aquelles nove annos de
-extase que elle vivêra.
-
-Estava tudo intacto n'um cantinho luminoso da sua alma, onde elle não
-entrava com medo de fazer fugir as avesinhas azues que eram as suas
-saudades.
-
-Margarida! Bebé! A sua alegria! A loura cabecinha encaracollada, os
-olhos côr de azul, limpidos, transparentes, crystallinos, como um céo de
-primavera! os pequeninos braços gordos e nedios! a boquinha risonha! a
-voz musical, uma voz de cotovia acordando os écos da alvorada!
-
-Todo aquelle conjuncto de graças ia ser d'elle outra vez.
-
-Com que delicia soffrega elle não beijaria os pézinhos da sua fada
-pequenina e loura!
-
-Como lhe contaria tudo que tinha passado longe d'ella!
-
-As saudades sem consolo, as lagrimas que chorára, as humilhações que
-soffrêra no meio d'aquelles perversos de faces rosadas e imberbes, que
-se tinham constituido em algozes da sua fraqueza e do seu desamparo!
-
-Oh! amal-a-hia tanto e tanto, que ella havia de dar-lhe por força um
-bocadinho de affecto, e esse bocadinho só bastaria a torna-lo mais feliz
-do que um rei.
-
-Margarida!
-
-E ao repetir baixinho com um calafrio de prazer este nome querido, via
-saltar n'um raio de sol uma figurinha esbelta, graciosa, de fato muito
-curto e muito simples, um vestido branco, um cinto azul, um bibe de
-cercadura bordada, onde as amoras colhidas por elle tinham posto uma
-mancha vermelha, com os espessos cabellos louros em anneis soltos, e uma
-risada a vibrar ainda em torno d'ella como um rosario de perolas que se
-desfiasse dentro de um cofre de crystal.
-
-Henrique julgou que elle endoudecia, e Joanninha com a sua voz velada,
-onde havia uns toques de doçura maternal, dizia-lhe:
-
---Mas olhe que ella é uma senhora! Já não póde ser a mesma. Não tenha
-uma esperança que vai converter-se-lhe em martyrio!
-
---A minha Margarida, repetia elle alheiado, meio louco! A minha filhinha
-adorada! Nunca tive uma alegria que d'ella me não viesse! Todos me
-tratavam mal, só ella gostava de mim e me queria sempre ao seu lado. Has
-de vêl-a, meu Henrique, verás se ha no mundo uma creança mais linda,
-mais mimosa, é uma fada, é uma _perola_, é a minha unica amiga n'este
-mundo!
-
-
-VII
-
-No dia seguinte á hora em que uma brilhante festa de familia, uma
-especie de baile muito intimo, reunia nas salas do marquez todos os
-parentes, alliados e amigos que vinham solemnisar a chegada da sua filha
-e herdeira, Thadeu na pequenina sala de jantar de Henrique, dobrado
-sobre o peitoril da janella n'uma postura de desolação e de abandono,
-soluçava baixinho, ao pé de Joanninha, que tentava em vão consolal-o.
-
-Estava de casaca, coitadinho; Joanna não seria capaz de rir do
-desgraçado, mas como a casaca lhe ficava mal!
-
-Tinha-se vestido para assistir ao jantar.
-
-Antes do jantar não conseguira vêr Margarida.
-
---A sr.ª D. Margarida vinha muito cançada, estava no seu quarto.
-Dormia. Não havia ordem de a acordar.
-
-Eis as seccas respostas que as criadas,--aquellas perversas--tinham dado
-ás supplicas phreneticas do pobre Thadeu.
-
-Emquanto a ir ao encontro d'ella como tanto sonhára, não tinha podido.
-
-Seu tio, agora que lhe descobrira algum prestimo--muito secundario, é
-verdade, mas um prestimo em todo o caso--abusava d'elle horrorosamente.
-
-Tinha-o tornado uma machina de fazer contas, contas de sommar, de
-repartir, de multiplicar, o inferno!
-
-Não pudera ir, mas esperava vê-la logo que ella chegasse, vê-la só,
-poder beijar-lhe as mãos, a testa, os cabellos, os pés! Vesti-la toda de
-beijos como d'antes!
-
-E depois sabia que tambem ella havia de ter saudades! Que tambem se
-havia de lembrar muito do seu amigo, do seu Thadeu, do seu cão fiel!
-
-Estava impaciente, estava no ar. Mas quando teve a certeza de que só a
-veria na sala, foi vestir-se logo, envergou uma casaca de seu pae que
-este mandára arranjar para elle, uma casaca muito larga, já fóra da
-moda, de panno azulado.
-
-Que lhe importava! Ia vê-la!
-
-Vê-la era o céo.
-
-Vinha-lhe á lembrança aquelle ninho de melros que apanhára um dia--sabe
-Deus com que trabalho--para lhe dar, e o dia em que ella lhe pedira a
-lua com uma gravidade tão comica, apontando para o tanque, e o balouço
-que ambos tinham projectado fazer, e as historias que elle lhe contava
-debaixo do castanheiro á tarde, emquanto que a musica do piano suspirava
-ao longe, e havia no ar uns rumores indefinidos de que ella lhe
-perguntava a explicação.
-
---São os passarinhos que andam a arranjar-se para se deitarem a dormir
-dentro dos seus ninhos--costumava dizer Thadeu.
-
-E ella ria-se virando a cabeça muito esperta para a cupula do
-castanheiro, a ver se descobria como se faz a _toilette_ nocturna dos
-passarinhos.
-
-Entrára emfim na sala.
-
-Havia grupos aqui e ali. Graves politicos que discutiam, financeiros de
-abdomen volumoso, matronas severas, moços elegantes, e no meio de tudo
-um bando de raparigas alegres, garridas, a chilrearem, a rirem e a
-cochicharem entre si, contentes da nova companheira que lhes chegava de
-longe, mas muito mais contentes ainda d'aquella atmosphera festiva e
-perfumada que as envolvia.
-
-No meio d'esse grupo encantador é que _ella_ estava de pé.
-
-Um corpo deliciosamente modelado, de uma graça franzina e toda moderna.
-
-Tinha um vestido de _foulard_ muito justo, muito elegante, e no meio dos
-rôlos do seu crespo cabello louro aninhava-se uma rosa vermelha, uma
-rosa côr de sangue.
-
-Os olhos azues, altivos e desdenhosamente fixos lembravam... os olhos
-metallicos de sua mãe.
-
-Pois era aquella a sua Margarida?!
-
-Era.
-
-Não lhe restava a menor duvida. Apesar de todas as differenças tinha-a
-conhecido logo.
-
-A sua limpida testa de creança um pouco curta, indicio de obstinação e
-de capricho; a sua bocca pequenina, até alguma cousa dos seus gestos
-antigos, tudo trouxe ao coração de Thadeu uma lufada de saudades
-irresistivel.
-
-Correu para ella como doudo, atravessou pelo meio de toda aquella gente,
-sem a menor timidez, sem o menor receio, sem notar sequer o espanto que
-a sua comica apparição tinha excitado.
-
-As raparigas que faziam um circulo em torno de Margarida separaram-se
-n'uma subita explosão de risadinhas, e ella, olhando muito fixa para
-Thadeu, exclamou rindo, rindo sem poder mais:
-
---Ih! credo, primo Thadeu, que casaca!... que figura!... Pelo amor de
-Deus vá já tirar essa casaca e venha depois!
-
-E ria, ria sem disfarce, emquanto elle com os braços quebrados, o rosto
-estupido, a physionomia espavorida, sentia dentro de sua pobre alma sem
-consolo esphacelar-se, desfazer-se, diluir-se em lagrimas de fel a
-ultima esperança da sua vida!
-
-
-VIII
-
-Tres dias depois, Margarida, que se esquecêra completamente d'aquelle
-insignificante episodio em que Thadeu figurára, encontrou-o por acaso na
-Baixa, onde andava fazendo compras com sua mãe, ao lado de Henrique, que
-para o distrahir tinha ultimamente fingido precisar absolutamente da sua
-companhia.
-
-Margarida sahia de uma loja e ia a saltar ligeira, elegante com a sua
-graça parisiense para dentro do _coupé_ delicioso que, de proposito para
-a filha, o marquez havia encommendado mezes antes á casa Binder, e que
-dous finos cavallos inglezes esplendidamente ajaezados faziam voar pelas
-ruas da nossa pacata Lisboa.
-
-A vista de Thadeu despertou-lhe umas poucas de idéas que ainda não lhe
-tinham occorrido.
-
-Lembrou-se, por exemplo, de que não o vira mais, desde o instante em que
-elle se apresentára diante d'ella com uns transportes ridiculos e uma
-_toilette_ horrorosa, na sala povoada pelas suas novas amigas, tão
-ironicas, tão cruelmente maliciosas...
-
-Por que não tornára ella a vê-lo? Tinha-lhe esquecido perguntar por
-elle, fôra muito ingrata...
-
-E sem raciocinar aquelle impulso estranho, parou, esperou em uma
-attitude de _coquetterie_ irresistivel que os dous amigos se
-approximassem, visto que ambos caminhavam na direcção em que ella
-estava, e estendendo a Thadeu a sua mão esguia e fina, a sua mão de
-loura, enluvada de pellica côr de bronze, disse com uma expressão de
-finura e malicia intraduzivel:
-
---Então seu ingrato! Não me tem querido apparecer! Por onde tem andado?
-
-E ficou a olhar para elle, como quem espera alguma cousa, interrogadora,
-fascinante, sempre aristocratica.
-
-A marqueza, que já estava dentro do trem, murmurou levemente enfastiada:
-
---Então, Margarida, ficamos aqui?...
-
-E Thadeu córando, balbuciando, resmoneava confusamente uma banal
-desculpa.
-
- * * * * *
-
-Margarida saltou emfim o estribo que o criado conservava desdobrado,
-envolvendo n'um olhar magnetico dos seus scintillantes olhos azues, a
-bella e viril figura de Henrique de Sousa, que presenciára mudo aquella
-scena inexplicavel.
-
- * * * * *
-
-
-IX
-
-Uma noite em S. Carlos estreiava-se uma celebridade lyrica na _Norma_,
-que então estava muito na voga.
-
-Henrique vivamente instado pela mãe e pela irmã e tambem um pouco pelo
-seu proprio desejo, determinou ir ouvir a opera adoravel, que é uma
-verdadeira perola musical.
-
-Havia tempos que elle andava nervoso e inquieto.
-
-Não sabia bem o que tinha mas sentia-se mal.
-
-Tinha impaciencias nervosas que nunca havia conhecido no seu organismo
-equilibrado e harmonico.
-
-Surprehendia-se ás vezes doentiamente, a fazer planos impossiveis antes
-de adormecer; a imaginar quanto seria bom ser muito rico, viver na alta
-roda, n'aquella esphera aristocratica e distincta em que se não
-trabalha, em que se falla de um modo especial e caracteristico, com
-termos escolhidos, com inflexões muito mais suaves, com uns certos
-desdens que d'antes lhe pareciam ridiculos e que lhe estavam agora
-parecendo superiormente requintados. Ter um palacete com alguns salões
-apainelados em cuja escadaria de marmore povoada de estatuas e de
-plantas raras, se aprumassem espadanados lacaios de farda; ter
-equipagens luxuosas, ter uma mulher loura, franzina, de testa curta, de
-olhos piscos, com um sorriso felino, quasi cruel nos labios vermelhos, e
-um corpo flexivel, delicado, _mignon_ de estatueta de _biscuit_... Uma
-mulher que se chamasse Margarida.»
-
-N'este ponto da sua scisma Henrique suspendia-se como que sentindo a
-estranha impressão de quem vae caminhando por uma estrada lisa e de
-apparencias tranquilisadoras, e encontra de repente, debaixo dos pés,
-quando menos o espera um reptil desconhecido.
-
-Margarida! que tinha elle com Margarida?!
-
-Lembrava-se que a desprezára e amaldiçoára no dia em que vira chegar a
-sua casa, pallido, desfeito, com uma casaca grotesca e uns olhos
-inchados e vermelhos de chorar, o seu pobre amigo Thadeu, que na vespera
-o tinha deixado tão louco de alegria e tão triumphante de felicidade!
-
-Margarida!
-
-Vira-a depois loura, elegante, com o seu desdenhoso olhar de myope,
-subir com ligeiresa fidalga o estribo de uma carruagem, descobrindo os
-finos bordados das suas saias, o pequeno pé primorosamente calçado, todo
-um poema de mysteriosas elegancias.
-
-Nunca mais a vira, nunca mais desejára vêl-a!
-
-Para que?
-
-Ella lá tão em cima, elle cá em baixo lidando, tressuando, luctando para
-alcançar... o que talvez não tivesse nunca!
-
-Um nome, uma posição, o pão de sua mãe e de sua irmã, sem amarguras e
-sem pequenas privações humilhantes!
-
- * * * * *
-
-N'aquella noite em S. Carlos a musica sentimental e enervante de
-Bellini, o contacto de todo aquelle mundo ocioso e rico ainda o tornava
-mais nervoso e excitado. Estava quasi arrependido de ter vindo.
-
-N'isto sentiu que lhe batiam no hombro e uma voz aflautada, uma voz
-_tremelicante_, com inflexões muito alegres, disse-lhe ao ouvido:
-
---Anda cá acima, pediram-me para te vir buscar, para te apresentar;
-gostam muito de ti! Não imaginas como és estimado pela minha querida
-Margarida, desde que soube que tens sido o meu unico amigo, o meu
-auxilio na vida, aquelle a quem mais devo depois d'ella.
-
-E Thadeu, porque era elle, arrastava pelos corredores das frisas
-Henrique surprehendido, contrariado, com uma estranha sensação de
-desconforto a comprimir-lhe fortemente o peito.
-
-
-X
-
-Na frisa, radiante de mocidade, de fina distincção, com todos os
-requintes da moda a fazer realçar a sua belleza moderna, fragil,
-quebradiça, alguma cousa amaneirada estava Margarida.
-
-A marqueza ao lado d'ella conversava com um velho diplomata.
-
-Á entrada dos dous a mãe teve um comprimento um pouco secco, a filha um
-sorriso de graça adoravel, de garridice innata mas irresistivel.
-
---Quiz vêl-o porque soube que tem sido muito bom para Thadeu,
-excellente mesmo. Elle contou-me tudo.
-
-Pobre rapaz! _poor dear boy!_ e sorriu-se outra vez com um aspecto
-bondoso e protector que a transfigurou por instantes.
-
---Eu tinha-me esquecido, o Thadeu é que se lembrava de tudo. Fez-me
-reviver a minha infancia. Sempre é bom. Agora já estou tão velha que
-acho immensa graça a estas recordações do passado.
-
-E graciosa, maternal, afastando toda e qualquer idéa que não traduzisse
-uma solicitude encantadora para o seu companheiro da infancia, Margarida
-foi o que seria a noiva idealisada pelo austero coração de Henrique.
-
-E d'ali em diante o amigo de Thadeu deixava-se arrastar de oito em oito
-dias até o palacete dos marquezes.
-
-Era ali optimamente recebido.
-
-Margarida, adorada pelos paes, dava a lei em casa. Sabiam-n'a
-voluntariosa, cheia de caprichos e de phantasias, tinham medo de
-irrital-a resistindo-lhe.
-
-Depois, Henrique com as suas maneiras de _gentleman_, com a gravidade
-desaffectada do seu porte, com os generosos ardores da sua rica
-organisação, revelava-se o que era: um homem de futuro, um homem que
-havia de ter nome mais tarde.
-
-O marquez, cynico como a vida o tornára, era juiz excellente n'este
-assumpto.
-
-Conhecia um _homem_ depois de duas horas de conversação.
-
-As proprias severidades do moço, amollecidas agora ao contacto da
-perturbadora formosura de Margarida, agradavam ao marquez como uma cousa
-nova, picante, inteiramente imprevista para elle.
-
-Thadeu nadava em um jubilo celeste.
-
-Era muito bem tratado; Margarida tinha com elle umas garridices
-angelicas que ás vezes o deixavam pallido e suffocado, encostado a uma
-arvore ou a um banco do jardim para não cahir no meio do chão desfeito
-em lagrimas.
-
-Thadeu tinha agora de vez em quando um odio selvagem á sua mesquinha e
-enfezada personalidade.
-
-Se elle não fosse como era... se fosse alto, esbelto, forte... póde
-ser... tem-se visto tanta cousa...
-
-E tambem ficava absorto, idiota, seguindo com um olhar esgazeado umas
-visões que o iam enlouquecendo.
-
-Ella no emtanto vinha alegre, radiosa, cheia de vida, com o seu vestido
-de _foulard_ côr de carne a desenhar-lhe as fórmas flexiveis, com uma
-rosa nos seus cabellos louros, dava-lhe o braço, e arrastava-o enlevado
-e estupido pelas alamedas do jardim.
-
---Conta-me lá o que tu fazias quando eu cá não estava! conta-me em que
-pensavas. Estavas muito triste? Quando é que viste pela primeira vez o
-teu amigo Henrique? Que lhe dizias tu de mim? E elle?... elle que idéa
-fazia d'esta endiabrada pessoa que tu lhe descreveste tanta vez com a
-tua phantasia de poeta--porque tu quando se trata de mim és poeta, meu
-pobre Thadeu!--Anda, falla, conta-me o que vocês faziam, gosto tanto de
-te ouvir!
-
-E toda dobrada sobre o hombro d'elle, meiga, electrica, fascinadora, com
-meneios de serpente, levava horas passeando pelo braço de Thadeu.
-
- * * * * *
-
-Um anno depois d'esta época, Margarida declarava terminantemente aos
-paes que voltava para França, que ia morrer freira no convento onde
-vivêra educanda, se elles a não casassem com Henrique.
-
-E dizia-lhes estas palavras n'uma tal violencia de gritos e de soluços,
-tão magra, tão empallidecida n'aquella lucta intima de doze longos
-mezes, que o marquez encolheu os hombros com a suprema indifferença que
-fazia d'elle um _viveur_, e que a marqueza animada pela placidez do
-marido ao encarar esta questão magna, declarou á filha, hoje seus unicos
-amores, que ia fazer tudo para lhe dar o noivo da sua alma, o escolhido
-pela sua ardente paixão juvenil.
-
-Teve medo de ver a filha definhar-lhe e morrer-lhe nos braços. Via-a tão
-abatida, tão triste, tão enfastiada da vida, que a idéa de perdêl-a
-sobrelevou a todos os seus escrupulos de rica e de fidalga.
-
-Margarida auctorisada pelos paes pôde dizer a Henrique, que o amava!
-
-Quanto amor! que enthusiasmo febril n'este sublime impudor da creança
-opulenta, formosa, aristocratica, disputada por dezenas de noivos tão
-ricos e tão nobres como ella, que vem espontaneamente offerecer a sua
-mão e a sua vida inteira ao obscuro plebeu que passa confundido no meio
-das multidões desconhecidas!
-
-E esse impudor ninguem mais fidalga e altivamente do que Margarida o
-soube ter.
-
-Sabia-se adorada, estremecida, sabia que um riso d'ella bastaria para as
-alegrias e para as torturas de uma semana passada por Henrique na
-labutação da sua mesquinha existencia; mas sabia tambem que elle era tão
-grande, tão forte, tão orgulhoso e digno que podia morrer, mas que
-morreria calado, sem que uma palavra revelasse o seu martyrio!
-
---Thadeu, meu querido Thadeu, meu amiguinho, tenho sido muito má, não
-tenho querido contar-te nada com medo de que lhe dissesses a _elle_
-alguma cousa. Eu queria ser a primeira a dizer-lh'o, queria gozar do seu
-sorriso, do seu olhar de anjo, de martyr beatificado, do seu olhar que
-me enlouqueceu para sempre... Agora digo-te, já não tenho motivo nenhum
-para t'o esconder.
-
-Vou casar-me, vou ser d'elle, só d'elle... levar-te-hei comnosco... Olha
-que foi elle que m'o pediu... Vê como elle é bom. Eu a fallar a verdade
-estava tão douda que nem me lembrei de similhante cousa; mas elle fallou
-logo em ti, foi a sua primeira vontade! Adoro-te visto que elle é teu
-amigo. Has de aborrecer-me ás vezes, meu pobre Thadeu, porque nunca
-entendes a tempo quando deves ir-te embora, mas eu hei de educar-te.
-Verás! Viveremos todos tres. Nunca mais te hei de tratar mal! nunca mais
-me hei de rir da tua casaca. E, a proposito, tu ainda a tens, aquella
-malfadada casaca? Não me faças rir no dia do meu casamento, pelo amor de
-Deus manda fazer uma nova para esse dia. Não tenhas medo de gastar. Eu
-tenho muito. Sou rica, muito rica, somos todos tres muito ricos.
-
-E douda, anhelante, no delirio da creança que venceu a sua primeira
-teima, na dilatação ampla de uma alma que conquistou o seu desejo
-supremo, Margarida expandia n'estas palavras diffusas, incoherentes, sem
-nexo, toda a felicidade que era hoje d'ella e que julgava eterna.
-
-Thadeu escutava com o olhar morto e vidrado de um somnambulo.
-
-Depois emmudecido por uma dôr aguda que lhe rasgava as carnes de todo o
-seu corpo como um punhal de muitas laminas, sahiu do quarto cambaleando
-como um ebrio.
-
- * * * * *
-
-No dia do casamento de Henrique houve dous entes que na humilde tristeza
-de uma pobre casa, choravam unidos todas as lagrimas da sua alma.
-
-A um d'esses entes pungia-o uma angustia dilacerante demais para que a
-palavra humana a pudesse traduzir.
-
-A outro sobresaltava-o um presentimento horrivel, como que um dobrar de
-finados que lhe écoava lá dentro, e ao qual não podia fechar os ouvidos.
-
-Esses dous entes esquecidos, voluntariamente afastados das pompas
-principescas d'aquelle dia, das festas d'aquella solemnidade esplendida
-eram Thadeu e a irmã de Henrique.
-
-
-XI
-
-De feito havia já cinco annos que viviam juntos em uma casa espaçosa e
-lindissima de Buenos-Ayres.
-
-Henrique pedira com tão meigas e sentidas palavras a Thadeu para que
-elle os não deixasse, que depois da viagem de rigor feita pelos noivos á
-Suissa e á Italia o _bom cão fiel_ foi viver junto d'elles.
-
-As investigações da sciencia, o estudo paciente dos homens e das cousas,
-altas aspirações inspiradas pelo marquez a uma gloriosa carreira
-politica, absorviam Henrique, emquanto que Thadeu mais amadurecido agora
-pela experiencia da vida, administrava a casa, tomava contas aos
-feitores e criados, punha em ordem os róes, recebia os rendimentos,
-pagava aos fornecedores, era por assim dizer o mordomo mór da opulenta
-fortuna da sua companheira de infancia.
-
-Margarida continuava a ser o enlevo e o mimo de quantos viviam junto
-d'ella.
-
-De uma organisação delicada, nervosa e vibratil, com um aspecto
-infantil, que infundia uma vaga e doce idéa de protecção; boa, d'esta
-bondade superficial e egoista, que consiste em não gostar de ver ninguem
-triste ao pé de si, todos os seus caprichos se convertiam n'outras
-tantas graças, todas as suas exigencias se impunham com a tyrannia
-adoravel de uma supplica!
-
-O marido tinha por Margarida aquella paixão deleteria e quasi covarde,
-que ella lhe inspirára logo no primeiro dia.
-
-Não sabia resistir senão a muito custo, a um olhar d'aquelles olhos
-humidos e radiantes, a um sorriso d'aquelles labios vermelhos, a um
-gesto d'aquellas mãos finas, esguias, pallidas, da suave pallidez dos
-lyrios.
-
-Não era bem amor, era uma fascinação, uma embriaguez, uma d'estas
-doenças que exercem no cerebro a sua acção paralysadora.
-
-Margarida que nenhuma força superior tentava dominar, déra expansão
-completa a todos os caprichos da sua colorida e quente phantasia.
-
-Adorava o luxo, as cousas d'arte, a musica, as flores raras, frequentava
-muito o alto mundo onde era requestadissima, vivia na perpetua idolatria
-de si propria, que a pouco e pouco a inutilisava para os graves deveres
-da vida.
-
-Thadeu no meio da sua céga e embrutecedora adoração obedecia-lhe como um
-escravo. Só elle sabia as despezas collossaes, as extravagancias
-principescas d'aquella pequenina pessoa, activa, graciosa, phantasista
-como um poeta oriental.
-
-Mas economisava ridiculamente em todas as verbas, para que _ella_, a
-rainha, a _perola_, a _Margarita_ dos seus sonhos d'outro tempo não
-franzisse um minuto a sua testa curta, a sua testa de teimosa, na
-contrariedade de um desejo insaciado.
-
-E ella estava tão habituada á submissão e á humildade d'aquelle pária,
-que o tratava como um traste, um objecto seu, com o qual não tinha de
-mostrar o minimo constrangimento, a minima attenção affectuosa.
-
---Thadeu, quero isto! Thadeu, quero aquillo! Thadeu, vi hoje na loja de
-F. um adereço de um conto de réis. Se o não mandar buscar até ámanhã
-vendem-n'o. Eu quero-o. Não me deixes ficar sem elle. Fazias-me chorar!
-
-Não lhe pedia a lua como em outro tempo, mas quantas vezes lhe pedia
-cousas quasi tão inacessiveis como a lua!
-
-Margarida tinha dous filhos. Um menino e uma menina. Dous cherubins.
-
-Mais meigos do que a mãe nunca fôra, mais doceis, mais tranquillos,
-tendo no olhar a serenidade melancolica do olhar de seu pae!
-
-Thadeu envelhecido, de uma velhice precoce que assombrava os que o
-haviam conhecido na infancia, tinha por essas duas creanças um louco
-amor de avô.
-
-Aquelles quatro seres eram a sua vida.
-
-Fundia-os a todos na mesma adoração apaixonada e timida.
-
-Vivia d'elles e para elles.
-
-Henrique era o seu respeito. Margarida o idolo do seu passado, os dous
-cherubins louros, a unica esperança suave do seu futuro.
-
-Sacrificar-se, esquecer-se, abnegar de si, eis o modo obscuro e sublime
-pelo qual elle sabia querer!
-
-Mas os dous pequeninos que não eram turbulentos nem crueis, tinham nas
-suas caricias inconscientes o balsamo poderoso, o balsamo divino para as
-chagas occultas d'aquelle coração que a vida ulcerára tanto e tanto.
-
-
-XII
-
-Desde algum tempo que Thadeu andava inquieto.
-
-Com o seu faro finissimo de rafeiro fiel presentia no ar um perigo
-desconhecido, alguma cousa de mysterioso e de sinistro, que ouvia rugir
-ao longe como no fundo de uma voragem.
-
-Na apparencia todos viviam tranquillos:
-
-Henrique sempre bom, sério, pensativo, de uma indulgencia de forte, de
-uma doçura de heroe.
-
-Margarida sempre buliçosa, inquieta, cheia de desejos infantis, de
-caprichos, de alegrias ruidosas ou de melancolias subitas que ás vezes
-no silencio da sala fôfa e discreta pareciam a Thadeu um grito de alarme
-na monotonia do deserto.
-
-As criancinhas... sempre os seus mais dôces amores, aquelles de que
-jámais lhe proviera uma amargura.
-
-Quando Thadeu pensava que podia uma fatalidade qualquer separal-o dos
-seus dous anjos, desatava a chorar como um perdido na solidão do seu
-quarto.
-
-
-XIII
-
-Elle estava sentado ao pé da mesa. Primeiro estivera fazendo contas,
-róes de casa, agora pendia-lhe a cabeça embevecido n'uma vaga scisma.
-
-Sem saber explicar por que, n'aquelle dia lembravam-lhe tantas cousas do
-seu passado!...
-
-Sentia dentro de si uns vagos assomos de revolta, lembrando-se das
-humilhações que padecêra, dos tratos com que lhe haviam enfraquecido o
-corpo e atrophiado a intelligencia. Depois... na sua vida, até ali
-obscura e dolorosa, surgia de repente envolta nas rendas brancas do seu
-berço uma visão deliciosa, uma pequena fada, a sua amiguinha, a sua
-Margarida!...
-
-Como fôra feliz com ella e por amor d'ella...
-
-Comtudo... pensando bem... para essa felicidade chymerica fôra elle quem
-fornecêra todos os elementos. Ella nunca vira no pobre Thadeu senão um
-instrumento dos seus caprichos, um escravo das suas vontades...
-
-Em todas as delicias com que dourara a sua vida não havia uma só que
-fosse nascida da vontade de ser-lhe boa, util, consoladora!...
-
---É verdade, murmurava o pobre doudo, é verdade! Ella nunca teve
-coração!
-
-E suspendeu-se como que aterrado d'aquella blasphemia.
-
-N'este momento Margarida entrava pelo quarto de Thadeu, pallida como um
-cadaver, com os grandes olhos dilatados n'uma expressão de
-indescriptivel pavor.
-
-Agarrou-se-lhe ao braço e disse lhe baixo, n'uma voz estrangulada e
-rouca:
-
---Henrique chegou da quinta. Eu não o esperava. Contava que elle viesse
-ámanhã. No meu gabinete ha uma pessoa que deve sahir sem que meu marido
-a veja. Ouves? Estou perdida... Estava perdida mas lembrei-me de ti...
-Salva-me...
-
-Não me digas nem uma palavra, proseguio vendo que elle ia fallar. Uma
-demora de segundos perde-me sem remissão.
-
-E sahiu com o seu passo miudinho, o seu passo _chic_, aprendido de
-passagem nos _boulevards_ de Pariz.
-
-Thadeu sahiu do quarto, e quando tornou a entrar ali, acompanhava-o um
-moço muito pallido, de bigode louro, cabello cuidadosamente frisado e
-_toilette_ irreprehensivel.
-
-Não trocaram uma palavra. Thadeu apontou-lhe para uma cadeira, fechou a
-porta do quarto á chave e sentou-se junto da janella, que dava sobre o
-jardim.
-
-Era em plena primavera. Pela janella aberta entrava um perfume vago e
-subtil, um perfume de rosas, de madresilva e de baunilha em flôr.
-
-Ouvia-se o rir e o chilrear das duas creanças, e entre as ramarias
-entrelaçadas dos grandes arbustos exoticos, Thadeu viu passar com os
-seus meneios serpentinos, o seu vestido branco, a sua cabelladura
-d'ouro, a figura esbelta de Margarida pendida ao braço do esposo com
-quem fallava baixinho.
-
-Foi a ultima visão que teve d'ella.
-
-Uma visão de perfidia felina e de felina formosura.
-
-
-XIV
-
---Deixe-se estar quieto. Não vê que não póde sahir d'este quarto senão á
-noite? pronunciou a voz enrouquecida de Thadeu.
-
-E sem dar mais attenção ao seu odioso hospede, poz-se a arranjar papeis,
-uma trouxa de roupa, algumas velhas reliquias, os retratos dos seus dous
-pequeninos, dos seus _netos_ como elle lhes chamava.
-
-Depois despregou da parede as duas photographias de Henrique e de
-Margarida. A d'elle beijou-a, e guardou-a com as dos pequeninos. A
-d'ella... approximou-a d'uma vela que acendêra e deixou-a arder até que
-ficaram só cinzas. Estava medonhamente livido.
-
- * * * * *
-
-Era noite: sentiu o rumor conhecido da hora de jantar, esperou que o
-criado viesse chamal-o e respondeu-lhe:
-
---Diga aos senhores que jantem. Eu hoje estou convidado fóra, não os
-posso acompanhar.
-
-Olhou para o homem que alli estava na mudez estupida dos malvados, que
-são ridiculos, e disse-lhe:
-
---Venha d'ahi.
-
-Sahiram juntos.
-
-Thadeu nunca mais voltou; não pôde.
-
-Pediu a esmola de um agasalho á irmã de Henrique, e achou meio de fazer
-n'um escriptorio cópias que lhe rendem tres tostões diarios!
-
-D'isso come e d'isso se veste.
-
-Fingiu-se offendido com Henrique por uma duvida mesquinha de contas, que
-este nunca chegou a perceber.
-
-Aceitou o papel degradante do ingrato que morde a mão que o soccorreu.
-
-Ninguem pôde nunca arrancar-lhe nem uma palavra do seu segredo.
-
-Tem 35 annos e dão-lhe setenta.
-
-As poucas pessoas que o vêem ou o desprezam por absolutamente
-insignificante ou têm por elle a commiseração que inspira um idiota.
-
-
-
-
-O TIO SEBASTIÃO
-
-
-I
-
-Não havia cousa que mais alegrasse o tio Sebastião, um velhito que
-conheci em uma aldeia perto de Braga, do que fallarem-lhe no filho que
-estudava em Coimbra.
-
-Sorriam-se-lhe os olhos, e um contentamento intraduzivel
-espelhava-se-lhe no rosto.
-
-Quando lhe elogiavam o caracter, o talento, a bondade e a applicação do
-rapaz, elle fingia que não acreditava, dizia que não era tanto assim...
-e repetia:
-
---Favores, meu amigo, favores...
-
-Mas lá no intimo agradecia aquillo tudo, e tinha vontade de apertar nos
-braços a pessoa que fallava com tamanho louvor do filho estremecido.
-
-Quando elle descobria o seu fraco, era quando lhe elogiavam na presença
-outro rapaz, outro estudante.
-
---Sim, sim, mas como o meu! Não é porque o rapaz seja meu filho, mas
-disse-me o prior, e olhe que o prior não é tôlo nenhum, pois disse-me o
-prior que o meu pequeno era o melhor estudante que andava nas aulas de
-Braga, que lh'o tinham dito os proprios mestres. Aquillo tem uma
-memoria! E então lêr! Ás vezes estava horas e horas a ouvil-o, fazia
-gôsto. O talho da lettra já foi melhor, isso foi, mas o prior, a quem eu
-disse isto, consolou-me, dizendo-me que todos os doutores tinham má
-lettra. Assim será, mas as primeiras cartas que o pequeno me escreveu,
-quando foi para o estudo, podem mostrar-se... Quer você vêr uma d'essas
-cartas?...
-
-Toda a gente da aldeia gostava do velho, e não havia uma só pessoa que
-para o lisongear, ao encontral-o, lhe não perguntasse pelo filho.
-
---Obrigado, vae bom! e com um sorriso doce, enternecido e caridoso
-envolvia o da pergunta.
-
-O tempo das ferias, sobretudo as do Natal, que é quando se mata o porco,
-e se fazem filhós, e se conversa animadamente em volta da lareira, era
-anciosa e impacientemente esperado pelo velho; todas as noutes ia ao
-reportorio, que tinha á cabeceira da cama, e pondo uma cruz no dia que
-findára, dizia jubiloso:
-
---É de menos um!
-
-Na vespera da chegada do filho, era uma azafama, um revolver as velhas
-arcas de onde se exala um forte cheiro de maçãs camoezas, e um andar
-tudo n'uma poeira n'aquella casa.
-
---Esta cama não tem roupa bastante, Joanna, dizia para a creada; vá
-buscar mais um cobertor!
-
-E alisava a colcha, endireitando a fronha da travesseirinha, e
-repetindo:
-
---O estudante é muito mimoso, e depois faz frio que não é brincadeira!
-
-Ia á cosinha, era preciso comprar isto e mais aquillo. Examinava os
-armarios, passava revista aos frascos das compotas, e punha de banda as
-garrafas de vinho antigo.
-
---Não que elle gosta do que é bom!
-
-Na rua não esperava que lhe perguntassem pelo filho:
-
---Chega ámanhã, chega ámanhã!
-
-As ancias eram no dia da chegada. Vinha para a porta, esfregando as
-mãos, rutilante de prazer. Todo o pobre que passava tinha uma esmola,
-todo o transeunte um cumprimento benevolo e affavel. Os visinhos
-exploravam aquelle grandissimo e sagrado affecto.
-
---Com que então é hoje, hein?
-
---É verdade, pelo menos assim o espero. Queira Deus que lhe não succeda
-alguma no caminho. Isto de rapazes...
-
---Ha rapazes e rapazes. O seu é uma joia...
-
---Sim, sim, mas ha más companhias...
-
---Qual! E então o juizo e o talento para que servem? Eu tenho ido com
-elle algumas vezes a Braga, e bem vejo as pessoas com quem o seu menino
-se dá. É tudo gente da melhor. E não lhe fazem favor. Todos me gabam a
-sabedoria do seu estudante, todos...
-
---E eu que o diga, affirmava outro.
-
---Então porque não entram? Vejam se apanham um catharral! Está muito
-frio. Ó Joanna, traze duas malgas d'aquelle vinho que sabes, e não te
-esqueças de trazer uma talhada de presunto. Vão beber pinga de
-substancia! Este é do tal que faz peito, hê, hê, hê!
-
---Com que então--diziam os biltres--á saude do sr. doutor!
-
---Que Deus fará! Tornava o bom do lavrador, com as lagrimas nos olhos.
-Mas eu não tenho malga, traze-me tambem uma, que quero beber á saude
-aqui dos amigos.
-
-E bebia de um trago, valentemente, com alma.
-
-O estudante ás vezes, na vinda de Coimbra, chegava a Braga, onde tinha
-amigos e condiscipulos antigos, e ficava mais um dia. De fórma que o
-velho esperava, e ia deitar-se cheio de cuidados; não pregava olho toda
-a noute.
-
-A Joanna, que bebera o mesmo leite que Sebastião, ouvindo-o gemer e
-suspirar, erguia-se, e perguntava-lhe:
-
---Tem alguma cousa, sô Sebastião?
-
---Que é? O estudante chegou? Já me levanto, traze-me a candeia!
-
-E era preciso que a velha lhe explicasse tudo, e que o emballasse
-carinhosamente com aquellas doces palavras com que as mães adormecem os
-filhos rabugentos.
-
- * * * * *
-
-O tio Sebastião, quando casou, tinha cincoenta annos, uns cincoenta
-annos limpos e rijos como não ha ahi muitos trinta.
-
-Emquanto a mãe foi viva, não lhe quiz dar nóra.
-
---Nada! dizia ás pessoas que lhe aconselhavam o casamento, nada! Que
-lucro eu com isso? A velhinha podia não se dar com o genio da mulher que
-eu trouxesse para casa e isso era o inferno para mim. Quem manda
-n'aquella casa é minha mãe, e ha-de mandar em quanto fôr viva. Ella
-ralha, ella grita, ella dá por paus e por pedras, por dá cá aquella
-palha. Deixal-a! Quando rabuja de mais, saio de casa, e a Joanna que a
-ature! São mulheres, e lá se entendem. Se eu me casasse, tinha de acudir
-por uma ou por outra... Nada! boi solto lambe-se todo...
-
-E ainda solteiro fechou os olhos da mãe que lhe morreu nos braços.
-
-Joanna ficou senhora de tudo. Era ella que olhava pela casa, que dava
-ordens, a verdadeira dona da casa emfim. Aquelle novo modo de vida,
-porém, começou a pesar-lhe, entrou a ter saudades do antigo jugo, queria
-receber ordens e não dal-as; a domesticidade era para ella um habito de
-que não havia desacostumal-a.
-
---Sabe o que mais, sô Sebastião? disse ella um dia ao patrão. O tempo
-das rapasiadas passou. Por que não toma estado? Moças é que não faltam.
-É verdade que o mundo vai perdido de todo, mas ainda ha raparigas
-perfeitas e tementes a Deus.
-
---Endoudeceste, Joanna! Eu caso me lá, n'esta edade! Só se fôr
-comtigo...
-
---Lá começa elle com as tolices do costume.
-
-Agua molle em pedra dura...
-
-O tio Sebastião entrou um dia em casa com noiva. Era orphã de pae e
-mãe, era pobre, não tinha parentes a não ser um irmão que fôra para o
-Brazil, e de quem não havia noticias ha muito tempo; contava trinta e
-tantos annos, mas era madrugadôra como um gallo, direita como um vime, e
-valia por dous homens no amanho da vida.
-
-Quando o tio Sebastião lhe fallou em casamento, ella fez-se vermelha
-como uma papoula, hesitou um momento, e atirando com a fouce com que
-andava a cegar fêno, lançou-se-lhe nos braços, e n'um amplexo formidavel
-de leôa, rompeu com isto:
-
---Esperava esta felicidade ha dez annos. Abrace-me, sô Sebastião, que se
-não fosse comsigo, não me casava senão com a cóva.
-
-Vinha de longe o affecto d'esta mulher pelo bondoso homem.
-
-O pae de Carlota cahiu entrevado; o tio Sebastião ao passar-lhe um dia á
-porta ouviu choros e lamentações; entrou e soube que havia alli
-necessidade e quasi fome; a filha unica do invalido, Carlota, tinha de
-ficar á cabeceira do catre; as ultimas economias haviam-se extinguido
-pouco a pouco.
-
-O tio Sebastião soccorreu aquella gente, mandou chamar o medico a Villa
-Verde, pagou os remedios da botica e por fim o enterro do infeliz.
-
-Entre as poucas pessoas que acompanharam á egreja o modesto ataúde, ia
-o tio Sebastião curvado, melancolico, com o seu rosto barbeado, e cheio
-de bondade e lhaneza.
-
-Carlota, que chorava a um canto do albergue, com as mãos atadas á cabeça
-despenteada, ao vêr entrar o bemfeitor, não lhe agradeceu as esmolas com
-palavras ociosas--arrastou-se para elle de joelhos, e agarrando-lhe nas
-mãos beijou-as com devota soffreguidão.
-
-Passados tempos o tio Sebastião esquecera-se d'aquelle episodio, e nem
-sequer reparou que a melhor cantadeira do logar, que inquestionavelmente
-era a Carlota, deixava de cantar todas as vezes que elle passava por uma
-certa azinhaga...
-
-Se elle volvesse o rosto veria no meio das hervas altas e humidas, ou em
-cima dos castanheiros folhudos e entrelaçados de pampanos, um vulto de
-mulher voltado para elle, a devoral-o com a vista, a seguil-o, a
-banhal-o na luz cariciosa de um longo olhar enamorado.
-
-Não deu por tal o tio Sebastião; Joanna, porém, que era amiga de
-Carlota, adivinhou o segredo, e o resultado sabe-o o leitor.
-
- * * * * *
-
-Tres annos depois do casamento o tio Sebastião enviuvára.
-
-Ficou-lhe um filho, uma creancinha loura e adoravel, o vivo retrato da
-mãe.
-
-O lavrador concentrava no pequeno todos os affectos, amava-o até á
-insania.
-
-O rapaz cresceu rodeado de caricias, de mimos e de ternos cuidados.
-
-Não havia vontade que se lhe não fizesse. Era um pequeno rei despotico a
-cuja voz o pae e a velha Joanna se curvavam com cega obediencia.
-
-Ao completar seis annos, por conselho do prior, começou o pequeno a
-estudar as primeiras lettras com o professor régio da freguezia.
-
---Temos homem, dizia o prior ao velho; o rapaz vae bem, estuda e aprende
-com facilidade.
-
---Quando me lembro que posso morrer sem o ouvir cantar a missa nova,
-parece-me que estalo de pena.
-
---Ó senhor prior, o meu rapaz dava ou não dava um padre de mão cheia?
-
-Era para padre que o velho destinava o filho, sonhava todas as noutes
-com a sua primeira missa, via-o com as vestimentas engommadas e duras
-do sacerdocio, deante do altar da egreja da freguezia, no meio de nuvens
-de incenso, emquanto os padres cantarolavam ao som plangente e arrastado
-do orgão, e os sinos tangiam alegres repiques, e subiam ao ar as
-girandolas de foguetes impregnando de um espesso cheiro de polvora o
-adro enramilhetado de murtas...
-
-Prompto nas primeiras lettras, foi o pequeno Sebastião para Braga onde
-se matriculou no lyceu.
-
-N'este entrementes chegou do Brazil o irmão de Carlota. Foi á aldeia
-natal, procurou os parentes, e soube que todos tinham fallecido,
-restando-lhe tão sómente um sobrinho.
-
-O brazileiro era solteiro, e doente; não vinha millionario, mas tinha
-mais do que o sufficiente para dar uma bonita carreira ao estudante.
-
---Olhe, mano, disse ao cunhado, deixe isso ao meu cuidado, eu me
-encarrego do menino. O bem que desejava fazer a meus paes, que
-infelizmente não encontrei, hei de revertel-o em favor de meu sobrinho.
-
-Uma condicção exijo: não quero que o rapaz se ordene. Quero dizer, se
-isso fôr da sua vontade, d'elle, não me opponho, mas deixemos o tempo ao
-tempo. Cá a minha opinião é que elle deve estudar medicina. Os medicos
-ganham muito dinheiro em toda a parte, e no Brazil sobretudo, onde o
-mais réles tem carruagem. Está por isto? O rapaz quando acabar os
-estudos em Braga vae para Coimbra?
-
-O tio Sebastião custou a descer d'aquelle sonho em que andára tantos
-annos embevecido. Mas por fim cedeu.
-
-O brazileiro demorou-se alguns annos ainda em Portugal. A quebra, porém,
-de uma casa importante do Rio chamou-o ao Brazil, para onde partiu
-deixando ao sobrinho, que até então se havia portado com singular e
-exemplarissimo discernimento, ordem franca para receber tudo que lhe
-fosse preciso n'uma das casas mais acreditadas do Porto.
-
- * * * * *
-
-Um dos estudantes que mais dinheiro gastava em Coimbra por aquelles
-tempos era Sebastião Alves, a quem a convivencia com os rapazes oriundos
-das mais nobres familias de Portugal empavonára e envaidecêra
-extremamente.
-
-No seu quarto, que elle adornára com excessivo e inaudito luxo para um
-estudante, reuniam-se todos os que sobresahiam em Coimbra pela
-fidalguia, pela força, e pela estroinice.
-
-Sebastião entrou a ser explorado; pediam-lhe dinheiro que nunca era
-restituido, vestiam-lhe o fato, calçavam-lhe as botas, e comiam-lhe
-ceias abundantes e regadas de vinhos caros.
-
-Com aquella vida era incompativel o estudo e a reflexão. Deixou de ir ás
-aulas. Enganava o tio e o pae, enviando-lhes certidões falsas dos
-_actos_ que nunca fizera.
-
-Havia dous annos já que não ia á aldeia, cujo viver lhe aborrecia e se
-lhe figurava mesquinho e chato.
-
-Quando os estudantes partiam para férias, contentes e alegres para os
-abraços da familia, Sebastião Alves deixava tambem Coimbra, percorria as
-praias, ia ao Porto, a Cintra, ao Bussaco.
-
-Aquella vida inutil e varia era de quando em quando remordida pelo
-remorso, todas as vezes que o vadio recebia as cartas do pae, que,
-apesar de não terem ortographia, e de serem escriptas com uma lettra
-grotesca e pesada, lhe avivavam o entranhado amor com que elle era
-querido por aquelle amantissimo coração de velho.
-
-
-II
-
-O brazileiro voltára a Portugal. Em Santa Apolonia comprou bilhete para
-Coimbra, mas adormecendo profundamente só acordou quando ouviu um
-empregado gritar: Granja!
-
---É o mesmo, disse comsigo. Até é melhor. Fico no Porto, e escrevo ao
-Sebastião que venha ter commigo se quer ir vêr o filho a Coimbra.
-
-Escreveu. Se o tio Sebastião queria ir a Coimbra! N'isso pensava elle
-havia semanas, porque já não podia com as saudades.
-
---Já cá estão dous carros e uns pósinhos, dizia elle, se não fosse isto,
-quem ia vêr o rapaz era o filho de minha mãe...
-
-O convite do cunhado alvoroçára-o de alegria e de desusado
-contentamento. Ria alto, andava radiante, cantava:
-
- Á uma hora nasci,
- Ás duas fui baptisado,
- Ás tres andava de amores,
- Ás quatro estava casado.
-
---Queres tu vir d'ahi, Joanna? dizia elle para a creada que lhe
-arranjava a mala.
-
-É verdade, ó Joanna, não te lembras assim de uma cousa que o estudante
-goste? Uma cousa bonita...
-
-A creada que era gulosa, lembrava-lhe marmelada, doce de ginja, pêras de
-calda...
-
---Upa! cousa melhor...
-
---Quer saber? disse a velha, com os olhos accesos de quem achou um
-thesouro, e a mim que me não lembrou logo! Eu cá se fosse o sô Sebastião
-comprava uma medalha de ouro como a que o sr. Morgado traz no cordão do
-relogio; mettia-lhe dentro o retrato da fallecida, e levava isso ao
-menino que ha de ficar no ceu ao vêr a mãesinha que Deus lhe levou.
-
-O tio Sebastião approvou a ideia. O retrato foi tirado da parede, tinha
-sido feito em Braga, logo nos primeiros tempos do casamento.
-Representava Carlota vestida com uma saia de seda preta, lustrosa, cheia
-de vincos, com grossas arrecadas, e uns enormes grilhões no peito largo
-e afflante, os pés nús n'umas chinellas bicudas de verniz. Na mão
-direita tinha um lenço cheio de bordados, tufado. A esquerda descançava
-nas costas de uma cadeira, e os grossos dedos d'essa mão pendiam para a
-palhinha, lanzudos, reluzentes de anneis. Nos olhos de Carlota havia o
-espanto de quem vê bruxaria, uma especie de pavôr disfarçado.
-
-O lavrador pegou no retrato, e esteve a olhar para a mulher. Não chorou,
-nem teve saudades, estava absorvido por um sentimento superior.
-
---Ó Joanna, mas o retrato é grande e a medalha pequena. Eu não tenho
-alma de degolar o retrato...
-
-A creada sorriu-se.
-
---Pois leve o retrato e a medalha ao menino, e elle lá que o mande
-arranjar...
-
-Na manhã seguinte almoçava o tio Sebastião com o cunhado, e partia
-n'essa mesma tarde para Coimbra, onde chegaram de noute. O brazileiro,
-cheio de cansaço, adoentado, propoz que se adiasse a visita ao estudante
-para o outro dia. Que eram horas d'elle estar a estudar; que não era bom
-distrahil-o das suas obrigações. O tio Sebastião, porém, não se
-convenceu. Disse que iria só, que não podia esperar, que não dormiria
-bem sem dar um abraço no filho. Partiram ambos.
-
-Os viajantes bateram á porta da casa de Sebastião Alves, maravilhados de
-verem as janellas abertas e a casa completamente ás escuras. Ninguem
-lhes respondeu.
-
-Bateram de novo.
-
-Uma visinha com a sua voz fina e cantada perguntou o que desejavam, e
-explicou que o sr. Sebastião Alves tinha ido ceiar com uns amigos a uma
-hospedaria da baixa.
-
-Perguntou o brazileiro onde era essa hospedaria, e para lá se encaminhou
-com o ancioso companheiro, que ao vel-o meditativo resmungava como que
-para attenuar a extravagancia:
-
---Rapazes! um dia não são dias.
-
-As ruas da alta estavam solemnemente silenciosas, os transeuntes eram
-raros.
-
-Ao passarem por uma casa, cujo primeiro andar tinha as janellas abertas,
-viram um estudante com a cabeça encostada ás mãos, absorvido e com os
-olhos n'uns livros...
-
---Aquelle tambem é rapaz, tornou o brazileiro com gesto sentencioso, mas
-faz a sua obrigação. Quem vem para aqui é para estudar...
-
-Ao subirem as escadas da hospedaria ouviram um grande rumor, vivas, e
-_hurrahs_ freneticos e enthusiasticos; os creados açodados, vermelhos,
-passavam com largas travessas fumegantes...
-
---Desejamos saber, disse o brazileiro a um dos creados, se o sr.
-Sebastião Alves está aqui.
-
---Está, sim senhor, se lhe querem fallar, vou dar-lhe parte...
-
-O brazileiro tirou meia corôa da bolsa de prata, e dando-a ao creado
-continuou:
-
---Não queremos perturbar o sr. Sebastião, fallar-lhe-hemos depois. O que
-desejamos é um quarto onde possamos esperar até que finde a ceia. Faça
-favor de lhe não revelar que estamos aqui, é uma surpreza que queremos
-fazer ao estudante; e sorriu contrafeito.
-
-O creado conduziu-os a uma sala, separada d'aquella em que os estudantes
-ceiavam simplesmente por uma porta.
-
-O tio Sebastião tinha o coração aos pulos dentro do peito.
-
---Eu vou lá; dizia baixo com a voz tremula, quero vel-o.
-
-O cunhado conteve-o.
-
---Espreite pelo buraco d'essa fechadura que já o vê.
-
-O velho curvou-se e olhou.
-
---Lá está elle! lá o vejo. Está mais magro... aquillo talvez seja do
-estudo. Coitado! Mas que chibante que elle anda! Os outros ao pé d'elle
-parecem uns pobretões! Um até tem a vestea toda rota e cheia de nodoas.
-Aquillo que elles trazem é assim a modo de batina de padre... pois não
-é? Espera, ó mano! lá vae o meu filho levantar-se. Ó meu rico filho da
-minha alma!
-
-Sebastião levantára-se de facto para fazer um brinde.
-
-Tinham bebido á saude das mulheres, do amor, da gloria, do talento...
-
-Sebastião, um tanto inflammado de repetidas libações, fez uma saude a
-um velho que estava sentado á meza, um pouco distanciado do grupo dos
-estudantes.
-
-O brinde foi estrepitosamente victoriado.
-
-O velho agradeceu n'estes termos:
-
-«Muito obrigado, meus senhores! Reconhecido pela deferencia com que me
-honram, consintam que beba á saude do pae do cavalheiro que me brindou.»
-
-O brazileiro disse:
-
---Tome, mano! aquillo é comsigo!
-
---Mas eu vou lá, vou dar um abraço n'aquelle honrado homem que se
-lembrou de mim...
-
-Os estudantes ergueram os copos.
-
---Á saude de teu pae, clamaram.
-
---Que infelizmente está longe, disse commovido pelo vinho Sebastião
-Alves.
-
---Longe! qual longe, nem meio longe, tartamudeou o tio Sebastião, e ia
-para lançar-se pelo corredor fóra, quando o brazileiro de novo o reteve.
-
---Espere homem! o rapaz talvez fique envergonhado se lhe apparecermos
-assim de repente.
-
---É verdade, meus senhores, disse um dos da roda, um que passava por
-orador e que gostava de fazer estylo.
-
-«O pae de Sebastião está longe, vive em plagas distantes, em terra de
-Santa Cruz n'esse paiz uberrimo, monstruoso, gigante, que se chama o
-Brazil, e onde os nossos recebem uma hospitalidade tão franca e tão
-generosa. Brindando ao pae de Sebastião, brindo aos nossos irmãos de
-além-mar.»
-
---O que diz elle? resmungou o tio Sebastião, que eu estou no Brazil? Não
-é má!... e atabafava o riso.
-
-O brazileiro comprehendeu tudo e murmurou: canalha!...
-
-Um dos rapazes que fôra condiscipulo de Sebastião em Braga, voltando-se
-para este, disse:
-
---É verdade, ó Sebastião, aquelle velhinho que uma vez te acompanhou á
-mala posta, e que eu vi a chorar como uma creança na rua da Conega
-quando se despediu de ti, era teu avô? Muito gostei eu do velhinho.
-Parece que o estou a vêr a acenar-te com o lenço, correndo com as suas
-pernas tropegas e cansadas atraz da carroagem, a dizer: O Senhor vá na
-tua companhia!
-
-Sebastião avincou o rosto, um rubor subito incendiou-lhe as faces, e
-partindo uma noz, respondeu:
-
---Esse velho era caseiro de uma quinta que meu pae comprou quando esteve
-ultimamente em Portugal.
-
-O tio Sebastião voltou-se para o brazileiro. Estava livido, tinha os
-labios apertadamente unidos, os olhos injectados de sangue. Esteve um
-segundo, com os olhos fitos nos do cunhado, sem poder articular uma
-palavra, bamboleando a cabeça, respirando offegantemente pelas narinas
-palpitantes e dilatadas; depois cahiu nos braços do cunhado e prorompeu
-n'um soluçar dilacerante e pungitivo:
-
---Ingrato! ingrato!
-
- * * * * *
-
-Quando o tio Sebastião chegou á sua aldeia, vinha pallido, desfeito,
-parecia desenterrado.
-
-A velha Joanna assustada perguntou-lhe:
-
---Que foi? que foi? E o menino?
-
---Morreu!
-
-
-
-
-O ANNEL DO DIPLOMATA
-
-
---Parecia que vendia saude... tão forte que era!...
-
---É verdade! quem o havia de dizer!
-
---Era uma creança ainda, pouco mais tinha de setenta annos, volveu outro
-que, pela figura e pelo andar tropego e vacillante, denotava ter os seus
-oitenta, bem puxados.
-
---E olhe que era um bom homem! Você não viu como a filha chorava quando
-o pozemos em cima da cama? Cortava o coração, coitadita!
-
---E honradinho! Eu sei cá! Poucos se topam por ahi com tão bons
-sentimentos e com cara tão limpa...
-
---Lá isso!...
-
---Não, que quem sahe aos seus não degenera!
-
---Era muito amigo da pobreza! tartamudeou uma velha.
-
---Ó Christo! era o pai da pobreza, é o que vossemecê deve dizer, tia
-Joaquina.
-
---E depois olhe que era o melhor letrado d'estas oito leguas em redondo.
-
---Aquillo era um _selvage_...
-
-Assim fallavam alguns individuos pertencentes a diversas cathegorias da
-pequena sociedade da villa de X***, descendo as escadas da casa do
-advogado Vasconcellos que cahira mortalmente fulminado por uma congestão
-cerebral, no momento em que defendia calorosamente um individuo que
-n'uma allucinação brutal de ciume assassinára a mulher e dous filhitos.
-
- * * * * *
-
-O advogado Vasconcellos morrêra pobre, sorte de todos os causidicos de
-provincia, que logram vencer, quando muito, por mez, o que qualquer dos
-collegas de Lisboa e Porto dá aos seus agaloados trintanarios.
-
-Filho segundo de uma casa de bom nome na provincia do Minho, cursava
-canones e leis na Universidade, no anno de 1828, emigrando n'esse mesmo
-anno, e vindo terminar o curso mais tarde, depois de ter defendido a
-causa da liberdade, de parceria com outros condiscipulos, que tão
-assignaladamente se distinguiram depois na politica, nas armas e nas
-lettras.
-
-Depois de formado, recolheu-se á sua villa natal, e não podendo contar
-com a mezada que seu irmão lhe arbitrára, visto que os rendimentos da
-casa mal chegavam para a alimentação e sustento do primogenito, abriu
-banca de advogado, dependurando de um dos lados da estante de pinho,
-encimada pela pasta verde e encarnada de quintanista, a lata com os seus
-pergaminhos de bacharel _in utroque_, e de outro lado a farda impregnada
-da polvora de vinte combates e varada pelas balas dos servidores
-d'el-rei nosso senhor, no cerco do Porto.
-
-A formosa irlandeza que o acompanhára no exilio, e que lhe foi denodada
-companheira nas asperas provações da vida, morreu-lhe pouco tempo
-depois, deixando-lhe dous filhos, um rapaz e uma menina.
-
-Tanto um como outro eram educados com sollicitude e esmero, que para a
-educação dos dous não se forrava aquelle pae amantissimo nem a despezas
-nem a trabalhos.
-
-O rapaz foi para Coimbra, e a menina para o convento das Salesias em
-Lisboa, de onde recolheu quando o irmão entrava para o primeiro anno
-juridico.
-
---É preciso estudar, Antonio, olha que se eu não tivesse aquellas
-cartas, tinha de andar a cavar nas hortas de meu irmão, ou de esmolar
-nas escadas ignobeis das secretarias um logar de porteiro ou de
-amanuense, e isto ainda assim, apresentando como documento dos meus
-serviços aquella farda...
-
-Não eram necessarios estes conselhos. Antonio de Vasconcellos foi sempre
-um sisudo moço, estudioso, o que não quer dizer que aquella mocidade
-fosse bisonha e avessa ás ridentes alegrias dos vinte annos.
-
-Pobre da arvore que ao sorrir da primavera se não estrelleja de flores,
-e em cujos ramos folhudos e a revêrem seiva não cantam as toutinegras e
-não assobiam os melros!
-
- * * * * *
-
-Recolhia-se á sua casa, em Coimbra, o moço estudante, alegre e contente
-de si por ter correspondido bizarramente, n'uma sabbatina, ao alto
-conceito em que o curso o tinha, quando lhe entregaram uma parte
-telegraphica.
-
-Rasgou alvoroçadamente o sobrescripto, leu e empallideceu horrivelmente.
-
---Meu querido pae! murmurou, e curvado sobre a sua mesa de estudo deixou
-cahir a cabeça nos punhos fechados. Pobre pae! pobre pae! que me não
-chegou a ver bacharel!
-
-Na manhã do dia seguinte entrava por casa dentro, ao passo que descia as
-escadas o caixão em que vinha mettido o pae.
-
-Quizeram-no affastar, esconder-lhe aquelle espectaculo lutuoso, mas elle
-resistiu, e abraçado ao cadaver do pae chorava como choram os que de
-repente sentem que o braço amoravel que os guiava n'esta vida enfraquece
-e esfria para sempre, deixando-os na mais desconsolada e algida das
-solidões.
-
-Amparado nos braços de um amigo da infancia, entrou no aposento em que a
-irmã pallida e desfeita expedia gritos clamorosos e hystericos.
-
---Sósinha, repetia a misera, sósinha!
-
---E eu, minha querida Francisca? Não te lembraste do teu irmão? disse o
-moço engulindo as lagrimas, e fazendo-se forte para dar coragem á
-desgraçada menina.
-
-Assim no alto mar quando o temporal arripia e ennovela as ondas, e o
-velame bate nos mastros com o ruido molhado das azas de uma ave que se
-afoga, e a marinhagem assustada grita e pragueja ante a morte proxima e
-inevitavel, o capitão que tem filhos e esposa, longe n'uma pequena
-aldeia á beira-mar, dá ordens com voz tranquilla, e commanda a manobra
-com a serenidade de quem vê perto as aguas quietas e espelhadas do
-ancoradouro.
-
- * * * * *
-
-Volvidos alguns dias, desceu o estudante ao escriptorio. Examinou as
-gavetas e os moveis, a vêr se o pae havia feito as suas ultimas
-disposições. Não encontrou senão minutas, autos, libellos em principio,
-considerações juridicas.
-
---Parece-me que o estou vendo! A ultima vez que o vi, estava aqui
-sentado e perguntou-me a rir se eu sabia o que era um libello!--disse o
-moço para a irmã, que o acompanhava.--Respondi-lhe, e elle tornou:
-
---Caspité! Pois olha, que quando deixei Coimbra não o sabia. A minha
-universidade foi esta banca. Aqui é que se aprende, deixa lá! E depois
-tu verás!
-
-Mal sabia elle que eu nunca havia de vêr isso...
-
---E porque, Antonio?
-
---Porque? porque estamos pobrissimos. O pae morreu honrado, mas sem
-recursos. O que nos resta, filha, são umas cincoenta moedas, que a nossa
-velha Joanna ajuntou com as soldadas ganhas no serviço da casa de nossos
-avós, e n'esta... casa que é hoje d'ella, porque é ella que nos tem
-sustentado desde que nos faltou o nosso querido amigo...
-
-Bateram n'este momento á porta do escriptorio, Antonio de Vasconcellos
-foi abrir. Appareceu no limiar da porta um lavrador que disse,
-desbarretando-se:
-
---Queria dar uma palavra ao sr. doutor...
-
---Meu pae falleceu esta semana...
-
---O que! E eu que o vi ainda ha dias tão fero e rijo! Em nome do Padre e
-do Filho... É o que nós somos n'este mundo... Que Deus o tenha na sua
-gloria, que era um homem ás direitas... Então queira perdoar.
-
-E sahiu emquanto os dous com os olhares atados um no outro, perguntavam
-n'aquella muda linguagem, o que seria d'elles desamparados e sós
-n'aquelle temporal, que tão a subitas lhes escurecera o azul sereno da
-vida.
-
- * * * * *
-
-Alguns amigos do advogado e um parocho d'aquellas circumvisinhanças,
-reunidos n'um sagrado pensamento, ajustaram entre si dar uma mensalidade
-a Antonio de Vasconcellos, que a rogos da irmã acceitou aquelles
-adiantamentos como uma divida que satisfaria mais tarde.
-
-Temos o nosso estudante formado e prompto. Logo que se viu senhor dos
-titulos alcançados pelo seu estudo e applicação, foi á villa natal
-agradecer aos que o haviam tão evangelicamente amparado, e, por
-conselhos de um condiscipulo, dirigiu-se a Lisboa, onde fixou
-residencia, e entrou a frequentar o escriptorio de um dos advogados de
-mais renome no fôro da capital.
-
-Ir para a provincia trabalhar como um mouro, estudar como um
-benedictino; para que? O resultado conhecêra-o elle, que o exemplo lhe
-fôra mais que manifesto na propria familia. Em Lisboa encontraria campo
-mais dilatado onde desafogar as suas altas aspirações.
-
-O peior seria o primeiro anno e ainda o segundo, mas depois acudiriam os
-clientes, e o seu nome adquiriria a gloriosa reputação com que outros
-de menos talento se ufanavam.
-
---Ao principio, Francisca, dizia o moço doutor, não correrá tudo á
-medida dos nossos desejos, mas tu has de ter muita coragem, não é assim?
-Quando eu entrar em casa, e vir um sorriso na tua boca, verás como me
-lanço ao trabalho com vontade e com intrepidez...
-
-Pobre creança!
-
- * * * * *
-
-N'aquella época chegara a Lisboa um individuo que fôra o mais perdulario
-dos _leões_ da Lisboa de ha trinta annos, e que presentemente occupava
-um elevado lugar diplomatico em uma côrte estrangeira.
-
-Contavam-se d'este homem excentricidades que fariam morrer de inveja o
-mais fastiente e _spleenetico_ dos _lords_. Batera-se vinte vezes e por
-motivos diversos, por questões de jogo, por questões de mulheres, e por
-questões de politica.
-
-Espirituoso, valente e rico, passou pelo mais bem acabado producto do
-seu tempo e do seu meio.
-
-Agora velho mas sempre original e taful, era estimado por todos, querido
-nas salas, temido ainda na imprensa e respeitado pelos politicos a quem
-asseteava com o acre azedume de quem já mourejou nos bastidores da
-politica, e lhes conhece de sobejo os fumosos mysterios.
-
-Estava Antonio de Vasconcellos no Chiado, conversando com um
-condiscipulo, quando o diplomata se apeou de um trem, e se deteve a
-conversar alguns instantes com umas senhoras que iam passando.
-
---Sabes quem é aquelle sujeito? perguntou-lhe o condiscipulo.
-
---Não.
-
---É Jorge de Alvim. O velho mais moço que passeia n'esta cidade
-sorumbatica e sôrna...
-
---Esse nome não me é estranho. Foi condiscipulo de meu pae que o
-estimava e tinha em grande conta, e até se me não engano, queimei uma
-larga correspondencia travada entre aquelle homem e meu pae. A elle
-pessoalmente não conhecia, mas é sympathico.
-
---E homem de grande influencia politica.
-
-N'este momento o cavalheiro F. e o ministro L. que passavam,
-acercaram-se do diplomata e demoraram-se com elle em palestra em que
-pareciam enlevados.
-
---Repara tu como elles o tratam! concluiu o condiscipulo de Vasconcellos
-ao dar-lhe o aperto de mão de despedida.
-
- * * * * *
-
---Sempre me decido, Francisca.
-
---Pois vae, Antonio, vae que não deshonra pedir trabalho e protecção...
-
---Receber-me-ha elle bem?
-
---Quem te não ha de receber bem, tôlo? vae que eu fico a pedir a Deus
-por ti!
-
-Antonio de Vasconcellos foi e fallou com o velho amigo de seu pae, Jorge
-Alvim. Contou-lhe toda a sua vida trabalhosa, as luctas obscuras, as
-miserias que affrontára, descreveu-lhe a núa e triste agua-furtada em
-que viviam, elle e a irmã, as longas e plumbeas noites mal dormidas, a
-costura mal remunerada, a dureza dos senhorios.
-
-E no gabinete cheio de conforto e de luxo aquellas palavras tristes,
-desesperadas e expirantes soavam lugubremente como um grito de agonia
-nas alegrias de um noivado...
-
---V. ex.ª não sabia de uma cousa que lhe vou agora dizer. Seu pae
-salvou-me da morte uma vez no cerco do Porto, eu salval-o-hei custe o
-que custar das... garras da...
-
---Miseria, disse o moço com o rosto ligeiramente carminado.
-
---Pois seja assim! Começaremos a combater o monstro hoje mesmo. Para
-isso é preciso que V. Ex.ª envergue as armas proprias para combates
-d'esta ordem. Em vez do arnez, do broquel, das cannelleiras e do elmo,
-aconselho-lhe que se vista com elegancia igual á sua gentileza, porque
-vae combater a féra no salão da mais elegante senhora de Lisboa, e ante
-a presença das nossas mais acentuadas celebridades politicas e
-litterarias. Até logo, não é assim? disse o velho estendendo com uma
-graça adoravel a mão a Antonio de Vasconcellos que desceu as escadas
-enceradas com o coração cheio de sol e de alegria.
-
- * * * * *
-
---Não estejas triste, a casaca fica-te bem, não está muito nova, mas
-ninguem repara. Põe este botão de rosa na casa. É bonito. Vaes mesmo um
-taful--dizia a irmã de Antonio de Vasconcellos recuando e examinando
-amoravelmente o moço.
-
-Depois, com um gesto impregnado de um mixto singular de protecção e de
-doce auctoridade, continuou:
-
---Prohibo-te que estejas com essa cara desconsolada. Digo-te eu que és
-o mais bonito que lá apparece. Depois m'o contarás.
-
-E conversando e rindo n'um abandono divino e infantil, aquelles dous
-camaradas na adversidade, edificavam castellos de ventura, esquecidos de
-que o padeiro n'aquelle dia recusara fiar-lhes mais pão. Oh mocidade!
-
- * * * * *
-
-Jorge de Alvim n'aquelle dia parecia exceder-se a si proprio, tão
-brilhantes eram as suas respostas, tão finas as suas ironias, tão cheias
-de sal as anedoctas com que encantava os conselheiros, ministros e
-jornalistas que estavam á mesa da elegante condessa de X***.
-
-Fallou-se em diamantes. Jorge de Alvim desde logo entrou a historiar
-casos e anedoctas a tal respeito. Narrou as aventuras de diamantes que
-se tornaram celebres pelas peregrinações em que andaram, e assim
-precisou com uma erudição graciosa a historia do _Sancy_, diamante que
-foi de Carlos o Temerario, e que das mãos d'este passou para as de um
-Duque de Florença e depois para o poder do Prior do Crato, que o
-empenhou ao intendente das finanças em França, Harley de Sancy, de onde
-lhe proveio o nome.
-
---Ainda aqui não pára, minhas senhoras, a odysséa d'esta pedra. Harley
-de Sancy quando Henrique IV de França antes de ser reconhecido se achou
-em grandes apuros de dinheiro, mandou vender esse diamante aos judeus de
-Metz. O homem encarregado de tão preciosa missão, cahindo nas mãos de
-uma quadrilha de bandidos, e receiando que lhe roubassem o thesouro que
-levava, engulira a pedra...
-
---Ora essa! disse a dona da casa.
-
---Verdade pura, minha senhora. O cadaver foi descoberto passados tempos
-no bosque de Dôls, e aberto o ventre, acharam o diamante que foi vendido
-a Jacques II de Inglaterra, de cujo poder passou para o de Luiz XIV.
-
---E depois? disse uma das senhoras. Não póde parar ahi esse longo
-peregrinar de que V. Ex.ª está sendo um Fernão Mendes...
-
---Minto?... pois seja assim. O que posso afiançar a V. Ex.ª é que esta
-pedra, depois de varias e encontradas vicissitudes acabou por onde
-acabou a esposa de Meneláu... Foi roubada, e hoje pára nas mãos dos
-Russos.
-
---Justamente o que mais dia menos dia succederá ao seu magnifico annel,
-Sr. Jorge de Alvim, tornou a mesma interruptora, dardejando um olhar
-guloso e felino á pedra do annel...
-
---E é verdade que é lindissimo e de appetite o seu annel; deixa-m'o ver,
-Sr. Alvim? disse uma das senhoras que estava ao lado de Antonio de
-Vasconcellos.
-
-O annel foi passando de mão em mão crivado de admirações e de quentes
-cobiças...
-
-A conversação tomára outro rumo; era o momento dos _toasts_, e então
-Alvim explicou uma usança que lá fóra estava agora muito em moda nos
-jantares da alta vida, a _taça da amizade_.
-
-Ia a descrever este costume elegante quando a senhora que estava á
-esquerda de Vasconcellos soltou um grito.
-
---Ah!
-
---Que foi? O que foi? repetiram em roda.
-
---Tinha aqui o annel e desappareceu-me!
-
-Levantaram-se pratos, arredaram-se cadeiras, houve varias conjecturas.
-
---Estaria aqui? talvez estivesse ali...
-
-E sempre debalde.
-
-Ergueram-se todos, sem cerimonia, turbulentamente, como da mesa de um
-hotel...
-
-O annel não apparecia.
-
-Um dos convivas, celebre no fôro, começou a examinar o rosto de cada
-criado, como quem tenta descobrir o author de um crime.
-
---Uma joia tão rica!
-
---Não está alli por menos de duzentas libras, affirmou um banqueiro.
-
---Ora, pelo amor de Deus, meus senhores, volveu o velho casquilho. O meu
-annel que julgo não tem ainda por ora aventuras, ouvindo as minhas
-narrativas de ha pouco encheu-se de brios, e quiz provar aos incredulos
-que tambem lhe estão reservados altos destinos... Vou propôr a V.
-Ex.ᵃˢ uma cousa que lhes parecerá excentrica, mas que me relevarão,
-já que em Lisboa passo por um ente singular e extraordinario. Ahi vai a
-singular excentricidade que me passou pela cabeça: ao sahir d'esta sala
-hão de todos deixar-se revistar pelos donos da casa. Rejeitam ou
-approvam?
-
-Ouvindo aquella proposta exquisita e quasi que offensiva, alguns
-sorriram, indignaram-se outros, franzindo os sobrolhos, e um pesado
-silencio constrangido cahiu n'aquella sala ha pouco tão sonora de vozes,
-de risos e do fino tilintar da prata e dos crystaes.
-
---Peço perdão, mas opponho-me e rejeito essa proposta!
-
-Quem assim fallava era Antonio de Vasconcellos. Estava pallido como a
-morte, tentava sorrir, mas os dentes cerravam-se-lhe nervosamente, e os
-cabellos empastavam-se-lhe na testa gotejando suor.
-
---Seria elle? disse a dona da casa baixo, e fitando-o tristemente.
-
-E toda a gente que o ouvira como que por instincto affastou-se do pobre
-moço.
-
-Podia ser, que fosse elle. Era pobre, pois não viam isso claramente?
-
-Os olhos de todas as mulheres que alli estavam começaram então
-desapiedadamente a analysal-o por miudo, e passavam-lhe em revista a
-casaca cossada, a pouca finura da camisa, a gravata branca ligeiramente
-encardida, as joelheiras luzidias das calças pretas.
-
---E não é feio rapaz!
-
---Pois sim, mas Lacenaire tambem não era feio, volveu outra menos
-caridosa e mais letrada.
-
-Antonio de Vasconcellos approximou-se de Jorge de Alvim, e baixo com voz
-concentrada disse lhe:
-
---Uma palavra, Sr. Alvim, desejo dar-lhe uma palavra...
-
---É melhor mais tarde... depois..., replicou desdenhosamente Jorge de
-Alvim.
-
-Repararam todos na insistencia de Antonio de Vasconcellos, e as
-suspeitas mais e mais se enraizaram no espirito dos convivas.
-
-O pobre rapaz, que conhecia a falsa posição em que se collocara com a
-sua phrase, sentia-se humilhado e como que vendido n'aquelle meio.
-
-Os proprios criados olhavam-no com manifesto desprezo.
-
-Vasconcellos disse ainda ao diplomata:
-
---Sr. Jorge de Alvim, pela ultima vez, quer ouvir-me?
-
---Homem, já sei; é pobre, teve uma fascinação, já li isso não sei
-aonde... Ah! já sei... n'um conto de Balzac...
-
-E voltou-lhe as costas.
-
-N'esse instante uma voz entaramellada e rouca echoou na sala:
-
---Peço que me escutem! como sou o unico pobre que aqui está, e como
-todas as circumstancias são em meu desfavor, podem julgar que fui eu que
-roubei esse annel. Se não consenti na proposta feita pelo Sr. Jorge de
-Alvim,--e na pallidez do seu rosto destacavam-se duas rosas de
-pejo,--foi porque, se me revistassem, encontravam-me no bolso isto que
-eu furtei para levar á minha irmã que não come desde hontem... disse o
-mancebo tirando da algibeira um pão.
-
- * * * * *
-
-Houve um grande e profundo silencio angustioso. A condessa foi a
-primeira a rompel-o adiantando-se para Vasconcellos.
-
---Pobre rapaz!...
-
-E com o movimento que fez, um objecto brilhante faiscou nas franjas do
-seu vestido.
-
---Permitta-me V. Ex.ª, condessa, disse o banqueiro abaixando-se e
-desprendendo das franjas o objecto que reluzia e chispava: aqui está o
-annel.
-
- * * * * *
-
-Antonio de Vasconcellos occupa hoje com geral applauso e com grandes
-creditos o lugar de secretario, na embaixada de que é ministro seu amigo
-e cunhado Jorge de Alvim.
-
-
-
-
-A ESCOLHA DE GASTÃO
-
-
-Fez verdadeiramente o que se chama _escandalo_, em todas as salas da
-alta roda, o casamento do filho do visconde das Lagôas.
-
-O visconde, cujo nome primitivo era João do Moinho Novo, e que depois
-não sei porque artes se appellidava João Silveira, fôra para o Brazil
-muito moço, creio que com dezoito annos, e voltára de lá com cincoenta e
-archi-millionario.
-
-_Rosnava-se_ muito ácerca das origens d'esta nebulosa e extraordinaria
-fortuna.
-
-Uns fallavam de escravatura, alguns de contrabando, todos de negocios
-pouco lisos e pouco licitos. No fim de contas, porém, o principal é que
-uma pessoa seja muito rica.
-
-Lá o _como_ e _porquê_ são questões secundarias, com que se preoccupam
-muito os invejosos, e um pouco os escrupulosos.
-
-O resto das pessoas, e já se vê que são muitas, essas nem para ahi
-voltam os olhos.
-
-Acham este esmiuçar impertinente das vidas alheias além de enfadonho
-pouco aristocratico.
-
-O visconde passava o verão na provincia do Minho, n'uma povoação perto
-de Vianna, onde comprára um velho palacio, cuja frontaria ennegrecida
-elle mandára cuidadosamente caiar.
-
-O portão do palacio era encimado pelo brazão d'armas da familia
-arruinada a que pertencêra. O visconde, que não quizera conservar mais
-nada intacto, teve a caridosa lembrança de o conservar a elle.
-
-Mandou-o limpar das hervas e dos musgos damninhos que se tinham
-introduzido entre as fisgas da pedra, e dos ninhos que a phantasia
-errante das andorinhas alli armára no estio.
-
-Depois de limpo pareceu-lhe um ornato sympathico e nada contradictorio
-com os seus gostos plebeus, e deixou-o alli ficar, com tenção firme de o
-cobrir de crepe, no caso de lhe morrer algum dos seus.
-
-Foi depois d'isto que se decidiu a pedir ou por outra a comprar, dos
-poderes publicos complacentes o seu titulo de visconde.
-
-O mais modificou-o e transformou-o á sua vontade.
-
-Detestava as ruinas por instincto.
-
-As vastas salas apainelladas e forradas de custosos pannos de Arrás,
-mandou-as estucar á moderna, de côres claras e alegres, vendendo a um
-amador de curiosas velharias,--o mais caro que poude, já se
-entende--aquellas colgaduras ennegrecidas e esfiadas, cujo merito não
-havia nunca logrado perceber.
-
-Vendeu igualmente a velha mobilia, que punha como que um perfume de
-grandeza extincta no arruinado casarão, as credencias marchetadas, os
-tremós de espelho partido ao meio, e em cuja moldura dançavam estranhas
-figurinhas, as cadeiras abbaciaes de couro e pregaria amarella, os
-cofres de pau santo, os tamboretes de carvalho, as reliquias d'um mundo
-que desabára.
-
-Os dominios do visconde depois de transfigurados pelo seu opulento
-proprietario perderam aquelle aspecto desolador, saudoso e melancolico
-que os recommendava aos artistas e aos... morcegos.
-
-Ninguem por mais phantasioso e poeta que fosse, seria capaz de evocar na
-sombra dos longos corredores claustraes, uma d'aquellas figuras que são
-a graça mysteriosa do passado.
-
-Uma castellã pallida e esguia, sustendo nas suas mãos de marfim o missal
-de ricas illuminuras... Um pagem louro e namorado, embevecido no sonho
-de longinquas aventuras e de impossiveis amores... Um vulto de abbade
-austero e glacial, trazendo para o meio do mundo a gelida mortalha da
-sua piedade monastica...
-
-Nenhuma d'essas visões podia agora evocar-se.
-
-Foram derrubadas as arvores silvestres cuja sombra envolvia o palacio
-n'uma austera solidão; arrancaram-se as heras possantes que cobriam com
-o manto vigoroso da sua folhagem verde-negra os muros gastos e
-esburacados; calçaram e ladrilharam os pateos por onde a herva crescia
-indomada e livre, e onde fontes enormes choravam dia e noite com uma
-triste e somnolenta melopeia.
-
-Um jardineiro inglez veio de proposito cortar as moitas de buxo espesso
-do jardim, onde umas estatuas de pedras mutiladas e musgosas pareciam
-ainda relembrar no desamparo da sua nudez friorenta, uma vida inteira
-que o passado abysmára.
-
-Aquella desolação das ruinas e aquelle indomito luxo da natureza
-entregue a si, foram substituidos por todas as graças e coquettismos da
-moderna jardinagem.
-
-Uma estufa de plantas raras, de extranho colorido, de fórmas
-phantasticas e inquietadoras, de cheiro irritante e acre; taboleiros de
-_gazon_ d'uma frescura esmeraldina, camelias, rosas, trepadeiras
-floridas, tudo que as tyrannias da arte teem misturado nas liberdades da
-Natureza.
-
-O visconde depois de haver-se rodeado de tudo que póde tornar aos ricos
-a vida não só aprazivel o que é pouco, mas invejavel o que é muitissimo,
-começou a grangear relações, e a receber com bizarra hospitalidade os
-amigos que durante o inverno adquiria nas salas da capital.
-
-Em Lisboa não era menos rica, nem menos confortavel, a habitação do
-millionario.
-
-Vastos salões ricamente mobilados, equipagens de alto estylo, criadagem
-insolente e ociosa, escadarias alcatifadas, bailes e ceias onde toda a
-côrte concorria tão cheia de curiosidade como de gulodice, jantares aos
-quaes eram convidados os ministros, os titulares, os diplomatas
-estrangeiros e os funccionarios mais influentes, tudo emfim que póde dar
-á vida um aspecto opulento e principesco, tudo que constitue o orgulho
-supremo dos mediocres e a inveja brutal dos ambiciosos.
-
-De resto o dono da casa era tão pouco conhecido da maioria dos
-frequentadores das suas festas, que mais d'um o tomou pelo criado de si
-mesmo, e lhe pediu com desdenhosa insolencia, o paletot, ou um copo de
-agua.
-
-O visconde enviuvára antes de deixar o Brazil, e os que haviam conhecido
-sua mulher, não lamentavam que a pobre senhora fosse dispensada pela
-Providencia de assistir á espectaculosa _mise-en-scéne_ da vida dos que
-tinham sido seus.
-
-O visconde tivera do seu matrimonio, duas filhas e dois filhos.
-
-Na epocha em que elle maior ostentação desenvolvia, teriam as meninas
-dezoito a vinte annos.
-
-Tinham sido educadas em casa, por uma mestra franceza escolhida pelo
-pae. Vestiam-se da _Aline_, quando não mandavam vir directamente de
-Pariz as suas _toilettes_ extraordinarias, e sempre muito além da moda.
-
-Usavam tudo que havia de mais excentrico. Os chapeus mais pequenos, ou
-os chapeus de mais largas abas, os vestidos que deixassem vêr o pé todo,
-ou os vestidos cuja cauda roçagante lembrasse um manto de rainha... de
-theatro.
-
-Havia tempos em que usavam na cabeça o cabello de uma duzia de mulheres,
-e outros tempos em que appareciam de repente de cabello cortado como os
-rapazes, encaracollado e de risco ao lado.
-
-Timbravam em não se parecer com mais ninguem.
-
-Mas não podiam eximir-se a um defeito especial que as fazia darem muito
-na vista. Occupavam-se extremamente de si.
-
-Fallavam do seu _boudoir_, das suas _toilettes_, das meias de sêda de
-tres libras ou doze mil réis--as unicas que traziam--, do elegante
-_edredon_ do seu leito, das finas perfumarias do seu toucador.
-
-Isto fazia rir com riso amarello as _amigas_ mais intimas, que diante de
-gente, costumavam _puxar-lhes pela lingua_.
-
-De resto as filhas do visconde seguiam rigorosamente os preceitos e
-regras da _alta-vida_.
-
-Tinham assignatura em S. Carlos, para serem vistas, e frequentavam
-assiduamente a egreja, para se parecerem com as filhas de condes
-pallidas e anemicas, cujo luxo superior é a devoção e a caridade,
-diluidas ambas as cousas em pequeninas praticas de todos os dias.
-
-Sabiam conversar pouco mais ou menos sobre tudo, sendo no fundo d'uma
-crassa ignorancia ácerca de todas as cousas.
-
-Como dissemos fôra franceza a mestra que as dirigira. Dera-lhes o verniz
-da educação, e mais nada.
-
-De linguas sabiam o bastante para conversarem com os diplomatas; de
-musica, para criticarem o physico das cantoras; de artes para revellarem
-a cada instante a negação profunda que tinham para o bello.
-
-Respeitavam e invejavam todas as superioridades sociaes; o dinheiro, a
-fidalguia herdada ou comprada, a posição, as honras, a formosura.
-
-Desprezavam profundamente uma só cousa: a pobreza.
-
-Quando viam alguem pobre, pouca ou nenhuma attenção lhe prestavam; mas
-se esse _alguem_ tivesse a inaudita ousadia de apresentar uma ideia, uma
-opinião, um juizo, de contrarial-as, de escarnecer alguma das cousas que
-ellas acima de tudo reverenciavam viam-as então revellar um pasmo
-sincero, um espanto que tinha o seu quê de tragicamente ridiculo.
-
-Um dia ouviu alguem a uma d'ellas este aphorismo extraordinario.
-
-_Quem é pobre não tem opinião._
-
-E tinham um modo de levantar a voz, de alçar altivamente a cabeça, de
-sublinhar vigorosamente as palavras, que mais do que tudo confirmava que
-ellas como pessoas que possuiam duzentos mil réis por mez, só para os
-seus alfinetes, não tinham nunca imaginado sequer a possibilidade de não
-terem razão.
-
-Era uma maneira não menos auctoritaria, porém menos correcta de dizer o
-que á senhora de Stael disse um dia a duqueza de la Ferté.
-
-_Il n'y a que moi, chère amie, qui aie toujours raison._
-
-Ahi estão pouco mais ou menos as duas filhas do visconde.
-
- * * * * *
-
-O filho mais velho, que partilhara no Brazil os primeiros trabalhos e as
-primeiras luctas de seu pae, adquirira com a victoria d'elle, que era
-tambem sua, o mesmo ar de ingenua superioridade.
-
-Tinham trazido do Brazil uma fortuna collossal, logo tinham o direito de
-dominarem onde quer que estivessem.
-
-Toda a gente que frequentava a casa d'elles, que lhes aturava a
-impertinencia boçal, confirmava pela sua servil condescendencia esta
-convicção; porque é pois que não haviam de a sentir?
-
-O primogenito do visconde occupava-se muito, com verdadeira alegria de
-seu pae, de cifras e de operações bancarias; jogava em fundos
-extrangeiros, tinha a vocação mercantil pronunciadissima, e nos
-intervallos que estas occupações transcendentes lhe deixavam, governava
-um carro, e mandava _correr_ os seus cavallos.
-
-Estivera em Londres, quando lá fôra deixar n'um collegio o seu irmão
-mais novo, e voltara com certas aspirações a _gentleman rider_.
-
-Fallava pouco, com ar sacudido, apressado, sentencioso.
-
-Usava suissas e vestia d'um alfaiate inglez. Queria ser homem sério,
-respeitavel, homem de pezo, e pensava n'uma candidatura como n'um
-pedestal proprio para as suas attitudes.
-
-É no meio d'esta familia admiravelmente feita para a sua epocha e para a
-posição que tem, que vamos encontrar Gastão, o ultimo filho do visconde,
-um phenomeno destinado a contrariar tudo que se tem dito e escripto
-sobre a lei da hereditariedade.
-
-Gastão tem vinte e um annos, é alto, delgado, d'uma constituição tão
-delicada e nervosa, que ao lado de suas irmãs com o seu ar masculino e
-as suas inflexões duras, elle é que parece a mulher e ellas é que
-parecem os homens.
-
-Dizem os que um dia se atreveram a chasqueal-o pelo ar timido e suave
-que apparenta, que nos seus olhos azues, d'uma expressão triste e
-soffredôra, passou um relampago de colera, pouco tranquilisador para os
-que abusarem da sua excellente educação.
-
-Gastão da Silveira, chegara havia pouco d'uma viagem que fizera pela
-Europa, depois de concluir a sua formatura n'uma Universidade de
-Inglaterra.
-
-Da sua familia não sabia senão que era rica, e que vivia grandemente,
-como elle tinha visto viver os opulentos banqueiros inglezes, nas suas
-deliciosas casas dos arrabaldes da cidade, confortaveis e luxuosas.
-
-Esta informação não lhe faltava porque seu pae, suas irmãs, seu irmão
-mais velho, nunca se cançavam de lh'a repetir em todas as cartas.
-
-Isto porém não bastava a Gastão. O que elle desejaria profundamente, era
-conhecer a fundo o caracter dos seus, e o que d'esse caracter lhe
-revellavam as cartas seccas e laconicas de que fallamos, teimava elle na
-sua fé juvenil, em não o acceitar como prova ou como manifestação.
-
-Tinha pelos seus amigos e condiscipulos conhecido a vida ingleza em
-relação á familia, fôra convidado para passar as ferias, em casa de
-ricos industriaes na companhia de alguns dos seus mais caros collegas de
-estudo, e podera conceber um ideal realisavel, de paz, de conchêgo, de
-conforto domestico, que anciava encontrar no seio da sua familia.
-
-Tinham-lhe dito que seu pae ganhara pelo trabalho a grande fortuna que
-possuia, e Gastão habituado a observar a actividade enorme, incansavel,
-persistente, a fecunda actividade ingleza, sentira crescer o amor pelo
-visconde ao saber a tenacidade com que elle trabalhara.
-
-Intelligente, d'uma intelligencia fina e delicada, a viagem que fizera
-desenvolvera-lhe o espirito, e afinara-lhe o gosto.
-
-Voltava cheio de ideias, de factos, de noções praticas, respeitando
-acima de tudo a intelligencia, e a dignidade da vida.
-
-Como homem educado ao contacto da vida inglesa, avaliava o dinheiro mas
-não como um fim, simplesmente como um meio, o mais energico e infallivel
-dos meios para chegar a grandes fins.
-
-No dia em que Gastão conheceu seu pae e seus irmãos imaginem a dolorosa
-surpresa que elle sentiria.
-
- * * * * *
-
-No animo do visconde e de seus filhos excitou porém o apparecimento
-d'aquelle bello moço de maneiras distinctas, affavelmente dignas, de
-espirito superiormente cultivado, de conhecimentos scientificos
-excepcionalmente desenvolvidos, a mais agradavel das impressões.
-
-Um irmão d'aquelles, um filho de tal maneira elegante e fino, dava-lhes
-honra, dava-lhes importancia e realce. Se fosse um extranho ter-lhe-hiam
-inveja, mas emfim, Gastão pertencia-lhes, era d'elles, a sua graça, a
-sua superioridade, a sua distincção communicava-se-lhes, _destingia_
-sobre as suas pessoas.
-
-O visconde pensava que no fim de contas o que constituia o especial
-encanto do filho, a educação, fôra elle quem a comprára muitissimo cara.
-
-Podia orgulhar-se de Gastão diante dos extranhos mas queria dominal-o,
-subordinar as opiniões d'elle ás suas, mostrar lhe bem claro, que o
-adorava pelo que elle transmittia a sua vida de elegante e de superior,
-mas que o considerava um objecto raro adquirido por muito bom preço, e
-do qual dispunha absolutamente.
-
-As _manas_, essas não occultaram no primeiro momento de enthusiasmo que
-a posse de Gastão lhes dava muito mais _chic_ do que a posse do seu
-_coupé_ novo tirado por dois cavallos inglezes _pur sang_ e cujos
-arreios irreprehensiveis tinham sido louvados pelo embaixador de França.
-
---Ora tu verás, dizia a mais velha para a outra, que as Pimentas em
-vendo Gastão ficam de _fel e vinagre_. Repara bem para a cara que ellas
-fazem, sobretudo se vierem acompanhadas do _mano_, d'aquelle Leopoldo,
-de olhos vesgos, de quem toda gente se ri, e que ainda não acertou a
-fazer uma conta de sommar.
-
-E exhibiam o irmão pelas salas das suas _amigas_, sob pretexto de que
-não tinham quem as acompanhasse, e repetiam _em segrêdo_ a todas as
-pessoas do seu conhecimento:
-
---Não fazem ideia! O mano Gastão é um poço de sciencia. Sabe todas as
-linguas. Eu creio que elle até sabe sanskrito. O papá gastou immenso,
-mas que educação que elle lhe deu!
-
-E por aqui adiante uma ladainha em que se confundiam a _sciencia do
-mano_, os _gastos_ do papá, a inveja que todos tinham d'ambos, e a
-gloria que a ellas provinha da inveja, dos gastos e da sciencia.
-
-Gastão tornara-se o luxo superior da familia.
-
- * * * * *
-
-Foi por esse tempo que o visconde entendeu que era necessario casar o
-filho mais novo, visto que o mais velho dissera com desdem supremo que
-só se atiraria a esse abysmo do casamento, quando tivesse completado os
-seus folgados quarenta annos.
-
---Quando Gastão casar, as pequenas poderão frequentar mais os bailes, os
-saraus e os passeios.
-
-Eu gosto de receber em casa; não me incommodo com isso, mas lá para
-andar sempre pelo meio da rua é que não estou. E depois Gastão póde
-fazer um casamento esplendido. Está n'esses casos por todos os motivos.
-
-E foi resolvido em conselho de familia, que Gastão tomasse estado.
-
-A casa do visconde das Lagôas tornou-se a _mansão de todos os prazeres_,
-como o bom do homem dizia na praça aos seus amigos titulares e
-merceeiros. Bailes, jantares, _petites sauteries intimes_, concertos, a
-fortuna!
-
-A _leôa_ d'estas reuniões, que os noticiaristas immortalisavam na secção
-da alta elegancia mundana, chamava-se Clotilde de Magalhães. O pae
-ambicionava um titulo que ainda não tinha podido alcançar _dos
-governos_, mas que mediante um avultado donativo a não sei que
-estabelecimento bafejado pelo favor da côrte, lhe fôra promettido para
-muito breve.
-
-O conselheiro Magalhães dissera porém ao seu amigo o visconde das
-Lagôas, que essa promessa lhe não bastava, que o que elle queria e
-alcançaria decerto, visto que ao dinheiro nada é impossivel, era um
-titulo em duas vidas, um titulo que elle podesse transmittir a sua filha
-e portanto a seu genro.
-
-O visconde ouviu e comprehendeu.
-
-Desde esse dia as duas familias acariciaram como uma esperança
-lisongeira, o projecto de enlace entre Clotilde de Magalhães, a filha
-unica d'esse conselheiro millionario, e Gastão da Silveira, o elegante
-filho do visconde das Lagôas.
-
-Clotilde tinha vinte e dous annos. Uma esplendida physionomia peninsular
-illuminada por um par de olhos negros, dos que ateariam incendios ha
-trinta annos no seio apaixonado dos tetricos trovadores.
-
-Era intelligente o bastante para occultar o soberano orgulho, que lhe
-esterilisava o coração.
-
-Tudo quanto a educação das salas tem de mais requintado e precioso
-possuia-o Clotilde em larga escala.
-
-Manejava facilmente duas ou tres linguas, cantava com uma voz de
-contralto quente e apaixonada as arias mais enervantes dos mestres
-italianos, dançava com uma perfeição de attitudes que a tornavam celebre
-nos salões, vestia-se bem, sem excentricidades e sem plebeismos de mau
-gosto.
-
-As filhas do visconde das Lagôas invejavam-na ardentemente
-conhecendo-lhe a superioridade dominadora, mas fingiam adoral-a, porque
-da frequencia de Clotilde em casa d'ellas, resultava grande animação
-para as suas _soirées_.
-
-Clotilde que era caridosa em certas horas, e que ostentava o capricho da
-_protecção_, tinha em sua casa, como companheira, pupilla ou o que quer
-que fosse, uma parenta pobre de sua fallecida mãe.
-
-Muitas vezes a levava comsigo ás reuniões mais intimas talvez por um
-refinado instincto de garridice.
-
-Tão admiravel e triumphante era a belleza de Clotilde, como doce,
-modesta, soffredora, era a apparencia de Angelina. D'este contraste que
-a todos os olhos se impunha, resultavam sempre grandes alegrias de amor
-proprio para a elegante herdeira.
-
-Angelina tinha pois uma dupla missão, inteiramente passiva. Fazer
-sobresahir a bondade de Clotilde e a sua formosura.
-
- * * * * *
-
-Quando Clotilde conheceu mais de perto aquelle que seu pae lhe
-promettera muito brevemente para esposo, comprehendeu logo, com a rara
-perspicacia que a distinguia, que o que na sua pessoa havia de mais
-brilhante e admirado pouca ou nenhuma influencia exerceria no coração
-d'elle.
-
-Uma noite em que a filha do conselheiro Magalhães estivera mais rodeada
-de admirações lorpas e de cultos banaes, em que, ebria d'esse grosseiro
-incenso das salas, ella exhibira todas as suas raras e distinctas
-prendas de mulher bonita e de mulher garrida, ousou sorrindo perguntar a
-Gastão, que mais d'uma vez a tinha olhado com mal disfarçada ironia:
-
---Não me dirá qual é o seu ideal de mulher? Vejo-o sempre tão
-reservadamente cortez com todas as senhoras, que ainda não percebi o que
-é preciso ser para lhe agradar.
-
---Meu Deus! não ha nada mais facil--respondeu o moço fictando o olhar
-limpido e honesto no altivo olhar de Clotilde.--É preciso ser uma mulher
-em quem ninguem repare.
-
---Julguei que a mediocridade o não captivava a esse ponto--volveu
-Clotilde mordendo os beiços de colera.
-
---Mas é que não é ser mediocre ser modesta. É que a mulher que gosta de
-brilhar, não sabe o que é sacrificio e abnegação, é que para mim todos
-os encantos que se apreciam nas salas, não valem um bom e candido
-coração que saiba amar-me e viver só para mim.
-
-Não se póde dizer que Clotilde adorava Gastão, mas emfim a verdade é que
-gostava muito d'elle. Achava-o superior, correcto, distincto, d'uma
-aristocracia innata que a encantava.
-
-Achava-o digno de si.
-
-Não lhe sacrificaria nenhum dos seus triumphos, nenhuma das suas
-vaidades, nenhum dos seus gozos, mas sacrificava-lhe com certeza todos
-os seus adoradores.
-
-Ser mulher d'elle era para ella um sonho radioso.
-
-Discordavam, porém, em tudo, nos gostos, nas ideias, nos sentimentos, na
-maneira de entenderem a vida.
-
-Clotilde na arte preferia tudo que é brilhante e apparatoso; Gastão
-amava tudo quanto é grande e dedicado. Clotilde só vivia no meio das
-opulencias sociaes; Gastão tinha a ambição das alegrias intimas e
-ignoradas.
-
-Ella gostava do incenso de todas as lisonjas por mais grosseiramente
-capitoso que fosse; elle mais d'uma vez dissera que achava ignobil da
-parte d'uma mulher consentir que um sujeito de casaca, engravatado e
-ridiculo, tivesse a audacia de lhe declarar perto do ouvido que a estava
-achando formosa e cubiçavel.
-
---Só digo finezas ás mulheres a quem desprezo. São as unicas que nos dão
-direito de lhes dizermos o que nos passa pela cabeça.
-
-Um homem que diz cousas ternas a uma senhora, fazendo _boquinhas_ e
-phrases romanticas, insulta-a d'um modo indigno.
-
-Como é que as mulheres são tão absurdamente educadas que não percebem
-isto?
-
-Um dia perguntaram a Gastão diante de Clotilde se gostava da musica
-italiana.
-
---Conforme! Gosto do bom que ha em todas as escolas. N'esse ponto sou
-ecletico e creio que todos o deviam ser. Agora a musica italiana das
-salas acho-a ridicula e pouco decente. Uma senhora a cantar arias em que
-se falla de _amor_, de _paixão_, de _extasis inolvidaveis_, etc., que
-diz _io t'amo_ revirando os olhos ao primeiro sujeito que passa, perdeu
-o direito a que um homem serio a escolha para sua mulher.
-
-Desde esse dia Clotilde deixou de cantar.
-
-Gastão não percebeu o sacrificio, ou pelo menos não mostrou que o
-percebera.
-
-Era um espirito logico e recto, e tinha o defeito de se guiar na vida
-pelas opiniões que professava.
-
- * * * * *
-
-Dançavam todos em casa do visconde das Lagôas, e junto d'uma pequena
-mesa de trabalho, no gabinete das filhas do visconde, uma figura loura e
-delicadissima, inclinada sobre um album de retratos, parecia ignorada e
-esquecida de toda aquella multidão que se divertia.
-
---Porque não dança, senhora D. Angelina? perguntou jovialmente a voz de
-Gastão. Se eu lhe pedir que seja meu par, recusa-me?
-
---Recuso, respondeu ella docemente, e uma côr viva tingiu-lhe as faces.
-
-Recuso por muitas razões. Em primeiro lugar é um pouco extranho dançar
-quando se tem a posição que eu tenho, porque emfim eu não sou mais que
-uma _dame de compagnie_, uma aia, uma governante ou como queiram
-chamar-me, de casa dos meus caridosos parentes.--Ao dizer isto, talvez
-involuntariamente, na voz de Angelina havia umas inflexões de amargura
-resignada.
-
---Depois--continuou--não danço porque me faria mal. Dóe-me muito o
-peito!
-
-Gastão sentiu dentro d'alma como que a brotar subitamente, um sentimento
-que lhe era desconhecido e em que havia dó, tristeza, admiração, um
-enternecimento sem nome que lhe embargava a voz.
-
-Angelina era tão delgada, tão fragil, d'uma physionomia tão
-delicadamente melancolica!
-
-Para tudo a fizera o destino, menos para combater e para luctar. A
-desgraça despedaçara-a sem que ella tentasse resistir-lhe sequer.
-
-Como seria doce protegel-a, guial-a na vida, abrigal-a no peito contra
-os embates hostis da adversidade!
-
-Era assim que Gastão havia sonhado uma adoravel e submissa mulherzinha,
-com aquelle olhar largo e limpido que lembrava um lago da Suissa, com
-aquelles louros cabellos ondados emmoldurando uma testa setinosa e côr
-de marfim.
-
-Trocaram mais duas ou tres palavras, e depois separaram-se de novo.
-Angelina talvez ficasse a scismar, que nunca mais teria occasião de ver
-postos nos seus uns olhos onde se lesse tão doce e tão honesta
-sympathia.
-
- * * * * *
-
-O visconde das Lagôas convidou a familia do conselheiro para estar um
-mez na sua quinta do Alto Minho.
-
-Angelina acompanhou naturalmente a sua gentil parenta e protectora.
-
-No campo estabelecem-se facilmente intimidades que na cidade parecem
-inconvenientes e impossiveis.
-
-Gastão entre aquellas duas bellas creaturas, d'uma belleza tão diversa
-como diversos eram os caracteres, poude apreciar e aquilatar a alma e o
-coração de ambas.
-
-Durante um mez Clotilde foi a rainha acclamada e triumphante do solar
-provinciano povoado de numerosos hospedes que alternadamente chegavam,
-ou partiam.
-
-Era ella quem organisava as festas, quem dirigia as partidas, quem
-inventava as distrações e os jogos. Activa, intelligente, soberanamente
-caprichosa, ser dominada por ella constituia uma seducção. Emquanto
-assim era o centro da animação festiva que se notava na opulenta casa do
-visconde, Clotilde empregava para captivar Gastão todos os seus
-artificios de sereia.
-
-Envolvia-o no magnetismo irresistivel dos seus sorrisos mysteriosos, do
-seu espirito acerado e mordaz, da sua graça magestosa e altiva.
-
-Punha aos pés d'elle todas as homenagens de que era objecto.
-
-Ás vezes á noite, sentava-se á meza com o desleixo creoulo que sabia
-fingir, e punha-se a desenhar, com uma _verve_ comica imcomparavel, as
-caricaturas dos galans suspirosos que a cercavam. Depois, conscia de que
-a sua mão valia um milhão, e sem attender aos desesperos que excitava,
-offerecia a Gastão os desenhos com um gesto ironico e submisso de que só
-ella possuia o segredo encantador.
-
-Os serões animava-os com a sua presença, com a sua voz, com a sua
-mestria musical, com os seus conhecimentos variados adquiridos nas
-viagens e nas leituras.
-
-Angelina voluntariamente occulta no canto mais escuro da sala, assistia
-a todo este jogo brilhantissimo com a silenciosa resignação de quem se
-sente para sempre expulsa de todos os prazeres da vida.
-
-Nem sequer percebia que era para o lugar em que ella trabalhava, que os
-olhos de Gastão se dirigiam constantemente, e que elle tão desdenhoso e
-tão ironico para com as outras, lhe fallava sempre timidamente,
-respeitosamente, como os devotos fallam com o seu Deus, como as mães
-fallam com os seus filhos doentes.
-
-Houve um dia em que uma resposta quasi insolente de Clotilde a fez
-padecer muito.
-
-Arrazaram-se-lhe os olhos de lagrimas, levantou-se e foi encostar-se á
-varanda toda enredada de trepadeiras que dava sobre o jardim.
-
-Não percebeu que a crueldade de Clotilde significava um despeito, um
-ciume, talvez uma agonia profunda de amor proprio! Pensou sómente que a
-herdeira rica e poderosa insultava diante da sua familia, diante do seu
-noivo, a orphã desamparada, e chamou baixinho por sua mãe, pedindo lhe
-que a levasse comsigo para o ceu.
-
-Então uma voz grave, sonora e viril, a voz d'um homem de coração e de
-coragem, murmurou perto d'ella:
-
---Quer ser minha mulher, Angelina? Ha muitos dias que tenho vontade de
-fazer-lhe esta pergunta e não me atrevia!
-
-É que se me recusar, juro-lhe que me dá um desgosto muito grande! Não
-faz idéa! Parece-me que a conheço desde que nasci, que nunca vi outra
-mulher, que nunca achei possivel ter outra esposa... Talvez não creia...
-mas olhe... hei de fazel-a muito feliz... hei de amal-a com uma devoção
-tão profunda...
-
-Angelina não o deixou concluir. Tapou-lhe a bocca com uma das suas mãos
-diaphanas, e pallida, a tremer, deixou-lhe cahir a cabeça sobre o peito
-a soluçar..............................
-
- * * * * *
-
-A familia de Gastão quando o moço lhe participou a resolução definitiva
-que adoptára, repelliu-o do seu gremio illustre com o mais indignado
-espanto.
-
-Aquelle mesquinho enlace que vinha destruir tantas esperanças pomposas,
-era para todos uma vergonha.
-
-O visconde, as duas manas, o irmão mais velho, o conselheiro Magalhães,
-tudo se revoltára contra o que chamavam o _romantismo_ de Gastão.
-
-Só uma pessoa o acceitou sem colera e sem protestos.
-
-Foi Clotilde.
-
-Quiz ella propria conduzir á egreja a sua juvenil protegida, e até á
-ultima hora teve para com ella e para com o homem a quem um dia no
-intimo do coração chamára--o seu noivo--uma attitude irreprehensivel de
-serena dignidade.
-
-Gastão e Angelina vivem n'uma deliciosa casinha em Buenos-Ayres, onde ha
-dias os visitei.
-
-Elle alcançou uma excellente collocação n'uma casa bancaria; ella tem o
-singular segredo de ser economica com elegancia e laboriosa com gentil
-dignidade.
-
-São ambos felizes como dois leaes corações que se estremecem e se
-entendem.
-
-No seu gabinete confortavel e artisticamente arranjado pelas mãos de
-Angelina, quantas vezes á noite no tranquillo recolhimento do serão
-commum, os dois noivos não lamentam a sorte dos seus parentes
-millionarios!
-
-Clotilde não casou ainda nem casará talvez.
-
-Apparece em todas as festas, em todos os bailes, em todos os theatros,
-sempre com o seu eterno sorriso mordaz nos labios empallidecidos.
-
-Ha porém quem julgue lêr na sua bella physionomia altiva, uns toques de
-intraduzivel soffrimento.
-
-
-
-
-O ROMANCE DE ADELINA
-
-(FRAGMENTOS DE CARTAS)
-
-
-Meu pae, minha mãe, as pessoas que me cercam dizem-me continuamente que
-a vida é triste, que o dever tem sempre um aspecto difficil, que as
-chiméras da nossa imaginação nunca chegam a realizar-se...
-
-Eu ouço-os, mas affirmo-te que não estou nada convencida.
-
-Supponho ás vezes que vejo a existencia pelo avesso, que tenho um modo
-muito extravagante de comprehender as cousas.
-
-Ouço por exemplo chamar _romanescas_ a todas as mulheres loucas ou
-desgraçadas.
-
-Ás que deixam seus maridos para seguir um sujeito de bigode e collete
-branco que lhes recitou versos ao piano entre dois candelabros; ás que
-andam toda a vida á procura de um _ideal_ que ora encontram ora deixam,
-percebendo que se enganaram; ás que usam olheiras e cabellos cahidos, e
-fallam do seu _desespero_ inconsolado entre uma quadrilha e uma valsa.
-
-Para mim essas mulheres são tudo menos romanescas.
-
-Sabes ao que eu chamo romantismo?
-
-A uma aspiração delicada, a tudo que é bello e bom. A um desejo ardente
-de perfeição que se não satisfaz facilmente. A uma tendencia para
-idealisar os deveres e os sentimentos.
-
-Crê, minha boa Thereza, que não ha ninguem mais romantica do que eu!
-
-Chego ás vezes a ter medo de que isto seja um pendor funesto que me
-arraste a algum desvario.
-
-No outro dia casou aqui uma prima minha.
-
-É uma galante rapariga, bem educada e intelligente.
-
-Encontrou o noivo uma duzia de vezes, elle pediu-lhe licença para
-confessar aos paes que a amava muito.
-
-D'alli a dous mezes, concluidos os preparativos, casaram-se.
-
-Não se conhecem nada, mas como as fortunas, as idades, e as posições
-dos paes estavam em harmonia, concluiram que se haviam de dar
-optimamente.
-
-Aquelle casamento que agradou a toda a gente, consternou-me a mim.
-
-O meu casamento ha de ser o unico romance da minha vida, mas affirmo-te
-que o quero bem longo, bem completo. Quero que as suas paginas luminosas
-lidas uma vez me dourem de mysteriosa claridade todo o futuro. Quero
-amar o meu noivo para adorar eternamente o meu marido.
-
-Dizem que o dever é sempre custoso de cumprir.
-
-Conforme!
-
-Eu tenho dezoito annos, e nunca até hoje liguei á ideia do dever uma
-ideia que não fosse de satisfação intima.
-
-Sou tão feliz em amar meus paes, em soccorrer os desgraçados, em
-cultivar o meu espirito, em sacrificar os meus prazeres aos prazeres de
-alguem!
-
-O sacrificio seja elle de que genero fôr, parece-me uma dôr suave, uma
-sensação de pungitiva delicia, que nos eleva e nos engrandece.
-
-Só os que sabem sacrificar-se affirmam a sua superioridade.
-
-Tenho medo de ser criminosamente aristocrata.
-
-Parece-me que assim como as pessoas bem educadas nunca se deixam
-avassallar pela gula, pela violencia dos appetites grosseiros, assim as
-almas finas não devem entregar-se a uma ambição desregrada de prazeres.
-
-Soffrer é uma condição humana, mas ha soffrimentos que são a mais
-requintada das doçuras.
-
-Ás vezes olho para minha mãe e lembro-me que se pudesse trocar a minha
-robustez pela sua debil saude, a minha cabelleira densa e loura pelos
-seus lindos cabellos brancos, a minha alegria exhuberante pelo seu
-sorriso meigo e soffredor, conheceria um gráo de felicidade mais puro,
-mais alto do que todos os gozos que até agora experimentei.
-
-E no emtanto ao dar-lhe a minha mocidade, ao receber em troca a sua
-velhice, de certo que sentiria infinitas saudades!
-
-Não se renuncia friamente a todas as esperanças do futuro!
-
-Seria, porém, uma das taes dôres que eu amo, uma d'aquellas tristezas
-divinas que fazem bem á alma e como que a depuram das imperfeições da
-terra.
-
-Será isto romantismo, Theresa?
-
- * * * * *
-
-Andam commigo agora de baile em baile, de _soirée_ em jantar.
-
-Imaginam que me enganam, os queridos velhinhos!
-
-Elles que gostam tanto do cantinho do fogão, onde conversam, e se
-recordam de tudo que passou, fingem um subito e inexplicavel desejo de
-distrações mundanas.
-
-Eu sigo-os com um sorriso malicioso que ás vezes os assusta.
-
-Sabes as minhas ideias, não é verdade?
-
-Que garantias de futuro me daria a mim um marido apanhado a laço á luz
-dos lustres dourados, em uma sala de baile frivola e banal?
-
-Não é ahi que eu encontrarei de certo o noivo da minha alma!
-
-Porque é que se não poderá alliar a poesia do coração com os deveres da
-realidade? Não entendo isto!
-
-Pois só serão deliciosos os amores vedados?
-
-A mim parece-me que a vida com o seu cortejo de dores, de deveres, de
-sacrificios, de affectos, a vida com a sua manhã purpurea e gorgeada,
-com o seu meio dia luminoso em que rompe em ondas crystallinas a musica
-triumphante dos vinte annos, com a sua tarde melancolica d'uma doçura
-indefinida e dubia, com a sua noite emfim, noite estrellada e calma, em
-que esmorecem e expiram todos os rumores da terra, é como que um poema
-completo, uma symphonia em que ha todas as notas, todos os tons, todas
-as expressões.
-
-Os que amaldiçoam a vida, ou querem fugir das suas commoções naturaes,
-procurando n'um meio artificial, n'uma atmosphera de estufa outros
-gozos, outros prazeres, outras angustias, são esses que não entendem a
-opulencia harmoniosa da criação!
-
-Ser filha, e noiva e esposa e mãe! onde acharemos estados da alma mais
-completos que aquelles que resultam naturalmente d'estes modos de ser?
-
-Aqui ha tudo! Alegrias, dôres, sobre-saltos, esperanças, sonhos,
-arrebatamentos, extasis ineffaveis!
-
-Não proscrevamos o romance da vida, pelo contrario identifiquemol-o com
-a vida!
-
-Ponhamos no nosso modo de sentir a maior porção de ideal, a que sejamos
-accessiveis.
-
-Pensar que o dever só póde comprehender-se _terra a terra_ é amesquinhar
-e rebaixar o dever!
-
-A paixão não precisa de ser criminosa para nos dar gozos supremos; creio
-mesmo que é o crime que a torna amarga aos labios e dolorosa ao coração!
-
- * * * * *
-
-Perguntavas-me no outro dia maliciosamente se eu faço a minha leitura
-predilecta da _Moral em acção_.
-
-Não faço.
-
-Se ha cousa que eu acho desmoralisador é um tratado de moral _chaufé à
-froid_.
-
-Sabes quem são os meus mestres do bom e do bello? São Beethoven, Mozart,
-Hayden, os meus queridos e nobres artistas.
-
-Cada dia me deixo levar mais apaixonadamente por este amor da musica que
-me consola, e me levanta e por assim dizer me realiza todos os sonhos
-ambiciosos da minha alma.
-
-Presinto que se chegar na vida para mim uma hora sombria em que veja por
-terra os meus idolos, a musica me ha de consolar de tudo!
-
-Ha pessoas que choram com a musica. Foge sempre da musica que faz
-chorar. É enervante, é perigosa e traiçoeira.
-
-Mozart e Beethoven não enfraquecem, fortificam. Dão-nos á alma como um
-grande banho de ar puro.
-
-Fazem-nos subir ás alturas immaculadas e de lá ver tudo que é pequeno,
-ephemero, transitorio aos nossos pés.
-
-Ó Beethoven, se eu alguma vez fôr trahida envolve-me nas tuas azas de
-luz!
-
- * * * * *
-
-Não te disse eu que o meu romance existia algures, n'um mysterioso
-recanto onde eu ainda não déra com elle?
-
-Não me enganei.
-
-Existe.
-
-Tem vinte e cinco annos, ha muita gente que diz que elle é feio. Eu
-acho-o simplesmente adoravel.
-
-Tem uns bellos olhos escuros que a paixão illumina, de que a ironia faz
-chispar faiscas sombrias, e que em horas de embevecimento e de ternura
-tem segredos doces de uma bondade ineffavel! Tem uma testa larga e
-pensativa, e uma boca desdenhosa como se o sarcasmo a houvesse
-affeiçoado.
-
-Acham-lhe innumeros defeitos, eu acho-lhe sómente alguns.
-
-Mas é para aquelles que a vida endureceu e azedou, que as almas moças
-devem abrir os mananciaes da sua fé.
-
-Hontem disse-me, depois de me ter ouvido tocar piano durante tres horas,
-que eu lhe fizera tanto bem, que se esquecia por amor de mim do mal que
-todos os outros lhe tinham feito.
-
-Estas palavras que em outra boca seriam uma banalidade, na boca d'elle
-pareceram-me um juramento que vinculava para sempre as nossas duas
-vidas.
-
- * * * * *
-
-Tres annos de silencio! Como é que tu has de perdoar-me, Thereza!
-
-Mas se eu te disser uma cousa, só uma cousa, perdôas-me de certo.
-
-Sou muito infeliz.
-
-Quiz talvez realizar o impossivel, quiz achar no amor de meu marido o
-conjuncto de todos os amores de que eu me sentia capaz.
-
-Fiz tudo para conservar a felicidade, e a felicidade fugiu-me.
-
-_Elle_ vê em mim um pezo, uma prisão, talvez que um grande
-desapontamento.
-
-Nunca me queixo. Para que?
-
-A gente não deve queixar se, porque é uma humilhação escusada e inutil.
-
-Procuro convencer-me de que na vida de todas as mulheres ha d'estes
-cilicios occultos que ellas supportam ageitando nos labios um sorriso
-heroico.
-
-Não renego nenhuma das minhas ideias. O dever consola, o dever compensa.
-
-Não comprehendo que, porque um faltou ao contrato ideal que fez com a
-consciencia, o outro deva faltar tambem.
-
-Emquanto _elle_ me quizer junto de si, hei de dar-lhe toda a minha vida,
-feliz d'este sacrificio sem paga.
-
-Illudi-me porque lhe quiz muito, e perdôo-lhe por que me illudi.
-
- * * * * *
-
-Hontem, minha mãe, a pobre velhinha que succumbe ás agonias da sua
-recente viuvez, dizia-me diante do berço de meu filho desamparado, do
-meu orphãozinho, cujo pae vive ainda:--Acabou-se tudo! Naufragámos todos
-tres!
-
-Pelo contrario! Agora é que tudo começa!
-
-Não imaginas a coragem e a energia que eu sinto em mim!
-
-Sou eu, minha mãe e meu filho.
-
-Uma quasi que perdeu a consciencia, o outro não a tem ainda. Sou eu que
-preciso pensar e trabalhar por todos tres.
-
-Na grande desgraça que me feriu, a ideia de que sou necessaria, de que
-me tornei indispensavel aos entes a quem mais quero, inoculou-me no
-espirito dilacerado uma força superior.
-
-Mas como foi que tudo isto succedeu? perguntas tu cheia de pasmo.
-
-Não sei! Uma mulher que passou, uma artista que tinha em talento o que
-lhe faltava em coração e que o levou atrás de si, satelite desprezivel,
-de um astro cahido.
-
-Não tenho saudades d'elle, crê que não tenho.
-
-O homem que eu amei era uma nobre e digna creatura, incapaz de transigir
-com a honra, e de submetter-se á tyrannia dos appetites brutaes.
-
-Tinha defeitos, era violento, apaixonado, irascivel, mas era honesto.
-
-Esse homem morreu, ou não existiu nunca.
-
-O que fugiu não se parecia com elle.
-
-Quando estou só, estremeço ás vezes com um asco intraduzivel de mim
-propria.
-
-Quem é que se consola das maculas de um tal amor?
-
-Não te disse eu, que se tudo me faltasse, os meus velhos mestres, os
-meus amigos, as almas sonoras e transparentes que sabem traduzir em sons
-tudo que ha de bello na natureza, as côres, os perfumes, as linhas, o
-mundo da materia e o mundo do espirito; não te disse eu que elles me
-consolariam e me haviam de amparar?!
-
-Chegou o momento supremo.
-
-Chamei os e não faltaram ao meu apello.
-
-Mostrei-lhes o meu coração partido, o meu orgulho machucado, as minhas
-illusões desfeitas e disse-lhes: Consolai-me! Mostrei-lhes o meu filho
-pequenino, e a minha mãe decrepita, e disse-lhes: dae-lhes pão!
-
-E ouviram-me as almas adoraveis!
-
-Sinto em mim a virilidade augusta dos fortes.
-
- * * * * *
-
-O meu Arthur tem hoje quinze annos.
-
-É um formoso adolescente, louro e timido como uma virgem.
-
-Vivemos eu e elle n'uma casinha de um bairro tranquillo e retirado.
-
-De dia elle frequenta o lyceu, e eu dou as minhas lições de musica, á
-noite lemos, conversamos e tocamos juntos.
-
-Todos os annos, n'um dia certo, fazemos uma romagem piedosa.
-
-Vamos visitar ao cemiterio o tumulo de pedra, pobre e modesto, onde
-dorme o seu tranquillo somno a minha querida mãe.
-
-Foram serenos e doces os ultimos dias que ella viveu na terra.
-
-Ajudou a crear o meu Arthur, que era tão endiabrado e travesso como hoje
-é tranquillo e scismador!
-
-Eu sahia de casa muito cedo, e deixava-os a ambos juntos a papaguearem
-alegremente, porque não ha nada que illumine a tristeza dos velhos como
-a alegria dos netos.
-
-Ao principio era-me doloroso aquelle monotono trabalho de ensinar os
-principios de musica, mas quando vi desenvolver-se em casa o conforto
-devido aos meus pertinazes esforços, cobrei nova coragem e alentos
-novos.
-
-Sahia com mais animo e voltava com mais alegria.
-
-Em mim faziam-se dous trabalhos: Procurava afazer-me á minha nova
-existencia e apagar da memoria o meu passado enganoso.
-
-Tivera o meu romance, e o romance deixára-me na boca o travor amargo das
-cousas insalubres!
-
-Em todo o caso nunca me arrependi de ter aspirado a saciar a minha sêde
-de ideal nas fontes puras do coração.
-
-Era mais feliz na minha infelicidade que os outros nas suas alegrias!
-
-A minha vida de professora, fazendo-me penetrar em muitas casas
-diversas, deu-me ensejo para conhecer melhor o mundo.
-
-Encontrei muita gente alegre e satisfeita que me causou profundo dó.
-
-Marido e mulher separados pelas ideias moraes, pelas crenças religiosas,
-pelas occupações, pelas indoles diversas, pelo modo antithectico de
-encarar as cousas; unidos sómente por um laço, o habito; por uma força,
-as conveniencias sociaes.
-
-Oh! antes o meu desamparo, antes o abandono em que eu fiquei na flôr da
-vida!
-
-Conheci muitas mulheres que procuravam no turbilhão mundano consolação
-para intimas tristezas; outras, que me confessaram chorando, que a
-ingratidão e a inconstancia do marido as arrastára á perdição, ao
-desprezo de si proprias.
-
-Não as repelli, porque não tinha direito para ser implacavel;
-lamentei-as, não porque as achasse dignas de lastima, mas porque me
-pareciam dignas de desdem!
-
-Como se o crime posterior da mulher não fosse a justificação do crime
-anterior do marido!
-
-Ser boa e digna e virtuosa, quando tudo nos ajuda a isso, grande
-milagre!
-
-Na solidão, no abandono, na injustiça do mundo, é que a honestidade da
-mulher se acrisola!
-
-Se meu marido não houvesse fugido de mim, deixando-me nos braços uma
-creancinha de mezes, como poderia eu conhecer as luctas da vida e ter
-sahido triumphante das provações da desgraça?
-
-Não imaginas, querida amiga, como hoje é doce e tranquillo o meu
-outomno!
-
-Em primeiro lugar o querido anjo que eu eduquei sósinha, depois a
-musica, as flôres e os bons livros. Falta-me a minha mãe querida, mas
-essa morreu abençoando-me!
-
-Ao domingo, quando eu e Arthur nos achamos bem sós, no nosso pequeno
-gabinete de trabalho, chego a conceber a beatitude do paraizo.
-
-Sento-me ao piano e toco, toco até me sentir sem forças.
-
-Converso longamente com os amigos da minha mocidade, com os que me
-vestiram a alma da crystallina armadura que resistiu a todos os
-attrictos da miseria humana.
-
-Conto-lhes as luminosas aspirações da minha adolescencia, a ideia que eu
-fazia da abnegação, do amor, do sacrificio; e os esforços que empreguei
-para me cingir sempre a essa ideia levantada e superior.
-
-Conto-lhes o bello instante radioso em que na minha vida desabrochou a
-flôr mysteriosa que elles me haviam ensinado a julgar o premio mais dôce
-de um coração cheio de fé. E com que extremos eu cultivei essa flôr que
-um dia se desfez em cinzas nas minhas tremulas mãos! E como a doce
-illusão de a possuir me fizera melhor!
-
-Depois conto-lhes a tempestade que subitamente fez sobre mim a sua
-explosão sinistra, e o meu desamparo e a minha dôr fulminadora, e a
-vacillação tremenda em que eu vi tudo que julgara immutavel prestes a
-desabar, deixando-me só ruinas!
-
-Foi então que o amor d'elles me salvou, foi então que as suas vozes
-divinas me chamaram, e que, na esphera elevada em que elles moram, eu
-me senti penetrar da calmaria adormecedora de todas as paixões ruins!
-
-No outro dia, depois de tocar duas horas, esquecida de tudo, procurei
-meu filho e achei-o de joelhos ao pé de mim.
-
-Tinha a gentil cabeça loura mergulhada nos meus vestidos, e, quando
-levantou os olhos cheios de lagrimas, disse-me com uma voz em que se
-fundiam todas as musicas:
-
---Ó mãe, Deus te abençôe, porque foste ultrajada e trahida, e eu posso
-amar-te e respeitar-te.
-
-
-
-
-A CIGANA
-
-
-Quando o gageiro gritou do alto das vergas--terra!--toda a gente que
-vinha a bordo da galera _Terrivel_ sentiu uma grande e indefinida
-alegria.
-
-Subiram uns para o tombadilho, outros deixaram-se ficar no convez, e os
-passageiros da prôa, os mais pobres, encarapitaram-se na amurada;
-começaram todos a olhar com uma anciedade febril para a facha escura que
-a pouco e pouco avultava no horizonte.
-
-A viagem tinha sido longa; a galera levára cincoenta dias a chegar do
-Rio de Janeiro.
-
-Mas, todas essas penas, todo esse aborrecimento que assaltam o viajante
-que durante dias e dias não vê mais que o céo e o mar, desapparecem
-como que por encanto ante essa palavra magica, solta pelo
-gageiro--terra!
-
-Os passageiros eram, na maior parte, gente de baixa condição e de
-ambições modestas: tinham sido no Brazil carroceiros, feitores de roça,
-carpinteiros e pedreiros.
-
-Vinham com pouco dinheiro, mas traziam grande abundancia de saudades;
-tinham soffrido, padecido longe da patria, mas como ella os ia compensar
-de todas essas amarguras!
-
-A alegria bailava em todos os olhos.
-
-Ah! o capitão Navarro, apezar de ter feito aquella viagem cincoenta
-vezes, tambem vinha contente e esfregava as mãos, tomado de um jubilo
-desmedido.
-
-Quando o piloto se correspondia com o castello da barra, o capitão
-impaciente, mas sem perder o seu aspecto risonho e benevolo, perguntava:
-
---Deixam-nos ou não nos deixam entrar a barra?
-
---Estão-me agora a perguntar se morreu alguem a bordo.
-
---Ora essa! Morto estou eu por me vêr em Massarellos. Querem vêr que
-ainda temos que ir dar com os ossos em Vigo? Com mil bombas! Era o que
-me faltava agora!
-
-Mas não aconteceu o que o capitão receiava: do castello fizeram signal
-que a galera podia entrar, e foi com uma voz vibrante de enthusiasmo e
-de um prazer intenso que o capitão commandou a manobra.
-
-A galera como um cavallo que obedece facilmente á pericia de um optimo
-cavalleiro, proejou a barra em meio das exclamações dos impacientes e
-saudosos passageiros.
-
- * * * * *
-
-A galera fundeou defronte de Massarellos.
-
-No dia seguinte, já não havia alli senão parte da tripulação e um ou
-outro marinheiro que não tinha familia e que olhava para o cáes com
-repugnancia e com desdem.
-
-As capoeiras em redor do tombadilho estavam despovoadas, a roda do leme
-reluzia ao sol, parada, sem movimento, as tampas enceradas da meia
-laranja abriam-se como as azas de uma enorme borboleta em repouso, e as
-mangueiras de linho cheias, retezadas, levavam o ar á camara e ao porão.
-
-Um bello dia de agosto!
-
-O capitão Navarro assistia ao descarregar sentado em uma barrica de
-farinha de mandioca; o contra-mestre no portaló olhava mais lentamente
-para o Douro como quem procura enxergar uma cousa desejada e cubiçada.
-
---Ainda nada? perguntou o capitão.
-
---Admira, capitão! Das outras veses pouco se deixa esperar essa visita.
-
-E com a mão em quebra-luz continuava a observar o movimento dos botes e
-das catraias.
-
-De repente, a _Cigana_, uma cadella de fila que era o idolo de toda a
-tripulação do navio, deu um salto, subiu as escadas do portaló, e
-alongando o pescoço, meneou festivamente a cauda e ladrou de contente...
-
-Era um latir alegre e de boa feição, o latir que ouvimos aos cães das
-nossas casas, quando recolhemos depois de longa ausencia.
-
---Espera! disse o contra-mestre, a _Cigana_ tem faro. Ahi vem a sua
-gente, capitão!
-
-Navarro ergueu-se, olhou e viu um barco que, á força de remos, se
-dirigia para a galera.
-
---Até que emfim! disse o capitão, e desceu cheio de contentamento as
-escadas do portaló...
-
-A cadella, vendo descer o dono, acompanhou-o e saltou ao mesmo tempo que
-elle para o interior do barco.
-
-O contra-mestre olhava de cima aquelle quadro e murmurava entre alegre e
-melancolico:
-
---Parece que é bom ter familia e ter uma pequerrucha bonita como a do
-capitão que nos venha dar um abraço quando vimos de longe...
-
---Assim será, meu contra-mestre, mas quando essa filha vem de luto,
-devendo vir vestida de côres alegres; quando ella nos vem dizer com a
-voz abafada em lagrimas e soluços--a mamã morreu!--não me parece que
-seja muito para invejar, meu rude celibatario, que não tens outro
-affecto senão pela tua galera e pelo mar, a quem confiaste a tua
-mocidade e a quem confiarás um dia o repouso do teu corpo!
-
- * * * * *
-
-De sorte que aquelle momento tão appetecido pelo capitão foi-lhe
-amargurado pela noticia da morte da mulher que elle extremecia devéras.
-
-Eram quatro os affectos do capitão: a mulher, a filha, a _Cigana_ e a
-sua bonita e garbosa galera.
-
-O primeiro affecto desapparecêra, restavam-lhe ainda os tres; não tinha
-muito que se queixar do destino: a galera ali estava capaz ainda de
-arrostar com sessenta viagens, a filha dependurava-se-lhe do peito amplo
-e largo, cheia de viço e de adoravel meiguice, e aos pés de ambos,
-rojava-se latindo baixo a _Cigana_, acariciando-os com os olhos onde
-havia o indefinido das vagas, e como que um lampejo humedecido de uma
-ternura doce e humana.
-
-A filha de Navarro, depois de haver chorado no seio do pae, abaixou-se e
-passou a mão pela cabeça da cadella.
-
---Quando partir de novo, papá, deixe-me a _Cigana_, sim? A mamã era tão
-amiga d'ella!
-
-A _Cigana_, parecendo comprehender aquellas palavras, endireitou-se, e
-pousando as patas no collo da menina, beijou-lhe carinhosamente as
-mãos...
-
-Quando Navarro chegava do Brazil e ia passar algum tempo a Lessa com a
-familia, levava sempre em sua companhia o seu querido animal! Imagine-se
-como este seria amimado, festejado e cheio de affagos quando souberam
-que uma vez no alto mar...
-
- * * * * *
-
-Não sei quantas milhas devorava n'esse momento a galera.
-
-Era meio-dia, fazia um sol de rachar, os marinheiros á prôa comiam o
-rancho, e na tolda não estava senão o capitão, a _Cigana_, e o homem do
-leme.
-
-O piloto fôra buscar ao seu beliche um mappa que o capitão lhe pedira, e
-demorara-se mais que o tempo necessario. Navarro ergueu-se do banco de
-vime e encostou se ás grades da ré.
-
-Como foi aquillo? Vertigem? Congestão cerebral?
-
-Foi elle encostar-se á grade, estar alli cousa de dous ou tres minutos,
-e de subito borcar-se-lhe o corpo nas ondas...
-
-O homem do leme viu aquillo, e afflictivamente exclamou:
-
---Jesus! acudam!
-
-E quando os passageiros correram ao tombadilho e a tripulação veiu saber
-o que succedera, o piloto, pallido e assustado, mandou colher todo o
-pano; podia vêr-se ao longe em meio das aguas, que faiscavam e
-transluziam os raios do sol, um ponto negro e que pouco a pouco parecia
-affastar-se, affastar-se...
-
-Os dous escaleres da ré foram descidos ao mar, e dentro d'elles os mais
-robustos dos tripulantes.
-
---A modo que elle não estava bom! disse o homem do leme. Que eu só
-reparei n'elle quando o vi no ar...
-
---Deitem-lhe a boia! gritou o contra-mestre.
-
-N'aquelle momento de anciedade, procurou-se a boia e não se encontrou.
-
-O contra-mestre estava desesperado, as pragas mais violentas sahiam-lhe
-em borbotões por entre os dentes, que apertavam estreitamente o tubo
-fumoso do cachimbo.
-
-O navio afrouxára a sua marcha, comtudo os escaleres ainda iam bastante
-longe do ponto negro que todos julgavam ser o capitão.
-
---Lá bom nadador é elle, dizia o contra-mestre, mas se ha tubarões
-assim! e reunia os dedos em pinha.
-
-Estendia os braços, dependurava-se da grade da pôpa, e com gestos
-anciosos tentava animar os marinheiros dos escaleres.
-
---Força, rapazes!
-
-No rosto de todos os passageiros lia-se um grande terror e uma pena
-profunda.
-
-Era impossivel escapar. O capitão apesar de bom nadador já estava velho
-e cançado, depois os tubarões...
-
-Os marinheiros contavam casos horrendos que haviam presenciado, e em que
-figuravam esses assanhados tigres do mar.
-
---Valha-nos o senhor de Mattosinhos! conclamavam n'um grito lancinante
-aquelles homens, que tantas vezes tinham luctado heroicamente contra as
-colericas sanhas da tempestade, e que adoravam o bondoso velho, o seu
-capitão.
-
-O ponto negro ia-se distinguindo mais nitidamente: ás vezes
-afundava-se, outras vezes immergia-se; e emquanto os escaleres voavam, o
-contra-mestre continuava a gritar, posto que as suas vozes já não
-pudessem ser ouvidas pelos que iam em salvamento de Navarro.
-
-Quando o vulto vinha a distancia de uma milha o contra-mestre exclamou,
-affirmando a vista:
-
---Ou eu me engano, ou o capitão não vem sósinho... esperem! é a _Cigana_
-que traz a reboque o patrão!...
-
-Era a _Cigana_ effectivamente. Quando o velho cahira ao mar, o animal
-atirara-se logo atrás, e mergulhando conseguira apertar nos dentes as
-roupas do capitão, e desde esse instante nunca mais o largára.
-
-Quando os escaleres se aproximaram dos dous, a pobre _Cigana_ estava
-quasi exhausta e sem forças.
-
-Arrancaram-lhe a custo da boca o seu querido fardo e ella continuou a
-nadar frouxamente sem poder resistir ás ondas que a levavam de chofre de
-encontro aos escaleres.
-
-Quiz subir, galgar a borda de um dos escaleres, e não pôde, resvalou na
-agua, ganindo dolorosamente, sendo preciso que um dos marinheiros a
-empolgasse com força, arrebatando-a assim á morte inevitavel.
-
-Da galera, applaudiram a acção da _Cigana_, e quando ella e o capitão
-chegaram, não sei bem qual dos dous foi mais abraçado.
-
---Bravo, _Cigana_! exclamou o contra-mestre, não ha homem que te valha.
-Dá cá um abraço!
-
-O capitão foi levado por dous marinheiros para a sua camara, emquanto a
-_Cigana_, resfolegando alto, com os olhos embaciados, o corpo escorrendo
-agua e todo tremulo, tentava arrastar-se para onde lhe levavam o dono.
-
- * * * * *
-
-Ora, aqui está porque a _Cigana_ era tão querida e estimada na pequena e
-alegre casa do capitão em Lessa, e aqui está a razão por que a filha do
-velho e bondoso Navarro lhe pedia com tão amavel meiguice que deixasse
-ficar a _Cigana_ quando para a outra vez tivesse de fazer viagem.
-
-Quando a galera _Terrivel_ partiu, não levava a seu bordo nem o capitão
-nem a _Cigana_. Porque?
-
-Se o leitor é pae diga-me, se no caso do capitão Navarro, teria forças
-de fazer-se ao largo e deixar sósinha uma filha de quinze annos,
-graciosa e encantadora.
-
-Não tinha forças para tal, acreditamos.
-
-Ao capitão succedeu o mesmo. Despediu-se dos seus companheiros, chorou
-quando viu pela primeira vez a _Terrivel_ fazer-se de vela sem elle, mas
-ficou em terra.
-
-Tinha saudades, isso tinha, do mar, da solidão magestosa das aguas, da
-melancolia das horas da calma, das tempestades que, de quando em quando,
-o visitavam, mas fitava os olhos azues da filha e bebia n'elles
-consolações que lhe amorteciam essas maguas.
-
-Ás vezes, sahia de casa acompanhado pela _Cigana_, e ficava-se á beira
-do mar, observando os navios que passavam a distancia, absorvendo a
-plenos pulmões o saudavel ar maritimo, regalava-se conversando com os
-pescadores e com os embarcadiços, e n'essas tardes recolhia mais alegre
-e com o corpo mais direito e rejuvenescido.
-
-Outras vezes, ia n'um bote pelo amenissimo rio Lessa acima, e n'essas
-excursões levava quasi sempre a sua querida Luiza, e quasi sempre
-n'esses passeios em que elle contava á filha as peripecias de toda a sua
-vida trabalhosa, encontrava-se com outro bote em que ia ao leme um moço
-de vinte annos, elegante e galhardo que o comprimentava respeitosamente.
-
-Á terceira vez que aquelle encontro se deu, o velho disse á filha:
-
---Não sei se conheço aquelle moço? É o filho unico de um meu antigo
-companheiro. O pae está rico, está. Eu tambem por aquelle preço podia
-estar como elle ou melhor. Que se elle tem muito de seu, a mim m'o deve.
-Joaquim Antonio Ferreira, que depois foi feito Conde da Guaratiba, bem
-queria que eu fosse capitão de uma sua barca, recusei, porém, sempre, e
-apresentei-lhe um dia Gouvêa, o pae d'esse rapaz, que afinal de contas
-depois de seis ou sete viagens felizes á Africa, deixa a vida do mar e
-foi um dos que mais lotes de escravos levava aos armazens de Vallongo...
-Ser rico á custa de tantas lagrimas não era para o filho de meu pae...
-
-E aqui entrava o capitão a contar a Luiza cousas da sua mocidade, e
-absorvido n'essas recordações não reparava que a filha seguia com a
-vista anciosa o barco em que ia o herdeiro do millionario Gouvêa.
-
- * * * * *
-
-Luiza amava, e amava com o primeiro e grande affecto de quinze annos.
-
-Segregada das moças da sua idade, não tinha a quem confiar tantos e tão
-amantissimos segredos: embriagada por aquelle amor, deixava-se ir
-deliciosamente pela correnteza, sem medo de encontrar um dia a voragem
-que a tragasse, o abysmo em que se lhe afundasse a honra e a vida.
-
-Nunca tinha fallado ao noivo da sua alma; via-o de longe, ora passar a
-cavallo pela rua em que morava, ora no rio quando o pae a levava aos
-costumados passeios.
-
-Conhecia-o pelas cartas, que lia, relia e decorava, e a todas ellas
-respondêra, menos á ultima cujo conteudo a trazia surpreza, enlevada,
-vibrante...
-
-O não responder a essa carta era como que um assentimento a um pedido
-que n'ella se fazia.
-
-O velho capitão n'essa noite pedira á filha que lhe lesse uns livros de
-viagem. Luiza lia perfeitamente, com uma entoação harmoniosissima, e
-dando com a voz um relevo maravilhoso á narrativa. O capitão, com o
-corpo reclinado na poltrona, o cachimbo apertado nos dentes, e a cabeça
-da _Cigana_ nos joelhos, sorria na plena beatitude de um goso
-indefinido. De vez em quando, accordava d'aquella deliciosa somnolencia
-e emendava as incoherencias e os enganos do escriptor.
-
---Nada, nada, isso não é assim. Venham cá dizer-m'o a mim, que passei
-por esse ponto mais de trinta vezes...
-
-Ás dez horas serviu-se o chá, a _Cigana_ foi levada para o quintal, e
-Luiza acompanhou o pae até ao limiar do quarto.
-
---Deus te abençôe, minha filha, disse o velho ao despedir-se, e beijou
-Luiza na testa.
-
---Hoje tenho pouco somno, papá, fico ainda a lêr um bocadito na sala, se
-o papá quizer alguma cousa chame-me, sim? Vou acabar de lêr este livro,
-acho-o muito bonito. Gosto tanto da vida do mar!
-
---Filho de peixe sabe nadar, volveu o capitão sorrindo com o divino
-sorriso dos paes, que se crêem unicos senhores dos affectos dos filhos.
-
-Passada meia hora, ouviu-se no quintal o ladrar continuo, frenetico e
-raivoso da _Cigana_.
-
-O capitão gritou da cama:
-
---O que é aquillo, filha? A _Cigana_ está hoje como nunca a vi. Vai
-socegal-a, se não tens somno, e prende-a. Naturalmente os pescadores
-saltaram-me á fructa. É o que é. Deixal-os lá, coitados! Estes dias tem
-havido pouco peixe. Não vá a _Cigana_ fazer alguma das suas... Ora vae,
-anda, tem paciencia... Eu não vou porque me sinto fatigado e exquisito
-hoje... A _Cigana_ ouvindo-te, socega...
-
- * * * * *
-
-Luiza desceu ao pateo.
-
-Abriu com mão tremula a cancella e encostou-se vacillante, agitada e
-convulsa ao muro. O ladrar da cadella cessára. Adiantou-se. No fundo do
-jardim sob a latada, um vulto cosia-se com a parede. A pobre menina
-levou as mãos ao peito, como para socegar a douda violencia do coração
-que parecia suffocal-a; quiz fallar e não pôde. O corpo vergava-se-lhe
-frouxo, molle, sem forças...
-
-De repente sahiu das sombras das arvores a _Cigana_, que se arrastou
-para Luiza, ganindo dilacerantemente, movendo com difficuldade a cauda,
-com a parte posterior do corpo quasi paralytica, escorrendo-lhe da boca
-uma baba espessa, com os olhos dilatados desmedidamente...
-
-N'aquelle olhar que a claridade da lua deixava distinguir havia um
-pedido, uma supplica.
-
---_Cigana!_ exclamou Luiza.
-
-Ouvindo aquella voz, a cadella, que se sustentava difficilmente nas
-patas dianteiras, ergueu ainda, por um supremo esforço, a cabeça, e,
-tomada de uma ancia afflictiva, convulsionando-se-lhe o corpo n'um
-estremecimento instantaneo, soltou um gemido rouco, escabujou
-violentamente, e cahiu morta aos pés da filha do capitão.
-
---A sua _Cigana_ é muito má, mas ainda é mais gulosa, disse o vulto que
-se escondia sob a latada.
-
---Que mal lhe fez este animal, sr. Gouvêa? perguntou reprehensivamente
-Luiza, estrangulando-se-lhe a voz na garganta.
-
---Boa pergunta! Não subisse eu tão depressa para o muro e estava
-asseiado a estas horas! O demonio do bicho! Mas vinha prevenido,
-atirei-lhe uma bola, que lhe soube como se fosse manteiga. Ora deixe lá
-o cão, querida, não se faça piégas...
-
-Luiza interrompeu bruscamente aquellas palavras tolissimas, e
-endireitando o corpo, ergueu a voz quebrada pelas lagrimas:
-
---Saia, saia depressa; se não quer que meu pae o venha aqui matar sem
-ser tão cobardemente como o senhor acaba de matar a minha pobre
-_Cigana_.
-
-E emquanto o vulto marinhava pelo muro, a desditosa creatura abraçava a
-_Cigana_, e chorava como sómente uma vez em vida chorára, quando lhe
-levaram para fóra de casa o corpo de sua mãe.
-
---_Cigana_, minha pobre _Cigana_! repetia Luiza, fui eu que te matei!
-
-Ao outro dia murmurava o capitão, fingindo-se sereno e forte para poder
-consolar a filha:
-
---Vão lá depois fazer bem... Eu mandava prender a _Cigana_ para que não
-fizesse mal a ninguem, e pagaram-me d'esta fórma!...
-
-E o velho, para não chorar tambem, fingia que não reparava nas lagrimas
-que rolavam como perolas pelo rosto descolorido e pallido da filha.
-
-
-
-
-DUAS FACES DE UMA MEDALHA
-
-
-Ella tinha já feito vinte e cinco annos, elle contava apenas vinte e
-dous.
-
-Era uma creança triste e ambiciosa.
-
-Sonhava no impossivel, e n'esse sonho creava forças heroicas para todas
-as luctas da realidade.
-
-Margarida distinguira-o no meio de todos os homens ricos, elegantes,
-nobres ou poderosos, que a rodeavam e acclamavam rainha.
-
-É que na fronte d'elle, já cavada por duas linhas profundas, lia o que
-não lera ainda nos outros--o pensamento e a energia.
-
-Sabia, porém, que seu pae, o banqueiro millionario, só a daria com
-prazer a quem trouxesse mais lustre ou mais dinheiro á sua casa, e
-timida, melancolica, sem disposições para as luctas da vida,
-repugnava-lhe tudo que fosse combate ou resistencia.
-
-Tinha sido doente desde pequenina, era um organismo nervoso e delicado,
-cheio de caprichos inconscientes, mais artistico do que reflexivo.
-
-Gostava de musica, de flores, de versos, das cousas bellas e
-harmoniosas, tinha um vago desdem silencioso por tudo quanto via ser o
-enlevo e a preoccupação exclusiva dos seus.
-
-O dinheiro! sempre o dinheiro!
-
-Ninguem fallava em torno d'ella senão em dinheiro, e no entanto ella,
-que vivia n'um voluptuoso ninho de princeza de conto de fadas, tinha
-pelo dinheiro em si o mais soberano desdem.
-
-Salvava-a isto da vulgaridade que mais ou menos contamina as mulheres
-ricas.
-
-Margarida no inverno vivia em Lisboa.
-
-Tinha então a vida futil e ociosa de todas as rainhas da alta vida.
-
-Ia muito a S. Carlos, recebia n'uma certa noite da semana, presidia aos
-jantares dados por seu pae, ia passar muitas noites fóra, fazia compras,
-corria as modistas acompanhada sempre por miss Brown, uma correcta
-ingleza de sacca-rolhas côr de açafrão, que seu pae descobrira
-felizmente n'uma das suas viagens a Londres.
-
-No meio d'esta vida artificial tão vazia e tão fatigante ao mesmo
-tempo, que lugar havia para que ella pensasse, sentisse, desejasse
-alguma cousa para fóra do circulo estreito que a encerrava?
-
-Margarida deixava-se viver.
-
-Um dia, porém, n'um baile, apresentaram-lhe Eduardo de C., e depois de
-meia hora de conversação sentiu por elle o que não sentira ainda por
-nenhum outro.
-
-Ficaram conhecidos.
-
-Elle na sombra, de longe, já se vê; ella lá em cima na plena irradiação
-da sua graça, da sua formosura, da sua opulencia, de todo o seu
-esplendor.
-
-Cumprimentavam-se com uns toques de familiaridade, e n'um ou n'outro
-baile d'estes a que vae _toda a gente_, a boa e a má, tinham-se apertado
-a mão mutuamente, e tinham trocado algumas phrases affectuosas.
-
-No verão, o pae de Margarida, que tinha propriedades em varios pontos de
-Portugal, consultava a filha para que lhe indicasse a quinta em que mais
-gostaria de passar as calmas do estio.
-
-Pouco tempo depois do encontro com Eduardo, Margarida, disse a seu pae,
-que a consultava como de costume:
-
---Este anno vamos para o Minho, sim? Sinto-me tão fraca, tão doente! O
-ar do Minho ha de por força fazer-me bem.
-
-É verdade que nas vesperas, n'um baile, Eduardo dissera-lhe,
-approximando-se d'ella:
-
---Peço licença para apresentar a v. exc.ª as minhas despedidas.
-Alcancei uma collocação em Vianna do Castello, e parto para alli um dia
-d'estes.
-
---Vianna! pensou Margarida emquanto dous raios de alegria se accendiam
-nas suas pupillas de um azul sombrio.
-
---É em Vianna a nossa quinta.
-
- * * * * *
-
-Partiram.
-
-Na provincia a intimidade estabelece-se forçadamente entre pessoas que
-não pertencem ás mesmas camadas sociaes.
-
-Para se admittir um sujeito em qualquer sala de provincia exige-se
-simplesmente que tenha uma educação limpa, e que possua alguma _prenda
-de sociedade_.
-
-Em Vianna, na sala do grande banqueiro tão altivo e tão inaccessivel,
-reuniam-se não só os fidalgos mais primorosos das cercanias, como tambem
-os humildes funccionarios do Estado, que por aquellas regiões se achavam
-accommodados.
-
-Margarida, com o seu porte de soberana, o seu sorriso altivo e
-distrahido, a graça ondeante da sua gentil figura, recebia a todos com a
-mesma benevola indifferença.
-
-Todos a contemplavam fascinados e quasi medrosos.
-
-Ninguem se atrevia a dirigir-lhe finezas banaes: de tal modo o olhar
-d'ella sabia tornar-se glacial, logo que adivinhava a pretenção de um
-namorado na amabilidade um tanto desastrada de algum dos seus convivas
-provincianos.
-
---Não ha aqui um empregado chamado Eduardo de C.? perguntava um dia na
-sala a elegante filha do banqueiro.
-
---Ha. Um rapaz muito estudioso, muito concentrado, que desenha muito
-bem, acudiu espevitadamente d'alli uma menina que fazia as delicias das
-_soirées_ de Vianna, pela sua voz de falsete sempre prompta a torturar
-os ouvidos do proximo. Conhece-o?
-
---Foi-me apresentado este inverno em Lisboa; respondeu Margarida.
-
-E accrescentou mentalmente:--Quem me dera que elle aqui apparecesse!
-Como me distrahiria de tudo isto que me cérca.
-
-_Isto_ era uma duzia de _cavalheiros_ da _provincia_ acompanhados das
-suas respectivas esposas ou _manas_, tudo gente preoccupada dos
-interesses mais mesquinhos, das pequenas intrigas mais pueris, fallando,
-gesticulando, dançando, tocando, cantando, murmurando e constituindo a
-unica diversão das noites de Margarida.
-
-Não sabemos de que traças usou a gentil lisboeta: sabemos que algumas
-noites depois d'esta, Eduardo de C. era apresentado por um fidalgote,
-aspirante e litterato, na sala do banqueiro.
-
-Desde esse dia elle e Margarida formaram em commum uma especie de
-refugio contra a frivola banalidade d'aquellas noites.
-
-Eduardo desenhava com muito chiste caricaturas e graciosos _croquis_,
-que Margarida guardava contentissima; ella cantava com a sua voz meiga e
-flexivel algumas simples melodias allemãs, ou tocava as musicas dos
-velhos mestres classicos, tão queridos de Eduardo.
-
-Fallavam a respeito de tudo com a liberdade de pessoas que se entendem e
-apreciam.
-
-Discutiam litteratura, musica e versos.
-
-Ás vezes fallavam ambos do futuro.
-
---Que tem tenção de fazer? perguntava Margarida.
-
---Ora! Não sei bem. Com certeza hei de fazer alguma cousa. Ando a crear
-forças para a lucta. Ha de ser tenaz, ha de ser terrivel, bem sei, mas
-eu hei de vencer!
-
---Quer que lhe dê um talisman para entrar no fogo?
-
-Elle envolveu-a em um olhar ardente; depois, baixando a vista, respondeu
-quasi com violencia:
-
---Não brinque comigo. Olhe, que me faz muito mal.
-
- * * * * *
-
-Margarida sabia que era amada.
-
-Tambem ella sentia por elle o que nunca sentira, mas não tinha coragem
-para resistir ás ordens de seu pae.
-
-Por esse tempo andava elle a arranjar o casamento da filha com o conde
-de V., um moço que tinha nas veias o sangue dos reis godos, e na cabeça
-a mais crassa estupidez de que ha memoria desde o tempo dos ditos.
-
-Margarida sabia ou suspeitava do caso, mas deixava-se ir n'uma
-indolencia de crioula á mercê dos acontecimentos da sua vida.
-
-Ao pé de Eduardo sentia-se bem, e quando elle a fixava com o seu bello
-olhar de ambicioso e de pensador, Margarida esquecia-se de tudo que não
-fosse a delicia de ser preferida por aquelle homem.
-
- * * * * *
-
-N'uma noite em que os hospedes habituaes estavam na sala, e em que junto
-da meza redonda do serão Eduardo e Margarida liam esquecidos de tudo que
-os cercava, felizes, despreoccupados como os dous amantes do florentino,
-ouviu-se o rodar de uma carruagem que parava á porta do palacio.
-
-O banqueiro levantou-se rapidamente da banca do voltarete e sahiu da
-sala relanceando para a filha um olhar de esconso.
-
-Margarida, sem saber porque, fez-se pallida como uma morta.
-
---Ó meu amigo--exclamou n'um impeto ardente, irresistivel, que não soube
-conter,--chegou o fim da nossa felicidade!
-
-Eduardo olhou para ella desvairado.
-
---Que diz? que é isso? a que se refere?
-
-N'este momento entrava na sala o pae de Margarida dando a direita ao
-ultimo herdeiro de nobres avoengos.
-
---O sr. conde de V... pronunciou com o orgulho humilde dos burguezes
-ambiciosos de honrarias sociaes, apresentando o recem-chegado a toda a
-companhia.
-
-Margarida accolheu-o com um sorriso gelado.
-
-Conhecia-o, sabia que o pae queria pôr-lhe sobre a cabeça loura e altiva
-uma corôa de condessa, e sentiu que dentro d'alma lhe estalava uma corda
-que nunca mais tornaria a vibrar!
-
- * * * * *
-
-D'alli a seis mezes todos os jornaes annunciavam na secção do
-_high-life_ o casamento da filha do banqueiro opulento com o neto dos
-heroes medievicos.
-
-Os noticiaristas fundavam as mais ardentes esperanças n'este consorcio
-que alliava o sangue nobilissimo e a fortuna collossal, e contavam com
-grandes minudencias as pompas d'aquella festa principesca, os presentes
-riquissimos que a noiva recebera, a _toilette_ d'esta, a alegria dos
-numerosos convidados, etc., etc.
-
-O que ninguem sabia é que esse casamento despedaçára duas vidas!
-
- * * * * *
-
-No fim de dez annos o conde de V... déra cabo do dote da mulher, e da
-vida do sogro, que morreu amaldiçoando-o.
-
-Continuava, porém, _la vie à grandes guides_, que tinha começado no dia
-seguinte ao seu noivado, e já havia quem calculasse muito pela rama por
-quanto tempo podia durar ainda a desenfreada orgia d'aquella existencia
-de _Marialva_ estupido.
-
-Em casa da condessa o luxo não se modificára com as aproximações da
-pobreza.
-
-No olhar d'ella divisava-se uma profunda e desdenhosa indifferença da
-vida.
-
-Nem o amor maternal conseguira salval-a do desespero.
-
-Ligada a um homem que desprezava do intimo d'alma, entristecida para
-sempre por uma d'estas recordações que lavram dia a dia, e que por fim
-se apossam de uma existencia inteira, Margarida procurava esquecer-se de
-si, aturdir-se no turbilhão das festas mundanas.
-
-Os filhinhos estavam entregues ao cuidado d'aquella pobre miss Brown que
-ao vêr o abandono dos pobres anjos, innocentes das culpas de seus paes,
-se dedicára por elles com a abnegação profunda de que só é capaz uma
-ingleza feia!
-
-Margarida passeava de carruagem, ia ao theatro, ao paço, aos bailes, ás
-festas de beneficencia, vendia nos bazares de caridade elegante, fazia e
-recebia visitas, e de vez em quando, se no meio d'este turbilhão
-avistava o marido, media-o de alto a baixo com um olhar de profundo e
-inconcebivel tedio!
-
-Eduardo durante estes dez annos tambem soffrera grandes modificações na
-sua vida.
-
-Luctara como um homem, e soubera vencer a mediocridade do seu nascimento
-e da sua posição.
-
-No instante em que aquella que elle um dia amara como a noiva
-estremecida da sua alma, sentia vagamente afundar-se no sorvedouro negro
-da miseria, elle recusara altivamente uma pasta de ministro e uma noiva
-brazileira, possuidora de duzentos contos fortes, isto depois de uma
-sessão legislativa, em que a sua palavra viva, nervosa, eloquente,
-colorida e artistica havia deslumbrado o paiz.
-
---Não me vendo por dinheiro, nem pelas honras mentirosas com que os
-tolos lançam poeira á cara uns dos outros; respondera a quem o
-interrogava espantado ácerca d'estas duas recusas.
-
- * * * * *
-
-Alguem, que me contou este vulgar episodio da vida moderna, mostrou-me o
-fragmento de uma carta que Margarida escreveu doze annos depois de
-casada a uma socia das suas antigas alegrias.
-
-«É a ti que prefiro escrever. Conheceste-me solteira, feliz, idolo de um
-pae, que, ai de mim! se perdeu e me perdeu pela vaidade. Has de ter dó
-de mim.
-
-«Tenho dois filhos e preciso ganhar honestamente o pão que elles hão de
-comer!
-
-«Presinto o teu espanto, as tuas interrogações, os brados afflictivos da
-tua surpreza!
-
-«Não me perguntes nada.
-
-«Pergunta-o se quizeres, a essa Lisboa, que assistiu ao louco esphacelar
-de uma fortuna enorme, com o sorriso banal e adulador que ella tem para
-todos os perdularios.
-
-«Sabes a educação que recebi.
-
-«Creio que seria uma mestra capaz de cumprir com a minha ardua missão.
-
-«Em nome dos teus louros pequeninos, tão fartos de gulodices e de
-beijos, arranja-me algum meio de ganhar um pedaço de pão para os meus
-filhos.»
-
- * * * * *
-
-Dava lições!
-
-A brilhante Condessa de V..., a filha adorada de um dos homens mais
-ricos de Lisboa, a rainha dos salões luxuosos, a _estrella_ mais
-fulgurante do alto mundo, dava lições para sustentar os dous filhos que
-lhe restavam, unicos vestigios de um passado de pomposas mentiras.
-
-O infortunio nobremente supportado transfigurara aquelle rosto
-desdenhoso e soberbo de garrida mundana.
-
-Deixára de ser rainha e levantára-se martyr!
-
-Levantava-se de manhã muito cedo, bebia á pressa uma chicara de café,
-que a sua fiel Miss Brown, companheira dos triumphos e das desventuras
-lhe preparava por suas proprias mãos, e sahia, modestamente vestida de
-preto, a cumprir a sua improba tarefa.
-
-Só voltava a casa de noite.
-
-Divulgára-se rapidamente a noticia d'aquella excepcional desventura, e
-muita gente, que vira com desprazer a prodigalidade da caprichosa
-condessa, compadecia se agora, sem pensamento reservado, d'aquella digna
-e santa expiação.
-
-Margarida tinha muitas discipulas.
-
-Fazia pena vel-a, muito delgada, quasi diaphana, com os olhos pisados,
-as faces córadas pelo cansaço e pela febre, e um sorriso triste
-resignado, humilde, n'aquelles labios que tinham sabido tregeitar com
-tão altivo desdem.
-
-Era sempre a mesma alma sem energia.
-
-Não esperava cousa nenhuma da terra senão a morte, levando a consciencia
-de ter expiado os erros do seu orgulho.
-
-Cumpria uma penitencia, não encetava uma lucta heroica de que esperasse
-sahir vencedora.
-
-N'uma tarde do mez de janeiro, chuvosa, humida e fria, Margarida subia a
-muito custo a calçada de S. Bento, em Lisboa, onde morava uma das suas
-discipulas.
-
-A rua, viscosa e lamacenta, inspirava-lhe aquella repugnancia patricia,
-que a infeliz ainda não soubera vencer.
-
-A atmosphera plumbea e carregada dava-lhe ao coração uma dose de
-invencivel tristeza.
-
-Sentia-se predisposta para as recordações cruciantes para as inuteis
-fluctuações de um sonho que se extinguira.
-
-Comprehendia com angustia que lhe faltava coragem para levar a cabo o
-doloroso dever que a si propria impuzera.
-
-Oh! ella bem sabia que a sua alma não era da tempera das que luctam e se
-sacrificam!...
-
-N'isto uma carroagem elegante descia a calçada ao passo de dous formosos
-cavallos inglezes.
-
-Margarida, vendo a alguns passos o correio agaloado, percebeu que era um
-ministro e, sem querer, movida por um impulso subito, levantou os olhos
-e fitou os no homem que ia dentro do trem.
-
-O que ella sentiu não se explica.
-
-O ministro era Eduardo de C.
-
-Os olhos dos dous encontraram-se.
-
-Margarida quiz saborear a voluptuosa tortura de vêr n'esses olhos o
-brilho de um satanico orgulho, de um triumpho sinistro e mau.
-
-Não viu!
-
-Eduardo teve tempo de inundal-a em um d'estes olhares doces, unctuosos,
-cheios de misericordia, de doçura, de perdão; em um d'estes olhares que
-só podem comparar-se ao olhar do Christo redimindo a Magdalena!
-
-Só de longe a tinha visto de vez em quando nas salas do alto mundo:
-nunca lhe fallara então; não quiz humilhal-a fallando-lhe agora!
-
-Ella sentiu que se lhe despedaçara no peito alguma cousa indispensavel á
-vida.
-
-Apertou em torno do corpo friorento e emmagrecido as pregas do seu pobre
-chale preto, abaixou a cabeça instinctivamente, como se fizesse pender
-para a terra um pezo estranho, e continuou a subir devagarinho,
-arrimando-se á parede, aquella eterna calçada, cheia de agua e de lama.
-
-Cahia uma chuva fria e miuda que lhe encharcava o fato.
-
- * * * * *
-
-Um mez depois, da casa pequenina de Margarida sahia um enterro aceiado e
-modesto.
-
-Era o enterro d'ella.
-
-Miss Brown explicava que a pobre senhora voltara uma noite muito
-constipada das lições, que teimara em sahir ainda no dia seguinte, mas
-que tivera de recolher-se á cama, onde penou pouco menos de um mez.
-
-O enterro de Margarida levava por acompanhamento unico uma carruagem sem
-brazão.
-
-N'essa carruagem ia Eduardo de C.
-
-Margarida, antes de morrer, escrevera-lhe uma carta cujas supplicas
-dolorosas iam apagadas pelas lagrimas.
-
-Os dous orphãos de Margarida estão agora a educar-se em um dos melhores
-collegios de Lisboa, e todas as despezas da sua educação são pagas por
-um protector invisivel e mysterioso.
-
-Ha quem dê a essa Providencia ignota o nome sympathico e hoje glorioso e
-querido de Eduardo de C.
-
-
-
-
-A TIA IZABEL
-
-
-Conhecia-a em casa de uma familia amiga da minha.
-
-Affirmavam os que a tinham conhecido em menina, que fôra bonita; a mim
-parecia-me simplesmente sympathica.
-
-Era alta, magra, loura e muito branca, uma physionomia serena e
-melancolica, sem muito relevo, mas com muita doçura.
-
-Andava sempre vestida de escuro, com uma simplicidade em que
-transpareciam, porventura, vislumbres de antigas elegancias.
-
-Ao olhar para ella conhecia-se que havia de ter gostado de certas
-puerilidades mundanas, de se vestir e pentear bem, por exemplo, de ser
-citada pelo esmero do seu gosto, e pela distincção finissima de suas
-maneiras.
-
-Hoje todas as vaidades se tinham apagado; fizera quarenta annos, e
-acolhêra-os com resignação, com dignidade, com uma certa graça
-melancolica que lhe ficava muito bem.
-
-Nenhum dos rapazes que frequentavam aquella casa se atrevia a chamar-lhe
-_solteirona_.
-
-A _solteirona_ é a mulher solteira que não sabe acceitar resignada as
-amarguras da sua isolação, e as converte em ridiculos quando as não
-converte em pessimas qualidades.
-
-A _solteirona_ é pretenciosa, presumida, avida de attrahir a attenção,
-revolve os olhos sentimentalmente, lê romances, come gulodices, tem um
-_king charles_ e inveja tudo o que é moço, radiante, feliz, tudo que tem
-esperanças e para quem o futuro desabrocha em promessas.
-
-A _solteirona_ é egoista, incommodam-na como uma injuria que lhe é
-particularmente dirigida todas as alegrias que não tem, persegue-a
-atrozmente a aspiração irrequieta a um pobre marido que podesse
-atormentar á vontade; sente-se na vida como n'uma casa que não é sua;
-d'aqui o seu mau humor continuado que torna d'ella quasi sempre o
-flagello da familia onde se sente pária!
-
-A tia Izabel, porém, não era nada d'isto, pelo contrario.
-
-Tinha para os sobrinhos um coração que, sem ser de mãe, encerrava muito
-de maternal, sobretudo no que as mães têem de indulgente!
-
-Nunca a vi colerica, nunca a vi tambem excessivamente animada.
-
-Não se ria, mas tinha habitualmente um sorriso placido, quasi
-distrahido, o sorriso de quem se sente um pouco estranha a todas as
-alegrias que a rodeiam, mas que nem por isso deseja projectar as suas
-sombras na luz que os outros espalham em torno d'ella.
-
-Era muito estimada pelo irmão, pela cunhada e pelos sobrinhos, uns
-traquinas que andavam sempre a recorrer á sua inexgotavel paciencia, e
-que nunca foram expulsos com um gesto de irritação ou de desamor.
-
-Sabia a difficil sciencia de se tornar util a todos, quasi
-indispensavel; estreitando d'este modo os laços que a prendiam aos seus,
-tornando-os por assim dizer inquebrantaveis:
-
-Sentia-se assim menos só!
-
-Nos jantares de familia os melhores pratos eram sempre executados
-debaixo da sua direcção; era ella quem fazia o _menu_, quem distribuia
-os lugares, quem presidia a todos os arranjos de casa.
-
-Encarregava-se das tarefas mais enfadonhas, d'aquella parte aborrecida
-que tem uma festa e que as donas da casa acceitam com tédio, mas que
-lhes é mais tarde compensada no applauso, na satisfação, ás vezes mesmo
-na inveja disfarçada em risos dos seus convivas.
-
-N'essas occasiões solemnes em que ninguem dava por ella, creio que se
-permittia um instante de innocente amor proprio, vendo a meza bonita,
-bem disposta, com a elegante e symetrica poesia das grandes jarras do
-Japão cheias de flores, dos crystaes facetados onde o vinho tomava as
-olympicas apparencias do nectar, da bella louça da China de lavores
-extravagantes e phantasiosos, da roupa fresca, pesada, macia, de linho
-da Russia adamascado, tendo bordadas iniciaes... que não eram as d'ella.
-
-Depois voltava para o seu logar secundario, obscuro, e voltava de
-boamente com simplicidade despreoccupada.
-
-Estava sempre bem com todos, sem se curvar obsequiosamente diante de
-alguem.
-
-Tinha mesmo um modo seu de dizer as verdades com firmeza e com brandura,
-sem transigencias cobardes, sem severidade excessiva.
-
-Quando havia em casa um doente, sentava-se-lhe tranquillamente á
-cabeceira, fazia-lhe sentir com discreta suavidade a sua influencia boa,
-perdia as noites com um aspecto de intrepidez e de meiguices; era
-inapreciavel emfim.
-
-Tinha uma infinidade de pequenas idéas que punha em pratica e de cada
-uma das quaes resultava um allivio para o doente: arranjava as
-almofadas, aconchegava as roupas do leito, dir-se-hia que a sua mão
-esguia, branca, um pouco secca, tinha o segredo de verter balsamo em
-todas as feridas de um corpo enfermo.
-
-Na convalescença lia alto.
-
-Escolhia muito bem os livros, tinha a maravilhosa intuição de todas as
-necessidades de um espirito adormecido, n'aquella dubia luz crepuscular
-da doença physica.
-
-A sua voz vellada, sem grande sonoridade, tinha umas notas macias que
-entravam até ao fundo do coração e que o amolleciam docemente.
-
-Ainda nos desgostos de familia, na hora das crises e das catastrophes
-era para ella que instinctivamente todos os braços se estendiam.
-
-É que ella, com o seu passo miudinho, o seu ar sereno, os seus habitos
-methodicos, nem diante das maximas catastrophes perdia a placidez
-necessaria.
-
-Uma das suas particularidades mais accentuadas era a repugnancia pelo
-barulho, pelo espalhafato, por todas as exterioridades apparatosas.
-
-Andava, fallava, trabalhava, movia-se sempre devagarinho.
-
-Lembro-me perfeitamente do quarto d'ella, como d'uma especie de pequeno
-sanctuario onde poucas vezes penetravam as travêssas creanças de quem
-ella era como que segunda mãe.
-
-Quando eu acertava de lá entrar com ellas, emquanto a pequenada corria
-de um lado para outro, vendo, tocando tudo, perguntando informações de
-todas as cousas, eu observava callada com o meu olhar de mais velha,
-mais penetrante e mais curioso.
-
-Tudo alli era limpo, aceiado mas tudo antigo, datando sem duvida da sua
-adolescencia, do tempo em que ella fôra feliz, porventura requestada e
-formosa.
-
-A alcova branca, discreta, com o seu oratorio de pau santo, cheio de
-bellas imagens, a Virgem risonha e loura com o menino nos braços, o
-Christo macerado e sangrento com a expressão de sobre-humana agonia no
-amortecido olhar.
-
-No gabinete contiguo as cortinas, os reposteiros de chita, as poltronas,
-as pequeninas mezas cobertas com os seus panos de _crochet_, as estantes
-de livros, tudo emfim era bem conservado, sem ser novo; via-se que tinha
-sido o objecto de attentos cuidados, que todas aquellas cousas mudas
-haviam sido as companheiras unicas de uma existencia concentrada e
-solitaria.
-
-Nas paredes, sobre as pequenas _étagères_, muitos retratos, todo um
-cortejo moço e triumphante que passava ao longe.
-
-Exhalava se d'aquelles objectos tão esmeradamente cuidados, um vago, um
-indistincto perfume de saudade, como d'um herbario de flôres seccas,
-colhidas entre risos de crystal, nos dias radiantes da primavera...
-
-Os pequenos então, com a sua inconsciente crueldade infantil, faziam mil
-perguntas, impacientes, curiosas...
-
---Quem era esta menina, tia Izabel? tem um vestido de seda decotado e na
-mão um malmequer que está desfolhando. Como ella scisma tão embebecida!
-Em que scismaria ella, minha tia?
-
---No futuro!... respondia ella sorrindo com o seu bello sorriso
-intraduzivel em que havia talvez muitas saudades.
-
---Que é feito d'ella? Era sua amiga, não era? Porque é que a não vem cá
-vêr nunca?
-
---Ao principio veio, depois casou-se; o marido levou-a a viajar, foram
-muito longe, divertiram-se, provavelmente ella esqueceu-se. Quando
-voltou trazia um filho, um _baby_ louro e côr de rosa como o teu
-irmãosinho Arthur. Só o vi uma vez. As creanças absorvem muito as mães,
-por causa d'ellas esquecem-se de tudo, até das amigas da infancia. Hoje
-só sei que é muito feliz, e quando tenho saudades olho para o retrato
-d'ella!... Fômos tão amigas!
-
-E callava-se baixando os olhos, receiosa de que a vissem contemplar com
-demasiado enlevo os dias que já não podiam voltar.
-
-Todos aquelles retratos tinham uma historia.
-
-Aquelle cortejo de juvenis visões louras, morenas, travêssas ou
-melancolicas faziam parte do passado, por isso lhes queria tanto.
-
-Umas tinham casado, eram felizes, viviam absorvidas pelo divino egoismo
-da familia, todas entregues ao bem estar dos seus, aos interesses, ás
-alegrias, ás dôres do seu pequeno circulo de affectos.
-
-Outras tinham morrido; eram as que alli nos appareciam mais pallidas,
-com um vago reflexo de luz febril nos olhos pasmados e pensativos.
-
-Tinham morrido na plena florescencia do seu imaginar juvenil, levando
-para a cova, como levariam uma flôr ainda constellada pelos orvalhos
-matinaes, a dôce chymera que nenhum sôpro brutal lhes havia desfeito.
-
-Fecharam os olhos cercados por todas as apparições fulgidas, que
-envolvem a mocidade como n'um circulo de estrellas, e foram
-despertar--quem sabe! n'outras regiões de que ninguem ainda voltou, do
-sonho feliz que haviam começado na terra.
-
-Não eram essas as menos bemfadadas.
-
-Ella, porém, ficára só.
-
-Porquê?
-
-Condemnação de que não conhecia o implacavel segredo!
-
-Tambem fôra môça, tambem tivera crenças, esperanças, pequenos
-sobresaltos de amor proprio, ephemeras vaidades de quem se julgara
-querida!
-
-Estremecera muita vez, ao sentir abrir uma porta, echoar um passo
-ligeiro e firme nos vastos corredores, vibrar uma voz viril, grave e
-terna!
-
-Tivera rubores subitos, sentindo pousar na sua fronte branca, a luz d'um
-olhar quente e caricioso; colhêra uma rosa, prendera nos cabellos um
-cacho de madresilva, vestira um dia um certo vestido branco, cheia de
-alegria, agradecendo a Deus ter feito a vida tão boa, o céu tão azul, o
-cheiro das arvores tão penetrante e tão sadio!
-
-Olhava n'este tempo para as creanças, beijava-as como a ensaiar as
-graças da maternidade, fazia-lhes festas, pensando que tambem havia de
-ter um dia uns pequeninos como aquelles, que lhes havia de querer muito,
-e leval-os a passear, seguida pelo olhar invejoso das outras mães...
-cujos filhos seriam forçosamente feios.
-
-Então consultava comsigo mesma o systema de educação que adoptaria, e o
-modo porque os havia de vestir, e concluia vendo-os entrar para a
-Universidade, n'um dia de muitas lagrimas e de muitos dilaceramentos,
-altos, esbeltos, um pouco altivos, com um buçosinho louro, appetitoso
-como a pennugem d'um pecego mal maduro.
-
-Foram-se-lhe dias e dias n'este sonhar que a entretinha, como a leitura
-d'um romance cujo interesse nunca afrouxa.
-
-Um dia, porém, por acaso viu-se ao espelho, e despediu-lhe o seio um
-grito de angustia.
-
-Despontava-lhe entre os fártos cabellos louros, o primeiro cabello
-branco, um fio de prata, tenue, quasi imperceptivel, uma cousa em que
-ninguem reparava.
-
-Reparou ella.
-
-Reparou tambem n'esse momento que todas ou quasi todas as companheiras
-tinham casado, que muitas das suas illusões se tinham desfeito ás
-asperas nortadas da realidade, que se ia sentindo na vida muito só.
-
-Teve umas horas de lucta, de revolta, quasi de desespero.
-
-Alguem, ou _alguem_ invisivel em que ella sempre acreditára, mandou-lhe
-a força, porque lhe mandou a resignação!
-
-Quando o pae lhe morreu veio para casa dos irmãos, e a pouco e pouco
-achou em si a fonte de todas as riquezas mysteriosas, que espalhava
-pelos affectos que o seu coração adoptou!
-
- * * * * *
-
-Eis pouco mais ou menos a _historia da tia Izabel_.
-
-
-
-
-O MELHOR SOMNO DO MILLIONARIO
-
-
-Tinha ido para o Brazil ha muitos annos.
-
-Ainda havia frades em Portugal e fôra até um seu tio frade que o
-acompanhara a bordo de um brigue e que lhe dissera com voz solemne e
-sentenciosa, no momento da despedida, estendendo os braços n'um largo
-gesto de pregador:
-
---Deus te leve a salvamento, Francisco!
-
-O sr. Francisco Cerqueira lembrava-se de todos os pormenores e
-incidentes trabalhosos da jornada que elle fizera desde a sua pequena e
-risonha aldeia minhota até Lisboa.
-
-Era um gosto ouvil-o á mesa, ao domingo, quando o armazem repousava na
-sua humidade claustral, e não se ouvia o estrepitoso labutar dos negros
-carregadores, a voz arrastada dos Mineiros freguezes da casa, e a
-melopéa das quitandeiras na rua.
-
-Os socios muito mais moços que Cerqueira _puxavam-lhe pela lingua_
-conforme a pittoresca locução do povo, e á sobremesa, recostados, com os
-charutos accesos, ouviam-no discretear alegremente.
-
-Lembrava-se de tudo o sr. Cerqueira. Era uma chronica viva. Recordava-se
-da sua aldeia, narrava historias da sua infancia, descrevia com rudes
-mas pittorescas phrases a aula de primeiras letras, o abbade da
-freguezia, as proezas do tio frade, que com um varapáo nas unhas era
-homem para varrer toda uma feira, e enternecia-se até ás lagrimas,
-quando tocava no assumpto de despedida da mãe.
-
---Ah! vocês não imaginam! Não me sahe d'aqui! Parece que tenho um nó na
-garganta, quando me lembro d'aquelle momento. Abraçava-me a chorar e a
-soluçar que era uma cousa por maior! Inda me parece que a vejo ao pé das
-carvalheiras do adro da igreja, estendendo-me os braços de longe e
-gritando suffocada:
-
---Ah! rico filho, rico filho da minha alma!...
-
-Que idade terá ella hoje? Ora, espera, eu tenho cincoenta e seis; ella,
-pelas minhas contas, vem a ter os seus setenta bem puxados... quem me
-dera vêl-a!
-
---Mas, _seu_ Cerqueira, nada mais facil! Por que se não resolve? Em
-dezoito dias está lá...
-
---Sim, é verdade.
-
-E ficava triste e meditabundo por instantes...
-
---Mas tenho medo de chegar e de não a encontrar. O unico motivo que me
-leva á Europa, é ella, a pobre velhinha... É o unico parente que tenho,
-que não sei se vocês sabem, que da nossa familia restamos tão sómente
-nós, ella e eu... a minha terra é aqui, para aqui vim creança, e aqui me
-fiz gente... Que vou eu fazer á Europa, não me dirão?
-
-Isto dizia o sr. Cerqueira; mas o que se lhe passava no intimo era bem
-diverso. Tinha saudades, tinha-as e bem fundas da aldeia em que nascêra
-e da casa em que se creára.
-
-Porque a sua vida fôra um luctar sem treguas, um batalhar decidido e um
-inferno, á sahida do qual elle contava, como o mythologico Orpheu, rever
-as appetecidas Eurydices--a mãe e a patria...
-
-Escrevia á mãe de tres em tres mezes, e nunca deixava de lhe recommendar
-que conservasse tal e qual como estava a casita, e que não mexesse nunca
-no leito em que elle dormira nos annos proximos á partida para o
-Brazil.
-
-«Porque desejo morrer n'elle», escrevia Cerqueira á mãe amantissima.
-
-E ia-se deixando ficar.
-
-Por duas vezes os socios estiveram em Portugal, mas o nosso Cerqueira
-não se decidia.
-
-Ás vezes parecia tomado de uma forte resolução, e, ouvindo as
-descripções das viagens dos socios:
-
---Homem, parece-me que sempre me resolvo!
-
-No outro dia, porém, lá andava pelos armazens mourejando, dando ordens,
-e n'aquella atmosphera de trabalho vivificante e saudavel parecia
-transfigurado e como que esquecido da promessa que a si proprio fizera.
-
- * * * * *
-
-Um dia, quando o sr. Cerqueira encarapitado no alto banco de palhinha
-sobre a secretária, revendo se na sua bella letra ingleza e floreada,
-entrou no escriptorio um dos caixeiros annunciando-lhe que estava alli
-um sujeito que desejava fallar-lhe.
-
-Cerqueira collocou a penna atraz da orelha, puxou do lenço vermelho, e
-abrindo a caixa enterrou unidos, no tabaco, o pollegar e o index, e mal
-acabava de absorver a pitada pela narina direita, tamburinando
-voluptuosamente com os restantes dedos na esquerda, quando lhe surgiu á
-porta um rapaz bem trajado e modesto, que figurava ter quando muito
-dezeseis annos.
-
---Creio que fallo ao snr. Francisco Cerqueira?
-
---É verdade.
-
---Cheguei hoje de Portugal e trago-lhe esta carta.
-
-E o rapaz desabotoando o fraque, tirou do bolso uma carta que entregou
-respeitosamente ao negociante.
-
-Olhou attento para a lettra do sobrescripto e sorriu-se; um bom sorriso
-beatifico e dourado de mocidade que lhe illuminou o semblante.
-
-Depois abriu a carta, desdobrou-a e collocando-a ante o rosto começou a
-lêl-a devagar, como que saboreando cada palavra e cada phrase. Ás vezes
-parava, e como um namorado que espreita por cima d'um muro, erguia os
-olhos acima do papel e examinava attentamente o rapaz, que se conservava
-de olhos baixos, direito e tranquillo.
-
-Chegando ao fim da carta, voltava de novo a lêl-a. Era como que um
-conversar com aquellas letras que vinham de longe e que lhe traziam um
-pouco de perfume das larangeiras do paiz natal, e um tudo nada das
-lagrimas de sua mãe.
-
---Queira sentar-se, disse benevolamente o commerciante ao mancebo.
-
-E continuou a ler. A carta era pequena, mas n'aquellas letras
-arrevesadas e tremulas elle via um rosto, umas feições adoradas, e logo
-depois como nas tintas esbatidas e aereas de um sonho de convalescente,
-levantava-se uma figura de mulher ainda moça e vigorosa, ao pé de umas
-carvalheiras, e essa mulher estendia-lhe os braços e dizia-lhe de longe
-com uma voz entrecortada de lagrimas:
-
---«Ah! rico filho, rico filho da minh'alma!»
-
-Arrancado d'aquella visão, o sr. Cerqueira dobrou a carta devagar com as
-mesmas dobras, abriu a larga carteira de marroquim vermelho e collocou-a
-com grande cuidado n'um determinado compartimento.
-
-Em seguida levantou-se e pitadeando de novo:
-
---Olhe, o nosso guarda-livros vai espairecer até Buenos-Ayres, e creio
-que por lá ficará. Coitado! aquillo vai mal!... Quer o senhor occupar
-esse lugar n'esta casa?
-
-O moço acceitou reconhecido, e ia a levantar-se quando um preto velho em
-mangas de camisa abriu a porta do escriptorio:
-
---O jantar está na mesa, nhônhô...
-
- * * * * *
-
-Passados dias notaram os socios do sr. Cerqueira que este não parava em
-casa um instante. Sahia frequentemente, andava mais contente e lepido
-que o costume. Pouco fallava ao jantar; de communicativo que era,
-tornara-se recolhido comsigo, mas no olhar lampejava-lhe uma doce e
-ineffavel alegria.
-
-Ora que fazia o sr. Cerqueira?
-
-Andava envolvido n'uma terrivel conspiração, queria desfazer-se,
-desligar-se dos queridos laços, creados pela sua longa e trabalhosa vida
-de perto de quarenta annos, n'aquella terra a que elle de entranhas
-queria, e aonde aportara pobre, desprotegido, sem recursos...
-
-Logo pela manhã, depois de dar as suas ordens no escriptorio, mettia-se
-a caminho, percorria as ruas, examinando attentamente cousas que antes
-lhe haviam passado desapercebidas.
-
-Entrando nos _americanos_, dirigia-se aos formosos arrabaldes da
-côrte...
-
-Lembrava-se então das suas merendas saudosas e illuminadas pelo sol dos
-vinte annos, no morro de Santa Thereza, nas chacaras ridentes do
-Botafogo, á sombra das arvores do Corcovado.
-
-E passava distrahido sem corresponder aos frequentes e affaveis
-cumprimentos que lhe faziam os conhecidos e amigos, do alto da imperial
-dos omnibus, ou da plata-forma dos _americanos_.
-
-Alguns dos companheiros dos seus passeios e folguedos da mocidade tinham
-morrido, outros haviam deixado o Brazil e viviam na Europa, em Portugal.
-
---Como poderam elles deixar isto sem saudade? É verdade que eu gostava
-de morrer lá, onde nasci, na minha pobre aldeia, ao pé de minha mãe...
-pensava o sr. Cerqueira.
-
-E á hora do jantar, já não havia o conversar, e aquelle teimoso
-questionar que tanto alegrava os dois socios!
-
-É que o sr. Cerqueira continuava a fallar comsigo e a passar uma a uma
-pelos dedos as contas do mystico rosario das suas saudades...
-
- * * * * *
-
-Uma tarde os socios de Cerqueira bateram-lhe á porta do quarto. Houve
-uma certa demora em se abrir essa porta. Insistiram. Cerqueira veio
-emfim saber o que era.
-
-Entraram os dous e recuaram surprehendidos ante a mudança que
-observaram.
-
-No meio do quarto estava uma grande mala escura cravejada de pregos
-amarellos; em cima do canapé esgarçado avultavam montes de roupa branca,
-e pequenas malas inglezas com fechos dourados e reluzentes. As gavetas
-da commoda estavam corridas, havia n'aquelle quarto em fim a apparencia
-d'uma casa saqueada...
-
---O que é isto, _seu_ Cerqueira?
-
---É o que vocês estão vendo. Ámanhã é o dia da partida... Resolvi-me
-emfim...
-
---E eu que tinha apostado aqui com o _seu_ Fernandes que você nunca se
-resolvia...
-
---Pois, meu amigo, perdeu a aposta, cortou o Cerqueira, sorvendo
-sybariticamente uma pitada.
-
-Na manhã do dia seguinte, no tombadilho d'um dos vapores da Companhia do
-Pacifico, emquanto os dous socios do Cerqueira riam e diziam facecias,
-deitando com ares de casquilhos atabalhoados as lunetas a algumas
-francezas, que, com os seus vestidos de fazendas claras animavam
-alegremente aquelle conjunto de pessoas possuidas de tão estranhos e
-contradictorios sentimentos, o nosso viajante olhava com os olhos de
-quem se despede de um sitio amado para os armazens, para os trapiches
-que se retratavam nas aguas da bahia, para as torres das egrejas que se
-arrendavam nitidamente no claro céo azul.
-
- * * * * *
-
-Em Lisboa pouco se demorou.
-
-No hotel, alguns amigos quizeram prendel-o ainda, tentando-o com o
-theatro lyrico, com Cintra e com as poucas fascinações baratas de
-Lisboa.
-
-Cerqueira resistiu, e n'uma bella manhã, mettido em uma diligencia que
-partia de Braga, dirigiu-se para Ponte de Lima. Aqui alugando uma
-cavalgadura endireitou para a aldeia em que nascêra.
-
-A meio caminho apeou-se, despediu o homem que o acompanhara, e deitando
-ao hombro uma pequena mala que trouxera, encaminhou-se para o seu lugar.
-
-Seriam quando muito duas horas da tarde. O calor era grande. Pouca gente
-na estrada. Cerqueira parou a contemplar o quadro.
-
-De um dos lados do caminho viam-se algumas raparigas com largos chapéos
-desabados e saias apanhadas segando herva, á compita, e misturando o seu
-canto ao metalico e monotono cantar das cigarras...
-
-Do outro lado, um rapazito meio nú, de carapuça, sentado no chão,
-estava de guarda a meia duzia de bois que pastavam tranquillamente na
-herva macia e tenra...
-
-De vez em vez, quando um dos bois se approximava de algum castanheiro, o
-rapaz agarrava de um calhau, e atirando-lhe rasteiramente, gritava:
-
---Eh! malhado...
-
---Quantas vezes eu tambem guardei as vaccas da nossa casa! pensou
-Cerqueira.
-
---Seu moço, venha cá, disse para o rapaz, venha cá, menino!
-
-O rapaz olhou para o forasteiro com um olhar estupido e embezerrado e
-deixou-se ficar.
-
---Venha cá, menino, que lhe não quero mal...
-
-O pequeno não se movia.
-
---O rapaz é mouco, disse comsigo o viajante, e como quem conhece o
-coração humano, tirou a bolsa e mostrou-lhe uma moeda de prata.
-
---Queres isto?
-
-De um salto o rapaz poz-se a pé, tirou a carapuça, e coçando a cabeça
-aproximou-se.
-
---Diga-me uma cousa, menino, é aqui do lugar?
-
---Saiba vossemecê que sim senhor.
-
---Conhece a tia Genoveva?
-
---Uma que é assim a modo bexigosa, e já muito velhinha?
-
---Essa mesma.
-
---Olhe, ainda ha pouco a vi passar da banda do rio... São horas de a
-topar em casa...
-
-Cerqueira estava emfim tranquillo.
-
-Desapparecera o receio de não encontrar a querida velhinha.
-
-Verdade é que podia ter tido novas d'ella em Lisboa escrevendo ao
-abbade, mas queria fazer uma supreza, chegar de improviso.
-
-Áquella hora as aldeias do Minho são silenciosas e calmas, e ha n'ellas
-como que a intima paz das fabricas ao domingo.
-
-Os homens andam no campo, as mulheres, quando os não acompanham, estão
-nos lavadouros ensaboando, e poucas pessoas, a não serem os velhos e
-algumas creanças, ficam em casa.
-
-Na sombria humidade das tabernas descobre se a taberneira fiando,
-emquanto no quinteiro proximo os porcos com os focinhos semi-enterrados
-na lama grunhem voluptuosamente.
-
-Um ou outro cavalleiro que passa ás vezes pela estrada n'um choito
-endiabrado, com o páo de choupa apertado nos joelhos, levantando uma
-nuvem de poeira dourada. E é então que os cães acordam aquelle silencio,
-latindo e correndo atrás dos cavalleiros, e que apparecem ás janellas e
-ás portas as raras pessoas que ficaram em casa.
-
-Quando Cerqueira bateu á porta da casa pulava-lhe o coração de um modo
-desusado.
-
---Quem é?
-
---Alguem é, respondeu o viajante.
-
---Pois empurre o postigo, puxe pela aldraba e entre, se isso o não
-incommoda.
-
-Assim o fez o nosso Cerqueira e entrou na saleta em que a tia Genoveva
-dobava...
-
-Ante aquelle homem estranho, a velha surprehendida parou, e pondo uma
-das mãos diante dos olhos como uma palla:
-
---Que me quer vossemecê?
-
---Um abraço e um beijo, balbuciou o que entrara com voz enternecida e
-expirante...
-
---Elle que diz? Ó Christo!
-
-E levantando-se foi direita á janella para chamar por soccorro
-imaginando vêr-se a braços com um doudo.
-
---Olhe que não estou doudo, santinha! Venho de longe e trago-lhe um
-beijo e um abraço de uma pessoa que é muito sua amiga.
-
---Do meu Francisco? exclamou a velha. Venham de lá não só um mas muitos
-abraços, que elle no dinheiro é mais generoso, valha-o Deus! Um só
-abraço!
-
-E a velhita apertou nos braços Cerqueira, que com as lagrimas nos olhos
-murmurava:
-
---E eu que pensei que me conhecia! Pois não me conhece, minha mãe? Eu é
-que sou o seu Francisco, sou eu, repare bem...
-
-A velha então explodiu um alto e clamoroso grito, e chorando e rindo,
-cahiu nos braços do filho.
-
---Agora conheço, sim, estava tonta! Esta cabeça! Mas se tu eras uns _dez
-réis_ de gente quando abalaste d'aqui... Onde está a tua roupa? Já
-jantaste? Cá a gente janta ao meio dia, mas arranja-se tudo, não tem
-duvida... a Joanna foi á cidade, vou eu mesma matar uma gallinha... Tens
-fome? deves ter, sim? A minha cabeça... a minha cabeça! O meu Francisco!
-Mas porque me não mandaste dizer que chegavas, rapaz? Valha-te Deus,
-manicanso!...
-
-E a tia Genoveva no meio do seu contentamento sahia da sala para logo
-voltar, amontoando perguntas sem nexo.
-
---Gostas d'isto? gostas d'aquillo? Do que vaes gostar é do vinho, é do
-nosso _caco de salsa_ e sahiu-me d'aquella casta! O presunto vamos com
-Deus, que tambem me sahiu bom. Vaes provar... Ora o peccado do rapaz que
-me não avisou de nada!
-
-E sahia para d'ahi a pouco voltar com a mesma abundancia de perguntas e
-de phrases penetradas de amoravel reprehensão...
-
- * * * * *
-
-Oh! que bom e que intimo foi aquelle jantar!
-
-A sala alegre e caiada de branco, a toalha aspera, grossa e nevada, os
-talheres de cabo d'osso fabricados em Guimarães, os copos com um friso
-dourado nas bordas, as janellas abertas e dando para os campos onde
-cahiam suavemente as tintas do sol posto, tudo dava uma quieta e serena
-beatitude ao coração do _brazileiro_.
-
-A mãe encostada ao espaldar da cadeira em que estava sentado o filho
-servia-o com muito carinho, fazendo-lhe perguntas sem conta a que elle
-respondia com o rosto inundado e clareado pelas lembranças de um passado
-que as palavras da mãe evocavam renascido.
-
-Depois coube-lhe a elle fazer tambem perguntas: o que era feito d'este,
-se ainda era vivo aquelle, se no sitio de tal ainda existiam aquellas
-carvalheiras onde havia d'antes tanto ninho de melro, e se uma casára, e
-outra tinha muitos filhos, eu sei! um mundo de recordações e de
-saudades!
-
-E com o olhar humedecido, Cerqueira percorria tudo, o velho armario
-pintado, as grades da varanda, as medas levantadas no meio da sombria
-verdura dos campos...
-
-Ia cahindo a noite, ouvia-se já na aldeia um certo borborinho de vida,
-vinham da estrada trechos ruidosos de conversações. Recolhiam do campo
-os trabalhadores.
-
-E os dois a conversar ainda!
-
---E a Joanna que não chega da cidade! É sempre assim!
-
-Quando ha pressa é que não vem... Queres tu dar uma volta pelo lugar,
-Francisco?
-
---Nada, minha mãe! Este dia é só para si. Inda bem que ninguem me viu, e
-que se não sabe que cheguei... Conversemos, tenho tanto que dizer, tanto
-que ouvir...
-
-Entrelaçava-se de novo a conversa, e assim estiveram até que a velha
-disse:
-
---E então não querem vêr que o rapaz quer tirar-me dos meus habitos! São
-horas de deitar. Vou fazer-te a cama, está ahi quedo que eu já volto.
-
-Voltou d'ahi a pouco com um candieiro de tres bicos. A luz batia-lhe no
-engelhado rosto cheio de bondade, e um sorriso de ventura brincava-lhe
-nos olhos e na bocca.
-
-E, empuxado suavemente pela mãe, o brazileiro entrou no quarto que lhe
-estivera preparando.
-
-A velha abeirou-se da cama, desdobrou as roupas, ageitou a
-travesseirinha de largos bordados tesos e engommados, e voltando-se para
-o filho que examinava tudo curiosamente:
-
---Agora toca a deitar! Tenho tanta pena que me não trouxesses uma nora!
-pois eu creio que lá no Brazil ha muitas moças bonitas, pois não ha?
-
-O brazileiro sorria-se, e a mãe incansavel enchia-o de perguntas, de
-mimos, de recommendações, até que sahiu abençoando-o com toda a sua
-alma, rude mas extremosa.
-
- * * * * *
-
-Francisco Cerqueira deitou-se, e ainda que lhe parecesse que o haviam de
-incommodar os pesados lençoes de linho duros e asperos, adormeceu
-profundamente.
-
-Sonhou. Estava no Brazil, os socios tinham chegado da Europa, vinham
-queimados da viagem, mas contentes; contavam anecdotas e casos
-succedidos durante o passeio.
-
-Que Portugal era um jardim, o Minho sobretudo! não se fazia ideia.
-
-Narravam a maneira como tinham sido recebidos na aldeia natal, as
-festas, as alegrias da chegada, as noites de esfolhada, as romarias
-ruidosas... Cerqueira ouvia-os, e lá por dentro do coração, sentia a
-grande e plumbea nostalgia do paiz natal... Se eu pudesse lá ir! Mas
-para que? Estou velho... e depois póde ser que a velhinha já não
-viva!...
-
-E continuava a trabalhar, a dar ordens no humido armazem sombrio entre
-os escravos...
-
-N'isto saccudiram-no uma, duas vezes, tres vezes...
-
---Ó grande mandrião, pois isto são horas de dormir ainda? Olha que já
-estou a pé ha duas horas! Na cozinha vae tudo raso com trabalho! Arriba,
-homem! Não tens vergonha, dorminhoco?
-
-E o _brazileiro_, estendendo os braços e esfregando os olhos com os
-punhos fechados, perguntou bocejando:
-
---Que horas são?
-
---Dez horas, grandecissimo perguiçoso!
-
---Ha quarenta annos que não durmo um somno tão bom, minha mãe!
-
-
-
-
-A PERCEPTORA
-
-
-Chamava-se Martha de Vasconcellos.
-
-Era alta, loura, delicada como uma figura de _Keepsake_.
-
-Uma physionomia suave e infantil que captivava pelo seu encanto
-inconsciente.
-
-Á primeira vista, nas _soirées_ semanaes do commendador Gonçalves,
-vestida de branco, com um simples velludo negro nos seus cabellos
-crespos de um louro fulvo e ardente, parecia uma creança despreoccupada
-e frivola.
-
-Não o era.
-
-Quem a conhecesse de perto sabia que ella tinha a seriedade precoce dos
-que já padeceram muito.
-
-Nenhuma sentimentalidade falsa no seu olhar azul, meigo e pensativo.
-Nenhuma ideia errada, nenhuma chiméra juvenil na sua cabecinha d'uma
-lucidez singular.
-
-Sabia conservar-se na sombra, sem deixar de ser digna; tinha a
-consciencia da mesquinhez do seu destino, sem ter nunca aprendido a ser
-humilde.
-
-Pouco fallavam com ella, e no entanto parecia não dar pelo desdem quasi
-brutal de toda aquella gente que a cercava.
-
-Tinha um modo docil e meio risonho de sentar-se ao piano, e tocava uma
-noite inteira valsas, contradanças, lanceiros, que outras dançavam, na
-expansão da sua alegria burgueza.
-
-Nunca lhe perguntavam se estava cançada, nunca lhe davam a menor mostra
-de interesse ou de sympathia.
-
-Pagavam-lhe integral e generosamente, tinham direito aos serviços
-correspondentes a essa remuneração.
-
-As suas relações paravam aqui.
-
-Não sabiam se ella tinha uma alma, se essa alma se iria azedando a pouco
-e pouco ao contacto d'aquella indifferença cruel; não sabiam do seu
-passado senão que era honesto e puro, nunca pensavam no seu futuro senão
-vendo-a eternamente curvada ao pezo do mesmo destino ingrato.
-
-Martha era mestra de duas filhas do commendador, duas rapariguinhas de
-treze a quinze annos, muito presumidas da sua riqueza, muito vaidosas do
-seu luxo, das carruagens em que andavam, dos vestidos de seda que
-vestiam, das festas com que os paes alteravam de vez em quando a chata
-monotonia do seu viver de negociantes retirados.
-
-O commendador tinha um filho muito mais velho do que as irmãs, que se
-educára na Allemanha; e que depois de viajar pela Europa inteira, havia
-regressado emfim á casa paterna, onde, aqui para nós, se enfastiava
-poderosamente.
-
-O commendador queria dar tambem ás filhas uma educação brilhante, uma
-educação que correspondesse ás dimensões da sua _burra_, eis porque,
-depois de as tirar do convento, onde tinham estado até áquella idade,
-escolhera para professora Martha de Vasconcellos.
-
-De resto as idéas do commendador e da mulher sobre a educação de suas
-filhas, não eram das mais engenhosas e atiladas.
-
-A pobre gente--n'este caso, _pobre_ significa riquissima--a pobre gente
-não era obrigada a ter um ideal muito levantado.
-
-Sabiam que a filha do barão de tal tocava pianno, e queriam que suas
-filhas soubessem tocar muito melhor.
-
-Tinham ouvido louvar os desenhos da menina _Fulana_ e juraram aos seus
-deuses que as suas meninas lhe haviam de levar a palma.
-
-Não tinham ideias absolutas, tinham simplesmente ideias relativas.
-
-Excitar a admiração parecia-lhes uma cousa réles e insignificante; o que
-elles queriam era excitar a inveja.
-
-As pequenas comprehendiam isto maravilhosamente.
-
-Em vendo uma amiga da infancia, uma conhecida qualquer com um vestido
-mais bonito ou com uma prenda intellectual mais preciosa, tinham ataques
-de desespero surdo.
-
-Ralava-as uma vaga inveja de todos os esplendores sociaes.
-
-Andavam á busca de gente a quem podessem offuscar.
-
-Eram simplesmente ridiculas!
-
-Ás vezes entravam no quarto de Martha e diziam-lhe n'um transporte de
-colera:
-
---Quero saber allemão. A Mariquinhas sabe allemão, emquanto eu não sei.
-
---Quero aprender a bordar de matiz, a Julia fez um quadro que eu não sei
-fazer.
-
-Era assim que iam progredindo no estudo.
-
-Marta conformava-se docilmente ás aspirações das discipulas:
-ensinava-lhes tudo o que sabia, mas o que ella de todo não pudera, era
-inocular-lhes a vida interior que animava e coordenava todos os seus
-conhecimentos adquiridos ou intuitivos.
-
- * * * * *
-
-Dizia-se que Marta conhecera melhores dias, affirmava-se mesmo que não
-fôra para servir de mestra a burguezinhas pretenciosas que seu pae, um
-pae extremoso, lhe adornára o espirito de todos os primores de uma
-educação excepcional.
-
-Conhecia as linguas modernas, mas não como as conhecem as meninas que
-por ahi conversam com os diplomatas, resumindo n'isso todas as suas
-ambições de estudo.
-
-Penetrára no espirito d'ellas, comprehendera o genio especial de cada
-uma, sabia de cór e escolhia principalmente os poetas que synthetisam
-uma nacionalidade ou uma civilisação.
-
-Tinham-lhe ensinado a raciocinar, a pensar, a estudar a fundo todos os
-problemas em que outras mulheres tocam sómente ao de leve.
-
-A curiosidade natural ao espirito feminino, essa qualidade preciosa,
-que, descurada, se torna quasi sempre em um vicio antipathico, fôra
-n'ella tão bem dirigida, disciplinada com tal mestria, que se tornára
-em fonte dos mais puros gozos do seu espirito.
-
-Não sabia _can-cans_ de salão, sabia o que dizem na sua muda lingua os
-astros e as plantas; não tentara penetrar na vida intima das suas
-amigas, contentava-se em saber a vida intima da Creação.
-
-Nunca lhe viera á idéa penetrar com o espirito no pélago revolto das
-paixões insalubres; a sua curiosidade insaciada debruçava-se de melhor
-vontade no pélago profundo das ondas, a quem horas e horas perguntava
-pelas mysteriosas riquezas do seu seio.
-
-No meio d'isto, despretenciosa e simples, julgando-se a mais ignorante
-das creaturinhas do bom Deus, não sabendo que era artista, que era
-intelligente, que tinha alma capaz de entender todas as grandes cousas.
-
-O pae, que a vinha ver muitas vezes á casa da senhora a quem na infancia
-a confiára, disse-lhe um dia com o pejo a ruborisar-lhe as faces, com
-lagrimas a marejarem-lhe os olhos, que ella era uma filha natural, mas
-que tencionava reconhecel-a, regularisar a sua posição, dar-lhe todos os
-direitos que ella por tantissimos lados merecia.
-
-A adoravel creança não o percebeu.
-
-Então--castigo terrivel das suas culpas--o pae teve de explicar, de
-fazer comprehender áquelles castos ouvidos de quinze annos uma historia
-deploravel, a historia do seu crime!
-
-Martha escutou-o n'um silencio dolorido, com uma expressão de doçura
-triste no olhar.
-
-Depois abraçou-o melhor ainda que nos outros dias, porque até alli só
-tivera muito que agradecer e d'alli por diante sentia vagamente que
-tinha muito que perdoar.
-
---E minha mãe?--perguntou depois com uma tremura na voz.
-
---Tua mãe morreu.
-
-O pae de Martha era casado, tinha filhos, vivia para sempre longe d'ella
-nas tranquillas alegrias da familia, uma familia em que ella só podia
-ser a intrusa!
-
-Desde esse dia Martha estudou com dobrado afinco, aprendeu com uma ancia
-dolorosa, com um não sei quê de impaciencia inexplicada.
-
-Sentia que havia de ter muito que soffrer, muito que luctar.
-
-Tratou de robustecer a alma e de dilatar o espirito.
-
-Era uma especie de iniciação heroica.
-
- * * * * *
-
-O pae de Martha morreu.
-
-Um dia, ao acabar de jantar, cahiu para o lado inesperadamente,
-fulminado pela ruptura d'um aneurisma.
-
-A morte surprehendera-o. Não tinha tido tempo de fazer nada em favor da
-sua desvalida Martha.
-
-Oito dias depois, entrava esta, vestida de luto, muito pallida, mas com
-uma expressão estranha de firmeza no olhar, em casa do commendador
-Gonçalves.
-
- * * * * *
-
-Julião, o filho do commendador, tinha 23 annos quando Martha foi para
-casa do pae. Ao principio pouco reparou n'ella. Imaginava-a uma mestra
-como as outras, o mesmo livro tirado a centenas de exemplares.
-Reconheceu sómente que era um pouco mais bonita que a generalidade das
-suas collegas.
-
-Um dia, porém, que elle lia Gœthe no original, e que uma phrase
-obscura do poeta o fazia parar na leitura um tanto impacientado e
-confuso, lembrou-se--acaso ou presentimento--de recorrer á mestra de
-allemão de suas irmãs.
-
-Entrou na sala de estudo, com um certo desdem a transparecer-lhe na
-physionomia.
-
-Póde ser-se educado na Allemanha e não comprehender o _Fausto_: o que
-era no emtanto absolutamente impossivel, na opinião do moço, era não ter
-nunca estado na Allemanha e conhecer Gœthe como um poeta nosso
-compatriota.
-
-Martha conhecia-o.
-
-Pegou no livro que Julião lhe estendia, deitou um relance de olhos para
-o verso de que se tratava, e depois, com um sorriso não isento de certa
-malicia innocente, explicou a Julião a ideia do poeta.
-
-Havia tanta clareza nas suas palavras, uma tão superior intuição
-artistica nos seus rapidos e despretenciosos commentarios, que o moço
-olhou para ella devéras espantado.
-
-Pareceu-lhe que a via pela primeira vez.
-
-Não lh'o disse, porém; pelo contrario, sentiu uma especie de surda
-irritação ao perceber a sua inferioridade intellectual perante aquella
-creança tão simples, e que todos olhavam com tamanho desdem.
-
-Martha percebeu porventura a impressão que despertára; o caso é que a
-malicia que lhe chispava no olhar accentuou-se com um indeciso cambiante
-de ironia.
-
-«A pequena creio que se atreve a fazer escarneo de mim», pensou Julião,
-sahindo da sala, onde a juvenil perceptora ficou com as discipulas.
-
-Desde esse dia Julião e Martha observaram-se mutuamente com mais
-attenção.
-
-Elle achava-a graciosa, sympathica e boa sobretudo, tinha muita pena
-d'ella, ao vêl-a desdenhada por tanta gente que lhe era inferior na
-intelligencia, na coragem, na distinção, em tudo que póde tornar
-adoravel uma mulher.
-
-Martha sentia-se silenciosamente comprehendida, e agradecia áquelle moço
-esbelto e pensativo as delicadezas mudas com que a compensava do desamor
-de todos os mais.
-
-Tocou então para elle as mais doces e sentidas musicas que sabia; os
-apaixonados _nocturnos_ de Chopin, as queixosas melodias de Schübert, as
-sonatas mais bellas d'esse sublime surdo chamado Beethowen.
-
-Conversavam um com o outro através da musica, sem nunca se fallarem de
-outro modo senão nas cousas mais banaes da vida de todos os dias.
-
-Á tarde, depois de jantar, emquanto o commendador resonava a sua sésta
-sobre a prosa elegante do _Diario de Noticias_, emquanto a
-_commendadora_ meditava o rol d'aquelle dia, digerindo um bom jantar, e
-um ataque de furia contra as suas criadas presentes e futuras, emquanto
-as meninas debruçadas á janella, trocavam substanciosos commentarios
-ácerca de um alferes que morava no predio fronteiro, e de uma menina
-muito _namoradeira_ que morava no predio do lado, Martha, sentada ao
-piano, desfiava sósinha o longo rosario das suas saudades.
-
-Julião ouvia-a, fingindo ler um jornal ou um livro, e a apaixonada
-artista bem comprehendia que uma alma a estava escutando, e que essas
-limpidas notas que ella arrancava ao piano iam vibrar divinamente em um
-coração que a entendia.
-
-Tudo os separava na terra: o orgulho feroz de uma familia de _parvenus_,
-o santo orgulho d'ella, não menos implacavel, porém muito mais nobre, os
-preconceitos, o dinheiro, quasi que a honra; mas, que importava?
-
-Podiam entender-se e amar-se através d'isso tudo.
-
-E Martha, empallidecida pelas commoções que lhe agitavam a sua alma de
-artista, com uma expressão soffredora e apaixonada nos seus bellos olhos
-d'um azul escuro, contava a meia voz n'aquella linguagem ineffavel as
-suas dôres, as suas humilhações, as suas lembranças, todas as alegrias
-que tivera, tudo que ella havia esperado na terra e que um dia se lhe
-havia desfeito nas mãos, deixando-lhe apenas uma immensa, uma
-desoladora, uma eterna saudade!
-
-Ás vezes o piano chorava com uma desesperação tão inconsolavel e tão
-profunda, que Julião tinha desejos de erguer-se da cadeira em que
-estava, de protestar contra os energicos lamentos que traduziam a dôr
-insanavel de um destino, e de gritar:
-
---Aqui me tem, prompto a luctar peito a peito contra o seu infortunio, e
-a vencêl-o.
-
-Mas não se atrevia!
-
-Que diriam todos, que diria seu pae, que diria a propria Martha?
-
-Quem lhe dava a elle direitos de interpretar d'aquelle modo a sublime
-execução d'essa artista ignorada?
-
-Quem pudera affirmar-lhe que era pessoal essa dôr mysteriosa que tinha
-soluços tão doces, queixas tão resignadas e tão mansas, lamentações de
-tão ineffavel ternura?
-
-Um dia Julião quiz sondar o coração tão calado da pobre mestra. Procurou
-fazer-lhe umas perguntas que não fossem por demais indiscretas.
-
-Martha desatou a rir.
-
-É verdade que no meio da sua crystallina risada os olhos se lhe afogaram
-em lagrimas; mas n'esse instante Julião sentia-se tão envergonhado da
-curiosidade que revelára, que se não atreveu a olhar para a sua
-interlocutora.
-
- * * * * *
-
-O commendador Gonçalves era ambicioso.
-
-Pudera!
-
-Ou não fosse elle _commendador_.
-
-Estava riquissimo, mas queria que os filhos fossem ainda mais ricos do
-que elle.
-
-Para isso andára a moirejar a vida inteira, por isso se sustentára de
-pão negro e de bacalhau durante os annos mais florentes da mocidade!
-
-O seu mais intimo amigo, possuidor de um baronato, de avultada riqueza e
-de uma filha unica tão prendada como elle desejava as suas, fallou-lhe
-um dia disfarçamente, com certa labia, a respeito de Julião.
-
-_A meio entendedor meia palavra basta_; d'ahi a quatro mezes o
-commendador dava uma pequena _soirée_ intima, em que a menina Adriana,
-filha do sr. Barão de X, e chegada havia dias do _Sacré Cœur_, era
-apresentada ao seu futuro noivo, o Sr. Julião Gonçalves.
-
-Estavam só pessoas de familia em casa do commendador.
-
-Elle, a mulher, as duas filhas, o filho e Martha. Emquanto ao barão,
-viera simplesmente acompanhado pela filha.
-
-Adriana era... o que d'alli a alguns annos haviam de ser as futuras
-cunhadas.
-
-Tinha a mais umas tincturas de _coquetterie_ parisiense, _coquetterie_
-mal ensaiada, mais collegial do que mundana.
-
-Não se iguala nem se descreve o desdem com que ella cumprimentou Martha.
-Era uma vingança retrospectiva do que as suas proprias mestras lhe
-haviam feito passar.
-
-Nos olhos azues de Martha passou um relampago de colera fugitiva, mas
-não disse nada. O que havia ella de dizer áquella gente, que a
-considerava um traste... bem pago?
-
-Adriana, a quem cabiam as honras da noite, sentou-se ao piano e tocou.
-
-Tocou as musicas de Martha, com a agilidade e com o brio de uma pianista
-experimentada.
-
-Depois, levantando-se no meio de palmas e de bravos, indicou á mestra o
-lugar que deixára n'uma especie de altivo desafio.
-
-É que uma das irmãs de Julião lhe dissera n'um risinho de malicia, que o
-irmão gostava muito de ouvir Martha.
-
-A moça levantou-se com um gesto automatico, sentou-se ao piano e sem
-mesmo olhar para as musicas dispersas principiou a tocar.
-
-Foi um adeus soluçante, cheio de lagrimas, onde a espaços passavam como
-brisas refrigerantes, umas vozes indizivelmente cariciosas!
-
-Foi uma historia muito triste, que ainda ninguem tinha ouvido até alli,
-a historia de um coração despedaçado!
-
-Como ella lhe havia querido, ao seu bello sonho desfeito, e com que
-dilacerante agonia lhe dizia para sempre adeus!
-
-Na sala havia um silencio angustioso e profundo.
-
-O silencio inconsciente que inspiram as grandes commoções.
-
-Desde esse dia nunca mais ninguem ouviu a querida voz de Martha, aquella
-voz que tinha por interpretes os mais sublimes artistas do mundo.
-
-Ella continúa a dar lições ás filhas do commendador, e ha no seu sorriso
-uma expressão divinamente dolorida, quando falla com Adriana, a feliz
-esposa de Julião.
-
-
-
-
-A MORTE DE BERTHA
-
-(A NALY)
-
-
-Minha Naly, ás vezes nos teus dias de bom humor, e sobre tudo nos raros
-dias em que estás um pouco menos traquinas, vens sentar-te ao pé de mim,
-n'um banco pequenino, e pegando n'um livro,--o teu livro de grandes
-bonecos coloridos--, finges que estás lendo umas cousas que a tua
-inquieta phantasiasinha de duende te representa, escriptas n'aquellas
-paginas ainda mudas para os olhos da tua intelligencia.
-
-Com o teu adoravel instincto imitador, arremedas-me inconscientemente.
-
-És o meu epigramma vivo, um delicioso epigramma de olhos garços muito
-abertos, muito intelligentes, muito maganos, como ainda não vi outros em
-ninguem. Hontem, porém, estavas estranhamente curiosa.
-
-Não te bastava o que fingias ler, querias mais, querias que alguem
-inventasse por tua conta e risco, _fingisse ler_ para que tu ouvisses.
-
-Levantaste a loura cabeça inquieta, e disseste com a voz que os anjos
-costumam ensinar ás creanças:
-
---Contas-me uma historia?
-
-Que historia te hei de eu contar, Naly? Com a tua alma de quatro annos,
-tão limpa, tão transparente, tão cheia de ignorancias ideaes; com a tua
-alma de flôr, só se entende a linguagem dos lyrios, só podem
-comprehender-se cantos feitos de luar, de perfumes, de cantos de aves,
-alguma cousa etherea, que eu te não sei dizer.
-
-Venho contar-te esta historia para tu a leres mais tarde, quando a mão
-de alguem--pede a Deus que seja a mão de tua mãe, Naly--houver arrancado
-ao teu doce espirito de borboleta o pollen immaculado e scintillante com
-que Deus o polvilhou e que tem um nome lindo, sabes qual?--a ignorancia!
-
-Então saberás o que significam estas linhas escuras, alinhadas
-symetricamente na brancura do papel; terás chorado muita lagrima, meu
-anjo! a aprender cada uma d'estas letras, que hoje interpretas conforme
-te inspira a tua vagabunda e caprichosa imaginação!
-
-E sentada n'uma cadeira grande, muito direita, um pouco revestida da
-elevada importancia do teu cargo de ledôra, repetirás alto á tua irmã
-pequenina este conto verdadeiro que em tua intenção aqui venho traçar
-hoje.
-
- * * * * *
-
-A pequena Bertha tinha cinco annos, um só mais do que os que hoje
-contas, Naly.
-
-Era como tu, loura, muito loura; dera-lhe Nossa Senhora uma cabelleira
-de anjo, fulva, luminosa, feita de pequeninos anneis que se enroscavam,
-e que scintillavam ao sol, formando em torno d'ella como que um
-esplendor de gloria.
-
-Os olhos muito grandes, transparentes, azues pareciam ter no fundo um
-segredo de doce tristeza. Um segredo que ella havia de saber muito
-cedo... no céo!
-
-O seu pequeno corpo, macio, feito da brancura das assucenas que
-desabrocham em maio, exhalava como que um aroma de flôr.
-
-Bem vês que Bertha era linda! Um amor! O orgulho e a ventura dos paes
-que se reviam n'ella.
-
-Vivia n'uma grande casa aristocratica, discreta, forrada de colgaduras,
-de tapetes, de bellos quadros antigos.
-
-Descendo os degraus de marmore da casa em que ella jantava, entre o pae
-e a mãe, na sua cadeirinha de pés muito altos, ia ter a um grande jardim
-cheio de arvores cuidadas e decotadas pela mão habil de um jardineiro
-inglez.
-
-Muito gostava do seu jardim a pequenina Bertha!
-
-Imagina tu se ella não havia de gostar, Naly!
-
-Havia lá tantas flôres, tantas flôres! e depois eram de tantos feitios!
-Umas triumphantes, purpurinas, como se as tingisse um sangue novo e
-generoso, outras tão brancas como os braços eburneos da mãe de Bertha,
-algumas tinham uma pallidez fina e morbida, que lembrava a das bellas
-senhoras que ella via passar resvalando como sombras gentis, pelos
-atapetados salões da sua casa. Outras eram, de uma côr de rosa desmaiada
-e doce, que acariciava os olhos de quem as via.
-
-As campanulas azues, esbeltas, ephemeras, lembrando pequeninos calices
-de crystal da Bohemia, trepavam amorosamente em volta dos troncos mais
-robustos que as cercavam; as margaritas com a sua alvura _mate_ e o seu
-feitio de estrellas resaltavam n'um adoravel contraste da verdura clara
-e fresca dos taboleiros de relva.
-
-Havia flôres muito direitas e esbeltas no pedunculo delgado, que faziam
-scismar Bertha,--não sei bem porquê--, nas lindas princezas dos contos
-de fadas, que vivem nos seus palacios á beira do mar, escondidas,
-discretas e cheias de magestosa gentileza.
-
-As camelias com a victoriosa belleza do seu teclado de côres vivas e tão
-varias, lembravam a Bertha a musica que ella ouvira uma vez, n'um dia de
-parada, no desfilar apparatoso das tropas, musica brilhante, sonora,
-marcial, feita do estridor dos clarins, da fanfarra triumphante dos
-instrumentos de cobre, de todas as notas bellicas que rebentavam no
-espaço, como que n'uma explosão harmonica e sonora!
-
-Gostava muito das violetas--pequeninas e modestas, denunciando-se a medo
-pelo seu rasto de perfumes,--e que ella costumava procurar nas hervas
-para encher com ellas a jarra de porcellana de Sèvres, que havia sempre
-sobre a mesa de costura de sua mãe.
-
-E não penses tu que gostava menos das arvores! oh! a alma de Bertha
-expandia-se naturalmente para tudo que é bom e que é bello.
-
-Levava horas a espreitar através dos ramos delicadamente recortados pela
-thesoura do Celeste Jardineiro, o alto céo azul, tão cheio de luz, e
-que sem ella saber porque, a estava chamando sempre!
-
-Depois nas arvores é que vivem os passaros, é alli que elles dependuram
-os ninhos, que elles modulam as suas cantigas sem _libretto_, que elles
-cantam a quem passa as suas alegrias e as suas saudades.
-
-As arvores são boas, hospitaleiras e carinhosas, como se tivessem uma
-alma occulta sob a rugosa cortiça dos seus troncos.
-
-Ellas dão sombra, dão frescura, dão fructos, dão flôr, dão um bom cheiro
-sadio, que reconforta e alegra; as arvores, minha Naly, são as nossas
-melhores amigas.
-
-Tu has de saber mais tarde, que no mundo ha muito riso falso, muita
-amizade fingida, muita cousa que a gente julga solida, e que no fim de
-contas está construida sobre a areia; mas os vegetaes, os eternos amigos
-do homem, os que o nutrem e se nutrem d'elle, oh! esses nunca nos mentem
-nem atraiçoam, nem dão conselhos máus!
-
-O jardim era, pois, para a nossa Bertha um mundo riquissimo, um mundo
-mysterioso, onde a vida palpitava, no insecto, na planta, no musgo, na
-ave, na terra fecunda e robusta, na arvore frondosa, na agua limpida e
-corrente, em tudo que rescende e murmura, e canta, e pullula, em tudo
-que enlaça a alma do homem n'uma cadeia feita de embevecimentos magicos.
-
- * * * * *
-
-E as boas horas passadas no _gabinete azul_, o que ellas não valiam para
-o pequenino coração de Bertha!
-
-Sabes o que era o gabinete azul? era a saleta toda forrada e estofada de
-setim azul, em que a mãe da nossa pequenina se conservava habitualmente.
-
-Chamava-se Margarida a mãe de Bertha, e era formosa, de uma delicada e
-fragil formosura, que despertava ao vel-a instinctos de piedade e de
-protecção.
-
-Alta, esbelta, levemente scismadora, como quem tem cuidados que a
-preoccupem, sempre vestida de seda com punhos de cabeção de rendas
-finas, um pouco amarelladas, que punham na _toilette_ de casa uns toques
-de aristocratica distincção. Nos cabellos bastos, louros e frisados, uma
-flôr quasi sempre colhida por Bertha.
-
-O pae, esse era forte, robusto e sadio, mas tinha a virtude dos
-valentes: a bondade. N'aquella physionomia accentuada e trigueira o
-sorriso era tão doce que lembrava o desabrochar de um lyrio.
-
-Não estava muito em casa, tinha que fazer fóra, andava ganhando a vida
-de elegancias e de confortos, que viviam inconscientes, innocentemente
-egoistas, os seus dous frageis amores--a mulher e a filha.
-
-Mas quando elle estava, que festa!
-
-Bertha, ora ennovellada aos pés da mãe, nas felpas avelludadas do
-tapete, e com os grandes olhos curiosos fitos nos d'ella, ora folheando
-um grande livro de imagens--como o teu, minha Naly--, ora empoleirada no
-espaldar da larga poltrona onde o pae estava sentado, e passando-lhe a
-pequenina mão crestada pela cabelladura revolta e crespa, Bertha era a
-mais feliz das creaturinhas do bom Deus!
-
-Era um gosto vel-os alli a todos tres, na intimidade d'aquelle viver de
-familia!
-
-Margarida, ao principio, trabalhava sempre; n'uns dias, um vestidinho
-para a sua querida filha, n'outros dias, um pequeno objecto galante e
-mimoso para o escriptorio do seu marido; de tempos a tempos um enxoval
-para uma pobresinha, um enxoval muito aceiado, que Bertha dobrava e
-desdobrava, que servia de thema para longas interrogações, e como que
-iniciação da creança na doce caridade de sua mãe.
-
-O pae, quando voltava, tinha sempre tanto que contar!
-
-Gente que vira, casos que lhe haviam succedido! planos de futuro que
-andava devaneando, e depois risos, brinquedos, correrias atrás do
-diabrete da Berthazinha, eu sei!... o demonio a quatro!
-
-Havia alli um conchego tepido, uma alegria, uma benção de Deus,
-repartida por tres almas, e que parecia reflectir-se nas cousas mudas
-que o cercavam servindo lhe de elegante e rendilhada moldura.
-
- * * * * *
-
-Queres tu saber, Naly? Bertha tinha um defeito. Era um bocadinho
-egoista. Um egoismo de tres, já se entende, porque ella não sabia
-separar a sua vida da de seus paes.
-
-Uma das manifestações mais claras d'este egoismo era a repugnancia que
-tinha pelos estranhos.
-
-Sentia frio ao pé d'elles; fugia muito pensativa e muito arisca quando
-via um indifferente interpôr-se importunamente entre ella e as caricias
-que eram o seu alimento de todos os instantes.
-
-Mas a pessoa que mais lhe aggravava esta impressão hostil, era um primo
-que por aquelle tempo começara a frequentar mais a casa.
-
-Um moço, alto, elegante, bem parecido, muito fallador n'umas horas de
-expansão, muito concentrado n'outras horas, de bigode retorcido e
-triumphante, olhares que sabiam ser doces, e que eram quasi sempre
-altivos.
-
-E, comtudo, que meigo que elle era para Bertha, espreitando-lhe os
-caprichos, conformando-se com as brincadeiras d'ella, trazendo-lhe
-_bonitos_, flores, cousas novas, delicadas, que ella não vira nunca, e
-que, no emtanto, vindas da mão d'elle lhe desagradavam instinctivamente.
-
-É que tambem o _primo_ tornara-se d'uma assiduidade irritante!
-
-_Primo_ para aqui, _primo_ para alli, toda a gente gostava d'elle, para
-cada pessoa tinha um dito amavel, uma intenção delicada, uma lisonja
-habilmente escondida!
-
-Tratavam-n'o por _tu_, era admittido nas festas intimas da familia, ia
-ao jardim apanhar flores, acompanhava a _mamã_ ao theatro! Uma usurpação
-em fórma, uma usurpação revestida de todas as circumstancias
-aggravantes!
-
-E depois usava essencias.
-
-Bertha declarara com ar solemne e magestoso, que embirrava muito com o
-primo, porque elle cheirava a _pat-chouly_.
-
-E ella que andava habituada aos aromas frescos e sadios da livre
-natureza, não podia supportar aquelle cheiro de essencias requintadas, a
-que dava este nome generico e detestado.
-
-A _mamã_ por ter de atural-o a cada instante, renunciára aos seus dôces
-trabalhos d'outro tempo, de que Bertha gostava tanto, e que davam ás
-suas mãosinhas travessas a sensação grata das sedas, das bonitas
-fazendas desdobradas sobre o estofo das poltronas, de todas as graciosas
-cousas com que podia brincar.
-
-Andava triste a sua adorada mãesinha.
-
-Tinha horas de melancholia morbida em que a cabeça lhe cahia no peito,
-como se tivesse dentro estranho pezo. E ficava-se horas e horas calada e
-desfallecida, com um livro aberto no regaço, ou com um trabalho apenas
-começado cahido aos pés, sem ouvir o papaguear festivo da sua pequena
-Bertha.
-
-Quando voltava a si d'aquellas scismas doentias, parecia acordar d'um
-mau sonho, passava a mão pela testa, bebia agua, muita agua, e beijava a
-filha com um arrebatamento que lhe fazia mal.
-
-A pequenita enfastiava-se!
-
-Pudéra!
-
-Fugia só para o jardim, sem que uma voz sollicita e assustada a chamasse
-de longe, sem que uns olhos inquietos a velassem de perto, e punha-se
-n'uma indistincta e muda linguagem que só as suas flores entendiam a
-queixar-se das tristezas vagas, que a definhavam longe do calor que
-d'antes a acalentava e aquecia.
-
-As tardes do _gabinete azul_, os principios da noite, quando cahia do
-alto dos céos a penumbra indecisa e dubia do crepusculo, tudo aquillo
-perdera a sua graça, a sua antiga e ideal doçura!
-
-No silencio constrangido da saleta, retiniam então os passos
-conquistadores do _intruso_, e Bertha com vontade de romper em soluços,
-pedia muito depressa que a fossem deitar.
-
-Chamava-se a creada, vinha, levava-a pela mão, amuada, e ella, ao
-aconchegar-se nas roupinhas do seu leito, sentia ainda uma estranha
-impressão de desconforto e de frio. Era o beijo distrahido e formalista,
-que lhe haviam imprimido na testa os labios quentes, seccos e febris de
-sua mãe.
-
- * * * * *
-
-Era noite de festa para Berthazinha.
-
-Estavam sós todos tres no _gabinete azul_, o paraiso d'outr'ora, onde
-agora não havia senão flores... que ella não colhêra!
-
-Bertha alcançara licença para se deitar ás nove horas.
-
-Que bom!
-
-Um longo serão de risos, de conversas sem tom nem som, de tagarelice
-inextinguivel. O livro das grandes imagens, a boneca deitada no tapete,
-uma profusão de _bonitos_ de todos os feitios--alguns, por peccados de
-Bertha, tinha-lh'os dado o negregado primo! emfim por aquelle dia,
-Bertha estava magnanima. Perdoava-lhes o virem da mão de quem vinham!--e
-elles dous, os dous amores, o _papá_ e a _mamã_ ao fogão, conversando
-com a intimidade feliz de quem se quer muito!
-
-É verdade que a mamã estava pallida, tinha até nos olhos umas orlas
-rôxas que pareciam de febre, e uma luz exquisita que lembrava aquelles
-clarões subitos e phosphoricos, que costumam accender as bruxas, quando
-fazem os seus encantamentos e _maus olhados_.
-
-Oh! mas que importavam a Bertha symptomas que ella não via!
-
-Estava contente, contente, e ia-se enthusiasmando a pouco e pouco, á
-proporção que a alegria lhe inundava como uma onda a pequenina alma
-luminosa!
-
-Um beijo no papá, uma festinha na mamã, e aqui desmanchava um canudo,
-acolá despregava um alfinete, depois fechava um livro que ia começar a
-ler, amarrotava uma renda, trepava para cima d'uma cadeira!
-
-Que anjo! que demonico, feito d'um bocadinho de azul!
-
-N'isto, por um movimento rapido e imprevisto, atirou-se ao collo da mãe,
-mergulhou a mãosinha no decote quadrado do vestido, amachucou uma rosa,
-que ali parecia aninhar-se no meio das rendas, e arrancou com gesto
-triumphante um papel, um papel côr de perola amarrotado.
-
---Oh! gritou a mãe, fazendo-se mais branca do que a cal; dá cá, dá cá,
-isso é-me preciso.
-
-Quem disse lá que ella respondia!
-
-Fugira rindo, rindo como uma doudinha, e fôra esconder-se entre os
-joelhos do pae, agitando com um gesto de graça inimitavel o roubado
-trophéo.
-
-A mãe erguêra-se convulsa, tremula, com tamanho desvairamento e tamanha
-angustia no olhar e na voz, que dir-se-hia que a esmagava uma
-catastrophe imprevista e tremenda.
-
---Dá cá, dá cá, murmurou ainda desfallecida e supplicante.
-
---Papá, papá, esconde tu, respondia Bertha, n'uma convulsão de riso. Ih!
-cheira a _pat-chouly_, cheira a _pat-chouly_.
-
-Elle e ella, a mãe e o pae, olharam-se.
-
-Tu nunca viste um olhar assim, Naly, nem eu, e Deus nos defenda de o
-vermos nunca!
-
-Foi mudo, foi longo, foi sinistro! Um poema de agonias silenciosas!
-
-Depois o pae de Bertha, afastando a creança com um gesto lento,
-desdobrou o papel e leu.
-
- * * * * *
-
-Já lá vai um anno depois d'aquella noite de festa, em que Bertha
-alcançou licença para se deitar ás nove horas.
-
-N'um anno quantas differenças póde fazer uma existencia!
-
-É muda e triste a casa onde vimos tantos risos, está descuidado e cheio
-de hervas o jardim onde brincava um pequenino sêr feito da luz das
-auroras, e da innocencia dos lyrios.
-
-Bertha está doente.
-
-Na sua alcova branca e silenciosa, á luz dubia de uma lamparina de
-jaspe, vela uma criada, emquanto a loura pequenina fita no tecto os
-grandes olhos azues e parece seguir as visões phantasticas de um sonho
-de febre.
-
-Ao principio era feliz, muito feliz. Quem e que viera destruir todas
-aquellas alegrias que pareciam querer durar sempre? A pobre doentinha
-não o sabia.
-
-Diante dos olhos d'ella dançava teimosamente um grande demonio escuro,
-com muitos _bonitos_ nas mãos e com um bigode retorcido e triumphante.
-
-Que vinha fazer alli aquelle demonio? Quem póde explicar o que são as
-visões de um delirio!
-
-Depois uma certa noite, doce, allumiada, festiva. Que succedêra n'essa
-noite? Meu Deus! Ella brincára muito, ainda mais que o seu costume. Não
-lhe lembrava mais nada, senão que fôra deitar-se a chorar. Tambem não
-sabia porquê.
-
-Desde então é que a sua vida mudára.
-
-O pae repellia-a de si, sempre que ella lhe estendia os bracinhos,
-empurrava-a quando ella queria beijal-o!
-
-Nunca mais houvera os serões do gabinete azul, nunca mais ouvira aquella
-voz paterna, tão grave, tão meiga, tão musical, acaricial-a como
-antigamente!
-
-E a mãe?... A mãe definhava sósinha, mas n'aquella tristeza desolada,
-não admittia os beijos da sua Bertha d'outro tempo.
-
-Um dia dissera-lhe asperamente, com um brilho secco no olhar:
-
---Vae-te d'aqui! És a causa da minha desgraça toda.
-
-Bertha não percebeu o que aquellas palavras significavam, mas percebeu o
-ar com que foram ditas!
-
-Nunca mais foi ao jardim! nunca mais viu a capoeira nem o viveiro dos
-canarios, nem os peixinhos vermelhos do tanque!
-
-Tinha sempre frio, muito frio.
-
-Tiritava horas e horas a um canto da _casa de engommar_ onde as criadas
-riam e palestravam indifferentes, com uma expressão de espanto, de
-surpresa, de desolação selvagem no olhar!
-
-Parecia-lhe a ella que tambem estava na vida como uma intrusa. O que
-viera ella cá fazer? Por que se não ia embora?
-
-Sentia que alguem estava á espera d'ella, lá em cima, n'um sitio onde
-havia muito azul, muitas flôres, um jardim mais bonito que o que fôra
-d'ella, uns serões mais placidos e mais cheios de risos e de caricias
-que os amados serões de outro tempo... que não podiam voltar!
-
-E abrindo os braços, fez um doce gesto de ave espavorida que vae
-levantar o vôo para o infinito!
-
- * * * * *
-
---Ai! a menina que vae morrer!--bradou a criada com muita ancia.--Chamem
-a senhora, chamem o senhor, este anjinho diz que lhes quer dizer adeus!
-
-Ouviam-se portas que se abriam, vozes angustiosas que chamavam...
-depois, por duas portas differentes, entraram duas pessoas.
-
-Dous espectros do que tinham sido.
-
-Olharam-se como que admirados de se verem alli juntos!
-
-Miraram-se curiosamente como para sondarem os grandes abysmos que os
-separavam dos dias d'outr'ora!
-
-Depois sem quererem, olharam ambos movidos pelo mesmo impulso para o
-pequeno leito de cortinados brancos.
-
-Uma voz dulcissima, toda mimo e toda supplica, chamou-os d'alli:
-
---Papá! mamã! adeus! Digam-me que são meus amigos agora que eu vou
-morrer! Como é bom ir para o céo! Nunca mais hei-de ter frio!...
-
-Se não fosse a voz e a expressão divina d'aquelle olhar, quem diria que
-aquella que fallava era a pequenina Bertha!
-
---Ó papá, console a mamã, já que eu me vou embora! Voltem para o
-gabinete azul, e ao serão não se esqueçam de fallar de mim!
-
-Puxou-os a ambos com uma força que não parecia já d'este mundo, e
-abraçou-os unidos contra o coração!
-
-Todos tres como d'antes!
-
- * * * * *
-
-Quando ambos se ergueram d'aquelle supremo abraço, os bracinhos d'ella
-tinham afrouxado e cahido.
-
---Perdôa-me pela nossa filha que morreu! soluçou a voz d'aquella mãe
-dolorida!
-
---Perdão! papá! ciciou como uma caricia de aragem uma voz que ninguem
-soube dizer se vinha da terra se do céo.
-
- * * * * *
-
-
-FIM DA PRIMEIRA PARTE
-
-
-
-
-SEGUNDA PARTE
-
-
-
-
-A PROPOSITO DE UM LIVRO
-
-
-Ha momentos em que eu não posso deixar de me sentir desconsolada.
-Parece-me n'esses momentos que a humanidade está passando por uma das
-crises mais graves da sua vida de tantos seculos.
-
-E quem terá forças para conservar-se espectador indifferente d'essa
-dolorosa tragedia de que é theatro o mundo inteiro!
-
-Theorias que se atropellam e se contradizem, systemas politicos que
-mutuamente se combatem, opiniões tão variadas, ácerca das cousas graves
-e das cousas insignificantes, que não nos resta meio algum de
-descortinar a verdade em meio de tão babylonica confusão.
-
-Na pratica o desmentido formal e permanente a todas as doutrinas que se
-prégam e se propagam!
-
-Celebra-se a apotheose da familia, e a familia decadente, desnorteada,
-desunida, apresenta o reflexo fiel d'esta quadra de desalento e de
-incerteza!
-
-Emquanto os sonhadores erguem um altar á justiça, como á deusa moderna
-que mais cultos merece, a injustiça acclamada, protegida, triumphante
-campeia n'este mundo onde a victoria já não pertence ao mais forte, mas
-sim ao mais astuto!
-
-A politica, que parecia dever ser aquella sciencia complexa e
-respeitavel de conduzir as sociedades ao mais alto grau de
-aperfeiçoamento material e moral, não é senão um mercado abjecto, onde
-se debatem os mesquinhos interesses individuaes, não aquelles interesses
-que são a base do bem collectivo, mas os que se traduzem na exploração
-do homem pelo homem.
-
-A guerra aqui acesa e selvagem, de uma selvageria refinada e
-scientifica, acolá disfarçada e hypocrita, arma-se por toda a parte,
-como nos seculos que lá vão, egualmente funesta, embora a revistam mais
-prestigiosos aspectos.
-
-Falla-se em paz, em fraternidade universal, préga-se uma religião humana
-que parece querer e dever supprir a religião divina, mas os modernos
-crentes d'esse dogma que assenta no direito, na justiça, no amor
-universal, atraiçoam tanto as suas doutrinas, como atraiçoavam a sua fé
-os catholicos mal esclarecidos das épocas de ascetismo rude, e de
-fanatica superstição.
-
-Para onde vamos nós?
-
-Se vamos para o Bem, o que é que origina esta dolorosa inquietação, que
-avassalla e confrange todas as almas, este contraste incomprehensivel,
-entre o que se pratica e o que se pensa?
-
-Se vamos para o Mal, para que nos fallam do progresso, da
-perfectibilidade humana, das conquistas da civilisação, dos arrojos
-felizes da sciencia, de tudo que parece preparar ao homem uma quadra
-luminosa, feliz, nunca realisada até agora?
-
-D'antes, n'estas horas de duvida, de angustia oppressiva, iamos nós
-procurar consolação na palavra animadora e harmoniosa dos que, com os
-olhos fitos na estrella do ideal, indicavam ao homem o rumo que elle
-tinha a seguir, para não se perder na sua gloriosa ascenção.
-
-Hoje, esses pilotos da náu do futuro estão mudos ou descrêem tambem!
-
-Mais doloroso ainda que o silencio desalentado, é o rictus sarcastico
-com que elles assistem á lucta estranha e confusa de tantos elementos
-contradictorios e incompativeis.
-
-Depois a litteratura, que é o espelho da alma das sociedades, é hoje
-por toda a parte um brado unanime de negação.
-
-Não reconstrue, não modifica o que está feito, trata de o desmoronar
-pedra por pedra!
-
-Ha um homem em França que refaz, collocado n'um ponto de vista diverso,
-a obra collossal de Balsac.
-
-O romancista mais admiravel da França, aquelle que fez do romance um
-ramo das sciencias sociaes, fez n'um momento, que tem por força de
-ficar, a synthese de sua época.
-
-Pintou, e com que potencia da verdade! os reis, e os operarios, as
-duquezas sentimentaes, e os artistas convulsionados pela _nevrose_ do
-seu tempo, os politicos, os sabios, os pensadores, os litteratos; as
-peccadoras do alto mundo, e as peccadoras do mundo equivoco; os
-financeiros, e os luctadores ambiciosos; os que vinham perder a alma e
-gastar o corpo n'essa Pariz electrica e absorvente, que attrahe os
-genios e os monstros, e os que vinham alli conquistar a fortuna, o
-poder, a soberania omnipotente.
-
-Na sua obra complexa, enorme, que ás vezes tem na distancia um não sei
-que de monstruoso, encontra-se viva, palpitante, com os seus vicios, com
-as suas paixões, com o seu talento ardente, com a sua magnetica e
-irresistivel seducção, uma das épocas mais caracteristicas da
-civilisação da França, o que significa a civilisação da Europa.
-
-Se em Balzac encontramos as florescencias rubras do mal, nem por isso
-nos seduzem menos as suavidades castas da virtude.
-
-Ao pé de Madame de Marneffe, a pequenina e graciosa féra parisiense,
-felina e nervosa, com caricias que mordem e furores que acariciam, ha a
-doce figura de Eugenia Grandet, a mais dolorosa virgem, que a imaginação
-moderna ainda concebeu e idealisou.
-
-Ao pé de Luciano de Rubempré o ambicioso effeminado e morbido; de
-Vautrin o brutal luctador que seria um _condottiere_ do seculo XVI e que
-só póde ser um forçado no seculo XIX; ao pé de Marsay o politico sagaz,
-que faz dos homens, das mulheres e das cousas, meros instrumentos da sua
-fortuna, que não tem lei nem fé, e que é capaz de assassinar com um
-sorriso de _dandy_, temos d'Arthés o pensador austero, e pobre escriptor
-para quem a litteratura é um magisterio e não um officio, temos Cesar
-Birotteau, a sublimidade burgueza, o honesto commerciante que tem
-palavra de duque, que é perfumista com a mesma nobreza de abnegação e de
-honradez, com que se é sacerdote, e que glorifica toda uma classe de que
-se riem os frivolos, sem saber quanta heroicidade é precisa para saber
-guardar immaculada em um peito de burguez, a honra de um paladino.
-
-Dizem que o vicio pollula na obra de Balzac com uma exhuberancia de
-vegetação inacreditavel.
-
-Elle não foi mais do que o analysta apaixonado da sua época.
-
-Adorou-a pelo que ella tinha de grande, comprehendeu que lhe podia
-desnudar as chagas, visto que ao lado d'ellas podia mostrar tão
-admiraveis bellezas.
-
-Foi implacavel na sua justiça.
-
-O seu tempo seduziu-o pelo que havia de brilhante nos seus vicios, de
-fecundo e poderoso nas suas paixões, de arrebatado e creador no seu
-genio, de raro e dedicado nas suas virtudes.
-
-Hoje no artista que segue as pisadas de Balsac, que não tem a sua
-potencia creadora, mas que tem como elle, e talvez mais methodicamente
-do que elle, o estudo paciente e investigador, que vemos nós que possa
-dar-nos aquella sensação de prazer agudo que a leitura conscienciosa de
-Balzac dá a um verdadeiro artista?
-
-Emilio Zola tambem descreve a sua época.
-
-É artista, porque sente e sabe fazer sentir.
-
-Diz-se imparcial!
-
-Faz viver nos seus livros a sociedade de que faz parte; entra nos
-palacetes de pedraria rendilhada dos modernos financeiros, os reis do
-mundo actual, percorre os salões doirados e os _boudoirs_ phantasistas,
-as salas de jantar, onde se reunem as reliquias mais preciosas de umas
-poucas de civilisações, janta nos _restaurantes_ de mais fama, visita
-nos seus camarotes da _opera_ ou dos _italianos_ as mundanas mais
-elegantes, as _hautes gommeuses_ mais admiradas e invejadas, está no
-segredo de todas as operações da Bolsa, escutou a uma porta todas as
-combinações e convenios diplomaticos, penetrou com a sua perspicacia
-tenaz no interior da alma que anima o seu tempo, fallou com os artistas,
-com os sabios, com os poetas, com as mulheres; subiu aos oitavos andares
-onde dormem amalgamados n'uma dolorosa e medonha promiscuidade os
-miseraveis d'essa Pariz, cuja superficie é tão seductora e tão
-brilhante; viu os farrapos que cobriam o corpo d'esses indigentes, e os
-vermes que corroiam a alma d'esses parias; escutou as perfumadas
-confidencias que murmuram devagarinho uns labios frescos e vermelhos,
-por detraz d'um leque onde dançam a _gavotte_ umas pastorinhas de
-Watteau.
-
-Observou de perto o que ha de mais brilhante e o que ha de mais abjecto,
-o que ha de mais puro e o que ha de mais ignobil.
-
-D'essa observação tão variada e tão completa que resultado colheu?
-
-Não o posso dizer ao certo, sei só que não ha nada mais desolador e mais
-triste do que a leitura d'um livro de Zola.
-
-E Zola é, depois de Tlambert, o grande _mestre_ que morreu, o escriptor
-de mais pulso da moderna geração realista.
-
-Os outros não téem o talento d'elle, não téem o alcance funesto ou bom,
-mas em todo o caso poderosissimo da sua obra, não téem a sua paciencia
-de benedictino, exercida com os processos da nova escola.
-
-Isto não é dizer mal dos que trabalham agora, é notar e assignalar um
-dos symptomas da confusão que hoje nos desnorteia.
-
- * * * * *
-
-Acudiam-me todos estes pensamentos, imagina como, leitora?
-
-Ao lêr um novo livro de Feuillet, ultimamente publicado em Pariz _Le
-journal d'une femme_.
-
-Feuillet é por excellencia o escriptor elegante e delicado.
-
-No fundo, póde ser que a obra d'elle tomada no seu conjuncto não seja de
-uma moralidade tão cauterisadora como a que resulta dos livros de Zola.
-
-Ninguem diga que Zola é um escriptor immoral, não; elle é simplesmente
-um escriptor mysantropo: vê as cousas pelo lado mais negro, e as suas
-bachanaes, nuas como são, não téem effeitos enervantes, doem como um
-caustico applicado sobre uma ulcera aberta.
-
-Ao lel-o, a gente não tem de certo tentações de imitar os seus
-deploraveis heroes; pelo contrario. Sente-se ferida, humilhada, quasi
-que angustiada, e exclama tristemente: Meu Deus! pois a humanidade é
-isto!
-
-Octavio Feuillet é, por assim dizer, o contraste do seu illustre
-contemporaneo.
-
-Escreve das mulheres e para as mulheres com penna d'ouro e nacar.
-
-Feuillet é o ultimo romantico, depois do romantismo ter morrido, como
-Balzac é o primeiro realista antes do _realismo_ nascer.
-
-Para Feuillet, o delicado observador, as paixões são doenças da alma;
-para Zola, o anatomista implacavel, as paixões são doenças do corpo.
-
-O convulso e repugnante hysterismo das mulheres de Zola não tem nada que
-vêr com a sentimentalidade melancolica das mulheres de Feuillet.
-
-Nenhuma d'ellas--deixe-se isto bem claramente registrado para honra e
-felicidade do sexo feminino--nenhuma d'ellas é a verdadeira mulher, a
-que tinha a obrigação de ser a mulher do futuro, já me não atrevo a
-dizer da que o será.
-
-Octavio Feuillet, que está talvez perto demais das cruas pinturas do
-realismo, intentou n'este seu ultimo livro, chamado _Le journal d'une
-femme_, rehabilitar as ideias romanticas, que visto perderem tantas
-mulheres, podem tambem salvar algumas.
-
-Elle que sabe tão bem dar vida ás suas pallidas e nervosas heroinas, que
-téem na bocca o sorriso da esphinge, que téem na voz uns feitiços
-mysteriosos, que téem no gesto uma graça irrequieta e caprichosa, que
-sabem arrastar o homem até á beira do crime com um aceno das suas mãos
-esguias e aristocratas, elle, o creador do Conde de Camors, esse ultimo
-producto da litteratura byroniana, que endoudeceu de _amor litterario_
-tanta mulher, eil-o que se propõe d'esta vez o difficil thema de
-explicar a que nobres e altos sacrificios o _romantismo_ bem entendido
-póde levantar uma mulher.
-
-Foi arrojada a empreza; arrojada, mas feliz.
-
-_Le journal d'une femme_, livro que eu já d'aqui recommendo a todas as
-minhas leitoras, é uma joia admiravel, cinzelada pela mão de um artista
-de coração.
-
-E depois são taes os exageros e desmandos da chamada _escola realista_,
-é tal o amesquinhamento a que ella reduz a humanidade, que é bom que um
-escriptor de tão prestigiosa eloquencia como é _Octavio Feuillet_ mostre
-que, no fim de contas, nem tudo era mau na geração que os moços de hoje
-tentam desthronar com tão arrogante desdem.
-
-Roubar ao homem e sobretudo á mulher aquelle ideal em que até agora
-todos punham a mira embora o julgassem inacessivel, é despir a vida das
-poucas flôres que ella póde ter.
-
-Não; o homem não é só um ser organisado que pensa, é tambem uma alma que
-ama, espera e crê!
-
-N'esta era de transformação e de incerta claridade, é bom que uma voz se
-erga e diga bem alto que a paixão só é criminosa quando mal dirigida,
-que o excesso do sentimento só é ridiculo quando mal applicado, que a
-abnegação inteira e absoluta tem gozos superiores a todos os gozos da
-materia, e que as almas boas e as almas grandes descobriram uma
-linguagem mysteriosa, na qual fallam com Deus.
-
-Não basta descrever minuciosamente com uma perversão de gosto, devéras
-deploravel, tudo que ha mau, grotesco, ou vicioso na creação; não basta
-ter em si tão accentuada preoccupação horrivel, que se deseje vêr com o
-microscopio do naturalista, para bem lhe distinguir os defeitos, as
-anfractuosidades, as maculas, os vermes, de tudo que á simples vista
-seria harmonioso e bello.
-
-Áquelle a quem se roubam todas as illusões salutares cumpre apontar para
-algum bem que ainda lhe ficará na terra, bem verdadeiro que o compense
-de todas as suas perdidas alegrias mentirosas!
-
-Não basta negar, é necessario affirmar com convicção robusta; não basta
-demolir, é preciso ao lado dos edificios que se derrubam e desmoronam
-construir novos edificios mais ricos e mais seguros.
-
-Octavio Feuillet fez este livro, como um protesto de escola, sem comtudo
-perder com esta qualidade um tanto dogmatica, o seu interesse dramatico,
-a vida intensa, tão indispensavel ás verdadeiras obras d'arte.
-
-Dado o caso de se chamar romantismo ao excesso de certos e determinados
-sentimentos, á concepção mais ou menos chimerica que temos das cousas da
-vida, resta provar se o romantismo póde ou não póde ser nocivo conforme
-o terreno em que medrar e o meio em que se desenvolver.
-
-A principal heroina do romance, aquella que escreve o seu Diario, ao
-qual dá o titulo de livro, é uma rapariga apaixonadamente romantica,
-tudo quanto ha mais romantico, quer dizer tudo quanto ha de menos
-pratico e real.
-
-Por isso sendo moça, formosissima, sentindo cantar dentro da sua alma a
-festiva e triumphante symphonia dos vinte annos, tendo uma d'estas
-bellezas caracteristicas que dão a certas mulheres um aspecto de deusas,
-amando com aquella primeira e casta ternura das virgens um homem em tudo
-digno d'ella, sacrifica todas estas superioridades da natureza, todas
-estas radiosas promessas de felicidade a quem? a que?
-
-A um pobre mutilado que morria de amor por ella, a um soldado que
-voltára da guerra sem uma perna e sem um braço, informe, grotesco,
-irremediavelmente desgraçado, e que, assim mesmo do fundo do abysmo em
-que o destino o lançára, ousou amar aquella mulher olympica, e teve a
-audacia de tentar morrer por causa d'ella.
-
-Emquanto elle viveu, foi-lhe fiel como as mulheres dignas o sabem ser,
-consolou-o de tudo que perdera, levou a luz da sua caridade bemdita aos
-antros em que aquella pobre alma se debatera inutilmente por tanto
-tempo.
-
-Mais tarde quando o marido morre, abençoando-a como se abençôa um anjo,
-ella, livre de novo, torna a encontrar o homem que amou uma vez, e que
-não soube esquecer.
-
-Esse é então marido da amiga, da infancia, da juvenil viuva.
-
-Não são felizes, os dous, mas ella, a intrepida, a caridosa creatura, lá
-está tentando da abnegação de cada um d'elles fazer a felicidade de
-ambos.
-
-Não o consegue, e quando a amiga, culpada e arrependida se mata para
-fugir ao horror de mentir eternamente a seu marido, só ella no mundo
-recebe a confidencia do seu crime, confidencia que n'uma carta repassada
-de dôr a douda creança lhe pede que transmitta ao esposo ultrajado.
-
-Ficaram ambos livres em face um do outro, ambos viuvos, ambos tendo
-cumprido a missão que o destino lhe confiára.
-
-Nada os desune agora, nada, a não ser uma duvida que punge o animo
-d'aquelle, que hoje ella ama perdidamente com a paixão concentrada de
-tantos annos de sacrificio.
-
---Porque foi que a minha mulher se matou? pergunta elle então. Ás vezes
-lembro-me que foi talvez o desamor que eu não soube occultar bastante.
-Se assim fôr, fugirei. Não quero gozar uma ventura de que não sou digno.
-Se eu matei uma innocente e casta creança, quem me dá direito a ser
-ainda feliz na terra?
-
-Só ella o sabe, só d'ella depende aquella ventura divina, de que o dever
-e a caridade a fizeram fugir n'outro tempo.
-
-Pois a ninguem revelou o segredo da sua amiga morta, da doce creatura
-que a paixão fustigara e que a paixão matou!
-
-Calou-se, deixou que o noivo da sua alma se affastasse para sempre,
-pungido por um remorso que o separava da ventura, e olhando para o berço
-da filha escreveu estas palavras que vertem lagrimas, as santas
-lagrimas, que os _realistas_ não conhecem:
-
-«Restas-me tu, minha filha... Escrevo estas linhas ao pé do teu
-bercinho... Espero que um dia estas paginas façam parte do teu enxoval
-de noiva; talvez ellas te digam que queiras muito á tua pobre mãe, tão
-romantica!... D'ella saberás talvez que a paixão e o romance podem ser
-bons, com a ajuda de Deus, porque elevam os corações e ensinam-lhes os
-deveres superiores, os grandes sacrificios, as elevadas alegrias da
-vida. É verdade que eu chóro ao dizer-te isto, mas olha que ha lagrimas
-que causam inveja aos anjos.
-
-
-
-
-MADAME DE BALSAC
-
-
-I
-
-Ha tempo annunciaram os jornaes que a viuva do grande romancista vinha
-fazer uma viagem á Peninsula e que partira já de Paris em direcção á
-capital de Hespanha.
-
-Senti então um impeto de curiosidade verdadeiramente irresistivel.
-
-Pensei em vêr a deliciosa russa e em conhecer n'ella humanado e visivel,
-um de aquelles immoredouros typos femininos, de que Balsac foi o
-analysta assombroso, se é que não foi o phantastico creador.
-
-Em Madame de Balsac havia de haver por força muito d'aquelle homem que é
-o producto mais genuino da sua época e do seu meio; homem prodigio, que
-era ao mesmo tempo o espirito mais sceptico e o mais supersticioso, o
-mais corrupto e o mais infantil, o mais cultivado e o mais ignorante, o
-mais positivo e o mais phantasista, o mais atrozmente eivado de todos os
-venenos corrosivos da civilisação moderna, e o mais primitivo e
-adoravelmente poetico que existe no mundo da Arte.
-
-Ella conhecera-o por muitos annos, mesmo antes de ser sua mulher,
-amparara-o muitas vezes nas suas luctas cyclopicas contra os modernos
-monstros--a Divida, a Calumnia, a Inveja--e tantos outros que lhe
-retalhavam o coração com as garras sanguinarias; acolhera-o muitas
-outras, cançado, vencido, aniquillado, depois de uma d'aquellas
-vertiginosas viagens pelos mundos chymericos do Impossivel; vira-o
-partir montado no fogoso Pegaso do sonho. Imaginario terrivel, moderno e
-mais complicado D. Quichote, em busca de tesouros que nunca existiram,
-de fabulosas hypotheses em que ninguem acreditava, de ideaes entrevistos
-que lhe davam o deslumbramento extatico e paradisiaco; ouvira-lhe depois
-no seu regresso ao mundo da realidade o rir estrondoso e _rabelaisiano_,
-rir de um gigante em horas de gaudio, rir só digno d'aquella natureza
-robusta e fecunda em contrastes, que tinha todos os requintes
-aristocraticos e todas as grossas expansões plebeias; conheçera-o a
-fundo, debaixo de todos os aspectos, e aos meus olhos havia n'ella uma
-attração extranha e magnetica como quem visitou o antro de um leão e o
-domou meigo e dôce aos seus pés pequeninos.
-
-Levei então horas e horas ideiando o meio porque me havia de approximar,
-eu obscura e desconhecida da illustre mulher, duplamente celebre pelo
-merito pessoal, e pelo genio de que era como que o reflexo vivo.
-
-Quando estava no meio d'estas locubrações inoffensivas aconteceu o que
-era de esperar: a condessa Hanskan de Balsac, entendeu que Portugal, o
-Portugal tão querido dos poetas patriotas, não era digno de uma visita
-sua.
-
-Resignei-me, portanto, a conhecêl-a sómente atravez de um livro que é a
-obra-prima de Balsac, o auctor de tantas obras primas que não morrem.
-
-Este livro é a _Correspondencia_ do grande escriptor, publicada ha pouco
-pela casa Calmann Levy.
-
-Não conhecemos, podemos affoitamente confessal-o, livro mais dramatico,
-mais cheio de vida e de interesse, mais _empoignant_, permitta-se-nos o
-expressivo francezismo.
-
-N'estes dous volumes de cartas apparece-nos Balsac em toda a potencia da
-sua extraordinaria individualidade, e conhecer Balsac é como que
-conhecer a sua época, a sociedade que o produziu e formou, os vicios,
-virtudes, preoccupações, sentimentos, ideias e paixões do seculo
-extraordinario, de que elle é a synthese mais completa, seculo agitado
-por esse poder fecundo e malefico chamado _Oiro_ que tamanha influencia
-exerceu na vida intima de Balsac.
-
-Nos livros devidos á penna do fecundo escriptor, o oiro com o seu brilho
-fulvo, com as suas tentações diabolicas, com o seu cortejo de visões
-sinistras ou luminosas, com as suas miragens attrahentes e enganadoras,
-com as paixões phreneticas que elle cria, que elle excita, que elle
-exacerba, com os milagres de que é a fonte tantas vezes turva, com os
-explendores de que é o mais perfeito creador, o oiro, esse inimigo, esse
-auxiliar, esse idolo humano, scintilla, tremeluz, precipita-se em
-cascatas fulgidas, doira com o seu reflexo infernal todas as cousas,
-communica um não sei que de vertiginoso e satanico a todas as creaturas
-e a todos os objectos, produz allucinações doentias que desorientam e
-desvairam.
-
-Esta preoccupação, que tanto nos espanta nos romances eminentemente
-modernos de pintor mais perfeito e mais _realista_ que a sociedade
-franceza do seculo XIX encontrou, transparece, na existencia inteira do
-homem, e explica-se por todos os factos do seu agitado viver.
-
-Ganhar dinheiro, muito dinheiro, o que bastasse para saciar as ambições
-mais desregradas, os desejos mais insensatos, o ideal de luxo mais
-artistico e requintado, os sonhos mais orientaes de um _nababo_ ebrio de
-_haschish_, eis o ficto que preencheu a vida de Balsac.
-
-Á primeira vista a gente imagina que o escriptor lhe sacrificou e
-subordinou tudo o mais.
-
-Engano!
-
-Emquanto aquella phantasia desenfreada e febril revolvia milhões,
-aspirava á opulencia das _Mil e uma noites_, se lançava nas mais doidas
-especulações, escavava minas que não havia, procurava thesouros
-occultos, se exhauria emfim n'uma lucta impossivel e tenaz contra a
-mediocridade da sua fortuna, o escriptor severo e consciencioso não
-sacrificava ao ganho nem uma diminuta parcella da sua legitima gloria.
-
-Os editores ajustavam pagar-lhe um livro por certa e determinada
-quantia, muitas vezes vantajosa para o orçamento do poeta, mas
-conhecendo-lhe a singularidade do caracter especificavam no contracto
-que o auctor só teria direito a receber um certo numero de provas, e
-que, excedido elle, as correcções seriam por sua conta.
-
-Muitas vezes todo o preço do romance era esgotado nas correcções que
-Balsac fazia á sua custa, tão elevada era a ideia que elle tinha da
-perfeição da Arte.
-
-Esmagado debaixo do peso das dividas, que todos os dias pagava e todos
-os dias cresciam, trabalhou como um titan, trabalhou sem descanço, sem
-treguas, com phrenezi, com paixão, com tenacidade de que só era capaz
-aquelle organismo d'uma robustez antiga, e ao mesmo tempo vibratil,
-nervoso, delicado como o de uma mulher.
-
-Chegou a escrever consecutivamente e sem descanço pelo espaço de
-quarenta e oito horas, conservando-se n'uma exaltação artificial,
-produzida pelo fortissimo café, que bebia em grandes doses.
-
-Quem deixaria de succumbir a esta vida de martyrio?
-
-Apesar do seu estranho vigor, aos cincoenta e um annos Balsac succumbia
-a um aneurisma, tendo produzido dezenas e dezenas de obras admiraveis,
-que bastariam, repartidas, para constituir a fama de vinte escriptores.
-
-Morreu com a penna na mão, tendo attingido as duas ambições supremas da
-sua vida; morreu sendo _amado_ e sendo _celebre_, mas morreu antes de
-haver podido saborear no repouso e na dilatação tranquilla da alma o
-_amor_ conquistado em annos e annos de servidão cavalleiresca, de
-castidade monastica, de paixão secreta e delicada; a _celebridade_
-adquirida em trinta annos do mais infatigavel e violento labutar que
-ainda um espirito de homem concebeu e realisou.
-
-Quanto mais se estuda aquella vida singular, maior pasmo nos avassalla o
-entendimento.
-
-Todo elle era contrastes incomprehensiveis, dos quaes, no entanto, tinha
-a consciencia definida e clara.
-
-Pondo na bocca d'um dos seus protagonistas pensamentos que eram seus,
-diz elle analysando a sua propria vida:
-
-«Amante effeminado da preguiça oriental, namorado dos meus sonhos,
-sensual por temperamento, trabalhei sempre sem repouso, recusando-me a
-todos os gozos da vida parisiense; guloso, fui sobrio; gostando dos
-grandes passeios, das longas viagens maritimas, desejando conhecer todos
-os paizes da terra, vivi constantemente immovel, sedentario, com a penna
-na mão, amarrado á banca do trabalho; fallador, loquaz, communicativo,
-ia escutar em silencio os professores nos cursos publicos da bibliotheca
-e do museu; vivi solitario como um monge benedictino, e a mulher no
-entanto era a minha chimera unica, chimera sempre acariciada, e sempre
-esquiva.»
-
-O que elle aqui não diz, mas o que mais d'uma vez lhe foge dos labios e
-dos biccos da penna, n'um grito doloroso e dilacerante de agonia
-prophetica, é que a morte implacavel ha de vir colhel-o no instante em
-que elle já extenuado de tantas luctas ia tocar a méta do seu desejar
-infrene.
-
-O que torna mais digno de um curioso estudo a indole litteraria de
-Balsac é a revelação feita pelos seus amigos e confirmada por elle
-proprio, da excessiva difficuldade, que o romancista encontrava para
-achar um molde adequado ao seu pensamento tão profundo e complexo.
-
-A palavra trahia-o a cada instante, a lingua, como a Galatheia da
-fabula, recusava-se a ceder ás febris solicitações do seu pensamento,
-fugia-lhe ondeante e caprichosa, e elle impotente, desesperado, ardendo
-em febre, luctava noites e noites com a fórma tyrannica que se não
-queria deixar domar!
-
-«N'essas batalhas nocturnas,--diz Théophile Gauthier, no admiravel
-estudo que consagrou a Balsac,--e das quaes o escriptor acabava de manhã
-despedaçado, mas vencedor, quando o lume do fogão se apagava e a
-atmosphera arrefecia, a cabeça d'elle exhalava fumo, e do seu corpo
-sahia uma especie de nevoeiro vizivel como do corpo dos cavallos em
-tempo de inverno.
-
-«Ás vezes uma só phrase occupava uma vigilia inteira; era empolgada,
-tornada a empolgar, torcida, amassada, martellada, allongada, encurtada,
-escripta de mil modos differentes, e coisa notavel! a fórma necessaria,
-absoluta, não apparecia senão depois de se haverem exgotado as fórmas
-approximativas. O metal, sem duvida, corria muitas vezes de um jacto
-mais cheio e mais solido, mas poucas paginas existem de Balsac que
-ficassem exactamente iguaes ao primeiro rascunho.»
-
-
-II
-
-É ainda Théophile Gauthier quem nos deixou de Balsac o retrato mais
-expressivo, aquelle que se nos affigura mais fiel.
-
-«Usava elle sempre, diz o escriptor já citado, em vez de _robe de
-chambre_, o habito de cachemira ou de flanella branca, preso á cintura
-por um cordão grosso, com o qual, mais tarde, se fez retratar por Luiz
-Boulanger.
-
-«Que phantasia o levára a escolher de preferencia aquelle vestuario que
-nunca mais deixou? Não o saberemos dizer.
-
-«Talvez que elle aos seus olhos symbolisasse a vida claustral a que o
-seu trabalho o condemnava, e, benedictino do romance, adoptara o trajo
-da sua vocação.
-
-«Como quer que seja, a verdade é que lhe ficava muito bem.
-
-«Gabava-se sempre mostrando-nos as suas mangas intactas, de não lhes
-haver jámais manchado a alvura com a menor nodoa de tinta, porque, dizia
-elle, «o verdadeiro homem de lettras deve ser aceiado no trabalho.»
-
-«O habito, um pouco aberto, deixava-lhe vêr o pescoço de athleta ou de
-touro, redondo como um troço de columna, sem musculos salientes, e de
-uma alvura assetinada, que fazia perfeito contraste com o tom mais
-colorido das faces.
-
-«N'essa época, Balsac, em todo o vigor da sua virilidade, apresentava
-indicios de uma saude violenta, pouco em harmonia com a pallidez
-esverdeada que o romantismo tinha posto á moda.
-
-«O puro sangue da Touraine fustigava-lhe as faces tintas de purpura
-vivaz, e dava-lhe um colorido quente aos grossos labios bondosos e
-espessos, tão accessiveis ao riso; um pequeno bigode e uma pêra
-impercetivel accentuavam-lhe os contornos sem os esconder; o nariz
-quadrado na extremidade, repartido em dois lobulos, de narinas amplas e
-dilatadas, tinha um caracter inteiramente original e unico; a ponto de
-Balsac dizer a David de Angers em quanto este lhe modelava o busto: «Dê
-attenção ao meu nariz;--o meu nariz é um mundo!»
-
-«A testa era bella, vasta, nobilissima, muito mais branca do que o
-rosto, sem rugas, a não ser um sulco perpendicular; as protuberancias da
-memoria dos logares formavam uma saliencia pronunciadissima, por cima
-das arcadas superciliarias; os cabellos longos, abundantes, asperos e
-negros, arripiavam-se para traz como uma juba leonina.
-
-«Quanto aos olhos nunca houve outros que se parecessem com os d'elle.
-
-«Tinham uma vida, uma luz, um magnetismo inconcebiveis.
-
-«Apesar das longas vigilias nocturnas, a esclerotica conservava-se-lhe
-pura, limpida, azulada, como a de uma creança, ou a de uma virgem, e
-engastava dois diamantes negros, a espaços allumiados por oppulentos
-reflexos de ouro. Eram olhos para fazerem baixar as palpebras ás aguias;
-olhos capazes de lerem atravez das paredes e dos corações, de fulminarem
-uma féra furiosa: olhos de soberano, de vidente e de domador!»
-
-Madame de Girardin, no seu romance intitulado: _A bengala do snr. de
-Balsac_, falla d'estes olhos esplendidos:
-
-«_Tancredo avistou então no cabo d'esta especie de masso, turquezas e
-ouro, cinzeladuras maravilhosas; e por detraz de tudo isto dois grandes
-olhos negros mais brilhantes que todas as pedrarias._
-
-«Logo que a gente encontrava o olhar d'estes olhos extraordinarios, não
-podia notar sequer o que as outras feições tinham de trivial ou de
-irregular.
-
-«As mãos de Balsac eram de rara formosura, verdadeiras mãos de prelado,
-brancas, de dedos pequenos e redondinhos, unhas roseas e brilhantes; era
-muito presumido d'ellas, e sorria-se de prazer quando via que as
-notavam».
-
-Diante d'este retrato é mais facil comprehender o escriptor com a sua
-admiravel potencia intellectual, e as suas pequenas manias pueris;
-sympathico, bom, com vaidades inoffensivas, e austeros orgulhos, sedento
-de um affecto _unico_, e de uma _celebridade_ que fosse só d'elle.
-
-Nas suas cartas de uma eloquencia irresistivel, volteiam constantemente
-as duas grandes preoccupações da sua vida--_a gloria_ e _a mulher_!
-
-«Tenho a alma profundamente triste, escreve elle. Só o trabalho me
-ampara na vida. Não haverá para mim no mundo a mulher a que eu aspiro?
-As minhas melancolias e tedios physicos cada dia se aggravam mais, se
-tornam mais longos e mais frequentes. Cahir d'este trabalho esmagador ao
-_nada_ mais completo! não ter nunca ao pé de mim aquelle doce e
-carinhoso espirito da mulher, por quem tenho feito tanto!»
-
-E fez! digam o que disserem os seus detractores, ninguem como elle
-comprehendeu a mulher,--principalmente a mulher do seu tempo,--nas suas
-fraquezas, nos seus crimes, nas suas delicadezas occultas, nas suas
-aspirações morbidas e doentias, nas exigencias despoticas da sua alma e
-dos seus nervos, nas abnegações sublimes de todo o seu sêr, nas suas
-vaidades ferozes, no esquecimento absoluto, na abdicação completa de
-qualquer egoismo, em tudo emfim que ella tem de bello e de feio, de
-grandioso e de ridiculo, de puro e de maculado.
-
-Que o digam Eugenia Grandet, a mais doce e mais melancolica das suas
-creações; _La Fossette_, idylica visão tão sympathica como a Mignon, e
-mais real do que ella; a condessa de Morsauf, a martyr do dever; a
-viscondessa de Bauseant, a duqueza de Langeais, madame de Restaud, lady
-Dudley, a monumental Valeria Marneffe, e tantas outras, tragicas
-peccadoras, fascinantes, demonios que teem filtros na voz e no olhar;
-productos de uma civilisação gasta e apodrecida; figuras typicas que
-hão de ficar umas, caracteristicas da sua época e do seu meio, outras,
-eternas e sempre verdadeiras como a humanidade!
-
-Em Balsac ha muitas vezes expansões de candido orgulho que seriam
-ridiculas n'outro homem, e que a elle o tornam mais sympathico.
-
-Tem mais do que a consciencia clara do seu valor, tem uma confiança
-enorme em si, no seu talento, na sua obra, na sua missão.
-
-Imagina-se apto para todos os misteres, julga-se não só um grande
-romancista, mas alguma cousa menos--um grande politico!
-
-Escrevendo _Seraphita_ e _Luiz Lambert_, duas obras que lhe foram
-inspiradas pelas suas leituras de philosophia espiritualista, e pelas
-tendencias _Swedenborgistas_ que houve n'elle n'um dado momento da sua
-existencia, tão _intellectualmente_ accidentada, julga preencher uma
-grande lacuna, produzir alguma cousa de grande que os seculos vindouros
-possam pôr ao lado do Fausto!
-
-Curiosa illusão do genio!
-
-Como se houvesse nada menos nebuloso, menos metaphysico do que esse
-vigoroso _realista_, observador potente para quem a vida com todas as
-paixões que a convulsionam e agitam não conservou um unico segredo.
-
-
-III
-
-São de 1835 as primeiras cartas que na _Correspondencia_ de Balsac
-apparecem dirigidas a madame Hanska, se bem que já de mais tempo
-dactassem as suas relações de pura e platonica amisade com a elegante e
-fidalga mulher, que muito mais tarde foi sua esposa.
-
-Duram cerca de dezesete a dezoito annos estas relações que o tempo
-modificou, e estreitou tão profundamente, mas desde a época em que esta
-mulher superior apparece no seu destino, a vida de Balsac tem um
-profundo e apaixonado interesse.
-
-Vinte horas por dia trabalhava elle então, para conseguir encher aquelle
-horrivel tonnel das Danaides, que era a sua divida!
-
-Apesar d'isso, lograva ainda roubar alguns instantes a este agro
-labutar, para escrever umas cartas que todos os criticos hão de
-consultar no futuro, para conhecerem a fundo a vida e o caracter do
-prodigioso escriptor.
-
-São caricias ideaes, interrompidas por calculos monetarios, são queixas
-dilacerantes a que se segue uma longa risada de inoffensiva ironia;
-porque elle, que soube pintar tão bem os cynicos, os depravados, os
-terriveis escarnecedores, cujo riso corroia como um caustico, era no
-intimo bom, quasi infantil; depois confidencias, esperanças, sonhos
-politicos, sonhos financeiros, sonhos industriaes, planos gigantescos de
-trabalho, phantasias de artista, desejos de mulher garrida e bonita,
-observações profundas, divagações poeticas, melancolias de alma
-solitaria que ninguem na terra sabia entender.
-
-Entendia o ella, a adoravel slava, que vêmos atravez d'estas cartas,
-altiva para todos, consoladora e maternal para elle; grave, magestosa,
-fidalga como a sua velha raça, e no entanto cheia de graciosas
-delicadezas, que endoideciam de jubilo e de amor o plebeu namorado de
-todos os requintes aristocraticos, o trabalhador eternamente exilado de
-todas as alegrias do amor, o artista que tão bem sabia avaliar o lado
-elevado e bello de todos os sentimentos.
-
-É um estudo interessante e curiosissimo vêr como o tom ao principio
-respeitosamente affectuoso das cartas de Balsac vae seguindo gradações
-successivas e harmonicas, tornando-se terno, apaixonado, confiante,
-expansivamente amoroso.
-
-É que madame Hanska, quando elle a conheceu, é uma senhora casada e
-sinceramente virtuosa.
-
-O adoravel _monstro_ parisiense de juba de leão e olhos de brilho fulvo
-e diamantino, poude attrahir-lhe a curiosidade, excitar-lhe a
-imaginação, seduzir-lhe o espirito, mas parou aqui o seu terrivel poder!
-
-E só depois de viuva, quando, sem crime, a altiva dama póde entregar-se
-á tendencia tão violenta do seu coração, é que ella o acolhe com o
-abandono de mulher amada e amante, que lhe deixa conceber esperanças que
-o fascinam, e que por fim as corôas, dando a sua fina mão branca, esguia,
-principesca, ao pobre artista, ao louco aventureiro do genio, que tão
-fiel e estremecidamente lhe quiz, em longos annos de casta abstenção.
-
-Mas elle trabalhara, luctara, padecera tanto; por tanto tempo desejara
-aquelle enlace, que era ao mesmo tempo a realização das suas chymeras de
-ambicioso, e dos seus sonhos de homem e de poeta; empregára tão
-violentos esforços para pagar até ao ultimo ceitil a sua enorme divida,
-para entrar desassombrado e digno na vida conjugal, em que, aos olhos
-d'esta sociedade ignorante, elle dava tão pouco e recebia tanto;
-realisára taes prodigios para mobilar, como um artista millionario, o
-ninho em que havia de receber a adorada mulher que deixava por elle as
-pompas seculares da sua vida opulenta, que succumbiu ao excesso das
-fadigas e que ao tocar com os labios sofregos o pômo tantas vezes
-sonhado, o sentiu esvaír-se em cinzas, como em cinzas se esvaía a sua
-vitalidade opulenta!
-
-É esta lucta d'um tragico sublime, mais interessante do que todos os
-romances que Balsac escreveu, que se desenrolla com uma belleza
-maravilhosa na sua _Correspondencia_, cuja leitura aconselhamos sem
-hesitação a todas as nossas leitoras, cousa que não fariamos a respeito
-da obra do escriptor, apesar da sua incontestavel e radiante formosura.
-
-É preciso ler estes dois volumes para saber como o grande romancista
-soffreu e como se compram caras as glorias do genio, tão invejadas pela
-turba.
-
-«Não tenho nem uma hora para chorar, nem uma noite para descançar!», diz
-elle n'uma das suas cartas.
-
-Madame Hanska é comtudo para o titan, infatigavel e sempre vencedor, a
-suprema doçura, o balsamo ineffavel de todos os instantes.
-
-«_Ó_ minha querida alma fraternal, tu és a santa, a nobre, a dedicada
-creatura a quem eu entrego toda a minha vida e toda a minha felicidade
-com a mais ampla confiança! Tu és o pharol, a estrella luminosa e _la
-sicura richezza senza brama_! Em ti comprehendo tudo, até as tuas
-tristezas e por isso as amo tanto! Comtigo a _sociedade moral_ não
-existe! eis o grande segredo, o segredo supremo de felicidade.»
-
-Mas para que havemos de fazer citações sempre incompletas e sempre
-inuteis?
-
-Quem quizer conhecer a que foi esposa e hoje é viuva d'um dos maiores
-genios da França, que leia o livro de que temos extrahido rapidos
-trechos.
-
-Vel-a-ha serena, intelligente, instruida, não bella d'aquella belleza
-juvenil, que agrada aos mais profanos, mas da grave formosura, que
-envolve o outomno da mulher n'uma nuvem de indefinivel saudade, sabendo
-curvar a sua gentil e orgulhosa cabeça de _madonna_ ao jugo d'uma
-elevada ternura, e comtudo conservar intacta a sua dignidade de senhora,
-duplamente illustre pela virtude e pelo nascimento; tendo para o genio a
-admiração e a indulgencia; comprehendendo com uma finura toda feminil,
-feita de talento e de experiencia, o que ha de infantil n'um grande
-homem, o que ha de fraqueza n'uma potencia intellectual, abdicando
-todas as falsas vaidades, cultivando em si todos os verdadeiros
-orgulhos, n'uma palavra a mulher completa, tal como a sonhamos e como
-quereriamos vel-a mais vezes realisada.
-
-
-
-
-LINCOLN E GRANT
-
-
-De vez em quando a tela monotona d'esta nossa vida de Lisboa, unicamente
-bordada de pequeninos _cancans_ politicos, litterarios e sociaes,
-rompe-se com a chegada, ou para melhor dizer, com a passagem de um
-viajante illustre.
-
-Em geral os viajantes que por cá apparecem não _chegam_, _passam_.
-
-É mais verdadeiro o verbo, embora lisongeie muito menos a vaidade
-nacional.
-
-Este nosso modesto _Jardim da Europa á beira-mar plantado_, como a
-caridosa phantasia do poeta do _D. Jayme_ lhe chamou, tem poucos
-attractivos que chamem os viajantes.
-
-D'entre os que nos teem visitado, só um, e esse na sua qualidade de
-mulher tinha amplo direito para se entreter com devaneios illusorios, só
-um--M.ᵐᵉ Ratazzi--descobriu em nós qualidades extraordinarias que
-nos vaticinam brilhante futuro, além de nos dotar de genios pouco
-vulgares, de obscuros Shakespeares, para quem soará brevemente a hora
-gloriosa da fama universal.
-
-A propria M.ᵐᵉ Ratazzi se offereceu bizarramente para apressar essa
-hora, que já ia tardando, não só pondo em prosa franceza a prosa dos
-nossos escriptores, como tambem encarregando-se ella propria de
-personalisar, n'um dos eternos _theatrinhos_ que anda armando por toda a
-parte, as creações mais ou menos formosas dos ditos Shakespeares,
-desconhecidos.
-
-Será bom que a gente peça a Deus d'aqui por diante nas suas orações mais
-fervorosas não excitar a dedicada admiração d'aquella illustre, mas
-indiscreta dama!
-
-Quem lhe manda a ella andar apreguando lá por fóra nossas glorias!
-
-Nós bastamos ao menos para nos applaudirmos mutuamente.
-
-A que vem, porém, todas estas divagações? pergunta de certo a leitora.
-
-E pergunta com muita justiça, porque a minha imaginação, está _folle du
-logis_ indisciplinada, não tem direito para cansar assim a benevola
-attenção dos que me lêem.
-
-Vinha tudo isto a proposito de ter estado ha pouco entre nós, vindo
-embarcar no nosso porto, o general Ulysses Grant, um dos vultos mais
-importantes da moderna historia.
-
-O apparecimento d'este homem modesto, que foi um heróe, além de ser um
-grande cidadão, pouca ou nenhuma impressão produziu no espirito dos
-lisboetas.
-
-Porque, emfim, sejamos justos, o general Grant que direito podia ter á
-fervida admiração dos seus contemporaneos?
-
-O general Grant não inventou, como o seu patricio Boyton, um apparelho
-de borracha para andar por cima d'agua; o general Grant não é um palhaço
-afamado dos que attrahem o _High life_ ao circo Price; o general Grant
-não tem nem a voz de _Manrico_ ou de _Arthur_, nem a capa e o chapeu de
-pluma d'estes cavalheiros; o general Grant não passa de um homem muito
-vulgar, que salvou o seu paiz na guerra, e que o reconstruiu,
-desenvolveu, fortificou e engrandeceu durante a paz!
-
-Que significarão estas cousas para quem só gosta de aventureiros e de
-_poseurs_?
-
-Nós, porém, é que, lendo que chegara á cidade em que vivemos o
-ex-presidente dos Estados-Unidos da America, tivemos curiosidade de
-lançar um relance de olhos, comquanto rapido, sobre a vida d'esse homem
-singular, d'esse moderno luctador, vida que se nos afigura um estudo
-proprio para levantar e robustecer o espirito dos que acreditam nos
-futuros destinos da democracia.
-
-Não é possivel separar na historia os dous nomes de Lincoln e de Grant.
-
-Ambos combateram pela mesma nobre causa, ambos concorreram igualmente
-para o seu grande e difinitivo triumpho.
-
-O nome de Lincoln tem a suprema aureola que dá o martyrio, o nome de
-Grant tem o prestigio fascinador que dá a heroicidade.
-
-Nenhum conhece o apparato, a ostentação, esta humilde vaidade que torna
-os povos latinos tão doudamente namorados de tudo que fulgura.
-
-Ambos elles pertencem profundamente, mais ainda pelo caracter do que
-pelo nascimento, ao paiz de que são filhos.
-
-Paiz estranho, gigantesco, sempre agitado, onde o homem tem campo vasto
-para desenvolver a sua multipla actividade, para exercitar e pelo
-exercicio permanente robustecer as suas varias e complexas faculdades, e
-onde, tendo de dever sómente ás suas forças individuaes a elevação a que
-forçosamente aspira, elle tem de empregar n'essa lucta de ambições
-fecundas todos os recursos, todas as energias da sua intelligencia,
-todas as riquezas da sua organisação.
-
-O que ha de extraordinario n'estes dous homens é que ambos alcançaram o
-mesmo fim, ambos partiram da mesma origem, e comtudo não ha nada mais
-divergente do que o caracter d'elles e os meios que empregaram para
-subir ao mesmo posto supremo da sua nação.
-
-É fóra de toda a duvida que hoje a ideia democratica tende a triumphar
-por toda a parte.
-
-É uma ideia que germinou ha dezenove seculos, e que, antes de bracejar e
-florir á luz crua do dia, lançou até ás entranhas da terra as suas
-raizes vigorosas, cresceu, medrou, sugou a mais exhuberante e a mais
-substanciosa seiva, minou lentamente tudo que lhe ficava em torno, e,
-quando emfim appareceu a todos os olhos, já vinha forte e robusta demais
-para que ousassem derrubal-a.
-
-A democracia não é um modo de ser transitorio das sociedades modernas;
-quando as leis e os costumes, quando os acontecimentos e os homens, se
-modificaram e transformaram á sua grande voz, já ella tinha direito de
-asylo em todas as consciencias.
-
-Os que a repulsam não desconhecem o feio crime que perpetram.
-
-Os que a atacam são movidos pelo seu proprio interesse, que ella muitas
-vezes tem de magoar ou de destruir, mas nunca pela sinceridade das suas
-convicções.
-
-A democracia bem entendida não póde separar-se da ideia da justiça.
-
-Desde que uma despontou sobre a terra, outra começou a apparecer
-imponente e irresistivel ao espirito dos que sabem ler em vagos
-prenuncios as transformações fataes de que teem de ser theatro as
-sociedades.
-
-A democracia não está, pois, destinada a morrer como as outras fórmas
-sociaes que a precederam, e que não foram senão a lenta preparação do
-seu triumpho, comquanto pareçam as suas inimigas irreconciliaveis.
-
-Entre os elementos que constituiram o passado, e os que vão constituir o
-futuro, não ha inimizade, ha incompatibilidade.
-
-Uns teem de succumbir para que os outros triumphem, eis tudo.
-
-N'esta grande evolução que nunca pára, o que ás vezes se nos afigura
-mais contrario a uma causa é justamente aquillo que lhe está preparando
-a victoria absoluta.
-
-É bom que tenhamos isto sempre bem presente, para que não sejamos
-accintosamente inimigos do que foi, nem loucamente vaidosos do que vai
-ser.
-
-Os acontecimentos não são nunca o resultado de uma causa isolada; são a
-consequencia fatal de uma lei relacionada com todas as outras, parte que
-está em perfeita harmonia com o seu conjuncto.
-
-A geração de hoje, e a que foi sua predecessora, fizeram muito, é
-verdade, em favor da causa democratica, porém não foram ellas que no
-curto espaço de um seculo semearam o germen, regaram a planta, a viram
-transformada em arvore gigantesca, e lhe colheram os fructos abençoados.
-
-Seria demais para tão pouco tempo.
-
-É bom que o repitamos: ha dezenove seculos que a humanidade caminha, sem
-parar um só instante.
-
-Tem tido dias que podem chamar-se seculos, e em compensação tem tido
-seculos que pódem chamar-se dias; em todo o caso, é porque ella ainda
-não estacionou que hoje avista emfim o ponto a que se dirigia.
-
-Tenhamos o santo orgulho do que temos feito, mas não desprezemos o que
-os outros fizeram antes de nós.
-
- * * * * *
-
-A America é o paiz em que o pensamento democratico tem tido mais pratica
-e mais positiva realização.
-
-Sem entrarmos em considerações que seriam inopportunas, sem analysarmos
-todas as condicções excepcionaes que favoreciam este povo, para que elle
-pudesse, mais do que nenhum outro, dar uma forma real ao que tem sido o
-sonho de tantos utopistas e de tantos martyres, basta-nos percorrer
-rapidamente a vida dos dous homens notaveis de que fallamos para
-conhecermos a fundo quanto os costumes, as ideias, as leis, os
-sentimentos do povo americano estão profundamente penetrados do
-principio da _igualdade de condições_, que é no fim de contas a base de
-toda a verdadeira democracia.
-
-Tanto Lincoln como Grant sahiram das mais humildes posições sociaes.
-
-Lincoln foi até aos vinte annos carpinteiro e barqueiro; Grant foi até
-aos trinta e tantos annos operario como seu pae, operario humilde e
-obscuro.
-
-Se me perguntarem qual dos dous me inspira mais sympathia, responderei
-que prefiro Lincoln.
-
-Ambos teem a suprema distincção da honestidade, esta virtude moderna,
-que é indispensavel aos grandes homens, os quaes tinham d'antes ampla
-licença para serem aventureiros felizes, sem por isso deixarem de ser
-admiraveis e admirados.
-
-Mas, emquanto Grant é simplesmente um homem de energia inquebrantavel, e
-de espirito positivo e clarissimo, Lincoln, que é tambem isso, é mais
-ainda do que isso, porque é uma alma de poeta.
-
-De poeta, sim; não se riam, minhas queridas leitoras.
-
-A poesia que se escreve é muito inferior áquella que se sente e que se
-pratica.
-
-Não admira que a alma do martyr americano se colorisse na mocidade de
-todas as tintas opulentas da genuina poesia.
-
-Elle conhecêra de perto a natureza grandiosa do seu paiz; ouvira,
-humilde, pobre, talvez inconsciente, o que diz no silencio das noites ou
-no acordar festivo das madrugadas a voz sonora, grave, religiosa das
-florestas insondaveis.
-
-Depois, o seu primeiro livro, aquelle em que aprendeu a lêr na obscura
-escola da terra em que vivia, o que mais o inspirou, o que lhe deu
-adoraveis côres para as suas tão finas parabolas, eloquencia e uncção
-para advogar a causa de tantos milhões de parias, arrojo, audacia e
-valor para proclamar a redempção dos seus irmãos escravos--e escravos na
-terra onde uns poucos de homens intemeratos tinham vindo erguer o
-estandarte da liberdade, desconhecido na Europa--o livro, emfim, da sua
-mocidade foi a Biblia, o grande, o immutavel poema, o maior de todos,
-porque não é o poema de um homem, é o poema de um povo.
-
-Lincoln teve, como todos os poetas do coração, o culto mais profundo
-pela mãe.
-
---Tudo que sou a ella lh'o devo,--dizia.
-
-E, no entanto, ella morrêra-lhe quando o filho contava apenas dez annos,
-e fôra em vida uma creatura simples, uma alma ingenua e ignorante.
-
-Quem póde, porém, affirmar que não existisse uma communhão mysteriosa
-entre a alma da mãe e o espirito do filho!
-
-Quem sabe se a ella lhe faltou apenas cultivo esmerado para ser uma
-creatura superior, e se a creança rude e obscura, que foi mais tarde o
-grande homem e o grande martyr, não deveu as qualidades que o tornaram
-tão distincto á influencia occulta da que o gerou no seio?
-
-Como quer que seja, a verdade é que o pobre operario conseguiu á força
-de estudo--estudo ainda assim que nada teve de methodico--improvisar-se
-advogado.
-
-Lincoln n'esta nova posição, conquistada pela sua energica vontade,
-tinha uma singularidade que deve espantar altamente: só acceitava a
-defeza de causas justas.
-
-A feição mais caracteristica do espirito de Lincoln é uma jovialidade
-conceituosa, uma malicia benevola, uma graça de moralista, que faz das
-fabulas e das parabolas armas infalliveis de argumentação.
-
-Nunca se deu ao trabalho de improvisar arrojos de eloquencia, tinha
-sempre ao serviço das suas convicções umas anecdotas a um tempo cheias
-de graça e de bom senso, umas pequenas historias que deitavam por terra
-toda a laboriosa rethorica dos adversarios.
-
-Aos trinta annos o advogado modesto viu-se de repente orador popular e
-candidato á legislatura da sua terra.
-
-Não que elle fizesse nenhum d'esses discursos tribunicios que arrastam e
-enthusiasmam as massas, mas sempre pela força irresistivel do seu bom
-senso, que era tão raro e tão completo, que o punha a par dos homens de
-genio.
-
-Todos conhecem a vida de Lincoln, que, depois de ser um dos oradores
-mais populares e mais queridos das reuniões publicas do seu paiz, foi
-duas vezes eleito presidente dos Estados-Unidos, e durante os ultimos
-annos da sua vida gloriosa sustentou e venceu uma das guerras mais
-assoladoras dos modernos tempos, e arrancou da terra que lhe deu o sêr
-essa lepra--hoje felizmente desconhecida no mundo civilisado--que se
-chama escravidão!
-
-Foi pouco tempo depois de ter assignado o decreto que remia dos horrores
-do captiveiro quatro milhões de desgraçados, que Lincoln, um dos heróes
-da humanidade, um dos santos, um dos conquistadores, um dos martyres de
-que falla com mais louvor a historia, cahiu morto, ás mãos covardes de
-um assassino!
-
-Nada mais pathetico e de uma tristeza mais commovente e mais profunda do
-que a descripção do funeral do libertador da patria, do grande
-emancipador da raça escrava.
-
-O seu cadaver, consagrado pela admiração d'esse povo gigante, foi levado
-de capital em capital, desde Washington até á pequenina cidade de
-Springffel, patria de sua mocidade laboriosa e humilde.
-
-Foi um caminho de triumpho, que lembrava, mas de bem diverso modo, o
-caminho que elle andara em vida, desde a sua terra pequena e pobre, até
-á grande capital, onde o tinham levantado á primeira magistratura do
-paiz.
-
-D'alli voltava elle agora, martyr da sua causa que era a causa da
-patria, da humanidade da pura democracia, e que deixára vencedora e
-triumphante.
-
-Não póde haver existencia mais cheia, não póde haver gloria mais pura,
-nao póde haver destino mais digno de admiração.
-
- * * * * *
-
-Grant, que fôra desconhecido até muito mais tarde do que Lincoln,
-revelou-se d'outro modo á attenção dos seus patricios.
-
-Longe de ter a facilidade graciosa do espirito do seu predecessor, o
-espirito de Grant era acanhado e silencioso. Na infancia e na mocidade
-nenhuma superioridade visivel o distinguia dos seus companheiros.
-
-Educado á custa do Estado na escola de West-Point, sahio d'alli como
-alferes graduado do 4.º regimento de infanteria, e partindo para a
-guerra do Mexico, distinguiu-se ás ordens do general Taylor no cerco de
-Vera Cruz.
-
-Depois de sete annos de serviço, em que se mostrou sempre militar
-valente, pediu a sua demissão, e estabeleceu-se como simples rendeiro no
-Missouri, proximo de S. Luiz.
-
-Muito pobre, se bem que muito trabalhador, tendo já quatro filhos, Grant
-não tinha remedio senão ir elle proprio vender as madeiras da sua matta
-á cidade de S. Luiz, e muitos habitantes d'essa cidade se hão de lembrar
-ainda de vêr aquelle homem agil, laborioso, calado, quasi mudo, passar
-na sua carroça, ao galope dos cavallos, que sempre teve bons,
-descarregar a lenha que trazia, e partir de novo, tão mal trajado, que
-muitos dos seus antigos camaradas do exercito se envergonhavam de se
-darem por conhecidos d'aquelle grotesco figurão.
-
-Não lhe correu, porém, favoravel a fortuna, apesar da energia com que
-elle trabalhava.
-
-E o futuro presidente dos Estados-Unidos, cançado de luctar em vão
-contra a má sorte, voltou para junto da sua familia, que toda vivia do
-commercio dos couros, e começou tambem a trabalhar n'este humilde ramo
-de industria.
-
-Foi d'esta posição, de que na nossa aristocratica Europa ninguem era
-capaz de sahir, por mais que soubesse e por mais que valesse, que Grant
-subiu a commandante em chefe do exercito dos Estados-Unidos, e depois a
-presidente da Republica.
-
-Como? porque?
-
-Eis o que só se comprehende comprehendendo bem a indole do povo
-americano.
-
-Subiu mesmo pelos motivos que entre nós inutilisam os homens.
-
-Subiu porque conhecia a miseria e o trabalho; por que não o amedrontava
-o perigo, porque tinha a energia concentrada e omnipotente dos que,
-tendo nascido para altas emprezas, são longos tempos esmagados pela
-desgraça.
-
-Elle era destemido e energico, tinha--não a instrucção--mas a intuição
-guerreira; antes d'elle o norte fôra sempre vencido pelo sul, na
-terrivel guerra civil, que começára em 1861; depois d'elle apparecer
-succederam-se rapidas e brilhantes as victorias do norte.
-
-Em 1865 a auctoridade federal restabelecia-se em todo o territorio dos
-Estados-Unidos, o general Lee aceitava a capitulação de Richmond, e
-Lincoln entrara na cidade que o fogo destruira, descobrindo-se diante
-dos miseraveis negros, que recebiam pela primeira vez n'aquella
-homenagem, a confirmação da sua dignidade de homens.
-
-Foi um anno de triumphos devidos á audaciosa iniciativa do general
-Grant, que além da bravura do soldado, tinha em alto grau a bravura do
-general.
-
-Tão excepcional foi sempre a sua energia, como são raras as suas
-palavras.
-
-Os seus ditos, de uma concisão antiga, nas horas de crise de sua vida,
-são dignos de ficarem registrados pela historia.
-
-Nenhuma ostentação, nenhuma pretenção nos seus modos excepcionaes.
-
-Na carreira triumphal de militar e de cidadão conservou o seu feitio de
-rude agricultor ou de obscuro operario.
-
-Não admira que a morte de Lincoln désse o posto supremo a Grant.
-
-Lincoln fôra o advogado de uma causa da qual Grant foi o guerreiro.
-
-A herança era logica a natural.
-
-Quando o elegeram presidente, Grant respondeu com esta simples carta á
-communicação que recebera:
-
-«Procurarei applicar as leis com boa fé, e serei economico. Tenhamos
-paz, emfim.»
-
-Esta carta define-o.
-
-Elle não tinha levantadas theorias, não tinha planos concebidos, não
-tinha presumpçosos systemas.
-
-Estava resolvido a ter economia, boa fé, respeito ás leis.
-
-Todo o segredo de uma administração magistral.
-
-E quantos obstaculos encontrára!
-
-Tudo em roda d'elle eram vestigios do assolador flagello que passára,
-desvastação, fome, miseria; que vasto campo, e ao mesmo tempo que missão
-perigosa e difficil!
-
-Pois cumpriu-a.
-
-Cinco annos depois de finda a guerra já o exercito estava dispersado;
-mais de oito mil homens tinham ido com os seus braços dar um novo
-impulso á agricultura, á industria, ao commercio, a todos os ramos uteis
-da actividade de um povo.
-
-As leis eram rigorosamente executadas, a divida diminuira, a protecção
-aos antigos escravos estava plenamente confirmada, a America emfim
-entrava definitivamente em uma phase de reconstrução e de prosperidade.
-
-E tudo isto se devia á energia, á intelligencia, á actividade de um só
-homem.
-
-E este homem, tão modesto na apparencia, tão laconico nas fallas, tão
-simples no viver, este homem que recusa recompensas apparatosas, porque
-julga que a suprema recompensa é a da propria consciencia, este homem
-que póde apresentar-se como a personalisação da democracia moderna, é o
-mesmo que Lisboa ha pouco viu passar com a estupida e distrahida
-indifferença que ella tem para tudo que é verdadeiramente grande, e por
-isso mesmo despretencioso e simples.
-
-
-
-
-AS FILHAS DE VICTOR HUGO
-
-
-Ha pouco tempo um escriptor francez desconhecido entre nós, o sr.
-Gustavo Rivet, publicou um livro intitulado _Victor Hugo chez lui_, no
-qual pinta o grande poeta francez, surprehendido, por assim dizer, na
-intimidade dos seus pensamentos, de seus gostos, das suas attitudes mais
-familiares.
-
-Desce do pedestal onde a nossa phantasia se compraz em o collocar, o
-poeta da _Lenda dos Seculos_, e mostra-nol-o com a _robe de chambre_ e
-os pantufos de qualquer honesto _rentier_ do Marais.
-
-Victor Hugo não perde em ser visto assim.
-
-A sua alma amantissima, desnudada diante do nosso olhar corresponde
-positivamente a tudo que d'ella esperavamos.
-
-O avô brincando no tapete do seu quarto de trabalho com a graciosa
-Joanninha que a _Art d'être grand père_ immortalisou, não desmente de
-modo algum o justiceiro implacavel dos _Châtiments_.
-
-Comtudo não é o pae de familia, que nós vamos hoje estudar em Victor
-Hugo, como o nosso titulo um tanto phantasista parece estar indicando.
-
-_As filhas de Victor Hugo_, que nós tentaremos apresentar diante dos
-olhos das leitoras, não são as filhas do seu matrimonio de simples
-mortal, são as radiosas filhas do seu genio, as visões illuminadas que
-elle evocou com palavras de mysterioso encantamento d'esse Olympo
-inaccessivel onde vivem e nascem as creações immortaes dos grandes
-artistas.
-
-Para nós que temos vivido da palavra do mestre, que temos seguido com
-enternecimento apaixonado todas as phases do seu espirito, essas
-mulheres ideaes é que são as suas verdadeiras filhas. Que nos importam
-as outras no fim de contas, se atravez d'estas é que elle se revelou tal
-como é?
-
-Todos os artistas de primeira ordem criam um typo de mulher, em que
-consubstanciam e sinthethisam todos os sonhos que tiveram, todas as
-aspirações que tem concebido.
-
-A mulher que elles fazem viver com a penna, se são poetas, com o escopro
-ou com o pincel, se são estatuarios ou pintores, não é como alguns
-querem que seja, a mulher que elles amaram: é mais do que isso, é a
-mulher que elles queriam amar!
-
-Para essa é que a sua lyra tem cantos mais ardentes, o seu cinzel mais
-avelludadas caricias, a sua palêta côres mais suaves, a sua penna traços
-mais vivos, analyses mais delicadas, intenções mais graciosas e mais
-finas.
-
-E como o coração dos homens é tão vasto que n'elle cabem dous cultos que
-se não prejudicam mutuamente, quasi sempre esses artistas de que
-fallamos tratam com o mesmo primoroso esmero dous typos de mulher bem
-diversos, e que representam como a dupla face do seu modo de sentir.
-
-Um d'elles personifica a virginal creança cujas seducções mais
-irresistiveis se chamam innocencia, pudor, candura, ou ignorancia;
-lyrios que o orvalho da manhã corôa com um diadema de perolas, lyrios
-que uma aragem mais quente crestaria, e que o contacto de uns dedos
-brutaes lançaria por terra murchos e amarrotados. Outro, a mulher na
-plena posse da sua perigosa soberania, a mulher sereia que encanta e
-embriaga e mata, consciente dos seus maleficios, e gosando do seu fatal
-poder!
-
-Consoante o espirito do artista se enamora da sombria belleza do mal, ou
-da immaculada candura do bem, assim elle trata com mais delicada
-predileção o _eterno feminino_ que representa uma das faces do mesmo
-problema insoluvel.
-
-Porque o homem grande ou pequeno, intelligente ou mediocre, ha de sempre
-amar a mulher debaixo de qualquer d'estas duas formas, ou antes debaixo
-d'ellas ambas.
-
-Até os bons nas suas horas de perversão, nas crises em que no coração
-d'elles triumpha a _porção de dominio_ que ha até mesmo na alma dos
-anjos, hão de sentir-se attrahidos por este mysterio luminoso e sombrio,
-que na arte pagã se chamou Circe ou Helena, que na edade média foi
-Melusina, que na Renascença foi Imperia ou Lucrecia Borgia, que os
-modernos emfim conhecem debaixo de tantos nomes, que o genio de tantos
-homens tem revestido de prestigio magico e de superior fascinação.
-
-Os maus... escusado é dizer que os maus, só n'essas mulheres symbolos do
-mal, symbolos de todas as seducções insalubres, hão de achar a graça
-magnetica que arrasta e que enlouquece.
-
-Não é por isso de admirar que todos os poetas as tenham cantado, que
-todos os romancistas as tenham descripto, mas na feição peculiar que
-cada um d'elles dá ao modo por que as estuda e as pinta, é que consiste
-a superioridade ou inferioridade do eterno typo.
-
-Quanto ás outras, ás boas, ás candidas, ás angelicas, poucos as
-comprehendem na sua genuina e original pureza, e os que as souberam
-comprehender teem produzido obras primas!
-
-Shakespeare é o poeta a quem se deve uma galeria mais radiosa e pura
-d'estas divinas creanças impeccaveis.
-
-Umas absortas n'um sonho de eterna tristeza, envoltas como que n'um
-presentimento de inevitavel desdita, como Ophelia ou Desdemona; outras
-deixando florir nos labios frescos a rubra flôr da alegria matinal, mas
-todas lindas, e meigas e innocentes, todas fazendo crer no bem até os
-mais cynicos.
-
-Victor Hugo tem, como Shakspeare, d'estas criações risonhas e
-sympathicas.
-
-As mulheres de um como as mulheres do outro, téem na alma um pouco da
-alma das aves.
-
-Téem a ligeireza alada do sonho, téem a graça imponderavel das visões.
-
-Não ha ninguem que não quizesse ter por filha uma d'essas creanças
-borboletas; não sei se todas as quereriam para esposas.
-
-E no entanto são boas, de uma doce bondade inconsciente que d'ellas se
-exhala como o aroma se exhala da flôr; mas tambem as creanças são boas,
-e comtudo ninguem como ellas sabe ser engenhosamente cruel.
-
- * * * * *
-
-Victor Hugo com a sua alma de forte, que não precisa de auxilio, e não
-precisa de guia, não comprehende a mulher como os modernos aspiram a
-encontral-a.
-
-Não quer a companheira robusta d'esse athleta moral, que é o luctador de
-hoje; não quer a mulher de animo reflectido, de coragem viril, de
-consciencia illuminada e austera, que na hora do perigo ou na hora da
-vacilação criminosa, arrasta ao impulso da sua voz o espirito do homem
-esmorecido ou duvidoso.
-
-Elle, cuja vida tem sido uma ascenção progressiva para o bem, elle, que
-não precisa d'outra bussola que não seja a luz interior que nunca se
-apaga nem bruxoleia, não teve necessidade de crear ao lado de Marius, ao
-lado de Didier, ao lado de Gennaro, ao lado dos seus altivos heroes, uma
-mulher forte que os auxiliasse e fortalecesse na grande lucta do bem!
-
-Oh! não era de força que elles careciam.
-
-Era de luz nas sombras do seu caminho sombrio!
-
-Didier saberia resistir ás seducções da criminosa voluptuosidade;
-Hernani saberia responder ao sinistro som da trompa funeraria; Gennaro
-saberia confessar as suas indignações austeras e os seus odios
-inquebrantaveis; Marius saberia amar a honra impolluta como as virgens,
-brilhante como as espadas, implacavel como a eterna justiça.
-
-Do que elles precisavam era de risos, de flôres, de caricias e de
-beijos.
-
-Precisavam de quem os arrancasse á contemplação do seu deslumbramento
-ideal e lhes dissesse ao ouvido ternamente, melodiosamente:
-
---Olha! eu sou a graça, sou a poesia, sou o esquecimento, sou a
-embriaguez. Tenho só um nome, que vale por todos e a todos sobreleva: eu
-sou o amor!
-
-E não são mais nada as mulheres creadas pelo genio portentoso de Hugo!
-
-O amor, sempre o amor.
-
-O amor egoista, o amor cego, o amor absorvente, exclusivo, com os seus
-pudores instinctivos, as suas ignorancias virginaes e as suas aspirações
-insaciadas a fatalidade irresistivel da sua força!
-
-No seu primeiro drama, Hugo todo imbuido das ideias cavalleirescas do
-_romanceiro_, creou um typo de mulher que é talvez um dos mais bellos da
-sua formosa e radiante galeria.
-
-_Dona Sol_ sabe amar impetuosamente, ardentemente, e n'esse amor que é a
-nota predominante do seu caracter, encontra força para todas as
-resistencias viris.
-
-Como ella é dôce e humilde enlaçada pelos braços valentes do seu
-_senhor_, do seu leão das montanhas, do seu principe bandido, do seu
-rebelde e indomavel cavalleiro!
-
-Sorrisos, olhares, vozes, caricias, tudo é de velludo!
-
-Um desejo d'elle, tem-na escrava! no entanto sabe por instincto, que
-elle o heroe, o forte lhe não póde pedir cousa alguma que a filha de um
-paladino das Hespanhas deva recusar envergonhada.
-
-Quem dirá que aquella graça póde fazer-se indignação, que aquella
-flexibilidade ondeante póde transformar-se em revolta implacavel?
-
-É que n'ella ha de tudo! porém esse _tudo_ é simplesmente amor.
-
-Appareça outro que a requeste, outro que ouse amal-a, e a pomba saberá
-ser leôa, para defender o seu thesouro!
-
-Mas de que lhe vem a força com que ella domina, a indignação austera que
-a transfigura? Do coração.
-
-As mulheres de Hugo não pensam, não raciocinam, amam! Isso lhes basta.
-
-E se a fome ás vezes as perde, se a maldade e a perfidia do homem as
-arrasta, nunca o amor deixou de as redimir.
-
-Para ellas o amor não é a perdição, é o resgate!
-
-Vêde Marion, a cortezã incredula, a serpente de enganosas caricias, que
-um sentimento verdadeiro purifica e exalta, e que d'elle recebe uma nova
-e mysteriosa virgindade! Vêde Eponine, a filha das lamas de Pariz, a
-quem um olhar de Marius inocula o amor, o sacrificio, a abnegação e a
-heroicidade!
-
-Mas--contradicção á primeira vista inexplicavel e que no fundo tem
-talvez uma significação sublime--o amor que transfigura e santifica e
-illumina as peccadoras, torna egoistas, torna ingratas as puras!
-
-Eponine immola-se, porque ama, e Cosette, porque ama, esquece tudo que
-não seja o seu amor, e com a mesma pequena mão com que abre a Marius os
-paraisos inacessiveis enterra o punhal no seio de João Valjean!
-
-Marion, de Magdalena impudica e triumphante, levanta-se Magdalena
-arrependida e piedosa, e Esmeralda não tem a esmola, a caridade de um
-sorriso bom para Quasimodo!
-
-Porque?
-
-Ah! é que umas são a ignorancia na sua perfeição mais divina, outras
-guardam na bocca o gosto amargo de todos os fructos vedados que teem
-devorado!
-
-Umas não conhecem nada para além da nuvem iriada que as envolve e lhes
-intercepta o mundo, outras possuem a medonha sciencia que é feita de
-todas as decepções, de todas as agonias, de todos os tedios, de todos os
-remorsos, de todas as nauseas da vergonha e do desprezo proprio!
-
-Umas entram no amor, triumphantes, immaculadas, curiosas, ébrias de
-harmonias nunca ouvidas, sedentas de alegrias nunca sonhadas, absortas
-pela radiante visão que as transporta a mundos desconhecidos.
-
-Viviam d'antes? tinham affectos? prazeres? distracções?
-
-Não sabem.
-
-Sabem que as inundou a luz de um olhar, e que, a essa luz, viram o que
-nunca tinham visto, esqueceram tudo mais que fôra seu.
-
-As outras vão alli á porta d'aquella região de que hão de ser as eternas
-exiladas, pedir a esmola de um perdão, a caridade de umas horas de
-esquecimento.
-
-E em troca d'esse consolo supremo a que se julgam sem direito, são
-capazes de todos os sacrificios, de todos os renunciamentos sublimes
-que inventa a mulher depois de ter perdido a esperança de ser feliz.
-
- * * * * *
-
-Leitora, estás cansada das chatas e incaracteristicas figuras que tens
-encontrado na vida real? Entristecem-te dolorosamente os typos hediondos
-ou repugnantes da moderna arte?
-
-As Gervasias, as Bovarys, as Fannys, as peccadoras da França juvenil?
-
-Pois bem, deixa que desfile por diante do teu olhar pensativo a gloriosa
-legião das filhas de Victor Hugo.
-
-Oh! crê que não aprenderás com ellas cousa alguma que rebaixe o teu
-espirito, que fira o teu coração, que surprehenda cruelmente o teu
-entendimento.
-
-Ellas sabem todas o que é o amor, muitas o que é o arrependimento, o
-remorso, a vergonha, a expiação; nenhuma sabe o que é o triumpho
-impudico do vicio, a ostentação criminosa das vaidades mundanas, a
-impenitencia immoral das que medram no meio do crime.
-
-As peccadoras contar-te-hão a dolorosa historia das suas amarguras, as
-virgens a doçura sonhadora dos seus extasis!
-
-Amaram, acreditaram, sentiram na plenitude do coração que a vida é boa,
-e que o paraiso póde encontrar-se n'um canto da terra.
-
-Não sabem nada de _toilettes_, de pequenas intrigas, de namoros, de
-vicios mesquinhos, de invejas e de tagarelices; atravessaram o mundo com
-os olhos fitos n'outros olhos, com as mãos enlaçadas n'outras mãos, com
-a alma a cantar-lhes um _hosanna_ de mysticos arroubos!
-
-Se queres estudar os escaninhos caprichosos de um coração de mulher
-bonita e garrida, não as procures, mas tambem lhes não peças que te
-fallem nos nossos piedosos e obscuros deveres de todos os dias.
-
-São as hallucinadas do amor! Arrastou-as uma tempestade para outras
-espheras ardentes onde se não vive a vida que conhecemos!
-
-Vê tu--Esmeralda! que bem posto nome!
-
-Toda ella scintilla ao sol como a pedra preciosa que lhe serviu de
-baptismo; os seus dedos de _gitana_ crestados e finos arrancam ao
-pandeiro do seu paiz doidos e extranhos sons! Fascina com um olhar
-inconsciente dos seus olhos de velludo, com uma nota da sua voz
-crystallina, com um meneio do seu corpo de serpente.
-
-Que sabe ella da vida? Nada; a não ser que a vida é bella, visto que ha
-dous olhos que ao fixar nos seus os banharam de fulgor!
-
-E Cosette! vive ao pé d'ella um enygma sombrio! um espirito sobrehumano!
-um luctador d'estas luctas interiores cujo reflexo se estampa na frente
-que as encerra.
-
-Ella nunca interrogou essa alma, e nunca tentou decifrar esse enygma, e
-nunca sequer comprehendeu a existencia d'essas luctas.
-
-Ao seu companheiro triste, humilde, heroico, adoravel ella deve durante
-quinze annos a ventura mais perfeita que póde gosar-se na terra.
-
-Satisfez-lhe todos os desejos; todos os brinquedos d'aquella fada,
-encarregou-se de os fornecer a natureza na liberdade plena, nos seus
-idyllios primaveris! Estava na escuridão, e deram-lhe luz; era escrava
-fizeram-n'a rainha.
-
-Não importa! Marius appareceu e Cosette louca, deslumbrada, esquecida,
-deixa morrer de dôr o amigo da sua risonha mocidade.
-
-É má?
-
-Não; é ignorante. Não sabe que se morre visto que elle vive na posse de
-uma ventura que nunca até alli conhecera.
-
-Não sabe que se tem saudades, porque ao pé de Marius nunca esse espinho
-lhe mordeu no coração!
-
-Pois é possivel ser desgraçado quando eu sou tão feliz! pergunta
-tacitamente com barbaridade que se ignora, cada um dos sorrisos de
-ventura que ella atirara em redor de si, sem se importar onde lhe vão
-cahir!
-
-Ai! Cosette, Cosette! eu gosto de ti, borboleta, ébria de luz! és uma
-das visões luminosas que ficarás para sempre moça e querida! és uma
-estatua branca que ninguem ousará mutilar e que os seculos verão erguida
-no teu pedestal de flôres! Mas como eu te amaria muito mais ainda se em
-vez de seres o Amor fosses o Sacrificio!
-
-Um dia Victor Hugo pediu ás neblinas matinaes dos climas do norte, uma
-porção de renda branca e transparente com que ellas corôam a crista das
-montanhas e... fez Déa!
-
-Que doce, vaporosa e lendaria visão!
-
-Não ha n'ella cousa alguma que seja realidade!
-
-Toca na terra ao de leve; não tanto que pareça filha d'ella, não tão
-pouco que lhe não seja dado consolar alguem votado ás dores sem consolo.
-
-É cega!
-
-Amada por um monstro sabe verter-lhe n'alma as alegrias de um Deus!
-
-Não vê o homem que a ama, vê o amor de que elle a veste!
-
-Abençoada cegueira que faz dous felizes!
-
- * * * * *
-
-Ao lado d'ella--supremo contraste!--sorri Josiane com o seu sorriso de
-deusa pagã!
-
-No olho azul da patricia ingleza scintilla em chispas uma diabolica
-ironia.
-
-Josiane é a amante do impossivel! Procura o que nunca ninguem achou!
-
-Quer um sonho que a sacie, o amor de um Titan, ou de um cyclope, o amor
-de Apollo ou de Polyphemo!
-
-Estranha figura, producto doentio de uma noite de febre!
-
- * * * * *
-
-Dona Sol, Maria de Neuburgo, Marion, Eponine, Cosette, Déa, quantas
-figuras radiosas, quantas humanições esplendidas da mulher sonhada!
-
-Nas horas de desalento ou de amarga duvida, nas horas em que as miserias
-que nos cercam, nos fizeram encarar a vida pelo seu aspecto mais
-desolado e mais escuro olhemos para ellas!
-
-Dir-nos-hão os poetas de hoje que ellas não existem, e, o que é peior,
-que ellas não puderam existir nunca.
-
-Oh! é bem triste, é bem esteril a arte que só trata de rebaixar o que em
-nós é de mais elevada essencia, e só quer que vejamos a fatalidade
-brutal do instincto, onde viamos d'antes a fatalidade mais nobre do
-sentimento.
-
-Não acreditemos o que elles nos dizem, porque na sua preoccupação
-exagerada do horrivel, elles mentem muito mais do que os outros mentiam
-na sua preoccupação exagerada do bello!
-
-Estes reunindo todos os vicios e hediondezas que encontraram dispersos
-n'uma só figura, conseguem apenas crear... um monstro, um ser hybrido e
-infecundo que a ninguem aproveita!
-
-Os outros synthetisando n'uma filha do seu genio as harmonias, as
-feições, os encantos, que estudaram e amaram em toda a natureza,
-conseguiram alguma coisa mais!
-
-Crearam o ideal immutavel e eterno e ensinaram-nos a fitar n'elle os
-olhos da nossa alma, e a invocal-o como um consolo adoravel nas nossas
-horas de desalento e de agonia.
-
-
- FIM
-
-
-
-
- INDICE
-
-
- PRIMEIRA PARTE
-
- PAG.
-
- I--Uma historia verdadeira 7
-
- II--O tio Sebastião 59
-
- III--O annel do diplomata 79
-
- IV--A escolha de Gastão 99
-
- V--O romance de Adelina 125
-
- VI--A Cigana 141
-
- VII--Duas faces de uma medalha 157
-
- VIII--A tia Izabel 173
-
- IX--O melhor somno do millionario 185
-
- X--A perceptora 203
-
- XI--A morte de Bertha 219
-
-
- SEGUNDA PARTE
-
- I--A proposito de um livro 241
-
- II--Madame de Balsac 257
-
- III--Lincoln e Grant 277
-
- IV--As filhas de Victor Hugo 295
-
-
-
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Contos e Phantasias, by
-Maria Amalia Vaz de Carvalho
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS E PHANTASIAS ***
-
-***** This file should be named 63406-0.txt or 63406-0.zip *****
-This and all associated files of various formats will be found in:
- http://www.gutenberg.org/6/3/4/0/63406/
-
-Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
-produced from scanned images of public domain material
-from the Google Books project.)
-
-Updated editions will replace the previous one--the old editions will
-be renamed.
-
-Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright
-law means that no one owns a United States copyright in these works,
-so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United
-States without permission and without paying copyright
-royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part
-of this license, apply to copying and distributing Project
-Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm
-concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark,
-and may not be used if you charge for the eBooks, unless you receive
-specific permission. If you do not charge anything for copies of this
-eBook, complying with the rules is very easy. You may use this eBook
-for nearly any purpose such as creation of derivative works, reports,
-performances and research. They may be modified and printed and given
-away--you may do practically ANYTHING in the United States with eBooks
-not protected by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the
-trademark license, especially commercial redistribution.
-
-START: FULL LICENSE
-
-THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
-PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
-
-To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
-distribution of electronic works, by using or distributing this work
-(or any other work associated in any way with the phrase "Project
-Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full
-Project Gutenberg-tm License available with this file or online at
-www.gutenberg.org/license.
-
-Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project
-Gutenberg-tm electronic works
-
-1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
-electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
-and accept all the terms of this license and intellectual property
-(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
-the terms of this agreement, you must cease using and return or
-destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your
-possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a
-Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound
-by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the
-person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph
-1.E.8.
-
-1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
-used on or associated in any way with an electronic work by people who
-agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
-things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
-even without complying with the full terms of this agreement. See
-paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
-Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this
-agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm
-electronic works. See paragraph 1.E below.
-
-1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the
-Foundation" or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection
-of Project Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual
-works in the collection are in the public domain in the United
-States. If an individual work is unprotected by copyright law in the
-United States and you are located in the United States, we do not
-claim a right to prevent you from copying, distributing, performing,
-displaying or creating derivative works based on the work as long as
-all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope
-that you will support the Project Gutenberg-tm mission of promoting
-free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg-tm
-works in compliance with the terms of this agreement for keeping the
-Project Gutenberg-tm name associated with the work. You can easily
-comply with the terms of this agreement by keeping this work in the
-same format with its attached full Project Gutenberg-tm License when
-you share it without charge with others.
-
-1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
-what you can do with this work. Copyright laws in most countries are
-in a constant state of change. If you are outside the United States,
-check the laws of your country in addition to the terms of this
-agreement before downloading, copying, displaying, performing,
-distributing or creating derivative works based on this work or any
-other Project Gutenberg-tm work. The Foundation makes no
-representations concerning the copyright status of any work in any
-country outside the United States.
-
-1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
-
-1.E.1. The following sentence, with active links to, or other
-immediate access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear
-prominently whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work
-on which the phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the
-phrase "Project Gutenberg" is associated) is accessed, displayed,
-performed, viewed, copied or distributed:
-
- This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
- most other parts of the world at no cost and with almost no
- restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it
- under the terms of the Project Gutenberg License included with this
- eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the
- United States, you'll have to check the laws of the country where you
- are located before using this ebook.
-
-1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is
-derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not
-contain a notice indicating that it is posted with permission of the
-copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in
-the United States without paying any fees or charges. If you are
-redistributing or providing access to a work with the phrase "Project
-Gutenberg" associated with or appearing on the work, you must comply
-either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or
-obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg-tm
-trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9.
-
-1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
-with the permission of the copyright holder, your use and distribution
-must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any
-additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms
-will be linked to the Project Gutenberg-tm License for all works
-posted with the permission of the copyright holder found at the
-beginning of this work.
-
-1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
-License terms from this work, or any files containing a part of this
-work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
-
-1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
-electronic work, or any part of this electronic work, without
-prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
-active links or immediate access to the full terms of the Project
-Gutenberg-tm License.
-
-1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
-compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including
-any word processing or hypertext form. However, if you provide access
-to or distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format
-other than "Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official
-version posted on the official Project Gutenberg-tm web site
-(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense
-to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means
-of obtaining a copy upon request, of the work in its original "Plain
-Vanilla ASCII" or other form. Any alternate format must include the
-full Project Gutenberg-tm License as specified in paragraph 1.E.1.
-
-1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
-performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
-unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
-
-1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
-access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works
-provided that
-
-* You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
- the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
- you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed
- to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he has
- agreed to donate royalties under this paragraph to the Project
- Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid
- within 60 days following each date on which you prepare (or are
- legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty
- payments should be clearly marked as such and sent to the Project
- Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in
- Section 4, "Information about donations to the Project Gutenberg
- Literary Archive Foundation."
-
-* You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
- you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
- does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
- License. You must require such a user to return or destroy all
- copies of the works possessed in a physical medium and discontinue
- all use of and all access to other copies of Project Gutenberg-tm
- works.
-
-* You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of
- any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
- electronic work is discovered and reported to you within 90 days of
- receipt of the work.
-
-* You comply with all other terms of this agreement for free
- distribution of Project Gutenberg-tm works.
-
-1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project
-Gutenberg-tm electronic work or group of works on different terms than
-are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing
-from both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and The
-Project Gutenberg Trademark LLC, the owner of the Project Gutenberg-tm
-trademark. Contact the Foundation as set forth in Section 3 below.
-
-1.F.
-
-1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
-effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
-works not protected by U.S. copyright law in creating the Project
-Gutenberg-tm collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm
-electronic works, and the medium on which they may be stored, may
-contain "Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate
-or corrupt data, transcription errors, a copyright or other
-intellectual property infringement, a defective or damaged disk or
-other medium, a computer virus, or computer codes that damage or
-cannot be read by your equipment.
-
-1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
-of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
-Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
-Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
-liability to you for damages, costs and expenses, including legal
-fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
-LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
-PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
-TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
-LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
-INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
-DAMAGE.
-
-1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
-defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
-receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
-written explanation to the person you received the work from. If you
-received the work on a physical medium, you must return the medium
-with your written explanation. The person or entity that provided you
-with the defective work may elect to provide a replacement copy in
-lieu of a refund. If you received the work electronically, the person
-or entity providing it to you may choose to give you a second
-opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If
-the second copy is also defective, you may demand a refund in writing
-without further opportunities to fix the problem.
-
-1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
-in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO
-OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT
-LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
-
-1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
-warranties or the exclusion or limitation of certain types of
-damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement
-violates the law of the state applicable to this agreement, the
-agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or
-limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or
-unenforceability of any provision of this agreement shall not void the
-remaining provisions.
-
-1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
-trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
-providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in
-accordance with this agreement, and any volunteers associated with the
-production, promotion and distribution of Project Gutenberg-tm
-electronic works, harmless from all liability, costs and expenses,
-including legal fees, that arise directly or indirectly from any of
-the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this
-or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or
-additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any
-Defect you cause.
-
-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
-
-Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
-electronic works in formats readable by the widest variety of
-computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
-exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
-from people in all walks of life.
-
-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
-assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
-goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
-remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
-and permanent future for Project Gutenberg-tm and future
-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at
-www.gutenberg.org
-
-
-
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
-U.S. federal laws and your state's laws.
-
-The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the
-mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its
-volunteers and employees are scattered throughout numerous
-locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt
-Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to
-date contact information can be found at the Foundation's web site and
-official page at www.gutenberg.org/contact
-
-For additional contact information:
-
- Dr. Gregory B. Newby
- Chief Executive and Director
- gbnewby@pglaf.org
-
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
-Literary Archive Foundation
-
-Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
-spread public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
-charities and charitable donations in all 50 states of the United
-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
-considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
-with these requirements. We do not solicit donations in locations
-where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
-DONATIONS or determine the status of compliance for any particular
-state visit www.gutenberg.org/donate
-
-While we cannot and do not solicit contributions from states where we
-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
-against accepting unsolicited donations from donors in such states who
-approach us with offers to donate.
-
-International donations are gratefully accepted, but we cannot make
-any statements concerning tax treatment of donations received from
-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
-
-Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations. To
-donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
-
-Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works.
-
-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of
-volunteer support.
-
-Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
-the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
-necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
-edition.
-
-Most people start at our Web site which has the main PG search
-facility: www.gutenberg.org
-
-This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
-including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
-subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
-