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You may copy it, give it away or re-use it under the terms of -the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux - -Author: Ivo D'Evreux - -Annotator: Ferdinand Diniz - -Translator: Cesar Augusto Marques - -Release Date: September 21, 2020 [EBook #63258] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGEM AO NORTE DO BRAZIL *** - - - - -Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was -produced from images generously made available by Cornell -University Digital Collections) - - - - - - -</pre> - - -<h1><span class="smaller">VIAGEM</span><br /> -AO NORTE DO BRAZIL<br /> -<span class="smaller">PELO PADRE</span><br /> -IVO D’EVREUX</h1> - -<hr class="chap" /> - -<div class="tp"> - -<p class="titlepage"><span class="larger">VIAGEM</span><br /> -<span class="smaller">AO</span><br /> -<span class="larger">NORTE DO BRASIL</span><br /> -<span class="smaller">FEITA NOS ANNOS DE 1613 A 1614,<br /> -PELO PADRE</span><br /> -<span class="larger">IVO D’EVREUX</span><br /> -<span class="smaller">RELIGIOSO CAPUCHINHO<br /> -PUBLICADA CONFORME O EXEMPLAR, UNICO, CONSERVADO NA BIBLIOTHECA IMPERIAL<br /> -<b>DE PARIZ</b><br /> -COM INTRODUCÇÃO E NOTAS<br /> -<b>POR</b></span><br /> -<b>MR. FERDINAND DINIZ,</b><br /> -<span class="smaller"><b>CONSERVADOR DA BIBLIOTHECA SANTA GENOVEVA</b><br /> -Traduzida pelo<br /> -<b>DR. CEZAR AUGUSTO MARQUES</b><br /> -Cavalleiro da Real e Militar Ordem Portuguesa de -Nosso Senhor Jesus Christo, Cavalleiro e -Official da Imperial Ordem da Rosa, Membro do Instituto -Historico, Geographico, e Ethnographico do -Brazil, da Sociedade Geographica de Pariz, e socio correspondente, -effectivo, honorario e benemerito -de muitas outras sociedades litterarias e scientificas, -nacionaes e estrangeiras.</span></p> - -<div class="figcenter titlepage" style="width: 200px;"> -<img src="images/tp-deco.jpg" width="200" height="100" alt="" /> -</div> - -<p class="titlepage">MARANHÃO—1874.</p> - -<p class="titlepage smaller">Maranhão.—Typ. do Frias, r. da Palma 6.</p> - -</div> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h2 class="nobreak">Á SAUDOSISSIMA MEMORIA,<br /> -<span class="smaller">DE MEU PAE E VERDADEIRO AMIGO</span><br /> -O Illm. Sr. Augusto José Marques.</h2> - -<p>Á vós, ó meo querido Pae, levanto, dedico e consagro este -pequeno, porem sincero monumento de minha saudade sempre -viva, de meo extremecido amor, de meo eterno reconhecimento, -e de minha dôr pungente pela vossa ausencia d’este -Mundo.</p> - -<p>Bem sei que Deos, querendo recompensar vossas virtudes, -cêdo vos tirou do seio dos que muito vos extremeciam; mas -essa ideia póde sim consolar-me, nunca porem mitigar as vivas -saudades, que me pungem a alma.</p> - -<p>Aceitae, ó meo bom Pae, estas flores que, ainda uma vez -banhadas com minhas lagrymas, espalho sobre vosso tumulo, -a lá do Céo, onde vos collocaram vossas virtudes e a Misericordia -Divina, abençoae o vosso filho</p> - -<p class="right">Cezar.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h2 class="nobreak" id="AO_LEITOR">AO LEITOR.</h2> - -</div> - -<p>A introducção, que se vae lêr, escripta pela habil penna de -Mr. Ferdinand Diniz dispensa-me de escrever um prologo, e felizmente -sou substituido de maneira muito vantajosa para os -meos leitores.</p> - -<p>Realisei ainda uma vez um dos meos mais ardentes desejos, -traduzindo e entregando á publicidade uma das obras raras a -respeito da historia primitiva do Maranhão, que me tem merecido -muitas investigações e aturado estudo.</p> - -<p>Dou-me por satisfeito d’esta e de outras fadigas, si d’ellas resultar -algum proveito ao publico menos, lido para quem fiz esta -traducção.</p> - -<p>Maranhão, 20 de outubro de 1874.</p> - -<p class="right"><i>Dr. Cesar Augusto Marques.</i></p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_i"></a>[i]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="INTRODUCCAO">INTRODUCÇÃO.</h2> - -<p class="subhead">O Padre Ivo de Evreux e as primeiras missões -do Maranhão.</p> - -</div> - -<p>No tempo de Luiz XIII, o magnifico Convento dos Capuchinhos -da rua de Santo Honorato contava entre seos Monges -dois religiosos com o mesmo nome—o Padre Ivo de -Paris e o Padre Ivo de Evreux. O primeiro, advogado antigo, -verboso, ardente na discussão, muito versado nas ideias -do seu seculo, gosava pela cidade de alta reputação, e as -biographias modernas confirmão ainda sua fama passada: o -segundo, amigo reconcentrado do estudo, e mais ainda da -humanidade, espirito observador, alma apaixonada pelas -bellezas da naturesa, prompto a acudir onde o chamava seo -zelo, não se importando da curiosidade que podia despertar, -foi completamente esquecido, e de tal forma, que, apezar -de seo reconhecido merito, decorreram 250 annos sobre -seo humilde tumulo sem que uma voz amiga tenha para elle -despertado a attenção publica.</p> - -<p>Para que se fallasse n’este obscuro Monge foram necessarias -duas cousas, com que não se contava durante sua -vida: a transformação em poderoso Imperio dos desertos, -que elle percorreo, e o amor apaixonado por certos livros<span class="pagenum"><a id="Page_ii"></a>[ii]</span> -velhos, que se rehabilitam e com razão, pois elles, por si -só, narram factos que, sendo desconhecidos, fariam com que -a civilisação crescente de certos paizes caminhasse na ignorancia -de sua origem.</p> - -<p>Tinha então o grande Convento de Pariz muitos homens -condemnados á injusto esquecimento.</p> - -<p>Fundado em 1575 por Catharina de Medicis,<a id="FNanchor_1" href="#Footnote_1" class="fnanchor">[A]</a> havia em -pouco tempo adquerido fama de conter monges doutos em -theologia, zelosos, cheios de abnegnação e caritativos nas -epidemias, a qual, quasi intacta, conservou durante o decimo -sexto seculo.</p> - -<p>Era n’elle, que o partido, favoravel aos religiosos regulares, -vinha procurar espiritos activos para luctar com o Bispo -de Belley.</p> - -<p>Era sobre estes vastos terrenos, possuidos apenas pela -Casa de <i>Tremouille</i>, que existia essa immensa officina bem -conhecida pelo Corpo medico de Pariz, onde os cortesãos, -assim como os mais humildes burguezes vinham provêr-se -de medicamentos, que só ahi encontravam, ou que se preparavam -com incuria notavel nos outros lugares de tão -grande cidade.<a id="FNanchor_2" href="#Footnote_2" class="fnanchor">[B]</a></p> - -<p>Fallemos francamente: não era nem a sciencia, então incontestavel, -d’esses Religiosos, nem os resultados positivos -de sua cuidadosa administração, nem mesmo os beneficios -diarios, pelos quaes eram tão uteis ás classes necessitadas, -que lhes grangearam o credito unisono, que gosavam em -Pariz, pois o deviam sobre tudo as brilhantes conversões, -realisadas recentemente no Mosteiro de Santo Honorato.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_iii"></a>[iii]</span></p> - -<p>Foi n’este Convento, que um dos maiores senhores -do ultimo reinado, o conde de Bouchage, mais conhecido -depois pelo Padre Angelo de Joyeuse, veio trocar as grandezas -da Côrte, onde voluntariamente demittio-se dos seos -cargos militares, pela vida pobre e obscura que ahi se passava.</p> - -<p>Foi n’este sombrio asylo que um dos ramos mais illustres -da familia de Pembroke veio abjurar o calvinismo, e, renunciando -vida mais brilhante, sugeitou-se ás humildes funcções, -que desde o principio do seculo lhes foram impostos, -obrigando-se a proseguir sem descanço na missão a que voluntariamente -se impozera.</p> - -<p>Facil nos seria abundar agora na citação de nomes celebres, -e de causar talvez admiração fazendo sobresahir os esquecidos: -para ser breve devemos porem cingir-nos ao objecto -em questão.<a id="FNanchor_3" href="#Footnote_3" class="fnanchor">[C]</a></p> - -<p>O Padre Ivo d’Evreux e o Padre Ivo de Pariz appareceram, -como dissemos, quase ao mesmo tempo; porem a fama, sempre -crescente de um, eclypsou completamente a lembrança -mui fugitiva, que o outro deixou, e até em bons escriptos -são elles confundidos. Tiveram, comtudo, bom é repetir, destino -bem differente.</p> - -<p>Ivo de Evreux, como dissemos, fugia em geral do bulicio -politico, e somente tomava parte nas luctas do seculo quando -tinha de sustentar algum ponto de doutrina religiosa: o -segundo, muito mais moço na Ordem, que o seo homonymo, -sempre prompto a entrar nos combates, que as Ordens Regulares -sustentavam algumas vezes contra o poder ecclesiastico, -tinha por isto adquirido muita fama, com que bastante -se gloriava o Mosteiro.</p> - -<p>Era notado não só como orador eloquente, mas tambem -como um dos mais fecundos do seu tempo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_iv"></a>[iv]</span></p> - -<p>A hyperbole do elogio monastico chegou até o ponto -de consideral-o como o engenho mais poderoso de sua Ordem.</p> - -<p>Foi sempre elle quem representou unicamente seos Superiores: -eram d’elle os muitos livros, escriptos quase todos -em latim, que foram oppostos, e victoriosamente, ás publicações -violentas atiradas contra as Ordens mendicantes.</p> - -<p>Da sua antiga occupação de advogado se recordava e -se aproveitava das tricas e desordens, proprias da epocha, -e até lançava mão da astrologia judiciaria, pelo que se -lhe attribuio a authoria do <i>Fatum Mundi</i>, livro absurdo, -mas que durante algum tempo preoccupou a attenção publica.</p> - -<p>Declarado por unanimidade o oraculo do seu Convento, -nem se quer por um momento houve a ideia de associar-se -á sua lembrança o nome d’um Religioso, igual ao seo, e que -apenas sabia sacrificar-se com o fim de ganhar algumas almas -para Deos! O que fazia o nosso modesto amante da natureza -diante de tal personagem, tão cercada de gloria, diante -da <i>Phenix</i> dos theologos francezes, como então por -gosto o appelidavam?<a id="FNanchor_4" href="#Footnote_4" class="fnanchor">[D]</a></p> - -<p>Mas, quem é que se recorda hoje do Padre Ivo de Pariz? -Quem cuida hoje nas discussões, cuja vehemencia lhe attribuiram -tão viva admiração?</p> - -<p>Colloquemos os homens e os factos nos lugares, que devem -occupar.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_v"></a>[v]</span></p> - -<p>Ivo d’Evreux poude contemplar em sua grandeza primitiva -uma terra exuberante de vida e de mocidade: dois seculos -de esquecimento passaram sobre sua obra, e hoje em -dia brilha elle remoçado, cheio de graça, ao lado de Lery, -de Fernando Cardim, de Anchieta, emfim de todas essas -almas privilegiadas, que uniam a faculdade da observação -á apreciação apurada das bellezas da natureza, e que saudaram, -poetas desconhecidos, a aurora de um grande Imperio.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_vi"></a>[vi]</span></p> - -<p>Ivo d’Evreux, diga-se com pezar, teve o destino de -quasi todos os historiadores primitivos do novo mundo: -sua biographia, embora pouco desenvolvida, ainda está -por escrever, e apesar das mais minuciosas e constantes -investigações n’estes ultimos tempos, apenas conhecemos -as circumstancias mais importantes de sua vida, e assim -mesmo nada ao certo saberiamos si não fossem algumas -notas colhidas em varios archivos dos antigos Conventos. -Foi geral o esquecimento tanto da sua obra, como do seo -autor. Pensam os escriptores de sua Ordem haverem -dito bastante, lembrando ter elle vivido no seculo XVII, -ter sido missionario zeloso, e autor de um livro, continuação -obrigada da viagem do Padre Claudio, e até se -esquecem de mencionar a sua existencia por espaço de dois -annos entre os indios, onde este apenas demorou-se quatro -mezes.</p> - -<p>Conforme as inducções, que se podem tirar de um folheto -manuscripto, conservado na bibliotheca <i>Mazarina</i>, opusculo -cheio de datas precisas, relativas aos Capuchinhos do Convento -da rua de Santo Honorato, o nosso Missionario devia -ter nascido em 1577.</p> - -<p>Indica por certo seu sobrenome a cidade onde elle nasceo, -porem ignoramos qual foi o nome, que teve no seculo, como -então se dizia. Á este respeito os amadores das viagens antigas -foram mais bem succedidos quanto ao seo companheiro, -o Padre Claudio, que se sabe pertencera a uma excellente -familia, a dos Foullon.<a id="FNanchor_5" href="#Footnote_5" class="fnanchor">[E]</a> O que ha de bem averiguado é, -que os paes do Padre Ivo o applicaram á estudos excellentes, -e que os seus professores não se contentaram de ensinarem-lhe -só o latim e sim tambem o grego, e até o hebreu, -e inspiraram-lhe tal gosto litterario, sem o qual não ha escriptor -habil.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_vii"></a>[vii]</span></p> - -<p>No convento de Ruão passou o seo noviciado, e ahi entrou -em 18 de agosto de 1595, não existindo a menor duvida -a este respeito.<a id="FNanchor_6" href="#Footnote_6" class="fnanchor">[F]</a></p> - -<p>Depois de ter tomado o habito n’essa Caza, ahi provavelmente -demorou-se alguns annos, e devia prégar na maior -parte das cidades da alta Normandia.</p> - -<p>É provavel, que então se achasse em relações de estudo -e de sacerdocio com o joven Francisco de Bourdemare, como -elle natural da Normandia, como elle Prégador em sua Provincia, -e mais tarde designado para succedel-o na missão -do Maranhão.<a id="FNanchor_7" href="#Footnote_7" class="fnanchor">[G]</a></p> - -<p>Distinguido muito cedo pelos seos Superiores, e tendo já -o titulo de Prégador, que então só se dava aos Religiosos -notaveis, foi designado o Padre Ivo para preencher as funcções -de Guardião do Convento de Montfort.</p> - -<p>Infelizmente os documentos, que temos á vista e que provam -este facto, não dizem qual foi a Cidade onde se passaram -a maior parte dos annos de estudo do nosso bom Missionario.</p> - -<p>Ha em França mais de treze localidades com este nome -e não nos é possivel, absolutamente fallando, dizer onde o -nosso viajante se fortaleceu em sua carreira religiosa.</p> - -<p>Nos primeiros annos do seculo mudou logo de residencia, -e achamol-o no grande Convento de Santo Honorato, no -meiado do anno de 1611, no tempo em que era Provincial<span class="pagenum"><a id="Page_viii"></a>[viii]</span> -da Ordem o Padre Leonardo de Pariz,<a id="FNanchor_8" href="#Footnote_8" class="fnanchor">[H]</a> quase na occasião -d’este sabio Religioso ter sido pelo Papa nomeado Superior -das missões orientaes.</p> - -<p>Teremos ainda occasião de fallar no movimento politico, -dado ás expedições maritimas, quando ja ia em meio o seculo -XVI, e que tinha por fim fazer com que, o nosso comercio -partilhasse das vantagens, que a Hespanha e Portugal -haviam para si monopolisado. Cincoenta annos mais tarde, -embora aproveitando-se das vantagens adquiridas pelas exploraçães -dos Varazano, dos Cartier, dos Roberval, e de tantos -outros navegantes, que nos deram o que n’aquelle tempo -se chamava <i>nova França</i>, todas as attenções se fixavam -nas regiões mais favorecidas, que então se pretendia colonisar, -e as quaes com enthusiasmo se chamava <i>França equinoccial</i>.</p> - -<p>Ja havia desde 1555 uma <i>França Antarctica</i>, a qual, -apesar de ter este nome por tão pouco tempo, não deixou -comtudo de grangear para nossos homens do mar as sympathias -calorosas e dedicadas dos povos indigenas, que então -em tribus numerosas occupavam o Brazil em varias partes. -Auxiliava tambem estas conquistas pacificas o movimento -protestante, bem que não devesse deixar vestigios -duradouros n’America do Sul, porque os refugiados e os -Missionarios subordinavam a si e procuravam á porfia converter -á suas crenças estas nações barbaras.<a id="FNanchor_9" href="#Footnote_9" class="fnanchor">[I]</a></p> - -<p>Sem tratar dos armadores de Dieppe, cujas primeiras -explorações pelas costas do Maranhão, datam de 1524, sem<span class="pagenum"><a id="Page_ix"></a>[ix]</span> -mencionar as navegações de Affonso de Xaintongeois até as -boccas do Amazonas no anno de 1542, ser-nos-ia facil provar, -que 25 annos mais tarde Henrique IV doara a um bravo -capitão da religião reformada a immensa extensão de -territorio, para a qual devia ir Ivo d’Evreux, sahindo do seu -pacifico retiro de Montfort, afim de cathequisar os selvagens.</p> - -<p>Vemos com effeito Daniel de la Touche, senhor de Ravardiere, -de posse d’essas doações tão vagamente definidas -pelas Cartas patentes de julho de 1605.<a id="FNanchor_10" href="#Footnote_10" class="fnanchor">[J]</a></p> - -<p>Adquirimos tambem a certeza, que depois de dois annos, -após duas viagens successivas ao norte do Brasil, Ravardiere -decidio os Tabajaras e Tupinambás, propriamente ditos, a -mandarem uma especie de embaixada ao Rei Christianissimo -com o fim de solicitar sua protecção contra as invasões dos -portuguezes.</p> - -<p>Foi debalde esta missão d’indios, porem como Ravardiere -continuasse a residir por muito tempo entre elles, conseguio -em 1610, que lhe fossem renovadas as doações feitas cinco -annos antes, e assim julgou-se authorisado, logo depois da -morte de Henrique IV, a formar uma associação para a definitiva -colonisação d’estas regiões abandonadas.<a id="FNanchor_11" href="#Footnote_11" class="fnanchor">[K]</a></p> - -<p>Não foi comtudo aos partidistas de sua Religião, que se -dirigio Ravardiere para ser bem succedido n’este empenho:<span class="pagenum"><a id="Page_x"></a>[x]</span> -pelo contrario sem hesitar entrou em conferencia com catholicos -proeminentes, cuja lealdade perfeitamente conhecia, -como sejam, o almirante Francisco de Razilly, uma das mais -antigas glorias da França, e Niculau de Harlay, uma de suas -summidades financeiras, e elles se lhe associaram para a -exploração d’este previlegio.</p> - -<p>Em todo o seculo XVII não conhecemos outra transacção, -entre catholicos e protestantes, mais leal e desinteressada: -foi na verdade uma empresa, digna de contar em si o Padre -Ivo d’Evreux, tão sincero como justo.</p> - -<p>O titulo de lugar-tenente do Rei, sem a menor questão, -foi transferido á Rasilly, que teve toda a liberdade de acção, -não deixando comtudo de fazer prevalecer as prerogativas -da communhão, que professava.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_xi"></a>[xi]</span></p> - -<p>Em todas as praias onde desembarcassem, devia levantar-se -uma cruz com toda a solemnidade, e bem assim missionarios -catholicos seriam condusidos para propagação da -fe entre o gentilismo.</p> - -<p>Estes contractos foram na verdade pontualmente executados, -e nem na obra de Claudio d’Abbeville, e nem na de -Ivo de Evreux se encontra uma só palavra, que faça suspeitar -o menor estremecimento entre os chefes da expedicção.</p> - -<p>Fortalecido com o credito, que de ha muito gosava na -Corte, ajudado alem disto, por soccorros pecuniarios, e pela -verdadeira importancia, que lhe proveio de associar-se com -Niculau de Harlay, senhor de Sancy, Barão de Molle e de -Grois Bois, o almirante Razilly com toda a prestesa chegou -ao fim, que tinha em vista, interessando a Regente no bom -exito de uma empreza, ja antecedentemente approvada por -Henrique IV.</p> - -<p>Por seos rogos escreveo Maria de Medicis ao Padre Leonardo, -que n’esse tempo era Guardião do grande Convento dos -Capuchinhos da rua de Santo Honorato, pedindo-lhe com toda -a instancia quatro religiosos, afim de fundarem um convento -da Ordem na Ilha do Maranhão.</p> - -<p>Diga-se a verdade: o norte do Brazil que actualmente offerece -todos os recursos da civilisação, então se apresentava, -até mesmo aos mais doutos da Universidade de Pariz, -como um paiz entregue a todos os horrores da vida selvagem; -os cosmographos francezes quando d’ella tractavam, -exageravam a rusticidade d’esse paiz, deixando comtudo a -imaginação o campo inteiramente livre, não marcando nenhum -limite exacto, e era sobre essas informações inexactas -que Raleigh se deleitava de evocar todos os monstros do -mundo antigo.</p> - -<p>Nem um só momento exitaram estes Religiosos quando o -Padre Provincial lhes leo a Carta regia na occasião em que -se achavam no refeitorio: d’entre elles quarenta quizeram -ser escolhidos para tão perigosa empresa, e os documentos -officiaes, que temos à vista, nos fizeram até conhecer a especie<span class="pagenum"><a id="Page_xii"></a>[xii]</span> -de enthusiasmo que d’elles se apoderou quando souberam -o contheudo da mensagem das Tulherias. Offereceram-se -a maior parte dos Padres com expontaneo enthusiasmo -para esta nova missão, e sendo reprimido o zelo dos -mais fervorosos, declarou logo o Padre Leonardo, de accordo -com o Definidor da Ordem, que seriam quatro apenas os escolhidos, -de conformidade com o pedido.</p> - -<p>Eis a lista destes nomes pela ordem, que devem guardar -entre si, e os raros historiadores, que d’elles tem tratado -teriam evitado alguns erros se, como nós, tivessem consultado -os archivos do Convento.</p> - -<p>O muito veneravel Padre Ivo d’Evreux, superior.<a id="FNanchor_12" href="#Footnote_12" class="fnanchor">[L]</a></p> - -<p>O muito veneravel Padre Claudio d’Abbeville.</p> - -<p>O muito veneravel Padre Arsenio de Paris.</p> - -<p>O muito veneravel Padre Ambrosio de Amiens.</p> - -<p>Ajoelharam-se os escolhidos diante do Padre Leonardo, e -humildemente lhes agradeceram tal honra; foi-lhes annunciada -a proximidade da viagem, e desde esse momento para -ella se acharam promptos.</p> - -<p>Não ha a menor duvida á respeito da qualidade do Religioso, -a quem se confiou a direcção das missões do Maranhão, -e não se comprehende como Berredo, antigo Governador -da Provincia, que foi autoridade no Brazil, deo o titulo -de Superior á Claudio d’Abbeville, que occupa na ordem -hierarchica o lugar immediato ao digno Missionario director -dos trabalhos.</p> - -<p>Certamente era necessario que o Padre Ivo ja tivesse adquirido -na Ordem credito inabalavel para que fosse preferido<span class="pagenum"><a id="Page_xiii"></a>[xiii]</span> -aos tres religiosos, seos adjuntos. Eram sacerdotes todos -tres; como elle deram provas de possuirem solida instrucção, -e o terceiro até, ja muito adiántado na carreira, por -varias vezes tinha occupado certos empregos honrosos, signaes -evidentes da consideração de seos superiores. O Padre -Ambrosio éra alem d’isto dedicado com ardor á todas as -obras de caridade, durante as calamidades dos ultimos annos -do seculo, sendo muito conhecida sua bondade sempre -em acção: suas prédicas fervorosas, bem acolhidas pelo povo, -lhe grangearam o apellido de «<i>Apostolo da França</i>.»<a id="FNanchor_13" href="#Footnote_13" class="fnanchor">[M]</a></p> - -<p>Tem a data de 12 de agosto de 1611 as <i>Cartas de obediencia</i>, -que os Superiores deram ao Padre Ivo d’Evreux, -e lhe ordenaram, que fosse embarcar-se no porto de Caucale -n’um navio sob o commando de Rzailly, lugar-tenente -do Rei.</p> - -<p>Não devemos repetir aqui o que em termos percisos e -apropriados contou Claudio d’Abbeville na primeira parte de -sua narração a respeito dos pormenores da longa viagem -dos missionarios até o Brazil, da separação forçada da flotilha, -que os conduzia, e das peripecias d’esta navegação, -que durou cinco mezes. O que porem podemos affirmar é<span class="pagenum"><a id="Page_xiv"></a>[xiv]</span> -que o Padre Ivo não soffreu somente o aborrecimento de -uma viagem maritima, cujas difficuldades não se pode agora -imaginar, e que aos cuidados de uma installação penosa -vieram reunir-se fadigas imprevistas, e depois de desembarcado, -dores pungentes, como fossem as que elle experimentou -pela morte do digno Padre Ambrosio, e em seguida -os soffrimentos provenientes de uma molestia, que o forçou -a regressar, e da qual foi victima afinal.</p> - -<p>Tudo isto foi narrado com simplicidade e dignidade por -tão zeloso missionario, e sem duvida muito melhor do que -o fariamos.</p> - -<p>O que não disse o pobre Monge, cuja exquisita sensibilidade -e admiravel resignação se revelam tantas vezes, foi o -pezar, que experimentou quando vio, que da coragem imprudente -de Pésieux resultou a morte d’este seo amigo, sem -que o valor de Ravardiere podesse ser bastante para sustentar -a Colonia; o que tambem não poude contar foi a perda -das funcções de Superior da missão, que devia assumir -antes do triumpho das armas de Jeronymo d’Albuquerque, -e da expulsão definitiva dos francezes. Para explicar essas -circumstancias, não mencionadas de forma alguma pelo digno -missionario, é indispensavel fallar-se da situação administrativa -em que então se achava o grande Convento da rua -de Santo Honorato.</p> - -<p>O Padre Leonardo, tão afamado entre seos irmãos de habito, -em 1614 deixou de ser Provincial, e só poderia ser reeleito -no anno de 1615. Foi substituido pelo veneravel Honorato -de Champigny,<a id="FNanchor_14" href="#Footnote_14" class="fnanchor">[N]</a> e com razão elogiam-se os melhoramentos -de toda a natureza, a actividade, e especialmente a -distribuição de soccorros caridosos, postos em pratica durante -a sua administração.</p> - -<p>N’esta epocha, um Religioso estrangeiro, natural da Escossia, -e descendente de uma boa familia, attrahia a si os olhares<span class="pagenum"><a id="Page_xv"></a>[xv]</span> -de seos irmãos, e póde dizer-se até os da propria França, -o Padre Archanjo de Pembroke, que veio substituir de -alguma forma o Padre Angelo de Joyeuse.</p> - -<p>Eleito Provincial em 1609, e não deixando depois d’isto -d’exercer importantes encargos, foi este Capuchinho, logo -depois da partida do Padre Ivo, nomeiado director dos missões -<i>nas Indias orientaes e occidentaes</i>. Os motivos, que -fizeram abandonar mais tarde a missão do Maranhão, não -foram declarados, ou para melhor dizer, não existiam. Archanjo -de Pembroke resolveo ir pessoalmente ao Brasil dar -consideravel impulso á pequena missão, que alguns mezes -antes havia sido derigida por Francisco de Razilly.</p> - -<p>Para este fim escolheo onze religiosos, de cujo zelo podia -confiar: infelizmente ignoram-se os seos nomes, e apenas se -sabe que entre elles havia um historiador, cuja <i>Narração</i>, -nos parece de facto perdida, por não ter sido possivel encontral-a, -apezar de todas as pesquizas feitas com constancia -e perseverança por muitos mezes em Pariz, Ruão e Madrid.<a id="FNanchor_15" href="#Footnote_15" class="fnanchor">[O]</a></p> - -<p>O Padre Francisco de Bourdemare pertenceo á classe d’esses -ricos gentis-homens, que após á saciedade de todas as -superfluidades da fortuna, de repente suffocam n’um carcere -o que se chama orgulho do seculo e lembranças mundanas.</p> - -<p>Havia ja alguns annos, que era viuvo: á seo filho entregou -todas as suas herdades, e depois foi sepultar-se nos<span class="pagenum"><a id="Page_xvi"></a>[xvi]</span> -Mosteiros de Orleans e de Ruão, e d’ahi mudou-se para o -Convento da rua de Santo Honorato em Pariz, onde exhibio -diariamente, dizem, provas de humildade muito alem da -exigida pelos membros da Communidade.</p> - -<p>Gentil-homem notavel, não havia muito, pela sua elegancia, -na epocha da grandeza, anterior ao fausto de Luiz XIV, -então somente trazia vestidos remendados, e ainda á sua pobreza -juntava o habito de Capuchinho.</p> - -<p>Completar o seu martyrio dedicando-se fervorosamente á -conversão dos selvagens, pareceo-lhe coisa tão natural como -invejavel; este homem, cuja sociedade tinha sido tão procurada, -e cuja instrucção era tão solida á ponto de poder -escrever em latim uma obra volumosa, encarou como beneficio -dos Definidores da sua Ordem o ser mandado a um -paiz deserto, onde faltassem todos os recursos na vida: elle -e Archanjo de Pembroke, cuja existencia tinha sido ainda -mais brilhante que a sua, embarcaram-se com outros dez -Monges n’um navio commandado pelo bravo Pratz, que com -tresentos colonos novos ia soccorrer Ravardiere, cuja situação -sem duvida era prevista em Pariz como difficil.</p> - -<p>Cheios de presentes pelos senhores da Córte de Luiz XIII -com os quaes ainda bem recentemente elles entretinham relações -diarias, e sobretudo satisfeitos por levarem ao modesto -Convento do Maranhão os bellos ornamentos feitos pelas -proprias mãos da Duqueza de Guise, partiram do Havre, e -pode dizer-se, que para aquelle tempo foi por certo um phenomeno, -pois apenas gastaram dois mezes e meio para chegarem -á costa do norte do Brazil, porem apenas vellejavam -ainda na bahia de Guaxenduba souberam logo do estado -lastimoso, em que se achavam os negocios da França n’aquelles -lugares.</p> - -<p>Não ignoravam os Missionarios, que pelo seo Instituto se -achavam ao abrigo das eventualidades politicas, que o resto -da expedição podia temer (por exemplo não podiam ser prisioneiros): -foram, como que com pompa, para o seo Convento -em S. Luiz, e comsigo levaram os presentes da Duqueza<span class="pagenum"><a id="Page_xvii"></a>[xvii]</span> -de Guise, porem apenas acharam ahi um só religioso, o Padre -Arsenio de Pariz,<a id="FNanchor_16" href="#Footnote_16" class="fnanchor">[P]</a> e esse mesmo muito doente.</p> - -<p>Mais doente ainda, que seo unico companheiro se achava -o Padre Ivo d’Evreux, quando soube, estar substituido como -Superior do nascente Mosteiro, e é provavel, que elle embarcasse -a bordo d’algum dos navios da esquadra.</p> - -<p>Dizem os documentos que temos á vista, que n’esse tempo -elle se achava em inacção, victima d’uma paralysia geral, -consequencia provavel das fadigas, a que diariamente -se entregava no <i>Fórte</i>.</p> - -<p>Para explicar a invasão lenta, porem continua, de tão -triste molestia, basta recordar agora o que era então a nascente -cidade de S. Luiz.</p> - -<p>Embora seja hoje, e com razão, esta risonha Capital considerada -uma das cidades mais saudaveis do Imperio do -Brasil, então apenas surgia do seio das florestas: os miasmas -deleterios, que constantemente se desprendiam dos logares -recentemente desbravados, a falta absoluta de certos medicamentos -energicos, apropriados a combater com decidida -vantagem essas influencias paludosas: tudo isto explica como -o Padre Ivo d’Evreux não poude esperar pelo resultado da -guerra começada, e como se vio coagido a regressar para a -Europa, receiando ser pesado á missão depois de haver sido -o seu agente mais activo e o seu sustentaculo mais dedicado.</p> - -<p>Não sabemos como se effectuou esta viagem, nem si elle -foi para Pariz, e nem tão pouco si foi em sua terra natal<span class="pagenum"><a id="Page_xviii"></a>[xviii]</span> -buscar um azylo no Convento dos Capuchinhos,<a id="FNanchor_17" href="#Footnote_17" class="fnanchor">[Q]</a> fundado -apenas alguns mezes depois da sua partida.</p> - -<p>Os archivos da cidade d’Evreux, nada dizem a tal respeito, -e nem tambem relativamente á missão brasileira, parecendo-nos -dever esperar-se do acaso o apparecimento de -documentos biographicos, cuja existencia nem se suspeita.</p> - -<p>O historico da segunda missão dos Capuchinhos franceses -em Maranhão, completamente ignorada por Berredo e outros -escriptores portuguezes, não nos deixa na mesma incertesa -quanto aos missionarios, que succederam á Ivo d’Evreux e -aos seos companheiros.<a id="FNanchor_18" href="#Footnote_18" class="fnanchor">[R]</a></p> - -<p>Sabemos que chegaram em 15 de junho diante da nascente -cidade, que cantaram um <i>Te-Deum</i> no dia 22 do -mesmo mez, no rustico Convento principiado a edificar por -seos antecessores, e tambem não ignoramos hoje, que elles -previram o máo exito da missão.</p> - -<p>Ignoramos o que fez o Padre Arcanjo no Convento de São -Luiz, porem quasi que se pode dizer, que não imitou o zelo -dos Padres Ivo d’Evreux e Arsenio de Pariz, sendo tão mal<span class="pagenum"><a id="Page_xix"></a>[xix]</span> -succedido em seos esforços que até appareceo a desunião -«entre as coisas da Colonia, augmentada ainda com a chegada -dos portuguezes, que se assenhorearam do paiz.»</p> - -<p>O piedoso biographo, cuja narração nos serve do guia, -diz, que o novo Superior administrou o baptismo a 650 indios, -porem accrescenta logo, que sem duvida estes pobres -selvagens não ficaram por muito tempo fieis á religião, que -abraçaram, voltando a sua antiga idolatria: «não chega a -sessenta os christãos sinceros, e n’esse numero estão incluidos -vinte meninos.» Si se encontrasse uma biographia cheia -de particularidades e de aventuras do Monge escossez, de -que tracta o velho historiador da Ordem, taxando-a de muito -exagerada, provavelmente n’ella se encontrariam narrações -minuciosas de sua missão na America. Infelizmente este livro, -se existe em alguma bibliotheca pouco conhecida, é tão -raro como o de Francisco de Bourdemare, e temos sido infelizes -nas diversas pesquizas, que até hoje fizemos com o -fim de offerecer aos nossos leitores um extracto do seo contheudo.<a id="FNanchor_19" href="#Footnote_19" class="fnanchor">[S]</a></p> - -<p>Suspeitamos que o Padre Arcanjo de Pembroke deixou -muitos dos seos confrades no Convento dos Capuchinhos recentemente -edificado, e que regressou para França ao fim -de 1614 no navio do Capitão Pratz, que levou á Paris Gregorio -Fragoso, sobrinho de Jeronymo de Albuquerque, incumbido<span class="pagenum"><a id="Page_xx"></a>[xx]</span> -d’uma missão diplomatica, que devia discutir-se em -Lisboa.</p> - -<p>Recolhido á sua cella no Convento da rua de Santo Honorato, -o Padre Ancanjo facilmente esqueceo-se do Brasil<a id="FNanchor_20" href="#Footnote_20" class="fnanchor">[T]</a>, -tomou parte nos acontecimentos politicos do seu tempo, vieram -de novo as dignidades da Ordem procural-o, e viveo -no grande mosteiro até o momento, em que Richelieu chegou -ao apogeo do seo poder.</p> - -<p>Os amadores das viagens antigas, aquelles que prescrutam -ainda com interesse as lembranças espalhadas aqui e ali, e -com as quaes se deve compôr a historia das nossas Colonias, -mais gloriosa do que se pensa, não se demoraram n’essas -particularidades, e antes desejaram saber como o Maranhão -escapou aos esforços corajosos do bravo Ravardiere.</p> - -<p>A <i>Historia Geral do Brasil</i>, publicada ultimamente pelo -veridico Sr. Adolpho de Varnhagem lhe responderá com mais -promptidão ainda do que o poeta laureado Southey. Ahi lerão -como as forças portuguezas, expedidas d’esde outubro -de 1612 para expellir os francezes do seu novo estabelecimento, -de que tinha ciumes a Corte de Madrid, ainda em -Maio de 1613 foram reforçadas por Jeronymo d’Albuquerque -vindo do Ceará, onde combinou com Martim Soares nos meios -de ser bem succedida essa expedição sob seo commando, a -qual se antolhava irriçada de difficuldades.</p> - -<p>De Pernambuco ainda vieram reforços indispensaveis, e -por isso em 23 d’agosto começou o bloqueio das forças francezas, -porem no dia 19 de novembro, Ravardiere á frente -de 200 soldados d’infantaria, e de 1500 indios atacou com -energia os sitiadores de sua nascente cidade; perdeo-se ahi<span class="pagenum"><a id="Page_xxi"></a>[xxi]</span> -o bravo Pezieux n’uma imprudente tentativa por não ter -executado as ordens do seu chefe mais experiente do que -elle.</p> - -<p>Tomaram por sua vez a offensiva os portuguezes, e em pouco -tempo, apesar da sua reconhecida habilidade e do seu notavel -valor, foi obrigado o Chefe da nova Colonia a concordar -n’um armisticio, cujo desenlace seria terminado perante -as Cortes de Madrid e de Pariz, para as quaes appellaram -ambas as partes belligerantes.</p> - -<p>Antes de chegar a este ponto vio Ravardiere de seo exercito -cem homens mortos e nove prisioneiros. Pode dizer-se, -que si sua resistencia foi a de um bravo, como tal ja reconhecido, -o procedimento, que então ostentarão seos adversarios, -foi em todo o sentido generoso, porem, força é dizer -que depois de convenções tão livremente estipuladas, e -quando em 3 de Novembro de 1615 entregou Ravardiere -com todas as solemnidades o <i>Forte de São Luiz</i> á Alexandre -de Moura appareceo um acto de deslealdade manchando -esta campanha tão nobremente terminada. Ravardiere deixou -o Maranhão e foi em companhia de Alexandre de Moura -para Pernambuco, d’onde partio em pouco tempo para Lisboa, -e ahi no <i>Forte de Belem</i> soffreo rigorosa prisão, que -não durou menos de tres annos.<a id="FNanchor_21" href="#Footnote_21" class="fnanchor">[U]</a></p> - -<p>Pelo que acabamos de dizer vê-se facilmente, que a Cidade -de S. Luiz, a florescente Capital de uma das mais ricas -Provincias do Brasil, é uma Cidade de origem absolutamente -franceza, e a Camara Municipal assim felizmente o comprehendeo -por haver ainda ha pouco tempo feito surgir das<span class="pagenum"><a id="Page_xxii"></a>[xxii]</span> -ruinas os modestos edificios, que attestam esta epocha, provando -com isto, e ao mesmo tempo, ausencia de patriotismo -mesquinho e sentimento de bom gosto.<a id="FNanchor_22" href="#Footnote_22" class="fnanchor">[V]</a></p> - -<p>Mas voltando ao livro, que nos prende a attenção, façamos -conhecer a sorte caprichosa, que o esperava em França. -Despertaremos tambem com o bom Religioso algumas reminicencias, -com que se pode enfeitar a poesia.</p> - -<p>Menos infeliz na apparencia que João de Lery, tão bem -classificado com o appellido de «Montaigne dos velhos viajantes,»<a id="FNanchor_23" href="#Footnote_23" class="fnanchor">[W]</a> -Ivo d’Evreux durante 15 annos não vio seo manuscripto, -extraviado por um infortunio, que o ferio completa -e absolutamente.</p> - -<p>Enviado aos Superiores da Ordem este livro, complemento -do de Claudio d’Abbeville, foi destruido antes de haver apparecido. -Impresso por Francisco Huby, em cujas officinas já -havia sido edictada a obra do seo companheiro, foi inteiramente -dilacerado.</p> - -<p>Francisco Huby, dizemos com pezar, deixou-se n’essa occasião -seduzir, e esquecendo-se dos deveres inherentes á -sua profissão, não se importou em ser o instrumento d’uma -vingança politica tão mesquinha.</p> - -<p>É de suppôr, que o motivo, que fez prender Ravardiere -no <i>Forte de Belem</i>, levantou tambem mãos sacrilegas para -destruir na rua de São Thiago o precioso volume, no qual<span class="pagenum"><a id="Page_xxiii"></a>[xxiii]</span> -se expunham com admiravel sinceridade as vantagens para -a França, provenientes da expedição de 1613.</p> - -<p>Entre a impressão da viagem de Claudio d’Abbeville, e -a do livro, que é sua continuação, deo-se um acontecimento -politico d’alto alcance.</p> - -<p>Foi resolvido o casamento de Luiz XIII, ainda menino, com -uma princesa hespanhola<a id="FNanchor_24" href="#Footnote_24" class="fnanchor">[X]</a>, e um partido inteiro mostrou -muito interesse em dissipar qualquer sombra, que prejudicasse -a casa de Hespanha.</p> - -<p>Os projectos de conquista d’America do Sul não acharam -mais apoio, e desde então empregaram-se todos os meios -afim de ser esquecido um projecto de conquista, com que -ja se havia inquietado a Hespanha, chegando-se até a destruir -completamente a simples narração dos incidentes d’essa -missão ja passada ha tanto tempo, embora escripta com toda -a calma e conveniencia.</p> - -<p>Quando se deo este acto arbitrario havia em França um -homem, que ligava muito interesse á obra e ao seo auctor.</p> - -<p>Felizmente Francisco de Razilly não cahio no captiveiro, -que paralisava todos os esforços de Ravardiere, e pode até -affirmar-se, que não perdeo de vista, por um só momento, as -vantagens, que seo paiz podia tirar de uma Colonia, cujos -primeiros passos elle tinha dirigido. Sabendo que hia ser -destruido o volume do Padre Ivo d’Evreux, apezar de impresso -inteiramente, foi á imprensa de Huby para vêr se obtinha -um exemplar: ou porque não fosse com toda a promptidão, -ou porque ja se tivesse dado começo a destruição da<span class="pagenum"><a id="Page_xxiv"></a>[xxiv]</span> -obra, apenas poude salvar algumas folhas por si ou por <i>meios</i> -subtis de um seo agente, as quaes reunidas mostraram a lamentavel -perda de diversos fragmentos, e com essas lacunas -tão importantes foi impossivel formar um exemplar completo. -Mandou o Almirante imprimir o seu protesto em outra -parte, e não nas officinas da rua de Sam Thiago, juntou-o -ao livro, encadernado com todo o luxo, tendo na frente as -armas da casa de França, e foi leval-o, não á Maria de Medicis, -antiga protectora da Colonia do Maranhão, e sim a -Luiz XIII.</p> - -<p>O menino rei ainda na anno antecedente tinha brincado -muito com tres pobres selvagens Tupinambás, dos quaes -fora padrinho, e suas recordações eram ainda tam frescas, -que de vez em quando esboçava os grotescos ornatos, com -que se enfeitavam os nossos indios:<a id="FNanchor_25" href="#Footnote_25" class="fnanchor">[Y]</a> leo talvez algumas paginas -do bello volume, que Razilly lhe offereceo, e n’isto ficou -todo o seo interesse. Richelieu ainda não era Superintendente -da sua marinha, e ainda dormiram na Corte por -muitos annos os projectos de longas navegações.</p> - -<p>O livro do Padre Ivo, junto ao do Padre Claudio, foi posto -nas estantes da bibliotheca, e ahi todos os deixaram em -paz.</p> - -<p>Foi no tempo do digno Van-Praet, no principio de 1835, -que o autor d’esta noticia teve a felicidade de encontral-o. -Seria occioso o dizer como o feliz descubridor ficou surprehendido -lendo esta agradavel narração, tão sincera em suas -menores particularidades como preciosa pelas suas uteis noticias. -Para comprehender bem o seo valor basta dizer-se, -que o nosso bom missionario demorou-se dois annos, onde -seo veneravel companheiro apenas demorou-se quatro mezes. -Desde então appareceo Ivo d’Evreux n’uma serie de<span class="pagenum"><a id="Page_xxv"></a>[xxv]</span> -artigos, que publicava a <i>Revista de Pariz</i> a respeito dos <i>antigos -viajantes francezes</i>, e na verdade sem desvantagem, -ao lado do Padre du Tertre, a quem Chateaubriand justamente -chamou o Bernardin de Sant’Pierre do 16º seculo.</p> - -<p>Este artigo, cujo menor defeito era sem duvida alguma o -ser pouco desenvolvido, formou n’esse mesmo anno uma -pequena brochura, publicada em casa de Techener, e immediatamente -esgotou-se a edicção.</p> - -<p>Desde essa epocha não foi mais Ivo d’Evreux de todo -desconhecido aos amadores das viagens antigas, aos homens -de bom gosto, que buscam avidos de curiosidade os escriptores -esquecidos, percursores do grande seculo. Preoccupado, -mais do que se crê na Europa, de suas tradicções poeticas, -e de suas nascentes glorias, o Brasil saudou o nome -do velho viajante, e lhe deo um lugar entre os homens pouco -conhecidos, mas que devem ser consultados quando se -tracta dos tempos primitivos.</p> - -<p>O Imperador D. Pedro, que occupa um lugar entre os bibliographos -mais illustrados, e que tem decidido gosto pelas -raridades bibliographicas, que derramam alguma luz sobre -as antiguidades do seo vasto Imperio, mandou extrahir -uma copia, sendo depois imitado seo exemplo!</p> - -<p>O unico exemplar, pertencente á bibliotheca imperial d’ahi -em diante foi lido e relido:<a id="FNanchor_26" href="#Footnote_26" class="fnanchor">[Z]</a> uma phalange de escriptores<span class="pagenum"><a id="Page_xxvi"></a>[xxvi]</span> -habeis e zelosos, que exhumaram do pó a historia do seo -bello paiz, o chamaram em testemunho de suas asserções, -Adolpho de Varnhagem, Pereira da Silva, Lisboa o auctor -do <i>Timon</i>, e no ultimo lugar o sabio Caetano da Silva, o -citaram entre as melhores autoridades, que se pode invocar -sobre as crenças dos indios, e assim o fizeram sahir da obscuridade, -em que jazia.</p> - -<p>Não tinha a França prestado attenção a estes testemunhos -de estima para dar ao Padre Ivo d’Evreux o lugar, que -merecia. Se Boucher de la Richarderie não tivesse pronunciado -seo nome, levantando o mais que poude o de Claudio -d’Abbeville, o Sr. Henrique Ternaux Compans não o incluiria -na sua preciosa collecção dos viajantes conhecedores da -antiga America. O Sr. d’Avezac o cita com destincção e faz -sobre-sahir suas boas qualidades.</p> - -<p>Todos estes testemunhos de admiração para com o humilde -escriptor, que sem ostentação sacrificou sua obra, infelizmente -tem concorrido pouco para tirar sua vida da obscuridade, -e não sabemos em que auctoridade se baseia um -sabio bibliographo para dizer que elle viveo até 1650.<a id="FNanchor_27" href="#Footnote_27" class="fnanchor">[AA]</a></p> - -<p>Á vista d’um volumoso manuscripto da bibliotheca imperial -pensamos um dia que ião ser esclarecidas todas as -nossas duvidas sobre os principaes pontos da biographia do -nosso escriptor, porem assim não aconteceo. <i>Os elogios historicos<span class="pagenum"><a id="Page_xxvii"></a>[xxvii]</span> -de todos os grandes homens e de todos os illustres -religiosos da Provincia de Pariz</i> infelizmente só dão noticias -relativas aos religiosos de Santo Honorato, de Picpus, -e de S. Thiago.<a id="FNanchor_28" href="#Footnote_28" class="fnanchor">[AB]</a> Chegou-se até a dizer na obra, que havendo -o Padre Paschoal d’Abbeville<a id="FNanchor_29" href="#Footnote_29" class="fnanchor">[AC]</a> separado sua Provincia -da Normandia em 1629 não devia procurar-se n’esta -compilação o nome dos Religiosos, que não residiram em -Pariz.</p> - -<p>Não se deve esquecer de todo a excitação puramente litteraria, -que se experimentou em França logo depois da -chegada dos selvagens brasileiros, que desembarcaram sessenta -annos antes em Ruão ou em Pariz. Estes apparecimentos -successivos d’indios, seguidos sempre de narrações -mais ou menos notaveis, levão evidentemente o espirito a -pensar nas bellezas primitivas da natureza, o que produz -encantos e amplidão de ideias.</p> - -<p>D’esta influencia não se livrou o nosso Montaigne, como -elle revellou em algumas palavras espirituosas, que escreveu -a proposito d’uma cantiga brasileira.</p> - -<p>Os dois maiores poetas d’aquelles tempos, tão differentes -entre si e comtudo tão approximados, se abalaram a ponto -de dedicarem particular attenção a esses habitantes das -grandes florestas, por acaso misturados com os cortezãos de -França, que invejavam seos gosos pacificos, e a tranquillidade -de suas existencias.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_xxviii"></a>[xxviii]</span></p> - -<p>Ronsard não é de parecer que estes homens, que lembram -a origem do Mundo, percam sua feliz innocencia, e por -isso insta com os visitantes para que não troquem a sua -ignorancia pelos cuidados da civilisação.<a id="FNanchor_30" href="#Footnote_30" class="fnanchor">[AD]</a></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_xxix"></a>[xxix]</span></p> - -<p>Malherbe tambem a respeito d’elles entreteve por muito -tempo o douto Peiresc, por meio de cartas, onde dizia que -a paz e a alegria estava em imital-os.</p> - -<p>Suas dansas inspiraram os mais delicados cortesãos, e -um dos mais habeis artistas de Pariz fez com as suas arias -uma especie de dança muito agradavel, cuja descripção nos -deixou o poeta.<a id="FNanchor_31" href="#Footnote_31" class="fnanchor">[AE]</a></p> - -<p>Poderiamos ainda citar outros exemplos d’esta subita predilecção -pela independencia dos pobres indios, e especialmente -pelo magnifico paiz, que habitam.</p> - -<p>Conforme estes poetas, a cuja frente deve collocar-se -Bartas,<a id="FNanchor_32" href="#Footnote_32" class="fnanchor">[AF]</a> é n’esta fonte vital, que pode restaurar-se por novas -comparações um estro quasi a exhaurir-se.</p> - -<p>Sem duvida alguma todos estes antigos viajantes, completamente -esquecidos durante um seculo, exerceram real -influencia no seo tempo, e ainda mais alem, como se pode -provar á vista dos escriptos de Chateaubriand: a singelesa -de suas narrações e a frescura de suas pinturas inspiraram -os grandes escriptores, já cuidadosos de abandonarem nas -suas descripções os typos ajustados ou estudados, e de influirem -ou attrahirem só pela verdade.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_xxx"></a>[xxx]</span></p> - -<p>Ivo d’Evreux não foi somente um pintor habil, um narrador -sincero, e sim tambem um observador perspicaz dos -costumes de uma raça, para assim dizer extincta, e que não -se poderia consultar frequentemente.</p> - -<p>Para escolher um só exemplo entre muitos, que elle offerece, -basta dizer-se, que foi o unico, que descreveo os -verdadeiros idolos, modelados em cera, ou esculpidos em -madeira pelos indios.</p> - -<p>Hans-Staden, Thevet, Lery e o proprio Gabriel Soares, tão -prolixos á respeito do culto do <i>maracá</i>, guardam silencio -relativamente ao que então se rendia á essas estatuasinhas -modeladas grosseiramente, sem duvida, pelos habitantes nomades -das grandes florestas, as quaes com tudo servem para -mostrar um principio da pratica nascente da arte: assim elle -o confessa n’estas palavras: «Este mau costume crescia e -estendia-se pelas aldeias proximas de Juniparão.» Depois accrescentou, -que seo companheiro o Revd. Padre Arsenio encontrou -estes idolos na visinhança dos bosques.... Ora, pode-se -deduzir d’este trecho curiosa inducção, não sem interesse -para a archeologia futura de um grande Imperio, e -vem a ser, que no começo do XVII seculo notavel mudança -se tinha já feito nas ideias religiosas do grande povo da -costa.</p> - -<p>Sem duvida, n’esse tempo ja os Piagas tinham visto imagens -nas igrejas, que se edificavam em varias partes do litoral: -com a maravilhosa facilidade d’imitação, innata nos -indios, ja no fim do XVI seculo tinham representado em estatuas -alguns dos numerosos genios de suas florestas. Estes -primeiros idolos foram infelizmente modelados em madeira, -e embora houvesse grande copia d’elles, nenhum, ao menos -que o saibamos, é conservado nos museos ethnographicos -do novo Mundo, estabelecidos em varias localidades. -Os Tupinambás, apenas chegaram na visinhança do rio das -Amazonas, receberam ideias mais adiantadas de povos mais -civilisados que elles: a poderosa nação dos Omaguas, por -exemplo, cujas tribus vinham das regiões peruviannas, poderia<span class="pagenum"><a id="Page_xxxi"></a>[xxxi]</span> -ter influido sobre a arte grosseira, de que entre elles -encontraram se tão curiosos <i>especimens</i>. Note-se, que estes -importantes factos são, em geral, absolutamente despresados -pelos escriptores portuguezes, e por isso não é pequena -gloria para a nossa litteratura antiga, o ter possuido escriptores, -dotados de genio tão observador á ponto de prestarem -muita attenção ao estudo d’estes objectos.</p> - -<p>Entre os que se misturaram com estas nações infelizes, no -principio do seculo XVII, não conhecemos, na verdade, senão -um unico viajante portuguez, cuja narração encantadora -deve estar ao lado das de João de Lery e do Padre Ivo -d’Evreux.<a id="FNanchor_33" href="#Footnote_33" class="fnanchor">[AG]</a></p> - -<p>Foi Fernando Cardin, Superior dos Jesuitas ainda em 1609, -e que visitou os indios do Sul depois de haver por muito -tempo administrado as aldeias dos Ilheos e da Bahia. Bem -que este Missionario não possa, pela importancia de documentos, -comparar-se a Gabriel Soares,<a id="FNanchor_34" href="#Footnote_34" class="fnanchor">[AH]</a> a quem se deve recorrer -sempre que se queira, ter ideia exacta da nacionalidade -dos indios, e da emigração das suas tribus, comtudo -muito se lhe assimelha pelo seo estylo: como elle despresa -os preconceitos, ama os selvagens, e com animação pinta -admiravelmente o indio na sua aldeia, dando-nos a saber a -grandesa, cheia de sinceridade, do seo caracter.</p> - -<p>A descripção do Padre Ivo d’Evreux não é, somente, -mais um documento de grande importancia, que se ajunta<span class="pagenum"><a id="Page_xxxii"></a>[xxxii]</span> -á historia do Brasil com o fim de provar unicamente factos -tendentes á fundação da Cidade de S. Luiz e sim para os -francezes tem outro genero de merecimento.</p> - -<p>Pela sincera elegancia de sua dicção, pela cor habilmente -destribuida de seo estylo, pela perspicacia de suas observações, -e, pode tambem dizer-se, pelo sentimento apurado das -bellesas da naturesa, que mostra o seu autor, ella pertence -á serie de escriptores francezes, continuadores da epocha -de Montaigne, e prognosticadores do grande seculo. Ivo -d’Evreux, si fosse lido, teria nesse tempo influido, como alguns -annos antes, João de Lery, que descreveo scenas analogas -áquellas que elle tão bem soube pintar. Claudio d’Abbeville, -escriptor muito menos habil do que elle, foi o continuador -d’esta influencia litteraria.</p> - -<p>Si no retiro, por elle escolhido, e que cremos, não sem -fundamento, ter sido em Ruão ou Evreux, ou mesmo no arrebalde -de Sant’Eloy, soubesse o Padre Ivo qual foi a sorte -definitiva dos seos charos indios, sua alma se teria entristecido -profundamente.</p> - -<p>Depois de expulsos os francezes, foi Jeronymo d’Albuquerque -nomeiado capitão-mór do Maranhão sendo Francisco -Caldeira Castello Branco designado para continuar os descobrimentos -e conquistas nas regiões do Pará.</p> - -<p>Dos esforços combinados destes dois officiaes resultou a -fundação da risonha Cidade de S. Luiz e da de Belem.</p> - -<p>Estas duas Cidades edificaram-se pacificamente, sem opposição -alguma da parte dos indios, que até ajudaram os -consideraveis trabalhos, exigidos para a construcção d’ellas, -e muitos d’elles acompanharam até um Official chamado Bento -Maciel ás margens do rio Pindaré em busca de immensas -riquezas metalicas, que se desconfiava existirem por ahi algures: -fatal expedicção, cujo resultado foi somente a destruição -dos Guajajaras.</p> - -<p>Os Tupinambás inegavelmente não eram mais hostis aos -portuguezes, e viviam sob a direcção de Mathias d’Albuquerque, -filho do governador; mas nem por isso deixavam elles<span class="pagenum"><a id="Page_xxxiii"></a>[xxxiii]</span> -de lastimar a ausencia de seos antigos alliados. Ja não residiam -nos arrebaldes da cidade nova, e sim no districto de -Cumã em numerosas aldeias. Indo um dia o seo chefe europeo -ter com seo pae, que o mandou chamar, passaram por -Tapuitapera alguns indios vindos do Pará, trasendo cartas -para o capitão-mór de S. Luiz. Um Tupinambá convertido ao -christianismo, por nome Amaro, aproveitou-se da passagem -dos seos compatriotas para executar um plano terrivel.</p> - -<p>Tomou uma das cartas, abrio-a, e fingindo lel-a<a id="FNanchor_35" href="#Footnote_35" class="fnanchor">[AI]</a> dirigio-se -aos chefes das aldeias, e declarou-lhes que o fim d’estas -missivas era uma abominavel trahição, urdida pelos portuguezes, -que tinham resolvido, atreveo-se elle a dizer, reduzil-os -á condicção d’escravos.</p> - -<p>Terrivel carnificina, onde pereceram todos os brancos, foi -o resultado d’esta astucia do indio, bem facil de ser acreditada -á vista dos acontecimentos precedentes.</p> - -<p>Espalhou-se pelo littoral a noticia d’este facto. Mathias de -Albuquerque promptamente regressou ao campo onde se deram -scenas tão tristes, e vingou seos compatriotas exterminando -sem piedade os Tupinambás.</p> - -<p>As tribus, que moravam mais longe, insurgiram-se, e formaram -entre si indissoluvel alliança, animando-as implacavel -vingança, apezar de serem á principio tão pacificas, e de -se acharem tão dispostas á abraçar a nova fé, que lhe tinha -prégado o Padre Ivo d’Evreux. Levantaram-se tambem, e -espontaneamente, aldeias mui longinquas.</p> - -<p>Jeronymo d’Albuquerque expedio contra ellas tropas aguerridas, -e em breve o incendio e a morte substituio as festas, -que faziam com toda a segurança e boa fé.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_xxxiv"></a>[xxxiv]</span></p> - -<p>Tinham apenas passado tres annos depois da partida dos -capuchinhos francezes, e por isso era no principio do anno -de 1617. A Cidade de S. Luiz do Maranhão, activamente -edificada, começou a tomar o aspecto de uma Cidade européa.</p> - -<p>Este progresso inquietava os selvagens, que á custa de -seos soffrimentos tornaram-se previdentes; forçados á deixar -o sul do Brazil procuraram grandes florestas, e abrigados em -seos seios esperavam recobrar sua independencia, e para -isto só tinham um pensamento—a destruição completa de -uma raça invasora, que não poude ser expellida pelos seos -antepassados.</p> - -<p>Formaram os chefes Tupinambás uma liga desde os desertos -de Cumã até ás margens do Amazonas: pretendiam -assaltar de surpreza a nova colonia, e n’um dia convencionado -matariam todos os habitantes. N’esse tempo não havia -quasi indio, que não arrostasse sem medo as descargas de -mosquetaria.</p> - -<p>Em quanto se ouvia este plano, e se trabalhava na sua -execução, estava em Tapuitapera Mathias d’Albuquerque, -com pequeno numero de soldados, descuidado de si e dos -seos: entre os indios appareceu um trahidor, que descobrio -o projecto dos chefes dos selvagens ao commandante portuguez, -que não se assustando com o numero dos seos terriveis -inimigos, travou-se com elles no primeiro combate, e -levou-os de vencida até á distancia de 50 legoas, ajudado -em tão atrevida acção pelo bravo official Manoel Pires.</p> - -<p>Ainda vivia, porem bem proximo do termo de sua existencia -o antagonista de Razilly e de la Ravardière: sem sahir -da nova Cidade de S. Luiz muito ajudou seo filho com -seos conselhos e com remessa de soldados que tinha em reserva.</p> - -<p>Não se assustou Mathias de Albuquerque com as difficuldades -de todo o genero, que encontrava seo pequeno exercito -n’esses immensos desertos; foi batendo os indios pouco -á pouco até que em 3 de Fevereiro de 1617 derrotou-os<span class="pagenum"><a id="Page_xxxv"></a>[xxxv]</span> -completamente, e obrigou-os a procurar refugio no seio das -florestas. Só então, depois de exterminadas as tribus mais -temiveis, é que o velho general se recolheo á Cidade de S. -Luiz, e o que elle havia feito nos desertos do Maranhão tinha -tambem posto em pratica Francisco Caldeira nas solidões -do Pará, onde se edificava a Cidade de Belem.</p> - -<p>Não eram estes, por certo, os sonhos de Ivo de Evreux e -de seos tres companheiros para com o Maranhão: em suas -almas haviam imaginado a fundação de uma Cidade nova, -onde os corações innocentes dos indios se lhes reuniriam -para em commum louvar o Deos da paz. Ordens de exterminio, -em vez de orações, faziam em redor dos colonos um -deserto que causava terror. Seriamos injustos, se não dissesemos, -que os Religiosos trasidos por Jeronimo d’Albuquerque -continuaram a missão dos Padres francezes. Como Ivo -d’Evreux e Claudio d’Abbeville, os Padres portuguezes Frei -Cosme de São Damião e Frei Manoel da Piedade, eram da -Ordem dos Capuchinhos desde 1617, isto é, desde o momento -em que a guerra se tornou mais cruel, e Bourdemare publicou -seo livro: á Corte de Madrid pediram religiosos activos, -acostumados a todas as fadigas, e por isso capazes de -affrontal-as e de os ajudar. No dia 22 de julho chegaram -mais quatro religiosos a essas terras, não para o pequeno -Convento de São Luiz, e sim foram residir nas circumvisinhanças -da Cidade de Belem, e d’ahi começou a cathequese -no Pará.<a id="FNanchor_36" href="#Footnote_36" class="fnanchor">[AJ]</a></p> - -<p>Não se sabe com certesa, se estes factos historicos, que de -ora em diante terão lugar importante nos <i>Annaes do Brasil</i>, -chegaram aos ouvidos dos missionarios dedicados que tantas -fadigas soffreram para a conversão dos indios; a Europa -gastou mais de dois seculos olhando para elles com indifferença,<span class="pagenum"><a id="Page_xxxvi"></a>[xxxvi]</span> -e ainda passaram mais vinte annos depois d’elles terminados, -para então ver-se a continuação corajosa da obra -dos seos antecessores<a id="FNanchor_37" href="#Footnote_37" class="fnanchor">[AK]</a> por alguns Capuchinhos do Convento -de Pariz: n’esse tempo estava Ivo d’Evreux bem proximo do -termo de sua existencia, se é que ja não se tinha acabado -tão dura perigrinação para elle.</p> - -<p>Tudo emfim estava acabado para os povos, nossos fieis -alliados por algum tempo, e aos quaes procuramos fazer comprehender -as luzes do Evangelho. Achavam-se ja embrenhados -nas margens desertas do Xingù, do Tocantins, e do -Araguaya: ahi, bem longe dos colonos europeos se perpetuaram -sob os nomes de <i>Apiacas</i>, de <i>Gés</i> e de <i>Mundurucus</i>, -outrora tão temidos e hoje tão pouco, e até pelo contrario -favorecidos por uma administração humana.<a id="FNanchor_38" href="#Footnote_38" class="fnanchor">[AL]</a></p> - -<p>Estes primitivos senhores do Brasil fallam ainda o idioma -puro dos Tupys, cujos vestigios nos foram conservados por -Ivo d’Evreux e Thevet, e especialmente por João de Lery, -antes de ter reunido por meio de laboriosas fadigas os elementos -do seo livro.</p> - -<p>Foi nas margens destes grandes rios, ja citados, que ha -quarenta annos o illustre Martius observou tantas tribus desimadas.</p> - -<p>Ainda agora se lastimaria muito o sabio viajante sabendo, -que até hoje ninguem colheo as ultimas lembranças, -guardadas como legado por esses indios. Quando o governo -brasileiro pensou, ha pouco tempo, na creação d’uma commissão -scientifica, composta de sabios nacionaes, encarregada -de visitar os pontos mais longinquos d’esse immenso Imperio, -que não conta menos de 36° do Oriente ao Ocidente,<span class="pagenum"><a id="Page_xxxvii"></a>[xxxvii]</span> -forão o Ceará, o Maranhão, o Pará e o Rio de Janeiro os primeiros -lugares designados para a exploração. Comprehendeo -muito bem, que se havia nestas terras virgens admiraveis -productos da natureza a colher, tambem existia uma mythologia -e uma serie de tradicções historicas á salvar-se do esquecimento, -em quanto Freire Allemão, Capanema e Gabaglia -faziam collecções de preciosos materiaes sobre historia -natural, geographia e meteorologia, que formaram o objecto -d’uma vasta publicação.<a id="FNanchor_39" href="#Footnote_39" class="fnanchor">[AM]</a></p> - -<p>Um poeta historiador, estimado pelo seo paiz, corajosamente -embrenhava-se n’essas solidões incognitas para conhecer -os segredos da vida intima dos indios. Antonio Gonçalves -Dias, nascido no interior da provincia do Maranhão, -familiarisado desde a infancia com as legendas americanas, -fallando a <i>lingoa geral</i>, incumbia-se de alguma forma da -execução do programma de Martius.</p> - -<p>Bem cedo as legendas americanas, não nos animamos a -dizer os mythos religiosos dos grandes povos do littoral, nos -appareceram, taes quaes tem sido perpetuadas no interior, -(graças talvez ao exilio) e quando chegar o momento de estudar-se -com afinco a ethnographia, então se comprehenderá -todo o valor das narrações sinceras de Lery, de Hans Staden, -e de Ivo d’Evreux.</p> - -<p>Seria injustiça muito censuravel o negar-se as antigas -tentativas feitas pelos Religiosos portuguezes para a cathequese -dos povos selvagens, habitantes das regiões do Amazonas: -graças a elles, em 1607, principiou a exploração do -Maranhão por essas viagens, corajosamente emprehendidas -por Missionarios vindos dos Conventos de Pernambuco. Estas -tentativas não foram perdidas para a geographia, mas -quanto ao proveito do Christianismo, ellas se terminaram -em um martyrio inutil. Mais tarde, sem duvida, a obra dos -Figueiras e dos Pintos produsio seos fructos, assim como os<span class="pagenum"><a id="Page_xxxviii"></a>[xxxviii]</span> -grandes trabalhos evangelicos suavisaram a posição dos indios -do Maranhão.<a id="FNanchor_40" href="#Footnote_40" class="fnanchor">[AN]</a></p> - -<p>Foi ainda um escriptor francez, quase desconhecido, contemporaneo -dos nossos bons missionarios, que com muito -zelo, e pode até dizer-se com cuidado verdadeiramente piedoso, -traçou o <i>itinerario</i> seguido por estes homens corajosos, -de tempo do Padre Ivo, e sem duvida seos conhecidos, -mas que não possuiam nem a bondade e nem a sinceridade -d’elle.<a id="FNanchor_41" href="#Footnote_41" class="fnanchor">[AO]</a></p> - -<p>Conta-nos Pedro du Jarric como as immensas regiões do -Brasil, cubiçadas pela França, foram percorridas por dois -Religiosos de sua Ordem, quase no mesmo tempo, em que -Ravardiere pela primeira vez explorava o littoral.</p> - -<p>N’essa occasião Francisco Pinto e Luiz Figueira tinham -grande vantagem moral sobre os francezes, porque sabiam -muito bem a lingoa dos povos, que buscavam converter.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_xxxix"></a>[xxxix]</span></p> - -<p>Muito mais moço do que o seo companheiro, martyr -no apostolado, o Padre Luiz Figueira iniciou-se, então -mais do que nunca, nos segredos de uma lingoa, já visivelmente -alterada no littoral, porem pura no seio das florestas.</p> - -<p>Cinco annos após a impressão do volume do Padre Ivo, -elle publicou a sua <i>Arte de Grammatica</i>, e pela primeira -vez depois de alguns ensaios incompletos do seculo XVI conheceu-se -os principios de um idioma, que ainda fallava um -povo corajoso, porem prestes a morrer.<a id="FNanchor_42" href="#Footnote_42" class="fnanchor">[AP]</a></p> - -<p>Voltemos ao nosso piedoso viajante.</p> - -<p>Se vivesse ainda, como é bem provavel, alem da epocha -em que se deram estes acontecimentos, em 1619 por exemplo, -Ivo d’Evreux certamente não fazia mais parte do grande -Mosteiro d’onde outrora sahio com destino ao novo -mundo.</p> - -<p>Póde suppôr-se, que o seo homonimo de Pariz principiava -a eclipsal-o, e por isso vivia elle longe da grande Communidade: -se residisse no Convento da rua de Santo Honorato, -não é provavel que fosse de todo esquecido nas pequenas -biographias, escriptas tão liberalmente á respeito de Religiosos, -que nada escreveram, como seja, entre outros, Ivo de -Corbeil, simples irmão leigo, fallescido em 1623, apenas conhecido -na Ordem pelo seo amor á humanidade.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_xl"></a>[xl]</span></p> - -<p>Temos alem d’isto a certesa de ter se recolhido o -Padre Ivo d’Evreux ao modesto Convento de sua terra -natal: em 1620 estava elle em Santo Eloy,<a id="FNanchor_43" href="#Footnote_43" class="fnanchor">[AQ]</a> e suppomos -ter escolhido esta residencia por ser proxima ao Convento -de Andelys.</p> - -<p>N’estas ferteis campinas, onde se despertou o genio de -Poussin, ainda o nosso bom Missionario teve descanço bastante -para admirar os risos da natureza e a frescura das -paisagens.</p> - -<p>É possivel que em outra occasião tivesse elle oportunidade -para conservar-nos suas minuciosas observações, que -hoje talvez o fizessem distincto naturalista, mas depois da -emoção impressa em seo pensamento pela magestosa solidão -das florestas seculares do Brasil, somente se deixou captivar -pelas calorosas discussões da theologia.</p> - -<p>Um livro ainda difficil de ser obtido (a cada momento topamos -com raridades tão difficeis de serem alcançadas como -a <i>Viagem</i>) nos prova, que no seo retiro não poude resistir -ao espirito do seculo.</p> - -<p>Não tendo mais indios a converter se pôz a discutir -com protestantes, e coisa estranha, foi um dos seos compatriotas, -personagem muito estimado pelos seos correligionarios, -a quem elle atacou ou talvez a quem respondeu -somente.</p> - -<p>Ignoramos o titulo do primeiro opusculo, que elle arremessou -ao seu adversario, porem um sabio bibliographo da -Normandia, o Sr. Frére, nos deo o segundo, para nós uma -especie de revelação.</p> - -<p>É este o titulo do folheto «<i>Supplemento necessario ao escripto -que o Capuchinho Ivo fez imprimir relativamente<span class="pagenum"><a id="Page_xli"></a>[xli]</span> -as conferencias entre elle e João Maximiliano Delangle</i>.» -Ruão, David Jeuffroy. 1618 em 8.º<a id="FNanchor_44" href="#Footnote_44" class="fnanchor">[AR]</a></p> - -<p>Este escripto, attribuido pelo douto bibliographo ao nosso -missionario, bem puderia não ser devido á sua propria -penna, porem prova o apparecimento de outra obra -mais desenvolvida, e a existencia de serias discussões oraes -entre elle e os dissidentes. Mais agradaveis sem duvida lhe -foram sinceras discussões, que havia pouco tempo teve com -Japi-Açu na Ilha do Maranhão, onde as continuas predicas -feitas no Forte de S. Luiz, em presença de grande assembleia -de indios, somente eram interrompidas pela severa -polidez, que lhes prescrevia escutar o orador em quanto -quizessem que elle fallasse, circumstancia, diga-se de passagem, -que bem poderia em algumas occasiões enganar um -zeloso missionario sobre o exito de seos esforços.</p> - -<p>Ivo d’Evreux então achava-se a braços com um dos homens -mais firmes e mais estimados entre os protestantes, e -o escripto do Religioso foi denunciado ao parlamento.</p> - -<p>João Maximiliano de Baux, senhor de Langle, era um ministro, -joven, ardente, natural de Evreux como o Padre Ivo, -morador em Quevilly, pequena Cidade de 1:500 a 1:600 habitantes -á pequena distancia de Ruão.<a id="FNanchor_45" href="#Footnote_45" class="fnanchor">[AS]</a></p> - -<p>Ignoramos qual o objecto da discussão, e embora todas -as nossas deligencias não vimos uma só peça do processo, -porem é certo que o ultimo escripto, revelado pelo Sr. Frère, -excitou de maneira notavel a attenção da autoridade, porque -em 8 d’Abril de 1620 proferio o parlamento uma sentença<span class="pagenum"><a id="Page_xlii"></a>[xlii]</span> -a esse respeito condemnando David Jeuffroy a pagar -uma multa de 50 libras por haver publicado sem licença -previa o livro denunciado.<a id="FNanchor_46" href="#Footnote_46" class="fnanchor">[AT]</a> Como se vê, não alcançou esta -decisão o nosso Missionario, e sim limitou-se ao impressor, -por elle escolhido, embora contenha uma censura indirecta -ao livro suppondo-se, que o nosso bom Missionario, pelo -ardor da questão, se deixasse arrebatar a ponto de fazer -allusões pessoaes dignas de censura.</p> - -<p>Á este respeito havia pouco escrupulo em 1618, e afinal -se pensava que seria interrompida a carreira do joven ministro, -atacado pelo Padre Ivo: bem longe d’isto, porque em -1623 foi pelos seos correligionarios nomeado deputado ao -synodo nacional de Charenton, e quatro annos depois tambem -fez parte do da Normandia, na villa de Alençon.</p> - -<p>De 1620 em diante perdemos todos os vestigios do Padre -Ivo d’Evreux; comtudo muitos escriptores ecclesiasticos depois -d’isto registaram seo nome em seos vastos obituarios, -multiplicando erros, e assim provando que nunca viram a -obra do Padre Ivo.</p> - -<p>Boverio de Salluzo,<a id="FNanchor_47" href="#Footnote_47" class="fnanchor">[AU]</a> Marcellino de Piza,<a id="FNanchor_48" href="#Footnote_48" class="fnanchor">[AV]</a> Wading,<a id="FNanchor_49" href="#Footnote_49" class="fnanchor">[AW]</a> ordinariamente -tão exacto, o Padre Diniz de Gênes,<a id="FNanchor_50" href="#Footnote_50" class="fnanchor">[AX]</a> ou só dão<span class="pagenum"><a id="Page_xliii"></a>[xliii]</span> -particularidades geraes, mui approximadas relativamente á -sua obra, sem mencionar a data d’ella, ou grosseiramente -alteram o millesimo do anno da impressão. Este ultimo, -por exemplo, diz que foi em 1654, erro bem claro, proveniente -d’um primeiro erro typographico, repetido por Masseville,<a id="FNanchor_51" href="#Footnote_51" class="fnanchor">[AY]</a> -e até por Moreri Normando.<a id="FNanchor_52" href="#Footnote_52" class="fnanchor">[AZ]</a> O Padre Francisco -Martin, da Ordem dos Franciscanos, cujo manuscripto se -guarda em Caen, por seo motu proprio a colloca no anno -de 1659, dando sempre como lugar da impressão a cidade -de Ruão.</p> - -<p>O <i>Epithome da la bibliotheca oriental y occidental</i> de -Leon Pinello, livro reeditado por Barcia no seculo XVIII, é -o unico, que n’aquelle tempo mencionou com exactidão a -<i>Viagem</i>, que reimprimimos, embora o seo titulo fosse tão -alterado pelo bibliographo hespanhol a ponto de por elle ser -difficil reconhecer-se o habil continuador do Padre Claudio -d’Abbeville, devido isto a influencia de Diniz de Gênes.<a id="FNanchor_53" href="#Footnote_53" class="fnanchor">[BA]</a></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_xliv"></a>[xliv]</span></p> - -<p>Quasi que temos certesa, á vista dos manuscriptos doados -pelo grande Convento da rua de Santo Honorato, de ter vivido -o Padre Ivo d’Evreux alem de 1629, já esquecido porque -n’aquelle tempo havia firme proposito de desviar o Rei -de Hespanha das tentativas feitas, não havia muito, á respeito -do Maranhão.</p> - -<p>É verdade, que os antigos chefes da expedição não poderam -renovar tão vasta empreza, onde se achavam seos -maiores interesses.</p> - -<p>Embora a estima, que parecia gosar na corte o Almirante -Rasilly, foi mal succedido em todos os seos projectos -com este fim, e depois que o bravo Ravardiere, preso no -Castello de Belem, recobrou a sua liberdade, nunca mais -regressou á America do sul.</p> - -<p>Apparecem ainda estes dois nomes na historia da nossa -marinha<a id="FNanchor_54" href="#Footnote_54" class="fnanchor">[BB]</a> e de maneira gloriosa, porem na Africa, n’essas -praias doentias, onde para segurança do commercio deviam -ser castigados de vez em quando atrevidos piratas.</p> - -<p>Ravardiere, como acabamos de vêr, empregou gloriosamente -os ultimos annos de sua vida tão activa em favor do -Christianismo, assim como já o tinha feito em prol de sua -patria, faltando-lhe apenas tempo para redigir a Narração -de suas viagens pela America do sul.</p> - -<p>Sabemos com certesa ter ordenado, que se escrevesse -em 1614 um Relatorio minucioso de sua expedição pelo<span class="pagenum"><a id="Page_xlv"></a>[xlv]</span> -Amazonas. Até nós não chegou esta especie de jornal, que -alem de esclarecer muitas coisas, seria tambem de muito -interesse para ser comparado com os documentos fornecidos -n’essa epocha por um francez, cujas viagens mereceo as -honras da impressão.</p> - -<p>Na verdade, dez annos antes, no meiado de 1604, João -Mocquet, o guarda das curiosidades de Henrique IV e de -Luiz XIII, percorreo as margens do Amazonas, e exforçou-se -para fazer conhecer aos seos compatriotas este grande rio. -Infelizmente este pobre cirurgião d’aldeia tinha mais zelo -do que luzes, e por isso não podiam ser suas observações -confrontadas com as de um homem, tão conhecido pela sua -instrucção, como pela sua lealdade.</p> - -<p>A viagem de Ravardiere pelo Amazonas e Maranhão deve -estar minuciosamente descripta na grande chronica dos Padres -da Companhia, existente em Evora.</p> - -<p>Consultando os sabios trabalhos bibliographicos do Sr. Rivara, -n’elles adquirimos esta certesa, pois o Cap. 111 d’este -vasto <i>Cathalogo</i> tracta especialmente do dominio dos francezes -n’essas regiões. Não podemos pessoalmente examinal-o. -Graças ao espirito investigador de tantos sabios historiadores, -ainda não perdemos de todo a esperança de encontrar -o escripto em questão.</p> - -<p>Diariamente emprega o Brazil os mais louvaveis exforços -para colligir documentos inedictos, fontes da sua historia, e -se em alguma livraria por ahi algures fosse descuberta a -<i>Viagem</i> de Ravardiere, serviria, com os escriptos de Claudio -d’Abbeville e de Ivo d’Evreux, de guia seguro para se consultar -relativamente a estas Provincias do norte, das quaes -só se conhecem as explendidas solidões, e cujo passado nos -foi, para assim dizer, revelado pelo nosso Missionario.</p> - -<div class="figcenter" style="width: 100px;"> -<img src="images/footer1.jpg" width="100" height="50" alt="" /> -</div> - -<div class="footnotes"> - -<h3>NOTAS</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_1" href="#FNanchor_1" class="label">[A]</a> A ordem constitutiva do Mosteiro tem a data de 28 de Novembro. -O lugar da escolha foi concedido no anno precedente -por Catharina de Medicis aos Capuchinhos, vindos da Italia, e a -doação foi confirmada por Henrique III em 24 de setembro de -1574. Vide <i>Boverio</i>, Annali di Frati minori.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_2" href="#FNanchor_2" class="label">[B]</a> O <i>Mercure-Galant</i> deo á luz uma descripção, muito curiosa, -da grande botica do Convento.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_3" href="#FNanchor_3" class="label">[C]</a> Em 1617 contavam-se 655 Religiosos nas duas Custodias de -Pariz e de Roão, e entre elles 209 clerigos.</p> - -<p>Em 1685 haviam em França 5:681 Capuchinhos.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_4" href="#FNanchor_4" class="label">[D]</a> Não inventamos: um dos seos mais ardentes admiradores, -tambem Capuchinho, falla d’elle nestes termos: <i>Tantarum segete -scientiarum, factus est dives ut Galliæ Phœnix hac nostra ætate -communiter sit appelatus</i>. Vide o vasto Repertorio de Diniz de -Gênes. <i>Bibliotheca scriptorum ordinis minorum Sancti Francisci -capucinorum.</i></p> - -<p>Wading, mais moderado, contenta-se em chamar o Padre Ivo -de Pariz—<i>egregius concinnator, insignis Capuccinus</i>.</p> - -<p>O autor anonymo dos elogios manuscriptos dos Capuchinhos da -Cidade de Pariz não pôz limites ao seu enthusiasmo, quando disse: -«a natureza parece ter querido exgotar-se, quando cedeo a tão -grande personagem tudo quanto podia dar-lhe com abundancia -de grandeza, tão rara quam admiravel.»</p> - -<p>Nasceo em 1590, Ivo de Pariz, tomou o habito religioso em -27 de setembro de 1620, seis annos depois que o Padre Ivo de -Evreux regressou doente do Brazil, e afinal falleceo em 14 de -ouctubro de 1678.</p> - -<p>Este religioso conseguio imprimir vinte e oito obras de sua lavra, -cujos titulos principaes vamos reproduzir seguindo a ordem -chronologica de suas publicações.</p> - -<p><i>Os felizes resultados da piedade, ou os triumphos da vida religiosa -sobre o mundo, e contra a heresia.</i> 4.ª edicção, Pariz 1634. -2 vol. em 12.</p> - -<p><i>Da indifferença.</i> 2.ª edicção. Pariz. 1640. em 8.º</p> - -<p><i>A theologia natural.</i> Pariz. 1640-1643. 4 T. em 4.º</p> - -<p><i>Astrologiæ novæ methodus et fatum universi observatum, a -Franc Allaeo Arabe Christiano.</i> Pariz. 1654. Temeo este Capuchinho, -apesar de atrevido e credulo, publicar este livro com o -seo nome, e por isso deo-o á luz sob o titulo <i>Fatum Mundi</i>.</p> - -<p><i>Jus naturale rebus creatis á Deo constitutum</i> etc. etc. Parisiis. -1658 in folio.</p> - -<p>O <i>Fatum Mundi</i> foi reimpresso em 1658, e no anno seguinte -appareceu esta obra.</p> - -<p><i>Dissertatio de libro præcedenti ad amplissimos viros senatus -Britanniæ Armoricæ.</i> Parisiis. 1659. in folio.</p> - -<p><i>Digestum sapientiæ in quo hebetur scientiarum omnium rerum -divinarum et humanarum nexus</i> etc. etc. 1654-1659. 3 vol. in -fol, reimpressos com augmentos em 1661.</p> - -<p><i>O Magistrado christão, coordenado pelo Padre Ivo, seo sobrinho.</i> -Pariz. 1688 em 12.</p> - -<p><i>As falsas opiniões do Mundo.</i> Pariz 1688 em 12 etc. etc.</p> - -<p>Vê-se, que não ha analogia alguma entre os estudos d’estes dois -Capuchinhos.</p> - -<p>Uma das obras do Padre Ivo de Pariz foi queimada pela mão do -carrasco.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_5" href="#FNanchor_5" class="label">[E]</a> E não Silvére, como por descuido disse em sua biographia o -veneravel Eyriés. (Vid Mr. Prarond. <i>Les hommes utiles de l’arrondissement -d’Abbeville.</i> 1858—in 8.º)</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_6" href="#FNanchor_6" class="label">[F]</a> Vid o Manuscripto da Bibliotheca mazarina, ja citada, que -tem este titulo «<i>Annales des R. P. Capucins de la Province de -Paris, la mer et la source de toutes celles de ça les monts.</i>» N. 2879 -pet in 4.º</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_7" href="#FNanchor_7" class="label">[G]</a> Francisco de Bourdemare, ou Boudemard, natural de Ruão, -deixou a Provincia, onde gosava sua familia de muita consideração -para em Orleans fazer-se Capuchinho. Como noviço entrou -no Convento d’esta Cidade, em 2 de outubro de 1603, porem é -muito provavel, que voltasse para a Normandia antes de ir residir -no grande Convento da rua de Santo Honorato.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_8" href="#FNanchor_8" class="label">[H]</a> O Padre Leonardo morreu em Pariz com 72 annos de idade, -no dia 4 de setembro de 1640. Antonio Fauro, seo pae, era conselheiro -do parlamento de Pariz.</p> - -<p>O livro dos <i>Elogios-historicos</i>, manuscripto da Bibliotheca Imperial, -o qualifica como «o maior homem, que ja teve, e que nunca -mais terá, a Religião dos Capuchinhos.» Encontra-se elle -outra vez Provincial na rua de Santo Honorato no anno de 1615.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_9" href="#FNanchor_9" class="label">[I]</a> Vide à respeito da expedicção protestante do Sr. Villegagnon, -as Relações circunstanciadas de Niculau Barre, de João de Lery -e do Anonymo conhecido por Chrispim. É certo que estabeleceram -os Calvinistas seo predominio na Bahia do Rio de Janeiro, -porem á elle se podem oppôr diversos pamphletos, escriptos por -causa do Chefe da empresa. Estas peças satyricas fazem parte -das ricas collecções da <i>Bibliotheca do Arsenal</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_10" href="#FNanchor_10" class="label">[J]</a> Como se verá em outro lugar, logo após a publicação da -primeira parte da viagem, a antiga expedição de Ravardière foi -precedida pelas de Riffault em 1594, e de De-Vaux, o companheiro -d’este ultimo, que misturando-se com os Indios dedicou-se muito -ao descobrimento d’este paiz.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_11" href="#FNanchor_11" class="label">[K]</a> Julgamos dever reproduzir aqui o texto d’esta concessão renovada: -não conhecemos o primeiro. «Luiz, a todos os que virem -a presente. Saude. O defunto Rei Henrique, o grande, nosso -muito honrado senhor e pae, a quem Deos perdoe, tendo por Cartas -patentes de julho de 1605 constituido e estabelecido o Sr. de -Revardiere de la Touche, seo lugar-tenente general na America, -desde o rio do Amazonas até a Ilha da Trindade, e havendo elle -feito duas viagens ás Indias para descobrir as enseadas e rios -proprios para o desembarque e estabelecimento de colonias, no -que seria bem succedido, pois apenas chegou n’esse paiz soube -predispôr os habitantes das ilhas do Maranhão e terra firme, os -Tupinambás e Tobajaras, e outros a procurarem nossa protecção -e sugeitarem-se á nossa authoridade, tanto por seo generoso e -prudente procedimento, como pela affeição e inclinação natural, -que n’estes povos se encontram para com a nação franceza, bem -conhecida por elles pela remessa que fizeram dos seos embaixadores, -que morreram apenas chegaram ao porto de Caucalle, e -dos quaes teriamos ainda recebido iguaes protestos, segundo as -narrações feitas pelo Sr. de Ravardiere, tudo isto depois nos daria -occasião de lhe fazer expedir nossas Cartas patentes de outubro -de 1610 para regressar, como Chefe, ao dito paiz, continuar -seos progressos, como teria feito, e ahi demorar-se-ia dois annos -e meio em paz, e 18 mezes tanto em guerra como em treguas -com os portuguezes etc. etc.»</p> - -<p>Guardamos para a proxima publicação do livro de Claudio -d’Abbeville, de que este é o complemento, todas as occorrencias -politicas, relativas á expedicção, e reservamos tambem -para ella os traços biographicos de Razilly, de Ravardiere e de -Pezieux.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_12" href="#FNanchor_12" class="label">[L]</a> Pode-se ler tudo isto minuciosamente na <i>Carta de obediencia</i> -dada ao Padre Ivo na <i>Chronologia historica dos Capuchinhos -da Cidade de Paris</i> pag. 193. Tem a data de 27 de agosto de -1611, e começa assim: «<i>Venerando in Christo Patri Ivoni Ebroiense -predicatori ordinis fratrum minorum Sancti Francisci Capucinorum, -frater Leonardus pariensis ejusdem ordinis in Provincia -parisiensi licet immeritus salutem in domino, in eo qui -est nostra salus</i>».</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_13" href="#FNanchor_13" class="label">[M]</a> Descançam seos restos mortaes no Brazil, pois foi o unico de -seos companheiros, que não voltou á Europa. O padre Ambrosio -de Amiens, pelos seos estudos, tinha-se distinguido na Sorbona, -e quando ia requerer licença para seguir a carreira da magistratura, -ou dedicar-se simplesmente á advocacia, resolveo em 1575 -entrar na Ordem dos Capuchinhos: foi um dos primeiros irmãos, -que tomou o habito no Convento da rua de Santo Honorato, onde -por diversas vezes exerceo o cargo de Guardião.</p> - -<p>Deve-se collocar entre os annos de 1584 e 1586 a epocha das -corajosas dedicações, em que elle afrontou os horrores do contagio -para soccorrer a população parisiense, que então lhe deo o sobrenome -pelo qual era conhecido. A sua idade, ja avançada, devia -isental-o d’esta viagem, porem não foi possivel resistir-se ás -suas instancias, e nem a todos os meios, que empregou para fazer -parte d’essa missão, que foi de grande utilidade.</p> - -<p>Vêde o <i>Manuscripto</i> da Bibliotheca Imperial intitulado «<i>Eloges -historiques de tous les grands hommes, et de tous les illustres religieux -de la Province de Pariz</i>.»</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_14" href="#FNanchor_14" class="label">[N]</a> O Padre Honorato de Champigny morreo com cheiro de Santidade -em 1621.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_15" href="#FNanchor_15" class="label">[O]</a> Sabemos d’esta obra por Guibert apenas, pois nenhuma outra -bibliographia especial a menciona. Bourdemare publicou suas -observações sob o titulo <i>Relatio de populis brasiliensibus</i>. Madrid. -1617 in 4.º Leon Pinelli falla de Frei J. Francisco de Burdemar -(assim escreveo elle) como falla de Ivo d’Evreux por ouvir dizer. -Affirma o <i>Livro dos elogios</i> ter emprehendido duas viagens á -America, e afinal que morrera como <i>forasteiro</i> n’um dos Conventos -da sua Ordem em Hespanha, um anno antes da publicação do seo -livro. Parece-nos, que a expressão pelo biographo usada da palavra -espanhola—<i>forasteiro</i>, quer dizer pura e simplesmente—<i>estrangeiro</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_16" href="#FNanchor_16" class="label">[P]</a> O Padre Arsenio de Pariz tambem não tardou em deixar o -Brasil, porem o triste resultado dos negocios do Maranhão não arrefeceu -o seo zelo pelas missões. Foi para o Canadá onde prégou -aos Hurons depois de haver convertido os Tupinambás.</p> - -<p>Foi Superior das missões da America do Norte por cinco annos -e depois morreo no grande Convento de Pariz, em 20 de Junho -de 1645 contando 46 annos de habito. É muito provavel, que tivesse -por successor na America o Padre Angelo de Luynes, -Guardião de Noyon, pois foi Commissario e Superior das missões -do Canadá em 1646.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_17" href="#FNanchor_17" class="label">[Q]</a> O Convento dos Capuchinhos da Cidade d’Evreux foi edificado -em 1612 «na extremidade de um suburbio da cidade do lado -do meio dia, devido em parte aos cuidados e á liberalidade de -João le Jau, então grande penitenciario e vigario geral da diocese.» -Vide <i>Histoire civile et ecclesiastique du comté d’Evreux</i>, -pag. 365. O abbade Lebeurier, cujas luzes e zelo archiologico -são conhecidos, prestou-se a fazer a este respeito todas as pesquizas -possiveis, porem, infelizmente, debalde.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_18" href="#FNanchor_18" class="label">[R]</a> O manuscripto que temos á vista, e que dá conta summaria -da viagem de Arcanjo de Pemuroke, não nos diz claramente o -nome da localidade onde saltaram os Missionarios, e por isso nos -limitamos a transcrever a narração do seo desembarque: «foram -alguns soldados á terra, e acharam diversos obstaculos, que nos -pareceram máos prognosticos, como fossem alguns portuguezes e -um sacerdote secular, que assolavão os gentios contra os francezes, -e do <i>Forte</i> souberam nossos soldados, que os portuguezes projectavam -tomar a costa do Maranhão, e d’ella expellir os francezes, o -que fez suspeitar aos Padres que poucos fructos aqui colheriam:» -<i>Ms. da herdade dos Capuchinhos da rua de Santo Honorato</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_19" href="#FNanchor_19" class="label">[S]</a> Circumscripto a um pequeno quadro, apenas podemos dar -mui summariamente a descripção dos acontecimentos, que deram -em resultado o abandono do Maranhão pelos francezes.</p> - -<p>Acabou-se tudo em 21 de novembro de 1614, depois da batalha -onde falleceu o infeliz Pézieux.</p> - -<p>Alem da grande <i>Memoria</i> publicada pela Academia Real das -Sciencias de Lisboa á respeito d’esta expedicção, encontram-se -mais amplas informações sobre este periodo da historia do Maranhão -e suas missões pelos Jesuitas na vasta e preciosa publicação -do Dr. A. J. de Mello Moraes, intitulada «<i>Corographia historica, -chronologica, genealogica, nobiliaria e politica do Imperio do -Brasil</i>.» (Vide o Tomo 3º, publicado em 1860).</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_20" href="#FNanchor_20" class="label">[T]</a> Sua morte está marcada nos <i>Obituarios</i> da Ordem no dia -29 d’Agosto de 1632, isto é, no anno em que foi celebrado o tractado -de Castelnaudary.</p> - -<p>Contava n’esse tempo 47 annos de Religião, e n’ella sempre foi -conhecido pelo <i>Religioso escossez</i>, embora pertencesse realmente -a uma familia gaulesa.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_21" href="#FNanchor_21" class="label">[U]</a> Ordinariamente calam os historiadores esta ultima circumstancia, -e não se encontra nem se quer referida summariamente e -sem commentarios senão na collecção diplomatica (Quadro elementar) -do Visconde de Santarem. A Carta authographa, que -prova o captiveiro de Ravardiere existe na <i>Bibliotheca da rua Richelieu</i>, -onde a vimos. Ella contraria, repita-se, o que se passou -um anno antes no campo de Jeronymo d’Albuquerque. Está escripta -com muita moderação, e foi derigida a M. de Puysieux -(Vid <i>fonds franç.</i>—Nº 228—15 p. 197.)</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_22" href="#FNanchor_22" class="label">[V]</a> Informações inexactas sem duvida fizeram com que Mr. Ferdinand -Diniz mencionasse aqui este facto, nunca acontecido.—Do traductor.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_23" href="#FNanchor_23" class="label">[W]</a> Lembro-me com prazer duma delicada expressão do sabio -Augusto de Saint Hilaire.</p> - -<p>Lery, como se sabe, viajou pelo Rio de Janeiro no tempo de -Villegagnon, isto é em 1556. A primeira edicção da sua interessante -narrativa somente appareceu em 1571. Nosso Ivo d’Evreux, -cujo estylo tem tantos pontos de contacto com o d’este escriptor, -leria seo livro? N’elle nada encontramos, que nos leve a responder -pela afirmativa. Multiplicaram-se porem as edicções de Lery -e a tal ponto, que a quinquagesima e ultima foi em 1611.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_24" href="#FNanchor_24" class="label">[X]</a> Este projecto de dupla aliança entre as duas corôas ja era de -1612, porem foi annunciado officialmente em 25 de Março do -mesmo anno, mas só foi executado d’ahi ha tres annos.</p> - -<p>Partiram os Missionarios a 19 de Março. Os esponsaes do rei -de França com a infanta ainda não preocupavam os espiritos -como depois aconteceo, por exemplo, em 1615.</p> - -<p>Todos os factos relativos aos dois reinados são minuciosamente -descriptos no livro intitulado «<i>Inventaire generale de l’histoire de -France par Jean de Serre, commençant á Pharamond et finissant -á Louis XIII</i>. Paris, Mathurin Henault, in 18. (Vid o T. VIII).</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_25" href="#FNanchor_25" class="label">[Y]</a> Podia ainda ver-se, ha alguns mezes atraz, na casa de um -vendedor de curiosidades, da rua do Petit Leon, um desenho attribuido -a Luiz XIII, quando menino, representando muito bem a -figura d’um Tupinambá enfeitado com pinturas exquisitas.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_26" href="#FNanchor_26" class="label">[Z]</a> Devo ainda a Mr. Ferdinand Diniz a seguinte communicação, -feita em carta, por mim sempre muito presada, de 16 de setembro -de 1873.</p> - -<p>«O segundo exemplar conhecido da obra do Padre Ivo d’Evreux -pertence ao Sr. Dr. Court, habil e zeloso bibliographo e possuidor, -por sua fortuna, de grandes raridades.</p> - -<p>«Tive em minhas mãos este precioso exemplar, que custou 800 -francos.</p> - -<p>«Tem mais duas ou tres folhas do que o da Bibliotheca Imperial.</p> - -<p>«O feliz possuidor do exemplar conhecido mora em Pariz, <i>rue -du Centre n. 4</i>; actualmente anda viajando em beneficio da saude -alterada de um seo irmão, porem quando elle voltar, irei de novo -visitar seo thesouro.»—Do traductor.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_27" href="#FNanchor_27" class="label">[AA]</a> É geral a obscuridade, que reina sobre a biographia d’estes -antigos viajantes, tão importantes debaixo do ponto de vista da -historia. O veneravel Eyriés, que citamos as vezes, é bem pouco -baseiado em suas ideias, por exemplo, quando affirma que Claudio -d’Abbeville viveo até 1632, quando os Manuscriptos da casa -de Santo Honorato o dão por fallecido em Ruão no anno de 1616 -com 23 annos de religião.</p> - -<p>Tambem não é exacto o attribuir-se-lhe a <i>Vida da bemaventurada -Coletta</i>, virgem da Ordem de Santa Clara, pois appareceo -este livro em 1616, em 12, e em 1628 em 8º: as iniciaes, que traz -no frontespicio bem poderiam evitar este engano, na verdade pequeno.</p> - -<p>O opusculo, de que estamos tractando, acha-se na <i>Bibliotheca -do Arsenal</i>, onde o examinamos.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_28" href="#FNanchor_28" class="label">[AB]</a> Essa compilação, verdadeiramente curiosa, começou em 18 -de novembro de 1709, e se compunha outr’ora de 3 vol. em 4.º. -O T. 1º, infelizmente perdido, continha os <i>Annaes da Provincia</i>, -e provavelmente ficamos privados de algumas preciosas particularidades -sobre a missão do Padre Ivo: tinha o titulo de—<i>Capuchinhos -da rua de Santo Honorato</i>, 4.º (Ter.)</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_29" href="#FNanchor_29" class="label">[AC]</a> O Padre Pascoal d’Abbeville foi eleito 19º Provincial do Convento -da rua de Santo Honorato: a divisão havida em 1629 foi -provavelmente por causa do numero sempre crescente de Religiosos -nos tres Conventos de Pariz.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_30" href="#FNanchor_30" class="label">[AD]</a> Em geral não são conhecidos estes versos de Ronsard, derigidos -ao fundador da França antarctica, a essa personagem voluvel, -ora huguenote, ora fervoroso catholico; cujas severidades excentricas -Lery evitou fugindo para as mais longinquas florestas:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0">Douto Villegaignon, como te enganas!</div> - <div class="verse indent0">Tu pretendes em vão tornar ameno</div> - <div class="verse indent0">D’America o viver estranho e rude...</div> - <div class="verse indent0">Acaso não vês tu que a nova gente</div> - <div class="verse indent0">Tão nua é no trajar como no peito</div> - <div class="verse indent0">É nua de malicia?—que não sabe</div> - <div class="verse indent0">Ao vicio e á virtude o nome ao menos?</div> - <div class="verse indent0">—Que não sonha com Reis nem com Senados,</div> - <div class="verse indent0">E, isenta do temor, das leis ao jugo,</div> - <div class="verse indent0">Á mercè das paixões a vida passa?</div> - <div class="verse indent0">Ignoras, por ventura, que ahi mostra-se</div> - <div class="verse indent0">Cada homem de si livre senhor;</div> - <div class="verse indent0">e Leis, Senádos, Reis, em si resume?</div> - <div class="verse indent0">Não é a terra e o ar commum a todos?</div> - <div class="verse indent0">Vê-se, áquella, cobrir ferro importuno</div> - <div class="verse indent0">O seio virginal de longos sulcos?...</div> - <div class="verse indent0">Commum é tudo ahi, como dos rios</div> - <div class="verse indent0">São as aguas perennes que trasbordam</div> - <div class="verse indent0">Sem processo intentar de plena posse.</div> - <div class="verse indent0">Oh, não queiras, por isso, dessa gente</div> - <div class="verse indent0">O repouso turbar dos velhos usos!</div> - <div class="verse indent0">Si ha remorso em tua alma, em paz os deixa;</div> - <div class="verse indent0">Não procures, p’ra os campos estenderem.</div> - <div class="verse indent0">Ensinar-lhes á terra pôr limites!</div> - <div class="verse indent0">Choverão os processos, e a fraude</div> - <div class="verse indent0">Á amisáde terá então de unir-se!</div> - <div class="verse indent0">Logo após, d’ambição o duro espinho</div> - <div class="verse indent0">(Como a nòs acontece, desgraçados!)</div> - <div class="verse indent0">Tormento lhes será—negro, incessante.</div> - <div class="verse indent0">—Seu repouso não quebres: são felizes;</div> - <div class="verse indent0">Elles gosam na terra a edade d’oiro.</div> - <div class="verse right">(Traducção do Sr. J. T. de Souza.)</div> - </div> -</div> -</div> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_31" href="#FNanchor_31" class="label">[AE]</a> Vide a «Correspondencia e a Collecção Peiresc.»</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_32" href="#FNanchor_32" class="label">[AF]</a> Este estimavel escriptor deo d’isto uma prova no seo poema -da primeira semana, somente impresso em 1610 embora fallecesse -seo auctor em 1599.</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0">Ja o ardente Cocuyo á Nova Espanha</div> - <div class="verse indent0">Vai nas azas dois fachos conduzindo,</div> - <div class="verse indent0">Outros dois flamejando ergue na fronte.</div> - <div class="verse indent0">Á luz d’este esplendor de regios leitos</div> - <div class="verse indent0">Nos cortinados arabescos pintam-se,</div> - <div class="verse indent0">Á luz d’este esplendor em noite negra</div> - <div class="verse indent0">O habil artesão o marfim pule,</div> - <div class="verse indent0">Conta o avaro, no cofre, seu thesouro,</div> - <div class="verse indent0">Veloz o escriptor a penna guia.</div> - <div class="verse right">Traducção do Sr. J. T. de Souza.</div> - </div> -</div> -</div> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_33" href="#FNanchor_33" class="label">[AG]</a> <i>Narrativa epistolar de uma viagem e missão jesuitica pela -Bahia, Porto Seguro, Pernambuco, Espirito Santo, Rio de Janeiro, -etc. escripta em duas cartas ao Padre Provincial em Portugal</i>. -Lisboa. 1847 em 8.º</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_34" href="#FNanchor_34" class="label">[AH]</a> <i>Tratado descriptivo do Brasil em 1587</i>, etc. Rio de Janeiro, -1851 em 8.º Foram estas duas obras exhumadas pelo Sr. F. A. -de Varnhagem, historiador tão conhecido do Brasil. Esta ultima -obra, de que existe um Manuscripto na <i>bibliotheca imperial</i> de -Pariz foi tambem reproduzida por seo habil edictor na <i>Revista</i> -trimensal. Morreo Gabriel Soares em 1591 n’uma praia deserta, -após deploravel naufragio: como se vê foi quasi contemporaneo -de Ivo d’Evreux.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_35" href="#FNanchor_35" class="label">[AI]</a> Affirma Berredo ser este indio um amigo dedicado dos franceses, -porem melhor informado o <i>Jornal de Timon</i> nos deo o -nome deste selvagem, educado nas missões do Sul. Ja se vê, que -não podia ter muita affeição aos francezes.</p> - -<p>Para urdir este horrivel estratagema, basta somente o odio, -que nutriam certos indios contra os dominadores do seo paiz, não -sendo necessario ser filho de Ruão ou de Rochelles.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_36" href="#FNanchor_36" class="label">[AJ]</a> Vide <i>Berredo, Annaes historicos do Maranhão</i>, e tambem o -<i>Jornal de Timon</i> de J. Lisboa, ns. 11 e 12, 1858, Lisboa. Diz -este escriptor ter fallecido Jeronimo d’Albuquerque em 1618 succedendo-lhe -no governo seo filho Antonio d’Albuquerque.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_37" href="#FNanchor_37" class="label">[AK]</a> Partiram para Goiana em 1635 os Missionarios da Ordem dos -Capuchinhos, cujos trabalhos podem ser vistos nos manuscriptos -legados pelo grande Convento de Pariz.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_38" href="#FNanchor_38" class="label">[AL]</a> Vide a respeito d’estes povos a rapida visita, que lhes fez -Castelnau em 1851: <i>Expedicção scientifica nas partes centraes -d’America do Sul</i>. T. 2º pag. 316.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_39" href="#FNanchor_39" class="label">[AM]</a> Vide <i>Trabalhos da Commissão scientifica de exploração</i>. Rio -de Janeiro. Typ. de Laemmert—1862 in 4.º</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_40" href="#FNanchor_40" class="label">[AN]</a> Na <i>Corographia historica</i> do Dr. Mello Moraes encontram-se -noticias minuciosas sobre as missões dos jesuitas e administração -dos indios no Maranhão. Desde o principio do seo T. 3º teve este -escriptor o cuidado de confessar o immenso auxilio, que lhe prestaram -as obras doadas ao Instituto Historico do Rio de Janeiro -pelo conselheiro Antonio de Vasconcellos de Drumond e Menezes. -Em suas longas viagens, o diplomata, a quem se deve tão preciosas -informações sobre a Africa, não se limitou a estas investigações, -pois ainda colheu muitos manuscriptos á respeito do Brazil, -que hoje servem de base ao historiador.</p> - -<p>Cego ha muitos annos, faz ainda muita honra á sua patria.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_41" href="#FNanchor_41" class="label">[AO]</a> Tres annos antes da partida dos Capuchinhos para Maranhão, -o padre du Jarric dedicava ao Rei menino o seguinte livro: «<i>Segunda -parte da historia das coisas mais memoraveis, acontecidas -tanto nas indias orientaes como nos outros paizes descubertos pelos -portuguezes, no estabelecimento e progresso da fé christan e -catholica, e principalmente do que fizeram e soffreram os religiosos -da companhia de Jesus para este fim ate o anno de 1600</i>» pelo -Padre Pedro du Jarric, da mesma companhia em Bordeaux, Simon -Mellange. 1610 em 4.º Tudo quanto diz respeito ao Brazil -acha-se n’este vasto resumo desde pag. 248 até 359, porem deve -procurar-se os factos curiosos, citados n’esta noticia no livro 5º -do que o auctor chamou <i>Historia das Indias Orientaes</i>, parte 3ª -pag. 490.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_42" href="#FNanchor_42" class="label">[AP]</a> Desta primeira edicção, publicada em 1621, tornou-se, para -assim dizer, impossivel ser encontrado um sò exemplar.</p> - -<p>A segunda edicção sahio com o titulo <i>Arte de grammatica da -lingua brasilica do padre Luiz Figueira, Theologo da Companhia -de Jesus</i>. Lisboa, Miguel Deslande, anno 1687, pet. em 12.º O -sabio bibliographo portuguez o Sr. Innocencio Francisco da Silva -não reproduz exactamente este titulo, porem menciona uma edicção -da Bahia em 1851 pelo Sr. João Joaquim da Silva Guimarães, -cujo titulo é muito extenso.</p> - -<p>A grammatica do Padre Anchieta—<i>Arte da grammatica da lingua -mais usada na costa do Brasil</i>, appareceo em Coimbra no -anno de 1595, em 8º, e d’ella em Portugal apenas se conhece um -exemplar.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_43" href="#FNanchor_43" class="label">[AQ]</a> Santo Eloy, perto de Gisors, no destricto de Euro, é uma povoação -de 381 habitantes, á 25 kil. de Andelys.</p> - -<p>Ha tambem Santo Eloy de Fourques, aldeia do Euro, a 25 kil. -de Bernay.</p> - -<p>Estamos propensos a crer, que foi na primeira, onde residio o -nosso Missionario.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_44" href="#FNanchor_44" class="label">[AR]</a> Vide <i>Bibliographia Normanda</i>.</p> - -<p>Derigimo-nos directamente á douta officiosidade do Sr. Frère -afim de obtermos o conhecimento do <i>Supplemento necessario</i>, porem -apesar de constantes investigações vio-se na impossibilidade -de nos dar outras noticias alem das que colhemos em sua excellente -obra.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_45" href="#FNanchor_45" class="label">[AS]</a> Quevilly, <i>Clavilleum</i>, povoação do Senna inferior, distante -de Ruão apenas 6 kil. e faz parte do districto de Grande Couronne.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_46" href="#FNanchor_46" class="label">[AT]</a> Mais tarde foi chamado Maximiliano de Baux para encarregar-se -da egreja do culto reformado em Ruão, viveo até a idade -de 84 annos, e falleceo em 1674 deixando reputação de homem -recto, e de costumes austeros.</p> - -<p>Vide os irmãos Haag, a <i>França protestante</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_47" href="#FNanchor_47" class="label">[AU]</a> <i>Cupucinorum Annales</i>. Lugduni, 1632, em fol. e depois a traducção -italianna—<i>Annali di Fratri minori Cappucini</i> etc. Venetia -1643 em 4.º</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_48" href="#FNanchor_48" class="label">[AV]</a> <i>Annales seu sacrarum historiarum ordinis minorum sancti -Francisci qui Capucini nuncupantur</i> etc. Lugduni. 1676.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_49" href="#FNanchor_49" class="label">[AW]</a> <i>Annales ordinis minorum</i>. 2.ª edic., Roma, 1731. -Depois os <i>Scriptores ordinis minorum</i>. 1650, em fol.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_50" href="#FNanchor_50" class="label">[AX]</a> <i>Bibliotheca scriptorum ordinis minorum</i>, Genova, 1680 em -4.º, reimp. em 1691 in fol. Este ultimo depois de algumas linhas, -em que fallou do merecimento de <i>Ivo Ebroycensis, vulgo de -Evreux</i>, dá tambem noticia do seu livro: <i>scripsit gallicé Relationem -sui itineris et navigationis sociorum que Capucinorum ad -regnum Marangani: cui etiam adjunxit historiam de moribus illarum -nationum</i>. Rothomagi. 1654. Vid T. 1º em 4.º</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_51" href="#FNanchor_51" class="label">[AY]</a> <i>Historia da Normandia</i>. T. VI pag. 414. Masseville prova -com toda a evidencia ter se contentado com traduzir o Padre Diniz -de Gênes, pois disse ter o nosso Missionario, «dado uma Relação -geographica das regiões, por onde se embrenhou, e particularmente -do paiz do <i>Marangan</i>». <i>Regni Marangani</i>, escreveo -seo predecessor.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_52" href="#FNanchor_52" class="label">[AZ]</a> Vede este precioso manuscripto na Bibliotheca de Caen. -Uma bibliotheca americana organisada pelo coronel Antonio de -Alcedo. Madrid. 1791, 2 vol. em 8º, não menciona o Padre Ivo, -causando-nos tal omissão pouco desgosto, á vista de se dizer ahi -haver o Padre Claudio d’Abbeville, seu companheiro, convertido -com infatigavel zelo os selvagens do Canadá!</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_53" href="#FNanchor_53" class="label">[BA]</a> A primeira edicção do <i>Epitome</i>, hoje rarissima por ter sido -suprimida por ordem da Inquisição, só traz no seu titulo aberto a -gravura o anno da impressão 1629 e o nome de <i>Antonio de Léon</i>, -e não o de Pinelo. Não falla de Ivo d’Evreux, isto é, deste livro, -que pertence a Bibliotheca de Santa Genoveva. Na edicção em 3 -vol. pequenos em fol., por Barcia, assim menciona invertendo o -seu titulo: <i>Fr. Ivon d’Evreux, capuchino. Relacion de su viage -al Reino de Marangano, com sus companeros: historia de los costumbres -de aquellas naciones</i>. Imp. em 1654 em 4º francez.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_54" href="#FNanchor_54" class="label">[BB]</a> Isaac de Razilly, cavalleiro da ordem de São João de Jerusalem, -primeiro capitão do almirantado de França, chefe d’esquadra -da armada real na provincia da Bretanha, foi nomeiado almirante -da frota real, em expedicção nas costas da Barbaria no anno -de 1630, e adjunto de Ravardière: em 3 de septembro d’esse -mesmo anno estava elle em Safy resgatando captivos.</p> - -</div> - -</div> - -<hr class="chap" /> - -<div class="tp"> - -<p class="titlepage larger">CONTINUAÇÃO<br /> -<span class="larger">DA HISTORIA</span><br /> -DAS COISAS MAIS MEMORAVEIS<br /> -<span class="smaller">HAVIDAS EM</span><br /> -MARANHÃO<a id="Nanchor_1" href="#Note_1" class="fnanchor">[1]</a><br /> -<span class="smaller">NOS ANNOS DE 1613 A 1614</span></p> - -<p class="titlepage">SEGUNDO TRATADO</p> - -<p class="titlepage">PARIZ.<br /> -<span class="smaller">IMPRENSA DE FRANCISCO HUBY</span><br /> -RUA DE SÃO THIAGO, NA BIBLIA DE OIRO, E NA SUA OFFICINA<br /> -<span class="smaller">NO PALACIO DA GALERIA DOS PRESIONEIROS</span><br /> -MDCXV<br /> -<span class="smaller">COM PRIVILEGIO DO REI</span></p> - -</div> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_1"></a>[1]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="AO_REI_I">AO REI</h2> - -</div> - -<p class="noindent"><span class="smcap">Senhor.</span></p> - -<p>O que eu pude por meios subtis saber á respeito do livro -do Rvd. Padre Ivo d’Evreux, supprimido por fraude e impiedade -mediante certa quantia dada ao impressor Francisco -Huby,<a id="Nanchor_2" href="#Note_2" class="fnanchor">[2]</a> ponho agora na presença de V. Magestade, dois annos -e meio depois do seu apparecimento, tão injustamente -supprimida apenas veio a luz, afim de que V. M. e a Rainha -sua Mãe, então regente, não visse a verdade tão clara, como -ahi estava, e fosse mais facilmente illudida sua boa fé, por -meio de falsas informações para que, contra suas santas e -boas intenções, deixasse morrer a empresa, mais cheia de -piedade e honra, que então se podia executar no novo -Mundo, como se conhecerá tanto pela obra do Padre Claudio -d’Abbeville, como por esta, embora incompleta por faltar a -maior parte do Prefacio e alguns capitulos no fim.</p> - -<p>Praticaram estes actos com intenção de perder V. M. o titulo -de Rei Christianissimo forçando-o a abandonar os sacrificios, -e as obrigações contrahidas para com os novos christãos, -a reputação de suas armas e bandeiras, a utilidade -vossa e de vossos subditos, proveniente de um paiz tão rico -e fertil, um porto tão importante como proprio á navegação -de longo curso, hoje deteriorado, e tudo o mais adquerido -com muitas despezas e cuidados.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_2"></a>[2]</span></p> - -<p>Para chegar-se a este ponto necessario foi recorrer á duas -imposturas, muito bem conhecidas por pessoas de bom senso: -uma foi de dizer-se que este paiz nada produzia, e nem tinha -riqueza alguma, contra a verdade geralmente sabida: a -outra foi de serem os indios incapazes de receberem a luz -do Christianismo em opposição á palavra de Deos e á doutrina -universal da Igreja.</p> - -<p>Eis como, Senhor, acabou-se esta excellente empresa tão -bem começada, sendo tão triste resultado devido a fraude -e a malicia d’aquelles, que, desejando occultar seos defeitos, -os atiravam sobre o paiz, que por negligencia dos maus -francezes, cuidadosos só do seo proveito e interesse particular, -se esqueceram do de V. M., embaraçando perda tão -notavel, ludibrio hoje de todas as nações estrangeiras, menoscabo -de vossa auctoridade real em toda a Europa, e de -dôr a todos os vossos bons subditos. Quando V. M. quizer -sahir d’estas illusões, aconselhado por pessoas honradas, e -reconhecidas pelo seu zelo ao augmento da gloria de Deos, -e do vosso reinado, eu vos offereço ainda a minha vida e a -de meus irmãos, fazendo conhecer, com a nossa pouca pratica -e experiencia, por todos os cantos do novo Mundo, que -em toda a christandade não ha um Monarcha tão grande e -poderoso, como um Rei de França, quando elle quizer empregar -não seo poder, e sim apenas sua authoridade.</p> - -<p>Eis, Senhor, tudo o que pode um dos vossos mais humildes -subditos, que, embora tenha soffrido, durante vossa minoridade, -maos tractos, perda de bens e de fortuna, ainda -tem coragem bastante para vos servir com dedicação.</p> - -<p>Estou certo de acolherdes meos serviços, e o voto solemne, -que faço de ser até o fim de minha vida,</p> - -<p>Vosso humillissimo e obedientissimo servo e subdito</p> - -<p class="right"><i>Francisco de Rasilly</i>.</p> - -<div class="figcenter" style="width: 100px;"> -<img src="images/footer2.jpg" width="100" height="50" alt="" /> -</div> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_3"></a>[3]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="AO_REI_II">AO REI</h2> - -</div> - -<p class="noindent"><span class="smcap">Senhor.</span></p> - -<p>A principal razão, que moveo os antigos a collocar entre -os Deoses a maior parte dos seos Imperadores, foi o espirito -religioso d’elles manifestado durante a vida.</p> - -<p>Coisa notavel na historia: ainda que alguns imperadores -levantados da infima classe até ao cume do poder, se tenham -mostrado crueis e sanguinarios para com seos subditos, -comtudo alcançaram, após sua morte, o nome de Deoses, -tiveram Templos e altares, sacrificios e sacerdotes, creados -e nomeados pelo senado em virtude da piedade e da -religião, que conservaram inalteraveis no meio dos seos muitos -defeitos.</p> - -<p>Estes monarchas, grandes em dominio e pequenos no conhecimento -do verdadeiro Deos, tinham innato em seo coração -o amor pela Magestade divina, de que são viva imagem -todos os monarchas, e por isso lhes pertence estender -o reino de Deos como seos Loco-tenentes.</p> - -<p>Com esta intenção espalhavam arcos e tropheos, columnas -e imagens para o ensino da religião, e á posteridade -legavam chapas e laminas de metaes indistructiveis, como -sejam o bronze, o ouro, e a prata, onde se viam gravadas -as suas imagens, e com ellas alguns vestigios da sua piedade, -cuja memoria o tempo não póde destruir.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_4"></a>[4]</span></p> - -<p>Antonino, o pio, assim deixou buriladas em bronze e prata, -sua caridade e religião representadas na imagem de uma -mulher, vestida como Deosa, tendo em frente um altar onde -se achava um pouco de fogo ardendo constantemente, e no -qual ella derramava á todo o instante, como em sacrificio, -oleos odoriferos, mostrando com isto a Piedade e Religião, -que consagrava aos Deoses.</p> - -<p>Si a inclinação natural, sem o auxilio da graça e da luz -sobrenatural, podesse tanto no coração d’estes monarchas, o -que podemos dizer e pensar quando Deos inspira o coração -dos reis illustrados e ricos da verdadeira religião?</p> - -<p>Luiz 4.º, imperador, principe virtuoso e geralmente estimado -á todas as suas occupações preferia a Religião, e para -animar todos os seos subditos á imital-o, mandou cunhar o -dinheiro com a figura de um templo atravessado por uma -cruz, e ao redor lia-se a inscripção—<i>Christiana Religio</i>.</p> - -<p>O que excedeo, Senhor, a todos os Monarchas do Mundo, -em piedade, e religião, foi São Luiz, a honra dos francezes, -e de quem herdastes sangue e sceptro, nome e imitação de -suas virtudes, porque não só empregou seos thesouros e sua -nobresa, mas tambem sua pessoa, atravessando mares, (mares, -que, como a morte, não fazem distincção quando querem -involver alguem nas suas ondas) afim de erguer a piedade -e a religião, abatidas pela crueldade dos infieis, e -n’esta tarefa morreu.</p> - -<p>Até hoje ainda não houve seculo algum de Rei, tão parecido -com o do bom São Luiz, como o vosso, Senhor, e -deixando á parte o que não vem a proposito, eu tomarei -somente este bello feito, com que imitastes sua piedade e -religião, para com esses pobres selvagens, desejosos em extremo -de conhecerem a Deos, e de viverem á sombra de -vossas luzes, como sejam os habitantes de <i>Maranhão</i>, de -<i>Tapuytapera</i>, de <i>Cumã</i>, de <i>Cayté</i>, do <i>Pará</i>, alem dos <i>Tabaiares</i> -e os <i>Cabellos-compridos</i> e muitas outras Nações, -que muito ambicionavam aproximarem-se dos Padres, como -direi adiante.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_5"></a>[5]</span></p> - -<p>Tudo isto, Senhor, só vós podeis, porque os indios naturalmente -gostam dos francezes e aborrecem os portuguezes: -os nossos religiosos apenas podem arriscar suas vidas para -convertel-os, porem pouco duraria isto a não ser a vossa -real piedade.</p> - -<p>Não é empresa tão difficil como se calcula, e nem tão -cheia de cuidados e de gostos, como se suppõe: não serão -precisos 500 ou 1:000 escudos, pois basta mediocre liberalidade, -porem bem administrada para a sustentação do seminario, -onde se devem educar os filhos dos selvagens, -unica esperança da firmesa da religião n’aquelle paiz.</p> - -<p>Si V. M., Senhor, se resolver a fazer isto, asseguro-vos -que o vosso exemplo será imitado por muitos Principes e -Princezas, Senhores e Damas, que contribuirão com alguma -coisa para o augmento da fé n’aquelles logares.</p> - -<p>Para que eu não canse a V. M. com desagradavel prolixidade, -acabarei com esta historia evangelica da pobre Chananea, -reputada como cadella, a qual pedia, para livrar sua -filha do poder do Diabo, apenas as migalhas, que cahiam da -meza real do Redemptor.</p> - -<p>Descende do mesmo Pae de Chananéa esta nação de selvagens, -e seos filhos estão no dominio do diabo, como infieis: -ella não pede nem vossos thesouros, e nem grande -quantia, e sim apenas as migalhas superfluas, que cahem, -aqui e ali, da vossa real grandesa.</p> - -<p>Por tudo isto, Senhor, eu humildemente vos supplico, que -olheis com bons olhos para esta pobre Nação, e que recebaes -com animo bem disposto este pequeno <i>Tratado das -coisas mais notaveis acontecidas durante a minha residencia -entre elles por espaço de dois annos</i>, conforme as ordens -da Rainha vossa Mãe, dadas aos nossos Rvds. Padres, -que procurei cumprir tanto quanto me foi possivel, como -vereis quando lerdes essa minha obra, cujo trabalho, si -merecer a vossa approvação, dar-me-hei por muito bem recompensado -em quanto viver, e toda a existencia, que por<span class="pagenum"><a id="Page_6"></a>[6]</span> -Deos me fôr concedida, eu a empregarei em servir fielmente -a V. M., como aquelle que é e sempre será de</p> - -<p class="center">V. M. subdito muito humilde e fiel,</p> - -<p class="right">Frei <i>Ivo d’Evreux</i>, Capuchinho.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h2 class="nobreak">ADVERTENCIA AO LEITOR.</h2> - -</div> - -<p class="noindent"><span class="smcap">Amigo leitor</span>.</p> - -<p>Advirto-vos, que não repetirei aqui coisas ja escriptas pelo -Padre Claudio d’Abbeville na sua <i>Historia</i>, e somente accrescentarei -o que mais do que elle soube por experiencia, pois -eu estive em Maranhão dois annos completos e elle apenas -quatro mezes: verificareis esta verdade, comparando os nossos -escriptos, e facilmente descobrireis o que augmentei.</p> - -<div class="figcenter" style="width: 100px;"> -<img src="images/footer3.jpg" width="100" height="75" alt="" /> -</div> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_7"></a>[7]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="PREFACIO">PREFACIO<br /> -<span class="smaller">A RESPEITO DOS DOIS SEGUINTES TRATADOS.</span></h2> - -</div> - -<p>A <i>Sapiencia</i> nos <i>Proverbios</i> 29, apresenta um ensino allegorico, -muito bonito, n’estas palavras: <i>pauper et dives -obviaverunt sibi, utriusque illuminator est Dominus</i>: vi o -pobre sahindo do Hospital cuberto de chagas e ulceras, carregado, -e não vestido, de trapos, caminhar pela praça publica -e entrar no Templo do Senhor pela porta do meio-dia: -na mesma occasião vi o rico sahir do seu palacio, vestido -de seda e carregado de ouro, prata, e pedras preciosas, caminhando -pela estrada que vae dar á porta do Tabernaculo -pelo lado do Septentrião, tão a proposito, que um e outro, -o pobre e o rico, se encontraram frente a frente, bem no -centro da grande cortina do <i>Sancta Sanctorum</i>, onde a face -do Senhor espalha tão bella claridade, que o rosto d’estas -duas pessoas brilhavam com o mesmo esplendor divino.</p> - -<p>Vejamos o que quer dizer a <i>Sapiencia</i> na obscuridade -d’estas palavras.</p> - -<p>Deixemos as diversas explicações mysticas e espirituaes, -que d’ellas se podem deduzir, e tomemos somente a que nos -pode servir em relação ao que escrevemos no frontespicio -do nosso livro.</p> - -<p>O pobre é o padre São Francisco e os Religiosos da sua -Ordem: o rico é o poder real de Vossa Magestade Christianissima, -proveniente do ramo sagrado do Rei São Luiz. -Quando e onde se encontraram este pobre e este rico? Foi<span class="pagenum"><a id="Page_8"></a>[8]</span> -sem a menor duvida na missão evangelica para converter -os indios. Entre os dois estava Deos, o grande illuminador -dos peccadores nas trevas da morte.</p> - -<p>O pobre São Francisco na conversão dos gentios fez nas -Indias o que disse São Paulo:—<i>ego plantavi</i>, plantei a fé entre -os selvagens do Maranhão: São Luiz, protector da França, -e avô do nosso Rei, quando nos mettemos n’esta empresa, -respondeo—<i>Rigabo</i>—eu a regarei, e não consentirei que -ella murche á falta de cuidados. De nada serviria a planta, -si em sua raiz não se deitasse agua para ella florescer, por -que em pouco tempo o rigor do sol a seccaria, e o nosso -Deos, que sempre prescruta a inclinação dos seos subditos, -affirma que infalivelmente a augmentará—<i>incrementum dabo</i>: -e por uma luz, sempre crescente de dia para dia, derramada -entre os indios á respeito dos mysterios da nossa fé, -espancareis as trevas da ignorancia, porque o Senhor é o -illuminador de ambos, <i>utriusque illuminator est Dominus</i>.</p> - -<p>Quem melhor o pode saber que os selvagens aos quaes -baptisamos e lhes promettemos fazel-os christãos?</p> - -<p>Si invocassemos o seo testemunho, elles responderiam—<i>credimus</i>.</p> - -<p>Oh! Piedade Real, não perdestes vosso tempo enviando-nos -como Mensageiros do Evangelho.</p> - -<div class="figcenter" style="width: 100px;"> -<img src="images/footer4.jpg" width="100" height="75" alt="" /> -</div> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_9"></a>[9]</span></p> - -<p class="center larger">Continuação da historia das coisas mais memoraveis, -acontecidas no Maranhão em 1613 e 1614.</p> - -</div> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h2 class="nobreak" id="PRIMEIRO_TRATADO">PRIMEIRO TRATADO.</h2> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_I">CAPITULO I</h3> - -<p class="subhead">Da construcção das capellas de S. Francisco e S. Luiz -do Maranhão.<a id="Nanchor_3" href="#Note_3" class="fnanchor">[3]</a></p> - -</div> - -<p>O Psalmista Rei David, no seo Psalmo 28, composto em -acção de graças pelo acabamento do Tabernaculo, disse—<i>Afferte -Domino fili Dei, afferte Domino filios arietum</i>.</p> - -<p>«Trazei ao Senhor, ó filhos de Deos, trazei cordeiros ao -Senhor,» o que Rabbi Jonathas assim explicou—<i>Tribuite -coram Domino laudem cœtus Angelorum, tribuite coram Domino -gloriam et fortitudinem</i>—«dae louvores ao Senhor, ó -choros angelicos, dae ao Senhor gloria e força:» queria elle -dizer, que os Anjos bemaventurados auxiliam os homens em -todos os seos santos projectos, e especialmente quando se -trata de procurar a salvação das almas, porque caminham -adiante estes felizes espiritos e rompem a turba dos diabos, -inimigos da salvação afim de soccorrerem os homens apostolicos, -incumbidos de salvarem as almas errantes nos desertos -da infidelidade, ahi comparados aos filhos dos Carneiros -que saltam aqui e ali pelos rochedos da dureza do -coração, porem afagados pelas doçuras do Evangelho se deixam -guiar brandamente até a porta do Tabernaculo de Deos,<span class="pagenum"><a id="Page_10"></a>[10]</span> -levados no grande mar do baptismo, e offerecidos á face do -<i>Sancta Sanctorum</i>.</p> - -<p>Os primeiros sacrificios, que Deos recebeo do povo de Israel, -em procura da terra da promissão, d’onde expellio a -infidelidade, foram sob as tendas e pavilhões do Tabernaculo, -porem depois edificou-se o templo, e ahi continuaram -os mesmos sacrificios.</p> - -<p>Coisa similhante nos aconteceo quando fomos a esse paiz, -cheio de infidelidade e ignorancia de Deos, carregado de demonios, -insolentes tyrannos d’essas pobres almas captivas, -levar a luz do Evangelho, banir as falsas crenças, expellir -os demonios, plantar e construir a Igreja de Deos: durante -mais de quatro mezes celebramos os santos sacrificios n’uma -bonita tenda, no meio de arvores verdejantes: partindo depois -alguns da nossa comitiva para a França em busca de -auxilio, e ficando o resto para fundar a Colonia; fizemos edificar -a <i>Capella de São Francisco do Maranhão</i> em um bello -e agradavel lugar, junto do mar, proximo de uma bella e -inexgotavel fonte, e ahi escolhi minha moradia, que um dia -tinha de servir de Convento aos Religiosos, que eu esperava -para me ajudarem.</p> - -<p>Acabou-se esta Capella na vespera de Natal e muito a proposito -pela devoção, que sempre teve o Seraphico Padre -São Francisco, a quem era dedicada.</p> - -<p>Alem de todas as festas do anno celebrava a noite, estrellada -e sem trevas, do nascimento do verdadeiro Sol, Jesus-Christo, -e tinha este santo Padre o costume de fazer um -presepio, a cujo lado passava toda a noite contemplando o -profundo mysterio da Encarnação, e da vinda tão estranha -do Altissimo á terra.</p> - -<p>Na verdade enchia-me de immenso prazer vendo n’esta -capellinha, feita de madeira, coberta de folhas de palmeiras, -mais similhante ao presepio de Belem do que esses grandes -e preciosos templos da Europa, os nossos compatriotas -francezes cantarem os psalmos e matinas d’esta noite, e depois -de purificados pelo Sacramento da penitencia receberem<span class="pagenum"><a id="Page_11"></a>[11]</span> -o mesmo Filho de Deos no presepio dos seos corações, -envolvido nas faixas do Santissimo Sacramento do altar.</p> - -<p>Festejamos tambem o dia de natal; a noite prégamos, o -que sempre fizemos depois das festas e nos domingos, e com -prazer, embora muito soffressemos no principio: em quanto -durou esta devoção corria o tempo tão depressa, que o dia -parecia ter somente duas horas; e assim achando-se o nosso -espirito preoccupado com obras piedosas sentia a morte vir -tão depressa.</p> - -<p>Não fui eu só que senti isto, muitas outras pessoas depois -me disseram o mesmo, e em quanto me permittio a saude, -observou-se, e sem enfado, este uso.</p> - -<p>Augmentou-se ainda mais esta devoção quando se edificou -no <i>Forte</i> a <i>Capella de São Luiz</i>,<a id="Nanchor_4" href="#Note_4" class="fnanchor">[4]</a> á imitação das Igrejas dos -nossos Conventos, com madeira, cercada e cuberta de ramos -fortes, cortados das arvores chamadas <i>Acaiukantin</i>.</p> - -<p>Ahi celebrei missas, cantei vesperas, préguei e baptisei -os cathecumenos.</p> - -<p>A tarde tocava o sino, todos se reuniam n’esta capella, -onde se cantava a saudação angelica, implorava-se a graça -divina, e depois cada um ia para onde queria.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_II">CAPITULO II</h3> - -<p class="subhead">Do estado do poder temporal em sua primitiva.</p> - -</div> - -<p>Compõe-se o homem de espirito e corpo; devendo zelar -em primeiro lugar aquelle como mais nobre e depois este; -pareceu-nos de muita razão cuidar a principio nas Capellas -para n’ellas abastecer o espirito com a palavra de Deos, e<span class="pagenum"><a id="Page_12"></a>[12]</span> -do SS. Sacramento, e depois no que diz respeito áo temporal.</p> - -<p>Assim como uma terra, ainda inculta não dá grande contentamento -á seu dono, e si elle não tivesse pão, que lhe -viesse d’algures, por certo que morreria de fome, assim -tambem era sem commodidades o lugar escolhido para a -edificação da fortaleza de São Luiz, n’uma ponta de rocha, -habitada outr’ora por selvagens, que a cultivaram a seu -modo, ou para melhor dizer a esterilisaram, visto que depois -de tres annos faltaram-lhe forças para produzir couza alguma, -alem de matto agreste, sendo necessario descançar por -muitos annos.</p> - -<p>Foi a causa dos nossos soffrimentos no principio, pois apenas -tinhamos farinha de mandioca para fazer <i>mingau</i>, isto -é, uma especie de papa com sal, agua e pimenta, chamada -pelos indios <i>Yonker</i>, e assim passavamos a vida.</p> - -<p>Quem não podia comer esta farinha secca, desmanchava-a -n’agoa, e assim alimentava-se com ella.</p> - -<p>Os que em França somente usavam de comidas delicadas, -n’aquelle paiz apenas achavam legumes bem agradaveis.</p> - -<p>Conto isto para louvar a paciencia dos francezes em serviço -do seo Rei, para destruir essa macula, que ordinariamente -lhes lanção, de impacientes, imprudentes e desobedientes, -porque na verdade eu só vi o contrario.</p> - -<p>Os que desejarem muito ir para aquelle paiz, não se admirem -de ouvir fallar em tanta pobresa, porque não soffrerão -mais do que nós, visto a terra ir melhorando diariamente, -e os viveres se augmentarem gradualmente.</p> - -<p>Para remediar esta falta, resolveo-se mandar pescar peixe-boi<a id="Nanchor_5" href="#Note_5" class="fnanchor">[5]</a>, -á 30 ou 40 legoas distante da ilha: estes peixes tem -a testa como os bois, porem sem cornos, duas patas adiante -debaixo das mamas, párem filhos como as vaccas, nutrem-nos -com seo leite, mas a cria tem a propriedade notavel -de abraçar a mãe pelas costas com suas patinhas, e nunca -as deixa embora mortas, pelo que alguns são agarrados vivos, -e assim trazidos para a Ilha: são muito delicados.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_13"></a>[13]</span></p> - -<p>Sirva isto d’instrucção aos meninos, cumprindo a Lei de -Deos, que manda honrar Pae e Mãe, isto é, amar e respeitar, -e de advertencia aos catholicos para ficarem firmes e -unidos no seio da Igreja, sua Mãe, d’onde perseguição alguma -as possa arrancar, amando todos os bons francezes, seo -Rei e sua Patria.</p> - -<p>São apanhados estes peixes-bois nos pastos, ou nas hervas -que crescem nas praias.</p> - -<p>Vão os selvagens remando mansamente suas canôas por -detraz d’ellas, atiram-lhe duas ou tres setas, e apenas mortas -são puxadas para terra, retalhadas e salgadas.</p> - -<p>Coisa igual acontece aos glutões, que no meio dos banquetes -são surprehendidos e n’um instante lá vão para o inferno.</p> - -<p>Encontra-se o sal necessario ás commodidades da vida, na -distancia de 40 legoas da Ilha, em terrenos arenosos, onde -se mostra naturalmente, em forma de gelo, duro e luzente -como cristal, por occasião do fluxo e refluxo do mar, e quando -este se retira o sol o cresta e é melhor que o sal de França -e de Hespanha.</p> - -<p>È necessario apanhal-o antes da estação das chuvas para -que ellas lavem o lugar onde elle estava.</p> - -<p>Chegado a este ponto, dispersou-se uma parte dos francezes -pelas aldeias, conforme o costume do paiz, que é ter -<i>Chetuasaps</i>, isto é, hospedes ou compadres, aos quaes por -pagamento se dava generos em vez de dinheiro.</p> - -<p>Esta hospitalidade ou compadresco é entre elles muito intima, -porque estimam seos hospedes, como se fossem seos -proprios filhos, vão caçar e pescar para elles e conforme o -seo costume entregam-lhes as filhas, que desde então se chamam -<i>Maria</i>, e tem por sobrenome o do Francez a quem se -ligam, de sorte que dizendo-se <i>Maria de tal</i> sabe-se logo de -quem é concubina.</p> - -<p>Com certesa não sei porque dão este nome ás concubinas: -mostrei um certo dia a um selvagem um registro da Mãe de -Deos, e lhe disse <i>Koai Tupan Marie</i>, «eis a Mãe de Deos,»<span class="pagenum"><a id="Page_14"></a>[14]</span> -<i>ché ai Tupan Arobiar Marie</i>, «creio e conheço, que <i>Maria</i> -é a Mãe de Deos,» e <i>Maria</i> chamamos nossas filhas que damos -aos <i>Caraibas</i>.</p> - -<p>Este costume foi prohibido aos francezes, e si ha alguma -falta á este respeito é occultamente, e os proprios selvagens -que no principio d’esta prohibição desconfiaram da fidelidade -e da amisade dos francezes, apenas souberam, -que Deos só permittia a posse da mulher por meio do casamento, -e que os Padres, Missionarios de Deos, assim o prégavam -e prohibiam por ordem do <i>Maioral</i>, mostram-se escandalisados -quando vêem o contrario, que denunciam logo -a este e a nós, de maneira que qualquer francez deve fazer -seos negocios mui occultamente si não quizer ser conhecido.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_III">CAPITULO III</h3> - -<p class="subhead">Da construcção do Forte de São Luiz, e do interesse -dos selvagens em carregar terra.</p> - -</div> - -<p>Chegado o tempo proprio de trabalhar nas fortificações da -praça designada á defeza dos francezes, fincada a madeira -segundo o plano dado para servir de cercadura ao <i>Forte</i>, e -de sustentar as terras, mandou-se então avisar por todas as -aldeias da ilha e da provincia de Tapuytapera,<a id="Nanchor_6" href="#Note_6" class="fnanchor">[6]</a> que viessem -Indios uns após outros conduzir a terra tirada dos fossos -para os terraços das cortinas, esporões e plata-formas, -depois cobertas por grandes e grossas <i>Apparituries</i>, «mangues» -arvores duras como ferro e incorruptiveis; de forma que -seria contra ella quasi inutil o tiro do canhão, e mui difficil<span class="pagenum"><a id="Page_15"></a>[15]</span> -a escalada: assim se disse e assim se fez: de todas as aldeias -pouco a pouco vinham os selvagens com suas mulheres -e filhos, trazendo viveres para o tempo, que calculavam -demorar-se no trabalho, e sempre debaixo das ordens dos -seos Principaes, costume que geralmente observam, trazendo-os -sempre na frente da Companhia, fazendo-lhes a natureza -conhecer, que o exemplo dos superiores anima infinitamente -os inferiores.</p> - -<p>Mais do que nós são elles fieis á natureza, pois vemos o -contrario na Republica Christã, d’onde provem os erros e a -corrupção dos costumes, porque ainda que devamos prestar -attenção somente á doutrina e não entregarmo-nos a má -vida, os fracos fazem o que querem sem cuidar do máo -nome, que adquirem.</p> - -<p>Apenas chegavam estes selvagens entregavam-se ao trabalho -com incomparavel dedicação, mostrando na voz e nos -gestos admiravel coragem, parecendo antes que iam á um -festejo de casamento do que para o serviço, rindo e brincando -uns com os outros, correndo dos fossos para os terraços -com uma especie de emulação para vêr quem dava -mais caminhadas, e conduzia maior numero de cestos de -terra.</p> - -<p>Notareis agora, que não ha ninguem no mundo mais infatigavel -do que elles, quando de boa vontade trabalham em -qualquer coisa; não cuidam em comer e beber com tanto -que tenham á sua frente o seu chefe, e quando encontram -difficuldades, por maiores que sejam, riem, cantam e gritam -para se animarem reciprocamente.</p> - -<p>Se ao contrario o tractardes com asperesa e ameaças, nada -farão que preste, e conhecendo o seo natural nunca constrangem -seos filhos e nem seos escravos, e antes os governam -com doçura.</p> - -<p>O francez, especialmente os nobres, tem igual naturesa; -não soffrem constrangimento, porem não duvidam expôr sua -vida, afim de comprirem as doces ordens dos seos Principes: -bello argumento para convencer os que governam, que<span class="pagenum"><a id="Page_16"></a>[16]</span> -mais vale a doçura e clemencia do que o rigor e a força, -respeitando assim o natural da Nação francesa.</p> - -<p>Não trabalhavam somente os homens e sim tambem as -mulheres e os filhinhos, aos quaes elles davam pequenos -cestos, para carregar terra conforme suas forças.</p> - -<p>Vi muitos meninos, apenas com dois ou tres annos d’idade, -fazer a carga com suas mãosinhas e não ter força para -conduzil-a.</p> - -<p>Perguntei a alguns velhos porque consentiam que trabalhassem -os meninos, servindo isto para distrahir os que os -vigiavam, especialmente seos paes, que assim não podiam -adiantar a tarefa, achando-se elles sempre em perigo, ou -por estarem nùs apezar de tenrinhos, ou por poderem ser -feridos pelo desabamento de algum pedaço de terra, ou por -alguma pedra, que se desprendesse do monte.</p> - -<p>Respondeo-me assim o interprete. Temos muito prazer -vendo nossos filhos comnosco trabalhando n’este <i>Forte</i>, para -que um dia digam á seos filhos e estes a seos descendentes -«eis a Fortalesa, que nós e nossos paes fizemos para os -Francezes, que trouxeram Padres, que levantaram casas -a Deos, e que vieram defender-nos de nossos inimigos.»</p> - -<p>É mui commum esta maneira de communicar á seos filhos -o que entre elles se passa, já que por escriptos não podem -fazel-o aos vindouros, e ir assim á posteridade.</p> - -<p>Para nada esquecer, como que gravam na memoria as occorrencias, -e só d’esta maneira se pode explicar como contam -muitas coisas passadas nos seculos, em que viveram -seos avós, ou no tempo da sua mocidade: vão passando por -esta forma o que sabem a seos filhos, como ainda diremos -ádiante.</p> - -<p>Desejaria muito, que nossos Paes assim se empenhassem -para gravar no coração de seos descendentes...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_17"></a>[17]</span></p> - -<hr class="tb" /> - -<p class="noindent">... mente e em abundancia, os selvagens lançam -fogo nos espinhaes e moutas, onde se recolhem esses -reptis.</p> - -<p>Ha de tres qualidades:<a id="Nanchor_7" href="#Note_7" class="fnanchor">[7]</a> uma de terra, que mora nos -mattos; outra de agoa doce, que mora nas margens dos rios -e lugares pantanosos: a ultima, é do mar, e a que vem -pôr seos ovos na areia, que fica bem perto, e onde os occultam -com geito. Parece-se muito com os ovos de galinhas, -menos na casca, que não é tão dura, e sim mais flexivel e -molle, nem tão grossos e agudos, e sim mais redondos, porem -muito saborosos, quer comidos na casca, quer de outra -qualquer maneira.</p> - -<p>Nas margens d’este rio encontram-se arvores medicinaes, -muito melhores do que as que se achavam commummente, -como eu e muitos dos meos companheiros verificamos: alem -d’esta virtude, são mais fortes que as do Levante, mostrando -a experiencia que uma onça d’estas faz tanto effeito como -duas d’aquelle paiz. Sendo bem preparadas certas composições -são excellentes laxantes, e assim conservam o corpo -para seo beneficio. Existem bellos prados, largos e compridos -á perder de vista, que produzem herva fina e macia. -Encontra-se a piteira, de cujos productos se fazem na China -muitos tafetás: crescem seos ramos como a cauda de um cavallo, -tem a bellesa da seda e é ainda mais forte. A terra -é forte e feraz e produz com mais certesa, que a do <i>Maranhão</i>, -ou de suas visinhanças, e dizem-me que dá duas colheitas -annualmente. As florestas são altas, virgens, e ricas -de muitas especies de madeiras, quer proprias á tincturaria, -quer á medicina, e asseguram-nos os selvagens, que lá moram, -a existencia ahi do <i>pau brazil</i>. No meio d’estas florestas, -ha muitos viados, capivaras, cabras, vaccas bravas<a id="Nanchor_8" href="#Note_8" class="fnanchor">[8]</a> -e javalis, e em poucas horas matareis tantas quantas precisardes, -e para que não me accusem de hyperbolico, invoco -o testemunho dos que viajaram pelo <i>Miary</i>, e hoje se acham -em França: se lerem isto, dirão que são estas as informações, -que me deram, e que os selvagens, remadores das<span class="pagenum"><a id="Page_18"></a>[18]</span> -suas canoas, lhes traziam tanta caça, que d’ella não sabiam -o que fazer.</p> - -<p>Contou-me um fidalgo, que andou n’essa viagem, haver -morto com um só tiro tres javalis,<a id="Nanchor_9" href="#Note_9" class="fnanchor">[9]</a> o que não poderia -acontecer se estivessem espalhados.</p> - -<p>Ha muitas arvores carregadas de cortiço de mel de abelhas, -as quaes são mais pequenas e franzinas do que as nossas, -porem mais industriosas, pois fabricam mel excellente, -liquido, e tão claro como agua potavel pura, guardado em -pequenas celulas de cera da grossura da casca de um ovo, -similhantes na forma á nossas garrafinhas de vidro, e penduradas -com alguma ordem n’uma arvoresinha de cera, que -se acha encostada ou presa pelos ramos ao tronco, ou nas -cavidades das arvores das florestas ou dos prados.</p> - -<p>Com este mel fabrica-se vinho muito forte e quente para -o estomago, similhante na côr e no gosto ao de Canaria. -Nossa gente, quando por lá andou, fez algum vinho, e com -elle embebedou-se.</p> - -<p>Existe tambem ahi uma especie de mel, impropriamente, -assim chamado, porque é tão azedo, como vinagre, e fabricado -por outra especie de abelhas.</p> - -<p>Alguns dias depois que ahi chegou nossa gente, procuraram -os <i>Tabajares</i>,<a id="Nanchor_10" href="#Note_10" class="fnanchor">[10]</a> e suas habitações: encontraram, não -os que procuravam, e sim os <i>Aiupaues</i>,<a id="Nanchor_11" href="#Note_11" class="fnanchor">[11]</a> e caminhos recentemente -abertos.</p> - -<p>Vendo que diminuia a farinha, da qual apenas poderia ter -quanto bastasse para regressar a Maranhão, essa mesma -muito pouca, deliberou regressar com os seos selvagens, -deixando ahi somente dois escravos <i>Tabajares</i>, a quem deram -farinha para um mez, e diversos generos, promettendo-lhes -liberdade com certesa, e boa recompensa si fossem procurar -e achassem seos similhantes, o que acceitaram e cumpriram -aproximando-se das suas aldeias e gritando para não -serem flexados, visto andar esta Nação em guerra com uma -outra visinha. Aos seos gritos accudiram muitos, aos quaes -contaram o que traziam, como estavam em Maranhão os<span class="pagenum"><a id="Page_19"></a>[19]</span> -francezes bem fortificados, que entre elles se achavam os -Padres, que os foram procurar; mas que se viram obrigados -a retirar-se por falta de farinha, sendo elles escolhidos -para ir procural-os, e dando-lhes os presentes fortaleciam -mais as suas palavras, mormente sendo proferidas por dois -individuos, seos conhecidos, que foram escravisados na guerra -pelos <i>Tupinambás</i>.</p> - -<p>Bem podeis calcular como elles ficaram alegres com as -noticias dadas pelos <i>Tabajares</i>. Ahi descançaram por tres -ou quatro mezes para contarem tudo bem a sua vontade, e -regressamos com nossa gente para a Ilha.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_VII">CAPITULO VII</h3> - -<p class="subhead">Dos preparativos dos Tupinambás para uma viagem -ao Amazonas.</p> - -</div> - -<p>Apenas voltou esta expedição do Mearim, fallou-se com -enthusiasmo de uma viagem, em breves dias, ao Amazonas.<a id="Nanchor_12" href="#Note_12" class="fnanchor">[12]</a></p> - -<p>Já antes se havia fallado n’ella, porem com tal friesa, que -poucos acreditavam, não havendo probabilidade de deixar-se -a Ilha, sendo nós tão poucos para defendel a contra as -aggressões dos portuguezes, que nos ameaçavam ha muito -tempo.</p> - -<p>Ao divulgar-se esta noticia levantaram-se a ilha e as provincias -visinhas, porque, como é geralmente sabido, não ha -no Mundo nação alguma mais inclinada á guerra e á viagens -pelo desconhecido como estes selvagens brasileiros.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_20"></a>[20]</span></p> - -<p>Quatrocentas ou quinhentas legoas nada são para elles -quando vão atacar seos inimigos e fazel-os escravos. Com -quanto sejam por naturesa timidos e medrosos, nos combates -ganham calor, não abandonam o campo, e quando perdem -as armas pelejam com unhas e dentes.</p> - -<p>Suas guerras são feitas, pela maior parte por surpresa e -astucias; ao romper do dia assaltam seos inimigos dentro de -suas aldeias: salvam-se de ordinario os que tem boas pernas, -sendo aprisionados os velhos, as mulheres, e os meninos, e -condusidos como escravos para as terras dos <i>Tupinambás</i>. -Tambem sob o pretexto de negocio, vão elles pelas praias, -onde moram seos inimigos, promettem-lhes muito, mostram-lhes -suas mercadorias em <i>caramemos</i> ou <i>paneiros</i>, onde arranjam -o que tem de melhor, e quando os veem entretidos, -lançam-se sobre elles, pobres ingenuos, matam uns, aprisionam -e captivam outros: por este motivo todas as nações do -Brasil, desconfiam d’elles, julgam-nos traidores, e nem querem -sua paz.</p> - -<p>São muito afoitos quando estão com os francezes, e querem -que estes vão sempre adiante, e se acontece voltar um -francez para traz, ninguem corre melhor e mais veloz do -que elles. D’isto se conclue quanto valle a opinião que se -forma de certas pessoas, que não passa de uma loucura e -vaidade d’este mundo, acontecendo muitas vezes ficarem -atraz os bons e virtuosos ou serem queridos e levados os -viciosos e corrompidos.</p> - -<p>Indaguei e procurei saber muito o modo como se preparavam -para a guerra, não me contentando só com as informações.</p> - -<p>Em primeiro lugar as mulheres e as suas filhas preparam -a <i>farinha de munição</i>,<a id="Nanchor_13" href="#Note_13" class="fnanchor">[13]</a> e em abundancia, por saberem, -naturalmente, que um soldado bem nutrido valle por dois, -que a fome é a coisa mais perigosa n’um exercito, por transformar -os mais valentes em covardes, e fracos, os quaes em -vez de atacarem o inimigo, buscam meios de viver.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_21"></a>[21]</span></p> - -<p>É differente da usual esta farinha de munição, por ser -mais bem cozida, e misturada com <i>cariman</i> para durar -mais tempo, embora menos saborosa, porem mais san e -fresca.</p> - -<p>Em segundo lugar empregam-se os homens em fazer canoas, -ou concertar as que já possuem proprias para este fim, por -que é necessario, que sejam compridas e largas para levarem -muitas pessoas, suas armas e provisões, e comtudo são -feitas de uma arvore, cortada bem perto da raiz, sem galhos -e ramos, ficando apenas o tronco bem direito em toda -a sua extensão, e então tiram-lhe a casca, e racham n’a -dando-lhe meio pé de largura e profundidade: n’este caso -lançam-lhe fogo n’essa fenda por meio de cavacos bem seccos, -e vão queimando pouco a pouco o interior do tronco, -raspam com uma chapa de aço, e assim vão fazendo até -que o tronco esteja todo cavado, deixando apenas duas pollegadas -d’espessura, e depois com alavancas dão-lhe fórma -e largura: estas canoas conduzem as vezes 200 ou 300 pessoas<a id="Nanchor_14" href="#Note_14" class="fnanchor">[14]</a> -com as suas competentes munições. São conduzidas -por mancebos fortes e robustos, escolhidos de proposito, por -meio de remos de pás de tres pés cada um, que cortam as -agoas a pique e não de travessia.</p> - -<p>Em terceiro lugar preparam suas pennas, tanto para a -cabeça, braços, e rins, como para as armas. Para a cabeça -usam de uma peruca ou cabelleira de pennas de cores vermelhas, -amarellas, verde-gaio e violetas, que prendem aos -cabellos com uma especie de colla ou grude.</p> - -<p>Enfeitam a testa com grandes pennas de araras, e outros -passaros similhantes, de cores variadas, e dispostas á maneira -de mitra, que amarram atraz da cabeça.</p> - -<p>Nos braços atam braceletes tambem de pennas de diversas -cores, tecidas com fio de algodão, similhante á mitra -de que acabamos de fallar.</p> - -<p>Nos rins usam de uma roda de pennas da cauda de ema,<a id="Nanchor_15" href="#Note_15" class="fnanchor">[15]</a> -presa por dois fios d’algodão, tinctos de vermelho, cruzando-se -pelos hombros a maneira de suspensorios, de sorte que<span class="pagenum"><a id="Page_22"></a>[22]</span> -ao vel-os emplumados, dir-se-hia que são emas, que só tem -pennas nestas tres partes do corpo.</p> - -<p>Na verdade, quando os vejo assim lembro-me do que antigamente -disse Job no cap. 39. <i>Penna struthionis similis -est pennis Erodii et Accipitris</i>: a penna de ema é igual a da -garça real e do gavião: esta passagem é claramente explicada -por diversas licções ou versões dos Gregos e dos Romanos, -que tinham por costume apresentarem os coroneis -aos capitães e soldados pennas d’ema para collocarem em -seos capacetes e morriões afim de animal-os á guerra.</p> - -<p>Quiz saber por intermedio do meu interprete porque traziam -sobre os rins estas pennas de ema: responderam-me, -que seos paes lhes deixaram este costume para ensinar-lhes -como deviam proceder na guerra, imitando a ema, pois quando -ella se sente mais forte ataca atrevidamente o seo perseguidor, -e quando mais fraca abre suas azas, despede o vôo -e arremessa com os pés areia e pedras sobre seos inimigos: -assim devemos fazer, accrescentavam elles. Reconheci este -costume da ema, vendo uma pequena, creada na aldeia de -<i>Vsaap</i>, que era perseguida diariamente por todos os rapasinhos -do lugar: quando eram só dois ou tres, ella os accommettia, -e dando-lhes com o peito, atirava-os por terra, porem -quando era maior o numero preferia fugir.</p> - -<p>Estou certo, que muitas pessoas se admirarão, não só do -que acabo de dizer, mas tambem como é possivel buscarem -estes selvagens, meios de governarem-se entre as praticas -animaes: si se lembrarem porem que o conhecimento das -hervas medicinaes foi ensinado aos homens pela cegonha, -pela pomba; pelo viado e pelo cabrito; que a maneira de -fazer a guerra e postar sentinellas foi colhida das aves chamadas -grous; que a bondade do estado monarchico foi a -principio observado entre as abelhas; que os architectos com -as andorinhas aprenderam a fazer abobadas; que o proprio -Jesus-Christo nos mandou observar o milhafre, o abutre, a -aguia e o pardal, desapparecerá a admiração, e especialmente -si acreditarem, que estes selvagens imitam com a maior<span class="pagenum"><a id="Page_23"></a>[23]</span> -perfeição possivel os passaros e animaes do seo paiz, o que -elles exaltam nos cantos que recitam em suas festas.</p> - -<p>Por que nos passaros de sua terra predominam as cores -verde-gaio, vermelho e amarello elles gostam de pannos e -vestidos destas tres cores.</p> - -<p>Por que as onças e os javalis são os animaes mais ferozes -do mundo, elles arrancam os seos dentes e os trazem -nos labios e orelhas afim de parecerem mais terriveis.</p> - -<p>As pennas das armas são postas nas extremidades dos -arcos e das flexas.</p> - -<p>Assim preparados bebem publicamente o vinho de <i>muay</i>, -e dizem adeos aos que ficam.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_VIII">CAPITULO VIII</h3> - -<p class="subhead">Partida dos francezes para o Amazonas em companhia -dos selvagens.</p> - -</div> - -<p>Antes que entre na materia, convem narrar o que me -disseram os selvagens relativamente á verdade da existencia -das Amazonas, porque é questão de todos os dias se -n’esses lugares ha Amazonas, e si são similhantes ás descriptas -pelos historiadores?</p> - -<p>É voz geral e commum entre os selvagens, que ha Amazonas, -e que habitam n’uma ilha muito grande, cercada pelo -grande rio do <i>Maranhão</i>, ou das <i>Amazonas</i>, que desembocca -no mar por um espaço de 50 legoas de largura: que -essas Amazonas foram antigamente mulheres e filhas dos -<i>Tupinambás</i>, que se retiraram da companhia e do dominio -d’elles—seduzidas e guiadas por uma d’ellas: que internando-se<span class="pagenum"><a id="Page_24"></a>[24]</span> -pelo paiz ao longo d’esta costa, descobriram á final -uma linda ilha, ahi se recolheram, e em certas estações do -anno acceitam por companheiros os homens das habitações -mais proximas.</p> - -<p>Si párem um menino pertence ao pae, que d’elle cuida -logo depois de desmamado: si porem é uma menina fica -com a mãe em casa. Eis a voz geral e commum.</p> - -<p>N’um dia, quando os francezes andavam n’esta viagem, -fui visitado por um grande Principal, que morava muito -acima n’este rio. Depois dos seos cumprimentos, que descreverei -mais adiante, me disse morar nas ultimas terras -dos Tupinambás, e que só em duas luas podia voltar do rio -<i>Maranhão</i> á sua aldeia, e então lhe respondi admirando-me -do trabalho que tomou vindo de tão longe. Replicou-me -«fui ao Pará vêr meos parentes, quando foram os francezes -guerrear nossos inimigos, e ouvindo fallar de vós e dos outros -Padres, quiz vel-os pessoalmente para dar noticias certas -aos meos companheiros.»</p> - -<p>Por intermedio do meo interprete lhe perguntei si sua -residencia era muito longe da das <i>Amazonas</i>, e elle respondeo-me -«uma lua,» isto é, um mez para ir.</p> - -<p>Repliquei-lhe, si tinha estado entre ellas, e si as tinha -visto, e respondeu-me «que nem uma coisa nem outra», -pois nas canoas de guerra, onde andou, se desviou da ilha -onde ellas residiam.</p> - -<p>Esta palavra <i>Amasonas</i> lhes foi imposta pelos portuguezes -e francezes<a id="Nanchor_16" href="#Note_16" class="fnanchor">[16]</a> pela similhança, que ellas tinham com as -antigas <i>Amazonas</i> por causa de sua separação dos homens; -porem não cortam a mama direita, e nem imitam a coragem -d’essas afamadas guerreiras, mas vivem como as outras -mulheres selvagens, ageis e dextras no manejo do arco, e -nuas se defendem dos seos inimigos, como podem.</p> - -<p>No dia 8 de julho de 1613 do porto de Santa Maria do -Maranhão, partio o Sr. Ravardiere ao som de muitos tiros -de artilharia e mosquetaria, com que o saudou o Forte de -S. Luiz segundo é costume entre os militares.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_25"></a>[25]</span></p> - -<p>Levou em sua companhia 40 soldados valentes, e 10 marinheiros, -e por cautella tambem 20 dos principaes selvagens, -tanto da Ilha do Maranhão e de Tapuytapera, como de Cumã.</p> - -<p>Seguio para Cumã<a id="Nanchor_17" href="#Note_17" class="fnanchor">[17]</a> onde o esperavam muitas canoas -de indios, e provendo-se de farinha seguio para <i>Caieté</i> onde -haviam 20 aldeias de <i>Tupinambás</i>, e ahi se demorando -mais de um mez, reforçou a tripolação de sua embarcação -com mais 60 escravos que lhe deram.</p> - -<p>No dia 17 de agosto partio de <i>Caieté</i> com muitos habitantes -d’essa localidade, e dirigio-se para a aldeia <i>Meron</i>, onde -em grandes canoas embarcou selvagens e francezes, e seguio -para a embocadura do rio <i>Pará</i>: em viagem morreo -afogado um francez por ter se virado a canoa em que elle -ia, porem salvaram-se seos companheiros trepados no dorso -da mesma.</p> - -<p>O rio Pará desde a sua emboccadura para cima é muito -povoado de Tupinambás; chegando á ultima aldeia, situada -á 60 legoas da sua emboccadura, todos os principaes d’esses -lugares lhe pediram com instancia, que fosse guerrear os -<i>Camarapins</i>,<a id="Nanchor_18" href="#Note_18" class="fnanchor">[18]</a> os quaes são muito ferozes, não querem -paz, e por isso não poupam seos inimigos, pois quando os -captivam, matam-nos e comem-nos: poucos dias antes tinham -matado tres filhinhos d’um dos principaes dos Tupinambás -d’aquellas regiões, e guardaram os ossos d’elles para mostrar -aos paes afim de causar-lhes mais dó.</p> - -<p>Este exercito de francezes e de Tupinambás, em numero -de 1200, sahio do <i>Pará</i>, entrou no rio de <i>Pacajares</i>, d’ahi -dirigio-se ao de <i>Parisop</i>,<a id="Nanchor_19" href="#Note_19" class="fnanchor">[19]</a> onde encontraram <i>Vuacété</i> ou -<i>Vuac-Uaçú</i>, que simpathisando com este movimento offereceo -para reforçal-o 1200 dos seos companheiros.</p> - -<p>Acceitou-se apenas um pequeno numero de selvagens, que -elle mesmo acompanhou, e os encaminhou ao lugar, onde -residiam os inimigos, o qual era nas <i>Iuras</i>,<a id="Nanchor_20" href="#Note_20" class="fnanchor">[20]</a> que são casas -feitas á imitação das «<i>Ponte aux changes</i>,» de S. Miguel de -Paris, collocadas no cume de grossas arvores plantadas -n’agoa.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_26"></a>[26]</span></p> - -<p>Foram immediatamente cercados pelos nossos, que os saudaram -com 1000 ou 1200 tiros de mosquetaria em tres horas: -defenderam-se porem elles valorosamente de sorte que -sobre os nossos cahiam as flexas como chuva ou saraiva, -ferindo alguns francezes e Tupinambás, porem não matando -um só.</p> - -<p>Sobre alguns dispararam-se tiros de morteiro, e de canhão, -incendiaram-se-lhes tres <i>Iuras</i> morrendo n’essa occasião -60 indios d’elles, o que somente servio para mais augmentar-lhes -o desespero pois antes queriam morrer do que -cahir nas mãos dos Tupinambás.</p> - -<p>Á vista d’isto resolveo-se abandonal-os com intenção de -ver, si n’outra occasião, tratados com doçura podiam ser -domesticados.</p> - -<p>Durante o medonho combate dos mosqueteiros, usaram os -selvagens d’uma traça singular pendurando os seos mortos -no parapeito de suas <i>Iuras</i>, e por meio de uma corda de -algodão amarrada aos pés faziam com que elles se mexessem.</p> - -<p>Pelas fendas ou frestas viam os francezes estes corpos, e -julgando-os vivos contra elles faziam fogo tres e quatro vezes -a ponto de ficarem despedaçados, o que provocava os -gritos e zombarias d’estes canalhas, e somente terminou-se -esta triste scena quando uma mulher acenando com um pano -branco á maneira dos parlamentares, fez com que cessasse o -fogo, e então ella gritou «<i>Vuac, Vuac.</i>» Porque trouxeste -estas boccas de fogo, (fallava dos francezes por causa da luz, -que sahia das caçoletas de suas armas) para arruinar-nos, e -destruir a terra?</p> - -<p>«Pensas contar-nos no numero dos teos escravos, eis os -ossos dos teos amigos e dos teos alliados, cuja carne comi, -e ainda espero comer a tua e a dos teos.»</p> - -<p>Pelos interpretes se lhe disse, que se entregasse afim de -salvar o resto, que havia.</p> - -<p>Não, não, respondeo ella, nunca nos entregaremos aos -<i>Tupinambás</i>, elles são traidores. Eis aqui os nossos principaes,<span class="pagenum"><a id="Page_27"></a>[27]</span> -que morreram victimas d’essas boccas de fogo de -gente, que nunca vimos: si fôr necessario morreremos todos, -voluntariamente, como fizeram nossos grandes guerreiros. -Nossa nação é grande, e ahi fica para vingar nossa -morte.</p> - -<p>Um dos seos principaes veio n’uma canoa collocar-se á -frente do nosso exercito, trazendo n’uma das mãos um feixe -de flexas, e na outra o arco, disse: «Vinde, vinde ao combate, -nada tememos, somos valentes, e eu só por mim atravessarei -a muitos.»</p> - -<p>Chegando-se porem muito perto dos nossos soldados, um -d’elles acertou-lhe com uma balla na testa, que o atirou n’agoa -ja morto.</p> - -<p>Eram tão dextros no manejo das flexas, que atirando-as -ao ar vinham cahir na galeota, onde estavam nossos soldados, -e nas canoas dos indios, ferindo muitos.</p> - -<p>Por isto avaliareis a coragem d’estes selvagens, maus somente -pela naturesa.</p> - -<p>O que seriam si fossem policiados, ou conduzidos e instruidos -pela disciplina militar?</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_IX">CAPITULO IX</h3> - -<p class="subhead">Do que aconteceu na Ilha durante esta viagem, e -principalmente das astucias de um selvagem -chamado Capitão.</p> - -</div> - -<p>Em quanto uma parte dos nossos francezes, e muitos dos -principaes selvagens estavam no Pará e em suas circumvisinhanças<span class="pagenum"><a id="Page_28"></a>[28]</span> -passaram-se na Ilha muitas coisas notaveis, que -contarei nos seguintes capitulos.</p> - -<p>Tratarei em primeiro lugar de um indio agradavel e astucioso -intitulado Capitão,<a id="Nanchor_21" href="#Note_21" class="fnanchor">[21]</a> irmão da mãe de um principal, -muito amigo dos francezes, chamado <i>Ianuaravaête</i>, que quer -dizer <i>cão grande</i> ou <i>cão furioso</i>.</p> - -<p>Este Capitão astuciosamente aproximou-se de nós, dizendo -por intermedio do interprete, que desejava ser christão, -aprender a ler, e a escrever, fallar francez e fazer cortesias, -gestos e ceremonias dos francezes.</p> - -<p>Acreditaram nas suas palavras, e alguns até cercaram-lhe -de muitas attenções.</p> - -<p>Passou alguns mezes em nossa visinhança, e mostrando-se -com desejos de ter vestidos como os nossos paramentos -sagrados, com os quaes diziamos missa; por sua mulher nos -mandou pedir, o que negamos.</p> - -<p>Não nos deixou por esta recusa, porem algum tempo depois, -disfarçando muito bem seo descontentamento, ia á sua -aldeia e voltava, até que poude espalhar pela <i>Ilha</i> o boato -de que os francezes pretendiam escravisar os Tupinambás, -e por tanto que era necessario fugir e abandonal-os.</p> - -<p>Alguns acreditaram, e por isso deixaram suas aldeias e -foram para outras, onde podessem fugir com mais prestesa -si assim fosse necessario.</p> - -<p>Julgou chegada a occasião de se fazer valer entre os seos: -pois tinha extremo desejo de ser grande, e não podia chegar -a sel-o, porque fogem as honras d’aquelles que as procuram -com methodo, o que vemos em todas as condicções, -e foi este o seo fim e intenção quando de nós se aproximou, -servindo-se de nosso concurso para realisar seo desideratum, -visto o ambicioso nada poupar, nem mesmo as coisas sagradas, -para obter o que deseja.</p> - -<p>Principiou visitando as aldeias da Ilha, onde desconfiava -ter descontentes, e ahi nas cabanas e na <i>casa-grande</i>, costumava -batendo nas coxas grandes palmadas, harengar assim—<i>Ché, -Ché, Ché, auaête. Ché, Ché, Ché. Pagy Uaçú, Ché,<span class="pagenum"><a id="Page_29"></a>[29]</span> -Ché, Ché, Aiuka pais &</i>: quer isto dizer, eu, eu, eu, sou furioso -e valente. Eu, eu, eu, sou um grande feiticeiro. Fui -eu, fui eu, fui eu que matei os Padres, etc. Fiz morrer o -Padre, que está enterrado em <i>Yuiret</i>, onde mora o <i>Pay -Uaçú</i>, o grande Padre a quem reenviei todos os males, que -tem causado,<a id="Nanchor_22" href="#Note_22" class="fnanchor">[22]</a> e a quem matarei como o outro.</p> - -<p>Atormentarei os Francezes com molestias, e lhe darei tantos -bixos nas pernas e nos pés, que elles se verão na necessidade -de regressar a sua patria. Farei morrer suas plantações -e assim morrerão de fome: já com elles morei, comi -com elles muitas vezes, e vi o que praticavam quando serviam -a <i>Tupan</i>, e reconheci que nada sabiam á vista de nós -outros <i>Pagés</i>, feiticeiros.</p> - -<p>Á vista disto não devemos temel-os, saiamos, quero caminhar -na frente, porque sou forte e valente.</p> - -<p>Perto de dois mezes gastou elle percorrendo assim a Ilha -sem que de nada soubessemos, porque quando os negocios -são secretos e de interesse publico, não são descobertos -como acontece quando se trata de utilidade particular.</p> - -<p><i>Japy-açú</i> o reprehendeo e mui acremente por estes discursos, -bem como <i>Piraiuua</i>; porem seo irmão o <i>Cão-grande</i> -o denunciou, e alem d’isso pedio licença para ir em pessoa -agarral-o e prendel-o.</p> - -<p>Chegaram promptamente estas noticias aos ouvidos de <i>Capitão</i>, -que começou a tremer como si tivesse febre, e não -dizia mais <i>Ché auo-êtê</i>, nem <i>Ché Pagi uaçú</i>, ou <i>Ché Aiuca -Pay</i>, porem ao contrario diante dos seos, tremendo de medo, -dizia: «<i>Ché assequegai seta, ypocku Tupinambo, ypocku -decatugué: giriragoy Topinamho giriragoy seta atupaué: -ypocku ianuara vaeté, ypocku decatugné giriragoy ianuara -vaeté giriragoy seta atupaué</i>.»</p> - -<p>Ah! que medo tenho, oh! quanto são malvados os Tupinambás, -perfeitos malvados:<a id="Nanchor_23" href="#Note_23" class="fnanchor">[23]</a> mentiram os <i>Tupinambás</i>, -mentiram muito e muito: o <i>Cão grande</i>, é um malvado, malvado -completo: mentio o <i>Cão-grande</i>, mentio tambem muito -e muito, etc. Nada disto eu disse, não causei a morte do<span class="pagenum"><a id="Page_30"></a>[30]</span> -Padre, não disse que queria fazer morrer o Padre-grande, e -nem que lhe dei molestias.</p> - -<p>Tambem não disse, que quero atormentar os Francezes, -e fazer seccar suas plantas, porque não sou e nem fui feiticeiro, -e assim quero ser filho dos Padres, quero voltar e trabalhar -para elles, e si os deixei foi para colher meo milho: -quero ir ja onde está o Padre-Grande, levar-lhe o meo milho, -o meo peixe, e a minha caça, e dar-lhe um dos meos -escravos para apaziguar o chefe dos francezes afim delle não -crer no <i>Cão grande</i>, que sempre me quer mal embora eu -seja seo irmão: muitas vezes me quiz matar, e si o <i>Muruuichaue</i>, -quer dizer o «Principal dos Francezes» lhe der uma -vez ordem de prender-me, elle me matará sem duvida alguma.</p> - -<p>Por estas palavras conhecereis a indole d’estes selvagens, -que não dizem a verdade quando necessitam defender-se.</p> - -<p>Este miseravel <i>Capitão</i>, fugio e escondeo-se nos mattos, -e depois foi para uma aldeia chamada <i>Giroparieta</i>, quer -dizer <i>aldeia de todos os diabos</i>, ao pé da praia, e d’ahi enviou-me -um dos seos parentes pedir-me paz, e que obtivesse -do Maioral o seu perdão.</p> - -<p>Mandou-me um seu escravo forte e robusto, bom pescador, -e caçador: elle, sua mulher e mais pessoas da familia, -me vieram ver, trazendo-me milho, peixe, e caça, e tanto -elle como sua mulher muito fallaram para me persuadir de -que eu não devia crer o que se dissesse d’elle, chamando -os <i>Tupinambás</i> e o <i>Cão-grande</i>,—mentirosos e outros nomes -feios, asseverando que era bom amigo, que desejava -ser christão, e que si o Maioral, e eu tambem nos esquecessemos -de tudo, elle e sua mulher regressariam contentes.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_31"></a>[31]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_X">CAPITULO X</h3> - -<p class="subhead">Da chegada de uma barca portugueza á Maranhão.</p> - -</div> - -<p>Quando menos pensavamos, achando-se a Ilha sem indios -e sem francezes, por terem aquelles ido viajar pelo Amazonas, -e estes pela segunda vez ao <i>Miary</i>, de que brevemente -trataremos, por espaço de um mez fomos incommodados -com mil noticias, ora de selvagens residentes perto -do mar, ora de francezes moradores nos fortes, que diziam -ter ouvido tiros de peça para o lado da costa da pequena -<i>Ilha de Santa Anna</i>, e da de <i>Tabucuru</i>,<a id="Nanchor_24" href="#Note_24" class="fnanchor">[24]</a> e ter visto tres -navios velejando ao redor da Ilha, eis que se apresentou -uma barca, commandada por um capitão portuguez, chamado -Martin Soares.</p> - -<p>Vinha da Ilha de Santa Anna, onde tinha desembarcado, -tomado posse d’ella para o Rei Catholico, plantado uma -grande Cruz, e levantado um marco com uma inscripção, -de que logo fallaremos.</p> - -<p>Andou este navio por todo o porto de Caurs, saltando sua -tripulação sempre que lhe approuve para vêr e escolher -lugares proprios á plantação de canas e ao fabrico do assucar, -especialmente no lugar chamado <i>Ianuarapin</i>, onde -foi erguida uma Cruz com o fim de crear-se uma bella habitação -de portuguezes, e construir-se muitos engenhos de -assucar.</p> - -<p>Approximaram-se depois da enseiada de Caurs, uma das -entradas da Ilha, onde depois da sua vinda, se edificaram -dois bellos fortes afim de impedir o desembarque.</p> - -<p>Elles davam alguns tiros de peça para chamar os selvagens -da Ilha: nenhum lá foi, menos o Principal de <i>Itaparis</i>, -suspeito por traidor: perguntaram-lhe muita coisa, e ignora-se -o que respondeo: deram-lhe machados e fouces, e depois -veio para a Ilha.</p> - -<p>Os portuguezes traziam comsigo os indios <i>Canibaes</i>,<a id="Nanchor_25" href="#Note_25" class="fnanchor">[25]</a> -moradores em <i>Mocuru</i>, e parentes de outros do mesmo<span class="pagenum"><a id="Page_32"></a>[32]</span> -nome refugiados em Maranhão, os quaes elles mandaram á -terra para tomar conhecimento, e informações, si na Ilha -haviam muitos francezes, si estavam fortificados, e si tinham -canhões.</p> - -<p>Felizmente dirigiram-se aos <i>Tupinambás</i>, que lhes disseram -não haver na Ilha um só francez, um só forte, um -só navio, barca, nem canhão, e com tal segurança principiaram -a comer, e os Tupinambás mandaram immediatamente -ao forte de S. Luiz contar tudo isto.</p> - -<p>Expedio-se logo uma barca, bem esquipada, com o fim -de prender os portuguezes; porem aconteceo, que um traidor -<i>Canibal</i>, inimigo rancoroso dos francezes, e a quem -já se tinha muitas vezes perdoado castigos, em que havia -incorrido, sabendo da noticia da vinda dos outros, foi procural-os -furtivamente, e em segredo lhes disse—«que fazeis -aqui, fugi depressa para o mar, regressae ao vosso navio, -porque os francezes tem na Ilha um bello forte, canôas, navios, -e canhões.»</p> - -<p>Mal ouviram isto, levantaram-se ás pressas, e disseram -aos seos hospedes <i>Tupinambás</i>, que os divertiam—Ah! -maus, enganaes vossos camaradas—e assim dizendo á passos -apressados foram com o traidor para a sua canôa, e -em breve chegaram a barca, ancorada n’uma enseiada -um pouco adiante.</p> - -<p>Vendo isto os portuguezes, desconfiaram logo que os francezes -estavam na Ilha, e que não deixariam de os perseguir, -e apenas tinham levantado ancoras, descobriram a -barca dos francezes, e estes a d’elles, apressaram-se a tomar -a dianteira dos portuguezes, navegando á bolina, muito -bem, quebrando os rolos d’agoa, pelos bancos d’area, pouco -pensando em encalhar comtanto que conseguissem apresional-a -do que lhes resultaria muita commodidade, visto -conhecer-se a intenção dos portuguezes, descoberta pela bôa -vontade dos...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_33"></a>[33]</span></p> - -<hr class="tb" /> - -<p class="noindent">... todas as Nações, e nós vemos por experiencia em varios -lugares da França, d’onde veio o proverbio—<i>chorar de -alegria</i>.</p> - -<p>Chegados ao Forte depois de descançarem como poderam, -conservaram-se serios e reservados sem entregarem-se -á vivacidade e impulso da curiosidade, e sendo a imperfeição -unica dos francezes o fazer tudo ás pressas, buscando -todos os meios de conseguir seos fins, foram elles ter com -o Maioral, aos quaes assim fallaram:</p> - -<p>«Conforme as noticias que déstes a dois dos nossos, escravos -entre os <i>Tupinambás</i>, para nos transmittirem fielmente -a respeito da tua vinda e da dos Padres n’estes lugares -afim de defender-nos dos <i>Peros</i>, e ensinar-nos a conhecer -o verdadeiro Deos, dar-nos machados e outras ferramentas -para facilitar a nossa vida, fallamos n’isto em muitas -reuniões, e recordando-nos de que os francezes sempre -nos fôram fieis, vivendo em paz comnosco, e acompanhando-nos -á guerra, onde alguns morreram, todos os meos similhantes -mostraram-se contentes e resolveram, de combinação -com o nosso chefe, obedecer-te e em tudo fazer-te a -vontade: eis porque me mandaram expressamente afim de -pedir-te alguns francezes para acompanhar-nos e guardar-nos -até voltarmos do lugar, por ti indicado.»</p> - -<p>Respondeo-se-lhe com palavras de amisade, e que se lhes -daria os francezes.</p> - -<p>Sahindo d’ahi foram procurar-me em minha casa, onde -tambem me exposeram a sua missão, de que fallarei quando -for occasião.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_34"></a>[34]</span></p> - -<p>Pediram-me o meu pequeno interprete para ir com elles -assegurar ao <i>Thion</i>, seo chefe, e a todos os seos companheiros, -que eu os receberia como filhos de Deos, e que podiam -vir afoitamente confiados na protecção dos Padres.</p> - -<p>Acompanhados por muitos francezes e pelo meo interprete, -a quem dei algumas imagens como mimos, a <i>Thion</i>, elles -embarcaram para o Mearim em busca de suas casas.</p> - -<p>Foram recebidos com muitos applausos, choros, lagrymas, -e danças de dia e de noite.</p> - -<p>Prepararam vinhos em abundancia, presentearam os francezes -com muitos porcos do matto e outras caças, e offereceram-lhes -muitas raparigas das mais bonitas, o que regeitaram -dizendo que Deos não queria, e que os Padres prohibiam, -e se quizessem agradar os Padres, quando fossem -para a Ilha, deviam levar Cruzes para expellir o <i>Giropary</i><a id="Nanchor_26" href="#Note_26" class="fnanchor">[26]</a> -do meio d’elles: assim o disseram, assim o fizeram, plantando -muitas Cruzes, em varios lugares na frente de suas -casas, como ainda hoje se vê, e que ficaram como prova de -habitação antiga, d’onde foram chamados para ir á outra -terra, já illuminada pelo conhecimento de Deos, e enriquecida -com os Sacrosantos Sacramentos da Igreja, como aconteceo -outr’ora com a nação do povo de Israel, que sahio do -Egypto em busca da terra da Promissão.</p> - -<p>Dispostas estas coisas, cada um cuidou em arrumar-se e -fazer sua colheita, destruir as roças, e preparar bom farnél, -pois deviam em pouco tempo deixar e abandonar este lugar: -indagavam muito de varias coisas tendentes á sua salvação, -e eram satisfeitas as suas perguntas.</p> - -<p>Aproveitaram-se os Francezes da occasião e facilidade, que -lhes offerecia para conquistar a nação proxima de indios inimigos, -da aldeia de Thion, e causava pena ouvil-os dizer, -que haviam comido a muitos, porque eram mais fortes, tinham -maior numero de aldeiamentos e de homens, e o Principal -d’elles, chamado <i>Farinha-grossa</i>, valente na guerra, -alegre, e muito propenso ao Christianismo, como fallaremos -n’outro lugar, dizia com garbo, «si eu quizesse comer os<span class="pagenum"><a id="Page_35"></a>[35]</span> -inimigos, não ficaria um só, porem conservei-os para satisfazer -minha vontade, uns após outros, entreter meo apetite, -e exercitar diariamente minha gente na guerra: e de que -serviria matal-os todos de uma só vez quando não havia -quem os comesse? Alem d’isto não tendo minha gente -com quem bater-se, se desuniriam, e separar-se-iam como -aconteceo á <i>Thion</i>.» Assim disse, porque antes estas duas -nações formavam uma só, morando juntas, em lugares longinquos -e distantes dos inimigos, contra os quaes podiam -exercitar-se na guerra, e apezar de tudo atacaram-se reciprocamente.</p> - -<p>Tal proceder confirma a bella maxima do Estado—quem -deseja conservar o interior em paz, deve empregar os sediciosos -fóra d’ahi, especialmente contra os inimigos da fé, -e fallando em sentido moral—quem quer salvár o coração -de todo o vicio e imperfeição deve resguardal-o das impressões -exteriores.</p> - -<p>Como condições de paz estabeleceo-se o esquecimento reciproco -de todas as injurias, mortes e banquetes com os corpos -dos inimigos: que devia revestir-se de paciencia quem -mais perdesse: que não devia havêr exprobrações de parte -á parte, e quando recolhidos a Ilha, morariam separados uns -dos outros, e todos seriam fieis aos Francezes.</p> - -<p>Chegada a occasião foram enviadas muitas canoas e barcos, -nas quaes vieram para a Ilha.</p> - -<p>Foram bem recebidos, o seo chefe <i>Thion</i> saudado com -cinco tiros de peça, e duas descargas de mosquetaria, passando -por meio de soldados francezes, dispostos conforme -as ceremonias da guerra, assim entrou no Forte, onde o Sr. -Pesieux e eu o acolhemos, e o condusimos á sua casa para -descançar.</p> - -<p>Em lugar proprio contarei o que elle nos disse.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_36"></a>[36]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XIII">CAPITULO XIII</h3> - -<p class="subhead">Do valor e dos costumes dos selvagens do Miary.</p> - -</div> - -<p>Conversando familiarmente com esta nação, descubri muitas -de suas particularidades, e tambem outras, pertencentes -tanto á elles como á todos os <i>Tupinambás</i>, ainda não escriptas -por pessoa alguma, ou ao menos mencionadas sufficientemente, -e como são bellas e raras tractarei d’ellas mais -detidamente.</p> - -<p>Estes povos, antes de reunidos, eram chamados <i>Tabajares</i> -pelos Tupinambás.<a id="Nanchor_27" href="#Note_27" class="fnanchor">[27]</a></p> - -<p>Este nome é appelativo e commum para designar toda a -sorte de inimigos, e tanto assim é, que esta mesma nação -de <i>Tabajares</i> chamava os <i>Tupinambás</i> da ilha <i>Tabajares</i>, -<i>Topinambas</i>, embora pacificados e amigos. Os <i>Topinambas</i> -os chamavam <i>Mearinenses</i>, quer dizer vindos do <i>Miary</i>,<a id="Nanchor_28" href="#Note_28" class="fnanchor">[28]</a> -ou habitantes do <i>Miary</i>, assim como os Dinamarquezes, que -vieram occupar a Neustria, Provincia antiga e dependente da -Corôa de França, foram chamados Normandos, e sendo ella -conservada em homenagem pelos Reis de França, perdeo -seo antigo nome, e conservou o de Normandia.</p> - -<p>Os francezes os chamam <i>Pedras-verdes</i><a id="Nanchor_29" href="#Note_29" class="fnanchor">[29]</a> por causa de uma -montanha, não muito longe de sua antiga habitação, onde -se acham mui bellas e preciosas <i>pedras verdes</i>, dotadas de -muitas propriedades, especialmente contra doenças do baço, -e frouxo de sangue, e tambem me disseram haver ahi esmeraldas -muito finas: ahi hiam os selvagens buscar estas -pedras verdes tanto para collocal-as em seos labios, como -para negocio com as nações visinhas.</p> - -<p>Os <i>Tupinambás</i> e os <i>Tapuias</i> dão muito apreço a estas -pedras:<a id="Nanchor_30" href="#Note_30" class="fnanchor">[30]</a> vi por uma pedra para o beiço dar o valor de mais -de vinte escudos de mercadorias um <i>Tupinambá</i> á um <i>Miarinense</i>, -em nossa casa de São Francisco, no Maranhão.</p> - -<p>Um certo <i>Cabelo comprido</i> veio ter comnosco, ornado -com seos enfeites mais lindos, que consistiam em dois chifres<span class="pagenum"><a id="Page_37"></a>[37]</span> -de bodes, e quatro dentes de corça, muito cumpridos, -em vez de brincos, de que muito se orgulhava por havel-os -alcançado com industria, ao passo que era commum, especialmente -entre as mulheres, trasel-os de madeira, redondos, -muito toscos, e da grossura de dois dedos: calculae o -buraco, que fazem nas orelhas: a maior porem de suas ostentações -era uma destas pedras verdes, de comprimento, -pelo menos, de quatro dedos, bem redonda, o que me agradou -tanto á ponto de desejar trazel-a para a França. Perguntei-lhe -o que queria que lhe désse por esta pedra: respondeo-me, -«dê-me um Navio de França, carregado de machados, -de foices, de vestidos, de espadas e de arcabuses.»</p> - -<p>Outro Tupinambá, já muito velho, trazia uma pedra destas -em seo labio inferior: era oval e tão larga como o concavo -da mão, e como a tivesse trasido por muito tempo ahi, -sem nunca tiral-a, estava como que encaixilhada no seo -queixo, ja tendo a carne se dobrado sobre os bordos da pedra -e tomado a sua propria forma.</p> - -<p>Narrei tudo isto afim de demonstrar o valor destas pedras -verdes.</p> - -<p>Estes <i>Miarinenses</i> são ordinariamente de boa estatura, -bem conformados, e valentes na guerra: sendo bem guiados -não recuam e nem fogem como os outros Tupinambás, explicando-se -isto pelo facto de serem criados entre os combates, -sempre travados contra os portuguezes, aos quaes -atacaram outr’ora, escalaram suas fortalezas, tomaram suas -bandeiras e nunca mais abandonaram sua primeira habitação, -como nos contou <i>Thion</i>, seo Principal, quando veio do -Forte de São Luiz, se a falta de canhões não obrigasse os -francezes, que estavam com elles, a cederem á força e á superioridade -do numero dos portuguezes.</p> - -<p>Causa gosto ver o zelo e o cuidado, com que trazem as -espadas, que lhes dão os francezes, sempre a seo lado, sem -nunca tiral-as senão quando se deitam, e quando trabalham<span class="pagenum"><a id="Page_38"></a>[38]</span> -em suas roças, penduram-nas junto a si em algum ramo de -arvore, fazendo-me lembrar a historia de Nehemias, na reparação -dos muros de Jerusalem, quando os seos habitantes -trasiam n’uma das mãos as armas e na outra os instrumentos -do trabalho.</p> - -<p>Gostam muito de traser as espadas tão limpas como cristal, -e para isso as esfregam com areia fina e azeite de mamona, -amolam-nas repetidas vezes para estarem sempre cortantes, -aguçam as pontas, quando estão gastas pela ferrugem -muito commum na zona tórrida.</p> - -<p>Acostumam-se a bem manejal-as, fazendo marchas e contra-marchas, -á maneira dos suissos quando esgrimam.</p> - -<p>Alem de serem corajosos e bons soldados, trabalham muito -bem, e antes quero uma hora de tarefa d’elles do que um -dia dos <i>Tupinambás</i>.</p> - -<p>Seos Principaes trabalham tanto quanto os seos subordinados -de menor representação, porem o serviço está bem -regulado, porque ao romper do dia levantam-se, almoçam, -e depois vão elles mulher e filhos, conjunctamente, alegres -risonhos, cantando trabalhar em suas roças, e quando o sol -principia a chegar ao seo maior auge do calor, que é perto -das dez horas, deixam a lida, vão comer e dormir, e duas -horas depois do meio dia, quando o sol principia a declinar -voltam outra vez ao trabalho, onde se conservam até ao anoitecer.</p> - -<p>Os Principaes, que ordinariamente tem mesa franca, para -o que necessitam de roças maiores, preparam um <i>Cauin</i> -geral, e como todos partilham d’elle, se incumbem de cuidar -nas plantações, o que fazem com alegria n’uma ou -duas manhãs, e depois vão beber na casa d’aquelle para -quem trabalharam, bebendo cada um quando chega a sua -vez, e quando o acham bom o gabam com todas as suas -forças, compõem cantigas adequadas, que entoam ao redor -da casa ao som do <i>Maracá</i>, pronunciando estas ou outras -similhantes palavras: «oh! o vinho, o bom vinho, nunca<span class="pagenum"><a id="Page_39"></a>[39]</span> -elle teve igual; oh! o vinho, o bom vinho, nós o beberemos -á vontade, oh! o vinho, o bom vinho, n’elle não acharemos -preguiça.»</p> - -<p>Chamam o vinho preguiçoso quando não tem força bastante -para embriagal-os immediatamente, e que não lhes provocam -o vomito por mais que bebam.</p> - -<p>Tomam as raparigas parte n’esta festa, onde se dança e -canta-se á fartar, deitam-se os que se embriagam logo e raras -vezes apparecem questões: são alegres e agradaveis -n’essa occasião, especialmente as mulheres, que fazem mil -macaquices á ponto de provocarem grande hilaridade, até a -individuos mais tristes e melancolicos. Por mim confesso, -que nunca em minha vida me ri tanto como quando estas -mulheres altercavam umas com as outras, empunhando copos -de madeira cheios de vinho, bebendo ora um, ora outro, -fazendo muitas macaquices e tregeitos.</p> - -<p>Dão com muita facilidade o que mais presam, como sejam -suas filhas e suas mulheres, porque observei quando se cuidou -na segunda viagem do <i>Miary</i> que muitos <i>Tupinambás</i> -tanto da <i>Ilha</i> do Maranhão, como de Tapuitapera, foram de -proposito com os Francezes para pedirem filhas e mulheres -dos Miarinenses, o que facilmente obtiveram, como muitas -outras coisas, que só fazem estes povos, e por isso mesmo -muito caros e preciosos entre os Tupinambás.</p> - -<p>Tambem tem por costume, que igualmente observei entre -os Tupinambás, o trazerem assobios e flautas, feitos dos ossos -das pernas, coxas e braços de seos inimigos, dos quaes -arrancam sons fortes, agudos e claros, e ao som d’elles entoam -seos cantos usuaes, especialmente quando estão nos -<i>Cauins</i>, ou quando vão a guerra.</p> - -<p>As raparigas não se despresam em casar com velhos e -grisalhos, como praticam as dos <i>Tupinambás</i>, e sim antes -querem esposar um velho, especialmente quando é Principal, -e admirei-me, como coisa desagradavel, o vêr muitas -jovens, de quinze a deseseis annos, casadas com velhos, e o -contrario praticam as raparigas dos <i>Tupinambás</i>, as quaes<span class="pagenum"><a id="Page_40"></a>[40]</span> -passam a sua mocidade livremente, e depois acceitam um -marido.</p> - -<p>O que acabei de dizer, só tem por fim o mostrar a cegueira -das almas captivadas pelo espirito immundo, que não -se descuida de perdel-as por meio de suas traças.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XIV">CAPITULO XIV</h3> - -<p class="subhead">Das incisões, que fazem estes selvagens em seos corpos -e como escravisam seos inimigos.</p> - -</div> - -<p>Estes povos, e não só elles, porem geralmente todos os -Indios do Brazil, tem por costume cortar o corpo, e recortal-o -tão lindamente, que os costureiros e alfaiates, embora -habeis em sua profissão, buscam imital-os no córte dos seos -vestidos.</p> - -<p>Este costume não é só privativo dos homens, e sim tambem -das mulheres, com a differença unica de que os homens -se cortam por todo o corpo, e as mulheres apenas -desde o umbigo até as coxas, o que praticam por meio de -um dente de <i>Cutia</i>, muito agudo, e uma especie de gomma -queimada, reduzida á carvão, applicada sobre a chaga, e -nunca se apagam os córtes.</p> - -<p>Digo de passagem e não para demorar-me, e sim apenas -para descubrir a origem deste antigo costume, que me parece -ser fundado pela naturesa, visto ser praticado, já ha -muitos annos, por nações civilisadas, cujo conhecimento por -falta de communicação não podia ter esta Nação barbara, -e assim inventou-o e d’elle usou.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_41"></a>[41]</span></p> - -<p>Soube d’estes selvagens, que duas razões os levam a -cortar assim seos corpos, uma significa o pesar e o sentimento, -que tem pela morte de seos paes, assassinados pelos -seos inimigos, e outra representa o protesto de vingança, -que contra estes promettem elles, como valentes e fortes, -parecendo quererem dizer por estes córtes dolorosos, que -não pouparam nem seo sangue e nem sua vida para vingal-os, -e na verdade quanto mais estigmatisados mais valentes -e corajosos são reputados, no que tambem são imitados -pelas mulheres de iguaes qualidades.</p> - -<p>Para mostrar a origem anterior d’este costume, não necessito -remontar-me ás historias profanas, no que seria prolixo, -e sim contentar-me-hei fazendo vêr em diversos trechos -das escripturas sanctas quanto Deos reprova este uso -barbaro e selvagem. No Levitico 19. <i>Super mortuo non incidetis -carnem vestram, nec figuras aliquas, aut stigmatas -facietis vobis.</i> Sobre a vossa carne não fareis incisões, figuras -ou signaes. No cap. 21. <i>Necque in carnibus suis facient -incisuras</i>: e não farão incisões na sua carne. No Deut. 14. -<i>Non vos incidetis, necfacietis calvitiem super mortuo.</i> No -morto não fareis incisões e nem cortareis os cabellos.</p> - -<p>Á respeito d’estas passagens interpretam os Padres, como -fazem os gentios e os idolatras, e de maneira notavel este -trecho—<i>não fareis incisões e nem cortareis os cabellos</i>, por -que se vêem juntas estas duas coisas, que os indios sempre -separam restrictamente: quanto á incisão, já sabeis o que -ella significa, mas quanto ao arrancamento do cabello ficae -sabendo, que apenas as mulheres e as moças sabem do captiveiro -ou morte na guerra dos seos Paes ou maridos, cortam -os cabellos, gritam e lamentam-se horrivelmente, excitando -seos similhantes á vingança, á tomar as armas e a -perseguir seos inimigos, como farei vêr quando narrar a -<i>Historia dos Tremembeses</i>.</p> - -<p>Dos escravos, que me deram n’aquelle paiz para trabalharem -á bem da minha subsistencia soube da maneira como -faziam prisioneiros e escravos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_42"></a>[42]</span></p> - -<p>N’um certo dia reprehendi a preguiça d’um d’elles, fórte -e valente, que me fora dado por um <i>Tupinambá</i>, e elle -para minha advertencia me deo a seguinte resposta, embora -branda (bem sei o que é necessario observar para com -esta nação, que as reprehensões consideram como chagas e -feridas, e aos castigos preferem a morte,<a id="Nanchor_31" href="#Note_31" class="fnanchor">[31]</a> e por esta forma -desejam antes morrer com honra, segundo dizem, no -meio das assembleias, como ja muito bem descreveo o Padre -Claudio d’Abbeville): eil-a «na guerra não me pozeste a -mão sobre a espadua,<a id="Nanchor_32" href="#Note_32" class="fnanchor">[32]</a> como fez aquelle que me deo a ti -para agora me reprehenderes.» Nasceo-me logo a curiosidade -de saber por intermedio do meu interprete o que elle -queria dizer, e então fiquei sciente de ser uma ceremonia -de guerra entre estas nações, quando um é prisioneiro do -outro, bater-lhe este com a mão sobre a espadua e dizer-lhe—faço-te -meo escravo—e desde então este infeliz captivo, -por maior que seja entre os seos, se reconhece escravo -e vencido, acompanha o vencedor, serve-o fielmente sem -que seo senhor ande vigiando-o, tendo liberdade para andar -por onde quiser, só fazendo o que fôr de sua vontade, e de -ordinario casa-se com a filha ou a irmã do seo senhor, e -assim vive até o dia em que deve ser morto e comido, o -que não se pratica mais em <i>Maranhão</i>, <i>Tapuitapera</i> e em -<i>Cumã</i>, e só raras vezes em <i>Caieté</i>.</p> - -<p>Estas nações me despertaram a lembrança do que li outr’ora -nos livros sagrados e na Historia dos Romanos, quando -procediam ao captiveiro dos prisioneiros, e para bem entender-se -bom é notar-se, que foram as ceremonias externas -inventadas para representarem com sinceridade as affeições -do interior: por exemplo, dobrar o joelho, beijar a mão, -descubrir a cabeça, quando saudamos alguem, que estimamos, -são outros tantos testemunhos de apreço interno em -que o temos: outr’ora as espadas tinham hierogliphos representando -o mysterio occulto das acções internas e externas -dos homens.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_43"></a>[43]</span></p> - -<p>Deixando de parte o que não serve ao meo fim contento-me -em referir os dois seguintes casos:—o sceptro apoiado -sobre a espadua significa o poder regio: a alabarda sobre a -espadua declara o poder dos chefes de guerra: as maças de -ouro e prata—o poder dos Senados e dos Pontifices: os machados -com ramos de parreira enroscadas—o poder dos -consulados e dos governadores das provincias. Observe-se o -que foi escripto por Isaias cap. 9. <i>Factus est Principatus -super humerum ejus</i>, seo dominio foi posto sobre sua espadua, -e no cap. 22. <i>Dabo clavem domus Davis super humerum -ejus</i>, e porei a chave da casa de David sobre sua -espadua, quer dizer o—sceptro de David.</p> - -<p>Ao contrario, pôr uma canga, como trazem os bois ou cavallos -quando no trabalho, ou então passar debaixo de uma -lança, atravessada sobre duas outras fixadas perpendicularmente, -ou receber sobre a espadua nua uma vergastada era -o signal da escravidão, como muito bem o patenteiou Isaias, -cap. 9. <i>Jugum oneris ejus et virgam humeris ejus, et sceptrum -exactoris ejus superasti</i>: venceste o jugo do teu fardo -e a vara de sua espada, o sceptro do seu exactor, fallando -do captiveiro da Gentilidade, libertada pelo Salvador: -assim tambem estes selvagens batendo sobre o hombro de -seus prisioneiros, significavam serem elles seos captivos, e -na verdade encontro uma bella profecia, toda litteral, narrando -esta desgraça, á qual estão sujeitos estes pobres selvagens -de Chanaan, por juizo impenetravel da sabedoria divina, -e participação da antiga maldição de Channan, seo Pae: -é em Isaias, cap. 47—<i>Tolle molam, et mole farinam: denuda -turpitudinem tuam, discooperi humerum, revela -crura, transit flumina</i>, toma a mó, e móe a farinha, descobre -tua torpesa e tua espadua, mostra tuas coxas e passa o rio.</p> - -<p>Tomam estes selvagens a mó, e a farinha, não tendo ferramenta -alguma para trabalhar, quer nos bosques quer nas -roças, servem-se unicamente de machados de pedra para -cortar arvores, fazer suas casas e canoas, aguçar paus, cultivar<span class="pagenum"><a id="Page_44"></a>[44]</span> -a terra, semeiar, plantar raizes, e por unica recompensa -de seos trabalhos só comem farinha, e raizes passadas -por um rallador, feito de pedrinhas agudas, engastadas -n’uma taboa da largura de meio pé.</p> - -<p>Cosinham a farinha n’uma grande panella de barro, ao -fogo, como amplamente está escripto na Historia do R. Padre -Claudio d’Abbeville.</p> - -<p>É tão patente sua torpesa, que suas mulheres e filhas, -embora honestas, sentem repugnancia de se vestirem. Trazem -o hombro descuberto, sujeito á este grande captiveiro, -commum a todas as nações. Mostram suas coxas, e a falta -de castidade está em uso entre elles sem reprovação, menos -o adulterio.</p> - -<p>Passam rios buscando ilhas incognitas atraz de segurança.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XV">CAPITULO XV</h3> - -<p class="subhead">Leis do Captiveiro.</p> - -</div> - -<p>Já que estamos fallando dos escravos bom é tratar das -leis do captiveiro, isto é, das que devem guardar os escravos.</p> - -<p>Primeiramente não devem tocar na mulher do seo senhor, -sob pena de serem flexados logo, e a mulher morta ou pelo -menos bem açoitada, e entregue a seos Paes, resultando-lhe -muita vergonha de ser companheira de um dos seos servos.</p> - -<p>Notae, que as raparigas não são despresadas por se entregarem -a quem muito bem lhes parece em quanto solteiras, -logo porem que recebem um marido, si se entregam a<span class="pagenum"><a id="Page_45"></a>[45]</span> -outro, alem da injuria de serem chamadas <i>Patakeres</i>, quer -dizer, prostitutas, tem seos maridos o poder de matal-as, -açoital-as e repudial-as.</p> - -<p>É bem verdade terem os francezes abrandado esta lei tão -rude, não dando permissão aos maridos de matar tanto o escravo -como a mulher adultera, ordenando que fossem conduzidos -ao Forte de São Luiz para vêr punil-as, ou elle mesmo -infringir-lhes o castigo, como vi acontecer, entre outros factos, -no adulterio commettido entre a mulher do Principal <i>Uyrapyran</i>, -e um escravo, bonito rapaz.</p> - -<p>Tinha o referido escravo muito amor a esta mulher, e depois -de ter cogitado todos os meios de gosal-a, vio-a ir um -dia á fonte, muito longe da aldeia, foi logo atraz expôr-lhe -sua vontade, e depois agarrando-a com violencia entranhou-se -com ella n’um bosque, onde saciou seos desejos, e como -ella era de boa familia não quiz gritar para não ser diffamada, -e ainda em cima pedio segredo ao escravo.</p> - -<p>Enfadado o marido com a grande demora da mulher, e -desconfiando de alguma cousa por ser bonita e agradavel, -foi á fonte, onde encontrou junto a borda o pote de sua -mulher cheio d’agoa, e lançando a vista ao redor, como -costumam a praticar os homens ciumentos, vio sahir sua mulher -de um lado do bosque e o escravo de outro. Agarrou -o escravo pelo colleirinho, e confiou-o à guarda dos seos -amigos, e levou sua mulher para casa de seos paes, que se -comprometteram a entregal-a quando pedisse.</p> - -<p>Na manhã seguinte, em companhia dos seos, levou este -escravo á minha casa, expondo-me o facto como acima referi, -acrescentando que si não fosse o respeito ás recommendações -dos Padres e dos Francezes, elle teria matado o -escravo, perdoando comtudo a sua mulher visto ter sido -forçada, a qual ja havia entregado a seos parentes com intenção -de repudial-a.</p> - -<p>Louvei a sua obediencia e respeito: era na verdade um -homem bem feito, de bonito rosto, e bom corpo, fallando<span class="pagenum"><a id="Page_46"></a>[46]</span> -bem e em bons termos, mostrando tanto nas maneiras como -no corpo, generosidade e nobresa de coragem.</p> - -<p>Mandei-o á presença do senhor de Pezieux, loco-tenente -de Sua Magestade na ausencia do Sr. de la Ravardiere, -que tendo ouvido a queixa, mandou carregar de ferros os -pés do escravo, promettendo ao Principal fazer a justiça, -que elle quizesse.</p> - -<p>Replicou-lhe o Principal que desejava vel-o morto como -era costume: respondeo o senhor de Pezieux, que Deos tinha -ordenado em sua lei, que deviam morrer tanto o homem -como a mulher adultera.</p> - -<p>Sim, disse o Principal, porem ella foi constrangida.</p> - -<p>«Não, respondeo o senhor de Pezieux, a mulher não pode -ser forçada por um só homem, ou pelo menos deve gritar, -e não pedir segredo ao selvagem, o que é tacito consentimento:» -dizia tudo isto para salvar o escravo da morte, por -que muito bem sabia não concordar o Principal na morte -de sua mulher visto os muitos parentes que ella tinha.</p> - -<p>Conseguio-o logo, porque elle pedio ao Sr. de Pezieux, -que não matasse o escravo, mas sim que o prendesse na -golilha, e que lhe fosse permittido açoital-o á vontade.</p> - -<p>«Sim, disse-lhe o Sr. de Pezieux, com tanto que dês quatro -açoites com cordas em tua mulher, diante de todas as -mulheres, que se acharem no Forte, e ao som da corneta.»</p> - -<p>Acordes n’isto, na manhã seguinte, foi a mulher conduzida -e confrontada com o escravo, reconheceo-se que o facto -deo-se como ja referi, foram ambos conduzidos á praça publica -do Forte, onde se fincou o esteio e a golilha: ahi o -marido representou o papel de verdugo, escolheo tres ou -quatro cordas bem duras, que enrolou em seo braço, e voltou -em sua mão direita, e com ellas açoitou sua mulher por -quatro vezes, deixando-lhes vergões bem grossos e cumpridos, -impressos sobre seos rins, ventre e costas, não sem -derramar muitas lagrimas, que lhe corriam ao longo das<span class="pagenum"><a id="Page_47"></a>[47]</span> -faces, e sem exhalar profundos suspiros: sua mulher tambem -gemia, com a vista baixa, envergonhada de assim se vêr -rodeiada por tantas mulheres, que, como ella, tambem choravam -tanto por compaixão, como apprehensivas de que para -o futuro não lhes acontecesse o mesmo.</p> - -<p>Os homens ao contrario mostravam-se alegres diante de -tão boa justiça, e gracejando diziam á suas mulheres—<i>ah! -se te pilho!</i></p> - -<p>Durante todo o dia estiveram tristes as mulheres dos Tabajares.</p> - -<p>Depois de haver açoitado sua mulher, este bom marido -lhe disse «eu não tinha desejos de castigar-te, fiz o que -pude perante o Maioral dos Francezes para salvar-te, porem -vae, enchuga tuas lagrimas, e tornar-te hei a tomar por mulher, -e te levarei para casa quando acabar de castigar este -escravo.»</p> - -<p>Sabe Deos, se o pesar que elle teve pelos açoites, que -deo a mulher, melhorou a sorte do pobre escravo, porque -pondo-o na praça ou no largo, fez um circulo do tamanho -do seo chicote, separado todos, um por um.</p> - -<p>Tinha o escravo ferros nos pés, estava em pé, nu como -a palma da mão, e assim soffreu o castigo, sem dizer uma -palavra e sem mecher-se: por tres vezes cansado e sem -poder respirar descançou, depois de fortalecido recommeçou -e de tal maneira, que não poupou uma só parte do -corpo.</p> - -<p>Começou pelos pés, seguio pelas pernas, coxas, partes -naturaes, rins, ventre, espaduas, peito, e acabou pelo rosto -e testa.</p> - -<p>Esteve muito tempo doente por este castigo, sempre com -ferros nos pés, conforme pedio o Principal, porem passado -algum tempo consentio que lhos tirassem, á pedido do senhor -de Pezieux, que desejava satisfazer os desejos dos seos -Principaes para melhor obrigal-os a serem fieis aos Francezes.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_48"></a>[48]</span></p> - -<p>Acabado isto, tomou conta da mulher, que já não chorava, -e sim principiava a rir-se, e assim voltaram para casa -como se nada tivesse acontecido.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XVI">CAPITULO XVI</h3> - -<p class="subhead">Outras leis para os escravos.</p> - -</div> - -<p>Consistem as outras leis, em não poderem os escravos, de -ambos os sexos, casarem-se senão á vontade dos seos senhores, -porque tanto uns como outros moram juntos e seos -descendentes pertencem ao mesmo domno.</p> - -<p>Os selvagens <i>Tupinambás</i> tomam ordinariamente para -mulher as raparigas captivas, e dão suas proprias filhas ou -irmans aos mancebos escravos afim de cuidarem no arranjo -da casa e da cozinha.</p> - -<p>Praticam o contrario os francezes, porque compram homens -e mulheres escravas para casal-os, ficando a mulher -com o dever de cuidar no arranjo da casa, e o marido com -o de ir pescar e caçar.</p> - -<p>Se acontece um francez comprar alguma rapariga escrava, -mostra-a a algum joven <i>Tupinambá</i>, que morre de amores -pelas que são bellas, depois promette-lhe que será seo genro -pois ama sua escrava como si fosse sua propria filha para -assim vir o <i>Tupinambá</i> morar com elle, casar com a rapariga, -e por esta forma ter por uma escrava dois escravos, a -quem trata por filha e genro, e elles o chamam seo <i>Cheru</i>, -isto é, seo Pae.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_49"></a>[49]</span></p> - -<p>As raparigas escravas, que não se casão, dispoem de si -como querem, si por ventura seos senhores não lhe prohibem -relações com certos e determinados individuos, porque -então em caso contrario soffrem muito; mas quando seos -senhores lhe impoem completa abstinencia, ellas lhe dizem -bem claramente, que então as tomem por mulheres visto -não querer, que alguem as ame.</p> - -<p>Devem os escravos trazer fielmente o resultado da sua -pescaria e caçada, e depôl-o aos pés do seo senhor ou -senhora, para elles escolherem e depois lhes darem o -resto.</p> - -<p>Não podem trabalhar para outrem sem consentimento do -seo senhor, e nem dar seo rebanho, que lhes deo o senhor, -sem lhe dizerem antes uma palavra, pois de outra forma -pode ser tomado como coisa, que não pertence legitimamente -aos escravos.</p> - -<p>Não devem passar atravez da parede das casas, somente -feita de <i>pindoba</i>, ou de ramos de palmeira, ao contrario -são criminosos de morte, porque devem passar pela porta, -commum, ou atravez da parede de palmas.</p> - -<p>Não devem fugir, porque quando são agarrados, está tudo -perdido, visto que são comidos: n’este caso já não pertencem -ao senhor, e sim a todos, e para este fim quando se -prende um escravo fugido, sahem da aldeia as velhas, vão -ao seu encontro, e gritando dizem «é nosso, entregae-nos, -queremos comel-o», e batendo com a mão na bocca, gritam -uns para os outros com certa expressão «nós o comeremos, -nós o comeremos, é nosso.»</p> - -<p>Vou dar-lhes um exemplo:</p> - -<p>Um guerreiro Principal da ilha do Maranhão, chamado -<i>Ybuira Pointan</i>,<a id="Nanchor_33" href="#Note_33" class="fnanchor">[33]</a> quer dizer, <i>Pau brasil</i>, ao regressar da -guerra trouxe comsigo alguns escravos, dos quaes um procurou -salvar-se pela fuga, porem sendo agarrado, foram as -velhas ao seu encontro batendo na bocca com as mãos, -e dizendo «é nosso, entregae-o, é necessario que seja comido».</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_50"></a>[50]</span></p> - -<p>Houve muita difficuldade em salval-o apezar da prohibição -de não se comerem os escravos, e si não se empregassem -ameaças, elle seria devorado pelas velhas.</p> - -<p>Si acontece morrerem de molestias estes escravos, sendo -assim privados do leito de honra, isto é, de serem mortos -e comidos publicamente, um pouco antes do seo fallecimento -levam-nos para o matto, lá partem-lhe a cabeça, espalham o -cerebro, e deixam o corpo insepulto e entregue a certas -aves grandes, similhantes aos nossos corvos, que comem -os enforcados e os rodados.</p> - -<p>Quando são achados mortos em seos leitos, atiram-nos em -terra, arrastam-nos pelos pés até o matto, onde lhes racham -a cabeça, como acima disse, o que ja não se pratica na Ilha -e nem em suas circumvisinhanças, senão raras vezes e occultamente.</p> - -<p>Gozam tambem de muitos privilegios, que os levam a residir -voluntariamente entre os <i>Tupinambás</i>, sem desejar fugir, -considerando seos senhores e senhoras como paes e -mães, pela docilidade com que os tratam cumprindo assim -seo dever; não ralham com elles e nem os offendem, não -os espancam, desculpam-nos em muita coisa contanto que -não offenda os seos costumes: são muito compadecidos, e -chegam a chorar quando os francezes tratam os seos com -aspereza, e si outros se lastimam do procedimento dos francezes -prestam-lhe todo o credito ao que dizem.</p> - -<p>Quando fogem dos francezes elles os occultam, levam-lhes -o sustento nos mattos, vão vesital-os, as raparigas vão -dormir com elles, contam-lhes o que se passa, aconselham-nos -sobre o que devem fazer, e de tal sorte que é muito -difficil agarral-os, embora vão atraz d’elles uns vinte homens, -e isto não fazem para com os escravos dos seos similhantes.</p> - -<p>Vem a proposito o contar que um dia perguntei a um dos -escravos, que tinha em meu poder, si não estava satisfeito -vivendo commigo, não só porque lhe ensinei a temer a Deos, -como tambem pela certesa, que tinha, de não ser comido,<span class="pagenum"><a id="Page_51"></a>[51]</span> -e que, quando christão, seria livre, morando com os padres -como si fosse filho d’elles.</p> - -<p>Pelo interprete respondeo-me julgar-se feliz por haver -cahido nas mãos dos Padres, tanto por conhecer á Deos -como por viver com elles, e si fosse para o poder de outro -chefe, não estaria socegado e nem descançado de não -ser comido, porque, acrescentava elle, quando se morre, -nada mais se sente, quer elles comam ou não, e o mesmo -para o morto: amofinar-me-ia de morrer na minha cama, -e não á maneira dos grandes no meio das danças e dos -<i>Cauins</i>, afim de vingar-me antes de morrer, dos que iriam -comer-me.</p> - -<p>Quando penso, que sou filho de um dos grandes do meo -paiz, que meo pae é homem moderado, que todos o cercavam -para escutal-o quando elle ia á <i>casa grande</i>,<a id="Nanchor_34" href="#Note_34" class="fnanchor">[34]</a> vendo-me -agora escravo, sem pintura no corpo, sem cocar, sem -enfeites nos braços, e nem nos pulsos, como acontece aos -filhos dos grandes das nossas terras, antes queria ser morto -especialmente quando me lembro, que fui agarrado ainda -menino, com minha mãe, lá na minha terra, e trazido para -<i>Comã</i>, onde vi matar e comer minha mãe, com quem desejei -morrer, porque ella me amava muito, e por isso não -posso senão lamentar minha vida.</p> - -<p>Proferindo estas palavras, chorou muito, a ponto de pungir-me -o coração, visto saber por experiencia quanto são -amorosos estes selvagens, para com seos paes, e estes para -com elles.</p> - -<p>Accrescentou, que depois de ter sido sua mãe morta e -comida, seo senhor e sua senhora o adoptaram por filho, e -elle os tratava por pae e mãe: quando fallava d’elles era -com affeição inexplicavel, embora tivessem comido sua propria -mãe, e ja fosse resolvido o comel-o tambem pouco tempo -antes de chegarmos á Ilha.</p> - -<p>Seo senhor e senhora tomavam o trabalho de vir vel-o -em nossa casa, embora fosse necessario vencer a distancia -de 50 legoas, desde sua aldeia até aqui.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_52"></a>[52]</span></p> - -<p>Gozam ainda de muitos outros privilegios, porque lhes é -permittido o namorar as raparigas livres, sem risco algum, -olhar mesmo para as raparigas de seo senhor e senhora, si -quizerem, e n’isto não ha muita recusa, comtudo ellas buscam -os mattos e em certas cabanazinhas os esperam em hora -marcada, para evitar pequeno remoque que costumam a -fazer das moças de boa raça, quando se entregam a escravos, -o que serve antes de riso do que de deshonra.</p> - -<p>Vão livremente aos <i>Cauins</i>, e dansas publicas, enfeitando -de mil maneiras o seo corpo quer com pinturas, quer com -pennas, quando podem, pois estas são muito caras.</p> - -<p>Vivem com os filhos de seos senhores, como si fossem -irmãos, e em breve tempo gozam muita liberdade no seo -captiveiro.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XVII">CAPITULO XVII</h3> - -<p class="subhead">Quanto são misericordiosos os selvagens para com os -criminosos por acaso e sem malicia.</p> - -</div> - -<p>Entre as perfeições naturaes que a experiencia me tem -mostrado n’estes selvagens, nota-se uma justa misericordia, -isto é, desejam a punição dos maus, quando por maldade -praticam algum crime, e ao contrario são compadecidos e -pedem misericordia para aquelles, que por acaso ou inadvertidamente -incorrem n’alguma falta, e isto vou provar á vista -do seguinte exemplo.</p> - -<p><i>Maioba</i> é uma grande aldeia, distante tres leguas do Forte -de São Luiz: o seo Principal é um bom homem, amado pelos -francezes, e veio fazer a nossa casa.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_53"></a>[53]</span></p> - -<p>Tinha dois filhos fortes e robustos, ambos casados, e duas -filhas, uma casada e outra solteira, bonitas e engraçadas, -muito amadas por seo Pae e Mãe, de tal forma que eram -perdidos por ellas e o assumpto predilecto de suas conversações, -e guardavam a solteira para um francez quando voltassem -os navios, diziam elles, e que os francezes se resolvessem -a casar com indias.</p> - -<p>Fundava seos castellos e sua fortuna sobre um fragil barco, -similhante a aquella boa mulher, que tendo em suas -mãos o primeiro ovo de sua gallinha, sua imaginação ia levantando-a -até um principado, que d’ahi ha pouco cahio no -chão e inutilisou-se, e com elle foi-se toda a ventura esperada -por ella.</p> - -<p>Assim este homem não tendo outra consolação senão em -sua filha, poucos dias depois, por uma noite tão triste, <i>Geropary</i> -torceo o collo d’esta plantinha, virando-lhe a bocca -para as costas: coisa terrivel! estava negra como o diabo, -os olhos esbugalhados e revirados, a bocca aberta, a lingua -sahida para fóra, os labios superiores e inferiores revirados -á deixar vêr os dentes e as gengivas, o que poderia pela -tristesa e medo, que causava, matar a seos parentes.</p> - -<p>Nunca pude saber qual foi a causa d’isto, e apenas me -disseram que era infiel, e talvez vivesse deshonestamente, -porem nunca deo escandalo.</p> - -<p>Embora seo pae tivesse vendido sua filha mais velha á -algum francez para d’ella abusar, depois a tirou da companhia -do seo marido.</p> - -<p>Dizem os que se acham em peccado mortal, que elles estão -sob o dominio e posse do diabo, e o mesmo lhes aconteceria, -si Deos quizesse.</p> - -<p>Não foi só esta desgraça, porque uma arrasta outra comsigo, -e a primeira é embaixadora da segunda.</p> - -<p>Pouco tempo depois, este Principal fez uma festa de vinho -publicamente, e para isto convidou não só os habitantes -de sua aldeia, como tambem os da visinhança.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_54"></a>[54]</span></p> - -<p>Quando todos dançavam e cantavam, quando o vinho fervia -e muitos já se achavam embriagados, seos dois filhos, -de que ja fallei, travaram-se de razões, e o autor da questão -querendo agarrar seo irmão, por um acaso ferio-lhe no -ventre com um punhado de flechas, que este trasia pelo que -cahio logo banhado em sangue. Tiraram-se as flexas com -muita dor, como bem se calcula, o soffrimento fez desapparecer -o vinho, a festa ficou perturbada, as cantorias se -mudaram em gritos e lamentos, o vinho em lagrimas, -as dansas em espancamentos proprios e arrancamento de -cabellos.</p> - -<p>O infeliz pae, expectador de similhante tragedia, assentado -n’uma rede d’algodão, teve um desmaio, e cahio para -traz.</p> - -<p>Voltando a si, disse aos que o rodeiavam, que de uma -só vez perdeo seos dois filhos, não fallando na que tinha -perdido antes, um ferido por sua culpa, e o outro que os -francezes mandariam matar; todos se condoeram d’elle.</p> - -<p>Resolveram todos os Principaes da Ilha a virem ao Forte -de São Luiz interceder a favor do vivo.</p> - -<p>Em quanto se passavam estes factos, o ferido contra sua -vontade, aproximava-se da morte, chamou seo irmão, e lhe -disse: sou um grande criminoso, pois de uma só vez matei -muitas pessoas, isto é, a mim, a meo pae, que morrerá de -tristesa e a ti porque os francezes te mandarão matar: elles -são justiceiros em punir os maus: mas sabes tu o que ha? -toma meo conselho, e faze o que te digo.</p> - -<p>Os Padres que vieram com os francezes, são compadecidos, -e nos amam e aos nossos filhos, e pelos seos interpretes -soube que aqui vieram para salvar-nos.</p> - -<p>Já ouvi dizer, n’uma reunião a um dos nossos similhantes, -que os antecessores dos Padres baptisaram antigamente -em quanto com elles estiveram, e que vio os <i>Canibaes</i> se -abrigarem em suas Igrejas, quando faziam alguma maldade, -por terem certesa de que ahi ninguem lhes faria mal.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_55"></a>[55]</span></p> - -<p>Faze o mesmo, quando anoitecer vae com meo Pae procurar -o Padre na sua cabana de <i>Yviret</i>, pede para te pôr -na casa de Deos, que é defronte da residencia d’elle, e ahi -fica, até que meo Pae, conjuntamente com os Principaes, -intercedam por ti, e consigam o teo perdão do Maioral dos -francezes.</p> - -<p>Para mais facilidade, tu sabes que os Francezes necessitam -de canoas e de escravos, offereça pois meo Pae ao chefe -tua canoa e teos escravos, para que não morras.</p> - -<p>Tudo isto foi cumprido pontualmente, porque este velho, -Pae dos dois rapazes, foi procurar-me, rogou-me e instou-me -para que recebesse seo filho na casa de Deos, e intercedesse -para ser perdoado pelo Maioral dos Francezes, buscando -convencer-me, entre outras, com estas razões.</p> - -<p>«Vós outros Padres fazeis regorgitar de povo as nossas <i>Casas -Grandes</i>, quando quereis, desejando vêr ahi grandes e -pequenos, afim de ouvirem a causa, que vos obrigou a deixar -vossas casas e terras, muito melhores do que estas, -para nos ensinarem a naturesa de Deos, que é, como dizeis, -bom, misericordioso, amante da vida e inimigo da morte, e -por isso não quer que ninguem morra assim como elle morreo -n’um madeiro para fazer viver os mortos.</p> - -<p>«Dizeis ainda, que nossos filhos não são mais nossos, o sim -vossos, que Deos vol-os deo, e que d’elles tomaes cuidados -até a morte: mostrae-me hoje, que vossa palavra é verdadeira.</p> - -<p>«Estou velho, perdi todos os meos filhos, só me resta um, -que fez esta casa, que vos estima muito, e a todos os Padres -e quer ser christão.</p> - -<p>«Matou seo irmão sem querer, ou melhor, foi seo irmão -quem se matou a si proprio com as flechas, que -trazia. Rogo-te o recebas na casa de Deos, e vem commigo -fallar ao chefe, porque elle nada te recusará visto -estimar-te muito.</p> - -<p>«Quiz trazer commigo o filho, a favor de quem intercedo -porem elle teme muito a ira dos Francezes: actualmente<span class="pagenum"><a id="Page_56"></a>[56]</span> -anda errante e fugitivo pelos mattos, como si fosse um javaly: -quando ouve o ramalhar das arvores suspeita ser os -Franceses, que armados andam em busca d’elle para prendel-o -e conduzi-lo a <i>Yviret</i>, onde será amarrado á bocca de -uma peça.»</p> - -<p>Respondi pelo meo interprete, asseverando-lhe que empregaria -os meos esforços, que tinha esperança de obter o -que elle desejava porque o chefe me estimava; mas que era -bom, que elle fosse pessoalmente fazer seo pedido, e que eu -iria depois delle.</p> - -<p>Foi immediatamente ao Forte em companhia de um dos -principaes interpretes da Colonia, chamado <i>Migan</i>,<a id="Nanchor_35" href="#Note_35" class="fnanchor">[35]</a> e -expôz suas razões e rogos ao senhor de Pezieux, por esta -fôrma.</p> - -<p>«Sou um Pae muito infeliz, e acabarei minha velhice como -os javalys, vivendo só, comendo raizes amargas e cruas, se -de mim não tiveres piedade.</p> - -<p>«A misericordia muito convem aos grandes, e maiores -não podem ser, quando usam d’ella e de clemencia.</p> - -<p>«É teu rei o maior do Mundo, como nos contam os nossos, -que estiveram em França.</p> - -<p>«Elle para aqui te mandou como um dos Principaes da -sua côrte afim de nos livrares do captiveiro dos <i>Peros</i>: ora -como és grande, e misericordioso, usa de misericordia para -com os infelizes, que são desgraçados por acaso e não por -malicia.</p> - -<p>«Bem conheço, que é preciso ser justo, e indagar o motivo -para se fazer a escolha, e proceder-se a vingança sobre -os maus, o que mui restrictamente observamos entre nós, -desde os nossos paes, mas quando a falta não é originada -por maldade nós perdoamos.</p> - -<p>«Tenho dois filhos, como sabes, os quaes tem vindo trabalhar -no teo Forte, um matou o outro por acaso e sem -maldade, ou para melhor dizer, suicidou-se o mais velho -nas flechas do mais moço, que está vivo, e te peço que não -o persigas e sim o perdôes.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_57"></a>[57]</span></p> - -<p>«É elle, que me hade sustentar na velhice: sempre foi -amigo dos francezes, e quando algum vae a minha aldeia, -chama logo os seos cães, e vae caçar cotias e as pacas para -elle comer.</p> - -<p>«Fez a cása dos Padres, e assevera-me que elles o protegem.</p> - -<p>«Sempre foi muito obediente á sua madrasta, que o ama -como si fosse seo proprio filho: seo irmão, que sem querer, -elle matou, era mau, não estimava os Francezes, nunca lhes -deo coisa alguma, não ia á caça para elles, aborrecia sua -madrasta, e muitas vezes a zangava: quando morreo, estava -bebado, e veio tomar a mulher do seo irmão, e arrancando -o filho, que ella tinha ao collo, atirou o menino para -um lado e a mãe para outro, dando-lhe bofetadas, embora -estivesse grávida, na minha presença e á vista do seo marido, -e tudo soffremos com paciencia; porem vindo agarrar -seo irmão para espancal-o, ferio-se no ventre com as flechas, -que elle trasia na mão e assim morreo.</p> - -<p>«Porque perderei eu meos dois filhos, de uma só vez, e -já na minha velhice?</p> - -<p>«Si queres mandar matar o unico que tenho, mata-me -primeiro, e depois a elle. Elle te dá sua canoa para a pescaria -e seos escravos para te servirem.»</p> - -<p>Admirou o Sr. de Pezieux este discurso, como depois me -disse e por muitas vezes, e o referio á diversas pessoas, -admirando-se de ver tão bella Rhetorica na bocca de um selvagem.</p> - -<p>Previno-vos, que represento todos estes discursos e supplicas -o mais sinceramente que me foi possivel, sem o emprego -de artificio algum.</p> - -<p>Respondeo o Sr. de Pezieux dizendo ser grande crime um -irmão matar outro, mas como elle asseverava ter sido antes -por culpa do fallecido do que pela do vivo, perdoava a rogo -dos Padres, a quem nada queria recusar, e assegurou-lhe -logo que seo filho nada soffreria, que acceitava a canoa e -os escravos, porem que tudo isto lhe offerecia para o arrimo<span class="pagenum"><a id="Page_58"></a>[58]</span> -de sua velhice visto ser elle amigo dos Padres e dos -Francezes.</p> - -<p>Alegrou-se muito o bom velho com este acto de misericordia -e liberalidade, e não foi ingrato, não só fazendo conhecido -por toda a Ilha o facto, como tambem offerecendo -ao dito Sr. e a nós tudo quanto elle e seu filho caçavam.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XVIII">CAPITULO XVIII</h3> - -<p class="subhead">Quanto é facil civilizar os selvagens á maneira dos -francezes, e ensinar-lhes os officios, que -temos em França.</p> - -</div> - -<p>No Liv. 2.º, Cap. 1.º, dos Machabeos, lemos, que o fogo -sagrado do altar foi escondido no poço de Nephtar durante -o captiveiro do povo e se transformou em limo.</p> - -<p>Quando o povo regressou, já livre, os Sacerdotes apanharam -este limo, e o deitaram na madeira do altar, levantado -para os sacrificios.</p> - -<p>Apenas o sol, lá de cima, começou a lançar seos raios -sobre o limo, este se transformou em fogo, e devorou os -holocaustos.</p> - -<p>Desejo servir-me d’esta figura para explicar o que tenho -a dizer n’este e nos seguintes Capitulos.</p> - -<p>Convem notar, que por este fogo se deve entender o espirito -humano imitando a naturesa do fogo por sua actividade, -ligeiresa, calôr e claridade, o qual se torna lodo e -limo, escondido n’um centro differente do seo proprio, devido -isto á sua alma captiva pela infidelidade.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_59"></a>[59]</span></p> - -<p>Quero dizer, que sendo o espirito do homem creado para -conhecer a Deos, e aprender artes e sciencias, torna-se entorpecido -e obscurecido entre as immundicies, quando sua -alma está presa nas cadeias da infidelidade, sob a tyrannia -de Satanaz, mas quando sua alma desprende-se do captiveiro -pela intenção e guia dos Prophetas de Deos, sahe o -espirito d’esse poço lamacento, e animado pela luz, e conhecimento -de Deos, das artes, e das boas sciencias, torna-se -apto e prompto para executar o que percebe e aprende, -o que farei vêr, e tocar com o dedo a respeito dos nossos -selvagens, e mui principalmente quando de suas perguntas -mais comesinhas nasce a esperança d’elles se civilisarem, -e viverem reunidos n’uma cidade, negociando, aprendendo -officios, estudando, escrevendo e adquirindo sciencia.</p> - -<p>Tenho para mim, que são mais faceis de serem civilisados, -do que os aldeões de França, por ter a novidade não -sei que influencia sobre o espirito afim de excital-o a aprender -o que elle vê de novo, e lhe agrada.</p> - -<p>Os nossos <i>Tupinambás</i> nunca tiveram ideia alguma de -civilisação até hoje; eis a razão porque elles se esforção, por -toda a forma, de imitar os nossos francezes, como depois -direi.</p> - -<p>Ao contrario os aldeões da nossa França estão de tal sorte -enraisados em sua rusticidade, que, em qualquer conversação, -embora nas cidades entre pessoas distinctas, sempre -mostram signaes de camponezes.</p> - -<p>Aos <i>Tupinambás</i>, depois de dois annos de convivencia -com os francezes, estes lhes ensinaram a tirar o chapeu, a -saudar a todos, a beijar as mãos, a comprimentar, a dar os -bons dias, a dizer adeos, a ir á Igreja, a tomar agua benta, -a ajoelhar-se, a pôr as mãos, a fazer o signal da Cruz na -testa e no peito, a bater no peito diante de Deos, a ouvir -missa e sermão, ainda que nada d’isto comprehendam, a -levar o <i>Agnus Dei</i>, a ajudar o sacerdote á missa, a assentar-se -á mesa, a estender a toalha diante de si, a lavar suas -mãos, a pegar na carne com tres dedos, a cortal-a no prato,<span class="pagenum"><a id="Page_60"></a>[60]</span> -e a beber em commum, e breve farão todos os actos de -civilidade e delicadesa, que se costuma a praticar entre -nós, e já se acham tão adiantados a ponto de parecerem -ter sempre vivido entre os francezes.</p> - -<p>Ninguem pois poderá contestar-me, que não sejam estes -factos bastante para convencer-nos do que devemos esperar -e acreditar ser esta nação, com o andar dos tempos, civilisada, -honesta e muito aproveitada.</p> - -<p>Como os exemplos provam mais que outra qualquer especie -de argumentação, vou contar-vos o caso de alguns -selvagens educados em casa de nobres.</p> - -<p>Actualmente ha em Maranhão uma mulher selvagem, de -uma das boas raças da Ilha, que foi antigamente, quando -bem pequena, tomada pelos portuguezes, e vendida como -escrava á D. Catharina de Albuquerque, sobrinha do grande -Albuquerque, Vice-Rei das Indias Orientaes, sob o dominio -do Rei de Portugal, a qual reside presentemente em Pernambuco, -e é Marqueza de Fernando de Noronha, ilha muito -bella e fertil, segundo diz o Revd. Padre Claudio d’Abbeville -na sua Historia.</p> - -<p>Esta rapariga fez-se christã, e se a vestissem á portugueza -não se poderia facilmente dizer qual a sua origem, -se portugueza ou selvagem, mostrando sempre a vergonha -e o pudor, inseparaveis de uma mulher, e occultando com -cuidado a imperfeição do seo sexo.</p> - -<p>Poderia dizer outro tanto de muitos selvagens, educados -entre os portuguezes, e dos quaes alguns foram á França, e -conservam ainda hoje o que aprenderam, e o praticam quando -se acham entre os francezes.</p> - -<p>É novo entre elles o uso da barba e dos bigodes, porem -como vêem esse uso entre os Francezes, tambem deixam -crescer tanto uma como outra coisa.</p> - -<p>Tem incomparavel aptidão para as artes e officios.</p> - -<p>Conheço um selvagem do Miary, chamado <i>Ferrador</i>, por -causa do officio, que aprendeo, vendo somente trabalhar um -ferrador francez que nada lhe explicou.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_61"></a>[61]</span></p> - -<p>Sabia muito bem malhar com os outros uma barra de ferro -encandecida, como se tivesse longa pratica, apesar de ser -coisa muito sabida entre os officiaes do mesmo officio, que -é necessario muito tempo para aprender-se a musica dos -martellos na bigorna do ferrador.</p> - -<p>Achando-se este mesmo selvagem nos desertos do Miary -com seos semelhantes, sem bigorna e martello, limas e tornos, -trabalhava comtudo muito bem fazendo pontas ou lanças -para flechas, harpões e anzóes. Por bigorna tinha uma -pedra muito dura, por martello outra de menor consistencia, -e depois aquecendo ao fogo o ferro, dava-lhe a forma que -queria.</p> - -<p>Os officios mais necessarios entre elles são os de ferreiro, -tanoeiro, carpinteiro, marcineiro, cordoeiro, alfaiate, sapateiro, -tecelão, oleiro, ladrilhador, e agricultor.</p> - -<p>Para todos estes officios são aptos e inclinados pela natureza.</p> - -<p>Para o de ferreiro ou de ferrador ja referimos um exemplo.</p> - -<p>Quanto ao officio de tecelão seria a sua especialidade se -aprendessem; tecem seos leitos muito bem, trabalham em -lã tão perfeitamente como os francezes, embora não empreguem -a lançadeira, e nem a agulha de ferro, e sim pequenos -pausinhos.</p> - -<p>Contarei ainda uma bonita historia.</p> - -<p>Fui um dia visitar o grande <i>Thion</i>, principal dos Pedras-verdes, -<i>Tabajares</i>; quando cheguei a sua casa, e porque -lhe pedisse, uma de suas mulheres me levou para debaixo -de uma bella arvore no fim da sua cabana, que a abrigava -dos ardores do sol, onde estava armado um teiar de faser -redes de algodão, em que elle trabalhava.</p> - -<p>Gostei muito de vêr este grande Capitão, velho Coronel -de sua nação, enobrecido por tantas cicatrises, entregando-se -com praser á este officio, e não podendo conter-me, perguntei-lhe -a razão d’isto, esperando aprender alguma coisa -de novo n’este facto tão particular, que estava vendo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_62"></a>[62]</span></p> - -<p>Pelo meu interprete lhe perguntei a razão, porque se dava -a esse mister.</p> - -<p>Respondeo-me, «porque os rapases observam minhas acções -e praticam o que eu faço; se eu ficasse deitado na rede -e a fumar, elles não quereriam fazer outra coisa: quando me -vêm ir para o campo com o machado no hombro e a fouce -na mão, ou tecer rede, elles se se envergonham de nada -fazer.»</p> - -<p>Eu e os que comigo então se achavam, sentiram muito -prazer ouvindo estas palavras, e desejaria vel-as praticadas -por todos os christãos, porque então a ociosidade, mãe de -todos os vicios, não estaria em França, como actualmente -se vê.</p> - -<p>O officio de carpinteiro não lhes é muito difficil, porque -os vi fazendo suas casas, e as dos Francezes, assentando -seo machado, e repetindo o golpe no mesmo lugar, quatro -ou cinco vezes, com tanta firmeza, como faria qualquer carpinteiro -bem habil.</p> - -<p>A arte de marcineria lhes é facil, porque com suas fouces -aplainam um pedaço de pau, tão liso e tão igual, como se -tivesse passado o raspador por cima d’elle.</p> - -<p>Com o auxilio de suas facas somente, fazem macaquinhos -e outras figuras de madeira.</p> - -<p>Não precisam de serra, e nem de outro qualquer instrumento -para fazer seos arcos, remos e espada de guerra, pois -basta-lhes uma simples machadinha.</p> - -<p>Cavam, arranjam suas canôas, e dão-lhes a forma, que -lhes apraz.</p> - -<p>Brevemente tractarei de outros officios, nos quaes os vi -trabalhar com tal industria a ponto de parecer-me que, com -pouco tempo de ensino, chegaram á perfeição.</p> - -<p>Alem d’isto fazem muito bem vestidos, cubertas de cama, -sobre-céos, sanéfas e cortinados de cama, pennas de diversas -cores, que por sua perfeição se pensa terem vindo de -fóra.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_63"></a>[63]</span></p> - -<p>Não fallarei da propensão natural, que elles tem para pintar, -fazer diversas folhagens, e figuras, servindo-se apenas -de uma pequena lasca de pau, ou ponteiro, ao passo que os -nossos pintores necessitam de tantos pinceis, compassos, regoas, -e lapis.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XIX">CAPITULO XIX</h3> - -<p class="subhead">Quanto são aptos os selvagens para aprenderem -sciencias e virtudes.</p> - -</div> - -<p>Quando regressei das Indias para a França, pelas frequentes -e constantes perguntas, feitas pelas pessoas, que -me vinham visitar, reconheci quanto é difficil acreditarem -os Francezes, que os selvagens sejam aptos para aprenderem -sciencia e virtude, e não sei se alguns chegam a ponto -de julgar estes povos antes do genero dos macacos, do que -dos homens.</p> - -<p>Em quanto a mim elles são homens, e provarei, e por -tanto capazes de obterem sciencia e virtude.</p> - -<p>Seneca na sua epistola 110 disse «<i>Omnibus natura dedit -fundamenta semenque virtutum</i>.» A natura deo a todas as -creaturas, sem excepção de uma só, as raizes e as sementes -das virtudes, palavras mui notaveis: assim como as raizes -e as sementes são lançadas na terra e por conseguinte -enterradas em suas entranhas, assim tambem Deos lançou -naturalmente no espirito do homem as raizes e as sementes -da virtude: com taes alicerces pode o homem, ajudado por -Deos, edificar um predio, e extrahir da semente uma bella -arvore carregada de flores e de fructos, doutrina esta muito<span class="pagenum"><a id="Page_64"></a>[64]</span> -bem provada por S. João Chrisostomo, na Homilia 55, ao -povo de Antiochia, e na Homilia 15 á respeito da Epistola -1ª á Thimotheo moralisando esta passagem do Genesis:—<i>Germinet -terra, herbam virentem, e omne lignum pomiferum</i>, -«produsa a terra herva verdejante ou arvore fructifera:» -acrescentou ainda—<i>Dic ut producat ipse terra fructum -proprium et exibit quicquid facere velis</i>, «dize e ordena -á tua propria terra, que produza seo fructo natural, e -verás ella produzir logo o que pedires.»</p> - -<p>São Bernardo, no <i>Tractado da vida solitaria</i>, disse—<i>virtus -vis est quædam ex natura</i>, «a virtude é uma certa força, -que sahe da natureza.»</p> - -<p>Se assim não fôr, quero provar por muitos exemplos, -começando pelas sciencias, para cujo ensino concorrem as -tres faculdades da alma—vontade, intelligencia, e memoria: -a vontade dá ao homem o desejo de aprender, e por ella -vencemos toda a sorte de trabalhos e difficuldades: a intelligencia -dá vivacidade para comprehender, e a memoria -guarda e conserva o que conheceo e aprendeo.</p> - -<p>São mui curiosos os selvagens de saber novidades e para -satisfazer tal desejo, os caminhos e a distancia das terras, -por maiores, que sejam, lhes parecem curtos, não sentem a -fome, porque passam, e os trabalhos como que são descanço -para elles: prestam-vos toda a sua attenção, escutam o -que disserdes durante o tempo que vos parecer, sem enfado -e em silencio, á respeito de Deos, ou de qualquer assumpto, -e se tiverdes paciencia, elles vos farão milhares de -perguntas.</p> - -<p>Lembra-me, que entre as praticas, que eu lhes fazia ordinariamente -por intermedio do meo interprete, eu lhes disse -que apenas chegassem de França os Padres, elles mandariam -edificar casas de pedra ou de madeira, onde seriam -recolhidos seos filhos, aos quaes os Padres ensinariam tudo -o que sabem os <i>Caraibas</i>.</p> - -<p>Responderam-me: oh! quanto são felizes nossos filhos por -aprenderem tão bellas coisas, oh! quanto fomos infelizes nós<span class="pagenum"><a id="Page_65"></a>[65]</span> -e os nossos antepassados por não haverem Principaes n’esse -tempo.</p> - -<p>É viva sua intelligencia como reconhecereis pelo seguinte -facto.</p> - -<p>Não ha estrellas no Ceo, que elles não conheçam e calculam -pouco mais ou menos a vinda das chuvas e as outras -estações do anno.</p> - -<p>Pela phisionomia distinguem um Francez de um Portuguez, -um Tapuyo de um Tupinambá, e assim por diante.</p> - -<p>Nada fazem antes de pensar, e pezam em seu juiso uma -coisa antes de emittir sua opinião. Ficam serios e pensativos, -porem não se precipitam em fallar.</p> - -<p>Mas, dizeis vós, como é possivel que estas pessoas tenham -tal juiso fazendo o que fazem?</p> - -<p>Porque elles dão por uma faca cem escudos de ambar -gris, ou qualquer outra coisa, que apreciamos, como sejam: -ouro, prata e pedras preciosas.</p> - -<p>Eu vos direi a opinião que elles fazem de nós, muito contraria -n’este ponto: julgam-nos loucos e pouco judiciosos em -apreciar mais as coisas, que não servem para o sustento da -vida do que aquellas, que nos proporcionam o viver commodamente.</p> - -<p>Na verdade, quem deixará de confessar, ser uma faca -mais necessaria á vida do homem, do que um diamante de -cem mil escudos, comparando um objecto com outro, e pondo -de parte, a estima que se lhe dá?</p> - -<p>Para provar que não lhes falta juiso afim de avaliar a estima -que fazem os Francezes das coisas existentes em sua -terra, basta dizer, que elles sabem altear muito o preço das -coisas, que julgam ser apreciadas pelos francezes.</p> - -<p>Um dia disseram-me alguns, que era preciso haver muita -falta de madeira em França, e que experimentassemos muito -frio para mandarmos navios de tão longe, a mercê de tantos -perigos, carregarem de paus.<a id="Nanchor_36" href="#Note_36" class="fnanchor">[36]</a></p> - -<p>Respondi-lhes que não era para queimar e sim para tingir -de cores.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_66"></a>[66]</span></p> - -<p>Replicaram-me: porque nos compraes o que cresce em -nosso paiz a troco de vestidos vermelhos, amarellos e verde-gaios? -Eu os satisfiz dizendo ser necessario misturar outras -cores com as do seo paiz para tingir panos.</p> - -<p>Si me disserdes, que elles fazem acções inteiramente -brutaes, como as de comer seos inimigos, e praticar tudo -que os offenda, como seja expol-os em lugares onde ha piolhos, -vermes, espinhos, etc., eu vos responderei não provir -isto de falta de juiso, porem sim de um erro hereditario, -sempre existente entre elles, por pensarem, que sua honra -depende de vingança: parece-me, que tambem não é desculpavel -o erro dos nossos francezes de se matarem em -duello, e comtudo vemos os mais bellos espiritos, e os primeiros -da nobreza concordarem com este erro, despresando -a Lei de Deos, e arriscando a eternidade de sua salvação.</p> - -<p>Quanto a memoria elles a possuem muito feliz, porque -lembram-se sempre do que viram e ouviram com todas as -circumstancias do lugar, do tempo, das pessoas, quando o -caso se disse ou se executou, fazendo uma geographia ou -descripção natural com a ponta de seos dedos na areia, do -que estão contando.</p> - -<p>O que mais me admirou foi vel-os narrar tudo quanto se -ha passado desde tempos immemoriaes, somente por tradicção, -porque tem por costume os velhos contar diante dos -moços quem foram seos avós e antepassados, e o que se -passou no tempo d’elles: fazem isto na <i>casa grande</i>, algumas -vezes nas suas residencias particulares, acordando muito -cedo, e convidando gente para ouvil-os, e o mesmo fazem -quando se vesitam, porque abraçando-se com amisade, -e chorando, contam um ao outro, palavra por palavra quem -foram seos avós e ante-passados, e o que se passou no tempo -em que viveram.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_67"></a>[67]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XX">CAPITULO XX</h3> - -<p class="subhead">Continuação do objecto antecedente.</p> - -</div> - -<p>Concordo que sejam estes povos inclinados pela naturesa -á muitos vicios, porem é necessario lembrar-nos, que elles -são captivos por infidelidade d’estes espiritos rebeldes a Lei -de Deos, e instigadores da sua transgressão.</p> - -<p>São João na sua Epistola 1.ª chama <i>iniquidade</i> ou <i>desigualdade</i> -o desvio ou a digressão do direito, como muito -bem explica o texto Grego<a id="FNanchor_55" href="#Footnote_55" class="fnanchor">[BC]</a> ——————————, assim -traduzido <i>Peccatum est exorbitatio á lege</i>.</p> - -<p>Esta Lei é divina ou humana: aquella dada por escripto -á Moysés, e depois por Jesus Christo aos christãos, e esta -acha-se gravada no intimo d’alma.</p> - -<p>Transgredindo-se estas duas Leis commettem-se dois peccados, -um contra os mandamentos de Deos, e outro contra -a lei natural: por elles serão accusados e condemnados os -incredulos, cada um de per si, alem do peccado commum -da infidelidade.</p> - -<p>Entre todos os vicios a que estão sugeitos estes barbaros, -sobresahe a vingança, que nunca perdoam, e a praticam logo -que podem, embora as boas apparencias com que tratam -seos inimigos reconciliados.</p> - -<p>Não ha a menor duvida que retirando-se os francezes do -Maranhão, todas as nações, antes inimigas, que ahi residem -promiscuamente, por terem a nossa alliança, devorar-se-hão -umas ás outras, embora, o que é para admirar, vivam agora -muito bem sob o dominio dos francezes, e até contrahindo-se -casamentos entre ellas.</p> - -<p>Gostam tanto de vinho a ponto de ser considerada a embriaguez -por elles, e até mesmo pelas mulheres, como uma -grande honra.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_68"></a>[68]</span></p> - -<p>São impudicos extraordinariamente, mais as raparigas do -que qualquer outros inventores de noticias falsas, mentirosos, -levianos e inconstantes, vicios mui communs a todos -os incredulos, e por ultimo são extremamente preguiçosos a -ponto de não quererem trabalhar, embora vivam na miseria, -antes do que na opulencia por meio do trabalho.</p> - -<p>Se elles quizessem, não era necessario muito cansaço para -terem em poucas horas muita carne e peixe.</p> - -<p>O que acabo de dizer, refere-se especialmente aos <i>Tupinambás</i>, -porque as outras nações, como sejam os <i>Tabajares</i>, -<i>Cabellos-compridos</i>, <i>Tremembés</i>, <i>Canibaes</i>, <i>Pacajares</i>, -<i>Camarapins</i>, e <i>Pinarienses</i>, e outros trabalham muito para -viver, ajuntar generos, ter boa casa, e todas as commodidades.</p> - -<p>Vou dar-vos um exemplo bem notavel da preguiça dos -nossos <i>Tupinambás</i>.</p> - -<p>Obtendo alguns Francezes do Forte licença para irem passear -ás aldeias, foram á do chefe <i>Vsaap</i>.</p> - -<p>Na entrada da primeira choupana encontraram um grande -fumeiro cheio de caça, e ao lado d’elle um indio, dono da -casa, deitado n’uma rede de algodão, que gemia muito como -se estivesse bastante doente.</p> - -<p>Os nossos Francezes alegres e promptos á festejarem esta -mesa tão bem preparada, lhe perguntaram com brandura e -carinho <i>Dê omano Chetuasap</i>, «está doente meo compadre?» -Sim, respondeo elle. Que tendes, replicaram os Francezes, -quem vos fez mal? Minha mulher, disse elle. Foi para -roça desde pela manhã, e eu ainda não comi. A farinha e -a carne está tão perto de vós, porque não vos levantaes, -para comer, disseram os francezes? Sou preguiçoso, não sei -levantar-me. Quereis, tornaram os francezes, que vos levemos -a farinha e a carne, e comeremos comvosco? Quero, -respondeo elle logo.</p> - -<p>Começaram todos a aliviar o fumeiro, pozeram tudo diante -d’elle, e assentando-se em roda, como é de costume, -excitaram-lhe o apetite pela boa vontade que mostravam, e<span class="pagenum"><a id="Page_69"></a>[69]</span> -o trabalho, que elles tiveram de tirar a comida de cima do -fumeiro, em distancia de tres pés, foi o unico pagamento de -tal companhia na mesa.</p> - -<p>Apesar de suas perversas inclinações, elles tem outras -muito boas, louvaveis e virtuosas.</p> - -<p>Vivem pacificamente com os outros, dividem com elles o -resultado de sua pescaria, caçada e lavoura, e não comem -ás escondidas.</p> - -<p>Um dia na aldeia de Januaran só tinham farinha para -comer. Appareceu um rapaz trazendo uma perdiz morta ha -pouco; sua mãe depennou-a ao fogo, cozinhou-a, deitou-a -n’um pilão, reduzio-a á pó, e juntando-lhe folhas de mandioca, -cujo gosto é similhante ao da chicoria selvagem, fez -ferver tudo, e depois de bem picado ou cortado em pedacinhos, -d’esta mistura fez pequenos bolos, do tamanho de -uma balla, e mandou distribuil-os pela aldeia, um para cada -choupana.</p> - -<p>Vi ainda uma coisa mais admiravel, embora comesinha, e -sem consequencia.</p> - -<p>Appareceram em minha casa muitos selvagens esfaimados, -vindos da pescaria, onde somente apanharam um carangueijo, -que assaram sobre carvões, e pedindo-me farinha, o comeram -todos, fazendo roda, cada um o seo pedacinho: eram -doze ou treze.</p> - -<p>Bem podeis imaginar o que tocaria a cada um, sendo o -carangueijo do tamanho de um ovo de galinha.</p> - -<p>É muito grande a liberalidade entre elles, e desconhecida -a avaresa.</p> - -<p>Si algum delles tiver desejos de possuir uma coisa, que -pertença a outro, elle o diz francamente, e é preciso que o -objecto seja muito estimado para não ser dado logo, embora -o que a pedio fique na obrigação de dar ao outro tambem -o que elle desejar.</p> - -<p>Tornam-se mais liberaes para com os estrangeiros do que -para com seos patricios.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_70"></a>[70]</span></p> - -<p>Ficam reduzidos á pobresa comtanto que bem hospedem -os estrangeiros, que vão visital-os, julgando-se bem recompensados -com a fama de liberaes, espalhada pelos que não -são de sua terra, e julgam chegar ella até aos paizes estrangeiros, -onde serão tidos por grandes e ricos.</p> - -<p>Com taes ideias muitas vezes vão fazer visitas a cem, duzentas -e tresentas legoas afim de serem apreciados por suas -liberalidades.</p> - -<p>Nunca roubam uns aos outros; o que possuem está á vista, -pendurado nas vigas e barrotes de suas casas.</p> - -<p>É bem verdade, que dentro da Ilha actualmente, em Tapuytapera, -e Cumã, elles tem cofres, que lhes deram os -Francezes, onde guardam o que tem de melhor, e, ou excitados -por isto, ou pelo exemplo dos Francezes, muitos d’elles -ja aprenderam a arte de furtar.</p> - -<p>Elles chamam furtar—<i>Mondá</i>, ao ladrão <i>Mondaron</i>, e este -nome é entre elles grande injuria a ponto de mudarem de -côr quando o pronunciam: chamar uma mulher ladra, é -duas vezes prostituta, com o nome de <i>Menondere</i> para differençar -de prostituta simples—<i>Patakuere</i>, é aquelle primeiro -epitheto o mais afrontoso, que se lhe pode dizer.</p> - -<p>Tomareis uma boa vingança chamando-os ladrões, quando -elles vos atirarem ao rosto um bem claro, e expressivo <i>Giriragoy</i>, -que quer dizer <i>mentiste</i>, sem exceptuar pessoa alguma, -e por isto bem podeis avaliar quanto este vicio é -detestado por elles, pois não podem tolerar a injuria.</p> - -<p>Guardam reciproca equidade, não se enganam nem se -illudem: si um offende a outro, segue-se logo a pena de -<i>Talião</i>: são mui tolerantes, respeitam-se reciprocamente, -especialmente os velhos.</p> - -<p>São muito soffredores em suas miserias e fome chegando -até a comer terra,<a id="Nanchor_37" href="#Note_37" class="fnanchor">[37]</a> ao que acostumam seos filhos, o que -vi muitas vezes.</p> - -<p>Vi muitos meninos tendo nas mãos uma bolla de terra, -que ha em sua aldeia como <i>terra siggilada</i>, a qual apreciam<span class="pagenum"><a id="Page_71"></a>[71]</span> -e comem como fazem as crianças, em França com as maçans, -as pêras, e outros fructos que se lhes dá.</p> - -<p>Não se esmeram no preparo da comida, como nós, por -que ou a cozinham ao fogo, ou a fazem ferver n’uma panella -sem sal, ou assam-n’a no fumeiro.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXI">CAPITULO XXI</h3> - -<p class="subhead">Ordem e respeito da naturesa entre os selvagens, observada -inviolavelmente pela mocidade.</p> - -</div> - -<p>O que mais me impressionou e admirou durante os dois -annos, que estive entre os selvagens, foi a ordem e respeito -observado inviolavelmente pelos moços para com os seos -parentes mais velhos, ou entre elles, fazendo cada um o que -permitte a sua idade sem cuidar do que se acha no mais -alto ou no menor grau.</p> - -<p>Ninguem deixará de admirar-se commigo vendo a naturesa -somente ter n’estes barbaros o poder de fazel-os guardar -o respeito, que os meninos devem a seos maiores, e -fazer conter a estes no que é exigido pela diversidade das -idades.</p> - -<p>Quem não se hade admirar vendo a naturesa somente ter -mais força para fazer observar estas coisas, do que a Lei e -a graça de Jesus-Christo sobre os Christãos, entre os quaes -raras vezes se contem a mocidade nos seos deveres, apesar -de todos os bons ensinos, mestres e pedagogos, apparecendo -sempre confusão e grande presumpção.</p> - -<p>Muito praser terei si o caso seguinte nos der algum remedio.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_72"></a>[72]</span></p> - -<p>Distinguem os selvagens suas idades por certos graus, -e cada grau tem no frontespicio de sua entrada, seu -nome proprio, que ensina ao que pretende entrar em -seo palacio os seos jardins e alamedas, a sua occupação, e -isto por enigmas, como eram outr’ora os Hierogliphos dos -Egypcios.</p> - -<p>O primeiro grau é destinado as crianças do sexo masculino -e legitimos e dão-lhe em sua lingua o nome de <i>Peitan</i>, -isto é, «menino sahindo do ventre de sua mãe.»</p> - -<p>Á este primeiro grau da idade do menino é inteiramente -cheio de ignorancia, de fraqueza e de lagrimas, base de todos -os outros graus.</p> - -<p>A natureza, boa mãe d’estes selvagens, quiz que o menino -sahindo do ventre de sua mãe, se achasse em estado -de receber em si as primeiras sementes do natural commum -d’estes selvagens, porque não é afagado, pensado, aquecido, -bem nutrido, bem tratado, nem confiado aos cuidados de -alguma ama, e sim apenas lavado em algum riacho ou n’alguma -vasilha com agua, deitado n’uma redezinha de algodão, -com todos os seos membros em plena liberdade, nus -inteiramente, tendo por unico alimento o leite de sua mãe, -e grãos de milho assados, mastigados por ella até ficarem -reduzidos á farinha, amassados com saliva em forma de -caldo, e postos em sua boquinha como costumam a fazer os -passaros com a sua prole, isto é, passando de bocca para -bocca.</p> - -<p>É bem verdade, que quando o menino é um pouco forte, -por conhecimento e inclinação natural, ri-se, brinca e salta, -nos braços de sua mãe, pensando estar mastigando sua comida, -levando seo bracinho á bocca d’ella, recebendo no concavo -de sua mãosinha este repasto natural, que leva á bocca -e come: quando se sente farto, bota fóra o resto, e virando -a cara, e batendo com as mãos na bocca da mãe, lhe dá a -entender que não quer mais.</p> - -<p>Obedece a mãe promptamente não forçando seo apetite e -nem lhe dando occasião de chorar.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_73"></a>[73]</span></p> - -<p>Si o menino tem sêde, por gestos sabe pedir o peito de -sua mãe.</p> - -<p>Em tão tenra idade mostram o respeito e o dever, que a -natureza lhes dá, porque não são gritadores, comtanto que -vejam suas mães, e ficam no lugar onde os deixam.</p> - -<p>Quando vão trabalhar nas roças ellas as assentam nuasinhas -na areia ou na terra, onde ficam caladinhas, ainda -que o ardor do sol lhes dê no rosto ou no corpo.</p> - -<p>Qual seria de nós, que hoje poderia viver soffrendo na primeira -idade tantos encommodos?</p> - -<p>Esperam os nossos paes a retribuição e dever, que principiamos -a pagar-lhes desde a primeira idade, si não estão -cegos pelo amor que nos tem; o mesmo devem esperar nas -outras idades, sendo mais reconhecidos os nossos deveres -para com elles, custe o que custar-nos.</p> - -<p>Começa a segunda idade, quando o menino anima-se a -andar sosinho, e apezar de haver alguma confusão da-se-lhe -o mesmo nome.</p> - -<p>Observei differença na maneira de criar os meninos, -que não sabem andar, e os que se esforçam para o fazer, o -que nos leva a formar outra classe, e dar-lhe nome proprio: -chama-se <i>Kunumy-miry</i>, «rapazinho»<a id="Nanchor_38" href="#Note_38" class="fnanchor">[38]</a> e abrange até 7 a -8 annos.</p> - -<p>Durante este tempo não se separam de suas mães, e nem -acompanham seos Paes, e o que é mais, deixam-nos mamar -até que por si mesmo aborreçam o peito, habituando-se -pouco a pouco ás comidas grosseiras como os grandes e -adultos.</p> - -<p>Dão lhes pequenos arcos e flexas proporcionaes ás suas -forças, reunindo-se uns aos outros plantam e juntam algumas -cabaças, nas quaes fazem alvo para o tiro das suas flechas -adextrando assim bem cêdo seos braços.</p> - -<p>Não açoitam, e nem castigam seos filhos, que obedecem -a seos paes e respeitam os mais velhos.</p> - -<p>È muito agradavel esta idade dos meninos, e n’ella podereis -descobrir a differença existente entre nós pela naturesa<span class="pagenum"><a id="Page_74"></a>[74]</span> -e pela graça: sem fazer comparação, acho-os mimosos, doceis -e affaveis como os meninos francezes, não esquecendo -antes tornando bem saliente a graça do Espirito Santo concedida -pelo baptismo aos filhos dos Christãos.</p> - -<p>Si acontece morrerem os meninos n’esta idade, tem os -paes pesar profundo, e sempre se recordam d’elles, especialmente -nas cerimonias de lagrimas e lamentações, recordações -que fazem uns aos outros, lastimando esta perda e a -morte dos seos filhinhos, dando-lhes o nome de <i>Ykunumirmee-seon</i> -«o menino morto na infancia.»</p> - -<p>Vi mães, quase loucas, no meio de suas roças, ou nas -matas sosinhas, em pé ou agachadas, chorando amargamente, -e quando lhes perguntava para que faziam isto, respondiam-me -«Oh! recordo-me da morte de meos filhinhos, <i>Ché Kunumirmee-seon</i>, -ainda na infancia» e depois continuavam -a chorar e muito.</p> - -<p>È na verdade mui natural o ter pesar da perda e morte -d’estes meninos, que ja haviam custado tantos trabalhos á -seos paes, e que estavam na edade de dar-lhes alguma alegria.</p> - -<p>Acha-se a terceira classe entre estas duas primeiras—infancia -e puericia, e as da adolescencia e virilidade, entre -os 8 a 15 annos, a que chamamos mocidade: appellidam-nos -os selvagens simplesmente por <i>Kunumy</i> sendo a -infancia chamada <i>Kunumy-miry</i>, e a adolescencia <i>Kunumy-uaçu</i>.</p> - -<p>Estes <i>Kunumys</i>, ou rapazes, na idade do 8 a 15 annos, -não ficam mais em casa e nem ao redor de sua mãe, e sim -acompanham seos paes, tomam parte no trabalho d’elles -imitando o que vêem fazer: empregam-se em buscar comida -para a familia, vão as matas caçar aves, e ao mar flechar -peixes e admira vêr a industria com que flecham as vezes -tres a tres peixes juntos, ou agarram em linha feita de <i>tucu</i> -ou em <i>pussars</i>, especie de rêde de pescar, que enchem de -ostras e outros mariscos, e levam para casa. Não se lhes -manda fazer isto, porem elles o fazem por instincto proprio,<span class="pagenum"><a id="Page_75"></a>[75]</span> -como dever de sua idade, e já feito tambem por seos antepassados.</p> - -<p>Este trabalho e exercicio mais agradavel do que penoso, -e proporcional a sua idade, os isenta de muitos vicios, aos -quaes a naturesa corrompida costuma a prestar attenção, e -a ter predilecção por elles.</p> - -<p>Eis a razão porque se facilita á mocidade diversos exercicios -liberaes e mecanicos, para distrahil-a e desvial-a da -má inclinação de cada um, reforçada pelo ocio mormente -n’aquella idade.</p> - -<p>A quarta classe é para os que os selvagens chamam <i>Kunumy-uaçú</i>, -«mancebos»: abrange a idade de 15 a 25 annos, -por nós chamada «adolescencia.»</p> - -<p>Tem outro modo de vida, entregam-se com todo o esforço -ao trabalho, acostumam se a remar, e por isso são escolhidos -para tripularem as canôas quando vão á guerra.</p> - -<p>Applicam-se especialmente a fazer flexas para a guerra, a -caçarem com cães, a flechar e arpoar peixes grandes, não -usam ainda de <i>Karacóbes</i>, isto é, de um pedaço de pano -atado na frente para encobrir suas vergonhas, como fazem -os homens casados, e sim de uma folha de Palmeira.</p> - -<p>Tem o poder de dividir o que possuem com os mais velhos, -reunidos na <i>Casa-grande</i>, onde conversam, e servem -tambem os mais velhos.</p> - -<p>É n’este tempo, diga-se a verdade, que elles mais ajudam -a seos paes e mães, trabalhando, pescando e caçando, antes -de se casarem, e portanto sem obrigação de sustentarem -mulher: eis porque sentem muito seos paes quando elles -morrem n’esta idade, dando-lhes em signal de sua dor o -nome de <i>Ykunumy-uaçú-remee-seon</i>, que quer dizer «o mancebo -morto» ou «o mancebo morto na sua adolescencia.»</p> - -<p>Abrange a quinta classe desde 25 até 40 annos, e se chama -<i>Aua</i> o individuo n’ella comprehendido, vocabulo aplicado -a todas as idades, assim como usamos com o nome <i>homem</i>.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_76"></a>[76]</span></p> - -<p>Apesar d’isto ser privativo d’esta idade, assim como -o homem é pelos Latinos chamado <i>vir</i>, <i>á virtude</i>, e em -Francez idade viril, de virilidade, quer dizer—a força, que -no homem chegou a seu termo: n’esta mesma lingua de selvagens -a palavra <i>Aua</i>, de que procede <i>Auaté</i>, quer dizer -«forte, robusto, valente, audacioso», para significar a 5ª idade -dos seos filhos.</p> - -<p>N’essa occasião como guerreiros são bons para combater, -nunca porem para commandar: buscam casar-se, o que não -é difficil por consistir o enxoval da noiva apenas de algumas -cabaças, que lhes dá sua mãe para principiar sua casa, -vestidos, e roupas, ao contrario em nosso paiz as mães fornecem -enfeites e pedras brancas a suas filhas.</p> - -<p>Os paes dão por dote aos maridos de suas filhas 30 ou 40 -toros de pau de tamanho proprio a poderem ser levados á -casa do noivo, os quaes servem para com elles se accender -o <i>fogo das bodas</i>: o individuo casado de novo não se chama -<i>Aua</i>, e sim <i>Mendar-amo</i>.</p> - -<p>Embora sejam casados o homem e a mulher não ficam livres -da obrigação natural de proteger seos paes e ajudal-os -a fazer suas roças.</p> - -<p>Soube d’isto em minha casa, vendo a filha de <i>Japy-açú</i>, -baptisada e casada á face da Igreja, dizer a um outro selvagem, -seo marido, tambem christão, quando pretendia ir -a <i>Tapuitapera</i> ajudar o Rvd. Padre Arsenio no baptismo de -muitos selvagens, «Onde queres ir? Tu bem sabes que ainda -não se fizeram as roças de meo Pae, e que ha falta de -mantimentos: não sabes, que si elle me deo a ti foi com a -obrigação de o auxiliares na velhice? Si queres abandonal-o -então volto para a casa d’elle.»</p> - -<p>Advertiram-na á respeito d’estas ultimas palavras, fazendo-a -reconhecer o juramento que dera, de nunca abandonal-o -ou separar-se d’elle, louvando-se comtudo muito os -outros sentimentos, que manifestou á favor de seo Pae, e -praza a Deos que todos os christãos a imitassem dando verdadeira<span class="pagenum"><a id="Page_77"></a>[77]</span> -intelligencia a estas palavras formaes do casamento -que o homem e a mulher deixaram seos paes para -viverem juntos—porque de outra fórma seria Deus authorisar -a ingratidão dos filhos casados sob pretexto de terem -filhos, ou poder tel-os e precisar cuidar do seo sustento, -quando ao contrario Deos condemna, como reprobo, o que -abandona seos paes, sem os quaes, não fallando na vontade -de Deos, não viriam ao mundo nem elles, e nem seos -filhos, embora por essas palavras mostre a grande união, -que pelo casamento se faz entre o corpo e o espiríto dos -casados.</p> - -<p>Comprehende a 6ª classe os annos de 40 até a morte: é -a mais honrosa de todas, e cercada de respeito e veneração, -os soldados valentes, e os capitães prudentes.</p> - -<p>Assim como o mez dá a colheita dos trabalhos e a recompensa -da paciencia, com que o lavrador supportou o inverno -e a primavera, lavrando com a sua charrua o campo -em todos os sentidos, sem ser ajudado pela terra, assim -tambem quando chega a estação da velhice são honrados -pelos que tem menos idade.</p> - -<p>O que occupa esta classe chama-se <i>Thuyuae</i>, quer dizer, -«ancião ou velho.»</p> - -<p>Não póde, como os outros, ser assiduo ao trabalho: trabalha -quando quer, e bem a sua vontade, mais para exemplo -da mocidade, respeitando tradicções da sua Nação, do -que por necessidade: é ouvido com todo o silencio na <i>casa-grande</i>, -falla grave e pausadamente usando de gestos, que -bem explicam o que elle quer dizer e o sentimento, com -que falla.</p> - -<p>Todos lhe respondem com brandura e respeito, e ouvem-nos -os mancebos com attenção: quando vae a festa das -<i>Cauinagens</i> é o primeiro, que se assenta e é servido; entre -as moças, que distribuem o vinho pelos convidados, as de -mais consideração o servem, e são as parentas mais proximas -do que fez o convite.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_78"></a>[78]</span></p> - -<p>No meio das danças entoam os cantos; dam-lhe a nota, -principiam pela mais baixa até a mais grave, crescendo -gradualmente até chegar á força da nossa musica.</p> - -<p>Suas mulheres cuidam n’elles, lavam-lhes os pés, apromptam -e trazem-lhe a comida, e se ha alguma difficuldade na -carne, no peixe ou nos mariscos, ellas a tiram, accommodando-a -ás suas forças.</p> - -<p>Quando morrem alguns d’elles os velhos lhe prestam honras, -e o choram como as mulheres, e lhe dam o nome de -<i>thuy-uae-pee-seon</i>: quando morrem na guerra, chamam-no -<i>marate-kuepee-seon</i>, «velho morto no meio das armas», o -que ennobrece tanto seos filhos e parentes, como entre nós -qualquer velho Coronel, que occupou sua vida inteira no -serviço do exercito pelo Rei e pela Patria, e que por corôa -de gloria morreo com as armas na mão, com a frente para -os inimigos, no meio de renhido combate, coisa nunca esquecida -por seos filhos antes considerada como grande herança, -e de que se aproveitam apresentando-os ao Principe -como bons serviços de seo Pae, e pedindo por elles uma -recompensa.</p> - -<p>Não fazendo estes selvagens caso algum de recompensas -humanas, porem empenhando todas as suas forças para conseguirem -essas honras, provam com isto o quanto apreciam -não só os actos de heroismo de seos paes, mas tambem a -serem estimados por causa d’elles.</p> - -<p>Os que morrem nos seos leitos não deixam de ser honrados, -conforme o seo merito, e chamam-no <i>theon-suyee-seon</i>, -«o bom velho que morreo na cama».</p> - -<p>Por isto podeis avaliar como a naturesa por si só nos ensina -a respeitar, a ajudar, e a soccorrer os velhos e anciões -e á refrear com violencia a temeridade e presumpção dos -moços, que sem prevêrem o futuro, não se recordam de -que na sua velhice, se lhes fará justamente o que elles, -quando jovens, fizeram aos mais velhos, dando esse exemplo -á seos filhos, e ensinando-os a serem ingratos.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_79"></a>[79]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXII">CAPITULO XXII</h3> - -<p class="subhead">A mesma ordem e respeito é observada entre as -raparigas e as mulheres.</p> - -</div> - -<p>Encontram-se n’estes selvagens vestigios da naturesa, como -as pedras preciosas se acham nas encostas das montanhas.</p> - -<p>Seria um louco o que quizesse encontrar em seos jazigos -os diamantes tão claros e brilhantes, como quanto lapidados -e engastados n’um anel.</p> - -<p>Provem esta differença de se acharem tão ricas pedras -cubertas de jaça sem mostrar o seo valor de tal sorte, que -muitos passam e tornam a passar por cima d’ellas sem levantal-as -visto não as conhecerem.</p> - -<p>Acontece a mesma coisa na conversação d’estes pobres -selvagens: muitos ignoram e ignorarão ainda o que tenho -narrado e narrarei, e embora tenham conversado com elles -por muito tempo, por falta de conhecimento ou de observação -da boa conducta natural d’estas pessoas fóra da graça -de Deos, passaram por ellas, á similhança das pedras preciosas, -sem tirar o menor proveito, e olhando-as com indifferença.</p> - -<p>A mesma ordem de classes de idade tenho observado entre -as raparigas e as mulheres, como entre os homens.</p> - -<p>A primeira classe é commum á ambos os sexos, cujos individuos, -sahindo immediatamente do ventre de suas mães, -se chama <i>Peitan</i>, como já dissemos no art. antecedente.</p> - -<p>A segunda classe estabelece distinção de idade, de sexo, -e de dever: d’idade de moça para moça, de sexo de moça -para rapaz, e de dever de mais moça para mais velha.</p> - -<p>Comprehende esta classe os sete primeiros annos, e a -rapariga d’esse tempo se chama <i>kugnantin-myri</i>, quer dizer -<i>rapariguinha</i>.</p> - -<p>Reside com sua mãe, mama mais um anno do que os rapazes, -e vi meninas com seis annos d’idade ainda mamando, -embora comam bem, fallem, e corram como as outras.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_80"></a>[80]</span></p> - -<p>Em quanto os rapazes d’esta idade carregam arcos e flexas, -as raparigas se empregam em ajudar suas mães, fiando -algodão como podem, e fazendo uma especie de redesinha -como costumam por brinquedo, e amassando o barro com -que imitam as mais habeis no fabrico de potes e panellas.</p> - -<p>Expliquemos o amor, que o pae e a mãe dedicam a seos -filhos e filhas.</p> - -<p>Pae e mãe consagram todo o seo amor aos filhos, e ás -raparigas apenas accidentalmente, e n’isto acho-lhes razão -natural, nossa luz commum, a qual nos torna mais affeiçoados -aos filhos do que ás filhas, porque aquelles conservam -o tronco e estas o despedaçam.</p> - -<p>Abrangem a terceira classe desde 7 até 15 annos, e a moça -n’esta idade se chama <i>kugnantin</i>, «rapariga»: n’este tempo -ordinariamente perdem, por suas loucas phantasias, o que -este sexo tem de mais charo, e sem o que não podem ser -estimadas nem diante de Deos, nem dos homens; perdoem-me -se digo, que n’esta idade não são prudentes, embora a -honra e a lei de Deos as convidasse á immortalidade da -candura, porque estas pobres raparigas selvagens pensam, -e muito mal, aconselhadas pelo autor de todas as desgraças, -que não devem ser mais puras quando chega esse tempo. -Nada mais direi para não offender o leitor: basta tocar apenas -o fio do meo discurso.</p> - -<p>N’essa idade aprendem todos os deveres de uma mulher: -fiam algodão, tecem redes, trabalham em embiras, semeam -e plantão nas roças, fabricam farinha, fazem vinhos, preparam -a comida, guardam completo silencio quando se acham -em quaesquer reuniões onde ha homens, e em geral fallam -pouco se não estão com outras da mesma idade.</p> - -<p>A quarta classe está entre 15 a 25 annos, e a rapariga n’ella -comprehendida chama-se <i>kugnammucu</i>, «moça ou mulher -completa», o que nós dizemos por «moça boa para casar.»</p> - -<p>Passaremos em silencio o abuso, que se pratica n’estes -annos, devido aos enganos de sua Nação, reputados como -lei por elles.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_81"></a>[81]</span></p> - -<p>São ellas, que cuidam da casa alliviando suas mães, e -tratando das coisas necessarias á vida da familia: cedo são -pedidas em casamento, si seos paes não as destinam para -algum francez afim de terem muitos generos, e no caso -contrario são concedidas, e então se chamam <i>kugnammucu-poare</i>,<a id="Nanchor_39" href="#Note_39" class="fnanchor">[39]</a> -«mulher casada, ou no vigor da idade.»</p> - -<p>D’ahi em diante acompanha seo marido carregando na -cabeça e ás costas todos os utencilios necessarios ao preparo -da comida, as vezes a propria comida, ou os viveres -necessarios á jornada, como fazem os burros de carga com -a bagagem e alimentação dos seos senhores.</p> - -<p>É occasião de dizer, que ambiciosos como os grandes da -Europa, que desejam ostentar sua grandesa apresentando -grande numero de burros, estes selvagens tambem desejam -ter muitas mulheres para acompanhal-os, e levar suas bagagens, -mormente havendo entre elles o costume de serem -estimados e apreciados pelo grande numero de mulheres á -seo cargo.</p> - -<p>Quando grávidas, após o casamento, são chamadas <i>puruabore</i>, -«mulher prenhe», e apezar d’este estado não deixam -de trabalhar até á hora do parto, como si nada tivessem. -Apresentam grande volume, porque ordinariamente parem -meninos grandes e corpolentos.</p> - -<p>Talvez se pense que n’este estado cuidam ellas em cobrir -sua nudez, porem não soffrem a menor alteração o seo modo -de viver.</p> - -<p>Chegado o tempo do parto, si assim se póde chamar, -não procura para esse fim a cama, si as dores não são -fortes: em qualquer dos casos senta-se, é rodeada por suas -visinhas convidadas para assistil-as, pouco antes do apparecimento -das dores, por meio d’estas palavras <i>chemenbuirare-kuritim</i> -«eu vou já partir, ou estou quase a parir»: -corre veloz o boato de casa em casa, que tal e tal mulher -vae parir, dizendo com o nome proprio da parturiente estas -palavras <i>ymen-buirare</i>, que significa «tal mulher pario, ou -está para parir.»</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_82"></a>[82]</span></p> - -<p>Acha-se ahi o marido com as visinhas, e si ha demora -no parto, elle aperta-lhe o ventre para fazer sahir o menino, -o que acontecido, deita-se para observar o resguardo -em lugar de sua mulher,<a id="Nanchor_40" href="#Note_40" class="fnanchor">[40]</a> a qual continua a fazer o serviço -do costume, e então é vesitado em sua cama por todas -as mulheres da aldeia, que lhe dirigem palavras cheias -de consolação pelo trabalho e dôr, que teve de fazer o menino, -sendo tratado como gravemente doente e muito cançado, -á maneira do que se pratica em identicas circumstancias -com as mulheres de paizes civilisados.</p> - -<p>Comprehende a quinta classe desde 25 até 40 annos, -quando o homem e a mulher attingem ao seo maior vigor.</p> - -<p>Dam-lhe geral e commummente o nome de <i>kugnan</i>, «uma -mulher, ou uma mulher em todo o seo vigor».</p> - -<p>N’essa idade conservam ainda as indias alguns traços de -sua mocidade, e principiam a declinar sensivelmente, sendo -feias e porcas, trazendo as mamas pendentes á similhança -dos cães de caça, o que causa horror: quando jovens, são -bonitas e asseiadas, e tem os peitos em pé.</p> - -<p>Não quero demorar-me muito n’esta materia, e concluo -dizendo, que a recompensa dada n’este mundo á puresa é -a incorruptibilidade e inteiresa acompanhada de bom cheiro, -mui bem representada nas letras santas pela flôr do lyrio -puro, inteiro e cheiroso—<i>sicut lilium inter spinas, sic amia -mea inter filias</i>.</p> - -<p>A sexta e ultima classe está entre os 40 annos e o resto -da vida, e então a mulher se chama <i>Uainuy</i>: n’este tempo -ainda parem.</p> - -<p>Gosam do privilegio da mãe de familia: presidem ao fabrico -dos <i>cauins</i>, e de todas as outras bebidas fermentadas.</p> - -<p>Occupam lugar distincto na <i>casa-grande</i> quando ahi vão -as mulheres conversar, e quando ainda se achava em pleno -vigor o poder de comerem os escravos, eram ellas as incumbidas -de assar bem o corpo d’elles, de guardar a gordura, -que não queriam, para fazer o <i>mingau</i>, de cozinhar as tripas,<span class="pagenum"><a id="Page_83"></a>[83]</span> -e outros intestinos em grandes panellas de barro, de -n’ellas misturar farinha e couves, e dividil-as depois por escudellas -de pau, que mandavam distribuir pelas raparigas.</p> - -<p>Dam principio ás lagrymas e lamentos pelos defunctos, ou -pela boa chegada de suas amigas.</p> - -<p>Ensinam ás moças o que aprenderam.</p> - -<p>Usam de más palavras, e são mais descaradas do que as -raparigas e as moças, e nem me atrevo a dizer o que ellas -são, o que vi e observei, sendo tambem verdade que vi e -conheci muitas boas, honestas e caridosas.</p> - -<p>Existiam no <i>Forte de São Luiz</i> duas boas mulheres <i>Tabajares</i>, -que não se cansavam de trazer-me presentesinhos, -e quando me os offereciam, sempre choravam e desculpavam-se -de não poderem dar melhores.</p> - -<p>Não espero muito d’estas velhas: e o superior nada tem -a fazer senão esperar que a morte o livre d’ellas: quando -morrem não são muito choradas e nem lamentadas, porque -os selvagens gostam muito de ter mulheres moças.</p> - -<p>Os selvagens creem supersticiosamente terem as mulheres, -depois de mortas, muita difficuldade de deparar com o -lugar onde, alem das montanhas, dançam seos ante-passados, -e que muitas ficam pelos caminhos, se é que lá chegam.</p> - -<p>Não guardam asseio algum quando atingem a idade da -decrepitude, e entre os velhos e velhas nota-se a differença -de serem os velhos veneraveis e apresentarem gravidade -e autoridade, e as velhas encolhidas e enrugadas -como pergaminho exposto ao fogo: com tudo isto são respeitadas -por seos maridos e filhos, especialmente pelas -moças e meninas.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_84"></a>[84]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXIII">CAPITULO XXIII</h3> - -<p class="subhead">Da consaguinidade entre os selvagens.</p> - -</div> - -<p>Como entre nós, a consaguinidade entre estes barbaros -tem muitos graus e ramos, e se observa entre todas as familias -com tanto cuidado como fazemos, excepto porem a -castimonia, que tem alguns embaraços entre elles, menos -no primeiro grau—de pae para filha.</p> - -<p>Entre os irmãos e irmans não ha casamentos, mas duvido, -e não sem razão, da regularidade da vida d’elles, e nem -isto merece ser escripto.</p> - -<p>Bróta o primeiro ramo do tronco de seos avós, que elles -chamam <i>Tamoin</i>,<a id="Nanchor_41" href="#Note_41" class="fnanchor">[41]</a> e debaixo desta denominação comprehendem -todos os seos ante-passados desde Nóe até o ultimo -dos seos avós, e admira como se lembram e contam de avô -em avô, seos ante-passados, o que difficilmente fazemos na -Europa podendo remontar-nos, sem esquecer-nos, até o tataravô.</p> - -<p>O segundo ramo nasce e cresce do primeiro e chama-se -<i>Tuue</i>, «pae», e é o que os gera em legitimo casamento, -como acontece entre nós, porque para os bastardos ha outra -Lei, de que fallarei em lugar proprio.</p> - -<p>Este ramo paterno dá outro, que se chama <i>Taire</i>, «filho», -o qual se córta e divide-se em diversos galhos, a que chamam -<i>chéircure</i>, «meo irmão mais velho», um dia—a cumieira -da casa e da familia, e <i>chéubuire</i>, «meo irmãosinho», -que só cuidará da casa, si fallecer seo irmão mais velho.</p> - -<p>Tendo filhos um destes irmãos, qualquer que seja o sexo, -deve chamar o irmão de seo pae <i>chétuteure</i>, «meo tio» e -sua mulher <i>chéaché</i>, «minha tia». Da mesma forma si seo -pae tiver irmans elle as chama <i>chéaché</i>, «minha tia», como -tambem os maridos d’estas <i>chétuteure</i>, «meo tio».</p> - -<p>Os tios e tias chamam os meninos de seos irmãos e irmans -<i>chéyeure</i> «meo sobrinho», e as meninas <i>reindeure</i> ou -<i>chereindeure</i>, «minha sobrinha».</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_85"></a>[85]</span></p> - -<p>Os filhos de dois irmãos, isto é, de um irmão e os de -outra irman se chamam os homens <i>rieure</i> ou <i>cherieure</i>, -«meo primo», e as moças <i>yeipere</i> ou <i>cheitipere</i> «minha -prima.»</p> - -<p>Quanto á descendencia do lado das mulheres, a avó é o -tronco, seja paterna ou materna, e chama-se <i>ariy</i> ou <i>cheariy</i>, -«minha avó.»</p> - -<p>A mãe é o segundo ramo, e chama-se <i>Ai</i>, «mãe», ou <i>cheai</i>, -«minha mãe».</p> - -<p>Seguem-se gradualmente a filha, cujo nome é <i>tagyre</i>, filha, -ou <i>cheagyre</i>, «minha filha», a irman <i>teindure</i>, «irman», ou -<i>chéreindure</i>, «minha irman», a tia <i>yaché</i>, «tia», ou <i>chéaché</i>, -«minha tia», a sobrinha <i>reindure</i> ou <i>chereindure</i>, «minha -sobrinha», ou «minha pequena irman», modo de fallar entre -elles, a prima <i>yetipere</i>, «prima», ou <i>cheytipere</i>, «minha -prima.»</p> - -<p>Eis os ramos de consaguinidade entre elles.</p> - -<p>Para os homens.</p> - -<ul> -<li>Avô.</li> -<li>Pae.</li> -<li>Filho.</li> -<li>Irmão.</li> -<li>Tio.</li> -<li>Sobrinho.</li> -<li>Primo.</li> -</ul> - -<p>Traduzido em sua lingua é</p> - -<ul> -<li><i>Chéramoin</i> ou <i>tamoin</i>.</li> -<li><i>Tuue</i> ou <i>chéru</i>.</li> -<li><i>Tayre</i> ou <i>chéayre</i>.</li> -<li><i>Cheircure</i> ou <i>chéubuire</i>.</li> -<li><i>Tuteure</i> ou <i>chétuteure</i>.</li> -<li><i>Yeure</i> ou <i>chéyeure</i>.</li> -<li><i>Rieure</i> ou <i>chérieure</i>.</li> -</ul> - -<p>Para as mulheres.</p> - -<ul> -<li>Avó.</li> -<li>Mãe.<span class="pagenum"><a id="Page_86"></a>[86]</span></li> -<li>Filha.</li> -<li>Irman.</li> -<li>Tia.</li> -<li>Sobrinha.</li> -<li>Prima.</li> -</ul> - -<p>Em sua linguagem.</p> - -<ul> -<li><i>Ariy</i> ou <i>Ché-Ariy</i>.</li> -<li><i>Ai</i> ou <i>Chéai</i>.</li> -<li><i>Tagyre</i> ou <i>Chéagyre</i>.</li> -<li><i>Theindeure</i> ou <i>Chéreindeure</i>.</li> -<li><i>Yaché</i> ou <i>Chéaché</i>.</li> -<li><i>Reindure</i> ou <i>Chéreindure</i>.</li> -<li><i>Yetipere</i> ou <i>Ché-yetipere</i>.</li> -</ul> - -<p>Alem d’estas consaguinidades existem mais duas por contractos -de alliança; uma quando se dá sua filha á um individuo, -ou quando se recebe uma moça para casar-se com -seu filho, e outra quando, por contracto d’alliança com os -francezes, lhes dam suas filhas para concubinas.</p> - -<p>Aos que dam suas filhas chamam <i>taiuuen</i> «genro», ou -<i>Chéraiuuen</i>, «meo genro».</p> - -<p>Á mulher de seo filho chamam <i>Tautateu</i>, «nóra», ou <i>Cherautateu</i>, -«minha nora».</p> - -<p>Chamam os Francezes seos alliados por hospitalidade <i>Tuasap</i>, -«compadre» ou <i>ché-tuasap</i>, «meo compadre» e as -vezes <i>Chéaire</i>, «meo filho,» ou <i>Cheraiuuen</i>, «meu genro,» -quando sua filha é concubina do Francez.</p> - -<p>É este o ramo d’alliança.</p> - -<ul> -<li>Genro.</li> -<li>Nóra.</li> -<li>Compadre.</li> -</ul> - -<p>Em sua linguagem é</p> - -<ul> -<li><i>Taiuuen</i>, ou <i>Ché-raiuuen</i>.</li> -<li><i>Tautateu</i> ou <i>Cherautateu</i>.</li> -<li><i>Tuassap</i> ou <i>Chetuassap</i>, ou então <i>Ché-aire</i>.</li> -</ul> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_87"></a>[87]</span></p> - -<p>São bastardos os filhos, que tem fóra do casamento legitimo -á moda d’elles, e entre estes bastardos ha ainda certa -ordem.</p> - -<p>A primeira é dos que tem pae e mãe, ambos Tupinambás: -a segunda dos que tem por mãe uma india Tupinambá -e por pae um Francez: a terceira dos filhos de um Tupinambá -e de uma escrava: a quarta de uma Tupinambá e de um -escravo: a quinta finalmente de uma escrava e de um Francez.</p> - -<p>A linha dos bastardos é a seguinte:</p> - -<ul> -<li>De um Tupinambá com uma Tupinambá.</li> -<li>De uma india Tupinambá com um Francez.</li> -<li>De um Tupinambá com uma escrava.</li> -<li>De uma india Tupinambá e um escravo.</li> -<li>De uma escrava e de um Francez.</li> -</ul> - -<p>Em sua linguagem chamam estes bastardos <i>Marap</i>, ou -<i>Ché-marap</i>, e aos bastardos dos Francezes <i>Mulatres</i>, «mulatos.»</p> - -<p>São diversas as leis d’estes bastardos conforme sua descendencia, -e antes de tratar d’ellas convem estabelecer a -regra geral para com os bastardos, que é quando...</p> - -<p class="center">(Falta uma folha.)</p> - -<p class="noindent">... elles o chamam <i>Toreuue</i>, «folgasão,» <i>Cheroreuue</i>, «sou divertido, -folgasão:» o que é agradavel e tem para dizer alguma -coisa chama-se <i>aron-ayue</i>.</p> - -<p>Suas saudações, perguntas e respostas, quando juntas, são -o mais amavel que é possivel, mormente quando as fazem -com acento muito longo, brando, e insinuante, especialmente -as mulheres e as moças, e como sei que será agradavel ao -Leitor vou aqui transcrever algumas de suas frazes communs -e ordinarias.<a id="Nanchor_42" href="#Note_42" class="fnanchor">[42]</a></p> - -<p>Quando se levantam pela manhã dizem</p> - -<table summary="Traduções de palavras"> - <tr> - <td>Tyen-de-Koem.</td> - <td>Bom dia.</td> - </tr> - <tr> - <td>Nein Tyen-de-Koem</td> - <td>Para vós tambem.</td> - </tr> -</table> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_88"></a>[88]</span></p> - -<p>A tarde, do regressar do trabalho, quando se despedem</p> - -<table summary="Traduções de palavras"> - <tr> - <td>Tyen de Karuq.</td> - <td>Boa tarde.</td> - </tr> - <tr> - <td>Nein Tyen de Karuq.</td> - <td>Para vós tambem.</td> - </tr> -</table> - -<p>Quando chega a noite, e querem dormir, dizem reciprocamente.</p> - -<table summary="Traduções de palavras"> - <tr> - <td>Tyen-de-potom.</td> - <td>Boa noite.</td> - </tr> - <tr> - <td>Nein-Tyen-de-petom.</td> - <td>Para vós tambem.</td> - </tr> -</table> - -<p>Se alguem se derige a elles, ou passa ao pé d’elles ou se -encontra no caminho, muitas vezes pára um pouco, com expressão -docil e rosto prasenteiro perguntam um ao outro:</p> - -<table summary="Traduções de palavras"> - <tr> - <td>Mamo sui pereiu?</td> - <td>D’onde vindes?</td> - </tr> - <tr> - <td>Mamo peresso?</td> - <td>Onde ides?</td> - </tr> -</table> - -<p>Logo que respondem e dizem d’onde vem e para onde -vão, podeis ficar certo que se trata de uma das coisas seguintes, -constante emprego de sua vida e exercicio, isto é, -da pescaria no mar, da entrada nos bosques, da derrubada -das arvores, da visita de suas roças, da plantação de raizes, -da colheita dos fructos, e dos nabos, da caçada, dos passeios -por varios lugares, da visita das aldeias e das habitações de -uns e outros.</p> - -<p>São estas as respostas d’elles.</p> - -<table summary="Traduções de palavras"> - <tr> - <td>Paranam-sui-kaiut.</td> - <td>Venho do mar.</td> - </tr> - <tr> - <td>Pira-rekie-sui-kaiut.</td> - <td>Venho de pescar.</td> - </tr> - <tr> - <td>Kaa-sui-kaiut.</td> - <td>Venho do matto.</td> - </tr> - <tr> - <td>Ybuira monosoc, ou então ybuira mondoc.</td> - <td>Venho de cortar matto.</td> - </tr> - <tr> - <td>Ko-sui-kaiut.</td> - <td>Venho da roça.</td> - </tr> - <tr> - <td>Ko-piraruer-kaiut.</td> - <td>Venho de roçar.</td> - </tr> - <tr> - <td>Maetum aruere.</td> - <td>Venho de cavar e de plantar.</td> - </tr> - <tr> - <td>Vuapoo-aruere kaiut.</td> - <td>Venho de colher fructos.</td> - </tr> - <tr> - <td>Kaaue-aruere kaiut.</td> - <td>Venho da caça.</td> - </tr> - <tr> - <td>Mosu-aruere-kaiut.</td> - <td>Venho de passeiar.</td> - </tr> - <tr> - <td>Taaue-sui-kaiut.</td> - <td>Venho de tal aldeia.</td> - </tr> - <tr> - <td>Ahere-piac-sui-kaiut.</td> - <td>Venho de ver tal pessoa.</td> - </tr> - <tr> - <td>Chere-suiu então cheretansui.</td> - <td>Venho de minha casa.</td> - </tr> - <tr> - <td>Ne in cheaiurco.</td> - <td>Adeos, vou-me embora.<span class="pagenum"><a id="Page_89"></a>[89]</span></td> - </tr> - <tr> - <td>Ne in oro iurco.</td> - <td>Adeos, vamo-nos embora.</td> - </tr> -</table> - -<p>Quando vae algum visinho procural-os em sua casa, ou -quando sentem falta de alguma coisa, procurando por ahi -algures elles perguntam:</p> - -<table summary="Traduções de palavras"> - <tr> - <td>Que procuraes?</td> - <td>Maeperese-kar?</td> - </tr> - <tr> - <td>Que perguntaes?</td> - <td>Maraereico?</td> - </tr> -</table> - -<p>Então dizem o que procuram, e respondem ás perguntas -mui francamente; por exemplo:</p> - -<table summary="Traduções de palavras"> - <tr> - <td>Quero comêr.</td> - <td>Agerure deué-cheremyuran ressé.</td> - </tr> - <tr> - <td>Quero farinha.</td> - <td>Agerure uiressé.</td> - </tr> - <tr> - <td>Quero carne.</td> - <td>Agerure soo ressé.</td> - </tr> - <tr> - <td>Quero peixe.</td> - <td>Agerure pyra ressé.</td> - </tr> - <tr> - <td>Quero agoa.</td> - <td>Agerure v-ressé.</td> - </tr> - <tr> - <td>Quero fogo.</td> - <td>Agerure tata cheué.</td> - </tr> - <tr> - <td>Quero uma faca.</td> - <td>Agerure xè.</td> - </tr> - <tr> - <td>Um machado.</td> - <td>Iu.</td> - </tr> -</table> - -<p>Se veem alguem pensativo, elles lhe perguntam o que ha -e no que pensam.</p> - -<table summary="Traduções de palavras"> - <tr> - <td>Que pensaes?</td> - <td>Mara-péde-ie-mongueta.</td> - </tr> -</table> - -<p>Elle responde:</p> - -<table summary="Traduções de palavras"> - <tr> - <td>Não penso em coisa alguma.</td> - <td>Ai Kogué.</td> - </tr> - <tr> - <td>Penso em alguma coisa.</td> - <td>Maerssé-kaien-arico.</td> - </tr> - <tr> - <td>Penso em vós.</td> - <td>Dressé kaien-arico.</td> - </tr> -</table> - -<p>Si veem um conversando com outros, tem muita curiosidade -de saber o que dizem, e por isso vão procural-os, e -amigavelmente lhe perguntam:</p> - -<table summary="Traduções de palavras"> - <tr> - <td>Que dizeis? ou então, em que conversavam?</td> - <td>Mára-erepe? Mára-erepipo? Mara-peie-peiupé.</td> - </tr> -</table> - -<p>Respondem elles:</p> - -<table summary="Traduções de palavras"> - <tr> - <td>Fallavamos de nossas occupações.</td> - <td>Ore-rei-koran koiomongueta.</td> - </tr> - <tr> - <td>Fallavamos de vós.</td> - <td>Deressé koia-mongueta.</td> - </tr> -</table> - -<p>Assim passavam entre si a vida mui pacifica e familiarmente.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_90"></a>[90]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXV">CAPITULO XXV</h3> - -<p class="subhead">Dos caracteres incompativeis entre os selvagens.</p> - -</div> - -<p>Costumava Socrates dizer, que assim como o vinho aspero -e grosseiro é de digestão má e desagradavel ao paladar, -assim tambem os caracteres rudes, grosseiros e impectuosos -não servem para companheiros de uma conversação entre -homens.</p> - -<p>Escreveo Plutarcho, que assim como o som aspero dos -caldeirões e panellas quebradas encolerisam os tigres a ponto -de fazel-os accommetter desesperadamente e saltar sobre os -que vem fazer perto d’elles tão incommodo e desagradavel -barulho, assim tambem fazem as más inclinações, ou os -maus caracteres entre os homens.</p> - -<p>Aborrecem sobre todas as coisas o companheiro, que -provoca e faz mal ao seo visinho, e chamam-no <i>Moiaron</i>, -e quando se insultam por palavras, chamam-no então <i>Oroacap</i>.</p> - -<p>Quando encontram taes caracteres, fogem d’elles e evitam -iguaes contestações, e ainda fazem mais, previnem os -Francezes seos compadres, afim de que nada peçam á tal -gente.</p> - -<p>Si por ventura teem mulheres com esse genio ficam -muito contrariados, e não necessitam ser muito rogados afim -de livrarem-se d’ellas, ou de consentir que vão para onde -bem lhes parecer.</p> - -<p>Ha em <i>Juniparan</i>, na Ilha, um hermaphrodita, no exterior -mais homem do que mulher, porque tem face e voz de -mulher, cabellos finos, flexiveis, e compridos, e comtudo -casou-se e teve filhos, mas tem um genio tão fórte que vive -porque receiam os selvagens da aldeia trocar palavras com -elle.</p> - -<p>Presenciei a mudança de uma familia inteira somente -para evitar a visinhança de um selvagem de muito máo caracter.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_91"></a>[91]</span></p> - -<p>Escarnecem e despresam o homem, que se accommoda -com as provocações e questões de sua mulher quando ella -tem mau genio.</p> - -<p>Em quanto ahi morei, aconteceo aborrecer-se um selvagem -do mau genio de sua mulher a ponto de empunhar com a -mão direita um cacete, e na esquerda segurar nos cabellos -d’ella querendo experimentar se este oleo e balsamo adoçaria -o azedume de seo mal, porem admirou-se de vêr, que -cahindo o fogo na chaga mais o augmentasse, porque podendo -escapar-se de suas mãos, á vista dos visinhos, tomou -tambem ella outro cacete, quiz fazer o mesmo ao marido, e -depois de se haverem espancado reciprocamente com grande -applauso de todos, ficaram ambos com igualdade de circumstancias -frente a frente um do outro, sendo depois o -marido a fabula e o assumpto de todas as conversas, quer -dos grandes quer dos pequenos. Diziam os antigos nas suas -<i>Casas-grandes</i>, que elle não teve remedio si não ficar com -sua mulher, porque já a conhecia.</p> - -<p>Vi os abandonar e deixar seos generos a quem vendem, -só para evitar questões com o comprador.</p> - -<p>Notareis, que elles só tem—<i>sim</i> e <i>não</i>—quando negociam -juntos, ou com os Francezes, nunca regateando.</p> - -<p>Muitos outros exemplos eu poderia ainda reproduzir, porem -bastam estes.</p> - -<p>Avaliam muito bem as pessoas colericas, a que chamam -<i>Poromotare-vim</i>, e reciprocamente se advertem dizendo—<i>Cheporomatare-vim</i>, -«estou encholerisado,» e então ninguem -lhe diz nada, antes buscam abandonal-o o mais que podem, -o que exprimem por <i>Mogerecoap</i>, «abrandar alguem». <i>Aimogerecoap</i>, -«abrando o que está encolerisado.»</p> - -<p>Observei muitas vezes, quando viam um Francez enraivecido, -ficarem como que fóra de si, mudarem de côr, e fugirem -da vista d’elle, dizendo uns aos outros <i>Ymari turuçu</i> -«está muito zangado, está muito enfurecido.» <i>Ché-assequeié -seta</i>. «Tenho medo d’elle.»</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_92"></a>[92]</span></p> - -<p>Aconteceu encolerisarem-se muitas vezes duas ou tres pessoas -da nossa equipagem na aldeia, em que estavam. Vieram -por isto os Principaes ao Forte de São Luiz queixarem-se -e pedindo, que lhes tirassem de lá esses Francezes, porque -lhes faziam medo, e especialmente a seos filhos, o que -conseguiram.</p> - -<p>Si as questões de palavras e as raivas são temiveis, muito -mais ainda o são os insultos e as disputas, o que é muito raro, -a ponto de espancarem-se, o que chamam <i>ionupan</i> «espancar-se», -e ainda mais quando se ferem, o que explicam por -<i>iuapichap</i>, «ferir-se,» mormente quando depois de se haverem -maltratado reciprocamente vão por despeito queimar as suas -casas, o que exprimem pela palavra <i>Iuapic</i> «incendiarios» -reciprocos: todos sentem estas coisas, e ninguem se atreve -a metter-se entre elles para aplacal-os: eis como fazem: vae -cada um para seu lado, e tomando uma porção de pindoba -secca, acendem-na, atiram sobre a cobertura de sua propria -casa, dizendo uns aos outros—salve quem poder sua casa, -queimei a minha, ninguem podia oppôr-se a minha vontade, -e assim em poucos momentos a aldeia está queimada e ninguem -lhe diz nada.</p> - -<p>Aconteceria isto muitas vezes na Ilha, se não fosse o receio -que tinham dos Francezes.</p> - -<p>Não gostam de ser injuriados, seja homem ou mulher, e -nem mesmo as publicas consentem que se as chame <i>Pataqueres</i> -«meretrises.»</p> - -<p>Recorda-me que tendo tido uma india escrava um filho -de um Francez, as outras lançaram-lhe isto em rosto chamando-a -<i>Pataquere</i>, «meretriz» com o que se doeu muito, -e disse que, se continuassem, ella mataria seo filho ou o enterraria -vivo.</p> - -<p>Chamam a injuria <i>Curap</i>.</p> - -<p>Ninguem se admire de evitarem estes selvagens a colera -e seos effeitos, por ser esta paixão contraria a natureza -do homem, fazendo-o inteiramente bruto, como disse São<span class="pagenum"><a id="Page_93"></a>[93]</span> -Basilio Magno, na Homilia 10, da ira, e transformar o homem -n’um animal feroz—<i>Hominem penitus in feram converti</i>: -São Gregorio de Nissa, na Oração 2ª sobre a bemaventurança, -compara a colera com esses antigos feiticeiros do -Paganismo, que por encanto mudavam e transformavam o -homem em diversos animaes ferozes como o javaly e a panthera. -A colera faz o mesmo.</p> - -<p>São Gregorio Magno, no 5º livro da sua <i>Moral</i>, cap. 30, -diz ser o cerebro do colerico o buraco, onde se geram as -víboras.—<i>Cogitationes iracundi viperæ sunt generationis</i>.</p> - -<p>Platão contra esta paixão aconselhava, como remedio, aos -seos discipulos, que observassem bem os gestos e as palavras -de um homem colerico, e ou que se mirassem n’um -espelho quando se enraivecessem.</p> - -<p>Não é coisa nova e nem fóra de proposito o temerem e -fugirem estes selvagens quando veem um homem encolerisado, -especialmente um Francez, porque diz o proverbio, -cap. 27—<i>Impetum concitati spiritus ferre quis poterit?</i></p> - -<p>Não é menos difficil de crer-se, que, por despeito, apoz -calorosa ou inconveniente questão, queimem elles suas casas, -porque no <i>Proverbio 26</i> acha-se <i>sicut carbones ad prunas -et ligna ad ignem</i>—assim como o carvão é para o brasieiro, -e a lenha para o fogo, assim tambem a questão de -palavras é para o homem naturalmente colerico, <i>sic homo -iracundus suscitat rixas</i>, e no <i>Ecclesiastico 28</i>, <i>secundum -ligna sylvæ, sic ignis exardescit</i>—tal é a quantidade da lenha -qual a força do fogo, fallando da colera.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_94"></a>[94]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXVI">CAPITULO XXVI</h3> - -<p class="subhead">Da economia dos selvagens.</p> - -</div> - -<p>Dizia Pitacus ser bem regulada a familia quando n’ella -encontram-se duas coisas—falta de superfluidade tanto no -que diz respeito á vida como ao governo da casa, e o que -é necessario para isto.</p> - -<p>Diz Cicero, que perguntando-se a Catão, qual é o melhor -governo de uma casa, elle respondera—onde houver comida, -vestuario e amor ao trabalho.</p> - -<p>Parece-me ser estas sentenças mais applicaveis aos selvagens, -e aos que passam vida frugal do que á outra classe -de individuos.</p> - -<p>São Thomaz definindo a economia concluio dizendo não -ser outra coisa mais do que uma boa ordem domestica, e -para conseguir-se este fim convinha, que a familia tivesse -viveres e tudo o mais necessario a vida, sendo mui essencial -não só uma boa intelligencia, como tambem que cuidassem -todos os membros d’ella em seos deveres.</p> - -<p>A propria natureza, e não qualquer sciencia adquirida, -ensina isto aos selvagens.</p> - -<p>As aldeias são divididas em quatro habitações, sob o governo -de um <i>Muruuichaue</i>, para o temporal, e um <i>Pagy-uaçú</i> -«um feiticeiro» para as molestias e bruxarias.<a id="Nanchor_43" href="#Note_43" class="fnanchor">[43]</a></p> - -<p>Cada habitação tem o seo Principal: estes quatro Principaes -estão sob as ordens do maioral da aldeia, o qual conjunctamente -com outros de varias aldeias obedecem ao Principal -soberano da provincia. Cada...</p> - -<p class="center">(falta uma folha.)</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_95"></a>[95]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXVIII">CAPITULO XXVIII</h3> - -<p class="subhead">Do cuidado que do seo corpo tem os selvagens.</p> - -</div> - -<p>Platão chamava o corpo um privilegio da Naturesa, e Crates, -o philosopho, um reino solitario.</p> - -<p>Mereceriam estas duas sentenças amplo desenvolvimento, -si não nos occupassemos de uma historia, que exige estylo -conciso, sem superfluidade de palavras ou digressões fóra de -proposito.</p> - -<p>Applicamos comtudo o dizer d’estes dois philosophos ao -nosso assumpto para notar, que tendo a naturesa, por longos -annos, recusado vestidos aos corpos dos indios, os compensara -formando-os bellos e agradaveis, sem o menor auxilio -de suas mães, que apenas os lavam e carregam como -si fosse qualquer pedaço de pau.</p> - -<p>Assenta-lhes muito bem a opinião de Crates chamando o -corpo um reino solitario e deserto, porque assim como os -animaes do deserto crescem e ficam vigorosos, em quanto -residem ahi, isto é, em sua plena liberdade, assim tambem -quando sob o dominio do homem e presos, embora no Palacio -dos Reis e principes da terra, para serem vistos e observados -como novidade, principiam logo a emagrecer, a -entristecer-se, a perder o desejo da propagação e de conservação -da especie, somente por terem perdido a liberdade -que outr’ora gosavam no seu reino solitario.</p> - -<p>Negando a natureza á estes selvagens viveres bem preparados, -bebidas bem feitas, vestidos pomposos, leitos macios, -soberbas casas e palacios, compensou-os porem, dando -lhes plena liberdade como aos passarinhos no ar, e as -bestas no campo, sem lastimarem-se, como fazem outros -quando comparam as pretendidas commodidades d’este -Mundo.</p> - -<p>Se o diabo com o fim de roubar-lhes o bem da salvação, -não se metesse entre elles, levantando novas discordias afim -de se matarem e comerem reciprocamente, não haveriam<span class="pagenum"><a id="Page_96"></a>[96]</span> -por certo homens mais felizes no mundo por causa de sua -natural franqueza e liberdade, que, adubando as suas carnes -as transformam em perfeita e saudavel nutrição, e d’ahi -provem a bellesa de seos corpos.</p> - -<p>Espero a objecção para responder—isto é, de se terem -visto muitos indios sordidos e horriveis. Respondo: não é -no rosto, onde se deve observar a forma e a bellesa de um -homem, e eis a razão porque Demostenes zombou, quando -os embaixadores de Athenas regressando de sua commissão -junto a Philippe, Rei de Macedonia, gabavam muito a formosura -d’elle: não, não, disse Demostenes, não é digna de -louvor a belleza do rosto de um homem, tão commum entre -os Cortezãos, porem merece encomios a sua estatura, a proporção -de seos membros, e a sua figura e elegancia.</p> - -<p>Fallo de haver a naturesa dado ordinariamente aos selvagens, -e especialmente aos <i>Tupinambás</i>, corpo bem feito, -bem proporcional e elegante, e quando estragam seos rostos -por incisões, fendas, e extravagancias de pinturas e de ossos, -o fazem pela ideia erronea, que tem, de serem por isto reputados -valentes.</p> - -<p>Tem muito cuidado na limpesa de seos corpos: lavam-se -muitas vezes, e não se passa um só dia, em que não deitem -muita agua sobre si, em que se não esfreguem com -as mãos por todos os lados para tirar o pó e outras immundicies.</p> - -<p>Penteiam-se as mulheres muitas vezes.</p> - -<p>Receiam emmagrecer, o que chamam em sua linguagem -<i>angaiuare</i>, e lastimam-se diante dos seos semelhantes dizendo -<i>Ché-angaiuare</i>, «estou magro,» e todos se compadecem -mormente quando chegam de qualquer viagem abatidos -pelo trabalho: todos o lastimam e o deploram, dizendo -<i>Deangoiuare seta</i>, «ah! quanto está magro, só tem ossos.»</p> - -<p>Eis a causa unica por que não podiam residir comnosco -os rapazes baptisados, visto temerem muito as mães, que -não emagrecessem em poder dos Francezes, os quaes suppunham -ter falta de tudo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_97"></a>[97]</span></p> - -<p>Não consentiam que seos maridos trouxessem comsigo os -filhos para vêr os Padres e as Capellas de Deos, senão á -força, e com vivas recommendações para que voltassem, e -quando se lembravam d’elles grande era a sua tristesa, e -choravam.</p> - -<p>Conservei em minha companhia um rapaz de <i>Tapuitapera</i> -chamado <i>Miguel</i>, já baptisado, e que muito bem -sabia a doutrina christã, afim de ensinal-a aos meos escravos.</p> - -<p>Residio comigo por alguns mezes, porem não poude ficar -mais por causa das importunações de sua mãe, e a dor que -mostrava chorando e lamentando-se constantemente, de maneira -que veio seo pae de proposito para leval-o, dizendo-lhe -que sua mãe o esperava cheia de piedade (modo de fallar -para mostrar compaixão): veio pedir-me licença para o -seo regresso chorando por deixar-me (tanto amam e estimam -seos paes!) dizendo que sua mãe estava magra, e -cheia de tristesa por sua ausencia e pensando tambem que -elle definhava estando comigo, asseverando-me que contaria -á sua mãe o bom tratamento que eu lhe dava, e a licença -que lhe concedi de voltar a sua casa.</p> - -<p>Um de nossos escravos commetteo uma falta, pela qual -ia ser castigado: mal soube elle desta resolução, e quando -ia ser preso, disse que estava magro, e que não o açoitassem -como si fosse gordo, porque a gordura cobre os ossos, -apara os açoites e impede que a dor lhes chegue. «Si me -açoitaes com força me quebraes as veias apenas cobertas -pela pelle», e assim dizia por ser muito magro.</p> - -<p>Para engordarem reuniam-se muitos indios, embarcavam-se -n’uma canoa grande, muniam-se de farinha, de flechas e -de cães, iam á terra firme, onde matavam a caça, que apeteciam, -como veados, onças, capivaras, vaccas bravas, tatùs, -e muitos passaros, e ahi se demorando em quanto havia -farinha, engordavam á farta com estas comidas, e voltavam -depois para a Ilha trasendo muita caça assada.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_98"></a>[98]</span></p> - -<p>Quando á Ilha regressou da guerra do Pará o indio <i>Brasil</i> -julgando-se magro, pedio licença ao Sr. de Ravardiere para -ir á terra firme levando comsigo alguns Francezes afim de -engordar, o que lhe foi permittido.</p> - -<p>Embrenharam-se muito pelo sertão, e quando a felicidade -os encheo de caça, aconteceo-lhes uma desgraça—acabou-se-lhes -a farinha: viram-se obrigados a comer palmito, como si -fosse pão, com a carne que tinham, o que contrariou muito -os Francezes não habituados a esta especie de pão, sentindo -muito que a festa não fosse completa, havendo tanta carne, -sem pão e sem sal.</p> - -<p>Aconteceo-lhes o mesmo, que a Midas, possuidor de muito -ouro, quando sua mulher lhe apresentou na meza muitas -iguarias, todas porem de ouro, ou então á Tantalo morrendo -de sêde apezar de cercado d’agoa: o mesmo lhes aconteceo, -emagreciam em vez de engordarem por não levarem -a farinha necessaria.</p> - -<p>N’este ponto os Francezes imitam os selvagens, e por isso -estes os estimam.</p> - -<p>Os Francezes residentes no Fórte pedem licença para passeiar -e refazerem-se de forças.</p> - -<p>Quando os selvagens sabem d’isto, vão á caça, e mediante -a troca de alguns generos offerecem a estes passeiadores -dois ou tres banquetes: findos estes regressam á sua terra, -e assim vão continuando ora n’uma aldeia, ora n’outra, girando -por toda a Ilha, ou provincia de <i>Tapuitapera</i> e <i>Comã</i> -divertindo-se e engordando.</p> - -<p>Os Francezes hospedados por seos compadres n’estas aldeias -não são muito felizes em seos passeios, porque se ha -então alguma coisa boa não é para elles, e sim para os viandantes.</p> - -<p>Costumam os selvagens dar o melhor, que possuem aos -hospedes, por dois ou tres dias, findos os quaes tratam-nos -com o uso commum e trivial.</p> - -<p>Admire-se, eu vos peço, ainda que ligeiramente, o grande -amor de Deos para com os homens, dando-lhes o sentimento<span class="pagenum"><a id="Page_99"></a>[99]</span> -natural da caridade para com o proximo. O que fazem de -melhor os christãos, ou observam os Religiosos, do que a -caridade puramente natural dos selvagens, que não podem -alcançar a gloria, bem differente do que acontece á caridade -sobre natural dos christãos, que espera a recompensa da -vida eterna?</p> - -<p>O aceio do corpo faz-se por muitas maneiras, e entre ellas -contam-se estas.</p> - -<p>Trazem sempre na bocca a herva do Petun, (tabaco ou -fumo) cujo fumo expellem pela bocca e narinas com intenção -de seccar as humidades do cerebro e as vezes o engolem -para limpar o estomago de cruezas que sahem por meio -do arrôto.</p> - -<p>Apenas acabam de comer fumam o Petun, e o mesmo -praticam pela manhan e a noite, quando se levantam e deitam-se.</p> - -<p>A proposito de Petun devo contar a ideia supersticiosa, -que formam desta herva e do seo fumo.</p> - -<p>Crêem, que esta herva os torna discretos, judiciosos, e -eloquentes, de forma que antes de começarem algum discurso -usam d’ella: não me parece, que seja comtudo muito -supersticiosa, porque ha nisto uma razão natural: eu mesmo -a experimentei, e reconheci, que a sua fumaça exclarece o -entendimento dissipando os vapores dos orgãos do cerebro, -fortalece a voz seccando a humidade e escarros da bocca, -permittindo assim facilidade á lingua para bem exercer suas -funcções.</p> - -<p>É facil experimentar-se isto usando-se d’ella com parcimonia -e em occasião propria, porque o abuso continuado -d’ella não me parece bom e saudavel aos que se alimentam -de bebidas e carnes quentes, porem é util aos que sentem -frios e humidos o estomago e o cerebro.</p> - -<p>Eis a razão porque o selvagem, habitante d’esta zona -humida, e que bebe de ordinario somente agoa, uza -constantemente d’este fumo afim de descarregar o cerebro -de humidades e frialdade, e o estomago de cruezas, o<span class="pagenum"><a id="Page_100"></a>[100]</span> -que tambem praticam os marinheiros e os habitantes das -praias.</p> - -<p>Pondo-se de infusão por espaço de 24 horas esta herva, -presta-se muito para purificar o corpo de infecções. Usa-se -somente do vinho.</p> - -<p>Crêem tambem que, engolindo o fumo, ficam alegres, joviaes -e previnidos contra a tristesa e melancolia.</p> - -<p>Vou referir-vos alguns casos que me contaram:</p> - -<p>Um selvagem que foi morto na bocca de uma peça, e de -quem hei-de fallar no <i>Tratado do Spiritual</i>, antes de se -encaminhar para o supplicio pedio um macinho de <i>Petun</i>, -como ultima consolação d’esta vida afim de morrer com -energia e alegria. Apenas alcançou o que desejava mostrou-se -alegre e sempre cantando até o fim.</p> - -<p>Quando seos companheiros o ataram á bocca da peça, elle -pedio para que não amarrassem o braço direito de fórma -que o embaraçasse de levar á bocca o Petun: quando a bala -dividio o seo corpo em duas partes, uma foi para o mar, e -a outra cahio na base do rochedo, e n’esta achou-se ainda -seguro pela mão direita o mólho de <i>Petun</i>.</p> - -<p>Os selvagens sentenciados á morte não soffrem a pena -sem usarem antes do <i>Petun</i>, conforme o costume da terra, -e não deixavam este habito nem mesmo os doentes.</p> - -<p>Os feiticeiros do paiz servem-se d’esta planta com proveito, -o que agora não refiro, e sim guardo para o fazer mais -adiante, si não me esquecer.</p> - -<p>Empregam ainda outro meio para a conservação da saude.</p> - -<p>Comem muitas vezes e pouco de cada uma: depois que -comem lavam muito bem a bocca, e se tem sêde quando comem, -bebem pouco apenas para apagar a sêde, gargarejam -bem a agua na bocca para aplacar o ardor do paladar.</p> - -<p>Cozinham muito bem suas comidas, e não usam d’ellas -meias cozidas ou aferventadas, sendo n’isto mais cuidadosos -do que os Francezes.</p> - -<p>Untam-se com azeite de palmas, de urucú, e de genipapo,<a id="Nanchor_44" href="#Note_44" class="fnanchor">[44]</a> -o que tem sempre em abundancia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_101"></a>[101]</span></p> - -<p>Estou certo que os meos leitores, pouco conhecedores da -disposição do corpo humano e do regimem necessario á sua -conservação, julgarão que a natureza ensinou a estes homens -o mesmo que a sciencia e a experiencia ensinaram a -outros.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXIX">CAPITULO XXIX</h3> - -<p class="subhead">De algumas indisposições naturaes, a que os selvagens -se acham sugeitos, e quaes os nomes, que -dão aos membros do corpo.</p> - -</div> - -<p>São os selvagens, na verdade, dotados pela naturesa com -boa saude, feliz e agradavel disposição.</p> - -<p>Raras vezes, na proporção de um para cem, encontram-se -entre elles corpos mal feitos e monstruosos.</p> - -<p>Não vi um só cego, apesar de existirem, porque elles o -chamam <i>Thessa-um</i>, «cego,» <i>Cheressa-um</i>, «estou cego,» -e <i>Ressa-um</i> «tu és cego.»</p> - -<p>Notei porem terem alguns a vista curta, especialmente os -velhos, e notavelmente as mulheres, visto que depois de 30 -annos d’idade tem a vista tão curta e fraca a ponto de não -poderem mais tirar dos pés os <i>Thons</i><a id="Nanchor_45" href="#Note_45" class="fnanchor">[45]</a> «bixos» como fazem -os rapazes e as moças.</p> - -<p>A proposito dizia um capitão Francez, não da nossa gente -e pouco crente, que o Papa não tinha poder sobre o mar, -porque Deos havia dito a São Pedro que seo poder estendia-se -somente sobre a terra, e por isso todos os que passam -o mar em busca d’estas terras não são mais sugeitos<span class="pagenum"><a id="Page_102"></a>[102]</span> -aos mandamentos da Igreja, podendo mui livremente tomar -uma rapariga para concubina, visto terem necessidade d’ella -para tirar dos pés d’elle e de outros francezes estes bixos.</p> - -<p>Conto isto para mostrar quanto são perigosos estes paizes -ás almas que tudo envenenam.</p> - -<p>Vi zarolhos, a que chamam <i>Thessaue</i>, porem muito poucos, -e vesgos que denominam <i>Thessauen</i>, «vesgo» <i>Cheressauen</i>, -«estou vesgo,» <i>Deressauen</i> «tu és vesgo.»</p> - -<p>Encontram-se alguns gagos, a que chamam <i>Gningayue</i>, -«gago,» <i>Chegningayue</i>, «estou gago.»</p> - -<p>Os velhos e os meninos são muito ramellosos, a que chamam -<i>Thessau-um</i> «ramelloso» <i>Cheressau-um</i> «estou ramelloso», -<i>Deressau-um</i> «tu és ramelloso»: é o resultado da -grande humidade do paiz, mais predominante nos corpos -dos meninos e dos velhos por causa da fraqueza do calor -natural, que é maior nos corpos d’estes do que nos dos outros, -onde é mais forte e intenso.</p> - -<p>Existem poucos calvos, e se chamam <i>apterep</i> «calvo,» -<i>Cheapterep</i> «estou calvo», e não existem muitos por serem -seos cabellos nutridos com força, e eis a razão porque tem -os cabellos fortes, duros e lisos.</p> - -<p>Encontram-se poucos coxos <i>Parin</i>, poucos manetas <i>Iuuasuc</i>, -e poucos mudos <i>Gneen-eum</i>, alguns gottosos <i>Karuarebore</i>, -de <i>Karuare</i> «gotta.»</p> - -<p>Encontra-se tambem uma especie de sarnentos de raça, -os quaes mudam de pelle annualmente, e comtudo não sentem -molestia alguma, estão sãos, e chamam-nos a todos, -que soffrem este mal <i>Kuruuebore</i>.</p> - -<p>Ha tambem obesos, <i>Timbep</i>, e se diz <i>Chetimbep</i> «estou -obeso,» <i>Detimbep</i> «tu és obeso,» e <i>Ytimbep</i>, «elle é obeso.»</p> - -<p>A todas as partes do corpo dão um nome especial, e particular.</p> - -<p>Chamam a alma <i>an</i>, «minha alma» <i>che-an</i>, «tua alma» -<i>dean</i>, «nossas almas» <i>orean</i>, «vossas almas» <i>pean</i>, «suas -almas» <i>yan</i>, em quanto a alma está unida ao corpo, porque -quando está separada chamam-na <i>anguere</i>.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_103"></a>[103]</span></p> - -<table summary="Traduções de palavras"> - <tr> - <td>A cabeça.</td> - <td><i>Acan.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Minha cabeça.</td> - <td><i>Cheacan.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Caspa.</td> - <td><i>Kua.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Cabellos.</td> - <td><i>Aue.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Meos cabellos.</td> - <td><i>Cheaue.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Cerebro.</td> - <td><i>Aputuon.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Rosto.</td> - <td><i>Suua.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Palpebra.</td> - <td><i>Taupepyre.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Cara.</td> - <td><i>Tova.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Meo rosto.</td> - <td><i>Cherova.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Teo rosto.</td> - <td><i>Derova.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Seo rosto.</td> - <td><i>Sova.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Olho.</td> - <td><i>Tessa.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Lagrymas.</td> - <td><i>Thessau.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Meo olho.</td> - <td><i>Cheressa.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Mancha no olho.</td> - <td><i>Tessaton.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Vi uma mancha no olho.</td> - <td><i>Cheressaton.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Piscar os olhos.</td> - <td><i>Sapumi.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Pisco os olhos.</td> - <td><i>Assapumi.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Ouvido.</td> - <td><i>Apuissa.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Ouvir.</td> - <td><i>Sendup.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Ouço.</td> - <td><i>Assendup.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Orelha.</td> - <td><i>Nemby.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Minha orelha.</td> - <td><i>Chénemby.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Nariz.</td> - <td><i>Tin.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Monco.</td> - <td><i>Embuue.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Narinas.</td> - <td><i>Apoin-uare.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Paladar da bocca, ou véo do paladar.</td> - <td><i>Konguire.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Bocca.</td> - <td><i>Giuru.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Beiço superior.</td> - <td><i>Apuan.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Beiço inferior.</td> - <td><i>Teube.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Garganta.</td> - <td><i>Yasseok.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Escarrar.</td> - <td><i>Gneumon.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Eu escarro.</td> - <td><i>Auendeumon.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Tu escarras.</td> - <td><i>Eveuendeumon.</i><span class="pagenum"><a id="Page_104"></a>[104]</span></td> - </tr> - <tr> - <td>Saliva.</td> - <td><i>Thenduc.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Lingua.</td> - <td><i>Apekon.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Minha lingua.</td> - <td><i>Ché-ape kon.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Fallar.</td> - <td><i>Gneem.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Eu fallo.</td> - <td><i>Aigneem.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Bom fallador.</td> - <td><i>Gneemporam.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Halito.</td> - <td><i>Puitu.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Dentes.</td> - <td><i>Taim.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Doe-me os dentes.</td> - <td><i>Chéréuassu.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Meo dente.</td> - <td><i>Cheraim.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Teo dente.</td> - <td><i>Deraim.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Seo dente.</td> - <td><i>Saim.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Dente maxillar.</td> - <td><i>Taiuue.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Mastigar.</td> - <td><i>Chuu.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Eu mastigo.</td> - <td><i>Achuu.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Face.</td> - <td><i>Tovape.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Beijar.</td> - <td><i>Geurupuitare.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Eu beijo.</td> - <td><i>Aigeurupuitare.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Bochechudo.</td> - <td><i>Tovape-uaçu.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Queixo.</td> - <td><i>Tendeuua.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Barba.</td> - <td><i>Tendeuua-aue.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Barbudo.</td> - <td><i>Tendeuuaaue-reKuare.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Cachaço.</td> - <td><i>Aiure.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Collo.</td> - <td><i>Aiuripui.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Estrangular.</td> - <td><i>Iubuic.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Peito.</td> - <td><i>Potia.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Espaduas.</td> - <td><i>Atiue.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Braços.</td> - <td><i>Iuua.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Cotuvello.</td> - <td><i>Tenuvangan.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Punho.</td> - <td><i>Papue.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Palma da mão.</td> - <td><i>Papuitare.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Mão.</td> - <td><i>Pó.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Minha mão.</td> - <td><i>Chépo.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Mão direita.</td> - <td><i>Ekatua.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Mão esquerda.</td> - <td><i>Açu.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Dedos.</td> - <td><i>Puan.</i><span class="pagenum"><a id="Page_105"></a>[105]</span></td> - </tr> - <tr> - <td>Unha.</td> - <td><i>Puampé.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Minha unha.</td> - <td><i>Chépuampé.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Mama.</td> - <td><i>Cam.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Coração.</td> - <td><i>Gnaen.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Veias.</td> - <td><i>Taiuc.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Sangue.</td> - <td><i>Tubui.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Baço.</td> - <td><i>Perep.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Tripa.</td> - <td><i>Thyepuy.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Figado.</td> - <td><i>Puya.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Fel.</td> - <td><i>Puya-upiare.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Barriga.</td> - <td><i>Thuye-uaçu.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Ventre.</td> - <td><i>Theic.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Embigo.</td> - <td><i>Puruan.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Dorso.</td> - <td><i>Atucupé.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Rins.</td> - <td><i>Puiacoo.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Ilharga.</td> - <td><i>Ké.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Minha ilharga.</td> - <td><i>Ché-ké.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Costella.</td> - <td><i>Aru kan.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Minha costella.</td> - <td><i>Ché-aru kan.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Quadril.</td> - <td><i>Tenambuik.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Madre.</td> - <td><i>Acaia.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Testiculos.</td> - <td><i>Pere-ketin.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Nadegas.</td> - <td><i>Tevire.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Curva da perna.</td> - <td><i>Ananguire.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Coxas.</td> - <td><i>Uue.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Joelhos.</td> - <td><i>Tenupuian.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Pernas.</td> - <td><i>Tuma.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Pé.</td> - <td><i>Pui.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Calcanhar.</td> - <td><i>Puita.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Planta de pé.</td> - <td><i>Puipuitare.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Dedo do pé.</td> - <td><i>Puissan.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Corpo.</td> - <td><i>Tétè.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Meo corpo.</td> - <td><i>Chéreté.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Pello.</td> - <td><i>Pyre.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Suor.</td> - <td><i>Thue.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Gordura.</td> - <td><i>Kaue.</i><span class="pagenum"><a id="Page_106"></a>[106]</span></td> - </tr> - <tr> - <td>Osso.</td> - <td><i>Cam.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Meo osso.</td> - <td><i>Chécam.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Tutano.</td> - <td><i>Camaputuon.</i></td> - </tr> -</table> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXX">CAPITULO XXX</h3> - -<p class="subhead">De algumas molestias particulares a estes paizes -de indios, e de seos remedios.</p> - -</div> - -<p>O Genesis nos ensina, como explicam os doutores haver -Deos dado aos homens contra todos os males o fructo de -uma arvore, a maneira da Theriaga.</p> - -<p>Este mesmo Deos, sempre bom para com todas as creaturas, -embora pequenas e longe d’elle, prevendo que esta -infeliz raça de selvagens viveria, por longos annos, vagabunda -e nua pelas grandes florestas do Brasil, lhes deo muitas -especies de arvores e hervas para o curativo de suas -feridas e molestias.</p> - -<p>Tem este paiz muitas arvores medicinaes, gommas salutiferas, -e excellentes hervas, como não ha em parte alguma.</p> - -<p>O tempo e o estudo hão de fazel-as conhecidas.<a id="Nanchor_46" href="#Note_46" class="fnanchor">[46]</a> Vi tirar-se -da casca de certa arvore uma especie de almecega, -similhante á que cresce nos jardins da Europa, e dizem os -selvagens que serve para toda a molestia, e assim a empregam. -Contam mais, que todos os animaes ferozes quando -se sentem feridos ou doentes, recorrem a esta arvore para -curarem-se, e por isso raras vezes se encontra uma só com -toda a sua casca, por ser roida constantemente por todos -os bixos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_107"></a>[107]</span></p> - -<p>Encontra-se tambem crescida nas folhas das arvores uma -especie de gomma branca, de côr prateada, e que dizem -ser muito boa para certas chagas.</p> - -<p>Ha outra gomma, tambem branca, optima para limpar -chagas e fazer suppurar os abcessos profundos fazendo seo -effeito em 24 horas.</p> - -<p>Vi o seo emprego n’um moço francez, que estava commigo -o qual tinha, por causa dos bixos, os pés e as pernas tão -estragados e inchados a ponto de receiarmos que as perdesse: -coisa horrivel e impossivel de narrar-se bem: fez-se -applicação de emplastos d’esta gomma nas pernas e pés, e -no dia seguinte estava são como si antes não tivesse coisa -alguma, porque puchando os bixos do interior das carnes -onde se achavam á superficie das feridas, ahi pela cabeça -se grudaram os emplastos, e assim morreram todos em numero -consideravel, limpando muito bem a chaga e deixando-a -viva e vermelha.</p> - -<p>Não fallarei de outras hervas e balsamos, e nem d’um milhão -de hervas, das quaes se podem destillar espiritos e essencias, -porque desejo fallar de certas molestias, reinantes -n’este paiz, dos remedios, que contra ellas se applicam, não -porque seja a terra doentia e insalubre, antes muito boa e -saudavel, especialmente de junho a janeiro: durante este -tempo as brisas, isto é, os ventos de Este ou do Oriente -sopram constantemente, livrando o paiz de vapores pestillenciaes, -e por isso raras vezes adoecem os selvagens, e a -fallar a verdade, elles só tem uma molestia, de que morrem.</p> - -<p>São os francezes muito mais sujeitos á doenças, como a -experiencia fez conhecer a mim e a outros, porem creio ser -isto devido ás necessidades e miserias, porque passamos no -principio do estabelecimento ou da fundação e não a outra -causa.</p> - -<p>Tinham então os francezes poucas commodidades, porem -ja começavam a gozal-as quando deixei a Ilha.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_108"></a>[108]</span></p> - -<p>Não desejo a pessoa alguma taes necessidades e molestias, -porem fiquem todos certos e convencidos de que não -soffrerão a centesima parte do que soffremos.</p> - -<p>Das suas molestias a primeira chama-se <i>Pian</i>, que vem -da palavra <i>Pé</i>, que quer dizer «caminho», ou, se quereis, -«pé,» por originar esta molestia do escarro, ou da sanie, -espalhado no chão, por onde se caminha: começa ordinariamente -debaixo dos dedos dos pés, do tamanho de um liard,<a id="FNanchor_56" href="#Footnote_56" class="fnanchor">[BD]</a> -de côr negra: os indios chamam esta mancha <i>Aipian</i>, isto é, -a «Mãe Pian,»<a id="Nanchor_47" href="#Note_47" class="fnanchor">[47]</a> porque d’ella descendem todas as outras -chagas e postemas, que esta horrivel molestia espalha por -todo o corpo á maneira de uma herva ou arbusto, que sahindo -d’esta <i>Mãe Pian</i>, como de uma raiz, fosse sempre -crescendo, subindo, e espalhando, pelo corpo ramos, folhas -e olhos, que enchesse interna e externamente o doente de -crueis dores, e de incrivel putrefacção, das quaes muitos -morrem. Dura pouco mais ou menos dois annos.</p> - -<p>Si um francez soffrer esta molestia deve curar-se perfeitamente -antes de regressar ao seo paiz, porque não ha remedio -no mundo, excepto no Brasil, que a cure, a não ser -o rhuibarbo commum, isto é, a morte, que cura todos os -males.</p> - -<p>Ja disse como esta molestia chega accidentalmente: vejamos -agora sua origem e fonte ordinaria e natural afim de -prevenir os francezes, que la forem.</p> - -<p>Esta molestia ataca os francezes, como o mal de Napoles, -por excessiva communicação com as raparigas indigenas: -para evital-a convem a vida casta, ou então que tragam -suas mulheres, ou que se casem com as indias christãs, visto -ser o casamento poderoso antidoto contra tal veneno, o que -se observa mesmo no casamento natural dos indios, os quaes -não soffrem o <i>grande mal</i>, se não o tem adquirido algures,<span class="pagenum"><a id="Page_109"></a>[109]</span> -e sim o <i>pequeno</i>, que todos soffrem na vida, similhante a -syphilis e a variola na Europa.</p> - -<p>Esta <i>bouba</i> grande excede em dor e sordidez, sem comparação, -ao mal de Napoles, e com razão, porque merece -ser punido n’esta vida o peccado, que commettem os francezes -com as Indias, arrebatando de nossas mãos, estas infelizes -almas quando pretendiamos salval-as, si com seos -maus exemplos não as conduzissem ás fornalhas da lubricidade.</p> - -<p>Meditem bem os que são capazes de commetterem taes -crimes, na conta que darão a Deos por haverem causado o -damno e a perda d’estas pobres almas indigenas.</p> - -<p>Si a vida eterna é somente concedida aos que buscam a -salvação de outrem, que lugar esperarão os que, para satisfação -de brutaes desejos, seduzem essas pobres creaturas -a ponto de fazel-as despresar as prédicas do Evangelho e a -sua propria salvação?</p> - -<p>Tempo e paciencia são os principaes remedios para esta -molestia; os suores aproveitam muito, mitigam e encurtam -o tempo, bem como as dietas e o regimen de vida.</p> - -<p>A experiencia tem mostrado, que para estas molestias a -carne mais propria é a do <i>tubarão</i> (não usada pelos sãos, -por lhes fazer vomitar até sangue, e produzir-lhes grandes -molestias) cozida com hervas duras e amargas, que se encontram -em todo o paiz.</p> - -<p>Por um momento de prazer soffrem mil dores, e o que -para os bons é veneno para elles é carne saudavel, embora -de mau gosto.</p> - -<p>É costume d’este astuto Boticario Satanaz untar o bordo -do copo com mel ou assucar para se beber de um só trago -o veneno, que depois vae roer e encher de dor as entranhas: -quero dizer, que ao peccador apresenta o prazer, e -não o seo castigo, e bem depressa experimenta o desgraçado, -que o prazer vôa, porem a dor é eterna.</p> - -<p>O Sr. de Ravardiere, outros francezes, e eu sobre todos, -soffremos intensas febres quartans, terçans, e incertas, as<span class="pagenum"><a id="Page_110"></a>[110]</span> -quaes depois de haverem mortificado muito o corpo, deixam -dores nos rins, produzem colicas insuportaveis com vomitos -continuos, sempre debilitando o corpo, resfriando e contrahindo -o estomago, acompanhada por continua fluxão do cerebro, -que se espalha pelos braços, coxas, e pernas, tornando-as -sem acção, á similhança de uma estatua ou pedra -immovel.</p> - -<p>Parece-me que é a molestia, que ceifa maior numero de -selvagens tornando-os ethicos e paralyticos.</p> - -<p>Os remedios para estas molestias são—o beber menos -agua que fôr possivel, porque o sabor das aguas alterado -com o calor da febre, faz beber muita agua, perdendo o estomago -seo calor proprio, adquirindo grande crueza e fraqueza, -de que resulta não só a sua constricção, mas tambem -a pituita e outros humores corrompidos: presentemente como -ha cerveja espero que não sejam frequentes estas molestias -e que não chegarão ao excesso, que vi, e cujas consequencias -ainda sinto.</p> - -<p>O vinho e a aguardente são bons para aquecer o estomago, -e por isso aconselho aos que lá forem, que poupem -muito o seo vinho e aguardente para essa e outras necessidades, -e não os gastem prodigamente em deboches, mórmente -sendo a cerveja, ahi feita com milho bom, muito mais saborosa -e saudavel, por causa do continuo calor, do que o -vinho e a aguardente.</p> - -<p>As boas bebidas são o unico remedio, e as aves e ovos -ahi em abundancia são o alimento d’esses doentes.</p> - -<p>As outras molestias são o defluxo e violentas dores de -dentes por causa da humidade da noite nesta Zona tórrida, -como bem notou o jesuita Acosta, na sua <i>Historia dos Indios</i>, -a qual pode recorrer o leitor, visto que nada quero -dizer ou escrever sem sciencia propria.</p> - -<p>É tão forte a humidade da noite, que produz ferrugem nas -espadas, mosquetes, facas, machados e machadinhos, que -corroe e destroe não havendo cuidado de os limpar.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_111"></a>[111]</span></p> - -<p>São mui frias as fluxões do cerebro, pois descendo á raiz -dos dentes apodrecem-nos e os fazem cahir.</p> - -<p>São remedios especiaes á estes males a applicação de cauterios -no pescoço e braços, e cobrir bem a cabeça durante -a noite.</p> - -<p>Todos os annos reina doença de olhos, das quaes poucos -escapam especialmente os Franceses, porque dura apenas -oito dias, sendo por sua vehemencia antes furor do que molestia, -e si se não atacar logo corre-se o risco de vêr-se somente -metade do mau tempo.</p> - -<p>È facil o remedio: tome-se um pouco de vitriolo, deite-se -n’uma garrafa cheia d’agoa bem limpa, e d’ella se derrame -um pouco nos olhos bem abertos e fixos, abstendo-se de tocal-os, -tendo-os sempre cobertos, e não os expondo ao vento -e nem ao sol, porque senão o mal redobra visto que sendo -formada esta molestia de uma fluxão quente e acrimoniosa, -si esfregardes os olhos e vos expôrdes a acção do vento e -do sol, mais exacerbareis o vosso mal.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXXI">CAPITULO XXXI</h3> - -<p class="subhead">Da morte e dos funeraes dos Indios.</p> - -</div> - -<p>Jacob despresou duas irmans Lya e Rachel, o que é diversamente -explicado por Padres e Doutores. Tomarei somente -o que convem á historia, isto é, que Deos tem duas -filhas a Naturesa e a Graça, que dá por esposa aos seos escolhidos.</p> - -<p>A Naturesa é imperfeita, porem fecunda como Lya: a Graça -é de formosura inexcedivel, porem esteril como Rachel.<span class="pagenum"><a id="Page_112"></a>[112]</span> -Ambas são irmans: basta vel-as para reconhecer-se, e como -taes são seos filhos-irmãos germanos; differençando-se apenas -por linhas diversas, isto é, n’um ponto de ceremonia, -nas ultimas homenagens prestadas a seos parentes, reconhecemos -facilmente a verdadeira religião e os seos herdeiros.</p> - -<p>Acha-se isto tão naturalmente gravado no fundo da alma -das nações as mais barbaras, que serve de argumento mui -positivo para provar acharem-se em verdadeira graça os que -prestam homenagem aos seos defunctos.</p> - -<p>Em caso contrario prova-se que estão em poder do gentilismo, -e em opposição ao instincto puramente natural, imitando -n’este caso os brutos, não fazendo caso dos seos amigos -fallecidos, especialmente da sua alma, melhor parte de -sua composição.</p> - -<p>É a maldição dada por Job, no cap. 18—<i>Memoria illius -pereat de terra, et non celebretur nomem ejus in plateis</i>, -«desappareça da terra a sua memoria, e nem seja seo nome -pronunciado na rua.»</p> - -<p>Symmachus explicando diz <i>Non erit nomem ejus in faciem -fori</i>—não chegará seo nome ao foro dos senadores, e -mais claramente Policronius <i>Nec in amicorum versabitur -memoria</i> «nem seos amigos se recordarão d’elles,» grande -maldição, visto que os povos os mais selvagens do Universo -que são os habitantes do Brasil nada mais receiam, após a -morte, do que não serem chorados e lamentados, isto é, -que para elles, na morte, não hajam da parte dos seos parentes, -lagrymas, lamentações, e outras ceremonias embora -supersticiosas.</p> - -<p>Quando se acham muito doentes estes selvagens, e por -seos parentes julgados em perigo de vida, perguntam-lhes o -que desejam comer antes da morte, e saciam-lhes o desejo.</p> - -<p>Em quanto doentes alimentam-se com farinha de mandioca -e <i>ionker</i> «pimenta da india,» misturada com sal, julgando -com tal dieta, abuso inaudito entre elles, recobrarão a antiga -saude.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_113"></a>[113]</span></p> - -<p>Vi um homem e uma mulher da nação dos <i>Tabajares</i>, que -tinham só pelle e ossos, parecendo-me terem apenas vida -por dois dias, e por isso os baptisei logo, apenas me pediram, -e escaparem da morte tomando taes caldos.</p> - -<p>Quando chega a hora da morte, reunem-se todos os seos -parentes, e geralmente todos os seos concidadãos, cercam-lhe -o leito do moribundo, os parentes mais perto, depois os -velhos e as velhas, e assim de idade em idade: não dizem -uma só palavra, olham-no com toda a attenção, banham-se -de lagrymas constantemente; mas apenas a pobre creatura -exhala o ultimo suspiro, dão berros e gritos, fazem lamentações -compostas por uma musica do vozes fortes, agudas, -baixas, infantis, emfim de todo o genero, que infallivelmente -enternece todos os corações, embora sejam naturaes todas -essas dores e lagrymas, sem conhecimento do bem e do -mal, que poderá gozar esse espirito desprendido do corpo -morto.</p> - -<p>Depois de muitas lamentações, o Principal da aldeia ou o -Principal dos amigos fazia um grande discurso muito commovente, -batendo muitas vezes no peito e nas coxas, e então -contava as façanhas e proesas do morto, dizendo no fim—<i>Ha -quem d’elle se queixe? Não fez em sua vida o que faz um -homem forte e valente?</i></p> - -<p>Conto isto porque presenciei-o tres ou quatro vezes, lembrando-me -de haver lido e notado em Polybio, Livro 6º, e -em Deodoro da Sicilia, Livro 2º, cap. 3º, terem os antigos -Romanos o costume de levarem seos defunctos á Praça publica, -e ahi o filho mais velho da casa, ou o principal herdeiro -em falta de filhos machos e de maior idade, subia á -uma especie de theatro, e desfiando todos os louvores, que -podia fazer ao morto, seo parente, desafiava todos os assistentes -para que o accusassem, si podessem, afim d’elle defendel-o, -e depois convidava-os a acompanharem o corpo até -a sepultura.</p> - -<p>Voltemos aos nossos selvagens. Acabado que seja o choro -e o discurso tomam o corpo, ja cheio de pennas na cabeça<span class="pagenum"><a id="Page_114"></a>[114]</span> -e nos braços, uns o vestem com um capote, outros lhe dão -um chapeo, si o ha, trasem-lhe o massinho de petum<a id="Nanchor_48" href="#Note_48" class="fnanchor">[48]</a>, -seo arco, frexas, machados, foices, fogo, agoa, farinha, carne -e peixe e o que em vida elle mais apreciava.</p> - -<p>Faziam depois um buraco fundo e redondo em fórma de -poço: assentavam o morto sobre seos calcanhares conforme -era o seo costume, e á cova desciam-no de mansinho<a id="Nanchor_49" href="#Note_49" class="fnanchor">[49]</a> accommodando -ao redor d’elle a farinha, a agoa, a carne, o -peixe e ao lado de sua mão direita afim de poder pegar em -tudo com facilidade e na esquerda arrumavam os machados, -as foices, os arcos e as flexas.</p> - -<p>Ao lado d’elle faziam um buraco, onde accendiam fogo -com lenha bem secca afim de não apagar-se, e despedindo-se -d’elle o incumbiam de dar muitas lembranças á seos paes, -avós e amigos, que dançavam nas montanhas, alem dos Andes, -onde julgam ir todos depois de mortos.</p> - -<p>Uns dão-lhe presentes para levarem a seos amigos, e outros -lhe recommendam, entre varias coisas, muito animo no -decorrer da viagem, que não deixem o fogo apagar-se, que -não passem pela terra dos inimigos, e que nunca se esqueçam -de seos machados e foices quando dormirem n’algum -lugar.</p> - -<p>Cobrem-no depois pouco á pouco com terra, e ficam ainda -por algum tempo junto á cova, chorando-o muito e dizendo-lhe -adeos: de vez em quando ahi voltam as mulheres -ora de dia ora de noite, choram muito e perguntam á sepultura, -se elle ja partio.</p> - -<p>A proposito contarei tres historias interessantes.</p> - -<p>Enterraram um bom velho em distancia de 50 passos de -minha casa. Dia e noite consumiam-me as velhas com seos -choros.</p> - -<p>Para adquirir socego lembrei-me de mandar esconder -n’uma moita em caminho, perto da cova, dois rapazes francezes, -que commigo moravam. Mais adiante mandei tambem -esconder dois escravos nossos, a quem ensinei o que deviam -fazer.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_115"></a>[115]</span></p> - -<p>A noite todos occuparam as suas posições, e no fim de um -quarto de hora quando vieram as velhas, todas juntas, e que -principiaram a gritar na cova, responderam os franceses, -imitando <i>Jeropary</i>, e ellas cheias de susto despararam a correr, -e quando no caminho encontraram outros dois <i>Jeropary</i>, -redobraram de esforços, e saltando por abrolhos e espinheiros -chegaram á casa mais mortas do que vivas, e ahi sobresaltando -a todos mandaram fechar as portas para que não -entrasse o tal <i>Jeropary</i>.</p> - -<p>Estava eu perto e muito gostei d’esta comedia por alcançar -socego, visto não regressarem mais as velhas.</p> - -<p>Morreo um selvagem, e foi enterrado na estrada perto de -<i>São Francisco</i>, lugar no <i>Forte de São Luiz</i>.</p> - -<p>Fora baptisado antes da sua morte, e com tudo, sem sciencia -nossa, enterraram-no ahi e com as ceremonias que já -descrevi. Mortifiquei-me muito com isto, ralhei bastante, porem -não pude descobrir o culpado por já haver decorrido -tres ou quatro dias.</p> - -<p>Passando por ahi achei sua mulher, que voltava da roça, -assentada sobre a sepultura, chorando amargamente, e espalhando -n’ella algumas espigas de milho.</p> - -<p>Indagando-lhe o que fazia, respondeo-me estar perguntando -a seo marido si elle ja tinha partido, porque receiava -haverem amarrado muito as suas pernas, e não lhe terem -dado a sua faca, pois havia levado comsigo apenas o seo -machado e sua foice, e que lhe trasia o milho para comer -e partir no caso de já não ter mais provisões.</p> - -<p>Fil-a sahir, mostrando como pude, a sua ignorancia e superstição.</p> - -<p>Falleceo um menino com doença no ventre, de dois annos -de idade, e duas horas depois de baptisado.</p> - -<p>Eu, o Sr. de Pezieux, e outros franceses fomos amortalhal-o -n’um lençol d’algodão.</p> - -<p>Encontramos o corpo cercado por muitas velhas, fazendo -algasarra capaz de quebrar uma cabeça de aço, carregado -de missangas, que trasem para ahi os francezes, e de muitos<span class="pagenum"><a id="Page_116"></a>[116]</span> -busios, de que usam nos seos adornos e enfeites para as -grandes festas.</p> - -<p>Não podemos convencer ás velhas afim de serem tirados -taes enfeites, e sendo assim mesmo conduzido n’uma prancha -por um francez, fizemos o seo funeral a maneira da Europa, -levando o seo corpo á capella do Forte de São Luiz, -onde recitamos as orações prescriptas pela Igreja para esse -fim.</p> - -<p>Seguiram-nos as velhas de bem perto, e não se animando -a entrar, começaram a entoar uma musica tão alta e forte, -que não nos entendiamos dentro da Igreja.</p> - -<p>Imposemos silencio, e foi o corpo enterrado no cemiterio -junto á capella.</p> - -<p>As velhas se metteram entre os francezes, umas trazendo -fogo, agoa, farinha, e outras o mais que ja dissemos para o -caminho, o que mandei deitar fóra fazendo-lhes vêr a asneira -por intermedio do interprete.</p> - -<p>Recolheram-se as suas casas, onde se fartaram de chorar.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXXII">CAPITULO XXXII</h3> - -<p class="subhead">Do regresso á Ilha do Sr. de la Ravardiere e de -alguns Principaes, que o seguiram.</p> - -</div> - -<p>Com a chegada da barca portugueza o Sr. de Pezieux escreveo -ao Sr. de la Ravardiere e expedio uma canôa para tal -fim, descrevendo o estado em que nos achavamos e prestes -a sermos sitiados em breve tempo.</p> - -<p>Gastou a canoa tres mezes na viagem, e sciente destas -coisas partio logo que poude em direcção da Ilha, afrontando<span class="pagenum"><a id="Page_117"></a>[117]</span> -perigos, que muitos são n’estes mares; porem de coisa -alguma nos serviria sua actividade, porque se n’esse intervallo -soffressemos o cerco seriamos já então vencedores ou -vencidos.</p> - -<p>Esta interrupção da viagem do Amazonas causou muito -mal a Colonia, porque se teria colhido muitos generos pelas -margens dos rios, muito mais povoados de selvagens -de diversas nações do que a Ilha, Tapuitapera, Comã e -Caieté.<a id="Nanchor_50" href="#Note_50" class="fnanchor">[50]</a></p> - -<p>São mais pacificos, e bem providos de algodão.</p> - -<p>Quanto mais pobres e necessitados de machados, foices, -facas e vestidos, tanto mais facil é a troco de qualquer d’estes -objectos alcançar grandes riquezas.</p> - -<p>Outro prejuiso soffreo a Colonia dos francezes, porque -achando-se muitas nações resolvidas a aproximarem-se da -Ilha, por ahi residirem e fazerem suas roças, vindo com o -Sr. de la Ravardiere, ao saberem taes noticias dos portuguezes, -resolveram suspender a execução do seo plano, e esperar -o resultado dos negocios.</p> - -<p>Chegando o Sr. de la Ravardiere proseguio-se activamente -nas obras dos Fortes das avenidas da Ilha, montando-se-lhes -artilharia e dando-se-lhes guarnição.</p> - -<p>Passados alguns dias achou-se acompanhado por muitos -guerreiros selvagens, que vieram para a Ilha, e entre elles -estava o <i>Arraia grande</i> dos Caietés, selvagem pelos seos -muito estimado, valente, bom conselheiro, e de tal influencia, -que os seos companheiros o seguem, trabalham e abraçam -inteiramente as suas ideias, o que foi muito util aos -francezes visto assim terem muitos homens dedicados, e occupados -no serviço.</p> - -<p>Pouco antes da viagem do Amazonas alguns bregeiros espalharam -entre os <i>Caietés</i> do <i>Pará</i>, que sob o pretexto dessa -viagem iam os francezes captival-os.</p> - -<p>Esta noticia aterrou-os de tal forma, que muitos ja estavam -resolvidos a deixar suas casas, e a buscar outro lugar -quando o <i>Arraia grande</i> por seos discursos lhes fez vêr<span class="pagenum"><a id="Page_118"></a>[118]</span> -quanto era infundado o seo receio, dizendo então muito bem -dos francezes.</p> - -<p>Elle, sua mulher, e alguns parentes acompanharam uma -barca, que ia da Ilha para o Pará em busca dos generos do -paiz, ahi mui preciosos.</p> - -<p>Quiz a infelicidade que, no regresso para a Ilha, naufragasse -a canôa por estar muito pesada duas legoas longe da -terra.</p> - -<p>Despresaram todas as riquezas, procurando salvarem-se -agarrados a um pedaço da escotilha, a uma taboa, ou ao -bote.</p> - -<p>Esperou o <i>Arraia grande</i>, que todos procurassem meios -de salvarem-se, e afinal elle, sua mulher, e um interprete -francez si puzeram a nadar animando elle a todos com estas -palavras—«a morte é invejosa, vêde como atira estas -ondas sobre a nossa cabeça afim de nos arremeçar no abysmo, -mostremos-lhe que somos ainda fortes e valentes, e que -não é chegado o tempo de nos levar.»</p> - -<p>Salvaram-se todos em varias ilhas não habitadas, excepto -um francez, victima de tubarões.<a id="Nanchor_51" href="#Note_51" class="fnanchor">[51]</a></p> - -<p>Vendo o <i>Arraia grande</i> os francezes nús e famintos, em -lugares estereis e cercados de mar, atirou-se ás ondas, a -nado atravessou grande espaço cheio de mangue desembaraçando-se -á muito custo das raizes destas arvores, e do tujuco -onde as vezes se enterrava até o pescoço.</p> - -<p>Chegando a aldeia dos seos similhantes animou-os a virem -com algumas canoas, vestidos e viveres, e depois que -todos regressaram ás aldeias defronte do lugar do naufragio, -elle lhes entregou tudo quanto haviam perdido, e que -o mar tinha atirado ás praias.</p> - -<p>Outr’ora este indio, n’um navio de São Maló, veio a França, -onde se demorou um anno pouco mais ou menos, e em -tão pouco tempo aprendeo a fallar francez, e ainda hoje se -fazia entender bem, embora ja se houvessem passado muitos -annos, e tem tão bom juiso e memoria que ainda hoje -conta varias particularidades, que la existem.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_119"></a>[119]</span></p> - -<p>Não trato do estado espiritual, e nem do que me disse -relativamente ao Christianismo, porque deixo isso para o -seo lugar proprio, mas quanto ao temporal muitas vezes o -ouvi dizer aos seos similhantes, e especialmente aos <i>Tabajares</i> -do Forte de São Luiz, «que os francezes eram fortes, -que habitavam um paiz grande, abundante de boas comidas, -de muito vinho, de pão, de boi, de carneiro, de galinhas, -de muitas especies de ovos, e de grande variedade -de peixes: que suas casas eram construidas de pedras, cercadas -de grossos muros, onde estava assestada grossa artilharia, -batendo o mar na base da muralha, ou então sendo -esta circulada de fossos cheios d’agoa.</p> - -<p>«Pelas ruas estão lojas de todos os generos. Andam a cavallo, -e os Grandes, ou melhor os Principaes são acompanhados -por muitas pessoas, como o Sr. de la Ravardiere, -residente perto da cidade, onde cheguei.</p> - -<p>«O Rei de França mora no centro do seo reino, n’uma cidade -chamada Pariz. Os francezes aborrecem, como nós, os -<i>Peros</i>, e lhes fazem guerra por terra e por mar, e sempre -com vantagem, porque são fracos os <i>Peros</i>, valentes e animosos -os francezes como nenhuma outra nação, e eis a razão -porque não devemos temer aquelles visto estes nos defenderem. -Alguns maldizentes de nossa gente espalharam -não terem os francezes podido tomar os <i>Camarapins</i>, porem -isto é falso. Cumpriram seo dever e si os Tupinambás -tivessem querido ajudar-nos, seriam agarrados, porem o -chefe dos franceses condoeo-se d’elles, e não quiz que todos -fossem queimados como aconteceo em parte.»</p> - -<p>Fez este e outros discursos similhantes, e depois percorrendo -a Ilha, em cada aldeia os repetia nas <i>reuniões</i> na -<i>caza grande</i>.</p> - -<p>Procurando imitar a maneira porque entrou na grande -praça de São Luiz, não só para saudar os Tabajaras, como -tambem para ajudar os francezes, dispoz elle a sua gente, -em numero de cem a cento e vinte, um a um, ou um atraz -do outro, e assim por diante.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_120"></a>[120]</span></p> - -<p>A uns deo cabaças, panellas, e rodela, e a outros espadas -e punhaes, a estes arcos e flexas, a aquelles differentes -instrumentos, dividindo os tocadores de Maracá<a id="Nanchor_52" href="#Note_52" class="fnanchor">[52]</a> pelas desenas, -e assim percorreram a habitação dos <i>Tabajaras</i>, e -depois foram á praça grande do Forte, onde estavamos, e -ahi acabaram suas danças, muito similhantes a dos <i>Pantalons</i>, -andando e fazendo mesuras, batendo todos ao mesmo -tempo com o pé em terra, ao som da voz e do Maracá, cujo -compasso todos observavam entoando sempre louvores aos -francezes.</p> - -<p>Mechiam em todos os sentidos a cabeça e as mãos, com -taes gestos que faziam rir as pedras.</p> - -<p>Chamam os Tupinambás a esta dança <i>Porasséu-tapui</i>, -quer dizer, <i>dança dos Tapuias</i>, porque era outra a dança -dos <i>Tupinambás</i>, sempre em roda e nunca mudando de -lugar.</p> - -<p>Acabada a dança, veio saudar-nos, e foi comer e descançar -na casa, que se lhe havia preparado.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXXIII">CAPITULO XXXIII</h3> - -<p class="subhead">Viagem do capitão Maillar,<a id="Nanchor_53" href="#Note_53" class="fnanchor">[53]</a> pela terra firme á casa de -um grande feiticeiro. Descripção d’esta terra -e das zombarias d’elle.</p> - -</div> - -<p>É verdade, reconhecida por todos que hão habitado o -Brasil, não ser a terra firme tão bonita e tão fertil como as -Ilhas.</p> - -<p>São as ilhas formadas por areia preta e fina, queimada e -ardente pelo continuo calor, e por isso são ellas mais sujeitas<span class="pagenum"><a id="Page_121"></a>[121]</span> -n’esta Zona tórrida aos calores e ardores, porque o -mar redobra pela reflexão e poder da luz do Sol sobre a capacidade -proxima e concentrica da terra, o que se prova -por meio dos espelhos ardentes, cujos centros sendo opacos, -e mais elevados do que suas circumferencias e bordas, os -raios do sól se reunem e concentram ahi, produzindo fogo e -chama, e assim queimando os objectos convenientemente -dispostos n’esses lugares.</p> - -<p>Ouvindo o Sr. de la Ravardiere os indios fallarem muitas -vezes de uma localidade muito boa, distante 100 ou 150 legoas -do Maranhão, na terra firme para as bandas do rio -Mearim e longe d’elle 40 ou 50 legoas, mandou uma barca -e canoas com o capitão Maillar de São Maló, alguns francezes, -e um cirurgião, todos muito conhecedores da natureza -das hervas e arvores preciosas.</p> - -<p>Ahi vivia, vindo do Maranhão, um dos seos principaes feiticeiros, -com 40 ou 50 selvagens, entre homens e mulheres, -n’uma aldeia, que edificara, cultivando a terra, que tudo -lhe produzia em abundancia, e por isso abusando da credulidade -dos Tupinambás este miseravel lhes dizia possuir um -espirito com o poder de fazer a terra dar-lhe o que quizesse.</p> - -<p>Ahi chegou o capitão com muitas difficuldades, passando -vasta e comprida planicie de juncos e caniços, atravessando -agoa pela cintura, e depois de alguma demora regressou -contando-nos o seguinte.</p> - -<p>A terra d’esta localidade é dura, gorda e negra, boa para -a cultura da canna do assucar, e muito melhor que a de -Pernambuco, o que bem podia avaliar por ter residido por -muitos annos ahi e em outros lugares possuidos pelos portuguezes.</p> - -<p>A terra é cortada por muitos riachos capazes de moverem -engenhos para o fabrico do assucar.</p> - -<p>Ha abundancia de peixes d’agoa doce, grandes e de varias -qualidades; são innumeraveis as tartarugas; existe toda -a qualidade, e em quantidade inexprimivel, de caça, como<span class="pagenum"><a id="Page_122"></a>[122]</span> -sejam viados, corças, javalis, vacas-bravas, e diversas especies -de tatús, muitos coelhos e lebres, iguaes ás de França, -porem mais pequenas, immensa variedade de passaros, como -sejam perdizes, faisões, mutuns,<a id="Nanchor_54" href="#Note_54" class="fnanchor">[54]</a> pombas bravas, trocazes, -rolas, garças-reaes, e outras admiraveis.</p> - -<p>A terra produz raizes tão grossas como a coxa: o tabaco -petum ahi cresce forte e optimo, e dizem que dá duas colheitas -por anno.</p> - -<p>O milho cresce forte, cheio, e dá muitas espigas.</p> - -<p>Ha fructas muito melhores, e em maior quantidade do -que na Ilha, em <i>Tapuitapera</i>, e <i>Comã</i>, papagaios de varias -côres e diversos tamanhos, notando-se entre elles os -<i>Tuins</i>,<a id="Nanchor_55" href="#Note_55" class="fnanchor">[55]</a> do tamanho de pardaes, os quaes aprendem com -facilidade a fallar, porem morrem de mal quando são levados -para a Ilha: vi entre muitos salvarem-se apenas seis, -os quaes comendo, cantando, e dançando em suas gaiolas, -sem apparencia de molestia, davam duas ou tres voltas e -morriam logo.</p> - -<p>Ha tambem muitos macacos e monos barbados, bonitos e -raros, e que seriam muito apreciados em França, se lá chegassem.</p> - -<p>Ahi residia um barbeiro ou feiticeiro muito bem arranjado -e com todas as commodidades.</p> - -<p>Tinha vindo, um pouco antes d’esta viagem, fazer suas -feitiçarias e nigromancias para ganhar o vestuario e a ferramenta -dos selvagens do Maranhão e leval-os comsigo -quando fosse para a sua terra. Estas feitiçarias eram diversas.</p> - -<p>Tinha uma grande boneca, que com artificio se movia, -especialmente com o maxilar inferior; dizia elle ás mulheres -dos selvagens, que si desejavam vêr quadruplicada a sua -colheita de grãos e legumes trouxessem e dessem á ella -alguns d’estes generos, afim de serem mastigados tres ou -quatro vezes, e por esta forma recebendo a força de multiplicação -do seo espirito, que estava na boneca, podiam depois<span class="pagenum"><a id="Page_123"></a>[123]</span> -serem plantados em suas roças, pois já comsigo levavam -a força da multiplicação.</p> - -<p>Gozou de muita influencia por onde passou, muitas foram -as dadivas das mulheres, e mal satisfazia o que promettia, -guardavam ellas com todo o cuidado os legumes e grãos -mastigados.</p> - -<p>Estabeleceo uma dansa ou procissão geral fazendo com -que todos os selvagens levassem na mão um ramo de palmeira -espinhosa,<a id="Nanchor_56" href="#Note_56" class="fnanchor">[56]</a> chamada <i>tucum</i>, e assim andavam ao -redor das casas, cantando e dansando, para animar, dizia -elle, o seo espirito a mandar chuvas, então n’esse anno mui -tardias: depois da procissão <i>cauinavam</i> (bebiam <i>cauim</i>) até -cahir.<a id="Nanchor_57" href="#Note_57" class="fnanchor">[57]</a></p> - -<p>Mandou encher d’agoa muitas vasilhas de barro, e rosnando -em cima d’ella não sei que palavras, ensopava um -ramo de palmeira, e com ella aspergia a cabeça de cada -um d’elles, dizendo «sêde limpos e puros afim de meo espirito -enviar-vos chuva em abundancia.»</p> - -<p>Tomava uma grande tabóca de bambu, enchia-a de <i>petum</i>, -deitava-lhe fogo n’uma das extremidades, e depois -soprava a fumaça sobre os selvagens dizendo «recebei a -força do meo espirito,<a id="Nanchor_58" href="#Note_58" class="fnanchor">[58]</a> e por elle gozareis sempre saude, -e sereis valentes contra vossos inimigos.»</p> - -<p>Plantou no centro d’aldeia uma arvore de maio, carregou-a -de algodão, e depois de haver dado muitas voltas e -vira-voltas em redor, lhes prognosticou grande colheita -n’esse anno.</p> - -<p>Apezar de tudo isto não vindo a chuva, dia e noite fazia -elle dançar e cantar os selvagens, gritando com quanta -força tinham afim de despertar seo espirito, como faziam outr’ora -os sacrificadores de Baal.</p> - -<p>Com tudo isto não choveo.</p> - -<p>Fez acreditar á estes selvagens, que elle bem via o seo -espirito, carregado de chuvas, do lado do mar, porem que -não se animava a vir por causa da <i>Cruz</i>, erguida no centro -da praça, fronteira a Capella de N. S. d’Vsaap, e que se quizessem<span class="pagenum"><a id="Page_124"></a>[124]</span> -ter chuva não havia mais do que deital-a por terra, -e teriam concordado n’isto facilmente, pondo-o logo em execução -se ahi não estivessem os Francezes, e si não temessem -o castigo.</p> - -<p>Chegando estas noticias ao Forte, mandou-se immediatamente -o <i>Cão-grande</i> e alguns Francezes para irem buscar o -feiticeiro afim de vêr si elle poderia dançar no meio d’uma -sala, contra sua vontade, e teria sido preso si, advertido -como foi, não preparasse sua bagagem, e com sua equipagem -não se salvasse n’uma canôa, mandando desculpar-se, -d’ahi ha pouco tempo, por um seo parente trazendo muitos -presentes com o fim de fazer pazes.</p> - -<p>Fez crer aos selvagens da Ilha, que tinha um espirito -muito bom, que era muito amigo de Deos, que não era mau, -e que por tanto só podia fazer bem.</p> - -<p>Dizia elle: «come commigo, dorme, caminha diante de -mim, e muitas vezes vôa diante dos meos olhos, e quando -é tempo de fazer minhas hortas, só tenho o trabalho de -marcal-as com um pau a sua extensão, e no dia seguinte -acho tudo prompto.»</p> - -<p>Sabendo alguns selvagens christãos, que pretendiamos castigar -seo companheiro que d’elles tanto abusou, me pediram, -que me condoesse d’elle e que nada soffresse por não ter -sido mau e nem o seo espirito, visto terem ambos feito -crescer os bens da terra. Ensinei-lhes a este respeito o que -deviam crêr.</p> - -<p>Vede, meos leitores, quanto Satanaz é astucioso: similhante -á um macaco imita as ceremonias da Igreja para -elevar sua superstição, e conservar sob seo dominio as almas -dos infieis por essa procissão de palmas, essa aspersão -d’agoa, esse sopro de fumo para communicar o espirito, -de que fallaremos mais simplesmente no <i>Tratado do -espiritual</i>.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_125"></a>[125]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXXIV">CAPITULO XXXIV</h3> - -<p class="subhead">Da vinda dos Tremembés, como foram perseguidos, -suas habitações, e procedimento.</p> - -</div> - -<p>N’esse tempo a nação dos <i>Tremembés</i>, moradora alem -da montanha de <i>Camussy</i>, e nas planicies e areiaes da -banda do rio <i>Tury</i>, não muito distante das Arvores Seccas, -das Areias Brancas, e da pequena Ilha de Santa Anna, sahio, -sem esperar-se, para a floresta, onde se aninham os -passaros vermelhos, e para os areiaes onde se encontra o -ambar gris, e se pesca grande quantidade de peixes, com -intenção, de surprehender os <i>Tupinambás</i>, seos inimigos -irreconciliaveis, o que malogrou-se, visto que muitos <i>Tupinambás</i> -da Ilha tendo ido ahi com o fim especial de pescar, -foram accommettidos pelos <i>Tremembés</i>,<a id="Nanchor_59" href="#Note_59" class="fnanchor">[59]</a> sendo uns -mortos immediatamente, outros captivos sem saber-se o que -d’elles fizeram, e finalmente alguns embarcados n’uma canôa -poderam salvar-se regressando á Ilha do Maranhão, onde -contaram tão tristes casos causando nas aldeias, a que pertenciam -os mortos, tanta indignação, que todos, vóz em -grita e chorando, especialmente as mães e as mulheres, insistiram -pela vingança, ao que acquiesceram os Principaes, -vindo pedir aos francezes um chefe e alguns soldados, no -que foram satisfeitos.</p> - -<p><i>Japy-açú</i> foi o conductor d’este exercito<a id="Nanchor_60" href="#Note_60" class="fnanchor">[60]</a> composto de -grande numero de selvagens, e acompanhado por alguns -francezes.</p> - -<p>Atravessaram o mar entre a ilha e as areias brancas, saltaram -em terra para descançar e passar a noite pescando -uns, caçando outros, e as mulheres e as filhas procurando -agoa pelos areiaes, a qual não podia ser senão salôbra, isto -é, meia doce e meia salgada, armando as redes, fazendo -fogo e preparando a comida.</p> - -<p>Os mancebos <i>Tupinambás</i> fizeram <i>Aiupuues</i>, (choupanas) -tanto para os Principaes como para os Francezes: na melhor<span class="pagenum"><a id="Page_126"></a>[126]</span> -<i>auipaue</i> alojou-se o Coronel, e os Capitães armaram suas -redes ao redor da do Coronel, ceremonia que observam em -todas as suas guerras, especialmente quando se acham perto -do inimigo.</p> - -<p>Escondem o fogo com receio de não serem á noite descubertos -pelos inimigos, por ser costume geral d’elles o fazer -subir no cume de arvores muito altas suas sentinellas -afim de descubrirem fogo ou luz dos inimigos.</p> - -<p>Na manhã seguinte puzeram-se em marcha até um grande -areial cercado de mato por tres lados, e de mar pelo ultimo: -ahi encontraram as choupanas dos <i>Tremembés</i>, uma panella -portugueza, e combinando isto com o que já sabiamos -anteriormente, ficamos sabendo, que os Portuguezes estavam -na <i>Tartaruga</i>, na serra de <i>Camussy</i>, unidos aos <i>Tremembés</i>, -aos <i>Montagnars</i>, tanto de <i>Ybuapap</i> como de <i>Mocuru</i>, -principalmente com <i>Jeropary-uaçu</i>, isto é, com o <i>Grande-diabo</i>, -principe e rei de uma grande nação de Cambaes,<a id="Nanchor_61" href="#Note_61" class="fnanchor">[61]</a> -muito amigo dos francezes, e inimigo natural dos portuguezes, -podendo afiançar-se com certesa, que si os francezes -ahi fossem, elle trahiria os portuguezes e unindo-se a elles, -por ser <i>mulato-francez</i>, isto é, filho de um francez e de -uma india.</p> - -<p>Voltemos ao nosso proposito.</p> - -<p>Encontraram os nossos selvagens ainda vivo um dos seus, -que fugio para o mato, e escondeo-se no concavo de uma -arvore; porem ouvindo o som das trompas de guerra, que -eram feitas de um grosso madeiro cavado, tendo as aberturas -superior e inferior similhantes á uma trombeta, sahio -muito magro, e quase que sem figura humana por não ter -comido durante oito dias senão folhas da arvore, onde escondeo-se: -ensinou, como lhe permittiram suas forças, o lugar -onde jaziam mortos seos companheiros, que foram encontrados -com as cabeças rachadas, e sobre seos corpos os -machados de pedras, instrumentos d’essas atrocidades, por -ser costume entre elles nunca se servirem d’uma arma com -que ja mataram um inimigo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_127"></a>[127]</span></p> - -<p><i>Caruatapyran</i>, um dos Principaes de Comã, trouxe-me -um d’esses machados de pedra, ainda tinto de sangue, com -alguns cabellos adherentes, e com um pouco do cerebro do -Principal <i>Íanuaran</i>, que com elle foi morto, o que se soube -por ser encontrado sobre seo corpo.</p> - -<p><i>Caruatapyran</i> pegando um d’esses machados, feito em -fórma de crescente, ensinou-me o que eu não sabia, dizendo-me -terem os <i>Tremembés</i> o costume mensal de vellar -toda a noite fazendo seos machados até ficarem perfeitos, -em virtude da superstição, que nutriam, de que indo para -a guerra armados com taes instrumentos nunca seriam vencidos, -e sim sempre vencedores.</p> - -<p>Em quanto os homens e as mulheres se entregavam a -este trabalho dançavam as moças e os meninos a frente das -choupanas ao luar do crescente.</p> - -<p>São valentes os <i>Tremembés</i> e temidos pelos <i>Tupinambás</i>; -d’estatura regular, mais vagamundos do que estaveis -em suas moradias: alimentam-se ordinariamente de peixes, -porem vão á caça quando lhes apraz: não gostam de fazer -hortas, e nem casas: moram debaixo das choupanas; preferem -as planicies ás florestas porque com um simples olhar -descobrem tudo quanto está ás suas vistas.</p> - -<p>Não conduzem após si muita bagagem, pois contentam-se -com seos arcos, flexas, machados, um pouco de <i>cauï</i>, algumas -cabaças<a id="Nanchor_62" href="#Note_62" class="fnanchor">[62]</a> para guardar agoa, e umas panellas para -cozinhar a comida: com mais destresa que os Tupinambás -pescam á flexa: são tão robustos a ponto de segurarem pelo -braço um dos seos inimigos e atirarem-no ao chão, como se -fosse um capão. Dormem n’areia ordinariamente.</p> - -<p>Servem-se d’este lugar de areias brancas, e de arvores -seccas para agarrar os <i>Tupinambás</i>, como ratoeira para -pilhar ratos, e isto por tres razões.</p> - -<p>A primeira, por causa da pesca, ahi abundante e variada.</p> - -<p>A segunda, por causa de uma floresta, onde os passaros -vermelhos de todas as partes vem fazer ninho para desovar.<span class="pagenum"><a id="Page_128"></a>[128]</span> -Não deixam de ir ahi em certo tempo os <i>Tupinambás</i> -para tirar do ninho os filhótes e os ovos meios -chocos, havendo abundancia impossivel de descrever-se, levando, -quando regressão á villa, provisão para dois mezes, -preparando antecedentemente uns assados, e outros seccos -e duros como paus, o que nunca me agradou, e a fallar verdade, -nunca pude comel-os, embora sejam para os selvagens -o primeiro prato, e bem delicioso. Logo contarei alguns -uzos particulares, e bem notaveis, d’estes passaros.</p> - -<p>O terceiro motivo é para colher o ambar-gris, chamado -pelos Tupinambás <i>Piraputy</i> «excremento de peixes,»<a id="Nanchor_63" href="#Note_63" class="fnanchor">[63]</a> por -que elles pensam ser o ambar-gris o excremento das baleias, -ou de outros peixes iguaes em corpulencia, o qual -vindo á tona d’agoa, é pelas ondas atirado a essas praias.</p> - -<p>Dizem alguns francezes não ser o ambar-gris outra coisa -mais do que a «flor do mar,» a que os selvagens chamam -<i>Paranampoture</i>, ou uma certa gomma do mar, <i>Paranamussuk</i>.</p> - -<p>Decida o leitor como lhe aprouver.</p> - -<p>N’estas areias encontra-se o ambar-gris em massa, mais -n’um tempo do que n’outro, e algumas vezes chega a massa -a tal tamanho e grossura, que merece ser guardada n’algum -gabinete real, não podendo ser justamente apreçada e vendida. -Acontece as vezes virem poisar sobre ellas todos os -bixos, passaros, carangueijos, lagartos, e outros reptis d’ahi, -das circumvisinhanças, e do mar, e com elles as vêem procurando-as -com cuidado, e por isso são essas grandes massas -partidas em varios pedaços.</p> - -<p>Aconselhei a elles, que ahi fizessem um <i>Forte</i> não só para -impedirem as correrias dos <i>Tremembés</i>, como para tapar -a entrada aos navios, que buscam a Ilha de Sant’Anna afim -de colherem o ambar-gris; não ha duvida, que o mar atira -muitas vezes sobre estas areias o ambar, que por ahi espalhado -é comido por animaes, passaros e reptis, pois os selvagens -da Ilha ahi vão apenas duas ou tres vezes durante -o anno.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_129"></a>[129]</span></p> - -<p>Tenho certesa, que a colheita do ambar chegaria para -pagar as despezas do Forte, da sua guarnição, e do mais -que fosse necessario.</p> - -<p>Os nossos selvagens e francezes depois de muitas indagações -por varios lugares somente acharam os corpos mortos -dos seos, as choupanas, e vestigios de inimigos, e assim regressaram -á Ilha mais famintos do que feridos.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXXV">CAPITULO XXXV</h3> - -<p class="subhead">Da chegada dos Cabellos-compridos á Tapuitapera e -da viagem ao Uarpy.</p> - -</div> - -<p>Lá para o lado do Oeste havia uma nação, de que nunca -se fallou, desconhecida por todos os <i>Tupinambás</i>, moradora -nos mattos na distancia de mais de 400 á 500 legoas -da Ilha, sem conhecer a vantagem dos machados e das -foices, pois apenas se serviam dos machados de pedra, e -assim viviam em segredo nas florestas d’essa localidade sob -a obediencia de um Rei.</p> - -<p>Souberam por alguns selvagens, que apresionaram no mar, -da vinda dos francezes á Maranhão, da sua residencia ahi, -trazendo comsigo Padres, que ensinavam qual era o verdadeiro -Deos, e absolviam os selvagens dos seos peccados.</p> - -<p>Levando taes noticias ao seo rei mandou este logo algumas -canoas, e n’uma d’ellas foi o governador, abaixo d’elle, -d’esta nação, acompanhado por duzentos mancebos fortes e -valentes, ageis na natação e no uso da flecha, com instrucção -de chegarem á Ilha, porem não podendo pôr pé em -terra, limitando-se apenas a fallar com os interpretes dos<span class="pagenum"><a id="Page_130"></a>[130]</span> -francezes, e regressando depois á sua terra tomando todo -o cuidado para não ser descoberto o caminho que seguiam.</p> - -<p>Chegaram defronte de <i>Tapuitapera</i>, onde então se achava -o interprete <i>Migam</i>, que apenas soube da chegada d’elles -foi ao seo encontro no mar, e com o seo Principal fallou -por muito tempo.</p> - -<p>Interrogou-o o Principal acerca dos Padres, quem eram, -o que faziam e ensinavam: á respeito dos francezes, quaes -suas forças, e mercadorias, si era certo terem conciliado -os <i>Tupinambás</i> com os <i>Tabajares</i>, e si viviam em paz na -Ilha.</p> - -<p>Respondendo o interprete a tudo isto, como devia, ficou -satisfeito e assim o disse, asseverando que o mesmo aconteceria -a seo Rei e a sua Nação, porque todos desejavam -aproximarem-se dos francezes para conhecerem a Deos, terem -machados e foices de ferro, com que cultivassem suas -roças, e estivessem sempre em guarda contra os seos inimigos, -plantando muito algodão e outros generos para offerecerem, -como recompensa, aos francezes, aos quaes apenas -pediam alliança e protecção.</p> - -<p>Perguntou-lhes o interprete, si era grande sua nação, e -si estava muito longe, ao que respondeo affirmativamente, -marcando a distancia por legoas pouco mais ou menos, que -podiam haver da Ilha á sua terra, mostrando com os dedos -o numero de luas, isto é, de mezes, que eram necessarios -para regressarem ao seo paiz, e accrescentou «não te posso -dizer o logar da nossa habitação, porque meo Rei assim me -prohibio, e tambem porque receiamos, que si nos faça guerra. -D’aqui ha seis mezes regressarei para te dar certas noticias, -e podes dizer ao teo chefe, que sendo verdadeiras as -tuas informações viremos morar por aqui perto.»</p> - -<p>O interprete respondeo—«vem, te rogo, vêr o Fórte, que -fizemos, as grandes peças, que montamos sobre suas muralhas, -e os francezes, que as guarnecem para de tudo dares -noticias á teo Rei.»</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_131"></a>[131]</span></p> - -<p>«Não, disse elle, eu e os meos recebemos ordem de não -saltar em terra». Tanto porem instaram com elle, quase recebendo -refens, consentio alguns dos seos saltar em <i>Tapuitapera</i>, -onde foram muito bem tratados, e ahi adquirindo, -em troca de generos, que levaram, alguns machados e foices, -regressaram mui contentes.</p> - -<p>Durante essa visita, conservaram-se a nado as canoas, os -remos armados, e tudo prestes se houvesse alguma traição. -Tinham os outros as flechas e os arcos promptos, tanto desconfiam -estas nações umas das outras!</p> - -<p>Apenas chegaram os seos, restituiram os refens, e foram-se -em paz. Deos os guie e os traga ao seo gremio.</p> - -<p>Quanto á viagem ao <i>Uarpy</i>,<a id="Nanchor_64" href="#Note_64" class="fnanchor">[64]</a><a id="FNanchor_57" href="#Footnote_57" class="fnanchor">[BE]</a> rio e região, em distancia -para mais de 120 legoas da Ilha, lá para as bandas -dos Caietés, foi emprehendida pelo Sr. de Pezieux, -com alguns francezes, e duzentos selvagens pelos seguintes -motivos.</p> - -<p>Primeiro: para descobrir uma mina de oiro e prata na distancia -de 100 legoas acima do rio, d’onde os selvagens nos -trouxeram enxofre mineral, muito bom, e por tanto havia -esperança de serem as minas boas e abundantes.</p> - -<p>Tem me esquecido dizer, que ha em toda esta terra grande -numero de minas de oiro, misturado com cobre, de prata -misturada com chumbo,<a id="Nanchor_65" href="#Note_65" class="fnanchor">[65]</a> o que provam as agoas mineraes -que descem dos montes.</p> - -<p>Segundo: para traser comsigo uma nação de Tabajares, -habitante das margens do Rio.</p> - -<p>Terceiro: para procurar uma nação de <i>cabellos compridos</i> -por ahi errante, os quaes são doceis, faceis de serem civilisados, -e que negociam com os <i>Tupinambás</i>.</p> - -<p>Si se realisarem estas coisas, como creio, a Ilha será em -pouco tempo rica de generos cultivados por todos estes selvagens -reunidos, e tornar-se-ha forte contra a invasão dos portuguezes,<span class="pagenum"><a id="Page_132"></a>[132]</span> -e descançando n’esta esperança vou fallar de algumas -raridades, que notei ahi, cortando as difficuldades que -se apresentam á primeira vista por meio de razões boas e -naturaes.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXXVI">CAPITULO XXXVI</h3> - -<p class="subhead">Dos astros e do sól.</p> - -</div> - -<p>É bello e magnifico o Ceo, n’esta zona tórrida, embora -pareça muito menos estrellado do que na Europa, isto é, não -apparecem tantas estrellinhas fixadas na abobada azulada d’aquelle -como acontece na do nosso, pois no Maranhão ha estrellas -maiores e brilhantes, e mais luzentes do que aqui.</p> - -<p>Não me convenço de lá não haverem menos estrellas do -que aqui, antes esta falta, que noto, attribuo á minha vista, -e por mais esta razão.</p> - -<p>Todos os que habitam fóra dos dois solsticios, <i>Cancer</i> e -<i>Capricornio</i>, olham obliquamente o centro do ceo, que é a -linha ecliptica ou zona tórrida, onde passa o sol, e por tanto -tem maior horisonte, ou maior espaço do ceo a contemplar, -e menos numero de estrellas a contar.</p> - -<p>É pela experiencia confirmada esta razão, porque nasce e -deita-se o sol, sem preceder aurora, e assim acaba o dia e -começa a noite, e si ha tarde ou manhã é quasi nada.</p> - -<p>Na Europa acontece o contrario, pois algumas vezes temos -mais de duas horas de tarde, e outras tantas de manhã, -antes do nascimento e do occaso do sol, porque os habitantes -da zona tórrida estão na esphéra direita e nós outros -na obliqua.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_133"></a>[133]</span></p> - -<p>Ainda acrescento outra experiencia.</p> - -<p>Quando regressamos de Maranhão para cá, no Polo Septentrional, -descubrimos mais depressa a estrella d’este Polo, -do que quando na nossa viagem para lá descobrimos a estrella -do Cruzeiro embora mais elevada do que o Polo Antarctico -ou Austral.</p> - -<p>Ainda fiz outra observação n’este planeta do Sol, é que -mostra dois meios-dias diversos entre os dois termos do anno, -de sorte que n’uma metade do anno, olhando o Este está á -direita, isto é, na parte austral, e no resto do anno a esquerda, -isto é, na parte septentrional, e em ambos elles ha -pouca sombra. O sol no zenith somente duas vezes no anno -olha para esta terra, como succede a todas as regiões contidas -nos dois solsticios: algumas vezes está tão perto da esphera -direita, que pouco falta para chegar ao meio dia, e -ferir-vos a prumo o cume da cabeça.</p> - -<p>Comtudo isto destinguem-se perfeitamente ambos estes -meios-dias.</p> - -<p>Explica-se isto por ser preciso cortar duas vezes, annualmente, -o sol quando no zenith, a zona tórrida, como já -disse, para fazer os solsticios de Cancer e Capricornio, e -por tanto os habitantes da zona tórrida o vêem fazer o seo -meio-dia ora de um lado, ora de outro: por exemplo: quando -sahe do Capricornio afim de encaminhar-se para Cancer, -os brasileiros habitantes da zona tórrida observam o seo -meio-dia á direita e quando deixa Cancer com direcção á -Capricornio vêem-no á esquerda.</p> - -<p>Abre-se-me vasto campo para descobrir a sabedoria de -Deos na organisação do mundo, tendo por fim apenas escrever -succintamente uma historia, entrego á consideração do -leitor chamando a sua attenção para a maneira como Deos -dividio o curso do sol em duas extremidades e um meio, recebendo -os habitantes de todas estas tres partes a mesma -luz durante o anno, tanto uns como outros, excepto os habitantes -de Cancer, que apenas tem durante o anno tres dias -e algumas horas de sol mais do que os de Capricornio, originando-se<span class="pagenum"><a id="Page_134"></a>[134]</span> -por isso os annos bissextos e a reforma do calendario, -como vamos explicar.</p> - -<p>Principiemos pelo meio-dia, e acabemos pelas extremidades.</p> - -<p>O meio é composto de duas extremidades, equidistantes -uma da outra, porque de outra forma não seria meio.</p> - -<p>O curso do Sol se faz em 24 horas, dia natural, e em 12 -mezes por anno.</p> - -<p>Ora sendo a zona tórrida o meio do curso diario e annual -do sol, é indispensavel, que na sua terceira parte e porção -mostre diaria e annualmente á luz do sol igual a que se -apresenta nas duas extremidades, o que não poderia fazer; -si os dias não fossem iguaes, tendo cada um 12 horas de -Sol, porque, si excedessem ainda que pouco, não seria o -meio do curso do sol, e sim cahiria mais para uma das duas -extremidades, tendo, durante 12 mezes, uns dias maiores -do que outros, compensando n’uns o que n’outros perdia, e -convindo por isso marcar-se outra zona de céo, que fosse o -meio e o centro d’esse curso, sendo o meio a essencia e a -base das duas extremidades.</p> - -<p>É impossivel imaginar-se dois extremos sem meio: como -ja disse, o meio é composto de duas extremidades, e por -isso sendo a zona tórrida o meio da carreira do sol, deve -ter sua porção de luz á custa das duas extremidades, que -são dose e dose, que dá o sol igualmente para os dois solsticios, -entre as duas partes do anno, recompensando n’um -tempo o que n’outro perdeo.</p> - -<p>Consideremos agora uma terceira porção para servir de -meio d’estas duas extremidades, dose á dose.</p> - -<p>Convem tomar 12 de uma parte e 12 de outra para ser -o todo igual: comprehendereis assim facilmente como esta -zona tórrida gosa igualmente com as outras partes do mundo -da luz do sol sem mudar seo numero de seis a seis em -tempo algum, porque partecipa igualmente das duas extremidades, -quer vá o sol visitar Cancer e seos habitantes dando-lhe -com a sua boa chegada mais largura e liberalidade<span class="pagenum"><a id="Page_135"></a>[135]</span> -de luz, quer vá fazer outro tanto no Capricornio, não lhe -sendo por isso de forma alguma importuna a zona tórrida, -e nem alteando o seo imposto ordinario, fazendo-lhe pagar -somente, seis horas da manhã, e seis depois do meio dia, a -luz e calor para a sua passagem da travessia da terra, e -pelo trabalho dos seos habitantes durante a sua vinda.</p> - -<p>Quanto ás terras e aos habitantes inter e extra-tropicaes -dividem entre si igualmente, pouco mais ou menos, em diversos -tempos, a luz do sol, e por compensação mais n’um -tempo do que em outro: no fim do anno acham que cada -um teve 12 horas de luz para um dia natural, e dose mezes -por anno.</p> - -<p>Já disse que os habitantes de Cancer, dentro e fóra do seo -Tropico, gosam mais tres dias do sol do que os outros.</p> - -<p>Dar a razão natural d’isto, e o que dizem os astrologos, -é o mesmo que nada, por ser segredo, que em si guardou -a divina Providencia, e uma honra que deo ao mundo antigo, -composto d’Asia, Africa e Europa, e si basta uma razão -allegorica, sou de opinião que é para fazer sobresahir tres -privilegios especiaes, que sobre o mundo velho alcançou o -novo, e que são—a primeira habitação do homem expellido -do Paraiso Terrestre; dadiva da lei escripta á Moysés; e a -redempção do mundo por Jesus Christo.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXXVII">CAPITULO XXXVII</h3> - -<p class="subhead">Ventos, chuvas, trovões, e relampagos em Maranhão e -suas circumvisinhanças.</p> - -</div> - -<p>Alem do que a este respeito disse em sua <i>Historia</i> o padre -Claudio d’Abbeville acrescentarei para satisfação do leitor -o que me fez conhecer a experiencia:</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_136"></a>[136]</span></p> - -<p>1.º Fallando dos ventos, entre os quaes o do Oriente tem -o sceptro e occupa o reino do Brasil, alem das razões dadas -por esse Reverendo Padre, dou outra, que devo aos mathematicos, -que por lá andaram e escreveram sobre a materia.</p> - -<p>Dizem elles, que a constancia d’esse vento soprando por -ahi é devida á disposição das costas do Brasil, em linha -recta de Este a Oeste, porque tendo o sol levantado os vapores -da terra e da agoa e atirando-os apòs si, pela violencia -do seo curso diario encontram as costas do Brasil do -Oriente ao Ocidente sem inflexão ou curva alguma e por -isso seguem por ahi.</p> - -<p>Praticamente observa-se isto com o fumo, que espalha-se -no primeiro corpo solido, que encontra como sustentaculo de -sua fraqueza, e sem elle derrama-se á feição do vento, que -ahi sopra.</p> - -<p>Com quanto o vento das outras tres partes do mundo, a -saber, Oeste, Norte e Sul não reinem no Maranhão e suas -circumvisinhanças em comparação com o de Este, não se -pode comtudo dizer, que não soprem algumas vezes ventos -do Norte e do Sul, e raras vezes o de Oeste.</p> - -<p>Em Maranhão os ventos vão sempre augmentando desde -Agosto até Janeiro, que é propriamente o estio d’esta terra, -e quando o tempo é sempre sereno.</p> - -<p>Explica-se isto pelo curso do sol que regressando do solsticio -de Cancer para o de Capricornio surgem debaixo da -zona tórrida grandes vapores, aquosos e humidos, e quanto -mais se aproxima d’essas terras mais se levanta, e por -tanto mais se reforçam esses ventos, que não são outra -coisa senão esses vapores misturados com o ar.</p> - -<p>2.º A razão porque começam as chuvas em Janeiro ou -em Fevereiro, e vão sempre augmentando até principio de -Junho ou fins de Abril, é porque o Sol volta do solsticio de -Capricornio para o de Cancer, e attrahindo muita humidade -expande-a no ar, e d’ahi cahem as chuvas: quanto mais o -Sol se aproxima do seo termo, mais augmenta sua humidade, -e torna a queda das agoas mais expessa, forte, e rapida,<span class="pagenum"><a id="Page_137"></a>[137]</span> -e por isso vemos no Brazil ser differente a epocha e -a força das chuvas, isto é, mais depressa e mais abundante -n’uma terra do que em outra.</p> - -<p>De ordinario são as chuvas abundantes e frequentes, duradouras -e continuas, mais á noite do que de dia: é o tempo -proprio para semeiar-se, porque tudo nasce, cresce, produz, -e dá colheitas.</p> - -<p>Quando a terra é arenosa, e que está secca pela proximidade -do Sol, ao cahir das chuvas continuas e abundantes, -ella absorve admiravelmente as agoas, muda a sua secura -para uma temperatura humida, que é a mãe das gerações.</p> - -<p>São diversas estas chuvas do orvalho da noite no estio, -porque tem este bom cheiro e aquellas mau, visto que provindo -as chuvas do choque de expessos vapores aerios, trazem -portanto comsigo a qualidade de seos agentes e a sua -causa efficiente: acrescente-se ainda que a queda impetuosa -das agoas sobre a terra, coberta de folhas em putrefacção ou -de cinzas de paus queimados, revolve-a, e d’ella faz desprender-se, -com o seo estado constante de calor natural, mau -cheiro proveniente de taes objectos.</p> - -<p>O orvalho cahindo doce e brandamente em noite serena, -mais fria do que cálida, exhala cheiro agradavel, especialmente -quando se derrama sobre plantas odoriferas.</p> - -<p>É mais doentio o tempo das chuvas do que o das brisas, -ou ventos de Este, porque em primeiro logar não sopram -mais os ventos, e por conseguinte não purificam o ar, e -d’elle não expellem vapores intensos, maritimos e aquosos, -e por isso mui doentios: em segundo logar chocando-se as -nuvens e cahindo as chuvas, apparecem molezas no corpo, -doenças de coração, desarranjos do estomago, enfraquecendo-se -os nervos, e infiltrando-se os ossos de humidade o -que não apparece no tempo das ventanias, que limpam o ar, -o mar, e a terra.</p> - -<p>3.º Os trovões e relampagos são, sem comparação alguma, -mais fortes e frequentes no Brasil do que no mundo velho,<span class="pagenum"><a id="Page_138"></a>[138]</span> -especialmente no tempo das chuvas, são horriveis os -trovões, parecendo abalar-se a terra, e um relampago dura -mais do que dose na Europa.</p> - -<p>Durante esse tempo não sahem de casa os selvagens, e -nem o mais valente se atreve a pôr o nariz fóra da porta, -e eu mesmo, sem ser dos mais timoratos, fartei-me de medo, -embora ninguem visse a queda do raio.</p> - -<p>Eis a razão.</p> - -<p>Emquanto é brando o calor de Agosto á Fevereiro raras -vezes ha trovões; mas quando surge a guerra do frio e do -calor, que é de Fevereiro á Junho, então é necessario que -appareçam escorvas e peças, isto é, raios e trovões.</p> - -<p>N’este tempo reina o calor na zona tórrida com todo o -seo vigor, e o frio então se fortifica pelo regresso do Sol -de Capricornio para Cancer, cheio de humidades do ar, e -por isso é grande o combate, mais frequentes os trovões, e -mais medonhos os relampagos.</p> - -<p>Não se descobre a queda dos raios porque são altas e -vigorosas as arvores do Brazil, e ordinariamente é n’ellas, -como acontece em toda a parte, onde cahem os raios.</p> - -<p>Como é o paiz coberto de florestas, e repleto de arvores -de admiravel altura, é bem facil cahir o raio desapercebidamente.</p> - -<p>Prova-se isto todos os dias com arvores cahidas e queimadas, -que se encontram nas florestas.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_139"></a>[139]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXXVIII">CAPITULO XXXVIII</h3> - -<p class="subhead">Mar, agoas, e fontes do Maranhão.</p> - -</div> - -<p>O mar, pelas suas marés, não é o mesmo que o do restante -do Mundo.</p> - -<p>Embora o Occeano acompanhe infallivelmente o crescente, -o plenilunio, e o minguante da Lua, comtudo notaram -nossos marinheiros em um ou dois dias, e algumas -vezes mais, differença e falta de igualdade do que se observa -n’outras marés do Universo.</p> - -<p>Explica-se isto observando-se, que o Brazil está cercado -de milhares de inflexões ou voltas, formadas umas por bancos -e corôas de areia, e outras por voltas de pontas de terra -e bahias.</p> - -<p>Accrescente-se ainda terem todas estas terras as sahidas -mui retalhadas, que impossibilitam o desembocar da maré -com toda a sua força para os rios salgados e portos e barras, -como acontece n’outras partes.</p> - -<p>Reparae por exemplo o fluxo e refluxo do mar no rio -Sena, pois quando o mar no Havre da Graça principia a refluir -já a onda chegou a Ponte de Arche.</p> - -<p>Reparei tambem na seguinte coisa commum ás outras marés, -porem não tanto como as antecedentes.</p> - -<p>O mar no seo fluxo, batendo nas pontas das rochas, deixa -no meio um canal ou rego, que mostra a sua corrente principal, -forrado de excrecencias maritimas, que ahi se amontoam, -e si passar-se uma corda pelo seo nivel poderá servir -de marca aos pilotos para reconhecer o canal no meio -dos recifes.</p> - -<p>Parece-me explicar-se isto pela propriedade da forma circular, -que tem os elementos, a qual lhes permitte expandir-se -até a circumferencia: em virtude d’isto o mar faz no -meio do centro do seo fluxo o rego, ou fio de sua carreira, -depois dispersa-se, e dá a cada ponta de rochedo a sahida -para a maré, e por isso tenho observado algumas vezes<span class="pagenum"><a id="Page_140"></a>[140]</span> -muitos pedaços de pau serem arremeçados em diversos -sentidos contra os rochedos pela violencia e corrente d’essas -differentes marés.</p> - -<p>As agoas do Maranhão são incorruptiveis, e muito melhores -do que as da Europa, como tive occasião de verificar -por espaço de dez semanas na viagem do meo regresso: -eis a razão: quanto mais sugeito está um corpo á transformação -e mudanças de qualidade, mais susceptivel se torna -de ser corrompido e mau por causa das alterações, que soffre, -ora as agoas do Maranhão achando-se sempre no mesmo -estado, são por tanto incorruptiveis e optimas. As agoas da -Europa são pelo contrario ora quentes, ora frias, e por conseguinte -corrompidas e más.</p> - -<p>Não são frias como as da Europa as fontes do Maranhão, -porque sendo baixas as terras do Brazil não póde operar-se -a anteperistase em suas entranhas, especialmente pela proximidade -do sól, que penetra muito bem e com todo o vigor -na terra, que é arenosa e mui susceptivel de calor.</p> - -<p>As agoas da Europa são frias no Estio por causa da grande -anteperistase das terras, d’onde cahem as agoas, que são -altas, muitas vezes fortes e densas, e por isso resistem ao -sol.</p> - -<p>Conservam as fontes do Brazil sempre a mesma temperatura, -porque o sol derrama-se igualmente por cima d’ellas, -que nada tem, que lhes possa imprimir alguma qualidade -fria.</p> - -<p>Entre as fontes do Maranhão umas são melhores do que -outras, e tem até côres diversas: a que nasce da terra é -diversa em gosto e côr, porque sendo a terra baixa, e havendo -muitas arvores, umas com bom gosto e outras com -mau, estendem por ahi suas raizes, e d’ellas os olhos d’agoa, -ou os veios das fontes recebem qualidade boa ou má, tanto -da terra como das arvores.</p> - -<p>Notei n’estas fontes o seccarem umas em setembro, e outras -minguarem muito, porque sendo o terreno do Maranhão -quente, secco, e arenoso consome facilmente as agoas das<span class="pagenum"><a id="Page_141"></a>[141]</span> -chuvas, que por elle corre, e que serve de alimento ás ditas -fontes: achando-se pois os mezes de setembro, outubro, -novembro e dezembro muito longe das chuvas, é natural, -que ás fontes aconteça o que já dissemos.</p> - -<p>Quem quizer beber agoa muito fria, deve expol-a ao sereno, -e na manhã seguinte está tão fria como gêlo, o que -não lhe succederá se n’essa hora for buscal-a á fonte, porque -sendo as noites em Maranhão muito frias, ellas tem muito -mais força sobre uma porção d’agoa guardada n’uma vasilha, -cercada de ar por todos os lados, do que sobre agoas -sempre em movimento pela corrente, contidas em leitos baixos, -cobertas e sombrias por todos os lados, e tendo a superficie -apenas á vista.</p> - -<p>Facilmente observa-se isto na Europa, durante o inverno, -nas fontes e poços situados em lugares retirados e sombrios, -pois nunca suas agoas se gelam, ou pelo menos se -esfriam.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXXIX">CAPITULO XXXIX</h3> - -<p class="subhead">Singularidades de algumas arvores do Maranhão.<a id="Nanchor_66" href="#Note_66" class="fnanchor">[66]</a></p> - -</div> - -<p>As arvores do Maranhão, em sua maior parte, são duras -e pesadas, porque a solidez nas coisas mixtas provem da -boa cocção da humidade.</p> - -<p>N’este paiz existe em igual abundancia tanto a humidade -como o calor, cada um durante a sua estação: as chuvas tem -seo tempo proprio para alagar a terra, e o calor tambem o -tem para coser e digerir esta humidade, que é nutricção -dos vegetaes, especialmente das arvores, que estendendo<span class="pagenum"><a id="Page_142"></a>[142]</span> -suas raizes dentro e fóra da terra por ahi chupam muita -agoa e sobrevindo o calor transforma a humidade em corpo -solido.</p> - -<p>As arvores estão sempre verdejantes por successão diaria -e continua de folhas novas ás velhas, de fórma que, sahindo -aquellas dos olhos dos ramos vão logo por força propria attrahindo -a seiva, ficando d’ella privada as velhas, que por -isso definham e cahem.</p> - -<p>Observamos isto no nosso corpo quando uma unha nova -vem substituir a velha.</p> - -<p>Por esta renovação de folhas conservam-se as arvores no -mesmo estado, o que não vemos na Europa porque o inverno -retem no interior das arvores o calor natural d’ellas: -é necessario que cáiam as folhas antes da ausencia do calor, -ficando só a humidade, que apodrece o pé da folha em -vez de lhe dar vigor como acontecia no tempo do calor, e -por tanto assim se faz a queda das folhas.</p> - -<p>No Brazil acontece o contrario porque vivendo o calor e -a humidade em boa e perpetua companhia, novas folhas nascem -ao mesmo tempo que as velhas cahem: geralmente, -em todas as coisas notam-se tres estados: 1.º Crescer. 2.º -Permanecer. 3.º Decrescer e assim sempre até morrer: eis -o que observamos nas folhas—teem tempo para crescerem, -ficarem perfeitas, e depois irem definhando até cahirem -seccas.</p> - -<p>Entre estas arvores merecem especial menção em primeiro -lugar os <i>mangues</i>, arvores, que crescem nas barreiras do -mar, e espalham seos ramos, e fibras sobre as areias do -mar, ou entre as pedras que cobrem o limo, ahi se fortificam, -engrossam, e chegando ao seo estado completo, começam -elles mesmos a deitar novas fibras, que tem igual desenvolvimento, -e assim se reproduzem infinitamente, não pelas -raizes, como as outras arvores, e sim pelos seos ramos.</p> - -<p>Não sei o que mais admirar, si a successão perpetua de -pae a filho, ou a geração inteiramente diversa das outras -arvores.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_143"></a>[143]</span></p> - -<p>A razão, porque assim produzem estas arvores, provém -de serem altas, pesadas e em seo principio finas e delgadas -para a raiz, e grossas no centro: se nasciam da raiz de seo -pae, nunca poderiam subir por causa da fraqueza e delicadesa -de seo pé, da grossura e peso do seo meio, e assim -ficam deitadas e rastejando pela areia, a que deo a natureza -o encargo de dar dois nascimentos; um do ramo de seo -pae, onde ficam perpetuamente encorporadas e por conseguinte -bem sustentadas, outro da origem da enseiada do mar, -na qual ellas aprofundam e estendem suas raizes, e d’ahi -extrahem segunda nutrição, e assim sustentadas e nutridas -por cima e por baixo com facilidade crescem.</p> - -<p>Notae de passagem esta bella particularidade de terem -dois nascimentos e duas nutrições: a primeira de cima consubstancial -com o seo gerador, que com elle faz uma mesma -essencia, sendo gerado, sahido d’elle, e sempre com elle -e inseparavelmente vivendo de sua nutrição. O segundo nascimento -e nutrição é debaixo do seio da areia do mar, nutrindo-se -do mesmo mar, chamando para cima esta nutrição -para unil-a com a que recebe de seo Pae: por estas duas -nutrições cresce, estende seos ramos, dos quaes, de novo, -por outro nascimento produz seos fios, que adquirem raizes -dentro do mesmo mar, que o produz.</p> - -<p>D’esta comparação eu me servia para fazer comprehender -aos selvagens o Mysterio da Encarnação do Filho de Deos -dizendo ter elle dois nascimentos, um de cima, eterno e divino, -sahindo de seo Pae sem d’elle sahir, distincto de seo -pae por hypostase como o ramo de mangue, com o filho gerado -d’elle, unico comtudo na essencia e na substancia com -seo gerador, como a fibra com seo ramo, vivendo de uma -mesma nutrição divina e celeste, a saber, o amor do Espirito -Santo, que constitue a terceira pessoa da Trindade: o -outro nascimento é de baixo, temporal e humano, sahido do -seio da Virgem Maria, nutrido com o seo leite sagrado, foi -crescendo homem e Deos ao mesmo tempo, vivendo interiormente -da nutrição divina, e exteriormente da nutrição corporal,<span class="pagenum"><a id="Page_144"></a>[144]</span> -e quando chegou á idade de 33 annos e meio, depois -de haver communicado sua doutrina celeste aos homens, confirmada -por seos milagres, estendeo seos braços, consentindo -que fossem pregados na arvore da Cruz e do meio de suas -chagas sahiram seos escolhidos, que depois tomaram raizes -na Santa Igreja, regenerados pela agoa do baptismo, e nutridos -pelos Sanctos Sacramentos.</p> - -<p>Diziam-me os selvagens, que comprehendiam isto muito -bem e sem a menor difficuldade, porque si Deos deo tal poder -ás arvores, que não sentem, porque não poderia elle -fazer o mesmo a si?</p> - -<p>N’esse paiz existem arvores, que se mostram exteriormente -seccas, sem folha alguma, e comtudo quando chega o tempo -proprio brotam d’ellas em quantidade flores muito bellas e -em cachopas, porem são de diversas cores e ordinariamente -amarellas.</p> - -<p>Encontra-se a razão d’esta particularidade no logar escolhido -pela naturesa para terminar a sua acção: por exemplo; -quando é liberal dando a qualquer membro um excesso de -nutrição, é á custa dos outros: quando estas arvores dão sua -seiva para formar uma casca grossa, verdejante e humida e -cobrir de lindas folhas os seos ramos, não produzem bellas -flores, as quaes naturalmente, em todos os vegetaes, formam-se -de uma seiva bem digerida e subtil, e por tanto -podendo subir facilmente até as extremidades dos ramos, -não cuidando das outras partes da arvore para lhes dar qualquer -nutrição.</p> - -<p>Reconheci isto em França, onde se pódam as cerejeiras -para não dar fructo, afim de com toda a sua seiva produzirem -flores largas e dobradas, como rosas almiscaradas duplas.</p> - -<p>Tambem existem outras arvores, que fecham suas folhas, -e as dobram sobre si, quando o sol está no seo occaso, e -apenas se levanta ellas desdobram-se e expandem, como -acontece em França, ao Girasol.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_145"></a>[145]</span></p> - -<p>Este phenomeno é devido á humidade ou sereno na noite, -que as aperta e fecha porque o frio tem essa qualidade, e -o calor do dia as abre e as expande por ter essa propriedade.</p> - -<p>Com bastante difficuldade pude deparar com as razões -naturaes de muitas singularidades, que vi em Maranhão, porem -confesso com franqueza, que nunca achei a causa natural: -certas arvores d’aquelle paiz, apenas se toca com a mão -o seo tronco, immediatamente fecham todas as suas folhas: -por certo haverá n’estas arvores alguma propriedade sensitiva, -como ha na esponja, a qual apenas sente a mão do -homem, que a pretende cortar, ella se aperta, e occulta-se -no concavo e na fenda da pedra do mar, que a forma.</p> - -<p>Os cajueiros, que produzem uma fructa propria para fazer -vinho, nascem espontaneamente pela costa do mar, e -por isso vivem da seiva maritima e salgada, resultando d’isto -ser o vinho de cajú picante e acre, e produzir no futuro dores -nos rins, e ser prejudicial aos pulmões.</p> - -<p>Por experiencia coei este vinho, e d’elle tirei muito sal.</p> - -<p>Ha espinhos, que dirieis serem creados por Deos para representar -o mysterio da paixão de Jesus Christo,<a id="Nanchor_67" href="#Note_67" class="fnanchor">[67]</a> porque -crescem formando ramilhetes quatro em cima, equidistantes -á maneira de uma Cruz, e um no cume com a ponta virada -para o Ceo, ornado de nove folhas, dispostas como tres raminhos, -cada um com tres espinhos, que em tempo proprio -se transformam em tres flores, ficando o espinho maior no -centro.</p> - -<p>São estes cinco espinhos os instrumentos das cinco chagas -de Jesus-Christo. Cercando a corôa de espinhos seo Chefe, -como o espinho de cima é cercado de folhas, isto é, de peccados -e de vaidades das tres idades do mundo, na lei da -natureza, escripta e de fé, cujos peccados e imperfeições se -transformam, pelo merecimento do sangue de Jesus Christo, -em flores da Graça, em boas obras, e na recompensa da -gloria.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_146"></a>[146]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XL">CAPITULO XL</h3> - -<p class="subhead">Dos peixes, passaros e lagartos, que se encontram -n’esses paizes.</p> - -</div> - -<p>Eis uma questão não pequena, de phisica ou de philosophia -natural—«como pode um animal, vivo e perfeito na -sua especie, formar-se sem progenitores.»</p> - -<p>Alberto, o grande escriptor, vio peixes vivos no meio de -uma grande pedra marmore, tirada da rocha, e rachada no -centro.</p> - -<p>Não é novidade para os que leram este autor, porque -eu vi em Maranhão, nos regatos formados pelas chuvas, e -que pouco duram, muito bons peixes, iguaes em tamanho -e côr aos que vivem em rios permanentes, e que nascem -de ovas.</p> - -<p>Como é possivel, que sem haver ovas, possam estes peixes -nascer, crescer e morrer, com a queda, augmento e ausencia -das chuvas?</p> - -<p>A razão d’isto está na força e influencia dos planetas predominantes -em janeiro e fevereiro, quando nascem estes -peixes, e na conjuncção forte da humidade e do calor e na -disposição do terreno, tudo isto combinado de tal forma, que -dá origem a taes e taes peixes de preferencia aqui do que -em qualquer outra parte; como vemos na Europa em que a -diversidade das terras, por onde passam as chuvas, produz -differentes variedades de peixes.</p> - -<p>Entre os passaros do Maranhão, dos quaes eu diria maravilhas, -si outros ja o não tivessem feito, notei uma especie -singular de aves aquaticas vermelhas,<a id="Nanchor_68" href="#Note_68" class="fnanchor">[68]</a> cuja penna e carne -são de côr escarlate, dando-se a particularidade de serem -brancas quando sahem do ovo, depois com o tempo, quando -podem vôar; são pretos, e assim ficam até chegarem a -sua grandesa e grossura natural, d’ahi vão se tornando meio -pardos e meio vermelhos, e finalmente totalmente rubros, -passando assim por quatro mudanças.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_147"></a>[147]</span></p> - -<p>Não digo isto por ouvir dizer, porem observei nos que se -criam em casa presos. Este phenomeno não se dá sem uma -razão profunda, e fundada na naturesa, e me parece ser -esta: a côr da pelle e das pennas é devida á disposição e -qualidade do alimento, que nutre a ave, porque diz o philosopho, -a pelle e as pennas nascem, crescem e se nutrem -com a superfluidade dos alimentos: ora a côr branca faz suppor -alimentação leve e delicada, e por isso a avesinha ao -sahir da casca do ovo, vivendo somente á custa de moscas -e mosquitos, que vôam ao redor d’elle, é natural que suas -plumas, originadas de tão fraca comida, tenham a côr branca.</p> - -<p>A côr negra porem faz crer em abundancia e superfluidade -de alimentação, porque a intensidade do calor natural -vae sempre excitando o apetite, e empurrando-o para o pasto -e por isso notei, que quando esta ave tem as pennas pretas -é glutão e come constantemente.</p> - -<p>A côr parda e meia vermelha mostra uma tendencia, ou -uma regra, nascida expontaneamente da naturesa para acolher -uma certa alimentação, que lhe é propria, e então observei -escolher esta ave uma comida singular e especial, -isto é—os carangueijos, os quaes consummidos no estomago, -ahi se transformam em chylo vermelho como escarlate, -e este cahindo no figado, se d’elle não receber alguma côr, -como acontece com os outros animaes, tinge-o com sua côr, -e sempre assim passa para as veias, das veias para a carne, -da carne para as pennas, e tão perfeitamente, que si fosse -um mettido dentro de uma panella para cozinhar, podia dizer-se -que havia dentro uma porção de vermelhão.</p> - -<p>Entre milhares de lagartos e reptis do mar, appliquei minha -attenção para uma especie bem monstruosa.</p> - -<p>É um animal que vive umas vezes n’agoa, outras em terra, -e tambem nas arvores, contendo em si as tres espheras -com que vivem todos os animaes do mundo.</p> - -<p>Com os peixes partilha o elemento d’agoa, com os homens -e os quadrupedes o da terra, e com os passaros aninha-se -e repousa nas arvores. Direi ainda que só parece<span class="pagenum"><a id="Page_148"></a>[148]</span> -terem os astros lhe dado sobre os rins, desde a cabeça até -o fim da cauda um reflexo de seos raios e brilhos, porque -notareis no dorso uma bella facha de raios do sol e das estrellas, -similhantes aos que fazem os nossos pintores ao redor -do globo do sol e das estrellas.</p> - -<p>Tem a pelle esmaltada de côr prateiada e azulada, como -a abobada celeste quando serena.</p> - -<p>Quando este animal sente a intensidade do Sol, sahe do -mar, sobe ás arvores visinhas, e escolhendo um ramo para -deitar-se, ahi se estende e descança.</p> - -<p>Põe seos ovos nas arvores maritimas, os quaes aquecidos -pelo calor do Sol deixam sahir os lagartinhos, que apenas -sahem das cascas dos ovos conhecem logo o pae e a mãe, -acompanham-no ao pasto no mar, em terra e nas arvores.</p> - -<p>Explico a rasão d’isto dizendo que quanto mais humido -é o animal, mais somnolento é elle. Entre todas as especies -de animaes esta sorte de lagartos é humida e fria, e por -tanto sujeita ao dormir, e como seja mais agradavel o somno -quando se tem os membros em certo grau de calor, eis por -que elles buscam soalheiros. Reconhecendo pequeno o seo -calor natural, eis porque põem seos ovos em lugar expostos -aos raios do Sol.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XLI">CAPITULO XLI</h3> - -<p class="subhead">Da pesca do Piry.</p> - -</div> - -<p>Os selvagens do <i>Maranhão</i>, de <i>Tapuitapera</i>, e de <i>Comã</i> -tem uma pescaria certa e annual, como annualmente a do -bacalhau nos Bancos da Terra Nova.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_149"></a>[149]</span></p> - -<p>Alguns mezes depois das chuvas, quando julgam as agoas -escoadas, muitos embarcam em suas canoas, levando farinha -para alguns mezes ou seis semanas, e assim vão costeando -a terra á um lugar distante da Ilha 40 ou mais legoas: -ahi se arrancham, levantam choupanas, e depois dedicam-se -a pescaria, a caça dos crocodillos, e á procura das tartarugas.</p> - -<p>Ahi se reunem muitos selvagens de diversas aldeias da -Ilha, de Tapuitapera, e de Comã.</p> - -<p>Apanham-se os peixes nas pôças, ou buracos de areia com -pouca agoa, e quando se vae um pouco mais tarde, coagido -pela estação, encontram-se essas pôças seccas e o peixe -morto.</p> - -<p>Sendo impossivel dizer-se o numero ou a quantidade -d’estes peixes, faço porem comprehendel-a asseverando, que -chega para carregar todos os selvagens, e ainda fica muitissimo. -São grossos e curtos, não excedem porem a grossura -e expessura de um braço, tem de comprimento meio -pé entre a cauda e a cabeça, o focinho achatado e muito -similhante ao do tenca, e parecem-se muito com os peixes -maritimos chamados <i>marujos pintados</i>.</p> - -<p>Apanhados nas redes, que levam, chamadas <i>pussars</i>, seguram-nas -pelo meio dose a dose, lançam-nos com entranhas -e tudo ao fumeiro para assal-os, e assim ajuntam muitos, -que levam para suas casas, e com esta comida sustentam-se -um ou dois mezes. Quando querem comer, tiram a pelle -do peixe, seccam-na ao sol, pisam-na em um almofariz, reduzem-na -á pó, com que fazem seos <i>mingaus</i>, isto é, suas -bebidas, como fazem os turcos com o pó dos quartos de boi -cozidos ao forno quando vão para a guerra.</p> - -<p>Dirigindo-me um dia para a Ilha, achei-me em certa aldeia, -onde nada tendo que dar-me para jantar, ferveram alguns -d’estes peixes n’uma panella, do caldo fizeram <i>mingau</i>, -vindo o resto no prato.</p> - -<p>Bem contra minha vontade de nada me servi por causa -do mau gosto da fumaça, porem com muito apetite comeram<span class="pagenum"><a id="Page_150"></a>[150]</span> -de tudo os francezes, que vinham commigo, achando saborosos -os peixes, com grande satisfação dos indios, que os -apreciam tanto á ponto de irem muito longe buscal-os.</p> - -<p>Como se acham em tanta abundancia estes peixes em taes -fóssos ou poços desde o inverno até esse tempo? Se explicações -servem ja as dei no cap. 40, e por isso á ellas me -refiro, acrescentando ainda o seguinte.</p> - -<p>A grande quantidade de chuva faz transbordar os rios, os -regatos, e o proprio mar, de maneira que todos estes campos -ficam innundados até a altura de um homem: assim sahem -os peixes do lugar natural, onde habitavam, ahi regalam-se -com pastos novos a ponto de não se lembrarem de -regressar a Patria, e por isso quando as agoas se abaixam, -ficam presos em fóssos e poços como vimos em todos os lugares -onde se dão estes factos.</p> - -<p>A caça dos jacarés lhes é util e agradavel: são pequenos -crocodillos com 8 ou 10 pés de comprimento, de pelle dura, -ventre molle, sem lingua, com olhos vivos, sempre alerta e -maus: accommettem o homem, cortam e devoram o primeiro -membro que agarram.</p> - -<p>Escondem-se em grotas, á margem dos rios, e sempre -de emboscada, nadam como peixes, arrastam-se ligeira e -brandamente, abrem a bocca, e como que intentam assustar-vos -si vos encontram: põem ovos iguaes aos de galinha, -porem cobertos de protuberancias, como as castanhas; -dizem que são bons para comer, mas eu não affianço porque -nunca os provei, pois sempre tive muito horror á estes -bixos.</p> - -<p>Chocam seos ovos, e d’elles sahem jacarésinhos, gordos, -grandes e compridos, como os lagartos que vemos pelo estio -correr nos muros.</p> - -<p>É para admirar, que de tão pequeno bixo origine-se tão -grande animal, e que apenas sahido da casca do ovo começa -a andar e arrastar-se!</p> - -<p>Sua carne cheira a almiscar, é doce e desagradavel: os -selvagens porem não fazem caso d’isto, apreciam-na muito<span class="pagenum"><a id="Page_151"></a>[151]</span> -quando a encontram, e por isso empregam-se muito em caçal-os.</p> - -<p>O logar <i>Piry</i>, humido e cheio de limo, tem muitos jacarés, -que são perseguidos pelos selvagens por meio de flechas, -atiradas com direcção á garganta ou á barriga, e depois -acabam-nos com uma barra de ferro, escamam-nos, e -cortam-nos em pedaços, que assam.</p> - -<p>Si são pequenos, cozinham-nos com escamas, e assim -preparados acham-nos muito bons e até delicados, porque -assados com sua gordura, dizem elles, nada perdem de sua -substancia.</p> - -<p>Achei melhor crer do que experimentar, embora tivesse -muitas occasiões de o fazer, visto que recebi muitos presentes -d’elles quando voltaram os selvagens do <i>Piry</i>.</p> - -<p>A recordação somente d’estes animaes me fazia nauseas -até o coração, á vista d’esses pedaços.</p> - -<p>Diziam os francezes, que o comeram, ser similhante a -carne fresca de porco, um pouco mais adocicada, oleosa, e -com o cheiro de almiscar.</p> - -<p>He muito perigoso tomar-se banho n’esse paiz, a não ser -em logar descoberto, porque estes despresiveis animaes se -arrastam de mansinho e se atiram sobre vós.</p> - -<p>Contaram-me, que um menino, da aldeia de <i>Rasaiup</i>, -cahindo n’um riacho, onde hia buscar agoa, foi agarrado -e devorado pelos jacarés.</p> - -<p>Quando andei pelas costas do mar, desde <i>Trou</i> até <i>Rasaiup</i>, -em companhia de muitos selvagens, elles me levaram -para beber agoa n’uma grota cheia de sarças e outras -mattas, e me advirtiram, que ahi ninguem se podia demorar -muito por ser o escondrijo dos jacarés.</p> - -<p>Fazem-lhes muita guerra os nossos selvagens, por gosto e -utilidade, e trazem grande provisão d’elles quando voltam -do Piry.</p> - -<p>A razão de não terem lingua, estes animaes é porque segundo -creio, tem a garganta e o pescoço, inteiramente inflexiveis, -a ponto de não poderem olhar nem para traz nem<span class="pagenum"><a id="Page_152"></a>[152]</span> -para o lado sem moverem o corpo todo: alem disso, elles -tem o maxillar inferior duro e immovel, tudo isto contrario -ao uso da lingua, e só mastigam com o maxillar superior.</p> - -<p>Eis porque agarram e devoram a presa de um só jacto, -não precisando viral-a e reviral-a da garganta.</p> - -<p>Disse S. Gregorio, que os crocodillos do Nilo chegavam a -ter até o comprimento de 20 covados, a cor de açafrão, porem -os do Maranhão e de suas circumvisinhanças não iam -alem, como ja disse, de 10 ou 12 pés, com a differença -tambem de habitarem aquelles, durante a noite, a agoa, e -de dia a terra, porque busca o calor, visto serem no Egypto -á noite as agoas quentes e a terra fria, e de dia vice-versa.</p> - -<p>No Maranhão acontece o contrario: de noite ficam em terra, -e de dia n’agoa, porque as agoas são frias á noite e quentes -de dia, e a terra temperada.</p> - -<p>A razão, porque este animal tem medo dos que o perseguem, -e é atrevido contra os que fogem d’elle, é porque facilmente -atira-se sobre este, e só com muita difficuldade se -defende d’aquelles, sendo este procedimento o resultado de -sua naturesa timida e assustada.</p> - -<p>Tem só um intestino, porque não faz a primeira digestão -nas carnes cortadas em bocadinhos.</p> - -<p>Temem mais os selvagens que os francezes, e os do Nilo -receiam mais os egypcios do que os estrangeiros, o que explica -Solinus dizendo reconhecerem elles naturalmente pelo -cheiro os que o guerreiam constantemente.</p> - -<p>Disse um phisiologista, que quando elle devora alguem, -chora a sua desgraça: não sei si será verdade.<a id="Nanchor_69" href="#Note_69" class="fnanchor">[69]</a></p> - -<p>Alem d’estes exercicios, no Piry perseguem os selvagens -as tartarugas, ahi em quantidade incrivel, e trazem-nas vivas -tantas quantas podem.</p> - -<p>Não são avarentos, antes sim por poucos generos alcançareis -muitas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_153"></a>[153]</span></p> - -<p>Lembro-me, que passando algumas canoas pela nossa situação -de São Francisco, por uma faquinha de custo de um -soldo na França, deram-me setenta, e pela farinha, que lhes -offereci para jantar, mimosearam-me com vinte e cinco, que -guardei em lugar humido e fresco, deitando-lhes todos os dias -um pouco d’agoa, e assim se conserváram sem comer por -mais de seis semanas.</p> - -<p>Os selvagens comem-nas com muito gosto, e dizem que -ellas lhes conservam a saude, e lhes fazem bom estomago.</p> - -<p>Cozinham-nas em seos cascos inteirinhas, sem tirar-lhes as -entranhas, e nós as achamos assim preparadas muito melhores -do que de outra fórma.</p> - -<p>Si algum d’elles soffre dos ouvidos por algum defluxo -tiram as mulheres o sangue d’estes reptis, misturam-no com -o leite tirado de suas mamas, e com isto friccionam o fundo -da orelha.</p> - -<p>Quando arrancam o cabello dos seos corpos, com pinças -de ferro, que lhes dão os francezes, esfregam a pelle com...</p> - -<p class="center">(falta uma folha).</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XLIII">CAPITULO XLIII</h3> - -<p class="subhead">Da caça dos ratos, das formigas e das lagartixas.</p> - -</div> - -<p>Ha outra caçada de um verme, tão divertida e agradavel -como as precedentes, é a dos ratos domesticos e selvagens.</p> - -<p>Não comem os domesticos, ao menos que eu saiba, porem -caçam-nos cruelmente; porque si entra um rato em qualquer<span class="pagenum"><a id="Page_154"></a>[154]</span> -casa, reunem-se todos os habitantes, uns com arcos, e -outros com flechas e paus, e com o auxilio tambem de alguns -cães não escapa o pobre rato.</p> - -<p>Depois de morto é espetado na ponta de uma vara, fincada -no meio da aldeia, para servir de alvo ao exercicio -das flexas dos meninos.</p> - -<p>As aldeias mais proximas dos portos, onde chegam navios, -tem mais ratos, porque apenas sentem a terra, atiram-se -as ondas, nadam, trocando assim o seo paiz natal, que -é o mar, para ficar n’um paiz mais firme e seguro, que é -a terra.</p> - -<p>Comem os ratos selvagens, que vivem nos bosques e no -dizer d’elles é comida deliciosa.</p> - -<p>Caçam-nos assim: cavam um buraco no meio de um certo -lugar no matto, fazem varias entradas, similhantes ás coelheiras, -ou terreiros de coelhos: reunem-se depois muitos -sujeitos, armados de paus, e vão fazer grande alarido ao -redor d’esse fosso, como se costuma fazer nas caçadas dos -lobos.</p> - -<p>Batem as mattas, e d’ellas fazem sahir os ratos, e elles -fugindo, e encontrando esses buracos tão proprios para se -occultarem, ahi entram, e então aproximando-se os selvagens, -toma cada um conta do seo buraco, e entrando outros -dentro do fosso, á cacete matam os ratos, dividem-nos igualmente, -e regressam para a aldeia trazendo cada um o que -lhe tocou.</p> - -<p>Assam os ratos ao fumeiro ou sobre carvões, abrem-nos -por diante sem lhes tirar a pelle, a qual fazem tostar depois -que o animal está cozido por dentro, para não perder -a gordura, e depois os guardam dentro de uma porção de -farinha.</p> - -<p>São estes ratos assim preparados, guardadas as proporções, -mais apreciados do que os javalys e os viados, e as -vezes trazem os selvagens quantidade incrivel d’elles.</p> - -<p>Caçam as formigas em tempo de chuva, por ser a epocha -propria d’ellas mudarem de habitação.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_155"></a>[155]</span></p> - -<p>As que podem vôar buscam a região do ar, deixando suas -casas, feitas e cavadas na terra.</p> - -<p>As outras, si por instincto natural desconfiam, que podem -as agoas invadir suas grutas, e estragar seos armazens, -celleiros, ou dispensa, pegam na bagagem, com ordem -digna de ser mencionada, e auxiliadas com a experiencia, -como vou contar para servir de modello a todas as outras.</p> - -<p>Na nossa casa de S. Francisco, no principio das chuvas -um milhar de milhões de formigas sahio de uma caverna, -perto d’ahi, e veio tomar posse de um canto do meo quarto, -onde cavou camaras, ante-camaras e celleiros.</p> - -<p>N’uma bella manhã sahiram todas, e trouxeram um alqueire, -talvez, de ovos, indo em diversas estações, isto é, -em distancia de 2 passos uma da outra.</p> - -<p>Cada acervo trazia suas formigas em ordem, vindo descarregar -cada uma o que trazia no montão proximo, e assim -iam fazendo os outros acervos ou companhias.</p> - -<p>Admirei-me de vêr tantas formigas, e tantos ovos, que -deitavam mau cheiro.</p> - -<p>Mandei fazer bom fogo, e atirar sobre estes ovos, e no -caminho por onde passavam estes animaes.</p> - -<p>Puzeram-se em alarme, e cada uma buscou salvar os ovos -que poude, como fez Eneas á Anchises, seo pae na destruição -de Troya.</p> - -<p>Não fui tão bem succedido, porque regressaram ao lugar -que haviam escolhido, não pensando talvez, que me incommodassem, -o que assim não aconteceo, porque reunindo-se -todas por espaço de 2 dias, deliberaram ir a pilhagem fóra -do quarto, mostrando-se contentes com a habitação, que bem -a meo pesar lhes dei.</p> - -<p>Causar-vos-hia satisfação vendo estes animaesinhos, desde -o amanhecer até ao anoitecer, fazer suas provisões, que são -as folhas de uma certa arvore, em cujos ramos, como presenciei, -estavam muitas para cortal-as e deixal-as cahir em -terra, onde cada formiga pegava no que podia e levava para -os armazens.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_156"></a>[156]</span></p> - -<p>Tinham aberto dois caminhos, muito bons para o seo tamanho: -por um iam as carregadas, e por outro as desembaraçadas, -evitando assim a confusão e a mistura, embora -fossem mais de quatrocentas as carregadeiras. O mesmo fazem -as outras especies de formigas.</p> - -<p>É para admirar-se tambem a especie de abobadas, que -com admiravel industria fazem quando querem caminhar -abrigadas.</p> - -<p>Caçam os selvagens somente as formigas grossas como o -dedo pollegar, para o que aballa-se uma aldeia inteira de -homens, mulheres, rapazes e raparigas.</p> - -<p>A primeira vez que vi esta caçada, não sabia o que era, -e nem onde hia tão apressada tanta gente deixando suas casas -para correr após as formigas voadoras, as quaes agarram -mettem-nas n’uma cabaça, tiram-lhes as azas para frital-as e -comel-as.</p> - -<p>Caçam-nas tambem por outra maneira, e são as raparigas -e as mulheres que, sentando-se na bocca da caverna, convidam-nas -a sahir<a id="Nanchor_70" href="#Note_70" class="fnanchor">[70]</a> por meio de uma pequena cantoria, assim -traduzida pelo meo interprete.</p> - -<p>«Vinde, minha amiga, vinde vêr a mulher formosa, ella -vos dará avelans.»</p> - -<p>Repetiam isto á medida que iam sahindo, e que iam sendo -agarradas, tirando-se-lhes as azas e os pés.</p> - -<p>Quando eram duas as mulheres, cantava uma e depois outra, -e as formigas que então sahiam, eram da cantora.</p> - -<p>Causa admiração vendo-se os grandes pedaços de terra, -que tiram de suas cavernas.</p> - -<p>No tempo das chuvas tapam os buracos do lado das enchurradas, -e deixam somente aquelles, por onde pode vir a -chuva raras vezes.</p> - -<p>As formigas do Maranhão tem dois inimigos encarniçados, -especialmente estas alladas: um—certa especie de cães selvagens,<a id="Nanchor_71" href="#Note_71" class="fnanchor">[71]</a> -com pello de lobo, fedorentos o mais que é possivel, -focinho e lingua muito aguda, e que procura o formigueiro -para alimentar-se: outro, uma qualidade de formigas<span class="pagenum"><a id="Page_157"></a>[157]</span> -corpulentas, que de ordinario nascem com as outras, -como o zangão entre as abelhas, e em quanto são pequenas -e fracas, trabalham conjuntamente sem fazerem barulho, e -nem se offenderem.</p> - -<p>Quando grandes e fortes deixam as outras, fazem bando -á parte, só e só, não vivem mais em companhia, e põem se -de embuscada pelo caminho, onde costumam passar suas irmãs -e parentas, como fez antigamente Abimelech, bastardo -de Gedeon, sobre os 70 filhos legitimos de seo pae, seos -proprios irmãos, os quaes matou todos sobre uma pedra em -Ephra.</p> - -<p>Sirva d’isto ao leitor para applicar como julgar acertado.</p> - -<p>Eis como os nossos selvagens se distrahem mais utilmente -com estes animaes, do que os nossos rapazes com as borboletas: -de tudo se aproveitam e nada perdem, reunindo o -util ao agradavel.</p> - -<p>Vejamos o resto.</p> - -<p>A caça dos lagartos, chamados pelos <i>Tupinambás</i>—<i>Tarure</i> -(os grandes) e <i>Toju</i> (os pequenos,) é feita por diverso -modo,<a id="Nanchor_72" href="#Note_72" class="fnanchor">[72]</a> conforme são da terra ou do mar.</p> - -<p>Os maritimos habitam ordinariamente as praias cobertas -de mangues, onde, duas vezes dentro do espaço de 24 horas, -entra o mar.</p> - -<p>Ahi nutrem-se de carangueijos, de mexilhões, e de camarões, -vulgarmente chamados em França—lagostins, e de peixes, -que apanham na enchente.</p> - -<p>Poem seos ovos nos concavos das arvores.</p> - -<p>Os selvagens caçam-nos e flecham-nos na vasante; enterrando-se -pelo tujuco.</p> - -<p>Para comida servem tanto como os coelhos, ou uma grande -lebre, conforme o tamanho do animal.</p> - -<p>Fervem-nos para fazer mingau, ou assam-nos ao fumeiro.</p> - -<p>Os francezes assam-nos ao espeto, bem untado de gordura -de peixe-boi, e a primeira vista pensareis que são coelhos -ou lebres espetadas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_158"></a>[158]</span></p> - -<p>O guisado, que d’elles se faz, é muito parecido com o das -lebres e coelhos, e muitos francezes gostam mais d’elles do -que os nossos coelhos.</p> - -<p>Eu antes quero crêr do que provar.</p> - -<p>A caça dos lagartos terrestres é mais de meninos que de -homens, embora tenha visto alguns homens atraz delles, -como os meninos, e até 20 selvagens, homens e rapazes, -atraz de trez lagartos.</p> - -<p>Apenas os pilham, assam-nos, e toma cada um a parte, -que lhe pertence e acham-na muito boa.</p> - -<p>Os rapazes apenas os veem correr pela casa, nas paredes -ou nas arvores, flecham-nos, porem escolhem os maiores por -que tem mais que comer: alguns tem o comprimento de um -braço e a mesma largura.</p> - -<p>Ha outros vermes, que não sahem das arvores, deitados -sobre folhas, expostos ao sol: dizem os selvagens que são -venenosos, e por isso os deixam: não se assustam com a vossa -presença, si não os perseguirdes.</p> - -<p>Parecem-se com os camaleões, de que ainda fallarei, tem -brilho nos olhos, e a côr de escarlate.</p> - -<p>Costumam estes lagartos domesticos á juntarem-se e unirem-se -em forma de bolla, de tal maneira que a cauda do -macho toca a cabeça da femea, e reciprocamente, e assim -todos curvados, tocam-se as duas cabeças e as duas caudas.</p> - -<p>Tive medo quando vi isto pela primeira vez, porque não -sabia o que seria, e nem si era alguma especie de serpente, -com quatro olhos, e um só corpo enrolado.</p> - -<p>Os lagartos femeas são mais grossos do que os machos.</p> - -<p>Os pequenos lagartos poem ovos, de cinco até sete cada -um do tamanho da cabeça do dedo minimo, n’um buraco, -que cobrem de areia, fazendo o resto o calôr do sol.</p> - -<p>Os lagartos grandes põem ovos maiores, á proporção do -seo corpo, e ordinariamente fazem ninhos nos tectos das -casas, nos bosques, e para ahi levam tudo o que acham ser<span class="pagenum"><a id="Page_159"></a>[159]</span> -molle, como sejam musgos, pennas, algodão, farrapos, e -frequentam muito a casa si não lhes fazem mal.</p> - -<p>Fazem tanto barulho como um cão, quando caminham e -conduzem na bocca o que acham, e é um prazer vel-os em -tal lida.</p> - -<p>Não fazem caminho direito quando construem seo ninho, -e antes usam de muitos rodeios para não serem descobertos.</p> - -<p>O sol chóca e faz abrir seos ovos, porque são muito frios -e não tem calor proprio para isso.</p> - -<p>São caçados por cobras grandes e horriveis, umas brancas -como agoa, outras de côr de violeta, e finalmente algumas -manchadas de diversas côres.</p> - -<p>Invadem até as casas para nos tectos caçarem estes lagartos, -que apenas as presentem ao longe, fogem como se -a casa tivesse pegado fogo.</p> - -<p>Mandei matar tres cobras d’estas n’um domingo, quando -eu e meos companheiros fomos dizer missa na capella de -S. Francisco, onde as achamos perseguindo os lagartos grandes, -dos quaes já tinham matado muitos.</p> - -<p>Pagaram tal temeridade levando cada uma mais de cincoenta -cacetadas, e ainda se salvariam, si eu não as mandasse -cortar em pedaços, que viveram e remecheram-se -por mais de 24 horas procurando reunirem-se o que não conseguiram -por estarem distantes umas das outras, talvez por -quatro ou cinco passos.</p> - -<p>Os selvagens tem muito horror d’estes lagartos, e dizem -ser venenosos.</p> - -<p>Os lagartos, quando velhos, perdem sua cauda, que fica -negra, e por isso mesmo é fragil como vidro, e quebra-se -por qualquer causa.</p> - -<p>Não creio, que ellas renasçam, embora o affirme Aristoteles.</p> - -<p>Fundo-me no que observei n’um lagarto grande, que -estava na nossa casa de S. Francisco, onde se conservou -por dois annos sem cauda, vindo diariamente comer<span class="pagenum"><a id="Page_160"></a>[160]</span> -em nossa presença, com as galinhas com que se familiarisou.</p> - -<p>Dizem, e os francezes o asseveram por experiencia, que -ha uma especie de lagartos grandes que apanham os frangos, -e levam-nos para o matto, onde vão comel-os.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XLIV">CAPITULO XLIV</h3> - -<p class="subhead">Das aranhas, cigarras e mosquitos.</p> - -</div> - -<p>A vida do homem é comparada com a da aranha em -muitos lugares da Escriptura Santa, especialmente no Psal. -89. <i>Anni nostri sicut Aranea meditabuntur</i> «nossos annos -se passaram, serão contados e meditados como os da Aranha.»</p> - -<p>Escreveo S. Isidoro, que a aranha é um verme do elemento -do ar, n’elle nutrido, d’onde se deriva a etymologia -do seo nome, nunca descança, sempre trabalha, de si tira -com que formar sua teia, sempre em perigo por se achar -ella, seos bens, e suas riquezas, suspensas n’um fio, mercê -do menor sopro de vento, ou do capricho de um criado ou -de uma camareira, que com um espanador destrua todo o -trabalho.</p> - -<p>Quereis mais bello espelho para considerar as desgraças -e miserias d’esta vida?</p> - -<p>Não perderei tempo referindo o que se sabe acerca da -naturesa d’este verme, e apenas contarei o que achei de curioso -e especial nas formigas do Maranhão, e antes de entrar -na materia fallarei d’uma especie do tamanho de um -punho de braço, e as vezes até maior.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_161"></a>[161]</span></p> - -<p>Encontram-se ordinariamente no tronco das arvores, proximas -ás casas, nas estacas, nos cantos, caminham pouco, -não tem teias, muito venenosas, vermelhas quasi da côr de -borrachos quando sahem do ovo, coisa horrivel e feia!</p> - -<p>Fogem d’ellas os Indios, e julgam mortifera a sua picada. -Nutrem-se da corrupção do ar.</p> - -<p>Existem outras de diversas especies, maiores e menores, -e todas domesticadas, e nos mattos encontram-se grandes, -menores, e pequenas.</p> - -<p>Em todo o tempo produzem e especialmente no inverno.</p> - -<p>Com a frescura da noite juntam-se: deixa o macho a sua -teia para se unir com o seo fio á teia da femea, si ella está -collocada em lugar mais baixo: si porem a teia da femea é -superior á do macho desce ella, vem procural-o, e assim si -juntam.</p> - -<p>É muito facil de vêr-se, pois o praticam todos os dias, no -fim da tarde.</p> - -<p>O macho é pequeno, e a femea é tres vezes maior do -que elle.</p> - -<p>Fazem uma pequena bolça, redonda e chata, muito bem -feita e tecida, parecendo-se com setim branco e a similhança -de um breve de <i>Agnus Dei</i>.</p> - -<p>N’ella deixam apenas um buraquinho, por onde com o pé -introduzem os ovos.</p> - -<p>Quando está fechada a bolça tapam o buraquinho, e carregam-na -junto ao ventre e estomago, aquecendo-a por esta -fórma, e quando presentem estar os filhos em estado de sahir, -rasgam a bolça ao redor, como se faz com a casca da -fava, sahem logo, correm pela teia da mãe, e a noite agasalham-se -debaixo da mãe, como fazem os pintos com as -gallinhas afim de resguardarem-se do frio da noite.</p> - -<p>Quando tem forças, cada uma faz a sua teia, e por sua -industria cuida de si.</p> - -<p>Ha outras, que fazem pequenos pucaros de barro, do tamanho -e feitio de uma ameixa de dama, tão bem feitos,<span class="pagenum"><a id="Page_162"></a>[162]</span> -quanto é possivel, por dentro e por fóra, o que tambem -fazem certas especies de moscas, de que ainda fallarei.</p> - -<p>São as boccas d’estes potes proporcionaes aos seos tamanhos, -com um buraco tão pequeno, em que cabe apenas -um alfinete, por onde sahem os ovos para serem aquecidos -pelo Sol.</p> - -<p>Este pucaro costuma estar junto a uma arvore, ou n’uma -folha de palmeira, e a terra de que é feito, muito se parece -com a de <i>Beauvais</i>.</p> - -<p>Enchem o pucaro de ovos, tapam no, e quando as mães -julgam ja terem os filhos sahido da casca, destapam o buraco, -e então sahem as aranhasinhas e acompanham-nas.</p> - -<p>As aranhas dos mattos procedem de outro modo: roem as -amendoas das nozes das palmeiras espinhosas, pouco a pouco -e deitam fora tudo por meio de tres buracos naturaes, -que tem estes fructos: depois ahi dentro fazem seus ninhos -e depositam seos ovos.</p> - -<p>São differentes as teias destas aranhas quanto a sua posição -por ellas escolhidas.</p> - -<p>As domesticadas armam suas teias nas rachas e entradas -dos buracos, afim de agarrarem moscas e mosquitos.</p> - -<p>Umas estendem suas teias nas arvores, de um ramo a outro, -e de um arbusto a outro para agarrarem borboletas e -outros bichinhos iguaes: outras tecem as teias por cima da -terra para pilharem vermes, como sejam formigas e outros -iguaes.</p> - -<p>Algumas fazem teias tão fortes, que até n’ellas cahem lagartinhas, -e então descem as aranhas, matam-nas por meio -de um aguilhão, que tem em si, e depois chupam-lhe os -miolos e o sangue, e só quando se fartam, é que as deixam.</p> - -<p>Vi aranhas do mar, muito parecidas com as de terra porem -maiores.<a id="Nanchor_73" href="#Note_73" class="fnanchor">[73]</a> Habitam em buracos nas praias, e alimentam-se -de peixinhos.</p> - -<p>Dizem que chupam o sangue e o humor das cobras, iguaes -as que mandei cortar em pedaços, e asseveram os selvagens,<span class="pagenum"><a id="Page_163"></a>[163]</span> -que se morderem a cabeça d’algum individuo, ficará -louco. No Maranhão, como em parte alguma, tem muitas cigarras,<a id="Nanchor_74" href="#Note_74" class="fnanchor">[74]</a> -que fazem em tempo proprio um barulho infernal, -como eu não acreditaria si não ouvisse: ha de diversas variedades, -tamanhos e cantos.</p> - -<p>São umas grossas, tem seis pollegadas de comprimento, -e voz forte e alta a ponto de ferir-vos vivamente os ouvidos. -Não cantam no inverno, e sim no estio, e quando se -aproximam as chuvas gritam tanto a ponto de estalarem pelos -lados, como me contaram os selvagens, sendo isto causado -pelo bater das azas quando si esforçam e se incham para dar -mais harmonia á voz.</p> - -<p>Estudei os usos e costumes destes animaes em alguns, -que conservei entre folhas na nossa casa.</p> - -<p>Reconheci ser seo canto devido a tres coisas.</p> - -<p>1.ª Engolem o ar, enchem o ventre, entumecem-se bem -para estenderem bem os lados, e ficarem sonoras. Ha grande -accordo entre a extensão dos lados, e as azas, por meio -das quaes forma-se o som, que claramente se vê tomarem -ellas folego quando erguem as azas, e quando abaixam, estendem -e dilatam os flancos.</p> - -<p>2.ª As azas são mui finas e diaphanas, e por tanto proprias -para formar o som por serem muito seccas.</p> - -<p>3.ª As azas de cima sendo fortes e massiças, tocando e -batendo as azas do meio contra os lados e com auxilio do -ar, forma o som.</p> - -<p>Vou fazer-vos comprehender isto por meio de comparações -vulgares.</p> - -<p>N’uma cithara ha tres coisas para produzir harmonia—as -costas onde fica o ar, que entra pela rosa do meio, as cordas -tesas, limpas, seccas e bem collocadas, e a mão do tocador: -assim tem estes animaesinhos as costas e as ilhargas -cheias de ar, que entrou pela bocca, as segundas azas são as -cordas, e as grossas a mão do tocador.</p> - -<p>Cantam no estio desde o nascer do sol até meia noite ou -duas horas depois, e se callam por causa do orvalho, que<span class="pagenum"><a id="Page_164"></a>[164]</span> -começa a cahir com frio, e assim ficam até que appareça o -sol e com seos raios extinga as gottas de orvalho, que cahiram -nas folhas, e então vem ellas aquecer suas azas.</p> - -<p>Em quanto guardam silencio, é minha opinião, que ellas -se nutrem com o mesmo orvalho, e não digo isto sem causa -pois quasi sempre ficam no mesmo logar, e quando sentem -algum movimento voam para outra folha.</p> - -<p>Algumas d’ellas, especialmente as todas verdes, não tem -voz, arrastam-se pela terra como os gafanhotos, juntam-se -como as moscas, põem em setembro ovinhos negros nos -buracos dos ramos das arvores, nos quaes se formam os -vermes, ao depois cigarras: vão pouco a pouco se fortificando -afim de passarem a estação invernosa, e substituirem -seos paes e mães que n’esse tempo morrem arrebentados á -força de gritar como ja disse.</p> - -<p>Não tem sangue, ou tem muito menos que as moscas, -porem são organisadas de uma substancia porosa, secca, e -ligeira.</p> - -<p>Matam-nas as gallinhas, porem não as comem, e quando -por acaso o fazem, enfraquecem e emmagrecem.</p> - -<p>Ha n’este paiz diversas especies de mosquitos, porem apenas -tratarei dos que o merecerem pelos seos principios naturaes, -e são os chamados <i>Maringoins</i> pelos selvagens: ha -de diversos tamanhos e grossura, e todos tem a mesma -forma.</p> - -<p>Originam-se de um humor acre, gostam dos sabores picantes -e acidos, e por isso encontram-se muito no mar e -suas praias no tempo do inverno, formados pelo humor e -vapores do mar.</p> - -<p>Incommodam muito os homens picando-lhes a pelle com -seo bico ponteagudo como uma agulha, e sugando assim o -humor salgado, que corre entre a pelle e a carne.</p> - -<p>Gostam da luz porem aborrecem a chama e a fumaça, e -por isso quando anoitece, as que andam por fóra, poisam -nas folhas das arvores, e os que estão dentro de casa nos -tectos, bem a seu pesar, por causa das fogueiras, que<span class="pagenum"><a id="Page_165"></a>[165]</span> -acendem os selvagens ao redor de si, para se livrarem -d’elles.</p> - -<p>Nos lugares mais proximos a agoa, maior abundancia -d’elles existe, visto serem creados por agoas, como ja disse.</p> - -<p>São caçados pelos morcegos, que, buscando-os nos lugares -onde se fixam, involvem-nos com suas azas e depois os -comem.</p> - -<p>São por elles muitissimo perseguidos os nossos francezes, -quando vão á pesca do peixe-boi, e para evital-os armam -suas redes no ramo das arvores, o mais alto que podem, -por ahi soprarem mais o ar e o vento: si se partissem as -cordas dariam bello salto, e não deixam de emballançar-se -para afugental-os.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XLV">CAPITULO XLV</h3> - -<p class="subhead">Dos grillos, dos camaleões e das moscas.</p> - -</div> - -<p>De todos os animaes, que fazem companhia ao homem, -no Brasil, nenhum ha que iguale ao grillo, chamado pelos -selvagens <i>Cuju</i><a id="Nanchor_75" href="#Note_75" class="fnanchor">[75]</a>; e por ser tão familiar e domestico pude -á vontade satisfazer minha curiosidade estudando este animalsinho.</p> - -<p>Nasce da corrupção.</p> - -<p>Quando se faz uma casa coberta de palma fresca, apparecem -n’um momento milhões e milhares d’estes grillos ou -<i>Cujus</i>. Virão dos bosques visinhos? não pode ser; porque -nas casas cobertas de palma velha não são encontrados, -logo força é confessar, que formam-se na palma nova com -o auxilio do sol.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_166"></a>[166]</span></p> - -<p>Notei que dois ou tres dias depois de coberta a casa, os -grillos são brancos como neve, signal de nova geração, -pouco a pouco tomam a sua cor ordinaria, amarello-negro.</p> - -<p>Alem d’isto originam-se tambem de ervilhas, e favas podres -o que conheci por experiencia.</p> - -<p>Quanto á producção do pae e da mãe provêm d’uma semente -deixada nas folhas de palma: é pegajosa e fica onde -se colloca, até que d’ella por meio de calor saia outro grillosinho.</p> - -<p>É ardente no seo ajuntamento, e eis porque tanto se multiplicam.</p> - -<p>É muito pequeno, porem astucioso, tem horas para comer -e para cantar: não deixam de procurar comida quando -presentem estarem todos deitados, e então descem do tecto -e correm, por assim dizer, os cantos da casa, onde se aproveitam -de todas as migalhas e restos de comida, e se encontram -restos de carangueijo deixam tudo mais.</p> - -<p>Acabada a comida regressam a seos logares, onde cantam -e passam o resto da noite, e o dia tambem, se o ardor do -sol o não encommodar.</p> - -<p>Não gostam de chuvas, e emquanto está chovendo, não -cantam.</p> - -<p>Gostam portanto do tempo sereno e doce, sem muito calor, -e sem muita chuva. Roem muito os pannos, que encontram, -e se acharem um capote de cem escudos n’uma noite -dão cabo d’elle.</p> - -<p>Não tocam em panno de linho á não estar elle engordurado, -ou com algum liquido, de que gostem, e por isso para -conservar-se alguns vestidos, embrulham-se n’estes pannos.</p> - -<p>Tem quatro inimigos capitaes.</p> - -<p>1.º Os lagartos, que correm apoz elles, como os cães atraz -das lebres.</p> - -<p>É um gosto vêr as voltas e vira-voltas que dá a caça e o -caçador.</p> - -<p>2.º Certos macaquinhos amarellos e verdes a que chamam -os selvagens <i>Sapaius</i>, vivos e ageis como um passaro;<span class="pagenum"><a id="Page_167"></a>[167]</span> -caçam com uma das mãos e na outra guardam os -grillos.</p> - -<p>3.º São as gallinhas, que os devoram com incrivel avidez, -e para isto voam sobre as casas, e não poucas vezes estragam -a cobertura d’ellas.</p> - -<p>4.º São certas formigas grandes, que atacam-os nos buracos -e cavernas, onde se abrigam nas casas: distrahi-me algumas -vezes vendo tão singular combate; a formiga desce -ao buraco, onde tanto faz, que o <i>Cuju</i> sahe á campo, ou então -é puchado pelos pés, e muitas vezes prefere a morte á -perder suas pernas posteriores, que leva a formiga.</p> - -<p>Outras vezes deixa-se o grillo comer dentro do buraco, de -maneira que somente fica a cabeça e as azas, que as formigas -carregam como tropheos.</p> - -<p>Tem os grillos particular malicia, como experimentei, por -que mordem a extremidade dos dedos das pessoas, que dormem, -e carregam o bocadinho de pelle que podem tirar.</p> - -<p>Achei-me por isso muito encommodado do pollegar, a ponto -de não poder escrever por oito dias.</p> - -<p>O Camaleão é um animal do tamanho e da grossura de -um pequeno lagarto, e á elle similhante no rosto, olhos, e -cabeça, tendo nas costas escamas como o crocodillo, e parece -ter a pelle coberta de pelle ou limo.</p> - -<p>Tem a cauda muito comprida, e de ordinario dobrada em -dedalus, diminuindo gradualmente até a ponta.</p> - -<p>Raras vezes se vê o macho com a femea, e por isso não -me atrevo a contar o modo de sua procreação, porque não -pude vel-a, e nem imaginal-a. Contento-me apenas em referir -o que vi.</p> - -<p>É muito demorado no seo andar, está sempre ao sol, deitado -sobre folhas ou ramos, e por isso se pensa que vive só -de orvalho.</p> - -<p>Batem-lhe as ilhargas constantemente, e muito mais quando -receiam alguma coisa, sendo isto motivado pela sua timidez -natural, proveniente de muito humor frio, pelo qual -torna-se venenoso quando é comido por algum animal.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_168"></a>[168]</span></p> - -<p>Nunca se encontra nas arvores fructiferas, prevenção da -naturesa para não envenenar com o seo frio excessivo o -fructo que tocasse, e por isso é visto nos ramos de arvores, -que somente servem para o fogo.</p> - -<p>Como o lagarto tem quatro pés, e muda de côr conforme -o movimento do corpo, e os batimentos das ilhargas.</p> - -<p>São raros em Maranhão, e somente são encontrados em -lugares bem expostos ao meio-dia: deitam-se nas folhas, estendem -as quatro patas, e descançam a cabeça. Não fazem -movimento algum com os olhos, quando estão vendo, e nem -abaixam as palpebras superiores: constantemente bate-lhe o -papo.</p> - -<p>Dizem, que se este animal fosse lançado ao fogo difficilmente -arderia, porem envenenaria pela fumaça as pessoas -presentes.</p> - -<p>Não fiz esta experiencia com o camaleão, e sim com outro -animal mui similhante a elle pela friesa.</p> - -<p>Mandei lançal-o n’um braseiro, que mandei preparar, e -retirando-me para longe, tomei cuidado que ficasse sempre -no fogo, movendo-o constantemente, e depois que morreo, -vio-se que o fogo não poude obrar contra seo corpo, ficando -inteiro e solido, conservando sua figura e pelle: mandei tiral-o -do fogo e enterral-o.</p> - -<p>Ha muitas especies de moscas, umas da noite, outras do -dia.</p> - -<p>As moscas da noite são as que buscam o seo sustento durante -ella agarrando os bichinhos, que voam, onde encontram: -como tem de alimentar-se nas trevas, deo-lhes a -Providencia uma luz,<a id="Nanchor_76" href="#Note_76" class="fnanchor">[76]</a> que trazem adiante e atraz: a luz -dianteira está n’uma placa de forma quadrangular, adherente -ao estomago, sendo os dous angulos, que tocam a sua barba, -muito estreitos, e esta construida de uma pellicula diaphana, -e coberta de um pello mui delicado, com que recebem -a humidade da noite, e por este meio produzem um -brilho de luz. Percebeis bem isto recordando vos do brilho<span class="pagenum"><a id="Page_169"></a>[169]</span> -da pescada á noite, por causa da delicadesa da escama ou -da sua pelle humedecida.</p> - -<p>Acontece o mesmo com certa especie de madeira podre, -ou melhor rarifeita, e tenue, livre de todas as immundicies, -e que tem a propriedade de attrahir a humidade.</p> - -<p>O mesmo tem elles no chato da barriga, onde se encontra -uma pellicula bem lisa, cheia do pello tão fino, de que -acima fallei.</p> - -<p>Quando voam atravez de uma noite escura, parecem ser -grossas faiscas de ardente fornalha de fundir metaes.</p> - -<p>Pertencem ao dia as outras moscas; são infinitas e varias -e por isso somente me demorarei, tratando das que -tiverem alguma coisa digna da consideração do leitor, -como sejam as abelhas, e as vespas, e do mais que fallarei.</p> - -<p>As abelhas do Maranhão, e de suas circumvisinhanças fabricam -suas casas de tres modos: entre os ramos das arvores, -como ja disse, quando escrevi sobre o <i>Meary</i>, ou -no concavo das arvores, isto é, no tronco principal, porque -escolhem uma arvore que tenha uma concavidade no tronco, -sobem pela frente d’elle, e depois descem até a terra, onde -fazem os alicerces dos seos cortiços, e depois fabricam o seo -mel, caminhando sempre para cima. Quando não é assim, -escolhem lugar apropriado, levantam da terra um cortiço -concavo, onde fabricam mel e cera.</p> - -<p>É virgem a sua geração, e creio não haver entre elles -macho e femea, e assim todos trazem comsigo o germen da -futura procreação.</p> - -<p>Dir-vos-hei a razão d’este meu modo de pensar, que formei -observando com attenção um cortiço de abelhas n’uma -grande arvore concava e secca, distante 30 passos de nossa -casa de São Francisco, o que ainda me foi facil, pois estas -moscas não dão ferroadas,<a id="Nanchor_77" href="#Note_77" class="fnanchor">[77]</a> comtanto que não se lhes faça -mal, embora se esteja bem perto d’ellas.</p> - -<p>Fizeram os selvagens um buraco ao pé d’esta arvore, por -onde sahia o mel, e por ahi observei tudo bem a minha<span class="pagenum"><a id="Page_170"></a>[170]</span> -vontade, até mesmo as camarasinhas, em que se achavam -ellas envolvidas.</p> - -<p>Estes casulos eram tapados de todos os lados, embrulhados -n’uma tella bem delicada, e por cima está a cera e o -mel.</p> - -<p>N’algumas camarasinhas d’estas, achei somente algumas -gottas de semente, claras como a agoa da rocha, e soube -ser a materia de que se organisavam as novas moscas.</p> - -<p>N’umas vi o <i>cháos</i>, ainda informe, feito e composto desta -materia prima, a maneira de uma pasta molle, branca como -creme: n’outras vi moscasinhas, perfeitamente formadas, e ja -com movimento, porem envolvidas n’uma tella delicada e -diaphana, que rasguei com cuidado, e vi n’estas moscas todas -as suas partes bem distinctas e conformadas, menos os -pés, por serem os ultimos, que se formam, e ja depois, que -se movem.</p> - -<p>Reconheci ser verdade o que diz S. Isidoro d’estas moscas -«<i>Apes dictæ sunt quia sine pedibus nascutur, nain -postmodum accipiunt</i>:» as <i>abelhas</i>, ou antes os <i>apedes</i>, são -assim chamados porque nascem sem pés, sendo este nome -composto por <i>a</i>, que quer dizer—<i>sem</i>, e <i>pedes</i>—<i>pés</i>. Assim -composta quer dizer—<i>sem pés</i>, mas não se usa em francez, -e sim emprega-se o nome de <i>abelhas</i>.</p> - -<p>Sobre o que eu disse á respeito de sua geração virginal, -alem da experiencia, que eu tive, de que podem duvidar -alguns espiritos, ha uma testemunha irrefragavel, Santo Ambrosio, -Doutor que si dedicou ao estudo dos segredos da -abelha mais do que nenhum outro antes ou depois d’elle.</p> - -<p>Não o fez sem motivo, pois desde o seo berço que estas -moscas se alojaram em seos labios, e depois em toda a sua -bocca, eis suas palavras: <i>Apes nuilo concubitu miscentur, -nec libidine resolvuntur, nec partus doloribus quatiuntur, -sed integritatem corporis virginalem servantes subito -maximum filiorum examen emittunt</i>: «não si misturam as -abelhas por meio de alguma conjuncção, não si entregam -por meio de sensualidade, não soffrem dores de parto, porem<span class="pagenum"><a id="Page_171"></a>[171]</span> -conservam a integridade virginal de seo corpo, e em -pouco tempo produzem grande numero de novas abelhas.»</p> - -<p>Diz o autor do livro da «<i>Naturesa das coisas</i>»—<i>Omnibus -virginalis integritas corporis</i>—«conservam todas a inteiresa -virginal do seo corpo.»</p> - -<p>Ha diversas especies de vespas, tendo uma d’ellas alguma -coisa de novo: esta qualidade é negra, mui delgada no -meio do corpo a ponto de julgar-se estar o ventre unido ao -estomago por um só fio.</p> - -<p>São industriosas o mais, que é possivel.</p> - -<p>Recolhem-se todas á um nicho de terra, no cimo das arvores, -tão bem estocado, que dentro d’elle não cahe uma -só gotta d’agoa; a cobertura ou tecto d’este nicho é em fórma -de zimborio, e apenas cahe a chuva, corre ligeiramente, -e ahi não si demora: n’elle não tem abertura alguma, -e apenas cinco ou seis buracos proporcionaes á grossura -d’ellas.</p> - -<p>No interior fazem accommodações para viver, e fabricam -uma especie de mel bem amargoso, e negro como tinta.</p> - -<p>Cada uma tem sua casa, cavada na espessura do nicho, -á maneira dos buracos de um pombal, onde se agasalham -os seos habitantes.</p> - -<p>É admiravel a sua industria no fabrico d’estes nichos, e -presenciei-a muitas vezes.</p> - -<p>Á margem das fontes fazem argamassa, carregando com -os pés um pouco de terra, que desmancham e amassam -com agoa, que vão buscar, e trazem unido ao pello de suas -coxas. Assim preparado, vão carregando em varias partes -do seo corpo.</p> - -<p>1.º No pescoço.</p> - -<p>2.º Nos pés.</p> - -<p>3.º Na união das coxas contra seo corpo.</p> - -<p>Não deixam seos filhos no nicho commum, porem fabrica -cada uma o seo cubiculo á parte, á imitação da flor de meimendro, -presa ou suspensa á algum pau, ou outra coisa coberta, -longe do perigo de ventos e de chuva.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_172"></a>[172]</span></p> - -<p>Levam muito tempo preparando seo nicho, e o enfeitam -o mais que podem, com o brunidor do seo fucinho.</p> - -<p>Depositam no interior sua semente, como fazem as abelhas, -fecham a entrada, occultam-na, dormem á noite em -commum, e ainda a madrugada está longe, e já ellas se -despertam para montar guarda e fazer sentinella ao redor -de sua habitação, fazendo guerra de morte a quem se lhe -aproximar.</p> - -<p>Posso dar noticias d’isto, porque um dia, indo a um canto -de minha casa arrumar não sei o que, quando passei, bati, -sem querer, com a minha cabeça no nicho, onde estava a -mãe, e ella, julgando mal de minhas intenções, pensou que -eu o fizesse por maldade, e cheia de colera, escolheo a -parte mais delicada do corpo humano, isto é, os olhos, -para vingar-se.</p> - -<p>Permittio Deos porem que em lugar dos olhos me ferisse -as sobrancelhas com o seo aguilhão.</p> - -<p>Foi tão doloroso o golpe, e tão penetrante o veneno, que -cahi por terra, batendo-me extraordinariamente todas as -minhas veias, desde a planta dos pés até o cume da cabeça, -como nunca senti em minha vida.</p> - -<p>Recolhi-me a cama com o coração sobresaltado, inchou -muito a parte offendida, e ardia como brasa.</p> - -<p>Julguei perder o olho, e assim estive por muitos dias, ao -depois fiquei bom.</p> - -<p>Procream ainda de outra forma. Fazem um pequeno pucaro -de barro, arredondado, similhante aos feitos pelas aranhas, -como ja disse, deitam dentro suas sementes, que se -transformam em vermes vermelhos, iguaes aos que se encontram -nas ameixas das damas: adquire depois azas, e fica -vespa.</p> - -<p>Não tem os selvagens cantharidas em seo paiz, porem fazem -muito apreço d’ellas e dão muitos generos para possuil-as. -Trazem-nas os francezes, porque anteriormente já -tinham ensinado aos selvagens as propriedades d’ellas, o que -não se deve escrever: prova isto que os homens viciosos<span class="pagenum"><a id="Page_173"></a>[173]</span> -mais depressa gastariam esta nação do que ella o é por natureza.</p> - -<p>Ha tambem insectos e vermes roedores mui subtis e engenhosos, -com uma capa bonita e inteira, porem passando -uma escova por cima, desapparece até o pello e fica só a -urdidura.</p> - -<p>O mesmo acontece aos vermes roedores dos bosques, que -fazem grande sussurro.</p> - -<p>Deos porem fez passaros que vae tirando das arvores taes -vermes.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XLVI">CAPITULO XLVI</h3> - -<p class="subhead">Das onças e dos macacos do Brazil.</p> - -</div> - -<p>A onça é o animal mais furioso do Brazil e é do tamanho -dos galgos da Europa.</p> - -<p>No rosto parece-se muito com o gato, tem bigodes horrivelmente -dispostos, vista perspicaz e aterradora, pelle como -a de lobo, manchada de negro á maneira da do leopardo, -garras muito compridas, patas como de gato, cauda grande -e maior que todo o corpo diminuindo pouco a pouco até a -ponta, e com ella brinca n’um areial voltando-se para apanhal-a, -e correndo para o mesmo fim, como fazem os gatinhos -no meio de uma salla, divertindo-se cada um com o -rabinho.</p> - -<p>Ama a solidão, aborrece a sociedade, habita só nos bosques, -e somente é acompanhada por occasião da sua juncção, -o que feito retira-se a femea.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_174"></a>[174]</span></p> - -<p>Nada receia, nada teme: pára vendo dirigir-vos á ella, ou -fica no fim da estrada, por onde tendes de passar, de forma -que ou voltareis, ou então combatereis porque não -cede.</p> - -<p>É melhor a retirada ainda que com algum vexame, do que -por orgulho arriscar sua vida em luta com tal animal.</p> - -<p>O Rvd. padre Arsenio assim o fez, vindo da aldeia da -<i>Mayoba</i> para a nossa casa de S. Francisco, quando encontrou, -ao meio dia, na estrada uma onça que veio esperal-o. -Regressou para a aldeia, e assim evitou perigo tão proximo.</p> - -<p>Não buscam os homens, e é raro encontral-as, e quando -isto se dá o perigo é certo.</p> - -<p>Não se atiram, e nem correm logo atraz das pessoas que -vêem, antes dão-lhe tempo bastante para fugir, e apenas -agarram um ou outro menino, porem raras vezes.</p> - -<p>Tem muito medo de fogo a ponto de não se approximarem -d’elle, e por isso evitam-nas os indios accendendo -fogueiras em suas casas, sempre abertas quer de dia quer -de noite.</p> - -<p>Fazem guerra desabrida aos cães e macacos, vindo agarrar -aquelles até junto ás aldeias, sem causarem o menor mal -aos selvagens deitados em suas redes, e quando vão estes -á caça, acompanhados por muitos cães, são estes devorados -e comidos pelas onças, que fingem correr diante d’elles, e -quando se acham longe de seos senhores, saltam sobre elles -e facilmente os estrangulam.</p> - -<p>Poucos escapam de suas garras para trazer noticias a seos -senhores, que não os ouvindo ladrar, acreditam que as onças -os comeram.</p> - -<p>Não vão mais alem, e regressam mais depressa a casa -onde suas mulheres e filhos choram a morte do cão, que elles -levaram á caça com intenção de divertirem-se.</p> - -<p>Si é perigoso atacar um soldado furioso, e victorioso de -seos inimigos, ainda muito mais o é apresentando-se em tal -occasião á vista das onças.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_175"></a>[175]</span></p> - -<p>Caçam os macacos desta sorte: batem em circumferencia -o bosque, onde se abrigam os macacos, encurralam-nos n’um -ponto, onde se agrupam: então trepam as onças em varias -arvores, e d’ali se atiram sobre os ramos e hastes de outras -onde estão os macacos, e assim os apanham.</p> - -<p>Empregam tambem outro ardil. Occultam-se debaixo de -folhas n’um lugar, onde ellas sabem, que os macacos vem -beber, ou quando estão pescando mariscos e carangueijos, -então d’um só pulo agarram os que podem.</p> - -<p>Fazem ainda mais.</p> - -<p>Quando vêem ou ouvem que os macacos estão reunidos -em qualquer lugar, vão surrateiramente arrastando a -barriga pelo chão, como fazem os gatos quando querem -agarrar algum ratinho, e depois estendem-se e fingem-se -mortas.</p> - -<p>Chega um macaco, pára, chama outros, que chegam logo, -descem o mais que podem, sempre desconfiados, para verem -e examinarem se na verdade está morto o inimigo: rangem -uns os dentes, e outros como que fazem uma especie de discurso -de congratulação por tal fim: eis senão quando resuscita -o fingido morto, mais depressa do que elles sobe ao -cimo da arvore, onde transforma a vida d’elles em morte, -não simulada e sim real.</p> - -<p>A onça só pare uma vez, e um só filho, como a leôa, e -eis a razão de haverem poucas no Brasil. A onçasinha rasga -o utero de sua mãe, que o nutre mui curiosamente até que -fique em estado de cuidar por si de sua alimentação. Apesar -de tal ruptura, unem-se em tempo proprio, porem não -ha fructos d’esta união.</p> - -<p>As onças são errantes, caminham por diversos logares, -atravessam braços de mar, e quando falta-lhes pasto em -terra, vão ao mar pescar carangueijos e outros iguaes bixos -do mar.</p> - -<p>Existem tambem onças marinhas, como ja disse quando -fallei do Meary, tendo a parte anterior igual a da terra, e -a posterior similhante a cauda de um peixe.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_176"></a>[176]</span></p> - -<p>São tão furiosas, como as terrestres, e saltam da agua -contra seos inimigos.</p> - -<p>Machos e femeas veem-se livres dos filhos que trazem no -ventre, á maneira das baleias, dos golfinhos e de outros peixes -do mar.</p> - -<p>Em Maranhão e seos contornos ha muita variedade de macacos:<a id="Nanchor_78" href="#Note_78" class="fnanchor">[78]</a> -uns grandes, fortes, barbados, e de sexo bem distincto, -especie perigosa, e que nas mattas muito bem se defendem -das invasões dos selvagens.</p> - -<p>Contou-me um interprete que n’um certo dia um selvagem -com uma flecha ferio a espadua de um destes macacos, e -que elle tirou a flecha, arremeçou-a contra o selvagem e o -ferio gravemente.</p> - -<p>Atiram-se sobre as raparigas e mulheres, e forçam-nas si -não são mais fortes do que elle.</p> - -<p>Ha outros barbados, mais pequenos, que trazem mamas -nos seios, e sexo bem visivel em lugar proprio.</p> - -<p>São muito bem tratados pelos francezes: os selvagens os -agarram atirando um projectil qualquer sobre elles, que cahem -atordoados, e são assim amarrados.</p> - -<p>Os triviaes são quasi que similhantes em sexo, e nem -merecem descripção alguma.</p> - -<p>Em geral os monos são agradaveis á vista.</p> - -<p>Caminham um atraz do outro, e com tal cadencia no passo, -que os que vem atraz assentam os pés e as mãos, onde assentaram -os que foram adiante.</p> - -<p>Fazem assim uma corda de duzentos á tresentos, e -diria ainda mais, si não receiasse causar admiração ao -leitor.</p> - -<p>Achei-me muitas vezes nas mattas, onde elles habitavam -e dir-vos-hei, sem precisar o numero, que vi grande quantidade -d’elles na fórma ja dita.</p> - -<p>Cousa agradavel o mais que se pode imaginar.</p> - -<p>Arremeçam-se estes animaes de uma arvore a outra, de -um ramo a outro, como faria um passaro bem voador, e o -fazem com tal prestesa, que mal se vê.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_177"></a>[177]</span></p> - -<p>Si vos descobrem debaixo de alguma arvore, fazem incrivel -matinada, e depois de vos fazerem muitas caretas e -de dizer-vos mil injurias em sua linguagem, embrenham-se -pelos mattos.</p> - -<p>Nunca deixam em hora certa,<a id="Nanchor_79" href="#Note_79" class="fnanchor">[79]</a> á tarde ou noite, de ir -beber agoa, mas sabeis com que subtileza?</p> - -<p>Pára o grosso do exercito na distancia de 300 passos da -fonte, manda espias para examinar a fonte e suas circumvisinhanças, -espreitam si nada ha que os assuste, examinam -com cuidado si ha embuscada de algum inimigo, e apenas -o descobrem gritam com voz forte e correm a reunir-se ao -exercito.</p> - -<p>Voltam depois de algum tempo e praticam o mesmo.</p> - -<p>No caso de segurança gritam e ganem para vir o exercito, -e chegado este ainda usa de outra velhacaria.</p> - -<p>Bebem todos um a um: á medida, que um bebe, passa -alem e trepa n’uma arvore, e assim até o ultimo: assim bebem, -passam para outro lado, por onde não vieram e ahi -acabam a fieira.</p> - -<p>Deixam a fonte e vão em tumulto procurar seos amores, -e n’isto ha ordinariamente grandes gritarias, gemidos, mordiduras -e arranhamentos, porque querem os mais fortes escolher -as damas e serem servidos em primeiro lugar.</p> - -<p>Nada digo sem experiencia e tudo isto presenciei todas as -tardes na nossa fonte de S. Francisco.</p> - -<p>Vão pescar sempre em companhia, carregando ás macacas -ás costas seos filhos.</p> - -<p>Pescam carangueijos e mariscos.</p> - -<p>Antes de agarrarem os carangueijos, quebram-lhe as tezoiras -para livrarem-se das mordidellas, depois quebram-nos -com os dentes, e, se estão rijos, com pedras, e o mesmo -fazem com os mariscos.</p> - -<p>Cuidam muito as mães no sustento dos filhos, antes de -poderem elles por si buscal-o; tiram o marisco e o carangueijo -da concha, limpam-no muito bem, e offerecem ao filho -nas costas, e estes o agarram e comem.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_178"></a>[178]</span></p> - -<p>Nunca vão para longe das arvores: é o seo refugio apenas -ouvem algum motim, ou vêem alguem, e por isso para -as suas pescarias escolhem lugares proximos á arvores altas -e copadas.</p> - -<p>Si veêm passar uma canoa de selvagens, muito longe -d’elles, saudam-nos rindo a seu modo, si se aproxima a canoa, -fogem, e ninguem os pilha.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XLVII">CAPITULO XLVII</h3> - -<p class="subhead">Das aguias, dos passaros grandes e dos passarinhos -d’aquelle paiz.</p> - -</div> - -<p>Na Ilha ordinariamente não se vêem aguias, porem ha -muitas na terra firme, proxima a Maranhão.</p> - -<p>Não são verdadeiramente tão grandes como a do velho -mundo, porem são mais furiosas, atrevidas, e valentes, que -accommettem os homens, e não fazem seos ninhos, sobre rochedos, -como diz Job, <i>Aquilla in petris manet</i> «a aguia -mora nos rochedos» porem entre as arvores.</p> - -<p>Vou contar-vos á este respeito o que ouvi em Maranhão -sobre duas aguias extraordinariamente ferozes, que vieram -aninhar-se nos mangues <i>d’Uy-rapiran</i>, aldeiazinha na costa, -distante legoa e meia do Forte de S. Luiz.</p> - -<p>Mostraram-me o lugar, onde ellas viviam, n’um dia, em -que passeiando pelo mar fui visitar um francez, morador -n’essa aldeia.</p> - -<p>Tinham essas aguias cortado ramos mais grossos do que -uma côxa de homem, e tinham feito tão boas acommodações, -que melhores não fariam doze homens.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_179"></a>[179]</span></p> - -<p>Ahi tinham depositado seos ovos com seos filhinhos, e ninguem -se atrevia a passar por perto.</p> - -<p>Vão caçar cabritos-montezes, matam-nos, espedaçam-nos -com unhas e bicos, e depois trazem alguns boccados a seos -filhos.</p> - -<p>Pescam da mesma fórma arremeçando-se sobre os golphinhos, -pirapamas, e trombudos, e tiram-no do mar com -suas garras, deitam-nos em terra, dividem-nos em pedaços, -que levam a seos filhos.</p> - -<p>Vão ainda mais longe: mataram um homem e uma mulher -<i>Tupinambás</i>, o que lhes causou a sua morte e a do -seos filhos, porque si lhes armou uma cilada tão bem arranjada, -que conseguio-se matar o macho, e a femea achando-se -viuva retirou-se para a terra firme abandonando seos -filhinhos, que foram passados pelas armas dos <i>Tupinambás</i> -em vingança do crime commettido na pessoa dos dois, que -elles mataram, e destruio-se-lhes o ninho.</p> - -<p>A femea é maior que o macho, ambos de côr parda, olhar -vivo e feroz, poupa forte e irriçada no cume da cabeça, -pennas grossas no canudo e grandes como a de um gallo -da India: servem-se d’ellas os <i>Tupinambás</i> para emplumar -suas flexas.</p> - -<p>Nota-se n’estas pennas uma coisa particular e especial: si -os selvagens as misturam com outras pennas, como sejam -de araras, e de outros passaros grandes, são estas roidas e -comidas por aquellas, pelo que são guardadas a parte, e -com outras não as deitam em suas flexas.</p> - -<p>Por maiores, que sejam os outros passaros, é a Aguia o -Senhor e o Rei não por igualdade de forças, mas por subtileza -e ligeireza de vôo, subindo muito alto quando quer -perseguir os passaros grandes, e descendo mui rasteiramente -quando elles tambem descem, e quebram-lhes a cabeça -com o bico.</p> - -<p>Ficam assustados todos os passaros quando ouvem o seo -grito, calam-se e occultam-se entre folhas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_180"></a>[180]</span></p> - -<p>Caçam principalmente os gaviões, parecidos com as pombas -brancas, que vivem nas praias, saltando de ramo em -ramo, esperando a vinda de passarinhos para assaltal-os e -agarral-os. Ahi vão as aguias caçal-os, e despedaçal-os -n’um momento.</p> - -<p>Nutrem-se tambem de tartarugas do mar e de terra, e não -poupam a alguma serpente ou cobra que por ventura encontrem.</p> - -<p>Raras vezes podem os selvagens pilhal-as de geito para -flechal-as.</p> - -<p>Trepam-se no cume das arvores, onde expandem as azas -aos raios do sol, tirando com seo bico as pennas velhas, que -por esse estado ja não servem: ahi vão os selvagens buscar -estas pennas para seo uso.</p> - -<p>Assimelham-se muito na fórma e côr ás pennas dos gallos -da India, e são muito boas para escrever.</p> - -<p>Alem d’estas aguias ha passaros grandes chamados <i>uira -uaçú</i>, quasi do tamanho dos abestruses da Africa,<a id="Nanchor_80" href="#Note_80" class="fnanchor">[80]</a> mais -compridos, porem não tão grossos.</p> - -<p>Os grous de lá parecem-se com os pardaes. Si algum foi -para a França, levado por nossos companheiros, saibam que -ha outros ainda mais grossos.</p> - -<p>Agarram-nos os selvagens quando pequenos, e para isso -procuram a occasião em que os paes vão caçar.</p> - -<p>São brancos quando pequenos, mechem-se pouco a pouco, -e vão mudando até que alcance suas pennas e cor verdadeiras.</p> - -<p>São muito glutões, e parece que não se fartam, porem -quando comem é por muitos dias.</p> - -<p>Si os macacos pudessem persuadir os selvagens a extinguir -essa raça, o fariam indubitavelmente, porque perdem -milhões dos seos para sustento d’ellas.</p> - -<p>Os <i>Tupinambás</i>, que criam estes passaros, conhecem que -a melhor carne, que se lhes pode dar, é a de macacos, e -para isto vão ao matto caçal-os e matal-os.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_181"></a>[181]</span></p> - -<p>Ha outras especies de passaros grandes, porem que não -se comparam com estes, e são as <i>araras</i>, os <i>canindés</i>, e -outros, os quaes são agarrados pelos indios por maneira astuciosa.</p> - -<p>Vão ao matto, escolhem as arvores, onde costumam estes -passaros passar a noite, e onde se recolhem depois de -comer: fazem debaixo d’essas arvores uma casinha redonda, -com capacidade para conter tres homens, e coberta de palhas: -ahi se recolhem e esperam a vinda dos passaros, que -como não desconfiam, aproximam-se muito, e então os selvagens -lhes atiram qualquer projectil, que os atordoa sem -matal-os, cahem em terra onde são facilmente agarrados e -prendem, e com o correr do tempo de tal maneira se domesticam, -que embora os soltem, não deixam a casa do seo -dono: introduzem-se pelos quartos, fazem grande matinada, -com voz similhante a do côrvo, aprendem a fallar como os -papagaios, e dão suas pennas á seos hospedes para com ellas -se adornarem e enfeitarem.<a id="Nanchor_81" href="#Note_81" class="fnanchor">[81]</a></p> - -<p>Os habitantes do rio depennam seos gansos para encher -colchões, e os indios tiram as pennas d’estes passaros para -fazer seos enfeites e adornos.</p> - -<p>Ha muitas e diversas qualidades de garças, umas maiores, -e outras mais pequenas.</p> - -<p>Fazem seos ninhos nos mangues á beira do mar, vivem -de peixe, e trazem alguns inteiros a seos filhos que principiam -a comel-os desde os seos primeiros dias.</p> - -<p>Admirei-me de ter sido encontrado um peixe grande, do -tamanho de um arenque, no ventre de uma garça, pouca -implumada.</p> - -<p>Os selvagens vão tirar dos ninhos as garçasinhas, armados -de bons cacetes para se defenderem dos paes e mães, -que em tal caso não deixam de acudir aos que nutrem tão -terna e cuidadosamente afim de estenderem a especie.</p> - -<p>Similhantes as garças ha outros passaros chamados <i>forquilhas</i> -pelos francezes e portuguezes, porque teem a cauda -fendida quando vôãm: fazem seos ninhos nos mangues, em<span class="pagenum"><a id="Page_182"></a>[182]</span> -lugar recondito, e pouco frequentado dos homens o quanto -é possivel: ahi põem, e deixam seos filhos, vão para o -mar, e ahi ficam por todo o dia enchendo de peixe uma -grande bolsa, que trasem debaixo da goela, e que depois -levam a seos filhos: quando está vasia esta bolsa, enche-se -de vento que os alivia e sustenta no meio do ar, quando -passam muitos dias e noites sem ir a terra, e atiram-se -pelo mar em distancia de 50 a 60 legoas procurando alimentos.</p> - -<p>Tem a vista extraordinariamente apurada a ponto de verem -do mais alto lugar, a que sobem, o peixe que náda no -mar, e sobre elle cahem e agarram-no. Tem uma propriedade -muito boa e é que perseguem os peixes, que andam -atraz dos pequenos para devoral-os.</p> - -<p>Aproximam-se d’agoa, e como querem participar da presa, -perseguem-nos o quanto podem.</p> - -<p>Alem destes passaros grandes ha milhares de passarinhos, -entre os quaes merecem especial menção os seguintes.</p> - -<p>As andorinhas do mar em tão grande quantidade, que cobrem -as praias nas vasantes: são boas para se comer, e á -vontade matareis muitas com uma arma, carregada de chumbo -miudo, e sentado n’uma canoa.</p> - -<p>Ha outra qualidade de passaros, que admiram muito a -ponto de não se acreditar, e comtudo é verdade, por mim -experimentada, os quaes tem por bico duas facas, embutidas -em seos cabos, e aos quaes dão o nome de <i>navalhas</i>: -o bico não lhes serve para buscar alimento, e por isso dizem -que elles só vivem de vento, porque essas facas cortantes -não lhes servem senão de passatempo quando passeiam pelas -praias, e encontram outros passaros, que são por elles -cortados pelo meio.</p> - -<p>No dia, em que parti do Maranhão, um mancebo pertencente -ao Sr. de Sam Vicente, que me acompanhou em toda -a minha viagem, matou um, cujo bico guardei e trouxe para -a França.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_183"></a>[183]</span></p> - -<p>Ha melros como os de França, iguaes na plumagem e no -canto, que espandem suas pennas á vontade no fim das chuvas, -quando vem o bom tempo visitar os habitantes da zona -tórrida: no fim do bom tempo e principio das chuvas soltam -um canto triste, como que chorando o passado, e prevendo -as tempestades do inverno, si tal nome merece.</p> - -<p>Ha muitos passarinhos de bellesa incrivel: uns pardos, outros -cor de violeta, azulados, amarellos e mesclados: fazem -os selvagens penachos de suas pennas, que são muito caras -por ser difficil matal-os, porque presentindo o inimigo, que -os busca, trepam-se no cume das arvores mais altas, nas -pontas dos ramos, fazem seos ninhos os quaes amarram com -uma embira muito forte, e na outra extremidade que cahe -no sollo, fabricam uma especie de pote de terra, no qual -criam seos filhos entrando por um só buraco, proporcional -á sua grossura.</p> - -<p>Trouxe para França esses passarinhos, que aqui causaram -muita admiração.</p> - -<p>Possue o Maranhão um genero de passarinhos, que não -excede no corpo á extremidade do pollegar, e acrescento -com todas as suas pennas, e tem canto melodioso, que faz -lembrar o das andorinhas, que imitam quando querem cantar: -levantam o bico, e soltam o canto o mais alto, que podem, -e o sustentam em quanto o permittem suas azas.</p> - -<p>Fazem suas casas junto ás fontes, onde muitas vezes vão -banhar suas azinhas para mais facilmente voarem alto. Ahi -perto fazem seos ninhos, e imaginae o tamanho dos ovos, -que chegam de 5 a 7: seos filhinhos ainda são de mais admiravel -pequenez.</p> - -<p>São tão fecundos, que os meninos enchem cabaças de ovos -d’elles.</p> - -<p>Ha de diversas cores, amarellos, violetas, pardos, etc.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_184"></a>[184]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XLVIII">CAPITULO XLVIII</h3> - -<p class="subhead">Resposta a muitas perguntas, que fazem n’aquelle paiz á -respeito das Indias Occidentaes.</p> - -</div> - -<p>Para perfeição d’este primeiro tratado, julguei acertado -responder á todas ás perguntas, que se fazem n’esse paiz.</p> - -<p>1.ª Si esta terra de equinoccio pode ser habitada por francezes -delicados, naturaes de um paiz temperado, criados -com cuidado e bons alimentos, pois não parece poderem -se accommodar n’um paiz agreste, selvagem, cheio de mattas, -entre barbaros, e debaixo da zona tórrida e ardente.</p> - -<p>Respondo, que na verdade todos os principios são difficeis, -porem pouco a pouco apparece a facilidade.</p> - -<p>Não ha no mundo villa ou aldeia, que não cause susto e -encommodo no principio, porem depois de alguns annos tudo -vae bem, e os nossos padres ja ahi deixaram o fructo de -suas fadigas.</p> - -<p>Não eram mui delicados os cidadãos romanos? E comtudo -não deixaram Roma e Italia para plantarem suas colonias -nas florestas gaulezas e allemans?</p> - -<p>O portuguez não é, como nós os francezes, na Europa sugeito -a todas as molestias, trabalhos e fadigas? Sim! porem -é neste ponto mais soffredor do que nós, pois bem sabe ser -necessario primeiro lavrar para depois colher: comtudo estabelece-se -muito bem no Brasil, faz grandes negocios, sendo -a terra bem preparada e cultivada. Havendo dinheiro -ha ahi de tudo, como em Lisboa. Eu vos lembro, que se a -paciencia dos homens tem tornado, dentro de oito mezes, -boas e ferteis as terras crestadas pelo gelo ou congeladas, -uma terra, o coração do mundo, não será habitavel pelos -francezes? É até loucura pensar n’isto, e portanto concluo, -que esta terra é apropriada á naturesa dos francezes como -é a França, si for bem cultivada e provida de viveres necessarios -e acommodados ao gosto francez, como sejam pão -e vinho: quanto á carne, peixe, legumes e raises, ha de tudo<span class="pagenum"><a id="Page_185"></a>[185]</span> -isto incrivel abundancia, tendo apenas o trabalho de colher -e plantar os vegetaes.</p> - -<p>Enganar-se-hia porem quem pensasse, que as arvores produzissem -patinhos assados, as corças, quartos de carneiro, -recentemente tirados do espeto, e o ar andorinhas bem cozidas, -de fórma que não havia mais trabalho do que abrir -a bocca e comer.</p> - -<p>Com tal fantasia, não lhe aconselho, que lá vá, porque -arrepender-se-hia.</p> - -<p>É pois esta terra habitavel pelos francezes, e si ahi não -tiverem commodidades, arrepender-se-hão, porem tarde.</p> - -<p>2.ª Eis o que disse, e basta<a id="Nanchor_82" href="#Note_82" class="fnanchor">[82]</a> a terra é habitavel, e -pode ahi morar-se com algum encommodo durante alguns -annos. Mas será saudavel para os francezes? Os indios ahi -são sadios, e vivem longo tempo, embora selvagens e barbaros, -nascidos n’este clima, e acostumados á tal temperatura. -Não tem os francezes tal privilegio, pois são sujeitos -á muitas febres, que se terminam em paralysia e outros encommodos. -Respondo a isto, que julgamos das substancias -pelos accidentes, e das terras pelos encommodos e enfermidades.</p> - -<p>Comparemos agora a menor aldeia de França com a Colonia -Francesa n’estas terras, e no espaço de um anno achamos -haver na aldeia dez vezes mais doentes do que em dois -no Maranhão.</p> - -<p>Si algumas pessoas se dão mal, não é novidade pois em -toda a parte está a morte: assim são as molestias.</p> - -<p>D’estes males não estão isentos Reis e Principes em paizes -os mais agradaveis e salubres, que se possa imaginar.</p> - -<p>Em dois annos, que lá estive, apenas houve uma morte a -do Rvd. padre Ambrosio:<a id="Nanchor_83" href="#Note_83" class="fnanchor">[83]</a> fallo da morte natural, porque -os devorados pelos peixes, a culpa foi d’elles por se lançarem -ao mar.</p> - -<p>Morreu o Rvd. padre de uma paralysia, porque estando -muito atado a derrubar arvores grandes, e tendo o suor -molhado seo habito, foi assim mesmo celebrar missa, e<span class="pagenum"><a id="Page_186"></a>[186]</span> -apenas sahio da igreja foi acommettido por uma febre, de -que falleceo poucos dias depois.</p> - -<p>Digo isto com certesa, porque o assisti até o fim, achando-se -fóra em serviço de Deos os outros dois padres.</p> - -<p>Á vista d’isto Maranhão e Paris pleiteam entre si.</p> - -<p>Diz Paris—«és má terra, porque mataste um padre capuchinho -que te mandei.»</p> - -<p>Responde Maranhão «por um perdi quatro dos meos.»</p> - -<p>«Tendes rasão para censurar-me?» Assim o deveria ser, si -os meus fossem tratados como principes, e o pobre capuchinho -apenas tivesse farinha, ou pouco mais.</p> - -<p>«Concordemos pois, que o clima é sam e salubre, e que -desperta muito o apetite, e si houvessem muitas gulodices -como em França, para ahi iriam as pressas muitas moças -francezas.»</p> - -<p>3.ª Dizem vae tudo muito bem, porem não ha vinho, e -nem trigo, principaes alimentos, indispensaveis nos melhores -banquetes para as carnes mais delicadas.</p> - -<p>Respondo, que ha milho em grande abundancia, de que -se pode fazer pão, como nós o faziamos, e o achavamos -muito agradavel ao gosto, embora gostassemos mais da farinha -do paiz, especialmente quando fresca, porque não é pesada -ao estomago.</p> - -<p>Este pão de milho serve d’alimento em muitas terras do -velho mundo,<a id="Nanchor_84" href="#Note_84" class="fnanchor">[84]</a> e especialmente na Turquia, onde é chamado -trigo da Turquia.</p> - -<p>Não se perdeo ainda a esperança, que a terra firme do -Brasil, forte e gorda, não possa produzir trigo, com que se -fabrique o pão como na França.</p> - -<p>Os habitantes de Pernambuco ja o fizeram; não estão longe -de nós, porem em terras peiores.</p> - -<p>Quanto a terra firme do Maranhão, melhor seria si o rei -de Hespanha não prohibisse nas Indias Orientaes e Occidentaes -plantação de trigo e de vinhas para tel-as sempre dependentes -de seo soccorro, e de tudo quanto cresce nos seos -Reinos de Hespanha e Portugal.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_187"></a>[187]</span></p> - -<p>Accrescento ainda, que o Perú, que está no mesmo paralello -que a terra firme do Maranhão, é abundante de trigo e -de vinhas. Quem pode impedir, que ahi se produzam estes -generos?</p> - -<p>Quanto ao vinho, não é feito das vinhas do paiz, embora -ahi possam crescer,<a id="Nanchor_85" href="#Note_85" class="fnanchor">[85]</a> e contam-nos, que as trazidas pelos -nossos religiosos na ultima viagem pegaram e produziram -fructos. Quem pode impedir grandes plantações de vinhas, -e que em dois ou tres annos se façam grandes colheitas?</p> - -<p>A França nem sempre tem vinho, actualmente porem tem -muito.</p> - -<p>Os flamengos, os inglezes, os hibernios e dinamarquezes -não fabricam vinho, contentam-se com cerveja, e se querem -beber vinho abrem a bolsa, e ahi vão os melhores vinhos -do Universo.</p> - -<p>O mesmo succede em Maranhão, porque os navios ahi os -levam. É bem verdade, que é um pouco mais caro do que -em França, porem é melhor, segundo pensam alguns francezes, -que avaliam as coisas pelo preço.</p> - -<p>Os mais economicos acostumam-se com a cerveja do paiz -que é muito boa por ser feita de milho, e não é muito cara -por haver muita abundancia deste genero na terra e serem -as agoas boas e puras.</p> - -<p>4.ª Dizem. Si é assim não é máo, porem pode ahi fazer-se -vantagens, visto que, em quanto ahi estive, nunca me animei -a gastar dinheiro. Respondo.</p> - -<p>Se todos soubessem porque se dava essa falta, ficariam -contentes, porem não é cousa que todos devam saber.</p> - -<p>Direi somente, que esta falta não provem da terra, que é -propria a produsir bons generos quando bem cultivada, -como sejam: <i>Algodão</i>, <i>canafistula</i>, <i>madeira de diversas cores</i>, -<i>piteira</i>,<a id="Nanchor_86" href="#Note_86" class="fnanchor">[86]</a> <i>tinturas de urucú</i>, <i>de cramesim</i>, <i>pimentas -longas</i>, <i>lapis-lazuli</i>, <i>cobre</i>, <i>prata</i>, <i>oiro</i>, <i>pedras preciosas</i>, -<i>plumas</i>, <i>passaros de diversas cores</i>, <i>macacos</i>, <i>macacos-monos</i>, -<i>e saguins</i>, e especialmente assucares, quando si levantarem -engenhos e plantarem cannas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_188"></a>[188]</span></p> - -<p>Si nada de lá se trouxer (callando o que si deve dizer -em publico) provem da má direcção dos negocios, cuidando -cada um de si, o que tem feito com que haja pouco sortimento -de mercadorias francezas, necessarias aos selvagens, -e pelas quaes dão algodão, tinturas, pimentas, e outras -coisas similhantes, alem de outros generos, que por si mesmo -possam obter os francezes.</p> - -<p>Vendo os selvagens a pobresa dos armazens, onde apenas -haviam mercadorias para com ellas si comprar farinha, -ficam preguiçosos, nada fazem e nem farão emquanto os -francezes não tiverem coisa alguma a dar-lhes em recompensa: -tal é o seo genio e assim o farão, e por isto não -merecem censura, por que em todo o Christianismo não si -encontra um só homem, que trabalhe de graça.</p> - -<p>Não vos admireis si nada tragam, e sim si na primeira -viagem conduzirem comsigo alguma coisa.</p> - -<p>Não me prendo as rasões ja ditas, e outras, que callo, e -sim no caso de provêr-se á esta falta, como convem, eu -vos asseguro que a Ilha e suas circumvisinhanças ainda produzirão -bons estofos.</p> - -<p>Tendo satisfeito a todas as perguntas e objecções sinto -repugnancia em responder a muitos mancebos, que por bens -de fortuna somente possuem a espada e o punhal, mais que -ricos de coragem cortam muitas vezes a garganta uns dos -outros, e vão em companhia para um paiz bem triste, onde -navio algum vae levar novidades.</p> - -<p>Desejaria perguntar-lhes—que fazeis em França senão esposar -questões de vossos irmãos mais velhos? Porque não -experimentaes fortuna, ou ao menos porque não ides enriquecer -vosso espirito com a vista de coisas novas? Passarieis -assim o vosso tempo, em quanto si aplaca o vosso coração, -e si fortalece o vosso juiso: prestarieis serviço a Deos -e ao vosso Rei visitando esta nova França.</p> - -<p>Ahi descobrireis novas terras, achareis alguma coisa de -valor, como sejam pedras preciosas etc., e quando mais não -fosse, bastaria que, quando voltardes, não ficasseis mudo<span class="pagenum"><a id="Page_189"></a>[189]</span> -nas reuniões, porque aquelle que viaja tem sempre ganho -o seo pão.</p> - -<p>As cinzas e os fogões são para os cazeiros, creados por -Deos para cultivar a terra.</p> - -<p>A nobresa n’este mundo tem outro fim, e qual é elle? -o de empregar vossos esforços e trabalhos para dilatar -o reinado de Deos, ajudar os Apostolos de Jesus Christo -a chegarem aos fins para os quaes são enviados, isto -é, para augmento do sceptro e da corôa de vosso principe, -e morrer por estas duas empresas—é morrer em leito -de honra.</p> - -<p>Vós me respondereis—mas sob que ordens e porque meios? -Minha penna, senhores, não pode ir mais longe. Fiz o que -devia e o resto ignoro.</p> - -<p>Espero portanto, que Deos inspirará aquelles, que tudo -podem, á favor da perfeição de tão alta empresa.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XLIX">CAPITULO XLIX</h3> - -<p class="subhead">Instrucção para os que vão pela primeira vez ás Indias.</p> - -</div> - -<p>Sabio é aquelle, diz o proverbio, que para seos negocios -se aproveita do exemplo e experiencia dos outros.</p> - -<p>Se os nossos francezes, antes de terem ido á India, soubessem -o que depois conheceram, teriam melhor dirigido os -seos negocios, e nem teriam passado pelos encommodos, -que soffreram: o que resolver ahi ir, calcule quanto tempo -ahi se pode demorar, junte ainda mais um bocado, porque -lá não se tem a commodidade do regresso quando se -quer.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_190"></a>[190]</span></p> - -<p>Faça seo sortimento para esse tempo, e por duas formas, -uma para si e outra para os selvagens afim de obter delles -viveres e outros generos.</p> - -<p>As suas provisões devem consistir de aguardente forte, do -melhor vinho de Canaria, em bons frascos de estanho, bem -arrolhados e acondicionados n’uma frasqueira fechada a chave, -e esta tão bem guardada, como o seo coração, para servir -nas necessidades e nas molestias que podem apparecer.</p> - -<p>Fuja de sucia com pessoa alguma, porque então desapparecem -bem depressa as suas provisões.</p> - -<p>É costume no mar, desde que se suspeita haver vinho ou -agoardente na frasqueira de algum passageiro, o pedir-se de -vez em quando uma vez d’esses espiritos para beber em -companhia, e quando se está em viagem deve-se fazer de -duas coisas uma, ou ser-se liberal e para isso não faltam -instigações, ou então passar-se por velhaco, e soffrer todas -as injurias, que lhe queiram fazer.</p> - -<p>O meio mais seguro para evitar estas coisas é não entrar -em sucias.</p> - -<p>Para a passagem do mar deve surtir-se de algum vinho -tinto, e de coisas iguaes para quando precisar visto o trivial -do navio ser muito mal preparado.</p> - -<p>Deve fornecer-se de um bom numero de camisas, lenços, -e vestidos de fustão, e não de estofos pesados, excepto os -vestuarios para festas, porque n’este paiz não se precisa senão -de pannos leves.</p> - -<p>Leve sabão para o aceio da casa, muitos sapatos porque -lá não achará um só, senão os que para ahi forem levados -e por alto preço, de forma que pelo preço de um par tereis -em França uma duzia, toalhas, guardanapos, lençóes e -um bom colchão, e se quizerdes viver á francesa, isto é, -com limpesa, deveis levar baixela de estanho para quando -estiverdes doentes.</p> - -<p>Devereis levar assucar, boas especiarias, uma porção de -rhuibarbo muito fino, tudo bem acondicionado n’uma caixa -para livrar o assucar das formigas do paiz, porque é impossivel<span class="pagenum"><a id="Page_191"></a>[191]</span> -imaginar-se o que fazem estes animaesinhos, que metem-se -por toda a parte, e tudo trespassam se é de madeira.</p> - -<p>Devem essas caixas ser feitas de ferro branco.</p> - -<p>As mercadorias pelas quaes dos Indios obtereis em -troca viveres e outros generos do paiz, e escravos para servir-vos -e cultivar vossas roças, são as seguintes—facas de -cabo de pau, de que usam os magarefes, e muito apetecidas -pelos selvagens, muitas thesouras de bolsa de couro, -muitos pentes, contas de vidro verde-gaio, a que chamam -missanga, foices,<a id="Nanchor_87" href="#Note_87" class="fnanchor">[87]</a> machados, podões, chapeos de pouco valor, -fraques, camisollas, calções de adellos, espadas velhas, -e arcabuses de pouco preço.</p> - -<p>Dão muito apreço a tudo isto, e assim tereis escravos e -bons generos.</p> - -<p>Não esqueçaes tambem pannos verdes-gaios, e vermelhos -de pouco valor, porque não fazem grande differença dos estofos, -rosetas, assobios, campainhas, anneis de cobre dourado, -anzóes, alicates de latão chatos, com um pé de cumprimento -e meio de largura, tudo isto por elles muito apreciado.</p> - -<p>Assim bem providos destes generos, não duvideis de serdes -bem vindo entre elles: ahi não deveis viver vida folgada, -e muito negocio fareis n’esse paiz pelo qual pouco dareis, -se souberdes guiar-vos.</p> - -<p>Assim preparado, não vos esqueçaes do principal, que é -antes de embarcardes purificar e robustecer vossa alma com -o Santissimo Sacramento da confissão e da communhão, dispondo -todos os vossos negocios como quem não sabe se o -mar lhe permittirá o voltar.</p> - -<p>Apenas embarcado, fazei vossa cama o mais perto, que -fôr possivel, do mastro grande para evitardes o balanço -visto ser ahi o lugar mais quieto do navio.</p> - -<p>Deve-se sempre temer a Deos, porem não receiar os -acasos do mar, sendo melhor mostrar o rosto tranquillo do -que desassocegado, visto de nada servir o medo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_192"></a>[192]</span></p> - -<p>Não vos assusteis senão quando os pilotos implorarem -misericordia, porque então é preciso cuidar da alma, visto -irem mal as cousas.</p> - -<p>Quando virdes o navio navegando de lado, as caixas viradas, -o mar entrando no convez, as vellas molhando-se nas -ondas, os marinheiros jurando e buffando,<a id="Nanchor_88" href="#Note_88" class="fnanchor">[88]</a> não vos assusteis, -mostrae-vos sempre de animo prasenteiro, não vos -descuidando porem da vossa consciencia.</p> - -<p>Não questioneis com algum marinheiro, pois com isso -nada alcançareis.</p> - -<p>Quando chegardes ao porto, não vos apresseis em saltar, -cuidae primeiro nas vossas mercadorias e bagagem, porque -acontece muitas vezes visitarem a bagagem, e serrarem os -caixões, onde vem os generos, de maneira que se possa -introduzir a mão.</p> - -<p>Fazei conduzir tudo em vossa companhia para casa do -vosso Compadre, que deveis escolher com estes predicados -se fôr possivel.</p> - -<p>1.º Que tenha escravos, canôa e cães, para não sentirdes -falta de peixe e de caça, senão raras vezes tereis estes -generos, sendo necessario compral-os aos selvagens, e assim -muito cara vos seria a vida.</p> - -<p>2.º Indagae se elle tem bom genio especialmente a mulher, -porque nada ha peior do que má hospede.</p> - -<p>Se encontrardes bom acolhimento, convem fazer alguns -presentes, e depois deveis trazel-os sempre na esperança de -outros, sem serdes comtudo muito liberal, e por isso todos -os mezes lhe deveis dar alguma coisa afim de não vos chamarem -avarento, e como tal não vos apregoem entre os seos -iguaes, criando assim difficuldades quando quizerdes obter -alguma coisa.</p> - -<p>Não vos deixeis prender pelos affagos das filhas dos vossos -hospedes, ou de outras, pois não vos faltarão caricias se -souberem que tendes mercadorias.</p> - -<p>Em tudo o mais é preciso andar prevenido, tendo sempre -bem presente á memoria o acaso e o perigo, que fazem<span class="pagenum"><a id="Page_193"></a>[193]</span> -contrahir molestias sórdidas áquelles, que de si se esquecem.</p> - -<p>Podeis livrar-vos d’isto com facilidade, mormente se considerardes -o grande peccado, que commeteis.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_L">CAPITULO L</h3> - -<p class="subhead">Do acolhimento, que fazem os selvagens aos francezes -recem-chegados, e como convem proceder para -com elles.</p> - -</div> - -<p>Si ha nação no mundo, que goste de fazer bom acolhimento -aos seos amigos recem-chegados, e que os receba -em suas casas para tratal-os bem o quanto é possivel, sem -duvida alguma os <i>Tupinambás</i> occupam o primeiro lugar á -vista do que fizeram aos francezes.</p> - -<p>Logo que fundeou o navio, que trasiam os francezes, surgiram -de todos os lados selvagens em suas canôas, bem enfeitados -de pennas e preparados segundo sua classe como si -fossem para uma grande festa.</p> - -<p>Apenas descobrem ao longe navios que demandam a terra -corre logo este boato por todas as aldeias <i>Aurt vgar uaçú -Karaibe</i>, ou <i>Aurt Navire suay</i> «ahi vem os grandes navios -de França.»</p> - -<p>Immediatamente tomam os seos vestidos bonitos, si os -tem, e principiam a fallar uns aos outros por esta forma: -«ahi vem navios de França, e eu vou ter um bom compadre, -elle me dará machados, foices, facas, espadas, e roupa: -eu lhe darei minha filha, irei pescar e caçar para elle, plantarei -muito algodão, dar-lhe-hei gaviões e ambar, e ficarei<span class="pagenum"><a id="Page_194"></a>[194]</span> -rico, porque hei de escolher um bom compadre, que tenha -muitas mercadorias.»</p> - -<p>Dizendo isto batem nas pernas e nos peitos em signal de -alegria.</p> - -<p>As mulheres e os rapazes fabricam farinha fresca e nova, -e os homens vão pescar e caçar, e quando a casa está provida -de carnes de diversas qualidades, raizes, peixes, caça, -e farinha, vão todos aos navios.</p> - -<p>Os mais impacientes vão em suas canôas á bordo do navio, -ancorado na enseiada, endagar se vieram os seos velhos -<i>Chetuassaps</i>, e qual é o francez que traz mais generos -para lhe offerecer seo compadresco, sua casa e sua filha.</p> - -<p>Apenas salta o francez é logo rodeiado por elles: homens -e mulheres mostram-se prasenteiros, presenteam-nos com viveres, -convidam-nos para compadre, offerecem-se para levar-lhes -sua bagagem, em fim fazem o que podem para contental-os -e agradal-os.</p> - -<p>Não tem inveja por estar um francez em casa de outro: o -que primeiro se apresenta é que leva o hospede, sem a menor -questão, e nem por isso se insultam.</p> - -<p>Fazem mais ainda: quando um francez muda de compadre, -não questionam por isto, despresam-no, e tem-no por -homem mau, e assim raciocinam.</p> - -<p>«Si não poude viver com aquelle, como viverá commigo?»</p> - -<p>Si o selvagem é genioso, avarento e preguiçoso, quando -o francez o deixa não se zangam os outros, antes dizem «É -bem feito ser elle despresado, é um homem difficil de ser -aturado, avarento e preguiçoso.»</p> - -<p>Escolhendo o francez um compadre, segue-o e vae para -a aldeia,<a id="Nanchor_89" href="#Note_89" class="fnanchor">[89]</a> e então o hospede com certa gravidade, como -si nunca o houvesse visto, lhe estende a mão e lhe diz: -«<i>Ereiup Chetuassap?</i>» «Chegaste meu compadre,»<a id="Nanchor_90" href="#Note_90" class="fnanchor">[90]</a> coisa -digna de vêr-se e de contemplar-se.</p> - -<p>Direis ao vel-os, que sahem á maneira dos imperadores -de um gabinete bem fechado, onde estavam empenhados em -grandes negocios.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_195"></a>[195]</span></p> - -<p>Si querem fazer grande acolhimento a um francez e lhe -mostrar que muito o estimam, antes que o pae de familia -lhe diga <i>Ereiup</i>, as mulheres e as filhas o lamentam e depois -dam-lhe bons dias.</p> - -<p>Responde-lhe o francez <i>Pá</i>, «sim?» resposta que quer dizer -«sim de todo o coração: eu te escolhi para morar comtigo, -e para ser meo compadre, e do numero de tua familia: -te dei a preferencia porque te estimo e por me pareceres -bom homem.»</p> - -<p>Diz-lhe o selvagem—<i>Auge-y-po</i> «muito bem, estou muito -contente, honras-me muito, sêde bem vindo e aqui serás tão -bem acolhido como em parte alguma.»</p> - -<p>Por isto reconhecereis a candura e a simplicidade da naturesa, -que consiste em poucas palavras e muitas obras. O -contrario acontece á corrupção, pois inventa muitos discursos, -muitas palavras adocicadas, cortejo sobre cortejo muitas -vezes só com o chapéo, e não com o coração.</p> - -<p>D’estas duas recepções qual será a melhor e a mais consentanea -com a lei de Deos, e com a simplicidade do christianismo?</p> - -<p>Após aquellas palavras, elle vos diz—<i>Marapé derere?</i> -«Como te chamas? qual é o teu nome? como queres que te -chamemos? que nome queres que se te dê?»</p> - -<p>Convem notar, que si não escolherdes um nome pelo qual -sereis conhecido em toda a parte, elles vos darão um escolhido -entre as coisas naturaes, existentes no seo paiz, e o -mais apropriado á vossa physionomia, genio, ou maneira de -viver, que por ventura descobrirem em vossa pessoa.</p> - -<p>Por exemplo, entre os francezes, um foi chamado <i>beiço -de sargo</i>, porque tinha o beiço inferior puchado para diante -como os peixes chamados <i>sargos</i>.</p> - -<p>Tiveram outros o apellido de <i>garganta grande</i> porque -nada o fartava, de <i>sapo-boi</i>,<a id="Nanchor_91" href="#Note_91" class="fnanchor">[91]</a> por estar sempre entumecido, -de <i>cão pirento</i> pela sua cor má, de <i>piriquito</i> porque levava -só a fallar, de <i>lança grande</i> por ser alto e esguio, e -assim por diante, e ordinariamente fazem estas coisas em<span class="pagenum"><a id="Page_196"></a>[196]</span> -suas <i>casas grandes</i>, e por esta fórma pouco mais ou menos. -«Que nome se ha de dar a teo compadre?»</p> - -<p>—Não sei, é preciso estudar.</p> - -<p>Indica cada um a sua opinião, e o nome que encontra -mais apropriado, e si é bem recebido pela assembléa lhe é -imposto com seo consentimento, si é homem de posição: si -é do vulgo, queira ou não queira, ha de ter o nome, que -lhe der a assembléa.</p> - -<p>Tem tambem outra maneira de impôr nomes: quando elles -vos estimam, e vos dam muito apreço, elles vos dam o seo -proprio nome.</p> - -<p>Depois de saber vosso nome pensam na cozinha dizendo—<i>Demursusen -Chetuasap</i>, ou então <i>Deambuassuk Chetuasap?</i> -«Tem fome, meo compadre? quer comer alguma coisa?»</p> - -<p>A hospede vos escuta e vos attende prompta a servir-vos -si disserdes <i>sim</i> ou <i>não</i>, porque tomarão vossa resposta, -como dinheiro contado, visto que n’essas terras nem se deve -ser vergonhoso, e nem guardar silencio.</p> - -<p>Si tendes fome, direis <i>Pá, chemursusain, Pá, cheambuassuk</i>, -«sim, tenho fome, quero comer.»</p> - -<p>Perguntam elles <i>Maé-pereipotar</i>, «que queres tu comer? -que desejas tu que eu te traga?»</p> - -<p>São mui liberaes no principio, diligentes na caça e na -pesca, afim de contentar-vos e ganhar vossa affeição para -obter generos; mas cuidado, não lhe dês tudo no principio, -conservae-o sempre na esperança, dando-lhe cada mez alguma -coisinha.</p> - -<p>Á sua pergunta dizei, si quereis carne, peixe, passaros, -raizes, ou outra qualquer coisa, e então vossos hospedes, -o marido e a mulher trazem para vós a caça, o <i>Mingau</i>, -que tiverem, podeis comer a vontade e dar a quem -quizerdes.</p> - -<p>Apenas tiverdes comido, arma a sua rede ao pé da vossa, -principia a conversar comvosco, offerece-vos um caximbo -cheio de fumo, que accende, chupa tres fumaças, que expelle -pelas ventas, e depois vos entrega como coisa muito<span class="pagenum"><a id="Page_197"></a>[197]</span> -bôa, e que faz muita estima, como na França se pratica com -as bebidas.</p> - -<p>Accende tambem seo caximbo, e depois de haver tomado -cinco ou seis fumaças diz—<i>Ereia Kasse pipo</i>: «deixaste teo -paiz para vir ver-nos, visitar-nos e trazer-nos generos?»</p> - -<p>Respondei-lhe <i>Pá</i>—«sim, deixei tudo, despresei meos amigos, -e meo paiz para vir aqui vêr-te.»</p> - -<p>Levantando então a cabeça como que admirado, diz <i>Yandé -repiac aut</i>, «compadeceo-se de mim, olhou-nos com piedade: -lembraram-se os francezes de nós, não se esqueceram -de nós.»</p> - -<p>Deixaram sua terra para nos vir ver—<i>Y Katu Karaibe</i>: -«são bons os francezes e muito nossos amigos.»</p> - -<p>Depois pergunta ao francez <i>Mabuype deruuichaue Yrom?</i> -«Comvosco quantos superiores, guerreiros, capitães e principaes -vieram?»</p> - -<p>Responde-lhe elle <i>Seta</i>, «muitos.»</p> - -<p>Replica o selvagem—<i>De Muruuichaue?</i> «Não és d’esse -numero? Não és um dos principaes?»</p> - -<p>Bem podeis pensar, que não ha ninguem, por mais mediocre, -que seja a sua condicção, que de si não diga bem, -e por isso responde o francez <i>Ché Muruuichaue</i> «sim, sou -um dos principaes.»</p> - -<p>Diz o selvagem <i>Teh Augeypo</i> «muito bem, estou muito -contente: basta, fallemos de outra coisa.» <i>Ereru patua? -Ereru de caramemo seta?</i> «Trouxestes muitas caixas e cestas, -cheias de mercadorias?»</p> - -<p>São as melhores noticias, que se lhes pode dar, para as -quaes tem sempre dispostos o animo e o coração, de sorte, -que tudo quanto dizem é somente como que um preambulo -para chegar a este ponto.</p> - -<p>Depois que o francez responde-lhe affirmativamente diz o -selvagem—<i>Mea porerut decarameno pupé?</i> «O que trouxestes -em vossas caixas e coffres de joias? que mercadorias?» -dizem elles com vóz doce e agradavel, pois são muito -curiosos de saber o que trazem comsigo os francezes.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_198"></a>[198]</span></p> - -<p>Deve estar prevenido o francez para não dizer e nem -mostrar o que elles desejam, afim de trasel-os sempre na -expectativa, si dos seos serviços quer aproveitar-se.</p> - -<p>Deve responder-lhe—<i>Y Katu paué</i> «trouxe tantas coisas, -cujos nomes nem mesmo sei, são bellas e magnificas.»</p> - -<p>Esta resposta é como agoa lançada na fornalha ardente -do ferreiro, a qual redobra o calor, e activa a chama, e assim -desperta a curiosidade do selvagem, até por meios adulatorios, -expressados por gestos, dizendo <i>Eimonbeu opap-Katu</i> -«eu te peço, não me occultes nada, dize-me.» <i>Yassoi-auok -de Karamemo assepiak demae</i>: «Abre-me tuas caixas, -teos cestos, deixa-me vêr tuas mercadorias, tuas riquezas.»</p> - -<p>Deve responder o francez <i>Aimosanen ressepiak</i> ou <i>Kayren -deué</i> «agora não posso, deixa-me descançar, logo te mostrarei:» -<i>Begoyé sepiak</i> «não duvides, um dia verás á tua vontade.»</p> - -<p>O selvagem entende o que isto quer dizer, e vendo que -perde seo tempo, diz a si mesmo, levantando os hombros, e -como que se lastimando—<i>Augé katut tegné</i>, «pois bem, esperarei.»</p> - -<p>Bem sei que não serei ouvido, porem, diz elle ao francez -<i>Dererupé xeapare amon?</i> «Não trouxestes muitas fouces -e machadinhos de cabo de ferro?»</p> - -<p><i>Dererupé urá sossea-mon?</i> «Trouxestes machados de cabo -de pau?» <i>Ererupé ytaxéamo?</i> «Não trouxestes facas d’aço?» -<i>Ererupé ytaapen?</i> «Trouxestes espadas d’aço?» <i>Ererupé tatau?</i> -«Trouxeste arcabuzes?» <i>Ererupé tatapuy seta?</i> «Trouxeste -muita polvora?»</p> - -<p>Responde o francez a tudo isto <i>Aru seta yagatupé giapareté</i> -«Sim, trouxe muita coisa boa e bonita.» Diz o selvagem -<i>Augé-y-pó</i> «Muito bem.»</p> - -<p><i>Ercipotar turumi? Ercipotar keré?</i> «queres dormir? queres -deitar-te?» Responde o francez <i>Pa che potar</i> «sim, quero -dormir, deixa-me.»</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_199"></a>[199]</span></p> - -<p>Da-lhe então o selvagem as boas tardes, ou boas noites, -dizendo—<i>Nein tyande karuk tyande petom</i> «boa tarde, boa -noite, descançae á vontade.»</p> - -<p>Deixemol-os em descanço, e passemos á segunda parte -d’esta historia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_200"></a>[200]</span></p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_201"></a>[201]</span></p> - -<p class="center larger">Continuação da historia das coisas mais memoraveis, -acontecidas no Maranhão em 1613 e 1614.</p> - -</div> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h2 class="nobreak" id="SEGUNDO_TRATADO">SEGUNDO TRATADO.</h2> - -<h3 id="II_CAPITULO_I">CAPITULO I</h3> - -<p class="subhead">Dos fructos do Evangelho, que appareceram cedo pelo -baptismo de muitos meninos.</p> - -</div> - -<p>O cantico segundo, (representando allegoricamente a origem -da Igreja, em terra nova, ainda não illuminada pelo -conhecimento do verdadeiro Deos) diz: <i>Vox turturis audita -est in terra nostra: ficus protulit grossos suos: vineæ florentes -dederunt odorem suum</i>: «foi ouvida a voz da rolla -em nossa terra: produzio a figueira seos figos verdes, e as -vinhas em florescencia derramaram seo aroma.»</p> - -<p>Interpretando estas palavras Rabbi Jonathas, diz em sua -Paraphrase chaldaica, que a vóz da rolla significa a vóz do -Espirito Santo annunciando a Redempção promettida a Abraham, -pae de todos os crentes: eis suas proprias palavras:—<i>Vox -spiritus sancti et redemptiones quam dixi Abrahæ Patri -vestro</i>: «a vóz do Espirito Santo e da Redempção, que -prometti a Abraham, vosso Pae.»</p> - -<p>Diz mais, que pela figueira deve entender-se a Igreja, e -que pelos figos novos se representa a confissão da fé, que -devem os crentes fazer diante de Deos, e finalmente que -pelas vinhas em flor exhalando bom cheiro são indicados os<span class="pagenum"><a id="Page_202"></a>[202]</span> -meninos louvando o Senhor dos seculos: <i>Cœtus Israel, qui -comparatus est precocibus ficubus aperuit os suum, et etiam -pueri et infantes laudaverunt Dominatorem sæculi</i>: -em nosso tempo vimos isto realisado em Maranhão, e suas -circumvisinhanças, onde depois que á vóz do Espirito Santo, -por meio da prédica do Evangelho, se fez ouvir n’estas terras, -e tocou o coração de muitos, especialmente dos que solicitaram -o baptismo, a bella figueira da Igreja produzio novos -figos, que são as almas sahidas de infidelidade para a -crença do verdadeiro Deos, e então as vinhas em florescencia -exhalaram seo cheiro quando em suas cabeças receberam -os meninos as agoas do baptismo, louvando o Senhor -dos Seculos pela parte que ja tomavam do sangue de Jesus -Christo e da fé da Igreja.</p> - -<p>Coisa admiravel, digna de ser bem pensada e considerada: -apenas a vóz do Evangelho trovejou, e fuzilou por essas -florestas desertas, por estas sarças, cheias de agudos espinhos, -esses pobres bichos (esses selvagens) presos nos laços -do cruel caçador Satanaz, começaram animados pela força e -impetuosidade d’essa vóz a construir seus pequenos templos, -como outr’ora tinha predicto o Propheta Rei David no -Psalmo 28. <i>Vox Domini præparantis Cervos, et revelabit -condensa et in templo ejus omnes dicent gloriam</i>: a vóz -do Senhor amançando os viados, descobrirá o interior das -brenhas e das sarças e no seo Templo todos entoarão louvores -á elle.</p> - -<p>Explicam os doutos, em varias licções, estas palavras dizendo -que á voz do Senhor parem os bichos seos filhos, á -similhança da mão da parteira ou do cirurgião habil, que -serve para tirar do ventre da mulher o menino sam e salvo.</p> - -<p>Esta voz não é outra, a darmos credito aos naturalistas, -senão o ribombo do trovão, e a luz do relampago, que por -um segredo muito intimo da naturesa faz com que param -as femeas dos animaes ferozes.</p> - -<p>O mesmo produz a prédica do Evangelho, animada e vivificada -pelo Espirito Santo, excitando o coração d’estes barbaros,<span class="pagenum"><a id="Page_203"></a>[203]</span> -ha muito tempo internados nas sarças e brenhas da -ignorancia, da infidelidade, e dos maos costumes.</p> - -<p>Nas <i>casas grandes</i> não se falla mais de outra coisa senão -do conhecimento de Deos, contando cada um o que ouvio -de nós quando veio visitar-nos, e terminando essas especies -de conferencias pela manifestação do grande desejo, -que tinham de vêr seos filhos baptisados e elles tambem, -por meio d’estas e outras palavras similhantes.</p> - -<p>Que coisas, diziam elles, são estas, que os Padres -nos contam por meio dos interpretes? Nunca as ouvimos -iguaes.</p> - -<p>Nossos paes, ja por tradicção nos contaram, que outr’ora -veio aqui um grande <i>Maratá de Tupan</i>,<a id="Nanchor_92" href="#Note_92" class="fnanchor">[92]</a> isto é, Apostolo -de Deos nas provincias, onde residiam, e lhes ensinou muitas -coisas de Deos: foi elle quem lhes mostrou a mandioca, -as raizes para fazer pão, porque antes só comiam nossos -paes raizes do matto.</p> - -<p>Vendo este <i>Maratá</i>, que nossos antepassados não faziam -caso do que dizia, resolveo deixal-os, mas antes quiz dar-lhes -um testemunho de sua vinda aqui, esculpindo n’uma -rocha uma especie de mesa, imagens, letras, á fórma de -seos pés, e dos seos companheiros, as patas dos animaes, -que trasiam, os furos dos cajados, a que se arrimavam em -viagem, o que feito passaram o mar, procurando outra -terra.</p> - -<p>Reconhecendo nossos paes sua falta, procuraram-no muito, -porem nunca d’elle tiveram noticias, e até hoje ainda não -veio visitar-nos algum <i>Maratá de Tupan</i>.</p> - -<p>Muito tempo ha, que frequentamos os francezes, e nenhum -d’elles nos trouxe padres, e nem nos contou o que por -seos interpretes nos dizem os padres.</p> - -<p>Por exemplo fazem viver de maneira diversa os <i>Caraibas</i>.</p> - -<p>Prohibem os francezes de tomarem nossas filhas, o que outr’ora -faziam com facilidade, dando-nos em troca algumas -mercadorias.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_204"></a>[204]</span></p> - -<p>Dizem grandes coisas de Deos, e á elle fallam em suas -Igrejas, e para isso fecham as portas, fazem-nos sahir para -que desça <i>Tupan</i> diante d’elles, e então si ajoelham todos -os <i>Caraibas</i>.</p> - -<p>Bebe e come <i>Tupan</i> em bellos vazos de oiro, e em mesa -bem preparada e ornada de bellos estofos, e bonitos pannos -de linho.</p> - -<p>Adornam-se com ricos vestuarios, e quando querem fallar -aos <i>Caraibas</i> assentam-se no meio d’elles, e somente falla -um Padre, que está assentado.</p> - -<p>Escutam-no todos os francezes, falla por muito tempo, -cança-se, ninguem o entende porem todos ahi estão firmes.</p> - -<p>Depois que este falla, cantam uns depois de outros, de -lado a lado, lêem n’um <i>Cotiare</i>, (n’um livro) o que cantam -e dizem elles que assim estão fallando á Deos.</p> - -<p>Julgam nossos paes perdidos com <i>Jeropary</i>, ardendo em -fogos subterraneos, e riem-se de nós quando choramos e -lamentamos nos funeraes de nossos parentes.</p> - -<p>Mandam atirar no matto a comida, a bebida, e o fogo, -que costumamos dar aos nossos parentes defunctos para fazer -a viagem até onde estão nossos avós nas montanhas -dos Andes.</p> - -<p>Elles nos dizem e prégam, que somos muito tollos em -dar credito aos nossos <i>barbeiros</i> e <i>feiticeiros</i>, especialmente -ao seo sopro para o curativo dos infermos.</p> - -<p>Fallam com altivez contra <i>Jeropary</i>, e não o temem de -fórma alguma.</p> - -<p>Promettem aos que crêem em <i>Tupan</i>, e que elles lavam -com suas mãos, de subir ao Céo por cima das estrellas, do -sol e da lua, onde está <i>Tupan</i> sentado, e em roda d’elle os -<i>Maratás</i>, e todos os que acreditam em suas palavras, e são -por elles lavados.</p> - -<p>Regeitam raparigas e mulheres, dizendo que o filho de -<i>Tupan</i> não as teve, sahindo do ventre de uma rapariga -chamada <i>Maria</i> com a qual nunca seo marido teve relações.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_205"></a>[205]</span></p> - -<p>Ha dias nos quaes não comem carne embora lh’a offereçam.</p> - -<p>Não se passam dez dias, contando pelos dedos, que não -mandem os Francezes vestirem-se com roupas bonitas, e -irem a casa de <i>Tupan</i> fallar com elles e escutar a palavra -de Deos.</p> - -<p>Vestem-se de maneira diversa dos outros francezes, caminham -diante d’elles, e todos os saudam. Convivem sempre -com os grandes, que lhes fazem tudo quanto querem, -e dizem até que abandonaram suas riquezas e fazendas para -mais livres conversarem com <i>Tupan</i>, e manifestarem a vontade -d’elle aos francezes.</p> - -<p>Quando vamos vel-os, nos acariciam, especialmente a nossos -filhos dizendo-nos, que já não nos pertencem e sim a -elles, sendo-lhes dados por <i>Tupan</i>.</p> - -<p>Que não nos penalizemos por isso, porque nunca nos -deixarão e nem nossos filhos: que elles são muitos em França, -que todos os annos virão outros, que depois de haverem -educado e ensinado nossos filhos, os farão fallar em -Deos tão familiarmente como elles o fazem: que lhes ensinarão -a <i>rotiarer</i> (a escrever) e a fazer fallar o <i>papere</i> (o -papel) mandado de muito longe aos que estão auzentes.</p> - -<p>Dizem-nos que seo Rei é poderoso, que os ama, e nos -ajudará em quanto elles estiverem comnosco. Ah! porque -não somos mais moços para vêr as grandes coisas, que farão -os Padres em nossas terras! Elles construirão com pedra -grandes Igrejas como ha em França.</p> - -<p>Trarão bellos estofos para ornar o lugar, onde desce <i>Tupan</i>. -Mandarão buscar <i>miengarres</i>, isto é, musicos cantores<a id="Nanchor_93" href="#Note_93" class="fnanchor">[93]</a> -para entoarem as grandezas de <i>Tupan</i>.</p> - -<p>Recolherão todos os nossos filhos n’um lugar, onde alguns -dos Padres cuidarão d’elles. Mandarão buscar de França mulheres -para ensinarem o que sabem á nossas filhas. Não nos -faltarão ferramentas para nossas roças. Ah! diziam alguns -d’elles em continuação, si chegarmos a vêr essas mulheres -em nossas terras, então temos certesa que não nos deixarão<span class="pagenum"><a id="Page_206"></a>[206]</span> -os francezes, e nem os Padres, especialmente si nos derem -mulheres de França. Si eu tivesse, disse um d’elles, uma -mulher franceza não queria outra, e faria tanta roça que -havia de chegar para sustentar tantas francezas, como de -dedos eu tenho nas mãos e nos pés, isto é, vinte, numero -infinido para significar muito, porque depois de terem chegado -a vinte, começam a contar de novo.</p> - -<p>Levantando-se então elle, que era o Principal no meio do -grupo, em que me achava, e batendo nas nadegas com -quanta força tinha, disse <i>Aça-uçu, Kugnan Karaibe, Aça-uçu -seta, &.</i> «Amo uma mulher francesa com todo o meu -coração, amo-a extremosamente.»</p> - -<p>Respondeo o <i>Cão grande</i>, tambem Principal—«prometteram-me -uma mulher francesa, que desposarei na mão dos -padres, e me farei christão como fiz meo filho Luiz-galante, -e quero ter em pouco tempo um filho legitimo. Minha primeira -mulher está velha, e por isso não precisa mais de -marido, e as outras oito, ainda moças, as darei por esposas -a meos parentes, e ficarei só com a mulher de França, e -minha velha mulher para nos servir.»</p> - -<p>Faziam outros iguaes discursos em suas <i>cazas grandes</i> e -na minha residencia, ou quando me viam passar, contentando-me -de referir apenas o que acima escrevi para mostrar -o fervor d’estes barbaros, suscitado pelo Divino Espirito -Santo.</p> - -<p><i>Vox turturis audita est in terra nostra</i>, para produzir de -seo seio fechado e preoccupado por mil infecções estes bellos -e amigaveis viadinhos, <i>vox Domini præparantis Cervos</i>, -e em outro logar <i>Cerva charissima e gratissimus hynnulus</i>, -cap. 5º dos <i>proverbios</i>, «a côrça muito estimada, e o templo -muito lindo.»</p> - -<p>Continuemos.</p> - -<p>A estas palavras seguio-se logo a pratica, porque foram -muitos meninos entregues ao Rvd. padre Arsenio, residente -em <i>Juniparan</i>, e a mim, morador em São Francisco, perto -do Fórte de São Luiz, para acudir aos francezes e receber os<span class="pagenum"><a id="Page_207"></a>[207]</span> -Indios de outras terras, que todos os dias nos vinham vêr -e conhecer, si era verdade o que de nós se dizia em longes -terras.</p> - -<p>Foi esta a divisão, que fizemos, de tantas e tão grandes -terras para cultivar e lavrar o que permittissem nossas forças, -cuidando um de uma parte e outro de outra, excepto -quando houvesse necessidade de sahir da Ilha, porque então -se tomariam providencias adequadas.</p> - -<p>Impossivel é á palavra o pintar o contentamento e a alegria, -que sentiamos vendo estes selvagens trazer-nos seos -filhos, voluntaria e expontaneamente, para serem baptisados, -preparando-os o melhor que podiam com os meios offerecidos -pelos francezes, isto é, vestidos com um pedaço de panno -de algodão, escolhendo padrinhos entre os francezes, contrahindo -assim com elles estreita alliança, especialmente com os -meninos baptisados, si estivessem em idade de o conhecerem, -porque então considerariam seos padrinhos como seos proprios -paes, chamando-lhes pelo nome de <i>cheru</i>, «meo pae» -e sendo pelos francezes chamados os rapazes <i>cheaire</i> «meo -filho,» e as meninas <i>cheagire</i> «minha filha»: vestiam-nos em -summa o melhor, que podiam, e os selvagens, paes dos meninos -baptisados, lhes offereciam todas as commodidades resultantes -de suas roças, de suas pescarias, e caçadas.</p> - -<p>Vendo assim estas cousas, lembrava-me do que diz o cap. -5º dos <i>canticos</i>. <i>Oculi ejus sicut cólombæ super rivulos -aquarum, quæ lactæ sunt lotæ, et resident juxta fluenta -plenissima</i>: «os olhos de Jesus Christo, esposo da Igreja, -parecem-se com os olhos da pomba, orvalhada de leite, que -contempla os regatos das fontes, e faz seo abrigo e morada -nos rochedos, que abrangem rios amplos e espaçosos.»</p> - -<p>Estes olhos de Jesus Christo são as graças do Espirito -Santo, que fazem quebrar seos ovos á maneira das tartarugas, -expostos á mercê das innundações do mar e da frialdade -da areia.</p> - -<p>Tem estes mesmos olhos por plano e fim lavar e purificar -as almas, especialmente as almasinhas rociadas de leite. Assim<span class="pagenum"><a id="Page_208"></a>[208]</span> -como a pomba branca brinca sobre os riachos, e habita -á margem dos grandes rios, assim tambem o Espirito Santo -folga e muito na conversão de uma terra nova, e encara -com bons olhos a sahida d’estas almasinhas do estado geral -d’estas terras barbaras, a saber, da ignorancia de Deos -para chegar a conhecel-o por meio das agoas do baptismo, -partecipantes, como nós, da visão de Deos, porque não fazem -accepção de ninguem, visto que estas almas barbaras lhe -custaram tanto como as nossas.</p> - -<p>Oh! preço infinito! oh! falta de caridade, que não tem -desculpa perante Deos, de se verem tantas almas pedindo -a salvação, sem embaraços e riscos, e em risco de se perderem -por não haver um pequeno auxilio.</p> - -<p>Bom Deos! todos nós acreditamos, e Jesus Christo confirma -esta crença, que uma só alma valle mais que todo o -resto do mundo, isto é, que todos os imperios, e reinados -da terra, que todas as riquezas e thesouros do homem: mais -ah! não temos difficuldade de pôr em execução nossas -crenças.</p> - -<p>Não posso deixar este assumpto sem primeiro declarar a -luta interior, que experimentei, para fazer vêr e descarregar -minha consciencia tanto quanto a julgo compromettida, -parecendo-me bastante para minha justificação e defesa o -que acabo de dizer.</p> - -<p>Li e notei em bons auctores, profundos e perspicases no -conhecimento dos segredos e mysterios da Escriptura, que -as pombas brancas orvalhadas de leite eram certas pombas, -que os Syrios creavam em honra e veneração de sua rainha -Semiramis, sendo prohibido matal-as sob pena de morte.</p> - -<p>Contam-nos os antigos ter-se esta rainha immortalisado -por um acto memoravel, entre seos altos feitos d’armas, o -mais milagroso quanto é possivel á grandesa dos reis, qual -a suspensão entre o Céo e a terra de seos jardins, pomares, -e bosques de recreio.</p> - -<p>Salomão procurou esta comparação entre as coisas profanas -para mostrar uma obra divina notavel entre as outras,<span class="pagenum"><a id="Page_209"></a>[209]</span> -qual a conversão das almas, inteiramente reservada ao poder -de Deos por ser uma segunda creação pela qual assim -como suspendeo a terra no ar, assim tambem suspenderá -jardins, pomares, e florestas de sua igreja com surpresa dos -calculos e juizos humanos, afim do dar lugar aos seos predestinados -e eleitos chamando-os quando lhes apraz, no meio -dos desertos, e do interior das mais vastas e densas florestas.</p> - -<p>Antes de ir adiante, não deixarei escapar a coincidencia -que se nota entre a grande Semiramis e Maria de França, -rainha christianissima.</p> - -<p>Semiramis rainha reinante e tutora do seu filho o rei d’Asyria -emprehendeo grandes coisas, em beneficio e sustentaculo -do imperio de seo filho.</p> - -<p>Igual caso se dá com a nossa rainha, e embora Semiramis -tenha em seo tempo feito muitas obras magnificas, -pelas quaes grangeou o amor e a obediencia de seos subditos -mais do que outra qualquer, sua antecessora, a immortalidade -de seo nome foi devida a seos edificios miraculosos.</p> - -<p>Com igual razão direi, que entre as heroicas acções da -rainha, mãe do rei, que levaram a posteridade seo nome -immortal, conta-se a missão dos padres capuchinhos ás terras -do Brasil para ahi plantar os jardins da igreja, começada -e fundada sob sua authoridade e ordem, e assim será o -Brasil obrigado a sustentar estas pombas brancas em memoria -e lembrança de tão grande Semiramis que tem tanta -piedade como poder para aperfeiçoar esta empresa.</p> - -<p>Ainda vos peço, que em nossas pequenas pombas rociadas -de leite deveis vêr os filhinhos dos selvagens conduzidos -ao gremio do christianismo pelo baptismo.</p> - -<p>Ha cinco annos, pouco mais ou menos, nem havia desejo -de se intentar a cathequese d’esta gente.</p> - -<p>O diabo ahi mandava com imperio, arrastava para si todas -estas almas sem pagar dizimo a Deos, porem presentemente, -em quanto durar e continuar a missão, com o auxilio<span class="pagenum"><a id="Page_210"></a>[210]</span> -de Deos ouvireis dizer quaes os grandes fructos, ja colhidos, -e outros que se colhem todos os dias.</p> - -<p>A nossa maior consolação, a que nos fazia soffrer as amarguras -e as difficuldades dos trabalhos, que ahi não nos faltavam, -era vêr a franqueza e boa vontade, com que os selvagens -nos apresentavam seos filhos para serem baptisados -dizendo então nós, em conversa com elles, que para nós -nada havia mais agradavel do que o trazerem elles seos filhos -á pia baptismal, e sempre que comnosco fallavam era -assumpto da conversa a manifestação de seos desejos por -verem seos filhos por nós baptisados.</p> - -<p>Poderia aqui reproduzir muitos exemplos para confirmar -esta verdade, mas como tenho de referil-os em lugar proprio, -deixo-os agora de mão.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_II">CAPITULO II</h3> - -<p class="subhead">Do baptismo de muitos infermos e velhos, que falleceram -depois de christãos.</p> - -</div> - -<p>Entre os mais bellos enigmas sagrados, que recita Job -no seo livro, está no Cap. XIV a parabola do loureiro dizendo. -<i>Si senuerit in terra radix ejus, et in pulvere mortuus -fuerit truncus illius, ad odorem aquæ germinabit, -et faciet comam quasi cùm primo plantatum est</i>: «Si a -raiz do loureiro se mergulha na terra, e seo tronco morrer -no pó, apenas sentir o cheiro da agoa germinará e produzirá -nova copa de folhas, como si fosse recentemente plantado.»</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_211"></a>[211]</span></p> - -<p>Os Setenta assim inverteram esta passagem: <i>Si in petra -mortuus fuerit truncus ejus, ab odore aquæ florebit, et -faciet messem, sicut nova plantata</i>: «si o tronco do Loureiro -morrer na pedra, com o cheiro d’agoa florescerá, e -como planta nova mostrará em breve sua copa.»</p> - -<p>Outra versão ha ainda mais bella: <i>Attracto humore -aquæo iterum germinat, exibet quæ fructus decerpendos, -ut plantæ solent</i> «o Loureiro morto chupando a agoa germina -de novo, e como as outras plantas offerece sazonados -fructos.»</p> - -<p>N’estes trez trechos descobrireis muitas coisas, que servem -litteralmente ao nosso fim.</p> - -<p>1.º A raiz do Loureiro dentro da terra.</p> - -<p>2.º Seo tronco morto no pó ou na pedra.</p> - -<p>3.º O cheiro d’agoa, que dá a vida perdida á raiz e ao -tronco fazendo produzir folhas, flores e fructos.</p> - -<p>O Loureiro representa as Nações infieis, conforme a ficção -dos antigos da nympha Daphné, a qual perseguida pelos -demonios com o nome de Appollo foi convertida em Loureiro.</p> - -<p>Sua raiz sepultada no pó ou na rocha representa longa -serie de annos, nos quaes estas Nações barbaras jazeram -entregues aos seos barbaros e inveterados costumes.</p> - -<p>O tronco ja morto representa o fim e terminação d’esta -ignorancia.</p> - -<p>Deos querendo presentemente visitar esta Nação escolheo -os enfermos, os velhos, os caducos e moribundos para fazel-os -renascer em Jesus Christo, levando as folhas verdes -da graça, as flores dos dons do Espirito Santo, e os fructos -dos meritos da paixão de Jesus Christo, e com isto tudo o -cheiro e o atractivo da agoa do baptismo.</p> - -<p>Sentiamos muito consolo quando baptisavamos os doentes -e os velhos, cuja morte era esperada com certeza, por -que receiavamos que por falta de soccorros, nos vissemos -obrigados a deixar e abandonar todos os meninos recentemente<span class="pagenum"><a id="Page_212"></a>[212]</span> -baptisados e os adultos, que constantemente si apresentavam.</p> - -<p>Tinhamos ao menos certeza, que baptisando os que se -achavam proximos da morte, abria-se o Paraizo, e perdia-se -a occasião que lhes faria perder talvez a graça obtida, ficando -sós e longe dos Ministros da Igreja para nutril-os na -graça recebida.</p> - -<p>Alem d’isto o baptismo d’estes velhos fazia muita impressão -no coração das testemunhas vendo a devoção, com que -ordinariamente recebiam o baptismo.</p> - -<p>Vou dar-vos alguns exemplos.</p> - -<p>Na ilha cahiram doentes duas raparigas, uma livre e outra -escrava, sendo aquella casada com um Tupinambá, muito -bom moço, o qual depois da morte de sua mulher, constantemente -nos perseguia para ser baptisado, aprendendo com -muito boa vontade a doutrina christã.</p> - -<p>Esta rapariga, proxima da morte, pedio que lhe dessem -o baptismo, confessando por palavras nascidas do coração a -verdade da nossa religião, mostrando por signaes exteriores -o toque do Espirito Santo no seo coração, banhando-se de -lagrymas de amor e de reconhecimento ao grande <i>Tupan</i>, -que lhe fazia tão assignalada graça de a ter feito nascer neste -seculo para tiral-a do meio de tantas almas perdidas de sua -nação e conceder-lhe o goso do paraizo.</p> - -<p>Fitava com attenção o Ceo, e com palavras doceis e tremulas -recitava o que sabia á respeito da crença de Deos, -repellindo para bem longe <i>Geropary</i> e seos antigos enganos.</p> - -<p>No meio d’este discurso, precursor da morte, lamentava a -condemnação de seos antepassados.</p> - -<p>Fazia exposições muito bellas a seo marido e o animava a -receber quanto antes a purificação de seos peccados.</p> - -<p>Devo dizer d’ella um facto muito particular, qual o de haver -conhecido um só homem, o seo marido, o que é não -pequeno milagre n’aquelle paiz, por causa do mau costume<span class="pagenum"><a id="Page_213"></a>[213]</span> -introdusido pelo diabo no coração das moças, de se honrarem -pela deshonra, e de não apreciarem a castidade ou a -virgindade.</p> - -<p>Bem vêdes por isto, que em todos os escolhidos de Deos -ha sempre alguma virtude natural, que provoque, não por -merecimento e sim pela occasião, a graça de Deos, que similhante -ao sol, com indifferença, está a entrar n’alma de -todos, si houver para isso disposição.</p> - -<p>A <i>Tapuia</i>, ou escrava, atacada por violenta febre, que a -atormentava muito, achava-se em sua rede só e por todos -abandonada, conforme o uso e costumes d’elles, que consideram -grande deshonra cuidar d’uma escrava quando está -a morrer, isto antes da nossa chegada a ilha, quando então -lhes mostrámos o quanto era desagradavel á Deos a crueldade -com que atiravam por terra o escravo moribundo e lhe quebravam -a cabeça como ja disse.</p> - -<p>Esta desgraçada mulher, prisioneira de Satan, e victima -das desgraças communs da natureza, que são as enfermidades -e as doçuras dolorosas e insuportaveis, sem pessoa alguma -junto de si foi então olhada com piedade, e visitada -por seo Creador, animando-a a pedir o baptismo. Oh! juiso -de Deos! Oh! providencia eterna!</p> - -<p>Quem poderá comprehender teos conselhos na vida do homem!</p> - -<p>Esta pobre creatura, dardejada vivamente no coração pelas -flechas das primeiras graças do seo senhor, não merecidas -por alguma obra boa anterior, que houvesse feito, lançava -suas vistas por todo o quarto procurando ver, si alguem -lhe apparecia para mandar chamar os Padres, afim -de ser lavada com as agoas do baptismo, e felizmente lhe -appareceu um francez, a quem expoz seos desejos, e veio -elle logo dizel-os ao padre, indicando a casa d’ella, que era -perto, e elle foi logo visital-a, instruil-a e baptisal-a.</p> - -<p>O francez, que cuidou d’ella, e o padre que a baptisou, -me contaram coisas admiraveis.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_214"></a>[214]</span></p> - -<p>Esta infeliz creatura quanto ao corpo, porem muito feliz -quanto á alma, principiou a experimentar os penhores do -Ceo, e o merecimento do sangue de Jesus Christo que recebeo -pelo baptismo. Tinha sempre os olhos fixos no Ceo, derramava -abundantes lagrymas, e dizia de momento a momento, -estas palavras—<i>Y Katu Tupan, ché arobiar Tupan</i>. Oh! -quanto Deos é bom! Oh! quanto Deos é bom! eu creio n’elle. -Depois por meio de signaes mostrava aos francezes, que -<i>Jiropary</i>, o diabo, andava ao redor de sua rede, e então -dizia <i>Ko Jiropary, Ko y pochu Jiropary</i>: «está ali o diabo, -atirai sobre elle a agoa de <i>Tupan</i>, isto é, agoa benta para -elle fugir.» Fazia-lhe o francez a vontade e dizia ella que o -diabo fugia a toda a pressa, e por isso constantemente pedia -ao francez que derramasse em roda d’ella e de sua rede -muita agoa benta o que fazia, bem como o padre quando -ahi se achava.</p> - -<p>Apenas lhe apparecia uma dor de cabeça, que muito a encommodava, -pedia para que lavassem a testa, as fontes e a -cabeça com agoa benta, com que alliviava muito, a ponto de -não sentir mais doença alguma: pouco depois entregou sua -alma ao Creador.</p> - -<p>Amortalharam e sepultaram seo corpo á maneira dos christãos: -aconteceo porem, que alguns malvados, filhos de <i>Giropary</i>, -que nunca foram descobertos, senão seriam punidos, -foram á noite desenterral-a, quebraram-lhe a cabeça e -roubaram o panno de algodão de sua mortalha: pela manhã -foi outra vez sepultada.</p> - -<p>Ninguem se admire d’isto, pois o diabo reserva sempre -para si alguns bons servos, mesmo nos reinos os mais bem -policiados, afim de executar suas mais detestaveis intenções.</p> - -<p>Sabeis sem duvida, que os <i>Tupinambás</i> aborrecem naturalmente -os que abrem as sepulturas dos mortos e não podem -por isso tolerar, que os francezes abram as covas, onde foram -enterrados seos parentes para lhes tirar os objectos, que -elles cheios de superstição ali deixam.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_215"></a>[215]</span></p> - -<p>Ahi estava a morrer um velho <i>Tabajare</i>, tão magro, que -os ossos lhe furavam a pelle, sem voz, e sem movimentos -na sua rede.</p> - -<p>Julgando-se mais proximo da morte do que da vida, inspirado -por Deos, pedio o baptismo.</p> - -<p>Fomos visital-o e cathequisal-o pedindo-lhe sua opinião a -respeito de todos os pontos e artigos, que lhe propuzemos.</p> - -<p>Com as mãos postas nos disse que acreditava no que lhe -diziamos.</p> - -<p>Demorando-nos nos artigos relativos á crença da Santissima -Trindade, da Incarnação, Morte, e Paixão do Filho de -Deos, do Baptismo, e do Mysterio da Santa Eucharistia, por -que estava proximo da morte, procuramos fazer-lhe entender -estas materias tão altas e profundas por comparações familiares, -a que prestou muita attenção, e dezejando com -todo o fervor o baptismo nós lhe promettemos, que no cazo -de ficar bom elle receberia as ceremonias do baptismo na -capella de S. Luiz, e aprenderia com gosto a doutrina christan, -que ensinavamos aos catecumenos antes de baptisal-os.</p> - -<p>Respondeo-nos, que não era tão longe a Capella de Sam -Luiz, que não podesse ser levado até lá afim de, antes de -morrer, ser baptisado, consolação que muito desejava afim -de ir direito para o Ceo.</p> - -<p>Vendo este fervor e devoção ficamos satisfeitos e concordamos -ser elle carregado n’uma rede até a igreja de Sam -Luiz, e ahi baptisado com toda a solemnidade.</p> - -<p>Alguns dias depois morreo tranquillamente.</p> - -<p>N’esse mesmo tempo cahio doente uma mulher <i>Tabajare</i>, -e tão gravemente, que todos julgavam-na em breve morta: -fomos vel-a e lhe offerecemos o baptismo que aceitou de -muito boa vontade, e com muita attenção escutava o que diziamos, -por intermedio dos interpretes, a respeito das glorias -do Paraizo, das penas do inferno, do que ella devia crer, -antes de receber o baptismo no caso de Deos lhe dar saude, -e que podesse aprender a religião christan, e então na igreja -receberia as ceremonias do baptismo, no que concordou e foi<span class="pagenum"><a id="Page_216"></a>[216]</span> -baptisada: recobrando sua saude, julgou do seu dever cumprir -sua palavra, embaraçando-a porem o facto de ser mulher -de um <i>Tabajare</i>, que tinha mais duas, não podendo -ella continuar a viver com elle casada segundo as leis do -christianismo.</p> - -<p>Removemos este obstaculo seguindo o conselho de Sam -Paulo: <i>si qua mulier fidelis habet virum infidelem et hic -consentit habitare cum illa, non dimitat virum etc quod si -infidelis discedit, discedat</i>: «si alguma mulher fiel estiver -casada com um homem infiel, e que este queira morar com -ella, ella que não o deixe, si o homem infiel a deixar, -ella o deixe tambem.»</p> - -<p>Em virtude d’isto fizemos saber a seo marido, que se quizesse -ter por unica esta mulher christan, deixando as outras, -que ella não o abandonaria, mas que si quizesse viver como -d’antes na qualidade de concubina, que nós e os grandes -dos francezes lhe afiançavamos, que elle seria despresado -como incompativel com o christianismo.</p> - -<p>A principio mostrou repugnancia porem afinal concordou, -vivendo como mulher christan e unica com seo marido.</p> - -<p>Faziamos o mesmo aos meninos pequenos, proximos á -morte, observando porem estas formalidades: pediamos o -consentimento dos paes e mães antes de baptisal-os, embora -não os deixassemos de baptisar, quando os viamos moribundos: -apesar de estarmos certos da boa vontade geral dos -selvagens de apresentarem seos filhos ao baptismo, nós lhes -prestavamos esta homenagem com o fim de attrahil-os á se -converterem.</p> - -<p>Não vem a proposito referir aqui alguns exemplos, porque -nada acho n’isto de extraordinario.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_217"></a>[217]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_III">CAPITULO III</h3> - -<p class="subhead">Do baptismo de muitos adultos, especialmente de um -chamado Martinho.</p> - -</div> - -<p>Antes de tratar d’esta materia, julgo necessario advertir -ao leitor, que no fim da obra do reverendo padre Claudio -achará alguma coisa d’esta e da seguinte historia, tudo extrahido -de uma de minhas cartas, que enviei de Maranhão, -á meos superiores, e como apenas esbocei-as, justo é que eu -as descreva minuciosamente.</p> - -<p>Estas sagradas agoas do baptismo não estagnaram na ilha, -pois atravessando a corrente forte e impetuosa do mar, sem -com elle misturar-se, passaram ás terras firmes de <i>Alcantara</i> -e <i>Comã</i>, que despertadas por seo doce sussurro acolheram -bem os espiritos d’aquelles, que Deos tinha escolhido -para si, e pelo bom gosto d’ellas procuraram indagar-lhes -a origem, maravilha, que não pode ser descripta como -merece, pois á força d’estas agoas venceo incomparavelmente -a actividade do azougue, chamando a si todos os pedaços -de oiro espalhados por diversos lugares, isto é, as almas -inspiradas por Deos em <i>Tapuitapera</i> e <i>Comã</i> vinham á -Maranhão onde tinha assentado seos alicerces a salvação d’este -paiz.</p> - -<p>Quem poderia dizer o grande numero de pessoas, que nos -vinham visitar para aprender alguma coisa dos mysterios da -nossa fé?</p> - -<p>Na verdade ninguem, mas para contentar o leitor e dar-lhe -alguma ideia direi, que não havia um só dia, em que -não recebesse novos visitadores e as vezes chegavam a 100 -e a 120: eis a razão porque não podia deixar facilmente o -Forte, e ir ás aldeias á meo cargo ministrar o pasto espiritual.</p> - -<p>Muitos d’estes selvagens de diversas idades se me apresentaram -pedindo o baptismo, o que eu difficultava, e somente<span class="pagenum"><a id="Page_218"></a>[218]</span> -concedia aos que julgava, por algum acto extraordinario, -enviados por Deos para tal fim.</p> - -<p>A razão porque apresentavamos essas difficuldades ja o -disse, por vir da incertesa do soccorro, e do temor em que -estavamos de baptisar todos os que nos pediam, e depois -deixal-os sem coadjutores, pelo que poderiam cahir em peior -estado do que se achavam anteriormente.</p> - -<p>Não deixavamos comtudo de trazel-os esperançados, e -aproveitavamos a occasião de instruil-os no conhecimento e -amor do Omnipotente até á vinda dos novos padres, que os -acharam promptos para satisfazer suas vontades.</p> - -<p>Entre os que foram inspirados vivamente pelo Espirito -Santo, e que por isso baptisamos havia um indio de <i>Tapuitapera</i>, -principal n’uma aldeia antiga d’esta provincia, chamada -<i>Marentin</i>, sempre grande amigo dos francezes, de -boa indole, modesto, de poucas fallas, olhos sempre voltados -para terra, tido outr’ora entre os seos por afamado barbeiro -ou feiticeiro, tendo n’elle muita fé os doentes.</p> - -<p>Contou-me elle e depois muitos outros, que era christão, -e quando exercia a sua arte de barbeiro era visitado por -muitos espiritos folgazões, que brincavam diante d’elle, -quando embrenhava-se nos mattos, tomando diversas cores, -sem lhes fazer mal algum antes até tornando-se seos intimos: -achavam-se porem na duvida si eram espiritos bons -ou maos: tal era a sua crença n’estes espiritos bons ou -maos.</p> - -<p>Conforme o costume tinha tres mulheres, antes de ser -christão.</p> - -<p>Aconteceo porem, que inexperadamente viesse com muitos -selvagens, seos similhantes, de <i>Tapuitapera</i> para vêr não -só a nós como tambem as ceremonias, com que serviamos -a <i>Tupan</i>.</p> - -<p>Achando-se no <i>Forte de S. Luiz</i>, vio na manhã do dia -seguinte (que era domingo) os francezes vestidos com suas -boas roupas, acompanhando seos chefes em caminho para a<span class="pagenum"><a id="Page_219"></a>[219]</span> -nossa casa de S. Francisco afim de ouvirem missa. Após -estes iam os selvagens, o que o animou a seguir o prestito, -especialmente pelo desejo e intenção, que tinham, ha muitos -annos de aproximar-se de nós.</p> - -<p>A Capella de Sam Francisco encheo-se logo de francezes, -de selvagens christãos, e não christãos, que tinham todos -especial devoção de receber em si algumas gottas de agoa -benta.</p> - -<p><i>Marentin</i>, observando a pressa de todos, alcançou como -poude o canto de uma porta, trepou-se n’um banco, que -ahi achou para ver á sua vontade tudo quanto eu fazia.</p> - -<p>Apenas pisei nos degraos do altar, voltei-me afim de saudar -a todos, e descobrindo este selvagem acudio ao meu espirito -a esperança de salval-o.</p> - -<p>Contou depois, como prestou attenção a todas as ceremonias, -que fiz na celebração do alto e profundo mysterio da -Missa, e desejou saber porque me revesti de alva branca, -liguei a cintura, deitei o manipulo no braço, e a estolla no -pescoço: aproximei-me á direita do altar, onde me apresentaram -um vaso com agoa e sal, sobre o qual pronunciei -algumas palavras fazendo muitos signaes da Cruz; levantaram-se -os francezes, me respondiam cantando, e tendo eu -um ramo de palma na mão o mergulhei n’agoa deitando -algumas gottas no altar, depois sobre mim, e levantando-me -fui aspergir os francezes começando pelos chefes e acabando -pelos que estavam na porta da Igreja, chegando tambem -para esse fim os selvagens não christãos, na convicção de -que lhes serviria contra <i>Jeropary</i>, desceo elle mesmo do -banco, rompeo a multidão para receber tambem algumas -gottas d’agoa benta, o que conseguio.</p> - -<p>Não gosou logo esta gotta de celeste orvalho, porque as -cantharidas peçonhentas e venenosas cahiram sobre as flores -de sua alma entre-abertas, porem as abelhas industriosas -de inspirações divinas vieram reunir ahi o doce mel -da raça christã, porque regressando ao seo lugar agachou-se -atraz dos outros, dormio, e durante o seo somno vio o<span class="pagenum"><a id="Page_220"></a>[220]</span> -Ceo aberto, e para elle irem subindo muitas pessoas vestidas -de branco, e atraz d’ellas muitos <i>Tupinambás</i> a medida, -que eram por nós baptisados.</p> - -<p>Disseram-lhe na visita que as pessoas vestidas de branco -eram <i>Caraybas</i>, isto é, francezes ou christãos,<a id="Nanchor_94" href="#Note_94" class="fnanchor">[94]</a> conhecedores -de Deos e do baptismo desde a mais remota antiguidade, -e que os selvagens, que os acompanham, eram lavados -por nós, e acreditam em Deos, em nossas palavras e de -nossas mãos recebiam o baptismo.</p> - -<p>Despertando, não disse palavra, porem ficou muito pensativo -e melancolico, e assim embarcou, e foi para a sua -terra.</p> - -<p>Chegando a sua casa todos o desconheceram, e lhe perguntaram -o que sentia, e si havia recebido alguma desfeita -dos francezes em <i>Yviret</i>.</p> - -<p>Sem dar resposta alguma de dia para dia mais se entristecia, -fugia da companhia de seos similhantes passeando só -em suas roças e bosques, onde foi accommettido por estes -espiritos loucos, cahindo depois tão gravemente doente a -ponto de chegar ás portas da morte, sempre afflicto pela -visão, que vira em <i>Yviret</i>, e pelos espiritos de que já -fallei.</p> - -<p>Finalmente ouvio uma voz interior dizendo-lhe que se quizesse -livrar-se de tál afflicção e molestia, e ir com Deos para -o Ceo convinha, antes de morrer, lavar-se com essa agoa, -que cahio n’elle quando esteve na casa de <i>Tupan</i> em -<i>Yviret</i>.</p> - -<p>Obedecendo a esta voz, em madrugada alta, mandou um -seo irmão ter comnosco, e pedir-nos por intermedio do chefe -dos francezes, cuja intervenção invocou, um pouco d’agoa de -<i>Tupan</i>, n’uma porção de algodão, guardada n’um <i>caramémo</i>,<a id="Nanchor_95" href="#Note_95" class="fnanchor">[95]</a> -afim de não se perder uma só gotta para lavar sua -cabeça, e ir assim lavado para o Ceo.</p> - -<p>Cumprio a ordem o enviado, dando seo recado ao Sr. de -Pezieux, bom catholico, que se admirou, bem como o Sr. de -Ravardiere e outros.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_221"></a>[221]</span></p> - -<p>O Sr. de Pezieux mandou-me este homem, com um interprete, -para me dizer o fim de sua vinda que muito me maravilhou -vendo n’um selvagem tão grande fé, misturada com -temor, respeito e humildade.</p> - -<p>Quiz ir logo ter com elle, porem não pude, porque, como -ja disse, de todas as partes vinham diariamente muitos selvagens -procurar-me, e nem foi possivel mandar-lhe o Rvd. -padre Arsenio porque estava occupado em outro logar, e -por isso mandei-lhe um francez proprio e capaz para fazer-lhe -companhia, cuidar na sua salvação e baptisal-o, sem ceremonia, -no caso de receio de morte.</p> - -<p>Chegando á sua casa o francez com o irmão de Marentin, -disse-lhe que eu não podia deixar a ilha, e nem o Forte de -Sam Luiz por causa dos muitos selvagens, que me vinham -procurar, mas que elle vinha em meo logar afim de o baptisar, -antes de morrer, no caso d’estar tão doente á ponto -de não poder ir á ilha para ser baptisado por nossas mãos.</p> - -<p>Ouvindo isto recobrou forças e actividade, e disse, «visto -que a coisa é assim, não quero ser baptisado por um <i>Caraiba</i>, -e sim pelas mãos dos padres,» e nem deixou de levantar-se -(embora doente e fraco a ponto de não poder estar -em pé senão com muito custo) na manhã seguinte, de -embarcar-se e vir procurar-me no <i>Forte</i>, expondo-me o seo -grande desejo de ser filho de Deos e baptisado, e de apagar -as visões, que tinha na cabeça.</p> - -<p>Respondi-lhe que era necessario aprender a doutrina christan -o mais cedo que podesse, deixando muitas mulheres, e -contentando-se apenas com uma.</p> - -<p>Eram estas as duas coisas, que, entre outras, exigiamos -dos adultos.</p> - -<p>Replicou-me, que em quanto a pluralidade de mulheres -foi coisa, que nunca approvou, e que achava de razão um -homem ter uma mulher só, mas que em beneficio de sua -casa necessitava de muitas.</p> - -<p>Disse-lhe que podia ter muitas mulheres como servas, e -não como esposas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_222"></a>[222]</span></p> - -<p>Concordou n’isto facilmente, e cheio de bons desejos em -poucos dias aprendeo a doutrina christan e pedio-me, que -eu o instruisse, antes de ser baptisado, das ceremonias que -com tanta attenção vio no primeiro dia, em que foi tocado -pelo espirito de Deos.</p> - -<p>Disse-lhe que Tupan era um grande Senhor, sempre comnosco -embora não seja visto, devendo ser servido com profunda -reverencia, com ornatos e vestidos diversos do ordinario.</p> - -<p>Expliquei-lhe que o primeiro vestido branco, que me vio -tomar, significava tres coisas: 1.º a innocencia e puresa, -com que deviamos apparecer diante d’elle; 2.ª o vestido de -sua humanidade, proveniente do sangue de uma virgem, de -quem fallava com os homens: 3.ª para representar o vestido -de zombaria, que lhe deram seos inimigos quando quiz -por nós soffrer, ameaçando-lhe de o fazer padecer o que quizessem, -embora tivesse elle o poder de impedil-os em suas -intenções.</p> - -<p>Disse-lhe, que a corda com que apertei a cintura, e essas -tiras de seda, que puz no braço e no pescoço representavam -os ornamentos, que deviamos dar á nossa alma para -ser agradavel a Deos: a corda quer dizer—continencia de -mulheres, a tira do braço—o bem, que devemos fazer ao -proximo, e a do pescoço, onde é costume trazer-se collares -e aderesses,—o amor e a perseverança na nossa profissão, -que tudo isto junto faz lembrar as cordas com que foi preso -o Salvador.</p> - -<p>O outro vestido de seda, que puz por cima de tudo isto, -mostra o zelo ou a salvação das almas, que devemos procurar, -não nos contentando só de ir para o Ceo, mas fazendo -tudo quanto pudermos para que nos acompanhem nossos -similhantes.</p> - -<p>Significa tambem o segundo vestido a vestimenta de zombaria, -que foi dado a Nosso Senhor em sua Paixão.</p> - -<p>A respeito da agoa e do sal, sobre que pronunciei algumas -palavras, expliquei-lhe que eu o fiz para dar a agoa o<span class="pagenum"><a id="Page_223"></a>[223]</span> -poder, da parte de Deos, de expellir o diabo do lugar e -das pessoas, em que estivesse, e que a aspersão, que eu -fazia com a palma sobre os francezes era para expellir o -diabo, que andava ao redor d’elles, e que o canto, que -elles entoavam em quanto eu lhes lançava agoa benta, era -uma supplica a Deos para purifical-os de seos peccados.</p> - -<p>Perfeitamente instruido de todas estas coisas, concordamos -baptisal-o no dia da festa da Santissima Trindade.</p> - -<p>Para seo padrinho escolheo o Sr. de Pezieux, e no dia -aprazado vestiram-no com uma roupa de algodão bem alvo -em respeitosa homenagem ao Sacramento, que ia receber, -isto é, a innocencia e candura baptismal conferida sob a -invocação das tres pessoas da Santissima Trindade.</p> - -<p>Grande numero de selvagens, principalmente de <i>Tapuitapera</i>, -assistiram a este baptismo, o que lhes fez grande impressão -no espirito, vendo este homem, seo similhante, respeitado -por elles tanto por suas antigas feitiçarias, como por -sua autoridade e idade, receber, como si fosse menino, sobre -sua cabeça a agoa de Jesus Christo.</p> - -<p>Querendo aproveitar tão boa occasião pedi aos francezes -que abrissem caminho para que de mim se aproximassem -os primeiros e os principaes selvagens, que ahi se -achassem, aos quaes dirigi a palavra por meio do interprete.</p> - -<p>«Todos os dias, meos amigos, vedes em vossa terra os -passaros seguirem uns aos outros, de forma que quando uns -levantam o vôo, todos os outros os acompanham.</p> - -<p>«Sabeis tambem que os javalys caminham em grande companhia, -sem que um só delles se desvie dos passos dos primeiros.</p> - -<p>«Por experiencia conheceis que os <i>Paratins</i>, isto é, os -peixes chamados—sargos—no mar andam sempre em grandes -bandos seguindo seos conductores, de tal fórma que -vindo os primeiros ao encontro de vossas canôas, quando -ides pescar, imitam-nos os outros cahindo dentro dellas e assim -apanhaes vós grande quantidade d’esses peixes.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_224"></a>[224]</span></p> - -<p>«O que é isto? O exemplo dos similhantes. A naturesa -implantou em tódas as creaturas vivas e intelligentes o desejo -d’imitação de coisas similhantes, conforme as differentes -especies.</p> - -<p>«Observae agora este homem vosso similhante e principal, -que si fez filho de Deos.</p> - -<p>«Bem sei que trazei-nos vossos filhos, porem pensam alguns -de vós que não são capazes, por velhos, de receberem -o baptismo: é um engano, porque, como vossos filhos, podeis -ser baptisados, e ir para o Ceo. Vêde diante de nós -este homem que vou baptisar, que me prometteo de ensinar -os que o quizessem ouvir. Abri os ouvidos para ouvil-o.»</p> - -<p>Dito isto, mandei ajoelhar-se nos degraus do altar, e recitar -em vóz alta e clara na sua lingua, e de mãos postas a -doutrina christã, que para diante será encontrada em lugar -proprio.</p> - -<p>Comecei depois as ceremonias do baptismo, observadas -com muita attenção por todos os selvagens, recebendo o -nome de Martim Francisco, lembrado por seo padrinho por -tal ou qual semelhança com o seo antigo nome de <i>Marentin</i>, -fazendo assim geralmente conhecido pelos selvagens tal -conversão.</p> - -<p>Acabado isto, mandei-o sentar junto de seo Padrinho, e -comecei a celebração da missa, que ouvio com toda a devoção, -de mãos postas, e na occasião de levantar-se a -Hostia ajoelhou-se, como os outros, recitou a oração dominical -e o credo em quanto vio os francezes tambem de -joelhos.</p> - -<p>Passados alguns dias quiz regressar á sua aldeia, tendo -alcançado a saude do corpo e da alma, e despedindo de -nossos chefes e de mim, nós o mimoseamos com rosarios, -imagens, <i>Agnus Dei</i> e bentinhos.</p> - -<p>Recommendamos muito, que depois de orar a Deos, resasse -tambem para a Virgem Maria, Mãe de Jesus Christo, -recitando em sua lingua <i>Ave Maria</i> tantas vezes quantas<span class="pagenum"><a id="Page_225"></a>[225]</span> -fossem as contas do seo rosario, e a oração dominical tantas -quantas fossem as contas grandes.</p> - -<p>Tomou tal devoção com a Santissima Mãe de Deos que -trazia sempre ao pescoço o seo rosario, que beijava muitas -vezes, e quando queria orar a Deos elle o tirava e fazia o -que lhe ensinamos.</p> - -<p>Antes de partir disse-me que só tinha um filho, que me -traria no seo regresso para eu vel-o, e quando estivesse -instruido na doutrina christã, eu o baptisaria e elle o daria -aos Padres para ficar sempre com elles.</p> - -<p>Prometteo igualmente escolher uma das suas tres mulheres, -com certesa a mãe do seo filho, si ella quizesse ser -christã como elle, conservando as outras como servas.</p> - -<p>Bem compromettido com estas promessas, embarcou para -<i>Tapuitapera</i> em procura de sua aldeia e de sua casa.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_IV">CAPITULO IV</h3> - -<p class="subhead">Do que fez este christão em beneficio da instrucção -e conversão dos seos similhantes.</p> - -</div> - -<p>Nada ha mais bravio e mais difficil para domesticar-se do -que a phanthéra, ainda mais por ser de naturesa furiosa -para com os animaes das florestas, que ella ataca e despedaça -no primeiro encontro.</p> - -<p>Ao contrario, quando se sente grávida, torna-se mais favoravel, -exhala bom cheiro pelos poros do seo corpo, e muda -sua voz de cruel para branda, como que convidando os -outros animaes a seguil-a, o que fazem.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_226"></a>[226]</span></p> - -<p>A nação dos <i>Tupinambás</i> era uma verdadeira panthéra, -cruel como nenhuma, segundo mostra o seo procedimento -devorando seos inimigos. Apenas appareceo a graça sobre -estas terras, mudaram em doçura sua crueldade; seos discursos -desesperados em salutares; seos cheiros putridos, -provenientes de seus fumeiros em outros agradaveis, approximando-se -aos de Jesus Christo, transbordando de amor -para com o proximo, desejando-lhe fazer o mesmo que elles -receberam, inspirados pela concepção espiritual das graças -de Deos no fundo de sua alma, como se lê nos <i>Canticos</i> I. -<i>Oleum effusum nomen tuum, idéo adolescentulæ dilexerunt -te nimis</i>: e pouco depois, <i>Trahe me post te, curremus -in odorem unguentorum tuorum</i>: «teo nome, ó -Salvador do Mundo, e o teo conhecimento é um balsamo -derramado, por cuja influencia e cheiro sentem-se as novas -almas cheias de teo amor, e todas se dedicam a adquerir-te.»</p> - -<p>Martinho Francisco entre os outros selvagens executou -esta doutrina, porque apenas chegou a aldeia principiou a -fallar a seos visinhos, e d’ahi caminhando para outras aldeias -da provincia de <i>Tapuitapéra</i>, sempre das grandezas -de Deos e das graças que elle recebeo. Apresentava sempre -aos olhos dos selvagens a desgraça dos seos antepassados, -que tinham fallecido nas crenças de <i>Jeropary</i>, e a felicidade, -que gozavam os que se baptisavam e se faziam filhos de -Deos.</p> - -<p>Taes conversas produziram effeito, muitos procuraram a -fonte de salvação para n’ella beber, e sugar o leite do peito -de Jesus-Christo, como elle o fez e se conta do Unicorne, -que procurando as agoas, distantes do veneno, por acaso foi -tocado até o coração pela suavidade do canto de uma joven -donzella<a id="Nanchor_96" href="#Note_96" class="fnanchor">[96]</a> deitada sob os ramos floridos das arvores da floresta, -o que livrou este animal de sua furia natural e o aproximou -do peito d’aquella que o commoveo.</p> - -<p>O Unicorne, grato e não avaro do bem recebido, desejoso -de que seos similhantes tambem o partilhem, vae procural-os<span class="pagenum"><a id="Page_227"></a>[227]</span> -no centro dos bosques, e por todas as sortes e gestos -convidam-nos a seguil-o afim de tomarem parte na sua felicidade.</p> - -<p>A joven donzella representa a esposa de Jesus Christo, a -santa igreja, seo canto harmonioso a prédica do Evangelho, -seo peito, onde são acolhidos os proprios animaes irracionaes, -a misericordia divina com todo o seo poder, as agoas -sem veneno, os sagrados sacramentos, o feroz Unicorne, os -infieis, e Martinho Francisco, por seos discursos e exemplos, -foi a primeira acquisição, seguida de muitas outras.</p> - -<p>Não se tinham passados seis mezes, e ja se experimentavam -grandes effeitos, porque tendo elle convertido e instruido -muitos habitantes de <i>Tapuitapéra</i> de todas as idades, -mandou-nos os mais instruidos e intelligentes ao Forte -de Sam Luiz para serem baptisados, o que fez, depois de os -reter comigo por algum tempo para experimental-os em -seos desejos.</p> - -<p>Augmentando-se diariamente o numero dos catecumenos -em <i>Tapuitapéra</i> foi necessario ahi ir o Rvd. padre Arsenio -para baptisar muitos d’elles, dignos d’essa graça tanto pelo -seo desejo, como pela sua instrucção christã.</p> - -<p>Tinha Martinho edificado uma Capella, e junto d’ella uma -casa, no meio de sua aldeia, com o auxilio dos outros christãos -e selvagens ahi residentes.</p> - -<p>Benzeo o padre a Capella, e tomou conta da casa, onde -foi vesitado e sustentado em quanto ahi esteve, por christãos -e selvagens.</p> - -<p>Depois que baptisou os que para isso julgou aptos, foi -vêr algumas aldeias da provincia, e o seo principal soberano, -e por toda a parte foi muito bem acolhido, manifestando -todos em geral o desejo de serem christãos, e de terem padres -em suas aldeias.</p> - -<p>Alcançou o bom homem Martinho Francisco nome honroso, -dado pelos habitantes de <i>Tapuitapéra</i> em recompensa -de seos trabalhos e fadigas para fazel-os christãos por ter<span class="pagenum"><a id="Page_228"></a>[228]</span> -sido entre elles o primeiro christão, e por saberem quanto -nós o estimavamos.</p> - -<p>Chamaram-no <i>Pai-miry</i>, «Padre pequeno ou o vigario dos -Padres,» e na verdade bem merecia tal nome, porque desde -que se fez christão nunca mais se descobrio n’elle vestigios -do antigo homem, ou os máos costumes dos selvagens. Era -grave, modesto, pouco fallador e raras vezes ria-se, e nada -fazia que parecesse ser contrario ao christianismo.</p> - -<p>Era este o regimen de vida que observava, e como mais -velho fazia observar aos outros christãos:</p> - -<p>1.º Pela manhã e á tarde reuniam-se todos na Capella: -levantava-se um d’elles, ajoelhavam-se outros, e depois dizia -um em seo idioma «<i>em nome do Pai, do Filho, e do -Espirito Santo</i>» e fazia o signal da Cruz, na testa, na bocca -e nos peitos, no que era pelos outros imitado: punha depois -as mãos, fixava a vista no altar, e recitava pausada e distinctamente -a oração dominical, o symbolo dos Apostolos, os -mandamentos de Deos e da Igreja, o que findo, si tinha alguma -advertencia a fazer aproveitava a occasião, sinão, recolhia-se -cada um á sua casa.</p> - -<p>2.º Viviam em commum quando se achavam juntos, e -para isso traziam o resultado de suas pescarias e caçadas -para serem igualmente dividido entre elles, e antes de comerem, -o mais velho recitava em sua linguagem o <i>Benedicite</i>, -fazendo o signal da Cruz sobre si, e sobre as iguarias: -tiravam todos o chapeo, faziam em si o mesmo signal e ninguem -tocava na comida antes de abençoada.</p> - -<p>Em quanto comiam não contavam coisas más ou que excitasse -o riso, como fazem os Tupinambás; porem o mais -velho dizia alguma coisa á respeito de Deos e da Religião.</p> - -<p>3.º Nunca iam aos <i>cauins</i> e reuniões, conforme costumavam -os <i>Tupinambás</i>: era um dos pontos principaes, que -Martinho Francisco gravava no coração dos convertidos, isto -é, que os <i>cauins</i> eram inventados por <i>Jeropary</i> para semeiar -a discordia entre elles, e fazer com que praticassem<span class="pagenum"><a id="Page_229"></a>[229]</span> -toda a especie de males os que os frequentassem, sendo impossivel -amar a Deos quem gostasse de <i>cauins</i>, porque, dizia -elle, quando descubro, que alguns dos meos similhantes -se retiram das <i>cauinagens</i>, agouro que bem depressa serão -christãos e vou procural-os; mas não tenho animo para -fazer o mesmo aos que frequentam taes orgias.</p> - -<p>O que elle dizia era verdade por ser horrivel espectaculo -vêr essas gentes em reuniões, parecendo antes congresso -nocturno de feiticeiros do que ajuntamento de homens.</p> - -<p>Achei-me apenas uma só vez n’estas reuniões para d’ellas -poder fallar, e nunca mais lá tornei.</p> - -<p>Via aqui uns deitados em suas redes vomitando com muita -força, outro caminhando ou marchando em diversos sentidos -com o juiso perdido pelo vinho, ali outros gritando, fazendo -mil tregeitos, estes dançando ao som do <i>maracá</i>, aquelles -bebendo com muito boa vontade, aquell’outros fumando para -mais se embriagarem, e o que ainda é peior, é estarem mulheres -e moças ahi misturadas parecendo bem difficil a presença -de Bacho sem Venus.</p> - -<p>Por minha vontade os francezes deviam fazer o que fizeram -os portuguezes, isto é, prohibir todas estas <i>cauinagens</i>: -os portuguezes, depois que habitaram algum tempo na India, -reconheceram, que um dos maiores embaraços para a propagação -do christianismo eram essas reuniões diabolicas, de -que procedem todas as discordias e desgraças entre os selvagens.</p> - -<p>4.º Vestem-se estes novos christãos o melhor que podem, -caminham todos juntos, não trazem flechas e nem arcos, -excepto quando vão á caça ou a pesca, contentando-se -em trazer um cacete de uma especie de ebano, negro ou -vermelho, com que se distinguem facilmente dos outros.</p> - -<p>Quando vão a outras aldeias, si encontram algum christão, -recolhem-se á casa d’elle, contentam-se com o que tem -e vivem sóbriamente como tanto convem a um christão.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_230"></a>[230]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_V">CAPITULO V</h3> - -<p class="subhead">De um Indio, condemnado á morte, que pedio o -baptismo antes de morrer.</p> - -</div> - -<p>Não se acreditaria, si a experiencia não o tivesse confirmado, -que vendo-se simplesmente por fora a concha de uma -ostra marinha coberta e suja de lama e lodo, que ella em -si ja tivesse uma perola preciosa digna de ser collocada no -gabinete dos principes.</p> - -<p>Quem poderá crer, que um selvagem iniquo, impuro, e -immundo, como não posso dizer, embora creia que o proprio -diabo, author de taes traças, se envergonhe d’isto, não -tenha inimisade e soberba contra o soberano, que o tira -d’isto?</p> - -<p>Quem poderá, digo eu, crer, que tal individuo, por determinação -da divina Providencia, fosse escolhido para o reino -do Ceo, e tirado d’esses abysmos infernaes, para receber (na -hora da morte, bem merecidas por suas torpezas) o sagrado -baptismo, que o lava de todas as máculas, e lhe proporciona -facil e franca entrada no Paraiso?</p> - -<p>Um pobre indio, bruto, mais cavallo do que homem, fugio -para o matto por ouvir dizer, que os francezes o procuravam -e aos seos similhantes para matal-os e purificar a terra de -suas maldades por meio da santidade do Evangelho, da candura, -da puresa, e da claresa da Religião Catholica Apostolica -Romana.</p> - -<p>Apenas foi apanhado amarraram-no, e trouxeram-no com -segurança ao Forte de Sam Luiz, onde deitaram-lhe ferros -aos pés: vigiaram-no bem até que chegassem os principaes -de outras aldeias para assistirem ao seo processo, e proferirem -sua sentença, como fizeram a final.</p> - -<p>Não esperou o prisioneiro pelo principio do processo, e -elle mesmo sentenciou-se, porque diante de todos disse, «vou -morrer, e bem o mereço, porem desejo que igual fim tenham -os meos cumplices.»</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_231"></a>[231]</span></p> - -<p>Terminado o processo e proferida a sentença, cuidou-se em -sua alma dizendo-se-lhe, que si elle recebesse o baptismo, -apesar de sua má vida passada, iria direito para o Ceo apenas -sua alma se desprendesse do corpo.</p> - -<p>Acreditou nossas palavras, e pedio o baptismo: para tal -fim veio o Sr. de Pezieux procurar-me em nossa casa de S. -Francisco em Maranhão, e conversando si devia ser eu quem -o baptisasse, resolvemos negativamente pelas seguintes razões:</p> - -<p>Pensavam os selvagens que nós outros padres eram pessoas -misericordiosas e compassivas, que expontaneamente -empregavamos nossos esforços perante os grandes para alcançar -a vida dos condemnados: que os grandes nos estimavam, -e nada nos negavam, e que, alem d’isto, nós prégavamos, -que Deos não queria a morte e sim a vida do peccador, -e que por isso tinhamos vindo aqui para dar essa -vida de forma que, si eu o baptisasse publicamente, antes -d’elle morrer, teria satisfeito muitos caprichos d’estes espiritos -debeis e incapazes a respeito da opinião, que formavam -de nós e que seria muito prejudicial a nossas intenções -dando alem d’isso causa a varias murmurações dos selvagens, -que diziam—«si os padres gostam da vida, porque -deixam este christão ir morrer? Si amam tanto os christãos -porque não amam este? Si os grandes nada lhes negam, -porque não pedem a vida d’este?»</p> - -<p>Por tudo isto, e por outras razões, que omitto, decidimos -ser conveniente e necessario, que eu não o baptisasse. -Roguei pois ao dito senhor que, depois de instruil-o pelos -interpretes, o baptisasse antes de ir ao supplicio, sem as ceremonias -da igreja o que se prestou e cumprio.</p> - -<p>Recebeo, com tranquilidade e sem tristeza, na presença -dos principaes selvagens o baptismo, depois do que um dos -Principaes, chamado <i>Karuatapiran</i> «Cardo vermelho,» de -quem ainda fallarei, lhe disse estas palavras:</p> - -<p>«Tens agora occasião de estares consolado e de não te -affligires, pois presentemente és filho de Deos pelo baptismo,<span class="pagenum"><a id="Page_232"></a>[232]</span> -que recebeste da mão de <i>Tatu-uaçu</i> (nome do Sr. de Pezieux -em sua lingua) com permissão dos Padres. Morres por -teos crimes, approvamos tua morte, e eu mesmo quero pôr -o fogo na peça para que saibam e vejam os francezes, que -detestamos tuas maldades; mas repara na bondade de Deos -e dos Padres para comtigo, expellindo Jeropary para longe -de ti por meio do baptismo de maneira que apenas tua -alma sahir do corpo vae direita para o Ceo vêr <i>Tupan</i> e -viver com os <i>Caraibas</i>, que o cercam: quando <i>Tupan</i> mandar -alguem tomar teo corpo, si quizeres ter no Ceo os cabellos -compridos e o corpo de mulher antes do que o de -um homem, pede a <i>Tupan</i>, que te dê o corpo de mulher -e resuscitarás mulher, e lá no Ceo ficarás ao lado das mulheres -e não dos homens.»</p> - -<p>Desculpareis este pobre selvagem, não christão e nem cathecumeno, -fallando da Resurreição. Elle nos ouvio ensinar -que n’um dia resuscitariam todos os homens, regressando -cada alma do lugar em que estava para occupar o seo corpo, -acrescentando o que pensou ser indifferente á Resurreição, -isto é, que uma alma recebe um corpo de homem -ou de mulher, no que se enganou não se deixando em pé -tal ideia falsa, pois elle e o paciente foram instruidos da -verdade: julguei acertado referir aqui simplesmente o que -se passou para que o leitor reconheça sempre quanto sou -fiel em minhas descripções, como ja disse, e provarei sempre -nos discursos, que ainda hei de transcrever.</p> - -<p>Este infeliz condemnado recebeo as consolações de muito -boa vontade, e antes de caminhar para o supplicio disse aos -que o acompanhavam: «vou morrer, não mais os verei, não -tenho mais medo de <i>Jeropary</i> pois sou filho de Deos, não -tenho que prover-me de fogo, de farinha, de agoa, e nem -de ferramenta alguma para viajar alem das montanhas, -onde cuidaes que estão dançando vossos paes. Dae-me porem -um pouco de <i>Petum</i> para que eu morra alegremente, -com voz e sem medo.»</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_233"></a>[233]</span></p> - -<p>Deram-lhe o que elle pedio, á similhança dos que vão -ser justiçados, aos quaes tambem se dá pão e vinho, costume -não d’agora, e sim desde a mais remota antiguidade, -pois então se offerecia aos criminosos vinho com myrrha e -opio para provocar o somno dos pacientes.</p> - -<p>Feito isto, levaram-no para junto da peça montada -na muralha do Forte de S. Luiz, junto ao mar, amarraram-no -pela cintura á bocca da peça, e o <i>Cardo vermelho</i> -lançou fogo á escorva, em presença de todos os -Principaes, dos selvagens e dos francezes, e immediatamente -a bala dividio o corpo em duas porções, cahindo -uma ao pé da muralha, e outra no mar, onde nunca mais -foi encontrada.</p> - -<p>Quanto a sua alma, é de crer que os anjos a levassem -ao Ceo, pois morreo logo depois de haver recebido -as agoas do baptismo, certesa infallivel da salvação d’aquelles, -a quem Deos concedeo tal graça, não pequena -e nem commum, porem tão rara como o arrependimento -do bom ladrão na Cruz, que tendo vivido sempre desregradamente -até chegar áquelle logar, recebeo comtudo -esta promessa de Jesus Christo—<i>Hodie mecum eris in -Paradiso</i>, «hoje estarás commigo no Paraiso»: outro tanto -podemos dizer d’esse infeliz e desgraçado indio, que nos -deo tão bella occasião d’admirar e de adorar os juizos de -Deos.</p> - -<p><i>Karuatapiran</i>, o algoz, com gestos e palavras mostrava -grande contentamento e alegria perante os francezes -por haver recebido tal honra, que apreciava muito -mais do que as que sua Nação cheia de abusos dá aos que -publicamente matam os prisioneiros, sendo essas consideradas -as maiores existentes entre elles, e um favor não -pequeno aos mancebos, quando escolhidos para tal fim, -pois é uma especie de accesso de grandeza para ser um -dia Principal.</p> - -<p>Por tudo isto o grande <i>Karuatapiran</i> exaltava-se d’este -seo feito e d’elle se servia para se fazer timido dizendo<span class="pagenum"><a id="Page_234"></a>[234]</span> -por todas as aldeias por onde andava, o que tinha feito, -asseverando ser irmão dos francezes, seo defensor e exterminador -dos maus e dos rebeldes.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_VI">CAPITULO VI</h3> - -<p class="subhead">Formulario dos discursos, que faziamos aos selvagens, -quando nos vinham vêr, para chamal-os -ao conhecimento de Deos e á obediencia -de nosso Rei.</p> - -</div> - -<p>O meio pelo qual outr’ora os Athenienses chamavam os -povos ao conhecimento da Philosophia, e á obediencia de -uma Republica, era representado pelo simulacro do seo -<i>Palladium</i>, que fingiam ser trazido do Ceo, e por elles collocado -no lugar mais alto de sua cidade.</p> - -<p>Tal era o idolo de Pallas, armado dos pés até a cabeça, -correndo de sua bocca raios de mel, que cahiam sobre seos -ouvintes e expectadores, produzindo-lhes doce somno.</p> - -<p>Ensinaram os Druidas a mesma coisa aos Gaulezes levantando -a estatua de Hercules no frontespicio de seos Templos, -tendo na sua cabeça a cabeça de um leão, e nas espaduas -a clava de suas victorias, sahindo de sua bocca uma -especie de hera, porem de oiro, que prendia pelas orelhas -homens e mulheres, moços e velhos afim de attrahil-os a -si.</p> - -<p>Com isto queriam os Athenienses e os Gaulezes dizer, -que os homens são attrahidos pela doçura e pela razão á -obediencia das leis divinas e humanas, na qual se conservam<span class="pagenum"><a id="Page_235"></a>[235]</span> -por meio das armas, sustentadas pelos soberanos para -a conservação dos seos vassallos.</p> - -<p>O primeiro d’estes dois fins nos pertencia desde que Sua -Magestade e os nossos Padres nos remetteram para cá á fim -de chamarmos ao conhecimento de Deos estas pobres almas -selvagens, que, antes de começarmos a cathequisal-as, reconhecemol-as -anciosas por doçura, e por isso combinamos -pautar por ella nossas palavras e acções, com que sempre -nos démos muito bem.</p> - -<p>Já tinha lido no cantico primeiro, que entre os ornamentos -dados por Jesus Christo á sua Igreja, a mansidão e a -clemencia para com os peccadores e infieis era um dos primeiros -deveres conforme estas palavras: <i>Murenulas aureas -faciemus tibi vermiculatus argento</i> «nós te faremos -collares de oiro, torcidos como pequenas lampreias, esmaltadas -de fios de prata em forma de vermesinho para mais -fazer realçar a bellesa do oiro.»</p> - -<p>Dizem os Septenta—<i>Simulachra auri faciemus tibi, cum -vermiculacionibus argenti</i>; «nós te faremos pequenas estatuas -de oiro fino, esmaltadas de fio de prata do feitio de -vermesinhos.»</p> - -<p>Accrescenta Rabbi Jonathas que taes eram as taboas de -Saphira, em que estavam gravados os mandamentos da lei -de Deos porque a luz da gloria do Doador dava á saphyra -diaphana a côr de oiro, e a escripta gravada em linha pelo -dedo de Deos formava o esmalte em pequenas lampreias -ou vermes da terra.</p> - -<p>Quem não diria que ha intelligencia entre estas ceremonias -divinas e as dos Athenienses e Gaulezes, visto significar-nos -umas e outras, por meio de estatuas e cadeias de -oiro, a força e o poder da doçura para subjugar as almas -mais barbaras á obediencia das leis de Deos.</p> - -<p>Não é sem rasão, que Jesus Christo ornou os collares de -oiro de sua esposa com figuras de vermes da terra, e de -pequenas lampreias, visto que elle mesmo se fez verme<span class="pagenum"><a id="Page_236"></a>[236]</span> -para chamar a si os vermes, e misturou-se com a terra -para se juntar com os vermes, que ahi achasse.</p> - -<p>Assim como as lampreias não repellem as serpentes por -que podem causar medo com o veneno, que estas vomitarem, -assim tambem Jesus Christo não despresa os homens, -pobres serpentes, comtanto que estes se despojem do seo -veneno.</p> - -<p>Si o Mestre fez isto, o que devem fazer os obscuros discipulos -de Sua Magestade?</p> - -<p>Quem se offerece a servir a Deos na conversão dos selvagens -deve modelar suas palavras e acções pela doçura, -de que sempre usou Jesus Christo na terra.</p> - -<p>Eram estes os artigos de nossas conferencias com os selvagens.</p> - -<p>1. Procuravamos convencel-os, que eramos seos amigos, -e amigos fieis, mais que seos paes, mães, e outros parentes, -dizendo-lhes estas e outras palavras <i>pera-uçu</i>, <i>pare koroyco</i> -«somos vossos amigos, vossos intimos.»</p> - -<p>Com taes expressões alegraram-se muito, e cheios de confiança -vinham conversar comnosco a ponto de tornarem-se -importunos, não nos permittindo descanço algum, e só nos -olhando e observando até os nossos menores gestos.</p> - -<p>Vou dar-vos alguns exemplos.</p> - -<p>Um dia de paschoa, depois do serviço, ao qual assistiram -muitos selvagens, tanto de <i>Tapuitapera</i> como da <i>Ilha</i>, quiz -recolher-me para meditar no sermão, que devia prégar depois -do jantar, e para isto mandei fechar as portas de nossa -casa para que ninguem entrasse durante esse pouco tempo -até a hora da prédica, porem os selvagens impacientes, para -entrarem, rodeiaram a casa duas ou tres vezes buscando -uma abertura, e afinal quebraram algumas estacas e por -ahi passaram.</p> - -<p>Mostrei-lhes má cara significando o meo descontentamento -pelo que haviam feito, e lhes perguntei porque eram tão importunos?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_237"></a>[237]</span></p> - -<p>Responderam-me «porque tinhamos vontade de te vêr, e -fallar comtigo livremente, na ausencia dos francezes, e para -esse fim viemos de proposito». Á vista d’isto não tive outro -remedio senão atural-os.</p> - -<p>Quando eu orava sosinho na nossa Capella, com as portas -fechadas, rompiam o panno de Guiné, com que forramos -a Igrejinha para vêr o que fazia eu ajoelhado defronte -do Altar, e diziam uns para os outros <i>ygneém Tupan</i> -«falla com Deos», e d’ahi não sahiam em quanto eu -rezava.</p> - -<p>Para livrar-me d’estas importunações mandei construir -uma cerca ao redor da nossa casa e Capella de S. Francisco, -muito forte, e entremeiada com ramos de palmeira -espinhosa, assim conhecida por ter espinhos maiores do que -o comprimento de um dedo, e embora tudo isto achavam -meios de entrar e de me procurarem.</p> - -<p>Ao escrever isto recorda-me o dito de Antalcide, escripto -por Plutarcho no tratado dos <i>Apophtegmas Laconicos</i>, «quem -quizer ganhar a amisade dos homens, deve ter na lingua um -regato de mel, e nas mãos muitos fructos» isto é—palavras -doces e serviços conforme ás palavras.</p> - -<p>Mais não podiamos fazer para com estes selvagens do que -captarmos sua amisade por palavras doceis, e fazer-lhes conhecer -a Deos e os sacramentos da Igreja, unicos fructos da -Paixão de Jesus Christo.</p> - -<p>Ælian, no livro 14 de suas <i>Historias diversas</i>, disse, que -«Epaminondas se admiraria muito se sahisse do seo palacio -para misturar-se com o povo, e não adquirisse um novo -amigo para juntal-o aos seos amigos.»</p> - -<p>Não nos seria necessario ir a 200 e nem a 300 legoas afim -de conquistar novos amigos para Jesus Christo, porque viriam -por si mesmos offerecer-se para isso.</p> - -<p>Gelius no livro 1º cap. 3º conta, que Pericles, um dos -grandes do Areopago de Athenas, terminava a amisade dos -homens junto aos altares dos Deoses, porem nunca fallou da<span class="pagenum"><a id="Page_238"></a>[238]</span> -amisade divina entre Deos e os homens, estabelecida e enraisada -sobre os altares, porque pagão, como era, não podia -comprehender a força e o vigor de tal amor, similhante -ao do proprio centro, onde cada creatura tem o destino de -viver e descançar.</p> - -<p>O poderoso rei Darius recebeu em presente de um seu -amigo uma bella romã, que partio ao meio, e admirando a -bellesa e o numero dos seos grãosinhos disse aos que com -elle estavam—por minha vontade eu teria tantos Zopiros, -(nome do seo mais intimo amigo) quanto ha de grãos n’esta -romã.</p> - -<p>Não foi pequena graça, e nem pequeno privilegio, que -Deos fez á Ordem Seraphica de São Francisco dando-lhe a -faca da palavra para abrir o pomo ainda inteiro e fechado -das terras de Maranhão afim de apresentar a Jesus Christo -milhões de almas, não só para com Elle se conciliarem, mas -tambem para um dia lhe serem fieis esposas.</p> - -<p>Deos inspirou a Salomão, no liv. 4º dos Reis, cap. 29, -fazer os capiteis das columnas com arame, semeiado de romãs, -indicando assim a missão do Evangelho para com as -nações infieis, servindo para agarrar os peixes fugitivos por -meio de uma eloquencia docil, e as romãs para ligal-os e -unil-os pelo amor de Jesus Christo ao resto dos fieis, não -havendo nada mais forte para obter o accordo que o proprio -amor.</p> - -<p>Eis a razão porque julguei ser absolutamente necessario -fazer conhecer a estes selvagens, que nós os amavamos terna -e infinitamente, que lhes offereciamos nossas pessoas e -bens, dizendo-lhes <i>ore-mae pémareamo</i> «tudo o que temos -é vosso.»</p> - -<p>Por isto quando tinhamos muitos peixes, o que acontecia -ordinariamente, lhes davamos todos, especialmente aos -<i>Tabajares</i>, recem-chegados á <i>Ilha</i>, ainda necessitados de -tudo, por não terem feito roças, especialmente os nossos -visinhos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_239"></a>[239]</span></p> - -<p>2.º Nós lhes expunhamos os fructos e os emolumentos, -que deviam esperar de nossa amisade, isto é, reforma em -sua vida, conhecimento do verdadeiro Deos, defesa do -nosso rei contra seos inimigos, o qual não deixaria de enviar-lhes -homens e armas conforme necessitassem. <i>Pe moé -Koroiut, pere Koramrecé: Tupan mombe-ouane koroiut -peam: yande mogna gare, rhé, opap katu, ahé maé -mognan. Yangaturan: yandé renonde vuac ueriko: ahé -gneem rupi yané rekormé. Pepusurom peamo tareumbare -soiy yauaeté oreru vichaue: Pepusurum okat araia -oboure uaia pepusurô anuam</i>; quer isto dizer—«Nós vos -ensinamos a viver mais para a vossa felicidade: queremos -ensinar-vos o verdadeiro Deos, creador do universo, infinitamente -bom, e que nos prometteo o Ceo si n’esta vida -fizermos o que elle diz. Viemos defender-vos de vossos inimigos. -Nosso rei, que é forte e poderoso, vos dará sempre -soccorro de armas e de homens.»</p> - -<p>Prestavam muita attenção ao que diziamos, e nos respondiam -que os francezes sempre os haviam auxiliado; que tinham -vindo agora por ordem do rei para tiral-os das cadeias -de <i>Jeropary</i>, que não duvidavam aprender grandes -coisas á respeito de Deos, especialmente quando ja soubessemos -sua lingua, porque os interpretes, diziam elles, não -fallam como vós á Deos. Não nos podem dizer outra coisa, -porem se fallasseis comnosco vós nos dirieis o que Deos vos -disser. Nossos filhos serão mais felizes do que nós, porque -comvosco aprenderão a lingua francesa, como nos promettestes, -e assim terão mais conhecimento de Deos do que nós, -que ja somos velhos.</p> - -<p>Nós o que temos feito é correr e andar errantes pelos bosques -adiante dos <i>Peros</i><a id="Nanchor_97" href="#Note_97" class="fnanchor">[97]</a> tendo por alimento apenas raizes -de arvores. Nossos filhos estarão seguros contra seos inimigos, -os francezes se unirão á nossas filhas, e nossos filhos ás -filhas dos francezes, e assim seremos parentes: ficareis comnosco, -em nossas aldeias, e sereis nossos padres <i>Tupan</i> os -amará, e <i>Jeropary</i> nada poderá contra elles. Haverá abundancia<span class="pagenum"><a id="Page_240"></a>[240]</span> -de viveres e nunca se sentirá falta de mercadorias -francezas.</p> - -<p>Oh! quanto serão felizes! porem nós não veremos estas -coisas.</p> - -<p>O imperador Vespasiano e tambem Domiciano, quando entravam -n’um paiz novo para ahi estabelecer Colonias Romanas, -tinham por costume mandar fundir em bronze a Fé e -os seos fructos, que publicamente promettiam a todos, representando -uma dama, que estendia a mão direita, symbolo -da Fé, trazendo na esquerda a cornucopia da abundancia, -cheia de toda a especie de fructos, e tinham este mesmo -carimbo o dinheiro, que ahi faziam correr assegurando por -esta fórma a sua fidelidade para com estes povos, de que -resultaria muitos bens e commodidades á sua nação.</p> - -<p>Tomae, se quizerdes, por esta dama a Santa Igreja entrando -pela primeira vez n’estas terras barbaras, estendendo sua -mão direita para prometter aos seos habitantes a fé de Jesus -Christo, seo esposo, e a fidelidade de seos sectarios, que -não se poupam a trabalhos, e arriscam até a propria vida -para ajudal-a na salvação d’ellas.</p> - -<p>Os fructos, que ella lhes offerecia, eram os sacramentos, -o conhecimento de Deos e das coisas divinas.</p> - -<p>Tomae tambem, si quizerdes, por esta mesma Dama, a -França plantando pela primeira vez seos lyrios n’estas regiões -e paizes do Brazil, dando com a mão direita a segurança -de defender e conservar estes selvagens obedientes á -sua corôa, e com a esquerda os fructos provenientes do -commercio entre ella e o Brazil.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_241"></a>[241]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_VII">CAPITULO VII</h3> - -<p class="subhead">Formulario da doutrina christã, que aprendiam e -recitavam de cór, antes de serem baptisados.</p> - -</div> - -<p>No Levitico 1.º, e em outro lugar lemos, que antes da -victima escolhida ser levada ao altar devia aquelle, que a -apresentava, pôr suas mãos na cabeça entre os cornos.</p> - -<p>Accrescentam outros, que esses cornos eram enfeitados -de flores de junco marinho, (cujos espinhos, e não flores, -foram postos na cabeça de Jesus Christo, offerecido em holocausto -sobre a Cruz) e então os sacerdotes agarravam a -victima, e a lavavam n’um grande vaso de bronze chamado -<i>mar</i>. Representa isto os novos cathecumenos, desejosos de -serem lavados pelo baptismo, e offerecidos diante do altar -do Redemptor.</p> - -<p>A primeira coisa, que se exige d’estes cathecumenos, é -que ponham as mãos sobre a cabeça: as mãos são os hyerogliphos -das obras, e a cabeça a séde do espirito e do entendimento. -A primeira coisa portanto necessaria á estes -noviços da fé christã é a operação do entendimento; quero -com esta expressão dizer, que elles saibam e entendam o -que pretendem crêr e prometter, e torcer os cornos da curiosidade -e o proprio juizo dos orgulhosos possuidores do -Junco marinho, corôa dos deoses, por meio da obediencia -á Revelação divina. É o que pediamos aos adultos antes -de conferir-lhes o baptismo, e nenhum o conseguia sem primeiro -conhecer bem isto, por acto obrigatorio, a que deveriam -tambem assistir os christãos, ignorantes de sua fé e -profissão.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_242"></a>[242]</span></p> - -<h4>DOUTRINA CHRISTÃ<br /> -<i>na lingua dos Tupinambás<a id="Nanchor_98" href="#Note_98" class="fnanchor">[98]</a> e em francez, e, em primeiro -lugar a oração dominical</i></h4> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0"><i>Ore-ruuc vuac peté cuare,</i></div> - <div class="verse indent0">Padre nosso, que estás no Ceo,</div> - <div class="verse indent0"><i>y moe-tepoire derere-toico</i></div> - <div class="verse indent0">sanctificado seja teo nome,</div> - <div class="verse indent0"><i>to-ure de reigne</i></div> - <div class="verse indent0">venha nós o teo reino,</div> - <div class="verse indent0"><i>teié-mognan deremimotare yboipé vaacpe iémognan eaue,</i></div> - <div class="verse indent0">seja feita a tua vontade assim na terra como no Ceo.</div> - <div class="verse indent0"><i>oreremiu-areduare eimé iury oreue,</i></div> - <div class="verse indent0">dae-nos hoje o pão quotidiano,</div> - <div class="verse indent0"><i>de-eiuru oré yangaypaue reçe,</i></div> - <div class="verse indent0">perdôa nossas offensas,</div> - <div class="verse indent0"><i>ore recome-moçaré supè ore-ieuron eaue</i></div> - <div class="verse indent0">como nós perdoamos aos que nos offendem</div> - <div class="verse indent0"><i>moar-ocar humé yepé tecomemo-pupé</i></div> - <div class="verse indent0">não nos deixeis cahir em tentação</div> - <div class="verse indent0"><i>oré pessuron peyepé mae ayue suy.</i></div> - <div class="verse indent0">mas livrae-nos do mal. Amen Jesus.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p class="center">SAUDAÇÃO ANGELICA.</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0"><i>Ave Maria gratia, resse tonussen väé,</i></div> - <div class="verse indent0">Eu te saudo Maria, de graça cheia,</div> - <div class="verse indent0"><i>Deyron yandé yaré-reco</i></div> - <div class="verse indent0">o Senhor é comtigo,</div> - <div class="verse indent0"><i>ymonbeu katu poïre aue edereico kugnan suy</i></div> - <div class="verse indent0">benta és tú entre as mulheres.</div> - <div class="verse indent0"><i>ymonbeau katu poïre aue demeinboïre Jesus.</i></div> - <div class="verse indent0">bento é o fructo do teo ventre, Jesus.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_243"></a>[243]</span></p> - -<p class="center">ORAÇÃO A VIRGEM.</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0"><i>Santa Maria Tupan seu</i></div> - <div class="verse indent0">Santa Maria mãe de Deos</div> - <div class="verse indent0"><i>hé Tupan mongueta ore yangaypaue vaë ressé</i></div> - <div class="verse indent0">rogae a Deos por nós peccadores</div> - <div class="verse indent0"><i>cohu yran ore-requi ore-rumeué</i></div> - <div class="verse indent0">agora, e na hora de nossa morte. Amen Jesus.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p class="center">O SYMBOLO DOS APOSTOLOS.</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0"><i>Arobiar Tupan</i></div> - <div class="verse indent0">Creio em Deos</div> - <div class="verse indent0"><i>tuue opap katu maeté tiruan</i></div> - <div class="verse indent0">padre todo poderoso</div> - <div class="verse indent0"><i>mognangare vuac</i></div> - <div class="verse indent0">creador do Ceo</div> - <div class="verse indent0"><i>mognangare ybuy</i></div> - <div class="verse indent0">creador da terra</div> - <div class="verse indent0"><i>Jesus-Christo tayre oyepe vac</i></div> - <div class="verse indent0">em Jesus Christo, seo filho unico</div> - <div class="verse indent0"><i>ahe Sainct Esprit, demognan pitan amo</i></div> - <div class="verse indent0">que foi concebido do Espirito Santo</div> - <div class="verse indent0"><i>ahé poïre oart Sainct Marie, suy</i></div> - <div class="verse indent0">e nasceo da Virgem Maria</div> - <div class="verse indent0"><i>Ponce Pilate muruuichaue amoseico sericomemo poïre amo</i></div> - <div class="verse indent0">padeceo sob poder de Poncio Pilatos, presidente</div> - <div class="verse indent0"><i>yiuca poire amo yuira</i></div> - <div class="verse indent0">morreo sobre o madeiro da Cruz</div> - <div class="verse indent0"><i>ioasaue ressé</i></div> - <div class="verse indent0">morreo</div> - <div class="verse indent0"><i>ymoiar ypoire ytemim buire amo</i></div> - <div class="verse indent0">foi amortalhado e enterrado no sepulchro</div> - <div class="verse indent0"><i>ouue ieuue euue apeterpé</i></div> - <div class="verse indent0">desceo aos infernos</div><span class="pagenum"><a id="Page_244"></a>[244]</span> - <div class="verse indent0"><i>ahé sui turiare mossa poire ressé uue ombueue sui. Secobé yereie-buire</i></div> - <div class="verse indent0">ao terceiro dia resurgio dos mortos</div> - <div class="verse indent0"><i>oié upire vuacpé</i></div> - <div class="verse indent0">subio ao Ceo</div> - <div class="verse indent0"><i>Tupan tuue opap-katu maeté tiruan mognangare katu aue cotu seua</i></div> - <div class="verse indent0">está assentado á direita de Deos, seo Pae Omnipotente</div> - <div class="verse indent0"><i>ahé sui turiné ycobé vãe omano vãe poire paué recomognan</i></div> - <div class="verse indent0">de lá virá a julgar vivos e mortos.</div> - <div class="verse indent0"><i>Arobiar Saincte eglise catholique</i></div> - <div class="verse indent0">Creio na Santa Igreja Catholica,</div> - <div class="verse indent0"><i>arobiar Saincte tecokatu demosaoc morupé</i></div> - <div class="verse indent0">creio na communhão dos Santos</div> - <div class="verse indent0"><i>arobiar teco-engay paue ressé morupé Tupan deuron</i></div> - <div class="verse indent0">creio na remissão dos peccados por Deos</div> - <div class="verse indent0"><i>arobiar asé-recobé iebure</i></div> - <div class="verse indent0">creio na resurreição da carne</div> - <div class="verse indent0"><i>arobiar teiubé opauaaerem-eim-rerecoe nuame</i></div> - <div class="verse indent0">creio na vida eterna. Amen Jesus.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p class="center">OS DEZ MANDAMENTOS.</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0"><i>1.º Ymoeté yepé Tupan.</i></div> - <div class="verse indent0">I Honra um só Deos</div> - <div class="verse indent0"><i>2.º Aytè ereté netieume poire renoy teigné.</i></div> - <div class="verse indent0">II Não jurarás em vão o nome de teo Deos.</div> - <div class="verse indent0"><i>3.º Ymoeté dimanche are maratecuare eum aue.</i></div> - <div class="verse indent0">III Honra e sanctifica o domingo, dia de repouso.</div> - <div class="verse indent0"><i>4.º Ymoeté deruue desseu eaue.</i></div> - <div class="verse indent0">IV Honra teo pae e tua mãe.</div> - <div class="verse indent0"><i>5.º Eparapiti humé.</i></div> - <div class="verse indent0">V Tu não matarás.</div> - <div class="verse indent0"><i>6.º Eporopotare humé.</i></div> - <div class="verse indent0">VI Tu guardarás castidade.</div><span class="pagenum"><a id="Page_245"></a>[245]</span> - <div class="verse indent0"><i>7.º Emonmaron humé.</i></div> - <div class="verse indent0">VII Tu não furtarás.</div> - <div class="verse indent0"><i>8.º Teremoen humé aua ressé.</i></div> - <div class="verse indent0">VIII Tu não levantarás falso testemunho contra teo proximo.</div> - <div class="verse indent0"><i>9.º Yemonmotare humé aua remerico ressé.</i></div> - <div class="verse indent0">IX Tu não conhecerás a mulher de outrem.</div> - <div class="verse indent0"><i>10. Yemonmotare humé aua mae ressé.</i></div> - <div class="verse indent0">X Tu não cubiçarás coisas alheias.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p class="center">RESUMO DOS MANDAMENTOS DE DEOS.</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0"><i>1.º Opap katu maeté tiruan sosay asé Tupan rausuué.</i></div> - <div class="verse indent0">Sobre todas as cousas amarás a Deos.</div> - <div class="verse indent0"><i>2.º Oie ausuue eaué asé uua pichare raussuue.</i></div> - <div class="verse indent0">Ama teo proximo como a ti mesmo.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p class="center">OS MANDAMENTOS DA SANTA IGREJA.</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0"><i>1.º Arve maratecuare ehumé messe renduue.</i></div> - <div class="verse indent0">Ouve missa nos dias de festa.</div> - <div class="verse indent0"><i>2.º Sei hu iauion yemonbeu.</i></div> - <div class="verse indent0">Todos os annos ao menos uma vez confessa teos peccados.</div> - <div class="verse indent0"><i>3.º Tupan rare pacques iauion.</i></div> - <div class="verse indent0">Teo Deos pela paschoa commungarás.</div> - <div class="verse indent0"><i>4.º Iecuacuue iauion erecucuue.</i></div> - <div class="verse indent0">Tu guardarás jejuns pela quaresma e vigilias.</div> - <div class="verse indent0"><i>5.º Aiamion asé mae moiaoc.</i></div> - <div class="verse indent0">Pagarás os dizimos.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p class="center">OS SETE SACRAMENTOS.</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0"><i>1.º Iemongaraiue.</i></div> - <div class="verse indent0">Baptismo.</div> - <div class="verse indent0"><i>2.º Asé seurap aua reu assu yendu karaiue non.</i></div> - <div class="verse indent0">Receberás na testa o santo oleo pela mão do Bispo.</div><span class="pagenum"><a id="Page_246"></a>[246]</span> - <div class="verse indent0"><i>3.º Asé-reon yanondé Tupan rare.</i></div> - <div class="verse indent0">Antes de morrer receberás o corpo de Deos.</div> - <div class="verse indent0"><i>5.º Oyekoacuue, oyemonbeu.</i></div> - <div class="verse indent0">Penitencia, confissão.</div> - <div class="verse indent0"><i>6.º Oyemo-auare.</i></div> - <div class="verse indent0">Ordem.</div> - <div class="verse indent0"><i>7.º Mendar.</i></div> - <div class="verse indent0">Casamento.</div> - </div> -</div> -</div> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_VIII">CAPITULO VIII</h3> - -<p class="subhead">Qual a crença natural dos selvagens a respeito de Deos, -dos espiritos e da alma.</p> - -</div> - -<p>O Psalmista Rei David, no Psalmo 101, que é uma supplica -por elle composta para os pobres e infelizes, cheios -de anciedade e oppressão, particularmente os infieis, diz—<i>Placuerunt -servis tuis lapides ejus, et terra ejus miserebuntur.</i> -«As pedras de Syão agradarão a teos servos; e -por esta causa serão misericordiosas para com a terra.»</p> - -<p>S. Jeronymo transforma estas palavras d’esta forma—<i>Quia -placitos fecerunt servi tui lapides ejus, et pulverem ejus -miserabilem</i>. «Teos servos fizeram suas pedras agradaveis -á tua Magestade, até chegar ao pó sem consideração.»</p> - -<p>Apliquemos estas palavras ao nosso objecto, pondo de parte -todos os outros mysterios, e digamos que <i>Placuerunt servis -tuis lapides ejus</i>.</p> - -<p>Em nossa primeira missão achamos estes pobres selvagens -e barbaros como pedras proprias para construir e edificar -a Santa Igreja em paizes desertos, e com o nosso ministerio<span class="pagenum"><a id="Page_247"></a>[247]</span> -demos a misericordia divina á algum punhado de -terra e areia.</p> - -<p>Baptisamos muitos meninos, moribundos e adultos, que -são na verdade tres grãos de areia, á similhança da extenção -e profundidade das areias do mar, isto é, em comparação -da quantidade e multidão das nações immensas pelo seo -numero, na visinhança do Maranhão.</p> - -<p>Digamos depois, com São Jeronymo, <i>quia placitos fecerunt -servi tui lapides ejus, et pulverem ejus miserabilem</i>, que -temos feito vêr a toda a Christandade, e aos seos monarchas, -espirituaes ou temporaes, em desencargo de nossa -consciencia, que á Deos agrada o despertar estes barbaros -do profundo somno de uma crença má, ou si quizerdes, que -á Deos agrada fazer arder e queimar a pequena faisca do -fogo da luz natural, que sob as causas de mil superstições é -sempre guardada entre estas nações desde o naufragio universal -do diluvio.</p> - -<p>Esta faisca, occulta sob as cinsas, entre estes selvagens, é -a crença natural, que sempre tiveram de Deos, dos espiritos -e da immortalidade da alma.</p> - -<p>Quanto á crença de Deos, é impossivel, naturalmente fallando, -que haja no Mundo uma Nação tão rude, estupida e -brutal que não reconheça universalmente uma Magestade -Soberana, porque, como diz Lactancio Firmiano, em suas -Instituições divinas, livro 1.º, cap. 2.º—<i>Nemo est enim -tam rudis, tam feris moribus, qui non oculos suos in -cœlis tollens etc</i>. Não ha homem tão rude, nem tão brutal, -que levantando os olhos para o Ceo, ainda que não possa -comprehender que haja Deos, qual seja a sua providencia, -embora não conheça da grandesa e extenção dos Ceos, do -perpetuo movimento d’elles, da disposição, firmesa, utilidade -e bellesa d’estas abobadas azuladas, que não reconheça -haver um Soberano que tudo isto dirige e com harmonia.</p> - -<p>Boecio, livr. 4º, da <i>Consolação dos sabios</i>. Prosa 6.ª <i>Omnium -generatio rerum</i> etc. «que a geração continua dos -mistos, a diversidade, e ordem das formas, que vestem a<span class="pagenum"><a id="Page_248"></a>[248]</span> -materia primitiva, convence natural e necessariamente, que -ha um primeiro director no movimento uniforme de tantas -coisas de formas contrarias no sentido de aperfeiçoar este -mundo universal.»</p> - -<p>Seneca, na Epistola 92 á seo amigo Lucilio—<i>Quis dubitare -potest mi Lucilli, quin Deorum immortalium munus -sit quod vivimus?</i> «Quem é meu amigo Lucilio, que duvida -não ser sua vida um dom e beneficio dos Deoses immortaes?»</p> - -<p>Aristoteles, Livro II <i>dos animaes</i>, depois que contou muito -bem a perfeição d’elles concluio <i>debemus inspicere formas -et delectari in Artifice qui fecit eas</i>: «devemos contemplar -as formas das creaturas, não para olhal-as só e simplesmente, -e sim para d’ellas passar ao que as fez afim de nos regosijarmos.»</p> - -<p>É facto averiguado sempre terem tido estes selvagens conhecimento -de Deos, porem não da Essencia, Unidade, e -Trindade, materia inteiramente dependente de fé, embora -Deos tenha deixado na naturesa alguns vestigios, pelos quaes -possam os homens formar algumas conjecturas.</p> - -<p>Aristoteles, livro 4º, do <i>Ceo e da terra</i>, depois de ter pensado -muito nas perfeições d’este mundo, disse <i>Nihil est perfectum -nisi Trinitas</i>. «Somente a Trindade é perfeita.»</p> - -<p>Estes selvagens sempre chamaram a Deos—<i>Tupan</i>, nome -que dão ao <i>trovão</i>, a maneira do que se pratica entre os -homens, isto é, terem as obras primas o nome do autor: -Note-se porem que este nome no singular não se applica aos -relampagos e trovões, que rebentam e illuminam todas as partes, -por cima da cabeça dos selvagens, aterrando-os, porque -sabem e reconhecem, que elles são formados pela poderosa -mão d’Aquelle, que habita nos Ceos.</p> - -<p>Por intermedio do interprete informei-me dos velhos do -paiz si elles acreditavam, que este <i>Tupan</i>, autor do trovão, -era homem como elle?</p> - -<p>Responderam-me que não, porque si fosse um homem -como nós, seria um grande senhor, e como poderia elle<span class="pagenum"><a id="Page_249"></a>[249]</span> -correr tão depressa, do Oriente para o Occidente, quando -troveja ao mesmo tempo sobre nós, e nas quatro partes do -mundo, tanto na França, como sobre nós? Demais, si fosse -homem, era necessario, que outro homem o fizesse, porque -todo o homem procede de outro homem. Ainda mais: <i>Jeropary</i> -é o creado de Deos, e nós não o vemos, ao passo que -todo o homem se vê, e por isso não pensamos, que <i>Tupan</i> -seja um homem.</p> - -<p>Mas, repliquei eu, o que pensaes que elle seja?</p> - -<p>Não sabemos, responderam, porem pensamos, que existe -em toda a parte, e que fez tudo quanto existe. Nossos feiticeiros -ainda não fallaram com elle, pois apenas fallam com -os companheiros de <i>Jeropary</i>.</p> - -<p>Eis a crença de Deos, sempre pela naturesa impressa nos -espiritos dos selvagens, que com tudo não o reconheciam -por meio de preces e de supplicios.</p> - -<p>Acreditavam naturalmente nos espiritos bons e maus.</p> - -<p>Chamam os bons espiritos ou anjos <i>Apoiaueué</i>, e os maos -ou diabos <i>Uaiupia</i>.</p> - -<p>Vou contar-vos o que pude colher de suas conversas por -diversas vezes.</p> - -<p>Pensam que os anjos lhes trazem chuva em tempo proprio, -que não fazem mal ás suas roças, que não os castigam -e nem os atormentam, que sobem ao Ceo para contar á Deos -o que se passa aqui na terra, que não causam medo nem á -noite e nem nos bosques, que acompanham e protegem os -francezes.</p> - -<p>Pensam, que os diabos estão sob o dominio de <i>Jeropary</i>, -que era creado de Deos, e que por suas maldades Deos o -despresou, não querendo mais vêl-o e nem aos seos, pelo -que aborrecia os homens e nada valia: que os diabos impedem -as vindas das chuvas em tempo proprio, que os trazem -em guerra com seos inimigos, que os maltrata, e lhes faz -medo, habitando ordinariamente em aldeias abandonadas, -especialmente em logares onde tem sido sepultados os corpos -de seos parentes.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_250"></a>[250]</span></p> - -<p>Ouvi tambem dizer a alguns indios, que indo elles apanhar -cajus em algumas aldeias abandonadas, sahio-lhe ao -encontro <i>Jeropary</i> gritando com voz medonha, e chegou até -o ponto de espancar muito alguns dos seos.</p> - -<p>Dizem tambem, que <i>Jeropary</i> e os seos tem certos animaes, -que nunca se vê, que só andam a noite, soltando gritos -horriveis, que abala todo o interior (o que ouvi infinitas -vezes) com os quaes convivem, e por isso os chamam <i>Soo-Jeropary</i> -«animal de Jeropary», e creem que estes animaes -servem aos diabos ora de homens ora de mulheres, e por -isso nós o chamamos <i>Succubes</i> e <i>Incubes</i>, e os selvagens -<i>Kugnan Jeropary</i> «a mulher do diabo» <i>Aua Jeropary</i> «o -homem do diabo.»</p> - -<p>Ha tambem certos passaros noturnos, que não cantam, -mas que tem um piado queixoso, enfadonho, e triste, que -vivem sempre escondidos, não sahindo dos bosques, chamados -pelos indios <i>Uyra Jeropary</i> «passaros do diabo,»<a id="Nanchor_99" href="#Note_99" class="fnanchor">[99]</a> e -dizem que os diabos com elles convivem, que quando põem -é um ovo em cada lugar, e assim por diante, que são cobertos -pelo diabo, e que só comem terra.</p> - -<p>Não exgotando minha curiosidade procurei indagar bem -a verdade d’isto: muitas vezes estes animaes nocturnos vinham -rodear nossa casa de Sam Francisco e soltar seos gritos -medonhos, quando as noites eram sombrias e negras.</p> - -<p>Apromptei-me para com outros francezes investir estes -passaros onde se achassem conforme pudessemos prevêr, -porem nada pudemos conseguir por não vel-os, embora os -ouvissemos gritar em distancia de mais de um quarto de -legoa.</p> - -<p>Disseram-me alguns francezes, que eram uma especie de -gatos bravos, o que não pode ser a vista do som, do sussurro -e do volume do grito, que elle solta.</p> - -<p>Outros disseram ser o vagido de <i>vaccas bravas</i>, o que -negam os selvagens dizendo ser vozes de uma especie de -animaes parecidos com maçaricos, e maiores do que uma -raposa.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_251"></a>[251]</span></p> - -<p>Quiz eu mesmo verificar o que eram estes passaros de -<i>Jeropary</i>, e para isto fui caminhando de mansinho até onde -meos ouvidos me levaram a pensar, que lá estavam, pelo piado -melancolico d’elles. Calculado o lugar ahi fui no dia seguinte -á tarde muito cedo occultar-me nos mattos, e d’esta -vez não me enganei porque apenas anoiteceu aproximou-se -este triste passaro de mim e distante apenas dois passos saltando -sobre a areia, e soltou seo canto medonho, o que não -pude aturar. Sahi logo do meo logar e fui onde elle estava -e nada achei: sua configuração e tamanho era de uma coruja -de França e as pennas pardas.</p> - -<p>Tudo o que referi não está longe do senso commum, porque -lemos na Historia, e em diversos autores a união dos -diabos com animaes feios e immundos, e foi elle que desde -o principio do mundo tomou a forma de uma serpente cabelluda -para enganar nossos primeiros paes.</p> - -<p>Creem na immortalidade da alma: quando no corpo chamam-na -<i>An</i>, e quando deixa este para ir ao lugar, que lhe -é destinado, <i>Anguere</i>.</p> - -<p>Creem que só as mulheres virtuosas tem alma immortal, -segundo o que pude comprehender de varios discursos d’elles -e de muitas perguntas que lhes fiz, pensando que estas -mulheres virtuosas devem ser postas ao lado dos homens, -visto terem todos almas immortaes depois da morte.</p> - -<p>Em quanto ás outras mulheres duvidam que ellas tenham -alma.</p> - -<p>Pensam, e muito naturalmente, que as almas dos maus -vão ter com <i>Jeropary</i>, que são ellas que os atormentam de -concomitancia com o proprio diabo, e que vão residir nas -antigas aldeias, onde são enterrados os corpos, que habitaram.</p> - -<p>Pensam, que as almas dos bons, vão para um lugar -de repouso, onde dançam constantemente sem nada lhes -faltar.</p> - -<p>Eis tudo quanto pude saber relativamente a estes tres -pontos de sua crença natural de Deos, dos Espiritos e das<span class="pagenum"><a id="Page_252"></a>[252]</span> -Almas, por meio de cuidadosas indagações entre discursos -communs, que ouvi por dois annos de muitissimos selvagens.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_IX">CAPITULO IX</h3> - -<p class="subhead">Dos principaes meios usados pelo diabo para conter em -suas cadeias por tão longo tempo estes selvagens.</p> - -</div> - -<p>Adonibesec, um dos maiores tyrannos do mundo, venceo -e subjugou setenta Reis, aos quaes mandou cortar os dedos -das mãos e dos pés, e todas as vezes que queria comer, -mandava buscal-os e pol-os debaixo da mesa como cães -para roerem os ossos, e os boccados de pão, que lhes atirava, -e era com isto unicamente que elles viviam, porque -acabada a refeição do tyranno passavam elles outra vez -para os grilhões.</p> - -<p>Este tyranno representava o diabo, cujo poder sempre -exerceu nas Nações á elle sujeitas pela infidelidade, tendo-as -sempre presas, não lhes consentindo outros viveres alem -dos seos restos, cortando-lhes todos os meios de acção e de -fuga, alterando ou extinguindo os signaes, que Deos naturalmente -imprimio nos homens, pelos quaes podiam inclinar-se -a Deos para d’elles ter piedade, que é o que o diabo mais -teme, o que é facil de vêr-se em nossos selvagens por -longo tempo sem conhecimento algum do Deos Omnipotente, -presos em suas cadeias infernaes pelos abusos e corrupções, -que entre elles lançou o diabo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_253"></a>[253]</span></p> - -<p>Eis porque S. Paulo representava as artimanhas e tricas -de Satanaz em suas...</p> - -<p class="center">(Falta uma folha.)</p> - -<p class="noindent">... esta razão tinhamos nós occasião d’admirar a forma e a maneira -de proceder dos Pagés ou Feiticeiros, que occupam -entre os selvagens o lugar de Mediadores entre os espiritos -e o resto do povo, e são os que hão adquirido maior autoridade -por suas fraudes, subtilezas e abusos, com que tem -subjugado esta gente mui fortemente sob o reinado do inimigo -da salvação, como está escripto no <i>Proverbio 29</i>—<i>Princeps -qui libenter audit verba mendacii, omnes ministros -habet impios</i> «o Principe, que prestar ouvidos á -mentira, é servido por ministros impios e maus.»</p> - -<p>Pondo de parte a explicação litteraria d’esta passagem, -nós a aplicamos ao nosso fim dizendo, que este Principe, -que presta attenção á mentira, ou para melhor dizer, que -é o Pae da mentira, é o diabo inimigo da verdade: seos -officiaes abusam do povo por meio de invenções, subtilesas, -e encantos provenientes da instigação dos demonios, como -são os feiticeiros brazileiros, e com tal autoridade se conservam -sem a menor contestação, embora conheçam os enganos, -que reciprocamente empregam contra seos compatriotas.</p> - -<p>Estes feiticeiros não tem chefes, porem tornam-se taes, -si os favorece a capacidade de seo espirito, de sorte -que os que o possuem melhor, são considerados mais habeis.</p> - -<p>Começam muitos a aprender este officio, convidados pela -honra e lucro, que d’elle colhem os mais espertos, porem -poucos atingem á perfeição.</p> - -<p>Não encontrareis muitas aldeias, onde os principaes e os -velhos não confessem saber alguma coisa d’elle.</p> - -<p>Os noviços d’essa arte estudam muito a merecer elogios, -e d’elles dizer-se maravilhas e fazem alguma subtilesa diante -de seos similhantes para obter fama.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_254"></a>[254]</span></p> - -<p>Depende seo adiantamento d’algum acaso, como por exemplo -se predizem a chuva, e ella apparece, se sopram algum -doente e elles recobram a saude, o que os faz muito estimados -e respeitados como feiticeiros experientes.</p> - -<p>Por exemplo, sem comparação, si algum medico novo ou -cirurgião cuidasse de um doente perdido, ou de alguma chaga -pertinaz, e que apparecesse a saude, não tanto pela industria -do medico, e sim pela boa naturesa coadjuvada por -unguentos communs, não ha duvida que tal cura seria attribuida -á sciencia e experiencia dos curadores, e se aproveitariam -d’isto para fazer voar sua fama entre as boas -cidades, e serem recebidos com muita distincção nas boas -casas.</p> - -<p>O mesmo acontece no Brasil com estes novos feiticeiros, -quando se restabelece o infermo depois dos seos sopros.</p> - -<p>Não receis que isto fique só na casa do doente, porque -sae o feiticeirinho de aldeia em aldeia contando suas proesas, -e triplicando-as.</p> - -<p>O diabo, espirito suberbo, não se communica indifferentemente -a todos os feiticeiros; porem d’entre elles escolhem -os mais bellos espiritos, e lhes infundem suas invenções e -subtilesas.</p> - -<p>Julgae por isto. Nunca vereis os diabos fazerem grandes -operações e communicações aos pequenos feiticeiros, e limitam-se -apenas a dar-lhe malicia conforme o juiso e talento -do seo espirito.</p> - -<p>Si pelo contrario encontram algum bello espirito, elles o -instruem largamente de suas perversas e condemnaveis sciencias, -que são de ordinario as nigromancias, judiarias e -magicas. O mesmo acontece aos feiticeiros: achareis muitos -pequenos, de que não se faz grande caso, e nem se tem -muito medo, valendo-lhes pouco o officio: outros mais instruidos -e mediocres, que occupam o lugar medio entre pequenos -e grandes. Ordinariamente viajam por certas aldeias -importunando os seos habitantes, cuidando de dansas e de -outras coisas, que dependem do seo officio.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_255"></a>[255]</span></p> - -<p>Si algum seu collega apparece por ahi, elles não ficam -contentes, mas quando é convidado algum de seos superiores -soffrem-no com paciencia.</p> - -<p>Quanto mais progressos fazem nos abusos, mais graves -se mostram: fallam pouco, buscam a solidão, evitam o mais -que podem as companhias, com o que alcançam mais honra -e respeito, são mais procurados depois dos Principaes, e -estes lhes fallam com attenção ahi usada, e ninguem os -maltrata.</p> - -<p>Para conservar taes honras edificam suas casas á parte, -longe de visinhos.</p> - -<p>O demonio ardiloso ensina o que pratica a disciplina religiosa, -isto é, o necessario para conservar o espirito de -Deos, fazer sua alma capaz das suas visitas e consolações -para o que necessario é amar a solidão e n’ella residir, -evitando cuidadosamente o mais que é possivel a companhia -dos homens, com o que não somente adquirireis favores -espirituaes, mas tambem a honra e o respeito d’aquelles, -que evitaes.</p> - -<p>A compleição dos homens é similhante a da honra e da -sombra: si correis após ellas, ellas fugirão diante de vós, -si as evitaes, ellas vos procurarão.</p> - -<p>Assim são os homens: sê-de com elles familiares, e sereis -despresados; fugi d’elles, sereis respeitados.</p> - -<p>Por similhança este velho doutor da malicia ensina os -seos principaes discipulos a evitar communicações, a fugir -de tristezas e melancolias, a fugir de invenções e fantesias, -a residir sós com suas familias com o fim de poder -melhor imprimir em seos pensamentos os meios, pelos quaes -quer conservar estes povos na ignorancia e superstição -regosijando-se de vêr tantas nações presas em suas cadeias.</p> - -<p>Não é de hoje, e nem n’esta nação somente, que elle inverte -os exercicios da verdadeira Religião, mas de todos os -tempos e em todos os lugares, porque não pode ser autor, -e sim falso imitador do verdadeiro bem.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_256"></a>[256]</span></p> - -<p>Assim como a serpente se occulta debaixo das folhas -para picar o segador, assim tambem elle occulta seo veneno -e sua falsa Religião sob apparencia somente de uma imitação -das obras de Deos.</p> - -<p>Dizem Plinio e Solinus, que Cerasto, serpente mortifera, -se cobre d’areia deixando apenas de fóra os cornos afim de -enganar os passaros com a ideia de ser comida, e quando -se approximam, ella sahe da embuscada e os apanha.</p> - -<p>O Genesis compara o diabo com esta serpente <i>Cerastes in -semita</i> «Ceraste no caminho.» Vemos isto em nossos selvagens, -nutridos e entretidos com taes engodos, que eu não -os acreditaria si os não visse, e si o leitor duvidar, peço-lhe -que creia no que vou contar-lhe.</p> - -<p>São tão tolos estes pobres selvagens, que em relação aos -seos feiticeiros, especialmente aos grandes, creem firmemente, -que elles podem enviar-lhes molestias e fomes, e -tirar-lhes tudo o que elles tem, e embora saibam os proprios -feiticeiros, que elles todos são embusteiros, não -julgam poder curar-se sem que passem por mãos de outros.</p> - -<p>Si adoece algum francez nas aldeias, seo Compadre e sua -Comadre lhe pedem permissão para que os feiticeiros o visitem, -o bafejem, e lhe toquem com as mãos.</p> - -<p>O que dirieis vós, si eu vos dissesse, que vindo visitar-me -muitos selvagens, quando adoeci, me pediram muito affectuosamente -licença para me trazerem seos feiticeiros afim -de me bafejarem, e apalparem-me, sem o que, asseguravam-me, -eu não ficaria bom?</p> - -<p>O grande <i>Thion</i> adoecendo apenas chegou do <i>Mearim</i> -ao Fórte de S. Luiz, pensou, e por muito tempo acreditou -ser isto devido a ameaça do Principal-feiticeiro da sua terra, -que pretendia seduzir e impedir esses povos <i>Mearinenses</i> -de virem á Ilha, logrando vêr muitos com elle ficarem nas -florestas do <i>Mearim</i>.</p> - -<p>Tinha ameaçado <i>Thion</i> com a morte apenas aqui chegasse, -o que não aconteceo, porque depois d’uma febre violenta<span class="pagenum"><a id="Page_257"></a>[257]</span> -recobrou sua saude: com tudo, emquanto esteve doente, -pensou morrer, por maiores que fossem as nossas -advertencias de que não devia prestar credito a taes feiticeiras.</p> - -<p>Si estes pequenos e mediocres feiticeiros gozam de autoridade -entre os seos, muito mais aquelles, que se chamam -propriamente <i>Pagy-uaçú</i><a id="Nanchor_100" href="#Note_100" class="fnanchor">[100]</a> «grandes feiticeiros», porque são -como os Soberanos d’uma Provincia, muito temidos, chegando -a tal poder por muitas subtilesas: de ordinario tem communicação -tacita com o diabo. Por onde passam, seguem-nos -os povos; são graves e por isso não se communicam -facilmente com os seos: são muito bem acompanhados quando -vão a qualquer parte, e tem muitas mulheres, não lhes -faltam mercadorias, julgam-se felizes seos similhantes quando -os presenteiam, e com uma feitiçaria tiram aos seos compatriotas -o melhor que possuem em suas caixas.</p> - -<p>Não descobrem suas subtilezas diante dos selvagens, e -pelo contrario zombam delles, e muitos me contaram os -meios, que empregaram para isto, o que ainda direi em -lugar proprio.</p> - -<p><i>Japy-açú</i> e o grande feiticeiro de <i>Tapuitapera</i> tiveram -entre si uma questão, de que resultou reciproca desconfiança.</p> - -<p>O grande feiticeiro mandou dizer-lhe, si elle já não se -lembrava das molestias, que outr’ora lhe enviou, e de que -pensou morrer a ponto de lhe pedir que as removesse, e -si agora já não as temia?</p> - -<p>Estas palavras impressionaram <i>Japy-açú</i>, e julgou-se feliz -de ter sua amisade. A questão foi por causa de uma mulher -retida por força; porem merece ser contada esta historia -por haver relação entre ella e o objecto de que tratamos.</p> - -<p>Adquirio o grande feiticeiro de <i>Tapuitapera</i> em sua Provincia -e circumvisinhança fama e autoridade de um perfeito -Magico, que a seu bel-prazer distribuia molestias e mortes, -curava e dava saude, e por isso alcançou em seo paiz o<span class="pagenum"><a id="Page_258"></a>[258]</span> -grau de Soberano Principal, e dispunha de todos á sua vontade.</p> - -<p><i>Japy-açú</i> mofava e zombava de tudo isto, o que sabido -pelo outro o fez dizer, que em pouco tempo em si mesmo -experimentaria si não tinha o poder de fazer bem ou mal -a quem quizesse.</p> - -<p>Não fez <i>Japy-açú</i> caso d’isto, porem veio a fortuna proteger -ao seo contrario fazendo com que elle cahisse doente -muito naturalmente; pensou ser sua molestia devida ao -feiticeiro de <i>Tapuitapéra</i>, embora a existencia do mar entre -uma e outra Provincia, e pela força de imaginação agravou-se -sua molestia a ponto de o julgarem á morte.</p> - -<p>Todos os feiticeiros e feiticeirinhos da Ilha o visitaram, -porem nenhum lhe deo saude e afinal escolheo as melhores -fazendas que havia e humildemente mandou a esse feiticeiro -seo antagonista, pedindo-lhe pelos mensageiros seos parentes, -que desse ordens á molestia para deixal-o.</p> - -<p>O feiticeiro tomando as mercadorias lhe mandou não sei -que moxinifada para elle tomar, asseverando-lhe cura em -breve tempo. <i>Japy-açu</i> acreditou, principiou pouco a pouco -a passar melhor temendo d’ahi em diante o feiticeiro, que -comtudo entre os seos zombava d’elle, e outras vezes o -apontava para mais firmar sua autoridade.</p> - -<p>Ora como é possivel, direis vós, que appareçam e desappareçam -as molestias por força d’imaginação e apprehensão, -d’estes selvagens a respeito das ameaças ou dos favores de -seos feiticeiros?</p> - -<p>Decida a medicina: comtudo responderei á pergunta com -os exemplos mui communs, dos <i>Hypocondriacos</i>, ou doentes -imaginarios, os quaes embora sãos, e bem conservados, julgam-se -debeis e fracos, pensando cada um soffrer uma molestia -differente.</p> - -<p>Fechando este artigo, eu vos faço notar que se julgam -uns grandes feiticeiros por fazerem mal, e outros por praticarem -o bem.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_259"></a>[259]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XI">CAPITULO XI</h3> - -<p class="subhead">Como falla o diabo aos feiticeiros do Brazil, suas falsas -prophecias, idolos e sacrificios.</p> - -</div> - -<p>Diz Santo Agostinho, que o diabo insuflado por sua soberba -quiz ser obedecido como Deos, imitando com falsidade -em tudo e por tudo o proceder de Deos, especialmente em -seos oraculos—<i>Diabolus est Angelus per superbiam separatus -á Deo, qui in veritate non istetit, et doctor mendacii, etc</i>. -«o diabo é um Anjo separado por sua soberba de Deos, que -não quiz persistir na verdade fazendo-se assim doutor da -mentira.»</p> - -<p>Vendo que Deos fallava outr’ora a seos prophetas por diversos -modos, e a seo povo entre duas figuras de cherubins -postas sobre a arca da alliança, quiz tambem em todos -os tempos ter falsos prophetas, com os quaes consultava -seos desgraçados projectos, e seos falsos oraculos proferidos -entre diversas figuras por meio de demonios escondidos por -ahi ou occultos ora sob a figura de uma serpente, ora de -um touro, ora de um mocho ou gralha, e finalmente de -uma pyramide, estatua e assim por diante.</p> - -<p>Advinhavam estes falsos prophetas o futuro não por espirito -prophetico, visto não ter o diabo tal poder, e sim por -experiencia de muito tempo, junta á subtilesa de seo espirito, -que os faz presagiar coisas futuras pelo que vê nos homens -e nas coisas, como bem diz Isidoro—<i>Dæmones triplici -acumine præscientiæ vigent, scilicet, sublimitate naturæ, -experientia temporum, revelatione superiorum potestatum</i>, -«possuem os demonios tres subtilesas para prevêr o futuro, -finura por naturesa, experiencia de tempo, e revelação de -poderes superiores.»</p> - -<p>Deixando de parte a experiencia tão antiga dos seos procedimentos -para com a Gentilidade, quero fazer-vos vêr o -que ha de verdadeiro a tal respeito, visto que o diabo tem<span class="pagenum"><a id="Page_260"></a>[260]</span> -sempre enganado, e ainda hoje, estes pobres selvagens por -seos oraculos e predicções.</p> - -<p>O feiticeiro, de que ja vos fallei, recolhido ás campinas -do Mearim, tinha em casa diabos sob a figura de pequenos -passaros negros, que o advertiam do que deviam fazer e do -que se passava na ilha e em outros lugares.</p> - -<p>Quando quiz ir a Maranhão revelaram-lhe estes passaros -por occasião de andar passeiando nas suas roças, que cedo -chegariam os Tapuyas, e destruiriam seo milho e suas raizes, -mas que nenhum mal succederia nem a elle, nem aos seos, -e assim aconteceo, porque vindo os Tapuyas de mansinho -para sorprehendel-o, ouviram grande matinada na casa do -feiticeiro, e por isso não se animaram a atacar, receiando -superioridade de defensores, contentando-se com carregar -os milhos e raizes, e assim se foram.</p> - -<p>Estes mesmos passaros, ou os diabos sob tal forma, ordenaram -a este feiticeiro, que fosse á ilha do Maranhão, fazer -suas feitiçarias, e convidar os que quizessem deixar a ilha -para vir ahi residir devendo desembarcar no porto de <i>Taperussu</i>, -isto é, na aldeia dos animaes gordos, n’uma das -extremidades do Maranhão, sendo-lhe absolutamente prohibido -aproximar-se do lugar onde moravam os padres, o que -cumprio pontualmente.</p> - -<p>Nunca poude vir ahi nos vêr, apesar de toda a segurança -que lhe promettiamos. Dizia que seos espiritos nos temiam, -e se lhes desobedecessem, suas roças ficariam por fazer, -não trabalharia mais, e perderia o poder, que tinha entre os -seos, que seos espiritos lhe haviam aconselhado de retirar-se -do Maranhão antes de nós lá chegarmos afim de continuarem -á viver com elle tão pacificamente como até hoje.</p> - -<p>Estes e outros factos contava elle aos habitantes de <i>Taperussu</i>, -que em parte lhe prestavam credito, pois n’essa -occasião muitas mulheres se agarravam ás suas pernas, chorando -e gritando, pedindo-lhe para que não deixasse o seo -paiz, e nem fosse para <i>Yuiret</i>, onde estavamos, principalmente<span class="pagenum"><a id="Page_261"></a>[261]</span> -porque lhe fora isso prohibido pelos espiritos, e se fizesse -o contrario succeder-lhe-hia mal.</p> - -<p>Considerae, leitor, a maldade, e o temor d’estes demonios, -maldade para impedir que se cheguem os homens á -luz da verdade, ficando sempre obedientes ás trevas da infidelidade.</p> - -<p>É proprio da malicia fugir da claridade com medo de serem -descobertas suas maldades, e sua autoridade destruida.</p> - -<p>O temor, que elles tem, dos servos de Deos, em cuja presença -não se podem sustentar, bem como o mocho diante -dos raios do sol, e os sapos á vista da flor e cheiro da vinha, -mostra quam grande é o poder de Deos, dado á sua -igreja contra a potestade do inferno.</p> - -<p>Prosigamos.</p> - -<p>Dois principaes feiticeiros governavam duas nações de <i>Tabajares</i>, -inimigas reciprocas, das quaes abusavam dizendo -que tinham repetidas conferencias com os diabos tomando -a figura de diversos passaros.</p> - -<p>O feiticeiro do lado de Thion, mau e desgraçado (que -nunca quiz vir á ilha, e que della desviava seos similhantes -o mais que podia) criava em sua casa um morcego, a -que chamava <i>Endura</i>, que lhe fallava em voz humana em -lingua dos <i>Tupinambás</i>, algumas vezes tão alto, que podia -ser ouvido á seis passos de distancia, não distincta, porem -confusamente e com timbre infantil.</p> - -<p>Respondia-lhe o selvagem ficando só em sua casa, porque -despedia a todos quando percebia que elle lhe queria -fallar.</p> - -<p>Quando os nossos la foram afim de preparar os selvagens -a sahir do seo paiz para a ilha, instigou-se a curiosidade -de alguns francezes, que tinham ouvido dizer maravilhas -d’este feiticeiro, e pediram a seos compadres que lhes -dissessem o que percebessem do colloquio d’elle com o morcego, -e para isso aproximaram-se de mansinho da morada -d’elle a ponto de ouvirem perfeitamente a voz de ambos, e<span class="pagenum"><a id="Page_262"></a>[262]</span> -querendo chegar mais perto foram descobertos pelo feiticeiro, -e retirou-se o morcego.</p> - -<p>Chamou-os o feiticeiro, sem zangar-se, fel-os entrar em -sua casa, e perguntou-lhes o que queriam e porque estavam -a escutar?</p> - -<p>Responderam-lhes os francezes, que tinham ouvido dizer -aos selvagens seos similhantes, que ahi havia uma communicação -visivel e familiar com <i>Jeropary</i>, que d’ella desejavam -vêr alguma coisa, e eis porque se tinham aproximado, -e ouvido distinctamente duas vozes, a sua e uma outra mais -doce e clara.</p> - -<p>É verdade, disse elle, eu fallava agora com o meo morcego, -que me veio dizer maravilhas e grandes novidades, -como sejam guerra em França, e que os <i>Caraibas</i> do Maranhão -não estavam onde pensavam, que de nada me assustasse, -e ficasse com elle n’esta terra não acompanhando á -ilha meos compatriotas, que aqui não ficariamos muito tempo, -porque os francezes regressariam á sua patria, e que muitos -selvagens de <i>Tapuitapéra</i> tinham fugido para o matto.</p> - -<p>Perguntaram-lhes os francezes como elle criava e sustentava -este morcego?</p> - -<p>Respondeo, que um dia seo espirito, em quanto elle estava -só, lhe disse que de ora em diante lhe fallaria sob a -figura de tão feio animal, e que por isso lhe havia preparado -um quarto em sua casa, onde dormiria e descançaria, -comendo do que elle comesse, e quando quizesse fallar-lhe, -que elle o ouviria e responderia: que este espirito tambem -quando quizesse communicar-lhe alguma coisa de novo o -chamaria por seo nome, e com elle fallaria na casa ou no -bosque, e mandou o feiticeiro fazer-lhe um ninho para recolher-se, -e com elle sempre fallava sob a forma de morcego.</p> - -<p>Dizendo isto mostrou um dos cantos da sua casa, onde -estava o ninho feito de folhas de palmeira: ahi, disse, vem -elle comigo conversar, discorremos como dois iguaes, e come -o que lhe dou.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_263"></a>[263]</span></p> - -<p>Não posso deixar de notar as particularidades seguintes:</p> - -<p>1.ª Porque o diabo antes quiz tomar a forma de um morcego -do que a de outro qualquer passaro.</p> - -<p>2.ª Como o diabo imita a voz humana.</p> - -<p>3.ª Da verdade d’estas novidades em França, e como é -possivel, que saiba o diabo o que se passa no mundo.</p> - -<p>4.ª Porque razão comia carne.</p> - -<p>5.ª Da localidade por elle escolhida para discorrer com o -seo Magico.</p> - -<p>Para satisfazer a primeira, dizemos, que o axioma dos -philosophos—<i>todos procuram seos similhantes</i>, é uma verdade -provada quer nas coisas physicas, quer nas sobrenaturaes, -porque o diabo, que por sua soberba se fez espirito -immundo, busca de ordinario tomar as formas mais horriveis -e immundas, que pode ser, para communicar-se com -seos bons servos e amigos.</p> - -<p>Bem sei o que disse S. Paulo—<i>Ipse enim Sathanas transfigurat -se in Angelum lucis</i> «que Satanaz, transformado em -camaleão, para seduzir os tolos, toma a forma de um Anjo -de luz», isto é, reveste-se de bellas figuras, ou profere boas -palavras para melhor fazer seo jogo.</p> - -<p>As bonitas formas de mulheres e raparigas, que elle toma -para melhor attrahir os homens luxuriosos, não tem outro -motivo senão o desejo de chamar a si os individuos conforme -sua inclinação.</p> - -<p>Diz S. Thomaz, que por este motivo, não pode o diabo -aborrecer naturalmente os Anjos felizes, porque tem parte -na natureza d’elles, sendo impossivel amal-os em relação á -justiça dos Anjos, e injustiça dos diabos.</p> - -<p>D’esta conclusão deduso duas inclinações dos demonios: -uma natural com que amam as coisas boas, ou pelo menos -não as podem aborrecer, e a outra é proveniente da culpa -e da soberba, com que procuram coisas immundas e abominaveis, -e não podem proceder de diverso modo porque -gostam da perversão do appetite, por culpa da natureza.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_264"></a>[264]</span></p> - -<p>Dizemos por isto em lingua vulgar, que o diabo horrorisa-se -das torpesas e maldades, a que leva o homem a praticar -por suas instigações, o que entendereis conforme a distincção -da naturesa e a culpa do diabo.</p> - -<p>Eis uma das principaes causas, porque este cruel Behemot -toma a figura de morcego, a que accrescento outra tirada -de uma propriedade peculiar aos morcegos, qual a destes -maus passaros nocturnos, muito mais horriveis e maiores -do que os de França procurarem as pessoas que estão deitadas -e dormindo,<a id="Nanchor_101" href="#Note_101" class="fnanchor">[101]</a> e lhe arrancarem um pedaço de carne e -depois lhe chuparem muito sangue sem que se desperte a -victima, porque tem a propriedade de conservar o homem -adormecido emquanto lhe chupam o sangue: achando-se fartos -o deixam, continuando o sangue a correr, e por isto -fica debil a pessoa, e por muitos dias anda com difficuldade.</p> - -<p>Melhor escolha não podia fazer Satanaz para representar -sua naturesa e crueldade porque anda a noite, e sob as trevas -da ignorancia procura os homens adormecidos e si delicia -nas suas carnes, tirando-lhe a inclinação natural que -tem para com Deos, e procura meios de sugar á sua vontade -o sangue, instrumento da vida, as affeições e paixões -dos seos captivos para tornal-os fracos e impotentes em fazer -o bem e procurar sua salvação.</p> - -<p>2.º Consiste a 2ª dificuldade na imitação da voz humana -pelo diabo, não tendo orgãos e nem lingua para fazel-o.</p> - -<p>Sua palavra é apenas a manifestação de seo desejo e -vontade quando falla aos outros diabos, seos companheiros, -e aos homens pelas impressões fantasticas, que faz as suas -imaginações.</p> - -<p>Comtudo nos ensina a Santa Escriptura, que elle servio-se -da lingua da serpente para seduzir nossa primeira mãe, permittindo -Deos, porque não tem poder na creatura, em quanto -fraca e indigente, sem licença de Deos, e com ella pode -crear um corpo no ar, e articular em qualquer lingua até -mesmo nas desconhecidas suas affeições e desejos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_265"></a>[265]</span></p> - -<p>Ponho de parte mil outros modos, pelos quaes manifesta -seos desejos aos feiticeiros, por não ser nosso proposito.</p> - -<p>3.º Notamos as noticias, que deo dos motins havidos era -França, isto é, d’esta ultima leva de soldados, e como poude -ser isto.</p> - -<p>Direi com Santo Agostinho, que os demonios excedem -em ligeiresa todo o corpo existente na maquina do mundo, -nada havendo que possa com elles competir em velocidade.</p> - -<p>Em 24 horas fez o primeiro movel este grande curso em -torno das abobadas inferiores, espaço superior aos calculos -dos mathematicos, de tal modo que dentro d’uma hora vence -não sei quantas mil legoas.</p> - -<p>Calculae agora a ligeiresa d’estes espiritos, que em poucos -momentos giram ao redor do universo, sabendo e vendo -o que por elle se passa, e conjecturando o que se pode predizer -das coisas futuras: si tão ligeiros fossem os correios, -á cada hora receberiamos noticias de todas as partes.</p> - -<p>4.º Usava de carne, dado o caso de ser verdadeira a existencia -d’este morcego, de que se servia o diabo, e por tanto -tinha necessidade de nutrir-se, e si fosse apenas parto de -imaginação não tinha precisão de carne para viver.</p> - -<p>Não obstante tudo isto, tem sempre sido costume do demonio -comer e beber apparentemente em companhia do seos -mais dedicados servos, imitando assim o exemplo dos anjos -bons do antigo Testamento, que comiam com Abraham, Loth, -Tobias e outros.</p> - -<p>5.º A situação do logar procurado por este espirito, isto -é, os bosques, o concavo das arvores, ou o recanto de alguma -casa solitaria, nos faz ver a inclinação, que tem estes -espiritos rebeldes a fazerem, como os condemnados, suas moradias -em logares escuros e desertos, tristes e melancolicos, -temendo, se assim se pode dizer, a luz creada, e a doçura -da harmonia.</p> - -<p>Acha-se isto em prova na pessoa de Saul, possesso, sendo -aplacado pelo som da harpa de David.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_266"></a>[266]</span></p> - -<p>Asmodeo foi preso pelo anjo Raphael no fundo do deserto, -e Satanaz pelo anjo do Apocalypse no fundo dos abysmos.</p> - -<p>Este pobre, victima de legiões diabolicas, que Jesus-Christo -livrou, dia e noite morava nos sepulchros dos defuntos.</p> - -<p>Fingiam os antigos, que Cerberas, tirado do inferno, apenas -vio a brilhante luz do sol principiou a vomitar Aconite, -até que lhe foi permittido regressar ás suas cavernas tenebrosas.</p> - -<p>Diga-se isto em relação ao feiticeiro da aldeia do grande -<i>Thion</i>.</p> - -<p>Quanto ao <i>Pagy-uassu</i>, das aldeias de <i>farinha molhada</i>, -prevenio aos seos, alguns mezes antes, da chegada dos francezes, -que breve chegavam os <i>Caraybas</i>, trazendo-lhes mercadorias, -sendo para notar, que ignoravam a estada dos -francezes na <i>Ilha do Maranhão</i>.</p> - -<p>Com tal aviso vestiram-se uns de camisas, e outros de diversos -factos do tempo, que outr’ora com elles moravam os -francezes.</p> - -<p>Assim vestidos foram ter com os habitantes das aldeias -de <i>Thion</i>, e para assustal-os lhes disseram—«entregae-vos -á nós, porque os francezes estão comnosco; olhae as roupas -que nos deram.»</p> - -<p>Estas palavras intimidaram muito a <i>Thion</i> e os seos, e pensavam -em fugir quando chegaram os enviados dos francezes -dizendo-lhes, que estes os veriam ver logo que elles -mandassem suas embaixadas á ilha.</p> - -<p>Por isto podeis ver, quanto o astucioso Satanaz dava poderes -a estes <i>pagys</i>, fazendo-lhes prever coisas futuras.</p> - -<p>Sua astucia porem não é tão grande, relativamente á predicção, -porque via o esforço dos francezes visitando os povos -visinhos, e tambem o desejo e a resolução de ir procurar -essas nações, onde se achassem, e por tanto este bom -criado advertio seo senhor.</p> - -<p>Usam os diabos de outra maneira de fallar e de communicar-se -com os diabos e com os feiticeiros d’este paiz, a saber,<span class="pagenum"><a id="Page_267"></a>[267]</span> -fazem um buraco em terra, dentro de casas longinquas, -deitam-se de bruços os feiticeiros, mettem a cabeça no buraco, -fecham os olhos, perguntam ao demonio o que querem, -e do fundo do buraco estes lhes respondem.</p> - -<p>Este uso era muito trivial na Gentilidade, e deixando as -historias profanas vou referir-me ao que está escripto no livro -1º dos Reys, cap. 28 quando Saul foi consultar a feiticeira -de Endor, a qual curvando-se em terra, metendo a -cabeça e o rosto n’um buraco, fazendo suas invocações, -disse—<i>Deos vidi ascendentes de terra</i>—«vi Deoses subindo -da terra.»</p> - -<p>Não é sem fundamento, que ella escreveo e servio-se -d’estas palavras—<i>vi deoses</i>, a menos, que estas feitiçarias -não tivessem poder e força para fazer apparecer alguns diabos, -mas quiz Deos, que a propria alma de Samuel acudisse -á sua palavra afim de prophetisar a ultima desgraça de -Saul, que em suas necessidades havia recorrido aos adevinhos -e feiticeiros.</p> - -<p>Soube de alguns francezes, moradores na aldeia de <i>Vsaap</i>, -que um feiticeiro d’ahi era mui respeitado e temido -pelos selvagens, por ser geral a crença delle fallar com toda -a liberdade com o diabo, pela maneira ja dita, e por isso -não se atreviam a aproximar-se de sua casa quando viam -a porta fechada receiando tal colloquio.</p> - -<p>Havia tambem na Ilha uma velha feiticeira, que guardava-se -muito em segredo: era mui apreciada pelos selvagens -e procurada especialmente nas molestias incuraveis; quando -todos os feiticeiros já não sabiam o que haviam fazer, então -ella era convidada, e trazida com segurança, porem sempre -occulta.</p> - -<p>N’um dia, segundo o que me disseram alguns francezes, -ella veio a <i>Vsaap</i> para fazer uma cura, já sem esperança, -e, antes de começar fechou-se n’uma casa, isolada no meio -da praça da aldeia, e ahi fez suas invocações e feitiçarias -diabolicas sobre o corpo do infermo, fazendo apparecer visivelmente -o seo demonio.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_268"></a>[268]</span></p> - -<p>Os francezes, que isto me contaram, tiveram desejos de -espiar o que fazia esta feiticeira, porem os selvagens os embaraçaram -o mais que poderam, asseverando-lhes serem perigosos -e maus os espiritos d’esta mulher, de fórma que na -seguinte noite torceriam o pescoço de quem os espiasse.</p> - -<p>Zombaram os francezes, e foram de muito boa vontade á -essa casa, com grande admiração dos selvagens, que os -julgavam atrevidos e presumpçosos, e fazendo um buraco -na parede de palha viram as gesticulações d’essa mulher e -notaram não sei que de monstruoso ao redor d’ella, não podendo -destinguir o que era, e assim se retiraram.</p> - -<p>Em quanto estive doente, muitas pessoas me fallaram d’esta -desgraçada creatura com grandes gabos e estima, como infallivel -em dar saude aos que lh’a pediam. Bem podeis calcular -si me agradavam taes palavras.</p> - -<p>Fallaram-me tambem de certos barbeiros d’aquelles paizes, -que habitavam em choupanas nos bosques, onde iam consultar -seos espiritos.</p> - -<p>Na verdade, é frequente na Ilha e nos paizes visinhos -edificarem os feiticeiros pequenas choupanas de palha em -lugares longinquos nos mattos: ahi collocam pequenos idolos -de cera ou de madeira em forma humana,<a id="Nanchor_102" href="#Note_102" class="fnanchor">[102]</a> uns maiores, -outros menores, porem os maiores não tem mais que um -covado. Ali em certos dias vão elles levando comsigo fogo, -agoa, carne ou peixe, farinha, milho, legumes, pennas de -côr e flôres. D’estas carnes fazem uma especie de sacrificio -a esses idolos queimam resinas cheirosas, enfeitam-nos com -pennas e flores, e ahi se demoram muito tempo sosinhos: -crê-se que era a communicação d’estes espiritos.</p> - -<p>Crescia este mau costume, e estendia-se as aldeias visinhas -de <i>Juniparan</i>, onde morava o Revd. Padre Arsenio -a ponto d’elle encontrar estes idolos de cera na visinhança -dos bosques e algumas vezes nas proprias casas.</p> - -<p>Livrou-se d’elles por meio d’exorcismos, que fez em sua -Capella contra estes diabos tão insolentes como atrevidos, e -depois não ouvi mais fallar n’isto.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_269"></a>[269]</span></p> - -<p>Considerae agora a presumpção de Satanaz, que em todos -os lugares, e em todas as nações, quando póde, se faz conhecido -por alguma especie de adoração e sacrificio por saber, -que nenhuma religião boa ou má, pode existir sem algum -sacrificio e representação da coisa adorada.</p> - -<p>Eis porque elle inventou os idolos em lugar das verdadeiras -imagens, que Deos mandou levantar no tabernaculo, -e depois no templo de Salomão.</p> - -<p>Em vez dos verdadeiros sacrificios, que Deos estabelecia -na sua lei, procurou este espirito soberbo ter altares -e sacrificios de toda a especie de animaes e fructos -da terra.</p> - -<p>Comquanto esta nação de selvagens não tivesse perante -o publico algumas ceremonias de religião, nem préces e nem -orações, comtudo em particular estes feiticeiros serviam ao -diabo, como ja disse.</p> - -<p>Para acabar, direi que acreditavam estas pessoas em espiritos -particulares, até mesmo francezes.</p> - -<p>Vou dar-vos exemplos.</p> - -<p>Quando o Sr. de la Ravardiere, depois da guerra dos <i>Camarapins</i>, -regressava do Pará, advertio-lhe uma mulher -que fora resolvida a sua morte, bem como a de todos os -francezes e <i>Tupinambás</i>, que o acompanhavam, pelos selvagens -d’aldeia, onde estava alojado.</p> - -<p>Fez-se tudo quanto foi possivel para descobrir-se a verdade, -porem todos negaram e nada confessaram.</p> - -<p>Fizeram crer aos selvagens d’aquelles lugares, que no relogio -d’algibeira, que trasia o Sr. de la Ravardiere, havia -um <i>espirito</i> escondido, que dava movimento ao que se via -por dentro e por fóra, e que aos francezes revellava as coisas -mais secretas.</p> - -<p>Fez-se vir ao chefe, ao qual se disse, que se o ponteiro -do relogio chegasse a tal ponto do quadrante, que fallava a -verdade o <i>espirito</i>, e por isso acrescentaram—leva-o comtigo -e guarda-o até ahi chegar o ponteiro, e vem antes do -nosso <i>espirito</i> e conta-nos tudo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_270"></a>[270]</span></p> - -<p>Pegou do relogio e levou-o para sua casa, e vendo que -elle caminhava sempre para diante, acreditou facilmente no -espirito dos francezes, que imprimia tal movimento, e não -esperou que chegasse ao fim prescripto, voltou, declarou tudo -e restituio o relogio.</p> - -<p>O capitão d’um navio de guerra deo-nos uma bella imagem, -tomada de um navio portuguez, que ia para Pernambuco.</p> - -<p>Por acaso mandei guardar essa imagem, na hora em que -a recebi, n’uma das caixas, que tinha em nosso quarto, e -n’esse mesmo momento vieram muitas mulheres indias á -nossa casa, e vendo a imagem muito bem esculpida, pintada -com diversas cores sobre fundo de oiro, admiraram-se e não -queriam entrar, dizendo—<i>Y anaité asse quege seta?</i> «que coisa -nova é esta que nos olha tão vivamente? Ella nos faz medo.» -Fil-os entrar dizendo-lhes que não tivessem medo, e que era -uma imagem dos servos de Deos. Admirei-me de vel-os immediatamente -prostrados a seos pés chorando sua boa vinda, -e depois me perguntaram que carne ella comia para irem -buscal-a. Ri-me de tal simplicidade, e colloquei a imagem na -Capella de Sam Francisco.</p> - -<p>Coisa igual aconteceo a um <i>Tabajare</i>, muito simples, -vendo da porta da Capella de S. Luiz um bello crucifixo, -que dentro estava. Não me foi possivel fazel-o entrar na -Capella, e dizia ao interprete. «Elle me olha vivamente, -está vivo sem duvida, tenho medo d’entrar não sendo baptisado -porque me faz mal.»</p> - -<p>Fizeram o mesmo muitos outros, porem tomando o crucifixo -em meos braços, fiz-lhes vêr que elle era de madeira, -representando com tal forma o que Jesus Christo por nós -soffreo.</p> - -<p>Eis o resultado da superstição, como eu já disse, que entre -elles derramaram seos feiticeiros, tanto á respeito de -seos idolos, como de seos espiritos.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_271"></a>[271]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XII">CAPITULO XII</h3> - -<p class="subhead">De algumas outras ceremonias diabolicas praticadas -pelos feiticeiros do Brazil.</p> - -</div> - -<p>Sentiria muito este Principe se deixasse intacta alguma -coisa no serviço de Deos, sem procurar imital-a falsamente, -e sem buscar introduzil-a no culto supersticioso de sua soberba.</p> - -<p>Outr’ora Deos no Antigo Testamento instituio as agoas da -Purificação, feitas e compostas de diversas materias e differentes -ceremonias, conforme o fim e objecto, a que se -destinavam, tanto para purificar os homens, os vasos, e os -utensilios do Templo, como os vestidos, as casas e todos os -moveis.</p> - -<p>Por imitação instituio este demonio as agoas de lustração, -das quaes se serviam os pagãos para diversos fins, bem -como os judeos, lavando e aspergindo com ellas os homens -antes dos sacrificios, os utencilios dos templos dos idolos, -as casas, os vestidos e moveis dos infieis.</p> - -<p>Vejamos se esqueceo-se esta desgraçada serpente d’illudir -nossos selvagens com taes superstições.</p> - -<p>Quando outros exemplos não podessemos produzir alem -do já referido no <i>Tratado do Temporal</i>, das nigromancias -feitas pelo feiticeiro, vindo dos campos do Mearim, bastava -só esse para demonstrar claramente as loucuras e abusos, -que semeára este antigo enganador entre os povos, em relação -ao nosso fim.</p> - -<p>Como soube, da propria bocca dos feiticeiros, de muitas -particularidades, que faziam para illudir estas gentes, não -quero privar o leitor de as conhecer.</p> - -<p>È costume dos <i>Pagys-uaçus</i> celebrarem, em certa epoca -do anno, lustrações publicas,<a id="Nanchor_103" href="#Note_103" class="fnanchor">[103]</a> isto é, purificações supersticiosas -por aspersão d’agoa sobre os selvagens, e bem que -tudo dependa de sua imaginação, fazendo á capricho taes -oblações, comtudo de ordinario enchem d’agoa grandes potes<span class="pagenum"><a id="Page_272"></a>[272]</span> -de barro, proferindo em segredo algumas palavras sobre -elles, deitando tambem fumaças de <i>Petum</i>, e misturando -tambem um pouco de pó da casa, em que se acham, punham-se -a dançar, e depois o feiticeiro toma um ramo de -palha, mete dentro do pote, e com elle asperge a companhia.</p> - -<p>Feito isto, toma cada um a porção d’agua que quer nas -<i>cuias</i>, ou tigellas de madeira, e com ella lavam a si e a -seos filhos.</p> - -<p><i>Pacamão</i>, grande feiticeiro de <i>Commã</i>,<a id="Nanchor_104" href="#Note_104" class="fnanchor">[104]</a> contou-me um -dia, que faria sahir agoa da terra, com que lavava estas -gentes, com grande admiração de todos os barbaros, que -viam sahir tão fresquinha essa agua do meio de sua casa, -e a tomavam como si fosse milagrosamente enviada pelos -espiritos, mas o astucioso tinha enchido d’agoa um grande -vaso e mettendo-o em terra d’elle fazia sahir agoa por meio -de tubos ou canaes, ou tabocas, que em abundancia se -encontram nas mattas do Brasil, e d’esta forma illudia os -seos.</p> - -<p>Aos gentios tinha o diabo communicado muitas ideias erroneas -á respeito das agoas, das fontes, e dos regatos. N’umas -habitavam Nymphas, e n’outras deosas: estas faziam -uma coisa, e aquellas—outras; umas eram perigosas e enganadoras, -outras agradaveis e sinceras; umas sagradas, e outras -profanas.</p> - -<p>Quando os selvagens vêem certa especie de lagartos, parecidos -com os venenosos de diversas cores, correr para -agoa, pensam supersticiosamente, que essa fonte é prejudicial -ás mulheres, e que d’ella bebe <i>Jeropary</i>.</p> - -<p>Sabendo desta superstição para livrar-me do encommodo -que me davam as mulheres vindo lavar-se na fonte do nosso -logar de Sam Francisco, fiz correr o boato, que lá haviam -sardões, e depois d’isto nenhuma mais se animou a ir ahi -excepto as escravas do Forte, que não tinham licença de -lavar-se na fonte, e d’est’arte tive o prazer de mandar<span class="pagenum"><a id="Page_273"></a>[273]</span> -amural-a e fechar á chave, afim de conservar a agoa sempre -limpa.</p> - -<p>Chega esta superstição a ponto de acreditarem, que estes -lagartos atiram-se ás mulheres, adormecem-nas, e gozam-nas, -ficando grávidas, e parindo lagartos em vez de crianças.</p> - -<p>Eis porque, quando mandei espalhar tal boato, vinham as -escravas do Forte em bandos, armadas de cacetes, de facas, -e de outros instrumentos iguaes para se defenderem, diziam -ellas, d’estes lagartos, o que motivaram muito riso a nós -outros, os francezes.</p> - -<p>Alem das agoas de lustrações, e diabolicas abluções praticadas -por estes feiticeiros tem uma maneira particular de -communicar seo espirito aos outros, isto é, por meio da herva -<i>Petun</i> introdusida n’um caniço, de que elles pucham a -fumaça, lançando-a sobre os circunstantes ou soprando-a -mesmo na canna, exhortando-os a receber seo espirito e sua -virtude.</p> - -<p>Parece que este cautelloso dragão quer com tal ceremonia -falsa imitar Jesus Christo quando deo seo espirito aos -Apostolos, e o seo poder aos seos successores para transmitil-o -aos iniciados nas ordens sagradas. Assim se lê em São -João—<i>Insufflavit et dixit eis, accipite Spiritum Sanctum</i>: -«soprou sobre elles, e lhes disse—Recebei o Espirito Santo.»</p> - -<p>D’onde estes feiticeiros tirariam esta ceremonia satanica, -si o diabo não lh’as tivesse mostrado? Achando-se sempre -fechados n’esta grande e vasta região do Brasil, sem communicação -alguma com o velho mundo, não podiam aprendel-a -de outra nação.</p> - -<p>Estes bafejos lhes são muito particulares, como ceremonia -necessaria para curar os infermos, porque vós os vedes puchar -pela bocca, como podem, o mal, dizem elles, do paciente, -fazendo-o passar para a bocca e garganta d’elle, inchando -muito as bochechas, e deixando d’ellas sahir de um -só jacto o vento ahi contido, causando estampido igual ao -de um tiro de pistola, e escarrando com grande força dizendo<span class="pagenum"><a id="Page_274"></a>[274]</span> -ser o mal, que haviam chupado, e fazendo acreditar ao -doente.</p> - -<p>Á este respeito o Sr. de Pezieux e eu passamos um dia -alegre na aldeia de <i>Vsaap</i>.</p> - -<p>Um pobre moço selvagem estava atacado pela colica do -paiz.</p> - -<p>Veio um d’estes feiticeiros exercer sua attração de espirito -sobre o seo ventre, fazendo muitos tregeitos, e retrahindo-se -por diversas vezes vendo-nos prestar-lhe muita attenção, -e apesar de tudo isto o doente continuava a gritar. -Veio o feiticeiro depois procurar-nos e mostrando-nos dois -outros pregos nos disse—«eis o que lhe tirei do ventre, cujos -intestinos estão cheios d’isto, é preciso tiral-os um por -um. Si eu não os tirasse todos, lhe cravariam as tripas e a -garganta.»</p> - -<p>Imbuio a este moço, sempre gritando, que lhe tinha tirado -do ventre esses pregos.</p> - -<p>Si essas casas fossem cobertas de ardosias, penso que -meteria na cabeça d’esse rapaz ter elle comido as ripas e -os pregos; mas não sendo communs entre elles pregos de -ferro, não sei como poude illudir os assistentes com tal loucura.</p> - -<p>Poderia referir muitos outros exemplos, porem bastam-me -estes ao meo fim.</p> - -<p>Ora si é coisa digna de admiração vêr o Espirito Infernal -em tudo quanto acabamos de dizer até aqui, muito -maior deve ser o nosso espanto pelo que vou dizer, isto é, -pela existencia da confissão auricular entre os selvagens.</p> - -<p>Nada digo que não ouvisse da bocca de <i>Pacamão</i>, de -outros selvagens e dos franceses.</p> - -<p>O grande <i>Pagy</i>, na sua provincia de <i>Commã</i>, ia visitar, -quando lhe aprasia, as aldeias do seo dominio, ordenando -que todos fossem confessar-se com elle, especialmente as -mulheres e as raparigas, e quando encontrava alguma que -se recusava a dizer tudo, elle a ameaçava com o seo <i>espirito</i>, -que as havia de atormentar, e tinha muita finura para<span class="pagenum"><a id="Page_275"></a>[275]</span> -reconhecer si occultavam ou não alguma coisa. Dava-lhes -depois não sei que especie de absolvição, e contava tal feito -d’esta e d’aquella, e apesar de tudo isto sempre exerceo seo -officio de confessar até nossa chegada.</p> - -<p>Pensae, eu vos peço, quem lhe ensinaria esta maneira -de confissão auricular, de ameaçar seos similhantes, no caso -de occultarem alguma coisa com o seo <i>espirito</i>, que os castigaria, -e que os absolveria, se tudo confessassem?</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XIII">CAPITULO XIII</h3> - -<p class="subhead">Claros signaes do reino do diabo no Maranhão.</p> - -</div> - -<p>O Salvador do Mundo em S. Marcos, antes de subir á direita -de seo Pae, encarregou a seos Apostolos e discipulos -de irem pelo universo converter os infieis assegurando-lhes -por certos indicios e signaes a proxima ruina do imperio -dos demonios, a saber—<i>signa eos qui crediderint hæc sequentur: -In nomine meo dæmonia ejicient, linguis loquentur -novis, serpentes tollent, et si mortiferum quid biberint, -non eis nocebit. Super ægros manus imponent et bene habebunt</i>: -«estes signaes seguiram os crentes, em meu nome -expellirão o diabo, fallarão novas lingoas, desviarão as serpentes, -e si beberem algum veneno mortifero nada soffrerão.»</p> - -<p>Para bem entender-se estas palavras, convem notar com -os padres e doutores, que foram postas litteralmente em pratica -pelos primeiros christãos, quando na primeira idade da -igreja era preciso combater a obstinação dos judeos e a -louca sabedoria dos gentios.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_276"></a>[276]</span></p> - -<p>Depois que estendeo-se a fé por todo o universo, que foi -por todos condemnada a pertinacia dos judeos e tida por -vaidade a sabedoria humana, não foi mais necessario observar -litteralmente estes signaes na conversão dos incredulos -e sim unicamente a pratica allegorica e mistica.</p> - -<p>Eis o que desejamos mostrar n’este capitulo ter-se feito -todos os dias em Maranhão.</p> - -<p>Primeiramente elle disse—<i>In nomine meo dæmonia ejicient</i>: -«em meo nome elles expellirão os demonios.»</p> - -<p>Em dois annos que estive em Maranhão, vi isto cumprido -por diversas formas, por que os diabos fizeram apparecer realmente -o medo e o temor que tinham do nome de Deos, -procurando por todos os meios embaraçar nossa missão, já -persuadindo seos feiticeiros, mais fieis, a ordenar as nações -sobre que tinham poder, de não se aproximarem de nós, já -infundindo-lhes terror com o signal da Cruz e excitando-os a -arrancar os que existiam, dando maus exemplos com ridicularisar -o que sanctamente ensinavamos a estes barbaros, -intimidando por muitas vezes os habitantes de <i>Maranhão</i>, -<i>Tapuitapéra</i>, <i>Commã</i>, <i>Caetés</i>, <i>Pará</i> e <i>Mearim</i> e fazendo-os -fugir para os matos e logares desconhecidos com receio de -serem presos e captivados pelos francezes ou pelos portuguezes.</p> - -<p>Finalmente mostrou-se tudo de forma diversa, porque -quando julgavamos tudo perdido, foi quando Deos mostrou -o poder do seo nome, conservando não só estes selvagens -junto de nós, mas tambem fazendo com que despresassem -seos feiticeiros e o poder do diabo, fazendo fugir <i>Jeropary</i>, -com o nome de Deos, e a ablução de Jesus Christo.</p> - -<p>Vou mostrar bons exemplos.</p> - -<p>Lembrar-vos-heis do que acima vos disse tanto dos feiticeiros -dos campos do Mearim e das habitações de <i>Thion</i>, -como da maneira porque os diabos manifestavam o temor, -que tinham das cruzes, que plantavamos em nome de Jesus -Christo, e de nós seos fieis servos: quando alguns de seos -Principaes me diziam, que estes feiticeiros não quiseram vir<span class="pagenum"><a id="Page_277"></a>[277]</span> -com elles, eu lhes perguntava a razão, e elles me respondiam—<i>porque -Jeropary tem medo de Tupan</i>.</p> - -<p><i>Acaiuy</i>, principal do Mearim, de quem fallaremos mais de -espaço, veio me pedir licença para fazer sua casa ao pé da -minha, não querendo ficar com os outros no <i>Forte</i>, dizendo-me -entre outras rasões que tinha para isto, ser porque -<i>Jeropary</i> não se atrevia a aproximar-se do logar, em que -habitavamos visto termos vindo expressamente para repellil-o.</p> - -<p><i>Pedro Cão</i>, selvagem baptisado em Dieppe havia muitos -annos, dizia a mim e aos Srs. de la Ravardiere, de Pezieux, -e a outros quando o interrogavamos á respeito de sua felicidade -na guerra, que Deos sempre o livrára de mil perigos -porque era christão, e fazia fugir o diabo apenas -chegava n’uma aldeia, e que seos similhantes mostravam-se -animados, quando em companhia d’elle, não temendo <i>Jeropary</i>.</p> - -<p>O mesmo pensavam os habitantes de <i>Tapuytapéra</i> á respeito -dos novos christãos, julgando que elles perseguiam e -faziam fugir <i>Jeropary</i>, mostrando-se contentes por isto quando -tinham esses christãos em suas aldeias.</p> - -<p>Servindo-nos d’estas crenças embutiamos no espirito dos -cathecumenos como ponto de fé, que logo que elles fossem -<i>lavados</i>, adquiririam poder contra o diabo, e nunca mais -deviam temel-o.</p> - -<p>Corre voz geral em todas estas terras, que os diabos são -<i>espiritos maus</i>, que temem os <i>Pays</i> e os <i>Caraybas</i>, isto é, -os padres e todos os que são baptisados.</p> - -<p>Recorda-me que fallando mil vezes d’esta materia aos selvagens, -elles me disseram—<i>Jeropary yportassuasseque gésera</i>—«o -diabo está agora pobre e miseravel, tem muito -medo e já não é atrevido como era.» <i>Jeropary ypochu, -Tupan Katu</i> «o diabo é mau, cruel e nada valle, porem -Deos é muito bom.»</p> - -<p>Que desejarieis mais para o complemento d’este primeiro -signal, e segurança da total ruina do diabo?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_278"></a>[278]</span></p> - -<p>São os proprios diabos, que confessam temer o nome de -Jesus Christo, as armas de sua paixão, e até os seos servos, -dissuadindo seos intimos amigos para que de nós se -ausentassem, abalando ceos e terra afim de embaraçar-nos, -e movendo tudo para inutilisar nossos esforços, emfim cahiram -de ventas no chão, e chegaram ao cabo de suas astucias.</p> - -<p>Os que outr’ora os temiam, hoje os despresam; emfim só -nos resta continuar as obras começadas.</p> - -<p><i>Linguis loquentur novis</i>: «fallarão novas linguas». Na -verdade os nossos selvagens do Maranhão fallam uma linguagem -inteiramente nova, visto que, esse <i>Marata</i> antigo, -isto é, um dos Apostolos de Jesus Christo de quem fallarei -mais adiante, não lhes ensinou a fallar como fallam agora, -a saber: na profissão do christianismo recitando o symbolo -dos Apostolos <i>Arobiar Tupan</i> etc. etc., a dirigir-se a Deos -por meio da oração dominical <i>Oreruue</i> etc. a encaminhar -suas vidas e acções segundo os mandamentos da lei de -Deos <i>Ymoeté yepé Tupan</i> etc. etc. conforme os mandamentos -da Igreja. <i>Are maratecuare ehumé</i> etc. «lavar e fortificar -suas almas pelos Santissimos Sacramentos.» <i>Iemongarauiue</i> -etc.</p> - -<p>É por certo fallar linguagem nova, quando discorrem sobre -os mysterios da nossa fé, como sejam a unidade da essencia -em Deos, e na Trindade das Pessoas; que o Filho de -Deos tomou corpo no ventre da Virgem: que os maus vão -para o inferno, que todos os homens resuscitarão em corpo -e alma, indo depois cada um para o lugar de sua sentença: -são estes com tudo os discursos diarios dos feiticeiros, só -fallando em matar, comer, assar e seccar a carne dos seos -inimigos, e nas suas incontinencias, libertinagens e loucuras.</p> - -<p>Admirar-se-ha muito quem pensar em tal mudança entre -os barbaros, que somente sabem o que lhes ensinou a natureza.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_279"></a>[279]</span></p> - -<p>Creem os judeos, que os Apostolos sahiram d’um tunel, -bem cheio, de vinho e de carne, e viram que os gentios de -diversas nações davam signaes de entender o que prégavam, -e que os Apostolos por sua vez tambem os percebiam.</p> - -<p>Tambem vos disse, que os selvagens ficavam muito admirados -quando viam seos similhantes, baptisados, discorrer -em sua lingua sobre coisas altas, profundas, e tão novas, -como as que conheciamos por seos interpretes, e diziam -uns aos outros—como é que esta gente falla tambem de -<i>Tupan</i>, como os Padres lhes tem ensinado tão bellas coisas, -quaes as que nos contam: como nossos filhos sabem mais -do que nós, nossos Padres, e mais remotos antepassados, -que embora tenham vivido muito nada nos contaram como -estes Padres: por força fallaram com Deos.</p> - -<p><i>Em terceiro lugar.</i> <i>Serpentes tollent</i> «elles desviaram as -serpentes.» Que são essas serpentes do Brazil, que com sua -lingua e cauda envenenam estes povos? Não são todos os -grandes e pequenos feiticeiros, que envenenam suas Nações?</p> - -<p>A fé de Jesus Christo é como a Cegonha, que purifica o -paiz, onde está, das serpentes venenosas.</p> - -<p>S. Paulo, na Ilha de Malta, atirou ao fogo a vibora que -trazia no dedo.</p> - -<p>O dedo dado por Jesus Christo aos Apostolos, é o poder -do Espirito Santo, que de ordinario busca agentes naturaes -docemente, sem constrangimento, para dispôr o objecto a -receber uma nova fórma pelo banimento e ruina de outra -fórma contraria.</p> - -<p>Estas viboras, arremeçadas ao fogo, são os Ministros de -Satanaz, que o Espirito Santo expelle para tornar a Nação -cheia d’abusos susceptivel de acceitar o Evangelho e de conhecer -a Deos.</p> - -<p>Si eu disser, que me parece ter o Espirito Santo, em relação -a estes feiticeiros do Maranhão, feito um grande milagre, -que nunca fez para com os sacrificadores do Paganismo,<span class="pagenum"><a id="Page_280"></a>[280]</span> -creio ser bem recebida a minha opinião, porque, alem -de dois ou tres feiticeiros, todos os grandes só desejam ser -baptisados: ao contrario, raras vezes estes sacrificadores do -diabo, na gentilidade esposavam o christianismo.</p> - -<p>Por isso podiamos dizer, que as serpentes venenosas, que -se arrastam na terra, tornam-se passaros voadores no elemento -do ar, conforme a profecia de Isaias: <i>De radice colubri -egredietur Regulus, et semen ejus absorvens volucrem</i>: -«da raiz da cobra sahirá o Basilico, e a semente do Basilico -engulirá o passaro,» o que Vatable assim interpreta<a id="Nanchor_105" href="#Note_105" class="fnanchor">[105]</a>: <i>De -radice serpentis egredietur Regulos, et fructus ejus, cerestes -volans</i>: «da raiz da serpente sahirá o Basilico, e o seo -fructo será uma cerasta volante.»</p> - -<p>Para entender esta passagem convem recordar-se do que -escrevem os naturalistas, a saber, que as cobras grandes e -grossas geram o Basilico quando comem um sapo; porem o -Basilico procura gallinhas brancas, com quem se unem, -pondo ellas ovos, que enterram n’areia ao ardor do Sol, e -d’elles sahem serpentes, que voam.</p> - -<p>Nada dizem, que eu não visse em Maranhão, conforme -me diziam e pensavam os selvagens, e aconteceo-me por -duas vezes, que uma gallinha branca que eu tinha, pozesse -dois ovosinhos redondos como uma ameixa de dama -e salpicados, e depois ella mudou de cacarejar, e parecia -louca.</p> - -<p>Disseram-me então os selvagens, que infallivelmente o -Basilico nos mattos a tinha coberto, pelo que convinha matar, -quebrar e queimar os ovos, para evitar a morte infallivel -de quem os comêsse: si se deixasse os ovos, sem queimal-os, -d’elles sahiriam serpentes voadoras, que não era a -primeira vez, que isto acontecia, e então todas as gallinhas -mudam de canto, e não param n’um lugar.</p> - -<p>Appliquemos isto ao nosso fim, e digamos que a antiga -cobra é Satanaz, Principe dos Demonios, os Basilicos são os -Diabos destacados nas Provincias por Lucifer para seduzir o -Mundo; as serpentes são seos Ministros, como sejam os <i>Pagys</i><span class="pagenum"><a id="Page_281"></a>[281]</span> -ou feiticeiros do Brazil, que desejam adquerir azas para -mudar de elemento da terra para o do ar, deixar seos velhos -e abominaveis costumes de arrastar o peito em seo -execrando e diabolico serviço, e aproximar-se do Ceo, como -o resto dos indios pela ablução ou lavagem de seos -antigos peccados pelo Sacramento do Baptismo.</p> - -<p>Estas serpentes, tão perseguidas no Brazil, são esses desgraçados -costumes, e abominaveis peccados, como sejam -as vilanias, raivas, e vinganças, já descriptas amplamente -n’outra parte.</p> - -<p><i>Em quarto lugar.</i> <i>Et si mortiferum quid biberint non -eis nocebit</i>: «e si bebem algum veneno mortifero, não lhes -damnificará.» O verdadeiro veneno, que engolem as almas, -é a falsa doutrina, que o Diabo faz suggerir nos ouvidos dos -novos christãos.</p> - -<p>Vós o achareis em muitos exemplos do proprio seculo dos -Apostolos. Certos seductores iam corromper os individuos -sem malicia, e apenas bebiam ellas o <i>Aconito</i>, sentiam-se -afflictos, impressionados em sua alma, e abalados em sua -fé; porem o Espirito Santo mencionado no genesis—<i>Spiritus -Domini, ferebatur super aquas</i> «o Espirito do Senhor é -levado sobre as agoas de Chaos,» isto é, ainda não purificadas -e nem limpidas, ou como querem dizer os outros: <i>Incubabat -aquis</i>, deitava-se sobre as agoas do Chaos para d’elle -tirar as bellas pombas, como fingiam os Poetas, os ovos de -Thetis, cobertos pelo pombo branco, ou o Cysne, de que sahiram -Castor e Pollux, ou então <i>fouebat aquas</i>, aquecia -essas agoas ainda frias.</p> - -<p>O Espirito Santo, digo eu desculpa mais facilmente a fragilidade -e fraquesa d’estes novos christãos, mas não as dos -antigos crentes.</p> - -<p>Assim vae adejando sobre as agoas desviadas do verdadeiro -caminho pelos maus discursos d’aquelles, que tem a -alma mal conformada, vae chocando os ovos abandonados -pelo Pae e Mãe, almas recentemente lavadas, porem separadas -da presença d’aquelles que as tem lavado.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_282"></a>[282]</span></p> - -<p>Aquecidas essas agoas geladas pelo sopro do pernicioso -Aquilon, não quer que o veneno bebido lhes dê a morte, -conduzindo-as ao regaço de sua Mãe, e entre os braços dos -que, depois de Deos, os geraram espiritualmente em Jesus -Christo para obrigal-os a vomitar o veneno do seo coração, -e tomar o alimento salutar, pelo qual se fortificaram para -resistir de ora em diante a todos os choques.</p> - -<p>Passou-se isto no Brazil, como aconteceo no tempo dos -Apostolos, onde um certo numero de novos christãos de -<i>Tapuitapéra</i>, seduzidos por más palavras de um certo personagem, -metade d’elles se deshouveram e renunciaram o -Christianismo; porem nós cuidamos d’elles com todo o zelo.</p> - -<p>Assim fizeram os nossos superiores, que redobraram de -cuidados para remediar este mal levando para ahi tudo -quanto julgaram necessario, e por isso essas novas plantas, -fanadas por brisa gelada, adquiriram seo antigo vigor e florescencia, -e tornando a vel-os no Forte de Sam Luiz, procuramos -animal-os a ficarem firmes e constantes na profissão -do Christianismo, e ordenamos-lhes de não se separarem -de Martinho Francisco, ahi nosso suffraganeo.</p> - -<p>Sentia-se o diabo cercado por todos os lados, e peiores os -seos negocios de dia para dia.</p> - -<p>N’esta epocha, em que estou escrevendo, espero que os -padres que por la andam, lhe deem terriveis combates, e -que seo reinado vá de decadencia em decadencia, até total -ruina; porque antes de eu deixar a ilha, via e experimentava -a disposição geral e universal d’estes selvagens,<a id="Nanchor_106" href="#Note_106" class="fnanchor">[106]</a> -especialmente dos meninos, para os converterem.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_283"></a>[283]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XIV">CAPITULO XIV</h3> - -<p class="subhead">Os filhos do Brazil darão cabo do reinado de Lucifer, e -começarão a estabelecer o reinado de Jesus Christo.</p> - -</div> - -<p>O psalmista rei David, no seo psalmo 8.º—<i>In finem pro -torcularibus, psalmus David</i>, isto é, o psalmo de David, -que deve ser cantado em acção de graças ao Senhor no -fim das vindimas diz, prevendo a ruina total do imperio de -Lucifer sobre as almas dos infieis, e o estabelecimento do -reinado de Jesus Christo—<i>Ex ore infantium et lactentium -perfecisti laudem propter inimicos tuos, ut destruas inimicum -et ultorem</i>. «Tens apurado teos louvores pela bocca -dos meninos e das crianças de peito á despeito dos teos -inimigos, e por isso tu destroes o adversario e o tyranno -vingativo.»</p> - -<p>Rabbi Jonathas embellezou esta passagem, e esclareceo-a -por esta forma—<i>Fundasti fortitudinem, ut destruas Auctorem -inimicitiarum et ultorem</i> «estabelecestes a força do teo -imperio pela bocca e confissão da Fé dos meninos para mostrar -tua grandesa, e destruir o autor das vinganças e o sanguinario -vingador.»</p> - -<p>Disse São Jeronymo—<i>Quiescat inimicus et ultor</i> «fechaste -a bocca ao seductor inimigo da salvação, e enraivecido contra -os homens pela voz dos meninos.»</p> - -<p>Grande maravilha é o serem os meninos o symbolo da -proxima fundação do reinado de Jesus Christo e a queda do -poder dos demonios.</p> - -<p>Não me demoro em fundamentar com muitos exemplos -este signal da providencia de Deos, e assim limito-me a referir -o que se passou no Triumpho de Jesus Christo antes de -sua Paixão, quando os meninos em alta voz diziam—<i>Hosanna -filio David</i> «seja bem vindo o Filho de Deos,» o que -disse em primeiro logar o santo rei no seo cantico—<i>In finem -pro torcularibus</i>, «no fim pelas pressões,» isto é, no -fim do reinado de Satanaz, e no principio da Paixão de Jesus<span class="pagenum"><a id="Page_284"></a>[284]</span> -Christo, quando era tempo de pagarem os meninos este -tributo de reconhecimento.</p> - -<p>Em segundo lugar, de dia a dia, na continuação, no fim, -e na consummação do captiveiro de Satanaz sobre as almas -infieis, e no principio da Santa Igreja, fundada entre ellas, -principalmente pelos meninos, o que desejo mostrar ter sido -feito pelos filhos do Brasil.</p> - -<p>Estas almas juvenis, ainda não corrompidas por antigos -e maus costumes de seos paes, mostram não sei que disposição -singular e particular para receber, como si fosse uma -taboa rasa, qualquer pintura...</p> - -<p class="center">(Falta uma folha.)</p> - -<p class="noindent">... repugnancia: nós lhe facilitavamos os meios de o entender -comparando com as coisas, que veem diariamente.</p> - -<p>Assim como crescem as ostras sobre os ramos das arvores, -tomando carnes e recebendo vida entre duas conchas, -sem mistura, nem effusão de semente do humor marinho, e -apenas pelo calor do sol, assim tambem o Filho de Deos no -ventre da joven, a Santa Virgem, recebeo seo precioso sangue -da materia, e o Espirito Santo, do calor, e assim tomou -corpo sem alguma outra operação humana.</p> - -<p>Gostavam muito da comparação, e me disseram que em -seo paiz muitas coisas se geravam pela simples influencia -do Sol, como os lagartos, que sahem dos ovos, depois que -recebem a vida do calor do Sol, e por isso não tinham -difficuldade em crer o que nós lhes ensinavamos, e nem que -Deos se fizesse homem para morrer afim de salvar os seos, -porque, diziam elles, <i>Jeropary</i>, apesar de ser espirito mau, -entra no corpo dos monstros para nos amedrontar, espancar -e atormentar.</p> - -<p>Sobre tudo muita admiração nos causava o como facilmente -se convenciam da verdade e da realidade de Jesus -Christo, Filho de Deos, sob as especies de pão e vinho, ao -passo que viamos tantas almas vacillantes n’este ponto, embora -lhes sóbre espirito e comprehensão para outras coisas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_285"></a>[285]</span></p> - -<p>A este respeito não pude dizer outra coisa, senão o que -disse a Escriptura Santa no proverbio 25—<i>Sicut qui mel -multum comedit, non est ei bonun, sic qui scrutator est -magestatis, opprimetur a gloria</i>.—«É coisa tão doce como -o mel, mas quem d’ella comer muito, não pode offender -mais o estomago.»</p> - -<p>Nada ha de mais suave e delicioso do que a contemplação -das obras de Deos e a leitura das letras santas, mas -para aquelle que vae muito alem, e tudo mede pela vara de -seo espirito, impellido pela soberba de seo entendimento.</p> - -<p>Nada ha mais seguro, que não fique opprimido pelos vivos -raios da gloria de Sua Magestade, como se observa nos -mochos cegos, visto quererem olhar e julgar da face do sol, -e da sua luz.</p> - -<p>Ao contrario, os que manejam com temor e humildade os -mysterios de nossa fé, são esclarecidos sem prejuiso de suas -vistas, e docilmente obedecem a vontade e poder do soberano, -que pode o que quer, quer e faz o que diz.</p> - -<p>Estes pobres selvagens, fallo até dos que não são ainda -christãos, apenas se lhes fazia signal de sahirem da igreja, -retiravam-se promptamente, ficando comtudo na porta, que -se conservava fechada em quanto se recitava o canon da -missa, e fazia-se a communhão.</p> - -<p>Diziam elles, em resumo, que n’essa hora descia <i>Tupan</i> -sobre os altares, bebendo e comendo comnosco, que não -tinham merecimento para ficar ahi em frente d’elle senão -quando fossem baptisados, e a maior parte d’elles se ajoelhavam, -imitando os francezes.</p> - -<p>Os Indios christãos ajoelhavam-se apenas ouviam tocar a -campainha, juntavam as mãos e adoravam a Deos.</p> - -<p>Ao mysterio do Sacratissimo Corpo e Precioso Sangue do -Filho de Deos elles chamam <i>Tupan</i>, quer dizer, o proprio -Deos, segundo suas crenças, <i>Aséreu yanondé Tupan rare</i>, -quer dizer, «antes de morrer receberás o corpo de Deos».</p> - -<p>Ainda que eu reconhecesse n’elles facilidade de crer segredo -tão profundo, não me animaria a communicar-lhes senão<span class="pagenum"><a id="Page_286"></a>[286]</span> -em artigo de morte, e antes queria deixar esta tarefa -para os que viessem depois de mim, porque dando n’um -certo dia a communhão a uma India, a quem examinei tanto -quanto pude antes de lhe dar o Precioso Corpo de Jesus -Christo na Paschoa, apenas recebeo a Hostia Consagrada perturbou-se -muito e não a poude engolir a ponto de querer -tiral-a com a mão o que lhe prohibi disendo só poder ser -tocada por sacerdotes, que não tivesse receio, e nem se assustasse -tendo de receber seo Deos, que era de sua vontade, -que ella recebesse a hostia e a engolisse com toda -a confiança, o que fez mediante um pouco de vinho que lhe dei a -beber no calix: tão grande secura da lingoa e bocca proveio -da grande timidez d’ella em receber tão santo manjar, o -que me resolveo de então em diante a deixal-os bem fundamentarem-se -no conhecimento d’este artigo antes de administrar-lhes -o Santo Sacramento, e ainda que muitos me -pedissem o <i>Tupan</i>, eu lhes respondia que esperassem pela -vinda dos nossos padres.</p> - -<p>Não ha grande difficuldade em fazel-os confessar suas -faltas, até mesmo as proprias mulheres, e de coisas que são -difficeis a este sexo declarar aos sacerdotes, representantes -da pessoa de Deos.</p> - -<p>Mui livremente vos dizem sim e não, o tempo, o lugar, a -qualidade das pessoas, o numero de seos peccados, sem algum -vexame tolo e mau como por ahi se observa.</p> - -<p>Não tem a menor hesitação em crer na efficacia do baptismo, -que é o lavamento dos peccados, a filiação de Deos, -e a acquisição do Ceo, tendo como certo que os baptisados -vão para o paraiso gozar da companhia de Deos, com tanto -que não caiam outra vez em peccado mortal.</p> - -<p>Acreditaram sempre, que havia inferno, onde estava <i>Jeropary</i>, -e para onde iam os maus.</p> - -<p>Sabiam ao mesmo tempo por tradicção, que Deos era -muito feliz lá em cima, vivendo com os espiritos bons, e -que seos paes que tinham tido boa vida, iam para um lugar -de delicias, onde nada lhes faltava embora terrestre.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_287"></a>[287]</span></p> - -<p>A vista d’isto facil nos foi fazel-os entender o que deviam -crer do paraiso, do inferno e de um terceiro lugar, onde se -purificam as almas antes de irem para o Ceo, de um quarto -onde os meninos, que não chegaram a receber o baptismo, -morrendo antes do uso da razão, eram recebidos para não -padecerem por nunca poderem vêr a Deos, visto ser o baptismo -a chave do Ceo.</p> - -<p>Não se acreditaria, senão vendo-se, quanto são os selvagens -curiosos por saberem das coisas de Deos. Todos, quando -com elles conversavamos, nos faziam mil perguntas á este -respeito, iguaes á estas:</p> - -<p>Como Deos fez o Mundo?</p> - -<p>Si o fez com suas proprias mãos, ou si ajudado pelos -bons espiritos poude fazer o Ceo, as estrellas, o sol, a lua, -o fogo, o ar, a agoa, a terra, os primeiros homens, os primeiros -passaros, peixes e animaes, reptis, arvores e hervas?</p> - -<p>O que existia antes de feito o mundo, e o que fazia Deos -vivendo sosinho?</p> - -<p>De que forma está no Ceo?</p> - -<p>Como faz rebumbar o trovão, e cahir a chuva?</p> - -<p>Si falla aos homens, si viemos do Ceo, si nascemos de -mulheres, si vimos anjos e diabos?</p> - -<p>Quem nos ensinou tudo quanto ensinavamos, si não morriamos, -e depois da nossa morte como si faziam outros padres?</p> - -<p>Si em França haviam muitos padres, si andam vestidos -como nós, si havia um padre que fosse rei, porque regeitavamos -mulheres e mercadorias?</p> - -<p>Si a Mãe de Deos era uma rapariga como outra qualquer, -si bebia e comia como nós, porque tinha morrido, si não -vinha do Ceo passeiar as vezes na terra e fallar comnosco?</p> - -<p>Si os Apostolos eram padres como nós, quantos tinham -existido, porque os outros <i>Caraibas</i> francezes não eram tambem -padres como nós, si fomos nós mesmos que nos fizemos -Padres, ou si foi outra pessoa?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_288"></a>[288]</span></p> - -<p>A todas estas e a muitas outras perguntas respondiamos -com a verdade, e elles por gestos e palavras demonstravam -seo contentamento.</p> - -<p>Assim corria de maneira agradavel o tempo entre taes -perguntas e entretinimento.</p> - -<p>É por isso que pretendo aqui deixar as diversas e mais -singulares conversações, que tive com os <i>Muruuichaues</i>, -isto é, com os principaes de <i>Maranhão</i>, <i>Tapuitapéra</i>, <i>Commã</i>, -<i>Caietés</i>, <i>Pará</i> e <i>Miary</i>.</p> - -<p>Não quero demorar-me mais fallando em taes perguntas -e respostas, visto que as vereis mais adiante, e espero que -minhas respostas vos contentarão muito, e vos assevero que -serão fielmente transcriptas até na propria linguagem com -que foram proferidas.</p> - -<p>Espero desculpa não só por isso como tambem pelo mais -que ja deixei escripto, mormente não se achando tantos ornatos -n’esta historia como exigia a curiosidade d’este seculo.</p> - -<p>É minha opinião, que a bellesa de uma historia consiste -na verdade do facto e na simplicidade do estylo.</p> - -<p>Si eu não descrever palavra por palavra essas conferencias, -ou si não usar de muitas palavras, basta que não offenda -em coisa alguma a substancia do facto, sendo essa -abundancia de discurso necessaria e requerida para vos fazer -entender bem claramente suas intenções, e as nossas -expressões.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_289"></a>[289]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XVI">CAPITULO XVI</h3> - -<p class="subhead">Primeira conferencia com Pacamão, grande feiticeiro -de Commã.</p> - -</div> - -<p>Tendo tido muitas conferencias com este principal e -grande feiticeiro, vou narral-as por capitulos: eis o primeiro.</p> - -<p><i>Pacamão</i> é pequeno no corpo, vil e abjecto á tal ponto, -que quem não o conhece, não faria caso d’elle.</p> - -<p>Comtudo isto é o maior e o mais graduado de todos os -principaes do Maranhão, especialmente na provincia de <i>Commã</i>, -uma das mais bellas, fertil e povoada no paiz dos <i>Tupinambás</i>.</p> - -<p>Goza entre elles de tal poder, que somente com sua palavra -tem movido todos os habitantes, sendo extremamente -temído.</p> - -<p>É fino e velhaco tanto quanto pode ser um selvagem, e -por essas qualidades chegou a obter esse poder, grandesa -e prestigio, sendo tido por supremo curandeiro, subtilissimo -feiticeiro, muito familiarisado com os Espiritos, tendo entre -suas mãos e á sua disposição a morte e a vida, concedendo -vida e saude a quem bem lhe aprouver; alem de grande -bafejador entretinha os ingenuos por meio de confissões, de -lustração, incensamento, e muitas outras coisas iguaes como -ja dissemos.</p> - -<p>Não foi dos primeiros a visitar os francezes e fazer-lhes -seos offerecimentos, desejando vêr o que elles queriam, porque -tinham vindo aqui, e como se estabeleceriam.</p> - -<p>Informando-se bem de tudo isto, veio ao Forte de Sam -Luiz, entrou, e saudou agradavelmente o Sr. de la Ravardiere. -Vinha bem acompanhado por indios enfeitados de -pennas, trouxe comsigo a mais vigorosa de todas as suas -mulheres, cujo numero chegava a trinta.</p> - -<p>Chegando a <i>Yuiret</i>, tendo passado o mar em nossa barca, -que tinha ido buscar farinha á sua terra, distante mais de<span class="pagenum"><a id="Page_290"></a>[290]</span> -40 legoas do Forte de Sam Luiz, fez saber ao Sr. de la Ravardiere, -que ia ao seo Forte, e foi esperado.</p> - -<p>Formou sua gente, uns atraz dos outros, e todos o acompanharam.</p> - -<p>Andou ao redor das casas, situadas na grande praça de -Sam Luiz, fallando como era de costume, apregoando sua -grandesa, o seo amor aos francezes, o objecto da sua visita, -e tambem o valor e poder dos francezes.</p> - -<p>Acabado isto, aproximou-se da porta do Forte, perto de um -quartinho, onde estavam alguns francezes observando o que -elle fazia.</p> - -<p>Ordenou á sua mulher, que se prevenisse para carregal-o -até a casa do governador, e foi obedecido promptamente, -escanxando-se na cintura d’ella como usam os indios quando -carregam seos filhos: assim entrou no Forte, e dirigio-se ao -dito senhor: sua mulher era negra como o diabo e pintada -desde a planta dos pés até a cabeça com o succo do genipapo.</p> - -<p>Antes de ir adiante pensae si era possivel conter o riso, -vendo-se um dos Principaes do Brazil montado em tão bello -cavallo.</p> - -<p>Foi comtudo muito bem acolhido, e disse o que lhe veio -á mente para desculpar-se, findo o que, e depois de tratar -dos seos negocios, veio á minha casa, em São Francisco, -acompanhado por gente implumada.</p> - -<p>Mandei logo armar-lhe uma rede de algodão bem alva, -onde assentou-se, e pedindo a um dos seos companheiros o -seo caximbo, este o entregou ja com fogo.</p> - -<p>Depois de ter tomado tres ou quatro caximbadas, exhalando -o fumo pelas ventas começou assim a fallar-me grave -e pausadamente achando-me defronte d’elle n’outra rede:</p> - -<p>«Ha muitas luas, que eu tive vontade de te vir vêr e -aos outros Padres; mas tu, que fallas com Deos sabes, que -não é bom e nem prudente ser-se leviano e facil, mormente -nós outros que fallamos com os Espiritos, e mover-nos -com as primeiras noticias e pôr-nos á caminho, porque<span class="pagenum"><a id="Page_291"></a>[291]</span> -sendo observados pelos nossos similhantes, elles nos -imitarão.</p> - -<p>«O poder, que alcançamos sobre nossa gente, se conserva -por certa gravidade em nossas acções e palavras.</p> - -<p>«Os intromettidos, e os que a primeira noticia apromptam -suas canoas, se emplumam e vão logo vêr o que ha de novo -são pouco estimados, e nunca chegam a ser grandes Principaes.</p> - -<p>«Foi isto o que me impedio e embaraçou de vir logo.</p> - -<p>«Os habitantes de <i>Tapuitapéra</i> e muitos de minha provincia -vieram antes de mim, porem são menos do que eu.</p> - -<p>«Alegro-me com a vossa vinda, porque saberei que ha -Deos: sou mais capaz de o saber do que um só dos meos -similhantes: não desejava que um só d’elles me precedesse -ou que tu o levasses diante de mim, e o fizesses fallar com -Deos.</p> - -<p>«Quando me ensinardes o que é <i>Tupan</i>, terei mais autoridade -e serei mais estimado, do que actualmente, e em -meo paiz occuparei o primeiro logar depois de ti.</p> - -<p>«Dize o que queres que eu faça, e quando meos similhantes -virem, que eu sou filho de Deos e lavado todos desejarão -sel-o, buscando imitar-me.</p> - -<p>«Terei grande pesar, si estimares outro mais do que eu, -porque sempre vizei altas coisas.</p> - -<p>«Tinha muita curiosidade de visitar e de ouvir os Francezes.</p> - -<p>«De meos avós aprendi a historia de Noé, o qual construio -uma barca, pôz dentro sua gente, que Deos fez chuver abundantemente -por muitos dias, que a terra ficou submergida -debaixo d’agoa, invadindo campos, montanhas, valles, mar, -e separando-nos de vós.</p> - -<p>«Noé foi pae de todos.</p> - -<p>«Soube tambem que Maria era Mãe de <i>Tupan</i>, sendo Virgem, -porem Deos mesmo fez corpo para si no ventre d’ella -e quando cresceo mandou <i>Maratás</i>, Apostolos para toda a -parte, nossos paes viram um, cujos vestigios ainda existe.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_292"></a>[292]</span></p> - -<p>«Vós outros padres são mais do que nós, porque fallaes a -<i>Tupan</i>, e sois temídos pelos espiritos: eis porque quero ser -padre.</p> - -<p>«Muito tempo ha, que eu sou <i>pagy</i>, e ninguem é mais do -que eu, porem não faço caso d’isto, porque vejo que meos -similhantes somente vos apreciarão.</p> - -<p>«Desejaria muito que viesses a minha provincia, boa terra, -onde se encontram muitos javalys, viados, e corças, nada -te faltará, e sempre estarei comtigo.»</p> - -<p>Respondi-lhe a tudo isto, dizendo ter muita satisfação de -vel-o, ja tendo muitas vezes ouvido fallar d’elle e do seo poder, -como enganava com certos ardis os indios fazendo-os -acreditar ter em seo poder um espirito familiar, sendo ainda -maior o seo contentamento por vel-o principiar a reconhecer -sua falta, sendo certo que por seo discurso eu bem percebia -que elle não tinha a intenção, que Deos exige, para ser posto -no numero dos seos filhos e lavado com agoa divina.</p> - -<p>Replicou-me assim:</p> - -<p>«Que queres dizer com isto, que eu não procuro Deos -como convem?</p> - -<p>«Será porque desejo ser padre como tu, fazer-me admirar -mais do que nunca entre os meos, persuadil-os a ser filhos -de Deos, a procurar-te para serem baptisados, e fazeres em -minha provincia o que quizeres, que de mim se diga que -eu era o grande <i>Pagy</i>, sendo o primeiro a reconhecer Deos -e vós outros padres.</p> - -<p>«Sendo estimado pelo grande espirito, os outros á minha -sombra procurarão a Deos e farão como eu.</p> - -<p>«Si eu não me fizer lavar, muitos não o farão, e dirão—esperemos -que <i>Pacamão</i> seja <i>Caraiba</i>, e depois nós o seremos, -porque tem melhor espirito e é mais esperto do que -nós.</p> - -<p>«Deves saber que antes de terdes chegado, eu ja lavava -os habitantes do meo paiz, como vós padres fazeis com os -vossos, porem em nome do meo espirito, e vós o praticaes -em nome de <i>Tupan</i>.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_293"></a>[293]</span></p> - -<p>«Eu bafejava os infermos, e elles ficavam bons: elles me -diziam o que fizeram, e eu embaracei <i>Jeropary</i> de fazer-lhes -mal.</p> - -<p>«Fazia apparecer annos bons, e vingava-me dando doenças -aos que me despresavam. Dava-lhes agua que corria do pavimento -de minha casa, o que agora não faço e nem quero -mais fazer, porque era a subtilesa do meo espirito, que me -suggeria todas estas coisas, zombando assim dos meos, que -julgavam, por falta de espirito, ser isto maravilha.</p> - -<p>«Foi um francez que me ensinou a fazer brotar agoa do -soalho de minha casa.»</p> - -<p>Respondi-lhe pelo meu interprete, que na sua réplica descobria -não procurar elle a Deos como era conveniente, por -que pretendia por meio do baptismo fazer-se maior e mais -estimado entre os seos do que era antes por meio de seos -grosseiros embustes, visto que Deos exigia de seos filhos, -que fossem humildes, e que se arrependessem dos peccados -passados: com quanto na verdade Deos não deixe de exaltar -os seos, muito mais do que os diabos fazem com os seos -sectarios, em quanto elle tivesse esse espirito, não esperasse -que os padres o baptisassem, e sim o fariam só quando -elle não fosse soberbo, e estivesse arrependido de suas feitiçarias.</p> - -<p>Em quanto eu dizia estas palavras, chegou o interprete -do Sr. de la Ravardiere por nome <i>Mingan</i>, a quem eu tinha -mandado chamar para conversar com <i>Pacamão</i>, porque é -da indole d’esses selvagens dar mais credito aos interpretes -mais velhos do que aos moços.</p> - -<p>Contei-lhe palavra por palavra toda a nossa conferencia -até aquella hora, e lhe pedi para fallar a elle de conformidade -com os meos e seos pensamentos.</p> - -<p>Eis como elle fallou:</p> - -<p>«Tu bem sabes, que ha muito tempo eu converso comvosco, -e com vossos paes, quando estavamos em <i>Potyiu</i>.</p> - -<p>«Muitas vezes te chamei embusteiro por abusares de teos -similhantes, muito credulos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_294"></a>[294]</span></p> - -<p>«Tu lhes fazias crer tudo quanto querias: teos paes e todos -os não baptisados vão para <i>Jeropary</i> no inferno, e tu irás -com elles si não fizeres o que dizem os padres.</p> - -<p>«Quando estavamos comtigo antes da vinda dos padres, -sempre zombavamos do que faziam vós e os outros <i>pagys</i>: -não diziamos palavra por não ser esse o nosso fim, e sim -colher algodão.</p> - -<p>«Lançavamos mão de vossas filhas, e d’ellas tinhamos filhos, -o que é hoje prohibido pelos Padres, não me atrevendo -por isto nem eu e nem os outros, ir a Igreja, porque os -Padres nos ensinam, que Deos prohibe a deshonestidade.</p> - -<p>«Tens trinta mulheres, deves deixal-as e te contentares -com uma, se desejas ser filho de Deos e receber o baptismo.</p> - -<p>«Pensa bem e sobretudo na felicidade que si te offerece -de poder salvar-te e livrar-te das patas do Diabo.</p> - -<p>«Teos paes não tiveram tal occasião: foi Deos que te inspirou -a vir ter com os Padres e lhes pedir o baptismo.</p> - -<p>«Lembra-te que Deos sabe de tudo e não pode ser enganado, -quer e deseja que todos que o buscam, renunciem o -diabo e suas acções.»</p> - -<p>Respondeo assim <i>Pacamão</i>:</p> - -<p>«Não sabes o que tenho sido entre os meos? Quanto caso -fazem de meos feitiços? Não sabes que sempre tratei os -francezes como pude, e de muito boa vontade?</p> - -<p>«Animei sempre meos similhantes a dar-lhes suas filhas -e seos generos em troco de ferramentas: sentia-me satisfeito -entre elles aprendendo alguma coisa de novo, porque os -francezes tem mais espirito e intelligencia do que nós, e -apenas soube da chegada dos Padres fiquei muito contente, -e disse aos meos similhantes—que felicidade! elles nos ensinaram -a conhecer a Deos, quero ir vel-os. Foi isto que -aqui me trouxe, e é d’isto que nos occupamos.»</p> - -<p>Disse a <i>Migan</i> estar elle repetindo o que eu ja havia -dito, isto é, que era bem vindo, sendo porem necessario -buscar o baptismo com arrependimento e humildade.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_295"></a>[295]</span></p> - -<p>Migan explicou-lhe muito bem a grandeza e o poder de -Deos, e a pequenez dos homens, especialmente dos captivos -de Satanaz.</p> - -<p>Mostrou-se satisfeito, e me prometteo vir na manhã seguinte -fallar commigo dos seos negocios.</p> - -<p>Assim finalisou-se esta conferencia, e si retiraram para o -Forte depois de ter cada um bebido um pouco de agoardente.</p> - -<p>Vamos notar muito bellas particularidades n’este discurso, -que não seriam entendidas ou passariam desapercebidas -si não fossem indicadas.</p> - -<p>Em primeiro lugar o falso zelo d’estes selvagens em conservarem -sua autoridade e prestigio entre os seos, não fazendo -acção alguma sem reflectir, pela qual possam ser mal -apreciados pelos seos inferiores, tão levianos e imperfeitos -como elles, e por conseguinte tão incapazes de entretêr os -espiritos familiares como elles: supponhamos que para ter o -gozo dos espiritos é preciso ser constante e grave, e não se -deixar levar pelas primeiras informações. Pensando n’isto, -vêde como os diabos abusam da luz natural do homem, que -claramente nos faz vêr si desejamos conservar em nós o -verdadeiro espirito de Deos, sendo conveniente banir a leviandade -e inconstancia do nosso interior, reconcentrar-nos -com firmesa, e nada fazer ou dizer, que não seja discutido -e decidido pela rasão.</p> - -<p>De outra fórma somos menores em relação a profissão do -Christianismo, do que estes feiticeiros, que se esforçam a ser -graves procurando conquistar a estima de seos similhantes.</p> - -<p>Em segundo lugar notareis os effeitos do espirito diabolico, -que são a soberba e a grande presumpção, que já se -abriga até entre as coisas sagradas: tão grande é o seo veneno -a ponto de querer atacar o seo contrario, visto não -haver maior antagonismo do que entre o Espirito de Deos e -o de Satanaz, a humildade de Jesus Christo e a soberba de -Lucifer, a abnegação do Christão e a presumpção dos filhos -do diabo!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_296"></a>[296]</span></p> - -<p>Assim procedia Simão, o magico, para com S. Pedro, procurando -com seo dinheiro o Espirito de Deos, afim de se fazer -reconhecido como grande por meio do Espirito Santo.</p> - -<p>Que grande cegueira julgar Deos vassallo da vaidade!</p> - -<p>Que desgraça estar uma alma presa por infernaes obscuridades!</p> - -<p>Este pobre feiticeiro do Brazil julgava no principio, que -tinhamos Deos em nossa algibeira para dal-o a quem bem -nos aprouvesse, obedecendo elle a quem o entregassemos.</p> - -<p>Com o fim de se apoderar de sua alma o diabo o escravisa -e o obriga a commetter mil loucuras, inspirando esse -<i>Pagy</i> para isso. Deos nos livre de tal perigo!</p> - -<p>Em terceiro lugar—quanto ao que elle disse de Noé e da -Virgem não ousarei dizer d’onde elle teve essas ideias: -si foi dos francezes, não parece muito, porque os que vieram -antes de nós só lhes fallariam de obscenidade, e concubinatos; -é mais provavel, que fosse de tradicções antigas, -porque apenas chegamos a <i>Yuiret</i>, <i>Japy-açú</i> nos fallou quasi -da mesma maneira do diluvio e de um Apostolo, que por -aqui andou, como se lê na obra do Reverendo Padre Claudio -d’Abbeville.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XVII">CAPITULO XVII</h3> - -<p class="subhead">Segunda conferencia, que tive com Pacamão.</p> - -</div> - -<p>Na manhã seguinte veio vêr-me, como me tinha promettido, -em companhia de sua gente.</p> - -<p>Não quiz assentar-se na rede, e pegando-me na mão disse-me -<i>Ché assepiak ok Tupan</i> «eu te rogo leva-me a vêr a<span class="pagenum"><a id="Page_297"></a>[297]</span> -casa de Deos quero fallar-te conforme teos discursos de hontem -á tarde.»</p> - -<p>Disse-lhe, que me acompanhasse, que satisfaria seos desejos, -e assim o fiz.</p> - -<p>Logo que entraram todos, mandou que ficassem na porta -e proximando-se de mim fallou-me em segredo—aquelles, -nada sabem e nem entendem o que se fallar á respeito de -Deos, por tanto quero que conversemos á vontade.</p> - -<p>Mandei ornar a nossa Capella com os melhores paramentos, -e pôr sobre os degraos do altar muitas e differentes -Imagens.</p> - -<p>Aproximamos-nos do altar sempre acompanhado pelo intreprete.</p> - -<p>Por mais de duas horas indagou de mim tudo quanto via.</p> - -<p>1.º Quiz saber o que significava o Crucifixo dizendo-me—quem -é este morto tão bem feito e tão bem estendido n’este -pau encruzado? Expliquei-lhe que isto representava o Filho -de Deos, feito homem no ventre da Virgem, pregado por -seos inimigos sobre esse madeiro afim de ir ter com seu seo -Pae, felicidade que alcançariam tambem os que fossem lavados -com o sangue, que elle via correr de suas mãos, -pés e lado.</p> - -<p>Conservou-se admirado por algum tempo, olhando com -muita attenção a Imagem do Crucificado: exhalou depois um -suspiro, e soltou estas palavras como <i>omano Tupan?</i> «Que! -será possivel que Deos morresse?»</p> - -<p>Repliquei-lhe não ser necessario, que elle pensasse que -Deos tivesse morrido, porque sempre viveo desde a eternidade, -dando vida aos homens e aos animaes: o que falleceo -foi o corpo somente, que elle tomou da Virgem Santa Maria -para matar <i>Jeropary</i>, como elle via fazer aos meninos quando -querem apanhar um peixe grande no mar, que devora -os pequenos, deitando como isca no anzol de sua linha o -corpo de um d’esses peixinhos, o que sendo visto pelo peixe -grande atira-se sobre elle e vê-se pilhado, puxado, derribado -e morto, em favor e livramento dos pequenos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_298"></a>[298]</span></p> - -<p>Assim tambem este mau <i>Jeropary</i> ia devorando todos -os nossos Paes, porem aprouve a Deos enviar seo Filho -para pescal-o á linha, servindo de haste esta Cruz, de anzol -ou de croquezinho estes cravos e espinhos, e d’isca -seo corpo.</p> - -<p>Mas, respondeo-me elle, porque havia o diabo de ter poder -sobre nossos paes?</p> - -<p>Porque, respondi, elles foram rebeldes á lei de Deos, comendo -do fructo prohibido, e deixaram-se enganar pelo -diabo, debaixo da forma de serpente.</p> - -<p>Com quanto Deos nos podesse salvar por outros meios, -achou mais docil e rasoavel tomar o rapinador em lugar de -suas victimas.</p> - -<p>Mostrou-se contente, e perguntou—o corpo de <i>Tupan</i> está -ainda em França sobre a Cruz, como este que tu me mostras, -e tu o vistes?</p> - -<p>Não, respondi, porem resuscitou pouco depois da sua -morte, levando seo corpo lá para cima, lá para o Ceo, vivendo -e brilhando como o sol, sentado no mais bello lugar -do Paraizo, vindo curvar-se diante d’elle todos os espiritos -e almas de pessoas de bem, e agradecer-lhes a morte do -seo inimigo.</p> - -<p>Com a protecção d’este corpo, os nossos, depois de mortos, -resuscitarão e irão para o Ceo levados pelos Anjos, isto -é, nós que somos lavados com o sangue derramado de suas -chagas.</p> - -<p>Vossos corpos e os de vossos paes irão ter com <i>Jeropary</i> -arder em fogos eternos, si não fordes lavados com este -sangue.</p> - -<p>É necessario, disse elle, correr muito sangue de seo corpo, -e que vós o guardeis com todo o cuidado para lavar -tanta gente.</p> - -<p>Respondi—és ainda muito obtuso para comprehenderes -estes mysterios.</p> - -<p>«Basta ter sido espalhado uma unica vez esse sangue sobre -a terra, e que em memoria e respeito a elle lavemos<span class="pagenum"><a id="Page_299"></a>[299]</span> -espiritualmente as almas com agoa elementar, que derramamos -sobre vossos corpos.</p> - -<p>«Não vês correr sempre uma fonte, ainda que cavada -uma só vez pela mão de Deos?</p> - -<p>«Tu bem sabes, que as constellações sete-estrellas e a ursamenor -foram pregadas uma só vez no Ceo, e com tudo todos -os annos, apenas brilham por cima da tua cabeça, ellas -te mandam chuva, que rega tuas roças.»</p> - -<p>Disse ainda:</p> - -<p>«Eram malvados os que mataram <i>Tupan</i>, porque elle era -bom, eu o amo, e n’elle creio.»</p> - -<p>Respondi-lhe. Foram seduzidos por <i>Jeropary</i>, como tu, -que os animou a perseguil-o, a matal-o, e crucifical-o, -porque elle os censurava por sua maldade, como nós -agora fazemos, seguindo em tudo a lei, que nos deo. Todos -os que obedecem ao diabo são seos inimigos e si elle -hoje voltasse ao Mundo passaria por iguaes soffrimentos, -repetindo os actuaes o mesmo que fizeram os outros antigamente.</p> - -<p>Respondeo-me—desejava que me desses uma Imagem -como esta para levar commigo quando regressasse á minha -provincia. Repetirei palavra por palavra á meos similhantes -o que acabas de dizer-me, e farei para ella melhor casa do -que esta, eu a fecharei muito bem, só eu entrarei ahi, e -algumas pessoas capazes de entenderem as explicações, que -me destes.</p> - -<p>Respondi—quando fores baptisado, nós te daremos licença -para fazeres uma casa, onde levantaremos um Altar igual -á este, com iguaes ornatos, e com Imagens como as que -estás vendo.</p> - -<p>2.º Nos pés do Crucifixo havia uma Imagem de Nossa Senhora, -feita em bordado alto, de extrema belleza, e revestida -de perolas, presente do Sr. de S. Vicente quando regressou -á França: olhando para ella, perguntou-me—quem -é esta mulher tão bonita, e este menino que olha para ella -de mãos postas? Eu lhe disse, que era a figura de Maria,<span class="pagenum"><a id="Page_300"></a>[300]</span> -Mãe de Deos, e este menino é o filho de Deos quando sahio -do ventre d’Ella.</p> - -<p>Repetio estas palavras duas ou tres vezes—<i>Ko ai Tupan -Marie?</i> «Como é Maria Mãe de Deos?» <i>Kugnan Ycatu</i>, «linda -mulher.»</p> - -<p>Respondi, que assim devia ser, pois que Deos a escolheo -para Esposa e Mãe de seu Filho, que era a Princesa de todas -as mulheres, tendo tido por marido Deos unicamente, e -que sendo pura deo á luz o Filho de Deos, que tinha resuscitado -depois da sua morte, como aconteceo a seo Filho, -sendo levada para o Ceo pelos Anjos, onde estava assentada -ao pé do corpo de seo Filho.</p> - -<p>Que grande coisa, disse elle, uma Virgem parir. Como, -respondi eu, não vês crescerem as ôstras nos ramos das arvores, -só e unicamente, sem auxilio algum?</p> - -<p>Deos ama a puresa, porque elle é mais puro do que a luz -do sol.</p> - -<p>È verdade, respondeo, porem vós, e os outros padres, -sabeis grandes coisas, sois mais sabios do que nós, porque -não prestamos attenção ás coisas da nossa terra, que vemos -todos os dias, e vós em tão pouco tempo já as conheceis.</p> - -<p>Ainda não é tudo, disse-lhe, vinde commigo, e prestae attenção -ao que vou dizer-vos por intermedio do meo interprete -para repetirdes tudo, quanto souberdes, aos teos companheiros, -que ficaram na porta por tua ordem, visto ser -da vontade de Deos que todos se salvem grandes e pequenos.</p> - -<p>Dizendo-lhe isto, fiz-lhe vêr todas as peças e quadros da -creação e da redempção, apontando-lhe todas as suas diversas -partes: n’uma, por exemplo, a creação dos Ceos e dos -elementos, n’outra a creação dos peixes e dos passaros, e -n’outra a creação dos animaes, das arvores e das hervas: -causava prazer vel-os olhar com muita attenção para as figuras -dos passaros, dos peixes e dos animaes afim de conhecerem -os da sua terra, e quando descobriam um parecido, -não deixavam de dizer-nos—eis tal passaro, tal peixe, e tal<span class="pagenum"><a id="Page_301"></a>[301]</span> -animal, e os que não conheciam perguntavam si haviam em -França, e como se chamava. Captivou-lhes principalmente a -attenção a figura de Deos, no meio do quadro, com os braços -abertos, soltando da bocca um forte sopro de vento, e me -perguntaram o que isto queria dizer?</p> - -<p>Expliquei-lhes, que isto representava a maneira, como foram -feitas todas as coisas, apenas com a palavra de Deos, -cujo poder e dominio estendia-se ás duas extremidades do -Ceo.</p> - -<p>Admirou-se tambem muito da mulher ter sido formada -pela costella do homem, quando dormia, pedio-me explicações, -e assim o satisfiz dizendo, que Deos quiz com isto que -elle tivesse uma só mulher e não mais de trinta como elle -tinha; porque si Deos quizesse, que tivesse mais de uma, -elle o teria permittido desde o principio, e sendo creado somente -uma e ainda á custa da costella do homem assim demonstrou, -que este só devia ter uma mulher, a quem amasse -e conservasse, e não mudal-a á capricho da vontade, -como fazeis vós outros, sectarios de Jeropary, que vos persuadio -terdes muitas mulheres afim de indispor-vos e estrangular-vos -uns com os outros, visto que costumaes roubal-as -até na casa de seos proprios maridos.</p> - -<p>Na escada do altar estavam as imagens dos doze Apostolos -e o padre Sam Francisco, muito bem feitas e illuminadas.</p> - -<p>Perguntou-me quem eram esses <i>Caraybas</i>?</p> - -<p>Estes doze, respondi, são doze <i>Maratas</i> do filho do <i>Tupan</i>,<a id="Nanchor_107" href="#Note_107" class="fnanchor">[107]</a> -os quaes, depois que subiram ao Ceo, dividiram o -Mundo Universal em doze partes: tomou cada um a sua, onde -foi guerrear <i>Jeropary</i>, e lavar todos os crentes em Deos, deixando -successores, que foram se revesando até nós. Peguei -na imagem de S. Bartholomeo, e lhe disse—Olhae, veio a -vossa terra este grande <i>Marata</i>, e aqui fez muitas maravilhas, -como por tradicção vos contou vossos antepassados. Foi -elle quem fez talhar, á rocha, o altar as imagens, e as inscripções, -que ainda existem actualmente, como tendes visto.<a id="Nanchor_108" href="#Note_108" class="fnanchor">[108]</a></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_302"></a>[302]</span></p> - -<p>Foi elle quem vos deixou a <i>mandióca</i>, e vos ensinou a -fazer pão, pois vossos paes, antes de sua vinda, comiam só -raizes amargas dos mattos.</p> - -<p>Como não quizestes obedecer, elle vos deixou, predizendo -grandes desgraças, e que ficarieis por muito tempo sem -vêr <i>Maratas</i>.</p> - -<p>Tal qual aconteceo, e só agora é que tivestes quem vos -livrasse das mãos do diabo, e vos fizesse filho de Deos.</p> - -<p>Tomae cuidado em não fazerdes o que fizeram vossos -paes.</p> - -<p>Logo que lhes transmitti estas palavras pelo meu interprete, -olhou para a imagem de Sam Francisco e me disse—quem -é aquelle que está vestido como tu?</p> - -<p>É, disse eu, o pae de nós outros padres, que assim se -vestem.</p> - -<p>Vive ainda? replicou, está em França? Foi elle quem te -mandou para cá e aos outros padres?</p> - -<p>Não, respondi, ja não vive, morreo, porque nós todos morremos, -porem deixou successores, que nos mandaram para -cá. Não está mais em França, e sim no Ceo com Deos, onde -esperamos ir vel-o.</p> - -<p>Não tinha mulheres, como vós não tendes? perguntou.</p> - -<p>Não, respondi, porque todos os padres não as tem, imitando -assim o Filho de Deos, seo Rei, que vivendo n’este -mundo não tinha mulher.</p> - -<p>Dizendo isto, olhava o Ceo e as sanefas que cobriam nosso -altar, as quaes eram de bello damasco com grandes folhagens, -agaloadas, e guarnecidas de passamanes e franjas de -prata fina, bem como o frontal do altar.</p> - -<p>Disse depois que tudo era bonito, e que serviamos <i>Tupan</i> -com grande reverencia e pedio-me para baptisal-o antes do -seo regresso, e que lhe desse imagens para leval-as comsigo.</p> - -<p>É preciso, respondi, que saibas antes a doutrina de Deos.</p> - -<p>Não me dissestes ja, replicou elle, tudo quanto era necessario -saber para ser lavado?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_303"></a>[303]</span></p> - -<p>Não, respondi, isto não passou de uma conversa: ha ainda -muito que aprender.</p> - -<p>Que me ensinarás ainda?</p> - -<p>Respondi—si quizeres morar commigo eu te ensinarei, ou -te farei ensinar muita coisa, mas não te posso baptisar ja, -sem primeiro saberes a doutrina de <i>Tupan</i>. Quero experimentar -tua constancia, e esperar nossos padres que não tardam -a chegar conforme me prometteram. Elles te baptisarão, -e irão comtigo fazer a casa de Deos na tua aldeia, e -não te deixaram mais.</p> - -<p>Antes d’isso não deixes de repetir na tua <i>caza grande</i> á -teos similhantes o que sabes: não faças mais feitiçarias, e -assim nós, e todos os francezes, te estimaremos, e sempre -serás bem vindo.</p> - -<p>Prometto, disse elle, e cumprirei minha palavra. Bem desejo -que tu me lavasses agora. Não deixarei de te vir visitar -muitas vezes, porque sempre aprenderei alguma coisa.</p> - -<p>Chamou então seos companheiros, que ficaram por todo -este tempo na porta da igreja.</p> - -<p>Que obediencia e respeito entre os selvagens! Mandou que -se aproximassem ao altar e á elles repetio o que lhe ensinei, -mostrando-lhes as imagens e explicando o que representavam.</p> - -<p>Esta pobre gente estava como que fóra de si, mostrando-se -admirada a seo geito, e depois despedio-se e foi para -o Forte de S. Luiz, onde embarcou e regressou á sua terra.</p> - -<p>Veio depois visitar-me para tratar do mesmo objecto, e -contou-me como cumprio suas promessas, fallando na <i>caza -grande</i>, e repetindo o que lhe ensinei, e affirmou que todos -se fariam christãos logo que elle fosse baptisado, o que me -pedio ainda uma vez.</p> - -<p>Animei-o a continuar a proceder assim, e dei-lhe esperança -de que seria baptisado em pouco tempo, apenas chegassem -os Padres de França.</p> - -<p>Conversamos ainda sobre os objectos, de que já nos tinhamos -occupado da primeira vez, e com avidez recebia<span class="pagenum"><a id="Page_304"></a>[304]</span> -todos os conhecimentos mostrando por seos gestos indizivel -contentamento.</p> - -<p>N’esta segunda visita, veio mais modesto, e acompanhado -por poucas pessoas, sem muitos enfeites de pennas, e fallando -com muito menos arrogancia do que o fez na primeira -vez.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XVIII">CAPITULO XVIII</h3> - -<p class="subhead">Conferencia com o grande feiticeiro de Tapuytapéra.</p> - -</div> - -<p>O grande feiticeiro de <i>Tapuytapéra</i> era homem muito -respeitavel, de boa estatura e bem feito, valente guerreiro, -modesto, grave, e de poucas palavras: era muito amigo dos -francezes, e gozava entre os habitantes do seo paiz do mesmo -poder, que Pacamão em <i>Commã</i>, Japy-açú em <i>Maranhão</i>, -o Arraia-grande entre os <i>Caietés</i>, Thion e Farinha-molhada -entre os <i>Tabajares</i>, rico, e de muito bons filhos, que -são fieis aos francezes e christãos, como d’aqui ha pouco -diremos.</p> - -<p>Veio ao Fórte de S. Luiz seguido por perto de tresentos -a quatrocentos dos seos companheiros para fazel-os trabalhar -nas fortificações, e regressar á seos lares depois de acabarem -seo tempo, revesando-se assim, e nunca menos de dusentos -a tresentos selvagens.</p> - -<p>Durante as horas do trabalho assentava-se elle junto aos -francezes mais graduados, ahi vigiava a sua gente, animava-a, -e recommendava-lhe perfeição de obra.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_305"></a>[305]</span></p> - -<p>Fui vêl-o n’essa lida, desculpou-se muito para commigo, -por intermedio do seo interprete, por não me ter vindo vêr -logo que chegou a Ilha, por estas palavras:</p> - -<p>«Não te fui procurar, embora tivesse muito que conversar -comtigo, porem deve ser com descanço.</p> - -<p>«Agora é preciso vigiar minha gente no trabalho, afim de -se empregar com animo na fortificação d’esta praça.</p> - -<p>«Não deixarei de te ir vêr com <i>Migan</i>, que está aqui para -te fazer sabedor do que eu digo, contando-me tambem as -maravilhas, que ensinas aos nossos similhantes.»</p> - -<p>Respondi-lhe, que achava isto bom, e que estava contente -vendo-o assiduo no trabalho para que fóssem bem -feitas as trincheiras e fóssos afim de resistirem a seos inimigos, -e que depois si nos offerecia occasião de conferenciarmos: -que era só isto, que eu desejava, que nós todos o -estimavamos e muito, tanto por sua bondade natural como -porque elle era amigo dos francezes, e sempre fiel.</p> - -<p>Assentamos-nos depois um em frente do outro, conversamos -sobre muitas coisas indifferentes, especialmente do enthusiasmo -de sua gente, e particularmente das crianças, que -carregavam terra, o que causava a elle e á nós muita satisfação, -fazendo-me dizer e a proposito, que bem razão lhes -assistia n’esse trabalho, cheio de fervor e de coragem, pois -era para elles, que se lidava, visto que um dia veriam as -maravilhas feitas pelos francezes n’esta terra.</p> - -<p>«Serão bem differentes do que somos, dizia elle, porque -serão <i>Caraibas</i>, andarão vestidos, e verão as Igrejas de -Deos construidas de pedra.»</p> - -<p>Confirmei em minha resposta a felicidade de seos filhos -no futuro, assegurando-lhes, que d’ella tambem gozariam -porque não haveria muita demora na vinda de soccorros e -navios de França trazendo muitos Padres, muitos francezes -guerreiros, muita ferramenta e generos para elles: que então -se construiriam casas á maneira dos francezes, que seriam -acompanhados por elles quando fossem guerrear seos -inimigos, que viriam os <i>Tupinambás</i> e os outros alliados<span class="pagenum"><a id="Page_306"></a>[306]</span> -cultivar a terra da <i>Ilha</i>, e que tudo isto poderiam vêr antes -de morrerem.</p> - -<p>Ditas estas palavras despedi-me d’elle, e regressei á minha -habitação.</p> - -<p>Quando acabou o tempo do seo trabalho veio visitar-me, -acompanhado pelos principaes da sua Nação, e pelo interprete -<i>Migan</i>.</p> - -<p>Assentou-se, e pedindo fumo, como costumava, me disse -estas palavras:</p> - -<p>—Antigamente usei de muitas feitiçarias para me tornar -grande e authoridade entre os meos.</p> - -<p>Muito tempo ha que conheci este abuso, e que zombo dos -que se empregam n’este officio.</p> - -<p>Não ignoro a existencia de um Deos, porem não sei conhecel-o.</p> - -<p>Seria impossivel o giro annual do sol, a existencia de ventos -e chuvas, e o forte estampido dos trovões si não houvesse -um Deos, autor de tudo isto.</p> - -<p>Temos então homens maus, que vivem livremente sem -temer algum castigo, e pensamos que elles irão ter com -<i>Jeropary</i>.</p> - -<p>Temos outros homens, que são bons, que não matam, que -dão expontaneamente a sua comida, e pensamos serem elles -amados por Deos, e por tanto que não vão cahir no poder -do diabo.</p> - -<p>Alegrei-me muito quando me noticiaram a vinda dos padres, -que faziam conhecer <i>Tupan</i>, e que em seo nome lavavam -os homens: foi este o principal motivo, que aqui me -trouxe para vos vêr, e manifestar-vos o meo desejo de ser -instruido e baptisado, porque ja soube, que dissestes serem -condemnados os não baptisados, e que se perderam -nossos paes.</p> - -<p>Tenho muitos filhos, quero que sejam christãos, como eu -afim de irmos todos para a companhia de Deos.</p> - -<p>Desejo edificar na minha aldeia para elle uma casa, e junto -d’ella outra para vós: eu o sustentarei e nada lhe faltará.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_307"></a>[307]</span></p> - -<p>Os que na minha provincia confiam e tem fé em mim, -serão christãos.—</p> - -<p>Traduzindo-me o interprete tudo quanto acima escrevi, -acrescentou «este homem tem muito amor a Deos, e conhece-o -muito, porque usa das palavras mais expressivas da -sua lingua para melhor exprimir o que sente e conhece, e -tenho muita pena de não poderdes entendel-o e conhecer o -que elle diz. Respondei conforme seos desejos, fazei com -que elle entenda estas palavras, o mais eloquentemente que -puderdes.»</p> - -<p>«Informaram-nos os francezes muito bem de vós e de -vossos filhos, tanto de vossa fidelidade, e amisade, como -de vossa natural bondade: eis o verdadeiro meio de cedo -receberdes o favor de Deos, alcançardes seo conhecimento -e seo baptismo. Tu o vês ordinariamente diante de ti quando -a terra produz facilmente muitos fructos, provenientes da -semente n’ella lançada.</p> - -<p>«O homem é a terra, e o Evangelho a semente: quando -Deos encontra boa terra, sem cardos e nem espinhos, elle -ahi lança sua semente: á vista disto muito espero de ti e de -teos filhos, e te asseguro que si fossemos mais nós os padres, -tu já levavas um comtigo: tende porem paciencia, -breve chegarão outros.</p> - -<p>«Não deixes comtudo de edificar a casa de Deos e a dos -padres, para que apenas cheguem, possas leval-os e acommodal-os.</p> - -<p>«Não podes demorar-te aqui muito tempo em virtude do -teo cargo: nós como somos poucos, não podemos tambem ir -comtigo; conserva teos bons desejos, e Deos te ajudará.</p> - -<p>«Conheci ja que tens muito amor a Deos, que seo espirito -tocou-te o coração, e illuminou-te o entendimento para te -guiar no que me dissestes: é grande bem para ti, não o despreses.»</p> - -<p>Respondeo-me assim:</p> - -<p>—Nunca fui mau, nunca me agradaram as carnificinas dos -nossos escravos. Nunca roubei as mulheres dos outros, contentava-me<span class="pagenum"><a id="Page_308"></a>[308]</span> -com as minhas. É bem verdade, que me fiz temido -ameaçando os que me despresam com molestias, que -contrahiam por medo.</p> - -<p>Nunca fallei com Espiritos, como fazem os outros <i>pagés</i>, e -apenas empreguei a subtilesa da minha intelligencia, e a -grandesa da minha coragem. Minhas feitiçarias concorreram -menos do que a coragem, que muitas vezes hei manifestado -na guerra, para conquistar a authoridade que hoje occupo.</p> - -<p>Estou velho, e só ambiciono paz e tranquilidade.—</p> - -<p>Respondi-lhe haver procedido bem, irritando contra si -muito menos o soberano, á vista do comportamento de outros -feiticeiros, que entretinham relações com o diabo, e que -assim ficasse gosando a tranquillidade de sua consciencia até -o dia do seo baptismo.</p> - -<p>Pedio-me para vêr a Capella, e buscou informar-se de tudo -quanto via—altares, paramentos, e imagens.</p> - -<p>Expliquei-lhe tudo bem á sua vontade, e assim despedio-se -de mim para regressar ao seu paiz, o que fez. Dei-lhe -imagens para levar comsigo, o que recebeo com muita alegria, -e expliquei-lhe o que significavam, e recommendei-lhe -que as guardasse com todo o cuidado para que <i>Jeropary</i> -não as tomasse, visto ter sido vencido antigamente pelo Filho -de Deos, que morreo na Cruz.</p> - -<p>Com taes impressões partio.</p> - -<p>Pouco tempo depois foi convertido Martinho Francisco a -quem permittimos edificar uma Capella na sua aldeia, onde -celebrariamos missa, e baptisariamos quando fossemos a <i>Tapuitapéra</i>.</p> - -<p>Este grande feiticeiro, de quem acabamos de fallar, teve -ciumes, e mandou-me dizer, que muito se admirava de eu -ter dado licença a Martinho Francisco para fazer uma Capella -na sua aldeia antes d’elle construir uma na sua, preferencia -que elle bem merecia pela sua grandesa, tendo -tambem padres comsigo como lhe fôra permittido.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_309"></a>[309]</span></p> - -<p>Aos que me trouxeram o recado respondi não ter ultrapassado -de forma alguma minhas palavras e promessas, que -era elle o primeiro de <i>Tapuitapéra</i>, a quem tinha dado licença -para fazer uma capella, que devia preceder os outros -e em quanto aos padres ainda não tinham chegado: que -quando fossemos a <i>Tapuitapéra</i> não deixariamos de ir vel-o -e visital-o; mas que eu não podia recusar a Martinho Francisco, -ja christão, o ter junto de si uma casa de Deos para -fazer suas orações. Achou boa a resposta.</p> - -<p>Entre os convertidos por Martinho, depois do seo baptismo, -foram dois dos filhos d’este <i>Muruuichaue</i>, e com isto -teve Martinho singular consolação, animando-os a aprender -suas crenças e a doutrina christan; porem aconteceo, infelizmente, -serem elles seduzidos pelas más palavras de um de -nossos interpretes para deixarem o Christianismo.</p> - -<p>Sabendo seo bom pae, que elles para esse fim tinham deixado -seos habitos e vestidos, lhes disse o que ides fazer? -moveis-vos por bem pouco!</p> - -<p>«Porque vos despis, e dissestes, que não querieis mais -ser christãos?</p> - -<p>«Quero agora que torneis a tomar vossos vestidos; ide procurar -Martinho Francisco na sua aldeia, e d’elle recebei a -doutrina, que os padres lhe ensinaram.</p> - -<p>«Não vos separeis d’elle, e nem cá venham senão em sua -companhia.</p> - -<p>«Eu mandarei chamal-o para que vá ter com os padres.»</p> - -<p>Estes rapazes obedeceram a seo pae, tornaram a tomar -seos vestidos, vieram procurar Martinho Francisco, que foi -ter com o grande feiticeiro, e veio depois em companhia de -muitos christãos ao Forte de Sam Luiz para nos declarar, e -aos nossos chefes, como se passaram estas coisas, e a ellas -se deo remedio, conforme a occasião permittio.</p> - -<p>O Revd. Padre Arsenio, acompanhado por muitos christãos, -foi vêl-o em sua aldeia, onde foi muito bem recebido, -notando toda a alegria que póde mostrar no rosto um selvagem, -presenteou-lhe com muita caça, e rogou-lhes que<span class="pagenum"><a id="Page_310"></a>[310]</span> -si quizesse morar em <i>Tapuitapéra</i> que escolhesse para -residencia sua aldeia, e ahi seria bem acommodado, tanto -quanto permitte o paiz.</p> - -<p>Depois d’isto mandou-me seo filho mais velho, chamado -<i>Chenamby</i>, «minha orelha,» com sua mulher, ambos com -carga, e um filho pequeno. Disse <i>Chenamby</i>—Meo pae está -com muito cuidado em ti, receia que não tenhas farinha, e -é isto que aqui me traz. Logo que houver milho elle te mandará -muito. Tem muita vontade de saber logo que aqui cheguem -os Padres, porque immediatamente deixará a sua aldeia, -e atravessará o mar para cumprimental-os, pedir um -d’elles e leval-o comsigo para aprender a sciencia de Deos, -e ser por elle lavado.</p> - -<p>Dois dos meos irmãos são <i>Caraibas</i>, os quaes, como sabes, -se despiram, apesar das observações, que lhe fizeram, -actualmente vão indo bem, e estão sempre com o <i>padre-miry</i>, -«padre pequeno,» (sobrenome que davam a Martinho -Francisco por causa do empenho d’elle em converter as almas): -quero ser christão, conjunctamente com meo pae, minha -mulher, que aqui está, e meo filho pequeno que ella -carrega, o qual chegando á idade propria, darei aos padres -para ser por elles instruido.—</p> - -<p>Este <i>Chenamby</i> balbuciava um pouco o francez, e entendia -tambem alguma coisa, graças ao trabalho e empenho, -que para isso empregava, fallando com os francezes o mais -que podia.</p> - -<p>Respondi-lhe em sua linguagem por meio do interprete, -d’esta forma:</p> - -<p>«Que estava muito contente por seo pae lembrar-se de nós -principalmente pela constancia da boa vontade de seo pae -e de seos irmãos para com o christianismo, e especialmente -vendo elle e sua mulher dispostos a receberem a fé christã, -e a nos offerecerem seos filhos para ensinarmos o que fosse -conveniente quando comnosco estivesse.</p> - -<p>«Exhortei-os por muitas palavras a terem elle e sua mulher -constancia em tal desejo.»</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_311"></a>[311]</span></p> - -<p>Sua mulher era de agradavel presença, moça, modesta, e -trazia em seos olhos não sei que pudor, não se animando a -olhar-me directamente: alem d’isto occultava com o pé direito -de seo filho sua enfermidade, guardando o respeito natural -de não se apresentar de outra forma diante de mim, -de que tirei boa conclusão agradando-me ainda mais de suas -maneiras e procedimento: achei-a muito boa e caridosa para -com os francezes, humilde e obediente a seo sogro e marido, -virtudes não pequenas n’uma india.</p> - -<p>Antes de partir prometteo-me seo marido, que não casaria -com outra, e nem a abandonaria.</p> - -<p>Respondi-lhe, que se assim fizesse os padres o casariam -á face da igreja, depois de baptisado.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XIX">CAPITULO XIX</h3> - -<p class="subhead">Conferencia com Iacupen.<a id="Nanchor_109" href="#Note_109" class="fnanchor">[109]</a></p> - -</div> - -<p>Era Iacupen um dos principaes da tribu dos <i>canibaleiros</i>, -conduzidos para a ilha pelo Sr. de la Ravardiere, pae de -um mancebo christão, de boa indole, chamado João, e antes -<i>Acaiuy-miry</i>, «cajú pequeno ou cajusinho.» Teve por varias -vezes o trabalho de vir de Juniparan procurar-me e -conversar commigo sobre as coisas divinas, e sobre a vaidade -d’este mundo.</p> - -<p>Um dia veio a minha casa com seo filho, e assim fallou-me:</p> - -<p>—Tenho muito desgosto de não ser baptisado, porque sei -que em quanto estiver assim, o diabo pode perseguir-me e -perder-me.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_312"></a>[312]</span></p> - -<p>Ah! quem pode assegurar-me a vida até a noite?</p> - -<p>Agora volto para minha aldeia, posso encontrar uma onça -furiosa, que me corte a garganta, e me mate sosinho no -bosque.</p> - -<p>Para onde irá meo espirito?</p> - -<p>Não tenho pesar e nem inveja, que meo filho, que aqui -está, se baptisasse primeiro do que eu.</p> - -<p>Mas dize-me: não é coisa notavel, que elle seja Filho de -Deos antes de mim, seo pae, e que eu d’elle aprenda o que -devia ensinar-lhe?</p> - -<p>Penso n’isto, e torno a pensar muitas vezes, principalmente -depois da vossa vinda, e da de outros padres: lembro-me da -crueldade de <i>Jeropary</i> para com a nossa nação, porque tem -feito morrer a todos, e persuadio a nossos feiticeiros de conduzir-nos -ao centro de uma floresta desconhecida, onde dançariamos -constantemente, alimentando-nos somente do amago -das palmeiras e da caça, succumbindo muitos por fraqueza -e debilidade.</p> - -<p>Sahindo nós de lá, e vindo nos navios do <i>Muruuichaue</i> -la Ravardiere para a ilha do Maranhão, armou-nos <i>Jeropary</i> -outra emboscada, instigando por meio de um francez aos -<i>Tupinambás</i> para matarem e comerem muita gente nossa: -si não é a vossa chegada acabariam comnosco.</p> - -<p>Ja vedes, que somos muito infelizes n’esta vida.</p> - -<p>Perseguimos os veados e outros bixos para matal-os e comel-os, -porem elles não necessitam de ferramentas, de fogo -e nem de canoas, pois acham a comida feita: quando perseguidos -n’um lugar, em poucas horas transportam-se para -outro atravessando até braços de mar, sem canôa: nós outros -porem não podemos fazer o mesmo: faltam-nos ferramentas, -fogo e canoas, e o que é mais, vem ainda perseguir-nos -nossos inimigos, ora os <i>Peros</i>, ora os <i>Tupinambás</i>, -e finalmente outras nações adversarias: finalmente a nossa -posição é peior do que a dos animaes da terra.—</p> - -<p>Respondi-lhe: «O que disseste, é bem certo, porque o diabo -o que deseja somente é matar o corpo e perder a alma,<span class="pagenum"><a id="Page_313"></a>[313]</span> -e assim procede sempre com aquelles, com quem tem pouco -a ganhar retendo-os em suas cadeias: é um monsenhor, -e trata cruelmente seos servos.</p> - -<p>«Deos não é recebedor dos velhos, e nem dos moços. Os -primeiros, que se apresentam, são recebidos por elle, comtudo -os ultimos são sempre os primeiros, porque recebem o -christianismo com mais consideração, e o conservam com -mais fervor do que os que o abraçam ligeiramente.</p> - -<p>«Nosso Deos nos fez miseraveis n’este mundo afim de não -olharmos só nas delicias da carne, e sim para preparar-nos -com destino a outra vida alem d’esta.»</p> - -<p>Antes de passar adiante convem explicar o que elle quiz -dizer, quando fallou da desgraça de sua nação, devida aos -conselhos dos seos feiticeiros, e á carnificina feita pelos <i>Tupinambás</i>.</p> - -<p>Havia entre elles um grande feiticeiro, que entretinha com -o diabo visiveis relações, e gozava de tal poder entre elles -que todos lhe obedeciam.</p> - -<p>Aproveitou-se o diabo de tal ensejo para seduzir e enganar -esta populaça, ensinando ao feiticeiro o que devia -dizer-lhe para elle ir tomar posse d’uma terra, onde tudo, -facil e sem trabalho lhe appareceria á medida de seos desejos.</p> - -<p>Esta nação, tão cheia de prejuisos, seguio este desgraçado, -não intermediando muito tempo sem conhecer a zombaria -do espirito do conductor, porque falleceram milhares, e -acharam-se no meio de vasta floresta, dançando constantemente, -como elle lhe ordenou, até que chegasse o Espirito -para lhe indicar o lugar procurado.</p> - -<p>Ahi achou-se o Sr. de la Ravardiere, demonstrou-lhe seo -engano, o que reconhecido, seguiram-no e embarcaram-se -em seos navios com destino á Ilha do Maranhão, onde algum -tempo depois um miseravel francez tendo uma questão -com o Principal d’essa gente, para vingar-se, instigou os -<i>Tupinambás</i> a matal-a, subindo esta carnificina a cem ou á -cento e vinte, entre mortos e prisioneiros.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_314"></a>[314]</span></p> - -<p>Tal barbaridade foi praticada cinco ou seis mezes antes da -nossa chegada.</p> - -<p>Continuemos.</p> - -<p>Depois de minha resposta, disse-me:</p> - -<p>—Tenho bem pesar de não poder obsequiar-vos como -mereceis, porque não tenho meios de ter escravos; outr’ora -fui rico, hoje sou pobre.</p> - -<p>Fiz o que pude ao padre, residente em <i>Juniparan</i>.</p> - -<p>Tenho bem pesar de não traser-te caça sempre que venho -vêr-te.—</p> - -<p>Repliquei-lhe immediatamente:</p> - -<p>«Não é isto que desejo de ti, e estou muito contente de -conhecer tua devoção, e tua boa vontade, porem ambiciono -que sempre progridas de dia á dia, e adquiras novos conhecimentos -á respeito de Deos.</p> - -<p>«Tens um padre na tua aldeia, visita-o sempre, e d’elle -aprende as maravilhas de <i>Tupan</i>.</p> - -<p>«Tens alem d’isto teo filho, que sabe a doutrina christan; -elle que a ensine a ti e a todos de tua casa, o que fará melhor -do que nós, visto pronunciar bem as palavras da tua -lingua.»</p> - -<p>—O que acabas de dizer-me afflige-me muito, respondeo-me -elle, porque meo filho depois de christão, logo no principio, -procedeo bem: ja sabia lêr um pouco no seo <i>Cotiare</i>, -e escrever, estava sempre com o padre, e o seguia por toda -a parte.</p> - -<p>Deixou depois tudo isto, entregou-se á liberdade, esqueceo -o que havia aprendido, e foge para o matto quando o padre -o procura: isto me mata e como nada aproveito em fallar-lhe, -eu te peço que tu lhe mostres, e proves ser elle filho -de Deos, e que <i>Jeropary</i> o quer seduzir: eil-o aqui, falla-lhe.»</p> - -<p>Satisfiz-lhe o desejo, recordando á seo filho o fervor, com -que recebeo o baptismo, admirando-me de vel-o tão mudado -a ponto de fugir dos padres, pelo que eu acreditava andar -o diabo no seo encalço si não regressasse aos seos deveres,<span class="pagenum"><a id="Page_315"></a>[315]</span> -se não frequentasse o padre de <i>Juniparan</i>, e não -abraçasse sua antiga fé.</p> - -<p>Ouvio-me pacientemente, e prometteo-me melhor procedimento.</p> - -<p>Considerae, eu vos peço, o zelo de um verdadeiro pae -para salvar seo filho, como mostrou o grande feiticeiro de -<i>Tapuitapéra</i>: este pae é ainda pagão, e comtudo vós o vedes -solicito, e cuidadoso pela consciencia de seo filho.</p> - -<p>Quantos paes ha em França, que só cuidam dos bens temporaes -de seos filhos, e despresam os espirituaes!</p> - -<p>Veio outra vez visitar-me em companhia de alguns selvagens, -seos visinhos: rolou nossa conversação á respeito da -creação do Mundo, da providencia de Deos para com o procedimento -dos homens, e da vocação singular e particular -de cada um.</p> - -<p>—É preciso, disse, que seja Deos um Espirito poderoso, -incomprehensivel para nós, para crear com uma só palavra, -como ouvimos muitas vezes de vós outros padres, tudo o -que vemos e ouvimos.</p> - -<p>Imagino a immensidade do mar, que ha d’aqui até a França, -tanto assim, que os navios gastam doze luas no trajecto -de ida e volta, e admiro que o sol, que temos, seja tambem -vosso.</p> - -<p>Quantos passaros, peixes, e animaes existe no Mundo, todos -foram feitos por <i>Tupan</i>.—</p> - -<p>O segundo ponto de discussão foi este:</p> - -<p>«Vejo-me embaraçado quando penso nas diversas nações, -que existem no Mundo.</p> - -<p>«Vejo os francezes ricos, valentes, inventando navios para -passarem o mar, canoas, e polvora para matar os homens -insensivelmente, bem vestidos e nutridos, temidos e respeitados.</p> - -<p>«Ao contrario nós vivemos errantes e vagabundos, sem -roupas, machados, fouces, facas e outras ferramentas.</p> - -<p>«De que procede isto?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_316"></a>[316]</span></p> - -<p>«Nascem ao mesmo tempo dois meninos, um francez, e -outro <i>Tupinambá</i>, ambos doentes e fracos, e não obstante -um nasce para gozar de todas as commodidades e o outro -para viver pobremente.</p> - -<p>«Livres nascemos, um não tem mais do que outro, e comtudo -uns são escravos, e outros <i>Muruuicháues</i>.»</p> - -<p>Eis o terceiro ponto de discussão:</p> - -<p>—Não posso tranquilisar o meo espirito quando penso, que -vós outros francezes tendes mais conhecimento de Deos do -que nós. Porque temos vivido tanto tempo na ignorancia? -Dizei-nos, que foi Deos quem vos enviou, e para que não o -fez antes? Nossos paes não se teriam perdido, como succedeo. -Os padres são homens como nós, e porque elles fallam -a Deos, e nós não?—</p> - -<p>Respondi-lhe a tudo isto, dizendo «ser muito pequeno -nosso espirito para conceber coisas tão altas, reservadas por -Deos só para si. Basta saber que elle fez tudo, ama e dá o -necessario a todos.»</p> - -<p>Quando vê um individuo disposto a abraçar suas crenças -não deixa de o mandar vesitar pelos seos Apostolos, que lhe -proporcionam meios de salvar-se, sendo de crer não achar-se -seo coração e espirito, antes da nossa vinda, disposto e -apto para receber tão grande luz, qual a do Evangelho.</p> - -<p>Estes e outros discursos similhantes, que adiante encontrareis, -vos habilitarão a julgar da capacidade de suas -almas para receberem a fé de Jesus Christo, nosso Salvador.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_317"></a>[317]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XX">CAPITULO XX</h3> - -<p class="subhead">Conferencia com o Principal d’Orobutin.</p> - -</div> - -<p>Era este Principal de alta estatura, muito magro, modesto -e affavel, e tinha estado doente desde a nossa chegada até -quando veio vesitar-nos.</p> - -<p>Entrou em nossa casa acompanhado por alguns dos seos, -com muito respeito e quasi a tremer.</p> - -<p>Acolhendo-o muito bem, mandei sental-o em frente a mim -n’uma rêde de algodão, e logo conforme o costume, principiou -assim a fallar-me:</p> - -<p>«Vim hoje ter comtigo, ó padre, para duas coisas: a primeira -para desculpar-me e pedir-te que não repares o não -me encontrares quando chegaste em <i>Uraparis</i>, como fizeram -<i>Japy-açú</i>, <i>Pira-Juua</i>, <i>Ianuarauaeté</i>, e outros Principaes -da ilha, e não poude tambem vir antes de <i>Pacamão</i>, -de <i>Aua Thion</i>, meo chefe, pois achava-me gravemente doente, -porem no meio de minha molestia sempre tive o desejo -de vêr teo rosto, e ouvir de tua bocca o que meos -companheiros de aldeia me contavam de vós outros padres.</p> - -<p>«A segunda coisa que aqui me traz, é offerecer-te meos -filhos, que t’os dou, quero que sejam teos, e que os faças -<i>Caraibas</i>.</p> - -<p>«Desejo igualmente e peço-te, que venhas tu ou um dos -padres á minha aldeia edificar uma casa para Deos instruir -a mim e a meos similhantes, e declarar-nos o que <i>Tupan</i> -deseja de nós para sermos lavados, como tem sido os outros.</p> - -<p>«Asseguro-te que não faltariam viveres, por ser minha -terra boa e abundante de caça.»</p> - -<p>Advirto ao leitor, que é facil traduzir as palavras e pensamentos -d’este selvagem, porem não os gestos e a vivacidade -do seo espirito ao pronuncial-os: direi apenas que suas -expressões eram acompanhadas de lagrymas e com vóz cheia<span class="pagenum"><a id="Page_318"></a>[318]</span> -de fervor e devoção revelava-me o toque do Espirito Santo, -e o ardente desejo de ser christão.</p> - -<p>Respondi-lhe:</p> - -<p>«Não precisa pedires desculpa pela tua auzencia quando -saltamos na ilha, porque alem de estares doente, muito -longe é d’aqui á tua aldeia, e isto só basta para seres desculpado.</p> - -<p>«Regosijo-me muito vendo em ti tão boa vontade para -comnosco, e tão grande desejo de tua salvação, da de teos -filhos e em geral da de teos similhantes.</p> - -<p>«Si actualmente tivessemos mais padres acredita que eu -iria, ou mandaria outro á tua aldeia, porem não podemos -deixar a ilha por causa dos estrangeiros que nos vem vêr, -e ao que é conveniente corresponder.</p> - -<p>«Logo que chegarem os padres de França asseguro-te -que terás um d’elles, porque reconheço claramente seres -um dos escolhidos por Deos para seo filho.</p> - -<p>«Coragem, e espera o que te digo.»</p> - -<p>Replicou-me:</p> - -<p>«Déste-me muita consolação, porque desde que correo o -boato em nossa terra de dizerdes maravilhas de <i>Tupan</i> e -de tratardes com bondade nossos similhantes, que eu nunca -mais tive socego de espirito.</p> - -<p>«Quando irás procurar os padres, quando da bocca delles -ouvirás o que dizem teos compatriotas? Levanta-te, e faze -esforços para caminhar.</p> - -<p>«Obedecendo muitas vezes a este pensamento, levantei-me -da cama, porem estava tão magro e descarnado, que -nem pude sustentar-me nas pernas: olha para meos braços, -meo corpo, e minhas coxas, que não recobraram ainda a -carne e a gordura, que a molestia me comeo.</p> - -<p>«Admirou-me muito quando soube ter <i>Marentin</i> vindo tão -doente procurar-te, e receber o baptismo.</p> - -<p>«Peço-te encarecidamente, que antes do meo regresso me -ensines alguma coisa de Deos, e acredita, que fixarei em<span class="pagenum"><a id="Page_319"></a>[319]</span> -minha memoria, e não esquecerei uma só palavra, e mui -fielmente o referirei a minha gente e a meos filhos.</p> - -<p>«Tenho tres filhos, sendo o mais velho este que aqui vedes: -quero que fiquem com os padres quando vierem, que -se assentem á seos pés, e que escutem com cuidado o que -elles disserem, e cumpram suas ordens.</p> - -<p>«Elles caçarão e pescarão para os padres.»</p> - -<p>Pelo interprete lhe disse ter elle razão, e que eu não podia -recusal-a, e assim que attendesse bem ao que eu ia ensinar-lhe, -e que chamasse para junto de si seo filho e seos -companheiros, o que feito principiei a explicar-lhes o mysterio -da creação e da redempção por meio de comparações -ordinarias e palpaveis.</p> - -<p>É impossivel descrever-se a attenção e emoção, com que -elle recebia estas agoas sagradas do Redemptor.</p> - -<p>Nunca animal algum foi tão avido e desejoso por uma -fonte clara em pleno estio, do que este saboreando a nova -doutrina.</p> - -<p>Prasa ao Ceos, sem fazer comparação alguma, que os christãos -acolhessem a palavra de Deos com tanta avidez.</p> - -<p>Tinha as espaduas curvadas, em quanto fallei, os olhos -meio baixos, e apenas como que a furto respirava e cuspia, -e n’essa occasião era possivel presentir-se o caminhar de -um rato.</p> - -<p>No fim disse-me—que grandes coisas! nunca ouvi fallar -n’ellas e nem n’outras similhantes, porque Deos não quiz -fallar comnosco, e nem com os nossos antepassados, e nenhum -<i>Caraiba</i> ainda nos entreteve contando-as.</p> - -<p>Acabas de dizer-me que Deos está em toda a parte, que -não póde ser visto, mas vê tudo e nos ouve, acompanhando-nos -por toda a parte, e sempre adiante: que somente os -baptisados podem sentil-o e reconhecel-o, que não tem corpo -como nós, mas sim é um espirito derramado por todo o -universo.</p> - -<p>Ouvi bem, mas difficilmente comprehendo, porque não estamos -costumados a ouvir tão grandes coisas, e sim temos<span class="pagenum"><a id="Page_320"></a>[320]</span> -inclinação natural para pescar, caçar, flechar e fazer muitos -exercicios. Em quanto aos mais entregamo-nos aos nossos -feiticeiros, dotados de animo mais subtil para conversarem -com os espiritos.</p> - -<p>Disseste-me ser Deos como o ar que respiramos constantemente, -pois sem elle morreriamos: que <i>Tupan</i> nos dava -vida e respiração, entrava em nós e nos cercava por toda -a parte como o ar: que assim como o ar existe e vae por -toda a parte, assim tambem Deos entrava e existia em todo -o lugar.</p> - -<p>Entendo bem este ponto, pois si Deos fez o ar, necessariamente -é mais do que elle.</p> - -<p>Estou muito satisfeito por me dizeres, que <i>Jeropary</i> apenas -era criado ou servo de <i>Tupan</i>, que é perseguido pelos -espiritos bons, quando faz ou persegue algum homem ou -mulher sem licença de Deos, e que finalmente não tem poder -sobre os baptisados.</p> - -<p>Bem fez Deos, porque <i>Jeropary</i> é mau, e eu bem desejaria -que elle fosse açoitado até morrer pelos bons Espiritos.</p> - -<p>Apenas eu fôr christão, si elle aproximar-se de minha aldeia, -irei atrevidamente ao seo encontro, e não terei medo -algum.—</p> - -<p>Desculpae as expressões d’este selvagem, não christão.</p> - -<p>Escutae o resto da sua conversação.</p> - -<p>—Era necessario, que a moça, com quem Deos se casou, -fosse muito bonita, riquissima, e a mais poderosa do seo -paiz, por ser <i>Tupan</i> o maior de todos os <i>Muruuichaues</i>: -creio que seo filho tinha grande sequito e muito acompanhamento; -porem os malvados traidores, que o mataram, -eram velhacos e cautellosos porque o fizeram occultamente -pois si sua gente soubesse o teriam defendido.</p> - -<p>Parece-me que ficariam bem admirados quando o viram -sahir vivo de sua sepultura: devia então vingar-se dos que -o fizeram morrer, mas tu me disseste uma coisa admiravel, -isto é, que elle subio para o Ceo, somente em corpo e<span class="pagenum"><a id="Page_321"></a>[321]</span> -alma, que está sentado acima do sól, que tem olhos mais -claros que o sól e a lua, que nada se faz na terra, que elle -não veja e observe tanto na tua patria como na nossa, ouvindo -distinctamente as nossas palavras, as vossas preces -nas Igrejas, escutando-as, e vindo todos os dias sobre os -vossos altares, onde com elle fallaes, bem como todos os -<i>Caraibas</i> com liberdade, até sem abrir a bocca, não deixando -de perceber o que dizeis em vosso coração.</p> - -<p>Disseste tambem, que foi elle quem vos mandou para -cá afim de ensinar-nos estas coisas, a meo vêr muito bellas, -e não me enfadarei de ouvil-as, porem o barco está -prompto para regressar, e estão á minha espera minhas roças, -que deixei boas para a colheita.</p> - -<p>Tudo isto obriga-me a partir, alem de não ter trazido farinha -commigo.—</p> - -<p>Respondi-lhe, que si era só por falta de farinha, que elle -se via constrangido a partir, que eu tinha alguma á sua disposição -e de seos companheiros.</p> - -<p>Agradeceo-me a seo modo, despedimos-nos reciprocamente, -e elle partio.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XXI">CAPITULO XXI</h3> - -<p class="subhead">Conferencia com o Onda, um dos Principaes de Commã.</p> - -</div> - -<p>Este Principal sempre foi o pae commum dos francezes -em <i>Commã</i> honrando-os, respeitando-os, e defendendo-os -contra todas as más indisposições suscitadas, como era costume,<span class="pagenum"><a id="Page_322"></a>[322]</span> -pelos malvados e libertinos, a ponto de ser por elles -aborrecido e ameaçado de ser espancado senão morto a não -ser o receio, que tinham dos francezes.</p> - -<p>Quando foi nossa gente ao Pará, elle a acolheu com toda -a bondade e generosidade, ambicionando ser o <i>chetuasap</i> -ordinario do chefe dos francezes, consistindo toda a sua -fortuna e felicidade em ser amado e apreciado pelos francezes.</p> - -<p>Tinha um filho com 20 annos d’idade, que recommendou -muito ao Sr. de la Ravardiere e a todos nós, pedindo que -o acolhessemos bem, não exigindo outra recompensa de sua -fiel amisade senão a de poder seo filho viver entre os francezes, -n’uma palavra—ser francez.</p> - -<p>N’essa occasião tinha recommendado á seo filho, que se -esforçasse o mais, que podesse, para aprender a lingua -francesa, e para o conseguir com mais facilidade ordenou-lhe -que frequentasse os francezes quanto podesse, estando -sempre entre os residentes em <i>Commã</i>, e de tal fórma se -houve, que aprendeo algumas palavras de nossa lingua.</p> - -<p>Pensou este bom homem ter obtido todas as riquezas do -mundo, quando vio seo filho balbuciar vinte ou trinta palavras -francezas, e julgou ser tempo de trazer este grande -doutor aos <i>pays</i>, isto é, aos padres para ser baptisado, e -depois ser <i>Caraiba</i>, «francez.»</p> - -<p>Tereis sem duvida notado, tanto por este discurso, como -por muitos outros precedentes e subsequentes, que os selvagens -julgavam necessario ser primeiro baptisado para depois -ser francez, sendo manifesta loucura o pensar em contrario -e na verdade não se enganavam.</p> - -<p>O verdadeiro francez é mais francez pela piedade e religião -do que pela origem, visto que Deos o felicitou fazendo-o -vassallo e subdito de um rei christianissimo, primeiro -filho da igreja, e sempre seo fidelissimo protector, como demonstrou -em todo o tempo e em todas as occasiões.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_323"></a>[323]</span></p> - -<p>Si dermos credito a Santo Agostinho, no Tratado do Ante-Christo, -é elle, que deve resistir a este Ante-Christo, como -se vê em mais de um lugar.</p> - -<p>Voltemos ao nosso homem.</p> - -<p>Trouxe seo filho com muito respeito, e assentando-se n’uma -rêde, e o rapaz perto d’elle, desculpou-se de não ter vindo -logo vêr-nos e visitar-nos, assegurando porem ser um dos -nossos melhores amigos, que desejava ter padres com elle -na sua aldeia, que os acolheria muito bem, que nada lhes -faltaria para a vida, nem javalis, veados, e outros bichos -proprios á esse fim.</p> - -<p>É por esta fórma que todos se desculpam.</p> - -<p>Depois d’isto, assim fallou-me:</p> - -<p>«Sou homem de idade, como vedes, porem tenho muita -força, e espero vêr este meo filho, que aqui te trago, bom -<i>Caraiba</i>, como me prometteo o Grande, que sympathisa com -elle, quer vestil-o e tel-o aqui com os francezes.</p> - -<p>Eis porque venho pedir-te para laval-o com agoa de <i>Tupan</i>: -assevero-te, que elle sabe tudo quanto é preciso saber, -e breve o ouvirás porque tive o cuidado que elle fallasse -com os francezes, e todos me dizem que elle entende -muito.</p> - -<p>É bom rapaz e amigo dos francezes.»</p> - -<p>Dizendo isto, fez signal a seo filho para aproximar-se, e -ordenou-lhe que contasse tudo quanto sabia de francez.</p> - -<p>Só com muito custo podia conter o riso, e nem si quer -me era permittido usar do interprete que ria-se a bom rir, -de tal simplicidade; comtudo, eu o tranquilisei pedindo-lhe -desculpa pelas travessuras de um pequeno papagaio, que -eu tinha, a fim de não pensar que era elle o provocador do -riso.</p> - -<p>O rapaz recitou-me a doutrina, que seo pae julgava bastante -para receber o baptismo, e o fez d’esta maneira: <i>bom -dia, senhor, como estaes: Bem, senhor, prompto ao vosso -serviço, quereis comer, sim: pão, peixe, carne, minha cabeça,<span class="pagenum"><a id="Page_324"></a>[324]</span> -eo chapeo, meo gibão, meo borzeguim, minha camisa</i><a id="FNanchor_58" href="#Footnote_58" class="fnanchor">[BF]</a></p> - -<p>Não pude ouvir mais com receio de arrebentar de riso.</p> - -<p>Disse-lhe ser bastante, que só por isto eu fazia ideia d’elle -não ter perdido seo tempo.</p> - -<p>O bom homem pressuroso interrompeo-me dizendo ter -ainda que dizer-me.</p> - -<p>Levantou-se do seo logar, tomou todos os utencilios do -meo quarto, e mostrando-me um apoz outro disse-me, que -elle de tudo sabia o nome em francez.</p> - -<p>Aproximando-se de minha mesa, e agarrando-a com duas -mãos, dizia—elle ainda sabe o nome d’isto em francez.</p> - -<p>Dirigio-se a seu filho, e perguntou-lhe se era verdade o -que dizia. Sim, respondeo-lhe o moço, e ainda mais, pois -chamaria pelo nome tal e tal francez, bem como tambem -sabia a denominação das armas: <i>Um arcabuz, que faz puf, -uma espada, um canhão, que faz pataú</i>.</p> - -<p>Mas, disse-lhe o pae, bem depressa saberás o resto?</p> - -<p>Sim.</p> - -<p>Muito bem, replicou o pae, não deixes de vir todos os -dias recitar tua lição diante do padre.</p> - -<p>Deixando-lhe toda a liberdade de fallar afim d’eu poder -conter o riso, e d’elle dar expansão ao seo fervor, que não -era isto, que eu exigia para conferir-lhe o baptismo, e sim -o conhecimento de Deos e de outras coisas dependentes da -nossa religião.</p> - -<p>Ficou admirado de ouvir-me, reconhecendo inutil a estima -que elle tinha de vêr seo filho, grande doutor, e parecendo -não entender até o que eu lhe dizia.</p> - -<p>Pelo interprete expliquei-lhe o meu pensamento, e elle -respondeo-me não ter ouvido ainda fallar n’isso, mas que<span class="pagenum"><a id="Page_325"></a>[325]</span> -como seo filho era intelligente cedo aprenderia bastando-lhe -apenas uma lua, para o que deixava seo filho no Forte de -Sam Luiz.</p> - -<p>Disse-lhe que elle fazia muito, que eu o trataria o melhor -que me fosse possivel, e sempre seria bem acolhido entre -os francezes.</p> - -<p>Mas, disse eu, porque não procuras para ti o bem, que -desejas a teo filho?</p> - -<p>Ah! respondeo-me, sou muito velho: nada mais poderei -aprender, como esses rapazes, que vão ser <i>Caraibas</i>.</p> - -<p>Como, repliquei, antes queres ir com os diabos queimar-te -no inferno, do que esforçar-te para aprenderes a sciencia de -Deos? Tua velhice não é desculpa aproveitavel.</p> - -<p>Tens eloquencia para fallar um dia inteiro, si quizeres. -Calcula ha quanto tempo fallas, e quantas palavras tens proferido.</p> - -<p>Não precisas aprender a quinta parte das questões, que -me tens proposto, afim de seres christão; nas palavras de -tua lingua, pelas quaes comprehendemos os objectos expressados -na nossa linguagem.</p> - -<p>Aprendeis com muita facilidade cantigas e descantes, tão -compridos sobre feitos de vossos antepassados.</p> - -<p>Poderás assim aprender facilmente o que queres, que saiba -teo filho.</p> - -<p>Pois bem, me disse elle, vou fazel-o.</p> - -<p>Voltando-se para o filho, recommendou-lhe que escutasse -bem tudo quanto lhe ensinassem, que não perdesse uma só -palavra, e que imitasse todas as acções dos francezes, que -viria depois buscal-o para a terra d’elle afim de ensinar-lhe -o que tivesse aprendido.</p> - -<p>Serás bem recebido, todos farão caso de ti, e se reunirão -para te ouvir contar tão boas coisas. Depois viremos procurar -os padres para nos baptisarem.</p> - -<p>Assim fallando, olhou-me a sorrir-se.</p> - -<p>Muito bem, disse elle: Padre, não beberemos bom vinho -de França? ou <i>Cauin</i>, que queima, isto é, aguardente?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_326"></a>[326]</span></p> - -<p>Não terás d’ella alguma garrafa na tua frasqueira? Dá-me -as chaves d’ella.</p> - -<p>O <i>Muruuichaue</i> me deo em sua casa um pouco, e era -muito boa e muito forte: esfregando seo estomago com a -mão, dizia-me, olha, ainda sinto ella aquecer-me.</p> - -<p>É costume da França tirar da frasqueira a garrafa quando -se recebe visitas de amigos.</p> - -<p>Tenho desejos de vir muitas vezes a <i>Yuiret</i>, quando chegam -navios de França para gozar do seo vinho muito melhor -do que o nosso.</p> - -<p>Vendo finalmente a simplicidade d’este homem, que foi o -primeiro a rir-se, e não tratando nós mais das coisas de Deos, -foi-me necessario rir tambem, dar-lhe agoardente, e depois -de ter bebido um bom copo, pelo interprete notou não ter -eu bebido com elle, que convinha fazel-o, e que depois elle -me acompanharia.</p> - -<p>Assim o fiz para chamar estes homens ao seio de Deos, -tel-os como que obrigados ou agradecidos a nós em tudo quanto -podessemos, conforme sua naturesa, quando n’isto -não ha offensa á Deos.</p> - -<p>Depois de achar-se um pouco enthusiasmado com o segundo -copo começou a pronunciar gutturalmente estas palavras—<i>Goy -y katu de katogne kauin tata</i>, «oh! quanto é bom, -muito bom o vinho de fogo, ou o vinho que arde.»</p> - -<p>Como mau agouro ouvi a palavra <i>Goy</i>, que é o começo -para beber-se muito, e principiei a cogitar na maneira por -que havia de fechar a garrafa, visto não haver necessidade -de tal despesa, então grande pela sua falta.</p> - -<p>Disse ao meu interprete, que a levasse, e este querendo -cumprir a minha determinação, o meo selvagem agarrou a -dizendo não ser costume dos francezes guardarem as garrafas, -tiradas da frasqueira para a meza e que por muitas vezes -se tinha achado entre elles.</p> - -<p>Reconheci que era necessario resgatar a minha prisioneira, -embora ella nada me ficasse a devêr pela sua boa composição.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_327"></a>[327]</span></p> - -<p>Disse-lhe, que <i>cauiu-tata</i> não era similhante ao que tinha -bebido antigamente, que perturbava a cabeça de quem -o bebesse muito, que eu devia cuidar do seo corpo e de -sua saude, mas que eu ainda lhe daria um copinho para dizer-lhe -adeos, e assim foi-se satisfeito.</p> - -<p>Veio visitar-me no dia seguinte. Prevenindo-me e indo ao -encontro dos seos desejos mostrei-lhe uma garrafa quebrada, -igual a do dia antecedente fingindo estar muito triste -pela agoardente que se tinha derramado e perdido: mostrou-me -igual sentimento, e batendo na coxa me disse—Aqui -está, si tivesses permittido, nós a tinhamos bebido, e -nada teria acontecido.</p> - -<p>o...</p> - -<hr class="tb" /> - -<p><i>Faltam as ultimas folhas d’esta narração no exemplar -unico da edicção original, existente na Bibliotheca Imperial -de Pariz.</i> (<a href="#PREFACIO">Vide o Prefacio.</a>)</p> - -<p><i>Suppre-se de alguma forma esta falta, bem sensivel, publicando-se -no fim da obra, curiosissimas cartas, por longo -tempo esquecidas.</i></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_328"></a>[328]</span></p> - -<div class="footnotes"> - -<h3>NOTAS</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_55" href="#FNanchor_55" class="label">[BC]</a> Por falta de typos proprios deixamos em claro este espaço.—Do -traductor.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_56" href="#FNanchor_56" class="label">[BD]</a> Quarta parte de um soldo de França.—Do traductor.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_57" href="#FNanchor_57" class="label">[BE]</a> Gurupy.—Do traductor.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_58" href="#FNanchor_58" class="label">[BF]</a> Em francez muito mal escripto estão estas palavras, é impossivel -traduzil-as com taes erros.—Do traductor.</p> - -</div> - -</div> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_329"></a>[329]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="ADDENDUM">ADDENDUM.</h2> - -</div> - -<h3>Congratulação á França pela chegada dos Padres -Capuchinhos á nova India da America Meridional -do Brazil.</h3> - -<p>Grande reino, e povo francez, tens razão de louvar a Deos: -Christianissimo Reinado, de dia para dia crescem tuas alegrias, -dando sempre de ti boas novidades: sól dos reinos, -flor dos povos do Universo, és notavel por todas as maneiras.</p> - -<p>Por tua antiguidade na fé catholica, religião christã, devoção -aos altares divinos, e fervor em ouvir a palavra de -Deos.</p> - -<p>Pelo amor e dedicação a teo Principe natural, por tua -honesta sinceridade, ou sincera franqueza, na conversação, -qualidades, que nenhuma outra nação possue como tu.</p> - -<p>Esplendido, magnifico, e magnanimo reino sobre todos os -reinos da terra.</p> - -<p>Pela magestade da tua corôa, a bella e antiga serie de -teos monarchas até o numero de sessenta e quatro Reis, -dos quaes foram uns Imperadores, outros Santos canonisados -no Ceo: e tambem pelo valor e proezas na guerra, praticada -por tua gente valerosa, liberal nobresa de gravata -branca como leite.</p> - -<p>Pela sapiencia de tuas universidades em todas as especies -de sciencias e faculdades, pela amplidão de teos magistrados, -pela prudencia de teos respeitaveis parlamentos,<span class="pagenum"><a id="Page_330"></a>[330]</span> -pela serenidade de teos conselhos, e pelas bellas leis de tua -politica.</p> - -<p>Que digo eu?</p> - -<p>Povo sabio, intelligente, grande nação, illustre reino, ceo -estrellado de tão bellos espiritos delicados, parabens: és na -verdade maravilhosamente illustre!</p> - -<p>Pela multidão de tantos prelados veneraveis, grandes bispos, -ricos abbades, e chefes de ordens.</p> - -<p>Pelo crescido numero de tantos homens santos, notaveis -pela bondade, famosos pela sciencia, e nobres pela progenie, -illustres pelos milagres que hão florescido e brilhado dentro -e fora dos teos mosteiros.</p> - -<p>Pela tua posição entre dois grandes mares, onde por meio -de teos dois braços exerces piedade e justiça em villas tão -grandes e bellas, ricas, afamadas e populosas, n’um paiz tão -abundante, e em provincias tão amplas e copiosas, e em tão -grande numero.</p> - -<p>O que te falta para chegares ao cumulo de tua felicidade?</p> - -<p>O que pode accrescentar-se ao ramalhete de teos louvores, -á grinalda de tuas honras, á corôa de tuas glorias, tecida -em ternario, symbolisado pelos teos tres lyzes, em -campo de oiro, a não ser que hoje enriquecido pelo Rei -Luiz, o rei dos lyzes, alcances, sob sua authoridade, o cheiro -de Jesus no Ceo, e ao longe a salvação dos povos selvagens -mergulhados em trevas, e nas sombras da morte d’infidelidade, -de incivilidade, e de barbaridade.</p> - -<p>Foste por Deos escolhido para tão grande honra, satisfação -e alegria para levar ahi, o suave nome do Redemptor, -estabelecer o imperial sceptro de sua cruz triumphante, signal -sagrado, signal do Filho do Homem, e estandarte do -grande rei dos reis, sob o qual se devem reunir todos os -povos, que se desejam salvar, e então ahi semear a boa -nova do seo Evangelho, salvador dos crentes.</p> - -<p>Outr’ora até o occidente buscando para o meio-dia pelo -grande Carlos Magno, com a sua espada de ferro, mostraste<span class="pagenum"><a id="Page_331"></a>[331]</span> -o teu valor contra os serracenos, importunos á Hespanha.</p> - -<p>Até ao oriente pelo grande São Luiz, uma, duas vezes, -fizeste sentir á impiedade turca, a força de teo braço, e erguido -na Palestina, esse bello estandarte da Santa Cruz por -um duque de Boillon, por um duque de Mercœur, e um duque -de Nevers.</p> - -<p>Tremeram ao ouvir o nome da França, tão fatal a elles, -a quem mostraste tua coragem com o cutello na mão.</p> - -<p>Mas agora—<i>Nova bella eligit Dominus, Clypeus, et hasta -si apparuerint</i>, novas guerras, conquistas impertinentes, escudos -e lanças, ahi se verão? Nada d’isto, e sim a Cruz de -Jesus, o altar do grande rei, exercitos com seu augustissimo -Missah, espada de Deos e de Gedeon, d’aquelle que é -Deos e homem ao mesmo tempo, agoa benta para expellir -os diabos, a conquista dos corações antropophagos ou comedores -de homens pelo meio simples da palavra de Deos, -que fará despil-os de crueldade, e de então em diante amarem -o proximo como a si mesmo, abandonarem a imprudencia -e o impudor, revestirem-se com o branco da innocencia -e da honestidade: oh! quanta brutalidade adquirirá -o uso da razão, e tu, ó França, foste escolhida para fazer -tal guerra? Em tua consciencia, dize-me, não é esta uma -guerra, com sceptro de liz, de rosas e de flores?</p> - -<p>Quem ouvio jamais coisas similhantes nas batalhas do -mundo? porem estas são guerras do amantissimo Jesus.</p> - -<p>Nada mais te falta agora depois dos teos combates de outras -eras, senão o alegrar-te de plantar a fé e a lei entre -gente de ferozes costumes, e de barbaros feitos, porem mui -facil em supportar o jugo do teu humano concurso, o que não -tem podido conseguir o soberbo ou rustico portuguez.</p> - -<p>Regosija-te pois, principe dos lyzes, por ser a tua maior -gloria o servir ao grande Rei do Ceo e da terra, de legado -e de embaixada de suas maravilhas e grandezas em ilhas -remotas, e em partes longinquas da Região Austral.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_332"></a>[332]</span></p> - -<p>Esta sabia Princesa christianissima, muito catholica, e de -magnanima coragem, qual outra Judith, nossa grande rainha, -a Regente nossa senhora fez esta exigencia por cartas -dirigidas aos Reverendissimos Padres Superiores dos Capuchinhos -da provincia de França, e de Pariz, seos humildes -servos.</p> - -<p>Reuniram-se em capitulo para conceder ao Sr. de Rasily, -loco-tenente-general de Sua Magestade n’aquellas terras tão -remotas um certo numero de religiosos, que deviam ser -consagrados á uma empresa tão sancta como perigosa.</p> - -<p>Sendo este desejo acolhido livremente, em lugar de quatro, -que hoje lá se acham como exploradores da terra, todos -quatro sacerdotes e prégadores, o padre Ivo d’Evreux, -o padre Claudio d’Abbeville, o padre Ambrosio de Amiens, o -padre Arsenio de Paris, todos em numero de cincoenta e quatro, -presentes ao capitulo, se inscreveram e offereceram-se -cordialmente para arriscar sua vida, tão nobremente, afim -de salvar esses pobres pagés, esses pobres selvagens, esses -infelizes atormentados pela tempestade do diabo sem consolador -e sem pae.</p> - -<p>Ainda agora, para maior gloria do Salvador, foi a narração -augmentada por tres pares de cartas, mais recentes -do que as precedentes. Narram ellas a sua partida, a sua -navegação, ora calma, ora tempestuosa, a sua feliz chegada, -e tantos beneficios, que Sua Magestade, por intermedio -d’elles, tem já feito, e com taes particularidades, -como nunca se vio impresso.</p> - -<p>Lêde pois.</p> - -<p>Mas antes d’isto, para que o Deista, o Censor mundano, -e o zombador heretico não se ria de projectos tão honrosos, -vindos do Ceo, convem saber-se, que ha longo tempo fôra -tudo isto prophetisado por santos inspirados pelo Espirito -Santo.</p> - -<p>Disse o Propheta Isaias—<i>propter hoc in doctrinis glorificate -Dominum, in insulis maris nomen Domini Dei Israel</i>:<span class="pagenum"><a id="Page_333"></a>[333]</span> -pelo que eu fizer no meio da terra glorificae o Senhor -por doutrinas, pregae essas doutrinas por todas as ilhas do -mar, annunciae, e glorificae o nome do Senhor, Deos d’Israel.</p> - -<p>Alem d’isso, eis meo Salvador, eu o unirei a mim, meo -escolhido, minha alma n’elle se completa e elle dará juiso -aos gentios etc. etc.</p> - -<p>E as ilhas esperaram attentas a lei, e eu t’a daria em alliança -do povo como luz aos gentios afim de abrires os olhos -aos cegos, e tirares os prisioneiros dos calabouços, das prisões -e das densas trevas.</p> - -<p>Louvae ao Senhor por meio de canticos por toda a terra, -mares, ilhas, e seos habitantes—<i>ponent Domino gloriam et -laudem ejus in insulis numciabunt</i>: glorificarão ao Senhor -e o louvarão nas ilhas.</p> - -<p>Prophetisa o mesmo, que ellas receberão sua lei: meo Justo -está perto, sahio meo Salvador (Deos é o Pae) meos braços -julgarão os povos, as ilhas me esperarão e sustentarão meo -braço, isto é, receberão meo filho.</p> - -<p>N’outro lugar fallando á sua igreja, que é a Romana (n’outra -taes factos nunca appareceram) diz—por que as ilhas -me esperam, e no começo os navios do mar, para que eu -conduza teos filhos de bem longe.</p> - -<p>No Capitulo 66 Deos disse pelo mesmo Propheta:</p> - -<p>«Porei n’elles o signal, mandarei os que ja se salvaram -aos gentios no mar, na Africa, em Lidia que atiram a flecha, -á Italia, a Grecia e as ilhas longinquas, aos que não ouvirão -fallar de mim e não presenciarão minha gloria, e -elles annunciarão minha gloria aos gentios, e os conduzirão -como dadiva ou offerenda ao Senhor, ricos presentes e perolas -preciosas a Deos.»</p> - -<p>O propheta Sophonias:</p> - -<p>«Os homens illustres o adorarão em qualquer parte e em -todas as ilhas dos gentios.»</p> - -<p>O grande inspirador dos Prophetas por seo Espirito, Jesus -Christo tambem disse e prophetisou taes coisas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_334"></a>[334]</span></p> - -<p>E este Evangelho do Reino será prégado pelo Universo, -como testemunho a todos os gentios, e então virá a consummação -do Mundo.</p> - -<p>Nós outros catholicos devemos sentir grande alegria vendo -cumprir-se todos os dias a palavra de Deos tão fielmente, -não por meio de uma Assembléa reunida com tal fim, e -sim pela Santa Igreja Romana, e deve em particular este -grande reino agradecer a Deos por d’elle servir-se para levar -tão longe a gloria dos seos tropheos.</p> - -<p>O seguinte trecho vos convencerá d’esta verdade, extrahida -de quatro cartas, que d’aquelle paiz escreveo o Padre -Arsenio, um dos quatro, a saber, uma ao Revd. Padre Commissario -Provincial, uma ao Revd. Padre Custodio da custodia -de Pariz, uma ao Revd. Padre Vigario de Pariz, e -uma a seo irmão, todas datadas em 27 de Agosto, e dizendo -mais que a sua quarta carta de 20. Outra carta do Revd. -Padre Claudio a seos dois irmãos, o Sr. Foulon, e o Padre -Marçal,<a id="Nanchor_110" href="#Note_110" class="fnanchor">[110]</a> e uma para dois Padres já mencionados, escripta -ao Sr. Fermanet, e para vos ser agradavel e não repetir as -mesmas, foi tudo reunido n’uma só carta, como vereis, mui -fielmente, e com suas proprias palavras.</p> - -<p>Lêde em nome de Deos.</p> - -<h3 id="Fidelissima"><i>Fidelissima narração, extrahida de seis pares de cartas dos Revds. -Padres Claudio d’Abbeville e Arsenio, Prégadores Capuchinhos, -escriptas aos Padres da sua Ordem de Pariz, e a outras -pessoas do seculo, sendo quatro do Revd. Padre Arsenio, -uma do Padre Claudio, e uma para -duas pessoas.</i></h3> - -<p><i>Meos Reverendos e carissimos Padres.</i>—A paz do Senhor -seja comvosco. Nós vos dirigimos esta pequena carta para -dar-vos noticias acerca da nossa viagem, e como chegamos, -mercê de Deos, felizmente a esta terra do Brazil na Ilha do -Maranhão, entre os povos <i>Tupinambás</i>, não sem grandes -fadigas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_335"></a>[335]</span></p> - -<p>Cinco mezes estivemos no mar soffrendo encommodos, que -só podem avaliar os que por elles já passaram, e como o -Sr. de Rasilly, por estes dois ou tres mezes, regressa á -França afim de trazer-nos novos auxilios, reservamos-nos -para n’essa occasião descrevermos mais amplamente o resultado -da nossa viagem, tanto no mar como em terra, n’este -novo Mundo.</p> - -<p>Aproveitamos agora a occasião para dizer-vos e muito ás -pressas, que para aqui chegarmos foi necessario partir de -Caucale, porto da Bretanha, e já estando d’elle distante dusentas -legoas do mar levantou-se grande tempestade, que -separou os nossos tres navios, uns dos outros, causando -admiração, até mesmo aos nossos melhores pilotos, o não -ter algum d’elles naufragado.</p> - -<p>Quiz Deos porem livrar-nos d’esta desgraça, e encontramos -dois de nossos navios, arribados em Inglaterra, d’onde -vos escrevemos, e creio que já estareis de posse das nossas -cartas.</p> - -<p>Na segunda-feira de Paschoa partimos de Plymouth,<a id="Nanchor_111" href="#Note_111" class="fnanchor">[111]</a> na -Inglaterra, e navegamos sempre com bom tempo, menos -alguns dias na costa de Guiné, mui perigosa pelas molestias -do paiz.</p> - -<p>Sahindo de Plymouth auxiliou-nos vento tão favoravel, -que em pouco tempo passamos as Ilhas Canarias, por entre -as ilhas <i>Boa Ventura</i> e <i>Canaria grande</i>, vistas por nós perfeitamente.</p> - -<p>Das Canarias ganhamos a Costa d’Africa no Cabo do Bajador, -sempre navegando pela Barbaria: de Bajador desviamos-nos -da Costa d’Africa até o rio chamado <i>Lore</i> pelos hespanhoes,<a id="Nanchor_112" href="#Note_112" class="fnanchor">[112]</a> -e perto d’elle fundeamos: sahindo d’ahi ainda -nos desviamos da Costa d’Africa até o Cabo branco, lugar -bem debaixo do tropico de Cancer.</p> - -<p>D’este Cabo procuramos a Costa de Guiné, passando entre -as ilhas do Cabo verde, o proprio Cabo verde lugar perigosissimo -pelas molestias contagiosas, ahi reinantes em certas -estações do anno: esta molestia ataca as gengivas de tal<span class="pagenum"><a id="Page_336"></a>[336]</span> -sorte, que a carne cobre os dentes, e os faz cahir com grande -perda de sangue a ponto de não se poder estancar, sobrevindo -tambem os encommodos de estomago e inchação, e -d’isto tudo resulta a morte escapando poucos: mercê de -Deos ninguem morreo durante a nossa viagem, porem apenas -entramos na terra, falleceram tres, e ahi ficaram sepultados.</p> - -<p>De Guiné viemos-nos aproximando da linha equinoccial, que -passamos bem difficilmente, coisa ja por nós esperada á vista -da estação em que estavamos.</p> - -<p>Soprou vento contrario por quinze dias causando-nos -grandes sustos, e receios de que não apparecessem calmarias -antes de passarmos a linha: graças a Deos, pouco a pouco, -embora o vento contrario, tanto bordo demos, que quando -mal pensamos, estavamos no hemispherio do meio dia.</p> - -<p>Passando a linha, avistamos e afinal chegamos a uma pequena -ilha chamada Fernando de la Roque,<a id="Nanchor_113" href="#Note_113" class="fnanchor">[113]</a> situada a quatro -graus de altura para o meio dia, e a cinco para seis legoas -de circumferencia, ilha bella e agradavel, cujas propriedades, -querendo Deos, havemos de descrever na primeira -opportunidade: é na verdade um verdadeiro paraisosinho -terreste.</p> - -<p>Saltamos n’esta ilha, onde apenas achamos 17 ou 18 indios -selvagens, em companhia de um portuguez, todos escravos -e ahi postos por determinação da gente de Pernambuco: -d’estes indios baptisamos cinco.</p> - -<p>Depois de havermos plantado a Cruz n’esta ilha, no centro -de uma capella, feita por nós para celebração da santa -missa, e de abençoado o logar onde residimos por 15 dias, -casamos dois destes selvagens, um indio com uma india, depois -de baptisados.</p> - -<p>Não quizemos baptisar o resto aqui, porem achamos bom -addiar o baptismo até chegarmos ao lugar do nosso destino, -si bem que libertassemos todos esses selvagens tirando-os -do captiveiro, e fazendo-os livres com muita satisfação d’elles,<span class="pagenum"><a id="Page_337"></a>[337]</span> -depois do que manifestaram ardente desejo de nos -acompanharem até Maranhão, como de facto aconteceo.</p> - -<p>Vieram comnosco trazendo muito algodão, e outros generos, -que possuiam.</p> - -<p>De Fernando de la Roque ganhamos a Costa do Brasil, caminhando -até o <i>cabo da tartaruga</i>, terra firme no paiz dos -<i>canibaes</i>, onde, diz Euzebio, na sua <i>Historia</i>, passara o Apostolo -Sam Matheus á vista d’esta Costa do Brasil: imaginae a -nossa alegria vendo terras tão desejadas após cinco mezes -de navegação.</p> - -<p>Depois de 15 dias de demora no <i>cabo das tartarugas</i>, -continuamos a navegar, e chegamos á ilha do Maranhão, -onde fundeamos no dia da gloriosa Santa Anna, Mãe da Sagrada -Virgem Maria, com que muito me alegrei, (disse o -padre Claudio) por termos tido n’esse dia, que eu tanto amo, -a felicidade de chegarmos ao lugar tão desejado.</p> - -<p>No domingo seguinte saltamos todos em terra, levando -agoa benta, cantando o <i>Te-Deum laudamus</i>, o <i>Veni Creator</i>, -a ladainha de Nossa Senhora, e depois caminhamos em -procissão desde o porto atê ao lugar escolhido para levantar -se uma Cruz, a qual foi carregada pelo Sr. de Rasilly e -todos os Principaes da nossa Companhia.</p> - -<p>Depois de benzida esta ilha, até então <i>Ilhasinha</i>, foi pelos -Srs. de Rasilly e la Ravardière chamada <i>Ilha de Santa Anna</i>, -não só por termos ahi chegado n’esse dia, como tambem -porque chamava-se Anna a Condessa de Soissons, parenta -do Sr. de Rasilly.<a id="Nanchor_114" href="#Note_114" class="fnanchor">[114]</a></p> - -<p>Depois plantamos a Cruz: ao pé d’ella, estando todo o -largo abençoado, enterramos um pobre homem, tanoeiro, -que vinha comnosco.</p> - -<p>Fêz-se tudo isto com geral contentamento e demoramo-nos -ahi oito dias.</p> - -<p>Deixamos esta pequena ilha e fomos procurar a ilha grande -do Maranhão, habitada por selvagens (que são as pedras preciosas -que cobiçamos) e graças a Deos chegamos bons e bem -dispostos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_338"></a>[338]</span></p> - -<p>Vestidos com os nossos habitos de sarja fina por causa do -calor da zona tórrida e revestidos de uma bonita sobrepelliz -branca, empunhando nossos bastões, e em cima de tudo a -Cruz com o Crucificado, descemos do navio para uma canôa, -especie de batel construido pelos indios de um só tronco de -pau, onde estavam todos os selvagens, que ja tinham estado -na praia com o Sr. de Rasilly, e muitos francezes ja dos que -vieram comnosco e ja dos pertencentes á equipagem do Sr. -de Manoir, e do Capitão Geraldo, todos francezes, que aqui -achamos: muitos d’estes selvagens atiraram-se ao mar e nadaram -afim de chegarem primeiro do que nós.</p> - -<p>Assim conduzidos saltamos em terra, onde se ajoelhou o -Sr. de Rasilly e todos os francezes para nos receberem (honra -não commum) e como nos achassemos embaraçados com -tal sorpresa, eu tive (disse o padre Claudio) a feliz lembrança -de entoar o <i>Te-Deum laudamus</i> conforme o cantico -da igreja, e assim caminhamos em procissão entre lagrymas -de alegria de muitos francezes, e seguidos pelos indios.</p> - -<p>Assim tomamos posse d’esta terra e novo mundo para -Jesus Christo, e em seo nome, esperando abençôar o lugar, -e n’elle plantar a Cruz em qualquer dia para isso designado.</p> - -<p>Deixo as outras particularidades para contar-vos quando -escrever mais de espaço sobre esta nossa viagem.</p> - -<p>Somente vos digo que no domingo 12 de agosto, dia de -Santa Clara, celebramos todos quatro as primeiras missas, -que aqui se disseram.</p> - -<p>Com bem razão ordenou Deos que o dia de uma Santa -Virgem da nossa Ordem, que deo nova luz ao mundo, fosse -escolhido para fazer brilhar a nova luz do seo Evangelho -n’este novo mundo.</p> - -<p>Não é possivel descrever-vos o grande contentamento, -que mostraram estes pobres selvagens com a nossa -vinda.</p> - -<p>É um povo conquistado e ganhado, povo grande, que na -verdade nos ama, e nos dedica affeição, e chama-nos grandes<span class="pagenum"><a id="Page_339"></a>[339]</span> -prophetas de Deos e de Tupan, e em sua linguagem padres -Carribain, Matarata.<a id="Nanchor_115" href="#Note_115" class="fnanchor">[115]</a></p> - -<p>Depois que aqui chegamos temos tido muito boas noticias.</p> - -<p>Os indios do Pará, outro povo, de um lado visinho do -Amazonas, e do outro d’este povo, onde existem somente -cem mil homens, desejam muito que lá vamos instruil-os.</p> - -<p>Embora <i>messis multa, operarii autem pauci</i> «seja grande -a colheita, são poucos os operarios.» Si quizessemos -desde ja se baptisaria grande parte.</p> - -<p>É certo que «<i>regiones albescunt ad messem</i>,» estas regiões -aqui enbranquecem mostrando a necessidade de ceifa, -felizmente chegou o tempo de ser Deos aqui adorado e reconhecido.</p> - -<p>Agora estamos procurando lugar para nos acommodar e -fazer uma Capella, até que cheguem de França pedreiros para -edificarem uma Igreja.</p> - -<p>Existem muitas mattas virgens, que convem arrotear -antes.</p> - -<p>Não posso descrever-vos agora o grande contentamento -dos selvagens pela nossa chegada.</p> - -<p>Dão-nos boa esperança de se converterem. Todo este povo -ainda que bruto e selvagem mostrou-se contente com a nossa -chegada, tem vindo vêr-nos com muita alegria, manifestando -grande desejo de instruir-se no christianismo.</p> - -<p>Creio que quando soubermos a lingua d’elles haverá muito -que colher, com grande satisfação para os que tem zelo -pelas coisas de Deos e pela salvação das almas.</p> - -<p>Preparam todos os seos filhos para nos trazerem afim de -serem por nós instruidos, e ja nos prometteram não mais -comer carne humana. São muito bonachãos, e não maliciosos. -Por unica religião apenas creem em Deos, que chamam -<i>Tupan</i>, e na immortalidade da alma.</p> - -<p>Quanto ao paiz é terra fertil e muito boa, onde não ha -frio, e sim estio constante; ninguem conhece o que é frio, -e as arvores estão sempre verdes.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_340"></a>[340]</span></p> - -<p>Os dias e as noites são sempre do mesmo tamanho: nasce -o sol as 6 horas da manhã e encerra-se as 6 da tarde.</p> - -<p>Estamos apenas a dois graos e meio da linha equinoccial -ou do Equador.</p> - -<p>É voz geral haver n’este paiz muitas riquezas, como sejam -minas de oiro, de pedras preciosas, de perolas, de ambar-gris, -alem de muitas pimenteiras, muito algodão, muita herva -da rainha, ou petum, e muito assucar.</p> - -<p>Brevemente, quando nos estabelecermos bem, nós vos asseguramos -ser isto aqui um pequeno paraiso terreste, com -todas as commodidades e alegrias.</p> - -<p>Não posso ir mais longe: fica o resto para quando fôr o -Sr. de Rasilly, e então hei-de dizer-vos outras coisas em particular.</p> - -<p>Quanto a minha saude nunca passei tão bem como agora, -graças a Deos e só bebendo agoa, (palavras do padre Claudio.)</p> - -<p>Si na França me fosse preciso fazer a millesima parte do que -aqui faço, mil vezes teria morrido, e n’isto reconheço, -que <i>non in solo pane vivit homo</i>, «o homem não vive só -de pão.»</p> - -<p>Convem que para cá venham os delicados de França.</p> - -<p>Louvo a Deos por nunca ter enjoado, com grande admiração -de todos.</p> - -<p>Quando chegamos no paiz dos calores, justamente quando -estavamos sob o tropico de Cancer, quando o sol estava subindo, -tive apenas dois ou tres pequenos accessos de febre -passageira, graças a Deos.</p> - -<p>Deixo o mais para outra occasião, pois agora falta-nos tempo, -e sobram-nos trabalhos.</p> - -<p>Rogae a Deos por nós, e pelos nossos companheiros, o -mais que poderdes, pois agora, mais do que nunca necessitamos -da graça de Deos, sem as quaes nada se consegue.</p> - -<p>O que n’este sentido fizerdes, Deos vos compensará.</p> - -</div> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_341"></a>[341]</span></p> - -<h3><i>Summario de algumas coisas mais particulares, referidas -vocalmente aos Padres Capuchinhos de Pariz pelo -Sr. de Manoir.</i></h3> - -<p>O Sr. de Manoir,<a id="Nanchor_116" href="#Note_116" class="fnanchor">[116]</a> (um dos capitães, de que se fallou -na carta precedente, que fôra encontrado n’aquelle paiz com -o capitão Geraldo) chegando ultimamente á França, e sendo -portador da carta, ja transcripta e de muitas outras (algumas -das quaes bem desejariamos aqui publicar para que não -ficassem sepultadas no esquecimento as maravilhosas obras -de Deos, de que ellas fallam, como que para despertarem -os homens afim de louvarem a sabedoria, providencia, e -bondade do Creador) contou muitas particularidades dos padres, -não referidas em suas cartas.</p> - -<p>Disse, que os padres chegando ahi começaram a edificar -sua morada, construindo uma Capella para celebração da -missa, e algumas cellas pequenas para residencia, sendo coadjuvados -por alguns selvagens com alguns pannos e ramos -de arvores.</p> - -<p>N’um certo dia, quando um padre celebrava missa, chegou -um selvagem dos mais velhos, (que elles consideram -seos governadores, honrando-os e respeitando-os por causa -da sua idade avançada) em companhia de trinta selvagens -para ouvirem missa, o que fizeram, admirando com grande -surpresa tão bellas ceremonias, e tão lindos ornatos, por elles -nunca visto (pois que homens e mulheres andam todos -nús.)</p> - -<p>Quando o sacerdote chegou á consagração e ao offertorio, -desceo um véo entre elle e o povo, de forma que este não -poude ver aquelle, e nem o que se fazia por detraz d’esse -véo.</p> - -<p>Julgaram isto uma affronta e mostraram-se offendidos, e -por isso, finda a missa, foram perguntar a causa de tal offensa.</p> - -<p>Responderam os padres que n’isto não havia offensa, e -que assim se fez por serem elles ainda pagãos, não podendo<span class="pagenum"><a id="Page_342"></a>[342]</span> -ser a Missa celebrada em suas presenças embora estando na -Igreja.</p> - -<p>Deram-se por satisfeitos e mostraram-se tranquillos, e foram -contar o occorrido ás suas mulheres, que se mostraram -desejosas de vêr os grandes Prophetas de Deos e de Tupan, -e se reuniram em grande numero para tal fim.</p> - -<p>Não quizeram porem os padres abrir-lhes a porta de sua -pequena choupana porque estavam núas, mas ellas não esperaram -por segunda recusa e metteram a porta dentro, o -que não lhes foi difficil praticar, entraram e não se cançaram -de olhar e contemplar os Padres, embora se demorassem -pouco tempo, por lhes pedirem os Padres que se retirassem, -o que cumpriram.</p> - -<p>Depois desta visita, reuniram-se os velhos em grande numero -e combinaram entre si qual devia ser o presente que -offerecessem a esses Prophetas, como demonstração de sua -benevolencia e regosijo pela sua chegada.</p> - -<p>Finalmente concordaram, visto dormirem os Padres no -chão duro, que se désse a cada um o seo colchão de algodão, -que ahi floresce, e uma das mais bellas raparigas, o -maior presente que costumam fazer.</p> - -<p>Trouxeram quatro colchões e quatro raparigas, e offereceram -aos Padres, que rindo-se aceitaram aquelles e recusaram -estas com palavras de agradecimento.</p> - -<p>Admirados com tal procedimento, diziam uns aos outros. -O que é isto? Estes Prophetas não são homens como -nós? Porque não acceitam estas raparigas, sendo impossivel -o passar um homem sem ellas? Porque nos fazem tal -offensa?</p> - -<p>Responderam os Padres, que assim procediam, não por -que reprovassem o casamento, quando conforme ás leis de -Deos, visto que até elles o louvavam, mas como Deos havia -outhorgado graças mui particulares a elles, e não aos outros -homens, porque o serviam com mais perfeição, podiam -passar sem mulheres por meio dessas graças.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_343"></a>[343]</span></p> - -<p>Ouvindo esta pobre gente taes palavras ficaram admirados -e como que fóra de si, contemplando a santidade destes -Prophetas, e d’ahi em diante os veneraram mais, julgando-se -felizes quando lhes entregavam seos filhos para serem -educados em nossa santa fé, e afinal baptisados.</p> - -<p>Tudo isto se poderá vêr na seguinte carta, escripta por -esses Padres á um honrado mercador de Ruão chamado Fermanet, -um dos seos maiores bemfeitores, para que se veja -que nada acrescentamos, e que apenas narramos os factos -pura e simplesmente colhidos n’essas cartas e em informações -de pessoas fidedignas, testemunhas occulares, e por -que n’ella se encontram particularidades não mencionados -nos outros.</p> - -<p>Eil-a:</p> - -<h3><i>Carta escripta pelos Padres Capuchinhos ao Sr. Fermanet.</i></h3> - -<p>A paz do Senhor Deos esteja comvosco.</p> - -<p>Depois de tantas recommendações, que nos fizestes quando -partimos para vos escrever, seriamos culpados si não vos -dessemos noticias de paiz tão bom, graças á Deos.</p> - -<p>Depois de 4 a 5 mezes de viagem ahi chegamos felizmente, -sendo bem recebidos pelos Indios, conforme sua rusticidade, -não nos importando o modo e sim a demonstração -do seo contentamento então e ainda agora diariamente, trazendo-nos -seos filhos para instruil-os o que faremos mediante -a graça de Deos.</p> - -<p>Quando voltar o Sr. de Rasilly, por estes 2 ou 3 mezes, -nós vos mandaremos o numero dos convertidos e dos baptisados.</p> - -<p>O paiz é muito bom, e ha esperança de produzir muito -tabaco Petum, e Urucú, havendo ja muito assucar, bellas -pedras, ambar-gris, e dizem-nos, que distante d’aqui 20 legoas -ha uma mina de oiro.</p> - -<p>Si não fosse grande a nossa pressa, nós vos dariamos -mais algumas noticias, porem não podemos alongar-nos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_344"></a>[344]</span></p> - -<p>Beijando humildemente vossas mãos, e recommendando-nos -á senhora vossa mulher, somos de vós e d’ella</p> - -<p class="center">Vossos humillissimos servos em Nosso Senhor.</p> - -<p class="right">Frei <i>Claudio d’Abbeville</i>.<br /> -Frei <i>Arsenio de Pariz</i>.</p> - -<h3 id="marinheiro"><i>Narração de um marinheiro, vindo do mesmo paiz, feita ao -Revd. padre Guardião do Havre da Grace, e por este communicada -ao Revd. padre Commissario.</i></h3> - -<p>Revd. Padre, eu vos saúdo humildemente em Nosso Senhor.</p> - -<p>O fim d’esta é communicar-vos, que veio hoje procurar-me -um marinheiro, que vio e fallou com os nossos Irmãos, -que estão em Maranhão com os Tupinambás, onde felizmente -chegaram no dia 8 de Julho.</p> - -<p>Este marinheiro ahi ouvio missa, e á ella assistio com -muito respeito um velho selvagem do paiz, acompanhado -por 25 ou 30 indios.</p> - -<p>Quando chegou o tempo de consagrar-se e elevar-se a -santa hostia, desceo um véo, causando-lhes isto admiração.</p> - -<p>Recebida a explicação mostraram-se satisfeitos, e logo começaram -a contar por toda a parte o que viram, e por isso -vieram muitos ajudal-os a edificar sua habitação e Forte, ja -em principio.</p> - -<p>Veio o marinheiro em 22 de Agosto no navio de Moisset, -recommendado ao Sr. de Manoir, a quem, segundo pensa, -terão nossos Irmãos entregado suas cartas, ou a algum outro -official de navio, o que me dispensa de contar-vos outras -particularidades.</p> - -<p>Não mudaram, e nem mudarão a côr dos seos habitos, -usando apenas de um tecido mais leve do que o nosso, por -causa do calor.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_345"></a>[345]</span></p> - -<p>Deos seja louvado por tudo, e lhes conceda a graça de -ahi apparecerem muitos fructos para a gloria do seo Santissimo -Nome, e exaltação da Santa Fé da sua Igreja.</p> - -<p class="center">Sou de vossa Reverendissima o menor servo em Jesus Christo</p> - -<p>Havre, 12 de Novembro de 1612.</p> - -<p class="right">Frei <i>Theophilo</i>, indigno Capuchinho.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_346"></a>[346]</span></p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_347"></a>[347]</span></p> - -<div class="tp"> - -<p class="titlepage"><span class="larger">NOTAS</span><br /> -CRITICAS E HISTORICAS<br /> -<span class="smaller">SOBRE A VIAGEM DO</span><br /> -PADRE IVO DE EVREUX<br /> -<span class="smaller">POR</span><br /> -MR. FERDINAND DINIZ.</p> - -</div> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_348"></a>[348]</span></p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_349"></a>[349]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="NOTAS">NOTAS.</h2> - -</div> - -<h3><a id="Note_1" href="#Nanchor_1">1</a> (frontespicio).</h3> - -<p>Esta vasta provincia, uma das mais florescentes do Brazil, -antes da chegada dos missionarios francezes não teve estabelecimento -algum importante. Eram arbitrarios os seos limites, -convindo não esquecer que a immensa capitania do -Piauhy fez parte d’ella até 1811. Presentemente tem 186 -legoas, de 20 ao gráo, de comprimento, 140 de largura, e -nunca menos de 20,000 legoas quadradas de superficie. -Fica entre 1° 16′ e 7° 35′ de lat. merid. Confina ao N O -com o Pará, servindo de linha divisoria o Gurupy, á N E é -banhada pelo Occeano Atlantico, a S E com o Piauhy, separando-a -d’elle o rio Parnahyba, e finalmente a S com a provincia -de Goyaz pelo rio Tocantins.<a id="FNanchor_59" href="#Footnote_59" class="fnanchor">[BG]</a></p> - -<p>Ainda que seja quente e humido o clima do Maranhão é -sadio. As chuvas que fertilisam este rico territorio principiam -regularmente em outubro.</p> - -<p>O aspecto geral do paiz offerece por toda a parte ondulações -do terreno, mas em nenhuma offerece elevações consideraveis, -exceptuando-se d’estas asserções geraes e por -força mui summarias a comarca de Pastos-bons, onde se encontram -montanhas como sejam Alpercatas, Valentim, Negro -etc. É regada por 14 correntes d’agoa.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_350"></a>[350]</span></p> - -<p>De todos estes rios é o <i>Parnahyba</i> o mais considerável: -infelizmente suas margens não são totalmente sadias, pois -em varios pontos, como em quasi toda a provincia, reinam -as febres intermitentes. Avalia-se seo curso em 240 legoas. -O <i>Itapecurú</i>, seo immediato, e de que falla constantemente -o Padre Ivo d’Evreux, banha apenas 150 legoas de terreno, -o Mearim 78 legoas, sendo ainda menos consideraveis o -<i>Pindaré</i>, o <i>Tury-assú</i>, o <i>Gurupy</i>, e o <i>Manoel Alves -Grande</i>. Julga-se que é de 462,000 pessoas a população -de toda a provincia, embora diga o relatorio official da presidencia, -com data de 3 de julho de 1862, que esta cifra -é apenas de 312,628 almas, sendo 227,873 livres e 84,755 -escravos. Convem observar, que o recenseamento geral da -população do Imperio, feito em 1825, dava apenas 165,020 -almas, sendo esta cifra muito inferior á realidade, porque -recusaram muitos Srs. dizer com certesa o numero dos seos -escravos.</p> - -<p>Nada se sabe, e nem será possivel saber-se exactamente, -a respeito da povoação nomade dos indios, isto é, d’aquella -cujo conhecimento seria muito curioso afim de apreciar-se -as mudanças, que houveram nas aldeias depois do que escreveo -o Padre Ivo, podendo apenas dizer-se que é maior -no Maranhão, no Pará, e na nova provincia do Rio Negro, -do que n’outra qualquer parte.</p> - -<p>Em summa o governo só tem dados mui imperfeitos e -raros sobre estas infelizes hordas, das quaes se occupa actualmente.</p> - -<p>Os cuidados tardios, embora caridosos, da administração -provincial, tem que acabar muitos males afim de que seja -completa a reparação.</p> - -<p>Tudo ainda está por fazer relativamente aos Indios.</p> - -<p>Não souberam estas tribus conservar nem a dignidade -que dá completa liberdade aos habitantes das florestas, e -nem os principios de civilisação, que se intentou incutir-lhes -no seculo XVII.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_351"></a>[351]</span></p> - -<p>Reconcentradas no interior por Mathias de Albuquerque, -dizimadas pela variola, hoje são apenas a sombra do que -foram sob o dominio dos seos chefes independentes.</p> - -<p>Esta população indigena é comtudo maior nos desertos -do Maranhão, e embora d’ella não tratem certas estatisticas, -é avaliada em 5,000 o numero dos indigenas reunidos em -aldeias.</p> - -<p>Si dermos credito á um intelligente militar, que viveo em -constantes relações com elles por espaço de 20 annos, a sua -decadencia physica é menor que a moral, pois perderam até -a reminiscencia de suas tradicções théogonicas, ainda mal, -visto ser muito curioso o comparal-as com a narração dos -antigos viajantes francezes.</p> - -<p>Sob este ponto são elles menos favorecidos que os Guarayos, -visitados por Orbigny, os quaes ainda hoje repetem -em seos canticos as legendas cosmogonicas do seculo XVI.</p> - -<p>Os indios do Maranhão, entre os quaes se contam os Timbyras, -os Gés, os Krans, e os Cherentes não podem fornecer -ao historiador senão informações mui incompletas, pois que -ha perto de 40 annos já o major Francisco de Paula Ribeiro -se queixava do immenso esquecimento d’elles, (vide <i>Revista -Trimensal</i>, tomo 3.º, pag. 311) esquecimento fatal de grandes -tradicções, pelo que se tornam hoje preciosos certos livros, -como sejam os dos nossos velhos missionarios, onde -pelo menos se encontram os mythos antigos, ahi escriptos -para serem combatidos.</p> - -<p>De vez em quando entre estes indios degenerados apresentam-se -alguns homens energicos, que comprehendem o -abatimento de sua raça, e que desejariam vel-a progredir, -porem são mui raros, pouco comprehendidos, e demais só -olham para o futuro, e não experimentam amor algum por -sua antiga nacionalidade.</p> - -<p>Seos compatriotas longe de ajudal-os nos trabalhos emprehendidos -para melhorar seo futuro, ainda os amesquinham -com o seo odio tão irreflectido quam brutal.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_352"></a>[352]</span></p> - -<p>Foi o que aconteceo a <i>Tempe</i> e a <i>Kocril</i>, chefes conhecidos -pelo major Ribeiro. Trabalharam inutilmente para chamar -ao caminho da civilisação as tribus, cujo governo lhe -foi confiado, e a final foram victimas do seo zelo.</p> - -<p>Vide «<i>Memoria sobre as nações gentias, que presentemente -habitam o continente do Maranhão escripta no anno -de 1819 pelo major graduado Francisco de Paula Ribeiro</i>, -<i>Revista Trimensal</i>, T. 3º pag. 184.»</p> - -<p>De passagem disemos, que não deixaram descendentes, -pelo menos conhecidos, os Tupinambás cathequisados pelos -missionarios francezes, suppondo-se apenas, que um ramo -d’esta grande nação ainda hoje povôa <i>Vinhaes</i> e <i>Villa do -Paço do Lumiar</i>, achando-se no mesmo caso <i>S. Miguel</i> e -<i>Tresidélla</i>, a margem do rio Itapecurú, e <i>Vianna</i>, no Pindaré.</p> - -<p>Com mais probabilidade ainda confundiram-se os Tupinambás -com as tribus do inferior, tomando os nomes de Timbyras -e Gamellas. São tambem subdivisões dos Timbyras os -<i>Sakamecrans</i>, os <i>Kapiekrans</i> ou <i>Canellas-finas</i>, e os Gés, -que vagam pelas grandes florestas á Oeste do Itapecurú. Nega -o major Ribeiro, que ainda sejam antropóphagos estas diversas -tribus. N’este escriptor imparcial, e que reconhece a -ferocidade dos Timbyras, é que se deve estudar as horriveis -represalias, de que tem sido elles os indios, sendo a escravidão -a menos sanguinolenta. Elle avaliou em 80:000 o -numero d’indios selvagens, embrenhados nos mattos em -1819, hoje sem duvida consideravelmente diminuido.</p> - -<h3><a id="Note_2" href="#Nanchor_2">2</a> (pag. 1).</h3> - -<p>Francisco Huby era tambem livreiro e tinha sua loja n’uma -praça entre os mais afreguezados armazens na galeria dos -prisioneiros em Palacio, e soffrera-a como os outros no grande -incendio de 1618.</p> - -<p>Quatro annos antes d’elle encarregar-se da publicação do -livro de Claudio d’Abbeville, de que este é continuação,<span class="pagenum"><a id="Page_353"></a>[353]</span> -morava na rua de Sam Thiago no <i>Folle de oiro</i>, e não na -<i>Biblia de oiro</i>, que depois tomou por divisa.</p> - -<p>Si foi ferido na prosperidade, foi justamente por haver -permittido, que mão impia privasse a França por mais de dois -seculos do livro precioso, de que tinha sido edictor, e que -hoje entregamos a publicidade, graças a uma d’essas empresas -litterarias tão raras em nossos dias, onde a honra das -letras é o pensamento dominante e superior a todas as considerações.</p> - -<p>O volume, que servio para a nossa reimpressão é encadernado -em marroquim encarnado, semeiado do flores de -lys de oiro, e com as armas de Luiz XIII. Faz parte da reserva -sob n.º 01766 da Bibliotheca Imperial de Pariz.</p> - -<h3><a id="Note_3" href="#Nanchor_3">3</a> (pag. 9).</h3> - -<p>A capital do Maranhão occupa ainda hoje o mesmo lugar -escolhido por seos antigos fundadores. Está situada a 2° 30′ -e 44″ lat. austral e 1° 6′ e 24″ de long. oriental do meridiano -do Forte de Villegagnon, na bahia do Rio de Janeiro.</p> - -<p>La Ravardiere e Rasilly escolheram para edifical-a a ponta -de terra O d’uma pequena peninsula, ligada á ilha do Maranhão -pela calçada do <i>Caminho grande</i>.</p> - -<p>Os rios <i>Anil</i> e <i>Bacanga</i>, vindos de diversos pontos da ilha -confundem suas agoas na mesma embocadura e formam vasta -bahia. A elevação, que se apresenta ao S do <i>Anil</i>, á E e ao -N. do <i>Bacanga</i> (lugar onde se confundem as agoas d’estes -dois pequenos rios) é o lugar primitivo onde se levantou a -cidade nascente collocada sob o patrocinio de Sam Luiz.</p> - -<p>A cidade de Sam Luiz, elevada em 1676 á dignidade episcopal -por uma Bulla de Innocencio XI, conta nunca menos -de 30 mil habitantes, e está situada em terreno docemente -ondulado, sempre, em todas as estações, carregado de rica -vegetação, e assim offerecendo aos viajantes panorama encantador. -(Vide <i>Corographia Brasilica</i>, <i>Will. Hadfield</i>, <i>Milliet -de St. Adolphe</i>, e principalmente os <i>Apontamentos estatisticos<span class="pagenum"><a id="Page_354"></a>[354]</span> -da provincia do Maranhão</i>, annexos ao <i>Almanack</i> -de 1860 publicado por B. de Mattos.)</p> - -<p>Esta linda cidade é naturalmente dividida pela espinha -dorsal da peninsula, que separa as duas bacias dos rios na -direcção de E. O.</p> - -<p>Seo ponto mais elevado é o <i>Campo d’Ourique</i>, onde apresenta -32m 692c de elevação acima do nivel medio do mar.</p> - -<p>É dividida em tres parochias: <i>N. S. da Victoria</i>, <i>S. João</i>, -e <i>N. S. da Conceição</i>, tem 72 ruas, 19 becos, 10 praças, -55 edificios publicos, e 2,764 casas, das quaes 450 tem um -só pavimento.</p> - -<p>Para utilidade dos habitantes podem ser maiores e mais -regulares as praças, e embora sejam as ruas cortadas em angulo -recto, podiam ser mais largas e melhor dispostas sendo -observadas as regras da hygiene.</p> - -<p>Não são más suas calçadas, e tem declive bastante em relação -aos dois rios que banham a cidade. Em resumo é a -Capital do Maranhão saudavel e limpa.</p> - -<p>«O navio que demandar o porto, toma por marca o Palacio -do governo, assentado n’uma eminencia que domina o -porto.</p> - -<p>Este edificio tem a seos pés o Forte de Sam Luiz, e de -suas janellas percorrendo-se com os olhos uma extensa bahia -avista-se ao longe as costas e a cidade de Alcantara: -mais perto da barra está o pequeno <i>Forte da Ponta d’areia</i>, -e dentro do porto na margem opposta do Bacanga a pequena -<i>ermida do Bomfim</i>, muito arruinada, e na frente do Anil -a <i>Ponta de Sam Francisco</i>, onde segundo a noticia que nos -dirige, entregou la Ravardiere ao commandante portuguez a -cidade nascente e a fortalesa de Sam Luiz, nunca se podendo -assas louvar n’essa occasião o procedimento inteiramente -nobre do commandante francez e de Alexandre de Moura por -parte da Hespanha.</p> - -<p>O joven cirurgião de Pariz que foi com tanto zelo pensar -os feridos dos dois partidos, e que recebeo tão penhorador -acolhimento no campo inimigo poude d’elle dar somente uma<span class="pagenum"><a id="Page_355"></a>[355]</span> -ideia, por sua narração sincera e franca, da cordialidade, -que appareceu entre os francezes e os portuguezes depois do -combate. (Vide <i>Archivos das viagens publicadas</i> por M. Ternaux -Compans.)</p> - -<p>Em distancia de alguns metros pelo Anil acima está o -convento e Igreja de Santo Antonio, construidos no proprio -lugar onde em 1612 Ivo d’Evreux, ajudado pelos padres -Arsenio e Claudio d’Abbeville, edificou seo conventosinho -sob a invocação de Sam Francisco. Soffreo depois d’isto varios -concertos e augmentos este mosteiro dos Capuchinhos -francezes, achando-se hoje uma parte do edificio moderno -occupado pelo Seminario Episcopal, e a Igreja, hoje em -construcção, levanta-se com architectura gothica simples.» -Pelo que nos dizem será a igreja mais bonita do Maranhão.</p> - -<p>Não é esta a unica construcção digna de mencionar-se na -cidade, porem é a unica que nos interessa directamente.</p> - -<p>Mencionamos apenas o <i>Caes da Sagração</i>, assim chamado -em memoria da coroação e sagração do Sr. D. Pedro 2.º, e -da vasta bahia, onde agora se escava para poder n’ella fundear -uma fragata a vapor da primeira ordem, e apenas citamos -a dóca que se projecta fazer nas <i>enseiadas das Pedras</i>.<a id="FNanchor_60" href="#Footnote_60" class="fnanchor">[BH]</a></p> - -<p>Contam-se muitas construcções monumentaes, como sejam -a igreja do Carmo, a Cathedral, o quartel do Campo de Ourique, -o Theatro, e mais outras que força é omittir, pois -apenas n’uma ligeira nota desejamos mostrar englobadamente -o que em 250 annos se tornou isto fundação francesa.</p> - -<p>William Hadfield, um dos mais modernos viajantes, que -tratou d’este paiz, observou que é na cidade de Sam Luiz, -onde no Brasil se falla o portuguez com mais pureza. É a -patria de dois escriptores mui estimados no Imperio, Odorico -Mendes e João Francisco Lisboa, fallecido ha pouco.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_356"></a>[356]</span></p> - -<p>Depois de haver traduzido com superioridade de estylo, -que causaria inveja aos contemporaneos de Camões, occupa-se -actualmente Odorico Mendes na traducção em verso -das obras de Homero, onde a sciencia do rythmo disputa -com a inspiração.</p> - -<p>Quanto ao poeta das legendas nacionaes, cujos cantos são -geralmente repetidos no Brasil (queremos fallar de Gonçalves -Dias) pertence tambem á provincia do Maranhão, por -elle explorada como sabio e como viajante intrepido, porem -nasceu em Caxias.</p> - -<p>As obras d’esses tres escriptores honram ao paiz, são tambem -a honra da bibliotheca publica; porem este estabelecimento, -creado n’uma cidade eminentemente litteraria, não -está em relação com as necessidades crescentes de outras -instituições suas, relativas á instrucção publica. Ha tres annos -contava apenas 1031 volumes.</p> - -<p>Prasa aos Ceos, que o livro, que agora réproduzimos, o -primeiro que, com o de Claudio d’Abbeville, foi escripto na -Cidade nascente, marque o principio de uma era nova para -estabelecimento tão indispensavel n’uma Capital, já florescente. -Muitas outras instituições supprem esta deficiencia, -publica-se na Capital diversos jornaes, taes como o <i>Publicador -Maranhense</i>, a <i>Imprensa</i>, o <i>Jornal do Commercio</i> -etc. etc., e tambem ha uma <i>Associação typographica</i>, um -<i>Gabinete de leitura</i>, e a sociedade litteraria <i>Atheneo Maranhense</i>.</p> - -<p>Tudo isto na verdade é mui differente do tempo, em que -o Padre Arsenio de Pariz com muita difficuldade achava apenas -uma folha de papel para escrevêr á seos Superiores.</p> - -<h3><a id="Note_4" href="#Nanchor_4">4</a> (pag. 11).</h3> - -<p>A Cathedral de <i>São Luiz</i> ou do <i>Maranhão</i>, (assim com -estes dois nomes se designa a Cidade) deixou a invocação -de São Luiz de França. É a antiga Igreja do Convento dos -Jesuitas a actual cathedral sob a invocação de N. S. da<span class="pagenum"><a id="Page_357"></a>[357]</span> -Victoria. (Vide Ayres do Cazal—<i>Corographia Brazilica</i>. Rio -de Janeiro 1817. T. 1.º pag. 166).</p> - -<p>Parece-nos, que nas grandes construcções, que actualmente -se estão trabalhando para o augmento do Convento -de S. Antonio, respeitou-se a pequena Capella feita pelos -francezes. São tres os frades d’esta Ordem, Frei Vicente de -Jesus, guardião; Frei Ricardo do Sepulchro e Frei Joaquim -de S. Francisco, todos sacerdotes.</p> - -<h3><a id="Note_5" href="#Nanchor_5">5</a> (pag. 12).</h3> - -<p>Ao norte do Brazil e no interior da Goyanna havia então -prodigiosa abundancia d’esta especie de fóca, cuja carne -era muito saborosa: chamam-na os portuguezes <i>peixe-boi</i>, e -os indios <i>manati</i>. Ainda hoje os habitantes ribeirinhos do -Amazonas e do Tocantins nutrem-se com a excellente carne -d’este peixe. (Vide Osculati, <i>America equatoriale</i>). Claudio -d’Abbeville lhe deo o nome de <i>Uraraura</i>.</p> - -<h3><a id="Note_6" href="#Nanchor_6">6</a> (pag. 14).</h3> - -<p>Esta localidade, ja citada, ainda o será muitas vezes.</p> - -<p>O vasto territorio, ainda hoje conhecido em Maranhão pelo -nome de <i>Tapuitapéra</i>, está hoje dividido pelas comarcas de -Alcantara e de Guimarães. Antigamente foi occupado por -onze aldeias de indios, das quaes a maior era Cumã. <i>Tapuitapéra</i> -dista 40 legoas de Maranhão.<a id="FNanchor_61" href="#Footnote_61" class="fnanchor">[BI]</a> Pensa <i>Martius</i> que -esta palavra quer dizer—habitação de indios inimigos. Vide -<i>Glossaria linguarum brasilensium</i>. Erlanguem. 1863, -em 8.º</p> - -<p>N’esta obra acham-se tambem os nomes dos lugares, dos -vegetaes e dos animaes.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_358"></a>[358]</span></p> - -<p>O <i>Aparaturier</i>, que deo tão felizes comparações ao padre -Ivo, é simplesmente o mangue (<i>Rhyzophora.</i> Lin.) Esta arvore -das praias americanas tão util á industria, forma vastas -florestas maritimas, e em roda da costa do Brasil e de -Venezuela. Com muita frequencia se tem destruido estas arvores, -em varios lugares, e temos ouvido até attribuir-se a -invasão recente da febre amarella á destruição systematica -d’este bonito vegetal, que aformosêa com sua verdura todas -as praias brasileiras. Cahindo sob o ferro do cultivador deixa -á descoberto praias cheias de lôdo, habitadas por myriades -de carangueijos, formando assim pantanos d’onde se -desprendem miasmas de especie muito perigosa.</p> - -<p>No Brasil conhece-se duas qualidades de mangue, o <i>branco</i> -e o <i>vermelho</i>, e para a descripção scientifica d’elles enviamos -nossos leitores para Aug. de St. Hilaire. Julgamos que -a palavra antiga, ahi empregada pelo padre Ivo, vem do -verbo <i>parere</i>, parir, porque esta arvore se reproduz pelas -raizes, que, como arcadas, espalham ao redor de si. (Vide -<i>Nossas scenas da naturesa sob os tropicos</i>,) e ahi achareis o -effeito do mangue nas paisagens.</p> - -<h3><a id="Note_7" href="#Nanchor_7">7</a> (pag. 17).</h3> - -<p>É lamentavel esta lacuna, porem deixa comtudo perceber, -que se trata das tartarugas do Maranhão.</p> - -<p>Com os ovos d’este chelidoniano prepara-se no Pará o que -se chama—<i>manteiga de tartaruga</i>, de que se exporta prodigiosa -quantidade.</p> - -<h3><a id="Note_8" href="#Nanchor_8">8</a> (pag. 17).</h3> - -<p>N’esta enumeração mui completa de quadrupedes que se -podem caçar, um nome desperta naturalmente a attenção -do leitor, e é <i>vacca brava</i>. É bem possivel, rigorosamente -fallando, que os campos do Mearim ja tivessem algum individuo -da raça bovina, ja ha muito tempo introduzida em<span class="pagenum"><a id="Page_359"></a>[359]</span> -Pernambuco: Claudio d’Abbeville é muito explicito n’este -ponto.</p> - -<p>Mas não é d’isto que quiz tratar o nosso bom missionario: -a vacca brava, ou <i>bragua</i>, como chama em outro lugar, -é o <i>Tapir</i> ou <i>Tapié</i>, conforme Montoya, animal muito commum -em todo o Brasil.</p> - -<p>Para denominal-o serviram-se os hespanhoes e portuguezes -d’um nome pedido por emprestimo aos Mouros. Chamavam-no -tambem <i>Anta</i> ou <i>Danta</i>, que significa, dizem, bufalo. -Quando chegou aos americanos a sua vez de dar nome -ao boi, chamaram-no <i>Tapir-açù</i>.</p> - -<p>Martius observa com razão, que esta palavra na lingua -geral se applica a todo o mamifero corpulento. Sendo este -pachyderma o animal mais corpulento conhecido na America -do Sul, foi sua caça procurada de preferencia pelos Europeos, -e assim desappareceo, ou pelo menos tornou-se mais -rara nos lugares onde outr’ora era abundante. Em certos -paizes da America era um animal sagrado, e assim figura em -diversos monumentos.</p> - -<p>No Brasil procuravam os indigenas este animal, tanto por -ser boa caça como pela espessura de seo couro, de que faziam -escudos impenetraveis ás flexas, pela maior parte armadas -de uma ponta aguda de madeira ou de cana.</p> - -<p>João de Lery trouxe do Brasil para França alguns d’esses -broqueis, porem não chegaram á Europa, porque uma terrivel -fome devida á longa viagem de 5 mezes obrigou o pobre -viajante a comel-as, depois de amolecidas por meio -d’agoa.</p> - -<p>Os nossos leitores que desejarem conhecer minuciosamente -o Tapir americano, consultem uma excellente dissertação, -dedicada especialmente á este animal, escripta pelo -Dr. Roulin, Bibliothecario do Instituto.</p> - -<p>No <i>Glossario</i> de Martius lê-se uma extensa synonimia relativa -ao Tapir. (Vide pag. 479.)</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_360"></a>[360]</span></p> - -<h3><a id="Note_9" href="#Nanchor_9">9</a> (pag. 18)</h3> - -<p>É certo que os indios d’esta tribu foram contrarios aos -francezes.</p> - -<p>Ha na historia d’esta expedição um ponto, que não foi -ainda bem esclarecido: o mais afamado capitão de indios de -que se recorda o Brasil fez suas primeiras campanhas durante -o dominio dos francezes.</p> - -<p>O celebre Camarão, o grande chefe ou <i>Morubixaba</i> dos -Tabajares, commandava 30 frecheiros na lucta entre la Ravardiere -e Jeronymo de Albuquerque.</p> - -<p>Convidado pelo governo portuguez para tomar parte n’esta -guerra, partio de sua aldeia, no <i>Rio Grande do Norte</i>, e foi -para o <i>Presidio de N. S. do Amparo</i>, no Maranhão, em 6 -de setembro de 1614: seguio-o seo irmão <i>Jacauna</i> com um -filho de igual nome, e de 18 annos de idade.</p> - -<p>Depois de muitos annos Camarão, que teve tão boa escola, -adquirio fama immortal nos fastos do Brasil por occasião -da expulsão dos hollandezes. (Vide <i>Memorias para a -historia da Capitania do Maranhão, impressa nas Noticias -para a historia e geographia das Nações ultramarinas</i>.)</p> - -<h3><a id="Note_10" href="#Nanchor_10">10</a> (pag. 18).</h3> - -<p>No Brasil não ha verdadeiros javalys, e nem este nome se -pode dar aos <i>Pecoris</i> ou <i>Tajassus</i>, ou <i>Porcos do Matto</i> na -linguagem dos naturaes. Não é extraordinaria a proesa do -fidalgo, porque andando os <i>pecaris</i> sempre em bando basta -chumbo grosso para matal-os. Martius deo a synomimia completa -d’este animal no <i>Glossaria linguarum brasiliensium</i>. -(Vide a divisão <i>Animalia cum Synonimis</i>, pag. 477.)</p> - -<h3><a id="Note_11" href="#Nanchor_11">11</a> (pag. 18).</h3> - -<p>Um <i>ajoupa</i> é uma pequena cabana coberta de folhas e -abertas por todos os lados.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_361"></a>[361]</span></p> - -<p>Esta palavra é muito usada nos nossos estabelecimentos -de Guyana. Vê-se estampas de <i>ajoupas</i> em Barrére.</p> - -<h3><a id="Note_12" href="#Nanchor_12">12</a> (pag. 19).</h3> - -<p>Em 1542 a fóz do grande rio foi explorada por Aphonso -de Xaintongeois. (Vide o <i>Manuscripto original de sua viagem</i> -na Bibliotheca Imperial de Pariz.)</p> - -<p>João Mocquet, cirurgião francez, guarda das curiosidades -de Henrique IV, visitou suas praias. (Vide o <i>Manuscripto</i> do -seo <i>Relatorio</i> na <i>Bibliotheca de Santa Genoveva</i>.)</p> - -<p>Finalmente la Ravardiere fez até lá um reconhecimento.</p> - -<p>João Mocquet foi muito explicito quando tratou do mytho -das Amasonas, que tanto occupou Condamine e o illustre -Humboldt. Tudo quanto elle referio d’estas guerreiras soube -do chefe <i>Anacaiury</i>, cujo personagem, ou seo homonymo, -encontra-se nas obras de Ivo d’Evreux.</p> - -<p>Governava uma nação no Oyapok ou do Yapoco.</p> - -<p>Mocquet disse a seos leitores, que não poude visitar, como -desejava, o Amasonas «por serem violentas as correntes -para os navios, e mesmo para o seo patacho que ja fazia -muita agoa.»</p> - -<p>Todas estas narrações a respeito do grande rio deixou em -França impressões tão duradouras, que o Conde de Pagan, -quarenta annos depois, convidou a Mararin a reerguer projectos -esquecidos. Para a conquista da Amasonia elle queria -união com os indios, e por sua vontade devia o Cardeal ligar-se -«aos illustres <i>Homagues</i> (Omaguas) aos generosos <i>Yorimanes</i> -e aos valentes <i>Tupinambás</i>.» Nunca certamente os -selvagens receberam tão pomposos nomes!</p> - -<p>Seria mui curiosa, si se achasse, a narração da expedição -pelas margens do Amasonas em 1613, feita por ordem -de la Ravardiere e ainda no tempo de Luiz XIII existia uma -copia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_362"></a>[362]</span></p> - -<h3><a id="Note_13" href="#Nanchor_13">13</a> (pag. 20).</h3> - -<p>Entra Gabriel Soares em minuciosas descripções do fabrico -d’esta farinha, de que os indios fazem grandes provisões.</p> - -<p>A especie de mandioca, conhecida pelo nome de <i>Carimã</i>, -serve de base.</p> - -<p>Esta raiz a principio dissecada a fogo brando, depois ralada, -é pisada n’um almofariz, peneirada e misturada com -certa quantidade de outra qualidade de mandióca na occasião -de ser torrada, o que se faz até ficar muito secca, e -n’esse estado é conservada por muito tempo.</p> - -<p>Encontram-se sobre esta industria agricola do Brasil todos -os esclarecimentos necessarios no <i>Tratado descriptivo do -Brasil</i>, pag. 167.</p> - -<p>Augusto Saint-Hilaire disse com rasão, que a cultura da -mandióca tirou a maior parte dos seos processos da economia -domestica dos Tupis, e resumio concisa e habilmente -tudo que ha a dizer-se relativamente ao cultivo da planta. -(<i>Voyage dans le district des Diamants et sur le littoral du -Brésil</i>. T. 2—pag. 263 e seguintes.)</p> - -<h3><a id="Note_14" href="#Nanchor_14">14</a> (pag. 21).</h3> - -<p>Gabriel Soares está aqui inteiramente de accordo com o -nosso Missionario.</p> - -<p>Estas grandes canoas chamavam-se <i>Maracatim</i>, por causa -do <i>Maracá</i>, que, como protector, trasiam na prôa. <i>Iga</i> chamava-se -uma canôa pequena, e <i>Igaripé</i> uma canoa de cortiça -ou casca de arvores, etc. etc. (Vide <i>Ruiz de Montoya</i>, -<i>Tesoro</i>, na pag. 173.)</p> - -<h3><a id="Note_15" href="#Nanchor_15">15</a> (pag. 21).</h3> - -<p>André Thevet, e depois d’elle João de Lery descreveram -com exactidão este genero de ornato, chamado <i>Araroye</i> -pelo ultimo d’estes viajantes.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_363"></a>[363]</span></p> - -<p>Coube ao padre Ivo fazer-nos conhecer seo valor symbolico.</p> - -<h3><a id="Note_16" href="#Nanchor_16">16</a> (pag. 24).</h3> - -<p>A curiosa narração do indio confirma a opinião de Humboldt, -e bem pode ser que antigamente se encontrassem algumas -mulheres cansadas do jugo dos homens, e por isso -entregues á vida guerreira.</p> - -<p>Combina igualmente com as tradicções colhidas por Condamine -e sessenta annos antes do Padre Ivo o franciscano. -André Thevet não esteve longe de vêr n’estes selvagens -americanos descendentes directos do exercito feminino commandado -por Pentisilée.</p> - -<p>Humbold disse com rasão, que o mytho das Amasonas -era de todos os seculos e de todos os periodos da civilisação.</p> - -<h3><a id="Note_17" href="#Nanchor_17">17</a> (pag. 25).</h3> - -<p>Esta nação não é indicada no <i>Diccionario topographico, -historico, descriptivo da Comarca do Alto Amasonas</i>. Recife. -1852—1 vol. em 12.</p> - -<p>Tambem não a encontramos na longa nomenclatura da -<i>Corographia Paraense</i> de Ignacio Accioli de Cerqueira e -Silva. Deve estar extincta, e Martius tambem não a cita no -seo <i>Glossaria</i>, publicado ultimamente.</p> - -<h3><a id="Note_18" href="#Nanchor_18">18</a> (pag. 25).</h3> - -<p>Por este nome, aqui tão frequente, designa-se uma grande -aldeia alem de Tapuitapéra.</p> - -<p>Era tambem o nome de um vasto territorio e de um rio.</p> - -<p>Segundo o padre Claudio—<i>Cumã</i> significa <i>proprio para -pesca</i>, porem duvidamos que seja exacta a explicação.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_364"></a>[364]</span></p> - -<p>Debalde procura-se esta palavra no <i>Glossaria</i> de Martius -publicado em 1863.</p> - -<h3><a id="Note_19" href="#Nanchor_19">19</a> (pag. 25).</h3> - -<p><i>Cazal</i>, o <i>Diccionario do Alto Amasonas</i>, e <i>Accioli</i> nada -dizem a respeito d’estes rios, onde comtudo esteve um exercito -de 2,000 homens! Martius trata de uma nação de -<i>Pacajaz</i> ou <i>Pacayá</i>, no Pará. (Vide <i>Glossaria linguarum</i>. -pag. 519.)</p> - -<h3><a id="Note_20" href="#Nanchor_20">20</a> (pag. 25).</h3> - -<p>Esta ligeira descripção das casas aereas construidas sobre -mangues e troncos das palmeiras <i>muritis</i> lembra um facto -bem curioso, classificado outr’ora como fabula, e descripto -na Relação de Walther Ralegh.</p> - -<p>É bem possivel que haja alguma exageração, porem o -facto é authentico, e deo-se na foz do Orenoco.</p> - -<p>Os <i>Waraons</i> visitados ha perto de um seculo pelo Dr. Leblond, -os <i>Guaraunos</i> descriptos pelo sabio Codazzi, são um -e o mesmo povo, salvos de inteira destruição por sua maneira -de viver.</p> - -<p>Os <i>Camarapins</i>, cujo desaparecimento acabamos de provar, -foram menos felises.</p> - -<p>Á respeito dos indios das <i>Iouras</i> consulte-se o resumo, -que outr’ora fizemos, dos manuscriptos, por onde o Medico -francez provou sua moradia entre os Waraons. (Vide <i>Guyana</i>, -1828, em 18.)</p> - -<p>Codazzi, cujos bellos trabalhos geographicos são conhecidos, -citava em 1841, os Guaraunos, como não tendo ainda -abandonado suas casas aereas.</p> - -<p>Ha trinta annos, quando muito, vinham elles negociar com -os habitantes da Trindade. (Vide o <i>Resumen de la Geographia -de Venezuela</i>. Pariz. 1841—em 8.)</p> - -<p>Agostinho Codazzi morreo ultimamente.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_365"></a>[365]</span></p> - -<p>Quanto aos manuscriptos de Leblond, que ja tivemos á -nossa disposição, pertenciam á collecção das viagens, possuida -em 1824 pelo edictor Nepveu.</p> - -<h3><a id="Note_21" href="#Nanchor_21">21</a> (pag. 28).</h3> - -<p>Este personagem tinha um nome todo portuguez, e era -muito dedicado á nação, a cujos interesses servia.</p> - -<p>O titulo de <i>Capitão</i> afinal estendeo-se a todos os chefes da -raça indigena.</p> - -<h3><a id="Note_22" href="#Nanchor_22">22</a> (pag. 29).</h3> - -<p>Este selvagem fanfarrão gabava-se de ter feito morrer o -padre Ambrosio, residente em <i>Iuiret</i>, cuja pronuncia segundo -Claudio d’Abbeville, é <i>Jeuiree</i>, e ella indica a estranha -significação d’este nome.</p> - -<p>O <i>Pay açu</i>, o grande padre é Ivo d’Evreux. A palavra -<i>Pay</i> quer dizer em portuguez <i>Padre</i>. Pay-<i>guaçu</i>, diz Ruiz -de Montoya significar Bispo ou Prelado em Guarany.</p> - -<p>O nome de <i>Pay</i> foi mais facilmente adoptado pelos indigenas -pela sua analogia em designar pessoas graves. Os -feiticeiros eram chamados—<i>hechizeros</i>—para servir-nos da -propria expressão do lexicographo hespanhol.</p> - -<p>Da <i>lingua geral</i>, modificação do Guarany, <i>Pay</i> significa -padre, monge e senhor. <i>Pay Abaré Guaçu</i> era a designação -dos prelados e dos jesuitas. Os indios ainda chamavam -o papa <i>Pay aboré oçu eté</i>.</p> - -<h3><a id="Note_23" href="#Nanchor_23">23</a> (pag. 29).</h3> - -<p>Não sabemos porque o missionario modifica a orthographia -do nome de um povo, que elle ja escreveo muitas vezes de -forma diversa.</p> - -<p>Claudio d’Abbeville escreve <i>Topinambás</i>, o author da -sumptuosa entrada <i>Tupinabaulx</i>, Hans Staden <i>Topinembas</i>,<span class="pagenum"><a id="Page_366"></a>[366]</span> -e emfim João de Lery <i>Tuupinambaults</i>. Malherbe suavisando -a expressão escreve <i>Topinambus</i>. Foi esta ultima orthographia -a que prevaleceo no tempo de Luiz XIV, porem preferimos -a que é adoptada pelos brasileiros.</p> - -<h3><a id="Note_24" href="#Nanchor_24">24</a> (pag. 31).</h3> - -<p>Por esta palavra tão vaga, aqui empregada pelo padre -Ivo, suppomos que elle pretende designar os povos mais -selvagens ainda que os Tupinambás, ou então que se entregavam -mais especialmente a anthropophagia.</p> - -<p>Nas obras de Humboldt encontra-se uma curiosa definição -da palavra <i>Canibal</i>. Notaremos apenas, que 50 annos antes -do tempo, em que escreveo o padre Ivo, designavam-se assim, -quasi que exclusivamente, os indios mais proximos do -Equador.</p> - -<p>Na historia da França antarctica por André Thevet, á proposito -da madeira de tincturaria, lê-se o seguinte: «o da costa -do rio de Ianaire é melhor que o da costa de Canibaes e de -toda a costa do Maranhão,» (pag. 116 verso), e mais adiante: -«visto que chegamos a estes Canibaes, d’elles diremos -apenas, que este povo, depois do cabo de Santo Agostinho, -e alem até o Maranhão, é o mais cruel e deshumano que -em qualquer outra parte da America. Esta canalha come -ordinariamente carne humana, como nós comemos carneiro.» -(pag. 119.)</p> - -<h3><a id="Note_25" href="#Nanchor_25">25</a> (pag. 31.)</h3> - -<p>Foi com effeito nas margens do Itapecurú, que se apresentaram -os portuguezes.</p> - -<p>Claudio d’Abbeville disse algumas palavras sobre este bello -rio, porem exagerou o seo curso.</p> - -<p>Nós estamos tão pouco ao facto da geographia d’esse paiz, -que Adriano Balbi se contentou em mencionar seo nome apenas -no quadro, que traçou, dos rios do Maranhão.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_367"></a>[367]</span></p> - -<p>Que prodigiosas mudanças não se terão operado sobre suas -margens desde o tempo, em que o nosso bom frade assim o -chamava alterando-lhe o nome!</p> - -<p>Em lugar d’estas florestas, onde andavam errantes os -Timbyras, cultiva-se milho, mandióca, canna de assucar, -fumo e algodão, e a producção ultima d’este genero foi tão -abundante, que subio a 35,000 saccas.</p> - -<p>Em França não se conhece o nome das cidades mais importantes, -assentadas á margem d’este rio, e apenas se encontram -em nossos livros de geographia.</p> - -<p>Quem já ouvio fallar da pequena cidade de Caxias, a risonha -patria de Gonçalves Dias? Comtudo é uma cidade -rica, commercial, banhada pelo Itapecurú, e distante da capital -sessenta legoas.</p> - -<p>Em 1821 era apenas um povoado de 2,400 almas, e hoje -este numero elevou-se a 6,000 habitantes.</p> - -<p>Caxias é o centro do commercio entretido com o Piauhy, -e com immensas solidões de campos de criação de gado, -conhecidas pelo nome de <i>sertão</i>.</p> - -<p>Edificada para assim dizer no deserto, tem escolas florescentes, -um theatro, estabelecimentos de utilidade publica, -que nem sempre se encontra em cidades mais consideraveis.</p> - -<p>O nome de <i>Caxias</i> tem no Brazil significação politica, porque, -em 1832, travou-se no <i>Morro do Alecrim</i> uma batalha, -cujo resultado consolidou a Independencia da Provincia. -Mais tarde, na propria colina, chamada das <i>Tabócas</i> -deo-se o sanguinolento combate, onde foi vencido<a id="FNanchor_62" href="#Footnote_62" class="fnanchor">[BJ]</a> <i>Fidié</i>, -e que inspirou a Gonçalves Dias tão energicos versos.</p> - -<p>Seriam necessarios volumes para narrar, ainda que summariamente, -as perturbações, que se seguiram a este acontecimento,<span class="pagenum"><a id="Page_368"></a>[368]</span> -e as luctas tempestuosas, que houveram neste -canto ignorado do mundo até 1848, quando o Dr. Furtado -conseguio reprimir a horda, que assolava esta cidade nascente.<a id="FNanchor_63" href="#Footnote_63" class="fnanchor">[BK]</a></p> - -<p>A propria naturesa, por si só, é grande n’estas regiões: -20 mil habitantes formam a população d’este vasto municipio, -empregado superficialmente na agricultura.</p> - -<p>Na distancia, em que nos achamos, estas revoluções tão -cumpridas para serem contadas, assimilham-se ás da idade -media, que a historia local as vezes registra, mas que facilmente -esquece visto não ligar-se á algum dos grandes interesses, -que prende a attenção do mundo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_369"></a>[369]</span></p> - -<p>Com mais justa rasão pode applicar-se isto a villa do Codó, -a mais florescente após Caxias, como ella banhada pelo Itapicurú, -e como ella separada da Capital por um espaço de -60 legoas.</p> - -<h3><a id="Note_26" href="#Nanchor_26">26</a> (pag. 34).</h3> - -<p>Este nome do principio do mal, acceito em toda a obra -pelo Padre Ivo d’Evreux e por Claudio d’Abbeville parece -ser mais particular ao Norte do Brazil.</p> - -<p>Martius escreve <i>Jurupari</i>, ou <i>Jerupari</i>. <i>Anhagá</i> parece -ser mais uzado ao Sul. Não se acha a significação desta palavra -no <i>Tesoro de la lingua Guarani</i>. <i>Angai</i> neste precioso -Diccionario significa espirito mau. <i>Anhanga</i> significa -hoje apenas um <i>phantasma</i>. (Vide Gonçalves Dias, <i>Diccionario -da lingua Tupy</i>.)</p> - -<h3><a id="Note_27" href="#Nanchor_27">27</a> (pag. 36).</h3> - -<p>Estes povos, antes de reunidos, eram chamados Tabaiares -pelos Tupinambás. Pag. 36.</p> - -<p>Tabajares não significa de maneira alguma <i>inimigo</i>, e sim -senhores da Aldeia. (Vide Adolpho de Varnhagem, <i>Historia -geral do Brazil</i>. T. 1.º Accioli. <i>Revista do Instituto</i>.)</p> - -<h3><a id="Note_28" href="#Nanchor_28">28</a> (pag. 36).</h3> - -<p>A denominação, adoptada no Seculo XVII por nossos compatriotas, -veio sem duvida alguma do costume que tinham -estes indios de furar o labio inferior, e mesmo as faces para -n’ellas introduzir discos de uma especie de esmeralda, feitos -com muita paciencia, e apreciados como joias estimaveis. -(Vide <i>Sur l’usage de se percer la lévre inferieure -chez les Américains du sud</i>, a serie de nossos artigos, inserida -com muitas gravuras no <i>Magasin pittoresque</i>. T. 18 -pag. 138, 183, 239. 338, 350 e 390.)</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_370"></a>[370]</span></p> - -<h3><a id="Note_29" href="#Nanchor_29">29</a> (pag. 36).</h3> - -<p><i>Mearinense</i> é evidentemente um nome creado pelo nosso -bom Missionario, e melhor não o inventaria Rabelais.</p> - -<p>Os Mearinenses eram os proprios Tupinambás que residiam -nas ferteis margens do Meary, d’onde proveio o nome -á provincia, no pensar de Cazal. O Mearim, que offerece -um curso de 166 legoas, só é navegavel no inverno, e as -canoas grandes sobem unicamente até 60 legoas. Nasce na -<i>Serra do Negro e Canella</i> aos 8° 2′ e 23″ de lat. e 2° 21′ -de long. contados da Ilha de Villegagnon na bahia do Rio -de Janeiro.</p> - -<h3><a id="Note_30" href="#Nanchor_30">30</a> (pag. 36).</h3> - -<p>A palavra <i>Tapuya</i> ou <i>Tapuy</i> tem levantado grandes discussões: -será o nome de um povo? (Vide o <i>Diccionario de -Gonçalves Dias</i>).</p> - -<p>Significará inimigo? Ruiz de Montoya nada diz a tal respeito. -Será preciso crear uma nação distincta da dos Tupys, -a qual estes deram tal nome. Um escriptor, authoridade na -materia, Ignacio Accioli não hesita a tal respeito.</p> - -<p>Quando enumera as principaes divisões da raça Tupica, -elle diz: «outra nação geral, a dos Tapuias, divide-se, como -pensam muitos, em pequenas tribus fallando perto de cem -dialectos, e são os <i>Aymorés</i>, os <i>Potentus</i>, os <i>Guaitacás</i>, os -<i>Guaramonis</i>, os <i>Guaregores</i>, os <i>Jaçarussus</i>, os <i>Amanipaqués</i>, -os <i>Payeias</i> e grande numero de outras.» (Vide T. XII -da <i>Revista Trimensal—Dissertação historica, ethnographica -e politica sobre quaes eram as tribus aborigenes</i>, etc., etc., -pag. 143.)</p> - -<h3><a id="Note_31" href="#Nanchor_31">31</a> (pag. 42).</h3> - -<p>Este pensamento passou como proverbio na ilha e em -Goyana.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_371"></a>[371]</span></p> - -<h3><a id="Note_32" href="#Nanchor_32">32</a> (pag. 42).</h3> - -<p>Hans Staden prisioneiro, pelos Tupinambás em 1550, ao -sahir do Forte da Bertioga suscitou grande discussão para -saber-se com certeza, quem foi o primeiro que o tocou. -(Vide <i>la Collection. Ternaux Compans</i>.)</p> - -<h3><a id="Note_33" href="#Nanchor_33">33</a> (pag. 49).</h3> - -<p>Nada tem de extraordinario o nome d’este chefe, porem -é necessario escrevel-o assim com mais exactidão, <i>Ibira Pitanga</i>. -(Vide <i>Ruiz de Montoya</i>.) Lery escreveo <i>Araboutan</i>, -Thevet <i>Oraboutan</i>. Desapparece esta celebre madeira cada -vez mais das grandes florestas, onde íam buscal-os os nossos -antepassados.</p> - -<h3><a id="Note_34" href="#Nanchor_34">34</a> (pag. 51).</h3> - -<p>É um Tabajara quem falla, porem observamos, que a palavra -<i>Carbet</i> não pertence á <i>lingua geral</i>.</p> - -<p>O padre Ruiz de Montoya não a inserio no seo precioso -<i>Tesoro de la lingua Guarany</i>.</p> - -<p>É usado mais particularmente entre os Galibis e os outros -povos de Guyana.</p> - -<p>Resente-se esta expressão da visinhança da nossa colonia.</p> - -<p>Convem fazer certa differenca entre os <i>Carbets</i>, ou <i>casa -grande</i>, e as <i>Ocas</i> ou <i>Tabas</i>, que formavam a architectura -rudimentar dos outros povos do Brasil.</p> - -<p>Ouçamos a este respeito o Padre <i>du Tertre</i>. «No meio de -todas estas casas, fazem uma grande, commum, a que chamam -<i>Carbet</i>, a qual tem ordinariamente 60 ou 80 pés de -comprimento, e é formada de grandes forquilhas de 12 a 20 -pés de altura, infincadas na terra: sobre ellas collocam uma -palmeira, ou outro tronco de arvore muito direito, que serve -de cumieira, e n’ella ajustam caibros, que descem até tocar<span class="pagenum"><a id="Page_372"></a>[372]</span> -em terra, e cobrem-nos com ramos ou folhas de palmeiras, -ficando muito escuro o interior da casa, pois a claridade só -entra pela porta, e esta é tão baixa, que para entrar-se é -necessario curvar-se.»</p> - -<p>Estas particularidades pedimos emprestadas a uma obra -do anno de 1643, e se referem especialmente a architectura -rustica dos Caraibas insulares.</p> - -<p>Escolhemos este exemplo quasi contemporaneo do livro -publicado pelo nosso autor, porque na realidade não ha grande -differença entre os <i>Carbets</i> das ilhas e os dos continentes.</p> - -<p>Si se escrevesse uma historia d’essas casas de folhas tão -rapidamente construidas, apresentar-se-iam certas variedades -conforme os usos e fins para que se destinam. (Vide a -este respeito <i>Le voyage pittoresque au Bresil de Debet</i>, depois -as gravuras do livro de <i>André Thevet</i>, publicado em -1558.)</p> - -<p>Haviam pequenos e grandes <i>Carbets</i>, aquelles onde os -Piagas faziam suas charlatanerias, e estes onde se formavam -os grandes conselhos.</p> - -<p>Tinham estes ultimos a configuração de um dos nossos -vastos alpendres, tendo lugar para 150 ou 200 guerreiros.</p> - -<p>No XVII seculo, na linguagem de nossas colonias, nas -ilhas ou no continente, formar um conselho qualquer era -<i>Carbeter</i>; o termo era proprio e acha-se usado por todos os -viajantes. (Vide entre outros Biet, <i>Voyage de la France équinoxiale</i>. -Paris. 1654, em 4.º)</p> - -<h3><a id="Note_35" href="#Nanchor_35">35</a> (pag. 56).</h3> - -<p>David Migan era natural de Dieppe, e como fizeram tantos -outros naturaes da Normandia no fim do seculo XVI, veio -tentar fortuna entre os selvagens do Brasil.</p> - -<p>Encontraram-no os chefes da opposição estabelecido havia -muitos annos em Jupinaram, na ilha do Maranhão.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_373"></a>[373]</span></p> - -<p>Era em toda a extensão da palavra um interprete da Normandia, -e sabe Deos de que reputação gozavam estes interpretes -no que dizia respeito ao que então se chamava mundo -civilisado.</p> - -<p>Comparavam-nos até aos selvagens, cujos odiosos festins, -dizia-se, que elles partilhavam.</p> - -<p>David Migan teve as honras do Mercurio francez. (Vide T. -3, pag. 164)</p> - -<p>Regressou á França com Rasilly a quem era muito affeiçoado, -e assim foi bom por ser o unico capaz de traduzir -para a Rainha, a longa exposição de Itapucu.</p> - -<p>De passagem lembramos ter elle tambem assignado o termo -de cessão, que la Ravardiere fez de seos direitos a Francisco -de Rasilly, o que indica, sem duvida alguma, o gozar -de consideração excepcional.</p> - -<p>O nome de Migan nos parece ser <i>nome de guerra</i>, pois -esta palavra na lingua <i>tupy</i>, significa o caldo grosso, que se -fazia com a farinha de mandioca.</p> - -<p>Malherbe, que estava nas Tulherias, quando se apresentaram -os indios, notou a habilidade d’este homem.</p> - -<p>Havia outro interprete chamado Sebastião, muito affeiçoado -a Ivo d’Evreux.</p> - -<h3><a id="Note_36" href="#Nanchor_36">36</a> (pag. 65).</h3> - -<p>É mui curioso o achar-se em Maranhão, no anno de 1612, -um selvagem fazendo ao padre Ivo o mesmo raciocinio, a -que foi obrigado á responder João de Lery em 1556: «o que -quer dizer vós <i>Mair</i> e <i>Peros</i>, (francezes e portuguezes) virdes -de tão longe buscar madeira para vos aquecer? Lá não -a tendes?» (Vide <i>Histoire d’un voyage en la terre du Bresil</i>, -Rouen 1578 em 8.º)</p> - -<h3><a id="Note_37" href="#Nanchor_37">37</a> (pag. 70).</h3> - -<p>Largamente descreveo Mr. Humboldt a região dos Otomanos, -e as porções immensas de terra, que reunem estes indios -para comer quando lhes falta a caça e a pesca.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_374"></a>[374]</span></p> - -<p>Pensa o grande viajante, que esta terra secca ao sol, formando -tulhas de bolasinhas, dispostas symetricamente, é -procurada pelos selvagens por conterem particulas animalisadas -e que a fazem nutritiva.</p> - -<p>Prova o padre du Tertre, que tanto os indios das ilhas -como os do continente comem terra, embora pense que seja -por aberração de gosto.</p> - -<p>«Todos comem terra, mães e filhos, diz elle, e a causa de -tão grande aberração de gosto não pode proceder, penso eu, -senão de um excesso de melancolia.» (<i>Hist. nat. das Antilhas, -habitadas pelos francezes</i>. T. 2º, pag. 375.)</p> - -<p>Não longe das regiões descriptas pelo padre Ivo, á margem -do rio Ucayale, encontram-se ainda os indios <i>Pinacos</i>, -cujo nome verdadeiro é <i>Puynagas</i>. Estes indios despresados -por seos compatriotas, são afamados comedores de terra. -A este respeito, entre outros, foi publicado um curioso opusculo -de Mr. Moreau de Jonnès com o titulo de <i>Observations -sur les Geophages des Antilles</i>. Paris. An. VI. Tem somente -11 paginas.</p> - -<h3><a id="Note_38" href="#Nanchor_38">38</a> (pag. 73).</h3> - -<p>Na enumeração das diversas classes da infancia achamos -ainda exactidão no padre Ivo, embora confundisse a letra N -com a R: a palavra <i>menino</i> escreve-se <i>Curumim</i> nos Glossarios -brasileiros. (Vide Gonçalves Dias, <i>Diccionario da lingua -Tupy</i>. Leipzig, 1858 em 12.)</p> - -<h3><a id="Note_39" href="#Nanchor_39">39</a> (pag. 81).</h3> - -<p>Gonçalves Dias chama a virgem <i>Cunhã mucu</i>. (Vide <i>Diccionario</i>.)</p> - -<h3><a id="Note_40" href="#Nanchor_40">40</a> (pag. 82).</h3> - -<p>Este singular uso, fallado por todos os viajantes do XVI -seculo, como acaba de ver-se ainda não estava modificado.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_375"></a>[375]</span></p> - -<p>Não se encontra somente entre os Caraibas das ilhas, e -sim tambem em pleno vigor na Europa, e especialmente -entre os Bascos, e era então chamado a «encubação.»</p> - -<p>As «<i>Miscellanias historicas</i>,» publicadas em Orange em -1675, contem interessantes observações á tal respeito. «Nota-se, -diz elle, um admiravel costume em Bearn. Quando -pare uma mulher, anda á pé e o marido deita-se para guardar -o resguardo. Creio que os Bearnenses tomaram este costume -dos hespanhoes, de quem Strabon disse a mesma coisa -no livro 3º da sua <i>Geographia</i>.»</p> - -<p>O mesmo faziam os Tibarénienses, como refere Nimphodore, -na excellente obra de Apollonio de Rhodes, livro 2, -e os Tartaros segundo o testemunho de Marco Paulo, cap. 41. -livro 2.º</p> - -<p>Esto uso, tão exquisito, e só explicavel si se podesse descer -até o recondito mais intimo do caracter indiano, era religiosamente -observado pelos mais valentes e afamados guerreiros -Tupinambás, e provocaria o riso do homem civilisado, -si indagasse a sua origem natural. Torna-se porem admiravel, -para assim dizer, quando se sabe ser tal costume acompanhado -de mui crueis privações, porque o indio, que acaba -de ser pae, e que se condemna a tão ridiculo repouso, não -só priva-se de alimentos, como ainda se entrega a outros -supplicios com intenção de evitar que soffra o filhinho certos -males, que elle receia.</p> - -<p>Pela sua ignorancia e superstição julga-se com grande influencia -phisiologica sobre o menino, e muito soffre e com -stoicismo afim de poupar algumas dores ao recem-nascido.</p> - -<p>O homem civilisado das cidades, embora mediocremente -intelligente, abstem-se de esquadrinhar estas ideias cheias -de dedicação, embora inconstantes dos selvagens, e ri-se -antes de proferir seo juiso.</p> - -<p>A companheira do indio tambem supersticiosa, approva o -que faz seo marido: soffre, sem queixar-se, verdadeiras dores -e entrega-se a um novo trabalho ainda mais pesado, -porque todo o serviço da casa cahe sobre ella.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_376"></a>[376]</span></p> - -<p>No modo de pensar desta pobre mulher a salvação do recem-nascido -depende do procedimento stoico de seo marido. -Nunca podemos saber qual era o motivo, que obrigava os -antigos a entregarem-se a este repouso tão exquisito, não -differente provavelmente do concedido aos americanos. Carli, -cuja engenhosa erudicção explica tantas coisas antigas da -America, não procurou mesmo uma hypothese para descobrir -motivo tão ridiculo. Enganou-se por certo, quando disse -serem elles alimentados abundantemente. (Vide <i>Lettres Américaines</i>. -Boston et Pariz, 1788, T. 1 pag. 114.)</p> - -<p>É bom ler-se com cuidado a versão francesa d’esta curiosa -passagem.</p> - -<p>Não soube o traductor francez, Febvre de Villebrune, dar -real valor ás palavras <i>italianisadas</i> pelo autor.</p> - -<p>Antonio Biet, é mais justo para com os indios, e menos -inclinado á zombaria do que os seos predecessores, quando -descreve a «incubação» entre os Galibis.</p> - -<p>«O pobre indio, diz elle, soffre muito durante seis semanas, -come pouco, e quando acaba o resguardo, está tão magro -como um esqueleto.»</p> - -<p>O mesmo viajante nos mostra o Galibi, sempre paciente, -não deixando a <i>casa grande</i>, e nem se animando a levantar -os olhos para os que o rodeiam. (<i>Voyage de la France -equinoccial</i>, Livro 3.º pag. 390.)</p> - -<p>Descrevendo os costumes de certos Caraibas, não podia -o autor da historia moral das Antilhas esquecer a incubação.</p> - -<p>Rochefort conta as particularidades e especifica sua analogia -com uma ceremonia identica, que vio n’uma provincia -de França.</p> - -<p>Este repouso forçado do indio pareceo-lhe muito absurdo, -porem não nega ao pobre paciente o merito do jejum, antes -confessa, que durante sua reclusão apenas lhe dão um pouco -de farinha e agoa. (Vide <i>Historia moral</i> pag. 494.)</p> - -<p>Não proseguiremos n’estas citações, bastando dizer que -entre os povos do Brasil os Tupiniquins, os Tupinacs, os Tabajares,<span class="pagenum"><a id="Page_377"></a>[377]</span> -os Petiguaras, e muitas outras tribus imitam os Tupis, -e estes nomes nada mais adiantam.</p> - -<p>Convem comtudo fazer bem saliente o amor paterno entre -os indios, dando-se assim ao mais extravagante dos costumes -a sua origem verdadeira.</p> - -<h3><a id="Note_41" href="#Nanchor_41">41</a> (pag. 84).</h3> - -<p><i>Tamoi</i> quer dizer avô na lingua dos Tupinambás: aqui -ha alteração de palavra, proveniente por differença de pronuncia.</p> - -<p>Lê-se no <i>Tesoro de la lingua Guarany</i>, base da lexicographia -brasileira <i>Tamôi</i>, <i>abuelo</i>, <i>Cheramòi</i>, <i>mi abuelo</i>, -<i>Cherúramôîruba</i>, <i>mi bisabuelo</i>, <i>Cherúramôî</i>, <i>el abuelo de -mi padre</i>, etc.</p> - -<p>Por sua origem tinham os Tamoyos real proeminencia sobre -as outras tribus da mesma raça.</p> - -<p>No meiado do Seculo XVI habitavam as circumvisinhanças -de <i>Nicteroy</i>, ou antes do Rio de Janeiro: como alliados fieis -dos franceses foram expellidos d’esse bello territorio por Salema, -e os restos de suas tribus desceram para as regiões -do Norte, onde encontraram seos antigos amigos, que se haviam -refugiado especialmente nos campos de Maranhão.</p> - -<h3><a id="Note_42" href="#Nanchor_42">42</a> (pag. 87).</h3> - -<p>Não é de mediocre importancia a especie de vocabulario, -aqui offerecida pelo nosso missionario.</p> - -<p>Os leitores francezes, pouco familiarisados com a philologia -americana, despresaram sem duvida esta collecção de -frases, provenientes d’uma lingua, que comtudo servio de -recreiação á Boileau: o mesmo não acontecerá n’um vasto -Imperio, onde as letras são hoje tão honradas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_378"></a>[378]</span></p> - -<p>Ha muitos annos já, que o Autor da <i>Historia Geral do -Brazil</i> provou a importancia do estudo das linguas indigenas -n’uma <i>Memoria</i> impressa entre as actas do <i>Instituto -Historico do Rio de Janeiro</i>. (Agosto 1840.)</p> - -<p>O padre Anchieta, a quem se deve a composição da primeira -grammatica, conhecida, da lingua geral, não fallava o -Tupy sem uma especie de enthusiasmo; o padre Figueira o -imitou em sua sincera admiração; Laet, com quanto não -manifestasse admiração gabou sua abundancia e doçura, e -nisto foi seguido por Bettendorf.</p> - -<p>Pode dizer-se, que entre todos estes foi o padre Araujo -quem melhor fez sobresahir sua importancia debaixo do ponto -de vista philosophico.</p> - -<p>«Como foi, disse algures esse Religioso, que os povos, que -a fallaram, tendo suas ideias limitadas em estreito circulo de -objectos, todos necessarios embora á seo modo de vida, podessem -conceber signaes representando idéas, capazes de -indicar o objecto, que não conheciam antes, e isto não de -qualquer forma, e sim com propriedade, energia e elegancia», -accrescentando «sem ter ideia alguma da religião, a -não ser da natural, encontraram em sua propria lingua expressão -para patenteiar toda a sublimidade dos mysterios da -religião, e da Graça, sem pedir emprestado coisa alguma aos -outros idiomas.»</p> - -<p>Enganar-se-ia completamente quem julgasse estar hoje -esquecida a lingua usada entre tribus numerosas quando em -1500 Pedro Alvares Cabral descobrio o Brasil.</p> - -<p>Deixou não só vestigios na Geographia do Brazil, mais -tambem ainda hoje se falla n’algumas aldeias, tendo -estreita affinidade com o <i>Guarany</i>, lingua usada na mór -parte do Paraguay. Comtudo não é a mesma do seculo -XVI.</p> - -<p>Modificam-se os idiomas dos povos selvagens á similhança -dos idiomas dos povos civilisados, e ainda mais talvez -quando uma corrente de ideias novas vem desvial-os da -liberdade do seo andar.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_379"></a>[379]</span></p> - -<p>O <i>Maya</i>, o <i>Quiché</i>, o <i>Aztéco</i>, o <i>Quichua</i>, o <i>Aymara</i> não -são o que foram no tempo de Cortez, de Alvarado, e de Pizarro.</p> - -<p>Si o sabio Veytia podesse, ha perto de um seculo, -confrontar a differença enorme, que apresenta o Nahuatl -antigo com o que fallavam muitas pessoas do seo tempo, -imagine-se o que não succederia quando se fizesse a -mesma confrontação entre a lingua Tupy, e o moderno -Guarany.</p> - -<p>Esta ultima lingua, tão em uso no Paraguay, não é mais -fallada com a pureza da sua origem, segundo diz o Sr. -Beaurepaire de Rohan, si não pelos <i>Cayuas</i>, das nascentes -de Iguatiny.</p> - -<p>São pois mui preciosos todos os livros, que tratam da -lingua antiga debaixo do ponto de vista grammatical.</p> - -<p>Debaixo d’este ponto de vista, as viagens d’Hans Staden, -de Thevet, e de Lery tem mais valor do que as Relações de -Claudio d’Abbeville e Ivo d’Evreux.</p> - -<p>Acham-se todos os promenores apreciaveis á este respeito -no nosso opusculo publicado sob este titulo—<i>Une fête bresilienne -célébrée á Rouen en 1550. Suivie d’un fragment -du XVI siécle roulant sur la Théogonie des anciens peuples -du Brésil e des poésies en langue Tupique de Christovam -Valente</i>. Pariz, Techener, 1850, gr. em 8.º</p> - -<p>O sabio Hermann E. Ludewig não conheceo o vocabulario -apresentado pelo padre Ivo, ou pelo menos não tratou d’elle. -(Vide <i>The literature of American aboriginal languages</i>. London, -1857, in 8.)</p> - -<p>Finalmente tem se feito n’estes ultimos tempos trabalhos -de tanto folego, merecendo o primeiro lugar os do illustre -<i>Martius</i>.</p> - -<p>Um distincto litterato brazileiro, o Dr. Gonçalves Dias, -que já publicou em <i>Leipzig</i> o <i>Diccionario da lingua Tupy</i> -(1858) foi de novo estudal-o nas profundas florestas do -Amazonas.</p> - -<p>A philologia brasileira ainda fará grandes progressos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_380"></a>[380]</span></p> - -<h3><a id="Note_43" href="#Nanchor_43">43</a> (pag. 94).</h3> - -<p>Aqui ha falta sensivel em nosso texto, por ter indubitavel -o nosso viajante occupar-se largamente d’uma raça, -que com os <i>Morobixabas</i> representam o papel principal na -vida civil e politica dos Brasileiros.</p> - -<p>Simão de Vasconcellos nas suas—<i>Noticias do Brasil</i>—nada -deixa a desejar a tal respeito, e para elle enviamos -nossos leitores, observando apenas que os <i>Piayes</i>, os <i>Pagé</i> -ou <i>Pagy</i> somente alcançavam a prodigiosa influencia, que -gozavam, submettendo-se á experiencias e a jejuns tão rigorosos -a ponto de arriscarem sua vida, obtendo finalmente o -titulo, que tanto ambicionavam.</p> - -<p>São as mesmas essas provas ou experiencias desde a embocadura -do Orenoco até as do Rio da Prata.</p> - -<p>Quando o candidato estava ja muito enfraquecido pelo jejum, -entregavam-no ás mordiduras das formigas, abarrotavam-no -de bebidas asquerosas, cuja base era o succo do tabaco, -e algumas vezes defumavam-no a ponto de perder os -sentidos.</p> - -<p>Si resistia a taes supplicios, era igual senão superior aos -guerreiros.</p> - -<p>Deixou-nos Vasconcellos a respeito do que se pode chamar -<i>Collegio dos Piagas</i>, á similhança do <i>Collegio dos Druidas</i>, -certas particularidades muito minuciosas, applicaveis -principalmente ás Provincias do Sul.</p> - -<p>No Norte os <i>Pages Aybas</i> eram os feiticeiros afamados astrologos, -ou melhor <i>tempestuosos</i>, a que nada podia resistir. -Sob sua dependencia estavam os astros, e sob sua obediencia -o sol e a lua para cumprir suas ordens: desencadeiavam -os ventos e levantavam tempestades. Os mais ferozes animaes, -como as onças e jacarés, obedeciam-no.</p> - -<p>Para alcançar aos olhos do publico tal poder recorria o -Pagé Aybas a um meio, que nunca falhou, isto, é a <i>herva -dos feiticeiros</i> ainda mais poderosa do que a da Europa, o -<i>Paricá</i>, cujos effeitos terriveis foram descriptos pelo Dr. Rodrigues<span class="pagenum"><a id="Page_381"></a>[381]</span> -Ferreira. (Vide <i>Memorias das Academias das Sciencias -de Lisboa</i>.)</p> - -<p>Mastigava-se o <i>Paricá</i>, e com isto fazia-se um unguento, -uzado para uncturas.</p> - -<h3><a id="Note_44" href="#Nanchor_44">44</a> (pag. 100).</h3> - -<p>Ha aqui um pequeno erro typographico, que convem corrigir: -leia-se pois <i>rocou</i>.</p> - -<p>Em toda a America Meridional costumavam os selvagens -tingir a pelle de vermelho alaranjado, ou de negro azulado -por meio do <i>rocou</i>, <i>Bixia Orellana</i>, ou <i>Genipapeiro</i> (<i>Genipa Americana</i>.)</p> - -<p>O Padre Ivo descrevendo com exactidão o fructo d’esta -arvore, em abundancia no Maranhão, diz—o summo claro, -e limpido que se extrahe della, fica muito negro logo depois -da sua applicação, e assim conserva-se por 9 dias (Vide -a este respeito <i>Humboldt</i>, <i>Voyage aux régions équinoxiales</i>.)</p> - -<h3><a id="Note_45" href="#Nanchor_45">45</a> (pag. 101).</h3> - -<p>Serve-se aqui Ivo d’Evreux de uma expressão impropria -designando pela palavra <i>Thon</i> o que se chama <i>bicho -de pé</i>, <i>niga</i>, <i>pulex penetrans</i>, dos entomologistas. Bem -pode ser que a palavra seja da <i>lingua geral</i>. Encontra-se -com a mesma accepção em Thevet, que a escreveo em 1558 -(Vide <i>France antarctique</i>. pag. 90). È muito conhecido -este insecto, e por isso desnecessario é demorarmo-nos descrevendo -os males, que produz. (Vide entre outros Naturalistas, -o veridico Auguste de Saint-Hilaire, <i>Voyage dans l’interieur -du Brésil</i>. T. 1.º pag. 35 e 36).</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_382"></a>[382]</span></p> - -<h3><a id="Note_46" href="#Nanchor_46">46</a> (pag. 106).</h3> - -<p>Realisou-se completamente a prophecia do bom Padre.</p> - -<p>Poucas são as regiões do mundo, que, como esta, tenham -sido exploradas em beneficio da sciencia.</p> - -<p>Alem das <i>Plantas uteis do Brazil</i>, devidas ao nunca assás -chorado Augusto de St. Hilaire, ha hoje a <i>Flora brasiliensis</i> -do illustre Martius, tambem autor da <i>Materia-medica</i> -deste paiz.</p> - -<p>Não desejamos cançar o espirito do leitor com uma arida -nomenclatura de livros especiaes.</p> - -<p>Contentamos-nos apenas dizendo, que muito tem os brazileiros -concorrido para estes trabalhos scientificos, citando -somente as <i>Memorias</i> do Dr. Freire Allemão, recentemente -publicadas, e a grande collecção, infelizmente não acabada, -da <i>Flora Fluminensis</i>.</p> - -<h3><a id="Note_47" href="#Nanchor_47">47</a> (pag. 108).</h3> - -<p>Esta molestia, tão cruel e tão similhante á syphilis, se -não é a propria syphilis, tambem acha-se descripta na <i>France -antarctique</i> de André Thevet, livro publicado em 1558 (vide -pag. 86). João de Lery tambem descreveo seos symptomas. -Está claro, que não se pode attribuir aos negros de Guiné -molestia tão geral entre os Americanos.</p> - -<h3><a id="Note_48" href="#Nanchor_48">48</a> (pag. 114).</h3> - -<p>O Padre Ivo é rigorosamente exacto no que diz á respeito -dos funeraes dos Indios, e com elle concordam em tudo Lery -e Thevet, dando este ultimo uma excellente estampa representando -um Indio prestes a ser sepultado. (Vide pag. -82 v.)</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_383"></a>[383]</span></p> - -<h3><a id="Note_49" href="#Nanchor_49">49</a> (pag. 114).</h3> - -<p>Não se esqueciam os Tupinambás de collocar, entre as suas -singulares previsões para o morto, um pouco de tabaco, carne, -peixe, raizes de cará e de farinha de mandióca. É rigorosamente -verdadeiro tudo o que o padre Ivo conta n’este capitulo, -como se pode vêr nas estampas que apresentam Thevèt -na <i>France antarctique</i>, e Lery na sua <i>voyage</i>.</p> - -<h3><a id="Note_50" href="#Nanchor_50">50</a> (pag. 117).</h3> - -<p>Os Tapuytapéras, cujo nome deviam á uma localidade do -Maranhão, tinham cabellos cumpridos. Pertenciam á raça -Tupy, pois que <i>Migan</i>, o interprete natural de Dieppe, entendia -sua linguagem, e o mesmo succedia aos de Commã, -cuja aldeia tinha indios com este nome.</p> - -<p>Os Cahetés, no seculo XVI, constituiam uma nação essencialmente -bellicosa occupando a maior parte do territorio de -Pernambuco. Fallavam a lingua Tupica, ou <i>lingua geral</i>. Encontram-se -as mais curiosas particularidades á respeito de sua -organisação interna no <i>Roteiro do Brasil</i>, manuscripto existente -na Bibliotheca Imperial de Pariz.</p> - -<p>Hoje está sabido, que este livro, tão notavel, composto -em 1587 por Gabriel Soares, é o trabalho mais completo, -que existe sobre as diversas tribus do Brasil existentes no -tempo do padre Ivo.</p> - -<p>Passados muitos annos a Academia Real das Sciencias de -Lisboa, reconhecendo a sua importancia, imprimio-a nas suas -<i>Noticias das nações ultramarinas</i>, e depois o Sr. Francisco -Adolpho de Varnhagem, colleccionando todas as copias -d’esta mesma obra, embora sob diversos titulos, publicou -uma nova edicção superior á todas, sob o titulo de <i>Tratado -descriptivo do Brasil em 1587, obra de Gabriel Soares de -Sousa, senhor de engenho na Bahia, nella residente dezesete -annos, seo vereador da Camara</i>. <i>Rio de Janeiro.</i>—1851 -em 8.º</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_384"></a>[384]</span></p> - -<h3><a id="Note_51" href="#Nanchor_51">51</a> (pag. 118).</h3> - -<p>O padre Ivo quando quer designar o tubarão, escreve impropriamente -<i>requin</i>, quando na primitiva era <i>requiem</i>. -Pode bem ser, que o nome imposto a este peixe tão voraz -provenha da rapidez com que mata.</p> - -<h3><a id="Note_52" href="#Nanchor_52">52</a> (pag. 120).</h3> - -<p>O <i>Maracá</i> era um instrumento symbolico, usado tanto nas -festas religiosas como nas profanas. Thevet, o guarda das -curiosidades do Rei, o descreveo muito bem em seos manuscriptos, -inedictos, e como sei que não será desagradavel -para aqui transcrevo as suas palavras:</p> - -<p>Tendo nas mãos um ou dois <i>maracás</i>, que é um fructo -grande, de forma oval, similhante ao ovo de abestruz, e -da grossura de uma abobora, mais agradavel á vista do que -ao paladar, pelo que ninguem o come, fazem com elles -muitos mysterios e superstições tão extravagantes como incriveis. -Cavam o fructo, enchem-no de milho graudo, amarram-no -a ponta de uma haste, enfeitam-no com pennas e -enterrando a outra ponta, fica ella em pé. Cada casa tem -um ou dois Maracás, que respeitam como si fosse <i>Tupan</i>, -trazendo-o sempre na mão, quando dançam e fazendo chocalhar.</p> - -<p>Pensam que é <i>Tupan</i> que lhes falla (Manuscripto de André -Thevet, conservado na Bibliotheca Imperial de Pariz.)</p> - -<p>Hans Staden e Lery, Roulox Baro escreveram largas paginas -a respeito do Maracá, e o proprio Malherbe falla dos que -ouvio em Paris por occasião do baptismo de tres indios sendo -padrinho Luiz XIII.</p> - -<p>Chegando a Pariz, e residindo no Convento dos seos protectores, -os indios revestidos dos seos bellos adornos, e com -o <i>maracá</i> em punho, excitaram muito enthusiasmo, a ponto -de haver muita paixão pela sua dança e pela sua propria -musica.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_385"></a>[385]</span></p> - -<p>Seria muito curioso si hoje se achasse a Sarabanda composta -em honra d’elles pelo famoso Gauthier. Malherbe escreveo -ao celebre Peirese dizendo tel-a mandado á Marco -Antonio «como excellente peça digna de ouvir-se» (Vide -<i>Correspondance</i>, pag. 285, antiga edicção.)</p> - -<p>Ainda, passadas 12 paginas Malherbe tratou da musica -então em voga, e do seo auctor, dizendo «ser Gauthier considerado -o primeiro no officio, ignorando porem si sahira -bem, e si o gosto da Provincia se conformará com o da -Côrte.»</p> - -<p>Não se contentaram somente de proporcionar aos pobres -selvagens distracções ligeiras, pois procuraram obrigal-os a -residir em França.</p> - -<p>Diz o poeta pag. 275 «os Capuchinhos, para obsequiarem -completamente estes pobres selvagens, resolveram algumas -beatas a casarem-se com elles, e ja deram começo a excursão -d’este plano.»</p> - -<p>Emquanto porem eram bem acolhidos os guerreiros do -Maranhão, suas mulheres não gozavam iguaes favores.</p> - -<p>Uma certa Princesa cujo nome calla o poeta, manifestando -opinião singular, dizia «que para elles tinha muita satisfação -de dar-lhes casa e comida, mas que ás senhoras, suas -mulheres, não podiam ser senão...» bem me entendeis, e -por isso não podia recebel-as em sua casa.</p> - -<h3><a id="Note_53" href="#Nanchor_53">53</a> (pag. 120).</h3> - -<p>É mui curioso o saber-se, que esta expedição exploradora -ás margens do Mearim, reconheceo logo serem essas -terras essencialmente proprias para a plantação da -canna de assucar, a que se empregam todos os braços de -15 annos para cá, sendo esta revolução agricola devida -á influencia do Dr. Joaquim Franco de Sá. A charrua despresada -por tão longos annos hoje sulca este solo admiravel.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_386"></a>[386]</span></p> - -<h3><a id="Note_54" href="#Nanchor_54">54</a> (pag. 122).</h3> - -<p>Deve lêr-se <i>Mutum</i> sendo a especie mais pequena designada -pelo nome de <i>Mutum Pinima</i>. (Vide <i>Diccionario -Tupy</i> de Gonçalves Dias.)</p> - -<p>Trata-se aqui de Hocco <i>Crax Alector</i>, caça mui procurada.</p> - -<p>A imperial sociedade de acclimatação emprega actualmente -louvaveis exforços para naturalisar em França este passaro -do Brasil e da Goyana.</p> - -<h3><a id="Note_55" href="#Nanchor_55">55</a> (pag. 122).</h3> - -<p>É uma linda especie de periquito, conhecida no Brasil pelo -nome de <i>Tui</i>.</p> - -<p>Forma ás vezes bandos tão grandes a ponto de ser um -dos flagellos da agricultura.</p> - -<h3><a id="Note_56" href="#Nanchor_56">56</a> (pag. 123).</h3> - -<p>É a palmeira chamada—<i>Tucum</i>—pelos brasileiros.</p> - -<p>Consulte-se a magnifica <i>Monographia das palmeiras</i> por -Martius. O <i>Tucum</i> tem fibras verdes e macias, das quaes se -faz excellente fio, proprio para cordas.</p> - -<h3><a id="Note_57" href="#Nanchor_57">57</a> (pag. 123).</h3> - -<p>Ivo d’Evreux não hesita com sua sinceridade habitual a -formar um verbo derivado da lingua indigena.</p> - -<p>Desde as margens do Orenoco até as do Rio da Prata era -o <i>Cauim</i> preparado em grande quantidade.</p> - -<p>Tinha o mesmo nome em toda a parte esta especie de cerveja, -ou talvez melhor de cidra, quer fosse preparada com -milho mastigado pelas mulheres, quer com mandióca cajú -ou jabuticaba.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_387"></a>[387]</span></p> - -<p>Encontramos este fabrico e nome até entre os Araucans. -(Vide a importante obra, do Chili, do Sr. Claudio Gay.)</p> - -<p>A palavra <i>cauin</i> atravessou espaços immensos, são os -mesmos em toda a parte os processos para o seu fabrico, o -que prova estreito parentesco entre os povos mais distantes, -uns dos outros.</p> - -<p>Hans Staden, Lery, Thevet tem apontado seos abusos, e -chamamos a attenção dos nossos leitores para as suas curiosas -narrativas.</p> - -<p>O que os nossos antigos viajantes chamavam <i>Cauinage</i> -era afinal uma solemnidade, cujo sentido religioso não conhecemos.</p> - -<p>Precediam ou succediam estas orgias ás grandes expedicções.</p> - -<p>O «vinho da Europa» se chama hoje <i>Cauin Pyranga</i>, e -a aguardente tão fatal aos indios, <i>Cauin Tata</i>, «bebida de -fogo.»</p> - -<h3><a id="Note_58" href="#Nanchor_58">58</a> (pag. 123).</h3> - -<p>Descreve com minuciosa curiosidade João de Lery esta -festa solemne, na qual se infiltrava o <i>espirito de coragem</i>, -aos guerreiros prestes a partirem para uma expedição.</p> - -<p>Uma das estampas do seo livro representa até esta ceremonia.</p> - -<p>Entre todas as tribus da raça tupy o tabaco é considerado -como planta sagrada.</p> - -<p>Reunimos tudo que se sabia ha alguns annos á respeito -da origem do <i>Petum</i> na carta, que dirigimos a Mr. Alfredo -Demersay, sobre a introducção do tabaco em França, (Vide -<i>Etudes economiques sur l’Amerique meridionale. Du Tabac -du Paraguay</i>. Pariz. Guillamin. 1851 em 8.º)</p> - -<h3><a id="Note_59" href="#Nanchor_59">59</a> (pag. 125).</h3> - -<p>O nome d’esta nação tão pouco conhecida, e que se apresenta -á penna do padre Ivo, é uma garantia da exactidão -das suas narrações.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_388"></a>[388]</span></p> - -<p>Ainda em 1817 existiam alguns <i>Tramembez</i> entre os trabalhadores -brancos do Ceará: cultivavam mandióca e residiam -na villa de <i>Nossa Senhora da Conceição d’Almofalla</i>, -onde haviam muitas salinas. (Vide Ayres Casal, <i>Corographia -Brasilica</i>, T. 2º, pag. 235.)</p> - -<p>Gaba o padre Ivo o valor e a industria d’estes indios, inimigos -encarniçados dos Tupinambás.</p> - -<h3><a id="Note_60" href="#Nanchor_60">60</a> (pag. 125).</h3> - -<p>Tratamos d’este famoso indio quando elle se revestio do -commando.</p> - -<p>É a figura indigena mais predominante nas duas obras do -padre Claudio d’Abbeville e padre Ivo.</p> - -<p>Na <i>lingua geral</i> a palavra <i>japim</i> é o nome de um lindo -passaro, de pennas amarellas e negras, que anda em numerosos -bandos e que em toda a parte faz tão lindos ninhos.</p> - -<p>Pode tambem dar-se-lhe outra significação. <i>Japy</i> significa -na lingua indigena do Maranhão, «o choque, o golpe.» (Vide -Gonçalves Dias, <i>Diccionario</i>.) A primeira explicação é a -unica adoptada. Japy-uaçú era o que se chamava um <i>Mitagaya</i>, -um grande guerreiro.</p> - -<h3><a id="Note_61" href="#Nanchor_61">61</a> (pag. 126).</h3> - -<p>Deixa-se o padre Ivo levar muito pelas recordações da -Europa.</p> - -<p><i>Jeropary-açú</i>, de que tratam escriptores portuguezes, -nada tem de commum com um principe ou um rei, taes -como eram representados no novo-mundo por convenção hierarchica.</p> - -<p>Este erro ja havia sido anteriormente commettido por André -Thevèt na sua <i>França antartica</i> e na sua <i>Cosmographia</i>. -O historiador de Portugal, La Clede, que vivia no seculo -XVIII foi mais longe ainda na enumeração dos pomposos titulos, -que dá a alguns pobres chefes de tribus.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_389"></a>[389]</span></p> - -<h3><a id="Note_62" href="#Nanchor_62">62</a> (pag. 127).</h3> - -<p>Com o nome de <i>cabaças</i> conhece-se geralmente no Brasil -vasilhas ordinarias, feitas com o fructo da cabeceira.</p> - -<p>Em Venezuella chama-se <i>Tutumas</i>.</p> - -<p>Algumas destas vasilhas naturaes mostram delicados ornatos, -cores inalteraveis pela agua e grande brilho. (Vide a -este respeito Claudio d’Abbeville, <i>Histoire de la mission -des péres Capucins</i>.)</p> - -<h3><a id="Note_63" href="#Nanchor_63">63</a> (pag. 128).</h3> - -<p>É isto confirmado por Magalhães de Gandavo, o primeiro -escriptor portuguez, que escreveo uma historia regular do -Brasil em 1576.</p> - -<p>Este amigo de Camões recorda a expressão indigena de -que se serve o padre Ivo, porem não partilha sua opinião, -antes crê ser o ambar um producto vegetal formado no fundo -do mar. O que é certo é, que nos seculos XVI e XVII o encontro, -quasi sempre casual, de enormes pedaços de ambar, -arremeçados pelas ondas em praias não exploradas, -enriqueceo muita gente.</p> - -<h3><a id="Note_64" href="#Nanchor_64">64</a> (pag. 131).</h3> - -<p>Debalde procuramos este nome no livro de Ayres do Casal, -e no Diccionario de Milliet de Saint Adolphe.</p> - -<p>A região habitada pelos Cahetés de que trata, sabemos -com certesa ser na provincia de Pernambuco.</p> - -<p>A palavra <i>Cahetés</i> significa <i>floresta grande</i>, e se applica a -diversas localidades.</p> - -<p>Foram os <i>Cahetés</i>, que em 1556 mataram e devoraram o -primeiro Bispo do Brasil, D. Pedro Fernandes Sardinha.</p> - -<p>Este sabio prelado, natural de Setubal, e educado na universidade -de Pariz, regressava á Lisboa, onde ia queixar-se -do governador da Bahia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_390"></a>[390]</span></p> - -<p>Mostra-se ainda hoje a colina, onde elle morreu, e não -cresce ahi planta alguma, segundo a crença do povo. (Vide -Adolpho de Varnhagem—<i>Historia Geral do Brazil</i>.)</p> - -<p>O livro de Gabriel Soares contem tudo quanto se deseja á -respeito dos Cahetés, indios considerados geralmente como -invensiveis guerreiros, e que se gabavam de habeis musicos.</p> - -<p>A exploração do <i>Uarpy</i>, de que aqui se trata, e emprehendida -pelo Sr. de Pezieux é uma prova evidente do cuidado, -que havia de explorar-se esta região, percorrendo-se -de N. a S.</p> - -<h3><a id="Note_65" href="#Nanchor_65">65</a> (pag. 131).</h3> - -<p>Estas minas de oiro, que se esperava encontrar no Maranhão -em 1613, existem hoje na serra de <i>Maracassumé</i>.</p> - -<p>Encontra-se o metal precioso sobre tudo em <i>Piranhas</i>, -(districto de <i>Santa Helena</i>) nas cabeceiras dos rios Pindaré, -Gurupy, Cabello de Velha (<i>Cururupu</i>) Prata (Santa Helena) -na Revirada, nas margens do Tomatahy, etc., etc., porem -em pequena porção.</p> - -<p>Existe cobre na Chapada no lugar <i>Fazendinha</i> e no Alto -Pindaré.</p> - -<p>Ferro existe em mais lugares, nos montes de Tirocambo -e em Pastos-Bons.</p> - -<p>Suppõe-se haverem minas de estanho, porem ainda não -se sabe com certesa.</p> - -<p>Encontra-se tambem o carvão de pedra, precioso mineral -no estado actual da industria: depararam-se ja com alguns -indicios no canal do Arapapahy, e affirma-se haver uma mina -na distancia de meia legoa do Codó, na fazenda de Santo -Antonio, cujas amostras provam ser de superior qualidade. -Dizem haver tambem em Vinhaes.</p> - -<p>Em Sam José dos Mattões encontram-se cristaes de rocha -e pedras semi-preciosas, e saphiras em Sam Bernardo da -Parnahyba.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_391"></a>[391]</span></p> - -<p>De passagem lembramos que as primeiras minas de ouro, -ou para melhor dizer, os primeiros veios de ouro, destinados -a enriquecerem o Brasil, somente foram descobertos em -Minas-Geraes, no anno de 1595.</p> - -<p>Pelas Provincias do norte não conheceo a Metropole as -riquezas metalicas d’este vasto territorio, onde desemboccam -o <i>Rio doce</i>, e o <i>Jequitinhonha</i>.</p> - -<p>Sabe-se que este ultimo rio que toma o nome de Belmonte -na occasião em que se lança no mar, pouco distante do primeiro, -com o andar dos tempos deo á corôa enorme quantidade -de diamantes.</p> - -<p>Estas pedras, encontradas em 1729, principalmente no -valle cercado de alcantiladas rochas, chamado pelos indios—<i>Ivitur</i>, -e pelos portuguezes—<i>Serro do Frio</i>, não eram -completamente despresadas pelos indios, pois seos filhos as -ajuntavam, e com ellas brincavam.</p> - -<p>No Maranhão não ha diamantes.</p> - -<h3><a id="Note_66" href="#Nanchor_66">66</a> (pag. 141).</h3> - -<p>Mostra-se o padre Ivo aqui mui parco em suas descripções, -porem deve-se desculpal-o por não ser naturalista como um -theologo do seo tempo. Foi ainda mais parco o seo predecessor.</p> - -<p>O que disse de algumas plantas do genero <i>mimosa</i> indica -a sua preoccupação á respeito de certos phenomenos naturaes.</p> - -<p>As qualidades maleficas, que reconhece no succo do Cajú, -de que se fabrica uma especie de cidra, são mui exageradas.</p> - -<p>Diremos de passagem, que a palavra <i>Cauin</i> deriva-se -do nome indigena d’esta arvore. <i>Caju-y</i>, licor de <i>Caju</i>.</p> - -<h3><a id="Note_67" href="#Nanchor_67">67</a> (pag. 145).</h3> - -<p>Á flor da paixão (<i>Grenadilla cœrulea</i>) na qual a imaginação -prevenida encontra santos attributos, gozava então de<span class="pagenum"><a id="Page_392"></a>[392]</span> -prodigioso favor. Foi descripta em varias obras, e gravada -exagerando-se os pontos de similhança, que podia ter com -os instrumentos do supplicio de Jesus Christo.</p> - -<p>Ivo d’Evreux encontrou nos campos do Brasil magnificas -flores d’estas, e mostrou-as aos amadores. Alguns annos -depois elle se teria aproveitado da descripção poetica, que -d’ella fez o poeta popular Santa Rita Durão no poema intitulado -<i>Caramuru</i>.</p> - -<p>Lembramos aos amadores de flores phantasticas uma gravura -do seculo XVII, mui curiosa, mostrando a planta com -o seo tamanho natural na obra <i>Antonii Possevini Mantuani -Societatis, Jesu cultura ingeniorum, examen ingeniorum -Joannis Huartis. Expenditur Coloniæ Agrippinæ</i>. 1610 -em 12.</p> - -<h3><a id="Note_68" href="#Nanchor_68">68</a> (pag. 146).</h3> - -<p>O guará (<i>Ibis rubra</i>, ou <i>Tantalus ruber</i>) desappareceo -em parte de varias localidades do littoral, onde costumava -expandir sua brilhante plumagem, sujeita, conforme a idade, -a diversas modificações.</p> - -<p>Na obra curiosa de Hans Staden, publicada na Allemanha -em 1557, vê-se qual é o papel, que representa esta ave na -industria indigena.</p> - -<p>Formavam os Tupinambás em tempo certo verdadeiras expedições -para procurar as pennas d’ellas, sempre raras, afim -de servirem nas festas com que as tribus se obsequiavam -reciprocamente.</p> - -<p>Em caso de necessidade eram substituidas por pennas de -gallinhas, tinctas com uma preparação vermelha de <i>Ibirapitanga</i>, -ou pau-brasil.</p> - -<p>Actualmente refugiou-se o guará nas margens, pouco frequentadas, -do rio de Sam Francisco, e principalmente nas -desertas regiões do Rio Negro. Ainda tambem encontram-se -algumas na <i>lagoa dos patos</i>, e em <i>Guaratuba</i>. (Vide <i>le second -voyage d’Aug. St. Hilaire</i>. T. 2º, pag. 222.)</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_393"></a>[393]</span></p> - -<h3><a id="Note_69" href="#Nanchor_69">69</a> (pag. 152).</h3> - -<p>É impossivel aos que não leram as obras da idade media -interpretar bem o sentido d’esta frase.</p> - -<p>O livro conhecido sob o nome de <i>Phisiologus</i> gozava ainda -de certo credito no tempo do padre Ivo de Evreux. Quem -quizer informar-se d’isto minuciosamente leia o precioso resumo -d’esta curiosa obra, publicada pelos Rvds. padres Cahier -e Martin, sob o titulo <i>Melanges d’Archéologie, d’histoire -et de litterature</i>. 4 vol. in-fol.</p> - -<h3><a id="Note_70" href="#Nanchor_70">70</a> (pag. 156).</h3> - -<p>As mulheres Tupinambás, que assim cantavam para attrahir -as formigas, e activar a caça d’estes insectos, não o faziam -somente para destruil-as, ou para resguardar suas plantações -de milho de uma invasão invencivel.</p> - -<p>As formigas grandes torradas eram consideradas como -uma das golodices mais preciosas, cuja receita foi por ellas -ensinada a alguns colonos do Sul, e sem duvida não será -desputada pelos nossos modernos Brillat Savarin.</p> - -<p>Assim como os Arabes comem ainda hoje gafanhotos, conservados -em sal ou pela dissecação, e os Guaraons das margens -do Orénoco apreciam muito as larvas da palmeira Muriti -(não fallando de outra comida da terra do mesmo genero), -assim tambem os nossos selvagens guardam grandes -provisões d’estes insectos para sua nutrição.</p> - -<p>Augusto de Saint-Hilaire, o mais verdadeiro viajante, que -percorreo o Brasil, achou ainda em vigor o costume de se -comer formigas assadas.</p> - -<p>Depois de ter affirmado ser muito apreciado esse manjar -no Espirito Santo, pelo que os habitantes de Campos, sempre -rivaes dos da Cidade da Victoria, os chamavam <i>Tata -Tanajuras</i>, «comedores de formigas», accrescentou «eu -mesmo comi um prato d’estes animaes, preparados por uma<span class="pagenum"><a id="Page_394"></a>[394]</span> -mulher Paulista, e não lhes achei mau gosto.» (Vide <i>Le second -voyage au Brésil</i>. T. 2.º pag. 181).</p> - -<p>Martim Soares de Souza, com rasão chamado o Gregorio -de Tours dos Brasileiros, é mais claro a respeito do proveito -que os indios tiravam das formigas como alimento.</p> - -<p>Copiamos aqui o que elle tão curiosamente disse. Depois -de haver fallado da especie grande, a que chamam Içans, -escreveo—«<i>E estas formigas comem os indios, torradas sobre -o fogo, e fazem-lhe muita festa; e alguns homens brancos -andam entre elles, e os mistiços as tem por bom jantar, -e o gabam de saboroso, dizendo que sabem a passas -de Alicante: e torradas são brancas dentro.</i>»</p> - -<h3><a id="Note_71" href="#Nanchor_71">71</a> (pag. 156).</h3> - -<p>O pretendido cão, de que aqui falla o nosso Missionario, -está muito longe da raça canina: é apenas o <i>papa-formigas</i>, -chamado pelos indigenas <i>tamanduá</i>, e pela sciencia <i>Myrmecophaga -jubata</i>.</p> - -<p>O naturalista Waterton, que com tanta curiosidade estudou -os quadrupedes do novo mundo nos proprios lugares, -onde com plena liberdade se entregam aos seos instinctos, -fez excellente descripção d’este animal.</p> - -<p>Ha no Brasil muitas especies de papa-formigas, sendo rarissima -a chamada pelos portuguezes <i>Tamanduà-cavallo</i>: -parece ter sido este sobrenome o causador de haver o padre -Claudio d’Abbeville errado, quando disse ser o <i>papa-formigas</i> -do tamanho de um cavallo.</p> - -<p>A palavra india, que designa este curioso animal, é composta -de duas Tupis—<i>taixi</i>, «formiga,» e <i>mondê</i> ou <i>mondâ</i>, -«tomar.»</p> - -<h3><a id="Note_72" href="#Nanchor_72">72</a> (pag. 157).</h3> - -<p>Deve escrever-se <i>Taranyra</i>, cujo nome pertence a um -pequeno lagarto. Falla-se aqui do <i>Tiú</i> (<i>Tupinambis monitor</i>).</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_395"></a>[395]</span></p> - -<p>É excellente a carne d’este reptil, e muito havia de concorrer -para tornal-a saborosa a preparação culinaria tão gabada -pelo Padre Ivo d’Evreux.</p> - -<p>A repugnancia d’esse bom Padre para taes comidas, não -é de fórma alguma partilhada pelos descendentes dos Europeos, -acostumados ás melhores mezas.</p> - -<p>A carne de Tui pela sua côr e maciesa muito assimilha-se -á da gallinha mais preciosa, e por isso apparece nas melhores -mezas do Brasil.</p> - -<h3><a id="Note_73" href="#Nanchor_73">73</a> (pag. 162).</h3> - -<p>O nosso autor quer fallar da <i>Aranha caranguejeira</i>, (<i>Aranea -avicularia</i>) porem aqui enganou-se. Exagera muito as -dimensões d’este insecto, na verdade nojento, como se pode -vêr em todas as collecções de entomologia. Não é verdade -dizer-se que não fabricam fios para suas teias: a sua picada -não mata, porem envenena. Na lingua Tupy chama-se <i>Nhandu-Guaçu</i> -ou de <i>Jandu</i>.</p> - -<h3><a id="Note_74" href="#Nanchor_74">74</a> (pag. 163).</h3> - -<p>O que nos diz o bom Religioso do barulho da cigarra denota -gosto de observação na historia natural, muito raro n’aquella -epoca, mas convem não confundir a cigarra brasileira -com o insecto assim chamado na Europa.</p> - -<h3><a id="Note_75" href="#Nanchor_75">75</a> (pag. 165).</h3> - -<p>Na lingua <i>Tupi</i> escreve-se <i>Okiju</i>. (Vide <i>Martius</i>, <i>Glossaria -ling. bras.</i> pag. 465).</p> - -<h3><a id="Note_76" href="#Nanchor_76">76</a> (pag. 168).</h3> - -<p>Ivo d’Evreux confesse-se, está aqui muito inferior á seo -contemporaneo o Padre du Tertre.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_396"></a>[396]</span></p> - -<p>É verdade porem tudo quanto elle diz da luz dos <i>pyrilampos</i>.</p> - -<p>A entomologia estava então muito pouco adiantada para -que houvesse uma classificação entre os insectos, e não temos habilitações para preencher esta falta. Actualmente conhece-se -no Brazil oito especies de pyrilampos a saber:</p> - -<ul> -<li><i>Lampyris crassicornis</i>,</li> -<li><i><span class="ditto">«</span> signaticollis</i>,</li> -<li><i><span class="ditto">«</span> concoloripennis</i>,</li> -<li><i><span class="ditto">«</span> fulvipes</i>,</li> -<li><i><span class="ditto">«</span> diaphana</i>,</li> -<li><i><span class="ditto">«</span> hespera</i>,</li> -<li><i><span class="ditto">«</span> nigra</i>,</li> -<li><i><span class="ditto">«</span> maculata</i>.</li> -</ul> - -<p>Pode tambem juntar-se a estes lindos insectos a <i>lucidota -thoraxica</i>.</p> - -<h3><a id="Note_77" href="#Nanchor_77">77</a> (pag. 169).</h3> - -<p>É muito exacto, e as abelhas do Brazil não tem aguilhão: -eis o que diz um observador sabio e veridico.</p> - -<p>Depois de haver affirmado, como o Padre Ivo, que as -abelhas não picavam, disse Augusto de Saint Hilaire «uma -especie chamada <i>tataira</i> deixa, segundo dizem, escapar pelo -anus um liquido ardente; e por isso é só á noite que se colhe -o seo mel.»</p> - -<p>As especies chamadas <i>uruçú-boi</i>, <i>sanharó</i>, <i>burá</i>, <i>bravo</i>, -<i>chupé</i>, <i>arapua</i> e <i>tupi</i> se defendem, quando são atacadas, -mas parece não terem aguilhão, limitando-se a morderem -como fazem as outras.</p> - -<p>É muito liquido o mel das diversas especies, e a cera -tem a côr parda muito carregada, não se podendo até hoje -conseguir tornal-a branca, como a da Europa.</p> - -<p>Spix e Martius dão curiosas informações a respeito d’estes -uteis insectos, que completam as do nosso grande botanico.<span class="pagenum"><a id="Page_397"></a>[397]</span> -(Vide <i>Voyage dans les provinces do Rio de Janeiro e de -Minas Geraes</i>. T. 2.º, pag. 371 e seguintes.)</p> - -<h3><a id="Note_78" href="#Nanchor_78">78</a> (pag. 176).</h3> - -<p>Não ha talvez no mundo região alguma, que tenha maior -variedade de macacos do que o Brazil.</p> - -<p>Creio que aqui se trata primeiro da <i>guariba</i>, ou <i>mycetes -ursinus</i>, e depois do macaquinho <i>stentor</i>, que intentou descrevêr -o nosso bom Missionario.</p> - -<p>É provavelmente d’esta especie a descripção tão agradavel -e tão animada, feita pelo nosso velho escriptor.</p> - -<p>Convem observar porem que o Padre Ivo fez-se echo de -uma crença popular muito vulgar no seculo XVI.</p> - -<p>Esta especie de legenda das florestas, muito mais applicavel -aos macacos da Africa e da Asia do que aos do novo-mundo, -não se extinguio ainda de todo nos campos da America -Meridional, e mostraram a M. Castelnau uma india, que -julgava ter escolhido seo marido entre os macacos das florestas -(Vide <i>Expedition dans les parties centrales de l’Amérique -du sud, de Rio de Janeiro á Lima et de Lima au -Pará, exécutée par ordre du governement français</i>. Paris -1851, <i>partie historique</i>. 5 vol. in 8.º)</p> - -<h3><a id="Note_79" href="#Nanchor_79">79</a> (pag. 177).</h3> - -<p>Basta ter-se vivido nas florestas habitadas por macacos -para conhecer-se a exactidão do que escreveo o Padre Ivo.</p> - -<h3><a id="Note_80" href="#Nanchor_80">80</a> (pag. 180).</h3> - -<p>Ha aqui com certesa erro, ou então exageração.</p> - -<p>O Padre Claudio d’Abbeville, que descreve a mesma ave -de rapina (pag. 232) julga ser elle «duas vezes mais corpolento -do que a aguia, ter a perna da grossura de um braço, -e a pata em fórma de unhada.»</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_398"></a>[398]</span></p> - -<p>Poderia ser esta descripção do Condor, porem não existe -esta ave na America do Sul.</p> - -<p>Diz o Coronel Ignacio Accioli ter o <i>gavião real</i> tanta força -a ponto de fazer parar em sua carreira um viado por mais -forte que seja.</p> - -<p>É tão phantastica a descripção do Padre Ivo, que á primeira -vista se pode applical-a ao abestruz americano de -<i>Nandú</i>, que se encontra somente no Ceará e Piauhy.</p> - -<p>Um escriptor contemporaneo, Gabriel Soares, tantas vezes -citado, restabelece a verdade fallando do <i>Ura-açu</i> disse -«são passaros, como os milhafres de Portugal, sem differença -alguma, negros e de azas grandes, de cujas pennas -utilisam-se os indios para emplumarem suas flexas, e vivem -de rapina.» (Vide <i>Tratado descriptivo do Brasil em 1587</i>. -Rio de Janeiro.—1851 1.º vol. in 8.º pag. 232.)</p> - -<p>Lembramos de passagem, que debaixo do ponto de vista -scientifico a parte ornithologica é muito imperfeita, embora -a bellesa do estylo do nosso velho viajante.</p> - -<p>O que diz, por exemplo, o Padre Ivo do passaro mosca, -ou do colibri, é inteiramente inexacto, pois elle não tem o -tal canto agudo, que faz lembrar o grito da cotovia.</p> - -<p>Confundiram-se as recordações com a distancia.</p> - -<h3><a id="Note_81" href="#Nanchor_81">81</a> (pag. 181).</h3> - -<p>Ivo de Evreux quer dizer, que os Indios se <i>fazem galans</i>, -preparando-se com pennas de papagaios.</p> - -<p>Faziam os Tupinambás com estas pennas não só mantos, -diademas e perneiras, mas tambem cortavam bem miudinhas -as pennas pequenas e coloridas d’estes passaros, e -cobriam com esta pennugem o corpo, e n’elle grudavam-na -com certa gomma.</p> - -<p>Este enfeite selvagem e singularmente original ainda é -muito usado e apreciado em certas tribus.</p> - -<p>Segundo conta João de Lery durou mais de tres seculos.</p> - -<p>A viagem pittoresca de Debret apresenta uma amostra.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_399"></a>[399]</span></p> - -<h3><a id="Note_82" href="#Nanchor_82">82</a> (pag. 185).</h3> - -<p>Basta, é bastante. Os hespanhóes e os portuguezes conservaram -a palavra <i>bastar</i>.</p> - -<h3><a id="Note_83" href="#Nanchor_83">83</a> (pag. 185).</h3> - -<p>Já pagamos justo tributo de saudade a este Religioso, tão -cheio de bondade como de zelo, cuja sepultura no antigo -cemiterio do pequeno Convento não é sabida em Maranhão.</p> - -<p>Como indica o seo sobrenome de Religião, nasceo o Padre -Ambrosio na Capital da Picardia, «de parentes abastados, -diz o manuscripto dos elogios, e que lhe deram educação -conforme permittiam seos negocios.»</p> - -<p>Depois de haver estudado na Sorbona, quando estava -prestes a receber a sua carta de licenciado, foi abalado -pelas prédicas do Padre Pacifico de São Gervasio, e entrou -no Convento em 1575, quasi no tempo da fundação do Mosteiro -de Santo Honorato.</p> - -<p>Em 1599 acabou seo noviciado, e com satisfação começou -a preencher as obrigações de irmão leigo.</p> - -<p>Cedo passou a prégador, e então adquirio essa fama de -caridoso, que o fez tão popular.</p> - -<p>Aspirava a mais do que isto, «porque queria converter -todas as Indias», diz a noticia a elle dedicada.</p> - -<p>O Padre Ivo cercava de todos os cuidados os seos confrades -quando emprehendiam viagens tão incommodas principalmente -n’aquelle tempo.</p> - -<p>Estava já muito enfraquecido, e sem forças, quando em -26 de setembro de 1612 cahio doente, em sua pobre cabana -de pindoba.</p> - -<p>Ardente febre o devorava, e comtudo, ainda depois de -receber a extrema uncção, conservou em bom estado e sempre -firme o uso de suas faculdades intellectuaes.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_400"></a>[400]</span></p> - -<p>Transcrevamos aqui algumas palavras, que mostram qual -foi o fim de tão bom velho.</p> - -<p>Claudio d’Abbeville assim o conta:</p> - -<p>«Cahindo sobre elle um pequeno painel da Imagem de S. -Pedro, pendurado por cima de sua cama, e a que dedicava -profunda devoção, elle disse—vamos, grande Santo, partamos, -ja que vieste buscar-me.—</p> - -<p>«Dizendo isto olhou para o Crucifixo e após curta agonia -restituio ao Creador sua alma tão bôa em 9 de Outubro de -1612, dia da festividade do Glorioso Apostolo de França, S. -Diniz, Bispo de Pariz:</p> - -<p>«Foi sepultado no lugar chamado S. Francisco, consagrado -ao nosso Patriarcha, como premicias dos Capuchinhos -Francezes.» (Vide tambem «<i>Éloges historiques de tous les -illustres religieux capucins de la ville de Paris, les uns -par la prédication, les autres par les vertus et sainteté -de leurs œuvres, les autres par les missions parmy les -infidelles etc. etc.</i> sob numero <i>Capucin</i> Saint Honoré 4 -(ter).)»</p> - -<p>É para sentir-se e muito que se tenha perdido ha alguns -annos o 1.º vol. d’esta importante collecção, contendo os -Annaes da Provincia.</p> - -<h3><a id="Note_84" href="#Nanchor_84">84</a> (pag. 186).</h3> - -<p>Prova esta phrase tão rigorosa do velho missionario a rapidez, -com que se espalhou na Europa o <i>avati</i>, dos brasileiros, -o <i>milho</i> dos ilheos visto, bem como o tabaco, por -Christovão Colombo na primeira viagem em 1493.</p> - -<p>Levantaram os botanicos grande questão, ainda não resolvida, -sobre a origem primitiva do milho.</p> - -<p>Pelo que diz respeito ao Brasil citamos a opinião d’um -viajante, que por seu saber pode passar por authoridade.</p> - -<p>Augusto de St. Hilaire pensa ter nascido no Paraguay, -onde o vio em estado inculto.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_401"></a>[401]</span></p> - -<p>A cultura do milho é ao Sul d’America a planta nutritiva -por excellencia, e prepara-se sua farinha por processos simples, -e que dão optimo gosto.</p> - -<p>Enviamos nossos leitores, que desejam instruir-se de tudo -quanto se refere á esta graminea para o precioso livro do -Dr. Duchesne—<i>Traité complet du maüs ou blé de Turquie</i>. -Paris. Renouard, 1833 em 8º, e para a grande obra de M. -Bonafous.</p> - -<h3><a id="Note_85" href="#Nanchor_85">85</a> (pag. 187).</h3> - -<p>Falla aqui verdade o padre Ivo, porem não se segue que -ao norte do Brasil se possa fazer vinho.</p> - -<p>O maior obstaculo, que encontra este fabrico, está no amadurecimento -do fructo sob os tropicos.</p> - -<p>No mesmo cacho ao lado de muitas uvas maduras encontra-se -grande numero de verdes.</p> - -<p>È voz corrente ter-se feito algum vinho na visinhança da -Bahia.</p> - -<p>Caminhando-se para o sul, na região temperada de Mendoza, -a uva amadurece perfeitamente, e dá vinho precioso. -(Vide, entre outras viagens a respeito d’este ponto curioso de -agricultura americana—<i>Sallusti</i>, <i>Storia delle missione del -Chile</i>. 4. vol. em 8.º Padre Barrére. <i>Nouvelle Relation de -la France equinoxiale</i>. Paris, 1743. 1º vol. em 12, pags. -53 e 54.)</p> - -<h3><a id="Note_86" href="#Nanchor_86">86</a> (pag. 187).</h3> - -<p>Trata-se aqui do fio que se extrahe com abundancia de -uma especie de Ananaz. (<i>Ananas non aculeatus</i>, <i>Pitta dictus -Plum</i>.)</p> - -<p>Com elle os portuguezes faziam meias, quasi tão procuradas -como as de seda.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_402"></a>[402]</span></p> - -<h3><a id="Note_87" href="#Nanchor_87">87</a> (pag. 191).</h3> - -<p>Não se encontra esta palavra no Diccionario de Nicot, irmão -de Villemain.</p> - -<p>Podemos affirmar, que se deve escrever <i>hansares</i>—que -significa—uma foice de grande tamanho.</p> - -<h3><a id="Note_88" href="#Nanchor_88">88</a> (pag. 192).</h3> - -<p>Fazer certo sussurro expellindo com força o ar pelo nariz. -É expressão do povo, confundida no Diccionario da Academia -com a palavra—<i>renâcler</i> «roncar» usada trivialmente -no stylo familiar.</p> - -<h3><a id="Note_89" href="#Nanchor_89">89</a> (pag. 194).</h3> - -<p>São por Cardim muito bem pintadas essas recepções de -indios.</p> - -<p>Os brasileiros não podem preferir, na bellesa da narração -e no encanto das particularidades, senão um só viajante portuguez -á Ivo d’Evreux e á Claudio d’Abbeville, e é aquelle -cujo nome acabamos de proferir.</p> - -<p>Este escriptor agradavel porem muito conciso, pertence á -ordem dos jesuitas.</p> - -<p>Foi para o Brasil em 1583, e ahi ficou revestido de todas -as dignidades até o fim de 1618: soube portanto do estabelecimento -dos francezes ao Norte do Brasil, e certamente na -Bahia soube de sua expulsão, e sobre isto infelizmente nada -disse.</p> - -<p>Fernão Cardim estava em posição bem diversa da do padre -Ivo d’Evreux.</p> - -<p>Pelas costas do Brasil, onde elle se apresentava, submettiam-se -os indios ao christianismo, perdendo sua grandeza -primitiva e conservando a maior parte dos seos usos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_403"></a>[403]</span></p> - -<p>O Missionario francez ao contrario cathequisa os indigenas, -que combatem pela sua independencia contra seos conquistadores.</p> - -<p>Os dois bons missionarios tiveram ambos a mesma sincera -indulgencia e admiração para com os povos ainda na infancia, -aos quaes pregaram, e cuja prévidencia é o seo maior -e mais terrivel defeito.</p> - -<p>As cartas de Fernão Cardim foram felizmente descobertas -pelo incansavel autor da <i>Historia geral do Brasil</i>.</p> - -<p>O Sr. Francisco Adolpho de Varnhagem não pôz seo nome -n’esta preciosa publicação, honra que aqui lhe restituimos, -e a que tem direito como homem de saber e gosto.</p> - -<p>O opusculo de Fernão Cardim tem o titulo de <i>Narrativa -epistolar de uma viagem e missão jesuitica pela Bahia, -Ilheos etc etc.</i>—<i>Lisboa</i>, 1847, em 8.º de 123 paginas.</p> - -<p>Parece-me que o sabio edictor não se lembrou de haverem -preciosas informações á respeito de Cardim e dos missionarios -contemporaneos do Brasil n’um escriptor de Toulon -por nome Jarric. (Vide <i>La 2me partie des choses plus -memorables advenues tant aux Indes orientales que autres -pays de la découverte des Portugais en l’establissement de -la foi chrestienne et catholique etc. Bordeaux 1610</i> em 4.º -É dedicado a Luiz XIII. O que n’este livro se refere ao Brasil, -e particularmente ás regiões visinhas do Maranhão, -acha-se na pag. 248 até 359.)</p> - -<p>Morreo o padre du Jarric em 1609.</p> - -<p>Foi sua obra traduzida em latim, e impressa na Colonia -em 1615.</p> - -<p>Esta traducção, augmentada em alguns lugares, foi publicada -em 4 vol. em 8.º</p> - -<h3><a id="Note_90" href="#Nanchor_90">90</a> (pag. 194).</h3> - -<p>Ha quasi certesa de não ter o nosso bom missionario lido -a narração de André Thevet, publicada em 1558, e nem a<span class="pagenum"><a id="Page_404"></a>[404]</span> -viagem mais recente de João de Lery, cujas opiniões religiosas -deviam afastal-o d’essas obras.</p> - -<p>Comparando-se estes velhos viajantes entre si, facilmente -nota-se a similhança das narrativas.</p> - -<p>Eis o que disse João de Lery á respeito da recepção, que -lhe fizeram os Tupinambás.</p> - -<p>Descrevendo as ceremonias, que fazem os <i>Tuupinambaults</i> -para receberem seos amigos, que os vem visitar, -merece dizer-se em primeiro lugar, que apenas chega o viajante -a casa do <i>Mussacat</i>, isto é, do bom pae de familia, dá -de comer aos que por ahi passam, e que elle escolher para -seo hospede, facto que se hade praticar em toda e qualquer -aldeia, por onde se transitar, sob pena de cauzar enfado se -não é procurado immediatamente. Assenta-se depois n’uma -rede onde fica por algum tempo em silencio. Vêm depois as -mulheres, sentam-se no chão, tapam os olhos com as mãos -deplorando a bôa vinda d’aquelle, cujos louvores farão em -occasião apropriada.</p> - -<p>Por exemplo:—tiveste tanto trabalho para nos vêr; tu és -bom, e valente: si é um francez, ou outro qualquer estrangeiro, -accrescentam—trouxestes para nós tão bellas obras, -como aqui não temos, e immediatamente derramam muitas -lagrymas, e assim aplaudem e lisongeam.</p> - -<p>Si o recem-chegado assentado em seo leito quer pagar-lhes as -finezas, dizendo de sua parte coisas agradaveis, não -querendo porem chorar, (como eu sei alguns dos nossos, -que vendo as maneiras d’essas mulheres perante elles, foram -tão nescios, que as imitaram) devem ao menos por fingimento -exhalar alguns suspiros.</p> - -<p>Feitos assim estes primeiros cumprimentos pelas mulheres, -entra depois o <i>mussacat</i>, isto é, o velho dono da casa, que -fingirá durante um quarto d’hora não vos vêr (caricia mui opposta -ás nossas embaixadas, cumprimentos e apertos de mão á -chegada dos nossos amigos). Chega-se depois onde estaes, e -diz <i>ereiubé</i>, isto é, chegaste? etc. etc. (vide <i>Jean de Lery,<span class="pagenum"><a id="Page_405"></a>[405]</span> -istoire d’un voyage en la terre du Brésil</i>. Rouen, 1578, -em 8º, 1ª edicção.)</p> - -<h3><a id="Note_91" href="#Nanchor_91">91</a> (pag. 195).</h3> - -<p>Ha no Brasil um sapo de grande tamanho, a que se deo -o nome de «<i>sapo boi</i>.»</p> - -<p>Claudio d’Abbeville diz—«n’aquelle paiz encontram-se -uns sapos muito grandes a que chamam <i>cururu</i>. Alguns ha -que tem mais de um pé ou pé e meio de diametro: quando -são esfolados, é impossivel dizer-se quam branca é a sua -carne, e como são bons para comer-se. Vi alguns fidalgos -francezes comel-a com apetite.</p> - -<h3><a id="Note_92" href="#Nanchor_92">92</a> (pag. 203).</h3> - -<p>Mui visivelmente falla-se aqui da lenda brasileira relativa -a <i>Sumé</i>, o legislador dos Tupys.</p> - -<p>No curioso opusculo, que a respeito d’este personagem -publicou o Sr. Adolpho de Varnhagem, conta a sua chegada -á Ilha do Maranhão, e como desappareceo na occasião, em -que se preparavam todos para sacrifical-o.</p> - -<p>A palavra—<i>Maratá</i>—nos põe em embaraços, pois debalde -a procuramos em Ruiz de Montoya: é alteração da palavra -<i>Mair</i> ou <i>Maïr</i>, tantas vezes empregada por Lery e Thevèt, -para mostrar ou indicar um estrangeiro, ou uma pessoa extraordinaria. -Não podemos dar uma resposta satisfatoria. O -Sumé, que propaga a cultura da mandióca, é barbado.</p> - -<p>Diz-se com razão ser personagem analoga a Manco Capac -dos peruanos, e ao Quetzalcoalt dos Azetecas, e ao Zamma -da America Central. (Vide Adolpho de Varnhagem, <i>Historia -geral do Brasil</i>. T. 1º pag. 136, e <i>Sumé. Lenda mytho-religiosa -americana etc. agora traduzida por um Paulista de -Sorocaba</i>. Madrid, 1855, broch. in 8 de 39 pag.)</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_406"></a>[406]</span></p> - -<h3><a id="Note_93" href="#Nanchor_93">93</a> (pag. 205).</h3> - -<p>O verbo <i>cantar</i> na linguagem tupy é <i>Nheengar</i>. Um <i>Nheengaçara</i> -é um cantor propriamente dito.</p> - -<h3><a id="Note_94" href="#Nanchor_94">94</a> (pag. 220).</h3> - -<p>Parecerá estranho ao leitor serem os francezes comparados -n’este lugar aos Caraibas.</p> - -<p>Os que lerem com attenção as obras de Humboldt acharão -a chave d’este enigma. Os Caraibas do continente americano, -nação immensa, eram notaveis em toda a America -pelo seo valor e penetração. Seos piayas, ou antes seos feiticeiros -os elevavam acima de todas as outras nações: eram -no Novo Mundo o mesmo que os Chaldeos no velho. Simão -de Vasconcellos nos dá a prova d’esta supremacia intellectual: -no sul do Brasil os <i>Caraibe-bébé</i>, eram feiticeiros ou advinhadores -notaveis: assim se chamavam os homens intelligentes, -os espiritos, e os anjos, e depois tambem os estrangeiros. -O Sr. Adolpho de Varnhagem fez notar, que o nome -de <i>Carayba</i> foi em seo principio dado aos Europeos, sendo -todos os Christãos assim chamados. (Historia geral, pag. -312.)</p> - -<h3><a id="Note_95" href="#Nanchor_95">95</a> (pag. 220).</h3> - -<p>Um <i>Caramémo</i> é que se chama em Guyana um <i>Pagará</i>, -isto é, um paneiro leve, feito com folhas de certa palmeira -e ás vezes com bonita forma.</p> - -<p>Claudio d’Abbeville assim tambem o chama, quando descreveo -os utensilios de uma casa indigena. Barrère fez desenhar -este lindo <i>Specimen</i>.</p> - -<h3><a id="Note_96" href="#Nanchor_96">96</a> (pag. 226).</h3> - -<p>Ivo d’Evreux, familiarisado com todos os symbolos em -voga no seo tempo, não se esqueceo de uma graciosa alegoria<span class="pagenum"><a id="Page_407"></a>[407]</span> -na qual figura o Unicornio. Vide <i>Le Monde enchantée</i>, e -especialmente a dissertação intitulada <i>Revue de l’histoire de -la Licorne par un naturaliste de Montpellier</i>. (P. J. Amoreu.) -Montpellier Durville, 1818, em 8.º 47 pags.</p> - -<h3><a id="Note_97" href="#Nanchor_97">97</a> (pag. 239).</h3> - -<p>É sabido ser esse o nome, que aos portuguezes davam -os Tupinambás.</p> - -<p><i>Pero</i> quer dizer <i>cão</i> na lingua de Camões, mas suppõe-se -que o nome—<i>Pedro</i>—muito usado no Brazil, provinha de -tão estranha designação.</p> - -<p>Ayres Casal conta até á este respeito uma historiasinha, -recorrendo á tradicção, de como um serralheiro, chamado -Pedro, fôra arremeçado pelas ondas, após um naufragio, ás -praias do Maranhão. Graças a sua habilidade no trabalho do -ferro fez-se este homem agradavel aos indios, e seo nome -com pequena modificação servio d’ahi em diante para fazer -conhecidos os individuos, que se julgavam ser da sua raça.</p> - -<p>Em sua <i>Corographia</i> o Dr. Mello Moraes escreveo esta <i>legenda</i> -muito mais completa.</p> - -<h3><a id="Note_98" href="#Nanchor_98">98</a> (pag. 242).</h3> - -<p>Não se tem procurado esclarecer por meio de uma discussão -grammatical—esta parte do livro.</p> - -<p>Differenças mui sensiveis, produzidas pelo tempo e sobre -tudo pela pronuncia, fizeram este lugar para assim dizer indicifravel. -Nada é mais dificil do que traduzir pelos caracteres -da nossa escripta os sons das linguas indigenas. Essas -inflexões tão delicadas, e as vezes tão fugitivas, em sua apparente -rudeza são dificultosamente ffixadas no papel. Notou -Humboldt pertencerem ellas algumas vezes á certos caracteres -physicos das raças.</p> - -<p>As nações européas, as mais habituadas á estes estudos, -não percebiam da mesma fórma os sons, e nem os escreviam<span class="pagenum"><a id="Page_408"></a>[408]</span> -da mesma maneira: quando os portuguezes ouvem <i>Oca</i>, -por exemplo, ou então <i>Toba</i>, o francez percebe <i>Oc</i> e <i>Tob</i>, e -quando aquelle ouve <i>Murubixaba</i> este percebe <i>Muruvichave</i>. -Deixa a differença de ser grande quando são as palavras -pronunciadas conforme o genio de cada lingua.</p> - -<p>A palavra <i>Tupinambás</i>, como se acha escripta no principio -d’esta nota, (<i>Tobinambos</i>) equivale absolutamente pelo -som na lingua portuguesa á palavra <i>Tupinambus</i>, como a -pronunciavam os contemporaneos de Malherbe.</p> - -<p>Para a historia da linguistica não é sem interesse esta -curta doutrina christã, podendo ser comparada com certas -obras do mesmo genero, escriptas por penna portuguesa, -estando n’este caso, entre outras, os canticos religiosos em -lingua tupy por Christovão Valente, os quaes incluí no -opusculo—<i>Une fête brésilienne</i>. Pariz. Techener, 1850.</p> - -<p>Não se póde achar o livro que os contem, e talvez só -exista na Bibliotheca Imperial.</p> - -<p>Reproduzimos aqui seo nome—<i>Cathecismo brasilico da -doutrina christã, com o ceremonial dos sacramentos e mais -actos parochiaes. Composto por padres doutos da Companhia -de Jesus, aperfeiçoado e dado á luz pelo padre Antonio -de Araujo da mesma Companhia, emendado nesta segunda -impressão pelo padre Bertholomeu de Lean da mesma -Companhia</i>, Lisboa, na officina de Miguel Deslandes 1861, -em 8.º pequeno. A primeira edicção foi em 1618.</p> - -<p>Si se quizesse, poder-se-ía completar este estudo comparativo -procurando os seguintes manuscriptos, citados por -Barbosa Machado, e que seria coisa curiosa si fossem publicados.</p> - -<p>Ludewig os ommittio em seo importante trabalho, completado -por Mr. Trubener. O Padre João de Jesus <i>explicação -dos mysterios da fé</i>. O Padre Manoel da Veiga <i>Cathecismo</i>. -F. Pedro de Santa Rosa <i>Confessionario</i>. André Thevèt -nos seos manuscriptos conservados na Bibliotheca Imperial -de Pariz, dá o <i>Pater</i> e o <i>Credo</i> em lingua <i>tupy</i>, depois -reproduzidos em sua grande <i>Cosmographia</i>. São preciosos<span class="pagenum"><a id="Page_409"></a>[409]</span> -estes dois documentos especialmente por sua antiguidade, -pois datam de 1556.</p> - -<p>Entre os livros d’este genero um dos mais modernos e -dos mais curiosos é o do Padre Marcos Antonio, intitulado: -<i>Doutrina e perguntas dos mysterios principaes de nossa -santa fé na lingua Brasila</i>. Foi composto em 1750 e Ludewig -menciona-o como fazendo parte das collecções do -<i>British Museum</i>.</p> - -<h3><a id="Note_99" href="#Nanchor_99">99</a> (pag. 250).</h3> - -<p>Lery ja tinha asseverado o effeito, que faz nos indios o -canto melancolico do Macauhan. A crença nos mensageiros -das almas, nos passaros propheticos ainda não se extinguio -de todo, pois ainda existe na poderosa nação dos Guayacurus, -depois de haver exercido antigamente sua poderosa -influencia em todas as tribus dos Tupys, porem o padre Ivo -deo-lhe extensão que nunca teve, visivel alteração nas antigas -ideias mythologicas.</p> - -<p>O nome d’este passaro respeitado é escripto em portuguez -<i>Acaúan</i>, e tambem <i>Macauan</i>: nutre-se de reptis, e -não tem esse aspecto sinistro, que lhe dá o nosso bom Missionario.</p> - -<p>Tem a cabeça muito grossa em relação ao corpo, é côr de -cinza, o peito e o ventre vermelhos, azas e cauda negras com -pintas brancas. Pensa hoje em dia a maior parte dos indios, -que a missão deste passaro é annunciar-lhe a chegada de algum -hospede. Consulte-se sobre o Acaúan, Accioli, <i>Corographia -Paraense</i>, e Gonçalves Dias, <i>Diccionario da lingua Tupy</i>. -Martius na palavra <i>Oacaoam</i> diz ser o Macagua de Felix -de Azara. Falco (herpethocheres).</p> - -<h3><a id="Note_100" href="#Nanchor_100">100</a> (pag. 257).</h3> - -<p>No tempo de Ivo d’Evreux, eram chamados <i>Barbeiros</i>, -os cirurgiões mais habeis, e alguns annos antes até o illustre -Ambrosio Paré era assim conhecido.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_410"></a>[410]</span></p> - -<p>Como os <i>Piayes</i>, <i>Pagé</i>, <i>Pagy</i>, <i>Boyés</i> ou <i>Piaches</i> (por todos -estes nomes são conhecidos) cuidam de curar feridas e molestias.</p> - -<p>O padre Ivo, como se verá adiante, os compára por despreso -aos barbeiros, mas entenda-se, aos barbeiros das aldeias.</p> - -<p>Este capitulo é por certo um dos mais curiosos do livro, -e deve ser com todo o cuidado comparado com o que escreveo -Simão de Vasconcellos, (<i>Chronica da Companhia de -Jesus</i>, in fol.) e com todas as <i>Memorias</i> publicadas pelo Instituto -Historico do Rio de Janeiro sobre a religião primitiva -dos indigenas, achando-se ahi bem claramente definidos os -attributos de Jeropary.</p> - -<p>É na verdade para sentir-se a falta de uma folha, porque -nos trouxe a perda de preciosos documentos de homens praticos -e habeis, que entre si conservavam as tradicções.</p> - -<h3><a id="Note_101" href="#Nanchor_101">101</a> (pag. 264).</h3> - -<p>No tempo d’esta narração eram ainda os morcegos classificados -como passaros.</p> - -<p>O que aqui diz o nosso viajante sobre os vampyros não é -exageração.</p> - -<p>Consulte-se a este respeito Ch. Watterten (<i>Excursions dans -l’Amerique meridionale</i>, p. 15 e 389.)</p> - -<p>Este sabio naturalista descreveo com minucioso cuidado o -genero da ferida, que produz o morcego americano nas pessoas, -que dormem. Matou um vampyro, que tinha 32 pollegadas -de extensão de azas abertas. Em geral são muito menores.</p> - -<h3><a id="Note_102" href="#Nanchor_102">102</a> (pag. 268).</h3> - -<p>Entre os antigos viajantes do seculo XVII é Ivo d’Evreux -o unico, como notamos, que menciona entre os Tupinambás<span class="pagenum"><a id="Page_411"></a>[411]</span> -os rudimentos de estatuaria (imperfeita sem duvida) com -applicação á mythologia d’estes povos.</p> - -<p>D’estas coisas nada escreveram Thevèt, Hans Stadens, e -Lery, Vasconcellos, Cardin e Jaboatão.</p> - -<p>Eram os Tupys unicamente caçadores, e só per accidens -se entregavam á vida agricola. Os unicos vestigios de cultura, -que d’elles conhecemos, se referem aos seos <i>Macanas</i>, -ou a sua <i>Lyvera-péme</i>, especie de armas pesadas, que elles -enfeitavam á capricho.</p> - -<p>Tinham por costume pôr um Maracá, enfeitado de bonitas -pennas na prôa de suas canôas de guerra, tão esguias como -elegantes, e será bem possivel, que a base d’esse instrumento -seja ornado de sculpturas similhantes ás que se observam -entre os insulares da Polynesia. É provavel que multiplicando-se -suas relações com os Europeos, tenham os Tupinambás -bebido entre elles ideias de sculptura rudimentar -que applicam á suas divindades grosseiras.</p> - -<p>O veridico Barrére, que escreveo mais de um seculo depois -de Ivo d’Evreux, falla de um piaya fazendo uma estatueta -de <i>Anaanh</i>, genio do mal, que não é senão o <i>Anhanga</i> -do padre Nobrega e de Anchieta, cuja terrivel missão -sobre a terra foi tão bem descripta por João de Lery, que -sempre o chamou <i>Aignan</i>.</p> - -<p>Dêem-lhe nas ilhas ou nos continentes os nomes de <i>Uracan</i>, -de <i>Hyorocan</i>, de <i>Jeropary</i>, de <i>Maboya</i>, de <i>Amignao</i>, -reconheçam-se os genios secundarios, como seos mensageiros -(apenas citarei um, o malicioso <i>Chinay</i>, que faz emmagrecer -os pobres indios sugando-lhes seo sangue.) Anhanga -teve sempre fama terrivel nos seculos XVII e XVIII.</p> - -<p>Este typo primitivo da sculptura religiosa dos Tupys foi -infelizmente aberto em madeira muito molle, e por isso não -poude resistir á acção do tempo, ou á invasão das formigas: -duvidamos que se encontre um só <i>specimen</i> de dois seculos -atraz.</p> - -<p>Eis finalmente a passagem tão curiosa de Barrére que confirma -as palavras do padre Ivo. «Tem os indios outra sorte<span class="pagenum"><a id="Page_412"></a>[412]</span> -de feitiçaria, que os singularisa. Fazem uma figura do diabo -n’um pedaço de madeira molle e sonora: esta estatua do tamanho -de tres a quatro pés é muito feia pela sua immensa -cauda, e grandes lanhos.</p> - -<p>«Chamam-na <i>Anaantanha</i> que parece dizer—<i>imagem do -diabo</i>, porque <i>Tanha</i> significa figura, e <i>Anaan-diabo</i>. Depois -de haverem soprado sobre os enfermos, trazem os <i>Piayas</i> -esta figura para fóra da <i>casa-grande</i>:</p> - -<p>«Ahi elles o interrogam, esbordoam-na á cacete, como -para obrigar o diabo, bem a seu pesar, a deixar o enfermo.» -(Vide <i>Nouvelle Relation de la France équinoxiale, contenant -la description des côtes de la Guiane, de l’isle de Cayenne, -le commerce de cette colonie, les divers changements -arrivés dans ce pays</i> etc. etc. Paris. 1743, em 12 gr.)</p> - -<p>N’um capitulo precedente Ivo d’Evreux ja fallou de uma -boneca que tinha uma especie de mecanismo, que servia -para as nigromancias do Piaya.</p> - -<p>É para sentir-se, que não se encontrasse um só d’estes -idolos nas collecções etnographicas, que então começou-se a -fazer.</p> - -<p>Poucos annos antes de haver la Ravardiere explorado o rio -do Amasonas, João Mocquet, o guarda das curiosidades do -Rei, percorreo essas praias, e seria de rara felicidade para -a archeologia americana si elle encontrasse alguns dos idolos -de que falla o padre Ivo.</p> - -<h3><a id="Note_103" href="#Nanchor_103">103</a> (pag. 271).</h3> - -<p>É mui provavel, que estas lustrações sejam feitas á imitação -das ceremonias, que entre os christãos viram os <i>Tupinambás</i>.</p> - -<p>Pode bem ser, que o mesmo aconteça á respeito da pretendida -confissão auricular de que falla o autor um pouco -mais adiante.</p> - -<p>Os antigos viajantes, Hans Staden, Lery e Thevèt nada dizem, -que tenha relação com tal costume.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_413"></a>[413]</span></p> - -<h3><a id="Note_104" href="#Nanchor_104">104</a> (pag. 272).</h3> - -<p>Parece á primeira vista ter recebido este <i>piaga</i>, tão influente, -um nome francez: assim porem não aconteceu.</p> - -<p>Havia n’esse tempo um poderoso Chefe, chamado <i>Pacquara-behu</i> -«barriga d’uma paca cheia d’agoa». <i>Pacamont</i> -pode significar a «paca agarrada na armadilha», (<i>Pacamondé</i>).</p> - -<p>O nome da terra, onde tinha influencia, significa a «região -das plantas leitosas», e escreve-se <i>Cumá</i>.</p> - -<h3><a id="Note_105" href="#Nanchor_105">105</a> (pag. 280).</h3> - -<p>Vatable ou Vateblé era um celebre sabio na lingua hebraica, -no seculo XVI, restaurador na França dos estudos -orientaes.</p> - -<p>Morreo em 1547.</p> - -<p>Suas notas sobre o antigo testamento acham-se na Biblia -de Robert Etienne.</p> - -<h3><a id="Note_106" href="#Nanchor_106">106</a> (pag. 282).</h3> - -<p>Prova-nos esta phrase ter o Padre Ivo escripto sua obra -na Europa, e saber da missão dirigida pelo Padre Archangelo.</p> - -<p>Affirma Marcellino de Piza terem 565 indios recebido o -baptismo n’esta segunda expedição religiosa. (Vide <i>Annales -historiarum ordinis minorum</i>. Lugd. 1676 in fol.)</p> - -<p>O Padre Archangelo, acompanhado por 12 confrades, portador -de magnificos ornamentos bordados pela Duqueza de -Guize devia por certo cercar-se de outra pompa, que não -tiveram os quatro Geraes Capuchinhos, que deram principio -á missão.</p> - -<p>Graças aos documentos, que nos são proporcionados pela -marinha, e que devemos ao obsequio do Sr. P. Margry, -soubemos por uma carta inedicta do Sr. de Beaulieu a Mr.<span class="pagenum"><a id="Page_414"></a>[414]</span> -de Razilly, que o Padre Archangelo, muito conhecedor do -valor do dinheiro abstrahindo o seo voto de pobresa, não -quiz embarcar-se antes de lhe haverem dado a esperança -de conseguir subsidios.</p> - -<p>Apesar dos recursos, de que dispunha o seo chefe espiritual, -ainda está por fazer a historia d’esta segunda missão: -não deixou até vestigios, e ficará para sempre ignorada em -quanto não descobrirmos o livro de Francisco de Bourdenare.</p> - -<p>Sabemos apenas que muito mais favorecido, que Ivo d’Evreux, -por seos superiores, recebeo, graças ás suas cartas -de obediencia, o direito de admittir noviços em seo Convento.</p> - -<p>Não teve tempo de utilisar-se de tal privilegio, mas quando -regressou á Europa, em recompensa do seo zelo foi em -1615 nomeado Guardião do grande Convento da rua de Santo -Honorato.</p> - -<p>Todos estes factos, omittidos naturalmente pelos historiadores -do Maranhão, acham-se referidos nos <i>Éloges historiques</i>, -manuscripto da Bibliotheca Imperial, e seria injustiça -esquecer serem elles tambem narrados pelo Padre Marcellino -de Piza.</p> - -<p>Depois de haver contado como o Geral dos Capuchinhos -Paulo de Caesena deo licença á Honorato de Pariz, então -Provincial, para mandar á America uma segunda missão, -disse:—«<i>Ille nihil cunctatus, duodecim fratres ad hanc -expeditionem, aptos elegit quorum animosa phalanx navem -conscençâ secedens in Indiam, a barbara illa natione jam -capucinorum placidis moribus assueta per humaniter fuit -excepta</i>.»</p> - -<p>Na entrada dos portuguezes o Padre Archangelo de Pembroke -retirou-se com os Capuchinhos francezes ficando em -lugar d’elles os Franciscanos, que em numero de vinte se -recolheram ao Mosteiro.</p> - -<p>Sob a direcção de Frei Christovão Severino teve então o -Convento nova regra.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_415"></a>[415]</span></p> - -<p>Foram as bases lançadas em 1624 porem só foram cumpridas -pontualmente em 4 de Agosto do anno seguinte.</p> - -<p>Abstemos-nos porem de offerecer ás vistas do leitor as desgraçadas -peripecias, porque passou este Mosteiro durante -225 annos: basta dizer, que no fim de um seculo estava -quasi reduzido a ruinas.</p> - -<p>Em 1860 o actual Guardião, que tinha sob seo governo -somente dois franciscanos, mas que soube felizmente captar -as sympathias dos habitantes de São Luiz, recorreo á caridade -publica afim de concertar-se como merece este edificio, -a que se ligam interessantes recordações do paiz.</p> - -<p>A Ordem é actualmente muito pobre, porem offerece -grande contraste, segundo é voz geral, quando em seo zelo -é comparada com outros Conventos<a id="FNanchor_64" href="#Footnote_64" class="fnanchor">[BL]</a> opulentos da Cidade, -que estão se arruinando.</p> - -<p>Não foram em vão as supplicas de Frei Vicente de Jesus, -pois elle arrecadou grandes quantias, que chegaram para -reparar os estragos do tempo.</p> - -<p>Conservando a humilde Capella, onde orou o Padre Ivo -d’Evreux, fizeram-se novas edificações que tornaram a Igreja -de Santo Antonio a mais linda de tão bella Cidade.</p> - -<h3><a id="Note_107" href="#Nanchor_107">107</a> (pag. 301).</h3> - -<p>É mui curioso vêr aqui o Padre Ivo d’Evreux fazer uma -especie de allusão á antigas crenças d’esses povos, as quaes -Thevet, ou talvez o Cavalheiro de Villegagnon tinham guardado -desde 1555, e que parece ser ignoradas pelos nossos -viajantes do Seculo XVI, pois não tratam d’ellas em suas -narrações.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_416"></a>[416]</span></p> - -<p>Uma nota, mesmo concisa nos levaria muito longe, e vêr-nos-iamos -forçados a chamar a attenção do leitor para um -opusculo, no qual reunimos tudo o que podemos encontrar -á respeito das ideias mythologicas dos Tamoyos e dos Tupinambás. -(Vide sobre os <i>Maraïta—Une fête bresilienne célébrée -à Rouen em 1550 suivie d’un fragment du XVIme siécle -roulant sur la Théogonie des anciens peuples du Brésil</i>. -Paris, Techener, 1850 gr. in 8.º)</p> - -<h3><a id="Note_108" href="#Nanchor_108">108</a> (pag. 301).</h3> - -<p>A legenda brazileira de geração em geração transmittio a -narração das perigrinações de dois prophetas, bem distinctos, -igualmente estimados por esses selvagens, que os -chamou <i>Tamandaré</i> e <i>Sumé</i>.</p> - -<p>Como Boudaha, deixou o ultimo impressas as suas pegadas -sobre a rocha viva, quando deixou a terra.</p> - -<p>O mytho de Tamandaré, que se lê na descripção do diluvio -americano, é contado extensamente por Vasconcellos -nas suas <i>Noticias do Brazil</i>, pag. 47 e 48.</p> - -<p>Ahi se lerá como o Noé americano subindo ao cume de -uma palmeira, que tocava com o seo vertice o Ceo, e agarrando -d’ahi sua Familia poude salval-a, e com ella repovoou -a terra.</p> - -<p>Na phrase aqui citada, Ivo d’Evreux alludio ao legislador -mais moderno, Sumé, este Triptolémio brazileiro, que ensinou -a cultura da mandióca aos descendentes de Tamandaré.</p> - -<p>Simão de Vasconcellos diz mui positivamente, que «havia -entre elles tradicção muito antiga, transmittida de paes a -filhos, dizendo haverem apparecido, muitos seculos depois -do diluvio, homens brancos n’estas terras, que fallavam aos -povos de um só Deos e de outra vida. Um d’elles chamava-se -<i>Sumé</i>, que parece quer dizer <i>Thomé</i>.»</p> - -<p>Preferindo a tradicção, que dá a São Bartholameu a honra -de haver evangelisado os povos longiquos, provou com isto -o Padre Ivo o seo conhecimento das origens.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_417"></a>[417]</span></p> - -<p>Com effeito, segundo diz Eusebio, chegou este Apostolo -viajante até a extremidade das Indias, São Pantene percorreo -o interior da Asia desde o III seculo, e ahi já achou -vestigios do christianismo, que bem se podiam attribuir ás -prédicas de Sam Bartholameo.</p> - -<p>Prevaleceo comtudo no Brasil a legenda em contrario, -como a outra na India. (Vide <i>Jornada do Arcebispo de Goa -dom Frei Aleixo de Menezes, quando foi ás serras de Malauare, -lugares em que moram os antiguos christãos de S. -Thomé</i>. Coimbra, 1606, in fol.)</p> - -<p>No tempo de Vasconcellos bem visiveis eram os signaes -dos pés de S. Thomé, ao norte do porto de S. Vicente, perto -da Villa.</p> - -<p>Estes signaes de dois pes nùs por maravilha impressos na -rocha (<i>tão vivos e expressos, como si em um mesmo tempo -juntamente se fizeram</i>) não eram vistos debaixo d’agoa.</p> - -<p>O religioso franciscano Jaboatam achou no Recife, em Pernambuco, -pegàdas santas.</p> - -<p>N’esta segunda edicção da legenda, somente apparece um -pé como o de um menino de 5 annos, que suppõe ser o -piedoso narrador o de um jovem companheiro do Apostolo. -(Vide <i>Novo Orbe Serafico</i>, reimpresso ultimamente pelos esforços -do <i>Instituto Historico e Geoqraphico do Rio de Janeiro</i>.)</p> - -<p>Não se encontram esses afamados signaes somente em -diversos pontos do littoral, e sim em outros lugares, o que -seria enfadonho enumerar.</p> - -<p>Não contentes ainda com isto fizeram com que o santo -viajante se embrenhasse corajosamente pelo interior do Brasil, -onde em caracteres gigantescos sobre pedras ou rochas -escreveo a historia da sua missão.</p> - -<p>Ha em Minas uma aldeia, a que se deo o nome chamando-a -<i>Sam Thomé das Lettras</i>.</p> - -<p>Um observador circumspecto, o general Cunha Mattos, -não vio taes inscripções, e combateo a tradicção dizendo -que esses traços phantasticos, que se observam n’um dos<span class="pagenum"><a id="Page_418"></a>[418]</span> -lados da <i>Serra das lettras</i> foram formados por accidentes -de terreno, isto é, por dendrites, para servir-me de suas -expressões. (Vide <i>Itinerario do Rio de Janeiro ao Pará e -Maranhão</i>. Rio de Janeiro. 1836. 2 vol. em 8.º T. 1.º -pag. 63).</p> - -<p>Dura até hoje esta opinião sobre a gigantesca inscripção -da <i>Serra das lettras</i>, e acredita-se actualmente serem devidos -a infiltração de particulas ferruginosas obrando sobre -o grão da serra, e por est’arte simulando caracteres escriptos.</p> - -<p>No Brasil são muitos os hieroglyphos grosseiramente embutidos, -e ninguem duvida serem devidos á origem indigena. -Muitas obras nos mostram os seos <i>fac-simile</i>.</p> - -<p>A grande viagem pitoresca de Mr. Debret tem dois, que -não deixam de ter interesse.</p> - -<p>Fallamos da inscripção do monte de <i>Anastabia</i>, e das -esculpturas embutidas n’uma rocha, que se encontra perto -das margens do rio Yapurá, na provincia do Pará, bem -pode ser que as palavras do Padre Ivo se refiram á este -monumento, grosseiramente trabalhado, e de que trata Mr. -Debret na pag. 46 do seo T. 1º, porem em alguns não acha -a mais prevenida imaginação bases para assentar uma opinião -historica ou religiosa.</p> - -<p>Pelo que se refere <i>ás rochas incisadas</i>, de que falla o -nosso bom frade, é tradicção geral em toda a America, que -estes accidentes, resultados de grandes commoções da natureza, -são sempre explicados pela legenda indigena, que os -attribue ao supremo poder de um semi-Deos, que, a sua vontade, -quebra as montanhas mais resistentes ao trabalho do -homem e, algumas vezes, até os mais gigantescos.</p> - -<p>Em Nova-Granada o salto de Tequendama não teve outra -origem, pois foi feito, como se sabe, pelo grande Bochica: -poderiamos tambem citar a abertura feita no <i>recife</i>, que -margina o littoral de Pernambuco, e que se attribue ao -grande Sumé, ou ao seu representante christão, o Apostolo -viajante. (Vide Frei Antonio de Santa Maria Jaboatão, <i>Novo<span class="pagenum"><a id="Page_419"></a>[419]</span> -Orbe Serafico Brasilico</i>, ou <i>Chronica dos frades menores -da provincia do Brasil</i>. 2.ª edicç. Rio de Janeiro. 1858.)</p> - -<p>Jaboatão escreveu em 1761.</p> - -<h3><a id="Note_109" href="#Nanchor_109">109</a> (pag. 311).</h3> - -<p>Tinha este chefe indigena um nome bem conhecido na -ornithologia do Brasil. O <i>Jacupema</i> é o <i>Penelopsupereiliaris</i> -uma das melhores caças do Brasil.</p> - -<h3><a id="Note_110" href="#Nanchor_110">110</a> (pag. 334.)</h3> - -<p>Na familia dos Foulon, de que gozava muita consideração em -Abbeville, tinham muitos dos seos membros se dedicado á -vida monastica.</p> - -<p>O padre Marçal esteve em Pariz com seo irmão o padre -Claudio; este ultimo, cujo artigo está tão cheio de erros na -biographia universal, era ja guardião do convento na sua -patria desde 1608, mas, como o padre Ivo, começou o seo -noviciado em 9 de junho de 1595.</p> - -<p>A bibliotheca do Arsenal possue um opusculo, hoje raro, -do padre Claudio, cujo titulo é—<i>L’arrivée des Pêres Capucins -et la conversion des sauvages a nostre sainte Foy déclarés -par le R. P. Claude d’Abbeville, prédicateur capucin -à Paris</i>, chez Jean Nigaut, rue de St. Jean de Latran, em -1613. Pode comparar-se este escripto com o artigo intitulado—<i>Retour -du sieur de Rasilly en France et des -Toupinambous qu’il amena á Paris.</i> <i>Mercure française</i>. T. 3, -pag. 164. <i>L’histoire chronologique de la bienheureuse Colette, -réformatrice des trois ordres du Seraphique Pere St. -François.</i> Paris. Nicolas Buon, 1628, em 12: não é do padre -Claudio, como suppõe Eyriés. A dedicatoria tem a assignatura -de Fr. S. d’A, indigno capuchinho. Já tinha morrido -Claudio d’Abbeville quando appareceo esta obra. Depois de -ter 23 annos de religião, falleceo em Ruão em 1616 e não -em 1632.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_420"></a>[420]</span></p> - -<h3><a id="Note_111" href="#Nanchor_111">111</a> (pag. 335).</h3> - -<p>Leia-se <i>Plymouth</i>: Claudio d’Abbeville escreve <i>Pleme</i>.</p> - -<h3><a id="Note_112" href="#Nanchor_112">112</a> (pag. 335).</h3> - -<p>Trata-se aqui do <i>Rio do Ouro</i>.</p> - -<h3><a id="Note_113" href="#Nanchor_113">113</a> (pag. 336).</h3> - -<p>Difficilmente por este nome se sabe ser a <i>Ilha de Fernão -de Noronha</i>, e não <i>Fernando de Noronha</i>, como escreve -alguns geographos.</p> - -<p>Está a 75° long. E. N. E. do Cabo de Sam Roque, e na -lat. de 3° 48, á 52′. Explica-se esta alteração de nome pela -sua visinhança do Cabo de Sam Roque.</p> - -<p>Alguns viajantes antigos escreveram <i>Fernando de la Rogne</i>: -n’esse caso está o padre Claudio.</p> - -<h3><a id="Note_114" href="#Nanchor_114">114</a> (pag. 337).</h3> - -<p>Omittio o padre Claudio d’Abbeville esta ultima circumstancia.</p> - -<h3><a id="Note_115" href="#Nanchor_115">115</a> (pag. 339).</h3> - -<p>Leia-se <i>Tupan</i> em vez de <i>Iupan</i>. Quanto a palavra Matarata, -que ahi se lê, não se pode entender pelo adjectivo -<i>Mbaraeté</i>, que significa—<i>forte</i>. Parece estar sob esta significação -no <i>Tesoro de la lingua Guarany</i>, do padre Ruiz de -Montoya.</p> - -<h3><a id="Note_116" href="#Nanchor_116">116</a> (pag. 341).</h3> - -<p>O capitão du Manoir estava ha muito tempo estabelecido -na Ilha, onde tinha muitas relações.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_421"></a>[421]</span></p> - -<p>Foi elle quem hospedou os Missionarios, e lhes offereceo -uma festa «tão magnifica como podia ser em França» disse -o padre Claudio, a qual assistiram os Srs. de Rasilly e Pezieux. -Foi da sua habitação que partiram os nossos para tomar -posse do lugar, onde se edificou o <i>Forte de Sam Luiz</i>. -Regressou á França antes de ser o Maranhão tomado pelos -portuguezes.</p> - -<p>Quando evacuaram as nossas forças navaes o porto do Maranhão, -muitos francezes não seguiram o exemplo de Manoir, -e se estabeleceram na nova Colonia, onde só foram permittidos -artistas.</p> - -<p>Erraria quem suppozesse ter sido abandonada a missão -fundada com tanto zelo pelos nossos Religiosos: sem a menor -alteração foram incumbidos d’ellas os Franciscanos: a -este respeito achou-se tudo quanto podia desejar-se no <i>Orbe -Seraphico</i> do padre Jaboatão.</p> - -<p>Contem este resumo uma longa biographia de Frei Francisco -do Rosario, frade celebre na Ordem de Sam Francisco, -que tomou posse do Convento dos Capuchinhos perto de dez -annos depois, que estes o abandonaram de todo.</p> - -<p>Embrenhava-se muitas vezes este zeloso Missionario nos -desertos desconhecidos do Maranhão, onde ia cathequisar -os indios.</p> - -<p>Em 1630 compôz uma obra aproveitavel sobre as tribus -que visitou. Infelizmente nunca foi publicada, e o seria se -fosse encontrada, como precioso commentario á obra do -padre Ivo.</p> - -<p>Cansado por seos trabalhos, cuja multiplicidade espanta -até a imaginação, foi para a Bahia, onde revestido das dignidades -da ordem falleceo com cheiro de santidade em 24 -de fevereiro de 1650.</p> - -<p>Afirma-se haver elle predicto muitos annos antes os grandes -acontecimentos politicos, que, produzindo a expulsão da -Hespanha, dava independencia ao Brasil.</p> - -<p>Parece que vio-se obrigado a reconstruir em 1625 os edificios -que deixaram em começo os nossos Religiosos, e por<span class="pagenum"><a id="Page_422"></a>[422]</span> -isso foi elle em Sam Luiz julgado como o primeiro fundador -do Convento da sua Ordem.</p> - -<p>Vamos ainda dizer uma palavra para acabar estas notas. -Serão ellas ainda um dia completadas pelo trabalho, que ha -de preceder a <i>Relação do Padre Claudio d’Abbeville</i>, e si se -quizer, o podem ser ja, consultando se varias obras francezas -contemporaneas, absolutamente despresadas, sob este -ponto de vista, pelos historiadores da America. N’este caso, -entre outros, está o padre Pedro du Jarric, pois, na verdade, -ninguem pensaria achar n’uma <i>Historia das Indias orientaes</i> -todos os factos religiosos, acontecidos em Maranhão antes de -1607.</p> - -<p>Consultando-se o 5.º volume d’esta volumosa obra, encontra-se -a tragica historia dos padres Francisco Pinto e -Luiz Figueira, jesuitas portuguezes, os primeiros que visitaram -os desertos desconhecidos, cujo littoral occuparam os -francezes.</p> - -<p>Francisco Pyrard, o viajante Belga, residente na pequena -cidade de Laval, nos contou tambem na sua <i>Relação das -Indias e especialmente das Ilhas Maldivas</i>, o que na Europa -se pensava do Brasil no tempo, em que viveo o padre -Ivo. Não trata do Maranhão, e bem o podia fazer.</p> - -<p>Deve ainda dizer-se que esta bella provincia, conhecida -mais pela obra de Mr. Herald do que por outras antigas, -ficou por muito tempo fóra da toda a vida politica.</p> - -<p>Doada a principio aos filhos de José de Barros, o famoso -historiador das Indias, só foi conhecida na Europa por uma -lastimavel catastrophe, pois era esquecida apesar da fertilidade -e da magnificencia da sua vegetação.</p> - -<p>Apparece comtudo n’um dos monumentos geographicos mais -importantes, onde se verificou o que era o Brasil no seculo -XVI: queremos fallar da bella <i>Carta</i> de Gaspar Viegas, que -tem a data de outubro de 1534, hoje na Bibliotheca Imperial -de Paris.</p> - -<p>Nenhum historiador até hoje ainda a mencionou, apezar de -sua exactidão tão admiravel para aquelles tempos e ainda<span class="pagenum"><a id="Page_423"></a>[423]</span> -continuaria a ser esquecida se o Sr. de Cortambert não nos -fizesse o favor de communicar-nos a sua existencia.</p> - -<p>Sentimos muito praser recordando-nos, que este bello trabalho -do desconhecido geographo vae de hora em diante -ligar-se ao mais vasto e ao mais exacto reconhecimento das -costas do Brasil, que tem podido obter a sciencia n’estes ultimos -tempos, e d’ella fará objecto de especial estudo o Sr. -capitão da fragata Mouchez na sua grande obra nautica a -respeito do littoral do Brasil.</p> - -<p>Deviam acabar aqui as notas indispensaveis para conhecer-se -na França e mesmo na America o texto do nosso velho -viajante.</p> - -<p>Accrescentaremos apenas uma palavra, talvez indispensavel -para comprehender-se o valor do documento por nós -exhumado.</p> - -<p>O padre Arsenio de Pariz, o fiel companheiro do padre -Ivo d’Evreux, disse em 1613 ao Superior do seo Mosteiro -á proposito das regiões, por onde evangelisou, o seguinte:</p> - -<p>«Eu vos asseguro, meo padre, que quando estiver um -pouco estabelecido, será um verdadeiro paraiso terrestre.»</p> - -<p>A esperança do bom Religioso não era das que se podem -realisar completamente: não caminham assim as coisas neste -mundo, porem não sendo o paraiso, é o Maranhão uma das provincias -de um vasto Imperio, que vae progredindo.</p> - -<p>No meio de prosperidades reaes, e apezar dos esforços de -espiritos felizmente bem intencionados, o progresso intelletual -do paiz está muito longe do que devia ser.</p> - -<p>As recordações do passado, que tanto desenvolvem as -populações, ahi não existem.</p> - -<p>Não ha archivos, bibliothecas publicas, e nem instituições -litterarias, e tanto é verdade isto, que o Imperador, o Sr. -D. Pedro 2º, ha dez annos incumbio um dos homens mais -activos e eminentes d’este paiz para examinar na Cidade de -Sam Luiz o estado real dos depositos litterarios da Capital -do Maranhão.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_424"></a>[424]</span></p> - -<p>Não reproduziremos aqui as queixas judiciosas e bem fundadas -do Sr. Gonçalves Dias sobre o lamentavel estado dos -estabelecimentos, objecto de suas investigações.</p> - -<p>Pode lêr-se o seo <i>Relatorio</i> escripto em bom estylo na -<i>Revista Trimensal</i> publicada com tanto zelo pelo Instituto -Historico do Rio de Janeiro.</p> - -<p>Citaremos apenas, que ha dez annos, Gonçalves Dias achou -2:000 volumes na Bibliotheca Publica e no Almanach de -1860, edictado pelo Sr. B. de Mattos, apparecem 1:030 em -deploravel estado!</p> - -<p>Possa a reimpressão da obra do padre Ivo d’Evreux marcar -uma nova era na patria de Odorico Mendes, de Gonçalves -Dias, e de João Lisboa.</p> - -<p class="titlepage">FIM.</p> - -<div class="footnotes"> - -<h3>NOTAS</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_59" href="#FNanchor_59" class="label">[BG]</a> Consulte-se a respeito de todos estes assumptos o meo <i>Diccionario -historico e geographico do Maranhão</i>. Iria longe se eu -quizesse acompanhar <i>parí passu</i> esta publicação, onde não poucas -vezes foi illudida a bôa fé de Mr. Ferdinand Diniz.—Do traductor.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_60" href="#FNanchor_60" class="label">[BH]</a> Outro engano. Aqui não se conhece esta dóca.—Do traductor.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_61" href="#FNanchor_61" class="label">[BI]</a> 40 leguas? Não, e sim 4 leguas. Vide art. <i>Alcantara</i> no -meo <i>Diccionario</i>.—Do traductor.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_62" href="#FNanchor_62" class="label">[BJ]</a> É engano. O major Fidié não foi vencido, e sim capitulou -honrosamente em 1.º de Agosto de 1823. (Vide <i>Historia da Independencia -do Maranhão</i> (1822 a 1823) pelo Dr. Luiz Antonio -Vieira da Silva, hoje Senador do Imperio, pag. 109 a 127.)—Do traductor.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_63" href="#FNanchor_63" class="label">[BK]</a> Mr. Ferdinand Diniz foi illudido por escriptos politicos, embora -habilmente manejados porem sempre com paixão.</p> - -<p>Não foi o Conselheiro Furtado a quem se deve esse estado de -paz, e sim a outro cidadão como ja disse no meo <i>Diccionario</i> -neste trecho que para aqui transcrevo.</p> - -<p>—Durou este triste e lamentavel estado de ferocidade ou dezespero -até o tempo, em que o fallescido Dr. Eduardo Olympio -Machado perante os escolhidos da Provincia em 1851 recitou -estas palavras:</p> - -<p>«A febre homicida, que ía lavrando pelo municipio de Caxias, -tem feito, vae para tres mezes, prolongada remissão. E qual o -reagente que conseguio acalmar seos lugubres accessos? A -energia e actividade do actual delegado de policia o Dr. João -de Carvalho Fernandes Vieira, o qual, formando culpa aos delinquentes, -perseguindo-os com incansavel zelo, devassando as -casas de certos individuos, que até então contavam, senão com -acquiescencia, com o silencio da auctoridade publica, tem conseguido -restituir á tranquilidade o districto de sua jurisdicção.»</p> - -<p>Foram estes valiosos e importantes serviços apreciados pelo -Governo Central, pois mandou por mais de um Aviso louvar o -Dr. João de Carvalho.</p> - -<p>D’ahi a poucos annos houve quem intentasse arrancar esses -louros da fronte do energico e activo ex-juiz municipal e delegado -de policia de Caxias para offerecer a outro, que nada fez, -não cuidando da historia que tudo registra e a todos faz justiça!</p> - -<p>Esta acção, por demais injusta, nos faz lembrar estes versos do -poeta de Mantua:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0">Hos ego versiculos feci: tulit alter honores</div> - <div class="verse indent0">Sic vas non vobis, nidificates, aves etc etc.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p>Do traductor.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_64" href="#FNanchor_64" class="label">[BL]</a> É injustiça confundir-se nesta censura o Convento do Carmo, -graças ao zelo do seo benemerito Provincial o Revd. Frei -Caetano de Santa Rita Serejo.—Do traductor.</p> - -</div> - -</div> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h2 class="nobreak" id="INDICE">INDICE.</h2> - -</div> - -<table summary="Indice"> - <tr> - <td><a href="#AO_LEITOR">Ao leitor</a></td> - <td class="tdpg"></td> - </tr> - <tr> - <td>Introducção</td> - <td class="tdpg"><a href="#INTRODUCCAO">1</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Ao Rei</td> - <td class="tdpg"><a href="#AO_REI_I">1</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Ao Rei</td> - <td class="tdpg"><a href="#AO_REI_II">3</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Prefacio</td> - <td class="tdpg"><a href="#PREFACIO">7</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Da construcção das capellas de S. Francisco e S. Luiz do - Maranhão</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_I">9</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Do estado do poder temporal em sua primitiva</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_II">11</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Da construcção do Forte de S. Luiz, e do interesse dos - selvagens em carregar terra</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_III">14</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Dos preparativos dos Tupinambás para uma viagem ao - Amazonas</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_VII">19</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Partida dos francezes para o Amazonas em companhia dos - selvagens</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_VIII">23</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Do que aconteceo na Ilha durante esta viagem, e principalmente - das astucias de um selvagem chamado Capitão</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_IX">27</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Da chegada de uma barca portugueza a Maranhão</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_X">31</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Do valor e dos costumes dos selvagens do Miary</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XIII">36</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Das incisões, que fazem estes selvagens em seos corpos e - como escravisam seos inimigos</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XIV">40</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Leis do captiveiro</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XV">44</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Outras leis para os escravos</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XVI">48</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Quanto são misericordiosos os selvagens para com os criminosos - por acaso e sem malicia</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XVII">52</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Quanto é facil civilisar os selvagens á maneira dos francezes - e ensinar-lhes os officios que temos em França</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XVIII">58</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Quanto são aptos os selvagens para aprenderem sciencias - e virtudes</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XIX">63</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Continuação do objecto antecedente</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XX">67</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Ordem e respeito da naturesa entre os selvagens, observada - inviolavelmente pela mocidade</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXI">71</a></td> - </tr> - <tr> - <td>A mesma ordem e respeito é observada entre as raparigas - e as mulheres</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXII">79</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Da consaguinidade entre os selvagens</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXIII">84</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Dos caracteres incompativeis entre os selvagens</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXV">90</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Da economia dos selvagens</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXVI">94</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Do cuidado que do seo corpo tem os selvagens</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXVIII">95</a></td> - </tr> - <tr> - <td>De algumas indisposições naturaes, a que os selvagens se - acham sujeitos, e quaes os nomes que dão aos membros - do corpo</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXIX">101</a></td> - </tr> - <tr> - <td>De algumas molestias particulares á estes paizes de indios - e de seos remedios</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXX">106</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Da morte e dos funeraes dos indios</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXXI">111</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Do regresso á ilha do Sr. de la Ravardiere e de alguns - Principaes, que o seguiram</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXXII">116</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Viagem do capitão Maillar pela terra firme á casa de um - grande feiticeiro. Descripção desta terra e das zombarias - d’elle</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXXII">120</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Da vinda dos Tremembés, como foram perseguidos, suas - habitações e procedimento</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXXIV">125</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Da chegada dos Cabellos-compridos á Tapuytapéra e da - viagem ao Uarpy</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXXV">129</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Dos astros e do sol </td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXXVI">132</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Ventos, chuvas, trovões e relampagos em Maranhão e suas - circumvisinhanças </td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXXVII">135</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Mar, agoas e fontes do Maranhão </td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXXVIII">139</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Singularidades de algumas arvores do Maranhão </td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXXIX">141</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Dos peixes, passaros e lagartos, que se encontram n’estes - paizes </td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XL">146</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Da pesca do Pery </td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XLI">148</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Da caça dos ratos, das formigas e das lagartixas</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XLIII">153</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Das aranhas, cigarras e mosquitos</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XLIV">165</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Dos grilos, dos camaleões e das moscas</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XLV">160</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Das onças e dos macacos do Brazil</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XLVI">173</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Das aguias, dos passaros grandes e dos passarinhos d’aquelle - paiz</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XLVII">178</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Resposta a muitas perguntas, que fazem n’aquelle paiz á - respeito das Indias Occidentaes </td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XLVIII">184</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Instrucção para os que vão pela primeira vez ás Indias</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XLIX">189</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Do acolhimento, que fazem os selvagens aos francezes recem-chegados, - e como convem proceder para com elles</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_L">193</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Dos fructos do Evangelho, que appareceram cedo pelo baptismo - de muitos meninos</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_I">201</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Do baptismo de muitos enfermos e velhos, que falleceram - depois de christãos</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_II">210</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Do baptismo de muitos adultos, especialmente d’um chamado - Martinho</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_III">217</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Do que fez este christão em beneficio da instrucção e conversão - dos seos similhantes</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_IV">225</a></td> - </tr> - <tr> - <td>De um Indio condemnado á morte, que pedio o baptismo - antes de morrer</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_V">230</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Formulario dos discursos, que faziamos aos selvagens - quando nos vinham vêr, para chamal-os ao conhecimento - de Deos e á obediencia de nosso Rei</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_VI">234</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Formulario da doutrina christã, que aprendiam e recitavam - de cór, antes de serem baptisados</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_VII">241</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Qual a crença natural dos selvagens a respeito de Deos, - dos espiritos e da alma </td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_VIII">246</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Dos principaes meios usados pelo diabo para conter em - suas cadeias por tão longo tempo estes selvagens</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_IX">252</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Como falla o diabo aos feiticeiros do Brasil, suas falsas - profecias, idolos e sacrificios</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XI">259</a></td> - </tr> - <tr> - <td>De algumas outras ceremonias diabolicas praticadas pelos - feiticeiros do Brasil</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XII">271</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Claros signaes do reino do diabo em Maranhão</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XIII">275</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Os filhos do Brazil darão cabo do reinado de Lucifer e começarão - a restabelecer o reinado de Jesus Christo</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XIV">283</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Primeira conferencia com Pacamão, grande feiticeiro de - Commã</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XVI">289</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Segunda conferencia que tive com Pacamão</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XVII">296</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Conferencia com o grande feiticeiro de Tapuytapéra</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XVIII">304</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Conferencia com Jacupen</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XIX">311</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Conferencia com o principal de Orubutin</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XX">317</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Conferencia com o Onda, um dos principaes de Commã</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XXI">321</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Congratulação á França etc. etc.</td> - <td class="tdpg"><a href="#ADDENDUM">329</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Fidelissima narração etc. etc.</td> - <td class="tdpg"><a href="#Fidelissima">334</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Narração d’um marinheiro</td> - <td class="tdpg"><a href="#marinheiro">344</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Notas criticas e historicas por Mr. Ferdinand Diniz</td> - <td class="tdpg"><a href="#NOTAS">347</a></td> - </tr> -</table> - - - - - - - - -<pre> - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Viagem ao norte do Brazil feita nos -annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D, by Ivo D'Evreux - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGEM AO NORTE DO BRAZIL *** - -***** This file should be named 63258-h.htm or 63258-h.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - 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