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You may copy it, give it away or -re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included -with this eBook or online at www.gutenberg.org/license - - -Title: Historia Pitoresca - Palavras e frases celebres - -Author: Alfredo Campos - -Release Date: September 19, 2020 [EBook #63235] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIA PITORESCA *** - - - - -Produced by Júlio Reis, Fernanda Brojo and the Online -Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net - - - - - - - - - - HISTORIA PITORESCA - - PALAVRAS E FRASES CELEBRES - - - POR - ALFREDO CAMPOS - - - - - [Figura: - HISTORIA PITTORESCA - PALAVRAS E PHRASES CELEBRES - ] - - - - -OBRAS DO AUCTOR - - - Luz e sombras, original . . . . . . . . . 400 réis - - Um como ha muitos, original . . . . . . . 50 réis - - Um livro intimo, original . . . . . . . . 200 réis - - A felicidade pela familia, original . . . . . 100 réis - - O trabalho, original . . . . . . . . . 100 réis - - Nunca mais! original . . . . . . . . . . 400 réis - - A Filha do cabinda, original . . . . . . . 500 réis - - A cruz de brilhantes, original . . . . . . . 500 réis - - A jurity, original . . . . . . . . . . 500 réis - - Alma minha gentil, original . . . . . . . . 300 réis - - Historia pittoresca--Palavras e phrases celebres, - original . . . . . . . . . . . . 500 réis - - Deveres do homem, original . . . . . . . 50 réis - - Magdalena, traducção . . . . . . . . . 500 réis - - Fior d'Aliza, traducção . . . . . . . . . 400 réis - - A mulher forte, traducção . . . . . . . . 600 réis - - -OBRAS ELEMENTARES - - Noções de moral e religião, approvada . . . . 160 réis - - Principios elementares de chorographia, approvada 200 réis - - Grammatica franceza resumida, approvada . . . 500 réis - - -NO PRÉLO - - A missão da mulher, 1 vol. - - Vida de Camões, 1 vol. - - - - - _Alfredo Campos_ - - - HISTORIA PITTORESCA - - - PALAVRAS E PHRASES CELEBRES - - - - - PORTO - - Livraria Portuense - --DE-- - LOPES & C.ª--EDITORES - - _123--Rua do Almada--123_ - - 1889 - - - - - =IMPRENSA CIVILISAÇÃO= - - 73--LARGO DA POCINHA--77 - - --PORTO-- - - - - _Ao Ill.ᵐᵒ e Ex.ᵐᵒ Sr._ - - MANOEL JOSÉ DA CONCEIÇÃO ROCHA - - TRIBUTO DE RESPEITO, - CONSIDERAÇÃO, GRATIDÃO E ESTIMA - - Offerece - - _Alfredo Campos._ - - - - -DO AUCTOR - - -_O PRESENTE livro--PALAVRAS E PHRASES CELEBRES--, é como que uma -CORBEILLE aonde estão reunidos, explicados, e, por vezes commentados, -muitos factos, muitas palavras, phrases e circumstancias curiosas e -originaes, que se empregam e se encontram, a cada momento, já n'alguma -obra escripta, já no meio da conversação_. - -_Pareceu-nos que não seria desgracioso enfeixar todas essas flores n'um -como que estudo de Historia Pittoresca, sem a aridez da Historia -propriamente dita, e com o proporcionamento do interesse, da amenidade -e do attractivo do romance._ - -_As PALAVRAS E PHRASES CELEBRES são isto apenas_. - -_O livro estava feito, e todo o trabalho consistiu, quasi, em -procurarmos e reunirmos em volume as paginas que andavam dispersas, aqui -e alli, um pouco por toda a parte._ - -_Tem merecimento? Outros o dirão._ - -_Em todo o caso póde servir para entretenimento de um serão, para -desenfado n'uma hora de descanço, para suavisar um momento de tedio, com -a vantagem de que allia o util, que é a historia, ao agradavel, que é o -pittoresco._ - -_De resto, parece-nos livro para toda a gente, porque crêmos que não -perverte, não corrompe, não immoralisa._ - -_Visou, pelo menos, a esse fim, e só desejamos que o attinja._ - -_Se attingir, tanto melhor para os que nos honrarem lendo-o, e tanto -melhor para nós, sobretudo, porque lograremos a gloria que aspiramos -para o nosso modesto trabalho._ - - -[Figura] - - - - - PALAVRAS - E - PHRASES CELEBRES - - - - -I - -_Amanhã os negocios sérios_ - - -Sparta tinha-se apoderado da cidadella de Thebas por traição, e -impozera aos thebanos, como governador, o tyranno Archias. Este banira -da cidade os principaes cidadãos, entre os quaes Pelopidas. Refugiados -estes em Athenas, resolveram libertar a patria e concertaram-se com um -dos seus compatriotas, inimigo secreto do tyranno, que lhes offereceu -recebel-os em sua casa. No dia marcado para a execução da conspiração, -os conjurados penetraram em Thebas, graças a um disfarce. N'esse mesmo -dia, Archias foi convidado para ceiar em casa d'um rico cidadão thebano, -que, egualmente, fazia parte dos conspiradores. Tudo estava prompto, e -os conjurados esperavam apenas uma hora mais avançada, para a execução -do seu projecto, quando um correio, enviado d'Athenas, veio trazer a -Archias uma carta, contendo todas as particularidades da conspiração. -Admittido junto ao tyranno, entregou-lhe a missiva, convidando-o a lêr -sem demora, porque se tratava de _negocios sérios_. Archias, dominado já -pela embriaguez, poz indolentemente a carta sob a sua almofada, -exclamando: - ---«Amanhã os negocios sérios!» - -Alguns instantes depois, Pelopidas e os outros conjurados, invadiram a -salla do festim e massacraram o tyranno. - -Este acontecimento, que produziu a liberdade da Beocia, obteve uma -grande celebridade na Grecia, e a phrase--_amanhã os negocios -sérios_--tornou-se um proverbio que os descuidados e os amigos da -alegria pretendem tomar por divisa, e que melhor fôra tomassem como -lição. - - - - -II - -_Alexandre_ - - -Alexandre, filho de Philippe, rei da Macedonia, foi um dos maiores -capitães da antiguidade. Desde a mais tenra edade que foi sempre animado -d'uma nobre ambição. Quando lhe perguntavam se concorria aos jogos -olympicos, respondia: - ---«Iria, se tivesse a certeza de encontrar reis como rivaes!» - -Chorava de cólera, vendo os successos multiplicados de Philippe, -lamentando-se, d'este modo: - ---«Meu pai nada nos deixará que fazer!» - -Alexandre ficou em todas as linguas como o typo do _heroe_ e do -_conquistador_. As differentes circumstancias da vida de Alexandre, que -originaram locuções proverbiaes são as seguintes e por ordem -chronologica: - - -_1.º--Se eu não fosse Alexandre, desejaria ser Diogenes._ - -Alexandre acabava de ser nomeado generalissimo dos gregos, e achava-se -em Corintho, aonde os principaes cidadãos se apressavam em dirigir-lhe -as suas felicitações. Admirado de não receber a visita de Diogenes, foi -elle proprio procurar o celebre cynico, cuja conversação facil e picante -o encheu de assombro. Alexandre tendo perguntado ao philosopho se -desejava alguma coisa, elle respondeu: - ---«Tira-te do meu sol.» - -Foi então que o grande conquistador, assombrado com tanto desinteresse, -exclamou: - ---«Se eu não fosse Alexandre, desejaria ser Diogenes.» - - -_2.º--Meu filho, nada póde resistir-te._ - -Antes de partir para a expedição que projectava na Asia, Alexandre quiz -consultar o oraculo de Delphos. Como a pythia recusasse subir ao tripé, -o moço heroe arrastou-a violentamente. Ella exclamou então: - ---«Ah!, meu filho, nada te póde resistir.» - ---«Esse oraculo me basta--respondeu Alexandre--não quero outro.» - - -_3.º--Reserva da Esperança._ - -Na primavera do anno 334, Alexandre, tendo apenas vinte e dois annos -d'edade, dispunha-se a invadir a Asia, á frente d'um exercito de trinta -mil infantes e cinco mil cavallos. Como se já estivesse de posse dos -thesouros do grande rei, distribuiu aos amigos tudo quanto tinha. -Perdiccas perguntou-lhe então: - ---«Que reservaes para vós?» - ---«A _Esperança_»--respondeu Alexandre. - - -_4.º--Nó gordio._ - -Gordio, simples lavrador phrygio, tornou-se rei, por ter cumprido um -oraculo, que promettia a corôa ao que primeiro entrasse, n'um -determinado dia, na capital. Midas, seu filho, consagrou, no templo de -Jupiter o carro sobre o qual seu pai fôra transportado. O nó que ligava -o jugo ao timão estava tão artisticamente dado, que não se lhe -descobriam as pontas. Chamavam-no o _nó gordio_ ou de Gordio, e um -antigo oraculo promettia o imperio da Asia a quem conseguisse desatal-o. - -Alexandre, tendo-se apoderado da cidade, resolveu cumprir o oraculo e -actuar fortemente sobre a imaginação dos seus soldados. Depois de varias -tentativas infructiferas, desembainhou a espada e cortou o nó -mysterioso, illudindo mais, que realisando, d'este modo, o oraculo. - - -_5.º--O medico de Alexandre._ - -Pouco tempo depois da passagem do Granico, Alexandre, tendo-se banhado, -a suar, nas aguas geladas do Cydnus, foi subitamente atacado d'um -tremor mortal, e os soldados levaram-n'o, sem movimento, para a tenda. -Todo o exercito se consternou, porque o seu estado parecia desesperado. -Ao mesmo tempo, Dario avançava com forças immensas para lhe barrar as -sahidas do Taurus. Os medicos não ousavam experimentar remedio algum; um -só, Philippe, Acarniano de nação, e amigo d'infancia d'Alexandre, compoz -uma poção, cujo effeito poderoso e salutar devia ser immediato. Durante -estes preparativos, Alexandre recebeu uma carta de Parmenion, que o -advertia de que desconfiasse de Philippe, secretamente comprado por -Dario, para attentar contra os dias de seu monarcha. O heroe tinha ainda -a carta nas mãos, quando o medico lhe levou a poção. Alexandre, sem -manifestar a menor emoção, tomou a taça com uma das mãos, apresentou com -a outra a carta a Philippe, e bebeu tudo d'uma só vez. O medico -indignado, mas dominando as suas impressões, exhortou o rei a seguir -fielmente as suas prescripções: a cura estava n'aquelle premio. Em -verdade, apoz uma crise terrivel que gelou d'espanto todo o exercito, e -de que um só homem não sabia a sahida, o doente melhorou e -restabeleceu-se. - -O que ha de admiravel n'este traço da vida de Alexandre é a sua profunda -fé na amizade. - -_6.º--Este tambem é Alexandre_ - -Ephestion é menos citado na Historia pela parte que tomou nas conquistas -d'Alexandre, que pela grande amizade que o unira áquelle heroe. Os dois -amigos tinham sido educados juntos, e só a morte os separou. Depois da -sangrenta batalha d'Issus, em que a mãe, a mulher e as duas filhas de -Dario, cahiram em poder do vencedor, Alexandre, acompanhado d'Ephestion, -foi visitar, á sua tenda, as infelizes princezas. Sysigambis, mãe de -Dario, dirigiu a saudação a Ephestion, que tomou por Alexandre, pela -superioridade da estatura e esplendor do traje. Advertida do engano, -lançou-se aos pés do heroe, que a levantou bondosamente, dizendo-lhe: - ---«Não vos enganasteis, aquelle tambem é Alexandre.» - - -_7.º--E eu tambem, se fosse Parmenion_ - -Depois da batalha d'Issus, que fizera cahir nas mãos d'Alexandre toda a -familia de Dario, e alguns dias antes da batalha d'Arbelles, o grande -rei fez offerecer ao vencedor dez mil talentos--cincoenta e quatro -milhões--a cedencia de toda a Asia até ao Euphrates, e uma das suas -filhas em casamento. Alexandre tendo communicado estas brilhantes -propostas aos seus generaes, Parmenion exclamou: - ---«Eu acceitaria, se fosse Alexandre.» - ---«E eu tambem, se fosse Parmenion!»--respondeu Alexandre. - -E recusou. - - -_8.º--Ó athenienses! quanto custa ser louvado por vós!_ - -Alexandre tinha, do fundo da Asia, os olhos fixos na Grecia, e, -sobretudo, em Athenas. Apesar do abaixamento em que esta cidade havia -cahido, ficára sempre capital do mundo civilisado, pelas obras primas -dos seus artistas, pelos immortaes discursos dos seus oradores e pela -eloquente verdade dos seus historiadores, e Alexandre, tão apaixonado -pela gloria, aspirava, acima de tudo, aos applausos d'esses athenienses -frivolos, mas que egualmente distribuiam pela posteridade, a censura -como o louvor. O conquistador acabava de penetrar nas vastas regiões da -India, e preparava-se para atravessar o Hydaspe, de que Porus, á frente -d'um formidavel exercito, ia disputar-lhe a passagem. O rio era largo e -profundo, e as suas vagas quebrando estrepitosamente, deixavam a -descoberto, aqui e alli, rochedos ameaçadores. Alexandre illude a -attenção dos inimigos por um falso ataque, e aproveitando-se d'uma -tempestade que lhe encobre os movimentos, affronta perigos inauditos -para transpor o rio. Confessou depois que tinha, emfim, encontrado alli -um perigo digno da sua coragem, e foi n'esta circumstancia, diz Racine, -no prefacio da sua tragedia _Alexandre_, que o heroe exclamou: - ---«Ó athenienses! quanto custa ser louvado por vós!» - - -_9.º--Ao mais digno._ - -Estava conquistada a Asia; _a terra_, segundo a bella expressão da -Escriptura, _tinha-se callado deante de Alexandre_; elle fizera a sua -entrada na Babylonia, «não como um conquistador, mas como um deus» e o -papel brilhante e terrivel que representára estava a terminar. Os -festins e os desvarios de toda a especie tinham succedido ás batalhas. -No meio d'uma ultima orgia, o conquistador foi atacado d'uma febre, que -o levou em poucos dias. Só deixava herdeiros em curta idade, ou -incapazes. Conta-se que, no leito da morte, perguntando-lhe os generaes -a quem legava o imperio, elle respondera: - ---«Ao mais digno!» - -E expirou «cheio das tristes imagens da confusão que devia seguir-se á -sua morte.» - -_10.º--Os funeraes d'Alexandre._ - -«Alexandre--diz Bossuet--deixava, morrendo, capitães a quem tinha -ensinado a respirar sómente ambição e guerra. Previu a que excessos se -dariam, quando expirasse, e para os conter, e com receio de ser -desrespeitado, não ousou nomear nem successor, nem tutor para seus -filhos. Predisse sómente que os seus amigos _celebrariam os seus -funeraes com sanguinolentas batalhas_.» - - -_11.º--Desmembramento do imperio d'Alexandre._ - -Apenas Alexandre exhalou o ultimo suspiro, os generaes reuniram-se para -dividirem a sua immensa herança. Perdiccas, a quem Alexandre moribundo -deixára o seu annel, fez-se nomear regente; e os outros generaes -distribuiram entre si as provincias. Lysimaco teve a Thracia, Antipater -a Macedonia e a Grecia, Ptolomeu o Egypto, Antigono e Cassandro -repartiram a Asia Menor. Vinte annos depois encontravam-se nas planicies -da Phrygia, e a batalha de Ipsus era o ultimo acto d'essa sangrenta -tragedia. - - - - -III - -_Audacia, ainda audacia e sempre audacia_ - - -Danton, um dos vultos mais notaveis da revolução franceza, nascera para -tribuno popular. Alto, forte, face de _bull-dog_, muito picado das -bexigas, a expressão do olhar cheia d'audacia, alma em harmonia com a -estatura, com o ardor dos olhos, o rosto terrivel, a voz sonora, não -podia ser senão o que foi, um revolucionario enthusiasta, arrastando o -povo, já pela sua palavra como pelos seus actos, já pela sua elocução -muito cheia de figuras gigantescas, d'apostrophes inflammadas, -assombrando mesmo os que não seduzia. «Mirabeau serviu-se d'elle--diz um -escriptor contemporaneo--como de um folle de forja, para accender o -povo.» Apoz a fuga de Varennes, Danton provocou atrevidamente a queda do -rei, fez-se eleger substituto do procurador da communa, preparou a -revolução de 10 d'Agosto e entrou no ministerio da justiça. - -Esse famoso dia levantou toda a Europa contra a França revolucionaria. -Brunswick, acaba de lançar o seu insolente manifesto; os exercitos -francezes tinham experimentado revezes na Lorena; Longwy estava tomado, -Verdun cercado, e o alarme reinava em Pariz. Para reanimar as coragens, -Danton resolveu vibrar um grande golpe. Era no 1.º de Setembro. No dia -seguinte, 2, em quanto o sino tocava a rebate e o estampido do canhão se -fazia ouvir, elle correu á Assembleia legislativa, e, n'um discurso -rapido, fez ouvir estas terriveis palavras aos deputados, trémulos nas -suas cadeiras: «É n'este momento, senhores, que podem decretar que a -capital bem mereceu da França inteira. O canhão que se ouve não é o -canhão do alarme, é o passo de carga sobre os nossos inimigos!... Para -os vencermos, para os anniquilarmos, que é preciso? _Audacia, ainda -audacia e sempre audacia!_» - -Algumas horas depois os massacres de Setembro espantavam Pariz. - -Se Danton não organisou, como é accusado, aquellas horrorosas -carnificinas, está averiguado que nada fez para as prevenir e reprimir, -e talvez que elle visse n'ellas uma execução terrivel, mas necessaria. - -N'esta repetição energica, hoje proverbial, Danton fôra precedido pelo -velho marechal de Trioulce. Quando se perguntava a este o que era -necessario para bem fazer a guerra, respondia: - ---«Tres coisas: dinheiro, ainda dinheiro e sempre dinheiro!» - -Demosthenes tambem já dissera na antiguidade, que tres coisas fazem o -orador:--«primeiro, a acção; segundo, a acção; e terceiro, a acção.» - - - - -IV - -_Delicias de Capua_ - - -A antiga Capua, capital da Campania, era uma das mais formosas cidades -da Italia. Construida no centro de magnificas planicies, ensombradas -pelo pinheiro, pelo platano, pelo myrto e a oliveira, circundada de -imensos passeios orlados das mais perfumosas plantas, das mais -brilhantes e suaves flores, Capua offerecia a mais adoravel residencia -de toda a Italia. - -Foi lá que Annibal, depois da batalha de Cannes, e quando já tocava o -extremo da sua audaciosa empreza, foi assentar os seus quarteis -d'inverno, á frente do seu exercito vitorioso. Os historiadores antigos -attribuem á permanencia de Annibal no seio das delicias de Capua, a -causa unica da salvação de Roma. Assim, o seu exercito ter-se-ia -amollecido e ter-se-hia corrompido alli pelos famosos vinhos e pelos -gosos faceis. - -No entretanto, se considerarmos que o capitão carthaginez e os seus -temiveis bandos guerrearam ainda, durante treze annos, na Italia, de que -só foram arrancados pela habil diversão de Scipião na Africa, as -_delicias de Capua_ não passam de uma amplificação de rhetorico. - -Segundo a opinião de historiadores modernos e homens de guerra dos mais -celebres, um exercito de soldados feitos e experimentados não se perde -n'um quartel de inverno. O que melhor explica a inutilidade dos exforços -do maior capitão d'antiguidade, e esta foi a opinião de Napoleão 1.º, -depois da batalha de Cannes, é o abandono a que entregou a patria, onde -dominava uma facção invejosa; além de que, rodeado de povos hostis e -alliados incertos, recrutando difficilmente o seu exercito, composto de -mercenarios de toda a especie, Annibal já não estava em estado de tentar -qualquer coisa grande e decisiva. Comtudo, não se sustenta menos contra -as melhores tropas e os mais habeis generais da republica, enchendo a -Italia com o terror do seu nome, e agitando o mundo com as suas -negociações, para levantar, em toda a parte, inimisades aos romanos. - -_As delicias de Capua_ ficaram em todas as linguas modernas para -designarem uma calmaria moral, temperada de divertimentos e prazeres, -em que as molas do corpo e do espirito se distendem e enfraquecem. - -O padre Lacordaire aprecia a phrase do modo seguinte: - -«A historia de todos os successos é a historia d'Annibal em Capua. -Esquece-se, embriaga-se, adormece-se; o lento veneno da molleza distende -todas as molas da actividade, e o ser que nada é senão pela actividade, -dissolve-se, pouco e pouco, na ignominia d'um somno cobarde.» - - - - -V - -_Disse eu alguma tolice?_ - - -As lições de Platão e de Xenocrato tinham desenvolvido em Phocion um -coração virtuoso e uma alma elevada. Na tribuna, como no campo de -batalha, elle lembrava Aristides. Nunca um orador foi mais inflexivel -nos seus conselhos, nem contou menos com o successo da sua perseverança. -A eloquencia de Phocion era a expressão natural do seu caracter e dos -seus costumes; elle fallava aos athenienses com a serenidade de um -philosopho e o laconismo d'um spartiaco. Sabe-se que Demosthenes o -chamava--_o machado dos seus discursos_. Superior aos applausos, tanto -como aos clamores da multidão, elle abalroava de frente a potencia -popular, e as suas virtudes impunham-se a todas as paixões. Tinha a -palavra austera, e a sua eloquencia vigorosa e concisa desdenhava dos -artificios oratorios, que agradam á multidão e fazem estrondear -applausos. Estando um dia na tribuna e vendo-se ruidosamente victoriado -por todo o povo, volveu-se admirado para os seus amigos e -perguntou-lhes: - ---«Disse eu alguma tolice?» - - - - -VI - -_Arca de Noé_ - - -Era um immenso navio que Deus, depois de haver resolvido punir os homens -pelo diluvio, ordenou a Noé construisse para ahi se refugiar. - -O Patriarcha empregou cem annos na construcção d'essa arca, que tinha -trezentos covados de comprimento, cincoenta de largo e trinta de altura, -e que continha, além de Noé e sua familia, dois casaes d'animaes -impuros, assim chamados os que não era permittido offerecer em -sacrificio, e sete casaes d'animaes puros. - -Por causa da quantidade de seres que esse navio encerrava, o nome de -_Arca de Noé_ passou a servir para designar a agglomeração de numerosos -e disparatados objectos. - - - - -VII - -_Queimar não é responder!_ - - -No principio do anno de 1794, estava em toda a sua violencia o regimen -do Terror, dirigido por Robespierre, no seio do _comité_ de salvação -publica. Os proprios _dantonistas_, tornaram-se, em vista d'isto, -_indulgentes_, moderados; e agora que a republica estava senhora do -campo de batalha, elles queriam fazel-a entrar no reino das leis, e no -caminho da justiça para todos. Danton era o chefe d'esta opposição nova, -e o joven e fogoso Camillo Desmoulins era a sua penna, e, no _Vieux -Cordelier_, farpeava o governo com censuras e sarcasmos. O jornal era -lido com avidez, e venderam-se, n'alguns dias, cincoenta mil exemplares. -Afinal, Camillo ousou promover um _comité de clemence_, como o unico -meio de pacificar os partidos e de acabar com a revolução. Não era isto -o que queria Robespierre, que, n'uma sessão dos jacobinos, onde o -impetuoso pamphletario tinha sido intimado a comparecer, propoz -perfidamente dar-lhe uma correcção paterna, _queimando_ os numeros do -jornal. - ---«Queimar não é responder!»--exclamou Desmoulins. - -Esta replica imprudente causou a sua perda. Robespierre não se conteve e -disse: - ---«Pois bem, não se queimem e responda-se; leiam immediatamente os -artigos de Camillo, visto que assim o quer, e que elle seja coberto -d'ignominia!» - -Alguns dias depois o intrepido moço subia ao cadafalso. - - - - -VIII - -_Caim, que fizeste de teu irmão?_ - - -Caim, filho primogenito de Adão e Eva, cioso de seu irmão Abel, cujas -offerendas eram mais agradaveis ao Senhor, propoz-lhe um dia um passeio -ao campo e matou-o. O sangue do justo subiu até Deus, e a voz do Eterno -fez-se ouvir: - ---«Caim, Caim, que fizeste de teu irmão?» - -Deus amaldiçoou o fratricida, expulsou-o da sua face, e marcou-o na -fronte com um signal de reprovação. - -_Caim_ é o nome que se dá ao irmão que maltrata o irmão, abjurando o -amor fraterno. - - - - -IX - -_Do Capitolio á rocha Tarpeia só ha um passo_ - - -A rocha Tarpeia, chamada assim, de Tarpeia, joven romana que alli foi -estrangulada e sepultada, depois do acto de traição que commetteu, -entregando a cidadella aos sabinos, era um rochedo situado no proprio -recinto de Roma. Os romanos que se prendiam em perpetuar as recordações, -deliberaram, depois do supplicio de Tarpeia, que se precipitassem do -alto d'essa colina os criminosos accusados de traição. D'aqui a -locução:--_Ser precipitado da rocha Tarpeia_--para exprimir, -figuradamente, a quéda rapida d'uma posição elevada, e, -particularmente, a perda d'uma grande popularidade. - -E como este logar era situado junto do Capitolio, em que se coroavam os -triumphadores, as palavras--_A rocha Tarpeia está perto do Capitolio_, -ou--_Do Capitolio á rocha Tarpeia só ha um passo_, significam que a -quéda segue, muitas vezes, de perto o triumpho, e que a ignominia, como -extremo, toca a gloria. - -Esta phrase está, sobretudo, em uso desde o eloquente emprego que d'ella -fez Mirabeau, n'uma circumstancia celebre: Tratava-se de saber se a -iniciativa da guerra devia ser devolvida ao rei ou á assembleia; -Mirabeau pronunciou-se pela assembleia, e como ouvisse a palavra -_traidor_ soar aos seus ouvidos, o fogoso orador subiu á tribuna, e -tomando para texto do seu exordio a instabilidade do favor popular, fez -ouvir essas palavras, que ficaram celebres:--«E eu tambem, a mim tambem -queriam, ha poucos dias, levar-me em triumpho; e gritam agora nas -ruas:--_A grande traição do conde de Mirabeau!_ ... Eu não precisava -d'esta lição para saber que _só ha um passo do Capitolio á rocha -Tarpeia!_ ...» - - - - -X - -_Catão_ - - -Marco Porcio Catão, é, sobretudo, celebre pela austeridade dos seus -costumes. Fez-se notar, desde o principio da sua vida publica, pela sua -eloquencia mordente e aggressiva e pela sua opposição apaixonada ás -ideias da Grecia, que começavam desde então a modificar o genio da Roma -Antiga. Tão duro comsigo, como para os seus escravos, levantava-se antes -da aurora, excitava os servos ao trabalho, punha-se nú como elles, para -lavrar, comia o seu pão negro e bebia da sua agua avinagrada. Elevado á -censura, pôde, emfim, trabalhar na realisação do seu sonho:--a -restauração da antiga simplicidade romana. Fez regulamentos sumptuarios, -contribuiu os objectos de luxo, os enfeites das mulheres, reprimiu as -delapidações, e mostrou uma inflexivel severidade de costumes, a ponto -de degradar um senador que tinha beijado a esposa em presença da filha. -Amava-se a sua palavra, honrava-se o seu caracter; o povo applaudia este -censor inexoravel que _mordia_ toda a gente. O sobrenome de _Censor_ -ficou-lhe, e erigiram-lhe uma estatua com esta inscripção:--_A Catão, -que corrigiu os costumes_. - -A sua presença inspirava um tal respeito aos romanos, que, quando elle -assistia ao espectaculo, o povo esperava que elle sahisse para pedir as -farças e as danças licenciosas. - ---Dizer que um homem é um _Catão_ é dizer que é severo e rigido no -cumprimento do seu dever e nos seus costumes. - - - - -XI - -_Cezar_ - - -Caio Julio Cezar, consul romano, dictador e um dos maiores capitães da -antiguidade, era sobrinho de Mario. Cresceu no meio das guerras civis e -foi proscripto aos desoito annos, por Sylla, que viu n'elle _varios -Marios_. A estatua d'Alexandre, o Grande, que elle viu, passando em -Cadiz, fez-lhe derramar lagrimas de despeito, por vêr que na idade em -que tinha morrido esse heroe, elle não tinha ainda realisado nada de -notavel. Tinha uma ambição e uma actividade devoradoras e--«julgava não -ter feito coisa alguma em quanto lhe restasse alguma coisa a fazer.» - -O seu nome, como o de Alexandre, ficou como synonymo de grande -guerreiro, de conquistador civilisador. - -Vamos apontar por ordem chronologica, as differentes circumstancias da -vida de Cezar, que originaram locuções proverbiaes. - - -_1.º--A mulher de Cezar nem mesmo deve ser suspeitada._ - -Clodio, joven patricio, ambicioso e desmoralisado, amava Pompeia, mulher -de Cezar. Uma noite, quando as mulheres celebravam os mysterios da -boa-deusa, interdictos aos homens, elle introduziu-se, disfarçado com -trajes femininos, nos aposentos de Pompeia. Mas foi surprehendido por -uma escrava, que não era confidente.--«No dia seguinte, diz Plutarco, -toda a cidade soube que Clodio commettera um sacrilegio horrivel.» - -Julgado, como profanador dos santos mysterios, corrompeu os juizes e foi -absolvido. Cezar contentára-se em repudiar sua mulher. Chamado, porém, -como testemunha, elle depoz que não tinha nenhum conhecimento dos factos -que se imputavam ao accusado. Este depoimento pareceu muito estranho e o -accusador perguntou-lhe porque havia então repudiado sua mulher. Elle -respondeu: - ---_É porque a mulher de Cezar nem mesmo deve ser suspeitada._ - - -_2.º--Gostaria mais de ser o primeiro n'uma aldeia, que o segundo em -Roma._ - -Todos os actos, todas as palavras de Cezar, antes do seu advento ao -poder, revelam o seu caracter e a natureza da sua ambição. Depois da sua -pretura, tendo-o a sorte designado para o governo da Hespanha ulterior, -elle partiu para a sua provincia. Quando atravessava uma pobre aldeia, -perdida no fundo dos Alpes, alguns dos seus amigos perguntaram-lhe, -gracejando, se a ambição do poder e o desejo das dignidades occasionavam -tambem debates n'essa miseravel terra. - ---«Não riam--respondeu o futuro dictador--_eu gostaria mais de ser o -primeiro n'esta aldeia, que o segundo em Roma_.» - - -_3.º--Passar o Rubicão._ - -Cezar vinha de concluir a conquista dos gaulezes, e tinha encontrado -n'essas regiões thesouros bastantes para tudo comprar em Roma, onde -tudo se tornára venal. Os seus successos, o seu poder, mais ainda que os -seus conhecidos projectos, despertaram, emfim, a desconfiança de Pompeu, -que começava a receiar ver-se o logro d'aquelle de que elle se tinha -imaginado ser o protector. Desde então, poz tudo em acção para obter do -senado um decreto que ordenava a Cezar o abandono do seu exercito e a -resignação do commando. Este respondeu que estava prompto a obedecer, -com a condição de que Pompeu entraria, pelo seu lado, na vida civil. -Desde este momento, a guerra estava declarada. O senado encarregou os -consules de proverem a segurança publica, e Cezar fez avançar o seu -exercito para o Rubicão. Era uma pequena ribeira, que separava a Italia -da Gallia cisalpina. O senado para assegurar Roma contra as tropas da -Gallia, tinha, por um senatus-consulto celebre, declarado traidor á -patria e dedicado aos deuses infernaes, todo aquelle que, com uma legião -ou uma cohorte, passasse aquella ribeira. Prevenido na margem opposta, -Cezar, dominado pelo perigo da resolução audaciosa que ia tomar, hesitou -alguns instantes. - -«Tinham-se visto revoluções d'imperios, diz Lacordaire, thronos mudando -de senhores, e fôra isso, n'esse jogo de passageiras fortunas, o que -tinha illuminado o genio dos maiores d'entre os homens. Cezar, no -Rubicão, parára pensativo; a mão no peito e o olhar além do regato, elle -se dissera:--«Eu, Cezar, faço uma coisa que nenhum romano fez ainda: -desobedeço ao senado romano. Passando este ribeiro, faço um imperio -d'uma republica, senhora do mundo: passemol-o.» - ---«Vamos, pois, exclamou Cezar, como se cedesse á obsessão da sua -fortuna; vamos aonde nos chamam as vozes dos deveres e a iniquidade dos -nossos inimigos. _Alea jacta est!_--a sorte está lançada!» - -Palavra irrevogavel, pronunciada depois por todos os homens que, não -encontrando fundo no seu pensamento, e obrigados a escolherem entre dois -perigos supremos, tomam resolução no seu caracter, não podendo tomal-a -em outra parte, e se lançam a nado no Rubicão do acaso, para morrerem ou -para se salvarem pela sorte. - - -_4.º--Levas Cezar e a sua fortuna._ - -Pompeu, desesperando de defender a Italia com a approximação de Cezar, -deixou Roma acompanhado d'um grande numero de senadores, magistrados e -cidadãos e passou á Grecia, onde levantou um exercito. Cezar seguiu-o. -Tendo desembarcado á frente de cinco legiões, soube que a frota que lhe -levava viveres e reforços foi batida e dispersa pela de Pompeu. Na -critica circumstancia em que se achava toma a resolução d'ir ao -encontro d'Antonio, que devia soccorrel-o, e embarca elle só n'um barco -de pescador. Durante a travessia levanta-se uma tempestade e ameaça -submergir a fragil embarcação. O piloto espantado quer volver ao posto. -É então que o heroe lhe diz essa famosa phrase, contada por Plutarco: - ---«Que receias? _levas Cezar e a sua fortuna!_» - -E alguns dias depois humilhava o seu rival nos campos da Pharsalia. - - -_5.º--Soldado, fere no rosto!_ - -Antes da batalha de Pharsalia, Cezar, no meio d'uma região dedicada ao -seu rival, estava n'uma situação muito critica. Pompeu, cujo exercito -estava bem munido e fornecido pela sua frota, resolvera reduzir á fome o -seu inimigo. A perda de Cezar parecia certa, quando Pompeu, cedendo á -impaciencia dos seus soldados, travou peleja com os velhos legionarios -das Gallias, que bem podiam ser destruidos pela fome, mas que não podiam -deixar-se vencer.--«Soldado, fere no rosto!» tinha gritado Cezar aos -seus veteranos, vendo os brilhantes cavalleiros do exercito de Pompeu. -Estes jovens patricios, espantados, pozeram-se em fuga para não serem -desfigurados pelas lanças dos legionarios, e Cezar ficou senhor do campo -de batalha. - -A implacavel phrase de Cezar não encontra applicação alguma em -circumstancias analogas, e emprega-se a respeito d'um adversario de que -se quer tocar a fibra sensivel, que se deseja ferir á falta de couraça. - - -_6.º--Cheguei, vi e venci._ - -Apoz a morte de Pompeu e a conquista do Egypto, e em quanto Cezar se -engolfava no seio dos prazeres que lhe offerecia Cleopetra, o partido de -Pompeu, mais disperso que destruido, erguia-se por toda a parte. -Pharnacio, rei do Ponto, aproveitára a guerra civil para tentar reunir -na Asia as antigas possessões de seu pae. Despertado pelo perigo, Cezar -corre ao Bosphoro, esmaga o filho de Mithridates e termina essa guerra -com uma tal rapidez, que pôde contal-a inteira n'estas tres palavras -celebres, que elle dirigiu ao senado: - ---_Veni, vidi, vici; cheguei, vi, venci!_ - ---Faz-se uso da phrase para exprimir a facilidade, a promptidão com que -se executa uma empreza. - -Lembra-nos a proposito o seguinte caso analogo. Depois da sua victoria -sobre os turcos, Sobieski enviou ao Papa o estandarte de Mahomet, com -estas palavras de Cezar a que deu um caracter de modestia -christã:--«_Cheguei, vi e Deus venceu!_» - -_7.º--Idos de Março._ - -Cezar entrára em Roma, senhor do mundo inteiro. O senado conferiu-lhe -honras extraordinarias e revestiu-o d'uma illimitada auctoridade. Foi -nomeado consul por dez annos e dictador perpetuo; deram-lhe o nome de -_imperador_, o titulo de _Pae da Patria_ e erigiram-lhe uma estatua com -esta inscripção:--_Ao deus invencivel!_ A sua pessoa foi declarada -inviolavel. Concederam-lhe o privilegio de assistir ao espectaculo n'uma -cadeira dourada, com uma corôa na cabeça. Elle meditava projectos -immensos; queria engrandecer Roma, ornamental-a de monumentos -magnificos, fazer d'ella a rainha do Universo. Mas não lhe estava -reservado o cumprimento de tão vastos designios. Debalde se exforçára -por apagar todos os traços da guerra civil, debalde tinha cumulado de -favores e elevado aos primeiros cargos os que o tinham combatido, -debalde tinha erguido estatuas ao seu rival, porque nada podia desarmar -os partidarios da antiga liberdade. - -A sua clemencia parecia insultante; viu-se que não perdoava, mas que -desdenhava punir. Afinal uma formidavel conjuração se tramou contra a -sua vida. A conspiração devia explosir no meio do senado, e fôra fixada -para os _idos de Março_. O caso transpirou no publico, mas Cezar -recusou tomar qualquer precaução. Calpurnia, sua mulher, estava tão -persuadida da realidade do perigo, que o conjurou, com as mais vivas -instancias, a não sahir n'esse dia. - -Conta Plutarco, que muito tempo antes, um adivinho tinha advertido o -dictador de que devia desconfiar dos _idos de Março_. Quando sahia de -casa para o senado, encontrou o adivinho e disse-lhe, rindo: «--Chegamos -aos idos de Março.»--«É verdade--respondeu--mas ainda não passaram.» - -Alguns passos adeante um homem entregou-lhe um bilhete que continha -todas as particularidades da conspiração:--«Lêde--disse--e rapidamente!» -Mas Cezar não teve tempo e entrou para o senado. - ---Os _idos de Março_ designam, por analogia, uma epocha perigosa de -passar, e para a qual se fizeram incommodativos prognosticos. - - -_8.º--E tu tambem, meu filho!_ - -Apenas Cezar tinha entrado no senado, todos os conjurados o rodearam -como para lhe prestarem honra. Cimber, um d'elles, apresentou-se, afim -de lhe pedir o chamamento de seu irmão exilado, e como para lhe pedir -com mais submissão, tomou-lhe a fimbria da toga e puxou-a com violencia. -Era o signal combinado. Casca, tirando o seu punhal, feriu com elle o -dictador no hombro. Cezar, no mesmo instante toma a arma do assassino e -precipita-se sobre elle gritando:--«Que fazes, scelerado Casca?» Então -todos os conspiradores desembainharam as suas espadas e lhe vibraram -varios golpes. Cassio, mais animado que os outros, fez-lhe uma profunda -brecha na cabeça; Cezar defendia-se ainda, quando avistando Bruto, com o -punhal erguido sobre elle, exclamou:--«E tu tambem, meu filho Bruto!» Ao -mesmo tempo cobriu o rosto com o vestido e cahiu atravessado com vinte e -tres golpes, aos pés da estatua de Pompeu. - - -_9.º--A tunica de Cezar._ - -O cadaver de Cezar abandonado no senado foi conduzido, todo cheio de -sangue a sua casa por tres escravos. Alguns dias depois, Antonio -appareceu na tribuna das harengas e leu á multidão o testamento do -dictador. O povo, que elle não tinha esquecido nas suas generosidades -fez explosir a sua indignação. Então, Antonio, desdobrando do alto da -tribuna a tunica de Cezar, ensanguentada e crivada de golpes, tratou de -parricidas os auctores d'aquelle assassinio. Esta scena levou ao cumulo -a exasperação popular. E todos os assistentes fazendo logo uma fogueira -com as mezas e os bancos que encontraram á mão, n'ella queimaram o -corpo de Cezar; depois, tomando tições correram a casa dos assassinos -para lhes lançarem fogo, e os atacarem a elles proprios. - - - - -XII - -_Estava escripto_ - - -Esta resignação perante os duvidosos decretos do destino é o fundo da -doutrina religiosa da maior parte dos povos orientaes. É uma especie de -_fatum_ antigo, um pallido reflexo d'esse caracter poetico, quasi -grandioso, que o fatalismo--mistura de sensibilidade profunda e sombria -resignação--revestira entre os antigos. - -Os differentes systemas phrenologicos parecem não ter por fim senão o -darem razão physica d'estes factos moraes. - -A litteratura philosophica do seculo XVIII legou-nos duas obras muito -conhecidas, apesar de francezas, sobre a fatalidade: _Zadig_, conto de -Voltaire, e _Thiago o fatalista_, romance de Diderot. - - - - -XIII - -_Conhece-te a ti proprio_ - - -Estas famosas palavras estavam gravadas sobre o frontão do templo de -Delphos. Era a maxima favorita de Socrates; elle adoptou-a, explicou-a e -tornou-a celebre para sempre. Toda a lei moral reside n'estas palavras, -como toda a lei religiosa está encerrada n'estas admiraveis palavras de -Christo:--«Ama o proximo como a ti mesmo.» - -Seneca, o tragico, desenvolveu esta bella maxima nos seguintes versos -que traduzimos assim: - - «O homem é infeliz no instante em que fenece; - Quando tendo esquecido o ponto necessario, - Morre mui conhecido e a si se não conhece.» - - - - -XIV - -_As joias de Cornelia_ - - -Cornelia, mãe dos Grachos, era filha de Scipião, o Africano, e mulher de -Sempronio Gracho, que se illustrou nas guerras de Hespanha. Enviuvando, -com doze filhos, consagrou-se inteiramente á sua educação, e recusou -até, dizem, a mão de Ptolomeu, rei do Egypto. D'esta numerosa prole -conservou apenas uma filha, que foi casada com Scipião Emiliano, e dois -filhos, Tiberio e Caio Gracho, este sempre famoso pelo seu genio, pela -sua coragem e pelo seu tragico destino. Mulher d'um caracter viril e -d'um espirito cultivado, ella educou-os com o maior esmero, e -inspirou-lhes cedo o amor publico, a paixão da gloria e das grandes -emprezas, pedindo-lhes, por vezes, que a chamassem sempre a filha de -Scipião e nunca a mãe dos Grachos. - -Conta-se que uma dama da Campania estendendo, um dia, deante d'ella as -suas joias e os seus preciosos adornos, e pedindo-lhe para que ella lhe -mostrasse as suas, Cornelia lhe apresentou os filhos, dizendo: - ---«Eis as minhas joias e os meus adornos». - - - - -XV - -_Cresus_ - - -Cresus, rei da Lydia, submetteu a maior parte das cidades da Asia Menor, -e levou as suas conquistas até ao rio Halys. A fama do seu poder e das -suas riquezas, constantemente renovadas pelas areias auriferas do -Pactolo, tornou proverbial o nome de Cresus, para designar um homem -cumulado dos bens da fortuna. Elle perguntou um dia a Solon, que fôra -visitar a sua côrte, se conhecia um homem mais feliz do que elle. O -philosopho respondeu-lhe que nenhum homem póde ser saudado com o nome de -feliz antes da sua morte. Cresus não tardou a experimentar os effeitos -d'esta triste verdade. Um de seus filhos foi morto na caça, o outro -tornou-se mudo, e elle proprio, depois de ter visto os seus Estados -invadidos por Cyro, foi vencido na celebre batalha de Thimbreia e cahiu -nas mãos do vencedor, que ordenou a sua morte. Quando o conduziam ao -supplicio, vieram-lhe á memoria as palavras de Solon, e elle pronunciou -tres vezes, suspirando, o nome do legislador atheniense. Instruido da -causa d'esta exclamação, Cyro, commovido de piedade e tocado d'aquelle -exemplo das vicissitudes humanas, perdoou a Cresus e admittiu-o no -numero dos seus conselheiros. - -Esta bella legenda philosophica da vida de um homem, que foi -successivamente, e d'um modo tão frisante, o favorito e o joguete da -fortuna, é narrada por Herodoto, mas Xenophonte não falla d'ella. - ---O nome de _Cresus_ passou a designar um homem opulento, coberto de -todos os favores da fortuna. - - - - -XVI - -_Dôr, tu não és um mal_ - - -O stoicismo, fundado por Zenon, fórma uma das mais illustres -philosophias da antiguidade. Simples no seu principio e nas suas -deducções, frisante pelo seu caracter heroico e paradoxal, de tal modo -se fez conhecer, ao menos, pelos traços mais salientes da sua moral, que -os nomes de _stoicismo_ e _stoico_, entraram na applicação usual da -lingua, como expressão d'uma grande impassibilidade. Os stoicos faziam -consistir a virtude e a ventura na posse d'uma alma egualmente -insensivel á voluptuosidade e á dôr, liberta de todas as paixões, -superior a todos os receios, a todas as fraquezas. Admittindo como mal -apenas o vicio, como bem sómente a virtude, e considerando o resto como -indifferente, elles negavam que a dôr fosse um mal. Zenon, seu illustre -chefe, foi o primeiro que proclamou a lei do _dever_ e que d'ella lançou -os fundamentos com uma abundancia de provas que tinha a sua origem n'uma -profunda convicção, independentemente de toda a argumentação dialectica. -As paixões não são elementos necessarios da nossa condição; são doenças -da alma: a saude, a _apathia_, a ausencia das paixões. Foi por causa -d'esta severidade d'opiniões moraes, pelo menos entre os primeiros -stoicos, que se deu, em geral, o nome de stoicismo a toda a opinião -severa em moral. - -Esta doutrina, que se allia perfeitamente com todas as grandes virtudes, -e que tendia a fazel-as nascer, logrou grande credito entre os romanos, -apesar da sua pequena inclinação pela philosophia; adoptaram-na com -enthusiasmo, porque se concertava admiravelmente com a sua energia -intellectual e a sua severidade. Notou-se, em honra da seita dos -stoicos, que os personagens mais virtuosos de Roma a tinham -adoptado:--Bruto, Catão d'Utica, Thrasêas, Seneca, Tacito, Epictecto, -Antonino e Marco Aurelio. A moral ficou como gloria dos stoicos, e -tirando-lhe o que encerra de paradoxal e exaggerado, ella assegura-lhes -o primeiro logar entre os percursores mais puros e mais directos do -christianismo. - -A divisa principal dos stoicos era:--«_Soffre e abstem-te!_» - -Conta-se que um discipulo de Zenon, exclamava no meio dos maiores -soffrimentos causados pela gôtta: - ---«_Dôr, tu não és um mal!_» - -Havia, por sem duvida, ostentação n'estes principios da doutrina do -stoicismo, mas nem por isso ella deixou de produzir as virtudes mais -heroicas. - - - - -XVII - -_Egéria_ - - -Numa Pompilio, legislador e segundo rei de Roma, nasceu em Ceres, no -paiz dos sabinos. A tradição pinta-o como um principe pacifico e cheio -de sabedoria. Nem uma guerra perturbou o seu reino, consagrado -inteiramente á legislação e ás instituições religiosas. Elle creou e -organisou, entre outras coisas, as vestaes, os pontifices, e construiu -templos e instituiu festas. - -Como todos os legisladores da antiguidade, usou d'artificio para -assegurar o respeito das suas instituições, e persuadiu aos romanos que -recebia inspirações da nympha Egéria, só visivel para elle no fundo d'um -bosque sagrado. - -Vê-se ainda hoje, perto de Roma, n'um valle delicioso, o resto da fonte -Egéria, entre a via Latina e a via Appia. Antigos monumentos representam -esta nympha n'um costume analogo ao das sybillas, de tunica fluctuante, -pés nús, cabellos soltos, e traçando caracteres n'um livro posto sobre -os joelhos. - ---Hoje o nome de Egéria dá-se familiarmente, sobretudo, a uma mulher de -que se tomam os conselhos, de que se segue a opinião, principalmente -para a direcção de negocios politicos. - - - - -XVIII - -_Mais uma victoria como esta e estamos perdidos_ - - -Pyrrho, sobrinho d'Olympias, era o principe mais valente, mais -aventureiro de quantos se habilitaram á herança d'Alexandre. Passou a -vida a conquistar e a perder corôas. Não podia permanecer tranquillo no -Epiro, julgando que não fazendo mal nem havendo quem lh'o fizesse, não -tinha em que passar o tempo. Assim, o successo faltou sempre aos -designios d'essa creança animada da fortuna, que viveu e morreu, menos -como rei que como aventureiro. A sua brilhante reputação militar, fel-o -chamar pelos tarentinos, então em guerra com os romanos. A imaginação -exaltada representa-lhe já a Italia conquistada, depois a Sicilia e -Carthago, e parte cheio de alegria para Tarento, cidade de prazeres, que -elle transforma n'um campo, e os seus habitantes afeminados em soldados. -Ganhou primeiro, graças aos seus elephantes, a batalha de Heraclêa, em -que os romanos perderam quinze mil homens e elle treze mil. Venceu ainda -em Asculo, em que o triumpho não foi comprado menos caro. Depois d'esta -sangrenta batalha foi que elle respondeu aos que o felicitavam:--«Mais -uma victoria como esta e estamos perdidos!» - -Pyrrho, afinal, deixou a Italia, e encontrou a morte nas ruas de Argos, -aonde uma velha o matou, atirando-lhe de cima do telhado uma pesada -telha. - - - - -XIX - -_Espada de Damocles_ - - -Damocles, um dos cortezãos de Denys, o Antigo, fazia-se notar pela -emphase das suas adulações, e não cessava de elogiar a ventura de seu -senhor. O tyranno resolveu inicial-o nos prazeres da grandeza, por meio -d'uma allegoria espiritual que faria honra a um califa oriental. -Convidou-o a tomar o seu logar durante um dia, e deu ordens para que -Damocles fosse tratado como rei, e lhe servissem um banquete sumptuoso. -O cortezão tomou logar n'um leito d'honra; tem a fronte cingida do -diadema; as iguarias mais exquisitas cobrem a meza. Damocles está -rodeado d'escravos, attentos aos seus minimos signaes; deliciosos -perfumes fumegam em torno a si, e a mais adoravel musica lhe encanta o -ouvido; as cortezãs adulam-no, e poetas cantam em seu louvor. -Embriaga-se em ventura, quando, de subito, levantando os olhos, vê -suspensa, por cima de sua cabeça, uma espada apenas preza pela crina -d'um cavallo. Pallido e tremulo, deixa escapar a taça das mãos, -levanta-se desnorteado e pede a Denys para pôr termo á sua realeza. -Tinha comprehendido o que é a ventura d'um tyranno. - ---De todos os factos historicos que deixaram traço nas linguas, a -_espada de Damocles_ é o mais conhecido, poderemos até dizer o mais -vulgar. É o perigo temido ou previsto, que póde ferir um homem no meio -d'uma apparente prosperidade. - -Um escriptor contemporaneo disse:--«A abobada dos céus é para o -criminoso a sala do festim de Damocles, d'onde pendia uma espada sobre -sua cabeça». - -E Alfredo de Musset, nas _Confissões d'um Filho do Seculo_, -tambem:--«Conta-se que Damocles viu uma espada sobre a sua cabeça; é -assim que os libertinos parecem ter por cima d'elles um não sei quê, que -lhes grita constantemente:--Vai, vai sempre, estou por um fio!» - - - - -XX - -_O prato de lentilhas_ - - -Esaú, o primogenito, era um grande caçador; Jacob, pelo contrario, era -um homem simples, vivendo em casa, occupado unicamente em trabalhos -domesticos. A doçura do seu caracter tornava-o mais agradavel a sua mãe -que Esaú, que tinha attrahido a affeição particular de seu pae Isaac. Um -dia, em que Esaú voltava do campo, cheio de fadiga e oppresso pela fome, -pediu a Jacob que o deixasse comer d'um _prato de lentilhas_ que este -tinha preparado. Jacob consentiu, com a condição de que Esaú lhe cederia -o seu direito de primogenito. Mais tarde, Jacob, recorrendo ao -estratagema e auxiliado por sua mãe, surprehendeu a Isaac, moribundo e -cego, a sua benção, que o fazia chefe da familia de onde devia sahir o -Christo. Esaú concebeu uma violenta cólera, e Jacob, para se subtrahir -ao seu resentimento retirou-se para casa de Labão, seu tio. - ---Diz-se _prato de lentilhas_, a insignificancia relativa, pela qual se -cede uma coisa realmente muito valiosa, especialmente moral. - - - - -XXI - -_E eu tambem sou pintor!_ - - -Corregio, natural de Corregio, nascido em 1494, é um dos maiores -pintores da eschola italiana. As suas composições fazem-se notar, -sobretudo, pela graça ondulante dos contornos, pela flexibilidade e -elegancia das fórmas, pela riqueza do colorido, pela sciencia da luz e -da sombra, pela intelligencia perfeita do claro-escuro! Era eminente em -representar creanças, mulheres, emfim, scenas graciosas e de -voluptuosidade. A sua _Antiope adormecida_ é d'uma riqueza deslumbrante. -A cidade de Parma offereceu, debalde, um milhão a Napoleão para -conservar o _S. Jeronymo_, que é considerado como a sua obra prima. Não -se conhece nenhum mestre a este pintor, e pensa-se que só a si deve o -que foi. A revelação do seu genio explosiu deante d'um quadro de -Raphael. Transportado de admiração e como que illuminado, elle exclamou: - ---«E eu tambem sou pintor!» - ---«_Anch'io son'pittore!_» - - - - -XXII - -_Estrella dos Reis Magos_ - - -No momento em que Jesus vinha ao mundo em Bethlem, n'um estabulo, os -magos do Oriente avistaram uma estrella no céu, que elles ainda não -tinham visto. Deixaram o seu paiz, e, guiados por esse pharol -miraculoso, chegaram a Bethlem, onde acabava de nascer o Menino Deus. -Penetraram no local acima do qual a estrella se detivera, e alli -encontraram Maria e seu Filho, e, prostrando-se deante do recemnascido, -adoraram-no e offereceram-lhe ouro, incenso e mirra. É este o -acontecimento que a egreja celebra na festa da Epiphania ou dos _Reis_. - ---A estrella que guiou os magos na sua piedosa peregrinação enriqueceu a -nossa lingua com uma imagem poetica, muito frequentemente empregada. -Essa estrella é muitas vezes uma voz intima, um ente amado, que nos -chama e nos dirige para um fim glorioso. - - - - -XXIII - -_E, comtudo, ella gira!_ - - -Galileu, é, sem contradicção, a maior gloria scientifica da Italia. O -methodo experimental, de que é o creador, fez-lhe em breve repellir os -absurdos physicos e astronomicos professados no seu tempo, e levantar -contra elle todos quantos eram adeptos das velhas doutrinas. Mas de -todas as suas ousadias, a que devia ser mais perigosa para o seu -repouso, foi o seu novo systhema astronomico, pelo qual, segundo -Copernico, e contrariamente a Ptolomeu, elle fazia do sol o centro -immovel do nosso systema planetario. Pretendeu-se que esta doutrina -estava em formal contradicção com varias passagens da Escriptura, e foi -denunciado á Inquisição. Elle defendeu-se com uma grande habilidade, -representando que as passagens da Biblia e dos Santos Padres tinham sido -interpretadas, e que, além d'isto, o objecto da Escriptura era a -salvação dos homens e não o ensino da astronomia. Contentaram-se a -principio em lhe fazerem uma advertencia, e em declararem _falsa e -heretica_ a sua doutrina do movimento da terra e da immobilidade do -sol. Galileu calou-se durante algum tempo; mas a paixão da sciencia foi -a final mais forte que a prudencia. Compoz, por sua desgraça, -_Dialogos_, em que, por um artificio empregado muitas vezes nos tempos -de despotismo, poz em lucta os partidarios dos systemas oppostos, sem se -pronunciar por um d'elles. Adivinha-se facilmente que os partidarios da -immobilidade da terra, foram esmagados pelos argumentos, realmente sem -replica, dos seus adversarios. Galileu foi mandado immediatamente a Roma -pela Santa Inquisição, interrogado, e, segundo uns, mas sem que haja -provas, posto em tortura, e, afinal, condemnado a prisão perpetua e á -abjuração solemne dos seus _erros_. - -A sciencia como a fé tem tido os seus martyres; mas Galileu fraquejou na -ultima hora e consentiu em humilhar o seu genio perante os prejuizos dos -seus contemporaneos. A 22 de junho de 1633 pronunciou a sua abjuração no -convento de Minerva, em presença dos cardeaes inquisidores. A formula -que lhe foi imposta é um dos monumentos mais curiosos da inepcia humana: - ---«Eu, Galileu, de setenta annos, sobre os Santos Evangelhos que toco -com as minhas proprias mãos ... abjuro, maldigo e detesto o erro e a -heresia do movimento da terra, etc.» - -Conta-se que levantando-se depois da realisação d'este sacrificio, -Galileu arrastado pela revolta intima das suas convicções, bateu com o -pé no chão e murmurou energicamente: - ---«_E, comtudo, ella gira!--E pur si muove!_» - -Foi o seu unico protesto; mas elle atravessará os seculos como o grito -da verdade opprimida e deporá eternamente contra a ignorancia e a -perseguição. - - - - -XXIV - -_Virtude, não és mais que um nome_ - - -Depois da morte de Cezar, os seus assassinos, forçados a fugirem deante -da cólera do povo, levantado por Antonio, retiraram-se para a Macedonia. -Os triumviros avançaram contra elles com forças consideraveis. Alguns -dias antes da batalha, que devia decidir da sorte da republica, e n'uma -noite em que Bruto velava na sua tenda, entregue a sombrias reflexões, -pareceu-lhe, de repente, que ouviu entrar alguem. Volvendo-se viu um -phantasma horrivel na sua presença. - ---«Homem ou deus, quem és?»--lhe diz Bruto. - ---«Sou o teu mau genio--responde--; vêr-me-has em breve em Philippes.» - -Esta prophecia não devia tardar a realisar-se. Poucos dias depois, com -effeito, e na noite que precedeu a batalha de Philippes, quando Bruto -velava só na sua tenda, segundo o seu costume, em quanto que todo o -exercito estava mergulhado em somno, o mesmo phantasma lhe appareceu -segunda vez, o olhou com ar sinistro e se retirou sem proferir uma unica -palavra. No dia immediato, a liberdade romana expirava nas planicies de -Philippes, e Bruto matava-se, soltando esse grito de desanimo, muito -conhecido: - ---«_Virtude, não és mais que um nome!_» - - - - -XXV - -_Festim de Balthazar_ - - -Cyro, rei dos persas, cercava Babylonia á frente d'um exercito -formidavel; Balthazar, confiando na força das suas muralhas, ria dos -vãos exforços do seu inimigo e esquecia, nos festins, os enfados d'um -longo cêrco. Uma noite em que celebrava uma orgia com os grandes da sua -côrte e todas as suas mulheres, fez trazer, por uma fanfarronada de -impiedade, os vasos sagrados que Nabuchodonosor tinha outr'ora -subtrahido ao templo de Jerusalem. Realisada aquella profanação, o impio -monarcha viu com espanto uma mão que traçava na parede, em traços -ardentes, caracteres mysteriosos, que nem Balthazar nem ninguem da côrte -pôde traduzir. - -O propheta Daniel tendo sido chamado, disse ao rei. - ---«Foi Deus que enviou aquella mão, e é isto o que está escripto: _Mané, -Thécel, Pharés_;--_Mané_, Deus contou os dias do teu reino e lhe marcou -o fim; _Thécel_, foste collocado na balança e achado muito leve; -_Pharés_, o teu reino será dividido!» - -Na mesma noite, com effeito, Cyro, tendo conseguido desviar o curso do -Euphrates, penetrou na Babylonia pelo seu leito secco. Balthazar foi -morto e a Babylonia reunida ao imperio dos persas. - ---Por allusão a este festim celebre, chama-se _festim de Balthazar_ a -toda a orgia ruidosa, ou, por uma hyperbole familiar, a todo o banquete -copioso e prolongado. - - - - -XXVI - -_Forcas caudinas_ - - -Roma tinha vencido a maior parte das nações visinhas; mas desde que quiz -estender o seu dominio á parte meridional da Italia encontrou os -samnitas, povo de costumes rudes e bellicosos. Havia de um e outro lado -as mesmas armas, a mesma disciplina, o mesmo habito dos combates. D'alli -a ambição e o valor romanos; d'aqui o patriotismo e a infatigavel -energia dos samnitas, iam dar a esta lucta um caracter d'incrivel -encarniçamento. Eis aqui o episodio mais celebre d'essa guerra, que -devia terminar pela conquista do Samnio. Romperam-se as hostilidades; os -samnitas estavam acampados perto de Candium, no meio das montanhas. -Poncio Herennio, seu general, resolveu attrahir, por um falso aviso, o -exercito romano a um desfiladeiro, de onde lhe seria impossivel -escapar-se. Logo dez soldados samnitas, disfarçados em pastores, -approximaram-se dos postos avançados inimigos e espalham a nova de que -os samnitas cercam Luceria, cidade alliada dos romanos. Os consules -apressam-se a voar em sua defeza, escolhendo o caminho mais perigoso, -mas mais curto--desfiladeiro profundo, estreito e coberto de florestas. -Era o que tinha previsto o general dos samnitas. Apenas os romanos se -empenharam n'esse caminho perigoso, avistam as alturas cobertas -d'inimigos. Era forçoso, ou morrer ou render-se, porque as sahidas -estavam obstruidas. O pai de Poncio Herennio, velho cheio d'experiencia, -aconselhava a seu filho o despedir todos os romanos sem resgate, para os -fazer amigos, ou exterminal-os até ao ultimo para vibrar um golpe mortal -na republica. O general samnita, escutando sómente o desejo de humilhar -o orgulho romano, obrigou-os a entregarem-se á discrição, e fez passar -todo o exercito sob um jugo formado de dois _forcados_ espetados no solo -e encimados d'um terceiro. Todos os soldados com os consules á frente, -passaram, tremendo, sob esse instrumento d'opprobrio, depois de terem -deposto as armas. O senado recusou ratificar compromissos impostos em -condições tão humilhantes; foi preciso combater de novo, e sangrentas -derrotas puniram os samnitas da sua imprudente confiança na fé romana. - ---Depois a expressão _passar sob as forcas caudinas_ entrou em uso para -caracterisar toda a concessão onerosa ou humilhante, arrancada aos -vencidos. - - - - -XXVII - -_Irmão, é preciso morrer_ - - -As austeridades da vida monastica tornaram-se proverbiaes, mas foi, -sobretudo, na Trappa que ellas se observaram com todo o rigor dos -primeiros seculos do christianismo. Os trappistas guardam absoluto -silencio, dividem o tempo entre a oração e o trabalho manual, -alimentam-se de pão grosseiro e legumes e vestem apenas o habito de -burel. Devem ter sempre deante dos olhos a imagem da morte. E é para se -lembrarem d'esta grande verdade, que em cada dia visitam a valla que -deve servir-lhes de derradeiro asylo. - -«O silencio--diz um eloquente orador contemporaneo--anda ao seu lado, e -se fallam, quando se encontram, é para se dirigirem esta melancholica -phrase: - ---«_Irmão, é preciso morrer ..._» - - - - -XXVIII - -_Cahir com graça_ - - -Quando em Roma o gladiador se sentia mortalmente ferido, nos sangrentos -combates do circo, e a destreza se lhe tornava inutil, elle procurava -ainda accender applausos na multidão, para a qual a sua agonia era um -espectaculo, por uma queda a que elle tentava imprimir toda a arte, e -_cahia na arena com graça_. - ---Esta phrase applica-se, pelo lado moral, aos que, em politica, no -amor, etc., se salvam da humilhação d'um cheque, pela boa graça, real ou -ficticia, que fazem acceitar. - - - - -XXIX - -_Hippocrates diz sim, Galiano diz não_ - - -Hippocrates e Galiano são os dois representantes mais illustres da -medicina, entre os antigos: aquelle nos gregos, este nos romanos. -Galiano nutria uma profunda veneração pelo genio do pae da medicina, e -um dos maiores serviços que prestou á sciencia, foi o de ter, no meio -d'uma sã critica, collocado o facho sobre as obras d'aquelle que chamava -seu mestre. Hippocrates e Galiano teem de commum que dotados ambos d'um -vasto genio, avançaram muito nos segredos da natureza, e ambos mostraram -egual ardor na investigação da verdade, não pelo apparato das riquezas, -mas só pelo amor da humanidade. - ---Esta phrase proverbial: _Hippocrates diz sim, Galiano diz não_, não -tem pois a sua origem no antagonismo dos dois grandes homens e dos seus -systemas; mas como a medicina é o immenso campo da contradicção, e -quando um medico diz--_tanto melhor_, um outro diz--_tanto peior_; -quando este applica sangrias aquelle proscreve-as; quando um colloca a -séde de todas as doenças nos nervos, o outro nos humores; quando, emfim, -um escreve no seu estandarte--_contraria contrariis_ ... e o -outro--_similia similibus_ ..., comprehende-se que era á medicina que a -contradicção devia pedir a sua divisa, e que as duas columnas d'esta -sciencia lhe deviam fornecer a expressão. - - - - -XXX - -_É muito tarde!_ - - -Esta phrase data da revolução de Julho de 1830, em França, e eis em que -circumstancia foi pronunciada. Uma ultima tempestade tinha derrubado -para sempre o throno do ramo mais velho dos Bourbons. Era em -sexta-feira, 30 de Julho; o povo estava inteiramente senhor de Pariz, e -uma commissão a que presidia Lafayette cercava o Hotel-de-Ville. Carlos -X, em Saint-Cloud, dominado por uma cegueira que lhe tinha feito jogar a -corôa, conservava ainda illusões e esperava que algumas concessões o -collocariam sobre o throno. M. de Sussy, portador de despachos que -revogavam as fataes determinações de 25, apresenta-se no Hotel-de-Ville -e entrega-os a Lafayette. Este dá-lhe então a famosa resposta: - ---«_É muito tarde!_» - -Alguns dias depois o duque d'Orleans, chefe do ramo mais novo, subia ao -throno. Mas, estranha volta das coisas d'este mundo, dezoito annos -depois e em circumstancias quasi analogas, a mesma resposta foi dada a -Luiz Philippe. Elle tambem devia ouvir Lamartine responder ás suas -tardias concessões: - ---«_É muito tarde!_» - - - - -XXXI - -_Não ha grande homem para o seu creado de quarto_ - - -Segundo Mademoiselle Aïssé, esta phrase teria sido pronunciada pela -primeira vez por Madame Cornuel, mulher d'espirito, do tempo de Henrique -IV, da qual Madame de Sevigné cita os bons ditos. Essa phrase é, sem -duvida, uma reminiscencia d'essa outra de Montaigne:--«Poucos homens -teem sido admirados pelos seus creados.» Qual é, em verdade, o homem de -genio que fica egual a si proprio, quando já não está em scena? O mundo -é um espectaculo, onde cada qual representa um papel apropriado, em -quanto está deante do publico, mas de que se despoja todo o brilho -d'emprestimo desde que se recolhe a bastidores. Aqui o homem substitue o -heroe e quantos poderiam dizer como o grande Condé, quando era fatigado -com titulos pomposos e elogios hyperbolicos: - ---«_Perguntem o que sou ao meu creado de quarto!_» - - - - -XXXII - -_Cantam, elles pagarão_ - - -Mazarino governou a França depois de Richelieu, em momentos de -perturbações e de guerra civil. Era a rapoza succedendo ao leão. Fez uma -politica completamente opposta á do seu terrivel predecessor; os seus -meios favoritos eram a astucia, a finura, a paciencia. Comprazia-se em -repetir: - ---«O tempo é um homem galante!» - -Nenhum ministro foi tão posto em canções como elle; mas insensivel aos -pamphletos que diariamente dirigiam contra a sua pessoa, o astucioso -italiano apenas dizia: - ---«Deixemol-os fallar e prosigamos!» - -A cada novo imposto choviam novas satyras. Elle, porém, seguro de que -uma opposição, que só desabafava em _couplets_ satyricos, o não poderia -incommodar, acudia com toda a serenidade: - ---«_Cantam, elles pagarão!_» - - - - -XXXIII - -_Perdi o meu dia_ - - -O imperador Tito, que a historia cognominou _as delicias do genero -humano_, exclamava quando tinha passado um só dia sem encontrar occasião -de praticar algum bem: - ---«Meus amigos, _perdi o meu dia!_» - -Boileau exprimiu esta generosa ideia nos seguintes versos da _Epistola -ao Rei_: - - «Tal esse imperador, sob o qual, Roma via, - Renascer de Saturno e de Rhêa outro dia; - Que rendeu ao seu jugo o universo amoroso, - Que jámais alguem viu sem se sentir ditoso, - E que chorava á noite o tempo que perdera - _Quando passava o dia e algum bem não fizera_.» - - - - -XXXIV - -_Amo Platão, mas amo mais a verdade_ - - -Platão e Aristoteles são os dois mais illustres representantes da -philosophia antiga. O primeiro, discipulo de Socrates, estava em todo o -esplendor da sua fama, quando Aristoteles foi a Athenas para seguir as -suas lições. O discipulo não tardou a tornar-se tão celebre como o -mestre; mas dois espiritos d'esta superioridade, e, ao mesmo tempo, tão -differentes, ambos feitos para reinarem no dominio do pensamento, deviam -em breve separar-se. - -Assim, Aristoteles, sem ser, como se diz, inimigo do seu mestre, não -adoptava todas as consequencias da sua doutrina; todavia, quando se -achava em contradicção com elle, sabia exprimir a sua opinião com a -sábia medida d'um philosopho e não com a funda amargura d'um rival. - ---«Amo Platão--dizia--mas amo mais a verdade.»--«_Amicus Plato, sed -magis amica veritas._» - ---Esta homenagem prestada á verdade, quando é tida em desaccordo com as -doutrinas de um genio, mesmo transcendente, passou a ter foros de -proverbio. - - - - -XXXV - -_Achei!--Eureka!_ - - -Esta exclamação que se faz ouvir quando, depois de longas investigações, -o espirito, repentinamente inspirado, chega á descoberta que elle -perseguia, foi proferida pela primeira vez, por Archimedes, nas -circumstancias seguintes: - -Hieron, rei de Syracusa, suspeitava que um ourives, que lhe tinha -fabricado uma corôa d'ouro, tivesse falsificado o metal, misturando-lhe -uma certa quantidade de prata. Elle consultou Archimedes, seu parente, -sobre os meios de descobrir a fraude, de que julgava poder queixar-se. O -illustre mathematico reflectia profundamente na solução possivel d'este -problema, quando um dia, estando no banho, percebeu que os seus membros, -mergulhados na agoa, perdiam consideravelmente do seu pezo; que, por -exemplo, elle podia levantar uma perna com extrema facilidade. O seu -genio entreviu logo os elementos d'esse grande principio -d'hydrostatica, que determinou em seguida rigorosamente:--que todo o -corpo mergulhado n'agoa, perde uma parte do seu pezo, egual ao pezo do -volume d'agoa que esse corpo desloca.--Esta descoberta dava-lhe a -solução do problema. No meio do enthusiasmo que lhe produziu esta -revelação elle sahiu do banho e lançou-se na rua gritando: - ---_Achei! achei!_--_Eureka! Eureka!_ - -Com effeito, tinha encontrado o meio de determinar a gravidade -especifica de todos os corpos, tomando a agoa por unidade. Procurou, -pois, duas massas, d'ouro e de prata, cada uma d'um pezo egual á corôa: -mergulhou-as successivamente n'um vaso cheio d'agoa, observando com -cuidado a quantidade de liquido deslocado pela immersão de cada uma -d'ellas. Submetteu á mesma experiencia a propria corôa, e achou assim o -meio certo d'apreciar a quantidade d'ouro e de prata de que ella era -composta. - ---O _achei!_ de Archimedes, ficou tendo applicação, nos casos em que, -uma difficuldade qualquer, se vence por uma solução satisfactoria. - - - - -XXXVI - -_Eu desejaria não saber escrever_ - - -Néro, educado por Seneca e Burrhus, dois dos mais sabios romanos d'esse -seculo, esteve longe de annunciar, na sua mocidade, as sanguinarias -inclinações, que o tornaram o typo da crueldade. Elle pareceu querer -consolar os romanos do reino de Tiberio; os seus primeiros actos, cheios -d'uma grande doçura, provam que aos seus instinctos de crueldade soube -alliar uma profunda hypocrisia, e que a educação é completamente -impotente para abafar, em certos caracteres, pelo menos, os germens das -paixões más, que trazem nascendo. Desde o segundo dia do seu reinado -elle foi ao senado, e em um discurso que Seneca lhe havia composto, -annunciou que o seu projecto era tomar Augusto por modelo. Em verdade os -principios do seu reino pareceram-se com os ultimos do reino d'aquelle -que se propunha imitar. Mostrou-se justo, liberal, affavel, polido, -complacente e accessivel á piedade. A modestia realçava-lhe ainda as -qualidades. O senado, tendo-o louvado pela sabedoria do seu governo, fez -com que elle dissesse: - ---«Esperem, para me louvarem, que eu o tenha merecido.» - -Um dia em que lhe apresentaram, para assignar, a sentença que condemnava -á morte um criminoso, elle disse: - ---«_Eu desejaria não saber escrever!_» - -E comtudo foi ... Néro! - - - - -XXXVII - -_Linguas d'Esopo_ - - -Esopo, escravo do philosopho Xantus, recebeu um dia do seu senhor, que -tinha convidado varios amigos para jantar, ordem de comprar no mercado, -tudo quanto houvesse de melhor, e nada mais. - ---«Eu te ensinarei a especificares o que desejas, sem te entregares á -discrição d'um escravo»--dissera o phrygio comsigo mesmo. - -E comprou só linguas, que fez cosinhar de todos os modos possiveis, de -maneira que o principio, o meio e o fim do banquete, foram linguas. Os -convidados louvaram a principio a escolha d'Esopo, mas, afinal, -desgostaram. - ---«Não te ordenei,--disse Xantus--que comprasses o que houvesse de -melhor?» - ---«E que ha melhor que a lingua?--respondeu Esopo.--É o laço da vida -civil, a chave das sciencias, o orgão da verdade e da razão; por ella se -construem e policiam cidades; por ella se instrue, se persuade e se -reina nas assembleias; por ella se satisfaz ao primeiro dos deveres, que -é louvar os deuses.» - ---«Pois bem--replicou Xantus, que pretendia apanhal-o--compra amanhã o -que houver de peior. Os mesmos convidados virão a minha casa e quero -variar.» - -No dia seguinte Esopo só fez servir linguas, dizendo que a lingua é a -peior coisa que ha no mundo. - ---«É a mãe de todas as questões, a alimentadora de todos os processos, a -origem das divisões e das guerras. Se ella é o orgão da verdade, é -tambem o do erro, e, o que peior é, da calumnia. Por ella destroem-se as -cidades; e se por um lado louva os deuses, por outro é o orgão da -blasphemia e da impiedade.» - ---As _linguas d'Esopo_ ficaram celebres, para designarem o que, podendo -ser encarado sob dois aspectos oppostos, dá egualmente occasião ao -louvor e á critica. - - - - -XXXVIII - -_Lanterna de Diogenes_ - - -Na epocha em que vivia Diogenes, os athenienses pareciam ter perdido a -memoria de Marathão e Salamina; eram já os athenienses da decadencia, e -em quanto que Demosthenes procurava em vão accender essas heroicas -recordações pelos masculos accentos da sua eloquencia, o cynico -stigmatisava a seu modo, a sua cobardia e a sua corrupção. - -Uma vez foi encontrado em pleno meio dia, nas ruas d'Athenas, levando na -mão uma lanterna accesa, e como lhe pedissem a razão de tão estranho -caso, elle limitou-se a responder: - ---«_Procuro um homem!_» - - - - -XXXIX - -_O mestre o disse_ - - -Pythagoras, um dos maiores, e, talvez até o maior philosopho da -antiguidade, aspirava, nada menos, que a constituir no mundo inteiro uma -especie de religião. A sua doutrina tendia politicamente a estabelecer -uma aristocracia forte e poderosa, e a revestil-a d'um caracter -sacerdotal, que a tornasse semelhante ás theocracias do Oriente; em -fazer das luzes scientificas a partilha d'um pequeno numero de -iniciados, e em dar a estes o governo do mundo, attribuindo-lhes a -infallibilidade. Estas grandes e arrojadas ideias inspiraram uma especie -de terror aos gregos da Italia e provocaram o desastre espantoso que -feriu subitamente os pythagonios. - -Comprehende-se o imperio que um philosopho d'este quilate devia adquirir -sobre o espirito dos seus discipulos, e assim, entre elles, a phrase--_o -mestre o disse_, equivalia a uma formula magica, que cortava -completamente todas as disputas. - ---Esta phrase que serve para exprimir o respeito que se professa por uma -auctoridade, era d'algum modo a divisa de La-Fontaine, cuja veneração -pelos antigos é muito conhecida. - ---Um orador contemporaneo affirmou, nos rasgos da sua eloquencia, que o -homem não dirá mais--_o mestre o disse_, porque o homem está emancipado -do homem. Elle dirá agora:--_A verdade diz--A sciencia diz_. - - - - -XL - -_O rei é morto, vive o rei!_ - - -Este velho grito da monarchia, significava que a realeza nunca morria em -França. Apenas o rei exhalava o ultimo suspiro, um arauto apparecia ao -balcão do palacio e gritava tres vezes deante do povo reunido: - ---«_O rei é morto, vive o rei!--Le roi est mort, vive le roi!_» - -Mas era, sobretudo, na cerimonia funebre e quando o defuncto monarcha ia -tomar o seu logar nas cryptas de S. Diniz, que estas palavras, -pronunciadas no meio das pompas da religião, retumbavam d'uma maneira -verdadeiramente solemne. Ouviram-se, pela ultima vez, em França, na -morte de Luiz XVIII. - - - - -XLI - -_O estado sou eu!_ - - -No dia immediato ao da morte do cardeal Mazarino, Luiz XIV, então de -vinte e dois annos, fez chamar os ministros que o cardeal lhe tinha -deixado--Pedro Séguier, Miguel Lettellier, de Lionne e Fouquet, e -declarou-lhes que seria elle proprio, de futuro, o seu primeiro -ministro. Na mesma tarde o arcebispo de Ruão foi encontrar-se com elle e -disse-lhe: - ---«Vossa Magestade tinha-me ordenado que me dirigisse ao cardeal para -todos os negocios; elle está morto, a quem devo dirigir-me agora?» - ---«A mim, senhor arcebispo.» - -O reino de Luiz o Grande estava começado. - -Estes preliminares pintam já o caracter de Luiz XIV e tornam muito -provavel a authenticidade da famosa phrase--_O estado sou eu!_--que a -historia diz elle fez ouvir, quando entrou de botas e esporas no -parlamento. - -Como o presidente lhe significasse que a resistencia opposta aos seus -editos, tinha a sua origem nos interesses do estado, o joven monarcha -respondeu: - ---«_O estado sou eu!--L'etat, c'est moi!_» - - - - -XLII - -_Alavanca d'Archimedes_ - - -Chama-se _alavanca_ um corpo longo, inflexivel, fixo em um ponto da sua -extensão, e destinado a levantar pesos. O ponto sobre a qual a alavanca -tem o seu ponto fixo, diz-se _ponto d'apoio_; o peso a levantar, -chama-se _resistencia_ e a força que actua é _potencia_. Quando o ponto -d'apoio está collocado no meio da alavanca a _potencia_, e a -_resistencia_ são eguaes, isto é, para se levantar um peso de cem -kilogrammas é necessario uma força egual a esse peso. Mas a par e passo -que o ponto d'apoio se approxima da resistencia, a força que se tem de -desenvolver diminue proporcionalmente. D'aqui é facil comprehender que -uma força egual, por exemplo, a algumas grammas, póde levantar um navio -completo, dando-se um comprimento sufficiente ao braço da alavanca que -separa o ponto d'apoio da força activa. - -É certo que a alavanca era conhecida de Archimedes, e foi o genio d'este -grande homem que lhe determinou as propriedades e as proporções exactas. -Comprehende-se que Archimedes tendo levado até ao infinito o estudo -theorico da potencia da alavanca haja ousado exclamar: - ---«_Deem-me um ponto d'apoio e eu levantarei a terra!_» - -Ha n'isto uma evidente hyperbole de linguagem, mas esta hyperbole -satisfaz a razão, porque assenta n'um principio mathematico. - - - - -XLIII - -_Magdalena_ - - -Magdalena, mulher celebre do Evangelho, era uma cortezã d'uma grande -belleza. Tendo ouvido fallar Jesus, foi commovida de repente, e o -arrependimento entrou no seu coração. Um dia em que Jesus estava á meza -em casa de Simão Phariseu, a bella peccadora apresentou-se toda -lastimosa na sala da refeição e precipitou-se aos pés do Salvador, -regando-os com as suas lagrimas, beijando-os, inundando-os de perfumes e -enxugando-os com os seus cabellos. O Phariseu escandalisou-se vendo que -Jesus se deixava tocar por essa mulher, conhecida em toda a cidade por -uma grande peccadora. Foi n'esta circumstancia que Jesus mostrou toda a -misericordia que trasbordava do seu coração, dizendo aos que o rodeavam: - ---«_Ser-lhe-ha muito perdoado, porque muito amou!_» - ---Esta resposta applica-se hoje, mas quasi sempre ironicamente, ás -mulheres conhecidas pela facilidade dos seus costumes, sejam ou não -arrependidas, e ha, ao mesmo tempo, o uso de as designar pelo nome de -_Magdalenas_. - - - - -XLIV - -_Casa de Socrates_ - - -Socrates estava fazendo construir uma casa. Como lhe fizessem sentir que -era demasiado pequena, elle acudiu: - ---«_Prouvera a Deus que ella se enchesse de verdadeiros amigos!_» - -Esta bella phrase foi aproveitada por La-Fontaine, de que damos a -seguinte versão: - - «Socrates uma casa edificava, - E cada qual a obra criticava. - Um achava o interior, - Para dizer a verdade, - Indigno do morador; - Um outro desdenhava a frontaria, - E toda a gente que essa casa via, - Achava os aposentos limitados - E bem pouco lisongeiros - Mesmo por qualquer dos lados. - --«Prouvera a Deus que d'amigos provados - Se enchesse--diz--d'amigos verdadeiros!» - - Socrates razão tivera - De achar, por tal, espaçosa a casita; - Amigos muitos ha--quem acredita? - Amigos de nome apenas, - Não d'amisade sincera. - - - - -XLV - -_Desgraça aos vencidos!_ - - -Depois da sangrenta batalha d'Allia, cujo anniversario foi incluido -pelos romanos no numero dos dias nefastos, o terror tinha-se espalhado -em Roma e todos os habitantes haviam fugido, excepto oitenta velhos que -esperavam corajosamente a morte nas suas cadeiras curues, e a mocidade -que se refugiou no capitolio. Depois de terem saqueado e queimado Roma, -os gaulezes pozeram cêrco á fortaleza, e tendo dado um assalto sem -resultado, estabeleceram então um cêrco mais rigoroso. Os defensores da -fortaleza, sitiados havia sete mezes e entregues a todos os horrores da -fome, pedem, afinal, capitulação. Brenno, chefe dos gaulezes, consente -em levantar o cêrco mediante mil libras de ouro em peso. O tribuno -Sulpicio apresenta a somma no dia marcado. Em quanto que se pesa o ouro, -levanta-se uma contestação e os romanos censuram aos vencedores o uso de -falsos pesos. - -É então que Brenno, lançando a sua pesada espada na balança, pronuncia a -phrase celebre que depois se tornou proverbial: - ---«_Desgraça aos vencidos!_»--«_Væ victis!_» - - - - -XLVI - -_Manto de Joseph_ - - -Os mercadores ismaelitas, aos quaes Joseph fôra entregue por seus -irmãos, levaram-n'o para o Egypto e venderam-n'o a Putiphar, um dos -principaes officiaes do rei. A mulher de Putiphar, animada d'uma -criminosa paixão, pelo joven israelita, que era formoso, tentou -abalar-lhe a virtude e, para o obrigar a consentir nos seus desejos, -ella agarrou-o um dia pelo manto e quiz attrahil-o a si. - -Joseph abandonou-lhe o manto e fugiu. Cheia de cólera e envergonhada por -se vêr assim desprezada, essa mulher disse ao marido: - ---«O escravo hebreu quiz ultrajar-me, mas aos meus gritos fugiu, -deixando-me o manto entre as mãos!» - -Putiphar, irritado, fez encarcerar Joseph. - ---Comprehende-se, sem que seja necessario que o expliquemos, em que -ordem de ideias se faz allusão ao manto de Joseph e á mulher de -Putiphar. - - - - -XLVII - -_Mario sobre as ruinas de Carthago_ - - -Mario, livre das prisões de Minturnes, fez-se á vela para a Africa. O -navio que o conduzia, privado d'agua, quiz aportar á Sicilia, mas uma -força armada assaltou a equipagem, matou varios homens, e o proprio -Mario só com difficuldade escapou. Alguns dias depois desembarcou na -Africa, nos mesmos locaes aonde se elevava outr'ora a poderosa cidade de -Carthago. - -Apenas em terra, Sextilio, pretor da Lybia, homem dedicado a Sylla, -fez-lhe intimar ordem de deixar aquella provincia, e como o mensageiro -lhe pedisse uma resposta, elle disse-lhe: - ---«_Vae dizer a teu senhor, que viste Mario, errante e fugitivo, sentado -sobre as ruinas de Carthago!_» - -A presença d'este grande proscripto sobre as ruinas ainda fumegantes da -antiga e poderosa rival de Roma, é um dos mais frisantes exemplos das -vicissitudes humanas, e a maneira simples e energica com que esta -approximação é expressa, faz d'elle uma das mais sublimes lições que a -historia tem tido a consignar. - -Toda a gente conhece o verso em que Delille poz em presença esses dois -infortunios: - - «_E essas ruinas, sim, consolavam-se a si!_» - - - - -XLVIII - -_Subir ao Capitolio_ - - -Na antiga Roma, os generaes vencedores subiam em triumpho ao Capitolio, -no meio das acclamações de todo o povo, e alli offereciam sacrificios -aos deuses; em seguida o povo os acompanhava a sua casa com archotes e -soltando gritos de alegria. - -Na Edade Média, e durante o grande seculo litterario da Italia, -resuscitaram-se, em favor da poesia, os antigos triumphos do Capitolio. -No dia de Paschoa, a 8 d'abril de 1341, Petrarcha subiu ao Capitolio no -meio dos principaes cidadãos, precedidos de doze mancebos, escolhidos -nas familias mais illustres, que declamavam os seus versos. Recebeu a -corôa de louro e recitou um soneto ácerca do heroe da antiga Roma. - -Tasso recebeu tambem as honras da coroação; a sua entrada em Roma já -teve o aspecto de um triumpho. O povo, os nobres, os prelados, os -cardeaes, os sobrinhos do Papa, foram ao seu encontro e o conduziram ao -Vaticano, no meio das mais vivas acclamações. O Papa, avistando-o, -disse-lhe com graça particular: - ---«Vinde honrar esta corôa, que honrou todos quantos a collocaram antes -de vós.» - -Os aprestos da cerimonia proseguiam com a maior rapidez e o Tasso ia, -emfim, receber a recompensa d'uma vida cheia d'amargura e de dôr; mas -por uma ultima irrisão da sorte elle morreu na vespera do proprio dia em -que devia subir ao Capitolio, e o louro poetico não adornou senão a -fronte do seu cadaver, que fôra amortalhado com a toga romana. - -Pouca gente desconhece a magnifica descripção que Madame de Stael fez da -coroação de Corinna. A brilhante escriptora faz reviver no seu celebre -romance a _Corinna Thebana_, a rival feliz de Pindaro, varias vezes -coroada nos jogos olympicos. - - - - -XLIX - -_Onde não ha el-rei o perde_ - - -Representava-se na comedia Franceza, com immenso successo o _Cerco de -Calais_, tragedia de Belloy. O principal papel era desempenhado pela -actriz Clairon, tão conhecida pelas suas aventuras galantes sob o nome -de Fretillon. Um comediante muito obscuro, chamado Dubois, que -desempenhava um papel n'esta peça, era accusado pelos seus collegas d'um -acto de improbidade. Estes, tendo á frente a Clairon, recusaram-se a -entrar em scena em companhia d'elle, e o _Cerco de Calais_ foi -interrompido na vigesima representação. Os espectadores agitaram-se e -houve desordem no theatro. Clairon fazia-se especialmente notar entre os -mais obstinados. Ordenou-se que ella fosse conduzida ao Fort-L'evêque. -Ella, então, disse a quem a intimava, com emphase theatral, que ia, mas -que sua magestade podia tudo sobre os seus bens e sobre a sua liberdade, -mas nada sobre a sua _honra_. - ---«_Isso é sabido_--responderam-lhe--_onde não ha el-rei o perde!_» - -É vulgar e de facil comprehensão a applicação d'esta phrase. - - - - -L - -_Onde se vae aninhar a virtude?_ - - -Moliére alliava a um grande genio as mais formosas qualidades do -coração, e tinha uma alma ao nivel do seu espirito. Caracter suave, -complacente e generoso, nunca o abandonava o seu elevado sentimento -caritativo. - -Um dia em que partiu para S. Germano approximou-se-lhe um mendigo e -pediu-lhe esmola. Moliére lançou-lhe uma moeda e subiu para o trem. -Instantes depois percebeu que o pobre o seguia correndo. Fez parar. O -pobre chegou-se e disse-lhe: - ---«O senhor enganou-se, de certo, porque me deu um luiz, que eu venho -entregar.» - ---«Não, meu amigo--acudiu--e aqui tens outro.» - -E como o seu genio estava continuamente álerta, e elle estudava em toda -a parte a natureza, como homem que queria pintal-a, exclamou: - ---_Onde se vae aninhar a virtude?_ - - - - -LI - -_Perdoae-lhes, meu Pae, não sabem o que fazem_ - - -Jesus Christo, cuja vida, acções e doutrina tinham sido mansidão e -misericordia, só teve sobre a cruz palavras de doçura para os seus -proprios algozes, sobre a cabeça dos quaes attrahiu o perdão de seu Pae. -«Ora--diz S. Lucas--com elle levavam dois outros homens, que eram -criminosos, para os pôrem á morte, e quando chegaram ao Calvario, Jesus -foi crucificado entre dois ladrões, um á direita e outro á esquerda, e -elle dizia fallando dos seus verdugos:--_Perdoae-lhes, meu Pae, não -sabem o que fazem!_ - -Esta phrase cahiu do alto da cruz, no meio das agonias da morte e dos -soffrimentos mais crueis, e resume admiravelmente o espirito evangelico -e a moral sublime do sermão da montanha. - -A applicação d'esta phrase suprema não tem logar, geralmente, senão no -estylo familiar. - - - - -LII - -_Lavar as mãos como Pilatos_ - - -Poncio Pilatos, governador da Judeia, sob Tiberio, seria completamente -desconhecido hoje, se o seu nome se não achasse envolvido no maior -successo da historia. Jesus, perseguido desde muito pelo odio dos -principes dos padres e dos phariseus, tinha sido apresentado perante o -tribunal de Caiphaz, e condemnado á morte por se dizer Christo, filho do -Deus vivo. Mas esta sentença não podia ser executada sem as ordens do -governador romano. Os judeus levaram Jesus a Pilatos. Este convencido da -sua innocencia, perturbado, além d'isto, por um estranho sonho que sua -mulher Claudia Procula tinha tido durante a noite e que lhe despertára o -maior interesse pelo Christo, procurava illudir a sentença de morte. Mas -a populaça tendo reclamado o ultimo supplicio com gritos de furor, e -ameaçado o proprio Pilatos com a cólera de Cesar, o fraco governador -abandonou Jesus á raiva dos algozes. No entretanto, querendo protestar -contra o que elle considerava uma suprema injustiça, elle fez trazer -agua, e lavando as mãos deante do povo, exclamou: - ---«Estou innocente da morte d'este justo; sois vós que respondereis por -ella!» - ---«Sim, sim--gritaram os loucos--que o seu sangue cáia sobre nossas -cabeças e sobre nossos filhos!» - -E crucificaram-n'o! - -Alguns annos mais tarde, Pilatos, cahindo em desagrado sob Caligula, foi -exilado, e no exilio, perseguido pelos remorsos, matou-se de desespero, -dizem. - -A sentença iniqua que Pilatos pronunciou contra Jesus pesará sempre -sobre a sua memoria, e até ao fim dos seculos Pilatos será o typo dos -magistrados pusillanimes, que, obedecendo á voz do medo e dos seus -interesses, teem a cobardia de pronunciarem condemnações que a -consciencia reprova. Embora lavem as mãos, o sangue innocente derramado -deixará sempre uma nodoa indelevel, que será para elles uma nodoa -infamante. - ---É, fazendo allusão á acção de Pilatos, que em linguagem familiar se -diz:--«_D'ahi lavo as mãos_», como declaração de que se não tem -responsabilidade nas consequencias de successos para que se concorreu. - - - - -LIII - -_O que não peccou, atire a primeira pedra_ - - -Os scribas e phariseus levaram a Jesus uma mulher que fôra surprehendida -em adulterio, e disseram-lhe: - ---«Mestre, esta mulher acaba de ser surprehendida em adulterio. Ora a -lei de Moisés ordena-nos que apedrejemos as adulteras. Qual é a este -respeito a vossa opinião?» - -Fallavam-lhe assim para o tentarem, e a fim de o poderem accusar. Mas -Jesus Christo abaixando-se, escreveu com o dedo na terra. - -E como continuassem a interrogal-o, elle levantou-se e disse-lhes: - ---«_Aquelle d'entre vós que não peccou lhe atire a primeira pedra._» - -A esta phrase elles retiraram-se a um e um, e só ficou Jesus com essa -mulher que se conservava de pé. - -Jesus disse-lhe então: - ---«Ninguem te condemnou, não te condemnarei tambem. Vae e não peques -mais.» (_Evang. S. João_). - - - - -LIV - -_Tres linhas escriptas e eu farei enforcar quem as escreveu_ - - -Nada ha que mais se preste á critica e á satyra do que as leis. -Anacharsis comparava-as ás teias d'aranha que prendem as pequenas e -deixam passar as grandes moscas. La-Fontaine rimou a mesma ideia quando -disse: - - «Assim, conforme o que és, ou grande ou miseravel «A justiça fará - que sejas branco ou negro.» - -Não confirma a sabedoria das nações, os juizos do philosopho e do -fabulista, quando concede ao condemnado vinte e quatro horas para -maldizer a um juiz? Mas a cabula, o processo, o codigo n'uma palavra não -justifica hoje estas accusações? e os traços que acabamos de citar são -uma calumnia ou maledicencia? O presidente d'Ormesson parece ter -respondido a esta pergunta quando disse: - ---«Se eu fosse accusado de ter roubado as torres de Notre Dâme, e -ouvisse gritar atraz de mim--_agarra que é ladrão!_--eu fugiria -desesperadamente.» - -Este terror que inspira a justiça, mesmo ao mais innocente, está -plenamente justificado por estas palavras: - ---«_Deem-me tres linhas da escripta d'alguem e eu o farei enforcar._» - -Os eruditos estão divididos sobre o auctor d'esta celebre phrase, que -attribuem a Laubardemont, ao Padre Joseph, a Richelieu, a Jeffries, e -que M. Proudhon, mais prudente, attribue a um ... criminalista. - -O cardeal Richelieu, que conhecia o poder do equivoco, citava um dia -esta phrase deante dos seus secretarios. Um d'elles, julgando -embaraçal-o, escreveu n'um cartão--«Um e dois fazem tres.»--«Blasphemia -contra a Santissima Trindade!--exclamou o cardeal--um e dois só fazem -um.» - - - - -LV - -_Quem te fez conde? Quem te fez rei?_ - - -A fraqueza dos ultimos carlovingianos tinha permittido á feudalidade -lançar profundas raizes entre os francos, e tornar-se quasi -independente, e quando em 987 Hugo Capeto foi eleito rei de França em -Noyon, pelos seus proprios vassallos e alguns pequenos feudatarios -visinhos, elle ficou o que tinha sido antes, conde de Paris, possuidor -de vastos dominios, mas não sendo, no meio dos poderosos barões, mais -que o primeiro entre iguaes. Assim, todo o seu reino foi perturbado -pelas revoltas dos proprios que o tinham levado ao throno, mas que -recusavam reconhecer a sua supremacia. Poder-se-ha julgar pela altiva -resposta d'um d'elles, com que olhos consideravam a nova realeza. - -Um conde de Périgneux, Adalberto, emprehendeu conquistas e usurpára os -titulos de conde de Poitiers e de Tours. O rei de França mandou-lhe um -mensageiro para lhe perguntar: - ---«Quem te fez conde?» - -Ao que Adalberto respondeu: - ---«Quem te fez rei?» - -Estas phrases, frequentemente citadas, resumem uma epocha inteira. - - - - -LVI - -_A Cesar o que é de Cesar a Deus o que é de Deus_ - - -Alguns dias antes da celebração da Paschoa, Jesus fez uma entrada -triumphal em Jerusalem, no meio d'um concurso immenso de povo que -gritava:--Hossana ao filho de David! Bemdito o que vem em nome do -Senhor!» Os principes dos padres e os scribas procuraram então os meios -de o perder e de o prender nas proprias palavras por perguntas -insidiosas. Os herodianos approximaram-se, pois, d'elle, e lhe -perguntaram: - ---«Mestre, sabemos que és verdadeiro nas tuas palavras e que ensinas o -caminho de Deus, sem distincção de pessoas. Dize-nos então a verdade -sobre isto:--É permittido pagar o tributo a Cezar?» - -Jesus, penetrando na intenção d'elles, respondeu: - ---«Mostrem-me a moeda de dinheiro que se dá em tributo.» - -Apresentaram-lhe um dinheiro. Jesus disse-lhes então: - ---«De quem é esta moeda?» - ---«De Cezar.» - ---«_Dêem, então, a Cezar o que é de Cezar e a Deus o que é de Deus!_» - -Vem a proposito citar que Henrique IV, que antes de entrar em Paris fôra -obrigado a comprar muito caro os chefes da Liga, modificou, a este -respeito, da maneira mais original e mais espirituosa, a lettra do -Evangelho. - -Um dia depois do seu jantar, Henrique IV disse ao seu secretario: - ---«Que pensas, vendo-me em Paris como estou?» - ---«Penso, senhor, que deram a Cezar o que era de Cezar, como é preciso -dar a Deus o que é de Deus ...» - ---«Ora essa!--replicou o rei--não me fizeram como a Cezar, porque me não -_deram_, mas porque me _venderam_ o que era meu.» - - - - -LVII - -_Salto de Leucade_ - - -Sapho, a mais illustre das poetisas, appellidada a decima musa, nasceu -em Mitylene, na ilha de Lesbos, pelo anno 600, antes de Christo. Amiga -do poeta Alceu, ella foi arrastada na conspiração contra Pittaco e -acabou os seus dias no exilio. - -Os antigos representam-na devorada pelas paixões e entregue ao furor dos -sentidos; e elles não davam o nome de versos ás suas poesias, mas -_ardores_, _chammas_, etc.; e acceitando os costumes muito conhecidos -das lesbianas com a indulgencia cynica d'aquella epocha, elles -inflammavam-se n'um enthusiasmo sem limites pelo lyrismo desordenado dos -seus cantos, pela graça exquisita, pela harmonia arrebatadora e pelo -estylo de fogo das suas odes. - -Conta a tradição que, apaixonada pelo insensivel Phaon, joven lesbiano, -d'uma grande belleza, e não podendo vencer os seus desprezos, ella se -precipitou, cheia de desespero, do alto de Leucade no mar. - -A ilha de Leucade era famosa por um promontorio, formado de rochedos -escarpados que dominavam o mar. Era alli que as amantes desgraçadas iam -procurar remedio a seus males, precipitando-se do alto do promontorio -sobre as vagas. É isto o que se chamava _dar o salto de Leucade_. Os que -escapavam á morte depois d'esse perigoso salto, ficavam curados do seu -amor. - -Mas comprehende-se que pouquissimas resistiam a esse remedio heroico. - - - - -LVIII - -_Se é possivel, está feito; se é impossivel se fará_ - - - Impotente, gottoso, e já velho leão - Queria achasse algum remedio á velhice. - _O impossivel aos reis allegar é illusão_. - -Eis uma verdade que Colonne, quartel mestre geral das finanças, sob Luiz -XVI, era demasiado fino e cortezão para ignorar. Leviano, espirituoso, -incapaz d'um plano fortemente concebido e pacientemente executado, elle -devia deixar as finanças do reino n'um estado ainda mais deploravel do -que as tinha encontrado ao entrar para o ministerio. As suas operações -aventureiras só deviam augmentar o mal geral e o numero dos -descontentes. N'essa côrte tão prodigiosamente descuidada na vespera -d'uma catastrophe e em que só Luiz XVI tinha o sentimento dos seus -deveres, sem ser dotado da energia necessaria para bem os cumprir, o -luxo e a prodigalidade eram tão insaciaveis como se os cofres do estado -estivessem pejados. Para crear elogiadores entre os homens de lettras, o -ministro concedeu pensões a um grande numero d'elles. - -Maria Antonietta era a primeira a dar o exemplo do luxo e não punha -qualquer freio ao seu prazer pelo gasto. Um dia que ella precisava d'uma -somma consideravel dirigiu-se a Colonne, cuja facil condescendencia ella -conhecia. Antes de lhe expor o pedido, ella disse-lhe n'esse tom de -mulher e rainha que não quer recusa: - ---«O que tenho a pedir-lhe é difficil talvez, Colonne!» - -O espirituoso ministro respondeu, inclinando-se graciosamente: - ---«_Se é possivel, está feito; se é impossivel, far-se-ha!_» - -Não era possivel commentar mais finamente o verso de La-Fontaine. - -Nas guerras da republica, a possibilidade do _impossivel_ foi expressa -d'uma maneira mais nobre por um general francez, no ardor d'um combate -encarniçado. Um official que elle acabava de encarregar d'uma operação -perigosa, respondeu-lhe que era impossivel. - ---«Impossivel, senhor?--respondeu o general--Olhe que essa palavra não é -franceza!» - - - - -LIX - -_Terra promettida_ - - -Depois da morte de Joseph, os descendentes de Jacob não tardaram a ser -perseguidos pelos egypcios, que os empregavam nos trabalhos mais rudes. -Mas Deus que tinha sempre os olhos fixos sobre o seu povo, suscitou -Moisés, ao qual ordenou que conduzisse os hebreus _á terra de Chanaan_, -berço de seus paes.--«Era--diz a Escriptura--uma terra de promissão, -produzindo uvas que dois homens mal podiam carregar, e onde corriam -regatos de leite e de mel.» Mas os israelitas, constantemente rebeldes, -foram condemnados a errar quarenta annos no deserto, á vista d'essa -terra de delicias, sem n'ella poderem entrar. Afinal lá chegaram, -conduzidos por Josué. - ---A _terra promettida_ é uma expressão que passou em todas as linguas a -designar um estado, uma ventura a que se aspirava ha muito tempo. Victor -Hugo disse, a proposito, nas _Folhas do Outomno_: - - . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . - «Um homem, dentro em si, construe e phantasia - Um mundo encantador, mundo d'arte e poesia, - --A nossa Chanaan, que nós vemos de cima ...» - - - - -LX - -_Thebaida_ - - -A Thebaida, uma das tres grandes divisões do antigo Egypto, e que tinha -Thebas por capital, era famosa pelos desertos que a éste e oéste -cercavam a sua parte habitada. Foi n'uma destas solidões que nos -primeiros seculos do christianismo se refugiaram muitissimos christãos, -já para fugirem á perseguição, já para se esquivarem ás seducções do -mundo, entregando-se ao jejum, á oração e a todas as austeridades da -vida ascetica. - -O mais illustre d'entre elles, Santo Antonio, dera o exemplo, -distribuindo a sua fortuna aos pobres, para viver do trabalho das suas -mãos. A sua reputação de santidade espalhou-se ao longe, e a breve -trecho, milhares de discipulos se gruparam em volta d'elle. Durante -algum tempo, foi, d'algum modo repovoado de monges e anachoretas. Mas -afinal a despovoação geral do Egypto produziu a extincção de quasi todos -os mosteiros, que se haviam creado. - -Hoje, só as cellas vasias, marcadas com o symbolo dos christãos, indicam -a assistencia d'esses religiosos nos templos pagãos arruinados, bem como -as grutas dos sepulchros da Thebaida. - ---Na linguagem ordinaria, _Thebaida_, diz-se d'um deserto, d'uma solidão -profunda, em que se vive retirado do mundo; mas esta palavra está longe -de ser tomada sempre n'este sentido. Faz-se muitas vezes uso d'ella, em -poesia, especialmente para designar um retiro favorito, que -propositadamente se escolhe, longe do bulicio, para o goso das doçuras -da amisade, ou dos encantos do amor. - -Lembra-nos até que Theophilo Gautier disse já n'uma das suas esplendidas -poesias: - - «Um bom _cottage_ inglez, eis a _Thebaida_ sua!» - - - - -LXI - -_Desça o panno, acabou a comedia!_ - - -Rabelais, o mais philosopho dos bufões, e o mais bufão dos philosophos, -nasceu perto de Chinon, em Touraine, por 1483. Os seus biographos são -pobres em factos authenticos, mas em compensação abundam em anecdotas -romanescas, de onde resalta esse typo de cara alegre e tolerante, amigo -de Baccho e da dança, o que só se ama por excepção. O genero muito -particular do seu genio foi perfeitamente pintado por La Bruyére:--«Onde -Rabelais é mau passa muito além de peior; é o encanto da canalha; aonde -é bom, elle vae até ao extremo de excellente, e póde ser um prato dos -mais delicados.» De resto, este sentimento do moralista parece ter sido -dictado pelo proprio Rabelais que recommendava aos seus leitores «que -abrissem a caixa para tirarem a droga, e quebrassem os ossos para -chucharem a medula.» Mas o que domina na sua vida e nos seus escriptos é -um septicismo zombador que ataca todas as crenças, todas as -instituições, todos os sentimentos, e que estala, sobretudo, nos ultimos -momentos da sua vida. - -Entre as numerosas versões que foram reproduzidas ácerca da sua morte, -encontra-se esta. O cardeal de Châtillon, seu amigo, tendo enviado um -pagem a informar-se da sua saude, elle respondeu-lhe: - ---«Dize a Monsenhor em que bello humor me encontras. Eu vou buscar um -grande _talvez_. Está no ninho da pega. Dize-lhe que se deixe estar. E -tu não passas d'um tolo.»--Depois exhalou o ultimo suspiro n'uma grande -gargalhada acompanhada d'estas palavras: - ---«_Desça o panno; acabou a comedia!_» - - - - -LXII - -_Tudo é perdido, menos a honra!_ - - -Francisco I a quem duas derrotas experimentadas pelos seus generaes -Lautrec e Bonnivet tinham feito perder o milanez, quiz reconquistar este -ducado, e transpoz os Alpes á frente d'um novo exercito. A breve trecho -pôde entrar em Milão. Mas em vez de perseguir o inimigo a todo o transe, -obstinou-se no cêrco de Pavia, e, como este cêrco fosse delongado, teve -a imprudencia de se enfraquecer, destacando 12:000 homens que deviam -marchar sobre Napoles. No entretanto, os imperiaes reforçavam-se e -levavam soccorro a Pavia. Feriu-se a batalha e foi encarniçada. O rei -foi ferido na fronte, e a sua armadura, que a França possue ainda, foi -toda crivada. Mas o numero venceu a coragem, a batalha foi perdida e -Francisco I feito prisioneiro. Entregou a sua espada ao vice-rei de -Napoles, Lannoy, que a recebeu de joelhos. - -«Foi do campo imperial, perto de Pavia, que Francisco I escreveu a sua -mãe uma carta que se tornou celebre, graças á tradicção, que muito a -alterou dando-lhe a fórma d'um laconismo sublime: - ---«_Senhora, tudo é perdido, menos a honra!_» - -Recentes investigações, porém, fizeram descobrir o texto verdadeiro -d'essa carta que começa do seguinte modo:--«Senhora, para vos fazer -saber como se cumpre o resto do meu infortunio, _de todas as coisas, só -me ficou a honra e a vida, que está salva_.» - - - - -LXIII - -_Trombetas de Jericó_ - - -Jericó foi a primeira cidade que os hebreus encontraram na sua entrada -na terra promettida. Era fechada por altas muralhas. Por ordem de Deus, -Josué mandou fazer ao seu exercito a volta da cidade durante sete dias. -A arca d'alliança fôra levada com grande pompa e precedida de sete -padres, que tocavam trombeta. O povo acompanhava em silencio. Ao setimo -dia, deu-se sete vezes a volta á cidade, e o povo, por ordem de Josué, -tendo soltado um grito muito grande, viu no mesmo instante -desmoronarem-se as muralhas. A cidade foi reduzida a cinzas e todos os -habitantes passados a fios d'espada. - ---Em litteratura faz-se muitas vezes allusão ás _trombetas de Jericó_, -que se oppõem á lyra d'Amphion. Este contraste não escapou ao rei -philosopho que escreveu ao seu amigo Voltaire:--«Interessado em servir o -genero humano, consagraes a vossa vida inteira ao bem publico. A -Providencia tinha-vos reservado para ensinardes aos homens a preferirem -a lyra d'Amphion, que elevava os muros de Thebas a esses instrumentos -bellicos que faziam arrazar os de Jericó.» - - - - -LXIV - -_A tunica de Christo_ - - -«Os soldados, depois de haverem crucificado Jesus, tomaram-lhe os -vestidos e dividiram-os em quatro partes: uma para cada soldado. Tomaram -tambem a tunica; mas a tunica não tinha costura, era uma só peça inteira -de cima a baixo. - -«E elles disseram uns aos outros:--«Não a talhemos; tiremos á sorte para -vermos a quem pertencerá. Afim de que esta palavra fosse cumprida, elles -dividiram entre si os meus vestidos e jogaram á sorte a minha -tunica.»--Eis o que fizeram os soldados.--(_S. João_, _cap._ XXIX). - ---Esta divisão da tunica de Jesus Christo, no momento da sua morte, tem -duas especies d'applicação:--ora se allude a ella para designar a -partilha dos despojos d'um innocente, ora recorda que a tunica era d'uma -só peça inteira, para indicar que uma coisa não póde soffrer divisão. - - - - -LXV - -_Um imperador deve morrer em pé_ - - -Vespasiano, imperador romano, ia além de sessenta e nove annos, quando -foi atacado da doença que o levou ao tumulo, não por agudos -soffrimentos, mas por um enfraquecimento progressivo. Conservando até ao -fim a sua serenidade d'alma, elle transformava em gracejo a apotheose -que lhe ia ser conferida.--«_Percebo que começo a tornar-me deus_», -dizia elle alegremente á medida que a sua situação se tornava -desesperada. Apesar da sua extrema fraqueza não interrompeu um instante -as suas occupações habituaes; dava tempo aos negocios e audiencia no -leito. Afinal, sentindo-se desfallecer, fez um derradeiro e supremo -esforço para se levantar, dizendo: - ---«_É preciso que um imperador morra de pé!_» - -E tendo-se feito vestir, expirou entre os braços dos seus officiaes. - ---Luiz XVIII, nos ultimos dias da sua vida teve uma phrase que recorda a -de Vespasiano. Apesar do depauperamento das suas forças, continuava a -mostrar-se em publico e nos conselhos. A 25 d'Agosto de 1824, dia de S. -Luiz, respondeu ao conde d'Artois, seu irmão, que o aconselhava a não -receber: - ---Um rei de França morre, mas não deve estar doente!» - - - - -LXVI - -_Vendilhões expulsos do templo_ - - -«E estando proxima a paschoa dos judeus, Jesus fez a sua entrada em -Jerusalem. - -«E elle achou no templo mercadores que vendiam bois, ovelhas e pombas e -os trocadores alli estavam sentados. - -«E tendo feito umas disciplinas com cordas, elle os expulsou a todos -fóra do templo, assim como as ovelhas e os bois e espalhou o dinheiro -dos vendilhões sobre as mezas. - -«E elle disse aos vendilhões:--«Está escripto. A minha casa é uma casa -de oração e vós fazeis d'ella uma caverna de ladrões.» (_S. João_, -_cap._ II). - ---Esta expressão--_expulsar os vendilhões do templo_--emprega-se para -stigmatisar os profanadores, em qualquer ordem que seja, os que -mercadejam com coisas respeitaveis e que só deviam ser apanagio -exclusivo da arte, das lettras, das sciencias, e, em geral, da -intelligencia e do talento. - - - - -LXVII - -_Gritar no deserto_ - - -S. João Baptista, filho de Zacharias e de Santa Elisabeth, prima da -Virgem Santissima, retirou-se muito cedo para o deserto, levando uma -vida cheia d'austeridades. Vestia uma pelle de camello atada á cinta por -uma tira de couro, e o seu alimento constava de gafanhotos e mel bravo. -Quando chegou á edade de trinta annos e foi preparado com rudes -exercicios para o ministerio que lhe estava destinado, dirigiu-se ás -margens do Jordão, prégando a penitencia, annunciando a realisação das -prophecias e a vinda do Messias, que o tinha enviado para preparar os -seus caminhos. «--Façam penitencia--exclamava elle--pois o reino dos -céus está proximo». Os habitantes dos arredores corriam em multidão para -o ouvirem. O synhedrio, tocado pelo seu genero de vida extraordinario e -da sua eloquencia selvagem, enviou-lhe padres e levitas para saberem se -era o Messias, ou Elias, ou simplesmente um propheta. Elle respondeu que -não era propheta, nem Elias, nem Messias.--«Quem és então?, porque -precisamos levar resposta aos que nos mandaram?»--«Sou a voz d'aquelle -que grita no deserto:--tornae recto o caminho do Senhor!» E elle -ajuntava:--«Aquelle que deve vir depois de mim é mais poderoso do que -eu, e eu não sou digno de desatar os cordões do seu calçado. Moisés -deu-vos a lei, mas o Christo vos dará a graça e a verdade.» - ---Hoje estas palavras--_gritar no deserto_--teem um sentido desviado do -primitivo. Significam na applicação--pregar, aconselhar, fallar em vão. - - - - -LXVIII - -_Zoilo_ - - -Celebre grammatico e critico grego do quarto seculo antes de Christo, e -cujo nome era já proverbial no tempo d'Ovidio. Nada se sabe ao certo, -quanto ao logar do seu nascimento, circumstancias da sua vida e genero -de sua morte. Tambem nos não chegou nenhuma das suas obras. Sabe-se -sómente, pelo testemunho quasi unanime dos antigos que elle se -encarniçou contra as obras d'Homero. - -Vitruvio pretende que Ptolomeu Philadelpho, indignado com as suas -blasphemias litterarias, lhe infligiu o supplicio da cruz, ou o fez -queimar vivo. - ---O nome de _Zoilo_ designa o typo do critico apaixonado e de má fé. - - «No futuro, será _Zoilo_, com toda a furia, - Aos _censores_ crueis uma cruel injuria.» - - - - -LXIX - -_Aspasia_ - - -Mulher grega, natural de Mileto, celebre pelo seu espirito e pela sua -belleza. Foi muito cedo para Athenas, aonde não tardou a exercer sobre -os homens mais illustres d'essa epocha, Pericles, Alcibiades, o proprio -Socrates, o ascendente irresistivel da eloquencia, da graça e da -belleza. Pericles, arrastado pelos seus encantos, repudiou sua primeira -mulher para a desposar. Ella exerceu sobre elle tal ascendente, que -teve a maior parte nos negocios da Grecia, tornando-se um verdadeiro -poder na republica. Dizia-se que as harengas de Pericles eram mais d'uma -vez inspiradas por Aspasia. Accusada d'impiedade ella defendeu a sua -propria causa com uma eloquencia que apesar de grande, não a teria -salvo, se seu esposo não enternecesse os juizes com lagrimas. Essa -mulher illustre deve ser classificada, não como demasiadas vezes o é, na -classe das cortezãs, mas na das _hetairas_, mulheres gregas, dedicadas -ás artes, á poesia, á propria sciencia, e que eram procuradas para os -prazeres do espirito, e de que Aspasia foi um dos typos mais graciosos e -mais perfeitos. - -Foi por justo titulo que o nome passou a significar entre os gregos a -mais amavel das mulheres, como Alexandre o maior dos heroes,--e é n'este -sentido que chamamos ainda hoje _Aspasia_ á mulher que reune os dons do -espirito aos encantos da belleza. - - - - -LXX - -_Babylonia_ - - -Assente sobre o Euphrates e embellezada por Semiramis, a Babylonia -parecia ter sido a cidade mais esplendorosa da antiguidade. As suas -muralhas de cincoenta pés de largura e d'uma altura prodigiosa, as suas -cem portas de bronze, os templos, os palacios, as estatuas d'ouro, e, -sobretudo, os seus jardins suspensos, tornavam-na a rainha das cidades -antigas. - -Rival de Jerusalem foi muitas vezes em guerra com o povo judeu que alli -passou setenta annos de captiveiro, durante os quaes um grande numero -_não suspenderam as suas harpas nos salgueiros da margem_, e abandonaram -a religião de seus paes. As Escripturas fallam de Babylonia como de um -foco de corrupção e idolatria; fizeram-na a personificação do mundo -profano, o receptaculo de todos os vicios e de todas as impurezas. -Exasperados pela politica barbara dos babylonios os israelitas -votaram-lhes um odio profundo, e a dissolução dos costumes, de que foram -testemunhas no captiveiro, augmentou áquelle sentimento o do horror e do -desgosto. D'aqui o nome de _grande prostituta_, que elles deram a essa -cidade. - ---Hoje, que já não existe a Babylonia, que os viajantes e archeologos -nem mesmo podem encontrar-lhe o local, só o nome sobreviveu, e -applica-se aos grandes centros populosos, como Londres, e, sobretudo, -como Pariz, onde a agglomeração das massas, as riquezas, os progressos -da industria e da civilisação engendram fatalmente a corrupção de -costumes. - ---Os protestantes, que pretendem ser os unicos observadores da lettra e -do espirito evangelico, chamam á vida eterna--a _grande Babylonia_. - - - - -LXXI - -_Incendiar os seus navios_ - - -Esta locução allude ao procedimento de alguns grandes capitães, que a -historia nos representa incendiando os seus navios, que os haviam -conduzido á abordagem nos barcos inimigos, afim de que os marinheiros e -soldados, privados de toda a especie de fuga se vissem na contingencia -de vencerem ou morrerem. Agathocles, tyranno de Syracusa foi o primeiro -que na Costa d'Africa deu o exemplo d'esta resolução arrojada. - -O imperador Juliano poz fogo aos seus depositos e aos seus mil e cem -navios, no Tigre, quando fez a sua expedição contra Sapor, um rei da -Persia. Guilherme, o Conquistador, abordando a Inglaterra em 1066, -recorreu ao mesmo expediente, que foi seguido da victoria d'Hastings. -Roberto Guiscard, no perigo eminente em que se achava com a sua pequena -armada deante das forças consideraveis de Alexis Commene, incendiou a -sua frota e as suas bagagens e ganhou a victoria de Durazzo a 13 -d'outubro de 1084. Foi d'este modo, emfim, que Fernando Cortez, -desembarcando na costa do Mexico preludiou a conquista d'esta região. - ---Esta locução--_incendiar os seus navios_--passou a proverbio e quer -dizer:--interdizer, subtrahir por uma iniciativa arrojada os meios de -volver a uma resolução, de renunciar a uma empreza; pôr-se na -impossibilidade de retroceder. - - - - -LXXII - -_Os ultimos romanos_ - - -Chama-se geralmente assim aos romanos que, a exemplo de Catão, -conservaram, n'uma sociedade em decadencia, os costumes e a virtude dos -antigos tempos. Mas deu-se mais particularmente este nome a Bruto e a -Cassio, que foram a alma da conspiração que victimou Cezar, e que depois -de terem combatido nas planicies de Philippes contra os inimigos da -liberdade romana, se deram a morte para não sobreviverem á sua perda. - -Philopeme, que luctou constantemente pela liberdade hellenica e depois -da morte do qual, a Grecia se viu reduzida a provincia romana, é tambem -chamado--_o ultimo dos gregos_. - ---Estas palavras empregam-se, ora séria, ora ironicamente, para -designarem todos quantos conservam a tradicção d'um passado, que são -quasi os unicos a representar. - - - - -LXXIII - -_Faça cabelleiras, mestre André_ - - -Em 1760 um cabelleireiro francez chamado André, arrojou-se a escrever -uma tragedia em 5 actos, em verso, intitulada--_O terramoto de -Lisboa_--e mandou a peça a Voltaire, que elle chamava _caro confrade_ na -seguinte obra prima epistolar: - - AO ILLUSTRE E CELEBRE POETA - M.ʳ DE VOLTAIRE - - «_Meu caro confrade._ - -«É um estudante, noviço na arte da poesia, que se aventura a dedicar-lhe -a sua primeira obra, tendo-o sempre reconhecido por um dos nossos -celebres, pelas pomposas obras que tem dado e dá á luz todos os dias. Eu -julgar-me-hei feliz se quizer lançar um rapido olhar a essa pequena -obra, favorecendo-a com a menor das suas recordações. Faltaria a um -grande dever se não confessasse que o reconheço por meu mestre. Se pela -sua bondade se dignar favorecer-me eu prometto-me que, livre de todo o -receio, publicarei constantemente os seus louvores e testemunharei em -toda a parte, quanto lhe sou devedor por a haver acceitado. - -«Sou, M.ʳ e caro confrade, humillissimo e affeiçoado servo - - _André._» - -O grande poeta divertiu-se muito com esta singular e comica -confraternidade. E respondeu ao _seu caro confrade_ com uma missiva de -quatro paginas, encerrando apenas estas palavras, cem vezes -repetidas:--«Faça cabelleiras, mestre André; faça cabelleiras, mestre -André.» - -Esta espirituosa resposta fez dizer a mestre André que Voltaire -envelhecia, porque começava a repetir-se. - -A obra prima de mestre André fez muito ruido, porque em 1805, mais de -quarenta annos depois, um director alegre fez representar a peça _O -terramoto de Lisboa_, n'um pequeno theatro de _boulevard_ e ella obteve -um immenso successo comico, em oitenta representações successivas! - ---A phrase--_faça cabelleiras_, tornou-se uma das locuções mais -pittorescas da lingua franceza, com emprego em todas as outras. É uma -traducção espirituosa e comica do _ne sutor ultra crepidam_, dos -latinos. - - - - -LXXIV - -_Fé do carvoeiro_ - - -Dá-se por origem a esta locução o seguinte conto. O diabo, disfarçado em -eremita, e, segundo outros, em doutor de Sorbonne, entrou um dia na -cabana de um carvoeiro e disse-lhe para o tentar: - ---«Tu que crês?» - ---«Eu creio o que crê a Santa Egreja». - ---«E que crê a Santa Egreja?» - ---«Crê o que eu creio.» - -E o nosso homem manteve-se n'estas respostas sem d'ellas sahir, e o -espirito maligno foi obrigado a renunciar ao seu projecto, vendo a -inutilidade de todos os seus estratagemas. - -Accrescenta um auctor que esse diabo era, por sem duvida, muito novo, e -egualmente dos menos atilados, porque de outro modo elle teria -embaraçado muito o carvoeiro fazendo-lhe a seguinte pergunta: - ---«E que crêem, tu e a Santa Egreja?» - ---A phrase--_fé do carvoeiro_, designa uma fé simples e ingenua, que crê -sem exame. - - - - -LXXV - -_Ha juizes em Berlim_ - - -O grande Frederico, rei da Prussia, desejava ampliar o seu parque de -Sans-Souci, mas - - «Na encosta que escolhera o principe por si, - Tinha o moinho um tal moleiro Sans-Souci; - Vendedor de farinha, havia por costume - Ganhar, a dia a dia, o pão sem azedume. - E seja, emfim, qual fôr o lado d'onde vente - A vela gira sempre, e elle dorme contente. - . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . - Um projecto traçou um habil engenheiro, - Que abrangia o moinho e o seu recinto inteiro. - Mas ás vistas forçoso era renunciar, - Ou cortar á extensão e o parque mascarar. - Das construcções reaes, o intendente geral - Fez chamar o moleiro e disse-lhe afinal: - --«Quer-se o moinho teu; vê lá que valor tem.»-- - --«Não tem valor nenhum, que o não vendo a ninguem! - «Quer-se o moinho, é boa! elle é meu e direi - «Que, ao menos, tanto como a Prussia é só do rei»-- - --«Vamos, dize afinal--responde e tem cuidado!»-- - --«N'uma palavra?-- - --«Sim.-- - --«É meu, está declarado, - «Já disse, nada mais!»-- - - A recusa atrevida - Ao principe se conta e é coisa decidida. - Manda vir á presença o insolito moleiro, - Promette inutilmente, aperta, é lisongeiro, - Mas teima Sans-Souci--«Ouvi, Sire, a razão - Porque vender não posso o moinho em questão. - Meu avô lá morreu; lá tive um filho ha um mez, - É o meu Postdam, Senhor. Sou teimoso, talvez; - Nunca o fostes jámais? Nem mil ducados, não, - No fim d'esse discurso a mim me tentarão! - Passae sem elle, Sire, e ninguem mais insista!» - - Soffrem difficilmente os reis quem lhes resista, - E Frederico acode, o humor arrebatado: - --«Irra! que estás ao teu moinho bem pegado! - Ora atéqui tratei d'obtel-o e de pagal-o, - Mas sabes que, sem paga, eu posso exproprial-o! - O dono eu sou!»-- - --«Levar sem paga o moinho, a mim? - Talvez, _se não houvesse os juizes em Berlim!_»-- - - Do capricho o monarcha, ouvindo-o, em si cahia, - Contente, porque o reino inda em justiça cria; - E volvendo-se a rir para o seu architecto: - --«Eu acho que é melhor mudarmos de projecto. - Visinho guarda a casa, has respondido bem.»-- - . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . - ---Estas palavras--_ha juizes em Berlim_--que o poeta francez Andrieux -não fez senão citar na encantadora narrativa que vimos de traduzir -incompletamente, porque são historicas, formaram uma locução proverbial -que se emprega em todas as circumstancias analogas, isto é, quando a -força pretende vencer o direito. - -Cabe aqui, a proposito do moinho de Sans-Souci um pequeno caso que não -deixa de ser interessante. - -O famoso moinho é ainda hoje propriedade do bisneto do obstinado -moleiro. Mas n'essa familia os homens seguem-se e não se parecem. - -Assim, o descendente de Sans-Souci, necessitado de dinheiro fez saber ao -descendente de Frederico II, que estava disposto a ceder-lhe o moinho. O -principe respondeu-lhe com esta espirituosa carta: - - «Meu caro _visinho_. - -«O moinho não lhe pertence, nem a mim, pertence á historia; é-nos pois, -impossivel, a si, vendel-o, a mim, compral-o. Mas como entre visinhos e -visinhos bons deve haver auxilio, mando-lhe um cheque de 10:000 florins, -que póde receber do thesouro.» - - - - -LXXVI - -_Judas--Beijo de Judas_ - - -Dois dias antes da Paschoa, Jesus disse aos seus discipulos:--«Chegou o -dia em que o Filho do Homem vae ser entregue para ser crucificado.» E ao -mesmo tempo os principes dos padres e os mais velhos do povo, reunidos -em casa de Caiphaz, concertavam-se sobre os meios de se apoderarem de -Jesus e o fazerem morrer. Mas receiavam excitar qualquer agitação -popular. - -Foi então que Judas, um dos apostolos, se chegou e combinou entregar o -seu mestre, mediante trinta dinheiros. De tarde Jesus poz-se á meza com -os seus discipulos e annunciou-lhes que um d'elles o trahiria.--«Serei -eu, Senhor?»--lhe perguntou Judas, e depois da resposta do Salvador, -deixou a meza e foi-se, excitado pelo mau espirito. Em seguida Jesus -sahiu da cidade, seguido dos seus discipulos, e dirigiu-se ao monte das -Oliveiras, a um logar chamado Gethsemani. Logo appareceu Judas -acompanhado d'um grupo de soldados aos quaes tinha dito: «Prendam -aquelle que eu beijar, é elle que procuram.» E approximando-se de -Jesus, beijou-o e disse-lhe:--«Mestre, eu te saudo.» Jesus censurou-lhe -o seu crime com doçura:--«Judas, entregas o Filho do Homem com um -beijo!» E avançou para os soldados que se lançaram a elle e o ligaram. - ---O nome de _Judas_ ficou como a personificação do traidor, do homem -profundamente hypocrita, e o _beijo de Judas_, como para designar o acto -pelo qual se pratica a traição. Assim chamar Judas a alguem é -dirigir-lhe a mais pungente das injurias. E comprehende-se que uma tal -comparação seja repellida com indignação. - - - - -LXXVII - -_Pragas do Egypto_ - - -Moisés acompanhado de seu irmão Aarão, apresentou-se perante Pharaó, que -recusou reconhecer as ordens de Deus. Então Moisés e Aarão feriram -successivamente o paiz com dez flagellos, chamados--_pragas do Egypto_. - - 1.º--Agoas transformadas em sangue; - 2.º--O Egypto todo coberto de rãs; - 3.º--Os insectos devoradores; - 4.º--Grandes moscas insupportaveis; - 5.º--Peste; - 6.º--Chagas nos homens e nos animaes; - 7.º--Tempestades de saraiva e trovoadas; - 8.º--Nuvens de gafanhotos; - 9.º--Trevas espessas; - 10.º--Morte de todos os recemnascidos. - -O coração endurecido do rei só cedeu a esta ultima praga, a mais -espantosa de todas, e os Hebreus partiram para Ramassés em numero de -seiscentos mil homens, sem contar-se as creanças. - ---Quando se falla _das pragas do Egypto_ na linguagem figurada é quasi -sempre á dos gafanhotos que se faz allusão. - - - - -LXXVIII - -_Não toqueis na rainha_ - - -Os reis d'Hespanha usavam uma regra d'etiqueta exaggerada até á -estupidez. Todo o individuo que tocasse o pé da rainha, fosse qual fosse -a causa, era condemnado á morte e executado immediatamente. - -A joven rainha, esposa de Carlos II, montou um dia a cavallo para um -passeio com as suas damas e os seus cortezãos. A breve trecho o cavallo -espanta-se e expelle-a, mas por fórma que o pé da princeza ficou preso -ao estribo e o furioso animal se poz a arrastal-a. Uma immensa multidão -assistia a este triste espectaculo, mas ninguem ousava soccorrel-a por -causa da etiqueta. Ia, de certo, ser victima d'esse terrivel accidente, -quando dois jovens officiaes francezes, que alli se achavam por acaso, -resolveram salval-a. Lançam-se impavidamente, e em quanto que um -suspende o cavallo pelo freio, o outro consegue desligar o pé da rainha, -que, afinal, apenas soffreu o susto e algumas contusões. - -Elles fugiram logo, e era tempo, porque iam ser presos, e Deus sabe o -que faria a etiqueta! No dia seguinte a rainha, muito molestada foi -obrigada a deixar os seus aposentos, para fallar ao rei, de quem -conseguiu a graça dos seus salvadores, mas com a condição de que -deixariam a Hespanha immediatamente. - -De resto era egualmente perigoso tocar no rei, fóra das severas leis da -etiqueta. Eis a este respeito um facto que difficilmente se poderia crer -se não fosse historico. - -Estando doente Filippe III achava-se sentado n'um _fauteuil_, muito -junto da chaminé do fogão, aonde acabava de accender-se o lume, e aonde -se havia depositado uma certa quantidade de material combustivel. O -calor tornou-se, em breve, intoleravel e o rei disse aos cortezãos para -retirarem algumas achas; mas como o duque accendedor-mór não estava -presente, e só elle tinha o direito de bulir no lume da real camara, -nenhum dos assistentes ousou commetter tão grande infracção da etiqueta. -Por outro lado, ninguem podia tocar no _fauteuil_ do rei a não ser o -camareiro-mór, que egualmente estava ausente, e, emfim, era prohibido -sob pena de morte, tocar na sagrada pessoa de sua magestade, de que -resultou deixarem os cortezãos tranquillamente assar o rei, embora -lamentando-se por tão triste sorte. Quando os dois funccionarios -chegaram já era tarde: o rei estava moribundo e pouco sobreviveu a este -cruel supplicio! - - - - -LXXIX - -_O ovo de Colombo_ - - -A 15 de Março de 1493, Christovam Colombo, que vinha de fazer uma das -mais admiraveis descobertas de que se honra o espirito humano, aportava -a Palos, de onde tinha partido sete mezes e meio antes. Foi recebido -com grande enthusiasmo. Os sinos repicaram, os magistrados seguidos de -todos os habitantes desceram á praia a recebel-o. O trajecto até á côrte -foi um triumpho continuo; de toda a parte se corria para vêr o homem que -tinha terminado, tão felizmente, uma empreza que toda a gente julgára -impossivel. Toda a cidade foi ao seu encontro. Elle ia no meio dos -indios que trouxera comsigo na sua entrada em Barcellona, e que -conservaram o costume do seu paiz. Uma multidão de objectos -desconhecidos e cuja vista dominava vivamente os espiritos eram -conduzidos na vanguarda em corbeilles e bandejas descobertas. Elle -avançou assim no meio d'um concurso immenso até ao palacio dos reis -d'Hespanha. Fernando e Isabel esperavam-no sentados no throno. Quando -elle appareceu, no meio do seu cortejo, levantaram-se. Colombo -lançou-se-lhes aos pés, mas elles ordenaram-lhe que se sentasse. O -illustre navegador narrou-lhes a viagem e descobertas que fez. Em -seguida apresentou-lhes os indios que o acompanhavam e os objectos -preciosos que havia trazido. Toda a gente se poz de joelhos, e cantou-se -na propria sala do throno um cantico em acção de graças. Fernando -confirmou a Colombo todos os seus privilegios, e permittiu-lhe juntar ao -seu brazão, as armas da sua familia, as do reino de Castella e Leão, com -os emblemas das suas dignidades e das suas descobertas. Todos os seus -parentes foram cumulados de provas da munificencia real. - -Com tão grandes honras Christovam Colombo podia julgar-se ao abrigo dos -golpes subitos da fortuna. E, comtudo, nunca um homem os sentiu d'um -modo mais terrivel e mais cruel! - -Iam mal passados ainda os primeiros transportes do enthusiasmo e já a -maldade e a inveja haviam começado a erguer a cabeça. Procuraram por -meio de perfidas insinuações entibiar o merito d'essa immortal -descoberta.--«Dado o primeiro passo, o novo mundo viera a elle d'algum -modo; o seu genio consistia apenas n'uma longa, mas trivial paciencia; -em uma palavra, para descobrir a America, _não tinha sido preciso pensar -n'isso_ ...» Tal era já a ousadia dos detractores, que faziam circular -estes propositos, um dia, á meza d'um grande d'Hespanha para que fôra -convidado Colombo. - -O grande homem permaneceu silencioso durante toda a discussão; mas n'um -dado momento e depois de haver reflectido, fez vir um ovo e -apresentando-o aos nobres convivas, disse-lhes: - ---«Qual de vós, senhores, se sente capaz de fazer com que este ovo se -sustente ao alto, por uma das extremidades?» - -O ovo começou a circular, passando de mão para mão, até que voltou a -Colombo, sem que qualquer dos presentes houvesse resolvido o problema. -Elle, então, tomou-o, bateu-o levemente no prato e o ovo ficou em -equilibrio. Cada qual exclamou: - ---«Isso não era difficil! - ---«Sem duvida--replicou Colombo com um sorriso ironico--comtudo _era -preciso pensal-o!_» - ---O _ovo de Christovam Colombo_ passou a uma especie de proverbio, a que -se allude a proposito d'uma coisa que se não póde fazer, e que se -encontra facil, depois de feita. - - - - -LXXX - -_Waterloo_ - - -Napoleão, depois de ter fundado um imperio mais vasto e mais poderoso -que o de Carlos Magno; depois de ter visto a Europa inteira tremer com a -sua presença e submetter-se a todas as suas vontades, emprehendeu a -funesta campanha da Russia, em que o exercito mais formidavel foi -vencido, não pelos homens, mas pelos elementos e pelo rigor do clima. - -Essa longa jornada da Russia foi realmente o termo da brilhante fortuna -que collocou Napoleão, como o primeiro dos mais illustres -conquistadores; mas como ella relembra ao espirito uma série multipla -de desastres, o seu nome, por muito funesto que pareça, não podia ser -escolhido para designar uma ruina subita, um esboroamento rapido. Foi a -derrota de Waterloo, que recebeu esta consagração. - -Depois de se ter visto forçado a abdicar em Fontainebleau, depois de ter -mudado o seu poderoso imperio pela soberania irrisoria d'uma ilha, em -que apenas contava alguns milhares de subditos, Napoleão, por uma -d'essas inspirações repentinas, que constituiam o caracter particular do -seu genio, escapou-se á vigilancia de que era objecto, desembarcou em -Cannes, e marchou sobre Pariz sem encontrar resistencia. Os Bourbons, -dominados pelo terror, abandonam a França, e Napoleão entra como senhor -nas Tulherias, d'onde, durante dez annos, dera a lei á Europa. - -Mas este successo admiravel não tinha solidez. A coalisão da Europa não -estava dissolvida, e ia reformar-se, mais potente que nunca, e a França, -exangue d'homens e de recursos, fatigada d'essas guerras interminaveis, -que arruinavam o commercio e a industria, não ia oppor uma resistencia -sem impeto, quasi passiva, e que facilmente seria vencida. - -No entretanto, Napoleão desenvolve ainda uma vez a energia, a decisão, -que fulminaram tantos inimigos; mas os seus officiaes parecem ter -perdido o vigor d'outr'ora. - -Em Waterloo, comquanto não tenha mais que quinze mil combatentes a oppor -a forças duplas das suas, a habilidade das suas disposições parece a -principio fazer pender a victoria para o seu lado; mas o general -prussiano Blucher, que Grouchy não póde, não sabe, ou não quer deter, -chega com as suas forças frescas, faz mudar a face ao combatente, e o -exercito francez, o ultimo exercito de Napoleão, é esmagado. - -D'esta vez a fortuna do Cezar moderno estava despedaçada para sempre, e -os derradeiros exforços que pôde desenvolver ainda, serviram apenas para -lançarem algum brilho sobre os ultimos momentos d'esse astro, outr'ora -tão brilhante. - ---A palavra _Waterloo_ emprega-se muito para designar a ruina completa e -fatal d'uma coisa, que foi grande e que, por muito, parecia ser -estavel. - - - - -LXXXI - -_Templo de Jano_ - - -O famoso templo de Jano, que foi fundado em Roma por Numa, estava aberto -durante a guerra e fechado no periodo da paz. Jano, o mais antigo rei -d'Italia, ácerca do qual os mythologos teem dificuldade em se -entenderem, passava por ter tido um reinado longo e tranquillo, o que o -fizera considerar como o deus da paz e o tinha posto em grande honra -para Numa, o rei mais sabio que teve Roma. - -Durante um periodo de quasi mil annos, o templo de Jano só foi fechado -oito vezes: a primeira no reinado de Numa; a segunda, no anno 519, de -Roma, depois da primeira guerra punica; a terceira, no anno 723, depois -da batalha d'Actium; a quarta, no anno 730, depois da guerra cantabrica; -a quinta, no anno 740, apoz a pacificação da Germania; a sexta, no anno -824, por Vespasiano, depois da conquista da Judeia; a setima, no anno -834, por Domiciano, em seguida á guerra dos Dacios, e a ultima, no anno -994, por Gordio III, vencedor dos persas. - -É esta a ultima menção que a historia faz d'esta cerimonia. Virgilio, no -livro VII da _Eneida_, fez a descripção do templo de Jano e do -cerimonial que presidiu á sua abertura. - ---É por allusão a este templo, que se diz no estylo oratorio, e, -sobretudo, em poesia--_abrir o templo de Jano_--para fazer guerra, -começal-a, declaral-a, e--_fechar o templo de Jano_--para conclusão do -tratado de paz, e pôr fim ás hostilidades. - - - - -LXXXII - -_Estatua de Nabuchodonosor_ - - -Nabuchodonosor II, cognominado o _Grande_, rei da Babylonia, tivera um -sonho espantoso, mas de que ao despertar se não lembrava absolutamente -nada. Nenhum dos magos da côrte pôde avivar-lhe a visão. O joven Daniel, -então captivo na Babylonia, foi mandado vir á presença do rei e -disse-lhe: - ---«Eis o que viste, rei:--Havia uma estatua immensa, cuja cabeça era -d'ouro, o peito e os braços de prata, o ventre e as côxas de bronze, as -pernas de ferro e os pés de barro. De repente deslocou-se por si uma -pedra da montanha, e indo ferir os pés da estatua, fel-a pedaços. Então -os quatro metaes quebrados tornaram-se como o pó, que enche a -athmosphera, no verão, e tendo-se levantado um grande vento, tudo levou. -Mas a pedra que despedaçára a estatua tornou-se uma montanha immensa, -que encheu toda a terra. Eis o teu sonho, ó rei, e agora a sua -interpretação:--Tu és o rei dos reis; és tu, pois, a cabeça de ouro. -Ha-de haver depois de ti um reino menor que o teu, que será de prata, -depois um terceiro de bronze, que mandará em toda a terra. O quarto -reino reduzirá tudo a pó como o ferro quebra tudo, mas assim como a -estatua, de pés de barro, elle se dividirá por sua vez. Então Deus -suscitará um reino para sempre eterno, que derribará e destruirá todos -os reinos, como a pedra deslocada da montanha partiu a estatua e lançou -ao vento o seu pó.» - -Era a imagem dos quatro grandes imperios d'Assyria, da Persia, da -Macedonia e de Roma, que, destruindo-se successivamente uns aos outros, -deviam todos ser absorvidos por um imperio immenso e immortal, o de -Jesus Christo n'este mundo. - ---No estylo elevado faz-se muitas vezes allusão ao colosso de -Nabuchodonosor, quando se quer exprimir que ha liga nas coisas, -apparentemente mais puras, que os genios mais sublimes se prendem por -qualquer ponto fraco aos lados vulgares da humanidade, que o poder que -parece mais solidamente estabelecido não tem muitas vezes senão uma base -fragil, que a circumstancia mais imprevista póde fazer cahir. - -Assim, por exemplo, um escriptor contemporaneo, fallando da guerra de -1809, que foi a origem de todas as desgraças de Napoleão, diz: - ---«Foi na outra extremidade do continente, foi em Portugal que se fez -sentir o primeiro estalido, e que se percebeu de repente que a _estatua -colossal tinha um pé de barro_.» - - - - -LXXXIII - -_Sepulchros do Evangelho_ - - -No capitulo XXIII do Evangelho, segundo S. Matheus, Jesus Christo -levanta-se contra os impostores e hypocritas, com uma força d'expressão, -uma vehemencia de linguagem, que espantam, n'aquella bocca divina, -habituada a só fazer ouvir palavras de mansidão e de caridade. Elle não -reprehendeu nenhum vicio com tanta energia, e quando nos lembramos da -sua celeste indulgencia para com a mulher adultera, admiramo-nos do -anathema terrivel que dardeja aos scribas e phariseus. É que nas -inspirações da sua sublime natureza Jesus Christo bebia a certeza de que -a hypocrisia é capaz de todos os crimes, que ella os contem todos em -germen. - - * * * * * - -«Desgraça a vós! scribas e phariseus hypocritas, que purificaes o -exterior da taça e do vaso, em quanto que por dentro sois cheios de -rapinas e de maculas!» - -«Phariseus cegos, purificae primeiro o interior da taça e do vaso, afim -de que o exterior seja puro tambem!» - -«Desgraça a vós! scribas e phariseus hypocritas, porque sois semelhantes -a _sepulchros caiados_, que, por fóra parecem bellos aos homens, mas por -dentro são cheios d'ossos e podridão!» - - * * * * * - ---A applicação d'esta phrase _sepulchros caiados_, ou a -equivalente--_sepulchros do Evangelho_--sobresáe claramente do texto que -citamos, quando se dirige ás pessoas; quanto ás coisas, caracterisa tudo -quanto tem mais apparencia de brilho, que fundo e realidade. - - - - -LXXXIV - -_Isso que prova?_ - - -Não temos a pretensão de exprimir uma verdade muito nova, dizendo que as -mathematicas não são irmãs da poesia, embora Urania seja uma das nove -Musas. E se não era mathematico, era digno de sel-o, aquelle que -interrogado ácerca do effeito que lhe produzia a audição d'uma opera, -respondeu: - ---«O mesmo que o d'um sacco cheio de pregos, agitado vigorosamente.» - -O mathematico habituado a medir tudo a regua e compasso, a tirar -deducções por meio de raciocinios evidentes, fica quasi sempre -insensivel ás bellezas da harmonia e do sentimento. - -Um geometra assistia a uma representação da _Phedra_, e em quanto que -todos os outros espectadores derramavam lagrimas, commovidos por essa -magnifica poesia, que mostra em scena - - «. . . . . . essa dor virtuosa» - «De Phedra, a pezar seu, perfida, incestuosa» - -elle ficava frio, impassivel e contentava-se em dizer nas passagens mais -patheticas: - ---«Isso que prova?» - -O astronomo francez Villemont, menos exclusivo, nunca deixava de dizer -d'um fragmento de poesia que lhe causasse prazer: - ---«É bello como uma equação!» - -Era para elle o superlativo da admiração. - - - - -LXXXV - -_Manná_ - - -Quando os hebreus chegaram ao deserto e viram as provisões esgotadas, -começaram a murmurar contra Moisés, dizendo:--«Conduzistes-nos a este -logar para nos fazerdes morrer de fome?»--Moisés respondeu-lhes da parte -do Senhor:--«Esta tarde comereis carne, e amanhã estareis saciados de -pão.»--Com effeito, de tarde uma enorme quantidade de rôlas veio pousar -sobre o campo, e no dia seguinte, pela manhã, um orvalho matutino cobria -toda a planicie. Era uma especie de pó branco que tinha o gôsto da mais -fina farinha misturada com mel. - -Este alimento chamava-se _manná_. Os hebreus deviam apanhal-o em cada -manhã e antes do nascimento do sol, e só em quantidade necessaria para o -dia, excepto na vespera do _sabbat_ em que deviam tambem recolhel-o para -o dia seguinte. Alguns deixando-o de um para o outro dia encontravam-no -corrompido. - -Ora os filhos d'Israel nutriram-se d'este orvalho celeste durante os -quarenta annos que viveram no deserto, até á sua entrada na terra da -promissão. - ---Comprehende-se que--_manná_--ou--_é um manná_--se não póde applicar -senão n'um sentido metaphorico, como por exemplo: - ---A verdade _é um manná_ divino, com que se deve sustentar o espirito e -o coração. - - - - -LXXXVI - -_Annel de Gyges_ - - -Gyges era um moço pastor da Lydia. Um dia vendo entreabrir-se a terra, -desceu pela abertura, e viu, entre outras maravilhas um cavallo de -bronze, completamente ôcco, com portas nas ancas. Abriu-as e encontrou -um cadaver de grandeza mais que humana, tendo em um dedo um annel -d'ouro. Esse annel, desde que se voltava o engaste para o lado interior -da mão, tinha o poder de tornar invisiveis aquelles que o usassem. Gyges -apoderou-se d'esse precioso talisman e dirigiu-se á côrte, aonde o annel -foi a origem d'uma brilhante fortuna, porque o possuidor não tardou a -tornar-se favorito e primeiro ministro. - ---Não são raras as circumstancias em que cada qual desejaria ter no dedo -o annel de Gyges. Qual é o que nunca se viu collocado n'alguma d'essas -situações criticas, que fazem desejar, como vulgarmente se diz, «estar a -cem braças pela terra dentro»? Por outro lado, que não daria a gente, em -determinadas occasiões, para se encontrar invisivel, em certos logares, -em que se debatem os nossos mais caros interesses, e o nosso destino? - -D'aqui a frequente applicação que se faz do _annel de Gyges_, em -litteratura e na conversação. - -O espirituoso Alphonse Karr quiz ver no annel de Gyges uma allegoria que -explicou a seu modo n'estes versos: - - «Quem de Gyges o annel, conta, maravilhoso - «Nos casos falsos, ou na pura phantasia, - «--Agora o sei--a si se engana em demasia, - «Porque o frisante exemplo é grande, é numeroso. - «Se sois feio e sois mau, sem genio e já d'idade - «Ponde, á noite um annel, no vosso indicador, - «Com um brilhante que tenha um subido valor, - «E vereis como faz a sua claridade, - «Sob os raios da luz, em ponto bem escolhido, - «Dar-vos genio e belleza, e juventude, e encanto. - «Se sois mau e imbecil, elle vos faz um santo, - «Dizei quanto quereis, que já sois applaudido!» - - - - -LXXXVII - -_Honni soit qui mal y pense_ - - -Divisa da ordem da Jarreteira, instituida em Inglaterra em 1340 por -Eduardo III. Em um baile da côrte que elle dava em honra da condessa de -Salisbury, sua favorita, esta deixou cahir, dançando, uma liga, que era -azul. O rei apressou-se a apanhal-a, e expoz assim a formosa condessa -aos sorrisos malignos e aos maus propositos dos convidados. - ---«Senhores--exclamou Eduardo III--_honni soit qui mal y pense_. Os que -riem agora hão-de honrar-se um dia por usarem um objecto semelhante, -porque a liga será posta em tanta honra que até os mais zombadores a -procurarão com avidez!» - -E no dia immediato instituia a Ordem da Jarreteira, que é uma das mais -célebres da Europa. - -A principal insignia consiste n'uma liga de velludo azul, que se aperta -por cima do joelho esquerdo com uma fivela de ouro, sobre a qual se lê: -_Honni soit qui mal y pense!_--Maldito seja quem d'isto mal pensar. - -A rainha usa-a no braço. Só os principes soberanos ou as pessoas d'alta -distincção podem ser membros da Ordem. O numero dos primeiros é -illimitado, mas os outros não podem ser mais de vinte e seis. - ---A famosa divisa tornou-se proverbial e emprega-se para fazer -comprehender que se affronta a opinião, n'uma circumstancia sujeita a má -interpretação, d'equivoca apparencia. - - - - -LXXXVIII - -_Mal com el-rei pelos homens e mal com os homens por el-rei_ - - -Esta phrase, que bem exprime as apertadas circumstancias em que o homem -tantissimas vezes se encontra, de não poder, de modo algum, satisfazer e -contentar a todos, é do grande Affonso d'Albuquerque. - -Avisado elle de que el-rei D. Manoel lhe ordenava o regresso ao reino, -fazendo-o substituir no governo da India por Lopo Soares, com o qual -seguiam Diogo Pereira e Diogo Mendes, um como secretario e outro como -capitão de Cochim, e ambos de lá enviados a Portugal sob prisão pelo -valente governador, por delictos graves, exclamou: - ---Mal com el-rei pelos homens e mal com os homens por amor de el-rei. - -A phrazeologia popular formulou o mesmo pensamento de um modo, se não -tão primoroso, pelo menos egualmente expressivo, quando disse: - ---Preso por ter cão, preso por não o ter. - -Vê-se claramente qual o emprego da locução do grande capitão, e não é -difficil nem raro que cada um tenha varias occasiões, infelizmente, de -applical-a a si proprio. - - - - -LXXXIX - -_Bandeira da Misericordia_ - - -D'antes, por um privilegio, fundado, decerto, n'um principio caritativo, -as irmandades da Misericordia eram obrigadas--e no Estatuto d'algumas se -acha consignada esta obrigação--a acompanhar com a respectiva bandeira, -os condemnados a pena ultima, desde o carcere ao local do supplicio. - -Alli, tanto que a victima era executada cobria-a immediatamente essa -bandeira, o que equivalia a tomar a Misericordia conta do cadaver, a -fim de prevenir ou evitar profanações no corpo, por parte dos populares, -arrastados, muitas vezes, a scenas bem pouco edificantes, pela excitação -de odios e de paixões violentas e desordenadas. - -Quando acontecia que a corda se quebrava--no supplicio da forca--e o -paciente cahia com vida, desde que a bandeira o cobrisse, estava salvo. - -Nas ultimas execuções d'este genero, realisadas em Vizeu, no largo de -Santa Christina, no tempo das luctas do absolutismo, aconteceu que um -dos pacientes, graças a um convenio com o carrasco, cahiu com vida e foi -coberto com a bandeira da Misericordia. - -Uma mulher, porém, que ainda morreu ha poucos mezes, e que tinha a -triste e original mania de assistir a todos os actos lugubres e a todas -as scenas mais contristadoras, por um assomo de curiosidade feminina foi -levantar uma ponta da bandeira. O desgraçado, que se fingia morto, -imaginando que era algum dos que conhecia o convenio para a sua -salvação, abriu os olhos, e tanto bastou para que a original mulher -começasse a gritar que elle estava ainda vivo. - -A populaça desenfreada cahiu sobre o infeliz e cevou as suas iras. - -D'esta vez a bandeira não valeu. - ---Do privilegio d'esse estandarte nasceu a locução de--_bandeira da -Misericordia_,--d'um grandissimo emprego, sobretudo, na conversação -familiar, servindo para designar toda a intervenção caritativa para a -suspensão ou allivio d'uma pena ou d'um castigo. - - * * * * * - -A critica poderá encontrar motivo para exercer-se, no delineamento e -execução d'esta despretenciosa obra, mas a benevolencia será a _bandeira -da Misericordia_, que ha-de abrandar a dureza das apreciações. - - - - -INDICE - - - PAG. - - DO AUCTOR . . . . . . . . . . . . . . . 7 - I--Amanhã os negocios sérios . . . . . . 9 - II--Alexandre . . . . . . . . . . 11 - III--Audacia, ainda audacia e sempre audacia . 19 - IV--Delicias de Capua . . . . . . . . 21 - V--Disse eu alguma tolice? . . . . . . . 23 - VI--Arca de Noé . . . . . . . . . . 24 - VII--Queimar não é responder . . . . . . 25 - VIII--Caim, que fizeste de teu irmão? . . . . 26 - IX--Do Capitolio á rocha Tarpeia só ha - um passo . . . . . . . . . 27 - X--Catão . . . . . . . . . . . . 29 - XI--Cezar . . . . . . . . . . . . 30 - XII--Estava escripto . . . . . . . . . 40 - XIII--Conhece-te a ti proprio . . . . . . 41 - XIV--As joias de Cornelia . . . . . . . 42 - XV--Cresus . . . . . . . . . . . 43 - XVI--Dôr, tu não és um mal . . . . . . . 44 - XVII--Egéria . . . . . . . . . . . 46 - XVIII--Mais uma victoria como esta e estamos - perdidos . . . . . . . . . . 47 - XIX--Espada de Damocles . . . . . . . 49 - XX--O prato de lentilhas . . . . . . . 51 - XXI--E eu tambem sou pintor! . . . . . . 52 - XXII--Estrella dos Reis Magos . . . . . . 53 - XXIII--E, comtudo, ella gira! . . . . . . 54 - XXIV--Virtude, não és mais que um nome . . . 56 - XXV--Festim de Balthazar . . . . . . . 57 - XXVI--Forcas caudinas . . . . . . . . 59 - XXVII--Irmão é preciso morrer . . . . . . 61 - XXVIII--Cahir com graça . . . . . . . . 62 - XXIX--Hippocrates diz sim, Galiano diz não . . 63 - XXX--É muito tarde . . . . . . . . . 64 - XXXI--Não ha grande homem para o seu creado - de quarto . . . . . . . . . 66 - XXXII--Cantam, elles pagarão . . . . . . . 67 - XXXIII--Perdi o meu dia . . . . . . . . . 68 - XXXIV--Amo Platão, mas amo mais a verdade . . . 69 - XXXV--Achei!--Eureka! . . . . . . . . . 70 - XXXVI--Eu desejaria não saber escrever . . . . 72 - XXXVII--Linguas d'Esopo . . . . . . . . . 73 - XXXVIII--Lanterna de Diogenes . . . . . . . 75 - XXXIX--O mestre o disse . . . . . . . . 76 - XL--O rei é morto, vive o rei! . . . . . 77 - XLI--O estado sou eu! . . . . . . . . 78 - XLII--Alavanca d'Archimedes . . . . . . 79 - XLIII--Magdalena . . . . . . . . . 80 - XLIV--Casa de Socrates . . . . . . . . 81 - XLV--Desgraça aos vencidos! . . . . . . . 83 - XLVI--Manto de Joseph . . . . . . . . 84 - XLVII--Mario sobre as ruinas de Carthago . . . 85 - XLVIII--Subir ao Capitolio . . . . . . . 86 - XLIX--Onde não ha el-rei o perde . . . . . 88 - L--Onde se vae aninhar a virtude? . . . . 89 - LI--Perdoae-lhes, meu Pae, não sabem o - que fazem . . . . . . . . . 90 - LII--Lavar as mãos como Pilatos . . . . . 91 - LIII--O que não peccou, atire a primeira pedra 93 - LIV--Tres linhas escriptas e eu farei enforcar - quem as escreveu . . . . . . 94 - LV--Quem te fez conde? Quem te fez rei? . . 96 - LVI--A Cezar o que é de Cezar a Deus o - que é de Deus . . . . . . . . 97 - LVII--Salto de Leucade . . . . . . . . . 99 - LVIII--Se é possivel, está feito; se é impossivel - se fará . . . . . . . . . 100 - LIX--Terra promettida . . . . . . . . . 102 - LX--Thebaida . . . . . . . . . . 103 - LXI--Desça o panno acabou a comedia! . . . . 105 - LXII--Tudo é perdido, menos a honra . . . . 106 - LXIII--Trombetas de Jericó . . . . . . . 108 - LXIV--A tunica de Christo . . . . . . . 109 - LXV--Um imperador deve morrer em pé . . . . 110 - LXVI--Vendilhões expulsos do templo . . . . 111 - LXVII--Gritar no deserto . . . . . . . 112 - LXVIII--Zoilo . . . . . . . . . . . 113 - LXIX--Aspasia . . . . . . . . . . . 114 - LXX--Babylonia . . . . . . . . . . . 116 - LXXI--Incendiar os seus navios . . . . . . 117 - LXXII--Os ultimos romanos . . . . . . . 119 - LXXIII--Faça cabelleiras, mestre André . . . . 120 - LXXIV--Fé do carvoeiro . . . . . . . 122 - LXXV--Ha juizes em Berlim . . . . . . . 123 - LXXVI--Judas--Beijo de Judas . . . . . . . 126 - LXXVII--Pragas do Egypto . . . . . . . . 127 - LXXVIII--Não toqueis na rainha . . . . . . . 128 - LXXIX--O ovo de Colombo . . . . . . . 130 - LXXX--Waterloo . . . . . . . . . . . 133 - LXXXI--Templo de Jano . . . . . . . . . 136 - LXXXII--Estatua de Nabuchodonosor . . . . . 137 - LXXXIII--Sepulchros do Evangelho . . . . . . 139 - LXXXIV--Isso que prova? . . . . . . . . 141 - LXXXV--Manná . . . . . . . . . . . 142 - LXXXVI--Annel de Gyges . . . . . . . . . 144 - LXXXVII--Honni soit qui mal y pense . . . . . 146 - LXXXVIII--Mal com el-rei pelos homens e mal - com os homens por el-rei . . . . . 147 - LXXXIX--Bandeira da Misericordia . . . . . . 148 - - - - -=Biblioteca do Lar= - - =Henry Ardel= - - Um conto azul - Caminho em declive - Fogo mal extinto - É preciso casar o João! - A alvorada - Uma aventura imprudente - A divina canção - A noite desce - Eva e a serpente - - =B. Jeanroy= - - Dois corações - - =M. La Bruyére= - - Flor de Lis - - =M. Damad= - - A enteada - - =Jean Thiéry= - - O canto do cuco - O romance dum solteirão - Corações magoados - Vítimas - - =António Zozaya= - - As auroras - Almas de mulheres - - =Georges de Peyrebrune= - - Dona Quixota - - =Alberto Insúa= - - Coração ludibriado - - =Claude Saint-Jean= - - O castelo dos noivos - - =Palácio Valdés= - - A alegria do capitão Ribot - - =Jean Rameau= - - Romance da Felicidade - - =Pierre de Coulevain= - - A ilha desconhecida - No coração da vida - - =Mary Floran= - - Se êle soubera - - =Eduardo Noronha= - - As mulheres de Pernambuco - -=Cada volume broch. 6$00--Enc. 10$00= - - -=Colecção de Hoje= - - =Alberto Insúa= - - O preto que tinha a alma branca - A mulher que precisa de amor - A mulher que esgotou o amor - O inimigo do matrimónio - O prazer do perigo - Mulheres histéricas - O amor em dois tempos - O amante invisível - Fumo, dor, prazer - A mulher, o toureiro e o touro - As flechas do amor - A paixão impossivel - - =Clément Vautél= - - Minha mulher não quer filhos - O amor à parisiense - A reabertura do paraíso terrestre - O senhor Mezigue - Sua reverendíssima entre os ricos - Sua reverendíssima entre os pobres - - =Pierre Benoit= - - O poço de Jacob - A calçada dos gigantes - Mademoiselle de la Ferté - O lago salgado - - =Palácio Valdés= - - Os majos de Cádiz - Marta e Maria - Riverita - Maximina - A Irmã S. Sulpício - A valenciana - - =A. Hernandez Catá= - - Os sete pecados - O bebedor de lágrimas - - =José Francés= - - O filho da noite - A mulher de ninguém - - =Fernandez Florez= - - As sete colunas - O segredo do Barba Azul - - =Pedro Mata= - - Um grito na noite - Corações sem rumo - - =Alfio Berreta= - - A morte do sonho - - =Tomás Borrás= - - A mulher de sal - A parede de teia de aranha - -=Cada volume broch. 6$00--Enc. 10$00= - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Historia Pitoresca, by Alfredo Campos - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIA PITORESCA *** - -***** This file should be named 63235-0.txt or 63235-0.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/3/2/3/63235/ - -Produced by Júlio Reis, Fernanda Brojo and the Online -Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net - - -Updated editions will replace the previous one--the old editions -will be renamed. - -Creating the works from public domain print editions means that no -one owns a United States copyright in these works, so the Foundation -(and you!) can copy and distribute it in the United States without -permission and without paying copyright royalties. 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