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-The Project Gutenberg EBook of Historia Pitoresca, by Alfredo Campos
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
-almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
-re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
-with this eBook or online at www.gutenberg.org/license
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-
-Title: Historia Pitoresca
- Palavras e frases celebres
-
-Author: Alfredo Campos
-
-Release Date: September 19, 2020 [EBook #63235]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIA PITORESCA ***
-
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-
-Produced by Júlio Reis, Fernanda Brojo and the Online
-Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net
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-
- HISTORIA PITORESCA
-
- PALAVRAS E FRASES CELEBRES
-
-
- POR
- ALFREDO CAMPOS
-
-
-
-
- [Figura:
- HISTORIA PITTORESCA
- PALAVRAS E PHRASES CELEBRES
- ]
-
-
-
-
-OBRAS DO AUCTOR
-
-
- Luz e sombras, original . . . . . . . . . 400 réis
-
- Um como ha muitos, original . . . . . . . 50 réis
-
- Um livro intimo, original . . . . . . . . 200 réis
-
- A felicidade pela familia, original . . . . . 100 réis
-
- O trabalho, original . . . . . . . . . 100 réis
-
- Nunca mais! original . . . . . . . . . . 400 réis
-
- A Filha do cabinda, original . . . . . . . 500 réis
-
- A cruz de brilhantes, original . . . . . . . 500 réis
-
- A jurity, original . . . . . . . . . . 500 réis
-
- Alma minha gentil, original . . . . . . . . 300 réis
-
- Historia pittoresca--Palavras e phrases celebres,
- original . . . . . . . . . . . . 500 réis
-
- Deveres do homem, original . . . . . . . 50 réis
-
- Magdalena, traducção . . . . . . . . . 500 réis
-
- Fior d'Aliza, traducção . . . . . . . . . 400 réis
-
- A mulher forte, traducção . . . . . . . . 600 réis
-
-
-OBRAS ELEMENTARES
-
- Noções de moral e religião, approvada . . . . 160 réis
-
- Principios elementares de chorographia, approvada 200 réis
-
- Grammatica franceza resumida, approvada . . . 500 réis
-
-
-NO PRÉLO
-
- A missão da mulher, 1 vol.
-
- Vida de Camões, 1 vol.
-
-
-
-
- _Alfredo Campos_
-
-
- HISTORIA PITTORESCA
-
-
- PALAVRAS E PHRASES CELEBRES
-
-
-
-
- PORTO
-
- Livraria Portuense
- --DE--
- LOPES & C.ª--EDITORES
-
- _123--Rua do Almada--123_
-
- 1889
-
-
-
-
- =IMPRENSA CIVILISAÇÃO=
-
- 73--LARGO DA POCINHA--77
-
- --PORTO--
-
-
-
- _Ao Ill.ᵐᵒ e Ex.ᵐᵒ Sr._
-
- MANOEL JOSÉ DA CONCEIÇÃO ROCHA
-
- TRIBUTO DE RESPEITO,
- CONSIDERAÇÃO, GRATIDÃO E ESTIMA
-
- Offerece
-
- _Alfredo Campos._
-
-
-
-
-DO AUCTOR
-
-
-_O PRESENTE livro--PALAVRAS E PHRASES CELEBRES--, é como que uma
-CORBEILLE aonde estão reunidos, explicados, e, por vezes commentados,
-muitos factos, muitas palavras, phrases e circumstancias curiosas e
-originaes, que se empregam e se encontram, a cada momento, já n'alguma
-obra escripta, já no meio da conversação_.
-
-_Pareceu-nos que não seria desgracioso enfeixar todas essas flores n'um
-como que estudo de Historia Pittoresca, sem a aridez da Historia
-propriamente dita, e com o proporcionamento do interesse, da amenidade
-e do attractivo do romance._
-
-_As PALAVRAS E PHRASES CELEBRES são isto apenas_.
-
-_O livro estava feito, e todo o trabalho consistiu, quasi, em
-procurarmos e reunirmos em volume as paginas que andavam dispersas, aqui
-e alli, um pouco por toda a parte._
-
-_Tem merecimento? Outros o dirão._
-
-_Em todo o caso póde servir para entretenimento de um serão, para
-desenfado n'uma hora de descanço, para suavisar um momento de tedio, com
-a vantagem de que allia o util, que é a historia, ao agradavel, que é o
-pittoresco._
-
-_De resto, parece-nos livro para toda a gente, porque crêmos que não
-perverte, não corrompe, não immoralisa._
-
-_Visou, pelo menos, a esse fim, e só desejamos que o attinja._
-
-_Se attingir, tanto melhor para os que nos honrarem lendo-o, e tanto
-melhor para nós, sobretudo, porque lograremos a gloria que aspiramos
-para o nosso modesto trabalho._
-
-
-[Figura]
-
-
-
-
- PALAVRAS
- E
- PHRASES CELEBRES
-
-
-
-
-I
-
-_Amanhã os negocios sérios_
-
-
-Sparta tinha-se apoderado da cidadella de Thebas por traição, e
-impozera aos thebanos, como governador, o tyranno Archias. Este banira
-da cidade os principaes cidadãos, entre os quaes Pelopidas. Refugiados
-estes em Athenas, resolveram libertar a patria e concertaram-se com um
-dos seus compatriotas, inimigo secreto do tyranno, que lhes offereceu
-recebel-os em sua casa. No dia marcado para a execução da conspiração,
-os conjurados penetraram em Thebas, graças a um disfarce. N'esse mesmo
-dia, Archias foi convidado para ceiar em casa d'um rico cidadão thebano,
-que, egualmente, fazia parte dos conspiradores. Tudo estava prompto, e
-os conjurados esperavam apenas uma hora mais avançada, para a execução
-do seu projecto, quando um correio, enviado d'Athenas, veio trazer a
-Archias uma carta, contendo todas as particularidades da conspiração.
-Admittido junto ao tyranno, entregou-lhe a missiva, convidando-o a lêr
-sem demora, porque se tratava de _negocios sérios_. Archias, dominado já
-pela embriaguez, poz indolentemente a carta sob a sua almofada,
-exclamando:
-
---«Amanhã os negocios sérios!»
-
-Alguns instantes depois, Pelopidas e os outros conjurados, invadiram a
-salla do festim e massacraram o tyranno.
-
-Este acontecimento, que produziu a liberdade da Beocia, obteve uma
-grande celebridade na Grecia, e a phrase--_amanhã os negocios
-sérios_--tornou-se um proverbio que os descuidados e os amigos da
-alegria pretendem tomar por divisa, e que melhor fôra tomassem como
-lição.
-
-
-
-
-II
-
-_Alexandre_
-
-
-Alexandre, filho de Philippe, rei da Macedonia, foi um dos maiores
-capitães da antiguidade. Desde a mais tenra edade que foi sempre animado
-d'uma nobre ambição. Quando lhe perguntavam se concorria aos jogos
-olympicos, respondia:
-
---«Iria, se tivesse a certeza de encontrar reis como rivaes!»
-
-Chorava de cólera, vendo os successos multiplicados de Philippe,
-lamentando-se, d'este modo:
-
---«Meu pai nada nos deixará que fazer!»
-
-Alexandre ficou em todas as linguas como o typo do _heroe_ e do
-_conquistador_. As differentes circumstancias da vida de Alexandre, que
-originaram locuções proverbiaes são as seguintes e por ordem
-chronologica:
-
-
-_1.º--Se eu não fosse Alexandre, desejaria ser Diogenes._
-
-Alexandre acabava de ser nomeado generalissimo dos gregos, e achava-se
-em Corintho, aonde os principaes cidadãos se apressavam em dirigir-lhe
-as suas felicitações. Admirado de não receber a visita de Diogenes, foi
-elle proprio procurar o celebre cynico, cuja conversação facil e picante
-o encheu de assombro. Alexandre tendo perguntado ao philosopho se
-desejava alguma coisa, elle respondeu:
-
---«Tira-te do meu sol.»
-
-Foi então que o grande conquistador, assombrado com tanto desinteresse,
-exclamou:
-
---«Se eu não fosse Alexandre, desejaria ser Diogenes.»
-
-
-_2.º--Meu filho, nada póde resistir-te._
-
-Antes de partir para a expedição que projectava na Asia, Alexandre quiz
-consultar o oraculo de Delphos. Como a pythia recusasse subir ao tripé,
-o moço heroe arrastou-a violentamente. Ella exclamou então:
-
---«Ah!, meu filho, nada te póde resistir.»
-
---«Esse oraculo me basta--respondeu Alexandre--não quero outro.»
-
-
-_3.º--Reserva da Esperança._
-
-Na primavera do anno 334, Alexandre, tendo apenas vinte e dois annos
-d'edade, dispunha-se a invadir a Asia, á frente d'um exercito de trinta
-mil infantes e cinco mil cavallos. Como se já estivesse de posse dos
-thesouros do grande rei, distribuiu aos amigos tudo quanto tinha.
-Perdiccas perguntou-lhe então:
-
---«Que reservaes para vós?»
-
---«A _Esperança_»--respondeu Alexandre.
-
-
-_4.º--Nó gordio._
-
-Gordio, simples lavrador phrygio, tornou-se rei, por ter cumprido um
-oraculo, que promettia a corôa ao que primeiro entrasse, n'um
-determinado dia, na capital. Midas, seu filho, consagrou, no templo de
-Jupiter o carro sobre o qual seu pai fôra transportado. O nó que ligava
-o jugo ao timão estava tão artisticamente dado, que não se lhe
-descobriam as pontas. Chamavam-no o _nó gordio_ ou de Gordio, e um
-antigo oraculo promettia o imperio da Asia a quem conseguisse desatal-o.
-
-Alexandre, tendo-se apoderado da cidade, resolveu cumprir o oraculo e
-actuar fortemente sobre a imaginação dos seus soldados. Depois de varias
-tentativas infructiferas, desembainhou a espada e cortou o nó
-mysterioso, illudindo mais, que realisando, d'este modo, o oraculo.
-
-
-_5.º--O medico de Alexandre._
-
-Pouco tempo depois da passagem do Granico, Alexandre, tendo-se banhado,
-a suar, nas aguas geladas do Cydnus, foi subitamente atacado d'um
-tremor mortal, e os soldados levaram-n'o, sem movimento, para a tenda.
-Todo o exercito se consternou, porque o seu estado parecia desesperado.
-Ao mesmo tempo, Dario avançava com forças immensas para lhe barrar as
-sahidas do Taurus. Os medicos não ousavam experimentar remedio algum; um
-só, Philippe, Acarniano de nação, e amigo d'infancia d'Alexandre, compoz
-uma poção, cujo effeito poderoso e salutar devia ser immediato. Durante
-estes preparativos, Alexandre recebeu uma carta de Parmenion, que o
-advertia de que desconfiasse de Philippe, secretamente comprado por
-Dario, para attentar contra os dias de seu monarcha. O heroe tinha ainda
-a carta nas mãos, quando o medico lhe levou a poção. Alexandre, sem
-manifestar a menor emoção, tomou a taça com uma das mãos, apresentou com
-a outra a carta a Philippe, e bebeu tudo d'uma só vez. O medico
-indignado, mas dominando as suas impressões, exhortou o rei a seguir
-fielmente as suas prescripções: a cura estava n'aquelle premio. Em
-verdade, apoz uma crise terrivel que gelou d'espanto todo o exercito, e
-de que um só homem não sabia a sahida, o doente melhorou e
-restabeleceu-se.
-
-O que ha de admiravel n'este traço da vida de Alexandre é a sua profunda
-fé na amizade.
-
-_6.º--Este tambem é Alexandre_
-
-Ephestion é menos citado na Historia pela parte que tomou nas conquistas
-d'Alexandre, que pela grande amizade que o unira áquelle heroe. Os dois
-amigos tinham sido educados juntos, e só a morte os separou. Depois da
-sangrenta batalha d'Issus, em que a mãe, a mulher e as duas filhas de
-Dario, cahiram em poder do vencedor, Alexandre, acompanhado d'Ephestion,
-foi visitar, á sua tenda, as infelizes princezas. Sysigambis, mãe de
-Dario, dirigiu a saudação a Ephestion, que tomou por Alexandre, pela
-superioridade da estatura e esplendor do traje. Advertida do engano,
-lançou-se aos pés do heroe, que a levantou bondosamente, dizendo-lhe:
-
---«Não vos enganasteis, aquelle tambem é Alexandre.»
-
-
-_7.º--E eu tambem, se fosse Parmenion_
-
-Depois da batalha d'Issus, que fizera cahir nas mãos d'Alexandre toda a
-familia de Dario, e alguns dias antes da batalha d'Arbelles, o grande
-rei fez offerecer ao vencedor dez mil talentos--cincoenta e quatro
-milhões--a cedencia de toda a Asia até ao Euphrates, e uma das suas
-filhas em casamento. Alexandre tendo communicado estas brilhantes
-propostas aos seus generaes, Parmenion exclamou:
-
---«Eu acceitaria, se fosse Alexandre.»
-
---«E eu tambem, se fosse Parmenion!»--respondeu Alexandre.
-
-E recusou.
-
-
-_8.º--Ó athenienses! quanto custa ser louvado por vós!_
-
-Alexandre tinha, do fundo da Asia, os olhos fixos na Grecia, e,
-sobretudo, em Athenas. Apesar do abaixamento em que esta cidade havia
-cahido, ficára sempre capital do mundo civilisado, pelas obras primas
-dos seus artistas, pelos immortaes discursos dos seus oradores e pela
-eloquente verdade dos seus historiadores, e Alexandre, tão apaixonado
-pela gloria, aspirava, acima de tudo, aos applausos d'esses athenienses
-frivolos, mas que egualmente distribuiam pela posteridade, a censura
-como o louvor. O conquistador acabava de penetrar nas vastas regiões da
-India, e preparava-se para atravessar o Hydaspe, de que Porus, á frente
-d'um formidavel exercito, ia disputar-lhe a passagem. O rio era largo e
-profundo, e as suas vagas quebrando estrepitosamente, deixavam a
-descoberto, aqui e alli, rochedos ameaçadores. Alexandre illude a
-attenção dos inimigos por um falso ataque, e aproveitando-se d'uma
-tempestade que lhe encobre os movimentos, affronta perigos inauditos
-para transpor o rio. Confessou depois que tinha, emfim, encontrado alli
-um perigo digno da sua coragem, e foi n'esta circumstancia, diz Racine,
-no prefacio da sua tragedia _Alexandre_, que o heroe exclamou:
-
---«Ó athenienses! quanto custa ser louvado por vós!»
-
-
-_9.º--Ao mais digno._
-
-Estava conquistada a Asia; _a terra_, segundo a bella expressão da
-Escriptura, _tinha-se callado deante de Alexandre_; elle fizera a sua
-entrada na Babylonia, «não como um conquistador, mas como um deus» e o
-papel brilhante e terrivel que representára estava a terminar. Os
-festins e os desvarios de toda a especie tinham succedido ás batalhas.
-No meio d'uma ultima orgia, o conquistador foi atacado d'uma febre, que
-o levou em poucos dias. Só deixava herdeiros em curta idade, ou
-incapazes. Conta-se que, no leito da morte, perguntando-lhe os generaes
-a quem legava o imperio, elle respondera:
-
---«Ao mais digno!»
-
-E expirou «cheio das tristes imagens da confusão que devia seguir-se á
-sua morte.»
-
-_10.º--Os funeraes d'Alexandre._
-
-«Alexandre--diz Bossuet--deixava, morrendo, capitães a quem tinha
-ensinado a respirar sómente ambição e guerra. Previu a que excessos se
-dariam, quando expirasse, e para os conter, e com receio de ser
-desrespeitado, não ousou nomear nem successor, nem tutor para seus
-filhos. Predisse sómente que os seus amigos _celebrariam os seus
-funeraes com sanguinolentas batalhas_.»
-
-
-_11.º--Desmembramento do imperio d'Alexandre._
-
-Apenas Alexandre exhalou o ultimo suspiro, os generaes reuniram-se para
-dividirem a sua immensa herança. Perdiccas, a quem Alexandre moribundo
-deixára o seu annel, fez-se nomear regente; e os outros generaes
-distribuiram entre si as provincias. Lysimaco teve a Thracia, Antipater
-a Macedonia e a Grecia, Ptolomeu o Egypto, Antigono e Cassandro
-repartiram a Asia Menor. Vinte annos depois encontravam-se nas planicies
-da Phrygia, e a batalha de Ipsus era o ultimo acto d'essa sangrenta
-tragedia.
-
-
-
-
-III
-
-_Audacia, ainda audacia e sempre audacia_
-
-
-Danton, um dos vultos mais notaveis da revolução franceza, nascera para
-tribuno popular. Alto, forte, face de _bull-dog_, muito picado das
-bexigas, a expressão do olhar cheia d'audacia, alma em harmonia com a
-estatura, com o ardor dos olhos, o rosto terrivel, a voz sonora, não
-podia ser senão o que foi, um revolucionario enthusiasta, arrastando o
-povo, já pela sua palavra como pelos seus actos, já pela sua elocução
-muito cheia de figuras gigantescas, d'apostrophes inflammadas,
-assombrando mesmo os que não seduzia. «Mirabeau serviu-se d'elle--diz um
-escriptor contemporaneo--como de um folle de forja, para accender o
-povo.» Apoz a fuga de Varennes, Danton provocou atrevidamente a queda do
-rei, fez-se eleger substituto do procurador da communa, preparou a
-revolução de 10 d'Agosto e entrou no ministerio da justiça.
-
-Esse famoso dia levantou toda a Europa contra a França revolucionaria.
-Brunswick, acaba de lançar o seu insolente manifesto; os exercitos
-francezes tinham experimentado revezes na Lorena; Longwy estava tomado,
-Verdun cercado, e o alarme reinava em Pariz. Para reanimar as coragens,
-Danton resolveu vibrar um grande golpe. Era no 1.º de Setembro. No dia
-seguinte, 2, em quanto o sino tocava a rebate e o estampido do canhão se
-fazia ouvir, elle correu á Assembleia legislativa, e, n'um discurso
-rapido, fez ouvir estas terriveis palavras aos deputados, trémulos nas
-suas cadeiras: «É n'este momento, senhores, que podem decretar que a
-capital bem mereceu da França inteira. O canhão que se ouve não é o
-canhão do alarme, é o passo de carga sobre os nossos inimigos!... Para
-os vencermos, para os anniquilarmos, que é preciso? _Audacia, ainda
-audacia e sempre audacia!_»
-
-Algumas horas depois os massacres de Setembro espantavam Pariz.
-
-Se Danton não organisou, como é accusado, aquellas horrorosas
-carnificinas, está averiguado que nada fez para as prevenir e reprimir,
-e talvez que elle visse n'ellas uma execução terrivel, mas necessaria.
-
-N'esta repetição energica, hoje proverbial, Danton fôra precedido pelo
-velho marechal de Trioulce. Quando se perguntava a este o que era
-necessario para bem fazer a guerra, respondia:
-
---«Tres coisas: dinheiro, ainda dinheiro e sempre dinheiro!»
-
-Demosthenes tambem já dissera na antiguidade, que tres coisas fazem o
-orador:--«primeiro, a acção; segundo, a acção; e terceiro, a acção.»
-
-
-
-
-IV
-
-_Delicias de Capua_
-
-
-A antiga Capua, capital da Campania, era uma das mais formosas cidades
-da Italia. Construida no centro de magnificas planicies, ensombradas
-pelo pinheiro, pelo platano, pelo myrto e a oliveira, circundada de
-imensos passeios orlados das mais perfumosas plantas, das mais
-brilhantes e suaves flores, Capua offerecia a mais adoravel residencia
-de toda a Italia.
-
-Foi lá que Annibal, depois da batalha de Cannes, e quando já tocava o
-extremo da sua audaciosa empreza, foi assentar os seus quarteis
-d'inverno, á frente do seu exercito vitorioso. Os historiadores antigos
-attribuem á permanencia de Annibal no seio das delicias de Capua, a
-causa unica da salvação de Roma. Assim, o seu exercito ter-se-ia
-amollecido e ter-se-hia corrompido alli pelos famosos vinhos e pelos
-gosos faceis.
-
-No entretanto, se considerarmos que o capitão carthaginez e os seus
-temiveis bandos guerrearam ainda, durante treze annos, na Italia, de que
-só foram arrancados pela habil diversão de Scipião na Africa, as
-_delicias de Capua_ não passam de uma amplificação de rhetorico.
-
-Segundo a opinião de historiadores modernos e homens de guerra dos mais
-celebres, um exercito de soldados feitos e experimentados não se perde
-n'um quartel de inverno. O que melhor explica a inutilidade dos exforços
-do maior capitão d'antiguidade, e esta foi a opinião de Napoleão 1.º,
-depois da batalha de Cannes, é o abandono a que entregou a patria, onde
-dominava uma facção invejosa; além de que, rodeado de povos hostis e
-alliados incertos, recrutando difficilmente o seu exercito, composto de
-mercenarios de toda a especie, Annibal já não estava em estado de tentar
-qualquer coisa grande e decisiva. Comtudo, não se sustenta menos contra
-as melhores tropas e os mais habeis generais da republica, enchendo a
-Italia com o terror do seu nome, e agitando o mundo com as suas
-negociações, para levantar, em toda a parte, inimisades aos romanos.
-
-_As delicias de Capua_ ficaram em todas as linguas modernas para
-designarem uma calmaria moral, temperada de divertimentos e prazeres,
-em que as molas do corpo e do espirito se distendem e enfraquecem.
-
-O padre Lacordaire aprecia a phrase do modo seguinte:
-
-«A historia de todos os successos é a historia d'Annibal em Capua.
-Esquece-se, embriaga-se, adormece-se; o lento veneno da molleza distende
-todas as molas da actividade, e o ser que nada é senão pela actividade,
-dissolve-se, pouco e pouco, na ignominia d'um somno cobarde.»
-
-
-
-
-V
-
-_Disse eu alguma tolice?_
-
-
-As lições de Platão e de Xenocrato tinham desenvolvido em Phocion um
-coração virtuoso e uma alma elevada. Na tribuna, como no campo de
-batalha, elle lembrava Aristides. Nunca um orador foi mais inflexivel
-nos seus conselhos, nem contou menos com o successo da sua perseverança.
-A eloquencia de Phocion era a expressão natural do seu caracter e dos
-seus costumes; elle fallava aos athenienses com a serenidade de um
-philosopho e o laconismo d'um spartiaco. Sabe-se que Demosthenes o
-chamava--_o machado dos seus discursos_. Superior aos applausos, tanto
-como aos clamores da multidão, elle abalroava de frente a potencia
-popular, e as suas virtudes impunham-se a todas as paixões. Tinha a
-palavra austera, e a sua eloquencia vigorosa e concisa desdenhava dos
-artificios oratorios, que agradam á multidão e fazem estrondear
-applausos. Estando um dia na tribuna e vendo-se ruidosamente victoriado
-por todo o povo, volveu-se admirado para os seus amigos e
-perguntou-lhes:
-
---«Disse eu alguma tolice?»
-
-
-
-
-VI
-
-_Arca de Noé_
-
-
-Era um immenso navio que Deus, depois de haver resolvido punir os homens
-pelo diluvio, ordenou a Noé construisse para ahi se refugiar.
-
-O Patriarcha empregou cem annos na construcção d'essa arca, que tinha
-trezentos covados de comprimento, cincoenta de largo e trinta de altura,
-e que continha, além de Noé e sua familia, dois casaes d'animaes
-impuros, assim chamados os que não era permittido offerecer em
-sacrificio, e sete casaes d'animaes puros.
-
-Por causa da quantidade de seres que esse navio encerrava, o nome de
-_Arca de Noé_ passou a servir para designar a agglomeração de numerosos
-e disparatados objectos.
-
-
-
-
-VII
-
-_Queimar não é responder!_
-
-
-No principio do anno de 1794, estava em toda a sua violencia o regimen
-do Terror, dirigido por Robespierre, no seio do _comité_ de salvação
-publica. Os proprios _dantonistas_, tornaram-se, em vista d'isto,
-_indulgentes_, moderados; e agora que a republica estava senhora do
-campo de batalha, elles queriam fazel-a entrar no reino das leis, e no
-caminho da justiça para todos. Danton era o chefe d'esta opposição nova,
-e o joven e fogoso Camillo Desmoulins era a sua penna, e, no _Vieux
-Cordelier_, farpeava o governo com censuras e sarcasmos. O jornal era
-lido com avidez, e venderam-se, n'alguns dias, cincoenta mil exemplares.
-Afinal, Camillo ousou promover um _comité de clemence_, como o unico
-meio de pacificar os partidos e de acabar com a revolução. Não era isto
-o que queria Robespierre, que, n'uma sessão dos jacobinos, onde o
-impetuoso pamphletario tinha sido intimado a comparecer, propoz
-perfidamente dar-lhe uma correcção paterna, _queimando_ os numeros do
-jornal.
-
---«Queimar não é responder!»--exclamou Desmoulins.
-
-Esta replica imprudente causou a sua perda. Robespierre não se conteve e
-disse:
-
---«Pois bem, não se queimem e responda-se; leiam immediatamente os
-artigos de Camillo, visto que assim o quer, e que elle seja coberto
-d'ignominia!»
-
-Alguns dias depois o intrepido moço subia ao cadafalso.
-
-
-
-
-VIII
-
-_Caim, que fizeste de teu irmão?_
-
-
-Caim, filho primogenito de Adão e Eva, cioso de seu irmão Abel, cujas
-offerendas eram mais agradaveis ao Senhor, propoz-lhe um dia um passeio
-ao campo e matou-o. O sangue do justo subiu até Deus, e a voz do Eterno
-fez-se ouvir:
-
---«Caim, Caim, que fizeste de teu irmão?»
-
-Deus amaldiçoou o fratricida, expulsou-o da sua face, e marcou-o na
-fronte com um signal de reprovação.
-
-_Caim_ é o nome que se dá ao irmão que maltrata o irmão, abjurando o
-amor fraterno.
-
-
-
-
-IX
-
-_Do Capitolio á rocha Tarpeia só ha um passo_
-
-
-A rocha Tarpeia, chamada assim, de Tarpeia, joven romana que alli foi
-estrangulada e sepultada, depois do acto de traição que commetteu,
-entregando a cidadella aos sabinos, era um rochedo situado no proprio
-recinto de Roma. Os romanos que se prendiam em perpetuar as recordações,
-deliberaram, depois do supplicio de Tarpeia, que se precipitassem do
-alto d'essa colina os criminosos accusados de traição. D'aqui a
-locução:--_Ser precipitado da rocha Tarpeia_--para exprimir,
-figuradamente, a quéda rapida d'uma posição elevada, e,
-particularmente, a perda d'uma grande popularidade.
-
-E como este logar era situado junto do Capitolio, em que se coroavam os
-triumphadores, as palavras--_A rocha Tarpeia está perto do Capitolio_,
-ou--_Do Capitolio á rocha Tarpeia só ha um passo_, significam que a
-quéda segue, muitas vezes, de perto o triumpho, e que a ignominia, como
-extremo, toca a gloria.
-
-Esta phrase está, sobretudo, em uso desde o eloquente emprego que d'ella
-fez Mirabeau, n'uma circumstancia celebre: Tratava-se de saber se a
-iniciativa da guerra devia ser devolvida ao rei ou á assembleia;
-Mirabeau pronunciou-se pela assembleia, e como ouvisse a palavra
-_traidor_ soar aos seus ouvidos, o fogoso orador subiu á tribuna, e
-tomando para texto do seu exordio a instabilidade do favor popular, fez
-ouvir essas palavras, que ficaram celebres:--«E eu tambem, a mim tambem
-queriam, ha poucos dias, levar-me em triumpho; e gritam agora nas
-ruas:--_A grande traição do conde de Mirabeau!_ ... Eu não precisava
-d'esta lição para saber que _só ha um passo do Capitolio á rocha
-Tarpeia!_ ...»
-
-
-
-
-X
-
-_Catão_
-
-
-Marco Porcio Catão, é, sobretudo, celebre pela austeridade dos seus
-costumes. Fez-se notar, desde o principio da sua vida publica, pela sua
-eloquencia mordente e aggressiva e pela sua opposição apaixonada ás
-ideias da Grecia, que começavam desde então a modificar o genio da Roma
-Antiga. Tão duro comsigo, como para os seus escravos, levantava-se antes
-da aurora, excitava os servos ao trabalho, punha-se nú como elles, para
-lavrar, comia o seu pão negro e bebia da sua agua avinagrada. Elevado á
-censura, pôde, emfim, trabalhar na realisação do seu sonho:--a
-restauração da antiga simplicidade romana. Fez regulamentos sumptuarios,
-contribuiu os objectos de luxo, os enfeites das mulheres, reprimiu as
-delapidações, e mostrou uma inflexivel severidade de costumes, a ponto
-de degradar um senador que tinha beijado a esposa em presença da filha.
-Amava-se a sua palavra, honrava-se o seu caracter; o povo applaudia este
-censor inexoravel que _mordia_ toda a gente. O sobrenome de _Censor_
-ficou-lhe, e erigiram-lhe uma estatua com esta inscripção:--_A Catão,
-que corrigiu os costumes_.
-
-A sua presença inspirava um tal respeito aos romanos, que, quando elle
-assistia ao espectaculo, o povo esperava que elle sahisse para pedir as
-farças e as danças licenciosas.
-
---Dizer que um homem é um _Catão_ é dizer que é severo e rigido no
-cumprimento do seu dever e nos seus costumes.
-
-
-
-
-XI
-
-_Cezar_
-
-
-Caio Julio Cezar, consul romano, dictador e um dos maiores capitães da
-antiguidade, era sobrinho de Mario. Cresceu no meio das guerras civis e
-foi proscripto aos desoito annos, por Sylla, que viu n'elle _varios
-Marios_. A estatua d'Alexandre, o Grande, que elle viu, passando em
-Cadiz, fez-lhe derramar lagrimas de despeito, por vêr que na idade em
-que tinha morrido esse heroe, elle não tinha ainda realisado nada de
-notavel. Tinha uma ambição e uma actividade devoradoras e--«julgava não
-ter feito coisa alguma em quanto lhe restasse alguma coisa a fazer.»
-
-O seu nome, como o de Alexandre, ficou como synonymo de grande
-guerreiro, de conquistador civilisador.
-
-Vamos apontar por ordem chronologica, as differentes circumstancias da
-vida de Cezar, que originaram locuções proverbiaes.
-
-
-_1.º--A mulher de Cezar nem mesmo deve ser suspeitada._
-
-Clodio, joven patricio, ambicioso e desmoralisado, amava Pompeia, mulher
-de Cezar. Uma noite, quando as mulheres celebravam os mysterios da
-boa-deusa, interdictos aos homens, elle introduziu-se, disfarçado com
-trajes femininos, nos aposentos de Pompeia. Mas foi surprehendido por
-uma escrava, que não era confidente.--«No dia seguinte, diz Plutarco,
-toda a cidade soube que Clodio commettera um sacrilegio horrivel.»
-
-Julgado, como profanador dos santos mysterios, corrompeu os juizes e foi
-absolvido. Cezar contentára-se em repudiar sua mulher. Chamado, porém,
-como testemunha, elle depoz que não tinha nenhum conhecimento dos factos
-que se imputavam ao accusado. Este depoimento pareceu muito estranho e o
-accusador perguntou-lhe porque havia então repudiado sua mulher. Elle
-respondeu:
-
---_É porque a mulher de Cezar nem mesmo deve ser suspeitada._
-
-
-_2.º--Gostaria mais de ser o primeiro n'uma aldeia, que o segundo em
-Roma._
-
-Todos os actos, todas as palavras de Cezar, antes do seu advento ao
-poder, revelam o seu caracter e a natureza da sua ambição. Depois da sua
-pretura, tendo-o a sorte designado para o governo da Hespanha ulterior,
-elle partiu para a sua provincia. Quando atravessava uma pobre aldeia,
-perdida no fundo dos Alpes, alguns dos seus amigos perguntaram-lhe,
-gracejando, se a ambição do poder e o desejo das dignidades occasionavam
-tambem debates n'essa miseravel terra.
-
---«Não riam--respondeu o futuro dictador--_eu gostaria mais de ser o
-primeiro n'esta aldeia, que o segundo em Roma_.»
-
-
-_3.º--Passar o Rubicão._
-
-Cezar vinha de concluir a conquista dos gaulezes, e tinha encontrado
-n'essas regiões thesouros bastantes para tudo comprar em Roma, onde
-tudo se tornára venal. Os seus successos, o seu poder, mais ainda que os
-seus conhecidos projectos, despertaram, emfim, a desconfiança de Pompeu,
-que começava a receiar ver-se o logro d'aquelle de que elle se tinha
-imaginado ser o protector. Desde então, poz tudo em acção para obter do
-senado um decreto que ordenava a Cezar o abandono do seu exercito e a
-resignação do commando. Este respondeu que estava prompto a obedecer,
-com a condição de que Pompeu entraria, pelo seu lado, na vida civil.
-Desde este momento, a guerra estava declarada. O senado encarregou os
-consules de proverem a segurança publica, e Cezar fez avançar o seu
-exercito para o Rubicão. Era uma pequena ribeira, que separava a Italia
-da Gallia cisalpina. O senado para assegurar Roma contra as tropas da
-Gallia, tinha, por um senatus-consulto celebre, declarado traidor á
-patria e dedicado aos deuses infernaes, todo aquelle que, com uma legião
-ou uma cohorte, passasse aquella ribeira. Prevenido na margem opposta,
-Cezar, dominado pelo perigo da resolução audaciosa que ia tomar, hesitou
-alguns instantes.
-
-«Tinham-se visto revoluções d'imperios, diz Lacordaire, thronos mudando
-de senhores, e fôra isso, n'esse jogo de passageiras fortunas, o que
-tinha illuminado o genio dos maiores d'entre os homens. Cezar, no
-Rubicão, parára pensativo; a mão no peito e o olhar além do regato, elle
-se dissera:--«Eu, Cezar, faço uma coisa que nenhum romano fez ainda:
-desobedeço ao senado romano. Passando este ribeiro, faço um imperio
-d'uma republica, senhora do mundo: passemol-o.»
-
---«Vamos, pois, exclamou Cezar, como se cedesse á obsessão da sua
-fortuna; vamos aonde nos chamam as vozes dos deveres e a iniquidade dos
-nossos inimigos. _Alea jacta est!_--a sorte está lançada!»
-
-Palavra irrevogavel, pronunciada depois por todos os homens que, não
-encontrando fundo no seu pensamento, e obrigados a escolherem entre dois
-perigos supremos, tomam resolução no seu caracter, não podendo tomal-a
-em outra parte, e se lançam a nado no Rubicão do acaso, para morrerem ou
-para se salvarem pela sorte.
-
-
-_4.º--Levas Cezar e a sua fortuna._
-
-Pompeu, desesperando de defender a Italia com a approximação de Cezar,
-deixou Roma acompanhado d'um grande numero de senadores, magistrados e
-cidadãos e passou á Grecia, onde levantou um exercito. Cezar seguiu-o.
-Tendo desembarcado á frente de cinco legiões, soube que a frota que lhe
-levava viveres e reforços foi batida e dispersa pela de Pompeu. Na
-critica circumstancia em que se achava toma a resolução d'ir ao
-encontro d'Antonio, que devia soccorrel-o, e embarca elle só n'um barco
-de pescador. Durante a travessia levanta-se uma tempestade e ameaça
-submergir a fragil embarcação. O piloto espantado quer volver ao posto.
-É então que o heroe lhe diz essa famosa phrase, contada por Plutarco:
-
---«Que receias? _levas Cezar e a sua fortuna!_»
-
-E alguns dias depois humilhava o seu rival nos campos da Pharsalia.
-
-
-_5.º--Soldado, fere no rosto!_
-
-Antes da batalha de Pharsalia, Cezar, no meio d'uma região dedicada ao
-seu rival, estava n'uma situação muito critica. Pompeu, cujo exercito
-estava bem munido e fornecido pela sua frota, resolvera reduzir á fome o
-seu inimigo. A perda de Cezar parecia certa, quando Pompeu, cedendo á
-impaciencia dos seus soldados, travou peleja com os velhos legionarios
-das Gallias, que bem podiam ser destruidos pela fome, mas que não podiam
-deixar-se vencer.--«Soldado, fere no rosto!» tinha gritado Cezar aos
-seus veteranos, vendo os brilhantes cavalleiros do exercito de Pompeu.
-Estes jovens patricios, espantados, pozeram-se em fuga para não serem
-desfigurados pelas lanças dos legionarios, e Cezar ficou senhor do campo
-de batalha.
-
-A implacavel phrase de Cezar não encontra applicação alguma em
-circumstancias analogas, e emprega-se a respeito d'um adversario de que
-se quer tocar a fibra sensivel, que se deseja ferir á falta de couraça.
-
-
-_6.º--Cheguei, vi e venci._
-
-Apoz a morte de Pompeu e a conquista do Egypto, e em quanto Cezar se
-engolfava no seio dos prazeres que lhe offerecia Cleopetra, o partido de
-Pompeu, mais disperso que destruido, erguia-se por toda a parte.
-Pharnacio, rei do Ponto, aproveitára a guerra civil para tentar reunir
-na Asia as antigas possessões de seu pae. Despertado pelo perigo, Cezar
-corre ao Bosphoro, esmaga o filho de Mithridates e termina essa guerra
-com uma tal rapidez, que pôde contal-a inteira n'estas tres palavras
-celebres, que elle dirigiu ao senado:
-
---_Veni, vidi, vici; cheguei, vi, venci!_
-
---Faz-se uso da phrase para exprimir a facilidade, a promptidão com que
-se executa uma empreza.
-
-Lembra-nos a proposito o seguinte caso analogo. Depois da sua victoria
-sobre os turcos, Sobieski enviou ao Papa o estandarte de Mahomet, com
-estas palavras de Cezar a que deu um caracter de modestia
-christã:--«_Cheguei, vi e Deus venceu!_»
-
-_7.º--Idos de Março._
-
-Cezar entrára em Roma, senhor do mundo inteiro. O senado conferiu-lhe
-honras extraordinarias e revestiu-o d'uma illimitada auctoridade. Foi
-nomeado consul por dez annos e dictador perpetuo; deram-lhe o nome de
-_imperador_, o titulo de _Pae da Patria_ e erigiram-lhe uma estatua com
-esta inscripção:--_Ao deus invencivel!_ A sua pessoa foi declarada
-inviolavel. Concederam-lhe o privilegio de assistir ao espectaculo n'uma
-cadeira dourada, com uma corôa na cabeça. Elle meditava projectos
-immensos; queria engrandecer Roma, ornamental-a de monumentos
-magnificos, fazer d'ella a rainha do Universo. Mas não lhe estava
-reservado o cumprimento de tão vastos designios. Debalde se exforçára
-por apagar todos os traços da guerra civil, debalde tinha cumulado de
-favores e elevado aos primeiros cargos os que o tinham combatido,
-debalde tinha erguido estatuas ao seu rival, porque nada podia desarmar
-os partidarios da antiga liberdade.
-
-A sua clemencia parecia insultante; viu-se que não perdoava, mas que
-desdenhava punir. Afinal uma formidavel conjuração se tramou contra a
-sua vida. A conspiração devia explosir no meio do senado, e fôra fixada
-para os _idos de Março_. O caso transpirou no publico, mas Cezar
-recusou tomar qualquer precaução. Calpurnia, sua mulher, estava tão
-persuadida da realidade do perigo, que o conjurou, com as mais vivas
-instancias, a não sahir n'esse dia.
-
-Conta Plutarco, que muito tempo antes, um adivinho tinha advertido o
-dictador de que devia desconfiar dos _idos de Março_. Quando sahia de
-casa para o senado, encontrou o adivinho e disse-lhe, rindo: «--Chegamos
-aos idos de Março.»--«É verdade--respondeu--mas ainda não passaram.»
-
-Alguns passos adeante um homem entregou-lhe um bilhete que continha
-todas as particularidades da conspiração:--«Lêde--disse--e rapidamente!»
-Mas Cezar não teve tempo e entrou para o senado.
-
---Os _idos de Março_ designam, por analogia, uma epocha perigosa de
-passar, e para a qual se fizeram incommodativos prognosticos.
-
-
-_8.º--E tu tambem, meu filho!_
-
-Apenas Cezar tinha entrado no senado, todos os conjurados o rodearam
-como para lhe prestarem honra. Cimber, um d'elles, apresentou-se, afim
-de lhe pedir o chamamento de seu irmão exilado, e como para lhe pedir
-com mais submissão, tomou-lhe a fimbria da toga e puxou-a com violencia.
-Era o signal combinado. Casca, tirando o seu punhal, feriu com elle o
-dictador no hombro. Cezar, no mesmo instante toma a arma do assassino e
-precipita-se sobre elle gritando:--«Que fazes, scelerado Casca?» Então
-todos os conspiradores desembainharam as suas espadas e lhe vibraram
-varios golpes. Cassio, mais animado que os outros, fez-lhe uma profunda
-brecha na cabeça; Cezar defendia-se ainda, quando avistando Bruto, com o
-punhal erguido sobre elle, exclamou:--«E tu tambem, meu filho Bruto!» Ao
-mesmo tempo cobriu o rosto com o vestido e cahiu atravessado com vinte e
-tres golpes, aos pés da estatua de Pompeu.
-
-
-_9.º--A tunica de Cezar._
-
-O cadaver de Cezar abandonado no senado foi conduzido, todo cheio de
-sangue a sua casa por tres escravos. Alguns dias depois, Antonio
-appareceu na tribuna das harengas e leu á multidão o testamento do
-dictador. O povo, que elle não tinha esquecido nas suas generosidades
-fez explosir a sua indignação. Então, Antonio, desdobrando do alto da
-tribuna a tunica de Cezar, ensanguentada e crivada de golpes, tratou de
-parricidas os auctores d'aquelle assassinio. Esta scena levou ao cumulo
-a exasperação popular. E todos os assistentes fazendo logo uma fogueira
-com as mezas e os bancos que encontraram á mão, n'ella queimaram o
-corpo de Cezar; depois, tomando tições correram a casa dos assassinos
-para lhes lançarem fogo, e os atacarem a elles proprios.
-
-
-
-
-XII
-
-_Estava escripto_
-
-
-Esta resignação perante os duvidosos decretos do destino é o fundo da
-doutrina religiosa da maior parte dos povos orientaes. É uma especie de
-_fatum_ antigo, um pallido reflexo d'esse caracter poetico, quasi
-grandioso, que o fatalismo--mistura de sensibilidade profunda e sombria
-resignação--revestira entre os antigos.
-
-Os differentes systemas phrenologicos parecem não ter por fim senão o
-darem razão physica d'estes factos moraes.
-
-A litteratura philosophica do seculo XVIII legou-nos duas obras muito
-conhecidas, apesar de francezas, sobre a fatalidade: _Zadig_, conto de
-Voltaire, e _Thiago o fatalista_, romance de Diderot.
-
-
-
-
-XIII
-
-_Conhece-te a ti proprio_
-
-
-Estas famosas palavras estavam gravadas sobre o frontão do templo de
-Delphos. Era a maxima favorita de Socrates; elle adoptou-a, explicou-a e
-tornou-a celebre para sempre. Toda a lei moral reside n'estas palavras,
-como toda a lei religiosa está encerrada n'estas admiraveis palavras de
-Christo:--«Ama o proximo como a ti mesmo.»
-
-Seneca, o tragico, desenvolveu esta bella maxima nos seguintes versos
-que traduzimos assim:
-
- «O homem é infeliz no instante em que fenece;
- Quando tendo esquecido o ponto necessario,
- Morre mui conhecido e a si se não conhece.»
-
-
-
-
-XIV
-
-_As joias de Cornelia_
-
-
-Cornelia, mãe dos Grachos, era filha de Scipião, o Africano, e mulher de
-Sempronio Gracho, que se illustrou nas guerras de Hespanha. Enviuvando,
-com doze filhos, consagrou-se inteiramente á sua educação, e recusou
-até, dizem, a mão de Ptolomeu, rei do Egypto. D'esta numerosa prole
-conservou apenas uma filha, que foi casada com Scipião Emiliano, e dois
-filhos, Tiberio e Caio Gracho, este sempre famoso pelo seu genio, pela
-sua coragem e pelo seu tragico destino. Mulher d'um caracter viril e
-d'um espirito cultivado, ella educou-os com o maior esmero, e
-inspirou-lhes cedo o amor publico, a paixão da gloria e das grandes
-emprezas, pedindo-lhes, por vezes, que a chamassem sempre a filha de
-Scipião e nunca a mãe dos Grachos.
-
-Conta-se que uma dama da Campania estendendo, um dia, deante d'ella as
-suas joias e os seus preciosos adornos, e pedindo-lhe para que ella lhe
-mostrasse as suas, Cornelia lhe apresentou os filhos, dizendo:
-
---«Eis as minhas joias e os meus adornos».
-
-
-
-
-XV
-
-_Cresus_
-
-
-Cresus, rei da Lydia, submetteu a maior parte das cidades da Asia Menor,
-e levou as suas conquistas até ao rio Halys. A fama do seu poder e das
-suas riquezas, constantemente renovadas pelas areias auriferas do
-Pactolo, tornou proverbial o nome de Cresus, para designar um homem
-cumulado dos bens da fortuna. Elle perguntou um dia a Solon, que fôra
-visitar a sua côrte, se conhecia um homem mais feliz do que elle. O
-philosopho respondeu-lhe que nenhum homem póde ser saudado com o nome de
-feliz antes da sua morte. Cresus não tardou a experimentar os effeitos
-d'esta triste verdade. Um de seus filhos foi morto na caça, o outro
-tornou-se mudo, e elle proprio, depois de ter visto os seus Estados
-invadidos por Cyro, foi vencido na celebre batalha de Thimbreia e cahiu
-nas mãos do vencedor, que ordenou a sua morte. Quando o conduziam ao
-supplicio, vieram-lhe á memoria as palavras de Solon, e elle pronunciou
-tres vezes, suspirando, o nome do legislador atheniense. Instruido da
-causa d'esta exclamação, Cyro, commovido de piedade e tocado d'aquelle
-exemplo das vicissitudes humanas, perdoou a Cresus e admittiu-o no
-numero dos seus conselheiros.
-
-Esta bella legenda philosophica da vida de um homem, que foi
-successivamente, e d'um modo tão frisante, o favorito e o joguete da
-fortuna, é narrada por Herodoto, mas Xenophonte não falla d'ella.
-
---O nome de _Cresus_ passou a designar um homem opulento, coberto de
-todos os favores da fortuna.
-
-
-
-
-XVI
-
-_Dôr, tu não és um mal_
-
-
-O stoicismo, fundado por Zenon, fórma uma das mais illustres
-philosophias da antiguidade. Simples no seu principio e nas suas
-deducções, frisante pelo seu caracter heroico e paradoxal, de tal modo
-se fez conhecer, ao menos, pelos traços mais salientes da sua moral, que
-os nomes de _stoicismo_ e _stoico_, entraram na applicação usual da
-lingua, como expressão d'uma grande impassibilidade. Os stoicos faziam
-consistir a virtude e a ventura na posse d'uma alma egualmente
-insensivel á voluptuosidade e á dôr, liberta de todas as paixões,
-superior a todos os receios, a todas as fraquezas. Admittindo como mal
-apenas o vicio, como bem sómente a virtude, e considerando o resto como
-indifferente, elles negavam que a dôr fosse um mal. Zenon, seu illustre
-chefe, foi o primeiro que proclamou a lei do _dever_ e que d'ella lançou
-os fundamentos com uma abundancia de provas que tinha a sua origem n'uma
-profunda convicção, independentemente de toda a argumentação dialectica.
-As paixões não são elementos necessarios da nossa condição; são doenças
-da alma: a saude, a _apathia_, a ausencia das paixões. Foi por causa
-d'esta severidade d'opiniões moraes, pelo menos entre os primeiros
-stoicos, que se deu, em geral, o nome de stoicismo a toda a opinião
-severa em moral.
-
-Esta doutrina, que se allia perfeitamente com todas as grandes virtudes,
-e que tendia a fazel-as nascer, logrou grande credito entre os romanos,
-apesar da sua pequena inclinação pela philosophia; adoptaram-na com
-enthusiasmo, porque se concertava admiravelmente com a sua energia
-intellectual e a sua severidade. Notou-se, em honra da seita dos
-stoicos, que os personagens mais virtuosos de Roma a tinham
-adoptado:--Bruto, Catão d'Utica, Thrasêas, Seneca, Tacito, Epictecto,
-Antonino e Marco Aurelio. A moral ficou como gloria dos stoicos, e
-tirando-lhe o que encerra de paradoxal e exaggerado, ella assegura-lhes
-o primeiro logar entre os percursores mais puros e mais directos do
-christianismo.
-
-A divisa principal dos stoicos era:--«_Soffre e abstem-te!_»
-
-Conta-se que um discipulo de Zenon, exclamava no meio dos maiores
-soffrimentos causados pela gôtta:
-
---«_Dôr, tu não és um mal!_»
-
-Havia, por sem duvida, ostentação n'estes principios da doutrina do
-stoicismo, mas nem por isso ella deixou de produzir as virtudes mais
-heroicas.
-
-
-
-
-XVII
-
-_Egéria_
-
-
-Numa Pompilio, legislador e segundo rei de Roma, nasceu em Ceres, no
-paiz dos sabinos. A tradição pinta-o como um principe pacifico e cheio
-de sabedoria. Nem uma guerra perturbou o seu reino, consagrado
-inteiramente á legislação e ás instituições religiosas. Elle creou e
-organisou, entre outras coisas, as vestaes, os pontifices, e construiu
-templos e instituiu festas.
-
-Como todos os legisladores da antiguidade, usou d'artificio para
-assegurar o respeito das suas instituições, e persuadiu aos romanos que
-recebia inspirações da nympha Egéria, só visivel para elle no fundo d'um
-bosque sagrado.
-
-Vê-se ainda hoje, perto de Roma, n'um valle delicioso, o resto da fonte
-Egéria, entre a via Latina e a via Appia. Antigos monumentos representam
-esta nympha n'um costume analogo ao das sybillas, de tunica fluctuante,
-pés nús, cabellos soltos, e traçando caracteres n'um livro posto sobre
-os joelhos.
-
---Hoje o nome de Egéria dá-se familiarmente, sobretudo, a uma mulher de
-que se tomam os conselhos, de que se segue a opinião, principalmente
-para a direcção de negocios politicos.
-
-
-
-
-XVIII
-
-_Mais uma victoria como esta e estamos perdidos_
-
-
-Pyrrho, sobrinho d'Olympias, era o principe mais valente, mais
-aventureiro de quantos se habilitaram á herança d'Alexandre. Passou a
-vida a conquistar e a perder corôas. Não podia permanecer tranquillo no
-Epiro, julgando que não fazendo mal nem havendo quem lh'o fizesse, não
-tinha em que passar o tempo. Assim, o successo faltou sempre aos
-designios d'essa creança animada da fortuna, que viveu e morreu, menos
-como rei que como aventureiro. A sua brilhante reputação militar, fel-o
-chamar pelos tarentinos, então em guerra com os romanos. A imaginação
-exaltada representa-lhe já a Italia conquistada, depois a Sicilia e
-Carthago, e parte cheio de alegria para Tarento, cidade de prazeres, que
-elle transforma n'um campo, e os seus habitantes afeminados em soldados.
-Ganhou primeiro, graças aos seus elephantes, a batalha de Heraclêa, em
-que os romanos perderam quinze mil homens e elle treze mil. Venceu ainda
-em Asculo, em que o triumpho não foi comprado menos caro. Depois d'esta
-sangrenta batalha foi que elle respondeu aos que o felicitavam:--«Mais
-uma victoria como esta e estamos perdidos!»
-
-Pyrrho, afinal, deixou a Italia, e encontrou a morte nas ruas de Argos,
-aonde uma velha o matou, atirando-lhe de cima do telhado uma pesada
-telha.
-
-
-
-
-XIX
-
-_Espada de Damocles_
-
-
-Damocles, um dos cortezãos de Denys, o Antigo, fazia-se notar pela
-emphase das suas adulações, e não cessava de elogiar a ventura de seu
-senhor. O tyranno resolveu inicial-o nos prazeres da grandeza, por meio
-d'uma allegoria espiritual que faria honra a um califa oriental.
-Convidou-o a tomar o seu logar durante um dia, e deu ordens para que
-Damocles fosse tratado como rei, e lhe servissem um banquete sumptuoso.
-O cortezão tomou logar n'um leito d'honra; tem a fronte cingida do
-diadema; as iguarias mais exquisitas cobrem a meza. Damocles está
-rodeado d'escravos, attentos aos seus minimos signaes; deliciosos
-perfumes fumegam em torno a si, e a mais adoravel musica lhe encanta o
-ouvido; as cortezãs adulam-no, e poetas cantam em seu louvor.
-Embriaga-se em ventura, quando, de subito, levantando os olhos, vê
-suspensa, por cima de sua cabeça, uma espada apenas preza pela crina
-d'um cavallo. Pallido e tremulo, deixa escapar a taça das mãos,
-levanta-se desnorteado e pede a Denys para pôr termo á sua realeza.
-Tinha comprehendido o que é a ventura d'um tyranno.
-
---De todos os factos historicos que deixaram traço nas linguas, a
-_espada de Damocles_ é o mais conhecido, poderemos até dizer o mais
-vulgar. É o perigo temido ou previsto, que póde ferir um homem no meio
-d'uma apparente prosperidade.
-
-Um escriptor contemporaneo disse:--«A abobada dos céus é para o
-criminoso a sala do festim de Damocles, d'onde pendia uma espada sobre
-sua cabeça».
-
-E Alfredo de Musset, nas _Confissões d'um Filho do Seculo_,
-tambem:--«Conta-se que Damocles viu uma espada sobre a sua cabeça; é
-assim que os libertinos parecem ter por cima d'elles um não sei quê, que
-lhes grita constantemente:--Vai, vai sempre, estou por um fio!»
-
-
-
-
-XX
-
-_O prato de lentilhas_
-
-
-Esaú, o primogenito, era um grande caçador; Jacob, pelo contrario, era
-um homem simples, vivendo em casa, occupado unicamente em trabalhos
-domesticos. A doçura do seu caracter tornava-o mais agradavel a sua mãe
-que Esaú, que tinha attrahido a affeição particular de seu pae Isaac. Um
-dia, em que Esaú voltava do campo, cheio de fadiga e oppresso pela fome,
-pediu a Jacob que o deixasse comer d'um _prato de lentilhas_ que este
-tinha preparado. Jacob consentiu, com a condição de que Esaú lhe cederia
-o seu direito de primogenito. Mais tarde, Jacob, recorrendo ao
-estratagema e auxiliado por sua mãe, surprehendeu a Isaac, moribundo e
-cego, a sua benção, que o fazia chefe da familia de onde devia sahir o
-Christo. Esaú concebeu uma violenta cólera, e Jacob, para se subtrahir
-ao seu resentimento retirou-se para casa de Labão, seu tio.
-
---Diz-se _prato de lentilhas_, a insignificancia relativa, pela qual se
-cede uma coisa realmente muito valiosa, especialmente moral.
-
-
-
-
-XXI
-
-_E eu tambem sou pintor!_
-
-
-Corregio, natural de Corregio, nascido em 1494, é um dos maiores
-pintores da eschola italiana. As suas composições fazem-se notar,
-sobretudo, pela graça ondulante dos contornos, pela flexibilidade e
-elegancia das fórmas, pela riqueza do colorido, pela sciencia da luz e
-da sombra, pela intelligencia perfeita do claro-escuro! Era eminente em
-representar creanças, mulheres, emfim, scenas graciosas e de
-voluptuosidade. A sua _Antiope adormecida_ é d'uma riqueza deslumbrante.
-A cidade de Parma offereceu, debalde, um milhão a Napoleão para
-conservar o _S. Jeronymo_, que é considerado como a sua obra prima. Não
-se conhece nenhum mestre a este pintor, e pensa-se que só a si deve o
-que foi. A revelação do seu genio explosiu deante d'um quadro de
-Raphael. Transportado de admiração e como que illuminado, elle exclamou:
-
---«E eu tambem sou pintor!»
-
---«_Anch'io son'pittore!_»
-
-
-
-
-XXII
-
-_Estrella dos Reis Magos_
-
-
-No momento em que Jesus vinha ao mundo em Bethlem, n'um estabulo, os
-magos do Oriente avistaram uma estrella no céu, que elles ainda não
-tinham visto. Deixaram o seu paiz, e, guiados por esse pharol
-miraculoso, chegaram a Bethlem, onde acabava de nascer o Menino Deus.
-Penetraram no local acima do qual a estrella se detivera, e alli
-encontraram Maria e seu Filho, e, prostrando-se deante do recemnascido,
-adoraram-no e offereceram-lhe ouro, incenso e mirra. É este o
-acontecimento que a egreja celebra na festa da Epiphania ou dos _Reis_.
-
---A estrella que guiou os magos na sua piedosa peregrinação enriqueceu a
-nossa lingua com uma imagem poetica, muito frequentemente empregada.
-Essa estrella é muitas vezes uma voz intima, um ente amado, que nos
-chama e nos dirige para um fim glorioso.
-
-
-
-
-XXIII
-
-_E, comtudo, ella gira!_
-
-
-Galileu, é, sem contradicção, a maior gloria scientifica da Italia. O
-methodo experimental, de que é o creador, fez-lhe em breve repellir os
-absurdos physicos e astronomicos professados no seu tempo, e levantar
-contra elle todos quantos eram adeptos das velhas doutrinas. Mas de
-todas as suas ousadias, a que devia ser mais perigosa para o seu
-repouso, foi o seu novo systhema astronomico, pelo qual, segundo
-Copernico, e contrariamente a Ptolomeu, elle fazia do sol o centro
-immovel do nosso systema planetario. Pretendeu-se que esta doutrina
-estava em formal contradicção com varias passagens da Escriptura, e foi
-denunciado á Inquisição. Elle defendeu-se com uma grande habilidade,
-representando que as passagens da Biblia e dos Santos Padres tinham sido
-interpretadas, e que, além d'isto, o objecto da Escriptura era a
-salvação dos homens e não o ensino da astronomia. Contentaram-se a
-principio em lhe fazerem uma advertencia, e em declararem _falsa e
-heretica_ a sua doutrina do movimento da terra e da immobilidade do
-sol. Galileu calou-se durante algum tempo; mas a paixão da sciencia foi
-a final mais forte que a prudencia. Compoz, por sua desgraça,
-_Dialogos_, em que, por um artificio empregado muitas vezes nos tempos
-de despotismo, poz em lucta os partidarios dos systemas oppostos, sem se
-pronunciar por um d'elles. Adivinha-se facilmente que os partidarios da
-immobilidade da terra, foram esmagados pelos argumentos, realmente sem
-replica, dos seus adversarios. Galileu foi mandado immediatamente a Roma
-pela Santa Inquisição, interrogado, e, segundo uns, mas sem que haja
-provas, posto em tortura, e, afinal, condemnado a prisão perpetua e á
-abjuração solemne dos seus _erros_.
-
-A sciencia como a fé tem tido os seus martyres; mas Galileu fraquejou na
-ultima hora e consentiu em humilhar o seu genio perante os prejuizos dos
-seus contemporaneos. A 22 de junho de 1633 pronunciou a sua abjuração no
-convento de Minerva, em presença dos cardeaes inquisidores. A formula
-que lhe foi imposta é um dos monumentos mais curiosos da inepcia humana:
-
---«Eu, Galileu, de setenta annos, sobre os Santos Evangelhos que toco
-com as minhas proprias mãos ... abjuro, maldigo e detesto o erro e a
-heresia do movimento da terra, etc.»
-
-Conta-se que levantando-se depois da realisação d'este sacrificio,
-Galileu arrastado pela revolta intima das suas convicções, bateu com o
-pé no chão e murmurou energicamente:
-
---«_E, comtudo, ella gira!--E pur si muove!_»
-
-Foi o seu unico protesto; mas elle atravessará os seculos como o grito
-da verdade opprimida e deporá eternamente contra a ignorancia e a
-perseguição.
-
-
-
-
-XXIV
-
-_Virtude, não és mais que um nome_
-
-
-Depois da morte de Cezar, os seus assassinos, forçados a fugirem deante
-da cólera do povo, levantado por Antonio, retiraram-se para a Macedonia.
-Os triumviros avançaram contra elles com forças consideraveis. Alguns
-dias antes da batalha, que devia decidir da sorte da republica, e n'uma
-noite em que Bruto velava na sua tenda, entregue a sombrias reflexões,
-pareceu-lhe, de repente, que ouviu entrar alguem. Volvendo-se viu um
-phantasma horrivel na sua presença.
-
---«Homem ou deus, quem és?»--lhe diz Bruto.
-
---«Sou o teu mau genio--responde--; vêr-me-has em breve em Philippes.»
-
-Esta prophecia não devia tardar a realisar-se. Poucos dias depois, com
-effeito, e na noite que precedeu a batalha de Philippes, quando Bruto
-velava só na sua tenda, segundo o seu costume, em quanto que todo o
-exercito estava mergulhado em somno, o mesmo phantasma lhe appareceu
-segunda vez, o olhou com ar sinistro e se retirou sem proferir uma unica
-palavra. No dia immediato, a liberdade romana expirava nas planicies de
-Philippes, e Bruto matava-se, soltando esse grito de desanimo, muito
-conhecido:
-
---«_Virtude, não és mais que um nome!_»
-
-
-
-
-XXV
-
-_Festim de Balthazar_
-
-
-Cyro, rei dos persas, cercava Babylonia á frente d'um exercito
-formidavel; Balthazar, confiando na força das suas muralhas, ria dos
-vãos exforços do seu inimigo e esquecia, nos festins, os enfados d'um
-longo cêrco. Uma noite em que celebrava uma orgia com os grandes da sua
-côrte e todas as suas mulheres, fez trazer, por uma fanfarronada de
-impiedade, os vasos sagrados que Nabuchodonosor tinha outr'ora
-subtrahido ao templo de Jerusalem. Realisada aquella profanação, o impio
-monarcha viu com espanto uma mão que traçava na parede, em traços
-ardentes, caracteres mysteriosos, que nem Balthazar nem ninguem da côrte
-pôde traduzir.
-
-O propheta Daniel tendo sido chamado, disse ao rei.
-
---«Foi Deus que enviou aquella mão, e é isto o que está escripto: _Mané,
-Thécel, Pharés_;--_Mané_, Deus contou os dias do teu reino e lhe marcou
-o fim; _Thécel_, foste collocado na balança e achado muito leve;
-_Pharés_, o teu reino será dividido!»
-
-Na mesma noite, com effeito, Cyro, tendo conseguido desviar o curso do
-Euphrates, penetrou na Babylonia pelo seu leito secco. Balthazar foi
-morto e a Babylonia reunida ao imperio dos persas.
-
---Por allusão a este festim celebre, chama-se _festim de Balthazar_ a
-toda a orgia ruidosa, ou, por uma hyperbole familiar, a todo o banquete
-copioso e prolongado.
-
-
-
-
-XXVI
-
-_Forcas caudinas_
-
-
-Roma tinha vencido a maior parte das nações visinhas; mas desde que quiz
-estender o seu dominio á parte meridional da Italia encontrou os
-samnitas, povo de costumes rudes e bellicosos. Havia de um e outro lado
-as mesmas armas, a mesma disciplina, o mesmo habito dos combates. D'alli
-a ambição e o valor romanos; d'aqui o patriotismo e a infatigavel
-energia dos samnitas, iam dar a esta lucta um caracter d'incrivel
-encarniçamento. Eis aqui o episodio mais celebre d'essa guerra, que
-devia terminar pela conquista do Samnio. Romperam-se as hostilidades; os
-samnitas estavam acampados perto de Candium, no meio das montanhas.
-Poncio Herennio, seu general, resolveu attrahir, por um falso aviso, o
-exercito romano a um desfiladeiro, de onde lhe seria impossivel
-escapar-se. Logo dez soldados samnitas, disfarçados em pastores,
-approximaram-se dos postos avançados inimigos e espalham a nova de que
-os samnitas cercam Luceria, cidade alliada dos romanos. Os consules
-apressam-se a voar em sua defeza, escolhendo o caminho mais perigoso,
-mas mais curto--desfiladeiro profundo, estreito e coberto de florestas.
-Era o que tinha previsto o general dos samnitas. Apenas os romanos se
-empenharam n'esse caminho perigoso, avistam as alturas cobertas
-d'inimigos. Era forçoso, ou morrer ou render-se, porque as sahidas
-estavam obstruidas. O pai de Poncio Herennio, velho cheio d'experiencia,
-aconselhava a seu filho o despedir todos os romanos sem resgate, para os
-fazer amigos, ou exterminal-os até ao ultimo para vibrar um golpe mortal
-na republica. O general samnita, escutando sómente o desejo de humilhar
-o orgulho romano, obrigou-os a entregarem-se á discrição, e fez passar
-todo o exercito sob um jugo formado de dois _forcados_ espetados no solo
-e encimados d'um terceiro. Todos os soldados com os consules á frente,
-passaram, tremendo, sob esse instrumento d'opprobrio, depois de terem
-deposto as armas. O senado recusou ratificar compromissos impostos em
-condições tão humilhantes; foi preciso combater de novo, e sangrentas
-derrotas puniram os samnitas da sua imprudente confiança na fé romana.
-
---Depois a expressão _passar sob as forcas caudinas_ entrou em uso para
-caracterisar toda a concessão onerosa ou humilhante, arrancada aos
-vencidos.
-
-
-
-
-XXVII
-
-_Irmão, é preciso morrer_
-
-
-As austeridades da vida monastica tornaram-se proverbiaes, mas foi,
-sobretudo, na Trappa que ellas se observaram com todo o rigor dos
-primeiros seculos do christianismo. Os trappistas guardam absoluto
-silencio, dividem o tempo entre a oração e o trabalho manual,
-alimentam-se de pão grosseiro e legumes e vestem apenas o habito de
-burel. Devem ter sempre deante dos olhos a imagem da morte. E é para se
-lembrarem d'esta grande verdade, que em cada dia visitam a valla que
-deve servir-lhes de derradeiro asylo.
-
-«O silencio--diz um eloquente orador contemporaneo--anda ao seu lado, e
-se fallam, quando se encontram, é para se dirigirem esta melancholica
-phrase:
-
---«_Irmão, é preciso morrer ..._»
-
-
-
-
-XXVIII
-
-_Cahir com graça_
-
-
-Quando em Roma o gladiador se sentia mortalmente ferido, nos sangrentos
-combates do circo, e a destreza se lhe tornava inutil, elle procurava
-ainda accender applausos na multidão, para a qual a sua agonia era um
-espectaculo, por uma queda a que elle tentava imprimir toda a arte, e
-_cahia na arena com graça_.
-
---Esta phrase applica-se, pelo lado moral, aos que, em politica, no
-amor, etc., se salvam da humilhação d'um cheque, pela boa graça, real ou
-ficticia, que fazem acceitar.
-
-
-
-
-XXIX
-
-_Hippocrates diz sim, Galiano diz não_
-
-
-Hippocrates e Galiano são os dois representantes mais illustres da
-medicina, entre os antigos: aquelle nos gregos, este nos romanos.
-Galiano nutria uma profunda veneração pelo genio do pae da medicina, e
-um dos maiores serviços que prestou á sciencia, foi o de ter, no meio
-d'uma sã critica, collocado o facho sobre as obras d'aquelle que chamava
-seu mestre. Hippocrates e Galiano teem de commum que dotados ambos d'um
-vasto genio, avançaram muito nos segredos da natureza, e ambos mostraram
-egual ardor na investigação da verdade, não pelo apparato das riquezas,
-mas só pelo amor da humanidade.
-
---Esta phrase proverbial: _Hippocrates diz sim, Galiano diz não_, não
-tem pois a sua origem no antagonismo dos dois grandes homens e dos seus
-systemas; mas como a medicina é o immenso campo da contradicção, e
-quando um medico diz--_tanto melhor_, um outro diz--_tanto peior_;
-quando este applica sangrias aquelle proscreve-as; quando um colloca a
-séde de todas as doenças nos nervos, o outro nos humores; quando, emfim,
-um escreve no seu estandarte--_contraria contrariis_ ... e o
-outro--_similia similibus_ ..., comprehende-se que era á medicina que a
-contradicção devia pedir a sua divisa, e que as duas columnas d'esta
-sciencia lhe deviam fornecer a expressão.
-
-
-
-
-XXX
-
-_É muito tarde!_
-
-
-Esta phrase data da revolução de Julho de 1830, em França, e eis em que
-circumstancia foi pronunciada. Uma ultima tempestade tinha derrubado
-para sempre o throno do ramo mais velho dos Bourbons. Era em
-sexta-feira, 30 de Julho; o povo estava inteiramente senhor de Pariz, e
-uma commissão a que presidia Lafayette cercava o Hotel-de-Ville. Carlos
-X, em Saint-Cloud, dominado por uma cegueira que lhe tinha feito jogar a
-corôa, conservava ainda illusões e esperava que algumas concessões o
-collocariam sobre o throno. M. de Sussy, portador de despachos que
-revogavam as fataes determinações de 25, apresenta-se no Hotel-de-Ville
-e entrega-os a Lafayette. Este dá-lhe então a famosa resposta:
-
---«_É muito tarde!_»
-
-Alguns dias depois o duque d'Orleans, chefe do ramo mais novo, subia ao
-throno. Mas, estranha volta das coisas d'este mundo, dezoito annos
-depois e em circumstancias quasi analogas, a mesma resposta foi dada a
-Luiz Philippe. Elle tambem devia ouvir Lamartine responder ás suas
-tardias concessões:
-
---«_É muito tarde!_»
-
-
-
-
-XXXI
-
-_Não ha grande homem para o seu creado de quarto_
-
-
-Segundo Mademoiselle Aïssé, esta phrase teria sido pronunciada pela
-primeira vez por Madame Cornuel, mulher d'espirito, do tempo de Henrique
-IV, da qual Madame de Sevigné cita os bons ditos. Essa phrase é, sem
-duvida, uma reminiscencia d'essa outra de Montaigne:--«Poucos homens
-teem sido admirados pelos seus creados.» Qual é, em verdade, o homem de
-genio que fica egual a si proprio, quando já não está em scena? O mundo
-é um espectaculo, onde cada qual representa um papel apropriado, em
-quanto está deante do publico, mas de que se despoja todo o brilho
-d'emprestimo desde que se recolhe a bastidores. Aqui o homem substitue o
-heroe e quantos poderiam dizer como o grande Condé, quando era fatigado
-com titulos pomposos e elogios hyperbolicos:
-
---«_Perguntem o que sou ao meu creado de quarto!_»
-
-
-
-
-XXXII
-
-_Cantam, elles pagarão_
-
-
-Mazarino governou a França depois de Richelieu, em momentos de
-perturbações e de guerra civil. Era a rapoza succedendo ao leão. Fez uma
-politica completamente opposta á do seu terrivel predecessor; os seus
-meios favoritos eram a astucia, a finura, a paciencia. Comprazia-se em
-repetir:
-
---«O tempo é um homem galante!»
-
-Nenhum ministro foi tão posto em canções como elle; mas insensivel aos
-pamphletos que diariamente dirigiam contra a sua pessoa, o astucioso
-italiano apenas dizia:
-
---«Deixemol-os fallar e prosigamos!»
-
-A cada novo imposto choviam novas satyras. Elle, porém, seguro de que
-uma opposição, que só desabafava em _couplets_ satyricos, o não poderia
-incommodar, acudia com toda a serenidade:
-
---«_Cantam, elles pagarão!_»
-
-
-
-
-XXXIII
-
-_Perdi o meu dia_
-
-
-O imperador Tito, que a historia cognominou _as delicias do genero
-humano_, exclamava quando tinha passado um só dia sem encontrar occasião
-de praticar algum bem:
-
---«Meus amigos, _perdi o meu dia!_»
-
-Boileau exprimiu esta generosa ideia nos seguintes versos da _Epistola
-ao Rei_:
-
- «Tal esse imperador, sob o qual, Roma via,
- Renascer de Saturno e de Rhêa outro dia;
- Que rendeu ao seu jugo o universo amoroso,
- Que jámais alguem viu sem se sentir ditoso,
- E que chorava á noite o tempo que perdera
- _Quando passava o dia e algum bem não fizera_.»
-
-
-
-
-XXXIV
-
-_Amo Platão, mas amo mais a verdade_
-
-
-Platão e Aristoteles são os dois mais illustres representantes da
-philosophia antiga. O primeiro, discipulo de Socrates, estava em todo o
-esplendor da sua fama, quando Aristoteles foi a Athenas para seguir as
-suas lições. O discipulo não tardou a tornar-se tão celebre como o
-mestre; mas dois espiritos d'esta superioridade, e, ao mesmo tempo, tão
-differentes, ambos feitos para reinarem no dominio do pensamento, deviam
-em breve separar-se.
-
-Assim, Aristoteles, sem ser, como se diz, inimigo do seu mestre, não
-adoptava todas as consequencias da sua doutrina; todavia, quando se
-achava em contradicção com elle, sabia exprimir a sua opinião com a
-sábia medida d'um philosopho e não com a funda amargura d'um rival.
-
---«Amo Platão--dizia--mas amo mais a verdade.»--«_Amicus Plato, sed
-magis amica veritas._»
-
---Esta homenagem prestada á verdade, quando é tida em desaccordo com as
-doutrinas de um genio, mesmo transcendente, passou a ter foros de
-proverbio.
-
-
-
-
-XXXV
-
-_Achei!--Eureka!_
-
-
-Esta exclamação que se faz ouvir quando, depois de longas investigações,
-o espirito, repentinamente inspirado, chega á descoberta que elle
-perseguia, foi proferida pela primeira vez, por Archimedes, nas
-circumstancias seguintes:
-
-Hieron, rei de Syracusa, suspeitava que um ourives, que lhe tinha
-fabricado uma corôa d'ouro, tivesse falsificado o metal, misturando-lhe
-uma certa quantidade de prata. Elle consultou Archimedes, seu parente,
-sobre os meios de descobrir a fraude, de que julgava poder queixar-se. O
-illustre mathematico reflectia profundamente na solução possivel d'este
-problema, quando um dia, estando no banho, percebeu que os seus membros,
-mergulhados na agoa, perdiam consideravelmente do seu pezo; que, por
-exemplo, elle podia levantar uma perna com extrema facilidade. O seu
-genio entreviu logo os elementos d'esse grande principio
-d'hydrostatica, que determinou em seguida rigorosamente:--que todo o
-corpo mergulhado n'agoa, perde uma parte do seu pezo, egual ao pezo do
-volume d'agoa que esse corpo desloca.--Esta descoberta dava-lhe a
-solução do problema. No meio do enthusiasmo que lhe produziu esta
-revelação elle sahiu do banho e lançou-se na rua gritando:
-
---_Achei! achei!_--_Eureka! Eureka!_
-
-Com effeito, tinha encontrado o meio de determinar a gravidade
-especifica de todos os corpos, tomando a agoa por unidade. Procurou,
-pois, duas massas, d'ouro e de prata, cada uma d'um pezo egual á corôa:
-mergulhou-as successivamente n'um vaso cheio d'agoa, observando com
-cuidado a quantidade de liquido deslocado pela immersão de cada uma
-d'ellas. Submetteu á mesma experiencia a propria corôa, e achou assim o
-meio certo d'apreciar a quantidade d'ouro e de prata de que ella era
-composta.
-
---O _achei!_ de Archimedes, ficou tendo applicação, nos casos em que,
-uma difficuldade qualquer, se vence por uma solução satisfactoria.
-
-
-
-
-XXXVI
-
-_Eu desejaria não saber escrever_
-
-
-Néro, educado por Seneca e Burrhus, dois dos mais sabios romanos d'esse
-seculo, esteve longe de annunciar, na sua mocidade, as sanguinarias
-inclinações, que o tornaram o typo da crueldade. Elle pareceu querer
-consolar os romanos do reino de Tiberio; os seus primeiros actos, cheios
-d'uma grande doçura, provam que aos seus instinctos de crueldade soube
-alliar uma profunda hypocrisia, e que a educação é completamente
-impotente para abafar, em certos caracteres, pelo menos, os germens das
-paixões más, que trazem nascendo. Desde o segundo dia do seu reinado
-elle foi ao senado, e em um discurso que Seneca lhe havia composto,
-annunciou que o seu projecto era tomar Augusto por modelo. Em verdade os
-principios do seu reino pareceram-se com os ultimos do reino d'aquelle
-que se propunha imitar. Mostrou-se justo, liberal, affavel, polido,
-complacente e accessivel á piedade. A modestia realçava-lhe ainda as
-qualidades. O senado, tendo-o louvado pela sabedoria do seu governo, fez
-com que elle dissesse:
-
---«Esperem, para me louvarem, que eu o tenha merecido.»
-
-Um dia em que lhe apresentaram, para assignar, a sentença que condemnava
-á morte um criminoso, elle disse:
-
---«_Eu desejaria não saber escrever!_»
-
-E comtudo foi ... Néro!
-
-
-
-
-XXXVII
-
-_Linguas d'Esopo_
-
-
-Esopo, escravo do philosopho Xantus, recebeu um dia do seu senhor, que
-tinha convidado varios amigos para jantar, ordem de comprar no mercado,
-tudo quanto houvesse de melhor, e nada mais.
-
---«Eu te ensinarei a especificares o que desejas, sem te entregares á
-discrição d'um escravo»--dissera o phrygio comsigo mesmo.
-
-E comprou só linguas, que fez cosinhar de todos os modos possiveis, de
-maneira que o principio, o meio e o fim do banquete, foram linguas. Os
-convidados louvaram a principio a escolha d'Esopo, mas, afinal,
-desgostaram.
-
---«Não te ordenei,--disse Xantus--que comprasses o que houvesse de
-melhor?»
-
---«E que ha melhor que a lingua?--respondeu Esopo.--É o laço da vida
-civil, a chave das sciencias, o orgão da verdade e da razão; por ella se
-construem e policiam cidades; por ella se instrue, se persuade e se
-reina nas assembleias; por ella se satisfaz ao primeiro dos deveres, que
-é louvar os deuses.»
-
---«Pois bem--replicou Xantus, que pretendia apanhal-o--compra amanhã o
-que houver de peior. Os mesmos convidados virão a minha casa e quero
-variar.»
-
-No dia seguinte Esopo só fez servir linguas, dizendo que a lingua é a
-peior coisa que ha no mundo.
-
---«É a mãe de todas as questões, a alimentadora de todos os processos, a
-origem das divisões e das guerras. Se ella é o orgão da verdade, é
-tambem o do erro, e, o que peior é, da calumnia. Por ella destroem-se as
-cidades; e se por um lado louva os deuses, por outro é o orgão da
-blasphemia e da impiedade.»
-
---As _linguas d'Esopo_ ficaram celebres, para designarem o que, podendo
-ser encarado sob dois aspectos oppostos, dá egualmente occasião ao
-louvor e á critica.
-
-
-
-
-XXXVIII
-
-_Lanterna de Diogenes_
-
-
-Na epocha em que vivia Diogenes, os athenienses pareciam ter perdido a
-memoria de Marathão e Salamina; eram já os athenienses da decadencia, e
-em quanto que Demosthenes procurava em vão accender essas heroicas
-recordações pelos masculos accentos da sua eloquencia, o cynico
-stigmatisava a seu modo, a sua cobardia e a sua corrupção.
-
-Uma vez foi encontrado em pleno meio dia, nas ruas d'Athenas, levando na
-mão uma lanterna accesa, e como lhe pedissem a razão de tão estranho
-caso, elle limitou-se a responder:
-
---«_Procuro um homem!_»
-
-
-
-
-XXXIX
-
-_O mestre o disse_
-
-
-Pythagoras, um dos maiores, e, talvez até o maior philosopho da
-antiguidade, aspirava, nada menos, que a constituir no mundo inteiro uma
-especie de religião. A sua doutrina tendia politicamente a estabelecer
-uma aristocracia forte e poderosa, e a revestil-a d'um caracter
-sacerdotal, que a tornasse semelhante ás theocracias do Oriente; em
-fazer das luzes scientificas a partilha d'um pequeno numero de
-iniciados, e em dar a estes o governo do mundo, attribuindo-lhes a
-infallibilidade. Estas grandes e arrojadas ideias inspiraram uma especie
-de terror aos gregos da Italia e provocaram o desastre espantoso que
-feriu subitamente os pythagonios.
-
-Comprehende-se o imperio que um philosopho d'este quilate devia adquirir
-sobre o espirito dos seus discipulos, e assim, entre elles, a phrase--_o
-mestre o disse_, equivalia a uma formula magica, que cortava
-completamente todas as disputas.
-
---Esta phrase que serve para exprimir o respeito que se professa por uma
-auctoridade, era d'algum modo a divisa de La-Fontaine, cuja veneração
-pelos antigos é muito conhecida.
-
---Um orador contemporaneo affirmou, nos rasgos da sua eloquencia, que o
-homem não dirá mais--_o mestre o disse_, porque o homem está emancipado
-do homem. Elle dirá agora:--_A verdade diz--A sciencia diz_.
-
-
-
-
-XL
-
-_O rei é morto, vive o rei!_
-
-
-Este velho grito da monarchia, significava que a realeza nunca morria em
-França. Apenas o rei exhalava o ultimo suspiro, um arauto apparecia ao
-balcão do palacio e gritava tres vezes deante do povo reunido:
-
---«_O rei é morto, vive o rei!--Le roi est mort, vive le roi!_»
-
-Mas era, sobretudo, na cerimonia funebre e quando o defuncto monarcha ia
-tomar o seu logar nas cryptas de S. Diniz, que estas palavras,
-pronunciadas no meio das pompas da religião, retumbavam d'uma maneira
-verdadeiramente solemne. Ouviram-se, pela ultima vez, em França, na
-morte de Luiz XVIII.
-
-
-
-
-XLI
-
-_O estado sou eu!_
-
-
-No dia immediato ao da morte do cardeal Mazarino, Luiz XIV, então de
-vinte e dois annos, fez chamar os ministros que o cardeal lhe tinha
-deixado--Pedro Séguier, Miguel Lettellier, de Lionne e Fouquet, e
-declarou-lhes que seria elle proprio, de futuro, o seu primeiro
-ministro. Na mesma tarde o arcebispo de Ruão foi encontrar-se com elle e
-disse-lhe:
-
---«Vossa Magestade tinha-me ordenado que me dirigisse ao cardeal para
-todos os negocios; elle está morto, a quem devo dirigir-me agora?»
-
---«A mim, senhor arcebispo.»
-
-O reino de Luiz o Grande estava começado.
-
-Estes preliminares pintam já o caracter de Luiz XIV e tornam muito
-provavel a authenticidade da famosa phrase--_O estado sou eu!_--que a
-historia diz elle fez ouvir, quando entrou de botas e esporas no
-parlamento.
-
-Como o presidente lhe significasse que a resistencia opposta aos seus
-editos, tinha a sua origem nos interesses do estado, o joven monarcha
-respondeu:
-
---«_O estado sou eu!--L'etat, c'est moi!_»
-
-
-
-
-XLII
-
-_Alavanca d'Archimedes_
-
-
-Chama-se _alavanca_ um corpo longo, inflexivel, fixo em um ponto da sua
-extensão, e destinado a levantar pesos. O ponto sobre a qual a alavanca
-tem o seu ponto fixo, diz-se _ponto d'apoio_; o peso a levantar,
-chama-se _resistencia_ e a força que actua é _potencia_. Quando o ponto
-d'apoio está collocado no meio da alavanca a _potencia_, e a
-_resistencia_ são eguaes, isto é, para se levantar um peso de cem
-kilogrammas é necessario uma força egual a esse peso. Mas a par e passo
-que o ponto d'apoio se approxima da resistencia, a força que se tem de
-desenvolver diminue proporcionalmente. D'aqui é facil comprehender que
-uma força egual, por exemplo, a algumas grammas, póde levantar um navio
-completo, dando-se um comprimento sufficiente ao braço da alavanca que
-separa o ponto d'apoio da força activa.
-
-É certo que a alavanca era conhecida de Archimedes, e foi o genio d'este
-grande homem que lhe determinou as propriedades e as proporções exactas.
-Comprehende-se que Archimedes tendo levado até ao infinito o estudo
-theorico da potencia da alavanca haja ousado exclamar:
-
---«_Deem-me um ponto d'apoio e eu levantarei a terra!_»
-
-Ha n'isto uma evidente hyperbole de linguagem, mas esta hyperbole
-satisfaz a razão, porque assenta n'um principio mathematico.
-
-
-
-
-XLIII
-
-_Magdalena_
-
-
-Magdalena, mulher celebre do Evangelho, era uma cortezã d'uma grande
-belleza. Tendo ouvido fallar Jesus, foi commovida de repente, e o
-arrependimento entrou no seu coração. Um dia em que Jesus estava á meza
-em casa de Simão Phariseu, a bella peccadora apresentou-se toda
-lastimosa na sala da refeição e precipitou-se aos pés do Salvador,
-regando-os com as suas lagrimas, beijando-os, inundando-os de perfumes e
-enxugando-os com os seus cabellos. O Phariseu escandalisou-se vendo que
-Jesus se deixava tocar por essa mulher, conhecida em toda a cidade por
-uma grande peccadora. Foi n'esta circumstancia que Jesus mostrou toda a
-misericordia que trasbordava do seu coração, dizendo aos que o rodeavam:
-
---«_Ser-lhe-ha muito perdoado, porque muito amou!_»
-
---Esta resposta applica-se hoje, mas quasi sempre ironicamente, ás
-mulheres conhecidas pela facilidade dos seus costumes, sejam ou não
-arrependidas, e ha, ao mesmo tempo, o uso de as designar pelo nome de
-_Magdalenas_.
-
-
-
-
-XLIV
-
-_Casa de Socrates_
-
-
-Socrates estava fazendo construir uma casa. Como lhe fizessem sentir que
-era demasiado pequena, elle acudiu:
-
---«_Prouvera a Deus que ella se enchesse de verdadeiros amigos!_»
-
-Esta bella phrase foi aproveitada por La-Fontaine, de que damos a
-seguinte versão:
-
- «Socrates uma casa edificava,
- E cada qual a obra criticava.
- Um achava o interior,
- Para dizer a verdade,
- Indigno do morador;
- Um outro desdenhava a frontaria,
- E toda a gente que essa casa via,
- Achava os aposentos limitados
- E bem pouco lisongeiros
- Mesmo por qualquer dos lados.
- --«Prouvera a Deus que d'amigos provados
- Se enchesse--diz--d'amigos verdadeiros!»
-
- Socrates razão tivera
- De achar, por tal, espaçosa a casita;
- Amigos muitos ha--quem acredita?
- Amigos de nome apenas,
- Não d'amisade sincera.
-
-
-
-
-XLV
-
-_Desgraça aos vencidos!_
-
-
-Depois da sangrenta batalha d'Allia, cujo anniversario foi incluido
-pelos romanos no numero dos dias nefastos, o terror tinha-se espalhado
-em Roma e todos os habitantes haviam fugido, excepto oitenta velhos que
-esperavam corajosamente a morte nas suas cadeiras curues, e a mocidade
-que se refugiou no capitolio. Depois de terem saqueado e queimado Roma,
-os gaulezes pozeram cêrco á fortaleza, e tendo dado um assalto sem
-resultado, estabeleceram então um cêrco mais rigoroso. Os defensores da
-fortaleza, sitiados havia sete mezes e entregues a todos os horrores da
-fome, pedem, afinal, capitulação. Brenno, chefe dos gaulezes, consente
-em levantar o cêrco mediante mil libras de ouro em peso. O tribuno
-Sulpicio apresenta a somma no dia marcado. Em quanto que se pesa o ouro,
-levanta-se uma contestação e os romanos censuram aos vencedores o uso de
-falsos pesos.
-
-É então que Brenno, lançando a sua pesada espada na balança, pronuncia a
-phrase celebre que depois se tornou proverbial:
-
---«_Desgraça aos vencidos!_»--«_Væ victis!_»
-
-
-
-
-XLVI
-
-_Manto de Joseph_
-
-
-Os mercadores ismaelitas, aos quaes Joseph fôra entregue por seus
-irmãos, levaram-n'o para o Egypto e venderam-n'o a Putiphar, um dos
-principaes officiaes do rei. A mulher de Putiphar, animada d'uma
-criminosa paixão, pelo joven israelita, que era formoso, tentou
-abalar-lhe a virtude e, para o obrigar a consentir nos seus desejos,
-ella agarrou-o um dia pelo manto e quiz attrahil-o a si.
-
-Joseph abandonou-lhe o manto e fugiu. Cheia de cólera e envergonhada por
-se vêr assim desprezada, essa mulher disse ao marido:
-
---«O escravo hebreu quiz ultrajar-me, mas aos meus gritos fugiu,
-deixando-me o manto entre as mãos!»
-
-Putiphar, irritado, fez encarcerar Joseph.
-
---Comprehende-se, sem que seja necessario que o expliquemos, em que
-ordem de ideias se faz allusão ao manto de Joseph e á mulher de
-Putiphar.
-
-
-
-
-XLVII
-
-_Mario sobre as ruinas de Carthago_
-
-
-Mario, livre das prisões de Minturnes, fez-se á vela para a Africa. O
-navio que o conduzia, privado d'agua, quiz aportar á Sicilia, mas uma
-força armada assaltou a equipagem, matou varios homens, e o proprio
-Mario só com difficuldade escapou. Alguns dias depois desembarcou na
-Africa, nos mesmos locaes aonde se elevava outr'ora a poderosa cidade de
-Carthago.
-
-Apenas em terra, Sextilio, pretor da Lybia, homem dedicado a Sylla,
-fez-lhe intimar ordem de deixar aquella provincia, e como o mensageiro
-lhe pedisse uma resposta, elle disse-lhe:
-
---«_Vae dizer a teu senhor, que viste Mario, errante e fugitivo, sentado
-sobre as ruinas de Carthago!_»
-
-A presença d'este grande proscripto sobre as ruinas ainda fumegantes da
-antiga e poderosa rival de Roma, é um dos mais frisantes exemplos das
-vicissitudes humanas, e a maneira simples e energica com que esta
-approximação é expressa, faz d'elle uma das mais sublimes lições que a
-historia tem tido a consignar.
-
-Toda a gente conhece o verso em que Delille poz em presença esses dois
-infortunios:
-
- «_E essas ruinas, sim, consolavam-se a si!_»
-
-
-
-
-XLVIII
-
-_Subir ao Capitolio_
-
-
-Na antiga Roma, os generaes vencedores subiam em triumpho ao Capitolio,
-no meio das acclamações de todo o povo, e alli offereciam sacrificios
-aos deuses; em seguida o povo os acompanhava a sua casa com archotes e
-soltando gritos de alegria.
-
-Na Edade Média, e durante o grande seculo litterario da Italia,
-resuscitaram-se, em favor da poesia, os antigos triumphos do Capitolio.
-No dia de Paschoa, a 8 d'abril de 1341, Petrarcha subiu ao Capitolio no
-meio dos principaes cidadãos, precedidos de doze mancebos, escolhidos
-nas familias mais illustres, que declamavam os seus versos. Recebeu a
-corôa de louro e recitou um soneto ácerca do heroe da antiga Roma.
-
-Tasso recebeu tambem as honras da coroação; a sua entrada em Roma já
-teve o aspecto de um triumpho. O povo, os nobres, os prelados, os
-cardeaes, os sobrinhos do Papa, foram ao seu encontro e o conduziram ao
-Vaticano, no meio das mais vivas acclamações. O Papa, avistando-o,
-disse-lhe com graça particular:
-
---«Vinde honrar esta corôa, que honrou todos quantos a collocaram antes
-de vós.»
-
-Os aprestos da cerimonia proseguiam com a maior rapidez e o Tasso ia,
-emfim, receber a recompensa d'uma vida cheia d'amargura e de dôr; mas
-por uma ultima irrisão da sorte elle morreu na vespera do proprio dia em
-que devia subir ao Capitolio, e o louro poetico não adornou senão a
-fronte do seu cadaver, que fôra amortalhado com a toga romana.
-
-Pouca gente desconhece a magnifica descripção que Madame de Stael fez da
-coroação de Corinna. A brilhante escriptora faz reviver no seu celebre
-romance a _Corinna Thebana_, a rival feliz de Pindaro, varias vezes
-coroada nos jogos olympicos.
-
-
-
-
-XLIX
-
-_Onde não ha el-rei o perde_
-
-
-Representava-se na comedia Franceza, com immenso successo o _Cerco de
-Calais_, tragedia de Belloy. O principal papel era desempenhado pela
-actriz Clairon, tão conhecida pelas suas aventuras galantes sob o nome
-de Fretillon. Um comediante muito obscuro, chamado Dubois, que
-desempenhava um papel n'esta peça, era accusado pelos seus collegas d'um
-acto de improbidade. Estes, tendo á frente a Clairon, recusaram-se a
-entrar em scena em companhia d'elle, e o _Cerco de Calais_ foi
-interrompido na vigesima representação. Os espectadores agitaram-se e
-houve desordem no theatro. Clairon fazia-se especialmente notar entre os
-mais obstinados. Ordenou-se que ella fosse conduzida ao Fort-L'evêque.
-Ella, então, disse a quem a intimava, com emphase theatral, que ia, mas
-que sua magestade podia tudo sobre os seus bens e sobre a sua liberdade,
-mas nada sobre a sua _honra_.
-
---«_Isso é sabido_--responderam-lhe--_onde não ha el-rei o perde!_»
-
-É vulgar e de facil comprehensão a applicação d'esta phrase.
-
-
-
-
-L
-
-_Onde se vae aninhar a virtude?_
-
-
-Moliére alliava a um grande genio as mais formosas qualidades do
-coração, e tinha uma alma ao nivel do seu espirito. Caracter suave,
-complacente e generoso, nunca o abandonava o seu elevado sentimento
-caritativo.
-
-Um dia em que partiu para S. Germano approximou-se-lhe um mendigo e
-pediu-lhe esmola. Moliére lançou-lhe uma moeda e subiu para o trem.
-Instantes depois percebeu que o pobre o seguia correndo. Fez parar. O
-pobre chegou-se e disse-lhe:
-
---«O senhor enganou-se, de certo, porque me deu um luiz, que eu venho
-entregar.»
-
---«Não, meu amigo--acudiu--e aqui tens outro.»
-
-E como o seu genio estava continuamente álerta, e elle estudava em toda
-a parte a natureza, como homem que queria pintal-a, exclamou:
-
---_Onde se vae aninhar a virtude?_
-
-
-
-
-LI
-
-_Perdoae-lhes, meu Pae, não sabem o que fazem_
-
-
-Jesus Christo, cuja vida, acções e doutrina tinham sido mansidão e
-misericordia, só teve sobre a cruz palavras de doçura para os seus
-proprios algozes, sobre a cabeça dos quaes attrahiu o perdão de seu Pae.
-«Ora--diz S. Lucas--com elle levavam dois outros homens, que eram
-criminosos, para os pôrem á morte, e quando chegaram ao Calvario, Jesus
-foi crucificado entre dois ladrões, um á direita e outro á esquerda, e
-elle dizia fallando dos seus verdugos:--_Perdoae-lhes, meu Pae, não
-sabem o que fazem!_
-
-Esta phrase cahiu do alto da cruz, no meio das agonias da morte e dos
-soffrimentos mais crueis, e resume admiravelmente o espirito evangelico
-e a moral sublime do sermão da montanha.
-
-A applicação d'esta phrase suprema não tem logar, geralmente, senão no
-estylo familiar.
-
-
-
-
-LII
-
-_Lavar as mãos como Pilatos_
-
-
-Poncio Pilatos, governador da Judeia, sob Tiberio, seria completamente
-desconhecido hoje, se o seu nome se não achasse envolvido no maior
-successo da historia. Jesus, perseguido desde muito pelo odio dos
-principes dos padres e dos phariseus, tinha sido apresentado perante o
-tribunal de Caiphaz, e condemnado á morte por se dizer Christo, filho do
-Deus vivo. Mas esta sentença não podia ser executada sem as ordens do
-governador romano. Os judeus levaram Jesus a Pilatos. Este convencido da
-sua innocencia, perturbado, além d'isto, por um estranho sonho que sua
-mulher Claudia Procula tinha tido durante a noite e que lhe despertára o
-maior interesse pelo Christo, procurava illudir a sentença de morte. Mas
-a populaça tendo reclamado o ultimo supplicio com gritos de furor, e
-ameaçado o proprio Pilatos com a cólera de Cesar, o fraco governador
-abandonou Jesus á raiva dos algozes. No entretanto, querendo protestar
-contra o que elle considerava uma suprema injustiça, elle fez trazer
-agua, e lavando as mãos deante do povo, exclamou:
-
---«Estou innocente da morte d'este justo; sois vós que respondereis por
-ella!»
-
---«Sim, sim--gritaram os loucos--que o seu sangue cáia sobre nossas
-cabeças e sobre nossos filhos!»
-
-E crucificaram-n'o!
-
-Alguns annos mais tarde, Pilatos, cahindo em desagrado sob Caligula, foi
-exilado, e no exilio, perseguido pelos remorsos, matou-se de desespero,
-dizem.
-
-A sentença iniqua que Pilatos pronunciou contra Jesus pesará sempre
-sobre a sua memoria, e até ao fim dos seculos Pilatos será o typo dos
-magistrados pusillanimes, que, obedecendo á voz do medo e dos seus
-interesses, teem a cobardia de pronunciarem condemnações que a
-consciencia reprova. Embora lavem as mãos, o sangue innocente derramado
-deixará sempre uma nodoa indelevel, que será para elles uma nodoa
-infamante.
-
---É, fazendo allusão á acção de Pilatos, que em linguagem familiar se
-diz:--«_D'ahi lavo as mãos_», como declaração de que se não tem
-responsabilidade nas consequencias de successos para que se concorreu.
-
-
-
-
-LIII
-
-_O que não peccou, atire a primeira pedra_
-
-
-Os scribas e phariseus levaram a Jesus uma mulher que fôra surprehendida
-em adulterio, e disseram-lhe:
-
---«Mestre, esta mulher acaba de ser surprehendida em adulterio. Ora a
-lei de Moisés ordena-nos que apedrejemos as adulteras. Qual é a este
-respeito a vossa opinião?»
-
-Fallavam-lhe assim para o tentarem, e a fim de o poderem accusar. Mas
-Jesus Christo abaixando-se, escreveu com o dedo na terra.
-
-E como continuassem a interrogal-o, elle levantou-se e disse-lhes:
-
---«_Aquelle d'entre vós que não peccou lhe atire a primeira pedra._»
-
-A esta phrase elles retiraram-se a um e um, e só ficou Jesus com essa
-mulher que se conservava de pé.
-
-Jesus disse-lhe então:
-
---«Ninguem te condemnou, não te condemnarei tambem. Vae e não peques
-mais.» (_Evang. S. João_).
-
-
-
-
-LIV
-
-_Tres linhas escriptas e eu farei enforcar quem as escreveu_
-
-
-Nada ha que mais se preste á critica e á satyra do que as leis.
-Anacharsis comparava-as ás teias d'aranha que prendem as pequenas e
-deixam passar as grandes moscas. La-Fontaine rimou a mesma ideia quando
-disse:
-
- «Assim, conforme o que és, ou grande ou miseravel «A justiça fará
- que sejas branco ou negro.»
-
-Não confirma a sabedoria das nações, os juizos do philosopho e do
-fabulista, quando concede ao condemnado vinte e quatro horas para
-maldizer a um juiz? Mas a cabula, o processo, o codigo n'uma palavra não
-justifica hoje estas accusações? e os traços que acabamos de citar são
-uma calumnia ou maledicencia? O presidente d'Ormesson parece ter
-respondido a esta pergunta quando disse:
-
---«Se eu fosse accusado de ter roubado as torres de Notre Dâme, e
-ouvisse gritar atraz de mim--_agarra que é ladrão!_--eu fugiria
-desesperadamente.»
-
-Este terror que inspira a justiça, mesmo ao mais innocente, está
-plenamente justificado por estas palavras:
-
---«_Deem-me tres linhas da escripta d'alguem e eu o farei enforcar._»
-
-Os eruditos estão divididos sobre o auctor d'esta celebre phrase, que
-attribuem a Laubardemont, ao Padre Joseph, a Richelieu, a Jeffries, e
-que M. Proudhon, mais prudente, attribue a um ... criminalista.
-
-O cardeal Richelieu, que conhecia o poder do equivoco, citava um dia
-esta phrase deante dos seus secretarios. Um d'elles, julgando
-embaraçal-o, escreveu n'um cartão--«Um e dois fazem tres.»--«Blasphemia
-contra a Santissima Trindade!--exclamou o cardeal--um e dois só fazem
-um.»
-
-
-
-
-LV
-
-_Quem te fez conde? Quem te fez rei?_
-
-
-A fraqueza dos ultimos carlovingianos tinha permittido á feudalidade
-lançar profundas raizes entre os francos, e tornar-se quasi
-independente, e quando em 987 Hugo Capeto foi eleito rei de França em
-Noyon, pelos seus proprios vassallos e alguns pequenos feudatarios
-visinhos, elle ficou o que tinha sido antes, conde de Paris, possuidor
-de vastos dominios, mas não sendo, no meio dos poderosos barões, mais
-que o primeiro entre iguaes. Assim, todo o seu reino foi perturbado
-pelas revoltas dos proprios que o tinham levado ao throno, mas que
-recusavam reconhecer a sua supremacia. Poder-se-ha julgar pela altiva
-resposta d'um d'elles, com que olhos consideravam a nova realeza.
-
-Um conde de Périgneux, Adalberto, emprehendeu conquistas e usurpára os
-titulos de conde de Poitiers e de Tours. O rei de França mandou-lhe um
-mensageiro para lhe perguntar:
-
---«Quem te fez conde?»
-
-Ao que Adalberto respondeu:
-
---«Quem te fez rei?»
-
-Estas phrases, frequentemente citadas, resumem uma epocha inteira.
-
-
-
-
-LVI
-
-_A Cesar o que é de Cesar a Deus o que é de Deus_
-
-
-Alguns dias antes da celebração da Paschoa, Jesus fez uma entrada
-triumphal em Jerusalem, no meio d'um concurso immenso de povo que
-gritava:--Hossana ao filho de David! Bemdito o que vem em nome do
-Senhor!» Os principes dos padres e os scribas procuraram então os meios
-de o perder e de o prender nas proprias palavras por perguntas
-insidiosas. Os herodianos approximaram-se, pois, d'elle, e lhe
-perguntaram:
-
---«Mestre, sabemos que és verdadeiro nas tuas palavras e que ensinas o
-caminho de Deus, sem distincção de pessoas. Dize-nos então a verdade
-sobre isto:--É permittido pagar o tributo a Cezar?»
-
-Jesus, penetrando na intenção d'elles, respondeu:
-
---«Mostrem-me a moeda de dinheiro que se dá em tributo.»
-
-Apresentaram-lhe um dinheiro. Jesus disse-lhes então:
-
---«De quem é esta moeda?»
-
---«De Cezar.»
-
---«_Dêem, então, a Cezar o que é de Cezar e a Deus o que é de Deus!_»
-
-Vem a proposito citar que Henrique IV, que antes de entrar em Paris fôra
-obrigado a comprar muito caro os chefes da Liga, modificou, a este
-respeito, da maneira mais original e mais espirituosa, a lettra do
-Evangelho.
-
-Um dia depois do seu jantar, Henrique IV disse ao seu secretario:
-
---«Que pensas, vendo-me em Paris como estou?»
-
---«Penso, senhor, que deram a Cezar o que era de Cezar, como é preciso
-dar a Deus o que é de Deus ...»
-
---«Ora essa!--replicou o rei--não me fizeram como a Cezar, porque me não
-_deram_, mas porque me _venderam_ o que era meu.»
-
-
-
-
-LVII
-
-_Salto de Leucade_
-
-
-Sapho, a mais illustre das poetisas, appellidada a decima musa, nasceu
-em Mitylene, na ilha de Lesbos, pelo anno 600, antes de Christo. Amiga
-do poeta Alceu, ella foi arrastada na conspiração contra Pittaco e
-acabou os seus dias no exilio.
-
-Os antigos representam-na devorada pelas paixões e entregue ao furor dos
-sentidos; e elles não davam o nome de versos ás suas poesias, mas
-_ardores_, _chammas_, etc.; e acceitando os costumes muito conhecidos
-das lesbianas com a indulgencia cynica d'aquella epocha, elles
-inflammavam-se n'um enthusiasmo sem limites pelo lyrismo desordenado dos
-seus cantos, pela graça exquisita, pela harmonia arrebatadora e pelo
-estylo de fogo das suas odes.
-
-Conta a tradição que, apaixonada pelo insensivel Phaon, joven lesbiano,
-d'uma grande belleza, e não podendo vencer os seus desprezos, ella se
-precipitou, cheia de desespero, do alto de Leucade no mar.
-
-A ilha de Leucade era famosa por um promontorio, formado de rochedos
-escarpados que dominavam o mar. Era alli que as amantes desgraçadas iam
-procurar remedio a seus males, precipitando-se do alto do promontorio
-sobre as vagas. É isto o que se chamava _dar o salto de Leucade_. Os que
-escapavam á morte depois d'esse perigoso salto, ficavam curados do seu
-amor.
-
-Mas comprehende-se que pouquissimas resistiam a esse remedio heroico.
-
-
-
-
-LVIII
-
-_Se é possivel, está feito; se é impossivel se fará_
-
-
- Impotente, gottoso, e já velho leão
- Queria achasse algum remedio á velhice.
- _O impossivel aos reis allegar é illusão_.
-
-Eis uma verdade que Colonne, quartel mestre geral das finanças, sob Luiz
-XVI, era demasiado fino e cortezão para ignorar. Leviano, espirituoso,
-incapaz d'um plano fortemente concebido e pacientemente executado, elle
-devia deixar as finanças do reino n'um estado ainda mais deploravel do
-que as tinha encontrado ao entrar para o ministerio. As suas operações
-aventureiras só deviam augmentar o mal geral e o numero dos
-descontentes. N'essa côrte tão prodigiosamente descuidada na vespera
-d'uma catastrophe e em que só Luiz XVI tinha o sentimento dos seus
-deveres, sem ser dotado da energia necessaria para bem os cumprir, o
-luxo e a prodigalidade eram tão insaciaveis como se os cofres do estado
-estivessem pejados. Para crear elogiadores entre os homens de lettras, o
-ministro concedeu pensões a um grande numero d'elles.
-
-Maria Antonietta era a primeira a dar o exemplo do luxo e não punha
-qualquer freio ao seu prazer pelo gasto. Um dia que ella precisava d'uma
-somma consideravel dirigiu-se a Colonne, cuja facil condescendencia ella
-conhecia. Antes de lhe expor o pedido, ella disse-lhe n'esse tom de
-mulher e rainha que não quer recusa:
-
---«O que tenho a pedir-lhe é difficil talvez, Colonne!»
-
-O espirituoso ministro respondeu, inclinando-se graciosamente:
-
---«_Se é possivel, está feito; se é impossivel, far-se-ha!_»
-
-Não era possivel commentar mais finamente o verso de La-Fontaine.
-
-Nas guerras da republica, a possibilidade do _impossivel_ foi expressa
-d'uma maneira mais nobre por um general francez, no ardor d'um combate
-encarniçado. Um official que elle acabava de encarregar d'uma operação
-perigosa, respondeu-lhe que era impossivel.
-
---«Impossivel, senhor?--respondeu o general--Olhe que essa palavra não é
-franceza!»
-
-
-
-
-LIX
-
-_Terra promettida_
-
-
-Depois da morte de Joseph, os descendentes de Jacob não tardaram a ser
-perseguidos pelos egypcios, que os empregavam nos trabalhos mais rudes.
-Mas Deus que tinha sempre os olhos fixos sobre o seu povo, suscitou
-Moisés, ao qual ordenou que conduzisse os hebreus _á terra de Chanaan_,
-berço de seus paes.--«Era--diz a Escriptura--uma terra de promissão,
-produzindo uvas que dois homens mal podiam carregar, e onde corriam
-regatos de leite e de mel.» Mas os israelitas, constantemente rebeldes,
-foram condemnados a errar quarenta annos no deserto, á vista d'essa
-terra de delicias, sem n'ella poderem entrar. Afinal lá chegaram,
-conduzidos por Josué.
-
---A _terra promettida_ é uma expressão que passou em todas as linguas a
-designar um estado, uma ventura a que se aspirava ha muito tempo. Victor
-Hugo disse, a proposito, nas _Folhas do Outomno_:
-
- . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
- «Um homem, dentro em si, construe e phantasia
- Um mundo encantador, mundo d'arte e poesia,
- --A nossa Chanaan, que nós vemos de cima ...»
-
-
-
-
-LX
-
-_Thebaida_
-
-
-A Thebaida, uma das tres grandes divisões do antigo Egypto, e que tinha
-Thebas por capital, era famosa pelos desertos que a éste e oéste
-cercavam a sua parte habitada. Foi n'uma destas solidões que nos
-primeiros seculos do christianismo se refugiaram muitissimos christãos,
-já para fugirem á perseguição, já para se esquivarem ás seducções do
-mundo, entregando-se ao jejum, á oração e a todas as austeridades da
-vida ascetica.
-
-O mais illustre d'entre elles, Santo Antonio, dera o exemplo,
-distribuindo a sua fortuna aos pobres, para viver do trabalho das suas
-mãos. A sua reputação de santidade espalhou-se ao longe, e a breve
-trecho, milhares de discipulos se gruparam em volta d'elle. Durante
-algum tempo, foi, d'algum modo repovoado de monges e anachoretas. Mas
-afinal a despovoação geral do Egypto produziu a extincção de quasi todos
-os mosteiros, que se haviam creado.
-
-Hoje, só as cellas vasias, marcadas com o symbolo dos christãos, indicam
-a assistencia d'esses religiosos nos templos pagãos arruinados, bem como
-as grutas dos sepulchros da Thebaida.
-
---Na linguagem ordinaria, _Thebaida_, diz-se d'um deserto, d'uma solidão
-profunda, em que se vive retirado do mundo; mas esta palavra está longe
-de ser tomada sempre n'este sentido. Faz-se muitas vezes uso d'ella, em
-poesia, especialmente para designar um retiro favorito, que
-propositadamente se escolhe, longe do bulicio, para o goso das doçuras
-da amisade, ou dos encantos do amor.
-
-Lembra-nos até que Theophilo Gautier disse já n'uma das suas esplendidas
-poesias:
-
- «Um bom _cottage_ inglez, eis a _Thebaida_ sua!»
-
-
-
-
-LXI
-
-_Desça o panno, acabou a comedia!_
-
-
-Rabelais, o mais philosopho dos bufões, e o mais bufão dos philosophos,
-nasceu perto de Chinon, em Touraine, por 1483. Os seus biographos são
-pobres em factos authenticos, mas em compensação abundam em anecdotas
-romanescas, de onde resalta esse typo de cara alegre e tolerante, amigo
-de Baccho e da dança, o que só se ama por excepção. O genero muito
-particular do seu genio foi perfeitamente pintado por La Bruyére:--«Onde
-Rabelais é mau passa muito além de peior; é o encanto da canalha; aonde
-é bom, elle vae até ao extremo de excellente, e póde ser um prato dos
-mais delicados.» De resto, este sentimento do moralista parece ter sido
-dictado pelo proprio Rabelais que recommendava aos seus leitores «que
-abrissem a caixa para tirarem a droga, e quebrassem os ossos para
-chucharem a medula.» Mas o que domina na sua vida e nos seus escriptos é
-um septicismo zombador que ataca todas as crenças, todas as
-instituições, todos os sentimentos, e que estala, sobretudo, nos ultimos
-momentos da sua vida.
-
-Entre as numerosas versões que foram reproduzidas ácerca da sua morte,
-encontra-se esta. O cardeal de Châtillon, seu amigo, tendo enviado um
-pagem a informar-se da sua saude, elle respondeu-lhe:
-
---«Dize a Monsenhor em que bello humor me encontras. Eu vou buscar um
-grande _talvez_. Está no ninho da pega. Dize-lhe que se deixe estar. E
-tu não passas d'um tolo.»--Depois exhalou o ultimo suspiro n'uma grande
-gargalhada acompanhada d'estas palavras:
-
---«_Desça o panno; acabou a comedia!_»
-
-
-
-
-LXII
-
-_Tudo é perdido, menos a honra!_
-
-
-Francisco I a quem duas derrotas experimentadas pelos seus generaes
-Lautrec e Bonnivet tinham feito perder o milanez, quiz reconquistar este
-ducado, e transpoz os Alpes á frente d'um novo exercito. A breve trecho
-pôde entrar em Milão. Mas em vez de perseguir o inimigo a todo o transe,
-obstinou-se no cêrco de Pavia, e, como este cêrco fosse delongado, teve
-a imprudencia de se enfraquecer, destacando 12:000 homens que deviam
-marchar sobre Napoles. No entretanto, os imperiaes reforçavam-se e
-levavam soccorro a Pavia. Feriu-se a batalha e foi encarniçada. O rei
-foi ferido na fronte, e a sua armadura, que a França possue ainda, foi
-toda crivada. Mas o numero venceu a coragem, a batalha foi perdida e
-Francisco I feito prisioneiro. Entregou a sua espada ao vice-rei de
-Napoles, Lannoy, que a recebeu de joelhos.
-
-«Foi do campo imperial, perto de Pavia, que Francisco I escreveu a sua
-mãe uma carta que se tornou celebre, graças á tradicção, que muito a
-alterou dando-lhe a fórma d'um laconismo sublime:
-
---«_Senhora, tudo é perdido, menos a honra!_»
-
-Recentes investigações, porém, fizeram descobrir o texto verdadeiro
-d'essa carta que começa do seguinte modo:--«Senhora, para vos fazer
-saber como se cumpre o resto do meu infortunio, _de todas as coisas, só
-me ficou a honra e a vida, que está salva_.»
-
-
-
-
-LXIII
-
-_Trombetas de Jericó_
-
-
-Jericó foi a primeira cidade que os hebreus encontraram na sua entrada
-na terra promettida. Era fechada por altas muralhas. Por ordem de Deus,
-Josué mandou fazer ao seu exercito a volta da cidade durante sete dias.
-A arca d'alliança fôra levada com grande pompa e precedida de sete
-padres, que tocavam trombeta. O povo acompanhava em silencio. Ao setimo
-dia, deu-se sete vezes a volta á cidade, e o povo, por ordem de Josué,
-tendo soltado um grito muito grande, viu no mesmo instante
-desmoronarem-se as muralhas. A cidade foi reduzida a cinzas e todos os
-habitantes passados a fios d'espada.
-
---Em litteratura faz-se muitas vezes allusão ás _trombetas de Jericó_,
-que se oppõem á lyra d'Amphion. Este contraste não escapou ao rei
-philosopho que escreveu ao seu amigo Voltaire:--«Interessado em servir o
-genero humano, consagraes a vossa vida inteira ao bem publico. A
-Providencia tinha-vos reservado para ensinardes aos homens a preferirem
-a lyra d'Amphion, que elevava os muros de Thebas a esses instrumentos
-bellicos que faziam arrazar os de Jericó.»
-
-
-
-
-LXIV
-
-_A tunica de Christo_
-
-
-«Os soldados, depois de haverem crucificado Jesus, tomaram-lhe os
-vestidos e dividiram-os em quatro partes: uma para cada soldado. Tomaram
-tambem a tunica; mas a tunica não tinha costura, era uma só peça inteira
-de cima a baixo.
-
-«E elles disseram uns aos outros:--«Não a talhemos; tiremos á sorte para
-vermos a quem pertencerá. Afim de que esta palavra fosse cumprida, elles
-dividiram entre si os meus vestidos e jogaram á sorte a minha
-tunica.»--Eis o que fizeram os soldados.--(_S. João_, _cap._ XXIX).
-
---Esta divisão da tunica de Jesus Christo, no momento da sua morte, tem
-duas especies d'applicação:--ora se allude a ella para designar a
-partilha dos despojos d'um innocente, ora recorda que a tunica era d'uma
-só peça inteira, para indicar que uma coisa não póde soffrer divisão.
-
-
-
-
-LXV
-
-_Um imperador deve morrer em pé_
-
-
-Vespasiano, imperador romano, ia além de sessenta e nove annos, quando
-foi atacado da doença que o levou ao tumulo, não por agudos
-soffrimentos, mas por um enfraquecimento progressivo. Conservando até ao
-fim a sua serenidade d'alma, elle transformava em gracejo a apotheose
-que lhe ia ser conferida.--«_Percebo que começo a tornar-me deus_»,
-dizia elle alegremente á medida que a sua situação se tornava
-desesperada. Apesar da sua extrema fraqueza não interrompeu um instante
-as suas occupações habituaes; dava tempo aos negocios e audiencia no
-leito. Afinal, sentindo-se desfallecer, fez um derradeiro e supremo
-esforço para se levantar, dizendo:
-
---«_É preciso que um imperador morra de pé!_»
-
-E tendo-se feito vestir, expirou entre os braços dos seus officiaes.
-
---Luiz XVIII, nos ultimos dias da sua vida teve uma phrase que recorda a
-de Vespasiano. Apesar do depauperamento das suas forças, continuava a
-mostrar-se em publico e nos conselhos. A 25 d'Agosto de 1824, dia de S.
-Luiz, respondeu ao conde d'Artois, seu irmão, que o aconselhava a não
-receber:
-
---Um rei de França morre, mas não deve estar doente!»
-
-
-
-
-LXVI
-
-_Vendilhões expulsos do templo_
-
-
-«E estando proxima a paschoa dos judeus, Jesus fez a sua entrada em
-Jerusalem.
-
-«E elle achou no templo mercadores que vendiam bois, ovelhas e pombas e
-os trocadores alli estavam sentados.
-
-«E tendo feito umas disciplinas com cordas, elle os expulsou a todos
-fóra do templo, assim como as ovelhas e os bois e espalhou o dinheiro
-dos vendilhões sobre as mezas.
-
-«E elle disse aos vendilhões:--«Está escripto. A minha casa é uma casa
-de oração e vós fazeis d'ella uma caverna de ladrões.» (_S. João_,
-_cap._ II).
-
---Esta expressão--_expulsar os vendilhões do templo_--emprega-se para
-stigmatisar os profanadores, em qualquer ordem que seja, os que
-mercadejam com coisas respeitaveis e que só deviam ser apanagio
-exclusivo da arte, das lettras, das sciencias, e, em geral, da
-intelligencia e do talento.
-
-
-
-
-LXVII
-
-_Gritar no deserto_
-
-
-S. João Baptista, filho de Zacharias e de Santa Elisabeth, prima da
-Virgem Santissima, retirou-se muito cedo para o deserto, levando uma
-vida cheia d'austeridades. Vestia uma pelle de camello atada á cinta por
-uma tira de couro, e o seu alimento constava de gafanhotos e mel bravo.
-Quando chegou á edade de trinta annos e foi preparado com rudes
-exercicios para o ministerio que lhe estava destinado, dirigiu-se ás
-margens do Jordão, prégando a penitencia, annunciando a realisação das
-prophecias e a vinda do Messias, que o tinha enviado para preparar os
-seus caminhos. «--Façam penitencia--exclamava elle--pois o reino dos
-céus está proximo». Os habitantes dos arredores corriam em multidão para
-o ouvirem. O synhedrio, tocado pelo seu genero de vida extraordinario e
-da sua eloquencia selvagem, enviou-lhe padres e levitas para saberem se
-era o Messias, ou Elias, ou simplesmente um propheta. Elle respondeu que
-não era propheta, nem Elias, nem Messias.--«Quem és então?, porque
-precisamos levar resposta aos que nos mandaram?»--«Sou a voz d'aquelle
-que grita no deserto:--tornae recto o caminho do Senhor!» E elle
-ajuntava:--«Aquelle que deve vir depois de mim é mais poderoso do que
-eu, e eu não sou digno de desatar os cordões do seu calçado. Moisés
-deu-vos a lei, mas o Christo vos dará a graça e a verdade.»
-
---Hoje estas palavras--_gritar no deserto_--teem um sentido desviado do
-primitivo. Significam na applicação--pregar, aconselhar, fallar em vão.
-
-
-
-
-LXVIII
-
-_Zoilo_
-
-
-Celebre grammatico e critico grego do quarto seculo antes de Christo, e
-cujo nome era já proverbial no tempo d'Ovidio. Nada se sabe ao certo,
-quanto ao logar do seu nascimento, circumstancias da sua vida e genero
-de sua morte. Tambem nos não chegou nenhuma das suas obras. Sabe-se
-sómente, pelo testemunho quasi unanime dos antigos que elle se
-encarniçou contra as obras d'Homero.
-
-Vitruvio pretende que Ptolomeu Philadelpho, indignado com as suas
-blasphemias litterarias, lhe infligiu o supplicio da cruz, ou o fez
-queimar vivo.
-
---O nome de _Zoilo_ designa o typo do critico apaixonado e de má fé.
-
- «No futuro, será _Zoilo_, com toda a furia,
- Aos _censores_ crueis uma cruel injuria.»
-
-
-
-
-LXIX
-
-_Aspasia_
-
-
-Mulher grega, natural de Mileto, celebre pelo seu espirito e pela sua
-belleza. Foi muito cedo para Athenas, aonde não tardou a exercer sobre
-os homens mais illustres d'essa epocha, Pericles, Alcibiades, o proprio
-Socrates, o ascendente irresistivel da eloquencia, da graça e da
-belleza. Pericles, arrastado pelos seus encantos, repudiou sua primeira
-mulher para a desposar. Ella exerceu sobre elle tal ascendente, que
-teve a maior parte nos negocios da Grecia, tornando-se um verdadeiro
-poder na republica. Dizia-se que as harengas de Pericles eram mais d'uma
-vez inspiradas por Aspasia. Accusada d'impiedade ella defendeu a sua
-propria causa com uma eloquencia que apesar de grande, não a teria
-salvo, se seu esposo não enternecesse os juizes com lagrimas. Essa
-mulher illustre deve ser classificada, não como demasiadas vezes o é, na
-classe das cortezãs, mas na das _hetairas_, mulheres gregas, dedicadas
-ás artes, á poesia, á propria sciencia, e que eram procuradas para os
-prazeres do espirito, e de que Aspasia foi um dos typos mais graciosos e
-mais perfeitos.
-
-Foi por justo titulo que o nome passou a significar entre os gregos a
-mais amavel das mulheres, como Alexandre o maior dos heroes,--e é n'este
-sentido que chamamos ainda hoje _Aspasia_ á mulher que reune os dons do
-espirito aos encantos da belleza.
-
-
-
-
-LXX
-
-_Babylonia_
-
-
-Assente sobre o Euphrates e embellezada por Semiramis, a Babylonia
-parecia ter sido a cidade mais esplendorosa da antiguidade. As suas
-muralhas de cincoenta pés de largura e d'uma altura prodigiosa, as suas
-cem portas de bronze, os templos, os palacios, as estatuas d'ouro, e,
-sobretudo, os seus jardins suspensos, tornavam-na a rainha das cidades
-antigas.
-
-Rival de Jerusalem foi muitas vezes em guerra com o povo judeu que alli
-passou setenta annos de captiveiro, durante os quaes um grande numero
-_não suspenderam as suas harpas nos salgueiros da margem_, e abandonaram
-a religião de seus paes. As Escripturas fallam de Babylonia como de um
-foco de corrupção e idolatria; fizeram-na a personificação do mundo
-profano, o receptaculo de todos os vicios e de todas as impurezas.
-Exasperados pela politica barbara dos babylonios os israelitas
-votaram-lhes um odio profundo, e a dissolução dos costumes, de que foram
-testemunhas no captiveiro, augmentou áquelle sentimento o do horror e do
-desgosto. D'aqui o nome de _grande prostituta_, que elles deram a essa
-cidade.
-
---Hoje, que já não existe a Babylonia, que os viajantes e archeologos
-nem mesmo podem encontrar-lhe o local, só o nome sobreviveu, e
-applica-se aos grandes centros populosos, como Londres, e, sobretudo,
-como Pariz, onde a agglomeração das massas, as riquezas, os progressos
-da industria e da civilisação engendram fatalmente a corrupção de
-costumes.
-
---Os protestantes, que pretendem ser os unicos observadores da lettra e
-do espirito evangelico, chamam á vida eterna--a _grande Babylonia_.
-
-
-
-
-LXXI
-
-_Incendiar os seus navios_
-
-
-Esta locução allude ao procedimento de alguns grandes capitães, que a
-historia nos representa incendiando os seus navios, que os haviam
-conduzido á abordagem nos barcos inimigos, afim de que os marinheiros e
-soldados, privados de toda a especie de fuga se vissem na contingencia
-de vencerem ou morrerem. Agathocles, tyranno de Syracusa foi o primeiro
-que na Costa d'Africa deu o exemplo d'esta resolução arrojada.
-
-O imperador Juliano poz fogo aos seus depositos e aos seus mil e cem
-navios, no Tigre, quando fez a sua expedição contra Sapor, um rei da
-Persia. Guilherme, o Conquistador, abordando a Inglaterra em 1066,
-recorreu ao mesmo expediente, que foi seguido da victoria d'Hastings.
-Roberto Guiscard, no perigo eminente em que se achava com a sua pequena
-armada deante das forças consideraveis de Alexis Commene, incendiou a
-sua frota e as suas bagagens e ganhou a victoria de Durazzo a 13
-d'outubro de 1084. Foi d'este modo, emfim, que Fernando Cortez,
-desembarcando na costa do Mexico preludiou a conquista d'esta região.
-
---Esta locução--_incendiar os seus navios_--passou a proverbio e quer
-dizer:--interdizer, subtrahir por uma iniciativa arrojada os meios de
-volver a uma resolução, de renunciar a uma empreza; pôr-se na
-impossibilidade de retroceder.
-
-
-
-
-LXXII
-
-_Os ultimos romanos_
-
-
-Chama-se geralmente assim aos romanos que, a exemplo de Catão,
-conservaram, n'uma sociedade em decadencia, os costumes e a virtude dos
-antigos tempos. Mas deu-se mais particularmente este nome a Bruto e a
-Cassio, que foram a alma da conspiração que victimou Cezar, e que depois
-de terem combatido nas planicies de Philippes contra os inimigos da
-liberdade romana, se deram a morte para não sobreviverem á sua perda.
-
-Philopeme, que luctou constantemente pela liberdade hellenica e depois
-da morte do qual, a Grecia se viu reduzida a provincia romana, é tambem
-chamado--_o ultimo dos gregos_.
-
---Estas palavras empregam-se, ora séria, ora ironicamente, para
-designarem todos quantos conservam a tradicção d'um passado, que são
-quasi os unicos a representar.
-
-
-
-
-LXXIII
-
-_Faça cabelleiras, mestre André_
-
-
-Em 1760 um cabelleireiro francez chamado André, arrojou-se a escrever
-uma tragedia em 5 actos, em verso, intitulada--_O terramoto de
-Lisboa_--e mandou a peça a Voltaire, que elle chamava _caro confrade_ na
-seguinte obra prima epistolar:
-
- AO ILLUSTRE E CELEBRE POETA
- M.ʳ DE VOLTAIRE
-
- «_Meu caro confrade._
-
-«É um estudante, noviço na arte da poesia, que se aventura a dedicar-lhe
-a sua primeira obra, tendo-o sempre reconhecido por um dos nossos
-celebres, pelas pomposas obras que tem dado e dá á luz todos os dias. Eu
-julgar-me-hei feliz se quizer lançar um rapido olhar a essa pequena
-obra, favorecendo-a com a menor das suas recordações. Faltaria a um
-grande dever se não confessasse que o reconheço por meu mestre. Se pela
-sua bondade se dignar favorecer-me eu prometto-me que, livre de todo o
-receio, publicarei constantemente os seus louvores e testemunharei em
-toda a parte, quanto lhe sou devedor por a haver acceitado.
-
-«Sou, M.ʳ e caro confrade, humillissimo e affeiçoado servo
-
- _André._»
-
-O grande poeta divertiu-se muito com esta singular e comica
-confraternidade. E respondeu ao _seu caro confrade_ com uma missiva de
-quatro paginas, encerrando apenas estas palavras, cem vezes
-repetidas:--«Faça cabelleiras, mestre André; faça cabelleiras, mestre
-André.»
-
-Esta espirituosa resposta fez dizer a mestre André que Voltaire
-envelhecia, porque começava a repetir-se.
-
-A obra prima de mestre André fez muito ruido, porque em 1805, mais de
-quarenta annos depois, um director alegre fez representar a peça _O
-terramoto de Lisboa_, n'um pequeno theatro de _boulevard_ e ella obteve
-um immenso successo comico, em oitenta representações successivas!
-
---A phrase--_faça cabelleiras_, tornou-se uma das locuções mais
-pittorescas da lingua franceza, com emprego em todas as outras. É uma
-traducção espirituosa e comica do _ne sutor ultra crepidam_, dos
-latinos.
-
-
-
-
-LXXIV
-
-_Fé do carvoeiro_
-
-
-Dá-se por origem a esta locução o seguinte conto. O diabo, disfarçado em
-eremita, e, segundo outros, em doutor de Sorbonne, entrou um dia na
-cabana de um carvoeiro e disse-lhe para o tentar:
-
---«Tu que crês?»
-
---«Eu creio o que crê a Santa Egreja».
-
---«E que crê a Santa Egreja?»
-
---«Crê o que eu creio.»
-
-E o nosso homem manteve-se n'estas respostas sem d'ellas sahir, e o
-espirito maligno foi obrigado a renunciar ao seu projecto, vendo a
-inutilidade de todos os seus estratagemas.
-
-Accrescenta um auctor que esse diabo era, por sem duvida, muito novo, e
-egualmente dos menos atilados, porque de outro modo elle teria
-embaraçado muito o carvoeiro fazendo-lhe a seguinte pergunta:
-
---«E que crêem, tu e a Santa Egreja?»
-
---A phrase--_fé do carvoeiro_, designa uma fé simples e ingenua, que crê
-sem exame.
-
-
-
-
-LXXV
-
-_Ha juizes em Berlim_
-
-
-O grande Frederico, rei da Prussia, desejava ampliar o seu parque de
-Sans-Souci, mas
-
- «Na encosta que escolhera o principe por si,
- Tinha o moinho um tal moleiro Sans-Souci;
- Vendedor de farinha, havia por costume
- Ganhar, a dia a dia, o pão sem azedume.
- E seja, emfim, qual fôr o lado d'onde vente
- A vela gira sempre, e elle dorme contente.
- . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
- Um projecto traçou um habil engenheiro,
- Que abrangia o moinho e o seu recinto inteiro.
- Mas ás vistas forçoso era renunciar,
- Ou cortar á extensão e o parque mascarar.
- Das construcções reaes, o intendente geral
- Fez chamar o moleiro e disse-lhe afinal:
- --«Quer-se o moinho teu; vê lá que valor tem.»--
- --«Não tem valor nenhum, que o não vendo a ninguem!
- «Quer-se o moinho, é boa! elle é meu e direi
- «Que, ao menos, tanto como a Prussia é só do rei»--
- --«Vamos, dize afinal--responde e tem cuidado!»--
- --«N'uma palavra?--
- --«Sim.--
- --«É meu, está declarado,
- «Já disse, nada mais!»--
-
- A recusa atrevida
- Ao principe se conta e é coisa decidida.
- Manda vir á presença o insolito moleiro,
- Promette inutilmente, aperta, é lisongeiro,
- Mas teima Sans-Souci--«Ouvi, Sire, a razão
- Porque vender não posso o moinho em questão.
- Meu avô lá morreu; lá tive um filho ha um mez,
- É o meu Postdam, Senhor. Sou teimoso, talvez;
- Nunca o fostes jámais? Nem mil ducados, não,
- No fim d'esse discurso a mim me tentarão!
- Passae sem elle, Sire, e ninguem mais insista!»
-
- Soffrem difficilmente os reis quem lhes resista,
- E Frederico acode, o humor arrebatado:
- --«Irra! que estás ao teu moinho bem pegado!
- Ora atéqui tratei d'obtel-o e de pagal-o,
- Mas sabes que, sem paga, eu posso exproprial-o!
- O dono eu sou!»--
- --«Levar sem paga o moinho, a mim?
- Talvez, _se não houvesse os juizes em Berlim!_»--
-
- Do capricho o monarcha, ouvindo-o, em si cahia,
- Contente, porque o reino inda em justiça cria;
- E volvendo-se a rir para o seu architecto:
- --«Eu acho que é melhor mudarmos de projecto.
- Visinho guarda a casa, has respondido bem.»--
- . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
-
---Estas palavras--_ha juizes em Berlim_--que o poeta francez Andrieux
-não fez senão citar na encantadora narrativa que vimos de traduzir
-incompletamente, porque são historicas, formaram uma locução proverbial
-que se emprega em todas as circumstancias analogas, isto é, quando a
-força pretende vencer o direito.
-
-Cabe aqui, a proposito do moinho de Sans-Souci um pequeno caso que não
-deixa de ser interessante.
-
-O famoso moinho é ainda hoje propriedade do bisneto do obstinado
-moleiro. Mas n'essa familia os homens seguem-se e não se parecem.
-
-Assim, o descendente de Sans-Souci, necessitado de dinheiro fez saber ao
-descendente de Frederico II, que estava disposto a ceder-lhe o moinho. O
-principe respondeu-lhe com esta espirituosa carta:
-
- «Meu caro _visinho_.
-
-«O moinho não lhe pertence, nem a mim, pertence á historia; é-nos pois,
-impossivel, a si, vendel-o, a mim, compral-o. Mas como entre visinhos e
-visinhos bons deve haver auxilio, mando-lhe um cheque de 10:000 florins,
-que póde receber do thesouro.»
-
-
-
-
-LXXVI
-
-_Judas--Beijo de Judas_
-
-
-Dois dias antes da Paschoa, Jesus disse aos seus discipulos:--«Chegou o
-dia em que o Filho do Homem vae ser entregue para ser crucificado.» E ao
-mesmo tempo os principes dos padres e os mais velhos do povo, reunidos
-em casa de Caiphaz, concertavam-se sobre os meios de se apoderarem de
-Jesus e o fazerem morrer. Mas receiavam excitar qualquer agitação
-popular.
-
-Foi então que Judas, um dos apostolos, se chegou e combinou entregar o
-seu mestre, mediante trinta dinheiros. De tarde Jesus poz-se á meza com
-os seus discipulos e annunciou-lhes que um d'elles o trahiria.--«Serei
-eu, Senhor?»--lhe perguntou Judas, e depois da resposta do Salvador,
-deixou a meza e foi-se, excitado pelo mau espirito. Em seguida Jesus
-sahiu da cidade, seguido dos seus discipulos, e dirigiu-se ao monte das
-Oliveiras, a um logar chamado Gethsemani. Logo appareceu Judas
-acompanhado d'um grupo de soldados aos quaes tinha dito: «Prendam
-aquelle que eu beijar, é elle que procuram.» E approximando-se de
-Jesus, beijou-o e disse-lhe:--«Mestre, eu te saudo.» Jesus censurou-lhe
-o seu crime com doçura:--«Judas, entregas o Filho do Homem com um
-beijo!» E avançou para os soldados que se lançaram a elle e o ligaram.
-
---O nome de _Judas_ ficou como a personificação do traidor, do homem
-profundamente hypocrita, e o _beijo de Judas_, como para designar o acto
-pelo qual se pratica a traição. Assim chamar Judas a alguem é
-dirigir-lhe a mais pungente das injurias. E comprehende-se que uma tal
-comparação seja repellida com indignação.
-
-
-
-
-LXXVII
-
-_Pragas do Egypto_
-
-
-Moisés acompanhado de seu irmão Aarão, apresentou-se perante Pharaó, que
-recusou reconhecer as ordens de Deus. Então Moisés e Aarão feriram
-successivamente o paiz com dez flagellos, chamados--_pragas do Egypto_.
-
- 1.º--Agoas transformadas em sangue;
- 2.º--O Egypto todo coberto de rãs;
- 3.º--Os insectos devoradores;
- 4.º--Grandes moscas insupportaveis;
- 5.º--Peste;
- 6.º--Chagas nos homens e nos animaes;
- 7.º--Tempestades de saraiva e trovoadas;
- 8.º--Nuvens de gafanhotos;
- 9.º--Trevas espessas;
- 10.º--Morte de todos os recemnascidos.
-
-O coração endurecido do rei só cedeu a esta ultima praga, a mais
-espantosa de todas, e os Hebreus partiram para Ramassés em numero de
-seiscentos mil homens, sem contar-se as creanças.
-
---Quando se falla _das pragas do Egypto_ na linguagem figurada é quasi
-sempre á dos gafanhotos que se faz allusão.
-
-
-
-
-LXXVIII
-
-_Não toqueis na rainha_
-
-
-Os reis d'Hespanha usavam uma regra d'etiqueta exaggerada até á
-estupidez. Todo o individuo que tocasse o pé da rainha, fosse qual fosse
-a causa, era condemnado á morte e executado immediatamente.
-
-A joven rainha, esposa de Carlos II, montou um dia a cavallo para um
-passeio com as suas damas e os seus cortezãos. A breve trecho o cavallo
-espanta-se e expelle-a, mas por fórma que o pé da princeza ficou preso
-ao estribo e o furioso animal se poz a arrastal-a. Uma immensa multidão
-assistia a este triste espectaculo, mas ninguem ousava soccorrel-a por
-causa da etiqueta. Ia, de certo, ser victima d'esse terrivel accidente,
-quando dois jovens officiaes francezes, que alli se achavam por acaso,
-resolveram salval-a. Lançam-se impavidamente, e em quanto que um
-suspende o cavallo pelo freio, o outro consegue desligar o pé da rainha,
-que, afinal, apenas soffreu o susto e algumas contusões.
-
-Elles fugiram logo, e era tempo, porque iam ser presos, e Deus sabe o
-que faria a etiqueta! No dia seguinte a rainha, muito molestada foi
-obrigada a deixar os seus aposentos, para fallar ao rei, de quem
-conseguiu a graça dos seus salvadores, mas com a condição de que
-deixariam a Hespanha immediatamente.
-
-De resto era egualmente perigoso tocar no rei, fóra das severas leis da
-etiqueta. Eis a este respeito um facto que difficilmente se poderia crer
-se não fosse historico.
-
-Estando doente Filippe III achava-se sentado n'um _fauteuil_, muito
-junto da chaminé do fogão, aonde acabava de accender-se o lume, e aonde
-se havia depositado uma certa quantidade de material combustivel. O
-calor tornou-se, em breve, intoleravel e o rei disse aos cortezãos para
-retirarem algumas achas; mas como o duque accendedor-mór não estava
-presente, e só elle tinha o direito de bulir no lume da real camara,
-nenhum dos assistentes ousou commetter tão grande infracção da etiqueta.
-Por outro lado, ninguem podia tocar no _fauteuil_ do rei a não ser o
-camareiro-mór, que egualmente estava ausente, e, emfim, era prohibido
-sob pena de morte, tocar na sagrada pessoa de sua magestade, de que
-resultou deixarem os cortezãos tranquillamente assar o rei, embora
-lamentando-se por tão triste sorte. Quando os dois funccionarios
-chegaram já era tarde: o rei estava moribundo e pouco sobreviveu a este
-cruel supplicio!
-
-
-
-
-LXXIX
-
-_O ovo de Colombo_
-
-
-A 15 de Março de 1493, Christovam Colombo, que vinha de fazer uma das
-mais admiraveis descobertas de que se honra o espirito humano, aportava
-a Palos, de onde tinha partido sete mezes e meio antes. Foi recebido
-com grande enthusiasmo. Os sinos repicaram, os magistrados seguidos de
-todos os habitantes desceram á praia a recebel-o. O trajecto até á côrte
-foi um triumpho continuo; de toda a parte se corria para vêr o homem que
-tinha terminado, tão felizmente, uma empreza que toda a gente julgára
-impossivel. Toda a cidade foi ao seu encontro. Elle ia no meio dos
-indios que trouxera comsigo na sua entrada em Barcellona, e que
-conservaram o costume do seu paiz. Uma multidão de objectos
-desconhecidos e cuja vista dominava vivamente os espiritos eram
-conduzidos na vanguarda em corbeilles e bandejas descobertas. Elle
-avançou assim no meio d'um concurso immenso até ao palacio dos reis
-d'Hespanha. Fernando e Isabel esperavam-no sentados no throno. Quando
-elle appareceu, no meio do seu cortejo, levantaram-se. Colombo
-lançou-se-lhes aos pés, mas elles ordenaram-lhe que se sentasse. O
-illustre navegador narrou-lhes a viagem e descobertas que fez. Em
-seguida apresentou-lhes os indios que o acompanhavam e os objectos
-preciosos que havia trazido. Toda a gente se poz de joelhos, e cantou-se
-na propria sala do throno um cantico em acção de graças. Fernando
-confirmou a Colombo todos os seus privilegios, e permittiu-lhe juntar ao
-seu brazão, as armas da sua familia, as do reino de Castella e Leão, com
-os emblemas das suas dignidades e das suas descobertas. Todos os seus
-parentes foram cumulados de provas da munificencia real.
-
-Com tão grandes honras Christovam Colombo podia julgar-se ao abrigo dos
-golpes subitos da fortuna. E, comtudo, nunca um homem os sentiu d'um
-modo mais terrivel e mais cruel!
-
-Iam mal passados ainda os primeiros transportes do enthusiasmo e já a
-maldade e a inveja haviam começado a erguer a cabeça. Procuraram por
-meio de perfidas insinuações entibiar o merito d'essa immortal
-descoberta.--«Dado o primeiro passo, o novo mundo viera a elle d'algum
-modo; o seu genio consistia apenas n'uma longa, mas trivial paciencia;
-em uma palavra, para descobrir a America, _não tinha sido preciso pensar
-n'isso_ ...» Tal era já a ousadia dos detractores, que faziam circular
-estes propositos, um dia, á meza d'um grande d'Hespanha para que fôra
-convidado Colombo.
-
-O grande homem permaneceu silencioso durante toda a discussão; mas n'um
-dado momento e depois de haver reflectido, fez vir um ovo e
-apresentando-o aos nobres convivas, disse-lhes:
-
---«Qual de vós, senhores, se sente capaz de fazer com que este ovo se
-sustente ao alto, por uma das extremidades?»
-
-O ovo começou a circular, passando de mão para mão, até que voltou a
-Colombo, sem que qualquer dos presentes houvesse resolvido o problema.
-Elle, então, tomou-o, bateu-o levemente no prato e o ovo ficou em
-equilibrio. Cada qual exclamou:
-
---«Isso não era difficil!
-
---«Sem duvida--replicou Colombo com um sorriso ironico--comtudo _era
-preciso pensal-o!_»
-
---O _ovo de Christovam Colombo_ passou a uma especie de proverbio, a que
-se allude a proposito d'uma coisa que se não póde fazer, e que se
-encontra facil, depois de feita.
-
-
-
-
-LXXX
-
-_Waterloo_
-
-
-Napoleão, depois de ter fundado um imperio mais vasto e mais poderoso
-que o de Carlos Magno; depois de ter visto a Europa inteira tremer com a
-sua presença e submetter-se a todas as suas vontades, emprehendeu a
-funesta campanha da Russia, em que o exercito mais formidavel foi
-vencido, não pelos homens, mas pelos elementos e pelo rigor do clima.
-
-Essa longa jornada da Russia foi realmente o termo da brilhante fortuna
-que collocou Napoleão, como o primeiro dos mais illustres
-conquistadores; mas como ella relembra ao espirito uma série multipla
-de desastres, o seu nome, por muito funesto que pareça, não podia ser
-escolhido para designar uma ruina subita, um esboroamento rapido. Foi a
-derrota de Waterloo, que recebeu esta consagração.
-
-Depois de se ter visto forçado a abdicar em Fontainebleau, depois de ter
-mudado o seu poderoso imperio pela soberania irrisoria d'uma ilha, em
-que apenas contava alguns milhares de subditos, Napoleão, por uma
-d'essas inspirações repentinas, que constituiam o caracter particular do
-seu genio, escapou-se á vigilancia de que era objecto, desembarcou em
-Cannes, e marchou sobre Pariz sem encontrar resistencia. Os Bourbons,
-dominados pelo terror, abandonam a França, e Napoleão entra como senhor
-nas Tulherias, d'onde, durante dez annos, dera a lei á Europa.
-
-Mas este successo admiravel não tinha solidez. A coalisão da Europa não
-estava dissolvida, e ia reformar-se, mais potente que nunca, e a França,
-exangue d'homens e de recursos, fatigada d'essas guerras interminaveis,
-que arruinavam o commercio e a industria, não ia oppor uma resistencia
-sem impeto, quasi passiva, e que facilmente seria vencida.
-
-No entretanto, Napoleão desenvolve ainda uma vez a energia, a decisão,
-que fulminaram tantos inimigos; mas os seus officiaes parecem ter
-perdido o vigor d'outr'ora.
-
-Em Waterloo, comquanto não tenha mais que quinze mil combatentes a oppor
-a forças duplas das suas, a habilidade das suas disposições parece a
-principio fazer pender a victoria para o seu lado; mas o general
-prussiano Blucher, que Grouchy não póde, não sabe, ou não quer deter,
-chega com as suas forças frescas, faz mudar a face ao combatente, e o
-exercito francez, o ultimo exercito de Napoleão, é esmagado.
-
-D'esta vez a fortuna do Cezar moderno estava despedaçada para sempre, e
-os derradeiros exforços que pôde desenvolver ainda, serviram apenas para
-lançarem algum brilho sobre os ultimos momentos d'esse astro, outr'ora
-tão brilhante.
-
---A palavra _Waterloo_ emprega-se muito para designar a ruina completa e
-fatal d'uma coisa, que foi grande e que, por muito, parecia ser
-estavel.
-
-
-
-
-LXXXI
-
-_Templo de Jano_
-
-
-O famoso templo de Jano, que foi fundado em Roma por Numa, estava aberto
-durante a guerra e fechado no periodo da paz. Jano, o mais antigo rei
-d'Italia, ácerca do qual os mythologos teem dificuldade em se
-entenderem, passava por ter tido um reinado longo e tranquillo, o que o
-fizera considerar como o deus da paz e o tinha posto em grande honra
-para Numa, o rei mais sabio que teve Roma.
-
-Durante um periodo de quasi mil annos, o templo de Jano só foi fechado
-oito vezes: a primeira no reinado de Numa; a segunda, no anno 519, de
-Roma, depois da primeira guerra punica; a terceira, no anno 723, depois
-da batalha d'Actium; a quarta, no anno 730, depois da guerra cantabrica;
-a quinta, no anno 740, apoz a pacificação da Germania; a sexta, no anno
-824, por Vespasiano, depois da conquista da Judeia; a setima, no anno
-834, por Domiciano, em seguida á guerra dos Dacios, e a ultima, no anno
-994, por Gordio III, vencedor dos persas.
-
-É esta a ultima menção que a historia faz d'esta cerimonia. Virgilio, no
-livro VII da _Eneida_, fez a descripção do templo de Jano e do
-cerimonial que presidiu á sua abertura.
-
---É por allusão a este templo, que se diz no estylo oratorio, e,
-sobretudo, em poesia--_abrir o templo de Jano_--para fazer guerra,
-começal-a, declaral-a, e--_fechar o templo de Jano_--para conclusão do
-tratado de paz, e pôr fim ás hostilidades.
-
-
-
-
-LXXXII
-
-_Estatua de Nabuchodonosor_
-
-
-Nabuchodonosor II, cognominado o _Grande_, rei da Babylonia, tivera um
-sonho espantoso, mas de que ao despertar se não lembrava absolutamente
-nada. Nenhum dos magos da côrte pôde avivar-lhe a visão. O joven Daniel,
-então captivo na Babylonia, foi mandado vir á presença do rei e
-disse-lhe:
-
---«Eis o que viste, rei:--Havia uma estatua immensa, cuja cabeça era
-d'ouro, o peito e os braços de prata, o ventre e as côxas de bronze, as
-pernas de ferro e os pés de barro. De repente deslocou-se por si uma
-pedra da montanha, e indo ferir os pés da estatua, fel-a pedaços. Então
-os quatro metaes quebrados tornaram-se como o pó, que enche a
-athmosphera, no verão, e tendo-se levantado um grande vento, tudo levou.
-Mas a pedra que despedaçára a estatua tornou-se uma montanha immensa,
-que encheu toda a terra. Eis o teu sonho, ó rei, e agora a sua
-interpretação:--Tu és o rei dos reis; és tu, pois, a cabeça de ouro.
-Ha-de haver depois de ti um reino menor que o teu, que será de prata,
-depois um terceiro de bronze, que mandará em toda a terra. O quarto
-reino reduzirá tudo a pó como o ferro quebra tudo, mas assim como a
-estatua, de pés de barro, elle se dividirá por sua vez. Então Deus
-suscitará um reino para sempre eterno, que derribará e destruirá todos
-os reinos, como a pedra deslocada da montanha partiu a estatua e lançou
-ao vento o seu pó.»
-
-Era a imagem dos quatro grandes imperios d'Assyria, da Persia, da
-Macedonia e de Roma, que, destruindo-se successivamente uns aos outros,
-deviam todos ser absorvidos por um imperio immenso e immortal, o de
-Jesus Christo n'este mundo.
-
---No estylo elevado faz-se muitas vezes allusão ao colosso de
-Nabuchodonosor, quando se quer exprimir que ha liga nas coisas,
-apparentemente mais puras, que os genios mais sublimes se prendem por
-qualquer ponto fraco aos lados vulgares da humanidade, que o poder que
-parece mais solidamente estabelecido não tem muitas vezes senão uma base
-fragil, que a circumstancia mais imprevista póde fazer cahir.
-
-Assim, por exemplo, um escriptor contemporaneo, fallando da guerra de
-1809, que foi a origem de todas as desgraças de Napoleão, diz:
-
---«Foi na outra extremidade do continente, foi em Portugal que se fez
-sentir o primeiro estalido, e que se percebeu de repente que a _estatua
-colossal tinha um pé de barro_.»
-
-
-
-
-LXXXIII
-
-_Sepulchros do Evangelho_
-
-
-No capitulo XXIII do Evangelho, segundo S. Matheus, Jesus Christo
-levanta-se contra os impostores e hypocritas, com uma força d'expressão,
-uma vehemencia de linguagem, que espantam, n'aquella bocca divina,
-habituada a só fazer ouvir palavras de mansidão e de caridade. Elle não
-reprehendeu nenhum vicio com tanta energia, e quando nos lembramos da
-sua celeste indulgencia para com a mulher adultera, admiramo-nos do
-anathema terrivel que dardeja aos scribas e phariseus. É que nas
-inspirações da sua sublime natureza Jesus Christo bebia a certeza de que
-a hypocrisia é capaz de todos os crimes, que ella os contem todos em
-germen.
-
- * * * * *
-
-«Desgraça a vós! scribas e phariseus hypocritas, que purificaes o
-exterior da taça e do vaso, em quanto que por dentro sois cheios de
-rapinas e de maculas!»
-
-«Phariseus cegos, purificae primeiro o interior da taça e do vaso, afim
-de que o exterior seja puro tambem!»
-
-«Desgraça a vós! scribas e phariseus hypocritas, porque sois semelhantes
-a _sepulchros caiados_, que, por fóra parecem bellos aos homens, mas por
-dentro são cheios d'ossos e podridão!»
-
- * * * * *
-
---A applicação d'esta phrase _sepulchros caiados_, ou a
-equivalente--_sepulchros do Evangelho_--sobresáe claramente do texto que
-citamos, quando se dirige ás pessoas; quanto ás coisas, caracterisa tudo
-quanto tem mais apparencia de brilho, que fundo e realidade.
-
-
-
-
-LXXXIV
-
-_Isso que prova?_
-
-
-Não temos a pretensão de exprimir uma verdade muito nova, dizendo que as
-mathematicas não são irmãs da poesia, embora Urania seja uma das nove
-Musas. E se não era mathematico, era digno de sel-o, aquelle que
-interrogado ácerca do effeito que lhe produzia a audição d'uma opera,
-respondeu:
-
---«O mesmo que o d'um sacco cheio de pregos, agitado vigorosamente.»
-
-O mathematico habituado a medir tudo a regua e compasso, a tirar
-deducções por meio de raciocinios evidentes, fica quasi sempre
-insensivel ás bellezas da harmonia e do sentimento.
-
-Um geometra assistia a uma representação da _Phedra_, e em quanto que
-todos os outros espectadores derramavam lagrimas, commovidos por essa
-magnifica poesia, que mostra em scena
-
- «. . . . . . essa dor virtuosa»
- «De Phedra, a pezar seu, perfida, incestuosa»
-
-elle ficava frio, impassivel e contentava-se em dizer nas passagens mais
-patheticas:
-
---«Isso que prova?»
-
-O astronomo francez Villemont, menos exclusivo, nunca deixava de dizer
-d'um fragmento de poesia que lhe causasse prazer:
-
---«É bello como uma equação!»
-
-Era para elle o superlativo da admiração.
-
-
-
-
-LXXXV
-
-_Manná_
-
-
-Quando os hebreus chegaram ao deserto e viram as provisões esgotadas,
-começaram a murmurar contra Moisés, dizendo:--«Conduzistes-nos a este
-logar para nos fazerdes morrer de fome?»--Moisés respondeu-lhes da parte
-do Senhor:--«Esta tarde comereis carne, e amanhã estareis saciados de
-pão.»--Com effeito, de tarde uma enorme quantidade de rôlas veio pousar
-sobre o campo, e no dia seguinte, pela manhã, um orvalho matutino cobria
-toda a planicie. Era uma especie de pó branco que tinha o gôsto da mais
-fina farinha misturada com mel.
-
-Este alimento chamava-se _manná_. Os hebreus deviam apanhal-o em cada
-manhã e antes do nascimento do sol, e só em quantidade necessaria para o
-dia, excepto na vespera do _sabbat_ em que deviam tambem recolhel-o para
-o dia seguinte. Alguns deixando-o de um para o outro dia encontravam-no
-corrompido.
-
-Ora os filhos d'Israel nutriram-se d'este orvalho celeste durante os
-quarenta annos que viveram no deserto, até á sua entrada na terra da
-promissão.
-
---Comprehende-se que--_manná_--ou--_é um manná_--se não póde applicar
-senão n'um sentido metaphorico, como por exemplo:
-
---A verdade _é um manná_ divino, com que se deve sustentar o espirito e
-o coração.
-
-
-
-
-LXXXVI
-
-_Annel de Gyges_
-
-
-Gyges era um moço pastor da Lydia. Um dia vendo entreabrir-se a terra,
-desceu pela abertura, e viu, entre outras maravilhas um cavallo de
-bronze, completamente ôcco, com portas nas ancas. Abriu-as e encontrou
-um cadaver de grandeza mais que humana, tendo em um dedo um annel
-d'ouro. Esse annel, desde que se voltava o engaste para o lado interior
-da mão, tinha o poder de tornar invisiveis aquelles que o usassem. Gyges
-apoderou-se d'esse precioso talisman e dirigiu-se á côrte, aonde o annel
-foi a origem d'uma brilhante fortuna, porque o possuidor não tardou a
-tornar-se favorito e primeiro ministro.
-
---Não são raras as circumstancias em que cada qual desejaria ter no dedo
-o annel de Gyges. Qual é o que nunca se viu collocado n'alguma d'essas
-situações criticas, que fazem desejar, como vulgarmente se diz, «estar a
-cem braças pela terra dentro»? Por outro lado, que não daria a gente, em
-determinadas occasiões, para se encontrar invisivel, em certos logares,
-em que se debatem os nossos mais caros interesses, e o nosso destino?
-
-D'aqui a frequente applicação que se faz do _annel de Gyges_, em
-litteratura e na conversação.
-
-O espirituoso Alphonse Karr quiz ver no annel de Gyges uma allegoria que
-explicou a seu modo n'estes versos:
-
- «Quem de Gyges o annel, conta, maravilhoso
- «Nos casos falsos, ou na pura phantasia,
- «--Agora o sei--a si se engana em demasia,
- «Porque o frisante exemplo é grande, é numeroso.
- «Se sois feio e sois mau, sem genio e já d'idade
- «Ponde, á noite um annel, no vosso indicador,
- «Com um brilhante que tenha um subido valor,
- «E vereis como faz a sua claridade,
- «Sob os raios da luz, em ponto bem escolhido,
- «Dar-vos genio e belleza, e juventude, e encanto.
- «Se sois mau e imbecil, elle vos faz um santo,
- «Dizei quanto quereis, que já sois applaudido!»
-
-
-
-
-LXXXVII
-
-_Honni soit qui mal y pense_
-
-
-Divisa da ordem da Jarreteira, instituida em Inglaterra em 1340 por
-Eduardo III. Em um baile da côrte que elle dava em honra da condessa de
-Salisbury, sua favorita, esta deixou cahir, dançando, uma liga, que era
-azul. O rei apressou-se a apanhal-a, e expoz assim a formosa condessa
-aos sorrisos malignos e aos maus propositos dos convidados.
-
---«Senhores--exclamou Eduardo III--_honni soit qui mal y pense_. Os que
-riem agora hão-de honrar-se um dia por usarem um objecto semelhante,
-porque a liga será posta em tanta honra que até os mais zombadores a
-procurarão com avidez!»
-
-E no dia immediato instituia a Ordem da Jarreteira, que é uma das mais
-célebres da Europa.
-
-A principal insignia consiste n'uma liga de velludo azul, que se aperta
-por cima do joelho esquerdo com uma fivela de ouro, sobre a qual se lê:
-_Honni soit qui mal y pense!_--Maldito seja quem d'isto mal pensar.
-
-A rainha usa-a no braço. Só os principes soberanos ou as pessoas d'alta
-distincção podem ser membros da Ordem. O numero dos primeiros é
-illimitado, mas os outros não podem ser mais de vinte e seis.
-
---A famosa divisa tornou-se proverbial e emprega-se para fazer
-comprehender que se affronta a opinião, n'uma circumstancia sujeita a má
-interpretação, d'equivoca apparencia.
-
-
-
-
-LXXXVIII
-
-_Mal com el-rei pelos homens e mal com os homens por el-rei_
-
-
-Esta phrase, que bem exprime as apertadas circumstancias em que o homem
-tantissimas vezes se encontra, de não poder, de modo algum, satisfazer e
-contentar a todos, é do grande Affonso d'Albuquerque.
-
-Avisado elle de que el-rei D. Manoel lhe ordenava o regresso ao reino,
-fazendo-o substituir no governo da India por Lopo Soares, com o qual
-seguiam Diogo Pereira e Diogo Mendes, um como secretario e outro como
-capitão de Cochim, e ambos de lá enviados a Portugal sob prisão pelo
-valente governador, por delictos graves, exclamou:
-
---Mal com el-rei pelos homens e mal com os homens por amor de el-rei.
-
-A phrazeologia popular formulou o mesmo pensamento de um modo, se não
-tão primoroso, pelo menos egualmente expressivo, quando disse:
-
---Preso por ter cão, preso por não o ter.
-
-Vê-se claramente qual o emprego da locução do grande capitão, e não é
-difficil nem raro que cada um tenha varias occasiões, infelizmente, de
-applical-a a si proprio.
-
-
-
-
-LXXXIX
-
-_Bandeira da Misericordia_
-
-
-D'antes, por um privilegio, fundado, decerto, n'um principio caritativo,
-as irmandades da Misericordia eram obrigadas--e no Estatuto d'algumas se
-acha consignada esta obrigação--a acompanhar com a respectiva bandeira,
-os condemnados a pena ultima, desde o carcere ao local do supplicio.
-
-Alli, tanto que a victima era executada cobria-a immediatamente essa
-bandeira, o que equivalia a tomar a Misericordia conta do cadaver, a
-fim de prevenir ou evitar profanações no corpo, por parte dos populares,
-arrastados, muitas vezes, a scenas bem pouco edificantes, pela excitação
-de odios e de paixões violentas e desordenadas.
-
-Quando acontecia que a corda se quebrava--no supplicio da forca--e o
-paciente cahia com vida, desde que a bandeira o cobrisse, estava salvo.
-
-Nas ultimas execuções d'este genero, realisadas em Vizeu, no largo de
-Santa Christina, no tempo das luctas do absolutismo, aconteceu que um
-dos pacientes, graças a um convenio com o carrasco, cahiu com vida e foi
-coberto com a bandeira da Misericordia.
-
-Uma mulher, porém, que ainda morreu ha poucos mezes, e que tinha a
-triste e original mania de assistir a todos os actos lugubres e a todas
-as scenas mais contristadoras, por um assomo de curiosidade feminina foi
-levantar uma ponta da bandeira. O desgraçado, que se fingia morto,
-imaginando que era algum dos que conhecia o convenio para a sua
-salvação, abriu os olhos, e tanto bastou para que a original mulher
-começasse a gritar que elle estava ainda vivo.
-
-A populaça desenfreada cahiu sobre o infeliz e cevou as suas iras.
-
-D'esta vez a bandeira não valeu.
-
---Do privilegio d'esse estandarte nasceu a locução de--_bandeira da
-Misericordia_,--d'um grandissimo emprego, sobretudo, na conversação
-familiar, servindo para designar toda a intervenção caritativa para a
-suspensão ou allivio d'uma pena ou d'um castigo.
-
- * * * * *
-
-A critica poderá encontrar motivo para exercer-se, no delineamento e
-execução d'esta despretenciosa obra, mas a benevolencia será a _bandeira
-da Misericordia_, que ha-de abrandar a dureza das apreciações.
-
-
-
-
-INDICE
-
-
- PAG.
-
- DO AUCTOR . . . . . . . . . . . . . . . 7
- I--Amanhã os negocios sérios . . . . . . 9
- II--Alexandre . . . . . . . . . . 11
- III--Audacia, ainda audacia e sempre audacia . 19
- IV--Delicias de Capua . . . . . . . . 21
- V--Disse eu alguma tolice? . . . . . . . 23
- VI--Arca de Noé . . . . . . . . . . 24
- VII--Queimar não é responder . . . . . . 25
- VIII--Caim, que fizeste de teu irmão? . . . . 26
- IX--Do Capitolio á rocha Tarpeia só ha
- um passo . . . . . . . . . 27
- X--Catão . . . . . . . . . . . . 29
- XI--Cezar . . . . . . . . . . . . 30
- XII--Estava escripto . . . . . . . . . 40
- XIII--Conhece-te a ti proprio . . . . . . 41
- XIV--As joias de Cornelia . . . . . . . 42
- XV--Cresus . . . . . . . . . . . 43
- XVI--Dôr, tu não és um mal . . . . . . . 44
- XVII--Egéria . . . . . . . . . . . 46
- XVIII--Mais uma victoria como esta e estamos
- perdidos . . . . . . . . . . 47
- XIX--Espada de Damocles . . . . . . . 49
- XX--O prato de lentilhas . . . . . . . 51
- XXI--E eu tambem sou pintor! . . . . . . 52
- XXII--Estrella dos Reis Magos . . . . . . 53
- XXIII--E, comtudo, ella gira! . . . . . . 54
- XXIV--Virtude, não és mais que um nome . . . 56
- XXV--Festim de Balthazar . . . . . . . 57
- XXVI--Forcas caudinas . . . . . . . . 59
- XXVII--Irmão é preciso morrer . . . . . . 61
- XXVIII--Cahir com graça . . . . . . . . 62
- XXIX--Hippocrates diz sim, Galiano diz não . . 63
- XXX--É muito tarde . . . . . . . . . 64
- XXXI--Não ha grande homem para o seu creado
- de quarto . . . . . . . . . 66
- XXXII--Cantam, elles pagarão . . . . . . . 67
- XXXIII--Perdi o meu dia . . . . . . . . . 68
- XXXIV--Amo Platão, mas amo mais a verdade . . . 69
- XXXV--Achei!--Eureka! . . . . . . . . . 70
- XXXVI--Eu desejaria não saber escrever . . . . 72
- XXXVII--Linguas d'Esopo . . . . . . . . . 73
- XXXVIII--Lanterna de Diogenes . . . . . . . 75
- XXXIX--O mestre o disse . . . . . . . . 76
- XL--O rei é morto, vive o rei! . . . . . 77
- XLI--O estado sou eu! . . . . . . . . 78
- XLII--Alavanca d'Archimedes . . . . . . 79
- XLIII--Magdalena . . . . . . . . . 80
- XLIV--Casa de Socrates . . . . . . . . 81
- XLV--Desgraça aos vencidos! . . . . . . . 83
- XLVI--Manto de Joseph . . . . . . . . 84
- XLVII--Mario sobre as ruinas de Carthago . . . 85
- XLVIII--Subir ao Capitolio . . . . . . . 86
- XLIX--Onde não ha el-rei o perde . . . . . 88
- L--Onde se vae aninhar a virtude? . . . . 89
- LI--Perdoae-lhes, meu Pae, não sabem o
- que fazem . . . . . . . . . 90
- LII--Lavar as mãos como Pilatos . . . . . 91
- LIII--O que não peccou, atire a primeira pedra 93
- LIV--Tres linhas escriptas e eu farei enforcar
- quem as escreveu . . . . . . 94
- LV--Quem te fez conde? Quem te fez rei? . . 96
- LVI--A Cezar o que é de Cezar a Deus o
- que é de Deus . . . . . . . . 97
- LVII--Salto de Leucade . . . . . . . . . 99
- LVIII--Se é possivel, está feito; se é impossivel
- se fará . . . . . . . . . 100
- LIX--Terra promettida . . . . . . . . . 102
- LX--Thebaida . . . . . . . . . . 103
- LXI--Desça o panno acabou a comedia! . . . . 105
- LXII--Tudo é perdido, menos a honra . . . . 106
- LXIII--Trombetas de Jericó . . . . . . . 108
- LXIV--A tunica de Christo . . . . . . . 109
- LXV--Um imperador deve morrer em pé . . . . 110
- LXVI--Vendilhões expulsos do templo . . . . 111
- LXVII--Gritar no deserto . . . . . . . 112
- LXVIII--Zoilo . . . . . . . . . . . 113
- LXIX--Aspasia . . . . . . . . . . . 114
- LXX--Babylonia . . . . . . . . . . . 116
- LXXI--Incendiar os seus navios . . . . . . 117
- LXXII--Os ultimos romanos . . . . . . . 119
- LXXIII--Faça cabelleiras, mestre André . . . . 120
- LXXIV--Fé do carvoeiro . . . . . . . 122
- LXXV--Ha juizes em Berlim . . . . . . . 123
- LXXVI--Judas--Beijo de Judas . . . . . . . 126
- LXXVII--Pragas do Egypto . . . . . . . . 127
- LXXVIII--Não toqueis na rainha . . . . . . . 128
- LXXIX--O ovo de Colombo . . . . . . . 130
- LXXX--Waterloo . . . . . . . . . . . 133
- LXXXI--Templo de Jano . . . . . . . . . 136
- LXXXII--Estatua de Nabuchodonosor . . . . . 137
- LXXXIII--Sepulchros do Evangelho . . . . . . 139
- LXXXIV--Isso que prova? . . . . . . . . 141
- LXXXV--Manná . . . . . . . . . . . 142
- LXXXVI--Annel de Gyges . . . . . . . . . 144
- LXXXVII--Honni soit qui mal y pense . . . . . 146
- LXXXVIII--Mal com el-rei pelos homens e mal
- com os homens por el-rei . . . . . 147
- LXXXIX--Bandeira da Misericordia . . . . . . 148
-
-
-
-
-=Biblioteca do Lar=
-
- =Henry Ardel=
-
- Um conto azul
- Caminho em declive
- Fogo mal extinto
- É preciso casar o João!
- A alvorada
- Uma aventura imprudente
- A divina canção
- A noite desce
- Eva e a serpente
-
- =B. Jeanroy=
-
- Dois corações
-
- =M. La Bruyére=
-
- Flor de Lis
-
- =M. Damad=
-
- A enteada
-
- =Jean Thiéry=
-
- O canto do cuco
- O romance dum solteirão
- Corações magoados
- Vítimas
-
- =António Zozaya=
-
- As auroras
- Almas de mulheres
-
- =Georges de Peyrebrune=
-
- Dona Quixota
-
- =Alberto Insúa=
-
- Coração ludibriado
-
- =Claude Saint-Jean=
-
- O castelo dos noivos
-
- =Palácio Valdés=
-
- A alegria do capitão Ribot
-
- =Jean Rameau=
-
- Romance da Felicidade
-
- =Pierre de Coulevain=
-
- A ilha desconhecida
- No coração da vida
-
- =Mary Floran=
-
- Se êle soubera
-
- =Eduardo Noronha=
-
- As mulheres de Pernambuco
-
-=Cada volume broch. 6$00--Enc. 10$00=
-
-
-=Colecção de Hoje=
-
- =Alberto Insúa=
-
- O preto que tinha a alma branca
- A mulher que precisa de amor
- A mulher que esgotou o amor
- O inimigo do matrimónio
- O prazer do perigo
- Mulheres histéricas
- O amor em dois tempos
- O amante invisível
- Fumo, dor, prazer
- A mulher, o toureiro e o touro
- As flechas do amor
- A paixão impossivel
-
- =Clément Vautél=
-
- Minha mulher não quer filhos
- O amor à parisiense
- A reabertura do paraíso terrestre
- O senhor Mezigue
- Sua reverendíssima entre os ricos
- Sua reverendíssima entre os pobres
-
- =Pierre Benoit=
-
- O poço de Jacob
- A calçada dos gigantes
- Mademoiselle de la Ferté
- O lago salgado
-
- =Palácio Valdés=
-
- Os majos de Cádiz
- Marta e Maria
- Riverita
- Maximina
- A Irmã S. Sulpício
- A valenciana
-
- =A. Hernandez Catá=
-
- Os sete pecados
- O bebedor de lágrimas
-
- =José Francés=
-
- O filho da noite
- A mulher de ninguém
-
- =Fernandez Florez=
-
- As sete colunas
- O segredo do Barba Azul
-
- =Pedro Mata=
-
- Um grito na noite
- Corações sem rumo
-
- =Alfio Berreta=
-
- A morte do sonho
-
- =Tomás Borrás=
-
- A mulher de sal
- A parede de teia de aranha
-
-=Cada volume broch. 6$00--Enc. 10$00=
-
-
-
-
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-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIA PITORESCA ***
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-To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
-and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
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-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
-Foundation
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-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
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