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-The Project Gutenberg EBook of Historia Pitoresca, by Alfredo Campos
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
-almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
-re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
-with this eBook or online at www.gutenberg.org/license
-
-
-Title: Historia Pitoresca
- Palavras e frases celebres
-
-Author: Alfredo Campos
-
-Release Date: September 19, 2020 [EBook #63235]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIA PITORESCA ***
-
-
-
-
-Produced by Júlio Reis, Fernanda Brojo and the Online
-Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net
-
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-
- HISTORIA PITORESCA
-
- PALAVRAS E FRASES CELEBRES
-
-
- POR
- ALFREDO CAMPOS
-
-
-
-
- [Figura:
- HISTORIA PITTORESCA
- PALAVRAS E PHRASES CELEBRES
- ]
-
-
-
-
-OBRAS DO AUCTOR
-
-
- Luz e sombras, original . . . . . . . . . 400 réis
-
- Um como ha muitos, original . . . . . . . 50 réis
-
- Um livro intimo, original . . . . . . . . 200 réis
-
- A felicidade pela familia, original . . . . . 100 réis
-
- O trabalho, original . . . . . . . . . 100 réis
-
- Nunca mais! original . . . . . . . . . . 400 réis
-
- A Filha do cabinda, original . . . . . . . 500 réis
-
- A cruz de brilhantes, original . . . . . . . 500 réis
-
- A jurity, original . . . . . . . . . . 500 réis
-
- Alma minha gentil, original . . . . . . . . 300 réis
-
- Historia pittoresca--Palavras e phrases celebres,
- original . . . . . . . . . . . . 500 réis
-
- Deveres do homem, original . . . . . . . 50 réis
-
- Magdalena, traducção . . . . . . . . . 500 réis
-
- Fior d'Aliza, traducção . . . . . . . . . 400 réis
-
- A mulher forte, traducção . . . . . . . . 600 réis
-
-
-OBRAS ELEMENTARES
-
- Noções de moral e religião, approvada . . . . 160 réis
-
- Principios elementares de chorographia, approvada 200 réis
-
- Grammatica franceza resumida, approvada . . . 500 réis
-
-
-NO PRÉLO
-
- A missão da mulher, 1 vol.
-
- Vida de Camões, 1 vol.
-
-
-
-
- _Alfredo Campos_
-
-
- HISTORIA PITTORESCA
-
-
- PALAVRAS E PHRASES CELEBRES
-
-
-
-
- PORTO
-
- Livraria Portuense
- --DE--
- LOPES & C.ª--EDITORES
-
- _123--Rua do Almada--123_
-
- 1889
-
-
-
-
- =IMPRENSA CIVILISAÇÃO=
-
- 73--LARGO DA POCINHA--77
-
- --PORTO--
-
-
-
- _Ao Ill.ᵐᵒ e Ex.ᵐᵒ Sr._
-
- MANOEL JOSÉ DA CONCEIÇÃO ROCHA
-
- TRIBUTO DE RESPEITO,
- CONSIDERAÇÃO, GRATIDÃO E ESTIMA
-
- Offerece
-
- _Alfredo Campos._
-
-
-
-
-DO AUCTOR
-
-
-_O PRESENTE livro--PALAVRAS E PHRASES CELEBRES--, é como que uma
-CORBEILLE aonde estão reunidos, explicados, e, por vezes commentados,
-muitos factos, muitas palavras, phrases e circumstancias curiosas e
-originaes, que se empregam e se encontram, a cada momento, já n'alguma
-obra escripta, já no meio da conversação_.
-
-_Pareceu-nos que não seria desgracioso enfeixar todas essas flores n'um
-como que estudo de Historia Pittoresca, sem a aridez da Historia
-propriamente dita, e com o proporcionamento do interesse, da amenidade
-e do attractivo do romance._
-
-_As PALAVRAS E PHRASES CELEBRES são isto apenas_.
-
-_O livro estava feito, e todo o trabalho consistiu, quasi, em
-procurarmos e reunirmos em volume as paginas que andavam dispersas, aqui
-e alli, um pouco por toda a parte._
-
-_Tem merecimento? Outros o dirão._
-
-_Em todo o caso póde servir para entretenimento de um serão, para
-desenfado n'uma hora de descanço, para suavisar um momento de tedio, com
-a vantagem de que allia o util, que é a historia, ao agradavel, que é o
-pittoresco._
-
-_De resto, parece-nos livro para toda a gente, porque crêmos que não
-perverte, não corrompe, não immoralisa._
-
-_Visou, pelo menos, a esse fim, e só desejamos que o attinja._
-
-_Se attingir, tanto melhor para os que nos honrarem lendo-o, e tanto
-melhor para nós, sobretudo, porque lograremos a gloria que aspiramos
-para o nosso modesto trabalho._
-
-
-[Figura]
-
-
-
-
- PALAVRAS
- E
- PHRASES CELEBRES
-
-
-
-
-I
-
-_Amanhã os negocios sérios_
-
-
-Sparta tinha-se apoderado da cidadella de Thebas por traição, e
-impozera aos thebanos, como governador, o tyranno Archias. Este banira
-da cidade os principaes cidadãos, entre os quaes Pelopidas. Refugiados
-estes em Athenas, resolveram libertar a patria e concertaram-se com um
-dos seus compatriotas, inimigo secreto do tyranno, que lhes offereceu
-recebel-os em sua casa. No dia marcado para a execução da conspiração,
-os conjurados penetraram em Thebas, graças a um disfarce. N'esse mesmo
-dia, Archias foi convidado para ceiar em casa d'um rico cidadão thebano,
-que, egualmente, fazia parte dos conspiradores. Tudo estava prompto, e
-os conjurados esperavam apenas uma hora mais avançada, para a execução
-do seu projecto, quando um correio, enviado d'Athenas, veio trazer a
-Archias uma carta, contendo todas as particularidades da conspiração.
-Admittido junto ao tyranno, entregou-lhe a missiva, convidando-o a lêr
-sem demora, porque se tratava de _negocios sérios_. Archias, dominado já
-pela embriaguez, poz indolentemente a carta sob a sua almofada,
-exclamando:
-
---«Amanhã os negocios sérios!»
-
-Alguns instantes depois, Pelopidas e os outros conjurados, invadiram a
-salla do festim e massacraram o tyranno.
-
-Este acontecimento, que produziu a liberdade da Beocia, obteve uma
-grande celebridade na Grecia, e a phrase--_amanhã os negocios
-sérios_--tornou-se um proverbio que os descuidados e os amigos da
-alegria pretendem tomar por divisa, e que melhor fôra tomassem como
-lição.
-
-
-
-
-II
-
-_Alexandre_
-
-
-Alexandre, filho de Philippe, rei da Macedonia, foi um dos maiores
-capitães da antiguidade. Desde a mais tenra edade que foi sempre animado
-d'uma nobre ambição. Quando lhe perguntavam se concorria aos jogos
-olympicos, respondia:
-
---«Iria, se tivesse a certeza de encontrar reis como rivaes!»
-
-Chorava de cólera, vendo os successos multiplicados de Philippe,
-lamentando-se, d'este modo:
-
---«Meu pai nada nos deixará que fazer!»
-
-Alexandre ficou em todas as linguas como o typo do _heroe_ e do
-_conquistador_. As differentes circumstancias da vida de Alexandre, que
-originaram locuções proverbiaes são as seguintes e por ordem
-chronologica:
-
-
-_1.º--Se eu não fosse Alexandre, desejaria ser Diogenes._
-
-Alexandre acabava de ser nomeado generalissimo dos gregos, e achava-se
-em Corintho, aonde os principaes cidadãos se apressavam em dirigir-lhe
-as suas felicitações. Admirado de não receber a visita de Diogenes, foi
-elle proprio procurar o celebre cynico, cuja conversação facil e picante
-o encheu de assombro. Alexandre tendo perguntado ao philosopho se
-desejava alguma coisa, elle respondeu:
-
---«Tira-te do meu sol.»
-
-Foi então que o grande conquistador, assombrado com tanto desinteresse,
-exclamou:
-
---«Se eu não fosse Alexandre, desejaria ser Diogenes.»
-
-
-_2.º--Meu filho, nada póde resistir-te._
-
-Antes de partir para a expedição que projectava na Asia, Alexandre quiz
-consultar o oraculo de Delphos. Como a pythia recusasse subir ao tripé,
-o moço heroe arrastou-a violentamente. Ella exclamou então:
-
---«Ah!, meu filho, nada te póde resistir.»
-
---«Esse oraculo me basta--respondeu Alexandre--não quero outro.»
-
-
-_3.º--Reserva da Esperança._
-
-Na primavera do anno 334, Alexandre, tendo apenas vinte e dois annos
-d'edade, dispunha-se a invadir a Asia, á frente d'um exercito de trinta
-mil infantes e cinco mil cavallos. Como se já estivesse de posse dos
-thesouros do grande rei, distribuiu aos amigos tudo quanto tinha.
-Perdiccas perguntou-lhe então:
-
---«Que reservaes para vós?»
-
---«A _Esperança_»--respondeu Alexandre.
-
-
-_4.º--Nó gordio._
-
-Gordio, simples lavrador phrygio, tornou-se rei, por ter cumprido um
-oraculo, que promettia a corôa ao que primeiro entrasse, n'um
-determinado dia, na capital. Midas, seu filho, consagrou, no templo de
-Jupiter o carro sobre o qual seu pai fôra transportado. O nó que ligava
-o jugo ao timão estava tão artisticamente dado, que não se lhe
-descobriam as pontas. Chamavam-no o _nó gordio_ ou de Gordio, e um
-antigo oraculo promettia o imperio da Asia a quem conseguisse desatal-o.
-
-Alexandre, tendo-se apoderado da cidade, resolveu cumprir o oraculo e
-actuar fortemente sobre a imaginação dos seus soldados. Depois de varias
-tentativas infructiferas, desembainhou a espada e cortou o nó
-mysterioso, illudindo mais, que realisando, d'este modo, o oraculo.
-
-
-_5.º--O medico de Alexandre._
-
-Pouco tempo depois da passagem do Granico, Alexandre, tendo-se banhado,
-a suar, nas aguas geladas do Cydnus, foi subitamente atacado d'um
-tremor mortal, e os soldados levaram-n'o, sem movimento, para a tenda.
-Todo o exercito se consternou, porque o seu estado parecia desesperado.
-Ao mesmo tempo, Dario avançava com forças immensas para lhe barrar as
-sahidas do Taurus. Os medicos não ousavam experimentar remedio algum; um
-só, Philippe, Acarniano de nação, e amigo d'infancia d'Alexandre, compoz
-uma poção, cujo effeito poderoso e salutar devia ser immediato. Durante
-estes preparativos, Alexandre recebeu uma carta de Parmenion, que o
-advertia de que desconfiasse de Philippe, secretamente comprado por
-Dario, para attentar contra os dias de seu monarcha. O heroe tinha ainda
-a carta nas mãos, quando o medico lhe levou a poção. Alexandre, sem
-manifestar a menor emoção, tomou a taça com uma das mãos, apresentou com
-a outra a carta a Philippe, e bebeu tudo d'uma só vez. O medico
-indignado, mas dominando as suas impressões, exhortou o rei a seguir
-fielmente as suas prescripções: a cura estava n'aquelle premio. Em
-verdade, apoz uma crise terrivel que gelou d'espanto todo o exercito, e
-de que um só homem não sabia a sahida, o doente melhorou e
-restabeleceu-se.
-
-O que ha de admiravel n'este traço da vida de Alexandre é a sua profunda
-fé na amizade.
-
-_6.º--Este tambem é Alexandre_
-
-Ephestion é menos citado na Historia pela parte que tomou nas conquistas
-d'Alexandre, que pela grande amizade que o unira áquelle heroe. Os dois
-amigos tinham sido educados juntos, e só a morte os separou. Depois da
-sangrenta batalha d'Issus, em que a mãe, a mulher e as duas filhas de
-Dario, cahiram em poder do vencedor, Alexandre, acompanhado d'Ephestion,
-foi visitar, á sua tenda, as infelizes princezas. Sysigambis, mãe de
-Dario, dirigiu a saudação a Ephestion, que tomou por Alexandre, pela
-superioridade da estatura e esplendor do traje. Advertida do engano,
-lançou-se aos pés do heroe, que a levantou bondosamente, dizendo-lhe:
-
---«Não vos enganasteis, aquelle tambem é Alexandre.»
-
-
-_7.º--E eu tambem, se fosse Parmenion_
-
-Depois da batalha d'Issus, que fizera cahir nas mãos d'Alexandre toda a
-familia de Dario, e alguns dias antes da batalha d'Arbelles, o grande
-rei fez offerecer ao vencedor dez mil talentos--cincoenta e quatro
-milhões--a cedencia de toda a Asia até ao Euphrates, e uma das suas
-filhas em casamento. Alexandre tendo communicado estas brilhantes
-propostas aos seus generaes, Parmenion exclamou:
-
---«Eu acceitaria, se fosse Alexandre.»
-
---«E eu tambem, se fosse Parmenion!»--respondeu Alexandre.
-
-E recusou.
-
-
-_8.º--Ó athenienses! quanto custa ser louvado por vós!_
-
-Alexandre tinha, do fundo da Asia, os olhos fixos na Grecia, e,
-sobretudo, em Athenas. Apesar do abaixamento em que esta cidade havia
-cahido, ficára sempre capital do mundo civilisado, pelas obras primas
-dos seus artistas, pelos immortaes discursos dos seus oradores e pela
-eloquente verdade dos seus historiadores, e Alexandre, tão apaixonado
-pela gloria, aspirava, acima de tudo, aos applausos d'esses athenienses
-frivolos, mas que egualmente distribuiam pela posteridade, a censura
-como o louvor. O conquistador acabava de penetrar nas vastas regiões da
-India, e preparava-se para atravessar o Hydaspe, de que Porus, á frente
-d'um formidavel exercito, ia disputar-lhe a passagem. O rio era largo e
-profundo, e as suas vagas quebrando estrepitosamente, deixavam a
-descoberto, aqui e alli, rochedos ameaçadores. Alexandre illude a
-attenção dos inimigos por um falso ataque, e aproveitando-se d'uma
-tempestade que lhe encobre os movimentos, affronta perigos inauditos
-para transpor o rio. Confessou depois que tinha, emfim, encontrado alli
-um perigo digno da sua coragem, e foi n'esta circumstancia, diz Racine,
-no prefacio da sua tragedia _Alexandre_, que o heroe exclamou:
-
---«Ó athenienses! quanto custa ser louvado por vós!»
-
-
-_9.º--Ao mais digno._
-
-Estava conquistada a Asia; _a terra_, segundo a bella expressão da
-Escriptura, _tinha-se callado deante de Alexandre_; elle fizera a sua
-entrada na Babylonia, «não como um conquistador, mas como um deus» e o
-papel brilhante e terrivel que representára estava a terminar. Os
-festins e os desvarios de toda a especie tinham succedido ás batalhas.
-No meio d'uma ultima orgia, o conquistador foi atacado d'uma febre, que
-o levou em poucos dias. Só deixava herdeiros em curta idade, ou
-incapazes. Conta-se que, no leito da morte, perguntando-lhe os generaes
-a quem legava o imperio, elle respondera:
-
---«Ao mais digno!»
-
-E expirou «cheio das tristes imagens da confusão que devia seguir-se á
-sua morte.»
-
-_10.º--Os funeraes d'Alexandre._
-
-«Alexandre--diz Bossuet--deixava, morrendo, capitães a quem tinha
-ensinado a respirar sómente ambição e guerra. Previu a que excessos se
-dariam, quando expirasse, e para os conter, e com receio de ser
-desrespeitado, não ousou nomear nem successor, nem tutor para seus
-filhos. Predisse sómente que os seus amigos _celebrariam os seus
-funeraes com sanguinolentas batalhas_.»
-
-
-_11.º--Desmembramento do imperio d'Alexandre._
-
-Apenas Alexandre exhalou o ultimo suspiro, os generaes reuniram-se para
-dividirem a sua immensa herança. Perdiccas, a quem Alexandre moribundo
-deixára o seu annel, fez-se nomear regente; e os outros generaes
-distribuiram entre si as provincias. Lysimaco teve a Thracia, Antipater
-a Macedonia e a Grecia, Ptolomeu o Egypto, Antigono e Cassandro
-repartiram a Asia Menor. Vinte annos depois encontravam-se nas planicies
-da Phrygia, e a batalha de Ipsus era o ultimo acto d'essa sangrenta
-tragedia.
-
-
-
-
-III
-
-_Audacia, ainda audacia e sempre audacia_
-
-
-Danton, um dos vultos mais notaveis da revolução franceza, nascera para
-tribuno popular. Alto, forte, face de _bull-dog_, muito picado das
-bexigas, a expressão do olhar cheia d'audacia, alma em harmonia com a
-estatura, com o ardor dos olhos, o rosto terrivel, a voz sonora, não
-podia ser senão o que foi, um revolucionario enthusiasta, arrastando o
-povo, já pela sua palavra como pelos seus actos, já pela sua elocução
-muito cheia de figuras gigantescas, d'apostrophes inflammadas,
-assombrando mesmo os que não seduzia. «Mirabeau serviu-se d'elle--diz um
-escriptor contemporaneo--como de um folle de forja, para accender o
-povo.» Apoz a fuga de Varennes, Danton provocou atrevidamente a queda do
-rei, fez-se eleger substituto do procurador da communa, preparou a
-revolução de 10 d'Agosto e entrou no ministerio da justiça.
-
-Esse famoso dia levantou toda a Europa contra a França revolucionaria.
-Brunswick, acaba de lançar o seu insolente manifesto; os exercitos
-francezes tinham experimentado revezes na Lorena; Longwy estava tomado,
-Verdun cercado, e o alarme reinava em Pariz. Para reanimar as coragens,
-Danton resolveu vibrar um grande golpe. Era no 1.º de Setembro. No dia
-seguinte, 2, em quanto o sino tocava a rebate e o estampido do canhão se
-fazia ouvir, elle correu á Assembleia legislativa, e, n'um discurso
-rapido, fez ouvir estas terriveis palavras aos deputados, trémulos nas
-suas cadeiras: «É n'este momento, senhores, que podem decretar que a
-capital bem mereceu da França inteira. O canhão que se ouve não é o
-canhão do alarme, é o passo de carga sobre os nossos inimigos!... Para
-os vencermos, para os anniquilarmos, que é preciso? _Audacia, ainda
-audacia e sempre audacia!_»
-
-Algumas horas depois os massacres de Setembro espantavam Pariz.
-
-Se Danton não organisou, como é accusado, aquellas horrorosas
-carnificinas, está averiguado que nada fez para as prevenir e reprimir,
-e talvez que elle visse n'ellas uma execução terrivel, mas necessaria.
-
-N'esta repetição energica, hoje proverbial, Danton fôra precedido pelo
-velho marechal de Trioulce. Quando se perguntava a este o que era
-necessario para bem fazer a guerra, respondia:
-
---«Tres coisas: dinheiro, ainda dinheiro e sempre dinheiro!»
-
-Demosthenes tambem já dissera na antiguidade, que tres coisas fazem o
-orador:--«primeiro, a acção; segundo, a acção; e terceiro, a acção.»
-
-
-
-
-IV
-
-_Delicias de Capua_
-
-
-A antiga Capua, capital da Campania, era uma das mais formosas cidades
-da Italia. Construida no centro de magnificas planicies, ensombradas
-pelo pinheiro, pelo platano, pelo myrto e a oliveira, circundada de
-imensos passeios orlados das mais perfumosas plantas, das mais
-brilhantes e suaves flores, Capua offerecia a mais adoravel residencia
-de toda a Italia.
-
-Foi lá que Annibal, depois da batalha de Cannes, e quando já tocava o
-extremo da sua audaciosa empreza, foi assentar os seus quarteis
-d'inverno, á frente do seu exercito vitorioso. Os historiadores antigos
-attribuem á permanencia de Annibal no seio das delicias de Capua, a
-causa unica da salvação de Roma. Assim, o seu exercito ter-se-ia
-amollecido e ter-se-hia corrompido alli pelos famosos vinhos e pelos
-gosos faceis.
-
-No entretanto, se considerarmos que o capitão carthaginez e os seus
-temiveis bandos guerrearam ainda, durante treze annos, na Italia, de que
-só foram arrancados pela habil diversão de Scipião na Africa, as
-_delicias de Capua_ não passam de uma amplificação de rhetorico.
-
-Segundo a opinião de historiadores modernos e homens de guerra dos mais
-celebres, um exercito de soldados feitos e experimentados não se perde
-n'um quartel de inverno. O que melhor explica a inutilidade dos exforços
-do maior capitão d'antiguidade, e esta foi a opinião de Napoleão 1.º,
-depois da batalha de Cannes, é o abandono a que entregou a patria, onde
-dominava uma facção invejosa; além de que, rodeado de povos hostis e
-alliados incertos, recrutando difficilmente o seu exercito, composto de
-mercenarios de toda a especie, Annibal já não estava em estado de tentar
-qualquer coisa grande e decisiva. Comtudo, não se sustenta menos contra
-as melhores tropas e os mais habeis generais da republica, enchendo a
-Italia com o terror do seu nome, e agitando o mundo com as suas
-negociações, para levantar, em toda a parte, inimisades aos romanos.
-
-_As delicias de Capua_ ficaram em todas as linguas modernas para
-designarem uma calmaria moral, temperada de divertimentos e prazeres,
-em que as molas do corpo e do espirito se distendem e enfraquecem.
-
-O padre Lacordaire aprecia a phrase do modo seguinte:
-
-«A historia de todos os successos é a historia d'Annibal em Capua.
-Esquece-se, embriaga-se, adormece-se; o lento veneno da molleza distende
-todas as molas da actividade, e o ser que nada é senão pela actividade,
-dissolve-se, pouco e pouco, na ignominia d'um somno cobarde.»
-
-
-
-
-V
-
-_Disse eu alguma tolice?_
-
-
-As lições de Platão e de Xenocrato tinham desenvolvido em Phocion um
-coração virtuoso e uma alma elevada. Na tribuna, como no campo de
-batalha, elle lembrava Aristides. Nunca um orador foi mais inflexivel
-nos seus conselhos, nem contou menos com o successo da sua perseverança.
-A eloquencia de Phocion era a expressão natural do seu caracter e dos
-seus costumes; elle fallava aos athenienses com a serenidade de um
-philosopho e o laconismo d'um spartiaco. Sabe-se que Demosthenes o
-chamava--_o machado dos seus discursos_. Superior aos applausos, tanto
-como aos clamores da multidão, elle abalroava de frente a potencia
-popular, e as suas virtudes impunham-se a todas as paixões. Tinha a
-palavra austera, e a sua eloquencia vigorosa e concisa desdenhava dos
-artificios oratorios, que agradam á multidão e fazem estrondear
-applausos. Estando um dia na tribuna e vendo-se ruidosamente victoriado
-por todo o povo, volveu-se admirado para os seus amigos e
-perguntou-lhes:
-
---«Disse eu alguma tolice?»
-
-
-
-
-VI
-
-_Arca de Noé_
-
-
-Era um immenso navio que Deus, depois de haver resolvido punir os homens
-pelo diluvio, ordenou a Noé construisse para ahi se refugiar.
-
-O Patriarcha empregou cem annos na construcção d'essa arca, que tinha
-trezentos covados de comprimento, cincoenta de largo e trinta de altura,
-e que continha, além de Noé e sua familia, dois casaes d'animaes
-impuros, assim chamados os que não era permittido offerecer em
-sacrificio, e sete casaes d'animaes puros.
-
-Por causa da quantidade de seres que esse navio encerrava, o nome de
-_Arca de Noé_ passou a servir para designar a agglomeração de numerosos
-e disparatados objectos.
-
-
-
-
-VII
-
-_Queimar não é responder!_
-
-
-No principio do anno de 1794, estava em toda a sua violencia o regimen
-do Terror, dirigido por Robespierre, no seio do _comité_ de salvação
-publica. Os proprios _dantonistas_, tornaram-se, em vista d'isto,
-_indulgentes_, moderados; e agora que a republica estava senhora do
-campo de batalha, elles queriam fazel-a entrar no reino das leis, e no
-caminho da justiça para todos. Danton era o chefe d'esta opposição nova,
-e o joven e fogoso Camillo Desmoulins era a sua penna, e, no _Vieux
-Cordelier_, farpeava o governo com censuras e sarcasmos. O jornal era
-lido com avidez, e venderam-se, n'alguns dias, cincoenta mil exemplares.
-Afinal, Camillo ousou promover um _comité de clemence_, como o unico
-meio de pacificar os partidos e de acabar com a revolução. Não era isto
-o que queria Robespierre, que, n'uma sessão dos jacobinos, onde o
-impetuoso pamphletario tinha sido intimado a comparecer, propoz
-perfidamente dar-lhe uma correcção paterna, _queimando_ os numeros do
-jornal.
-
---«Queimar não é responder!»--exclamou Desmoulins.
-
-Esta replica imprudente causou a sua perda. Robespierre não se conteve e
-disse:
-
---«Pois bem, não se queimem e responda-se; leiam immediatamente os
-artigos de Camillo, visto que assim o quer, e que elle seja coberto
-d'ignominia!»
-
-Alguns dias depois o intrepido moço subia ao cadafalso.
-
-
-
-
-VIII
-
-_Caim, que fizeste de teu irmão?_
-
-
-Caim, filho primogenito de Adão e Eva, cioso de seu irmão Abel, cujas
-offerendas eram mais agradaveis ao Senhor, propoz-lhe um dia um passeio
-ao campo e matou-o. O sangue do justo subiu até Deus, e a voz do Eterno
-fez-se ouvir:
-
---«Caim, Caim, que fizeste de teu irmão?»
-
-Deus amaldiçoou o fratricida, expulsou-o da sua face, e marcou-o na
-fronte com um signal de reprovação.
-
-_Caim_ é o nome que se dá ao irmão que maltrata o irmão, abjurando o
-amor fraterno.
-
-
-
-
-IX
-
-_Do Capitolio á rocha Tarpeia só ha um passo_
-
-
-A rocha Tarpeia, chamada assim, de Tarpeia, joven romana que alli foi
-estrangulada e sepultada, depois do acto de traição que commetteu,
-entregando a cidadella aos sabinos, era um rochedo situado no proprio
-recinto de Roma. Os romanos que se prendiam em perpetuar as recordações,
-deliberaram, depois do supplicio de Tarpeia, que se precipitassem do
-alto d'essa colina os criminosos accusados de traição. D'aqui a
-locução:--_Ser precipitado da rocha Tarpeia_--para exprimir,
-figuradamente, a quéda rapida d'uma posição elevada, e,
-particularmente, a perda d'uma grande popularidade.
-
-E como este logar era situado junto do Capitolio, em que se coroavam os
-triumphadores, as palavras--_A rocha Tarpeia está perto do Capitolio_,
-ou--_Do Capitolio á rocha Tarpeia só ha um passo_, significam que a
-quéda segue, muitas vezes, de perto o triumpho, e que a ignominia, como
-extremo, toca a gloria.
-
-Esta phrase está, sobretudo, em uso desde o eloquente emprego que d'ella
-fez Mirabeau, n'uma circumstancia celebre: Tratava-se de saber se a
-iniciativa da guerra devia ser devolvida ao rei ou á assembleia;
-Mirabeau pronunciou-se pela assembleia, e como ouvisse a palavra
-_traidor_ soar aos seus ouvidos, o fogoso orador subiu á tribuna, e
-tomando para texto do seu exordio a instabilidade do favor popular, fez
-ouvir essas palavras, que ficaram celebres:--«E eu tambem, a mim tambem
-queriam, ha poucos dias, levar-me em triumpho; e gritam agora nas
-ruas:--_A grande traição do conde de Mirabeau!_ ... Eu não precisava
-d'esta lição para saber que _só ha um passo do Capitolio á rocha
-Tarpeia!_ ...»
-
-
-
-
-X
-
-_Catão_
-
-
-Marco Porcio Catão, é, sobretudo, celebre pela austeridade dos seus
-costumes. Fez-se notar, desde o principio da sua vida publica, pela sua
-eloquencia mordente e aggressiva e pela sua opposição apaixonada ás
-ideias da Grecia, que começavam desde então a modificar o genio da Roma
-Antiga. Tão duro comsigo, como para os seus escravos, levantava-se antes
-da aurora, excitava os servos ao trabalho, punha-se nú como elles, para
-lavrar, comia o seu pão negro e bebia da sua agua avinagrada. Elevado á
-censura, pôde, emfim, trabalhar na realisação do seu sonho:--a
-restauração da antiga simplicidade romana. Fez regulamentos sumptuarios,
-contribuiu os objectos de luxo, os enfeites das mulheres, reprimiu as
-delapidações, e mostrou uma inflexivel severidade de costumes, a ponto
-de degradar um senador que tinha beijado a esposa em presença da filha.
-Amava-se a sua palavra, honrava-se o seu caracter; o povo applaudia este
-censor inexoravel que _mordia_ toda a gente. O sobrenome de _Censor_
-ficou-lhe, e erigiram-lhe uma estatua com esta inscripção:--_A Catão,
-que corrigiu os costumes_.
-
-A sua presença inspirava um tal respeito aos romanos, que, quando elle
-assistia ao espectaculo, o povo esperava que elle sahisse para pedir as
-farças e as danças licenciosas.
-
---Dizer que um homem é um _Catão_ é dizer que é severo e rigido no
-cumprimento do seu dever e nos seus costumes.
-
-
-
-
-XI
-
-_Cezar_
-
-
-Caio Julio Cezar, consul romano, dictador e um dos maiores capitães da
-antiguidade, era sobrinho de Mario. Cresceu no meio das guerras civis e
-foi proscripto aos desoito annos, por Sylla, que viu n'elle _varios
-Marios_. A estatua d'Alexandre, o Grande, que elle viu, passando em
-Cadiz, fez-lhe derramar lagrimas de despeito, por vêr que na idade em
-que tinha morrido esse heroe, elle não tinha ainda realisado nada de
-notavel. Tinha uma ambição e uma actividade devoradoras e--«julgava não
-ter feito coisa alguma em quanto lhe restasse alguma coisa a fazer.»
-
-O seu nome, como o de Alexandre, ficou como synonymo de grande
-guerreiro, de conquistador civilisador.
-
-Vamos apontar por ordem chronologica, as differentes circumstancias da
-vida de Cezar, que originaram locuções proverbiaes.
-
-
-_1.º--A mulher de Cezar nem mesmo deve ser suspeitada._
-
-Clodio, joven patricio, ambicioso e desmoralisado, amava Pompeia, mulher
-de Cezar. Uma noite, quando as mulheres celebravam os mysterios da
-boa-deusa, interdictos aos homens, elle introduziu-se, disfarçado com
-trajes femininos, nos aposentos de Pompeia. Mas foi surprehendido por
-uma escrava, que não era confidente.--«No dia seguinte, diz Plutarco,
-toda a cidade soube que Clodio commettera um sacrilegio horrivel.»
-
-Julgado, como profanador dos santos mysterios, corrompeu os juizes e foi
-absolvido. Cezar contentára-se em repudiar sua mulher. Chamado, porém,
-como testemunha, elle depoz que não tinha nenhum conhecimento dos factos
-que se imputavam ao accusado. Este depoimento pareceu muito estranho e o
-accusador perguntou-lhe porque havia então repudiado sua mulher. Elle
-respondeu:
-
---_É porque a mulher de Cezar nem mesmo deve ser suspeitada._
-
-
-_2.º--Gostaria mais de ser o primeiro n'uma aldeia, que o segundo em
-Roma._
-
-Todos os actos, todas as palavras de Cezar, antes do seu advento ao
-poder, revelam o seu caracter e a natureza da sua ambição. Depois da sua
-pretura, tendo-o a sorte designado para o governo da Hespanha ulterior,
-elle partiu para a sua provincia. Quando atravessava uma pobre aldeia,
-perdida no fundo dos Alpes, alguns dos seus amigos perguntaram-lhe,
-gracejando, se a ambição do poder e o desejo das dignidades occasionavam
-tambem debates n'essa miseravel terra.
-
---«Não riam--respondeu o futuro dictador--_eu gostaria mais de ser o
-primeiro n'esta aldeia, que o segundo em Roma_.»
-
-
-_3.º--Passar o Rubicão._
-
-Cezar vinha de concluir a conquista dos gaulezes, e tinha encontrado
-n'essas regiões thesouros bastantes para tudo comprar em Roma, onde
-tudo se tornára venal. Os seus successos, o seu poder, mais ainda que os
-seus conhecidos projectos, despertaram, emfim, a desconfiança de Pompeu,
-que começava a receiar ver-se o logro d'aquelle de que elle se tinha
-imaginado ser o protector. Desde então, poz tudo em acção para obter do
-senado um decreto que ordenava a Cezar o abandono do seu exercito e a
-resignação do commando. Este respondeu que estava prompto a obedecer,
-com a condição de que Pompeu entraria, pelo seu lado, na vida civil.
-Desde este momento, a guerra estava declarada. O senado encarregou os
-consules de proverem a segurança publica, e Cezar fez avançar o seu
-exercito para o Rubicão. Era uma pequena ribeira, que separava a Italia
-da Gallia cisalpina. O senado para assegurar Roma contra as tropas da
-Gallia, tinha, por um senatus-consulto celebre, declarado traidor á
-patria e dedicado aos deuses infernaes, todo aquelle que, com uma legião
-ou uma cohorte, passasse aquella ribeira. Prevenido na margem opposta,
-Cezar, dominado pelo perigo da resolução audaciosa que ia tomar, hesitou
-alguns instantes.
-
-«Tinham-se visto revoluções d'imperios, diz Lacordaire, thronos mudando
-de senhores, e fôra isso, n'esse jogo de passageiras fortunas, o que
-tinha illuminado o genio dos maiores d'entre os homens. Cezar, no
-Rubicão, parára pensativo; a mão no peito e o olhar além do regato, elle
-se dissera:--«Eu, Cezar, faço uma coisa que nenhum romano fez ainda:
-desobedeço ao senado romano. Passando este ribeiro, faço um imperio
-d'uma republica, senhora do mundo: passemol-o.»
-
---«Vamos, pois, exclamou Cezar, como se cedesse á obsessão da sua
-fortuna; vamos aonde nos chamam as vozes dos deveres e a iniquidade dos
-nossos inimigos. _Alea jacta est!_--a sorte está lançada!»
-
-Palavra irrevogavel, pronunciada depois por todos os homens que, não
-encontrando fundo no seu pensamento, e obrigados a escolherem entre dois
-perigos supremos, tomam resolução no seu caracter, não podendo tomal-a
-em outra parte, e se lançam a nado no Rubicão do acaso, para morrerem ou
-para se salvarem pela sorte.
-
-
-_4.º--Levas Cezar e a sua fortuna._
-
-Pompeu, desesperando de defender a Italia com a approximação de Cezar,
-deixou Roma acompanhado d'um grande numero de senadores, magistrados e
-cidadãos e passou á Grecia, onde levantou um exercito. Cezar seguiu-o.
-Tendo desembarcado á frente de cinco legiões, soube que a frota que lhe
-levava viveres e reforços foi batida e dispersa pela de Pompeu. Na
-critica circumstancia em que se achava toma a resolução d'ir ao
-encontro d'Antonio, que devia soccorrel-o, e embarca elle só n'um barco
-de pescador. Durante a travessia levanta-se uma tempestade e ameaça
-submergir a fragil embarcação. O piloto espantado quer volver ao posto.
-É então que o heroe lhe diz essa famosa phrase, contada por Plutarco:
-
---«Que receias? _levas Cezar e a sua fortuna!_»
-
-E alguns dias depois humilhava o seu rival nos campos da Pharsalia.
-
-
-_5.º--Soldado, fere no rosto!_
-
-Antes da batalha de Pharsalia, Cezar, no meio d'uma região dedicada ao
-seu rival, estava n'uma situação muito critica. Pompeu, cujo exercito
-estava bem munido e fornecido pela sua frota, resolvera reduzir á fome o
-seu inimigo. A perda de Cezar parecia certa, quando Pompeu, cedendo á
-impaciencia dos seus soldados, travou peleja com os velhos legionarios
-das Gallias, que bem podiam ser destruidos pela fome, mas que não podiam
-deixar-se vencer.--«Soldado, fere no rosto!» tinha gritado Cezar aos
-seus veteranos, vendo os brilhantes cavalleiros do exercito de Pompeu.
-Estes jovens patricios, espantados, pozeram-se em fuga para não serem
-desfigurados pelas lanças dos legionarios, e Cezar ficou senhor do campo
-de batalha.
-
-A implacavel phrase de Cezar não encontra applicação alguma em
-circumstancias analogas, e emprega-se a respeito d'um adversario de que
-se quer tocar a fibra sensivel, que se deseja ferir á falta de couraça.
-
-
-_6.º--Cheguei, vi e venci._
-
-Apoz a morte de Pompeu e a conquista do Egypto, e em quanto Cezar se
-engolfava no seio dos prazeres que lhe offerecia Cleopetra, o partido de
-Pompeu, mais disperso que destruido, erguia-se por toda a parte.
-Pharnacio, rei do Ponto, aproveitára a guerra civil para tentar reunir
-na Asia as antigas possessões de seu pae. Despertado pelo perigo, Cezar
-corre ao Bosphoro, esmaga o filho de Mithridates e termina essa guerra
-com uma tal rapidez, que pôde contal-a inteira n'estas tres palavras
-celebres, que elle dirigiu ao senado:
-
---_Veni, vidi, vici; cheguei, vi, venci!_
-
---Faz-se uso da phrase para exprimir a facilidade, a promptidão com que
-se executa uma empreza.
-
-Lembra-nos a proposito o seguinte caso analogo. Depois da sua victoria
-sobre os turcos, Sobieski enviou ao Papa o estandarte de Mahomet, com
-estas palavras de Cezar a que deu um caracter de modestia
-christã:--«_Cheguei, vi e Deus venceu!_»
-
-_7.º--Idos de Março._
-
-Cezar entrára em Roma, senhor do mundo inteiro. O senado conferiu-lhe
-honras extraordinarias e revestiu-o d'uma illimitada auctoridade. Foi
-nomeado consul por dez annos e dictador perpetuo; deram-lhe o nome de
-_imperador_, o titulo de _Pae da Patria_ e erigiram-lhe uma estatua com
-esta inscripção:--_Ao deus invencivel!_ A sua pessoa foi declarada
-inviolavel. Concederam-lhe o privilegio de assistir ao espectaculo n'uma
-cadeira dourada, com uma corôa na cabeça. Elle meditava projectos
-immensos; queria engrandecer Roma, ornamental-a de monumentos
-magnificos, fazer d'ella a rainha do Universo. Mas não lhe estava
-reservado o cumprimento de tão vastos designios. Debalde se exforçára
-por apagar todos os traços da guerra civil, debalde tinha cumulado de
-favores e elevado aos primeiros cargos os que o tinham combatido,
-debalde tinha erguido estatuas ao seu rival, porque nada podia desarmar
-os partidarios da antiga liberdade.
-
-A sua clemencia parecia insultante; viu-se que não perdoava, mas que
-desdenhava punir. Afinal uma formidavel conjuração se tramou contra a
-sua vida. A conspiração devia explosir no meio do senado, e fôra fixada
-para os _idos de Março_. O caso transpirou no publico, mas Cezar
-recusou tomar qualquer precaução. Calpurnia, sua mulher, estava tão
-persuadida da realidade do perigo, que o conjurou, com as mais vivas
-instancias, a não sahir n'esse dia.
-
-Conta Plutarco, que muito tempo antes, um adivinho tinha advertido o
-dictador de que devia desconfiar dos _idos de Março_. Quando sahia de
-casa para o senado, encontrou o adivinho e disse-lhe, rindo: «--Chegamos
-aos idos de Março.»--«É verdade--respondeu--mas ainda não passaram.»
-
-Alguns passos adeante um homem entregou-lhe um bilhete que continha
-todas as particularidades da conspiração:--«Lêde--disse--e rapidamente!»
-Mas Cezar não teve tempo e entrou para o senado.
-
---Os _idos de Março_ designam, por analogia, uma epocha perigosa de
-passar, e para a qual se fizeram incommodativos prognosticos.
-
-
-_8.º--E tu tambem, meu filho!_
-
-Apenas Cezar tinha entrado no senado, todos os conjurados o rodearam
-como para lhe prestarem honra. Cimber, um d'elles, apresentou-se, afim
-de lhe pedir o chamamento de seu irmão exilado, e como para lhe pedir
-com mais submissão, tomou-lhe a fimbria da toga e puxou-a com violencia.
-Era o signal combinado. Casca, tirando o seu punhal, feriu com elle o
-dictador no hombro. Cezar, no mesmo instante toma a arma do assassino e
-precipita-se sobre elle gritando:--«Que fazes, scelerado Casca?» Então
-todos os conspiradores desembainharam as suas espadas e lhe vibraram
-varios golpes. Cassio, mais animado que os outros, fez-lhe uma profunda
-brecha na cabeça; Cezar defendia-se ainda, quando avistando Bruto, com o
-punhal erguido sobre elle, exclamou:--«E tu tambem, meu filho Bruto!» Ao
-mesmo tempo cobriu o rosto com o vestido e cahiu atravessado com vinte e
-tres golpes, aos pés da estatua de Pompeu.
-
-
-_9.º--A tunica de Cezar._
-
-O cadaver de Cezar abandonado no senado foi conduzido, todo cheio de
-sangue a sua casa por tres escravos. Alguns dias depois, Antonio
-appareceu na tribuna das harengas e leu á multidão o testamento do
-dictador. O povo, que elle não tinha esquecido nas suas generosidades
-fez explosir a sua indignação. Então, Antonio, desdobrando do alto da
-tribuna a tunica de Cezar, ensanguentada e crivada de golpes, tratou de
-parricidas os auctores d'aquelle assassinio. Esta scena levou ao cumulo
-a exasperação popular. E todos os assistentes fazendo logo uma fogueira
-com as mezas e os bancos que encontraram á mão, n'ella queimaram o
-corpo de Cezar; depois, tomando tições correram a casa dos assassinos
-para lhes lançarem fogo, e os atacarem a elles proprios.
-
-
-
-
-XII
-
-_Estava escripto_
-
-
-Esta resignação perante os duvidosos decretos do destino é o fundo da
-doutrina religiosa da maior parte dos povos orientaes. É uma especie de
-_fatum_ antigo, um pallido reflexo d'esse caracter poetico, quasi
-grandioso, que o fatalismo--mistura de sensibilidade profunda e sombria
-resignação--revestira entre os antigos.
-
-Os differentes systemas phrenologicos parecem não ter por fim senão o
-darem razão physica d'estes factos moraes.
-
-A litteratura philosophica do seculo XVIII legou-nos duas obras muito
-conhecidas, apesar de francezas, sobre a fatalidade: _Zadig_, conto de
-Voltaire, e _Thiago o fatalista_, romance de Diderot.
-
-
-
-
-XIII
-
-_Conhece-te a ti proprio_
-
-
-Estas famosas palavras estavam gravadas sobre o frontão do templo de
-Delphos. Era a maxima favorita de Socrates; elle adoptou-a, explicou-a e
-tornou-a celebre para sempre. Toda a lei moral reside n'estas palavras,
-como toda a lei religiosa está encerrada n'estas admiraveis palavras de
-Christo:--«Ama o proximo como a ti mesmo.»
-
-Seneca, o tragico, desenvolveu esta bella maxima nos seguintes versos
-que traduzimos assim:
-
- «O homem é infeliz no instante em que fenece;
- Quando tendo esquecido o ponto necessario,
- Morre mui conhecido e a si se não conhece.»
-
-
-
-
-XIV
-
-_As joias de Cornelia_
-
-
-Cornelia, mãe dos Grachos, era filha de Scipião, o Africano, e mulher de
-Sempronio Gracho, que se illustrou nas guerras de Hespanha. Enviuvando,
-com doze filhos, consagrou-se inteiramente á sua educação, e recusou
-até, dizem, a mão de Ptolomeu, rei do Egypto. D'esta numerosa prole
-conservou apenas uma filha, que foi casada com Scipião Emiliano, e dois
-filhos, Tiberio e Caio Gracho, este sempre famoso pelo seu genio, pela
-sua coragem e pelo seu tragico destino. Mulher d'um caracter viril e
-d'um espirito cultivado, ella educou-os com o maior esmero, e
-inspirou-lhes cedo o amor publico, a paixão da gloria e das grandes
-emprezas, pedindo-lhes, por vezes, que a chamassem sempre a filha de
-Scipião e nunca a mãe dos Grachos.
-
-Conta-se que uma dama da Campania estendendo, um dia, deante d'ella as
-suas joias e os seus preciosos adornos, e pedindo-lhe para que ella lhe
-mostrasse as suas, Cornelia lhe apresentou os filhos, dizendo:
-
---«Eis as minhas joias e os meus adornos».
-
-
-
-
-XV
-
-_Cresus_
-
-
-Cresus, rei da Lydia, submetteu a maior parte das cidades da Asia Menor,
-e levou as suas conquistas até ao rio Halys. A fama do seu poder e das
-suas riquezas, constantemente renovadas pelas areias auriferas do
-Pactolo, tornou proverbial o nome de Cresus, para designar um homem
-cumulado dos bens da fortuna. Elle perguntou um dia a Solon, que fôra
-visitar a sua côrte, se conhecia um homem mais feliz do que elle. O
-philosopho respondeu-lhe que nenhum homem póde ser saudado com o nome de
-feliz antes da sua morte. Cresus não tardou a experimentar os effeitos
-d'esta triste verdade. Um de seus filhos foi morto na caça, o outro
-tornou-se mudo, e elle proprio, depois de ter visto os seus Estados
-invadidos por Cyro, foi vencido na celebre batalha de Thimbreia e cahiu
-nas mãos do vencedor, que ordenou a sua morte. Quando o conduziam ao
-supplicio, vieram-lhe á memoria as palavras de Solon, e elle pronunciou
-tres vezes, suspirando, o nome do legislador atheniense. Instruido da
-causa d'esta exclamação, Cyro, commovido de piedade e tocado d'aquelle
-exemplo das vicissitudes humanas, perdoou a Cresus e admittiu-o no
-numero dos seus conselheiros.
-
-Esta bella legenda philosophica da vida de um homem, que foi
-successivamente, e d'um modo tão frisante, o favorito e o joguete da
-fortuna, é narrada por Herodoto, mas Xenophonte não falla d'ella.
-
---O nome de _Cresus_ passou a designar um homem opulento, coberto de
-todos os favores da fortuna.
-
-
-
-
-XVI
-
-_Dôr, tu não és um mal_
-
-
-O stoicismo, fundado por Zenon, fórma uma das mais illustres
-philosophias da antiguidade. Simples no seu principio e nas suas
-deducções, frisante pelo seu caracter heroico e paradoxal, de tal modo
-se fez conhecer, ao menos, pelos traços mais salientes da sua moral, que
-os nomes de _stoicismo_ e _stoico_, entraram na applicação usual da
-lingua, como expressão d'uma grande impassibilidade. Os stoicos faziam
-consistir a virtude e a ventura na posse d'uma alma egualmente
-insensivel á voluptuosidade e á dôr, liberta de todas as paixões,
-superior a todos os receios, a todas as fraquezas. Admittindo como mal
-apenas o vicio, como bem sómente a virtude, e considerando o resto como
-indifferente, elles negavam que a dôr fosse um mal. Zenon, seu illustre
-chefe, foi o primeiro que proclamou a lei do _dever_ e que d'ella lançou
-os fundamentos com uma abundancia de provas que tinha a sua origem n'uma
-profunda convicção, independentemente de toda a argumentação dialectica.
-As paixões não são elementos necessarios da nossa condição; são doenças
-da alma: a saude, a _apathia_, a ausencia das paixões. Foi por causa
-d'esta severidade d'opiniões moraes, pelo menos entre os primeiros
-stoicos, que se deu, em geral, o nome de stoicismo a toda a opinião
-severa em moral.
-
-Esta doutrina, que se allia perfeitamente com todas as grandes virtudes,
-e que tendia a fazel-as nascer, logrou grande credito entre os romanos,
-apesar da sua pequena inclinação pela philosophia; adoptaram-na com
-enthusiasmo, porque se concertava admiravelmente com a sua energia
-intellectual e a sua severidade. Notou-se, em honra da seita dos
-stoicos, que os personagens mais virtuosos de Roma a tinham
-adoptado:--Bruto, Catão d'Utica, Thrasêas, Seneca, Tacito, Epictecto,
-Antonino e Marco Aurelio. A moral ficou como gloria dos stoicos, e
-tirando-lhe o que encerra de paradoxal e exaggerado, ella assegura-lhes
-o primeiro logar entre os percursores mais puros e mais directos do
-christianismo.
-
-A divisa principal dos stoicos era:--«_Soffre e abstem-te!_»
-
-Conta-se que um discipulo de Zenon, exclamava no meio dos maiores
-soffrimentos causados pela gôtta:
-
---«_Dôr, tu não és um mal!_»
-
-Havia, por sem duvida, ostentação n'estes principios da doutrina do
-stoicismo, mas nem por isso ella deixou de produzir as virtudes mais
-heroicas.
-
-
-
-
-XVII
-
-_Egéria_
-
-
-Numa Pompilio, legislador e segundo rei de Roma, nasceu em Ceres, no
-paiz dos sabinos. A tradição pinta-o como um principe pacifico e cheio
-de sabedoria. Nem uma guerra perturbou o seu reino, consagrado
-inteiramente á legislação e ás instituições religiosas. Elle creou e
-organisou, entre outras coisas, as vestaes, os pontifices, e construiu
-templos e instituiu festas.
-
-Como todos os legisladores da antiguidade, usou d'artificio para
-assegurar o respeito das suas instituições, e persuadiu aos romanos que
-recebia inspirações da nympha Egéria, só visivel para elle no fundo d'um
-bosque sagrado.
-
-Vê-se ainda hoje, perto de Roma, n'um valle delicioso, o resto da fonte
-Egéria, entre a via Latina e a via Appia. Antigos monumentos representam
-esta nympha n'um costume analogo ao das sybillas, de tunica fluctuante,
-pés nús, cabellos soltos, e traçando caracteres n'um livro posto sobre
-os joelhos.
-
---Hoje o nome de Egéria dá-se familiarmente, sobretudo, a uma mulher de
-que se tomam os conselhos, de que se segue a opinião, principalmente
-para a direcção de negocios politicos.
-
-
-
-
-XVIII
-
-_Mais uma victoria como esta e estamos perdidos_
-
-
-Pyrrho, sobrinho d'Olympias, era o principe mais valente, mais
-aventureiro de quantos se habilitaram á herança d'Alexandre. Passou a
-vida a conquistar e a perder corôas. Não podia permanecer tranquillo no
-Epiro, julgando que não fazendo mal nem havendo quem lh'o fizesse, não
-tinha em que passar o tempo. Assim, o successo faltou sempre aos
-designios d'essa creança animada da fortuna, que viveu e morreu, menos
-como rei que como aventureiro. A sua brilhante reputação militar, fel-o
-chamar pelos tarentinos, então em guerra com os romanos. A imaginação
-exaltada representa-lhe já a Italia conquistada, depois a Sicilia e
-Carthago, e parte cheio de alegria para Tarento, cidade de prazeres, que
-elle transforma n'um campo, e os seus habitantes afeminados em soldados.
-Ganhou primeiro, graças aos seus elephantes, a batalha de Heraclêa, em
-que os romanos perderam quinze mil homens e elle treze mil. Venceu ainda
-em Asculo, em que o triumpho não foi comprado menos caro. Depois d'esta
-sangrenta batalha foi que elle respondeu aos que o felicitavam:--«Mais
-uma victoria como esta e estamos perdidos!»
-
-Pyrrho, afinal, deixou a Italia, e encontrou a morte nas ruas de Argos,
-aonde uma velha o matou, atirando-lhe de cima do telhado uma pesada
-telha.
-
-
-
-
-XIX
-
-_Espada de Damocles_
-
-
-Damocles, um dos cortezãos de Denys, o Antigo, fazia-se notar pela
-emphase das suas adulações, e não cessava de elogiar a ventura de seu
-senhor. O tyranno resolveu inicial-o nos prazeres da grandeza, por meio
-d'uma allegoria espiritual que faria honra a um califa oriental.
-Convidou-o a tomar o seu logar durante um dia, e deu ordens para que
-Damocles fosse tratado como rei, e lhe servissem um banquete sumptuoso.
-O cortezão tomou logar n'um leito d'honra; tem a fronte cingida do
-diadema; as iguarias mais exquisitas cobrem a meza. Damocles está
-rodeado d'escravos, attentos aos seus minimos signaes; deliciosos
-perfumes fumegam em torno a si, e a mais adoravel musica lhe encanta o
-ouvido; as cortezãs adulam-no, e poetas cantam em seu louvor.
-Embriaga-se em ventura, quando, de subito, levantando os olhos, vê
-suspensa, por cima de sua cabeça, uma espada apenas preza pela crina
-d'um cavallo. Pallido e tremulo, deixa escapar a taça das mãos,
-levanta-se desnorteado e pede a Denys para pôr termo á sua realeza.
-Tinha comprehendido o que é a ventura d'um tyranno.
-
---De todos os factos historicos que deixaram traço nas linguas, a
-_espada de Damocles_ é o mais conhecido, poderemos até dizer o mais
-vulgar. É o perigo temido ou previsto, que póde ferir um homem no meio
-d'uma apparente prosperidade.
-
-Um escriptor contemporaneo disse:--«A abobada dos céus é para o
-criminoso a sala do festim de Damocles, d'onde pendia uma espada sobre
-sua cabeça».
-
-E Alfredo de Musset, nas _Confissões d'um Filho do Seculo_,
-tambem:--«Conta-se que Damocles viu uma espada sobre a sua cabeça; é
-assim que os libertinos parecem ter por cima d'elles um não sei quê, que
-lhes grita constantemente:--Vai, vai sempre, estou por um fio!»
-
-
-
-
-XX
-
-_O prato de lentilhas_
-
-
-Esaú, o primogenito, era um grande caçador; Jacob, pelo contrario, era
-um homem simples, vivendo em casa, occupado unicamente em trabalhos
-domesticos. A doçura do seu caracter tornava-o mais agradavel a sua mãe
-que Esaú, que tinha attrahido a affeição particular de seu pae Isaac. Um
-dia, em que Esaú voltava do campo, cheio de fadiga e oppresso pela fome,
-pediu a Jacob que o deixasse comer d'um _prato de lentilhas_ que este
-tinha preparado. Jacob consentiu, com a condição de que Esaú lhe cederia
-o seu direito de primogenito. Mais tarde, Jacob, recorrendo ao
-estratagema e auxiliado por sua mãe, surprehendeu a Isaac, moribundo e
-cego, a sua benção, que o fazia chefe da familia de onde devia sahir o
-Christo. Esaú concebeu uma violenta cólera, e Jacob, para se subtrahir
-ao seu resentimento retirou-se para casa de Labão, seu tio.
-
---Diz-se _prato de lentilhas_, a insignificancia relativa, pela qual se
-cede uma coisa realmente muito valiosa, especialmente moral.
-
-
-
-
-XXI
-
-_E eu tambem sou pintor!_
-
-
-Corregio, natural de Corregio, nascido em 1494, é um dos maiores
-pintores da eschola italiana. As suas composições fazem-se notar,
-sobretudo, pela graça ondulante dos contornos, pela flexibilidade e
-elegancia das fórmas, pela riqueza do colorido, pela sciencia da luz e
-da sombra, pela intelligencia perfeita do claro-escuro! Era eminente em
-representar creanças, mulheres, emfim, scenas graciosas e de
-voluptuosidade. A sua _Antiope adormecida_ é d'uma riqueza deslumbrante.
-A cidade de Parma offereceu, debalde, um milhão a Napoleão para
-conservar o _S. Jeronymo_, que é considerado como a sua obra prima. Não
-se conhece nenhum mestre a este pintor, e pensa-se que só a si deve o
-que foi. A revelação do seu genio explosiu deante d'um quadro de
-Raphael. Transportado de admiração e como que illuminado, elle exclamou:
-
---«E eu tambem sou pintor!»
-
---«_Anch'io son'pittore!_»
-
-
-
-
-XXII
-
-_Estrella dos Reis Magos_
-
-
-No momento em que Jesus vinha ao mundo em Bethlem, n'um estabulo, os
-magos do Oriente avistaram uma estrella no céu, que elles ainda não
-tinham visto. Deixaram o seu paiz, e, guiados por esse pharol
-miraculoso, chegaram a Bethlem, onde acabava de nascer o Menino Deus.
-Penetraram no local acima do qual a estrella se detivera, e alli
-encontraram Maria e seu Filho, e, prostrando-se deante do recemnascido,
-adoraram-no e offereceram-lhe ouro, incenso e mirra. É este o
-acontecimento que a egreja celebra na festa da Epiphania ou dos _Reis_.
-
---A estrella que guiou os magos na sua piedosa peregrinação enriqueceu a
-nossa lingua com uma imagem poetica, muito frequentemente empregada.
-Essa estrella é muitas vezes uma voz intima, um ente amado, que nos
-chama e nos dirige para um fim glorioso.
-
-
-
-
-XXIII
-
-_E, comtudo, ella gira!_
-
-
-Galileu, é, sem contradicção, a maior gloria scientifica da Italia. O
-methodo experimental, de que é o creador, fez-lhe em breve repellir os
-absurdos physicos e astronomicos professados no seu tempo, e levantar
-contra elle todos quantos eram adeptos das velhas doutrinas. Mas de
-todas as suas ousadias, a que devia ser mais perigosa para o seu
-repouso, foi o seu novo systhema astronomico, pelo qual, segundo
-Copernico, e contrariamente a Ptolomeu, elle fazia do sol o centro
-immovel do nosso systema planetario. Pretendeu-se que esta doutrina
-estava em formal contradicção com varias passagens da Escriptura, e foi
-denunciado á Inquisição. Elle defendeu-se com uma grande habilidade,
-representando que as passagens da Biblia e dos Santos Padres tinham sido
-interpretadas, e que, além d'isto, o objecto da Escriptura era a
-salvação dos homens e não o ensino da astronomia. Contentaram-se a
-principio em lhe fazerem uma advertencia, e em declararem _falsa e
-heretica_ a sua doutrina do movimento da terra e da immobilidade do
-sol. Galileu calou-se durante algum tempo; mas a paixão da sciencia foi
-a final mais forte que a prudencia. Compoz, por sua desgraça,
-_Dialogos_, em que, por um artificio empregado muitas vezes nos tempos
-de despotismo, poz em lucta os partidarios dos systemas oppostos, sem se
-pronunciar por um d'elles. Adivinha-se facilmente que os partidarios da
-immobilidade da terra, foram esmagados pelos argumentos, realmente sem
-replica, dos seus adversarios. Galileu foi mandado immediatamente a Roma
-pela Santa Inquisição, interrogado, e, segundo uns, mas sem que haja
-provas, posto em tortura, e, afinal, condemnado a prisão perpetua e á
-abjuração solemne dos seus _erros_.
-
-A sciencia como a fé tem tido os seus martyres; mas Galileu fraquejou na
-ultima hora e consentiu em humilhar o seu genio perante os prejuizos dos
-seus contemporaneos. A 22 de junho de 1633 pronunciou a sua abjuração no
-convento de Minerva, em presença dos cardeaes inquisidores. A formula
-que lhe foi imposta é um dos monumentos mais curiosos da inepcia humana:
-
---«Eu, Galileu, de setenta annos, sobre os Santos Evangelhos que toco
-com as minhas proprias mãos ... abjuro, maldigo e detesto o erro e a
-heresia do movimento da terra, etc.»
-
-Conta-se que levantando-se depois da realisação d'este sacrificio,
-Galileu arrastado pela revolta intima das suas convicções, bateu com o
-pé no chão e murmurou energicamente:
-
---«_E, comtudo, ella gira!--E pur si muove!_»
-
-Foi o seu unico protesto; mas elle atravessará os seculos como o grito
-da verdade opprimida e deporá eternamente contra a ignorancia e a
-perseguição.
-
-
-
-
-XXIV
-
-_Virtude, não és mais que um nome_
-
-
-Depois da morte de Cezar, os seus assassinos, forçados a fugirem deante
-da cólera do povo, levantado por Antonio, retiraram-se para a Macedonia.
-Os triumviros avançaram contra elles com forças consideraveis. Alguns
-dias antes da batalha, que devia decidir da sorte da republica, e n'uma
-noite em que Bruto velava na sua tenda, entregue a sombrias reflexões,
-pareceu-lhe, de repente, que ouviu entrar alguem. Volvendo-se viu um
-phantasma horrivel na sua presença.
-
---«Homem ou deus, quem és?»--lhe diz Bruto.
-
---«Sou o teu mau genio--responde--; vêr-me-has em breve em Philippes.»
-
-Esta prophecia não devia tardar a realisar-se. Poucos dias depois, com
-effeito, e na noite que precedeu a batalha de Philippes, quando Bruto
-velava só na sua tenda, segundo o seu costume, em quanto que todo o
-exercito estava mergulhado em somno, o mesmo phantasma lhe appareceu
-segunda vez, o olhou com ar sinistro e se retirou sem proferir uma unica
-palavra. No dia immediato, a liberdade romana expirava nas planicies de
-Philippes, e Bruto matava-se, soltando esse grito de desanimo, muito
-conhecido:
-
---«_Virtude, não és mais que um nome!_»
-
-
-
-
-XXV
-
-_Festim de Balthazar_
-
-
-Cyro, rei dos persas, cercava Babylonia á frente d'um exercito
-formidavel; Balthazar, confiando na força das suas muralhas, ria dos
-vãos exforços do seu inimigo e esquecia, nos festins, os enfados d'um
-longo cêrco. Uma noite em que celebrava uma orgia com os grandes da sua
-côrte e todas as suas mulheres, fez trazer, por uma fanfarronada de
-impiedade, os vasos sagrados que Nabuchodonosor tinha outr'ora
-subtrahido ao templo de Jerusalem. Realisada aquella profanação, o impio
-monarcha viu com espanto uma mão que traçava na parede, em traços
-ardentes, caracteres mysteriosos, que nem Balthazar nem ninguem da côrte
-pôde traduzir.
-
-O propheta Daniel tendo sido chamado, disse ao rei.
-
---«Foi Deus que enviou aquella mão, e é isto o que está escripto: _Mané,
-Thécel, Pharés_;--_Mané_, Deus contou os dias do teu reino e lhe marcou
-o fim; _Thécel_, foste collocado na balança e achado muito leve;
-_Pharés_, o teu reino será dividido!»
-
-Na mesma noite, com effeito, Cyro, tendo conseguido desviar o curso do
-Euphrates, penetrou na Babylonia pelo seu leito secco. Balthazar foi
-morto e a Babylonia reunida ao imperio dos persas.
-
---Por allusão a este festim celebre, chama-se _festim de Balthazar_ a
-toda a orgia ruidosa, ou, por uma hyperbole familiar, a todo o banquete
-copioso e prolongado.
-
-
-
-
-XXVI
-
-_Forcas caudinas_
-
-
-Roma tinha vencido a maior parte das nações visinhas; mas desde que quiz
-estender o seu dominio á parte meridional da Italia encontrou os
-samnitas, povo de costumes rudes e bellicosos. Havia de um e outro lado
-as mesmas armas, a mesma disciplina, o mesmo habito dos combates. D'alli
-a ambição e o valor romanos; d'aqui o patriotismo e a infatigavel
-energia dos samnitas, iam dar a esta lucta um caracter d'incrivel
-encarniçamento. Eis aqui o episodio mais celebre d'essa guerra, que
-devia terminar pela conquista do Samnio. Romperam-se as hostilidades; os
-samnitas estavam acampados perto de Candium, no meio das montanhas.
-Poncio Herennio, seu general, resolveu attrahir, por um falso aviso, o
-exercito romano a um desfiladeiro, de onde lhe seria impossivel
-escapar-se. Logo dez soldados samnitas, disfarçados em pastores,
-approximaram-se dos postos avançados inimigos e espalham a nova de que
-os samnitas cercam Luceria, cidade alliada dos romanos. Os consules
-apressam-se a voar em sua defeza, escolhendo o caminho mais perigoso,
-mas mais curto--desfiladeiro profundo, estreito e coberto de florestas.
-Era o que tinha previsto o general dos samnitas. Apenas os romanos se
-empenharam n'esse caminho perigoso, avistam as alturas cobertas
-d'inimigos. Era forçoso, ou morrer ou render-se, porque as sahidas
-estavam obstruidas. O pai de Poncio Herennio, velho cheio d'experiencia,
-aconselhava a seu filho o despedir todos os romanos sem resgate, para os
-fazer amigos, ou exterminal-os até ao ultimo para vibrar um golpe mortal
-na republica. O general samnita, escutando sómente o desejo de humilhar
-o orgulho romano, obrigou-os a entregarem-se á discrição, e fez passar
-todo o exercito sob um jugo formado de dois _forcados_ espetados no solo
-e encimados d'um terceiro. Todos os soldados com os consules á frente,
-passaram, tremendo, sob esse instrumento d'opprobrio, depois de terem
-deposto as armas. O senado recusou ratificar compromissos impostos em
-condições tão humilhantes; foi preciso combater de novo, e sangrentas
-derrotas puniram os samnitas da sua imprudente confiança na fé romana.
-
---Depois a expressão _passar sob as forcas caudinas_ entrou em uso para
-caracterisar toda a concessão onerosa ou humilhante, arrancada aos
-vencidos.
-
-
-
-
-XXVII
-
-_Irmão, é preciso morrer_
-
-
-As austeridades da vida monastica tornaram-se proverbiaes, mas foi,
-sobretudo, na Trappa que ellas se observaram com todo o rigor dos
-primeiros seculos do christianismo. Os trappistas guardam absoluto
-silencio, dividem o tempo entre a oração e o trabalho manual,
-alimentam-se de pão grosseiro e legumes e vestem apenas o habito de
-burel. Devem ter sempre deante dos olhos a imagem da morte. E é para se
-lembrarem d'esta grande verdade, que em cada dia visitam a valla que
-deve servir-lhes de derradeiro asylo.
-
-«O silencio--diz um eloquente orador contemporaneo--anda ao seu lado, e
-se fallam, quando se encontram, é para se dirigirem esta melancholica
-phrase:
-
---«_Irmão, é preciso morrer ..._»
-
-
-
-
-XXVIII
-
-_Cahir com graça_
-
-
-Quando em Roma o gladiador se sentia mortalmente ferido, nos sangrentos
-combates do circo, e a destreza se lhe tornava inutil, elle procurava
-ainda accender applausos na multidão, para a qual a sua agonia era um
-espectaculo, por uma queda a que elle tentava imprimir toda a arte, e
-_cahia na arena com graça_.
-
---Esta phrase applica-se, pelo lado moral, aos que, em politica, no
-amor, etc., se salvam da humilhação d'um cheque, pela boa graça, real ou
-ficticia, que fazem acceitar.
-
-
-
-
-XXIX
-
-_Hippocrates diz sim, Galiano diz não_
-
-
-Hippocrates e Galiano são os dois representantes mais illustres da
-medicina, entre os antigos: aquelle nos gregos, este nos romanos.
-Galiano nutria uma profunda veneração pelo genio do pae da medicina, e
-um dos maiores serviços que prestou á sciencia, foi o de ter, no meio
-d'uma sã critica, collocado o facho sobre as obras d'aquelle que chamava
-seu mestre. Hippocrates e Galiano teem de commum que dotados ambos d'um
-vasto genio, avançaram muito nos segredos da natureza, e ambos mostraram
-egual ardor na investigação da verdade, não pelo apparato das riquezas,
-mas só pelo amor da humanidade.
-
---Esta phrase proverbial: _Hippocrates diz sim, Galiano diz não_, não
-tem pois a sua origem no antagonismo dos dois grandes homens e dos seus
-systemas; mas como a medicina é o immenso campo da contradicção, e
-quando um medico diz--_tanto melhor_, um outro diz--_tanto peior_;
-quando este applica sangrias aquelle proscreve-as; quando um colloca a
-séde de todas as doenças nos nervos, o outro nos humores; quando, emfim,
-um escreve no seu estandarte--_contraria contrariis_ ... e o
-outro--_similia similibus_ ..., comprehende-se que era á medicina que a
-contradicção devia pedir a sua divisa, e que as duas columnas d'esta
-sciencia lhe deviam fornecer a expressão.
-
-
-
-
-XXX
-
-_É muito tarde!_
-
-
-Esta phrase data da revolução de Julho de 1830, em França, e eis em que
-circumstancia foi pronunciada. Uma ultima tempestade tinha derrubado
-para sempre o throno do ramo mais velho dos Bourbons. Era em
-sexta-feira, 30 de Julho; o povo estava inteiramente senhor de Pariz, e
-uma commissão a que presidia Lafayette cercava o Hotel-de-Ville. Carlos
-X, em Saint-Cloud, dominado por uma cegueira que lhe tinha feito jogar a
-corôa, conservava ainda illusões e esperava que algumas concessões o
-collocariam sobre o throno. M. de Sussy, portador de despachos que
-revogavam as fataes determinações de 25, apresenta-se no Hotel-de-Ville
-e entrega-os a Lafayette. Este dá-lhe então a famosa resposta:
-
---«_É muito tarde!_»
-
-Alguns dias depois o duque d'Orleans, chefe do ramo mais novo, subia ao
-throno. Mas, estranha volta das coisas d'este mundo, dezoito annos
-depois e em circumstancias quasi analogas, a mesma resposta foi dada a
-Luiz Philippe. Elle tambem devia ouvir Lamartine responder ás suas
-tardias concessões:
-
---«_É muito tarde!_»
-
-
-
-
-XXXI
-
-_Não ha grande homem para o seu creado de quarto_
-
-
-Segundo Mademoiselle Aïssé, esta phrase teria sido pronunciada pela
-primeira vez por Madame Cornuel, mulher d'espirito, do tempo de Henrique
-IV, da qual Madame de Sevigné cita os bons ditos. Essa phrase é, sem
-duvida, uma reminiscencia d'essa outra de Montaigne:--«Poucos homens
-teem sido admirados pelos seus creados.» Qual é, em verdade, o homem de
-genio que fica egual a si proprio, quando já não está em scena? O mundo
-é um espectaculo, onde cada qual representa um papel apropriado, em
-quanto está deante do publico, mas de que se despoja todo o brilho
-d'emprestimo desde que se recolhe a bastidores. Aqui o homem substitue o
-heroe e quantos poderiam dizer como o grande Condé, quando era fatigado
-com titulos pomposos e elogios hyperbolicos:
-
---«_Perguntem o que sou ao meu creado de quarto!_»
-
-
-
-
-XXXII
-
-_Cantam, elles pagarão_
-
-
-Mazarino governou a França depois de Richelieu, em momentos de
-perturbações e de guerra civil. Era a rapoza succedendo ao leão. Fez uma
-politica completamente opposta á do seu terrivel predecessor; os seus
-meios favoritos eram a astucia, a finura, a paciencia. Comprazia-se em
-repetir:
-
---«O tempo é um homem galante!»
-
-Nenhum ministro foi tão posto em canções como elle; mas insensivel aos
-pamphletos que diariamente dirigiam contra a sua pessoa, o astucioso
-italiano apenas dizia:
-
---«Deixemol-os fallar e prosigamos!»
-
-A cada novo imposto choviam novas satyras. Elle, porém, seguro de que
-uma opposição, que só desabafava em _couplets_ satyricos, o não poderia
-incommodar, acudia com toda a serenidade:
-
---«_Cantam, elles pagarão!_»
-
-
-
-
-XXXIII
-
-_Perdi o meu dia_
-
-
-O imperador Tito, que a historia cognominou _as delicias do genero
-humano_, exclamava quando tinha passado um só dia sem encontrar occasião
-de praticar algum bem:
-
---«Meus amigos, _perdi o meu dia!_»
-
-Boileau exprimiu esta generosa ideia nos seguintes versos da _Epistola
-ao Rei_:
-
- «Tal esse imperador, sob o qual, Roma via,
- Renascer de Saturno e de Rhêa outro dia;
- Que rendeu ao seu jugo o universo amoroso,
- Que jámais alguem viu sem se sentir ditoso,
- E que chorava á noite o tempo que perdera
- _Quando passava o dia e algum bem não fizera_.»
-
-
-
-
-XXXIV
-
-_Amo Platão, mas amo mais a verdade_
-
-
-Platão e Aristoteles são os dois mais illustres representantes da
-philosophia antiga. O primeiro, discipulo de Socrates, estava em todo o
-esplendor da sua fama, quando Aristoteles foi a Athenas para seguir as
-suas lições. O discipulo não tardou a tornar-se tão celebre como o
-mestre; mas dois espiritos d'esta superioridade, e, ao mesmo tempo, tão
-differentes, ambos feitos para reinarem no dominio do pensamento, deviam
-em breve separar-se.
-
-Assim, Aristoteles, sem ser, como se diz, inimigo do seu mestre, não
-adoptava todas as consequencias da sua doutrina; todavia, quando se
-achava em contradicção com elle, sabia exprimir a sua opinião com a
-sábia medida d'um philosopho e não com a funda amargura d'um rival.
-
---«Amo Platão--dizia--mas amo mais a verdade.»--«_Amicus Plato, sed
-magis amica veritas._»
-
---Esta homenagem prestada á verdade, quando é tida em desaccordo com as
-doutrinas de um genio, mesmo transcendente, passou a ter foros de
-proverbio.
-
-
-
-
-XXXV
-
-_Achei!--Eureka!_
-
-
-Esta exclamação que se faz ouvir quando, depois de longas investigações,
-o espirito, repentinamente inspirado, chega á descoberta que elle
-perseguia, foi proferida pela primeira vez, por Archimedes, nas
-circumstancias seguintes:
-
-Hieron, rei de Syracusa, suspeitava que um ourives, que lhe tinha
-fabricado uma corôa d'ouro, tivesse falsificado o metal, misturando-lhe
-uma certa quantidade de prata. Elle consultou Archimedes, seu parente,
-sobre os meios de descobrir a fraude, de que julgava poder queixar-se. O
-illustre mathematico reflectia profundamente na solução possivel d'este
-problema, quando um dia, estando no banho, percebeu que os seus membros,
-mergulhados na agoa, perdiam consideravelmente do seu pezo; que, por
-exemplo, elle podia levantar uma perna com extrema facilidade. O seu
-genio entreviu logo os elementos d'esse grande principio
-d'hydrostatica, que determinou em seguida rigorosamente:--que todo o
-corpo mergulhado n'agoa, perde uma parte do seu pezo, egual ao pezo do
-volume d'agoa que esse corpo desloca.--Esta descoberta dava-lhe a
-solução do problema. No meio do enthusiasmo que lhe produziu esta
-revelação elle sahiu do banho e lançou-se na rua gritando:
-
---_Achei! achei!_--_Eureka! Eureka!_
-
-Com effeito, tinha encontrado o meio de determinar a gravidade
-especifica de todos os corpos, tomando a agoa por unidade. Procurou,
-pois, duas massas, d'ouro e de prata, cada uma d'um pezo egual á corôa:
-mergulhou-as successivamente n'um vaso cheio d'agoa, observando com
-cuidado a quantidade de liquido deslocado pela immersão de cada uma
-d'ellas. Submetteu á mesma experiencia a propria corôa, e achou assim o
-meio certo d'apreciar a quantidade d'ouro e de prata de que ella era
-composta.
-
---O _achei!_ de Archimedes, ficou tendo applicação, nos casos em que,
-uma difficuldade qualquer, se vence por uma solução satisfactoria.
-
-
-
-
-XXXVI
-
-_Eu desejaria não saber escrever_
-
-
-Néro, educado por Seneca e Burrhus, dois dos mais sabios romanos d'esse
-seculo, esteve longe de annunciar, na sua mocidade, as sanguinarias
-inclinações, que o tornaram o typo da crueldade. Elle pareceu querer
-consolar os romanos do reino de Tiberio; os seus primeiros actos, cheios
-d'uma grande doçura, provam que aos seus instinctos de crueldade soube
-alliar uma profunda hypocrisia, e que a educação é completamente
-impotente para abafar, em certos caracteres, pelo menos, os germens das
-paixões más, que trazem nascendo. Desde o segundo dia do seu reinado
-elle foi ao senado, e em um discurso que Seneca lhe havia composto,
-annunciou que o seu projecto era tomar Augusto por modelo. Em verdade os
-principios do seu reino pareceram-se com os ultimos do reino d'aquelle
-que se propunha imitar. Mostrou-se justo, liberal, affavel, polido,
-complacente e accessivel á piedade. A modestia realçava-lhe ainda as
-qualidades. O senado, tendo-o louvado pela sabedoria do seu governo, fez
-com que elle dissesse:
-
---«Esperem, para me louvarem, que eu o tenha merecido.»
-
-Um dia em que lhe apresentaram, para assignar, a sentença que condemnava
-á morte um criminoso, elle disse:
-
---«_Eu desejaria não saber escrever!_»
-
-E comtudo foi ... Néro!
-
-
-
-
-XXXVII
-
-_Linguas d'Esopo_
-
-
-Esopo, escravo do philosopho Xantus, recebeu um dia do seu senhor, que
-tinha convidado varios amigos para jantar, ordem de comprar no mercado,
-tudo quanto houvesse de melhor, e nada mais.
-
---«Eu te ensinarei a especificares o que desejas, sem te entregares á
-discrição d'um escravo»--dissera o phrygio comsigo mesmo.
-
-E comprou só linguas, que fez cosinhar de todos os modos possiveis, de
-maneira que o principio, o meio e o fim do banquete, foram linguas. Os
-convidados louvaram a principio a escolha d'Esopo, mas, afinal,
-desgostaram.
-
---«Não te ordenei,--disse Xantus--que comprasses o que houvesse de
-melhor?»
-
---«E que ha melhor que a lingua?--respondeu Esopo.--É o laço da vida
-civil, a chave das sciencias, o orgão da verdade e da razão; por ella se
-construem e policiam cidades; por ella se instrue, se persuade e se
-reina nas assembleias; por ella se satisfaz ao primeiro dos deveres, que
-é louvar os deuses.»
-
---«Pois bem--replicou Xantus, que pretendia apanhal-o--compra amanhã o
-que houver de peior. Os mesmos convidados virão a minha casa e quero
-variar.»
-
-No dia seguinte Esopo só fez servir linguas, dizendo que a lingua é a
-peior coisa que ha no mundo.
-
---«É a mãe de todas as questões, a alimentadora de todos os processos, a
-origem das divisões e das guerras. Se ella é o orgão da verdade, é
-tambem o do erro, e, o que peior é, da calumnia. Por ella destroem-se as
-cidades; e se por um lado louva os deuses, por outro é o orgão da
-blasphemia e da impiedade.»
-
---As _linguas d'Esopo_ ficaram celebres, para designarem o que, podendo
-ser encarado sob dois aspectos oppostos, dá egualmente occasião ao
-louvor e á critica.
-
-
-
-
-XXXVIII
-
-_Lanterna de Diogenes_
-
-
-Na epocha em que vivia Diogenes, os athenienses pareciam ter perdido a
-memoria de Marathão e Salamina; eram já os athenienses da decadencia, e
-em quanto que Demosthenes procurava em vão accender essas heroicas
-recordações pelos masculos accentos da sua eloquencia, o cynico
-stigmatisava a seu modo, a sua cobardia e a sua corrupção.
-
-Uma vez foi encontrado em pleno meio dia, nas ruas d'Athenas, levando na
-mão uma lanterna accesa, e como lhe pedissem a razão de tão estranho
-caso, elle limitou-se a responder:
-
---«_Procuro um homem!_»
-
-
-
-
-XXXIX
-
-_O mestre o disse_
-
-
-Pythagoras, um dos maiores, e, talvez até o maior philosopho da
-antiguidade, aspirava, nada menos, que a constituir no mundo inteiro uma
-especie de religião. A sua doutrina tendia politicamente a estabelecer
-uma aristocracia forte e poderosa, e a revestil-a d'um caracter
-sacerdotal, que a tornasse semelhante ás theocracias do Oriente; em
-fazer das luzes scientificas a partilha d'um pequeno numero de
-iniciados, e em dar a estes o governo do mundo, attribuindo-lhes a
-infallibilidade. Estas grandes e arrojadas ideias inspiraram uma especie
-de terror aos gregos da Italia e provocaram o desastre espantoso que
-feriu subitamente os pythagonios.
-
-Comprehende-se o imperio que um philosopho d'este quilate devia adquirir
-sobre o espirito dos seus discipulos, e assim, entre elles, a phrase--_o
-mestre o disse_, equivalia a uma formula magica, que cortava
-completamente todas as disputas.
-
---Esta phrase que serve para exprimir o respeito que se professa por uma
-auctoridade, era d'algum modo a divisa de La-Fontaine, cuja veneração
-pelos antigos é muito conhecida.
-
---Um orador contemporaneo affirmou, nos rasgos da sua eloquencia, que o
-homem não dirá mais--_o mestre o disse_, porque o homem está emancipado
-do homem. Elle dirá agora:--_A verdade diz--A sciencia diz_.
-
-
-
-
-XL
-
-_O rei é morto, vive o rei!_
-
-
-Este velho grito da monarchia, significava que a realeza nunca morria em
-França. Apenas o rei exhalava o ultimo suspiro, um arauto apparecia ao
-balcão do palacio e gritava tres vezes deante do povo reunido:
-
---«_O rei é morto, vive o rei!--Le roi est mort, vive le roi!_»
-
-Mas era, sobretudo, na cerimonia funebre e quando o defuncto monarcha ia
-tomar o seu logar nas cryptas de S. Diniz, que estas palavras,
-pronunciadas no meio das pompas da religião, retumbavam d'uma maneira
-verdadeiramente solemne. Ouviram-se, pela ultima vez, em França, na
-morte de Luiz XVIII.
-
-
-
-
-XLI
-
-_O estado sou eu!_
-
-
-No dia immediato ao da morte do cardeal Mazarino, Luiz XIV, então de
-vinte e dois annos, fez chamar os ministros que o cardeal lhe tinha
-deixado--Pedro Séguier, Miguel Lettellier, de Lionne e Fouquet, e
-declarou-lhes que seria elle proprio, de futuro, o seu primeiro
-ministro. Na mesma tarde o arcebispo de Ruão foi encontrar-se com elle e
-disse-lhe:
-
---«Vossa Magestade tinha-me ordenado que me dirigisse ao cardeal para
-todos os negocios; elle está morto, a quem devo dirigir-me agora?»
-
---«A mim, senhor arcebispo.»
-
-O reino de Luiz o Grande estava começado.
-
-Estes preliminares pintam já o caracter de Luiz XIV e tornam muito
-provavel a authenticidade da famosa phrase--_O estado sou eu!_--que a
-historia diz elle fez ouvir, quando entrou de botas e esporas no
-parlamento.
-
-Como o presidente lhe significasse que a resistencia opposta aos seus
-editos, tinha a sua origem nos interesses do estado, o joven monarcha
-respondeu:
-
---«_O estado sou eu!--L'etat, c'est moi!_»
-
-
-
-
-XLII
-
-_Alavanca d'Archimedes_
-
-
-Chama-se _alavanca_ um corpo longo, inflexivel, fixo em um ponto da sua
-extensão, e destinado a levantar pesos. O ponto sobre a qual a alavanca
-tem o seu ponto fixo, diz-se _ponto d'apoio_; o peso a levantar,
-chama-se _resistencia_ e a força que actua é _potencia_. Quando o ponto
-d'apoio está collocado no meio da alavanca a _potencia_, e a
-_resistencia_ são eguaes, isto é, para se levantar um peso de cem
-kilogrammas é necessario uma força egual a esse peso. Mas a par e passo
-que o ponto d'apoio se approxima da resistencia, a força que se tem de
-desenvolver diminue proporcionalmente. D'aqui é facil comprehender que
-uma força egual, por exemplo, a algumas grammas, póde levantar um navio
-completo, dando-se um comprimento sufficiente ao braço da alavanca que
-separa o ponto d'apoio da força activa.
-
-É certo que a alavanca era conhecida de Archimedes, e foi o genio d'este
-grande homem que lhe determinou as propriedades e as proporções exactas.
-Comprehende-se que Archimedes tendo levado até ao infinito o estudo
-theorico da potencia da alavanca haja ousado exclamar:
-
---«_Deem-me um ponto d'apoio e eu levantarei a terra!_»
-
-Ha n'isto uma evidente hyperbole de linguagem, mas esta hyperbole
-satisfaz a razão, porque assenta n'um principio mathematico.
-
-
-
-
-XLIII
-
-_Magdalena_
-
-
-Magdalena, mulher celebre do Evangelho, era uma cortezã d'uma grande
-belleza. Tendo ouvido fallar Jesus, foi commovida de repente, e o
-arrependimento entrou no seu coração. Um dia em que Jesus estava á meza
-em casa de Simão Phariseu, a bella peccadora apresentou-se toda
-lastimosa na sala da refeição e precipitou-se aos pés do Salvador,
-regando-os com as suas lagrimas, beijando-os, inundando-os de perfumes e
-enxugando-os com os seus cabellos. O Phariseu escandalisou-se vendo que
-Jesus se deixava tocar por essa mulher, conhecida em toda a cidade por
-uma grande peccadora. Foi n'esta circumstancia que Jesus mostrou toda a
-misericordia que trasbordava do seu coração, dizendo aos que o rodeavam:
-
---«_Ser-lhe-ha muito perdoado, porque muito amou!_»
-
---Esta resposta applica-se hoje, mas quasi sempre ironicamente, ás
-mulheres conhecidas pela facilidade dos seus costumes, sejam ou não
-arrependidas, e ha, ao mesmo tempo, o uso de as designar pelo nome de
-_Magdalenas_.
-
-
-
-
-XLIV
-
-_Casa de Socrates_
-
-
-Socrates estava fazendo construir uma casa. Como lhe fizessem sentir que
-era demasiado pequena, elle acudiu:
-
---«_Prouvera a Deus que ella se enchesse de verdadeiros amigos!_»
-
-Esta bella phrase foi aproveitada por La-Fontaine, de que damos a
-seguinte versão:
-
- «Socrates uma casa edificava,
- E cada qual a obra criticava.
- Um achava o interior,
- Para dizer a verdade,
- Indigno do morador;
- Um outro desdenhava a frontaria,
- E toda a gente que essa casa via,
- Achava os aposentos limitados
- E bem pouco lisongeiros
- Mesmo por qualquer dos lados.
- --«Prouvera a Deus que d'amigos provados
- Se enchesse--diz--d'amigos verdadeiros!»
-
- Socrates razão tivera
- De achar, por tal, espaçosa a casita;
- Amigos muitos ha--quem acredita?
- Amigos de nome apenas,
- Não d'amisade sincera.
-
-
-
-
-XLV
-
-_Desgraça aos vencidos!_
-
-
-Depois da sangrenta batalha d'Allia, cujo anniversario foi incluido
-pelos romanos no numero dos dias nefastos, o terror tinha-se espalhado
-em Roma e todos os habitantes haviam fugido, excepto oitenta velhos que
-esperavam corajosamente a morte nas suas cadeiras curues, e a mocidade
-que se refugiou no capitolio. Depois de terem saqueado e queimado Roma,
-os gaulezes pozeram cêrco á fortaleza, e tendo dado um assalto sem
-resultado, estabeleceram então um cêrco mais rigoroso. Os defensores da
-fortaleza, sitiados havia sete mezes e entregues a todos os horrores da
-fome, pedem, afinal, capitulação. Brenno, chefe dos gaulezes, consente
-em levantar o cêrco mediante mil libras de ouro em peso. O tribuno
-Sulpicio apresenta a somma no dia marcado. Em quanto que se pesa o ouro,
-levanta-se uma contestação e os romanos censuram aos vencedores o uso de
-falsos pesos.
-
-É então que Brenno, lançando a sua pesada espada na balança, pronuncia a
-phrase celebre que depois se tornou proverbial:
-
---«_Desgraça aos vencidos!_»--«_Væ victis!_»
-
-
-
-
-XLVI
-
-_Manto de Joseph_
-
-
-Os mercadores ismaelitas, aos quaes Joseph fôra entregue por seus
-irmãos, levaram-n'o para o Egypto e venderam-n'o a Putiphar, um dos
-principaes officiaes do rei. A mulher de Putiphar, animada d'uma
-criminosa paixão, pelo joven israelita, que era formoso, tentou
-abalar-lhe a virtude e, para o obrigar a consentir nos seus desejos,
-ella agarrou-o um dia pelo manto e quiz attrahil-o a si.
-
-Joseph abandonou-lhe o manto e fugiu. Cheia de cólera e envergonhada por
-se vêr assim desprezada, essa mulher disse ao marido:
-
---«O escravo hebreu quiz ultrajar-me, mas aos meus gritos fugiu,
-deixando-me o manto entre as mãos!»
-
-Putiphar, irritado, fez encarcerar Joseph.
-
---Comprehende-se, sem que seja necessario que o expliquemos, em que
-ordem de ideias se faz allusão ao manto de Joseph e á mulher de
-Putiphar.
-
-
-
-
-XLVII
-
-_Mario sobre as ruinas de Carthago_
-
-
-Mario, livre das prisões de Minturnes, fez-se á vela para a Africa. O
-navio que o conduzia, privado d'agua, quiz aportar á Sicilia, mas uma
-força armada assaltou a equipagem, matou varios homens, e o proprio
-Mario só com difficuldade escapou. Alguns dias depois desembarcou na
-Africa, nos mesmos locaes aonde se elevava outr'ora a poderosa cidade de
-Carthago.
-
-Apenas em terra, Sextilio, pretor da Lybia, homem dedicado a Sylla,
-fez-lhe intimar ordem de deixar aquella provincia, e como o mensageiro
-lhe pedisse uma resposta, elle disse-lhe:
-
---«_Vae dizer a teu senhor, que viste Mario, errante e fugitivo, sentado
-sobre as ruinas de Carthago!_»
-
-A presença d'este grande proscripto sobre as ruinas ainda fumegantes da
-antiga e poderosa rival de Roma, é um dos mais frisantes exemplos das
-vicissitudes humanas, e a maneira simples e energica com que esta
-approximação é expressa, faz d'elle uma das mais sublimes lições que a
-historia tem tido a consignar.
-
-Toda a gente conhece o verso em que Delille poz em presença esses dois
-infortunios:
-
- «_E essas ruinas, sim, consolavam-se a si!_»
-
-
-
-
-XLVIII
-
-_Subir ao Capitolio_
-
-
-Na antiga Roma, os generaes vencedores subiam em triumpho ao Capitolio,
-no meio das acclamações de todo o povo, e alli offereciam sacrificios
-aos deuses; em seguida o povo os acompanhava a sua casa com archotes e
-soltando gritos de alegria.
-
-Na Edade Média, e durante o grande seculo litterario da Italia,
-resuscitaram-se, em favor da poesia, os antigos triumphos do Capitolio.
-No dia de Paschoa, a 8 d'abril de 1341, Petrarcha subiu ao Capitolio no
-meio dos principaes cidadãos, precedidos de doze mancebos, escolhidos
-nas familias mais illustres, que declamavam os seus versos. Recebeu a
-corôa de louro e recitou um soneto ácerca do heroe da antiga Roma.
-
-Tasso recebeu tambem as honras da coroação; a sua entrada em Roma já
-teve o aspecto de um triumpho. O povo, os nobres, os prelados, os
-cardeaes, os sobrinhos do Papa, foram ao seu encontro e o conduziram ao
-Vaticano, no meio das mais vivas acclamações. O Papa, avistando-o,
-disse-lhe com graça particular:
-
---«Vinde honrar esta corôa, que honrou todos quantos a collocaram antes
-de vós.»
-
-Os aprestos da cerimonia proseguiam com a maior rapidez e o Tasso ia,
-emfim, receber a recompensa d'uma vida cheia d'amargura e de dôr; mas
-por uma ultima irrisão da sorte elle morreu na vespera do proprio dia em
-que devia subir ao Capitolio, e o louro poetico não adornou senão a
-fronte do seu cadaver, que fôra amortalhado com a toga romana.
-
-Pouca gente desconhece a magnifica descripção que Madame de Stael fez da
-coroação de Corinna. A brilhante escriptora faz reviver no seu celebre
-romance a _Corinna Thebana_, a rival feliz de Pindaro, varias vezes
-coroada nos jogos olympicos.
-
-
-
-
-XLIX
-
-_Onde não ha el-rei o perde_
-
-
-Representava-se na comedia Franceza, com immenso successo o _Cerco de
-Calais_, tragedia de Belloy. O principal papel era desempenhado pela
-actriz Clairon, tão conhecida pelas suas aventuras galantes sob o nome
-de Fretillon. Um comediante muito obscuro, chamado Dubois, que
-desempenhava um papel n'esta peça, era accusado pelos seus collegas d'um
-acto de improbidade. Estes, tendo á frente a Clairon, recusaram-se a
-entrar em scena em companhia d'elle, e o _Cerco de Calais_ foi
-interrompido na vigesima representação. Os espectadores agitaram-se e
-houve desordem no theatro. Clairon fazia-se especialmente notar entre os
-mais obstinados. Ordenou-se que ella fosse conduzida ao Fort-L'evêque.
-Ella, então, disse a quem a intimava, com emphase theatral, que ia, mas
-que sua magestade podia tudo sobre os seus bens e sobre a sua liberdade,
-mas nada sobre a sua _honra_.
-
---«_Isso é sabido_--responderam-lhe--_onde não ha el-rei o perde!_»
-
-É vulgar e de facil comprehensão a applicação d'esta phrase.
-
-
-
-
-L
-
-_Onde se vae aninhar a virtude?_
-
-
-Moliére alliava a um grande genio as mais formosas qualidades do
-coração, e tinha uma alma ao nivel do seu espirito. Caracter suave,
-complacente e generoso, nunca o abandonava o seu elevado sentimento
-caritativo.
-
-Um dia em que partiu para S. Germano approximou-se-lhe um mendigo e
-pediu-lhe esmola. Moliére lançou-lhe uma moeda e subiu para o trem.
-Instantes depois percebeu que o pobre o seguia correndo. Fez parar. O
-pobre chegou-se e disse-lhe:
-
---«O senhor enganou-se, de certo, porque me deu um luiz, que eu venho
-entregar.»
-
---«Não, meu amigo--acudiu--e aqui tens outro.»
-
-E como o seu genio estava continuamente álerta, e elle estudava em toda
-a parte a natureza, como homem que queria pintal-a, exclamou:
-
---_Onde se vae aninhar a virtude?_
-
-
-
-
-LI
-
-_Perdoae-lhes, meu Pae, não sabem o que fazem_
-
-
-Jesus Christo, cuja vida, acções e doutrina tinham sido mansidão e
-misericordia, só teve sobre a cruz palavras de doçura para os seus
-proprios algozes, sobre a cabeça dos quaes attrahiu o perdão de seu Pae.
-«Ora--diz S. Lucas--com elle levavam dois outros homens, que eram
-criminosos, para os pôrem á morte, e quando chegaram ao Calvario, Jesus
-foi crucificado entre dois ladrões, um á direita e outro á esquerda, e
-elle dizia fallando dos seus verdugos:--_Perdoae-lhes, meu Pae, não
-sabem o que fazem!_
-
-Esta phrase cahiu do alto da cruz, no meio das agonias da morte e dos
-soffrimentos mais crueis, e resume admiravelmente o espirito evangelico
-e a moral sublime do sermão da montanha.
-
-A applicação d'esta phrase suprema não tem logar, geralmente, senão no
-estylo familiar.
-
-
-
-
-LII
-
-_Lavar as mãos como Pilatos_
-
-
-Poncio Pilatos, governador da Judeia, sob Tiberio, seria completamente
-desconhecido hoje, se o seu nome se não achasse envolvido no maior
-successo da historia. Jesus, perseguido desde muito pelo odio dos
-principes dos padres e dos phariseus, tinha sido apresentado perante o
-tribunal de Caiphaz, e condemnado á morte por se dizer Christo, filho do
-Deus vivo. Mas esta sentença não podia ser executada sem as ordens do
-governador romano. Os judeus levaram Jesus a Pilatos. Este convencido da
-sua innocencia, perturbado, além d'isto, por um estranho sonho que sua
-mulher Claudia Procula tinha tido durante a noite e que lhe despertára o
-maior interesse pelo Christo, procurava illudir a sentença de morte. Mas
-a populaça tendo reclamado o ultimo supplicio com gritos de furor, e
-ameaçado o proprio Pilatos com a cólera de Cesar, o fraco governador
-abandonou Jesus á raiva dos algozes. No entretanto, querendo protestar
-contra o que elle considerava uma suprema injustiça, elle fez trazer
-agua, e lavando as mãos deante do povo, exclamou:
-
---«Estou innocente da morte d'este justo; sois vós que respondereis por
-ella!»
-
---«Sim, sim--gritaram os loucos--que o seu sangue cáia sobre nossas
-cabeças e sobre nossos filhos!»
-
-E crucificaram-n'o!
-
-Alguns annos mais tarde, Pilatos, cahindo em desagrado sob Caligula, foi
-exilado, e no exilio, perseguido pelos remorsos, matou-se de desespero,
-dizem.
-
-A sentença iniqua que Pilatos pronunciou contra Jesus pesará sempre
-sobre a sua memoria, e até ao fim dos seculos Pilatos será o typo dos
-magistrados pusillanimes, que, obedecendo á voz do medo e dos seus
-interesses, teem a cobardia de pronunciarem condemnações que a
-consciencia reprova. Embora lavem as mãos, o sangue innocente derramado
-deixará sempre uma nodoa indelevel, que será para elles uma nodoa
-infamante.
-
---É, fazendo allusão á acção de Pilatos, que em linguagem familiar se
-diz:--«_D'ahi lavo as mãos_», como declaração de que se não tem
-responsabilidade nas consequencias de successos para que se concorreu.
-
-
-
-
-LIII
-
-_O que não peccou, atire a primeira pedra_
-
-
-Os scribas e phariseus levaram a Jesus uma mulher que fôra surprehendida
-em adulterio, e disseram-lhe:
-
---«Mestre, esta mulher acaba de ser surprehendida em adulterio. Ora a
-lei de Moisés ordena-nos que apedrejemos as adulteras. Qual é a este
-respeito a vossa opinião?»
-
-Fallavam-lhe assim para o tentarem, e a fim de o poderem accusar. Mas
-Jesus Christo abaixando-se, escreveu com o dedo na terra.
-
-E como continuassem a interrogal-o, elle levantou-se e disse-lhes:
-
---«_Aquelle d'entre vós que não peccou lhe atire a primeira pedra._»
-
-A esta phrase elles retiraram-se a um e um, e só ficou Jesus com essa
-mulher que se conservava de pé.
-
-Jesus disse-lhe então:
-
---«Ninguem te condemnou, não te condemnarei tambem. Vae e não peques
-mais.» (_Evang. S. João_).
-
-
-
-
-LIV
-
-_Tres linhas escriptas e eu farei enforcar quem as escreveu_
-
-
-Nada ha que mais se preste á critica e á satyra do que as leis.
-Anacharsis comparava-as ás teias d'aranha que prendem as pequenas e
-deixam passar as grandes moscas. La-Fontaine rimou a mesma ideia quando
-disse:
-
- «Assim, conforme o que és, ou grande ou miseravel «A justiça fará
- que sejas branco ou negro.»
-
-Não confirma a sabedoria das nações, os juizos do philosopho e do
-fabulista, quando concede ao condemnado vinte e quatro horas para
-maldizer a um juiz? Mas a cabula, o processo, o codigo n'uma palavra não
-justifica hoje estas accusações? e os traços que acabamos de citar são
-uma calumnia ou maledicencia? O presidente d'Ormesson parece ter
-respondido a esta pergunta quando disse:
-
---«Se eu fosse accusado de ter roubado as torres de Notre Dâme, e
-ouvisse gritar atraz de mim--_agarra que é ladrão!_--eu fugiria
-desesperadamente.»
-
-Este terror que inspira a justiça, mesmo ao mais innocente, está
-plenamente justificado por estas palavras:
-
---«_Deem-me tres linhas da escripta d'alguem e eu o farei enforcar._»
-
-Os eruditos estão divididos sobre o auctor d'esta celebre phrase, que
-attribuem a Laubardemont, ao Padre Joseph, a Richelieu, a Jeffries, e
-que M. Proudhon, mais prudente, attribue a um ... criminalista.
-
-O cardeal Richelieu, que conhecia o poder do equivoco, citava um dia
-esta phrase deante dos seus secretarios. Um d'elles, julgando
-embaraçal-o, escreveu n'um cartão--«Um e dois fazem tres.»--«Blasphemia
-contra a Santissima Trindade!--exclamou o cardeal--um e dois só fazem
-um.»
-
-
-
-
-LV
-
-_Quem te fez conde? Quem te fez rei?_
-
-
-A fraqueza dos ultimos carlovingianos tinha permittido á feudalidade
-lançar profundas raizes entre os francos, e tornar-se quasi
-independente, e quando em 987 Hugo Capeto foi eleito rei de França em
-Noyon, pelos seus proprios vassallos e alguns pequenos feudatarios
-visinhos, elle ficou o que tinha sido antes, conde de Paris, possuidor
-de vastos dominios, mas não sendo, no meio dos poderosos barões, mais
-que o primeiro entre iguaes. Assim, todo o seu reino foi perturbado
-pelas revoltas dos proprios que o tinham levado ao throno, mas que
-recusavam reconhecer a sua supremacia. Poder-se-ha julgar pela altiva
-resposta d'um d'elles, com que olhos consideravam a nova realeza.
-
-Um conde de Périgneux, Adalberto, emprehendeu conquistas e usurpára os
-titulos de conde de Poitiers e de Tours. O rei de França mandou-lhe um
-mensageiro para lhe perguntar:
-
---«Quem te fez conde?»
-
-Ao que Adalberto respondeu:
-
---«Quem te fez rei?»
-
-Estas phrases, frequentemente citadas, resumem uma epocha inteira.
-
-
-
-
-LVI
-
-_A Cesar o que é de Cesar a Deus o que é de Deus_
-
-
-Alguns dias antes da celebração da Paschoa, Jesus fez uma entrada
-triumphal em Jerusalem, no meio d'um concurso immenso de povo que
-gritava:--Hossana ao filho de David! Bemdito o que vem em nome do
-Senhor!» Os principes dos padres e os scribas procuraram então os meios
-de o perder e de o prender nas proprias palavras por perguntas
-insidiosas. Os herodianos approximaram-se, pois, d'elle, e lhe
-perguntaram:
-
---«Mestre, sabemos que és verdadeiro nas tuas palavras e que ensinas o
-caminho de Deus, sem distincção de pessoas. Dize-nos então a verdade
-sobre isto:--É permittido pagar o tributo a Cezar?»
-
-Jesus, penetrando na intenção d'elles, respondeu:
-
---«Mostrem-me a moeda de dinheiro que se dá em tributo.»
-
-Apresentaram-lhe um dinheiro. Jesus disse-lhes então:
-
---«De quem é esta moeda?»
-
---«De Cezar.»
-
---«_Dêem, então, a Cezar o que é de Cezar e a Deus o que é de Deus!_»
-
-Vem a proposito citar que Henrique IV, que antes de entrar em Paris fôra
-obrigado a comprar muito caro os chefes da Liga, modificou, a este
-respeito, da maneira mais original e mais espirituosa, a lettra do
-Evangelho.
-
-Um dia depois do seu jantar, Henrique IV disse ao seu secretario:
-
---«Que pensas, vendo-me em Paris como estou?»
-
---«Penso, senhor, que deram a Cezar o que era de Cezar, como é preciso
-dar a Deus o que é de Deus ...»
-
---«Ora essa!--replicou o rei--não me fizeram como a Cezar, porque me não
-_deram_, mas porque me _venderam_ o que era meu.»
-
-
-
-
-LVII
-
-_Salto de Leucade_
-
-
-Sapho, a mais illustre das poetisas, appellidada a decima musa, nasceu
-em Mitylene, na ilha de Lesbos, pelo anno 600, antes de Christo. Amiga
-do poeta Alceu, ella foi arrastada na conspiração contra Pittaco e
-acabou os seus dias no exilio.
-
-Os antigos representam-na devorada pelas paixões e entregue ao furor dos
-sentidos; e elles não davam o nome de versos ás suas poesias, mas
-_ardores_, _chammas_, etc.; e acceitando os costumes muito conhecidos
-das lesbianas com a indulgencia cynica d'aquella epocha, elles
-inflammavam-se n'um enthusiasmo sem limites pelo lyrismo desordenado dos
-seus cantos, pela graça exquisita, pela harmonia arrebatadora e pelo
-estylo de fogo das suas odes.
-
-Conta a tradição que, apaixonada pelo insensivel Phaon, joven lesbiano,
-d'uma grande belleza, e não podendo vencer os seus desprezos, ella se
-precipitou, cheia de desespero, do alto de Leucade no mar.
-
-A ilha de Leucade era famosa por um promontorio, formado de rochedos
-escarpados que dominavam o mar. Era alli que as amantes desgraçadas iam
-procurar remedio a seus males, precipitando-se do alto do promontorio
-sobre as vagas. É isto o que se chamava _dar o salto de Leucade_. Os que
-escapavam á morte depois d'esse perigoso salto, ficavam curados do seu
-amor.
-
-Mas comprehende-se que pouquissimas resistiam a esse remedio heroico.
-
-
-
-
-LVIII
-
-_Se é possivel, está feito; se é impossivel se fará_
-
-
- Impotente, gottoso, e já velho leão
- Queria achasse algum remedio á velhice.
- _O impossivel aos reis allegar é illusão_.
-
-Eis uma verdade que Colonne, quartel mestre geral das finanças, sob Luiz
-XVI, era demasiado fino e cortezão para ignorar. Leviano, espirituoso,
-incapaz d'um plano fortemente concebido e pacientemente executado, elle
-devia deixar as finanças do reino n'um estado ainda mais deploravel do
-que as tinha encontrado ao entrar para o ministerio. As suas operações
-aventureiras só deviam augmentar o mal geral e o numero dos
-descontentes. N'essa côrte tão prodigiosamente descuidada na vespera
-d'uma catastrophe e em que só Luiz XVI tinha o sentimento dos seus
-deveres, sem ser dotado da energia necessaria para bem os cumprir, o
-luxo e a prodigalidade eram tão insaciaveis como se os cofres do estado
-estivessem pejados. Para crear elogiadores entre os homens de lettras, o
-ministro concedeu pensões a um grande numero d'elles.
-
-Maria Antonietta era a primeira a dar o exemplo do luxo e não punha
-qualquer freio ao seu prazer pelo gasto. Um dia que ella precisava d'uma
-somma consideravel dirigiu-se a Colonne, cuja facil condescendencia ella
-conhecia. Antes de lhe expor o pedido, ella disse-lhe n'esse tom de
-mulher e rainha que não quer recusa:
-
---«O que tenho a pedir-lhe é difficil talvez, Colonne!»
-
-O espirituoso ministro respondeu, inclinando-se graciosamente:
-
---«_Se é possivel, está feito; se é impossivel, far-se-ha!_»
-
-Não era possivel commentar mais finamente o verso de La-Fontaine.
-
-Nas guerras da republica, a possibilidade do _impossivel_ foi expressa
-d'uma maneira mais nobre por um general francez, no ardor d'um combate
-encarniçado. Um official que elle acabava de encarregar d'uma operação
-perigosa, respondeu-lhe que era impossivel.
-
---«Impossivel, senhor?--respondeu o general--Olhe que essa palavra não é
-franceza!»
-
-
-
-
-LIX
-
-_Terra promettida_
-
-
-Depois da morte de Joseph, os descendentes de Jacob não tardaram a ser
-perseguidos pelos egypcios, que os empregavam nos trabalhos mais rudes.
-Mas Deus que tinha sempre os olhos fixos sobre o seu povo, suscitou
-Moisés, ao qual ordenou que conduzisse os hebreus _á terra de Chanaan_,
-berço de seus paes.--«Era--diz a Escriptura--uma terra de promissão,
-produzindo uvas que dois homens mal podiam carregar, e onde corriam
-regatos de leite e de mel.» Mas os israelitas, constantemente rebeldes,
-foram condemnados a errar quarenta annos no deserto, á vista d'essa
-terra de delicias, sem n'ella poderem entrar. Afinal lá chegaram,
-conduzidos por Josué.
-
---A _terra promettida_ é uma expressão que passou em todas as linguas a
-designar um estado, uma ventura a que se aspirava ha muito tempo. Victor
-Hugo disse, a proposito, nas _Folhas do Outomno_:
-
- . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
- «Um homem, dentro em si, construe e phantasia
- Um mundo encantador, mundo d'arte e poesia,
- --A nossa Chanaan, que nós vemos de cima ...»
-
-
-
-
-LX
-
-_Thebaida_
-
-
-A Thebaida, uma das tres grandes divisões do antigo Egypto, e que tinha
-Thebas por capital, era famosa pelos desertos que a éste e oéste
-cercavam a sua parte habitada. Foi n'uma destas solidões que nos
-primeiros seculos do christianismo se refugiaram muitissimos christãos,
-já para fugirem á perseguição, já para se esquivarem ás seducções do
-mundo, entregando-se ao jejum, á oração e a todas as austeridades da
-vida ascetica.
-
-O mais illustre d'entre elles, Santo Antonio, dera o exemplo,
-distribuindo a sua fortuna aos pobres, para viver do trabalho das suas
-mãos. A sua reputação de santidade espalhou-se ao longe, e a breve
-trecho, milhares de discipulos se gruparam em volta d'elle. Durante
-algum tempo, foi, d'algum modo repovoado de monges e anachoretas. Mas
-afinal a despovoação geral do Egypto produziu a extincção de quasi todos
-os mosteiros, que se haviam creado.
-
-Hoje, só as cellas vasias, marcadas com o symbolo dos christãos, indicam
-a assistencia d'esses religiosos nos templos pagãos arruinados, bem como
-as grutas dos sepulchros da Thebaida.
-
---Na linguagem ordinaria, _Thebaida_, diz-se d'um deserto, d'uma solidão
-profunda, em que se vive retirado do mundo; mas esta palavra está longe
-de ser tomada sempre n'este sentido. Faz-se muitas vezes uso d'ella, em
-poesia, especialmente para designar um retiro favorito, que
-propositadamente se escolhe, longe do bulicio, para o goso das doçuras
-da amisade, ou dos encantos do amor.
-
-Lembra-nos até que Theophilo Gautier disse já n'uma das suas esplendidas
-poesias:
-
- «Um bom _cottage_ inglez, eis a _Thebaida_ sua!»
-
-
-
-
-LXI
-
-_Desça o panno, acabou a comedia!_
-
-
-Rabelais, o mais philosopho dos bufões, e o mais bufão dos philosophos,
-nasceu perto de Chinon, em Touraine, por 1483. Os seus biographos são
-pobres em factos authenticos, mas em compensação abundam em anecdotas
-romanescas, de onde resalta esse typo de cara alegre e tolerante, amigo
-de Baccho e da dança, o que só se ama por excepção. O genero muito
-particular do seu genio foi perfeitamente pintado por La Bruyére:--«Onde
-Rabelais é mau passa muito além de peior; é o encanto da canalha; aonde
-é bom, elle vae até ao extremo de excellente, e póde ser um prato dos
-mais delicados.» De resto, este sentimento do moralista parece ter sido
-dictado pelo proprio Rabelais que recommendava aos seus leitores «que
-abrissem a caixa para tirarem a droga, e quebrassem os ossos para
-chucharem a medula.» Mas o que domina na sua vida e nos seus escriptos é
-um septicismo zombador que ataca todas as crenças, todas as
-instituições, todos os sentimentos, e que estala, sobretudo, nos ultimos
-momentos da sua vida.
-
-Entre as numerosas versões que foram reproduzidas ácerca da sua morte,
-encontra-se esta. O cardeal de Châtillon, seu amigo, tendo enviado um
-pagem a informar-se da sua saude, elle respondeu-lhe:
-
---«Dize a Monsenhor em que bello humor me encontras. Eu vou buscar um
-grande _talvez_. Está no ninho da pega. Dize-lhe que se deixe estar. E
-tu não passas d'um tolo.»--Depois exhalou o ultimo suspiro n'uma grande
-gargalhada acompanhada d'estas palavras:
-
---«_Desça o panno; acabou a comedia!_»
-
-
-
-
-LXII
-
-_Tudo é perdido, menos a honra!_
-
-
-Francisco I a quem duas derrotas experimentadas pelos seus generaes
-Lautrec e Bonnivet tinham feito perder o milanez, quiz reconquistar este
-ducado, e transpoz os Alpes á frente d'um novo exercito. A breve trecho
-pôde entrar em Milão. Mas em vez de perseguir o inimigo a todo o transe,
-obstinou-se no cêrco de Pavia, e, como este cêrco fosse delongado, teve
-a imprudencia de se enfraquecer, destacando 12:000 homens que deviam
-marchar sobre Napoles. No entretanto, os imperiaes reforçavam-se e
-levavam soccorro a Pavia. Feriu-se a batalha e foi encarniçada. O rei
-foi ferido na fronte, e a sua armadura, que a França possue ainda, foi
-toda crivada. Mas o numero venceu a coragem, a batalha foi perdida e
-Francisco I feito prisioneiro. Entregou a sua espada ao vice-rei de
-Napoles, Lannoy, que a recebeu de joelhos.
-
-«Foi do campo imperial, perto de Pavia, que Francisco I escreveu a sua
-mãe uma carta que se tornou celebre, graças á tradicção, que muito a
-alterou dando-lhe a fórma d'um laconismo sublime:
-
---«_Senhora, tudo é perdido, menos a honra!_»
-
-Recentes investigações, porém, fizeram descobrir o texto verdadeiro
-d'essa carta que começa do seguinte modo:--«Senhora, para vos fazer
-saber como se cumpre o resto do meu infortunio, _de todas as coisas, só
-me ficou a honra e a vida, que está salva_.»
-
-
-
-
-LXIII
-
-_Trombetas de Jericó_
-
-
-Jericó foi a primeira cidade que os hebreus encontraram na sua entrada
-na terra promettida. Era fechada por altas muralhas. Por ordem de Deus,
-Josué mandou fazer ao seu exercito a volta da cidade durante sete dias.
-A arca d'alliança fôra levada com grande pompa e precedida de sete
-padres, que tocavam trombeta. O povo acompanhava em silencio. Ao setimo
-dia, deu-se sete vezes a volta á cidade, e o povo, por ordem de Josué,
-tendo soltado um grito muito grande, viu no mesmo instante
-desmoronarem-se as muralhas. A cidade foi reduzida a cinzas e todos os
-habitantes passados a fios d'espada.
-
---Em litteratura faz-se muitas vezes allusão ás _trombetas de Jericó_,
-que se oppõem á lyra d'Amphion. Este contraste não escapou ao rei
-philosopho que escreveu ao seu amigo Voltaire:--«Interessado em servir o
-genero humano, consagraes a vossa vida inteira ao bem publico. A
-Providencia tinha-vos reservado para ensinardes aos homens a preferirem
-a lyra d'Amphion, que elevava os muros de Thebas a esses instrumentos
-bellicos que faziam arrazar os de Jericó.»
-
-
-
-
-LXIV
-
-_A tunica de Christo_
-
-
-«Os soldados, depois de haverem crucificado Jesus, tomaram-lhe os
-vestidos e dividiram-os em quatro partes: uma para cada soldado. Tomaram
-tambem a tunica; mas a tunica não tinha costura, era uma só peça inteira
-de cima a baixo.
-
-«E elles disseram uns aos outros:--«Não a talhemos; tiremos á sorte para
-vermos a quem pertencerá. Afim de que esta palavra fosse cumprida, elles
-dividiram entre si os meus vestidos e jogaram á sorte a minha
-tunica.»--Eis o que fizeram os soldados.--(_S. João_, _cap._ XXIX).
-
---Esta divisão da tunica de Jesus Christo, no momento da sua morte, tem
-duas especies d'applicação:--ora se allude a ella para designar a
-partilha dos despojos d'um innocente, ora recorda que a tunica era d'uma
-só peça inteira, para indicar que uma coisa não póde soffrer divisão.
-
-
-
-
-LXV
-
-_Um imperador deve morrer em pé_
-
-
-Vespasiano, imperador romano, ia além de sessenta e nove annos, quando
-foi atacado da doença que o levou ao tumulo, não por agudos
-soffrimentos, mas por um enfraquecimento progressivo. Conservando até ao
-fim a sua serenidade d'alma, elle transformava em gracejo a apotheose
-que lhe ia ser conferida.--«_Percebo que começo a tornar-me deus_»,
-dizia elle alegremente á medida que a sua situação se tornava
-desesperada. Apesar da sua extrema fraqueza não interrompeu um instante
-as suas occupações habituaes; dava tempo aos negocios e audiencia no
-leito. Afinal, sentindo-se desfallecer, fez um derradeiro e supremo
-esforço para se levantar, dizendo:
-
---«_É preciso que um imperador morra de pé!_»
-
-E tendo-se feito vestir, expirou entre os braços dos seus officiaes.
-
---Luiz XVIII, nos ultimos dias da sua vida teve uma phrase que recorda a
-de Vespasiano. Apesar do depauperamento das suas forças, continuava a
-mostrar-se em publico e nos conselhos. A 25 d'Agosto de 1824, dia de S.
-Luiz, respondeu ao conde d'Artois, seu irmão, que o aconselhava a não
-receber:
-
---Um rei de França morre, mas não deve estar doente!»
-
-
-
-
-LXVI
-
-_Vendilhões expulsos do templo_
-
-
-«E estando proxima a paschoa dos judeus, Jesus fez a sua entrada em
-Jerusalem.
-
-«E elle achou no templo mercadores que vendiam bois, ovelhas e pombas e
-os trocadores alli estavam sentados.
-
-«E tendo feito umas disciplinas com cordas, elle os expulsou a todos
-fóra do templo, assim como as ovelhas e os bois e espalhou o dinheiro
-dos vendilhões sobre as mezas.
-
-«E elle disse aos vendilhões:--«Está escripto. A minha casa é uma casa
-de oração e vós fazeis d'ella uma caverna de ladrões.» (_S. João_,
-_cap._ II).
-
---Esta expressão--_expulsar os vendilhões do templo_--emprega-se para
-stigmatisar os profanadores, em qualquer ordem que seja, os que
-mercadejam com coisas respeitaveis e que só deviam ser apanagio
-exclusivo da arte, das lettras, das sciencias, e, em geral, da
-intelligencia e do talento.
-
-
-
-
-LXVII
-
-_Gritar no deserto_
-
-
-S. João Baptista, filho de Zacharias e de Santa Elisabeth, prima da
-Virgem Santissima, retirou-se muito cedo para o deserto, levando uma
-vida cheia d'austeridades. Vestia uma pelle de camello atada á cinta por
-uma tira de couro, e o seu alimento constava de gafanhotos e mel bravo.
-Quando chegou á edade de trinta annos e foi preparado com rudes
-exercicios para o ministerio que lhe estava destinado, dirigiu-se ás
-margens do Jordão, prégando a penitencia, annunciando a realisação das
-prophecias e a vinda do Messias, que o tinha enviado para preparar os
-seus caminhos. «--Façam penitencia--exclamava elle--pois o reino dos
-céus está proximo». Os habitantes dos arredores corriam em multidão para
-o ouvirem. O synhedrio, tocado pelo seu genero de vida extraordinario e
-da sua eloquencia selvagem, enviou-lhe padres e levitas para saberem se
-era o Messias, ou Elias, ou simplesmente um propheta. Elle respondeu que
-não era propheta, nem Elias, nem Messias.--«Quem és então?, porque
-precisamos levar resposta aos que nos mandaram?»--«Sou a voz d'aquelle
-que grita no deserto:--tornae recto o caminho do Senhor!» E elle
-ajuntava:--«Aquelle que deve vir depois de mim é mais poderoso do que
-eu, e eu não sou digno de desatar os cordões do seu calçado. Moisés
-deu-vos a lei, mas o Christo vos dará a graça e a verdade.»
-
---Hoje estas palavras--_gritar no deserto_--teem um sentido desviado do
-primitivo. Significam na applicação--pregar, aconselhar, fallar em vão.
-
-
-
-
-LXVIII
-
-_Zoilo_
-
-
-Celebre grammatico e critico grego do quarto seculo antes de Christo, e
-cujo nome era já proverbial no tempo d'Ovidio. Nada se sabe ao certo,
-quanto ao logar do seu nascimento, circumstancias da sua vida e genero
-de sua morte. Tambem nos não chegou nenhuma das suas obras. Sabe-se
-sómente, pelo testemunho quasi unanime dos antigos que elle se
-encarniçou contra as obras d'Homero.
-
-Vitruvio pretende que Ptolomeu Philadelpho, indignado com as suas
-blasphemias litterarias, lhe infligiu o supplicio da cruz, ou o fez
-queimar vivo.
-
---O nome de _Zoilo_ designa o typo do critico apaixonado e de má fé.
-
- «No futuro, será _Zoilo_, com toda a furia,
- Aos _censores_ crueis uma cruel injuria.»
-
-
-
-
-LXIX
-
-_Aspasia_
-
-
-Mulher grega, natural de Mileto, celebre pelo seu espirito e pela sua
-belleza. Foi muito cedo para Athenas, aonde não tardou a exercer sobre
-os homens mais illustres d'essa epocha, Pericles, Alcibiades, o proprio
-Socrates, o ascendente irresistivel da eloquencia, da graça e da
-belleza. Pericles, arrastado pelos seus encantos, repudiou sua primeira
-mulher para a desposar. Ella exerceu sobre elle tal ascendente, que
-teve a maior parte nos negocios da Grecia, tornando-se um verdadeiro
-poder na republica. Dizia-se que as harengas de Pericles eram mais d'uma
-vez inspiradas por Aspasia. Accusada d'impiedade ella defendeu a sua
-propria causa com uma eloquencia que apesar de grande, não a teria
-salvo, se seu esposo não enternecesse os juizes com lagrimas. Essa
-mulher illustre deve ser classificada, não como demasiadas vezes o é, na
-classe das cortezãs, mas na das _hetairas_, mulheres gregas, dedicadas
-ás artes, á poesia, á propria sciencia, e que eram procuradas para os
-prazeres do espirito, e de que Aspasia foi um dos typos mais graciosos e
-mais perfeitos.
-
-Foi por justo titulo que o nome passou a significar entre os gregos a
-mais amavel das mulheres, como Alexandre o maior dos heroes,--e é n'este
-sentido que chamamos ainda hoje _Aspasia_ á mulher que reune os dons do
-espirito aos encantos da belleza.
-
-
-
-
-LXX
-
-_Babylonia_
-
-
-Assente sobre o Euphrates e embellezada por Semiramis, a Babylonia
-parecia ter sido a cidade mais esplendorosa da antiguidade. As suas
-muralhas de cincoenta pés de largura e d'uma altura prodigiosa, as suas
-cem portas de bronze, os templos, os palacios, as estatuas d'ouro, e,
-sobretudo, os seus jardins suspensos, tornavam-na a rainha das cidades
-antigas.
-
-Rival de Jerusalem foi muitas vezes em guerra com o povo judeu que alli
-passou setenta annos de captiveiro, durante os quaes um grande numero
-_não suspenderam as suas harpas nos salgueiros da margem_, e abandonaram
-a religião de seus paes. As Escripturas fallam de Babylonia como de um
-foco de corrupção e idolatria; fizeram-na a personificação do mundo
-profano, o receptaculo de todos os vicios e de todas as impurezas.
-Exasperados pela politica barbara dos babylonios os israelitas
-votaram-lhes um odio profundo, e a dissolução dos costumes, de que foram
-testemunhas no captiveiro, augmentou áquelle sentimento o do horror e do
-desgosto. D'aqui o nome de _grande prostituta_, que elles deram a essa
-cidade.
-
---Hoje, que já não existe a Babylonia, que os viajantes e archeologos
-nem mesmo podem encontrar-lhe o local, só o nome sobreviveu, e
-applica-se aos grandes centros populosos, como Londres, e, sobretudo,
-como Pariz, onde a agglomeração das massas, as riquezas, os progressos
-da industria e da civilisação engendram fatalmente a corrupção de
-costumes.
-
---Os protestantes, que pretendem ser os unicos observadores da lettra e
-do espirito evangelico, chamam á vida eterna--a _grande Babylonia_.
-
-
-
-
-LXXI
-
-_Incendiar os seus navios_
-
-
-Esta locução allude ao procedimento de alguns grandes capitães, que a
-historia nos representa incendiando os seus navios, que os haviam
-conduzido á abordagem nos barcos inimigos, afim de que os marinheiros e
-soldados, privados de toda a especie de fuga se vissem na contingencia
-de vencerem ou morrerem. Agathocles, tyranno de Syracusa foi o primeiro
-que na Costa d'Africa deu o exemplo d'esta resolução arrojada.
-
-O imperador Juliano poz fogo aos seus depositos e aos seus mil e cem
-navios, no Tigre, quando fez a sua expedição contra Sapor, um rei da
-Persia. Guilherme, o Conquistador, abordando a Inglaterra em 1066,
-recorreu ao mesmo expediente, que foi seguido da victoria d'Hastings.
-Roberto Guiscard, no perigo eminente em que se achava com a sua pequena
-armada deante das forças consideraveis de Alexis Commene, incendiou a
-sua frota e as suas bagagens e ganhou a victoria de Durazzo a 13
-d'outubro de 1084. Foi d'este modo, emfim, que Fernando Cortez,
-desembarcando na costa do Mexico preludiou a conquista d'esta região.
-
---Esta locução--_incendiar os seus navios_--passou a proverbio e quer
-dizer:--interdizer, subtrahir por uma iniciativa arrojada os meios de
-volver a uma resolução, de renunciar a uma empreza; pôr-se na
-impossibilidade de retroceder.
-
-
-
-
-LXXII
-
-_Os ultimos romanos_
-
-
-Chama-se geralmente assim aos romanos que, a exemplo de Catão,
-conservaram, n'uma sociedade em decadencia, os costumes e a virtude dos
-antigos tempos. Mas deu-se mais particularmente este nome a Bruto e a
-Cassio, que foram a alma da conspiração que victimou Cezar, e que depois
-de terem combatido nas planicies de Philippes contra os inimigos da
-liberdade romana, se deram a morte para não sobreviverem á sua perda.
-
-Philopeme, que luctou constantemente pela liberdade hellenica e depois
-da morte do qual, a Grecia se viu reduzida a provincia romana, é tambem
-chamado--_o ultimo dos gregos_.
-
---Estas palavras empregam-se, ora séria, ora ironicamente, para
-designarem todos quantos conservam a tradicção d'um passado, que são
-quasi os unicos a representar.
-
-
-
-
-LXXIII
-
-_Faça cabelleiras, mestre André_
-
-
-Em 1760 um cabelleireiro francez chamado André, arrojou-se a escrever
-uma tragedia em 5 actos, em verso, intitulada--_O terramoto de
-Lisboa_--e mandou a peça a Voltaire, que elle chamava _caro confrade_ na
-seguinte obra prima epistolar:
-
- AO ILLUSTRE E CELEBRE POETA
- M.ʳ DE VOLTAIRE
-
- «_Meu caro confrade._
-
-«É um estudante, noviço na arte da poesia, que se aventura a dedicar-lhe
-a sua primeira obra, tendo-o sempre reconhecido por um dos nossos
-celebres, pelas pomposas obras que tem dado e dá á luz todos os dias. Eu
-julgar-me-hei feliz se quizer lançar um rapido olhar a essa pequena
-obra, favorecendo-a com a menor das suas recordações. Faltaria a um
-grande dever se não confessasse que o reconheço por meu mestre. Se pela
-sua bondade se dignar favorecer-me eu prometto-me que, livre de todo o
-receio, publicarei constantemente os seus louvores e testemunharei em
-toda a parte, quanto lhe sou devedor por a haver acceitado.
-
-«Sou, M.ʳ e caro confrade, humillissimo e affeiçoado servo
-
- _André._»
-
-O grande poeta divertiu-se muito com esta singular e comica
-confraternidade. E respondeu ao _seu caro confrade_ com uma missiva de
-quatro paginas, encerrando apenas estas palavras, cem vezes
-repetidas:--«Faça cabelleiras, mestre André; faça cabelleiras, mestre
-André.»
-
-Esta espirituosa resposta fez dizer a mestre André que Voltaire
-envelhecia, porque começava a repetir-se.
-
-A obra prima de mestre André fez muito ruido, porque em 1805, mais de
-quarenta annos depois, um director alegre fez representar a peça _O
-terramoto de Lisboa_, n'um pequeno theatro de _boulevard_ e ella obteve
-um immenso successo comico, em oitenta representações successivas!
-
---A phrase--_faça cabelleiras_, tornou-se uma das locuções mais
-pittorescas da lingua franceza, com emprego em todas as outras. É uma
-traducção espirituosa e comica do _ne sutor ultra crepidam_, dos
-latinos.
-
-
-
-
-LXXIV
-
-_Fé do carvoeiro_
-
-
-Dá-se por origem a esta locução o seguinte conto. O diabo, disfarçado em
-eremita, e, segundo outros, em doutor de Sorbonne, entrou um dia na
-cabana de um carvoeiro e disse-lhe para o tentar:
-
---«Tu que crês?»
-
---«Eu creio o que crê a Santa Egreja».
-
---«E que crê a Santa Egreja?»
-
---«Crê o que eu creio.»
-
-E o nosso homem manteve-se n'estas respostas sem d'ellas sahir, e o
-espirito maligno foi obrigado a renunciar ao seu projecto, vendo a
-inutilidade de todos os seus estratagemas.
-
-Accrescenta um auctor que esse diabo era, por sem duvida, muito novo, e
-egualmente dos menos atilados, porque de outro modo elle teria
-embaraçado muito o carvoeiro fazendo-lhe a seguinte pergunta:
-
---«E que crêem, tu e a Santa Egreja?»
-
---A phrase--_fé do carvoeiro_, designa uma fé simples e ingenua, que crê
-sem exame.
-
-
-
-
-LXXV
-
-_Ha juizes em Berlim_
-
-
-O grande Frederico, rei da Prussia, desejava ampliar o seu parque de
-Sans-Souci, mas
-
- «Na encosta que escolhera o principe por si,
- Tinha o moinho um tal moleiro Sans-Souci;
- Vendedor de farinha, havia por costume
- Ganhar, a dia a dia, o pão sem azedume.
- E seja, emfim, qual fôr o lado d'onde vente
- A vela gira sempre, e elle dorme contente.
- . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
- Um projecto traçou um habil engenheiro,
- Que abrangia o moinho e o seu recinto inteiro.
- Mas ás vistas forçoso era renunciar,
- Ou cortar á extensão e o parque mascarar.
- Das construcções reaes, o intendente geral
- Fez chamar o moleiro e disse-lhe afinal:
- --«Quer-se o moinho teu; vê lá que valor tem.»--
- --«Não tem valor nenhum, que o não vendo a ninguem!
- «Quer-se o moinho, é boa! elle é meu e direi
- «Que, ao menos, tanto como a Prussia é só do rei»--
- --«Vamos, dize afinal--responde e tem cuidado!»--
- --«N'uma palavra?--
- --«Sim.--
- --«É meu, está declarado,
- «Já disse, nada mais!»--
-
- A recusa atrevida
- Ao principe se conta e é coisa decidida.
- Manda vir á presença o insolito moleiro,
- Promette inutilmente, aperta, é lisongeiro,
- Mas teima Sans-Souci--«Ouvi, Sire, a razão
- Porque vender não posso o moinho em questão.
- Meu avô lá morreu; lá tive um filho ha um mez,
- É o meu Postdam, Senhor. Sou teimoso, talvez;
- Nunca o fostes jámais? Nem mil ducados, não,
- No fim d'esse discurso a mim me tentarão!
- Passae sem elle, Sire, e ninguem mais insista!»
-
- Soffrem difficilmente os reis quem lhes resista,
- E Frederico acode, o humor arrebatado:
- --«Irra! que estás ao teu moinho bem pegado!
- Ora atéqui tratei d'obtel-o e de pagal-o,
- Mas sabes que, sem paga, eu posso exproprial-o!
- O dono eu sou!»--
- --«Levar sem paga o moinho, a mim?
- Talvez, _se não houvesse os juizes em Berlim!_»--
-
- Do capricho o monarcha, ouvindo-o, em si cahia,
- Contente, porque o reino inda em justiça cria;
- E volvendo-se a rir para o seu architecto:
- --«Eu acho que é melhor mudarmos de projecto.
- Visinho guarda a casa, has respondido bem.»--
- . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
-
---Estas palavras--_ha juizes em Berlim_--que o poeta francez Andrieux
-não fez senão citar na encantadora narrativa que vimos de traduzir
-incompletamente, porque são historicas, formaram uma locução proverbial
-que se emprega em todas as circumstancias analogas, isto é, quando a
-força pretende vencer o direito.
-
-Cabe aqui, a proposito do moinho de Sans-Souci um pequeno caso que não
-deixa de ser interessante.
-
-O famoso moinho é ainda hoje propriedade do bisneto do obstinado
-moleiro. Mas n'essa familia os homens seguem-se e não se parecem.
-
-Assim, o descendente de Sans-Souci, necessitado de dinheiro fez saber ao
-descendente de Frederico II, que estava disposto a ceder-lhe o moinho. O
-principe respondeu-lhe com esta espirituosa carta:
-
- «Meu caro _visinho_.
-
-«O moinho não lhe pertence, nem a mim, pertence á historia; é-nos pois,
-impossivel, a si, vendel-o, a mim, compral-o. Mas como entre visinhos e
-visinhos bons deve haver auxilio, mando-lhe um cheque de 10:000 florins,
-que póde receber do thesouro.»
-
-
-
-
-LXXVI
-
-_Judas--Beijo de Judas_
-
-
-Dois dias antes da Paschoa, Jesus disse aos seus discipulos:--«Chegou o
-dia em que o Filho do Homem vae ser entregue para ser crucificado.» E ao
-mesmo tempo os principes dos padres e os mais velhos do povo, reunidos
-em casa de Caiphaz, concertavam-se sobre os meios de se apoderarem de
-Jesus e o fazerem morrer. Mas receiavam excitar qualquer agitação
-popular.
-
-Foi então que Judas, um dos apostolos, se chegou e combinou entregar o
-seu mestre, mediante trinta dinheiros. De tarde Jesus poz-se á meza com
-os seus discipulos e annunciou-lhes que um d'elles o trahiria.--«Serei
-eu, Senhor?»--lhe perguntou Judas, e depois da resposta do Salvador,
-deixou a meza e foi-se, excitado pelo mau espirito. Em seguida Jesus
-sahiu da cidade, seguido dos seus discipulos, e dirigiu-se ao monte das
-Oliveiras, a um logar chamado Gethsemani. Logo appareceu Judas
-acompanhado d'um grupo de soldados aos quaes tinha dito: «Prendam
-aquelle que eu beijar, é elle que procuram.» E approximando-se de
-Jesus, beijou-o e disse-lhe:--«Mestre, eu te saudo.» Jesus censurou-lhe
-o seu crime com doçura:--«Judas, entregas o Filho do Homem com um
-beijo!» E avançou para os soldados que se lançaram a elle e o ligaram.
-
---O nome de _Judas_ ficou como a personificação do traidor, do homem
-profundamente hypocrita, e o _beijo de Judas_, como para designar o acto
-pelo qual se pratica a traição. Assim chamar Judas a alguem é
-dirigir-lhe a mais pungente das injurias. E comprehende-se que uma tal
-comparação seja repellida com indignação.
-
-
-
-
-LXXVII
-
-_Pragas do Egypto_
-
-
-Moisés acompanhado de seu irmão Aarão, apresentou-se perante Pharaó, que
-recusou reconhecer as ordens de Deus. Então Moisés e Aarão feriram
-successivamente o paiz com dez flagellos, chamados--_pragas do Egypto_.
-
- 1.º--Agoas transformadas em sangue;
- 2.º--O Egypto todo coberto de rãs;
- 3.º--Os insectos devoradores;
- 4.º--Grandes moscas insupportaveis;
- 5.º--Peste;
- 6.º--Chagas nos homens e nos animaes;
- 7.º--Tempestades de saraiva e trovoadas;
- 8.º--Nuvens de gafanhotos;
- 9.º--Trevas espessas;
- 10.º--Morte de todos os recemnascidos.
-
-O coração endurecido do rei só cedeu a esta ultima praga, a mais
-espantosa de todas, e os Hebreus partiram para Ramassés em numero de
-seiscentos mil homens, sem contar-se as creanças.
-
---Quando se falla _das pragas do Egypto_ na linguagem figurada é quasi
-sempre á dos gafanhotos que se faz allusão.
-
-
-
-
-LXXVIII
-
-_Não toqueis na rainha_
-
-
-Os reis d'Hespanha usavam uma regra d'etiqueta exaggerada até á
-estupidez. Todo o individuo que tocasse o pé da rainha, fosse qual fosse
-a causa, era condemnado á morte e executado immediatamente.
-
-A joven rainha, esposa de Carlos II, montou um dia a cavallo para um
-passeio com as suas damas e os seus cortezãos. A breve trecho o cavallo
-espanta-se e expelle-a, mas por fórma que o pé da princeza ficou preso
-ao estribo e o furioso animal se poz a arrastal-a. Uma immensa multidão
-assistia a este triste espectaculo, mas ninguem ousava soccorrel-a por
-causa da etiqueta. Ia, de certo, ser victima d'esse terrivel accidente,
-quando dois jovens officiaes francezes, que alli se achavam por acaso,
-resolveram salval-a. Lançam-se impavidamente, e em quanto que um
-suspende o cavallo pelo freio, o outro consegue desligar o pé da rainha,
-que, afinal, apenas soffreu o susto e algumas contusões.
-
-Elles fugiram logo, e era tempo, porque iam ser presos, e Deus sabe o
-que faria a etiqueta! No dia seguinte a rainha, muito molestada foi
-obrigada a deixar os seus aposentos, para fallar ao rei, de quem
-conseguiu a graça dos seus salvadores, mas com a condição de que
-deixariam a Hespanha immediatamente.
-
-De resto era egualmente perigoso tocar no rei, fóra das severas leis da
-etiqueta. Eis a este respeito um facto que difficilmente se poderia crer
-se não fosse historico.
-
-Estando doente Filippe III achava-se sentado n'um _fauteuil_, muito
-junto da chaminé do fogão, aonde acabava de accender-se o lume, e aonde
-se havia depositado uma certa quantidade de material combustivel. O
-calor tornou-se, em breve, intoleravel e o rei disse aos cortezãos para
-retirarem algumas achas; mas como o duque accendedor-mór não estava
-presente, e só elle tinha o direito de bulir no lume da real camara,
-nenhum dos assistentes ousou commetter tão grande infracção da etiqueta.
-Por outro lado, ninguem podia tocar no _fauteuil_ do rei a não ser o
-camareiro-mór, que egualmente estava ausente, e, emfim, era prohibido
-sob pena de morte, tocar na sagrada pessoa de sua magestade, de que
-resultou deixarem os cortezãos tranquillamente assar o rei, embora
-lamentando-se por tão triste sorte. Quando os dois funccionarios
-chegaram já era tarde: o rei estava moribundo e pouco sobreviveu a este
-cruel supplicio!
-
-
-
-
-LXXIX
-
-_O ovo de Colombo_
-
-
-A 15 de Março de 1493, Christovam Colombo, que vinha de fazer uma das
-mais admiraveis descobertas de que se honra o espirito humano, aportava
-a Palos, de onde tinha partido sete mezes e meio antes. Foi recebido
-com grande enthusiasmo. Os sinos repicaram, os magistrados seguidos de
-todos os habitantes desceram á praia a recebel-o. O trajecto até á côrte
-foi um triumpho continuo; de toda a parte se corria para vêr o homem que
-tinha terminado, tão felizmente, uma empreza que toda a gente julgára
-impossivel. Toda a cidade foi ao seu encontro. Elle ia no meio dos
-indios que trouxera comsigo na sua entrada em Barcellona, e que
-conservaram o costume do seu paiz. Uma multidão de objectos
-desconhecidos e cuja vista dominava vivamente os espiritos eram
-conduzidos na vanguarda em corbeilles e bandejas descobertas. Elle
-avançou assim no meio d'um concurso immenso até ao palacio dos reis
-d'Hespanha. Fernando e Isabel esperavam-no sentados no throno. Quando
-elle appareceu, no meio do seu cortejo, levantaram-se. Colombo
-lançou-se-lhes aos pés, mas elles ordenaram-lhe que se sentasse. O
-illustre navegador narrou-lhes a viagem e descobertas que fez. Em
-seguida apresentou-lhes os indios que o acompanhavam e os objectos
-preciosos que havia trazido. Toda a gente se poz de joelhos, e cantou-se
-na propria sala do throno um cantico em acção de graças. Fernando
-confirmou a Colombo todos os seus privilegios, e permittiu-lhe juntar ao
-seu brazão, as armas da sua familia, as do reino de Castella e Leão, com
-os emblemas das suas dignidades e das suas descobertas. Todos os seus
-parentes foram cumulados de provas da munificencia real.
-
-Com tão grandes honras Christovam Colombo podia julgar-se ao abrigo dos
-golpes subitos da fortuna. E, comtudo, nunca um homem os sentiu d'um
-modo mais terrivel e mais cruel!
-
-Iam mal passados ainda os primeiros transportes do enthusiasmo e já a
-maldade e a inveja haviam começado a erguer a cabeça. Procuraram por
-meio de perfidas insinuações entibiar o merito d'essa immortal
-descoberta.--«Dado o primeiro passo, o novo mundo viera a elle d'algum
-modo; o seu genio consistia apenas n'uma longa, mas trivial paciencia;
-em uma palavra, para descobrir a America, _não tinha sido preciso pensar
-n'isso_ ...» Tal era já a ousadia dos detractores, que faziam circular
-estes propositos, um dia, á meza d'um grande d'Hespanha para que fôra
-convidado Colombo.
-
-O grande homem permaneceu silencioso durante toda a discussão; mas n'um
-dado momento e depois de haver reflectido, fez vir um ovo e
-apresentando-o aos nobres convivas, disse-lhes:
-
---«Qual de vós, senhores, se sente capaz de fazer com que este ovo se
-sustente ao alto, por uma das extremidades?»
-
-O ovo começou a circular, passando de mão para mão, até que voltou a
-Colombo, sem que qualquer dos presentes houvesse resolvido o problema.
-Elle, então, tomou-o, bateu-o levemente no prato e o ovo ficou em
-equilibrio. Cada qual exclamou:
-
---«Isso não era difficil!
-
---«Sem duvida--replicou Colombo com um sorriso ironico--comtudo _era
-preciso pensal-o!_»
-
---O _ovo de Christovam Colombo_ passou a uma especie de proverbio, a que
-se allude a proposito d'uma coisa que se não póde fazer, e que se
-encontra facil, depois de feita.
-
-
-
-
-LXXX
-
-_Waterloo_
-
-
-Napoleão, depois de ter fundado um imperio mais vasto e mais poderoso
-que o de Carlos Magno; depois de ter visto a Europa inteira tremer com a
-sua presença e submetter-se a todas as suas vontades, emprehendeu a
-funesta campanha da Russia, em que o exercito mais formidavel foi
-vencido, não pelos homens, mas pelos elementos e pelo rigor do clima.
-
-Essa longa jornada da Russia foi realmente o termo da brilhante fortuna
-que collocou Napoleão, como o primeiro dos mais illustres
-conquistadores; mas como ella relembra ao espirito uma série multipla
-de desastres, o seu nome, por muito funesto que pareça, não podia ser
-escolhido para designar uma ruina subita, um esboroamento rapido. Foi a
-derrota de Waterloo, que recebeu esta consagração.
-
-Depois de se ter visto forçado a abdicar em Fontainebleau, depois de ter
-mudado o seu poderoso imperio pela soberania irrisoria d'uma ilha, em
-que apenas contava alguns milhares de subditos, Napoleão, por uma
-d'essas inspirações repentinas, que constituiam o caracter particular do
-seu genio, escapou-se á vigilancia de que era objecto, desembarcou em
-Cannes, e marchou sobre Pariz sem encontrar resistencia. Os Bourbons,
-dominados pelo terror, abandonam a França, e Napoleão entra como senhor
-nas Tulherias, d'onde, durante dez annos, dera a lei á Europa.
-
-Mas este successo admiravel não tinha solidez. A coalisão da Europa não
-estava dissolvida, e ia reformar-se, mais potente que nunca, e a França,
-exangue d'homens e de recursos, fatigada d'essas guerras interminaveis,
-que arruinavam o commercio e a industria, não ia oppor uma resistencia
-sem impeto, quasi passiva, e que facilmente seria vencida.
-
-No entretanto, Napoleão desenvolve ainda uma vez a energia, a decisão,
-que fulminaram tantos inimigos; mas os seus officiaes parecem ter
-perdido o vigor d'outr'ora.
-
-Em Waterloo, comquanto não tenha mais que quinze mil combatentes a oppor
-a forças duplas das suas, a habilidade das suas disposições parece a
-principio fazer pender a victoria para o seu lado; mas o general
-prussiano Blucher, que Grouchy não póde, não sabe, ou não quer deter,
-chega com as suas forças frescas, faz mudar a face ao combatente, e o
-exercito francez, o ultimo exercito de Napoleão, é esmagado.
-
-D'esta vez a fortuna do Cezar moderno estava despedaçada para sempre, e
-os derradeiros exforços que pôde desenvolver ainda, serviram apenas para
-lançarem algum brilho sobre os ultimos momentos d'esse astro, outr'ora
-tão brilhante.
-
---A palavra _Waterloo_ emprega-se muito para designar a ruina completa e
-fatal d'uma coisa, que foi grande e que, por muito, parecia ser
-estavel.
-
-
-
-
-LXXXI
-
-_Templo de Jano_
-
-
-O famoso templo de Jano, que foi fundado em Roma por Numa, estava aberto
-durante a guerra e fechado no periodo da paz. Jano, o mais antigo rei
-d'Italia, ácerca do qual os mythologos teem dificuldade em se
-entenderem, passava por ter tido um reinado longo e tranquillo, o que o
-fizera considerar como o deus da paz e o tinha posto em grande honra
-para Numa, o rei mais sabio que teve Roma.
-
-Durante um periodo de quasi mil annos, o templo de Jano só foi fechado
-oito vezes: a primeira no reinado de Numa; a segunda, no anno 519, de
-Roma, depois da primeira guerra punica; a terceira, no anno 723, depois
-da batalha d'Actium; a quarta, no anno 730, depois da guerra cantabrica;
-a quinta, no anno 740, apoz a pacificação da Germania; a sexta, no anno
-824, por Vespasiano, depois da conquista da Judeia; a setima, no anno
-834, por Domiciano, em seguida á guerra dos Dacios, e a ultima, no anno
-994, por Gordio III, vencedor dos persas.
-
-É esta a ultima menção que a historia faz d'esta cerimonia. Virgilio, no
-livro VII da _Eneida_, fez a descripção do templo de Jano e do
-cerimonial que presidiu á sua abertura.
-
---É por allusão a este templo, que se diz no estylo oratorio, e,
-sobretudo, em poesia--_abrir o templo de Jano_--para fazer guerra,
-começal-a, declaral-a, e--_fechar o templo de Jano_--para conclusão do
-tratado de paz, e pôr fim ás hostilidades.
-
-
-
-
-LXXXII
-
-_Estatua de Nabuchodonosor_
-
-
-Nabuchodonosor II, cognominado o _Grande_, rei da Babylonia, tivera um
-sonho espantoso, mas de que ao despertar se não lembrava absolutamente
-nada. Nenhum dos magos da côrte pôde avivar-lhe a visão. O joven Daniel,
-então captivo na Babylonia, foi mandado vir á presença do rei e
-disse-lhe:
-
---«Eis o que viste, rei:--Havia uma estatua immensa, cuja cabeça era
-d'ouro, o peito e os braços de prata, o ventre e as côxas de bronze, as
-pernas de ferro e os pés de barro. De repente deslocou-se por si uma
-pedra da montanha, e indo ferir os pés da estatua, fel-a pedaços. Então
-os quatro metaes quebrados tornaram-se como o pó, que enche a
-athmosphera, no verão, e tendo-se levantado um grande vento, tudo levou.
-Mas a pedra que despedaçára a estatua tornou-se uma montanha immensa,
-que encheu toda a terra. Eis o teu sonho, ó rei, e agora a sua
-interpretação:--Tu és o rei dos reis; és tu, pois, a cabeça de ouro.
-Ha-de haver depois de ti um reino menor que o teu, que será de prata,
-depois um terceiro de bronze, que mandará em toda a terra. O quarto
-reino reduzirá tudo a pó como o ferro quebra tudo, mas assim como a
-estatua, de pés de barro, elle se dividirá por sua vez. Então Deus
-suscitará um reino para sempre eterno, que derribará e destruirá todos
-os reinos, como a pedra deslocada da montanha partiu a estatua e lançou
-ao vento o seu pó.»
-
-Era a imagem dos quatro grandes imperios d'Assyria, da Persia, da
-Macedonia e de Roma, que, destruindo-se successivamente uns aos outros,
-deviam todos ser absorvidos por um imperio immenso e immortal, o de
-Jesus Christo n'este mundo.
-
---No estylo elevado faz-se muitas vezes allusão ao colosso de
-Nabuchodonosor, quando se quer exprimir que ha liga nas coisas,
-apparentemente mais puras, que os genios mais sublimes se prendem por
-qualquer ponto fraco aos lados vulgares da humanidade, que o poder que
-parece mais solidamente estabelecido não tem muitas vezes senão uma base
-fragil, que a circumstancia mais imprevista póde fazer cahir.
-
-Assim, por exemplo, um escriptor contemporaneo, fallando da guerra de
-1809, que foi a origem de todas as desgraças de Napoleão, diz:
-
---«Foi na outra extremidade do continente, foi em Portugal que se fez
-sentir o primeiro estalido, e que se percebeu de repente que a _estatua
-colossal tinha um pé de barro_.»
-
-
-
-
-LXXXIII
-
-_Sepulchros do Evangelho_
-
-
-No capitulo XXIII do Evangelho, segundo S. Matheus, Jesus Christo
-levanta-se contra os impostores e hypocritas, com uma força d'expressão,
-uma vehemencia de linguagem, que espantam, n'aquella bocca divina,
-habituada a só fazer ouvir palavras de mansidão e de caridade. Elle não
-reprehendeu nenhum vicio com tanta energia, e quando nos lembramos da
-sua celeste indulgencia para com a mulher adultera, admiramo-nos do
-anathema terrivel que dardeja aos scribas e phariseus. É que nas
-inspirações da sua sublime natureza Jesus Christo bebia a certeza de que
-a hypocrisia é capaz de todos os crimes, que ella os contem todos em
-germen.
-
- * * * * *
-
-«Desgraça a vós! scribas e phariseus hypocritas, que purificaes o
-exterior da taça e do vaso, em quanto que por dentro sois cheios de
-rapinas e de maculas!»
-
-«Phariseus cegos, purificae primeiro o interior da taça e do vaso, afim
-de que o exterior seja puro tambem!»
-
-«Desgraça a vós! scribas e phariseus hypocritas, porque sois semelhantes
-a _sepulchros caiados_, que, por fóra parecem bellos aos homens, mas por
-dentro são cheios d'ossos e podridão!»
-
- * * * * *
-
---A applicação d'esta phrase _sepulchros caiados_, ou a
-equivalente--_sepulchros do Evangelho_--sobresáe claramente do texto que
-citamos, quando se dirige ás pessoas; quanto ás coisas, caracterisa tudo
-quanto tem mais apparencia de brilho, que fundo e realidade.
-
-
-
-
-LXXXIV
-
-_Isso que prova?_
-
-
-Não temos a pretensão de exprimir uma verdade muito nova, dizendo que as
-mathematicas não são irmãs da poesia, embora Urania seja uma das nove
-Musas. E se não era mathematico, era digno de sel-o, aquelle que
-interrogado ácerca do effeito que lhe produzia a audição d'uma opera,
-respondeu:
-
---«O mesmo que o d'um sacco cheio de pregos, agitado vigorosamente.»
-
-O mathematico habituado a medir tudo a regua e compasso, a tirar
-deducções por meio de raciocinios evidentes, fica quasi sempre
-insensivel ás bellezas da harmonia e do sentimento.
-
-Um geometra assistia a uma representação da _Phedra_, e em quanto que
-todos os outros espectadores derramavam lagrimas, commovidos por essa
-magnifica poesia, que mostra em scena
-
- «. . . . . . essa dor virtuosa»
- «De Phedra, a pezar seu, perfida, incestuosa»
-
-elle ficava frio, impassivel e contentava-se em dizer nas passagens mais
-patheticas:
-
---«Isso que prova?»
-
-O astronomo francez Villemont, menos exclusivo, nunca deixava de dizer
-d'um fragmento de poesia que lhe causasse prazer:
-
---«É bello como uma equação!»
-
-Era para elle o superlativo da admiração.
-
-
-
-
-LXXXV
-
-_Manná_
-
-
-Quando os hebreus chegaram ao deserto e viram as provisões esgotadas,
-começaram a murmurar contra Moisés, dizendo:--«Conduzistes-nos a este
-logar para nos fazerdes morrer de fome?»--Moisés respondeu-lhes da parte
-do Senhor:--«Esta tarde comereis carne, e amanhã estareis saciados de
-pão.»--Com effeito, de tarde uma enorme quantidade de rôlas veio pousar
-sobre o campo, e no dia seguinte, pela manhã, um orvalho matutino cobria
-toda a planicie. Era uma especie de pó branco que tinha o gôsto da mais
-fina farinha misturada com mel.
-
-Este alimento chamava-se _manná_. Os hebreus deviam apanhal-o em cada
-manhã e antes do nascimento do sol, e só em quantidade necessaria para o
-dia, excepto na vespera do _sabbat_ em que deviam tambem recolhel-o para
-o dia seguinte. Alguns deixando-o de um para o outro dia encontravam-no
-corrompido.
-
-Ora os filhos d'Israel nutriram-se d'este orvalho celeste durante os
-quarenta annos que viveram no deserto, até á sua entrada na terra da
-promissão.
-
---Comprehende-se que--_manná_--ou--_é um manná_--se não póde applicar
-senão n'um sentido metaphorico, como por exemplo:
-
---A verdade _é um manná_ divino, com que se deve sustentar o espirito e
-o coração.
-
-
-
-
-LXXXVI
-
-_Annel de Gyges_
-
-
-Gyges era um moço pastor da Lydia. Um dia vendo entreabrir-se a terra,
-desceu pela abertura, e viu, entre outras maravilhas um cavallo de
-bronze, completamente ôcco, com portas nas ancas. Abriu-as e encontrou
-um cadaver de grandeza mais que humana, tendo em um dedo um annel
-d'ouro. Esse annel, desde que se voltava o engaste para o lado interior
-da mão, tinha o poder de tornar invisiveis aquelles que o usassem. Gyges
-apoderou-se d'esse precioso talisman e dirigiu-se á côrte, aonde o annel
-foi a origem d'uma brilhante fortuna, porque o possuidor não tardou a
-tornar-se favorito e primeiro ministro.
-
---Não são raras as circumstancias em que cada qual desejaria ter no dedo
-o annel de Gyges. Qual é o que nunca se viu collocado n'alguma d'essas
-situações criticas, que fazem desejar, como vulgarmente se diz, «estar a
-cem braças pela terra dentro»? Por outro lado, que não daria a gente, em
-determinadas occasiões, para se encontrar invisivel, em certos logares,
-em que se debatem os nossos mais caros interesses, e o nosso destino?
-
-D'aqui a frequente applicação que se faz do _annel de Gyges_, em
-litteratura e na conversação.
-
-O espirituoso Alphonse Karr quiz ver no annel de Gyges uma allegoria que
-explicou a seu modo n'estes versos:
-
- «Quem de Gyges o annel, conta, maravilhoso
- «Nos casos falsos, ou na pura phantasia,
- «--Agora o sei--a si se engana em demasia,
- «Porque o frisante exemplo é grande, é numeroso.
- «Se sois feio e sois mau, sem genio e já d'idade
- «Ponde, á noite um annel, no vosso indicador,
- «Com um brilhante que tenha um subido valor,
- «E vereis como faz a sua claridade,
- «Sob os raios da luz, em ponto bem escolhido,
- «Dar-vos genio e belleza, e juventude, e encanto.
- «Se sois mau e imbecil, elle vos faz um santo,
- «Dizei quanto quereis, que já sois applaudido!»
-
-
-
-
-LXXXVII
-
-_Honni soit qui mal y pense_
-
-
-Divisa da ordem da Jarreteira, instituida em Inglaterra em 1340 por
-Eduardo III. Em um baile da côrte que elle dava em honra da condessa de
-Salisbury, sua favorita, esta deixou cahir, dançando, uma liga, que era
-azul. O rei apressou-se a apanhal-a, e expoz assim a formosa condessa
-aos sorrisos malignos e aos maus propositos dos convidados.
-
---«Senhores--exclamou Eduardo III--_honni soit qui mal y pense_. Os que
-riem agora hão-de honrar-se um dia por usarem um objecto semelhante,
-porque a liga será posta em tanta honra que até os mais zombadores a
-procurarão com avidez!»
-
-E no dia immediato instituia a Ordem da Jarreteira, que é uma das mais
-célebres da Europa.
-
-A principal insignia consiste n'uma liga de velludo azul, que se aperta
-por cima do joelho esquerdo com uma fivela de ouro, sobre a qual se lê:
-_Honni soit qui mal y pense!_--Maldito seja quem d'isto mal pensar.
-
-A rainha usa-a no braço. Só os principes soberanos ou as pessoas d'alta
-distincção podem ser membros da Ordem. O numero dos primeiros é
-illimitado, mas os outros não podem ser mais de vinte e seis.
-
---A famosa divisa tornou-se proverbial e emprega-se para fazer
-comprehender que se affronta a opinião, n'uma circumstancia sujeita a má
-interpretação, d'equivoca apparencia.
-
-
-
-
-LXXXVIII
-
-_Mal com el-rei pelos homens e mal com os homens por el-rei_
-
-
-Esta phrase, que bem exprime as apertadas circumstancias em que o homem
-tantissimas vezes se encontra, de não poder, de modo algum, satisfazer e
-contentar a todos, é do grande Affonso d'Albuquerque.
-
-Avisado elle de que el-rei D. Manoel lhe ordenava o regresso ao reino,
-fazendo-o substituir no governo da India por Lopo Soares, com o qual
-seguiam Diogo Pereira e Diogo Mendes, um como secretario e outro como
-capitão de Cochim, e ambos de lá enviados a Portugal sob prisão pelo
-valente governador, por delictos graves, exclamou:
-
---Mal com el-rei pelos homens e mal com os homens por amor de el-rei.
-
-A phrazeologia popular formulou o mesmo pensamento de um modo, se não
-tão primoroso, pelo menos egualmente expressivo, quando disse:
-
---Preso por ter cão, preso por não o ter.
-
-Vê-se claramente qual o emprego da locução do grande capitão, e não é
-difficil nem raro que cada um tenha varias occasiões, infelizmente, de
-applical-a a si proprio.
-
-
-
-
-LXXXIX
-
-_Bandeira da Misericordia_
-
-
-D'antes, por um privilegio, fundado, decerto, n'um principio caritativo,
-as irmandades da Misericordia eram obrigadas--e no Estatuto d'algumas se
-acha consignada esta obrigação--a acompanhar com a respectiva bandeira,
-os condemnados a pena ultima, desde o carcere ao local do supplicio.
-
-Alli, tanto que a victima era executada cobria-a immediatamente essa
-bandeira, o que equivalia a tomar a Misericordia conta do cadaver, a
-fim de prevenir ou evitar profanações no corpo, por parte dos populares,
-arrastados, muitas vezes, a scenas bem pouco edificantes, pela excitação
-de odios e de paixões violentas e desordenadas.
-
-Quando acontecia que a corda se quebrava--no supplicio da forca--e o
-paciente cahia com vida, desde que a bandeira o cobrisse, estava salvo.
-
-Nas ultimas execuções d'este genero, realisadas em Vizeu, no largo de
-Santa Christina, no tempo das luctas do absolutismo, aconteceu que um
-dos pacientes, graças a um convenio com o carrasco, cahiu com vida e foi
-coberto com a bandeira da Misericordia.
-
-Uma mulher, porém, que ainda morreu ha poucos mezes, e que tinha a
-triste e original mania de assistir a todos os actos lugubres e a todas
-as scenas mais contristadoras, por um assomo de curiosidade feminina foi
-levantar uma ponta da bandeira. O desgraçado, que se fingia morto,
-imaginando que era algum dos que conhecia o convenio para a sua
-salvação, abriu os olhos, e tanto bastou para que a original mulher
-começasse a gritar que elle estava ainda vivo.
-
-A populaça desenfreada cahiu sobre o infeliz e cevou as suas iras.
-
-D'esta vez a bandeira não valeu.
-
---Do privilegio d'esse estandarte nasceu a locução de--_bandeira da
-Misericordia_,--d'um grandissimo emprego, sobretudo, na conversação
-familiar, servindo para designar toda a intervenção caritativa para a
-suspensão ou allivio d'uma pena ou d'um castigo.
-
- * * * * *
-
-A critica poderá encontrar motivo para exercer-se, no delineamento e
-execução d'esta despretenciosa obra, mas a benevolencia será a _bandeira
-da Misericordia_, que ha-de abrandar a dureza das apreciações.
-
-
-
-
-INDICE
-
-
- PAG.
-
- DO AUCTOR . . . . . . . . . . . . . . . 7
- I--Amanhã os negocios sérios . . . . . . 9
- II--Alexandre . . . . . . . . . . 11
- III--Audacia, ainda audacia e sempre audacia . 19
- IV--Delicias de Capua . . . . . . . . 21
- V--Disse eu alguma tolice? . . . . . . . 23
- VI--Arca de Noé . . . . . . . . . . 24
- VII--Queimar não é responder . . . . . . 25
- VIII--Caim, que fizeste de teu irmão? . . . . 26
- IX--Do Capitolio á rocha Tarpeia só ha
- um passo . . . . . . . . . 27
- X--Catão . . . . . . . . . . . . 29
- XI--Cezar . . . . . . . . . . . . 30
- XII--Estava escripto . . . . . . . . . 40
- XIII--Conhece-te a ti proprio . . . . . . 41
- XIV--As joias de Cornelia . . . . . . . 42
- XV--Cresus . . . . . . . . . . . 43
- XVI--Dôr, tu não és um mal . . . . . . . 44
- XVII--Egéria . . . . . . . . . . . 46
- XVIII--Mais uma victoria como esta e estamos
- perdidos . . . . . . . . . . 47
- XIX--Espada de Damocles . . . . . . . 49
- XX--O prato de lentilhas . . . . . . . 51
- XXI--E eu tambem sou pintor! . . . . . . 52
- XXII--Estrella dos Reis Magos . . . . . . 53
- XXIII--E, comtudo, ella gira! . . . . . . 54
- XXIV--Virtude, não és mais que um nome . . . 56
- XXV--Festim de Balthazar . . . . . . . 57
- XXVI--Forcas caudinas . . . . . . . . 59
- XXVII--Irmão é preciso morrer . . . . . . 61
- XXVIII--Cahir com graça . . . . . . . . 62
- XXIX--Hippocrates diz sim, Galiano diz não . . 63
- XXX--É muito tarde . . . . . . . . . 64
- XXXI--Não ha grande homem para o seu creado
- de quarto . . . . . . . . . 66
- XXXII--Cantam, elles pagarão . . . . . . . 67
- XXXIII--Perdi o meu dia . . . . . . . . . 68
- XXXIV--Amo Platão, mas amo mais a verdade . . . 69
- XXXV--Achei!--Eureka! . . . . . . . . . 70
- XXXVI--Eu desejaria não saber escrever . . . . 72
- XXXVII--Linguas d'Esopo . . . . . . . . . 73
- XXXVIII--Lanterna de Diogenes . . . . . . . 75
- XXXIX--O mestre o disse . . . . . . . . 76
- XL--O rei é morto, vive o rei! . . . . . 77
- XLI--O estado sou eu! . . . . . . . . 78
- XLII--Alavanca d'Archimedes . . . . . . 79
- XLIII--Magdalena . . . . . . . . . 80
- XLIV--Casa de Socrates . . . . . . . . 81
- XLV--Desgraça aos vencidos! . . . . . . . 83
- XLVI--Manto de Joseph . . . . . . . . 84
- XLVII--Mario sobre as ruinas de Carthago . . . 85
- XLVIII--Subir ao Capitolio . . . . . . . 86
- XLIX--Onde não ha el-rei o perde . . . . . 88
- L--Onde se vae aninhar a virtude? . . . . 89
- LI--Perdoae-lhes, meu Pae, não sabem o
- que fazem . . . . . . . . . 90
- LII--Lavar as mãos como Pilatos . . . . . 91
- LIII--O que não peccou, atire a primeira pedra 93
- LIV--Tres linhas escriptas e eu farei enforcar
- quem as escreveu . . . . . . 94
- LV--Quem te fez conde? Quem te fez rei? . . 96
- LVI--A Cezar o que é de Cezar a Deus o
- que é de Deus . . . . . . . . 97
- LVII--Salto de Leucade . . . . . . . . . 99
- LVIII--Se é possivel, está feito; se é impossivel
- se fará . . . . . . . . . 100
- LIX--Terra promettida . . . . . . . . . 102
- LX--Thebaida . . . . . . . . . . 103
- LXI--Desça o panno acabou a comedia! . . . . 105
- LXII--Tudo é perdido, menos a honra . . . . 106
- LXIII--Trombetas de Jericó . . . . . . . 108
- LXIV--A tunica de Christo . . . . . . . 109
- LXV--Um imperador deve morrer em pé . . . . 110
- LXVI--Vendilhões expulsos do templo . . . . 111
- LXVII--Gritar no deserto . . . . . . . 112
- LXVIII--Zoilo . . . . . . . . . . . 113
- LXIX--Aspasia . . . . . . . . . . . 114
- LXX--Babylonia . . . . . . . . . . . 116
- LXXI--Incendiar os seus navios . . . . . . 117
- LXXII--Os ultimos romanos . . . . . . . 119
- LXXIII--Faça cabelleiras, mestre André . . . . 120
- LXXIV--Fé do carvoeiro . . . . . . . 122
- LXXV--Ha juizes em Berlim . . . . . . . 123
- LXXVI--Judas--Beijo de Judas . . . . . . . 126
- LXXVII--Pragas do Egypto . . . . . . . . 127
- LXXVIII--Não toqueis na rainha . . . . . . . 128
- LXXIX--O ovo de Colombo . . . . . . . 130
- LXXX--Waterloo . . . . . . . . . . . 133
- LXXXI--Templo de Jano . . . . . . . . . 136
- LXXXII--Estatua de Nabuchodonosor . . . . . 137
- LXXXIII--Sepulchros do Evangelho . . . . . . 139
- LXXXIV--Isso que prova? . . . . . . . . 141
- LXXXV--Manná . . . . . . . . . . . 142
- LXXXVI--Annel de Gyges . . . . . . . . . 144
- LXXXVII--Honni soit qui mal y pense . . . . . 146
- LXXXVIII--Mal com el-rei pelos homens e mal
- com os homens por el-rei . . . . . 147
- LXXXIX--Bandeira da Misericordia . . . . . . 148
-
-
-
-
-=Biblioteca do Lar=
-
- =Henry Ardel=
-
- Um conto azul
- Caminho em declive
- Fogo mal extinto
- É preciso casar o João!
- A alvorada
- Uma aventura imprudente
- A divina canção
- A noite desce
- Eva e a serpente
-
- =B. Jeanroy=
-
- Dois corações
-
- =M. La Bruyére=
-
- Flor de Lis
-
- =M. Damad=
-
- A enteada
-
- =Jean Thiéry=
-
- O canto do cuco
- O romance dum solteirão
- Corações magoados
- Vítimas
-
- =António Zozaya=
-
- As auroras
- Almas de mulheres
-
- =Georges de Peyrebrune=
-
- Dona Quixota
-
- =Alberto Insúa=
-
- Coração ludibriado
-
- =Claude Saint-Jean=
-
- O castelo dos noivos
-
- =Palácio Valdés=
-
- A alegria do capitão Ribot
-
- =Jean Rameau=
-
- Romance da Felicidade
-
- =Pierre de Coulevain=
-
- A ilha desconhecida
- No coração da vida
-
- =Mary Floran=
-
- Se êle soubera
-
- =Eduardo Noronha=
-
- As mulheres de Pernambuco
-
-=Cada volume broch. 6$00--Enc. 10$00=
-
-
-=Colecção de Hoje=
-
- =Alberto Insúa=
-
- O preto que tinha a alma branca
- A mulher que precisa de amor
- A mulher que esgotou o amor
- O inimigo do matrimónio
- O prazer do perigo
- Mulheres histéricas
- O amor em dois tempos
- O amante invisível
- Fumo, dor, prazer
- A mulher, o toureiro e o touro
- As flechas do amor
- A paixão impossivel
-
- =Clément Vautél=
-
- Minha mulher não quer filhos
- O amor à parisiense
- A reabertura do paraíso terrestre
- O senhor Mezigue
- Sua reverendíssima entre os ricos
- Sua reverendíssima entre os pobres
-
- =Pierre Benoit=
-
- O poço de Jacob
- A calçada dos gigantes
- Mademoiselle de la Ferté
- O lago salgado
-
- =Palácio Valdés=
-
- Os majos de Cádiz
- Marta e Maria
- Riverita
- Maximina
- A Irmã S. Sulpício
- A valenciana
-
- =A. Hernandez Catá=
-
- Os sete pecados
- O bebedor de lágrimas
-
- =José Francés=
-
- O filho da noite
- A mulher de ninguém
-
- =Fernandez Florez=
-
- As sete colunas
- O segredo do Barba Azul
-
- =Pedro Mata=
-
- Um grito na noite
- Corações sem rumo
-
- =Alfio Berreta=
-
- A morte do sonho
-
- =Tomás Borrás=
-
- A mulher de sal
- A parede de teia de aranha
-
-=Cada volume broch. 6$00--Enc. 10$00=
-
-
-
-
-
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-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIA PITORESCA ***
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- Historia Pitoresca, by Alfredo Campos&mdash;A Project Gutenberg eBook
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-<pre>
-
-The Project Gutenberg EBook of Historia Pitoresca, by Alfredo Campos
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
-almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
-re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
-with this eBook or online at www.gutenberg.org/license
-
-
-Title: Historia Pitoresca
- Palavras e frases celebres
-
-Author: Alfredo Campos
-
-Release Date: September 19, 2020 [EBook #63235]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIA PITORESCA ***
-
-
-
-
-Produced by Júlio Reis, Fernanda Brojo and the Online
-Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net
-
-
-
-
-
-
-</pre>
-
-
-
-
-<h1>HISTORIA PITORESCA</h1>
-
-<hr class="mini" />
-
-<p class="ph2">PALAVRAS E FRASES CELEBRES</p>
-
-
-<div class="figcenter">
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-</div>
-
-<p class="ph3">POR<br />
-ALFREDO CAMPOS</p>
-
-<hr class="title x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<div class="figcenter">
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-</div>
-</div>
-
-<hr class="title x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h2 class="nobreak" id="OBRAS_DO_AUCTOR">OBRAS DO AUCTOR</h2>
-
-<table summary="">
-<tr>
-<td class="title">Luz e sombras, original</td><td class="price">400 réis</td>
-</tr><tr>
-<td class="title">Um como ha muitos, original</td><td class="price">50 réis</td>
-</tr><tr>
-<td class="title">Um livro intimo, original</td><td class="price">200 réis</td>
-</tr><tr>
-<td class="title">A felicidade pela familia, original</td><td class="price">100 réis</td>
-</tr><tr>
-<td class="title">O trabalho, original</td><td class="price">100 réis</td>
-</tr><tr>
-<td class="title">Nunca mais! original</td><td class="price">400 réis</td>
-</tr><tr>
-<td class="title">A Filha do cabinda, original</td><td class="price">500 réis</td>
-</tr><tr>
-<td class="title">A cruz de brilhantes, original</td><td class="price">500 réis</td>
-</tr><tr>
-<td class="title">A jurity, original</td><td class="price">500 réis</td>
-</tr><tr>
-<td class="title">Alma minha gentil, original</td><td class="price">300 réis</td>
-</tr><tr>
-<td class="title">Historia pittoresca&mdash;Palavras e phrases celebres, original</td><td class="price">500 réis</td>
-</tr><tr>
-<td class="title">Deveres do homem, original</td><td class="price">50 réis</td>
-</tr><tr>
-<td class="title">Magdalena, traducção</td><td class="price">500 réis</td>
-</tr><tr>
-<td class="title">Fior d'Aliza, traducção</td><td class="price">400 réis</td>
-</tr><tr>
-<td class="title">A mulher forte, traducção</td><td class="price">600 réis</td>
-</tr><tr>
-<td class="head" colspan="2">OBRAS ELEMENTARES</td>
-</tr><tr>
-<td class="title">Noções de moral e religião, approvada</td><td class="price">160 réis</td>
-</tr><tr>
-<td class="title">Principios elementares de chorographia, approvada</td><td class="price">200 réis</td>
-</tr><tr>
-<td class="title">Grammatica franceza resumida, approvada</td><td class="price">500 réis</td>
-</tr><tr>
-<td class="head" colspan="2">NO PRÉLO</td>
-</tr><tr>
-<td class="title">A missão da mulher, 1 vol.</td>
-</tr><tr>
-<td class="title">Vida de Camões, 1 vol.</td>
-</tr>
-</table>
-</div>
-
-<hr class="title x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p class="ph3"><i>Alfredo Campos</i></p>
-
-<hr class="mini" />
-
-<p class="ph1">HISTORIA PITTORESCA</p>
-
-<hr class="mini" />
-
-<p class="ph4">PALAVRAS E PHRASES CELEBRES</p>
-
-<div class="figcenter">
-<img src="images/image003.png" width="150" height="134" alt="" />
-</div>
-
-<p class="ph4">PORTO</p>
-
-<p class="ph4">Livraria Portuense<br />
-&mdash;<span class="smcap">de</span>&mdash;<br />
-LOPES &amp; C.ª&mdash;EDITORES</p>
-
-<p class="center"><i>123&mdash;Rua do Almada&mdash;123</i></p>
-
-<p class="ph4">1889</p>
-
-</div>
-
-<hr class="title x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-
-<div class="figcenter">
-<img src="images/image004.png" width="400" height="210" alt="" />
-</div>
-
-<p class="ph4">IMPRENSA CIVILISAÇÃO</p>
-
-<p class="center">73&mdash;LARGO DA POCINHA&mdash;77</p>
-
-<p class="ph4">&mdash;PORTO&mdash;</p>
-
-</div>
-
-<hr class="title x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p class="ph3"><i>Ao Ill.<sup>mo</sup> e Ex.<sup>mo</sup> Sr.</i></p>
-
-<p class="ph1 smcap">Manoel José da Conceição Rocha</p>
-
-<p class="center">TRIBUTO DE RESPEITO,<br />
-CONSIDERAÇÃO, GRATIDÃO E ESTIMA</p>
-
-<p class="ph3r">Offerece
-<br /><br />
-<i>Alfredo Campos.</i></p>
-</div>
-
-<hr class="title x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-
-<div class="figcenter" id="Page_7">
-<img src="images/image007a.png" width="600" height="160" alt="" />
-</div>
-</div>
-
-
-<h2 class="nobreak" id="DO_AUCTOR">DO AUCTOR</h2>
-
-<div>
-<img class="drop-cap" src="images/image007b.png" width="100" height="220" alt="" />
-</div>
-<p class="drop-cap">O <i>PRESENTE livro</i>&mdash;<span class="allsmcap">PALAVRAS
-E PHRASES CELEBRES</span>&mdash;, <i>é como
-que uma</i> <span class="smcap">Corbeille</span> <i>aonde estão
-reunidos, explicados, e, por vezes
-commentados, muitos factos,
-muitas palavras, phrases
-e circumstancias curiosas e
-originaes, que se empregam e
-se encontram, a cada momento,
-já n'alguma obra escripta, já
-no meio da conversação</i>.</p>
-
-<p><i>Pareceu-nos que não seria desgracioso enfeixar
-todas essas flores n'um como que estudo de
-Historia Pittoresca, sem a aridez da Historia<span class="pagenum smcap">[viii]</span>
-propriamente dita, e com o proporcionamento
-do interesse, da amenidade e do attractivo do
-romance.</i></p>
-
-<p><i>As</i> <span class="allsmcap">PALAVRAS E PHRASES CELEBRES</span> <i>são isto
-apenas</i>.</p>
-
-<p><i>O livro estava feito, e todo o trabalho consistiu,
-quasi, em procurarmos e reunirmos em
-volume as paginas que andavam dispersas, aqui
-e alli, um pouco por toda a parte.</i></p>
-
-<p><i>Tem merecimento? Outros o dirão.</i></p>
-
-<p><i>Em todo o caso póde servir para entretenimento
-de um serão, para desenfado n'uma hora
-de descanço, para suavisar um momento de tedio,
-com a vantagem de que allia o util, que é
-a historia, ao agradavel, que é o pittoresco.</i></p>
-
-<p><i>De resto, parece-nos livro para toda a
-gente, porque crêmos que não perverte, não corrompe,
-não immoralisa.</i></p>
-
-<p><i>Visou, pelo menos, a esse fim, e só desejamos
-que o attinja.</i></p>
-
-<p><i>Se attingir, tanto melhor para os que nos
-honrarem lendo-o, e tanto melhor para nós, sobretudo,
-porque lograremos a gloria que aspiramos
-para o nosso modesto trabalho.</i></p>
-
-<div class="figcenter">
-<img src="images/image008.png" width="100" height="55" alt="" />
-</div>
-
-<div class="chapter p4">
-<div class="figcenter" id="Page_9">
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-</div>
-</div>
-
-<p class="ph1"><small>PALAVRAS<br />
-<small><small>E</small></small></small><br />
-PHRASES CELEBRES</p>
-
-<hr class="mini" />
-
-
-<h2 class="nobreak" id="I">I<br />
-<i>Amanhã os negocios sérios</i></h2>
-
-
-<div>
-<img class="drop-cap" src="images/image009b.png" width="100" height="228" alt="" />
-</div>
-<p class="drop-cap"><span class="smcap">Sparta</span> tinha-se apoderado da cidadella
-de Thebas por traição, e
-impozera aos thebanos, como governador,
-o tyranno Archias. Este
-banira da cidade os principaes cidadãos,
-entre os quaes Pelopidas.
-Refugiados estes em Athenas, resolveram
-libertar a patria e concertaram-se
-com um dos seus compatriotas,
-inimigo secreto do tyranno, que lhes
-offereceu recebel-os em sua casa. No dia marcado
-para a execução da conspiração, os conjurados
-<span class="pagenum"><a id="Page_10">[10]</a></span>
-penetraram em Thebas, graças a um disfarce.
-N'esse mesmo dia, Archias foi convidado
-para ceiar em casa d'um rico cidadão thebano,
-que, egualmente, fazia parte dos conspiradores.
-Tudo estava prompto, e os conjurados esperavam
-apenas uma hora mais avançada, para a
-execução do seu projecto, quando um correio,
-enviado d'Athenas, veio trazer a Archias uma
-carta, contendo todas as particularidades da conspiração.
-Admittido junto ao tyranno, entregou-lhe
-a missiva, convidando-o a lêr sem demora,
-porque se tratava de <i>negocios sérios</i>. Archias,
-dominado já pela embriaguez, poz indolentemente
-a carta sob a sua almofada, exclamando:</p>
-
-<p>&mdash;«Amanhã os negocios sérios!»</p>
-
-<p>Alguns instantes depois, Pelopidas e os outros
-conjurados, invadiram a salla do festim e
-massacraram o tyranno.</p>
-
-<p>Este acontecimento, que produziu a liberdade
-da Beocia, obteve uma grande celebridade
-na Grecia, e a phrase&mdash;<i>amanhã os negocios sérios</i>&mdash;tornou-se
-um proverbio que os descuidados
-e os amigos da alegria pretendem tomar por
-divisa, e que melhor fôra tomassem como lição.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_11">[11]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="II">II<br />
-<i>Alexandre</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Alexandre, filho de Philippe, rei da Macedonia,
-foi um dos maiores capitães da antiguidade.
-Desde a mais tenra edade que foi sempre
-animado d'uma nobre ambição. Quando lhe perguntavam
-se concorria aos jogos olympicos, respondia:</p>
-
-<p>&mdash;«Iria, se tivesse a certeza de encontrar
-reis como rivaes!»</p>
-
-<p>Chorava de cólera, vendo os successos multiplicados
-de Philippe, lamentando-se, d'este modo:</p>
-
-<p>&mdash;«Meu pai nada nos deixará que fazer!»</p>
-
-<p>Alexandre ficou em todas as linguas como
-o typo do <i>heroe</i> e do <i>conquistador</i>. As differentes
-circumstancias da vida de Alexandre, que
-originaram locuções proverbiaes são as seguintes
-e por ordem chronologica:</p>
-
-
-<h3 class="ithead"><i>1.º&mdash;Se eu não fosse Alexandre, desejaria
-ser Diogenes.</i></h3>
-
-<p>Alexandre acabava de ser nomeado generalissimo
-dos gregos, e achava-se em Corintho,<span class="pagenum"><a id="Page_12">[12]</a></span>
-aonde os principaes cidadãos se apressavam em
-dirigir-lhe as suas felicitações. Admirado de não
-receber a visita de Diogenes, foi elle proprio
-procurar o celebre cynico, cuja conversação facil
-e picante o encheu de assombro. Alexandre
-tendo perguntado ao philosopho se desejava alguma
-coisa, elle respondeu:</p>
-
-<p>&mdash;«Tira-te do meu sol.»</p>
-
-<p>Foi então que o grande conquistador, assombrado
-com tanto desinteresse, exclamou:</p>
-
-<p>&mdash;«Se eu não fosse Alexandre, desejaria ser
-Diogenes.»</p>
-
-
-<h3 class="ithead"><i>2.º&mdash;Meu filho, nada póde resistir-te.</i></h3>
-
-<p>Antes de partir para a expedição que projectava
-na Asia, Alexandre quiz consultar o oraculo
-de Delphos. Como a pythia recusasse subir
-ao tripé, o moço heroe arrastou-a violentamente.
-Ella exclamou então:</p>
-
-<p>&mdash;«Ah!, meu filho, nada te póde resistir.»</p>
-
-<p>&mdash;«Esse oraculo me basta&mdash;respondeu Alexandre&mdash;não
-quero outro.»</p>
-
-
-<h3 class="ithead"><i>3.º&mdash;Reserva da Esperança.</i></h3>
-
-<p>Na primavera do anno 334, Alexandre, tendo
-apenas vinte e dois annos d'edade, dispunha-se a
-invadir a Asia, á frente d'um exercito de trinta
-mil infantes e cinco mil cavallos. Como se já<span class="pagenum"><a id="Page_13">[13]</a></span>
-estivesse de posse dos thesouros do grande rei,
-distribuiu aos amigos tudo quanto tinha. Perdiccas
-perguntou-lhe então:</p>
-
-<p>&mdash;«Que reservaes para vós?»</p>
-
-<p>&mdash;«A <i>Esperança</i>»&mdash;respondeu Alexandre.</p>
-
-
-<h3 class="ithead"><i>4.º&mdash;Nó gordio.</i></h3>
-
-<p>Gordio, simples lavrador phrygio, tornou-se
-rei, por ter cumprido um oraculo, que promettia
-a corôa ao que primeiro entrasse, n'um determinado
-dia, na capital. Midas, seu filho, consagrou,
-no templo de Jupiter o carro sobre o qual seu
-pai fôra transportado. O nó que ligava o jugo
-ao timão estava tão artisticamente dado, que não
-se lhe descobriam as pontas. Chamavam-no o
-<i>nó gordio</i> ou de Gordio, e um antigo oraculo
-promettia o imperio da Asia a quem conseguisse
-desatal-o.</p>
-
-<p>Alexandre, tendo-se apoderado da cidade,
-resolveu cumprir o oraculo e actuar fortemente
-sobre a imaginação dos seus soldados. Depois
-de varias tentativas infructiferas, desembainhou
-a espada e cortou o nó mysterioso, illudindo
-mais, que realisando, d'este modo, o oraculo.</p>
-
-
-<h3 class="ithead"><i>5.º&mdash;O medico de Alexandre.</i></h3>
-
-<p>Pouco tempo depois da passagem do Granico,
-Alexandre, tendo-se banhado, a suar, nas<span class="pagenum"><a id="Page_14">[14]</a></span>
-aguas geladas do Cydnus, foi subitamente atacado
-d'um tremor mortal, e os soldados levaram-n'o,
-sem movimento, para a tenda. Todo o
-exercito se consternou, porque o seu estado parecia
-desesperado. Ao mesmo tempo, Dario avançava
-com forças immensas para lhe barrar as
-sahidas do Taurus. Os medicos não ousavam experimentar
-remedio algum; um só, Philippe, Acarniano
-de nação, e amigo d'infancia d'Alexandre,
-compoz uma poção, cujo effeito poderoso e salutar
-devia ser immediato. Durante estes preparativos,
-Alexandre recebeu uma carta de Parmenion,
-que o advertia de que desconfiasse de
-Philippe, secretamente comprado por Dario, para
-attentar contra os dias de seu monarcha. O heroe
-tinha ainda a carta nas mãos, quando o medico
-lhe levou a poção. Alexandre, sem manifestar a
-menor emoção, tomou a taça com uma das mãos,
-apresentou com a outra a carta a Philippe, e bebeu
-tudo d'uma só vez. O medico indignado, mas
-dominando as suas impressões, exhortou o rei a
-seguir fielmente as suas prescripções: a cura estava
-n'aquelle premio. Em verdade, apoz uma
-crise terrivel que gelou d'espanto todo o exercito,
-e de que um só homem não sabia a sahida,
-o doente melhorou e restabeleceu-se.</p>
-
-<p>O que ha de admiravel n'este traço da vida
-de Alexandre é a sua profunda fé na amizade.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_15">[15]</a></span></p>
-
-<h3 class="ithead"><i>6.º&mdash;Este tambem é Alexandre</i></h3>
-
-<p>Ephestion é menos citado na Historia pela
-parte que tomou nas conquistas d'Alexandre,
-que pela grande amizade que o unira áquelle
-heroe. Os dois amigos tinham sido educados
-juntos, e só a morte os separou. Depois da sangrenta
-batalha d'Issus, em que a mãe, a mulher
-e as duas filhas de Dario, cahiram em poder do
-vencedor, Alexandre, acompanhado d'Ephestion,
-foi visitar, á sua tenda, as infelizes princezas.
-Sysigambis, mãe de Dario, dirigiu a saudação a
-Ephestion, que tomou por Alexandre, pela superioridade
-da estatura e esplendor do traje.
-Advertida do engano, lançou-se aos pés do heroe,
-que a levantou bondosamente, dizendo-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;«Não vos enganasteis, aquelle tambem é
-Alexandre.»</p>
-
-
-<h3 class="ithead"><i>7.º&mdash;E eu tambem, se fosse Parmenion</i></h3>
-
-<p>Depois da batalha d'Issus, que fizera cahir
-nas mãos d'Alexandre toda a familia de Dario, e
-alguns dias antes da batalha d'Arbelles, o grande
-rei fez offerecer ao vencedor dez mil talentos&mdash;cincoenta
-e quatro milhões&mdash;a cedencia de toda
-a Asia até ao Euphrates, e uma das suas filhas
-em casamento. Alexandre tendo communicado<span class="pagenum"><a id="Page_16">[16]</a></span>
-estas brilhantes propostas aos seus generaes,
-Parmenion exclamou:</p>
-
-<p>&mdash;«Eu acceitaria, se fosse Alexandre.»</p>
-
-<p>&mdash;«E eu tambem, se fosse Parmenion!»&mdash;respondeu
-Alexandre.</p>
-
-<p>E recusou.</p>
-
-
-<h3 class="ithead"><i>8.º&mdash;Ó athenienses! quanto custa ser louvado por vós!</i></h3>
-
-<p>Alexandre tinha, do fundo da Asia, os olhos
-fixos na Grecia, e, sobretudo, em Athenas. Apesar
-do abaixamento em que esta cidade havia
-cahido, ficára sempre capital do mundo civilisado,
-pelas obras primas dos seus artistas, pelos
-immortaes discursos dos seus oradores e pela
-eloquente verdade dos seus historiadores, e Alexandre,
-tão apaixonado pela gloria, aspirava,
-acima de tudo, aos applausos d'esses athenienses
-frivolos, mas que egualmente distribuiam pela
-posteridade, a censura como o louvor. O conquistador
-acabava de penetrar nas vastas regiões
-da India, e preparava-se para atravessar o Hydaspe,
-de que Porus, á frente d'um formidavel
-exercito, ia disputar-lhe a passagem. O rio era
-largo e profundo, e as suas vagas quebrando estrepitosamente,
-deixavam a descoberto, aqui e
-alli, rochedos ameaçadores. Alexandre illude a
-attenção dos inimigos por um falso ataque, e
-aproveitando-se d'uma tempestade que lhe enco<span class="pagenum"><a id="Page_17">[17]</a></span>bre
-os movimentos, affronta perigos inauditos
-para transpor o rio. Confessou depois que tinha,
-emfim, encontrado alli um perigo digno da sua
-coragem, e foi n'esta circumstancia, diz Racine,
-no prefacio da sua tragedia <i>Alexandre</i>, que o heroe
-exclamou:</p>
-
-<p>&mdash;«Ó athenienses! quanto custa ser louvado
-por vós!»</p>
-
-
-<h3 class="ithead"><i>9.º&mdash;Ao mais digno.</i></h3>
-
-<p>Estava conquistada a Asia; <i>a terra</i>, segundo
-a bella expressão da Escriptura, <i>tinha-se callado
-deante de Alexandre</i>; elle fizera a sua entrada
-na Babylonia, «não como um conquistador, mas
-como um deus» e o papel brilhante e terrivel
-que representára estava a terminar. Os festins e
-os desvarios de toda a especie tinham succedido
-ás batalhas. No meio d'uma ultima orgia, o conquistador
-foi atacado d'uma febre, que o levou
-em poucos dias. Só deixava herdeiros em curta
-idade, ou incapazes. Conta-se que, no leito da
-morte, perguntando-lhe os generaes a quem legava
-o imperio, elle respondera:</p>
-
-<p>&mdash;«Ao mais digno!»</p>
-
-<p>E expirou «cheio das tristes imagens da confusão
-que devia seguir-se á sua morte.»</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_18">[18]</a></span></p>
-
-<h3 class="ithead"><i>10.º&mdash;Os funeraes d'Alexandre.</i></h3>
-
-<p>«Alexandre&mdash;diz Bossuet&mdash;deixava, morrendo,
-capitães a quem tinha ensinado a respirar
-sómente ambição e guerra. Previu a que excessos
-se dariam, quando expirasse, e para os
-conter, e com receio de ser desrespeitado, não
-ousou nomear nem successor, nem tutor para
-seus filhos. Predisse sómente que os seus amigos
-<i>celebrariam os seus funeraes com sanguinolentas
-batalhas</i>.»</p>
-
-
-<h3 class="ithead"><i>11.º&mdash;Desmembramento do imperio d'Alexandre.</i></h3>
-
-<p>Apenas Alexandre exhalou o ultimo suspiro,
-os generaes reuniram-se para dividirem a sua
-immensa herança. Perdiccas, a quem Alexandre
-moribundo deixára o seu annel, fez-se nomear
-regente; e os outros generaes distribuiram entre
-si as provincias. Lysimaco teve a Thracia, Antipater
-a Macedonia e a Grecia, Ptolomeu o Egypto,
-Antigono e Cassandro repartiram a Asia
-Menor. Vinte annos depois encontravam-se nas
-planicies da Phrygia, e a batalha de Ipsus era o
-ultimo acto d'essa sangrenta tragedia.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_19">[19]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="III">III<br />
-<i>Audacia, ainda audacia e sempre audacia</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Danton, um dos vultos mais notaveis da
-revolução franceza, nascera para tribuno popular.
-Alto, forte, face de <i>bull-dog</i>, muito picado
-das bexigas, a expressão do olhar cheia d'audacia,
-alma em harmonia com a estatura, com o
-ardor dos olhos, o rosto terrivel, a voz sonora,
-não podia ser senão o que foi, um revolucionario
-enthusiasta, arrastando o povo, já pela sua
-palavra como pelos seus actos, já pela sua elocução
-muito cheia de figuras gigantescas, d'apostrophes
-inflammadas, assombrando mesmo os
-que não seduzia. «Mirabeau serviu-se d'elle&mdash;diz
-um escriptor contemporaneo&mdash;como de um
-folle de forja, para accender o povo.» Apoz a
-fuga de Varennes, Danton provocou atrevidamente
-a queda do rei, fez-se eleger substituto
-do procurador da communa, preparou a revolução
-de 10 d'Agosto e entrou no ministerio da
-justiça.</p>
-
-<p>Esse famoso dia levantou toda a Europa
-contra a França revolucionaria. Brunswick, acaba<span class="pagenum"><a id="Page_20">[20]</a></span>
-de lançar o seu insolente manifesto; os exercitos
-francezes tinham experimentado revezes na Lorena;
-Longwy estava tomado, Verdun cercado, e
-o alarme reinava em Pariz. Para reanimar as
-coragens, Danton resolveu vibrar um grande
-golpe. Era no 1.º de Setembro. No dia seguinte,
-2, em quanto o sino tocava a rebate e o estampido
-do canhão se fazia ouvir, elle correu á
-Assembleia legislativa, e, n'um discurso rapido,
-fez ouvir estas terriveis palavras aos deputados,
-trémulos nas suas cadeiras: «É n'este momento,
-senhores, que podem decretar que a capital
-bem mereceu da França inteira. O canhão
-que se ouve não é o canhão do alarme, é o
-passo de carga sobre os nossos inimigos!...
-Para os vencermos, para os anniquilarmos, que
-é preciso? <i>Audacia, ainda audacia e sempre
-audacia!</i>»</p>
-
-<p>Algumas horas depois os massacres de Setembro
-espantavam Pariz.</p>
-
-<p>Se Danton não organisou, como é accusado,
-aquellas horrorosas carnificinas, está averiguado
-que nada fez para as prevenir e reprimir, e talvez
-que elle visse n'ellas uma execução terrivel,
-mas necessaria.</p>
-
-<p>N'esta repetição energica, hoje proverbial,
-Danton fôra precedido pelo velho marechal de
-Trioulce. Quando se perguntava a este o que
-era necessario para bem fazer a guerra, respondia:</p>
-
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_21">[21]</a></span></p>
-
-<p>&mdash;«Tres coisas: dinheiro, ainda dinheiro e
-sempre dinheiro!»</p>
-
-<p>Demosthenes tambem já dissera na antiguidade,
-que tres coisas fazem o orador:&mdash;«primeiro,
-a acção; segundo, a acção; e terceiro, a
-acção.»</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="IV">IV<br />
-<i>Delicias de Capua</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>A antiga Capua, capital da Campania, era
-uma das mais formosas cidades da Italia. Construida
-no centro de magnificas planicies, ensombradas
-pelo pinheiro, pelo platano, pelo myrto e
-a oliveira, circundada de imensos passeios orlados
-das mais perfumosas plantas, das mais
-brilhantes e suaves flores, Capua offerecia a
-mais adoravel residencia de toda a Italia.</p>
-
-<p>Foi lá que Annibal, depois da batalha de
-Cannes, e quando já tocava o extremo da sua
-audaciosa empreza, foi assentar os seus quarteis
-d'inverno, á frente do seu exercito vitorioso. Os
-historiadores antigos attribuem á permanencia
-de Annibal no seio das delicias de Capua, a
-causa unica da salvação de Roma. Assim, o seu
-exercito ter-se-ia amollecido e ter-se-hia cor<span class="pagenum"><a id="Page_22">[22]</a></span>rompido
-alli pelos famosos vinhos e pelos gosos
-faceis.</p>
-
-<p>No entretanto, se considerarmos que o capitão
-carthaginez e os seus temiveis bandos
-guerrearam ainda, durante treze annos, na Italia,
-de que só foram arrancados pela habil diversão
-de Scipião na Africa, as <i>delicias de Capua</i> não
-passam de uma amplificação de rhetorico.</p>
-
-<p>Segundo a opinião de historiadores modernos
-e homens de guerra dos mais celebres, um
-exercito de soldados feitos e experimentados não
-se perde n'um quartel de inverno. O que melhor
-explica a inutilidade dos exforços do maior capitão
-d'antiguidade, e esta foi a opinião de Napoleão
-1.º, depois da batalha de Cannes, é o
-abandono a que entregou a patria, onde dominava
-uma facção invejosa; além de que, rodeado
-de povos hostis e alliados incertos, recrutando
-difficilmente o seu exercito, composto de mercenarios
-de toda a especie, Annibal já não estava
-em estado de tentar qualquer coisa grande e decisiva.
-Comtudo, não se sustenta menos contra
-as melhores tropas e os mais habeis generais da
-republica, enchendo a Italia com o terror do seu
-nome, e agitando o mundo com as suas negociações,
-para levantar, em toda a parte, inimisades
-aos romanos.</p>
-
-<p><i>As delicias de Capua</i> ficaram em todas as
-linguas modernas para designarem uma calmaria
-moral, temperada de divertimentos e prazeres,<span class="pagenum"><a id="Page_23">[23]</a></span>
-em que as molas do corpo e do espirito se distendem
-e enfraquecem.</p>
-
-<p>O padre Lacordaire aprecia a phrase do
-modo seguinte:</p>
-
-<p>«A historia de todos os successos é a historia
-d'Annibal em Capua. Esquece-se, embriaga-se,
-adormece-se; o lento veneno da molleza
-distende todas as molas da actividade, e o ser que
-nada é senão pela actividade, dissolve-se, pouco
-e pouco, na ignominia d'um somno cobarde.»</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="V">V<br />
-<i>Disse eu alguma tolice?</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>As lições de Platão e de Xenocrato tinham
-desenvolvido em Phocion um coração virtuoso e
-uma alma elevada. Na tribuna, como no campo
-de batalha, elle lembrava Aristides. Nunca um
-orador foi mais inflexivel nos seus conselhos,
-nem contou menos com o successo da sua perseverança.
-A eloquencia de Phocion era a expressão
-natural do seu caracter e dos seus costumes;
-elle fallava aos athenienses com a serenidade
-de um philosopho e o laconismo d'um
-spartiaco. Sabe-se que Demosthenes o<span class="pagenum"><a id="Page_24">[24]</a></span>
-chamava&mdash;<i>o machado dos seus discursos</i>. Superior aos
-applausos, tanto como aos clamores da multidão,
-elle abalroava de frente a potencia popular,
-e as suas virtudes impunham-se a todas as paixões.
-Tinha a palavra austera, e a sua eloquencia
-vigorosa e concisa desdenhava dos artificios
-oratorios, que agradam á multidão e fazem estrondear
-applausos. Estando um dia na tribuna
-e vendo-se ruidosamente victoriado por todo o
-povo, volveu-se admirado para os seus amigos e
-perguntou-lhes:</p>
-
-<p>&mdash;«Disse eu alguma tolice?»</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="VI">VI<br />
-<i>Arca de Noé</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Era um immenso navio que Deus, depois
-de haver resolvido punir os homens pelo diluvio,
-ordenou a Noé construisse para ahi se refugiar.</p>
-
-<p>O Patriarcha empregou cem annos na construcção
-d'essa arca, que tinha trezentos covados
-de comprimento, cincoenta de largo e trinta de
-altura, e que continha, além de Noé e sua familia,
-dois casaes d'animaes impuros, assim chama<span class="pagenum"><a id="Page_25">[25]</a></span>dos
-os que não era permittido offerecer em sacrificio,
-e sete casaes d'animaes puros.</p>
-
-<p>Por causa da quantidade de seres que esse
-navio encerrava, o nome de <i>Arca de Noé</i> passou
-a servir para designar a agglomeração de numerosos
-e disparatados objectos.</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="VII">VII<br />
-<i>Queimar não é responder!</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>No principio do anno de 1794, estava em
-toda a sua violencia o regimen do Terror, dirigido
-por Robespierre, no seio do <i>comité</i> de salvação
-publica. Os proprios <i>dantonistas</i>, tornaram-se,
-em vista d'isto, <i>indulgentes</i>, moderados;
-e agora que a republica estava senhora do campo
-de batalha, elles queriam fazel-a entrar
-no reino das leis, e no caminho da justiça para
-todos. Danton era o chefe d'esta opposição nova,
-e o joven e fogoso Camillo Desmoulins era a
-sua penna, e, no <i>Vieux Cordelier</i>, farpeava o governo
-com censuras e sarcasmos. O jornal era
-lido com avidez, e venderam-se, n'alguns dias,
-cincoenta mil exemplares. Afinal, Camillo ousou
-promover um <i>comité de clemence</i>, como o<span class="pagenum"><a id="Page_26">[26]</a></span>
-unico meio de pacificar os partidos e de acabar
-com a revolução. Não era isto o que queria Robespierre,
-que, n'uma sessão dos jacobinos, onde
-o impetuoso pamphletario tinha sido intimado a
-comparecer, propoz perfidamente dar-lhe uma
-correcção paterna, <i>queimando</i> os numeros do
-jornal.</p>
-
-<p>&mdash;«Queimar não é responder!»&mdash;exclamou
-Desmoulins.</p>
-
-<p>Esta replica imprudente causou a sua perda.
-Robespierre não se conteve e disse:</p>
-
-<p>&mdash;«Pois bem, não se queimem e responda-se;
-leiam immediatamente os artigos de Camillo,
-visto que assim o quer, e que elle seja
-coberto d'ignominia!»</p>
-
-<p>Alguns dias depois o intrepido moço subia
-ao cadafalso.</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="VIII">VIII<br />
-<i>Caim, que fizeste de teu irmão?</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Caim, filho primogenito de Adão e Eva,
-cioso de seu irmão Abel, cujas offerendas eram
-mais agradaveis ao Senhor, propoz-lhe um dia
-um passeio ao campo e matou-o. O sangue do<span class="pagenum"><a id="Page_27">[27]</a></span>
-justo subiu até Deus, e a voz do Eterno fez-se
-ouvir:</p>
-
-<p>&mdash;«Caim, Caim, que fizeste de teu irmão?»</p>
-
-<p>Deus amaldiçoou o fratricida, expulsou-o da
-sua face, e marcou-o na fronte com um signal
-de reprovação.</p>
-
-<p><i>Caim</i> é o nome que se dá ao irmão que maltrata
-o irmão, abjurando o amor fraterno.</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="IX">IX<br />
-<i>Do Capitolio á rocha Tarpeia só ha um passo</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>A rocha Tarpeia, chamada assim, de Tarpeia,
-joven romana que alli foi estrangulada e
-sepultada, depois do acto de traição que commetteu,
-entregando a cidadella aos sabinos, era
-um rochedo situado no proprio recinto de Roma.
-Os romanos que se prendiam em perpetuar as
-recordações, deliberaram, depois do supplicio de
-Tarpeia, que se precipitassem do alto d'essa colina
-os criminosos accusados de traição. D'aqui
-a locução:&mdash;<i>Ser precipitado da rocha Tarpeia</i>&mdash;para
-exprimir, figuradamente, a quéda rapida<span class="pagenum"><a id="Page_28">[28]</a></span>
-d'uma posição elevada, e, particularmente, a
-perda d'uma grande popularidade.</p>
-
-<p>E como este logar era situado junto do Capitolio,
-em que se coroavam os triumphadores,
-as palavras&mdash;<i>A rocha Tarpeia está perto do Capitolio</i>,
-ou&mdash;<i>Do Capitolio á rocha Tarpeia
-só ha um passo</i>, significam que a quéda segue,
-muitas vezes, de perto o triumpho, e que a ignominia,
-como extremo, toca a gloria.</p>
-
-<p>Esta phrase está, sobretudo, em uso desde
-o eloquente emprego que d'ella fez Mirabeau,
-n'uma circumstancia celebre: Tratava-se de saber
-se a iniciativa da guerra devia ser devolvida
-ao rei ou á assembleia; Mirabeau pronunciou-se
-pela assembleia, e como ouvisse a palavra <i>traidor</i>
-soar aos seus ouvidos, o fogoso orador subiu
-á tribuna, e tomando para texto do seu exordio
-a instabilidade do favor popular, fez ouvir
-essas palavras, que ficaram celebres:&mdash;«E eu
-tambem, a mim tambem queriam, ha poucos
-dias, levar-me em triumpho; e gritam agora nas
-ruas:&mdash;<i>A grande traição do conde de Mirabeau!</i> ...
-Eu não precisava d'esta lição para saber
-que <i>só ha um passo do Capitolio á rocha
-<span class="pagenum"><a id="Page_29">[29]</a></span>Tarpeia!</i> ...»</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="X">X<br />
-<i>Catão</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Marco Porcio Catão, é, sobretudo, celebre
-pela austeridade dos seus costumes. Fez-se notar,
-desde o principio da sua vida publica, pela
-sua eloquencia mordente e aggressiva e pela
-sua opposição apaixonada ás ideias da Grecia,
-que começavam desde então a modificar o genio
-da Roma Antiga. Tão duro comsigo, como
-para os seus escravos, levantava-se antes da aurora,
-excitava os servos ao trabalho, punha-se
-nú como elles, para lavrar, comia o seu pão negro
-e bebia da sua agua avinagrada. Elevado á
-censura, pôde, emfim, trabalhar na realisação do
-seu sonho:&mdash;a restauração da antiga simplicidade
-romana. Fez regulamentos sumptuarios,
-contribuiu os objectos de luxo, os enfeites das
-mulheres, reprimiu as delapidações, e mostrou
-uma inflexivel severidade de costumes, a ponto
-de degradar um senador que tinha beijado a esposa
-em presença da filha. Amava-se a sua palavra,
-honrava-se o seu caracter; o povo applaudia
-este censor inexoravel que <i>mordia</i> toda a gente.
-O sobrenome de <i>Censor</i> ficou-lhe, e erigiram-lhe<span class="pagenum"><a id="Page_30">[30]</a></span>
-uma estatua com esta inscripção:&mdash;<i>A Catão, que
-corrigiu os costumes</i>.</p>
-
-<p>A sua presença inspirava um tal respeito
-aos romanos, que, quando elle assistia ao espectaculo,
-o povo esperava que elle sahisse para
-pedir as farças e as danças licenciosas.</p>
-
-<p>&mdash;Dizer que um homem é um <i>Catão</i> é dizer
-que é severo e rigido no cumprimento do
-seu dever e nos seus costumes.</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="XI">XI<br />
-<i>Cezar</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Caio Julio Cezar, consul romano, dictador
-e um dos maiores capitães da antiguidade, era
-sobrinho de Mario. Cresceu no meio das guerras
-civis e foi proscripto aos desoito annos, por
-Sylla, que viu n'elle <i>varios Marios</i>. A estatua
-d'Alexandre, o Grande, que elle viu, passando
-em Cadiz, fez-lhe derramar lagrimas de despeito,
-por vêr que na idade em que tinha morrido
-esse heroe, elle não tinha ainda realisado
-nada de notavel. Tinha uma ambição e uma actividade
-devoradoras e&mdash;«julgava não ter feito<span class="pagenum"><a id="Page_31">[31]</a></span>
-coisa alguma em quanto lhe restasse alguma
-coisa a fazer.»</p>
-
-<p>O seu nome, como o de Alexandre, ficou
-como synonymo de grande guerreiro, de conquistador
-civilisador.</p>
-
-<p>Vamos apontar por ordem chronologica, as
-differentes circumstancias da vida de Cezar, que
-originaram locuções proverbiaes.</p>
-
-
-<h3 class="ithead"><i>1.º&mdash;A mulher de Cezar nem mesmo deve ser suspeitada.</i></h3>
-
-<p>Clodio, joven patricio, ambicioso e desmoralisado,
-amava Pompeia, mulher de Cezar. Uma
-noite, quando as mulheres celebravam os mysterios
-da boa-deusa, interdictos aos homens, elle
-introduziu-se, disfarçado com trajes femininos,
-nos aposentos de Pompeia. Mas foi surprehendido
-por uma escrava, que não era confidente.&mdash;«No
-dia seguinte, diz Plutarco, toda a cidade
-soube que Clodio commettera um sacrilegio horrivel.»</p>
-
-<p>Julgado, como profanador dos santos mysterios,
-corrompeu os juizes e foi absolvido. Cezar
-contentára-se em repudiar sua mulher. Chamado,
-porém, como testemunha, elle depoz que não tinha
-nenhum conhecimento dos factos que se
-imputavam ao accusado. Este depoimento pareceu
-muito estranho e o accusador perguntou-lhe<span class="pagenum"><a id="Page_32">[32]</a></span>
-porque havia então repudiado sua mulher. Elle
-respondeu:</p>
-
-<p>&mdash;<i>É porque a mulher de Cezar nem
-mesmo deve ser suspeitada.</i></p>
-
-
-<h3 class="ithead"><i>2.º&mdash;Gostaria mais de ser o primeiro
-n'uma aldeia, que o segundo em Roma.</i></h3>
-
-<p>Todos os actos, todas as palavras de Cezar,
-antes do seu advento ao poder, revelam o seu
-caracter e a natureza da sua ambição. Depois da
-sua pretura, tendo-o a sorte designado para o
-governo da Hespanha ulterior, elle partiu para a
-sua provincia. Quando atravessava uma pobre
-aldeia, perdida no fundo dos Alpes, alguns dos
-seus amigos perguntaram-lhe, gracejando, se a
-ambição do poder e o desejo das dignidades
-occasionavam tambem debates n'essa miseravel
-terra.</p>
-
-<p>&mdash;«Não riam&mdash;respondeu o futuro dictador&mdash;<i>eu
-gostaria mais de ser o primeiro n'esta aldeia,
-que o segundo em Roma</i>.»</p>
-
-
-<h3 class="ithead"><i>3.º&mdash;Passar o Rubicão.</i></h3>
-
-<p>Cezar vinha de concluir a conquista dos
-gaulezes, e tinha encontrado n'essas regiões thesouros
-bastantes para tudo comprar em Roma,<span class="pagenum"><a id="Page_33">[33]</a></span>
-onde tudo se tornára venal. Os seus successos,
-o seu poder, mais ainda que os seus conhecidos
-projectos, despertaram, emfim, a desconfiança de
-Pompeu, que começava a receiar ver-se o logro
-d'aquelle de que elle se tinha imaginado ser o
-protector. Desde então, poz tudo em acção para
-obter do senado um decreto que ordenava a
-Cezar o abandono do seu exercito e a resignação
-do commando. Este respondeu que estava
-prompto a obedecer, com a condição de que
-Pompeu entraria, pelo seu lado, na vida civil.
-Desde este momento, a guerra estava declarada.
-O senado encarregou os consules de proverem
-a segurança publica, e Cezar fez avançar o seu
-exercito para o Rubicão. Era uma pequena ribeira,
-que separava a Italia da Gallia cisalpina.
-O senado para assegurar Roma contra as tropas
-da Gallia, tinha, por um senatus-consulto celebre,
-declarado traidor á patria e dedicado aos
-deuses infernaes, todo aquelle que, com uma legião
-ou uma cohorte, passasse aquella ribeira.
-Prevenido na margem opposta, Cezar, dominado
-pelo perigo da resolução audaciosa que ia tomar,
-hesitou alguns instantes.</p>
-
-<p>«Tinham-se visto revoluções d'imperios, diz
-Lacordaire, thronos mudando de senhores, e
-fôra isso, n'esse jogo de passageiras fortunas, o
-que tinha illuminado o genio dos maiores d'entre
-os homens. Cezar, no Rubicão, parára pensativo;
-a mão no peito e o olhar além do regato, elle se<span class="pagenum"><a id="Page_34">[34]</a></span>
-dissera:&mdash;«Eu, Cezar, faço uma coisa que nenhum
-romano fez ainda: desobedeço ao senado
-romano. Passando este ribeiro, faço um imperio
-d'uma republica, senhora do mundo: passemol-o.»</p>
-
-<p>&mdash;«Vamos, pois, exclamou Cezar, como
-se cedesse á obsessão da sua fortuna; vamos
-aonde nos chamam as vozes dos deveres e a iniquidade
-dos nossos inimigos. <i>Alea jacta est!</i>&mdash;a
-sorte está lançada!»</p>
-
-<p>Palavra irrevogavel, pronunciada depois por
-todos os homens que, não encontrando fundo no
-seu pensamento, e obrigados a escolherem entre
-dois perigos supremos, tomam resolução no seu
-caracter, não podendo tomal-a em outra parte, e
-se lançam a nado no Rubicão do acaso, para
-morrerem ou para se salvarem pela sorte.</p>
-
-
-<h3 class="ithead"><i>4.º&mdash;Levas Cezar e a sua fortuna.</i></h3>
-
-<p>Pompeu, desesperando de defender a Italia
-com a approximação de Cezar, deixou Roma
-acompanhado d'um grande numero de senadores,
-magistrados e cidadãos e passou á Grecia,
-onde levantou um exercito. Cezar seguiu-o.
-Tendo desembarcado á frente de cinco legiões,
-soube que a frota que lhe levava viveres e reforços
-foi batida e dispersa pela de Pompeu. Na critica
-circumstancia em que se achava toma a re<span class="pagenum"><a id="Page_35">[35]</a></span>solução
-d'ir ao encontro d'Antonio, que devia
-soccorrel-o, e embarca elle só n'um barco de pescador.
-Durante a travessia levanta-se uma tempestade
-e ameaça submergir a fragil embarcação.
-O piloto espantado quer volver ao posto. É
-então que o heroe lhe diz essa famosa phrase,
-contada por Plutarco:</p>
-
-<p>&mdash;«Que receias? <i>levas Cezar e a sua fortuna!</i>»</p>
-
-<p>E alguns dias depois humilhava o seu rival
-nos campos da Pharsalia.</p>
-
-
-<h3 class="ithead"><i>5.º&mdash;Soldado, fere no rosto!</i></h3>
-
-<p>Antes da batalha de Pharsalia, Cezar, no
-meio d'uma região dedicada ao seu rival, estava
-n'uma situação muito critica. Pompeu, cujo exercito
-estava bem munido e fornecido pela sua
-frota, resolvera reduzir á fome o seu inimigo. A
-perda de Cezar parecia certa, quando Pompeu,
-cedendo á impaciencia dos seus soldados, travou
-peleja com os velhos legionarios das Gallias, que
-bem podiam ser destruidos pela fome, mas que
-não podiam deixar-se vencer.&mdash;«Soldado, fere
-no rosto!» tinha gritado Cezar aos seus veteranos,
-vendo os brilhantes cavalleiros do exercito
-de Pompeu. Estes jovens patricios, espantados,
-pozeram-se em fuga para não serem desfigurados
-pelas lanças dos legionarios, e Cezar ficou
-senhor do campo de batalha.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_36">[36]</a></span></p>
-
-<p>A implacavel phrase de Cezar não encontra
-applicação alguma em circumstancias analogas,
-e emprega-se a respeito d'um adversario de
-que se quer tocar a fibra sensivel, que se deseja
-ferir á falta de couraça.</p>
-
-
-<h3 class="ithead"><i>6.º&mdash;Cheguei, vi e venci.</i></h3>
-
-<p>Apoz a morte de Pompeu e a conquista do
-Egypto, e em quanto Cezar se engolfava no
-seio dos prazeres que lhe offerecia Cleopetra, o
-partido de Pompeu, mais disperso que destruido,
-erguia-se por toda a parte. Pharnacio, rei do
-Ponto, aproveitára a guerra civil para tentar reunir
-na Asia as antigas possessões de seu pae.
-Despertado pelo perigo, Cezar corre ao Bosphoro,
-esmaga o filho de Mithridates e termina
-essa guerra com uma tal rapidez, que pôde
-contal-a inteira n'estas tres palavras celebres,
-que elle dirigiu ao senado:</p>
-
-<p>&mdash;<i>Veni, vidi, vici; cheguei, vi, venci!</i></p>
-
-<p>&mdash;Faz-se uso da phrase para exprimir a facilidade,
-a promptidão com que se executa uma
-empreza.</p>
-
-<p>Lembra-nos a proposito o seguinte caso analogo.
-Depois da sua victoria sobre os turcos, Sobieski
-enviou ao Papa o estandarte de Mahomet,
-com estas palavras de Cezar a que deu um caracter
-de modestia christã:&mdash;«<i>Cheguei, vi e Deus
-venceu!</i>»</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_37">[37]</a></span></p>
-
-<h3 class="ithead"><i>7.º&mdash;Idos de Março.</i></h3>
-
-<p>Cezar entrára em Roma, senhor do mundo
-inteiro. O senado conferiu-lhe honras extraordinarias
-e revestiu-o d'uma illimitada auctoridade.
-Foi nomeado consul por dez annos e dictador
-perpetuo; deram-lhe o nome de <i>imperador</i>, o titulo
-de <i>Pae da Patria</i> e erigiram-lhe uma estatua
-com esta inscripção:&mdash;<i>Ao deus invencivel!</i>
-A sua pessoa foi declarada inviolavel. Concederam-lhe
-o privilegio de assistir ao espectaculo
-n'uma cadeira dourada, com uma corôa na cabeça.
-Elle meditava projectos immensos; queria
-engrandecer Roma, ornamental-a de monumentos
-magnificos, fazer d'ella a rainha do Universo.
-Mas não lhe estava reservado o cumprimento de
-tão vastos designios. Debalde se exforçára por
-apagar todos os traços da guerra civil, debalde
-tinha cumulado de favores e elevado aos primeiros
-cargos os que o tinham combatido, debalde
-tinha erguido estatuas ao seu rival, porque
-nada podia desarmar os partidarios da antiga liberdade.</p>
-
-<p>A sua clemencia parecia insultante; viu-se
-que não perdoava, mas que desdenhava punir.
-Afinal uma formidavel conjuração se tramou contra
-a sua vida. A conspiração devia explosir no
-meio do senado, e fôra fixada para os <i>idos de
-Março</i>. O caso transpirou no publico, mas Cezar<span class="pagenum"><a id="Page_38">[38]</a></span>
-recusou tomar qualquer precaução. Calpurnia,
-sua mulher, estava tão persuadida da realidade
-do perigo, que o conjurou, com as mais vivas
-instancias, a não sahir n'esse dia.</p>
-
-<p>Conta Plutarco, que muito tempo antes, um
-adivinho tinha advertido o dictador de que devia
-desconfiar dos <i>idos de Março</i>. Quando sahia
-de casa para o senado, encontrou o adivinho
-e disse-lhe, rindo: «&mdash;Chegamos aos idos de
-Março.»&mdash;«É verdade&mdash;respondeu&mdash;mas ainda
-não passaram.»</p>
-
-<p>Alguns passos adeante um homem entregou-lhe
-um bilhete que continha todas as particularidades
-da conspiração:&mdash;«Lêde&mdash;disse&mdash;e
-rapidamente!» Mas Cezar não teve tempo e
-entrou para o senado.</p>
-
-<p>&mdash;Os <i>idos de Março</i> designam, por analogia,
-uma epocha perigosa de passar, e para a
-qual se fizeram incommodativos prognosticos.</p>
-
-
-<h3 class="ithead"><i>8.º&mdash;E tu tambem, meu filho!</i></h3>
-
-<p>Apenas Cezar tinha entrado no senado, todos
-os conjurados o rodearam como para lhe
-prestarem honra. Cimber, um d'elles, apresentou-se,
-afim de lhe pedir o chamamento de seu
-irmão exilado, e como para lhe pedir com mais
-submissão, tomou-lhe a fimbria da toga e puxou-a
-com violencia. Era o signal combinado.<span class="pagenum"><a id="Page_39">[39]</a></span>
-Casca, tirando o seu punhal, feriu com elle o
-dictador no hombro. Cezar, no mesmo instante
-toma a arma do assassino e precipita-se sobre
-elle gritando:&mdash;«Que fazes, scelerado Casca?»
-Então todos os conspiradores desembainharam
-as suas espadas e lhe vibraram varios golpes.
-Cassio, mais animado que os outros, fez-lhe uma
-profunda brecha na cabeça; Cezar defendia-se
-ainda, quando avistando Bruto, com o punhal
-erguido sobre elle, exclamou:&mdash;«E tu tambem,
-meu filho Bruto!» Ao mesmo tempo cobriu o
-rosto com o vestido e cahiu atravessado com
-vinte e tres golpes, aos pés da estatua de Pompeu.</p>
-
-
-<h3 class="ithead"><i>9.º&mdash;A tunica de Cezar.</i></h3>
-
-<p>O cadaver de Cezar abandonado no senado
-foi conduzido, todo cheio de sangue a sua casa
-por tres escravos. Alguns dias depois, Antonio
-appareceu na tribuna das harengas e leu á multidão
-o testamento do dictador. O povo, que elle
-não tinha esquecido nas suas generosidades fez
-explosir a sua indignação. Então, Antonio, desdobrando
-do alto da tribuna a tunica de Cezar,
-ensanguentada e crivada de golpes, tratou de
-parricidas os auctores d'aquelle assassinio. Esta
-scena levou ao cumulo a exasperação popular.
-E todos os assistentes fazendo logo uma fogueira
-com as mezas e os bancos que encontra<span class="pagenum"><a id="Page_40">[40]</a></span>ram
-á mão, n'ella queimaram o corpo de Cezar;
-depois, tomando tições correram a casa dos
-assassinos para lhes lançarem fogo, e os atacarem
-a elles proprios.</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="XII">XII<br />
-<i>Estava escripto</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Esta resignação perante os duvidosos decretos
-do destino é o fundo da doutrina religiosa
-da maior parte dos povos orientaes. É uma especie
-de <i>fatum</i> antigo, um pallido reflexo d'esse
-caracter poetico, quasi grandioso, que o fatalismo&mdash;mistura
-de sensibilidade profunda e sombria
-resignação&mdash;revestira entre os antigos.</p>
-
-<p>Os differentes systemas phrenologicos parecem
-não ter por fim senão o darem razão
-physica d'estes factos moraes.</p>
-
-<p>A litteratura philosophica do seculo <span class="smcap">XVIII</span> legou-nos
-duas obras muito conhecidas, apesar de
-francezas, sobre a fatalidade: <i>Zadig</i>, conto de
-Voltaire, e <i>Thiago o fatalista</i>, romance de Diderot.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_41">[41]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="XIII">XIII<br />
-<i>Conhece-te a ti proprio</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Estas famosas palavras estavam gravadas
-sobre o frontão do templo de Delphos. Era a
-maxima favorita de Socrates; elle adoptou-a, explicou-a
-e tornou-a celebre para sempre. Toda a
-lei moral reside n'estas palavras, como toda a
-lei religiosa está encerrada n'estas admiraveis
-palavras de Christo:&mdash;«Ama o proximo como a
-ti mesmo.»</p>
-
-<p>Seneca, o tragico, desenvolveu esta bella
-maxima nos seguintes versos que traduzimos
-assim:</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i0">«O homem é infeliz no instante em que fenece;<br /></span>
-<span class="i0">Quando tendo esquecido o ponto necessario,<br /></span>
-<span class="i0">Morre mui conhecido e a si se não conhece.»<br /></span>
-<span class="pagenum"><a id="Page_42">[42]</a></span></div></div>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="XIV">XIV<br />
-<i>As joias de Cornelia</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Cornelia, mãe dos Grachos, era filha de
-Scipião, o Africano, e mulher de Sempronio
-Gracho, que se illustrou nas guerras de Hespanha.
-Enviuvando, com doze filhos, consagrou-se
-inteiramente á sua educação, e recusou
-até, dizem, a mão de Ptolomeu, rei do Egypto.
-D'esta numerosa prole conservou apenas uma
-filha, que foi casada com Scipião Emiliano, e
-dois filhos, Tiberio e Caio Gracho, este sempre
-famoso pelo seu genio, pela sua coragem e pelo
-seu tragico destino. Mulher d'um caracter viril
-e d'um espirito cultivado, ella educou-os com o
-maior esmero, e inspirou-lhes cedo o amor publico,
-a paixão da gloria e das grandes emprezas,
-pedindo-lhes, por vezes, que a chamassem
-sempre a filha de Scipião e nunca a mãe dos
-Grachos.</p>
-
-<p>Conta-se que uma dama da Campania estendendo,
-um dia, deante d'ella as suas joias e
-os seus preciosos adornos, e pedindo-lhe para
-que ella lhe mostrasse as suas, Cornelia lhe
-apresentou os filhos, dizendo:</p>
-
-<p>&mdash;«Eis as minhas joias e os meus adornos».</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_43">[43]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="XV">XV<br />
-<i>Cresus</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Cresus, rei da Lydia, submetteu a maior
-parte das cidades da Asia Menor, e levou as
-suas conquistas até ao rio Halys. A fama do seu
-poder e das suas riquezas, constantemente renovadas
-pelas areias auriferas do Pactolo, tornou
-proverbial o nome de Cresus, para designar um
-homem cumulado dos bens da fortuna. Elle
-perguntou um dia a Solon, que fôra visitar a sua
-côrte, se conhecia um homem mais feliz do que
-elle. O philosopho respondeu-lhe que nenhum
-homem póde ser saudado com o nome de feliz
-antes da sua morte. Cresus não tardou a experimentar
-os effeitos d'esta triste verdade. Um de
-seus filhos foi morto na caça, o outro tornou-se
-mudo, e elle proprio, depois de ter visto os seus
-Estados invadidos por Cyro, foi vencido na celebre
-batalha de Thimbreia e cahiu nas mãos do
-vencedor, que ordenou a sua morte. Quando o
-conduziam ao supplicio, vieram-lhe á memoria
-as palavras de Solon, e elle pronunciou tres vezes,
-suspirando, o nome do legislador atheniense.
-Instruido da causa d'esta exclamação,<span class="pagenum"><a id="Page_44">[44]</a></span>
-Cyro, commovido de piedade e tocado d'aquelle
-exemplo das vicissitudes humanas, perdoou a
-Cresus e admittiu-o no numero dos seus conselheiros.</p>
-
-<p>Esta bella legenda philosophica da vida de
-um homem, que foi successivamente, e d'um
-modo tão frisante, o favorito e o joguete da fortuna,
-é narrada por Herodoto, mas Xenophonte
-não falla d'ella.</p>
-
-<p>&mdash;O nome de <i>Cresus</i> passou a designar um
-homem opulento, coberto de todos os favores da
-fortuna.</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="XVI">XVI<br />
-<i>Dôr, tu não és um mal</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>O stoicismo, fundado por Zenon, fórma
-uma das mais illustres philosophias da antiguidade.
-Simples no seu principio e nas suas deducções,
-frisante pelo seu caracter heroico e paradoxal,
-de tal modo se fez conhecer, ao menos,
-pelos traços mais salientes da sua moral, que os
-nomes de <i>stoicismo</i> e <i>stoico</i>, entraram na applicação
-usual da lingua, como expressão d'uma
-grande impassibilidade. Os stoicos faziam consistir
-a virtude e a ventura na posse d'uma alma<span class="pagenum"><a id="Page_45">[45]</a></span>
-egualmente insensivel á voluptuosidade e á dôr,
-liberta de todas as paixões, superior a todos os
-receios, a todas as fraquezas. Admittindo como
-mal apenas o vicio, como bem sómente a virtude,
-e considerando o resto como indifferente,
-elles negavam que a dôr fosse um mal. Zenon,
-seu illustre chefe, foi o primeiro que proclamou
-a lei do <i>dever</i> e que d'ella lançou os fundamentos
-com uma abundancia de provas que tinha a
-sua origem n'uma profunda convicção, independentemente
-de toda a argumentação dialectica.
-As paixões não são elementos necessarios da
-nossa condição; são doenças da alma: a saude,
-a <i>apathia</i>, a ausencia das paixões. Foi por
-causa d'esta severidade d'opiniões moraes, pelo
-menos entre os primeiros stoicos, que se deu,
-em geral, o nome de stoicismo a toda a opinião
-severa em moral.</p>
-
-<p>Esta doutrina, que se allia perfeitamente
-com todas as grandes virtudes, e que tendia
-a fazel-as nascer, logrou grande credito entre
-os romanos, apesar da sua pequena inclinação
-pela philosophia; adoptaram-na com enthusiasmo,
-porque se concertava admiravelmente
-com a sua energia intellectual e a sua severidade.
-Notou-se, em honra da seita dos stoicos,
-que os personagens mais virtuosos de Roma a
-tinham adoptado:&mdash;Bruto, Catão d'Utica, Thrasêas,
-Seneca, Tacito, Epictecto, Antonino e Marco
-Aurelio. A moral ficou como gloria dos stoicos,<span class="pagenum"><a id="Page_46">[46]</a></span>
-e tirando-lhe o que encerra de paradoxal e exaggerado,
-ella assegura-lhes o primeiro logar entre
-os percursores mais puros e mais directos
-do christianismo.</p>
-
-<p>A divisa principal dos stoicos era:&mdash;«<i>Soffre
-e abstem-te!</i>»</p>
-
-<p>Conta-se que um discipulo de Zenon, exclamava
-no meio dos maiores soffrimentos causados
-pela gôtta:</p>
-
-<p>&mdash;«<i>Dôr, tu não és um mal!</i>»</p>
-
-<p>Havia, por sem duvida, ostentação n'estes
-principios da doutrina do stoicismo, mas nem
-por isso ella deixou de produzir as virtudes
-mais heroicas.</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="XVII">XVII<br />
-<i>Egéria</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Numa Pompilio, legislador e segundo rei
-de Roma, nasceu em Ceres, no paiz dos sabinos.
-A tradição pinta-o como um principe pacifico
-e cheio de sabedoria. Nem uma guerra
-perturbou o seu reino, consagrado inteiramente
-á legislação e ás instituições religiosas. Elle
-creou e organisou, entre outras coisas, as ves<span class="pagenum"><a id="Page_47">[47]</a></span>taes,
-os pontifices, e construiu templos e instituiu
-festas.</p>
-
-<p>Como todos os legisladores da antiguidade,
-usou d'artificio para assegurar o respeito das
-suas instituições, e persuadiu aos romanos que
-recebia inspirações da nympha Egéria, só visivel
-para elle no fundo d'um bosque sagrado.</p>
-
-<p>Vê-se ainda hoje, perto de Roma, n'um
-valle delicioso, o resto da fonte Egéria, entre a
-via Latina e a via Appia. Antigos monumentos
-representam esta nympha n'um costume analogo
-ao das sybillas, de tunica fluctuante, pés nús,
-cabellos soltos, e traçando caracteres n'um livro
-posto sobre os joelhos.</p>
-
-<p>&mdash;Hoje o nome de Egéria dá-se familiarmente,
-sobretudo, a uma mulher de que se tomam
-os conselhos, de que se segue a opinião,
-principalmente para a direcção de negocios politicos.</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="XVIII">XVIII<br />
-<i>Mais uma victoria como esta e estamos perdidos</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Pyrrho, sobrinho d'Olympias, era o principe
-mais valente, mais aventureiro de quantos
-se habilitaram á herança d'Alexandre. Passou a<span class="pagenum"><a id="Page_48">[48]</a></span>
-vida a conquistar e a perder corôas. Não podia
-permanecer tranquillo no Epiro, julgando que
-não fazendo mal nem havendo quem lh'o fizesse,
-não tinha em que passar o tempo. Assim,
-o successo faltou sempre aos designios d'essa
-creança animada da fortuna, que viveu e morreu,
-menos como rei que como aventureiro. A
-sua brilhante reputação militar, fel-o chamar pelos
-tarentinos, então em guerra com os romanos.
-A imaginação exaltada representa-lhe já a
-Italia conquistada, depois a Sicilia e Carthago,
-e parte cheio de alegria para Tarento, cidade de
-prazeres, que elle transforma n'um campo, e os
-seus habitantes afeminados em soldados. Ganhou
-primeiro, graças aos seus elephantes, a
-batalha de Heraclêa, em que os romanos perderam
-quinze mil homens e elle treze mil. Venceu
-ainda em Asculo, em que o triumpho não foi
-comprado menos caro. Depois d'esta sangrenta
-batalha foi que elle respondeu aos que o felicitavam:&mdash;«Mais
-uma victoria como esta e estamos
-perdidos!»</p>
-
-<p>Pyrrho, afinal, deixou a Italia, e encontrou
-a morte nas ruas de Argos, aonde uma velha o
-matou, atirando-lhe de cima do telhado uma pesada
-telha.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_49">[49]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="XIX">XIX<br />
-<i>Espada de Damocles</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Damocles, um dos cortezãos de Denys, o
-Antigo, fazia-se notar pela emphase das suas
-adulações, e não cessava de elogiar a ventura de
-seu senhor. O tyranno resolveu inicial-o nos
-prazeres da grandeza, por meio d'uma allegoria
-espiritual que faria honra a um califa oriental.
-Convidou-o a tomar o seu logar durante um dia,
-e deu ordens para que Damocles fosse tratado
-como rei, e lhe servissem um banquete sumptuoso.
-O cortezão tomou logar n'um leito
-d'honra; tem a fronte cingida do diadema; as
-iguarias mais exquisitas cobrem a meza. Damocles
-está rodeado d'escravos, attentos aos seus
-minimos signaes; deliciosos perfumes fumegam
-em torno a si, e a mais adoravel musica lhe encanta
-o ouvido; as cortezãs adulam-no, e poetas
-cantam em seu louvor. Embriaga-se em ventura,
-quando, de subito, levantando os olhos, vê suspensa,
-por cima de sua cabeça, uma espada
-apenas preza pela crina d'um cavallo. Pallido e
-tremulo, deixa escapar a taça das mãos, levan<span class="pagenum"><a id="Page_50">[50]</a></span>ta-se
-desnorteado e pede a Denys para pôr
-termo á sua realeza. Tinha comprehendido o
-que é a ventura d'um tyranno.</p>
-
-<p>&mdash;De todos os factos historicos que deixaram
-traço nas linguas, a <i>espada de Damocles</i> é
-o mais conhecido, poderemos até dizer o mais
-vulgar. É o perigo temido ou previsto, que
-póde ferir um homem no meio d'uma apparente
-prosperidade.</p>
-
-<p>Um escriptor contemporaneo disse:&mdash;«A
-abobada dos céus é para o criminoso a sala do
-festim de Damocles, d'onde pendia uma espada
-sobre sua cabeça».</p>
-
-<p>E Alfredo de Musset, nas <i>Confissões d'um
-Filho do Seculo</i>, tambem:&mdash;«Conta-se que Damocles
-viu uma espada sobre a sua cabeça; é
-assim que os libertinos parecem ter por cima
-d'elles um não sei quê, que lhes grita constantemente:&mdash;Vai,
-vai sempre, estou por um fio!»</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_51">[51]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="XX">XX<br />
-<i>O prato de lentilhas</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Esaú, o primogenito, era um grande caçador;
-Jacob, pelo contrario, era um homem simples, vivendo
-em casa, occupado unicamente em trabalhos
-domesticos. A doçura do seu caracter tornava-o
-mais agradavel a sua mãe que Esaú, que
-tinha attrahido a affeição particular de seu pae
-Isaac. Um dia, em que Esaú voltava do campo,
-cheio de fadiga e oppresso pela fome, pediu a
-Jacob que o deixasse comer d'um <i>prato de lentilhas</i>
-que este tinha preparado. Jacob consentiu,
-com a condição de que Esaú lhe cederia o
-seu direito de primogenito. Mais tarde, Jacob,
-recorrendo ao estratagema e auxiliado por sua
-mãe, surprehendeu a Isaac, moribundo e cego, a
-sua benção, que o fazia chefe da familia de
-onde devia sahir o Christo. Esaú concebeu uma
-violenta cólera, e Jacob, para se subtrahir ao
-seu resentimento retirou-se para casa de Labão,
-seu tio.</p>
-
-<p>&mdash;Diz-se <i>prato de lentilhas</i>, a insignificancia
-relativa, pela qual se cede uma coisa realmente
-muito valiosa, especialmente moral.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_52">[52]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="XXI">XXI<br />
-<i>E eu tambem sou pintor!</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Corregio, natural de Corregio, nascido
-em 1494, é um dos maiores pintores da eschola
-italiana. As suas composições fazem-se notar,
-sobretudo, pela graça ondulante dos contornos,
-pela flexibilidade e elegancia das fórmas, pela
-riqueza do colorido, pela sciencia da luz e da
-sombra, pela intelligencia perfeita do claro-escuro!
-Era eminente em representar creanças,
-mulheres, emfim, scenas graciosas e de voluptuosidade.
-A sua <i>Antiope adormecida</i> é d'uma
-riqueza deslumbrante. A cidade de Parma offereceu,
-debalde, um milhão a Napoleão para
-conservar o <i>S. Jeronymo</i>, que é considerado
-como a sua obra prima. Não se conhece nenhum
-mestre a este pintor, e pensa-se que só a
-si deve o que foi. A revelação do seu genio explosiu
-deante d'um quadro de Raphael. Transportado
-de admiração e como que illuminado,
-elle exclamou:</p>
-
-<p>&mdash;«E eu tambem sou pintor!»</p>
-
-<p>&mdash;«<i>Anch'io son'pittore!</i>»</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_53">[53]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="XXII">XXII<br />
-<i>Estrella dos Reis Magos</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>No momento em que Jesus vinha ao mundo
-em Bethlem, n'um estabulo, os magos do
-Oriente avistaram uma estrella no céu, que
-elles ainda não tinham visto. Deixaram o seu
-paiz, e, guiados por esse pharol miraculoso,
-chegaram a Bethlem, onde acabava de nascer o
-Menino Deus. Penetraram no local acima do
-qual a estrella se detivera, e alli encontraram
-Maria e seu Filho, e, prostrando-se deante do
-recemnascido, adoraram-no e offereceram-lhe
-ouro, incenso e mirra. É este o acontecimento
-que a egreja celebra na festa da Epiphania
-ou dos <i>Reis</i>.</p>
-
-<p>&mdash;A estrella que guiou os magos na sua
-piedosa peregrinação enriqueceu a nossa lingua
-com uma imagem poetica, muito frequentemente
-empregada. Essa estrella é muitas vezes uma
-voz intima, um ente amado, que nos chama e
-nos dirige para um fim glorioso.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_54">[54]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="XXIII">XXIII<br />
-<i>E, comtudo, ella gira!</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Galileu, é, sem contradicção, a maior gloria
-scientifica da Italia. O methodo experimental,
-de que é o creador, fez-lhe em breve repellir
-os absurdos physicos e astronomicos professados
-no seu tempo, e levantar contra elle todos
-quantos eram adeptos das velhas doutrinas. Mas
-de todas as suas ousadias, a que devia ser mais
-perigosa para o seu repouso, foi o seu novo systhema
-astronomico, pelo qual, segundo Copernico,
-e contrariamente a Ptolomeu, elle fazia do
-sol o centro immovel do nosso systema planetario.
-Pretendeu-se que esta doutrina estava em
-formal contradicção com varias passagens da
-Escriptura, e foi denunciado á Inquisição. Elle
-defendeu-se com uma grande habilidade, representando
-que as passagens da Biblia e dos Santos
-Padres tinham sido interpretadas, e que,
-além d'isto, o objecto da Escriptura era a salvação
-dos homens e não o ensino da astronomia.
-Contentaram-se a principio em lhe fazerem uma
-advertencia, e em declararem <i>falsa e heretica</i> a
-sua doutrina do movimento da terra e da immo<span class="pagenum"><a id="Page_55">[55]</a></span>bilidade
-do sol. Galileu calou-se durante algum
-tempo; mas a paixão da sciencia foi a final mais
-forte que a prudencia. Compoz, por sua desgraça,
-<i>Dialogos</i>, em que, por um artificio empregado
-muitas vezes nos tempos de despotismo,
-poz em lucta os partidarios dos systemas oppostos,
-sem se pronunciar por um d'elles. Adivinha-se
-facilmente que os partidarios da immobilidade
-da terra, foram esmagados pelos argumentos,
-realmente sem replica, dos seus adversarios.
-Galileu foi mandado immediatamente a
-Roma pela Santa Inquisição, interrogado, e, segundo
-uns, mas sem que haja provas, posto em
-tortura, e, afinal, condemnado a prisão perpetua
-e á abjuração solemne dos seus <i>erros</i>.</p>
-
-<p>A sciencia como a fé tem tido os seus martyres;
-mas Galileu fraquejou na ultima hora e
-consentiu em humilhar o seu genio perante os
-prejuizos dos seus contemporaneos. A 22 de junho
-de 1633 pronunciou a sua abjuração no
-convento de Minerva, em presença dos cardeaes
-inquisidores. A formula que lhe foi imposta é
-um dos monumentos mais curiosos da inepcia
-humana:</p>
-
-<p>&mdash;«Eu, Galileu, de setenta annos, sobre os
-Santos Evangelhos que toco com as minhas
-proprias mãos ... abjuro, maldigo e detesto o
-erro e a heresia do movimento da terra, etc.»</p>
-
-<p>Conta-se que levantando-se depois da realisação
-d'este sacrificio, Galileu arrastado pela re<span class="pagenum"><a id="Page_56">[56]</a></span>volta
-intima das suas convicções, bateu com o
-pé no chão e murmurou energicamente:</p>
-
-<p>&mdash;«<i>E, comtudo, ella gira!&mdash;E pur si muove!</i>»</p>
-
-<p>Foi o seu unico protesto; mas elle atravessará
-os seculos como o grito da verdade opprimida
-e deporá eternamente contra a ignorancia
-e a perseguição.</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="XXIV">XXIV<br />
-<i>Virtude, não és mais que um nome</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Depois da morte de Cezar, os seus assassinos,
-forçados a fugirem deante da cólera do
-povo, levantado por Antonio, retiraram-se para
-a Macedonia. Os triumviros avançaram contra
-elles com forças consideraveis. Alguns dias antes
-da batalha, que devia decidir da sorte da republica,
-e n'uma noite em que Bruto velava na
-sua tenda, entregue a sombrias reflexões, pareceu-lhe,
-de repente, que ouviu entrar alguem.
-Volvendo-se viu um phantasma horrivel na sua
-presença.</p>
-
-<p>&mdash;«Homem ou deus, quem és?»&mdash;lhe diz
-Bruto.</p>
-
-<p>&mdash;«Sou o teu mau genio&mdash;responde&mdash;;
-vêr-me-has em breve em Philippes.»</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_57">[57]</a></span></p>
-
-<p>Esta prophecia não devia tardar a realisar-se.
-Poucos dias depois, com effeito, e na
-noite que precedeu a batalha de Philippes,
-quando Bruto velava só na sua tenda, segundo
-o seu costume, em quanto que todo o exercito
-estava mergulhado em somno, o mesmo phantasma
-lhe appareceu segunda vez, o olhou com
-ar sinistro e se retirou sem proferir uma unica
-palavra. No dia immediato, a liberdade romana
-expirava nas planicies de Philippes, e Bruto matava-se,
-soltando esse grito de desanimo, muito
-conhecido:</p>
-
-<p>&mdash;«<i>Virtude, não és mais que um nome!</i>»</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="XXV">XXV<br />
-<i>Festim de Balthazar</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Cyro, rei dos persas, cercava Babylonia á
-frente d'um exercito formidavel; Balthazar, confiando
-na força das suas muralhas, ria dos vãos
-exforços do seu inimigo e esquecia, nos festins,
-os enfados d'um longo cêrco. Uma noite em que
-celebrava uma orgia com os grandes da sua
-côrte e todas as suas mulheres, fez trazer, por
-uma fanfarronada de impiedade, os vasos sagra<span class="pagenum"><a id="Page_58">[58]</a></span>dos
-que Nabuchodonosor tinha outr'ora subtrahido
-ao templo de Jerusalem. Realisada aquella
-profanação, o impio monarcha viu com espanto
-uma mão que traçava na parede, em traços ardentes,
-caracteres mysteriosos, que nem Balthazar
-nem ninguem da côrte pôde traduzir.</p>
-
-<p>O propheta Daniel tendo sido chamado, disse
-ao rei.</p>
-
-<p>&mdash;«Foi Deus que enviou aquella mão, e é
-isto o que está escripto: <i>Mané, Thécel, Pharés</i>;&mdash;<i>Mané</i>,
-Deus contou os dias do teu reino e lhe
-marcou o fim; <i>Thécel</i>, foste collocado na balança
-e achado muito leve; <i>Pharés</i>, o teu reino será dividido!»</p>
-
-<p>Na mesma noite, com effeito, Cyro, tendo
-conseguido desviar o curso do Euphrates, penetrou
-na Babylonia pelo seu leito secco. Balthazar
-foi morto e a Babylonia reunida ao imperio
-dos persas.</p>
-
-<p>&mdash;Por allusão a este festim celebre, chama-se
-<i>festim de Balthazar</i> a toda a orgia ruidosa,
-ou, por uma hyperbole familiar, a todo o
-banquete copioso e prolongado.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_59">[59]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="XXVI">XXVI<br />
-<i>Forcas caudinas</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Roma tinha vencido a maior parte das nações
-visinhas; mas desde que quiz estender o seu
-dominio á parte meridional da Italia encontrou os
-samnitas, povo de costumes rudes e bellicosos.
-Havia de um e outro lado as mesmas armas, a
-mesma disciplina, o mesmo habito dos combates.
-D'alli a ambição e o valor romanos; d'aqui o patriotismo
-e a infatigavel energia dos samnitas,
-iam dar a esta lucta um caracter d'incrivel encarniçamento.
-Eis aqui o episodio mais celebre
-d'essa guerra, que devia terminar pela conquista
-do Samnio. Romperam-se as hostilidades; os samnitas
-estavam acampados perto de Candium, no
-meio das montanhas. Poncio Herennio, seu general,
-resolveu attrahir, por um falso aviso, o
-exercito romano a um desfiladeiro, de onde lhe
-seria impossivel escapar-se. Logo dez soldados
-samnitas, disfarçados em pastores, approximaram-se
-dos postos avançados inimigos e espalham a
-nova de que os samnitas cercam Luceria, cidade
-alliada dos romanos. Os consules apressam-se a
-voar em sua defeza, escolhendo o caminho mais<span class="pagenum"><a id="Page_60">[60]</a></span>
-perigoso, mas mais curto&mdash;desfiladeiro profundo,
-estreito e coberto de florestas. Era o que tinha
-previsto o general dos samnitas. Apenas os romanos
-se empenharam n'esse caminho perigoso,
-avistam as alturas cobertas d'inimigos. Era forçoso,
-ou morrer ou render-se, porque as sahidas
-estavam obstruidas. O pai de Poncio Herennio,
-velho cheio d'experiencia, aconselhava a
-seu filho o despedir todos os romanos sem resgate,
-para os fazer amigos, ou exterminal-os até
-ao ultimo para vibrar um golpe mortal na republica.
-O general samnita, escutando sómente
-o desejo de humilhar o orgulho romano, obrigou-os
-a entregarem-se á discrição, e fez passar
-todo o exercito sob um jugo formado de
-dois <i>forcados</i> espetados no solo e encimados
-d'um terceiro. Todos os soldados com os consules
-á frente, passaram, tremendo, sob esse instrumento
-d'opprobrio, depois de terem deposto
-as armas. O senado recusou ratificar compromissos
-impostos em condições tão humilhantes; foi
-preciso combater de novo, e sangrentas derrotas
-puniram os samnitas da sua imprudente confiança
-na fé romana.</p>
-
-<p>&mdash;Depois a expressão <i>passar sob as forcas
-caudinas</i> entrou em uso para caracterisar toda a
-concessão onerosa ou humilhante, arrancada aos
-vencidos.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_61">[61]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="XXVII">XXVII<br />
-<i>Irmão, é preciso morrer</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>As austeridades da vida monastica tornaram-se
-proverbiaes, mas foi, sobretudo, na
-Trappa que ellas se observaram com todo o rigor
-dos primeiros seculos do christianismo. Os
-trappistas guardam absoluto silencio, dividem o
-tempo entre a oração e o trabalho manual, alimentam-se
-de pão grosseiro e legumes e vestem
-apenas o habito de burel. Devem ter sempre
-deante dos olhos a imagem da morte. E é para
-se lembrarem d'esta grande verdade, que em
-cada dia visitam a valla que deve servir-lhes de
-derradeiro asylo.</p>
-
-<p>«O silencio&mdash;diz um eloquente orador contemporaneo&mdash;anda
-ao seu lado, e se fallam,
-quando se encontram, é para se dirigirem esta
-melancholica phrase:</p>
-
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_62">[62]</a></span></p>
-
-<p>&mdash;«<i>Irmão, é preciso morrer ...</i>»</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="XXVIII">XXVIII<br />
-<i>Cahir com graça</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Quando em Roma o gladiador se sentia
-mortalmente ferido, nos sangrentos combates do
-circo, e a destreza se lhe tornava inutil, elle
-procurava ainda accender applausos na multidão,
-para a qual a sua agonia era um espectaculo,
-por uma queda a que elle tentava imprimir
-toda a arte, e <i>cahia na arena com graça</i>.</p>
-
-<p>&mdash;Esta phrase applica-se, pelo lado moral,
-aos que, em politica, no amor, etc., se salvam
-da humilhação d'um cheque, pela boa graça,
-real ou ficticia, que fazem acceitar.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_63">[63]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="XXIX">XXIX<br />
-<i>Hippocrates diz sim, Galiano diz não</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Hippocrates e Galiano são os dois representantes
-mais illustres da medicina, entre os
-antigos: aquelle nos gregos, este nos romanos.
-Galiano nutria uma profunda veneração pelo genio
-do pae da medicina, e um dos maiores serviços
-que prestou á sciencia, foi o de ter, no meio
-d'uma sã critica, collocado o facho sobre as
-obras d'aquelle que chamava seu mestre. Hippocrates
-e Galiano teem de commum que dotados
-ambos d'um vasto genio, avançaram muito
-nos segredos da natureza, e ambos mostraram
-egual ardor na investigação da verdade, não
-pelo apparato das riquezas, mas só pelo amor
-da humanidade.</p>
-
-<p>&mdash;Esta phrase proverbial: <i>Hippocrates diz
-sim, Galiano diz não</i>, não tem pois a sua origem
-no antagonismo dos dois grandes homens
-e dos seus systemas; mas como a medicina é o
-immenso campo da contradicção, e quando um
-medico diz&mdash;<i>tanto melhor</i>, um outro<span class="pagenum"><a id="Page_64">[64]</a></span>
-diz&mdash;<i>tanto peior</i>; quando este applica sangrias aquelle
-proscreve-as; quando um colloca a séde de todas
-as doenças nos nervos, o outro nos humores;
-quando, emfim, um escreve no seu estandarte&mdash;<i>contraria
-contrariis</i> ... e o outro&mdash;<i>similia
-similibus</i> ..., comprehende-se que era á
-medicina que a contradicção devia pedir a sua
-divisa, e que as duas columnas d'esta sciencia
-lhe deviam fornecer a expressão.</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="XXX">XXX<br />
-<i>É muito tarde!</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Esta phrase data da revolução de Julho de
-1830, em França, e eis em que circumstancia foi
-pronunciada. Uma ultima tempestade tinha derrubado
-para sempre o throno do ramo mais velho
-dos Bourbons. Era em sexta-feira, 30 de Julho;
-o povo estava inteiramente senhor de Pariz,
-e uma commissão a que presidia Lafayette cercava
-o Hotel-de-Ville. Carlos X, em Saint-Cloud,
-dominado por uma cegueira que lhe tinha feito
-jogar a corôa, conservava ainda illusões e esperava
-que algumas concessões o collocariam sobre
-o throno. M. de Sussy, portador de despa<span class="pagenum"><a id="Page_65">[65]</a></span>chos
-que revogavam as fataes determinações de
-25, apresenta-se no Hotel-de-Ville e entrega-os
-a Lafayette. Este dá-lhe então a famosa resposta:</p>
-
-<p>&mdash;«<i>É muito tarde!</i>»</p>
-
-<p>Alguns dias depois o duque d'Orleans, chefe
-do ramo mais novo, subia ao throno. Mas, estranha
-volta das coisas d'este mundo, dezoito
-annos depois e em circumstancias quasi analogas,
-a mesma resposta foi dada a Luiz Philippe.
-Elle tambem devia ouvir Lamartine responder
-ás suas tardias concessões:</p>
-
-<p>&mdash;«<i>É muito tarde!</i>»</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_66">[66]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="XXXI">XXXI<br />
-<i>Não ha grande homem para o seu creado de quarto</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Segundo Mademoiselle Aïssé, esta phrase
-teria sido pronunciada pela primeira vez por
-Madame Cornuel, mulher d'espirito, do tempo
-de Henrique IV, da qual Madame de Sevigné
-cita os bons ditos. Essa phrase é, sem duvida,
-uma reminiscencia d'essa outra de Montaigne:&mdash;«Poucos
-homens teem sido admirados pelos
-seus creados.» Qual é, em verdade, o homem de
-genio que fica egual a si proprio, quando já não
-está em scena? O mundo é um espectaculo,
-onde cada qual representa um papel apropriado,
-em quanto está deante do publico, mas de que
-se despoja todo o brilho d'emprestimo desde
-que se recolhe a bastidores. Aqui o homem
-substitue o heroe e quantos poderiam dizer
-como o grande Condé, quando era fatigado com
-titulos pomposos e elogios hyperbolicos:</p>
-
-<p>&mdash;«<i>Perguntem o que sou ao meu creado
-de quarto!</i>»</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_67">[67]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="XXXII">XXXII<br />
-<i>Cantam, elles pagarão</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Mazarino governou a França depois de
-Richelieu, em momentos de perturbações e de
-guerra civil. Era a rapoza succedendo ao leão.
-Fez uma politica completamente opposta á do
-seu terrivel predecessor; os seus meios favoritos
-eram a astucia, a finura, a paciencia. Comprazia-se
-em repetir:</p>
-
-<p>&mdash;«O tempo é um homem galante!»</p>
-
-<p>Nenhum ministro foi tão posto em canções
-como elle; mas insensivel aos pamphletos que
-diariamente dirigiam contra a sua pessoa, o astucioso
-italiano apenas dizia:</p>
-
-<p>&mdash;«Deixemol-os fallar e prosigamos!»</p>
-
-<p>A cada novo imposto choviam novas satyras.
-Elle, porém, seguro de que uma opposição,
-que só desabafava em <i>couplets</i> satyricos, o não
-poderia incommodar, acudia com toda a serenidade:</p>
-
-<p>&mdash;«<i>Cantam, elles pagarão!</i>»</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_68">[68]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="XXXIII">XXXIII<br />
-<i>Perdi o meu dia</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>O imperador Tito, que a historia cognominou
-<i>as delicias do genero humano</i>, exclamava
-quando tinha passado um só dia sem encontrar
-occasião de praticar algum bem:</p>
-
-<p>&mdash;«Meus amigos, <i>perdi o meu dia!</i>»</p>
-
-<p>Boileau exprimiu esta generosa ideia nos
-seguintes versos da <i>Epistola ao Rei</i>:</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i0">«Tal esse imperador, sob o qual, Roma via,<br /></span>
-<span class="i0">Renascer de Saturno e de Rhêa outro dia;<br /></span>
-<span class="i0">Que rendeu ao seu jugo o universo amoroso,<br /></span>
-<span class="i0">Que jámais alguem viu sem se sentir ditoso,<br /></span>
-<span class="i0">E que chorava á noite o tempo que perdera<br /></span>
-<span class="i0"><i>Quando passava o dia e algum bem não fizera</i>.»<br /></span>
-</div></div>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_69">[69]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="XXXIV">XXXIV<br />
-<i>Amo Platão, mas amo mais a verdade</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Platão e Aristoteles são os dois mais illustres
-representantes da philosophia antiga. O primeiro,
-discipulo de Socrates, estava em todo o
-esplendor da sua fama, quando Aristoteles foi a
-Athenas para seguir as suas lições. O discipulo
-não tardou a tornar-se tão celebre como o mestre;
-mas dois espiritos d'esta superioridade, e, ao
-mesmo tempo, tão differentes, ambos feitos para
-reinarem no dominio do pensamento, deviam em
-breve separar-se.</p>
-
-<p>Assim, Aristoteles, sem ser, como se diz, inimigo
-do seu mestre, não adoptava todas as consequencias
-da sua doutrina; todavia, quando se
-achava em contradicção com elle, sabia exprimir
-a sua opinião com a sábia medida d'um philosopho
-e não com a funda amargura d'um rival.</p>
-
-<p>&mdash;«Amo Platão&mdash;dizia&mdash;mas amo mais a
-verdade.»&mdash;«<i>Amicus Plato, sed magis amica veritas.</i>»</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_70">[70]</a></span></p>
-
-<p>&mdash;Esta homenagem prestada á verdade,
-quando é tida em desaccordo com as doutrinas
-de um genio, mesmo transcendente, passou a ter
-foros de proverbio.</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="XXXV">XXXV<br />
-<i>Achei!&mdash;Eureka!</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Esta exclamação que se faz ouvir quando,
-depois de longas investigações, o espirito, repentinamente
-inspirado, chega á descoberta que elle
-perseguia, foi proferida pela primeira vez, por
-Archimedes, nas circumstancias seguintes:</p>
-
-<p>Hieron, rei de Syracusa, suspeitava que um
-ourives, que lhe tinha fabricado uma corôa d'ouro,
-tivesse falsificado o metal, misturando-lhe uma
-certa quantidade de prata. Elle consultou Archimedes,
-seu parente, sobre os meios de descobrir
-a fraude, de que julgava poder queixar-se. O
-illustre mathematico reflectia profundamente na
-solução possivel d'este problema, quando um dia,
-estando no banho, percebeu que os seus membros,
-mergulhados na agoa, perdiam consideravelmente
-do seu pezo; que, por exemplo, elle
-podia levantar uma perna com extrema facilidade.
-O seu genio entreviu logo os elementos d'esse<span class="pagenum"><a id="Page_71">[71]</a></span>
-grande principio d'hydrostatica, que determinou
-em seguida rigorosamente:&mdash;que todo o corpo
-mergulhado n'agoa, perde uma parte do seu
-pezo, egual ao pezo do volume d'agoa que esse
-corpo desloca.&mdash;Esta descoberta dava-lhe a solução
-do problema. No meio do enthusiasmo que
-lhe produziu esta revelação elle sahiu do banho
-e lançou-se na rua gritando:</p>
-
-<p>&mdash;<i>Achei! achei!</i>&mdash;<i>Eureka! Eureka!</i></p>
-
-<p>Com effeito, tinha encontrado o meio de determinar
-a gravidade especifica de todos os corpos,
-tomando a agoa por unidade. Procurou, pois,
-duas massas, d'ouro e de prata, cada uma d'um
-pezo egual á corôa: mergulhou-as successivamente
-n'um vaso cheio d'agoa, observando com
-cuidado a quantidade de liquido deslocado pela
-immersão de cada uma d'ellas. Submetteu á
-mesma experiencia a propria corôa, e achou
-assim o meio certo d'apreciar a quantidade d'ouro
-e de prata de que ella era composta.</p>
-
-<p>&mdash;O <i>achei!</i> de Archimedes, ficou tendo
-applicação, nos casos em que, uma difficuldade
-qualquer, se vence por uma solução satisfactoria.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_72">[72]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="XXXVI">XXXVI<br />
-<i>Eu desejaria não saber escrever</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Néro, educado por Seneca e Burrhus, dois
-dos mais sabios romanos d'esse seculo, esteve
-longe de annunciar, na sua mocidade, as sanguinarias
-inclinações, que o tornaram o typo da
-crueldade. Elle pareceu querer consolar os romanos
-do reino de Tiberio; os seus primeiros
-actos, cheios d'uma grande doçura, provam que
-aos seus instinctos de crueldade soube alliar uma
-profunda hypocrisia, e que a educação é completamente
-impotente para abafar, em certos caracteres,
-pelo menos, os germens das paixões
-más, que trazem nascendo. Desde o segundo dia
-do seu reinado elle foi ao senado, e em um discurso
-que Seneca lhe havia composto, annunciou
-que o seu projecto era tomar Augusto por modelo.
-Em verdade os principios do seu reino pareceram-se
-com os ultimos do reino d'aquelle
-que se propunha imitar. Mostrou-se justo, liberal,
-affavel, polido, complacente e accessivel á piedade.
-A modestia realçava-lhe ainda as qualidades.
-O senado, tendo-o louvado pela sabedoria
-do seu governo, fez com que elle dissesse:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_73">[73]</a></span></p>
-
-<p>&mdash;«Esperem, para me louvarem, que eu o
-tenha merecido.»</p>
-
-<p>Um dia em que lhe apresentaram, para assignar,
-a sentença que condemnava á morte um
-criminoso, elle disse:</p>
-
-<p>&mdash;«<i>Eu desejaria não saber escrever!</i>»</p>
-
-<p>E comtudo foi ... Néro!</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="XXXVII">XXXVII<br />
-<i>Linguas d'Esopo</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Esopo, escravo do philosopho Xantus, recebeu
-um dia do seu senhor, que tinha convidado
-varios amigos para jantar, ordem de comprar no
-mercado, tudo quanto houvesse de melhor, e
-nada mais.</p>
-
-<p>&mdash;«Eu te ensinarei a especificares o que desejas,
-sem te entregares á discrição d'um escravo»&mdash;dissera
-o phrygio comsigo mesmo.</p>
-
-<p>E comprou só linguas, que fez cosinhar de
-todos os modos possiveis, de maneira que o principio,
-o meio e o fim do banquete, foram linguas.
-Os convidados louvaram a principio a escolha
-d'Esopo, mas, afinal, desgostaram.</p>
-
-<p>&mdash;«Não te ordenei,&mdash;disse Xantus&mdash;que
-comprasses o que houvesse de melhor?»</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_74">[74]</a></span></p>
-
-<p>&mdash;«E que ha melhor que a lingua?&mdash;respondeu
-Esopo.&mdash;É o laço da vida civil, a chave
-das sciencias, o orgão da verdade e da razão;
-por ella se construem e policiam cidades; por
-ella se instrue, se persuade e se reina nas assembleias;
-por ella se satisfaz ao primeiro dos
-deveres, que é louvar os deuses.»</p>
-
-<p>&mdash;«Pois bem&mdash;replicou Xantus, que pretendia
-apanhal-o&mdash;compra amanhã o que houver
-de peior. Os mesmos convidados virão a minha
-casa e quero variar.»</p>
-
-<p>No dia seguinte Esopo só fez servir linguas,
-dizendo que a lingua é a peior coisa que ha no
-mundo.</p>
-
-<p>&mdash;«É a mãe de todas as questões, a alimentadora
-de todos os processos, a origem das divisões
-e das guerras. Se ella é o orgão da verdade,
-é tambem o do erro, e, o que peior é, da calumnia.
-Por ella destroem-se as cidades; e se por
-um lado louva os deuses, por outro é o orgão
-da blasphemia e da impiedade.»</p>
-
-<p>&mdash;As <i>linguas d'Esopo</i> ficaram celebres, para
-designarem o que, podendo ser encarado sob dois
-aspectos oppostos, dá egualmente occasião ao
-louvor e á critica.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_75">[75]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="XXXVIII">XXXVIII<br />
-<i>Lanterna de Diogenes</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Na epocha em que vivia Diogenes, os athenienses
-pareciam ter perdido a memoria de Marathão
-e Salamina; eram já os athenienses da
-decadencia, e em quanto que Demosthenes procurava
-em vão accender essas heroicas recordações
-pelos masculos accentos da sua eloquencia,
-o cynico stigmatisava a seu modo, a sua cobardia
-e a sua corrupção.</p>
-
-<p>Uma vez foi encontrado em pleno meio dia,
-nas ruas d'Athenas, levando na mão uma lanterna
-accesa, e como lhe pedissem a razão de
-tão estranho caso, elle limitou-se a responder:</p>
-
-<p>&mdash;«<i>Procuro um homem!</i>»</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_76">[76]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="XXXIX">XXXIX<br />
-<i>O mestre o disse</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Pythagoras, um dos maiores, e, talvez até
-o maior philosopho da antiguidade, aspirava, nada
-menos, que a constituir no mundo inteiro uma
-especie de religião. A sua doutrina tendia politicamente
-a estabelecer uma aristocracia forte e
-poderosa, e a revestil-a d'um caracter sacerdotal,
-que a tornasse semelhante ás theocracias do
-Oriente; em fazer das luzes scientificas a partilha
-d'um pequeno numero de iniciados, e em dar a
-estes o governo do mundo, attribuindo-lhes a infallibilidade.
-Estas grandes e arrojadas ideias inspiraram
-uma especie de terror aos gregos da Italia
-e provocaram o desastre espantoso que feriu
-subitamente os pythagonios.</p>
-
-<p>Comprehende-se o imperio que um philosopho
-d'este quilate devia adquirir sobre o espirito
-dos seus discipulos, e assim, entre elles, a
-phrase&mdash;<i>o mestre o disse</i>, equivalia a uma formula
-magica, que cortava completamente todas
-as disputas.</p>
-
-<p>&mdash;Esta phrase que serve para exprimir o
-respeito que se professa por uma auctoridade,<span class="pagenum"><a id="Page_77">[77]</a></span>
-era d'algum modo a divisa de La-Fontaine, cuja
-veneração pelos antigos é muito conhecida.</p>
-
-<p>&mdash;Um orador contemporaneo affirmou, nos
-rasgos da sua eloquencia, que o homem não dirá
-mais&mdash;<i>o mestre o disse</i>, porque o homem está
-emancipado do homem. Elle dirá agora:&mdash;<i>A verdade
-diz&mdash;A sciencia diz</i>.</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="XL">XL<br />
-<i>O rei é morto, vive o rei!</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Este velho grito da monarchia, significava
-que a realeza nunca morria em França. Apenas
-o rei exhalava o ultimo suspiro, um arauto apparecia
-ao balcão do palacio e gritava tres vezes
-deante do povo reunido:</p>
-
-<p>&mdash;«<i>O rei é morto, vive o rei!&mdash;Le roi est
-mort, vive le roi!</i>»</p>
-
-<p>Mas era, sobretudo, na cerimonia funebre e
-quando o defuncto monarcha ia tomar o seu logar
-nas cryptas de S. Diniz, que estas palavras, pronunciadas
-no meio das pompas da religião, retumbavam
-d'uma maneira verdadeiramente solemne.
-Ouviram-se, pela ultima vez, em França,
-na morte de Luiz <span class="smcap">XVIII</span>.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_78">[78]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="XLI">XLI<br />
-<i>O estado sou eu!</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>No dia immediato ao da morte do cardeal
-Mazarino, Luiz <span class="smcap">XIV</span>, então de vinte e dois annos,
-fez chamar os ministros que o cardeal lhe tinha
-deixado&mdash;Pedro Séguier, Miguel Lettellier, de
-Lionne e Fouquet, e declarou-lhes que seria
-elle proprio, de futuro, o seu primeiro ministro.
-Na mesma tarde o arcebispo de Ruão foi encontrar-se
-com elle e disse-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;«Vossa Magestade tinha-me ordenado que
-me dirigisse ao cardeal para todos os negocios;
-elle está morto, a quem devo dirigir-me agora?»</p>
-
-<p>&mdash;«A mim, senhor arcebispo.»</p>
-
-<p>O reino de Luiz o Grande estava começado.</p>
-
-<p>Estes preliminares pintam já o caracter de
-Luiz <span class="smcap">XIV</span> e tornam muito provavel a authenticidade
-da famosa phrase&mdash;<i>O estado sou eu!</i>&mdash;que
-a historia diz elle fez ouvir, quando entrou
-de botas e esporas no parlamento.</p>
-
-<p>Como o presidente lhe significasse que a
-resistencia opposta aos seus editos, tinha a sua
-origem nos interesses do estado, o joven monarcha
-respondeu:</p>
-
-<p>&mdash;«<i>O estado sou eu!&mdash;L'etat, c'est moi!</i>»</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_79">[79]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="XLII">XLII<br />
-<i>Alavanca d'Archimedes</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Chama-se <i>alavanca</i> um corpo longo, inflexivel,
-fixo em um ponto da sua extensão,
-e destinado a levantar pesos. O ponto sobre a
-qual a alavanca tem o seu ponto fixo, diz-se
-<i>ponto d'apoio</i>; o peso a levantar, chama-se <i>resistencia</i>
-e a força que actua é <i>potencia</i>. Quando
-o ponto d'apoio está collocado no meio da
-alavanca a <i>potencia</i>, e a <i>resistencia</i> são eguaes,
-isto é, para se levantar um peso de cem kilogrammas
-é necessario uma força egual a
-esse peso. Mas a par e passo que o ponto
-d'apoio se approxima da resistencia, a força que
-se tem de desenvolver diminue proporcionalmente.
-D'aqui é facil comprehender que uma
-força egual, por exemplo, a algumas grammas,
-póde levantar um navio completo, dando-se um
-comprimento sufficiente ao braço da alavanca
-que separa o ponto d'apoio da força activa.</p>
-
-<p>É certo que a alavanca era conhecida de
-Archimedes, e foi o genio d'este grande homem
-que lhe determinou as propriedades e as proporções
-exactas. Comprehende-se que Archimedes<span class="pagenum"><a id="Page_80">[80]</a></span>
-tendo levado até ao infinito o estudo theorico da
-potencia da alavanca haja ousado exclamar:</p>
-
-<p>&mdash;«<i>Deem-me um ponto d'apoio e eu levantarei
-a terra!</i>»</p>
-
-<p>Ha n'isto uma evidente hyperbole de linguagem,
-mas esta hyperbole satisfaz a razão,
-porque assenta n'um principio mathematico.</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="XLIII">XLIII<br />
-<i>Magdalena</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Magdalena, mulher celebre do Evangelho,
-era uma cortezã d'uma grande belleza. Tendo
-ouvido fallar Jesus, foi commovida de repente, e
-o arrependimento entrou no seu coração. Um
-dia em que Jesus estava á meza em casa de Simão
-Phariseu, a bella peccadora apresentou-se
-toda lastimosa na sala da refeição e precipitou-se
-aos pés do Salvador, regando-os com as
-suas lagrimas, beijando-os, inundando-os de
-perfumes e enxugando-os com os seus cabellos.<span class="pagenum"><a id="Page_81">[81]</a></span>
-O Phariseu escandalisou-se vendo que Jesus se
-deixava tocar por essa mulher, conhecida em
-toda a cidade por uma grande peccadora. Foi
-n'esta circumstancia que Jesus mostrou toda a
-misericordia que trasbordava do seu coração, dizendo
-aos que o rodeavam:</p>
-
-<p>&mdash;«<i>Ser-lhe-ha muito perdoado, porque muito
-amou!</i>»</p>
-
-<p>&mdash;Esta resposta applica-se hoje, mas quasi
-sempre ironicamente, ás mulheres conhecidas
-pela facilidade dos seus costumes, sejam ou não
-arrependidas, e ha, ao mesmo tempo, o uso de
-as designar pelo nome de <i>Magdalenas</i>.</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="XLIV">XLIV<br />
-<i>Casa de Socrates</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Socrates estava fazendo construir uma casa.
-Como lhe fizessem sentir que era demasiado
-pequena, elle acudiu:</p>
-
-<p>&mdash;«<i>Prouvera a Deus que ella se enchesse
-de verdadeiros amigos!</i>»</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_82">[82]</a></span></p>
-
-<p>Esta bella phrase foi aproveitada por La-Fontaine,
-de que damos a seguinte versão:</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i0">«Socrates uma casa edificava,<br /></span>
-<span class="i0">E cada qual a obra criticava.<br /></span>
-<span class="i4">Um achava o interior,<br /></span>
-<span class="i4">Para dizer a verdade,<br /></span>
-<span class="i4">Indigno do morador;<br /></span>
-<span class="i0">Um outro desdenhava a frontaria,<br /></span>
-<span class="i0">E toda a gente que essa casa via,<br /></span>
-<span class="i0">Achava os aposentos limitados<br /></span>
-<span class="i4">E bem pouco lisongeiros<br /></span>
-<span class="i4">Mesmo por qualquer dos lados.<br /></span>
-<span class="i0">&mdash;«Prouvera a Deus que d'amigos provados<br /></span>
-<span class="i0">Se enchesse&mdash;diz&mdash;d'amigos verdadeiros!»<br /></span>
-</div><div class="stanza">
-<span class="i4">Socrates razão tivera<br /></span>
-<span class="i0">De achar, por tal, espaçosa a casita;<br /></span>
-<span class="i0">Amigos muitos ha&mdash;quem acredita?<br /></span>
-<span class="i4">Amigos de nome apenas,<br /></span>
-<span class="i4">Não d'amisade sincera.<br /></span>
-</div></div>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_83">[83]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="XLV">XLV<br />
-<i>Desgraça aos vencidos!</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Depois da sangrenta batalha d'Allia, cujo
-anniversario foi incluido pelos romanos no numero
-dos dias nefastos, o terror tinha-se espalhado
-em Roma e todos os habitantes haviam
-fugido, excepto oitenta velhos que esperavam
-corajosamente a morte nas suas cadeiras curues,
-e a mocidade que se refugiou no capitolio. Depois
-de terem saqueado e queimado Roma, os
-gaulezes pozeram cêrco á fortaleza, e tendo dado
-um assalto sem resultado, estabeleceram então
-um cêrco mais rigoroso. Os defensores da fortaleza,
-sitiados havia sete mezes e entregues a todos
-os horrores da fome, pedem, afinal, capitulação.
-Brenno, chefe dos gaulezes, consente em
-levantar o cêrco mediante mil libras de ouro em
-peso. O tribuno Sulpicio apresenta a somma no
-dia marcado. Em quanto que se pesa o ouro, levanta-se
-uma contestação e os romanos censuram
-aos vencedores o uso de falsos pesos.</p>
-
-<p>É então que Brenno, lançando a sua pesada
-espada na balança, pronuncia a phrase celebre
-que depois se tornou proverbial:</p>
-
-<p>&mdash;«<i>Desgraça aos vencidos!</i>»&mdash;«<i>Væ victis!</i>»</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_84">[84]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="XLVI">XLVI<br />
-<i>Manto de Joseph</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Os mercadores ismaelitas, aos quaes Joseph
-fôra entregue por seus irmãos, levaram-n'o para
-o Egypto e venderam-n'o a Putiphar, um dos
-principaes officiaes do rei. A mulher de Putiphar,
-animada d'uma criminosa paixão, pelo joven israelita,
-que era formoso, tentou abalar-lhe a virtude
-e, para o obrigar a consentir nos seus desejos,
-ella agarrou-o um dia pelo manto e quiz
-attrahil-o a si.</p>
-
-<p>Joseph abandonou-lhe o manto e fugiu.
-Cheia de cólera e envergonhada por se vêr assim
-desprezada, essa mulher disse ao marido:</p>
-
-<p>&mdash;«O escravo hebreu quiz ultrajar-me, mas
-aos meus gritos fugiu, deixando-me o manto entre
-as mãos!»</p>
-
-<p>Putiphar, irritado, fez encarcerar Joseph.</p>
-
-<p>&mdash;Comprehende-se, sem que seja necessario
-que o expliquemos, em que ordem de ideias se
-faz allusão ao manto de Joseph e á mulher de
-Putiphar.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_85">[85]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="XLVII">XLVII<br />
-<i>Mario sobre as ruinas de Carthago</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Mario, livre das prisões de Minturnes, fez-se
-á vela para a Africa. O navio que o conduzia,
-privado d'agua, quiz aportar á Sicilia, mas uma
-força armada assaltou a equipagem, matou varios
-homens, e o proprio Mario só com difficuldade
-escapou. Alguns dias depois desembarcou na
-Africa, nos mesmos locaes aonde se elevava
-outr'ora a poderosa cidade de Carthago.</p>
-
-<p>Apenas em terra, Sextilio, pretor da Lybia,
-homem dedicado a Sylla, fez-lhe intimar ordem
-de deixar aquella provincia, e como o mensageiro
-lhe pedisse uma resposta, elle disse-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;«<i>Vae dizer a teu senhor, que viste Mario,
-errante e fugitivo, sentado sobre as ruinas de
-Carthago!</i>»</p>
-
-<p>A presença d'este grande proscripto sobre
-as ruinas ainda fumegantes da antiga e poderosa
-rival de Roma, é um dos mais frisantes exemplos
-das vicissitudes humanas, e a maneira simples e
-energica com que esta approximação é expressa,<span class="pagenum"><a id="Page_86">[86]</a></span>
-faz d'elle uma das mais sublimes lições que a
-historia tem tido a consignar.</p>
-
-<p>Toda a gente conhece o verso em que Delille
-poz em presença esses dois infortunios:</p>
-
-<blockquote>
-
-<p>«<i>E essas ruinas, sim, consolavam-se a si!</i>»</p></blockquote>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="XLVIII">XLVIII<br />
-<i>Subir ao Capitolio</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Na antiga Roma, os generaes vencedores
-subiam em triumpho ao Capitolio, no meio das
-acclamações de todo o povo, e alli offereciam
-sacrificios aos deuses; em seguida o povo os
-acompanhava a sua casa com archotes e soltando
-gritos de alegria.</p>
-
-<p>Na Edade Média, e durante o grande seculo
-litterario da Italia, resuscitaram-se, em favor da
-poesia, os antigos triumphos do Capitolio. No dia
-de Paschoa, a 8 d'abril de 1341, Petrarcha subiu
-ao Capitolio no meio dos principaes cidadãos,
-precedidos de doze mancebos, escolhidos nas familias
-mais illustres, que declamavam os seus
-versos. Recebeu a corôa de louro e recitou um
-soneto ácerca do heroe da antiga Roma.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_87">[87]</a></span></p>
-
-<p>Tasso recebeu tambem as honras da coroação;
-a sua entrada em Roma já teve o aspecto de
-um triumpho. O povo, os nobres, os prelados, os
-cardeaes, os sobrinhos do Papa, foram ao seu encontro
-e o conduziram ao Vaticano, no meio das
-mais vivas acclamações. O Papa, avistando-o,
-disse-lhe com graça particular:</p>
-
-<p>&mdash;«Vinde honrar esta corôa, que honrou todos
-quantos a collocaram antes de vós.»</p>
-
-<p>Os aprestos da cerimonia proseguiam com a
-maior rapidez e o Tasso ia, emfim, receber a recompensa
-d'uma vida cheia d'amargura e de dôr;
-mas por uma ultima irrisão da sorte elle morreu
-na vespera do proprio dia em que devia subir ao
-Capitolio, e o louro poetico não adornou senão a
-fronte do seu cadaver, que fôra amortalhado com
-a toga romana.</p>
-
-<p>Pouca gente desconhece a magnifica descripção
-que Madame de Stael fez da coroação de
-Corinna. A brilhante escriptora faz reviver no
-seu celebre romance a <i>Corinna Thebana</i>, a rival
-feliz de Pindaro, varias vezes coroada nos jogos
-olympicos.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_88">[88]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="XLIX">XLIX<br />
-<i>Onde não ha el-rei o perde</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Representava-se na comedia Franceza,
-com immenso successo o <i>Cerco de Calais</i>, tragedia
-de Belloy. O principal papel era desempenhado
-pela actriz Clairon, tão conhecida pelas
-suas aventuras galantes sob o nome de Fretillon.
-Um comediante muito obscuro, chamado Dubois,
-que desempenhava um papel n'esta peça, era accusado
-pelos seus collegas d'um acto de improbidade.
-Estes, tendo á frente a Clairon, recusaram-se
-a entrar em scena em companhia d'elle,
-e o <i>Cerco de Calais</i> foi interrompido na vigesima
-representação. Os espectadores agitaram-se e
-houve desordem no theatro. Clairon fazia-se especialmente
-notar entre os mais obstinados. Ordenou-se
-que ella fosse conduzida ao Fort-L'evêque.
-Ella, então, disse a quem a intimava, com
-emphase theatral, que ia, mas que sua magestade
-podia tudo sobre os seus bens e sobre a sua
-liberdade, mas nada sobre a sua <i>honra</i>.</p>
-
-<p>&mdash;«<i>Isso é sabido</i>&mdash;responderam-lhe&mdash;<i>onde
-não ha el-rei o perde!</i>»</p>
-
-<p>É vulgar e de facil comprehensão a applicação
-d'esta phrase.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_89">[89]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="L">L<br />
-<i>Onde se vae aninhar a virtude?</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Moliére alliava a um grande genio as mais
-formosas qualidades do coração, e tinha uma alma
-ao nivel do seu espirito. Caracter suave, complacente
-e generoso, nunca o abandonava o seu
-elevado sentimento caritativo.</p>
-
-<p>Um dia em que partiu para S. Germano approximou-se-lhe
-um mendigo e pediu-lhe esmola.
-Moliére lançou-lhe uma moeda e subiu para o
-trem. Instantes depois percebeu que o pobre o
-seguia correndo. Fez parar. O pobre chegou-se
-e disse-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;«O senhor enganou-se, de certo, porque
-me deu um luiz, que eu venho entregar.»</p>
-
-<p>&mdash;«Não, meu amigo&mdash;acudiu&mdash;e aqui tens
-outro.»</p>
-
-<p>E como o seu genio estava continuamente
-álerta, e elle estudava em toda a parte a natureza,
-como homem que queria pintal-a, exclamou:</p>
-
-<p>&mdash;<i>Onde se vae aninhar a virtude?</i></p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_90">[90]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="LI">LI<br />
-<i>Perdoae-lhes, meu Pae, não sabem o que fazem</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Jesus Christo, cuja vida, acções e doutrina
-tinham sido mansidão e misericordia, só teve sobre
-a cruz palavras de doçura para os seus proprios
-algozes, sobre a cabeça dos quaes attrahiu
-o perdão de seu Pae. «Ora&mdash;diz S. Lucas&mdash;com
-elle levavam dois outros homens, que eram criminosos,
-para os pôrem á morte, e quando chegaram
-ao Calvario, Jesus foi crucificado entre
-dois ladrões, um á direita e outro á esquerda, e
-elle dizia fallando dos seus verdugos:&mdash;<i>Perdoae-lhes,
-meu Pae, não sabem o que fazem!</i></p>
-
-<p>Esta phrase cahiu do alto da cruz, no meio
-das agonias da morte e dos soffrimentos mais
-crueis, e resume admiravelmente o espirito evangelico
-e a moral sublime do sermão da montanha.</p>
-
-<p>A applicação d'esta phrase suprema não tem
-logar, geralmente, senão no estylo familiar.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_91">[91]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="LII">LII<br />
-<i>Lavar as mãos como Pilatos</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Poncio Pilatos, governador da Judeia, sob
-Tiberio, seria completamente desconhecido hoje,
-se o seu nome se não achasse envolvido no
-maior successo da historia. Jesus, perseguido
-desde muito pelo odio dos principes dos padres
-e dos phariseus, tinha sido apresentado perante
-o tribunal de Caiphaz, e condemnado á morte
-por se dizer Christo, filho do Deus vivo. Mas
-esta sentença não podia ser executada sem as
-ordens do governador romano. Os judeus levaram
-Jesus a Pilatos. Este convencido da sua innocencia,
-perturbado, além d'isto, por um estranho
-sonho que sua mulher Claudia Procula tinha
-tido durante a noite e que lhe despertára o maior
-interesse pelo Christo, procurava illudir a sentença
-de morte. Mas a populaça tendo reclamado
-o ultimo supplicio com gritos de furor, e ameaçado
-o proprio Pilatos com a cólera de Cesar, o
-fraco governador abandonou Jesus á raiva dos
-algozes. No entretanto, querendo protestar contra
-o que elle considerava uma suprema injustiça,<span class="pagenum"><a id="Page_92">[92]</a></span>
-elle fez trazer agua, e lavando as mãos deante
-do povo, exclamou:</p>
-
-<p>&mdash;«Estou innocente da morte d'este justo;
-sois vós que respondereis por ella!»</p>
-
-<p>&mdash;«Sim, sim&mdash;gritaram os loucos&mdash;que o
-seu sangue cáia sobre nossas cabeças e sobre
-nossos filhos!»</p>
-
-<p>E crucificaram-n'o!</p>
-
-<p>Alguns annos mais tarde, Pilatos, cahindo
-em desagrado sob Caligula, foi exilado, e no exilio,
-perseguido pelos remorsos, matou-se de desespero,
-dizem.</p>
-
-<p>A sentença iniqua que Pilatos pronunciou
-contra Jesus pesará sempre sobre a sua memoria,
-e até ao fim dos seculos Pilatos será o typo
-dos magistrados pusillanimes, que, obedecendo á
-voz do medo e dos seus interesses, teem a cobardia
-de pronunciarem condemnações que a consciencia
-reprova. Embora lavem as mãos, o sangue
-innocente derramado deixará sempre uma
-nodoa indelevel, que será para elles uma nodoa
-infamante.</p>
-
-<p>&mdash;É, fazendo allusão á acção de Pilatos, que
-em linguagem familiar se diz:&mdash;«<i>D'ahi lavo as
-mãos</i>», como declaração de que se não tem responsabilidade
-nas consequencias de successos
-para que se concorreu.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_93">[93]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="LIII">LIII<br />
-<i>O que não peccou, atire a primeira pedra</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Os scribas e phariseus levaram a Jesus uma
-mulher que fôra surprehendida em adulterio, e
-disseram-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;«Mestre, esta mulher acaba de ser surprehendida
-em adulterio. Ora a lei de Moisés ordena-nos
-que apedrejemos as adulteras. Qual é
-a este respeito a vossa opinião?»</p>
-
-<p>Fallavam-lhe assim para o tentarem, e a fim
-de o poderem accusar. Mas Jesus Christo abaixando-se,
-escreveu com o dedo na terra.</p>
-
-<p>E como continuassem a interrogal-o, elle levantou-se
-e disse-lhes:</p>
-
-<p>&mdash;«<i>Aquelle d'entre vós que não peccou lhe
-atire a primeira pedra.</i>»</p>
-
-<p>A esta phrase elles retiraram-se a um e um,
-e só ficou Jesus com essa mulher que se conservava
-de pé.</p>
-
-<p>Jesus disse-lhe então:</p>
-
-<p>&mdash;«Ninguem te condemnou, não te condemnarei
-tambem. Vae e não peques mais.» (<i>Evang.
-S. João</i>).</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_94">[94]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="LIV">LIV<br />
-<i>Tres linhas escriptas e eu farei enforcar quem as escreveu</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Nada ha que mais se preste á critica e á
-satyra do que as leis. Anacharsis comparava-as
-ás teias d'aranha que prendem as pequenas e
-deixam passar as grandes moscas. La-Fontaine
-rimou a mesma ideia quando disse:</p>
-
-<blockquote>
-
-<p>«Assim, conforme o que és, ou grande ou miseravel
-«A justiça fará que sejas branco ou negro.»</p></blockquote>
-
-<p>Não confirma a sabedoria das nações, os
-juizos do philosopho e do fabulista, quando concede
-ao condemnado vinte e quatro horas para
-maldizer a um juiz? Mas a cabula, o processo, o
-codigo n'uma palavra não justifica hoje estas
-accusações? e os traços que acabamos de citar
-são uma calumnia ou maledicencia? O presidente
-d'Ormesson parece ter respondido a esta
-pergunta quando disse:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_95">[95]</a></span></p>
-
-<p>&mdash;«Se eu fosse accusado de ter roubado as
-torres de Notre Dâme, e ouvisse gritar atraz de
-mim&mdash;<i>agarra que é ladrão!</i>&mdash;eu fugiria desesperadamente.»</p>
-
-<p>Este terror que inspira a justiça, mesmo ao
-mais innocente, está plenamente justificado por
-estas palavras:</p>
-
-<p>&mdash;«<i>Deem-me tres linhas da escripta d'alguem
-e eu o farei enforcar.</i>»</p>
-
-<p>Os eruditos estão divididos sobre o auctor
-d'esta celebre phrase, que attribuem a Laubardemont,
-ao Padre Joseph, a Richelieu, a Jeffries,
-e que M. Proudhon, mais prudente, attribue a
-um ... criminalista.</p>
-
-<p>O cardeal Richelieu, que conhecia o poder
-do equivoco, citava um dia esta phrase deante
-dos seus secretarios. Um d'elles, julgando embaraçal-o,
-escreveu n'um cartão&mdash;«Um e dois fazem
-tres.»&mdash;«Blasphemia contra a Santissima
-Trindade!&mdash;exclamou o cardeal&mdash;um e dois só
-fazem um.»</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_96">[96]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="LV">LV<br />
-<i>Quem te fez conde? Quem te fez rei?</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>A fraqueza dos ultimos carlovingianos tinha
-permittido á feudalidade lançar profundas
-raizes entre os francos, e tornar-se quasi independente,
-e quando em 987 Hugo Capeto foi
-eleito rei de França em Noyon, pelos seus proprios
-vassallos e alguns pequenos feudatarios visinhos,
-elle ficou o que tinha sido antes, conde
-de Paris, possuidor de vastos dominios, mas não
-sendo, no meio dos poderosos barões, mais que
-o primeiro entre iguaes. Assim, todo o seu reino
-foi perturbado pelas revoltas dos proprios que o
-tinham levado ao throno, mas que recusavam reconhecer
-a sua supremacia. Poder-se-ha julgar
-pela altiva resposta d'um d'elles, com que olhos
-consideravam a nova realeza.</p>
-
-<p>Um conde de Périgneux, Adalberto, emprehendeu
-conquistas e usurpára os titulos de conde
-de Poitiers e de Tours. O rei de França mandou-lhe
-um mensageiro para lhe perguntar:</p>
-
-<p>&mdash;«Quem te fez conde?»</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_97">[97]</a></span></p>
-
-<p>Ao que Adalberto respondeu:</p>
-
-<p>&mdash;«Quem te fez rei?»</p>
-
-<p>Estas phrases, frequentemente citadas, resumem
-uma epocha inteira.</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="LVI">LVI<br />
-<i>A Cesar o que é de Cesar a Deus o que é de Deus</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Alguns dias antes da celebração da Paschoa,
-Jesus fez uma entrada triumphal em Jerusalem,
-no meio d'um concurso immenso de povo
-que gritava:&mdash;Hossana ao filho de David! Bemdito
-o que vem em nome do Senhor!» Os principes
-dos padres e os scribas procuraram então
-os meios de o perder e de o prender nas proprias
-palavras por perguntas insidiosas. Os herodianos
-approximaram-se, pois, d'elle, e lhe perguntaram:</p>
-
-<p>&mdash;«Mestre, sabemos que és verdadeiro nas
-tuas palavras e que ensinas o caminho de Deus,
-sem distincção de pessoas. Dize-nos então a verdade
-sobre isto:&mdash;É permittido pagar o tributo
-a Cezar?»</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_98">[98]</a></span></p>
-
-<p>Jesus, penetrando na intenção d'elles, respondeu:</p>
-
-<p>&mdash;«Mostrem-me a moeda de dinheiro que se
-dá em tributo.»</p>
-
-<p>Apresentaram-lhe um dinheiro. Jesus disse-lhes
-então:</p>
-
-<p>&mdash;«De quem é esta moeda?»</p>
-
-<p>&mdash;«De Cezar.»</p>
-
-<p>&mdash;«<i>Dêem, então, a Cezar o que é de Cezar
-e a Deus o que é de Deus!</i>»</p>
-
-<p>Vem a proposito citar que Henrique <span class="smcap">IV</span>, que
-antes de entrar em Paris fôra obrigado a comprar
-muito caro os chefes da Liga, modificou, a
-este respeito, da maneira mais original e mais
-espirituosa, a lettra do Evangelho.</p>
-
-<p>Um dia depois do seu jantar, Henrique <span class="smcap">IV</span>
-disse ao seu secretario:</p>
-
-<p>&mdash;«Que pensas, vendo-me em Paris como
-estou?»</p>
-
-<p>&mdash;«Penso, senhor, que deram a Cezar o que
-era de Cezar, como é preciso dar a Deus o que
-é de Deus ...»</p>
-
-<p>&mdash;«Ora essa!&mdash;replicou o rei&mdash;não me fizeram
-como a Cezar, porque me não <i>deram</i>,
-mas porque me <i>venderam</i> o que era meu.»</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_99">[99]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="LVII">LVII<br />
-<i>Salto de Leucade</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Sapho, a mais illustre das poetisas, appellidada
-a decima musa, nasceu em Mitylene, na
-ilha de Lesbos, pelo anno 600, antes de Christo.
-Amiga do poeta Alceu, ella foi arrastada na conspiração
-contra Pittaco e acabou os seus dias no
-exilio.</p>
-
-<p>Os antigos representam-na devorada pelas
-paixões e entregue ao furor dos sentidos; e elles
-não davam o nome de versos ás suas poesias,
-mas <i>ardores</i>, <i>chammas</i>, etc.; e acceitando os costumes
-muito conhecidos das lesbianas com a indulgencia
-cynica d'aquella epocha, elles inflammavam-se
-n'um enthusiasmo sem limites pelo lyrismo
-desordenado dos seus cantos, pela graça
-exquisita, pela harmonia arrebatadora e pelo estylo
-de fogo das suas odes.</p>
-
-<p>Conta a tradição que, apaixonada pelo insensivel
-Phaon, joven lesbiano, d'uma grande
-belleza, e não podendo vencer os seus desprezos,
-ella se precipitou, cheia de desespero, do
-alto de Leucade no mar.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_100">[100]</a></span></p>
-
-<p>A ilha de Leucade era famosa por um promontorio,
-formado de rochedos escarpados que
-dominavam o mar. Era alli que as amantes desgraçadas
-iam procurar remedio a seus males,
-precipitando-se do alto do promontorio sobre as
-vagas. É isto o que se chamava <i>dar o salto de
-Leucade</i>. Os que escapavam á morte depois
-d'esse perigoso salto, ficavam curados do seu
-amor.</p>
-
-<p>Mas comprehende-se que pouquissimas resistiam
-a esse remedio heroico.</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="LVIII">LVIII<br />
-<i>Se é possivel, está feito; se é impossivel se fará</i></h2>
-</div>
-
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i0">Impotente, gottoso, e já velho leão<br /></span>
-<span class="i0">Queria achasse algum remedio á velhice.<br /></span>
-<span class="i0"><i>O impossivel aos reis allegar é illusão</i>.<br /></span>
-</div></div>
-
-<p>Eis uma verdade que Colonne, quartel mestre
-geral das finanças, sob Luiz <span class="smcap">XVI</span>, era demasiado
-fino e cortezão para ignorar. Leviano,
-espirituoso, incapaz d'um plano fortemente con<span class="pagenum"><a id="Page_101">[101]</a></span>cebido
-e pacientemente executado, elle devia
-deixar as finanças do reino n'um estado ainda
-mais deploravel do que as tinha encontrado ao
-entrar para o ministerio. As suas operações aventureiras
-só deviam augmentar o mal geral e o
-numero dos descontentes. N'essa côrte tão prodigiosamente
-descuidada na vespera d'uma catastrophe
-e em que só Luiz <span class="smcap">XVI</span> tinha o sentimento
-dos seus deveres, sem ser dotado da
-energia necessaria para bem os cumprir, o luxo
-e a prodigalidade eram tão insaciaveis como se
-os cofres do estado estivessem pejados. Para
-crear elogiadores entre os homens de lettras, o
-ministro concedeu pensões a um grande numero
-d'elles.</p>
-
-<p>Maria Antonietta era a primeira a dar o
-exemplo do luxo e não punha qualquer freio ao
-seu prazer pelo gasto. Um dia que ella precisava
-d'uma somma consideravel dirigiu-se a Colonne,
-cuja facil condescendencia ella conhecia. Antes
-de lhe expor o pedido, ella disse-lhe n'esse tom
-de mulher e rainha que não quer recusa:</p>
-
-<p>&mdash;«O que tenho a pedir-lhe é difficil talvez,
-Colonne!»</p>
-
-<p>O espirituoso ministro respondeu, inclinando-se
-graciosamente:</p>
-
-<p>&mdash;«<i>Se é possivel, está feito; se é impossivel,
-far-se-ha!</i>»</p>
-
-<p>Não era possivel commentar mais finamente
-o verso de La-Fontaine.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_102">[102]</a></span></p>
-
-<p>Nas guerras da republica, a possibilidade do
-<i>impossivel</i> foi expressa d'uma maneira mais nobre
-por um general francez, no ardor d'um combate
-encarniçado. Um official que elle acabava
-de encarregar d'uma operação perigosa, respondeu-lhe
-que era impossivel.</p>
-
-<p>&mdash;«Impossivel, senhor?&mdash;respondeu o general&mdash;Olhe
-que essa palavra não é franceza!»</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="LIX">LIX<br />
-<i>Terra promettida</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Depois da morte de Joseph, os descendentes
-de Jacob não tardaram a ser perseguidos pelos
-egypcios, que os empregavam nos trabalhos
-mais rudes. Mas Deus que tinha sempre os olhos
-fixos sobre o seu povo, suscitou Moisés, ao qual
-ordenou que conduzisse os hebreus <i>á terra de
-Chanaan</i>, berço de seus paes.&mdash;«Era&mdash;diz a
-Escriptura&mdash;uma terra de promissão, produzindo
-uvas que dois homens mal podiam carregar,
-e onde corriam regatos de leite e de mel.»
-Mas os israelitas, constantemente rebeldes, foram
-condemnados a errar quarenta annos no deserto,
-á vista d'essa terra de delicias, sem n'ella pode<span class="pagenum"><a id="Page_103">[103]</a></span>rem
-entrar. Afinal lá chegaram, conduzidos por
-Josué.</p>
-
-<p>&mdash;A <i>terra promettida</i> é uma expressão que
-passou em todas as linguas a designar um estado,
-uma ventura a que se aspirava ha muito tempo.
-Victor Hugo disse, a proposito, nas <i>Folhas do
-Outomno</i>:</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i0">.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.<br /></span>
-<span class="i0">«Um homem, dentro em si, construe e phantasia<br /></span>
-<span class="i0">Um mundo encantador, mundo d'arte e poesia,<br /></span>
-<span class="i0">&mdash;A nossa Chanaan, que nós vemos de cima ...»<br /></span>
-</div></div>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="LX">LX<br />
-<i>Thebaida</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>A Thebaida, uma das tres grandes divisões
-do antigo Egypto, e que tinha Thebas por capital,
-era famosa pelos desertos que a éste e oéste
-cercavam a sua parte habitada. Foi n'uma destas
-solidões que nos primeiros seculos do christianismo
-se refugiaram muitissimos christãos, já
-para fugirem á perseguição, já para se esquivarem
-ás seducções do mundo, entregando-se ao<span class="pagenum"><a id="Page_104">[104]</a></span>
-jejum, á oração e a todas as austeridades da vida
-ascetica.</p>
-
-<p>O mais illustre d'entre elles, Santo Antonio,
-dera o exemplo, distribuindo a sua fortuna aos pobres,
-para viver do trabalho das suas mãos. A
-sua reputação de santidade espalhou-se ao longe,
-e a breve trecho, milhares de discipulos se gruparam
-em volta d'elle. Durante algum tempo, foi,
-d'algum modo repovoado de monges e anachoretas.
-Mas afinal a despovoação geral do Egypto
-produziu a extincção de quasi todos os mosteiros,
-que se haviam creado.</p>
-
-<p>Hoje, só as cellas vasias, marcadas com o
-symbolo dos christãos, indicam a assistencia d'esses
-religiosos nos templos pagãos arruinados,
-bem como as grutas dos sepulchros da Thebaida.</p>
-
-<p>&mdash;Na linguagem ordinaria, <i>Thebaida</i>, diz-se
-d'um deserto, d'uma solidão profunda, em que se
-vive retirado do mundo; mas esta palavra está
-longe de ser tomada sempre n'este sentido. Faz-se
-muitas vezes uso d'ella, em poesia, especialmente
-para designar um retiro favorito, que propositadamente
-se escolhe, longe do bulicio, para o
-goso das doçuras da amisade, ou dos encantos
-do amor.</p>
-
-<p>Lembra-nos até que Theophilo Gautier disse
-já n'uma das suas esplendidas poesias:</p>
-
-<blockquote>
-
-<p>«Um bom <i>cottage</i> inglez, eis a <i>Thebaida</i> sua!»</p></blockquote>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_105">[105]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="LXI">LXI<br />
-<i>Desça o panno, acabou a comedia!</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Rabelais, o mais philosopho dos bufões, e
-o mais bufão dos philosophos, nasceu perto
-de Chinon, em Touraine, por 1483. Os seus biographos
-são pobres em factos authenticos, mas
-em compensação abundam em anecdotas romanescas,
-de onde resalta esse typo de cara alegre
-e tolerante, amigo de Baccho e da dança, o que
-só se ama por excepção. O genero muito particular
-do seu genio foi perfeitamente pintado por
-La Bruyére:&mdash;«Onde Rabelais é mau passa
-muito além de peior; é o encanto da canalha;
-aonde é bom, elle vae até ao extremo de excellente,
-e póde ser um prato dos mais delicados.»
-De resto, este sentimento do moralista parece ter
-sido dictado pelo proprio Rabelais que recommendava
-aos seus leitores «que abrissem a caixa
-para tirarem a droga, e quebrassem os ossos para
-chucharem a medula.» Mas o que domina na sua
-vida e nos seus escriptos é um septicismo zombador
-que ataca todas as crenças, todas as instituições,
-todos os sentimentos, e que estala, sobretudo,
-nos ultimos momentos da sua vida.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_106">[106]</a></span></p>
-
-<p>Entre as numerosas versões que foram reproduzidas
-ácerca da sua morte, encontra-se esta.
-O cardeal de Châtillon, seu amigo, tendo enviado
-um pagem a informar-se da sua saude, elle
-respondeu-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;«Dize a Monsenhor em que bello humor
-me encontras. Eu vou buscar um grande <i>talvez</i>.
-Está no ninho da pega. Dize-lhe que se deixe estar.
-E tu não passas d'um tolo.»&mdash;Depois exhalou
-o ultimo suspiro n'uma grande gargalhada
-acompanhada d'estas palavras:</p>
-
-<p>&mdash;«<i>Desça o panno; acabou a comedia!</i>»</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="LXII">LXII<br />
-<i>Tudo é perdido, menos a honra!</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Francisco <span class="smcap">I</span> a quem duas derrotas experimentadas
-pelos seus generaes Lautrec e Bonnivet
-tinham feito perder o milanez, quiz reconquistar
-este ducado, e transpoz os Alpes á frente
-d'um novo exercito. A breve trecho pôde entrar
-em Milão. Mas em vez de perseguir o inimigo
-a todo o transe, obstinou-se no cêrco de
-Pavia, e, como este cêrco fosse delongado, teve
-a imprudencia de se enfraquecer, destacando<span class="pagenum"><a id="Page_107">[107]</a></span>
-12:000 homens que deviam marchar sobre Napoles.
-No entretanto, os imperiaes reforçavam-se
-e levavam soccorro a Pavia. Feriu-se a batalha e
-foi encarniçada. O rei foi ferido na fronte, e a
-sua armadura, que a França possue ainda, foi
-toda crivada. Mas o numero venceu a coragem,
-a batalha foi perdida e Francisco <span class="smcap">I</span> feito prisioneiro.
-Entregou a sua espada ao vice-rei de
-Napoles, Lannoy, que a recebeu de joelhos.</p>
-
-<p>«Foi do campo imperial, perto de Pavia, que
-Francisco <span class="smcap">I</span> escreveu a sua mãe uma carta que
-se tornou celebre, graças á tradicção, que muito
-a alterou dando-lhe a fórma d'um laconismo sublime:</p>
-
-<p>&mdash;«<i>Senhora, tudo é perdido, menos a honra!</i>»</p>
-
-<p>Recentes investigações, porém, fizeram descobrir
-o texto verdadeiro d'essa carta que começa
-do seguinte modo:&mdash;«Senhora, para vos
-fazer saber como se cumpre o resto do meu infortunio,
-<i>de todas as coisas, só me ficou a honra
-e a vida, que está salva</i>.»</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_108">[108]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="LXIII">LXIII<br />
-<i>Trombetas de Jericó</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Jericó foi a primeira cidade que os hebreus
-encontraram na sua entrada na terra promettida.
-Era fechada por altas muralhas. Por ordem de
-Deus, Josué mandou fazer ao seu exercito a volta
-da cidade durante sete dias. A arca d'alliança
-fôra levada com grande pompa e precedida de
-sete padres, que tocavam trombeta. O povo acompanhava
-em silencio. Ao setimo dia, deu-se sete
-vezes a volta á cidade, e o povo, por ordem de
-Josué, tendo soltado um grito muito grande, viu
-no mesmo instante desmoronarem-se as muralhas.
-A cidade foi reduzida a cinzas e todos os
-habitantes passados a fios d'espada.</p>
-
-<p>&mdash;Em litteratura faz-se muitas vezes allusão
-ás <i>trombetas de Jericó</i>, que se oppõem á lyra
-d'Amphion. Este contraste não escapou ao rei
-philosopho que escreveu ao seu amigo Voltaire:&mdash;«Interessado
-em servir o genero humano, consagraes
-a vossa vida inteira ao bem publico. A
-Providencia tinha-vos reservado para ensinardes
-aos homens a preferirem a lyra d'Amphion, que
-elevava os muros de Thebas a esses instrumentos
-bellicos que faziam arrazar os de Jericó.»</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_109">[109]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="LXIV">LXIV<br />
-<i>A tunica de Christo</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>«Os soldados, depois de haverem crucificado
-Jesus, tomaram-lhe os vestidos e dividiram-os
-em quatro partes: uma para cada soldado.
-Tomaram tambem a tunica; mas a tunica
-não tinha costura, era uma só peça inteira de
-cima a baixo.</p>
-
-<p>«E elles disseram uns aos outros:&mdash;«Não a
-talhemos; tiremos á sorte para vermos a quem
-pertencerá. Afim de que esta palavra fosse cumprida,
-elles dividiram entre si os meus vestidos e
-jogaram á sorte a minha tunica.»&mdash;Eis o que fizeram
-os soldados.&mdash;(<i>S. João</i>, <i>cap.</i> <span class="smcap">XXIX</span>).</p>
-
-<p>&mdash;Esta divisão da tunica de Jesus Christo,
-no momento da sua morte, tem duas especies
-d'applicação:&mdash;ora se allude a ella para designar
-a partilha dos despojos d'um innocente,
-ora recorda que a tunica era d'uma só peça
-inteira, para indicar que uma coisa não póde
-soffrer divisão.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_110">[110]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="LXV">LXV<br />
-<i>Um imperador deve morrer em pé</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Vespasiano, imperador romano, ia além de
-sessenta e nove annos, quando foi atacado da
-doença que o levou ao tumulo, não por agudos
-soffrimentos, mas por um enfraquecimento progressivo.
-Conservando até ao fim a sua serenidade
-d'alma, elle transformava em gracejo a
-apotheose que lhe ia ser conferida.&mdash;«<i>Percebo
-que começo a tornar-me deus</i>», dizia elle alegremente
-á medida que a sua situação se tornava
-desesperada. Apesar da sua extrema fraqueza
-não interrompeu um instante as suas
-occupações habituaes; dava tempo aos negocios
-e audiencia no leito. Afinal, sentindo-se desfallecer,
-fez um derradeiro e supremo esforço para
-se levantar, dizendo:</p>
-
-<p>&mdash;«<i>É preciso que um imperador morra
-de pé!</i>»</p>
-
-<p>E tendo-se feito vestir, expirou entre os braços
-dos seus officiaes.</p>
-
-<p>&mdash;Luiz <span class="smcap">XVIII</span>, nos ultimos dias da sua vida
-teve uma phrase que recorda a de Vespasiano.<span class="pagenum"><a id="Page_111">[111]</a></span>
-Apesar do depauperamento das suas forças, continuava
-a mostrar-se em publico e nos conselhos.
-A 25 d'Agosto de 1824, dia de S. Luiz, respondeu
-ao conde d'Artois, seu irmão, que o aconselhava
-a não receber:</p>
-
-<p>&mdash;Um rei de França morre, mas não deve
-estar doente!»</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="LXVI">LXVI<br />
-<i>Vendilhões expulsos do templo</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>«E estando proxima a paschoa dos judeus,
-Jesus fez a sua entrada em Jerusalem.</p>
-
-<p>«E elle achou no templo mercadores que
-vendiam bois, ovelhas e pombas e os trocadores
-alli estavam sentados.</p>
-
-<p>«E tendo feito umas disciplinas com cordas,
-elle os expulsou a todos fóra do templo, assim
-como as ovelhas e os bois e espalhou o dinheiro
-dos vendilhões sobre as mezas.</p>
-
-<p>«E elle disse aos vendilhões:&mdash;«Está escripto.
-A minha casa é uma casa de oração e vós
-fazeis d'ella uma caverna de ladrões.» (<i>S. João</i>,
-<i>cap.</i> <span class="smcap">II</span>).</p>
-
-<p>&mdash;Esta expressão&mdash;<i>expulsar os vendilhões
-do templo</i>&mdash;emprega-se para stigmatisar os pro<span class="pagenum"><a id="Page_112">[112]</a></span>fanadores,
-em qualquer ordem que seja, os que
-mercadejam com coisas respeitaveis e que só deviam
-ser apanagio exclusivo da arte, das lettras,
-das sciencias, e, em geral, da intelligencia e do
-talento.</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="LXVII">LXVII<br />
-<i>Gritar no deserto</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>S. João Baptista, filho de Zacharias e de
-Santa Elisabeth, prima da Virgem Santissima, retirou-se
-muito cedo para o deserto, levando uma
-vida cheia d'austeridades. Vestia uma pelle de
-camello atada á cinta por uma tira de couro, e o
-seu alimento constava de gafanhotos e mel bravo.
-Quando chegou á edade de trinta annos e foi
-preparado com rudes exercicios para o ministerio
-que lhe estava destinado, dirigiu-se ás margens
-do Jordão, prégando a penitencia, annunciando
-a realisação das prophecias e a vinda do
-Messias, que o tinha enviado para preparar os
-seus caminhos. «&mdash;Façam penitencia&mdash;exclamava
-elle&mdash;pois o reino dos céus está proximo».
-Os habitantes dos arredores corriam em
-multidão para o ouvirem. O synhedrio, tocado
-pelo seu genero de vida extraordinario e da sua<span class="pagenum"><a id="Page_113">[113]</a></span>
-eloquencia selvagem, enviou-lhe padres e levitas
-para saberem se era o Messias, ou Elias, ou simplesmente
-um propheta. Elle respondeu que não
-era propheta, nem Elias, nem Messias.&mdash;«Quem
-és então?, porque precisamos levar resposta aos
-que nos mandaram?»&mdash;«Sou a voz d'aquelle que
-grita no deserto:&mdash;tornae recto o caminho do
-Senhor!» E elle ajuntava:&mdash;«Aquelle que deve
-vir depois de mim é mais poderoso do que eu, e
-eu não sou digno de desatar os cordões do seu
-calçado. Moisés deu-vos a lei, mas o Christo vos
-dará a graça e a verdade.»</p>
-
-<p>&mdash;Hoje estas palavras&mdash;<i>gritar no deserto</i>&mdash;teem
-um sentido desviado do primitivo. Significam
-na applicação&mdash;pregar, aconselhar, fallar
-em vão.</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="LXVIII">LXVIII<br />
-<i>Zoilo</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Celebre grammatico e critico grego do
-quarto seculo antes de Christo, e cujo nome era
-já proverbial no tempo d'Ovidio. Nada se sabe
-ao certo, quanto ao logar do seu nascimento, circumstancias
-da sua vida e genero de sua morte.
-Tambem nos não chegou nenhuma das suas<span class="pagenum"><a id="Page_114">[114]</a></span>
-obras. Sabe-se sómente, pelo testemunho quasi
-unanime dos antigos que elle se encarniçou contra
-as obras d'Homero.</p>
-
-<p>Vitruvio pretende que Ptolomeu Philadelpho,
-indignado com as suas blasphemias litterarias,
-lhe infligiu o supplicio da cruz, ou o fez
-queimar vivo.</p>
-
-<p>&mdash;O nome de <i>Zoilo</i> designa o typo do critico
-apaixonado e de má fé.</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i0">«No futuro, será <i>Zoilo</i>, com toda a furia,<br /></span>
-<span class="i0">Aos <i>censores</i> crueis uma cruel injuria.»<br /></span>
-</div></div>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="LXIX">LXIX<br />
-<i>Aspasia</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Mulher grega, natural de Mileto, celebre
-pelo seu espirito e pela sua belleza. Foi muito
-cedo para Athenas, aonde não tardou a exercer
-sobre os homens mais illustres d'essa epocha,
-Pericles, Alcibiades, o proprio Socrates, o ascendente
-irresistivel da eloquencia, da graça e da
-belleza. Pericles, arrastado pelos seus encantos,
-repudiou sua primeira mulher para a desposar.<span class="pagenum"><a id="Page_115">[115]</a></span>
-Ella exerceu sobre elle tal ascendente, que teve
-a maior parte nos negocios da Grecia, tornando-se
-um verdadeiro poder na republica. Dizia-se
-que as harengas de Pericles eram mais d'uma
-vez inspiradas por Aspasia. Accusada d'impiedade
-ella defendeu a sua propria causa com uma
-eloquencia que apesar de grande, não a teria
-salvo, se seu esposo não enternecesse os juizes
-com lagrimas. Essa mulher illustre deve ser classificada,
-não como demasiadas vezes o é, na
-classe das cortezãs, mas na das <i>hetairas</i>, mulheres
-gregas, dedicadas ás artes, á poesia, á propria
-sciencia, e que eram procuradas para os
-prazeres do espirito, e de que Aspasia foi um
-dos typos mais graciosos e mais perfeitos.</p>
-
-<p>Foi por justo titulo que o nome passou a significar
-entre os gregos a mais amavel das mulheres,
-como Alexandre o maior dos heroes,&mdash;e é
-n'este sentido que chamamos ainda hoje <i>Aspasia</i>
-á mulher que reune os dons do espirito aos encantos
-da belleza.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_116">[116]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="LXX">LXX<br />
-<i>Babylonia</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Assente sobre o Euphrates e embellezada
-por Semiramis, a Babylonia parecia ter sido a
-cidade mais esplendorosa da antiguidade. As
-suas muralhas de cincoenta pés de largura e
-d'uma altura prodigiosa, as suas cem portas de
-bronze, os templos, os palacios, as estatuas
-d'ouro, e, sobretudo, os seus jardins suspensos,
-tornavam-na a rainha das cidades antigas.</p>
-
-<p>Rival de Jerusalem foi muitas vezes em
-guerra com o povo judeu que alli passou setenta
-annos de captiveiro, durante os quaes um grande
-numero <i>não suspenderam as suas harpas nos
-salgueiros da margem</i>, e abandonaram a religião
-de seus paes. As Escripturas fallam de Babylonia
-como de um foco de corrupção e idolatria;
-fizeram-na a personificação do mundo profano,
-o receptaculo de todos os vicios e de todas
-as impurezas. Exasperados pela politica barbara
-dos babylonios os israelitas votaram-lhes um
-odio profundo, e a dissolução dos costumes, de
-que foram testemunhas no captiveiro, augmentou
-áquelle sentimento o do horror e do desgosto.<span class="pagenum"><a id="Page_117">[117]</a></span>
-D'aqui o nome de <i>grande prostituta</i>, que elles
-deram a essa cidade.</p>
-
-<p>&mdash;Hoje, que já não existe a Babylonia, que
-os viajantes e archeologos nem mesmo podem
-encontrar-lhe o local, só o nome sobreviveu, e
-applica-se aos grandes centros populosos, como
-Londres, e, sobretudo, como Pariz, onde a agglomeração
-das massas, as riquezas, os progressos
-da industria e da civilisação engendram fatalmente
-a corrupção de costumes.</p>
-
-<p>&mdash;Os protestantes, que pretendem ser os
-unicos observadores da lettra e do espirito evangelico,
-chamam á vida eterna&mdash;a <i>grande Babylonia</i>.</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="LXXI">LXXI<br />
-<i>Incendiar os seus navios</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Esta locução allude ao procedimento de alguns
-grandes capitães, que a historia nos representa
-incendiando os seus navios, que os haviam
-conduzido á abordagem nos barcos inimigos,
-afim de que os marinheiros e soldados, privados
-de toda a especie de fuga se vissem na contingencia
-de vencerem ou morrerem. Agathocles,<span class="pagenum"><a id="Page_118">[118]</a></span>
-tyranno de Syracusa foi o primeiro que na Costa
-d'Africa deu o exemplo d'esta resolução arrojada.</p>
-
-<p>O imperador Juliano poz fogo aos seus depositos
-e aos seus mil e cem navios, no Tigre,
-quando fez a sua expedição contra Sapor, um rei
-da Persia. Guilherme, o Conquistador, abordando
-a Inglaterra em 1066, recorreu ao mesmo expediente,
-que foi seguido da victoria d'Hastings.
-Roberto Guiscard, no perigo eminente em que se
-achava com a sua pequena armada deante das
-forças consideraveis de Alexis Commene, incendiou
-a sua frota e as suas bagagens e ganhou a
-victoria de Durazzo a 13 d'outubro de 1084. Foi
-d'este modo, emfim, que Fernando Cortez, desembarcando
-na costa do Mexico preludiou a conquista
-d'esta região.</p>
-
-<p>&mdash;Esta locução&mdash;<i>incendiar os seus navios</i>&mdash;passou
-a proverbio e quer dizer:&mdash;interdizer,
-subtrahir por uma iniciativa arrojada os meios
-de volver a uma resolução, de renunciar a uma
-empreza; pôr-se na impossibilidade de retroceder.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_119">[119]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="LXXII">LXXII<br />
-<i>Os ultimos romanos</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Chama-se geralmente assim aos romanos
-que, a exemplo de Catão, conservaram, n'uma sociedade
-em decadencia, os costumes e a virtude
-dos antigos tempos. Mas deu-se mais particularmente
-este nome a Bruto e a Cassio, que foram
-a alma da conspiração que victimou Cezar, e que
-depois de terem combatido nas planicies de Philippes
-contra os inimigos da liberdade romana,
-se deram a morte para não sobreviverem á sua
-perda.</p>
-
-<p>Philopeme, que luctou constantemente pela
-liberdade hellenica e depois da morte do qual, a
-Grecia se viu reduzida a provincia romana, é
-tambem chamado&mdash;<i>o ultimo dos gregos</i>.</p>
-
-<p>&mdash;Estas palavras empregam-se, ora séria, ora
-ironicamente, para designarem todos quantos conservam
-a tradicção d'um passado, que são quasi
-os unicos a representar.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_120">[120]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="LXXIII">LXXIII<br />
-<i>Faça cabelleiras, mestre André</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Em 1760 um cabelleireiro francez chamado
-André, arrojou-se a escrever uma tragedia em 5
-actos, em verso, intitulada&mdash;<i>O terramoto de
-Lisboa</i>&mdash;e mandou a peça a Voltaire, que elle
-chamava <i>caro confrade</i> na seguinte obra prima
-epistolar:</p>
-
-<p class="p2 center">
-AO ILLUSTRE E CELEBRE POETA<br />
-M.<sup>r</sup> DE VOLTAIRE</p>
-<p class="right">«<i>Meu caro confrade.</i><br />
-</p>
-
-<p>«É um estudante, noviço na arte da poesia,
-que se aventura a dedicar-lhe a sua primeira
-obra, tendo-o sempre reconhecido por um dos
-nossos celebres, pelas pomposas obras que tem
-dado e dá á luz todos os dias. Eu julgar-me-hei
-feliz se quizer lançar um rapido olhar a essa
-pequena obra, favorecendo-a com a menor das
-suas recordações. Faltaria a um grande dever se
-não confessasse que o reconheço por meu mes<span class="pagenum"><a id="Page_121">[121]</a></span>tre.
-Se pela sua bondade se dignar favorecer-me
-eu prometto-me que, livre de todo o receio, publicarei
-constantemente os seus louvores e testemunharei
-em toda a parte, quanto lhe sou devedor
-por a haver acceitado.</p>
-
-<p>«Sou, M.<sup>r</sup> e caro confrade, humillissimo e
-affeiçoado servo</p>
-
-<p class="right">
-<i>André.</i>»</p>
-
-
-<p class="p2">O grande poeta divertiu-se muito com esta
-singular e comica confraternidade. E respondeu
-ao <i>seu caro confrade</i> com uma missiva de quatro
-paginas, encerrando apenas estas palavras,
-cem vezes repetidas:&mdash;«Faça cabelleiras, mestre
-André; faça cabelleiras, mestre André.»</p>
-
-<p>Esta espirituosa resposta fez dizer a mestre
-André que Voltaire envelhecia, porque começava
-a repetir-se.</p>
-
-<p>A obra prima de mestre André fez muito
-ruido, porque em 1805, mais de quarenta annos
-depois, um director alegre fez representar a peça
-<i>O terramoto de Lisboa</i>, n'um pequeno theatro
-de <i>boulevard</i> e ella obteve um immenso successo
-comico, em oitenta representações successivas!</p>
-
-<p>&mdash;A phrase&mdash;<i>faça cabelleiras</i>, tornou-se
-uma das locuções mais pittorescas da lingua
-franceza, com emprego em todas as outras. É
-uma traducção espirituosa e comica do <i>ne sutor
-ultra crepidam</i>, dos latinos.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_122">[122]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="LXXIV">LXXIV<br />
-<i>Fé do carvoeiro</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Dá-se por origem a esta locução o seguinte
-conto. O diabo, disfarçado em eremita, e, segundo
-outros, em doutor de Sorbonne, entrou
-um dia na cabana de um carvoeiro e disse-lhe
-para o tentar:</p>
-
-<p>&mdash;«Tu que crês?»</p>
-
-<p>&mdash;«Eu creio o que crê a Santa Egreja».</p>
-
-<p>&mdash;«E que crê a Santa Egreja?»</p>
-
-<p>&mdash;«Crê o que eu creio.»</p>
-
-<p>E o nosso homem manteve-se n'estas respostas
-sem d'ellas sahir, e o espirito maligno foi
-obrigado a renunciar ao seu projecto, vendo a
-inutilidade de todos os seus estratagemas.</p>
-
-<p>Accrescenta um auctor que esse diabo era,
-por sem duvida, muito novo, e egualmente dos
-menos atilados, porque de outro modo elle teria
-embaraçado muito o carvoeiro fazendo-lhe a seguinte
-pergunta:</p>
-
-<p>&mdash;«E que crêem, tu e a Santa Egreja?»</p>
-
-<p>&mdash;A phrase&mdash;<i>fé do carvoeiro</i>, designa uma
-fé simples e ingenua, que crê sem exame.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_123">[123]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="LXXV">LXXV<br />
-<i>Ha juizes em Berlim</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>O grande Frederico, rei da Prussia, desejava
-ampliar o seu parque de Sans-Souci, mas</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
- <span class="i0">«Na encosta que escolhera o principe por si,<br /></span>
- <span class="i0">Tinha o moinho um tal moleiro Sans-Souci;<br /></span>
- <span class="i0">Vendedor de farinha, havia por costume<br /></span>
- <span class="i0">Ganhar, a dia a dia, o pão sem azedume.<br /></span>
- <span class="i0">E seja, emfim, qual fôr o lado d'onde vente<br /></span>
- <span class="i0">A vela gira sempre, e elle dorme contente.<br /></span>
- <span class="i0">.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.<br /></span>
- <span class="i0">Um projecto traçou um habil engenheiro,<br /></span>
- <span class="i0">Que abrangia o moinho e o seu recinto inteiro.<br /></span>
- <span class="i0">Mas ás vistas forçoso era renunciar,<br /></span>
- <span class="i0">Ou cortar á extensão e o parque mascarar.<br /></span>
- <span class="i0">Das construcções reaes, o intendente geral<br /></span>
- <span class="i0">Fez chamar o moleiro e disse-lhe afinal:<br /></span>
- <span class="i0">&mdash;«Quer-se o moinho teu; vê lá que valor tem.»&mdash;<br /></span>
- <span class="i0">&mdash;«Não tem valor nenhum, que o não vendo a ninguem!<br /></span>
- <span class="i0">«Quer-se o moinho, é boa! elle é meu e direi<br /></span>
- <span class="i0">«Que, ao menos, tanto como a Prussia é só do rei»&mdash;<br /></span>
- <span class="i0">&mdash;«Vamos, dize afinal&mdash;responde e tem cuidado!»&mdash;<br /></span>
- <span class="i0">&mdash;«N'uma palavra?&mdash;<br /></span>
- <span class="i16">&mdash;«Sim.&mdash;<br /></span>
- <span class="i24">&mdash;«É meu, está declarado,<br /></span>
- <span class="i0">«Já disse, nada mais!»&mdash;<br /></span>
-<span class="pagenum"><a id="Page_124">[124]</a></span>
- <span class="i24">A recusa atrevida<br /></span>
- <span class="i0">Ao principe se conta e é coisa decidida.<br /></span>
- <span class="i0">Manda vir á presença o insolito moleiro,<br /></span>
- <span class="i0">Promette inutilmente, aperta, é lisongeiro,<br /></span>
- <span class="i0">Mas teima Sans-Souci&mdash;«Ouvi, Sire, a razão<br /></span>
- <span class="i0">Porque vender não posso o moinho em questão.<br /></span>
- <span class="i0">Meu avô lá morreu; lá tive um filho ha um mez,<br /></span>
- <span class="i0">É o meu Postdam, Senhor. Sou teimoso, talvez;<br /></span>
- <span class="i0">Nunca o fostes jámais? Nem mil ducados, não,<br /></span>
- <span class="i0">No fim d'esse discurso a mim me tentarão!<br /></span>
- <span class="i0">Passae sem elle, Sire, e ninguem mais insista!»<br /></span>
-</div><div class="stanza">
- <span class="i0">Soffrem difficilmente os reis quem lhes resista,<br /></span>
- <span class="i0">E Frederico acode, o humor arrebatado:<br /></span>
- <span class="i0">&mdash;«Irra! que estás ao teu moinho bem pegado!<br /></span>
- <span class="i0">Ora atéqui tratei d'obtel-o e de pagal-o,<br /></span>
- <span class="i0">Mas sabes que, sem paga, eu posso exproprial-o!<br /></span>
- <span class="i0">O dono eu sou!»&mdash;<br /></span>
- <span class="i16">&mdash;«Levar sem paga o moinho, a mim?<br /></span>
- <span class="i0">Talvez, <i>se não houvesse os juizes em Berlim!</i>»&mdash;<br /></span>
-</div><div class="stanza">
- <span class="i0">Do capricho o monarcha, ouvindo-o, em si cahia,<br /></span>
- <span class="i0">Contente, porque o reino inda em justiça cria;<br /></span>
- <span class="i0">E volvendo-se a rir para o seu architecto:<br /></span>
- <span class="i0">&mdash;«Eu acho que é melhor mudarmos de projecto.<br /></span>
- <span class="i0">Visinho guarda a casa, has respondido bem.»&mdash;<br /></span>
- <span class="i0">.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.<br /></span>
-</div></div>
-
-<p>&mdash;Estas palavras&mdash;<i>ha juizes em Berlim</i>&mdash;que
-o poeta francez Andrieux não fez senão citar
-na encantadora narrativa que vimos de tra<span class="pagenum"><a id="Page_125">[125]</a></span>duzir
-incompletamente, porque são historicas,
-formaram uma locução proverbial que se emprega
-em todas as circumstancias analogas, isto
-é, quando a força pretende vencer o direito.</p>
-
-<p>Cabe aqui, a proposito do moinho de Sans-Souci
-um pequeno caso que não deixa de ser interessante.</p>
-
-<p>O famoso moinho é ainda hoje propriedade
-do bisneto do obstinado moleiro. Mas n'essa familia
-os homens seguem-se e não se parecem.</p>
-
-<p>Assim, o descendente de Sans-Souci, necessitado
-de dinheiro fez saber ao descendente de
-Frederico <span class="smcap">II</span>, que estava disposto a ceder-lhe o
-moinho. O principe respondeu-lhe com esta espirituosa
-carta:</p>
-
-<p class="p2 right">
-«Meu caro <i>visinho</i>.<br />
-</p>
-
-<p>«O moinho não lhe pertence, nem a mim,
-pertence á historia; é-nos pois, impossivel, a si,
-vendel-o, a mim, compral-o. Mas como entre visinhos
-e visinhos bons deve haver auxilio, mando-lhe
-um cheque de 10:000 florins, que póde
-receber do thesouro.»</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_126">[126]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="LXXVI">LXXVI<br />
-<i>Judas&mdash;Beijo de Judas</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Dois dias antes da Paschoa, Jesus disse aos
-seus discipulos:&mdash;«Chegou o dia em que o Filho
-do Homem vae ser entregue para ser crucificado.»
-E ao mesmo tempo os principes dos padres
-e os mais velhos do povo, reunidos em casa
-de Caiphaz, concertavam-se sobre os meios de
-se apoderarem de Jesus e o fazerem morrer. Mas
-receiavam excitar qualquer agitação popular.</p>
-
-<p>Foi então que Judas, um dos apostolos, se
-chegou e combinou entregar o seu mestre, mediante
-trinta dinheiros. De tarde Jesus poz-se á
-meza com os seus discipulos e annunciou-lhes
-que um d'elles o trahiria.&mdash;«Serei eu, Senhor?»&mdash;lhe
-perguntou Judas, e depois da resposta do
-Salvador, deixou a meza e foi-se, excitado pelo
-mau espirito. Em seguida Jesus sahiu da cidade,
-seguido dos seus discipulos, e dirigiu-se ao monte
-das Oliveiras, a um logar chamado Gethsemani.
-Logo appareceu Judas acompanhado d'um grupo
-de soldados aos quaes tinha dito: «Prendam
-aquelle que eu beijar, é elle que procuram.» E<span class="pagenum"><a id="Page_127">[127]</a></span>
-approximando-se de Jesus, beijou-o e disse-lhe:&mdash;«Mestre,
-eu te saudo.» Jesus censurou-lhe o
-seu crime com doçura:&mdash;«Judas, entregas o Filho
-do Homem com um beijo!» E avançou para
-os soldados que se lançaram a elle e o ligaram.</p>
-
-<p>&mdash;O nome de <i>Judas</i> ficou como a personificação
-do traidor, do homem profundamente hypocrita,
-e o <i>beijo de Judas</i>, como para designar
-o acto pelo qual se pratica a traição. Assim chamar
-Judas a alguem é dirigir-lhe a mais pungente
-das injurias. E comprehende-se que uma
-tal comparação seja repellida com indignação.</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="LXXVII">LXXVII<br />
-<i>Pragas do Egypto</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Moisés acompanhado de seu irmão Aarão,
-apresentou-se perante Pharaó, que recusou reconhecer
-as ordens de Deus. Então Moisés e
-Aarão feriram successivamente o paiz com dez
-flagellos, chamados&mdash;<i>pragas do Egypto</i>.</p>
-
-
-<p><span style="margin-left: 1em;">1.º&mdash;Agoas transformadas em sangue;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">2.º&mdash;O Egypto todo coberto de rãs;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">3.º&mdash;Os insectos devoradores;</span><br />
-<span class="pagenum"><a id="Page_128">[128]</a></span>
-<span style="margin-left: 1em;">4.º&mdash;Grandes moscas insupportaveis;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">5.º&mdash;Peste;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">6.º&mdash;Chagas nos homens e nos animaes;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">7.º&mdash;Tempestades de saraiva e trovoadas;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">8.º&mdash;Nuvens de gafanhotos;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">9.º&mdash;Trevas espessas;</span><br />
-<span style="margin-left: 0.5em;">10.º&mdash;Morte de todos os recemnascidos.</span><br />
-</p>
-
-<p>O coração endurecido do rei só cedeu a esta
-ultima praga, a mais espantosa de todas, e os
-Hebreus partiram para Ramassés em numero de
-seiscentos mil homens, sem contar-se as creanças.</p>
-
-<p>&mdash;Quando se falla <i>das pragas do Egypto</i>
-na linguagem figurada é quasi sempre á dos gafanhotos
-que se faz allusão.</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="LXXVIII">LXXVIII<br />
-<i>Não toqueis na rainha</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Os reis d'Hespanha usavam uma regra
-d'etiqueta exaggerada até á estupidez. Todo o
-individuo que tocasse o pé da rainha, fosse qual
-fosse a causa, era condemnado á morte e executado
-immediatamente.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_129">[129]</a></span></p>
-
-<p>A joven rainha, esposa de Carlos <span class="smcap">II</span>, montou
-um dia a cavallo para um passeio com as suas
-damas e os seus cortezãos. A breve trecho o
-cavallo espanta-se e expelle-a, mas por fórma
-que o pé da princeza ficou preso ao estribo e o
-furioso animal se poz a arrastal-a. Uma immensa
-multidão assistia a este triste espectaculo, mas
-ninguem ousava soccorrel-a por causa da etiqueta.
-Ia, de certo, ser victima d'esse terrivel
-accidente, quando dois jovens officiaes francezes,
-que alli se achavam por acaso, resolveram salval-a.
-Lançam-se impavidamente, e em quanto
-que um suspende o cavallo pelo freio, o outro
-consegue desligar o pé da rainha, que, afinal,
-apenas soffreu o susto e algumas contusões.</p>
-
-<p>Elles fugiram logo, e era tempo, porque
-iam ser presos, e Deus sabe o que faria a etiqueta!
-No dia seguinte a rainha, muito molestada
-foi obrigada a deixar os seus aposentos,
-para fallar ao rei, de quem conseguiu a graça
-dos seus salvadores, mas com a condição de
-que deixariam a Hespanha immediatamente.</p>
-
-<p>De resto era egualmente perigoso tocar no
-rei, fóra das severas leis da etiqueta. Eis a este
-respeito um facto que difficilmente se poderia
-crer se não fosse historico.</p>
-
-<p>Estando doente Filippe <span class="smcap">III</span> achava-se sentado
-n'um <i>fauteuil</i>, muito junto da chaminé do fogão,
-aonde acabava de accender-se o lume, e aonde
-se havia depositado uma certa quantidade de<span class="pagenum"><a id="Page_130">[130]</a></span>
-material combustivel. O calor tornou-se, em breve,
-intoleravel e o rei disse aos cortezãos para retirarem
-algumas achas; mas como o duque accendedor-mór
-não estava presente, e só elle tinha o
-direito de bulir no lume da real camara, nenhum
-dos assistentes ousou commetter tão grande infracção
-da etiqueta. Por outro lado, ninguem podia
-tocar no <i>fauteuil</i> do rei a não ser o camareiro-mór,
-que egualmente estava ausente, e,
-emfim, era prohibido sob pena de morte, tocar
-na sagrada pessoa de sua magestade, de que
-resultou deixarem os cortezãos tranquillamente
-assar o rei, embora lamentando-se por tão triste
-sorte. Quando os dois funccionarios chegaram
-já era tarde: o rei estava moribundo e pouco
-sobreviveu a este cruel supplicio!</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="LXXIX">LXXIX<br />
-<i>O ovo de Colombo</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>A 15 de Março de 1493, Christovam Colombo,
-que vinha de fazer uma das mais admiraveis
-descobertas de que se honra o espirito
-humano, aportava a Palos, de onde tinha partido
-sete mezes e meio antes. Foi recebido com<span class="pagenum"><a id="Page_131">[131]</a></span>
-grande enthusiasmo. Os sinos repicaram, os magistrados
-seguidos de todos os habitantes desceram
-á praia a recebel-o. O trajecto até á côrte
-foi um triumpho continuo; de toda a parte se
-corria para vêr o homem que tinha terminado,
-tão felizmente, uma empreza que toda a gente
-julgára impossivel. Toda a cidade foi ao seu encontro.
-Elle ia no meio dos indios que trouxera
-comsigo na sua entrada em Barcellona, e
-que conservaram o costume do seu paiz. Uma
-multidão de objectos desconhecidos e cuja vista
-dominava vivamente os espiritos eram conduzidos
-na vanguarda em corbeilles e bandejas descobertas.
-Elle avançou assim no meio d'um concurso
-immenso até ao palacio dos reis d'Hespanha.
-Fernando e Isabel esperavam-no sentados
-no throno. Quando elle appareceu, no meio do
-seu cortejo, levantaram-se. Colombo lançou-se-lhes
-aos pés, mas elles ordenaram-lhe que se
-sentasse. O illustre navegador narrou-lhes a viagem
-e descobertas que fez. Em seguida apresentou-lhes
-os indios que o acompanhavam e os
-objectos preciosos que havia trazido. Toda a
-gente se poz de joelhos, e cantou-se na propria
-sala do throno um cantico em acção de graças.
-Fernando confirmou a Colombo todos os seus
-privilegios, e permittiu-lhe juntar ao seu brazão,
-as armas da sua familia, as do reino de Castella
-e Leão, com os emblemas das suas dignidades e<span class="pagenum"><a id="Page_132">[132]</a></span>
-das suas descobertas. Todos os seus parentes foram
-cumulados de provas da munificencia real.</p>
-
-<p>Com tão grandes honras Christovam Colombo
-podia julgar-se ao abrigo dos golpes subitos
-da fortuna. E, comtudo, nunca um homem
-os sentiu d'um modo mais terrivel e mais cruel!</p>
-
-<p>Iam mal passados ainda os primeiros transportes
-do enthusiasmo e já a maldade e a inveja
-haviam começado a erguer a cabeça. Procuraram
-por meio de perfidas insinuações entibiar o
-merito d'essa immortal descoberta.&mdash;«Dado o
-primeiro passo, o novo mundo viera a elle d'algum
-modo; o seu genio consistia apenas n'uma
-longa, mas trivial paciencia; em uma palavra,
-para descobrir a America, <i>não tinha sido preciso
-pensar n'isso</i> ...» Tal era já a ousadia dos detractores,
-que faziam circular estes propositos,
-um dia, á meza d'um grande d'Hespanha para
-que fôra convidado Colombo.</p>
-
-<p>O grande homem permaneceu silencioso durante
-toda a discussão; mas n'um dado momento
-e depois de haver reflectido, fez vir um ovo e
-apresentando-o aos nobres convivas, disse-lhes:</p>
-
-<p>&mdash;«Qual de vós, senhores, se sente capaz
-de fazer com que este ovo se sustente ao alto,
-por uma das extremidades?»</p>
-
-<p>O ovo começou a circular, passando de mão
-para mão, até que voltou a Colombo, sem que
-qualquer dos presentes houvesse resolvido o problema.
-Elle, então, tomou-o, bateu-o levemente<span class="pagenum"><a id="Page_133">[133]</a></span>
-no prato e o ovo ficou em equilibrio. Cada qual
-exclamou:</p>
-
-<p>&mdash;«Isso não era difficil!</p>
-
-<p>&mdash;«Sem duvida&mdash;replicou Colombo com
-um sorriso ironico&mdash;comtudo <i>era preciso pensal-o!</i>»</p>
-
-<p>&mdash;O <i>ovo de Christovam Colombo</i> passou a
-uma especie de proverbio, a que se allude a proposito
-d'uma coisa que se não póde fazer, e que
-se encontra facil, depois de feita.</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="LXXX">LXXX<br />
-<i>Waterloo</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Napoleão, depois de ter fundado um imperio
-mais vasto e mais poderoso que o de Carlos
-Magno; depois de ter visto a Europa inteira
-tremer com a sua presença e submetter-se a todas
-as suas vontades, emprehendeu a funesta
-campanha da Russia, em que o exercito mais formidavel
-foi vencido, não pelos homens, mas pelos
-elementos e pelo rigor do clima.</p>
-
-<p>Essa longa jornada da Russia foi realmente
-o termo da brilhante fortuna que collocou Napoleão,
-como o primeiro dos mais illustres con<span class="pagenum"><a id="Page_134">[134]</a></span>quistadores;
-mas como ella relembra ao espirito
-uma série multipla de desastres, o seu nome,
-por muito funesto que pareça, não podia ser escolhido
-para designar uma ruina subita, um esboroamento
-rapido. Foi a derrota de Waterloo,
-que recebeu esta consagração.</p>
-
-<p>Depois de se ter visto forçado a abdicar em
-Fontainebleau, depois de ter mudado o seu poderoso
-imperio pela soberania irrisoria d'uma
-ilha, em que apenas contava alguns milhares de
-subditos, Napoleão, por uma d'essas inspirações
-repentinas, que constituiam o caracter particular
-do seu genio, escapou-se á vigilancia de que era
-objecto, desembarcou em Cannes, e marchou sobre
-Pariz sem encontrar resistencia. Os Bourbons,
-dominados pelo terror, abandonam a
-França, e Napoleão entra como senhor nas Tulherias,
-d'onde, durante dez annos, dera a lei á
-Europa.</p>
-
-<p>Mas este successo admiravel não tinha solidez.
-A coalisão da Europa não estava dissolvida,
-e ia reformar-se, mais potente que nunca, e a
-França, exangue d'homens e de recursos, fatigada
-d'essas guerras interminaveis, que arruinavam o
-commercio e a industria, não ia oppor uma resistencia
-sem impeto, quasi passiva, e que facilmente
-seria vencida.</p>
-
-<p>No entretanto, Napoleão desenvolve ainda
-uma vez a energia, a decisão, que fulminaram<span class="pagenum"><a id="Page_135">[135]</a></span>
-tantos inimigos; mas os seus officiaes parecem
-ter perdido o vigor d'outr'ora.</p>
-
-<p>Em Waterloo, comquanto não tenha mais
-que quinze mil combatentes a oppor a forças duplas
-das suas, a habilidade das suas disposições
-parece a principio fazer pender a victoria para o
-seu lado; mas o general prussiano Blucher, que
-Grouchy não póde, não sabe, ou não quer deter,
-chega com as suas forças frescas, faz mudar a
-face ao combatente, e o exercito francez, o ultimo
-exercito de Napoleão, é esmagado.</p>
-
-<p>D'esta vez a fortuna do Cezar moderno estava
-despedaçada para sempre, e os derradeiros
-exforços que pôde desenvolver ainda, serviram
-apenas para lançarem algum brilho sobre os ultimos
-momentos d'esse astro, outr'ora tão brilhante.</p>
-
-<p>&mdash;A palavra <i>Waterloo</i> emprega-se muito
-para designar a ruina completa e fatal d'uma
-coisa, que foi grande e que, por muito, parecia
-ser estavel.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_136">[136]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="LXXXI">LXXXI<br />
-<i>Templo de Jano</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>O famoso templo de Jano, que foi fundado
-em Roma por Numa, estava aberto durante a
-guerra e fechado no periodo da paz. Jano, o mais
-antigo rei d'Italia, ácerca do qual os mythologos
-teem dificuldade em se entenderem, passava por
-ter tido um reinado longo e tranquillo, o que o
-fizera considerar como o deus da paz e o tinha
-posto em grande honra para Numa, o rei mais
-sabio que teve Roma.</p>
-
-<p>Durante um periodo de quasi mil annos, o
-templo de Jano só foi fechado oito vezes: a primeira
-no reinado de Numa; a segunda, no anno
-519, de Roma, depois da primeira guerra punica;
-a terceira, no anno 723, depois da batalha
-d'Actium; a quarta, no anno 730, depois da
-guerra cantabrica; a quinta, no anno 740, apoz a
-pacificação da Germania; a sexta, no anno 824,
-por Vespasiano, depois da conquista da Judeia;
-a setima, no anno 834, por Domiciano, em seguida
-á guerra dos Dacios, e a ultima, no anno
-994, por Gordio <span class="smcap">III</span>, vencedor dos persas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_137">[137]</a></span></p>
-
-<p>É esta a ultima menção que a historia faz
-d'esta cerimonia. Virgilio, no livro <span class="smcap">VII</span> da <i>Eneida</i>,
-fez a descripção do templo de Jano e do cerimonial
-que presidiu á sua abertura.</p>
-
-<p>&mdash;É por allusão a este templo, que se diz
-no estylo oratorio, e, sobretudo, em poesia&mdash;<i>abrir
-o templo de Jano</i>&mdash;para fazer guerra, começal-a,
-declaral-a, e&mdash;<i>fechar o templo de Jano</i>&mdash;para
-conclusão do tratado de paz, e pôr fim ás hostilidades.</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="LXXXII">LXXXII<br />
-<i>Estatua de Nabuchodonosor</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Nabuchodonosor <span class="smcap">II</span>, cognominado o <i>Grande</i>,
-rei da Babylonia, tivera um sonho espantoso,
-mas de que ao despertar se não lembrava absolutamente
-nada. Nenhum dos magos da côrte
-pôde avivar-lhe a visão. O joven Daniel, então
-captivo na Babylonia, foi mandado vir á presença
-do rei e disse-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;«Eis o que viste, rei:&mdash;Havia uma estatua
-immensa, cuja cabeça era d'ouro, o peito e
-os braços de prata, o ventre e as côxas de
-bronze, as pernas de ferro e os pés de barro. De
-repente deslocou-se por si uma pedra da monta<span class="pagenum"><a id="Page_138">[138]</a></span>nha,
-e indo ferir os pés da estatua, fel-a pedaços.
-Então os quatro metaes quebrados tornaram-se
-como o pó, que enche a athmosphera, no
-verão, e tendo-se levantado um grande vento,
-tudo levou. Mas a pedra que despedaçára a estatua
-tornou-se uma montanha immensa, que encheu
-toda a terra. Eis o teu sonho, ó rei, e
-agora a sua interpretação:&mdash;Tu és o rei dos reis;
-és tu, pois, a cabeça de ouro. Ha-de haver depois
-de ti um reino menor que o teu, que será
-de prata, depois um terceiro de bronze, que mandará
-em toda a terra. O quarto reino reduzirá
-tudo a pó como o ferro quebra tudo, mas assim
-como a estatua, de pés de barro, elle se dividirá
-por sua vez. Então Deus suscitará um reino
-para sempre eterno, que derribará e destruirá
-todos os reinos, como a pedra deslocada da montanha
-partiu a estatua e lançou ao vento o seu
-pó.»</p>
-
-<p>Era a imagem dos quatro grandes imperios
-d'Assyria, da Persia, da Macedonia e de Roma,
-que, destruindo-se successivamente uns aos outros,
-deviam todos ser absorvidos por um imperio
-immenso e immortal, o de Jesus Christo n'este
-mundo.</p>
-
-<p>&mdash;No estylo elevado faz-se muitas vezes allusão
-ao colosso de Nabuchodonosor, quando
-se quer exprimir que ha liga nas coisas, apparentemente
-mais puras, que os genios mais sublimes
-se prendem por qualquer ponto fraco aos<span class="pagenum"><a id="Page_139">[139]</a></span>
-lados vulgares da humanidade, que o poder que
-parece mais solidamente estabelecido não tem
-muitas vezes senão uma base fragil, que a circumstancia
-mais imprevista póde fazer cahir.</p>
-
-<p>Assim, por exemplo, um escriptor contemporaneo,
-fallando da guerra de 1809, que foi a origem
-de todas as desgraças de Napoleão, diz:</p>
-
-<p>&mdash;«Foi na outra extremidade do continente,
-foi em Portugal que se fez sentir o primeiro estalido,
-e que se percebeu de repente que a <i>estatua
-colossal tinha um pé de barro</i>.»</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="LXXXIII">LXXXIII<br />
-<i>Sepulchros do Evangelho</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>No capitulo <span class="smcap">XXIII</span> do Evangelho, segundo
-S. Matheus, Jesus Christo levanta-se contra os
-impostores e hypocritas, com uma força d'expressão,
-uma vehemencia de linguagem, que espantam,
-n'aquella bocca divina, habituada a só
-fazer ouvir palavras de mansidão e de caridade.
-Elle não reprehendeu nenhum vicio com tanta
-energia, e quando nos lembramos da sua celeste
-indulgencia para com a mulher adultera, admiramo-nos
-do anathema terrivel que dardeja aos<span class="pagenum"><a id="Page_140">[140]</a></span>
-scribas e phariseus. É que nas inspirações da
-sua sublime natureza Jesus Christo bebia a certeza
-de que a hypocrisia é capaz de todos os crimes,
-que ella os contem todos em germen.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>«Desgraça a vós! scribas e phariseus hypocritas,
-que purificaes o exterior da taça e do
-vaso, em quanto que por dentro sois cheios de
-rapinas e de maculas!»</p>
-
-<p>«Phariseus cegos, purificae primeiro o interior
-da taça e do vaso, afim de que o exterior
-seja puro tambem!»</p>
-
-<p>«Desgraça a vós! scribas e phariseus hypocritas,
-porque sois semelhantes a <i>sepulchros
-caiados</i>, que, por fóra parecem bellos aos homens,
-mas por dentro são cheios d'ossos e podridão!»</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>&mdash;A applicação d'esta phrase <i>sepulchros
-caiados</i>, ou a equivalente&mdash;<i>sepulchros do Evangelho</i>&mdash;sobresáe
-claramente do texto que citamos,
-quando se dirige ás pessoas; quanto ás
-coisas, caracterisa tudo quanto tem mais apparencia
-de brilho, que fundo e realidade.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_141">[141]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="LXXXIV">LXXXIV<br />
-<i>Isso que prova?</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Não temos a pretensão de exprimir uma
-verdade muito nova, dizendo que as mathematicas
-não são irmãs da poesia, embora Urania seja
-uma das nove Musas. E se não era mathematico,
-era digno de sel-o, aquelle que interrogado ácerca
-do effeito que lhe produzia a audição d'uma opera,
-respondeu:</p>
-
-<p>&mdash;«O mesmo que o d'um sacco cheio de
-pregos, agitado vigorosamente.»</p>
-
-<p>O mathematico habituado a medir tudo a regua
-e compasso, a tirar deducções por meio de
-raciocinios evidentes, fica quasi sempre insensivel
-ás bellezas da harmonia e do sentimento.</p>
-
-<p>Um geometra assistia a uma representação
-da <i>Phedra</i>, e em quanto que todos os outros
-espectadores derramavam lagrimas, commovidos
-por essa magnifica poesia, que mostra em scena</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i0">«.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;.&nbsp;&nbsp;. essa dor virtuosa»<br /></span>
-<span class="i0">«De Phedra, a pezar seu, perfida, incestuosa»<br /></span>
-</div></div>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_142">[142]</a></span>elle ficava frio, impassivel e contentava-se em
-dizer nas passagens mais patheticas:</p>
-
-<p>&mdash;«Isso que prova?»</p>
-
-<p>O astronomo francez Villemont, menos exclusivo,
-nunca deixava de dizer d'um fragmento
-de poesia que lhe causasse prazer:</p>
-
-<p>&mdash;«É bello como uma equação!»</p>
-
-<p>Era para elle o superlativo da admiração.</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="LXXXV">LXXXV<br />
-<i>Manná</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Quando os hebreus chegaram ao deserto
-e viram as provisões esgotadas, começaram a
-murmurar contra Moisés, dizendo:&mdash;«Conduzistes-nos
-a este logar para nos fazerdes morrer de
-fome?»&mdash;Moisés respondeu-lhes da parte do Senhor:&mdash;«Esta
-tarde comereis carne, e amanhã
-estareis saciados de pão.»&mdash;Com effeito, de tarde
-uma enorme quantidade de rôlas veio pousar
-sobre o campo, e no dia seguinte, pela manhã,
-um orvalho matutino cobria toda a planicie. Era
-uma especie de pó branco que tinha o gôsto da
-mais fina farinha misturada com mel.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_143">[143]</a></span></p>
-
-<p>Este alimento chamava-se <i>manná</i>. Os hebreus
-deviam apanhal-o em cada manhã e antes
-do nascimento do sol, e só em quantidade necessaria
-para o dia, excepto na vespera do <i>sabbat</i>
-em que deviam tambem recolhel-o para o
-dia seguinte. Alguns deixando-o de um para o
-outro dia encontravam-no corrompido.</p>
-
-<p>Ora os filhos d'Israel nutriram-se d'este orvalho
-celeste durante os quarenta annos que viveram
-no deserto, até á sua entrada na terra da
-promissão.</p>
-
-<p>&mdash;Comprehende-se que&mdash;<i>manná</i>&mdash;ou&mdash;<i>é
-um manná</i>&mdash;se não póde applicar senão n'um
-sentido metaphorico, como por exemplo:</p>
-
-<p>&mdash;A verdade <i>é um manná</i> divino, com que
-se deve sustentar o espirito e o coração.</p>
-
-
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_144">[144]</a></span></p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="LXXXVI">LXXXVI<br />
-<i>Annel de Gyges</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Gyges era um moço pastor da Lydia. Um
-dia vendo entreabrir-se a terra, desceu pela abertura,
-e viu, entre outras maravilhas um cavallo
-de bronze, completamente ôcco, com portas nas
-ancas. Abriu-as e encontrou um cadaver de grandeza
-mais que humana, tendo em um dedo um
-annel d'ouro. Esse annel, desde que se voltava o
-engaste para o lado interior da mão, tinha o poder
-de tornar invisiveis aquelles que o usassem.
-Gyges apoderou-se d'esse precioso talisman e
-dirigiu-se á côrte, aonde o annel foi a origem
-d'uma brilhante fortuna, porque o possuidor não
-tardou a tornar-se favorito e primeiro ministro.</p>
-
-<p>&mdash;Não são raras as circumstancias em que
-cada qual desejaria ter no dedo o annel de Gyges.
-Qual é o que nunca se viu collocado n'alguma
-d'essas situações criticas, que fazem desejar,
-como vulgarmente se diz, «estar a cem braças
-pela terra dentro»? Por outro lado, que não
-daria a gente, em determinadas occasiões, para
-se encontrar invisivel, em certos logares, em que<span class="pagenum"><a id="Page_145">[145]</a></span>
-se debatem os nossos mais caros interesses, e o
-nosso destino?</p>
-
-<p>D'aqui a frequente applicação que se faz do
-<i>annel de Gyges</i>, em litteratura e na conversação.</p>
-
-<p>O espirituoso Alphonse Karr quiz ver no
-annel de Gyges uma allegoria que explicou a seu
-modo n'estes versos:</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i0">«Quem de Gyges o annel, conta, maravilhoso<br /></span>
-<span class="i0">«Nos casos falsos, ou na pura phantasia,<br /></span>
-<span class="i0">«&mdash;Agora o sei&mdash;a si se engana em demasia,<br /></span>
-<span class="i0">«Porque o frisante exemplo é grande, é numeroso.<br /></span>
-<span class="i0">«Se sois feio e sois mau, sem genio e já d'idade<br /></span>
-<span class="i0">«Ponde, á noite um annel, no vosso indicador,<br /></span>
-<span class="i0">«Com um brilhante que tenha um subido valor,<br /></span>
-<span class="i0">«E vereis como faz a sua claridade,<br /></span>
-<span class="i0">«Sob os raios da luz, em ponto bem escolhido,<br /></span>
-<span class="i0">«Dar-vos genio e belleza, e juventude, e encanto.<br /></span>
-<span class="i0">«Se sois mau e imbecil, elle vos faz um santo,<br /></span>
-<span class="i0">«Dizei quanto quereis, que já sois applaudido!»<br /></span>
-</div></div>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_146">[146]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="LXXXVII">LXXXVII<br />
-<i>Honni soit qui mal y pense</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Divisa da ordem da Jarreteira, instituida em
-Inglaterra em 1340 por Eduardo <span class="smcap">III</span>. Em um baile
-da côrte que elle dava em honra da condessa de
-Salisbury, sua favorita, esta deixou cahir, dançando,
-uma liga, que era azul. O rei apressou-se
-a apanhal-a, e expoz assim a formosa condessa
-aos sorrisos malignos e aos maus propositos dos
-convidados.</p>
-
-<p>&mdash;«Senhores&mdash;exclamou Eduardo <span class="smcap">III</span>&mdash;<i>honni
-soit qui mal y pense</i>. Os que riem agora hão-de
-honrar-se um dia por usarem um objecto semelhante,
-porque a liga será posta em tanta honra
-que até os mais zombadores a procurarão com
-avidez!»</p>
-
-<p>E no dia immediato instituia a Ordem da Jarreteira,
-que é uma das mais célebres da Europa.</p>
-
-<p>A principal insignia consiste n'uma liga de
-velludo azul, que se aperta por cima do joelho
-esquerdo com uma fivela de ouro, sobre a qual
-se lê: <i>Honni soit qui mal y pense!</i>&mdash;Maldito
-seja quem d'isto mal pensar.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_147">[147]</a></span></p>
-
-<p>A rainha usa-a no braço. Só os principes
-soberanos ou as pessoas d'alta distincção podem
-ser membros da Ordem. O numero dos primeiros
-é illimitado, mas os outros não podem ser mais
-de vinte e seis.</p>
-
-<p>&mdash;A famosa divisa tornou-se proverbial e
-emprega-se para fazer comprehender que se affronta
-a opinião, n'uma circumstancia sujeita a
-má interpretação, d'equivoca apparencia.</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="LXXXVIII">LXXXVIII<br />
-<i>Mal com el-rei pelos homens e mal com os homens por el-rei</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>Esta phrase, que bem exprime as apertadas
-circumstancias em que o homem tantissimas
-vezes se encontra, de não poder, de modo algum,
-satisfazer e contentar a todos, é do grande
-Affonso d'Albuquerque.</p>
-
-<p>Avisado elle de que el-rei D. Manoel lhe ordenava
-o regresso ao reino, fazendo-o substituir
-no governo da India por Lopo Soares, com o
-qual seguiam Diogo Pereira e Diogo Mendes,
-um como secretario e outro como capitão de Cochim,
-e ambos de lá enviados a Portugal sob<span class="pagenum"><a id="Page_148">[148]</a></span>
-prisão pelo valente governador, por delictos graves,
-exclamou:</p>
-
-<p>&mdash;Mal com el-rei pelos homens e mal com
-os homens por amor de el-rei.</p>
-
-<p>A phrazeologia popular formulou o mesmo
-pensamento de um modo, se não tão primoroso,
-pelo menos egualmente expressivo, quando disse:</p>
-
-<p>&mdash;Preso por ter cão, preso por não o ter.</p>
-
-<p>Vê-se claramente qual o emprego da locução
-do grande capitão, e não é difficil nem raro
-que cada um tenha varias occasiões, infelizmente,
-de applical-a a si proprio.</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="LXXXIX">LXXXIX<br />
-<i>Bandeira da Misericordia</i></h2>
-</div>
-
-
-<p>D'antes, por um privilegio, fundado, decerto,
-n'um principio caritativo, as irmandades
-da Misericordia eram obrigadas&mdash;e no Estatuto
-d'algumas se acha consignada esta obrigação&mdash;a
-acompanhar com a respectiva bandeira, os
-condemnados a pena ultima, desde o carcere ao
-local do supplicio.</p>
-
-<p>Alli, tanto que a victima era executada cobria-a
-immediatamente essa bandeira, o que equi<span class="pagenum"><a id="Page_149">[149]</a></span>valia
-a tomar a Misericordia conta do cadaver, a
-fim de prevenir ou evitar profanações no corpo,
-por parte dos populares, arrastados, muitas vezes,
-a scenas bem pouco edificantes, pela excitação
-de odios e de paixões violentas e desordenadas.</p>
-
-<p>Quando acontecia que a corda se quebrava&mdash;no
-supplicio da forca&mdash;e o paciente cahia com
-vida, desde que a bandeira o cobrisse, estava
-salvo.</p>
-
-<p>Nas ultimas execuções d'este genero, realisadas
-em Vizeu, no largo de Santa Christina, no
-tempo das luctas do absolutismo, aconteceu que
-um dos pacientes, graças a um convenio com o
-carrasco, cahiu com vida e foi coberto com a
-bandeira da Misericordia.</p>
-
-<p>Uma mulher, porém, que ainda morreu ha
-poucos mezes, e que tinha a triste e original
-mania de assistir a todos os actos lugubres e a
-todas as scenas mais contristadoras, por um assomo
-de curiosidade feminina foi levantar uma
-ponta da bandeira. O desgraçado, que se fingia
-morto, imaginando que era algum dos que conhecia
-o convenio para a sua salvação, abriu os
-olhos, e tanto bastou para que a original mulher
-começasse a gritar que elle estava ainda vivo.</p>
-
-<p>A populaça desenfreada cahiu sobre o infeliz
-e cevou as suas iras.</p>
-
-<p>D'esta vez a bandeira não valeu.</p>
-
-<p>&mdash;Do privilegio d'esse estandarte nasceu a
-locução de&mdash;<i>bandeira da Misericordia</i>,&mdash;d'um<span class="pagenum"><a id="Page_150">[150]</a></span>
-grandissimo emprego, sobretudo, na conversação
-familiar, servindo para designar toda a intervenção
-caritativa para a suspensão ou allivio d'uma
-pena ou d'um castigo.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>A critica poderá encontrar motivo para exercer-se,
-no delineamento e execução d'esta despretenciosa
-obra, mas a benevolencia será a <i>bandeira
-da Misericordia</i>, que ha-de abrandar a
-dureza das apreciações.</p>
-
-<div class="figcenter">
-<img src="images/image150.png" width="200" height="112" alt="" />
-</div>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<span class="pagenum"><a id="Page_151">[151]</a></span>
-<h2 class="nobreak" id="INDICE">INDICE</h2>
-</div>
-
-
-<table summary="">
-<tr>
-<th>&nbsp;</th><th>&nbsp;</th><th class="pag">PAG.</th>
-</tr><tr>
-<td class="num"><small>DO AUCTOR</small></td><td class="tit">&nbsp;</td><td class="pag"><a href="#Page_7">7</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">I&mdash;</td><td class="tit">Amanhã os negocios sérios</td><td class="pag"><a href="#Page_9">9</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">II&mdash;</td><td class="tit">Alexandre</td><td class="pag"><a href="#Page_11">11</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">III&mdash;</td><td class="tit">Audacia, ainda audacia e sempre audacia</td><td class="pag"><a href="#Page_19">19</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">IV&mdash;</td><td class="tit">Delicias de Capua</td><td class="pag"><a href="#Page_21">21</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">V&mdash;</td><td class="tit">Disse eu alguma tolice?</td><td class="pag"><a href="#Page_23">23</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">VI&mdash;</td><td class="tit">Arca de Noé</td><td class="pag"><a href="#Page_24">24</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">VII&mdash;</td><td class="tit">Queimar não é responder</td><td class="pag"><a href="#Page_25">25</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">VIII&mdash;</td><td class="tit">Caim, que fizeste de teu irmão?</td><td class="pag"><a href="#Page_26">26</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">IX&mdash;</td><td class="tit">Do Capitolio á rocha Tarpeia só ha um passo</td><td class="pag"><a href="#Page_27">27</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">X&mdash;</td><td class="tit">Catão</td><td class="pag"><a href="#Page_29">29</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XI&mdash;</td><td class="tit">Cezar</td><td class="pag"><a href="#Page_30">30</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XII&mdash;</td><td class="tit">Estava escripto</td><td class="pag"><a href="#Page_40">40</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XIII&mdash;</td><td class="tit">Conhece-te a ti proprio</td><td class="pag"><a href="#Page_41">41</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XIV&mdash;</td><td class="tit">As joias de Cornelia</td><td class="pag"><a href="#Page_42">42</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XV&mdash;</td><td class="tit">Cresus</td><td class="pag"><a href="#Page_43">43</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XVI&mdash;</td><td class="tit">Dôr, tu não és um mal</td><td class="pag"><a href="#Page_44">44</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XVII&mdash;</td><td class="tit">Egéria</td><td class="pag"><a href="#Page_46">46</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num"><span class="pagenum"><a id="Page_152">[152]</a></span>XVIII&mdash;</td><td class="tit">Mais uma victoria como esta e estamos perdidos</td><td class="pag"><a href="#Page_47">47</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XIX&mdash;</td><td class="tit">Espada de Damocles</td><td class="pag"><a href="#Page_49">49</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XX&mdash;</td><td class="tit">O prato de lentilhas</td><td class="pag"><a href="#Page_51">51</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XXI&mdash;</td><td class="tit">E eu tambem sou pintor!</td><td class="pag"><a href="#Page_52">52</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XXII&mdash;</td><td class="tit">Estrella dos Reis Magos</td><td class="pag"><a href="#Page_53">53</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XXIII&mdash;</td><td class="tit">E, comtudo, ella gira!</td><td class="pag"><a href="#Page_54">54</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XXIV&mdash;</td><td class="tit">Virtude, não és mais que um nome</td><td class="pag"><a href="#Page_56">56</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XXV&mdash;</td><td class="tit">Festim de Balthazar</td><td class="pag"><a href="#Page_57">57</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XXVI&mdash;</td><td class="tit">Forcas caudinas</td><td class="pag"><a href="#Page_59">59</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XXVII&mdash;</td><td class="tit">Irmão é preciso morrer</td><td class="pag"><a href="#Page_61">61</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XXVIII&mdash;</td><td class="tit">Cahir com graça</td><td class="pag"><a href="#Page_62">62</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XXIX&mdash;</td><td class="tit">Hippocrates diz sim, Galiano diz não</td><td class="pag"><a href="#Page_63">63</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XXX&mdash;</td><td class="tit">É muito tarde</td><td class="pag"><a href="#Page_64">64</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XXXI&mdash;</td><td class="tit">Não ha grande homem para o seu creado de quarto</td><td class="pag"><a href="#Page_66">66</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XXXII&mdash;</td><td class="tit">Cantam, elles pagarão</td><td class="pag"><a href="#Page_67">67</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XXXIII&mdash;</td><td class="tit">Perdi o meu dia</td><td class="pag"><a href="#Page_68">68</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XXXIV&mdash;</td><td class="tit">Amo Platão, mas amo mais a verdade</td><td class="pag"><a href="#Page_69">69</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XXXV&mdash;</td><td class="tit">Achei!&mdash;Eureka!</td><td class="pag"><a href="#Page_70">70</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XXXVI&mdash;</td><td class="tit">Eu desejaria não saber escrever</td><td class="pag"><a href="#Page_72">72</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XXXVII&mdash;</td><td class="tit">Linguas d'Esopo</td><td class="pag"><a href="#Page_73">73</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XXXVIII&mdash;</td><td class="tit">Lanterna de Diogenes</td><td class="pag"><a href="#Page_75">75</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XXXIX&mdash;</td><td class="tit">O mestre o disse</td><td class="pag"><a href="#Page_76">76</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XL&mdash;</td><td class="tit">O rei é morto, vive o rei!</td><td class="pag"><a href="#Page_77">77</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XLI&mdash;</td><td class="tit">O estado sou eu!</td><td class="pag"><a href="#Page_78">78</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XLII&mdash;</td><td class="tit">Alavanca d'Archimedes</td><td class="pag"><a href="#Page_79">79</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XLIII&mdash;</td><td class="tit">Magdalena</td><td class="pag"><a href="#Page_80">80</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XLIV&mdash;</td><td class="tit">Casa de Socrates</td><td class="pag"><a href="#Page_81">81</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XLV&mdash;</td><td class="tit">Desgraça aos vencidos!</td><td class="pag"><a href="#Page_83">83</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XLVI&mdash;</td><td class="tit">Manto de Joseph</td><td class="pag"><a href="#Page_84">84</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XLVII&mdash;</td><td class="tit">Mario sobre as ruinas de Carthago</td><td class="pag"><a href="#Page_85">85</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XLVIII&mdash;</td><td class="tit">Subir ao Capitolio</td><td class="pag"><a href="#Page_86">86</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">XLIX&mdash;</td><td class="tit">Onde não ha el-rei o perde</td><td class="pag"><a href="#Page_88">88</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">L&mdash;</td><td class="tit">Onde se vae aninhar a virtude?</td><td class="pag"><a href="#Page_89">89</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num"><span class="pagenum"><a id="Page_153">[153]</a></span>LI&mdash;</td><td class="tit">Perdoae-lhes, meu Pae, não sabem o que fazem</td><td class="pag"><a href="#Page_90">90</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LII&mdash;</td><td class="tit">Lavar as mãos como Pilatos</td><td class="pag"><a href="#Page_91">91</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LIII&mdash;</td><td class="tit">O que não peccou, atire a primeira pedra</td><td class="pag"><a href="#Page_93">93</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LIV&mdash;</td><td class="tit">Tres linhas escriptas e eu farei enforcar quem as escreveu</td><td class="pag"><a href="#Page_94">94</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LV&mdash;</td><td class="tit">Quem te fez conde? Quem te fez rei?</td><td class="pag"><a href="#Page_96">96</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LVI&mdash;</td><td class="tit">A Cezar o que é de Cezar a Deus o que é de Deus</td><td class="pag"><a href="#Page_97">97</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LVII&mdash;</td><td class="tit">Salto de Leucade</td><td class="pag"><a href="#Page_99">99</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LVIII&mdash;</td><td class="tit">Se é possivel, está feito; se é impossivel se fará</td><td class="pag"><a href="#Page_100">100</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LIX&mdash;</td><td class="tit">Terra promettida</td><td class="pag"><a href="#Page_102">102</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LX&mdash;</td><td class="tit">Thebaida</td><td class="pag"><a href="#Page_103">103</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LXI&mdash;</td><td class="tit">Desça o panno acabou a comedia!</td><td class="pag"><a href="#Page_105">105</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LXII&mdash;</td><td class="tit">Tudo é perdido, menos a honra</td><td class="pag"><a href="#Page_106">106</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LXIII&mdash;</td><td class="tit">Trombetas de Jericó</td><td class="pag"><a href="#Page_108">108</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LXIV&mdash;</td><td class="tit">A tunica de Christo</td><td class="pag"><a href="#Page_109">109</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LXV&mdash;</td><td class="tit">Um imperador deve morrer em pé</td><td class="pag"><a href="#Page_110">110</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LXVI&mdash;</td><td class="tit">Vendilhões expulsos do templo</td><td class="pag"><a href="#Page_111">111</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LXVII&mdash;</td><td class="tit">Gritar no deserto</td><td class="pag"><a href="#Page_112">112</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LXVIII&mdash;</td><td class="tit">Zoilo</td><td class="pag"><a href="#Page_113">113</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LXIX&mdash;</td><td class="tit">Aspasia</td><td class="pag"><a href="#Page_114">114</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LXX&mdash;</td><td class="tit">Babylonia</td><td class="pag"><a href="#Page_116">116</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LXXI&mdash;</td><td class="tit">Incendiar os seus navios</td><td class="pag"><a href="#Page_117">117</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LXXII&mdash;</td><td class="tit">Os ultimos romanos</td><td class="pag"><a href="#Page_119">119</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LXXIII&mdash;</td><td class="tit">Faça cabelleiras, mestre André</td><td class="pag"><a href="#Page_120">120</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LXXIV&mdash;</td><td class="tit">Fé do carvoeiro</td><td class="pag"><a href="#Page_122">122</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LXXV&mdash;</td><td class="tit">Ha juizes em Berlim</td><td class="pag"><a href="#Page_123">123</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LXXVI&mdash;</td><td class="tit">Judas&mdash;Beijo de Judas</td><td class="pag"><a href="#Page_126">126</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LXXVII&mdash;</td><td class="tit">Pragas do Egypto</td><td class="pag"><a href="#Page_127">127</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LXXVIII&mdash;</td><td class="tit">Não toqueis na rainha</td><td class="pag"><a href="#Page_128">128</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LXXIX&mdash;</td><td class="tit">O ovo de Colombo</td><td class="pag"><a href="#Page_130">130</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LXXX&mdash;</td><td class="tit">Waterloo</td><td class="pag"><a href="#Page_133">133</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num"><span class="pagenum"><a id="Page_154">[154]</a></span>LXXXI&mdash;</td><td class="tit">Templo de Jano</td><td class="pag"><a href="#Page_136">136</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LXXXII&mdash;</td><td class="tit">Estatua de Nabuchodonosor</td><td class="pag"><a href="#Page_137">137</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LXXXIII&mdash;</td><td class="tit">Sepulchros do Evangelho</td><td class="pag"><a href="#Page_139">139</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LXXXIV&mdash;</td><td class="tit">Isso que prova?</td><td class="pag"><a href="#Page_141">141</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LXXXV&mdash;</td><td class="tit">Manná</td><td class="pag"><a href="#Page_142">142</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LXXXVI&mdash;</td><td class="tit">Annel de Gyges</td><td class="pag"><a href="#Page_144">144</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LXXXVII&mdash;</td><td class="tit">Honni soit qui mal y pense</td><td class="pag"><a href="#Page_146">146</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LXXXVIII&mdash;</td><td class="tit">Mal com el-rei pelos homens e mal com os homens por el-rei</td><td class="pag"><a href="#Page_147">147</a></td>
-</tr><tr>
-<td class="num">LXXXIX&mdash;</td><td class="tit">Bandeira da Misericordia</td><td class="pag"><a href="#Page_148">148</a></td>
-</tr>
-</table>
-
-<div class="figcenter">
-<img src="images/image154.png" width="147" height="151" alt="" />
-</div>
-
-<div class="chapter">
-<p class="u p2"><big><b>Biblioteca do Lar</b></big></p>
-</div>
-<p class="bibaut">Henry Ardel</p>
-<p class="bibboo">Um conto azul</p>
-<p class="bibboo">Caminho em declive</p>
-<p class="bibboo">Fogo mal extinto</p>
-<p class="bibboo">É preciso casar o João!</p>
-<p class="bibboo">A alvorada</p>
-<p class="bibboo">Uma aventura imprudente</p>
-<p class="bibboo">A divina canção</p>
-<p class="bibboo">A noite desce</p>
-<p class="bibboo">Eva e a serpente</p>
-<p class="bibaut">B. Jeanroy</p>
-<p class="bibboo">Dois corações</p>
-<p class="bibaut">M. La Bruyére</p>
-<p class="bibboo">Flor de Lis</p>
-<p class="bibaut">M. Damad</p>
-<p class="bibboo">A enteada</p>
-<p class="bibaut">Jean Thiéry</p>
-<p class="bibboo">O canto do cuco</p>
-<p class="bibboo">O romance dum solteirão</p>
-<p class="bibboo">Corações magoados</p>
-<p class="bibboo">Vítimas</p>
-<p class="bibaut">António Zozaya</p>
-<p class="bibboo">As auroras</p>
-<p class="bibboo">Almas de mulheres</p>
-<p class="bibaut">Georges de Peyrebrune</p>
-<p class="bibboo">Dona Quixota</p>
-<p class="bibaut">Alberto Insúa</p>
-<p class="bibboo">Coração ludibriado</p>
-<p class="bibaut">Claude Saint-Jean</p>
-<p class="bibboo">O castelo dos noivos</p>
-<p class="bibaut">Palácio Valdés</p>
-<p class="bibboo">A alegria do capitão Ribot</p>
-<p class="bibaut">Jean Rameau</p>
-<p class="bibboo">Romance da Felicidade</p>
-<p class="bibaut">Pierre de Coulevain</p>
-<p class="bibboo">A ilha desconhecida</p>
-<p class="bibboo">No coração da vida</p>
-<p class="bibaut">Mary Floran</p>
-<p class="bibboo">Se êle soubera</p>
-<p class="bibaut">Eduardo Noronha</p>
-<p class="bibboo">As mulheres de Pernambuco</p>
-<p class="u"><b><big>Cada volume broch. 6$00&mdash;Enc. 10$00</big></b></p>
-
-<p class="u p2"><big><b>Colecção de Hoje</b></big></p>
-<p class="bibaut">Alberto Insúa</p>
-<p class="bibboo">O preto que tinha a alma branca</p>
-<p class="bibboo">A mulher que precisa de amor</p>
-<p class="bibboo">A mulher que esgotou o amor</p>
-<p class="bibboo">O inimigo do matrimónio</p>
-<p class="bibboo">O prazer do perigo</p>
-<p class="bibboo">Mulheres histéricas</p>
-<p class="bibboo">O amor em dois tempos</p>
-<p class="bibboo">O amante invisível</p>
-<p class="bibboo">Fumo, dor, prazer</p>
-<p class="bibboo">A mulher, o toureiro e o touro</p>
-<p class="bibboo">As flechas do amor</p>
-<p class="bibboo">A paixão impossivel</p>
-<p class="bibaut">Clément Vautél</p>
-<p class="bibboo">Minha mulher não quer filhos</p>
-<p class="bibboo">O amor à parisiense</p>
-<p class="bibboo">A reabertura do paraíso terrestre</p>
-<p class="bibboo">O senhor Mezigue</p>
-<p class="bibboo">Sua reverendíssima entre os ricos</p>
-<p class="bibboo">Sua reverendíssima entre os pobres</p>
-<p class="bibaut">Pierre Benoit</p>
-<p class="bibboo">O poço de Jacob</p>
-<p class="bibboo">A calçada dos gigantes</p>
-<p class="bibboo">Mademoiselle de la Ferté</p>
-<p class="bibboo">O lago salgado</p>
-<p class="bibaut">Palácio Valdés</p>
-<p class="bibboo">Os majos de Cádiz</p>
-<p class="bibboo">Marta e Maria</p>
-<p class="bibboo">Riverita</p>
-<p class="bibboo">Maximina</p>
-<p class="bibboo">A Irmã S. Sulpício</p>
-<p class="bibboo">A valenciana</p>
-<p class="bibaut">A. Hernandez Catá</p>
-<p class="bibboo">Os sete pecados</p>
-<p class="bibboo">O bebedor de lágrimas</p>
-<p class="bibaut">José Francés</p>
-<p class="bibboo">O filho da noite</p>
-<p class="bibboo">A mulher de ninguém</p>
-<p class="bibaut">Fernandez Florez</p>
-<p class="bibboo">As sete colunas</p>
-<p class="bibboo">O segredo do Barba Azul</p>
-<p class="bibaut">Pedro Mata</p>
-<p class="bibboo">Um grito na noite</p>
-<p class="bibboo">Corações sem rumo</p>
-<p class="bibaut">Alfio Berreta</p>
-<p class="bibboo">A morte do sonho</p>
-<p class="bibaut">Tomás Borrás</p>
-<p class="bibboo">A mulher de sal</p>
-<p class="bibboo">A parede de teia de aranha</p>
-<p class="u"><b><big>Cada volume broch. 6$00&mdash;Enc. 10$00</big></b></p>
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-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIA PITORESCA ***
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-and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
-
-
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
-Foundation
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