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You may copy it, give it away or -re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included -with this eBook or online at www.gutenberg.org/license - - -Title: Historia Pitoresca - Palavras e frases celebres - -Author: Alfredo Campos - -Release Date: September 19, 2020 [EBook #63235] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIA PITORESCA *** - - - - -Produced by Júlio Reis, Fernanda Brojo and the Online -Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net - - - - - - - - - - HISTORIA PITORESCA - - PALAVRAS E FRASES CELEBRES - - - POR - ALFREDO CAMPOS - - - - - [Figura: - HISTORIA PITTORESCA - PALAVRAS E PHRASES CELEBRES - ] - - - - -OBRAS DO AUCTOR - - - Luz e sombras, original . . . . . . . . . 400 réis - - Um como ha muitos, original . . . . . . . 50 réis - - Um livro intimo, original . . . . . . . . 200 réis - - A felicidade pela familia, original . . . . . 100 réis - - O trabalho, original . . . . . . . . . 100 réis - - Nunca mais! original . . . . . . . . . . 400 réis - - A Filha do cabinda, original . . . . . . . 500 réis - - A cruz de brilhantes, original . . . . . . . 500 réis - - A jurity, original . . . . . . . . . . 500 réis - - Alma minha gentil, original . . . . . . . . 300 réis - - Historia pittoresca--Palavras e phrases celebres, - original . . . . . . . . . . . . 500 réis - - Deveres do homem, original . . . . . . . 50 réis - - Magdalena, traducção . . . . . . . . . 500 réis - - Fior d'Aliza, traducção . . . . . . . . . 400 réis - - A mulher forte, traducção . . . . . . . . 600 réis - - -OBRAS ELEMENTARES - - Noções de moral e religião, approvada . . . . 160 réis - - Principios elementares de chorographia, approvada 200 réis - - Grammatica franceza resumida, approvada . . . 500 réis - - -NO PRÉLO - - A missão da mulher, 1 vol. - - Vida de Camões, 1 vol. - - - - - _Alfredo Campos_ - - - HISTORIA PITTORESCA - - - PALAVRAS E PHRASES CELEBRES - - - - - PORTO - - Livraria Portuense - --DE-- - LOPES & C.ª--EDITORES - - _123--Rua do Almada--123_ - - 1889 - - - - - =IMPRENSA CIVILISAÇÃO= - - 73--LARGO DA POCINHA--77 - - --PORTO-- - - - - _Ao Ill.ᵐᵒ e Ex.ᵐᵒ Sr._ - - MANOEL JOSÉ DA CONCEIÇÃO ROCHA - - TRIBUTO DE RESPEITO, - CONSIDERAÇÃO, GRATIDÃO E ESTIMA - - Offerece - - _Alfredo Campos._ - - - - -DO AUCTOR - - -_O PRESENTE livro--PALAVRAS E PHRASES CELEBRES--, é como que uma -CORBEILLE aonde estão reunidos, explicados, e, por vezes commentados, -muitos factos, muitas palavras, phrases e circumstancias curiosas e -originaes, que se empregam e se encontram, a cada momento, já n'alguma -obra escripta, já no meio da conversação_. - -_Pareceu-nos que não seria desgracioso enfeixar todas essas flores n'um -como que estudo de Historia Pittoresca, sem a aridez da Historia -propriamente dita, e com o proporcionamento do interesse, da amenidade -e do attractivo do romance._ - -_As PALAVRAS E PHRASES CELEBRES são isto apenas_. - -_O livro estava feito, e todo o trabalho consistiu, quasi, em -procurarmos e reunirmos em volume as paginas que andavam dispersas, aqui -e alli, um pouco por toda a parte._ - -_Tem merecimento? Outros o dirão._ - -_Em todo o caso póde servir para entretenimento de um serão, para -desenfado n'uma hora de descanço, para suavisar um momento de tedio, com -a vantagem de que allia o util, que é a historia, ao agradavel, que é o -pittoresco._ - -_De resto, parece-nos livro para toda a gente, porque crêmos que não -perverte, não corrompe, não immoralisa._ - -_Visou, pelo menos, a esse fim, e só desejamos que o attinja._ - -_Se attingir, tanto melhor para os que nos honrarem lendo-o, e tanto -melhor para nós, sobretudo, porque lograremos a gloria que aspiramos -para o nosso modesto trabalho._ - - -[Figura] - - - - - PALAVRAS - E - PHRASES CELEBRES - - - - -I - -_Amanhã os negocios sérios_ - - -Sparta tinha-se apoderado da cidadella de Thebas por traição, e -impozera aos thebanos, como governador, o tyranno Archias. Este banira -da cidade os principaes cidadãos, entre os quaes Pelopidas. Refugiados -estes em Athenas, resolveram libertar a patria e concertaram-se com um -dos seus compatriotas, inimigo secreto do tyranno, que lhes offereceu -recebel-os em sua casa. No dia marcado para a execução da conspiração, -os conjurados penetraram em Thebas, graças a um disfarce. N'esse mesmo -dia, Archias foi convidado para ceiar em casa d'um rico cidadão thebano, -que, egualmente, fazia parte dos conspiradores. Tudo estava prompto, e -os conjurados esperavam apenas uma hora mais avançada, para a execução -do seu projecto, quando um correio, enviado d'Athenas, veio trazer a -Archias uma carta, contendo todas as particularidades da conspiração. -Admittido junto ao tyranno, entregou-lhe a missiva, convidando-o a lêr -sem demora, porque se tratava de _negocios sérios_. Archias, dominado já -pela embriaguez, poz indolentemente a carta sob a sua almofada, -exclamando: - ---«Amanhã os negocios sérios!» - -Alguns instantes depois, Pelopidas e os outros conjurados, invadiram a -salla do festim e massacraram o tyranno. - -Este acontecimento, que produziu a liberdade da Beocia, obteve uma -grande celebridade na Grecia, e a phrase--_amanhã os negocios -sérios_--tornou-se um proverbio que os descuidados e os amigos da -alegria pretendem tomar por divisa, e que melhor fôra tomassem como -lição. - - - - -II - -_Alexandre_ - - -Alexandre, filho de Philippe, rei da Macedonia, foi um dos maiores -capitães da antiguidade. Desde a mais tenra edade que foi sempre animado -d'uma nobre ambição. Quando lhe perguntavam se concorria aos jogos -olympicos, respondia: - ---«Iria, se tivesse a certeza de encontrar reis como rivaes!» - -Chorava de cólera, vendo os successos multiplicados de Philippe, -lamentando-se, d'este modo: - ---«Meu pai nada nos deixará que fazer!» - -Alexandre ficou em todas as linguas como o typo do _heroe_ e do -_conquistador_. As differentes circumstancias da vida de Alexandre, que -originaram locuções proverbiaes são as seguintes e por ordem -chronologica: - - -_1.º--Se eu não fosse Alexandre, desejaria ser Diogenes._ - -Alexandre acabava de ser nomeado generalissimo dos gregos, e achava-se -em Corintho, aonde os principaes cidadãos se apressavam em dirigir-lhe -as suas felicitações. Admirado de não receber a visita de Diogenes, foi -elle proprio procurar o celebre cynico, cuja conversação facil e picante -o encheu de assombro. Alexandre tendo perguntado ao philosopho se -desejava alguma coisa, elle respondeu: - ---«Tira-te do meu sol.» - -Foi então que o grande conquistador, assombrado com tanto desinteresse, -exclamou: - ---«Se eu não fosse Alexandre, desejaria ser Diogenes.» - - -_2.º--Meu filho, nada póde resistir-te._ - -Antes de partir para a expedição que projectava na Asia, Alexandre quiz -consultar o oraculo de Delphos. Como a pythia recusasse subir ao tripé, -o moço heroe arrastou-a violentamente. Ella exclamou então: - ---«Ah!, meu filho, nada te póde resistir.» - ---«Esse oraculo me basta--respondeu Alexandre--não quero outro.» - - -_3.º--Reserva da Esperança._ - -Na primavera do anno 334, Alexandre, tendo apenas vinte e dois annos -d'edade, dispunha-se a invadir a Asia, á frente d'um exercito de trinta -mil infantes e cinco mil cavallos. Como se já estivesse de posse dos -thesouros do grande rei, distribuiu aos amigos tudo quanto tinha. -Perdiccas perguntou-lhe então: - ---«Que reservaes para vós?» - ---«A _Esperança_»--respondeu Alexandre. - - -_4.º--Nó gordio._ - -Gordio, simples lavrador phrygio, tornou-se rei, por ter cumprido um -oraculo, que promettia a corôa ao que primeiro entrasse, n'um -determinado dia, na capital. Midas, seu filho, consagrou, no templo de -Jupiter o carro sobre o qual seu pai fôra transportado. O nó que ligava -o jugo ao timão estava tão artisticamente dado, que não se lhe -descobriam as pontas. Chamavam-no o _nó gordio_ ou de Gordio, e um -antigo oraculo promettia o imperio da Asia a quem conseguisse desatal-o. - -Alexandre, tendo-se apoderado da cidade, resolveu cumprir o oraculo e -actuar fortemente sobre a imaginação dos seus soldados. Depois de varias -tentativas infructiferas, desembainhou a espada e cortou o nó -mysterioso, illudindo mais, que realisando, d'este modo, o oraculo. - - -_5.º--O medico de Alexandre._ - -Pouco tempo depois da passagem do Granico, Alexandre, tendo-se banhado, -a suar, nas aguas geladas do Cydnus, foi subitamente atacado d'um -tremor mortal, e os soldados levaram-n'o, sem movimento, para a tenda. -Todo o exercito se consternou, porque o seu estado parecia desesperado. -Ao mesmo tempo, Dario avançava com forças immensas para lhe barrar as -sahidas do Taurus. Os medicos não ousavam experimentar remedio algum; um -só, Philippe, Acarniano de nação, e amigo d'infancia d'Alexandre, compoz -uma poção, cujo effeito poderoso e salutar devia ser immediato. Durante -estes preparativos, Alexandre recebeu uma carta de Parmenion, que o -advertia de que desconfiasse de Philippe, secretamente comprado por -Dario, para attentar contra os dias de seu monarcha. O heroe tinha ainda -a carta nas mãos, quando o medico lhe levou a poção. Alexandre, sem -manifestar a menor emoção, tomou a taça com uma das mãos, apresentou com -a outra a carta a Philippe, e bebeu tudo d'uma só vez. O medico -indignado, mas dominando as suas impressões, exhortou o rei a seguir -fielmente as suas prescripções: a cura estava n'aquelle premio. Em -verdade, apoz uma crise terrivel que gelou d'espanto todo o exercito, e -de que um só homem não sabia a sahida, o doente melhorou e -restabeleceu-se. - -O que ha de admiravel n'este traço da vida de Alexandre é a sua profunda -fé na amizade. - -_6.º--Este tambem é Alexandre_ - -Ephestion é menos citado na Historia pela parte que tomou nas conquistas -d'Alexandre, que pela grande amizade que o unira áquelle heroe. Os dois -amigos tinham sido educados juntos, e só a morte os separou. Depois da -sangrenta batalha d'Issus, em que a mãe, a mulher e as duas filhas de -Dario, cahiram em poder do vencedor, Alexandre, acompanhado d'Ephestion, -foi visitar, á sua tenda, as infelizes princezas. Sysigambis, mãe de -Dario, dirigiu a saudação a Ephestion, que tomou por Alexandre, pela -superioridade da estatura e esplendor do traje. Advertida do engano, -lançou-se aos pés do heroe, que a levantou bondosamente, dizendo-lhe: - ---«Não vos enganasteis, aquelle tambem é Alexandre.» - - -_7.º--E eu tambem, se fosse Parmenion_ - -Depois da batalha d'Issus, que fizera cahir nas mãos d'Alexandre toda a -familia de Dario, e alguns dias antes da batalha d'Arbelles, o grande -rei fez offerecer ao vencedor dez mil talentos--cincoenta e quatro -milhões--a cedencia de toda a Asia até ao Euphrates, e uma das suas -filhas em casamento. Alexandre tendo communicado estas brilhantes -propostas aos seus generaes, Parmenion exclamou: - ---«Eu acceitaria, se fosse Alexandre.» - ---«E eu tambem, se fosse Parmenion!»--respondeu Alexandre. - -E recusou. - - -_8.º--Ó athenienses! quanto custa ser louvado por vós!_ - -Alexandre tinha, do fundo da Asia, os olhos fixos na Grecia, e, -sobretudo, em Athenas. Apesar do abaixamento em que esta cidade havia -cahido, ficára sempre capital do mundo civilisado, pelas obras primas -dos seus artistas, pelos immortaes discursos dos seus oradores e pela -eloquente verdade dos seus historiadores, e Alexandre, tão apaixonado -pela gloria, aspirava, acima de tudo, aos applausos d'esses athenienses -frivolos, mas que egualmente distribuiam pela posteridade, a censura -como o louvor. O conquistador acabava de penetrar nas vastas regiões da -India, e preparava-se para atravessar o Hydaspe, de que Porus, á frente -d'um formidavel exercito, ia disputar-lhe a passagem. O rio era largo e -profundo, e as suas vagas quebrando estrepitosamente, deixavam a -descoberto, aqui e alli, rochedos ameaçadores. Alexandre illude a -attenção dos inimigos por um falso ataque, e aproveitando-se d'uma -tempestade que lhe encobre os movimentos, affronta perigos inauditos -para transpor o rio. Confessou depois que tinha, emfim, encontrado alli -um perigo digno da sua coragem, e foi n'esta circumstancia, diz Racine, -no prefacio da sua tragedia _Alexandre_, que o heroe exclamou: - ---«Ó athenienses! quanto custa ser louvado por vós!» - - -_9.º--Ao mais digno._ - -Estava conquistada a Asia; _a terra_, segundo a bella expressão da -Escriptura, _tinha-se callado deante de Alexandre_; elle fizera a sua -entrada na Babylonia, «não como um conquistador, mas como um deus» e o -papel brilhante e terrivel que representára estava a terminar. Os -festins e os desvarios de toda a especie tinham succedido ás batalhas. -No meio d'uma ultima orgia, o conquistador foi atacado d'uma febre, que -o levou em poucos dias. Só deixava herdeiros em curta idade, ou -incapazes. Conta-se que, no leito da morte, perguntando-lhe os generaes -a quem legava o imperio, elle respondera: - ---«Ao mais digno!» - -E expirou «cheio das tristes imagens da confusão que devia seguir-se á -sua morte.» - -_10.º--Os funeraes d'Alexandre._ - -«Alexandre--diz Bossuet--deixava, morrendo, capitães a quem tinha -ensinado a respirar sómente ambição e guerra. Previu a que excessos se -dariam, quando expirasse, e para os conter, e com receio de ser -desrespeitado, não ousou nomear nem successor, nem tutor para seus -filhos. Predisse sómente que os seus amigos _celebrariam os seus -funeraes com sanguinolentas batalhas_.» - - -_11.º--Desmembramento do imperio d'Alexandre._ - -Apenas Alexandre exhalou o ultimo suspiro, os generaes reuniram-se para -dividirem a sua immensa herança. Perdiccas, a quem Alexandre moribundo -deixára o seu annel, fez-se nomear regente; e os outros generaes -distribuiram entre si as provincias. Lysimaco teve a Thracia, Antipater -a Macedonia e a Grecia, Ptolomeu o Egypto, Antigono e Cassandro -repartiram a Asia Menor. Vinte annos depois encontravam-se nas planicies -da Phrygia, e a batalha de Ipsus era o ultimo acto d'essa sangrenta -tragedia. - - - - -III - -_Audacia, ainda audacia e sempre audacia_ - - -Danton, um dos vultos mais notaveis da revolução franceza, nascera para -tribuno popular. Alto, forte, face de _bull-dog_, muito picado das -bexigas, a expressão do olhar cheia d'audacia, alma em harmonia com a -estatura, com o ardor dos olhos, o rosto terrivel, a voz sonora, não -podia ser senão o que foi, um revolucionario enthusiasta, arrastando o -povo, já pela sua palavra como pelos seus actos, já pela sua elocução -muito cheia de figuras gigantescas, d'apostrophes inflammadas, -assombrando mesmo os que não seduzia. «Mirabeau serviu-se d'elle--diz um -escriptor contemporaneo--como de um folle de forja, para accender o -povo.» Apoz a fuga de Varennes, Danton provocou atrevidamente a queda do -rei, fez-se eleger substituto do procurador da communa, preparou a -revolução de 10 d'Agosto e entrou no ministerio da justiça. - -Esse famoso dia levantou toda a Europa contra a França revolucionaria. -Brunswick, acaba de lançar o seu insolente manifesto; os exercitos -francezes tinham experimentado revezes na Lorena; Longwy estava tomado, -Verdun cercado, e o alarme reinava em Pariz. Para reanimar as coragens, -Danton resolveu vibrar um grande golpe. Era no 1.º de Setembro. No dia -seguinte, 2, em quanto o sino tocava a rebate e o estampido do canhão se -fazia ouvir, elle correu á Assembleia legislativa, e, n'um discurso -rapido, fez ouvir estas terriveis palavras aos deputados, trémulos nas -suas cadeiras: «É n'este momento, senhores, que podem decretar que a -capital bem mereceu da França inteira. O canhão que se ouve não é o -canhão do alarme, é o passo de carga sobre os nossos inimigos!... Para -os vencermos, para os anniquilarmos, que é preciso? _Audacia, ainda -audacia e sempre audacia!_» - -Algumas horas depois os massacres de Setembro espantavam Pariz. - -Se Danton não organisou, como é accusado, aquellas horrorosas -carnificinas, está averiguado que nada fez para as prevenir e reprimir, -e talvez que elle visse n'ellas uma execução terrivel, mas necessaria. - -N'esta repetição energica, hoje proverbial, Danton fôra precedido pelo -velho marechal de Trioulce. Quando se perguntava a este o que era -necessario para bem fazer a guerra, respondia: - ---«Tres coisas: dinheiro, ainda dinheiro e sempre dinheiro!» - -Demosthenes tambem já dissera na antiguidade, que tres coisas fazem o -orador:--«primeiro, a acção; segundo, a acção; e terceiro, a acção.» - - - - -IV - -_Delicias de Capua_ - - -A antiga Capua, capital da Campania, era uma das mais formosas cidades -da Italia. Construida no centro de magnificas planicies, ensombradas -pelo pinheiro, pelo platano, pelo myrto e a oliveira, circundada de -imensos passeios orlados das mais perfumosas plantas, das mais -brilhantes e suaves flores, Capua offerecia a mais adoravel residencia -de toda a Italia. - -Foi lá que Annibal, depois da batalha de Cannes, e quando já tocava o -extremo da sua audaciosa empreza, foi assentar os seus quarteis -d'inverno, á frente do seu exercito vitorioso. Os historiadores antigos -attribuem á permanencia de Annibal no seio das delicias de Capua, a -causa unica da salvação de Roma. Assim, o seu exercito ter-se-ia -amollecido e ter-se-hia corrompido alli pelos famosos vinhos e pelos -gosos faceis. - -No entretanto, se considerarmos que o capitão carthaginez e os seus -temiveis bandos guerrearam ainda, durante treze annos, na Italia, de que -só foram arrancados pela habil diversão de Scipião na Africa, as -_delicias de Capua_ não passam de uma amplificação de rhetorico. - -Segundo a opinião de historiadores modernos e homens de guerra dos mais -celebres, um exercito de soldados feitos e experimentados não se perde -n'um quartel de inverno. O que melhor explica a inutilidade dos exforços -do maior capitão d'antiguidade, e esta foi a opinião de Napoleão 1.º, -depois da batalha de Cannes, é o abandono a que entregou a patria, onde -dominava uma facção invejosa; além de que, rodeado de povos hostis e -alliados incertos, recrutando difficilmente o seu exercito, composto de -mercenarios de toda a especie, Annibal já não estava em estado de tentar -qualquer coisa grande e decisiva. Comtudo, não se sustenta menos contra -as melhores tropas e os mais habeis generais da republica, enchendo a -Italia com o terror do seu nome, e agitando o mundo com as suas -negociações, para levantar, em toda a parte, inimisades aos romanos. - -_As delicias de Capua_ ficaram em todas as linguas modernas para -designarem uma calmaria moral, temperada de divertimentos e prazeres, -em que as molas do corpo e do espirito se distendem e enfraquecem. - -O padre Lacordaire aprecia a phrase do modo seguinte: - -«A historia de todos os successos é a historia d'Annibal em Capua. -Esquece-se, embriaga-se, adormece-se; o lento veneno da molleza distende -todas as molas da actividade, e o ser que nada é senão pela actividade, -dissolve-se, pouco e pouco, na ignominia d'um somno cobarde.» - - - - -V - -_Disse eu alguma tolice?_ - - -As lições de Platão e de Xenocrato tinham desenvolvido em Phocion um -coração virtuoso e uma alma elevada. Na tribuna, como no campo de -batalha, elle lembrava Aristides. Nunca um orador foi mais inflexivel -nos seus conselhos, nem contou menos com o successo da sua perseverança. -A eloquencia de Phocion era a expressão natural do seu caracter e dos -seus costumes; elle fallava aos athenienses com a serenidade de um -philosopho e o laconismo d'um spartiaco. Sabe-se que Demosthenes o -chamava--_o machado dos seus discursos_. Superior aos applausos, tanto -como aos clamores da multidão, elle abalroava de frente a potencia -popular, e as suas virtudes impunham-se a todas as paixões. Tinha a -palavra austera, e a sua eloquencia vigorosa e concisa desdenhava dos -artificios oratorios, que agradam á multidão e fazem estrondear -applausos. Estando um dia na tribuna e vendo-se ruidosamente victoriado -por todo o povo, volveu-se admirado para os seus amigos e -perguntou-lhes: - ---«Disse eu alguma tolice?» - - - - -VI - -_Arca de Noé_ - - -Era um immenso navio que Deus, depois de haver resolvido punir os homens -pelo diluvio, ordenou a Noé construisse para ahi se refugiar. - -O Patriarcha empregou cem annos na construcção d'essa arca, que tinha -trezentos covados de comprimento, cincoenta de largo e trinta de altura, -e que continha, além de Noé e sua familia, dois casaes d'animaes -impuros, assim chamados os que não era permittido offerecer em -sacrificio, e sete casaes d'animaes puros. - -Por causa da quantidade de seres que esse navio encerrava, o nome de -_Arca de Noé_ passou a servir para designar a agglomeração de numerosos -e disparatados objectos. - - - - -VII - -_Queimar não é responder!_ - - -No principio do anno de 1794, estava em toda a sua violencia o regimen -do Terror, dirigido por Robespierre, no seio do _comité_ de salvação -publica. Os proprios _dantonistas_, tornaram-se, em vista d'isto, -_indulgentes_, moderados; e agora que a republica estava senhora do -campo de batalha, elles queriam fazel-a entrar no reino das leis, e no -caminho da justiça para todos. Danton era o chefe d'esta opposição nova, -e o joven e fogoso Camillo Desmoulins era a sua penna, e, no _Vieux -Cordelier_, farpeava o governo com censuras e sarcasmos. O jornal era -lido com avidez, e venderam-se, n'alguns dias, cincoenta mil exemplares. -Afinal, Camillo ousou promover um _comité de clemence_, como o unico -meio de pacificar os partidos e de acabar com a revolução. Não era isto -o que queria Robespierre, que, n'uma sessão dos jacobinos, onde o -impetuoso pamphletario tinha sido intimado a comparecer, propoz -perfidamente dar-lhe uma correcção paterna, _queimando_ os numeros do -jornal. - ---«Queimar não é responder!»--exclamou Desmoulins. - -Esta replica imprudente causou a sua perda. Robespierre não se conteve e -disse: - ---«Pois bem, não se queimem e responda-se; leiam immediatamente os -artigos de Camillo, visto que assim o quer, e que elle seja coberto -d'ignominia!» - -Alguns dias depois o intrepido moço subia ao cadafalso. - - - - -VIII - -_Caim, que fizeste de teu irmão?_ - - -Caim, filho primogenito de Adão e Eva, cioso de seu irmão Abel, cujas -offerendas eram mais agradaveis ao Senhor, propoz-lhe um dia um passeio -ao campo e matou-o. O sangue do justo subiu até Deus, e a voz do Eterno -fez-se ouvir: - ---«Caim, Caim, que fizeste de teu irmão?» - -Deus amaldiçoou o fratricida, expulsou-o da sua face, e marcou-o na -fronte com um signal de reprovação. - -_Caim_ é o nome que se dá ao irmão que maltrata o irmão, abjurando o -amor fraterno. - - - - -IX - -_Do Capitolio á rocha Tarpeia só ha um passo_ - - -A rocha Tarpeia, chamada assim, de Tarpeia, joven romana que alli foi -estrangulada e sepultada, depois do acto de traição que commetteu, -entregando a cidadella aos sabinos, era um rochedo situado no proprio -recinto de Roma. Os romanos que se prendiam em perpetuar as recordações, -deliberaram, depois do supplicio de Tarpeia, que se precipitassem do -alto d'essa colina os criminosos accusados de traição. D'aqui a -locução:--_Ser precipitado da rocha Tarpeia_--para exprimir, -figuradamente, a quéda rapida d'uma posição elevada, e, -particularmente, a perda d'uma grande popularidade. - -E como este logar era situado junto do Capitolio, em que se coroavam os -triumphadores, as palavras--_A rocha Tarpeia está perto do Capitolio_, -ou--_Do Capitolio á rocha Tarpeia só ha um passo_, significam que a -quéda segue, muitas vezes, de perto o triumpho, e que a ignominia, como -extremo, toca a gloria. - -Esta phrase está, sobretudo, em uso desde o eloquente emprego que d'ella -fez Mirabeau, n'uma circumstancia celebre: Tratava-se de saber se a -iniciativa da guerra devia ser devolvida ao rei ou á assembleia; -Mirabeau pronunciou-se pela assembleia, e como ouvisse a palavra -_traidor_ soar aos seus ouvidos, o fogoso orador subiu á tribuna, e -tomando para texto do seu exordio a instabilidade do favor popular, fez -ouvir essas palavras, que ficaram celebres:--«E eu tambem, a mim tambem -queriam, ha poucos dias, levar-me em triumpho; e gritam agora nas -ruas:--_A grande traição do conde de Mirabeau!_ ... Eu não precisava -d'esta lição para saber que _só ha um passo do Capitolio á rocha -Tarpeia!_ ...» - - - - -X - -_Catão_ - - -Marco Porcio Catão, é, sobretudo, celebre pela austeridade dos seus -costumes. Fez-se notar, desde o principio da sua vida publica, pela sua -eloquencia mordente e aggressiva e pela sua opposição apaixonada ás -ideias da Grecia, que começavam desde então a modificar o genio da Roma -Antiga. Tão duro comsigo, como para os seus escravos, levantava-se antes -da aurora, excitava os servos ao trabalho, punha-se nú como elles, para -lavrar, comia o seu pão negro e bebia da sua agua avinagrada. Elevado á -censura, pôde, emfim, trabalhar na realisação do seu sonho:--a -restauração da antiga simplicidade romana. Fez regulamentos sumptuarios, -contribuiu os objectos de luxo, os enfeites das mulheres, reprimiu as -delapidações, e mostrou uma inflexivel severidade de costumes, a ponto -de degradar um senador que tinha beijado a esposa em presença da filha. -Amava-se a sua palavra, honrava-se o seu caracter; o povo applaudia este -censor inexoravel que _mordia_ toda a gente. O sobrenome de _Censor_ -ficou-lhe, e erigiram-lhe uma estatua com esta inscripção:--_A Catão, -que corrigiu os costumes_. - -A sua presença inspirava um tal respeito aos romanos, que, quando elle -assistia ao espectaculo, o povo esperava que elle sahisse para pedir as -farças e as danças licenciosas. - ---Dizer que um homem é um _Catão_ é dizer que é severo e rigido no -cumprimento do seu dever e nos seus costumes. - - - - -XI - -_Cezar_ - - -Caio Julio Cezar, consul romano, dictador e um dos maiores capitães da -antiguidade, era sobrinho de Mario. Cresceu no meio das guerras civis e -foi proscripto aos desoito annos, por Sylla, que viu n'elle _varios -Marios_. A estatua d'Alexandre, o Grande, que elle viu, passando em -Cadiz, fez-lhe derramar lagrimas de despeito, por vêr que na idade em -que tinha morrido esse heroe, elle não tinha ainda realisado nada de -notavel. Tinha uma ambição e uma actividade devoradoras e--«julgava não -ter feito coisa alguma em quanto lhe restasse alguma coisa a fazer.» - -O seu nome, como o de Alexandre, ficou como synonymo de grande -guerreiro, de conquistador civilisador. - -Vamos apontar por ordem chronologica, as differentes circumstancias da -vida de Cezar, que originaram locuções proverbiaes. - - -_1.º--A mulher de Cezar nem mesmo deve ser suspeitada._ - -Clodio, joven patricio, ambicioso e desmoralisado, amava Pompeia, mulher -de Cezar. Uma noite, quando as mulheres celebravam os mysterios da -boa-deusa, interdictos aos homens, elle introduziu-se, disfarçado com -trajes femininos, nos aposentos de Pompeia. Mas foi surprehendido por -uma escrava, que não era confidente.--«No dia seguinte, diz Plutarco, -toda a cidade soube que Clodio commettera um sacrilegio horrivel.» - -Julgado, como profanador dos santos mysterios, corrompeu os juizes e foi -absolvido. Cezar contentára-se em repudiar sua mulher. Chamado, porém, -como testemunha, elle depoz que não tinha nenhum conhecimento dos factos -que se imputavam ao accusado. Este depoimento pareceu muito estranho e o -accusador perguntou-lhe porque havia então repudiado sua mulher. Elle -respondeu: - ---_É porque a mulher de Cezar nem mesmo deve ser suspeitada._ - - -_2.º--Gostaria mais de ser o primeiro n'uma aldeia, que o segundo em -Roma._ - -Todos os actos, todas as palavras de Cezar, antes do seu advento ao -poder, revelam o seu caracter e a natureza da sua ambição. Depois da sua -pretura, tendo-o a sorte designado para o governo da Hespanha ulterior, -elle partiu para a sua provincia. Quando atravessava uma pobre aldeia, -perdida no fundo dos Alpes, alguns dos seus amigos perguntaram-lhe, -gracejando, se a ambição do poder e o desejo das dignidades occasionavam -tambem debates n'essa miseravel terra. - ---«Não riam--respondeu o futuro dictador--_eu gostaria mais de ser o -primeiro n'esta aldeia, que o segundo em Roma_.» - - -_3.º--Passar o Rubicão._ - -Cezar vinha de concluir a conquista dos gaulezes, e tinha encontrado -n'essas regiões thesouros bastantes para tudo comprar em Roma, onde -tudo se tornára venal. Os seus successos, o seu poder, mais ainda que os -seus conhecidos projectos, despertaram, emfim, a desconfiança de Pompeu, -que começava a receiar ver-se o logro d'aquelle de que elle se tinha -imaginado ser o protector. Desde então, poz tudo em acção para obter do -senado um decreto que ordenava a Cezar o abandono do seu exercito e a -resignação do commando. Este respondeu que estava prompto a obedecer, -com a condição de que Pompeu entraria, pelo seu lado, na vida civil. -Desde este momento, a guerra estava declarada. O senado encarregou os -consules de proverem a segurança publica, e Cezar fez avançar o seu -exercito para o Rubicão. Era uma pequena ribeira, que separava a Italia -da Gallia cisalpina. O senado para assegurar Roma contra as tropas da -Gallia, tinha, por um senatus-consulto celebre, declarado traidor á -patria e dedicado aos deuses infernaes, todo aquelle que, com uma legião -ou uma cohorte, passasse aquella ribeira. Prevenido na margem opposta, -Cezar, dominado pelo perigo da resolução audaciosa que ia tomar, hesitou -alguns instantes. - -«Tinham-se visto revoluções d'imperios, diz Lacordaire, thronos mudando -de senhores, e fôra isso, n'esse jogo de passageiras fortunas, o que -tinha illuminado o genio dos maiores d'entre os homens. Cezar, no -Rubicão, parára pensativo; a mão no peito e o olhar além do regato, elle -se dissera:--«Eu, Cezar, faço uma coisa que nenhum romano fez ainda: -desobedeço ao senado romano. Passando este ribeiro, faço um imperio -d'uma republica, senhora do mundo: passemol-o.» - ---«Vamos, pois, exclamou Cezar, como se cedesse á obsessão da sua -fortuna; vamos aonde nos chamam as vozes dos deveres e a iniquidade dos -nossos inimigos. _Alea jacta est!_--a sorte está lançada!» - -Palavra irrevogavel, pronunciada depois por todos os homens que, não -encontrando fundo no seu pensamento, e obrigados a escolherem entre dois -perigos supremos, tomam resolução no seu caracter, não podendo tomal-a -em outra parte, e se lançam a nado no Rubicão do acaso, para morrerem ou -para se salvarem pela sorte. - - -_4.º--Levas Cezar e a sua fortuna._ - -Pompeu, desesperando de defender a Italia com a approximação de Cezar, -deixou Roma acompanhado d'um grande numero de senadores, magistrados e -cidadãos e passou á Grecia, onde levantou um exercito. Cezar seguiu-o. -Tendo desembarcado á frente de cinco legiões, soube que a frota que lhe -levava viveres e reforços foi batida e dispersa pela de Pompeu. Na -critica circumstancia em que se achava toma a resolução d'ir ao -encontro d'Antonio, que devia soccorrel-o, e embarca elle só n'um barco -de pescador. Durante a travessia levanta-se uma tempestade e ameaça -submergir a fragil embarcação. O piloto espantado quer volver ao posto. -É então que o heroe lhe diz essa famosa phrase, contada por Plutarco: - ---«Que receias? _levas Cezar e a sua fortuna!_» - -E alguns dias depois humilhava o seu rival nos campos da Pharsalia. - - -_5.º--Soldado, fere no rosto!_ - -Antes da batalha de Pharsalia, Cezar, no meio d'uma região dedicada ao -seu rival, estava n'uma situação muito critica. Pompeu, cujo exercito -estava bem munido e fornecido pela sua frota, resolvera reduzir á fome o -seu inimigo. A perda de Cezar parecia certa, quando Pompeu, cedendo á -impaciencia dos seus soldados, travou peleja com os velhos legionarios -das Gallias, que bem podiam ser destruidos pela fome, mas que não podiam -deixar-se vencer.--«Soldado, fere no rosto!» tinha gritado Cezar aos -seus veteranos, vendo os brilhantes cavalleiros do exercito de Pompeu. -Estes jovens patricios, espantados, pozeram-se em fuga para não serem -desfigurados pelas lanças dos legionarios, e Cezar ficou senhor do campo -de batalha. - -A implacavel phrase de Cezar não encontra applicação alguma em -circumstancias analogas, e emprega-se a respeito d'um adversario de que -se quer tocar a fibra sensivel, que se deseja ferir á falta de couraça. - - -_6.º--Cheguei, vi e venci._ - -Apoz a morte de Pompeu e a conquista do Egypto, e em quanto Cezar se -engolfava no seio dos prazeres que lhe offerecia Cleopetra, o partido de -Pompeu, mais disperso que destruido, erguia-se por toda a parte. -Pharnacio, rei do Ponto, aproveitára a guerra civil para tentar reunir -na Asia as antigas possessões de seu pae. Despertado pelo perigo, Cezar -corre ao Bosphoro, esmaga o filho de Mithridates e termina essa guerra -com uma tal rapidez, que pôde contal-a inteira n'estas tres palavras -celebres, que elle dirigiu ao senado: - ---_Veni, vidi, vici; cheguei, vi, venci!_ - ---Faz-se uso da phrase para exprimir a facilidade, a promptidão com que -se executa uma empreza. - -Lembra-nos a proposito o seguinte caso analogo. Depois da sua victoria -sobre os turcos, Sobieski enviou ao Papa o estandarte de Mahomet, com -estas palavras de Cezar a que deu um caracter de modestia -christã:--«_Cheguei, vi e Deus venceu!_» - -_7.º--Idos de Março._ - -Cezar entrára em Roma, senhor do mundo inteiro. O senado conferiu-lhe -honras extraordinarias e revestiu-o d'uma illimitada auctoridade. Foi -nomeado consul por dez annos e dictador perpetuo; deram-lhe o nome de -_imperador_, o titulo de _Pae da Patria_ e erigiram-lhe uma estatua com -esta inscripção:--_Ao deus invencivel!_ A sua pessoa foi declarada -inviolavel. Concederam-lhe o privilegio de assistir ao espectaculo n'uma -cadeira dourada, com uma corôa na cabeça. Elle meditava projectos -immensos; queria engrandecer Roma, ornamental-a de monumentos -magnificos, fazer d'ella a rainha do Universo. Mas não lhe estava -reservado o cumprimento de tão vastos designios. Debalde se exforçára -por apagar todos os traços da guerra civil, debalde tinha cumulado de -favores e elevado aos primeiros cargos os que o tinham combatido, -debalde tinha erguido estatuas ao seu rival, porque nada podia desarmar -os partidarios da antiga liberdade. - -A sua clemencia parecia insultante; viu-se que não perdoava, mas que -desdenhava punir. Afinal uma formidavel conjuração se tramou contra a -sua vida. A conspiração devia explosir no meio do senado, e fôra fixada -para os _idos de Março_. O caso transpirou no publico, mas Cezar -recusou tomar qualquer precaução. Calpurnia, sua mulher, estava tão -persuadida da realidade do perigo, que o conjurou, com as mais vivas -instancias, a não sahir n'esse dia. - -Conta Plutarco, que muito tempo antes, um adivinho tinha advertido o -dictador de que devia desconfiar dos _idos de Março_. Quando sahia de -casa para o senado, encontrou o adivinho e disse-lhe, rindo: «--Chegamos -aos idos de Março.»--«É verdade--respondeu--mas ainda não passaram.» - -Alguns passos adeante um homem entregou-lhe um bilhete que continha -todas as particularidades da conspiração:--«Lêde--disse--e rapidamente!» -Mas Cezar não teve tempo e entrou para o senado. - ---Os _idos de Março_ designam, por analogia, uma epocha perigosa de -passar, e para a qual se fizeram incommodativos prognosticos. - - -_8.º--E tu tambem, meu filho!_ - -Apenas Cezar tinha entrado no senado, todos os conjurados o rodearam -como para lhe prestarem honra. Cimber, um d'elles, apresentou-se, afim -de lhe pedir o chamamento de seu irmão exilado, e como para lhe pedir -com mais submissão, tomou-lhe a fimbria da toga e puxou-a com violencia. -Era o signal combinado. Casca, tirando o seu punhal, feriu com elle o -dictador no hombro. Cezar, no mesmo instante toma a arma do assassino e -precipita-se sobre elle gritando:--«Que fazes, scelerado Casca?» Então -todos os conspiradores desembainharam as suas espadas e lhe vibraram -varios golpes. Cassio, mais animado que os outros, fez-lhe uma profunda -brecha na cabeça; Cezar defendia-se ainda, quando avistando Bruto, com o -punhal erguido sobre elle, exclamou:--«E tu tambem, meu filho Bruto!» Ao -mesmo tempo cobriu o rosto com o vestido e cahiu atravessado com vinte e -tres golpes, aos pés da estatua de Pompeu. - - -_9.º--A tunica de Cezar._ - -O cadaver de Cezar abandonado no senado foi conduzido, todo cheio de -sangue a sua casa por tres escravos. Alguns dias depois, Antonio -appareceu na tribuna das harengas e leu á multidão o testamento do -dictador. O povo, que elle não tinha esquecido nas suas generosidades -fez explosir a sua indignação. Então, Antonio, desdobrando do alto da -tribuna a tunica de Cezar, ensanguentada e crivada de golpes, tratou de -parricidas os auctores d'aquelle assassinio. Esta scena levou ao cumulo -a exasperação popular. E todos os assistentes fazendo logo uma fogueira -com as mezas e os bancos que encontraram á mão, n'ella queimaram o -corpo de Cezar; depois, tomando tições correram a casa dos assassinos -para lhes lançarem fogo, e os atacarem a elles proprios. - - - - -XII - -_Estava escripto_ - - -Esta resignação perante os duvidosos decretos do destino é o fundo da -doutrina religiosa da maior parte dos povos orientaes. É uma especie de -_fatum_ antigo, um pallido reflexo d'esse caracter poetico, quasi -grandioso, que o fatalismo--mistura de sensibilidade profunda e sombria -resignação--revestira entre os antigos. - -Os differentes systemas phrenologicos parecem não ter por fim senão o -darem razão physica d'estes factos moraes. - -A litteratura philosophica do seculo XVIII legou-nos duas obras muito -conhecidas, apesar de francezas, sobre a fatalidade: _Zadig_, conto de -Voltaire, e _Thiago o fatalista_, romance de Diderot. - - - - -XIII - -_Conhece-te a ti proprio_ - - -Estas famosas palavras estavam gravadas sobre o frontão do templo de -Delphos. Era a maxima favorita de Socrates; elle adoptou-a, explicou-a e -tornou-a celebre para sempre. Toda a lei moral reside n'estas palavras, -como toda a lei religiosa está encerrada n'estas admiraveis palavras de -Christo:--«Ama o proximo como a ti mesmo.» - -Seneca, o tragico, desenvolveu esta bella maxima nos seguintes versos -que traduzimos assim: - - «O homem é infeliz no instante em que fenece; - Quando tendo esquecido o ponto necessario, - Morre mui conhecido e a si se não conhece.» - - - - -XIV - -_As joias de Cornelia_ - - -Cornelia, mãe dos Grachos, era filha de Scipião, o Africano, e mulher de -Sempronio Gracho, que se illustrou nas guerras de Hespanha. Enviuvando, -com doze filhos, consagrou-se inteiramente á sua educação, e recusou -até, dizem, a mão de Ptolomeu, rei do Egypto. D'esta numerosa prole -conservou apenas uma filha, que foi casada com Scipião Emiliano, e dois -filhos, Tiberio e Caio Gracho, este sempre famoso pelo seu genio, pela -sua coragem e pelo seu tragico destino. Mulher d'um caracter viril e -d'um espirito cultivado, ella educou-os com o maior esmero, e -inspirou-lhes cedo o amor publico, a paixão da gloria e das grandes -emprezas, pedindo-lhes, por vezes, que a chamassem sempre a filha de -Scipião e nunca a mãe dos Grachos. - -Conta-se que uma dama da Campania estendendo, um dia, deante d'ella as -suas joias e os seus preciosos adornos, e pedindo-lhe para que ella lhe -mostrasse as suas, Cornelia lhe apresentou os filhos, dizendo: - ---«Eis as minhas joias e os meus adornos». - - - - -XV - -_Cresus_ - - -Cresus, rei da Lydia, submetteu a maior parte das cidades da Asia Menor, -e levou as suas conquistas até ao rio Halys. A fama do seu poder e das -suas riquezas, constantemente renovadas pelas areias auriferas do -Pactolo, tornou proverbial o nome de Cresus, para designar um homem -cumulado dos bens da fortuna. Elle perguntou um dia a Solon, que fôra -visitar a sua côrte, se conhecia um homem mais feliz do que elle. O -philosopho respondeu-lhe que nenhum homem póde ser saudado com o nome de -feliz antes da sua morte. Cresus não tardou a experimentar os effeitos -d'esta triste verdade. Um de seus filhos foi morto na caça, o outro -tornou-se mudo, e elle proprio, depois de ter visto os seus Estados -invadidos por Cyro, foi vencido na celebre batalha de Thimbreia e cahiu -nas mãos do vencedor, que ordenou a sua morte. Quando o conduziam ao -supplicio, vieram-lhe á memoria as palavras de Solon, e elle pronunciou -tres vezes, suspirando, o nome do legislador atheniense. Instruido da -causa d'esta exclamação, Cyro, commovido de piedade e tocado d'aquelle -exemplo das vicissitudes humanas, perdoou a Cresus e admittiu-o no -numero dos seus conselheiros. - -Esta bella legenda philosophica da vida de um homem, que foi -successivamente, e d'um modo tão frisante, o favorito e o joguete da -fortuna, é narrada por Herodoto, mas Xenophonte não falla d'ella. - ---O nome de _Cresus_ passou a designar um homem opulento, coberto de -todos os favores da fortuna. - - - - -XVI - -_Dôr, tu não és um mal_ - - -O stoicismo, fundado por Zenon, fórma uma das mais illustres -philosophias da antiguidade. Simples no seu principio e nas suas -deducções, frisante pelo seu caracter heroico e paradoxal, de tal modo -se fez conhecer, ao menos, pelos traços mais salientes da sua moral, que -os nomes de _stoicismo_ e _stoico_, entraram na applicação usual da -lingua, como expressão d'uma grande impassibilidade. Os stoicos faziam -consistir a virtude e a ventura na posse d'uma alma egualmente -insensivel á voluptuosidade e á dôr, liberta de todas as paixões, -superior a todos os receios, a todas as fraquezas. Admittindo como mal -apenas o vicio, como bem sómente a virtude, e considerando o resto como -indifferente, elles negavam que a dôr fosse um mal. Zenon, seu illustre -chefe, foi o primeiro que proclamou a lei do _dever_ e que d'ella lançou -os fundamentos com uma abundancia de provas que tinha a sua origem n'uma -profunda convicção, independentemente de toda a argumentação dialectica. -As paixões não são elementos necessarios da nossa condição; são doenças -da alma: a saude, a _apathia_, a ausencia das paixões. Foi por causa -d'esta severidade d'opiniões moraes, pelo menos entre os primeiros -stoicos, que se deu, em geral, o nome de stoicismo a toda a opinião -severa em moral. - -Esta doutrina, que se allia perfeitamente com todas as grandes virtudes, -e que tendia a fazel-as nascer, logrou grande credito entre os romanos, -apesar da sua pequena inclinação pela philosophia; adoptaram-na com -enthusiasmo, porque se concertava admiravelmente com a sua energia -intellectual e a sua severidade. Notou-se, em honra da seita dos -stoicos, que os personagens mais virtuosos de Roma a tinham -adoptado:--Bruto, Catão d'Utica, Thrasêas, Seneca, Tacito, Epictecto, -Antonino e Marco Aurelio. A moral ficou como gloria dos stoicos, e -tirando-lhe o que encerra de paradoxal e exaggerado, ella assegura-lhes -o primeiro logar entre os percursores mais puros e mais directos do -christianismo. - -A divisa principal dos stoicos era:--«_Soffre e abstem-te!_» - -Conta-se que um discipulo de Zenon, exclamava no meio dos maiores -soffrimentos causados pela gôtta: - ---«_Dôr, tu não és um mal!_» - -Havia, por sem duvida, ostentação n'estes principios da doutrina do -stoicismo, mas nem por isso ella deixou de produzir as virtudes mais -heroicas. - - - - -XVII - -_Egéria_ - - -Numa Pompilio, legislador e segundo rei de Roma, nasceu em Ceres, no -paiz dos sabinos. A tradição pinta-o como um principe pacifico e cheio -de sabedoria. Nem uma guerra perturbou o seu reino, consagrado -inteiramente á legislação e ás instituições religiosas. Elle creou e -organisou, entre outras coisas, as vestaes, os pontifices, e construiu -templos e instituiu festas. - -Como todos os legisladores da antiguidade, usou d'artificio para -assegurar o respeito das suas instituições, e persuadiu aos romanos que -recebia inspirações da nympha Egéria, só visivel para elle no fundo d'um -bosque sagrado. - -Vê-se ainda hoje, perto de Roma, n'um valle delicioso, o resto da fonte -Egéria, entre a via Latina e a via Appia. Antigos monumentos representam -esta nympha n'um costume analogo ao das sybillas, de tunica fluctuante, -pés nús, cabellos soltos, e traçando caracteres n'um livro posto sobre -os joelhos. - ---Hoje o nome de Egéria dá-se familiarmente, sobretudo, a uma mulher de -que se tomam os conselhos, de que se segue a opinião, principalmente -para a direcção de negocios politicos. - - - - -XVIII - -_Mais uma victoria como esta e estamos perdidos_ - - -Pyrrho, sobrinho d'Olympias, era o principe mais valente, mais -aventureiro de quantos se habilitaram á herança d'Alexandre. Passou a -vida a conquistar e a perder corôas. Não podia permanecer tranquillo no -Epiro, julgando que não fazendo mal nem havendo quem lh'o fizesse, não -tinha em que passar o tempo. Assim, o successo faltou sempre aos -designios d'essa creança animada da fortuna, que viveu e morreu, menos -como rei que como aventureiro. A sua brilhante reputação militar, fel-o -chamar pelos tarentinos, então em guerra com os romanos. A imaginação -exaltada representa-lhe já a Italia conquistada, depois a Sicilia e -Carthago, e parte cheio de alegria para Tarento, cidade de prazeres, que -elle transforma n'um campo, e os seus habitantes afeminados em soldados. -Ganhou primeiro, graças aos seus elephantes, a batalha de Heraclêa, em -que os romanos perderam quinze mil homens e elle treze mil. Venceu ainda -em Asculo, em que o triumpho não foi comprado menos caro. Depois d'esta -sangrenta batalha foi que elle respondeu aos que o felicitavam:--«Mais -uma victoria como esta e estamos perdidos!» - -Pyrrho, afinal, deixou a Italia, e encontrou a morte nas ruas de Argos, -aonde uma velha o matou, atirando-lhe de cima do telhado uma pesada -telha. - - - - -XIX - -_Espada de Damocles_ - - -Damocles, um dos cortezãos de Denys, o Antigo, fazia-se notar pela -emphase das suas adulações, e não cessava de elogiar a ventura de seu -senhor. O tyranno resolveu inicial-o nos prazeres da grandeza, por meio -d'uma allegoria espiritual que faria honra a um califa oriental. -Convidou-o a tomar o seu logar durante um dia, e deu ordens para que -Damocles fosse tratado como rei, e lhe servissem um banquete sumptuoso. -O cortezão tomou logar n'um leito d'honra; tem a fronte cingida do -diadema; as iguarias mais exquisitas cobrem a meza. Damocles está -rodeado d'escravos, attentos aos seus minimos signaes; deliciosos -perfumes fumegam em torno a si, e a mais adoravel musica lhe encanta o -ouvido; as cortezãs adulam-no, e poetas cantam em seu louvor. -Embriaga-se em ventura, quando, de subito, levantando os olhos, vê -suspensa, por cima de sua cabeça, uma espada apenas preza pela crina -d'um cavallo. Pallido e tremulo, deixa escapar a taça das mãos, -levanta-se desnorteado e pede a Denys para pôr termo á sua realeza. -Tinha comprehendido o que é a ventura d'um tyranno. - ---De todos os factos historicos que deixaram traço nas linguas, a -_espada de Damocles_ é o mais conhecido, poderemos até dizer o mais -vulgar. É o perigo temido ou previsto, que póde ferir um homem no meio -d'uma apparente prosperidade. - -Um escriptor contemporaneo disse:--«A abobada dos céus é para o -criminoso a sala do festim de Damocles, d'onde pendia uma espada sobre -sua cabeça». - -E Alfredo de Musset, nas _Confissões d'um Filho do Seculo_, -tambem:--«Conta-se que Damocles viu uma espada sobre a sua cabeça; é -assim que os libertinos parecem ter por cima d'elles um não sei quê, que -lhes grita constantemente:--Vai, vai sempre, estou por um fio!» - - - - -XX - -_O prato de lentilhas_ - - -Esaú, o primogenito, era um grande caçador; Jacob, pelo contrario, era -um homem simples, vivendo em casa, occupado unicamente em trabalhos -domesticos. A doçura do seu caracter tornava-o mais agradavel a sua mãe -que Esaú, que tinha attrahido a affeição particular de seu pae Isaac. Um -dia, em que Esaú voltava do campo, cheio de fadiga e oppresso pela fome, -pediu a Jacob que o deixasse comer d'um _prato de lentilhas_ que este -tinha preparado. Jacob consentiu, com a condição de que Esaú lhe cederia -o seu direito de primogenito. Mais tarde, Jacob, recorrendo ao -estratagema e auxiliado por sua mãe, surprehendeu a Isaac, moribundo e -cego, a sua benção, que o fazia chefe da familia de onde devia sahir o -Christo. Esaú concebeu uma violenta cólera, e Jacob, para se subtrahir -ao seu resentimento retirou-se para casa de Labão, seu tio. - ---Diz-se _prato de lentilhas_, a insignificancia relativa, pela qual se -cede uma coisa realmente muito valiosa, especialmente moral. - - - - -XXI - -_E eu tambem sou pintor!_ - - -Corregio, natural de Corregio, nascido em 1494, é um dos maiores -pintores da eschola italiana. As suas composições fazem-se notar, -sobretudo, pela graça ondulante dos contornos, pela flexibilidade e -elegancia das fórmas, pela riqueza do colorido, pela sciencia da luz e -da sombra, pela intelligencia perfeita do claro-escuro! Era eminente em -representar creanças, mulheres, emfim, scenas graciosas e de -voluptuosidade. A sua _Antiope adormecida_ é d'uma riqueza deslumbrante. -A cidade de Parma offereceu, debalde, um milhão a Napoleão para -conservar o _S. Jeronymo_, que é considerado como a sua obra prima. Não -se conhece nenhum mestre a este pintor, e pensa-se que só a si deve o -que foi. A revelação do seu genio explosiu deante d'um quadro de -Raphael. Transportado de admiração e como que illuminado, elle exclamou: - ---«E eu tambem sou pintor!» - ---«_Anch'io son'pittore!_» - - - - -XXII - -_Estrella dos Reis Magos_ - - -No momento em que Jesus vinha ao mundo em Bethlem, n'um estabulo, os -magos do Oriente avistaram uma estrella no céu, que elles ainda não -tinham visto. Deixaram o seu paiz, e, guiados por esse pharol -miraculoso, chegaram a Bethlem, onde acabava de nascer o Menino Deus. -Penetraram no local acima do qual a estrella se detivera, e alli -encontraram Maria e seu Filho, e, prostrando-se deante do recemnascido, -adoraram-no e offereceram-lhe ouro, incenso e mirra. É este o -acontecimento que a egreja celebra na festa da Epiphania ou dos _Reis_. - ---A estrella que guiou os magos na sua piedosa peregrinação enriqueceu a -nossa lingua com uma imagem poetica, muito frequentemente empregada. -Essa estrella é muitas vezes uma voz intima, um ente amado, que nos -chama e nos dirige para um fim glorioso. - - - - -XXIII - -_E, comtudo, ella gira!_ - - -Galileu, é, sem contradicção, a maior gloria scientifica da Italia. O -methodo experimental, de que é o creador, fez-lhe em breve repellir os -absurdos physicos e astronomicos professados no seu tempo, e levantar -contra elle todos quantos eram adeptos das velhas doutrinas. Mas de -todas as suas ousadias, a que devia ser mais perigosa para o seu -repouso, foi o seu novo systhema astronomico, pelo qual, segundo -Copernico, e contrariamente a Ptolomeu, elle fazia do sol o centro -immovel do nosso systema planetario. Pretendeu-se que esta doutrina -estava em formal contradicção com varias passagens da Escriptura, e foi -denunciado á Inquisição. Elle defendeu-se com uma grande habilidade, -representando que as passagens da Biblia e dos Santos Padres tinham sido -interpretadas, e que, além d'isto, o objecto da Escriptura era a -salvação dos homens e não o ensino da astronomia. Contentaram-se a -principio em lhe fazerem uma advertencia, e em declararem _falsa e -heretica_ a sua doutrina do movimento da terra e da immobilidade do -sol. Galileu calou-se durante algum tempo; mas a paixão da sciencia foi -a final mais forte que a prudencia. Compoz, por sua desgraça, -_Dialogos_, em que, por um artificio empregado muitas vezes nos tempos -de despotismo, poz em lucta os partidarios dos systemas oppostos, sem se -pronunciar por um d'elles. Adivinha-se facilmente que os partidarios da -immobilidade da terra, foram esmagados pelos argumentos, realmente sem -replica, dos seus adversarios. Galileu foi mandado immediatamente a Roma -pela Santa Inquisição, interrogado, e, segundo uns, mas sem que haja -provas, posto em tortura, e, afinal, condemnado a prisão perpetua e á -abjuração solemne dos seus _erros_. - -A sciencia como a fé tem tido os seus martyres; mas Galileu fraquejou na -ultima hora e consentiu em humilhar o seu genio perante os prejuizos dos -seus contemporaneos. A 22 de junho de 1633 pronunciou a sua abjuração no -convento de Minerva, em presença dos cardeaes inquisidores. A formula -que lhe foi imposta é um dos monumentos mais curiosos da inepcia humana: - ---«Eu, Galileu, de setenta annos, sobre os Santos Evangelhos que toco -com as minhas proprias mãos ... abjuro, maldigo e detesto o erro e a -heresia do movimento da terra, etc.» - -Conta-se que levantando-se depois da realisação d'este sacrificio, -Galileu arrastado pela revolta intima das suas convicções, bateu com o -pé no chão e murmurou energicamente: - ---«_E, comtudo, ella gira!--E pur si muove!_» - -Foi o seu unico protesto; mas elle atravessará os seculos como o grito -da verdade opprimida e deporá eternamente contra a ignorancia e a -perseguição. - - - - -XXIV - -_Virtude, não és mais que um nome_ - - -Depois da morte de Cezar, os seus assassinos, forçados a fugirem deante -da cólera do povo, levantado por Antonio, retiraram-se para a Macedonia. -Os triumviros avançaram contra elles com forças consideraveis. Alguns -dias antes da batalha, que devia decidir da sorte da republica, e n'uma -noite em que Bruto velava na sua tenda, entregue a sombrias reflexões, -pareceu-lhe, de repente, que ouviu entrar alguem. Volvendo-se viu um -phantasma horrivel na sua presença. - ---«Homem ou deus, quem és?»--lhe diz Bruto. - ---«Sou o teu mau genio--responde--; vêr-me-has em breve em Philippes.» - -Esta prophecia não devia tardar a realisar-se. Poucos dias depois, com -effeito, e na noite que precedeu a batalha de Philippes, quando Bruto -velava só na sua tenda, segundo o seu costume, em quanto que todo o -exercito estava mergulhado em somno, o mesmo phantasma lhe appareceu -segunda vez, o olhou com ar sinistro e se retirou sem proferir uma unica -palavra. No dia immediato, a liberdade romana expirava nas planicies de -Philippes, e Bruto matava-se, soltando esse grito de desanimo, muito -conhecido: - ---«_Virtude, não és mais que um nome!_» - - - - -XXV - -_Festim de Balthazar_ - - -Cyro, rei dos persas, cercava Babylonia á frente d'um exercito -formidavel; Balthazar, confiando na força das suas muralhas, ria dos -vãos exforços do seu inimigo e esquecia, nos festins, os enfados d'um -longo cêrco. Uma noite em que celebrava uma orgia com os grandes da sua -côrte e todas as suas mulheres, fez trazer, por uma fanfarronada de -impiedade, os vasos sagrados que Nabuchodonosor tinha outr'ora -subtrahido ao templo de Jerusalem. Realisada aquella profanação, o impio -monarcha viu com espanto uma mão que traçava na parede, em traços -ardentes, caracteres mysteriosos, que nem Balthazar nem ninguem da côrte -pôde traduzir. - -O propheta Daniel tendo sido chamado, disse ao rei. - ---«Foi Deus que enviou aquella mão, e é isto o que está escripto: _Mané, -Thécel, Pharés_;--_Mané_, Deus contou os dias do teu reino e lhe marcou -o fim; _Thécel_, foste collocado na balança e achado muito leve; -_Pharés_, o teu reino será dividido!» - -Na mesma noite, com effeito, Cyro, tendo conseguido desviar o curso do -Euphrates, penetrou na Babylonia pelo seu leito secco. Balthazar foi -morto e a Babylonia reunida ao imperio dos persas. - ---Por allusão a este festim celebre, chama-se _festim de Balthazar_ a -toda a orgia ruidosa, ou, por uma hyperbole familiar, a todo o banquete -copioso e prolongado. - - - - -XXVI - -_Forcas caudinas_ - - -Roma tinha vencido a maior parte das nações visinhas; mas desde que quiz -estender o seu dominio á parte meridional da Italia encontrou os -samnitas, povo de costumes rudes e bellicosos. Havia de um e outro lado -as mesmas armas, a mesma disciplina, o mesmo habito dos combates. D'alli -a ambição e o valor romanos; d'aqui o patriotismo e a infatigavel -energia dos samnitas, iam dar a esta lucta um caracter d'incrivel -encarniçamento. Eis aqui o episodio mais celebre d'essa guerra, que -devia terminar pela conquista do Samnio. Romperam-se as hostilidades; os -samnitas estavam acampados perto de Candium, no meio das montanhas. -Poncio Herennio, seu general, resolveu attrahir, por um falso aviso, o -exercito romano a um desfiladeiro, de onde lhe seria impossivel -escapar-se. Logo dez soldados samnitas, disfarçados em pastores, -approximaram-se dos postos avançados inimigos e espalham a nova de que -os samnitas cercam Luceria, cidade alliada dos romanos. Os consules -apressam-se a voar em sua defeza, escolhendo o caminho mais perigoso, -mas mais curto--desfiladeiro profundo, estreito e coberto de florestas. -Era o que tinha previsto o general dos samnitas. Apenas os romanos se -empenharam n'esse caminho perigoso, avistam as alturas cobertas -d'inimigos. Era forçoso, ou morrer ou render-se, porque as sahidas -estavam obstruidas. O pai de Poncio Herennio, velho cheio d'experiencia, -aconselhava a seu filho o despedir todos os romanos sem resgate, para os -fazer amigos, ou exterminal-os até ao ultimo para vibrar um golpe mortal -na republica. O general samnita, escutando sómente o desejo de humilhar -o orgulho romano, obrigou-os a entregarem-se á discrição, e fez passar -todo o exercito sob um jugo formado de dois _forcados_ espetados no solo -e encimados d'um terceiro. Todos os soldados com os consules á frente, -passaram, tremendo, sob esse instrumento d'opprobrio, depois de terem -deposto as armas. O senado recusou ratificar compromissos impostos em -condições tão humilhantes; foi preciso combater de novo, e sangrentas -derrotas puniram os samnitas da sua imprudente confiança na fé romana. - ---Depois a expressão _passar sob as forcas caudinas_ entrou em uso para -caracterisar toda a concessão onerosa ou humilhante, arrancada aos -vencidos. - - - - -XXVII - -_Irmão, é preciso morrer_ - - -As austeridades da vida monastica tornaram-se proverbiaes, mas foi, -sobretudo, na Trappa que ellas se observaram com todo o rigor dos -primeiros seculos do christianismo. Os trappistas guardam absoluto -silencio, dividem o tempo entre a oração e o trabalho manual, -alimentam-se de pão grosseiro e legumes e vestem apenas o habito de -burel. Devem ter sempre deante dos olhos a imagem da morte. E é para se -lembrarem d'esta grande verdade, que em cada dia visitam a valla que -deve servir-lhes de derradeiro asylo. - -«O silencio--diz um eloquente orador contemporaneo--anda ao seu lado, e -se fallam, quando se encontram, é para se dirigirem esta melancholica -phrase: - ---«_Irmão, é preciso morrer ..._» - - - - -XXVIII - -_Cahir com graça_ - - -Quando em Roma o gladiador se sentia mortalmente ferido, nos sangrentos -combates do circo, e a destreza se lhe tornava inutil, elle procurava -ainda accender applausos na multidão, para a qual a sua agonia era um -espectaculo, por uma queda a que elle tentava imprimir toda a arte, e -_cahia na arena com graça_. - ---Esta phrase applica-se, pelo lado moral, aos que, em politica, no -amor, etc., se salvam da humilhação d'um cheque, pela boa graça, real ou -ficticia, que fazem acceitar. - - - - -XXIX - -_Hippocrates diz sim, Galiano diz não_ - - -Hippocrates e Galiano são os dois representantes mais illustres da -medicina, entre os antigos: aquelle nos gregos, este nos romanos. -Galiano nutria uma profunda veneração pelo genio do pae da medicina, e -um dos maiores serviços que prestou á sciencia, foi o de ter, no meio -d'uma sã critica, collocado o facho sobre as obras d'aquelle que chamava -seu mestre. Hippocrates e Galiano teem de commum que dotados ambos d'um -vasto genio, avançaram muito nos segredos da natureza, e ambos mostraram -egual ardor na investigação da verdade, não pelo apparato das riquezas, -mas só pelo amor da humanidade. - ---Esta phrase proverbial: _Hippocrates diz sim, Galiano diz não_, não -tem pois a sua origem no antagonismo dos dois grandes homens e dos seus -systemas; mas como a medicina é o immenso campo da contradicção, e -quando um medico diz--_tanto melhor_, um outro diz--_tanto peior_; -quando este applica sangrias aquelle proscreve-as; quando um colloca a -séde de todas as doenças nos nervos, o outro nos humores; quando, emfim, -um escreve no seu estandarte--_contraria contrariis_ ... e o -outro--_similia similibus_ ..., comprehende-se que era á medicina que a -contradicção devia pedir a sua divisa, e que as duas columnas d'esta -sciencia lhe deviam fornecer a expressão. - - - - -XXX - -_É muito tarde!_ - - -Esta phrase data da revolução de Julho de 1830, em França, e eis em que -circumstancia foi pronunciada. Uma ultima tempestade tinha derrubado -para sempre o throno do ramo mais velho dos Bourbons. Era em -sexta-feira, 30 de Julho; o povo estava inteiramente senhor de Pariz, e -uma commissão a que presidia Lafayette cercava o Hotel-de-Ville. Carlos -X, em Saint-Cloud, dominado por uma cegueira que lhe tinha feito jogar a -corôa, conservava ainda illusões e esperava que algumas concessões o -collocariam sobre o throno. M. de Sussy, portador de despachos que -revogavam as fataes determinações de 25, apresenta-se no Hotel-de-Ville -e entrega-os a Lafayette. Este dá-lhe então a famosa resposta: - ---«_É muito tarde!_» - -Alguns dias depois o duque d'Orleans, chefe do ramo mais novo, subia ao -throno. Mas, estranha volta das coisas d'este mundo, dezoito annos -depois e em circumstancias quasi analogas, a mesma resposta foi dada a -Luiz Philippe. Elle tambem devia ouvir Lamartine responder ás suas -tardias concessões: - ---«_É muito tarde!_» - - - - -XXXI - -_Não ha grande homem para o seu creado de quarto_ - - -Segundo Mademoiselle Aïssé, esta phrase teria sido pronunciada pela -primeira vez por Madame Cornuel, mulher d'espirito, do tempo de Henrique -IV, da qual Madame de Sevigné cita os bons ditos. Essa phrase é, sem -duvida, uma reminiscencia d'essa outra de Montaigne:--«Poucos homens -teem sido admirados pelos seus creados.» Qual é, em verdade, o homem de -genio que fica egual a si proprio, quando já não está em scena? O mundo -é um espectaculo, onde cada qual representa um papel apropriado, em -quanto está deante do publico, mas de que se despoja todo o brilho -d'emprestimo desde que se recolhe a bastidores. Aqui o homem substitue o -heroe e quantos poderiam dizer como o grande Condé, quando era fatigado -com titulos pomposos e elogios hyperbolicos: - ---«_Perguntem o que sou ao meu creado de quarto!_» - - - - -XXXII - -_Cantam, elles pagarão_ - - -Mazarino governou a França depois de Richelieu, em momentos de -perturbações e de guerra civil. Era a rapoza succedendo ao leão. Fez uma -politica completamente opposta á do seu terrivel predecessor; os seus -meios favoritos eram a astucia, a finura, a paciencia. Comprazia-se em -repetir: - ---«O tempo é um homem galante!» - -Nenhum ministro foi tão posto em canções como elle; mas insensivel aos -pamphletos que diariamente dirigiam contra a sua pessoa, o astucioso -italiano apenas dizia: - ---«Deixemol-os fallar e prosigamos!» - -A cada novo imposto choviam novas satyras. Elle, porém, seguro de que -uma opposição, que só desabafava em _couplets_ satyricos, o não poderia -incommodar, acudia com toda a serenidade: - ---«_Cantam, elles pagarão!_» - - - - -XXXIII - -_Perdi o meu dia_ - - -O imperador Tito, que a historia cognominou _as delicias do genero -humano_, exclamava quando tinha passado um só dia sem encontrar occasião -de praticar algum bem: - ---«Meus amigos, _perdi o meu dia!_» - -Boileau exprimiu esta generosa ideia nos seguintes versos da _Epistola -ao Rei_: - - «Tal esse imperador, sob o qual, Roma via, - Renascer de Saturno e de Rhêa outro dia; - Que rendeu ao seu jugo o universo amoroso, - Que jámais alguem viu sem se sentir ditoso, - E que chorava á noite o tempo que perdera - _Quando passava o dia e algum bem não fizera_.» - - - - -XXXIV - -_Amo Platão, mas amo mais a verdade_ - - -Platão e Aristoteles são os dois mais illustres representantes da -philosophia antiga. O primeiro, discipulo de Socrates, estava em todo o -esplendor da sua fama, quando Aristoteles foi a Athenas para seguir as -suas lições. O discipulo não tardou a tornar-se tão celebre como o -mestre; mas dois espiritos d'esta superioridade, e, ao mesmo tempo, tão -differentes, ambos feitos para reinarem no dominio do pensamento, deviam -em breve separar-se. - -Assim, Aristoteles, sem ser, como se diz, inimigo do seu mestre, não -adoptava todas as consequencias da sua doutrina; todavia, quando se -achava em contradicção com elle, sabia exprimir a sua opinião com a -sábia medida d'um philosopho e não com a funda amargura d'um rival. - ---«Amo Platão--dizia--mas amo mais a verdade.»--«_Amicus Plato, sed -magis amica veritas._» - ---Esta homenagem prestada á verdade, quando é tida em desaccordo com as -doutrinas de um genio, mesmo transcendente, passou a ter foros de -proverbio. - - - - -XXXV - -_Achei!--Eureka!_ - - -Esta exclamação que se faz ouvir quando, depois de longas investigações, -o espirito, repentinamente inspirado, chega á descoberta que elle -perseguia, foi proferida pela primeira vez, por Archimedes, nas -circumstancias seguintes: - -Hieron, rei de Syracusa, suspeitava que um ourives, que lhe tinha -fabricado uma corôa d'ouro, tivesse falsificado o metal, misturando-lhe -uma certa quantidade de prata. Elle consultou Archimedes, seu parente, -sobre os meios de descobrir a fraude, de que julgava poder queixar-se. O -illustre mathematico reflectia profundamente na solução possivel d'este -problema, quando um dia, estando no banho, percebeu que os seus membros, -mergulhados na agoa, perdiam consideravelmente do seu pezo; que, por -exemplo, elle podia levantar uma perna com extrema facilidade. O seu -genio entreviu logo os elementos d'esse grande principio -d'hydrostatica, que determinou em seguida rigorosamente:--que todo o -corpo mergulhado n'agoa, perde uma parte do seu pezo, egual ao pezo do -volume d'agoa que esse corpo desloca.--Esta descoberta dava-lhe a -solução do problema. No meio do enthusiasmo que lhe produziu esta -revelação elle sahiu do banho e lançou-se na rua gritando: - ---_Achei! achei!_--_Eureka! Eureka!_ - -Com effeito, tinha encontrado o meio de determinar a gravidade -especifica de todos os corpos, tomando a agoa por unidade. Procurou, -pois, duas massas, d'ouro e de prata, cada uma d'um pezo egual á corôa: -mergulhou-as successivamente n'um vaso cheio d'agoa, observando com -cuidado a quantidade de liquido deslocado pela immersão de cada uma -d'ellas. Submetteu á mesma experiencia a propria corôa, e achou assim o -meio certo d'apreciar a quantidade d'ouro e de prata de que ella era -composta. - ---O _achei!_ de Archimedes, ficou tendo applicação, nos casos em que, -uma difficuldade qualquer, se vence por uma solução satisfactoria. - - - - -XXXVI - -_Eu desejaria não saber escrever_ - - -Néro, educado por Seneca e Burrhus, dois dos mais sabios romanos d'esse -seculo, esteve longe de annunciar, na sua mocidade, as sanguinarias -inclinações, que o tornaram o typo da crueldade. Elle pareceu querer -consolar os romanos do reino de Tiberio; os seus primeiros actos, cheios -d'uma grande doçura, provam que aos seus instinctos de crueldade soube -alliar uma profunda hypocrisia, e que a educação é completamente -impotente para abafar, em certos caracteres, pelo menos, os germens das -paixões más, que trazem nascendo. Desde o segundo dia do seu reinado -elle foi ao senado, e em um discurso que Seneca lhe havia composto, -annunciou que o seu projecto era tomar Augusto por modelo. Em verdade os -principios do seu reino pareceram-se com os ultimos do reino d'aquelle -que se propunha imitar. Mostrou-se justo, liberal, affavel, polido, -complacente e accessivel á piedade. A modestia realçava-lhe ainda as -qualidades. O senado, tendo-o louvado pela sabedoria do seu governo, fez -com que elle dissesse: - ---«Esperem, para me louvarem, que eu o tenha merecido.» - -Um dia em que lhe apresentaram, para assignar, a sentença que condemnava -á morte um criminoso, elle disse: - ---«_Eu desejaria não saber escrever!_» - -E comtudo foi ... Néro! - - - - -XXXVII - -_Linguas d'Esopo_ - - -Esopo, escravo do philosopho Xantus, recebeu um dia do seu senhor, que -tinha convidado varios amigos para jantar, ordem de comprar no mercado, -tudo quanto houvesse de melhor, e nada mais. - ---«Eu te ensinarei a especificares o que desejas, sem te entregares á -discrição d'um escravo»--dissera o phrygio comsigo mesmo. - -E comprou só linguas, que fez cosinhar de todos os modos possiveis, de -maneira que o principio, o meio e o fim do banquete, foram linguas. Os -convidados louvaram a principio a escolha d'Esopo, mas, afinal, -desgostaram. - ---«Não te ordenei,--disse Xantus--que comprasses o que houvesse de -melhor?» - ---«E que ha melhor que a lingua?--respondeu Esopo.--É o laço da vida -civil, a chave das sciencias, o orgão da verdade e da razão; por ella se -construem e policiam cidades; por ella se instrue, se persuade e se -reina nas assembleias; por ella se satisfaz ao primeiro dos deveres, que -é louvar os deuses.» - ---«Pois bem--replicou Xantus, que pretendia apanhal-o--compra amanhã o -que houver de peior. Os mesmos convidados virão a minha casa e quero -variar.» - -No dia seguinte Esopo só fez servir linguas, dizendo que a lingua é a -peior coisa que ha no mundo. - ---«É a mãe de todas as questões, a alimentadora de todos os processos, a -origem das divisões e das guerras. Se ella é o orgão da verdade, é -tambem o do erro, e, o que peior é, da calumnia. Por ella destroem-se as -cidades; e se por um lado louva os deuses, por outro é o orgão da -blasphemia e da impiedade.» - ---As _linguas d'Esopo_ ficaram celebres, para designarem o que, podendo -ser encarado sob dois aspectos oppostos, dá egualmente occasião ao -louvor e á critica. - - - - -XXXVIII - -_Lanterna de Diogenes_ - - -Na epocha em que vivia Diogenes, os athenienses pareciam ter perdido a -memoria de Marathão e Salamina; eram já os athenienses da decadencia, e -em quanto que Demosthenes procurava em vão accender essas heroicas -recordações pelos masculos accentos da sua eloquencia, o cynico -stigmatisava a seu modo, a sua cobardia e a sua corrupção. - -Uma vez foi encontrado em pleno meio dia, nas ruas d'Athenas, levando na -mão uma lanterna accesa, e como lhe pedissem a razão de tão estranho -caso, elle limitou-se a responder: - ---«_Procuro um homem!_» - - - - -XXXIX - -_O mestre o disse_ - - -Pythagoras, um dos maiores, e, talvez até o maior philosopho da -antiguidade, aspirava, nada menos, que a constituir no mundo inteiro uma -especie de religião. A sua doutrina tendia politicamente a estabelecer -uma aristocracia forte e poderosa, e a revestil-a d'um caracter -sacerdotal, que a tornasse semelhante ás theocracias do Oriente; em -fazer das luzes scientificas a partilha d'um pequeno numero de -iniciados, e em dar a estes o governo do mundo, attribuindo-lhes a -infallibilidade. Estas grandes e arrojadas ideias inspiraram uma especie -de terror aos gregos da Italia e provocaram o desastre espantoso que -feriu subitamente os pythagonios. - -Comprehende-se o imperio que um philosopho d'este quilate devia adquirir -sobre o espirito dos seus discipulos, e assim, entre elles, a phrase--_o -mestre o disse_, equivalia a uma formula magica, que cortava -completamente todas as disputas. - ---Esta phrase que serve para exprimir o respeito que se professa por uma -auctoridade, era d'algum modo a divisa de La-Fontaine, cuja veneração -pelos antigos é muito conhecida. - ---Um orador contemporaneo affirmou, nos rasgos da sua eloquencia, que o -homem não dirá mais--_o mestre o disse_, porque o homem está emancipado -do homem. Elle dirá agora:--_A verdade diz--A sciencia diz_. - - - - -XL - -_O rei é morto, vive o rei!_ - - -Este velho grito da monarchia, significava que a realeza nunca morria em -França. Apenas o rei exhalava o ultimo suspiro, um arauto apparecia ao -balcão do palacio e gritava tres vezes deante do povo reunido: - ---«_O rei é morto, vive o rei!--Le roi est mort, vive le roi!_» - -Mas era, sobretudo, na cerimonia funebre e quando o defuncto monarcha ia -tomar o seu logar nas cryptas de S. Diniz, que estas palavras, -pronunciadas no meio das pompas da religião, retumbavam d'uma maneira -verdadeiramente solemne. Ouviram-se, pela ultima vez, em França, na -morte de Luiz XVIII. - - - - -XLI - -_O estado sou eu!_ - - -No dia immediato ao da morte do cardeal Mazarino, Luiz XIV, então de -vinte e dois annos, fez chamar os ministros que o cardeal lhe tinha -deixado--Pedro Séguier, Miguel Lettellier, de Lionne e Fouquet, e -declarou-lhes que seria elle proprio, de futuro, o seu primeiro -ministro. Na mesma tarde o arcebispo de Ruão foi encontrar-se com elle e -disse-lhe: - ---«Vossa Magestade tinha-me ordenado que me dirigisse ao cardeal para -todos os negocios; elle está morto, a quem devo dirigir-me agora?» - ---«A mim, senhor arcebispo.» - -O reino de Luiz o Grande estava começado. - -Estes preliminares pintam já o caracter de Luiz XIV e tornam muito -provavel a authenticidade da famosa phrase--_O estado sou eu!_--que a -historia diz elle fez ouvir, quando entrou de botas e esporas no -parlamento. - -Como o presidente lhe significasse que a resistencia opposta aos seus -editos, tinha a sua origem nos interesses do estado, o joven monarcha -respondeu: - ---«_O estado sou eu!--L'etat, c'est moi!_» - - - - -XLII - -_Alavanca d'Archimedes_ - - -Chama-se _alavanca_ um corpo longo, inflexivel, fixo em um ponto da sua -extensão, e destinado a levantar pesos. O ponto sobre a qual a alavanca -tem o seu ponto fixo, diz-se _ponto d'apoio_; o peso a levantar, -chama-se _resistencia_ e a força que actua é _potencia_. Quando o ponto -d'apoio está collocado no meio da alavanca a _potencia_, e a -_resistencia_ são eguaes, isto é, para se levantar um peso de cem -kilogrammas é necessario uma força egual a esse peso. Mas a par e passo -que o ponto d'apoio se approxima da resistencia, a força que se tem de -desenvolver diminue proporcionalmente. D'aqui é facil comprehender que -uma força egual, por exemplo, a algumas grammas, póde levantar um navio -completo, dando-se um comprimento sufficiente ao braço da alavanca que -separa o ponto d'apoio da força activa. - -É certo que a alavanca era conhecida de Archimedes, e foi o genio d'este -grande homem que lhe determinou as propriedades e as proporções exactas. -Comprehende-se que Archimedes tendo levado até ao infinito o estudo -theorico da potencia da alavanca haja ousado exclamar: - ---«_Deem-me um ponto d'apoio e eu levantarei a terra!_» - -Ha n'isto uma evidente hyperbole de linguagem, mas esta hyperbole -satisfaz a razão, porque assenta n'um principio mathematico. - - - - -XLIII - -_Magdalena_ - - -Magdalena, mulher celebre do Evangelho, era uma cortezã d'uma grande -belleza. Tendo ouvido fallar Jesus, foi commovida de repente, e o -arrependimento entrou no seu coração. Um dia em que Jesus estava á meza -em casa de Simão Phariseu, a bella peccadora apresentou-se toda -lastimosa na sala da refeição e precipitou-se aos pés do Salvador, -regando-os com as suas lagrimas, beijando-os, inundando-os de perfumes e -enxugando-os com os seus cabellos. O Phariseu escandalisou-se vendo que -Jesus se deixava tocar por essa mulher, conhecida em toda a cidade por -uma grande peccadora. Foi n'esta circumstancia que Jesus mostrou toda a -misericordia que trasbordava do seu coração, dizendo aos que o rodeavam: - ---«_Ser-lhe-ha muito perdoado, porque muito amou!_» - ---Esta resposta applica-se hoje, mas quasi sempre ironicamente, ás -mulheres conhecidas pela facilidade dos seus costumes, sejam ou não -arrependidas, e ha, ao mesmo tempo, o uso de as designar pelo nome de -_Magdalenas_. - - - - -XLIV - -_Casa de Socrates_ - - -Socrates estava fazendo construir uma casa. Como lhe fizessem sentir que -era demasiado pequena, elle acudiu: - ---«_Prouvera a Deus que ella se enchesse de verdadeiros amigos!_» - -Esta bella phrase foi aproveitada por La-Fontaine, de que damos a -seguinte versão: - - «Socrates uma casa edificava, - E cada qual a obra criticava. - Um achava o interior, - Para dizer a verdade, - Indigno do morador; - Um outro desdenhava a frontaria, - E toda a gente que essa casa via, - Achava os aposentos limitados - E bem pouco lisongeiros - Mesmo por qualquer dos lados. - --«Prouvera a Deus que d'amigos provados - Se enchesse--diz--d'amigos verdadeiros!» - - Socrates razão tivera - De achar, por tal, espaçosa a casita; - Amigos muitos ha--quem acredita? - Amigos de nome apenas, - Não d'amisade sincera. - - - - -XLV - -_Desgraça aos vencidos!_ - - -Depois da sangrenta batalha d'Allia, cujo anniversario foi incluido -pelos romanos no numero dos dias nefastos, o terror tinha-se espalhado -em Roma e todos os habitantes haviam fugido, excepto oitenta velhos que -esperavam corajosamente a morte nas suas cadeiras curues, e a mocidade -que se refugiou no capitolio. Depois de terem saqueado e queimado Roma, -os gaulezes pozeram cêrco á fortaleza, e tendo dado um assalto sem -resultado, estabeleceram então um cêrco mais rigoroso. Os defensores da -fortaleza, sitiados havia sete mezes e entregues a todos os horrores da -fome, pedem, afinal, capitulação. Brenno, chefe dos gaulezes, consente -em levantar o cêrco mediante mil libras de ouro em peso. O tribuno -Sulpicio apresenta a somma no dia marcado. Em quanto que se pesa o ouro, -levanta-se uma contestação e os romanos censuram aos vencedores o uso de -falsos pesos. - -É então que Brenno, lançando a sua pesada espada na balança, pronuncia a -phrase celebre que depois se tornou proverbial: - ---«_Desgraça aos vencidos!_»--«_Væ victis!_» - - - - -XLVI - -_Manto de Joseph_ - - -Os mercadores ismaelitas, aos quaes Joseph fôra entregue por seus -irmãos, levaram-n'o para o Egypto e venderam-n'o a Putiphar, um dos -principaes officiaes do rei. A mulher de Putiphar, animada d'uma -criminosa paixão, pelo joven israelita, que era formoso, tentou -abalar-lhe a virtude e, para o obrigar a consentir nos seus desejos, -ella agarrou-o um dia pelo manto e quiz attrahil-o a si. - -Joseph abandonou-lhe o manto e fugiu. Cheia de cólera e envergonhada por -se vêr assim desprezada, essa mulher disse ao marido: - ---«O escravo hebreu quiz ultrajar-me, mas aos meus gritos fugiu, -deixando-me o manto entre as mãos!» - -Putiphar, irritado, fez encarcerar Joseph. - ---Comprehende-se, sem que seja necessario que o expliquemos, em que -ordem de ideias se faz allusão ao manto de Joseph e á mulher de -Putiphar. - - - - -XLVII - -_Mario sobre as ruinas de Carthago_ - - -Mario, livre das prisões de Minturnes, fez-se á vela para a Africa. O -navio que o conduzia, privado d'agua, quiz aportar á Sicilia, mas uma -força armada assaltou a equipagem, matou varios homens, e o proprio -Mario só com difficuldade escapou. Alguns dias depois desembarcou na -Africa, nos mesmos locaes aonde se elevava outr'ora a poderosa cidade de -Carthago. - -Apenas em terra, Sextilio, pretor da Lybia, homem dedicado a Sylla, -fez-lhe intimar ordem de deixar aquella provincia, e como o mensageiro -lhe pedisse uma resposta, elle disse-lhe: - ---«_Vae dizer a teu senhor, que viste Mario, errante e fugitivo, sentado -sobre as ruinas de Carthago!_» - -A presença d'este grande proscripto sobre as ruinas ainda fumegantes da -antiga e poderosa rival de Roma, é um dos mais frisantes exemplos das -vicissitudes humanas, e a maneira simples e energica com que esta -approximação é expressa, faz d'elle uma das mais sublimes lições que a -historia tem tido a consignar. - -Toda a gente conhece o verso em que Delille poz em presença esses dois -infortunios: - - «_E essas ruinas, sim, consolavam-se a si!_» - - - - -XLVIII - -_Subir ao Capitolio_ - - -Na antiga Roma, os generaes vencedores subiam em triumpho ao Capitolio, -no meio das acclamações de todo o povo, e alli offereciam sacrificios -aos deuses; em seguida o povo os acompanhava a sua casa com archotes e -soltando gritos de alegria. - -Na Edade Média, e durante o grande seculo litterario da Italia, -resuscitaram-se, em favor da poesia, os antigos triumphos do Capitolio. -No dia de Paschoa, a 8 d'abril de 1341, Petrarcha subiu ao Capitolio no -meio dos principaes cidadãos, precedidos de doze mancebos, escolhidos -nas familias mais illustres, que declamavam os seus versos. Recebeu a -corôa de louro e recitou um soneto ácerca do heroe da antiga Roma. - -Tasso recebeu tambem as honras da coroação; a sua entrada em Roma já -teve o aspecto de um triumpho. O povo, os nobres, os prelados, os -cardeaes, os sobrinhos do Papa, foram ao seu encontro e o conduziram ao -Vaticano, no meio das mais vivas acclamações. O Papa, avistando-o, -disse-lhe com graça particular: - ---«Vinde honrar esta corôa, que honrou todos quantos a collocaram antes -de vós.» - -Os aprestos da cerimonia proseguiam com a maior rapidez e o Tasso ia, -emfim, receber a recompensa d'uma vida cheia d'amargura e de dôr; mas -por uma ultima irrisão da sorte elle morreu na vespera do proprio dia em -que devia subir ao Capitolio, e o louro poetico não adornou senão a -fronte do seu cadaver, que fôra amortalhado com a toga romana. - -Pouca gente desconhece a magnifica descripção que Madame de Stael fez da -coroação de Corinna. A brilhante escriptora faz reviver no seu celebre -romance a _Corinna Thebana_, a rival feliz de Pindaro, varias vezes -coroada nos jogos olympicos. - - - - -XLIX - -_Onde não ha el-rei o perde_ - - -Representava-se na comedia Franceza, com immenso successo o _Cerco de -Calais_, tragedia de Belloy. O principal papel era desempenhado pela -actriz Clairon, tão conhecida pelas suas aventuras galantes sob o nome -de Fretillon. Um comediante muito obscuro, chamado Dubois, que -desempenhava um papel n'esta peça, era accusado pelos seus collegas d'um -acto de improbidade. Estes, tendo á frente a Clairon, recusaram-se a -entrar em scena em companhia d'elle, e o _Cerco de Calais_ foi -interrompido na vigesima representação. Os espectadores agitaram-se e -houve desordem no theatro. Clairon fazia-se especialmente notar entre os -mais obstinados. Ordenou-se que ella fosse conduzida ao Fort-L'evêque. -Ella, então, disse a quem a intimava, com emphase theatral, que ia, mas -que sua magestade podia tudo sobre os seus bens e sobre a sua liberdade, -mas nada sobre a sua _honra_. - ---«_Isso é sabido_--responderam-lhe--_onde não ha el-rei o perde!_» - -É vulgar e de facil comprehensão a applicação d'esta phrase. - - - - -L - -_Onde se vae aninhar a virtude?_ - - -Moliére alliava a um grande genio as mais formosas qualidades do -coração, e tinha uma alma ao nivel do seu espirito. Caracter suave, -complacente e generoso, nunca o abandonava o seu elevado sentimento -caritativo. - -Um dia em que partiu para S. Germano approximou-se-lhe um mendigo e -pediu-lhe esmola. Moliére lançou-lhe uma moeda e subiu para o trem. -Instantes depois percebeu que o pobre o seguia correndo. Fez parar. O -pobre chegou-se e disse-lhe: - ---«O senhor enganou-se, de certo, porque me deu um luiz, que eu venho -entregar.» - ---«Não, meu amigo--acudiu--e aqui tens outro.» - -E como o seu genio estava continuamente álerta, e elle estudava em toda -a parte a natureza, como homem que queria pintal-a, exclamou: - ---_Onde se vae aninhar a virtude?_ - - - - -LI - -_Perdoae-lhes, meu Pae, não sabem o que fazem_ - - -Jesus Christo, cuja vida, acções e doutrina tinham sido mansidão e -misericordia, só teve sobre a cruz palavras de doçura para os seus -proprios algozes, sobre a cabeça dos quaes attrahiu o perdão de seu Pae. -«Ora--diz S. Lucas--com elle levavam dois outros homens, que eram -criminosos, para os pôrem á morte, e quando chegaram ao Calvario, Jesus -foi crucificado entre dois ladrões, um á direita e outro á esquerda, e -elle dizia fallando dos seus verdugos:--_Perdoae-lhes, meu Pae, não -sabem o que fazem!_ - -Esta phrase cahiu do alto da cruz, no meio das agonias da morte e dos -soffrimentos mais crueis, e resume admiravelmente o espirito evangelico -e a moral sublime do sermão da montanha. - -A applicação d'esta phrase suprema não tem logar, geralmente, senão no -estylo familiar. - - - - -LII - -_Lavar as mãos como Pilatos_ - - -Poncio Pilatos, governador da Judeia, sob Tiberio, seria completamente -desconhecido hoje, se o seu nome se não achasse envolvido no maior -successo da historia. Jesus, perseguido desde muito pelo odio dos -principes dos padres e dos phariseus, tinha sido apresentado perante o -tribunal de Caiphaz, e condemnado á morte por se dizer Christo, filho do -Deus vivo. Mas esta sentença não podia ser executada sem as ordens do -governador romano. Os judeus levaram Jesus a Pilatos. Este convencido da -sua innocencia, perturbado, além d'isto, por um estranho sonho que sua -mulher Claudia Procula tinha tido durante a noite e que lhe despertára o -maior interesse pelo Christo, procurava illudir a sentença de morte. Mas -a populaça tendo reclamado o ultimo supplicio com gritos de furor, e -ameaçado o proprio Pilatos com a cólera de Cesar, o fraco governador -abandonou Jesus á raiva dos algozes. No entretanto, querendo protestar -contra o que elle considerava uma suprema injustiça, elle fez trazer -agua, e lavando as mãos deante do povo, exclamou: - ---«Estou innocente da morte d'este justo; sois vós que respondereis por -ella!» - ---«Sim, sim--gritaram os loucos--que o seu sangue cáia sobre nossas -cabeças e sobre nossos filhos!» - -E crucificaram-n'o! - -Alguns annos mais tarde, Pilatos, cahindo em desagrado sob Caligula, foi -exilado, e no exilio, perseguido pelos remorsos, matou-se de desespero, -dizem. - -A sentença iniqua que Pilatos pronunciou contra Jesus pesará sempre -sobre a sua memoria, e até ao fim dos seculos Pilatos será o typo dos -magistrados pusillanimes, que, obedecendo á voz do medo e dos seus -interesses, teem a cobardia de pronunciarem condemnações que a -consciencia reprova. Embora lavem as mãos, o sangue innocente derramado -deixará sempre uma nodoa indelevel, que será para elles uma nodoa -infamante. - ---É, fazendo allusão á acção de Pilatos, que em linguagem familiar se -diz:--«_D'ahi lavo as mãos_», como declaração de que se não tem -responsabilidade nas consequencias de successos para que se concorreu. - - - - -LIII - -_O que não peccou, atire a primeira pedra_ - - -Os scribas e phariseus levaram a Jesus uma mulher que fôra surprehendida -em adulterio, e disseram-lhe: - ---«Mestre, esta mulher acaba de ser surprehendida em adulterio. Ora a -lei de Moisés ordena-nos que apedrejemos as adulteras. Qual é a este -respeito a vossa opinião?» - -Fallavam-lhe assim para o tentarem, e a fim de o poderem accusar. Mas -Jesus Christo abaixando-se, escreveu com o dedo na terra. - -E como continuassem a interrogal-o, elle levantou-se e disse-lhes: - ---«_Aquelle d'entre vós que não peccou lhe atire a primeira pedra._» - -A esta phrase elles retiraram-se a um e um, e só ficou Jesus com essa -mulher que se conservava de pé. - -Jesus disse-lhe então: - ---«Ninguem te condemnou, não te condemnarei tambem. Vae e não peques -mais.» (_Evang. S. João_). - - - - -LIV - -_Tres linhas escriptas e eu farei enforcar quem as escreveu_ - - -Nada ha que mais se preste á critica e á satyra do que as leis. -Anacharsis comparava-as ás teias d'aranha que prendem as pequenas e -deixam passar as grandes moscas. La-Fontaine rimou a mesma ideia quando -disse: - - «Assim, conforme o que és, ou grande ou miseravel «A justiça fará - que sejas branco ou negro.» - -Não confirma a sabedoria das nações, os juizos do philosopho e do -fabulista, quando concede ao condemnado vinte e quatro horas para -maldizer a um juiz? Mas a cabula, o processo, o codigo n'uma palavra não -justifica hoje estas accusações? e os traços que acabamos de citar são -uma calumnia ou maledicencia? O presidente d'Ormesson parece ter -respondido a esta pergunta quando disse: - ---«Se eu fosse accusado de ter roubado as torres de Notre Dâme, e -ouvisse gritar atraz de mim--_agarra que é ladrão!_--eu fugiria -desesperadamente.» - -Este terror que inspira a justiça, mesmo ao mais innocente, está -plenamente justificado por estas palavras: - ---«_Deem-me tres linhas da escripta d'alguem e eu o farei enforcar._» - -Os eruditos estão divididos sobre o auctor d'esta celebre phrase, que -attribuem a Laubardemont, ao Padre Joseph, a Richelieu, a Jeffries, e -que M. Proudhon, mais prudente, attribue a um ... criminalista. - -O cardeal Richelieu, que conhecia o poder do equivoco, citava um dia -esta phrase deante dos seus secretarios. Um d'elles, julgando -embaraçal-o, escreveu n'um cartão--«Um e dois fazem tres.»--«Blasphemia -contra a Santissima Trindade!--exclamou o cardeal--um e dois só fazem -um.» - - - - -LV - -_Quem te fez conde? Quem te fez rei?_ - - -A fraqueza dos ultimos carlovingianos tinha permittido á feudalidade -lançar profundas raizes entre os francos, e tornar-se quasi -independente, e quando em 987 Hugo Capeto foi eleito rei de França em -Noyon, pelos seus proprios vassallos e alguns pequenos feudatarios -visinhos, elle ficou o que tinha sido antes, conde de Paris, possuidor -de vastos dominios, mas não sendo, no meio dos poderosos barões, mais -que o primeiro entre iguaes. Assim, todo o seu reino foi perturbado -pelas revoltas dos proprios que o tinham levado ao throno, mas que -recusavam reconhecer a sua supremacia. Poder-se-ha julgar pela altiva -resposta d'um d'elles, com que olhos consideravam a nova realeza. - -Um conde de Périgneux, Adalberto, emprehendeu conquistas e usurpára os -titulos de conde de Poitiers e de Tours. O rei de França mandou-lhe um -mensageiro para lhe perguntar: - ---«Quem te fez conde?» - -Ao que Adalberto respondeu: - ---«Quem te fez rei?» - -Estas phrases, frequentemente citadas, resumem uma epocha inteira. - - - - -LVI - -_A Cesar o que é de Cesar a Deus o que é de Deus_ - - -Alguns dias antes da celebração da Paschoa, Jesus fez uma entrada -triumphal em Jerusalem, no meio d'um concurso immenso de povo que -gritava:--Hossana ao filho de David! Bemdito o que vem em nome do -Senhor!» Os principes dos padres e os scribas procuraram então os meios -de o perder e de o prender nas proprias palavras por perguntas -insidiosas. Os herodianos approximaram-se, pois, d'elle, e lhe -perguntaram: - ---«Mestre, sabemos que és verdadeiro nas tuas palavras e que ensinas o -caminho de Deus, sem distincção de pessoas. Dize-nos então a verdade -sobre isto:--É permittido pagar o tributo a Cezar?» - -Jesus, penetrando na intenção d'elles, respondeu: - ---«Mostrem-me a moeda de dinheiro que se dá em tributo.» - -Apresentaram-lhe um dinheiro. Jesus disse-lhes então: - ---«De quem é esta moeda?» - ---«De Cezar.» - ---«_Dêem, então, a Cezar o que é de Cezar e a Deus o que é de Deus!_» - -Vem a proposito citar que Henrique IV, que antes de entrar em Paris fôra -obrigado a comprar muito caro os chefes da Liga, modificou, a este -respeito, da maneira mais original e mais espirituosa, a lettra do -Evangelho. - -Um dia depois do seu jantar, Henrique IV disse ao seu secretario: - ---«Que pensas, vendo-me em Paris como estou?» - ---«Penso, senhor, que deram a Cezar o que era de Cezar, como é preciso -dar a Deus o que é de Deus ...» - ---«Ora essa!--replicou o rei--não me fizeram como a Cezar, porque me não -_deram_, mas porque me _venderam_ o que era meu.» - - - - -LVII - -_Salto de Leucade_ - - -Sapho, a mais illustre das poetisas, appellidada a decima musa, nasceu -em Mitylene, na ilha de Lesbos, pelo anno 600, antes de Christo. Amiga -do poeta Alceu, ella foi arrastada na conspiração contra Pittaco e -acabou os seus dias no exilio. - -Os antigos representam-na devorada pelas paixões e entregue ao furor dos -sentidos; e elles não davam o nome de versos ás suas poesias, mas -_ardores_, _chammas_, etc.; e acceitando os costumes muito conhecidos -das lesbianas com a indulgencia cynica d'aquella epocha, elles -inflammavam-se n'um enthusiasmo sem limites pelo lyrismo desordenado dos -seus cantos, pela graça exquisita, pela harmonia arrebatadora e pelo -estylo de fogo das suas odes. - -Conta a tradição que, apaixonada pelo insensivel Phaon, joven lesbiano, -d'uma grande belleza, e não podendo vencer os seus desprezos, ella se -precipitou, cheia de desespero, do alto de Leucade no mar. - -A ilha de Leucade era famosa por um promontorio, formado de rochedos -escarpados que dominavam o mar. Era alli que as amantes desgraçadas iam -procurar remedio a seus males, precipitando-se do alto do promontorio -sobre as vagas. É isto o que se chamava _dar o salto de Leucade_. Os que -escapavam á morte depois d'esse perigoso salto, ficavam curados do seu -amor. - -Mas comprehende-se que pouquissimas resistiam a esse remedio heroico. - - - - -LVIII - -_Se é possivel, está feito; se é impossivel se fará_ - - - Impotente, gottoso, e já velho leão - Queria achasse algum remedio á velhice. - _O impossivel aos reis allegar é illusão_. - -Eis uma verdade que Colonne, quartel mestre geral das finanças, sob Luiz -XVI, era demasiado fino e cortezão para ignorar. Leviano, espirituoso, -incapaz d'um plano fortemente concebido e pacientemente executado, elle -devia deixar as finanças do reino n'um estado ainda mais deploravel do -que as tinha encontrado ao entrar para o ministerio. As suas operações -aventureiras só deviam augmentar o mal geral e o numero dos -descontentes. N'essa côrte tão prodigiosamente descuidada na vespera -d'uma catastrophe e em que só Luiz XVI tinha o sentimento dos seus -deveres, sem ser dotado da energia necessaria para bem os cumprir, o -luxo e a prodigalidade eram tão insaciaveis como se os cofres do estado -estivessem pejados. Para crear elogiadores entre os homens de lettras, o -ministro concedeu pensões a um grande numero d'elles. - -Maria Antonietta era a primeira a dar o exemplo do luxo e não punha -qualquer freio ao seu prazer pelo gasto. Um dia que ella precisava d'uma -somma consideravel dirigiu-se a Colonne, cuja facil condescendencia ella -conhecia. Antes de lhe expor o pedido, ella disse-lhe n'esse tom de -mulher e rainha que não quer recusa: - ---«O que tenho a pedir-lhe é difficil talvez, Colonne!» - -O espirituoso ministro respondeu, inclinando-se graciosamente: - ---«_Se é possivel, está feito; se é impossivel, far-se-ha!_» - -Não era possivel commentar mais finamente o verso de La-Fontaine. - -Nas guerras da republica, a possibilidade do _impossivel_ foi expressa -d'uma maneira mais nobre por um general francez, no ardor d'um combate -encarniçado. Um official que elle acabava de encarregar d'uma operação -perigosa, respondeu-lhe que era impossivel. - ---«Impossivel, senhor?--respondeu o general--Olhe que essa palavra não é -franceza!» - - - - -LIX - -_Terra promettida_ - - -Depois da morte de Joseph, os descendentes de Jacob não tardaram a ser -perseguidos pelos egypcios, que os empregavam nos trabalhos mais rudes. -Mas Deus que tinha sempre os olhos fixos sobre o seu povo, suscitou -Moisés, ao qual ordenou que conduzisse os hebreus _á terra de Chanaan_, -berço de seus paes.--«Era--diz a Escriptura--uma terra de promissão, -produzindo uvas que dois homens mal podiam carregar, e onde corriam -regatos de leite e de mel.» Mas os israelitas, constantemente rebeldes, -foram condemnados a errar quarenta annos no deserto, á vista d'essa -terra de delicias, sem n'ella poderem entrar. Afinal lá chegaram, -conduzidos por Josué. - ---A _terra promettida_ é uma expressão que passou em todas as linguas a -designar um estado, uma ventura a que se aspirava ha muito tempo. Victor -Hugo disse, a proposito, nas _Folhas do Outomno_: - - . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . - «Um homem, dentro em si, construe e phantasia - Um mundo encantador, mundo d'arte e poesia, - --A nossa Chanaan, que nós vemos de cima ...» - - - - -LX - -_Thebaida_ - - -A Thebaida, uma das tres grandes divisões do antigo Egypto, e que tinha -Thebas por capital, era famosa pelos desertos que a éste e oéste -cercavam a sua parte habitada. Foi n'uma destas solidões que nos -primeiros seculos do christianismo se refugiaram muitissimos christãos, -já para fugirem á perseguição, já para se esquivarem ás seducções do -mundo, entregando-se ao jejum, á oração e a todas as austeridades da -vida ascetica. - -O mais illustre d'entre elles, Santo Antonio, dera o exemplo, -distribuindo a sua fortuna aos pobres, para viver do trabalho das suas -mãos. A sua reputação de santidade espalhou-se ao longe, e a breve -trecho, milhares de discipulos se gruparam em volta d'elle. Durante -algum tempo, foi, d'algum modo repovoado de monges e anachoretas. Mas -afinal a despovoação geral do Egypto produziu a extincção de quasi todos -os mosteiros, que se haviam creado. - -Hoje, só as cellas vasias, marcadas com o symbolo dos christãos, indicam -a assistencia d'esses religiosos nos templos pagãos arruinados, bem como -as grutas dos sepulchros da Thebaida. - ---Na linguagem ordinaria, _Thebaida_, diz-se d'um deserto, d'uma solidão -profunda, em que se vive retirado do mundo; mas esta palavra está longe -de ser tomada sempre n'este sentido. Faz-se muitas vezes uso d'ella, em -poesia, especialmente para designar um retiro favorito, que -propositadamente se escolhe, longe do bulicio, para o goso das doçuras -da amisade, ou dos encantos do amor. - -Lembra-nos até que Theophilo Gautier disse já n'uma das suas esplendidas -poesias: - - «Um bom _cottage_ inglez, eis a _Thebaida_ sua!» - - - - -LXI - -_Desça o panno, acabou a comedia!_ - - -Rabelais, o mais philosopho dos bufões, e o mais bufão dos philosophos, -nasceu perto de Chinon, em Touraine, por 1483. Os seus biographos são -pobres em factos authenticos, mas em compensação abundam em anecdotas -romanescas, de onde resalta esse typo de cara alegre e tolerante, amigo -de Baccho e da dança, o que só se ama por excepção. O genero muito -particular do seu genio foi perfeitamente pintado por La Bruyére:--«Onde -Rabelais é mau passa muito além de peior; é o encanto da canalha; aonde -é bom, elle vae até ao extremo de excellente, e póde ser um prato dos -mais delicados.» De resto, este sentimento do moralista parece ter sido -dictado pelo proprio Rabelais que recommendava aos seus leitores «que -abrissem a caixa para tirarem a droga, e quebrassem os ossos para -chucharem a medula.» Mas o que domina na sua vida e nos seus escriptos é -um septicismo zombador que ataca todas as crenças, todas as -instituições, todos os sentimentos, e que estala, sobretudo, nos ultimos -momentos da sua vida. - -Entre as numerosas versões que foram reproduzidas ácerca da sua morte, -encontra-se esta. O cardeal de Châtillon, seu amigo, tendo enviado um -pagem a informar-se da sua saude, elle respondeu-lhe: - ---«Dize a Monsenhor em que bello humor me encontras. Eu vou buscar um -grande _talvez_. Está no ninho da pega. Dize-lhe que se deixe estar. E -tu não passas d'um tolo.»--Depois exhalou o ultimo suspiro n'uma grande -gargalhada acompanhada d'estas palavras: - ---«_Desça o panno; acabou a comedia!_» - - - - -LXII - -_Tudo é perdido, menos a honra!_ - - -Francisco I a quem duas derrotas experimentadas pelos seus generaes -Lautrec e Bonnivet tinham feito perder o milanez, quiz reconquistar este -ducado, e transpoz os Alpes á frente d'um novo exercito. A breve trecho -pôde entrar em Milão. Mas em vez de perseguir o inimigo a todo o transe, -obstinou-se no cêrco de Pavia, e, como este cêrco fosse delongado, teve -a imprudencia de se enfraquecer, destacando 12:000 homens que deviam -marchar sobre Napoles. No entretanto, os imperiaes reforçavam-se e -levavam soccorro a Pavia. Feriu-se a batalha e foi encarniçada. O rei -foi ferido na fronte, e a sua armadura, que a França possue ainda, foi -toda crivada. Mas o numero venceu a coragem, a batalha foi perdida e -Francisco I feito prisioneiro. Entregou a sua espada ao vice-rei de -Napoles, Lannoy, que a recebeu de joelhos. - -«Foi do campo imperial, perto de Pavia, que Francisco I escreveu a sua -mãe uma carta que se tornou celebre, graças á tradicção, que muito a -alterou dando-lhe a fórma d'um laconismo sublime: - ---«_Senhora, tudo é perdido, menos a honra!_» - -Recentes investigações, porém, fizeram descobrir o texto verdadeiro -d'essa carta que começa do seguinte modo:--«Senhora, para vos fazer -saber como se cumpre o resto do meu infortunio, _de todas as coisas, só -me ficou a honra e a vida, que está salva_.» - - - - -LXIII - -_Trombetas de Jericó_ - - -Jericó foi a primeira cidade que os hebreus encontraram na sua entrada -na terra promettida. Era fechada por altas muralhas. Por ordem de Deus, -Josué mandou fazer ao seu exercito a volta da cidade durante sete dias. -A arca d'alliança fôra levada com grande pompa e precedida de sete -padres, que tocavam trombeta. O povo acompanhava em silencio. Ao setimo -dia, deu-se sete vezes a volta á cidade, e o povo, por ordem de Josué, -tendo soltado um grito muito grande, viu no mesmo instante -desmoronarem-se as muralhas. A cidade foi reduzida a cinzas e todos os -habitantes passados a fios d'espada. - ---Em litteratura faz-se muitas vezes allusão ás _trombetas de Jericó_, -que se oppõem á lyra d'Amphion. Este contraste não escapou ao rei -philosopho que escreveu ao seu amigo Voltaire:--«Interessado em servir o -genero humano, consagraes a vossa vida inteira ao bem publico. A -Providencia tinha-vos reservado para ensinardes aos homens a preferirem -a lyra d'Amphion, que elevava os muros de Thebas a esses instrumentos -bellicos que faziam arrazar os de Jericó.» - - - - -LXIV - -_A tunica de Christo_ - - -«Os soldados, depois de haverem crucificado Jesus, tomaram-lhe os -vestidos e dividiram-os em quatro partes: uma para cada soldado. Tomaram -tambem a tunica; mas a tunica não tinha costura, era uma só peça inteira -de cima a baixo. - -«E elles disseram uns aos outros:--«Não a talhemos; tiremos á sorte para -vermos a quem pertencerá. Afim de que esta palavra fosse cumprida, elles -dividiram entre si os meus vestidos e jogaram á sorte a minha -tunica.»--Eis o que fizeram os soldados.--(_S. João_, _cap._ XXIX). - ---Esta divisão da tunica de Jesus Christo, no momento da sua morte, tem -duas especies d'applicação:--ora se allude a ella para designar a -partilha dos despojos d'um innocente, ora recorda que a tunica era d'uma -só peça inteira, para indicar que uma coisa não póde soffrer divisão. - - - - -LXV - -_Um imperador deve morrer em pé_ - - -Vespasiano, imperador romano, ia além de sessenta e nove annos, quando -foi atacado da doença que o levou ao tumulo, não por agudos -soffrimentos, mas por um enfraquecimento progressivo. Conservando até ao -fim a sua serenidade d'alma, elle transformava em gracejo a apotheose -que lhe ia ser conferida.--«_Percebo que começo a tornar-me deus_», -dizia elle alegremente á medida que a sua situação se tornava -desesperada. Apesar da sua extrema fraqueza não interrompeu um instante -as suas occupações habituaes; dava tempo aos negocios e audiencia no -leito. Afinal, sentindo-se desfallecer, fez um derradeiro e supremo -esforço para se levantar, dizendo: - ---«_É preciso que um imperador morra de pé!_» - -E tendo-se feito vestir, expirou entre os braços dos seus officiaes. - ---Luiz XVIII, nos ultimos dias da sua vida teve uma phrase que recorda a -de Vespasiano. Apesar do depauperamento das suas forças, continuava a -mostrar-se em publico e nos conselhos. A 25 d'Agosto de 1824, dia de S. -Luiz, respondeu ao conde d'Artois, seu irmão, que o aconselhava a não -receber: - ---Um rei de França morre, mas não deve estar doente!» - - - - -LXVI - -_Vendilhões expulsos do templo_ - - -«E estando proxima a paschoa dos judeus, Jesus fez a sua entrada em -Jerusalem. - -«E elle achou no templo mercadores que vendiam bois, ovelhas e pombas e -os trocadores alli estavam sentados. - -«E tendo feito umas disciplinas com cordas, elle os expulsou a todos -fóra do templo, assim como as ovelhas e os bois e espalhou o dinheiro -dos vendilhões sobre as mezas. - -«E elle disse aos vendilhões:--«Está escripto. A minha casa é uma casa -de oração e vós fazeis d'ella uma caverna de ladrões.» (_S. João_, -_cap._ II). - ---Esta expressão--_expulsar os vendilhões do templo_--emprega-se para -stigmatisar os profanadores, em qualquer ordem que seja, os que -mercadejam com coisas respeitaveis e que só deviam ser apanagio -exclusivo da arte, das lettras, das sciencias, e, em geral, da -intelligencia e do talento. - - - - -LXVII - -_Gritar no deserto_ - - -S. João Baptista, filho de Zacharias e de Santa Elisabeth, prima da -Virgem Santissima, retirou-se muito cedo para o deserto, levando uma -vida cheia d'austeridades. Vestia uma pelle de camello atada á cinta por -uma tira de couro, e o seu alimento constava de gafanhotos e mel bravo. -Quando chegou á edade de trinta annos e foi preparado com rudes -exercicios para o ministerio que lhe estava destinado, dirigiu-se ás -margens do Jordão, prégando a penitencia, annunciando a realisação das -prophecias e a vinda do Messias, que o tinha enviado para preparar os -seus caminhos. «--Façam penitencia--exclamava elle--pois o reino dos -céus está proximo». Os habitantes dos arredores corriam em multidão para -o ouvirem. O synhedrio, tocado pelo seu genero de vida extraordinario e -da sua eloquencia selvagem, enviou-lhe padres e levitas para saberem se -era o Messias, ou Elias, ou simplesmente um propheta. Elle respondeu que -não era propheta, nem Elias, nem Messias.--«Quem és então?, porque -precisamos levar resposta aos que nos mandaram?»--«Sou a voz d'aquelle -que grita no deserto:--tornae recto o caminho do Senhor!» E elle -ajuntava:--«Aquelle que deve vir depois de mim é mais poderoso do que -eu, e eu não sou digno de desatar os cordões do seu calçado. Moisés -deu-vos a lei, mas o Christo vos dará a graça e a verdade.» - ---Hoje estas palavras--_gritar no deserto_--teem um sentido desviado do -primitivo. Significam na applicação--pregar, aconselhar, fallar em vão. - - - - -LXVIII - -_Zoilo_ - - -Celebre grammatico e critico grego do quarto seculo antes de Christo, e -cujo nome era já proverbial no tempo d'Ovidio. Nada se sabe ao certo, -quanto ao logar do seu nascimento, circumstancias da sua vida e genero -de sua morte. Tambem nos não chegou nenhuma das suas obras. Sabe-se -sómente, pelo testemunho quasi unanime dos antigos que elle se -encarniçou contra as obras d'Homero. - -Vitruvio pretende que Ptolomeu Philadelpho, indignado com as suas -blasphemias litterarias, lhe infligiu o supplicio da cruz, ou o fez -queimar vivo. - ---O nome de _Zoilo_ designa o typo do critico apaixonado e de má fé. - - «No futuro, será _Zoilo_, com toda a furia, - Aos _censores_ crueis uma cruel injuria.» - - - - -LXIX - -_Aspasia_ - - -Mulher grega, natural de Mileto, celebre pelo seu espirito e pela sua -belleza. Foi muito cedo para Athenas, aonde não tardou a exercer sobre -os homens mais illustres d'essa epocha, Pericles, Alcibiades, o proprio -Socrates, o ascendente irresistivel da eloquencia, da graça e da -belleza. Pericles, arrastado pelos seus encantos, repudiou sua primeira -mulher para a desposar. Ella exerceu sobre elle tal ascendente, que -teve a maior parte nos negocios da Grecia, tornando-se um verdadeiro -poder na republica. Dizia-se que as harengas de Pericles eram mais d'uma -vez inspiradas por Aspasia. Accusada d'impiedade ella defendeu a sua -propria causa com uma eloquencia que apesar de grande, não a teria -salvo, se seu esposo não enternecesse os juizes com lagrimas. Essa -mulher illustre deve ser classificada, não como demasiadas vezes o é, na -classe das cortezãs, mas na das _hetairas_, mulheres gregas, dedicadas -ás artes, á poesia, á propria sciencia, e que eram procuradas para os -prazeres do espirito, e de que Aspasia foi um dos typos mais graciosos e -mais perfeitos. - -Foi por justo titulo que o nome passou a significar entre os gregos a -mais amavel das mulheres, como Alexandre o maior dos heroes,--e é n'este -sentido que chamamos ainda hoje _Aspasia_ á mulher que reune os dons do -espirito aos encantos da belleza. - - - - -LXX - -_Babylonia_ - - -Assente sobre o Euphrates e embellezada por Semiramis, a Babylonia -parecia ter sido a cidade mais esplendorosa da antiguidade. As suas -muralhas de cincoenta pés de largura e d'uma altura prodigiosa, as suas -cem portas de bronze, os templos, os palacios, as estatuas d'ouro, e, -sobretudo, os seus jardins suspensos, tornavam-na a rainha das cidades -antigas. - -Rival de Jerusalem foi muitas vezes em guerra com o povo judeu que alli -passou setenta annos de captiveiro, durante os quaes um grande numero -_não suspenderam as suas harpas nos salgueiros da margem_, e abandonaram -a religião de seus paes. As Escripturas fallam de Babylonia como de um -foco de corrupção e idolatria; fizeram-na a personificação do mundo -profano, o receptaculo de todos os vicios e de todas as impurezas. -Exasperados pela politica barbara dos babylonios os israelitas -votaram-lhes um odio profundo, e a dissolução dos costumes, de que foram -testemunhas no captiveiro, augmentou áquelle sentimento o do horror e do -desgosto. D'aqui o nome de _grande prostituta_, que elles deram a essa -cidade. - ---Hoje, que já não existe a Babylonia, que os viajantes e archeologos -nem mesmo podem encontrar-lhe o local, só o nome sobreviveu, e -applica-se aos grandes centros populosos, como Londres, e, sobretudo, -como Pariz, onde a agglomeração das massas, as riquezas, os progressos -da industria e da civilisação engendram fatalmente a corrupção de -costumes. - ---Os protestantes, que pretendem ser os unicos observadores da lettra e -do espirito evangelico, chamam á vida eterna--a _grande Babylonia_. - - - - -LXXI - -_Incendiar os seus navios_ - - -Esta locução allude ao procedimento de alguns grandes capitães, que a -historia nos representa incendiando os seus navios, que os haviam -conduzido á abordagem nos barcos inimigos, afim de que os marinheiros e -soldados, privados de toda a especie de fuga se vissem na contingencia -de vencerem ou morrerem. Agathocles, tyranno de Syracusa foi o primeiro -que na Costa d'Africa deu o exemplo d'esta resolução arrojada. - -O imperador Juliano poz fogo aos seus depositos e aos seus mil e cem -navios, no Tigre, quando fez a sua expedição contra Sapor, um rei da -Persia. Guilherme, o Conquistador, abordando a Inglaterra em 1066, -recorreu ao mesmo expediente, que foi seguido da victoria d'Hastings. -Roberto Guiscard, no perigo eminente em que se achava com a sua pequena -armada deante das forças consideraveis de Alexis Commene, incendiou a -sua frota e as suas bagagens e ganhou a victoria de Durazzo a 13 -d'outubro de 1084. Foi d'este modo, emfim, que Fernando Cortez, -desembarcando na costa do Mexico preludiou a conquista d'esta região. - ---Esta locução--_incendiar os seus navios_--passou a proverbio e quer -dizer:--interdizer, subtrahir por uma iniciativa arrojada os meios de -volver a uma resolução, de renunciar a uma empreza; pôr-se na -impossibilidade de retroceder. - - - - -LXXII - -_Os ultimos romanos_ - - -Chama-se geralmente assim aos romanos que, a exemplo de Catão, -conservaram, n'uma sociedade em decadencia, os costumes e a virtude dos -antigos tempos. Mas deu-se mais particularmente este nome a Bruto e a -Cassio, que foram a alma da conspiração que victimou Cezar, e que depois -de terem combatido nas planicies de Philippes contra os inimigos da -liberdade romana, se deram a morte para não sobreviverem á sua perda. - -Philopeme, que luctou constantemente pela liberdade hellenica e depois -da morte do qual, a Grecia se viu reduzida a provincia romana, é tambem -chamado--_o ultimo dos gregos_. - ---Estas palavras empregam-se, ora séria, ora ironicamente, para -designarem todos quantos conservam a tradicção d'um passado, que são -quasi os unicos a representar. - - - - -LXXIII - -_Faça cabelleiras, mestre André_ - - -Em 1760 um cabelleireiro francez chamado André, arrojou-se a escrever -uma tragedia em 5 actos, em verso, intitulada--_O terramoto de -Lisboa_--e mandou a peça a Voltaire, que elle chamava _caro confrade_ na -seguinte obra prima epistolar: - - AO ILLUSTRE E CELEBRE POETA - M.ʳ DE VOLTAIRE - - «_Meu caro confrade._ - -«É um estudante, noviço na arte da poesia, que se aventura a dedicar-lhe -a sua primeira obra, tendo-o sempre reconhecido por um dos nossos -celebres, pelas pomposas obras que tem dado e dá á luz todos os dias. Eu -julgar-me-hei feliz se quizer lançar um rapido olhar a essa pequena -obra, favorecendo-a com a menor das suas recordações. Faltaria a um -grande dever se não confessasse que o reconheço por meu mestre. Se pela -sua bondade se dignar favorecer-me eu prometto-me que, livre de todo o -receio, publicarei constantemente os seus louvores e testemunharei em -toda a parte, quanto lhe sou devedor por a haver acceitado. - -«Sou, M.ʳ e caro confrade, humillissimo e affeiçoado servo - - _André._» - -O grande poeta divertiu-se muito com esta singular e comica -confraternidade. E respondeu ao _seu caro confrade_ com uma missiva de -quatro paginas, encerrando apenas estas palavras, cem vezes -repetidas:--«Faça cabelleiras, mestre André; faça cabelleiras, mestre -André.» - -Esta espirituosa resposta fez dizer a mestre André que Voltaire -envelhecia, porque começava a repetir-se. - -A obra prima de mestre André fez muito ruido, porque em 1805, mais de -quarenta annos depois, um director alegre fez representar a peça _O -terramoto de Lisboa_, n'um pequeno theatro de _boulevard_ e ella obteve -um immenso successo comico, em oitenta representações successivas! - ---A phrase--_faça cabelleiras_, tornou-se uma das locuções mais -pittorescas da lingua franceza, com emprego em todas as outras. É uma -traducção espirituosa e comica do _ne sutor ultra crepidam_, dos -latinos. - - - - -LXXIV - -_Fé do carvoeiro_ - - -Dá-se por origem a esta locução o seguinte conto. O diabo, disfarçado em -eremita, e, segundo outros, em doutor de Sorbonne, entrou um dia na -cabana de um carvoeiro e disse-lhe para o tentar: - ---«Tu que crês?» - ---«Eu creio o que crê a Santa Egreja». - ---«E que crê a Santa Egreja?» - ---«Crê o que eu creio.» - -E o nosso homem manteve-se n'estas respostas sem d'ellas sahir, e o -espirito maligno foi obrigado a renunciar ao seu projecto, vendo a -inutilidade de todos os seus estratagemas. - -Accrescenta um auctor que esse diabo era, por sem duvida, muito novo, e -egualmente dos menos atilados, porque de outro modo elle teria -embaraçado muito o carvoeiro fazendo-lhe a seguinte pergunta: - ---«E que crêem, tu e a Santa Egreja?» - ---A phrase--_fé do carvoeiro_, designa uma fé simples e ingenua, que crê -sem exame. - - - - -LXXV - -_Ha juizes em Berlim_ - - -O grande Frederico, rei da Prussia, desejava ampliar o seu parque de -Sans-Souci, mas - - «Na encosta que escolhera o principe por si, - Tinha o moinho um tal moleiro Sans-Souci; - Vendedor de farinha, havia por costume - Ganhar, a dia a dia, o pão sem azedume. - E seja, emfim, qual fôr o lado d'onde vente - A vela gira sempre, e elle dorme contente. - . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . - Um projecto traçou um habil engenheiro, - Que abrangia o moinho e o seu recinto inteiro. - Mas ás vistas forçoso era renunciar, - Ou cortar á extensão e o parque mascarar. - Das construcções reaes, o intendente geral - Fez chamar o moleiro e disse-lhe afinal: - --«Quer-se o moinho teu; vê lá que valor tem.»-- - --«Não tem valor nenhum, que o não vendo a ninguem! - «Quer-se o moinho, é boa! elle é meu e direi - «Que, ao menos, tanto como a Prussia é só do rei»-- - --«Vamos, dize afinal--responde e tem cuidado!»-- - --«N'uma palavra?-- - --«Sim.-- - --«É meu, está declarado, - «Já disse, nada mais!»-- - - A recusa atrevida - Ao principe se conta e é coisa decidida. - Manda vir á presença o insolito moleiro, - Promette inutilmente, aperta, é lisongeiro, - Mas teima Sans-Souci--«Ouvi, Sire, a razão - Porque vender não posso o moinho em questão. - Meu avô lá morreu; lá tive um filho ha um mez, - É o meu Postdam, Senhor. Sou teimoso, talvez; - Nunca o fostes jámais? Nem mil ducados, não, - No fim d'esse discurso a mim me tentarão! - Passae sem elle, Sire, e ninguem mais insista!» - - Soffrem difficilmente os reis quem lhes resista, - E Frederico acode, o humor arrebatado: - --«Irra! que estás ao teu moinho bem pegado! - Ora atéqui tratei d'obtel-o e de pagal-o, - Mas sabes que, sem paga, eu posso exproprial-o! - O dono eu sou!»-- - --«Levar sem paga o moinho, a mim? - Talvez, _se não houvesse os juizes em Berlim!_»-- - - Do capricho o monarcha, ouvindo-o, em si cahia, - Contente, porque o reino inda em justiça cria; - E volvendo-se a rir para o seu architecto: - --«Eu acho que é melhor mudarmos de projecto. - Visinho guarda a casa, has respondido bem.»-- - . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . - ---Estas palavras--_ha juizes em Berlim_--que o poeta francez Andrieux -não fez senão citar na encantadora narrativa que vimos de traduzir -incompletamente, porque são historicas, formaram uma locução proverbial -que se emprega em todas as circumstancias analogas, isto é, quando a -força pretende vencer o direito. - -Cabe aqui, a proposito do moinho de Sans-Souci um pequeno caso que não -deixa de ser interessante. - -O famoso moinho é ainda hoje propriedade do bisneto do obstinado -moleiro. Mas n'essa familia os homens seguem-se e não se parecem. - -Assim, o descendente de Sans-Souci, necessitado de dinheiro fez saber ao -descendente de Frederico II, que estava disposto a ceder-lhe o moinho. O -principe respondeu-lhe com esta espirituosa carta: - - «Meu caro _visinho_. - -«O moinho não lhe pertence, nem a mim, pertence á historia; é-nos pois, -impossivel, a si, vendel-o, a mim, compral-o. Mas como entre visinhos e -visinhos bons deve haver auxilio, mando-lhe um cheque de 10:000 florins, -que póde receber do thesouro.» - - - - -LXXVI - -_Judas--Beijo de Judas_ - - -Dois dias antes da Paschoa, Jesus disse aos seus discipulos:--«Chegou o -dia em que o Filho do Homem vae ser entregue para ser crucificado.» E ao -mesmo tempo os principes dos padres e os mais velhos do povo, reunidos -em casa de Caiphaz, concertavam-se sobre os meios de se apoderarem de -Jesus e o fazerem morrer. Mas receiavam excitar qualquer agitação -popular. - -Foi então que Judas, um dos apostolos, se chegou e combinou entregar o -seu mestre, mediante trinta dinheiros. De tarde Jesus poz-se á meza com -os seus discipulos e annunciou-lhes que um d'elles o trahiria.--«Serei -eu, Senhor?»--lhe perguntou Judas, e depois da resposta do Salvador, -deixou a meza e foi-se, excitado pelo mau espirito. Em seguida Jesus -sahiu da cidade, seguido dos seus discipulos, e dirigiu-se ao monte das -Oliveiras, a um logar chamado Gethsemani. Logo appareceu Judas -acompanhado d'um grupo de soldados aos quaes tinha dito: «Prendam -aquelle que eu beijar, é elle que procuram.» E approximando-se de -Jesus, beijou-o e disse-lhe:--«Mestre, eu te saudo.» Jesus censurou-lhe -o seu crime com doçura:--«Judas, entregas o Filho do Homem com um -beijo!» E avançou para os soldados que se lançaram a elle e o ligaram. - ---O nome de _Judas_ ficou como a personificação do traidor, do homem -profundamente hypocrita, e o _beijo de Judas_, como para designar o acto -pelo qual se pratica a traição. Assim chamar Judas a alguem é -dirigir-lhe a mais pungente das injurias. E comprehende-se que uma tal -comparação seja repellida com indignação. - - - - -LXXVII - -_Pragas do Egypto_ - - -Moisés acompanhado de seu irmão Aarão, apresentou-se perante Pharaó, que -recusou reconhecer as ordens de Deus. Então Moisés e Aarão feriram -successivamente o paiz com dez flagellos, chamados--_pragas do Egypto_. - - 1.º--Agoas transformadas em sangue; - 2.º--O Egypto todo coberto de rãs; - 3.º--Os insectos devoradores; - 4.º--Grandes moscas insupportaveis; - 5.º--Peste; - 6.º--Chagas nos homens e nos animaes; - 7.º--Tempestades de saraiva e trovoadas; - 8.º--Nuvens de gafanhotos; - 9.º--Trevas espessas; - 10.º--Morte de todos os recemnascidos. - -O coração endurecido do rei só cedeu a esta ultima praga, a mais -espantosa de todas, e os Hebreus partiram para Ramassés em numero de -seiscentos mil homens, sem contar-se as creanças. - ---Quando se falla _das pragas do Egypto_ na linguagem figurada é quasi -sempre á dos gafanhotos que se faz allusão. - - - - -LXXVIII - -_Não toqueis na rainha_ - - -Os reis d'Hespanha usavam uma regra d'etiqueta exaggerada até á -estupidez. Todo o individuo que tocasse o pé da rainha, fosse qual fosse -a causa, era condemnado á morte e executado immediatamente. - -A joven rainha, esposa de Carlos II, montou um dia a cavallo para um -passeio com as suas damas e os seus cortezãos. A breve trecho o cavallo -espanta-se e expelle-a, mas por fórma que o pé da princeza ficou preso -ao estribo e o furioso animal se poz a arrastal-a. Uma immensa multidão -assistia a este triste espectaculo, mas ninguem ousava soccorrel-a por -causa da etiqueta. Ia, de certo, ser victima d'esse terrivel accidente, -quando dois jovens officiaes francezes, que alli se achavam por acaso, -resolveram salval-a. Lançam-se impavidamente, e em quanto que um -suspende o cavallo pelo freio, o outro consegue desligar o pé da rainha, -que, afinal, apenas soffreu o susto e algumas contusões. - -Elles fugiram logo, e era tempo, porque iam ser presos, e Deus sabe o -que faria a etiqueta! No dia seguinte a rainha, muito molestada foi -obrigada a deixar os seus aposentos, para fallar ao rei, de quem -conseguiu a graça dos seus salvadores, mas com a condição de que -deixariam a Hespanha immediatamente. - -De resto era egualmente perigoso tocar no rei, fóra das severas leis da -etiqueta. Eis a este respeito um facto que difficilmente se poderia crer -se não fosse historico. - -Estando doente Filippe III achava-se sentado n'um _fauteuil_, muito -junto da chaminé do fogão, aonde acabava de accender-se o lume, e aonde -se havia depositado uma certa quantidade de material combustivel. O -calor tornou-se, em breve, intoleravel e o rei disse aos cortezãos para -retirarem algumas achas; mas como o duque accendedor-mór não estava -presente, e só elle tinha o direito de bulir no lume da real camara, -nenhum dos assistentes ousou commetter tão grande infracção da etiqueta. -Por outro lado, ninguem podia tocar no _fauteuil_ do rei a não ser o -camareiro-mór, que egualmente estava ausente, e, emfim, era prohibido -sob pena de morte, tocar na sagrada pessoa de sua magestade, de que -resultou deixarem os cortezãos tranquillamente assar o rei, embora -lamentando-se por tão triste sorte. Quando os dois funccionarios -chegaram já era tarde: o rei estava moribundo e pouco sobreviveu a este -cruel supplicio! - - - - -LXXIX - -_O ovo de Colombo_ - - -A 15 de Março de 1493, Christovam Colombo, que vinha de fazer uma das -mais admiraveis descobertas de que se honra o espirito humano, aportava -a Palos, de onde tinha partido sete mezes e meio antes. Foi recebido -com grande enthusiasmo. Os sinos repicaram, os magistrados seguidos de -todos os habitantes desceram á praia a recebel-o. O trajecto até á côrte -foi um triumpho continuo; de toda a parte se corria para vêr o homem que -tinha terminado, tão felizmente, uma empreza que toda a gente julgára -impossivel. Toda a cidade foi ao seu encontro. Elle ia no meio dos -indios que trouxera comsigo na sua entrada em Barcellona, e que -conservaram o costume do seu paiz. Uma multidão de objectos -desconhecidos e cuja vista dominava vivamente os espiritos eram -conduzidos na vanguarda em corbeilles e bandejas descobertas. Elle -avançou assim no meio d'um concurso immenso até ao palacio dos reis -d'Hespanha. Fernando e Isabel esperavam-no sentados no throno. Quando -elle appareceu, no meio do seu cortejo, levantaram-se. Colombo -lançou-se-lhes aos pés, mas elles ordenaram-lhe que se sentasse. O -illustre navegador narrou-lhes a viagem e descobertas que fez. Em -seguida apresentou-lhes os indios que o acompanhavam e os objectos -preciosos que havia trazido. Toda a gente se poz de joelhos, e cantou-se -na propria sala do throno um cantico em acção de graças. Fernando -confirmou a Colombo todos os seus privilegios, e permittiu-lhe juntar ao -seu brazão, as armas da sua familia, as do reino de Castella e Leão, com -os emblemas das suas dignidades e das suas descobertas. Todos os seus -parentes foram cumulados de provas da munificencia real. - -Com tão grandes honras Christovam Colombo podia julgar-se ao abrigo dos -golpes subitos da fortuna. E, comtudo, nunca um homem os sentiu d'um -modo mais terrivel e mais cruel! - -Iam mal passados ainda os primeiros transportes do enthusiasmo e já a -maldade e a inveja haviam começado a erguer a cabeça. Procuraram por -meio de perfidas insinuações entibiar o merito d'essa immortal -descoberta.--«Dado o primeiro passo, o novo mundo viera a elle d'algum -modo; o seu genio consistia apenas n'uma longa, mas trivial paciencia; -em uma palavra, para descobrir a America, _não tinha sido preciso pensar -n'isso_ ...» Tal era já a ousadia dos detractores, que faziam circular -estes propositos, um dia, á meza d'um grande d'Hespanha para que fôra -convidado Colombo. - -O grande homem permaneceu silencioso durante toda a discussão; mas n'um -dado momento e depois de haver reflectido, fez vir um ovo e -apresentando-o aos nobres convivas, disse-lhes: - ---«Qual de vós, senhores, se sente capaz de fazer com que este ovo se -sustente ao alto, por uma das extremidades?» - -O ovo começou a circular, passando de mão para mão, até que voltou a -Colombo, sem que qualquer dos presentes houvesse resolvido o problema. -Elle, então, tomou-o, bateu-o levemente no prato e o ovo ficou em -equilibrio. Cada qual exclamou: - ---«Isso não era difficil! - ---«Sem duvida--replicou Colombo com um sorriso ironico--comtudo _era -preciso pensal-o!_» - ---O _ovo de Christovam Colombo_ passou a uma especie de proverbio, a que -se allude a proposito d'uma coisa que se não póde fazer, e que se -encontra facil, depois de feita. - - - - -LXXX - -_Waterloo_ - - -Napoleão, depois de ter fundado um imperio mais vasto e mais poderoso -que o de Carlos Magno; depois de ter visto a Europa inteira tremer com a -sua presença e submetter-se a todas as suas vontades, emprehendeu a -funesta campanha da Russia, em que o exercito mais formidavel foi -vencido, não pelos homens, mas pelos elementos e pelo rigor do clima. - -Essa longa jornada da Russia foi realmente o termo da brilhante fortuna -que collocou Napoleão, como o primeiro dos mais illustres -conquistadores; mas como ella relembra ao espirito uma série multipla -de desastres, o seu nome, por muito funesto que pareça, não podia ser -escolhido para designar uma ruina subita, um esboroamento rapido. Foi a -derrota de Waterloo, que recebeu esta consagração. - -Depois de se ter visto forçado a abdicar em Fontainebleau, depois de ter -mudado o seu poderoso imperio pela soberania irrisoria d'uma ilha, em -que apenas contava alguns milhares de subditos, Napoleão, por uma -d'essas inspirações repentinas, que constituiam o caracter particular do -seu genio, escapou-se á vigilancia de que era objecto, desembarcou em -Cannes, e marchou sobre Pariz sem encontrar resistencia. Os Bourbons, -dominados pelo terror, abandonam a França, e Napoleão entra como senhor -nas Tulherias, d'onde, durante dez annos, dera a lei á Europa. - -Mas este successo admiravel não tinha solidez. A coalisão da Europa não -estava dissolvida, e ia reformar-se, mais potente que nunca, e a França, -exangue d'homens e de recursos, fatigada d'essas guerras interminaveis, -que arruinavam o commercio e a industria, não ia oppor uma resistencia -sem impeto, quasi passiva, e que facilmente seria vencida. - -No entretanto, Napoleão desenvolve ainda uma vez a energia, a decisão, -que fulminaram tantos inimigos; mas os seus officiaes parecem ter -perdido o vigor d'outr'ora. - -Em Waterloo, comquanto não tenha mais que quinze mil combatentes a oppor -a forças duplas das suas, a habilidade das suas disposições parece a -principio fazer pender a victoria para o seu lado; mas o general -prussiano Blucher, que Grouchy não póde, não sabe, ou não quer deter, -chega com as suas forças frescas, faz mudar a face ao combatente, e o -exercito francez, o ultimo exercito de Napoleão, é esmagado. - -D'esta vez a fortuna do Cezar moderno estava despedaçada para sempre, e -os derradeiros exforços que pôde desenvolver ainda, serviram apenas para -lançarem algum brilho sobre os ultimos momentos d'esse astro, outr'ora -tão brilhante. - ---A palavra _Waterloo_ emprega-se muito para designar a ruina completa e -fatal d'uma coisa, que foi grande e que, por muito, parecia ser -estavel. - - - - -LXXXI - -_Templo de Jano_ - - -O famoso templo de Jano, que foi fundado em Roma por Numa, estava aberto -durante a guerra e fechado no periodo da paz. Jano, o mais antigo rei -d'Italia, ácerca do qual os mythologos teem dificuldade em se -entenderem, passava por ter tido um reinado longo e tranquillo, o que o -fizera considerar como o deus da paz e o tinha posto em grande honra -para Numa, o rei mais sabio que teve Roma. - -Durante um periodo de quasi mil annos, o templo de Jano só foi fechado -oito vezes: a primeira no reinado de Numa; a segunda, no anno 519, de -Roma, depois da primeira guerra punica; a terceira, no anno 723, depois -da batalha d'Actium; a quarta, no anno 730, depois da guerra cantabrica; -a quinta, no anno 740, apoz a pacificação da Germania; a sexta, no anno -824, por Vespasiano, depois da conquista da Judeia; a setima, no anno -834, por Domiciano, em seguida á guerra dos Dacios, e a ultima, no anno -994, por Gordio III, vencedor dos persas. - -É esta a ultima menção que a historia faz d'esta cerimonia. Virgilio, no -livro VII da _Eneida_, fez a descripção do templo de Jano e do -cerimonial que presidiu á sua abertura. - ---É por allusão a este templo, que se diz no estylo oratorio, e, -sobretudo, em poesia--_abrir o templo de Jano_--para fazer guerra, -começal-a, declaral-a, e--_fechar o templo de Jano_--para conclusão do -tratado de paz, e pôr fim ás hostilidades. - - - - -LXXXII - -_Estatua de Nabuchodonosor_ - - -Nabuchodonosor II, cognominado o _Grande_, rei da Babylonia, tivera um -sonho espantoso, mas de que ao despertar se não lembrava absolutamente -nada. Nenhum dos magos da côrte pôde avivar-lhe a visão. O joven Daniel, -então captivo na Babylonia, foi mandado vir á presença do rei e -disse-lhe: - ---«Eis o que viste, rei:--Havia uma estatua immensa, cuja cabeça era -d'ouro, o peito e os braços de prata, o ventre e as côxas de bronze, as -pernas de ferro e os pés de barro. De repente deslocou-se por si uma -pedra da montanha, e indo ferir os pés da estatua, fel-a pedaços. Então -os quatro metaes quebrados tornaram-se como o pó, que enche a -athmosphera, no verão, e tendo-se levantado um grande vento, tudo levou. -Mas a pedra que despedaçára a estatua tornou-se uma montanha immensa, -que encheu toda a terra. Eis o teu sonho, ó rei, e agora a sua -interpretação:--Tu és o rei dos reis; és tu, pois, a cabeça de ouro. -Ha-de haver depois de ti um reino menor que o teu, que será de prata, -depois um terceiro de bronze, que mandará em toda a terra. O quarto -reino reduzirá tudo a pó como o ferro quebra tudo, mas assim como a -estatua, de pés de barro, elle se dividirá por sua vez. Então Deus -suscitará um reino para sempre eterno, que derribará e destruirá todos -os reinos, como a pedra deslocada da montanha partiu a estatua e lançou -ao vento o seu pó.» - -Era a imagem dos quatro grandes imperios d'Assyria, da Persia, da -Macedonia e de Roma, que, destruindo-se successivamente uns aos outros, -deviam todos ser absorvidos por um imperio immenso e immortal, o de -Jesus Christo n'este mundo. - ---No estylo elevado faz-se muitas vezes allusão ao colosso de -Nabuchodonosor, quando se quer exprimir que ha liga nas coisas, -apparentemente mais puras, que os genios mais sublimes se prendem por -qualquer ponto fraco aos lados vulgares da humanidade, que o poder que -parece mais solidamente estabelecido não tem muitas vezes senão uma base -fragil, que a circumstancia mais imprevista póde fazer cahir. - -Assim, por exemplo, um escriptor contemporaneo, fallando da guerra de -1809, que foi a origem de todas as desgraças de Napoleão, diz: - ---«Foi na outra extremidade do continente, foi em Portugal que se fez -sentir o primeiro estalido, e que se percebeu de repente que a _estatua -colossal tinha um pé de barro_.» - - - - -LXXXIII - -_Sepulchros do Evangelho_ - - -No capitulo XXIII do Evangelho, segundo S. Matheus, Jesus Christo -levanta-se contra os impostores e hypocritas, com uma força d'expressão, -uma vehemencia de linguagem, que espantam, n'aquella bocca divina, -habituada a só fazer ouvir palavras de mansidão e de caridade. Elle não -reprehendeu nenhum vicio com tanta energia, e quando nos lembramos da -sua celeste indulgencia para com a mulher adultera, admiramo-nos do -anathema terrivel que dardeja aos scribas e phariseus. É que nas -inspirações da sua sublime natureza Jesus Christo bebia a certeza de que -a hypocrisia é capaz de todos os crimes, que ella os contem todos em -germen. - - * * * * * - -«Desgraça a vós! scribas e phariseus hypocritas, que purificaes o -exterior da taça e do vaso, em quanto que por dentro sois cheios de -rapinas e de maculas!» - -«Phariseus cegos, purificae primeiro o interior da taça e do vaso, afim -de que o exterior seja puro tambem!» - -«Desgraça a vós! scribas e phariseus hypocritas, porque sois semelhantes -a _sepulchros caiados_, que, por fóra parecem bellos aos homens, mas por -dentro são cheios d'ossos e podridão!» - - * * * * * - ---A applicação d'esta phrase _sepulchros caiados_, ou a -equivalente--_sepulchros do Evangelho_--sobresáe claramente do texto que -citamos, quando se dirige ás pessoas; quanto ás coisas, caracterisa tudo -quanto tem mais apparencia de brilho, que fundo e realidade. - - - - -LXXXIV - -_Isso que prova?_ - - -Não temos a pretensão de exprimir uma verdade muito nova, dizendo que as -mathematicas não são irmãs da poesia, embora Urania seja uma das nove -Musas. E se não era mathematico, era digno de sel-o, aquelle que -interrogado ácerca do effeito que lhe produzia a audição d'uma opera, -respondeu: - ---«O mesmo que o d'um sacco cheio de pregos, agitado vigorosamente.» - -O mathematico habituado a medir tudo a regua e compasso, a tirar -deducções por meio de raciocinios evidentes, fica quasi sempre -insensivel ás bellezas da harmonia e do sentimento. - -Um geometra assistia a uma representação da _Phedra_, e em quanto que -todos os outros espectadores derramavam lagrimas, commovidos por essa -magnifica poesia, que mostra em scena - - «. . . . . . essa dor virtuosa» - «De Phedra, a pezar seu, perfida, incestuosa» - -elle ficava frio, impassivel e contentava-se em dizer nas passagens mais -patheticas: - ---«Isso que prova?» - -O astronomo francez Villemont, menos exclusivo, nunca deixava de dizer -d'um fragmento de poesia que lhe causasse prazer: - ---«É bello como uma equação!» - -Era para elle o superlativo da admiração. - - - - -LXXXV - -_Manná_ - - -Quando os hebreus chegaram ao deserto e viram as provisões esgotadas, -começaram a murmurar contra Moisés, dizendo:--«Conduzistes-nos a este -logar para nos fazerdes morrer de fome?»--Moisés respondeu-lhes da parte -do Senhor:--«Esta tarde comereis carne, e amanhã estareis saciados de -pão.»--Com effeito, de tarde uma enorme quantidade de rôlas veio pousar -sobre o campo, e no dia seguinte, pela manhã, um orvalho matutino cobria -toda a planicie. Era uma especie de pó branco que tinha o gôsto da mais -fina farinha misturada com mel. - -Este alimento chamava-se _manná_. Os hebreus deviam apanhal-o em cada -manhã e antes do nascimento do sol, e só em quantidade necessaria para o -dia, excepto na vespera do _sabbat_ em que deviam tambem recolhel-o para -o dia seguinte. Alguns deixando-o de um para o outro dia encontravam-no -corrompido. - -Ora os filhos d'Israel nutriram-se d'este orvalho celeste durante os -quarenta annos que viveram no deserto, até á sua entrada na terra da -promissão. - ---Comprehende-se que--_manná_--ou--_é um manná_--se não póde applicar -senão n'um sentido metaphorico, como por exemplo: - ---A verdade _é um manná_ divino, com que se deve sustentar o espirito e -o coração. - - - - -LXXXVI - -_Annel de Gyges_ - - -Gyges era um moço pastor da Lydia. Um dia vendo entreabrir-se a terra, -desceu pela abertura, e viu, entre outras maravilhas um cavallo de -bronze, completamente ôcco, com portas nas ancas. Abriu-as e encontrou -um cadaver de grandeza mais que humana, tendo em um dedo um annel -d'ouro. Esse annel, desde que se voltava o engaste para o lado interior -da mão, tinha o poder de tornar invisiveis aquelles que o usassem. Gyges -apoderou-se d'esse precioso talisman e dirigiu-se á côrte, aonde o annel -foi a origem d'uma brilhante fortuna, porque o possuidor não tardou a -tornar-se favorito e primeiro ministro. - ---Não são raras as circumstancias em que cada qual desejaria ter no dedo -o annel de Gyges. Qual é o que nunca se viu collocado n'alguma d'essas -situações criticas, que fazem desejar, como vulgarmente se diz, «estar a -cem braças pela terra dentro»? Por outro lado, que não daria a gente, em -determinadas occasiões, para se encontrar invisivel, em certos logares, -em que se debatem os nossos mais caros interesses, e o nosso destino? - -D'aqui a frequente applicação que se faz do _annel de Gyges_, em -litteratura e na conversação. - -O espirituoso Alphonse Karr quiz ver no annel de Gyges uma allegoria que -explicou a seu modo n'estes versos: - - «Quem de Gyges o annel, conta, maravilhoso - «Nos casos falsos, ou na pura phantasia, - «--Agora o sei--a si se engana em demasia, - «Porque o frisante exemplo é grande, é numeroso. - «Se sois feio e sois mau, sem genio e já d'idade - «Ponde, á noite um annel, no vosso indicador, - «Com um brilhante que tenha um subido valor, - «E vereis como faz a sua claridade, - «Sob os raios da luz, em ponto bem escolhido, - «Dar-vos genio e belleza, e juventude, e encanto. - «Se sois mau e imbecil, elle vos faz um santo, - «Dizei quanto quereis, que já sois applaudido!» - - - - -LXXXVII - -_Honni soit qui mal y pense_ - - -Divisa da ordem da Jarreteira, instituida em Inglaterra em 1340 por -Eduardo III. Em um baile da côrte que elle dava em honra da condessa de -Salisbury, sua favorita, esta deixou cahir, dançando, uma liga, que era -azul. O rei apressou-se a apanhal-a, e expoz assim a formosa condessa -aos sorrisos malignos e aos maus propositos dos convidados. - ---«Senhores--exclamou Eduardo III--_honni soit qui mal y pense_. Os que -riem agora hão-de honrar-se um dia por usarem um objecto semelhante, -porque a liga será posta em tanta honra que até os mais zombadores a -procurarão com avidez!» - -E no dia immediato instituia a Ordem da Jarreteira, que é uma das mais -célebres da Europa. - -A principal insignia consiste n'uma liga de velludo azul, que se aperta -por cima do joelho esquerdo com uma fivela de ouro, sobre a qual se lê: -_Honni soit qui mal y pense!_--Maldito seja quem d'isto mal pensar. - -A rainha usa-a no braço. Só os principes soberanos ou as pessoas d'alta -distincção podem ser membros da Ordem. O numero dos primeiros é -illimitado, mas os outros não podem ser mais de vinte e seis. - ---A famosa divisa tornou-se proverbial e emprega-se para fazer -comprehender que se affronta a opinião, n'uma circumstancia sujeita a má -interpretação, d'equivoca apparencia. - - - - -LXXXVIII - -_Mal com el-rei pelos homens e mal com os homens por el-rei_ - - -Esta phrase, que bem exprime as apertadas circumstancias em que o homem -tantissimas vezes se encontra, de não poder, de modo algum, satisfazer e -contentar a todos, é do grande Affonso d'Albuquerque. - -Avisado elle de que el-rei D. Manoel lhe ordenava o regresso ao reino, -fazendo-o substituir no governo da India por Lopo Soares, com o qual -seguiam Diogo Pereira e Diogo Mendes, um como secretario e outro como -capitão de Cochim, e ambos de lá enviados a Portugal sob prisão pelo -valente governador, por delictos graves, exclamou: - ---Mal com el-rei pelos homens e mal com os homens por amor de el-rei. - -A phrazeologia popular formulou o mesmo pensamento de um modo, se não -tão primoroso, pelo menos egualmente expressivo, quando disse: - ---Preso por ter cão, preso por não o ter. - -Vê-se claramente qual o emprego da locução do grande capitão, e não é -difficil nem raro que cada um tenha varias occasiões, infelizmente, de -applical-a a si proprio. - - - - -LXXXIX - -_Bandeira da Misericordia_ - - -D'antes, por um privilegio, fundado, decerto, n'um principio caritativo, -as irmandades da Misericordia eram obrigadas--e no Estatuto d'algumas se -acha consignada esta obrigação--a acompanhar com a respectiva bandeira, -os condemnados a pena ultima, desde o carcere ao local do supplicio. - -Alli, tanto que a victima era executada cobria-a immediatamente essa -bandeira, o que equivalia a tomar a Misericordia conta do cadaver, a -fim de prevenir ou evitar profanações no corpo, por parte dos populares, -arrastados, muitas vezes, a scenas bem pouco edificantes, pela excitação -de odios e de paixões violentas e desordenadas. - -Quando acontecia que a corda se quebrava--no supplicio da forca--e o -paciente cahia com vida, desde que a bandeira o cobrisse, estava salvo. - -Nas ultimas execuções d'este genero, realisadas em Vizeu, no largo de -Santa Christina, no tempo das luctas do absolutismo, aconteceu que um -dos pacientes, graças a um convenio com o carrasco, cahiu com vida e foi -coberto com a bandeira da Misericordia. - -Uma mulher, porém, que ainda morreu ha poucos mezes, e que tinha a -triste e original mania de assistir a todos os actos lugubres e a todas -as scenas mais contristadoras, por um assomo de curiosidade feminina foi -levantar uma ponta da bandeira. O desgraçado, que se fingia morto, -imaginando que era algum dos que conhecia o convenio para a sua -salvação, abriu os olhos, e tanto bastou para que a original mulher -começasse a gritar que elle estava ainda vivo. - -A populaça desenfreada cahiu sobre o infeliz e cevou as suas iras. - -D'esta vez a bandeira não valeu. - ---Do privilegio d'esse estandarte nasceu a locução de--_bandeira da -Misericordia_,--d'um grandissimo emprego, sobretudo, na conversação -familiar, servindo para designar toda a intervenção caritativa para a -suspensão ou allivio d'uma pena ou d'um castigo. - - * * * * * - -A critica poderá encontrar motivo para exercer-se, no delineamento e -execução d'esta despretenciosa obra, mas a benevolencia será a _bandeira -da Misericordia_, que ha-de abrandar a dureza das apreciações. - - - - -INDICE - - - PAG. - - DO AUCTOR . . . . . . . . . . . . . . . 7 - I--Amanhã os negocios sérios . . . . . . 9 - II--Alexandre . . . . . . . . . . 11 - III--Audacia, ainda audacia e sempre audacia . 19 - IV--Delicias de Capua . . . . . . . . 21 - V--Disse eu alguma tolice? . . . . . . . 23 - VI--Arca de Noé . . . . . . . . . . 24 - VII--Queimar não é responder . . . . . . 25 - VIII--Caim, que fizeste de teu irmão? . . . . 26 - IX--Do Capitolio á rocha Tarpeia só ha - um passo . . . . . . . . . 27 - X--Catão . . . . . . . . . . . . 29 - XI--Cezar . . . . . . . . . . . . 30 - XII--Estava escripto . . . . . . . . . 40 - XIII--Conhece-te a ti proprio . . . . . . 41 - XIV--As joias de Cornelia . . . . . . . 42 - XV--Cresus . . . . . . . . . . . 43 - XVI--Dôr, tu não és um mal . . . . . . . 44 - XVII--Egéria . . . . . . . . . . . 46 - XVIII--Mais uma victoria como esta e estamos - perdidos . . . . . . . . . . 47 - XIX--Espada de Damocles . . . . . . . 49 - XX--O prato de lentilhas . . . . . . . 51 - XXI--E eu tambem sou pintor! . . . . . . 52 - XXII--Estrella dos Reis Magos . . . . . . 53 - XXIII--E, comtudo, ella gira! . . . . . . 54 - XXIV--Virtude, não és mais que um nome . . . 56 - XXV--Festim de Balthazar . . . . . . . 57 - XXVI--Forcas caudinas . . . . . . . . 59 - XXVII--Irmão é preciso morrer . . . . . . 61 - XXVIII--Cahir com graça . . . . . . . . 62 - XXIX--Hippocrates diz sim, Galiano diz não . . 63 - XXX--É muito tarde . . . . . . . . . 64 - XXXI--Não ha grande homem para o seu creado - de quarto . . . . . . . . . 66 - XXXII--Cantam, elles pagarão . . . . . . . 67 - XXXIII--Perdi o meu dia . . . . . . . . . 68 - XXXIV--Amo Platão, mas amo mais a verdade . . . 69 - XXXV--Achei!--Eureka! . . . . . . . . . 70 - XXXVI--Eu desejaria não saber escrever . . . . 72 - XXXVII--Linguas d'Esopo . . . . . . . . . 73 - XXXVIII--Lanterna de Diogenes . . . . . . . 75 - XXXIX--O mestre o disse . . . . . . . . 76 - XL--O rei é morto, vive o rei! . . . . . 77 - XLI--O estado sou eu! . . . . . . . . 78 - XLII--Alavanca d'Archimedes . . . . . . 79 - XLIII--Magdalena . . . . . . . . . 80 - XLIV--Casa de Socrates . . . . . . . . 81 - XLV--Desgraça aos vencidos! . . . . . . . 83 - XLVI--Manto de Joseph . . . . . . . . 84 - XLVII--Mario sobre as ruinas de Carthago . . . 85 - XLVIII--Subir ao Capitolio . . . . . . . 86 - XLIX--Onde não ha el-rei o perde . . . . . 88 - L--Onde se vae aninhar a virtude? . . . . 89 - LI--Perdoae-lhes, meu Pae, não sabem o - que fazem . . . . . . . . . 90 - LII--Lavar as mãos como Pilatos . . . . . 91 - LIII--O que não peccou, atire a primeira pedra 93 - LIV--Tres linhas escriptas e eu farei enforcar - quem as escreveu . . . . . . 94 - LV--Quem te fez conde? Quem te fez rei? . . 96 - LVI--A Cezar o que é de Cezar a Deus o - que é de Deus . . . . . . . . 97 - LVII--Salto de Leucade . . . . . . . . . 99 - LVIII--Se é possivel, está feito; se é impossivel - se fará . . . . . . . . . 100 - LIX--Terra promettida . . . . . . . . . 102 - LX--Thebaida . . . . . . . . . . 103 - LXI--Desça o panno acabou a comedia! . . . . 105 - LXII--Tudo é perdido, menos a honra . . . . 106 - LXIII--Trombetas de Jericó . . . . . . . 108 - LXIV--A tunica de Christo . . . . . . . 109 - LXV--Um imperador deve morrer em pé . . . . 110 - LXVI--Vendilhões expulsos do templo . . . . 111 - LXVII--Gritar no deserto . . . . . . . 112 - LXVIII--Zoilo . . . . . . . . . . . 113 - LXIX--Aspasia . . . . . . . . . . . 114 - LXX--Babylonia . . . . . . . . . . . 116 - LXXI--Incendiar os seus navios . . . . . . 117 - LXXII--Os ultimos romanos . . . . . . . 119 - LXXIII--Faça cabelleiras, mestre André . . . . 120 - LXXIV--Fé do carvoeiro . . . . . . . 122 - LXXV--Ha juizes em Berlim . . . . . . . 123 - LXXVI--Judas--Beijo de Judas . . . . . . . 126 - LXXVII--Pragas do Egypto . . . . . . . . 127 - LXXVIII--Não toqueis na rainha . . . . . . . 128 - LXXIX--O ovo de Colombo . . . . . . . 130 - LXXX--Waterloo . . . . . . . . . . . 133 - LXXXI--Templo de Jano . . . . . . . . . 136 - LXXXII--Estatua de Nabuchodonosor . . . . . 137 - LXXXIII--Sepulchros do Evangelho . . . . . . 139 - LXXXIV--Isso que prova? . . . . . . . . 141 - LXXXV--Manná . . . . . . . . . . . 142 - LXXXVI--Annel de Gyges . . . . . . . . . 144 - LXXXVII--Honni soit qui mal y pense . . . . . 146 - LXXXVIII--Mal com el-rei pelos homens e mal - com os homens por el-rei . . . . . 147 - LXXXIX--Bandeira da Misericordia . . . . . . 148 - - - - -=Biblioteca do Lar= - - =Henry Ardel= - - Um conto azul - Caminho em declive - Fogo mal extinto - É preciso casar o João! - A alvorada - Uma aventura imprudente - A divina canção - A noite desce - Eva e a serpente - - =B. 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It exists -because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from -people in all walks of life. - -Volunteers and financial support to provide volunteers with the -assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's -goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will -remain freely available for generations to come. In 2001, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure -and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. -To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation -and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 -and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. - - -Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive -Foundation - -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at -http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent -permitted by U.S. federal laws and your state's laws. - -The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. -Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered -throughout numerous locations. Its business office is located at -809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email -business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact -information can be found at the Foundation's web site and official -page at http://pglaf.org - -For additional contact information: - Dr. Gregory B. Newby - Chief Executive and Director - gbnewby@pglaf.org - - -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide -spread public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. - -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. We do not solicit donations in locations -where we have not received written confirmation of compliance. To -SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any -particular state visit http://pglaf.org - -While we cannot and do not solicit contributions from states where we -have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition -against accepting unsolicited donations from donors in such states who -approach us with offers to donate. - -International donations are gratefully accepted, but we cannot make -any statements concerning tax treatment of donations received from -outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. - -Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation -methods and addresses. Donations are accepted in a number of other -ways including checks, online payments and credit card donations. -To donate, please visit: http://pglaf.org/donate - - -Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic -works. - -Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm -concept of a library of electronic works that could be freely shared -with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project -Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. - - -Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. -unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily -keep eBooks in compliance with any particular paper edition. - - -Most people start at our Web site which has the main PG search facility: - - http://www.gutenberg.org - -This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/old/63235-0.zip b/old/63235-0.zip Binary files differdeleted file mode 100644 index 4743c58..0000000 --- a/old/63235-0.zip +++ /dev/null diff --git a/old/63235-h.zip b/old/63235-h.zip Binary files differdeleted file mode 100644 index a24c5ba..0000000 --- a/old/63235-h.zip +++ /dev/null diff --git a/old/63235-h/63235-h.htm b/old/63235-h/63235-h.htm deleted file mode 100644 index 4619c7e..0000000 --- a/old/63235-h/63235-h.htm +++ /dev/null @@ -1,5707 +0,0 @@ -<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" - "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> -<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml" xml:lang="pt" lang="pt"> - <head> - <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html;charset=utf-8" /> - <meta http-equiv="Content-Style-Type" content="text/css" /> - <title> - Historia Pitoresca, by Alfredo Campos—A Project Gutenberg eBook - </title> - <link rel="coverpage" href="images/cover.jpg" /> - <style type="text/css"> - -body { - margin-left: 10%; 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You may copy it, give it away or -re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included -with this eBook or online at www.gutenberg.org/license - - -Title: Historia Pitoresca - Palavras e frases celebres - -Author: Alfredo Campos - -Release Date: September 19, 2020 [EBook #63235] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIA PITORESCA *** - - - - -Produced by Júlio Reis, Fernanda Brojo and the Online -Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net - - - - - - -</pre> - - - - -<h1>HISTORIA PITORESCA</h1> - -<hr class="mini" /> - -<p class="ph2">PALAVRAS E FRASES CELEBRES</p> - - -<div class="figcenter"> -<img src="images/image000.png" width="150" height="150" alt="" /> -</div> - -<p class="ph3">POR<br /> -ALFREDO CAMPOS</p> - -<hr class="title x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<div class="figcenter"> -<img src="images/image001.png" width="349" height="369" alt="" /> -</div> -</div> - -<hr class="title x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> - -<h2 class="nobreak" id="OBRAS_DO_AUCTOR">OBRAS DO AUCTOR</h2> - -<table summary=""> -<tr> -<td class="title">Luz e sombras, original</td><td class="price">400 réis</td> -</tr><tr> -<td class="title">Um como ha muitos, original</td><td class="price">50 réis</td> -</tr><tr> -<td class="title">Um livro intimo, original</td><td class="price">200 réis</td> -</tr><tr> -<td class="title">A felicidade pela familia, original</td><td class="price">100 réis</td> -</tr><tr> -<td class="title">O trabalho, original</td><td class="price">100 réis</td> -</tr><tr> -<td class="title">Nunca mais! original</td><td class="price">400 réis</td> -</tr><tr> -<td class="title">A Filha do cabinda, original</td><td class="price">500 réis</td> -</tr><tr> -<td class="title">A cruz de brilhantes, original</td><td class="price">500 réis</td> -</tr><tr> -<td class="title">A jurity, original</td><td class="price">500 réis</td> -</tr><tr> -<td class="title">Alma minha gentil, original</td><td class="price">300 réis</td> -</tr><tr> -<td class="title">Historia pittoresca—Palavras e phrases celebres, original</td><td class="price">500 réis</td> -</tr><tr> -<td class="title">Deveres do homem, original</td><td class="price">50 réis</td> -</tr><tr> -<td class="title">Magdalena, traducção</td><td class="price">500 réis</td> -</tr><tr> -<td class="title">Fior d'Aliza, traducção</td><td class="price">400 réis</td> -</tr><tr> -<td class="title">A mulher forte, traducção</td><td class="price">600 réis</td> -</tr><tr> -<td class="head" colspan="2">OBRAS ELEMENTARES</td> -</tr><tr> -<td class="title">Noções de moral e religião, approvada</td><td class="price">160 réis</td> -</tr><tr> -<td class="title">Principios elementares de chorographia, approvada</td><td class="price">200 réis</td> -</tr><tr> -<td class="title">Grammatica franceza resumida, approvada</td><td class="price">500 réis</td> -</tr><tr> -<td class="head" colspan="2">NO PRÉLO</td> -</tr><tr> -<td class="title">A missão da mulher, 1 vol.</td> -</tr><tr> -<td class="title">Vida de Camões, 1 vol.</td> -</tr> -</table> -</div> - -<hr class="title x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> - -<p class="ph3"><i>Alfredo Campos</i></p> - -<hr class="mini" /> - -<p class="ph1">HISTORIA PITTORESCA</p> - -<hr class="mini" /> - -<p class="ph4">PALAVRAS E PHRASES CELEBRES</p> - -<div class="figcenter"> -<img src="images/image003.png" width="150" height="134" alt="" /> -</div> - -<p class="ph4">PORTO</p> - -<p class="ph4">Livraria Portuense<br /> -—<span class="smcap">de</span>—<br /> -LOPES & C.ª—EDITORES</p> - -<p class="center"><i>123—Rua do Almada—123</i></p> - -<p class="ph4">1889</p> - -</div> - -<hr class="title x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> - -<div class="figcenter"> -<img src="images/image004.png" width="400" height="210" alt="" /> -</div> - -<p class="ph4">IMPRENSA CIVILISAÇÃO</p> - -<p class="center">73—LARGO DA POCINHA—77</p> - -<p class="ph4">—PORTO—</p> - -</div> - -<hr class="title x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> - -<p class="ph3"><i>Ao Ill.<sup>mo</sup> e Ex.<sup>mo</sup> Sr.</i></p> - -<p class="ph1 smcap">Manoel José da Conceição Rocha</p> - -<p class="center">TRIBUTO DE RESPEITO,<br /> -CONSIDERAÇÃO, GRATIDÃO E ESTIMA</p> - -<p class="ph3r">Offerece -<br /><br /> -<i>Alfredo Campos.</i></p> -</div> - -<hr class="title x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> - -<div class="figcenter" id="Page_7"> -<img src="images/image007a.png" width="600" height="160" alt="" /> -</div> -</div> - - -<h2 class="nobreak" id="DO_AUCTOR">DO AUCTOR</h2> - -<div> -<img class="drop-cap" src="images/image007b.png" width="100" height="220" alt="" /> -</div> -<p class="drop-cap">O <i>PRESENTE livro</i>—<span class="allsmcap">PALAVRAS -E PHRASES CELEBRES</span>—, <i>é como -que uma</i> <span class="smcap">Corbeille</span> <i>aonde estão -reunidos, explicados, e, por vezes -commentados, muitos factos, -muitas palavras, phrases -e circumstancias curiosas e -originaes, que se empregam e -se encontram, a cada momento, -já n'alguma obra escripta, já -no meio da conversação</i>.</p> - -<p><i>Pareceu-nos que não seria desgracioso enfeixar -todas essas flores n'um como que estudo de -Historia Pittoresca, sem a aridez da Historia<span class="pagenum smcap">[viii]</span> -propriamente dita, e com o proporcionamento -do interesse, da amenidade e do attractivo do -romance.</i></p> - -<p><i>As</i> <span class="allsmcap">PALAVRAS E PHRASES CELEBRES</span> <i>são isto -apenas</i>.</p> - -<p><i>O livro estava feito, e todo o trabalho consistiu, -quasi, em procurarmos e reunirmos em -volume as paginas que andavam dispersas, aqui -e alli, um pouco por toda a parte.</i></p> - -<p><i>Tem merecimento? Outros o dirão.</i></p> - -<p><i>Em todo o caso póde servir para entretenimento -de um serão, para desenfado n'uma hora -de descanço, para suavisar um momento de tedio, -com a vantagem de que allia o util, que é -a historia, ao agradavel, que é o pittoresco.</i></p> - -<p><i>De resto, parece-nos livro para toda a -gente, porque crêmos que não perverte, não corrompe, -não immoralisa.</i></p> - -<p><i>Visou, pelo menos, a esse fim, e só desejamos -que o attinja.</i></p> - -<p><i>Se attingir, tanto melhor para os que nos -honrarem lendo-o, e tanto melhor para nós, sobretudo, -porque lograremos a gloria que aspiramos -para o nosso modesto trabalho.</i></p> - -<div class="figcenter"> -<img src="images/image008.png" width="100" height="55" alt="" /> -</div> - -<div class="chapter p4"> -<div class="figcenter" id="Page_9"> -<img src="images/image009a.png" width="480" height="118" alt="" /> -</div> -</div> - -<p class="ph1"><small>PALAVRAS<br /> -<small><small>E</small></small></small><br /> -PHRASES CELEBRES</p> - -<hr class="mini" /> - - -<h2 class="nobreak" id="I">I<br /> -<i>Amanhã os negocios sérios</i></h2> - - -<div> -<img class="drop-cap" src="images/image009b.png" width="100" height="228" alt="" /> -</div> -<p class="drop-cap"><span class="smcap">Sparta</span> tinha-se apoderado da cidadella -de Thebas por traição, e -impozera aos thebanos, como governador, -o tyranno Archias. Este -banira da cidade os principaes cidadãos, -entre os quaes Pelopidas. -Refugiados estes em Athenas, resolveram -libertar a patria e concertaram-se -com um dos seus compatriotas, -inimigo secreto do tyranno, que lhes -offereceu recebel-os em sua casa. No dia marcado -para a execução da conspiração, os conjurados -<span class="pagenum"><a id="Page_10">[10]</a></span> -penetraram em Thebas, graças a um disfarce. -N'esse mesmo dia, Archias foi convidado -para ceiar em casa d'um rico cidadão thebano, -que, egualmente, fazia parte dos conspiradores. -Tudo estava prompto, e os conjurados esperavam -apenas uma hora mais avançada, para a -execução do seu projecto, quando um correio, -enviado d'Athenas, veio trazer a Archias uma -carta, contendo todas as particularidades da conspiração. -Admittido junto ao tyranno, entregou-lhe -a missiva, convidando-o a lêr sem demora, -porque se tratava de <i>negocios sérios</i>. Archias, -dominado já pela embriaguez, poz indolentemente -a carta sob a sua almofada, exclamando:</p> - -<p>—«Amanhã os negocios sérios!»</p> - -<p>Alguns instantes depois, Pelopidas e os outros -conjurados, invadiram a salla do festim e -massacraram o tyranno.</p> - -<p>Este acontecimento, que produziu a liberdade -da Beocia, obteve uma grande celebridade -na Grecia, e a phrase—<i>amanhã os negocios sérios</i>—tornou-se -um proverbio que os descuidados -e os amigos da alegria pretendem tomar por -divisa, e que melhor fôra tomassem como lição.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_11">[11]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="II">II<br /> -<i>Alexandre</i></h2> -</div> - - -<p>Alexandre, filho de Philippe, rei da Macedonia, -foi um dos maiores capitães da antiguidade. -Desde a mais tenra edade que foi sempre -animado d'uma nobre ambição. Quando lhe perguntavam -se concorria aos jogos olympicos, respondia:</p> - -<p>—«Iria, se tivesse a certeza de encontrar -reis como rivaes!»</p> - -<p>Chorava de cólera, vendo os successos multiplicados -de Philippe, lamentando-se, d'este modo:</p> - -<p>—«Meu pai nada nos deixará que fazer!»</p> - -<p>Alexandre ficou em todas as linguas como -o typo do <i>heroe</i> e do <i>conquistador</i>. As differentes -circumstancias da vida de Alexandre, que -originaram locuções proverbiaes são as seguintes -e por ordem chronologica:</p> - - -<h3 class="ithead"><i>1.º—Se eu não fosse Alexandre, desejaria -ser Diogenes.</i></h3> - -<p>Alexandre acabava de ser nomeado generalissimo -dos gregos, e achava-se em Corintho,<span class="pagenum"><a id="Page_12">[12]</a></span> -aonde os principaes cidadãos se apressavam em -dirigir-lhe as suas felicitações. Admirado de não -receber a visita de Diogenes, foi elle proprio -procurar o celebre cynico, cuja conversação facil -e picante o encheu de assombro. Alexandre -tendo perguntado ao philosopho se desejava alguma -coisa, elle respondeu:</p> - -<p>—«Tira-te do meu sol.»</p> - -<p>Foi então que o grande conquistador, assombrado -com tanto desinteresse, exclamou:</p> - -<p>—«Se eu não fosse Alexandre, desejaria ser -Diogenes.»</p> - - -<h3 class="ithead"><i>2.º—Meu filho, nada póde resistir-te.</i></h3> - -<p>Antes de partir para a expedição que projectava -na Asia, Alexandre quiz consultar o oraculo -de Delphos. Como a pythia recusasse subir -ao tripé, o moço heroe arrastou-a violentamente. -Ella exclamou então:</p> - -<p>—«Ah!, meu filho, nada te póde resistir.»</p> - -<p>—«Esse oraculo me basta—respondeu Alexandre—não -quero outro.»</p> - - -<h3 class="ithead"><i>3.º—Reserva da Esperança.</i></h3> - -<p>Na primavera do anno 334, Alexandre, tendo -apenas vinte e dois annos d'edade, dispunha-se a -invadir a Asia, á frente d'um exercito de trinta -mil infantes e cinco mil cavallos. Como se já<span class="pagenum"><a id="Page_13">[13]</a></span> -estivesse de posse dos thesouros do grande rei, -distribuiu aos amigos tudo quanto tinha. Perdiccas -perguntou-lhe então:</p> - -<p>—«Que reservaes para vós?»</p> - -<p>—«A <i>Esperança</i>»—respondeu Alexandre.</p> - - -<h3 class="ithead"><i>4.º—Nó gordio.</i></h3> - -<p>Gordio, simples lavrador phrygio, tornou-se -rei, por ter cumprido um oraculo, que promettia -a corôa ao que primeiro entrasse, n'um determinado -dia, na capital. Midas, seu filho, consagrou, -no templo de Jupiter o carro sobre o qual seu -pai fôra transportado. O nó que ligava o jugo -ao timão estava tão artisticamente dado, que não -se lhe descobriam as pontas. Chamavam-no o -<i>nó gordio</i> ou de Gordio, e um antigo oraculo -promettia o imperio da Asia a quem conseguisse -desatal-o.</p> - -<p>Alexandre, tendo-se apoderado da cidade, -resolveu cumprir o oraculo e actuar fortemente -sobre a imaginação dos seus soldados. Depois -de varias tentativas infructiferas, desembainhou -a espada e cortou o nó mysterioso, illudindo -mais, que realisando, d'este modo, o oraculo.</p> - - -<h3 class="ithead"><i>5.º—O medico de Alexandre.</i></h3> - -<p>Pouco tempo depois da passagem do Granico, -Alexandre, tendo-se banhado, a suar, nas<span class="pagenum"><a id="Page_14">[14]</a></span> -aguas geladas do Cydnus, foi subitamente atacado -d'um tremor mortal, e os soldados levaram-n'o, -sem movimento, para a tenda. Todo o -exercito se consternou, porque o seu estado parecia -desesperado. Ao mesmo tempo, Dario avançava -com forças immensas para lhe barrar as -sahidas do Taurus. Os medicos não ousavam experimentar -remedio algum; um só, Philippe, Acarniano -de nação, e amigo d'infancia d'Alexandre, -compoz uma poção, cujo effeito poderoso e salutar -devia ser immediato. Durante estes preparativos, -Alexandre recebeu uma carta de Parmenion, -que o advertia de que desconfiasse de -Philippe, secretamente comprado por Dario, para -attentar contra os dias de seu monarcha. O heroe -tinha ainda a carta nas mãos, quando o medico -lhe levou a poção. Alexandre, sem manifestar a -menor emoção, tomou a taça com uma das mãos, -apresentou com a outra a carta a Philippe, e bebeu -tudo d'uma só vez. O medico indignado, mas -dominando as suas impressões, exhortou o rei a -seguir fielmente as suas prescripções: a cura estava -n'aquelle premio. Em verdade, apoz uma -crise terrivel que gelou d'espanto todo o exercito, -e de que um só homem não sabia a sahida, -o doente melhorou e restabeleceu-se.</p> - -<p>O que ha de admiravel n'este traço da vida -de Alexandre é a sua profunda fé na amizade.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_15">[15]</a></span></p> - -<h3 class="ithead"><i>6.º—Este tambem é Alexandre</i></h3> - -<p>Ephestion é menos citado na Historia pela -parte que tomou nas conquistas d'Alexandre, -que pela grande amizade que o unira áquelle -heroe. Os dois amigos tinham sido educados -juntos, e só a morte os separou. Depois da sangrenta -batalha d'Issus, em que a mãe, a mulher -e as duas filhas de Dario, cahiram em poder do -vencedor, Alexandre, acompanhado d'Ephestion, -foi visitar, á sua tenda, as infelizes princezas. -Sysigambis, mãe de Dario, dirigiu a saudação a -Ephestion, que tomou por Alexandre, pela superioridade -da estatura e esplendor do traje. -Advertida do engano, lançou-se aos pés do heroe, -que a levantou bondosamente, dizendo-lhe:</p> - -<p>—«Não vos enganasteis, aquelle tambem é -Alexandre.»</p> - - -<h3 class="ithead"><i>7.º—E eu tambem, se fosse Parmenion</i></h3> - -<p>Depois da batalha d'Issus, que fizera cahir -nas mãos d'Alexandre toda a familia de Dario, e -alguns dias antes da batalha d'Arbelles, o grande -rei fez offerecer ao vencedor dez mil talentos—cincoenta -e quatro milhões—a cedencia de toda -a Asia até ao Euphrates, e uma das suas filhas -em casamento. Alexandre tendo communicado<span class="pagenum"><a id="Page_16">[16]</a></span> -estas brilhantes propostas aos seus generaes, -Parmenion exclamou:</p> - -<p>—«Eu acceitaria, se fosse Alexandre.»</p> - -<p>—«E eu tambem, se fosse Parmenion!»—respondeu -Alexandre.</p> - -<p>E recusou.</p> - - -<h3 class="ithead"><i>8.º—Ó athenienses! quanto custa ser louvado por vós!</i></h3> - -<p>Alexandre tinha, do fundo da Asia, os olhos -fixos na Grecia, e, sobretudo, em Athenas. Apesar -do abaixamento em que esta cidade havia -cahido, ficára sempre capital do mundo civilisado, -pelas obras primas dos seus artistas, pelos -immortaes discursos dos seus oradores e pela -eloquente verdade dos seus historiadores, e Alexandre, -tão apaixonado pela gloria, aspirava, -acima de tudo, aos applausos d'esses athenienses -frivolos, mas que egualmente distribuiam pela -posteridade, a censura como o louvor. O conquistador -acabava de penetrar nas vastas regiões -da India, e preparava-se para atravessar o Hydaspe, -de que Porus, á frente d'um formidavel -exercito, ia disputar-lhe a passagem. O rio era -largo e profundo, e as suas vagas quebrando estrepitosamente, -deixavam a descoberto, aqui e -alli, rochedos ameaçadores. Alexandre illude a -attenção dos inimigos por um falso ataque, e -aproveitando-se d'uma tempestade que lhe enco<span class="pagenum"><a id="Page_17">[17]</a></span>bre -os movimentos, affronta perigos inauditos -para transpor o rio. Confessou depois que tinha, -emfim, encontrado alli um perigo digno da sua -coragem, e foi n'esta circumstancia, diz Racine, -no prefacio da sua tragedia <i>Alexandre</i>, que o heroe -exclamou:</p> - -<p>—«Ó athenienses! quanto custa ser louvado -por vós!»</p> - - -<h3 class="ithead"><i>9.º—Ao mais digno.</i></h3> - -<p>Estava conquistada a Asia; <i>a terra</i>, segundo -a bella expressão da Escriptura, <i>tinha-se callado -deante de Alexandre</i>; elle fizera a sua entrada -na Babylonia, «não como um conquistador, mas -como um deus» e o papel brilhante e terrivel -que representára estava a terminar. Os festins e -os desvarios de toda a especie tinham succedido -ás batalhas. No meio d'uma ultima orgia, o conquistador -foi atacado d'uma febre, que o levou -em poucos dias. Só deixava herdeiros em curta -idade, ou incapazes. Conta-se que, no leito da -morte, perguntando-lhe os generaes a quem legava -o imperio, elle respondera:</p> - -<p>—«Ao mais digno!»</p> - -<p>E expirou «cheio das tristes imagens da confusão -que devia seguir-se á sua morte.»</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_18">[18]</a></span></p> - -<h3 class="ithead"><i>10.º—Os funeraes d'Alexandre.</i></h3> - -<p>«Alexandre—diz Bossuet—deixava, morrendo, -capitães a quem tinha ensinado a respirar -sómente ambição e guerra. Previu a que excessos -se dariam, quando expirasse, e para os -conter, e com receio de ser desrespeitado, não -ousou nomear nem successor, nem tutor para -seus filhos. Predisse sómente que os seus amigos -<i>celebrariam os seus funeraes com sanguinolentas -batalhas</i>.»</p> - - -<h3 class="ithead"><i>11.º—Desmembramento do imperio d'Alexandre.</i></h3> - -<p>Apenas Alexandre exhalou o ultimo suspiro, -os generaes reuniram-se para dividirem a sua -immensa herança. Perdiccas, a quem Alexandre -moribundo deixára o seu annel, fez-se nomear -regente; e os outros generaes distribuiram entre -si as provincias. Lysimaco teve a Thracia, Antipater -a Macedonia e a Grecia, Ptolomeu o Egypto, -Antigono e Cassandro repartiram a Asia -Menor. Vinte annos depois encontravam-se nas -planicies da Phrygia, e a batalha de Ipsus era o -ultimo acto d'essa sangrenta tragedia.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_19">[19]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="III">III<br /> -<i>Audacia, ainda audacia e sempre audacia</i></h2> -</div> - - -<p>Danton, um dos vultos mais notaveis da -revolução franceza, nascera para tribuno popular. -Alto, forte, face de <i>bull-dog</i>, muito picado -das bexigas, a expressão do olhar cheia d'audacia, -alma em harmonia com a estatura, com o -ardor dos olhos, o rosto terrivel, a voz sonora, -não podia ser senão o que foi, um revolucionario -enthusiasta, arrastando o povo, já pela sua -palavra como pelos seus actos, já pela sua elocução -muito cheia de figuras gigantescas, d'apostrophes -inflammadas, assombrando mesmo os -que não seduzia. «Mirabeau serviu-se d'elle—diz -um escriptor contemporaneo—como de um -folle de forja, para accender o povo.» Apoz a -fuga de Varennes, Danton provocou atrevidamente -a queda do rei, fez-se eleger substituto -do procurador da communa, preparou a revolução -de 10 d'Agosto e entrou no ministerio da -justiça.</p> - -<p>Esse famoso dia levantou toda a Europa -contra a França revolucionaria. Brunswick, acaba<span class="pagenum"><a id="Page_20">[20]</a></span> -de lançar o seu insolente manifesto; os exercitos -francezes tinham experimentado revezes na Lorena; -Longwy estava tomado, Verdun cercado, e -o alarme reinava em Pariz. Para reanimar as -coragens, Danton resolveu vibrar um grande -golpe. Era no 1.º de Setembro. No dia seguinte, -2, em quanto o sino tocava a rebate e o estampido -do canhão se fazia ouvir, elle correu á -Assembleia legislativa, e, n'um discurso rapido, -fez ouvir estas terriveis palavras aos deputados, -trémulos nas suas cadeiras: «É n'este momento, -senhores, que podem decretar que a capital -bem mereceu da França inteira. O canhão -que se ouve não é o canhão do alarme, é o -passo de carga sobre os nossos inimigos!... -Para os vencermos, para os anniquilarmos, que -é preciso? <i>Audacia, ainda audacia e sempre -audacia!</i>»</p> - -<p>Algumas horas depois os massacres de Setembro -espantavam Pariz.</p> - -<p>Se Danton não organisou, como é accusado, -aquellas horrorosas carnificinas, está averiguado -que nada fez para as prevenir e reprimir, e talvez -que elle visse n'ellas uma execução terrivel, -mas necessaria.</p> - -<p>N'esta repetição energica, hoje proverbial, -Danton fôra precedido pelo velho marechal de -Trioulce. Quando se perguntava a este o que -era necessario para bem fazer a guerra, respondia:</p> - - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_21">[21]</a></span></p> - -<p>—«Tres coisas: dinheiro, ainda dinheiro e -sempre dinheiro!»</p> - -<p>Demosthenes tambem já dissera na antiguidade, -que tres coisas fazem o orador:—«primeiro, -a acção; segundo, a acção; e terceiro, a -acção.»</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="IV">IV<br /> -<i>Delicias de Capua</i></h2> -</div> - - -<p>A antiga Capua, capital da Campania, era -uma das mais formosas cidades da Italia. Construida -no centro de magnificas planicies, ensombradas -pelo pinheiro, pelo platano, pelo myrto e -a oliveira, circundada de imensos passeios orlados -das mais perfumosas plantas, das mais -brilhantes e suaves flores, Capua offerecia a -mais adoravel residencia de toda a Italia.</p> - -<p>Foi lá que Annibal, depois da batalha de -Cannes, e quando já tocava o extremo da sua -audaciosa empreza, foi assentar os seus quarteis -d'inverno, á frente do seu exercito vitorioso. Os -historiadores antigos attribuem á permanencia -de Annibal no seio das delicias de Capua, a -causa unica da salvação de Roma. Assim, o seu -exercito ter-se-ia amollecido e ter-se-hia cor<span class="pagenum"><a id="Page_22">[22]</a></span>rompido -alli pelos famosos vinhos e pelos gosos -faceis.</p> - -<p>No entretanto, se considerarmos que o capitão -carthaginez e os seus temiveis bandos -guerrearam ainda, durante treze annos, na Italia, -de que só foram arrancados pela habil diversão -de Scipião na Africa, as <i>delicias de Capua</i> não -passam de uma amplificação de rhetorico.</p> - -<p>Segundo a opinião de historiadores modernos -e homens de guerra dos mais celebres, um -exercito de soldados feitos e experimentados não -se perde n'um quartel de inverno. O que melhor -explica a inutilidade dos exforços do maior capitão -d'antiguidade, e esta foi a opinião de Napoleão -1.º, depois da batalha de Cannes, é o -abandono a que entregou a patria, onde dominava -uma facção invejosa; além de que, rodeado -de povos hostis e alliados incertos, recrutando -difficilmente o seu exercito, composto de mercenarios -de toda a especie, Annibal já não estava -em estado de tentar qualquer coisa grande e decisiva. -Comtudo, não se sustenta menos contra -as melhores tropas e os mais habeis generais da -republica, enchendo a Italia com o terror do seu -nome, e agitando o mundo com as suas negociações, -para levantar, em toda a parte, inimisades -aos romanos.</p> - -<p><i>As delicias de Capua</i> ficaram em todas as -linguas modernas para designarem uma calmaria -moral, temperada de divertimentos e prazeres,<span class="pagenum"><a id="Page_23">[23]</a></span> -em que as molas do corpo e do espirito se distendem -e enfraquecem.</p> - -<p>O padre Lacordaire aprecia a phrase do -modo seguinte:</p> - -<p>«A historia de todos os successos é a historia -d'Annibal em Capua. Esquece-se, embriaga-se, -adormece-se; o lento veneno da molleza -distende todas as molas da actividade, e o ser que -nada é senão pela actividade, dissolve-se, pouco -e pouco, na ignominia d'um somno cobarde.»</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="V">V<br /> -<i>Disse eu alguma tolice?</i></h2> -</div> - - -<p>As lições de Platão e de Xenocrato tinham -desenvolvido em Phocion um coração virtuoso e -uma alma elevada. Na tribuna, como no campo -de batalha, elle lembrava Aristides. Nunca um -orador foi mais inflexivel nos seus conselhos, -nem contou menos com o successo da sua perseverança. -A eloquencia de Phocion era a expressão -natural do seu caracter e dos seus costumes; -elle fallava aos athenienses com a serenidade -de um philosopho e o laconismo d'um -spartiaco. Sabe-se que Demosthenes o<span class="pagenum"><a id="Page_24">[24]</a></span> -chamava—<i>o machado dos seus discursos</i>. Superior aos -applausos, tanto como aos clamores da multidão, -elle abalroava de frente a potencia popular, -e as suas virtudes impunham-se a todas as paixões. -Tinha a palavra austera, e a sua eloquencia -vigorosa e concisa desdenhava dos artificios -oratorios, que agradam á multidão e fazem estrondear -applausos. Estando um dia na tribuna -e vendo-se ruidosamente victoriado por todo o -povo, volveu-se admirado para os seus amigos e -perguntou-lhes:</p> - -<p>—«Disse eu alguma tolice?»</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="VI">VI<br /> -<i>Arca de Noé</i></h2> -</div> - - -<p>Era um immenso navio que Deus, depois -de haver resolvido punir os homens pelo diluvio, -ordenou a Noé construisse para ahi se refugiar.</p> - -<p>O Patriarcha empregou cem annos na construcção -d'essa arca, que tinha trezentos covados -de comprimento, cincoenta de largo e trinta de -altura, e que continha, além de Noé e sua familia, -dois casaes d'animaes impuros, assim chama<span class="pagenum"><a id="Page_25">[25]</a></span>dos -os que não era permittido offerecer em sacrificio, -e sete casaes d'animaes puros.</p> - -<p>Por causa da quantidade de seres que esse -navio encerrava, o nome de <i>Arca de Noé</i> passou -a servir para designar a agglomeração de numerosos -e disparatados objectos.</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="VII">VII<br /> -<i>Queimar não é responder!</i></h2> -</div> - - -<p>No principio do anno de 1794, estava em -toda a sua violencia o regimen do Terror, dirigido -por Robespierre, no seio do <i>comité</i> de salvação -publica. Os proprios <i>dantonistas</i>, tornaram-se, -em vista d'isto, <i>indulgentes</i>, moderados; -e agora que a republica estava senhora do campo -de batalha, elles queriam fazel-a entrar -no reino das leis, e no caminho da justiça para -todos. Danton era o chefe d'esta opposição nova, -e o joven e fogoso Camillo Desmoulins era a -sua penna, e, no <i>Vieux Cordelier</i>, farpeava o governo -com censuras e sarcasmos. O jornal era -lido com avidez, e venderam-se, n'alguns dias, -cincoenta mil exemplares. Afinal, Camillo ousou -promover um <i>comité de clemence</i>, como o<span class="pagenum"><a id="Page_26">[26]</a></span> -unico meio de pacificar os partidos e de acabar -com a revolução. Não era isto o que queria Robespierre, -que, n'uma sessão dos jacobinos, onde -o impetuoso pamphletario tinha sido intimado a -comparecer, propoz perfidamente dar-lhe uma -correcção paterna, <i>queimando</i> os numeros do -jornal.</p> - -<p>—«Queimar não é responder!»—exclamou -Desmoulins.</p> - -<p>Esta replica imprudente causou a sua perda. -Robespierre não se conteve e disse:</p> - -<p>—«Pois bem, não se queimem e responda-se; -leiam immediatamente os artigos de Camillo, -visto que assim o quer, e que elle seja -coberto d'ignominia!»</p> - -<p>Alguns dias depois o intrepido moço subia -ao cadafalso.</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="VIII">VIII<br /> -<i>Caim, que fizeste de teu irmão?</i></h2> -</div> - - -<p>Caim, filho primogenito de Adão e Eva, -cioso de seu irmão Abel, cujas offerendas eram -mais agradaveis ao Senhor, propoz-lhe um dia -um passeio ao campo e matou-o. O sangue do<span class="pagenum"><a id="Page_27">[27]</a></span> -justo subiu até Deus, e a voz do Eterno fez-se -ouvir:</p> - -<p>—«Caim, Caim, que fizeste de teu irmão?»</p> - -<p>Deus amaldiçoou o fratricida, expulsou-o da -sua face, e marcou-o na fronte com um signal -de reprovação.</p> - -<p><i>Caim</i> é o nome que se dá ao irmão que maltrata -o irmão, abjurando o amor fraterno.</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="IX">IX<br /> -<i>Do Capitolio á rocha Tarpeia só ha um passo</i></h2> -</div> - - -<p>A rocha Tarpeia, chamada assim, de Tarpeia, -joven romana que alli foi estrangulada e -sepultada, depois do acto de traição que commetteu, -entregando a cidadella aos sabinos, era -um rochedo situado no proprio recinto de Roma. -Os romanos que se prendiam em perpetuar as -recordações, deliberaram, depois do supplicio de -Tarpeia, que se precipitassem do alto d'essa colina -os criminosos accusados de traição. D'aqui -a locução:—<i>Ser precipitado da rocha Tarpeia</i>—para -exprimir, figuradamente, a quéda rapida<span class="pagenum"><a id="Page_28">[28]</a></span> -d'uma posição elevada, e, particularmente, a -perda d'uma grande popularidade.</p> - -<p>E como este logar era situado junto do Capitolio, -em que se coroavam os triumphadores, -as palavras—<i>A rocha Tarpeia está perto do Capitolio</i>, -ou—<i>Do Capitolio á rocha Tarpeia -só ha um passo</i>, significam que a quéda segue, -muitas vezes, de perto o triumpho, e que a ignominia, -como extremo, toca a gloria.</p> - -<p>Esta phrase está, sobretudo, em uso desde -o eloquente emprego que d'ella fez Mirabeau, -n'uma circumstancia celebre: Tratava-se de saber -se a iniciativa da guerra devia ser devolvida -ao rei ou á assembleia; Mirabeau pronunciou-se -pela assembleia, e como ouvisse a palavra <i>traidor</i> -soar aos seus ouvidos, o fogoso orador subiu -á tribuna, e tomando para texto do seu exordio -a instabilidade do favor popular, fez ouvir -essas palavras, que ficaram celebres:—«E eu -tambem, a mim tambem queriam, ha poucos -dias, levar-me em triumpho; e gritam agora nas -ruas:—<i>A grande traição do conde de Mirabeau!</i> ... -Eu não precisava d'esta lição para saber -que <i>só ha um passo do Capitolio á rocha -<span class="pagenum"><a id="Page_29">[29]</a></span>Tarpeia!</i> ...»</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="X">X<br /> -<i>Catão</i></h2> -</div> - - -<p>Marco Porcio Catão, é, sobretudo, celebre -pela austeridade dos seus costumes. Fez-se notar, -desde o principio da sua vida publica, pela -sua eloquencia mordente e aggressiva e pela -sua opposição apaixonada ás ideias da Grecia, -que começavam desde então a modificar o genio -da Roma Antiga. Tão duro comsigo, como -para os seus escravos, levantava-se antes da aurora, -excitava os servos ao trabalho, punha-se -nú como elles, para lavrar, comia o seu pão negro -e bebia da sua agua avinagrada. Elevado á -censura, pôde, emfim, trabalhar na realisação do -seu sonho:—a restauração da antiga simplicidade -romana. Fez regulamentos sumptuarios, -contribuiu os objectos de luxo, os enfeites das -mulheres, reprimiu as delapidações, e mostrou -uma inflexivel severidade de costumes, a ponto -de degradar um senador que tinha beijado a esposa -em presença da filha. Amava-se a sua palavra, -honrava-se o seu caracter; o povo applaudia -este censor inexoravel que <i>mordia</i> toda a gente. -O sobrenome de <i>Censor</i> ficou-lhe, e erigiram-lhe<span class="pagenum"><a id="Page_30">[30]</a></span> -uma estatua com esta inscripção:—<i>A Catão, que -corrigiu os costumes</i>.</p> - -<p>A sua presença inspirava um tal respeito -aos romanos, que, quando elle assistia ao espectaculo, -o povo esperava que elle sahisse para -pedir as farças e as danças licenciosas.</p> - -<p>—Dizer que um homem é um <i>Catão</i> é dizer -que é severo e rigido no cumprimento do -seu dever e nos seus costumes.</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="XI">XI<br /> -<i>Cezar</i></h2> -</div> - - -<p>Caio Julio Cezar, consul romano, dictador -e um dos maiores capitães da antiguidade, era -sobrinho de Mario. Cresceu no meio das guerras -civis e foi proscripto aos desoito annos, por -Sylla, que viu n'elle <i>varios Marios</i>. A estatua -d'Alexandre, o Grande, que elle viu, passando -em Cadiz, fez-lhe derramar lagrimas de despeito, -por vêr que na idade em que tinha morrido -esse heroe, elle não tinha ainda realisado -nada de notavel. Tinha uma ambição e uma actividade -devoradoras e—«julgava não ter feito<span class="pagenum"><a id="Page_31">[31]</a></span> -coisa alguma em quanto lhe restasse alguma -coisa a fazer.»</p> - -<p>O seu nome, como o de Alexandre, ficou -como synonymo de grande guerreiro, de conquistador -civilisador.</p> - -<p>Vamos apontar por ordem chronologica, as -differentes circumstancias da vida de Cezar, que -originaram locuções proverbiaes.</p> - - -<h3 class="ithead"><i>1.º—A mulher de Cezar nem mesmo deve ser suspeitada.</i></h3> - -<p>Clodio, joven patricio, ambicioso e desmoralisado, -amava Pompeia, mulher de Cezar. Uma -noite, quando as mulheres celebravam os mysterios -da boa-deusa, interdictos aos homens, elle -introduziu-se, disfarçado com trajes femininos, -nos aposentos de Pompeia. Mas foi surprehendido -por uma escrava, que não era confidente.—«No -dia seguinte, diz Plutarco, toda a cidade -soube que Clodio commettera um sacrilegio horrivel.»</p> - -<p>Julgado, como profanador dos santos mysterios, -corrompeu os juizes e foi absolvido. Cezar -contentára-se em repudiar sua mulher. Chamado, -porém, como testemunha, elle depoz que não tinha -nenhum conhecimento dos factos que se -imputavam ao accusado. Este depoimento pareceu -muito estranho e o accusador perguntou-lhe<span class="pagenum"><a id="Page_32">[32]</a></span> -porque havia então repudiado sua mulher. Elle -respondeu:</p> - -<p>—<i>É porque a mulher de Cezar nem -mesmo deve ser suspeitada.</i></p> - - -<h3 class="ithead"><i>2.º—Gostaria mais de ser o primeiro -n'uma aldeia, que o segundo em Roma.</i></h3> - -<p>Todos os actos, todas as palavras de Cezar, -antes do seu advento ao poder, revelam o seu -caracter e a natureza da sua ambição. Depois da -sua pretura, tendo-o a sorte designado para o -governo da Hespanha ulterior, elle partiu para a -sua provincia. Quando atravessava uma pobre -aldeia, perdida no fundo dos Alpes, alguns dos -seus amigos perguntaram-lhe, gracejando, se a -ambição do poder e o desejo das dignidades -occasionavam tambem debates n'essa miseravel -terra.</p> - -<p>—«Não riam—respondeu o futuro dictador—<i>eu -gostaria mais de ser o primeiro n'esta aldeia, -que o segundo em Roma</i>.»</p> - - -<h3 class="ithead"><i>3.º—Passar o Rubicão.</i></h3> - -<p>Cezar vinha de concluir a conquista dos -gaulezes, e tinha encontrado n'essas regiões thesouros -bastantes para tudo comprar em Roma,<span class="pagenum"><a id="Page_33">[33]</a></span> -onde tudo se tornára venal. Os seus successos, -o seu poder, mais ainda que os seus conhecidos -projectos, despertaram, emfim, a desconfiança de -Pompeu, que começava a receiar ver-se o logro -d'aquelle de que elle se tinha imaginado ser o -protector. Desde então, poz tudo em acção para -obter do senado um decreto que ordenava a -Cezar o abandono do seu exercito e a resignação -do commando. Este respondeu que estava -prompto a obedecer, com a condição de que -Pompeu entraria, pelo seu lado, na vida civil. -Desde este momento, a guerra estava declarada. -O senado encarregou os consules de proverem -a segurança publica, e Cezar fez avançar o seu -exercito para o Rubicão. Era uma pequena ribeira, -que separava a Italia da Gallia cisalpina. -O senado para assegurar Roma contra as tropas -da Gallia, tinha, por um senatus-consulto celebre, -declarado traidor á patria e dedicado aos -deuses infernaes, todo aquelle que, com uma legião -ou uma cohorte, passasse aquella ribeira. -Prevenido na margem opposta, Cezar, dominado -pelo perigo da resolução audaciosa que ia tomar, -hesitou alguns instantes.</p> - -<p>«Tinham-se visto revoluções d'imperios, diz -Lacordaire, thronos mudando de senhores, e -fôra isso, n'esse jogo de passageiras fortunas, o -que tinha illuminado o genio dos maiores d'entre -os homens. Cezar, no Rubicão, parára pensativo; -a mão no peito e o olhar além do regato, elle se<span class="pagenum"><a id="Page_34">[34]</a></span> -dissera:—«Eu, Cezar, faço uma coisa que nenhum -romano fez ainda: desobedeço ao senado -romano. Passando este ribeiro, faço um imperio -d'uma republica, senhora do mundo: passemol-o.»</p> - -<p>—«Vamos, pois, exclamou Cezar, como -se cedesse á obsessão da sua fortuna; vamos -aonde nos chamam as vozes dos deveres e a iniquidade -dos nossos inimigos. <i>Alea jacta est!</i>—a -sorte está lançada!»</p> - -<p>Palavra irrevogavel, pronunciada depois por -todos os homens que, não encontrando fundo no -seu pensamento, e obrigados a escolherem entre -dois perigos supremos, tomam resolução no seu -caracter, não podendo tomal-a em outra parte, e -se lançam a nado no Rubicão do acaso, para -morrerem ou para se salvarem pela sorte.</p> - - -<h3 class="ithead"><i>4.º—Levas Cezar e a sua fortuna.</i></h3> - -<p>Pompeu, desesperando de defender a Italia -com a approximação de Cezar, deixou Roma -acompanhado d'um grande numero de senadores, -magistrados e cidadãos e passou á Grecia, -onde levantou um exercito. Cezar seguiu-o. -Tendo desembarcado á frente de cinco legiões, -soube que a frota que lhe levava viveres e reforços -foi batida e dispersa pela de Pompeu. Na critica -circumstancia em que se achava toma a re<span class="pagenum"><a id="Page_35">[35]</a></span>solução -d'ir ao encontro d'Antonio, que devia -soccorrel-o, e embarca elle só n'um barco de pescador. -Durante a travessia levanta-se uma tempestade -e ameaça submergir a fragil embarcação. -O piloto espantado quer volver ao posto. É -então que o heroe lhe diz essa famosa phrase, -contada por Plutarco:</p> - -<p>—«Que receias? <i>levas Cezar e a sua fortuna!</i>»</p> - -<p>E alguns dias depois humilhava o seu rival -nos campos da Pharsalia.</p> - - -<h3 class="ithead"><i>5.º—Soldado, fere no rosto!</i></h3> - -<p>Antes da batalha de Pharsalia, Cezar, no -meio d'uma região dedicada ao seu rival, estava -n'uma situação muito critica. Pompeu, cujo exercito -estava bem munido e fornecido pela sua -frota, resolvera reduzir á fome o seu inimigo. A -perda de Cezar parecia certa, quando Pompeu, -cedendo á impaciencia dos seus soldados, travou -peleja com os velhos legionarios das Gallias, que -bem podiam ser destruidos pela fome, mas que -não podiam deixar-se vencer.—«Soldado, fere -no rosto!» tinha gritado Cezar aos seus veteranos, -vendo os brilhantes cavalleiros do exercito -de Pompeu. Estes jovens patricios, espantados, -pozeram-se em fuga para não serem desfigurados -pelas lanças dos legionarios, e Cezar ficou -senhor do campo de batalha.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_36">[36]</a></span></p> - -<p>A implacavel phrase de Cezar não encontra -applicação alguma em circumstancias analogas, -e emprega-se a respeito d'um adversario de -que se quer tocar a fibra sensivel, que se deseja -ferir á falta de couraça.</p> - - -<h3 class="ithead"><i>6.º—Cheguei, vi e venci.</i></h3> - -<p>Apoz a morte de Pompeu e a conquista do -Egypto, e em quanto Cezar se engolfava no -seio dos prazeres que lhe offerecia Cleopetra, o -partido de Pompeu, mais disperso que destruido, -erguia-se por toda a parte. Pharnacio, rei do -Ponto, aproveitára a guerra civil para tentar reunir -na Asia as antigas possessões de seu pae. -Despertado pelo perigo, Cezar corre ao Bosphoro, -esmaga o filho de Mithridates e termina -essa guerra com uma tal rapidez, que pôde -contal-a inteira n'estas tres palavras celebres, -que elle dirigiu ao senado:</p> - -<p>—<i>Veni, vidi, vici; cheguei, vi, venci!</i></p> - -<p>—Faz-se uso da phrase para exprimir a facilidade, -a promptidão com que se executa uma -empreza.</p> - -<p>Lembra-nos a proposito o seguinte caso analogo. -Depois da sua victoria sobre os turcos, Sobieski -enviou ao Papa o estandarte de Mahomet, -com estas palavras de Cezar a que deu um caracter -de modestia christã:—«<i>Cheguei, vi e Deus -venceu!</i>»</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_37">[37]</a></span></p> - -<h3 class="ithead"><i>7.º—Idos de Março.</i></h3> - -<p>Cezar entrára em Roma, senhor do mundo -inteiro. O senado conferiu-lhe honras extraordinarias -e revestiu-o d'uma illimitada auctoridade. -Foi nomeado consul por dez annos e dictador -perpetuo; deram-lhe o nome de <i>imperador</i>, o titulo -de <i>Pae da Patria</i> e erigiram-lhe uma estatua -com esta inscripção:—<i>Ao deus invencivel!</i> -A sua pessoa foi declarada inviolavel. Concederam-lhe -o privilegio de assistir ao espectaculo -n'uma cadeira dourada, com uma corôa na cabeça. -Elle meditava projectos immensos; queria -engrandecer Roma, ornamental-a de monumentos -magnificos, fazer d'ella a rainha do Universo. -Mas não lhe estava reservado o cumprimento de -tão vastos designios. Debalde se exforçára por -apagar todos os traços da guerra civil, debalde -tinha cumulado de favores e elevado aos primeiros -cargos os que o tinham combatido, debalde -tinha erguido estatuas ao seu rival, porque -nada podia desarmar os partidarios da antiga liberdade.</p> - -<p>A sua clemencia parecia insultante; viu-se -que não perdoava, mas que desdenhava punir. -Afinal uma formidavel conjuração se tramou contra -a sua vida. A conspiração devia explosir no -meio do senado, e fôra fixada para os <i>idos de -Março</i>. O caso transpirou no publico, mas Cezar<span class="pagenum"><a id="Page_38">[38]</a></span> -recusou tomar qualquer precaução. Calpurnia, -sua mulher, estava tão persuadida da realidade -do perigo, que o conjurou, com as mais vivas -instancias, a não sahir n'esse dia.</p> - -<p>Conta Plutarco, que muito tempo antes, um -adivinho tinha advertido o dictador de que devia -desconfiar dos <i>idos de Março</i>. Quando sahia -de casa para o senado, encontrou o adivinho -e disse-lhe, rindo: «—Chegamos aos idos de -Março.»—«É verdade—respondeu—mas ainda -não passaram.»</p> - -<p>Alguns passos adeante um homem entregou-lhe -um bilhete que continha todas as particularidades -da conspiração:—«Lêde—disse—e -rapidamente!» Mas Cezar não teve tempo e -entrou para o senado.</p> - -<p>—Os <i>idos de Março</i> designam, por analogia, -uma epocha perigosa de passar, e para a -qual se fizeram incommodativos prognosticos.</p> - - -<h3 class="ithead"><i>8.º—E tu tambem, meu filho!</i></h3> - -<p>Apenas Cezar tinha entrado no senado, todos -os conjurados o rodearam como para lhe -prestarem honra. Cimber, um d'elles, apresentou-se, -afim de lhe pedir o chamamento de seu -irmão exilado, e como para lhe pedir com mais -submissão, tomou-lhe a fimbria da toga e puxou-a -com violencia. Era o signal combinado.<span class="pagenum"><a id="Page_39">[39]</a></span> -Casca, tirando o seu punhal, feriu com elle o -dictador no hombro. Cezar, no mesmo instante -toma a arma do assassino e precipita-se sobre -elle gritando:—«Que fazes, scelerado Casca?» -Então todos os conspiradores desembainharam -as suas espadas e lhe vibraram varios golpes. -Cassio, mais animado que os outros, fez-lhe uma -profunda brecha na cabeça; Cezar defendia-se -ainda, quando avistando Bruto, com o punhal -erguido sobre elle, exclamou:—«E tu tambem, -meu filho Bruto!» Ao mesmo tempo cobriu o -rosto com o vestido e cahiu atravessado com -vinte e tres golpes, aos pés da estatua de Pompeu.</p> - - -<h3 class="ithead"><i>9.º—A tunica de Cezar.</i></h3> - -<p>O cadaver de Cezar abandonado no senado -foi conduzido, todo cheio de sangue a sua casa -por tres escravos. Alguns dias depois, Antonio -appareceu na tribuna das harengas e leu á multidão -o testamento do dictador. O povo, que elle -não tinha esquecido nas suas generosidades fez -explosir a sua indignação. Então, Antonio, desdobrando -do alto da tribuna a tunica de Cezar, -ensanguentada e crivada de golpes, tratou de -parricidas os auctores d'aquelle assassinio. Esta -scena levou ao cumulo a exasperação popular. -E todos os assistentes fazendo logo uma fogueira -com as mezas e os bancos que encontra<span class="pagenum"><a id="Page_40">[40]</a></span>ram -á mão, n'ella queimaram o corpo de Cezar; -depois, tomando tições correram a casa dos -assassinos para lhes lançarem fogo, e os atacarem -a elles proprios.</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="XII">XII<br /> -<i>Estava escripto</i></h2> -</div> - - -<p>Esta resignação perante os duvidosos decretos -do destino é o fundo da doutrina religiosa -da maior parte dos povos orientaes. É uma especie -de <i>fatum</i> antigo, um pallido reflexo d'esse -caracter poetico, quasi grandioso, que o fatalismo—mistura -de sensibilidade profunda e sombria -resignação—revestira entre os antigos.</p> - -<p>Os differentes systemas phrenologicos parecem -não ter por fim senão o darem razão -physica d'estes factos moraes.</p> - -<p>A litteratura philosophica do seculo <span class="smcap">XVIII</span> legou-nos -duas obras muito conhecidas, apesar de -francezas, sobre a fatalidade: <i>Zadig</i>, conto de -Voltaire, e <i>Thiago o fatalista</i>, romance de Diderot.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_41">[41]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="XIII">XIII<br /> -<i>Conhece-te a ti proprio</i></h2> -</div> - - -<p>Estas famosas palavras estavam gravadas -sobre o frontão do templo de Delphos. Era a -maxima favorita de Socrates; elle adoptou-a, explicou-a -e tornou-a celebre para sempre. Toda a -lei moral reside n'estas palavras, como toda a -lei religiosa está encerrada n'estas admiraveis -palavras de Christo:—«Ama o proximo como a -ti mesmo.»</p> - -<p>Seneca, o tragico, desenvolveu esta bella -maxima nos seguintes versos que traduzimos -assim:</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i0">«O homem é infeliz no instante em que fenece;<br /></span> -<span class="i0">Quando tendo esquecido o ponto necessario,<br /></span> -<span class="i0">Morre mui conhecido e a si se não conhece.»<br /></span> -<span class="pagenum"><a id="Page_42">[42]</a></span></div></div> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="XIV">XIV<br /> -<i>As joias de Cornelia</i></h2> -</div> - - -<p>Cornelia, mãe dos Grachos, era filha de -Scipião, o Africano, e mulher de Sempronio -Gracho, que se illustrou nas guerras de Hespanha. -Enviuvando, com doze filhos, consagrou-se -inteiramente á sua educação, e recusou -até, dizem, a mão de Ptolomeu, rei do Egypto. -D'esta numerosa prole conservou apenas uma -filha, que foi casada com Scipião Emiliano, e -dois filhos, Tiberio e Caio Gracho, este sempre -famoso pelo seu genio, pela sua coragem e pelo -seu tragico destino. Mulher d'um caracter viril -e d'um espirito cultivado, ella educou-os com o -maior esmero, e inspirou-lhes cedo o amor publico, -a paixão da gloria e das grandes emprezas, -pedindo-lhes, por vezes, que a chamassem -sempre a filha de Scipião e nunca a mãe dos -Grachos.</p> - -<p>Conta-se que uma dama da Campania estendendo, -um dia, deante d'ella as suas joias e -os seus preciosos adornos, e pedindo-lhe para -que ella lhe mostrasse as suas, Cornelia lhe -apresentou os filhos, dizendo:</p> - -<p>—«Eis as minhas joias e os meus adornos».</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_43">[43]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="XV">XV<br /> -<i>Cresus</i></h2> -</div> - - -<p>Cresus, rei da Lydia, submetteu a maior -parte das cidades da Asia Menor, e levou as -suas conquistas até ao rio Halys. A fama do seu -poder e das suas riquezas, constantemente renovadas -pelas areias auriferas do Pactolo, tornou -proverbial o nome de Cresus, para designar um -homem cumulado dos bens da fortuna. Elle -perguntou um dia a Solon, que fôra visitar a sua -côrte, se conhecia um homem mais feliz do que -elle. O philosopho respondeu-lhe que nenhum -homem póde ser saudado com o nome de feliz -antes da sua morte. Cresus não tardou a experimentar -os effeitos d'esta triste verdade. Um de -seus filhos foi morto na caça, o outro tornou-se -mudo, e elle proprio, depois de ter visto os seus -Estados invadidos por Cyro, foi vencido na celebre -batalha de Thimbreia e cahiu nas mãos do -vencedor, que ordenou a sua morte. Quando o -conduziam ao supplicio, vieram-lhe á memoria -as palavras de Solon, e elle pronunciou tres vezes, -suspirando, o nome do legislador atheniense. -Instruido da causa d'esta exclamação,<span class="pagenum"><a id="Page_44">[44]</a></span> -Cyro, commovido de piedade e tocado d'aquelle -exemplo das vicissitudes humanas, perdoou a -Cresus e admittiu-o no numero dos seus conselheiros.</p> - -<p>Esta bella legenda philosophica da vida de -um homem, que foi successivamente, e d'um -modo tão frisante, o favorito e o joguete da fortuna, -é narrada por Herodoto, mas Xenophonte -não falla d'ella.</p> - -<p>—O nome de <i>Cresus</i> passou a designar um -homem opulento, coberto de todos os favores da -fortuna.</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="XVI">XVI<br /> -<i>Dôr, tu não és um mal</i></h2> -</div> - - -<p>O stoicismo, fundado por Zenon, fórma -uma das mais illustres philosophias da antiguidade. -Simples no seu principio e nas suas deducções, -frisante pelo seu caracter heroico e paradoxal, -de tal modo se fez conhecer, ao menos, -pelos traços mais salientes da sua moral, que os -nomes de <i>stoicismo</i> e <i>stoico</i>, entraram na applicação -usual da lingua, como expressão d'uma -grande impassibilidade. Os stoicos faziam consistir -a virtude e a ventura na posse d'uma alma<span class="pagenum"><a id="Page_45">[45]</a></span> -egualmente insensivel á voluptuosidade e á dôr, -liberta de todas as paixões, superior a todos os -receios, a todas as fraquezas. Admittindo como -mal apenas o vicio, como bem sómente a virtude, -e considerando o resto como indifferente, -elles negavam que a dôr fosse um mal. Zenon, -seu illustre chefe, foi o primeiro que proclamou -a lei do <i>dever</i> e que d'ella lançou os fundamentos -com uma abundancia de provas que tinha a -sua origem n'uma profunda convicção, independentemente -de toda a argumentação dialectica. -As paixões não são elementos necessarios da -nossa condição; são doenças da alma: a saude, -a <i>apathia</i>, a ausencia das paixões. Foi por -causa d'esta severidade d'opiniões moraes, pelo -menos entre os primeiros stoicos, que se deu, -em geral, o nome de stoicismo a toda a opinião -severa em moral.</p> - -<p>Esta doutrina, que se allia perfeitamente -com todas as grandes virtudes, e que tendia -a fazel-as nascer, logrou grande credito entre -os romanos, apesar da sua pequena inclinação -pela philosophia; adoptaram-na com enthusiasmo, -porque se concertava admiravelmente -com a sua energia intellectual e a sua severidade. -Notou-se, em honra da seita dos stoicos, -que os personagens mais virtuosos de Roma a -tinham adoptado:—Bruto, Catão d'Utica, Thrasêas, -Seneca, Tacito, Epictecto, Antonino e Marco -Aurelio. A moral ficou como gloria dos stoicos,<span class="pagenum"><a id="Page_46">[46]</a></span> -e tirando-lhe o que encerra de paradoxal e exaggerado, -ella assegura-lhes o primeiro logar entre -os percursores mais puros e mais directos -do christianismo.</p> - -<p>A divisa principal dos stoicos era:—«<i>Soffre -e abstem-te!</i>»</p> - -<p>Conta-se que um discipulo de Zenon, exclamava -no meio dos maiores soffrimentos causados -pela gôtta:</p> - -<p>—«<i>Dôr, tu não és um mal!</i>»</p> - -<p>Havia, por sem duvida, ostentação n'estes -principios da doutrina do stoicismo, mas nem -por isso ella deixou de produzir as virtudes -mais heroicas.</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="XVII">XVII<br /> -<i>Egéria</i></h2> -</div> - - -<p>Numa Pompilio, legislador e segundo rei -de Roma, nasceu em Ceres, no paiz dos sabinos. -A tradição pinta-o como um principe pacifico -e cheio de sabedoria. Nem uma guerra -perturbou o seu reino, consagrado inteiramente -á legislação e ás instituições religiosas. Elle -creou e organisou, entre outras coisas, as ves<span class="pagenum"><a id="Page_47">[47]</a></span>taes, -os pontifices, e construiu templos e instituiu -festas.</p> - -<p>Como todos os legisladores da antiguidade, -usou d'artificio para assegurar o respeito das -suas instituições, e persuadiu aos romanos que -recebia inspirações da nympha Egéria, só visivel -para elle no fundo d'um bosque sagrado.</p> - -<p>Vê-se ainda hoje, perto de Roma, n'um -valle delicioso, o resto da fonte Egéria, entre a -via Latina e a via Appia. Antigos monumentos -representam esta nympha n'um costume analogo -ao das sybillas, de tunica fluctuante, pés nús, -cabellos soltos, e traçando caracteres n'um livro -posto sobre os joelhos.</p> - -<p>—Hoje o nome de Egéria dá-se familiarmente, -sobretudo, a uma mulher de que se tomam -os conselhos, de que se segue a opinião, -principalmente para a direcção de negocios politicos.</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="XVIII">XVIII<br /> -<i>Mais uma victoria como esta e estamos perdidos</i></h2> -</div> - - -<p>Pyrrho, sobrinho d'Olympias, era o principe -mais valente, mais aventureiro de quantos -se habilitaram á herança d'Alexandre. Passou a<span class="pagenum"><a id="Page_48">[48]</a></span> -vida a conquistar e a perder corôas. Não podia -permanecer tranquillo no Epiro, julgando que -não fazendo mal nem havendo quem lh'o fizesse, -não tinha em que passar o tempo. Assim, -o successo faltou sempre aos designios d'essa -creança animada da fortuna, que viveu e morreu, -menos como rei que como aventureiro. A -sua brilhante reputação militar, fel-o chamar pelos -tarentinos, então em guerra com os romanos. -A imaginação exaltada representa-lhe já a -Italia conquistada, depois a Sicilia e Carthago, -e parte cheio de alegria para Tarento, cidade de -prazeres, que elle transforma n'um campo, e os -seus habitantes afeminados em soldados. Ganhou -primeiro, graças aos seus elephantes, a -batalha de Heraclêa, em que os romanos perderam -quinze mil homens e elle treze mil. Venceu -ainda em Asculo, em que o triumpho não foi -comprado menos caro. Depois d'esta sangrenta -batalha foi que elle respondeu aos que o felicitavam:—«Mais -uma victoria como esta e estamos -perdidos!»</p> - -<p>Pyrrho, afinal, deixou a Italia, e encontrou -a morte nas ruas de Argos, aonde uma velha o -matou, atirando-lhe de cima do telhado uma pesada -telha.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_49">[49]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="XIX">XIX<br /> -<i>Espada de Damocles</i></h2> -</div> - - -<p>Damocles, um dos cortezãos de Denys, o -Antigo, fazia-se notar pela emphase das suas -adulações, e não cessava de elogiar a ventura de -seu senhor. O tyranno resolveu inicial-o nos -prazeres da grandeza, por meio d'uma allegoria -espiritual que faria honra a um califa oriental. -Convidou-o a tomar o seu logar durante um dia, -e deu ordens para que Damocles fosse tratado -como rei, e lhe servissem um banquete sumptuoso. -O cortezão tomou logar n'um leito -d'honra; tem a fronte cingida do diadema; as -iguarias mais exquisitas cobrem a meza. Damocles -está rodeado d'escravos, attentos aos seus -minimos signaes; deliciosos perfumes fumegam -em torno a si, e a mais adoravel musica lhe encanta -o ouvido; as cortezãs adulam-no, e poetas -cantam em seu louvor. Embriaga-se em ventura, -quando, de subito, levantando os olhos, vê suspensa, -por cima de sua cabeça, uma espada -apenas preza pela crina d'um cavallo. Pallido e -tremulo, deixa escapar a taça das mãos, levan<span class="pagenum"><a id="Page_50">[50]</a></span>ta-se -desnorteado e pede a Denys para pôr -termo á sua realeza. Tinha comprehendido o -que é a ventura d'um tyranno.</p> - -<p>—De todos os factos historicos que deixaram -traço nas linguas, a <i>espada de Damocles</i> é -o mais conhecido, poderemos até dizer o mais -vulgar. É o perigo temido ou previsto, que -póde ferir um homem no meio d'uma apparente -prosperidade.</p> - -<p>Um escriptor contemporaneo disse:—«A -abobada dos céus é para o criminoso a sala do -festim de Damocles, d'onde pendia uma espada -sobre sua cabeça».</p> - -<p>E Alfredo de Musset, nas <i>Confissões d'um -Filho do Seculo</i>, tambem:—«Conta-se que Damocles -viu uma espada sobre a sua cabeça; é -assim que os libertinos parecem ter por cima -d'elles um não sei quê, que lhes grita constantemente:—Vai, -vai sempre, estou por um fio!»</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_51">[51]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="XX">XX<br /> -<i>O prato de lentilhas</i></h2> -</div> - - -<p>Esaú, o primogenito, era um grande caçador; -Jacob, pelo contrario, era um homem simples, vivendo -em casa, occupado unicamente em trabalhos -domesticos. A doçura do seu caracter tornava-o -mais agradavel a sua mãe que Esaú, que -tinha attrahido a affeição particular de seu pae -Isaac. Um dia, em que Esaú voltava do campo, -cheio de fadiga e oppresso pela fome, pediu a -Jacob que o deixasse comer d'um <i>prato de lentilhas</i> -que este tinha preparado. Jacob consentiu, -com a condição de que Esaú lhe cederia o -seu direito de primogenito. Mais tarde, Jacob, -recorrendo ao estratagema e auxiliado por sua -mãe, surprehendeu a Isaac, moribundo e cego, a -sua benção, que o fazia chefe da familia de -onde devia sahir o Christo. Esaú concebeu uma -violenta cólera, e Jacob, para se subtrahir ao -seu resentimento retirou-se para casa de Labão, -seu tio.</p> - -<p>—Diz-se <i>prato de lentilhas</i>, a insignificancia -relativa, pela qual se cede uma coisa realmente -muito valiosa, especialmente moral.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_52">[52]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="XXI">XXI<br /> -<i>E eu tambem sou pintor!</i></h2> -</div> - - -<p>Corregio, natural de Corregio, nascido -em 1494, é um dos maiores pintores da eschola -italiana. As suas composições fazem-se notar, -sobretudo, pela graça ondulante dos contornos, -pela flexibilidade e elegancia das fórmas, pela -riqueza do colorido, pela sciencia da luz e da -sombra, pela intelligencia perfeita do claro-escuro! -Era eminente em representar creanças, -mulheres, emfim, scenas graciosas e de voluptuosidade. -A sua <i>Antiope adormecida</i> é d'uma -riqueza deslumbrante. A cidade de Parma offereceu, -debalde, um milhão a Napoleão para -conservar o <i>S. Jeronymo</i>, que é considerado -como a sua obra prima. Não se conhece nenhum -mestre a este pintor, e pensa-se que só a -si deve o que foi. A revelação do seu genio explosiu -deante d'um quadro de Raphael. Transportado -de admiração e como que illuminado, -elle exclamou:</p> - -<p>—«E eu tambem sou pintor!»</p> - -<p>—«<i>Anch'io son'pittore!</i>»</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_53">[53]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="XXII">XXII<br /> -<i>Estrella dos Reis Magos</i></h2> -</div> - - -<p>No momento em que Jesus vinha ao mundo -em Bethlem, n'um estabulo, os magos do -Oriente avistaram uma estrella no céu, que -elles ainda não tinham visto. Deixaram o seu -paiz, e, guiados por esse pharol miraculoso, -chegaram a Bethlem, onde acabava de nascer o -Menino Deus. Penetraram no local acima do -qual a estrella se detivera, e alli encontraram -Maria e seu Filho, e, prostrando-se deante do -recemnascido, adoraram-no e offereceram-lhe -ouro, incenso e mirra. É este o acontecimento -que a egreja celebra na festa da Epiphania -ou dos <i>Reis</i>.</p> - -<p>—A estrella que guiou os magos na sua -piedosa peregrinação enriqueceu a nossa lingua -com uma imagem poetica, muito frequentemente -empregada. Essa estrella é muitas vezes uma -voz intima, um ente amado, que nos chama e -nos dirige para um fim glorioso.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_54">[54]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="XXIII">XXIII<br /> -<i>E, comtudo, ella gira!</i></h2> -</div> - - -<p>Galileu, é, sem contradicção, a maior gloria -scientifica da Italia. O methodo experimental, -de que é o creador, fez-lhe em breve repellir -os absurdos physicos e astronomicos professados -no seu tempo, e levantar contra elle todos -quantos eram adeptos das velhas doutrinas. Mas -de todas as suas ousadias, a que devia ser mais -perigosa para o seu repouso, foi o seu novo systhema -astronomico, pelo qual, segundo Copernico, -e contrariamente a Ptolomeu, elle fazia do -sol o centro immovel do nosso systema planetario. -Pretendeu-se que esta doutrina estava em -formal contradicção com varias passagens da -Escriptura, e foi denunciado á Inquisição. Elle -defendeu-se com uma grande habilidade, representando -que as passagens da Biblia e dos Santos -Padres tinham sido interpretadas, e que, -além d'isto, o objecto da Escriptura era a salvação -dos homens e não o ensino da astronomia. -Contentaram-se a principio em lhe fazerem uma -advertencia, e em declararem <i>falsa e heretica</i> a -sua doutrina do movimento da terra e da immo<span class="pagenum"><a id="Page_55">[55]</a></span>bilidade -do sol. Galileu calou-se durante algum -tempo; mas a paixão da sciencia foi a final mais -forte que a prudencia. Compoz, por sua desgraça, -<i>Dialogos</i>, em que, por um artificio empregado -muitas vezes nos tempos de despotismo, -poz em lucta os partidarios dos systemas oppostos, -sem se pronunciar por um d'elles. Adivinha-se -facilmente que os partidarios da immobilidade -da terra, foram esmagados pelos argumentos, -realmente sem replica, dos seus adversarios. -Galileu foi mandado immediatamente a -Roma pela Santa Inquisição, interrogado, e, segundo -uns, mas sem que haja provas, posto em -tortura, e, afinal, condemnado a prisão perpetua -e á abjuração solemne dos seus <i>erros</i>.</p> - -<p>A sciencia como a fé tem tido os seus martyres; -mas Galileu fraquejou na ultima hora e -consentiu em humilhar o seu genio perante os -prejuizos dos seus contemporaneos. A 22 de junho -de 1633 pronunciou a sua abjuração no -convento de Minerva, em presença dos cardeaes -inquisidores. A formula que lhe foi imposta é -um dos monumentos mais curiosos da inepcia -humana:</p> - -<p>—«Eu, Galileu, de setenta annos, sobre os -Santos Evangelhos que toco com as minhas -proprias mãos ... abjuro, maldigo e detesto o -erro e a heresia do movimento da terra, etc.»</p> - -<p>Conta-se que levantando-se depois da realisação -d'este sacrificio, Galileu arrastado pela re<span class="pagenum"><a id="Page_56">[56]</a></span>volta -intima das suas convicções, bateu com o -pé no chão e murmurou energicamente:</p> - -<p>—«<i>E, comtudo, ella gira!—E pur si muove!</i>»</p> - -<p>Foi o seu unico protesto; mas elle atravessará -os seculos como o grito da verdade opprimida -e deporá eternamente contra a ignorancia -e a perseguição.</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="XXIV">XXIV<br /> -<i>Virtude, não és mais que um nome</i></h2> -</div> - - -<p>Depois da morte de Cezar, os seus assassinos, -forçados a fugirem deante da cólera do -povo, levantado por Antonio, retiraram-se para -a Macedonia. Os triumviros avançaram contra -elles com forças consideraveis. Alguns dias antes -da batalha, que devia decidir da sorte da republica, -e n'uma noite em que Bruto velava na -sua tenda, entregue a sombrias reflexões, pareceu-lhe, -de repente, que ouviu entrar alguem. -Volvendo-se viu um phantasma horrivel na sua -presença.</p> - -<p>—«Homem ou deus, quem és?»—lhe diz -Bruto.</p> - -<p>—«Sou o teu mau genio—responde—; -vêr-me-has em breve em Philippes.»</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_57">[57]</a></span></p> - -<p>Esta prophecia não devia tardar a realisar-se. -Poucos dias depois, com effeito, e na -noite que precedeu a batalha de Philippes, -quando Bruto velava só na sua tenda, segundo -o seu costume, em quanto que todo o exercito -estava mergulhado em somno, o mesmo phantasma -lhe appareceu segunda vez, o olhou com -ar sinistro e se retirou sem proferir uma unica -palavra. No dia immediato, a liberdade romana -expirava nas planicies de Philippes, e Bruto matava-se, -soltando esse grito de desanimo, muito -conhecido:</p> - -<p>—«<i>Virtude, não és mais que um nome!</i>»</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="XXV">XXV<br /> -<i>Festim de Balthazar</i></h2> -</div> - - -<p>Cyro, rei dos persas, cercava Babylonia á -frente d'um exercito formidavel; Balthazar, confiando -na força das suas muralhas, ria dos vãos -exforços do seu inimigo e esquecia, nos festins, -os enfados d'um longo cêrco. Uma noite em que -celebrava uma orgia com os grandes da sua -côrte e todas as suas mulheres, fez trazer, por -uma fanfarronada de impiedade, os vasos sagra<span class="pagenum"><a id="Page_58">[58]</a></span>dos -que Nabuchodonosor tinha outr'ora subtrahido -ao templo de Jerusalem. Realisada aquella -profanação, o impio monarcha viu com espanto -uma mão que traçava na parede, em traços ardentes, -caracteres mysteriosos, que nem Balthazar -nem ninguem da côrte pôde traduzir.</p> - -<p>O propheta Daniel tendo sido chamado, disse -ao rei.</p> - -<p>—«Foi Deus que enviou aquella mão, e é -isto o que está escripto: <i>Mané, Thécel, Pharés</i>;—<i>Mané</i>, -Deus contou os dias do teu reino e lhe -marcou o fim; <i>Thécel</i>, foste collocado na balança -e achado muito leve; <i>Pharés</i>, o teu reino será dividido!»</p> - -<p>Na mesma noite, com effeito, Cyro, tendo -conseguido desviar o curso do Euphrates, penetrou -na Babylonia pelo seu leito secco. Balthazar -foi morto e a Babylonia reunida ao imperio -dos persas.</p> - -<p>—Por allusão a este festim celebre, chama-se -<i>festim de Balthazar</i> a toda a orgia ruidosa, -ou, por uma hyperbole familiar, a todo o -banquete copioso e prolongado.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_59">[59]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="XXVI">XXVI<br /> -<i>Forcas caudinas</i></h2> -</div> - - -<p>Roma tinha vencido a maior parte das nações -visinhas; mas desde que quiz estender o seu -dominio á parte meridional da Italia encontrou os -samnitas, povo de costumes rudes e bellicosos. -Havia de um e outro lado as mesmas armas, a -mesma disciplina, o mesmo habito dos combates. -D'alli a ambição e o valor romanos; d'aqui o patriotismo -e a infatigavel energia dos samnitas, -iam dar a esta lucta um caracter d'incrivel encarniçamento. -Eis aqui o episodio mais celebre -d'essa guerra, que devia terminar pela conquista -do Samnio. Romperam-se as hostilidades; os samnitas -estavam acampados perto de Candium, no -meio das montanhas. Poncio Herennio, seu general, -resolveu attrahir, por um falso aviso, o -exercito romano a um desfiladeiro, de onde lhe -seria impossivel escapar-se. Logo dez soldados -samnitas, disfarçados em pastores, approximaram-se -dos postos avançados inimigos e espalham a -nova de que os samnitas cercam Luceria, cidade -alliada dos romanos. Os consules apressam-se a -voar em sua defeza, escolhendo o caminho mais<span class="pagenum"><a id="Page_60">[60]</a></span> -perigoso, mas mais curto—desfiladeiro profundo, -estreito e coberto de florestas. Era o que tinha -previsto o general dos samnitas. Apenas os romanos -se empenharam n'esse caminho perigoso, -avistam as alturas cobertas d'inimigos. Era forçoso, -ou morrer ou render-se, porque as sahidas -estavam obstruidas. O pai de Poncio Herennio, -velho cheio d'experiencia, aconselhava a -seu filho o despedir todos os romanos sem resgate, -para os fazer amigos, ou exterminal-os até -ao ultimo para vibrar um golpe mortal na republica. -O general samnita, escutando sómente -o desejo de humilhar o orgulho romano, obrigou-os -a entregarem-se á discrição, e fez passar -todo o exercito sob um jugo formado de -dois <i>forcados</i> espetados no solo e encimados -d'um terceiro. Todos os soldados com os consules -á frente, passaram, tremendo, sob esse instrumento -d'opprobrio, depois de terem deposto -as armas. O senado recusou ratificar compromissos -impostos em condições tão humilhantes; foi -preciso combater de novo, e sangrentas derrotas -puniram os samnitas da sua imprudente confiança -na fé romana.</p> - -<p>—Depois a expressão <i>passar sob as forcas -caudinas</i> entrou em uso para caracterisar toda a -concessão onerosa ou humilhante, arrancada aos -vencidos.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_61">[61]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="XXVII">XXVII<br /> -<i>Irmão, é preciso morrer</i></h2> -</div> - - -<p>As austeridades da vida monastica tornaram-se -proverbiaes, mas foi, sobretudo, na -Trappa que ellas se observaram com todo o rigor -dos primeiros seculos do christianismo. Os -trappistas guardam absoluto silencio, dividem o -tempo entre a oração e o trabalho manual, alimentam-se -de pão grosseiro e legumes e vestem -apenas o habito de burel. Devem ter sempre -deante dos olhos a imagem da morte. E é para -se lembrarem d'esta grande verdade, que em -cada dia visitam a valla que deve servir-lhes de -derradeiro asylo.</p> - -<p>«O silencio—diz um eloquente orador contemporaneo—anda -ao seu lado, e se fallam, -quando se encontram, é para se dirigirem esta -melancholica phrase:</p> - - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_62">[62]</a></span></p> - -<p>—«<i>Irmão, é preciso morrer ...</i>»</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="XXVIII">XXVIII<br /> -<i>Cahir com graça</i></h2> -</div> - - -<p>Quando em Roma o gladiador se sentia -mortalmente ferido, nos sangrentos combates do -circo, e a destreza se lhe tornava inutil, elle -procurava ainda accender applausos na multidão, -para a qual a sua agonia era um espectaculo, -por uma queda a que elle tentava imprimir -toda a arte, e <i>cahia na arena com graça</i>.</p> - -<p>—Esta phrase applica-se, pelo lado moral, -aos que, em politica, no amor, etc., se salvam -da humilhação d'um cheque, pela boa graça, -real ou ficticia, que fazem acceitar.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_63">[63]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="XXIX">XXIX<br /> -<i>Hippocrates diz sim, Galiano diz não</i></h2> -</div> - - -<p>Hippocrates e Galiano são os dois representantes -mais illustres da medicina, entre os -antigos: aquelle nos gregos, este nos romanos. -Galiano nutria uma profunda veneração pelo genio -do pae da medicina, e um dos maiores serviços -que prestou á sciencia, foi o de ter, no meio -d'uma sã critica, collocado o facho sobre as -obras d'aquelle que chamava seu mestre. Hippocrates -e Galiano teem de commum que dotados -ambos d'um vasto genio, avançaram muito -nos segredos da natureza, e ambos mostraram -egual ardor na investigação da verdade, não -pelo apparato das riquezas, mas só pelo amor -da humanidade.</p> - -<p>—Esta phrase proverbial: <i>Hippocrates diz -sim, Galiano diz não</i>, não tem pois a sua origem -no antagonismo dos dois grandes homens -e dos seus systemas; mas como a medicina é o -immenso campo da contradicção, e quando um -medico diz—<i>tanto melhor</i>, um outro<span class="pagenum"><a id="Page_64">[64]</a></span> -diz—<i>tanto peior</i>; quando este applica sangrias aquelle -proscreve-as; quando um colloca a séde de todas -as doenças nos nervos, o outro nos humores; -quando, emfim, um escreve no seu estandarte—<i>contraria -contrariis</i> ... e o outro—<i>similia -similibus</i> ..., comprehende-se que era á -medicina que a contradicção devia pedir a sua -divisa, e que as duas columnas d'esta sciencia -lhe deviam fornecer a expressão.</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="XXX">XXX<br /> -<i>É muito tarde!</i></h2> -</div> - - -<p>Esta phrase data da revolução de Julho de -1830, em França, e eis em que circumstancia foi -pronunciada. Uma ultima tempestade tinha derrubado -para sempre o throno do ramo mais velho -dos Bourbons. Era em sexta-feira, 30 de Julho; -o povo estava inteiramente senhor de Pariz, -e uma commissão a que presidia Lafayette cercava -o Hotel-de-Ville. Carlos X, em Saint-Cloud, -dominado por uma cegueira que lhe tinha feito -jogar a corôa, conservava ainda illusões e esperava -que algumas concessões o collocariam sobre -o throno. M. de Sussy, portador de despa<span class="pagenum"><a id="Page_65">[65]</a></span>chos -que revogavam as fataes determinações de -25, apresenta-se no Hotel-de-Ville e entrega-os -a Lafayette. Este dá-lhe então a famosa resposta:</p> - -<p>—«<i>É muito tarde!</i>»</p> - -<p>Alguns dias depois o duque d'Orleans, chefe -do ramo mais novo, subia ao throno. Mas, estranha -volta das coisas d'este mundo, dezoito -annos depois e em circumstancias quasi analogas, -a mesma resposta foi dada a Luiz Philippe. -Elle tambem devia ouvir Lamartine responder -ás suas tardias concessões:</p> - -<p>—«<i>É muito tarde!</i>»</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_66">[66]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="XXXI">XXXI<br /> -<i>Não ha grande homem para o seu creado de quarto</i></h2> -</div> - - -<p>Segundo Mademoiselle Aïssé, esta phrase -teria sido pronunciada pela primeira vez por -Madame Cornuel, mulher d'espirito, do tempo -de Henrique IV, da qual Madame de Sevigné -cita os bons ditos. Essa phrase é, sem duvida, -uma reminiscencia d'essa outra de Montaigne:—«Poucos -homens teem sido admirados pelos -seus creados.» Qual é, em verdade, o homem de -genio que fica egual a si proprio, quando já não -está em scena? O mundo é um espectaculo, -onde cada qual representa um papel apropriado, -em quanto está deante do publico, mas de que -se despoja todo o brilho d'emprestimo desde -que se recolhe a bastidores. Aqui o homem -substitue o heroe e quantos poderiam dizer -como o grande Condé, quando era fatigado com -titulos pomposos e elogios hyperbolicos:</p> - -<p>—«<i>Perguntem o que sou ao meu creado -de quarto!</i>»</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_67">[67]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="XXXII">XXXII<br /> -<i>Cantam, elles pagarão</i></h2> -</div> - - -<p>Mazarino governou a França depois de -Richelieu, em momentos de perturbações e de -guerra civil. Era a rapoza succedendo ao leão. -Fez uma politica completamente opposta á do -seu terrivel predecessor; os seus meios favoritos -eram a astucia, a finura, a paciencia. Comprazia-se -em repetir:</p> - -<p>—«O tempo é um homem galante!»</p> - -<p>Nenhum ministro foi tão posto em canções -como elle; mas insensivel aos pamphletos que -diariamente dirigiam contra a sua pessoa, o astucioso -italiano apenas dizia:</p> - -<p>—«Deixemol-os fallar e prosigamos!»</p> - -<p>A cada novo imposto choviam novas satyras. -Elle, porém, seguro de que uma opposição, -que só desabafava em <i>couplets</i> satyricos, o não -poderia incommodar, acudia com toda a serenidade:</p> - -<p>—«<i>Cantam, elles pagarão!</i>»</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_68">[68]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="XXXIII">XXXIII<br /> -<i>Perdi o meu dia</i></h2> -</div> - - -<p>O imperador Tito, que a historia cognominou -<i>as delicias do genero humano</i>, exclamava -quando tinha passado um só dia sem encontrar -occasião de praticar algum bem:</p> - -<p>—«Meus amigos, <i>perdi o meu dia!</i>»</p> - -<p>Boileau exprimiu esta generosa ideia nos -seguintes versos da <i>Epistola ao Rei</i>:</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i0">«Tal esse imperador, sob o qual, Roma via,<br /></span> -<span class="i0">Renascer de Saturno e de Rhêa outro dia;<br /></span> -<span class="i0">Que rendeu ao seu jugo o universo amoroso,<br /></span> -<span class="i0">Que jámais alguem viu sem se sentir ditoso,<br /></span> -<span class="i0">E que chorava á noite o tempo que perdera<br /></span> -<span class="i0"><i>Quando passava o dia e algum bem não fizera</i>.»<br /></span> -</div></div> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_69">[69]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="XXXIV">XXXIV<br /> -<i>Amo Platão, mas amo mais a verdade</i></h2> -</div> - - -<p>Platão e Aristoteles são os dois mais illustres -representantes da philosophia antiga. O primeiro, -discipulo de Socrates, estava em todo o -esplendor da sua fama, quando Aristoteles foi a -Athenas para seguir as suas lições. O discipulo -não tardou a tornar-se tão celebre como o mestre; -mas dois espiritos d'esta superioridade, e, ao -mesmo tempo, tão differentes, ambos feitos para -reinarem no dominio do pensamento, deviam em -breve separar-se.</p> - -<p>Assim, Aristoteles, sem ser, como se diz, inimigo -do seu mestre, não adoptava todas as consequencias -da sua doutrina; todavia, quando se -achava em contradicção com elle, sabia exprimir -a sua opinião com a sábia medida d'um philosopho -e não com a funda amargura d'um rival.</p> - -<p>—«Amo Platão—dizia—mas amo mais a -verdade.»—«<i>Amicus Plato, sed magis amica veritas.</i>»</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_70">[70]</a></span></p> - -<p>—Esta homenagem prestada á verdade, -quando é tida em desaccordo com as doutrinas -de um genio, mesmo transcendente, passou a ter -foros de proverbio.</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="XXXV">XXXV<br /> -<i>Achei!—Eureka!</i></h2> -</div> - - -<p>Esta exclamação que se faz ouvir quando, -depois de longas investigações, o espirito, repentinamente -inspirado, chega á descoberta que elle -perseguia, foi proferida pela primeira vez, por -Archimedes, nas circumstancias seguintes:</p> - -<p>Hieron, rei de Syracusa, suspeitava que um -ourives, que lhe tinha fabricado uma corôa d'ouro, -tivesse falsificado o metal, misturando-lhe uma -certa quantidade de prata. Elle consultou Archimedes, -seu parente, sobre os meios de descobrir -a fraude, de que julgava poder queixar-se. O -illustre mathematico reflectia profundamente na -solução possivel d'este problema, quando um dia, -estando no banho, percebeu que os seus membros, -mergulhados na agoa, perdiam consideravelmente -do seu pezo; que, por exemplo, elle -podia levantar uma perna com extrema facilidade. -O seu genio entreviu logo os elementos d'esse<span class="pagenum"><a id="Page_71">[71]</a></span> -grande principio d'hydrostatica, que determinou -em seguida rigorosamente:—que todo o corpo -mergulhado n'agoa, perde uma parte do seu -pezo, egual ao pezo do volume d'agoa que esse -corpo desloca.—Esta descoberta dava-lhe a solução -do problema. No meio do enthusiasmo que -lhe produziu esta revelação elle sahiu do banho -e lançou-se na rua gritando:</p> - -<p>—<i>Achei! achei!</i>—<i>Eureka! Eureka!</i></p> - -<p>Com effeito, tinha encontrado o meio de determinar -a gravidade especifica de todos os corpos, -tomando a agoa por unidade. Procurou, pois, -duas massas, d'ouro e de prata, cada uma d'um -pezo egual á corôa: mergulhou-as successivamente -n'um vaso cheio d'agoa, observando com -cuidado a quantidade de liquido deslocado pela -immersão de cada uma d'ellas. Submetteu á -mesma experiencia a propria corôa, e achou -assim o meio certo d'apreciar a quantidade d'ouro -e de prata de que ella era composta.</p> - -<p>—O <i>achei!</i> de Archimedes, ficou tendo -applicação, nos casos em que, uma difficuldade -qualquer, se vence por uma solução satisfactoria.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_72">[72]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="XXXVI">XXXVI<br /> -<i>Eu desejaria não saber escrever</i></h2> -</div> - - -<p>Néro, educado por Seneca e Burrhus, dois -dos mais sabios romanos d'esse seculo, esteve -longe de annunciar, na sua mocidade, as sanguinarias -inclinações, que o tornaram o typo da -crueldade. Elle pareceu querer consolar os romanos -do reino de Tiberio; os seus primeiros -actos, cheios d'uma grande doçura, provam que -aos seus instinctos de crueldade soube alliar uma -profunda hypocrisia, e que a educação é completamente -impotente para abafar, em certos caracteres, -pelo menos, os germens das paixões -más, que trazem nascendo. Desde o segundo dia -do seu reinado elle foi ao senado, e em um discurso -que Seneca lhe havia composto, annunciou -que o seu projecto era tomar Augusto por modelo. -Em verdade os principios do seu reino pareceram-se -com os ultimos do reino d'aquelle -que se propunha imitar. Mostrou-se justo, liberal, -affavel, polido, complacente e accessivel á piedade. -A modestia realçava-lhe ainda as qualidades. -O senado, tendo-o louvado pela sabedoria -do seu governo, fez com que elle dissesse:</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_73">[73]</a></span></p> - -<p>—«Esperem, para me louvarem, que eu o -tenha merecido.»</p> - -<p>Um dia em que lhe apresentaram, para assignar, -a sentença que condemnava á morte um -criminoso, elle disse:</p> - -<p>—«<i>Eu desejaria não saber escrever!</i>»</p> - -<p>E comtudo foi ... Néro!</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="XXXVII">XXXVII<br /> -<i>Linguas d'Esopo</i></h2> -</div> - - -<p>Esopo, escravo do philosopho Xantus, recebeu -um dia do seu senhor, que tinha convidado -varios amigos para jantar, ordem de comprar no -mercado, tudo quanto houvesse de melhor, e -nada mais.</p> - -<p>—«Eu te ensinarei a especificares o que desejas, -sem te entregares á discrição d'um escravo»—dissera -o phrygio comsigo mesmo.</p> - -<p>E comprou só linguas, que fez cosinhar de -todos os modos possiveis, de maneira que o principio, -o meio e o fim do banquete, foram linguas. -Os convidados louvaram a principio a escolha -d'Esopo, mas, afinal, desgostaram.</p> - -<p>—«Não te ordenei,—disse Xantus—que -comprasses o que houvesse de melhor?»</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_74">[74]</a></span></p> - -<p>—«E que ha melhor que a lingua?—respondeu -Esopo.—É o laço da vida civil, a chave -das sciencias, o orgão da verdade e da razão; -por ella se construem e policiam cidades; por -ella se instrue, se persuade e se reina nas assembleias; -por ella se satisfaz ao primeiro dos -deveres, que é louvar os deuses.»</p> - -<p>—«Pois bem—replicou Xantus, que pretendia -apanhal-o—compra amanhã o que houver -de peior. Os mesmos convidados virão a minha -casa e quero variar.»</p> - -<p>No dia seguinte Esopo só fez servir linguas, -dizendo que a lingua é a peior coisa que ha no -mundo.</p> - -<p>—«É a mãe de todas as questões, a alimentadora -de todos os processos, a origem das divisões -e das guerras. Se ella é o orgão da verdade, -é tambem o do erro, e, o que peior é, da calumnia. -Por ella destroem-se as cidades; e se por -um lado louva os deuses, por outro é o orgão -da blasphemia e da impiedade.»</p> - -<p>—As <i>linguas d'Esopo</i> ficaram celebres, para -designarem o que, podendo ser encarado sob dois -aspectos oppostos, dá egualmente occasião ao -louvor e á critica.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_75">[75]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="XXXVIII">XXXVIII<br /> -<i>Lanterna de Diogenes</i></h2> -</div> - - -<p>Na epocha em que vivia Diogenes, os athenienses -pareciam ter perdido a memoria de Marathão -e Salamina; eram já os athenienses da -decadencia, e em quanto que Demosthenes procurava -em vão accender essas heroicas recordações -pelos masculos accentos da sua eloquencia, -o cynico stigmatisava a seu modo, a sua cobardia -e a sua corrupção.</p> - -<p>Uma vez foi encontrado em pleno meio dia, -nas ruas d'Athenas, levando na mão uma lanterna -accesa, e como lhe pedissem a razão de -tão estranho caso, elle limitou-se a responder:</p> - -<p>—«<i>Procuro um homem!</i>»</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_76">[76]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="XXXIX">XXXIX<br /> -<i>O mestre o disse</i></h2> -</div> - - -<p>Pythagoras, um dos maiores, e, talvez até -o maior philosopho da antiguidade, aspirava, nada -menos, que a constituir no mundo inteiro uma -especie de religião. A sua doutrina tendia politicamente -a estabelecer uma aristocracia forte e -poderosa, e a revestil-a d'um caracter sacerdotal, -que a tornasse semelhante ás theocracias do -Oriente; em fazer das luzes scientificas a partilha -d'um pequeno numero de iniciados, e em dar a -estes o governo do mundo, attribuindo-lhes a infallibilidade. -Estas grandes e arrojadas ideias inspiraram -uma especie de terror aos gregos da Italia -e provocaram o desastre espantoso que feriu -subitamente os pythagonios.</p> - -<p>Comprehende-se o imperio que um philosopho -d'este quilate devia adquirir sobre o espirito -dos seus discipulos, e assim, entre elles, a -phrase—<i>o mestre o disse</i>, equivalia a uma formula -magica, que cortava completamente todas -as disputas.</p> - -<p>—Esta phrase que serve para exprimir o -respeito que se professa por uma auctoridade,<span class="pagenum"><a id="Page_77">[77]</a></span> -era d'algum modo a divisa de La-Fontaine, cuja -veneração pelos antigos é muito conhecida.</p> - -<p>—Um orador contemporaneo affirmou, nos -rasgos da sua eloquencia, que o homem não dirá -mais—<i>o mestre o disse</i>, porque o homem está -emancipado do homem. Elle dirá agora:—<i>A verdade -diz—A sciencia diz</i>.</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="XL">XL<br /> -<i>O rei é morto, vive o rei!</i></h2> -</div> - - -<p>Este velho grito da monarchia, significava -que a realeza nunca morria em França. Apenas -o rei exhalava o ultimo suspiro, um arauto apparecia -ao balcão do palacio e gritava tres vezes -deante do povo reunido:</p> - -<p>—«<i>O rei é morto, vive o rei!—Le roi est -mort, vive le roi!</i>»</p> - -<p>Mas era, sobretudo, na cerimonia funebre e -quando o defuncto monarcha ia tomar o seu logar -nas cryptas de S. Diniz, que estas palavras, pronunciadas -no meio das pompas da religião, retumbavam -d'uma maneira verdadeiramente solemne. -Ouviram-se, pela ultima vez, em França, -na morte de Luiz <span class="smcap">XVIII</span>.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_78">[78]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="XLI">XLI<br /> -<i>O estado sou eu!</i></h2> -</div> - - -<p>No dia immediato ao da morte do cardeal -Mazarino, Luiz <span class="smcap">XIV</span>, então de vinte e dois annos, -fez chamar os ministros que o cardeal lhe tinha -deixado—Pedro Séguier, Miguel Lettellier, de -Lionne e Fouquet, e declarou-lhes que seria -elle proprio, de futuro, o seu primeiro ministro. -Na mesma tarde o arcebispo de Ruão foi encontrar-se -com elle e disse-lhe:</p> - -<p>—«Vossa Magestade tinha-me ordenado que -me dirigisse ao cardeal para todos os negocios; -elle está morto, a quem devo dirigir-me agora?»</p> - -<p>—«A mim, senhor arcebispo.»</p> - -<p>O reino de Luiz o Grande estava começado.</p> - -<p>Estes preliminares pintam já o caracter de -Luiz <span class="smcap">XIV</span> e tornam muito provavel a authenticidade -da famosa phrase—<i>O estado sou eu!</i>—que -a historia diz elle fez ouvir, quando entrou -de botas e esporas no parlamento.</p> - -<p>Como o presidente lhe significasse que a -resistencia opposta aos seus editos, tinha a sua -origem nos interesses do estado, o joven monarcha -respondeu:</p> - -<p>—«<i>O estado sou eu!—L'etat, c'est moi!</i>»</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_79">[79]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="XLII">XLII<br /> -<i>Alavanca d'Archimedes</i></h2> -</div> - - -<p>Chama-se <i>alavanca</i> um corpo longo, inflexivel, -fixo em um ponto da sua extensão, -e destinado a levantar pesos. O ponto sobre a -qual a alavanca tem o seu ponto fixo, diz-se -<i>ponto d'apoio</i>; o peso a levantar, chama-se <i>resistencia</i> -e a força que actua é <i>potencia</i>. Quando -o ponto d'apoio está collocado no meio da -alavanca a <i>potencia</i>, e a <i>resistencia</i> são eguaes, -isto é, para se levantar um peso de cem kilogrammas -é necessario uma força egual a -esse peso. Mas a par e passo que o ponto -d'apoio se approxima da resistencia, a força que -se tem de desenvolver diminue proporcionalmente. -D'aqui é facil comprehender que uma -força egual, por exemplo, a algumas grammas, -póde levantar um navio completo, dando-se um -comprimento sufficiente ao braço da alavanca -que separa o ponto d'apoio da força activa.</p> - -<p>É certo que a alavanca era conhecida de -Archimedes, e foi o genio d'este grande homem -que lhe determinou as propriedades e as proporções -exactas. Comprehende-se que Archimedes<span class="pagenum"><a id="Page_80">[80]</a></span> -tendo levado até ao infinito o estudo theorico da -potencia da alavanca haja ousado exclamar:</p> - -<p>—«<i>Deem-me um ponto d'apoio e eu levantarei -a terra!</i>»</p> - -<p>Ha n'isto uma evidente hyperbole de linguagem, -mas esta hyperbole satisfaz a razão, -porque assenta n'um principio mathematico.</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="XLIII">XLIII<br /> -<i>Magdalena</i></h2> -</div> - - -<p>Magdalena, mulher celebre do Evangelho, -era uma cortezã d'uma grande belleza. Tendo -ouvido fallar Jesus, foi commovida de repente, e -o arrependimento entrou no seu coração. Um -dia em que Jesus estava á meza em casa de Simão -Phariseu, a bella peccadora apresentou-se -toda lastimosa na sala da refeição e precipitou-se -aos pés do Salvador, regando-os com as -suas lagrimas, beijando-os, inundando-os de -perfumes e enxugando-os com os seus cabellos.<span class="pagenum"><a id="Page_81">[81]</a></span> -O Phariseu escandalisou-se vendo que Jesus se -deixava tocar por essa mulher, conhecida em -toda a cidade por uma grande peccadora. Foi -n'esta circumstancia que Jesus mostrou toda a -misericordia que trasbordava do seu coração, dizendo -aos que o rodeavam:</p> - -<p>—«<i>Ser-lhe-ha muito perdoado, porque muito -amou!</i>»</p> - -<p>—Esta resposta applica-se hoje, mas quasi -sempre ironicamente, ás mulheres conhecidas -pela facilidade dos seus costumes, sejam ou não -arrependidas, e ha, ao mesmo tempo, o uso de -as designar pelo nome de <i>Magdalenas</i>.</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="XLIV">XLIV<br /> -<i>Casa de Socrates</i></h2> -</div> - - -<p>Socrates estava fazendo construir uma casa. -Como lhe fizessem sentir que era demasiado -pequena, elle acudiu:</p> - -<p>—«<i>Prouvera a Deus que ella se enchesse -de verdadeiros amigos!</i>»</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_82">[82]</a></span></p> - -<p>Esta bella phrase foi aproveitada por La-Fontaine, -de que damos a seguinte versão:</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i0">«Socrates uma casa edificava,<br /></span> -<span class="i0">E cada qual a obra criticava.<br /></span> -<span class="i4">Um achava o interior,<br /></span> -<span class="i4">Para dizer a verdade,<br /></span> -<span class="i4">Indigno do morador;<br /></span> -<span class="i0">Um outro desdenhava a frontaria,<br /></span> -<span class="i0">E toda a gente que essa casa via,<br /></span> -<span class="i0">Achava os aposentos limitados<br /></span> -<span class="i4">E bem pouco lisongeiros<br /></span> -<span class="i4">Mesmo por qualquer dos lados.<br /></span> -<span class="i0">—«Prouvera a Deus que d'amigos provados<br /></span> -<span class="i0">Se enchesse—diz—d'amigos verdadeiros!»<br /></span> -</div><div class="stanza"> -<span class="i4">Socrates razão tivera<br /></span> -<span class="i0">De achar, por tal, espaçosa a casita;<br /></span> -<span class="i0">Amigos muitos ha—quem acredita?<br /></span> -<span class="i4">Amigos de nome apenas,<br /></span> -<span class="i4">Não d'amisade sincera.<br /></span> -</div></div> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_83">[83]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="XLV">XLV<br /> -<i>Desgraça aos vencidos!</i></h2> -</div> - - -<p>Depois da sangrenta batalha d'Allia, cujo -anniversario foi incluido pelos romanos no numero -dos dias nefastos, o terror tinha-se espalhado -em Roma e todos os habitantes haviam -fugido, excepto oitenta velhos que esperavam -corajosamente a morte nas suas cadeiras curues, -e a mocidade que se refugiou no capitolio. Depois -de terem saqueado e queimado Roma, os -gaulezes pozeram cêrco á fortaleza, e tendo dado -um assalto sem resultado, estabeleceram então -um cêrco mais rigoroso. Os defensores da fortaleza, -sitiados havia sete mezes e entregues a todos -os horrores da fome, pedem, afinal, capitulação. -Brenno, chefe dos gaulezes, consente em -levantar o cêrco mediante mil libras de ouro em -peso. O tribuno Sulpicio apresenta a somma no -dia marcado. Em quanto que se pesa o ouro, levanta-se -uma contestação e os romanos censuram -aos vencedores o uso de falsos pesos.</p> - -<p>É então que Brenno, lançando a sua pesada -espada na balança, pronuncia a phrase celebre -que depois se tornou proverbial:</p> - -<p>—«<i>Desgraça aos vencidos!</i>»—«<i>Væ victis!</i>»</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_84">[84]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="XLVI">XLVI<br /> -<i>Manto de Joseph</i></h2> -</div> - - -<p>Os mercadores ismaelitas, aos quaes Joseph -fôra entregue por seus irmãos, levaram-n'o para -o Egypto e venderam-n'o a Putiphar, um dos -principaes officiaes do rei. A mulher de Putiphar, -animada d'uma criminosa paixão, pelo joven israelita, -que era formoso, tentou abalar-lhe a virtude -e, para o obrigar a consentir nos seus desejos, -ella agarrou-o um dia pelo manto e quiz -attrahil-o a si.</p> - -<p>Joseph abandonou-lhe o manto e fugiu. -Cheia de cólera e envergonhada por se vêr assim -desprezada, essa mulher disse ao marido:</p> - -<p>—«O escravo hebreu quiz ultrajar-me, mas -aos meus gritos fugiu, deixando-me o manto entre -as mãos!»</p> - -<p>Putiphar, irritado, fez encarcerar Joseph.</p> - -<p>—Comprehende-se, sem que seja necessario -que o expliquemos, em que ordem de ideias se -faz allusão ao manto de Joseph e á mulher de -Putiphar.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_85">[85]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="XLVII">XLVII<br /> -<i>Mario sobre as ruinas de Carthago</i></h2> -</div> - - -<p>Mario, livre das prisões de Minturnes, fez-se -á vela para a Africa. O navio que o conduzia, -privado d'agua, quiz aportar á Sicilia, mas uma -força armada assaltou a equipagem, matou varios -homens, e o proprio Mario só com difficuldade -escapou. Alguns dias depois desembarcou na -Africa, nos mesmos locaes aonde se elevava -outr'ora a poderosa cidade de Carthago.</p> - -<p>Apenas em terra, Sextilio, pretor da Lybia, -homem dedicado a Sylla, fez-lhe intimar ordem -de deixar aquella provincia, e como o mensageiro -lhe pedisse uma resposta, elle disse-lhe:</p> - -<p>—«<i>Vae dizer a teu senhor, que viste Mario, -errante e fugitivo, sentado sobre as ruinas de -Carthago!</i>»</p> - -<p>A presença d'este grande proscripto sobre -as ruinas ainda fumegantes da antiga e poderosa -rival de Roma, é um dos mais frisantes exemplos -das vicissitudes humanas, e a maneira simples e -energica com que esta approximação é expressa,<span class="pagenum"><a id="Page_86">[86]</a></span> -faz d'elle uma das mais sublimes lições que a -historia tem tido a consignar.</p> - -<p>Toda a gente conhece o verso em que Delille -poz em presença esses dois infortunios:</p> - -<blockquote> - -<p>«<i>E essas ruinas, sim, consolavam-se a si!</i>»</p></blockquote> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="XLVIII">XLVIII<br /> -<i>Subir ao Capitolio</i></h2> -</div> - - -<p>Na antiga Roma, os generaes vencedores -subiam em triumpho ao Capitolio, no meio das -acclamações de todo o povo, e alli offereciam -sacrificios aos deuses; em seguida o povo os -acompanhava a sua casa com archotes e soltando -gritos de alegria.</p> - -<p>Na Edade Média, e durante o grande seculo -litterario da Italia, resuscitaram-se, em favor da -poesia, os antigos triumphos do Capitolio. No dia -de Paschoa, a 8 d'abril de 1341, Petrarcha subiu -ao Capitolio no meio dos principaes cidadãos, -precedidos de doze mancebos, escolhidos nas familias -mais illustres, que declamavam os seus -versos. Recebeu a corôa de louro e recitou um -soneto ácerca do heroe da antiga Roma.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_87">[87]</a></span></p> - -<p>Tasso recebeu tambem as honras da coroação; -a sua entrada em Roma já teve o aspecto de -um triumpho. O povo, os nobres, os prelados, os -cardeaes, os sobrinhos do Papa, foram ao seu encontro -e o conduziram ao Vaticano, no meio das -mais vivas acclamações. O Papa, avistando-o, -disse-lhe com graça particular:</p> - -<p>—«Vinde honrar esta corôa, que honrou todos -quantos a collocaram antes de vós.»</p> - -<p>Os aprestos da cerimonia proseguiam com a -maior rapidez e o Tasso ia, emfim, receber a recompensa -d'uma vida cheia d'amargura e de dôr; -mas por uma ultima irrisão da sorte elle morreu -na vespera do proprio dia em que devia subir ao -Capitolio, e o louro poetico não adornou senão a -fronte do seu cadaver, que fôra amortalhado com -a toga romana.</p> - -<p>Pouca gente desconhece a magnifica descripção -que Madame de Stael fez da coroação de -Corinna. A brilhante escriptora faz reviver no -seu celebre romance a <i>Corinna Thebana</i>, a rival -feliz de Pindaro, varias vezes coroada nos jogos -olympicos.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_88">[88]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="XLIX">XLIX<br /> -<i>Onde não ha el-rei o perde</i></h2> -</div> - - -<p>Representava-se na comedia Franceza, -com immenso successo o <i>Cerco de Calais</i>, tragedia -de Belloy. O principal papel era desempenhado -pela actriz Clairon, tão conhecida pelas -suas aventuras galantes sob o nome de Fretillon. -Um comediante muito obscuro, chamado Dubois, -que desempenhava um papel n'esta peça, era accusado -pelos seus collegas d'um acto de improbidade. -Estes, tendo á frente a Clairon, recusaram-se -a entrar em scena em companhia d'elle, -e o <i>Cerco de Calais</i> foi interrompido na vigesima -representação. Os espectadores agitaram-se e -houve desordem no theatro. Clairon fazia-se especialmente -notar entre os mais obstinados. Ordenou-se -que ella fosse conduzida ao Fort-L'evêque. -Ella, então, disse a quem a intimava, com -emphase theatral, que ia, mas que sua magestade -podia tudo sobre os seus bens e sobre a sua -liberdade, mas nada sobre a sua <i>honra</i>.</p> - -<p>—«<i>Isso é sabido</i>—responderam-lhe—<i>onde -não ha el-rei o perde!</i>»</p> - -<p>É vulgar e de facil comprehensão a applicação -d'esta phrase.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_89">[89]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="L">L<br /> -<i>Onde se vae aninhar a virtude?</i></h2> -</div> - - -<p>Moliére alliava a um grande genio as mais -formosas qualidades do coração, e tinha uma alma -ao nivel do seu espirito. Caracter suave, complacente -e generoso, nunca o abandonava o seu -elevado sentimento caritativo.</p> - -<p>Um dia em que partiu para S. Germano approximou-se-lhe -um mendigo e pediu-lhe esmola. -Moliére lançou-lhe uma moeda e subiu para o -trem. Instantes depois percebeu que o pobre o -seguia correndo. Fez parar. O pobre chegou-se -e disse-lhe:</p> - -<p>—«O senhor enganou-se, de certo, porque -me deu um luiz, que eu venho entregar.»</p> - -<p>—«Não, meu amigo—acudiu—e aqui tens -outro.»</p> - -<p>E como o seu genio estava continuamente -álerta, e elle estudava em toda a parte a natureza, -como homem que queria pintal-a, exclamou:</p> - -<p>—<i>Onde se vae aninhar a virtude?</i></p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_90">[90]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="LI">LI<br /> -<i>Perdoae-lhes, meu Pae, não sabem o que fazem</i></h2> -</div> - - -<p>Jesus Christo, cuja vida, acções e doutrina -tinham sido mansidão e misericordia, só teve sobre -a cruz palavras de doçura para os seus proprios -algozes, sobre a cabeça dos quaes attrahiu -o perdão de seu Pae. «Ora—diz S. Lucas—com -elle levavam dois outros homens, que eram criminosos, -para os pôrem á morte, e quando chegaram -ao Calvario, Jesus foi crucificado entre -dois ladrões, um á direita e outro á esquerda, e -elle dizia fallando dos seus verdugos:—<i>Perdoae-lhes, -meu Pae, não sabem o que fazem!</i></p> - -<p>Esta phrase cahiu do alto da cruz, no meio -das agonias da morte e dos soffrimentos mais -crueis, e resume admiravelmente o espirito evangelico -e a moral sublime do sermão da montanha.</p> - -<p>A applicação d'esta phrase suprema não tem -logar, geralmente, senão no estylo familiar.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_91">[91]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="LII">LII<br /> -<i>Lavar as mãos como Pilatos</i></h2> -</div> - - -<p>Poncio Pilatos, governador da Judeia, sob -Tiberio, seria completamente desconhecido hoje, -se o seu nome se não achasse envolvido no -maior successo da historia. Jesus, perseguido -desde muito pelo odio dos principes dos padres -e dos phariseus, tinha sido apresentado perante -o tribunal de Caiphaz, e condemnado á morte -por se dizer Christo, filho do Deus vivo. Mas -esta sentença não podia ser executada sem as -ordens do governador romano. Os judeus levaram -Jesus a Pilatos. Este convencido da sua innocencia, -perturbado, além d'isto, por um estranho -sonho que sua mulher Claudia Procula tinha -tido durante a noite e que lhe despertára o maior -interesse pelo Christo, procurava illudir a sentença -de morte. Mas a populaça tendo reclamado -o ultimo supplicio com gritos de furor, e ameaçado -o proprio Pilatos com a cólera de Cesar, o -fraco governador abandonou Jesus á raiva dos -algozes. No entretanto, querendo protestar contra -o que elle considerava uma suprema injustiça,<span class="pagenum"><a id="Page_92">[92]</a></span> -elle fez trazer agua, e lavando as mãos deante -do povo, exclamou:</p> - -<p>—«Estou innocente da morte d'este justo; -sois vós que respondereis por ella!»</p> - -<p>—«Sim, sim—gritaram os loucos—que o -seu sangue cáia sobre nossas cabeças e sobre -nossos filhos!»</p> - -<p>E crucificaram-n'o!</p> - -<p>Alguns annos mais tarde, Pilatos, cahindo -em desagrado sob Caligula, foi exilado, e no exilio, -perseguido pelos remorsos, matou-se de desespero, -dizem.</p> - -<p>A sentença iniqua que Pilatos pronunciou -contra Jesus pesará sempre sobre a sua memoria, -e até ao fim dos seculos Pilatos será o typo -dos magistrados pusillanimes, que, obedecendo á -voz do medo e dos seus interesses, teem a cobardia -de pronunciarem condemnações que a consciencia -reprova. Embora lavem as mãos, o sangue -innocente derramado deixará sempre uma -nodoa indelevel, que será para elles uma nodoa -infamante.</p> - -<p>—É, fazendo allusão á acção de Pilatos, que -em linguagem familiar se diz:—«<i>D'ahi lavo as -mãos</i>», como declaração de que se não tem responsabilidade -nas consequencias de successos -para que se concorreu.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_93">[93]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="LIII">LIII<br /> -<i>O que não peccou, atire a primeira pedra</i></h2> -</div> - - -<p>Os scribas e phariseus levaram a Jesus uma -mulher que fôra surprehendida em adulterio, e -disseram-lhe:</p> - -<p>—«Mestre, esta mulher acaba de ser surprehendida -em adulterio. Ora a lei de Moisés ordena-nos -que apedrejemos as adulteras. Qual é -a este respeito a vossa opinião?»</p> - -<p>Fallavam-lhe assim para o tentarem, e a fim -de o poderem accusar. Mas Jesus Christo abaixando-se, -escreveu com o dedo na terra.</p> - -<p>E como continuassem a interrogal-o, elle levantou-se -e disse-lhes:</p> - -<p>—«<i>Aquelle d'entre vós que não peccou lhe -atire a primeira pedra.</i>»</p> - -<p>A esta phrase elles retiraram-se a um e um, -e só ficou Jesus com essa mulher que se conservava -de pé.</p> - -<p>Jesus disse-lhe então:</p> - -<p>—«Ninguem te condemnou, não te condemnarei -tambem. Vae e não peques mais.» (<i>Evang. -S. João</i>).</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_94">[94]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="LIV">LIV<br /> -<i>Tres linhas escriptas e eu farei enforcar quem as escreveu</i></h2> -</div> - - -<p>Nada ha que mais se preste á critica e á -satyra do que as leis. Anacharsis comparava-as -ás teias d'aranha que prendem as pequenas e -deixam passar as grandes moscas. La-Fontaine -rimou a mesma ideia quando disse:</p> - -<blockquote> - -<p>«Assim, conforme o que és, ou grande ou miseravel -«A justiça fará que sejas branco ou negro.»</p></blockquote> - -<p>Não confirma a sabedoria das nações, os -juizos do philosopho e do fabulista, quando concede -ao condemnado vinte e quatro horas para -maldizer a um juiz? Mas a cabula, o processo, o -codigo n'uma palavra não justifica hoje estas -accusações? e os traços que acabamos de citar -são uma calumnia ou maledicencia? O presidente -d'Ormesson parece ter respondido a esta -pergunta quando disse:</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_95">[95]</a></span></p> - -<p>—«Se eu fosse accusado de ter roubado as -torres de Notre Dâme, e ouvisse gritar atraz de -mim—<i>agarra que é ladrão!</i>—eu fugiria desesperadamente.»</p> - -<p>Este terror que inspira a justiça, mesmo ao -mais innocente, está plenamente justificado por -estas palavras:</p> - -<p>—«<i>Deem-me tres linhas da escripta d'alguem -e eu o farei enforcar.</i>»</p> - -<p>Os eruditos estão divididos sobre o auctor -d'esta celebre phrase, que attribuem a Laubardemont, -ao Padre Joseph, a Richelieu, a Jeffries, -e que M. Proudhon, mais prudente, attribue a -um ... criminalista.</p> - -<p>O cardeal Richelieu, que conhecia o poder -do equivoco, citava um dia esta phrase deante -dos seus secretarios. Um d'elles, julgando embaraçal-o, -escreveu n'um cartão—«Um e dois fazem -tres.»—«Blasphemia contra a Santissima -Trindade!—exclamou o cardeal—um e dois só -fazem um.»</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_96">[96]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="LV">LV<br /> -<i>Quem te fez conde? Quem te fez rei?</i></h2> -</div> - - -<p>A fraqueza dos ultimos carlovingianos tinha -permittido á feudalidade lançar profundas -raizes entre os francos, e tornar-se quasi independente, -e quando em 987 Hugo Capeto foi -eleito rei de França em Noyon, pelos seus proprios -vassallos e alguns pequenos feudatarios visinhos, -elle ficou o que tinha sido antes, conde -de Paris, possuidor de vastos dominios, mas não -sendo, no meio dos poderosos barões, mais que -o primeiro entre iguaes. Assim, todo o seu reino -foi perturbado pelas revoltas dos proprios que o -tinham levado ao throno, mas que recusavam reconhecer -a sua supremacia. Poder-se-ha julgar -pela altiva resposta d'um d'elles, com que olhos -consideravam a nova realeza.</p> - -<p>Um conde de Périgneux, Adalberto, emprehendeu -conquistas e usurpára os titulos de conde -de Poitiers e de Tours. O rei de França mandou-lhe -um mensageiro para lhe perguntar:</p> - -<p>—«Quem te fez conde?»</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_97">[97]</a></span></p> - -<p>Ao que Adalberto respondeu:</p> - -<p>—«Quem te fez rei?»</p> - -<p>Estas phrases, frequentemente citadas, resumem -uma epocha inteira.</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="LVI">LVI<br /> -<i>A Cesar o que é de Cesar a Deus o que é de Deus</i></h2> -</div> - - -<p>Alguns dias antes da celebração da Paschoa, -Jesus fez uma entrada triumphal em Jerusalem, -no meio d'um concurso immenso de povo -que gritava:—Hossana ao filho de David! Bemdito -o que vem em nome do Senhor!» Os principes -dos padres e os scribas procuraram então -os meios de o perder e de o prender nas proprias -palavras por perguntas insidiosas. Os herodianos -approximaram-se, pois, d'elle, e lhe perguntaram:</p> - -<p>—«Mestre, sabemos que és verdadeiro nas -tuas palavras e que ensinas o caminho de Deus, -sem distincção de pessoas. Dize-nos então a verdade -sobre isto:—É permittido pagar o tributo -a Cezar?»</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_98">[98]</a></span></p> - -<p>Jesus, penetrando na intenção d'elles, respondeu:</p> - -<p>—«Mostrem-me a moeda de dinheiro que se -dá em tributo.»</p> - -<p>Apresentaram-lhe um dinheiro. Jesus disse-lhes -então:</p> - -<p>—«De quem é esta moeda?»</p> - -<p>—«De Cezar.»</p> - -<p>—«<i>Dêem, então, a Cezar o que é de Cezar -e a Deus o que é de Deus!</i>»</p> - -<p>Vem a proposito citar que Henrique <span class="smcap">IV</span>, que -antes de entrar em Paris fôra obrigado a comprar -muito caro os chefes da Liga, modificou, a -este respeito, da maneira mais original e mais -espirituosa, a lettra do Evangelho.</p> - -<p>Um dia depois do seu jantar, Henrique <span class="smcap">IV</span> -disse ao seu secretario:</p> - -<p>—«Que pensas, vendo-me em Paris como -estou?»</p> - -<p>—«Penso, senhor, que deram a Cezar o que -era de Cezar, como é preciso dar a Deus o que -é de Deus ...»</p> - -<p>—«Ora essa!—replicou o rei—não me fizeram -como a Cezar, porque me não <i>deram</i>, -mas porque me <i>venderam</i> o que era meu.»</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_99">[99]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="LVII">LVII<br /> -<i>Salto de Leucade</i></h2> -</div> - - -<p>Sapho, a mais illustre das poetisas, appellidada -a decima musa, nasceu em Mitylene, na -ilha de Lesbos, pelo anno 600, antes de Christo. -Amiga do poeta Alceu, ella foi arrastada na conspiração -contra Pittaco e acabou os seus dias no -exilio.</p> - -<p>Os antigos representam-na devorada pelas -paixões e entregue ao furor dos sentidos; e elles -não davam o nome de versos ás suas poesias, -mas <i>ardores</i>, <i>chammas</i>, etc.; e acceitando os costumes -muito conhecidos das lesbianas com a indulgencia -cynica d'aquella epocha, elles inflammavam-se -n'um enthusiasmo sem limites pelo lyrismo -desordenado dos seus cantos, pela graça -exquisita, pela harmonia arrebatadora e pelo estylo -de fogo das suas odes.</p> - -<p>Conta a tradição que, apaixonada pelo insensivel -Phaon, joven lesbiano, d'uma grande -belleza, e não podendo vencer os seus desprezos, -ella se precipitou, cheia de desespero, do -alto de Leucade no mar.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_100">[100]</a></span></p> - -<p>A ilha de Leucade era famosa por um promontorio, -formado de rochedos escarpados que -dominavam o mar. Era alli que as amantes desgraçadas -iam procurar remedio a seus males, -precipitando-se do alto do promontorio sobre as -vagas. É isto o que se chamava <i>dar o salto de -Leucade</i>. Os que escapavam á morte depois -d'esse perigoso salto, ficavam curados do seu -amor.</p> - -<p>Mas comprehende-se que pouquissimas resistiam -a esse remedio heroico.</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="LVIII">LVIII<br /> -<i>Se é possivel, está feito; se é impossivel se fará</i></h2> -</div> - - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i0">Impotente, gottoso, e já velho leão<br /></span> -<span class="i0">Queria achasse algum remedio á velhice.<br /></span> -<span class="i0"><i>O impossivel aos reis allegar é illusão</i>.<br /></span> -</div></div> - -<p>Eis uma verdade que Colonne, quartel mestre -geral das finanças, sob Luiz <span class="smcap">XVI</span>, era demasiado -fino e cortezão para ignorar. Leviano, -espirituoso, incapaz d'um plano fortemente con<span class="pagenum"><a id="Page_101">[101]</a></span>cebido -e pacientemente executado, elle devia -deixar as finanças do reino n'um estado ainda -mais deploravel do que as tinha encontrado ao -entrar para o ministerio. As suas operações aventureiras -só deviam augmentar o mal geral e o -numero dos descontentes. N'essa côrte tão prodigiosamente -descuidada na vespera d'uma catastrophe -e em que só Luiz <span class="smcap">XVI</span> tinha o sentimento -dos seus deveres, sem ser dotado da -energia necessaria para bem os cumprir, o luxo -e a prodigalidade eram tão insaciaveis como se -os cofres do estado estivessem pejados. Para -crear elogiadores entre os homens de lettras, o -ministro concedeu pensões a um grande numero -d'elles.</p> - -<p>Maria Antonietta era a primeira a dar o -exemplo do luxo e não punha qualquer freio ao -seu prazer pelo gasto. Um dia que ella precisava -d'uma somma consideravel dirigiu-se a Colonne, -cuja facil condescendencia ella conhecia. Antes -de lhe expor o pedido, ella disse-lhe n'esse tom -de mulher e rainha que não quer recusa:</p> - -<p>—«O que tenho a pedir-lhe é difficil talvez, -Colonne!»</p> - -<p>O espirituoso ministro respondeu, inclinando-se -graciosamente:</p> - -<p>—«<i>Se é possivel, está feito; se é impossivel, -far-se-ha!</i>»</p> - -<p>Não era possivel commentar mais finamente -o verso de La-Fontaine.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_102">[102]</a></span></p> - -<p>Nas guerras da republica, a possibilidade do -<i>impossivel</i> foi expressa d'uma maneira mais nobre -por um general francez, no ardor d'um combate -encarniçado. Um official que elle acabava -de encarregar d'uma operação perigosa, respondeu-lhe -que era impossivel.</p> - -<p>—«Impossivel, senhor?—respondeu o general—Olhe -que essa palavra não é franceza!»</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="LIX">LIX<br /> -<i>Terra promettida</i></h2> -</div> - - -<p>Depois da morte de Joseph, os descendentes -de Jacob não tardaram a ser perseguidos pelos -egypcios, que os empregavam nos trabalhos -mais rudes. Mas Deus que tinha sempre os olhos -fixos sobre o seu povo, suscitou Moisés, ao qual -ordenou que conduzisse os hebreus <i>á terra de -Chanaan</i>, berço de seus paes.—«Era—diz a -Escriptura—uma terra de promissão, produzindo -uvas que dois homens mal podiam carregar, -e onde corriam regatos de leite e de mel.» -Mas os israelitas, constantemente rebeldes, foram -condemnados a errar quarenta annos no deserto, -á vista d'essa terra de delicias, sem n'ella pode<span class="pagenum"><a id="Page_103">[103]</a></span>rem -entrar. Afinal lá chegaram, conduzidos por -Josué.</p> - -<p>—A <i>terra promettida</i> é uma expressão que -passou em todas as linguas a designar um estado, -uma ventura a que se aspirava ha muito tempo. -Victor Hugo disse, a proposito, nas <i>Folhas do -Outomno</i>:</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i0">. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .<br /></span> -<span class="i0">«Um homem, dentro em si, construe e phantasia<br /></span> -<span class="i0">Um mundo encantador, mundo d'arte e poesia,<br /></span> -<span class="i0">—A nossa Chanaan, que nós vemos de cima ...»<br /></span> -</div></div> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="LX">LX<br /> -<i>Thebaida</i></h2> -</div> - - -<p>A Thebaida, uma das tres grandes divisões -do antigo Egypto, e que tinha Thebas por capital, -era famosa pelos desertos que a éste e oéste -cercavam a sua parte habitada. Foi n'uma destas -solidões que nos primeiros seculos do christianismo -se refugiaram muitissimos christãos, já -para fugirem á perseguição, já para se esquivarem -ás seducções do mundo, entregando-se ao<span class="pagenum"><a id="Page_104">[104]</a></span> -jejum, á oração e a todas as austeridades da vida -ascetica.</p> - -<p>O mais illustre d'entre elles, Santo Antonio, -dera o exemplo, distribuindo a sua fortuna aos pobres, -para viver do trabalho das suas mãos. A -sua reputação de santidade espalhou-se ao longe, -e a breve trecho, milhares de discipulos se gruparam -em volta d'elle. Durante algum tempo, foi, -d'algum modo repovoado de monges e anachoretas. -Mas afinal a despovoação geral do Egypto -produziu a extincção de quasi todos os mosteiros, -que se haviam creado.</p> - -<p>Hoje, só as cellas vasias, marcadas com o -symbolo dos christãos, indicam a assistencia d'esses -religiosos nos templos pagãos arruinados, -bem como as grutas dos sepulchros da Thebaida.</p> - -<p>—Na linguagem ordinaria, <i>Thebaida</i>, diz-se -d'um deserto, d'uma solidão profunda, em que se -vive retirado do mundo; mas esta palavra está -longe de ser tomada sempre n'este sentido. Faz-se -muitas vezes uso d'ella, em poesia, especialmente -para designar um retiro favorito, que propositadamente -se escolhe, longe do bulicio, para o -goso das doçuras da amisade, ou dos encantos -do amor.</p> - -<p>Lembra-nos até que Theophilo Gautier disse -já n'uma das suas esplendidas poesias:</p> - -<blockquote> - -<p>«Um bom <i>cottage</i> inglez, eis a <i>Thebaida</i> sua!»</p></blockquote> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_105">[105]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="LXI">LXI<br /> -<i>Desça o panno, acabou a comedia!</i></h2> -</div> - - -<p>Rabelais, o mais philosopho dos bufões, e -o mais bufão dos philosophos, nasceu perto -de Chinon, em Touraine, por 1483. Os seus biographos -são pobres em factos authenticos, mas -em compensação abundam em anecdotas romanescas, -de onde resalta esse typo de cara alegre -e tolerante, amigo de Baccho e da dança, o que -só se ama por excepção. O genero muito particular -do seu genio foi perfeitamente pintado por -La Bruyére:—«Onde Rabelais é mau passa -muito além de peior; é o encanto da canalha; -aonde é bom, elle vae até ao extremo de excellente, -e póde ser um prato dos mais delicados.» -De resto, este sentimento do moralista parece ter -sido dictado pelo proprio Rabelais que recommendava -aos seus leitores «que abrissem a caixa -para tirarem a droga, e quebrassem os ossos para -chucharem a medula.» Mas o que domina na sua -vida e nos seus escriptos é um septicismo zombador -que ataca todas as crenças, todas as instituições, -todos os sentimentos, e que estala, sobretudo, -nos ultimos momentos da sua vida.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_106">[106]</a></span></p> - -<p>Entre as numerosas versões que foram reproduzidas -ácerca da sua morte, encontra-se esta. -O cardeal de Châtillon, seu amigo, tendo enviado -um pagem a informar-se da sua saude, elle -respondeu-lhe:</p> - -<p>—«Dize a Monsenhor em que bello humor -me encontras. Eu vou buscar um grande <i>talvez</i>. -Está no ninho da pega. Dize-lhe que se deixe estar. -E tu não passas d'um tolo.»—Depois exhalou -o ultimo suspiro n'uma grande gargalhada -acompanhada d'estas palavras:</p> - -<p>—«<i>Desça o panno; acabou a comedia!</i>»</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="LXII">LXII<br /> -<i>Tudo é perdido, menos a honra!</i></h2> -</div> - - -<p>Francisco <span class="smcap">I</span> a quem duas derrotas experimentadas -pelos seus generaes Lautrec e Bonnivet -tinham feito perder o milanez, quiz reconquistar -este ducado, e transpoz os Alpes á frente -d'um novo exercito. A breve trecho pôde entrar -em Milão. Mas em vez de perseguir o inimigo -a todo o transe, obstinou-se no cêrco de -Pavia, e, como este cêrco fosse delongado, teve -a imprudencia de se enfraquecer, destacando<span class="pagenum"><a id="Page_107">[107]</a></span> -12:000 homens que deviam marchar sobre Napoles. -No entretanto, os imperiaes reforçavam-se -e levavam soccorro a Pavia. Feriu-se a batalha e -foi encarniçada. O rei foi ferido na fronte, e a -sua armadura, que a França possue ainda, foi -toda crivada. Mas o numero venceu a coragem, -a batalha foi perdida e Francisco <span class="smcap">I</span> feito prisioneiro. -Entregou a sua espada ao vice-rei de -Napoles, Lannoy, que a recebeu de joelhos.</p> - -<p>«Foi do campo imperial, perto de Pavia, que -Francisco <span class="smcap">I</span> escreveu a sua mãe uma carta que -se tornou celebre, graças á tradicção, que muito -a alterou dando-lhe a fórma d'um laconismo sublime:</p> - -<p>—«<i>Senhora, tudo é perdido, menos a honra!</i>»</p> - -<p>Recentes investigações, porém, fizeram descobrir -o texto verdadeiro d'essa carta que começa -do seguinte modo:—«Senhora, para vos -fazer saber como se cumpre o resto do meu infortunio, -<i>de todas as coisas, só me ficou a honra -e a vida, que está salva</i>.»</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_108">[108]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="LXIII">LXIII<br /> -<i>Trombetas de Jericó</i></h2> -</div> - - -<p>Jericó foi a primeira cidade que os hebreus -encontraram na sua entrada na terra promettida. -Era fechada por altas muralhas. Por ordem de -Deus, Josué mandou fazer ao seu exercito a volta -da cidade durante sete dias. A arca d'alliança -fôra levada com grande pompa e precedida de -sete padres, que tocavam trombeta. O povo acompanhava -em silencio. Ao setimo dia, deu-se sete -vezes a volta á cidade, e o povo, por ordem de -Josué, tendo soltado um grito muito grande, viu -no mesmo instante desmoronarem-se as muralhas. -A cidade foi reduzida a cinzas e todos os -habitantes passados a fios d'espada.</p> - -<p>—Em litteratura faz-se muitas vezes allusão -ás <i>trombetas de Jericó</i>, que se oppõem á lyra -d'Amphion. Este contraste não escapou ao rei -philosopho que escreveu ao seu amigo Voltaire:—«Interessado -em servir o genero humano, consagraes -a vossa vida inteira ao bem publico. A -Providencia tinha-vos reservado para ensinardes -aos homens a preferirem a lyra d'Amphion, que -elevava os muros de Thebas a esses instrumentos -bellicos que faziam arrazar os de Jericó.»</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_109">[109]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="LXIV">LXIV<br /> -<i>A tunica de Christo</i></h2> -</div> - - -<p>«Os soldados, depois de haverem crucificado -Jesus, tomaram-lhe os vestidos e dividiram-os -em quatro partes: uma para cada soldado. -Tomaram tambem a tunica; mas a tunica -não tinha costura, era uma só peça inteira de -cima a baixo.</p> - -<p>«E elles disseram uns aos outros:—«Não a -talhemos; tiremos á sorte para vermos a quem -pertencerá. Afim de que esta palavra fosse cumprida, -elles dividiram entre si os meus vestidos e -jogaram á sorte a minha tunica.»—Eis o que fizeram -os soldados.—(<i>S. João</i>, <i>cap.</i> <span class="smcap">XXIX</span>).</p> - -<p>—Esta divisão da tunica de Jesus Christo, -no momento da sua morte, tem duas especies -d'applicação:—ora se allude a ella para designar -a partilha dos despojos d'um innocente, -ora recorda que a tunica era d'uma só peça -inteira, para indicar que uma coisa não póde -soffrer divisão.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_110">[110]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="LXV">LXV<br /> -<i>Um imperador deve morrer em pé</i></h2> -</div> - - -<p>Vespasiano, imperador romano, ia além de -sessenta e nove annos, quando foi atacado da -doença que o levou ao tumulo, não por agudos -soffrimentos, mas por um enfraquecimento progressivo. -Conservando até ao fim a sua serenidade -d'alma, elle transformava em gracejo a -apotheose que lhe ia ser conferida.—«<i>Percebo -que começo a tornar-me deus</i>», dizia elle alegremente -á medida que a sua situação se tornava -desesperada. Apesar da sua extrema fraqueza -não interrompeu um instante as suas -occupações habituaes; dava tempo aos negocios -e audiencia no leito. Afinal, sentindo-se desfallecer, -fez um derradeiro e supremo esforço para -se levantar, dizendo:</p> - -<p>—«<i>É preciso que um imperador morra -de pé!</i>»</p> - -<p>E tendo-se feito vestir, expirou entre os braços -dos seus officiaes.</p> - -<p>—Luiz <span class="smcap">XVIII</span>, nos ultimos dias da sua vida -teve uma phrase que recorda a de Vespasiano.<span class="pagenum"><a id="Page_111">[111]</a></span> -Apesar do depauperamento das suas forças, continuava -a mostrar-se em publico e nos conselhos. -A 25 d'Agosto de 1824, dia de S. Luiz, respondeu -ao conde d'Artois, seu irmão, que o aconselhava -a não receber:</p> - -<p>—Um rei de França morre, mas não deve -estar doente!»</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="LXVI">LXVI<br /> -<i>Vendilhões expulsos do templo</i></h2> -</div> - - -<p>«E estando proxima a paschoa dos judeus, -Jesus fez a sua entrada em Jerusalem.</p> - -<p>«E elle achou no templo mercadores que -vendiam bois, ovelhas e pombas e os trocadores -alli estavam sentados.</p> - -<p>«E tendo feito umas disciplinas com cordas, -elle os expulsou a todos fóra do templo, assim -como as ovelhas e os bois e espalhou o dinheiro -dos vendilhões sobre as mezas.</p> - -<p>«E elle disse aos vendilhões:—«Está escripto. -A minha casa é uma casa de oração e vós -fazeis d'ella uma caverna de ladrões.» (<i>S. João</i>, -<i>cap.</i> <span class="smcap">II</span>).</p> - -<p>—Esta expressão—<i>expulsar os vendilhões -do templo</i>—emprega-se para stigmatisar os pro<span class="pagenum"><a id="Page_112">[112]</a></span>fanadores, -em qualquer ordem que seja, os que -mercadejam com coisas respeitaveis e que só deviam -ser apanagio exclusivo da arte, das lettras, -das sciencias, e, em geral, da intelligencia e do -talento.</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="LXVII">LXVII<br /> -<i>Gritar no deserto</i></h2> -</div> - - -<p>S. João Baptista, filho de Zacharias e de -Santa Elisabeth, prima da Virgem Santissima, retirou-se -muito cedo para o deserto, levando uma -vida cheia d'austeridades. Vestia uma pelle de -camello atada á cinta por uma tira de couro, e o -seu alimento constava de gafanhotos e mel bravo. -Quando chegou á edade de trinta annos e foi -preparado com rudes exercicios para o ministerio -que lhe estava destinado, dirigiu-se ás margens -do Jordão, prégando a penitencia, annunciando -a realisação das prophecias e a vinda do -Messias, que o tinha enviado para preparar os -seus caminhos. «—Façam penitencia—exclamava -elle—pois o reino dos céus está proximo». -Os habitantes dos arredores corriam em -multidão para o ouvirem. O synhedrio, tocado -pelo seu genero de vida extraordinario e da sua<span class="pagenum"><a id="Page_113">[113]</a></span> -eloquencia selvagem, enviou-lhe padres e levitas -para saberem se era o Messias, ou Elias, ou simplesmente -um propheta. Elle respondeu que não -era propheta, nem Elias, nem Messias.—«Quem -és então?, porque precisamos levar resposta aos -que nos mandaram?»—«Sou a voz d'aquelle que -grita no deserto:—tornae recto o caminho do -Senhor!» E elle ajuntava:—«Aquelle que deve -vir depois de mim é mais poderoso do que eu, e -eu não sou digno de desatar os cordões do seu -calçado. Moisés deu-vos a lei, mas o Christo vos -dará a graça e a verdade.»</p> - -<p>—Hoje estas palavras—<i>gritar no deserto</i>—teem -um sentido desviado do primitivo. Significam -na applicação—pregar, aconselhar, fallar -em vão.</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="LXVIII">LXVIII<br /> -<i>Zoilo</i></h2> -</div> - - -<p>Celebre grammatico e critico grego do -quarto seculo antes de Christo, e cujo nome era -já proverbial no tempo d'Ovidio. Nada se sabe -ao certo, quanto ao logar do seu nascimento, circumstancias -da sua vida e genero de sua morte. -Tambem nos não chegou nenhuma das suas<span class="pagenum"><a id="Page_114">[114]</a></span> -obras. Sabe-se sómente, pelo testemunho quasi -unanime dos antigos que elle se encarniçou contra -as obras d'Homero.</p> - -<p>Vitruvio pretende que Ptolomeu Philadelpho, -indignado com as suas blasphemias litterarias, -lhe infligiu o supplicio da cruz, ou o fez -queimar vivo.</p> - -<p>—O nome de <i>Zoilo</i> designa o typo do critico -apaixonado e de má fé.</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i0">«No futuro, será <i>Zoilo</i>, com toda a furia,<br /></span> -<span class="i0">Aos <i>censores</i> crueis uma cruel injuria.»<br /></span> -</div></div> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="LXIX">LXIX<br /> -<i>Aspasia</i></h2> -</div> - - -<p>Mulher grega, natural de Mileto, celebre -pelo seu espirito e pela sua belleza. Foi muito -cedo para Athenas, aonde não tardou a exercer -sobre os homens mais illustres d'essa epocha, -Pericles, Alcibiades, o proprio Socrates, o ascendente -irresistivel da eloquencia, da graça e da -belleza. Pericles, arrastado pelos seus encantos, -repudiou sua primeira mulher para a desposar.<span class="pagenum"><a id="Page_115">[115]</a></span> -Ella exerceu sobre elle tal ascendente, que teve -a maior parte nos negocios da Grecia, tornando-se -um verdadeiro poder na republica. Dizia-se -que as harengas de Pericles eram mais d'uma -vez inspiradas por Aspasia. Accusada d'impiedade -ella defendeu a sua propria causa com uma -eloquencia que apesar de grande, não a teria -salvo, se seu esposo não enternecesse os juizes -com lagrimas. Essa mulher illustre deve ser classificada, -não como demasiadas vezes o é, na -classe das cortezãs, mas na das <i>hetairas</i>, mulheres -gregas, dedicadas ás artes, á poesia, á propria -sciencia, e que eram procuradas para os -prazeres do espirito, e de que Aspasia foi um -dos typos mais graciosos e mais perfeitos.</p> - -<p>Foi por justo titulo que o nome passou a significar -entre os gregos a mais amavel das mulheres, -como Alexandre o maior dos heroes,—e é -n'este sentido que chamamos ainda hoje <i>Aspasia</i> -á mulher que reune os dons do espirito aos encantos -da belleza.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_116">[116]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="LXX">LXX<br /> -<i>Babylonia</i></h2> -</div> - - -<p>Assente sobre o Euphrates e embellezada -por Semiramis, a Babylonia parecia ter sido a -cidade mais esplendorosa da antiguidade. As -suas muralhas de cincoenta pés de largura e -d'uma altura prodigiosa, as suas cem portas de -bronze, os templos, os palacios, as estatuas -d'ouro, e, sobretudo, os seus jardins suspensos, -tornavam-na a rainha das cidades antigas.</p> - -<p>Rival de Jerusalem foi muitas vezes em -guerra com o povo judeu que alli passou setenta -annos de captiveiro, durante os quaes um grande -numero <i>não suspenderam as suas harpas nos -salgueiros da margem</i>, e abandonaram a religião -de seus paes. As Escripturas fallam de Babylonia -como de um foco de corrupção e idolatria; -fizeram-na a personificação do mundo profano, -o receptaculo de todos os vicios e de todas -as impurezas. Exasperados pela politica barbara -dos babylonios os israelitas votaram-lhes um -odio profundo, e a dissolução dos costumes, de -que foram testemunhas no captiveiro, augmentou -áquelle sentimento o do horror e do desgosto.<span class="pagenum"><a id="Page_117">[117]</a></span> -D'aqui o nome de <i>grande prostituta</i>, que elles -deram a essa cidade.</p> - -<p>—Hoje, que já não existe a Babylonia, que -os viajantes e archeologos nem mesmo podem -encontrar-lhe o local, só o nome sobreviveu, e -applica-se aos grandes centros populosos, como -Londres, e, sobretudo, como Pariz, onde a agglomeração -das massas, as riquezas, os progressos -da industria e da civilisação engendram fatalmente -a corrupção de costumes.</p> - -<p>—Os protestantes, que pretendem ser os -unicos observadores da lettra e do espirito evangelico, -chamam á vida eterna—a <i>grande Babylonia</i>.</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="LXXI">LXXI<br /> -<i>Incendiar os seus navios</i></h2> -</div> - - -<p>Esta locução allude ao procedimento de alguns -grandes capitães, que a historia nos representa -incendiando os seus navios, que os haviam -conduzido á abordagem nos barcos inimigos, -afim de que os marinheiros e soldados, privados -de toda a especie de fuga se vissem na contingencia -de vencerem ou morrerem. Agathocles,<span class="pagenum"><a id="Page_118">[118]</a></span> -tyranno de Syracusa foi o primeiro que na Costa -d'Africa deu o exemplo d'esta resolução arrojada.</p> - -<p>O imperador Juliano poz fogo aos seus depositos -e aos seus mil e cem navios, no Tigre, -quando fez a sua expedição contra Sapor, um rei -da Persia. Guilherme, o Conquistador, abordando -a Inglaterra em 1066, recorreu ao mesmo expediente, -que foi seguido da victoria d'Hastings. -Roberto Guiscard, no perigo eminente em que se -achava com a sua pequena armada deante das -forças consideraveis de Alexis Commene, incendiou -a sua frota e as suas bagagens e ganhou a -victoria de Durazzo a 13 d'outubro de 1084. Foi -d'este modo, emfim, que Fernando Cortez, desembarcando -na costa do Mexico preludiou a conquista -d'esta região.</p> - -<p>—Esta locução—<i>incendiar os seus navios</i>—passou -a proverbio e quer dizer:—interdizer, -subtrahir por uma iniciativa arrojada os meios -de volver a uma resolução, de renunciar a uma -empreza; pôr-se na impossibilidade de retroceder.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_119">[119]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="LXXII">LXXII<br /> -<i>Os ultimos romanos</i></h2> -</div> - - -<p>Chama-se geralmente assim aos romanos -que, a exemplo de Catão, conservaram, n'uma sociedade -em decadencia, os costumes e a virtude -dos antigos tempos. Mas deu-se mais particularmente -este nome a Bruto e a Cassio, que foram -a alma da conspiração que victimou Cezar, e que -depois de terem combatido nas planicies de Philippes -contra os inimigos da liberdade romana, -se deram a morte para não sobreviverem á sua -perda.</p> - -<p>Philopeme, que luctou constantemente pela -liberdade hellenica e depois da morte do qual, a -Grecia se viu reduzida a provincia romana, é -tambem chamado—<i>o ultimo dos gregos</i>.</p> - -<p>—Estas palavras empregam-se, ora séria, ora -ironicamente, para designarem todos quantos conservam -a tradicção d'um passado, que são quasi -os unicos a representar.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_120">[120]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="LXXIII">LXXIII<br /> -<i>Faça cabelleiras, mestre André</i></h2> -</div> - - -<p>Em 1760 um cabelleireiro francez chamado -André, arrojou-se a escrever uma tragedia em 5 -actos, em verso, intitulada—<i>O terramoto de -Lisboa</i>—e mandou a peça a Voltaire, que elle -chamava <i>caro confrade</i> na seguinte obra prima -epistolar:</p> - -<p class="p2 center"> -AO ILLUSTRE E CELEBRE POETA<br /> -M.<sup>r</sup> DE VOLTAIRE</p> -<p class="right">«<i>Meu caro confrade.</i><br /> -</p> - -<p>«É um estudante, noviço na arte da poesia, -que se aventura a dedicar-lhe a sua primeira -obra, tendo-o sempre reconhecido por um dos -nossos celebres, pelas pomposas obras que tem -dado e dá á luz todos os dias. Eu julgar-me-hei -feliz se quizer lançar um rapido olhar a essa -pequena obra, favorecendo-a com a menor das -suas recordações. Faltaria a um grande dever se -não confessasse que o reconheço por meu mes<span class="pagenum"><a id="Page_121">[121]</a></span>tre. -Se pela sua bondade se dignar favorecer-me -eu prometto-me que, livre de todo o receio, publicarei -constantemente os seus louvores e testemunharei -em toda a parte, quanto lhe sou devedor -por a haver acceitado.</p> - -<p>«Sou, M.<sup>r</sup> e caro confrade, humillissimo e -affeiçoado servo</p> - -<p class="right"> -<i>André.</i>»</p> - - -<p class="p2">O grande poeta divertiu-se muito com esta -singular e comica confraternidade. E respondeu -ao <i>seu caro confrade</i> com uma missiva de quatro -paginas, encerrando apenas estas palavras, -cem vezes repetidas:—«Faça cabelleiras, mestre -André; faça cabelleiras, mestre André.»</p> - -<p>Esta espirituosa resposta fez dizer a mestre -André que Voltaire envelhecia, porque começava -a repetir-se.</p> - -<p>A obra prima de mestre André fez muito -ruido, porque em 1805, mais de quarenta annos -depois, um director alegre fez representar a peça -<i>O terramoto de Lisboa</i>, n'um pequeno theatro -de <i>boulevard</i> e ella obteve um immenso successo -comico, em oitenta representações successivas!</p> - -<p>—A phrase—<i>faça cabelleiras</i>, tornou-se -uma das locuções mais pittorescas da lingua -franceza, com emprego em todas as outras. É -uma traducção espirituosa e comica do <i>ne sutor -ultra crepidam</i>, dos latinos.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_122">[122]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="LXXIV">LXXIV<br /> -<i>Fé do carvoeiro</i></h2> -</div> - - -<p>Dá-se por origem a esta locução o seguinte -conto. O diabo, disfarçado em eremita, e, segundo -outros, em doutor de Sorbonne, entrou -um dia na cabana de um carvoeiro e disse-lhe -para o tentar:</p> - -<p>—«Tu que crês?»</p> - -<p>—«Eu creio o que crê a Santa Egreja».</p> - -<p>—«E que crê a Santa Egreja?»</p> - -<p>—«Crê o que eu creio.»</p> - -<p>E o nosso homem manteve-se n'estas respostas -sem d'ellas sahir, e o espirito maligno foi -obrigado a renunciar ao seu projecto, vendo a -inutilidade de todos os seus estratagemas.</p> - -<p>Accrescenta um auctor que esse diabo era, -por sem duvida, muito novo, e egualmente dos -menos atilados, porque de outro modo elle teria -embaraçado muito o carvoeiro fazendo-lhe a seguinte -pergunta:</p> - -<p>—«E que crêem, tu e a Santa Egreja?»</p> - -<p>—A phrase—<i>fé do carvoeiro</i>, designa uma -fé simples e ingenua, que crê sem exame.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_123">[123]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="LXXV">LXXV<br /> -<i>Ha juizes em Berlim</i></h2> -</div> - - -<p>O grande Frederico, rei da Prussia, desejava -ampliar o seu parque de Sans-Souci, mas</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> - <span class="i0">«Na encosta que escolhera o principe por si,<br /></span> - <span class="i0">Tinha o moinho um tal moleiro Sans-Souci;<br /></span> - <span class="i0">Vendedor de farinha, havia por costume<br /></span> - <span class="i0">Ganhar, a dia a dia, o pão sem azedume.<br /></span> - <span class="i0">E seja, emfim, qual fôr o lado d'onde vente<br /></span> - <span class="i0">A vela gira sempre, e elle dorme contente.<br /></span> - <span class="i0">. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .<br /></span> - <span class="i0">Um projecto traçou um habil engenheiro,<br /></span> - <span class="i0">Que abrangia o moinho e o seu recinto inteiro.<br /></span> - <span class="i0">Mas ás vistas forçoso era renunciar,<br /></span> - <span class="i0">Ou cortar á extensão e o parque mascarar.<br /></span> - <span class="i0">Das construcções reaes, o intendente geral<br /></span> - <span class="i0">Fez chamar o moleiro e disse-lhe afinal:<br /></span> - <span class="i0">—«Quer-se o moinho teu; vê lá que valor tem.»—<br /></span> - <span class="i0">—«Não tem valor nenhum, que o não vendo a ninguem!<br /></span> - <span class="i0">«Quer-se o moinho, é boa! elle é meu e direi<br /></span> - <span class="i0">«Que, ao menos, tanto como a Prussia é só do rei»—<br /></span> - <span class="i0">—«Vamos, dize afinal—responde e tem cuidado!»—<br /></span> - <span class="i0">—«N'uma palavra?—<br /></span> - <span class="i16">—«Sim.—<br /></span> - <span class="i24">—«É meu, está declarado,<br /></span> - <span class="i0">«Já disse, nada mais!»—<br /></span> -<span class="pagenum"><a id="Page_124">[124]</a></span> - <span class="i24">A recusa atrevida<br /></span> - <span class="i0">Ao principe se conta e é coisa decidida.<br /></span> - <span class="i0">Manda vir á presença o insolito moleiro,<br /></span> - <span class="i0">Promette inutilmente, aperta, é lisongeiro,<br /></span> - <span class="i0">Mas teima Sans-Souci—«Ouvi, Sire, a razão<br /></span> - <span class="i0">Porque vender não posso o moinho em questão.<br /></span> - <span class="i0">Meu avô lá morreu; lá tive um filho ha um mez,<br /></span> - <span class="i0">É o meu Postdam, Senhor. Sou teimoso, talvez;<br /></span> - <span class="i0">Nunca o fostes jámais? Nem mil ducados, não,<br /></span> - <span class="i0">No fim d'esse discurso a mim me tentarão!<br /></span> - <span class="i0">Passae sem elle, Sire, e ninguem mais insista!»<br /></span> -</div><div class="stanza"> - <span class="i0">Soffrem difficilmente os reis quem lhes resista,<br /></span> - <span class="i0">E Frederico acode, o humor arrebatado:<br /></span> - <span class="i0">—«Irra! que estás ao teu moinho bem pegado!<br /></span> - <span class="i0">Ora atéqui tratei d'obtel-o e de pagal-o,<br /></span> - <span class="i0">Mas sabes que, sem paga, eu posso exproprial-o!<br /></span> - <span class="i0">O dono eu sou!»—<br /></span> - <span class="i16">—«Levar sem paga o moinho, a mim?<br /></span> - <span class="i0">Talvez, <i>se não houvesse os juizes em Berlim!</i>»—<br /></span> -</div><div class="stanza"> - <span class="i0">Do capricho o monarcha, ouvindo-o, em si cahia,<br /></span> - <span class="i0">Contente, porque o reino inda em justiça cria;<br /></span> - <span class="i0">E volvendo-se a rir para o seu architecto:<br /></span> - <span class="i0">—«Eu acho que é melhor mudarmos de projecto.<br /></span> - <span class="i0">Visinho guarda a casa, has respondido bem.»—<br /></span> - <span class="i0">. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .<br /></span> -</div></div> - -<p>—Estas palavras—<i>ha juizes em Berlim</i>—que -o poeta francez Andrieux não fez senão citar -na encantadora narrativa que vimos de tra<span class="pagenum"><a id="Page_125">[125]</a></span>duzir -incompletamente, porque são historicas, -formaram uma locução proverbial que se emprega -em todas as circumstancias analogas, isto -é, quando a força pretende vencer o direito.</p> - -<p>Cabe aqui, a proposito do moinho de Sans-Souci -um pequeno caso que não deixa de ser interessante.</p> - -<p>O famoso moinho é ainda hoje propriedade -do bisneto do obstinado moleiro. Mas n'essa familia -os homens seguem-se e não se parecem.</p> - -<p>Assim, o descendente de Sans-Souci, necessitado -de dinheiro fez saber ao descendente de -Frederico <span class="smcap">II</span>, que estava disposto a ceder-lhe o -moinho. O principe respondeu-lhe com esta espirituosa -carta:</p> - -<p class="p2 right"> -«Meu caro <i>visinho</i>.<br /> -</p> - -<p>«O moinho não lhe pertence, nem a mim, -pertence á historia; é-nos pois, impossivel, a si, -vendel-o, a mim, compral-o. Mas como entre visinhos -e visinhos bons deve haver auxilio, mando-lhe -um cheque de 10:000 florins, que póde -receber do thesouro.»</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_126">[126]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="LXXVI">LXXVI<br /> -<i>Judas—Beijo de Judas</i></h2> -</div> - - -<p>Dois dias antes da Paschoa, Jesus disse aos -seus discipulos:—«Chegou o dia em que o Filho -do Homem vae ser entregue para ser crucificado.» -E ao mesmo tempo os principes dos padres -e os mais velhos do povo, reunidos em casa -de Caiphaz, concertavam-se sobre os meios de -se apoderarem de Jesus e o fazerem morrer. Mas -receiavam excitar qualquer agitação popular.</p> - -<p>Foi então que Judas, um dos apostolos, se -chegou e combinou entregar o seu mestre, mediante -trinta dinheiros. De tarde Jesus poz-se á -meza com os seus discipulos e annunciou-lhes -que um d'elles o trahiria.—«Serei eu, Senhor?»—lhe -perguntou Judas, e depois da resposta do -Salvador, deixou a meza e foi-se, excitado pelo -mau espirito. Em seguida Jesus sahiu da cidade, -seguido dos seus discipulos, e dirigiu-se ao monte -das Oliveiras, a um logar chamado Gethsemani. -Logo appareceu Judas acompanhado d'um grupo -de soldados aos quaes tinha dito: «Prendam -aquelle que eu beijar, é elle que procuram.» E<span class="pagenum"><a id="Page_127">[127]</a></span> -approximando-se de Jesus, beijou-o e disse-lhe:—«Mestre, -eu te saudo.» Jesus censurou-lhe o -seu crime com doçura:—«Judas, entregas o Filho -do Homem com um beijo!» E avançou para -os soldados que se lançaram a elle e o ligaram.</p> - -<p>—O nome de <i>Judas</i> ficou como a personificação -do traidor, do homem profundamente hypocrita, -e o <i>beijo de Judas</i>, como para designar -o acto pelo qual se pratica a traição. Assim chamar -Judas a alguem é dirigir-lhe a mais pungente -das injurias. E comprehende-se que uma -tal comparação seja repellida com indignação.</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="LXXVII">LXXVII<br /> -<i>Pragas do Egypto</i></h2> -</div> - - -<p>Moisés acompanhado de seu irmão Aarão, -apresentou-se perante Pharaó, que recusou reconhecer -as ordens de Deus. Então Moisés e -Aarão feriram successivamente o paiz com dez -flagellos, chamados—<i>pragas do Egypto</i>.</p> - - -<p><span style="margin-left: 1em;">1.º—Agoas transformadas em sangue;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">2.º—O Egypto todo coberto de rãs;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">3.º—Os insectos devoradores;</span><br /> -<span class="pagenum"><a id="Page_128">[128]</a></span> -<span style="margin-left: 1em;">4.º—Grandes moscas insupportaveis;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">5.º—Peste;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">6.º—Chagas nos homens e nos animaes;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">7.º—Tempestades de saraiva e trovoadas;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">8.º—Nuvens de gafanhotos;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">9.º—Trevas espessas;</span><br /> -<span style="margin-left: 0.5em;">10.º—Morte de todos os recemnascidos.</span><br /> -</p> - -<p>O coração endurecido do rei só cedeu a esta -ultima praga, a mais espantosa de todas, e os -Hebreus partiram para Ramassés em numero de -seiscentos mil homens, sem contar-se as creanças.</p> - -<p>—Quando se falla <i>das pragas do Egypto</i> -na linguagem figurada é quasi sempre á dos gafanhotos -que se faz allusão.</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="LXXVIII">LXXVIII<br /> -<i>Não toqueis na rainha</i></h2> -</div> - - -<p>Os reis d'Hespanha usavam uma regra -d'etiqueta exaggerada até á estupidez. Todo o -individuo que tocasse o pé da rainha, fosse qual -fosse a causa, era condemnado á morte e executado -immediatamente.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_129">[129]</a></span></p> - -<p>A joven rainha, esposa de Carlos <span class="smcap">II</span>, montou -um dia a cavallo para um passeio com as suas -damas e os seus cortezãos. A breve trecho o -cavallo espanta-se e expelle-a, mas por fórma -que o pé da princeza ficou preso ao estribo e o -furioso animal se poz a arrastal-a. Uma immensa -multidão assistia a este triste espectaculo, mas -ninguem ousava soccorrel-a por causa da etiqueta. -Ia, de certo, ser victima d'esse terrivel -accidente, quando dois jovens officiaes francezes, -que alli se achavam por acaso, resolveram salval-a. -Lançam-se impavidamente, e em quanto -que um suspende o cavallo pelo freio, o outro -consegue desligar o pé da rainha, que, afinal, -apenas soffreu o susto e algumas contusões.</p> - -<p>Elles fugiram logo, e era tempo, porque -iam ser presos, e Deus sabe o que faria a etiqueta! -No dia seguinte a rainha, muito molestada -foi obrigada a deixar os seus aposentos, -para fallar ao rei, de quem conseguiu a graça -dos seus salvadores, mas com a condição de -que deixariam a Hespanha immediatamente.</p> - -<p>De resto era egualmente perigoso tocar no -rei, fóra das severas leis da etiqueta. Eis a este -respeito um facto que difficilmente se poderia -crer se não fosse historico.</p> - -<p>Estando doente Filippe <span class="smcap">III</span> achava-se sentado -n'um <i>fauteuil</i>, muito junto da chaminé do fogão, -aonde acabava de accender-se o lume, e aonde -se havia depositado uma certa quantidade de<span class="pagenum"><a id="Page_130">[130]</a></span> -material combustivel. O calor tornou-se, em breve, -intoleravel e o rei disse aos cortezãos para retirarem -algumas achas; mas como o duque accendedor-mór -não estava presente, e só elle tinha o -direito de bulir no lume da real camara, nenhum -dos assistentes ousou commetter tão grande infracção -da etiqueta. Por outro lado, ninguem podia -tocar no <i>fauteuil</i> do rei a não ser o camareiro-mór, -que egualmente estava ausente, e, -emfim, era prohibido sob pena de morte, tocar -na sagrada pessoa de sua magestade, de que -resultou deixarem os cortezãos tranquillamente -assar o rei, embora lamentando-se por tão triste -sorte. Quando os dois funccionarios chegaram -já era tarde: o rei estava moribundo e pouco -sobreviveu a este cruel supplicio!</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="LXXIX">LXXIX<br /> -<i>O ovo de Colombo</i></h2> -</div> - - -<p>A 15 de Março de 1493, Christovam Colombo, -que vinha de fazer uma das mais admiraveis -descobertas de que se honra o espirito -humano, aportava a Palos, de onde tinha partido -sete mezes e meio antes. Foi recebido com<span class="pagenum"><a id="Page_131">[131]</a></span> -grande enthusiasmo. Os sinos repicaram, os magistrados -seguidos de todos os habitantes desceram -á praia a recebel-o. O trajecto até á côrte -foi um triumpho continuo; de toda a parte se -corria para vêr o homem que tinha terminado, -tão felizmente, uma empreza que toda a gente -julgára impossivel. Toda a cidade foi ao seu encontro. -Elle ia no meio dos indios que trouxera -comsigo na sua entrada em Barcellona, e -que conservaram o costume do seu paiz. Uma -multidão de objectos desconhecidos e cuja vista -dominava vivamente os espiritos eram conduzidos -na vanguarda em corbeilles e bandejas descobertas. -Elle avançou assim no meio d'um concurso -immenso até ao palacio dos reis d'Hespanha. -Fernando e Isabel esperavam-no sentados -no throno. Quando elle appareceu, no meio do -seu cortejo, levantaram-se. Colombo lançou-se-lhes -aos pés, mas elles ordenaram-lhe que se -sentasse. O illustre navegador narrou-lhes a viagem -e descobertas que fez. Em seguida apresentou-lhes -os indios que o acompanhavam e os -objectos preciosos que havia trazido. Toda a -gente se poz de joelhos, e cantou-se na propria -sala do throno um cantico em acção de graças. -Fernando confirmou a Colombo todos os seus -privilegios, e permittiu-lhe juntar ao seu brazão, -as armas da sua familia, as do reino de Castella -e Leão, com os emblemas das suas dignidades e<span class="pagenum"><a id="Page_132">[132]</a></span> -das suas descobertas. Todos os seus parentes foram -cumulados de provas da munificencia real.</p> - -<p>Com tão grandes honras Christovam Colombo -podia julgar-se ao abrigo dos golpes subitos -da fortuna. E, comtudo, nunca um homem -os sentiu d'um modo mais terrivel e mais cruel!</p> - -<p>Iam mal passados ainda os primeiros transportes -do enthusiasmo e já a maldade e a inveja -haviam começado a erguer a cabeça. Procuraram -por meio de perfidas insinuações entibiar o -merito d'essa immortal descoberta.—«Dado o -primeiro passo, o novo mundo viera a elle d'algum -modo; o seu genio consistia apenas n'uma -longa, mas trivial paciencia; em uma palavra, -para descobrir a America, <i>não tinha sido preciso -pensar n'isso</i> ...» Tal era já a ousadia dos detractores, -que faziam circular estes propositos, -um dia, á meza d'um grande d'Hespanha para -que fôra convidado Colombo.</p> - -<p>O grande homem permaneceu silencioso durante -toda a discussão; mas n'um dado momento -e depois de haver reflectido, fez vir um ovo e -apresentando-o aos nobres convivas, disse-lhes:</p> - -<p>—«Qual de vós, senhores, se sente capaz -de fazer com que este ovo se sustente ao alto, -por uma das extremidades?»</p> - -<p>O ovo começou a circular, passando de mão -para mão, até que voltou a Colombo, sem que -qualquer dos presentes houvesse resolvido o problema. -Elle, então, tomou-o, bateu-o levemente<span class="pagenum"><a id="Page_133">[133]</a></span> -no prato e o ovo ficou em equilibrio. Cada qual -exclamou:</p> - -<p>—«Isso não era difficil!</p> - -<p>—«Sem duvida—replicou Colombo com -um sorriso ironico—comtudo <i>era preciso pensal-o!</i>»</p> - -<p>—O <i>ovo de Christovam Colombo</i> passou a -uma especie de proverbio, a que se allude a proposito -d'uma coisa que se não póde fazer, e que -se encontra facil, depois de feita.</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="LXXX">LXXX<br /> -<i>Waterloo</i></h2> -</div> - - -<p>Napoleão, depois de ter fundado um imperio -mais vasto e mais poderoso que o de Carlos -Magno; depois de ter visto a Europa inteira -tremer com a sua presença e submetter-se a todas -as suas vontades, emprehendeu a funesta -campanha da Russia, em que o exercito mais formidavel -foi vencido, não pelos homens, mas pelos -elementos e pelo rigor do clima.</p> - -<p>Essa longa jornada da Russia foi realmente -o termo da brilhante fortuna que collocou Napoleão, -como o primeiro dos mais illustres con<span class="pagenum"><a id="Page_134">[134]</a></span>quistadores; -mas como ella relembra ao espirito -uma série multipla de desastres, o seu nome, -por muito funesto que pareça, não podia ser escolhido -para designar uma ruina subita, um esboroamento -rapido. Foi a derrota de Waterloo, -que recebeu esta consagração.</p> - -<p>Depois de se ter visto forçado a abdicar em -Fontainebleau, depois de ter mudado o seu poderoso -imperio pela soberania irrisoria d'uma -ilha, em que apenas contava alguns milhares de -subditos, Napoleão, por uma d'essas inspirações -repentinas, que constituiam o caracter particular -do seu genio, escapou-se á vigilancia de que era -objecto, desembarcou em Cannes, e marchou sobre -Pariz sem encontrar resistencia. Os Bourbons, -dominados pelo terror, abandonam a -França, e Napoleão entra como senhor nas Tulherias, -d'onde, durante dez annos, dera a lei á -Europa.</p> - -<p>Mas este successo admiravel não tinha solidez. -A coalisão da Europa não estava dissolvida, -e ia reformar-se, mais potente que nunca, e a -França, exangue d'homens e de recursos, fatigada -d'essas guerras interminaveis, que arruinavam o -commercio e a industria, não ia oppor uma resistencia -sem impeto, quasi passiva, e que facilmente -seria vencida.</p> - -<p>No entretanto, Napoleão desenvolve ainda -uma vez a energia, a decisão, que fulminaram<span class="pagenum"><a id="Page_135">[135]</a></span> -tantos inimigos; mas os seus officiaes parecem -ter perdido o vigor d'outr'ora.</p> - -<p>Em Waterloo, comquanto não tenha mais -que quinze mil combatentes a oppor a forças duplas -das suas, a habilidade das suas disposições -parece a principio fazer pender a victoria para o -seu lado; mas o general prussiano Blucher, que -Grouchy não póde, não sabe, ou não quer deter, -chega com as suas forças frescas, faz mudar a -face ao combatente, e o exercito francez, o ultimo -exercito de Napoleão, é esmagado.</p> - -<p>D'esta vez a fortuna do Cezar moderno estava -despedaçada para sempre, e os derradeiros -exforços que pôde desenvolver ainda, serviram -apenas para lançarem algum brilho sobre os ultimos -momentos d'esse astro, outr'ora tão brilhante.</p> - -<p>—A palavra <i>Waterloo</i> emprega-se muito -para designar a ruina completa e fatal d'uma -coisa, que foi grande e que, por muito, parecia -ser estavel.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_136">[136]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="LXXXI">LXXXI<br /> -<i>Templo de Jano</i></h2> -</div> - - -<p>O famoso templo de Jano, que foi fundado -em Roma por Numa, estava aberto durante a -guerra e fechado no periodo da paz. Jano, o mais -antigo rei d'Italia, ácerca do qual os mythologos -teem dificuldade em se entenderem, passava por -ter tido um reinado longo e tranquillo, o que o -fizera considerar como o deus da paz e o tinha -posto em grande honra para Numa, o rei mais -sabio que teve Roma.</p> - -<p>Durante um periodo de quasi mil annos, o -templo de Jano só foi fechado oito vezes: a primeira -no reinado de Numa; a segunda, no anno -519, de Roma, depois da primeira guerra punica; -a terceira, no anno 723, depois da batalha -d'Actium; a quarta, no anno 730, depois da -guerra cantabrica; a quinta, no anno 740, apoz a -pacificação da Germania; a sexta, no anno 824, -por Vespasiano, depois da conquista da Judeia; -a setima, no anno 834, por Domiciano, em seguida -á guerra dos Dacios, e a ultima, no anno -994, por Gordio <span class="smcap">III</span>, vencedor dos persas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_137">[137]</a></span></p> - -<p>É esta a ultima menção que a historia faz -d'esta cerimonia. Virgilio, no livro <span class="smcap">VII</span> da <i>Eneida</i>, -fez a descripção do templo de Jano e do cerimonial -que presidiu á sua abertura.</p> - -<p>—É por allusão a este templo, que se diz -no estylo oratorio, e, sobretudo, em poesia—<i>abrir -o templo de Jano</i>—para fazer guerra, começal-a, -declaral-a, e—<i>fechar o templo de Jano</i>—para -conclusão do tratado de paz, e pôr fim ás hostilidades.</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="LXXXII">LXXXII<br /> -<i>Estatua de Nabuchodonosor</i></h2> -</div> - - -<p>Nabuchodonosor <span class="smcap">II</span>, cognominado o <i>Grande</i>, -rei da Babylonia, tivera um sonho espantoso, -mas de que ao despertar se não lembrava absolutamente -nada. Nenhum dos magos da côrte -pôde avivar-lhe a visão. O joven Daniel, então -captivo na Babylonia, foi mandado vir á presença -do rei e disse-lhe:</p> - -<p>—«Eis o que viste, rei:—Havia uma estatua -immensa, cuja cabeça era d'ouro, o peito e -os braços de prata, o ventre e as côxas de -bronze, as pernas de ferro e os pés de barro. De -repente deslocou-se por si uma pedra da monta<span class="pagenum"><a id="Page_138">[138]</a></span>nha, -e indo ferir os pés da estatua, fel-a pedaços. -Então os quatro metaes quebrados tornaram-se -como o pó, que enche a athmosphera, no -verão, e tendo-se levantado um grande vento, -tudo levou. Mas a pedra que despedaçára a estatua -tornou-se uma montanha immensa, que encheu -toda a terra. Eis o teu sonho, ó rei, e -agora a sua interpretação:—Tu és o rei dos reis; -és tu, pois, a cabeça de ouro. Ha-de haver depois -de ti um reino menor que o teu, que será -de prata, depois um terceiro de bronze, que mandará -em toda a terra. O quarto reino reduzirá -tudo a pó como o ferro quebra tudo, mas assim -como a estatua, de pés de barro, elle se dividirá -por sua vez. Então Deus suscitará um reino -para sempre eterno, que derribará e destruirá -todos os reinos, como a pedra deslocada da montanha -partiu a estatua e lançou ao vento o seu -pó.»</p> - -<p>Era a imagem dos quatro grandes imperios -d'Assyria, da Persia, da Macedonia e de Roma, -que, destruindo-se successivamente uns aos outros, -deviam todos ser absorvidos por um imperio -immenso e immortal, o de Jesus Christo n'este -mundo.</p> - -<p>—No estylo elevado faz-se muitas vezes allusão -ao colosso de Nabuchodonosor, quando -se quer exprimir que ha liga nas coisas, apparentemente -mais puras, que os genios mais sublimes -se prendem por qualquer ponto fraco aos<span class="pagenum"><a id="Page_139">[139]</a></span> -lados vulgares da humanidade, que o poder que -parece mais solidamente estabelecido não tem -muitas vezes senão uma base fragil, que a circumstancia -mais imprevista póde fazer cahir.</p> - -<p>Assim, por exemplo, um escriptor contemporaneo, -fallando da guerra de 1809, que foi a origem -de todas as desgraças de Napoleão, diz:</p> - -<p>—«Foi na outra extremidade do continente, -foi em Portugal que se fez sentir o primeiro estalido, -e que se percebeu de repente que a <i>estatua -colossal tinha um pé de barro</i>.»</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="LXXXIII">LXXXIII<br /> -<i>Sepulchros do Evangelho</i></h2> -</div> - - -<p>No capitulo <span class="smcap">XXIII</span> do Evangelho, segundo -S. Matheus, Jesus Christo levanta-se contra os -impostores e hypocritas, com uma força d'expressão, -uma vehemencia de linguagem, que espantam, -n'aquella bocca divina, habituada a só -fazer ouvir palavras de mansidão e de caridade. -Elle não reprehendeu nenhum vicio com tanta -energia, e quando nos lembramos da sua celeste -indulgencia para com a mulher adultera, admiramo-nos -do anathema terrivel que dardeja aos<span class="pagenum"><a id="Page_140">[140]</a></span> -scribas e phariseus. É que nas inspirações da -sua sublime natureza Jesus Christo bebia a certeza -de que a hypocrisia é capaz de todos os crimes, -que ella os contem todos em germen.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>«Desgraça a vós! scribas e phariseus hypocritas, -que purificaes o exterior da taça e do -vaso, em quanto que por dentro sois cheios de -rapinas e de maculas!»</p> - -<p>«Phariseus cegos, purificae primeiro o interior -da taça e do vaso, afim de que o exterior -seja puro tambem!»</p> - -<p>«Desgraça a vós! scribas e phariseus hypocritas, -porque sois semelhantes a <i>sepulchros -caiados</i>, que, por fóra parecem bellos aos homens, -mas por dentro são cheios d'ossos e podridão!»</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>—A applicação d'esta phrase <i>sepulchros -caiados</i>, ou a equivalente—<i>sepulchros do Evangelho</i>—sobresáe -claramente do texto que citamos, -quando se dirige ás pessoas; quanto ás -coisas, caracterisa tudo quanto tem mais apparencia -de brilho, que fundo e realidade.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_141">[141]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="LXXXIV">LXXXIV<br /> -<i>Isso que prova?</i></h2> -</div> - - -<p>Não temos a pretensão de exprimir uma -verdade muito nova, dizendo que as mathematicas -não são irmãs da poesia, embora Urania seja -uma das nove Musas. E se não era mathematico, -era digno de sel-o, aquelle que interrogado ácerca -do effeito que lhe produzia a audição d'uma opera, -respondeu:</p> - -<p>—«O mesmo que o d'um sacco cheio de -pregos, agitado vigorosamente.»</p> - -<p>O mathematico habituado a medir tudo a regua -e compasso, a tirar deducções por meio de -raciocinios evidentes, fica quasi sempre insensivel -ás bellezas da harmonia e do sentimento.</p> - -<p>Um geometra assistia a uma representação -da <i>Phedra</i>, e em quanto que todos os outros -espectadores derramavam lagrimas, commovidos -por essa magnifica poesia, que mostra em scena</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i0">«. . . . . . essa dor virtuosa»<br /></span> -<span class="i0">«De Phedra, a pezar seu, perfida, incestuosa»<br /></span> -</div></div> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_142">[142]</a></span>elle ficava frio, impassivel e contentava-se em -dizer nas passagens mais patheticas:</p> - -<p>—«Isso que prova?»</p> - -<p>O astronomo francez Villemont, menos exclusivo, -nunca deixava de dizer d'um fragmento -de poesia que lhe causasse prazer:</p> - -<p>—«É bello como uma equação!»</p> - -<p>Era para elle o superlativo da admiração.</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="LXXXV">LXXXV<br /> -<i>Manná</i></h2> -</div> - - -<p>Quando os hebreus chegaram ao deserto -e viram as provisões esgotadas, começaram a -murmurar contra Moisés, dizendo:—«Conduzistes-nos -a este logar para nos fazerdes morrer de -fome?»—Moisés respondeu-lhes da parte do Senhor:—«Esta -tarde comereis carne, e amanhã -estareis saciados de pão.»—Com effeito, de tarde -uma enorme quantidade de rôlas veio pousar -sobre o campo, e no dia seguinte, pela manhã, -um orvalho matutino cobria toda a planicie. Era -uma especie de pó branco que tinha o gôsto da -mais fina farinha misturada com mel.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_143">[143]</a></span></p> - -<p>Este alimento chamava-se <i>manná</i>. Os hebreus -deviam apanhal-o em cada manhã e antes -do nascimento do sol, e só em quantidade necessaria -para o dia, excepto na vespera do <i>sabbat</i> -em que deviam tambem recolhel-o para o -dia seguinte. Alguns deixando-o de um para o -outro dia encontravam-no corrompido.</p> - -<p>Ora os filhos d'Israel nutriram-se d'este orvalho -celeste durante os quarenta annos que viveram -no deserto, até á sua entrada na terra da -promissão.</p> - -<p>—Comprehende-se que—<i>manná</i>—ou—<i>é -um manná</i>—se não póde applicar senão n'um -sentido metaphorico, como por exemplo:</p> - -<p>—A verdade <i>é um manná</i> divino, com que -se deve sustentar o espirito e o coração.</p> - - - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_144">[144]</a></span></p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="LXXXVI">LXXXVI<br /> -<i>Annel de Gyges</i></h2> -</div> - - -<p>Gyges era um moço pastor da Lydia. Um -dia vendo entreabrir-se a terra, desceu pela abertura, -e viu, entre outras maravilhas um cavallo -de bronze, completamente ôcco, com portas nas -ancas. Abriu-as e encontrou um cadaver de grandeza -mais que humana, tendo em um dedo um -annel d'ouro. Esse annel, desde que se voltava o -engaste para o lado interior da mão, tinha o poder -de tornar invisiveis aquelles que o usassem. -Gyges apoderou-se d'esse precioso talisman e -dirigiu-se á côrte, aonde o annel foi a origem -d'uma brilhante fortuna, porque o possuidor não -tardou a tornar-se favorito e primeiro ministro.</p> - -<p>—Não são raras as circumstancias em que -cada qual desejaria ter no dedo o annel de Gyges. -Qual é o que nunca se viu collocado n'alguma -d'essas situações criticas, que fazem desejar, -como vulgarmente se diz, «estar a cem braças -pela terra dentro»? Por outro lado, que não -daria a gente, em determinadas occasiões, para -se encontrar invisivel, em certos logares, em que<span class="pagenum"><a id="Page_145">[145]</a></span> -se debatem os nossos mais caros interesses, e o -nosso destino?</p> - -<p>D'aqui a frequente applicação que se faz do -<i>annel de Gyges</i>, em litteratura e na conversação.</p> - -<p>O espirituoso Alphonse Karr quiz ver no -annel de Gyges uma allegoria que explicou a seu -modo n'estes versos:</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i0">«Quem de Gyges o annel, conta, maravilhoso<br /></span> -<span class="i0">«Nos casos falsos, ou na pura phantasia,<br /></span> -<span class="i0">«—Agora o sei—a si se engana em demasia,<br /></span> -<span class="i0">«Porque o frisante exemplo é grande, é numeroso.<br /></span> -<span class="i0">«Se sois feio e sois mau, sem genio e já d'idade<br /></span> -<span class="i0">«Ponde, á noite um annel, no vosso indicador,<br /></span> -<span class="i0">«Com um brilhante que tenha um subido valor,<br /></span> -<span class="i0">«E vereis como faz a sua claridade,<br /></span> -<span class="i0">«Sob os raios da luz, em ponto bem escolhido,<br /></span> -<span class="i0">«Dar-vos genio e belleza, e juventude, e encanto.<br /></span> -<span class="i0">«Se sois mau e imbecil, elle vos faz um santo,<br /></span> -<span class="i0">«Dizei quanto quereis, que já sois applaudido!»<br /></span> -</div></div> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_146">[146]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="LXXXVII">LXXXVII<br /> -<i>Honni soit qui mal y pense</i></h2> -</div> - - -<p>Divisa da ordem da Jarreteira, instituida em -Inglaterra em 1340 por Eduardo <span class="smcap">III</span>. Em um baile -da côrte que elle dava em honra da condessa de -Salisbury, sua favorita, esta deixou cahir, dançando, -uma liga, que era azul. O rei apressou-se -a apanhal-a, e expoz assim a formosa condessa -aos sorrisos malignos e aos maus propositos dos -convidados.</p> - -<p>—«Senhores—exclamou Eduardo <span class="smcap">III</span>—<i>honni -soit qui mal y pense</i>. Os que riem agora hão-de -honrar-se um dia por usarem um objecto semelhante, -porque a liga será posta em tanta honra -que até os mais zombadores a procurarão com -avidez!»</p> - -<p>E no dia immediato instituia a Ordem da Jarreteira, -que é uma das mais célebres da Europa.</p> - -<p>A principal insignia consiste n'uma liga de -velludo azul, que se aperta por cima do joelho -esquerdo com uma fivela de ouro, sobre a qual -se lê: <i>Honni soit qui mal y pense!</i>—Maldito -seja quem d'isto mal pensar.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_147">[147]</a></span></p> - -<p>A rainha usa-a no braço. Só os principes -soberanos ou as pessoas d'alta distincção podem -ser membros da Ordem. O numero dos primeiros -é illimitado, mas os outros não podem ser mais -de vinte e seis.</p> - -<p>—A famosa divisa tornou-se proverbial e -emprega-se para fazer comprehender que se affronta -a opinião, n'uma circumstancia sujeita a -má interpretação, d'equivoca apparencia.</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="LXXXVIII">LXXXVIII<br /> -<i>Mal com el-rei pelos homens e mal com os homens por el-rei</i></h2> -</div> - - -<p>Esta phrase, que bem exprime as apertadas -circumstancias em que o homem tantissimas -vezes se encontra, de não poder, de modo algum, -satisfazer e contentar a todos, é do grande -Affonso d'Albuquerque.</p> - -<p>Avisado elle de que el-rei D. Manoel lhe ordenava -o regresso ao reino, fazendo-o substituir -no governo da India por Lopo Soares, com o -qual seguiam Diogo Pereira e Diogo Mendes, -um como secretario e outro como capitão de Cochim, -e ambos de lá enviados a Portugal sob<span class="pagenum"><a id="Page_148">[148]</a></span> -prisão pelo valente governador, por delictos graves, -exclamou:</p> - -<p>—Mal com el-rei pelos homens e mal com -os homens por amor de el-rei.</p> - -<p>A phrazeologia popular formulou o mesmo -pensamento de um modo, se não tão primoroso, -pelo menos egualmente expressivo, quando disse:</p> - -<p>—Preso por ter cão, preso por não o ter.</p> - -<p>Vê-se claramente qual o emprego da locução -do grande capitão, e não é difficil nem raro -que cada um tenha varias occasiões, infelizmente, -de applical-a a si proprio.</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="LXXXIX">LXXXIX<br /> -<i>Bandeira da Misericordia</i></h2> -</div> - - -<p>D'antes, por um privilegio, fundado, decerto, -n'um principio caritativo, as irmandades -da Misericordia eram obrigadas—e no Estatuto -d'algumas se acha consignada esta obrigação—a -acompanhar com a respectiva bandeira, os -condemnados a pena ultima, desde o carcere ao -local do supplicio.</p> - -<p>Alli, tanto que a victima era executada cobria-a -immediatamente essa bandeira, o que equi<span class="pagenum"><a id="Page_149">[149]</a></span>valia -a tomar a Misericordia conta do cadaver, a -fim de prevenir ou evitar profanações no corpo, -por parte dos populares, arrastados, muitas vezes, -a scenas bem pouco edificantes, pela excitação -de odios e de paixões violentas e desordenadas.</p> - -<p>Quando acontecia que a corda se quebrava—no -supplicio da forca—e o paciente cahia com -vida, desde que a bandeira o cobrisse, estava -salvo.</p> - -<p>Nas ultimas execuções d'este genero, realisadas -em Vizeu, no largo de Santa Christina, no -tempo das luctas do absolutismo, aconteceu que -um dos pacientes, graças a um convenio com o -carrasco, cahiu com vida e foi coberto com a -bandeira da Misericordia.</p> - -<p>Uma mulher, porém, que ainda morreu ha -poucos mezes, e que tinha a triste e original -mania de assistir a todos os actos lugubres e a -todas as scenas mais contristadoras, por um assomo -de curiosidade feminina foi levantar uma -ponta da bandeira. O desgraçado, que se fingia -morto, imaginando que era algum dos que conhecia -o convenio para a sua salvação, abriu os -olhos, e tanto bastou para que a original mulher -começasse a gritar que elle estava ainda vivo.</p> - -<p>A populaça desenfreada cahiu sobre o infeliz -e cevou as suas iras.</p> - -<p>D'esta vez a bandeira não valeu.</p> - -<p>—Do privilegio d'esse estandarte nasceu a -locução de—<i>bandeira da Misericordia</i>,—d'um<span class="pagenum"><a id="Page_150">[150]</a></span> -grandissimo emprego, sobretudo, na conversação -familiar, servindo para designar toda a intervenção -caritativa para a suspensão ou allivio d'uma -pena ou d'um castigo.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>A critica poderá encontrar motivo para exercer-se, -no delineamento e execução d'esta despretenciosa -obra, mas a benevolencia será a <i>bandeira -da Misericordia</i>, que ha-de abrandar a -dureza das apreciações.</p> - -<div class="figcenter"> -<img src="images/image150.png" width="200" height="112" alt="" /> -</div> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<span class="pagenum"><a id="Page_151">[151]</a></span> -<h2 class="nobreak" id="INDICE">INDICE</h2> -</div> - - -<table summary=""> -<tr> -<th> </th><th> </th><th class="pag">PAG.</th> -</tr><tr> -<td class="num"><small>DO AUCTOR</small></td><td class="tit"> </td><td class="pag"><a href="#Page_7">7</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">I—</td><td class="tit">Amanhã os negocios sérios</td><td class="pag"><a href="#Page_9">9</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">II—</td><td class="tit">Alexandre</td><td class="pag"><a href="#Page_11">11</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">III—</td><td class="tit">Audacia, ainda audacia e sempre audacia</td><td class="pag"><a href="#Page_19">19</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">IV—</td><td class="tit">Delicias de Capua</td><td class="pag"><a href="#Page_21">21</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">V—</td><td class="tit">Disse eu alguma tolice?</td><td class="pag"><a href="#Page_23">23</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">VI—</td><td class="tit">Arca de Noé</td><td class="pag"><a href="#Page_24">24</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">VII—</td><td class="tit">Queimar não é responder</td><td class="pag"><a href="#Page_25">25</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">VIII—</td><td class="tit">Caim, que fizeste de teu irmão?</td><td class="pag"><a href="#Page_26">26</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">IX—</td><td class="tit">Do Capitolio á rocha Tarpeia só ha um passo</td><td class="pag"><a href="#Page_27">27</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">X—</td><td class="tit">Catão</td><td class="pag"><a href="#Page_29">29</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XI—</td><td class="tit">Cezar</td><td class="pag"><a href="#Page_30">30</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XII—</td><td class="tit">Estava escripto</td><td class="pag"><a href="#Page_40">40</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XIII—</td><td class="tit">Conhece-te a ti proprio</td><td class="pag"><a href="#Page_41">41</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XIV—</td><td class="tit">As joias de Cornelia</td><td class="pag"><a href="#Page_42">42</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XV—</td><td class="tit">Cresus</td><td class="pag"><a href="#Page_43">43</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XVI—</td><td class="tit">Dôr, tu não és um mal</td><td class="pag"><a href="#Page_44">44</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XVII—</td><td class="tit">Egéria</td><td class="pag"><a href="#Page_46">46</a></td> -</tr><tr> -<td class="num"><span class="pagenum"><a id="Page_152">[152]</a></span>XVIII—</td><td class="tit">Mais uma victoria como esta e estamos perdidos</td><td class="pag"><a href="#Page_47">47</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XIX—</td><td class="tit">Espada de Damocles</td><td class="pag"><a href="#Page_49">49</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XX—</td><td class="tit">O prato de lentilhas</td><td class="pag"><a href="#Page_51">51</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XXI—</td><td class="tit">E eu tambem sou pintor!</td><td class="pag"><a href="#Page_52">52</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XXII—</td><td class="tit">Estrella dos Reis Magos</td><td class="pag"><a href="#Page_53">53</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XXIII—</td><td class="tit">E, comtudo, ella gira!</td><td class="pag"><a href="#Page_54">54</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XXIV—</td><td class="tit">Virtude, não és mais que um nome</td><td class="pag"><a href="#Page_56">56</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XXV—</td><td class="tit">Festim de Balthazar</td><td class="pag"><a href="#Page_57">57</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XXVI—</td><td class="tit">Forcas caudinas</td><td class="pag"><a href="#Page_59">59</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XXVII—</td><td class="tit">Irmão é preciso morrer</td><td class="pag"><a href="#Page_61">61</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XXVIII—</td><td class="tit">Cahir com graça</td><td class="pag"><a href="#Page_62">62</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XXIX—</td><td class="tit">Hippocrates diz sim, Galiano diz não</td><td class="pag"><a href="#Page_63">63</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XXX—</td><td class="tit">É muito tarde</td><td class="pag"><a href="#Page_64">64</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XXXI—</td><td class="tit">Não ha grande homem para o seu creado de quarto</td><td class="pag"><a href="#Page_66">66</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XXXII—</td><td class="tit">Cantam, elles pagarão</td><td class="pag"><a href="#Page_67">67</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XXXIII—</td><td class="tit">Perdi o meu dia</td><td class="pag"><a href="#Page_68">68</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XXXIV—</td><td class="tit">Amo Platão, mas amo mais a verdade</td><td class="pag"><a href="#Page_69">69</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XXXV—</td><td class="tit">Achei!—Eureka!</td><td class="pag"><a href="#Page_70">70</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XXXVI—</td><td class="tit">Eu desejaria não saber escrever</td><td class="pag"><a href="#Page_72">72</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XXXVII—</td><td class="tit">Linguas d'Esopo</td><td class="pag"><a href="#Page_73">73</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XXXVIII—</td><td class="tit">Lanterna de Diogenes</td><td class="pag"><a href="#Page_75">75</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XXXIX—</td><td class="tit">O mestre o disse</td><td class="pag"><a href="#Page_76">76</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XL—</td><td class="tit">O rei é morto, vive o rei!</td><td class="pag"><a href="#Page_77">77</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XLI—</td><td class="tit">O estado sou eu!</td><td class="pag"><a href="#Page_78">78</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XLII—</td><td class="tit">Alavanca d'Archimedes</td><td class="pag"><a href="#Page_79">79</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XLIII—</td><td class="tit">Magdalena</td><td class="pag"><a href="#Page_80">80</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XLIV—</td><td class="tit">Casa de Socrates</td><td class="pag"><a href="#Page_81">81</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XLV—</td><td class="tit">Desgraça aos vencidos!</td><td class="pag"><a href="#Page_83">83</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XLVI—</td><td class="tit">Manto de Joseph</td><td class="pag"><a href="#Page_84">84</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XLVII—</td><td class="tit">Mario sobre as ruinas de Carthago</td><td class="pag"><a href="#Page_85">85</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XLVIII—</td><td class="tit">Subir ao Capitolio</td><td class="pag"><a href="#Page_86">86</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">XLIX—</td><td class="tit">Onde não ha el-rei o perde</td><td class="pag"><a href="#Page_88">88</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">L—</td><td class="tit">Onde se vae aninhar a virtude?</td><td class="pag"><a href="#Page_89">89</a></td> -</tr><tr> -<td class="num"><span class="pagenum"><a id="Page_153">[153]</a></span>LI—</td><td class="tit">Perdoae-lhes, meu Pae, não sabem o que fazem</td><td class="pag"><a href="#Page_90">90</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LII—</td><td class="tit">Lavar as mãos como Pilatos</td><td class="pag"><a href="#Page_91">91</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LIII—</td><td class="tit">O que não peccou, atire a primeira pedra</td><td class="pag"><a href="#Page_93">93</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LIV—</td><td class="tit">Tres linhas escriptas e eu farei enforcar quem as escreveu</td><td class="pag"><a href="#Page_94">94</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LV—</td><td class="tit">Quem te fez conde? Quem te fez rei?</td><td class="pag"><a href="#Page_96">96</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LVI—</td><td class="tit">A Cezar o que é de Cezar a Deus o que é de Deus</td><td class="pag"><a href="#Page_97">97</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LVII—</td><td class="tit">Salto de Leucade</td><td class="pag"><a href="#Page_99">99</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LVIII—</td><td class="tit">Se é possivel, está feito; se é impossivel se fará</td><td class="pag"><a href="#Page_100">100</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LIX—</td><td class="tit">Terra promettida</td><td class="pag"><a href="#Page_102">102</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LX—</td><td class="tit">Thebaida</td><td class="pag"><a href="#Page_103">103</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LXI—</td><td class="tit">Desça o panno acabou a comedia!</td><td class="pag"><a href="#Page_105">105</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LXII—</td><td class="tit">Tudo é perdido, menos a honra</td><td class="pag"><a href="#Page_106">106</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LXIII—</td><td class="tit">Trombetas de Jericó</td><td class="pag"><a href="#Page_108">108</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LXIV—</td><td class="tit">A tunica de Christo</td><td class="pag"><a href="#Page_109">109</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LXV—</td><td class="tit">Um imperador deve morrer em pé</td><td class="pag"><a href="#Page_110">110</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LXVI—</td><td class="tit">Vendilhões expulsos do templo</td><td class="pag"><a href="#Page_111">111</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LXVII—</td><td class="tit">Gritar no deserto</td><td class="pag"><a href="#Page_112">112</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LXVIII—</td><td class="tit">Zoilo</td><td class="pag"><a href="#Page_113">113</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LXIX—</td><td class="tit">Aspasia</td><td class="pag"><a href="#Page_114">114</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LXX—</td><td class="tit">Babylonia</td><td class="pag"><a href="#Page_116">116</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LXXI—</td><td class="tit">Incendiar os seus navios</td><td class="pag"><a href="#Page_117">117</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LXXII—</td><td class="tit">Os ultimos romanos</td><td class="pag"><a href="#Page_119">119</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LXXIII—</td><td class="tit">Faça cabelleiras, mestre André</td><td class="pag"><a href="#Page_120">120</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LXXIV—</td><td class="tit">Fé do carvoeiro</td><td class="pag"><a href="#Page_122">122</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LXXV—</td><td class="tit">Ha juizes em Berlim</td><td class="pag"><a href="#Page_123">123</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LXXVI—</td><td class="tit">Judas—Beijo de Judas</td><td class="pag"><a href="#Page_126">126</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LXXVII—</td><td class="tit">Pragas do Egypto</td><td class="pag"><a href="#Page_127">127</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LXXVIII—</td><td class="tit">Não toqueis na rainha</td><td class="pag"><a href="#Page_128">128</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LXXIX—</td><td class="tit">O ovo de Colombo</td><td class="pag"><a href="#Page_130">130</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LXXX—</td><td class="tit">Waterloo</td><td class="pag"><a href="#Page_133">133</a></td> -</tr><tr> -<td class="num"><span class="pagenum"><a id="Page_154">[154]</a></span>LXXXI—</td><td class="tit">Templo de Jano</td><td class="pag"><a href="#Page_136">136</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LXXXII—</td><td class="tit">Estatua de Nabuchodonosor</td><td class="pag"><a href="#Page_137">137</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LXXXIII—</td><td class="tit">Sepulchros do Evangelho</td><td class="pag"><a href="#Page_139">139</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LXXXIV—</td><td class="tit">Isso que prova?</td><td class="pag"><a href="#Page_141">141</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LXXXV—</td><td class="tit">Manná</td><td class="pag"><a href="#Page_142">142</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LXXXVI—</td><td class="tit">Annel de Gyges</td><td class="pag"><a href="#Page_144">144</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LXXXVII—</td><td class="tit">Honni soit qui mal y pense</td><td class="pag"><a href="#Page_146">146</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LXXXVIII—</td><td class="tit">Mal com el-rei pelos homens e mal com os homens por el-rei</td><td class="pag"><a href="#Page_147">147</a></td> -</tr><tr> -<td class="num">LXXXIX—</td><td class="tit">Bandeira da Misericordia</td><td class="pag"><a href="#Page_148">148</a></td> -</tr> -</table> - -<div class="figcenter"> -<img src="images/image154.png" width="147" height="151" alt="" /> -</div> - -<div class="chapter"> -<p class="u p2"><big><b>Biblioteca do Lar</b></big></p> -</div> -<p class="bibaut">Henry Ardel</p> -<p class="bibboo">Um conto azul</p> -<p class="bibboo">Caminho em declive</p> -<p class="bibboo">Fogo mal extinto</p> -<p class="bibboo">É preciso casar o João!</p> -<p class="bibboo">A alvorada</p> -<p class="bibboo">Uma aventura imprudente</p> -<p class="bibboo">A divina canção</p> -<p class="bibboo">A noite desce</p> -<p class="bibboo">Eva e a serpente</p> -<p class="bibaut">B. Jeanroy</p> -<p class="bibboo">Dois corações</p> -<p class="bibaut">M. La Bruyére</p> -<p class="bibboo">Flor de Lis</p> -<p class="bibaut">M. Damad</p> -<p class="bibboo">A enteada</p> -<p class="bibaut">Jean Thiéry</p> -<p class="bibboo">O canto do cuco</p> -<p class="bibboo">O romance dum solteirão</p> -<p class="bibboo">Corações magoados</p> -<p class="bibboo">Vítimas</p> -<p class="bibaut">António Zozaya</p> -<p class="bibboo">As auroras</p> -<p class="bibboo">Almas de mulheres</p> -<p class="bibaut">Georges de Peyrebrune</p> -<p class="bibboo">Dona Quixota</p> -<p class="bibaut">Alberto Insúa</p> -<p class="bibboo">Coração ludibriado</p> -<p class="bibaut">Claude Saint-Jean</p> -<p class="bibboo">O castelo dos noivos</p> -<p class="bibaut">Palácio Valdés</p> -<p class="bibboo">A alegria do capitão Ribot</p> -<p class="bibaut">Jean Rameau</p> -<p class="bibboo">Romance da Felicidade</p> -<p class="bibaut">Pierre de Coulevain</p> -<p class="bibboo">A ilha desconhecida</p> -<p class="bibboo">No coração da vida</p> -<p class="bibaut">Mary Floran</p> -<p class="bibboo">Se êle soubera</p> -<p class="bibaut">Eduardo Noronha</p> -<p class="bibboo">As mulheres de Pernambuco</p> -<p class="u"><b><big>Cada volume broch. 6$00—Enc. 10$00</big></b></p> - -<p class="u p2"><big><b>Colecção de Hoje</b></big></p> -<p class="bibaut">Alberto Insúa</p> -<p class="bibboo">O preto que tinha a alma branca</p> -<p class="bibboo">A mulher que precisa de amor</p> -<p class="bibboo">A mulher que esgotou o amor</p> -<p class="bibboo">O inimigo do matrimónio</p> -<p class="bibboo">O prazer do perigo</p> -<p class="bibboo">Mulheres histéricas</p> -<p class="bibboo">O amor em dois tempos</p> -<p class="bibboo">O amante invisível</p> -<p class="bibboo">Fumo, dor, prazer</p> -<p class="bibboo">A mulher, o toureiro e o touro</p> -<p class="bibboo">As flechas do amor</p> -<p class="bibboo">A paixão impossivel</p> -<p class="bibaut">Clément Vautél</p> -<p class="bibboo">Minha mulher não quer filhos</p> -<p class="bibboo">O amor à parisiense</p> -<p class="bibboo">A reabertura do paraíso terrestre</p> -<p class="bibboo">O senhor Mezigue</p> -<p class="bibboo">Sua reverendíssima entre os ricos</p> -<p class="bibboo">Sua reverendíssima entre os pobres</p> -<p class="bibaut">Pierre Benoit</p> -<p class="bibboo">O poço de Jacob</p> -<p class="bibboo">A calçada dos gigantes</p> -<p class="bibboo">Mademoiselle de la Ferté</p> -<p class="bibboo">O lago salgado</p> -<p class="bibaut">Palácio Valdés</p> -<p class="bibboo">Os majos de Cádiz</p> -<p class="bibboo">Marta e Maria</p> -<p class="bibboo">Riverita</p> -<p class="bibboo">Maximina</p> -<p class="bibboo">A Irmã S. Sulpício</p> -<p class="bibboo">A valenciana</p> -<p class="bibaut">A. Hernandez Catá</p> -<p class="bibboo">Os sete pecados</p> -<p class="bibboo">O bebedor de lágrimas</p> -<p class="bibaut">José Francés</p> -<p class="bibboo">O filho da noite</p> -<p class="bibboo">A mulher de ninguém</p> -<p class="bibaut">Fernandez Florez</p> -<p class="bibboo">As sete colunas</p> -<p class="bibboo">O segredo do Barba Azul</p> -<p class="bibaut">Pedro Mata</p> -<p class="bibboo">Um grito na noite</p> -<p class="bibboo">Corações sem rumo</p> -<p class="bibaut">Alfio Berreta</p> -<p class="bibboo">A morte do sonho</p> -<p class="bibaut">Tomás Borrás</p> -<p class="bibboo">A mulher de sal</p> -<p class="bibboo">A parede de teia de aranha</p> -<p class="u"><b><big>Cada volume broch. 6$00—Enc. 10$00</big></b></p> - - - - - - - - -<pre> - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Historia Pitoresca, by Alfredo Campos - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIA PITORESCA *** - -***** This file should be named 63235-h.htm or 63235-h.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/3/2/3/63235/ - -Produced by Júlio Reis, Fernanda Brojo and the Online -Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net - - -Updated editions will replace the previous one--the old editions -will be renamed. - -Creating the works from public domain print editions means that no -one owns a United States copyright in these works, so the Foundation -(and you!) can copy and distribute it in the United States without -permission and without paying copyright royalties. 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Redistribution is -subject to the trademark license, especially commercial -redistribution. - - - -*** START: FULL LICENSE *** - -THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE -PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK - -To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase "Project -Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project -Gutenberg-tm License (available with this file or online at -http://gutenberg.org/license). - - -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm -electronic works - -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. 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Thus, we do not necessarily -keep eBooks in compliance with any particular paper edition. - - -Most people start at our Web site which has the main PG search facility: - - http://www.gutenberg.org - -This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. - - -</pre> - -</body> -</html> diff --git a/old/63235-h/images/cover.jpg b/old/63235-h/images/cover.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 68d9d52..0000000 --- a/old/63235-h/images/cover.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/63235-h/images/image000.png b/old/63235-h/images/image000.png Binary files differdeleted file mode 100644 index 022b702..0000000 --- a/old/63235-h/images/image000.png +++ /dev/null diff --git a/old/63235-h/images/image001.png b/old/63235-h/images/image001.png Binary files differdeleted file mode 100644 index 53249f6..0000000 --- a/old/63235-h/images/image001.png +++ /dev/null diff --git a/old/63235-h/images/image003.png b/old/63235-h/images/image003.png Binary files differdeleted file mode 100644 index fb190c3..0000000 --- a/old/63235-h/images/image003.png +++ /dev/null diff --git a/old/63235-h/images/image004.png b/old/63235-h/images/image004.png Binary files differdeleted file mode 100644 index a079123..0000000 --- a/old/63235-h/images/image004.png +++ /dev/null diff --git a/old/63235-h/images/image007a.png b/old/63235-h/images/image007a.png Binary files differdeleted file mode 100644 index 486ddfe..0000000 --- a/old/63235-h/images/image007a.png +++ /dev/null diff --git a/old/63235-h/images/image007b.png b/old/63235-h/images/image007b.png Binary files differdeleted file mode 100644 index cbdc9ba..0000000 --- a/old/63235-h/images/image007b.png +++ /dev/null diff --git a/old/63235-h/images/image008.png b/old/63235-h/images/image008.png Binary files differdeleted file mode 100644 index 9823cf3..0000000 --- a/old/63235-h/images/image008.png +++ /dev/null diff --git a/old/63235-h/images/image009a.png b/old/63235-h/images/image009a.png Binary files differdeleted file mode 100644 index 09fce41..0000000 --- a/old/63235-h/images/image009a.png +++ /dev/null diff --git a/old/63235-h/images/image009b.png b/old/63235-h/images/image009b.png Binary files differdeleted file mode 100644 index b48aa4f..0000000 --- a/old/63235-h/images/image009b.png +++ /dev/null diff --git a/old/63235-h/images/image150.png b/old/63235-h/images/image150.png Binary files differdeleted file mode 100644 index 6db5f95..0000000 --- a/old/63235-h/images/image150.png +++ /dev/null diff --git a/old/63235-h/images/image154.png b/old/63235-h/images/image154.png Binary files differdeleted file mode 100644 index cef38cb..0000000 --- a/old/63235-h/images/image154.png +++ /dev/null |
