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-The Project Gutenberg EBook of Sinapismos, by Zinão
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
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-
-Title: Sinapismos
-
-Author: Zinão
-
-Release Date: April 25, 2020 [EBook #61936]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SINAPISMOS ***
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-
-Produced by Chris Curnow, Júlio Reis and the Online
-Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This
-file was produced from images generously made available
-by The Internet Archive/Canadian Libraries)
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- _Numero 49_
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- _Sinapismos_
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- _Zinão_
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- _Ridendo..._
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- _Sinapismos_
-
- Valença do Minho
- 1889
-
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-
-DUAS PALAVRAS
-
-(A SERIO)
-
-
-Essas paginas são para rir.
-
-Originou-as a curiosidade que despertaram alguns artigos humoristicos,
-publicados sob o titulo de _Ridendo_.
-
-Ha n’ellas referencias pessoaes, como não póde deixar de ser, para que
-os periodos não tenham a aridez dos discursos do sr. conselheiro Adriano
-Machado; mas são referencias á vida social e á parte que n’ella tomam as
-individualidades, que chamo ao tablado da ironia.
-
-Respeito sempre a vida particular e isso que ha de mais nobre e sagrado
-na sociedade—a familia.
-
-O leitor verificará que, na composição dos artigos, segui um processo
-de critica differente do usado, até hoje, nas polemicas litterarias e
-politicas da nossa terra.
-
-Suscitada uma questão, exgottam os adversarios os argumentos mais ou
-menos concludentes, que as suas intelligencias lhes fornecem; depois,
-invariavelmente, vem a critica estulta e pueril da redacção dos periodos,
-sua composição grammatical, ortographia, etc., e conclue-se com as
-allusões á vida particular, em termos de collareja e argumentação de
-viella. Temos visto muito d’isso por cá...
-
-N’essas paginas ha artigos inoffensivos e ha periodos, em que a ironia
-é violenta—desde já o declaro—porque foram inspirados no affecto, que
-a esta terra consagro e no vehemente desejo que nutro, de que ella se
-liberte da ignobil inercia, que a domina e de influencias ridiculas, que
-a amesquinham.
-
-Descarna-se n’elles, com o escalpello do sarcasmo, a parte d’este
-organismo que a podridão ataca, applicando-se, como cauterio, o ridiculo
-e a gargalhada, como desinfectante; mas não influe n’essa operação a
-sensualidade brutal do estripador londrino, ou a ferocidade selvagem da
-sanguinolenta tragedia de Pantin. Ha a insensibilidade e a firmeza de
-pulso, que a Sciencia recommenda ao operador quando, para salvar orgãos
-essenciaes á vida, lhe impõe a immediata extirpação e cauterio violento
-d’outros, que o mal apodrece.
-
-Essas linhas foram, pois, pautadas pela dignidade e nunca n’ellas
-predominou a influencia de resentimentos mesquinhos, ou a intenção de
-referencias offensivas, que seriam torpes, como anonymas.
-
-Eis o meu programma e se alguma vez se desfivelar a mascara do Zinão,
-oxalá que uma erronea interpretação do que se vae ler, não faça afrouxar
-a acção nervosa, que hoje me extende a mão de muitos amigos, que figuram
-n’essas paginas.
-
- * * * * *
-
-Passo a afinar a rabeca.
-
-Valença—Novembro, 1889.
-
- _Zinão._
-
-
-
-
-Aos pobres de Valença
-
-
-Entrevados, paralyticos, cegos, escrofulosos, tisicos, hydropicos,
-
- —Velhos, mulheres e creanças,
-
-que sois o producto dos residuos—_caput mortuum_—da Humanidade e por
-ahi vos arrastaes, penosamente, aos sabbados, disputando, á dentada, o
-magro _chabo_ que ás descarnadas mãos, em publico e notorio arrôto de
-rothschildica generosidade, vos arremessam os poderosos Cresus da nossa
-terra;
-
-—miseros, que tivestes a desventura de ver a luz do dia coada pelas
-frestas da mansarda, quando esses mesmos atomos e moleculas a que deveis
-a vida, atrazando-se, ou adeantando-se no seu labutar constante, podiam
-gerar-vos entre arminhos e flôres, entre aromas e caricias;
-
-—precitos, que dormitaes, tiritando e gemendo com fome, enroscados, como
-cães, na ampla escadaria da Assemblea, em noites de baile e de festa e
-vos vêdes apartados, como reprobos, isolados como hydrophobos, do ruidoso
-e alegre tumultuar da vida, em que ha risos, mulheres formosas, affectos
-e diamantes;
-
-—párias, que a doença algemou ao catre da dôr, e a quem a luz
-formosissima da alvorada vae encontrar no estertor da agonia, nas
-convulsões do soffrimento, nas infernaes torturas da miseria—essa mesma
-luz que desperta e illumina a caravana alegre, quando, exhuberante de
-vida, de mocidade e de prazer segue, ruidosa, ao Faro, para respirar o
-oxygenio das montanhas e admirar as sorridentes paisagens da Natureza,
-d’essa desalmada Mãe, que para vós só teve quadros sombrios, horrores,
-vendavaes de infortunio, abysmos de soffrimento;
-
-—famintos, que espreitaes com olhos soffregos os doirados salões de
-Pantagruel e de Gargantua, e vos sentis deslumbrados com o faiscar dos
-crystaes, alcoolisados com os aromas das iguarias, estonteados com o
-espumar do _Champagne_, até que o lacaio vos atire o osso que o mastim
-disputa, ou vos expulse a chicote, para que a miseria dos farrapos
-nojentos, o fetido dos membros descarnados, a pallidez cadaverica da
-face, não vão perturbar a alegria dos convivas, recordando-lhes que
-ha por este mundo gente que nasce, vive e morre, sem conhecer o que é
-_Champagne frappé, Punch à la romaine, ou Riz de veau à la Tartare_;
-
-—imprudentes, que vos atreveis a bater á porta do Hospital depois das
-oito da noite, como se a Caridade não tivesse mais que fazer, do que
-estar á vossa espera, e por ahi appareceis, depois, mortos nas muralhas,
-com o ventre para o ar, olhos esbugalhados, membros hirtos, esverdeados,
-cheirando mal;
-
-—reprobos, que nem entrada tendes nos templos, onde imaginaes que, por
-lá estar Christo, se egualam as condições, ignorando que o Christo da
-missa do meio-dia não é vosso, mas o dos argentarios que, para illudirem
-a consciencia e satisfazerem as exigencias da vaidade e as apparencias
-da hypocrisia, lhe dão capas de velludo e corôas de oiro; lhe fazem
-companhia nas longas noites do inverno, distrahindo-o com essas immoraes
-bambochatas das Novenas e da Semana Santa, com a somnolenta melopêa da
-padralhada, com as intrigas e confidencias amorosas, com o cochichar
-mordaz do beaterio, que entre _Torres eburnea_ e _Mater castissima_,
-discute a confecção de um vestido da Torrona, ou do Blanco—e lhe fazem
-venias, e batem no peito, e andam por ahi, de porta em porta, ostentando
-cynicamente crenças, que não possuem, crenças, que não comprehendem, a
-pedir em nome de Christo, que é o symbolo do amor e da humildade, os
-_cinco tostões_ da subscripção, quando á mesma hora, infelizes, olhaes,
-soluçando, para a escudella vazia e as creanças vos mordem os peitos,
-porque já não tendes leite, nem o calor da vida...
-
- Velhos, mulheres e creanças,
-
- escutae:
-
-Ahi tendes esse livro.
-
-Lêde-o, ou dae-o a ler. E se entre os ricos e os felizes da vida esses
-periodos não se crystallizarem no oiro da esmola—encontrareis ahi
-lenitivo para os vossos infortunios, porque ficareis sabendo, que nas
-regiões, onde só imaginaes venturas, oiro e risos tambem ha, como entre
-vós, pustulas—da vaidade, aleijões—do ridiculo, febres—da ambição,
-contracções—da hypocrisia, doenças e disformidades mais dolorosas e
-repugnantes do que as vossas, porque não inspiram compaixão nem dôr, mas,
-apenas, tedio, ironia e a gargalhada.
-
-
-
-
-I
-
-O Microbio[1]
-
-
-Tivemos á porta o Microbio.
-
-Eu já o esperava.
-
-A gente, para falar a verdade, porta-se mal cá por baixo e o Padre
-Eterno deve, com justa razão, encrespar as sobrancelhas com uma boa dóse
-de mau humor, quando o globo terraqueo, no seu incessante rebolar por
-essas immensidades, lhe apresentar á vista a formidolosa praça e os seus
-arrabaldes.
-
-Aquelle nefando e escandalosissimo caso, que tanto alarmou a fé das
-christandades e a religiosidade das beatas da nossa terra—a prisão
-da Santa, arremessada aos baldões para os ferros de El-Rei e para a
-jurisdicção autocratica do Borralho, de sucia com os desobedientes e
-reaccionarios philarmonicos de Ganfey—deve tel-o incommodado seriamente.
-
-Mas ha mais. É recente outro caso mais escandaloso ainda, que aqui, á
-puridade, vou referir.
-
-Na vizinha villa de Monsão perpetrou-se, ha pouco, um gravissimo
-attentado contra a Moral, contra o respeito ás coisas sagradas e
-seriedade das nossas crenças religiosas.
-
-Ao que parece, o conspicuo Senado não prestou a devida attenção á guarda
-da Santa Coca e esta, já enfastiada com as interminaveis polemicas e
-diatribes dos srs. padre Simão, Caetano José Dias e outros respeitaveis
-jornalistas, escapou-se á sorrelfa, internando-se nas terras da Galliza
-até Redondella, onde foi visitar a Coca da localidade.
-
-Ora, segundo se conclue, esta era de sexo differente e, de incestuosa
-copula, resultou uma Coquinha, que os nossos bons vizinhos tiveram
-a imprudencia de apresentar em publico na ultima procissão de
-Corpus-Christi, com grande gaudio dos atheus e suprema indignação do
-ferrador da localidade, contractado para S. Jorge, que, em altos brados,
-reclamava maior salario, visto que ajustára a lucta contra uma só Coca e
-não contra duas!
-
-E permitti que vos diga, respeitavel Senado monsanense, á fé de
-Deu-la-deu, que foi incorrecto o vosso proceder! Contra Cocas com familia
-deve-se, indubitavelmente (as pandectas o determinam, artigo 1:007),
-pagar mais caro o S. Jorge.
-
-Ora, com todos estes desacatos, repito, o Padre Eterno deve trazer-nos de
-ponta e claro é que, mais tarde ou mais cedo, cá teriamos o castigo:—ou
-qualquer das pragas do Egypto, ou nova Exposição de Rosas, ou novo
-consulado do João Cabral, ou mais dois falladores, como os srs. Abilio e
-Leopoldo.
-
-Do Mal, o menos. Veio o Microbio.
-
-As planicies do Ganges já deram o que tinham a dar. O Egypto, a India, a
-China, a America Central são insupportaveis n’esta epocha, com as suas
-elevadissimas temperaturas. O Microbio é d’uma organisação especial, que
-dispõe de todos os recursos para facil e rapida locomoção; anda sobre as
-aguas, como Ulysses, de chinelos de liga, e no ar, como nós, no sobrado
-das nossas casas. Requereu, pois, licença para uma viagem ao extrangeiro
-e o Padre Eterno, extendendo o index, indicou-lhe o caminho.
-
-Microbio preparou-se convenientemente com repetidas abluções
-hydroterapicas, como o sr. Albino; abotoou o seu guarda-pó; sobraçou o
-guarda-chuva; despediu-se da familia e, de mala de viagem e guia Baedeker
-na mão, atirou-se cá para o Occidente e parou em Vigo.
-
-Pelas condições economicas da viagem, que não teve caracter official,
-nem reclamos, nem discursos de congratulação dos Presidentes das Camaras
-e das Juntas de Parochia, este Microbio deve ser differente, do que
-visitou a Hespanha em 85. Deve ser um Microbio burguez, pacato, com
-inscripções, rheumatismo e dinheiros a juro; talvez Juiz de Paz, ou
-quarenta-maior contribuinte do seu concelho; deve usar suspensorios,
-botas de cano; tomar rapé e dormir com barretinho de algodão; deve ser um
-Microbio sensato, austero e de bons costumes; de principios e convicções
-firmes, assim como o sr. Agostinho; bom chefe de familia, temente a Deus,
-inimigo de _Malzabetes_ e de romarias, onde qualquer Pau-real amolga
-impunemente a massa cerebral, ou a mioleira da humanidade.
-
-Em Vigo apresentou-se, pois, modestamente com um pequeno sequito de
-gastrites, gastro-enterites e algo de typhos; mas apesar do incognito
-rigoroso e da modestia d’esta apresentação, souberam da sua chegada, em
-Lisboa, os conspicuos Membros da Junta de Saude.
-
-Aquelles respeitabilissimos Esculapios, Argos vigilantes, a quem estão
-confiadas as nossas existencias, aborrecidos já da longa inacção em que
-vivem desde 1851, limitados a rubricar diariamente o fornecimento dos
-cemiterios da capital, de que se encarregam com inexcedivel pontualidade,
-arregalaram, de jubilosos, os olhinhos, vendo em perspectiva um Microbio
-legitimo, genuino, naturalisado americano pelo sr. dr. Arezes. Tocaram a
-rebate no paiz.
-
-Os pharmacópolas açodaram-se em abundantes preparativos de tonicos,
-diaforeticos e antisepticos.
-
-Koch, Pasteur, Brouardel, Proust, Fauvel, Ferran, Raspail foram
-consultados em laboriosas vigilias.
-
-As tropas, emocionadas pelo santo amor da Patria, prepararam-se para o
-holocausto no Cordão sanitario,—que tão boas libras produziu em 1885.
-
-Os amanuenses, prevendo uma valente _razzia_ entre os chefes cacheticos e
-tropegos, saboreavam as delicias d’uma rapida promoção.
-
-Maridos, com vida atribulada, suspiravam voltados para o septentrião...
-Tudo se preparava, emfim, para receber o Microbio.
-
-Entretanto, palitava elle a sua ociosidade, em Vigo, com alguns
-artilheiros, que ainda se não sabe, ao certo, se foram victimados pela
-febre, se pela gangrena originada no _excesso de limpeza_, em que
-viviam...
-
-Informado dos preparativos, que no nosso paiz se faziam para o receber,
-Microbio Bacilla malhumorou-se.
-
-Antipathizou com a calva luzidia do sr. dr. Meira, encarregado
-officialmente de o saudar em nome do governo lusitano.
-
-Alterou repentinamente o itinerario e... foi-se.
-
-Lá desappareceram com elle as fagueiras esperanças dos amanuenses, dos
-maridos infelizes e as cóleras dos senhorios de Valença, que em 85 foram,
-violenta e despoticamente, espoliados dos seus direitos de propriedade
-por um governo futre e poucaroupa, que teve o descaro de pagar, como
-aluguel de nove mezes, uns miseros centos de mil reis, que representam o
-dobro do valor das propriedades.
-
-Lá desappareceram as rações de 1.ª classe e aquellas encantadas folhas
-de kilometros, que deram aos tropegos membros locomotores de amigos
-meus, obesos e adiposos, a agilidade e ligeireza do mais leve e reputado
-andarilho...
-
-D’esta vez, ainda, déste xaque-mate ao Padre Eterno, oh grande doutor
-Lourenço!
-
- * * * * *
-
-Augustus Sampaius, senhor da Balagotia; Intendente geral dos serviços
-phyloxericos, digo,[2] antimicrobicos da fronteira; Commissario geral
-dos inoffensivos Cerberos da policia concelhia e, como tal, terror dos
-Troppmans e Jacks adventicios; Chefe da Repartição do expediente do sr.
-Administrador (que Deus Guarde); Director da Repartição Municipal de
-Hygiene e Secção annexa das toleradas, artes _julianas_ e _valladicas_;
-Inspector do serviço das bombas e de segurança publica; Fiscal dos pesos
-e medidas; Secretario perpetuo das Juntas de Parochia; Orçamentologo
-official das Confrarias e Irmandades sertanejas; Irmão do SS. Sacramento;
-Mesario e Ex-definidor da Santa Casa da Misericordia; Mordomo da
-Senhora do Faro, da Senhora Santa Luzia milagrosa e outras Senhoras
-d’aquem e além mar, terras da Urgeira e Taião; Mestre de cerimonias
-nas contradanças lithurgicas das nossas festas de Egreja: Estatistico
-distincto dos fogos, productos, criminalidade, bipedes e quadrupedes do
-Concelho; Numismatico abalisado; Agricultor emerito; Actor consummado;
-phantasista original e querido das damas, em debuxos de lettras para
-lenços de namoro—homem que representas, na vida social da nossa terra,
-a mais completa e complexa, a mais genial expressão da actividade
-humana—Augustus Sampaius, senhor da Balagotia—eu te saudo!
-
-Ao fallar no Micobrio, que tanto apavorou os conspicuos Esculapios da
-Junta de saude, e que tão ridentes esperanças fez agora despontar, no
-horisonte ennublado de muitas finanças oscillantes, eu não posso esquecer
-o teu nome, porque foi a ti, ao teu provado zelo, assaz reconhecida
-sollicitude, desempenada actividade que a Patria, eu e a minha prole
-devemos a desejada immunidade do terrivel Bacilla, na campanha de 85.
-
-Commove-se-me profundamente a alma; inundam-se-me os olhos de lagrimas;
-sensibilizo-me, como se te ouvisse no palco com as lamentações de pae
-tyranno e infeliz; foge-me dos labios o riso, como se te aturasse o
-_espirito_ n’essas libertinas extravagancias a que te dás no Carnaval,
-encadernado de _princez_, ou á _antiga_, com os ouropeis e a farrapada do
-teu guarda-roupa—(boceta pandorica de frioleiras e de traça)—percorrendo
-as casas sérias, com grande gaudio das matronas do teu tempo e abundante
-colheita de mystificações, intrigas, pançadas de riso, chavenas de chá e
-tostas com manteiga—quando me recordo, oh Balagotio illustre, dos teus
-serviços no cordão sanitario!
-
-Noites tempestuosas que passaste; asperezas do inverno; longas
-caminhadas; chuva, vento, frio, fome e sêde; graves perturbações nas
-funcções digestivas; fraqueza nas contracções peristalticas, occasionando
-incommodas e demoradas accumulações no cœcum; nas longas noites de vigia,
-ao avizinhar-se vulto sombrio e suspeito, afrouxamentos instantaneos
-do _sphingter_ com defecações abundantes, enfraquecedoras; fartas
-exhalações de acido carbonico e hydrogenios carbonado e sulfurado—e
-tudo isto pelo amor da humanidade, provocado pelo mais desinteressado
-altruismo, inspirado na mais acrisolada philanthropia e, depois ainda,
-aggravado com os arrancos da tua dyspepsia chronica e com a ingratidão da
-Patria de quem, contrariado, espezinhado na pureza dos teus sentimentos
-humanitarios, tiveste de receber, a _fortiori_, umas mesquinhas dezenas
-de libras!
-
-Tu, Balagotio amigo, engrossaste o longo martyrologio, da Patria.
-Salvaste-a e continuas ahi esquecido, ignorado, com a tua dyspepsia e o
-teu barretinho de seda preto, condemnado a um eterno roçar de canhões
-do casibeque na mesa da Administração, sem uma commenda, sem veneras
-hespanholas, que se vendem ao alqueire, sem um viscondado sequer!
-
-Mas eu, conterraneo illustre, não serei tambem ingrato. Já que esse
-_Zé Barros pequenino_ foi insensivel aos vehementes protestos do teu
-amor, e te não fez Commissario das Policias, com pingue gratificação de
-categoria; já que o teu Chefe no Cordão se não compadece dos olhinhos de
-ternura e piedade, com que tu, cem vezes por dia, lhe fitas a janella, eu
-te protegerei, cidadão benemerito e prestantissimo.
-
-Tu soffres. Essa dyspepsia cruel, quando se não fala em Microbio, mina-te
-a existencia, curva-te o tronco, descora-te a face, dissemina no teu
-organismo os germens de uma anemia lenta e perigosa.
-
-Brown Sequard nada te póde fazer.
-
-A Deus nada posso pedir a teu favor, porque tu tambem foste connivente,
-com esse feroz Attila do Registro predial, na prisão da Santa.
-
-Nada temos a esperar do Céo, mas recorremos ao Olympo, que outr’ora fazia
-tão bons milagres, como o Senhor S. Campio, que sua uma vez por anno, ou
-a Senhora da Cabeça, que, para mostrar competencia na cura de fracturas
-da dita, reune traiçoeiramente na sua festa, quantos caceteiros comem
-boroa e feijão, por estas boas vinte leguas em redondo.
-
-Pois bem! Que Jupiter ouça os meus rogos. Já que as delicadissimas
-funcções do teu organismo te consentem apenas o leite, como alimento, que
-Elle te mande Io, para que tu, nas suas cem tetas, possas de noite e de
-dia chupar a vida, novas forças, novos elementos e os teus tecidos tomem,
-a breve trecho, a salutar obesidade do sr. João Ignacio, do saudoso
-doutor Pacheco, ou do nosso prestantissimo deputado, o sr. Visconde da
-Torre!
-
-Setembro 1889.
-
-
-
-
-II
-
-Passe-Calles
-
-
-Oh Justininho!
-
- dá cá o braço...
-
-Ora aqui tem V. Ex.ª um rapaz, que se o Marianno não atira para o Pico,
-era muito capaz de se guindar ao pico da popularidade, cá na terra.
-
-Ainda não conheci quem mais sympathias tivesse entre Clero, Nobreza e
-Povo; mas tambem, ainda não conheci rapaz mais sensato, conciliador e
-serviçal.
-
-Para chamar á paz um casal amuado; para prégar Moral ás creadas de
-servir; para uma visita de pesames, a rigor, com o _resigne-se V. Ex.ª
-com a vontade do Altissimo_ engatilhado; para dirigir um baile nos
-_tricanés_; para entreter senhoras nas reuniões da Semana Santa, em S.
-Estevão, ou nas do Carnaval, na Assemblea; para acompanhar familias
-á missa das onze; para representar a Associação artistica; para umas
-funcções serias de secretario (tinha o monopolio); para a descripção d’um
-baile no _Mensageiro das salas_; para dirigir a eleição das comadres, a
-coisa mais redondamente patusca e interessante, que gentes da Coroada
-teem produzido—não ha, não houve, nem nunca haverá quem o eguale.
-
-Quando passava na rua de S. João, todo tesinho e perliquitetes, apesar da
-magreza e do nariz, diziam d’elle
-
-as meninas—é muito engraçado,
-
-as mamãs—é muito sympathico.
-
-os papás—é muito bom moço.
-
-os velhotes—é... é... é... o Justininho.
-
- * * * * *
-
-Estava nos bailes como em sua casa. Só tinha um defeito para homem de
-sala: dançava pouco e mal.
-
-E eu digo porque.
-
-N’um baile da Assemblea reuniram-se, em quadrilha de _Lanceiros_ (a
-mesma que David dançou ao pé da Arca) os srs. dr. Lopes, dr. Ladislau,
-Padre Cunha e Justininho.
-
-Justininho gostava de florear nas marcas. Ordenou um _chevaliers au
-milieu_, e os quatro Cavalheiros, enthusiasmados com as damas, com a
-musica, com as luzes e com as flôres, avançaram com _ropia_.
-
-Eu não sei bem, como aquillo foi. O que sei, é que se chocaram, que
-se enarigangaram, e de tal fórma foram abalados os respectivos e
-respeitaveis vomeres e cornetos, que o sangue espirrou, e os quatro
-Cavalheiros foram retirados, em braços, da sala.
-
-As senhoras desmaiaram. O baile acabou.
-
-Foi o diabo.
-
-D’ali em deante, tanto o sr. dr. Lopes, como o sr. Padre Cunha e o
-Justininho (V. Ex.ª deve ter notado isso) dão-se pouco a danças. Quem
-continuou foi o Ladislau, porque esse, no tremendo choque foi o mais
-feliz. Como é pequeno e de baixa estatura, o seu nariz não abalroou com
-os outros; roçou no umbigo do sr. Padre Cunha e enfraqueceu o choque.
-
-É verdade: aqui está mais uma vantagem que a gente tem, em dar falta ao
-estalão.
-
-E ainda o sr. dr. Pestana se entristece e zanga, quando o alfaiate lhe
-pede noventa centimetros para umas calças, e lhe assevéra, que não
-necessita de um metro e dez, como os outros senhores!
-
- * * * * *
-
-Sou amigo do Justininho, mas já lhe roguei uma valente praga; e talvez
-fosse por isso, que elle _tocou rabeca_ com o Pereira.
-
-Eu conto o caso, porque não é de segredo:
-
-Lavrava por ahi essa epidemia, peor do que cem microbios, das charadas.
-
-Nas Assembleas, nos Clubs, nas lojas, nas mercearias, nas boticas e nas
-nossas casas, não se tratava d’outra coisa.
-
-O Almanach de Lembranças, essa escarradeira de quanto semsaborão existe
-n’estes reinos, ilhas adjacentes, terras do sabiá e da Tijuca, espalhára,
-por toda a parte, os germens da maldicta mania.
-
-Havia enigmas; charadas antigas, novas, novissimas, com premio, sem dito,
-em prosa e em verso; de—nas costas—1, sem indicação syllabica; emfim, de
-toda a raça e feitio.
-
-Descobrira-se, que para espalhar o flato e para aquecer os pés, no
-inverno, não havia melhor remedio do que: charadas, quino e _trinta e um_
-de bocca.
-
-Justininho deve uma boa parte da sua popularidade, entre as damas, á
-facilidade com que _matava_ charadas. Em se lhe dizendo:
-
- O que é, que é
- Que toca de dia
- No alto da torre
- de Santa Maria?
-
-respondia logo, immediatamente:
-
-—É um sino.
-
-Ora, uma noite,—isto foi, talvez, ha doze annos—estava eu á mesa do
-trabalho com a familia.
-
-Minha mulher fazia meia. Minha sogra lá estava com as charadas.
-
-O rapaz mais novo—o Toneca—estudava a licção de francez. O outro—o
-Zéca—andava com a Avó á cata de decifrações.
-
-Eu estava a turrar com somno, mastigando entre bocejos, uns periodos
-muito alambicados, em fórma de lambedor, com que Justininho descrevia um
-baile, no folhetim do _Noticioso_.
-
-Soavam todos aquelles estafados bordões de—gentilissimas
-damas—corações feridos—sorrisos angelicos—amores—gruta dos
-ditos—arrufos—horas fugitivas—recordações saudosas—rainha do
-baile—reticencias—etc.—etc.—etc.—.
-
-V. Ex.ª deve conhecer tudo isto, porque de mil bailes, que tem havido em
-Valença, appareceram mil descripções eguaes.
-
-São como os necrologios do sr. Verissimo de Moraes. Estão sempre
-promptos. A questão está em se dar o nome do perecido. Ás vezes, ha o
-seu engano, mas escapa.
-
-Por exemplo:
-
-Ha annos, morreu n’esta villa um velhote com 90 janeiros.
-
-Estomago fraqueiro e arruinado, atacára á noite uma pratada de arroz com
-lampreia e... arrefeceram-lhe os pés.
-
-Tambem, foi uma infelicidade, porque, se o sr. dr. Pacheco (diga-se a
-verdade) chega mais cedo uma hora, o homem, em vez de morrer ás 10,
-arrefeceria ás 9.
-
-No dia seguinte, dizia o _Noticioso_:
-
-«_Mais um anjo, alando-se para as ethereas regiões, fugiu hontem da
-terra, roubado cruelmente, pela terrivel Parca, aos affectos dos seus
-carinhosos paes._
-
-_Polycarpo Bezerra, aquella encantadora e gentil creança, que era o
-enlevo_... etc.»
-
-Ora, Policarpo Bezerra, era exactamente a _creança_ de 90 janeiros, que a
-lampreia victimára! Os barbaros dos typographos, se haviam de aproveitar
-a chapa dos adultos, serviram-se da que havia para as creanças.
-
-Isto succede.
-
- * * * * *
-
-Mas, como estava dizendo, eu turrava com somno, á espera do chá.
-
-De repente, levanta-se o Zéca e diz:
-
- Oh Papá! Que é, que é
- Que, pela calada,
- Gosta de dar
- O Marquez de Vallada?
-
-—_Cou_,[3] diz o Toneca, que acabava de tirar no Diccionario a palavra
-pescoço. (Só o soube depois).
-
-Levantei-me indignado, enfurecido com aquelle enorme desacato á Moral e á
-Decencia, praticado nas minhas barbas!
-
-A decifração da charada foi immediata e violenta para os rapazes: duas
-valentes bofetadas!
-
-Indignação geral da familia. Minha sogra levanta-se irada e chama-me
-tyranno!
-
-Retorqui-lhe que aquillo era escandaloso, antimoral e era uma falta de
-respeito á gente graduada, porque o sr. Marquez era um Marquez, estava no
-seu direito de dar o que quizesse, e ninguem tinha que lá metter o nariz.
-
-Augmentou o barulho, porque os rapazes, defendidos pela mãe e pela avó,
-cada vez berravam mais.
-
-Levantou-se minha mulher, chamou-os, e lá foi tudo a chorar.
-
-No dia seguinte, minha sogra, fiel ás tradições, quiz requerer o
-divorcio. Andei amuado oito dias. Data, até, d’essa occasião, o meu
-reconhecimento á Isabelinha, creada de sala...
-
-Só quando fiz as pazes com minha mulher, é que conheci a origem da
-resposta do Zéca e a coincidencia do _significado_.
-
-O Toneca, como é mais agarotado, lêra o _Pimpão_ e appetecêra-lhe tambem,
-sem saber o que dizia, _metter_ a sua farpinha no senhor Marquez.
-
-Mas, tudo isto não teria succedido, se não fosse o diabo do folhetim e se
-o Justininho não tivesse a mania de chroniqueiro de saias.
-
-Veja V. Ex.ª, como se perturba a paz d’um lar e o socego d’uma familia
-honesta!
-
- * * * * *
-
-Mas, effectivamente, o Justininho, para charadas, era d’uma perspicacia
-sibyllina. Como elle, só a Sociedade charadista dos Terriveis de Villa
-Real.
-
-A gente reunia-se á noite na Assemblea. O Club, n’esse tempo, estava
-ainda no embryão das sociedades pacatas, porque o sr. dr. Pacheco, se bem
-que já andasse, como o povo diz, com a barriga á bocca, ainda o não tinha
-dado á luz.
-
-Ou se faziam charadas, ou se jogava o quino. Duas distracções innocentes
-e engraçadissimas! Que saudosas noites! Que piadas! Que pilherias e
-facecias!
-
-Que espirito fino, alegre, saltitante, amenisava aquellas horas!
-
-Quem mexia sempre nas bolas era o Melim. Uma mania como outra qualquer.
-
-Cartão, dez réis; _corda_, sessenta réis.
-
-Marcava-se a feijão carrapato.
-
-Quem recebia as pagas, dava os trocos e quebrados, era o sr. Agostinho.
-
-Cada _quinada_ era recheada de surpresas, ancias, esperanças e decepções!
-
-—Trinta e tres, dizia o Melim.
-
-—Annos de Christo, exclamava sr. João Ignacio, erguendo-se, todo
-contentinho, para gosar o effeito da pilheria.
-
-Andavamos aos tombos com riso, e quem poderia resistir?
-
-—Vinte e dois!
-
-—Patinhos a nadar—berrava o sr. Baptista.
-
-Ai que demonios aquelles! A gente até chorava!
-
-—Trinta e sete!
-
-—João Pimentel Castanheira—lembrava o sr. Elias.
-
-Não se podia continuar; estava decidido! Pois se até a ceia nos queria
-trepar á bocca!
-
-—Venha a precisa, ó vizinho e chegue-se cá, que quero bulir nas bolas,
-dizia o sr. dr. Pacheco.
-
-—Oh diabo! Isso não, que podem ver as irmãs da Caridade, aconselhava eu,
-sempre prudente e cauteloso.
-
-—Sessenta e seis!
-
-—Quinei!—berrava o sr. escrivão Brito.
-
-—Ora sebo!—murmurava tristemente o sr. dr. Evaristo. E eu que já tinha
-cinco quadras! Bem se vê, que os padres não nasceram para trabalhos com
-bolas.
-
-Estavamos todos tristes, como a noite.
-
-—Alto! Foi rebate falso. Siga!—dizia o sr. Brito todo rejubilante pela
-facecia, e casquinando frouxos d’aquelle seu riso, tão patusco e tão
-original: ki-i, ki-i, ki-i...
-
-Afinal, quem quinava sempre era o Leopoldo. Este diabo, lá com os
-capellães arranja-se sempre bem...
-
- * * * * *
-
-Reunia-se, pois, gente fina e perspicaz.
-
-—o Veiga, que viu no Jardim das Plantas uma _ziboia_, com sessenta metros
-de comprimento;
-
-—o Izidoro que, como V. Ex.ª sabe, descobriu as aguas de S. Pedro, é
-amigo do amigo Lopo e tem a Grão-cruz da Sociedade de Geographia e da
-ordem do Sol, do Japão;
-
-—o Serrão, que viu um comboyo, que levava dez regimentos de infanteria,
-dez de cavallaria, oito de artilheria, um de engenharia; tudo em
-armas, officiaes a cavallo, etc., etc. (Isto foi no tempo d’uma guerra
-qualquer).
-
-—o Machado, que, assistindo a um baile da Assemblea até ás duas horas da
-madrugada, apparecia, ás cinco, na praia d’Ancora; lá ao longe, entre as
-brumas do mar, dentro d’uma bateira, e já em regresso da ilha da Madeira.
-
-—o Maximino, que sem perceber uma palavra da lingua de Milton, encontrou
-uma _ingleza_, com quem se entendeu muito bem.
-
-—o Leopoldo, que viu e apalpou os pendulos e o ponteiro do relogio, que
-ficou entupido, nas alturas do coccyx, ao larapio da rua do Ouvidor.
-
-—o Abilio, que conheceu o pae da mãe, do tio, do pae do dito larapio—Rua
-da Quitanda, 23, sobreloja.
-
-Emfim, tudo gente fina e perspicaz.
-
-É verdade: tambem lá estava sua Excellencia, o Senhor Governador e sua
-Excellencia, o Senhor Vice.
-
-Na Academia real das Sciencias não havia melhores cabeças; nem na Camara
-dos deputados, se exceptuarmos os srs. Oliveira Mattos e Visconde da
-Torre.
-
- * * * * *
-
-Para arranjar charadas, quem tinha mais gosto e geito era o sr. Polycarpo
-Monteiro. Pelos modos, carteava-se com o mano de Lisboa, a tal respeito.
-
-Elle pensava um pouco e dizia:
-
- Que é, que é
- Que faz: pum! pum!
- Quando lhe arrima
- O Vinte e um?
-
-Justininho escrevia, logo, qualquer coisa n’um papelinho; collocava-o
-debaixo do seu chapéosinho e... sorria.
-
-Nós andavamos ás aranhas.
-
-Tira d’aqui, põe acolá...
-
- Nada!
-
-O Senhor Governador, forte em Mathematicas, punha logo o caso em equação:
-
- 2 pum + 21 = _x_
-
-tirava os logarithmos, deduzia todas as formulas da triangulação:
-
- Nada!
-
-O sr. Zagallo, que não estava para contas, lembrava-se dos nomes de todas
-as terras de Hespanha, por onde transitou no tempo das guerras...
-
- Nada!
-
-Ninguem falava. Ouvia-se o zunir d’um mosquitinho.
-
-De repente bradam duas vozes:
-
-Adivinhei!
-
-—É o chapéo alto do meu subordinado Durães—dizia o sr. Borges.
-
-—Não é, não senhor. É um chapéo, mas o do sr. Monteiro, dizia o Senhor
-Vice-Governador, que já, n’aquelle tempo, era o homem mais fino cá da
-terra.
-
-É! Não é! Levantou-se uma questão dos demonios.
-
-—Fala o Justininho!—bradamos nós, como quem recorre a um Juiz.
-
-Justininho abriu o papelinho e mostrou, sorrindo:
-
- Zabumba!
-
-Rompeu nova celeuma. Ninguem queria ceder. A final, depois de muito
-berrar, descobriu-se que todos tinham razão.
-
-Havia alli um caso, como o da Santissima Trindade: tres pessoas
-distinctas e um só Deus verdadeiro. Eram tambem tres coisas, todas
-distinctas, todas eguaes e uma só verdadeira: o zabumba—do Justininho.
-
- * * * * *
-
-N’outra noite, o sr. Polycarpo, entrou na Assemblea, muito contente, e
-esfregando as mãos, debaixo do seu chale-manta.
-
-Trazia uma charada muito difficil, que lhe levára seis horas a compôr.
-
-O sr. C. Barros offereceu logo, como premio, um exemplar do seu drama:
-_Marilia_, ou a _Moira dos bosques_.
-
-Reuniu-se o povo todo, e ouviu:
-
- Quem é, quem é,
- Que faz a desobriga
- E, sendo capellão
- Tambem é rapariga?
-
-Esta, é que nos deu agua pela barba. Fazer de homem e de mulher, é que
-nunca podemos comprehender.
-
-O maroto do Leopoldo, esse, parece que a percebeu. Sorriu-se, porque
-tinha entrado n’aquella occasião e, pelos modos, vinha de se confessar...
-
-Trazia no chale-manta palheiras da muralha...
-
-Foi o Abilio, que o traz de ponta, quem descobriu isso.
-
-Ninguem matou a charada, mas desconfio que alli andou tambem influencia
-do premio... Parece-me que afugentou um pouco as ideias.
-
-Isto é mera supposição.
-
- * * * * *
-
-Depois d’essa, appareceu outra do sr. Zagallo, mas _matou-se_ logo. Foi:
-
- O que é que é
- Que dá _sól_ e _dó_
- E se o Cruz lhe bufa
- Faz: Pó, Pó!
-
-V. Ex.ª certamente, já adivinhou.
-
-É um _figle_. Não teve graça.
-
-Pois o sr. General podia apresentar coisa melhor. Bastava que nos
-dissesse:
-
- Ora digam cá,
- Sem hesitar
- Se hoje na camara
- Occupo logar?
-
-Claro é que ninguem responderia, a não ser que se verificasse o conteudo
-do mais recente, do que tivesse ainda a tinta fresquinha, dos officios
-com que sua Ex.ª, oito vezes por mez, participa ao Senado que,
-
- por motivos justificados—sahe
- que,
- por justificados motivos—entra
- e vice-versa
- e versa-vice.
-
- * * * * *
-
-Este sr. Zagallo, na Camara, lembra-me o Conego Vaz.
-
-Eu fui sempre muito agarotado e por isso me não admirei, do que queria
-fazer o Tonéca ao Marquez de Vallada. Se por ahi houver alguma mamã, com
-filha casadoira, disponivel—francamente—que não tenha saudades da minha
-pessoa, porque lhe não serviria, ainda que fosse _numero um_.
-
-Quando não podia dar a minha _gazeta_ á aula do Conego, escapava-me
-sempre que podia, cá para fóra, para a muralha, onde os Guerreiros e os
-Garções jogavam o pião e o _escabicha_.
-
-Juntos, eramos insupportaveis. O Ignacio Soares e o Zé, quando passavam
-por nós, tiravam com todo o respeito o seu chapéosinho e tratavam-nos
-por Excellencia, mas ainda assim, levavam o seu puxão de orelhas porque,
-quando estavam encarrapitados na varanda de ferro, e se lhes dizia cá de
-baixo:
-
- Presos como os macacos!
-
-cuspiam, e atiravam com botas velhas.
-
-O Zé, hoje é homem de genio e palpita-me que, na Politica, ainda chega a
-ser importante; mas n’aquelle tempo andava com o _hora, horae_, e isto de
-latim é coisa, que debilita muito a gente.
-
- * * * * *
-
-Como estava dizendo, quando me juntava aos Guerreiros e aos Garções,
-andava tudo, por ahi, n’uma dobadoira.
-
-Pelo Maio, já tinhamos organisado uma inspecção rigorosa á producção do
-concelho.
-
-Era-mos, assim, uma especie de agronomos.
-
-Se nos perguntassem:
-
-Quem é, que n’este anno vem a ter:
-
-melhores peras?—o Chico Veiga.
-
-melhores melancias?—o Boticario.
-
-melhores melões?—o Ascencio.
-
-melhores uvas?—O senhor José Rodrigues.
-
-A este senhor José Rodrigues sempre tivemos muito respeito. Quando, por
-acaso, nos encontrava perto do Prazo, ou da Boavista, (a gente, já se
-vê, andava a _passear innocentemente_) falava logo em tiros, mortes,
-carabinas, punhaes, ratoeiras, facadas, cães de Castro Laboreiro... o
-diabo!
-
-Por isso, não era como os outros:
-
- o Chico Veiga,
- o Boticario,
- ou o Ascencio;
-
-era: o Senhor José Rodrigues.
-
-A final, foi sempre um santo, e pagava o seu tributo em bellas uvas e
-bons melões, como os outros.
-
-Eu falei no boticario...
-
-Era assim nos outros tempos, mas hoje é camarista e chama-se—o sr.
-Fontoura.
-
-Este senhor é que nos pregou um susto! Eu conto, se não me torno massador
-para V. Ex.ª
-
- * * * * *
-
-As propriedades, como disse, estavam debaixo da nossa vigilancia
-permanente.
-
-Logo que a uva principiava a pintar, a pera a mudar de côr, a melancia a
-ganhar casca—dava-mos assaltos medonhos!
-
-Uma vez, combinamos o ataque ás melancias do sr. Fontoura. Ainda estavam
-verdes, mas duas, ou tres, principiavam a carregar na côr.
-
-O calor abrazava. Era necessario ser um Santo, para resistir á tentação.
-
-Á hora combinada, entramos na propriedade, cautelosamente,
-sorrateiramente, como quem anda aos grillos.
-
-Tinhamos, já, duas melancias cortadas e tratava-mos de metter a unha, em
-certa parte das outras (de que eu não digo o nome, porque póde ser lido
-por senhoras) para verificar se estava molle ou rija, quando ouvimos
-gritos de _agarra! agarra!_ e logo, após, o estampido d’um tiro!
-
-Eu não posso explicar o que succedeu. Parece que nos agarraram pela golla
-da jaqueta e nos levaram, pelo ar, até á Esplanada!
-
-Alli paramos, porque já não havia ar no mundo para os nossos pulmões.
-Consideramos no caso...
-
-Apalpamo-nos cuidadosamente, demoradamente. Estendemos primeiramente uma
-perna; depois outra; depois um braço.
-
-Cuspimos. Passamos a mão pela cabeça.
-
-Não havia sangue.
-
-Serenamos. Voltou-nos a voz.
-
-Só então verifiquei que, no auge da afflicção, _sem querer_, tinha
-trazido as melancias!
-
-Não estava tudo perdido. O que é o instincto da conservação!
-
-Ainda nos incommodava a ideia, de que o sr. Fontoura fosse fazer queixa
-ás familias—o que significaria uma valente tapona.
-
-Felizmente não succedeu isso, porque elle, no auge do seu furor, (do qual
-V. Ex.ª pode fazer idea, quando o ouve ameaçar céos e terra, clamando, á
-porta da pharmacia, contra os seus devedores) não nos conheceu.
-
-Parece que Deus não o dispoz para a nobre carreira das armas, porque, ao
-apontar a espingarda, fez como os pretos e os soldados brazileiros—voltou
-a cabeça.
-
-Quando novamente olhou, diz elle, que só viu fumo. Não era só fumo; eram
-nuvens de pó, que nós levantavamos.
-
-Eu contei agora este caso, porque somos todos de maioridade, paes de
-filhos, eleitores, elegiveis, e já não temos receio de tapona em casa.
-Mas, até hoje, tem estado debaixo d’um certo segredo.
-
-Como d’aquelle endiabrado rancho sahiram tão bons paes de familia, é que
-eu não sei.
-
-São effeitos da edade.
-
-A gente muda muito.
-
-Eu conheço pessoas, que na juventude faziam o que podiam. Chegaram,
-mesmo, a dar nome; e que agora, sendo uns santos, em certas occasiões
-embicam com qualquer coisa, e nem sequer consentem, que no theatro se
-aqueçam os pés.
-
-Isto vae tambem muito dos genios... e dos corações.
-
-São como Deus os quer.
-
-Valha-me Nosso Senhor Jesus Christo...
-
- * * * * *
-
-Mas, veja V. Ex.ª como eu perdi o fio ao discurso! Tudo isto veiu a lume,
-para dizer que o sr. Zagallo, na Camara, me lembrava a aula do Conego Vaz.
-
-Eu queria-me safar, como disse, e, volta e meia, dizia ao Conego,
-levantando o dedo:
-
-—Senhor Mestre, dá licença de ir lá fóra?
-
-O Conego, ou dizia: vá,—ou:
-
-—Está lá gente.
-
-Mas aquillo tanto vez se repetia, que o Conego principiou a desconfiar
-que era doença, como teve o sr. Sampaio nas noites do cordão sanitario,
-doença que tanto dinheiro deu a ganhar á lavadeira...
-
-Uma vez disse-me elle: Oh, senhor! Eu não sei para que cá vem. Nunca
-tenho a certeza se o senhor está fóra, ou dentro. Ao menos, quando sahir,
-deixe aqui ficar um papelinho.
-
-E foi d’este papelinho que me lembrei, com os officios do sr. Zagallo.
-
- * * * * *
-
-Voltemos ao Justininho.
-
-Justininho escrevia nas gazetas. Inventou o _Mensageiro das salas_,
-aquella interessante secção, que eu nunca deixo de ler, em todos os
-jornaes, porque é muito mais barato remedio, do que o Sedlitz Chanteaud.
-
-Foi tambem elle, quem arranjou as seguintes classificações para as
-differentes posições sociaes:
-
- Juizes integerrimos.
- Delegados meritissimos e dignissimos.
- Medicos habeis.[4]
- Negociantes probos e honrados.
- Bispos e Padres virtuosos prelados.
- Proprietarios abastados.
- Cavalheiros de fino trato.
- Officiaes do exercito illustrados e briosos.
- Galopins eleitoraes valentes candilhos.
-
- Meninas galantes.
- Noivas gentis e encantadoras.
- Senhoras solteiras gentilissimas damas.
- ditas casadas virtuosas esposas.
- ditas viuvas inconsolaveis.
- Quarentonas interessantes senhoras.
- Jarrões respeitaveis damas.
-
- Creanças que nascem robustos meninos.
- ditas que vivem interessantes filhinhos.
- ditas que morrem innocentes anjinhos.
- ditas que, nem nascem,
- nem morrem, nem vivem mallogrados.[5]
-
- Estudantes intelligentes e esperançosos.
- Meninas... de fallar infelizes peccadoras.
-
- * * * * *
-
-Como V. Ex.ª vê, aqui ha para tudo.
-
-É pedir por bocca.
-
-Esta classificação teve voga. Foi adoptada em Monsão, em Caminha pelo
-sr. Ricardinho, em Cerveira pelo sr. Romeu, em Vianna pelo sr. Eugenio
-Martins, em Paris pelo sr. Xavier de Carvalho, etc.
-
-Nas ilhas Sandwich é que eu não sei, mas vou sabel-o.
-
-Ora, nós podiamos fazer um contracto com as redacções: abatiam uns
-tantos por cento nas assignaturas e mandavam depois, sem adjectivos, os
-Cavalheiros, os Padres, as Meninas... de fallar, etc., que a gente cá se
-punha... a dispôr os _virtuosos e finos tratos_.
-
-Esta evidentissima e valiosa manifestação do progresso intellectual do
-nosso jornalismo deve-se, como disse, ao Justininho.
-
- * * * * *
-
-Justininho era correspondente de varios jornaes.
-
-Tinha um estylo especial, caracteristico, archaico, indigesto, tirante a
-classico.
-
-Por exemplo: se fosse necessario dizer n’um jornal, que a esposa do meu
-amigo Fabricio dera á luz um rapaz, e que já estava prompta para outro,
-eu empregaria, pouco mais ou menos, essas palavras.
-
-Justininho diria:
-
-_Como prenoticiamos, a virtuosa consorte do nosso dilecto amigo
-Fabricio, probo e honrado negociante d’esta formidolosa Praça, deu á
-luz na preterita terça feira, um robusto e interessante menino, que
-presentemente é o enlevo dos seus tão extremosos, quão apreciaveis
-progenitores, e o encanto de todos os que hoje gozam a doçura ineffavel,
-d’aquelle pequenino ser._
-
-_A parturiente encontra-se já, graças ao Altissimo, liberta de perigo,
-devendo, tambem, a sua rapida convalescença ao desvelo e intelligentes
-cuidados do distincto e perito facultativo, o sr. dr. Pacheco._[6]
-
-_A suas ex.ᵃˢ endereçamos, em nome da redacção, os nossos emboras; e
-seja permittido ao auctor d’estas mal esboçadas linhas, incluir as suas
-cordiaes felicitações, que já algures exprimiu, como o mais obscuro, o
-mais somenos admirador das excelsas virtudes, que exuberantemente adornam
-suas Ex.ᵃˢ_[7]
-
- * * * * *
-
-Ora aqui tem V. Ex.ª o que é uma imaginação fertil, e a triste figura que
-faz um pobre Fabiano, como eu, quando escreve nas gazetas.
-
-O sr. Verissimo de Moraes, em tal caso, escreveria, ou não escreveria o
-mesmo.
-
-Se fosse convidado para a festa do baptisado, usava exactamente
-d’aquelles termos, e accrescentava:
-
-_Todos os convidados d’aquella esplendurosa e inolvidavel festa se
-retiraram altamente penhorados, com a maneira fina e delicada, e
-inexcedivel amabilidade—que só a verdadeira fidalguia de sentimentos e
-nobreza de caracter podem conceder—com que o Ex.ᵐᵒ Sr. Fabricio e sua
-Ex.ᵐᵃ Esposa acolheram as pessoas, que tiveram a honra de entrar em sua
-casa._
-
-_Que perduravel ventura, e immensas felicidades, bafejem o berço do
-penhor de tantos affectos..._
-
-Se não fosse convidado, o parto e o baptisado seriam assim annunciados:
-
-_A esposa do sr. Fabricio deu á luz um rapaz, que hontem, ás seis e meia
-da tarde, foi baptisado na egreja parochial de S. Estevão._
-
-E eu faria o mesmo, se tivesse jornal. A gente trata bem, quem bem a
-trata. Isto já era assim no tempo de Noé e ainda não havia gazetas.
-
-N’esta classe de gazeteiros, quem rasoavelmente se distingue, é o Aurelio.
-
-Tem um estylo _á_ Victor Hugo e _á_ Guerra Junqueiro.
-
-Isso explica-se muito facilmente.
-
-Está provado que a Materia anda n’este mundo, em constante giro; e que
-as moleculas, que actualmente estão no corpo A, podem muito bem estar,
-ámanhã, no corpo B.
-
-E sendo assim, não admira que na massa cerebral aureliana, se anichem
-algumas cellulasitas vagabundas e patuscas dos grandes poetas.
-
-Recordo-me, ainda, d’aquella grande questão, que elle sustentou, no
-_Primeiro de Janeiro_, contra o Exercito, por causa do Real d’Agua.
-
-Ahi vae um trecho e diga-me V. Ex.ª, se lhe não parece que está lendo a
-_Morte de D. João_, ou a _Legenda dos Seculos_:
-
- A lei é só uma com a espada da Justiça!
- Palpitam corações nobres, sob as dobras da jaqueta,
- Como palpitam e se orgulham debaixo da fardeta.
- Quer se cinja uma espada, quer o cabo da rabiça,
- Ha leis a obedecer. E com vontade, ou com magua,
- Das batatas e do bacalhau que gastaes da Cooperativa,
- Haveis de pagar, inteira, completa e positiva
- A decima que todos pagam: os direitos do Real d’Agua![8]
-
-Aurelio tem, tambem, incontestavel merecimento no theatro; mas nas
-doiradas espheras em que, entre nós, a Arte alli se expande e libra,
-nunca a minha nervosidade e a dynamica do meu espirito foram, tão
-extraordinariamente abaladas, como n’essa saudosa noite, em que aos
-meus olhos e sentidos, se patenteou a intuição artistica mais nitida,
-a percepção psychologica mais frisante, que tenho logrado admirar nos
-palcos dos grandes centros civilizados.
-
-Alludo á magistral execução e genial relevo que, na _Morgadinha de Val
-d’Amores_, deram aos seus papeis, os meus amigos Machado e Romano.
-
-V. Ex.ª deve recordar-se...
-
-Representava-se o _auto_ entre moiros e christãos. Figuravam reis,
-prophetas, anjos, _princezes_, pagens, _donzellas_, pastores e
-pastorinhas.
-
-Das bandas do Oriente surgem: Manassés—o propheta, e Adonis—o _princez_.
-
-As meias da sopeira, solidamente atadas, com tres voltas de fio de vela
-e nó cego, acima da articulação do femur com a tibia, desenhavam-lhes
-as linhas bamboleantes do pernil, escassamente roliço para despertar
-sensações eroticas; o pé, pequenino e adamado, encafuava se, gentilmente,
-n’um cambado sapato de entrada _abaixo_, com fivela doirada; o calção
-retesado limitava-lhes a curvatura das nadegas; dos hombros pendia-lhes
-graciosa quinzeninha de velludo defuncteiro; na cabeça, um carapucinho
-patusco, com o seu tope arrebitado.
-
-Nas faces mimosas e assetinadas, espetára a mão endiabrada do Rocha
-ferozes matacões de caprina pellugem, e enfarruscára as sobrancelhas
-avelludadas, com repetidas fricções de rolha queimada, embebida no azeite
-do purgueira.
-
-Marchavam com fronte altaneira, nariz repontante, seguidos pela sua côrte
-de paradas-velhas, ao compasso do hymno picaresco, que o meu amigo Argar,
-com a sua finissima intuição artistica, tão caracteristicamente soube
-conceber, adaptar e colorir.
-
-Ao apparecimento de tão illustres personagens—um propheta e um
-_princez_—abalaram-se os alicerces do edificio, com a violenta
-expansibilidade dos applausos. Ao longo da medulla espinal, desde o bolbo
-rachidiano até á cauda equina, corriam-nos vibrações de enthusiasmo; as
-senhoras choravam; os homens arremessavam os chapéos; os paradas-velhas
-e esplanadas do _loiceiro_, impregnando o ambiente, no sonoro
-explodir do seu arrebatamento, de exhalações duvidosas e aromas assaz
-compromettedores, irrompiam em galhofeiras invectivas de affectuoso e
-_intimo_ conhecimento, com os pagens e as _donzellas_ da real côrte:
-
-—Vira para lá a rabáda, oh Transmontana!
-
-—Tens o rancho á espera, oh 35 da 4.ª
-
-—Pica o pé, oh Estrella!
-
-..............................
-
-E na intima audição do meu espirito, entre os fulgores e as scintillações
-d’aquelle gloriosissimo triumpho, subjectivou-me, subito, o Senso:
-
-Oh filho! Quanto póde a... Arte!
-
-..............................
-
-Mas... onde diabo está o Justininho?
-
- * * * * *
-
-Justininho era o fiel depositario, o mais denodado paladino das gloriosas
-tradições, que apresentam Valença, como a terra da provincia, em que ha
-mais convivencia, e em que as senhoras se apresentam, melhor, n’um baile.
-É uma superioridade, esta, como qualquer outra. Cornelia, Joanna d’Arc,
-Filippa de Vilhena, Deu-la-deu e outras matronas distinguiram-se a seu
-modo. São feitios.
-
-Foi elle, tambem, o inventor d’aquella celebre phrase, ainda hoje acceite
-e adoptada, quando necessitamos occultar a nossa inercia, as nossas
-fraquezas, ou a nossa ingenuidade provinciana. _Valença é madrasta para
-os seus e mãe para os estranhos._
-
-Nunca pude comprehender o que Justininho, e outros sectarios da sua
-eschola philosophica, querem dizer na sua—n’uma terra, que não acceitou
-o legado do Conde de Ferreira, em que a Politica é o que sabemos,
-e em que os jovens engraçados, que hoje possue, se riem franca e
-desassombradamente, quando, nos bailes da Assemblea, uma senhora
-tem a infelicidade de cahir, ou quando, nos bailes de Tuy, onde são
-obsequiosamente acolhidos, mettem os cotovellos á cara dos infelizes
-pares, que de perto os seguem.[9]
-
-São tambem opiniões... e feitios.
-
-Ainda hei-de interrogar, sobre este ponto, os srs. Abreu e Oliveira, que
-são os homens que, por aqui, vejo mais nos casos de fallar de tudo e de
-todos, com auctoridade e competencia. Esses senhores devem saber muitas
-coisas e todas a fundo. Basta observar aquella constante concentração de
-espirito, e completa indifferença, com que encaram este mundo.
-
-São cerebros, que, indubitavelmente, trabalham na resolução de grandes
-problemas sociaes.
-
-Lembram-me tanto Mr. Prudhomme...
-
- * * * * *
-
-Justininho tinha muitos diplomas de Socio Honorario e de dito benemerito;
-tinha pennas d’oiro e de prata, etc. Era um perfeito rapaz de sala;
-recitava poesias; tinha album para ellas; conhecia uma infinidade de
-marcas no jogo do Senhor Abbade; e, para os rapazes, tinha uma grande
-habilidade: assobiava magistralmente.
-
-Atacando um _spartito_ de Mozart, de Verdi, de Gounod, ou a cadencia
-das valsas de Strauss, de Metra, ou de Waldteufel, aquelle assobio
-tinha a malleabilidade d’um rouxinol, a limpidez das notas da Patti, o
-crystallino da escala de Gayarre, ou do Masini. Quando, em noites de
-luar, Justininho passava na rua de S. João, todas as janellas se abriam
-para dar passagem, até aos leitos conjugaes, ás ondas sonoras, deslocadas
-pelo assobio.
-
- * * * * *
-
-Ora, como V. Ex.ª deve ter verificado, não lhe faltavam condições para
-inspirar sympathia e, certamente, vae ficar admirado, quando lhe disser,
-que havia quem embirrasse com elle!
-
-Era o sr. Coronel Almeida. Chamou-lhe, por ironia, _importante_ cá da
-terra.
-
-Ignoro as razões, que originaram a antipathia de sua Ex.ª
-
-Tambem por cá havia muita gente, que embirrava com o sr. Coronel. O
-Isidoro diz que elle era um homem muito fino; mas o Agostinho torce o
-nariz e Agostinho é homem, que se não engana, que é consultado pelas
-pessoas mais importantes da nossa terra, homem que sabe o que diz, e que
-não dá _ponto sem nó_.
-
-Seria bom, ou mau, como quizerem. O que eu digo, é que era muito feio;
-mais feio ainda, do que o sr. dr. Salgado!
-
-Devo ao sr. Coronel um grande serviço e um grande desgosto.
-
-Conto o primeiro:
-
- * * * * *
-
-Eu tinha ido ouvir um sermão do Padre Capellão, em que sua
-Reverendissima, desviando-se, completamente, no estylo, na fórma,
-na sublimidade das ideas, na concepção das imagens, no arrojado da
-Phantasia, da vulgar Oratoria do Palmeirão e quejandos, me descreveu,
-d’uma fórma completamente original, intuitiva e concludente, em face da
-moderna Sciencia, a maneira como o animal homem appareceu n’este mundo.
-
-Foi no Eden. Eva tinha ido aos grillos, mas estes, sahindo rebeldes á
-_palheira_ e, como ella não conhecia ainda o outro meio _natural_ de
-os fazer abandonar a toca, andou por montes e valles, cançou-se, e...
-adormeceu.
-
-Veiu então Nosso Senhor, tirou-lhe uma costella, bufou-lhe e sahiu, já
-prompto e acabado, o nosso primeiro Pae.
-
-Ora, isto satisfez completamente o meu espirito; dissipou todas as
-duvidas, porque é, realmente, uma das mais... respeitaveis e maravilhosas
-concepções dos livros sagrados.
-
-Mas, passado pouco tempo, soube eu que, lá fóra, andavam ás turras
-differentes sabios por causa de novas theorias de evolução, selecção
-natural, transformismo, etc., sustentadas por Darwin e Lamark e
-combatidas por Linneu e Cuvier.
-
-Alvoroçou-se a minha curiosidade e tratei de estudar a questão, com a
-attenção devida á sua importancia.
-
-Durante muito tempo, nunca tirei o caso a limpo. Se passava por o sr.
-José Luiz,[10] dizia com os meus botões: vou com Darwin; se passava por o
-sr. Velloso dizia: vou com Cuvier.
-
-Assim estive muito tempo, hesitando, e sem saber se, realmente, o meu
-coccyx foi sempre o extremo da columna vertebral, ou se em tempos
-remotos, esteve ligado a algum appendice, que hoje tem um nome muito
-sympathico ao sr. Marquez de Vallada.
-
-Chegou o sr. Coronel a Valença e entrou a verdade no meu espirito. Fez-se
-a luz! Venceu Darwin.
-
-Indubitavelmente, inquestionavelmente, o sr. Almeida não teve a mesma
-origem, que teve o sr. Velloso; a não ser, que se possa admittir uma
-hypothese, mas com essa nada tenho, porque não entra no meu programma. É
-questão de portas a dentro:—que houvesse troca nas vias da expedição...
-
- * * * * *
-
-Agora conto o desgosto:
-
-Já lá vão quinze annos! Minha mulher andava, com licença de V. Ex.ª, no
-seu estado interessante.
-
-Uma noite, para lhe combater a insomnia, li-lhe uma historia do Egypto,
-em que figurava o grande Sesostris, que morreu, como se sabe, ha perto de
-4:000 annos e de que existe a mumia n’um museu qualquer.
-
-Havia, n’essa historia, mortes, egypcios de barriga furada, pharaós com
-as tripas de fóra, creanças desventradas, velhos postejados—uma matança
-de arrepiar carnes e cabellos.
-
-O livro tinha gravuras e n’uma pagina, via-se o grande Sesostris
-mumificado por aquelles processos, ainda hoje ignorados, dos antigos
-egypcios.
-
-Minha mulher não gostou e affligiu-se. Fechei o livro e abri a porta,
-para ir cumprir uma necessidade urgente.
-
-N’isto, passa na rua o sr. Coronel, e logo que minha mulher o vê, desata
-a berrar:
-
-—Ai o Sesostris! Ai o Sesostris!
-
-Teve uma syncope e, depois, dôres violentas.
-
-D’alli a duas horas a sr.ª Maria do Hospital aproximava-se de mim e,
-com aquella amabilidade, delicadeza e fino trato que, infelizmente, lhe
-conhecemos, dizia-me estas terriveis e significativas palavras:
-
-—Senhor, nada de affligir, porque a _fabrica_ ainda cá fica; mas esta...
-deu-a para fóra!
-
-..............................
-
-Comprehendi. E no auge da minha dôr, para explosão da minha cólera, só
-pude exclamar:
-
-Raios partam o Sesostris!
-
- * * * * *
-
-Deixemos coisas tristes...
-
-Eu fallei no Velloso...
-
-Este Candido Velloso, com os seus olhos negros, com o seu collete
-branco, o seu collar decotado, a sua perna bem lançada e elegante, o
-seu pequenino bigode _á mosqueteiro_, e com o oiro do seu uniforme, é o
-terror dos Paes de familia d’esta região peninsular.
-
-João, é Candido e candido; meigo, carinhoso, delicado, para o bello
-sexo. Tem a sensibilidade d’um bardo; a alma sonhadora d’um menestrel; o
-espirito cavalheiresco d’um paladino; a pureza immaculada d’um Abeillard;
-o lyrismo d’um Romeu; a altivez d’um Quichote—todos os attractivos,
-emfim, d’um João com Dom e ás direitas.
-
-Cinco seculos antes, e Velloso seria um dos onze companheiros de Magriço,
-n’aquella cavalheiresca aventura da côrte ingleza.
-
-Apparece em toda a parte, onde ha senhoras. Corteja, sorri, offerece os
-seus serviços e conta coisas, que entretêm.
-
-A sua organisação affectiva é poderosissima. Com o amôr, as contracções
-dos ventriculos, para a diastole e para a systole, realisam-se com uma
-força equivalente a 750 kilogrammetros por segundo.
-
-O seu coração é um enorme _caravanserail_. Tem cem auriculas e cem
-ventriculos, com a capacidade de 64 metros cubicos cada um. Os amôres
-cabem lá dentro vestidos, calçados e com guarda-chuva aberto.
-
-Cada um tem o seu quarto numerado. Ao levantar-se, Velloso, passa em
-revista todos os seus affectos e escolhe para o dia.
-
-Não revela preferencias, para não originar baralhas. Ás vezes desapparece
-da circulação, porque os Papás valencianos e tudenses, aterrados,
-inquietos, vão ter com o sr. Silva Pereira e exigem-lhe a deportação do
-incendiario.
-
-Lá vae para Castro Laboreiro. Quando é necessario por cá, basta
-pronunciar baixinho, esta palavra:—baile. No aureo tempo, em que João
-Morães era enthusiasta pelas danças e promovia aquellas _apatuscadas
-reuniões-familiares_, em que a gente ía á Assemblêa, para apprender
-a fazer meia, ou para ajudar a dobar maçarocas e novelos ás
-senhoras—acontecia ás vezes o seguinte:
-
-João Morães lembrava-se d’um baile. Só no seu cerebro se definia essa
-idea. Matutava sobre o caso. Fechava-se no gabinete e, concentrando todas
-as suas faculdades, principiava o orçamento.
-
-Calculava e annotava:
-
- =Chá= (póde ser comprado aos homens do papel, que o
- vendem a 800, o kilo) $372
-
- =Assucar= (Metade do _pilé_ e metade do mascavado) $723
-
- =Pão para fatias= (Cada peça dá 20, cada _cornucho_
- dá 12) 1$207
-
- =Manteiga para as tostas= (Vende-a o Coisa a 200,
- o kilo, com ranço; póde ser misturada) $247
-
- =Carqueja e lumes de pau= $015
-
- =Agua de Colonia= para o _toilette_ das damas (1
- quartilho, de Tuy) $060
-
- =Pó d’arroz= (e farinha) $030
-
- =Aluguel do= _Panorama_, ao Albino $120
-
- =Illuminação= (nas escadas póde ser de sebo) 1$473
-
- =Contracto= com 3 cavalheiros para cearem em casa 3$900
-
- =Roscas de Tuy= para os quatrocentos meninos e
- meninas, que costumam vir aos bailes 12$747
-
- =Gratificação ás amas=, que tomem conta dos que
- ainda mamem 1$500
-
- =Piões e faniqueiras= para os mais velhinhos se
- entreterem no salão $140
-
- =Musica de Ganfey= para tocar á porta o hymno
- real, quando entrar o Representante do Rei,
- Nosso Senhor 6$000
-
- =Gratificação= a 4 artilheiros para, armados,
- guardarem os taboleiros, na passagem do corredor 2$000
-
- =Brinde= ao Aurelio para recitar uma poesia tragica:
- valor de $700
-
- =Idem= ao Roldão para marcar as quadrilhas: valor de $720
-
- =Gratificação= a 6 creados $300
-
-Total 30 mil e tanto. Por cabeça—tanto. João Morães verificava. Tirava
-a prova dos nove. N’isto, batiam discretamente á porta. João abria e
-cahia-lhe o Velloso nos braços, offegante, pallido. Vinha do Castro
-Laboreiro a pé, a cavallo, no comboyo.
-
-—_Sei que projectas um baile. Ahi tens a minha quota. Risca; e olha lá—oh
-menino—vê se arranjas isso depressa. Passam-se tão bem aquellas horas..._
-
-Este João deve ficar na terra. Deve ser expropriado por utilidade
-publica. Barcellos, que se arranje lá, como quizer. O Velloso Candido é
-que para lá não volta. _D. Joões_ temos muitos por cá; agora, candidos,
-ha só um, que é elle; e esses, é que se apreciam, porque não fazem mal.
-
-Velloso Candido! Trata de te matrimoniar, filho.
-
-Oh diabo!... E a Mé...?
-
- * * * * *
-
-Em Politica, Justininho foi sempre, como eu—um desgraçado. O mais que
-podia conseguir, (e n’isso levou-me a palma) era um convite para fazer
-parte das mesas eleitoraes. Pois arranjou popularidade nas aldeias. Os
-lavradores respeitavam-n’o e affirmavam, que tinha _lume_ no ôlho.
-
-Em leis do Real d’agua e da Contribuição do Registro era um Salomão.
-
-Ahi vae um exemplo:
-
-Os guardas do fisco trouxeram-lhe, preso, um camponio, que tentára
-introduzir na villa, sem direitos, um garrafão com meio almude de vinho.
-
-Perguntou o desgraçado quanto tinha a pagar e, aterrado com a multa e
-tantos por cento, nas barbas honradas da auctoridade, levou o garrafão á
-bocca e despejou-o d’um trago.
-
-Nada se podia fazer, porque o Regulamento não previne esse caso.
-
-Sahiu o homem, mas ao virar a primeira esquina, sentindo-se afflicto,
-levou as mãos á bocca e despejou o vinho.
-
-Justininho vê isso e manda-o novamente prender. Intima-o a pagar direitos
-e multas correspondentes.
-
-—Mas eu bebi o vinho, senhor!
-
-—Bebeu, mas deixou-o ficar na villa, dentro de barreiras. Alli está,
-introduzido sem pagamento de direitos. Art. 1007.º do Regulamento de 6 de
-Maio de 1884. Pague!
-
-—Mas eu _esgumitei-o_[11], senhor!
-
-—O dito Regulamento, no seu paragrapho de isenções, não lembra esse caso.
-Pague!
-
-E pagou, que não houve volta a dar-lhe. Nem sete doutores o salvavam.
-
- * * * * *
-
-Ora aqui está, o que pude _apanhar_ ao Justininho d’outros tempos. Hoje
-está homem sério, como eu; já nem escreve nas gazetas, o que é realmente
-para lastimar, porque nem a gente sabe quantos robustos meninos, por ahi
-nascem.
-
- Justininho,
-
- boas noites.
-
-
-
-
-III
-
-Carta a Sua Excellencia, o sr. Governador... de Paysandu
-
-
- Senhor!
-
-Tenho a honra de me apresentar a V. Ex.ª
-
-Sou o Zinão.
-
-Quarenta annos; casado, e com bom comportamento moral, civil e religioso.
-
-Nunca tive contas com o Borralho, nem com o Assiz dos Algarves, nem com o
-Julinho.
-
-Sou de muito bom genio; depois que vi as caras feias, que fazem os srs.
-Barros e João Monteiro, quando se zangam, abracei immediatamente as
-doutrinas philosophicas da eschola optimista, e digo com Leibnitz: «Tudo
-vae bem n’este mundo, que é o melhor possivel.»
-
-Sou irmão da Misericordia e approvei a admissão das irmãs de Caridade,
-porque em coisas de religião sou muito temente a Deus, como o sr. José
-Narciso. Tenho bulla, porque se a não tivesse, quero dizer, se a não
-pagasse, diz a Santa Madre Egreja, que era peccado comer carne.
-
-Vou á missa e á desobriga; além d’isso, sendo amigo intimo do sr.
-Baptista e, como affirma o dictado, os amigos dos meus amigos, meus
-amigos são, tambem sou das relações intimas da Senhora do Faro, que
-tem tomado chá na casa d’elle, e com quem este senhor se trata por tu,
-jogando, nas noites de inverno, a bisca e o 31 de bocca.
-
-Tambem sou militar, porque pertenço á terceira reserva.
-
-Respeito a mulher do meu proximo. Sou economico; tenho chapéos ainda mais
-antigos, que os do sr. Polycarpo.
-
-Como portuguez, amo a minha patria; odeio os ibericos, como o sr. João
-Ignacio.
-
-Em Politica sou legitimista, como o sr. Santa Clara, porque ninguem me
-tira da cabeça, que estes reinos pertencem ao sr. D. Miguel e a mais
-ninguem.
-
-Tenho sido, por vezes, Juiz de Paz e, se na minha terra me não guindei,
-ainda, ás alturas a que chegaram os srs. Joaquim, que se carteia com o
-Ministro do Reino, ou o sr. Illydio Dias, que com a sua Bibliotheco-mania
-telegrapha ao Rei, como amigo velho, quem viver verá, que talvez consiga
-roubar-lhes o pennacho.
-
-Ora aqui está a minha folha corrida; e por ella já Vossa Excellencia vê,
-que sou homem sério e que, se não moro na rua de S. João, podia muito bem
-lá morar.
-
- Excellentissimo Senhor!
-
-Dizem-me que Vossa Excellencia está prestes a deixar-nos, para ir
-fulgurar na brilhante constellação dos nossos generaes; e não quero que
-isso succeda, sem apresentar a Vossa Excellencia a homenagem sincera
-do meu respeito e enthusiastica veneração, porque considero Vossa
-Excellencia, como um dos melhores Governadores, a quem, para felicidade
-d’estes povos e d’estes reinos, Sua Magestade tem havido por bem confiar
-o _governo_ d’esta Praça.
-
-Na pleiade de homens illustres que, ha doze annos para cá, teem
-_governado_ Valença, Vossa Excellencia destaca-se pelo seu senso,
-illustração, excessiva modestia e desprendimento das glorias do mundo,
-que tão tentadoras e offuscantes são, quando, após annos de lucta, de
-vigilias, de laboriosas lucubrações de espirito, de penosissimo labutar
-das funcções cerebraes com senos, cosenos, raizes quadradas de _a_ e
-ditas cubicas de _b_, chega a gente a alcandorar-se nos inaccessiveis
-pinaculos d’uma tão elevada posição social.
-
-Os dois illustres antecessores, que precederam Vossa Excellencia,
-eram e são muito boas pessoas; mas alargavam demasiadamente a esphera
-das dependencias da Praça, de fórma que faziam incluir no seu
-Estado-maior uma certa pessoa, clara já, talvez, á perspicacia de
-Vossa Excellencia—pessoa que, até alli, tinha a seu cargo o caridoso e
-humanitario mistér de desobrigar pessoas serias, como eu, Excellentissimo
-Senhor, e que, depois da chegada de Suas Excellencias, se viram na dura
-necessidade de, ou desviar para outra applicação a sua potencia vital,
-como, por exemplo, para o estudo de construcções, principiando com a
-rudimentar disposição das traves nos tectos, ou a curtir... as suas
-maguas pelas muralhas, entregando, assim, o organismo á terrivel atonia
-d’essa perigosa enfermidade, que a todos ataca na puberdade. (Vossa
-Excellencia tambem devia dar o seu contingente...)
-
-Ora, o tal monopolio, Excellentissimo Senhor, tornou-se muito funesto á
-povoação. Foi, até, na epocha d’elle, e por causa d’elle, que aconteceu
-aquella grande desgraça ao sr. Abilio Araujo...
-
-Eu sou muito amigo de Vossa Excellencia e Vossa Excellencia tambem é meu
-amigo. Sou d’aquelles que, no dia do Anno Novo, apanham o seu quinhão nas
-_boas festas_ que Vossa Excellencia, lá das alturas, se digna dar, como
-os antigos senhores feudaes, á burguezada e aos paradas-velhas, cá da
-terra.
-
-Depois, venero Vossa Excellencia, porque é um homem energico, que tem,
-como o povo diz (e realmente tem) cabellinhos na venta (com o devido
-respeito).
-
-Aquella felicissima resposta, que Vossa Excellencia deu ao Padre
-Magalhães, quando elle foi pedir para a Semana Santa com o innocente sr.
-Joaquim e com o ingenuo Abbade das Gandras, foi fulminante de espirito;
-foi á Pombal, á Richelieu, á Pitt, á Bismarck, á Duque d’Olivares; teve
-a potencia explosiva d’uma bomba á Orsini, ou d’um petardo nihilista,
-preparado chimicamente, com os mais poderosos elementos endothermicos.
-
-Disse-se, por ahi, que Vossa Excellencia procedera mal; porque, se queria
-dar carambola ao _Noticioso,_ que lhe chamára General não sei de que, não
-devia escolher para bola vermelha um homem que ia de preto, que tinha
-entrado na sua sala de visitas, onde, até a pretalhada do Bonga, que
-pouco sabe de hospitalidade, recebe e trata bem a gente.
-
-Accusaram Vossa Excellencia de ter faltado, n’essa occasião, aos mais
-rudimentares preceitos da delicadeza e até se asseverou, fazendo justiça
-ao caracter de Vossa Excellencia, que a tal resposta foi soprada ao
-ouvido, por Sua Excellencia, o Senhor Vice.
-
-Eu não sou d’essa opinião. Vossa Excellencia respondeu e respondeu
-muito bem. N’isto de militanças praceiras, não ha attenções, nem
-hospitalidades, nem sala de visitas, ha... o regulamento do Conde de
-Lippe! Quem o não acatar... leva a sua conta, e assim é que deve ser.
-
-O Padre devia ficar ainda mais pequeno do que é, mas Vossa Excellencia
-tambem escapou de boa! Se elle tem ao lado o Sant’Anna, lá do Porto,
-Vossa Excellencia bem podia gritar por Sua Excellencia, o Senhor Vice...
-
-Então o caso era serio!
-
- * * * * *
-
-Depois, quem não ha-de respeitar Vossa Excellencia, com a sua
-variadissima illustração?
-
-Nunca me hei-de esquecer d’aquelle esplendido discurso, que Vossa
-Excellencia, de improviso, pronunciou na Assemblea, em 20 de janeiro de
-1887, quando tomou conta da Presidencia. Sei-o de cór; e tão profunda foi
-a impressão, que causou no meu espirito, que até n’elle ficaram gravados
-os ápartes e as interrupções.
-
-Se Vossa Excellencia dá licença, eu repito alguns periodos. Os ápartes,
-para falar a verdade, são ainda para mim um tanto enigmaticos, mas deve
-haver por ahi, quem os possa explicar a Vossa Excellencia.
-
-Ahi vae uma tirada:[12]
-
- «... As prestimosas agremiações, como esta, com que as
- Sociedades modernas procuram deleitar e amenizar os espiritos,
- após as laboriosissimas horas da lucta e contrariedades da
- vida, nascem, crescem e desenvolvem-se, como essas enormes,
- vas- (_o sr. capitão Marques da Costa:—Vaz? É o amigo Lopo?
- Então appoiado!_) tas e florescentes ilhas do Atlantico e
- Pacifico, formadas pela organisação rudimentar das algas
- marinhas e de myriadas de seres microscopicos, da familia dos
- polypos, classe dos coelenterados, grande grupo dos radiados,
- ou zoophitos. (_Os srs. Roldão, Polycarpo Monteiro, Zagallo e
- outros cavalheiros versados em sciencias naturaes:—muito bem!_)
-
- «Da Natureza, meus senhores, deliciam-nos as suaves fragancias
- das flores: a modestia da violeta; a pureza immaculada do
- lirio; o murmurar dos bosques, os seios tumidos (_o sr. José
- Lopes, da Principal:—appoiado!_) da donzella, os alvores da
- madrugada e o canto das avesinhas. (_Os srs. Alberto Marques,
- Gaspar Durães, Justino Guerra e outros poetas e prosadores da
- estafada eschola romantica:—muito bem!_)
-
- «Pois na vida social, as horas fugitivas, que aqui deslizam
- em encantador e aprazivel convivio, com os Cavalheiros de
- fino trato (_o sr. Verissimo de Morães:—appoiado!_) e com as
- amaveis, airosas e donairosas e gentilissimas damas d’esta
- formidolosa Praça (_os srs. Justino Guerra, Eugenio Martins e
- Soares Romeu, interessantes collaboradores do interessantissimo
- «Mensageiro das salas»:—appoiado!_) ou com as encantadoras
- hijas da hidalga y noble Espãna (_o sr. D. Ramon:—Ká! Muy bien!
- Maunifico! Precioso. Ká! Seño Gobernador: Viva la gracia! Ká!_)
- bellas, como uma virgem de Murillo e castas, como a esposa de
- Jacob, de que me não recorda agora o nome (_diversas pessoas
- serias:—appoiado!_) quando as cingimos em suave enleio, no
- vertiginoso redemoinhar da valsa (_o sr. Salazar Muscoso:
- muitobemmuitobemmuitobem!_)[13] ou quando as brindamos com
- preciosas iguarias e delicados vinhos _(os srs. C. Oliveira,
- Verissimo de Morães, um Cavalheiro de Tuy e outro de Monsão,
- que não tive a honra de conhecer:—appoiado!_) essas horas,
- repito, representam em a nossa vida social aquellas alegrias da
- Natureza!
-
- «Não ter alma para sentir isto, meus senhores, como muito bem
- disse o nosso grande ex-historiador[14] Alexandre Herculano, é
- proprio d’um ser doentio; é, como vulgarmente se diz, proprio
- de gente pequena. (_Protestos ruidosos dos srs. dr. Ladislau,
- Alvaro Garção e P. Magalhães.—O sr. dr. Pestana:—peço a palavra
- para explicações._)
-
- Trabalhar, pois, para esta Sociedade é uma acção de elevado
- patriotismo; (_o sr. José Lopes, da Principal:—muito bem!_)
- é uma acção de larga influencia regeneradora (_protestos dos
- srs. Alvares d’Oliveira, P. Cunha e Agostinho_) para os nossos
- costumes; é um symptoma da benefica evolução progressista;
- _(protestos dos srs. Appollinario, Camisão e do dito sr.
- Agostinho)_ é, emfim, como ainda ha pouco me disse, e disse
- muito bem, o sr. Capellão (_o sr. Leopoldo Gomes:—qual d’elles?
- Então Vossa Excellencia também gasta? Por isso eu estive á
- espera!..._) que aqui me ouve, uma missão altamente honrosa e
- humanitaria!
-
- «Por isso, meus senhores, unamos os nossos esforços e como
- os polypos e as algas.................... as algas....
- .................»
-
-Que Vossa Excellencia me perdõe o que vou dizer, mas... perdi o fio
-ao discurso e o melhor é ficar por aqui, porque, n’estas questões de
-Historia, não quero _metter_ de minha casa.
-
-_Verba volant, scripta manent..._[15]
-
- * * * * *
-
-Eu atrapalho-me sempre, quando falo de Vossa Excellencia, que representa
-para mim o que ha de mais alto, mais nobre e augusto, nas elevadas
-jerarchias e coisas serias da minha terra.
-
-Quando encontro Sua Excellencia nas ruas da vizinha cidade de Tuy,
-pisando com arrogancia e altivez, genuinamente portuguezas, o solo
-d’aquelles odiosos Filippes, seguido automaticamente, á distancia
-regulamentar, por alentado e escolhido artilheiro, como estabelece o
-regulamento de Sua Excellencia, o Senhor Conde de Lippe, eu tremo de
-respeito e envergonho-me de mim mesmo—pobre e mesquinho verme da terra.
-
-Quando assisto á entrada de Sua Excellencia, solemne, magestoso,
-omnipotente, rutilante de oiro e pedrarias, constellado de _crachás_,
-faiscante de venéras,—no templo de Santa Maria, em festividade da Semana
-Santa, para mandar prevenir as auctoridades civis e ecclesiasticas, que
-superintendem no cerimonial, que está alli, para, como unico e fiel
-representante de Sua Magestade El-rei, n’estes burgos,[16] depôr o osculo
-de respeito nos chagados pés do Senhor dos Passos, exactamente como, á
-mesma hora, faz o mesmo Augusto Senhor Rei, no templo da Graça—quando o
-vejo aproximar vagarosamente da veneranda imagem, n’aquelle passo grave,
-solemne e arrastado de solas, com que os prophetas de barba de guita e
-cara borrada com pós de sapato, acompanham em Tuy o sagrado esquife,
-e o ouço depôr o respeitoso osculo, confundindo assim, em edificante
-e enternecedora homenagem, a magestade dos céos com a magestade da
-terra—quando sigo, depois, Sua Excellencia na retirada do templo, rodeado
-do seu luzido e brilhante Estado-Maior, essa pleiade de homens illustres,
-que representam o que ha de mais intelligente, nobre e indispensavel
-nas instituições militares do meu paiz, homens encanecidos em mil
-batalhas contra columnas cerradas de algarismos, cifras e cifrões de
-indomitas contas de feijão e batata, do rancho geral, ou dos cadernos
-da arrecadação dos puxa-frictores, morteiros, colubrinas, missagras,
-lanternetas, chapuzes, cepos, boldriés, sacres, caçoletas, falconetes,
-lanadas, cucharras, soquetes, munhões, sotroços, trinque-bales, tira
-e mette-buchas e outros tarecos velhos, que nas dependencias da Praça
-são do exclusivo dominio e usofructo dos ratos e aranhões, formando,
-no seu conjuncto, collecção superior, em inutilidade, á feira da
-Ladra—quando eu vejo tudo isso, meu Senhor, sinto-me mais pequeno do
-que um feijão fradinho; mais sumido, do que um certo parasita que Vossa
-Excellencia, d’essas alturas em que vive, não enxerga, mas com o qual,
-eu, infelizmente, estou relacionado, desde que commetti a imprudencia
-de (com licença de Vossa Excellencia) verter aguas, detraz das portas do
-Meio, onde tambem o faz a soldadesca!
-
-Vossa Excellencia deslumbra-me; offusca-me; tem para mim as proporções
-d’um semi-Deus; mas quer Vossa Excellencia saber, respeitabilissimo
-Senhor?
-
-Ha, por ahi, gente tão nescia, tão ignorante, tão alheia ao mechanismo
-d’esta complicada engrenagem das instituições sociaes, que chega a
-perguntar (perdõe-lhe Vossa Excellencia) para que serve o Governo da
-Praça, alliando, ainda, á ignorancia, a grosseria de lastimar que, do que
-a gente paga nas decimas, do que se rouba ao trabalho honrado e aspero
-do lavrador e do padeiro, se desviem 500 e tantos mil reis mensaes,
-obra de sete contos por anno, para ter ahi (que malcreados!) n’um
-rasoavel sybaritismo, cinco ou seis servidores da patria, equiparados
-escandalosamente (dizem elles) em honras e proventos, ao official, que
-nos corpos atura, diariamente, o brutal trabalho do quartel, com enorme
-responsabilidade, com necessidade de instrucção e arriscado a, d’um
-momento para outro, receber ordem para expôr a caixa craneana á bala
-do trabuco assassino, que anda a monte, ou ao zagalote do bacamarte
-desordeiro e avinhado, nas grandes borgas eleitoraes.
-
-Eu, até, já ouvi dizer, Excellentissimo Senhor, que se isso era por causa
-das procissões, das missas pela alma do Senhor D. Pedro IV, ou
-da recepção das musicas gallegas, o Governo podia muito bem contractar,
-para tal effeito, os _gigantones_ de Tuy, ou os _barbacenas_ da Guarda
-romana, porque eram de mais apparato, era outra limpeza e ficava muito
-mais barato.
-
-Mas quer Vossa Excellencia saber ainda mais? Ha, até, n’esta terra de
-cafres, quem reponte com a posição original que Vossa Excellencia dá
-á sua boquilha, quando, nas ruas, se delicia com os aromas d’um bom
-charuto! Como se Vossa Excellencia, pelo simples facto de não ter Tosão,
-d’Oiro, que dá honras de principe e direitos a poder fazer a gente o
-que quizer, não tenha a plenissima faculdade de trazer uma coisa (a
-boquilha), como muito bem lhe appetecer, horisontal, ou ao dependuro,
-e como se esta ultima posição não fosse, realmente, a mais decente e
-apropriada á edade de Vossa Excellencia!
-
-Ora diga-me Vossa Excellencia, agora que desceu commigo a estes profundos
-abysmos da ignorancia popular, se é, ou não, necessario applicar, de
-vez em quando, a estes barbaros, umas espadeiradas á Macedo, ou quatro
-_mimos_ com o historico chicote do Bruto, digo, do Barão do Rio Zezere...
-
- Excellentissimo Senhor!
-
-Eu folgo de ter encontrado pretexto, para manifestar o meu respeito e
-veneração a Vossa Excellencia, mas, como esta já vae longa, abrevio o
-muito que lhe tinha a dizer e contar.
-
-Não se incommode Vossa Excellencia com as más linguas. Nosso Senhor Jesus
-Christo perdoou aos que não sabiam o que faziam. As realezas da terra,
-meu Senhor, são representantes legitimos da realeza dos céos. Affonso
-Henriques, quando em Ourique dava tapona na moirama, a folhas tantas,
-olhou para o céo e de lá fizeram-lhe um signal com a cruz, que queria
-dizer: _vences_. Constantino, quando se viu atrapalhado com os barbaros,
-olhou tambem para lá e o Padre Eterno fez-lhe o que a gente faz, quando
-está sentado na praia com o namoro, deante do futuro sogro e da rabujenta
-futura sogra e, não podendo dizer á rapariga: _amo-te, oh filha!_ escreve
-sorrateiramente essas palavras na areia, com a ponta da bengala. Pois o
-Padre Eterno foi-se ás areias do céo e, com a vergastinha com que tosa a
-canalhada miuda dos anjos e seraphins, escreveu tambem disfarçadamente:
-
-_In hoc signo vincis._
-
-Ainda ha mais exemplos, mas eu sou muito fraco em mnemonica.
-
-Ora, sendo as realezas da terra representantes da realeza dos céos, e
-sendo Vossa Excellencia representante da nossa realeza, como muito e
-muito bem disse e declarou, ao annunciar o seu osculo nos chagados pés do
-Senhor dos Passos, _ergo_, por irrefutavel syllogismo, Vossa Excellencia
-é tambem representante n’esta terra, de Nosso Senhor Jesus Christo! Isto
-não falha.
-
-Por conseguinte, Vossa Excellencia póde e deve perdoar, aos que não sabem
-o que dizem.
-
-Eu não lhe aconselho isto com interesse directo, meu Senhor. Vossa
-Excellencia nada tem que me perdoar.
-
-Eu adoro tanto as instituições da minha Patria, reputo tão necessarias e
-consentaneas, com as aspirações da epocha hodierna, as disposições dos
-regulamentos do sr. Conde de Lippe (que o diabo levou ha perto de 200
-annos e podia, mesmo, ter levado logo ao nascer) das quaes, a mais branda
-e attenciosa é mandar varar por uma bala[17] o desgraçado, que tenha
-o atrevimento de—utilizando-se da unica applicação d’essas muralhas e
-torturado com as ancias e arrancos de urgentissima necessidade corporea,
-sem poder esperar um unico segundo,—baixar as calças, (permitta-me Vossa
-Excellencia a liberdade que vae expressa, ainda assim, em portuguez
-de lei, do que usava o Padre Antonio Vieira) que, se tivesse alguma
-importancia politica, se fosse homem de prestigio e d’estes que valem
-uma eleição, como os srs. Joaquim, Cardoso e seu amigo P. Cunha, Alvares
-d’Oliveira, Santa Clara e Agostinho que, unidos todos no mesmo partido,
-belliscados para a victoria do mesmo candidato, são capazes de levar
-á urna, não digo 6, mas, talvez, para cima de 3 votos, se fosse homem
-d’essas craveiras, repito, era capaz de ir a Lisboa, apresentar-me ao
-sr. Zé Luciano, ao Senhor Rei, se tanto fosse necessario, e reclamar
-energicamente, como indispensavel ao brilho das nossas instituições, ao
-prestigio do nosso exercito, á manutenção da nossa dignidade nacional,
-mais um segundo Governador, com um segundo... (não me lembro do nome...
-ah!) Estado Maior.
-
-Sómente estabeleceria uma condição:—baseada no muito apreço, em que
-tenho os grandes homens da minha Patria; convencido da necessidade de
-haver aqui, na fronteira, nas barbas do hespanhol, quem dignamente possa
-representar o paiz—e seria: que, para fazer pár com Vossa Excellencia,
-não me dariam outro bis-Governador, que não fosse o grande, o saudoso, o
-inimitavel
-
- Zé da Rosa!!
-
- * * * * *
-
-E se tal conseguisse, ai que alegria a minha, quando encontrasse Vossa
-Excellencia na rua de S. João, com a gravidade propria a um representante
-de Sua Magestade El-Rei, de braço dado ao sr. Zé da Rosa, outro
-representante de Sua Magestade (a Rainha, não meu Senhor?), seguidos
-por Sua Excellencia o Senhor Vice, com o seu chapéo de pennas de
-capão, e com a espada politica de Brenno, ao lado do outro Senhor Vice
-(quem devia ser? O sr. Roldão, por exemplo. É da arma de cavallaria...)
-e depois, atraz, o Senhor Baptista da Senhora do Faro com os outros
-Estados-Maiores; e depois ainda, atraz, muita gente, a sociedade do
-_Provarei_, o Fileiras, o João de Ganfey, o Senhor Martinho, que deitava
-_la coca_, o Capellão (o n.º 2), todos os paradas-velhas, etc., etc.
-
-Com que arrebatamento então, meu Senhor, eu perderia as estribeiras
-e, mandando para o diabo a minha seriedade de Juiz de Paz, de irmão
-da Misericordia, de pae de filhos, como eu saltaria para a frente de
-_Vocellencias_ e perdido, enthusiasmado, louco, distribuindo pançadinhas
-e piparotes e atando nas Excellentissimas trazeiras este raboleva de
-ridiculo,—que é a suprema essencia de toda essa grotesca mascarada, com
-que gargalhada homerica, ensurdecedora, colossal, lhes não bradaria:
-
-—Oh que rica tropa fandanga!
-
-—Quebra esquina, minhá gente!
-
-Com o respeito devido a um Representante de Sua Magestade El-Rei, sauda
-_Vocellencia_ o
-
- _Zinão_.
-
-
-
-
-IV
-
-Uma descoberta do Dr. Charcot
-
-
-Accedendo a frequentes reclamações diplomaticas do governo de Sua
-Magestade, o Imperador do Brazil, resolvera o Governo de Sua Magestade
-El-Rei de Portugal, que o primeiro fôsse auctorizado a expulsar
-dois cidadãos portuguezes que, segundo officialmente se asseverava,
-incalculavel prejuizo estavam causando ao regular movimento dos
-negocios commerciaes e, portanto, ao desenvolvimento material d’aquelle
-florescente imperio.
-
-Não se fundamentava a necessidade da expulsão na cumplicidade em crimes
-politicos; attentados contra o Imperador, ou imperial familia; propaganda
-de ideas reaccionarias; troça ás preciosas producções poeticas de Sua
-Magestade; capoeirada nos chimpanzés da policia urbana, ou assuada ao
-Senhor Conde d’Eu.
-
-Allegava-se, unicamente, que esses individuos, penetrando nas repartições
-do Estado, nos estabelecimentos commerciaes, nos grandes edificios de
-industria, nas escholas, nas egrejas, nos clubs, nos passeios publicos,
-nas chacaras e nos _xadrezes_, em qualquer parte—emfim—interrompiam as
-manifestações da actividade d’aquelle labôrioso povo e creanças, mulheres
-e homens abandonavam, immediatamente, o exercicio de qualquer mestér,
-fugindo espavoridos e como fustigados, por mal extranho e desconhecido.
-
-A origem d’aquella nociva influencia, a natureza dos phenomenos que
-ella produzia, a complexidade dos seus effeitos, escaparam, sempre, á
-perspicacia dos doutos Galenos das terras do sabiá, porque as mesmas
-propriedades repulsivas obstavam ao demorado exame, que o caso requeria.
-
-Annunciava, n’essa epocha, o eminente Pasteur os seus primeiros trabalhos
-sobre Microbiologia, que tão poderosa influencia vieram exercer na
-orientação das sciencias medicas; e não faltou, no estudo investigador
-dos clinicos d’alem-mar, a applicação das novissimas theorias, com
-pacientes trabalhos de microscopio, observações por analyse e por
-synthese e outros processos que a Chimica medica aconselha e, até,
-com demoradas experiencias nas fezes em acção sobre os orgãos das
-cinco funcções especiaes da sensibilidade, incluindo a pituitaria e a
-membrana, onde se ramifica o nervo de Wrisberg.
-
-Lembrou-se alguem de classificar aquelles phenomenos, como _suggestões
-motrizes_ do moderno Hypnotismo; mas Charcot, Richer e Bernheim,
-consultados sobre o caso, oppozeram-se á diagnose, visto que elles
-se manifestavam sempre com a mesma intensidade, isto é, que todos os
-individuos soffriam egual influencia repulsiva e não se evidenciavam as
-differenças na sensibilidade á hypnose, que nos _sujets_ estabelece,
-como caracteristico, a diversidade de circumstancias physiologicas e
-pathologicas.
-
-Nada se podia descobrir.
-
-Havia no organismo dos dois individuos uma propriedade repulsiva,
-identica á das tremelgas, ordem dos selacios, grupo dos peixes
-cartilaginosos; mas desconheciam-se os elementos constitutivos d’essas
-propriedades e elles continuavam a exercer, em toda a parte, e a toda a
-hora, a sua funestissima influencia.
-
-Uma unica circumstancia se pôde descobrir, graças á perspicacia do mais
-reputado Esculapio da Tijuca, a quem se deve a preciosa descoberta
-da cataplasma de linhaça e foi: que diminuia, consideravelmente, a
-intensidade d’aquelles phenomenos, quando se isolavam os dois individuos,
-ou quando permaneciam incommunicaveis.
-
-Utilizando-se d’esta descoberta, o Governo do Imperador, attendendo aos
-laços de sangue e affecto, que unem os dois paizes, resolveu exportar a
-praga em epocha e vapor differentes. Assim se fez, com effeito.
-
-O governo portuguez, assustado com o flagello, que subitamente cahia no
-solo da Patria, reuniu immediatamente a Junta de Saude e, por indicação
-d’esta, foram os dois compatriotas enviados a Pariz—onde, n’outras
-espheras e com outros horisontes se dilata a intelligencia humana—para lá
-serem submettidos á analyse dos grandes Mestres da Sciencia.
-
-Após demorada observação e attento exame, o eminente Charcot, encontrou,
-emfim, a resolução do problema, que largamente foi demonstrada no
-_Boletim da Academia de Medicina de Pariz_, (mez de novembro de 1876)
-e, com prodigioso interesse, escutada por selecto auditorio, na mesma
-Academia, em sessão extraordinaria de 27 de dezembro, do mesmo anno.
-
-Não tendo aqui, presente, a lucida exposição do eminente sabio,
-limito-me a reproduzir, e certamente d’uma maneira deficiente e
-incompleta—attendendo á escassez dos meus conhecimentos scientificos—a
-theoria, em que Charcot baseou a explicação do estranho phenomeno.
-
- * * * * *
-
-V. Ex.ª sabe, como a moderna Sciencia explica, na Acustica, a producção e
-a propagação do som.
-
-«O som é o resultado d’um movimento vibratorio, communicado á materia
-ponderavel»—eis a base da theoria, hoje adoptada e conhecida por «theoria
-das ondulações».
-
-Conhece, tambem, o mechanismo da voz humana. A voz provem da acção do ar
-nas cordas vocaes. O ar, que sahe dos pulmões, produz, n’essas cordas,
-vibrações, mais ou menos rapidas, que transmittindo-se ás paredes da
-larynge se tornam sonoras, e que, depois, a acção combinada da lingua,
-das maxillas e dos labios, altera modifica e articula.
-
-Conhecido é, tambem, o mechanismo da audição. As vibrações executadas
-pelas cordas e transmittidas, em ondas, ao ar exterior, chegam-nos ao
-pavilhão do ouvido e vêm, pelo tubo auditivo, actuar na membrana do
-tympano. Seguem, depois, até ao ouvido medio, no ar n’elle contido, e,
-pela cadeia do estribo, do martello, da bigorna e do osso lenticular,
-reproduzem-se, ainda, nas membranas das janellas redonda e oval,
-communicam-se ao liquido, que existe no ouvido interno e d’alli, pelos
-filetes do nervo acustico, ao cerebro.[18]
-
-A potencia das vibrações, o deslocamento, mais ou menos violento, das
-ondas sonoras depende, portanto, alem d’outras circumstancias, da força
-com que os pulmões fornecem o ar, e da maior ou menor vibratilidade das
-cordas vocaes. Por isso, vêmos individuos com voz forte e penetrante,
-como o sr. Barros, e outros, com voz debil e sumida, como o sr. Nunes de
-Azevedo, que difficilmente se percebe.
-
-Ora succedia que, por uma disposição especial dos pulmões, da larynge
-e das cordas vocaes, aquella força expulsiva do ar e a vibratilidade
-das cordas, existiam nos dois individuos em grau extraordinario e ainda
-desconhecido para os mais eminentes physiologistas. D’essa disposição
-especial resultava, tambem, que a voz, já potente e forte, obtinha,
-ainda, consideravel augmento de intensidade com a reflexão nas paredes da
-larynge, attingindo o que em Acustica se denomina _resonancia_.
-
-Quando as vozes não encontravam obstaculo, pouco se conhecia esse
-augmento de intensidade, porque, então, se perdiam na atmosphera; mas,
-se as ondas deslocadas por cada uma se encontravam, era tal a violencia
-do choque e das vibrações, d’elle provenientes, que só a poderemos
-comparar, nos grandes phenomenos da Natureza, á rapidez e violencia
-das ondas do Oceano quando, açoitadas por furioso vendaval, avançam,
-chocam-se, equilibram-se com medonha expansão de força, recuam para
-formar novo salto, até que uma perde a força resistente, e a outra vence,
-esmigalhando, com espantoso ruido, tudo o que se oppõe á sua passagem.
-
-Este effeito destruidor soffriam todas as peças dos apparelhos auditivos,
-que o circulo da primeira projecção podia abranger.
-
-As membranas do tympano dilatavam-se n’uma dolorosa expansibilidade; o
-martello batia desesperadamente na bigorna com o mesmo furor, com que
-Mestre Borralho batia a sola, quando não era director dos Presidios
-civis; o estribo andava aos saltos, como anda em corcel fogoso, quando,
-no meio da batalha, entre o rugir da artilheria e o sibilar das balas,
-perde o cavalleiro e parte, desvairado e furioso.
-
-Na trompa de Eustachio desencadeava-se um verdadeiro cyclone.
-
-Nem as trombetas de Josaphat, n’esse terrivel dia do Juizo final, poderão
-egualar o infernal ruido, que supportavam os apparelhos auditivos.
-
-Depois, para aggravar o flagello, dotára Deus os dois individos com
-uma extraordinaria loquacidade, e constante verborrhea que, de dia
-e de noite, lhes agitavam nervosamente os labios para questionarem,
-discutirem, argumentarem sobre tudo e sobre todos, em portuguez, em
-francez, em latim, em allemão, em quantas linguas vieram de Babel.
-
-Era sempre de funestos resultados, de dolorosas consequencias a sua
-presença, e por isso, homens, mulheres e creanças fugiam, prestes, ao
-sentil-os, interrompendo todas as manifestações da sua actividade e todo
-o exercicio dos seus mestéres.
-
-Desculpavel fôra, pois, o proceder do Governo brazileiro, expulsando os
-nossos compatriotas.
-
- * * * * *
-
-Ora aqui tem V. Ex.ª, sem exaggero, sem alterações da verdade (que, por
-ahi, n’este assumpto, tanto tem sido alterada) subordinada a rigorosa
-demonstração scientifica—a razão, porque regressaram a esta terra, e
-se respeitam, e se evitam, a ponto de viverem separados pelas grossas
-muralhas da Praça, os nossos amigos:
-
- Leopoldo Gomes
- e
- Abilio Lucas.
-
- * * * * *
-
-Evitam-se e respeitam-se—disse eu, e demonstro.
-
-Um vive dentro, outro fóra. Um foi a Paris em 75; outro em 79. Quando um
-é da Camara, o outro é da Commissão do Recenseamento. Abilio é socio da
-Assemblea e frequenta-a; Leopoldo despede-se. Entra novamente Leopoldo;
-Abilio deixa de frequentar aquella casa. Leopoldo conta a historia
-dos relogios; Abilio sorri maliciosamente e insinua a duvida; explica
-Abilio o remedio, que descobrira o ilheu, para salvar a _senhora mãe_;
-Leopoldo mastiga em secco e pisca o ôlho para os circumstantes. Um
-faz-se agricultor e trata de terras no Arraial, em Picões, na Esplanada;
-o outro faz-se politico e «_provarei_». Entra o segundo na Politica
-activa; desvia-se o primeiro, e trata de terras em Gondomil—polo opposto.
-Um, gosta do _Capellão_ e _fala-lhe_ a miudo, como homem temente a Deus;
-outro, não se dá com esse _ministro do Senhor_ e rosna-se, até, que tem
-as suas questões com elle. Um, move-se, agita-se, apparece de manhã na
-villa, ao meio dia em Monsão, á tarde em Gandra e sempre a pé; outro,
-limita o exercicio dos seus membros locomotores á loja do sr. José Lopes,
-ou do sr. José Seixas.
-
-É evidente, palpavel, esta incompatibilidade, esta heterogeneidade de
-individualidades, que se origina na intima convicção, que elles teem da
-sua influencia destruidora e no accordo, ou _modus-vivendi_, que, para
-mutua conveniencia, secretamente estipularam, ao fixarem a residencia na
-terra, em que nasceram.
-
- * * * * *
-
-Quando, ha annos, estive em Paris, no regresso da minha viagem de
-estudo pelo Oriente—á Mongolia, ao Turkestan, a Niphon, a King-Ki-Tao
-e outros centros da Asia—onde fui recolher materiaes e elementos
-comparativos de civilização, com os da minha terra, para a composição
-d’este livro, encontrei-me, na Academia de Medicina de Paris, com o sr.
-Zagallo, que alli estudava, commissionado pela Excellentissima Camara
-d’esta villa, a organisação do serviço de Hygiene publica, indicado,
-por aquella faculdade, á municipalidade parisiense;—missão, essa, que
-Sua Excellencia, tão brilhantemente desempenhou, e que tão beneficos
-resultados produziu para esta povoação, como se prova com esse elegante,
-commodo e original _water-closet_ do jardim publico.
-
-Tive, n’essa occasião, a honra de ser recebido pelo eminente dr. Charcot.
-
-Falando no meu paiz, alludiu o illustre clinico aos dois portuguezes,
-que em 74 examinára, por recommendação do Governo; e foi grande a sua
-admiração, quando lhe affirmei, que com elles vivia em Valença, e que,
-ha dez annos, permaneciam na mesma localidade, se bem que, nas condições
-especiaes de isolamento, que já referi.
-
-Mas, a minha asserção tocou para Charcot as raias do inverosimil, quando,
-á supposição, que me apresentou, da existencia inevitavel de graves
-doenças e perturbações no apparelho auditivo dos meus conterraneos,
-sujeitos á convivencia e aos perigosos effeitos da presença e
-communicabilidade d’aquelles amigos, eu lhe affiancei que não eram essas
-enfermidades, as que mais avultavam nas estatisticas da secção de Hygiene
-municipal.
-
-Charcot fazia bem em duvidar. Eu faltei á verdade, e a isso me levou a
-amizade, que a esses Cavalheiros me liga, e a repugnancia, que tive, em
-tornar odiosa, para o eminente sabio, a existencia de dois patricios, que
-tanto prezo, acato e... respeito.
-
-Mas V. Ex.ª sabe o que por cá vae...
-
-
-
-
-V
-
-Perfis
-
-
-Abilio
-
-Examinando-os, apreciando-os isoladamente, reconheço os valiosos serviços
-que os meus amigos—Abilio e Leopoldo—teem prestado ao desenvolvimento
-material e intellectual da nossa terra; e não se esquiva a minha
-consciencia a declarar, que são uteis e, mesmo, indispensaveis, entre
-nós, as suas individualidades.
-
-Abilio entrou, por um generosissimo impulso de gratidão, na Politica
-activa de Valença.
-
-Accusam-n’o de violento, de precipitado, de faccioso, ou, como diz o
-povo, de... petroleiro. Eu classifico todo o seu proceder politico, como
-o de um innocente noviço, ou ingenuo collegial.
-
-É um homem, meus senhores, que trabalhando ha seis annos em eleições,
-n’esta terra, independente em Politica, como se sabe, tem sustentado
-a creancice de seguir um só partido e respeitar uma só opinião—a dos
-regeneradores!!!
-
-Ora isto, em Valença, se não indica falta de senso, revela excesso de
-ingenuidade e para esta ultima hypothese me inclino, porque não admitto
-que, para umas manifestações da mentalidade humana, haja falta de senso e
-isso se não dê com as outras.
-
-Abilio é, pois, um ingenuo politico e—o que mais é—um ingenuo faccioso.
-Referindo-se á administração progressista, tem a eloquencia de Danton, a
-arrebatadora oratoria de Robespierre, a impetuosa dialectica de Cassagnac.
-
-É violento, incisivo, caustico.
-
-N’aquellas medonhas explosões de colera, fere, trucida, chacina,
-esposteja nas hordas contrarias, como S. Thiago na moirama.
-
-Chega a rubro a temperatura da sua palavra.
-
-«É preciso, meus senhores, mostrar ao povo os seus direitos, para
-que elle saiba expulsar, a chicote, das cadeiras do poder e _de tudo
-aquillo_, esses bandidos, sem eira nem beira, que estão delapidando os
-dinheiros publicos e _tudo aquillo_, que representa o trabalho honrado do
-povo, o suor do seu rosto, _tudo aquillo_, que ganha para o sustento dos
-seus e de _tudo aquillo_, que lhe pertence.
-
-As nossas finanças vão, de cada vez, a peor, _tudo aquillo_, que
-representa a riqueza da nação vae parar, vae sumir-se n’esse insondavel
-abysmo de ladroeiras, de arranjos, de afilhados, de _metades, de tudo
-aquillo_.»
-
-..............................
-
-N’este periodo de excitação, Abilio deixa-se apoderar, tanto, da sua
-convicção partidaria, perde, de tal fórma, a cabeça, que se esquece de
-tudo e de todos, concentrando todo o seu ser, toda a sua vitalidade
-na idea e na palavra, com que, mais rapidamente, possa inutilizar o
-adversario.
-
-É assim que, ás vezes, o vemos sahir de casa, arrebatado, irado contra
-algum _arranjo_, que lhe foram annunciar, e entrar, precipitadamente,
-na sala das sessões da nossa Excellentissima Camara, com uma bota
-branca, outra preta; assoar-se a uma luva, suppondo-a um lenço;
-metter o cigarro na bocca pelo lado acceso; tirar rapé d’uma caixa de
-phosphoros—perfeitamente allucinado, colerico, perdido!
-
-Originam-lhe inimigos estes arrebatamentos; mas se o Papa, como unico
-correspondente, cá na terra, do Padre Eterno, me enviasse o livro das
-informações particulares, que hão-de influir no tremendo dia de Juizo e
-d’onde dependerá, ou a nossa absolvição, ou a condemnação ás caldeiras
-de Pero Botelho, em que fazem caras tão feias aquelles bispos mitrados,
-que por ahi vemos nas _alminhas_ dos caminhos ruraes, na folha corrida
-do Abilio, eu não hesitaria—desassombradamente o declaro, sem pretenções
-a adulador, sem interesse occulto presente ou futuro, sem desejar
-provar a _Paraty_, ou tencionar pedir dinheiro emprestado—em exprimir o
-conceito e a consideração, que este homem me merece, sobretudo quando a
-lente da minha observação se desvia um pouco do campo, que lhe tracei
-para a critica e m’o apresenta no outro, que respeito em todos: a
-familia,—n’estas cinco palavras:
-
- É um homem de bem.
-
-E ao escrever isto, com plena consciencia e convicção, vem-me á
-lembrança, _não sei como, nem porque_, a constante recommendação, que o
-meu tutor me fazia, quando, ao partir para os estudos, me introduzia na
-mão, com uma generosidade vanderbiltica, coisa de dois patacos em cobre,
-com estas reflexões de moral preventiva:
-
-—Ahi tens dinheiro... Tem juizo; foge dos cafés, das ruas de movimento
-e... das más companhias.
-
-... das más companhias...
-
-Para fugir d’ellas, e dos seus perigos, é que se fundou a sociedade dos
-_Provareis_...
-
-Valha-me Nosso Senhor Jesus Christo!
-
- Que tentações...
-
-
-Leopoldo
-
-Leopoldo é um homem de costumes austeros. Podia muito bem morar na rua de
-S. João, ao lado do sr. Joaquim.
-
-Tem predilecção pelos estudos archeologicos e o seu nome é citado, com
-respeito, na Sociedade Martins Sarmento.
-
-É homem versado em anthropologia. Possue as obras de Cuvier e de
-Quatrefages.
-
-Conhece diversas linguas, mortas e _vivas_, e enthusiasma-se, quando as
-vê manejar _com pericia_, como lhe succedeu em Paris, com aquelles sêres
-pertencentes á classe dos mammiferos, ordem dos carnivoros, familia dos
-_canis familiaris_.[19]
-
-Tem ideas avançadas em materia religiosa. Sustentou, ha tempos, uma
-questão de philosophia racional, relativa a crenças, tendo por oppositor
-o sr. Tenente Silva e com tal arte se houve, que fez calar este
-cavalheiro!!!
-
-É copiosamente lido em sciencias naturaes e, concedendo-se-lhe vinte e
-quatro horas de praso, apparece armado de ponto em branco, com quantas
-theorias antigas e modernas se debatem entre sabios.
-
-Como polemista, tem um grande merecimento: não deixa falar o adversario,
-o que é de incontestavel vantagem para quem... padece do peito.
-
-Acceita as theorias de Lamarck e de Darwin; crê na existencia do homem
-terciario e, se Carlos Ribeiro o não classifica, talvez ainda viessemos a
-ter o Anthropopithecus Leopoldi.
-
-É homem illustrado. Foi á China, ao Japão, ao Perú, a toda a parte. Fez
-encavacar Pio IX, deu uma pitada a Grevy, um piparote a Crispi, bateu na
-pança de Gladstone, offereceu rebuçados a Bismarck.
-
-Não vae feito com as realezas. O verdadeiro fóco, para que elle faz
-convergir a sua actividade intellectual, é a Sociologia, na parte
-repressiva da immoralidade e na que estuda a protecção aos menores.
-
-S. Vicente de Paulo merece-lhe entranhado culto.
-
-Tem sido, por vezes, camarista e no desempenho das importantissimas
-funcções d’esse elevado cargo, evidenciou, sempre, a mais extraordinaria
-actividade.
-
-Todos se recordam, ainda, d’essa memoravel sessão, em que elle
-apresentou, defendeu e discutiu dezenove propostas! O caso foi falado nas
-gazetas, mas, como as edições, na nossa terra, se exgottam rapidamente,
-eu vou reproduzir essas propostas e repetir as considerações, com que
-foram acompanhadas:
-
- * * * * *
-
-Plena sessão camararia. Galerias concorridas. Tachygraphos a postos.
-
-Leopoldo, de casaca e gravata branca, sobe, solemne e grave, ao estrado;
-faz uma delicada venia ao sr. Zagallo; deixa passar um minuto de longo
-silencio e severa concentração dos espiritos; ergue a fronte, agita os
-labios e exclama:
-
- Senhor Presidente!
-
- Respeitaveis collegas e senhores.
-
- Illustrado auditorio!
-
- Eminentes publicistas e philosophos, consultando os trabalhos
- recentemente publicados nas nações mais civilizadas, teem
- evidentemente demonstrado a enorme differença e aterradora
- diminuição que, de anno para anno, se nota nas estatisticas da
- reproducção humana.
-
- Os excessos perniciosos da Civilização, com o cortejo de gosos
- corporeos e sensuaes de toda a especie, enfraquecem a raça,
- definham o individuo, tornando-o inapto para aquella funcção,
- aliás importantissima para a estabilidade das nações e para o
- desenvolvimento da riqueza publica.
-
- Com effeito, senhores; que seriam os preciosos filões d’oiro
- da California, os jazigos, não menos preciosos, da hulha; que
- seriam esses uberrimos territorios da America, se não fosse o
- homem, para com o seu braço e a sua intelligencia arrancar da
- Terra tanta riqueza e tanta maravilha?
-
- O que seria da Agricultura? O que seria do Commercio e da
- Industria?
-
- Senhores!—Abrem-se, presentemente, á actividade do homem,
- novos campos, novos e dilatados horisontes n’essas, até hoje,
- mysteriosas e legendarias regiões africanas. O Brazil, a Europa
- do futuro, extende a sua acção civilizadora por essas enormes
- provincias, até hoje, despovoadas e desertas.
-
- Braços, muitos braços: homens, muitos homens—eis o
- _desideratum_ para este importantissimo problema do futuro.
-
- Verdadeiramente benemerito, pois, se torna da Patria, da
- Civilização e da Humanidade todo aquelle que, directa ou
- indirectamente, contribuir para valer áquella necessidade,
- aggravada, ainda, com o enorme desfalque, que as estatisticas
- accusam.
-
- Como homens do seculo XIX, que possuem a completa
- intuição dos seus deveres sociaes, temos, até hoje, prestado
- bom serviço a tão sagrada causa[20] e aos vossos sentimentos
- humanitarios e illustração recorro agora, pedindo attenção para
- as propostas que, sobre tão momentoso assumpto, vou ter a honra
- de apresentar[21].
-
- 1.ª
-
- Proponho a fundação d’um hospicio para expostos, que ponha
- côbro aos frequentes actos de barbaridade, que por ahi
- diariamente se commettem, com a exposição de creanças nos
- portaes e nas muralhas.
-
- 2.ª
-
- Fica a Camara auctorisada a contractar provisoriamente,
- na vizinha villa de Coura, seis robustas camponezas, para
- exercerem as funcções de amas.
-
- 3.ª
-
- Como actual fiscal do pelouro dos expostos, sou auctorisado a
- fiscalizar, os trabalhos das ditas amas e a verificar se, fiel
- e rigorosamente, são aptas, para todo o serviço.
-
- 4.ª
-
- É expressamente prohibida, para manutenção da Moral no interior
- do mesmo Hospicio, a entrada a qualquer pessoa do sexo
- masculino, com excepção do vereador do pelouro—que sou eu—e
- isso, para o exercicio das funcções mencionadas no precedente
- artigo.
-
- 5.ª
-
- Fica expressamente determinado, na acta d’esta sessão, que
- nunca poderão exercer as attribuições de fiscal do Hospicio,
- os ex.ᵐᵒˢ srs. Abilio, Vieira e José Seixas, attendendo,
- simplesmente, a que para tal cargo se exige uma actividade
- inconcussa, zelo inexcedivel, o que esses Cavalheiros não
- poderão offerecer, porque não são livres, como eu, que estou
- solteiro.
-
- 6.ª
-
- Como consequencia do artigo 4.º, não pode haver Capellão no
- Hospicio, que pode ser substituido por irmãs de Caridade,
- para os exercicios da religião. Para a sua competencia
- n’esse mestér, consultará a Camara o muito digno Capellão do
- Hospital, o sr. Padre Melim, varão de excelsas virtudes e
- preclaro entendimento.
-
- 7.ª
-
- Será limitado o numero de expostos, que o Hospicio possa
- recolher; mas ao Vereador do pelouro—que sou eu—é concedida
- a faculdade de admittir as que faça, encontrar pelos guardas
- nocturnos, em perigoso estado de saude.
-
- 8.ª
-
- Como consequencia ainda do artigo 4.º, não poderá haver medico
- no Hospicio e, para tratamento das creanças e das doenças, ou
- quaesquer, accidentes, a que podem estar sujeitas as amas,
- no exercicio, das suas funcções activas, será contractada a
- Senhora Dona Maria do Hospital.
-
- 9.ª
-
- É auctorisado o Fiscal do Hospicio—que sou eu—a, para rigorosa
- e permanente fiscalisação, poder passar as noites, quando o
- entender necessario, com as creanças e, com as amas.
-
- 10.ª
-
- Se no fim de seis, oito ou, nove mezes, qualquer das amas
- apresentar symptomas de doença grave, dilatações, de tecidos,
- etc., cessará o contracto provisorio e o Fiscal—que sou
- eu—arranjará, logo, outra que a substitua.
-
- 11.ª
-
- Em urgente caso de perigo, só o Sr. Dr. Pacheco pode ter
- entrada no Hospicio, attendendo a que é impotente, a
- maledicencia, quando d’elle se refere; e a que bem publica
- e notoria é a sua honestidade, como por ahi firmemente o
- attestam os seus _dois creados_, e todas as pessoas com quem
- intimamente vive, que são unanimes em apontar S. Ex.ª, como um
- real modelo de virtude.
-
- 12.ª
-
- É auctorisado o Fiscal—que sou eu—a contractar, para o serviço
- interno, tres raparigas das suas relações e de que já conheça,
- praticamente, as aptidões e trabalhos.
-
- 13.ª
-
- Fica revogada toda a legislação em contrario.
-
- 14.ª
-
- PELOURO DE HYGIENE PUBLICA—SECÇÃO DO COMMERCIO E INDUSTRIA
-
- É permittida a matricula a diversas pessoas de determinado
- sexo, para a industria do methodico uso e regular acção de
- determinadas funcções da vida vegetativa.
-
- 15.ª
-
- É expressamente prohibida a entrada na villa, a individuos
- extranhos e de sexo differente, que venham prejudicar, com
- illegal concorrencia e depreciação de valores, a industria da
- terra. Esta prohibição será extensiva até, ao proprio Julio
- Cesar, (apesar da protecção da _gente graduada_.) se elle
- resuscitar.
-
- 16.ª
-
- É nomeada uma commissão, composta do fiscal do Hospicio—que
- sou eu—do sr. J. Narciso e do sr. Joaquim, para organisar
- uma tabella de preços d’aquelles trabalhos, nas diversas
- variedades, que tal Industria hoje possue.
-
- 17.ª
-
- Fica expressamente determinado, que não poderão fazer parte
- d’esta Commissão os ex.ᵐᵒˢ srs. dr. João Moraes, Alpoim,
- J. Soares e Albino, porque por vezes, publicamente, teem
- manifestado uma tendencia para elevar, demasiadamente, os
- valores dos productos de tal Industria, o que é nocivo para a
- povoação.
-
- 18.ª
-
- É nomeado, para Inspector sanitario d’esta secção, o sr.
- Augusto Sampaio.
-
- 19.ª E ULTIMA
-
- A presidencia d’esta nova instituição municipal será
- offerecida, como manifestação de consideração e respeito, ao
- Senhor Marquez de Vallada.[22]
-
-Escusado será dizer que todas as propostas foram approvadas e por
-unanimidade.
-
-
-Albininho...
-
-Pertencia-te agora a vez... Davas para vinte folhas; mas salvas-te d’esta.
-
-Ha poucos mezes, ainda, corriam as lagrimas n’essas barbas brancas...
-
-Cahiu-me uma nas costas da mão e, em casa, fiz-lhe a analyse chimica.
-
-Deu-me: agua, albumina, chloreto de sodio; encontrei moleculas d’um
-outro elemento, que é a base da affinidade social:—o affecto da familia.
-Percebi, tambem, vestigios d’uma grande dôr.
-
-Respeito-a...
-
-Mas, quando os atomos d’essa lagrima se desaggregarem, por evaporação, e
-continuarem na Natureza o giro constante e permanente da Materia, então,
-se me appareces... entras na berlinda.
-
-Não te entristeças, que este livro é para rir e, quem o escreve, é um dos
-teus amigos.
-
- Vira a folha e...
-
- vamos a outros.
-
-
-
-
-VI
-
-Coisas de Egreja
-
-
-Beatas—Procissões e Romarias
-
-Terminára a faina do dia.
-
-O fogo que elevára a temperatura nos grandes caldeirões do Olympo, onde
-se manipulava a Humanidade, consumia, apenas, carvões isolados que, pouco
-a pouco, se transformavam em cinzas.
-
-Os cyclopes, destacados por Vulcano para essa secção da grandiosa fabrica
-da Natureza, que o proprio Jupiter dirigia, raspavam, apressadamente, nos
-grandes extendedores, a massa, que ficara collada, e deitavam-n’a, como
-inutil, nos baldes do lixo e da immundicie.
-
-Jupiter encastellava o dinheiro das ferias; fechava a escrevaninha;
-trocava a japona da fabrica pelo manto de arminho, e dispunha-se a
-sahir, tocando de passagem a sineta, para se fechar o estabelecimento.
-
-Mas n’isto, principiou a elevar-se do caldeirão que estava proximo,
-cheiro activo e nauseabundo, (como o do esturro em guisado francez) que,
-espalhando-se na atmosphera, seriamente incommodou a regia pituitaria.
-
-Aproximou-se Jupiter e olhou.
-
-No fundo do pote, já com a côr do carbonisado, estrugia o resto da massa
-que ficára, da que n’esse dia se tinha dosado para a preparação dos
-hypocritas. Pouco valor aquillo tinha, porque era da mistella mais vulgar
-e mais facil de preparar; mas Jupiter não perdia ensejo de incutir nos
-seus operarios os deveres d’uma administração rigorosa e economica.
-
-Ordenou, pois, a dois cyclopes que trouxessem do barril do lixo algumas
-aparas, recommendando que preferissem as mal-cheirosas e de côr escura,
-que pertenciam á massa dos invejosos e dos usurarios.
-
-Avivaram o fogo; deitaram os novos elementos no caldeirão; remexeram com
-o cabo d’uma vassoira, porque a ferramenta já estava guardada e limpa; e,
-depois de cinco minutos de ebullição, Jupiter provou a mixordia. Estava
-sobre o insipido.
-
-Deitou-lhe umas pitaditas de sal e de pimenta, com que preparava os
-maldizentes.
-
-Provou de novo. Estava picante de mais.
-
-Temperou, então, com o betume dos ociosos; e deixou ferver tudo, durante
-outros cinco minutos.
-
-Os cyclopes retiraram o caldeirão. Trouxeram os moldes; vazaram n’elles a
-massa, que se conservava no estado pastoso e esperaram.
-
-Pouco tempo depois, Jupiter aproximou-se; arrotou, e dos moldes sahiram
-duas coisas, duas formas humanas, com movimento, côr e vida.
-
-Eram duas mulheres.
-
-Ora Jupiter não se podia demorar, porque combinára, para aquella hora,
-uma entrevista com Europa, e os cyclopes principiavam a murmurar, porque
-dera a hora e tinham as familias á espera.
-
-Assim, mandou Jupiter abrir o postigo do Olympo, empurrou até lá as
-mulheres e atirou com ellas, cá para baixo, com um valente pontapé.
-
-Por esse ether fóra, assustaram-se as creaturas; agarraram-se uma
-á outra afflictivamente; principiaram a rezar a _Magnificat_, a
-_Ladainha_, e assim foram cahir sobre o telhado d’uma egreja, aterrando o
-escorropicha-galhetas, que se deliciava, occultamente, com os restos do
-precioso sangue de Christo.
-
-Aqui tem V. Ex.ª como chegaram as beatas ao globo terraqueo, e ahi fica a
-formula da sua composição molecular: aparas de hypocritas, de usurarios,
-de invejosos, de maldizentes e de ociosos.
-
-Representando esses elementos pelos respectivos symbolos, poderemos
-estabelecer:
-
- H⁵ + M⁴ + I³ + O² + U = Beatas
-
- * * * * *
-
-Aquellas moleculas da Hypocrisia e da Ociosidade deram-lhes facil e
-rapida admissão na sociedade.
-
-Casaram; reproduziram-se; e, em pouco tempo, estava a raça
-extraordinariamente desenvolvida e disseminada por toda a parte, desde a
-cidade populosa e civilizada, até á aldeia humilde e rude.
-
-Cá as temos e cá as aturamos... Submettendo-as agora, para as descrever,
-a rigorosa analyse, encontrei-lhes todas as propriedades dos primitivos
-elementos.
-
-Vão á missa das sete—_uma missinha que faz muito arranjo, porque dá tempo
-de arranjar a casa e de se mandar, á praça, cedo_.
-
-Rezam; inspeccionam tudo o que se faz e tudo o que entra na egreja;
-communicam e transmittem as novidades do soalheiro; e, entre o cochichar
-do _Padre Nosso_, segue uma enfiada de casos novos e de commentarios:
-
-Padre Nosso, que estaes no céo (_e o vestido novo que hontem levou a X
-ao jardim! É da Torrona. Ficou a dever. O Blanco é que as canta..._)
-santificado seja o Vosso Nome (_acabou o namoro da filha do Y, porque a
-Mãe bateu-lhe. Diz que o rapaz gosta muito de mulherinhas_) venha a nós
-o vosso reino e seja feita (_sahiu a creada da casa do W. Oh menina!
-Sempre ella conta coisas... Diz que tem a casa como um ôvo! Comem todos
-os dias prato de meio!_) a vossa vontade, assim na terra, como no ceu
-(_Lá entrou o Velloso... que raio de homem! Tem mais de vinte namoros.
-É como o Prado! Elle é elegante, isso é! Já lhe reparaste nas pernas?_)
-o Pão nosso de cada dia nos dae, Senhor, perdoae-nos (_oh... Faltava
-aquelle... o Leopoldo. Tambem já podia casar... Para o que anda por ahi a
-fazer..._) as nossas dividas, assim na terra, como (_agora é o dos pombos
-correios... Tambem é fresco, com aquella cara de santo..._)
-
-Sanctus, Sanctus, Sanctus, Dominus Deus...
-
-Como V. Ex.ª póde suppôr, a _fervorosa_ oração foi cortada pelo badalo do
-sachrista, que tocou a Santos. Se elle não interrompe, o que teriamos nós
-de ouvir...
-
- * * * * *
-
-Este beaterio é muito casto e excessivamente pudibundo.
-
-Na egreja de S. Estevão ha uma Virgem do Leite, que, se não é, realmente,
-uma preciosidade artistica, é, com certeza, a melhor tela que existe em
-Valença, não falando—já se vê—n’aquellas caras de malagueta e colorau,
-todas com a mesma fórma e feitio, que o sr. Julião exporta, mensalmente,
-para as salas nobres dos hospitaes minhotos, a soberano por caveira, com
-dez por cento de abatimento, por duzia.
-
-Pois o beaterio escandalizou-se com a nudez dos peitos da imagem, isto é,
-repugnou-lhe que se visse o que na mulher representa a sua missão mais
-nobre, mais elevada e mais santa—a maternidade. E a instancias d’esses
-respeitaveis camafeus, muito castos e muito pudibundos, mas que nunca
-faltam á Rosinha Ferreira, quando ella representa; e mandam logo de manhã
-comprar bilhete, e dão pançadinhas com riso, e coram (não de pudôr) e se
-apimentam, e se agitam, nervosas, na cadeira, quando Lili conta as suas
-coisas—a instancias e reclamações d’essa gente, repito, uma auctoridade
-ecclesiastica, que eu agora respeito, porque já não está entre vivos,
-mandou, por um caiador de Arão, borrar os peitos da imagem!!!
-
-Isto, minhas senhoras e senhores, em pleno seculo XIX, n’uma terra que
-tem dois jornaes, correspondentes varios de ditos, representantes de Sua
-Magestade El-Rei, Vigarios geraes e não geraes, Conegos Presidentes, e
-não Presidentes, Capellães, etc., etc.! E entre toda essa gente, que sabe
-ler e escrever, segundo se diz, não houve um unico homem que corresse a
-pontapés o cafre de Arão, reproduzindo-lhe com a biqueira da bota, ahi
-pelas alturas do coccyx, os borrões com que profanou a imagem!
-
- * * * * *
-
-O beaterio communga quinzenalmente e confessa-se duas vezes por semana, a
-padres velhos, surdos e rançosos.
-
-Padres novos são o diabo!
-
-Até os Patriarchas fazem das suas... Ainda não ha muito tempo, que os
-apparelhos de Morse, de Bandot, de Hugues e os telephones da Hespanha e
-França, não designavam outras palavras, alem de: _as botas?_
-
-José Luciano perguntava a Vega d’Armijo: _as botas?_ Vega d’Armijo
-perguntava a Carnot: _as botas?_ Carnot reperguntava ao Luciano: _as
-botas?_
-
-Em Pariz, Madrid e Lisboa não se falava n’outra coisa.
-
-Averiguado o caso, fôra o Patriarcha das Gandricas que, em Salamanca, se
-enamorára perdidamente dos _ojos_ negros d’uma andaluza. Gargalinho, seu
-companheiro, arrastava a aza á sopeira.
-
-A andaluza dava, com certo recato, nocturnas entrevistas. Uma vez, quando
-o Patriarcha se inebriava com os effluvios do amor... platonico, surgiu o
-protector da _niña_, de _cuchilla_ toledana em punho.
-
-O Patriarcha saltou, em meias, pela janella. Gargalinho sumiu-se debaixo
-da cama; quando de lá o tiraram, tanto puxaram pelo pescoço, que ficou
-como o do P. Alexandre.
-
-Do _Alcalde_ reclamou o Patriarcha as botas; o _Alcalde_ officiou ao
-Consul; o Consul officiou ao Ministro. Não appareceram as botas e o
-Patriarcha andou na Exposição, subiu á Eiffel, visitou o Carnot, com
-o seu inseparavel capote de forro vermelho e golla de pelle, chapéo
-braguez, chinelo de liga, calça dobrada em baixo, deixando ver os atilhos
-das ceroilas, symetricamente apartados e dispostos em cuidadosa laçada.
-Nos _boulevards_, quando elles passavam, diziam as mundanas:
-
- C’est um Hottentot et son petit:... mais quel cou, mon Dieu![23]
-
- * * * * *
-
-O Soares, no principio ainda agradou, porque dizia a sua missinha de
-Santo Antonio a muito boa hora e era pontual; mas, depois, principiou a
-desleixar-se e a vir para a egreja, tarde e a más horas.
-
-Foi o Albino, que andava sempre com elle, quem o fez peco. Principiou
-a dizer-lhe que estava _n’uma boa posição official_, que se devia
-apresentar sempre _muito limpo e lavado_, porque o conego velho nem
-_ceroilas usava_, apresentando-se _n’um desarranjo completo_, com a
-barba por fazer, amarello, _completamente deitado abaixo_, a ponto de
-a gente recear, ás vezes, _que fosse de bruços_; e que era bom, aos
-sabbados, _preparar-se e lavar-se de vespera_; levantar-se depois cedo,
-_lavar-se novamente muito lavado_, tomar a sua _chavenasinha de café_ com
-a _sua colhér de prata_; e nunca _chamar a attenção_ das más linguas,
-que estão sempre _a postos_, porque a missa sempre dava os _seus sete
-e vinte_, que já chegavam para uma _posição graduada_; mais isto, mais
-aquillo, com outros _periúdos_,—de fórma que o rapaz gastava duas horas a
-lavar-se, a vestir-se, e a gente que esperasse, _só com um café bebido_!
-
-O resultado foi perder a missa de S. Antonio, porque já não tinha
-freguezia.
-
-O Magalhães será muito boa pessoa, mas... não se dá com o sr. Joaquim.
-
-Ora o sr. Joaquim é um homem muito temente a Deus. No inverno, quando ha
-mais frio e fome, anda por ahi, de porta em porta, com a subscripção...
-da Semana Santa, para que a pobreza possa curtir... na egreja, as suas
-maguas e dôres.
-
-Alem d’isso, não se poupa a despezas, quando é Juiz da Senhora da Saude,
-da Urgeira, e vê probabilidades de (tudo pela santa religião) fazer uma
-pirraça ao diabo... do João Cabral!
-
-Um homem assim, é um philanthropo e deve andar de bem com Deus. Quem com
-elle não se dá, não se dá com Deus; ergo: Padre Magalhães não serve.
-
-Depois, prega uns sermões que ninguem entende. Parece que não fala
-portuguez!
-
-Nem, sequer, faz chorar a gente na Semana Santa!
-
-Resumindo: não serve.
-
- * * * * *
-
-Eu falei na Semana Santa...
-
-É o carnaval do beaterio. N’aquelles ultimos sete dias as beatas dão ar
-ás mantilhas, e largas á bisbilhotice, á curiosidade e... ao flato.
-
-Quinta e sexta feira santas são em Valença, para a egreja de S. Estevão,
-o mesmo que domingo gordo e terça feira de entrudo são para a Assemblea.
-
-Ha musica, serviço variado de pastilhas de chocolate, rebuçados e
-amendoas; confidencias, intrigas, sorrisos, trocas de cartas perfumadas,
-ciumes, arrufos, apertos de mão e—sobretudo—esta _cavaqueira_ intima,
-expansiva, franca e alegre d’uma verdadeira reunião de familias.
-
-A gente está alli, perfeitamente bem, e á sua vontade.
-
-Com as temperaturas da egreja e das salas da Assemblea eleva-se,
-consideravelmente, o mercurio no thermometro dos affectos, em que o zero
-é—o arrufo, e os 100°—o casamento.
-
-O Christo, já se vê, como dono da casa, lá está no alto da Cruz,
-recebendo sempre, com reconhecimento cordial, tão fervorosas e _animadas_
-manifestações de amor e respeito...
-
-As beatas arranjam, com a Semana Santa, que contar para um mez.
-
-Quando os escorropicha-galhetas abrem, de manhã, as portas do templo, já
-ellas entram apressadas e remelosas, escolhendo o melhor logar «_onde o
-bruto do povo e os pobres não incommodem, onde se esteja á vontade e se
-veja tudo_». Levam as suas pastilhas de chocolate para a debilidade, a
-caixa do rapé, o banquinho de tapete, agasalho para os pés e lenço para
-as lagrimas, que são da praxe, quando o Padre mostra o Santo Sudario.
-
-Installadas assim, com todas as commodidades (tudo pelo amor de Christo,
-que tanto soffreu na Cruz) no seu ponto de devoção e de observação, gozam
-á _tripa-forra_ não perdendo um olhar, um sorriso, um vestido novo, uma
-_tournure_ mais arrebitada...
-
-Á noite vão para casa, consideravelmente alliviadas da consciencia, mas
-pouco satisfeitas com o Magalhães, que falou em problemas sociaes, em
-pauperismo, em Philosophia da Historia, em altruismo, em protoplasma e
-outras coisas, que nem o sr. Joaquim entendeu, apesar de, por vezes,
-(certamente por delícadeza) abaixar a cabeça, como quem diz: comprehendo,
-approvo e... estou satisfeito.
-
-O Palmeirão, quando conta imbecilmente pela decima vigesima vez, a
-tragedia do Calvario—tragedia sublime e benefica para as agruras da
-nossa existencia, se todos a soubessemos comprehender, mas que por ahi
-anda como o _libretto_ estafado, nas epochas lyricas da egreja, para
-especulação, para immoralidades e para descrenças—esse percebe-se e
-agrada muito mais!
-
- * * * * *
-
-O beaterio tem uns Santos da sua particular estima.
-
-Os Santos, a final, são como a gente, com quem se lida. Ha physionomias
-que logo inspiram sympathia e ha outras que, sem a gente saber como, nem
-porque, provocam embirração.
-
-Isto é razoavel e intuitivo. Diga-me, por exemplo, V. Ex.ª quem ha-de
-gostar do S. Christovão, com aquella grande cara arrenegada, parecendo
-dizer ás gentes que, se lhe chegam a mostarda ao nariz, corre tudo
-com a vara, pela egreja fóra, como o Pau-real na feira de S. Bento da
-Porta-aberta!
-
-Assim, quando rareiam as festas e as bolsas andam exhaustas, com as
-frequentes subscripções da Assemblea, não havendo possibilidade de se
-organizar a Semana Santa, então, promove o beaterio umas novenas á
-Senhora de tal.
-
-«_São umas festasinhas muito razoaveis, porque a musica é mais alegre,
-são de dia e sempre ha probabilidades de, terminadas as ladainhas e as
-encommendações, se dar, ainda, um passeio até ao Jardim. Emfim, n’uma
-terra, que tem poucas distracções e onde a Rosinha se não póde sustentar,
-tudo se aproveita._»
-
- * * * * *
-
-O caso da Santa alarmou vivamente os animos d’estas esgrouviadas
-bisbilhoteiras.
-
-«_Parece impossivel que se não abrisse a Terra, que não viesse um raio,
-um diabo, que castigasse aquelle pedreiro-livre, aquelle atheu do
-administrador!_»
-
-O malandro que trazia a imagem e a metteu na taberna da Esplanada,
-expondo-a ás chufas e obscenidades avinhadas dos comparsas, esperando
-que o contra-regra desse o signal de subir o panno, para essa asquerosa
-comedia, da nossa asquerosissima Politica,—o malandro que, com um sebento
-balandrau, de imagem e prato na mão, por ahi chatina semanalmente, _a
-meias_, com as crenças do povo, e não hesita em transpôr os humbraes do
-bordel, _pedindo para a bemdita e milagrosa Senhora de tal_, interessando
-assim, a religião de Christo no producto que a barregan obtem da venda,
-em publico, do corpo e da honra—esse icha-corvos torpe e vil, d’uma
-ganancia mais vil e mais torpe, do que os trinta dinheiros de Judas, que
-por ahi esfarrapa as poucas crenças, que ainda existem no povo—esse:
-
-_«coitadinho! Mettia dó vêl-o. Estava amarello, aterrado. Foi preciso
-leval-o, quasi em braços, e dar-lhe café quente, porque lhe podia dar
-alguma coisa»!_
-
-Ah, baratas de sacristia! Como eu desejava possuir o açoite, com que
-Christo expulsou os phariseus e de que côr eu vos poria as nadegas...
-
- * * * * *
-
-As procissões...
-
-Eu não conheço coisa mais estupida, barbara e deshumana.
-
-Felizmente, sou, n’esta opinião, apoiado pelo espirito do seculo que,
-pouco a pouco, vae terminando com ellas.
-
-Qual é o fim das procissões?
-
-Qual a sua necessidade?
-
-São para avivar as crenças?
-
-Que ha, por esse mundo de Christo, mais ridiculo e caricato do que
-Santas Cocas, bois bentos, S. Jorges de carne ou de madeira, isto é, com
-tarracha, ou sem ella, prophetas com barbas de crina, pendões em varas
-de pinheiro por descascar, gaiteiros aos pinotes, matulões de cara
-aparvalhada e cabello empastado com gomma de pevides de marmelo?
-
-Que ha, por ahi, de mais barbaro e deshumano, senhoras de Valença, do
-que essa perigosissima exposição a que, por vaidade, condemnaes os
-membros ainda tenros das creanças, carregadas com adereços de pechisbeque
-e diamantes de vintem, peito e braços nus, tiritando e caminhando
-custosamente, com os pesitos entalados nos escarpes do _uniforme_, e
-atiradas, por essas ruas, á voracidade das bronchites e pneumonias que o
-frio origina, ou das febres e meningites que o calor provoca?
-
-Dizei-me: a Christo, se é a Christo que desejaes honrar, não seria
-mais agradavel que essas duas libras, com que entraes em ajuste d’uma
-pneumonia para vossos filhos, lhes fossem entregues para, com ellas,
-na bemdita missão da Caridade, penetrarem n’uma d’essas barracas da
-Parada-velha e as deporem nas mãos tremulas e descarnadas do pobre velho
-que tem fome e frio aos 80 annos, illuminando-lhe assim com a luz do céo,
-com a luz de Deus, aquelle tenebroso occaso de soffrimento e dôr?
-
-E quando a creança voltasse a casa, risonha e feliz, como Deus a sabe
-dispôr, ao fazer d’ella a mensageira do Bem, não seriam para vós
-mais agradaveis as lagrimas da gratidão do pobre entrevado que, como
-perolas, deslizassem ainda nas mãos pequeninas, do que esse immundo
-cartucho de papel mata-morrão com doces de farinha de milho e assucar
-mascavado—suprema delicia dos matulões da Urgeira—com que o boçal e
-estupido Juiz da festa lhe paga o papel de comparsa?
-
-Senhoras de Valença, que tendes filhos! Pensae n’isto...
-
- * * * * *
-
-A procissão, que os Paes de familia mais respeitam, é a de
-_Corpus-Christi_.
-
-Quando se approxima, é inevitavel a contribuição de chapéos novos para
-as senhoras. É uma coisa feia, na verdade, o apparecer-se n’esse dia,
-consagrado a Deus, com chapéos de inverno...
-
-Pois se o Blanco os tem tanto em conta... Já se não fala em vestidos,
-porque emfim, dá-se uma _volta_ ao do anno passado e ainda póde escapar;
-mas o chapéo é da praxe.
-
-As janellas guarnecem-se, n’esse dia, de caras bonitas. Nas ruas, vae e
-vem, chibante e taful, a juventude da terra; os aspirantes aduaneiros,
-com Velloso á frente, pimpam o oiro dos seus uniformes; barrigudos
-camaristas passam, atados á banda bicolor; ha muita gente do povo;
-colchas espaventosas, flammulas, etc., etc., e, no fim de tudo, a tropa e
-as descargas.
-
-N’este anno, então, essa ultima parte esteve magestosa. Digo a verdade:
-manobras assim, tão complicadas e com tanta tactica, só as tenho visto
-em França, no campo de Chalons, e em Portugal... no largo de S. João.
-Consta-me, até, que para o anno cá temos officiaes dos exercitos
-europeus, em commissão de estudo.
-
-Pelo menos, assim m’o asseveram Moltke, Carnot, o Czar de todas as
-Russias, o Schah da Persia e o Bey de Tunis. Se o affirmam por lisonja,
-sabendo que sou de Valença, isso é com elles.
-
-Vae pelo preço...
-
- * * * * *
-
-Agora as romarias.
-
-Diversos pensadores e philosophos consideram as romarias, como
-indispensaveis e necessarias, attendendo a que o povo que, durante seis
-dias, labuta e trabalha, necessita de descanço e distracção ao setimo,
-para que possa retemperar as forças.
-
-Concordo com isso, mas não colhe o argumento na defeza d’ellas, como
-elemento vivificador de crenças.
-
-Quem é que vae á Urgeira, a Ganfey, ao Faro, a Segadães, que não seja por
-mero divertimento, por distracção, pela novidade de um caso ruidoso e
-differente na pacata vida da provincia?
-
-Quem annuncia em casa á familia a visita á Senhora da Cabeça, ou a S.
-Campio, que isso não signifique um dia de _borga_ e de folgança?
-
-Vejamos as coisas como são, limpando o prisma da observação e da critica,
-das teias de aranha, com que a rotina, o uso e a tradição lhe mancham a
-transparencia.
-
-O que é a «Senhora da Cabeça»?
-
-Um concurso legal de caceteiros.
-
-Perguntem ao meu amigo Joaquim Queiroz, se elle de lá veiu com mais
-crenças, apesar dos esforços que os salta-pocinhas de Lara e de Lapella
-fizeram, para lh’as introduzir na massa cerebral.
-
-Perguntem a esse amigo, imprudentemente envolvido por generosa
-dedicação e por nobre arrebatamento, na batalha de _Montes Claros_, se
-essas mulheres, que uivavam como hyenas e clamavam em furia horrenda,
-contra tres homens, não eram as mesmas que se espojavam pelo adro da
-capella, e se arrastavam de joelhos nas _cinco voltas_ da promessa, com
-que, sentindo estoirar o bandulho nos arrancos de brutal indigestão,
-recorreram á fama milagreira da Santa...
-
-Perguntem-lhe se esses matulões, que á porta do Chico Mello o cercavam,
-embrutecidos pelo vinho, apertando o circulo dos varapaus ferrados,
-com gritos de chacal e esgares sensuaes de anthropophagos, não eram os
-mesmos que, horas antes, carregavam, como bestas, com o andor da Santa e
-abalavam o solo com o poisar da pata na marcha truanesca, pelos atalhos
-do logarejo.
-
-O que é _S. Campio_?
-
-A prostituição ao ar livre, sob o manto estrellado da noite, como diria
-qualquer poeta; e a charlatanice, fazendo suar o Santo e... os milheiraes.
-
- * * * * *
-
-A pequena distancia d’esta villa ha um burgo chamado—Urgeira. É feudo do
-sr. Joaquim. Descendem em linha recta, os seus habitantes, d’aquelles
-antigos cultivadores de cebolas do Egypto.
-
-Formam um elemento importante na Politica do nosso Hospital e prestam
-assaz reconhecido serviço, nas procissões da Semana Santa. Chegam em
-mesnadas, marcham bem, formam, com os seus balandraus, duas alas, já
-muito razoaveis e, além d’isso, são faceis de contentar: quaesquer tres
-patacos de borôa e zurrapa lhes enchem as panças, depois da procissão, na
-sacristia da Misericordia, provocando-lhes sonoro arrôto.
-
-No verão, rara é a noite de sabbado, em que estes pacovios não queimam
-algumas duzias de libras, com foguetes de lagrimas e bombas de dynamite.
-
-Ora, no burgo ha pobreza e ha miseria; ha velhos, que gemem na cama com o
-frio do inverno e ha creanças esfarrapadas, que chafurdam no lamaçal dos
-becos; ha aleijados, que se arrastam até á villa mendigando o _chabo_.
-
-Com esses 500, ou 600 mil réis, que annualmente se gastam em festas,
-podia a Junta de Parochia fundar um Hospicio para os velhos, e
-estabelecer uma sopa economica para os famintos.
-
-Mas a pandega? O grande brodio da vespera da festa? A _figura_ que se faz
-na procissão com a vara de Juiz?
-
- * * * * *
-
-Necessita o povo de distracções.
-
-Verdade é, mas dêem-lh’as que o civilizem e não que o embruteçam.
-Festas, Romarias e Procissões são ainda vestigios d’aquelles primitivos
-tempos, em que era necessario inveterar pelo mysticismo, pelo apparato e
-sumptuosidade das manifestações, o espirito da crença.
-
-Mas hoje, em que para o plebeu entrar no templo até á grade, onde a
-aristocracia aninha, se lhe exige roupa lavada e calçado decente; hoje,
-em que elle vae á romaria para jogar o pau, beber vinho e entregar
-fielmente á _Batota_ a féria da semana—acabem com tudo isso e deixem
-ficar a Religião nos templos, e só nos templos, d’onde nunca devera ter
-sahido.
-
-E, para divertir o povo, substituam, então, esses grotescos cortejos
-de Santos, entre espelhos de pataco e plumas de gallo, por verdadeiras
-procissões civicas, onde figurem os heroes da nossa Patria, que os temos
-tantos e tão dignos d’essa apotheose.
-
-Em vez de pulpitos ao ar livre, levantem-se tablados, onde se reproduzam
-os factos mais gloriosos das gloriosissimas epopéas que, a um paiz de tão
-acanhadas dimensões, deram a celebridade das grandes nacionalidades.
-
-Organizem-se-lhe jogos, luctas, em que se adestre no exercicio das armas
-e possa desenvolver os musculos e a energia, de que tanto necessita para
-a constante lucta da existencia.
-
-Conte-se e mostre-se ao povo o que fomos, e assim, distrahindo-o, lhe
-incutiremos os germens d’esse sentimento, que é o principal impulsor dos
-grandes feitos e das grandes civilizações—o amor da patria.[24]
-
-Basta de coisas de egreja. E agora,—beaterio da minha terra!—um Padre
-Nosso e uma Ave-Maria por este Zinão, que já está ás portas do inferno...
-mas esperando que entreis, para atrancar solidamente a porta e assim vos
-acabar com a raça!
-
- _Pater Noster..._
-
-
-
-
-VII
-
-Litteraturas
-
-(DUAS PALAVRAS)
-
-
-Claro é que, tendo subordinado o programma d’este livro ao titulo de
-_Estudos sobre a actual sociedade valenciana_, me não posso esquivar
-a fazer incidir, por momentos, na minha lente de observação, os raios
-luminosos que os nossos _homens de lettras_, semanalmente, fazem
-convergir no fóco das _lamparinas_ cá da terra.
-
-N’esta epocha, em que legalmente está em uso, reconhecida e sanccionada,
-essa nojenta e nociva convenção litteraria do _elogio-mutuo_, que tanto
-talento atrophia, que tanta intelligencia embriaga com os aromas d’um
-incenso macanjo, parvoiçada é—reconheço—o meu proposito, que significa
-perigo eminente nas cannelas, irremediavelmente condemnadas á dentuça
-dos _critiqueiros_.
-
-Limito a area da observação com as muralhas da Praça e d’ella exceptuo,
-ainda, algumas individualidades que, demasiado, me ferem a retina com
-o seu talento, e que a insignificante distancia focal da lente me não
-permitte abranger.
-
- * * * * *
-
-N’esta nossa terra, a penna serve, unicamente, para estadulho de
-deslombar politicos, ou nas protervias e diatribes, originadas em
-questiunculas ridiculas e comicas, como as da _Prisão da Santa_, ou nas
-pacholices rimadas, com que se visa á critica galhofeira.
-
-A penna photographa a Idéa. A Idéa póde evolar-se, librar-se sobre todas
-as manifestações da actividade humana, consoante as aspirações que a
-orientam e as intelligencias que a esclarecem. Póde fixar-se na Arte,
-na Sociedade, no Homem, etc. Entre nós, embirrou com a Politica e não a
-larga.
-
-Por isso, chafurda na insulsez parrana, na graçola afadistada, na
-metaphora besuntona.
-
-Ao _brazileiro barato_, ao _fidalgo sem pergaminhos_ e a outros
-escarros-piadas, que por ahi fluctuam á tona da enxurrada, corresponde
-esse constante martellar de bordões estafados, do _gaiteiro_, do _João
-Bernardo_, com que ainda hoje a fedelhada sahe á estacada, empunhando
-a babuzeira e acenando a quem passa com outro Ideal e com outras armas:
-não o insulto soez á familia, mas o sorriso caustico do epigramma á
-individualidade social.
-
-A Imaginação e a Phantasia vasam-se, por ahi, nos moldes d’uma linguagem
-mascavada, em que pullula o neologismo pretencioso, d’onde resalta a
-phrase de sensação dos ultimos figurinos, que o francez atira, por cima
-dos Pyreneus, como uma bota cambada e velha, e que o rabiscador, prestes,
-enfia nos pesunhos para, coxeante e rufião, seguir em truanesca marcha,
-campos fóra da critica e da... tolice.
-
-Esfuzia, frequentemente, o gallicismo inutil nas espalmadas linhas; é
-constante a referencia ôca á lombada das recentes publicações francezas;
-e, n’uma epocha em que o mercieiro fala na _Sapho_, de Daudet, ri com as
-frescuras de Catulle, estremece com as _Blasphemias_ de Richepin, salta
-com as pinturas realistas de Zola, entretem a familia com os Goncourt
-e auxilia a chylificação com Maupassant ou Coppee, a arlequinada do
-rabisca, não só denuncia ignorancia completa da nossa litteratura e dos
-recursos da nossa lingua, mas, ainda,—com a impropriedade dos termos,
-apanhados a dente e atacados a soquete sublinhado nos periodos—uma
-deploravel vaidade e tristissima inconsciencia.
-
-Não ha orientação litteraria, nem eschola definida, nem percepção
-nitida da idea, nem consciencia na phrase, nem centelha de imaginação
-que desperte a vibratilidade da nossa alma. Ha, d’um lado, a atrophia
-voluntaria e criminosa, a que se condemnam faculdades intellectuaes
-de superior quilate, e d’outro, a ambição ridicula e chatissima de se
-mostrar á familia—ao papá e á mana, ao titi e á prima, ao namoro e á
-sopeira—o nome em lettra redonda, claro, ou nas malhas transparentes d’um
-pseudonymo, que o sorrisinho immodesto descobre ao primeiro e desejado
-ensejo.
-
- * * * * *
-
-Poderá alguem suppôr com estas minhas reflexões, tão discordantes na
-fórma, das hosannas, que por ahi se entoam, impostas pela nojenta
-convenção do _elogio mutuo_, que nego merecimentos, ou repudio aptidões
-intellectuaes?
-
-Tal não succede.
-
-De quando em quando, aqui e acolá, mesmo n’esses a quem a vaidade e
-o pedantismo desnorteiam, descubro e reconheço os vestigios d’uma
-expontaneidade de phrase, evidente; d’um colorido de expressão, notavel;
-d’uma receptividade emocional, definida; d’uma accommodação visual para
-a analyse, apreciavel;—propriedades que, vigorizadas pelo trabalho,
-orientadas pelo estudo persistente nos bons modelos e impulsionadas para
-um Ideal, podiam educar-lhes o espirito e eleval-os, porventura, á
-consideração que ambicionam e que criminosamente lhes attribuem.
-
-O que eu desconheço é:—o trabalho; o que eu censuro é:—a inercia; o que
-eu repudio e calco aos pés, é essa perfida e nojentissima convenção,
-que faz do _cinco reis de gente_ um Adamastor, do balbuciante bebé um
-polemista, do Rosalino Candido, um Ramalho Ortigão, ou, como elles
-diriam, de Prudhomme, um Pierre Veron, ou Albert Wolff.
-
-A penna exprime a Idea. A Idea parte do cerebro. O cerebro significa a
-Intelligencia, a Alma, isto é, o conjuncto da sensações e sentimentos,
-que na sua phenomenalidade, separam o Homem do bruto.
-
-A faculdade de sentir e a expressão nitida e clara, pela penna e pela
-palavra, de todos os phenomenos da natureza psychica, são o que o homem
-tem de mais nobre.
-
-Triste é, portanto que, na critica d’um facto, na discussão d’uma idea,
-no desforço d’uma aggressão, eu vá encontrar aptidões intellectuaes com
-elementos tão apreciaveis, na choldra da Politica, ou descendo, ainda,
-tanto e tanto, que se não pejam com a pasquinada a carvão nos logares,
-onde o carrejão usualmente se encosta, para... ensalitrar as paredes.
-
- * * * * *
-
-E no grupo dos que a inercia atrophia, dos que deviam libertar-se para
-outras espheras mais luminosas e mais puras, porque já possuem na
-Imaginação e na Phantasia a vigorosa organização do condor, vejo eu um
-homem—que sabe burilar preciosamente a idea, que filigrana artisticamente
-a palavra—debater-se, na triste condição de bonifrate, movimentado pelas
-guitas dos especuladores, transformando o cerebro, d’onde arranca chispas
-d’um verdadeiro talento, na bola ensebada e porca dos jogos malabares que
-os politiqueiros por ahi exhibem, visando á esportula dos magnates.
-
-E como se não fosse profanação bastante, o manchar a penna nos bispotes,
-em que essa megéra—a Politica—diariamente evacua, ainda ha pouco manchou
-tambem os labios d’onde, palpitante, quente, phantasiosa e bella, lhe
-resalta a palavra, na dentuça cariada e porca d’um salta-pocinhas
-eleitoral agargalado!
-
-Suprema humilhação do talento!
-
-Pudesse eu agarrar-te pela golla do casaco e, applicando-te em certa
-parte do corpo duas palmadas, fazer actuar no teu espirito, incisiva e
-caustica, a affectuosa indignação, com que d’aqui te brado:
-
-Livra-te d’esse chiqueiro, _homem de Deus_![25]
-
-
-
-
-VIII
-
-Quimtilinarias[26]
-
-
-Diz algures Macaulay:
-
-«_É nas grandes crises politicas, nas grandes agitações populares, que se
-denunciam os grandes homens e se manifestam os grandes genios._»
-
-Cá temos a confirmação d’esse periodo do eminente historiador inglez.
-
-Ruge, infrene, a colera do povo por causa do _mandado_: e no meio
-d’essa espantosa effervescencia da nossa politica, ergue-se aos céos
-da posteridade, dardejando raios mortiferos de oratoria epistolar, um
-homem, até hoje ignorado na republica das lettras: Quim Fonseca!
-
-Tenho lido muita epistola e muita carta; li as epistolas de S. Paulo aos
-corinthios; as de Horacio e Cicero; as de Racine e Pascal; as de M.ᵐᵉ de
-Sevigné e de Girardin; as do Rosalino e Jayme José; mas, coisa tão puxada
-de rhetorica, tão desembolada de logica, tão _frecheira_, de estylo—é que
-ainda não pude encontrar nas litteraturas passadas e presentes, desde a
-sanskrita, até á dos papuas, ou á das gentes do Molembo-Kuango!
-
-Sempre desconfiei que, no cerebro d’este Fonseca, vascolejava algo de
-extraordinario e de superior. Quando, por ahi, aventavam deformidades
-psychicas, amesquinhantes do intellecto, affirmava eu sempre:
-
-_Fonseca tem lume no olho! O futuro o dirá._
-
-Ahi estão as suas sessenta epistolas engranzadas nas gazetas da terra,
-confirmando, plenamente, os meus presentimentos.
-
- * * * * *
-
-Estudei durante muito tempo o Quim Fonseca, auscultando as minucias da
-sua existencia social e as subtis ramificações da sua politica.
-
-Considero-o como um dos vultos mais importantes da minha terra, porque
-é o fulcro _diamantino_, onde se apoia a alavanca civilizadora (?) do
-Progresso. Impõe-se, portanto, á minha observação e ao meu respeito.
-
-Consumi annos n’esse estudo, sem poder formular uma classificação exacta
-e rigorosa.
-
-Mas, um dia, descobri que Fonseca usava... suspensorios!
-
-Ora, os suspensorios teem para mim uma grande significação; considero-os
-como elemento precioso e infallivel na investigação do caracter
-individual—elemento mais precioso e mais infallivel, do que as
-protuberancias do craneo, na theoria de Gall; os traços physionomicos na
-de Lavater, ou o volume do cerebro na de Broca. Após minuciosas analyses
-e confrontações, cheguei á conclusão, de que os suspensorios pódem
-significar: reflexão, sobriedade, economia, previdencia, sensatez, paz do
-espirito, pureza de costumes, existencia de virtudes civicas.
-
-Homem que usa suspensorios, sabe de cór quanto produz, livre do imposto
-de rendimento, o capital de doze moedas d’oiro a tres e meio por cento;
-sabe em que lua se cortam as madeiras; sabe em que epocha convém semear a
-couve penca, o rábano, a nabiça e as pevides de marmelo; sabe em que mez
-se capam os gatos; sabe salgar um porco, dispôr os presuntos no fumeiro,
-encher um chouriço; sabe _coisas_ de emphyteuta, de fóros, de aguas de
-rega, de bacellos, de alpórcas e de bens de mão-morta; sabe aparar um
-callo e applicar um crystel; conhece remedios para o gôgo e para as
-bichas; conhece as propriedades do sebo de Hollanda; sabe—emfim—de tudo
-um boccadinho, porque é encyclopedico em Sciencias caseiras e perito em
-questões de vida pratica.
-
-E V. Ex.ª, que conhece o Fonseca, diga-me, agora, se as aptidões do seu
-intellecto não estão ahi, nitidamente inventariadas.
-
- * * * * *
-
-Eu venero as commendas.
-
-Quando, em Quinta-feira santa, na vizita ás casas do Senhor, encontro
-o sr. V. de Moraes, deslumbrando a gente com a sua casaca e com
-as scintillações da Gran-cruz gallega, onde o sol poente arranca
-chispas—tiro humildemente o meu chapéo e curvo-me submisso.
-
-Venero a banda bicolor, diagonalando a obesa pança d’um senador; venero a
-vara d’um juiz de irmandade.
-
-Reconheço tambem, a importancia social dos titulos honorificos.
-
-Um Visconde foi, é, e será, sempre, um homem de massa mais afinada do
-que qualquer Zinão; um homem estremado entre a peonagem; um homem de
-sangue _cruzadico_, de alta sabença, de apurado senso. Ahi está o sr. V.
-da Torre, que, ainda de molleirinha e a fazer _tem-tem_, escrevia os
-_Preconceitos_, para... _despreconceituar_ a heraldica dos viscondados.
-
-Venero e respeito tudo isso, repito, porque, emfim, Deus que resolveu
-distinguir na sociedade umas certas pessoas, com titulos e com
-penduricalhos, lá se entende e lá tem as suas razões...
-
-Mas cá no fôro intimo, nada provoca, mais fortemente, a minha
-consideração, como umas alças, uns suspensorios, d’aquelles de tres
-cores, como a bandeira franceza—com as suas fivelas doiradas, as suas
-prezilhas de coiro unidas, symetricamente, aos quatro botões alinhados
-pelo buraquinho do umbigo.
-
- * * * * *
-
-Este meu culto ás alças já me originou grave desgosto na familia.
-
-Minha filha mais velha, D. Fagundes, namoriscava o filho do nosso
-procurador em Monsão. Ha cinco annos entra o mocinho na sala de visitas
-e, deante da rapariga, balbucia trémulo de commoção:
-
-—Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo!
-
-O Senhor passou bem?
-
-Eu vinha pedir a mão de sua filha D. Fagundes d’Atouguia. Tenho 25 annos;
-sou camarista na minha terra; as minhas propriedades rendem 40 carros e
-60 pipas; tenho doze contos nominaes em inscripções; vinte obrigações das
-Aguas de Melgaço e de S. Pedro, cinco acções do piano da Assemblea e dez
-do Theatro Valenciano...
-
-—Perdão, interrompi eu; e emquanto ás ultimas, pagou todas as prestações?
-
-—Não, senhor; assignei, mas só paguei a primeira prestação de 10 p. c.
-
-(O homem convem-me, disse com os meus botões, já vejo que é
-_agostinhado_.)
-
-—Serve-me para genro; mas, um esclarecimento apenas, que é o mais
-importante: o meu amigo usa suspensorios?
-
-—Ora essa! exclama o joven, acaso é isso importante no meu futuro
-marital? Pois a minha barriga é que tem de _crescer_...
-
-—Basta, senhor! Visto que ridiculariza uma coisa tão seria,—nada feito!
-Queira bater a outra porta.
-
-E Fagundes ficou solteira...
-
-Ora ella está longe de ser uma belleza e, ás vezes, tem _telha_; mas para
-Monsão servia e, servia, até, muito bem.
-
- * * * * *
-
-Recebi hontem á noite um telegramma de Bismarck, pedindo informações
-urgentes ácerca das sessenta cartas. Como sou correspondente da _Gazeta
-da Allemanha_, tratei de averiguar o caso inspirador d’aquellas
-Catili—digo—Quimtilinarias.
-
-Eis o que descobri:
-
-Na ultima reunião dos _quarenta-maiores_, o Fonseca, subitamente atacado
-de violenta verborrhea, poz em pratos limpos a historia do _mandado_,
-segredada ao bichinho do ouvido por um _amphibio_.
-
-Os senadores ficaram aterrados e os municipes bateram palmas, porque
-tinham farejado escandalo.
-
-Fonseca exaltou-se, berrou, vociferou; e, por vezes, para o acalmar no
-furor do seu zelo pelos interesses do Municipio, teve um prestimoso amigo
-de lhe molhar a palavra, com agua da Fonte de S. Sebastião, que é a mais
-fresquinha[27].
-
-A final serenou e retirou-se satisfeito.
-
-Jantou e soube-lhe bem; mesmo muito bem. Com o enthusiasmo _entrou_ de
-mais n’um arrozito de _berberichos_.
-
-Retirou-se para o seu escriptorio.
-
-Os _berberichos_ principiaram, porém, a _repontar_ com elle,
-provocando-lhe, em certo apparelho, uns beliscões diabolicos.
-
-Lembrou-se de ir convidar o Leopoldo a dar um passeio nas muralhas;
-mas, por outro lado, a rigidez e a austeridade dos seus habitos
-aconselhavam-n’o a ir ter com o Capellão, certamente para se desobrigar
-dos peccados do dia.
-
-Mas, n’isto, no lusco-fusco da sua somnolencia, viu apparecer e avançar
-o vertice d’um angulo de 25°, angulo que foi alargando, alargando,
-sustentando sempre, um dos seus lados, em parallelismo com os olhos do
-Fonseca.
-
-Linhas irregulares, verticalmente dispostas, desenharam, depois, uma
-cabeça collada a esse grande appendice angular; novas linhas configuraram
-um corpo, como appendice d’aquelle primitivo appendice.
-
-Appareceu um nariz com perninhas!
-
-Em seguida, surgiu uma coisa redonda, muito arrebitada e rechonchuda, que
-foi, tambem, crescendo, crescendo...
-
-Rebolava-se uma pança que, avançando, exclamou:—_Oh Quim! Tu falaste bem;
-mas foi e Zé, quem te deu o papel!_
-
-Approxima-se o nariz, aos saltinhos, e diz tambem, roçando pelo
-respeitavel dito, do Fonseca:
-
-—_Sim! O Zé deu-te o papel! Foi o Zé! Foi o Zé! Foi o Zé!_
-
-—_Ah, Morãeses do diabo! Bofé, que mentis! A mim, gentes de Verdoejo e
-de Taião!_
-
-E arremessando para longe as lubricas tentações, o chale-manta
-e o barretinho bordado com a sua borlinha toda repenicada, a
-dar-a-dar,—foi-se á escrevaninha e principiou a escrever uma carta;
-depois, outra; depois, outra;—total sessenta cartas!
-
-No intellecto do Fonseca deu-se, então, aquelle phenomeno da
-scissiparidade por segmentação.
-
-Cidadãos pacatos e sisudos, pouco versados na mechanica epistolar e
-affeitos á bolorenta erudição do:
-
-«_Muito estimarei que ao receber estas mal esboçadas regras, esteja
-gozando perfeita saude, em companhia de quem mais deseja, pois a minha,
-graças a Deus, ao fazer d’esta, é boa..._»
-
-sahiram-se com puxadas de estylo de rachar tudo, graças á
-communicabilidade galvanica do intellecto fonsecoide, saturado de
-rhetorica e prenhe de syllogismos irrefutaveis.
-
- * * * * *
-
-Mas vem cá—oh Fonseca—O que é, afinal, que pretendes dizer na _tua_, com
-essas sessenta epistolas?
-
-Que diabo te disse o _Noticioso_, que tão violentamente arrepiou a tua
-espinha, como se te communicasse a irritabilidade nervosa do galvanismo?
-
-Offendeste-te por elle affirmar, que na sessão dos _quarenta-maiores_,
-o teu esplendido discurso não foi improvisado e que houve, até, quem te
-desse o _ponto_?
-
-Mas—oh filho—suppões, acaso, que no intimo da alma dos nossos
-conterraneos não existe, profundamente radicada, a absoluta confiança
-nos teus dotes oratorios, embora se reconheça, sem desdoiro, que não és,
-precisamente, o que se póde chamar um Pico de Mirandola?
-
-Então não está ahi, bem pronunciado, no teu luzidio craneo, o
-extraordinario desenvolvimento da terceira circumvolução cerebral, em que
-Broca localizou a eloquencia e a arte oratoria?
-
-Olha, Quim, um conselho de amigo:
-
-As tuas sessenta epistolas,—embora, verdadeiramente, se não saiba, ainda,
-para que as escreveste e para que incommodaste tanto cidadão pacato,
-tanto cerebro, tanta caneta, tanto bico e tanto papel de chupeta—estão
-boas; isso estão. Mas ouve, filho, a respeito de litteratices, de
-cartas—isto é—de escripturas e de lettras, manda-n’os algumas, mas
-d’essas que tens com hypothecas e com fiadores.
-
-As que para ahi estás a publicar, guarda-as, para quando não tiveres quem
-te _chegue o papel_...
-
-Não maces mais a gente, que tem de aturar bissemanalmente o _Noticioso_,
-diariamente o Marilio[28] e—aos domingos,
-
- o João de Ganfey.
-
-
-
-
-IX
-
-Politiquices[29]
-
-
-Anda coisa no ar...
-
-A horas mortas, nas sombras da noite, quando as venerandas paternidades
-desatam pachorrentamente os nastros das ceroilas e extendem as
-delgadas tibias entre a alvura dos lençoes, deliciando-se com a
-voluptuosa sensação do linho—quando os technicaphilas experimentam
-a potencia dynamica do coice e a rigidez do craneo contra os muros
-e bancos de praça, e as sopeiras, sedentas de luxuria e amor, abrem
-sorrateiramente a janella para sentimentaes gargarejos com almiscarados
-artilheiros—quando o beateiro resmunga entre bocejos, n’este meio
-cá—meio lá, da somnolencia, o ultimo _Paternoster_, e dois amigos meus,
-dos respeitaveis e probos, depois do nocturno repasto, se entregam,
-extramuros, a indigestos estudos de anatomia... _patriotica_—n’essas
-horas da noite, repito, nota-se nas ruas de Valença um movimento
-desusado, extraordinario e inquietador para quem de perto conhece, como
-nós, a indole pacifica e a habitual obediencia dos nossos conterraneos ao
-toque militar das oito e meia.
-
-Cruzam-se vultos mysteriosos e sombrios, murmurando rapidamente palavras
-convencionaes; a frouxa luz dos candieiros projecta nas calçadas a sombra
-de longos _capindós_, de amplos _libertés_ com que, indubitalmente,
-conspiradores sinistros, caras patibulares e alvellicas, se disfarçam e
-acobertam.
-
-Denuncia-se, emfim, a effervescencia d’uma agitação occulta, surda, quiçá
-perigosa e violentissima, que prepara para breve, na historia d’este
-brioso povo, acontecimentos extraordinarios e imprevistos, que hão-de
-suscitar aos pósteros um ponto de exclamação tão elevado, tão grande
-e tão alto, como o sr. professor de Verdoejo, como o nariz do sr. dr.
-Ladislau, ou como um chapéo siamez que, ha um bom quarto de seculo, eu
-por ahi vejo, nos dias festivos do anno, luzidio e repontante, contra o
-ether dos céos.
-
-Mercê da perspicacia e actividade do zeloso Commissario das Policias,
-o sr. Sampaio, está já conhecida a causa de tal agitação; e á amizade,
-com que esse cavalheiro me distingue, devo eu a possibilidade de aqui a
-communicar aos meus conterraneos, para tranquillidade das damas nervosas,
-das donzellas chloroticas e hystericas, que se tenham inquietado com o
-que acabo de denunciar.
-
-Trata-se d’uma conspiração politica.
-
-Preparam-se traças; urdem-se planos; consultam-se esphinges;
-interrogam-se oraculos; assediam-se as potestades eleitoraes; arietam-se
-as opiniões renitentes; hypnotisam-se os refractarios á conversão
-desejada, e tudo com a intenção sinistra e machiavelica de attentar,
-nas proximas eleições, contra a soberania e omnipotencia do senhor
-feudal d’este burgo, de quem tudo-lo-manda, o muito alto, poderoso, e
-excellentissimo Senhor Administrador do Concelho!!
-
-Quem diria, senhores, o que no ultimo quartel do seculo teriamos de
-presenciar n’esta nossa terra tradicionalmente fiel ás instituições,
-cégamente obediente aos poderes constituidos, amante do seu Rei e de toda
-a sua Excellentissima familia (como se diz em Monsão)—n’esta terra onde,
-depois que os legendarios 7:500 bravos implantaram e regaram com o seu
-sangue o systema constitucional, inaugurando essas grotescas bambochatas,
-chamadas eleições, nunca os nossos antepassados tiveram a ousadia de
-contestar a opinião, as ideas do Senhor Administrador, embora ellas
-fossem tão extraordinarias e tão estramboticas como o dizer-se agora—por
-exemplo—que o sr. José Narciso não acceita a legitimidade dos direitos
-do Senhor D. Miguel de Bragança; que o Senhor Velloso, com o seu bigode
-negro e a alvura immaculada do seu collete branco, não é, para as damas,
-o mais esbelto e airoso joven, que terras de Portugal téem exportado
-para a nossa galeria aduaneira, ou ainda, que o Senhor Agostinho não
-significa na politica um caudilho poderoso, um sectario fiel, seguro e
-intransigente do partido progressista—regenerador—constituinte—reformista
-esquerdista—republicano—socialista.
-
-Mas, perguntarão Vossas Excellencias, não faz Valença parte d’um
-circulo? Não téem os seus habitantes, como os d’outras terras,
-semelhantemente illustres—Fornos de Algodres, Terras de Bouro, Cannas
-de Senhorim—direitos e regalias que a Carta Constitucional da Monarchia
-concede para a amplissima e plenissima liberdade da opinião, em materia
-de eleições?
-
-Verdade é.
-
-Temos os mesmos direitos e á custa do mesmo preço...
-
-Pagamos religiosamente as nossas decimas, as nossas congruas, sem
-contestações, nem aggravos, desprezando, até, com generosa e espartana
-altivez os quebrados, os dois, tres e quatro reis—uma ninharia—que o
-Senhor Recebedor, escravo dos dictames da sua consciencia, á força nos
-quer devolver.
-
-Mas, eu recorro á Historia, a que Thierry chama «espelho da verdade»
-e Michelet «guia do futuro» para affirmar e provar, _urbi et orbi_,
-a inflexivel immutabilidade das opiniões politicas da nossa terra,
-recordando factos que, fiel e genuinamente, exprimem e caracterisam a
-superior orientação, que aqui existe sobre os direitos do cidadão—factos
-que não architecto com materiaes da Phanthasia, nem illumino nas
-penumbras dos tempos remotos, porque são rigorosamente exactos e coevos
-da geração que passa.
-
-Approximava-se, ha annos, o dia em que o povo soberano, forte nos seus
-direitos, em troca do liberrimo voto a uma tarraçada de vinho, ou a
-indigestão de _calhos_ na cantina eleitoral de Mestre Pedro era chamado a
-influir nos destinos da Patria e a metter a sua colherada n’essa sordida
-e nojenta palangãna, chamada _urna_, onde com putridas exhalações,
-referve e azeda a mixordia das ambições estultas, das vaidades
-irritantes, das pressões odiosas, das promessas fementidas, e em que os
-ambiciosos e especuladores—os Pausanias e Wilsons de todos os tempos—se
-refocillam e afocinham, disputando, á dentada, o appetecido osso do
-_arranjo_...
-
-Nos campanarios sertanejos agitava-se o badalo chamando o servo da gleba
-que, de roupa domingueira e quinzena nova, se dispunha a, mais uma vez,
-com boçal inconsciencia, conspurcar o direito do voto—uma das mais bellas
-conquistas da liberdade na sua sangrenta evolução atravez de seculos de
-lucta, producto abençoado da laboriosissima reacção que n’essa enorme
-retorta, a França, na inferioridade do sudra, na degradação de ilota, nas
-algemas do escravo, na dependencia humilhante do servo—como elementos
-componentes—provocaram os raios chimicos da formosissima luz d’essa
-bemdita, mil vezes bemdita, alvorada de noventa e...
-
-Mas, perdão.
-
-Que diabo estou eu a escrever? _Ridendo_... Eis o meu programma.
-
-Ao largo, pois, logares communs de estafada Historia!
-
-Pensamentos tristes, arredae! Acoitae-vos e multiplicae-vos no cerebro
-do Padre Capellão para, nos sermões de sexta-feira santa, com que, tão
-auspiciosamente, inaugurou a sua eloquencia n’esta terra, nos descrever
-mais uma vez, com a voz embargada pelo sentimento, o martyrio da MÃE, as
-afflicções da MÃE a dôr da dita MÃE.
-
-Continuemos, pois, a rir, senhores, um riso bom, sonóro, vibrante e
-desafogado, que o riso é das poucas coisas que ainda escapam á rede
-tributaria, e representa, n’este arido deserto da vida, a frescura
-vivificante e consoladora do oasis.
-
-Ha annos, ia eu dizendo, em vesperas de eleição, teve um vizionario
-estranho a ingenuidade de tentar combater o sr. Administrador do
-Concelho, arrepiando-lhe a submissão dos eleitores, em determinadas
-freguezias.
-
-O caso engatinhou ás culminancias do desafôro; alcandorou-se nos topes do
-escandalo!
-
-Apimentaram-se os animos; esturraram-se os genios; apopleticaram-se
-os mais sisudos e conspicuos habitantes da rua de S. João—esses
-santos varões, que são na nossa terra os genuinos representantes dos
-ricos-homens e infanções dos tempos medievaes, sobrios de costumes,
-austeros no porte, d’um puritanismo feroz; tementes a Deus, ao diabo, ao
-abbade e ao sr. Joaquim Apollinario.
-
-Reuniram-se, em conclave mysterioso, os mais valentes e poderosos homens
-d’armas do partido governamental—o unico, n’estes reinos, legalmente
-constituido.
-
-Mensageiros esbaforidos chegavam, tressuando, de toda a parte com
-informações sobre os manejos do inimigo e, praça aberta á discussão,
-depois de grave ponderação e demorada concentração dos espiritos, sahiu
-d’aquellas venerandas cabeças o plano de combate que, para efficaz
-execução, para infallivel resultado, urgia communicar immediatamente, sem
-demoras, nem hesitações, a um rico-homem de Coura.
-
-—Ora, n’aquella epocha, se bem que já estivesse iniciado o caminho
-das grandes descobertas geographicas e scientificas, que constituem
-a epopeia gloriosa da humanidade, e se conhecessem já, a America, a
-Africa, o phonographo, os camarões, o xarope do dr. Gibert e o sabão do
-sr. Moutinho; existindo já Pasteur, Jenner, João da Gaiteira, Edison,
-os srs. Zé da Rosa e Roldão; se bem que a Sciencia, em todos os seus
-ramos, estivesse consideravelmente aperfeiçoada, como por exemplo, a
-Jurisprudencia em que, no Direito penal, Lombroso, Garofalo, Aubry,
-attenuavam a responsabilidade criminal, combatendo essas brutaes penas
-da forca, da guilhotina, do pôtro, e substituindo-as, quando o crime
-tinha as revoltantes particularidades de Pantin, de Fuencarral, ou de
-White-Chapel, por uma audição, mais ou menos demorada, do drama do sr.
-C. Barros, ou d’um discurso do sr. Presidente da Camara—n’essa epocha,
-repito, ainda o sr. Miguel Dantas não tinha inventado Coura, a preciosa
-povoação, que tanto deu que matutar aos srs. Fontes e Bismarck, nos
-procellosos dias da revolução de Bico.
-
-A Mesologia estava, ainda, no estado rudimentar e não tinha definido
-e aproveitado a extraordinaria influencia procreadora do clima, que
-n’aquellas uberrimas paragens, melhor do que a Physiologia de Debay, do
-que qualquer intervenção abbacial, ou leopoldica, mantem nas robustas
-camponezas uma fecundidade tal que, annullando por completo as theorias
-de Fourier, na resolução do importante problema do pauperismo, estabelece
-para a pittoresca povoação a reputação invejavel e, sobremodo honrosa, de
-fabrica permanente de amas para bebés.
-
-Coura, emfim, meus senhores, a indispensavel Coura, estava ainda no
-casulo das sociedades modernas, na pevide das povoações minhotas, no
-caroço dos baluartes eleitoraes e não podia, portanto, alli influir
-a civilização como agora, em que o luxo das edificações principia a
-abandonar o colmo na cobertura das casas, substituindo-o por umas coisas
-vermelhas e arqueadas chamadas telhas, e em que ha Correio e Telegrapho,
-com um movimento tão extraordinario e assombroso, que a gente guinda-se
-aos mastaréos da popularidade, trepa aos carrapitos de um semi-deus,
-escarrancha-se na celebridade do proprio Boulanger se, n’um só dia,
-recebe da familia duas cartas e um telegramma!!
-
-Mas... era necessario lá mandar um proprio, unico recurso d’aquelles
-felizes tempos, em que estavamos livres da Companhia real, e podiamos,
-sem despeza de testamento, nem afflicções de quem está nas garras da
-Morte, tentar qualquer viagem.
-
-E tal era a urgencia, a imprescindibilidade da communicação, que o
-portador devia ir a cavallo!
-
-Ora, esta urgencia, formulada na intervenção do rocinante e lançada á
-discussão na maior effervescencia do furôr opposicionista, despertou no
-espirito dos mais sensatos e perspicazes ricos-homens e abbades um subito
-resfriamento de enthusiasmo.
-
-Perceberam o quer que fosse de sombrio e tetrico, que baixou a zero a
-ebullição tumultuosa da sua dedicação partidaria.
-
-Como o Mane, Thecel, Phares, que entupiu Balthazar, ou a sombra de Banco
-que engasgou Macbeth, ou a estatua do Commendador, que foi para o D.
-Juan, de Molière, o que o vulto do capitão Teixeira de Moraes foi em
-noite procellosa de inverno, nas cercanias do solar da Balagota, para o
-Sr. Sampaio[30] a lembrança do cavallo aterrou os mais ousados d’aquelles
-ricos-homens, que representavam, no seu conjuncto, feudos e rendas
-superiores a muitas centenas de mil cruzados.
-
-Empallideceram, subitamente, as faces até alli purpurinas e rubras de
-excitação; baixaram-se, evitando-se, os olhos, até alli coruscantes de
-furôr; cerraram-se os labios, como se uma pressão de muitas atmospheras
-actuasse brutalmente sobre as maxillas. Os mais ousados coçavam
-nervosamente a região occipital...
-
-É que ao longe, lá muito ao longe, na sombra do magro rocinante,
-percebiam elles, já, as formas indecisas e vagas do burriqueiro,
-reclamando, com humilde postura—vergado o corpo n’aquelle respeitoso
-angulo de 65° com que o nosso homem, o supracitado Sr. Sampaio fala,
-cheio de blandicias e ternuras, ao Sr. Dr. Brito—o meio pinto da tabella
-para uma viagem a Coura.
-
-Meio pinto, senhores!
-
-Menos do que o Sr. Seixas ganhava n’uma caixa de amendoas, _quando
-mostrava a factura_; coisa de dois conselhos do Dr. João Cabral; meia
-dose florindica, pagando á Rotschild; o lucro do sr. Fontoura n’uma
-tisana de treze vintens.
-
-Meio pinto, senhores!
-
-..............................
-
-Rapida foi a dissolução do conclave. Pretextos futeis, encapotados com
-razões imprevistas, fizeram debandar, como corvos açoitados pelo furacão,
-os graves maioraes da politica concelhia.
-
-Foi o mensageiro a Coura, e durante muito tempo, nas altas e
-transcendentes concepções philosophicas, em que o animalejo
-constantemente se absorvia—(indecifraveis para nós, os mortaes, como
-a opinião politica do Sr. Vigario Geral, ou como a origem do subito
-rejuvenescimento do nosso muito querido Sr. Sampaio ao ler nos jornaes a
-palavra _Cordão_)—entrou a influir grave ponderação sobre o alcance dos
-decretos da Providencia, que se apraz em confiar de um misero sendeiro a
-salvação d’um partido, como do nada, do pó, do humus empapado da chuva,
-que demorou Grouchy, forjou o camartello possante, que em Waterloo
-esmigalhou o pedestal d’esse feroz açoite da Humanidade, chamado Napoleão.
-
-..............................
-
-Creio inutil dizer que, depois da eleição, para a gamella do burriqueiro
-havia mais um commensal... um cão![31]
-
- * * * * *
-
-Prosigamos n’este escabroso trilho da Historia em que, para fiel
-e rigorosa exposição dos factos, temos de executar os milagres do
-equilibrio de Blondin, ou de Leonne Doré, entre os exaggeros dos
-informadores apaixonados e as erroneas reflexões de commentadores pouco
-escrupulosos.
-
-Serve-nos de maromba a consciencia e oxalá ella nos guie até ao fim
-d’esta penosa caminhada, atravez da original e curiosissima politica da
-nossa terra[32].
-
- * * * * *
-
-Indubitavelmente, o dia 22 de Novembro de 1879 é um dos mais memoraveis
-para os habitantes d’esta antiga e mui nobre povoação.
-
-Essa data deve estar indelevelmente gravada no livro d’oiro dos grandes
-acontecimentos historicos; insculpida, a traços diamantinos, na epopea
-das grandes solemnidades de Valença, ao lado das procissões de S.
-Sebastião e _Corpus Christi_, grotescas mascaradas, com que no Minho se
-avivam as descrenças, digo, as crenças, a ociosidade, a pasmaceira, o ar
-marcial e aguerrido das tropas, os namoros, as bambinelas dos armadores e
-as transacções do commercio, na sua importantissima secção de: birimbaus,
-peixe frito e... limonada de cavallinho.
-
-Foi um dia festivo, solemne; d’aquelles em que o caiado das casas nos
-parece mais branco; a porcaria das ruas menos escandalosa; a atmosphera
-mais diaphana; o verde das campinas mais vivo; a abobada celeste mais
-limpida; o aroma das flôres mais penetrante; a cara dos amigos mais
-risonha—um d’estes dias, em que a gente se sente mais feliz, com menos
-dinheiro e mais tentações, e em que as fibras do coração que movem o
-badalo do enthusiasmo, bruscamente se agitam, como se ouvissemos o hymno
-da Carta, um discurso do sr. conselheiro Silvestre Ribeiro, ou como
-se os canhões da Coroada, os sinos de Santo Estevão, a bandeira real
-desfraldada aos quatro ventos, celebrassem festivamente o anniversario da
-Restauração!
-
-Acotovelava-se nas ruas uma multidão expansiva, ruidosa, com a alegria
-a pinotear na mioleira; com todos os macaquinhos do sr. Palhares, em
-borga infernal no sotão; expondo por ahi, escandalosamente, a habitual
-gravidade, de saia arregaçada e peitos descobertos, em desenfreado e
-lascivo minuete com as posições officiaes.
-
-Para exprimir tudo, emfim, havia no intimo de cada um, tanta satisfação
-e tanta alegria, como hoje sentiria o sr. Joaquim se recebesse
-auctorisação do Ministro do Reino para obsequiar o dr. Cabral com todas
-as trombetas de Josaphat, sopradas por innumeras legiões d’aquelles anjos
-e seraphins de bochechinha gorda e purpurina, que por ahi vemos em S.
-Estevão,—embora, para esse justissimo desforço de cidadão offendido nos
-seus direitos, de Juiz da Senhora da Saude, affectado nas suas crenças,
-tivesse de arredar, das suas arcas de nababo, com arrebatado impulso de
-perdulario enthusiasmo, coisa de doze vintens—captivos a troco!
-
-N’esse dia, meus senhores, era restituido o batalhão de caçadores 7 a
-Valença, chyprado ao berço da monarchia, á terra dos condes, dos conegos,
-das cruzes e dos cutileiros, por Sua Excellencia, o sr. Ministro da
-Guerra.
-
-Nada faltou no programma das recepções festivas: coroas de loiros;
-discursos do sr. Presidente da Camara; mensagens de congratulação; odes e
-alexandrinos do vate Aurelio Victor Hugo; bailes; regabofe nos presidios;
-bodo aos pobres; arcos de triumpho forrados a gazetas; musica, foguetes e
-luminarias.
-
-O enthusiasmo estonteava os cerebros; alcoolizava os espiritos;
-absinthava os animos.
-
-O sr. Francisco Durães, homem sério, pacato e já na escala para
-camarista, deitava foguetes na muralha, como qualquer _careca_ sertanejo
-em arraial da festeira Urgeira.
-
-Um camarista illustre luctava duas horas, para enfiar no par de
-luvas, que por engano lhe tinham vendido para a mesma mão—o dedo
-_mata-parasitas_ na casa do _mindinho_.
-
-O sr. Abilio, nos paroxysmos de um enorme enthusiasmo, apparecia de
-gravata branca, casaca, no pé direito uma bota de polimento, no esquerdo
-um chinelo de liga, representando a Associação Artistica!
-
-E no meio de todo este contentamento, nas expansões de todo este delirio,
-um unico nome soava, tangido constantemente pelo enthusiasmo popular,
-nas praças, nas ruas, nas lojas, nos clubs,—nome que parecia ser o fóco
-convergente para todas aquellas ruidosas manifestações, nome que n’esse
-dia tinha mais prestigio que o da Senhora do Faro, nome aureolado, nome
-querido de—Elyseu de Serpa!
-
- Victoriava-se Elyseu de Serpa
- Discursava-se sobre Elyseu de Serpa
- Telegraphava-se a Elyseu de Serpa
- Rezava-se a Elyseu de Serpa
-
-e Clero, Nobreza e Povo, fraternizando, hombreando, felicitando-se, davam
-largas á plenitude da sua gratidão a Elyseu de Serpa.
-
-Jurava-se aos deuses, pela nossa consciencia, assim dardos de Jupiter
-nos partissem, se durante a nossa existencia, embora ella attingisse
-a longevidade de um Mathusalem, que viveu, segundo diz a Biblia, 900
-annos (o que eu acredito) outro homem se sentasse nas cadeiras de S.
-Bento com o nosso mandato, porque Valença tinha contrahido com elle uma
-divida sagrada, immorredoira, imperecivel, immensa, de profunda, eterna e
-vivissima gratidão.
-
-E se alguem, mais pratico em coisas do mundo se atrevesse a revelar pouca
-confiança na estabilidade d’aquelles fervorosos protestos, recordando
-que já lá vae o tempo dos Eros, dos Scevolas, dos Martins de Freitas,
-dos Egas, etc.,—oh Christos de Villar!—corria grave risco de ser lançado
-aos fossos, empalado no pau da bandeira, ou esquartejado pelo primeiro
-magarefe, que por ahi apparecesse, em ociosa disponibilidade.
-
-Pois, meus senhores, ahi vae a Moral do conto mais um tento para a
-marca preta e um documento para a nossa historia politica. Poucos mezes
-depois, mettia o sr. dr. Lopes o seu nariz na Administração do Concelho e
-aquelle grande vulto (não o do nariz) absorvia, completamente, todos os
-enthusiasmos que descrevi!
-
-A urna entrou mais uma vez no templo, para servir de leito nas sensuaes
-orgias do voto com a immoralidade e o sr. Elyseu de Serpa, o mesmo, em
-carne e osso, a que me referi—obtinha em todas as assembleas eleitoraes
-do nosso concelho:—cinco votos!
-
-Ora, um povo que denuncia tão vehemente firmeza de convicções e de
-sentimentos, está—digam lá o que disserem—reservado para grandes destinos.
-
-Abençoado torrão este, da Patria minha!
-
- * * * * *
-
-Com os argumentos irrefutaveis, que os factos nos fornecem, estudamos até
-aqui a politica de Valença nas suas espheras mais elevadas, isto é, na
-villa e entre as camadas illustradas; e, indubitavelmente, não existe no
-nosso espirito outro sentimento, que não seja o baseado em tristissimo
-desalento...
-
-Vejamos agora, em breves palavras, antes das considerações geraes, o que
-o povo imagina e sabe de toda esta engrenagem que lhe rouba os filhos,
-dinheiro e... os votos.
-
-Ha annos, Ramos Paz, que aqui dignamente exerceu as funcções de
-Sub-Inspector de Instrucção, presidia a uma conferencia pedagogica nos
-Paços do Concelho. Extranhando as theorias apresentadas por um professor,
-sob a intervenção da auctoridade administrativa na legislação municipal,
-relativa ao professorado, perguntou alizando aquellas grandes barbas á D.
-João de Castro:
-
-—Então quem nomeia os professores?
-
-—O Sr. Administrador—respondeu o homem.
-
-—Ora essa! Então as Camaras?
-
-—As Camaras são tambem nomeadas pelo sr. Administrador—confirmou ainda,
-com a má interpretação que dera á pergunta.
-
-Meditemos, senhores.
-
-De feito; na ignorancia d’aquelle pedagogo havia uma grande verdade, que
-nós, rigorosamente, não podemos refutar.
-
-Luiz XI disse uma vez ao Parlamento, levantando o chicote:
-
-—_L’etat c’est moi!_
-
-Rodrigues Sampaio, não ha ainda muito tempo, que bradava ao paiz:
-
-«O unico poder que entre nós existe é o Rei!»
-
-Nós poderemos plagiar Luiz XI, Rodrigues Sampaio e o pedagogo,
-asseverando:
-
-N’este concelho de Valença ha só uma força, uma vontade, um poder:—o
-Senhor Administrador[33]—quer o represente a taciturnidade esphingica
-do sr. Dr. Lopes, ou a gulliverica estatura do sr. Dr. Ladislau,
-ou a inoffensiva bandido-mania do sr. Dr. Malheiro, ou a feroz
-iconoclastia do sr. Dr. Cabral, ou... a paz d’alma e de corpo do sr. Dr.
-Brandão-Malheiro-Lopes da Cunha-Cabral!
-
-Abençoado torrão este, da Patria minha!
-
- * * * * *
-
-Historiamos até aqui. Philosophemos agora, porque a Historia sem a
-Philosophia pouco vale e não póde servir, como disse Michelet, para guia
-do futuro.
-
-É evidente que não temos organização pulmonar, que desafogadamente possa
-funccionar na atmosphera das nossas liberdades civis.
-
-É evidente que, seja qual fôr o proceder da auctoridade administrativa,
-só ella póde, quer e manda; e que, no campo a que hoje Vossas
-Excellencias são chamados—as eleições—, ella exerce para qualquer
-opposição o mesmo terrifico effeito que, em dilatado feijoal, produz para
-os pardaes e pardocas, o espantalho armado com dous rabos de vassoira
-em cruz, cartola velha no vertice e casacão enfiado nos braços, com as
-mangas pendentes e á mercê do vento.
-
-E, evidenciado isto, para que precisamos nós de deputados, seja qual fôr
-a chancella que tragam? Que temos nós com o que vae por esse paiz, com o
-nariz do sr. Beirão, com a marreca do sr. Hintze, com a somnolencia do
-sr. Henrique de Macedo, ou com os chouriços do sr. José Luciano?
-
-Que necessidade temos nós de fazer perder a gravidade aos Ministros,
-pondo-os aos saltinhos de contentes, quando o sr. Zagallo, com os
-seus Mentores e correligionarios lhes officiam, annunciando que...
-deliberaram apoiar a marcha do Governo—ou que diabo lucramos com a
-mudança de ceroilas, a que os obrigamos, enviando uma representação
-dos tres mil negociantes da terra[34] contra a Companhia vinicola,
-communicando, pelo telegrapho, que estão fechadas as quitandas de Valença
-e que vate Aurelio Victor Hugo fala ás massas, em imponente e assaz
-concorrida reunião politica?
-
-Senhores! Por Deus, simplifiquemos tudo isto; todas estas inuteis
-formalidades, que são proprias para terras civilizadas. Fazem perder
-tempo, e tempo é dinheiro, como diz o bretão.
-
-Qual é, em ultima analyse, o regimen em que vivemos? O feudal.
-
-Adaptemo-nos, pois, ao que elle nos estabelece e concede. Ahi vae um
-alvitre:
-
-Sabem Vossas Excellencias o que eram as antigas _behetrias_ da epocha
-medieva: povoações que tinham o direito de escolher o senhor, que viviam
-independentes e de portas cerradas, até, aos senhores estranhos. Aqui
-estava um modelo, mas lá vae outro, talvez preferivel.
-
-Na vertente meridional dos Pyrineus ha uma amostra de estados autonomos—a
-republica de Andorra.
-
-Tem approximadamente, sem escandalosa differença, a população d’este
-Concelho. Tem legislação civil, militar e religiosa. Tem Governo civil e
-militar; Alfandega, Repartições de Fazenda; Camara; Junta de Parochia;
-o seu Cordão sanitario de quando em quando; lazareto com respectivas
-rações; reforma de matrizes; irmandades e confrarias; isto é, nicho para
-todos os pretendentes.
-
-Ora aqui está o que nos serve. É uma organização baratinha e fica em casa.
-
-Proclamemos hoje mesmo a nossa independencia! Behetriemo-nos!
-Andorriemo-nos! Entregue-se o poder a um só homem, que se denomine Rei,
-Imperador, Presidente, Syndico, Regulo, Papa, Bispo, Soba ou Cabinda!
-
-Precisamos, verdade é, d’uma auctoridade, para regular as nossas questões
-e moderar as nossas exigencias.
-
-É necessario que, quando alguem se lembrar de dizer, que as aguas
-da fonte de S. Sebastião pertencem á Camara, haja quem garanta as
-reclamações justissimas com que o sr. Joaquim prova á evidencia que
-são suas, muito suas, embora não se recorde da gaveta onde conserva as
-provas, o que póde succeder a toda a gente; quando a vizinhança do sr.
-C. Dias, incluindo a Excellentissima Camara, continue a esticar a guita
-dos limites das suas propriedades, avançando sobre a que aquelle bom e
-innocente amigo possue no Caes, haja quem faça respeitar os seus direitos
-e impedir, que nas terras da Saibreira se não possa continuar a observar
-o extraordinario effeito da dilatabilidade da Materia sob a acção dos
-raios solares, phenomeno alli tão evidente e precioso para o estudo das
-revoluções geologicas do globo; quando o sr. Agostinho se lembrar de
-mandar vir do extrangeiro casas feitas para os seus terrenos, haja quem
-lhe apresente esse doirado codigo, que é o palladio das nossas liberdades
-civis—o regulamento do Senhor Conde de Lippe dado ás gentes em 1700 e
-tantos.
-
-É preciso, emfim, um braço e uma cabeça.
-
-E quem devemos escolher?
-
-Quando me lembro que estou n’uma terra que não quiz o legado do Conde de
-Ferreira; n’uma terra em que, se a gente tiver um nariz, como os dos srs.
-Cunha ou Ladislau, e se collocar em noite de eclypse, sobre o telhado da
-sua casa, para espreitar a lua, ou escutar a harmonia das espheras, vem
-logo o estalão do Conde de Lippe verificar, se dos cabellinhos da venta
-á soleira da porta existe, realmente, maior distancia de que 4 metros, 5
-decimetros e 6 millimetros e meio do regulamento;—eu, meus senhores, para
-o poder supremo da nova organização politica que proponho, só me lembro
-de dois homens, que tenho a honra de apresentar á vossa apreciação e
-para os quaes, desde já, peço o vosso suffragio, porque estou plenamente
-convencido de que hão-de satisfazer ás exigencias e aos deveres da
-actividade, firmeza de convicções e orientação politica, que a vossa
-orientação politica, a vossa firmeza de convicções e a vossa actividade
-lhes impoem.
-
-Eil-os:
-
- O Fileiras,
-
- ou o
-
- Cachimbo dos melros.
-
-
- Em 20 de outubro de 1889.
- Dia da eleição de deputados.
-
-
-
-
-X
-
-Violetas
-
-
-As imagens até aqui reflectidas no foco da minha lente ficam delevelmente
-estereotypadas n’essas paginas, porque é indeciso o traço, debil o
-colorido, irregular o contorno e imperfeitissimo o relevo.
-
-Falta ahi a luz indispensavel á nitida percepção de todas as minucias das
-individualidades sociaes, que a minha critica envolve, porque não é dado
-a espiritos vulgares o emittil-a.
-
-Encontro na expressão escripta as difficuldades caracteristicas
-d’essa lesão cerebral, que os physiologistas incluem na classe das
-_aphasias motoras_, sob o nome de _agraphia_; e, se até aqui deplorei
-as consequencias d’essa lesão, que se oppõe á reproducção fiel das
-minhas impressões sobre a sociedade em que vivo, sincero é o meu
-pesar, reconhecendo-me incapaz de avivar a imagem d’um vulto, que já
-desappareceu sob a loisa dos tumulos, mas que deixou luminoso rasto de
-bondade e de honradez nas sombrias atmospheras onde, implacavel e feroz,
-se trava a eterna lucta pela existencia.
-
- * * * * *
-
-Schopenhauer filia-se n’essa eschola philosophica, que poderemos
-denominar _pessimista_, em que sarcasticamente se dissecam as fibras do
-coração humano, negando-se-lhe sentimentos affectivos e a possibilidade
-de alimentar aspirações puras e nobres.
-
-Na fria analyse, que o philosopho allemão nos apresenta do homem na
-sociedade e na familia, resaltam os exaggeros d’um espirito sombrio, em
-que poderosamente influiram a acção morbida de temperamento e a acção
-do _meio_: mas ha tambem nas suas paginas grandes verdades que nós,
-dissipada a má impressão originada na rudeza da phrase, intimamente não
-podemos refutar.
-
-«_O nosso mundo civilizado não passa de uma grande mascarada.
-Encontram-se n’elle cavalleiros, frades, soldados, doutores, advogados,
-padres, philosophos, que mais sei eu? Mas não são o que representam ser;
-são simples mascaras, debaixo das quaes se occultam, a maior parte das
-vezes, especuladores de dinheiro._
-
-_Um toma, assim, a mascara da justiça para melhor ferir o seu semelhante;
-outro, com o mesmo fim, escolheu a mascara do bem publico e do
-patriotismo; um terceiro a da religião, da fé immaculada._
-
-_Para toda a especie de fins secretos, mais de um se occultou sob a
-mascara da philosophia, como tambem sob a da philanthropia. Ha tambem
-mascaras vulgares, sem caracter especial, como os dominós nos bailes,
-e que se encontram por toda a parte; estes representam a rigida
-honestidade; a polidez; a sympathia sincera e a amizade fingida._»
-
-..............................
-
- * * * * *
-
-Ora, observando a nossa actual sociedade, n’esta epocha de egoismo, de
-ambições, de illegalidades, com que por ahi se conspurcam e desprestigiam
-as mais nobres instituições,—n’esta epocha de Wilsons, de Hersents, de
-bonds e de processos _da fava_—poderemos, com intima convicção, acoimar
-de exaggeradas essas linhas do pensador allemão?
-
-A consideração social chatina-se vilmente nas Bolsas, onde se expõe á
-venda com as inscripções de tres por cento. Os titulos do governo teem,
-como _bonus_, uma certa maquia de respeito publico; por consequencia,
-o valor d’este está na razão directa da quantidade total, que cada um
-possue dos outros.
-
-Quem tiver duzentos contos, póde ser um larapio e um canalha; mas, com
-certeza, é um homem de consideração.
-
- * * * * *
-
-Antonio da Silva, aquelle carpinteirito da Esplanada, ganhava dezoito
-vintens por dia; sustentava mulher e tres filhos.
-
-Adoeceu: contrahiu dividas no mercieiro, na botica e na padaria; deixou
-de pagar ao senhorio; pôz no _prego_, a pataco por corôa ao mez, o
-relogio de prata, os brincos da mulher, os cobertores do inverno e a
-ferramenta.
-
-Esteve dois mezes de cama.
-
-Voltou fraco e abatido para o trabalho. Tentou desempenhar-se. Fazia
-serões. Não poude pagar uma divida.
-
-Os credores perseguiam-no.
-
-As mulheres e os filhos não tinham roupa; tiritavam e... choravam.
-
-Um crédor requereu a penhora; levaram-lhe a cama.
-
-Na alma d’aquelle homem havia um inferno porque era honrado—o pateta!—e
-era doido pela familia.
-
-Um dia, collou a massa encephalica nas paredes da latrina com a balla do
-rewolver.
-
-—Um criminoso—disse o abbade.
-
-—Um caloteiro—disseram os do pataco por mez.
-
-—Um pobre diabo—responsaram as almas piedosas.
-
-—Um pateta de menos—resmungou a sociedade.
-
-A Santa Madre Egreja, toda Caridade e Amôr, recusou-lhe o latim da
-padralhada—esse latim tão sonoro, tão vibrante, tão repenicado, quando
-responsa o negreiro e o ladrão de gravata, que deixaram quarenta moedas,
-para missas de pinto a duzia.
-
-Foi enterrado no fosso, ao lado d’uma pileca do Guilherme; como responso,
-teve uma enfiada de pragas dos coveiros, porque estava realmente muito
-frio e ainda não tinham _matado o bicho_.
-
-—_Oh estupor—disse o Coruja—podias arrebentar a pinha no verão. Não
-tinhas agora tanto frio!_
-
-..............................
-
-Á mesma hora, Henrique de tal, Conde de Burnay, mandava _photographar_
-os bonds do sr. Hersent e mais de trezentas carruagens com fidalgos,
-bispos, padres, conegos e escorropicha-galhetas varios, acompanharam
-até aos Prazeres o cadaver d’um beneficiado na _falcatrua hersentica_,
-portuguez abrazileirado, que mantinha relações illicitas com a irmã—o
-que era publico e notorio na freguezia, alli para os lados de Penafiel—e
-que, n’uma terrifica visualidade do inferno, apartára trezentos mil
-reis, adquiridos n’esse infamissimo trafico de carne humana, para missas
-cantadas e por cantar.
-
-Viremos folha...
-
- * * * * *
-
-—Mas, Senhor Zinão,—diz Vossa Excellencia—isso é velho, é sediço, é
-estafado e massador...
-
-—Esta jeremiada veia a lume, meu Senhor, porque no meio da _reles
-pataqueirice_ da nossa actual sociedade onde pullulam os Iagos, os
-Tartufos, os Pausanias, os Wilsons, os Tamandarés—toda essa corja
-de falsarios, de perjuros e de traidores, que Dante implacavelmente
-esfarrapa e esphacela com as torturas do nono circulo—a gente póde soltar
-uma exclamação de surpreza tão ruidosa e tão violenta, como aquella
-trombetada de Rolando na batalha de Roncesvalles, quando encontra um
-homem, caminhando sempre, sem tergiversar, no caminho da Honra e da
-Dignidade.
-
-Consagro estas linhas á memoria d’um valenciano, que não deixou fortuna
-nem filhos governadores civis, ou deputados, que possam premiar esta
-homenagem com um naco do orçamento, como é da praxe pedir e conceder.
-
-Não me conhece a familia que elle deixou; e não é, portanto, o vil
-interesse, ou a lisonja porca, ou a torpissima adulação, que actuam na
-minha penna, obrigando-a a vergar-se, a perder a inflexibilidade com que,
-até aqui, tem fustigado muita importancia ridicula e chata.
-
-Ninguem, no concelho de Valença, até hoje adquiriu maior estima e maior
-consideração do que esse homem.
-
-Ninguem, como elle, poderia, mais proveitosamente, especular com o
-affectuoso prestigio, que o seu nome alcançou por essas freguezias.
-
-Era, porém, nobilissimo o seu caracter para que lhe permittisse manchar o
-nome n’esse bordel de pantomineiros e de histriões que por ahi especulam
-com a ignorancia do aldeão, fazendo do voto degrau para chegarem á
-mesa do orçamento e poderem roer as codeas babadas, que os Gargantuas
-politicos abandonam, ou lamber os productos do vomito, que a orgia e a
-indigestão provocam.
-
- * * * * *
-
-Esse homem morreu pobre; não é vergonha dizel-o; mas levem o aldeão
-acolá, ao cemiterio, mostrem-lhe todos esses mausoleus de marmore
-e de granito, e perguntem-lhe qual é o nome que, ainda hoje, mais
-affectuosamente vibra na sua alma rude, mas sincera.
-
-Dizem que as mulheres de Sparta, fazendo ajoelhar os filhos sobre o
-tumulo dos grandes heroes, alli lhes referiam os feitos gloriosos que
-insculpiram os seus nomes no livro d’oiro da Patria.
-
-Era assim que ellas preparavam a vigorosa musculatura dos futuros
-cidadãos da grande republica.
-
-Como ellas, _valencianos dignos_, quando a razão dos vossos filhos
-estiver preparada para receber os germens, que mais tarde devem
-fructificar na Honradez, apontae-lhes para essa pagina que, por
-escrupuloso respeito e por enthusiastica veneração, separo das outras,
-onde escouceiam ridiculos.
-
- * * * * *
-
-Zinão descobre-se, perante o nome que alli vêdes.
-
-
-
-
-XI
-
-Os Quadros da Collegiada
-
-
-A Arte nasceu d’esta nobilissima aspiração do espirito humano para, na
-investigação do Bello, dar á Materia a fórma das suas idêas e das suas
-crenças.
-
-O desenvolvimento intellectual de um povo e a sua influencia na obra
-da Civilização, podem estudar-se nos diversos productos, em que se
-reproduziu o genio dos seus artistas.
-
-Aos _dolmens_ e _menhires_, aos toscos instrumentos das edades
-paleonlithica e neolithica succedem essas colossaes construcções das
-margens do Nilo, as pyramides, os templos, as esphinges; os bronzes, as
-loiças e esmaltes, já de notavel perfeição, dos antigos egypcios.
-
-Surge, depois, o povo helleno com a sua admiravel architectura; com as
-formosissimas e inimitaveis estatuas de Phidias e de Lysippo; com a Venus
-de Milo e o Apollo de Belveder; com as formosas telas de Zeuxis e de
-Parrhasio; com todas as maravilhas, emfim, d’essa assombrosa civilização
-tão alta e tão brilhante, que ainda depois de passados vinte seculos,
-quando no horisonte despontavam os primeiros clarões da ridentissima
-alvorada—a Renascença—era ainda d’ella que, para geniaes concepções,
-recebiam inspiração e luz esses divinos artistas, que se chamaram Vinci,
-Raphael, Ticiano, Carrachio e Miguel Angelo.
-
-Com a Renascença accelerou-se a marcha evolutiva da Civilização; e o
-espirito do homem, depois de enriquecer as sciencias com preciosas
-descobertas, de desenvolver as industrias com novas e utilissimas
-applicações, crystallisa-se em fulgidas creações onde, com toda a nitidez
-de contornos, com toda a opulência de colorido, com toda a fidelidade
-de cambiantes e com todos os esbatidos do iris se reproduzem as mais
-extraordinarias maravilhas da formosissima Mãe—a Natureza.
-
-A Historia da Arte é a Historia da Civilização; é a Historia do Homem no
-seu _meio_, nas suas crenças, nas manifestações da sua intelligencia, nas
-aspirações da sua alma, na grandeza dos seus affectos.
-
-Estudando o Homem, estuda-se a Nação e a influencia que ella exerceu nas
-outras sociedades constituidas.
-
-São, pois, d’uma benemerencia incontestavel os esforços e os auxilios com
-que n’um paiz se tenta colleccionar, agrupar, reunir todos os elementos
-que possam reconstruir a sua historia artistica; e como essa empreza,
-de larga magnitude e importancia, só é cabalmente desempenhada pelo
-Estado, dever é do cidadão illustrado cooperar, quanto possivel, no
-desenvolvimento das instituições que possam mostrar aos extranhos o que o
-genio nacional produziu e creou.
-
-Com uma vergonhosa teimosia e deploravel inconsciencia, a esse dever se
-nega a actual Junta de Parochia de Valença, recusando-se a entregar ao
-delegado do Governo os quadros e a cadeira, que pertenceram á extincta
-collegiada de S. Estevão.
-
- * * * * *
-
- Senhores da Junta,
-
-ou antes
-
- Senhores Agostinho e Sampaio:[35]
-
-conversemos.
-
-Vossas Senhorias, n’essa manifestação volitiva, (saberão Vossas Senhorias
-que _volitiva_ significa: emanada da vontade) n’essa tenaz opposição as
-ordens do Governo, devem estribar-se n’uma razão, n’um argumento, n’uma
-conclusão qualquer. Mas eu—com franqueza—como conheço perfeitamente,
-por dentro e por fóra, (deixem-me assim dizer) o que Vossas Senhorias
-valem em materia de zelo pelas instituições, que estão dependentes das
-suas luminosas e peregrinas deliberações,—eu, que me recordo muito bem
-que Vossas Senhorias, que hoje energicamente bradam aos céos contra a
-reclamação do Governo, são exactissimamente os mesmos que, ha quatro ou
-cinco annos, deixavam estragar esses mesmos quadros e essa mesma cadeira,
-consentindo que um _Terrinha_ as borrasse com verniz de portão, depois
-de borrar, tambem, os peitos da Virgem do leite,—eu que me recordo
-ainda, que foram tambem Vossas Senhorias os _engenheiros_ n’aquella
-boçal mutilação da fachada de Santa Maria, parvoamente _restaurada_ ha
-annos,—eu, emfim, que (sem offensa) avalio a capacidade intellectual
-dos seus, aliás preciosos cerebros, como insufficiente para conter
-umas tristes cellulasitas, onde se aniche um errante atomo de intuição
-artística; porque, afinal de contas, estas coisas de Arte não são
-precisamente o mesmo que coisas de bombas, ou de receitas eventuaes e
-decimas de juros,—eu, repito, não posso explicar satisfactoriamente ao
-meu espirito a causa do proceder de Vossas Senhorias.
-
-Por zelo nos interesses da Junta não é—com toda a certeza—que Vossas
-Senhorias se revoltam contra o Governo. Isso é coisa averiguada,
-conhecida, evidente, que não admitte réplicas e a que não convém, mesmo,
-contestações.
-
-Recearão Vossas Senhorias que esses objectos, passando para as mãos do
-Estado, se _extraviem_, ou _percam_?
-
-Repillo, como absurda, a hypothese, porque só com tristissimo desalento
-veria dois funccionarios publicos suspeitarem de _larapio_ o Governo que
-lhes paga.
-
-O que é, pois, que actua nos seus cerebros?
-
-Não o sabem, mas sei-o eu.
-
-O que obriga Vossas Senhorias a esse tristissimo papel é isto:—o
-rheumatismo, o barretinho de seda preto, o cano das botas, os
-suspensorios, o alçapão das calças, a caixa do rapé, o pingo, a caspa; é
-essa maldicta enfermidade epidemica, peor do que a actual _influenza_,
-porque não ha profilaticos que a debellem, e que se origina nas
-exhalações mephiticas e deleterias dos fossos e das muralhas que teem
-musgo, ratos, corujas, toupeiras, morcegos e silvados coevos do mammuth;
-é essa coisa que sendo incorporea, invisivel, imponderavel, tem a rigidez
-bastante para encravar a roda do Progresso; que sendo inerte e fria,
-tem a temperatura sufficiente para caldear os embolos da Civilização;
-é—finalmente—a rotina!
-
-Vossas Senhorias, com essa teimosia, recordam-me (salvo o devido
-respeito) aquella conhecida anedocta do gallego:
-
-Alonso Perez y Perez ouvira dizer na sua terra que em Portugal se
-ganhava muito dinheiro, mas que era necessario pedir, exigir e reclamar
-sempre mais do que se recebesse por qualquer serviço.
-
-Perez y Perez entregou a mulher ao diabo, digo, ao Abbade e atravessou a
-fronteira, dilatando os póros de todo o corpanzil para, como ventosas de
-tentaculos cephalopodes, absorverem quantas _pesetas_ e _perras chicas_
-fosse possivel.
-
-Caminhando por essas estradas fóra, ao terceiro dia, veiu o cansaço;
-vergava-se-lhe o corpo, dobravam-se-lhe os joelhos, incharam-lhe os pés,
-pesava-lhe a cabeça: prostrado e doente, abeirou-se da valeta e cahiu
-succumbido, recordando com saudade as veigas da sua terra, a familia,
-a vacca e os bezerros, a missa do domingo, o recorte das montanhas, as
-columnas de fumo que, ao toque das Trindades, se evolavam no esbatido
-azul dos céos, o balido das ovelhas, o piar das avesinhas, todas essas
-coisas—emfim—saturadas d’um sentimentalismo feroz e piegas, que tão
-violentamente agitavam a alma do Justininho, quando elle concebia
-aquelles preciosos folhetins do _Noticioso_.
-
-N’isto, passa na estrada um almocreve com a sua enfiada de machos e,
-vendo o gallego n’aquelle misero estado, convida-o carinhosamente a
-escarranchar-se n’um dos animaes.
-
-—_E quanto xe me dá?_
-
- —pergunta o bruto.
-
- * * * * *
-
-Vossas Senhorias, n’esta estrada do Progresso, são (salvo o devido
-respeito) uns verdadeiros Alonsos.
-
-Como portuguezes, que põem luminarias á janella no 1.º de dezembro e
-no anniversario da Carta, devem amar a sua patria; como funccionarios
-publicos devem interessar-se no engrandecimento d’ella; como homens do
-seculo XIX, que usufruem todas as vantagens e liberdades que
-tanto sangue custaram, n’essa sangrenta lucta do despotismo e das trevas
-contra a luz, devem contribuir para que aos seus filhos seja entregue
-intacto, pelo menos, o inestimavel patrimonio da Civilização, que
-herdaram dos seus Papás.
-
-Ora, uns homens que por esse mundo de Christo, consagram toda a sua
-existencia no estudo dos meios, que podem elevar e engrandecer os
-povos, reconheceram a enorme utilidade das collecções artisticas, das
-bibliothecas, dos museus, de todas as instituições, onde se enthesoiram
-os productos do espirito humano na sua marcha evolutiva atravez dos
-seculos.
-
-Esses homens dizem a Vossas Senhorias:
-
-Pretendemos reconstruir a historia da Arte portugueza, reunindo e
-dispondo convenientemente, chronologicamente e por distincção de
-escholas, n’uma boa sala com ar e com luz, essas telas, que Vossas
-Senhorias por ahi inconscientemente dependuram em paredes humidas, e
-imbecilmente inutilizam, mandando, de quando em quando, envernizar, a
-brocha, pelos _Terrinhas_.
-
-O Estado toma conta d’isso que lhe pertence; e, quando Vossas Senhorias
-tiverem uns amigos hespanhoes, francezes, inglezes, turcos ou moiros,
-que lhes perguntem, fazendo obra pelos mais aperfeiçoados diccionarios
-geographicos extrangeiros, se Portugal é provincia hespanhola, ou
-ingleza—podem leval-os ao Museu nacional, onde lhes provarão que somos
-livres, que temos Historia mais brilhante que a d’elles, que temos Arte,
-que temos Civilização, que temos alma nacional que já se expandiu pelo
-mundo inteiro com o genio dos grandes heroes e dos grandes artistas.
-
-Dirão mais a Vossas Senhorias:
-
-Se tiverem filhos que necessitem de estudar a Pintura, ou as Artes
-decorativas, ahi ficam á disposição d’elles todos esses productos que
-permaneciam dispersos, ignorados e inuteis pelas egrejas sertanejas. Ahi
-encontrarão, tambem, para o estudo comparativo, exemplares da eschola
-hespanhola, com as telas de Velasquez, de Murillo e de Ribera; ahi está a
-eschola flamenga com Rubens; a hollandeza com Rembrandt; a italiana com
-Raphael, Ticiano, Tintoreto, Miguel Angelo; podem entrar, ver, estudar
-minuciosamente, copiar—nada pagam.
-
-E, apesar de todas estas incalculaveis vantagens, exclamam Vossas
-Senhorias:
-
- —_e quanto xe nos dão?_
-
- * * * * *
-
-Vossas Senhorias teem ido, por vezes, a Lisboa.
-
-Lembro-me, até, que muito antes que Succi fosse conhecido com os seus
-jejuns, já a gente por cá admirava as especialissimas propriedades da
-membrana mucosa do estomago do sr. Sampaio, que não segrega sómente succo
-gastrico, mas, tambem, succos nutritivos, como se evidenciou n’aquella
-viagem, em que Sua Senhoria, tendo sahido da Balagota com o cabazinho
-repleto de pastelinhos de bacalhau e de girimu, pitos assados, rabanadas
-e cornuchos, com elle intacto, depois d’uma ausencia de oito dias, na
-Balagota entrou.
-
-Vossas Senhorias teem ido, por vezes, repito, a Lisboa. Conhecem tudo o
-que existe na capital.
-
-Extasiaram-se perante a pujança granular do regio corcel no Terreiro do
-Paço; viram subir o balão que indica o meio-dia; ouviram o carrilhão de
-Mafra; estiveram no curro de S. Bento; admiraram o leão da Estrella e os
-macaquinhos do Jardim Zoologico; visitaram a esquadra ingleza no Tejo;
-sopesaram a _Paulo Cordeiro_; saudaram o Senhor Rei e a Senhora Rainha;
-viram as mulas do paço e o bicho municipal; conheceram o Rosa Araujo e o
-marquez de Vallada; foram a todos os theatros; mas o que—com certeza—não
-viram foi o Museu Nacional, e isso porque... não tiveram tempo.
-
-Teem ido a Lisboa, por vezes; assistiram aos festejos das bodas e dos
-baptisados reaes, aos da chegada dos reis de tal e tal; foram, até,
-engrossar a pasmaceira indigena na recepção do Principe de Galles,
-d’esse exemplar com encadernação de luxo de John Bull—o eterno larapio
-das nossas colonias, o traiçoeiro Johnston dos makololos, o perfido
-Wellington de 1828, o astucioso Canning, o desleal alliado da nossa
-Politica, o insolente comedor dos nossos dinheiros, a quem todo o bom
-portuguez devia, respeitando as conveniencias da hospitalidade, voltar,
-com despreso, as costas; mas quando n’aquella capital se realisou a
-Exposição de Arte ornamental, que foi como o livro aberto onde se
-descreveu a riquissima epopea das nossas glorias artisticas, então...
-ficaram na Balagota e na rua Direita porque... não valia a pena!
-
-..............................
-
- * * * * *
-
-Aqui tem Vossa Excellencia, sr. Macedo, os homens que se negam a
-entregar-lhe os quadros e a cadeira de S. Estevão.
-
-Segreda-se por ahi que muita coisa, reclamada pelo Governo, desapparece
-antes de entrar no Museu Nacional. Pena é que o Governo não denuncie
-os roubos, que tem encontrado quando procede ao arrolamento dos bens
-pertencentes ás collegiadas e congregações religiosas extinctas.
-
-A teimosia da Junta é mais um caso porco, para engranzar no rosario das
-vergonhas de Valença, onde já brilham a recusa da Eschola Conde Ferreira,
-a eleição do sr. Serpa... do Batalhão, a Prisão da Santa, a Questão da
-Musica e essas curiosissimas eleições...
-
-Mas Vossa Excellencia, sr. Macedo, resolve facilmente todas as duvidas;
-como ellas, em ultima analyse querem dizer:
-
- _Quanto xe nos dão?_
-
-Digne-se Vossa Excellencia mandar ao sr. Agostinho meia duzia de trutas
-leopoldicas, de S. Mamede, e obtenha Vossa Excellencia do Governo de Sua
-Magestade, que ao sr. Sampaio seja concedido o diploma do unico cargo
-rendoso, que lhe falta: o de
-
- sineiro de S. Estevão.
-
-
-
-
-XII
-
-O Senhor Deputado
-
-
-Mais uma vez manifestou o Circulo eleitoral n.º 3 a sua opinião politica
-e, pela acção liberrima e independente do suffragio popular, tem hoje uma
-cadeira em S. Bento, o sr. dr. Queiroz Ribeiro.
-
-Nos campos do partido opposicionista lavra o descontentamento com
-a decisão dos eleitores; nos arraiaes, em que tremula a bandeira
-progressista, erguem-se os clamores da victoria e entoam-se hosannas ao
-novo representante do povo.
-
-Os regeneradores negam a competencia de Sua Excellencia para tão elevado
-cargo, fundamentando a insufficiencia na pouca edade e escassa madureza
-para os negocios publicos; alguns, até, os do respeitabilissimo grupo da
-rua de S. João, exprimem e synthetisam todo o valor e força dos seus
-argumentos em tres palavras:—até faz versos!
-
-Os progressistas exaltam a aptidão intellectual do seu correligionario;
-affirmam que é um rapaz que deve _dar alguma coisa_; servem-se do
-proprio argumento dos adversarios—os versos—, impondo-o á consideração
-dos eleitores; citam os seus conhecimentos sobre Direito penal, o seu
-enthusiasmo pela _nova_ eschola italiana, etc., etc., e rematam por
-asseverar que a escolha foi felicissima.
-
-Ora eu, meus senhores, sou tambem eleitor e recenseado na freguezia
-de S. Maria dos Anjos; não estou filiado em partido militante da
-actual politica, porque sou, como os srs. José Narciso e Santa Clara:
-legitimista, genuinamente legitimista, por convicção e por tradição.
-Acceitar, n’estas condições, a faculdade do voto equivaleria a approvar
-e reconhecer, tacitamente, a legalidade dos poderes que nos regem e,
-procedendo assim, faltaria ás minhas convicções e ao respeito que tenho
-e devo ao meu Rei, a Sua Magestade Fidelissima o Senhor Dom Miguel de
-Bragança, que Deus guarde.
-
-Estou, portanto, n’um campo perfeitamente neutral e insuspeito, ao
-abrigo do tumultuar das paixões partidarias, n’uma região serena de paz
-e livre reflexão e posso, n’estas circumstancias, dar a minha opinião
-sobre a escolha dos eleitores, depois da rigorosa apreciação que fiz dos
-argumentos apresentados pelos dois partidos.
-
-Vou ter a honra de a apresentar a Vossas Excellencias.
-
-Na futura Camara electiva devem reunir-se cento e tantos deputados.
-N’esse numero entram estrellas de primeira grandeza na constellação
-brilhantissima da nossa politica. Ha talentos de raça; espiritos
-previlegiados, que honram e ennobrecem o paiz; ha oradores fluentissimos
-como os srs. Oliveira Mattos e Visconde da Torre; ha polemistas de
-irresistivel logica de argumentação, como os srs. Ferreira d’Almeida; ha
-celebridades em todos os ramos das sciencias e da publica administração.
-
-Pois, meus senhores, com verdade lhes digo, que é a seguinte a minha
-convicção:—entre todos esses homens, entre todas as individualidades
-aptas no nosso paiz para as funcções da representação popular,
-ninguem—absolutamente ninguem—nos poderia satisfazer tanto, comprehender
-as nossas ideias, adaptar-se melhor á nossa politica, interpretando-a e
-assimilando-a nas suas aspirações—como Sua Excellencia o sr. Dr. Queiroz
-Ribeiro.
-
-—Ora essa! (ouço eu bradar aos meus amigos, os srs. Joaquim e Abilio, os
-mais fogosos caudilhos da politica regeneradora), fará o favor de provar.
-
-A isso vou, meus senhores, e com argumentos leaes, solidos, porque os
-sustento com a irrefutavel demonstração, que vou estabelecer dentro do
-campo positivo das sciencias abstractas: a logica e a mathematica.
-
-Vejamos, meus senhores, o que é a Politica em Valença? O que foi, o que
-é, d’onde vem e para onde vae? Como se poderá e deverá classificar n’uma
-terra em que, se a gente vae á estação do caminho de ferro assistir á
-recepção do sr. Marianno de Carvalho, ou do sr. Barjona, ou do sr. Lopo
-Vaz, ou do sr. José Dias Ferreira, ou do sr. Rodrigues de Freitas, ou
-do sr. Consiglieri Pedroso, vê sempre na gare—além dos _engajadores_
-dos hoteis e do sr. Capellão[36]—as mesmas caras, as mesmas casacas e
-as mesmas cartolas, que, depois, vão acompanhar Suas Excellencias até
-Cerveira, com ruidosas e enthusiasticas demonstrações de adhesão e
-fidelidade partidarias?
-
-O que poderemos julgar da Politica d’um concelho em que a padralhada, com
-o seu rebanho de carneiros votantes, vae, submissa, para onde a toca a
-aguilhada da Administração, sem consciencia, nem orientação, nem ideal
-politico?
-
-N’uma terra, em que os mais importantes caudilhos teem, na opinião,
-a variabilidade constante do catavento de Santo Estevão e em que ha
-potestades eleitoraes que, vistas de Coura, são regeneradoras, vistas de
-Valença são progressistas e não são barjonaceas e republicanas, porque
-ninguem as examinou ainda de Gandra ou de S. Pedro da Torre?
-
-Estudemos os chefes, senhores, que devem representar as tradições,
-a opinião, a respeitabilidade dos partidos. Temos d’um lado—o
-progressista—o Sr. Dr. Ladislau; temos do outro—o regenerador—o Sr. Dr.
-Pestana.[37]
-
-O Sr. Dr. Ladislau sahiu, approximadamente ha seis annos, dos bancos
-da Universidade e filiou-se, franca e desassombradamente, no partido
-do sr. José Dias Ferreira; hoje obedece ao sr. José Luciano, isto é,
-duas opiniões diversas, oppostas, heterogeneas, como as que separaram
-e dividiram os guelfos dos gibelinos, os armagnacs dos borguinhões, os
-jacobinos dos girondinos, os da rosa branca dos da rosa vermelha, os
-malhados dos realistas.
-
-Ora, consultando os trabalhos estatisticos dos mais eminentes
-socialistas, sobre a longevidade da vida humana, observamos que a media
-actual é de sessenta annos. (Deus n’este caso a prolongue e livre o
-Sr. Doutor de dyspepsias hermogenicas, que tão prejudiciaes são á
-juventude...)
-
-Se quizermos, pois, avaliar rigorosamente a capacidade opinativa de
-Sua Excellencia, nada mais teremos do que estabelecer uma proporção,
-admittindo a hypothese mais favoravel—que em egual espaço de tempo não
-augmentará a volubilidade. Representando, pois, por _a_ os seis annos
-decorridos e os trinta que a Sua Excellencia faltam, por _op_ as
-opiniões conhecidas e por _x_ as desconhecidas, teremos:
-
- 6 a : 2 op :: 30 a : x.
-
-Operando, encontramos:
-
- x = 10 op.
-
-Reunindo as opiniões conhecidas, temos
-
- x = 12
-
-quer dizer: teremos de pedir, por emprestimo, alguns partidos á Hespanha,
-porque cá não os ha para tanta opinião; e, aos sessenta annos, o Sr. Dr.
-Ladislau attingirá um grau de _saturação_ partidaria muito superior á que
-hoje possue o Sr. Agostinho, que é a coisa mais perfeita e acabada em
-Politica, que terras de Valença teem produzido.
-
-Agora, o sr. dr. Pestana...
-
-Eu desejava fazer identica demonstração com referencia a Sua Excellencia,
-e tenho, para isso, elementos e factores ordenados; mas são d’uma tal
-complexidade e obrigam a operações algebricas tão complicadas, que me
-abstenho de aqui as reproduzir, limitando-mo a dar conhecimento a Vossa
-Excellencia do resultado obtido.
-
-Para o sr. dr. Ladislau tivemos: x = 10.
-
-Com o Sr. Dr. Pestana chegamos a: x = ∞ isto é, x = infinito. E como o
-infinito existe muito para lá dos limites, a que a intelligencia humana
-póde levar a analyse, está prejudicado o raciocinio.
-
-Temos, pois, n’estas condições, os dois chefes politicos da nossa terra e
-ha vinte e cinco annos, em que aqui resido, os sub-chefes, as potestades,
-os abbades e as patrulhas seguem exactamente o mesmo systema.
-
-Os que hontem eram regeneradores, são hoje progressistas, serão ámanhã
-barjonaceos e no dia seguinte socialistas. No mundo politico somos
-cosmopolitas, e Valença é para o paiz, o que a casa do Sr. Agostinho é
-para Valença—um perfeito _caravanserail_!
-
-Synthetisando, eu repito a pergunta, que deu logar a estas considerações,
-com que desejo fundamentar a minha demonstração:
-
-Como se deve classificar a nossa Politica?
-
-Politica voluvel, incolôr, de... contradança!
-
-Repito:
-
- de _contradança_.
-
-Ora aqui está, justamente, o ponto de reunião entre ella e a
-individualidade do nosso deputado. Aqui está, onde uma e outra se
-coadunam, se consubstanciam, se identificam.
-
-Em Politica somos dançarinos. Pois para representar dançarinos e para
-comprehender as suas aspirações, como o Justino Soares, ou os srs.
-Roldão e dr. João Cabral se não habilitam a um circulo, claro é que se
-devia escolher um estranho, versado e perito nos segredos da arte de
-Terpsichore. E, para satisfazer cabalmente a estas condições (creio
-que os srs. Joaquim e Abilio se não atreverão a refutar esta minha
-proposição) ninguem—absolutamente ninguem—se encontraria mais habilitado,
-do que o nosso actual representante.
-
-Isto não é uma asserção gratuita. A vizinha villa de Cerveira a
-confirmará, quando se torne necessario.
-
-Porque é que o sr. Visconde da Torre não _provou bem_, como deputado?
-Porque nunca poderia representar dignamente Valença, com o seu volumoso
-abdomen, com a abundancia do seu tecido adiposo, com o pouco desempeno
-dos seus movimentos, com a pouca elegancia (perdoe Sua Excellencia) da
-sua _linha_. Dançava pouco e mal. Era, mesmo, detestavel a sua posição
-quando, pela complicadissima tactica das danças, era obrigado a fazer um
-_en avant_. Não tinha _ropia_ nem _salero_, nem _entrain_.
-
-Mas o nosso actual representante...
-
-Que saudosas recordações não originarão estes periodos ás tricanas e
-sopeiras de Villa Nova—a chiquita!
-
-Que dulcissimas reminiscencias não entristecerão, por momentos, aquelles
-formosissimos rostos da terra das solhas!
-
-Que pranto amargo e copioso não verterá a estas horas o bom e fiel
-Maldonado, socio commandita nos bailes do sopeirame!
-
-A Meca, a terna e legendaria Meca, com que acerbo pungir, não enxugará
-das mimosas e assetinadas faces as perolas crystallinas, como as do rocio
-matutino, que a lembrança de Sua Excellencia, a cada momento lhe faz
-brotar das glandulas lacrimaes!
-
-Redomoinhar vertiginoso das valsas; suave enleio de pequeninas cinturas;
-exhalações dulcissimas; doces fragrancias de solha e azeite, bacalhau e
-alho, das formosas tricanas; noites de amor e de phantasia em que vós,
-encantadoras filhas da—_Chiquita_—vos deliciaveis com os _papos d’anjo_
-de Caminha e as _roscas_ da Galliza; noites inolvidaveis de luar, em
-que os vossos castos seios se alvoroçavam com desconhecidas sensações,
-quando Sua Excellencia, sob as janellas, acompanhado ao violão pelo fiel
-Maldonado e pela artistica cohorte dos Figaros, soltava ás brisas, com
-voz maguada e terna, as melancholicas trovas do:
-
- Gondoleiro, a noite é bella!
-
-Recordações saudosas, miragens gratas e fugitivas... adeus!
-
-Tudo se sumiu na voragem da urna eleitoral!
-
- * * * * *
-
- Eleitores do concelho de Valença!
-
-Nos annaes da benemerita Sociedade Artistica, _Harmonia e Recreio
-Cerveirense_, registra-se, como um periodo aureo de engrandecimento e
-prosperidade, a epocha em que o nosso Deputado honrou, frequentando, os
-salões da Associação.
-
-A arte de Terpsichore obteve consideravel impulso e desenvolvimento. Á
-voz auctorizada de Sua Excellencia, transformaram-se os _Lanceiros_,
-floreou-se a _Franceza_ e surgiu, vaporosa e louçã, a moderna valsa _a
-dous tempos_. Abandonaram-se marcas velhas e rançosas, substituiudo-se
-por elegantes _couronnes de dames_ e graciosos _moulinets de chevaliers_.
-
-Foi, pois, profundamente civilizadora a influencia que Sua Excellencia
-exerceu nas classes medianamente abastadas:—sopeiras e tricanas—, porque
-lhes incutiu os germens d’uma larga intuição artistica e senso esthetico,
-já com as brilhantes manifestações da arte de Terpsichore, já com mimosas
-producções musicaes, com que Sua Excellencia as deliciava, acompanhado
-pelo fiel Maldonado e—em occasiões solemnes—pela brilhantissima cohorte
-dos Figaros cerveirenses.
-
-Quem, pois, se atreverá a dizer, quem ousará ahi, dos arraiaes da
-opposição, affirmar que não foi acertada e felicissima a escolha?
-
-Concluo a demonstração, srs. Lucas e Abilio. Pódem Vossas Excellencias
-refutal-a?
-
-Eleitores do concelho de Valença! Damas e cavalheiros do Club e da
-Assemblea! Ditas e ditos do Gremio artistico; tricanagem, technicaphilas
-e paradas-velhas dos bailes do Theatro, eu—Zinão—vos felicito!
-
-E vós, vizionarios, descrentes, que por ahi apregoaes a incompetencia
-do sr. Deputado, em breve,—eu vol-o affirmo—se dissiparão as vossas
-duvidas e os vossos applausos hão-de juntar-se, fervorosos e delirantes
-ás acclamações enthusiasticas da grei progressista quando, no proximo
-carnaval, assistirdes, nos bailes do Theatro, á verdadeira consagração,
-á apotheose do nosso Deputado, vendo-o, como _par marcante_, offuscar a
-fama, até hoje immaculada, dos srs. Trincheiras e Zé do Caes, gritando
-_ás multidões_, radiante e enthusiasmado, em francez adoptado nos nossos
-tricanés:
-
-_An ivant! Chevaliers_ dão as mãos e _les Dames ó miliú_.
-
- * * * * *
-
-Ah Esteves! Ah Caetano!
-
-Que futuro brilhante e glorioso não está reservado para os vossos violões!
-
-Emquanto a nós:
-
- _vá de redrò_, Senhor Doutor!
-
-
-
-
-XIII
-
-Carta ao Zé Senso
-
-
-TERRAS DA PARVALHEIRA
-
- =Burgo de Paysandu.= Terça-feira,
- 17 de Dezembro de 1887.
-
-Meu Zé.
-
-Recebeu-se, hontem á noite, o 2.º fasciculo dos _Sinapismos_.
-
-Não sei ainda como te conte o que se passou. Ha onze horas que estou de
-cama, a caldos de gallinha e copinhos de geleia.
-
-O Dr. Pacheco só me deixa chuchar uma azinha de pito, de seis em seis
-horas, tal é o estado de fraqueza e abatimento em que me deixaram as
-violentas commoções, que hontem agitaram este pobre corpo.
-
-Vou coordenar as ideas para te descrever o caso mais extraordinario, que
-fastos de Valença podem mencionar ás gerações vindoiras.
-
-Tu sabes o que é o indigena sem illustração: corpo amanhado com borras
-de nababo, betume de Prudhomme, com leucocytos de Tartufo e cellulas
-philosophicas de Sganarello; alma ingenua, pura, immaculada, feita de
-arminho, gesso cré, grude de sapateiro e saliva de Zé Povo; no todo, uma
-mescla de tanso, de rufião e de sacripanta.
-
-Sabendo isto, certamente não te admirarás do que vaes lêr.
-
-Quando hontem á noite, já em ceroilas, punha o barretinho de dormir, ouvi
-na rua um enorme barulho: tropel desusado, gritos, rodar de carretas,
-patadas de mula, tiros, etc.
-
-Como estava em fralda, disse ao Zéca que fosse á janella vêr o que era,
-e na minha mente surgiu a idea de que teriamos uma invasão ingleza por
-causa dos makololos.
-
-—_São os mokololos? perguntei ao menino._
-
-—_Não sei, Papá. São muitos homens que passam correndo; uns com espadas,
-outros com chuços, outros com chicotes, rewolvers, punhaes, facalhões e
-espetos, gritando:_
-
- _mata! mata!_
-
-_Vão todos com o sim-senhor á mostra e levam nas nadegas duas manchas
-vermelhas, como ficam nas pernas, quando o Papá me deita sinapismos.
-Atraz d’elles vem um diabo vestido de amarello, que traz na mão esquerda
-umas disciplinas de coiro, com que os fustiga, e na direita um ferro em
-braza._
-
- * * * * *
-
-Calcei á pressa as piugas e approximei-me da janella para presenciar tão
-inesperado acontecimento. Com o ruido que fiz, abrindo-a, a multidão
-parou subitamente. Todas as cabeças se ergueram, todos os punhos se
-levantaram, fechados com crispações nervosas; abriram-se mil boccas, onde
-rangiam sinistramente os dentes; insultaram-me; chamaram-me _porco_ e
-_chulo_; berravam que me haviam de matar, de _escuchinar_, de virar de
-dentro para fóra, de arrancar as barbas, as orelhas e mais _isto_ e mais
-_aquillo_.
-
-Reparei que aquella medonha e terrivel multidão se dividia em tres grupos
-distinctos.
-
-O primeiro era composto de maltrapilhos com feitio afadistado, que uma
-collareja porca e abandalhada, a quem ouvi chamar D. Politica, segurava
-pelos cabrestos. Zurzia n’elles, com uma aguilhada de ponta d’oiro,
-El-Rei buffo, D. Milhão.
-
-O segundo era formado por _patetinhas_, d’estes infelizes, que nos
-hospitaes de alienados são conhecidos por _doidos mansos_.
-
-Guinchavam, mostravam papelinhos, davam saltinhos, faziam esgares
-burlescos, descobrindo os dentes sujos. Tinha conta n’elles, dando-lhes,
-de quando em quando, um pontapé, outra mulher em desalinho e que parecia
-soffrer de grande myopia. Conheci D. Idiotice.
-
-No terceiro, então, misturaram-se fedelhos e cães; d’estes _tótós_
-pequeninos de pello branco e encaracolado, muito nojentos e muito
-libidinosos, que mostram sempre a linguinha quando veem as amas, que
-trazem os focinhos molhados com um liquido que lembra, pelo cheiro, a cal
-e o peixe da Noruega, e que por ahi chamam, _fraldiqueiros_. Ladravam,
-davam ao rabinho, levantavam-se sobre as patinhas de traz, agitando
-para cima e para baixo a linguinha, d’onde escorria um fio de baba mal
-cheirante.
-
-Aquella multidão saturava a atmosphera de aromas insupportaveis;
-distinguiam-se os do bafio, do arroto dyspeptico; este cheiro particular
-do azebre, do mofo, da catinga, de pé gallego, de coisas lippicas e
-rançosas, que tresandam a raposinho e a chulé.
-
-No ruido ensurdecedor de tanto grito e de tanta explosão de colera,
-apenas se percebiam estas palavras:
-
- Mata! Mata o Zinão!
-
- * * * * *
-
-O meu cerebro illuminou-se, então, com aquelles vividos clarões das
-grandes angustias; pinoteavam-me na imaginação, em infernal dança
-macabra, todas as vibrações das grandes dôres; vergalhadas cyclopicas
-açoitavam-me as ideias; a alma rebentava-me com explosões terriveis,
-minada pela robulite do terror; o coração desfibrava-se esphacelado
-pelas garras do susto; as cellulas nervosas achatavam-se sob a prensa
-hydraulica do pavor; o cordão espinal estoirava, esticado pelas furias
-da raiva; as saliencias do corpo sumiam-se arietadas pela allucinação;
-na trompa de Eustachio trovejavam as maldições; na retina faiscavam
-punhaes de odio; na pituitaria abriam chagas os atomos do rancôr; as
-cordas vocaes rebentavam com a tensão da ira; as papillas da derme
-eram esmagadas pelos martellões da colera; diabos vestidos de vermelho
-arrancavam-me os cabellos; harpias esgrouviadas furavam-me a cornea;
-satanazes com rabo reviravam-me as unhas; demonios acephalos rasgavam-me
-a bocca; morcegos sinistros esfarrapavam-me as carnes; lebreus
-hydrophobos roiam-me as cannelas; corujas esfomeadas espicaçavam-me
-as orelhas; chacaes lazarentos mordiam-me as nadegas; corcodilos e
-jacarandés trituravam-me os ossos.
-
- * * * * *
-
-E no meio de toda essa _coisa_ phantastica, apocalyptica, satanica,
-horripilante, onde havia carcavões, fragoas, tenazes, forcas, venenos
-de Borgias, estyletes ervados, lanças quichotescas, navalhas de ponta
-e mola, balas de papel, espadas de pau, caçoletas e obuzes, explosões
-sulfuradas, bofes de leão, tricornios de gazeta, furores de Ugolino,
-ciumes de Othello, terrores de Machbet, perfidias de Iago, risos de
-Voltaire, astucias de Loyola, sarcasmos de Erasmo, pançadas de capoeira,
-chulipas de fadista, rugidos de Adamastor, pedradas de garoto, cobras
-e lagartos, viscosidades de lesmas, virus de serpente, commissões de
-_quinzes_ e de _paysanducos_, protestos, duellos, policias correccionaes,
-boquilhas, aguas sebastianicas, beliscões kilometricos, musas hystericas,
-zoilos epilepticos...
-
-—quando contemplava aquelle horroroso quadro em que, as tintas de Miguel
-Angelo, o pincel de Rembrandt e a phantasia de Hans Mackart, pintavam a
-sede de Tantalo, a insaciabilidade de Gargantua, a podridão de Imperia, o
-odio de D. Bibas, o servilismo do eunucho e o calcanhar d’Achilles,
-
-—entre aquelle côro infernal de uivar de feras, clamar de moiros, ulular
-de caraibas, guinchar de idiotas, urrar de quadrupedes, pinchar de
-macacos, zunir de vespas, silvar de cascaveis, ladrar de _bulldogs_,
-d’onde apenas se destacava:
-
- Mata! Mata o Zinão!
-
- —senti alguem ao meu lado.
-
-O tal diabo vermelho pinchára da rua para a janella; extendia-me o braço
-e dizia:
-
-—_Oh Coisa! dá cá um cigarro. Casca n’elles, que ainda bolem!_
-
-e desapertando a carcela das calças, voltou-se para a turba e...
-
- _esguichou-a._
-
-Já sabes, Zé amigo, quem elle era:
-
- O Ridiculo.
-
-
-
-
-XIV
-
-A Questão da Musica
-
-(LEITURA PARA HOMENS)
-
-
-Ha poucos annos, alli pelo Maio, quando a Primavera floresce os campos
-e a Natureza parece despertar, com novo vigor, da somnolencia invernal,
-Dona Politica sentiu pular o sangue nas veias, reclamando folia e brodio.
-
-Teve uns arrebiques eroticos de matrona insensivel á influencia lunar
-e amancebou-se, clandestinamente, com o Conde de Lippe e com o Senhor
-Administrador.
-
-Noitadas com um, barrigadas de camarões com outro, lá se arranjou de tal
-fórma que, d’essas relações, resultou um producto hybrido:—=A Questão da
-Musica=.
-
-Parto acabado, os amantes disputaram a paternidade do aborto:
-
-—É meu!
-
-—É teu!
-
-—Parece-se commigo!
-
-—Não se parece comtigo!
-
-Zangaram-se e ficaram de mal.
-
-Nunca mais se puderam vêr.
-
-A desavergonhada, ora sorri para um, ora para outro; acirrando, assim,
-pela sua inconstancia e bandalhice acadellada, o odio dos dois rivaes.
-
-O _mostrengo_ (sahiu femea) veiu ao mundo com todos os defeitos dos Papás
-e da Mamã: vaidosa, ridicula, traiçoeira, caprichosa e porca.
-
-Ao nascer, embirrou que não queria Musica. Papás e Mamã teem-lhe feito
-a vontade. Qualquer dia, embirra que quer Musica; teremos, então, de
-soffrer e pagar as furias dos paus-tesos, até hoje refreadas.
-
-O que por ahi não irá!
-
- * * * * *
-
-A _Comedia da Santa_, ou antes, a =Comedia da Musica=, absorveu e absorve
-toda a actividade dos nossos politicos—dos homens que se apresentam á
-consideração do povo, allegando serviços e pedindo votos.
-
-E em que diabo hão de pensar esses santos varões, se o Concelho voga em
-mar de rosas, com vento fresco e bons timoneiros?
-
-Examinemos, de relance, as instituições da nossa terra:
-
-Camara Municipal
-
-Praça de toiros com serviço permanente. Emprezario: o Senhor
-Administrador. Intelligentes: o Senhor Joaquim (por procuração), ou João
-Cabral.
-
-N’este anno, as corridas promettem. O _primeiro espada_, Senhor Abilio,
-foi occultamente a Madrid adestrar-se com Lagartijo e com Frascuelo. O
-gado, do lavrador Ladislau, é manso. Tem fraca _pinta_ e pouco _pé_. A
-casa está passada para as primeiras corridas semanaes. Ha toiros para
-curiosos.
-
- * * * * *
-
-Agora, duas tiradas a serio:
-
-A administração do nosso Municipio anda como V. Ex.ª sabe, querido
-leitor, em bolandas e ao deus-dará. Muito lhe poderia dizer a tal
-respeito; mas esta gente séria da terra, tanto me tem soprado aos ouvidos
-com aquella preventiva phrase de:
-
- _Nem todas as verdades se dizem_
-
-que, _por emquanto_, ainda me resolvo a conservar na minha carteira os
-curiosos apontamentos que d’estas coisas de Valença, cuidadosamente
-tenho colligido. Prosigamos.
-
-—Approvou-se ultimamente um novo traçado de estradas para o districto;
-todos os concelhos foram contemplados, menos o de Valença. Pelos modos,
-lá nas secretarias das Obras publicas ainda se não descobriu, ao certo,
-se isto pertence a Portugal, se á Galliza. A Camara podia elucidar
-este caso e requerer, ou instar por concessões a que tem direito. Os
-politicos, porém, teem mais em que pensar... Ainda se não decidiu a
-=Questão da Musica=.
-
-—Alli, na Esplanada, amontoam-se, sem ordem nem regularidade, as novas
-construcções. Ora, apesar da opposição dos paysanducos, a futura
-povoação de Valença ha de extender-se por esses campos fóra, e esta
-latrina acastellada com muralhas, poternas e tenalhas, passará a ter o
-merecimento historico das ruinas de Lapella, hoje excellentes para ninhos
-de morcegos, luras de toupeira e tocas de grillos.
-
-Portanto, a qualquer cerebro medianamente esclarecido parecerá urgente
-e indispensavel o levantamento d’uma planta, que desde já disponha, com
-regularidade, as arterias da futura povoação.
-
-Não se pensa em tal, nem é preciso. Temos a lei das expropriações. A
-ordem é rica, os frades são poucos e os imbecis são muitos. Ha mais em
-que pensar. Temos a =Questão da Musica=.
-
-—No centro da villa, ao lado da Ex.ᵐᵃ Camara, existe uma commua, que
-chamam: Eschola municipal.
-
-Quando quizerdes avaliar a civilização d’este povo, que se ri de vós—oh
-gentes de Monsão e de Coura!—vinde cá, embebei o lenço em agua de Colonia
-e entrae alli, na Eschola, onde sem ar, sem luz, sem condições hygienicas
-de qualquer natureza, se atrophiam diariamente dezenas de creanças.
-
-Os rapazes, cá na terra, sahem da barriga das mães, já com a caneta
-atraz da orelha para escreverem á familia; não precisamos, portanto, de
-subsidios do Conde de Ferreira, nem de utensilios escholares.
-
-Corre tudo muito bem. Só falta uma coisa: um pelourinho, alli ao
-pé da _Sexta_, com os nomes dos philanthropos que responderam aos
-testamenteiros do Conde:
-
-—_Dispensamos o subsidio; não temos terreno para a eschola; está tudo
-occupado com cacos de guerra e com o Assento dos militares!_
-
-—Diz-se que é util o saber lêr e, n’esta crença, auxilia-se em toda a
-parte a instrucção do povo, fiscalizando-se o serviço das escholas,
-animando-se as creanças e estimulando-se os professores.
-
-O pelouro da instrucção (?) no concelho de Valença é um mytho, uma coisa
-nominal e hypothetica.
-
-Regateiam, por ahi, miseravelmente, os dois patacos de expediente; e na
-Eschola, como verdadeira commua, não ha mobilia, não ha um mappa, não
-ha uma esphera, uma loisa, um diccionario. A Camara não gasta dinheiro
-n’essas ridicularias; gasta-o, mas com outras applicações, que fazem
-parte dos meus apontamentos particulares...
-
-De quando em quando o bandalho da Politica entra tambem nas Escholas; e
-d’essa visita, nascem as perseguições torpissimas e ineptas contra homens
-que, politicamente podem ter todos os defeitos, mas que para o exercicio
-do cargo que exercem, possuem incontestavel aptidão.
-
-—Construiram-se, no largo principal da terra, os Paços do Concelho. O
-edificio ficou uma gaiola de grillos, com uma unica porta, para elles não
-fugirem, quando lhes appetecer a serradela.
-
-As divisões interiores são d’uma disposição perfeitamente apatetada.
-Com as dependencias do Tribunal, repetiu-se aquelle caso dos _moinhos
-de Coura_. Lá, só pensaram na agua, quando os moinhos estavam promptos;
-cá, só depois do Tribunal concluido, é que surgiu na mente dos illustres
-senadores a necessidade _provavel_ d’uma sala para jurados.
-
-Mas o defeito remediou-se e bem.
-
-Fez-se uma especie de espigueiro, um sotão, como os que a gente tem para
-extender as batatas por causa do grelo e para lá se manda o Jury. Está
-alli muito bem, livre de correntes d’ar, e com grande vantagem para os
-curiosos da terra: muito antes que se pronuncie a sentença, já se póde
-saber, pela janella das escadas, se o réo vae para a rua, ou para o
-_cavallinho de pau_.
-
-Não ha dinheiro que pague esta commodidade.
-
-—Na Coroada, admiram os forasteiros a desconjunctada architectura d’uns
-cortelhos, onde, em nauseabunda promiscuidade, se aconchegam de noite:
-mulheres, porcos, creanças, bacorinhos, gatos com tinha e cadellas com
-sarna.
-
-Em terra menos civilizada, já o _senado_ teria estudado o meio de, por
-uma operação financeira possivel de realizar, sem graves encargos,
-transformar esses focos de immundicie em habitações economicas, mas
-hygienicas.
-
-Mas, então, V. Ex.ª não viu na Exposição de Paris, entre tantas
-maravilhas da Arte, as primitivas construcções dos differentes povos?
-Pois cá, em Valença, não precisamos de arranjar artificialmente essa
-exposição. Alli estão os _cortelhos_ da Parada velha, immundos, doentios,
-nojentos,—como nota caracteristica do nosso Progresso moral e material.
-
-—A gente das cidades tem a mania da Civilização. Abre mercados, rasga
-ruas espaçosas, aformoseia praças, alinha os edificios e varre as ruas.
-
-Com o pretexto da hygiene e da limpeza faz dinheiro até do esterco.
-
-—_Miserias humanas!—dizem os nossos camaristas. Nas ruas de Valença, o
-que cai, deixa-se ficar. Podem-nos chamar immundos, mas ao menos, não
-somos dos futres que vendem carros de lixo._
-
-Cá, a gente é assim...
-
-—O concelho precisa de estradas que unam as freguezias e facilitem
-as communicações. A estrada de A para B foi considerada, como a mais
-urgente, pela importancia (politica, já se vê) de B.
-
-Principiou-se a estrada: terraplenagens, aterros, desaterros, etc.
-
-A folhas tantas, desabou a caranguejola ministerial e o que era
-politicamente positivo em B passou para negativo. Suspendeu-se a
-construcção da estrada.
-
-Chegou o inverno: lamas, enxurradas, desmoronamentos. O que estava feito
-inutilizou-se, mas não importa: a ordem é rica, os frades são poucos e os
-imbecis são muitos. Ha mais em que pensar: a =Questão da Musica=.
-
- * * * * *
-
-
-Junta de Parochia
-
-Instituição composta de differentes membros, sob a direcção do Senhor
-Sampaio e patrocinio do Senhor Agostinho. Nada mais, creio eu, é preciso
-dizer.
-
-Essa instituição, que n’outras terras presta valiosos serviços á
-Beneficencia e á Instrucção, jaz ahi na mais abjecta inutilidade.
-
-A manifestação mais evidente da sua actividade, deu-a na importantissima
-_Questão da Porta_, com o Senhor Baptista.
-
-A Junta não tem meios; é pobre, vive da graça de Deus. Tem os telhados
-da Egreja desmantelados; não póde gastar um real em adornos, ou reparos,
-no interior do templo. Conserva, nos adros, as ossadas dos nossos
-antepassados—n’esses adros que a gente pisa, onde os cães levantam as
-pernas e dão muitas voltas, fingindo que se sentam; onde, á noite se
-baixam as calças e se praticam mil obscenidades. Alli, debaixo d’aquella
-terra e d’aquella pedra estão os craneos dos nossos parentes, craneos que
-já tiveram carne, olhos, bocca, labios que acarinharam os nossos paes;
-estão alli os restos dos braços que aconchegaram ao peito, em noites de
-amargura e de afflictiva ancia, a cabeça dos nossos avós, quando a febre
-lhes amortecia os olhos e escaldava as faces.
-
-O respeito aos mortos e o espirito da Religião impõem a urgente exhumação
-d’essas ossadas e a sua mudança para o cemiterio.
-
-Não póde ser. Não ha dinheiro; a Junta é pobrissima e tem despezas mais
-urgentes e indispensaveis, como as que se fizeram com a _Questão da
-Porta_. Pois não era um escandalo? Ainda que se empenhasse a Cruz de
-prata! Mas não foi preciso; para isso, para a Justiça, ainda a pobre
-Junta teve as trinta libras, que a questão levou...
-
-Deus, Nosso Senhor, se lembre, para desconto dos meus peccados, da
-repugnancia com que nego licença á penna, para reproduzir as ideas que,
-n’este momento, tumultuam no meu cerebro...
-
- * * * * *
-
-—Ascencio José dos Santos deixou á Junta de Parochia de Valença estas
-e aquellas propriedades, com o encargo seguinte: instituição d’um
-lausperenne mensal com tantos padres e tantas luzes, etc.
-
-Com o rendimento d’essas propriedades pagaria a Junta as despezas do
-lausperenne, applicando o restante ao desenvolvimento da Instrucção do
-Concelho.
-
-A Junta acceitou o legado, vendeu as propriedades e converteu o producto
-em inscripções que rendem, annualmente, _cento e dez mil reis_.
-
-A despeza total dos lausperennes, pagando-se generosamente, é de _doze
-libras_, ou _cincoenta e quatro mil reis annuaes_, restando, por
-consequencia, um saldo importante.
-
-A Junta de Parochia acceitou, como disse, o legado; mas os mezes passam
-e ninguem ouve falar dos lausperennes, porque não se fazem. O Senhor
-Sampaio, apesar de ser um homem muito temente a Deus, não quer gastar
-dinheiro com padres.
-
-Dispõe do que é seu e faz muito bem.
-
-Estas coisas consideram-se, cá na terra, como admissiveis e legaes. Uns
-chamam-lhes descuidos, outros desleixos, etc. Eu pouco sei de sciencias
-juridicas; mas confrontando este facto com outros, que por ahi vejo punir
-na cadeia, não ha quem me tire da cabeça, que o _descuido_ da Junta entra
-na classe d’aquelles _descuidos_, que a Lei chama: roubos.
-
-Pura e simplesmente =um roubo=; ao culto, á Lei, ás crenças d’um morto, á
-Moralidade, á fé dos contractos, ás disposições d’um testamento, que em
-toda a parte se cumprem fiel e rigorosamente.
-
-E já que o vendaval do Tempo levou os ultimos sons d’essas fervorosas
-manifestações de Sentimento, que á beira do tumulo d’um homem que caíu
-fulminado defendendo os interesses de Valença, inspirou tanto necrologio
-bombastico e tanto discurso farfalhudo—já que em homenagem á memoria do
-homem que amou, como ninguem, esta terra, porque tinha na alma a rigida
-austeridade d’um caracter impolluto e sacrificava os haveres, como
-sacrificou a vida, sem pedir á Politica o salario dos seus serviços—se
-não ergueu ainda, ahi, uma voz para reclamar da Justiça o cumprimento
-rigoroso das disposições a que se obrigou a Junta de Parochia, seja-me
-permittido alterar, por momentos, a feição humoristica d’estes artigos
-para, com verdadeira indignação, dizer ás auctoridades que, n’esta
-terra, vigiam pelo cumprimento da Lei:
-
-A Junta de Parochia =rouba=, mensalmente, ao culto os lausperennes
-instituidos no legado de Ascencio José dos Santos.
-
-Esses lausperennes representam _cento e dez mil reis annuaes_, que são
-desviados para applicação illegal e ignorada.
-
-Ha, ou não ha obrigação de cumprir as disposições dos legados?
-
-Ha, ou não ha Lei que peça responsabilidades aos auctores d’estes
-_desvios_?
-
-..............................
-
-—Prosigamos, porque a rabeca desafina.
-
- * * * * *
-
-Santa Casa da Misericordia
-
-É uma Santa Casa de Politica.
-
-As eleições disputam-se (tudo por philanthropia) como as da Camara, ou do
-deputado. Impera sempre n’ellas, para suprema humilhação dos valencianos,
-a massa bruta da Urgeira, porque ha o cuidado de conservar alli a maioria
-dos _irmãos_.
-
-Quem escreve estas linhas já teve, por duas vezes, a honra de ser
-convidado para _irmão_ da Santa Casa. _Por acaso_, aconteceu sempre isso
-em vesperas de eleições. Mero _acaso_.
-
-Na ultima lucta eleitoral entrou uma fornada de 60 ou 70 _irmãos_.
-Offereciam-se os diplomas com todas as despezas pagas, e depois da
-eleição houve regabofe de castanhas e vinho branco. O moderno _carneiro
-com batatas_ ainda não estava inventado.
-
-Foi uma eleição renhida, tenazmente disputada; e, com ropias de parva
-politiquice, dotou-se a terra com mais uma loja de... barbeiro!
-
-Deus me livre de duvidar, por um momento, dos sentimentos caritativos dos
-especuladores, quero dizer, dos protectores da Santa Casa.
-
-Mas (pergunta-me um diabo que tenho aqui, ao pé de mim, e que desconfia
-de tudo), porque será que em todo o anno ninguem se lembra do Hospital
-para lhe augmentar os rendimentos, ou para alargar a sua acção benefica?
-
-Porque será que esse zelo se não manifesta agora, auxiliando os
-Provedores nos trabalhos da utilissima instituição que o legado Cruz
-fundou—o Asylo?
-
-Porque vos não reunis agora em activa propaganda,—oh cafila de
-pantomineiros!—angariando no Concelho donativos em dinheiro e em
-materiaes que habilitem a Santa Casa a, quanto antes, poder levantar esse
-edificio tão util para os infelizes?
-
-—Parece-me (diz o tal diabo) que se a Santa Casa, em vez de ter um
-capital de =cento e tantos contos=, em inscripções, escripturas com
-hypothecas, e =fiadores= com =paes=, =manos= e =cunhados=, tivesse apenas
-algumas de X, ninguem lhe disputaria as eleições.
-
-Que diz V. Ex.ª a isto, interrogando a sua consciencia?
-
-Teremos n’este caso Philantropia, Politica, ou... abandalhado Arranjo?
-
-Em coisas da Santa Casa, _por emquanto_, vem só isto á luz do dia.
-
- * * * * *
-
-Ora aqui tem V. Ex.ª um rapido e superficial exame sobre as principaes
-instituições da nossa terra.
-
-A Politica, a Hypocrisia e a Rotina imperam soberanamente em tudo que
-póde ser util em Valença. Por isso, quando a gente bate á porta de muitos
-filhos d’esta terra, que lá fóra, pela sua posição e pela sua fortuna
-podiam auxiliar novas instituições, só ouve queixas, reclamações e justos
-resentimentos.
-
-O grande homem da nossa terra seria um velhaco qualquer que em eleição
-renhida pudesse _empalmar_ o João de Gaiteira, ou o Abbade de Cerdal.
-
-Se alguem conseguisse isso, á noite, na taberna do Pedro, teria uma
-apotheose de _calhos_ e de chouriço com ovos, de rachar tudo.
-
- * * * * *
-
-—Mas, oh sr. Zinão, dirá V. Ex.ª, então não ha por ahi homens que tenham
-interesses no Concelho e que lucrem com o seu desenvolvimento?
-
-—Oh, meu senhor! V. Ex.ª sabe quem verdadeiramente mexe os pausinhos da
-nossa Politica? São os pyrotechnicos da _Questão da Santa_. São dois
-homens que teem tantos interesses no Concelho como eu, que por duas
-_perras chicas_ offereço a V. Ex.ª as minhas propriedades. São os que
-armam as _baralhas_.
-
-Não teem um palmo de terra que os interesse no desenvolvimento da
-Agricultura; não teem uma capoeira nas freguezias, que lhes faça sentir
-a necessidade de estradas; não teem relações directas ou indirectas
-com o Commercio, nem com a Industria. Entre elles e as instituições
-civis ha um abysmo. Nunca fizeram parte d’uma corporação que tratasse
-do desenvolvimento do Concelho. De administração municipal sabem tanto,
-como eu sei quem V. Ex.ª é. Influencia pessoal: como são dois, levam dois
-votos. Tem Politica de sapa. Ensaiam as comedias, põem os actores na rua,
-mas quando veem fogo nas barbas da vizinhança mettem-se em casa e fecham
-as portas.
-
-Posso francamente asseverar a V. Ex.ª que esses homens inspiram na
-povoação mais antipathias do que affectos. Elles que digam a V. Ex.ª se
-não teem a consciencia d’isso... Aos que lhes fazem a côrte oiço ás
-vezes cada arcada, em surdina...
-
-Um quer por força pôr o pé nas muralhas para trepar á tina, onde se
-tingem as meias. O outro surgiu ahi na tripode das sibyllas sem a gente
-saber _como_ nem _porque_; dizem que vê as coisas muito ao longe. Ás
-vezes adivinha, mas se dá a _palavra d’honra_... é tolice certa.
-
-Ora, como na terra dos cegos e dos dorminhocos quem tem um ôlho é rei, os
-homens por cá vão arranjando a sua vida muito honradamente e livres de
-vergonhas do mundo.
-
- * * * * *
-
-Esses dois maioraes representam os dois partidos; porque nós, meu senhor,
-nominalmente, tambem temos dois partidos, como as terras grandes. A gente
-é sempre a mesma.
-
-V. Ex.ª recorda-se do que succedeu ha quinze dias, em S. Pedro, com os
-comparsas d’aquelle _Auto_ dos Moiros e Christãos?
-
-O Zé da Cancella, o Chico da Aguilhada e o Tóne do Pernicas, no primeiro
-domingo _faziam_ de judeus. N’aquella scena em que, por ordem do
-Bento Cambádas, que era o Herodes, matam os innocentes, o publico e
-especialmente o mulherio, _escamou-se_ com elles, mandou-os _p’ro raio
-que os parta_ e correu-os a _soque_.
-
-No outro domingo nenhum d’elles quiz _fazer_ de judeu e para que a
-_peça_ se representasse, metteu-se o Senhor Abbade no caso. Os que eram
-christãos passaram para judeus e vice-versa.
-
-Cá, nas farças da nossa Politica, succede o mesmo. Quem faz de Abbade é o
-Senhor Administrador.
-
- * * * * *
-
-Ora aqui está, meu senhor, a razão porque o Concelho ganhou o titulo de
-_burgo podre_ e a razão porque a gente, quando vae offerecer o circulo
-a pessoas serias, como succedeu ha mezes, é posta no ôlho da rua pelo
-creado da casa.
-
- * * * * *
-
-Voltemos á =Questão da Musica= e encaremol-a pelo seu verdadeiro
-aspecto—o comico.
-
-Esta celeberrima questão, decomposta nos seus factores, baseia-se n’uma
-simples formalidade, n’uma pueril e ridicula ceremonia: a licença do
-Conde de Lippe, a licença do Administrador, ou uma e outra concedidas ao
-mesmo tempo.
-
-É um caso comico, como o do Hyssope.
-
-Examinemos:
-
-A Musica é a applicação artistica do som; influe poderosamente em a
-nossa natureza psychica, quer a agite com as sonatas de Beethoven, em
-que o Sentimento nos apparece burilado e subtil, como uma cinzeladura
-de Cellini, quer tumultue nas estranhas innovações de Wagner, em que a
-Harmonia, á primeira audição, nos fére de imprevista e áspera.
-
-Decomposta nos seus elementos, a Musica reduz-se a simples vibrações,
-transmittidas pelas ondas sonoras. No caso presente, visto que na
-=Questão da Musica= se trata d’um grupo de labregos, que selvaticamente
-mortificam os nossos apparelhos auditivos, essas vibrações que, pela
-instrumentação, se transformam na Harmonia, partem do organismo humano.
-
-Examinando o organismo humano, verificamos que os elementos essenciaes
-á potenciação d’essas vibrações podem, egualmente, ser fornecidos
-pelas duas extremidades do canal digestivo e modulados, ou regulados,
-pela articulação da maxilla inferior, ou pela elasticidade muscular do
-esphincter.
-
-A composição molecular d’esses elementos será pois: oxygenio, azote,
-acido carbonico e vapor de agua (caso _a_), ou: hydrogenios carbonado e
-sulfurado e acido carbonico (caso _b_).
-
-A sua acção vibratil chama-se vulgarmente sôpro, ou bufo; e n’esta ultima
-designação, que é a mais geral, para distincção dos dois casos _a_ e
-_b_ relativos á composição molecular, costuma o povo usar do genero
-masculino no primeiro caso, e do feminino no segundo.
-
-Assim, por uma rigorosa analyse, de deducção em deducção, chegamos ao
-seguinte resultado: que a essencia (caso _b_), o valor, a importancia
-d’essa celebre questão, que fez perigar a paz das nações e que, por ahi,
-inspirou tanta facecia e tanto remoque de _fino espirito_—é um simples
-caso de sôpro, é um reles caso de bufo (_b_).
-
-E continuando a empregar o methodo deductivo, visto que esse caso foi
-o producto d’uma laboriosissima gestação politica, com muita vigilia,
-muita tactica e muito estudo, por isso que foi cuidadosamente preparada
-pelos dois partidos contendores—visto que elle symbolisa e exprime os
-valimentos intellectuaes e politicos dos chefes e maioraes—afoitamente
-podemos dizer, synthetizando: tudo isso e todos elles não valem um bufo!
-(_b_)
-
-Politiquemos:
-
- * * * * *
-
-Os dois partidos prepararam com longa antecipação, no remanso dos
-gabinetes, esse estupendo acontecimento.
-
-Mediram-se as forças, calcularam-se os accidentes, preveniram-se as
-hypotheses, estudou-se cuidadosamente o terreno, escolheu-se a hora e
-inventou-se o pretexto. A malandragem de Ganfey foi assoldadada para
-deitar fogo ao rastilho.
-
-Na vespera de rebentar a bomba, descobriram-se os jogos e todos ficaram
-logrados. Um dos chefes recebia ordem para ficar ás ordens do outro;
-este, esbarrava a cabeça na estupidez do Zé Povo e nos barrancos que a
-sua inepcia cavára.
-
-Cá a gente (já se vê) n’essas alturas, arrebitava a pança com o brodio,
-a vêr os toiros de palanque; e, como elles ainda escabeceiam no curro,
-vae-lhes mettendo a sua farpa muito honradamente.
-
-Depois da explosão da _coisa_, principiou a desembestar-se por ahi a mais
-sordida mistela de pilherias apanascadas, que tiveram echo no districto,
-como se o ridiculo de tudo isso não fosse bastante para nos fustigar o
-rosto e alvoroçar o sangue.
-
-A partida perdeu-se. Quem a pagou (e foi carita) chorou sete dias e sete
-noites. Os pyrotechnicos metteram-se em copas. É da praxe: nas barracas
-do _Pim-pam-pum_, quem ageita os bonecos não paga entrada. Entra pela
-prenda...
-
- * * * * *
-
-Farpeemos...
-
-Depois d’essa dejecção politica, os campos conservam-se armados,
-medindo-se os adversarios com rancor. No meio d’elles, lá está o sôpro, o
-bufo (caso _b_)—eterno pômo de discordia.
-
-Progressistas teimam em obstar que a gente em occasião de festa, possa, á
-noite, dar a sua gaitada por essas ruas e muralhas.
-
-Regeneradores, pela penna auctorizada do Senhor Joaquim, como Juiz da
-Senhora da Saude, invectivam o Ministerio, reclamando a livre expansão do
-bufo (_b_).
-
-E agora, que estamos em maré de syndicatos, n’esta carencia de bufo
-(_b_) muito dinheiro podiam ganhar alguns senhores cá da terra e aquelle
-barqueiro de Vigo...
-
-Ha coisas que, guardadas, engarrafadas, servem para occasiões de falta e
-dão muito dinheiro...
-
- * * * * *
-
-O certo é que não se obtem licença para Musica dentro de Valença; ou
-porque seja negada por mero capricho do Senhor Administrador, ou porque a
-recuse o Lippes.
-
-Porque nós—louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo—somos cidadãos tão
-portuguezes, como os de Coura; pagamos decima, como os de Coura; damos
-votos, como os de Coura; fazemos filhos para o exercito, como os de
-Coura, mas não temos as liberdades civis, que teem os de Coura.
-
-Pelos modos, ainda nos corre nas veias algum resto d’aquelle bulhento
-sangue dos nossos antepassados, os soldados de Viriato, que, segundo diz
-o Senhor Joseph Avelino, tanto assarapantaram o mundo com os seus feitos;
-e o Governo, em vez de uma auctoridade administrativa, manda-nos duas!
-
-—Quer V. Ex.ª dar a sua gaitada? Precisa de dar o seu _bufo_?
-
-Tem de ir pedir ao Administrador e á Praça; e antes de transitar por
-essas ruas tem de bufar, voltado para a casa do Governo. Se offerece
-as primicias do _bufo_ á Camara, ou á Administração, a Praça amua e ha
-baralha, como succedeu com a _fanfurrilha_ gallega.
-
-—Tem V. Ex.ª fogo em casa?
-
-Acodem, logo, da Praça e da Administração:
-
-—Mando eu.
-
-—Não mandas tu.
-
-—Apago eu.
-
-—Apaga tu.
-
-Levanta-se questão; tudo grita, tudo berra, e V. Ex.ª, para se livrar de
-prejuizos, o que tem a pedir ao seu Anjo da Guarda é que o deixem ficar
-sósinho com o fogo, que é mais socegadinho e pacato.
-
-—Ha _banzé_ no theatro, ou na rua? Lá os temos em disputa.
-
-De fórma que, se um dia, V. Ex.ª por esquecimento, por descuido, larga o
-seu bufo (_b_) na cara d’uma das auctoridades, e sem a devida licença,
-leva pancada dos dois.
-
-É preso. Chega um paysanduco e agarra V. Ex.ª pelo braço direito. Vem o
-Balagota e agarra-o pelo esquerdo.
-
-—Venha para a Praça!
-
-—Venha para a Administração!
-
-Puxa um; estica o outro.
-
-V. Ex.ª atrapalha-se, reclama, gesticula, bufa... (_b_)
-
-Se o faz na cara do paysanduco, mais pancada leva. Se mimoseia o
-Balagota, este põe-se ainda mais amarello do que é, e apita.
-
-Santo nome de Maria! O que ha-de a gente fazer?
-
-Sem musica, sem _bufo_ não se póde passar. Fossem-no lá prohibir ao
-Senhor A. Seixas! Estoirava... de raiva.
-
-Dentro de casa, felizmente, ainda V. Ex.ª póde mandar tocar a Musica e
-dar o seu _bufo_; mas eu estou a vêr isto de tal fórma que, d’aqui a
-pouco, se V. Ex.ª, em qualquer sitio, na sala de visitas, na cama—por
-exemplo—lhe appetece bufar, tem logo, ao seu lado, um paysanduco e o
-Balagota, procurando, investigando, cheirando, esmiuçando, por cima e por
-baixo da cama, levantando, até, a roupa para metterem os narizes (imagine
-V. Ex.ª a sua desgraça se, para essa operação, lhe apparece o nariz do
-Dr. Ladislau...) e berrando depois, irados:
-
-—_Aqui deu-se um bufo!_
-
-E V. Ex.ª terá de pedir perdão, confessar o crime, ou desculpar-se
-humildemente, dizendo:
-
-—_Não dei, não, senhor! E se dei... não foi por querer..._
-
-Ora a nossa desgraça!
-
-Oh gentes do Kalakana! que dizeis a isto?
-
- * * * * *
-
-Esta interrupção dos tubos... musicaes—claro é—vem a acabar; e com a
-mesma imbecilidade, com que actualmente os progressistas impedem a livre
-circulação do _bufo_, os regeneradores, subindo ao poder, hão-de metter
-cá dentro, quanto nedio folle por ahi haja, previamente reforçado com
-alimentos explosivos.
-
-E n’esse dia anti-pituitario, em que tenho de encontrar: uns, de vexados,
-em casa ou fugindo de corrida ao apupo; outros, de pança tesa e cara
-alegre, abraçando-se por essas ruas—e todos, supinamente idiotas e
-essencialmente ridiculos—cá me tendes, oh _bufos_ e _anti-bufos_!, para
-vos estralejar nas ventas a mais sonora gargalhada, que gentes de Valença
-teem ouvido!
-
-E tenho tambem uma idea...
-
-Emfim, vocês merecem recompensa, pelo enthusiasmo com que teem tratado
-d’essa questão, de grande valor e importancia para a terra. Mastigae já
-em secco e ouvi lá marotinhos: (mas caluda, por emquanto):
-
-Nos _cómes-e-bébes_ dos philarmonicos hei de misturar umas gottasinhas
-d’um certo elemento drastico
-
-—Oleo de Croton Tiglium—por exemplo, para que elles, nas ruidosas
-e puxadas explosões dos seus _bufos_, vos possam dar tambem—oh
-progressistas e regeneradores do pataco!—algo mais de...
-
- ...solido!
-
-Toca a aguçar a dentuça, Politiqueiros de meia-tigela!
-
-
-
-
-XV
-
-As Muralhas
-
-
-Em que condições vivemos?
-
-Com pejo hesito em denuncial-as.
-
-Vivemos acorrentados ao estupido regulamento, dado ás gentes, ha perto de
-seculo e meio, pelo Conde de Lippe.
-
-Vivemos como os forçados e os grilhetas—cercados de muralhas.
-
-O que significam, hoje, as muralhas?
-
-O retrocesso, o dominio brutal da pedra; isto é, Pasteur, Edison, Comte,
-Jenner, Spencer, Hugo, Castelar, Capello, Ivens, Herculano, Pestalozzi,
-Broca, Kossuth, Humboldt, Chevreul, Wurtz, Lesseps, Eiffel, arremessados
-para a barbarie dos tempos primitivos, para a idade paleolithica, em que
-o homem usava cuecas, cozinhava de cocoras, contava pelos dedos e pescava
-trutas á unha, porque desconhecia, ainda, a engenhosa disposição do
-anzol e a grande vantagem da minhoca.
-
-Significam os combates dos barbaros; a bruteza dos despotas; as luctas
-fratricidas; o assassinato legal; a ambição copulada pela força; a lucta
-braço a braço, arca por arca, alma a alma; a feroz e brutal sensualidade
-do vencedor, que sorve dos labios do vencido o ultimo alento; o escabujar
-do moribundo nas vascas de cruissima agonia...
-
-Significam as pontes levadiças, o embate de duas ondas humanas que
-se chocam, se enroscam, se atropelam, se mordem e se agitam por
-fim, convulsivamente, n’um montão disforme de farrapos, de carnes
-ensanguentadas, onde rouquejam as maldições, os estertores, até que as
-rodas da carreta, ou as patas ferradas d’uma mula acabem de esmagar, de
-confundir e triturar.
-
-Significam o assedio, o bombardeamento, o incendio, a fome, as mil
-privações e sobresaltos; a viuvez, a orphandade, o lucto—a morte; isto
-é: quatro pás de terra sobre um corpo amado, que jaz hirto e nú, ahi
-para qualquer canto, sobre o monturo, proximo á _Sexta_; as canções
-roucas e truanescas dos coveiros do Hamlet; o uivar sinistro da canzoada
-lazarenta, que escancara as mandibulas, esgaravatando a terra para
-esfarrapar as carnes; o crocitar lugubre dos corvos, que revolteiam
-no azul dos céos, espreitando lauto e succulento festim no rebordo
-ensanguentado das feridas...
-
-Significam a agonia lenta, afflictiva; o velar-se da vista nas sombras
-da Morte e, n’esse debil bruxolear do espirito, a visão meiga e então
-dolorosa da familia, da infancia, dos affectos que nos ligaram á vida sem
-que, collados os labios, confundidos os alentos, n’um derradeiro olhar
-e n’um derradeiro beijo, se possa desprender a alma entre almas que nos
-amaram.
-
- * * * * *
-
-Com que veneração e respeito eu conservaria uma das tuas cans, benemerito
-Pasteur, apostolo bemdito do Bem, e com que tremendo pontapé eu te
-esmigalharia o busto, se aqui o tivesse, feroz Napoleão, negro chacal da
-Morte, para quem são poucos todos os horrores e tormentos, que a genial e
-portentosa imaginação de Dante phantasiou nos seus nove circulos!
-
- * * * * *
-
-Felizmente, toda esta sentina de granito que os espiritos bellicos
-e phantasistas denominam _formidolosa Praça_, nunca teve um real de
-importancia, na historia militar do nosso paiz.
-
-Isto foi sempre o que hoje é—uma _feira da ladra_ de tarecos velhos e de
-cacada guerreira.
-
-Quando em 1809, Soult atravessou a fronteira, o aspecto d’esta
-carcassa não o atrazou um minuto na marcha. Passou ao largo, sorriu,
-atirou cá dentro meia duzia de obuzes e continuou em paz o seu caminho.
-Palpitou-lhe que não valia a pena subir a Gaviarra, porque não tinhamos
-custodias d’oiro para roubar, nem preciosidades artisticas; n’essa epocha
-não existia o muzeu do sr. Sampaio, nem se falava na mystica collecção do
-Albininho.
-
-Em 34, Napier, a cavallo n’um burro pôdre, veio de Caminha a Valença,
-seguido por um pelotão de marujos inglezes. Sem estribos, com a volta
-das meias cahidas sobre os sapatos, rindo com bom humor, berrou alli da
-Esplanada: «_Ao governador de Valença! Senhor: tenho uma esquadra em
-Caminha e se vos não entregaes, mandarei buscar cem peças de artilheria,
-cercarei a praça e a vossa guarnição será passada á espada._»[38]
-
-D’alli a um quarto de hora, Napier estava cá dentro.
-
-Depois d’isso, os grandes successos militares da nossa terra limitam-se
-a breves assedios, nas luctas civis de 37 e 47. Houve muito susto, muito
-fanico nos dois sexos, alguma granada para espalhar tristezas, e assim
-se arranjou um simulacrosito pacato e economico d’um cerco em regra,
-como o que soffreu, ha 19 annos, Strasburgo—(senhoras e senhores, que
-ainda fallaes com pavor de 37 e 47)—em que aquella desgraçada cidade
-teve constantemente, vomitando a morte e a ruina para dentro dos seus
-muros, umas 170 boccas de fogo—ninharia que devia fazer um poucochito de
-barulho...
-
-Mas apesar d’isso, de nada valeram os ultimos assedios; eu—com
-franqueza—sinto-me muito mais feliz do que os srs. Manoel Antonio de
-Barros, José e João Seixas, Santa Clara e outros que assistiram a
-essas tristes scenas das nossas dissenções politicas; e sinto-me mais
-feliz, porque, emfim, não me destinou Deus para emprezas guerreiras
-e contento-me em conhecer os effeitos e propriedades da polvora nas
-bichinhas de rabear do S. João, ou nos devaneios pyrotechnicos da palerma
-Urgeira, sem offensa para o sr. Chiquinho Veiga.
-
- * * * * *
-
-Mas vejamos qual é a necessidade de conservar essas odiosas reliquias dos
-tempos barbaros e qual a razão que se oppõe, a que nos seja permittido o
-que já conseguiram outras terras da fronteira, como Caminha, Cerveira,
-Monsão e Melgaço—o arrasamento de tão brutaes construcções.
-
-Será a posição estrategica?
-
-Condições excepcionalmente favoraveis na opposição a uma invasão
-extrangeira?
-
-O inexpugnavel d’aquella posição?
-
-Cartas na mesa, teias d’aranha limpas e jogo franco, senhores da alta
-militança, lá das Secretarias da Guerra.
-
-Toda esta coisa, com as suas muralhas, baluartes, fortes, contra-fortes,
-revelins, fossos, falsas bragas, casamatas, cortinas, tenalhas, poternas,
-escarpas, contra-escarpas, banquetas, meias-luas, taludes, pontes
-levadiças, abobadas, etc., etc., que constituem na sua complicada relação
-a arte de Vauban, toda esta coisa, repito—não vale um pataco sebento do
-sebentissimo D. João VI!
-
-E tanto não vale um pataco, que apesar do apregoado valor estrategico
-augmentar com a Ponte internacional e de os engenheiros militares
-terem lembrado, quando se construiu a linha ferrea, certas obras que
-garantissem as condições da defeza, prejudicada com os aterros e
-desaterros—até á data nada se fez, nem se fará, se Deus Nosso Senhor
-quizer.
-
-E tanto não vale um pataco, que se eu tiver em Lisboa um bom _trunfo_
-politico para empenho: se eu fôr, por exemplo, um João da Gaiteira,
-elevado politicamente em potencia votante, ao quadrado ou ao cubo,
-obterei, não só licença para construir nos arrabaldes da Praça, como,
-tambem, limite de altura superior ao que eu desejar, embora a isso se
-opponham todos os paysanducos e todos os regulamentos do sabio conde de
-Lippes.
-
-Ora, de duas, uma: é ou não é importante o valor estrategico da Praça?
-
-Não é. Dil-o a sua historia; dil-o a historia das ultimas campanhas
-europeas e encarrega-se de nol-o dizer o Governo de S. Magestade, quando
-o apertam com a tarracha do voto.
-
-Será parvoiçada suppor que, no caso d’uma invasão, o inimigo se deteria
-por um momento com as momices e os esgares d’esta desdentada carcassa.
-
-Perguntem a Strasburgo, a Verdun, a Bitche, a Toul, a Soissons, a Metz,
-a Schelestadt, para que lhes serviram as vantagens do terreno e as
-prevenções de Vauban.
-
-E sendo nullo o apregoado valor estrategico, que outra causa fundamenta
-a estupida prohibição que se oppõe á construcção de novos edificios, ao
-desenvolvimento de povoação, tornando odiosa a missão d’esse official
-que, com um curso de engenharia e com a elevada orientação scientifica,
-que hoje se obtem nas Escholas superiores, ahi está de sentinella ao
-regulamento senil que tresanda a raposinho, a catinga, e de que a rotina,
-o egoismo, e por vezes a velhacaria fazem instrumento de valimento e,
-até, de vinganças pessoaes?[39]
-
-Attende-se á probabilidade d’um cerco, d’um acampamento, e á necessidade
-de inutilizar, rapidamente, ao inimigo quaesquer pontos de abrigo?
-
-Mas, oh Molkes pataqueiros! Então prohibis que em minha casa possa
-elevar meio palmo ao cano da latrina, impedis que no meu quintal levante
-uma barraca para guardar as melancias e os nabos, e deixaes ahi cavar, a
-dezenas de metros da praça, esse desaterro, onde se abriga uma divisão
-com as respectivas familias, se tanto fôr necessario?
-
-Impedis que lá fóra, na minha horta, levante um pau com o gallo, para
-catavento, ou equilibre quatro taboas, que um cão, alçando a perna no
-exercicio de certa funcção, faz cahir, e mandaes construir essa outra
-fortaleza de granito—a estação do caminho de ferro?
-
-Admittindo, mesmo, que o inimigo se estabelecesse para cá da fronteira,
-que seria de Valença se no Faro, no Marco, ou em qualquer outra
-eminencia, elle assestasse quatro canhões Krupp, Bange, Amstrong ou
-Fraser, que arremessam projecteis com menos peso do que as vossas
-cabeças—verdade é, porque não teem tanto municio—a 12 e 16 kilometros de
-distancia?
-
-Para que nos asphyxiaes, pois, com estas montanhas de pedra, militarões
-lá das altas repartições da Lysbia, estrategicos de meia tigela, que
-por ahi inficionaes de rheumatismo, de gotta, de rapozinho e de pingo
-simontado o que póde haver de proveitoso e util nas instituições
-militares da nossa Patria?
-
- * * * * *
-
-As muralhas para nada mais servem do que para attestar aos extranhos
-que—portas a dentro—o Progresso deixou de actuar.
-
-Servem, como pittorescamente disseram, ha mezes, uns lisboetas que
-ousaram entrar cá dentro: para impedir que a porcaria e... manchem a
-belleza dos arrabaldes; servem para balde do lixo, das immundicies, e
-para os habitantes da villa satisfazerem, prompta e commodamente, um
-determinado numero de necessidades, tanto em funcções de reproducção,
-como em funcções de nutrição.
-
-Servem para a gente se desfazer das ninhadas de gatos, que a _Malteza_
-arranja em janeiro com as suas serenatas ao luar; servem para uma
-entrevista baratinha e recatada com pudibunda sopeirinha; servem para
-manter certas artes e officios; servem para fornecer o Hospital militar
-de bronchites, tysicas, pneumonias e doenças assizicas, que essas
-desgraçadas sentinellas arranjam em larga copia nas frigidissimas noites
-de inverno, quando o nordeste, que corta e açoita, as apanha amarradas
-com a trela da disciplina á carreta d’uma peça rachada, vigiando que o
-gallego não escale as muralhas e a leve para berloque da cadeia.
-
-E servem, mais, para sustentar essa coisa caduca, ridicula, inutil,
-offenbachicamente intitulada o
-
- Governo da Praça!
-
- * * * * *
-
-—Governo da Praça!
-
-Raciocinemos logicamente.
-
-Qual é a idea implicita n’este titulo?
-
-Commando, direcção na defeza da dita Praça.
-
-O que exigem estas funcções?
-
-Conhecimentos estrategicos e noções de todos os ramos da moderna Sciencia
-militar, alliados ao senso, ao valor, á prudencia, ao prestigio e á
-energia.
-
-A quem tem sido confiado tão importante cargo?
-
-Ao Zé da Rosa...
-
-Ora, meus senhores, com franqueza; eu aposto _aquillo_ de que se faziam
-as barretinas, quando não eram da pelle d’urso, se—declarada a Praça em
-estado de sitio e confiado o commando supremo com a direcção de tudo
-ao Senhor Zé da Rosa—a cavallo n’um cabo de vassoira, com um espeto de
-assar cabritos, com tres _malzabetes_, dois _paus-reaes_ e um _fileiras_,
-não tomar Valença e não levar a toque de caixa na minha frente até ás
-Bornetas, o Senhor Governador e todo o seu Excellentissimo Estado-maior!
-
-E para isto, para conservar a esta latrina uns apparatos bellicos de
-opereta, estou eu arriscado, por um descuido, por uma descarga electrica,
-a dar o meu passeio aereo até aos reinos da Lua, com a conservação
-estupida de milhares de kilos de polvora, que uma noite podem ter a
-phantasia de condemnar a minha humilde pessoa áquellas maravilhosas
-viagens de Julio Verne.
-
-Ora, além do perigo, imagine V. Ex.ª a que enormes responsabilidades,
-a que enormes complicações diplomaticas, a que enormes indemnisações o
-nosso Governo se arrisca, conservando por cá essa materia explosiva,
-que dava para tanta _bichinha de rabear_ e para tanto _caganitão_, se
-lhe quizesse dar applicação differente da que ella hoje felizmente tem:
-estoirar fragas e rasgar montanhas para facilitar o avanço da locomotiva.
-
-Imagine V. Ex.ª que em noite estrellada de agosto, Don Benito Naveas e
-sua Ex.ᵐᵃ Familia tomam socegadamente o _té_, na sua _habitacion_ de Tuy.
-
-Don Benito, fiel ao partido legitimista encarece mais uma vez a bondade
-e os merecimentos de D. Carlos, commentando tranquillamente entre
-saboreadas fumaças d’um _pitilho_ e goles de _té_, as noticias que, sobre
-o Pretendente, em o numero de _miercoles_, apresenta _La Integridad_,
-luminosa gazeta assotaina da inventora dos _malzabetes_.
-
-«_Con securidad, Don Carlos és muy bueno hombre; una gran cabeza; el
-unico rey que debia gobernar la Espana; es un hombre de religion, y que
-tal... y que sei yo..._»
-
-Subito, ouve-se um estampido medonho. A casa abala-se nos seus alicerces;
-as paredes oscillam; as traves gemem; as loiças tocam nos aparadores e
-saltam em furiosa dança macabra. Ouve-se um _crac_ medonho, fende-se o
-tecto e apparece em cima da mesa _del comedor_... quem?—o Senhor Abel
-Seixas, em pello e em cabello, tal qual estava na cama, sem chinó, pança
-sumida e olhinhos espavoridos!
-
-V. Ex.ª ri-se? Pois o caso não é para isso. Se chegam uma isca de fogo ao
-paiol, a qualquer de nós póde succeder o mesmo.
-
-E diga-me V. Ex.ª quanto teria o nosso Governo de pagar a Don Benito pela
-perturbação do seu socego e—o que é muito peor—pela alimentação d’esse
-insondavel abysmo—a barriga do snr. Seixas—emquanto este cavalheiro,
-arrancado bruscamente do seu leito e atirado por esses ares em
-escandalosa nudez, se recusasse, pudicamente, a ostentar pelas _calles_
-de Tuy, no regresso á Patria, as linhas bambaleantes das suas formas
-esculpturaes.
-
-Matutae sobre o caso, homens da Governança!
-
-
-
-
-XVI
-
-A Manifestação de 14 de Janeiro[40]
-
-(PROTESTO)
-
-
-Para cá dos limites que tracei á critica dos acontecimentos, por
-qualquer aspecto evidentes e impressionaveis na chronica politica
-d’esta terra, disponho hoje, serenamente, os apontamentos colligidos
-sobre a manifestação de 14 do corrente, para os sujeitar á analyse
-recta e imparcial, isenta de considerações pessoaes ou collectivas, sem
-tergiversações de ameaças ou de lisonjas, a que subordinei o programma
-dos _Sinapismos_.
-
-Á frente d’essa manifestação eu vi homens a quem dedico verdadeira
-amizade; que respeito nos actos da sua vida particular; que me honram
-com as suas relações, porque se impõem á consideração de Valença pelo seu
-caracter digno e pela sua honradez inconcussa.
-
-Esses homens organizaram uma manifestação popular, que annunciaram como
-patriotica e que outros classificaram como politica. Inspirada no amor da
-Patria, ou na paixão partidaria, essa manifestação, evidenciada nas ruas
-e nas praças, discutida na Imprensa como expressão dos sentimentos d’uma
-parte da população, perdeu o caracter, para mim respeitavel, d’um acto
-isolado da vida particular e adquiriu a importancia d’um facto social,
-publico e, portanto, sob o dominio da critica.
-
-Abstraio, pois, do meu espirito as relações que me unem a essas
-individualidades, e nos periodos que vou ordenar para a composição d’este
-artigo, declaro, outra vez ainda, que aprecio a manifestação promovida
-por um grupo anonymo de cidadãos e não por um grupo de individuos, d’esta
-ou d’aquella classe, d’aquella ou d’esta côr politica.
-
-A violencia da phrase com que tenha de censurar qualquer aspecto d’essa
-manifestação, que me pareça menos digno, não irá, pois, desvirtuar a
-sinceridade de relações, mais ou menos affectuosas; nem poderá, tambem,
-ser reputada como indicio de adhesão a opiniões já manifestadas por quem,
-em identicas apreciações, se deixa desorientar pelas paixões partidarias
-que levam a applaudir toda a inepcia d’um grupo em que se está filiado,
-e a estigmatizar qualquer idea, muitas vezes util e proveitosa, suggerida
-pelos contrarios.
-
-Esta é a missão do critico e praza a Deus que a consciencia nunca me
-accuse de escrever o contrario do que ella, á luz da imparcialidade e
-d’um livre criterio, dieta á minha penna.
-
-Nos periodos d’este artigo abandono a feição humoristica dos restantes.
-Tenho de me referir á crise dolorosa por que actualmente passa a alma da
-nacionalidade a que me orgulho de pertencer; e n’essa referencia, quando
-a humilhação nos ruboriza as faces e a recordação das passadas grandezas
-nos amargura e entristece, o sorriso seria uma villania e a gargalhada
-seria uma infamia.
-
- * * * * *
-
-A força inicial dos acontecimentos de 14 do corrente não se póde
-attribuir á expansão d’um sentimento patriotico, provocada pela
-recente affronta de Lord Salisbury; na agitação do grupo que promoveu
-a manifestação não vibrou a alma da Patria: tumultuou o espirito d’um
-partido.
-
-Mas de qualquer caracter, patriotico ou politico, essa manifestação,
-nas condições em que se realizou, envolvendo a bandeira nacional e a
-responsabilidade d’uma povoação, não merece classificação diversa da que
-se póde exprimir com estas palavras:
-
- foi =aviltante= para Valença.
-
-Os homens que a promoveram não teem direito á consideração e, muito
-menos, ao applauso dos seus conterraneos, porque não são patriotas
-sinceros, nem politicos dignos. São escravos inconscientes da politica
-sertaneja, d’essa degradante aberração de principios sãos, de crenças
-firmes, de convicções honestas, que desorienta, humilha e arrasta pela
-lama da indignidade, caracteres respeitaveis e talentos privilegiados.
-
-Envolveu-se n’essa _manifestação_ a responsabilidade de Valença.
-
-Pois, em nome dos brios d’um povo que é portuguez, em nome d’uma terra
-que amo, e que se faz respeitar no paiz pela auctoridade intellectual dos
-filhos que a representam nos mais elevados cargos sociaes—eu =protesto=
-contra o labeu infamante, com que o grupo organizador da manifestação de
-14 do corrente aviltou a nobilissima attitude da Patria na desaffronta
-d’um insulto e na defeza de direitos conquistados pelo sangue d’esses
-heroicos luctadores que,—transpondo novos oceanos e descobrindo novas
-constellações, arrostando os ignotos perigos do _Mar Tenebroso_ que a
-phantasia popular envolvera na nebulosa dos mythos, luctando contra
-a aspereza de inhospitos climas e contra as rudes vicissitudes da
-guerra,—ás mais remotas regiões, ás mais distantes e mysteriosas
-paragens, levaram o nome portuguez, desfraldando a bandeira, onde
-não se lia, como nas dos modernos exploradores inglezes: =Infamia= e
-=Oppressão=, mas:
-
- =Liberdade. Civilisação. Progresso.=
-
- * * * * *
-
-—Impulsionou-nos, dizem, o amor da Patria.
-
-Discutamos, então, a manifestação, sob esse aspecto.
-
- * * * * *
-
-Lord Salisbury, representante d’um povo egoista, perfido e covarde,
-cuja Historia tem a gangrena da infamia, as pustulas da devassidão e o
-excremento das villanias, fustigou com o chicote do seu _ultimatum_ as
-faces de todo o homem que se honra com o nome de _portuguez_.
-
-A grosseria avinhada do insulto, a brutalidade do attentado contra
-todos os direitos estabelecidos, a ferocidade do egoismo, a covardia da
-imposição d’uma besta superior em força, a dolosa argumentação abonatoria
-do _ultimatum_ e—sobretudo—a consciencia da nossa fraqueza e da nossa
-impotencia para a defeza energica de direitos indiscutiveis,—afistularam
-dolorosamente o coração da Patria e, de norte a sul, de oriente a
-poente, da cidade ao burgo, homens de todas as classes, de todas as
-condições e partidos, sentindo despertar, redivivo e forte, o espirito da
-nacionalidade e o orgulho d’outras eras gloriosas, ergueram-se, gritando:
-=Infamia!=—e occultaram o rosto, para que n’elle ninguem visse o rubor da
-vergonha e o vasquejar do desalento.
-
-A Imprensa, o Exercito, a Academia, a Magistratura, o Commercio, a
-Industria, os Municipios, as Sociedades recreativas, as Agremiações
-de classes, o banqueiro e o artista, o pobre e o rico,—arrebatados,
-galvanizados pela mesma chispa de acrisolado patriotismo—disputaram
-primazia de nobreza nos seus protestos.
-
-Mas no rosto de todos esses homens, na eloquencia dos seus discursos,
-no ardor das suas invectivas e no esgrimir da sua argumentação, eu vi
-sempre, evidentes, sinceros, expontaneos e fervorosos, os impulsos de
-nobilissimos sentimentos.
-
-Resaltava-lhes dos labios a indignação e, a espaços, no avincado da
-fronte e no amortecido do olhar, eu descubri o anciar d’uma grande dôr e
-o revolutear infernal do insulto humilhante, que não se póde vingar.
-
- * * * * *
-
-Um cortejo grotesco, esfarrapado, ululante, recrutado na Parada-velha e
-avolumado por essa massa anonyma e inconsciente de povo, babugem na onda
-de todas as manifestações e comparsa indispensavel em todas as farças que
-tresandem a borga e a quartilhos de vinho, precedia o grupo promotor da
-_manifestação patriotica_ valenciana.
-
-Lá na frente, um homem de cabellos brancos, agitando a bandeira da Patria.
-
-No conjuncto, uma arruaça carnavalesca, uma desordenada _fantochada_,
-scintillante de archotes, tocos de sebo e phosphoros de espera-gallego;
-ruidosa de gaiteiros e caixas de rufo, latas de petroleo, assobios de
-barro, arrotos, berros asselvajados, graçolas de bordel, acclamações
-roucas e avinhadas.
-
-Nos olhos, nas faces, na voz, no gesto dos promotores da _manifestação
-patriotica_, uma alegria evidente, saltitante, irreprimivel, estoirando
-nas expansões ensurdecedoras d’um jubilo guindado aos pinos do delirio,
-pelo sopro bestial d’uma pandorga de encarvoados hottentotes, já celebres
-na _Questão da Santa_.
-
-Abraços, fremitos de contentamento, chapeos no ar, demonstrações de
-affecto, apotheoses jogralescas, guizalhadas de truão, vivas a Deus, ao
-Rei, ao Regedor da Parochia, ao Exercito, ás Artes, ao pendão das quinas,
-a Serpa, aos abbades, ao João da Gaiteira.
-
-Á frente, um homem de cabellos brancos agitando a bandeira nacional.
-
-Dominando a turba, no frontão dos Paços do Concelho, o escudo da Patria:
-a honra portugueza aviltada, as tradições gloriosas d’um gloriosissimo
-passado, a epopea das Indias, a harpa eolia dos _Lusiadas_ vibrando,
-soluçante, com os derradeiros alentos do Infante navegador, de Vasco da
-Gama, de Alvares Cabral, de Affonso de Albuquerque, de Gonçalves Zarco,
-de Tristão Vaz, de Gonçalo Cabral, de Diogo Cam, de Bartholomeu Dias,
-de Fernão de Magalhães, de Godinho de Eredia, de Affonso de Souza, de
-D. João de Castro;—a fulgentissima constellação das nossas conquistas:
-Ceuta, Arzilla, Cabo Verde, Açores, Madeira, o Brazil, a Guiné,
-Mombaça, Quiloa, Mascate, Ormuz, Diu, Calecut, Goa, Malaca, Cananor,
-Ceylão—empallidecendo com os clarões avermelhados da archotada.
-
-E quando o nojento e sinistro abutre inglez, sulcando a escuridão da
-noite, poisava no frontão municipal e perante a _illustre_, _benemerita_
-e _patriotica_ Commissão manchava, abrindo um pouco as pernas, o escudo
-da Patria, com o excremento e com o vomito—quando em todas as povoações
-de Portugal se erguia, energico, o brado da desaffronta e, dolente, o
-gemido da humilhação—das varandas d’uma casa que pertence ao Estado e
-que representa, entre nós, a instituição mais nobre, porque é a fiel
-depositaria das nossas glorias e dos nossos direitos—essas tres palavras
-ôcas, golfadas, em comica explosão de inconcebivel calinice, sobre os
-ervaçaes de Paysandu:
-
- Viva Valença... =restaurada!=
-
-..............................
-
-Fumemos um cigarro para espalhar tristezas...............................
-
- * * * * *
-
-Continuemos.
-
-Á frente, sempre á frente, rindo, e chorando lagrimas de pathetica
-sensibilidade, um homem de cabellos brancos, agitando a bandeira da
-Patria.
-
-E ao longe, mais ao longe, para lá do Minho, essa nação cavalheiresca,
-como nenhuma, quando offendem os seus brios: a patria do Cid, de Cortés,
-de Pizarro e de Balboa; povo altivo que diz aos seus reis, em Aragão:
-_nós, que valemos tanto como vós_; que impõe a Carlos I pela
-bocca de Padilla, heroico chefe dos _cumuneros_, o codigo das suas
-liberdades; que ainda, ha pouco, se convulsionava fremente e ameaçador
-perante a reclamação _ingleza_ do Chanceller de ferro—povo rico de
-generosos enthusiasmos e enthusiasta de generosas ideas, nosso irmão
-de raça e companheiro nosso nas aventurosas emprezas d’alem mar—essa
-nobilissima Hespanha, escutando, absorta e commovida, os ruidos da
-bacchanal, o tumultuar da arruaça, o cornetear dos hymnos e a vozearia da
-magna caterva.
-
-E quando esse povo, pela bocca da sua Academia, do seu Exercito, da sua
-Marinha, das suas Sociedades de Geographia, nos enviava calorosos brados
-de affecto e nos insufflava alento e coragem—a _illustrada_, _benemerita_
-e _patriotica_ Commissão promotora da _manifestação_ erguia aos ares
-saudações á Hespanha e desfilava perante o representante d’aquella nação,
-em marcha fandanga, ao compasso esbodegado do hymno da Restauração!
-
-Á nota burlesca, a nota grosseira.
-
- * * * * *
-
-Quem hoje possue vagas noções de Historia patria, no mechanismo da sua
-evolução politica, reconhece, com verdadeiro desalento, quanto tem sido
-errado o plano das nossas allianças.
-
-Desprezaram-se as affinidades da raça, a continuidade do solo, a
-homogeneidade das aspirações, a reciprocidade dos interesses, a
-egual fertilidade do clima, a riqueza dos productos, todas essas
-especialissimas condições de independencia e de defeza que, aproveitadas
-para beneficio commum em estreita alliança de dois povos—garantidas a
-liberdade e a autonomia das instituições politicas de cada um—podiam
-tornar a Peninsula uma facha de terreno inexpugnavel e inaccessivel ás
-ambições de qualquer despota.
-
-Com o rapido exame d’um mappa, a Natureza nos indica as vantagens d’essa
-alliança com a Hespanha.
-
-As truanescas manifestações do _Primeiro de Dezembro_ invariavelmente
-ajoujadas a uma oratoria desenxabida e bolorenta, cinzelada a largos
-traços pelo escopro da Rotina, mirabolante de imagens sediças colhidas
-nos marneis paludosos d’um sentimentalismo piegas em materia de
-patriotismo—acirrando odios contra quem respeita a nossa autonomia, acata
-os nossos direitos e liberdades, e partilha, com egual dedicação, o
-nectar das nossas alegrias nas grandes consagrações civicas e o fel das
-nossas amarguras n’estes tristes dias de decadencia—devem banir-se para
-sempre em terras, como esta, que merecem cotação intellectual superior á
-de Paio Pires.
-
-Os sessenta annos do captiveiro chocalham constantemente nos cerebros
-dos gafados patriotas, para despertarem no povo o espirito da sua
-nacionalidade e a altivez da sua autonomia. Mas esse periodo sumiu-se
-nas brumas do Passado e pela heroicidade dos quarenta immortaes—o que
-é muito discutivel—ou por circumstancias occasionaes e propicias á
-nossa emancipação, ha duzentos e cincoenta annos que somos livres e
-independentes, entre as demais nações da Europa.
-
-Transmittimos aos nossos filhos esse odio á Hespanha; sobre os bancos
-das praças, golfamos, em façanhuda oratoria, rancorosas recordações
-dos Filippes, das luctas da Independencia, das agruras do captiveiro,
-do despotismo de Olivares; e, entretanto, entra-nos John Bull em casa,
-empalma-nos as mais ricas colonias, impõe-nos esses vergonhosos tratados
-de 1642, 1661, 1703 (Metwen), 1810, 1842, 1878 e esse celebre tratado de
-Lourenço Marques, em que os dois actuaes partidos da nossa politica teem
-graves responsabilidades, um porque o redigiu, outro porque o approvou,
-embora modificado.
-
-A Hespanha subjugou-nos por 60 annos. A Inglaterra subjuga-nos ha perto
-de tres seculos, dispondo da nossa Politica e absorvendo lentamente todos
-os elementos da nossa riqueza e da nossa vitalidade. Com a Hespanha não
-queremos relações, porque todos os nossos affectos são para a Inglaterra,
-que nos acorrenta a allianças, onde ha perfidias e traições, e nos
-socorre, quando lhe convém—com exercitos de bandidos que devastam e
-roubam este desgraçado paiz com sofreguidão superior á do inimigo, que
-nos forçou a pedir soccorro.
-
-A Hespanha festeja e acolhe bizarramente os nossos exploradores. A
-Inglaterra sorri desdenhosamente, orgulhosa de Stanley, o feroz Attila
-dos sertões africanos. E quando nos vê abatidos, impotentes e pobres,
-insulta-nos pelas boccas do poltrão Bright, do troca-tintas eleitoral
-Salisbury e por essa horda de bandalhos, redactores do _Times_ e do
-_Standart_, assalariados para abafarem as asquerosas applicações dos
-_Telegraph’s boys_.
-
-Todavia, quando Sua Alteza o Principe de Galles vem a Lisboa gastam-se
-centenas de contos com a sua recepção, e quando a _graciosa_
-Magestade, (que graça!) Mamã do dito Principe, solemnisa o jubileu, os
-representantes do povo portuguez curvam-se, reverentes, em respeitosos
-salamaleques, aos _graciosos_ pés da _graciosa_ Imperatriz das Indias!
-
-E no _Primeiro de Dezembro_, já se vê, grossa pancadaria de gaiteiros e
-um nunca acabar de foguetes com tres respostas.
-
-O hymno da Restauração desperta antigos rancores e origina odios, que
-a Hespanha não merece. Mandar tocar esse hymno, aqui, na fronteira,
-exactamente na occasião em que aquella nação estremece com o insulto que
-o inglez nos vibrou, não denota, sómente, grosseria, denota ignorancia.
-
-Temos, pois, já outra nota:—a da ignorancia; e como burlesca, grosseira,
-e ignorante, repetimos:
-
-a manifestação de 14 do corrente foi =aviltante= para Valença,
-
-porque aviltou a bandeira da Patria que, á frente, um homem de cabellos
-brancos agitava.
-
-Examinemos agora, respeitosamente, este homem.
-
- * * * * *
-
-Descubro-me perante elle.
-
-Tem 74 annos.
-
-É um espirito embalado pelas doiradas crenças da velhice, que se
-assemelham ás ingenuas convicções da mocidade.
-
-Tem enthusiasmos pueris e cultos idolatrados.
-
-Influe a mais rigida honestidade nos actos da sua vida particular.
-
-É um homem antigo, como diz o povo; e n’esta epocha de decadencia,
-em que na alma da nação existem, narcotisados pela mais criminosa
-indifferença e pelo mais repugnante egoismo, todos os sentimentos nobres
-e todas as crenças sans—este homem continúa caminhando impassivel para
-o occaso da vida, com os olhos fitos n’um Ideal de Honestidade e de
-Convicções—especie de mytho, com que, apontando para o Passado, tentamos
-hoje inocular no espirito dos nossos filhos o virus preservativo contra a
-Descrença e contra o Scepticismo.
-
-Este homem conserva ainda, immarcessivel, a pureza de todos os cultos e
-de todas as tradições que seus Paes lhe legaram.
-
-Crê na infallibilidade do Papa, na moralidade dos partidos, na
-sinceridade das convicções, na respeitabilidade dos conselheiros,
-na seriedade d’um _marmanjo_ sertanejo qualquer, que, sentado no
-confessionario, descança, hoje, das fadigas que lhe vergam as pernas,
-depois das arruaças politicas d’hontem.
-
-Atraz das procissões sente-se feliz e orgulhoso com o seu _habito_,
-marchando, altivo, ao lado do pantomimeiro, que em troca d’uma
-tranquibernia eleitoral chegará a ser commendador de Malta, ou Marquez,
-em dez vidas, de Paysandú, ou Chão das Pipas.
-
-É fanaticamente liberal; quando, n’um dos artigos d’este livro, por
-inoffensivo trocadilho, lhe chamei _miguelista_, teve explosões de colera
-e arrancos de indignação.
-
-Chamam-lhe: o _liberal de 34_.
-
-Soffreu com as luctas d’essa epocha e com as seguintes.
-
-Foi perseguido; andou a monte, passou fome e foi preso.
-
-Respeita as instituições vigentes. Não admitte manchas na vida politica
-de D. Pedro IV, o seu legitimo Rei. Desculpa as fragilidades
-d’esse sebento poltrão, D. João VI. Odeia os republicanos e
-ajudaria a enforcar um iberico.
-
-Por consequencia, na sua alma existe, profundamente enraizado, o amor
-da Patria; não o amor originado no funccionalismo da barriga, mas o que
-parte do coração, o que é verdadeiro, intransigente e expotaneo.
-
-Pois este homem foi ignobilmente explorado para o scenario da
-_manifestação patriotica_ e, acorrentado pela Politica, exposto por essas
-ruas ao mais degradante ridiculo.
-
-Dedilharam as cordas do seu sincero patriotismo; falaram-lhe na Patria
-offendida; mostraram-lhe a bandeira. Abraçou-se a ella, nervoso,
-soluçando, humedecendo-a com lagrimas.
-
-Empurraram-no para a rua.
-
-Quando na minha frente passou o grotesco cortejo, eu já não vi o velho
-respeitavel, nem o homem liberal. Vi um macaco vestido de azul e branco,
-com a corôa real na cabeça, pinchando e bailando ao som dos hymnos
-esmoidos pelo realejo da philarmonica africana.
-
-De quando em quando, o realejo cessava de tocar.
-
-Um patriota discursava á turba; outro extendia o prato e pedia a esmola
-dos _vivas_.
-
-O macaco ria, ou chorava.
-
-—_Viva a Reliquia!_—exclamavam á frente do cortejo.
-
-—_Viva o Relicas!_—berravam os paradas-velhas.
-
-Do liberal de 34 a Politica acerdalada fizera aquillo: uma coisa
-ridicula, comica, irrisoria, tristemente deploravel, porque tinha
-cabellos brancos. Essa _coisa_ já não era a Reliquia dos homens liberaes
-de 34; era uma _Reliquia_ falsificada, de contrabando, como seria o rabo
-do meu gato, exposto em Santo Estevão á veneração das beatas, como uma
-trança de cabello de Santa Margarida de Cortona.
-
-Á porta do Sr. Palhares, a cabeça branca d’esse velho recebia picaresca
-consagração, n’esta phantasiosa e alcoolica imagem:
-
-—_Viva a Rosa de 74 annos, estramplantada para o nosso Jardim!_
-
-E a caterva parada-velha repetia:
-
-_Viva a Rosa Relicas!_
-
-Do homem liberal ficou para Valença a: =Rosa Relicas=.
-
- * * * * *
-
-Este homem, lendo o que escrevo deve considerar-se offendido pela rudeza
-da ironia.
-
-Oxalá que a caterva dos falsos amigos, que o guindaram para o andor
-do Ridiculo, o respeitassem como eu o respeito e venerassem, como eu
-venero, a sinceridade das suas crenças!
-
- Homem de 34!
-
-Escuta:
-
-A minha idade é muito inferior a metade dos teus annos. Entrei no periodo
-activo da vida, quando já estavam suffocadas as agitações politicas a
-que assististe. Não tenho relações intimas comtigo, mas respeito-te,
-porque és dos homens que trabalharam e soffreram para eu gosar as
-liberdades d’esta epocha. Não tenho a experiencia da vida que tu tens,
-mas peço-te que attendas ao que te vou dizer, porque conheço, melhor do
-que tu, os individuos que nos rodeiam, a natureza dos seus sentimentos
-e a sinceridade das suas crenças. Quando a minha razão principiou a
-funccionar, já por ahi lavrava, intensa, a immoralidade, e os homens,
-pela irrefutavel logica dos factos, encarregaram-se de inutilizar no
-meu espirito as illusões que tu ainda conservas, porque vives um pouco
-arredado d’elles.
-
-Escuta, pois!
-
-Quem, como tu, soffreu as deploraveis consequencias das nossas dissenções
-politicas e provou o fel d’essa malfadada epocha, em que dois partidos,
-irmãos no sangue, se perseguiam com encarniçado odio, a tiro, a faca,
-a cacete e a machado,—quem, como tu, avaliou os dolorosos transes e
-as indescriptiveis angustias que infernaram a alma das familias e
-dilaceraram os affectos d’uma povoação, constantemente sobresaltada
-com a incerteza nas vidas e com a noticia das mortes,—quem conheceu os
-horrores da fome, as tristezas do exilio, os negrumes do futuro,—quem viu
-o corpo d’um portuguez baloiçar-se, sinistramente, na forca infamante,
-e viu as costas d’um homem esfarrapadas pela chibata do corneta,—quem
-teve amigos que foram assassinados a machado em Extremoz, arrastados,
-semi-vivos, pelas ruas do Porto, espingardeados nas linhas e no reducto
-dos Mortos, garrotados em Lisboa, fusilados em Vizeu,—quem viu cabeças,
-gottejando sangue, espetadas em mastros e ouviu falar das ferocidades do
-Telles-Jordão e do seu _menino_, bestiaes cerberos de S. Julião,—quem
-escutou por todo esse paiz o choro afflictivo das viuvas, o soluçar
-das creanças e o estertor dos moribundos entre as ruinas da Patria,
-ennegrecidas pela fumarada do incendio e avermelhadas pelo sangue
-fratricida,
-
- homem de 34!
-
-quem viu e ouviu tudo isso, nunca deve contribuir com a sua presença e
-com o seu applauso para acirrar o odio dos partidos, ou para estimular
-em terras pequenas, como Valença, essas divergencias de opiniões que,
-levadas pela allucinação á infamia das vinganças e ao rancor das
-represalias, podem preparar, no futuro, nova serie de horrores, como os
-que tu viste e como os que tu soffreste.
-
-Esses cabellos brancos nunca se devem prender ao Passado para trazerem á
-terra em que vives e onde tens os teus affectos de familia, o bacamarte
-assassino e o facho incendiario, em que se podem transformar esses
-archotes do teu sequito de paradas-velhas. Devem prender-se ao Passado,
-mas para de lá arrancarem com o vigor da experiencia: o conselho, o
-ensinamento, a reflexão, que podem suffocar o ardor das paixões e
-prevenir os excessos da allucinação.
-
-Tens umas convicções partidarias; acceitas um _credo_ politico.
-Respeito essas convicções e a doutrina d’esse _credo_, porque ao teu
-partido deve a Patria valiosos serviços na honrosissima cruzada do seu
-engrandecimento, d’onde emanam a paz e as liberdades que hoje fruimos.
-
-Sustenta as tuas idéas politicas, mas descreve, sempre, aos homens de
-todos os partidos o que foram as luctas e as agitações de 30 a 51.
-
-Tu és honesto, crente, sincero e bom. Não manches a respeitabilidade das
-tuas cans n’essas abandalhadas orgias, onde vês como principaes heroes,
-_exigindo musica e borga_, ministros d’uma religião de paz, de tolerancia
-e amor, afeitos ás esturdias sertanejas e acerdaladas d’uma politica de
-barriga, de arroz de forno, e de chouriço com ovos.
-
-Talvez que n’essas horas de esturdia algum pobre velho agonizasse,
-pedindo, em vão, o amparo de Christo...
-
-Como patriota, modera esses enthusiasmos, que tão violentamente agitam a
-tua alma.
-
-Crês, acaso, na intensidade d’esta explosão de colera que Lord Salisbury
-provocou?
-
-Verás como, dentro de dois mezes, não resta uma faula de todo este
-incendio. Temos á porta novas eleições; o vinho das _borgas_ se
-encarregará de apagar as labaredas.
-
-Crês na efficacia dos meios, até hoje apresentados para a nossa defeza e
-para a nossa desaffronta?
-
-_Será_ mais um triste couraçado para, em frente de Belem, chorar as
-nossas passadas grandezas.
-
-Acreditas na persistencia da lucta commercial?
-
-Dentro d’um anno, a chita e a lona virão outra vez de Manchester, porque
-lá, custa cada peça menos 2 _shillings_ e 6 _pence_ do que n’outra parte.
-Em mil peças, essa diferença produz cerca de seiscentos mil reis que, a
-juro de 6 por cento, rendem oito libras annuaes. Ora, essa diferença,
-bom homem, não se póde perder. Esta coisa de patriotismo é bonita, fica
-bem a todos; inspira discursos, que põem a gente a dançar na corda bamba
-do enthusiasmo, mas... alli, o meu visinho vende o metro da lona a sete
-menos cinco, e a que eu tenho custou sete vintens em algures. Nós—eu, tu,
-os teus amigos e os meus—vamos a quem vende mais barato. Precisamos de
-economizar, porque está tudo, como sabes, pela hora da Morte.
-
-Pensa bem e reconhecerás que, hoje, a Patria não merece essas lagrimas,
-com que humedeceste a sua bandeira.
-
-Vês este enthusiasmo na subscripção nacional?
-
-Lembras-te do que houve na subscripção do Baquet?
-
-Pois ninguem se lembra das victimas e ninguem conhece a applicação que
-teve o dinheiro que demos.
-
-Alegra-se a tua alma com este furor contra o inglez?
-
-Tens visto a excitação que se levanta por esse paiz, quando algum
-_sotaina_ arrebata, do seio da familia para a clausura do Recolhimento,
-qualquer herdeira endinheirada?
-
-Comicios—representações—protestos—morras ao Jesuita!—abaixo a reacção!—o
-diabo!
-
-Quinze dias depois, já ninguem fala em tal. A rhetorica entra novamente
-na gaveta das coisas ricas e asseadas. Depois... Quartel general em
-Abrantes.
-
-N’esta propaganda anti-ingleza só encontras enthusiasmo sincero nas
-manifestações da mocidade e na indignação dos velhos—duas epochas da
-vida, que se assemelham, como sabes.
-
-Esses que te envolveram na _manifestação patriotica_ gastaram, com a
-esturdia e com as ultimas eleições, cerca de trezentos mil reis. Vae
-saber quanto elles dão para o couraçado e para os torpedeiros.
-
-Andaram comtigo em charola e adoraram-te, de joelhos e mãos postas, como
-uma Reliquia dos homens liberaes.
-
-Ataram os seus enthusiasmos aos teus cabellos brancos e elevaram, aos
-céos da popularidade, o balão flammejante dos patriotismos. Curvam-se
-arrebatados, extasiados, sensibilizados, perante as venerandas Reliquias
-dos homens liberaes; mas—ouve lá—pergunta-lhes se alguma vez se lembraram
-d’esse pobre velho de cem annos, que desembarcou no Mindello, que teve
-a _Torre Espada_ e que para ahi viveu cego, decrepito e idiotado, com
-tristes patacos, emquanto que muito...
-
-—Bom homem! Dá cá outro cigarro...
-
- * * * * *
-
-Resumindo, meu velho, aconselho-te a que moderes esses teus enthusiasmos
-patrioticos, porque excluindo, como disse, as manifestações dos novos
-que ainda não roçaram as azas pela immoralidade d’estes tempos, todas
-essas celeumas e gritarias não valem—crê—uma das tuas lagrimas. Isto,
-emquanto a patriotismo. Ora, ácerca da Politica e dos homens que por cá
-dirigem os partidos, quando elles te agarrarem nas pernas para o andor
-da _fantochada_, faze-lhes como eu fiz aos paysanducos, que me quizeram
-matar por causa da carta ao _Restaurador_:
-
- _esguicha-os_.
-
-Olha que, politicamente falando, entre Fonsecas, Vices & Abbades, ou
-Moraeses, Agostinhos & Cunhas
-
- venha o diabo e escolha.
-
- * * * * *
-
-Agora, dá-me a bandeira e grita commigo a esses _patriotas_, que te
-querem levar para as freguezias:
-
-=Abaixo as mascaras!=
-
-Vae socegado para tua casa, e deixa-me com elles, porque lhes quero
-dizer, ainda, duas coisas, antes que saiam da Coroada.
-
- * * * * *
-
-Já podemos rir, respeitabilissima Commissão _patriotica_:
-
-Arrancadas as mascaras, _vocellencias_ ficaram o que realmente são: não
-patriotas, mas politicos de gaiteiro.
-
-Disse eu, no principio d’este artigo, que a _manifestação_, quer tivesse
-o caracter politico, quer o patriotico, aviltára Valença. Demonstrei
-a asserção relativa á segunda das classificações e vou evidenciar a
-indignidade da primeira.
-
-Estes _banzés_ de musicas, foguetes, vivas, archotadas, cómes-e-bebes,
-brindes etc., etc., podem fazer effeito entre abbades sertanejos, dos que
-não sabem verdadeiramente quaes são as leis de equilibrio que obrigam a
-gente a andar com as mãos no ar, sendo a cabeça mais pesada do que os pés.
-
-Esses regabofes trescalam, sempre, essencias do alho, do carneiro assado,
-do esturro das batatas, da vinhaça, do vomito—essencias que denunciam o
-suborno, a pressão, a compra de voto, a immoralidade, a inconsciencia e o
-servilismo.
-
-Os partidos compõem-se de homens, que nos actos da sua vida social, como
-nos actos da sua vida particular, acertam e erram.
-
-Por estes e por aquelles accidentes sobem ao poder e sahem d’elle. Uns
-e outros decretam leis inuteis, uteis e prejudiciaes, porque infallivel
-dizem que só é o Papa e, ainda assim, ha muita gente que embica com essa
-infallibilidade.
-
-O partido progressista, como o partido regenerador, tem tradições
-honrosas e tem manchas; o partido regenerador, como o partido
-progressista tem no seu seio homens dignos, que honram o paiz.
-
-Quem póde, em momentos de reflexão serena, deixar de prestar homenagem de
-gratidão e de respeito á memoria d’esse homem, que dedicou toda a sua
-existencia ao engrandecimento da Patria e que, apesar de ter palacios em
-Londres, morreu pobre e legou dividas:—Fontes Pereira de Mello?
-
-Quem póde recusar-se a honrar o nome de Anselmo Braamcamp, o cidadão
-prestante, o caracter nobilissimo, a quem o paiz tanto deve?
-
-Os defeitos da Politica portugueza, desde 32: os arranjos, as ambições,
-o desperdicio dos dinheiros publicos, o desamparo das instituições
-proveitosas, o abandono da Agricultura, da Industria, das Colonias, são
-communs, e d’elles teem eguaes responsabilidades todos os partidos.
-
-Esses defeitos vem de cima e vão para cima. Apparecem nas imposições
-eleitoraes, na recommendação governamental dos candidatos, na necessidade
-das maiorias etc.; e nascem alli, nas pretensões do Sr. Abbade, que
-precisa de livrar os mancebos X e Y do recrutamento, nas exigencias do
-magnate Fulano, que pretende uma estrada para a quinta etc.
-
-De cima vem as imposições; de baixo vão as exigencias. Ora, n’esta
-permutação de generos, por conta propria, ou á commissão, ganham sempre
-os de baixo e os de cima; e, sendo assim, claro é que deve haver um
-terceiro para os prejuízos:—ha o Paiz.
-
-Isto é coisa velha e sabida.
-
-_Vocellencias_ terão a ingenuidade de suppôr que haja alguem, n’este
-anno de Christo, que repute sinceras, emanadas d’uma profunda convicção
-politica, essas ruidosas manifestações?
-
-Na _fantochada_ de 14 o que se evidenciou foi isto: a explosão partidaria
-de quem estava _por baixo_, a pirraça aos Moraes_es_, o nectar das
-abandalhadas vinganças, os mancebos livres do recrutamento, a provocação
-da _beiça_ e outros elementos que a ignorancia gera.
-
-Quando _vocellencias_ passavam, a gente,—emfim, por delicadeza: Maria vae
-com as outras—sorria e cortejava; mas cá dentro, no escaninho da nossa
-razão, onde, á noite, guardamos a gravata e o Senso commum, appareciam
-logo, nitidas e causticas, estas palavras:
-
- =Que sucia de pataratas!=
-
- * * * * *
-
-Quando cahiu o partido regenerador, os progressistas promoveram egual
-_borga_ por essas ruas; quando, ha mezes, se realisaram as eleições, P.
-Alexandre atordoou os ouvidos da humanidade com bombas de dynamite.
-
-Toda a gente se riu das _gaitadas_ especiaes que tiveram os Srs.
-Agostinho, Dr. Ladislau e outros senhores evidentemente progressistas.
-No coice da procissão, lá iam os nossos paradas-velhas, muito lepidos e
-repontantes, nariz no ar, chinela rota e fralda de fóra.
-
-Toda a gente se riu dos foguetes do Alexandre e, até, no cerebro
-de alguem, fuzilaram, como relampagos, vividos clarões de suspeitas
-exquisitas...
-
-_Vocellencias_ apepinaram o caso, como eu apepinei, porque, emfim,
-Valença não é o mesmo que Urgeira, Cerdal ou Gandra (salvo o devido
-respeito a Montes Claros e ao Patriarcha).
-
-Passam os annos, e quando eu suppunha que na mioleira de _vocellencias_
-existia algo differente do que se suspeitou no cerebro alexandrino,
-saltam _vocellencias_ para a rua, transformando Valença no Pandemonium de
-Milton!
-
-Esses espectaculos são frequentes nos grandes centros. Organizam-se
-os cortejos nos bairros immundos, onde o _real d’agua_ obtem maior
-rendimento; onde o Rosa Araujo gasta seis contos na compra de votos; onde
-o Sentieiro e o Cagaçal conservam fechada e vigiada, durante os tres dias
-anteriores á eleição, a turba ignara dos cidadãos (?) votantes.
-
-Quando a onda da escoria se alastra pelas ruas centraes, ninguem que
-possue senso, deixa de encarar com verdadeira repugnancia a babugem do
-servilismo e da estupidez.
-
-Quem promoveu e planeou essa arruaça de 14? A Politica _pataqueira_
-que nas provincias provoca odios de familias, instiga resentimentos,
-prejudica interesses, origina represalias, prepara transferencias,
-requer perseguições judiciaes—emquanto que os candidatos protegidos e
-combatidos riem á mesa do Matta, commentando, em tom faceto, as parvas
-pretensões dos parvos magnates do circulo.
-
-Foi essa _coisa_ amanhada com a Ignorancia e com a Velhacaria que, ha
-annos, aqui inaugurou o regime das perseguições e das represalias—regime
-que ao carrejão d’hontem, hoje feito _trunfo_—concede a faculdade
-de exigir a transferencia d’um Juiz, se tal idea surgir nas torvas
-especulações da sua gafada orientação politica.
-
-Ha pouco tempo, censuravamos com phrases de verdadeira e justissima
-indignação, a transferencia d’um funccionario publico, que lucta com
-difficuldades para sustentar numerosa familia. Lá foi o desgraçado para
-_cascos de rolhas_.
-
-Existe, ainda, em nosso espirito o nojo que inspirou esse _processo de
-nullidade_ tentado contra a nomeação d’um professor, por uma corporação
-tão zelosa pela instrucção popular, que conserva fechada =ha cinco mezes=
-a unica eschola que temos para o sexo feminino!
-
-Tudo isso se classificou como indigno, como torpe, como vil.
-
-Mudam as situações; mudam as cabeças e cá temos as represalias—essas
-infamissimas represalias—annunciando, pela bocca dos bigorrilhas
-politiqueiros, novas transferencias e novas villanias para _saldo de
-contas_!
-
-Os homens da actual Politica andam açodados em mysteriosas (?)
-combinações; escoam-se nas sombras da noite, pelos becos e travessas
-que conduzem ao centro (!?!); segredam, cochicham, mostram cartas e
-telegrammas; sorriem, piscam os olhos, ostentando parvoamente á luz do
-dia as multiplices transformações d’esse implacavel Ridiculo que os
-envolve, quando a gente se lembra que são os mesmos homens do sr. Serpa e
-que todos elles, de pernas para o ar, não deitam uma duzia de votos!
-
-Em todo esse afan, em todas essas mysteriosas combinações, em todo esse
-serzir de esfarrapados planos, imagina V. Ex.ª, querido leitor, que se
-tratou alguma vez de melhorar as condições materiaes do concelho, de
-ampliar as suas instituições, ou reorganizar a sua administração? Nem uma
-palavra a tal respeito!
-
-Estudam-se, combinam-se, discutem-se _unicamente_ os meios de obter
-as transferencias de Fulanos e de Cicranos, como medida _inadiavel e
-urgentissima_. Nas horas vagas d’essas nojentas lucubrações, raspam-se as
-picheis e lavam-se as gamellas para a proxima bambochata eleitoral.
-
-Ah Saltamontes e Grices dos dois partidos! Muito dinheiro podia ganhar
-quem vos apresentasse no Colyseu!
-
-A Physiologia demonstra a hereditariedade dos defeitos organicos. A
-Politica d’esta terra é nojenta e a _manifestação_ de 14, como producto
-d’essa Politica, apresentou-se com todos os vicios da origem.
-
-Portanto, concluo, repetindo: essa _manifestação_, como patriotica ou
-como politica,
-
- foi =aviltante= para Valença.
-
- * * * * *
-
-=Nota final:=
-
-O principal heroe da _rusga_ foi um abbade. Chapéo de fadista, casaco
-de pelles, nariz de furão, ponta de cigarro na orelha—razoavel exemplar
-d’esse typo muito vulgar pelo Alto Minho:—_o capador de porcos_.
-
-Resolvo rifal-o. Bilhetes a pataco, que desde já estão á venda no
-_estabelecimento_ do compadre Pedro.
-
-Lembro a V. Ex.ª, querido leitor, que é tempo de semear as ervilhas e
-convém
-
- afugentar os pardaes.
-
-Valença 20-1-90.
-
-
-
-
-XVII
-
-A Sociedade dos Provareis
-
-(FRAGMENTO DA HISTORIA GREGA)
-
-
-Como actualmente predomina nos espiritos illustrados uma tendencia
-absoluta para a analyse e para a investigação, parece-me que não serão
-aqui mal cabidas as seguintes linhas, que esclarecem, com os informes de
-um historiador classico, o periodo, indubitavelmente mais interessante e
-curioso, da civilização grega—o seculo de Pericles.
-
-Na Litteratura e nas Artes estuda-se tenazmente o Passado, arrancando-se
-das trevas da tradição e das brumas da lenda, as producções maravilhosas
-dos grandes genios e os elementos constitutivos das grandes sociedades.
-
-Recompõe-se a organização social da velha India; analysam-se os factores
-principaes d’essa assombrosa civilização hellenica e os do immenso
-poderio da antiga e soberba Roma; acompanham-se os Carthaginezes e os
-Phenicios nas suas audaciosas correrias; reproduzem-se as maravilhas da
-Arte arabe e investigam-se pacientemente as Sciencias, n’esse glorioso
-periodo dos Omniadas, que tão brilhantes vestigios deixaram da sua
-dominação na Peninsula iberica.
-
-Assim, tudo o que actualmente póde representar para o homem illustrado,
-uma reliquia dos povos e das civilizações antigas—um livro, um
-pergaminho, um papyro, uma inscripção cuneiforme, um hieroglypho, uma
-lasca de silex, um fragmento de bronze, o dente d’um mastodonte, o
-coccyx d’um almoravide, o vomer d’um Ramsés, a tibia d’um khalifa—tem
-o mesmo valor, n’este culto pela Tradição, n’esta religião do Passado,
-que para o beaterio póde ter um ossinho de S. Francisco, um cabellinho
-da venta de S. Pancracio, ou uma unha das onze mil Virgens, que ainda
-hoje, nos grandes estabelecimentos commerciaes de reliquias sagradas e
-preventivas contra bexigas, massadores e outras coisas más, obtem elevado
-preço, apesar da enorme edição que se espalhou no mercado:—duzentos mil
-exemplares!
-
-Nas Academias, nas Sociedades de Geographia, de Anthropologia, de
-Geologia, de Linguistica, de Numismatica, e congeneres, fundadas em todas
-as capitaes e centros civilizados, já com o auxilio dos governos, já pela
-iniciativa particular, organiza-se e apresenta-se ao exame do publico
-uma verdadeira exposição retrospectiva da actividade e da intelligencia
-do homem, desde as primeiras manifestações da sua vitalidade no globo
-terraqueo, até aos nossos dias.
-
-Claro é que Valença não podia ficar indifferente a esta nova orientação
-dos espiritos cultos; e até, primeiro que n’outras terras, aqui
-rapidamente se desenvolveu o gosto pelas antiguidades, o culto ás coisas
-passadas, que o povo, na sua linguagem rude, pittorescamente classifica
-como: _mania_ de cacos velhos.
-
-Ha por ahi muitas collecções e muitos colleccionadores:
-
- * * * * *
-
-Teias de aranha, microbios, tarecos velhos e empregos, collecciona o sr.
-Sampaio. O sr. Agostinho, partidos politicos e casacophones; chinós, ovos
-de passarada e instrumentos de vento, o sr. Abel Seixas; o sr. Zagallo,
-caixas de phosphoros, officios de despedida ao Senado e santinhos;
-sermões gallegos e patacaria de D. João VI, a Assemblea; o Club, homens
-pacatos da rua de S. João; commendas e pergaminhos, o sr. Verissimo de
-Moraes; o sr. Leopoldo, machados de bronze, volumes do _Almocreve das
-petas_ e coisas das edades paleolithica e neolithica; o sr. Palhares
-collecciona moleques, macaquinhos empalhados e uma raça maldicta de
-papagaios, que o diabo inventou, para estoirar a membrana do tympano á
-desgraçada humanidade.
-
-O Albininho collecciona tudo e é um colleccionador precioso, porque
-commenta; preparando, assim, inexgotavel thesoiro para as investigações
-historicas dos posteros.
-
-Conserva cuidadosamente ordenadas por dia, mez, anno e seculo, atadas com
-fitinha de seda verde, azul, ou branca, conforme o signatario, todas as
-cartas que tem recebido, desde que traduz lettra redonda. Cada missiva
-mostra, no verso, uma nota explicativa:
-
- =14 de Outubro de 1876 (e seis)=
- Fulano de tal.
- Valença do Minho.
-
-(Pede-me _sete e vinte_ emprestados. Desculpei-me, porque anda n’um
-_desarranjo completo e, qualquer dia, vae de bruços_.)
-
- * * * * *
-
- =5 de Fevereiro de 1869 (e nove)=
- F. ou C. de tal.[41]
-
-(Pede dez tostões—Ficam-me agora a doze e cinco... Preciso de me
-desforrar.)
-
- * * * * *
-
- =4 de Maio de 1875 (e cinco)=
-
-Officio da Camara, convidando para a procissão de Corpus-Christi.
-
-(Agradeci tão _graduada_ prova de _consideração official_. Estes, não
-são como os da missa do Rei. Compareci, vestindo pela trigesima sexta
-vez a minha casaca n.º 3. Chapeo alto n.º 7, do Roxo—Lisboa—(3$570 com
-correio). Sapatos de polimento n.º 4 (5.ª prateleira, 2.ª estante, á
-direita). Gravata do Blanco (12 reales e uma perra chica; setim creme,
-com pintas de prata). Luvas n.º 207, do Baron.
-
-Offereceram-me um logar graduado, ao lado do sr. Joaquim.)
-
- * * * * *
-
-Eu tambem tenho a mania de colleccionador. É uma coisa que não fica mal;
-é da Moda e até dá um certo tom distincto.
-
-Collecciono alfarrabios, cartas de arrhas, cartapacios, papyros,
-foraes—toda essa papelada, que por ahi apparece furada pela traça,
-encarquilhada pelo tempo e com a côr que teriam os rostos d’aquelles
-esforçados campeões da Guia, quando batiam em retirada, acossados pelo
-gentio gallego.
-
-Esta mania fez com que, ha mezes, descobrisse uma verdadeira
-preciosidade, no bazar de antiguidades do sr. Maia.
-
-Imaginem V. Ex.ᵃˢ o meu contentamento quando alli encontrei, entre
-taboadas e cartilhas, rolhas e torneiras, piões de _faniqueira grande_ e
-ditos para _nicas_—um volume authentico, genuino, verdadeiro, do grande e
-immortal Plutarcho!
-
-Tremi de commoção e de respeito com tão veneranda reliquia!
-
-Li-o, reli-o e quasi treslia com elle.
-
-Referia-se ao seculo do glorioso Pericles, áquelle aureo periodo da
-civilização de Athenas e, entre as suas paginas, fui encontrar—gratissima
-surpresa!—os elementos que, com verdadeiro afan, ha muito tempo
-procurava, para estabelecer as bases da historia d’essa mysteriosa
-agremiação a que Pericles presidia, e que tão poderosamente influiu no
-engrandecimento do povo hellenico:—a _Sociedade dos Provareis_.
-
-Conhecendo o interesse que em Valença teem despertado os estudos, que
-outros auctores apresentaram, sobre esta curiosa parte da Historia
-antiga, offereço tambem o meu modesto subsidio, vertendo para a nossa
-lingua alguns periodos de Plutarcho, visto que por ahi são escassamente
-conhecidos os caracteres gregos.
-
-Para os menos versados na Historia hellenica acompanharei a traducção com
-notas explicativas.
-
-Fala Plutarcho:
-
-
-Os Provareis
-
-«N’essa epocha (465 A. de C.) era Pericles o chefe do partido popular,
-que se intitulára o partido regenerador dos costumes, pervertidos
-durante a supremacia de Cimon Narigangorum e dos aristocratas, chamados
-progressistas.
-
-Pericles era homem de compleição robusta, largo arcaboiço, avantajado
-de estatura; perspicaz, de razão escorreita, assaz prudente, sobrio de
-costumes e de variadissima erudição, graças á influencia de Zenão d’Elea,
-que fôra seu preceptor.
-
-Apesar de não ser archonte, ou stratego[42], porque apenas tinha as
-honras de polemarcho, impoz-se rapidamente á consideração do Archontado,
-ao respeito do Areopago e ás boas graças do Eponymo Lourdes Domina.
-
-A agudeza do seu espirito, o vasto alcance das suas ideas, a subtileza
-da sua estrategia e a finura da sua diplomacia, alcançaram-lhe logo no
-começo da sua interferencia no Governo... da cidade, o epitheto de
-Olympico, ou Oraculus, com que o povo geralmente o nomeava.
-
-Rodeara-se Pericles de homens illustres e poderosos, que a seu talante
-dirigia, para combater o grupo, ainda predominante na politica,
-dos partidarios de Cimon Narigangorum e do seu parente Thucydides
-Attila—grupo que constituia o principal elemento do partido dos
-eupatridas, ou progressistas, e que, por todos os meios, tentava
-condemnar ao ostracismo[43] e desluzir, com protervias e calumnias, o
-valente caudilho dos contrarios.
-
-Apesar do seu engenho e do seu valor, nem sempre lhe foi favoravel a
-sorte das armas. Nas luctas com esses inimigos, graves desgostos soffreu,
-que profunda e dolorosamente abalaram o seu espirito e o seu esforçado
-animo. Ainda hoje a Historia nos menciona a derrota de Deputarium, no
-ultimo dia da segunda decada do decimo mez, e o desbarate da Camária, no
-terceiro dia—da primeira decada, do mez undecimo[44], do mesmo anno da
-olympiada tal—em que as tropas de Pericles abandonaram armas e bagagens,
-deante do grande Narigangorum II, ex-rei da Administracónia e do
-seu parente Thucydides Attila, bojudo stratego e chefe dos _registricos_,
-povo contribuinte dos suburbios de Athenas, que usava das celebres
-_camisas de onze váras_[45] e que, por essa circumstancia, era tratado
-com toda a _consideração official_, pela gente _graduada_.
-
-Tivera, tambem, de valer-se de toda a sua diplomacia e arte para empalmar
-o pennacho, (que nos strategos do partido era distinctivo de commando) ao
-archonte Judex Candidatus, homem de pequena estatura, mas de respeitavel
-influencia, emquanto Pericles lhe não surripiou, por occultos meios, o
-apoio e a correligionariedade do poderoso Joannus Zabumborum, sabio de
-reputado merito e de grande consideração popular.
-
-Quando Pericles principiou a exercer a sua direcção politica,
-libertava-se Athenas, vagarosamente, da inercia em que até alli se
-conservara, e apurava, pouco a pouco, os seus usos e costumes; mas homens
-de tão superior talento, como elle, raras pessoas encontravam, na cidade,
-com quem podessem conviver intimamente.
-
-Escasseava a illustração; o povo não tinha consciencia dos seus direitos
-politicos. Entre os prytamos[46] da cidade e, mesmo, entre os sacerdotes
-de Zeus suscitavam-se, a miudo, questões violentas; em que do argumento
-se passava á aggressão, recorrendo-se a todas as armas, incluindo as do
-_apparelho roedor_.
-
-Dava-se pouca consideração ás auctoridades encarregadas do Governo
-da... cidade; censuravam-se as gratificações, que lhes eram arbitradas
-em occasiões de perigo, como guerras e _epidemias_; reduziam-se _as
-vias_... do accesso aos grandes strategos; preparava-se, occultamente, a
-_transferencia_... ao ostracismo para os leaes conselheiros; increpava-se
-officialmente, escandalosamente, a _admissão_ nas dependencias do
-Governo... da cidade aos adeptos do partido popular, e nem o proprio
-Pericles escapava á maledicencia da turba porque, surdamente, o povo, e
-até, a maior parte dos seus adeptos e cortezãos o accusavam de ambicioso,
-invejando-lhe os redditos, discutindo-lhe a rapidez e legalidade do
-accesso... á chefia do partido, amesquinhando a sua illustração e
-refutando a sua competencia na vasta Sciencia da lettra redonda.
-
-Muitos dos homens illustres, que o rodeavam, soffreram as consequencias
-d’essa contumaz opposição e implacavel vindicta.
-
-Phidias Cambronneia[47] Negoptius foi retirado do Governo... da cidade;
-Anaxagoras Mata Marianus foi deportado.
-
-Abstinha-se, pois, Pericles de apparecer em publico e entretinha escassas
-relações, já porque a nobreza da sua jerarchia o distanciava dos
-thetas[48] e da plebe, já porque o intimo conhecimento do seu merito e
-da sua importancia lhe aquilatavam de mesquinhos e ridiculos os demais
-proceres do Estado.
-
-Foi perante esta necessidade de se isolar, e para reforçar os elementos
-de resistencia aos rudes ataques dos seus inimigos, que elle fundou a
-Sociedade, que mais tarde o povo denominou: os _Provareis_.
-
-Com esse grupo de fieis adeptos praticava, então, largas horas em
-passeio, conferenciando demoradamente; e quando o povo folgava nos
-jogos olympicos, ou pythicos, se acotovellava no Odeon para ouvir as
-maravilhosas producções de Eschylo e de Sophocles, ou nos jardins
-publicos para se deliciar com os harmoniosos sons das magadias, cytharas,
-lyras e flautas, que compunham as orchestras d’aquelles tempos, não era
-raro o vêr-se ao longe, no _cabeço d’um oiteiro_, o grupo magestoso dos
-_Provareis_, que solemnes, graves, com movimentos vagarosos e isochronos,
-rodeavam o grande Pericles, ouvindo-o divagar philosophicamente sobre
-a miseria das coisas humanas, sobre a leviandade das gentes e sobre a
-ignorancia da ignorante humanidade!
-
-No tocante a competencia, Pericles Oraculus reunia todos os dotes
-necessarios a um completo homem de Estado. Provera-o a Natureza de
-extraordinaria actividade e de genio inventivo para todos os ramos da
-publica administração.
-
-Era copiosamente versado nas leis de Lycurgo, de Solon, de Pisistrato
-e de Lippes, tendo particular predilecção por este ultimo legislador,
-cujos regulamentos, que a plebe classificava de estupidos, a todo o
-transe defendia, como indispensaveis á conservação da cidade e dos...
-seus redditos[49].
-
-Possuia, já, noções muito positivas sobre a futura Sciencia da Economia
-politica. Considerando a Agricultura como fonte principal da riqueza d’um
-paiz, tomara a si o desenvolvel-a, dedicando-lhe particular attenção e
-cuidado.
-
-Por isso, quando com o grupo de fieis partidarios divagava pelos
-arrabaldes de Athenas, vizitava a miudo os grandes eupatridas[50]
-e, para obter noções perfeitas sobre a producção dos terrenos,
-influencia atmospherica e outras condições modificadoras, inspeccionava
-cuidadosamente as colheitas, examinava os fructos e provava... _as aguas_.
-
-O povo, sempre rude e sempre ignorante, d’essas _provas_ a que aquelles
-homens illustres frequentemente se entregavam (mormente nas tardes do
-verão) para interesse da Patria e da Agricultura que nada é, como se
-sabe, sem abundantes mananciaes que refresquem o solo e possam alimentar
-a planta—originou o titulo de _Sociedade dos Provareis_, com que,
-d’alli em deante, designava o grupo de Pericles e seus adeptos, quando
-lá ao longe, entre os atalhos das aldeias, via uma serie de pontos
-negros caminhando vagarosamente, ora para o norte, ora para o sul,
-como previamente o indicara a provavel condescendencia ou a natural
-liberalidade dos eupatridas amigos e partidarios.
-
-Pericles era tambem escriptor emerito e actor de talento. A fama das suas
-producções chega, ainda, até nós.
-
-Todos conhecem a _Prisão da Santa_, a _Licença Zagallica Muzical_ e a
-_Batalha dos Cooperativos_—comedias de fino enredo, astucioso desenlace e
-primorosa concepção.
-
-Nas horas de descanço que lhe permittia a faina da administração
-politica, ensaiava Pericles os seus adeptos _Provareis_ que depois, em
-conjuncção propria e solemne, apresentava em publico, dirigindo-os mui
-circumspectamente por detraz da cortina e colhendo applausos em barda.
-
-A comedia que obteve mais exito foi a _Prisão da Santa_. Fundava-se n’uma
-antiga lenda mencionada no Rig-Veda, dos hindus. Era o caso da prisão de
-Brahma, ao entrar n’uma velha fortaleza, contra as disposições do codigo
-de Manu, e levada depois pelos kshatrias[51] ao carcere, onde jaziam os
-infimos sudras[52].
-
-Este pueril e comico incidente, baseado n’uma simples questão de _bufo_,
-ou sopro, forneceu a Pericles recursos para ruidosamente explorar a
-estupidez das massas e o fanatismo do povo, que estrebuchava com
-arrancos de colera, quando via o feroz Attila.
-
-Como já n’essa epocha eu trabalhava para reunir materiaes, com que
-podesse encetar os projectados estudos sobre a Historia da minha
-Patria, grandes eram os desejos que nutria de poder assistir a alguma
-das reuniões d’aquelles homens illustres onde, indubitavelmente, com a
-lucidez de tão poderosos cerebros se deviam discutir os destinos e a
-Politica da confederação athenico-cerveirensis.
-
-Pude emfim conseguil-o, subornando os dmoes[53] do sacerdote Pinus
-Abbates que, mediante vinte talentos[54], consentiram em me occultar na
-adega d’uma propriedade, a doze stadios[55] ao sul de Athenas onde, como
-sitio retirado e fresco, de preferencia se reuniam os _Provareis_.
-
-Alli os ouvi; alli tive, a meio passo de distancia, todos esses
-homens illustres, que tão poderosamente tinham contribuido para o
-engrandecimento de Athenas e para a sua hegemonia na confederação.
-
-Era uma tarde calmosa; reunidos no escuro subterraneo, os _Provareis_
-mais uma vez estudaram as _aguas_ com abundantes e saboreadas libações.
-Por largo tempo ouvi um craquejar de maxillas e um glugluar de pharynges,
-indicios terriveis d’essas assombrosas devastações, que depois
-inspiravam aos servos e dmoes do Abbates estas dolorosas palavras:
-
-—_É impossivel que nas altas horas da noite, quando a pallida Phebe desce
-a visitar Endymion, Hades, o deus infernal, não mande a estas paragens
-uma praga de gafanhotos! Que prejuizo soffreram as nossas colheitas,
-grande Zeus!_
-
-Concluidas as _provas_, ergueu Pericles a fronte; poz o pennacho de
-pennas de capão, insignia de polemarcho; afivelou a catana e as esporas;
-limpou os galões brancos e, trepando a um escabello, annunciou com ar
-solemne o thema da sua conferencia:
-
- UM PROBLEMA POLITICO DA FUTURA ERA DE CHRISTO,
- SECULO XIX
-
- Amigos e Provareis[56].
-
-É commettimento facil para espiritos medianamente esclarecidos a
-resolução de problemas na Politica contemporanea. Estudando os elementos
-ethnologicos, a influencia das civilizações estranhas, as aspirações
-collectivas e as relações indestructiveis da Historia nos cyclos que as
-suas leis estabelecem, podemos fatalmente traçar a orientação a que os
-povos teem de obedecer.
-
-Abandonarei esse campo já explorado pelo vulgo e pelos espiritos d’uma
-illustração comesinha. Asphyxia o meu intellecto nos acanhados horisontes
-do Presente. Anceia o meu espirito pelas luminosas regiões do Futuro, na
-lidima aspiração d’uma visualidade perscrutadora do destino dos povos e
-da evolução das sociedades.
-
-Rasgar as trevas do porvir, prever as luctas e as contrariedades, guiar
-a incauta Humanidade nas tortuosas sendas a que o Destino a condemna,
-leval-a pela mão á beira dos abysmos para lhe bradar carinhosamente:
-_não vás além!_—é a missão que a Divindade traçou ao Genio, a isto de
-superior, de maravilhoso, de prophetico, que me distingue do vulgo, que
-me aparta da plebe, e que dá á minha individualidade, no meio d’este
-constante marulhar das paixões e da ignorancia humanas, a previdente
-luz do fanal que, entre escolhos e baixios, guia o amargurado nauta nas
-cerradas trevas de noite caliginosa.
-
-Transpondo um periodo de dois mil e quatrocentos annos no futuro da
-Humanidade, eu vou annunciar os perigos amontoados no horisonte dos povos
-que no seculo XIX d’uma nova era hão de occupar as ignotas regiões,
-que um grande mar banha e onde os phenicios já estabeleceram dominio e
-poderio.
-
-Phantasiae, amigos, que viveis commigo n’uma peninsula que, por occulta,
-o phenicio denominou Spania, e que me ouvis discreteando com os homens
-politicos d’esse futuro seculo:
-
-_Aconselho a alliança das raças latinas. O horisonte da Europa annuncia
-borrasca._
-
-_Ha negrumes para o Norte. Não receeis o teutonico; temei o slavo! Haja
-outro Metternich para esse inimigo commum._
-
-_Bismarck é um imbecil. Com a sua germanisação fez-se testamenteiro de
-Frederico, o Grande. Crispi é um visionario. Salisbury um bebedo. Sagasta
-uma nullidade. Zé Luciano um comparsa._
-
-_Na Politica internacional o melhor systema é o de Machiavel. Tenho-me
-dado bem com elle e não quero outro._
-
-_Quando, na conferencia de Berlim, me pediram conselho, disse e repeti:
-vocês reparem no russo!_
-
-_N’essas regiões do Norte a maré sobe e, qualquer dia, rompem-se os
-diques._
-
-_Teremos novas invasões. É a lei fatal da Historia: sangue novo para
-corpo velho._
-
-_Acautelem-se, porém, com o processo da inoculação; o russo é feroz._
-
-_Latinos, teutonicos, toca a reunir!_
-
-_Bismarck, deixe essas coisas d’Africa; você tem um certo fio para isto
-de Politica, mas ainda está um pouco ingenuo. Appareça lá por casa, ás
-noites, com o seu rapaz, com o Herbert. Jogaremos a bisca de tres e terei
-occasião de lhes dar umas noções politico-sociaes mais amplas._
-
-_Emin Pacha cahiu na ratoeira de Stanley. Já quebrou a cabeça com uma
-tremenda borracheira. É o resultado das más companhias. Soffre as
-consequencias da indifferença com que ouviu as minhas recommendações._
-
-_Recebi hoje carta do general Deodoro. Eu tinha vaticinado a
-transformação politica do Brazil. No organismo monarchico apodreceu mais
-aquelle membro. Cortem até ao osso para que o mal não avance._
-
-_Isto por cá, vae mal. D. Carlos escreveu-me. O rapaz anda atrapalhadote.
-A Mãe telegraphou pedindo-me para lhes ir valer. Não estou para os
-aturar._
-
-_Preferiram o Barjona para a missão de Londres. Antes de partir
-procurou-me e conferenciamos. É dos nossos e deve-se proteger._
-
-_A caracteristica evidente d’esta assombrosa phase da evolução social._
-
-..............................
-
-Subito ruido interrompeu o discurso do grande homem. A porta da adega
-abriu-se com estrepito. Assustados, os _Provareis_ rodearam Pericles,
-como as avesinhas implumes rodeiam os paes, quando no azul dos céos
-paira, ou zigzagueia o milhafre.
-
-No limiar apparecera, offegante e rubro, um paysanduco, que pronunciou
-estas palavras de magico effeito:
-
-—_Oh filhos! Venho de Tuy. A Noya «matou» hoje, e sempre tem uma «agua»,
-que é mesmo de chupeta! Póde «cortar-se» á faca._
-
- —=Á Noya! Á Noya!=
-
-exclamaram os _Provareis_; e em desordenada carreira, a grandes pernadas,
-desappareceram ao longe, furando a linha circular do horisonte.
-
-Que mysteriosa influencia seria a d’aquella Noya?
-
-..............................
-
-
-
-
-XVIII
-
-Uma recita de curiosos
-
-(FRAGMENTO)
-
-
-..............................
-
-Passou-se ao segundo acto.
-
-O panno subiu, e á luz da ribalta appareceu o Nascimento.
-
-Nascimento—diga-se a verdade—não é precisamente um Brazão.
-
-Tenho assistido, por vezes, aos trabalhos d’este actor. Brazão ri, chora,
-soluça, tem arrancos de colera, tem na voz a doçura d’uma supplica, a
-suavidade d’uma prece, a meiguice d’um carinho, o vigor d’uma maldicção,
-o rugido d’uma ameaça.
-
-A melancholia da saudade, as expansões do amor, as torturas do remorso,
-as angustias do ciume resaltam nitidas, vibrantes, envolvendo-nos a
-alma—comprimindo-a, dilatando-a—com o fluido subtil de uma verdadeira
-interpretação artistica.
-
-Por _doze vintens_, eu tenho visto o Nascimento fulgurando na gloriosa
-constellação—grande Ursa dos nossos céos artisticos—de que fazem parte:
-Sampaio, Guilherme, Aurelio, Romano, Machado, Ernesto.
-
-Com franqueza:—sem querer irritar a indisposição que no espirito do
-Nascimento violentamente se denunciou contra o Zinão, sem querer
-amesquinhar o culto idolatrado que elle nutre pela Arte dramatica, ou
-apoucar as suas aptidões—direi em homenagem á Verdade: Nascimento é um
-barbaro!
-
-É um barbaro quando pisa o palco, porque não tem naturalidade, nem
-expressão, nem relevo.
-
-Apresenta-se em todas as scenas com o mesmo fato amarello, de tecido
-africano, que o Isidoro lhe empresta; tem para todas as surprezas o mesmo
-=oh!=; para todas as dores o mesmo: =ai Jesus!=; para todas as saudações
-o mesmo: =ora viva!=; para todos os cumprimentos o mesmo: =Comoestá?
-Passoubem? Bemmuitoobrigado.=
-
-Os pés soldam-se-lhe ao pavimento: as peças das articulações unificam-se,
-como se as membranas synoviaes segregassem chumbo derretido; os musculos
-tomam a rigidez do aço, permanecendo hirtos, inteiriços, refractarios ao
-imperio da vontade e á malleabilidade dos sentimentos.
-
-Não tem flexibilidade nos movimentos, nem elasticidade nas formas
-que as diversas situações exigem, porque uma barreira de frieza e de
-immobilidade—quiçá composto de espessas cellulas philosophicas (?)—se
-oppõe á intima e immediata transmissão dos phenomenos psychicos aos
-orgãos e ramificações do systema nervoso.
-
-Predominam em todas as modulações da sua voz aquellas notas seccas,
-asperas, do: =Carregar! Alto!=
-
-Denuncia-se em todas as posições a rigidez d’aquella linha d’uma
-convexidade opisthotonica, que a _Ordenança_ militar traça para o
-=Perfilar=!
-
-E assim, Nascimento, como _Boticario_ da _Morgadinha_, como _carcereiro_
-de 1640, ou como _Mano Gaspar_ do _Mano Aniceto_—é sempre o mesmo
-Nascimento: gordinho, obeso, rechonchudo, espartilhado, vestido de
-_mabella_ africana.
-
-Todavia, estudando as minuciosidades dos seus trabalhos dramaticos,
-analysando a mechanica dos seus movimentos, comparando a dynamica
-dos sentimentos que elle tenta exprimir com as manifestações da sua
-vitalidade no convivio diario e com os actos exteriores da sua existencia
-social, eu chego á seguinte conclusão que poderá ser considerada como
-paradoxal: Nascimento, no desempenho dos seus _papeis_, na interpretação
-d’um caracter, na reproducção d’um _typo_, consome mais Sentimento do
-que o Brazão. O seu trabalho psychico é superior ao d’aquelle artista;
-na sua alma as situações definem-se, as individualidades esclarecem-se,
-as faculdades actuam. Nascimento pensa, sente e quer, como _Boticario_
-de Val d’Amores; mas o que não possue é esse colorido, ou—por assim
-dizer—essa moldura artistica que dá relevo ás interpretações e vida aos
-personagens.
-
-E como a sensibilidade affectiva é um requisito indispensavel ao actor,
-e talvez o mais essencial, porque é ella que o guia nos reconditos
-escaninhos da alma de Hamlet, Nascimento, que possue essa faculdade em
-superior grau, tem direito a ser considerado a par de Brazão, dos Rosas,
-e até, ao lado de Lekain, de Kean, de Rossi, de Irving, de Kronsweg.
-
-Vou demonstrar a existencia d’essa sensibilidade apuradissima no
-_Boticario_ da _Morgadinha_.
-
- * * * * *
-
-Nascimento tem um sanctuario:—a sua officina.
-
-Alli passa as noites e os dias, com a blusa de operario,—aplainando
-madeiras, envernizando quadros, esquadrando molduras, curando a _telha_
-dos relogios, deitando _gatos_ em terrinas quebradas, endireitando a
-_espinhela_ a leques, brocando pulseiras, parafusando engrenagens,
-limando metaes, furando boquilhas, cinzelando coronhas, soldando _rabos_
-de colheres, aguçando pinos, collando cacos, cosendo botões, deitando
-_pingos_ em panellas, enfiando agulhas, inventando flores exoticas de
-_couvelórinton_, preparando pilhas, misturando acidos, bases, metaes,
-metalloides, oxydos, protoxydos, bioxydos, azotatos, azotitos, chloratos,
-chloretos, chloritos, etc., etc.
-
-Nas horas de descanço que as suas occupações lhe permittem, sente-se
-feliz com as multiplices e encyclopedicas applicações da sua actividade
-e do seu engenho; consome, pacientemente, sessenta e quatro horas com
-o encaixe d’uma insignificante peça de metal para a sua locomovel
-microscopica; aplaina e replaina o _empeno_ d’uma taboa para a sua
-mobilia; gasta uma noite, duas noites, trez noites com o estudo analytico
-da reacção d’um acido sobre uma base.
-
-Com a applicação d’uma lei chimica, no desenvolvimento d’uma formula
-mechanica, na adaptação d’uma propriedade physica, Nascimento concentra
-todo o seu ser, toda a sua actividade mental, abandonando as distracções,
-os prazeres, e esquecendo-se até, das horas das refeições.
-
-No seu cerebro amontoam-se os projectos, chocam-se as theorias,
-amalgamam-se as applicações.
-
-Tem o arrojo de Lesseps, a tenacidade de Edison, a phantasia de Eiffel.
-
-A sua alma, o seu corpo, os seus orgãos, os seus musculos, estão alli:—no
-torno, na serra, no serrote, no brocador, no pichel da colla, no arame
-dos _gatos_.
-
-O seu engenho tem o quer que seja de epileptico: ataca trinta emprezas ao
-mesmo tempo: mobilias, machinas photographicas, installações electricas,
-bobinas, telegraphos, telephones, phonographos, campainhas de alarme,
-etc., etc.
-
-Vencidas as difficuldades, contornadas, cortadas e limadas as peças, nova
-explosão de inadiaveis projectos interrompe a conclusão dos antecedentes;
-e assim, Nascimento, fazendo tudo, nada faz, porque a epilepsia do
-engenho dá ás suas obras a incommensurabilidade do Infinito: todas
-tiveram principio e nenhuma tem fim.
-
-Como se pode explicar, pois, que, annunciada uma recita de _Santo
-Antonio_, ou da _Morgadinha_, este homem abandone immediatamente o seu
-_meio_, o seu sanctuario e enthusiasticamente se venha offerecer para
-desempenhar o _papel_ de _Mano Gaspar_, ou de _Boticario_?
-
-Pela extrema sensibilidade das suas faculdades affectivas.
-
-Nascimento lê o drama, a comedia, ou a scena _comica_; a sua alma
-vibrou, agitou-se com o caracter d’este ou d’aquelle personagem;
-identificou-se com os sentimentos do _galan_, ou do _comico_; e, possuido
-de irresistivel enthusiasmo, abandona a officina, troca o _alicate_ ou
-o _saca-trapos_ pelo caderno almaço e lá vae para as muralhas metter
-na cabeça, em giros constantes—para traz, para deante—os periodos do
-_papel_.
-
-Este enthusiasmo, em qualquer de nós—no Albino, por exemplo, que já
-representou de mulher, nos paysanducos, eximios na Comedia—seria uma
-coisa vulgar, insignificante; mas no Nascimento que nós conhecemos e
-que eu examinei na officina, revela uma enorme tensão de faculdades
-affectivas.
-
-Os trabalhos do Brazão são correctos e são artisticos; mas este
-actor adquiriu já a _physiologia_ dos sentimentos; os seus musculos
-contraem-se, por assim dizer, inconscientemente, independentes do imperio
-da vontade, como nas acções reflexas. Mostra no rosto a agitação d’um mar
-de paixões, quando na alma tem a tranquillidade d’um lago.
-
-Alem d’isso, Brazão tem o scenario de D. Maria; tem o Keil, a luva
-do Baron; o talhe elegante, o perfil distincto, a perna flexivel, o
-bigode loiro, o monoculo—todas essas pequenas coisas que emmolduram e
-aristocratizam o actor.
-
-Nascimento tem o desbotado scenario do nosso theatro, ainda saturado de
-irritantes aromas dos _meios com cebolada_ que, ha annos, o meu amigo S.
-Lima arremessava ás fauces de toda a tribu _pica-calcantes_; tem a roupa
-de _mabella_; a rigidez linear da _Ordenança_ conturbando a flexibilidade
-dos movimentos; a _reacção dos acidos_ paralysando a acção dos nervos
-centrifugos; o _ordinario marche_! pruindo compassadamente na sola dos
-pés e na barriga das pernas...
-
- * * * * *
-
-Examinado pelo prisma da Arte, Nascimento actor é—repito—um barbaro.
-Mas analysado pelo prisma do Sentimento revela-nos uma organisação
-especialissima, que seria a gloria de nossos palcos e da nossa terra, se
-um defeito organico a não prejudicasse.
-
-Nascimento ouve uma valsa de Metra, uma symphonia de Berlioz; ouve
-Rubinstein e Sarasate, a Patti e a Nilsson. Permanece mudo, quedo,
-insensivel.
-
-Tem nas mãos uma flôr mimosa: uma _Captain Christi_ ou _Bertha Mackart_;
-uma _Alba imbricata_ ou _Countess of Derby_; a violeta, o lirio, a
-sensitiva. Os dedos afastam-se e a bella flôr cae abandonada, cerrando as
-petalas...
-
-—_Não gosto de muzica; não gosto de flores_—diz o Nascimento.
-
-Poderemos acreditar na sinceridade d’estas palavras pronunciadas pelo
-homem, em quem os insipidos gracejos do _Mano Aniceto_ exercem tal
-influencia e inspiram tal enthusiasmo que, arrancando-o da sua Thebaida,
-da sua officina, o expõem, vestido de amarello, á extatica contemplação
-dos _loiceiros_?
-
-Não! Nascimento é accessivel á vibratilidade das commoções; os seus
-nervos sensitivos communicam ás cellulas cerebraes toda a intensidade dos
-enthusiasmos, mas o tal defeito organico—um enfraquecimento dos nervos
-centrifugos—oppõe-se á transmissão da força necessaria para a mechanica
-muscular e para a movimentação das situações dramaticas.
-
- * * * * *
-
-Terminou o segundo acto. Tenho de estudar os outros _curiosos_ da
-Companhia; mas ao despedir-me de ti, Nascimento, permitte um conselho:
-abandona o theatro. Trata d’esse enfraquecimento do tecido nervoso.
-
-Com seis mezes de cuidadoso regimen, póde ser que um dia, na apotheose
-das nossas glorias theatraes, como já annuncio:
-
-Sampaio—o Jeremias da Balagota...
-
-possa tambem dizer:
-
-Nascimento—o Irving valenciano.................................
-
- * * * * *
-
-
-NOTA
-
- Nascimento amigo:
-
- Este artigo já estava escripto, quando soube das tuas
- manifestações _anti-zinoicas_. Tem paciencia.
-
- _Quod scripsi, scripsi._ Não vale zangar, porque o _sinapismo_
- que te offereço é proprio para senhoras; nem queima, nem faz
- bolha.
-
- Teu constante admirador
-
- _Zinão_.
-
-
-
-
-XIX
-
-Transferencias
-
-(1886-1890)
-
-
- CODIGO PENAL, artigo 432.º «Roubo:—=subtracção de coisa
- alheia...=»
-
- CODIGO CIVIL, artigo 2167.º: «direito de
- propriedade:—=faculdade que o homem tem de applicar á
- conservação da sua existencia e ao melhoramento da sua condição
- tudo quanto para esse fim legitimamente adquiriu e de que,
- portanto, póde dispor livremente.=»
-
-A lei garante-nos a propriedade dos bens que herdamos, dos bens que
-adquirimos, dos trabalhos litterarios que produzimos, dos inventos que
-lançamos aos mercados, das concessões que obtivemos.
-
-O que é hoje um curso, uma formatura?
-
-Uma propriedade que se adquiriu em troca de valioso capital; que se
-grangeia, que se cultiva, que se aperfeiçoa, para que ella nos forneça os
-recursos necessarios ás despezas da vida.
-
-Quando a razão principia a funccionar, levam-nos ás regiões da Sciencia,
-e dizem-nos: ahi tendes esses hectares de terreno, estão asperos,
-incultos, bravios; ha por ahi cardos, abrolhos, silvados. Trabalhae,
-limpae, nivelae, lavrae, semeae e colhei. Ahi ficam dois contos para
-despezas de grangeio.
-
-No fim de dez ou doze annos temos o terreno apto para a cultura.
-Exgottamos uma boa parte do vigor da mocidade. O cerebro-arado não abriu
-sulcos só na terra; abriu-os tambem na fronte do trabalhador.
-
-Com os fructos da primeira colheita obtemos uma collocação em qualquer
-das instituições do Estado; chamam-nos: Delegado, Conservador, Official
-do Exercito, Medico municipal, Professor, etc., etc.
-
-Se no meio da improba tarefa o desanimo nos assalta, se a força de
-contrariedades imprevistas inutiliza os nossos esforços, e não podemos
-cultivar até ao fim todo o terreno que nos limitaram, contentamo-nos
-com uma pequena leira, esperando que mais tarde, pela persistencia no
-trabalho, a poderemos augmentar e desenvolver. Ficamos, então, aspirantes
-da Alfandega, escripturarios da Fazenda, amanuenses das Camaras, etc.
-
-O Estado dá-nos umas tantas libras por mez e exige-nos: honestidade, seis
-horas de trabalho diario, _direitos de mercê_, habilitações litterarias.
-É um simples contracto commutativo, com todas as garantias de segurança,
-porque uma das _partes_ é o Governo, fiscal da Lei.
-
-No decorrer da vida, circumstancias de natureza varia, sympathias
-pessoaes, assimilação de doutrinas, identidade de aspirações,
-enfeudam-nos a um Ideal, filiam-nos em um partido, aproximam-nos de um
-homem.
-
-Temos a Carta constitucional, a epopéa dos _sete mil e quinhentos_, os
-Codigos eleitoraes,—respiramos n’uma atmosphera serena de tolerancia; é
-legal e correcto o nosso proceder na vida publica e nada temos, portanto,
-que recear com a manifestação liberrima das nossas opiniões politicas.
-
-Succede, porém, que um marau qualquer, sufficientemente villão para
-rojar sem escrupulo, pela lama do servilismo, a sua dignidade de
-cidadão e para extender a consciencia, como um capacho de crina, nas
-soleiras das alfurjas onde pernoitam os politiqueiros,—por estes e por
-aquelles motivos embica com as nossas opiniões, incommoda-se com a
-nossa influencia e resolve em conciliabulo secreto da velhacaria com o
-rancor—promover a nossa transferencia para os Algarves, ou para as ilhas
-de Bijagóz.
-
-Assobia á matilha dos rafeiros eleitoraes, promette um osso aos abbades,
-mostra uma codea aos fraldiqueiros e apresenta-se, com a cainçalha
-atrelada, ao deputado do circulo.
-
-Ao espirito dos deputados—homens geralmente illustrados—repugna sempre
-a cumplicidade em taes infamias; mas perante a dentuça afilada dos
-rafeiros que ameaçam esfarrapar-lhe a candidatura nas proximas eleições,
-a dignidade hesita, vacilla e cede por fim.
-
-D’alli a oito dias, o _Diario do Governo_ annuncia a nossa transferencia
-para o regimento n.º tantos, para a Comarca tal dos Algarves, ou para a
-repartição de Fazenda X da Beira.
-
- * * * * *
-
-Sou casado, tenho tres filhos e sustento uma irman viuva. A transferencia
-obriga-me á venda da mobilia, das loiças, dos _tarecos_; e a urgencia
-d’essa venda deprecia consideravelmente o valor dos objectos.
-
-Primeiro prejuizo.
-
-As condições economicas de minha existencia são perturbadas pelos
-encargos d’um emprestimo de duzentos mil reis, que tenho de contrahir
-para as despezas da viagem, da nova installação, e que um nababo
-qualquer me empresta ao juro de seis por cento, depois de eu satisfazer
-umas pueris formalidades, umas cerimoniosas ninharias que a praxe
-recommenda—como são as assignaturas de dois bons fiadores e respectivas
-consortes, e a escriptura de hypotheca sobre boas propriedades, livres e
-allodiaes.
-
-Cumprido isto, recebo o dinheiro, e com elle, um titulo de eterno feudo
-e dependencia moral, tanto para mim como para meu filhos, ainda que,
-decorridos seis mezes depois de registada a _transacção_, eu me desfaça
-do credor, devolvendo capital e juros com muitos apertos de mão e phrases
-de eterno reconhecimento[57].
-
-Parto para a minha nova collocaçeo; despezas de caminho de ferro,
-transporte de bahus, carros, carroças, nova acquisição de moveis, de
-_tarecos_, etc., etc.; os duzentos mil reis desapparecem.
-
-Voltemos á lei:
-
- CODIGO PENAL, artigo 421.º: «=Aquelle que commetter o crime
- de furto, subtrahindo fraudulentamente uma coisa que lhe não
- pertença, será condemnado:=
-
- =1.º A prisão até seis mezes e multa até um mez, se o valor da
- coisa furtada não exceder a 10$000 reis.=
-
- =2.º A prisão até um anno e multa até dois mezes, se exceder a
- esta quantia, e não fôr superior a 40$000 reis.=
-
- =3.º A prisão correccional até dois annos e multa até seis
- mezes, se exceder a 40$000, e não fôr superior a 100$000 reis.=
-
- =4.º A prisão maior cellular de dois a oito annos, ou, em
- alternativa, a degredo temporario com multa até um anno, em
- ambos os casos, se exceder a 100$000 reis.=
-
-Associemos as idéas.
-
-V. Ex.ª tem aquella quinta em algures. Uma noite, penetram n’ella tres
-ratoneiros, arrombam o espigueiro e levam cinco alqueires de milho. Os
-cães ladram, um creado grita, o regedor acode, os ratoneiros fogem, os
-_cabos_ encontram-nos e a Borralho abre e fecha a cadeia.
-
-—_Como foi? como não foi?_
-
-—_Senhor! Tinhamos fome_...
-
-—_São uns desgraçados_,—diz o advogado de defeza.
-
-—_É preciso garantir o direito de propriedade_,—exclama o sr. Dr.
-Delegado.
-
-—_Trinta dias de cadeia_—conclue o sr. Dr. Juiz.
-
- * * * * *
-
-D’essa mesma quinta, vendeu V. Ex.ª para Monsão vinte pipas de vinho a
-quatro moedas. Vae receber o seu dinheiro—oitenta moedas—e regressa a
-Valença, á noite.
-
-Ao passar na _Tomada de Barros_, um homem com chapeo largo põe-se á
-frente dos cavallos e, de bacamarte em punho, diz ao cocheiro: _Faça
-alto!_
-
-Outro _barbaças_ enfia pelo buraco da portinhola o cano d’um revolver e
-diz: _Venha p’ra cá o bago!_
-
-Apparecem mais tres vultos embuçados e V. Ex.ª ouve aquelle _crac_ secco
-e sinistro de tres bacamartes que se armam.
-
-V. Ex.ª puxa do _Bull-dog_, ou _Abbadie_; o cocheiro aponta um revolver
-enferrujado, ouve-se uma detonação, depois outra; um grito, um rugido,
-uma praga. V. Ex.ª salta do carro, desfecha outra vez, avança, recua,
-tropeça no corpo d’um _barbaças_ que escabuja, perde o equilibrio e cae.
-
-Quando tenta levantar-se, jogam-lhe uma paulada valente, que lhe fractura
-o craneo.
-
-Não sabe do mais que se passou. D’alli a quinze dias principia V. Ex.ª
-a coordenar umas ideas vagas que em rapidos momentos lucidos surgem no
-seu cerebro. Sente-se excessivamente fraco; reconhece que está na cama;
-leva com difficuldade as mãos á cabeça, apalpa, e encontra um turbante de
-pannos humidos e ensanguentados.
-
-Balbucia uma pergunta. Recommendam-lhe silencio, que não faça esforços de
-memoria.
-
-—_Muito socego e muito juizo_, diz o Esculapio.
-
-Tres dias depois, o cerebro associa as idéas.
-
-—_Como foi isto?_—pergunta V. Ex.ª á esposa.
-
-—_Foi d’esta e d’aquella forma._
-
-—_E os homens?_
-
-—_Um morreu; tres estão presos._
-
-—_E o dinheiro?_
-
-—_Roubaram-t’o com o relogio._
-
-
-Epilogo
-
-_Está ou não provado?_ etc., etc.
-
- =dez annos de degredo.=
-
- * * * * *
-
-Ao ratoneiro que, talvez para matar a fome, levou cinco alqueires de
-milho, deu a lei—trinta dias de cadeia. Ao _barbaças_ que arriscando a
-vida, de peito descoberto, roubou o relogio e as oitenta moedas, disse o
-Codigo penal: dez annos de degredo.
-
-Ora, o milho e o dinheiro pertenciam a V. Ex.ª por indiscutivel
-direito de propriedade. A falta do primeiro originou um desequilibrio
-insignificante nas suas finanças, que foram gravemente perturbadas
-pela subtracção do segundo. V. Ex.ª teve de limitar as suas despezas
-diarias e não poude, n’aquelle anno, mandar seu filho para Coimbra, ou
-para o Collegio militar, porque faltaram os meios e não quiz contrahir
-emprestimos.
-
-A lei, garantindo a propriedade do cidadão puniu severamente os
-individuos que prejudicaram V. Ex.ª
-
-_Neminem laede_—era a formula de Kant na sua theoria sobre a Philosophia
-do Direito.
-
-Lesaram V. Ex.ª e a lei puniu.
-
- * * * * *
-
-Comparemos os factos:
-
-As vinte moedas representam o rendimento da quinta _tal_, em algures,
-que a V. Ex.ª pertence por um titulo de acquisição ou posse, legalmente
-reconhecido.
-
-Os duzentos mil reis que V. Ex.ª gasta com as despezas da sua
-transferencia e os juros ou encargos de doze mil reis annuaes, serão
-retirados do rendimento da propriedade que V. Ex.ª comprou ao Estado com
-os dois contos da formatura, ou com os _direitos de mercê_ e com o seu
-trabalho diario—compra de que possue o devido titulo que é um diploma, a
-_patente_, _etc._
-
-Associadas as idéas, comparados os factos, consideremos agora o
-_barbaças_ e o marau _transferidor_.
-
-Que differença póde haver entre o primeiro, que na _Tomada de Barros_
-reclamou, de bacamarte em punho, as vinte moedas, e o segundo que,
-desfechando o bacamarte da _transferencia_, a V. Ex.ª origina um prejuizo
-de duzentos mil reis?
-
-De qualquer d’esses factos não resultou o mesmo desequilibrio nos
-elementos economicos da sua existencia?
-
-Não significam elles o mesmo attentado contra direitos legalmente
-reconhecidos?
-
-Não houve n’elles a mesma responsabilidade, a mesma _premeditação_, a
-mesma consciencia da illegalidade?
-
-Eu de mim annuncio que só reconheço uma differença entre o João Brandão,
-o Papa-Assucar ou Zé do Telhado e _quem quer que_ fosse que promoveu
-a transferencia do sr. Camisão, e _quem quer que_ seja que promove as
-transferencias que, á puridade, por ahi se annunciam.
-
-Essa differença é a seguinte:
-
-João Brandão, Zé do Telhado e Papa-Assucar, na classe dos ladrões são
-ladrões honrados e dignos. Apresentam-se na estrada, de peito descoberto,
-fronte erguida, expondo a vida e arriscando a liberdade.
-
-Os _transferidores_ de cá são ladrões acanalhados, ratoneiros de feira,
-fadistas de café de _lépes_, traiçoeiros, covardes que se disfarçam com
-grandes capotes e se cozem ás paredes nas sombras da noite para, em
-qualquer encruzilhada, combinarem os meios de, impunemente, anavalharem o
-funccionario publico.
-
-Se eu souber que no pinhal de Ganfey se acoita uma malta de larapios, e
-se tiver necessidade de lá passar á noite, a prudencia aconselha-me a
-levar um bom cacete, para quebrar o braço a um e pôr em fuga os outros.
-
-Ora, dos _transferidores_ é que eu não me posso livrar tão facilmente. Só
-saem quando os lampeões se apagam; só transitam por viellas, mysteriosos,
-impalpaveis, sumidos. Se, por acaso, d’algum suspeito e lhe arranco o
-capote para conhecer as feições, encontro uma cara conhecida que ainda ha
-trez horas me saudava e me sorria.
-
-D’aqui a tres dias, silva a navalha nos ares.
-
- * * * * *
-
-No periodo de 1886 a 1890 instituiu-se n’esta villa o regime das
-_transferencias_ que legaliza essas infamias, estabelecendo nos
-differentes partidos politicos a necessidade das represalias summarias,
-como as disposições do codigo de Lynch.
-
-_É preciso fazer sangue, para que os campos se definam_—disse-me, ha
-annos, um Machiavel indigena. Apertei o casaco e segurei o relogio. É que
-na estrada da Velhacaria, a Politica da minha terra avizinhava-se já do
-pinhal da Azambuja em que hoje vivemos.
-
-Para esta classe de scelerados—os _transferidores_—o Direito romano, as
-Ordenações e os Codigos nada estabelecem. Mas o Direito positivo funda-se
-no Direito natural e este tira os seus principios da consciencia humana,
-em face das leis da Razão e da Moral.
-
-O legislador dá sempre ao magistrado a faculdade de ampliar, segundo os
-dictames da consciencia, ou de alterar, segundo os usos da terra, as
-disposições que estabeleceu para a repressão do facto criminoso e para a
-defeza de direitos adquiridos.
-
-Em nossa consciencia, pela illegalidade das causas e pela importancia dos
-effeitos, o caso das _quarenta moedas_ e o dos _duzentos mil reis_ teem a
-mesma classificação: um roubo.
-
-Quem rouba é ladrão; e para nivelar a condição criminosa e as
-responsabilidades do _barbaças_ e do _marau transferidor_, egualmente
-perigosos na sociedade em que vivemos, apresento o seguinte additamento
-ao Codigo penal:
-
-Artigo tantos:
-
-=Todo o homem de bem tem a liberdade de correr a pontapé pelas ruas de
-Valença, o sevandija que, directa ou indirectamente, influa em qualquer
-transferencia.=
-
-§ unico:
-
-=Fica revogada toda a legislação em contrario.=
-
-10-2-90.
-
- _Zinão_.
-
-
-
-
-XX
-
-A questão ingleza
-
-(NOTAS SOLTAS)
-
-
-Alem-mar scintilla na escuridão a iris do abutre.
-
-O leopardo rugiu, saltou, e cravou as garras ensanguentadas no velho
-Portugal.
-
-Este enorme gigante que teve no encephalo, como cellulas, os craneos
-de Camões, de Gama e de Cabral; que teve por apophyses as columnas
-de Hercules, os rochedos do Bojador, do Boa-Esperança, do Razalgate
-e do Comorim; por articulações Angola, Moçambique, Mascate, Ormuz,
-Diu, Calicut, Malacca; por veias os filões preciosos de Sofala, de
-Minas e Cyaté, do Pegu e de Narsinga; por arterias o Tejo e o Zaire, o
-Quanza e o Limpopo, o Zambeze e o Mandovi, o Ganges e o Amazonas; por
-cabellos os cedros seculares do Novo Mundo; por musculos os braços de
-mil heroes; por thorax a amplidão de todos os céos; por limite visual
-a linha de todos os horisontes; por fronteira o circulo de todos os
-quadrantes; por dominio a vastidão de todos os mares; por fanal a luz
-de todas as constellações—esse colosso que teve por servos o Çamorim e
-os rajahs da India, por thesoiro os abysmos aquaticos de Borneo e de
-Ceylão; por sonhos os mythos do Preste-Joham; por pesadelos as tragedias
-de Alcacer-Kibir e de Tanger; e que pela rigidez do seu braço, pela
-heroicidade do seu valor, conseguiu a crystallização de todas as chimeras
-e a realidade de todas as phantasias—eil-o ahi, prostrado, corroido
-pelo fanatismo religioso que ha quatro seculos lhe ulcerou os membros,
-enfraquecido pelos caprichos de monarchas perdularios, aviltado pela
-phthiriase de cortezãos servis, cancerado pela ambição insaciavel dos
-aulicos traiçoeiros, decrepito, pobre, agonisante... mas não morto!
-
-Não! Não está morta a Patria! Ha n’ella quatro milhões de cellulas; e se
-muitas são inertes ou inuteis, covardes ou egoistas, existe nas restantes
-força viva sufficiente para transmittir á musculatura do heroe decrepito
-a energia das grandes crises e o arrojo dos antigos feitos.
-
- * * * * *
-
-N’essa cloaca—a côrte ingleza—escoante de todas as sargetas, deposito de
-todas as fezes, sumidoiro de todas as immundicies que podem existir na
-alma humana, as ambições e a perfidia actuaram como acidos d’uma pilha
-sobre o metal—oiro—dos nossos terrenos da Mashona.
-
-Como reophoro transmissor d’essa electricidade cupida, partiu de
-Londres—polo negativo—o _ultimatum_ de Salisbury e tocou no coração da
-Patria.
-
-Immediatamente, outra electricidade se desenvolveu com os elementos
-positivos da Justiça e do Direito n’essa enorme pilha—a alma
-portugueza—que já actuou em todo o Universo com a intensidade das mais
-arrojadas emprezas e com a força dos mais generosos heroismos.
-
-E então, ao contacto d’esse novo fluido, de que n’um bello impulso
-de ardente enthusiasmo a Academia foi conductor, todos os membros do
-decrepito colosso se agitaram convulsivamente. Ergueu-se o heroe, d’um
-arranco, e magestoso de altivez, fremente de indignação—d’ahi, do
-promontorio de Sagres, d’onde avassallára o Mundo, arremessou para lá da
-Mancha o escarro do desprezo, unico desforço que a dignidade permitte ás
-affrontas d’um villão.
-
-Cartel de desafio não se manda a representantes de _lords_. Bright era
-_quaker_; Crawfurd, provavelmente, é castrado; condições diversas, mas
-eguaes na intenção—livrar decentemente as regiões trazeiras da bota d’um
-portuguez.
-
- * * * * *
-
-A excitação da colera e a allucinação do perigo teem por vezes
-prejudicado a imponencia da nossa attitude perante essa malta de
-esbodegados borrachões, paus-de-virar tripas encasacados, feitos de
-esperma de lupanar e de muco leucorrheico, que constituem na sua abjecta
-individualidade de _lords_ a canalha servil da côrte ingleza.
-
-_Morra a Inglaterra!_ bradamos.
-
-Não! Não se levantam gritos de exterminio contra uma nação inteira. Entre
-quarenta milhões de habitantes ha, tambem, opprimidos e oppressores.
-
-A podridão e a villania condensam-se nas altas espheras do _high-life_,
-nos palacios da City, nos corredores de Windsor Castle, no _royal box_ de
-Covent Garden, no Pelican Club, no Devonshire Club, no Turf-Club, onde
-impera, infrene, El-Rei Deboche.
-
-Cá em baixo, labuta e moireja um povo trabalhador e geme um mundo de
-parias. Nos bairros immundos de Londres, no West-End, no White-Chapel,
-dormem ao ralento, esfarrapados e nús, centenares de velhos e de creanças.
-
-Agonizando pelas esquinas e escabujando nos monturos, morrem annualmente,
-=de fome=, tres a quatro mil pessoas.
-
-Das camadas que trabalham sahiram Shakspeare, Milton, Jenner, Newton,
-Davy, Graham, Bacon, Locke, Hume, Priestley, Adam Smith, Stephenson,
-Wollaston, Boyle, Shaftesbury, Harvey, Stuart Mill, Spencer.
-
-Esses homens alguma coisa fizeram em prol da humanidade e da civilização,
-e não é justo, portanto, que á sua memoria e ao seu nome lancemos o
-escarro do insulto e o estigma da maldicção.
-
-_Odio aos lords!_ deve ser o nosso grito, porque são elles, e só elles,
-os nossos espoliadores.
-
-Odio a essa aristocracia abandalhada que estrangula a Irlanda—mancha
-vergonhosa da civilização europea e que os magarefes da City por vezes
-transformam em sangrento açougue.
-
-Odio a esses lacaios de libré que nas sessões da Lords’ House vemos
-erectos, empertigados, orgulhosos, e á noite se curvam sobre os tapetes
-do _brothel_—bestiaes, apopleticos, rubros, babados, _falling on one’s
-jaws_[58] entre saias almiscaradas e amarellas com o liquido da menorrhéa.
-
-N’esse asqueroso quadro de infamias que em 85 a _Pall Mall Gazette_
-desvendou á imprensa europea ha, como actores, _lords_, só _lords_—os
-mesmos canalhas de Cleveland-Street que, ha mezes, uns áltos
-_personagens_ da côrte protegiam, suffocando a peso de oiro a publicidade
-das suas novas torpezas. São elles e só elles que fixaram o preço de 15
-a 20 libras para as _fresh-girls_—_virgo intacta_—de 13 a 14 annos, que
-hoje são as 50:000 prostitutas—_black army_ dos _trottoirs_ londrinos.
-
-São elles que para a lucta contra essas desgraçadas creanças, attrahidas
-infamemente aos subterraneos de West-End, inventaram a _black-draught_ do
-narcotico.
-
-São elles que para obterem o oiro necessario ás phantasias d’uma
-sensualidade bestial, constituiram a _Slaughter-House_ contra os
-desgraçados filhos da Irlanda; que reunidos em _Royal Companies_
-ordenaram essas medonhas carnificinas de Pendjab e dos cipayos; e que
-agora, trocando em casa de Salisbury as fardas bordadas pela jaqueta de
-_pick-pocket_, _chypram_ do mappa africano o oiro da Mashona.
-
-Esses asquerosos Tartufos, occultando cynicamente nas casacas de
-_congressistas_ philanthropicos e humanitarios a sua cupidez e insaciavel
-ambição, propozeram, ha tempos, a Portugal e ao sultão de Zanzibar um
-bloqueio na costa oriental, de Inhambane a Pembe, que impedisse—diziam—a
-importação de armas aos arabes do interior, eternos traficantes de carne
-humana.
-
-O nosso governo accedeu; o bloqueio estabeleceu-se; e poucos dias
-depois, o governador do Cabo enviava occultamente a Lobengula, feroz
-chefe dos Matabelles, com quem os arabes se entendem, 1:000 espingardas
-Martini-Henry com 300:000 cartuchos!
-
-Odio, pois, aos _lords_!
-
-Organize-se contra elles uma nova cruzada de exterminio, e que todo o
-portuguez tenha o direito de os correr a tiro, como a animal feroz,
-quando no solo honrado da Patria poisarem as suas enormes patas de tres
-toesas.
-
-São elles e só elles que nos roubam. Ahi vae a _historia do caso_
-Chire-Nyassa.
-
-Lord Fife, duque do dito Fife, é genro de Sua Alteza Real o Principe
-de Walles; casou com a princeza Luiza, uma neta da _graciosa_ rainha e
-imperatriz Victoria.
-
-Lord Fife é um pobresinho de Christo; das suas propriedades de Scotland
-e de outros bens de fortuna tem um rendimento aproximado a dois contos
-por dia, e como a sua _Ex.ᵐᵃ Consorte_ é de egual pobreza, com mais umas
-achegas, dotação, etc., nas telhas d’aquelle desgraçado casal caem umas
-quarenta libras por cada hora de cada dia.
-
-Mas succede que lá, como cá, estas coisas de nobreza custam muito
-dinheiro, porque é preciso sustentar a respeitabilidade da posição
-official, como diz o Albino, quando _entra nas idéas e no coração_ da
-gente para dispôr os _petardos_ das suas transcendentes, nebulosas e
-philosophicas reflexões sociaes.
-
-Como o povo inglez embicou, ha tempos, com o augmento da dotação da
-_Royal Family_, lord Fife, para ganhar o seu pataco, fez-se agiota,
-socio commandita da firma commercial _Samuel Scott and C.º_ e director
-da _British South Africa Company_, a quem uma _Royal Charter_ concedeu,
-ultimamente, 400:000 milhas de terreno africano com aquella liberalidade
-conhecida: _do pão do nosso compadre grossa fatia ao afilhado_.
-
-Mas as libertinagens de West-End, do Cleveland-Street, os serviços dos
-rapazinhos do telegrapho, as orgias de _champagne_, os _boat-matches_ do
-Naval Club, absorvem todos os rendimentos de lord Fife e segundo consta,
-ha poucos mezes, as finanças de His Lordship estavam por assim dizer:
-_tem-te, não caias_[59].
-
-A concessão feita a Lord Fife, a Lord Abercorn, a Lord Gifford (cá estão
-os _lords_), organizadores da _African Company_, era tão importante que
-em Londres, o _Times_ e o _Standard_, fazendo reclamo, annunciavam-na
-como: _Empreza colossal_. Todavia, as acções conservavam-se na _baixa_
-e Lord Fife, nominalmente um dos maiores accionistas, não arranjava com
-aquelle negocio para pagar um _little boy_.
-
-Surgiu então uma idéa salvadora. Os nossos terrenos na Mashona eram,
-ha muito tempo, indicados como preciosos para explorações auriferas.
-Salisbury levou _rasca na assadura_; contractou-se o patife Johnston,
-compraram-se por baixo preço todas as acções da _South Company_ e no
-dia seguinte rebentou o _ultimatum_. Em vinte e quatro horas, cada
-acção obteve um premio de setenta libras. Cinco mil acções—trezentas e
-cincoenta mil libras.
-
-_God save the Queen!_ e vamos ás _fresh-girls_!
-
-Odio pois aos lords! E como em Valença as manifestações patrioticas
-ficaram no _projecto_ d’um telegramma a Serpa Pinto, porque se repetiu,
-talvez, aquelle caso da subscripção para o _bucephalo_[60], eu proponho o
-seguinte:
-
-Que se mande a Lisboa uma commissão para escolher e contractar
-nas viellas da Baixa duas duzias de _ladies_ matrafonas, das mais
-abandalhadas e nojentas.
-
-A mesma commissão contractará, tambem, dez ou doze grumetes da marinha
-real ingleza. Esses grumetes serão vestidos, da cinta para cima, com o
-uniforme dos boletineiros telegraphicos; da cinta para baixo, uma parra.
-
-Matrafonas e grumetes, com seis barris de _cachaça_ de 90°, serão
-envolvidos por uma forte rede de arame, á qual se atará um solido cabo de
-algumas milhas.
-
-A gente vae depois alli, a Calais, põe um pé em Douvres e atira com a
-_isca_ para o Tamisa.
-
-Fica um de nós a ter conta no cabo. Póde ser—por exemplo—o Fernando
-que é o mais entendido em coisas de pesca, como o prova annualmente na
-Rapozeira com os seus _botirões_. O Braga tambem póde servir, porque tem
-habilidade para descobrir peixes.
-
-O Fernando, pois, senta-se em qualquer rochedo, fuma o seu cigarro,
-espalha as tristezas com o _Noticioso_, ou com as _latinhas_ do Cruz,
-e quando sentir que a corda estica, signal de que o peixe _pica_, puxa
-vagarosamente para terra.
-
-A meio cabo, levanta-se e vem descendo pela costa da Mancha: Dieppe,
-Havre, Cherbourg; Brest, S. Nazaire, Bordeaux; contorna o Golpho,
-Bayonne, Santander; dobra o Ortegal, Corunha, Vigo, Guardia; entra no
-Minho e vem subindo pela margem direita até ao _Pau-do-fio_.
-
-A gente põe-se cá de cima, das muralhas, e recebe o cabo. Chamam-se os
-paysanducos e toca a puxar.
-
-Fóra da agua a _isca_, veremos logo, agarrados a ella, todos os _lords_
-da _City_: Lord Fife, Lord Foife, Lord Fufe, Lord Craft, Lord Creft, etc.
-
-O _lord_ é animal amphibio, organização de batrachio; resiste bem debaixo
-d’agua, como se sabe.
-
-Paysanducos continuam a puxar e vae tudo para o largo de S. João.
-
-Os _lords_ devem apparecer esbodegados, cambaleantes, tropegos.
-
-Vem o _Parádas_ com o _bolo municipal_ e divide-o pelos borrachões.
-
-Duas horas depois, o Gamellas traz a carroça do lixo, carrega, e despeja
-na _Sexta_.
-
-Extincta, assim, a raça vil, a _City_ fica deserta; e como a Hygiene
-recommenda a collocação das fossas longe das habitações, faremos do
-_fashionable_ bairro uma sentina para uso diario.
-
- Ao norte: Para damas.
-
- Ao sul: Para homens.
-
-Para fazer a limpeza e fornecer papeis, ficarão:
-
- Mr. Jacob Bright
-
- e
-
- Mr. Oswald Crawfurd.
-
-2-3-90.
-
-
-
-
-XXI
-
-A manifestação dos artistas
-
-
-Em 28 de janeiro, a Direcção da Assembléa Recreativa promoveu uma
-manifestação patriotica, préviamente annunciada nos jornaes da terra com
-a minuciosidade espaventosa d’um programma de _S. Telmo_ ou _da Agonia_.
-
-Não é meu intento censurar essa manifestação; mas, pelo simples facto de
-ella ter sido promovida por um grupo de artistas e de homens do trabalho
-não devo excluil-a do campo critico, onde com estes artigos analyso os
-factos mais importantes na chronica valenciana.
-
-A meu vêr, essa manifestação teve uma origem que a absolve plenamente
-d’uns pequenos ridiculos que a amesquinharam. Originou-a um impulso de
-sincero patriotismo, e basta isso para escudar os promotores d’ella
-contra a rudeza da phrase com que verberei a _fantochada_ de 14.
-
-Se essa manifestação offerece alguns lados censuraveis, se teve
-peripecias irrisorias, se não me inspira hoje phrases de caloroso
-applauso e de sincera adhesão, os seus promotores devem-no,
-exclusivamente, ás impressões que nos seus espiritos deixou a grande
-_rusga_ de 14. Aproveitaram parte do programma: musica, cortejo, vivas
-arruaceiros, procissões _intra_ e _extra_-muros, etc., abandonando
-deploravelmente os meios que a Razão aconselha para, em occasiões
-identicas, se dar a qualquer manifestação um caracter significativo de
-energia, de sensatez e—sobretudo—de utilidade.
-
-Não me rio perante as bandeiras que n’esse cortejo distinguiram a Arte,
-do Commercio, como estulta e imbecilmente o fizeram alguns dos _illustres
-patriotas_, comparsas na ignobil farça dos abbades. Essas bandeiras
-significam o trabalho honrado, o homem que labuta e moireja dia e noite
-no sustento da familia, e que nunca serviu de lacaio a qualquer magnate
-eleitoral para, á custa do Estado, coçar por ahi, nas esquinas, os
-seus setenta kilos de ociosidade; significam o artista que contribue
-efficazmente para a riqueza da nação; o commerciante que concorre com
-uma boa parte dos seus interesses para as despezas das nossas mais
-uteis instituições e não o eunucho indifferente a todos os impulsos da
-Civilização e que, arrastando uma existencia ignobil, como a da lapa
-eternamente presa ao rochedo, na valla commum dos inuteis desapparece,
-sem ter conhecido outra energia e outras sensações além das que obteve,
-comendo, bebendo e dormindo.
-
-Passe, pois, o cortejo, porque perante elle, eu, descubrindo-me,
-exclamarei tambem:
-
-=Viva a patria!=
-
- * * * * *
-
-A Musica da _Santa_ veiu outra vez espancar os ares com as notas festivas
-dos hymnos, bufadas para os céos da Patria com a furia d’uma orchestra de
-Cafres.
-
-É crença arraigada no espirito do povo que não póde haver solemnidade sem
-gaiteiro.
-
-Era preciso, disseram-me, estimular, avivar o espirito da nacionalidade.
-
-Este argumento defensor dos _paus-tesos_ recorda-me as funcções luctuosas
-das antigas carpideiras, nas casas minhotas.
-
-Morria o fidalgo.
-
-Expunha-se o cadaver na sala nobre.
-
-As mulheres e as creanças acocoravam-se sobre os tapetes.
-
-Em volta do caixão perfilavam-se, tristes, sombrias e sinistras, seis
-mulheres recrutadas no auditorio dos Missionarios, entre as mais
-hystericas e lacrimosas, quando algum dos energumenos descrevia os
-horrores do caldeirão de Pero Botelho, o rechinar das carnes e os
-forcados rubros de trezentos milheiros de diabos que pinchavam sobre as
-cabeças chamuscadas dos condemnados.
-
-Vinham os amigos da familia apresentar as suas condolencias.
-
-As carpideiras irrompiam n’um chorar convulso, com todos os sons da gamma
-afflictiva, com todas as notas ascendentes e descendentes d’uma suprema
-dôr: suspiros, gemidos, gritos, berros—berros, gritos, gemidos, suspiros.
-
-Os sentimentos quando se manifestam com violencia exercem uma forte acção
-de communicabilidade a que nem todos são refractarios. Vêmos lagrimas
-nos olhos d’uma viuva, ouvimos o casquinar de sonoras gargalhadas e
-o cerebro, recebendo as impressões d’essas lagrimas e d’esses risos,
-reproduz em nossa face os sentimentos que os motivaram: rimos quando os
-outros riem e choramos quando os outros choram[61].
-
-Assim, na scena das carpideiras, ellas, a familia, as visitas, os
-creados, disputavam primazia em intensidade de sentimentos.
-
-Terminada a cerimonia, os amigos compunham no rosto os traços d’uma
-grande dôr; distribuiam pela familia arrochados abraços e violentos
-apertos de mão, exprimindo entre soluços os desejos de se tornarem
-uteis: _se fôr preciso qualquer coisa—estamos ás ordens—mandar com
-franqueza—adeus—é ordem do mundo—resignação—adeus..._
-
-Fechada a porta, fechavam-se tambem, com ella, as valvulas das glandulas
-lacrimaes; e carpideiras e doridos corriam á vasta cozinha, onde
-pantagruelicamente atafulhavam o bandulho com grossas postas de bacalhau
-cozido, abundantemente regadas por successivos cangirões de bom e
-espumante verdasco.
-
-Batiam, de novo, á porta; tudo voltava á sala.
-
-O morto lá estava; amarello, hirto, de mãos ceraceas cruzadas sobre o
-peito, muito esticado dentro da sua _roupa preta_ perolada de _agua
-benta_, exhalando fragrancias de _vinagre aromatico_, de nariz para o
-ar, onde as moscas esgaravatavam com as patitas, na doida e frenetica
-sensualidade das cocegas que ellas tanto appetecem, e que o finado, dias
-antes, tão pertinazmente lhes recusára.
-
-Então, a sensibilidade das carpideiras explodia pelo canal digestivo em
-sonoros arrotos.
-
-E n’essa sessão solemne que constituiu a segunda parte do programma—uma
-verdadeira visita de pezames pela frieza da sala, pelo tremulo discursar
-dos primeiros oradores, pela hesitação dos _mestres de cerimonia_ e pela
-presença da bandeira nacional que significava os restos mortaes dos
-nossos brios e das nossas glorias, tambem se ouviu—permitti que o diga,
-honrados artistas—um rasoavel arroto:—aquella polka final.
-
- * * * * *
-
-Durante o trajecto do cortejo, a _Musica_ tocou, por vezes, hymnos
-varios. Excluistes o da Restauração, que só os eunuchos da Rotina hoje
-podem admittir nas suas manifestações simontadas. Devieis dispensar
-tambem os outros: o da Carta e o do Rei.
-
-O primeiro lembra a libertação da tyrannia, a emancipação dos direitos
-do cidadão, a queda do absolutismo, o inicio d’uma nova era de Progresso
-intellectual que devia esmigalhar as algemas de instituições odiosas e
-impulsionar-nos na bemdita estrada da Civilização, livres das trevas e
-dos espinhos que amarguraram os dias dos nossos antepassados.
-
-Recorda, pois, um facto—a outorga da Carta—que trouxe jubilos, alegrias;
-e não é em horas de tristeza e de desalento que n’elle devemos procurar
-lenitivo.
-
-O segundo solemnisou a coroação d’um monarcha—uma festa nacional em que
-houve bailes, recepções, salvas reaes, paradas, espectaculos de gala.
-
-Pelo anterior argumento devia ser excluido.
-
-O _ultimatum_ inglez é, apenas, a primeira bala do assedio que essa côrte
-de debochados planeou contra o nosso dominio d’alem-mar.
-
-A espoliação de Bolama que elles tentaram em 38; a de Goa, Damão e Diu em
-39; a das ilhas de Lourenço Marques em 62; a redacção da _Royal Charter_
-que ultimamente concedeu a Lord Fife os terrenos a oeste de Moçambique;
-a necessidade que elles teem de possuir, na costa africana oriental, um
-bom porto que dê expansão ao desenvolvimento das colonias estabelecidas
-no interior á sombra de perfidos protectorados; as recentes ameaças sobre
-as ilhas da Madeira e sobre Lourenço Marques—revelam claramente o plano
-da usurpação violenta de que mais tarde ou mais cedo, com pretexto ou sem
-elle, Portugal será victima.
-
-Os nossos terrenos africanos, se pouco teem produzido até hoje pelo
-abandono a que os condemnamos, podem ser no futuro elemento valiosissimo
-de riqueza e de prosperidade; e na tristissima situação em que as nossas
-finanças se encontram, com o enorme desequilibrio que annualmente se
-denuncia entre a receita e a despeza, quando os encargos da divida
-absorvem, já, metade dos rendimentos, importantissimo é o problema
-colonial, porque a solução d’elle póde evitar funestissimas perturbações,
-póde evitar a ruina da Nação, e mais do que isso—a perda da sua
-independencia!
-
-E dizei-me agora, honrados artistas e commerciantes:
-
-Se no dia trinta e um de dezembro, quando fechaes o vosso balanço annual,
-reconheceis que o _passivo_ excede o _activo_—quando perante esse
-_deficit_ encaraes, com olhar vacillante, o futuro, onde vêdes sombras e
-não auroras—se no anno seguinte uma nova especulação, uma nova industria
-vos proporcionar meios com que possaes capitalizar uns centos de mil reis
-collocados depois, _á ordem_, no Roriz,—se um dia o _Primeiro de Janeiro_
-vos annunciar a quebra d’aquelle banqueiro e, com ella, a perda do vosso
-capital, a destruição completa dos elementos com que esperaveis viver com
-abastança no futuro—acaso a vossa alma se póde regosijar com o Hymno do
-Rei ou com o da Carta?
-
-Pois as situações são as mesmas.
-
-Vós e a Patria tendes annualmente um enorme passivo.
-
-O capital que estava no Roriz—o vosso futuro—é o dominio d’alem-mar—o
-futuro da Patria.
-
-A noticia da fallencia é a noticia do _ultimatum_, com esta differença
-apenas: uma originou-se na adversidade dos negocios, outra na ambição
-d’um _lord_.
-
-Vós sois a Patria; viveis n’ella; sois a alma e o braço d’ella.
-
-A Patria é tudo isso que vos rodeia: familia e amigos, affectos e
-carinhos; é tudo o que ha de bom, de generoso, de nobre e feliz na vossa
-existencia; é a limpidez d’este formosissimo céo peninsular, a risonha
-paizagem do nosso Minho, a irradiação das nossas alvoradas, o oiro dos
-nossos crepusculos, o matizado dos nossos campos; é essa dulcissima
-melancholia que ao _toque das trindades_ inunda a nossa alma com a toada
-longinqua das canções populares, é o nobre orgulho que em vossos olhos
-brilha quando escutaes a epopéa das nossas gloriosas façanhas; é essa
-formosa cabeça de velho que vos sorri, é a esposa carinhosa que vela a
-vossa doença, é a creança—esse pequenino sêr feito com raios de alvoradas
-e crystallizações de sorrisos—a quem chamaes filho[62].
-
-Quem offender a Patria—offende-vos.
-
-Quem a roubar—rouba-vos.
-
-Quem toca o hymno da Carta quando ella soffre, toca-vos o hymno do rei
-quando, com a fallencia do Roriz, reconheceis perdidas e inutilizadas as
-esperanças do vosso futuro.
-
- * * * * *
-
-Despedi, pois, os gaiteiros, amigos.
-
-Não lhes faltará que fazer.
-
-Ahi estão os paysanducos esperando a _borga_ das eleições. Lá estão os de
-Monsão que d’elles necessitam para as farças publicas do entrudo, em que
-figuram makololos e Serpa Pinto.
-
-Uns e outros: paysanducos, makololos e santascocas provam á evidencia,
-pela sua immobilidade mental, que, realmente, não havia razão para os
-sabios repellirem com tanto ardor as theorias de Darwin.
-
-Nos cerebros de todos elles, existem irrefutaveis vestigios de
-hereditariedade chimpanzéca.
-
-Distingui-vos d’elles!
-
- * * * * *
-
-Á sympathia que me inspira a vossa Assembléa deveis estes periodos,
-onde podereis encontrar phrase aspera de sinceridade, mas não phrase
-humilhante de ironia.
-
-Não vos offendaes, pois, por eu declarar que estou intimamente convencido
-de que nenhum de vós conhece exactamente o valor, a extensão, a situação
-geographica, os limites dos terrenos que a canalha dos _lords_ nos
-pretende roubar; como sinceramente creio que a mesma ignorancia existe no
-espirito da maior parte dos patriotas que promoveram a grande _rusga_ de
-14 e que por ahi, ainda hoje, erguem as mãos ao céo, falando de _roubos_,
-de _direitos indiscutiveis_, etc., etc.
-
-Tirae-me do grupo promotor da _fantochada_ umas tres ou quatro cabeças,
-e demonios me levem se as restantes vos disserem para que lado fica a
-Africa, se fica perto ou longe de Taião e se lá vivem homens civilizados
-como nós, se paysanducos, se orangotangos.
-
-Em vós, tudo desculpa essa ignorancia. Sois homens do trabalho. Quando
-o dia nasce, principiaes a lucta pela vida; quando o sol se esconde,
-procuraes no repoiso, vigor para a tarefa de ámanhã. Não podeis,
-portanto, dispensar o tempo necessario ao estudo d’estas questões que a
-Historia, a Geographia, o Direito internacional, etc., esclarecem.
-
-Essa ignorancia existe, ainda mais profunda nas camadas populares
-inferiores á vossa.
-
-Berraes, pois, que vos roubam sem conhecerdes, quanto, o que, e onde.
-
-Consultae a consciencia e dizei-me se isto assim não succede, e se não
-consideraes censuravel que um homem nas ruas grite contra um ladrão,
-ignorando os direitos que tem de o fazer e só porque ouviu as exclamações
-dos outros.
-
- * * * * *
-
-Reconhecereis, portanto, que podia condemnar a vossa manifestação de 28,
-mas se acreditaes na sinceridade d’essa sympathia que eu vos affirmei
-nutrir pela _Assembléa Recreativa_, se a opinião d’um homem que se ri
-dos que, n’outras espheras _mais illustradas_, fazem das luvas—uma coisa
-que o meu cocheiro usa—distinctivo irrefutavel _de sentimentos dignos e
-cavalheirescos_ (!) permitti que em poucas palavras vos indique a fórma
-como eu entendo que vós devieis ter organizado a manifestação.
-
-Nada de musicas; nada de procissões pelas ruas!
-
-Um de vós pediria o theatro. Tres ou quatro iriam em commissão convidar
-qualquer dos officiaes do Regimento—que os tendes ahi illustrados e
-competentissimos—para uma conferencia sobre a questão do Chire-Nyassa,
-em que vos expozesse claramente, perante um mappa, a situação dos nossos
-dominios e a legalidade dos nossos direitos.
-
-Para essa conferencia abririeis as portas ao povo, a esse eterno
-ignorante sempre explorado, porque o não educam; e se os vossos recursos
-podessem contribuir para uma verdadeira e util obra de patriotismo,
-a esse mesmo official pedirieis que vos escrevesse um pequeno volume
-onde, em linguagem chan, clara, perfeitamente intuitiva e ao alcance de
-todas as intelligencias, se desenrolasse a historia do nosso Passado e a
-historia d’essa vergonhosa alliança com a corte dos _lords_.
-
-Distribuirieis depois, oito centos ou mil exemplares d’essa publicação
-pelas freguezias do concelho, pelas escholas, pelas ruas.
-
-E então, amigos, com os brados de cólera e com as exclamações de
-desalento que a miragem das nossas gloriosas conquistas provocaria,
-poderieis compôr um hymno—um verdadeiro hymno nacional, magestoso,
-triumphante, imponente de enthusiasmos, arrebatador de generosos
-sentimentos, palpitante de sincero, energico e irresistivel Patriotismo!
-
-Poderieis então gritar:
-
-=Viva a Patria!=
-
-que eu, sobre a cabeça d’esses paysanducos que se riram de vós,
-responderia com toda a energia de minha alma:
-
-=Honra á Assembléa Recreativa!=
-
-
-
-
-XXII
-
-Carta a S. Ex.ª, o Sr. Administrador
-
-
- Ex.ᵐᵒ Sr.
-
-De caso pensado reservei para esta data, em que concluo a publicação que
-tanto tem agitado o espirito dos seus excellentissimos administrados,
-a manifestação dos sentimentos que agitaram a minha alma n’essa
-hora solemne, em que V. Ex.ª foi chamado ás graves deliberações da
-Administração concelhia.
-
-E de caso pensado o fiz, Ex.ᵐᵒ Sr., porque necessitava que o tempo, os
-factos, me fornecessem elementos com que, ao collocar a individualidade
-de V. Ex.ª n’esta curiosa galeria de celebridades valencianas, podesse
-fazer ao publico um pequeno discurso apologetico com phrases e linguagem
-differentes ás d’essas escalrichadas apotheoses das luminarias da terra,
-prenhes de _estimados cavalheiros_, de _integerrimos magistrados_, de
-_robustos meninos_ e outras minhocas que o _Noticioso_ inventa para
-enfeitar o anzol d’uma assignatura annual.
-
-Hoje, porém, Ex.ᵐᵒ Sr., que tres mezes se sumiram nas voragens do
-Tempo depois d’essa augusta solemnidade da _posse_, d’esse acto d’uma
-respeitabilidade indiscutivel em que a imponencia das nossas instituições
-civis actua sobre o espirito com a pressão de cem atmospheras—hoje, em
-que a individualidade administrativa de V. Ex.ª, evidentemente se destaca
-entre as auctoridades da minha terra, marchando a passo d’anjo no coice
-das procissões, ao lado de Sua Excellencia o Senhor Governador Pericles
-I e um pouco á frente do seu subordinado o Snr. Joaquim, muito
-digno e conspicuo Substituto—digne-se V. Ex.ª permittir que eu lhe
-dedique estas linhas, onde vou synthetisar a opinião que no meu espirito
-existe ácerca do Senhor Administrador.
-
- * * * * *
-
-Percorrendo a historia dos gloriosos feitos dos antepassados de V. Ex.ª
-n’essa cadeira administrativa—meditando sobre as diversas aptidões e
-faculdades que nas sombras do Preterito, ainda hoje illuminam os vultos
-dos prestantes e muito dignos cidadãos que eu por ahi vi atados á banda
-bicolor,—comparando os feitos immorredoiros que enaltecem os annaes da
-Administração valenciana—desde a _borralhada_ da Santa até ao exterminio
-da Rua Verde, desde a prisão d’aquelle feroz e sanguinario Troppman
-na _tomada de Barros_ até ás fornadas eleitoraes da Misericordia,—com
-os actos de V. Ex.ª, eu, Ex.ᵐᵒ Sr.—com franqueza—não posso exprimir o
-conceito que de V. Ex.ª formo com palavras differentes d’estas:
-
-V. Ex.ª é o _refugo_ dos administradores!
-
- * * * * *
-
-E d’estas palavras escriptas com a rude sinceridade que até aqui arrepia
-a linguagem dos meus escriptos, acaso poderá V. Ex.ª deduzir intenção
-desdoirante das suas aptidões intellectuaes, dos seus conhecimentos
-juridicos, das suas faculdades administrativas?
-
-Se tal succede, erra o seu excellentissimo criterio.
-
-V. Ex.ª é o _refugo_ dos administradores, porque tem uma carta de
-bacharel, porque sahiu ha poucos annos da Universidade com uma educação
-politico-scientifica imperfeita, rachitica, insufficiente para as
-funcções do elevadissimo cargo de que está investido.
-
-V. Ex.ª está saturado de ordenações, de codigos, de paragraphos
-unicos, de disposições transitorias, de _subsidios_, de cartas de lei,
-de alvarás; conhece os trabalhos e as theorias de Bentham, de Krause,
-de Kant, de Grotius, de Blackstone, de Calvo, etc., etc., mas ignora
-absolutamente e precisamente o que é mais essencial a um Administrador,
-mercê da insufficiencia dos programmas officiaes e da falsa orientação
-que na Universidade preside á incubação d’um bacharel.
-
-A educação social do individuo deve adaptar-se ás condições e exigencias
-do cargo a que se destina. Um medico aprende a curar feridas; um militar
-a fazel-as; um escrivão de fazenda a tirar camisas; um boticario a
-preparar tisanas; um paysanduco a contar cucharras; um _espirito-santo_ a
-inspirar tolices; um Zinão a reforçar sinapismos.
-
-Para lá da esphera profissional que a sua educação lhe circumscreve, o
-individuo torna-se um ser inutil, prejudicial, incommodo.
-
-É o que succede com V. Ex.ª
-
-V. Ex.ª cursou todas as cadeiras exigidas no programma official d’um
-bacharelado: direito romano, dito penal, dito commercial, dito civil,
-dito internacional. Sahiu habilitado para tudo: para defender, accusar,
-aconselhar, chicanar, fazer do direito torto e do que é torto direito, em
-questões de aguas de rega, de fóros, de fallencias, de peculatos.
-
-Para o que não sahiu habilitado é para Administrador do concelho.
-
-Tem V. Ex.ª culpa d’isso?
-
-Não. Tem-na quem organizou os programmas para a faculdade de Direito.
-
- * * * * *
-
-Na minha humilde opinião, ao curso de Direito devia accrescentar-se mais
-um anno, para trabalhos praticos na cadeira de _Politica legal_.
-
-N’esse anno, os futuros bachareis teriam de resolver, praticamente, entre
-outros, os seguintes problemas:
-
-
-1.º
-
-Empalmar uma eleição
-
-No meio da sala seria collocada a urna. Alguns alumnos representariam a
-opposição. Com os restantes constituia-se a mesa: presidente, secretrios,
-escrutinadores, olheiros, capatazes, abbades e caceteiros.
-
-O examinando teria de satisfazer ás seguintes provas, sem que a opposição
-percebesse a fraude.
-
- _a_) Introduzir rapidamente na urna um maço de listas
- governamentaes.
-
- _b_) Riscar os nomes dos eleitores reconhecidamente
- opposicionistas.
-
- _c_) Incluir na _chamada_ e fazer substituir por _mirones_
- todos os mortos da freguezia.
-
- _d_) Inutilizar imperceptivelmente com borrões de tinta as
- listas dos contrarios.
-
- _e_) Entornar um tinteiro na urna, quando a eleição se
- considerar perdida.
-
- _f_) _Armar_ uma _baralha_ na egreja; derrubar mezas, cadeiras,
- quebrar cabeças aos eleitores; dar, até, pancada nos santos e
- fugir afinal com a urna.
-
- _g_) _Empalmar_ uma acta. (Para esta prova o examinando poderia
- consultar os tratados especiaes que, sobre tal assumpto, tem
- escripto o Ex.ᵐᵒ Sr. Dr. M. Thomaz.
-
-
-2.º
-
-Uma fala aos lavradores
-
-Antes da eleição (modelo _a_):
-
- _Olé amigo! Toque. Dê cá um abraço.—Esta é a sua filha? Está
- uma fiôr; tem juizo, rapariga!—Sabe que arranjei um subsidio
- para as obras da torre? Custou, mas arranjou-se.—Você não tem
- um filho no recrutamento? Recebi hoje carta de Vianna em que me
- dizem que vae ser isento.—Aquella é a tal propriedade em que
- esses ladrões lhe lançaram quatro pintos? Eu amanhã arranjo
- isso na Fazenda; o mais que deve pagar é um pinto.—Pegue lá um
- cigarro. Com franqueza; fume á vontade, que é brandinho. Não
- tem lume? Metta á bocca... Prompto!—É verdade: já me esquecia.
- Você é dos nossos; amanhã é a eleição. Homens honrados são do
- nosso lado. Já cá o tenho na cabeceira do rol—Diabo! tenho o
- seu nome na ponta da lingua...—Zé da Portella, exactamente.
- Aqui tem uma lista. Mande para o diabo a outra canalha.—Adeus.
- Ás ordens sempre, sempre, para o que quizer.—Dé cá outro abraço
- que é de amigo. Adeus._
-
-Depois da eleição (modelo _b_):
-
- —_V. Ex.ª dá licença?_
-
- —_Entre!!_
-
- —_Louvado seja nosso..._
-
- —_Que quer!?!_
-
- —_Eu sou o Zé da Portella, aquelle..._
-
- —_Venha logo, venha logo; tenho mais que fazer._
-
-
-3.º
-
-Organizar rapidamente o orçamento d’uma «borga» eleitoral, dada a
-capacidade cubica das barrigas dos abbades e a permeabilidade alcoolica
-dos tecidos intestinaes.
-
-A resolução d’este problema requer os seguintes conhecimentos:
-
- _a_) Saber o preço dos carneiros, dos _calhos_, do vinho, das
- batatas, das resteas d’alhos, do pimentão, etc.
-
- _b_) Saber applicar o ammoniaco no caso provavel d’uma
- borracheira.
-
- _c_) Saber receitar um purgante e manejar uma seringa na
- delicada operação do crystel.
-
- _d_) Saber ouvir de confissão qualquer bruto que estoire
- repentinamente com a indigestão.
-
-
-4.º
-
-Redigir uma informação favoravel á imposição de qualquer transferencia,
-embora ella vá lançar na miseria a familia d’um funccionario honesto.
-
-Modelo:
-
- _Esta transferencia torna-se necessaria e até indispensavel á
- boa solução dos nossos negocios. O homem é regenerador. Diz
- por ahi o diabo do Marianno. Alem d’isso, embirra com o A. Ora
- este A. segura o O., que vale os seus cincoenta votos. Com o
- A. não podemos contar, porque é dos amphibios e vae para quem
- mais der. Por aqui já se rosna na transferencia e todos berram
- que é uma infamia. O homem tem oito filhos. Que isso não influa
- no animo de V. Ex.ª. Quanto mais distante fôr a sua collocação
- melhor, porque mais desafogados ficamos. Espero solução rapida.
- Resposta telegraphica. A victoria depende d’esta transferencia._
-
-
-5.º
-
-Conclusões varias sobre a elasticidade do Direito administrativo
-
- _a_) F. (governamental) _tem uma burra. Só paga decima quando
- fôr da opposição._
-
- _b_) F. (gov.) _tem um rendimento collectavel de reis 100$000.
- Reduz-se a 50$000._
-
- _c_) F. (opposição) _é professor e politico contrario.
- Retiradas as gratificações sob qualquer pretexto._
-
- _d_) F. (gov.) _requer uma policia correccional contra X. Pedra
- nos autos_.
-
- _e_) F. (op.) _é filho unico e amparo da familia. Intimado para
- em tres horas se apresentar á inspecção._
-
- _f_) F. (gov.) _é forte como um toiro e robusto como um
- Hercules. Entra ámanhã na inspecção. Isento por tisico._
-
- _g_) F. (gov.) _é gallego e intrujão. Na gazeta do partido
- illustre correligionario e probo cidadão._
-
- _h_) F. (op.) _é homem de bem; eu tambem o creio... apesar de
- que dizem por ahi (eu não acredito) que é ladrão e salteador de
- estrada._
-
-
-6.º
-
-Dirigir nos campos da politiquice, com a aguilhada da administração, o
-rebanho dos camaristas.
-
- Este problema exige dois mezes de tirocinio com os boieiros do
- Alemtejo, para se apprender a deitar o laço e a reunir á manada
- qualquer boi tresmalhado.
-
- * * * * *
-
-Ora diga-me V. Ex.ª: n’estes tres mezes em que tem empregado a sua
-actividade nas coisas da nossa administração não encontrou ainda em
-equação, sobre a sua mesa de trabalho, todos esses problemas?
-
-E resolveu-os?
-
-Não os resolveu, porque a sua consciencia e a sua dignidade esperam,
-ainda, as provas de elasticidade e de resistencia que necessitam para a
-tensão das patifarias politicas.
-
-V. Ex.ª tem feito um pessimo logar.
-
-Nem come os _calhos_ dos abbades, nem é paysanduco, nem é _provarei_, nem
-deita foguetes.
-
-Se não fosse a luminosa e providencial influencia do seu Ex.ᵐᵒ
-Substituto, homem de assaz provado engenho e competencia em assumptos de
-Direito administrativo e ilhas adjacentes, V. Ex.ª envergonhava a terra,
-o partido e os amigos, a cujo numero eu tenho a honra de pertencer.
-
-V. Ex.ª não tem _feitio_ para Administrador.
-
-Em tantos de tal (ainda V. Ex.ª não tinha na gaveta, ao lado das piugas,
-a banda azul e branca) entraram no seu escriptorio os cidadãos Zé Pita,
-Tóne do Logar e Manel Cancella.
-
-Este Manel trazia uma questão com o sogro por causa das aguas da rega.
-
-Disse da sua justiça.
-
-V. Ex.ª ouviu, pensou e aconselhou.
-
-Zé Pita, cidadão que tem as suas fumaças de doutor _lareiro_, metteu a
-colherada no caso, muito lepido e escorreito com umas objecções ao douto
-conselho de V. Ex.ª
-
-V. Ex.ª ouviu, pensou e refutou: _artigo tantos_, _paragrapho tal_, etc.
-
-Vae n’isto—o Tóne do Logar, _home_ de representação e de lettras gordas
-na freguezia, chegou-se tambem _ao rego_ da discussão, e metteu o
-bedelho, descobrindo ainda outra hypothese.
-
-V. Ex.ª ouviu, pensou e concluiu.
-
-Ficára o caso liquidado entre os quatro doutores, digo, entre V. Ex.ª e
-os tres cidadãos.
-
-—_Quanto é?_ perguntou Manel.
-
-—_Dezoito vintens!_ respondeu V. Ex.ª
-
-Ficou estarrecido o homem. Nunca imaginára pagar um conselho por mais de
-tres patacos, muito especialmente agora que o João Moraes os annunciava
-a _quatro menos cinco_, para quem se avençasse ao mez.
-
-—_Sôr Doutor... talvez seja engano de Vóssoria, mas foi só um conselho..._
-
-—_Foram tres e não um!_ respondeu V. Ex.ª com aquella cara muito
-arrenegada que ás vezes tanto assusta a gente.
-
-—_Tres, meu senhor?_
-
-—_Você não falou?_
-
-—_E depois não falou outro?_
-
-—_E não falou depois outro? Tres vezes seis, dezoito._
-
- * * * * *
-
-Justissima era a reclamação.
-
-Nem os sete sabios da Grecia poderiam contestar a legalidade e a
-exactidão d’aquella operação arithmetica.
-
-Este simples facto revela a rispida e austera execução que V. Ex.ª
-dá aos sacratissimos principios da Justiça e da Equidade e revela,
-tambem, a incompetencia de V. Ex.ª para um logar onde, tendo tres, oito,
-dez ou vinte consultas diarias, nada poderá reclamar, quando venham
-recommendadas por o sr. Joaquim, ou por outro qualquer confrade politico
-que se lembre de fazer favores e de adquirir popularidade, á custa dos
-dois contos que V. Ex.ª gastou na formatura.
-
-Para estas coisas de Politica é preciso vêr muito ao longe, ter vista de
-caçador, e V. Ex.ª mesmo como caçador, é um desastrado.
-
-Nunca me hei-de esquecer d’aquella surriada que lhe fizeram os rapazes de
-Arão, quando V. Ex.ª lá appareceu com todo o seu arsenal de guerra.
-
-Um dia, o Rocha e o Leitão suggeriram no cerebro de V. Ex.ª as glorias de
-Nemrod.
-
-Depois de jantar, sahia V. Ex.ª com todos os petrechos de caça,
-inoffensivamente mortiferos. Uma solida _escopeta_ de carregar pela
-culatra; á cinta, um grandecissimo facalhão para escuchinar javalis; no
-bolso direito, uma enorme navalha de furar lobos; a tiracollo, d’um lado
-a cartucheira com trezentas cargas de polvora e bala; do outro lado, o
-canudo de cortiça com vinte e sete furões e furoas; no bolso direito do
-collete, um revolver de oito tiros; no esquerdo, um _box_ de quebrar
-dentes a cães e vinte exemplares do _Noticioso_ para _necessidades
-urgentes_; nos pés, aquellas grossas botas de sete solas impermeaveis,
-até, no Rio Minho; aos hombros, o capindó de borracha, gemeo do outro
-com que o Albino attrae a chuva por essas ruas, em dias claros e
-formosissimos de Primavera; atraz de V. Ex.ª, ladrando, farejando,
-saltando vallados e alçando as pernas, seguia a terrivel matilha,
-recrutada na Parada-velha: podengos de todas as raças e feitios, para
-coelho, para perdiz, para lobo: o _Nilo_, a _Fuinha_, o _Gigante_,—tó,
-_Nero_!—volta, _Farrusca_!
-
-Assim disposto e precavido, seguia V. Ex.ª por essas aldéas fazendo
-tremer o solo, os ceos, a terra, os mares, com o aspecto apavorador da
-sua ferocidade venatoria.
-
-N’isto,—alli ao pé de Arão, um triste pintasilgo risca no ar uma curva e
-vae poisar no arvoredo proximo.
-
-A matilha _amarrou_.
-
-V. Ex.ª toma ar, carrega a escopeta, aponta... toma outra vez ar...
-desfecha e olha.
-
-O passarito soltára uma gargalhada de escarneo e batera as azas, voando...
-
-Quando passou sobre a cabeça de V. Ex.ª, lá do azul dos ceos cahiu uma
-coisa sobre o seu excellentissimo nariz.
-
-A qual coisa, molle, pastosa, de côr cinzenta e com o feitio retorcido
-d’um S fez exclamar a um rapazinho que, de _carrapuço_ vermelho e mãos
-nos bolsos, a distancia presenciava o caso:
-
-—_Oh que grande caçador de minhocas!_
-
-E campos fóra de Politica, Ex.ᵐᵒ Sr., quando encontro V. Ex.ª armado de
-ponto em branco com a escopeta da Administração, cartucheira presa á
-banda azul e branca, matilha de abbades e rafeiros,—quando verifico que
-V. Ex.ª nem tem animo para disparar o bacamarte d’uma transferencia, nem
-sabe empalmar uma urna, nem falsificar uma acta, nem dirigir uma borga
-de _calhos_, nem descascar uma batata, nem deitar um foguete com ropia,
-nem tocar n’um gaiteiro, nem mentir com cara seria, nem perseguir os
-professores, nem desgraçar uma familia, nem deshonrar um funccionario,
-nem amesquinhar um merito, eu, Ex.ᵐᵒ Sr., n’esta occasião em que V. Ex.ª
-por ahi anda atrapalhado com a escopeta de dois canos que nas mãos lhe
-metteram, para dar o primeiro tiro contra a opposição—não posso reprimir
-estas palavras com que, conceituando politicamente V. Ex.ª, parodio o
-rapazito d’Arão:
-
-—Oh que grande Administrador das _duzias_!
-
-Aos pés de V. Ex.ª, curva-se respeitosamente o
-
- _Zinão_.
-
-
-
-
-XXIII
-
-Compadres e Comadres
-
-
-Decididamente, não se póde ser rapaz solteiro em Valença.
-
-Segundo reza a minha cartilha, os inimigos do homem são tres: mundo,
-diabo e carne.
-
-Cá na terra, os inimigos dos rapazes são tambem de tres especies: aguas
-de Christello, bailes e comadres.
-
-Todos estes inimigos teem procedencia diversa: um nasce na Assembléa,
-outro fóra de Portas, outro na Coroada.
-
-Todos teem um caminho:—o namoro.
-
-Todos teem um fim:—o casamento.
-
-Epilogo egual para todos:—o _conjugo vos_ do Magalhães e a Sr.ª Dona
-Maria do Hospital.
-
- * * * * *
-
-Berra-se por ahi contra os jesuitas, contra os abusos dos regeneradores,
-contra as tyrannias do João Cabral, contra tudo que póde affectar o livre
-exercicio dos nossos direitos e das nossas regalias.
-
-Ninguem se lembra de requerer uma querela contra as _comadres_ da
-Coroada, que ha dezenas de annos implacavelmente lançam ao pescoço dos
-nossos mais airosos jovens as gargalheiras do casamento e a colleira de
-_paterfamilias_.
-
- * * * * *
-
-Em bella manhã de Abril entra um raio de sol na alcova; acaricia-nos o
-rosto; faz-nos cocegas no bigode e diz-nos baixinho ao ouvido: _São seis
-horas; levanta-te, calaceiro! Lá fóra cantam as aves, exhalam aromas as
-flores; está tão bonita a campina... tão risonhos estão os prados...
-tão diaphana a atmosphera e tão azul o azul dos ceos... Vem commigo. És
-livre; não precisas de ajudar a lavar os pequenos. Vamos,—veste-te, que
-eu espero cá fóra._
-
-Vinte minutos depois, respiramos por esses campos o ether das madrugadas.
-A nossa alma inebria-se; sentimo-nos alegres, bons, fortes e felizes,
-porque somos livres. Desejavamos possuir umas botas de _sete leguas_,
-como as d’aquelles contos da infancia; trepar a todos os oiteiros, subir
-a todas as collinas, saltar por todas as planicies.
-
-Phantasiamos azas como as da cotovia que se libra nos ares, cantando
-hymnos de jubilo, de liberdade, de amor.
-
-Horas depois regressamos a casa. Á entrada, a sopeira entrega-nos
-mysteriosamente uma caixinha dos collarinhos, ou dos pós da gomma,
-cuidadosamente atada com fita de seda azul.
-
-Abrimos:
-
-Dentro, muito secio e garrido, um palmito; ao lado, teso e perfilado, um
-cartão de visita:
-
- _Fulana de tal._
-
-Desde aquelle momento, o _bacillo virgula_ do matrimonio inficiona o
-nosso organismo. Perdemos a vontade de comer, damos ais, suspiramos á
-lua, fazemos versos, cantamos o _choradinho_ e principiamos a cuidar nas
-roupas brancas.
-
-Se não mudamos immediatamente de terra, unico remedio efficaz, estamos
-perdidos.
-
-Que me conste, até hoje, dos atacados pela fatal molestia só resiste um—o
-Velloso. Se escapa até aos quarenta, vae para o museu do Inglez.
-
- * * * * *
-
-Perde-se em a noite dos tempos a origem d’essa funesta cerimonia:—_a
-eleição dos compadres_.
-
-Sei que dubia é, ainda, a tradição que a localiza na Coroada; porquanto,
-auctores varios e jurisconsultos sisudos estabelecem no centro da villa a
-instituição de tão perfidas solemnidades.
-
-As pandectas da Assembléa, os folios da Collegiada, os annaes da Ex.ᵐᵃ
-Camara nada informam a tal respeito. Em vão os consulto em frequentes e
-longas vigilias.
-
-Esta prioridade de direitos na organização do escrutinio annual tem por
-vezes suscitado controversias violentas e disputas acaloradas entre os
-pacificos habitantes da rua de S. João e os da Coroada; e se não fôra a
-sisudez, prudencia, diplomacia e tino politico dos conspicuos inquilinos
-do Santo Precursor, certamente já teriamos a lamentar successos graves e
-não pouco deploraveis acontecimentos.
-
-No emtanto, a malquerença entre os dois povos existe e existe evidente.
-
-Na rua de S. João, um habitante da Coroada nunca foi um cidadão da
-villa:—foi, e é um _pelludo_ da aldéa; e a esta offensa responde a
-Coroada affirmando a superioridade dos seus costumes e dos seus habitos,
-allegando, com assaz persuasiva logica, que não tem lá, nem precisa, de
-Borralhos ou de Egyptos.
-
-A origem de tão lastimaveis dissensões está na eleição das _comadres_.
-
- * * * * *
-
-A epocha d’esta cerimonia não foi, como alguem poderá imaginar, fixada ao
-acaso. Fixou-se traiçoeiramente para o domingo de Ramos.
-
-Domingo de Ramos quer dizer: Semana santa e Paschoa—isto é—_soirées_ na
-egreja e na Assembléa e—mais ainda—chavenas de chá sem assucar preparadas
-pelo Cruz com agua do Christello.
-
-Aos olhos incautos isto nada significa, mas significa muito para o
-espirito do observador, porque lhe mostra em caminho perfeitamente livre
-e desembaraçado, juncado de rosas e saturado de aromas,—a comadre e o
-compadre amarrados um ao outro com as fitas de seda do palmito e da caixa
-das amendoas. Vão alegres, risonhos, chilreando, sorrindo, despenhar-se
-no abysmo sombrio do matrimonio, onde o Magalhães, com uma saia de mulher
-aos hombros, attencioso e mitrado, lhes desfecha quatro tretas de latim.
-
-O palmito aproxima o compadre da comadre: _agradeço a V. Ex.ª—dou-lhe os
-meus sentimentos, porque foi infeliz na sorte—merecia compadre melhor, e
-tal, etc._,—diz elle.
-
-—_Oh sr. Fulano! Por quem é!... fui até a mais feliz.—Cá espero as
-amendoas.—Olhe que é uma vergonha se as não dá.—Quero vêr, eu quero vêr
-como se porta_—diz ella.
-
-Ao despedir, um cumprimento demorado, um sorriso, um olhar... e compadre
-e comadre trocam mentalmente, na visão doirada do futuro, o grau do
-parentesco.
-
-Magalhães surge ao longe, entre nuvens côr de rosa.
-
-A sr.ª Dona Maria do Hospital pisca graciosamente o magano olho
-esquerdo...
-
- * * * * *
-
-Na quarta-feira santa, entra um rapazito no portal; bate as palmas—_sou
-eu!—faz favor?_—e entrega uma perfumada caixinha, toda alegre e catita,
-oiro e setim azul, recheada de amendoas e confeitos.
-
-No fundo espreguiça-se sorrateiramente uma carta.
-
-Rubôr ás faces, noventa pulsações por minuto, leitura tremula, arfar de
-seios, um suspiro, dois suspiros.
-
-Lê-se, relê-se e torna-se a relêr a carta.
-
-Trabalha o ferro de frisar com mais cuidado, estuda-se uma prega mais
-graciosa para a mantilha, flor ao peito para o que der e vier, e—entra a
-_comadre_ na egreja.
-
-Quando abre o livro das orações, já não atina com o _Padre-Nosso_ nem
-com a _Ave-Maria_. Com os olhos da imaginação, só vê e lê os caracteres
-seguintes:
-
- _Minha senhora._
-
-_Vel-a e amal-a, foi obra d’um momento. Quiz a fagueira sorte escolher-me
-para compadre de Vocellencia. Bemdita seja ella que me aproximou de quem,
-ha muito tempo, é o enlevo dos meus olhos, a alegria da minha alma, a
-ventura do meu coração. Tomo a ousadia de offerecer a Vocellencia as
-amendoas «inclusas». Desculpará Vocellencia. Na minha terra fazem-nas
-muito bem feitas. Doces d’ovos e amendoas são as especialidades. Se o
-Papá e a Mamã gostarem, eu mando vir mais. É bom comer poucas, porque são
-muito indigestas e fazem dôres de barriga. Serei correspondido n’este meu
-amor? Oh ceos! Quanto anhelo sabel-o! De Vocellencia_
-
- _até á morte_
-
- _V._
-
- * * * * *
-
-Durante as _licções_, n’aquelles intervallos em que o Albino canta o seu
-_macarronico_, o Padre Alexandre gargareja o melhor e o mais brunido do
-seu latim e os outros padrecas se revezam, previamente annunciados pelo
-rapaz sacrista que, de saiote vermelho, vae apagando, um a um, os treze
-tocos da girandola—compadre e comadre libram as suas almas pelas naves
-d’um mystico arroubo, ebrios de felicidade, de esperanças risonhas, e
-dulcificados fartamente com amendoas de Tuy e rebuçados de avenca.
-
-Á noite, na visita ás casas do Senhor, o compadre acompanha a comadre.
-Atraz, cochicham o futuro sogro e a futura sogra. As beatas, ao longe,
-segredam mais um casamento... Compadre e comadre já se tratam por tu.
-Fica combinado o _gargarejo_.
-
-—_Amo-te_—_boas noites_—_até amanhã_.
-
-Domingo de Paschoa.
-
-Baile na Assembléa.
-
-A _comadre_, quando alguem a pede para dançar _de roda_, está sempre
-compromettida. Só dança com o _compadre_.
-
-_Compadre_ escolhe os melhores doces para a _comadre_; rodeia de
-attenções a Mamã da dita _comadre_; entretem o cavaco com o Papá da dita
-_comadre_; é _vis-à-vis_ do Mano da dita _comadre_.
-
-As amigas da _comadre_, quando o _compadre_ está em pé, arranjam-lhe logo
-um logar ao pé da _comadre_.
-
-—_Comadrinha vae, compadrinho vem._
-
-No fim da noite, entram já na conversa as roupas de linho, de panno cru,
-as caçarolas, as panellas.
-
-Lá ao longe, muito ao longe, sempre em nuvens côr de rosa, a fugitiva
-miragem d’um cavalheiro, irreprehensivelmente encasacado, gravata e luvas
-brancas,—curvado em graciosa mesura perante o Papá e a Mamã.
-
-Um pedido—um _sim, Papá!_—uma lagrima da Mamã—um _ai!_ e um fanico.
-
-Dois mezes depois, Padre Magalhães dá o nó; e o mesmo raio do sol, que
-em Abril nos despertava, penetra indiscretamente na alcova nupcial e
-segreda-nos ao ouvido:
-
- _forte lôrpa!_
-
-Annos passados, quando compadre e comadre teem quatro filhas casadoiras,
-são elles que reclamam a eleição.
-
-Cada _palmito_ que sai de casa é um anzol.
-
-Para o Velloso—oh Paes de familia!—só a _coca_ ou o botirão.
-
- * * * * *
-
- Gentis senhoras da Coroada!
-
-Por piedade! Acabae com este tributo mais violento e mais horrivel do que
-o tributo de sete mancebos e sete donzellas que, outr’ora, Athenas pagava
-a Creta.
-
-Por piedade, senhoras!
-
-Arrebataes, annualmente, lá para cima, a melhoria dos mancebos, a nata
-da mocidade, a fina essencia da juventude, que depois abandonaes a
-essas ruas—obesos, gordurosos, crivados de callos, _paterfamilias_ de
-_cache-nez_, lenço tabaqueiro e barretinho d’algodão.
-
-D’aqui a pouco não ha um rapaz solteiro em Valença; e como as
-estatisticas demonstram que, para cada mancebo casadoiro ha, entre nós,
-vinte damas em disponibilidade, attentae que não é risonho o vosso
-futuro, porque está provado á evidencia, que os rapazes de fóra sabem
-escapar á magia dos vossos palmitos.
-
-Vêde o Velloso, o Leopoldo, o Gomes da Artilheria, o Prado, o dr. Brandão.
-
-Transijamos, pois, gentis damas:
-
-Nós estamos promptos a enviar annualmente para a Coroada, quarenta
-arrobas de amendoas e quarenta dictas de rebuçados dos melhores e dos
-mais ricos que tenham o Có-Có, e o Telmo Parada.
-
-Outrosim nos compromettemos ao pagamento d’um tributo annual de tres
-mancebos casadoiros, que vos serão entregues no domingo de Ramos, ao meio
-dia, em frente das _Alminhas_, com os respectivos bahus de roupa branca:
-camisas, ceroilas, piugas, barretinhos de dormir, pannos da barba.
-
-Para o pagamento d’este tributo organizaremos um gremio, como o dos
-negociantes, na distribuição da decima.
-
-Os tres desgraçados serão indicados pela sorte. Irão esses para as negras
-penas do matrimonio, mas, ao menos, os restantes poderão em todo o anno
-andar satisfeitos, alegres, livres de melancholias e de... _palmitos_.
-
-Sou casado tres vezes, senhoras! O Magalhães que o diga...
-
-E tanto ás defunctas consortes, como á companheira actual, quem me
-prendeu foi a vossa eleição.
-
-Por isso, quando agora vejo um palmito é o mesmo que vêr o diabo.
-
-Em nome da mocidade, protesto contra a
-
-=eleição das comadres!=
-
-
-
-
-XXIV
-
-Ultimas palavras
-
-
-Na vida social, uma povoação possue a complexidade do organismo d’um
-individuo. Pode estudar-se physiologicamente e psychologicamente.
-
-Tem sentimentos, expansões, dôres, coleras, alegrias; tem orgãos,
-musculos, enfermidades e lesões; periodos de vigor, de engrandecimento e
-de decadencia.
-
-Athenas foi a alma da civilização hellenica; Sparta teve a musculatura
-dos fortes na hegemonia das cidades gregas; Roma cingiu o mundo com os
-seus braços de ferro; na gloria dos seus triumphos e das suas conquistas
-teve a vertigem da sensualidade e do prazer; libertinou-se, effeminou-se
-e apodreceu na enxurrada das sargetas.
-
-Paris ri; e Londres, embrutecida com o _gin_, com as _fresh-girls_ e
-com os deboches de Cleveland-Street, offerece o nojento bandulho ao
-facalhão de Jack, ou escouceia no _match-box_ do Pelican Club, em que
-dois homens se esborracham a sôco, com grande gaudio d’isso que é a
-quinta essencia da pelintrice, do egoismo, da ambição, do orgulho, da
-_pataqueirice_ réles da viella e que nas altas espheras do _High-life_,
-em _Leicester Square_, no _Regent’s Park_ ou no _Covent Garden_ se
-intitula pomposamente—um _lord_!
-
- * * * * *
-
-Appliquemos aqui, aquella conhecida theoria de Broca sobre a relação
-entre o volume cerebral e a intelligencia.
-
-O volume do cerebro pode, segundo o eminente sabio, indicar maior ou
-menor desenvolvimento intellectual.
-
-Ora, o que é o cerebro?
-
-É a parte pensante do organismo.
-
-N’este individuo social—uma povoação—onde o devemos procurar?
-
-Na sua parte illustrada; nos filhos que se distinguem pelas
-manifestações da sua actividade mental, e, assim, poderemos dizer que
-o numero d’elles está para a consideração e importancia intellectual
-do individuo—povoação—como o volume do cerebro está para o
-individuo—homem.—Tanto maior, quanto mais illustrada, tanto menor quanto
-menos culta.
-
-E admittido isto, desassombradamente podemos affirmar que nenhuma outra
-povoação do paiz, com egual numero de habitantes—nas cathedras do
-Ensino superior, nas elevadas posições do Exercito, nos altos cargos da
-Magistratura, na Classe medica, na Advocacia, no Commercio e frequentando
-ainda os cursos superiores—tenha numero egual, que não superior, de
-filhos, e tão, que não mais, distinctos.
-
-Mas, honrosa como é esta superioridade tambem ignobil e infamante é a
-indolencia a que nos entregamos, com que abandonamos os nossos direitos
-politicos, com que ficamos de bocca aberta e mãos nos bolsos, na triste
-impassibilidade do fackir, assistindo, impotentes como um eunucho, a
-essa activa evolução que impulsa as mais insignificantes povoações,
-transformando-as com os benesses das modernas instituições e levando-lhes
-as arterias á hematose dos grandes centros civilizados.
-
-O titulo de _burgo podre_, com que realmente este concelho é mencionado
-em Lisboa, deve ser para nós mais degradante do que a marca a fogo do
-grilheta e do forçado.
-
-Tempo é de nos libertarmos d’essa tristissima condição de barregan, em
-eterna dependencia de qualquer tia, velhaca e rufiona que á nossa custa
-encha a pança e o _pé de meia_.
-
-Na choldra da prostituição politica do nosso paiz ha circulos que
-necessitam de caricias e de namoro; ha circulos fieis, ainda que
-rarissimos; ha-os de pernas abertas para quem mais der, e ha-os
-_pataqueiros_ destinados a desvirgar os meninos lisboetas, ou a entregar
-o corpo ao primeiro pandego, que lá de Bijagóz ou de Paio Pires, se
-lembre de passar por elles, fazendo caminho para ir ajudar a embolar os
-toiros no curro de S. Bento.
-
-Esta é a nossa triste condição.
-
- * * * * *
-
-Ha seis ou oito annos que n’este _burgo podre_ se manifestaram uns debeis
-symptomas de vigorização politica. Regosijei.
-
-Pareceu-me que ainda poderia ver Valença como as outras terras; á mesa
-do orçamento, com o seu logar marcado e o seu talher, e não como então
-estava: debaixo do banco, apanhando de quando em quando o osso esfolado e
-o pontapé do _gajo_ que a levara pela trela do voto.
-
-Vans esperanças! Antes o Passado. Appareceu effectivamente a Politica,
-mas esfomeada, esqueletica, larvada, com manhas de gato lambareiro e
-caricias de cadella aluada.
-
-Anichou-se por ahi, comendo á _tripa-forra_ e passando o tempo ao sol, de
-barriga para o ar e carcela desapertada.
-
-Tem dichotes de histrião e insultos de fadista. É insupportavelmente
-porca: onde toca deixa baba; onde poisa deixa excremento. Quando fala não
-deita perdigotos, deita escarros; quando escreve não o faz com tinta, mas
-com pus.
-
-Se graceja causa nauseas, se chora provoca o pontapé.
-
-Examinada physiologicamente encontramos-lhe deficiencia de orgãos. É
-impotente e a impotencia organica reflecte-se na alma, porque não tem
-enthusiasmos, nem aspirações, nem... vergonha.
-
-Conjuga só um verbo:—comer; só conhece um pronome:—nós.
-
-Muda de patrão de tres em tres annos. Pouco se importa com isso. Se elle
-a trata mal, agacha-se, servil e humilde; se a trata bem, esfarrapa-lhe
-uma cannela ou levanta a perna e... molha-o.
-
- * * * * *
-
-Um ataque de epilepsia politica agita actualmente os magnates eleitoraes.
-
-Está no chôco novo deputado...
-
-Indigitam-se dois filhos da terra como candidatos.
-
-A rua de S. João torce o nariz...
-
-Esta rua de S. João representa os mesmos _chimpanzés_ que, em tempos,
-rejeitaram o sr. dr. Illidio Ayres para facultativo do Hospital e o sr.
-dr. José Vieira para medico da Camara.
-
-Para que V. Ex.ª conheça bem a gente que o rodeia, sr. dr. Pestana,
-aconselho-o a que peça pormenores ácerca das discussões que o seu nome
-provocou nos _centros_.
-
-_Arrufos, gréves, amuos, etc._
-
-Diz V. Ex.ª que o Zinão é _politico_ e _má-lingua_.
-
-Contra a primeira accusação protesto respeitosamente, e rogo a V. Ex.ª
-que faça melhor conceito do meu caracter.
-
-Emquanto á segunda, direi a V. Ex.ª que tem mais a recear da _boa-lingua_
-e da _fidelidade_ dos seus _pseudo-partidarios_, do que da critica
-zinoica.
-
-Eu defendi sempre a candidatura d’um filho da terra, emquanto que os seus
-_amigos_... Informe-se, informe-se V. Ex.ª, porque talvez isso lhe seja
-proveitoso.
-
- * * * * *
-
-Os trabalhos eleitoraes teem peripecias engraçadissimas que davam para
-novo volume de _Sinapismos_.
-
-Abstenho-me, porém, de explorar esse inexgotavel filão de ridiculos,
-existente na massa cerebral—grude de sapateiro e pura secreção de
-rins—dos nossos politiqueiros.
-
-Tenho na minha frente dois filhos de Valença. Não sei, nem quero saber
-qual d’elles tem mais probabilidades de vencer.
-
-Oxalá que todas as difficuldades desappareçam; que todas as indisposições
-terminem, que todos os esforços se reunam e que esta terra possa,
-finalmente, ter em S. Bento um representante util e proveitoso, como deve
-ser qualquer dos seus filhos.
-
-Seja qual fôr o vencedor e a opinião politica que perfilhe, eu saúdo
-n’elle o valenciano que recebe o mandato dos seus patricios, e oxalá
-que a eleição de 30 de março de 1890 seja o inicio d’uma politica
-digna, purificada de trampolinices, de arruaças, de _borralhadas da
-Santa_,—independente de histriões e de tartufos, que até á data teem
-manchado a consideração d’esta terra com o infamissimo labéo de
-
- =burgo podre!=
-
-Eis o que para Valença deseja o _má-lingua_ do
-
- _Zinão_.
-
-
-
-
-NOTAS
-
-
-[1] Este artigo foi publicado, quando a Junta de Saude inventou o
-Microbio de 1889.
-
-[2] Este _digo_ não é consequencia d’uma simples abstracção do meu
-espirito. Originou-se no tratamento, ha dias applicado no posto de
-desinfecção do Caes, onde os viandantes eram considerados parreiras
-phyloxeradas e polvilhados com enxofre... a folle de sopro.
-
-É economico e não faz bem nem mal.
-
-Antes pelo contrario...
-
-[3] Isto é francez e do mais decente.
-
-[4] Com esta classificação é que foi ás nuvens o sr. dr. Pacheco. Nunca o
-vi tão zangado, a não ser quando aquelle barqueiro de Vigo lhe respondeu
-á lettra...
-
-[5] Salvo seja.
-
-[6] Para partos era o melhor clinico que cá havia. As senhoras viam-lhe a
-barriga e... suppunham logo simultaneidade de soffrimento.
-
-[7] Justininho.—Desculpa se foi tolice. Faz como o sr. Illydio
-Dias:—declaração nos jornaes. Eu cá não me zango.
-
-[8] A metrificação é livre, como a setta no ar.
-
-N’estas coisas de versos, sigo a opinião do Capitão-mór da _Morgadinha_:
-o papel é para se escrever e não para se estragar com versos de quatro
-syllabas.
-
-[9] O que arde cura, diz o _Pimpão_ e confirma a sagrada Escriptura.
-
-[10] Podemos fallar á vontade, que isto é grego para o sr. Joaquim...
-
-[11] Do natural.
-
-[12] Copia do natural. Recommendo aos leitores que tomem um bocado d’ar;
-especialmente aos que soffrem d’asthma.
-
-[13] Ortographia sonica.
-
-[14] Historico.
-
-[15] Um bocado de latim, no meio d’estas coisas, faz sempre bom effeito,
-porque dá á gente um tom de sabio. Se foi asneira Vossa Excellencia
-desculpará... Do que me ficou do Conego Vaz, foi o melhor que pude
-arranjar. Vossa Excellencia tem cara de quem sabe muito latim.
-
-[16] Historico. Anno de Nosso Senhor Jesus Christo 1886.
-
-[17] Para vergonha nossa, direi que tão bello regulamento é o que ainda
-vigora n’esta terra. Em leis civilisadas, ou Valença, ou as terras do
-Kalakana...
-
-[18] Esmiuço, aqui, materia conhecida, para boa comprehensão d’alguns,
-menos versados em Sciencias naturaes. Em questões de tanta magnitude,
-toda a clareza é pouca.
-
-[19] Nem tudo se póde dizer claramente. Ha sempre quem dê mau sentido ás
-coisas...
-
-[20] A camara, n’essa occasião, era composta dos srs. Zagallo, Vieira,
-José Seixas, J. Lopes, Albino, J. Narciso e do orador.
-
-[21] Peço attenção para a redacção das propostas.
-
-[22] Ao verificar a impressão d’estas propostas vejo, com desgosto, que
-os typographos espalharam por ahi, sem nexo nem intenção, bastantes
-pontos, compromettedores para a candidez e honestidade de costumes
-d’alguns Cavalheiros. Ahi fica a declaração para os salvar da intenção
-criminosa.
-
-São coisas que succedem...
-
-[23] Sinto que as acanhadas dimensões d’este volume me não permitiam
-incluir um artigo, que esbocei, ácerca da origem do Patriarcha. Tem por
-titulo: _Aventuras do Patriarcha dos Gandricos e do seu amigo Gargalinho,
-em Paris da França_. É um estudo realista. Faço, porém, obra para dois
-tostões...
-
-[24] Não vá este artigo fundamentar suspeitas, ácerca das crenças
-do auctor. Zinão respeita a Religião e perfilha o que ella tem de
-sensato; mas só a admitte no Templo—depois de varrido de hypocritas, de
-traficantes, de escorropicha-galhetas e de icha-corvos—com um Evangelho e
-um Sacerdocio: a Caridade.
-
-[25] Depois do que expuz, acerca do _elogio-mutuo_, n’estas paginas, onde
-manuseio ridiculos, poderá alguem attribuir-me intenções provocadoras da
-tal _convenção_, com a referencia que ahi faço a um homem, que, entre nós
-destramente maneja a penna.
-
-Declaro que, n’estas e n’outras referencias, digo o que penso e o que
-sinto; sem pretenções a adulador, independente de preconceitos, de
-considerações pessoaes e das imposições dogmaticas com que, por ahi, se
-celebra e incensa muita _coisa_ vulgar e ôca.
-
-Não preparo o exito dos _Sinapismos_ com a offerta de exemplares ás
-redacções, ou aos amigos, que as frequentam, com aquelles galanteadores
-e irresistiveis offerecimentos de: _ao distinctissimo escriptor_, _ao
-precioso estylista_, _etc._, com que se arma ao reclamo,—porque d’este
-não necessito.
-
-Não viso á honra de ser considerado entre os litteratos, e por isso
-occulto o meu nome; não escrevo por especulação, e por isso offereço aos
-pobres qualquer producto do meu trabalho.
-
-Dos defeitos da obra, que são muitos, salvo-me com este desinteresse e
-com esta independencia de opinião.
-
-Não me dotou Deus com _feitio_ para incensar vulgaridades pretenciosas,
-nem tambem com orgulho e vaidade para repudiar, ou amesquinhar meritos.
-
-Entre a Critica e a minha individualidade está essa mascara:—Zinão. Se
-aquella me fôr hostil, respeital-a-hei no que tiver de sensato; se me fôr
-favoravel, francamente, não lh’o agradecerei, porque não peço elogios.
-
-Que este livro proporcione a quem o ler alguns minutos de distracção; que
-essa distracção valha _uns tostões_ e que d’esses tostões possa apartar
-_uns cobres_, que mitiguem alguma dôr—eis o que ambiciono d’este ignorado
-laboratorio, onde preparo os _Sinapismos_.
-
-[26] Não posso ficar calado perante um tão extraordinario acontecimento,
-como esse que o sr. Joaquim debate na imprensa, com as suas sessenta
-epistolas. Altero, pois, a ordem dos capitulos, que já estavam no prelo,
-para não perder a opportunidade d’estas linhas coordenadas á pressa,
-entre as espiraes azuladas de dois _Princezas_, de seis ao vintem.
-
-[27]
-
- Isto sem pimenta não tem graça.
- Foi só uma pitadinha...
-
-[28] Este _Marilio dos bosques_ já deu _sorte_ com os _Sinapismos_.
-D’estes é que eu queria mais...
-
-Uma pergunta: se Cuvier agora trabalhasse na sua zooclassificação, onde
-incluiria o Marilio?
-
-Oh Marilio!—tu respondeste com um peccado ao entregador dos
-_Sinapismos_...
-
-Approxima-te.
-
- Vira-te para cá...
- Agora para lá
- Pôe-te de _banda_...
- ..................
- ........... olha! Vae-te embora.
-
-[29] Já publicado.
-
-[30] Cumpre-me declarar, para respeitabilidade das instituições de
-segurança publica da nossa terra, que o sr. Sampaio não exercia,
-n’aquella epocha, as funcções de Commissario das Policias.
-
-[31] Consta-me que este cão foi depois resgatado pelo sr. dr. Pestana.
-Sua ex.ª está aqui e póde dizel-o...
-
-[32] São indigestos estes periodos. Talvez, até, que Vossa Excellencia,
-approximando a pituitaria, sinta os vestigios do mau halito, que essa
-casquilha matrona, D. Politica, exhalava, quando a auscultei para
-conhecer as causas da atonia que a consome.
-
-No entanto, queira Vossa Excellencia lêr. Talvez que, com estes
-sinapismos, a creatura melhore e lhe suba a côr ao rosto, indicio de...
-saude.
-
-Se Vossa Excellencia tal perceber, pôde haver cura.
-
-Eu (aqui á puridade) duvido.
-
-[33] Vejam-se os acontecimentos politicos de 21 de Outubro e 3 de
-Novembro e todos os outros d’esta especie.
-
-[34] No tocante a corpo commercial ou Valença, ou... Manchester.
-
-[35] Especializo estes cavalheiros porque são os mais calorosos n’esta
-questão.
-
-[36] Agua vae...
-
-[37] Classificando politicamente estes dois cavalheiros, declaro, para
-facilidade das futuras investigações historicas, que me refiro ao
-momento actual, e que faço obra pelo que ouço dizer e não pelas suas
-consciencias, que são inaccessiveis.
-
-[38] _Portugal contemporaneo_, do sr. Oliveira Martins.
-
-[39] Alludo á infamissima vingança que, ha annos, se perpetrou na
-habitação d’um cidadão, alli para os lados da Ponte.
-
-[40] Estava a publicação n’estas alturas, quando em Valença se resolveu a
-_Questão da Musica_, nas condições que eu previ.
-
-A _rusga_ foi, porém, tão desenfreada e, sobretudo, d’uma tal
-inopportunidade que não merece _sinapismo_: merece ventosa.
-
-[41] Estes F. ou C. são—já se vê—epicenos.
-
-[42] _Stratego_—posto militar, com honras de general. O _Archontado_
-era um dos poderes do Estado. Tinha nove membros; o terceiro, que
-commandava o exercito, chamava-se _Polemarcho_, mas, além d’este, havia
-os polemarchos inferiores, que tinham o posto inferior aos _strategos_.
-
-_Areopago_ era um tribunal civil, que eu aqui compararei—por exemplo—á
-nossa Excellentissima Camara.
-
-Intitulava-se o _Senado do Areopago_.
-
-_Eponymo_—era o mais graduado dos _archontes_ e, portanto, o chefe do
-partido, digo, do Estado.
-
-[43] _Ostracismo_—era a condemnação ao exilio... equivalente ás actuaes
-transferencias.
-
-[44] Aproximadamente 20 de Outubro e 3 de Novembro, pela nossa divisão do
-anno.
-
-[45] Estas camisas só eram usadas pelos fanaticos religiosos, porque
-arrancavam o coiro e... o cabello.
-
-[46] _Prytamos_—cidadãos poderosos.
-
-[47] Este nome é derivado d’um verbo: _cambronnear_, que teve uma leve
-referencia em Waterloo. Vem do sanskrito e conjuga-se: eu cambronneio, tu
-cambronneias, etc. Indica uma funcção organica.
-
-[48] Os _thetas_ constituiam a classe mais inferior dos cidadãos
-athenienses.
-
-[49] Não pude comprehender no texto se aquelle possessivo _seus_ se
-refere á cidade, se a Pericles.
-
-[50] _Eupatridas_—Proprietarios.
-
-[51] Kshatrias:—guerreiros da antiga India.
-
-[52] Sudras:—escravos.
-
-[53] Dmoes:—escravos para o serviço domestico.
-
-[54] Talentos:—moeda grega de valor variavel.
-
-[55] Coisa de tres kilometros...
-
-[56] Recordo aos meus leitores que este Pericles foi o iniciador, por
-suggestão, da eschola prudhommica.
-
-[57] Segundo as theorias recentemente apresentadas por philantropicos
-e honradissimos Cresus, o dever dinheiro é _coisa_ pouco escorreita de
-dignidade. A honradez não gasta da mesma tinta com que se acceita uma
-lettra. Um titulo de divida—documento d’uma transacção—é assim como a
-_marca a fogo_ que nas ancas do potro indica o nome do creador. O potro
-vende-se, recebe-se o dinheiro, mas o creador quando o encontra diz
-sempre: _aquelle é dos meus_.
-
-[58] Por decencia vejo-me obrigado a _inglezar_ esta e outras phrases.
-Saiba, porém, o leitor que todas ellas, significando as mais abjectas
-phantasias de Lord Deboche, foram publicadas nas columnas da _Pall Mall
-Gazette_, em quatro numeros de julho de 1885.
-
-[59] Só para bebedeiras não chegam cinco libras diarias a qualquer
-d’esses animaes. O duque de Edimburgo, por exemplo, exgotta ao jantar
-quatro garrafas de champagne e dois litros de cognac.
-
-[60] Pag. 155.
-
-[61] Direi, de passagem, que isto nem sempre succede. Notam-se, ás vezes,
-umas anomalias, uns desvios da força nervosa que partindo do cerebro,
-vae actuar n’outros musculos, produzindo manifestações de sentimentos
-oppostos aos que nos impressionaram.
-
-Por exemplo:
-
-Quando vamos ao theatro e ouvimos o sr. Sampaio _jeremiando_ o seu papel
-n’aquelle plangente e lugubre rhythmo d’uma _licção_ de _quarta-feira de
-trevas_ e vemos que elle tenta reproduzir com o rosto, com o gesto, com
-os olhos, as amarguras da sua alma atribulada por esta ou por aquella
-situação dramatica—nós não choramos; rimos e rimos a valer, com tanto
-mais furor, quanto mais afflictiva é a attitude do sr. Balagota.
-
-Outro exemplo:
-
-Quando o sr. Joaquim, depois de ler os _Sinapismos_, solta umas
-casquinadas de riso tirante a verdadeiro e lhe ouvimos dizer que sim,
-que o Zinão tem muita graça e desde que elle, Zinão, anda na rua, elle,
-sr. Joaquim, põe mais uma tranca na porta, a gente—em vez de rebolar
-no chão aos tombos com riso provocado por tão espirituosa facecia—fica
-muito séria, e até sente o quer que seja que instinctivamente vae
-enfiando em cada mão o dedo _mata-parasitas_ entre o _fura-bolos_ e
-o _maior-de-todos_, n’aquella posição com que o meu amigo M. Silva
-se previne cautelosamente contra os numerosos _amigos_ que no dia da
-Cruz—uma vez por anno, felizmente—lhe vão festejar a garrafeira.
-
-Spencer explica isto na sua _Physiologie du rire_:
-
-_La decharge de la force nerveuse peut se tourner en excitation pour
-d’autres nerfs qui n’ont pas de relation directe avec les membres et,
-ainsi, amener d’autres sentiments et idées._
-
-A individualidade do sr. Sampaio no convivio diario, por quaesquer razões
-desperta o riso; e a individualidade do sr. Joaquim, pela sua auctoridade
-_vice-administrativa_ e mais predicados ingenitos provoca a seriedade e o
-tal cruzamento dos dedos.
-
-Convivendo diariamente com estes cavalheiros, as impressões que elles
-nos causam vão, por assim dizer, armazenar-se em nosso cerebro,
-condensando-se e augmentando de intensidade em força nervosa.
-
-Quando, pelas facecias, ou pelas jeremiadas, elles nos communicam uma
-impressão mais forte, ha uma expansão brusca e violenta de força nervosa
-_armazenada_, que vae actuar em nervos e musculos correspondentes a
-sentimentos diversos.
-
-[62] Oh padre capellão: que rica _tirada_ para _um juramento de
-bandeiras_...
-
-Só falta: _é a terra que cobre os ossos de nossos avós!_
-
-
-
-
-Indice
-
-
- Paginas
-
- Duas palavras 5
-
- Aos pobres de Valença 9
-
- I—O microbio 13
-
- II—Passe-Calles 23
-
- III—Carta a Sua Ex. ª o Sr. Governador de Paysandu 63
-
- IV—Uma descoberta do dr. Charcot 79
-
- V—Perfis 91
-
- VI—Coisas de egreja 105
-
- VII—Litteraturas 127
-
- VIII—Quimtilinarias 135
-
- IX—Politiquices 145
-
- X—Violetas 169
-
- XI—Os quadros da Collegiada 177
-
- XII—O senhor deputado 189
-
- XIII—Carta ao Zé Senso 201
-
- XIV—A Questão da Musica 209
-
- XV—As muralhas 235
-
- XVI—A manifestação de 14 de janeiro 247
-
- XVII—A Sociedade dos Provareis 279
-
- XVIII—Uma recita de curiosos 299
-
- XIX—Transferencias 309
-
- XX—A questão ingleza 321
-
- XXI—A manifestação dos artistas 333
-
- XXII—Carta a Sua Ex. ª o Sr. Administrador 347
-
- XXIII—Compadres e comadres 363
-
- XXIV—Ultimas palavras 375
-
-
-
-
-Emendas
-
-
- PAG. LINH. ONDE SE LÊ LEIA-SE
-
- 54 24 d’uma fórma d’um modo
- 112 22 origem viagem
- 127 16 eminente imminente
- 162 10 e 16 Luiz XI Luiz XIV
- 177 11 paleonlithica paleolithica
- 180 12 as borrasse os borrasse
- 205 22 corcodilo crocodilo
- 239 5 nada valeram nada valerem
- 318 25 anavalharem anavalhar
-
-
-A perspicacia e benignidade do leitor confiamos outras irregularidades
-que n’essas paginas possa encontrar.
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Sinapismos, by Zinão
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SINAPISMOS ***
-
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-
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