summaryrefslogtreecommitdiff
diff options
context:
space:
mode:
authornfenwick <nfenwick@pglaf.org>2025-02-07 17:30:36 -0800
committernfenwick <nfenwick@pglaf.org>2025-02-07 17:30:36 -0800
commit9c1e13c47ce70834342d18f0086ad8c3c936b4f9 (patch)
treec5d01dd9130d8ff55c3c6a32d1b1b71bbd1ed98a
parent0d60a374b939091d60450c4a48ea453f4d5c61ef (diff)
NormalizeHEADmain
-rw-r--r--.gitattributes4
-rw-r--r--LICENSE.txt11
-rw-r--r--README.md2
-rw-r--r--old/55797-0.txt6648
-rw-r--r--old/55797-0.zipbin121650 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/55797-h.zipbin247909 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/55797-h/55797-h.htm8737
-rw-r--r--old/55797-h/images/cover.jpgbin123135 -> 0 bytes
8 files changed, 17 insertions, 15385 deletions
diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes
new file mode 100644
index 0000000..d7b82bc
--- /dev/null
+++ b/.gitattributes
@@ -0,0 +1,4 @@
+*.txt text eol=lf
+*.htm text eol=lf
+*.html text eol=lf
+*.md text eol=lf
diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt
new file mode 100644
index 0000000..6312041
--- /dev/null
+++ b/LICENSE.txt
@@ -0,0 +1,11 @@
+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
+
+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
diff --git a/README.md b/README.md
new file mode 100644
index 0000000..fab0749
--- /dev/null
+++ b/README.md
@@ -0,0 +1,2 @@
+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
+eBook #55797 (https://www.gutenberg.org/ebooks/55797)
diff --git a/old/55797-0.txt b/old/55797-0.txt
deleted file mode 100644
index b85ee6a..0000000
--- a/old/55797-0.txt
+++ /dev/null
@@ -1,6648 +0,0 @@
-The Project Gutenberg EBook of Memorial de Ayres, by Machado de Assis
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
-to check the laws of the country where you are located before using this ebook.
-
-
-
-Title: Memorial de Ayres
-
-Author: Machado de Assis
-
-Release Date: October 23, 2017 [EBook #55797]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIAL DE AYRES ***
-
-
-
-
-Produced by Laura Natal Rodriguez & Marc D'Hooghe at Free
-Literature (online soon in an extended version, also linking
-to free sources for education worldwide ... MOOC's,
-educational materials,...) (Images generously made available
-by the Internet Archive.)
-
-
-
-
-
-MACHADO DE ASSIS
-
-DA ACADEMIA BRAZILEIRA
-
-
-MEMORIAL DE AYRES
-
-
-H. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR
-
-7, RUA DO OUVIDOR, 7
-
-RIO DE JANEIRO
-
-6, RUE DES SAINTS-PÈRES, 6
-
-PARIS
-
-
-
-
- Em Lixboa, sobre lo mar,
- Barcas novas mandey lavrar...
-
-_Cantiga_ de Joham Zorro.
-
- Para veer meu amigo
- Que talhou preyto comigo,
- Alá vou, madre.
- Para veer meu amado
- Que mig'a preyto talhado,
- Alá vou, madre.
-
-_Cantiga d'el-rei_ Dom Denis.
-
-
-
-
-1888
-
-9 de Janeiro.
-
-Ora bem, faz hoje um anno que voltei definitivamente da Europa. O que
-me lembrou esta data foi, estando a beber café, o pregão de um vendedor
-de vassouras e espanadores: «Vae vassouras! vae espanadores!» Costumo
-ouvil-o outras manhãs, mas desta vez trouxe-me á memória o dia do
-desembarque, quando cheguei apozentado á minha terra, ao meu Cattete, á
-minha lingua. Era o mesmo que ouvi ha um anno, em 1887, e talvez fosse
-a mesma boca.
-
-Durante os meus trinta e tantos annos de diplomacia algumas vezes vim
-ao Brazil, com licença. O mais do tempo vivi fóra, em varias partes,
-e não foi pouco. Cuidei que não acabaria de me habituar novamente a
-esta outra vida de cá. Pois acabei. Certamente ainda me lembram cousas
-e pessoas de longe, diversões, paizagens, costumes, mas não morro de
-saudades por nada. Aqui estou, aqui vivo, aqui morrerei.
-
- * * * * *
-
-Cinco horas da tarde.
-
-Recebi agora um bilhete de mana Rita, que aqui vae colado:
-
- 9 de Janeiro.
-
- «Mano,
-
- «Só agora me lembrou que faz hoje um anno que você voltou
- da Europa apozentado. Já é tarde para ir ao cemiterio de S.
- João Baptista, em visita ao jazigo da familia, dar graças
- pelo seu regresso; irei amanhã de manhã, e peço a você que
- me espere para ir commigo. Saudades da
-
- «Velha mana,
-
- «Rita.»
-
-Não vejo necessidade disso, mas respondi que sim.
-
- * * * * *
-
-10 de Janeiro.
-
-Fomos ao cemiterio. Rita, apezar da alegria do motivo, não pôde reter
-algumas velhas lagrimas de saudade pelo marido que lá está no jazigo,
-com meu pae e minha mãe. Ella ainda agora o ama, como no dia em que o
-perdeu, lá se vão tantos annos. No caixão do defunto mandou guardar um
-molho dos seus cabelos, então pretos, emquanto os mais delles ficaram a
-embranquecer cá fóra.
-
-Não é feio o nosso jazigo; podia ser um pouco mais simples,--a
-inscrição e uma cruz,-mas o que está é bem feito. Achei-o novo de mais,
-isso sim. Rita fal-o lavar todos os mezes, e isto impede que envelheça.
-Ora, eu creio que um velho tumulo dá melhor impressão do oficio, se tem
-as negruras do tempo, que tudo consome. O contrario parece sempre da
-vespera.
-
-Rita orou deante delle alguns minutos, emquanto eu circulava os olhos
-pelas sepulturas proximas. Em quasi todas havia a mesma antiga suplica
-da nossa: «Orai por elle! Orai por ella!» Rita me disse depois, em
-caminho, que é seu costume atender ao pedido das outras, rezando uma
-prece por todos os que alli estão. Talvez seja a unica. A mana é boa
-creatura, não menos que alegre.
-
-A impressão que me dava o total do cemiterio é a que me deram sempre
-outros; tudo alli estava parado. Os gestos das figuras, anjos e outras,
-eram diversos, mas immoveis. Só alguns passaros davam sinal de vida,
-buscando-se entre si e pousando nas ramagens, pipilando ou gorgeando.
-Os arbustos viviam calados, na verdura e nas flores.
-
-Já perto do portão, á saída, falei a mana Rita de uma senhora que eu
-vira ao pé de outra sepultura, ao lado esquerdo do cruzeiro, em quanto
-ella rezava. Era moça, vestia de preto, e parecia rezar tambem, com as
-mãos cruzadas e pendentes. A cara não me era extranha, sem atinar quem
-fosse. E bonita, e gentilissima, como ouvi dizer de outras em Roma.
-
---Onde está?
-
-Disse-lhe onde estava. Quiz ver quem era. Rita, alem de boa pessoa, é
-curiosa, sem todavia chegar ao superlativo romano. Respondi-lhe que
-esperassemos alli mesmo, ao portão.
-
---Não! pode não vir tão cedo, vamos espial-a de longe. É assim bonita?
-
---Pareceu-me.
-
-Entrámos e enfiámos por um caminho entre campas, naturalmente. A
-alguma distancia, Rita deteve-se.
-
---Você conhece, sim. Já a viu lá em casa, ha dias.
-
---Quem é?
-
---É a viuva Noronha. Vamos embora, antes que nos veja.
-
-Já agora me lembrava, ainda que vagamente, de uma senhora que lá
-apareceu em Andarahy, a quem Rita me aprezentou e com quem falei alguns
-minutos.
-
---Viuva de um medico, não é?
-
--Isso; filha de um fazendeiro da Parahyba do Sul, o barão de Santa-Pia.
-
-Nesse momento, a viuva descruzava as mãos, e fazia gesto de ir embora.
-Primeiramente espraiou os olhos, como a ver se estava só. Talvez
-quizesse beijar a sepultura, o proprio nome do marido, mas havia gente
-perto, sem contar dous coveiros que levavam um regador e uma enxada, e
-iam falando de um enterro daquella manhã. Falavam alto, e um escarnecia
-do outro, em voz grossa: «Eras capaz de levar um daquelles ao morro? Só
-se fossem quatro como tu.» Tratavam de caixão pezado, naturalmente, mas
-eu voltei depressa a atenção para a viuva, que se afastava e caminhava
-lentamente, sem mais olhar para traz. Encoberto por um mausoleu, não
-a pude ver mais nem melhor que a principio. Ella foi descendo até o
-portão, onde passava um bonde em que entrou e partiu. Nós descemos
-depois e viemos no outro.
-
-Rita contou-me então alguma cousa da vida da moça e da felicidade
-grande que tivera com o marido, alli sepultado ha mais de dous annos.
-Pouco tempo viveram juntos. Eu, não sei por que inspiração maligna,
-arrisquei esta reflexão:
-
---Não quer dizer que não venha a cazar outra vez.
-
---Aquella não caza.
-
---Quem lhe diz que não?
-
---Não caza; basta saber as circumstancias do cazamento, a vida que
-tiveram e a dor que ella sentiu quando enviuvou.
-
---Não quer dizer nada, pode cazar; para cazar basta estar viuva.
-
---Mas eu não cazei.
-
---Você é outra cousa, você é unica.
-
-Rita sorriu, deitando-me uns olhos de censura, e abanando a cabeça,
-como se me chamasse «peralta». Logo ficou seria, porque a lembrança do
-marido fazia-a realmente triste. Meti o caso á bulha; ella, depois de
-aceitar uma ordem de ideias mais alegre, convidou-me a ver se a viuva
-Noronha cazava commigo; apostava que não.
-
---Com os meus sessenta e dous annos?
-
---Oh! não os parece: tem a verdura dos trinta.
-
-Pouco depois chegámos a casa e Rita almoçou commigo. Antes do almoço,
-tornámos a falar da viuva e do cazamento, e ella repetiu a aposta. Eu,
-lembrando-me de Goethe, disse-lhe:
-
---Mana, você está a querer fazer commigo a aposta de Deus e de
-Mephistopheles; não conhece?
-
---Não conheço.
-
-Fui á minha pequena estante e tirei o volume do _Fausto_, abri a pagina
-do prologo no ceu, e li-lh'a, resumindo como pude. Rita escutou atenta
-o desafio de Deus e do Diabo, a proposito do velho Fausto, o servo do
-Senhor, e da perda infalivel que faria delle o astuto. Rita não tem
-cultura, mas tem finura, e naquella ocasião tinha principalmente fome.
-Replicou rindo:
-
---Vamos almoçar. Não quero saber desses prologos nem de outros; repito
-o que disse, e veja você se refaz o que lá vae desfeito. Vamos almoçar.
-
-Fomos almoçar; ás duas, horas Rita voltou para Andarahy, eu vim
-escrever isto e vou dar um giro pela cidade.
-
- * * * * *
-
-12 de Janeiro.
-
-Na conversa de ante-hontem com Rita esqueceu-me dizer a parte relativa
-a minha mulher, que lá está enterrada em Vienna. Pela segunda vez
-falou-me em transportal-a para o nosso jazigo. Novamente lhe disse que
-estimaria muito estar perto della, mas que, em minha opinião, os mortos
-ficam bem onde caem; redarguiu-me que estão muito melhor com os seus.
-
---Quando eu morrer, irei para onde ella estiver, no outro mundo, e ella
-virá ao meu encontro, disse eu.
-
-Sorriu, e citou o exemplo da viuva Noronha que fez transportar o marido
-de Lisboa, onde faleceu, para o Rio de Janeiro, onde ella conta acabar.
-Não disse mais sobre este assunto, mas provavalmente tornará a elle,
-até alcançar o que lhe parece. Já meu cunhado dizia que era seu costume
-della, quando queria alguma cousa.
-
-Outra cousa que não escrevi foi a alusão que ella fez á gente Aguiar,
-um cazal que conheci a ultima vez que vim, com licença, ao Rio de
-Janeiro, e agora encontrei. São amigos della e da viuva, e celebram
-daqui a dez ou quinze dias as suas bodas de prata. Já os visitei
-duas vezes e o marido a mim. Rita falou-me delles com simpatia e
-aconselhou-me a ir comprimental-os por ocasião das festas anniversarias.
-
---Lá encontrará Fidelia.
-
---Que Fidelia?
-
---A viuva Noronha.
-
---Chama-se Fidelia?
-
---Chama-se.
-
---O nome não basta para não cazar.
-
---Tanto melhor para você, que vencerá a pessoa e o nome, e acabará
-cazando com a viuva. Mas eu repito que não caza.
-
- * * * * *
-
-14 de Janeiro.
-
-A unica particularidade da biografia de Fidelia é que o pae e o
-sogro eram inimigos politicos, chefes de partido na Parahyba do Sul.
-Inimizade de familias não tem impedido que moços se amem, mas é preciso
-ir a Verona ou alhures. E ainda os de Verona dizem comentadores que as
-familias de Romeo e de Julieta eram antes amigas e do mesmo partido;
-tambem dizem que nunca existiram, salvo na tradição ou somente na
-cabeça de Shakespeare.
-
-Nos nossos municipios, ao norte, ao sul e ao centro, creio que não
-ha caso algum. Aqui a oposição dos rebentos continua a das raizes,
-e cada arvore brota de si mesma, sem lançar galhos a outra, e
-esterilisando-lhe o terreno, se pode. Eu, se fosse capaz de odio, era
-assim que odiava; mas eu não odeio nada nem ninguem,-_perdono a tutti_,
-como na opera.
-
-Agora, como foi que elles se amaram,-os namorados da Parayba do Sul,-é
-o que Rita me não referiu, e seria curioso saber. Romeo e Julieta aqui
-no Rio, entre a lavoura e a advocacia,-porque o pae do nosso Romeo era
-advogado na cidade da Parahyba,-é um desses encontros que importaria
-conhecer para explicar. Rita não entrou nesses pormenores; eu, se me
-lembrar, heide pedir-lh'os. Talvez ella os recuse imaginando que começo
-deveras a morrer pela dama.
-
- * * * * *
-
-16 de Janeiro.
-
-Tão depressa vinha saindo do Banco do Sul encontrei Aguiar, gerente
-delle, que para lá ia. Comprimentou-me muito afetuosamente, pediu-me
-noticias de Rita, e falámos durante alguns minutos sobre cousas geraes.
-
-Isto foi hontem. Hoje de manhã recebi um bilhete de Aguiar,
-convidando-me, em nome da mulher e delle, a ir lá jantar no dia 24. São
-as bodas de prata. «Jantar simples e de poucos amigos» escreveu elle.
-Soube depois que é festa recolhida. Rita vae tambem. Resolvi aceitar, e
-vou.
-
- * * * * *
-
-20 de Janeiro.
-
-Tres dias metido em casa, por um resfriamento com pontinha de febre.
-Hoje estou bom, e segundo o medico, posso ja sair amanhã; mas poderei
-ir ás bodas de prata dos velhos Aguiares? Profissional cauteloso, o Dr.
-Silva me aconselhou que não vá; mana Rita que tratou de mim dous dias,
-é da mesma opinião. Eu não a tenho contraria, mas se me achar lepido
-e robusto, como é possivel, custar-me-ha não ir. Veremos; tres dias
-passam depressa.
-
- * * * * *
-
-Seis horas da tarde.
-
-Gastei o dia a folhear livros, e reli especialmente alguma cousa
-de Shellev e tambem de Thackeray. Um consolou-me de outro, este
-desenganou-me d'aquelle; é assim que o engenho completa o engenho, e o
-espirito aprende as linguas do espirito.
-
- * * * * *
-
-Nove horas da noite.
-
-Rita jantou commigo; disse-lhe que estou são como um pero, e com forças
-para ir ás bodas de prata. Ella, depois de me aconselhar prudencia,
-concordou que, se não tiver mais nada, e fôr comedido ao jantar, posso
-ir; tanto mais que os meus olhos terão lá dieta absoluta.
-
---Creio que Fidelia não vae, explicou.
-
---Não vae?
-
---Estive hoje com o desembargador Campos, que me disse haver deixado a
-sobrinha com a nevralgia do costume. Padece de nevralgias. Quando ellas
-lhe aparecem é por dias, e não vão sem muito remedio e muita paciencia.
-Talvez vá visital-a amanhã ou depois.
-
-Rita acrescentou que para o casal Aguiar é meio desastre; contavam com
-ella, como um dos encantos da festa. Querem-se muito, elles a ella, e
-ella a elles, e todos se merecem, é o parecer de Rita e pode vir a ser
-o meu.
-
---Creio. Já agora, se me não sentir impedido, irei sempre. Tambem a mim
-parece boa gente a gente Aguiar. Nunca tiveram filhos?
-
---Nunca. São muito afetuosos, D. Carmo ainda mais que o marido. Você
-não imagina como são amigos um do outro. Eu não os frequento muito,
-porque vivo metida commigo, mas o pouco que os visito basta para saber
-o que valem, ella principalmente. O desembargador Campos, que os
-conhece desde muitos annos, pode dizer-lhe o que elles são.
-
---Haverá muita gente ao jantar?
-
---Não, creio que pouca. A maior parte dos amigos irá de noite. Elles
-são modestos, o jantar é só dos mais intimos, e por isso o convite que
-fizeram a você mostra grande simpatia pessoal.
-
---Já senti isso, quando me apresentaram a elles, ha sete annos, mas
-então supuz que era mais por causa do ministro que do homem. Agora,
-quando me receberam, foi com muito gosto. Pois lá vou no dia 24, haja
-ou não haja Fidelia.
-
- * * * * *
-
-25 de Janeiro.
-
-Lá fui hontem ás bodas de prata. Vejamos se posso resumir agora as
-minhas impressões da noite.
-
-Não podiam ser melhores. A primeira dellas foi a união do casal. Sei
-que não é seguro julgar por uma festa de algumas horas a situação
-moral de duas pessoas. Naturalmente a ocasião aviva a memoria dos
-tempos passados, e a affeição dos outros como que ajuda a duplicar a
-propria. Mas não é isso. Ha nelles alguma cousa superior á oportunidade
-e diversa da alegria alheia. Senti que os annos tinham ali reforçado
-e apurado a natureza, e que as duas pessoas eram, ao cabo, uma só e
-unica. Não senti, não podia sentir isto logo que entrei, mas foi o
-total da noite.
-
-Aguiar veiu receber-me á porta da sala,-eu diria que com uma intenção
-de abraço, se pudesse havel-a entre nós e em tal logar; mas a mão fez
-esse oficio, apertando a minha efusivamente. É homem de sessenta annos
-feitos (ella tem cincoenta), corpo antes cheio que magro, agil, ameno e
-risonho. Levou-me á mulher, a um lado da sala, onde ella conversava com
-duas amigas. Não era nova para mim a graça da boa velha, mas desta vez
-o motivo da visita e o teor do meu comprimento davam-lhe á expressão
-do rosto algo que tolera bem a qualificação de radiante. Estendeu-me a
-mão, ouviu-me e inclinou a cabeça, olhando de relance para o marido.
-
-Senti-me objeto dos cuidados de ambos. Rita chegou pouco depois de mim;
-vieram vindo outros homens e senhoras, todos de mim conhecidos, e vi
-que eram familiares da casa. Em meio da conversação, ouvi esta palavra
-inesperada a uma senhora, que dizia a outra:
-
---Não vá Fidelia ter ficado peor.
-
---Ella vem? perguntou a outra.
-
---Mandou dizer que vinha; está melhor; mas talvez lhe faça mal.
-
-O mais que as duas disseram, relativamente á viuva, foi bem. O que me
-dizia um dos convidados apenas foi ouvido por mim, sem lhe prestar
-atenção maior que o assunto nem perder as aparencias della. Pela
-hora proxima do jantar supuz que Fidelia não viesse. Supuz errado.
-Fidelia e o tio foram os ultimos chegados, mas chegaram. O alvoroço
-com que D. Carmo a recebeu mostrava bem a alegria de a ver ali, apenas
-convalecida, e apezar do risco de voltar á noite. O prazer de ambas foi
-grande.
-
-Fidelia não deixou inteiramente o luto; trazia ás orelhas dous coraes,
-e o medalhão com o retrato do marido, ao peito, era de ouro. O mais
-do vestido e adorno escuro. As joias e um raminho de myosotis á cinta
-vinham talvez em homenagem á amiga. Já de manhã lhe enviara um bilhete
-de comprimentos acompanhando o pequeno vaso de porcelana, que estava em
-cima de um movel com outros presentinhos anniversarios.
-
-Ao vel-a agora, não a achei menos saborosa que no cemiterio, e ha
-tempos em casa de mana Rita, nem menos vistosa tambem. Parece feita ao
-torno, sem que este vocabulo dê nenhuma ideia de rigidez; ao contrario,
-é flexivel. Quero aludir somente á correção das linhas,-falo das linhas
-vistas; as restantes adivinham-se e juram-se. Tem a pelle macia e
-clara, com uns tons rubros nas faces, que lhe não ficam mal á viuvez.
-Foi o que vi logo á chegada, e mais os olhos e os cabelos pretos; o
-resto veiu vindo pela noite adiante, até que ella se foi embora. Não
-era preciso mais para completar uma figura interessante no gesto e
-na conversação. Eu, depois de alguns instantes de exame, eis o que
-pensei da pessoa. Não pensei logo em prosa, mas em verso, e um verso
-justamente de Shelley, que relera dias antes, em caza, como lá ficou
-dito atraz, e tirado de uma das suas estancias de 1821:
-
- _I can give not what men call love._
-
-Assim disse commigo em inglez, mas logo depois repeti em prosa nossa a
-confissão do poeta, com um fecho da minha composição: «Eu não posso dar
-o que os homens chamam amor... e é pena!»
-
-Esta confissão não me fez menos alegre. Assim, quando D. Carmo veiu
-tomar-me o braço, segui como se fosse para um jantar de nupcias. Aguiar
-deu o braço a Fidelia, e sentou-se entre ella e a mulher. Escrevo
-estas indicações sem outra necessidade mais que a de dizer que os dous
-conjuges, ao pé um do outro, ficaram ladeados pela amiga Fidelia e por
-mim. Desta maneira pudemos ouvir palpitar o coração aos dous,-hiperbole
-permitida para dizer que em ambos nós, em mim, ao menos, repercutia a
-felicidade daquelles vinte e cinco annos de paz e consolação.
-
-A dona da casa, afavel, meiga, deliciosa com todos, parecia realmente
-feliz naquella data; não menos o marido. Talvez elle fosse ainda mais
-feliz que ella, mas não saberia mostral-o tanto. D. Carmo possue o
-dom de falar e viver por todas as feições, e um poder de atrair as
-pessoas, como terei visto em poucas mulheres, ou raras. Os seus cabelos
-brancos, colhidos com arte e gosto dão á velhice um relevo particular,
-e fazem cazar nella todas as idades. Não, sei se me explico bem, nem é
-preciso dizer melhor para o fogo a que lançarei um dia estas folhas de
-solitario.
-
-De quando em quando, ella e o marido trocavam as suas impressões com os
-olhos, e pode ser que tambem com a fala. Uma só vez a impressão visual
-foi melancolica. Mais tarde ouvi a explicação a mana Rita. Um dos
-convivas,-sempre ha indiscretos,-no brinde que lhes fez aludiu á falta
-de filhos, dizendo «que Deus lh'os negara para que elles se amassem
-melhor entre si.» Não falou em verso, mas a ideia suportaria o metro e
-a rima, que o autor talvez houvesse cultivado em rapaz; orçava agora
-pelos cincoenta annos, e tinha um filho. Ouvindo aquella referencia,
-os dous fitaram-se tristes, mas logo buscaram rir, e sorriram. Mana
-Rita me disse depois que essa era a unica ferida do cazal. Creio que
-Fidelia percebeu tambem a expressão de tristeza dos dous, porque eu a
-vi inclinar-se para ella com um gesto do calis e brindar a D. Carmo
-cheia de graça e ternura:
-
---Á sua felicidade.
-
-A esposa Aguiar, comovida, apenas pode responder logo com o gesto; só
-instantes depois de levar o calis á boca, acrescentou, em voz meia
-surda, como se lhe custasse sair do coração apertado esta palavra de
-agradecimento:
-
---Obrigada.
-
-Tudo foi assim segredado, quasi calado. O marido aceitou a sua parte do
-brinde, um pouco mais expansivo, e o jantar acabou sem outro rasto de
-melancolia.
-
-De noite vieram mais visitas; tocou-se, tres ou quatro pessoas jogaram
-cartas. Eu deixei-me estar na sala, a mirar aquella porção de homens
-alegres e de mulheres verdes e maduras, dominando a todas pelo aspecto
-particular da velhice D. Carmo, e pela graça apetitosa da mocidade de
-Fidelia; mas a graça desta trazia ainda a nota da viuvez recente, aliás
-de dous annos. Shelley continuava a murmurar ao meu ouvido para que eu
-repetisse a mim mesmo: _I can give not what men call love._
-
-Quando transmiti esta impressão a Rita, disse ella que eram desculpas
-de mau pagador, isto é que eu, temendo não vencer a resistencia da
-moça, dava-me por incapaz de amar. E pegou daqui para novamente fazer a
-apologia da paixão conjugal de Fidelia.
-
---Todas as pessoas daqui e de fora que os viram,-continuou,-podem dizer
-a você o que foi aquelle cazal. Basta saber que se uniram, como já
-lhe disse, contra a vontade dos dous paes, e amaldiçoados por ambos.
-D. Carmo tem sido confidente da amiga, e não repete o que lhe ouve
-por discreta, resume só o que pode, com palavras de afirmação e de
-admiração. Tenho-as ouvido muita vez. A mim mesma Fidelia conta alguma
-cousa. Converse com o tio... Olhe, elle que lhe diga tambem da gente
-Aguiar...
-
-Neste ponto interrompi:
-
---Pelo que ouço, emquanto eu andava lá fóra, a reprezentar o Brazil,
-o Brazil fazia-se o seio de Abrahão. Você, o cazal Aguiar, o cazal
-Noronha, todos os cazaes, em suma, faziam-se modelos de felicidade
-perpetua.
-
---Pois peça ao desembargador que lhe diga tudo.
-
---Outra impressão que levo desta casa e desta noite é que as duas
-damas, a casada e a viuva, parecem amar-se como mãe e filha, não é
-verdade?
-
---Creio que sim.
-
---A viuva tambem não tem filhos?
-
---Tambem não. É um ponto de contacto.
-
---Ha um ponto de desvio; é a viuvez de Fidelia.
-
---Isso não; a viuvez de Fidelia está com a velhice de D. Carmo; mas
-se você acha que é desvio tem nas suas mãos concertal-o, é arrancar a
-viuva á viuvez, se puder; mas não pode, repito.
-
-A mana não costuma dizer pilherias, mas quando lhe sae alguma tem
-pico. Foi o que eu lhe disse então, ao metel-a no carro que a levou a
-Andarahy, em quanto eu vim a pé para o Cattete. Esqueceu-me dizer que a
-casa do Aguiar é na praia do Flamengo, ao fundo de um pequeno jardim,
-casa velha mas solida.
-
-—-—-—
-
-Sabado.
-
-Hontem encontrei um velho conhecido do corpo diplomatico e prometi ir
-jantar com elle amanhã em Petropolis. Subo hoje e volto segunda-feira.
-O peor é que accordei de mau humor, e antes quizera ficar que subir. E
-dahi pode ser que a mudança de ar e de espectaculo altere a disposição
-do meu espirito. A vida, mormente nos velhos, é um oficio cançativo.
-
- * * * * *
-
-Segunda-Feira.
-
-Desci hoje de Petropolis. Sabado, ao sair a barca da Prainha, dei com
-o desembargador Campos a bordo, e foi um bom encontro, porque dahi
-a pouco o meu mau humor cedia, e cheguei a Mauá já meio curado. Na
-estação de Petropolis estava restabelecido inteiramente.
-
-Não me lembra se ja escrevi neste _Memorial_ que o Campos foi meu
-colega de anno em S. Paulo. Com o tempo e a ausencia perdemos a
-intimidade, e quando nos vimos outra vez, o anno passado, apezar das
-recordações escolásticas que surgiram entre nós, eramos estranhos.
-Vimo-nos algumas vezes, e passámos uma noite no Flamengo; mas a
-diferença da vida tinha ajudado o tempo e a ausencia.
-
-Agora na barca fomos reatando melhor os laços antigos. A viagem por mar
-e por terra, eram de sobra para avivar alguma cousa da vida escolar.
-Bastante foi; acabámos lavados da velhice.
-
-Ao subir a serra as nossas impressões divergiram um tanto. Campos
-achava grande prazer na viagem que iamos fazendo em trem de ferro. Eu
-confessava-lhe que tivera maior gosto quando alli ia em caleças tiradas
-a burros, umas atraz das outras, não pelo vehiculo em si, mas porque ia
-vendo, ao longe, cá em baixo, aparecer a pouco e pouco o mar e a cidade
-com tantos aspectos pintorescos. O trem leva a gente de corrida, de
-afogadilho, desesperado, até á propria estação de Petropolis. E mais
-lembrava as paradas, aqui para beber café, alli para beber agua na
-fonte celebre, e finalmente avistado alto da serra, onde os elegantes
-de Petropolis aguardavam a gente e a acompanhavam nos seus carros e
-cavalos até á cidade; alguns dos passageiros de baixo passavam alli
-mesmo para os carros onde as familias esperavam por elles.
-
-Campos continuou a dizer todo o bem que achava no trem de ferro,
-como prazer e como vantagem. Só o tempo que a gente poupa! Eu, se
-retorquisse dizendo-lhe bem do tempo que se perde, iniciaria uma
-especie de debate que faria a viagem ainda mais sufocada e curta.
-Preferi trocar de assunto e agarrei-me aos derradeiros minutos, falei
-do progresso, elle tambem, e chegamos satisfeitos á cidade da serra.
-
-Os dous fomos para o mesmo hotel (Bragança). Depois de jantar saimos
-em passeio de digestão, ao longo do rio. Então, a proposito dos tempos
-passados, falei do cazal Aguiar e do conhecimento que Rita me disse que
-elle tinha da vida e da mocidade dos dous conjuges. Confessei achar
-nestes um bom exemplo de aconchego e união. Talvez a minha intenção
-secreta fosse passar dalli ao cazamento da propria sobrinha delle, suas
-condições e circumstancias, cousa dificil pela curiosidade que podia
-exprimir, e aliás não está nos meus habitos, mas elle não me deu azo
-nem tempo. Todo este foi pouco para dizer da gente Aguiar. Ouvi com
-paciencia, porque o assunto entrou a interessar-me depois das primeiras
-palavras, e tambem porque o desembargador fala mui agradavelmente. Mas
-agora é tarde para transcrever o que elle disse; fica para depois, um
-dia, quando houver passado a impressão, e só me ficar de memoria o que
-valer a pena guardar.
-
- * * * * *
-
-4 de Fevereiro.
-
-Eia, resumamos hoje o que ouvi ao desembargador em Petropolis ácerca do
-cazal Aguiar. Não ponho os incidentes, nem as anedotas soltas, e até
-excluo os adjectivos que tinham mais interesse na boca delle do que
-lhes poderia dar a minha penna; vão só os precisos á comprehensão de
-cousas e pessoas.
-
-A razão que me leva a escrever isto é a que entende com a situação
-moral dos dous, e prende um tanto com a viuva Fidelia. Quanto á vida
-delles eil-a aqui em termos secos, curtos e apenas biograficos.
-Aguiar cazou guarda-livros. D. Carmo vivia então com a mãe, que era
-de Nova-Friburgo, e o pae, um relojoeiro suisso daquella cidade.
-Cazamento a grado de todos. Aguiar continuou guarda-livros, e passou de
-uma caza a outra e mais outra, fez-se socio da ultima, até ser gerente
-de banco, e chegaram á velhice sem filhos. É só isto, nada mais que
-isto. Viveram até hoje sem bulha nem matinada.
-
-Queriam-se, sempre se quizeram muito, apezar dos ciumes que tinham um
-do outro, ou por isso mesmo. Desde namorada, ella exerceu sobre elle a
-influencia de todas as namoradas deste mundo, e acaso do outro, se as
-ha tão longe. Aguiar contára uma vez ao desembargador os tempos amargos
-em que, ajustado o cazamento, perdeu o emprego por falencia do patrão.
-Teve de procurar outro; a demora não foi grande, mas o novo logar
-não lhe permitiu cazar logo, era-lhe preciso assentar a mão, ganhar
-confiança, dar tempo ao tempo. Ora, a alma delle era de pedras soltas;
-a fortaleza da noiva foi o cimento e a cal que as uniram naquelles dias
-de crise. Copio esta imagem que ouvi ao Campos, e que elle me disse ser
-do proprio Aguiar. Cal e cimento valeram-lhe logo em todos os casos de
-pedras desconjuntadas. Elle via as cousas pelos seus proprios olhos,
-mas se estes eram ruins ou doentes, quem lhe dava remedio ao mal fisico
-ou moral era ella.
-
-A pobreza foi o lote dos primeiros tempos de cazados. Aguiar dava-se
-a trabalhos diversos para acudir com suprimentos á escassez dos
-vencimentos. D. Carmo guiava o serviço domestico ajudando o pessoal
-deste e dando aos arranjos da casa o conforto que não poderia vir por
-dinheiro. Sabia conservar o bastante e o simples; mas tão ordenadas as
-cousas, tão completadas pelo trabalho das mãos da dona que captavam os
-olhos ao marido e ás visitas. Todas ellas traziam uma alma, e esta era
-nada menos que a mesma, repartida sem quebra e com alinho raro, unindo
-o gracioso ao precizo. Tapetes de meza e de pés, cortinas de janelas
-e outros mais trabalhos que vieram com os annos, tudo trazia a marca
-da sua fabrica, a nota intima da sua pessoa. Teria inventado, se fosse
-preciso, a pobreza elegante.
-
-Criaram relações variadas, modestas como elles e de boa camaradagem.
-Neste capitulo a parte de D. Carmo é maior que a de Aguiar. Já em
-menina era o que foi depois. Havendo estudado em um colegio do
-Engenho Velho, a moça acabou sendo considerada a primeira alumna do
-estabelecimento, não só sem desgosto, tacito ou expresso, de nenhuma
-companheira, mas com prazer manifesto e grande de todas, recentes ou
-antigas. A cada uma pareceu que se tratava de si mesma. Era então
-algum prodigio de talento? Não, não era; tinha a inteligencia fina,
-superior ao comum das outras, mas não tal que as reduzisse a nada. Tudo
-provinha da indole afetuosa daquella creatura.
-
-Dava-lhe esta o poder de atrair e conchegar. Uma cousa me disse Campos
-que eu havia observado de relance naquella noite das bodas de prata,
-é que D. Carmo agrada igualmente a velhas e a moças. Ha velhas que
-não sabem fazer-se entender de moças, assim como ha moças fechadas ás
-velhas. A senhora de Aguiar penetra e se deixa penetrar de todas; assim
-foi joven, assim é madura.
-
-Campos não os acompanhou sempre, nem desde os primeiros tempos; mas
-quando entrou a frequental-os, viu nella o desenvolvimento da noiva e
-da recem-casada, e comprehendeu a adoração do marido. Este era feliz,
-e para socegar das inquietações e tedios de fóra, não achava melhor
-respiro que a conversação da espoza, nem mais doce lição que a de seus
-olhos. Era della a arte fina que podia restituil-o ao equilibrio e á
-paz.
-
-Um dia, em casa delles, abrindo urna coleção de versos italianos,
-Campos achou entre as folhas um papelinho velho com algumas estrofes
-escritas. Soube que eram do livro, copiadas por ella nos dias de
-noiva, segundo ambos lhe disseram, vexados; restituiu o papel á
-pagina, e o volume á estante. Um e outro gostavam de versos, e talvez
-ella tivesse feito alguns, que deitou fóra com os últimos solecismos
-de familia. Ao que parece, traziam ambos em si um germen de poesia
-instintiva, a que faltára expressão adequada para sair ca fóra.
-
-A ultima reflexão é minha, não do desembargador Campos, e leva o
-unico fim de completar o retrato deste casal. Não é que a poesia
-seja necessaria aos costumes, mas pode dar-lhes graça. O que eu fiz
-então foi perguntar ao desembargador se taes creaturas tiveram algum
-resentimento da vida. Respondeu-me que um, um só e grande; não tiveram
-filhos.
-
---Mana Rita disse-me isso mesmo.
-
---Não tiveram filhos, repetiu Campos.
-
-Ambos queriam um filho, um só que fosse, ella ainda mais que elle. D.
-Carmo possuia todas as especies de ternura, a conjugal, a filial, a
-maternal. Campos ainda lhe conheceu a mãe, cujo retrato, encaixilhado
-com o do pae, figurava na sala, e falava de ambos com saudades longas e
-suspiradas. Não teve irmãos, mas a afeição fraternal estaria incluida
-na amical, em que se dividia tambem. Quanto aos filhos, se os não
-teve, é certo que punha muito de mãe nos seus carinhos de amiga e
-de esposa. Não menos certo é que para essa especie de orfandade ás
-avessas, tem agora um paliativo.
-
---D. Fidelia?
-
---Sim, Fidelia e teve ainda outro que acabou.
-
-Aqui referiu-me uma historia que apenas levará meia duzia de linhas, e
-não é pouco para a tarde que vae baixando; digamol-a depressa.
-
-Uma das suas amigas tivera um filho, quando D. Carmo ia em vinte e
-tantos annos. Sucessos que o desembargador contou por alto e não valia
-a pena instar por elles, trouxeram a mãe e o filho para a casa Aguiar
-durante algum tempo. Ao cabo da primeira semana tinha o pequeno duas
-mães. A mãe real precisou ir a Minas, onde estava o marido; viagem de
-poucos dias. D. Carmo alcançou que a amiga lhe deixasse o filho e a
-ama. Taes foram os primeiros liames da afeição que cresceu com o tempo
-e o costume. O pae era comerciante de café,-comissario,-e andava então
-a negocios por Minas, a mãe era filha de Taubaté, S. Paulo, amiga
-de viajar a cavalo. Quando veiu o tempo de batizar o pequeno, Luiza
-Guimarães convidou a amiga para madrinha delle. Era justamente o que a
-outra queria; aceitou com alvoroço, o marido com prazer, e o batizado
-se fez como uma festa da familia Aguiar.
-
-A meninice de Tristão,-era o nome de afilhado,-foi dividida entre as
-duas mães, entre as duas cazas. Os annos vieram, o menino crescia,
-as esperanças maternas de D. Carmo iam morrendo. Este era o filho
-abençoado que o acaso lhes deparára, disse um dia o marido; e a mulher,
-catolica tambem na linguagem, emendou que a Providencia, e toda se
-entregou ao afilhado. A opinião que o desembargador achou em algumas
-pessoas, e creio justa, é que D. Carmo parecia mais verdadeira mãe que
-a mãe de verdade. O menino repartia-se bem com ambas, preferindo um
-pouco mais a mãe postiça. A razão podiam ser os carinhos maiores, mais
-continuados, as vontades mais satisfeitas e finalmente os doces, que
-tambem são motivos para o infante, como para o adulto. Veiu o tempo da
-escola, e ficando mais perto da caza Aguiar, o menino ia jantar alli, e
-seguia depois para as Laranjeiras, onde morava Guimarães. Algumas vezes
-a própria madrinha o levava.
-
-Nas duas ou tres molestias que o pequeno teve, a aflição de D. Carmo
-foi enorme. Uso o proprio adjetivo que ouvi ao Campos, com quanto me
-pareça enfatico, e eu não amo a enfasis. Confesso aqui uma cousa. D.
-Carmo é das poucas pessoas a quem nunca ouvi dizer que são «doudas
-por morangos», nem que «morrem por ouvir Mozart.» Nella a intensidade
-parece estar mais no sentimento que na expressão. Mas, emfim, o
-desembargador assistiu á ultima das molestias do menino, que foi em
-casa da madrinha, e pôde ver a aflição de D. Carmo, os seus afagos
-e sustos, alguns minutos de desespero e de lagrimas, e finalmente a
-alegria de restabelecimento. A mãe era mãe, e sentiu de certo, e muito,
-mas diz elle que não tanto; é que haverá ternuras atadas, ou ainda
-moderadas, que se não mostram inteiramente a todos.
-
-Doenças, alegrias, esperanças, todo o repertorio daquella primeira
-quadra da vida de Tristão foi visto, ouvido e sentido pelos dous
-padrinhos, e mais pela madrinha, como se fora do seu proprio sangue.
-Era um filho que alli estava, que fez dez annos, fez onze, fez doze,
-crescendo em altura e graça. Aos treze annos, sabendo que o pae o
-destinava ao comercio, foi ter com a madrinha e confiou-lhe que não
-tinha gosto para tal carreira.
-
---Porque, meu filho?
-
-D. Carmo usava este modo de falar, que a idade e o parentesco
-espiritual lhe permitiam, sem usurpação de ninguem. Tristão
-confessou-lhe que a sua vocação era outra. Queria ser bacharel em
-direito. A madrinha defendeu a intenção do pae, mas com ella Tristão
-era ainda mais voluntarioso que com elle e a mãe, e teimou em estudar
-direito e ser doutor. Se não havia propriamente vocação, era este
-titulo que o atraía.
-
---Quero ser doutor! quero ser doutor!
-
-A madrinha acabou achando que era bom, e foi defender a causa do
-afilhado. O pae deste relutou muito. «Que havia no comercio que não
-fosse honrado, além de lucrativo? Demais, elle não ia começar sem
-nada, como sucedia a outros e sucedeu ao proprio pae, mas já amparado
-por este.» Deu-lhe outras mais razões, que D. Carmo ouviu sem negar,
-alegando sempre que o importante era ter gosto, e se o rapaz não tinha
-gosto, melhor era ceder ao que lhe aprazia. Ao cabo de alguns dias o
-pae de Tristão cedeu, e D. Carmo quiz ser a primeira que désse ao rapaz
-a boa nova. Ella propria sentia-se feliz.
-
-Cinco ou seis mezes depois, o pae de Tristão resolveu ir com a mulher
-cumprir uma viagem marcada para o anno seguinte,-visitar a familia
-delle; a mãe de Guimarães estava doente. Tristão, que se preparava
-para os estudos, tão depressa viu apressar a viagem dos paes, quiz
-ir com elles. Era o gosto da novidade, a curiosidade da Europa, algo
-diverso das ruas do Rio de Janeiro, tão vistas e tão cançadas. Pae e
-mãe recusaram leval-o; elle insistiu. D. Carmo, a quem elle recorreu
-outra vez, recusou-se agora, porque seria afastal-o de si, ainda que
-temporariamente; juntou-se aos paes do mocinho para conserval-o aqui.
-Aguiar desta vez tomou parte ativa na luta; mas não houve luta que
-valesse. Tristão queria á fina força embarcar para Lisboa.
-
---Papae volta daqui a seis mezes; eu volto com elle. Que são seis mezes?
-
---Mas os estudos? dizia-lhe Aguiar. Você vae perder um anno...
-
---Pois que se perca um anno. Que é um anno que não valha a pena
-sacrifical-o ao gosto de ir ver a Europa?
-
-Aqui D. Carmo teve uma inspiração; prometeu-lhe que, tão depressa elle
-se formasse, ella iria com elle viajar, não seis mezes, mas um anno ou
-mais; elle teria tempo de ver tudo, o velho e o novo, terras, mares,
-costumes... Estudasse primeiro. Tristão não quiz. A viagem se fez, a
-despeito das lagrimas que custou.
-
-Não ponho aqui taes lagrimas, nem as promessas feitas, as lembranças
-dadas, os retratos trocados entre o afilhado e os padrinhos. Tudo se
-afirmou de parte a parte, mas nem tudo se cumpriu; e, se de lá vieram
-cartas, saudades e noticias, quem não veiu foi elle. Os paes foram
-ficando muito mais tempo que o marcado, e Tristão começou o curso da
-Escola Medica de Lisboa. Nem comercio nem jurisprudencia.
-
-Aguiar escondeu quanto pôde a noticia á mulher, a ver se tentava
-alguma cousa que trocasse as mãos á sorte, e restituisse o rapaz ao
-Brazil; não alcançou nada, e elle proprio não podia já disfarçar a
-tristeza. Deu a dura novidade á mulher, sem lhe acrescentar remedio
-nem consolação; ella chorou longamente. Tristão escreveu comunicando
-a mudança de carreira e prometendo vir para o Brazil, apenas formado;
-mas dahi a algum tempo eram as cartas que escasseavam e acabaram
-inteiramente, ellas e os retratos, e as lembranças; provavelmente não
-ficaram lá saudades. Guimarães aqui veiu, sosinho, com o unico fim de
-liquidar o negocio, e embarcou outra vez para nunca mais.
-
- * * * * *
-
-5 de Fevereiro.
-
-Relendo o que escrevi hontem, descubro que podia ser ainda mais
-resumido, e principalmente não lhe pôr tantas lagrimas. Não gosto
-dellas, nem sei se as verti algum dia, salvo por mama, em menino;
-mas lá vão. Pois vão tambem essas que ahi deixei, e mais a figura de
-Tristão, a que cuidei dar meia duzia de linhas e levou a maior parte
-dellas. Nada ha peor que gente vadia,-ou apozentada, que é a mesma
-cousa; o tempo cresce e sobra, e se a pessoa pega a escrever, não ha
-papel que baste.
-
-Entretanto, não disse tudo. Verifico que me faltou um ponto da narração
-do Campos. Não falei das ações do Banco do Sul, nem das apolices, nem
-das cazas que o Aguiar possue, alem dos honorarios de gerente; terá
-uns duzentos e poucos contos. Tal foi a afirmação do Campos, á beira
-do rio, em Petropolis. Campos é homem interessante, posto que sem
-variedade de espirito; não importa, uma vez que sabe despender o que
-tem. Verdade é que tal regra levaria a gente a aceitar toda casta de
-insipidos. Elle não é destes.
-
- * * * * *
-
-6 de Fevereiro.
-
-Outra cousa que tambem não escrevi no dia 4, mas essa não entrou
-na narração do Campos. Foi ao despedir-me delle, que lá ficou em
-Petropolis tres ou quatro dias. Como eu lhe deixasse recomendações
-para a sobrinha, ouvi-lhe que me respondeu:
-
---Está em casa da gente Aguiar; passou lá a tarde e a noite de hontem,
-e conta ficar até que eu desça.
-
- * * * * *
-
-6 de Fevereiro, á noite.
-
-Diferença de vocações: o cazal Aguiar morre por filhos, eu nunca
-pensei nelles, nem lhes sinto a falta, apezar de só. Alguns ha que os
-quizeram, que os tiveram e não souberam guardal-os.
-
- * * * * *
-
-10 de Fevereiro.
-
-Hontem, indo jantar a Andarahy, contei a mana Rita o que ouvi ao
-desembargador.
-
---Elle não disse nada da sobrinha?
-
---Todo o tempo foi pouco para falar da gente Aguiar.
-
---Pois eu soube o que me faltava de Fidelia; foi a propria D. Carmo que
-me contou.
-
---Se a historia é tão longa como a della...
-
---Não, é muito mais curta; diz-se em cinco minutos.
-
-Tirei o relogio para ver a hora exata, e marcar o tempo da narração.
-Rita começou e acabou em dez minutos. Justamente o dobro. Mas o assunto
-era curioso, trata-se do cazamento, e a viuva interessa-me.
-
---Conheceram-se aqui na Corte, disse Rita; na roça nunca se viram.
-Fidelia passava uns tempos em casa do desembargador (a tia ainda era
-viva), e o rapaz. Eduardo, estudava na Escola de Medicina. A primeira
-vez que elle a viu foi das _torrinhas_ do Teatro Lirico, onde estava
-com outros estudantes; viu-a á frente de um camarote, ao pé da tia.
-Tornou a vel-a, foi visto por ella, e acabaram namorados um do outro.
-Quando souberam quem eram, já o mal estava feito, mas provavelmente o
-mal se faria, ainda que o soubessem desde principio, porque a paixão
-foi repentina. O pae de Fidelia, vindo á Corte, teve noticia do caso
-pelo proprio irmão, que cautelosamente lhe disse o que desconfiava, e
-insinuou que era boa ocasião de fazerem as pazes as duas familias. O
-barão ficou furioso, pegou da moça e levou-a para a fazenda. Você não
-imagina o que lá se passou.
-
---Imagino, imagino.
-
---Não imagina.
-
---Pôl-a no tronco?
-
---Não, protestou Rita; não fez mais que ameaçal-a com palavras, mas
-palavras duras, dizendo-lhe que a poria fora de casa, se continuasse
-a pensar em tal atrevimento. Fidelia jurou uma e muitas vezes que
-tinha um noivo no coração e cazaria com elle, custasse o que custasse.
-A mãe estava do lado do marido, e opoz-se tambem. Fidelia resistiu
-e recolheu-se ao silencio, passava os dias no quarto, chorando. As
-mucamas viam as lagrimas e os sinaes dellas, e desconfiavam de amores,
-até que adivinharam a pessoa, se não foi palavra que ouviram aos
-proprios senhores. Emfim, a moça entrou a não querer comer. Vendo isto,
-a mãe, com receio de algum acesso de molestia, começou a pedir por
-ella, mas o marido declarou que não lhe importava vel-a morta ou até
-douda; antes isso que consentir na mistura do seu sangue com o da gente
-Noronha. A oposição da gente Noronha não foi menor. Ao saber da paixão
-do filho pela filha do fazendeiro, o pae de Eduardo mandou-lhe dizer
-que o deixaria na rua, se teimasse em semelhante afronta.
-
---Como inimigos eram dignos um do outro, observei.
-
---Eram, concordou Rita. O desembargador soube o que se passava e foi
-á fazenda, onde viu tudo confirmado, e disse ao irmão que não valia
-opor-se, porque a filha, chegada á maioridade, podia arrancar-se de
-caza. Ninguem obrigava a humilhar-se deante da gente Noronha, nem
-a fazer as pazes com ella; bastava que os filhos cazassem e fossem
-para onde quizessem. O barão recusou a pés juntos, e o desembargador
-dispunha-se a voltar para a Corte, sem continuar a comissão que se dera
-a si mesmo, quando Fidelia adoeceu deveras. A doença foi grave, a cura
-dificil pela recusa dos remedios e alimentos... Que sorriso é esse? Não
-acredita?
-
---Acredito, acredito; acho romanesco. Em todo caso, essa moça
-interessa-me. A cura, dizia você, foi dificil?
-
---Foi; a mãe resolveu pedir ao marido que cedesse, o marido concedeu
-finalmente, impondo a condição de nunca mais receber a filha nem
-lhe falar; não assistiria ao cazamento, não queria saber della.
-Restabelecida, Fidelia veiu com o tio, e no anno seguinte cazou. O pae
-do noivo tambem declarou que os não queria ver.
-
---Tanta luta para não serem felizes por muito tempo.
-
---É verdade. A felicidade foi grande mas curta. Um dia resolveram ir
-á Europa, e foram, até que se deu a morte inesperada do marido, em
-Lisboa, donde Fidelia fez transportar o corpo para aqui. Você lá a
-viu ao pé da sepultura; lá vae muitas vezes. Pois nem assim o pae,
-que tambem já é viuvo, nem assim quiz receber a filha. Quando veiu á
-Corte a primeira vez, Fidelia foi ter com elle, sosinha, depois com
-o tio; todas as tentativas foram inuteis. Nunca mais a viu nem lhe
-falou. Eu, mais ou menos, já contei isto a você; só não conhecia bem as
-particularidades da resistencia na fazenda, mas ahi está. Agora diga se
-ella é viuva que se caze.
-
---Com qualquer, não; pelo menos, é dificil; mas, um sujeito
-fresco,-continuei enfunando-me e rindo.
-
---Você ainda pensa...?
-
---Eu, mana? Eu penso no seu jantar, que hade estar delicioso. O que me
-fica da historia é que essa moça, além de bonita, é teimosa; mas a sua
-sopa vale para mim todas as noções esteticas e moraes deste mundo e do
-outro.
-
-Ao jantar, contei a Rita o que me dissera o desembargador sobre haver
-ido a sobrinha passar alguns dias ao Flamengo, e perguntei-lhe se era
-assim a intimidade na casa.
-
---Certamente que é. Já uma vez Fidelia adoeceu no Flamengo e lá se
-tratou. Tendo perdido a esperança do filho postiço, o Tristão, que
-os esqueceu inteiramente, ficaram cada vez mais ligados á viuva. D.
-Carmo é toda ternura para ella. Você lembra-se das bodas de prata, não?
-Aguiar não lhe chama filha para não parecer que usurpa esse titulo ao
-pae verdadeiro; mas a mulher, não tendo ella mãe, é o nome que lhe dá.
-Nem Fidelia parece querer outra mãe.
-
- * * * * *
-
-11 de Fevereiro.
-
-Antigamente, quando eu era menino, ouvia dizer que ás creanças só se
-punham nomes de santos ou santas. Mas Fidelia...? Não conheço santa
-com tal nome, ou sequer mulher pagã. Terá sido dado á filha do barão,
-como a fórma feminina de _Fidelio_, em homenagem a Beethoven? Pode
-ser; mas eu não sei se elle teria dessas inspirações e reminiscencias
-artisticas. Verdade é que o nome da familia, que serve ao titulo
-nobiliario, Santa-Pia, tambem não o acho na lista dos canonisados, e a
-unica pessoa que conheço, assim chamada, é a de Dante: _Ricorditi di
-me, chi son la Pia._
-
-Parece que já não queremos Annas nem Marias, Catarinas nem Joannas, e
-vamos entrando em outra onomastica, para variar o aspeto ás pessoas.
-Tudo serão modas neste mundo, excepto as estrelas e eu, que sou o mesmo
-antigo sujeito, salvo o trabalho das notas diplomaticas, agora nenhum.
-
- * * * * *
-
-18 de Fevereiro.
-
-Campos disse-me hoje que o irmão lhe escrevera, em segredo, ter ouvido
-na roça o boato de uma lei proxima de abolição. Elle, Campos, não crê
-que este ministerio a faça, e não se espera outro.
-
- * * * * *
-
-24 de Fevereiro.
-
-A data de hoje (revolução de 1848) lembra-me a festa de rapazes que
-tivemos em S. Paulo, e um brinde que eu fiz ao grande Lamartine. Ai,
-viçosos tempos! Eu estava no meu primeiro anno de direito. Como falasse
-disso ao desembargador, disse-me este:
-
---Meu irmão crê que tambem aqui a revolução está proxima, e com ella a
-Republica.
-
- * * * * *
-
-2 de Março.
-
-Venho da casa do Aguiar. Lá achei Fidelia, um primo desta, filho do
-desembargador, alumno da Escola de Marinha (16 annos) e um empregado
-do Banco do Brazil. Passei uma boa hora ou mais. A velha esteve
-encantadora, a moça tambem, e a conversação evitou tudo o que pudesse
-lembrar a ambas a respetiva perda, uma do esposo, outra do filho
-postiço. Contavam-se historias de sociedade, que eu ouvi sorrindo,
-quando era preciso, ou consternado nas ocasiões pertinentes. Tambem
-eu contei uma, de sociedade alheia e remota, mas o receio de lembrar
-á viuva Noronha alguma terra por onde houvesse andado com o marido
-me fez encurtar a narração e não começar segunda. Entretanto, ella
-referiu duas ou tres reminiscencias de viagem, impressões do que vira
-em muzeus da Italia e da Allemanha. Da nossa terra dissemos cousas
-agradaveis e sempre de acordo. A mesma torre da matriz da Gloria, que
-alguns defenderam como necessaria, deixou-nos a nós, a ella e a mim,
-concordes no desacordo, sem que aliás eu combatesse ninguem. O cazal
-Aguiar ouviu-nos sorrindo; o moço da Escola de Marinha tentou, em vão,
-suscitar a questão militar.
-
-Com isso e o mais enchemos a noite. Ninguem pediu a Fidelia que
-tocasse, embora me digam que é admiravel ao piano. Em compensação,
-ouvimos-lhe dizer alguma cousa de mestres e de paginas celebres,
-mas isso mesmo foi breve e interrompido, pode ser que lhe lembrasse
-o finado. Saí antes della. Ouvi ao Aguiar que daqui a dous mezes,
-começará as suas reuniões semanaes.
-
- * * * * *
-
-10 de Março.
-
-Afinal houve sempre mudança de gabinete. O conselheiro João Alfredo
-organizou hoje outro. Daqui a tres ou quatro dias irei aprezentar as
-minhas felicitações ao novo ministro dos negocios estranjeiros.
-
- * * * * *
-
-20 do Março.
-
-Ao desembargador Campos parece que alguma cousa se fará no sentido
-da emancipação dos escravos,-um passo adiante, ao menos. Aguiar, que
-estava presente, disse que nada corre na praça nem lhe chegou ao Banco
-do Sul.
-
- * * * * *
-
-27 de Março.
-
-Santa-Pia chegou da fazenda, e não foi para a casa do irmão; foi para
-o Hotel da America. É claro que não quer ver a filha. Não ha nada mais
-tenaz que um bom odio. Parece que elle veiu por causa do boato que
-corre na Parahyba do Sul acerca da emancipação dos escravos.
-
- * * * * *
-
-4 de Abril.
-
-Ouvi que o barão caiu doente, e que o irmão conseguiu trazel-o para
-casa. Eis aqui como. Não lhe pediu logo que viesse; achou meio de lhe
-dizer que Fidelia estava em casa da amiga, donde não viria tão cedo, e
-acabou propondo-lhe tratar-se em casa delle. Santa-Pia recusou, depois
-aceitou. Tudo isso foi planeado com ella. Fidelia está effetivamente no
-Flamengo com a gente Aguiar. Deste modo a caza do Campos ficou livre
-ao pae irritado e enfermo. A opinião do Campos e do Aguiar é que o
-fazendeiro, mais tarde ou mais cedo, acabará perdoando a filha. Em todo
-caso, não se encontram agora, com pezar della.
-
-Ora, pergunto eu, valia, a pena ter bridado com o pae, em troca de um
-marido que mal começou a lição do amor, logo se apozentou na morte?
-Certo que não. Se eu propuzesse concluir-lhe o curso, o pae faria as
-pazes com ella; ai, era preciso não haver esquecido o que aprendi, mas
-esqueci,-tudo ou quasi tudo. _I can not_ etc. (Shelley).
-
- * * * * *
-
-7 de Abril.
-
-A distração faz das suas. Hoje, vindo da cidade para caza, passei
-por esta, e dei commigo no largo do Machado, quando o bonde parou.
-Apeei-me, e antes de arrepiar caminho, a pé, detive-me alguns
-instantes, e enfiei pelo jardim, em direção á matriz da Gloria, a olhar
-para a fachada do templo com a torre por cima. Fiz isto porque me
-lembrou a conversação da outra noite no Flamengo.
-
-A poucos passos, duas senhoras pareciam fazer a mesma cousa.
-Voltaram-se, eram nada menos que Fidelia e D. Carmo; estavam sem
-chapeo, tinham vindo a pé de caza. Viram-me, fui ter com ellas. Pouco
-dissémos: noticias do barão, que está melhor, e do Aguiar, que está
-bom, e despedimo-nos.
-
-Vim para o lado do Cattete, ellas continuaram para o da matriz. A
-pequena distancia, lembrou-me olhar para traz. Poderia fazer outra
-cousa? É aqui que eu quizera possuir tudo o que a filosofia tem dito e
-redito do livre arbitrio, afim de o negar ainda uma vez, antes de cair
-onde elle perde a mesma aparencia de realidade; acabaria esta pagina
-por outra maneira. Mas não posso; digo só que não pude reter a cabeça
-nem os olhos, e vi as duas damas, com os braços cingidos á cintura uma
-da outra, vagarosas e visivelmente queridas.
-
- * * * * *
-
-8 de Abril.
-
-Papel, amigo papel, não recolhas tudo o que escrever esta penna vadia.
-Querendo servir-me, acabarás desservindo-me, porque se acontecer que
-eu me vá desta vida, sem tempo de te reduzir a cinzas, os que me lerem
-depois da missa do setimo dia, ou antes, ou ainda antes do enterro,
-podem cuidar que te confio cuidados de amor.
-
-Não, papel. Quando sentires que insisto nessa nota, esquiva-te da minha
-meza, e foge. A janela aberta te mostrará um pouco de telhado, entre
-a rua e o ceu, e alli ou acolá acharás descanço. Commigo, o mais que
-podes achar é esquecimento, que é muito, mas não é tudo; primeiro que
-elle chegue, virá a troça dos malevolos ou simplesmente vadios.
-
-Escuta, papel. O que naquella dama Fidelia me attrae é principalmente
-certa feição de espirito, algo parecida com o sorriso fugitivo, que já
-lhe vi algumas vezes. Quero estudal-a se tiver ocasião. Tempo sobra-me,
-mas tu sabes que é ainda pouco para mim mesmo, para o meu criado José,
-e para ti, se tenho vagar e quê,-e pouco mais.
-
- * * * * *
-
-10 Abril.
-
-Grande novidade! O motivo da vinda do barão é consultar o desembargador
-sobre a alforria coletiva e immediata dos escravos de Santa-Pia. Acabo
-de sabel-o, e mais isto, que a principal razão da consulta é apenas
-a redação do acto. Não parecendo ao irmão que este seja acertado,
-perguntou-lhe o que é que o impelia a isso, uma vez que condenava
-a ideia atribuida ao governo de decretar a abolição, e obteve esta
-resposta, não sei se subtil, se profunda, se ambas as cousas ou nada:
-
---Quero deixar provado que julgo o acto do governo uma expoliação, por
-intervir no exercicio de um direito que só pertence ao proprietario, e
-do qual uso com perda minha, porque assim o quero e posso.
-
-Será a certeza da abolição que impele Santa-Pia a praticar esse acto,
-anterior de algumas semanas ou mezes ao outro? A alguem que lhe fez tal
-pergunta respondeu Campos que não. «Não, disse elle, meu irmão crê na
-tentativa do governo, mas não no resultado, a não ser o desmantelo que
-vae lançar ás fazendas. O acto que elle resolveu fazer exprime apenas
-a sinceridade das suas convicções e o seu genio violento. Elle é capaz
-de propor a todos os senhores a alforria dos escravos já, e no dia
-seguinte propor a queda do governo que tentar fazel-o por lei.»
-
-Campos teve uma ideia. Lembrou ao irmão que, com a alforria immediata,
-elle prejudica a filha, herdeira sua. Santa-Pia franziu o sobrolho. Não
-era a ideia de negar o direito eventual da filha aos escravos; podia
-ser o desgosto de ver que, ainda em tal situação, e com todo o poder
-que tinha de dispor dos seus bens, vinha Fidelia perturbar-lhe a ação.
-Depois de alguns instantes respirou largo, e respondeu que, antes
-de morto, o que era seu era somente seu. Não podendo dissuadil-o, o
-desembargador cedeu ao pedido do irmão, e redigiram ambos a carta de
-alforria.
-
-Retendo o papel, Santa-Pia disse:
-
---Estou certo que poucos delles deixarão a fazenda; a maior parte
-ficará commigo, ganhando o salario que lhes vou marcar, e alguns até
-sem nada,-pelo gosto de morrer onde nasceram.
-
- * * * * *
-
-11 de Abril.
-
-Fidelia, quando soube do acto do pae, teve vontade de ir ter com elle,
-não para invetival-o, mas para abraçal-o; não lhe importam perdas
-futuras. O tio é que a dissuadiu dizendo-lhe que o barão ainda está
-muito zangado com ella.
-
- * * * * *
-
-12 de Abril.
-
-Santa-Pia não é feio velho, nem muito velho; terá menos idade que eu.
-Arqueja um pouco, ás vezes, mas pode ser da bronquite. É meio calvo,
-largo de espaduas, as mãos asperas, cheio de corpo.
-
-Conhecemo-nos um ao outro, eu primeiro que elle, talvez porque a Europa
-me haja mudado mais. Elle lembra-se do tempo em que eu, colega do
-irmão, jantei com elle aqui na Corte. Já o irmão lhe havia falado de
-mim, recordando as relações antigas. Disse-me que daqui a tres dias
-volta para a fazenda, onde me dará hospedagem, se quizer honral-o com a
-minha pessoa. Agradeci e prometi, sem prazo nem ideia da lá ir. Custa
-muito sair do Cattete. Já é demais Petropolis.
-
-Está claro que lhe não falei da filha, mas confesso que se pudesse
-diria mal della, com o fim secreto de acender mais o odio-e tornar
-impossivel a reconciliação. Deste modo ella não iria daqui para a
-fazenda, e eu não perderia o meu objeto de estudo. Isto, sim, papel
-amigo, isto podes aceitar, porque é a verdade intima e pura e ninguem
-nos lê. Se alguem lesse achar-me-ía mau, e não se perde nada em parecer
-mau; ganha-se quasi tanto como em sel-o.
-
- * * * * *
-
-13 de Abril.
-
-Hontem com o pae, hoje com a filha. Com esta tive vontade de dizer mal
-do pae, tanto foi o bem que ella disse delle, a proposito da alforria
-dos escravos. Vontade sem ação, veleidade pura; antes me vi obrigado
-a louval-o tambem, o que lhe deu azo a estender o panegirico. Disse-me
-que elle é bom senhor, elles bons escravos, contou-me anedotas de seu
-tempo de menina e moça, com tal desinteresse e calor que me deu vontade
-de lhe pegar na mão, e, em sinal de aplauso, beijar-lha. Vontade sem
-ação. Tudo sem ação esta tarde.
-
- * * * * *
-
-19 de Abril.
-
-Lá se foi o barão com a alforria dos escravos na mala. Talvez tenha
-ouvido alguma cousa da resolução do governo; dizem que, abertas as
-camaras, aparecerá um projeto de lei. Venha, que é tempo. Ainda
-me lembra do que lia lá fóra, a nosso respeito, por ocasião da
-famosa proclamação de Lincoln: «Eu, Abrahão Lincoln, presidente dos
-Estados-Unidos da America...» Mais de um jornal fez alusão nominal
-ao Brazil, dizendo que restava agora que um povo christão e ultimo
-imitasse aquelle e acabasse tambem com os seus escravos. Espero que
-hoje nos louvem. Ainda que tardiamente, é a liberdade, como queriam a
-sua os conjurados de Tiradentes.
-
- * * * * *
-
-7 de maio.
-
-O ministério apresentou hoje á camara o projeto de abolição. É a
-abolição pura e simples. Dizem que em poucos dias será lei.
-
- * * * * *
-
-13 de Maio.
-
-Emfim, lei. Nunca fui, nem o cargo me consentia ser propagandista da
-abolição, mas confesso que senti grande prazer quando soube da votação
-final do senado e da sanção da Regente. Estava na rua do Ouvidor, onde
-a agitação era grande e a alegria geral.
-
-Um conhecido meu, homem de imprensa, achando-me a li offereceu-me
-logar no seu carro, que estava na rua Nova, e ia enfileirar no cortejo
-organisado para rodear o paço da cidade, e fazer ovação á Regente.
-Estive quasi, quasi a aceitar, tal era o meu atordoamento, mas os meus
-habitos quietos, os costumes diplomaticos, a propria indole e a idade
-me retiveram melhor que as redeas do cocheiro aos cavalos do carro, e
-recusei. Recusei com pena. Deixei-os ir, a elle e aos outros, que se
-ajuntaram e partiram da rua Primeiro de Março. Disseram-me depois que
-os manifestantes erguiam-se nos carros, que iam abertos, e faziam
-grandes aclamações, em frente ao paço, onde estavam tambem todos os
-ministros. Se eu lá fosse, provavelmente faria o mesmo e ainda agora
-não me teria entendido... Não, não faria nada; meteria a cara entre os
-joelhos.
-
-Ainda bem que acabámos com isto. Era tempo. Embora queimemos todas
-as leis, decretos e avisos, não poderemos acabar com os actos
-particulares, escrituras e inventarios, nem apagar a instituição da
-historia, ou até da poesia. A poesia falará della, particularmente
-naquelles versos de Heine, em que o nosso nome está perpetuo. Nelles
-conta o capitão do navio negreiro haver deixado trezentos negros no Rio
-de Janeiro, onde «a casa Gonçalves Pereira» lhe pagou cem ducados por
-peça. Não importa que o poeta corrompa o nome do comprador e lhe chame
-Gonzales Perreiro; foi a rima ou a sua má pronuncia que o levou a isso.
-Tambem não temos ducados, mas ahi foi o vendedor que trocou na sua
-lingua o dinheiro do comprador.
-
- * * * * *
-
-14 de Maio, _meia noite._
-
-Não ha alegria publica que valha uma boa alegria particular. Saí agora
-do Flamengo, fazendo esta reflexão, e vim escrevel-a, e mais o que lhe
-deu origem.
-
-Era a primeira reunião do Aguiar; havia alguma gente e bastante
-animação. Rita não foi; fica-lhe longe e não dá para isto, mandou-me
-dizer. A alegria dos donos da casa era viva, a tal ponto que não a
-atribui somente ao facto dos amigos juntos, mas tambem ao grande
-acontecimento do dia. Assim o disse por esta unica palavra, que me
-pareceu expressiva, dita a brazileiros:
-
---Felicito-os.
-
---Já sabia? perguntaram ambos.
-
-Não entendi, não achei que responder. Que era que eu podia saber já,
-para os felicitar, se não era o facto publico? Chamei o melhor dos meus
-sorrisos de acordo e complacencia, elle veiu, espraiou-se, e esperei.
-Velho e velha disseram-me então rapidamente, dividindo as frases, que
-a carta viera dar-lhes grande prazer. Não sabendo que carta era nem de
-que pessoa, limitei-me a concordar:
-
---Naturalmente.
-
---Tristão está em Lisboa, concluiu Aguiar, tendo voltado ha pouco da
-Italia; está bem, muito bem.
-
-Comprehendi. Eis ahi como, no meio do prazer geral, pode aparecer
-um particular, e dominal-o. Não me enfadei com isso; ao contrario,
-achei-lhes razão, e gostei de os ver sinceros. Por fim, estimei que
-a carta do filho postiço viesse após annos de silencio pagar-lhes
-a tristeza que cá deixou. Era devida a carta; como a liberdade dos
-escravos, ainda que tardia, chegava bem. Novamente os felicitei, com ar
-de quem sabia tudo.
-
- * * * * *
-
-16 de Maio.
-
-Fidelia voltou para casa, levando e deixando saudades. Os tres estão
-muito amigos, e os dous parecem paes de verdade; ella tambem parece
-filha verdadeira. O desembargador, que me contou isto, referiu-me
-algumas palavras da sobrinha ácerca da gente Aguiar, principalmente da
-velha, e acrescentou:
-
---Não é dessas afeições chamadas fogo de palha; nella, como nelles,
-tudo tem sido lento e radicado. São capazes de me roubarem a sobrinha,
-e ella de se deixar roubar por elles. Tambem se não forem elles, será
-o pae. Creio que meu irmão já vae amansando. A ultima vez que me
-escreveu, depois de falar muito mal do imperador e da princeza, não
-lhe esqueceu dizer que «agradecia as lembranças mandadas.» Fidelia não
-lhe mandára lembranças, estava ainda no Flamengo; eu é que as inventei
-na minha carta para ver o efeito que produziriam nelle. Hade amansar;
-isto de filhos, conselheiro, não imagina, é o diabo; eu, se perdesse o
-meu Carlos, creio que me ia logo desta vida.
-
- * * * * *
-
-17 de Maio
-
-Vou ficar em casa uns quatro ou cinco dias, não para descançar, porque
-eu não faço nada, mas para não ver nem ouvir ninguem, a não ser o meu
-creado José. Este mesmo, se cumprir, mandal-o-hei á Tijuca, a ver se eu
-lá estou. Já acho mais quem me aborreça do que quem me agrade, e creio
-que esta proporção não é obra dos outros, e só minha exclusivamente.
-Velhice esfalfa.
-
- * * * * *
-
-18 de Maio.
-
-Rita escreveu-me pedindo informações de um leiloeiro. Parece-me
-caçoada. Que sei eu de leiloeiros nem de leilões? Quando eu morrer
-podem vender em particular o pouco que deixo, com abatimento ou sem
-elle, e a minha pelle com o resto; não é nova, não é bella, não é fina,
-mas sempre dará para algum tambor ou pandeiro rustico. Não é preciso
-chamar um leiloeiro.
-
-Vou responder isto mesmo á mana Rita, acrescentando algumas noticias
-que trouxe da rua,-a carta do Tristão, por exemplo, os agradecimentos
-do barão á filha, e esta grande peta: que a viuva resolveu casar
-commigo... Mas não; se lhe digo isto, ella não me crê, ri, e vem cá
-logo. Justamente o que eu não desejo. Preciso de me lavar da companhia
-dos outros, ainda mesmo della, apezar de gostar della. Mando-lhe só
-dizer que o leiloeiro morreu; provavelmente ainda vive, mas hade morrer
-algum dia.
-
- * * * * *
-
-21 de Maio.
-
-Hontem escrevi á mana Rita anunciando-lhe a morte do homem, e hoje de
-manhã abrindo os jornaes, dei com a noticia de haver falecido hontem
-o leiloeiro Fernandes. Chamava-se Fernandes. Sucumbiu a não sei que
-molestia grega ou latina. Parece que era bom chefe de familia, honrado
-e laborioso, e excelente cidadão; a _Vida Nova_ chama-lhe grande, mas
-talvez elle votasse com os liberaes.
-
-Mana Rita, já pela minha carta, já pelas noticias de hoje, correu a ter
-commigo. Senhoras não deviam escrever cartas; raras dizem tudo e claro;
-muitas tem a linguagem escassa ou escura. Rita pedira-me noticias do
-leiloeiro, por lhe dizerem que elle morava no Cattete, e adoecera
-gravemente ha dias. Como era meu visinho, podia ser que eu soubesse
-delle: foi o motivo da pergunta, mas esqueceu dizel-o.
-
-Hesitei entre confessar a minha invenção ou deixal-a encoberta pela
-coincidencia, mas foi só um minuto, nem isso, foi um instante. Rita
-é minha irmã, não me ficaria querendo mal e acabaria rindo tambem.
-Ouviu a minha verdade, sem zanga, mas tambem sem riso. A razão disto
-é um pormenor, que não vale a pena dizer miudamente e só o bastante
-para explicar a carta e a seriedade. Trata-se de contas entre ella e o
-finado, objetos que ella mandou vender, e não sabe se elle vendeu ou
-não, nem como havel-os ou o dinheiro; bastará ir ao armazem. Hade haver
-escrituração donde conste tudo; prometi acompanhal-a amanhã. Ficou
-satisfeita, começou então a sorrir, depois disse-me os objetos que
-eram, quadros velhos, romances lidos.
-
-Jantou commigo. Antes de irmos para a meza, vimos passar o enterro do
-Fernandos. Teve a pachorra de contar os carros; ai de mim, tambem eu os
-contava em pequeno; ella é que parece não haver perdido esse costume
-estatistico. O Fernandes levava trinta e sete ou trinta e oito carros.
-
-Deixo aqui esta pagina com o fim unico de me lembrar que o acaso tambem
-é corregedor de mentiras. Um homem que começa mentindo disfarçada ou
-descaradamente acaba muita vez exato e sincero.
-
- * * * * *
-
-22 de Maio.
-
-Em caminho, mana Rita contou-me o que já sabe da carta de Tristão e da
-resposta que D. Carmo lhe mandou. Sabe mais que eu. D. Carmo leu-lhe
-as duas cartas. Tristão pede mil desculpas do longo silencio de annos
-e lança-o á conta de tarefas e distrações. Ultimamente, já formado em
-medicina, foi em viagem a varias terras, onde viu e estudou muito. Não
-podendo escrever as viagens, contar-lh'as-ha um dia, se cá vier. Pede
-noticias della e do padrinho, pede-lhes os retratos, e manda-lhes
-pelo correio umas gravuras; assim tambem lembranças do pae e da mãe
-que estão em Lisboa. A carta é longa, cheia de ternuras e saudades. A
-resposta, disse-me mana Rita que é em tom verdadeiramente maternal.
-Não sabe mostrar-se magoada; é toda perdão e carinho. Só lhe faz uma
-queixa; é que, pedindo os retratos della e do marido, não lhe mandasse
-logo o seu, o ultimo dos seus, porque os antigos cá estão. Diz muitas
-cousas longas, lembra os tempos de infancia e de estudo, e no fim
-insinua-lhe que venha contar-lhe as viagens. As gravuras são da casa
-Goupil.
-
-Rita esteve com ella no dia 15, entre uma e duas horas da tarde,
-depois que a viuva saiu de lá para a casa do tio desembargador. Apezar
-da separação desta e suas saudades, sentia-se alegre com a afeição
-que cresce entre ambas, e igualmente alegre com a resurreição do
-afilhado. Chama-lhe resurreição por imaginar que o moço inteiramente os
-esquecera. Via agora que não, e parecia-lhe a mesma alma daqui saída.
-Falando ou calando, tinha intervalos de melancolia, e, de uma vez, acha
-mana Rita que lhe viu apontar uma lagrima, uma pequenina lagrima de
-nada...
-
- * * * * *
-
-23 de Maio.
-
-_Les morts vont vite._ Tão depressa enterrei o leiloeiro como o
-esqueci. Assim foi que escrevendo o dia de hontem, deixei de dizer que
-no armazem do Fernandes achámos todos os objetos de mana Rita notados
-e vendidos, e o dinheiro á espera da dona. Pouco é; recebel-o-ha
-oportunamente. Talvez não houvesse necessidade de escrever isto; fica
-servindo á reputação do finado.
-
-Outra cousa que me ia esquecendo tambem, e mais principal, porque o
-oficio dos leilões pode acabar algum dia, mas o de amar não cança nem
-morre. A culpa foi de mana Rita que, em vez de começar por ahi, só me
-deu a noticia no largo de S. Francisco, indo a entrar no bonde. Parece
-que Fidelia mordeu uma pessoa; foram as proprias palavras della.
-
---Mordeu? perguntei sem entender logo.
-
---Sim, ha alguem que anda mordido por ella.
-
---Isso hade haver muitos, retorqui.
-
-Não teve tempo de me dizer nada, trepára ao bonde e o bonde ia sair;
-apertou-me a mão sorrindo, e disse adeus com os dedos.
-
- * * * * *
-
-24 de Maio, ao meio dia.
-
-Esta manhã, como eu pensasse na pessoa que terá sido mordida pela
-viuva, veiu a propria viuva ter commigo, consultar-me se devia cural-a
-ou não. Achei-a na sala com o seu vestido preto do costume e enfeites
-brancos, fil-a sentar no canapé, sentei-me na cadeira ao lado e esperei
-que falasse.
-
---Conselheiro, disse ella entre graciosa e séria, que acha que faça?
-Que caze ou fique viuva?
-
---Nem uma cousa nem outra.
-
---Não zombe, conselheiro.
-
---Não zombo, minha senhora. Viuva não lhe convem, assim tão verde;
-cazada, sim, mas com quem, a não ser commigo?
-
---Tinha justamente pensado no senhor.
-
-Peguei-lhe nas mãos, e enfiamos os olhos um no outro, os meus a tal
-ponto que lhe rasgaram a testa, a nuca, o dorso do canapé, a parede e
-foram pousar no rosto do meu criado, unica pessoa existente no quarto,
-onde eu estava na cama. Na rua apregoava a voz de quasi todas as
-manhãs: «Vae... vassouras! vae espanadores!»
-
-Comprehendi que era sonho e achei-lhe graça. Os pregões foram andando,
-emquanto o meu José pedia desculpa de haver entrado, mas eram nove
-horas passadas, perto de dez. Fui ás minhas abluções, ao meu café,
-aos meus jornaes. Alguns destes celebram o anniversario da batalha de
-Tuyuty. Isto me lembra que, em plena diplomacia, quando lá chegou a
-noticia daquella victoria nossa, tive de dar esclarecimentos a alguns
-jornalistas estranjeiros sequiosos de verdade. Vinte annos mais, não
-estarei aqui para repetir esta lembrança; outros vinte, e não haverá
-sobrevivente dos jornalistas nem dos diplomatas, ou raro, muito raro;
-ainda vinte, e ninguem. E a terra continuará a girar em volta do sol
-com a mesma fidelidade ás leis que os regem, e a batalha de Tuyuty,
-como a das Thermopylas, como a de Iena, bradará do fundo do abismo
-aquella palavra da prece de Renan: «Ó abismo! tu és o deus unico!»
-
-Ahi fica um desconcerto acabando em desconsolo,-tudo para annotar
-pouco mais que nada. Posso dizer com D. Francisco Manuel: «Eu de meu
-natural sou miudo e prolixo; o estar só e a melancolia, que de si é
-cuidadosa...» Ahi deixo uma pagina feita de duas, ambas contrarias e
-filhas da mesma alma de sexagenario desenganado e guloso. Ao cabo, nem
-tão guloso nem tão desenganado. Conversações do papel e para o papel.
-
- * * * * *
-
-26 de Maio.
-
-Aqui ficam os sinaes do sujeito mordido pela viuva Noronha. Vinte e
-oito annos, solteiro, advogado do Banco do Sul, donde lhe vieram as
-relações com o gerente Aguiar; boa feição, boas maneiras, acaso timido.
-É filho de um antigo lavrador do Norte, que rezide agora no Recife.
-Dizem que tem muito talento e grande futuro. Chama-se Osorio.
-
-Esteve no Flamengo, na noite de 14, primeira reunião do Aguiar. Não vi
-nada que fizesse suspeitar a inclinação que se lhe atribue, mas parece
-que já então lhe queria, e a paixão é crescente. Continua a vel-a em
-casa do desembargador, onde a conheceu. Quem sabe se não sae dalli um
-noivo, e mana Rita perde a aposta que fez commigo? Fidelia pode muito
-bem casar sem esquecer o primeiro marido, nem desmentir a afeição que
-lhe teve.
-
- * * * * *
-
-29 de Maio.
-
-Hontem, na reunião do Aguiar, pude verificar que o joven advogado
-está mordido pela viuva. Não tem outra explicação os olhos que lhe
-deita; são daquelles que nunca mais acabam. Realmente, é timido, mas
-de uma timidez que se confunde com respeito e adoração. Se houvesse
-dança, elle apenas lhe pediria uma quadrilha; duvido que a convidasse
-a valsar. Conversaram alguns minutos largos, e por duas vezes, e ainda
-assim foi ella que principalmente falou. Osorio gastou o mais do tempo
-em miral-a, e fazia bem, porque o gesto da dama era cheio de graça, sem
-perder a tristeza do estado.
-
-Tambem eu lhe falei o meu pouco, á janella. Ambos eramos de acordo que
-não ha bahia no mundo que vença a do nosso Rio de Janeiro.
-
---Não vi muitas, disse ella, mas nenhuma achei que se aproxime desta.
-
-Sobre isto dissemos cousas interessantes,-ella, ao menos,-mas estou
-que tambem eu. Quiz perguntar-lhe se nos mares que percorreu viu algum
-peixe semelhante áquelle que anda agora em volta della, mas não ha
-intimidade para tanto, e a cortezia opunha-se. Conversámos da cidade
-e suas diversões. Não vae a teatro, qualquer que seja, nada sabe de
-dramas nem de operas; não insisti no assunto. Apenas me servi da
-segunda parte, a parte lirica, para lhe falar dos seus talentos de
-pianista, que ouvira gabar muito.
-
---São impressões de amigos, respondeu sorrindo.
-
-Depois confessou-me que ha muito não toca, e provavelmente esquecerá
-o que sabe. Talvez não fosse sincera nesta conjetura, mas tudo se
-hade perdoar ao oficio da modestia, e ella parece modesta. Guiei a
-conversação de modo que mais ouvisse que falasse, e Fidelia não se
-recusou a essa distribuição de papeis. Disse pouco de si e muito da
-gente Aguiar. Neste ponto falou com algum calor; não me deu cousas
-novas, mas o que sentia dos dous foi expresso com alma. Contou-me até
-que entre D. Carmo e a mãe della achava semelhanças que lhe faziam
-lembrar alguma vez a finada,-ou seria simplesmente a afeição que
-aquella lhe tem. Emfim, separámo-nos quasi amigos.
-
-Não repeti á gente Aguiar o que a seu respeito ouvi á viuva Noronha;
-falei a D. Carmo nos talentos musicaes da moça, e ella me confirmou que
-a viuva está disposta a não tocar mais. Se não fosse isso, pedia-lhe
-que nos desse alguma cousa. Ao que eu respondi:
-
---A propria arte a convidará um dia a tocar em casa, a sós comsigo...
-
---Póde ser; em todo caso, não a convidarei a tocar aqui; o aplauso
-podia avivar-lhe a saudade-ou, se a distraisse della, viria
-diminuir-lhe o gosto de sofrer pelo marido. Não lhe parece que ella é
-um anjo?
-
-Achei que sim; acharia mais, se me fosse perguntado. D. Carmo crê na
-reconciliação della com o pae, e nem por isso receia perdel-a. Fidelia
-saberá ser duas vezes filha, é o resumo do que lhe ouvi, sem entrar
-em pormenores nem na especie de afeição que lhe tem. Do que ella me
-disse ácerca do «gosto de sofrer pelo marido», concluo que a senhora do
-Aguiar é daquellas pessoas para quem a dor é cousa divina.
-
- * * * * *
-
-Fim de Maio.
-
-Acaba hoje o mez. Maio é tambem cantado na nossa poesia como o mez
-das flores,-e aliás todo o anno se pode dizer dellas. A mim custou-me
-bastante aceitar aquellas passagens de estação que achei em terras
-alheias.
-
-A viuva Noronha, ao contrario, pelo que me disse na ultima noite do
-Flamengo, achou deliciosa essa impressão lá fora, apezar de nascida
-aqui e criada na roça. Ha pessoas que parecem nascer errado, em clima
-diverso ou contrario ao de que precisam; se lhes acontece sair de um
-para outro é como se fossem restituidas ao proprio. Não serão communs
-taes organismos, mas eu não escrevi que Fidelia seja commum.
-
-A descrição que ella me fez da impressão que teve lá fora com a entrada
-da primavera foi animada e interessante, não menos que a do inverno com
-os seus gelos. A mim mesmo perguntei se ella não estaria destinada a
-passar dos gelos ás flores pela ação daquelle bacharel Osorio... Ponho
-aqui a reticencia que deixei então no meu espirito.
-
- * * * * *
-
-9 de Junho.
-
-Este mez é a primeira linha que escrevo aqui. Não tem sido falta de
-materia, ao contrario; falta de tempo tambem não; falta de disposição é
-possivel. Agora volta.
-
-A materia sobra. Antes de mais nada, Osorio recebeu carta do pae,
-pedindo-lhe que o fosse ver sem demora; está doente e mal. Osorio
-preparou-se e embarcou para o Recife. Não o fez logo, logo; parece que
-a imagem de Fidelia o prendeu uns tres dias, ou porque se não pudesse
-separar della, ou por temor de a perder ás mãos de terceiro; ambas as
-causas seriam.
-
-Os paes fazem muito mal em adoecer, mormente se estão no Recife, ou
-em qualquer cidade que não seja aquella onde os filhos namorados
-vivem perlo das suas damas. A vida é um direito, a mocidade outro;
-perturbal-os é quasi um crime. Se eu tenho podido dizer isto ao Osorio,
-talvez elle não partisse; acharia na minha reflexão um eco do proprio
-sentimento, e escreveria ao pae uma carta cheia de piedade; mas ninguem
-lhe disse nada.
-
-Haveria tambem outro recurso, que conciliaria a piedade e o amor, era
-escrever a Fidelia dizendo-lhe que embarcava e pedindo-lhe alguns
-minutos de atenção. A carta, se levasse um ar petulante, aguçaria
-naturalmente a curiosidade da viuva, e a entrevista se realizaria em
-presença ou na ausencia do desembargador; é indiferente. Talvez elle
-preferisse sair da sala.
-
---Titio pode ficar, diria ella ao receber o cartão de Osorio.
-
---Não, é melhor sair. Provavelmente é algum caso de advocacia,
-continuaria elle sorrindo, e eu sou magistrado, não devo ouvir nada por
-ora; mais tarde terei de ser juiz.
-
-Osorio entraria, e depois de alguns comprimentos, pediria a mão da
-viuva. Suponhamos que ella recusasse, fal-o-hia com palavras polidas
-e quasi afetuosas, dizendo que sentia muito, mas resolvera não cazar
-mais. Pausa longa; o resto adivinha-se. Osorio talvez lhe perguntasse
-ainda se a resolução era definitiva, ao que ella, para evitar mais
-dialogo, responderia com a cabeça que era, e elle iria embora. Fidelia
-correria a contar a novidade ao tio. Quero crer que este defendesse
-a candidatura do advogado, e dissesse das boas qualidades delle, da
-carreira prospera, da familia distinta e o resto; Fidelia não se
-arrependeria da recusa.
-
---Resolvi não cazar, diria pela terceira vez naquella tarde.
-
-Tres vezes negou Pedro a Christo, antes de cantar o galo. Aqui não
-haveria galo nem canto, mas jantar, e os dous iriam pouco depois para
-a meza. Não diriam nada durante os primeiros minutos, elle pensando
-que teria sido vantajoso á sobrinha cazar com o rapaz, ella remoendo
-a impressão do amor que este lhe tinha. Por muito que se recuse deixa
-sempre algum gosto a paixão que a gente inspira. Ouvi isto a uma
-senhora, não me lembra em que lingua, mas o sentido era este. E Fidelia
-deixaria a meza sem chorar, como Pedro chorou depois do galo.
-
-Tudo imaginações minhas. A realidade unica é que Osorio embarcou e lá
-vae, e a viuva cá fica sem perder as graças, que cada vez me parecem
-maiores. Estive com ella hoje, e se não a arrebatei commigo não foi
-por falta de braços nem de impulsos. Quiz perguntar-lhe se não sonhara
-com o pretendente despedido, mas a confiança que começo a merecer-lhe
-não permitte taes inquirições, nem ella contaria nada de si mesma.
-Contou-me, sim, que as pazes com o pae estarão concluidas daqui a
-pouco, ainda que lhe seja preciso ir á fazenda. Naturalmente aprovei
-este passo. Fidelia disse-me que o pae já na ultima carta ao irmão
-lhe mandou lembranças, não nominalmente, mas por esta forma coletiva:
-«lembranças a todos».
-
---Hade custar-lhe a dar o primeiro passo, mas a mim não me importa
-fazei-o, concluiu ella.
-
---Naturalmente.
-
---A separação que se deu entre nós era impossivel impedil-a.
-Conselheiro, o senhor que viveu lá fóra a maior parte da vida não
-calcula o que são aqui esses odios politicos locaes. Papae é o melhor
-dos homens, mas não perdoa a adversario. Hoje creio que está tudo
-acabado; a abolição fel-o desgostoso da vida politica. Já mandou dizer
-aos chefes conservadores daqui que não contem mais com elle para nada.
-Foram os odios locaes que trouxeram a nossa separação, mas póde crer
-que elle padeceu tanto como eu e meu marido.
-
-Confiou-me, em prova do padecimento de ambos, varias reminiscencias da
-vida conjugal, que eu ouvi com grande interesse. Não as escrevo para
-não acumular noticias, vá só uma.
-
-Um anno depois do cazamento, pouco mais, tiveram elles a ideia de
-propor aos paes a reconciliação das familias. Primeiro escreveria o
-marido ao pae delle; se este aceitasse de boa feição, escreveria ella
-ao seu, e esperariam ambos a segunda resposta. A carta do marido dizia
-as suas felicidades e esperanças, e concluia pedindo a bênção, ou,
-quando menos, que lhe retirasse a maldição. Era longa, terna e amiga.
-
---Meu marido nunca me mostrou a resposta do pae, concluiu Fidelia, ao
-contrario, disse-me que não recebera nenhuma. Eu é que a achei depois
-de viuva, seis ou oito mezes depois, entre papeis delle, e comprehendi
-porque a escondera de mim...
-
-Parou aqui. Tive curiosidade de saber o que era, e, evocando a musa
-diplomatica, lembrou-me induzil-a á confissão ou retificação, dizendo á
-minha recente amiga:
-
---Dissesse o que fosse a seu respeito ou de seu pae, era natural da
-parte de um inimigo...
-
---Não, não, acudia Fidelia; não teve nenhuma palavra de odio. Não
-gosto de repetir o que foi, uma simples linha ou linha e meia,
-assim: « Recebi a tua carta, mas não recebi o teu remedio para o meu
-reumatismo.» Só isto. Elle era reumatico, e meu marido, como sabe, era
-medico.
-
-Ri commigo. Não esperava tal remoque da Parahyba do Sul, e comprehendi
-tambem a reserva do marido. Não comprehendi menos a confidencia da
-viuva; cedia, alem do mais, á necessidade de contar alguma cousa que
-distribuisse ao sogro parte grande na culpa que cabia ao pae. Não podia
-tolher que falasse em si o sangue do fazendeiro. Tudo era Santa-Pia.
-
- * * * * *
-
-14 de Junho.
-
-Más noticias de Santa-Pia. O barão teve uma congestão cerebral; Fidelia
-e o tio vão para a fazenda amanhã. Não é facil adivinhar o que vae sair
-daqui, mais não seria dificil compor uma invenção, que não acontecesse.
-Enchia-se o papel com ella, e consolava-se a gente com o imaginado.
-Melhor é dizer que a reconciliação parece fazer-se mais depressa do
-que esperavam, e tristemente.
-
- * * * * *
-
-15 de Junho.
-
-Ha na vida simetrias inesperadas. A molestia do pae de Osorio chamou o
-filho ao Recife, a do pae de Fidelia chama a filha á Parahyba do Sul.
-Se isto fosse novela algum critico tacharia de inverosimil o acordo
-de factos, mas já lá dizia o poeta que a verdade pode ser ás vezes
-inverosimil. Vou hoje á casa do Aguiar para ver se a filha postiça
-deixou saudades aos dous; deve tel-as deixado.
-
- * * * * *
-
-16 de Junho.
-
-Deixou, deixou saudades e grandes. Achei-os sós e conversámos da amiga.
-Propriamente não estavam tristes da ausencia della, mas da tristeza que
-ella levou comsigo. Quero dizer que lhes doía a magua da outra; foi o
-que me pareceu. A ausencia contam que não seja longa, e será temperada
-por visitas á capital; em todo caso, a separação não é tamanha que
-elles não possam dar um pulo á fazenda. Taes foram os sentimentos e as
-esperanças que lhes adivinhei. Falaram-me do golpe recebido pela moça.
-D. Carmo disse-me que eu não podia imaginar como a foi achar abatida.
-
---Ofereci-me para acompanhal-a á fazenda; recusou agradecida, e pela
-primeira vez me deu um nome que o ceu não quiz que eu tivesse na terra:
-«Obrigada, mãesinha», e beijou-me com grande ternura.
-
-A minha ternura não é grande, nem acaso pequena, mas comprehendi o
-sentimento da boa senhora, e gostei de saber que em tão grave instante,
-Fidelia lhe tivesse dado aquella palavra cordial. Parecia contental-a
-muito e ao marido. Este, aliás, acompanhou a narração da mulher em
-silencio, com os olhos no tecto; naturalmente não queria incorrer na
-pecha de fraco, mas a fraqueza, se o era, começou nos gestos; elle
-ergueu-se, elle sentou-se, elle acendeu um charuto, elle retificou a
-posição de um vaso... Eu, para espanar a melancolia da sala, perguntei
-se os negocios do barão iam bem, e se os libertos... Aguiar volveu a
-ser gerente de banco e expoz-me algumas cousas sobre o plantio do café
-e os titulos de renda.
-
-Nessa ocasião entrou um intimo da casa e conversou tambem do
-fazendeiro. Disse que os negocios delle, apezar do desfalque, não iam
-mal; deve ter uns tresentos contos. Aguiar não sabe exatamente, mas
-aceitou o calculo.
-
---Tem só aquella filha, concluiu a visita, e é provavel que ella case
-outra vez.
-
-Eu, para ser agradavel aos donas da casa, quiz dizer que me parecia que
-não, mas este bom costume de calar me fez engolir a emenda, e agora me
-confesso arrependido. Ao cabo eu já me vou conformando com a viuvez
-perpetua da bella dama, se não é ciume ou inveja de a ver cazada com
-outro. Já me parece que realmente Fidelia acaba sem cazar. Não é só
-a piedade conjugal que lhe perdura, é a tendencia a cousas de ordem
-intelectual e artistica, e pouco mais ou mais nada. Fique isto confiado
-a ti sómente, papel amigo, a quem digo tudo o que penso e tudo o que
-não penso.
-
- * * * * *
-
-17 de Junho.
-
-O barão de Santa-Pia está mal, muito mal.
-
- * * * * *
-
-18 de Junho.
-
-Viva a Fortuna, que sabe ás vezes consolar o mal agudo com algum
-balsamo inesperado. A gente Aguiar recebeu carta de Tristão, que
-lhes anuncia a vinda ao Brazil, talvez no paquete proximo. Logo que
-entrei... Era dia de recepção delles, e soube depois que tinham pensado
-em transferil-a por causa da tristeza de Fidelia, mas consideraram que
-era modesta e resumida, que se não dansava, raro se cantava, e apenas
-se conversava e tomava chá; podia ser mantida sem escandalo.
-
-Logo que entrei deu-me Aguiar a noticia. Quando fui comprimentar D.
-Carmo, e a felicitei pela vinda do moço, ouviu-me com grande prazer.
-Meia hora depois, tornámos a falar do assunto, ella e eu, e então foi
-ella que iniciou a conversação, dizendo-me que estava em caza, longe de
-esperar tal cousa, e de repente viu entrar no jardim um homem do banco
-com um bilhete do Aguiar, dando-lhe a boa nova, e acompanhado da carta
-que Tristão mandava aos dous. Contando-me estas particularidades, acaso
-dispensaveis, D. Carmo queria naturalmente communicar-me o proprio
-alvoroço. Conheço estas intenções reconditas e manifestas a um tempo;
-é velho sestro de felizes.
-
-A gente pouca e as relações estreitas deram azo a que no fim da noite
-falassemos todos do hospede vindouro. Ahi vem o afilhado que elles
-tiveram por esquecido, quasi ingrato, esse outro meio filho que
-ajudaram a criar e a amar. Aguiar e a mulher deram explicações pedidas,
-contaram episodios de infancia, historias de graça, de esperteza,
-algumas de manha, mas a manha das creanças só enfada em ação;
-recordada, deleita, como outras cousas idas. Uma das senhoras presentes
-quiz lembrar alguns actos de carinho e dedicação de D. Carmo ácerca do
-pequeno, mas a boa velha esquivou-se depressa, e apenas ouvimos um ou
-dous. Noite de familia; saí cedo, vim para casa tomar leite, escrever
-isto e dormir. Até outro dia, papel.
-
- * * * * *
-
-20 de Junho.
-
-Telegrama da Parahyba do Sul: «O barão de Santa-Pia faleceu hoje de
-manhã.» Vou mandar a noticia a mana Rita, e enviar cartões de pezames.
-É caso de dar tambem os pezames á gente Aguiar? Pezames não, mas uma
-visita discreta e afetuosa, amanhã ou depois...
-
- * * * * *
-
-21 de Junho.
-
-Aguiar vae á fazenda de Santa-Pia, em visita de pezames a Fidelia;
-parte amanhã. D. Carmo fica. Foi o que elle me disse na rua do Ouvidor.
-
---Já lhe mandei os meus, disse-lhe. Receba-os tambem, se a afeição que
-os liga a D. Fidelia pode justificar esta participação de desgosto...
-
---Ambos nós sentimos a dor que aflige a nossa boa amiga. Carmo queria
-ir commigo; eu é que lhe disse que não, que não vá; pode cançal-a muito
-a viagem assim rapida.
-
-Lá vae o Aguiar enfraquecer da alegria do filho com a magua da filha;
-cá virá convalecer da tristeza da moça com a alegria do rapaz. Tudo
-se atenua assim neste mundo, e ainda bem. O peor é não serem filhos
-de verdade, mas só de afeição; é certo que, em falta de outros,
-consolam-se com estes, e muita vez os de verdade são menos verdadeiros.
-
- * * * * *
-
-21 de Junho, á noite.
-
-Cá esteve hoje a minha boa mana; ia visitar a gente Aguiar, eu
-disse-lhe que vá commigo amanhã, e aceitou.
-
- * * * * *
-
-23 de Junho.
-
-A mana e eu estivemos hontem em casa da boa velha Aguiar. Saí de lá
-mais cedo do que quizera; se pudesse, ficaria muito mais tempo.
-
-Achamo-la entre alegre e triste, se esta expressão pode definir um
-estado que se não descreve; eu, ao menos, não posso. Recebeu-nos como
-sempre; ella sabe dar ao gesto e á palavra um afago sem intenção,
-verdadeiramente delicioso. Quando lhe falámos de Fidelia disse da
-tristeza da amiga com outra tristeza correspondente, e referiu a
-partida do marido na manhã de hontem, sem aludir ás obrigações que
-elle teve de interromper. Não tardou, porém, que lhe perguntassemos
-pelo afilhado e respondeu com satisfação grande. O resto da visita
-dividiu-se entre ambos, mas ao rapaz coube a maior parte da
-conversação, naturalmente por ser mais longa a ausencia, maior a
-distancia e inesperada a volta.
-
-D. Carmo continuou a narração da outra noite, agora mais intima, eramos
-tres pessoas apenas. Não diria toda a primeira vida do pequeno, o tempo
-seria pouco, ella mesma o confessou, mas muita cousa principal disse.
-Era fragil, magrinho, quasi nada, creaturinha de escasso folego. Não
-disse que se fez mãe; esta senhora não conhece a lingua do proprio
-louvor, mas eu já sabia, e percebia-se do carinho da narração que devia
-ser assim mesmo. Rita arriscou esta reflexão rindo:
-
---As creanças não sabem o cuidado que dão, e esquecem depressa o que
-sabem.
-
---É preciso desculpar a Tristão o que é proprio de rapaz, acudiu D.
-Carmo. Elle não é mau; esqueceu-se um pouco de nós, mas a idade e a
-novidade dos espectaculos explicam tudo. A prova é que ahi vem elle
-ver-nos, e se lêsse as cartas delle... Aguiar não lhe mostrou a ultima?
-
---Não, minha senhora, respondi; disse-me só o que continha.
-
---Talvez não dissesse tudo.
-
-Cuido que quizesse mostrar-me as cartas do rapaz, uma só que fosse, ou
-um trecho, uma linha, mas o temor de enfadar fez calar o desejo. Foi o
-que me pareceu e deixo aqui escrito. Tornámos á viuva, depois voltámos
-a Tristão, e ella só passou a terceiro assunto porque a cortezia o
-mandou; eu, porém, para ir com a alma della, guiei a conversa novamente
-aos filhos postiços. Era o meu modo de ser cortez, com a boa senhora.
-Custa-me dizer que saí de lá encantado, mas saí, e mana Rita tambem.
-Rita disse-me na rua:
-
---Ha poucas creaturas como aquella.
-
---Creio, creio, é excelente... sem desfazer em você.
-
---Eu não, replicou Rita prontamente. Não me acho má, porém estou longe
-de ser o que ella é. Você repare que tudo naquella senhora é bom, até a
-opinião, que nem sempre é justa, porque ella perdoa e desculpa a todos.
-Eu não sou assim; acho muita gente má, e se fôr preciso dizel-o, digo.
-D. Carmo não é capaz de criticar ninguem. Algum reparo que aceite é
-sempre explicando; quando menos, calando.
-
- * * * * *
-
-24 de Junho.
-
-Hontem conversei com a senhora do Aguiar ácerca das antigas noites de
-S. João, Santo Antonio e S. Pedro, e mais as suas sortes e fogueiras.
-D. Carmo pegou do assunto para tratar ainda do filho postiço. Leve o
-diabo tal filho. A filha postiça é que hade estar a esta hora mui
-triste no cazarão da fazenda, onde certamente passou as antigas noites
-de S. João de donzela esperançada e credula. A deste anno sem pae deve
-ser aborrecida, não tendo mãe que o continue, nem marido que os supra.
-Um tio não basta para tanta cousa.
-
-Tambem eu tirei sortes outr'ora. Com pouco se fingia de Destino,-um
-livro, um rimador de quadras e um par de dados. «Se hade despozar a
-pessoa a quem ama», dizia o titulo da pagina, por exemplo; deitavam-se
-os dados, os numeros eram cinco e dous, sete; ia-se á quadra setima,
-e lia-se. Suponhamos que se lia... Vá, risco a quadra que cheguei
-a escrever aqui. Geralmente era engraçada,-pelo menos, mas tambem
-troçava com a pessoa que consultava o Destino. Todos riam; alguns
-criam deveras; em todo caso passavam-se as horas até chegar o somno. E
-alli vinha este velho camareiro da humanidade, que os pagãos chamaram
-Morpheu, e que a pagãos e christãos, e até a incréos fecha os olhos com
-os seus eternos dedos de chumbo. Agora, meu somno amigo, só tu virás
-daqui a uma ou duas horas, sem livros de sortes nem dados. Quando muito
-trarás sonhos, e já não serão os mesmos de outro tempo.
-
- * * * * *
-
-27 de Junho.
-
-Missa do barão de Santa-Pia em S. Francisco de Paula. O filho do
-desembargador representava a familia; este e a sobrinha ouviram missa
-na fazenda. Hade ter sido outra recordação antiga para a viuva. A
-fazenda tem capela, onde um padre dizia missa aos domingos e confessava
-pela quaresma. Tambem eu conheci esse costume em pequeno, e ainda
-me lembra que, na quaresma, eu e outros rapazes iamos esconder-nos
-do confessor em baixo das camas ou nos desvãos da caza. Já então
-confundiamos as praticas religiosas com as canceiras da vida, e
-fugiamos dellas. Entretanto, o padre que me confessou pela primeira
-vez era meigo, atento, guiava-me a confissão indicando os pecados que
-devia dizer, e até que ponto, e punha a absolvição na lingua antes que
-os pecados lhe entrassem pelo ouvido; assim me pareceu. Perdôe-me a sua
-memoria, se não é verdade. Tudo isso vae longe. A segunda confissão foi
-por ocasião de cazar. Dahi em diante não fui mais que virtudes.
-
-Bastante gente em S. Francisco de Paula. Na sacristia havia folhas de
-papel onde se inscreveram as pessoas que lá foram, e uma ou outra
-que não foi mas encomendou o cuidado a um terceiro. Vi magistrados,
-advogados, pessoas do comercio e do funcionalismo, senhoras, algumas
-senhoras. Destas eram moças umas, amigas de Fidelia, outras eram velhas
-do tempo da mãe. Uma destas era a que não faltaria, ainda que lá não
-fosse ninguem, e só amiga da viuva, a boa Aguiar, naturalmente. Lá
-estava tambem Rita, que veiu almoçar commigo.
-
-Se as missas pudessem ser ditas, segundo a ocasião, eu acharia que o
-padre ajustou a sua á pouca presença do sangue do morto, tão breve
-foi, mas não é assim; cada padre diz a missa á sua maneira de sempre,
-apressada ou vagarosa, conforme usa ler ou falar.
-
- * * * * *
-
-30 de Junho.
-
-Ora bem, a viuva Noronha mandou uma carta a D. Carmo, documento
-psicologico, verdadeira pagina da alma. Como elles tiveram a bondade
-de mostrar-m'a, dispuz-me a achal-a interessante, antes mesmo de a
-ler, mas á leitura dispensou a intenção; achei-a interessante deveras,
-disse-o, reli alguns trechos. Não tem frases feitas, nem frases
-rebuscadas; é simplesmente simples, se tal adverbio vae com tal
-adjetivo, creio que vae, ao menos para mim.
-
-Quatro paginas apenas, não deste papel de cartas que empregamos, mas do
-antigo papel chamado de peso, marca Bath, que havia na fazenda, a uso
-do pae. Trata longamente delle e das saudades que ella foi achar lá,
-das lembranças que lhe acordaram as paredes dos quartos e das salas,
-as colunas da varanda, as pedras da cisterna, as janellas antigas, a
-capela rustica. Mucamas e moleques deixados pequenos e encontrados
-crescidos, livres com a mesma afeição de escravos, tem algumas linhas
-naquellas memorias de passagem. Entre os fantasmas do passado, o perfil
-da mãe, ao pé o do pae, e ao longe como ao perto, nas salas como no
-fundo do coração, o perfil do marido, tão fixo que cheguei a vel-o e me
-pareceu eterno.
-
-Vou reconhecendo que esta moça vale ainda mais do que me parecia a
-principio. Não é a questão de amar ou não o defunto marido; creio que
-o ame, sem que essa fidelidade lhe aumente a pureza dos sentimentos.
-Pode ser obra delle, ou della, ou de ambos a um tempo. O maior valor
-della está, além da sensação viva e pura que lhe dão as cousas, na
-concepção e na analise que sabe achar nellas. Pode ser que haja nisto,
-da minha parte, um aumento de realidade, mas creio que não. Se fosse
-nos primeiros dias deste anno, eu poderia dizer que era o pendor de
-um velho namorado gasto que se comprazia em derreter os olhos atravez
-do papel e da solidão, mas não é isso; lá vão as ultimas gabolices
-do temperamento. Agora, quando muito, só me ficaram as tendencias
-esteticas, e deste ponto de vista, é certo que a viuva ainda me leva
-os olhos, mas só deante delles. Realmente, é um bello pedaço de gente,
-com uma dose rara de expressão. A carta, porém, dá a tudo grande nota
-espiritual.
-
-Acredito que D. Carmo sinta essa dama como eu a entendo, mas desta vez
-o que lhe penetrou mais fundo foi o comprimento final da carta, as tres
-ultimas palavras, anteriores á derradeira de todas, que é o nome: «da
-sua filhinha Fidelia.» Percebi isto, vendo que ella desceu os olhos
-ao fim do papel tres ou quatro vezes, sem querer acabar de o dobrar e
-guardar.
-
- * * * * *
-
-1 de julho.
-
-Tambem ha ventanias de felicidade, que levam tudo adeante de si.
-A gente Aguiar recebeu hontem a carta de Fidelia, e hoje outra de
-Tristão, em que este lhe annuncia que embarca no paquete inglez para
-cá; deve chegar a 23 ou 24. A alegria com que elles leram esta noticia
-foi naturalmente grande; por quanto Fidelia cá está e diz-se filha da
-boa velha; Tristão ahi vem e annuncia que esta carta é a ultima; a
-seguinte é elle proprio. Tudo isso a um tempo.
-
-Preparam-lhe alojamento em casa. Aguiar anda tão satisfeito que, contra
-os seus habitos de discrição, já me disse ter em vista a mobilia do
-quarto que lhe destinam; é simples e elegante. Provavelmente a mulher
-começará já a obra dos seus ornamentos de lã e de linho para as
-cadeiras e a meza. Isto não foi elle que me disse nem ninguem; eu é que
-o adivinho e escrevo aqui para mostrar a mim mesmo o que é facil de
-ver. Para a boa Carmo, bordar, cozer, trabalhar, emfim, é um modo de
-amar que ella tem. Tece com o coração.
-
-É regra velha, creio eu, ou fica sendo nova, que só se faz bem o
-que se faz com amor. Tem ar de velha, tão justa e vulgar parece.
-Dahi a perfeição daquellas suas obras domesticas. Será como dormir
-ou transpirar. Não lhe tiro com isto o merito; por maior que seja a
-necessidade, não é menor a virtude. Tambem eu fiz a minha diplomacia
-com amor, e ouvi a ministros que bem, mas no meu caso (distingamos-nos
-da velha Aguiar) não bastou amor nem necessidade; se não fosse
-carreira é provável que eu acabasse juiz, banqueiro ou outra cousa.
-
- * * * * *
-
-2 de Julho.
-
-O que ouvi dizer hontem a Aguiar foi no Banco do Sul, aonde tinha ido
-depozitar umas apolices. Esqueceu-me escrever que, á saida, perto da
-egreja da Candelaria, encontrei o desembargador Campos; tinha chegado
-de Santa-Pia ante-hontem, á noite, e ia ao Banco levar recados da
-sobrinha para o Aguiar e para a mulher. Perguntei-lhe se Fidelia ficava
-lá de vez; respondeu-me que não.
-
---Ficar de vez, não fica; demora-se algumas semanas, depois virá e
-provavelmente transfere a fazenda; acho que não faz mal. Ficaria,
-segundo me disse, se fosse util, mas parece-lhe que a lavoura decae,
-e não se sente com forças para sustel-a. Dahi a ideia de vender tudo,
-e vir morar commigo. Se ficasse tinha geito. Ella mesma tomou contas
-a todos, e ordenou o serviço. Tem ação, tem vontade, tem espirito de
-ordem. Os libertos estão bem no trabalho.
-
-Conversámos um pouco dos efeitos da abolição, e despedimo-nos.
-
- * * * * *
-
-5 de Julho.
-
-Obrigado pela palavra a ir passar a noite com o corretor Miranda, lá
-fui hoje. Veiu mais gordo da Europa, onde só esteve alguns mezes; é o
-mesmo impetuoso de sempre, mas bom sujeito e excelente marido. Nada
-novo, a não ser um jogo, parece que inventado nos Estados-Unidos e que
-elle aprendeu a bordo. No meu tempo não se conhecia. Chama-se _poker_
-eu trouxe o _whist_, que ainda jogo, e peguei no meu velho voltarete.
-Parece que o _poker_ vae derribar tudo. Na casa do Miranda até a
-senhora deste jogou.
-
-As filhas não jogaram, nem a cunhada, D. Cesaria, que não acha
-recreação nas cartas; confessou (rindo) que é muito melhor dizer mal da
-vida alheia, e não o faz sem graça. Justamente o que falta ao marido,
-a quem sobra o resto. Cuidei que os dous estivessem brigados com o
-corretor, não formalmente, porque D. Cesaria não briga nunca, arrufa-se
-apenas; cuidei que estivessem arrufados com o corretor, quando este e
-a familia embarcaram. Estivessem ou não, a volta os reconciliou. É uma
-das prendas desta senhora. Talvez tivesse dito mal da propria irmã ou
-do cunhado, mas tão habilmente se arranjou que os achei unidissimos.
-Não sei o que ella dirá de mim, eu acho-lhe interesse, e preferi-lhe a
-lingua ao _poker_; com a lingua não se perde dinheiro.
-
-Como se falasse da morte do barão de Santa-Pia e da situação da filha,
-D. Cesaria perguntou se ella realmente não cazava. Parece que duvida
-da viuvez de Fidelia. Eu não lhe disse que já pensara o mesmo, nem lhe
-disse nada; não quiz trazer a outra á conversação e fiz bem. D. Cesaria
-aceitou dahi a pouco a hipothese da viuvez perpetua, por não achar
-graça á viuva, nem vida, nem maneiras, nada, cousa nenhuma; parece-lhe
-uma defunta. Eu sorri como devia, e fui ouvir a explicação que me davam
-de um _bluff._ No _poker_, _bluff_ é uma especie de conto do vigário.
-
- * * * * *
-
-13 de Julho.
-
-Sete dias sem uma nota, um facto, uma reflexão; posso dizer oito dias,
-porque tambem hoje não tenho que apontar aqui. Escrevo isto só para não
-perder longamente o costume. Não é mau este costume de escrever o que
-se pensa e o que se vê, e dizer isso mesmo quando se não vê nem pensa
-nada.
-
- * * * * *
-
-18 de Julho.
-
-Tristão chegou a Pernambuco; esperam por elle a 23.
-
- * * * * *
-
-20 de Julho.
-
-Chegou á Bahia o afilhado dos Aguiares. Creio que elles lhe darão
-festa de recepção, ainda que modesta. A ultima fotografia foi mandada
-encaixilhar e pendurar. É um bello rapaz, e a atitude do retrato tem
-certo ar de petulancia que lhe não fica mal, ao contrario.
-
- * * * * *
-
-25 de Julho.
-
-Já aqui chegou o Tristão. Não o vi ainda; tambem não tenho saido de
-caza estes tres dias. Entre outras cousas, estive a rasgar cartas
-velhas. As cartas velhas são boas, mas estando eu velho tambem, e não
-tendo a quem deixar as que me restam, o melhor é rasgal-as. Fiquei só
-com oito ou dez para reler algum dia e dar-lhes o mesmo fim. Nenhuma
-dellas vale uma só das de Plinio, mas a todas posso aplicar o que elle
-escrevia a Apollinario: «teremos ambos o mesmo gosto, tu em ler o que
-digo, e eu em dizel-o.» Os meus Apollinarios estão mortos ou velhos; as
-Apollinarias tambem.
-
- * * * * *
-
-27 de Julho.
-
-Vi hoje o Tristão descendo a rua do Ouvidor com o Aguiar; adivinhei-o
-por este e pelo retrato. Trazia no vestuario alguma cousa que, apezar
-de não diferir da moda, cá e lá, lhe põe certo geito particular e
-proprio. Aguiar aprezentou-nos. Tristão falou-me polidamente, e com tal
-ou qual curiosidade, não ouso dizer interesse. Naturalmente já ouviu
-falar de mim em casa delles. Cinco minutos de conversação apenas,-o
-bastante para me dizer que está encantado com o que tem visto. Creio
-que seja assim, porque eu amo a minha terra, apezar das ruas estreitas
-e velhas; mas tambem eu desembarquei em terras alheias, e usei igual
-estilo. Entretanto, esta cidade é a delle, e, como eu lhe dissesse que
-não devera ter esquecido o Rio de Janeiro, donde saíra adolescente,
-respondeu que era assim mesmo, não esquecera nada. O encanto vinha
-justamente da sensação de cousas vistas, uma resurreição que era
-continuidade, se assim resumo o que elle me disse em vocábulos mais
-simples que estes. Cinco minutos e despedimo-nos.
-
-É uma bonita figura. A palavra forte, sem ser aspera. Os olhos vives
-e lepidos, mas talvez a brevidade do encontro e da aprezentação os
-obrigasse a essa expressão unica; possivelmente os terá de outra
-maneira alguma vez. É antes alto que baixo, e não magro. A certa
-distancia, ia eu a voltar a cabeça para vel-o ainda, mas recuei a
-tempo; seria indiscreto e apressado, e talvez não valesse a pena. Irei
-uma destas noites ao Flamengo. Ha já tres semanas que não apareço lá.
-
- * * * * *
-
-28 de Julho.
-
-Não duvido que o Tristão visse com prazer o Rio de Janeiro. Quaesquer
-que sejam os costumes novos e ligações de familia, e por maior que
-tenha sido a ausencia, o logar onde alguem passou os primeiros annos
-hade dizer á memoria e ao coração uma linguagem particular. Creio que
-elle esteja realmente encantado, como me disse hontem. Demais, lá fora
-ouvia a mesma lingua daqui; a mãe é a mesma paulista que o gerou e
-levou comsigo, e está agora em Lisboa, com o pae, ambos velhos.
-
-Eu nunca esqueci cousas que só vi em menino. Ainda agora vejo dous
-sujeitos barbados que jogavam o entrudo, teria eu cinco annos; era com
-bacias de madeira ou de metal, ficaram inteiramente molhados e foram
-pingando para as suas cazas. Só não me acode onde ellas eram. Outra
-cousa que igualmente me lembra, apezar de tantos annos passados, é o
-namoro de uma visinha e de um rapaz. Ella morava defronte, era magrinha
-e chamava-se Flor. Elle tambem era magro e não tinha nome conhecido; só
-lhe sabia a cara e a figura. Vinha ás tardes e passava tres, quatro,
-cinco e mais vezes de uma ponta á outra da rua. Uma noite ouvimos
-gritos. Na manhã seguinte ouvi dizer que o pae da moça mandára dar por
-escravos uma sova de páu no namorado. Dias depois foi este recrutado
-para o exercito, dizem que por empenho do pae da moça; alguns creram
-que a sova fôra um simples desforço eleitoral. Tudo é um; amor ou
-eleições, não falta materia ás discordias humanas.
-
-Que valem taes ocurrencias agora, neste anno de 1888? Que pode valer a
-loja de um barbeiro que eu via por esse tempo, com sanguesugas á porta,
-dentro de um grosso frasco de vidro com agua e não sei que massa? Ha
-muito que se não deitam bichas a doentes; ellas, porém, cá estão no meu
-cerebro, abaixo e acima, como nos vidros. Era negocio dos barbeiros e
-dos farmaceuticos, creio; a sangria é que era só dos barbeiros. Tambem
-já se não sangra pessoa nenhuma. Costumes e instituições, tudo perece.
-
- * * * * *
-
-31 de Julho.
-
-Tem agradado muito o Tristão, e para crer que o merece basta dizer que
-a mim não me desagrada, ao contrario. É ameno, conversado, atento, sem
-afetação nem presunção; fala ponderado e modesto, e explica-se bem.
-Ainda lhe não ouvi grandes cousas, nem estas são precisas a quem chega
-de fóra e vive em familia; as que lhe ouvi são interessantes.
-
-No vestido e nas maneiras usa o tom da conversa; a mesma correção e
-simplicidade. O encanto que outro dia me disse achar na cidade continua
-a achar nella e na gente; reconhece ruas, cazas, costumes e pessoas;
-pergunta por muitas destas e interessa-se em ouvir as noticias que lhe
-dão. Algumas reconhece logo, outras com pouca explicação. Emfim, não é
-mau rapaz.
-
-Para a gente Aguiar é mais que excelente. Essa está tanto ou mais
-encantada que elle; nestes poucos dias já o levou a differentes partes.
-O desembargador Campos, que lá jantou hontem, disse-me que D. Carmo
-estava que era uma creança; quasi que não tirava os olhos de cima do
-afilhado. Tristão conhece musica, e á noite, a pedido della, executou
-ao piano um pedaço de Wagner, que elle achou muito bem. Alem do Campos,
-jantou lá um padre Bessa, o que batizou Tristão.
-
-Não era habituado do Flamengo este padre; foi o proprio Tristão que o
-descobriu, de maneira que merece notar. Perguntou por elle, e, ao cabo
-de dous dias, sabendo que residia na Praia Formosa, dispoz-se a lá ir,
-depois de recusar ao padrinho a companhia que este lhe ofereceu.
-
---Quero ir eu só, replicou, para lhe mostrar que não desaprendi a minha
-cidade.
-
-E lá foi, e lá andou, e lá descobriu o padre, dentro de uma
-cazinha-baixa. Bessa, que fora comensal dos paes delle, não o conheceu
-logo, mas ás primeiras noticias recompoz o passado e adivinhou o menino
-a quem dera batismo. Aguiar fel-o convidar e vir á caza delle, a ver
-o moço e visital-o, sempre que quizesse. É uma boa figura de velho e
-de sacerdote, disse-me o desembargador, calvo bastante, cara magra, e
-expressão placida, apezar das miserias que terá cortido; chega a ser
-alegre.
-
- * * * * *
-
-1 de Agosto.
-
-O desembargador deu-me tambem noticia da sobrinha. Está boa e
-virá brevemente da fazenda. Contou-lhe em carta um sonho que teve
-ultimamente, a aparição do pae e do sogro, ao fundo de uma enseada
-parecida com a do Rio de Janeiro. Vieram as duas figuras sobre a
-agua, de mãos dadas, até que pararam deante della, na praia. A morte
-os reconciliára para nunca mais se desunirem; reconheciam agora que
-toda a hostilidade deste mundo não vale nada, nem a politica nem outra
-qualquer.
-
-Quiz replicar ao desembargador que talvez a sobrinha tivesse ouvido
-mal. A reconciliação eterna, entre dous adversarios eleitoraes, devia
-ser exatamente um castigo infinito. Não conheço igual na _Divina
-Comedia._ Deus, quando quer ser Dante, é maior que Dante. Recuei
-a tempo e calei a facecia; era rir da tristeza da moça. Pedi mais
-noticias della, e elle deu-m'as; a principal é que está cada vez mais
-firme na ideia de vender Santa-Pia.
-
- * * * * *
-
-2 de Agosto.
-
-Aguiar mostrou-me uma carta de Fidelia a D. Carmo. Letra rasgada
-e firme, estilo correntio, linguagem terna; promete-lhes vir para
-a Corte logo que possa e será breve. Estou cançado de ouvir que
-ella vem, mas ainda me não cancei de o escrever nestas paginas de
-vadiação. Chamo-lhes assim para divergir de mim mesmo. Já chamei a
-este _Memorial_ um bom costume. Ao cabo, ambas as opiniões se podem
-defender, e, bem pensado, dão a mesma cousa. Vadiação é bom costume.
-
-A carta de Fidelia começa por estas tres palavras: «Minha querida
-mãesinha», que deixaram D. Carmo morta de ternura e de saudades; foi
-a propria expressão do marido. Nem tudo se perde nos bancos; o mesmo
-dinheiro, quando alguma vez se perde, muda apenas de dono.
-
- * * * * *
-
-3 de Agosto.
-
-Hoje fazia annos o ministerio Ferraz, e quem já pensa nelle nem nos
-homens que o compunham e lá vão, uns na morte, outros na velhice ou na
-inação? Foi elle que me promoveu a secretario de legação, sem que eu
-lh'o pedisse e até com espanto meu.
-
-Dizendo isto ao Aguiar, ouvi-lhe anedotas politicas daquelle tempo
-(1859-1861), contadas com animação, mas saudade. Aguiar não tem
-costela de homem publico; todo elle é familia, todo espozo, e agora
-tambem filhos, os dous filhos postiços,-Tristão mais que Fidelia, pela
-razão que penso haver já dito. Confirmou-me as boas impressões do
-desembargador, e concluiu:
-
---Conselheiro, já falou ao nosso Tristão, já o ouviu, e creio
-aprecial-o, mas eu dezejo que o conheça mais para aprecial-o melhor.
-Elle fala da sua pessoa com grande respeito e admiração. Diz que um
-dia o viu em Bruxellas, e estava longe de crer que viria achal-o e
-falar-lhe aqui.
-
---Já me disse isso mesmo. Acho que é um moço muito distinto.
-
---Não é? Tambem nós achamos, e outras pessoas tambem. Não lhe pedi
-que me contasse a vida delle lá, mas conversei de maneira que elle me
-foi dizendo muita cousa, os estudos, as viagens, as relações; pode
-ser que invente ou exagere, mas creio que não; tudo o que nos disse é
-verosimil e combina com o que vimos delle aqui, e tambem do compadre
-e da comadre. Se pudessemos ficar com elle de uma vez, ficavamos. Não
-podemos; Tristão veiu apenas por quatro mezes; a nosso pedido vae ficar
-mais dous. Mas eu ainda verei se posso retel-o oito ou dez.
-
---Veiu só para visital-os?
-
---Diz que só. Talvez o pae aproveitasse a vinda para encarregal-o de
-algum negocio; apezar de liquidado, ainda tem interesses aqui; não lhe
-perguntei por isso.
-
---Pois veja se o faz ficar mais tempo; elle acabará ficando de vez.
-
- * * * * *
-
-4 de Agosto.
-
-Indo a entrar na barça de Nicterohy, quem é que encontrei encostado
-á amurada? Tristão, ninguem menos, Tristão que olhava para o lado da
-barra, como se estivesse com desejo de abrir por ella fóra e sair para
-a Europa. Foi o que eu lhe disse, gracejando, mas elle acudiu que não.
-
---Estou a admirar estas nossas bellezas, explicou.
-
---Deste outro lado são maiores.
-
---São iguaes, emendou. Já as mirei todas, e do pouco que vi lá fora é
-ainda o que acho mais magnifico no mundo.
-
-O assunto era velho e bom para atar conversa; aproveitamol-o e chegamos
-ao desembarque, depois de trocadas muitas ideias e impressões.
-Confesso que as minhas não eram mais novas que o assunto inicial, e
-eram curtas, as d'elle tinham sobre ellas a vantagem de evocações e
-narrativas. Não estou para escrever tudo o que lhe ouvi ácerca dos
-annos de infancia e adolescencia, nem dos de mocidade passados na
-Europa. Foi interessante, de certo, e parece que sincero e exacto, mas
-foi longo, por mais curta que fosse a viagem da barca. Emfim, chegámos
-á Praia-Grande. Quando eu lhe disse que preferia este nome popular ao
-nome oficial, administrativo e politico de Nicterohy, dissentiu de mim.
-Repliquei-lhe que a razão do dissentimento vinha de ser eu velho e elle
-moço. «Criei-me com a Praia-Grande; quando o senhor nasceu a chrisma de
-Nicterohy pegára.» Não havia nisto agudeza alguma; elle, porém, sorriu
-como achando fina a resposta, e disse-me:
-
---Não ha velhice para um espirito como o seu.
-
---Acha? perguntei incredulamente.
-
---Já meus padrinhos m'o haviam dito, e eu reconheço que diziam a
-verdade.
-
-Agradeci de cabeça, e, estendendo-lhe a mão:
-
---Vou ao palacio da presidencia. Até á volta, se nos encontrar-mos.
-
-Uma hora depois, quando eu chegava á ponte, lá o achei. Imaginei
-que esperasse por mim, mas nem me cabia perguntar-lh'o, nem talvez
-a elle dizel-o. A barca vinha perto, chegou, atracou, entrámos. Na
-viagem de regresso tive uma noticia que não sabia; Tristão, alcunhado
-_brazileiro_ em Lisboa, como outros da propria terra, que voltam daqui,
-é portuguez naturalisado.
-
---Aguiar sabe?
-
---Sabe. O que elle ainda não sabe, mas vae saber, é que nas vesperas
-de partir aceitei a proposta de entrar na politica, e vou ser eleito
-deputado ás cortes no anno que vem. Não fosse isso, e eu cá ficava com
-elle; iria buscar meu pae e minha mãe. Sei que elle me hade querer
-dissuadir do plano; meu padrinho não gosta de politica, menos ainda de
-politica militante, mas eu estou obrigado pelo gosto que lhe tenho e
-pelo acordo a que cheguei com os chefes do partido. Escrevi algum tempo
-n'um jornal de Lisboa, e dizem que não inteiramente mal. Tambem falei
-em comicios.
-
---Elles querem-lhe muito.
-
---Sei, muito, como a um filho.
-
---Tem tambem uma filha de afeição.
-
---Tambem sei, uma viuva, filha de um fazendeiro que morreu ha pouco. Já
-me falaram della. Vi-lhe o retrato encaixilhado pelas mãos da madrinha.
-Se conhece bem a madrinha, hade saber o coração terno que tem. Toda
-ella é maternidade. Aos proprios animaes estende a simpatia. Nunca lhe
-falaram de um terceiro filho que tiveram, e ella amava muito?
-
---Creio que não; não me lembra.
-
---Um cão, um pequeno cão de nada. Foi ainda no meu tempo. Um amigo do
-padrinho levou-lh'o um dia, com poucos mezes de existencia, e ambos
-entraram a gostar delle. Não lhe conto o que a madrinha fazia por
-elle, desde as sopinhas de leite até aos capotinhos de lã, e o resto;
-ainda que me sobrasse tempo, não acharia credito em seus ouvidos. Não
-é que fosse extravagante nem excessivo; era natural, mas tão igual
-sempre, tão verdadeiro e cuidadoso que era como se o bicho fosse
-gente. O bicho viveu os seus dez ou onze annos da raça; a doença
-achou enfermeira, e a morte teve lagrimas. Quando entrar no jardim, á
-esquerda, ao pé do muro, olhe, foi ahi que o enterraram; e já me não
-lembrava, a madrinha é que m'o apontou hontem.
-
-Não me soube grandemente essa aliança de gerente de banco e pae de
-cachorro. É verdade que o proprio Tristão dá a maior parte á madrinha,
-que é mulher. Com a pratica dos dias anteriores e estas duas viagens
-de barca, sinto-me meio habilitado a possuir bem aquelle moço. Só lhe
-ouvi meia duzia de palavras algo parecidas com louvor proprio, e ainda
-assim moderado. «Dizem que não escrevo inteiramente mal» encobrirá a
-convicção de que escreve bem, mas não o disse, e pode ser verdade.
-
- * * * * *
-
-7 de Agosto.
-
-D. Carmo foi a Nova-Friburgo com o afilhado para lhe mostrar novamente
-a cidade em que nasceu, creio que tambem a rua, e parece que a propria
-caza. Tudo está velho e quieto, dizem-me. Isto vae com os habitos
-della, que sabe e gosta de guardar os velhos retalhos e lembranças
-antigas, como que lhe dando um ar perpetuo de mocidade. Tristão, não
-tendo aliás o mesmo interesse, mostrou prazer em a acompanhar. Toda a
-gente continua a gostar delle, Campos mais que outros, pois o conheceu
-menino. Mana Rita é que apenas o viu; tem estado adoentada, levantou-se
-ante-hontem; só hontem soube disso, e fui visital-a. Contei-lhe o que
-havia daquella caza e da caza do desembargador; dei-lhe vontade de vir
-tambem á gente Aguiar, quando os dous voltarem de Nova-Friburgo.
-
- * * * * *
-
-10 de Agosto.
-
-Meu velho Ayres, trapalhão da minha alma, como é que tu comemoraste no
-dia 3 o ministerio Ferraz, que é de 10? Hoje é que elle faria annos,
-meu velho Ayres. Vês que é bom ir apontando o que se passa; sem isso
-não te lembraria nada ou trocarias tudo.
-
-Fidelia chega da Parahyba do Sul no dia 15 ou 16. Parece que os
-libertos vão ficar tristes; sabendo que ella transfere a fazenda
-pediram-lhe que não, que a não vendesse, ou que os trouxesse a todos
-comsigo. Eis ahi o que é ser formosa e ter o dom de cativar. Desse
-outro cativeiro não ha cartas nem leis que libertem; são vinculos
-perpetuos e divinos. Tinha graça vel-a chegar á Corte com os libertos
-atraz de si, e para quê, e como sustental-os? Custou-lhe muito fazer
-entender aos pobres sujeitos que elles precisam trabalhar, e aqui não
-teria onde os empregar logo. Prometeu-lhes, sim, não os esquecer, e,
-caso não torne á roça, recomendal-os ao novo dono da propriedade.
-
- * * * * *
-
-11 de Agosto.
-
-Recebi hoje um bilhete de Tristão, escrito de Nova-Friburgo, no qual
-me diz que está muito satisfeito com o que vê e o que ouve; reconheceu
-a cidade, que é encantadora com a sua gente. A companheira de viagem
-ainda o é mais que a gente e a cidade. Copio estas palavras do bilhete:
-«A madrinha ou mãesinha,-não sei bem qual dos nomes lhe dê, ambos são
-exactos,-é aqui muito querida e festejada, não só por duas amigas
-velhas que lhe restam dos tempos de creança, mas ainda por outras que
-conheceu depois de cazada, parentas daquellas ou somente amigas tambem.
-Gosto do logar e do clima; a temperatura é excelente; ficaremos uns
-tres dias mais.»
-
-Não ha nessa carta nada que não pudesse ser dito na volta, uma vez
-que elle desce daqui a tres dias. Creio que elle cedeu ao desejo de
-ser lido por mim e de me ler tambem. Questão de simpatia, questão de
-arrastamento. Vou responder-lhe com duas linhas...
-
-... Lá vae a carta; respondi-lhe com trinta e tantas linhas,
-dizendo-lhe cousas que busquei fazer alegres, e com certeza sairam
-quasi amigas. Concordei que Nova-Friburgo era delicioso, e conclui por
-estas palavras: «Quando descer venha almoçar commigo; falaremos de lá e
-de cá.»
-
- * * * * *
-
-17 de Agosto.
-
-Fidelia chegou, Tristão e a madrinha chegaram, tudo chegou; eu mesmo
-cheguei a mim mesmo,-por outras palavras, estou reconciliado com as
-minhas cans. Os olhos que puz na viuva Noronha foram de admiração pura,
-sem a minima intenção de outra especie, como nos primeiros dias deste
-anno. Verdade é que já então citava eu o verso de Shelley, mas uma
-cousa é citar versos, outra é crer nelles. Eu li ha pouco um soneto
-verdadeiramente pio de um rapaz sem religião, mas necessitado de
-agradar a um tio religioso e abastado. Pois ainda que eu não desse
-então toda a fé ao poeta inglez, dou-lh'a agora, e aqui a dou de novo
-para mim. A admiração basta.
-
- * * * * *
-
-19 de Agosto.
-
-Tristão veiu almoçar commigo. A primeira parte do almoço foi a gloza da
-carta que elle me escreveu. Contou-me que já em creança tinha ido com a
-madrinha a Nova Friburgo algumas vezes, parece-lhe que tres; reconheceu
-a cidade agora e gostou muito della. De D. Carmo fala entusiasmado;
-diz que a afeição, o carinho, a bondade, tudo faz della uma creatura
-particular e rara, por ser tudo de especie tambem rara e particular.
-Referiu-me anedotas antigas, dedicações grandes. Depois confessou que
-as impressões da nossa terra fazem reviver os seus primeiros tempos,
-a infancia e a adolescencia. O fim do almoço foi com o naturalizado e
-o politico. A politica parece ser grande necessidade para este moço.
-Estendeu-se bastante sobre a marcha das cousas publicas em Portugal e
-na Hespanha; confiou-me as suas ideias e ambições de homem de Estado.
-Não disse formalmente estas tres palavras ultimas, mas todas as que
-empregou vinham a dar nellas. Emfim, ainda que pareça algo excessivo,
-não perde o interesse e fala com graça.
-
-Antes de sair, tornou a dizer do Rio de Janeiro, e tambem falou do
-Recife e da Bahia; mas o Rio foi o principal assunto.
-
---A gente não esquece nunca a terra em que nasceu, concluiu elle com um
-suspiro.
-
-Talvez o intuito fosse compensar a naturalização que adotou,-um modo
-de se dizer ainda brazileiro. Eu fui ao deante delle, afirmando que a
-adoção de uma nacionalidade é acto politico, e muita vez pode ser dever
-humano, que não faz perder o sentimento de origem, nem a memoria do
-berço. Usei taes palavras que o encantaram, se não foi talvez o tom que
-lhes dei, e um sorriso meu particular. Ou foi tudo. A verdade é que o
-vi aprovar de cabeça repetidas vezes, e o aperto de mão, á despedida,
-foi longo e fortissimo.
-
-Ate aqui um pouco de fel. Agora um pouco de justiça.
-
-A idade, a companhia dos paes, que lá vivem, a pratica dos rapazes
-do curso medico, a mesma lingua, os mesmos costumes, tudo explica
-bem a adoção da nova patria. Acrescento-lhe a carreira politica, a
-visão do poder, o clamor da fama, as primeiras provas de uma pagina
-da historia, lidas já de longe por elle, e acho natural e facil que
-Tristão trocasse uma terra por outra. Ponho-lhe, emfim, um coração bom,
-e comprehendo as saudades que a terra de cá lhe desperta, sem quebra
-dos novos vinculos travados.
-
- * * * * *
-
-21 de Agosto.
-
-Ante-hontem fui deixar um bilhete de visita a Fidelia; hontem, a
-convite do tio, que me encontrou na rua, fui tomar chá com ambos.
-
-Naturalmente conversámos do defunto. Fidelia narrou tudo o que viu e
-sentiu nos ultimos dias do pae, e foi muito. Não falou da separação
-trazida pelo cazamento, era assunto velho e acabado. A culpa, se houve
-então culpa, foi de ambos, ella por amar a outro, elle por querer mal
-ao escolhido. Eu é que digo isto, não ella, que em sua tristeza de
-filha conserva a de viuva, e se houvesse de escolher outra vez entre
-o pae e o marido, iria para o marido. Tambem falou da fazenda e dos
-libertos, mas vendo que o assunto era já demasiado pessoal, mudou de
-conversa, e cuidámos da cidade e das ocurrencias do dia.
-
-Pouco depois chegaram D. Cesaria e o marido, o doutor Faria, que vinham
-tambem visital-a. A expansão com que D. Cesaria falou a Fidelia e lhe
-deu o beijo da entrada compensou, a meu ver, o dente que lhe meteu ha
-dias em casa do corretor Miranda. Daquella vez, apezar da graça com que
-falou, não gostei de a ver morder a viuva; agora tudo está pago. Repito
-o que lá digo atraz: esta senhora é muito mais graciosa que o marido.
-Nem precisa muito; elle o mal que diz dos outros dil-o mal, ella é
-sempre interessante.
-
-D. Cesaria pagou tudo. Não é que as palavras que empregou hontem deem
-muito de si, como louvor e amizade, mas a expressão dos olhos, o ar
-admirativo e aprovador, um sorriso teimoso, quasi constante, tudo isso
-valia por um capital de afecto. Papel moeda tambem é dinheiro. Com elle
-comprei esta tinta e esta penna, o charuto que estou fumando e o almoço
-que começo a digerir. As duas senhoras não sofrem comparação entre si,
-e para conversar, D. Cesaria basta e sobra. Eu conheci na vida algumas
-dessas pessoas capazes de dar interesse a um tedio e movimento a um
-defunto; enchem tudo comsigo. Fidelia parece ter-lhe simpatia e ouvil-a
-com prazer. A noite foi boa.
-
-Ia-me esquecendo uma cousa. Fidelia mandou encaixilhar juntas as
-fotografias do pae e do marido, e pol-as na sala. Não o fez nunca em
-vida do barão para respeitar os sentimentos deste; agora que a morte
-os reconciliou, quer reconcilial-os em efigie. Foi ella mesma que me
-deu esta explicação, quando eu olhava para elles. Não me admira a
-delicadeza de outr'ora, nem a resolução de agora; tudo responde á mesma
-harmonia moral da pessoa.
-
-Quando eu disse isto cá fora ao cazal Faria (saimos juntos), o marido
-torceu o nariz. Não lhe vi o gesto, mas elle proferiu uma palavra que
-implica o gesto; foi esta: «Afetação!» Quiz replicar-lhe que não podia
-havel-a em acto tão intimo e particular, mas a tempo encolhi a lingua.
-D. Cesaria não aprovou nem reprovou o dito; ponderou apenas que o
-gaz estava muito escuro. Notei para mim que estava clarissimo, e que
-provavelmente ella não achara mais pronto desvio á conversação. Faria
-aproveitou o reparo da espoza para dizer o mal que pensa da companhia
-do gaz e do governo, e chamou ladrão ao fiscal. Eram onze horas.
-
- * * * * *
-
-21 de Agosto, cinco horas da tarde.
-
-Não quero acabar o dia de hoje sem escrever que tenho os olhos
-cançados, acaso doentes, e não sei se continuarei este diario de
-factos, impressões e ideias. Talvez seja melhor parar. Velhice quer
-descanço. Bastam já as cartas que escrevo em resposta e outras mais, e
-ainda ha poucos dias um trabalho que me encomendaram da secretaria de
-Estranjeiros,-felizmente acabado.
-
- * * * * *
-
-24 de Agosto.
-
-Qual! não posso interromper o _Memorial_; aqui me tenho outra vez com
-a penna na mão. Em verdade, dá certo gosto deitar ao papel cousas que
-querem sair da cabeça, por via da memoria ou da reflexão. Venhamos
-novamente á notação dos dias.
-
-Desta vez o que me põe a penna na mão é a sombra da sombra de uma
-lagrima...
-
-Creio tel-a visto ante-hontem (22) na palpebra de Fidelia, referindo-me
-eu á dissidencia do pae e do marido. Não quizera agora lembrar-me
-della, nem tel-a visto ou sequer suspeitado. Não gosto de lagrimas,
-ainda em olhos de mulheres, sejam ou não bonitas; são confissões de
-fraqueza, e eu nasci com tedio aos fracos. Ao cabo, as mulheres são
-menos fracas que os homens,-ou mais pacientes, mais capazes de sofrer
-a dor e a adversidade... Ahi está; tinha resolvido não escrever mais, e
-lá vae uma pagina com a sombra da sombra de um assunto.
-
-Tambem, se foi verdadeiramente lagrima, foi tão passageira que, quando
-dei por ella, já não existia. Tudo é fugaz neste mundo. Se eu não
-tivesse os olhos adoentados dava-me a compor outro _Ecclesiastes_, á
-moderna, posto nada deva haver moderno depois daquelle livro. Já dizia
-elle que nada era novo debaixo do sol, e se o não era então, não o foi
-nem será nunca mais. Tudo é assim contraditorio e vago tambem.
-
- * * * * *
-
-27 de Agosto.
-
-A alegria do cazal Aguiar é cousa manifesta. Marido e mulher andam
-a inventar ocasiões e maneiras de viver com os dous e com alguns
-amigos, entre os quaes parece que me contam. Jantam, passeiam, e se
-não projetam bailes é porque os não amam de si mesmos, mas se Fidelia
-e Trintão os quizessem, estou que elles os dariam. A verdade, porém,
-é que os dous hospedes não chegaram a tal ponto, mormente Fidelia que
-se contenta de conversar e sorrir; não vae a teatros, nem a festas
-publicas.
-
-Os passeios são recatados pela hora e pelos logares. Ou vão as duas
-sós, ou se elles vão tambem, trocam-se ás vezes, dando Aguiar o braço
-a Fidelia, e D. Carmo aceitando o de Tristão. Assim os encontrei ha
-dias na rua de Ipiranga, eram cinco horas da tarde. Os dous velhos
-pareciam ter certo orgulho na felicidade. Ella dizia com os olhos e
-um riso bom que lhe fazia luzir a pontinha dos dentes toda a gloria
-daquelle filho que o não era, aquelle filho morto e redivivo, e o rapaz
-era atenção e gosto tambem. Quanto ao velho não ostentava menos a sua
-delicia. Fidelia é que não publicava nada; sorria, é certo, mas pouco
-e cabisbaixa. E lá foram andando, sem darem por mim, que vinha pela
-calçada oposta.
-
- * * * * *
-
-31 de Agosto.
-
-Como eu ainda gosto de musica! A noite passada, em casa do Aguiar,
-eramos algumas pessoas... Treze! Só agora, ao contar de memoria os
-presentes, vejo que eramos treze; ninguem deu então por este numero,
-nem na sala, nem á meza do chá de familia. Conversámos de cousas
-varias, até que Tristão tocou um pouco de Mozart, ao piano, a pedido
-da madrinha.
-
-A execução veiu por que faiamos tambem de musica, assunto em que a
-viuva acompanhou o recem-chegado com tal gosto e discrição, que elle
-acabou pedindo-lhe que tocasse tambem. Fidelia recusou modestamente,
-elle insistiu, D. Carmo reforçou o pedido do afilhado, e assim o
-marido; Fidelia acabou cedendo, e tocou um pequeno trecho, uma
-reminiscencia de Schumann. Todos gostámos muito. Tristão voltou ainda
-uma vez ao piano, e pareceram apreciar os talentos um do outro. Eu
-saí encantado de ambos. A musica veiu commigo, não querendo que eu
-dormisse. Cheguei cedo a caza, onze horas, e só perto de uma comecei a
-conciliar o somno; todo o tempo da rua, da caza e da cama foi consumido
-em repetir trechos e trechos que ouvira na minha vida.
-
-A musica foi sempre uma das minhas inclinações, e, se não fosse temer
-o poetico e acaso o patetico, diria que é hoje uma das saudades. Se
-a tivesse aprendido, tocaria agora ou comporia, quem sabe? Não me
-quiz dar a ella, por causa do oficio diplomatico, e foi um erro. A
-diplomacia que exerci em minha vida era antes função decorativa que
-outra cousa; não fiz tratados de comercio nem de limites, não celebrei
-alianças de guerra; podia acomodar-me ás melodias de sala ou de
-gabinete. Agora vivo do que ouço aos outros.
-
-Ha dous ou tres mezes ouvi dizer a Fidelia que nunca mais tocaria,
-tendo desde muito suspendido o exercicio da musica. Repliquei-lhe então
-que um dia, a sós comsigo, tocaria para recordar, e a recordação traria
-o exercicio outra vez. Hontem bastaram as instancias da gente Aguiar
-para mover uma vontade já disposta, ao que parece. O exemplo de Tristão
-ajudou-a a sair do silencio. Repito que saí de lá encantado de ambos.
-
-Quem sabe se a esta hora (dez e meia da manhã) não estará ella em caza,
-com espanto da familia e da visinhança, deante do piano aberto, a
-começar alguma cousa que não toca ha muito?
-
---Não é possível!
-
---Nhanhã Fidelia!
-
---A viuva Noronha!
-
---Hade ser alguma amiga.
-
-E as mãos della irão falando, pensando, vivendo aquellas notas que a
-memoria humana guarda impressas. Provavelmente tocará como hontem, sem
-musica, de cór, na ponta dos dedos...
-
-Seis horas da tarde.
-
-Antes de ir para a meza, escrevo a confirmação de que conjeturei
-de manhã; Fidelia efectivamente acordou os ecos da casa e da rua.
-Contou-m'o ha pouco o proprio desembargador Campos. A diferença é que
-não foi ás dez horas e meia, mas ás sete. Campos estava ainda na cama,
-quando ouviu os primeiros acordes de uma composição conhecida, parece
-que italiana. Não chegou a crer que fosse ella, mas não podia ser
-outra pessoa. Um creado, chamado por elle, veiu dizer-lhe que sim, que
-era ella mesma. Tocou algum tempo. Quando elle entrou na sala, tinha
-acabado, mas estava ainda ao piano, ante um folheto de musicas aberto,
-a soletrar para si.
-
---Que é isto? perguntou-lhe.
-
---Ouviu tocar? disse ella fazendo rodar o banco.
-
---Ouvi.
-
---Creio que desaprendi alguma cousa; sinto os dedos um pouco tolhidos,
-já os senti assim hontem, a composição é que me não esqueceu.
-
---Mas que resurreição é esta?
-
---Cousas de defunta, respondeu ella querendo sorrir.
-
-Posto não seja grande apreciador de musica, o desembargador parece
-satisfeito daquella resurreição, como lhe chama. Tudo é viver com mais
-ou menos barulho, disse elle. Confessou-me que a tristeza da sobrinha
-o aflige muita vez, e a não leval-a a bailes ou teatros, contentava-se
-de a ver tocar em caza, e até cantar se quizesse; Fidelia tambem sabe
-cantar, tem muita arte e linda voz. Mas até agora não queria uma cousa
-nem outra.
-
-Não é que não encha a caza comsigo mesma, sem musica; a musica, porém,
-era uma das suas ocupações de outrora, e a abstenção datada viuvez.
-
-Quiz ponderar ao desembargador que o exercicio da musica podia
-conciliar-se muito bem com o estado, uma vez que a arte é tambem
-lingua, mas tudo isso me passou rapido pela cabeça. Era acaso poetico
-para um magistrado, sem contar que podia ser indiscreto tambem.
-Contentei-me de aceitar o convite que elle me fez de ir ouvil-a, em
-casa delle, hoje, amanhã, depois, quando queira.
-
---Uma destas noites, concordei.
-
-Por emquanto, vou jantar. Creio que não saio mais hoje; mas que heide
-fazer com estes pobres olhos? Ler é peoral-os; ah! se eu soubesse
-musica! Pegava do violino, trancava bem as portas para não ser ouvido
-da visinhança, e deixava-me ir atraz do arco. Talvez saia a passeio...
-
- * * * * *
-
-2 de Setembro.
-
-Anniversario da batalha de Sedan. Talvez vá á casa do desembargador
-pedir a Fidelia que, em comemoração da victoria prussiana, nos dê um
-pedaço de Wagner.
-
- * * * * *
-
-3 de Setembro.
-
-Nem Wagner, nem outro. Tristão estava lá e deu-nos um trecho de
-_Tannhauser_, mas a viuva Noronha recusou o pedido. Supondo que fosse
-luto pela lembrança da derrota franceza, pedi-lhe um autor francez
-qualquer, antigo ou moderno, posto que a arte,-disse-lhe com alguma
-afectação,-naturaliza a todos na mesma patria superior. Sorriu e não
-tocou; tinha um pouco de dor de cabeça. Aguiar e Carmo, que lá estavam
-tambem, não me acompanharam no pedido, como «se lhes doesse a cabeça da
-amiga.» Outra preciosidade de estilo, esta renovada de Sevigné. Emenda
-essa lingua, velho diplomata!
-
-A razão verdadeira da recusa pode não ser dor de cabeça nem de outra
-qualquer parte. Quer-me parecer que Fidelia vae um tanto commigo, e
-tocaria para si, caso estivesse só. Naquella outra noite, em casa do
-Aguiar, deixou-se arrastar e tocar para as doze pessoas que lá estavam,
-levada do sobresalto, de um acordar do gosto antigo; agora abana a
-cabeça, não quer divertir os outros. Tocará para o tio, de manhã, e
-para si durante as horas de desembargo. Quando muito satisfará os dous
-paes postiços, alguma vez. Signal de que não tinha dor de cabeça é que
-ouviu a Tristão com evidente prazer, e aplaudiu sorrindo. Não digo que
-a musica não tenha o dom de fazer esquecer um mal fisico, mas desconfio
-que não foi assim neste caso.
-
-Os dous conversaram de Wagner e de outros autores, com interesse, e
-provavelmente com acerto. Eu falei tambem o meu pouco; depois atendi ao
-que me disse Aguiar, ácerca de Tristão.
-
---Parece que vem liquidar tambem alguns negocios do pae; soube hoje por
-elle mesmo. Deus queira que não acabe tão cedo.
-
---Deus tambem ama a chicana, quem sabe?
-
---Não são negocios do foro; e se algum chegar lá, provavelmente elle
-deixa procurador aqui. Sabe já que elle vae entrar na camara?
-
---Sei; disse-me que aceitou de alguns chefes de Lisboa elegel-o
-deputado.
-
---Carmo, que queria prendel-o por um anno ou mais, ficou aborrecida e
-triste, e eu com ella. Trocámos os nossos aborrecimentos, quero dizer
-que os somámos, e ficamos com o dobro cada um...
-
-Gostei desta palavra de Aguiar, e decorei-a bem para me não esquecer e
-escrevel-a aqui. Aquelle gerente de banco não perdeu o vicio poetico. É
-bom homem; creio que já o escrevi alguma vez, mas lá vae ainda agora.
-Não perco nada em repetil-o.
-
-Falavamos a um canto da sala, onde Campos e Tristão foram ter comnosco,
-deixando as duas damas entregues uma á outra. E eu cá de longe fiquei
-a miral-as, encantadoras naquella expressão de si mesmas. A harmonia
-dos cabellos brancos de uma e dos cabellos pretos de outra, as vozes
-que trocavam baixo sorrindo, com os olhos brandos e amigos, tudo isso
-me faria perguntar a mim mesmo, porque não eram realmente mãe e filha,
-esta cazada com algum rapaz que a merecesse, e aquella cazada ou viuva,
-não importa; consolar-se-ia do marido perdido com a filha eterna. Toda
-filha moça é eterna para as mães envelhecidas. Mas ainda uma vez notei
-que pareciam antes irmãs, tal a arte de D. Carmo em se fazer moça com
-as moças. A materia da conversação não sei qual fosse, nem vale a pena
-cogital-a; não daria mais interesse ao grupo. De uma vez, demorando-se
-Fidelia em concertar a posição do broche, D. Carmo substituiu-lhe os
-dedos pelos seus, e concertou-lh'a de todo.
-
- * * * * *
-
-4 de Setembro.
-
-Relendo o dia de hontem fiz commigo uma reflexão que escrevo aqui para
-me lembrar mais tarde. Quem sabe se aquella afeição de D. Carmo, tão
-meticulosa e tão serviçal, não acabará fazendo damno á bella Fidelia?
-A carreira desta, apezar de viuva, é o cazamento; está na idade de
-cazar, e pode aparecer alguem que realmente a queira por espoza. Não
-falo de mim, Deus meu, que apenas tive veleidades sexagenarias; digo
-alguem de verdade, pessoa que possa e deva amar como a dona merece.
-Ella, entregue a si mesma, poderia acabar de receber o noivo, e iriam
-ambos para o altar; mas entregue a D. Carmo, amigas uma da outra, não
-dará pelo pretendente, e lá se vae embora um destino. Em vez de mãe de
-familia, ficará viuva solitaria, porque a amiga velha hade morrer, e a
-amiga moça acabará de morrer um dia, depois de muitos dias...
-
-A reflexão é verdadeira, por mais que se lhe possa dizer em contrario.
-Não afirmo que as cousas se passem exactamente assim, e que os tres,-os
-quatro, contando o velho Aguiar,-os cinco e seis, juntando o tio e o
-primo,-não façam com o noivo adventicio, uma só familia de afeição e de
-sangue; mas a reflexão é verdadeira. A afeição, o costume, o feitiço
-crescente, e por fim o tempo, complice de attentados, negarão a bella
-viuva a qualquer namorado trazido pela natureza e pela sociedade.
-Assim chegará ella aos trinta annos, depois aos trinta e cinco e
-quarenta. Quando a espoza Aguiar morrer não se contentará de a chorar,
-lembrar-se-ha della, e as saudades irão crescendo com o tempo. O
-pretendente terá desaparecido ou passado a outras alegrias.
-
-Reli tambem este dia de hoje, e temo haver-lhe posto (principalmente
-no fim) alguma nota poetica ou romanesca, mas não ha disso; antes é
-tudo prosa, como a realidade possivel. Esqueceu-me trazer um elemento
-para a viuvez definitiva da moça, a propria lembrança do marido. Daqui
-a cinco annos, ella mandará transferir os ossos do pae para a cova do
-marido, e os conciliará na terra uma vez que a eternidade os conciliou
-já. Aqui e alli toda a politica se resume em viverem uns com outros, no
-mesmo que eram, e será para nunca mais.
-
- * * * * *
-
-5 de Setembro.
-
-Os dous filhos postiços do cazal Aguiar não têm ciumes um do outro, não
-se sentem diminuidos pela afeição que recebem dos velhos. Ao contrario,
-parecem achar que a porção de cada um cresce com a que o outro recebe
-tambem. Eis ahi uma boa divisão de amigos; ha casos em que os filhos de
-verdade não se mostram tão cordatos.
-
-Mana Rita, a quem comuniquei esta impressão, acha tambem que é assim.
-Acrescenta, porém, uma reflexão mais fina que essa, e não tenho duvida
-em a escrever aqui ao pé da minha, tanto mais que lhe repliquei com
-outra, não menos fina que a sua. Vá este elogio a nós ambos. Sempre
-hade haver quem nos desgabe um pouco, e ahi fica já a compensação. Nem
-custa muito elogiar-se a gente a si mesma. Eis o que me disse a mana:
-
---Esse sentimento hade custar pouco ao Tristão, estando aqui de
-passagem.
-
-Ao que eu repliquei:
-
---Tambem não lhe custará muito a Fidelia, sabendo que elle se vae
-embora daqui a pouco.
-
-Escritas as palavras de ambos nós, entro a duvidar da finura della e
-minha. Por mais rapida que fosse a passagem do rapaz, elle gostaria de
-se ver exclusivamente querido, e ella tambem a si. Penso outra vez que
-a qualidade do afecto filial é que os faz assim generosos e abertos.
-Repito o que lá disse acima: casos ha em que não vivem com tanto acordo
-filhos verdadeiros.
-
-Rita deu-me outras noticias da caza Aguiar, onde não piso ha mais de
-uma semana, creio. Todas confirmam a communhão de boa vontade da parte
-de moços e velhos. Os quatro passam os dias em conversa, e hontem a
-viuva Noronha tocou piano, um pouquinho, é verdade, mas tocou. Parece
-que já uma vez jogaram cartas. Rita disse mais:
-
---Fidelia, que desde que saiu do colegio nunca mais fez trabalhos de
-agulha, começa agora a imitar a amiga, e já hontem trabalharam juntas.
-Quando eu lá cheguei ás duas horas da tarde e dei com ellas, defronte
-uma da outra, movendo agulhas, você não imagina a alegria com que me
-receberam; D. Carmo mostrava um pouco de orgulho tambem, ou cousa
-parecida. Faziam um par de sapatinhos de creança. O trabalho de Fidelia
-não tinha a perfeição do da outra, e não estava tão adeantado, mas
-tambem o de D. Carmo podia ir mais depressa; talvez fosse intenção
-della não deixar a moça muito atraz, e por isso iria demorando os
-dedos. Quiz rir, perguntando a qual dellas destinavam taes sapatos, mas
-não tive tempo; Fidelia disse-me que eram para o filho de uma creada
-de D. Carmo que fora dar á luz em casa do marido. D. Carmo ia começar
-o crochet quando Fidelia lhe apareceu, e quiz acompanhal-a. Consentiu
-para não sair trabalho de velha.
-
-O mais que a mana me disse não vae aqui para não encher papel nem
-tempo, mas era interessante. Vae só isto, que jantou lá e Fidelia
-tambem, a convite de D. Carmo. O velho Aguiar e Tristão tinham saido
-a passeio, depois do almoço, mas voltaram cedo, ás quatro horas. Não
-viram a parada do dia de hontem (sete) apenas viram passar um batalhão,
-que não deixou impressão no moço. Todos os batalhões se parecem, disse
-elle. O himno nacional, sim, é que acordou nelle algumas saudades
-do tempo de creança e de rapaz; assim o confessou, e dahi nasceu a
-conversação musical que levou Fidelia ao piano. A viuva não tocou mais
-de quatro ou cinco minutos, e fel-o a pedido de Tristão, que lhe citou
-um autor; Rita não se lembra que autor foi, mas achou bonita a musica.
-Tambem se falou em cousas da Europa, e os dous ajustaram bem os modos
-de ver.
-
-Ouvi tudo isso em Andarahy, onde fui jantar hoje com Rita. Propuz-lhe
-vir commigo e irmos ao Flamengo, a mana recusou; estava com o somno
-atrazado, e queria dormir. Voltei só e fui á caza Aguiar, onde os
-quatro e o desembargador conversaram de festas religiosas, a proposito
-do dia santo de hoje. Ainda uma vez os dous deram impressões europeas,
-e realmente ajustaram as reminiscencias. As minhas, quando as pediram,
-ficaram naquelle acordo de cabeça, que é util, quando um assunto cança
-ou aborrece, como este a mim.
-
-Quando o tio e a sobrinha se foram, eu fiquei ainda um quarto de hora
-com a gente Aguiar. O resto amanhã; tambem eu estou com somno.
-
- * * * * *
-
-9 de Setembro.
-
-O resto é a noticia de ter chegado Osorio, o advogado do Banco do Sul,
-que foi ha tempos ao Recife, onde o pae estava doente e morreu.
-
---Voltou triste, e o luto ainda o faz mais triste, disse Aguiar.
-
---Será só a morte do pae? perguntei.
-
---Que mais pode ser?
-
---Não me disseram, ou eu adivinhei que elle andava meio apaixonado por
-D. Fidelia...?
-
---Andava, sim, e talvez mais que meio, explicou Aguiar, mas já lá vae
-naturalmente.
-
---Em todo caso não se lhe declarou?
-
---Com o gesto, é possível; ella tacitamente recusou, e foi pena; ambos
-se merecem.
-
-Aguiar louvou as qualidades profissionaes do moço, a educação e as
-virtudes. Acreditei tudo, como era do meu dever, e aliás não tinha
-razão para duvidar de nada. D. Carmo confirmou as palavras do marido,
-sem afirmar que era pena não se terem casado. Calou esse ponto, e foi
-mais discreta que elle. Pode ser que nelle falasse tambem o gerente do
-banco. Tristão durante esse tempo folheava um livro de gravuras.
-
-Digo que eram gravuras, porque me fui despedir delle, que se levantou
-logo, com grande cortezia; mas de longe pensei que fosse o album de
-retratos. Não era; o album estava ao pé, aberto justamente na pagina em
-que figuram as duas fotografias de Carmo e do marido. Tristão, deixou
-tambem aberto o livro das gravuras e veiu commigo á porta, acompanhando
-Aguiar, e ali me despedi de ambos.
-
- * * * * *
-
-9 de Setembro á tarde.
-
-Parece que a gente Aguiar me vae pegando o gosto de filhos, ou a
-saudade delles, que é expressão mais engraçada. Vindo agora pela rua da
-Gloria, dei com sete creanças, meninos e meninas, de vario tamanho, que
-iam em linha, prezas pelas mãos. A idade, o riso e a viveza chamaram-me
-a atenção, e eu parei na calçada, a fital-as. Eram tão graciosas
-todas, e pareciam tão amigas que entrei a rir de gosto. Nisto ficaria
-a narração, caso chegasse a escrevel-a, se não fosse o dito de uma
-dellas, uma menina, que me viu rir parado, e disse ás suas companheiras:
-
---Olha aquelle moço que está rindo para nós.
-
-Esta palavra me mostrou o que são olhos de creanças. A mim, com estes
-bigodes brancos e cabellos grisalhos, chamaram-me moço! Provavelmente
-dão este nome á estatura da pessoa, sem lhe pedir certidão de idade.
-
-Deixei andar as creanças e vim fazendo commigo aquella reflexão. Ellas
-foram saltando, parando, puxando-se á direita e á esquerda, rompendo
-alguma vez a linha e recozendo-a logo. Não sei onde se dispersaram; sei
-que dahi a dez minutos não vi nenhuma dellas, mas outras, sós ou em
-grupos de duas. Algumas destas carregaram trouxas ou cestas, que lhes
-pezavam á cabeça ou ás costas, começando a trabalhar, ao tempo em que
-as outras não acabavam ainda de rir. Dar-se-ha que a não ter carregado
-nada na meninice devo eu o aspecto de «moço» que as primeiras me
-acharam agora? Não, não foi isso. A idade dá o mesmo aspecto ás cousas;
-a infancia vê naturalmente verde. Tambem estas, se eu risse, achariam
-que «aquelle moço ria para ellas», mas eu ia serio, pensando, acaso
-doendo-me de as sentir cançadas; ellas, não vendo que os meus cabelos
-brancos deviam ter-lhes o aspecto de pretos, não diziam cousa nenhuma,
-foram andando e eu tambem.
-
-Ao chegar á porta de casa dei com o meu creado José, que disse estar
-ali á minha espera.
-
---Para quê?
-
---Para nada; vim esperar V. Ex. cá embaixo.
-
-Era mentira; veiu distrair as pernas á rua, ou ver passar creadas
-visinhas, tambem necessitadas de distração; mas, como elle é habil,
-engenhoso, cortez, grave, amigo de seu dever,-todos os talentos
-e virtudes,-preferiu mentir nobremente a confessara verdade. Eu
-nobremente lh'o perdoei e fui dormir antes de jantar.
-
-Dormi pouco, uns vinte minutos, apenas o bastante para sonhar que
-todas as creanças deste mundo, com carga ou sem ella, faziam um grande
-circulo em volta de mim, e dançavam uma dança tão alegre que quasi
-estourei de riso. Todas falavam «deste moço que ria tanto.» Acordei
-com fome, lavei-me, vesti-me e vim primeiro escrever isto. Agora vou
-jantar. Depois, irei provavelmente ao Flamengo.
-
- * * * * *
-
-9 de Setembro, á noite.
-
-Fui ao Flamengo. A viuva não estava lá; estava o Osorio, e não o achei
-triste, como Aguiar havia dito, tambem não estava alegre; falava pouco.
-Tristão, que lhe fora apresentado hoje, falava mais que elle, sem falar
-muito. Noite sem interesse. Voltei cedo e vou dormir.
-
- * * * * *
-
-12 de Setembro.
-
-Quando cheguei hoje á cidade, eram duas horas, e ia a sair do bonde,
-chegou-se a elle a bella Fidelia, com o seu gracioso e austero meio
-luto de viuva. Vinha de compras, naturalmente. Comprimentamo-nos,
-dei-lhe a mão para subir. Perguntou-me pela mana, eu pelo tio, ambos
-por nós, e ainda houve tempo de trocar esta meia duzia de palavras.
-Ella:
-
---Ainda agora?
-
---A minha preguiça de apozentado não me permitiu sair mais cedo, disse
-eu rindo, e afastei-me.
-
-O bonde partiu. Na esquina estava não menos que o Dr. Osorio sem olhos,
-porque ella os levava arrastados no bonde em que ia; foi o que conclui
-da cegueira com que não me viu passar por elle... Ai, requinte de
-estilo!
-
-Entrei nesta duvida,-se teriam estado juntos na rua ou no loja a que
-ella veiu, ou no banco, ou no inferno, que tambem é logar de namorados,
-é certo que de namorados viciosos, _del mal perverso._ Achei que não,
-e comprehendi que elle, se acaso a comprimentou na rua, não ousou
-falar-lhe, apenas a acompanhou de longe, até que a viu meter-se no
-bonde e partir.
-
-Tambem achei outra cousa; é que a paixão antiga e recusada não estava
-morta nelle, ou revivia com a vista nova da pessoa. Não era por ser
-agora a dona rica, já antes era ella herdeira unica, e vivia de si
-mesma. Não, elle é bom, e o proprio Aguiar afirma que os dous se
-merecem.
-
-Ia nessas conjecturas, em direção á Escola Politecnica, e vi-o passar
-por mim, cabisbaixo, não sei se triste ou alegre; não pude ver-lhe a
-cara. Mas parece que a tristeza é que é cabisbaixa, a alegria distribue
-os olhos felizes á direita e á esquerda; alguma vez ao ceu tambem. É
-suposição minha, e pode não ser verdade. A verdade certa é que, ás duas
-horas da tarde, aquelle advogado andava atraz das moças, em vez de
-estar no foro; ou mau advogado, ou feliz namorado.
-
- * * * * *
-
-14 de Setembro.
-
-Nem uma cousa nem outra. Refiro-me ao que escrevi ante-hontem do
-Osorio, que não é namorado feliz, pelo que me disse Aguiar hoje, nem
-máu advogado, pelo que li nos jornaes. Li que venceu uma demanda do
-Banco do Sul, e Aguiar não lhe regateou louvores ao zelo com que a
-pleiteou antes do embarque e depois do desembarque. Eis ahi um homem
-que sabe cazar o zelo e a tristeza, e bem pode ser isto um simbolo,
-se elle é o zelo, e Fidelia a tristeza. Talvez acabem cazando. Mas
-ainda depois da recusa? Tudo é possivel debaixo do sol,-e a mesma cousa
-sucedará acima d'elle,-Deus sabe.
-
- * * * * *
-
-18 de Setembro.
-
-Venho da gente Aguiar, e não me quero ir deitar sem escrever primeiro
-o que lá se passou. Cheguei cedo, estavam sós os dous velhos e
-receberam-me familiarmente.
-
---Venha o terceiro velho, disse Aguiar, venha fazer companhia aos dous
-que aqui ficaram abandonados.
-
-Esta palavra, que podia ser de queixa, foi dita rindo, e percebi pelo
-tom que era alegre. Foi-me dita quasi á porta da sala, onde elle foi
-ter commigo, ficando ella em uma das duas cadeiras de balanço, unidas
-e trocadas, em forma de conversadeira, onde costumavam passar as horas
-solitarias. Respondi que trazia a minha velhice para sommar ás duas e
-formar com ellas uma só e verde mocidade, das que já não ha na terra.
-Sobre este tema gasto e vulgar disseram tambem algo de riso, e taes
-foram os primeiros minutos.
-
---Talvez não nos encontrasse, se eu não estivesse doente de um joelho,
-disse D. Carmo.
-
---Doente?
-
---Dóe-me um pouco este joelho, e o logar é melindroso para andar.
-Tristão foi sozinho á casa do desembargador, aonde vão hoje alguns
-amigos do fôro. Aguiar tambem queria ir, mas Tristão disse-lhe que era
-melhor ficar; elle se incumbiria de dar lá todas as desculpas, e foi
-sozinho.
-
---Quiz que eu ficasse fazendo companhia á madrinha, explicou Aguiar. Se
-eu teimo em ir elle era capaz de ficar para a não deixar sozinha.
-
---Pode ser, disse D. Carmo com os olhos.
-
-Só com os olhos. De boca disse logo depois que talvez elle fosse
-tambem, á espera de ver lá moças. É provável que os velhos amigos levem
-as filhas.
-
---Mas então é alguma festa? perguntei.
-
---Não, conselheiro, acudiu Aguiar; os amigos são uns tres ou quatro que
-hontem ajustaram entre si lá ir hoje, e avizaram disso o desembargador.
-Foi o que Fidelia nos contou hontem mesmo, aqui em casa.
-
-E D. Carmo continuou o que ia dizendo antes:
-
---Alguns levarão as filhas, e é natural a um rapaz o dezejo de ver
-moças. Tristão acha que as suas patricias são muito graciosas; mais de
-uma vez o tem dito. Tambem se não houver lá nenhuma é provavel que
-acabe a visita cedo e torne para caza. Tristão é cada vez mais amigo
-nosso.
-
-Conhecia este outro tema, e acenei de cabeça que sim. Aguiar disse
-a mesma cousa. O que elle não disse, nem eu esperei, foi a nota
-melancolica que a mulher trouxe á conversação, e que eu cuidei de
-atenuar, como pude.
-
---Os dias vão correndo, disse ella, e os ultimos correrão mais
-depressa; brevemente o nosso Tristão volta para Lisboa e nunca mais
-virá cá, ou só virá para ver as nossas covas.
-
---Ora D. Carmo! deixe-se de ideias tristes.
-
---Carmo tem razão, interveiu o marido; o tempo acabará depressa para
-que elle se vá, e não ficará ás nossas ordens para que fiquemos
-eternamente na vida.
-
---Todos nós lá vamos, disse eu. A morte é outro desembargador, conta
-muitos amigos que lá passam as noites, e os que tem filhas levam as
-filhas. Isto é certo, mas o melhor é não pensar nella.
-
---Não é nella, é nelle, emendou D. Carmo; falo do nosso Tristão, que se
-irá brevemente.
-
-Sorri e disse:
-
---_Elle_ se irá, creio, mas ficará _ella._
-
-Acentuei bem os pronomes, e não seria preciso; Carmo entendeu-me
-logo e bem. O ar de riso que se lhe espraiou do rosto mostrou que
-entendera a alusão á bella Fidelia. Era uma consolação grande. Não
-obstante, a consolação só cabe ao que doe, e a dor da perda de um já
-não seria menor que o prazer da conservação da outra. Logo vi essas
-duas expressões no rosto da boa senhora, combinadas em uma só e unica,
-especie de meio luto. Aguiar tambem sentiria como a mulher, mas o
-oficio de banqueiro obriga e acostuma a dissimular. E talvez ainda não
-falassem entre si do proximo regresso do Tristão; felicidade rima com
-eternidade, e estes eram felizes.
-
-Eram felizes, e foi o marido que primeiro arrolou as qualidades novas
-de Tristão. A mulher deixou-se ir no mesmo serviço, e eu tive de os
-ouvir com aquella complacencia, que é uma qualidade minha, e não das
-novas. Quasi que a trouxe da escola, se não foi do berço. Contava
-minha mãe que eu raro chorava por mama; apenas fazia uma cara teia e
-implorativa. Na escola não briguei com ninguem, ouvia o mestre, ouvia
-os companheiros, e se alguma vez estes eram extremados e discutiam, eu
-fazia da minha alma um compasso, que abria as pontas aos dous extremos.
-Elles acabavam esmurrando-se e amando-me.
-
-Não quero elogiar-me.... Onde estava eu? Ah! no ponto em que os dous
-velhos diziam das qualidades do moço. Não mentiam; quando muito,
-podiam exagerar alguma, mas as que citavam deviam ser verdadeiras,
-bom, carinhoso, attento, justo, puro de sentimentos, indole pacifica,
-maneiras educadas, capaz de sacrificios, se fosse necessario. Não
-o tinham achado máu nem falho, quando elle chegou; agora porém, ás
-qualidades antigas estavam apuradas, e algumas novas appareciam. Ainda
-que eu discordasse d'elles não diria nada para os não aborrecer, mas
-que sabia eu que pudesse contrariar essa opinião de amigos? Nada;
-concordei com ambos.
-
-D. Carmo entendeu acaso que o assunto podia ser enfadonho a extranhos,
-e trocou as mãos á conversa. Não totalmente, é verdade; falou da
-casa do desembargador Campos e do que iria por lá. Eu (habilmente,
-confesso) querendo saber o estado do coração de Osorio, perguntei se
-elle não estaria lá tambem, elle, que tambem é do fôro. Aguiar disse
-logo que podia ser que sim; conforme. Sobre isto falámos um pouco, e as
-qualidades do advogado foram ainda honradas, mas não eram tantas, nem
-tamanhas como as de Tristão. Falavam com simpatia, Aguiar mais que D.
-Carmo; eram relações propriamente do banco e do foro.
-
---Mas não haverá ainda nelle alguma faisca antiga? perguntei.
-
---Pode ser, e será mais uma razão para fugir, concluiu elle.
-
-Não quiz dizer o que vira na rua, e aliás a conclusão delle não era
-errada. D. Carmo escutava agora sem falar, embora com interesse. A
-discrição daquella senhora é das mais completas que tenho achado na
-vida. Não quiz ella entrar em tal assunto, e o marido não tardou muito
-que o deixasse. Eu não retive a um nem a outro.
-
-Assim é o destino dos namorados sem ventura; os proprios amigos, como
-Aguiar parece que é de Osorio, tratam logo de outra cousa. Elles que se
-fiquem comsigo. Nós passámos a tratar de algumas noticias de sociedade
-e das ultimas noticias novellescas de Paris. Neste capitulo D. Carmo
-sabe mais que eu, e muito mais que o marido, que não sabe nada; mas
-Aguiar acompanhou a conversação como se soubesse alguma cousa. Elle
-compra-lhe os livros, que ella lê e resume para elle ouvir. Como a
-memoria delle é grande, cita tambem as narrações escritas, com a
-diferença que ella, tendo impressão direta, a analise que faz é mais
-viva e interessante. Ouvi-lhe dizer de alguns nomes contemporaneos
-muita cousa fina e propria. É claro que, se o marido escrevesse
-tambem, achal-o-hia melhor que ninguem,, porque ella o ama devéras,
-tanto ou mais que no primeiro dia; é a impressão que ainda hoje me
-deixou.
-
-Eu, para lhes ser agradavel,-e um pouco a mim mesmo, porque os queria
-gozar tambem,-voltei ao assunto principal para ambos, que não seria
-Fidelia só, nem só Tristão, mas os dous juntos.
-
---Digam-me, se elles fossem irmãos e seus filhos, não seria melhor que
-apenas amigos e extranhos um ao outro?
-
-Era a primeira vez que lhes dizia uma cousa d'estas, e o interesse
-foi tamanho que elles pegaram do assunto para dizer cousas
-interessantissimas. Não as escrevo por ser tarde, mas cá me ficam de
-memoria. Digo só que, quando saí, D. Carmo, apezar do joelho doente, e
-por mais que eu quizesse detel-a, veiu commigo á porta da sala. Aguiar
-acompanhou-me até á porta do jardim, emquanto ella veiu á janela, donde
-se despedia ainda uma vez.
-
---Olhe o sereno, boa noite, disse-lhe eu cá debaixo.
-
---Boa noite
-
-D. Carmo entrou. Aguiar e eu apertámos a mão um do outro. Indo a sair,
-lembrou-me falar do cão ali sepultado. Não lhe falei logo, dei tres
-ou quatro investidas, mas tão rapidas que, se gastei um minuto, foi o
-mais; nem tanto. Aguiar ouviu-me espantado e constrangido.
-
---Quem lhe contou isso?
-
---O Dr. Tristão.
-
-Não lhe quiz citar o Campos, que tambem me falou do animal. Aguiar
-confessou calando, depois falando, mas não falou muito. Confirmou que
-tiveram muita amizade ao bicho, e referiu-me os padecimentos que a
-doença e a morte deste produziram na mulher. Não disse os seus, mas
-tambem os tivera; olhou uma vez para o lado da parede, e depois de uma
-pausa:
-
---Tristão riu-se naturalmente do nosso carinho?
-
---Ao contrario, falou-me com muito louvor; tem bom coração aquelle
-rapaz.
-
---Muito bom.
-
-Apezar de não ser dado a melancolias, nem achar que oficio de banqueiro
-vá com taes lastimas, separei-me delle com simpatia. Vim pela rua da
-Princeza, pensando nelle e nella, sem me dar de um cão que, ouvindo os
-meus passos na rua, latia de dentro de uma chacara. Não faltam cães
-atraz da gente, uns feios, outros bonitos, e todos impertinentes. Perto
-da rua do Cattete, o latido ia diminuindo, e então pareceu-me que me
-mandava este recado: «Meu amigo, não lhe importe saber o motivo que me
-inspira este discurso; late-se como se morre, tudo é oficio de cães, e
-o cão do cazal Aguiar latia tambem outrora; agora esquece, que é oficio
-de defunto.»
-
-Pareceu-me este dizer tão subtil e tão espevitado que preferi
-attribuil-o a algum cão que latisse dentro do meu proprio cerebro.
-Quando eu era moço e andava pela Europa ouvi dizer de certa cantora que
-era um elefante que engulira um rouxinol. Creio que falavam da Alboni,
-grande e grossa de corpo, e voz deliciosa. Pois eu terei engolido um
-cão filosofo, e o merito do discurso será todo delle. Quem sabe lá o
-que me haverá dado algum dia o meu cozinheiro? Nem era novo para mim
-este comparar de vozes vivas com vozes defuntas.
-
- * * * * *
-
-20 de Setembro.
-
-Aquelle dia 18 de Setembro (ante-hontem) ha de ficar-me na memoria,
-mais fixo e mais claro que outros, por causa da noite que passámos os
-tres velhos. Talvez não escrevesse tudo nem tão bem; mas bastou-me
-relel-o hontem e hoje para sentir que o escrito me acordou lembranças
-vivas e interessantes, a boa velha, o bom velho, a lembrança dos
-dous filhos postiços... Continuo a dar-lhes este nome, por não achar
-melhor... Principalmente aquella felicidade média ou turva de pessoas
-que vão perder um de dous bens do ceu, essa expressão que vi em D.
-Carmo mais forte ainda que no Aguiar...
-
- * * * * *
-
-21 de Setembro.
-
-Ao sair hoje de casa, vi passar na rua, do lado oposto, a irmã do
-corretor Miranda, D. Cesaria, tão risonha que parecia falar mal de mim,
-mas não falava, ia só,-ou falava de mim comsigo; mas só comsigo não
-teria tanto prazer. Comprimentámo-nos e seguimos.
-
- * * * * *
-
-22 de Setembro.
-
-... encantadora Fidelia! Não escrevo isto porque a deseje, mas porque
-é assim mesmo: encantadora! Pois não é que esta creatura de Deus,
-encontrando-se commigo de manhã, veiu agradecer-me a companhia que fiz
-aos seus amigos do Flamengo, na noite de 18?
-
---Não tive merecimento nisso; fui lá, achei-os sós, passei a noite.
-
---Isso mesmo. D. Carmo disse-me que, se não foi uma noite cheia, foi só
-por lhe faltarmos o Dr. Tristão e eu, mas que, ainda assim, o senhor
-teve o dom de nos fazer esquecer.
-
-Sorri incredulamente, depois expliquei o caso, dizendo que, se os fiz
-esquecer, foi por serem elles o proprio assunto da conversação...
-
---Isso é que ella não me disse, interrompeu Fidelia espantada.
-
---Nem dirá; nem lh'o pergunte. O melhor é crer que eu, com os meus
-cabelos brancos, ajudei a encher o tempo. A senhora não sabe o que
-podem dizer tres velhos juntos, se alguma vez sentiram e pensaram
-alguma cousa.
-
---Sei, sei, já tenho visto e ouvido os tres.
-
---Mas nessas ocasiões a senhora dá outra nota recente e viva á
-conversação.
-
-Era verdade e era comprimento; Fidelia sorriu agradecida e despediu-se.
-Eu-aqui o digo ante Deus e o Diabo, se tambem este senhor me vê a
-encher o meu caderno de lembranças,-eu deixei-me ir atraz della. Não
-era curiosidade, menos ainda outra cousa, era puro gosto estetico.
-Tinha graça andando; era o que lá disse acima: encantadora. Não fazia
-crer que o sabia, mas devia sabel-o. Ainda não encontrei encantadora
-que o não soubesse. A simples suposição de o ser tenta persuadir que o
-é.
-
-No largo de S. Francisco estava um carro della, perto da egreja. Iamos
-da rua do Ouvidor, a dez passos de distancia ou pouco mais. Parei na
-esquina, vi-a caminhar, parar, falar ao cocheiro, entrar no carro, que
-partiu logo pela travessa, naturalmente para os lados de Botafogo.
-Quando ia a voltar dei com o moço Tristão, que ainda olhava para o
-carro, no meio do largo, como se a tivesse visto entrar. Elle vinha
-agora para a rua do Ouvidor, e tambem me viu; detive-me á espera.
-Tristão trazia os olhos deslumbrados, e esta palavra na boca:
-
---Grande talento!
-
-Percebi que se referia ao talento musical, e nem por isso fiquei menos
-espantado; quasi me esqueceu concordar com elle. Concordei de gesto
-e de palavra, sem entender nada. Tambem eu gosto de musica, e sinto
-não tocar alguma cousa para me aliviar da solidão; entretanto, se
-fosse elle, e apezar de todos os Schumanns e seus emulos, ao vel-a
-parar no largo de S. Francisco e entrar no carro, não soltaria a mesma
-exclamação, antes outra, igualmente estetica, é verdade, mas de uma
-estetica visual, não auditiva. Não entendi logo.
-
-Depois, quando nos separámos na esquina da rua da Quitanda, entrei a
-cogitar se elle ao dar commigo, com pôz aquella palavra para o fim de
-mostrar que, mais que tudo, admira nella arte musical. Pode ser isto;
-ha nelle muita compostura e alguma dissimulação. Não quiz parecer
-admirador de pés bonitos; referiu-se aos dedos habeis. Tudo vinha a dar
-na mesma pessoa.
-
- * * * * *
-
-30 de Setembro.
-
-Se eu estivesse a escrever uma novela, riscaria as paginas do dia 12
-e do dia 22 deste mez. Uma novela não permitiria aquella paridade de
-sucessos. Em ambos esses dias,-que então chamaria capitulos,-encontrei
-na rua a viuva Noronha, trocámos algumas palavras, vi-a entrar no
-bonde ou no carro, e partir; logo dei com dous sujeitos que pareciam
-admiral-a. Piscaria os dous capitulos, ou os faria mui diversos um de
-outro; em todo caso diminuiria a verdade exata, que aqui me parece mais
-util que na obra de imaginação.
-
-Já lá vão muitas paginas falei das simetrias que ha na vida, citando
-os casos de Osorio e de Fidelia, ambos com os paes doentes fora daqui,
-e daqui saindo para elles, cada um por sua parte. Tudo isso repugna
-ás composições imaginadas, que pedem variedade e até contradição nos
-termos. A vida, entretanto, é assim mesmo, uma repetição de actos e
-meneios, como nas recepções, comidas, visitas e outros folgares; nos
-trabalhos é a mesma cousa. Os sucessos, por mais que o acaso os teça e
-devolva, saem muita vez iguaes no tempo e nas circumstancias; assim a
-historia, assim o resto.
-
-Dou estas satisfações a mim mesmo, afim de mencionar o meu joelho
-doente, tal qual o de D. Carmo. Outra paridade de situações... Ha
-duas diferenças. A primeira é que nella o mal é puro e confessado
-reumatismo. Em mim tambem, mas o meu criado José chama-lhe nevralgia,
-ou por mais elegante ou por menos doloroso; é um dos seus modos de amar
-o patrão. A segunda diferença...
-
-A segunda diferença,-ai, Deus! a segunda diferença é que, ainda que lhe
-dôa muito o joelho, D. Carmo lá tem o marido e os dous filhos postiços.
-Eu tenho a mulher embaixo do chão de Vienna e nenhum dos meus filhos
-saiu do berço do Nada. Estou só, totalmente só. Os rumores de fóra,
-carros, bestas, gentes, campainhas e assobios, nada disto vive para
-mim. Quando muito o meu relogio de parede, batendo as horas, parece
-falar alguma cousa,-mas fala tardo, pouco e funebre. Eu mesmo, relendo
-estas ultimas linhas, pareço-me um coveiro.
-
-Mana Rita não me veiu visitar, porque não sabe nada, e provavelmente
-não tem saído; sei que está boa. O meu mal começou ha sete dias. Durmo
-bem ás noites, mas não me faz bem andar, doe-me. Amanhã, se não acordar
-peor, saio.
-
- * * * * *
-
-2 de Outubro.
-
-Estou melhor, mas choveu e não saí.
-
- * * * * *
-
-3 de Outubro.
-
---Foi um duelo entre mim e a velhice, que me disparou esta bala no
-joelho; uma dôr reumatica. Já sei que vem jantar commigo?
-
-O desembargador respondeu que não; disseram-lhe que eu estava doente
-e vinha saber o que era. D. Carmo tambem está melhor do joelho,
-disse-me. Já sae, mas pouco, pela praia do Flamengo, até á do Russell.
-
---Sempre com a amiguinha, não?
-
---Nem sempre; lá tem o seu Tristão que a acompanha de manhã. Fidelia
-manda-lhe visitas, e pode ser que Aguiar venha cá hoje; souberam
-hontem, á noite, como eu.
-
-Logo depois contou-me Campos que a sobrinha queria ir passar algum
-tempo á fazenda.
-
---Os libertos, apezar da amizade que lhe têm ou dizem ter, começaram a
-deixar o trabalho, e ella quer ver como está aquillo antes de concluir
-a venda de tudo.
-
-Não entendi bem, mas não me cabia pedir explicação. Campos incumbiu-se
-de me dizer que tambem elle não entendia bem a ideia da sobrinha, e
-acrescentou que, por gosto, ella partiria já. A doença de D. Carmo
-é que a fez aceitar o que lhe propôz o tio, a saber, que adiassem a
-viagem para as férias.
-
---Iremos pelas férias, concluiu elle; provavelmente já o trabalho
-estará parado de todo; o administrador, que não tem tido força para
-deter a saida dos libertos até hoje, não a terá até então. Fidelia
-cuida que a presença della bastará pare suspender o abandono.
-
---Logo, se fôr mais depressa... aventurei eu, querendo sorrir.
-
---Foi o argumento della; eu creio que não será tanto assim, e, como
-tenho de a acompanhar, prefiro Dezembro a Outubro. Quer-me parecer que
-ella teme menos a fuga dos libertos que outra cousa...
-
-Não acabou; levantou-se para concertar um laço da cortina, e voltou
-coçando o queixo e olhando para o tecto. Sentou-se e cruzou as
-pernas. Eu, para me não deixar ir a perguntas, peguei do gesto do
-desembargador, dizendo-lhe que elle acabava de fazer com as pernas o
-que ainda me custaria um pouco; mas foi como se falasse á cortina, ao
-laço ou á palhinha do chão. Campos não me respondeu nem provavelmente
-me ouviu. Ergueu-se, disse que estimava as minhas melhoras e
-despediu-se até breve. Teimei que jantasse.
-
---Não posso; tenho gente de fora; o Tristão janta commigo.
-
-Para lhe mostrar que convalecia, fui ao patamar pizando rijo.
-Agradeci-lhe o obsequio da visita, e tornei á sala, com a viuva deante
-dos olhos, caminho da fazenda. Mas que terá que a faça ir meter-se
-na fazenda, com meia duzia de libertos, se ainda achar alguns? Pouco
-depois, outra visita, o Aguiar, que me trazia lembranças da mulher.
-Estimou ver-me de pé, no meio da sala.
-
---Não valia a pena, disse-lhe; foi uma cousa de nada, estou quasi bom,
-e hoje mesmo, se a chuva parar, como está querendo, lá vou leval-o á
-casa, depois do jantar. Janta commigo?
-
---Não posso; tenho gente de fóra. Uma das pessoas não me impediria, é a
-Fidelia, que lá janta comnosco, e é quasi da familia. Mas vae tambem um
-colega do banco.
-
---Pois irei tomar chá.
-
---Vá, se quer, mas não faça isso, é o meu conselho. Ainda que não
-chova, sempre haverá humidade, e para reumatismo...
-
---Mas D. Carmo tem saido, creio.
-
---Tem, e pode-se dizer que está boa. Apezar disso, já hoje não saiu,
-por cousa do tempo. Vá, se quer; eu no seu caso não saía.
-
-Aguiar não disse mais nada, e despediu-se. Pareceu-me (ou foi ilusão)
-que elle queria acrescentar alguma cousa e não acabou de querer. Não
-sei que seria. Não sentisse eu mesmo algum medo da humidade e iria
-vel-os á noite, mas a humidade é certa, e creio que a chuva tambem.
-Fico em casa. Se aparecer algum enxadrista, jogarei xadrez; se apenas
-jogar cartas, cartas. Se não vier ninguem, atiro-me a compôr um poema
-de cabeça.
-
- * * * * *
-
-6 de Outubro.
-
- Mana Rita, Mana Rita
- Foi a ultima visita,
-
-e o resto do poema em prosa, que a minha musa não dá para mais. Foi
-assim que o compuz, não na outra noite, a de 3, mas na de hoje, 6,
-depois de levar a mana a Andarahy. Apareceu-me aqui de manhã. Já
-outros, amigos e até indiferentes, me tinham visitado, como aquelle Dr.
-Faria, que me deixou lembranças da mulher, e o corretor Miranda, que
-tambem m'as trouxe da sua. Tristão esteve cá ante-hontem, e eu saí á
-tarde e hontem de manhã. Estou bom, nem por isso deixei de lhe chamar
-ingrata. Rita confessou-me que ha mais de tres semanas não sae de casa
-para ver se tinha um irmão que se lembrasse della.
-
---Tinha e tem, retorqui-lhe, mas um irmão que só agora convaleceu de
-todo.
-
-Contei-lhe a dôr e a reclusão. Rita, que a principio não queria crer
-e ria, acabou convencida e contristada. Censurou-me naturalmente; eu
-disse-lhe que continuava a guardal-a para a doença mortal e ultima.
-Assim trocámos muitas palavras amigas e doces, algumas alegres. Corno
-lhe perguntasse se estivera com a gente Aguiar ou com a familia Campos,
-respondeu-me que não. Se fosse a uma daquellas casas teria sabido do
-meu incomodo, e não receberia a noticia aqui, acrescentou.
-
---Então você não sabe nada do projeto de ir á fazenda? perguntei-lhe.
-
---Projeto de quem?
-
---Da viuva Noronha.
-
---Ir á fazenda?
-
---Sim, ir a Santa-Pia, para ver como andam lá as cousas; parece que os
-libertos estão abandonando a roça. Foi o que me disse o tio da viuva.
-
---Não ouvi dizer nada. Ha perto de um mez que não saio de casa. Mas o
-tio por que não vae?
-
---O tio vae, mas é com ella; a sobrinha quer a companhia delle, mas
-só a companhia, parece, não quererá tambem a colaboração. Vão pelas
-ferias. Eu não comprenhendo esta necessidade de ir ella mesma, quando
-era melhor um homem.
-
-Rita quiz ir saber da própria Fidelia. Ponderei-lhe que era indiscreto,
-e faria crer da nossa parte alguma curiosidade. Saiu a voltas, e
-tornou. Confesso uma cousa; depois que a vi sair imaginei se teria ido
-saber da viuva ou dos amigos a verdadeira causa da viagem, e disse-lh'o
-ao jantar. Ella ficou séria e abanou a cabeça. Se me tem jurado que
-não, é provável que me enterrasse o espinho da duvida, mas falou com
-simplicidade, e nomeou as visitas que fez. Uma dellas foi a D. Carmo.
-
---Carmo está sã como um pêro, disse-me; recebeu-me rindo como só ella
-sabe rir, um rir de dentro, tão simples, tão franco... Falámos de
-Fidelia, falamos de Tristão, ella com a ternura e amizade que você já
-lhe tem visto.
-
---Ainda não sabe da viagem á fazenda?
-
---Sabe, e parece que nem esperam as ferias; é daqui a dias. Sabe da
-viagem e do motivo, e aprova; diz que a viuva tem muito prestigio entre
-os libertos. Se pudesse iria tambem, mas Aguiar não ficaria só, e elle
-não pode deixar agora o banco.
-
---Mas elle não ficaria só; o Tristão ahi está.
-
---Não, por duas razões; a primeira é que Tristão nem ninguem supre
-a boa Carmo. A viagem que ella fez este anno a Nova-Friburgo custou
-muito ao marido. Não foi ella que me disse isto; eu é que soube, e
-percebe-se, todos sabem; Aguiar sem Carmo é nada. A segunda razão é
-que o proprio Tristão está com vontade, de acompanhar o desembargador
-e Fidelia, nunca viu uma fazenda, e tem vontade, antes de voltar para
-Lisboa...
-
---E a nossa amiga, deante desse eclipse dos dous, não está aborrecida?
-
---Foi o que lhe perguntei; disse-me que é por poucos dias, e espera;
-em todo caso, se houver demora dos outros, Tristão virá embora. Quer
-passar com ella e o marido o mais tempo que puder.
-
-Mana Rita (percebe-se) está com vontade de achar algum defeito grande
-no afilhado do Aguiar, mas não acha nenhum, grande ou pequeno, e
-peza-lh'o. O bem que diz delle é repetição confessada do que ouviu.
-Eu não penso mal, antes bem, creio que já o escrevi em alguma destas
-paginas; mas não disse se bem nem mal. Deixei-me ficar a condenar o meu
-pobre jantar, que foi ruim, só o frango prestou e a fruta, menos as
-peras...
-
-Ao café, mana Rita contou-me algumas anedotas de Andarahy, aonde a fui
-levar, seriam dez horas e donde voltei para escrever isto, acabar e
-repetir como principiei:
-
- Mana Rita, mana Rita
- Foi a ultima visita.
-
- * * * * *
-
-10 de Outubro.
-
-Entendam lá mulheres! Tanta necessidade de ir á fazenda e já. Campos
-alcança uma licença de alguns dias, Tristão apronta a mala, e, tudo
-feito cessa a necessidade de partir. Foram só o Campos e o Tristão. Tal
-a notícia que me deram as duas (Carmo e Fidelia) hoje, á tarde, quando
-eu ia a entrar no jardim da casa do Flamengo. As duas vinham chegando
-ao portão.
-
---Não fui, confirmou Fidelia as primeiras palavras de D. Carmo. Um
-homem basta e sobra, e acaba depressa todas as duvidas. Tambem as
-noticias agora são melhores.
-
---Lucram os seus amigos, retorqui.
-
-D. Carmo disse o mesmo que eu, mas sem palavras, com os olhos apenas.
-Como iam a passeio, dispuz-me a acompanhal-as, depois de algumas
-noticias que trocámos, D. Carmo e eu, sobre os nossos reumatismos;
-estamos bons. As duas iam de braço, eu ao lado, entre ellas e o mar que
-não batia com força. A conversação não foi constante, porque a viuva
-levava os olhos no chão. A amiga falava-me, mas olhava de quando em
-quando para ella, e eu tambem. Fidelia falava pouco, e só então olhava
-para a outra.
-
-O passeio foi curto; tornei com ellas ao jardim, aonde pouco depois
-chegou Aguiar trazendo cartas de Lisboa para Tristão, tres ou quatro.
-Conhecia a letra de uma, era do pae, e provavelmente havia dentro
-outra da mãe, tão volumosa era. A ideia de as mandar para Santa-Pia
-passara-lhe pela cabeça, mas recuou por não saber se o rapaz voltará,
-amanhã ou depois, ou se ficará mais tempo. Se voltar já, espera; se
-ficar, manda-lh'as. Queria consultar a mulher.
-
-D. Carmo achou mais pratico escrever-lhe um bilhete perguntando quando
-conta vir, para lhe mandar ou não a correspondencia. Fidelia não sabia
-nada da volta do tio. Acha provavel que fique alguns dias mais para dar
-as ultimas providencias e coligir as notas necessarias á venda da caza
-e das terras; ia vendel-as, por intermedio do Banco do Sul, mas nem
-ella nem Aguiar sabiam nada positivamente.
-
-Eu, convidado a opinar, disse que o rapaz, sabendo de correspondencia
-numerosa e presumindo alguma della politica, pediria logo a remessa, se
-não viesse abril-a em pessoa. A segunda hipothese não foi mal acolhida
-pela madrinha; pareceu-lhe certa. Ao cabo, que faria elle lá depois de
-ver a fazenda? A fazenda naturalmente via-se depressa, não tendo elle
-nenhuma cousa de recordação pessoal, ou costume velho que reviver.
-Assim disse eu, ou por outras palavras, e os dous concordaram commigo.
-Como perguntasse a Fidelia se não sentiria saudades da caza em que
-nasceu e se criou, respondeu-me que sim, mas já não terá gosto em lá
-viver.
-
---Aquillo agora é para mãos de homem, concluiu.
-
-Estas palavras foram ouvidas por D. Carmo, com vivo prazer. Aguiar
-provavelmente teria a mesma sensação, mas saira á calçada para falar
-a um visinho, e não as ouviu. Quando voltou, achou que me despedia
-das duas senhoras, e nem por isso deixou de me pedir que ficasse e
-jantasse. Recusei, e saí. Andando, ouvi que elle dizia á mulher e á
-amiga:
-
---Quem sabe o que trarão estas cartas?
-
-Em caminho, arrependi-me de não ter ficado para jantar. Ouviria o
-_grande talento_ que arrancou a voz exclamativa ao Tristão. Não seria
-novo para mim, mas seria mais uma vez, comquanto pareça que ella anda a
-recusar-se agora ao piano. É verdade que talvez os dous a vão levar á
-noite a Botafogo. Tambem pode ser que ella durma ali hoje, em casa dos
-paes postiços.
-
- * * * * *
-
-12 de Outubro.
-
-Aguiar e D. Carmo foram hontem levar a amiga a Botafogo, e voltaram
-cedo. Assim o soube hoje por elle, á porta do Banco, onde me achava
-a conversar com o corretor Miranda. Nenhuma noticia de Tristão, mas
-o bilhete do padrinho já está no correio, e segue hoje mesmo para
-Santa-Pia.
-
-Que as azas postaes o levem, digo eu aqui neste cantinho de papel,
-sem advertir no rebuscado da imagem. Advirto agora, e não a risco
-nem substituo; azas postaes servem, uma vez que vão ter á fazenda e
-não percam o bilhete em caminho. Quer-me parecer que tambem eu estou
-curioso de saber o que trazem as taes cartas de Lisboa, curioso apenas,
-e aliás não admira que desta vez são numerosas e bastas; escrevem-se
-geralmente pouco. Seja o que fôr os dous velhos estão anciosos de saber
-se o mandam voltar de cá. Não o dizem, mas vê-se.
-
-Miranda continuou a dizer das saudades que a mulher, a cunhada Cesaria,
-o cunhado Faria, toda a caza delle tem de mim;-cousas que ouvi
-agradecido, prometendo ir devolvel-as em pessoa um dia destes. Em suma,
-o corretor não é mau homem, e já me serviu urna vez em negocio do seu
-oficio. Usa a nota alegre, sem juvenilidade, e acha grande interesse em
-cousas que nenhum tem.
-
- * * * * *
-
-13 de Outubro.
-
-Campos escreveu á sobrinha, referindo-lhe o estado da fazenda, e
-contando os passeios que deu por ella com o moço Tristão. Este é
-curioso e discreto no exame das cousas que vê e nas noticias que pede.
-Lá está o capelão, e mais o juiz municipal. A carta é anterior ao
-bilhete do Aguiar, não fala nelle, mas diz que Tristão não se demorará
-muito; conta vir daqui a dias.
-
-D. Carmo espera que os dias serão abreviados logo que elle receba o
-bilhete do marido. Não m'o disse a mim, quando lá estive hontem, á
-noite, nem o ouvi a ninguem; eu é que pensei haver-lh'o lido no rosto.
-A carta do desembargador foi-lhe levada pela propria Fidelia, que
-lá estava hontem, e desta vez tocou piano, não sei se tão bem como
-Tristão, mas bem; os dous podiam tocar juntos. Eramos apenas cinco;
-o estudante primo de Fidelia viera trazel-a e tornou com ella para
-Botafogo, ás dez horas.
-
- * * * * *
-
-17 de Outubro.
-
-Chegou Tristão. Ignoro o que terá lido nas cartas de Lisboa, não falei
-a nenhuma das pessoas que poderiam sabel-o. Irei ao Flamengo um dia
-destes, amanhã.
-
-Hoje conto não sair de casa, que faço annos. Chego aos meus sessenta
-e... Não escrevas todo o algarismo, querido velho; basta que o saiba
-teu coração e vá sendo contado pelo Tempo no livro de lucros e perdas.
-Não escrevas tudo, querido amigo.
-
-Não saio de casa. Se a mana Rita vier jantar, como fez o anno passado,
-irei leval-a á noite a Andarahy. Se não vier, deixo-me ficar sósinho.
-
-Vou ocupar o tempo em reler uns papeis velhos que o meu creado José
-achou dentro de uma velha mala e me trouxe agora. A cara delle tinha
-a expressão de prazer que dá o serviço inesperado; aquelle gosto de
-descobrir papeis que podem ser importantes fazia-o risonho, olhos
-escancarados, quasi commovido.
-
---Vossa Excellencia talvez os procure ha muito tempo.
-
-Eram cartas, apontamentos, minutas, contas, um inferno de lembranças
-que era melhor não se terem achado. Que perdia eu sem ellas? Já não
-curava dellas; provavelmente não me fariam falta. Agora estou entre
-estes dous extremos, ou lel-as primeiro, ou queimal-as já. Inclino-me
-ao segundo. Ante mim continuava o meu José com a mesma expressão de
-gosto que lhe deu o achado. Naturalmente agradecia á sua boa Fortuna
-que lh'o deparou; contará que é mais um elo que nos prenda. Talvez a
-ideia que o levou á mala fosse a esperança de algum valor extraviado,
-uma joia, por exemplo, ou ainda menos, uma camisa, um colete, um lenço,
-e sendo assim o silencio era mui possível. Achou papeis velhos, veio
-fielmente entregar-m'os.
-
-Não lhe quero mal por isso. Não lh'o quiz no dia em que descobri que
-elle me levava dos coletes, ao escoval-os, dous ou tres tostões por
-dia. Foi ha dous mezes, e possivelmente ja o faria antes, desde que
-entrou cá em casa. Não me zanguei com elle; tratei de acautelar os
-nickeis, isso sim; mas, para que não se creia descoberto, lá deixo
-alguns, uma vez ou outra, que elle pontualmente diminue; não me vendo
-zangar é provavel que me chame nomes feios, descuidado, tonto, papalvo
-que seja... Não lhe quero mal do furto nem dos nomes. Elle serve bem e
-gosta de mim; podia levar mais e chamar-me peor.
-
-Resolvo mandar queimar os papeis, ainda que dê grande magua ao José
-que imaginou haver achado recordações grandes e saudades. Poderia
-dizer-lhe que a gente traz na cabeça outros papeis velhos que não ardem
-nunca nem se perdem por malas antigas; não me entenderia.
-
- * * * * *
-
-17 de Outubro, duas horas.
-
-Começo a receber cartões de visita pelo dia de hoje, entre elles os
-do cazal Aguiar e do Tristão, e um de Fidelia. A viuva escreveu estas
-palavras: _comprimentos de boa amizade._ Agora me lembra que no dia 12,
-quando a encontrei no Flamengo, em caza do Aguiar, usei desta expressão
-«boa amizade», como a mais doce que podia desejar della; foi um modo de
-concluir o elogio discreto que lhe fazia, apoiando a outro que D. Carmo
-lhe fazia tamben. Dahi este comprimento de hoje. O bilhete de Tristão
-traz a formula admirativa, os dos Aguiares afeto e apreço. Rita não me
-escreveu; certamente virá jantar.
-
- * * * * *
-
-Meia noite.
-
-Veiu, veiu, Rita veiu jantar com a alegria do costume, e examinou
-todas as cartas e cartões de comprimentos. Explicou-me que estivera
-hontem no Flamengo, onde dera noticia do meu anniversario; dahi as
-cortezias de hoje.
-
-Ouvindo isto, não me pude ter que lhe não falasse das cartas que
-aguardavam o Tristão. Disse-me que sabia dellas; eram dos paes e
-de amigos políticos. Entre as primeiras vinha uma para D. Carmo,
-com um _post-scriptum_ para o marido. Depois de alguma hesitação,
-perguntei-lhe se instavam pela volta delle.
-
---Os paes não, respondeu-me Rita; os amigos não sei, apenas ouvi de D.
-Carmo que elles falam muito da politica de lá. E dizia-me isto um pouco
-aborrecida, como receiosa, e ella teme já a separação; entretanto, é a
-coisa mais natural do mundo.
-
---Tristão não disse nada?
-
---Que eu ouvisse, nada. Passei lá uma boa meia hora de conversa, e o
-principal assunto foi a visita de Tristão a Santa-Pia, que elle achou
-interessante como documento de costumes. Gostou de ver a varanda, a
-senzala antiga, a cisterna, a plantação, o sino. Chegou a desenhar
-algumas cousas. Fidelia ouvia tudo com muito interesse, e perguntava
-tambem, e elle lhe respondia.
-
---Ella vae sempre vender a fazenda?
-
---Não ouvi falar disso.
-
---Vae, vae vendel-a. Ao menos, era plano ha tempos, e o desembargador
-lá ficou para cuidar de apontamentos. Elle quando vem?
-
---Ouvi dizer que daqui a oito ou sete dias; duas semanas, quando muito.
-
---Fidelia jantou com elles naturalmente?
-
---Não. Quando eu saí ás quatro horas, Carmo pediu-me que ficasse. Tendo
-de fazer outra visita, recusei. Fidelia disse então que aproveitava
-a minha companhia. A outra instou com ella que jantasse, mas a amiga
-alegou que era esperada em caza e não podia; voltaria hoje ou amanhã.
-Carmo e Tristão acompanharam-nos á porta do jardim. Eu e Fidelia viemos
-andando, e, ao chegar á esquina da rua da Princeza, não me lembrou logo
-voltar a cabeça. Fidelia lembrou-se, eu imitei-a, e os dous parados na
-calçada diziam-nos adeus com a mão.
-
-Rita contou-me que foi até Botafogo com a viuva Noronha. De caminho
-falaram pouco, ou antes Fidelia é que não falou muito; ia preocupada.
-Apezar disso, mostrou-se o que sempre foi, afavel, quasi meiga; pareceu
-interessar-se pela vida de Rita, confessou saudades, sentia que se não
-vissem mais vezes, e pediu desculpa de não ir, ha muito, a Andarahy. Se
-as palavras eram poucas, não eram secas, ao contrario.
-
-Naturalmente falaram de D. Carmo e de Aguiar; tambem disseram alguma
-cousa de Tristão, concordaram que parecia amigo dos padrinhos.
-
-Perto da casa do tio, Fidelia entrou em uma fabrica de flores para
-encomendar as que levará no dia 2 de Novembro á sepultura do marido.
-Rita, que aliás não pensára ainda nisso, deixou de encomendar as suas;
-fal-o-ha quando o dia dos mortos estiver mais proximo, e tral-as-ha
-comsigo da cidade. Referiu-me as encomendas da viuva, a escolha, as
-exigencias, o numero de grinaldas, tres, e a composição das cores que
-teriam; não quiz deixar nada ao fabricante.
-
-Ouvi todas essas minucias e ainda outras com interesse. Sempre me
-sucedeu apreciar a maneira porque os carateres se exprimem e se
-compõem, e muita vez não me desgosta o arranjo dos proprios factos.
-Gosto de ver e antever, e tambem de concluir. Esta Fidelia foge a
-alguma cousa, se não foge a si mesma. Querendo dizer isto a Rita, usei
-do conselho antigo, dei sete voltas á lingua, primeiro que falasse, e
-não falei nada; a mana podia entornar o caldo. Tambem pode ser que me
-engane.
-
-Não escrevo o resto. Quando ella acabou e contou o regresso,
-perguntei-lhe porque não viera hontem jantar commigo. Respondeu-me
-que, tendo de vir hoje, não queria ser convidada de vespera. Ri-me e
-fomos para a meza, que estava posta. Ao centro um ramo de flores, ideia
-della, que o mandou trazer ás escondidas, e, como eu lhe perguntasse
-se eram das que Fidelia encomendara, riu-se tambem. Agradeci-lhe a
-lembrança, exprimindo-lhe todo o meu afeto, comemos alegremente,
-recordando anedotas da infancia e da familia.
-
- * * * * *
-
-18 de Outubro.
-
-Ao levantar da cama, a primeira ideia que me acudiu foi aquella que
-escrevi hontem, á meia noite: «Esta moça (Fidelia) foge a alguma cousa,
-se não foge a si mesma.»
-
- * * * * *
-
-22 de Outubro.
-
-Fidelia não voltou ao Flamengo, apezar da promessa que D. Carmo lhe fez
-fazer. D. Carmo fora achal-a a pintar; Fidelia lembrara-se de haver
-pintado em menina, e começara um trecho do jardim da propria casa.
-Prometeu voltar ao Flamengo no dia seguinte, e não foi.
-
-Tristão ao saber do motivo da ausencia, advertiu que a viuva Noronha
-podia ter em pintura talento igual ao da musica, e não sei se lh'o
-chamou grande; não m'o disse. Que elle mesmo é que me referiu o que ahi
-fica, e mais o que vou incluir nesta pagina antes que me esqueça. Tinha
-vindo almoçar commigo.
-
---Venho almoçar, conselheiro; voltando agora do meu passeio, lembrou-me
-subir e perguntar por Vossa Excellencia. O seu creado disse-me que ia
-almoçar; ouso pedir-lhe um logar á meza.
-
---Um, dous, tres, doutor, acudi eu, quantos a sua amizade pedir para o
-seu apetite.
-
-Deu-me noticias da gente Aguiar; estão bons; falou-me dos seus e das
-cartas politicas de Lisboa. Já as leu ao padrinho e á madrinha. Uma só
-dellas alude ao desejo de o ver tornar breve: «esperamos que não se
-demorará muito no Rio de Janeiro.»
-
---E demora-se muito? perguntei-lhe.
-
---Não sei, mas é natural que pouco; a politica chama-me.
-
-Ao almoço é que Tristão me contou a historia da tela que a viuva está
-pintando, da promessa que fez á amiga e não cumpriu. E disse-me depois:
-
---Se ella sabe pintar pareceu-me que, melhor quadro que o seu jardim,
-é um trecho marinho do Flamengo, por exemplo, com a serra ao longe,
-a entrada da barra, alguma das ilhas, uma lancha, etc. A madrinha
-concordou logo, e foi propor á amiga a troca do quadro. Agradou-lhe
-este outro, prometeu vir ao Flamengo dezenhal-o, e não veiu.
-
---É que está namorada do seu jardim. Geralmente os artistas sentem
-melhor as proprias imaginações. Ella ainda saberá pintar, como diz que
-pintou em menina?
-
---A madrinha viu-lhe apenas algumas linhas de dezenho, e pareceram-lhe
-boas.
-
-Concordamos que deviam ser boas. Uma cousa traz outra, falamos das
-graças da viuva, da compostura, da discrição, da memoria das viagens,
-do gosto, dos gestos e creio que dos olhos tambem. Eu, com certeza,
-falei dos olhos, e agora me lembra que elle disse serem juntamente
-lindos e graves. Opinião ou diversão, acrescentou que os olhos das suas
-antigas patricias eram em geral bellos, e falou compridamente de outras
-damas; assim não parecia louvar somente a viuva Noronha. Achei isto
-bem, como equidade e como estetica. No meio da conversação tive uma
-ideia; disse-lhe que D. Carmo, que lhes queria tanto, em vez de propor
-á amiga a simples tela da praia, devia propor-lh'a com alguma figura
-humana. A delle ficaria bem para lhe lembrar, quando elle partisse, a
-pessoa do filho pintada pela filha. Tristão ouviu sorrindo isto que lhe
-disse; depois repetiu, como quem pensava:
-
---A pessoa do filho pintada pela filha...
-
-Não ponho aqui o sorriso porque foi uma mistura de desejo, de esperança
-e de saudade, e eu não sei descrever nem pintar. Mas foi, foi isso
-mesmo que ahi digo, se as tres palavras podem dar ideia da mistura, ou
-se a mistura não era ainda maior. Dahi saltámos ás galerias de arte
-da Europa, e falámos do que sabiamos. Quando demos por nós, tinhamos
-acabado de almoçar. Ofereci-lhe charutos e o meu coração. Quero dizer
-que lhe pedi viesse muitas vezes dar-me aquella hora deliciosa.
-Retorquiu-me que dal-a não, mas tomal-a para sí. Era a volta do
-comprimento, e com graça.
-
-Despediu-se e saiu. Quiz sair logo, mas vim primeiro escrever isto,
-para que me não esqueça, como lá digo atraz. E agora que o escrevi
-confirmo a impressão, que me deixou o rapaz, e foi boa, como a
-principio. Talvez elle tenha alguma dissimulação, alem de outros
-defeitos de sociedade, mas neste mundo a imperfeição é cousa precisa.
-Pronto; vou sair, e amanhã ou depois irei saber da paizagem ou da
-marinha da bella Fidelia.
-
- * * * * *
-
-28 de Outubro.
-
-Nem marinha nem paizagem, não soube de nada. Fidelia não tem aparecido
-no Flamengo, e escreveu hoje á velha amiga um bilhete de desculpas;
-esta tomando as contas ao tio, que voltou hontem da fazenda. Não me
-lembra se já escrevi que o Banco do Sul é que fará a transferencia de
-Santa-Pia.
-
-D. Carmo, a pretexto do estilo, deu-me o bilhete a ler. Tem graça, de
-certo, mas o verdadeiro motivo é a ternura que ella sente em ler a
-amiga e fazel-a ler aos outros. Depois que lh'o restitui, leu-o outra
-vez para si. Já devia trazel-o de cór. Em meio disto achou modo de
-aprovar a minha ideia do filho pintado pela filha, ouvida ao Tristão.
-
---Hei-de dizel-a a Fidelia.
-
-Tristão não estava presente; fora jantar com um ministro. Francamente,
-era mais facil á moça prometer que pintar a marinha. O que a boa Carmo
-disse que faria penso que o não fará; não irá propor á viuva que venha
-copiar a figura do afilhado na marinha do Flamengo. A familiaridade que
-haja porventura entre elles não se ajustará muito a esta ação de arte,
-incomoda ou não sei que diga...
-
-Suspendo aqui a penna para ir dormir, e escreverei amanhã o resto da
-noite.
-
- * * * * *
-
-29 de Outubro.
-
-O resto da noite foi passado em casa do Faria. Eram annos delle e
-estive lá mais tempo do que contava. Havia gente e alegria, algum canto
-e piano, e tambem conversa.
-
-Faria, apezar do dia e da festa, ria mal, ria sério, ria aborrecido,
-não acho forma de dizer que exprima com exação a verdade. É um desses
-homens nascidos para enfadar, todo arestas, toda secura. A mulher, D.
-Cesaria, estava alegre e tinha a pilheria do costume. Não disse mal
-de ninguem por falta de tempo, não de materia, creio; tudo é materia
-a linguas agudas. A maneira porque aprovava alguma cousa era quasi
-sarcastica; e dificil de entender a quem não tivesse a pratica e o
-gosto destas creaturas, como eu, velho maldizente que sou tambem. Ou
-serei o contrario, quem sabe? No primeiro dia de chuva implicante heide
-fazer a analise de mim mesmo.
-
-Quando saí de lá, Faria agradeceu-me, com o seu prazer nasal e
-surdo,-assim defino as palavras que lhe ouvi, acompanhadas de um fugaz
-sorriso de carcere.
-
- * * * * *
-
-1 de Novembro.
-
-Este é o dia de todos os santos; amanhã é o de todos os mortos. A
-egreja andou bem marcando uma data para comemorar os que se foram.
-No tumulto da vida e suas seduções, fique um dia para elles... A
-reticencia que ahi deixo exprime o esforço que fiz para acabar esta
-pagina em melancolia; não posso, nunca pude. Tristezas não são
-commigo. Entretanto, em rapaz,-quando fiz versos, nunca os fiz se não
-tristissimos. As lagrimas que verti então,-pretas, porque a tinta era
-preta,-podiam encher este mundo, valle dellas.
-
- * * * * *
-
-2 de Novembro.
-
-Mana Rita foi hoje ao cemiterio levar flores aos nossos.
-
---Você não imagina; acordei ás cinco e meia para me vestir e estar cedo
-em S. João Baptista. Cheguei ás oito e pouco; achei muita gente, não
-tanta, porém, como hade ser logo, á tarde. Não vim buscar você, porque
-sei que não iria.
-
---Pois eu fui á missa da Gloria.
-
---A egreja é perto.
-
---Talvez fosse ao cemiterio. Muitas sepulturas bonitas?
-
---Bastantes; entre ellas a do marido de Fidelia. As coroas e flores
-que ella encomendou ha dias lá estavam bem dispostas e faziam grande
-efeito; parece que o desembargador mandou tambem o seu ramo; estava
-escrito n'uma fita.
-
---Vocês falaram-se?
-
---Não; ella já tinha saído.
-
---Como sabe você que ella é que foi levar as flores e coroas?
-
---Adivinha-se pela disposição.
-
---Sim?
-
---De certo, mano. A disposição, o arranjo, a combinação, tudo era de
-mulher. Ha dessas cousas que mão de homem não faz; mão de homem é
-pesada ou trapalhona, e mais se é de desembargador, como elle. Por
-exemplo, o nome do marido, o nome proprio só, não todo, estava cercado
-de perpetuas; isto é cousa que só uma senhora inventa e faz. As outras
-flores, rosas e papoulas, distribuiam-se com tal simetria que pediu
-tempo e gosto. Um homem chegava ali pegava das flores e espalhava-as á
-toa.
-
---Admira que você a não visse.
-
---É que foi muito cedo.
-
---Mas n'um dia como o de hoje, tendo tanta cousa que arranjar. Daquella
-vez que a encontramos era mais tarde.
-
---Era, mas o dia era outro; hoje havia muita gente, não quiz que a
-vissem, é o que foi.
-
-Mana Rita desenvolveu esta ideia, que achei aceitavel; depois falou de
-outros jazigos. Como dos jazigos passamos ao ministerio e a D. Cesaria
-não me lembra, mas falámos delle e della com interesse, e a mana com
-graça. Tinham estado juntas as duas, hontem á tarde; Rita desculpara-se
-de não ter lá ido no dia 28. Contou-me parte do que lhe ouviu ácerca de
-duas pessoas que lá estiveram...
-
---Que lá estiveram?
-
---Parece que sim.
-
-E entrou a repetir uma serie de anedotas e ditos, que ouvi durante uns
-dez minutos, com atenção. A maledicencia não é tão mau costume como
-parece. Um espirito vadio ou vazio, ou ambas estas cousas acha nella
-util emprego. E depois, a intenção de mostrar que outros não prestam
-para nada, se nem sempre é fundada, muita vez o é, e basta que o seja
-alguma vez para justificar as outras. Disse isto a Rita por palavras
-graciosas, que ella reprovou e deitou á conta da minha perversidade.
-
- * * * * *
-
-9 de Novembro.
-
-A marinha interrompeu a paizagem, ou de todo a poz de lado. Fidelia
-consentiu em ir pintar um trecho da praia do Flamengo, não sei se com
-Tristão ou sem elle. Aguiar, que me deu a noticia, limitou-se a dizer
-que ella já começou a tela com muito gosto.
-
---Vá lá amanhã, conselheiro, entre uma e duas horas.
-
- * * * * *
-
-11 de Novembro.
-
-Não fui hontem, fui hoje ver a marinha. Achei Fidelia no jardim,
-junto da casa, com o pincel e a palheta nas mãos, os olhos no mar e
-na tela, em pé. Ao lado, sentada, estava D. Carmo, com o seu riso bom
-e maternal. Viu-me á porta do jardim, e fez um gesto convidando-me a
-entrar; entrei.
-
---Venha, disse ella, ande ver a minha artista.
-
-Fidelia pareceu vexada com estas palavras, e estendeu-me a mão, já
-livre do pincel, dizendo:
-
---Não olhe, não olhe que não presta.
-
-Olhei, prestava. Está ainda em começo, e não será obra-prima; a
-polidez obrigava-me a achal-a excelente, e disse-lh'o, com um gesto
-de admiração; mas, em verdade, presta. O fundo, serra e ceu, faz bom
-efeito; a agua creio que terá movimento e boa côr. Faltava Tristão;
-não vi nem sombra do «filho pintado pela filha». Posto não extranhasse
-a ausencia, lembrou-me insinual-a. Disse-lhe que podia pôr na praia a
-figura da boa amiga, que ali estava a acompanhal-a com os seus dous
-olhos amigos. Esta ia a dizer alguma cousa, mas Fidelia replicou:
-
---Não me atrevi, por não conhecer bem a arte de figura; no colegio
-pintava flores e paizagens, algum pedaço de mar ou de ceu. Se não fosse
-isso, tirava o retrato de D. Carmo.
-
-D. Carmo confirmou:
-
---Eu pedi-lhe que pintasse Tristão neste quadro e ella respondeu-me a
-mesma cousa.
-
-Aceitei a razão, aceitei uma cadeira vaga que ali estava, e pedi á
-viuva que continuasse a obra. Queria vel-a pintar. Na Europa tinha
-assistido ao trabalho de alguns artistas homens; era a primeira vez que
-uma senhora pintava deante de mim. Fidelia dispoz-se e continuou. Após
-alguns minutos os tres falavamos de varias cousas. A viuva estava em
-toda a graça do costume, sem nenhum ar petulante que porventura pudesse
-tirar do exercicio; pintava modestamente. Alguma vez interrompia o
-trabalho, ou para ouvir melhor, ou para dizer mais longo, e logo tornava
-ao pincel e á tela.
-
-Ao cabo de alguns minutos cuidava eu de sair, quando vi aparecer
-á porta da casa nada menos que Tristão. A porta é larga, dá para
-um saguão, donde se comunica para cima por dous pequenos lanços de
-degráos, tecto baixo. Tristão vinha de concluir a correspondencia que
-vae mandar para o correio, segundo soube logo depois, e tornava ao
-logar em que estivera, ao pé das duas. Mandou vir cadeira; a que eu
-ocupava era a que elle ocupava antes, e não havia outra. Talvez estes
-pormenores não tenham valor, mas cabem aqui para o fim de acentuar bem
-que Tristão estava com ellas antes da minha chegada, e para lembrar que
-antes de vir a cadeira me consultou acerca da pintora; respondi o que
-cumpria.
-
---Não é? disse elle contente do meu apoio.
-
-E acrescentou algumas palavras de louvor, calidas, sinceras de certo,
-que a viuva apreciou comsigo naturalmente; não as contestou, tambem
-não sorriu como sucede quando a gente aprova interioramente uma cousa
-que lhe vae bem com a alma. Ouviu pintando, recuando ou chegando,
-e deitando os olhos para longe. Quando os encaminhou para elle (já
-então sentado) não esperou que Tristão afastasse os seus; encontrou-os
-e deixou-os ficar onde estavam, indo continuar a marinha com tanta
-atenção que era como se nós outros não falássemos de nada, e nós
-falavamos de muita cousa, elle acaso menos, para ver melhor a pintura.
-
-Aquelle silencio de Fidelia, em contraste com a palestra de pouco
-antes, pareceu-me indicar que ella considerava a obra em atrazo. Tambem
-podia ser que o amor da arte a retivesse agora mais que a principio,
-e a convidasse a pintar exclusivamente. A causa secreta de um acto
-escapa muita vez a olhos agudos, e muito mais aos meus que perderam com
-a idade a natural agudeza; mas creio que seria uma daquellas, e não ha
-razão para descrer que fossem ambas successivamente.
-
-Quem parecia contente de tudo, palavras e silencios, era a dona da
-casa. Posto me désse a principal atenção, não o fazia em maneira que
-esquecesse a tela e os filhos. Mirava a tela e falava aos filhos com a
-ternura velha que já estou cançado de notar, e talvez a ternura fosse
-agora maior que de outras vezes; pelo menos, trazia certo alvoroço como
-de alma que soletra uma felicidade nova ou inesperada; não digo tudo
-para me não arriscar a engano.
-
-A verdade é que eu, que pensára cm sair, fui ficando, ficando, até que
-a viuva Noronha suspendeu o trabalho; tinha passado quasi uma hora.
-Confessou que estava cançada, e cuidou de recolher os pinceis e cobrir
-a pintura, ajudada nisso pelo moço Tristão, que o fazia com a mesma
-graça que ella, e um dezejo de bem servir, que é a alma da polidez.
-Eu, além de velho, não podia deixar a boa Carmo, que só os ajudou com
-os olhos, e ajudou-os bem; iam de um para outro, não só alegres, mas
-ainda interrogativos. Elles acabaram tudo e vieram sentar-se deante de
-nós, um cheio de riso, outra não cheia, mas tocada apenas do seu, que
-era igualmente agradecido e bom.
-
-A minha prezença era já longa, e apezar das relações que ha entre nós,
-começaria a parecer indiscreta. Era tempo de sair; quiz sair e ficar
-a um tempo, cousa impossivel; vivi assim alguns instantes de impulsos
-contrarios. Tristão podia resolver esta minha luta interior cantando
-alguma cousa que me obrigasse a ouvil-o, mas estava então ocupado em
-dizer finezas á artista, á viuva, á irmã, a todas aquellas tres pessoas
-consubstanciadas na mesma dama encantadora. Fidelia sorria com recato
-e atenção, e respondia tambem. Despedi-me, e achei (se não foi engano)
-que D. Carmo estimou a minha saída para se dar inteiramente aos dous
-filhos. Certo é, porém, que os tres me falaram com apreço e cortezia.
-Vim por ahi fóra pensando nelles.
-
- * * * * *
-
-12 de Novembro.
-
-Fiz mal em não pôr aqui hontem o que trouxe de lá commigo. Creio que
-Tristão anda namorado de Fidelia. No meu tempo de rapaz dizia-se
-_mordido_; era mais energico, mas menos gracioso, e não tinha a
-espiritualidade da outra expressão, que é classica. Namoro é banal, dá
-ideia de uma ocupação de vadios ou sensuaes, mas namorado é bonito.
-«Ala de namorados» era a daquelles cavaleiros antigos que se bateram
-por amor das damas... Ó tempos!
-
-A minha impressão é que elle anda ou começa a andar namorado da viuva.
-Outra impressão que tambem não escrevi é que a madrinha parece perceber
-o mesmo, e tira dahi certo alvoroço. Quando lá fôr agora heide abrir
-todas as velas á minha sagacidade, a ver se confirmo ou desminto estas
-duas impressões. Pode ser engano, mas pode ser verdade.
-
-Hoje, que não saio, vou glozar este mote. Acudo assim á necessidade
-de falar commigo, já que o não posso fazer com outros; é o meu mal.
-A indole e a vida me deram o gosto e o costume de conversar. A
-diplomacia me ensinou a aturar com paciencia uma infinidade de sujeitos
-intoleraveis que este mundo nutre para os seus propositos secretos. A
-apozentação me restituiu a mim mesmo; mas lá vem dia em que, não saindo
-de caza e cançado de ler, sou obrigado a falar, e não podendo falar só,
-escrevo.
-
- * * * * *
-
-13 de Novembro.
-
-Aguiar veiu a mim, e disse:
-
---Já sei que gostou da marinha.
-
---Gostei muito. Está adeantada?
-
---Está.
-
---A artista não tem parado?
-
---Não; vae lá todos os dias e pinta com amor.
-
---Com amor? Essa é a corda principal della. Não sei se já lhe
-disse que o que me encanta na afeição que ella tem aos senhores, e
-particularmente a D. Carmo, é o toque de subordinação graciosa, que lhe
-dá totalmente um ar de filha. É isso, é a obediência discreta e pontual
-com que que ella acode aos dezejos dos seus paes de coração.
-
---Diz bem, conselheiro.
-
-Estavamos no Tezouro, aonde fomos por negocios, e saimos dali a
-pé, caminho do Rocio, a pegar um bonde, mas não pegámos nada. A
-conversação foi o melhor vehiculo; é desses que tem as rodas surdas e
-rapidas, e fazem andar sem solavancos. Viemos descendo, a continuar o
-assunto, e a dizer cousas interessantes; eu, pelo menos, porque elle
-vivia mais nos olhos e nos ouvidos que na boca. Ouvia com atenção, e
-alguma vez com desatenção; no segundo caso, era todo olhos, mas tão
-alongados, que esqueciam a rua e o companheiro.
-
-Uma das confidencias que me fez merece ser posta aqui. Para me dar
-razão no que lhe disse da subordinação graciosa da viuva, referiu-me
-que as duas costumavam ir á missa, ao domingo, na matriz da Gloria; a
-viuva vinha sempre acompanhar D. Carmo ao Flamengo, donde tornava logo
-para Botafogo, se não almoçava com elles.
-
---Carmo, para a não obrigar a vir tão longe, ia algum domingo ouvir
-missa a Botafogo, mas Fidelia vinha quasi sempre á Gloria.
-
---E agora já não vem?
-
---Agora Carmo é que não vae a uma nem a outra parte, ou só raro. A
-minha pobre mulher anda cançada; lá tem o seu livro, com as suas
-rezas marcadas. Ao domingo, á mesma hora, antes de catar noticias nas
-gazetas, pega em si e no livro, e acompanha a missa toda. Eu, que já
-sei a hora, não a perturbo nunca; se me acontece por acaso entrar no
-gabinete onde ella tem o seu altarzinho e o seu Christo, recuo a tempo,
-mas não lhe arranco os olhos da pagina; é como se não entrasse ninguem.
-Acaba, beija a imagem e torna ao mundo. Não sae de casa sem a beijar
-primeiro, como um pedido de proteção, nem volta sem fazer o mesmo,
-ainda vestida e de chapéu, como a dar graças. O mesmo ao deitar e ao
-levantar.
-
-Como esses, referiu Aguiar outros habitos cazeiros da consorte, que
-ouvi com agrado. Não seriam grandemente interessantes, mas eu tenho
-a alma feita em maneira que dou apreço ao minimo, uma vez que seja
-sincero. Não diria isto a ninguem cara a cara, mas a ti, papel, a ti
-que me recebes com paciencia, e alguma vez com satisfação, a ti, amigo
-velho, a ti digo e direi, ainda que me custe, e não me custa nada.
-Creio que outras damas leiam tambem a missa em casa, ou por fadiga, ou
-por doença, ou por estar chovendo, e ha sempre que louvar em pessoa que
-respeita os seus elos espirituaes. Só me aborrece a que os enfia ao
-modo de colar para dar melhor vista ao pescoço. Tal não é aquella boa
-senhora do Flamengo. A piedade dessa estende-se á memoria da mãe e do
-pae, á saudade das amigas, e (ainda que me cance repetil-o) a amizade
-dos seus dous filhos de emprestimo.
-
- * * * * *
-
-20 de Novembro.
-
-Já lá voltei tres vezes. Achei sempre D. Carmo, Fidelia e Tristão. Da
-terceira vez Aguiar chegou mais cedo, e assistiu ás ultimas pinceladas.
-
-Creio que sim; creio que o moço admira menos a tela que a pintora, ou
-mais a pintora que a tela, á escolha. Uma ou outra hipothese, é já
-certo que está namorado. Chegou ao ponto de esquecer-nos e ficar preso
-della, embebido nella, levado por ella. Eu, com a arte que o Diabo me
-deu, divido a atenção entre a mãe e os dous filhos para concertar a
-cortezia e a curiosidade, e ambas saem satisfeitas do meu gesto.
-
-Quando escrevi ha dias (duas ou tres vezes) que «a moça Fidelia foge a
-alguma cousa, se não foge a si mesma», tinha em mira o afastamento em
-que ella vinha estando da casa da amiga. Eil-a que continua a lá ir, e
-a se deixar ver do irmão que a amiga lhe deu. Ou não lhe quer fugir,-ou
-(cousa mais grave) não quer fugir a si mesma. Mas ainda não vi nada
-claro; parece antes perdoar.
-
- * * * * *
-
-30 de Novembro.
-
-Tristão convidou-me a subir ás Paineiras, amanhã; aceitei e vou.
-
-Ha dez dias não escrevo nada. Não é doença ou achaque de qualquer
-especie, nem preguiça. Tambem não é falta de materia, ao contrario.
-Nestes dez dias soube que novas cartas chamam Tristão á Europa, agora
-formalmente, ainda que sem instancia; ha eleições proximas. Tristão
-resolveu não ir já, antes do principio do anno, mas não pode deixar de
-ir. Taes foram as novidades que me deram no Flamengo e fóra dali. Fóra
-ouvi-as da boca da graciosa Cesaria, que me disse com melancolia:
-
---Elle gosta da Fidelia, mas é claro que lhe prefere a politica.
-
-Era a melancolia do prazer recondito, ou como se deva dizer para
-explicar um achado gostoso que a gente precisa disfarçar em tristeza.
-Havia naquella palavra tal ou qual condenação do moço, mas só aparente;
-o sentido verdadeiro era o gosto de ver a dama preterida. Para
-encubril-o bem, D. Cesaria disse todo o mal que pensa do rapaz, e não
-é pouco. A graça foi a mesma de seu uso, as lembranças agudas, as
-maneiras elegantes. Ri-me naturalmente, negando ou calando. Dentro de
-mim achei que a opinião era injusta, mas talvez este meu conceito seja
-filho da afeição que vou tendo ao moço. Ella cresce-me, com a vista e
-a pratica dos seus dotes, e naturalmente com a afeição e a confiança
-que me tem, ou parece ter. Seja o que fôr, a verdade é que não o
-defendi de todo, mas só em parte, e a graciosa dama apelou para o meu
-gosto, o equilibrio do meu espirito, o longo conhecimento que tenho dos
-homens... Todas as grandes qualidades deste mundo.
-
- * * * * *
-
-1 de Dezembro.
-
-Volto espantado das Paineiras. Lá fui hoje com Tristão. No fim do
-almoço, acima da cidade e do mar, ouvi-lhe nem mais nem menos que a
-confissão do amor que dedica á formosa Fidelia. Uso os seus proprios
-termos: dedica á formosa Fidelia. O verbo não é vivo, mas pode ser
-elegante, e em todo caso, exprime a unidade do destino. As theses
-escolares dedicam-se a paes, a parentes, a amigos; o amor é these para
-uma só pessoa.
-
-Novidade não era, a confissão é que me espantou, e provavelmente elle
-leu esse efeito em mim. Não lhe respondi logo, salvo por um gesto de
-aquiescencia, preciso em taes casos, não se devendo duvidar nunca da
-boa escolha, ao contrario.
-
---Não disse isto a ninguem, conselheiro, nem á madrinha nem ao
-padrinho. Se lh'o faço aqui é que não ouso fazel-o áquelles dous, e
-não tenho terceira pessoa a quem o diga. Dil-o-hia a sua irmã, se me
-atrevesse a tanto; mas apezar do bom trato, não lhe acho franqueza
-igual á sua. Parece-lhe que o meu coração escolhe bem?
-
---Pergunta ociosa, doutor; basta amar para escolher bem. Ao Diabo que
-fosse era sempre boa escolha.
-
---Essa é a regra, sei; mas no caso particular daquelle senhora não acha
-que é admiravel?
-
---Acho.
-
---Tambem assim penso; independentemente da cegueira que me daria a
-paixão, vejo claro que a escolha é perfeita. Já tivemos ocasião de
-falar nella, e combinámos no parecer. Digo-lhe até que foi esse o
-motivo que me levou a confessar-me hoje. Lembra-se que ha algum tempo,
-em sua caza, almoçando...? Concordámos em achar-lhe todas as prendas
-moraes e fisicas. Comprehendi que me aprovaria, e resolvi falar-lhe á
-cerca deste sentimento e seus efeitos.
-
---A resposta estava dada, como diz; não ha consulta nova.
-
---Ha; ainda lhe não disse tudo.
-
---Pois diga o resto. Disponho-me a ouvil-o, como se eu mesmo fosse
-rapaz. Gosta della ha muito tempo?
-
---Logo que cheguei comecei a gostar della.
-
---Não reparei.
-
---Nem ella, nem eu tambem. Senti que lhe achava alguma cousa, mas a
-austeridade de viuva e a minha proxima volta não deixavam entender
-bem o que era. Poderia ser dessas preferencias que se dão a mulheres,
-não havendo plano nem possibilidade de as receber na vida. Alem
-dessa _cousa_, gostava de a ouvir falar, de lhe comunicar ideias e
-observações, e todas as nossas conversas eram interessantes. Os seus
-modos, aquelle gesto de acordo manso e calado, tudo me prendia. Um dia
-entrei a pensar nella com tal insistencia que desconfiei. Recorda-se
-quando resolvi ir á fazenda de Santa Pia com ella e o tio?
-
---Recordo-me.
-
---Era já a dificuldade de ficar aqui sem ella, não sabia porquanto
-tempo; e depois contava que na roça, mais a sós, chegaria a fazer-lhe
-sentir tudo, o que me pezava e dispol-a a ouvir-me. Resolução perdida;
-ella não foi e eu tive de acompanhar o desembargador sozinho; pouco
-depois voltei...
-
---Lembra-me.
-
-Tristão deteve-se naquelle ponto e estendeu os olhos abaixo e ao
-longo. Um creado veiu servir-nos café, emquanto dous grandes passaros
-negros cortavam o ar, um atraz do outro. Podia ser um cazal, elle que
-a perseguia, ella que negava. Então eu, para sorrir da confidencia,
-suggeri a ideia de que a bella Fidelia estivesse a fazer o mesmo gesto
-da ave fugitiva; talvez já gostasse delle. Não me retrucou sim, nem
-não, mas a expressão do rosto era negativa, e eu, para não perder o
-resto, perguntei-lhe:
-
---Quem lhe diz que não, doutor?
-
-A curiosidade ia-me fazendo deslisar da discrição, e acaso da
-compostura; nem só a curiosidade, um pouco de temperamento tambem.
-Tem-se visto muito rapaz falar de damas amadas, e muita viuva sair
-da viuvez ou ficar nella! Naquelle caso os dous personagens davam
-interesse especial á aventura. Cá me acordava a afirmação de mana Rita.
-Que Fidelia não caza. Que não cazará nunca. A situação de ambos, a vida
-que chama Tristão para fóra daqui, a morte que prende a viuva á terra
-e ás suas saudades, tudo somava o interesse da aventura, não contando
-que a esses motivos de separação, eu proprio ia-me a outros de união
-possível dos dous.
-
-Tristão não se deixou rogar muito; desfiou varios dos seus enganos e
-desenganos. Custou-lhe a principio, mas, dito um caso, vieram outros,
-e com pouco sabia eu que aparencias iludiram as suas esperanças, e que
-desilusões as mataram. Agora crê devéras o peor.
-
-Não lhe dei as minhas razões contrarias; podiam não ser mais que
-aparências. Tambem não aludi ás suspeitas que atribuo á madrinha
-e ao padrinho; elles podem enganar-se como eu. Ao demais,-e é o
-principal,-isso viria dando ao meu papel aspeto menos grave do que
-convinha. Basta que já aquella conversação lhe fosse deitando as
-manguinhas de fora,-e a mim tambem; no fim dos charutos, estavamos
-quasi como dous estudantes do primeiro anno e do primeiro namoro, ainda
-que com outro estilo.
-
-Creio que, ao descer, vinha arrependido ou vexado da confissão; trocou
-de assunto, conversámos de cousas alheias, do trem e da estrada, do
-mato e do morro, e cá embaixo um pouco da politica de ambos os paizes.
-
- * * * * *
-
-2 de Dezembro.
-
-Uma observação. Como é que Tristão foi tão franco hontem nas Paineiras,
-e tão cauteloso naquelle dia do largo de S. Francisco, onde dei com
-elle embebido a ver entrar a moça no carro. «Grande talento!» exclamou
-então, o talento de pianista, que ella não levava nas saias. E já então
-gostava della, pelo que lhe ouvi hontem, visto que começou a querer-lhe
-pouco depois de chegado. A razão é que só agora a paixão subiu tão
-alto; isso, e a confiança que lhe inspiro. Não se pôde conter, é o que
-foi.
-
- * * * * *
-
-3 de Dezembro.
-
-Ayres amigo, confessa que ouvindo ao moço Tristão a dor de não ser
-amado, sentiste tal ou qual prazer, que aliás não foi longo nem se
-repetiu. Tu não a queres para ti, mas terias algum desgosto em a saber
-apaixonada delle; explica-te se podes, não podes. Logo depois entraste
-em ti mesmo, e viste que nenhuma lei divina impede a felicidade de
-ambos, se ambos a quizerem ter juntos. A questão é querel-o, e ella
-parece que o não quer.
-
- * * * * *
-
-5 de Dezembro.
-
-A marinha está quasi prompta. Mana Rita veiu encantada da tela, da
-autora e da dona, porque Fidelia destina a obra a D. Carmo. Esteve só
-com as duas amigas; não achou lá Tristão nem Aguiar, e conversaram as
-tres longamente, até que a viuva se despediu e tornou para Botafogo,
-apezar de instada para jantar no Flamengo; não podia e partiu antes de
-cair a tarde.
-
-Rita ficou e ainda bem que ficou, porque ouviu a D. Carmo a noticia
-do amor de Tristão, com um acrescimo que aqui vae para ligar ao que
-escrevi nestes ultimos dias. Esse acrescimo é nada menos que o desejo
-de D. Carmo é de os ver cazados.
-
---Digo isto só á senhora e peço-lhe que não conte a ninguem, acabou D.
-Carmo, eu gostaria de os ver cazados, não só porque se merecem, como
-pela amizade que lhes tenho e que elles me pagam do mesmo modo.
-
-Rita achou que D. Carmo dizia verdade, e achou mais que, cazando-os,
-teria assim um meio de prender o filho aqui. A mana é dessas pessoas
-que não pedem reter o que pensam, e confiou logo o achado á amiga. D.
-Carmo sorriu com expressão de acordo; e foi o que pensou e me disse a
-propria Rita. Tambem assim me pareceu, mas eu quiz deitar a minha gota
-de fel do costume, e disse:
-
---Talvez a terceira razão seja a principal, se não foi unica.
-
-Rita acudiu que não. Unica não era, não podia ser. Eu, por maldade e
-riso, teimei que sim, mas dentro de mim acabei concordando com ella. As
-tres razões podiam combinar-se bem naquella senhora. A ultima, quando
-muito, daria maior alma ás duas primeiras: era natural. Não tardaria a
-perder o filho postiço, que se vae embora, e a filha de emprestimo pode
-vir a amar outro e cazar, e ainda que não saia daqui, seguirá outra
-familia. Unidos os dous aqui, amados aqui, tel-os-hia ella abraçados ao
-proprio peito, e elles a ajudariam a morrer. Resumo assim o que pensei
-e agora confirmo, acrescentando que o confiei tambem á mana.
-
---O que eu disse ha pouco foi por gracejo; acho que você tem razão. E
-parece-lhe que ella alcance o que deseja?
-
---Não afirmo nem nego, mas já me parece dificil; aqui está por quê.
-Tristão e Aguiar chegaram pouco antes da hora de jantar, e jantámos.
-Aguiar indagou da pintura, D. Carmo respondeu-lhe, elle ouviu com
-interesse, e creio que elle e ella olharam alguma vez para o afilhado;
-Tristão não dizia nada; parecia até não atender ao que elles diziam.
-
---Talvez fingisse.
-
---No fim do jantar, antes do café, Tristão declarou aos padrinhos que
-talvez parta antes do fim do anno...
-
---Antes?
-
---Antes.
-
---E elles não sabiam?
-
---Parece que não, porque ficaram desconsolados, e o jantar acabou
-triste.
-
---Mas como é que elle não dissera isso ao padrinho, vindo com elle de
-fóra?
-
---Não vieram juntos; Tristão chegou depois do Aguiar. Pensávamos até
-que jantasse fóra de caza. Foi assim; no fim deu noticia da partida.
-Contou que uma carta atrazada... mas não mostrou a carta; terá mostrado
-depois que saí de lá.
-
-Pensei commigo, e expliquei:
-
---Mana, pode ser até que não haja carta nenhuma; elle foge-lhe, não
-tem esperanças, quer ir quanto antes. Já isso de chegar tarde a caza
-prova que não quer encontrar a viuva; é o que é. Os dous velhos não
-procuraram dissuadil-o da resolução?
-
---A principio não disseram nada; ficaram acabrunhados. Depois o Aguiar
-entrou a dizer alguma cousa, que D. Carmo ouviu e apoiou apenas com
-os olhos; estava triste, e para me não deixar só, falava commigo; eu
-respondia apertando-lhe os dedos com piedade sincera. Olhe, mano, até
-eu cuidei de pedir ao rapaz que se demorasse mais tempo. Elle agradeceu
-a minha intervenção com um sorriso tambem triste, mas declarou que não
-podia; pedem-lhe muito que volte.
-
---Bem, disse eu rindo, você mostrou ahi que se compadeceu da amiga
-D. Carmo, mas você esquece agora neste mez de Dezembro a aposta que
-fez commigo no principio de Janeiro. Não se lembra do que me disse no
-cemiterio? Não apostou que a viuva Noronha não tornaria a cazar? Como é
-que pediu hoje ao Tristão que ficasse,-com o pensamento intimo de o ver
-cazar com ella?
-
-Concluí pegando-lhe no queixo e levantando-lhe o rosto para mim, que
-estava de pé. A mana confessou a contradição e explicou-a. Antes de
-tudo, o seu pensamento era poupar a tristeza da amiga; seriam alguns
-dias ou semanas mais que passariam juntos, elles e o afilhado. Mas
-bem podia ser tambem que Fidelia, aconselhada por elles, acabasse
-despozando Tristão; as circumstancias seriam outras.
-
---Logo, eu tinha razão naquelle dia?
-
---Inteiramente não; mas tudo pode acontecer neste mundo.
-
---Neste mundo e no outro.
-
-Quiz acabar a conversação notando-lhe que, a despeito do pedido de
-D. Carmo, quando lhe confiou a intenção recondita e lhe recomendou
-segredo, ella acabava de me revelar tudo; mas o coração tolheu-me
-o remoque, por mais fraternal e innocente que me saisse. Podia
-resentir-se, e ella não o merece; ella é boa.
-
-Em resumo, pode ser que Rita tivesse razão no cemiterio. Se a viuva
-Noronha, como lá escrevi ha dias, foge a si mesma, é que tem medo de
-cair e prefere a viuvez ao outro estado.
-
-
-10 de Dezembro.
-
-Fidelia sabe já que Tristão resolveu partir no dia 24. Foi elle mesmo
-que lh'o disse em caza della.
-
- * * * * *
-
-15 de Dezembro.
-
-Se eu estivesse certo de poder cazar os dous, cazava-os, por mais que
-me custe confessal-o a mim mesmo, e, a rigor, não custa muito. Estou
-só, entre quatro paredes, e os meus sessenta e tres annos não rejeitam
-a ideia do oficio eclesiastico. _Ego conjugo vos..._
-
-A razão de tal sentimento é a tristeza que vejo nos padrinhos, á medida
-que se aproxima o dia 24. D. Carmo perguntou a Tristão implorativamente
-porque é que não adiava para 9 de Janeiro a viagem; eram mais quinze
-dias que lhe dava. Elle respondeu que não pode. Eu, algo incredulo,
-perguntei-lhe se já comprara bilhete; disse-nos que vae compral-o
-amanhã. A minha ideia é que elle espera achar todas as passagens
-tomadas, e adiar a viagem por força maior. Não lh'o disse, mas tudo se
-deve esperar dos homens, e particularmente dos namorados.
-
-Foi hontem que falámos disso os tres; Aguiar estava presente e não
-opinou. Pouco depois chegou o desembargador com a sobrinha; tinham
-saido em visita ao presidente do tribunal, mas apenas na rua, Fidelia
-propoz ao tio virem passar a noite no Flamengo, e vieram; eram nove
-horas.
-
-Tudo o que se passou até ás dez e meia teria aqui tres ou quatro
-paginas, se eu não sentisse algum cançasso nos dedos. Paginas de
-conjeturas, porque os dous apenas se falaram, mas conjeturas firmadas
-na comoção visivel de um e de outro, nos silencios da Fidelia, embora
-orlados da atenção que dava á amiga. Os quatro homens pouco a pouco nos
-ligamos. Campos chegou a propor cartas, nenhum de nós tres aceitou a
-ideia. Aguiar ia aceitando, ainda que a meia voz, mas Tristão alegou
-dor de cabeça ou dor nas costas, e era verdade; tinha passado toda a
-manhã curvado, a arranjar cousas velhas. O mesmo cançasso dos dedos
-agora é resto da fadiga de hontem; ficámos a conversar, até que as duas
-visitas sairam, e eu com ellas.
-
- * * * * *
-
-20 de Dezembro.
-
-Sucedeu como eu cuidava. Tristão achou todas as passagens de 24
-vendidas. Vae no dia 9. O peor é que, sendo natural comprar bilhete
-desde logo, para lhe não acontecer o mesmo, não comprou cousa nenhuma.
-Sei disto por elle, a quem perguntei se se não aparelhava já; respondeu
-que não, que ha tempo. Agora imagino que, se houver tempo e achar
-bilhete, elle pode converter a necessidade de amar a moça no dezejo
-de ceder aos velhos, e ficará mais duas ou tres semanas. Os velhos
-não serão a causa verdadeira, mas não ha só filhos de emprestimo, ha
-tambem causas de emprestimo.
-
- * * * * *
-
-22 de Dezembro.
-
-A verdadeira causa-ou uma dellas, estava hoje no Flamengo, acabando
-a marinha. Tristão lá estava tambem, e ambos faziam a estetica um
-do outro. Elle admirava menos a tela que a pintora, ella menos o
-expectaculo que o admirador, e eu via-os com estes olhos que a terra
-fria hade comer.
-
-D. Carmo dava-me a parte de atenção a que a cortezia a obrigava, mas
-tão somente essa. Olhava para os dous a miudo, a espreital-os, e,
-se fosse preciso, a animal-os. Mas já não era preciso. Um e outro
-esqueciam-se de nós e deixavam-se ir ao som daquella musica interior,
-que não é nova para ella.
-
-Observando a moça e os seus gestos, pensei no que me disseram ha uma
-semana, a ideia que ella teve de ir passar o verão em Santa-Pia, que
-ainda não vendeu. Não lhe importaria lá ficar com os seus libertos;
-faltou-lhe pessoa que a acompanhasse. Ultimamente pensou em ir para
-Petropolis, mas ahi é provavel que fosse tambem Tristão, e a intenção
-della era fugir-lhe, creio eu. Creio tambem que ella foi sincera em
-ambos os projetos. Fidelia ouviu á porta do coração aquelle outro
-coração que lhe bate, e sentiu taes ou quaes veleidades de trancar o
-seu. Digo veleidades, que não obrigam nem arrastam a pessoa. A pessoa
-quer cousa diversa e oposta, e o sentimento, se não é já dominante,
-para lá caminha.
-
-Uma impressão que trago do Flamengo é que D. Carmo despediu-se de mim,
-quando me levantei, com o mesmo prazer que lhe dei ha dias, para ficar
-a sós com elles. Não lhes terá dito nada com palavras, mas até onde
-pode ir a alma sem ellas, foi de certo. Só a compostura da boa senhora
-terá impedido que os abrace e lhes diga: Amem-se, meus filhos!
-
- * * * * *
-
-28 de Dezembro.
-
-Estive hoje com Tristão, e não lhe ouvi nada a não ser que recebeu
-cartas de Lisboa, cartas politicas; tambem as recebeu do pae e da mãe.
-A mãe, se elle se demorar muito, diz que virá ver a sua terra. Deu-me
-noticias dos seus outros paes de cá, mas não falou da moça.
-
-
-
-
-1889
-
-
-2 de Janeiro.
-
-Emfim, amam-se. A viuva fugiu-lhe e fugiu a si mesma, emquanto pôde,
-mas já não póde. Agora parece delle, ri com elle, e no dia 9 chorará
-por elle, naturalmente, se elle lhe não estancar a fonte das lagrimas
-com um gesto. As visitas são agora diarias, os jantares frequentes;
-D. Carmo acompanha algumas vezes o afilhado a Botafogo, e Aguiar vae
-buscal-os.
-
-Se já estão formalmente declarados é o que não sei; terá faltado
-ocasião ou animo a elle para confiar á outra o que ella sabe pelos
-olhos, mas não tardará muito. O que ahi digo é o que sei por
-observações e conjeturas, e principalmente pela felicidade que ha no
-rosto do cazal Aguiar. A mana não tem saido de caza; no dia de anno bom
-fui jantar com ella, mas não falámos disso.
-
- * * * * *
-
-7 de Janeiro.
-
-Tristão já não vae a 9, por uma razão que me não deu, nem lh'a pedi.
-Some disse que não vae; escreveu para Lisboa e ia levar as cartas ao
-correio.
-
- * * * * *
-
-9 de Janeiro.
-
-Segundo anniversario da minha volta definitiva ao Rio. Não ouvi hoje
-os pregões do anno passado e do outro. Desta vez lembrou-me a data sem
-nenhum som exterior; veiu de si mesma. Esperei ver a mana entrar-me em
-caza e convidar-me a ir com ella ao cemiterio. Não veiu (são quatro
-horas da tarde) ou porque se não lembrou, ou por lhe não parecer
-necessario todos os annos.
-
-Quem sabe se não iriamos dar com a viuva Noronha ao pé da sepultura do
-marido, as mãos cruzadas, rezando, como ha um anno? Se eu tivesse ainda
-agora a impressão que me levou a apostar com Rita o cazamento da moça,
-poderia crer que tal presença e tal attitude me dariam gosto. Acharia
-nellas o signal de que não ama a Tristão, e, não podendo eu despozal-a,
-preferia que amasse o defunto. Mas não, não é isso; é o que vou dizer.
-
-Se eu a visse no mesmo logar e postura, não duvidaria ainda assim do
-amor que Tristão lhe inspira. Tudo poderia existir na mesma pessoa, sem
-hipocrisia da viuva nem infidelidade da proxima espoza. Era o acordo
-ou o contraste do individuo e da especie. A recordação do finado vive
-nella, sem embargo da ação do pretendente; vive com todas as doçuras
-e melancolias antigas, com o segredo das estréas de um coração que
-aprendeu na escola do morto. Mas o genio da especie faz reviver o
-extinto em outra fórma, e aqui lh'o dá, aqui lh'o entrega e recomenda.
-Emquanto pôde fugir, fugiu-lhe, como escrevi ha dias, e agora o repito,
-para me não esquecer nunca.
-
- * * * * *
-
-12 de Janeiro.
-
-Amanhã (13) faz annos a bella Fidelia. Tal a razão que levou Tristão a
-transferir a viagem de 9 para outro dia que ainda não fixou. Assim o
-disse aos padrinhos que o aprovaram naturalmente e alegremente; esta
-mesma razão me foi confessada por elle hoje, quando o encontrei a
-buscar uma lembrança para deixar á viuva. Taes foram as suas palavras,
-mas não traziam alma de convicção. A razão da ficada é outra.
-
- * * * * *
-
-13 de Janeiro.
-
-Antes de me despir quero escrever o que ouvi agora ha pouco (meia
-noite) á picante Cesaria. Vim com ella e o marido da caza do
-desembargador onde fomos tomar chá com a gracioza viuva. Os amigos
-desta lá estiveram, menos Rita, que mandou cartão de comprimentos;
-parece que está adoentada.
-
-Não escrevo porque seja verdade o que D. Cesaria me disse, mas por ser
-maligno. Esta senhora se não tivesse fel talvez não prestasse; eu nunca
-a vejo sem elle, e é uma delicia. Ou já sabia da afeição da viuva ao
-Tristão, ou reparou nella esta noite. Fosse como fosse, disse-me que
-Tristão não voltará tão cedo a Lisboa.
-
---Sim, concordei, parece que lhe custa muito deixar os padrinhos.
-
---Os padrinhos? redarguiu Cesaria rindo. Ora, conselheiro! Certamente
-chama assim aos dous olhos da viuva, que são bem ruins padrinhos. Mas
-lá tem comsigo a agua benta para o batizado.
-
-Não entendendo, perguntei-lhe que agua benta era, e que batizado. O
-marido, com a sua rabugem do costume, respondeu que a agua benta era
-o dinheiro, e esfregou o pollegar e o indice; ella riu apoiando, e eu
-comprehendi que atribuiam ao moço uma afeição de interesse.
-
-Quiz ponderar á dama que isto que me dizia agora estava em contradição
-com o que uma vez lhe ouvi. Ouvi-lhe então (e creio que o escrevi
-neste _Memorial_) que Tristão preferia a politica á viuva, e por
-isso a deixava. Não lh'o lembrei por duas razões, a primeira é que
-seria inutil, e até prejudicial ás nossas relações, a segunda é que
-ofenderia a propria natureza. D. Cesaria pensa realmente o mal que diz.
-A contradição é aparente; está toda no odio que ella tem a Fidelia, e
-este sentimento é a causa intima e unica das duas opiniões opostas.
-Preterida pela politica ou preferida pelo dinheiro, tudo é diminuir a
-outra dama. A essas duas razões para ouvil-a calado acresceu a fórma.
-Tudo lhe sae com palavras relativamente doces e honestas, ficando o
-veneno ou a intenção no fundo. Ha ocasiões em que a graça de D. Cesaria
-é tanta que a gente tem pena de que não seja verdade o que ella diz, e
-facilmente lh'o perdoa.
-
-Tudo isto considerado, e mais a hora, a viagem curta, e a presença do
-marido, que diabo ganhava eu em desfazer o que ella dizia? Commigo,
-sim, logo que elles me deixaram, vim pensando no Tristão, que é tambem
-rico, que ama devéras a viuva, é amado por ella, e acabará cazando. Vim
-recordando a noite e os seus epizodios, que não escrevo por ser tarde,
-mas foram interessantes. O desembargador parece que já descobriu a
-inclinação da sobrinha, e não a desaprova. O cazal Aguiar estava feliz;
-ainda lá ficou para vir com o afilhado.
-
- * * * * *
-
-23 de Janeiro.
-
-Agora me lembra que amanhã faz um anno das bodas de prata do cazal
-Aguiar. Lá estive naquella festa intima, que me deu prazer grande.
-Tambem lá esteve Fidelia, e fez o seu brinde de filha á boa Carmo,
-tudo correu na melhor harmonia. Ainda cá não chegára Tristão, nem era
-esperado. Oxalá me não esqueça de lhes mandar cedo o meu bilhete de
-felicitações, e póde ser que lá vá de noite. Vou, vou.
-
-.... Rita escreveu-me agora (seis da tarde) pedindo que a espere
-amanhã, á noite, para irmos juntos ao Flamengo. Vou; ha seis dias que
-lá não pizo.
-
- * * * * *
-
-25 de Janeiro.
-
-Não havia muita gente no Flamengo. Os quatro,-cazal Aguiar, Tristão
-e Fidelia (não conto o desembargador, que estava jogando) os quatro
-pareciam viver de uma novidade recente e dezejada. Quem sabe se a
-mão da viuva não foi já pedida e concedida por ella? Comuniquei esta
-suposição a Rita, que me disse suspeital-o tambem.
-
- * * * * *
-
-29 de Janeiro.
-
-Tínhamos razão na noite de 24. Os namorados estão declarados. A mão
-da viuva foi pedida naquelle mesmo dia, justamente por ser o 26°
-anniversario do cazamento dos padrinhos de Tristão; foi pedida em
-Botafogo, na casa do tio, e em presença deste, concedida pela dona,
-com assentimento do desembargador, que aliás nada tinha que opor a
-dous corações que se amam. Mas tudo neste negocio devia sair assim, de
-acordo uns com outros, e todos comsigo.
-
-D. Carmo e Aguiar, que haviam abraçado a Tristão com grande ternura
-antes e depois do pedido, estavam naquella noite em plena aurora
-de bem-aventurança. Valha-me Deus, pareciam ainda mais felizes que
-os dous. A viuva punha certa moderação na ventura, necessaria á
-contiguidade dos dous estados, mas esquecia-se algumas vezes, e
-totalmente no fim. Nada se sabia então da novidade, e agora mesmo
-creio que só eu a sei (assim m'o disse hoje o noivo); alguns poderiam
-supol-a, como a mana Rita, que já sabia metade della; os menos sagazes
-terão dito comsigo, ao vel-os, que é bom que Fidelia vá aliviando o
-luto do coração.
-
-Referindo-me o que se passou ha cinco dias, Tristão explicou esta
-comunicação nova: sentia-se obrigado a contar-me o final de um idilio,
-cujo principio me confiára em fórma elegiaca. Usou dessas mesmas
-expressões, e quasi me citou Theocrito. Eu apertei-lhe a mão com
-sincero gosto, e prometi calar.
-
-Em verdade, estimo vel-os unidos. Já escrevi que era um modo de acudir
-á tristeza do cazal Aguiar. Agora acrescento (se já o não disse tambem)
-que elles se merecem, são moços, bellos, amam-se, têm o direito natural
-e legitimo de se possuirem.
-
---Não publicamos oficialmente o nosso cazamento proximo, concluiu
-Tristão, porque eu escrevi a meus paes, e só nos cazaremos depois que
-me chegar a resposta. A resposta é sabida, e se pudesse ser contraria,
-nem por isso deixariamos de cazar-nos; todavia, não quero publicar já o
-acordo, é uma fórma de respeito aos velhos.
-
-Em seguida começou a desfiar as excelentes qualidades da moça. Já
-lhe ouvira algumas e conhecia-as todas, mas quando se trata com esta
-especie de gente é preciso ter a maior indulgencia do mundo. Tristão
-falava com tal sinceridade e gosto que seria duro não lhe dar ouvidos
-complacentes e palavras de aprovação; dei-lh'os; elle acabou pedindo-me
-o primeiro abraço de pessoa extranha; dei-lh'o apertado.
-
- * * * * *
-
-2 de Fevereiro.
-
-O abraço que lá contei atraz fez-me bem; foi sincero. Podia ser afetado
-ou apenas de cortezia, mas não foi; gostei de ver feliz aquelle rapaz,
-e com elle a dama, e com elles os dous velhos de cá e os de lá.
-
-Talvez seja engano meu, mas acho a viuva agora mais bonita. A causa
-disto pode ser a mudança proxima do estado. A melancolia de antes era
-verdadeira, mas extranha ou hospede, não sei como diga para significar
-uma especie de visita de pezames, poucos minutos e poucas palavras. Já
-lá escrevi, ha tres semanas, a 9 do mez passado, alguma cousa que de
-certo modo explica e ata os dous estados.
-
- * * * * *
-
-6 de Fevereiro.
-
-Não ha como um grande segredo para ser divulgado depressa. Além de
-mim, que sei, e de Rita, que desconfia, ha já quem afirme que os dous
-se cazam; ou porque o sabem ou porque desconfiam somente, mas afirmam.
-Osorio, que ouviu falar disso, recebeu a noticia como um grande golpe
-novo e inesperado. Nem faltarão outros que gostem della ou morram por
-ella, e façam figas ao Tristão.
-
-Verdade é que Osorio estava já desenganado, mas foi isto mesmo que lhe
-reabriu a ferida. O desengano da parte della era a fidelidade ao morto;
-desde que ella vae para outro, podia ir para elle, e é isto que o
-irrita, como sucede ao parceiro do gamão que dá com o copo no taboleiro
-se lhe sae o peor mumero de dados.
-
- * * * * *
-
-10 de Fevereiro.
-
-A felicidade é palreira. D. Carmo ainda me não disse que os dous estão
-para cazar, mas já hoje me confiou que escreveu á comadre, mãe de
-Tristão, a quem não escreve ha muito. Justamente pelo mesmo paquete que
-levou a carta do afilhado. Naturalmente reforçou o pedido e analisou as
-graças phisicas e moraes de Fidelia, e se lhe não pediu que os deixe
-cá, e venha ella tambem, acabará por ahi. Nessa occasião me dirá o
-resto, ou antes.
-
- * * * * *
-
-12 de Fevereiro.
-
-Estava com dezejo de ir passar um mez em Petropolis, mas o gosto de
-acompanhar aquelles dous namorados me faz hesitar um pouco, e acabará
-por me prender aqui. Rita tem o mesmo gosto, e já agora os frequenta
-mais. Hontem disse-me que o cazamento é certo.
-
---Mas quem disse a você que elles se cazam?
-
---Ninguem me disse, eu é que adivinhei. D. Carmo, a quem falei nisto,
-ficou um pouco embaraçada; não queria confessar e tinha vergonha de
-negar, é o que é; mas eu desconversei e falei de outra cousa. Só se
-elles não lhe disseram ainda nada...
-
-Não sei que escrupulo me deteve a lingua; não lhe contei o que sabia
-da parte do proprio Tristão, mas não me custou nada; apenas retruquei
-disfarçando:
-
---Bem, a viuva não caza commigo, caza com outro, segundo lhe parece:
-mas então você confessa que perdeu a aposta.
-
---Não digo que não. Tudo está nas mãos de Deus.
-
---Lembra-se daquelle dia no cemiterio?
-
---Lembra-me; ha um anno.
-
-Repito, não me custou ser discreto; é virtude em que não tenho
-merecimento. Algum dia, quando sentir que vou morrer, heide ler esta
-pagina a mana Rita; e se eu morrer de repente, ella que me leia e me
-desculpe; não foi por duvidar della que lhe não contei o que já escrevi
-atraz.
-
-Leia, e leia tambem esta outra confissão que faço das suas qualidades
-de senhora e de parenta. Talvez eu, se vivessemos juntos, lhe
-descobrisse algum pequenino defeito, ou ella em mim, mas assim
-separados é um gosto particular ver-nos. Quando eu lia classicos
-lembra-me que achei em João de Barros, certa resposta de um rei
-africano aos navegadores portuguezes que o convidaram a dar-lhes ali
-um pedaço de terra para um pouso de amigos. Respondeu-lhes o rei que
-era melhor ficarem amigos de longe; amigos ao pé seriam como aquelle
-penedo contiguo ao mar, que batia nelle com violencia. A imagem era
-viva, e se não foi a propria ouvida ao rei de Africa, era comtudo
-verdadeira.
-
- * * * * *
-
-12 de Fevereiro, _onze horas da noite._
-
-Antes de me deitar, reli o que escrevi hoje ao meio dia, e achei o
-final demaziado sceptico. A mana que me perdoe.
-
-Chego do Flamengo, onde achei Aguiar meio adoentado, na sala, numa
-cadeira de extensão, as portas fechadas, grande silencio, os dous sós.
-Tristão saira para Botafogo, não que não quizesse ficar, mas padrinho e
-madrinha disseram-lhe que fosse, que Fidelia podia ficar assustada se
-elle não aparecesse, que lhe désse lembranças. Tristão cedeu e foi. Eu
-cederia tambem, sem teimar muito, como provavelmente este não teimou
-nada.
-
-Não me disseram as cousas naquelles termos instantes, mas os que
-empregaram vinham a dar nelles. Continuam a calar o negocio do
-cazamento.
-
-A doença do Aguiar parece que é um resfriado, e desaparecerá com um
-suadouro; nem por isso elle me despediu mais cedo. D. Carmo teimava
-em fazel-o recolher, e eu em sair, mas o homem temia que eu viesse
-meter-me em casa sósinho e aborrecido; foi o que elle mesmo me disse, e
-reteve-me em quanto pôde. Não saí muito tarde, mas tive tempo de ver a
-dona da casa ir de um para outro cabo do espirito, entre os cuidados de
-um e as alegrias de outro. Interrogativa e inquieta, apalpava a testa
-e o pulso ao marido; logo depois aceitava a ponta da conversação que
-elle lhe dava, acerca da Fidelia ou do Tristão, e a noite passou assim
-alternada, entre o bater do mar e do relogio.
-
- * * * * *
-
-13 de Fevereiro.
-
-Mandei saber do Aguiar; amanheceu bom; não sae para se não arriscar,
-mas está bom. Escreveu-me que vá jantar com elles. Respondi-lhe que a
-doença foi um pretexto para passar o dia de hoje ao pé da espoza, e por
-isso mesmo não me é possivel ir contemplar de perto esse quadro de
-Theocrito.
-
-Realmente, não posso, tenho de ir jantar com o encarregado de negocios
-da Belgica. Confesso que preferia os Aguiares, não que o diplomata seja
-aborrecido, ao contrario; mas os dous velhos vão com a minha velhice, e
-acho nelles um pouco da perdida mocidade. O belga é moço, mas é belga.
-Quero dizer que, cançado de ouvir e de falar a lingua franceza, achei
-vida nova e original na minha lingua, e já agora quero morrer com ella
-na boca e nas orelhas. Todos os meus dias vão contados, não ha recobrar
-sombra do que se perder.
-
-«Quadro de Theocrito, escreveu-me Aguiar em resposta á minha recuza,
-quer dizer alguma cousa mais particular do que parece. Venha
-explicar-m'o amanhã, entre a sopa e o café, e contar-me-ha então os
-planos secretos da Belgica. Tristão diz-me que jantará tambem, se V.
-Ex. vier. Veja a que ponto chegou este ingrato, que só janta comnosco,
-se houver visitas; se não, some-se. Virá, conselheiro?»
-
-Respondi que sim, e vou. A frase final do bilhete traz uma afetação de
-magua, algo parecido com prazer que se encobre; por outras palavras,
-sabe-lhes aquella ausencia do rapaz, uma vez que tudo é amarem-se
-duas creaturas que os amam, e a quem elles amam tambem. Heide ver que,
-acabado o jantar, os primeiros que o remetem para Botafogo são elles
-mesmos.
-
- * * * * *
-
-15 de Fevereiro.
-
-Não, não remeteram Tristão para Botafogo. Creio que o desejassem e
-o fizessem, mas não tiveram tempo. Tão depressa acabamos de jantar,
-apareceram Fidelia e o tio. Conclui que os dous namorados houvessem
-concertado isto mesmo.
-
-Noite boa para todos. Eu proprio achei prazer em observar os dous. Não
-é que elles não buscassem disfarçar, ella principalmente, mas não ha
-disfarce que baste em taes lances. A agitação interior transtornava
-os calculos, e os olhos contavam os segredos. Quando falavam pouco
-ou nada, o silencio dizia mais que palavras, e elles davam por si
-pendentes um do outro, e ambos do ceu. Foi o que me pareceu. Não me
-pareceu menos que o ceu os animava e que elles nos mandavam a todos os
-diabos, a mim e aos tres velhos, e aos paes de Tristão, aos paquetes,
-ás malas, ás cartas que esperavam, a tudo que não fosse um padre e
-latim,-latim breve e padre brevissimo, que os aliviasse do celibato e
-da viuvez. E desta maneira diziam tudo o que sabiam de si.
-
-Sabiam tudo. Parece incrivel como duas pessoas que se não viram
-nunca, ou só alguma vez de passagem e sem maior interesse, parece
-incrivel como agora se conhecem textualmente e de cór. Conheciam-se
-integralmente. Se alguma celula ou desvão lhes faltava descobrir, elles
-iam logo e pronto, e penetravam um no outro, com uma luz viva que
-ninguem acendeu. Isto que digo pode ser obscuro, mas não é fantazia;
-foi o que vi com estes olhos. E tive-lhes inveja. Não emendo esta
-frase, tive inveja aos dous, porque naquella transfuzão desapareciam os
-sexos diferentes para só ficar um estado unico.
-
- * * * * *
-
-16 de Fevereiro.
-
-Esqueceu-me notar hontem uma cousa que se passou ante-hontem, no começo
-do jantar do Flamengo. Aqui vae ella; talvez me seja precisa amanhã ou
-depois.
-
-As primeiras colheres de sopa foram tanto ou quanto caladas e atadas.
-Tinham chegado cartas da Europa (duas) e Tristão as leu á janella,
-rapidamente, parecendo não haver gostado do assunto. Comeu sem atenção
-nem prazer, a principio. Naturalmente os padrinhos desconfiaram alguma
-cousa, mas não se atreveram a perguntar-lhe nada. Olharam para elle,
-á socapa; eu, para lhes não perturbar o espirito, não trazia assunto
-extranho, e comia commigo. Depressa acabou o constrangimento, e o resto
-do jantar foi alegre. Já lá deixei notado o que foi o resto da noite.
-
-Se eu quizesse saber o que diziam as cartas bastaria ser indiscreto
-ou descortez; era perguntar-lh'o em particular. Tristão me confiaria,
-creio, visto que entro cada vez mais no coração daquelle moço. Ouve-me,
-fala-me, busca-me, quer os meus conselhos e opiniões. Mas a impressão
-má foi tão breve que provavelmente não foi grande, e elle acabaria
-referindo tudo aos padrinhos quando ficaram sós, e mais certamente á
-noiva, hontem. Devem estar já no periodo dos segredos comuns.
-
- * * * * *
-
-18 de Fevereiro.
-
-Telegrama dos paes de Tristão, dizendo-lhe que sim, que aprovam,
-que os abençoam. O estilo telegrafico é mais concizo, mas foi assim
-que Tristão m'o traduziu de cór; contentamento traz derramamento.
-Apertei-lhe a mão com prazer; elle quiz um abraço. Foi aqui em casa,
-quando eu ia a sair, duas horas da tarde. Saimos juntos, e tive de
-ouvir tres panegiricos, um dos paes, outro dos padrinhos, e o terceiro
-(aliás vigesimo) da propria dama dos seus pensamentos.
-
---D. Fidelia ficou contentissima; diz que nunca duvidou da resposta,
-mas a declaração telegrafica mostra que os velhos não se puderam
-guardar para o correio, e responderam logo. Agora esperamos cartas, mas
-a publicação do cazamento faz-se já.
-
-Ao sair do bonde ouvi um quarto panegirico, o dos seus chefes politicos
-que estão anciosos por vel-o na camara dos deputados e escreveram-lhe.
-Um delles chegou a confessar-lhe que abandonaria a politica, se elle a
-deixasse tambem.
-
---É exagero, concluiu Tristão sorrindo, mas isto prova que me
-querem. Tambem pode ter sido um meio de me chamar depressa; o outro
-limitou-se a dizer que a minha eleição é certa, e a candidatura vae ser
-aprezentada.
-
---Sim? Felicito-o.
-
---Não já, nem publicamente. Não disse nada disto aos padrinhos; a D.
-Fidelia, sim, contei-lh'o em particular, e agora a V. Ex. pedindo-lhe a
-maior reserva.
-
-Provavelmente eram as duas cartas do outro dia. Mas, de facto, partirá
-elle, ou ainda está incerto se cederá ou não á espoza, caso ella pense
-em ficar? A rezerva que me pediu explicará uma e outra solução...
-
- * * * * *
-
-22 de Fevereiro.
-
-Está publicado o cazamento de Tristão e de Fidelia, não nos jornaes, e
-antes fosse nelles tambem; está só publicado entre as relações das duas
-familias...
-
-Eu gosto de ver impressas as noticias particulares, é bom uso, faz da
-vida de cada um ocupação de todos. Já as tenho visto assim, e não só
-impressas, mas até gravadas. Tempo hade vir em que a fotografia entrará
-no quarto dos moribundos para lhes fixar os ultimos instantes; e se
-ocorrer maior intimidade entrará tambem.
-
- * * * * *
-
-25 de Fevereiro.
-
-Quando mana Rita veiu trazer-me a noticia oficial do cazamento
-mostrei-lhe a minha carta de participação, e fiz um gesto de triunfo,
-perguntando-lhe quem tinha razão no cemiterio, ha um anno. Ainda uma
-vez concordou que era eu, mas emendou em parte, dizendo que a nossa
-aposta é que ella cazaria commigo, e citou a aposta entre Deus e o
-Diabo a proposito de Fausto, que eu lhe li aqui em caza no texto de
-Goethe.
-
---Não, trapalhona, você é que me incitou a tental-o, e desculpou a
-minha idade, com palavras bonitas, lembra-se?
-
-Lembrava-se, sorrimos, e entrámos a falar dos noivos. Eu disse bem
-de ambos, ella não disse mal de nenhum, mas falou sem calor. Talvez
-não gostasse de ver cazar a viuva, como se fosse cousa condenavel ou
-nova. Não tendo cazado outra vez, pareceu-lhe que ninguem deve passar
-a segundas nupcias. Ou então (releve-me a doce mana, se algum dia ler
-este papel), ou então padeceu agora taes ou quaes remorsos de não
-havel-o feito tambem... Mas, não, seria suspeitar de mais de pessoa tão
-excelente.
-
-Ahi fica, mal resumida, a nossa conversação. Não falámos da data do
-cazamento, nem da partida do cazal, se partisse. Rita era pouca para
-referir anedotas, repetir ditos e boatos, nenhum malevolo nem feio,
-todos interessantes, ouvidos á gente Aguiar.
-
- * * * * *
-
-Seis horas da tarde.
-
-Vim agora da rua, onde me confirmaram que o corretor Miranda teve hoje
-de manhã uma congestão cerebral. Rita só me falou disso ao sair daqui,
-e esqueceu-me escrevel-o. Estavamos no patamar da escada quando ella me
-contou que ouvira a noticia, no bonde, a dous desconhecidos.
-
---Só agora é que você me dá esta novidade? disse-lhe eu. Tem razão; a
-vida tem os seus direitos imprescritiveis; primeiro os vivos e os seus
-consorcios; os mortos e os seus enterros que esperem.
-
-Tambem eu fiz o mesmo; só agora falo do homem.
-
- * * * * *
-
-26 de Fevereiro.
-
-Miranda morreu hontem ás dez horas; enterra-se hoje ás quatro. Creio
-que deixa a familia bem. Davamo-nos sem ser grandes amigos. Eu, se
-fosse a somar os amigos que tenho perdido por esse mundo, chegaria a
-algumas duzias delles. Os jornaes dizem que não ha convites para o
-enterro; irei ao enterro sem convite.
-
- * * * * *
-
-Dez horas da noite.
-
-Lá fui a enterrar o Miranda. Não valeria a pena contal-o, se não fosse
-o que me sucedeu no fim. Muita gente, as tristezas do costume. A
-propria Cesaria parecia abatida; não digo se chorava ou não. Aguiar e
-Campos tambem compareceram, e outros conhecidos.
-
-No cemiterio, deitada a ultima pá de terra na cova, lembrou-me ir ao
-jazigo dos meus. Desviei-me e fui; achei-o lavado como de costume,
-e depois de alguns minutos, vendo que a gente não acabava de sair,
-caminhei para o tumulo do Noronha, marido de Fidelia. Sabia onde
-ficava, mas ainda lá não fora.
-
-Agora que a viuva está prestes a enterral-o de novo, pareceu-me
-interessante miral-o tambem, se é que não levara tal ou qual sabor em
-atribuir ao defunto o verso de Shelley que já puzera na minha boca, a
-respeito da mesma bella dama: _I can, etc._ Tumulo grave e bonito, bem
-conservado, com dous vasos de flores naturaes, não ali plantadas, mas
-colhidas e trazidas naquella mesma manhã. Esta circumstancia fez-me
-crer que as flores seriam da propria Fidelia, e um coveiro que vinha
-chegando respondeu á minha pergunta: «São de uma senhora que ahi as
-traz de vez em quando...»
-
-A pergunta foi feita tão naturalmente que o coveiro não teve duvida em
-responder, nem eu em contal-o aqui. Tambem não quero calar o que vim
-pensando commigo. Já não havia ninguem dos que acompanharam o enterro
-do Miranda. Chegava outro, e entre um e outro meti-me no carro e vim
-para casa. Em caminho pensei que a viuva Noronha, se efetivamente ainda
-leva flores ao tumulo do marido, é que lhe ficou este costume, se lhe
-não ficou essa afeição. Escolha quem quizer; eu estudei a questão por
-ambos os lados, e quando ía a achar terceira solução chegara á porta
-da casa. Desci, dei ao cocheiro a molhadura de uso, e enfiei pelo
-corredor. Vinha cançado, despi-me, escrevi esta nota e vou jantar.
-Ao fim da noite se puder, direi a terceira solução: se não, amanhã.
-A terceira solução é a que lá fica atraz, não me lembra o dia... ah!
-foi no segundo anniversario do meu regresso ao Rio de Janeiro, quando
-eu imaginei poder encontral-a deante da pessoa extinta, como se fosse
-a pessoa futura, fazendo de ambas uma só creatura presente. Não me
-explico melhor, porque me entendo assim mesmo, ainda que pouco. D.
-Cesaria, se vier a sabel-o é capaz de ir dizel-o ao proprio Tristão,
-com uma gota amarga ou corrupta, ou ambas as cousas para variar... Já
-já, não; está ainda com a morte do cunhado na garganta, mas tudo passa,
-até os cunhados.
-
- * * * * *
-
-Sem data.
-
-Já lá vão dias que não escrevo nada. A principio foi um pouco de
-reumatismo no dedo, depois visitas, falta de materia, emfim preguiça.
-Sacudo a preguiça.
-
-A noite passada estive em casa da viuva Noronha, quasi que a sós com
-ella; havia a mais o tio, um colega da Relação e uma parenta velha.
-Tristão fôra a Petropolis, levado pelos padrinhos até á barca da
-Prainha, e por mim que os vi passar na rua da Quitanda, e subi ao carro
-convidado por elles. Não lhes ouvi então o motivo da ida a Petropolis,
-mas já o sabia de vespera; foi examinar uma caza para o noivado.
-Conclui, não sei porque, que elles ficavam morando aqui.
-
-Posso dizer que verdadeiramente fiquei a sós com ella. Tendo ouvido
-ao tio que a sobrinha andava com saudades do velho amigo,-que sou
-eu-imaginei que era mentira; o tio queria parceiro para cartas. Não
-fui e acertei; a parenta foi ao voltarete com os dous magistrados.
-
-Eu, relativamente a Fidelia, já cheguei á liberdade de lhe perguntar
-se não tinha saudades do noivo. A resposta foi afirmativa, mas calada,
-um sorriso breve e um gesto de sobrancelhas. Tristão foi o assunto
-mais frequente da conversação, dizendo eu todo o bem que penso delle
-e francamente é muito, ao que ella retrucava sem vaidade, antes com
-modestia e discrição; em si mesma devia estar feliz. Disse-me que
-elle recebera cartas da familia, confirmando por extenso o que já lhe
-mandára em resumo. A da mãe era toda ternura, citou-me algumas frases
-da futura sogra, e foi buscar a carta della para que eu a lesse tambem.
-
---Cartas politicas não vieram?
-
---Parece que vieram.
-
-Li e louvei muito a carta da paulista, que achei efetivamente terna,
-ainda que derramada, mas ternura de mão não conhece sobriedade de
-estilo. Era escrita á propria Fidelia.
-
-Vendo que esta gostava da conversa, não lhe pedi musica; ella é que foi
-de si mesma tocar piano, um trecho não sei de que autor, que se Tristão
-não ouviu em Petropolis não foi por falta de expressão da pianista. A
-eternidade é mais longe, e ella já lá mandou outros pedaços da alma;
-vantagem grande da musica, que fala a mortos e a ausentes.
-
- * * * * *
-
-Sabado.
-
-Fidelia parece retrair-se agora depois das primeiras confidencias
-que me fez, e é natural. Como eu lhe pedisse noticias de Tristão,
-respondeu-me que não as tinha, e falou de outra cousa; mas falando-lhe
-eu da alegria recente de D. Carmo, referiu-me as tristezas que lhe
-ouviu uma vez a proposito da volta do afilhado, e do conselho que então
-lhe deu de ir com elle; ao que a boa senhora retrucou que seria preciso
-separar-se do marido e não podia.
-
---Veja o perigo de dividir a alma com duas pessoas; eu, em moço, nunca
-o fiz, menos o faria agora depois de velho.
-
-Sobre isto (que não tinha sentido claro nem intenção) dissemos cousas
-que não importa escrever aqui. Ella falou com graça, e provavelmente
-com verdade, mas não tratámos do assunto principal do coração da moça.
-Eu deleitava-me em aprecial-a por dentro e por fora, não a achando
-menos curiosa interna que externamente. Sem perder a discrição que lhe
-vae tão bem, Fidelia abre a alma sem biocos, cheia de confiança que lhe
-agradeço daqui.
-
- * * * * *
-
-9 de Março.
-
-Tristão voltou de Petropolis. Deixou casa alugada em Westphalia, casa
-posta pelo comendador Josino, que a vae deixar por algum tempo e segue
-com a familia para o sul; passou-lhe o contracto por tres mezes. D.
-Carmo e Fidelia sobem a vel-a esta semana. Andam agora muito mais
-juntas, em casa ou na rua, naturalmente a confidencia é maior. Tambem
-eu ando com ellas se as encontro, tambem ouço as palavras de ambas.
-
---Mana, disse eu a Rita contando-lhe estas cousas em Andarahy, eis aqui
-em que acaba um velho e grave diplomata apozentado, sem os cançassos do
-oficio, é certo, mas tambem sem as esperanças da promoção.
-
-Rita entendeu e quasi me puxou o nariz; preferiu dizer com saudade e
-consolação que não tivesse ideias de cemiterio. Esta alusão á visita
-que fizemos ao jazigo da familia, ha mais de um anno, levou-me quasi a
-confessar o sentimento paterno que Fidelia acaso acorda em mim, mas
-recuei a tempo. Era provavel que Rita me dissesse, como fez um dia, que
-eram desculpas de mau pagador. A mana gosta de mofar, sem criar odio a
-ninguem, e menos a mim que a outro. Ao cabo, ha cousas que apenas se
-devem escrever e calar, é o que eu faço a esta especie de afeição nova
-que acho na viuva.
-
- * * * * *
-
-13 de Março.
-
-Não ha como a paixão do amor para fazer original o que é comum, e novo
-o que morre de velho. Taes são os dous noivos, a quem não me canço de
-ouvir por serem interessantes. Aquelle drama de amor, que parece haver
-nascido da perfidia da serpente e da desobediencia do homem, ainda não
-deixou de dar enchentes a este mundo. Urna vez ou outra algum poeta
-empresta-lhe a sua lingua, entre as lagrimas dos expectadores; só isso.
-O drama é de todos os dias e de todas as formas, e novo como o sol, que
-tambem é velho.
-
- * * * * *
-
-20 de Março.
-
-D. Carmo tomou a si adornar a casa dos noivos. Soube isto pelo
-desembargador, que chegou de Petropolis e deixou a casa «uma belleza»
-com a ordem em que ella dispõe os moveis e os adornos, alguns destes
-obra já de suas mãos.
-
---Já? perguntei.
-
---Já; D. Carmo trabalha depressa, e neste momento com grande afeição;
-deu-lhes tambem muitos trabalhos seus. Converse com o Aguiar, que lhe
-dirá a mesma cousa, e Tristão tambem; Fidelia é do mesmo parecer.
-
-Rita, sem nada ver, acredita que seja assim; foi o que me respondeu.
-Quanto a D. Cesaria tambem não viu nada, mas inclina-se a crer que lhe
-falte alguma harmonia.
-
---Pode ser que não, aventurei.
-
---Não digo que D. Carmo não pudesse fazer alguma cousa capaz, mas com
-esta pressa, ás carreiras, não é provavel. Demais ella não possue tanto
-gosto como se quer; algum tem, mas falta-lhe graça. Aos noivos tambem;
-elle parece-me espalhafatoso...
-
-Quiz defender os tres, mas a certeza de que ella não tem de mim
-melhor opinião, fez-me recuar, e dizer-lhe que nunca lhe achei tanto
-espirito. Fui além; gabei-lhe os olhos. Como então passasse os dedos
-pelas sobrancelhas, gabei-lhe a mão, e iria aos pés, se me mostrasse os
-pés, mas não me mostrou mais nada.
-
- * * * * *
-
-21 de Março.
-
-Explico o texto de hontem. Não foi o medo que me levou a admirar o
-espirito de D. Cesaria, os olhos, as mãos, e implicitamente o resto da
-pessoa. Já confessei alguns dos seus merecimentos. A verdade, porém,
-é que o gosto de dizer mal não se perde com elogios recebidos, e
-aquella dama, por mais que eu lhe ache os dentes bonitos, não deixará
-de m'os meter pelas costas, se for oportuno. Não; não a elogiei para
-desarmal-a, mas para divertir-me, e o resto da noite não passei mal.
-Estava em caza della, onde a irmã escurecia tudo com a sua viuvez
-recente. D. Cesaria disse muitas cousas de fel e de mel, trocando-as e
-completando-as com tal arte que alguma vez uma cousa parecia outra, e
-ambas pareciam as duas unidas.
-
- * * * * *
-
-22 de Março.
-
-A reflexão que vou fazer é curta; se tal não fora, melhor seria
-guardal-a para amanhã, ou logo mais tarde, quando me recolher; mas é
-curta.
-
-Curta e lucida. Tristão pode acabar deitando ao mar a candidatura
-politica. Pelo que ouvi e escrevi o anno passado da primeira parte
-da vida delle, não se fixou logo, logo, em uma só cousa, mudou de
-afeições, mudou de preferencias, a propria carreira ia ser outra, e
-acabou medico e politico; agora mesmo, vindo a negocios e recreios,
-acaba cazando. Nesta parte não ha que admirar; o destino trouxe-lhe um
-feliz encontro, e o homem aceitará algemas, se as houver bonitas, e
-aqui são lindas.
-
-Já me fala menos de partidos e eleições, e não me conta o que os chefes
-lhe escrevem. Commigo, ao menos, só me fala da viuva, e não creio que
-com outros seja mais franco, nem mais extenso, dizendo as suas ambições
-politicas, proximas e remotas. Não; todo elle é Fidelia, e pode bem
-mandar a cadeira das Cortes ao Diabo, se a noiva lh'o pedir. Dir-se-ha
-que é um versatil, cativo do mais recente encanto? Pode ser; tanto
-melhor para os Aguiares. Se assim acontecer, lerei esta pagina aos
-dous velhos, com esta mesma linha ultima.
-
- * * * * *
-
-25 de Março.
-
-Era minha ideia hoje, anniversario da Constituição, ir comprimentar o
-imperador, mas a visita de Tristão fez-me abrir mão do plano. Deixei-me
-estar a conversar com elle de mil cousas varias, depois saímos,
-passeámos e tornámos a casa.
-
-Não aceitou jantar commigo por ter de ir jantar com ella. Naturalmente
-falámos della algumas vezes, elle com entusiasmo, eu com simpatia.
-Talvez eu falasse menos que elle, é verdade; mas eu sou apenas amigo de
-ambos, e, de costume, prefiro ouvir.
-
-Outro assunto que nos prendeu tambem, menos que ella, foi a politica,
-não a de cá nem a de lá, mas a de além e de outras linguas. Tristão
-assistiu á Communa, em França, e parece ter temperamento conservador
-fora da Inglaterra; em Inglaterra é liberal; na Italia continua latino.
-Tudo se pega e se ajusta naquelle espirito diverso. O que lhe notei bem
-é que em qualquer parte gosta da politica. Vê-se que nasceu em terra
-della e vive em terra della. Tambem se vê que não conhece a politica
-do odio, nem saberá perseguir; em suma, um bom rapaz, não me canço de o
-escrever, nem o calaria agora que elle vae cazar; todos os noivos são
-bons rapazes.
-
- * * * * *
-
-26 de Março.
-
-_Or bene_, marcou-se o dia do cazamento de Tristão e Fidelia; é a 15 de
-Maio. Já estava disposto entre elles, secretamente, para que os papeis
-corressem em Lisboa, a tempo. Os de cá vão correr já.
-
-Foi a propria D. Carmo que me deu a noticia hoje, antes que me venha
-por carta, como se tratasse de pessoas minhas, noivo e noiva, tão
-frequentes somos os tres e os quatro, mas logo reduziu tudo a si mesma.
-
---Realisa-se um grande sonho meu, conselheiro, disse ella. Tel-os-hei
-finalmente commigo. Espero arranjar-lhes caza aqui mesmo no Flamengo.
-Ella disse-me uma vez que seria minha filha...
-
---Foi por occasião das suas bodas de prata, não foi?
-
---Ouviu?
-
---Não ouvi; mas vi-lhe um gesto que vinha a dar na mesma. Lembre-se
-que eu estava a seu lado, e ella ao pé de seu marido; a distancia era
-curta, e eu não esqueço nada.
-
---Justamente. Senti-me feliz, mas não contei que a felicidade viesse a
-ser maior.
-
-Eu, para levar a conversa a outro ponto, insisti que não esqueço nada,
-e referi varias anedotas de lembrança viva, todas verdadeiras, mas
-da minha mocidade. Agora muita cousa me passa, muitas se confundem,
-algumas trocam-se. Mas, emfim, mudára o caminho da conversação, que é o
-que eu queria para não atalhar a felicidade da boa Aguiar com pergunta
-indiscreta ácerca de politica. Não contei que ella propria falasse
-disso, como fez. Tristão ja lhe não toca em politica, e as cartas
-escasseiam ou tratam de materia aborrecida, que elle não comunica
-a ninguem, guardando-as ou lendo-as por alto e de passagem. A mãe
-escreveu-lhe ultimamente.
-
---A comadre mandou-me dizer que eu lhe quero roubar o filho, e
-ameaçou-me de o vir buscar com uma esquadra; respondi-lhe gracejando
-tambem.
-
-D. Cesaria, que entrava então na sala, recebeu a noticia do dia do
-cazamento; ouvira falar disso, e vinha saber se era verdade. O alvoroço
-e doçura com que falou á outra compensou em grande parte o mal que me
-dissera della, e por outra maneira confirmou o que lá pensei uma vez (e
-não sei se escrevi) sobre a propriedade deste mundo. Deus vencia aqui o
-Diabo, com um sorriso tão manso e terno que faria esquecer a existencia
-do immundo consocio. O marido daquella dama não seria capaz de tamanho
-contraste, creio eu; falta-lhe disposição, e principalmente maneiras.
-É sujeito capaz de pagar com um pontapé a noticia que lhe trouxerem da
-sorte grande. Não sabe ser feliz, posto não lhe custe nada; não sei se
-me explico bem, mas basta que o sinta commigo. Isto e outras cousas que
-fui pensando vieram comendo o tempo, e ás onze horas estava em casa.
-
-Antes de me meter na cama, refleti que efetivamente Tristão já me não
-fala em politica, nem me cita as cartas que recebe, e pode ser que
-ellas escasseiem devéras. Soubesse eu fazer versos e acabaria com um
-cântico ao deus do amor; não sabendo, vá mesmo em proza: «Amor, partido
-grande entre os partidos, tu és o mais forte partido da terra...» Lerei
-esta outra pagina aos dous moços, depois de cazados.
-
- * * * * *
-
-4 de Abril.
-
-Não esperava por esta. Tristão veiu pedir-me que lhe sirva de padrinho
-ao cazamento. Não podia negar-lh'o, e aceitei o convite, ainda que sem
-grande gosto. Ahi tinha elle o Aguiar, ou o Campos, mas emfim, quero
-ajudar a felicidade de todos. Deu-me outros pormenores: cazamento á
-capucha, entre onze horas e meio dia, almoço no Flamengo, em familia,
-e os dous serão levados á Prainha modestamente, embarcarão alli para
-Petropolis. Minucias escusadas, mas tudo se deve escutar com interesse
-a um coração que ama.
-
- * * * * *
-
-8 de Abril.
-
---Sabe o que D. Fidelia me escreveu agora? perguntou-me Aguiar. Que o
-Banco tome a si vender Santa-Pia.
-
---Creio que já ouvi falar nisso...
-
---Sim, ha tempos, mas era ideia que podia passar; vejo agora que não
-passou.
-
---Os libertos têm continuado no trabalho?
-
---Têm, mas dizem que é por ella.
-
-Não me lembra se fiz alguma reflexão ácerca da liberdade e da
-escravidão, mas é possivel, não me interessando em nada que
-Santa-Pia seja ou não vendida. O que me interessa particularmente é
-a fazendeira,-esta fazendeira da cidade, que vae cazar na cidade. Já
-se fala no cazamento com alguma insistencia, bastante admiração, e
-provavelmente inveja. Não falta quem pergunte pelo Noronha. Onde está o
-Noronha? Mas que fim levou o Noronha?
-
-Não são muitos que perguntam, mas as mulheres são mais numerosas,-ou
-porque as afligiam as lagrimas de Fidelia,-ou porque achem Tristão
-interessante,-ou porque não neguem belleza á viuva. Tambem pode ser
-que as tres razões concorram juntas para tanta curiosidade; mas,
-emfim, a pergunta faz-se, e a resposta é um gesto parecido com esta
-ou outra resposta equivalente:-Ah! minha amiga (ou meu amigo), se eu
-fosse a indagar onde param os mortos, andaria o infinito e acabaria a
-eternidade.
-
-É engenhoso, mas não é bom, principalmente não é certo. Os mortos param
-no cemiterio, e lá vae ter a afeição dos vivos, com as suas flores e
-recordações. Tal sucederá á propria Fidelia, quando para lá fôr; tal
-sucede ao Noronha, que lá está. A questão é que virtualmente não se
-quebre este laço, e que a lei da vida não destrua o que foi da vida
-e da morte. Creio nas afeições de Fidelia; chego a crer que as duas
-formam uma só, continuada.
-
-Quando eu era do corpo diplomatico efetivo não acreditava em tanta
-cousa junta, era inquieto e desconfiado; mas, se me apozentei foi
-justamente para crer na sinceridade dos outros. Que os efetivos
-desconfiem!
-
- * * * * *
-
-15 de Abril.
-
-Já se não vende Santa-Pia, não por falta de compradores, ao contrario;
-em cinco dias apareceram logo dous, que conhecem a fazenda, e só o
-primeiro recusou o preço. Não se vende; é o que me disseram hoje de
-manhã. Conclui que o cazal Tristão iria lá passar o resto dos seus
-dias. Podia ser, mas é ainda mais inesperado.
-
-O que ouvi depois é que Tristão, sabendo da resolução da viuva,
-formulou um plano e foi communicar-lh'o. Não o fez nos proprios termos
-claros e diretos, mas por insinuação. Uma vez que os libertos conservam
-a enxada por amor da sinhá-moça, que impedia que ella pegasse da
-fazenda e a désse aos seus cativos antigos? Elles que a trabalhem para
-si. Não foi bem assim que lhe falou; poz-lhe uma nota voluntariamente
-seca, em maneira que lhe apagasse a côr generosa da lembrança. Assim
-o interpretou a propria Fidelia, que o referiu a D. Carmo, que m'o
-contou, acrescentando:
-
---Tristão é capaz da intenção e do disfarce, mas eu tambem acho
-possivel que o principal motivo fosse arredar qualquer suspeita de
-interesse no cazamento. Seja o que for, parece que assim se fará.
-
---E andam criticos a contender sobre romantismos e naturalismos!
-
-Parece que D. Carmo não me achou graça á exclamação, e eu mesmo não
-lhe acho graça nem sentido. Aplaudi a mudança do plano, e aliás o novo
-me parece bem. Se elles não têm de ir viver na roça, e não precisam do
-valor da fazenda, melhor é dal-a aos libertos. Poderão estes fazer a
-obra comum e corresponder á boa vontade da sinhá-moça? É outra questão,
-mas não se me dá de a ver ou não resolvida; ha muita outra cousa neste
-mundo mais interessante.
-
- * * * * *
-
-19 de Abril.
-
-Tristão, a quem falei da doação de Santa-Pia, não me confiou os seus
-motivos secretos; disse-me só que Fidelia vae assinar o documento
-amanhã ou depois. Estavamos no Carceller tomando café. Ouvi-lhe tambem
-dizer que recebeu cartas de Lisboa, duas politicas; instam por elle.
-Quiz saber se acudiria ao chamado, mas o gesto com que elle via subir
-o fumo do charuto parecia mirar tão somente a noiva, o altar e a
-felicidade; não ousei passar adeante.
-
-Saindo do Carceller, ouvi-lhe que ia fazer uma encomenda; talvez algum
-presente para a noiva, mas não me disse o que era, nem o destino.
-Falou-me, sim, da madrinha e da amizade que ella lhe tem; ao que
-redargui, confirmando:
-
---Posso dizer-lhe que é grande.
-
---É grande e antiga.
-
-Contou-me então o que eu já sei, anedotas da infancia e da
-adolescencia, e nisto me entreteve andando alguns minutos largos;
-parece-me realmente bom e amigo. A idade em que foi daqui e o tempo que
-tem vivido lá fora dão a este moço uma pronuncia mesclada do Rio e de
-Lisboa que lhe não fica mal, ao contrario. Despedimo-nos á porta de um
-ourives; hade ser alguma joia.
-
- * * * * *
-
-28 de Abril.
-
-Lá se foi Santa-Pia para os libertos, que a receberão provavelmente com
-danças e com lagrimas; mas tambem pode ser que esta responsabilidade
-nova ou primeira...
-
- * * * * *
-
-6 de Maio.
-
-A gente Aguiar parece estar sobressaltada. Tristão recebeu novas cartas
-e alguns jornaes de Lisboa, e longamente os leu para si, agora alegre,
-logo carrancudo. O que leu nos jornaes foram trechos marcados a lapis
-azul e a tinta preta, e nada referiu aos dous velhos. Ao contrario,
-levou os jornaes para o quarto, onde nenhum delles lh'os foi pedir nem
-ver. Tambem não lhe perguntaram nada, elle ficou a pensar comsigo, e
-assim correu o resto da tarde. Depois de jantar foram para Botafogo.
-
-Lá se desfizeram as sombras, porque o encontro de Tristão e Fidelia era
-sempre uma aurora para ambos, a preocupação dos Aguiares passou, e a
-noite acabou, com a mesma familia de bem-aventurados.
-
-Não estive lá; soube isto por mana Rita, que conversou com D. Carmo,
-e veiu confiar-me tudo «como a um cofre», disse ella. Eu aceitei a
-confidencia e agradeci a definição, e aqui as deixo com esta linha
-ultima. Em verdade, Tristão é feito de modo que a politica o póde levar
-sem esforço, e Fidelia retel-o sem dificuldade.
-
- * * * * *
-
-8 de Maio.
-
-Tristão quer ser cazado pelo padre Bessa e pediu-lh'o. O padre mal
-pôde ouvir o pedido, consentiu e agradeceu deslumbrado. Ha uma ideia
-de simetria na bênção do cazamento dada pelo mesmo sacerdote que o
-batizou, que entrará por alguma cousa na resolução do noivo, mas
-tambem póde ser que a principal intenção fosse fazel-o feliz. Aquelle
-sacerdote obscuro e escondido na praia Formosa virá subir a escadaria
-da matriz da Gloria (o cazamento é na matriz da Gloria) para abençoar o
-cazamento de duas pessoas lustrosas e vistosas. Aguiar disse-me que o
-padre está que parecia ser elle proprio o noivo.
-
---Note bem, conselheiro, concluiu elle, dando-me aquella noticia que
-é já de alguns dias, note que quando Tristão lhe fez presente de uma
-batina nova, o padre Bessa recebeu-a vexado, porque então a velhice da
-sua lhe entrou melhor pelos olhos. Agora a alegria é grande e franca,
-não imagina. Creio que é do papel espiritual e sacramental que lhe
-offerecem; elle já não caza ninguem ha muitos annos.
-
- * * * * *
-
-15 de Maio.
-
-Emfim, cazados. Venho agora da Prainha, aonde os fui embarcar para
-Petropolis. O cazamento foi ao meio-dia em ponto na matriz da Gloria,
-poucas pessoas, muita comoção. Fidelia vestia escuro e afogado, as
-mangas prezas nos pulsos por botões de granada, e o gesto grave. D.
-Carmo, austeramente posta, é verdade, ia cheia de riso, e o marido
-tambem. Tristão estava radiante. Ao subir a escadaria, troquei um olhar
-com a mana Rita, e creio que sorrimos; não sei se nella, mas em mim era
-a lembrança daquelle dia do cemiterio, e do que lhe ouvi sobre a viuva
-Noronha. Ahi vinhamos nós com ella a outras nupcias. Tal era a vontade
-do Destino. Chamo-lhe assim, para dar um nome a que a leitura antiga me
-acostumou, e francamente gosto d'elle. Tem um ar fixo e definitivo. Ao
-cabo, rima com _divino_, e poupa-me a cogitações filosoficas.
-
-Na egreja havia curiosos do bairro, damas principalmente. Cada uma
-destas era pouca para apanhar com os olhos as figuras dos noivos, desde
-a porta até o altar-mór. Movimento, sussurro, cabeças inclinadas, tudo
-isso encheria este pedaço de papel sem proveito. Mais interessante
-seria o que alguma boca disse do primeiro cazamento e suas alegrias, e
-da viuva e suas tristezas, e os demais quartos dessa perpetua lua da
-creação.
-
-Quando acabou a ceremonia e o padre Bessa deixou o altar, a efusão
-da madrinha foi grande. Vi o abraço que deu aos dous, um depois de
-outro, e afinal juntos; Tristão beijou-lhe a mão, Fidelia tambem, ambos
-comovidos, e ella, ainda mais commovida que elles, selou tudo com dous
-beijos de mãe. Á uma hora da tarde estavamos de volta ao Flamengo, e
-pouco depois almoçavamos. Venho cançado de mais para dizer tudo o que
-alli se passou antes, durante e depois da comida, até á hora em que
-fomos levar os recem-cazados á Prainha. Passou-se o costume, salvo a
-nota particular que os quatro me deram e foi profunda. Não citei entre
-os assistentes o Campos, que não era dos menos satisfeitos, embora
-Tristão lhe leve a sobrinha, meia espoza e meia filha pela ordem que
-lhe punha em caza desde que foi viver com elle. Tambem não falei do
-filho delle, primo della. O resto, pessoas intimas e poucas.
-
-Um incidente, tão ajustado que pareceu de encomenda. Em meio do almoço
-chegou um telegrama de Lisboa para Tristão com duas palavras, dous
-nomes e a data: «Deus abençoe.» Os paes sabiam pelo correio que o
-cazamento era hoje, e quizeram mandar-lhes a bênção pelo cabo. Tristão
-leu as palavras para si e depois para todos, e o papel correu a meza.
-Naturalmente os recem-cazados apertaram as mãos, e D. Carmo adotou o
-texto da verdadeira mãe com o seu olhar de mãe postiça. Eu deixei-me ir
-atraz daquella ternura, não que a compartisse, mas fazia-me bem. Já não
-sou deste mundo, mas não é mau afastar-se a gente da praia com os olhos
-na gente que fica.
-
-Dahi a brindar pelos noivos não me custou nada; fil-o discretamente,
-e estendi o brinde á gente Aguiar, que me ficou reconhecida. Rita
-disse-me, ao voltar da Prainha, que as minhas palavras foram
-deliciosas. Confessei-lhe que seriam mais adequadas se eu as resumisse
-em emendar Bernardim Ribeiro: «Viuva e noiva me levaram da caza de meus
-paes para longes terras...» Mas, além de lembrar o primeiro marido,
-podia estenderas longas terras além de Petropolis, e viria afligir a
-festa tão bonita.
-
---Foi melhor ficar nas palavras deliciosas que eu disse, conclui
-modestamente.
-
- * * * * *
-
-26 de Maio.
-
-Nestes ultimos dias só tenho visitado o cazal Aguiar, que parece
-meter-me cada vez mais no coração. Vivem felizes, recebem e mandam
-noticias aos dous filhos de emprestimo. Estes descerão na semana
-proxima para subir no mesmo dia; o unico fim é abraçar os velhos.
-
-Em Petropolis tem chovido, mas tambem ha dias bonitos, e delles e das
-chuvas Fidelia manda impressões interessantes; talvez a principal
-causa destas seja o proprio estado conjugal. A alma da gente dá vida
-ás cousas externas, amarga ou doce, conforme ella fôr ou estiver, e
-o texto de Fidelia é dulcissimo. D. Carmo mostrou-me hontem a ultima
-carta da moça, escrita nas quatro paginas, letra miuda e cerrada, e
-linhas estreitas. A ternura não embarga a discrição nem esta diminue
-aquella. No fim da carta, Fidelia insinua a ideia de irem todos quatro
-á Europa, ou os tres, se Aguiar não puder deixar o Banco. A velha vae
-dizer que não pode ser por ora.
-
---Nem por ora, nem jamais, concluiu dobrando a carta; estou cançada e
-fraca, conselheiro, e meia doente. Não dou para folias de viagens.
-
---Viagens dão saude e força, opinei.
-
---Pode ser, mas em outra idade; na minha é já impossivel.
-
-Seguiu-se uma pausa, durante a qual Aguiar olhou de soslaio para
-a mulher, ella para si, e eu para ambos alternadamente. Entrou um
-visinho, e falámos de outras cousas.
-
- * * * * *
-
-Quinta-feira.
-
-Tristão e Fidelia desceram hoje e Aguiar os foi buscar á Prainha. Dali
-vieram almoçar ao Flamengo, onde D. Carmo esperava os recem-cazados e
-os abraçou cheia de coração. O velho ficou de ir do Banco á Prainha,
-quando a barca houvesse de sair á tarde para Petropolis.
-
-Tudo isso ouvi de noite aos dous velhos, e ouvi mais que a velha e os
-moços passaram um dia deleitosissimo. Não foi este o proprio vocabulo
-empregado por ella; já lá disse algures que D. Carmo não possue o
-estilo enfatico. Mas o total do que me disse vem a dar nelle.
-
-Conversaram os tres de varias cousas, de Petropolis, de musica e de
-pintura; os dous tocaram piano, e logo depois sairam á praia, com
-a velha. Justamente na praia, Fidelia pegou da ideia que propuzera
-em carta de fazerem uma viagem á Europa, á qual D. Carmo se recuzou
-por debil e cançada. Então Fidelia explicou o que seria a viagem; em
-primeiro logar curta, a Lisboa, para ver a mãe de Tristão, depois a
-Paris, e se houvesse tempo, a Italia; partiriam em Agosto ou Setembro,
-e em Dezembro estariam de volta.
-
---Não é o tempo, filha, replicou D. Carmo; pouco ou muito, desde que lá
-estivesse iria ao fim, mas é este corpo já cançado, e depois, não indo
-Aguiar, quem hade cuidar delle?
-
---Pois elle que vá tambem, acudiu Tristão.
-
---Este anno não pode.
-
-A conversação foi andando com elles, ao longo da praia, onde o mar,
-indo e vindo, era como se os convidasse a meterem-se nelle até
-desembarcar «no porto da inclyta Ullysséa,» como diz o poeta. D. Carmo
-ainda se lembrou de lhes perguntar porque não transferiam a viagem para
-o anno; Aguiar poderia ir tambem. Não responderam.
-
---Recusaria o acordo eu, disse Aguiar á noite, ao me contarem isto.
-Assim repliquei aos dous na Prainha, quando ali os fui meter na barca.
-tambem eu não deixaria Carmo.
-
- * * * * *
-
-11 de Junho.
-
-Hoje apareceram-me os recem-cazados pela primeira vez, encontro casual,
-na rua do Ouvidor, ás duas horas da tarde; iam a compras. Gostei de
-os ouvir, e ainda mais de a ver. A graça com que ella dava o braço
-ao marido e deslizava na rua era mais completa que a anterior ao
-cazamento; obra do cazamento e da felicidade. Iam ouvindo, iam falando,
-iam parando aos mostradores.
-
-Descem definitivamente no dia 20 deste mez, e partem nos primeiros dias
-de Agosto para Lisboa; irão logo a outras partes.
-
---Porque não vem dahi, conselheiro? perguntou-me Tristão?
-
---Depois de tanta viagem? Sou agora pouco para reconciliar-me com a
-_nossa_ terra.
-
-Sublinho este _nossa_, porque disse a palavra meio sublinhada; mas elle
-creio que não a ouviu de nenhuma especie. Olhava para a consorte, como
-avivando o programa da viagem que iam fazer, e seguiram pela rua abaixo
-com a mesma graça vagarosa.
-
- * * * * *
-
-25 de Junho.
-
-Campos e Aguiar queriam, á sua vez, que o joven cazal viesse
-aposentar-se em casa delles e alegaram a razão de ser por poucos dias,
-pois que tinham de embarcar. Tristão e Fidelia recusaram e foram para
-o Hotel dos Estranjeiros. A razão alegada por estes foi a mesma dos
-poucos dias, e eu creio que era verdadeira, mas principalmente seria a
-de não dar preferencia a um nem a outro.
-
---Passaremos estes ultimos dias nas duas cazas, alternadamente, propoz
-Tristão.
-
---Não, isso não, acudiu o desembargador; passaremos todos no Flamengo.
-
-Era natural e cortez, sendo elle só e Aguiar cazado. Assim fazem desde
-o dia 20, em que os dous desceram de Petropolis; lá os vi hontem, dia
-de S. João.
-
-Não escrevo o que lá se passou para me não demorar a dizer tudo, que
-é muito. Vi-os felizes a todos quatro. D. Carmo parecia esconder a
-tristeza da viagem que se aproxima ou temperal-a com a ideia da volta,
-a que aludia frequentemente e a proposito de tudo, como a avivar a
-obrigação. Assim correram as horas depressa. Sai com elles até o Hotel;
-dali seguiu Campos para Botafogo e vim eu para o Cattete.
-
- * * * * *
-
-29 de junho
-
-A outra visita foi por noite de S. João, noite de S. Pedro, chegarei
-também ao Flamengo, e se couber, falaremos tambem das cousas antigas.
-
- * * * * *
-
-30 de junho
-
-Lá estive ma casa Aguiar. Não falamos de cousas velhas, mas só das
-futuras. No fim da noite adverti que falávamos todos, menos o casal
-recente; esse, depois de algumas palavras mal atadas, entrou a dizer
-de si mesmo, um dizer calado, espraiado e fundido. De quando em quando
-os dous davam alguma silaba á conversação, e logo tornavam ao puro
-silencio. Tambem tocaram piano. Tambem foram falar entre si ao canto
-da janela. Sós os quatro velhos,-o desembargador com os tres,-faziamos
-planos futuros.
-
-Certo é que D. Carmo alguma vez acompanhou os dous com os seus olhos
-inquietos, como a perguntar-lhes que parte viriam elles ter no futuro
-que ella e nós imaginavamos; mas o receio de os interromper na
-felicidade tapava-lhe a boca, e a santa senhora contentava-se de os
-mirar e amar. Ao chá a conversação fez-se de todos, e Tristão referiu
-alguns casos de Lisboa, casos de politica e de recreação.
-
-Vindo para caza acudiu-me em caminho uma ideia, indiscreta, de certo,
-mas felizmente não a disse a ninguem, e mal a deixo nesta folha de
-papel. A ideia é saber se Fidelia terá voltado ao cemiterio depois de
-cazada. Possivelmente, sim; possivelmente não. Não a censurarei, se
-não: a alma de uma pessoa pode ser estreita para duas afeições grandes.
-Se sim, não lhe ficarei querendo mal, ao contrario. Os mortos podem
-muito bem combater os vivos, sem os vencer inteiramente.
-
- * * * * *
-
-Sem data.
-
-Hoje foi a ultima recepção dos Aguiares, e eu quiz despedir-me dos
-viajantes que embarcam depois de amanhã. Bastante gente, entre ella
-o Faria e D. Cesaria, e a viuva do corretor Miranda, ainda abatida.
-A nota geral da noite não era alegre, ao contrario: todos buscavam
-ir pelo tom da caza, que era tristonha. A propria Fidelia parecia
-definhar-se ao pé da amiga, e uma vez a mana Rita a foi achar que dizia
-á outra:
-
---D. Carmo, porque não vem comnosco? Ainda é tempo de comprar bilhetes,
-e se os não houver, Tristão adia viagem, e vamos no outro paquete.
-
-D. Carmo respondia que não; sentia-se cançada e abatida.
-
---Viagem não cança, e lá chegando cria alma nova.
-
-Rita juntou o seu voto ao da moça, e ambas teimaram com ella, mas
-não puderam nada. Como ultima razão, vinha a separação do marido,
-razão velha e parece que decisiva. Rita notou que as duas estavam
-sinceramente desconsoladas, mas D. Carmo buscava fortalecer-se,
-emquanto que Fidelia não acabava de vencer o desgosto.
-
---Olhe, mano, eu ainda creio que ella desfaz a viagem...
-
-Era no escuro, a vinda da praia; por isso a mana não me pôde ver o
-gesto incrédulo, mas certamente o adivinhou e trocou o que disse.
-«Não, que desfaça não digo, mas daria muito para não ter consentido
-em partir.» Repetiu-me as palavras que Fidelia lhe disse de D. Carmo,
-chamando-lhe boa e santa, «a santa Aguiar».
-
-Confesso que vim de lá aborrecido; preferia não ter ido, ou quizera ter
-saido logo. Tristão vem cá almoçar commigo amanhã.
-
- * * * * *
-
-Vespera do embarque.
-
-Tristão cumpriu a promessa, veiu almoçar commigo, eram onze horas e
-meia. Vinha triste,-triste e calado. Quer dizer que falámos muito
-pouco. Não havendo melhor assunto de conversa que esse mesmo silencio,
-lembrou-me dizer-lhe que comprehendia as saudades que elle levava
-daqui, já da terra, já das pessoas, e particularmente das duas pessoas
-que lhe queriam tanto. A ocasião era boa para dizer dos dous velhos
-as melhores cousas,-ou repetil-as, pois já m'as tinha confiado varias
-vezes; outrosim, inteirar-me dos seus planos de futuro, até onde ia
-a viagem, e em que tempo tornaria com a formosa espoza. Não me disse
-nada; afirmou de cabeça e mergulhou no mesmo grande silencio do
-principio. Creio que não me ouviu metade.
-
-No fim do almoço, como fumassemos, deu-me novamente a indicação da
-caza em Lisboa, o titulo da folha politica em que colabora, e ia
-confiar-me alguma cousa mais que calou, pareceu-me. Mergulhou outra vez
-no silencio. Eu respeitava aquella melancolia e deixava-me ir atraz do
-fumo do charuto. Tristão finalmente despediu-se.
-
---Não nos veremos mais? perguntou-me.
-
---Irei ao caes Pharoux, pode ser que a bordo tambem.
-
---Até amanhã; vá fazendo as encomendas.
-
-Levei-o até á escada, que elle começou a descer vagarosamente, depois
-de me apertar a mão com força. A meio caminho deteve-se e subiu outra
-vez.
-
---Olhe, conselheiro, Fidelia e eu fizemos tudo para que a velha e o
-velho vão comnosco; não podem, ella diz que está cançada, elle que não
-se separa della, e ambos esperam que voltemos.
-
---Pois voltem depressa, aconselhei.
-
-Tristão fitou-me os olhos cheios de misterios, e tornou á sala; vim com
-elle.
-
---Conselheiro, vou fazer-lhe uma confidencia, que não fiz nem faço a
-ninguem mais; fio do seu silencio. Fiz um gesto de. assentimento.
-Tristão meteu a mão na algibeira das calças e tirou de lá um papel de
-côr; abriu-o e entregou-m'o que lêsse. Era um telegrama do pae, datado
-da vespera; anuncia-lhe a eleição para daqui a oito dias.
-
-Ficámos a olhar um para o outro, calados ambos, elle como que a apertar
-os dentes. Depois de alguns segundos de pausa:
-
---Eleição certa, disse elle. As cartas já me faziam crer isto, mas não
-cuidei que fosse tão proxima.
-
-Restitui-lhe o telegrama. Tristão insistiu pelo meu silencio, e
-acrescentou:
-
---Queria que elles viessem comnosco; eu lhes diria a bordo o que
-convisesse, e o resto seria regulado entre as duas,-ou entre as tres,
-contando minha mãe. Fidelia mesma é que me lembrou este plano, e
-trabalhou por elle, mas não alcançámos nada; ficam esperando.
-
-Quiz dizer-lhe que era esperarem por sapatos de defunto, mas evitei
-o dito, e mudei de pensamento. Como elle não dissesse mais, fiquei
-um tanto acanhado; Tristão, porém, completou a intenção do acto,
-acrescentando:
-
---Confesso-lhe isto para que alguem que nos merece a todos dê um dia
-testemunho do que fiz e tentei para me não separar dos meus velhos
-paes de estimação; fica sabendo que não alcancei nada. Que quer,
-conselheiro? A vida é assim cheia de liames e de imprevistos...
-
-Não sei que disse mais; a mim chegava-me outra ideia que tambem deixei
-passar, não querendo ser indiscreto. Era indagar se Fidelia sabia já do
-telegrama; elle dissera-me que o não mostrára a ninguem, mas é claro
-que a mulher era elle mesmo, e estava excluida do silencio que tivera
-com os outros.
-
- * * * * *
-
-18 de Julho.
-
-Vim de bordo, aonde fui acompanhar os dous, com o velho Aguiar, o
-desembargador Campos e outros amigos. D. Carmo foi só até o caes;
-estava sucumbida, e enxugava os olhos. Ficou parada, a ver a lancha
-em que iamos, dizendo adeus com o lenço: não tardou que o espaço nos
-separasse inteiramente da vista.
-
-Fidelia ia realmente triste; o mar não tardaria em espancar as sombras,
-e depois a outra terra, que a receberia com a outra gente. Eu, no
-tombadilho do paquete, imaginei o cemiterio, o tumulo, a figura, as
-mãos postas e o resto. Tristão, á despedida, disse palavras amigas e
-saudosas a Aguiar, mandou outras para a madrinha, e a mim pediu-me que
-não esquecesse os paes de emprestimo e os fosse ver e consolar. Prometi
-que sim. Descemos para a lancha e afastamo-nos do paquete.
-
-Tenho embarcado e desembarcado muitas vezes, devia estar gasto. Pois
-não estou. Não sentia a separação, é verdade; trazia os olhos no velho
-Aguiar e o pensamento na velha Carmo. Quanto ao desembargador vinha
-triste com a separação, mas a sobrinha obrigou-o a prometer, á ultima
-hora, que iria vel-a no anno proximo, e elle não advertiu que o pedido
-desdizia da promessa que lhe tinha feito de regressar no fim do anno ao
-Rio de Janeiro.
-
-Despedimo-nos no caes. Aguiar seguiu para o Banco, eu vim para casa,
-onde escrevo isto. De noite irei ao Flamengo, a cumprir desde já a
-promessa que fiz a Tristão e a Fidelia.
-
-Não acabarei esta pagina sem dizer que me passou agora pela frente
-a figura de Fidelia, tal como a deixei a bordo, mas sem lagrimas.
-Sentou-se no canapé e ficámos a olhar um para o outro, ella desfeita
-em graça, eu desmentindo Shelley com todas as forças sexagenarias
-restantes. Ah! basta! Cuidemos de ir logo aos velhos.
-
- * * * * *
-
-Dez horas da noite.
-
-Venho do Flamengo. Quizera ficar mais tempo, mas elles precizavam
-descançar da separação. Campos tambem lá foi, e ambos saímos cedo, nove
-e meia; não se falou dos viajantes.
-
- * * * * *
-
-29 de Agosto.
-
-Chegou paquete da Europa, trouxe cartas de Lisboa e noticias politicas.
-As cartas eram saudosas, e as noticias interessantes; aliás só vieram
-á noite. Na rua tinha-me Aguiar dito o que havia nas cartas de Tristão
-e de Fidelia e na que a comadre escrevera a D. Carmo; fui vel-as ao
-Flamengo. A da comadre era cheia de louvores á nora, que achava mais
-bella que no retrato, e mais terna que ninguem; foram as proprias
-palavras della, e para uma sogra não me destoaram muito. Assim o disse
-a D. Carmo, que sorria complacente, com uma especie de ternura morbida.
-Eramos sós os tres, e a saudade grande.
-
-Pouco depois chegou Campos. Vinha aturdido, e ao dar commigo pareceu
-querer falar-me em particular. Em particular, a um canto, disse-me
-que Tristão lhe escrevera dizendo achar-se eleito deputado quando
-desembarcou em Lisboa, e pedindo-lhe que désse a noticia á gente Aguiar
-como entendesse melhor; não lhes escrevia a elles sobre isso para
-evitar o sobresalto. Que me parecia?
-
---Sempre se lhes hade dizer tudo, respondi; o melhor é que seja logo, e
-aqui estamos para dizer as cousas cautelosamente.
-
---Tambem me parece.
-
---Eu engenharei uma fabula...
-
-Engenhei o que pude. Falei do golpe que o moço recebeu quando
-desembarcou deputado, e viu misturadas as alegrias dos paes com as dos
-amigos politicos; devia dizer tambem que a primeira ideia de Tristão
-foi rejeitar o diploma e vir para Santa-Pia; mas que o partido, os
-chefes, os paes... Não fui tão longe; seria mentir de mais. Ao cabo,
-não teria tempo. Os dous velhos ficaram fulminados, a mulher verteu
-algumas lagrimas silenciosas, e o marido cuidou de lh'as enxugar.
-
-Assim correram as cousas, a mentira e os efeitos. Os dous procurámos
-levantar-lhes o animo. Eu empreguei algumas reflexões e metaforas,
-afirmando que elles viriam este anno mesmo ou no principio do outro;
-bastava saberem a dor que causava aqui a noticia.
-
-D. Carmo não parecia ouvir-me, nem elle; olhavam para lá, para longe,
-para onde se perde a vida presente, e tudo se esvae depressa. Aguiar
-ainda pegou na carta que o desembargador lhe mostrava; leu para si as
-palavras de Tristão, que eram aborrecidas em si mesmas, além da nota
-que o autor intencionalmente lhes poz. D. Carmo pediu-lh'a com o gesto,
-elle meteu-a na carteira. A boa velha não insistiu. Campos e eu saímos
-pouco depois.
-
- * * * * *
-
-30 de Agosto.
-
-Praia fóra (esqueceu-me notar-isto hontem) praia fóra viemos falando
-daquella orfandade ás avessas em que os dous velhos ficavam, e eu
-acrescentei, lembrando-me do marido defunto:
-
---Desembargador, se os mortos vão depressa, os velhos ainda vão mais
-depressa que os mortos... Viva a mocidade!
-
-Campos não me entendeu, nem logo, nem completamente. Tive então de lhe
-dizer que aludia ao marido defunto, e aos dous velhos deixados pelos
-dous moços, e conclui que a mocidade tem o direito de viver e amar, e
-separar-se alegremente do extinto e do caduco. Não concordou,-o que
-mostra que ainda então não me entendeu completamente.
-
- * * * * *
-
-Sem data.
-
-Ha seis ou sete dias que eu não ia ao Flamengo. Agora á tarde
-lembrou-me lá passar antes de vir para caza. Fui a pé; achei aberta a
-porta do jardim, entrei e parei logo.
-
---Lá estão elles, disse commigo.
-
-Ao fundo, á entrada do saguão, dei com os dous velhos sentados, olhando
-um para o outro. Aguiar estava encostado ao portal direito, com as mãos
-sobre os joelhos. D. Carmo, á esquerda, tinha os braços cruzados á
-cinta. Hesitei entre ir adeante ou desandar o caminho; continuei parado
-alguns segundos até que recuei pé ante pé. Ao transpor a porta para a
-rua, vi-lhes no rosto e na atitude uma expressão a que não acho nome
-certo ou claro digo o que me pareceu. Queriam ser risonhos e mal se
-podiam consolar. Consolava-os a saudade de si mesmos.
-
-
-
-FIM
-
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Memorial de Ayres, by Machado de Assis
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIAL DE AYRES ***
-
-***** This file should be named 55797-0.txt or 55797-0.zip *****
-This and all associated files of various formats will be found in:
- http://www.gutenberg.org/5/5/7/9/55797/
-
-Produced by Laura Natal Rodriguez & Marc D'Hooghe at Free
-Literature (online soon in an extended version, also linking
-to free sources for education worldwide ... MOOC's,
-educational materials,...) (Images generously made available
-by the Internet Archive.)
-
-
-Updated editions will replace the previous one--the old editions will
-be renamed.
-
-Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright
-law means that no one owns a United States copyright in these works,
-so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United
-States without permission and without paying copyright
-royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part
-of this license, apply to copying and distributing Project
-Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm
-concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark,
-and may not be used if you charge for the eBooks, unless you receive
-specific permission. If you do not charge anything for copies of this
-eBook, complying with the rules is very easy. You may use this eBook
-for nearly any purpose such as creation of derivative works, reports,
-performances and research. They may be modified and printed and given
-away--you may do practically ANYTHING in the United States with eBooks
-not protected by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the
-trademark license, especially commercial redistribution.
-
-START: FULL LICENSE
-
-THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
-PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
-
-To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
-distribution of electronic works, by using or distributing this work
-(or any other work associated in any way with the phrase "Project
-Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full
-Project Gutenberg-tm License available with this file or online at
-www.gutenberg.org/license.
-
-Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project
-Gutenberg-tm electronic works
-
-1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
-electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
-and accept all the terms of this license and intellectual property
-(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
-the terms of this agreement, you must cease using and return or
-destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your
-possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a
-Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound
-by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the
-person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph
-1.E.8.
-
-1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
-used on or associated in any way with an electronic work by people who
-agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
-things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
-even without complying with the full terms of this agreement. See
-paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
-Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this
-agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm
-electronic works. See paragraph 1.E below.
-
-1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the
-Foundation" or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection
-of Project Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual
-works in the collection are in the public domain in the United
-States. If an individual work is unprotected by copyright law in the
-United States and you are located in the United States, we do not
-claim a right to prevent you from copying, distributing, performing,
-displaying or creating derivative works based on the work as long as
-all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope
-that you will support the Project Gutenberg-tm mission of promoting
-free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg-tm
-works in compliance with the terms of this agreement for keeping the
-Project Gutenberg-tm name associated with the work. You can easily
-comply with the terms of this agreement by keeping this work in the
-same format with its attached full Project Gutenberg-tm License when
-you share it without charge with others.
-
-1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
-what you can do with this work. Copyright laws in most countries are
-in a constant state of change. If you are outside the United States,
-check the laws of your country in addition to the terms of this
-agreement before downloading, copying, displaying, performing,
-distributing or creating derivative works based on this work or any
-other Project Gutenberg-tm work. The Foundation makes no
-representations concerning the copyright status of any work in any
-country outside the United States.
-
-1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
-
-1.E.1. The following sentence, with active links to, or other
-immediate access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear
-prominently whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work
-on which the phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the
-phrase "Project Gutenberg" is associated) is accessed, displayed,
-performed, viewed, copied or distributed:
-
- This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
- most other parts of the world at no cost and with almost no
- restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it
- under the terms of the Project Gutenberg License included with this
- eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the
- United States, you'll have to check the laws of the country where you
- are located before using this ebook.
-
-1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is
-derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not
-contain a notice indicating that it is posted with permission of the
-copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in
-the United States without paying any fees or charges. If you are
-redistributing or providing access to a work with the phrase "Project
-Gutenberg" associated with or appearing on the work, you must comply
-either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or
-obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg-tm
-trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9.
-
-1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
-with the permission of the copyright holder, your use and distribution
-must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any
-additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms
-will be linked to the Project Gutenberg-tm License for all works
-posted with the permission of the copyright holder found at the
-beginning of this work.
-
-1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
-License terms from this work, or any files containing a part of this
-work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
-
-1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
-electronic work, or any part of this electronic work, without
-prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
-active links or immediate access to the full terms of the Project
-Gutenberg-tm License.
-
-1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
-compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including
-any word processing or hypertext form. However, if you provide access
-to or distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format
-other than "Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official
-version posted on the official Project Gutenberg-tm web site
-(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense
-to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means
-of obtaining a copy upon request, of the work in its original "Plain
-Vanilla ASCII" or other form. Any alternate format must include the
-full Project Gutenberg-tm License as specified in paragraph 1.E.1.
-
-1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
-performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
-unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
-
-1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
-access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works
-provided that
-
-* You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
- the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
- you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed
- to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he has
- agreed to donate royalties under this paragraph to the Project
- Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid
- within 60 days following each date on which you prepare (or are
- legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty
- payments should be clearly marked as such and sent to the Project
- Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in
- Section 4, "Information about donations to the Project Gutenberg
- Literary Archive Foundation."
-
-* You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
- you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
- does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
- License. You must require such a user to return or destroy all
- copies of the works possessed in a physical medium and discontinue
- all use of and all access to other copies of Project Gutenberg-tm
- works.
-
-* You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of
- any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
- electronic work is discovered and reported to you within 90 days of
- receipt of the work.
-
-* You comply with all other terms of this agreement for free
- distribution of Project Gutenberg-tm works.
-
-1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project
-Gutenberg-tm electronic work or group of works on different terms than
-are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing
-from both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and The
-Project Gutenberg Trademark LLC, the owner of the Project Gutenberg-tm
-trademark. Contact the Foundation as set forth in Section 3 below.
-
-1.F.
-
-1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
-effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
-works not protected by U.S. copyright law in creating the Project
-Gutenberg-tm collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm
-electronic works, and the medium on which they may be stored, may
-contain "Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate
-or corrupt data, transcription errors, a copyright or other
-intellectual property infringement, a defective or damaged disk or
-other medium, a computer virus, or computer codes that damage or
-cannot be read by your equipment.
-
-1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
-of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
-Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
-Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
-liability to you for damages, costs and expenses, including legal
-fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
-LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
-PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
-TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
-LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
-INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
-DAMAGE.
-
-1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
-defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
-receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
-written explanation to the person you received the work from. If you
-received the work on a physical medium, you must return the medium
-with your written explanation. The person or entity that provided you
-with the defective work may elect to provide a replacement copy in
-lieu of a refund. If you received the work electronically, the person
-or entity providing it to you may choose to give you a second
-opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If
-the second copy is also defective, you may demand a refund in writing
-without further opportunities to fix the problem.
-
-1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
-in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO
-OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT
-LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
-
-1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
-warranties or the exclusion or limitation of certain types of
-damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement
-violates the law of the state applicable to this agreement, the
-agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or
-limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or
-unenforceability of any provision of this agreement shall not void the
-remaining provisions.
-
-1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
-trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
-providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in
-accordance with this agreement, and any volunteers associated with the
-production, promotion and distribution of Project Gutenberg-tm
-electronic works, harmless from all liability, costs and expenses,
-including legal fees, that arise directly or indirectly from any of
-the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this
-or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or
-additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any
-Defect you cause.
-
-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
-
-Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
-electronic works in formats readable by the widest variety of
-computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
-exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
-from people in all walks of life.
-
-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
-assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
-goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
-remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
-and permanent future for Project Gutenberg-tm and future
-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at
-www.gutenberg.org Section 3. Information about the Project Gutenberg
-Literary Archive Foundation
-
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
-U.S. federal laws and your state's laws.
-
-The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the
-mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its
-volunteers and employees are scattered throughout numerous
-locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt
-Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to
-date contact information can be found at the Foundation's web site and
-official page at www.gutenberg.org/contact
-
-For additional contact information:
-
- Dr. Gregory B. Newby
- Chief Executive and Director
- gbnewby@pglaf.org
-
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
-Literary Archive Foundation
-
-Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
-spread public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
-charities and charitable donations in all 50 states of the United
-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
-considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
-with these requirements. We do not solicit donations in locations
-where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
-DONATIONS or determine the status of compliance for any particular
-state visit www.gutenberg.org/donate
-
-While we cannot and do not solicit contributions from states where we
-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
-against accepting unsolicited donations from donors in such states who
-approach us with offers to donate.
-
-International donations are gratefully accepted, but we cannot make
-any statements concerning tax treatment of donations received from
-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
-
-Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations. To
-donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
-
-Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works.
-
-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of
-volunteer support.
-
-Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
-the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
-necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
-edition.
-
-Most people start at our Web site which has the main PG search
-facility: www.gutenberg.org
-
-This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
-including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
-subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
-
diff --git a/old/55797-0.zip b/old/55797-0.zip
deleted file mode 100644
index 6336705..0000000
--- a/old/55797-0.zip
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/55797-h.zip b/old/55797-h.zip
deleted file mode 100644
index d6a0924..0000000
--- a/old/55797-h.zip
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/55797-h/55797-h.htm b/old/55797-h/55797-h.htm
deleted file mode 100644
index dd0471b..0000000
--- a/old/55797-h/55797-h.htm
+++ /dev/null
@@ -1,8737 +0,0 @@
-<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN"
- "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd">
-<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml" xml:lang="pt" lang="pt">
- <head>
- <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html;charset=iso-8859-1" />
- <meta http-equiv="Content-Style-Type" content="text/css" />
- <title>
- The Project Gutenberg eBook of Memorial de Ayres by Machado de Assis.
- </title>
- <style type="text/css">
-
-body {
- margin-left: 10%;
- margin-right: 10%;
-}
-
- h1,h2,h3,h4,h5,h6 {
- text-align: center; /* all headings centered */
- clear: both;
-}
-
-p {
- margin-top: .51em;
- text-align: justify;
- margin-bottom: .49em;
-}
-
-.p2 {margin-top: 2em;}
-.p4 {margin-top: 4em;}
-.p6 {margin-top: 6em;}
-
-hr {
- width: 33%;
- margin-top: 2em;
- margin-bottom: 2em;
- margin-left: auto;
- margin-right: auto;
- clear: both;
-}
-
-hr.tb {width: 45%;}
-hr.chap {width: 65%}
-hr.full {width: 95%;}
-
-hr.r5 {width: 5%; margin-top: 1em; margin-bottom: 1em;}
-hr.r65 {width: 65%; margin-top: 3em; margin-bottom: 3em;}
-
-
-table {
- margin-left: auto;
- margin-right: auto;
-}
-
- .tdl {text-align: left;}
- .tdr {text-align: right;}
- .tdc {text-align: center;}
-
-
-.blockquot {
- margin-left: 5%;
- margin-right: 10%;
-}
-
-.center {text-align: center;}
-
-.right {text-align: right;}
-
-.smcap {font-variant: small-caps;}
-
-
-.caption {font-weight: bold;}
-
-/* Images */
-.figcenter {
- margin: auto;
- text-align: center;
-}
-
-.figleft {
- float: left;
- clear: left;
- margin-left: 0;
- margin-bottom: 1em;
- margin-top: 1em;
- margin-right: 1em;
- padding: 0;
- text-align: center;
-}
-
-.figright {
- float: right;
- clear: right;
- margin-left: 1em;
- margin-bottom:
- 1em;
- margin-top: 1em;
- margin-right: 0;
- padding: 0;
- text-align: center;
-}
-
-/* Footnotes */
-.footnotes {border: dashed 1px;}
-
-.footnote {margin-left: 10%; margin-right: 10%; font-size: 0.9em;}
-
-.footnote .label {position: absolute; right: 84%; text-align: right;}
-
-.fnanchor {
- vertical-align: super;
- font-size: .8em;
- text-decoration:
- none;
-}
-
-/* Transcriber's notes */
-.transnote {background-color: #E6E6FA;
- color: black;
- font-size:smaller;
- padding:0.5em;
- margin-bottom:5em;
- font-family:sans-serif, serif; }
- </style>
- </head>
-<body>
-
-
-<pre>
-
-The Project Gutenberg EBook of Memorial de Ayres, by Machado de Assis
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
-to check the laws of the country where you are located before using this ebook.
-
-
-
-Title: Memorial de Ayres
-
-Author: Machado de Assis
-
-Release Date: October 23, 2017 [EBook #55797]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: ISO-8859-1
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIAL DE AYRES ***
-
-
-
-
-Produced by Laura Natal Rodriguez & Marc D'Hooghe at Free
-Literature (online soon in an extended version, also linking
-to free sources for education worldwide ... MOOC's,
-educational materials,...) (Images generously made available
-by the Internet Archive.)
-
-
-
-
-
-
-</pre>
-
-
-<h1>MEMORIAL DE AYRES</h1>
-
-<h3>POR</h3>
-
-<h2>MACHADO DE ASSIS</h2>
-
-<h4>DA ACADEMIA BRAZILEIRA</h4>
-
-<h5>H. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR</h5>
-
-<h5>7, RUA DO OUVIDOR, 7</h5>
-
-<h5>RUA MOREIRA CEZAR, 71</h5>
-
-<h5>RIO DE JANEIRO</h5>
-
-<h5>6, RUE DES SAINTS-PRES, 6</h5>
-
-<h5>PARIZ</h5>
-
-<h5>1908</h5>
-
-<hr class="full" />
-
-
-<p style="margin-left: 35%;">
-Em Lixboa, sobre lo mar,<br />
-Barcas novas mandey lavrar...<br />
-</p>
-
-<p style="margin-left: 40%;"><i>Cantiga</i> de <span class="smcap">Joham Zorro</span>.</p>
-
-
-<p style="margin-left: 35%;">
-<span style="margin-left: 2em;">Para veer meu amigo</span><br />
- Que talhou preyto comigo,<br />
-<span style="margin-left: 2em;">Al vou, madre.</span><br />
- Para veer meu amado<br />
-<span style="margin-left: 2em;">Que mig'a preyto talhado,</span><br />
- Al vou, madre.<br />
-</p>
-
-<p style="margin-left: 40%;"><i>Cantiga d'el-rei</i> <span class="smcap">Dom Denis</span>.</p>
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="I" id="I">1888</a></h5>
-
-
-<p class="right">9 de Janeiro.</p>
-
-<p>Ora bem, faz hoje um anno que voltei definitivamente
-da Europa. O que me lembrou esta data
-foi, estando a beber caf, o prego de um vendedor
-de vassouras e espanadores: Vae vassouras!
-vae espanadores! Costumo ouvil-o outras manhs,
-mas desta vez trouxe-me memoria o dia
-do desembarque, quando cheguei apozentado
-minha terra, ao meu Cattete, minha lingua. Era
-o mesmo que ouvi ha um anno, em 1887, e talvez
-fosse a mesma boca.</p>
-
-<p>Durante os meus trinta e tantos annos de diplomacia
-algumas vezes vim ao Brazil, com licena.
-O mais do tempo vivi fra, em varias partes, e
-no foi pouco. Cuidei que no acabaria de me
-habituar novamente a esta outra vida de c. Pois
-acabei. Certamente ainda me lembram cousas e
-pessoas de longe, diverses, paizagens, costumes,
-mas no morro de saudades por nada. Aqui estou,
-aqui vivo, aqui morrerei.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">Cinco horas da tarde.</p>
-
-<p>Recebi agora um bilhete de mana Rita, que
-aqui vae colado:</p>
-
-<p class="right">9 de Janeiro.</p>
-
-<p>
-Mano,<br />
-<br />
-S agora me lembrou que faz hoje um anno
-que voc voltou da Europa apozentado. J tarde
-para ir ao cemiterio de S. Joo Baptista, em visita
-ao jazigo da familia, dar graas pelo seu regresso;
-irei amanh de manh, e peo a voc que me
-espere para ir commigo. Saudades da</p>
-
-<p style="margin-left: 60%;">Velha mana,</p>
-
-<p class="right">Rita.</p>
-
-
-<p>No vejo necessidade disso, mas respondi que
-sim.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">10 de Janeiro.</p>
-
-<p>Fomos ao cemiterio. Rita, apezar da alegria do
-motivo, no pde reter algumas velhas lagrimas
-de saudade pelo marido que l est no jazigo,
-com meu pae e minha me. Ella ainda agora o
-ama, como no dia em que o perdeu, l se vo
-tantos annos. No caixo do defunto mandou
-guardar um molho dos seus cabelos, ento pretos,
-emquanto os mais delles ficaram a embranquecer
-c fra.</p>
-
-<p>No feio o nosso jazigo; podia ser um pouco
-mais simples,&mdash;a inscrio e uma cruz,&mdash;mas
-o que est bem feito. Achei-o novo de mais,
-isso sim. Rita fal-o lavar todos os mezes, e isto
-impede que envelhea. Ora, eu creio que um
-velho tumulo d melhor impresso do oficio, se
-tem as negruras do tempo, que tudo consome. O
-contrario parece sempre da vespera.</p>
-
-<p>Rita orou deante delle alguns minutos, emquanto
-eu circulava os olhos pelas sepulturas
-proximas. Em quasi todas havia a mesma antiga
-suplica da nossa: Orai por elle! Orai por
-ella! Rita me disse depois, em caminho, que
-seu costume atender ao pedido das outras,
-rezando uma prece por todos que alli esto.
-Talvez seja a unica. A mana boa creatura, no
-menos que alegre.</p>
-
-<p>A impresso que me dava o total do cemiterio
- a que me deram sempre outros; tudo alli
-estava parado. Os gestos das figuras, anjos e
-outras, eram diversos, mas immoveis. S alguns
-passaros davam sinal de vida, buscando-se entre
-si e pousando nas ramagens, pipilando ou gorgeando.
-Os arbustos viviam calados, na verdura
-e nas flores.</p>
-
-<p>J perto do porto, sada, falei a mana Rita
-de uma senhora que eu vira ao p de outra sepultura,
-ao lado esquerdo do cruzeiro, em quanto
-ella rezava. Era moa, vestia de preto, e parecia
-rezar tambem, com as mos cruzadas e pendentes.
-A cara no me era extranha, sem atinar
-quem fosse. E bonita, e gentilissima, como ouvi
-dizer de outras em Roma.</p>
-
-<p>&mdash;Onde est?</p>
-
-<p>Disse-lhe onde estava. Quiz ver quem era. Rita,
-alem de boa pessoa, curiosa, sem todavia chegar
-ao superlativo romano. Respondi-lhe que esperassemos
-alli mesmo, ao porto.</p>
-
-<p>&mdash;No! pode no vir to cedo, vamos espial-a
-de longe. assim bonita?</p>
-
-<p>&mdash;Pareceu-me.</p>
-
-<p>Entrmos e enfimos por um caminho entre
-campas, naturalmente. A alguma distancia, Rita
-deteve-se.</p>
-
-<p>&mdash;Voc conhece, sim. J a viu l em casa, ha
-dias.</p>
-
-<p>&mdash;Quem ?</p>
-
-<p>&mdash; a viuva Noronha. Vamos embora, antes
-que nos veja.</p>
-
-<p>J agora me lembrava, ainda que vagamente,
-de uma senhora que l apareceu em Andarahy, a
-quem Rita me aprezentou e com quem falei alguns
-minutos.</p>
-
-<p>&mdash;Viuva de um medico, no ?</p>
-
-<p>&mdash;Isso; filha de um fazendeiro da Parahyba
-do Sul, o baro de Santa-Pia.</p>
-
-<p>Nesse momento, a viuva descruzava as mos, e
-fazia gesto de ir embora. Primeiramente espraiou
-os olhos, como a ver se estava s. Talvez quizesse
-beijar a sepultura, o proprio nome do marido,
-mas havia gente perto, sem contar dous coveiros
-que levavam um regador e uma enxada, e iam
-falando de um enterro daquella manh. Falavam
-alto, e um escarnecia do outro, em voz grossa:
-Eras capaz de levar um daquelles ao morro? S
-se fossem quatro como tu. Tratavam de caixo
-pezado, naturalmente, mas eu voltei depressa a
-ateno para a viuva, que se afastava e caminhava
-lentamente, sem mais olhar para traz. Encoberto
-por um mausoleu, no a pude ver mais nem
-melhor que a principio. Ella foi descendo at o
-porto, onde passava um bonde em que entrou e
-partiu. Ns descemos depois e viemos no outro.</p>
-
-<p>Rita contou-me ento alguma cousa da vida da
-moa e da felicidade grande que tivera com o
-marido, alli sepultado ha mais de dous annos.
-Pouco tempo viveram juntos. Eu, no sei por
-que inspirao maligna, arrisquei esta reflexo:</p>
-
-<p>&mdash;No quer dizer que no venha a cazar outra
-vez.</p>
-
-<p>&mdash;Aquella no caza.</p>
-
-<p>&mdash;Quem lhe diz que no?</p>
-
-<p>&mdash;No caza; basta saber as circumstancias do
-cazamento, a vida que tiveram e a dor que ella
-sentiu quando enviuvou.</p>
-
-<p>&mdash;No quer dizer nada, pode cazar; para
-cazar basta estar viuva.</p>
-
-<p>&mdash;Mas eu no cazei.</p>
-
-<p>&mdash;Voc outra cousa, voc unica.</p>
-
-<p>Rita sorriu, deitando-me uns olhos de censura,
-e abanando a cabea, como se me chamasse
-peralta. Logo ficou seria, porque a lembrana
-do marido fazia-a realmente triste. Meti
-o caso bulha; ella, depois de aceitar uma
-ordem de ideias mais alegre, convidou-me a ver
-se a viuva Noronha cazava commigo; apostava
-que no.</p>
-
-<p>&mdash;Com os meus sessenta e dous annos?</p>
-
-<p>&mdash;Oh! no os parece: tem a verdura dos
-trinta.</p>
-
-<p>Pouco depois chegmos a casa e Rita almoou
-commigo. Antes do almoo, tornmos a falar da
-viuva e do cazamento, e ella repetiu a aposta. Eu,
-lembrando-me de Goethe, disse-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;Mana, voc est a querer fazer commigo
-a aposta de Deus e de Mephistopheles; no
-conhece?</p>
-
-<p>&mdash;No conheo.</p>
-
-<p>Fui minha pequena estante e tirei o volume
-do <i>Fausto</i>, abri a pagina do prologo no ceu, e
-li-lh'a, resumindo como pude. Rita escutou
-atenta o desafio de Deus e do Diabo, a proposito
-do velho Fausto, o servo do Senhor, e da perda
-infalivel que faria delle o astuto. Rita no tem
-cultura, mas tem finura, e naquella ocasio
-tinha principalmente fome. Replicou rindo:</p>
-
-<p>&mdash;Vamos almoar. No quero saber desses
-prologos nem de outros; repito o que disse, e
-veja voc se refaz o que l vae desfeito. Vamos
-almoar.</p>
-
-<p>Fomos almoar; s duas, horas Rita voltou
-para Andarahy, eu vim escrever isto e vou dar
-um giro pela cidade.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">12 de Janeiro.</p>
-
-<p>Na conversa de ante-hontem com Rita esqueceu-me
-dizer a parte relativa a minha mulher,
-que l est enterrada em Vienna. Pela segunda
-vez falou-me em transportal-a para o nosso jazigo.
-Novamente lhe disse que estimaria muito
-estar perto della, mas que, em minha opinio, os
-mortos ficam bem onde caem; redarguiu-me que
-esto muito melhor com os seus.</p>
-
-<p>&mdash;Quando eu morrer, irei para onde ella
-estiver, no outro mundo, e ella vir ao meu
-encontro, disse eu.</p>
-
-<p>Sorriu, e citou o exemplo da viuva Noronha
-que fez transportar o marido de Lisboa, onde
-faleceu, para o Rio de Janeiro, onde ella conta
-acabar. No disse mais sobre este assunto, mas
-provavalmente tornar a elle, at alcanar o que
-lhe parece. J meu cunhado dizia que era seu
-costume della, quando queria alguma cousa.</p>
-
-<p>Outra cousa que no escrevi foi a aluso que
-ella fez gente Aguiar, um cazal que conheci a
-ultima vez que vim, com licena, ao Rio de
-Janeiro, e agora encontrei. So amigos della e da
-viuva, e celebram daqui a dez ou quinze dias as
-suas bodas de prata. J os visitei duas vezes e o
-marido a mim. Rita falou-me delles com simpatia
-e aconselhou-me a ir comprimental-os por
-ocasio das festas anniversarias.</p>
-
-<p>&mdash;L encontrar Fidelia.</p>
-
-<p>&mdash;Que Fidelia?</p>
-
-<p>&mdash;A viuva Noronha.</p>
-
-<p>&mdash;Chama-se Fidelia?</p>
-
-<p>&mdash;Chama-se.</p>
-
-<p>&mdash;O nome no basta para no cazar.</p>
-
-<p>&mdash;Tanto melhor para voc, que vencer a
-pessoa e o nome, e acabar cazando com a viuva.
-Mas eu repito que no caza.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">14 de Janeiro.</p>
-
-<p>A unica particularidade da biografia de Fidelia
- que o pae e o sogro eram inimigos politicos,
-chefes de partido na Parahyba do Sul. Inimizade
-de familias no tem impedido que moos se
-amem, mas preciso ir a Verona ou alhures.
-E ainda os de Verona dizem comentadores que
-as familias de Romeo e de Julieta eram antes
-amigas e do mesmo partido; tambem dizem que
-nunca existiram, salvo na tradio ou somente
-na cabea de Shakespeare.</p>
-
-<p>Nos nossos municipios, ao norte, ao sul e ao
-centro, creio que no ha caso algum. Aqui a
-oposio dos rebentos continua a das raizes, e
-cada arvore brota de si mesma, sem lanar galhos
-a outra, e esterilisando-lhe o terreno, se pode.
-Eu, se fosse capaz de odio, era assim que odiava;
-mas eu no odeio nada nem ninguem,&mdash;<i>perdono
-a tutti</i>, como na opera.</p>
-
-<p>Agora, como foi que elles se amaram,&mdash;os
-namorados da Parayba do Sul,&mdash; o que Rita
-me no referiu, e seria curioso saber. Romeo e
-Julieta aqui no Rio, entre a lavoura e a advocacia,&mdash;porque
-o pae do nosso Romeo era advogado
-na cidade da Parahyba,&mdash; um desses encontros
-que importaria conhecer para explicar. Rita no
-entrou nesses pormenores; eu, se me lembrar,
-heide pedir-lh'os. Talvez ella os recuse imaginando
-que comeo deveras a morrer pela dama.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">16 de Janeiro.</p>
-
-<p>To depressa vinha saindo do Banco do Sul
-encontrei Aguiar, gerente delle, que para l ia.
-Comprimentou-me muito afetuosamente, pediu-me
-noticias de Rita, e falmos durante alguns
-minutos sobre cousas geraes.</p>
-
-<p>Isto foi hontem. Hoje de manh recebi um
-bilhete de Aguiar, convidando-me, em nome da
-mulher e delle, a ir l jantar no dia 24. So as
-bodas de prata. Jantar simples e de poucos
-amigos escreveu elle. Soube depois que
-festa recolhida. Rita vae tambem. Resolvi aceitar,
-e vou.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">20 de Janeiro.</p>
-
-<p>Tres dias metido em casa, por um resfriamento
-com pontinha de febre. Hoje estou bom, e segundo
-o medico, posso ja sair amanh; mas
-poderei ir s bodas de prata dos velhos Aguiares?
-Profissional cauteloso, o Dr. Silva me aconselhou
-que no v; mana Rita que tratou de mim dous
-dias, da mesma opinio. Eu no a tenho contraria,
-mas se me achar lepido e robusto, como
- possivel, custar-me-ha no ir. Veremos; tres
-dias passam depressa.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">Seis horas da tarde.</p>
-
-<p>Gastei o dia a folhear livros, e reli especialmente
-alguma cousa de Shelley e tambem de
-Thackeray. Um consolou-me de outro, este desenganou-me
-d'aquelle; assim que o engenho
-completa o engenho, e o espirito aprende as linguas
-do espirito.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">Nove horas da noite.</p>
-
-<p>Rita jantou commigo; disse-lhe que estou so
-como um pero, e com foras para ir s bodas de
-prata. Ella, depois de me aconselhar prudencia,
-concordou que, se no tiver mais nada, e fr
-comedido ao jantar, posso ir; tanto mais que os
-meus olhos tero l dieta absoluta.</p>
-
-<p>&mdash;Creio que Fidelia no vae, explicou.</p>
-
-<p>&mdash;No vae?</p>
-
-<p>&mdash;Estive hoje com o desembargador Campos,
-que me disse haver deixado a sobrinha com a
-nevralgia do costume. Padece de nevralgias.
-Quando ellas lhe aparecem por dias, e no vo
-sem muito remedio e muita paciencia. Talvez v
-visital-a amanh ou depois.</p>
-
-<p>Rita acrescentou que para o casal Aguiar
-meio desastre; contavam com ella, como um dos
-encantos da festa. Querem-se muito, elles a ella,
-e ella a elles, e todos se merecem, o parecer
-de Rita e pode vir a ser o meu.</p>
-
-<p>&mdash;Creio. J agora, se me no sentir impedido,
-irei sempre. Tambem a mim parece boa gente a
-gente Aguiar. Nunca tiveram filhos?</p>
-
-<p>&mdash;Nunca. So muito afetuosos, D. Carmo
-ainda mais que o marido. Voc no imagina como
-so amigos um do outro. Eu no os frequento
-muito, porque vivo metida commigo, mas o
-pouco que os visito basta para saber o que valem,
-ella principalmente. O desembargador Campos,
-que os conhece desde muitos annos, pode dizer-lhe
-o que elles so.</p>
-
-<p>&mdash;Haver muita gente ao jantar?</p>
-
-<p>&mdash;No, creio que pouca. A maior parte dos
-amigos ir de noite. Elles so modestos, o jantar
- s dos mais intimos, e por isso o convite que
-fizeram a voc mostra grande simpatia pessoal.</p>
-
-<p>&mdash;J senti isso, quando me apresentaram a
-elles, ha sete annos, mas ento supuz que era
-mais por causa do ministro que do homem.
-Agora, quando me receberam, foi com muito
-gosto. Pois l vou no dia 24, haja ou no haja
-Fidelia.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">25 de Janeiro.</p>
-
-<p>L fui hontem s bodas de prata. Vejamos se
-posso resumir agora as minhas impresses da
-noite.</p>
-
-<p>No podiam ser melhores. A primeira dellas
-foi a unio do casal. Sei que no seguro julgar
-por uma festa de algumas horas a situao moral
-de duas pessoas. Naturalmente a ocasio aviva
-a memoria dos tempos passados, e a affeio dos
-outros como que ajuda a duplicar a propria. Mas
-no isso. Ha nelles alguma cousa superior
-oportunidade e diversa da alegria alheia. Senti
-que os annos tinham ali reforado e apurado a
-natureza, e que as duas pessoas eram, ao cabo,
-uma s e unica. No senti, no podia sentir isto
-logo que entrei, mas foi o total da noite.</p>
-
-<p>Aguiar veiu receber-me porta da sala,&mdash;eu
-diria que com uma inteno de abrao, se pudesse
-havel-a entre ns e em tal logar; mas a
-mo fez esse oficio, apertando a minha efusivamente.
- homem de sessenta annos feitos (ella
-tem cincoenta), corpo antes cheio que magro,
-agil, ameno e risonho. Levou-me mulher, a
-um lado da sala, onde ella conversava com duas
-amigas. No era nova para mim a graa da boa
-velha, mas desta vez o motivo da visita e o teor
-do meu comprimento davam-lhe expresso do
-rosto algo que tolera bem a qualificao de radiante.
-Estendeu-me a mo, ouviu-me e inclinou
-a cabea, olhando de relance para o marido.</p>
-
-<p>Senti-me objeto dos cuidados de ambos. Rita
-chegou pouco depois de mim; vieram vindo outros
-homens e senhoras, todos de mim conhecidos,
-e vi que eram familiares da casa. Em meio
-da conversao, ouvi esta palavra inesperada a
-uma senhora, que dizia a outra:</p>
-
-<p>&mdash;No v Fidelia ter ficado peor.</p>
-
-<p>&mdash;Ella vem? perguntou a outra.</p>
-
-<p>&mdash;Mandou dizer que vinha; est melhor; mas
-talvez lhe faa mal.</p>
-
-<p>O mais que as duas disseram, relativamente
-viuva, foi bem. O que me dizia um dos convidados
-apenas foi ouvido por mim, sem lhe prestar
-ateno maior que o assunto nem perder
-as aparencias della. Pela hora proxima do jantar
-supuz que Fidelia no viesse. Supuz errado. Fidelia
-e o tio foram os ultimos chegados, mas
-chegaram. O alvoroo com que D. Carmo a recebeu
-mostrava bem a alegria de a ver ali, apenas
-convalecida, e apezar do risco de voltar noite.
-O prazer de ambas foi grande.</p>
-
-<p>Fidelia no deixou inteiramente o luto; trazia s
-orelhas dous coraes, e o medalho com o retrato
-do marido, ao peito, era de ouro. O mais do
-vestido e adorno escuro. As joias e um raminho
-de myosotis cinta vinham talvez em homenagem
- amiga. J de manh lhe enviara um bilhete
-de comprimentos acompanhando o pequeno
-vaso de porcelana, que estava em cima de um
-movel com outros presentinhos anniversarios.</p>
-
-<p>Ao vel-a agora, no a achei menos saborosa
-que no cemiterio, e ha tempos em casa de mana
-Rita, nem menos vistosa tambem. Parece feita ao
-torno, sem que este vocabulo d nenhuma ideia
-de rigidez; ao contrario, flexivel. Quero aludir
-somente correo das linhas,&mdash;falo das linhas
-vistas; as restantes adivinham-se e juram-se.
-Tem a pelle macia e clara, com uns tons rubros
-nas faces, que lhe no ficam mal viuvez. Foi o
-que vi logo chegada, e mais os olhos e os cabelos
-pretos; o resto veiu vindo pela noite adiante,
-at que ella se foi embora. No era preciso
-mais para completar uma figura interessante no
-gesto e na conversao. Eu, depois de alguns
-instantes de exame, eis o que pensei da pessoa. No
-pensei logo em prosa, mas em verso, e um verso
-justamente de Shelley, que relera dias antes, em
-caza, como l ficou dito atraz, e tirado de uma
-das suas estancias de 1821:</p>
-
-<blockquote>
-
-<p style="margin-left: 10%;"><i>I can give not what men call love.</i></p>
-
-</blockquote>
-
-<p>Assim disse commigo em inglez, mas logo depois
-repeti em prosa nossa a confisso do poeta,
-com um fecho da minha composio: Eu no
-posso dar o que os homens chamam amor... e
-pena!</p>
-
-<p>Esta confisso no me fez menos alegre. Assim,
-quando D. Carmo veiu tomar-me o brao, segui
-como se fosse para um jantar de nupcias. Aguiar
-deu o brao a Fidelia, e sentou-se entre ella e a
-mulher. Escrevo estas indicaes sem outra necessidade
-mais que a de dizer que os dous conjuges,
-ao p um do outro, ficaram ladeados pela
-amiga Fidelia e por mim. Desta maneira pudemos
-ouvir palpitar o corao aos dous,&mdash;hiperbole
-permitida para dizer que em ambos ns, em mim,
-ao menos, repercutia a felicidade daquelles vinte
-e cinco annos de paz e consolao.</p>
-
-<p>A dona da casa, afavel, meiga, deliciosa com
-todos, parecia realmente feliz naquella data; no
-menos o marido. Talvez elle fosse ainda mais feliz
-que ella, mas no saberia mostral-o tanto.
-D. Carmo possue o dom de falar e viver por todas
-as feies, e um poder de atrair as pessoas,
-como terei visto em poucas mulheres, ou raras.
-Os seus cabelos brancos, colhidos com arte e
-gosto do velhice um relevo particular, e fazem
-cazar nella todas as idades. No sei se me explico
-bem, nem preciso dizer melhor para o fogo a
-que lanarei um dia estas folhas de solitario.</p>
-
-<p>De quando em quando, ella e o marido trocavam
-as suas impresses com os olhos, e pode ser
-que tambem com a fala. Uma s vez a impresso
-visual foi melancolica. Mais tarde ouvi a explicao
-a mana Rita. Um dos convivas,&mdash;sempre
-ha indiscretos,&mdash;no brinde que lhes fez aludiu
- falta de filhos, dizendo que Deus lh'os negara
-para que elles se amassem melhor entre si. No
-falou em verso, mas a ideia suportaria o metro
-e a rima, que o autor talvez houvesse cultivado
-em rapaz; orava agora pelos cincoenta annos, e
-tinha um filho. Ouvindo aquella referencia, os
-dous fitaram-se tristes, mas logo buscaram rir, e
-sorriram. Mana Rita me disse depois que essa era
-a unica ferida do cazal. Creio que Fidelia percebeu
-tambem a expresso de tristeza dos dous, porque
-eu a vi inclinar-se para ella com um gesto do calis
-e brindar a D. Carmo cheia de graa e ternura:</p>
-
-<p>&mdash; sua felicidade.</p>
-
-<p>A esposa Aguiar, comovida, apenas pode
-responder logo com o gesto; s instantes depois
-de levar o calis boca, acrescentou, em voz meia
-surda, como se lhe custasse sair do corao apertado
-esta palavra de agradecimento:</p>
-
-<p>&mdash;Obrigada.</p>
-
-<p>Tudo foi assim segredado, quasi calado. O marido
-aceitou a sua parte do brinde, um pouco
-mais expansivo, e o jantar acabou sem outro rasto
-de melancolia.</p>
-
-<p>De noite vieram mais visitas; tocou-se, tres ou
-quatro pessoas jogaram cartas. Eu deixei-me estar
-na sala, a mirar aquella poro de homens alegres
-e de mulheres verdes e maduras, dominando
-a todas pelo aspecto particular da velhice D. Carmo,
-e pela graa apetitosa da mocidade de Fidelia;
-mas a graa desta trazia ainda a nota da
-viuvez recente, alis de dous annos. Shelley continuava
-a murmurar ao meu ouvido para que eu
-repetisse a mim mesmo: <i>I can give not what
-men call love.</i></p>
-
-<p>Quando transmiti esta impresso a Rita, disse
-ella que eram desculpas de mau pagador, isto
-que eu, temendo no vencer a resistencia da
-moa, dava-me por incapaz de amar. E pegou daqui
-para novamente fazer a apologia da paixo
-conjugal de Fidelia.</p>
-
-<p>&mdash;Todas as pessoas daqui e de fora que os viram,&mdash;continuou,&mdash;podem
-dizer a voc o que
-foi aquelle cazal. Basta saber que se uniram, como
-j lhe disse, contra a vontade dos dous paes, e
-amaldioados por ambos. D. Carmo tem sido
-confidente da amiga, e no repete o que lhe
-ouve por discreta, resume s o que pode, com
-palavras de afirmao e de admirao. Tenho-as
-ouvido muita vez. A mim mesma Fidelia conta
-alguma cousa. Converse com o tio... Olhe, elle
-que lhe diga tambem da gente Aguiar...</p>
-
-<p>Neste ponto interrompi:</p>
-
-<p>&mdash;Pelo que ouo, emquanto eu andava l
-fra, a reprezentar o Brazil, o Brazil fazia-se
-o seio de Abraho. Voc, o cazal Aguiar, o cazal
-Noronha, todos os cazaes, em suma, faziam-se
-modelos de felicidade perpetua.</p>
-
-<p>&mdash;Pois pea ao desembargador que lhe diga
-tudo.</p>
-
-<p>&mdash;Outra impresso que levo desta casa e desta
-noite que as duas damas, a casada e a viuva,
-parecem amar-se como me e filha, no
-verdade?</p>
-
-<p>&mdash;Creio que sim.</p>
-
-<p>&mdash;A viuva tambem no tem filhos?</p>
-
-<p>&mdash;Tambem no. um ponto de contacto.</p>
-
-<p>&mdash;Ha um ponto de desvio; a viuvez de
-Fidelia.</p>
-
-<p>&mdash;Isso no; a viuvez de Fidelia est com a
-velhice de D. Carmo; mas se voc acha que
-desvio tem nas suas mos concertal-o, arrancar a
-viuva viuvez, se puder; mas no pode, repito.</p>
-
-<p>A mana no costuma dizer pilherias, mas
-quando lhe sae alguma tem pico. Foi o que eu lhe
-disse ento, ao metel-a no carro que a levou a
-Andarahy, em quanto eu vim a p para o Cattete.
-Esqueceu-me dizer que a casa do Aguiar na praia
-do Flamengo, ao fundo de um pequeno jardim,
-casa velha mas solida.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">Sabado.</p>
-
-<p>Hontem encontrei um velho conhecido do corpo
-diplomatico e prometi ir jantar com elle amanh
-em Petropolis. Subo hoje e volto segunda-feira.
-O peor que accordei de mau humor, e antes
-quizera ficar que subir. E dahi pode ser que a
-mudana de ar e de espectaculo altere a disposio
-do meu espirito. A vida, mormente nos velhos,
- um oficio canativo.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">Segunda-Feira.</p>
-
-<p>Desci hoje de Petropolis. Sabado, ao sair a
-barca da Prainha, dei com o desembargador
-Campos a bordo, e foi um bom encontro, porque
-dahi a pouco o meu mau humor cedia, e cheguei
-a Mau j meio curado. Na estao de Petropolis
-estava restabelecido inteiramente.</p>
-
-<p>No me lembra se ja escrevi neste <i>Memorial</i>
-que o Campos foi meu colega de anno em S. Paulo.
-Com o tempo e a ausencia perdemos a intimidade,
-e quando nos vimos outra vez, o anno passado,
-apezar das recordaes escolasticas que surgiram
-entre ns, eramos estranhos. Vimo-nos algumas
-vezes, e passmos uma noite no Flamengo; mas a
-diferena da vida tinha ajudado o tempo e a
-ausencia.</p>
-
-<p>Agora na barca fomos reatando melhor os laos
-antigos. A viagem por mar e por terra, eram de
-sobra para avivar alguma cousa da vida escolar.
-Bastante foi; acabmos lavados da velhice.</p>
-
-<p>Ao subir a serra as nossas impresses divergiram
-um tanto. Campos achava grande prazer na
-viagem que iamos fazendo em trem de ferro. Eu
-confessava-lhe que tivera maior gosto quando
-alli ia em caleas tiradas a burros, umas atraz das
-outras, no pelo vehiculo em si, mas porque ia
-vendo, ao longe, c em baixo, aparecer a pouco e
-pouco o mar e a cidade com tantos aspectos pintorescos.
-O trem leva a gente de corrida, de afogadilho,
-desesperado, at propria estao de Petropolis.
-E mais lembrava as paradas, aqui para
-beber caf, alli para beber agua na fonte celebre,
-e finalmente avistado alto da serra, onde os elegantes
-de Petropolis aguardavam a gente e a acompanhavam
-nos seus carros e cavalos at cidade;
-alguns dos passageiros de baixo passavam alli
-mesmo para os carros onde as familias esperavam
-por elles.</p>
-
-<p>Campos continuou a dizer todo o bem que
-achava no trem de ferro, como prazer e como
-vantagem. S o tempo que a gente poupa! Eu, se
-retorquisse dizendo-lhe bem do tempo que se
-perde, iniciaria uma especie de debate que faria
-a viagem ainda mais sufocada e curta. Preferi trocar
-de assunto e agarrei-me aos derradeiros
-minutos, falei do progresso, elle tambem, e chegamos
-satisfeitos cidade da serra.</p>
-
-<p>Os dous fomos para o mesmo hotel (Bragana).
-Depois de jantar saimos em passeio de digesto,
-ao longo do rio. Ento, a proposito dos tempos
-passados, falei do cazal Aguiar e do conhecimento
-que Rita me disse que elle tinha da vida e da
-mocidade dos dous conjuges. Confessei achar
-nestes um bom exemplo de aconchego e unio.
-Talvez a minha inteno secreta fosse passar dalli
-ao cazamento da propria sobrinha delle, suas
-condies e circumstancias, cousa dificil pela
-curiosidade que podia exprimir, e alis no est
-nos meus habitos, mas elle no me deu azo nem
-tempo. Todo este foi pouco para dizer da gente
-Aguiar. Ouvi com paciencia, porque o assunto
-entrou a interessar-me depois das primeiras palavras,
-e tambem porque o desembargador fala
-mui agradavelmente. Mas agora tarde para
-transcrever o que elle disse; fica para depois,
-um dia, quando houver passado a impresso, e
-s me ficar de memoria o que valer a pena
-guardar.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">4 de Fevereiro.</p>
-
-<p>Eia, resumamos hoje o que ouvi ao desembargador
-em Petropolis cerca do cazal Aguiar. No
-ponho os incidentes, nem as anedotas soltas, e
-at excluo os adjectivos que tinham mais interesse
-na boca delle do que lhes poderia dar a
-minha penna; vo s os precisos comprehenso
-de cousas e pessoas.</p>
-
-<p>A razo que me leva a escrever isto a que
-entende com a situao moral dos dous, e prende
-um tanto com a viuva Fidelia. Quanto vida
-delles eil-a aqui em termos secos, curtos e
-apenas biograficos. Aguiar cazou guarda-livros.
-D. Carmo vivia ento com a me, que era de
-Nova-Friburgo, e o pae, um relojoeiro suisso daquella
-cidade. Cazamento a grado de todos.
-Aguiar continuou guarda-livros, e passou de uma
-caza a outra e mais outra, fez-se socio da ultima,
-at ser gerente de banco, e chegaram velhice
-sem filhos. s isto, nada mais que isto. Viveram
-at hoje sem bulha nem matinada.</p>
-
-<p>Queriam-se, sempre se quizeram muito,
-apezar dos ciumes que tinham um do outro, ou
-por isso mesmo. Desde namorada, ella exerceu
-sobre elle a influencia de todas as namoradas
-deste mundo, e acaso do outro, se as ha to
-longe. Aguiar contra uma vez ao desembargador
-os tempos amargos em que, ajustado o cazamento,
-perdeu o emprego por falencia do patro. Teve
-de procurar outro; a demora no foi grande,
-mas o novo logar no lhe permitiu cazar logo,
-era-lhe preciso assentar a mo, ganhar confiana,
-dar tempo ao tempo. Ora, a alma delle era de
-pedras soltas; a fortaleza da noiva foi o cimento
-e a cal que as uniram naquelles dias de crise.
-Copio esta imagem que ouvi ao Campos, e que
-elle me disse ser do proprio Aguiar. Cal e cimento
-valeram-lhe logo em todos os casos de pedras
-desconjuntadas. Elle via as cousas pelos seus
-proprios olhos, mas se estes eram ruins ou
-doentes, quem lhe dava remedio ao mal fisico ou
-moral era ella.</p>
-
-<p>A pobreza foi o lote dos primeiros tempos de
-cazados. Aguiar dava-se a trabalhos diversos para
-acudir com suprimentos escassez dos vencimentos.
-D. Carmo guiava o servio domestico
-ajudando o pessoal deste e dando aos arranjos
-da casa o conforto que no poderia vir por dinheiro.
-Sabia conservar o bastante e o simples;
-mas to ordenadas as cousas, to completadas
-pelo trabalho das mos da dona que captavam os
-olhos ao marido e s visitas. Todas ellas traziam
-uma alma, e esta era nada menos que a mesma,
-repartida sem quebra e com alinho raro, unindo
-o gracioso ao precizo. Tapetes de meza e de ps,
-cortinas de janelas e outros mais trabalhos que
-vieram com os annos, tudo trazia a marca da sua
-fabrica, a nota intima da sua pessoa. Teria inventado,
-se fosse preciso, a pobreza elegante.</p>
-
-<p>Criaram relaes variadas, modestas como elles
-e de boa camaradagem. Neste capitulo a parte de
-D. Carmo maior que a de Aguiar. J em menina
-era o que foi depois. Havendo estudado em um
-colegio do Engenho Velho, a moa acabou sendo
-considerada a primeira alumna do estabelecimento,
-no s sem desgosto, tacito ou expresso,
-de nenhuma companheira, mas com prazer manifesto
-e grande de todas, recentes ou antigas. A
-cada uma pareceu que se tratava de si mesma.
-Era ento algum prodigio de talento? No, no
-era; tinha a inteligencia fina, superior ao comum
-das outras, mas no tal que as reduzisse a
-nada. Tudo provinha da indole afetuosa daquella
-creatura.</p>
-
-<p>Dava-lhe esta o poder de atrair e conchegar.
-Uma cousa me disse Campos que eu havia observado
-de relance naquella noite das bodas de
-prata, que D. Carmo agrada igualmente a
-velhas e a moas. Ha velhas que no sabem
-fazer-se entender de moas, assim como ha
-moas fechadas s velhas. A senhora de Aguiar
-penetra e se deixa penetrar de todas; assim foi
-joven, assim madura.</p>
-
-<p>Campos no os acompanhou sempre, nem desde
-os primeiros tempos; mas quando entrou a frequental-os,
-viu nella o desenvolvimento da noiva
-e da recem-casada, e comprehendeu a adorao
-do marido. Este era feliz, e para socegar das
-inquietaes e tedios de fra, no achava melhor
-respiro que a conversao da espoza, nem mais
-doce lio que a de seus olhos. Era della a arte
-fina que podia restituil-o ao equilibrio e paz.</p>
-
-<p>Um dia, em casa delles, abrindo urna coleo
-de versos italianos, Campos achou entre as folhas
-um papelinho velho com algumas estrofes escritas.
-Soube que eram do livro, copiadas por
-ella nos dias de noiva, segundo ambos lhe disseram,
-vexados; restituiu o papel pagina, e o
-volume estante. Um e outro gostavam de versos,
-e talvez ella tivesse feito alguns, que deitou
-fra com os ltimos solecismos de familia. Ao
-que parece, traziam ambos em si um germen
-de poesia instintiva, a que faltra expresso
-adequada para sair ca fra.</p>
-
-<p>A ultima reflexo minha, no do desembargador
-Campos, e leva o unico fim de completar
-o retrato deste casal. No que a poesia seja
-necessaria aos costumes, mas pode dar-lhes graa.
-O que eu fiz ento foi perguntar ao desembargador
-se taes creaturas tiveram algum resentimento
-da vida. Respondeu-me que um, um s e
-grande; no tiveram filhos.</p>
-
-<p>&mdash;Mana Rita disse-me isso mesmo.</p>
-
-<p>&mdash;No tiveram filhos, repetiu Campos.</p>
-
-<p>Ambos queriam um filho, um s que fosse,
-ella ainda mais que elle. D. Carmo possuia todas
-as especies de ternura, a conjugal, a filial, a maternal.
-Campos ainda lhe conheceu a me, cujo
-retrato, encaixilhado com o do pae, figurava na
-sala, e falava de ambos com saudades longas e
-suspiradas. No teve irmos, mas a afeio fraternal
-estaria incluida na amical, em que se
-dividia tambem. Quanto aos filhos, se os no teve,
- certo que punha muito de me nos seus carinhos
-de amiga e de esposa. No menos certo
- que para essa especie de orfandade s avessas,
-tem agora um paliativo.</p>
-
-<p>&mdash;D. Fidelia?</p>
-
-<p>&mdash;Sim, Fidelia e teve ainda outro que acabou.</p>
-
-<p>Aqui referiu-me uma historia que apenas levar
-meia duzia de linhas, e no pouco para a
-tarde que vae baixando; digamol-a depressa.</p>
-
-<p>Uma das suas amigas tivera um filho, quando
-D. Carmo ia em vinte e tantos annos. Sucessos
-que o desembargador contou por alto e no valia
-a pena instar por elles, trouxeram a me e o
-filho para a casa Aguiar durante algum tempo. Ao
-cabo da primeira semana tinha o pequeno duas
-mes. A me real precisou ir a Minas, onde estava
-o marido; viagem de poucos dias. D. Carmo
-alcanou que a amiga lhe deixasse o filho e a ama.
-Taes foram os primeiros liames da afeio que
-cresceu com o tempo e o costume. O pae era
-comerciante de caf,&mdash;comissario,&mdash;e andava
-ento a negocios por Minas, a me era filha
-de Taubat, S. Paulo, amiga de viajar a cavalo.
-Quando veiu o tempo de batizar o pequeno,
-Luiza Guimares convidou a amiga para
-madrinha delle. Era justamente o que a outra
-queria; aceitou com alvoroo, o marido com
-prazer, e o batizado se fez como uma festa da familia
-Aguiar.</p>
-
-<p>A meninice de Tristo,&mdash;era o nome de afilhado,&mdash;foi
-dividida entre as duas mes,
-entre as duas cazas. Os annos vieram, o menino
-crescia, as esperanas maternas de D. Carmo
-iam morrendo. Este era o filho abenoado
-que o acaso lhes deparra, disse um dia o marido;
-e a mulher, catolica tambem na linguagem,
-emendou que a Providencia, e toda se entregou
-ao afilhado. A opinio que o desembargador
-achou em algumas pessoas, e creio justa,
-que D. Carmo parecia mais verdadeira me que
-a me de verdade. O menino repartia-se bem com
-ambas, preferindo um pouco mais a me postia.
-A razo podiam ser os carinhos maiores, mais
-continuados, as vontades mais satisfeitas e finalmente
-os doces, que tambem so motivos para
-o infante, como para o adulto. Veiu o tempo da
-escola, e ficando mais perto da caza Aguiar, o
-menino ia jantar alli, e seguia depois para as
-Laranjeiras, onde morava Guimares. Algumas
-vezes a prpria madrinha o levava.</p>
-
-<p>Nas duas ou tres molestias que o pequeno teve,
-a aflio de D. Carmo foi enorme. Uso o proprio
-adjetivo que ouvi ao Campos, com quanto
-me parea enfatico, e eu no amo a enfasis. Confesso
-aqui uma cousa. D. Carmo das poucas
-pessoas a quem nunca ouvi dizer que so doudas
-por morangos, nem que morrem por ouvir
-Mozart. Nella a intensidade parece estar mais
-no sentimento que na expresso. Mas, emfim, o
-desembargador assistiu ultima das molestias do
-menino, que foi em casa da madrinha, e pde
-ver a aflio de D. Carmo, os seus afagos e
-sustos, alguns minutos de desespero e de lagrimas,
-e finalmente a alegria de restabelecimento. A me
-era me, e sentiu de certo, e muito, mas diz elle
-que no tanto; que haver ternuras atadas, ou
-ainda moderadas, que se no mostram inteiramente
-a todos.</p>
-
-<p>Doenas, alegrias, esperanas, todo o repertorio
-daquella primeira quadra da vida de Tristo
-foi visto, ouvido e sentido pelos dous padrinhos,
-e mais pela madrinha, como se fora do seu
-proprio sangue. Era um filho que alli estava, que
-fez dez annos, fez onze, fez doze, crescendo em
-altura e graa. Aos treze annos, sabendo que o pae
-o destinava ao comercio, foi ter com a madrinha
-e confiou-lhe que no tinha gosto para tal
-carreira.</p>
-
-<p>&mdash;Porque, meu filho?</p>
-
-<p>D. Carmo usava este modo de falar, que a
-idade e o parentesco espiritual lhe permitiam,
-sem usurpao de ninguem. Tristo confessou-lhe
-que a sua vocao era outra. Queria ser bacharel
-em direito. A madrinha defendeu a inteno
-do pae, mas com ella Tristo era ainda mais
-voluntarioso que com elle e a me, e teimou em
-estudar direito e ser doutor. Se no havia propriamente
-vocao, era este titulo que o atraa.</p>
-
-<p>&mdash;Quero ser doutor! quero ser doutor!</p>
-
-<p>A madrinha acabou achando que era bom, e
-foi defender a causa do afilhado. O pae deste relutou
-muito. Que havia no comercio que no
-fosse honrado, alm de lucrativo? Demais, elle
-no ia comear sem nada, como sucedia a outros
-e sucedeu ao proprio pae, mas j amparado por
-este. Deu-lhe outras mais razes, que D. Carmo
-ouviu sem negar, alegando sempre que o importante
-era ter gosto, e se o rapaz no tinha
-gosto, melhor era ceder ao que lhe aprazia. Ao
-cabo de alguns dias o pae de Tristo cedeu, e
-D. Carmo quiz ser a primeira que dsse ao rapaz
-a boa nova. Ella propria sentia-se feliz.</p>
-
-<p>Cinco ou seis mezes depois, o pae de Tristo resolveu
-ir com a mulher cumprir uma viagem
-marcada para o anno seguinte,&mdash;visitar a familia
-delle; a me de Guimares estava doente.
-Tristo, que se preparava para os estudos, to
-depressa viu apressar a viagem dos paes, quiz ir
-com elles. Era o gosto da novidade, a curiosidade
-da Europa, algo diverso das ruas do Rio de Janeiro,
-to vistas e to canadas. Pae e me recusaram
-leval-o; elle insistiu. D. Carmo, a quem
-elle recorreu outra vez, recusou-se agora, porque
-seria afastal-o de si, ainda que temporariamente;
-juntou-se aos paes do mocinho para conserval-o
-aqui. Aguiar desta vez tomou parte ativa na luta;
-mas no houve luta que valesse. Tristo queria
-fina fora embarcar para Lisboa.</p>
-
-<p>&mdash;Papae volta daqui a seis mezes; eu volto
-com elle. Que so seis mezes?</p>
-
-<p>&mdash;Mas os estudos? dizia-lhe Aguiar. Voc vae
-perder um anno...</p>
-
-<p>&mdash;Pois que se perca um anno. Que um anno
-que no valha a pena sacrifical-o ao gosto de ir
-ver a Europa?</p>
-
-<p>Aqui D. Carmo teve uma inspirao; prometeu-lhe
-que, to depressa elle se formasse, ella
-iria com elle viajar, no seis mezes, mas um anno
-ou mais; elle teria tempo de ver tudo, o velho e
-o novo, terras, mares, costumes... Estudasse primeiro.
-Tristo no quiz. A viagem se fez, a despeito
-das lagrimas que custou.</p>
-
-<p>No ponho aqui taes lagrimas, nem as promessas
-feitas, as lembranas dadas, os retratos trocados
-entre o afilhado e os padrinhos. Tudo se
-afirmou de parte a parte, mas nem tudo se cumpriu;
-e, se de l vieram cartas, saudades e noticias,
-quem no veiu foi elle. Os paes foram ficando
-muito mais tempo que o marcado, e Tristo comeou
-o curso da Escola Medica de Lisboa. Nem
-comercio nem jurisprudencia.</p>
-
-<p>Aguiar escondeu quanto pde a noticia mulher,
-a ver se tentava alguma cousa que trocasse as
-mos sorte, e restituisse o rapaz ao Brazil; no
-alcanou nada, e elle proprio no podia j disfarar
-a tristeza. Deu a dura novidade mulher,
-sem lhe acrescentar remedio nem consolao;
-ella chorou longamente. Tristo escreveu comunicando
-a mudana de carreira e prometendo vir
-para o Brazil, apenas formado; mas dahi a algum
-tempo eram as cartas que escasseavam e
-acabaram inteiramente, ellas e os retratos, e as
-lembranas; provavelmente no ficaram l saudades.
-Guimares aqui veiu, sosinho, com o
-unico fim de liquidar o negocio, e embarcou
-outra vez para nunca mais.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">5 de Fevereiro.</p>
-
-<p>Relendo o que escrevi hontem, descubro que
-podia ser ainda mais resumido, e principalmente
-no lhe pr tantas lagrimas. No gosto dellas,
-nem sei se as verti algum dia, salvo por mama,
-em menino; mas l vo. Pois vo tambem essas
-que ahi deixei, e mais a figura de Tristo, a que
-cuidei dar meia duzia de linhas e levou a maior
-parte dellas. Nada ha peor que gente vadia,&mdash;ou
-apozentada, que a mesma cousa; o tempo cresce
-e sobra, e se a pessoa pega a escrever, no ha
-papel que baste.</p>
-
-<p>Entretanto, no disse tudo. Verifico que me
-faltou um ponto da narrao do Campos. No
-falei das aes do Banco do Sul, nem das apolices,
-nem das cazas que o Aguiar possue, alem
-dos honorarios de gerente; ter uns duzentos e
-poucos contos. Tal foi a afirmao do Campos,
-beira do rio, em Petropolis. Campos homem
-interessante, posto que sem variedade de espirito;
-no importa, uma vez que sabe despender o que
-tem. Verdade que tal regra levaria a gente a
-aceitar toda casta de insipidos. Elle no destes.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">6 de Fevereiro.</p>
-
-<p>Outra cousa que tambem no escrevi no dia 4,
-mas essa no entrou na narrao do Campos. Foi
-ao despedir-me delle, que l ficou em Petropolis
-tres ou quatro dias. Como eu lhe deixasse recomendaes
-para a sobrinha, ouvi-lhe que me respondeu:</p>
-
-<p>&mdash;Est em casa da gente Aguiar; passou l a
-tarde e a noite de hontem, e conta ficar at que
-eu desa.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">6 de Fevereiro, noite.</p>
-
-<p>Diferena de vocaes: o cazal Aguiar morre
-por filhos, eu nunca pensei nelles, nem lhes sinto
-a falta, apezar de s. Alguns ha que os quizeram,
-que os tiveram e no souberam guardal-os.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">10 de Fevereiro.</p>
-
-<p>Hontem, indo jantar a Andarahy, contei a
-mana Rita o que ouvi ao desembargador.</p>
-
-<p>&mdash;Elle no disse nada da sobrinha?</p>
-
-<p>&mdash;Todo o tempo foi pouco para falar da gente
-Aguiar.</p>
-
-<p>&mdash;Pois eu soube o que me faltava de Fidelia;
-foi a propria D. Carmo que me contou.</p>
-
-<p>&mdash;Se a historia to longa como a della...</p>
-
-<p>&mdash;No, muito mais curta; diz-se em cinco
-minutos.</p>
-
-<p>Tirei o relogio para ver a hora exata, e marcar
-o tempo da narrao. Rita comeou e acabou em
-dez minutos. Justamente o dobro. Mas o assunto
-era curioso, trata-se do cazamento, e a viuva interessa-me.</p>
-
-<p>&mdash;Conheceram-se aqui na Corte, disse Rita; na
-roa nunca se viram. Fidelia passava uns tempos
-em casa do desembargador (a tia ainda era viva),
-e o rapaz. Eduardo, estudava na Escola de Medicina.
-A primeira vez que elle a viu foi das <i>torrinhas</i>
-do Teatro Lirico, onde estava com outros
-estudantes; viu-a frente de um camarote, ao
-p da tia. Tornou a vel-a, foi visto por ella, e acabaram
-namorados um do outro. Quando souberam
-quem eram, j o mal estava feito, mas provavelmente
-o mal se faria, ainda que o soubessem
-desde principio, porque a paixo foi repentina.
-O pae de Fidelia, vindo Corte, teve noticia do
-caso pelo proprio irmo, que cautelosamente lhe
-disse o que desconfiava, e insinuou que era boa
-ocasio de fazerem as pazes as duas familias. O
-baro ficou furioso, pegou da moa e levou-a para
-a fazenda. Voc no imagina o que l se passou.</p>
-
-<p>&mdash;Imagino, imagino.</p>
-
-<p>&mdash;No imagina.</p>
-
-<p>&mdash;Pl-a no tronco?</p>
-
-<p>&mdash;No, protestou Rita; no fez mais que ameaal-a
-com palavras, mas palavras duras, dizendo-lhe
-que a poria fora de casa, se continuasse a
-pensar em tal atrevimento. Fidelia jurou uma e
-muitas vezes que tinha um noivo no corao e cazaria
-com elle, custasse o que custasse. A me
-estava do lado do marido, e opoz-se tambem. Fidelia
-resistiu e recolheu-se ao silencio, passava os
-dias no quarto, chorando. As mucamas viam as
-lagrimas e os sinaes dellas, e desconfiavam de
-amores, at que adivinharam a pessoa, se no foi
-palavra que ouviram aos proprios senhores. Emfim,
-a moa entrou a no querer comer. Vendo
-isto, a me, com receio de algum acesso de molestia,
-comeou a pedir por ella, mas o marido
-declarou que no lhe importava vel-a morta ou
-at douda; antes isso que consentir na mistura do
-seu sangue com o da gente Noronha. A oposio
-da gente Noronha no foi menor. Ao saber da
-paixo do filho pela filha do fazendeiro, o pae de
-Eduardo mandou-lhe dizer que o deixaria na rua,
-se teimasse em semelhante afronta.</p>
-
-<p>&mdash;Como inimigos eram dignos um do outro,
-observei.</p>
-
-<p>&mdash;Eram, concordou Rita. O desembargador
-soube o que se passava e foi fazenda, onde viu
-tudo confirmado, e disse ao irmo que no valia
-opor-se, porque a filha, chegada maioridade,
-podia arrancar-se de caza. Ninguem obrigava a
-humilhar-se deante da gente Noronha, nem a
-fazer as pazes com ella; bastava que os filhos cazassem
-e fossem para onde quizessem. O baro
-recusou a ps juntos, e o desembargador dispunha-se
-a voltar para a Corte, sem continuar a
-comisso que se dera a si mesmo, quando Fidelia
-adoeceu deveras. A doena foi grave, a cura
-dificil pela recusa dos remedios e alimentos...
-Que sorriso esse? No acredita?</p>
-
-<p>&mdash;Acredito, acredito; acho romanesco. Em
-todo caso, essa moa interessa-me. A cura, dizia
-voc, foi dificil?</p>
-
-<p>&mdash;Foi; a me resolveu pedir ao marido que
-cedesse, o marido concedeu finalmente, impondo
-a condio de nunca mais receber a filha nem lhe
-falar; no assistiria ao cazamento, no queria
-saber della. Restabelecida, Fidelia veiu com o tio,
-e no anno seguinte cazou. O pae do noivo tambem
-declarou que os no queria ver.</p>
-
-<p>&mdash;Tanta luta para no serem felizes por muito
-tempo.</p>
-
-<p>&mdash; verdade. A felicidade foi grande mas
-curta. Um dia resolveram ir Europa, e foram, at
-que se deu a morte inesperada do marido, em
-Lisboa, donde Fidelia fez transportar o corpo para
-aqui. Voc l a viu ao p da sepultura; l vae
-muitas vezes. Pois nem assim o pae, que tambem
-j viuvo, nem assim quiz receber a filha.
-Quando veiu Corte a primeira vez, Fidelia foi ter
-com elle, sosinha, depois com o tio; todas as tentativas
-foram inuteis. Nunca mais a viu nem lhe
-falou. Eu, mais ou menos, j contei isto a voc;
-s no conhecia bem as particularidades da resistencia
-na fazenda, mas ahi est. Agora diga se
-ella viuva que se caze.</p>
-
-<p>&mdash;Com qualquer, no; pelo menos, dificil;
-mas, um sujeito fresco,&mdash;continuei enfunando-me
-e rindo.</p>
-
-<p>&mdash;Voc ainda pensa...?</p>
-
-<p>&mdash;Eu, mana? Eu penso no seu jantar, que
-hade estar delicioso. O que me fica da historia
-que essa moa, alm de bonita, teimosa; mas a
-sua sopa vale para mim todas as noes esteticas
-e moraes deste mundo e do outro.</p>
-
-<p>Ao jantar, contei a Rita o que me dissera o
-desembargador sobre haver ido a sobrinha passar
-alguns dias ao Flamengo, e perguntei-lhe se era
-assim a intimidade na casa.</p>
-
-<p>&mdash;Certamente que . J uma vez Fidelia
-adoeceu no Flamengo e l se tratou. Tendo perdido
-a esperana do filho postio, o Tristo, que
-os esqueceu inteiramente, ficaram cada vez mais
-ligados viuva. D. Carmo toda ternura para
-ella. Voc lembra-se das bodas de prata, no?
-Aguiar no lhe chama filha para no parecer que
-usurpa esse titulo ao pae verdadeiro; mas a
-mulher, no tendo ella me, o nome que lhe
-d. Nem Fidelia parece querer outra me.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">11 de Fevereiro.</p>
-
-<p>Antigamente, quando eu era menino, ouvia
-dizer que s creanas s se punham nomes de
-santos ou santas. Mas Fidelia...? No conheo
-santa com tal nome, ou sequer mulher pag.
-Ter sido dado filha do baro, como a frma
-feminina de <i>Fidelio</i>, em homenagem a Beethoven?
-Pode ser; mas eu no sei se elle teria dessas
-inspiraes e reminiscencias artisticas. Verdade
- que o nome da familia, que serve ao titulo
-nobiliario, Santa-Pia, tambem no o acho na lista
-dos canonisados, e a unica pessoa que conheo,
-assim chamada, a de Dante: <i>Ricorditi di me,
-chi son la Pia.</i></p>
-
-<p>Parece que j no queremos Annas nem
-Marias, Catarinas nem Joannas, e vamos entrando
-em outra onomastica, para variar o aspeto
-s pessoas. Tudo sero modas neste mundo,
-excepto as estrelas e eu, que sou o mesmo antigo
-sujeito, salvo o trabalho das notas diplomaticas,
-agora nenhum.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">18 de Fevereiro.</p>
-
-<p>Campos disse-me hoje que o irmo lhe escrevera,
-em segredo, ter ouvido na roa o boato de
-uma lei proxima de abolio. Elle, Campos, no
-cr que este ministerio a faa, e no se espera
-outro.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">24 de Fevereiro.</p>
-
-<p>A data de hoje (revoluo de 1848) lembra-me
-a festa de rapazes que tivemos em S. Paulo, e
-um brinde que eu fiz ao grande Lamartine. Ai,
-viosos tempos! Eu estava no meu primeiro
-anno de direito. Como falasse disso ao desembargador,
-disse-me este:</p>
-
-<p>&mdash;Meu irmo cr que tambem aqui a revoluo
-est proxima, e com ella a Republica.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">2 de Maro.</p>
-
-<p>Venho da casa do Aguiar. L achei Fidelia, um
-primo desta, filho do desembargador, alumno
-da Escola de Marinha (16 annos) e um empregado
-do Banco do Brazil. Passei uma boa hora ou
-mais. A velha esteve encantadora, a moa tambem,
-e a conversao evitou tudo o que pudesse
-lembrar a ambas a respetiva perda, uma do
-esposo, outra do filho postio. Contavam-se historias
-de sociedade, que eu ouvi sorrindo, quando era
-preciso, ou consternado nas ocasies pertinentes.
-Tambem eu contei uma, de sociedade alheia e
-remota, mas o receio de lembrar viuva Noronha
-alguma terra por onde houvesse andado com o
-marido me fez encurtar a narrao e no comear
-segunda. Entretanto, ella referiu duas ou
-tres reminiscencias de viagem, impresses do
-que vira em muzeus da Italia e da Allemanha. Da
-nossa terra dissemos cousas agradaveis e sempre
-de acordo. A mesma torre da matriz da Gloria,
-que alguns defenderam como necessaria, deixou-nos
-a ns, a ella e a mim, concordes no desacordo,
-sem que alis eu combatesse ninguem. O
-cazal Aguiar ouviu-nos sorrindo; o moo da
-Escola de Marinha tentou, em vo, suscitar a
-questo militar.</p>
-
-<p>Com isso e o mais enchemos a noite. Ninguem
-pediu a Fidelia que tocasse, embora me digam
-que admiravel ao piano. Em compensao,
-ouvimos-lhe dizer alguma cousa de mestres e de
-paginas celebres, mas isso mesmo foi breve e
-interrompido, pode ser que lhe lembrasse o
-finado. Sa antes della. Ouvi ao Aguiar que daqui
-a dous mezes, comear as suas reunies semanaes.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">10 de Maro.</p>
-
-<p>Afinal houve sempre mudana de gabinete. O
-conselheiro Joo Alfredo organizou hoje outro.
-Daqui a tres ou quatro dias irei aprezentar as
-minhas felicitaes ao novo ministro dos negocios
-estranjeiros.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">20 do Maro.</p>
-
-<p>Ao desembargador Campos parece que alguma
-cousa se far no sentido da emancipao dos
-escravos,&mdash;um passo adiante, ao menos. Aguiar,
-que estava presente, disse que nada corre na
-praa nem lhe chegou ao Banco do Sul.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">27 de Maro.</p>
-
-<p>Santa-Pia chegou da fazenda, e no foi para a
-casa do irmo; foi para o Hotel da America.
-claro que no quer ver a filha. No ha nada
-mais tenaz que um bom odio. Parece que elle
-veiu por causa do boato que corre na Parahyba
-do Sul acerca da emancipao dos escravos.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">4 de Abril.</p>
-
-<p>Ouvi que o baro caiu doente, e que o irmo
-conseguiu trazel-o para casa. Eis aqui como. No
-lhe pediu logo que viesse; achou meio de lhe
-dizer que Fidelia estava em casa da amiga, donde
-no viria to cedo, e acabou propondo-lhe tratar-se
-em casa delle. Santa-Pia recusou, depois
-aceitou. Tudo isso foi planeado com ella. Fidelia
-est effetivamente no Flamengo com a gente
-Aguiar. Deste modo a caza do Campos ficou livre
-ao pae irritado e enfermo. A opinio do Campos
-e do Aguiar que o fazendeiro, mais tarde ou
-mais cedo, acabar perdoando a filha. Em todo
-caso, no se encontram agora, com pezar della.</p>
-
-<p>Ora, pergunto eu, valia, a pena ter bridado
-com o pae, em troca de um marido que mal
-comeou a lio do amor, logo se apozentou na
-morte? Certo que no. Se eu propuzesse concluir-lhe
-o curso, o pae faria as pazes com ella; ai,
-era preciso no haver esquecido o que aprendi,
-mas esqueci,&mdash;tudo ou quasi tudo. <i>I can not</i> etc.
-(Shelley).</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">7 de Abril.</p>
-
-<p>A distrao faz das suas. Hoje, vindo da cidade
-para caza, passei por esta, e dei commigo no
-largo do Machado, quando o bonde parou. Apeei-me,
-e antes de arrepiar caminho, a p, detive-me
-alguns instantes, e enfiei pelo jardim, em
-direo matriz da Gloria, a olhar para a
-fachada do templo com a torre por cima. Fiz
-isto porque me lembrou a conversao da outra
-noite no Flamengo.</p>
-
-<p>A poucos passos, duas senhoras pareciam fazer
-a mesma cousa. Voltaram-se, eram nada menos
-que Fidelia e D. Carmo; estavam sem chapeo.
-tinham vindo a p de caza. Viram-me, fui ter
-com ellas. Pouco dissmos: noticias do baro,
-que est melhor, e do Aguiar, que est bom, e
-despedimo-nos.</p>
-
-<p>Vim para o lado do Cattete, ellas continuaram
-para o da matriz. A pequena distancia, lembrou-me
-olhar para traz. Poderia fazer outra cousa?
- aqui que eu quizera possuir tudo o que a
-filosofia tem dito e redito do livre arbitrio, afim
-de o negar ainda uma vez, antes de cair onde
-elle perde a mesma aparencia de realidade;
-acabaria esta pagina por outra maneira. Mas no
-posso; digo s que no pude reter a cabea nem
-os olhos, e vi as duas damas, com os braos cingidos
- cintura uma da outra, vagarosas e visivelmente
-queridas.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">8 de Abril.</p>
-
-<p>Papel, amigo papel, no recolhas tudo o que
-escrever esta penna vadia. Querendo servir-me,
-acabars desservindo-me, porque se acontecer
-que eu me v desta vida, sem tempo de te
-reduzir a cinzas, os que me lerem depois da
-missa do setimo dia, ou antes, ou ainda antes do
-enterro, podem cuidar que te confio cuidados de
-amor.</p>
-
-<p>No, papel. Quando sentires que insisto nessa
-nota, esquiva-te da minha meza, e foge. A janela
-aberta te mostrar um pouco de telhado, entre
-a rua e o ceu, e alli ou acol achars descano.
-Commigo, o mais que podes achar esquecimento,
-que muito, mas no tudo; primeiro
-que elle chegue, vir a troa dos malevolos ou
-simplesmente vadios.</p>
-
-<p>Escuta, papel. O que naquella dama Fidelia
-me attrae principalmente certa feio de espirito,
-algo parecida com o sorriso fugitivo, que
-j lhe vi algumas vezes. Quero estudal-a se tiver
-ocasio. Tempo sobra-me, mas tu sabes que
-ainda pouco para mim mesmo, para o meu criado
-Jos, e para ti, se tenho vagar e qu,&mdash;e pouco
-mais.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">10 Abril.</p>
-
-<p>Grande novidade! O motivo da vinda do baro
- consultar o desembargador sobre a alforria
-coletiva e immediata dos escravos de Santa-Pia.
-Acabo de sabel-o, e mais isto, que a principal
-razo da consulta apenas a redao do acto.
-No parecendo ao irmo que este seja acertado,
-perguntou-lhe o que que o impelia a isso, uma
-vez que condenava a ideia atribuida ao governo
-de decretar a abolio, e obteve esta resposta,
-no sei se subtil, se profunda, se ambas as cousas
-ou nada:</p>
-
-<p>&mdash;Quero deixar provado que julgo o acto do
-governo uma expoliao, por intervir no exercicio
-de um direito que s pertence ao proprietario,
-e do qual uso com perda minha, porque
-assim o quero e posso.</p>
-
-<p>Ser a certeza da abolio que impele Santa-Pia
-a praticar esse acto, anterior de algumas
-semanas ou mezes ao outro? A alguem que lhe
-fez tal pergunta respondeu Campos que no.
-No, disse elle, meu irmo cr na tentativa
-do governo, mas no no resultado, a no ser o
-desmantelo que vae lanar s fazendas. O acto
-que elle resolveu fazer exprime apenas a sinceridade
-das suas convices e o seu genio violento.
-Elle capaz de propor a todos os senhores a alforria
-dos escravos j, e no dia seguinte propor
-a queda do governo que tentar fazel-o por lei.</p>
-
-<p>Campos teve uma ideia. Lembrou ao irmo que,
-com a alforria immediata, elle prejudica a filha,
-herdeira sua. Santa-Pia franziu o sobrolho. No
-era a ideia de negar o direito eventual da filha aos
-escravos; podia ser o desgosto de ver que, ainda
-em tal situao, e com todo o poder que tinha de
-dispor dos seus bens, vinha Fidelia perturbar-lhe
-a ao. Depois de alguns instantes respirou largo,
-e respondeu que, antes de morto, o que era seu
-era somente seu. No podendo dissuadil-o, o desembargador
-cedeu ao pedido do irmo, e redigiram
-ambos a carta de alforria.</p>
-
-<p>Retendo o papel, Santa-Pia disse:</p>
-
-<p>&mdash;Estou certo que poucos delles deixaro a
-fazenda; a maior parte ficar commigo, ganhando
-o salario que lhes vou marcar, e alguns at sem
-nada,&mdash;pelo gosto de morrer onde nasceram.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">11 de Abril.</p>
-
-<p>Fidelia, quando soube do acto do pae, teve
-vontade de ir ter com elle, no para invetival-o,
-mas para abraal-o; no lhe importam perdas futuras.
-O tio que a dissuadiu dizendo-lhe que o
-baro ainda est muito zangado com ella.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">12 de Abril.</p>
-
-<p>Santa-Pia no feio velho, nem muito velho;
-ter menos idade que eu. Arqueja um pouco, s
-vezes, mas pode ser da bronquite. meio calvo,
-largo de espaduas, as mos asperas, cheio de
-corpo.</p>
-
-<p>Conhecemo-nos um ao outro, eu primeiro
-que elle, talvez porque a Europa me haja mudado
-mais. Elle lembra-se do tempo em que eu,
-colega do irmo, jantei com elle aqui na Corte.
-J o irmo lhe havia falado de mim, recordando
-as relaes antigas. Disse-me que daqui a tres dias
-volta para a fazenda, onde me dar hospedagem,
-se quizer honral-o com a minha pessoa. Agradeci
-e prometi, sem prazo nem ideia da l ir. Custa
-muito sair do Cattete. J demais Petropolis.</p>
-
-<p>Est claro que lhe no falei da filha, mas confesso
-que se pudesse diria mal della, com o fim
-secreto de acender mais o odio&mdash;e tornar impossivel
-a reconciliao. Deste modo ella no iria
-daqui para a fazenda, e eu no perderia o meu
-objeto de estudo. Isto, sim, papel amigo, isto
-podes aceitar, porque a verdade intima e pura
-e ninguem nos l. Se alguem lesse achar-me-a
-mau, e no se perde nada em parecer mau;
-ganha-se quasi tanto como em sel-o.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">13 de Abril.</p>
-
-<p>Hontem com o pae, hoje com a filha. Com esta
-tive vontade de dizer mal do pae, tanto foi o bem
-que ella disse delle, a proposito da alforria dos
-escravos. Vontade sem ao, veleidade pura; antes
-me vi obrigado a louval-o tambem, o que lhe
-deu azo a estender o panegirico. Disse-me que
-elle bom senhor, elles bons escravos, contou-me
-anedotas de seu tempo de menina e moa, com
-tal desinteresse e calor que me deu vontade de
-lhe pegar na mo, e, em sinal de aplauso, beijar-lha.
-Vontade sem ao. Tudo sem ao esta
-tarde.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">19 de Abril.</p>
-
-<p>L se foi o baro com a alforria dos escravos
-na mala. Talvez tenha ouvido alguma cousa da
-resoluo do governo; dizem que, abertas as
-camaras, aparecer um projeto de lei. Venha,
-que tempo. Ainda me lembra do que lia l fra,
-a nosso respeito, por ocasio da famosa proclamao
-de Lincoln: Eu, Abraho Lincoln, presidente
-dos Estados-Unidos da America... Mais
-de um jornal fez aluso nominal ao Brazil, dizendo
-que restava agora que um povo christo e
-ultimo imitasse aquelle e acabasse tambem com
-os seus escravos. Espero que hoje nos louvem.
-Ainda que tardiamente, a liberdade, como queriam
-a sua os conjurados de Tiradentes.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">7 de maio.</p>
-
-<p>O ministrio apresentou hoje camara o projeto
-de abolio. a abolio pura e simples.
-Dizem que em poucos dias ser lei.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">13 de Maio.</p>
-
-<p>Emfim, lei. Nunca fui, nem o cargo me consentia
-ser propagandista da abolio, mas confesso
-que senti grande prazer quando soube da votao
-final do senado e da sano da Regente. Estava
-na rua do Ouvidor, onde a agitao era grande e
-a alegria geral.</p>
-
-<p>Um conhecido meu, homem de imprensa,
-achando-me a li offereceu-me logar no seu carro,
-que estava na rua Nova, e ia enfileirar no cortejo
-organisado para rodear o pao da cidade, e fazer
-ovao Regente. Estive quasi, quasi a aceitar,
-tal era o meu atordoamento, mas os meus habitos
-quietos, os costumes diplomaticos, a propria
-indole e a idade me retiveram melhor que as
-redeas do cocheiro aos cavalos do carro, e recusei.
-Recusei com pena. Deixei-os ir, a elle e
-aos outros, que se ajuntaram e partiram da rua
-Primeiro de Maro. Disseram-me depois que os
-manifestantes erguiam-se nos carros, que iam
-abertos, e faziam grandes aclamaes, em frente
-ao pao, onde estavam tambem todos os ministros.
-Se eu l fosse, provavelmente faria o mesmo
-e ainda agora no me teria entendido... No, no
-faria nada; meteria a cara entre os joelhos.</p>
-
-<p>Ainda bem que acabmos com isto. Era tempo.
-Embora queimemos todas as leis, decretos e
-avisos, no poderemos acabar com os actos particulares,
-escrituras e inventarios, nem apagar a
-instituio da historia, ou at da poesia. A poesia
-falar della, particularmente naquelles versos de
-Heine, em que o nosso nome est perpetuo.
-Nelles conta o capito do navio negreiro haver
-deixado trezentos negros no Rio de Janeiro, onde
-a casa Gonalves Pereira lhe pagou cem ducados
-por pea. No importa que o poeta corrompa
-o nome do comprador e lhe chame Gonzales
-Perreiro; foi a rima ou a sua m pronuncia
-que o levou a isso. Tambem no temos ducados,
-mas ahi foi o vendedor que trocou na sua lingua
-o dinheiro do comprador.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">14 de Maio, <i>meia noite.</i></p>
-
-<p>No ha alegria publica que valha uma boa alegria
-particular. Sa agora do Flamengo, fazendo
-esta reflexo, e vim escrevel-a, e mais o que lhe
-deu origem.</p>
-
-<p>Era a primeira reunio do Aguiar; havia alguma
-gente e bastante animao. Rita no foi;
-fica-lhe longe e no d para isto, mandou-me
-dizer. A alegria dos donos da casa era viva, a tal
-ponto que no a atribui somente ao facto dos
-amigos juntos, mas tambem ao grande acontecimento
-do dia. Assim o disse por esta unica palavra,
-que me pareceu expressiva, dita a brazileiros:</p>
-
-<p>&mdash;Felicito-os.</p>
-
-<p>&mdash;J sabia? perguntaram ambos.</p>
-
-<p>No entendi, no achei que responder. Que
-era que eu podia saber j, para os felicitar, se
-no era o facto publico? Chamei o melhor dos
-meus sorrisos de acordo e complacencia, elle
-veiu, espraiou-se, e esperei. Velho e velha disseram-me
-ento rapidamente, dividindo as frases,
-que a carta viera dar-lhes grande prazer. No
-sabendo que carta era nem de que pessoa, limitei-me
-a concordar:</p>
-
-<p>&mdash;Naturalmente.</p>
-
-<p>&mdash;Tristo est em Lisboa, concluiu Aguiar,
-tendo voltado ha pouco da Italia; est bem,
-muito bem.</p>
-
-<p>Comprehendi. Eis ahi como, no meio do prazer
-geral, pode aparecer um particular, e dominal-o.
-No me enfadei com isso; ao contrario, achei-lhes
-razo, e gostei de os ver sinceros. Por fim,
-estimei que a carta do filho postio viesse aps
-annos de silencio pagar-lhes a tristeza que c
-deixou. Era devida a carta; como a liberdade dos
-escravos, ainda que tardia, chegava bem. Novamente
-os felicitei, com ar de quem sabia tudo.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">16 de Maio.</p>
-
-<p>Fidelia voltou para casa, levando e deixando
-saudades. Os tres esto muito amigos, e os dous
-parecem paes de verdade; ella tambem parece
-filha verdadeira. O desembargador, que me contou
-isto, referiu-me algumas palavras da sobrinha
-cerca da gente Aguiar, principalmente da velha,
-e acrescentou:</p>
-
-<p>&mdash;No dessas afeies chamadas fogo de
-palha; nella, como nelles, tudo tem sido lento e
-radicado. So capazes de me roubarem a sobrinha,
-e ella de se deixar roubar por elles.
-Tambem se no forem elles, ser o pae. Creio que
-meu irmo j vae amansando. A ultima vez que
-me escreveu, depois de falar muito mal do imperador
-e da princeza, no lhe esqueceu dizer que
-agradecia as lembranas mandadas. Fidelia
-no lhe mandra lembranas, estava ainda no
-Flamengo; eu que as inventei na minha carta
-para ver o efeito que produziriam nelle. Hade
-amansar; isto de filhos, conselheiro, no imagina,
- o diabo; eu, se perdesse o meu Carlos,
-creio que me ia logo desta vida.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">17 de Maio.</p>
-
-<p>Vou ficar em casa uns quatro ou cinco dias,
-no para descanar, porque eu no fao nada,
-mas para no ver nem ouvir ninguem, a no ser
-o meu creado Jos. Este mesmo, se cumprir,
-mandal-o-hei Tijuca, a ver se eu l estou. J
-acho mais quem me aborrea do que quem me
-agrade, e creio que esta proporo no obra dos
-outros, e s minha exclusivamente. Velhice esfalfa.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">18 de Maio.</p>
-
-<p>Rita escreveu-me pedindo informaes de um
-leiloeiro. Parece-me caoada. Que sei eu de leiloeiros
-nem de leiles? Quando eu morrer podem
-vender em particular o pouco que deixo, com
-abatimento ou sem elle, e a minha pelle com o
-resto; no nova, no bella, no fina, mas
-sempre dar para algum tambor ou pandeiro
-rustico. No preciso chamar um leiloeiro.</p>
-
-<p>Vou responder isto mesmo mana Rita, acrescentando
-algumas noticias que trouxe da rua,&mdash;a carta
-do Tristo, por exemplo, os agradecimentos
-do baro filha, e esta grande peta: que
-a viuva resolveu casar commigo... Mas no; se
-lhe digo isto, ella no me cr, ri, e vem c logo.
-Justamente o que eu no desejo. Preciso de me
-lavar da companhia dos outros, ainda mesmo della,
-apezar de gostar della. Mando-lhe s dizer que o
-leiloeiro morreu; provavelmente ainda vive, mas
-hade morrer algum dia.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">21 de Maio.</p>
-
-<p>Hontem escrevi mana Rita anunciando-lhe a
-morte do homem, e hoje de manh abrindo os
-jornaes, dei com a noticia de haver falecido hontem
-o leiloeiro Fernandes. Chamava-se Fernandes.
-Sucumbiu a no sei que molestia grega ou latina.
-Parece que era bom chefe de familia, honrado e
-laborioso, e excelente cidado; a <i>Vida Nova</i>
-chama-lhe grande, mas talvez elle votasse com os
-liberaes.</p>
-
-<p>Mana Rita, j pela minha carta, j pelas noticias
-de hoje, correu a ter commigo. Senhoras
-no deviam escrever cartas; raras dizem tudo e
-claro; muitas tem a linguagem escassa ou escura.
-Rita pedira-me noticias do leiloeiro, por lhe dizerem
-que elle morava no Cattete, e adoecera gravemente
-ha dias. Como era meu visinho, podia
-ser que eu soubesse delle: foi o motivo da pergunta,
-mas esqueceu dizel-o.</p>
-
-<p>Hesitei entre confessar a minha inveno ou
-deixal-a encoberta pela coincidencia, mas foi s
-um minuto, nem isso, foi um instante. Rita
-minha irm, no me ficaria querendo mal e acabaria
-rindo tambem. Ouviu a minha verdade, sem
-zanga, mas tambem sem riso. A razo disto um
-pormenor, que no vale a pena dizer miudamente
-e s o bastante para explicar a carta e a
-seriedade. Trata-se de contas entre ella e o finado,
-objetos que ella mandou vender, e no sabe se
-elle vendeu ou no, nem como havel-os ou o
-dinheiro; bastar ir ao armazem. Hade haver
-escriturao donde conste tudo; prometi acompanhal-a
-amanh. Ficou satisfeita, comeou ento
-a sorrir, depois disse-me os objetos que eram,
-quadros velhos, romances lidos.</p>
-
-<p>Jantou commigo. Antes de irmos para a meza,
-vimos passar o enterro do Fernandes. Teve a
-pachorra de contar os carros; ai de mim, tambem
-eu os contava em pequeno; ella que parece no
-haver perdido esse costume estatistico. O Fernandes
-levava trinta e sete ou trinta e oito carros.</p>
-
-<p>Deixo aqui esta pagina com o fim unico de me
-lembrar que o acaso tambem corregedor de
-mentiras. Um homem que comea mentindo disfarada
-ou descaradamente acaba muita vez exato
-e sincero.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">22 de Maio.</p>
-
-<p>Em caminho, mana Rita contou-me o que j
-sabe da carta de Tristo e da resposta que D. Carmo
-lhe mandou. Sabe mais que eu. D. Carmo leu-lhe
-as duas cartas. Tristo pede mil desculpas do
-longo silencio de annos e lana-o conta de tarefas
-e distraes. Ultimamente, j formado em
-medicina, foi em viagem a varias terras, onde
-viu e estudou muito. No podendo escrever as
-viagens, contar-lh'as-ha um dia, se c vier. Pede
-noticias della e do padrinho, pede-lhes os retratos,
-e manda-lhes pelo correio umas gravuras; assim
-tambem lembranas do pae e da me que esto
-em Lisboa. A carta longa, cheia de ternuras e
-saudades. A resposta, disse-me mana Rita que
-em tom verdadeiramente maternal. No sabe
-mostrar-se magoada; toda perdo e carinho. S
-lhe faz uma queixa; que, pedindo os retratos
-della e do marido, no lhe mandasse logo o seu,
-o ultimo dos seus, porque os antigos c esto.
-Diz muitas cousas longas, lembra os tempos de
-infancia e de estudo, e no fim insinua-lhe que
-venha contar-lhe as viagens. As gravuras so da
-casa Goupil.</p>
-
-<p>Rita esteve com ella no dia 15, entre uma e
-duas horas da tarde, depois que a viuva saiu de
-l para a casa do tio desembargador. Apezar da
-separao desta e suas saudades, sentia-se alegre
-com a afeio que cresce entre ambas, e igualmente
-alegre com a resurreio do afilhado. Chama-lhe
-resurreio por imaginar que o moo
-inteiramente os esquecera. Via agora que no, e
-parecia-lhe a mesma alma daqui sada. Falando
-ou calando, tinha intervalos de melancolia, e, de
-uma vez, acha mana Rita que lhe viu apontar
-uma lagrima, uma pequenina lagrima de nada...</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">23 de Maio.</p>
-
-<p><i>Les morts vont vite.</i> To depressa enterrei o
-leiloeiro como o esqueci. Assim foi que escrevendo
-o dia de hontem, deixei de dizer que no armazem
-do Fernandes achmos todos os objetos de mana
-Rita notados e vendidos, e o dinheiro espera da
-dona. Pouco ; recebel-o-ha oportunamente.
-Talvez no houvesse necessidade de escrever isto;
-fica servindo reputao do finado.</p>
-
-<p>Outra cousa que me ia esquecendo tambem, e
-mais principal, porque o oficio dos leiles pode
-acabar algum dia, mas o de amar no cana nem
-morre. A culpa foi de mana Rita que, em vez de
-comear por ahi, s me deu a noticia no largo de
-S. Francisco, indo a entrar no bonde. Parece que
-Fidelia mordeu uma pessoa; foram as proprias
-palavras della.</p>
-
-<p>&mdash;Mordeu? perguntei sem entender logo.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, ha alguem que anda mordido por ella.</p>
-
-<p>&mdash;Isso hade haver muitos, retorqui.</p>
-
-<p>No teve tempo de me dizer nada, trepra ao
-bonde e o bonde ia sair; apertou-me a mo sorrindo,
-e disse adeus com os dedos.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">24 de Maio, ao meio dia.</p>
-
-<p>Esta manh, como eu pensasse na pessoa que
-ter sido mordida pela viuva, veiu a propria viuva
-ter commigo, consultar-me se devia cural-a ou
-no. Achei-a na sala com o seu vestido preto do
-costume e enfeites brancos, fil-a sentar no canap,
-sentei-me na cadeira ao lado e esperei que falasse.</p>
-
-<p>&mdash;Conselheiro, disse ella entre graciosa e sria,
-que acha que faa? Que caze ou fique viuva?</p>
-
-<p>&mdash;Nem uma cousa nem outra.</p>
-
-<p>&mdash;No zombe, conselheiro.</p>
-
-<p>&mdash;No zombo, minha senhora. Viuva no lhe
-convem, assim to verde; cazada, sim, mas com
-quem, a no ser commigo?</p>
-
-<p>&mdash;Tinha justamente pensado no senhor.</p>
-
-<p>Peguei-lhe nas mos, e enfiamos os olhos um
-no outro, os meus a tal ponto que lhe rasgaram
-a testa, a nuca, o dorso do canap, a parede e foram
-pousar no rosto do meu criado, unica pessoa
-existente no quarto, onde eu estava na cama. Na
-rua apregoava a voz de quasi todas as manhs:
-Vae... vassouras! vae espanadores!</p>
-
-<p>Comprehendi que era sonho e achei-lhe graa.
-Os preges foram andando, emquanto o meu Jos
-pedia desculpa de haver entrado, mas eram nove
-horas passadas, perto de dez. Fui s minhas ablues,
-ao meu caf, aos meus jornaes. Alguns destes
-celebram o anniversario da batalha de Tuyuty.
-Isto me lembra que, em plena diplomacia, quando
-l chegou a noticia daquella victoria nossa, tive
-de dar esclarecimentos a alguns jornalistas estranjeiros
-sequiosos de verdade. Vinte annos
-mais, no estarei aqui para repetir esta lembrana;
-outros vinte, e no haver sobrevivente dos jornalistas
-nem dos diplomatas, ou raro, muito raro;
-ainda vinte, e ninguem. E a terra continuar a
-girar em volta do sol com a mesma fidelidade s
-leis que os regem, e a batalha de Tuyuty, como
-a das Thermopylas, como a de Iena, bradar do
-fundo do abismo aquella palavra da prece de
-Renan: abismo! tu s o deus unico!</p>
-
-<p>Ahi fica um desconcerto acabando em desconsolo,&mdash;tudo
-para annotar pouco mais que nada.
-Posso dizer com D. Francisco Manuel: Eu de
-meu natural sou miudo e prolixo; o estar s e a
-melancolia, que de si cuidadosa... Ahi deixo
-uma pagina feita de duas, ambas contrarias e
-filhas da mesma alma de sexagenario desenganado
-e guloso. Ao cabo, nem to guloso nem to desenganado.
-Conversaes do papel e para o papel.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">26 de Maio.</p>
-
-<p>Aqui ficam os sinaes do sujeito mordido pela
-viuva Noronha. Vinte e oito annos, solteiro, advogado
-do Banco do Sul, donde lhe vieram as relaes
-com o gerente Aguiar; boa feio, boas
-maneiras, acaso timido. filho de um antigo
-lavrador do Norte, que rezide agora no Recife.
-Dizem que tem muito talento e grande futuro.
-Chama-se Osorio.</p>
-
-<p>Esteve no Flamengo, na noite de 14, primeira
-reunio do Aguiar. No vi nada que fizesse suspeitar
-a inclinao que se lhe atribue, mas parece
-que j ento lhe queria, e a paixo crescente.
-Continua a vel-a em casa do desembargador,
-onde a conheceu. Quem sabe se no sae
-dalli um noivo, e mana Rita perde a aposta que
-fez commigo? Fidelia pode muito bem casar sem
-esquecer o primeiro marido, nem desmentir a
-afeio que lhe teve.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">29 de Maio.</p>
-
-<p>Hontem, na reunio do Aguiar, pude verificar
-que o joven advogado est mordido pela viuva.
-No tem outra explicao os olhos que lhe deita;
-so daquelles que nunca mais acabam. Realmente,
- timido, mas de uma timidez que se confunde
-com respeito e adorao. Se houvesse
-dana, elle apenas lhe pediria uma quadrilha;
-duvido que a convidasse a valsar. Conversaram
-alguns minutos largos, e por duas vezes, e ainda
-assim foi ella que principalmente falou. Osorio
-gastou o mais do tempo em miral-a, e fazia bem,
-porque o gesto da dama era cheio de graa, sem
-perder a tristeza do estado.</p>
-
-<p>Tambem eu lhe falei o meu pouco, janella.
-Ambos eramos de acordo que no ha bahia no
-mundo que vena a do nosso Rio de Janeiro.</p>
-
-<p>&mdash;No vi muitas, disse ella, mas nenhuma
-achei que se aproxime desta.</p>
-
-<p>Sobre isto dissemos cousas interessantes,&mdash;ella,
-ao menos,&mdash;mas estou que tambem eu.
-Quiz perguntar-lhe se nos mares que percorreu
-viu algum peixe semelhante quelle que anda
-agora em volta della, mas no ha intimidade para
-tanto, e a cortezia opunha-se. Conversmos da
-cidade e suas diverses. No vae a teatro, qualquer
-que seja, nada sabe de dramas nem de operas;
-no insisti no assunto. Apenas me servi
-da segunda parte, a parte lirica, para lhe falar
-dos seus talentos de pianista, que ouvira gabar
-muito.</p>
-
-<p>&mdash;So impresses de amigos, respondeu sorrindo.</p>
-
-<p>Depois confessou-me que ha muito no toca, e
-provavelmente esquecer o que sabe. Talvez no
-fosse sincera nesta conjetura, mas tudo se hade
-perdoar ao oficio da modestia, e ella parece modesta.
-Guiei a conversao de modo que mais ouvisse
-que falasse, e Fidelia no se recusou a essa
-distribuio de papeis. Disse pouco de si e muito
-da gente Aguiar. Neste ponto falou com algum
-calor; no me deu cousas novas, mas o que sentia
-dos dous foi expresso com alma. Contou-me
-at que entre D. Carmo e a me della achava semelhanas
-que lhe faziam lembrar alguma vez a
-finada,&mdash;ou seria simplesmente a afeio que
-aquella lhe tem. Emfim, separmo-nos quasi
-amigos.</p>
-
-<p>No repeti gente Aguiar o que a seu respeito
-ouvi viuva Noronha; falei a D. Carmo nos talentos
-musicaes da moa, e ella me confirmou
-que a viuva est disposta a no tocar mais. Se no
-fosse isso, pedia-lhe que nos desse alguma cousa.
-Ao que eu respondi:</p>
-
-<p>&mdash;A propria arte a convidar um dia a tocar
-em casa, a ss comsigo...</p>
-
-<p>&mdash;Pde ser; em todo caso, no a convidarei a
-tocar aqui; o aplauso podia avivar-lhe a saudade&mdash;ou,
-se a distraisse della, viria diminuir-lhe
-o gosto de sofrer pelo marido. No lhe parece
-que ella um anjo?</p>
-
-<p>Achei que sim; acharia mais, se me fosse perguntado.
-D. Carmo cr na reconciliao della
-com o pae, e nem por isso receia perdel-a. Fidelia
-saber ser duas vezes filha, o resumo do
-que lhe ouvi, sem entrar em pormenores nem na
-especie de afeio que lhe tem. Do que ella me
-disse cerca do gosto de sofrer pelo marido,
-concluo que a senhora do Aguiar daquellas
-pessoas para quem a dor cousa divina.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">Fim de Maio.</p>
-
-<p>Acaba hoje o mez. Maio tambem cantado na
-nossa poesia como o mez das flores,&mdash;e alis
-todo o anno se pode dizer dellas. A mim custou-me
-bastante aceitar aquellas passagens de estao
-que achei em terras alheias.</p>
-
-<p>A viuva Noronha, ao contrario, pelo que me
-disse na ultima noite do Flamengo, achou deliciosa
-essa impresso l fora, apezar de nascida
-aqui e criada na roa. Ha pessoas que parecem
-nascer errado, em clima diverso ou contrario ao
-de que precisam; se lhes acontece sair de um
-para outro como se fossem restituidas ao proprio.
-No sero communs taes organismos, mas
-eu no escrevi que Fidelia seja commum.</p>
-
-<p>A descrio que ella me fez da impresso
-que teve l fora com a entrada da primavera foi
-animada e interessante, no menos que a do inverno
-com os seus gelos. A mim mesmo perguntei
-se ella no estaria destinada a passar dos gelos
-s flores pela ao daquelle bacharel Osorio...
-Ponho aqui a reticencia que deixei ento no meu
-espirito.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">9 de Junho.</p>
-
-<p>Este mez a primeira linha que escrevo aqui.
-No tem sido falta de materia, ao contrario; falta
-de tempo tambem no; falta de disposio possivel.
-Agora volta.</p>
-
-<p>A materia sobra. Antes de mais nada, Osorio
-recebeu carta do pae, pedindo-lhe que o fosse ver
-sem demora; est doente e mal. Osorio preparou-se
-e embarcou para o Recife. No o fez logo,
-logo; parece que a imagem de Fidelia o prendeu
-uns tres dias, ou porque se no pudesse separar
-della, ou por temor de a perder s mos de terceiro;
-ambas as causas seriam.</p>
-
-<p>Os paes fazem muito mal em adoecer, mormente
-se esto no Recife, ou em qualquer cidade
-que no seja aquella onde os filhos namorados
-vivem perto das suas damas. A vida um direito,
-a mocidade outro; perturbal-os quasi um
-crime. Se eu tenho podido dizer isto ao Osorio,
-talvez elle no partisse; acharia na minha reflexo
-um eco do proprio sentimento, e escreveria ao
-pae uma carta cheia de piedade; mas ninguem
-lhe disse nada.</p>
-
-<p>Haveria tambem outro recurso, que conciliaria
-a piedade e o amor, era escrever a Fidelia dizendo-lhe
-que embarcava e pedindo-lhe alguns
-minutos de ateno. A carta, se levasse um ar
-petulante, aguaria naturalmente a curiosidade
-da viuva, e a entrevista se realizaria em presena
-ou na ausencia do desembargador; indiferente.
-Talvez elle preferisse sair da sala.</p>
-
-<p>&mdash;Titio pode ficar, diria ella ao receber o
-carto de Osorio.</p>
-
-<p>&mdash;No, melhor sair. Provavelmente algum
-caso de advocacia, continuaria elle sorrindo,
-e eu sou magistrado, no devo ouvir nada por
-ora; mais tarde terei de ser juiz.</p>
-
-<p>Osorio entraria, e depois de alguns comprimentos,
-pediria a mo da viuva. Suponhamos
-que ella recusasse, fal-o-hia com palavras polidas
-e quasi afetuosas, dizendo que sentia muito,
-mas resolvera no cazar mais. Pausa longa; o
-resto adivinha-se. Osorio talvez lhe perguntasse
-ainda se a resoluo era definitiva, ao que ella,
-para evitar mais dialogo, responderia com a cabea
-que era, e elle iria embora. Fidelia correria
-a contar a novidade ao tio. Quero crer que este
-defendesse a candidatura do advogado, e dissesse
-das boas qualidades delle, da carreira prospera,
-da familia distinta e o resto; Fidelia no se arrependeria
-da recusa.</p>
-
-<p>&mdash;Resolvi no cazar, diria pela terceira vez
-naquella tarde.</p>
-
-<p>Tres vezes negou Pedro a Christo, antes de
-cantar o galo. Aqui no haveria galo nem canto,
-mas jantar, e os dous iriam pouco depois para a
-meza. No diriam nada durante os primeiros minutos,
-elle pensando que teria sido vantajoso
-sobrinha cazar com o rapaz, ella remoendo a
-impresso do amor que este lhe tinha. Por muito
-que se recuse deixa sempre algum gosto a paixo
-que a gente inspira. Ouvi isto a uma senhora,
-no me lembra em que lingua, mas o sentido era
-este. E Fidelia deixaria a meza sem chorar, como
-Pedro chorou depois do galo.</p>
-
-<p>Tudo imaginaes minhas. A realidade unica
-que Osorio embarcou e l vae, e a viuva c fica
-sem perder as graas, que cada vez me parecem
-maiores. Estive com ella hoje, e se no a arrebatei
-commigo no foi por falta de braos nem de
-impulsos. Quiz perguntar-lhe se no sonhara com
-o pretendente despedido, mas a confiana que
-comeo a merecer-lhe no permitte taes inquiries,
-nem ella contaria nada de si mesma. Contou-me,
-sim, que as pazes com o pae estaro concluidas
-daqui a pouco, ainda que lhe seja preciso
-ir fazenda. Naturalmente aprovei este passo.
-Fidelia disse-me que o pae j na ultima carta ao
-irmo lhe mandou lembranas, no nominalmente,
-mas por esta forma coletiva: lembranas
-a todos.</p>
-
-<p>&mdash;Hade custar-lhe a dar o primeiro passo,
-mas a mim no me importa fazei-o, concluiu
-ella.</p>
-
-<p>&mdash;Naturalmente.</p>
-
-<p>&mdash;A separao que se deu entre ns era impossivel
-impedil-a. Conselheiro, o senhor que
-viveu l fra a maior parte da vida no calcula o
-que so aqui esses odios politicos locaes. Papae
-o melhor dos homens, mas no perdoa a adversario.
-Hoje creio que est tudo acabado; a abolio
-fel-o desgostoso da vida politica. J mandou dizer
-aos chefes conservadores daqui que no contem
-mais com elle para nada. Foram os odios locaes-
-que trouxeram a nossa separao, mas pde crer
-que elle padeceu tanto como eu e meu marido.</p>
-
-<p>Confiou-me, em prova do padecimento de
-ambos, varias reminiscencias da vida conjugal,
-que eu ouvi com grande interesse. No as escrevo
-para no acumular noticias, v s uma.</p>
-
-<p>Um anno depois do cazamento, pouco mais,
-tiveram elles a ideia de propor aos paes a reconciliao
-das familias. Primeiro escreveria o marido
-ao pae delle; se este aceitasse de boa feio,
-escreveria ella ao seu, e esperariam ambos a segunda
-resposta. A carta do marido dizia as suas
-felicidades e esperanas, e concluia pedindo a
-beno, ou, quando menos, que lhe retirasse a
-maldio. Era longa, terna e amiga.</p>
-
-<p>&mdash;Meu marido nunca me mostrou a resposta
-do pae, concluiu Fidelia, ao contrario, disse-me
-que no recebera nenhuma. Eu que a achei
-depois de viuva, seis ou oito mezes depois, entre
-papeis delle, e comprehendi porque a escondera
-de mim...</p>
-
-<p>Parou aqui. Tive curiosidade de saber o que
-era, e, evocando a musa diplomatica, lembrou-me
-induzil-a confisso ou retificao, dizendo
-minha recente amiga:</p>
-
-<p>&mdash;Dissesse o que fosse a seu respeito ou de seu
-pae, era natural da parte de um inimigo...</p>
-
-<p>&mdash;No, no, acudia Fidelia; no teve nenhuma
-palavra de odio. No gosto de repetir o que foi,
-uma simples linha ou linha e meia, assim: Recebi
-a tua carta, mas no recebi o teu remedio
-para o meu reumatismo. S isto. Elle era
-reumatico, e meu marido, como sabe, era
-medico.</p>
-
-<p>Ri commigo. No esperava tal remoque da Parahyba
-do Sul, e comprehendi tambem a reserva do
-marido. No comprehendi menos a confidencia
-da viuva; cedia, alem do mais, necessidade de
-contar alguma cousa que distribuisse ao sogro
-parte grande na culpa que cabia ao pae. No
-podia tolher que falasse em si o sangue do fazendeiro.
-Tudo era Santa-Pia.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">14 de Junho.</p>
-
-<p>Ms noticias de Santa-Pia. O baro teve uma
-congesto cerebral; Fidelia e o tio vo para a
-fazenda amanh. No facil adivinhar o que vae
-sair daqui, mais no seria dificil compor uma
-inveno, que no acontecesse. Enchia-se o papel
-com ella, e consolava-se a gente com o imaginado.
-Melhor dizer que a reconciliao parece
-fazer-se mais depressa do que esperavam, e
-tristemente.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">15 de Junho.</p>
-
-<p>Ha na vida simetrias inesperadas. A molestia
-do pae de Osorio chamou o filho ao Recife, a do
-pae de Fidelia chama a filha Parahyba do Sul.
-Se isto fosse novela algum critico tacharia de
-inverosimil o acordo de factos, mas j l dizia o
-poeta que a verdade pode ser s vezes inverosimil.
-Vou hoje casa do Aguiar para ver se a filha
-postia deixou saudades aos dous; deve tel-as
-deixado.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">16 de Junho.</p>
-
-<p>Deixou, deixou saudades e grandes. Achei-os
-ss e conversmos da amiga. Propriamente no
-estavam tristes da ausencia della, mas da tristeza
-que ella levou comsigo. Quero dizer que lhes
-doa a magua da outra; foi o que me pareceu. A
-ausencia contam que no seja longa, e ser temperada
-por visitas capital; em todo caso, a separao
-no tamanha que elles no possam dar
-um pulo fazenda. Taes foram os sentimentos
-e as esperanas que lhes adivinhei. Falaram-me
-do golpe recebido pela moa. D. Carmo disse-me
-que eu no podia imaginar como a foi achar abatida.</p>
-
-<p>&mdash;Ofereci-me para acompanhal-a fazenda;
-recusou agradecida, e pela primeira vez me deu
-um nome que o ceu no quiz que eu tivesse na
-terra: Obrigada, mesinha, e beijou-me com
-grande ternura.</p>
-
-<p>A minha ternura no grande, nem acaso
-pequena, mas comprehendi o sentimento da boa
-senhora, e gostei de saber que em to grave
-instante, Fidelia lhe tivesse dado aquella palavra
-cordial. Parecia contental-a muito e ao marido.
-Este, alis, acompanhou a narrao da mulher
-em silencio, com os olhos no tecto; naturalmente
-no queria incorrer na pecha de fraco, mas a
-fraqueza, se o era, comeou nos gestos; elle
-ergueu-se, elle sentou-se, elle acendeu um charuto,
-elle retificou a posio de um vaso... Eu,
-para espanar a melancolia da sala, perguntei se
-os negocios do baro iam bem, e se os libertos...
-Aguiar volveu a ser gerente de banco e expoz-me
-algumas cousas sobre o plantio do caf e os
-titulos de renda.</p>
-
-<p>Nessa ocasio entrou um intimo da casa e
-conversou tambem do fazendeiro. Disse que os
-negocios delle, apezar do desfalque, no iam
-mal; deve ter uns tresentos contos. Aguiar no
-sabe exatamente, mas aceitou o calculo.</p>
-
-<p>&mdash;Tem s aquella filha, concluiu a visita, e
-provavel que ella case outra vez.</p>
-
-<p>Eu, para ser agradavel aos donas da casa,
-quiz dizer que me parecia que no, mas este
-bom costume de calar me fez engolir a emenda,
-e agora me confesso arrependido. Ao cabo eu j
-me vou conformando com a viuvez perpetua da
-bella dama, se no ciume ou inveja de a ver
-cazada com outro. J me parece que realmente
-Fidelia acaba sem cazar. No s a piedade
-conjugal que lhe perdura, a tendencia a cousas
-de ordem intelectual e artistica, e pouco mais
-ou mais nada. Fique isto confiado a ti smente,
-papel amigo, a quem digo tudo o que penso e tudo o
-que no penso.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">17 de Junho.</p>
-
-<p>O baro de Santa-Pia est mal, muito mal.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">18 de Junho.</p>
-
-<p>Viva a Fortuna, que sabe s vezes consolar
-o mal agudo com algum balsamo inesperado. A
-gente Aguiar recebeu carta de Tristo, que lhes
-anuncia a vinda ao Brazil, talvez no paquete
-proximo. Logo que entrei... Era dia de recepo
-delles, e soube depois que tinham pensado em
-transferil-a por causa da tristeza de Fidelia, mas
-consideraram que era modesta e resumida, que
-se no dansava, raro se cantava, e apenas se
-conversava e tomava ch; podia ser mantida
-sem escandalo.</p>
-
-<p>Logo que entrei deu-me Aguiar a noticia.
-Quando fui comprimentar D. Carmo, e a felicitei
-pela vinda do moo, ouviu-me com grande prazer.
-Meia hora depois, tornmos a falar do
-assunto, ella e eu, e ento foi ella que iniciou a
-conversao, dizendo-me que estava em caza,
-longe de esperar tal cousa, e de repente viu
-entrar no jardim um homem do banco com um
-bilhete do Aguiar, dando-lhe a boa nova, e acompanhado
-da carta que Tristo mandava aos dous.
-Contando-me estas particularidades, acaso dispensaveis,
-D. Carmo queria naturalmente communicar-me
-o proprio alvoroo. Conheo estas
-intenes reconditas e manifestas a um tempo;
- velho sestro de felizes.</p>
-
-<p>A gente pouca e as relaes estreitas deram
-azo a que no fim da noite falassemos todos do
-hospede vindouro. Ahi vem o afilhado que elles
-tiveram por esquecido, quasi ingrato, esse outro
-meio filho que ajudaram a criar e a amar.
-Aguiar e a mulher deram explicaes pedidas,
-contaram episodios de infancia, historias de
-graa, de esperteza, algumas de manha, mas a
-manha das creanas s enfada em ao; recordada,
-deleita, como outras cousas idas. Uma
-das senhoras presentes quiz lembrar alguns actos
-de carinho e dedicao de D. Carmo cerca do
-pequeno, mas a boa velha esquivou-se depressa,
-e apenas ouvimos um ou dous. Noite de familia;
-sa cedo, vim para casa tomar leite, escrever isto
-e dormir. At outro dia, papel.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">20 de Junho.</p>
-
-<p>Telegrama da Parahyba do Sul: O baro de
-Santa-Pia faleceu hoje de manh. Vou mandar
-a noticia a mana Rita, e enviar cartes de pezames.
- caso de dar tambem os pezames gente
-Aguiar? Pezames no, mas uma visita discreta e
-afetuosa, amanh ou depois...</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">21 de Junho.</p>
-
-<p>Aguiar vae fazenda de Santa-Pia, em visita
-de pezames a Fidelia; parte amanh. D. Carmo
-fica. Foi o que elle me disse na rua do Ouvidor.</p>
-
-<p>&mdash;J lhe mandei os meus, disse-lhe. Receba-os
-tambem, se a afeio que os liga a D. Fidelia
-pode justificar esta participao de desgosto...</p>
-
-<p>&mdash;Ambos ns sentimos a dor que aflige a
-nossa boa amiga. Carmo queria ir commigo; eu
-que lhe disse que no, que no v; pode canal-a
-muito a viagem assim rapida.</p>
-
-<p>L vae o Aguiar enfraquecer da alegria do filho
-com a magua da filha; c vir convalecer da tristeza
-da moa com a alegria do rapaz. Tudo se atenua
-assim neste mundo, e ainda bem. O peor no
-serem filhos de verdade, mas s de afeio;
-certo que, em falta de outros, consolam-se com
-estes, e muita vez os de verdade so menos verdadeiros.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">21 de Junho, noite.</p>
-
-<p>C esteve hoje a minha boa mana; ia visitar a
-gente Aguiar, eu disse-lhe que v commigo
-amanh, e aceitou.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">23 de Junho.</p>
-
-<p>A mana e eu estivemos hontem em casa da
-boa velha Aguiar. Sa de l mais cedo do que
-quizera; se pudesse, ficaria muito mais tempo.</p>
-
-<p>Achamo-la entre alegre e triste, se esta
-expresso pode definir um estado que se no
-descreve; eu, ao menos, no posso. Recebeu-nos
-como sempre; ella sabe dar ao gesto e
-palavra um afago sem inteno, verdadeiramente
-delicioso. Quando lhe falmos de Fidelia
-disse da tristeza da amiga com outra tristeza
-correspondente, e referiu a partida do marido na
-manh de hontem, sem aludir s obrigaes que
-elle teve de interromper. No tardou, porm, que
-lhe perguntassemos pelo afilhado e respondeu
-com satisfao grande. O resto da visita dividiu-se
-entre ambos, mas ao rapaz coube a maior
-parte da conversao, naturalmente por ser mais
-longa a ausencia, maior a distancia e inesperada
-a volta.</p>
-
-<p>D. Carmo continuou a narrao da outra noite,
-agora mais intima, eramos tres pessoas apenas.
-No diria toda a primeira vida do pequeno, o
-tempo seria pouco, ella mesma o confessou, mas
-muita cousa principal disse. Era fragil, magrinho,
-quasi nada, creaturinha de escasso folego. No
-disse que se fez me; esta senhora no conhece
-a lingua do proprio louvor, mas eu j sabia, e
-percebia-se do carinho da narrao que devia
-ser assim mesmo. Rita arriscou esta reflexo
-rindo:</p>
-
-<p>&mdash;As creanas no sabem o cuidado que do,
-e esquecem depressa o que sabem.</p>
-
-<p>&mdash; preciso desculpar a Tristo o que proprio
-de rapaz, acudiu D. Carmo. Elle no
-mau; esqueceu-se um pouco de ns, mas a idade
-e a novidade dos espectaculos explicam tudo. A
-prova que ahi vem elle ver-nos, e se lsse as
-cartas delle... Aguiar no lhe mostrou a ultima?</p>
-
-<p>&mdash;No, minha senhora, respondi; disse-me
-s o que continha.</p>
-
-<p>&mdash;Talvez no dissesse tudo.</p>
-
-<p>Cuido que quizesse mostrar-me as cartas do
-rapaz, uma s que fosse, ou um trecho, uma
-linha, mas o temor de enfadar fez calar o desejo.
-Foi o que me pareceu e deixo aqui escrito.
-Tornmos viuva, depois voltmos a Tristo, e
-ella s passou a terceiro assunto porque a
-cortezia o mandou; eu, porm, para ir com a
-alma della, guiei a conversa novamente aos filhos
-postios. Era o meu modo de ser cortez, com a
-boa senhora. Custa-me dizer que sa de l
-encantado, mas sa, e mana Rita tambem. Rita
-disse-me na rua:</p>
-
-<p>&mdash;Ha poucas creaturas como aquella.</p>
-
-<p>&mdash;Creio, creio, excelente... sem desfazer
-em voc.</p>
-
-<p>&mdash;Eu no, replicou Rita prontamente. No
-me acho m, porm estou longe de ser o que
-ella . Voc repare que tudo naquella senhora
-bom, at a opinio, que nem sempre justa,
-porque ella perdoa e desculpa a todos. Eu no
-sou assim; acho muita gente m, e se fr preciso
-dizel-o, digo. D. Carmo no capaz de criticar
-ninguem. Algum reparo que aceite sempre
-explicando; quando menos, calando.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">24 de Junho.</p>
-
-<p>Hontem conversei com a senhora do Aguiar cerca
-das antigas noites de S. Joo, Santo Antonio
-e S. Pedro, e mais as suas sortes e fogueiras.
-D. Carmo pegou do assunto para tratar ainda do
-filho postio. Leve o diabo tal filho. A filha postia
- que hade estar a esta hora mui triste no
-cazaro da fazenda, onde certamente passou as
-antigas noites de S. Joo de donzela esperanada
-e credula. A deste anno sem pae deve ser aborrecida,
-no tendo me que o continue, nem marido
-que os supra. Um tio no basta para tanta
-cousa.</p>
-
-<p>Tambem eu tirei sortes outr'ora. Com pouco
-se fingia de Destino,&mdash;um livro, um rimador
-de quadras e um par de dados. Se hade despozar
-a pessoa a quem ama, dizia o titulo da
-pagina, por exemplo; deitavam-se os dados, os
-numeros eram cinco e dous, sete; ia-se quadra
-setima, e lia-se. Suponhamos que se lia... V,
-risco a quadra que cheguei a escrever aqui. Geralmente
-era engraada,&mdash;pelo menos, mas tambem
-troava com a pessoa que consultava o
-Destino. Todos riam; alguns criam deveras; em
-todo caso passavam-se as horas at chegar o
-somno. E alli vinha este velho camareiro da
-humanidade, que os pagos chamaram Morpheu,
-e que a pagos e christos, e at a incros fecha
-os olhos com os seus eternos dedos de chumbo.
-Agora, meu somno amigo, s tu virs daqui a
-uma ou duas horas, sem livros de sortes nem
-dados. Quando muito trars sonhos, e j no
-sero os mesmos de outro tempo.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">27 de Junho.</p>
-
-<p>Missa do baro de Santa-Pia em S. Francisco de
-Paula. O filho do desembargador representava
-a familia; este e a sobrinha ouviram missa na
-fazenda. Hade ter sido outra recordao antiga
-para a viuva. A fazenda tem capela, onde um
-padre dizia missa aos domingos e confessava pela
-quaresma. Tambem eu conheci esse costume em
-pequeno, e ainda me lembra que, na quaresma,
-eu e outros rapazes iamos esconder-nos do confessor
-em baixo das camas ou nos desvos da caza.
-J ento confundiamos as praticas religiosas com
-as canceiras da vida, e fugiamos dellas. Entretanto,
-o padre que me confessou pela primeira
-vez era meigo, atento, guiava-me a confisso
-indicando os pecados que devia dizer, e at que
-ponto, e punha a absolvio na lingua antes que
-os pecados lhe entrassem pelo ouvido; assim
-me pareceu. Perde-me a sua memoria, se no
- verdade. Tudo isso vae longe. A segunda
-confisso foi por ocasio de cazar. Dahi em
-diante no fui mais que virtudes.</p>
-
-<p>Bastante gente em S. Francisco de Paula. Na
-sacristia havia folhas de papel onde se inscreveram
-as pessoas que l foram, e uma ou outra
-que no foi mas encomendou o cuidado a um
-terceiro. Vi magistrados, advogados, pessoas do
-comercio e do funcionalismo, senhoras, algumas
-senhoras. Destas eram moas umas, amigas
-de Fidelia, outras eram velhas do tempo da me.
-Uma destas era a que no faltaria, ainda que l
-no fosse ninguem, e s amiga da viuva, a boa
-Aguiar, naturalmente. L estava tambem Rita,
-que veiu almoar commigo.</p>
-
-<p>Se as missas pudessem ser ditas, segundo a
-ocasio, eu acharia que o padre ajustou a sua
-pouca presena do sangue do morto, to breve
-foi, mas no assim; cada padre diz a missa sua
-maneira de sempre, apressada ou vagarosa, conforme
-usa ler ou falar.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">30 de Junho.</p>
-
-<p>Ora bem, a viuva Noronha mandou uma carta
-a D. Carmo, documento psicologico, verdadeira
-pagina da alma. Como elles tiveram a bondade de
-mostrar-m'a, dispuz-me a achal-a interessante,
-antes mesmo de a ler, mas leitura dispensou a
-inteno; achei-a interessante deveras, disse-o,
-reli alguns trechos. No tem frases feitas, nem
-frases rebuscadas; simplesmente simples, se tal
-adverbio vae com tal adjetivo, creio que vae, ao
-menos para mim.</p>
-
-<p>Quatro paginas apenas, no deste papel de
-cartas que empregamos, mas do antigo papel
-chamado de peso, marca Bath, que havia na
-fazenda, a uso do pae. Trata longamente delle e
-das saudades que ella foi achar l, das lembranas
-que lhe acordaram as paredes dos quartos e das
-salas, as colunas da varanda, as pedras da
-cisterna, as janellas antigas, a capela rustica.
-Mucamas e moleques deixados pequenos e encontrados
-crescidos, livres com a mesma afeio de
-escravos, tem algumas linhas naquellas memorias
-de passagem. Entre os fantasmas do passado,
-o perfil da me, ao p o do pae, e ao longe como
-ao perto, nas salas como no fundo do corao,
-o perfil do marido, to fixo que cheguei a vel-o
-e me pareceu eterno.</p>
-
-<p>Vou reconhecendo que esta moa vale ainda
-mais do que me parecia a principio. No a questo
-de amar ou no o defunto marido; creio que
-o ame, sem que essa fidelidade lhe aumente a
-pureza dos sentimentos. Pode ser obra delle, ou
-della, ou de ambos a um tempo. O maior valor
-della est, alm da sensao viva e pura que lhe
-do as cousas, na concepo e na analise que
-sabe achar nellas. Pode ser que haja nisto, da
-minha parte, um aumento de realidade, mas
-creio que no. Se fosse nos primeiros dias deste
-anno, eu poderia dizer que era o pendor de um
-velho namorado gasto que se comprazia em derreter
-os olhos atravez do papel e da solido, mas
-no isso; l vo as ultimas gabolices do temperamento.
-Agora, quando muito, s me ficaram as
-tendencias esteticas, e deste ponto de vista,
-certo que a viuva ainda me leva os olhos, mas s
-deante delles. Realmente, um bello pedao de
-gente, com uma dose rara de expresso. A carta,
-porm, d a tudo grande nota espiritual.</p>
-
-<p>Acredito que D. Carmo sinta essa dama como
-eu a entendo, mas desta vez o que lhe penetrou
-mais fundo foi o comprimento final da carta, as
-tres ultimas palavras, anteriores derradeira de
-todas, que o nome: da sua filhinha Fidelia.
-Percebi isto, vendo que ella desceu os olhos ao
-fim do papel tres ou quatro vezes, sem querer
-acabar de o dobrar e guardar.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">1 de julho.</p>
-
-<p>Tambem ha ventanias de felicidade, que levam
-tudo adeante de si. A gente Aguiar recebeu hontem
-a carta de Fidelia, e hoje outra de Tristo, em
-que este lhe annuncia que embarca no paquete
-inglez para c; deve chegar a 23 ou 24. A alegria
-com que elles leram esta noticia foi naturalmente
-grande; por quanto Fidelia c est e diz-se filha
-da boa velha; Tristo ahi vem e annuncia que
-esta carta a ultima; a seguinte elle proprio.
-Tudo isso a um tempo.</p>
-
-<p>Preparam-lhe alojamento em casa. Aguiar anda
-to satisfeito que, contra os seus habitos de discrio,
-j me disse ter em vista a mobilia do quarto
-que lhe destinam; simples e elegante. Provavelmente
-a mulher comear j a obra dos seus
-ornamentos de l e de linho para as cadeiras e a
-meza. Isto no foi elle que me disse nem ninguem;
-eu que o adivinho e escrevo aqui para mostrar
-a mim mesmo o que facil de ver. Para a boa
-Carmo, bordar, cozer, trabalhar, emfim, um
-modo de amar que ella tem. Tece com o corao.</p>
-
-<p> regra velha, creio eu, ou fica sendo nova,
-que s se faz bem o que se faz com amor. Tem
-ar de velha, to justa e vulgar parece. Dahi a perfeio
-daquellas suas obras domesticas. Ser como
-dormir ou transpirar. No lhe tiro com isto o merito;
-por maior que seja a necessidade, no
-menor a virtude. Tambem eu fiz a minha diplomacia
-com amor, e ouvi a ministros que bem,
-mas no meu caso (distingamos-nos da velha
-Aguiar) no bastou amor nem necessidade; se no
-fosse carreira provvel que eu acabasse juiz,
-banqueiro ou outra cousa.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">2 de Julho.</p>
-
-<p>O que ouvi dizer hontem a Aguiar foi no Banco
-do Sul, aonde tinha ido depozitar umas apolices.
-Esqueceu-me escrever que, saida, perto da
-egreja da Candelaria, encontrei o desembargador
-Campos; tinha chegado de Santa-Pia ante-hontem,
- noite, e ia ao Banco levar recados da sobrinha
-para o Aguiar e para a mulher. Perguntei-lhe se
-Fidelia ficava l de vez; respondeu-me que no.</p>
-
-<p>&mdash;Ficar de vez, no fica; demora-se algumas
-semanas, depois vir e provavelmente transfere
-a fazenda; acho que no faz mal. Ficaria, segundo
-me disse, se fosse util, mas parece-lhe que a lavoura
-decae, e no se sente com foras para sustel-a.
-Dahi a ideia de vender tudo, e vir morar
-commigo. Se ficasse tinha geito. Ella mesma
-tomou contas a todos, e ordenou o servio. Tem
-ao, tem vontade, tem espirito de ordem. Os
-libertos esto bem no trabalho.</p>
-
-<p>Conversmos um pouco dos efeitos da abolio,
-e despedimo-nos.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">5 de Julho.</p>
-
-<p>Obrigado pela palavra a ir passar a noite com
-o corretor Miranda, l fui hoje. Veiu mais gordo
-da Europa, onde s esteve alguns mezes; o
-mesmo impetuoso de sempre, mas bom sujeito e
-excelente marido. Nada novo, a no ser um jogo,
-parece que inventado nos Estados-Unidos e que
-elle aprendeu a bordo. No meu tempo no se
-conhecia. Chama-se <i>poker</i> eu trouxe o <i>whist</i>,
-que ainda jogo, e peguei no meu velho voltarete.
-Parece que o <i>poker</i> vae derribar tudo. Na casa do
-Miranda at a senhora deste jogou.</p>
-
-<p>As filhas no jogaram, nem a cunhada, D. Cesaria,
-que no acha recreao nas cartas; confessou
-(rindo) que muito melhor dizer mal da
-vida alheia, e no o faz sem graa. Justamente
-o que falta ao marido, a quem sobra o resto.
-Cuidei que os dous estivessem brigados com o
-corretor, no formalmente, porque D. Cesaria
-no briga nunca, arrufa-se apenas; cuidei que
-estivessem arrufados com o corretor, quando este
-e a familia embarcaram. Estivessem ou no, a
-volta os reconciliou. uma das prendas desta
-senhora. Talvez tivesse dito mal da propria irm
-ou do cunhado, mas to habilmente se arranjou
-que os achei unidissimos. No sei o que ella dir
-de mim, eu acho-lhe interesse, e preferi-lhe a
-lingua ao <i>poker</i>; com a lingua no se perde
-dinheiro.</p>
-
-<p>Como se falasse da morte do baro de Santa-Pia
-e da situao da filha, D. Cesaria perguntou
-se ella realmente no cazava. Parece que duvida
-da viuvez de Fidelia. Eu no lhe disse que j
-pensara o mesmo, nem lhe disse nada; no quiz
-trazer a outra conversao e fiz bem. D. Cesaria
-aceitou dahi a pouco a hipothese da viuvez perpetua,
-por no achar graa viuva, nem vida,
-nem maneiras, nada, cousa nenhuma; parece-lhe
-uma defunta. Eu sorri como devia, e fui ouvir a
-explicao que me davam de um <i>bluff.</i> No <i>poker</i>,
-<i>bluff</i> uma especie de conto do vigrio.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">13 de Julho.</p>
-
-<p>Sete dias sem uma nota, um facto, uma reflexo;
-posso dizer oito dias, porque tambem hoje
-no tenho que apontar aqui. Escrevo isto s para
-no perder longamente o costume. No mau
-este costume de escrever o que se pensa e o que
-se v, e dizer isso mesmo quando se no v nem
-pensa nada.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">18 de Julho.</p>
-
-<p>Tristo chegou a Pernambuco; esperam por
-elle a 23.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">20 de Julho.</p>
-
-<p>Chegou Bahia o afilhado dos Aguiares. Creio
-que elles lhe daro festa de recepo, ainda que
-modesta. A ultima fotografia foi mandada encaixilhar
-e pendurar. um bello rapaz, e a atitude
-do retrato tem certo ar de petulancia que
-lhe no fica mal, ao contrario.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">25 de Julho.</p>
-
-<p>J aqui chegou o Tristo. No o vi ainda; tambem
-no tenho saido de caza estes tres dias. Entre
-outras cousas, estive a rasgar cartas velhas. As
-cartas velhas so boas, mas estando eu velho
-tambem, e no tendo a quem deixar as que me
-restam, o melhor rasgal-as. Fiquei s com oito
-ou dez para reler algum dia e dar-lhes o mesmo
-fim. Nenhuma dellas vale uma s das de Plinio,
-mas a todas posso aplicar o que elle escrevia a
-Apollinario: teremos ambos o mesmo gosto,
-tu em ler o que digo, e eu em dizel-o. Os meus
-Apollinarios esto mortos ou velhos; as Apollinarias
-tambem.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">27 de Julho.</p>
-
-<p>Vi hoje o Tristo descendo a rua do Ouvidor
-com o Aguiar; adivinhei-o por este e pelo retrato.
-Trazia no vestuario alguma cousa que, apezar de
-no diferir da moda, c e l, lhe pe certo geito
-particular e proprio. Aguiar aprezentou-nos.
-Tristo falou-me polidamente, e com tal ou qual
-curiosidade, no ouso dizer interesse. Naturalmente
-j ouviu falar de mim em casa delles. Cinco minutos
-de conversao apenas,&mdash;o bastante para
-me dizer que est encantado com o que tem
-visto. Creio que seja assim, porque eu amo a
-minha terra, apezar das ruas estreitas e velhas;
-mas tambem eu desembarquei em terras alheias,
-e usei igual estilo. Entretanto, esta cidade a
-delle, e, como eu lhe dissesse que no devera ter
-esquecido o Rio de Janeiro, donde sara adolescente,
-respondeu que era assim mesmo, no esquecera
-nada. O encanto vinha justamente da
-sensao de cousas vistas, uma resurreio que
-era continuidade, se assim resumo o que elle me
-disse em vocbulos mais simples que estes. Cinco
-minutos e despedimo-nos.</p>
-
-<p> uma bonita figura. A palavra forte, sem ser
-aspera. Os olhos vives e lepidos, mas talvez a brevidade
-do encontro e da aprezentao os obrigasse
-a essa expresso unica; possivelmente os ter de
-outra maneira alguma vez. antes alto que baixo,
-e no magro. A certa distancia, ia eu a voltar a
-cabea para vel-o ainda, mas recuei a tempo;
-seria indiscreto e apressado, e talvez no valesse
-a pena. Irei uma destas noites ao Flamengo. Ha
-j tres semanas que no apareo l.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">28 de Julho.</p>
-
-<p>No duvido que o Tristo visse com prazer o
-Rio de Janeiro. Quaesquer que sejam os costumes
-novos e ligaes de familia, e por maior que tenha
-sido a ausencia, o logar onde alguem passou os
-primeiros annos hade dizer memoria e ao corao
-uma linguagem particular. Creio que elle esteja
-realmente encantado, como me disse hontem.
-Demais, l fora ouvia a mesma lingua daqui; a
-me a mesma paulista que o gerou e levou comsigo,
-e est agora em Lisboa, com o pae, ambos
-velhos.</p>
-
-<p>Eu nunca esqueci cousas que s vi em menino.
-Ainda agora vejo dous sujeitos barbados que jogavam
-o entrudo, teria eu cinco annos; era com
-bacias de madeira ou de metal, ficaram inteiramente
-molhados e foram pingando para as suas
-cazas. S no me acode onde ellas eram. Outra
-cousa que igualmente me lembra, apezar de tantos
-annos passados, o namoro de uma visinha e
-de um rapaz. Ella morava defronte, era magrinha
-e chamava-se Flor. Elle tambem era magro e no
-tinha nome conhecido; s lhe sabia a cara e a
-figura. Vinha s tardes e passava tres, quatro,
-cinco e mais vezes de uma ponta outra da rua.
-Uma noite ouvimos gritos. Na manh seguinte
-ouvi dizer que o pae da moa mandra dar por
-escravos uma sova de pu no namorado. Dias
-depois foi este recrutado para o exercito, dizem
-que por empenho do pae da moa; alguns creram
-que a sova fra um simples desforo eleitoral.
-Tudo um; amor ou eleies, no falta materia
-s discordias humanas.</p>
-
-<p>Que valem taes ocurrencias agora, neste anno
-de 1888? Que pode valer a loja de um barbeiro
-que eu via por esse tempo, com sanguesugas
-porta, dentro de um grosso frasco de vidro com
-agua e no sei que massa? Ha muito que se no
-deitam bichas a doentes; ellas, porm, c esto no
-meu cerebro, abaixo e acima, como nos vidros.
-Era negocio dos barbeiros e dos farmaceuticos,
-creio; a sangria que era s dos barbeiros. Tambem
-j se no sangra pessoa nenhuma. Costumes
-e instituies, tudo perece.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">31 de Julho.</p>
-
-<p>Tem agradado muito o Tristo, e para crer que
-o merece basta dizer que a mim no me desagrada,
-ao contrario. ameno, conversado, atento, sem
-afetao nem presuno; fala ponderado e modesto,
-e explica-se bem. Ainda lhe no ouvi
-grandes cousas, nem estas so precisas a quem
-chega de fra e vive em familia; as que lhe ouvi
-so interessantes.</p>
-
-<p>No vestido e nas maneiras usa o tom da conversa;
-a mesma correo e simplicidade. O encanto
-que outro dia me disse achar na cidade continua
-a achar nella e na gente; reconhece ruas,
-cazas, costumes e pessoas; pergunta por muitas
-destas e interessa-se em ouvir as noticias que lhe
-do. Algumas reconhece logo, outras com pouca
-explicao. Emfim, no mau rapaz.</p>
-
-<p>Para a gente Aguiar mais que excelente.
-Essa est tanto ou mais encantada que elle; nestes
-poucos dias j o levou a differentes partes. O
-desembargador Campos, que l jantou hontem,
-disse-me que D. Carmo estava que era uma creana;
-quasi que no tirava os olhos de cima do
-afilhado. Tristo conhece musica, e noite, a pedido
-della, executou ao piano um pedao de
-Wagner, que elle achou muito bem. Alem do
-Campos, jantou l um padre Bessa, o que batizou
-Tristo.</p>
-
-<p>No era habituado do Flamengo este padre; foi
-o proprio Tristo que o descobriu, de maneira que
-merece notar. Perguntou por elle, e, ao cabo de
-dous dias, sabendo que residia na Praia Formosa,
-dispoz-se a l ir, depois de recusar ao padrinho
-a companhia que este lhe ofereceu.</p>
-
-<p>&mdash;Quero ir eu s, replicou, para lhe mostrar
-que no desaprendi a minha cidade.</p>
-
-<p>E l foi, e l andou, e l descobriu o padre,
-dentro de uma cazinha&mdash;baixa. Bessa, que fora
-comensal dos paes delle,no o conheceu logo, mas
-s primeiras noticias recompoz o passado e adivinhou
-o menino a quem dera batismo. Aguiar
-fel-o convidar e vir caza delle, a ver o moo e
-visital-o, sempre que quizesse. uma boa figura
-de velho e de sacerdote, disse-me o desembargador,
-calvo bastante, cara magra, e expresso placida,
-apezar das miserias que ter cortido; chega
-a ser alegre.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">1 de Agosto.</p>
-
-<p>O desembargador deu-me tambem noticia da sobrinha.
-Est boa e vir brevemente da fazenda.
-Contou-lhe em carta um sonho que teve ultimamente,
-a apario do pae e do sogro, ao fundo
-de uma enseada parecida com a do Rio de Janeiro.
-Vieram as duas figuras sobre a agua, de mos dadas,
-at que pararam deante della, na praia. A
-morte os reconcilira para nunca mais se desunirem;
-reconheciam agora que toda a hostilidade
-deste mundo no vale nada, nem a politica nem
-outra qualquer.</p>
-
-<p>Quiz replicar ao desembargador que talvez a
-sobrinha tivesse ouvido mal. A reconciliao
-eterna, entre dous adversarios eleitoraes, devia
-ser exatamente um castigo infinito. No conheo
-igual na <i>Divina Comedia.</i> Deus, quando quer ser
-Dante, maior que Dante. Recuei a tempo e
-calei a facecia; era rir da tristeza da moa. Pedi
-mais noticias della, e elle deu-m'as; a principal
-que est cada vez mais firme na ideia de vender
-Santa-Pia.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">2 de Agosto.</p>
-
-<p>Aguiar mostrou-me uma carta de Fidelia a
-D. Carmo. Letra rasgada e firme, estilo correntio,
-linguagem terna; promete-lhes vir para a
-Corte logo que possa e ser breve. Estou canado
-de ouvir que ella vem, mas ainda me no cancei
-de o escrever nestas paginas de vadiao. Chamo-lhes
-assim para divergir de mim mesmo. J
-chamei a este <i>Memorial</i> um bom costume. Ao
-cabo, ambas as opinies se podem defender, e,
-bem pensado, do a mesma cousa. Vadiao
-bom costume.</p>
-
-<p>A carta de Fidelia comea por estas tres palavras:
-Minha querida mesinha, que
-deixaram D. Carmo morta de ternura e de
-saudades; foi a propria expresso do marido.
-Nem tudo se perde nos bancos; o mesmo dinheiro,
-quando alguma vez se perde, muda apenas de
-dono.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">3 de Agosto.</p>
-
-<p>Hoje fazia annos o ministerio Ferraz, e quem
-j pensa nelle nem nos homens que o compunham
-e l vo, uns na morte, outros na velhice
-ou na inao? Foi elle que me promoveu a secretario
-de legao, sem que eu lh'o pedisse e at
-com espanto meu.</p>
-
-<p>Dizendo isto ao Aguiar, ouvi-lhe anedotas
-politicas daquelle tempo (1859-1861), contadas
-com animao, mas saudade. Aguiar no tem
-costela de homem publico; todo elle familia,
-todo espozo, e agora tambem filhos, os dous
-filhos postios,&mdash;Tristo mais que Fidelia, pela
-razo que penso haver j dito. Confirmou-me as
-boas impresses do desembargador, e concluiu:</p>
-
-<p>&mdash;Conselheiro, j falou ao nosso Tristo, j
-o ouviu, e creio aprecial-o, mas eu dezejo que
-o conhea mais para aprecial-o melhor. Elle
-fala da sua pessoa com grande respeito e admirao.
-Diz que um dia o viu em Bruxellas, e
-estava longe de crer que viria achal-o e falar-lhe
-aqui.</p>
-
-<p>&mdash;J me disse isso mesmo. Acho que um
-moo muito distinto.</p>
-
-<p>&mdash;No ? Tambem ns achamos, e outras
-pessoas tambem. No lhe pedi que me contasse a
-vida delle l, mas conversei de maneira que elle
-me foi dizendo muita cousa, os estudos, as viagens,
-as relaes; pode ser que invente ou exagere,
-mas creio que no; tudo o que nos disse
-verosimil e combina com o que vimos delle
-aqui, e tambem do compadre e da comadre. Se
-pudessemos ficar com elle de uma vez, ficavamos.
-No podemos; Tristo veiu apenas por quatro
-mezes; a nosso pedido vae ficar mais dous. Mas
-eu ainda verei se posso retel-o oito ou dez.</p>
-
-<p>&mdash;Veiu s para visital-os?</p>
-
-<p>&mdash;Diz que s. Talvez o pae aproveitasse a
-vinda para encarregal-o de algum negocio; apezar
-de liquidado, ainda tem interesses aqui; no lhe
-perguntei por isso.</p>
-
-<p>&mdash;Pois veja se o faz ficar mais tempo; elle
-acabar ficando de vez.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">4 de Agosto.</p>
-
-<p>Indo a entrar na bara de Nicterohy, quem
- que encontrei encostado amurada? Tristo,
-ninguem menos, Tristo que olhava para o lado
-da barra, como se estivesse com desejo de abrir
-por ella fra e sair para a Europa. Foi o que eu
-lhe disse, gracejando, mas elle acudiu que
-no.</p>
-
-<p>&mdash;Estou a admirar estas nossas bellezas,
-explicou.</p>
-
-<p>&mdash;Deste outro lado so maiores.</p>
-
-<p>&mdash;So iguaes, emendou. J as mirei todas, e
-do pouco que vi l fora ainda o que acho mais
-magnifico no mundo.</p>
-
-<p>O assunto era velho e bom para atar conversa;
-aproveitamol-o e chegamos ao desembarque,
-depois de trocadas muitas ideias e impresses.
-Confesso que as minhas no eram mais
-novas que o assunto inicial, e eram curtas, as
-d'elle tinham sobre ellas a vantagem de evocaes
-e narrativas. No estou para escrever tudo
-o que lhe ouvi cerca dos annos de infancia e
-adolescencia, nem dos de mocidade passados na
-Europa. Foi interessante, de certo, e parece
-que sincero e exacto, mas foi longo, por mais
-curta que fosse a viagem da barca. Emfim, chegmos
- Praia-Grande. Quando eu lhe disse que
-preferia este nome popular ao nome oficial, administrativo
-e politico de Nicterohy, dissentiu de
-mim. Repliquei-lhe que a razo do dissentimento
-vinha de ser eu velho e elle moo. Criei-me
-com a Praia-Grande; quando o senhor nasceu a
-chrisma de Nicterohy pegra. No havia nisto
-agudeza alguma; elle, porm, sorriu como
-achando fina a resposta, e disse-me:</p>
-
-<p>&mdash;No ha velhice para um espirito como o
-seu.</p>
-
-<p>&mdash;Acha? perguntei incredulamente.</p>
-
-<p>&mdash;J meus padrinhos m'o haviam dito, e eu
-reconheo que diziam a verdade.</p>
-
-<p>Agradeci de cabea, e, estendendo-lhe a mo:</p>
-
-<p>&mdash;Vou ao palacio da presidencia. At volta,
-se nos encontrar-mos.</p>
-
-<p>Uma hora depois, quando eu chegava ponte,
-l o achei. Imaginei que esperasse por mim, mas
-nem me cabia perguntar-lh'o, nem talvez a elle
-dizel-o. A barca vinha perto, chegou, atracou,
-entrmos. Na viagem de regresso tive uma noticia
-que no sabia; Tristo, alcunhado <i>brazileiro</i>
-em Lisboa, como outros da propria terra, que
-voltam daqui, portuguez naturalisado.</p>
-
-<p>&mdash;Aguiar sabe?</p>
-
-<p>&mdash;Sabe. O que elle ainda no sabe, mas vae
-saber, que nas vesperas de partir aceitei a
-proposta de entrar na politica, e vou ser eleito
-deputado s cortes no anno que vem. No fosse
-isso, e eu c ficava com elle; iria buscar meu pae
-e minha me. Sei que elle me hade querer dissuadir
-do plano; meu padrinho no gosta de politica,
-menos ainda de politica militante, mas eu estou
-obrigado pelo gosto que lhe tenho e pelo acordo
-a que cheguei com os chefes do partido. Escrevi
-algum tempo n'um jornal de Lisboa, e dizem
-que no inteiramente mal. Tambem falei em
-comicios.</p>
-
-<p>&mdash;Elles querem-lhe muito.</p>
-
-<p>&mdash;Sei, muito, como a um filho.</p>
-
-<p>&mdash;Tem tambem uma filha de afeio.</p>
-
-<p>&mdash;Tambem sei, uma viuva, filha de um fazendeiro
-que morreu ha pouco. J me falaram
-della. Vi-lhe o retrato encaixilhado pelas mos
-da madrinha. Se conhece bem a madrinha, hade
-saber o corao terno que tem. Toda ella maternidade.
-Aos proprios animaes estende a simpatia.
-Nunca lhe falaram de um terceiro filho que
-tiveram, e ella amava muito?</p>
-
-<p>&mdash;Creio que no; no me lembra.</p>
-
-<p>&mdash;Um co, um pequeno co de nada. Foi
-ainda no meu tempo. Um amigo do padrinho
-levou-lh'o um dia, com poucos mezes de existencia,
-e ambos entraram a gostar delle. No lhe
-conto o que a madrinha fazia por elle, desde as
-sopinhas de leite at aos capotinhos de l, e o
-resto; ainda que me sobrasse tempo, no
-acharia credito em seus ouvidos. No que fosse
-extravagante nem excessivo; era natural, mas to
-igual sempre, to verdadeiro e cuidadoso que
-era como se o bicho fosse gente. O bicho viveu os
-seus dez ou onze annos da raa; a doena achou
-enfermeira, e a morte teve lagrimas. Quando
-entrar no jardim, esquerda, ao p do muro,
-olhe, foi ahi que o enterraram; e j me no lembrava,
-a madrinha que m'o apontou hontem.</p>
-
-<p>No me soube grandemente essa aliana de
-gerente de banco e pae de cachorro. verdade
-que o proprio Tristo d a maior parte madrinha,
-que mulher. Com a pratica dos dias
-anteriores e estas duas viagens de barca, sinto-me
-meio habilitado a possuir bem aquelle moo.
-S lhe ouvi meia duzia de palavras algo parecidas
-com louvor proprio, e ainda assim moderado.
-Dizem que no escrevo inteiramente mal encobrir
-a convico de que escreve bem, mas
-no o disse, e pode ser verdade.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">7 de Agosto.</p>
-
-<p>D. Carmo foi a Nova-Friburgo com o afilhado
-para lhe mostrar novamente a cidade em que
-nasceu, creio que tambem a rua, e parece que a
-propria caza. Tudo est velho e quieto, dizem-me.
-Isto vae com os habitos della, que sabe e gosta
-de guardar os velhos retalhos e lembranas antigas,
-como que lhe dando um ar perpetuo de
-mocidade. Tristo, no tendo alis o mesmo interesse,
-mostrou prazer em a acompanhar. Toda
-a gente continua a gostar delle, Campos mais que
-outros, pois o conheceu menino. Mana Rita
-que apenas o viu; tem estado adoentada, levantou-se
-ante-hontem; s hontem soube disso, e fui
-visital-a. Contei-lhe o que havia daquella caza e
-da caza do desembargador; dei-lhe vontade de
-vir tambem gente Aguiar, quando os dous voltarem
-de Nova-Friburgo.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">10 de Agosto.</p>
-
-<p>Meu velho Ayres, trapalho da minha alma,
-como que tu comemoraste no dia 3 o ministerio
-Ferraz, que de 10? Hoje que elle faria
-annos, meu velho Ayres. Vs que bom ir apontando
-o que se passa; sem isso no te lembraria
-nada ou trocarias tudo.</p>
-
-<p>Fidelia chega da Parahyba do Sul no dia 15
-ou 16. Parece que os libertos vo ficar tristes;
-sabendo que ella transfere a fazenda pediram-lhe
-que no, que a no vendesse, ou que os trouxesse
-a todos comsigo. Eis ahi o que ser formosa e
-ter o dom de cativar. Desse outro cativeiro no
-ha cartas nem leis que libertem; so vinculos
-perpetuos e divinos. Tinha graa vel-a chegar
-Corte com os libertos atraz de si, e para qu, e
-como sustental-os? Custou-lhe muito fazer entender
-aos pobres sujeitos que elles precisam trabalhar,
-e aqui no teria onde os empregar logo.
-Prometeu-lhes, sim, no os esquecer, e, caso no
-torne roa, recomendal-os ao novo dono da
-propriedade.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">11 de Agosto.</p>
-
-<p>Recebi hoje um bilhete de Tristo, escrito de
-Nova-Friburgo, no qual me diz que est muito
-satisfeito com o que v e o que ouve; reconheceu
-a cidade, que encantadora com a sua gente. A
-companheira de viagem ainda o mais que a
-gente e a cidade. Copio estas palavras do bilhete:
-A madrinha ou mesinha,&mdash;no sei bem qual
-dos nomes lhe d, ambos so exactos,&mdash; aqui
-muito querida e festejada, no s por duas amigas
-velhas que lhe restam dos tempos de creana, mas
-ainda por outras que conheceu depois de cazada,
-parentas daquellas ou somente amigas tambem.
-Gosto do logar e do clima; a temperatura excelente;
-ficaremos uns tres dias mais.</p>
-
-<p>No ha nessa carta nada que no pudesse ser
-dito na volta, uma vez que elle desce daqui a tres
-dias. Creio que elle cedeu ao desejo de ser lido
-por mim e de me ler tambem. Questo de simpatia,
-questo de arrastamento. Vou responder-lhe
-com duas linhas...</p>
-
-<p>...L vae a carta; respondi-lhe com trinta e
-tantas linhas, dizendo-lhe cousas que busquei
-fazer alegres, e com certeza sairam quasi amigas.
-Concordei que Nova-Friburgo era delicioso, e
-conclui por estas palavras: Quando descer
-venha almoar commigo; falaremos de l e de
-c.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">17 de Agosto.</p>
-
-<p>Fidelia chegou, Tristo e a madrinha chegaram,
-tudo chegou; eu mesmo cheguei a mim mesmo,&mdash;por
-outras palavras, estou reconciliado com as
-minhas cans. Os olhos que puz na viuva Noronha
-foram de admirao pura, sem a minima inteno
-de outra especie, como nos primeiros dias deste
-anno. Verdade que j ento citava eu o verso de
-Shelley, mas uma cousa citar versos, outra
-crer nelles. Eu li ha pouco um soneto verdadeiramente
-pio de um rapaz sem religio, mas necessitado
-de agradar a um tio religioso e abastado.
-Pois ainda que eu no desse ento toda a f ao
-poeta inglez, dou-lh'a agora, e aqui a dou de
-novo para mim. A admirao basta.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">19 de Agosto.</p>
-
-<p>Tristo veiu almoar commigo. A primeira
-parte do almoo foi a gloza da carta que elle me
-escreveu. Contou-me que j em creana tinha ido
-com a madrinha a Nova Friburgo algumas vezes,
-parece-lhe que tres; reconheceu a cidade agora
-e gostou muito della. De D. Carmo fala entusiasmado;
-diz que a afeio, o carinho, a bondade,
-tudo faz della uma creatura particular e rara, por
-ser tudo de especie tambem rara e particular.
-Referiu-me anedotas antigas, dedicaes grandes.
-Depois confessou que as impresses da nossa
-terra fazem reviver os seus primeiros tempos, a
-infancia e a adolescencia. O fim do almoo foi
-com o naturalizado e o politico. A politica parece
-ser grande necessidade para este moo. Estendeu-se
-bastante sobre a marcha das cousas publicas
-em Portugal e na Hespanha; confiou-me as suas
-ideias e ambies de homem de Estado. No disse
-formalmente estas tres palavras ultimas, mas
-todas as que empregou vinham a dar nellas.
-Emfim, ainda que parea algo excessivo, no
-perde o interesse e fala com graa.</p>
-
-<p>Antes de sair, tornou a dizer do Rio de Janeiro,
-e tambem falou do Recife e da Bahia; mas o Rio
-foi o principal assunto.</p>
-
-<p>&mdash;A gente no esquece nunca a terra em que
-nasceu, concluiu elle com um suspiro.</p>
-
-<p>Talvez o intuito fosse compensar a naturalizao
-que adotou,&mdash;um modo de se dizer ainda
-brazileiro. Eu fui ao deante delle, afirmando que
-a adoo de uma nacionalidade acto politico,
-e muita vez pode ser dever humano, que no faz
-perder o sentimento de origem, nem a memoria
-do bero. Usei taes palavras que o encantaram,
-se no foi talvez o tom que lhes dei, e um sorriso
-meu particular. Ou foi tudo. A verdade que o
-vi aprovar de cabea repetidas vezes, e o aperto
-de mo, despedida, foi longo e fortissimo.</p>
-
-<p>At aqui um pouco de fel. Agora um pouco de
-justia.</p>
-
-<p>A idade, a companhia dos paes, que l vivem,
-a pratica dos rapazes do curso medico, a mesma
-lingua, os mesmos costumes, tudo explica bem a
-adoo da nova patria. Acrescento-lhe a carreira
-politica, a viso do poder, o clamor da fama,
-as primeiras provas de uma pagina da historia,
-lidas j de longe por elle, e acho natural e facil
-que Tristo trocasse uma terra por outra. Ponho-lhe,
-emfim, um corao bom, e comprehendo as
-saudades que a terra de c lhe desperta, sem quebra
-dos novos vinculos travados.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">21 de Agosto.</p>
-
-<p>Ante-hontem fui deixar um bilhete de visita a
-Fidelia; hontem, a convite do tio, que me encontrou
-na rua, fui tomar ch com ambos.</p>
-
-<p>Naturalmente conversmos do defunto. Fidelia
-narrou tudo o que viu e sentiu nos ultimos dias
-do pae, e foi muito. No falou da separao trazida
-pelo cazamento, era assunto velho e acabado.
-A culpa, se houve ento culpa, foi de ambos,
-ella por amar a outro, elle por querer mal
-ao escolhido. Eu que digo isto, no ella, que
-em sua tristeza de filha conserva a de viuva, e se
-houvesse de escolher outra vez entre o pae e o
-marido, iria para o marido. Tambem falou da fazenda
-e dos libertos, mas vendo que o assunto
-era j demasiado pessoal, mudou de conversa, e
-cuidmos da cidade e das ocurrencias do dia.</p>
-
-<p>Pouco depois chegaram D. Cesaria e o marido,
-o doutor Faria, que vinham tambem visital-a. A
-expanso com que D. Cesaria falou a Fidelia e lhe
-deu o beijo da entrada compensou, a meu ver, o
-dente que lhe meteu ha dias em casa do corretor
-Miranda. Daquella vez, apezar da graa com que
-falou, no gostei de a ver morder a viuva; agora
-tudo est pago. Repito o que l digo atraz: esta
-senhora muito mais graciosa que o marido.
-Nem precisa muito; elle o mal que diz dos outros
-dil-o mal, ella sempre interessante.</p>
-
-<p>D. Cesaria pagou tudo. No que as palavras
-que empregou hontem deem muito de si, como
-louvor e amizade, mas a expresso dos olhos, o
-ar admirativo e aprovador, um sorriso teimoso,
-quasi constante, tudo isso valia por um capital de
-afecto. Papel moeda tambem dinheiro. Com
-elle comprei esta tinta e esta penna, o charuto
-que estou fumando e o almoo que comeo a digerir.
-As duas senhoras no sofrem comparao
-entre si, e para conversar, D. Cesaria basta e sobra.
-Eu conheci na vida algumas dessas pessoas
-capazes de dar interesse a um tedio e movimento
-a um defunto; enchem tudo comsigo. Fidelia parece
-ter-lhe simpatia e ouvil-a com prazer. A
-noite foi boa.</p>
-
-<p>Ia-me esquecendo uma cousa. Fidelia mandou
-encaixilhar juntas as fotografias do pae e do
-marido, e pol-as na sala. No o fez nunca em
-vida do baro para respeitar os sentimentos
-deste; agora que a morte os reconciliou, quer
-reconcilial-os em efigie. Foi ella mesma que me
-deu esta explicao, quando eu olhava para elles.
-No me admira a delicadeza de outr'ora, nem a
-resoluo de agora; tudo responde mesma harmonia
-moral da pessoa.</p>
-
-<p>Quando eu disse isto c fora ao cazal Faria (saimos
-juntos), o marido torceu o nariz. No lhe vi
-o gesto, mas elle proferiu uma palavra que implica
-o gesto; foi esta: Afetao! Quiz
-replicar-lhe que no podia havel-a em acto to
-intimo e particular, mas a tempo encolhi a lingua.
-D. Cesaria no aprovou nem reprovou o dito;
-ponderou apenas que o gaz estava muito escuro.
-Notei para mim que estava clarissimo, e que provavelmente
-ella no achara mais pronto desvio
- conversao. Faria aproveitou o reparo da espoza
-para dizer o mal que pensa da companhia
-do gaz e do governo, e chamou ladro ao fiscal.
-Eram onze horas.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">21 de Agosto, cinco horas da tarde.</p>
-
-<p>No quero acabar o dia de hoje sem escrever
-que tenho os olhos canados, acaso doentes, e
-no sei se continuarei este diario de factos, impresses
-e ideias. Talvez seja melhor parar. Velhice
-quer descano. Bastam j as cartas que escrevo
-em resposta e outras mais, e ainda ha
-poucos dias um trabalho que me encomendaram
-da secretaria de Estranjeiros,&mdash;felizmente
-acabado.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">24 de Agosto.</p>
-
-<p>Qual! no posso interromper o <i>Memorial</i>; aqui
-me tenho outra vez com a penna na mo. Em
-verdade, d certo gosto deitar ao papel cousas
-que querem sair da cabea, por via da memoria
-ou da reflexo. Venhamos novamente notao
-dos dias.</p>
-
-<p>Desta vez o que me pe a penna na mo a
-sombra da sombra de uma lagrima...</p>
-
-<p>Creio tel-a visto ante-hontem (22) na palpebra
-de Fidelia, referindo-me eu dissidencia do pae
-e do marido. No quizera agora lembrar-me
-della, nem tel-a visto ou sequer suspeitado. No
-gosto de lagrimas, ainda em olhos de mulheres,
-sejam ou no bonitas; so confisses de fraqueza,
-e eu nasci com tedio aos fracos. Ao cabo, as mulheres
-so menos fracas que os homens,&mdash;ou
-mais pacientes, mais capazes de sofrer a dor e a
-adversidade... Ahi est; tinha resolvido no escrever
-mais, e l vae uma pagina com a sombra
-da sombra de um assunto.</p>
-
-<p>Tambem, se foi verdadeiramente lagrima, foi
-to passageira que, quando dei por ella, j no
-existia. Tudo fugaz neste mundo. Se eu no tivesse
-os olhos adoentados dava-me a compor outro
-<i>Ecclesiastes</i>, moderna, posto nada deva haver
-moderno depois daquelle livro. J dizia elle
-que nada era novo debaixo do sol, e se o no era
-ento, no o foi nem ser nunca mais. Tudo
-assim contraditorio e vago tambem.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">27 de Agosto.</p>
-
-<p>A alegria do cazal Aguiar cousa manifesta.
-Marido e mulher andam a inventar ocasies e
-maneiras de viver com os dous e com alguns amigos,
-entre os quaes parece que me contam. Jantam,
-passeiam, e se no projetam bailes porque
-os no amam de si mesmos, mas se Fidelia e
-Trinto os quizessem, estou que elles os dariam.
-A verdade, porm, que os dous hospedes no
-chegaram a tal ponto, mormente Fidelia que se-
-contenta de conversar e sorrir; no vae a teatros,
-nem a festas publicas.</p>
-
-<p>Os passeios so recatados pela hora e pelos logares.
-Ou vo as duas ss, ou se elles vo tambem,
-trocam-se s vezes, dando Aguiar o brao a Fidelia,
-e D. Carmo aceitando o de Tristo. Assim
-os encontrei ha dias na rua de Ipiranga, eram
-cinco horas da tarde. Os dous velhos pareciam ter
-certo orgulho na felicidade. Ella dizia com os
-olhos e um riso bom que lhe fazia luzir a pontinha
-dos dentes toda a gloria daquelle filho que o
-no era, aquelle filho morto e redivivo, e o rapaz
-era ateno e gosto tambem. Quanto ao velho
-no ostentava menos a sua delicia. Fidelia que
-no publicava nada; sorria, certo, mas pouco e
-cabisbaixa. E l foram andando, sem darem por
-mim, que vinha pela calada oposta.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">31 de Agosto.</p>
-
-<p>Como eu ainda gosto de musica! A noite passada,
-em casa do Aguiar, eramos algumas pessoas... Treze!
-S agora, ao contar de memoria os
-presentes, vejo que eramos treze; ninguem deu
-ento por este numero, nem na sala, nem meza
-do ch de familia. Conversmos de cousas varias,
-at que Tristo tocou um pouco de Mozart, ao
-piano, a pedido da madrinha.</p>
-
-<p>A execuo veiu por que faiamos tambem de
-musica, assunto em que a viuva acompanhou o
-recem-chegado com tal gosto e discrio, que elle
-acabou pedindo-lhe que tocasse tambem. Fidelia
-recusou modestamente, elle insistiu, D. Carmo
-reforou o pedido do afilhado, e assim o marido;
-Fidelia acabou cedendo, e tocou um pequeno trecho,
-uma reminiscencia de Schumann. Todos
-gostmos muito. Tristo voltou ainda uma vez ao
-piano, e pareceram apreciar os talentos um do
-outro. Eu sa encantado de ambos. A musica veiu
-commigo, no querendo que eu dormisse. Cheguei
-cedo a caza, onze horas, e s perto de uma
-comecei a conciliar o somno; todo o tempo da
-rua, da caza e da cama foi consumido em repetir
-trechos e trechos que ouvira na minha vida.</p>
-
-<p>A musica foi sempre uma das minhas inclinaes,
-e, se no fosse temer o poetico e acaso o
-patetico, diria que hoje uma das saudades. Se
-a tivesse aprendido, tocaria agora ou comporia,
-quem sabe? No me quiz dar a ella, por causa do
-oficio diplomatico, e foi um erro. A diplomacia
-que exerci em minha vida era antes funo decorativa
-que outra cousa; no fiz tratados de comercio
-nem de limites, no celebrei alianas de
-guerra; podia acomodar-me s melodias de
-sala ou de gabinete. Agora vivo do que ouo aos
-outros.</p>
-
-<p>Ha dous ou tres mezes ouvi dizer a Fidelia que
-nunca mais tocaria, tendo desde muito suspendido
-o exercicio da musica. Repliquei-lhe ento
-que um dia, a ss comsigo, tocaria para recordar,
-e a recordao traria o exercicio outra vez. Hontem
-bastaram as instancias da gente Aguiar para
-mover uma vontade j disposta, ao que parece. O
-exemplo de Tristo ajudou-a a sair do silencio.
-Repito que sa de l encantado de ambos.</p>
-
-<p>Quem sabe se a esta hora (dez e meia da manh)
-no estar ella em caza, com espanto da
-familia e da visinhana, deante do piano aberto,
-a comear alguma cousa que no toca ha muito?</p>
-
-<p>&mdash;No possvel!</p>
-
-<p>&mdash;Nhanh Fidelia!</p>
-
-<p>&mdash;A viuva Noronha!</p>
-
-<p>&mdash;Hade ser alguma amiga.</p>
-
-<p>E as mos della iro falando, pensando, vivendo
-aquellas notas que a memoria humana
-guarda impressas. Provavelmente tocar como
-hontem, sem musica, de cr, na ponta dos
-dedos...</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">Seis horas da tarde.</p>
-
-<p>Antes de ir para a meza, escrevo a confirmao
-de que conjeturei de manh; Fidelia efectivamente
-acordou os ecos da casa e da rua. Contou-m'o
-ha pouco o proprio desembargador Campos.
-A diferena que no foi s dez horas e meia,
-mas s sete. Campos estava ainda na cama,
-quando ouviu os primeiros acordes de uma composio
-conhecida, parece que italiana. No chegou
-a crer que fosse ella, mas no podia ser
-outra pessoa. Um creado, chamado por elle, veiu
-dizer-lhe que sim, que era ella mesma. Tocou
-algum tempo. Quando elle entrou na sala, tinha
-acabado, mas estava ainda ao piano, ante um
-folheto de musicas aberto, a soletrar para si.</p>
-
-<p>&mdash;Que isto? perguntou-lhe.</p>
-
-<p>&mdash;Ouviu tocar? disse ella fazendo rodar o
-banco.</p>
-
-<p>&mdash;Ouvi.</p>
-
-<p>&mdash;Creio que desaprendi alguma cousa; sinto
-os dedos um pouco tolhidos, j os senti assim
-hontem, a composio que me no esqueceu.</p>
-
-<p>&mdash;Mas que resurreio esta?</p>
-
-<p>&mdash;Cousas de defunta, respondeu ella querendo
-sorrir.</p>
-
-<p>Posto no seja grande apreciador de musica, o
-desembargador parece satisfeito daquella resurreio,
-como lhe chama. Tudo viver com mais
-ou menos barulho, disse elle. Confessou-me que
-a tristeza da sobrinha o aflige muita vez, e a no
-leval-a a bailes ou teatros, contentava-se de a
-ver tocar em caza, e at cantar se quizesse; Fidelia
-tambem sabe cantar, tem muita arte e linda
-voz. Mas at agora no queria uma cousa nem
-outra.</p>
-
-<p>No que no encha a caza comsigo mesma,
-sem musica; a musica, porm, era uma das suas
-ocupaes de outrora, e a absteno datada viuvez.</p>
-
-<p>Quiz ponderar ao desembargador que o exercicio
-da musica podia conciliar-se muito bem
-com o estado, uma vez que a arte tambem
-lingua, mas tudo isso me passou rapido pela
-cabea. Era acaso poetico para um magistrado,
-sem contar que podia ser indiscreto tambem.
-Contentei-me de aceitar o convite que elle me
-fez de ir ouvil-a, em casa delle, hoje, amanh,
-depois, quando queira.</p>
-
-<p>&mdash;Uma destas noites, concordei.</p>
-
-<p>Por emquanto, vou jantar. Creio que no saio
-mais hoje; mas que heide fazer com estes pobres
-olhos? Ler peoral-os; ah! se eu soubesse musica!
-Pegava do violino, trancava bem as portas
-para no ser ouvido da visinhana, e deixava-me
-ir atraz do arco. Talvez saia a passeio...</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">2 de Setembro.</p>
-
-<p>Anniversario da batalha de Sedan. Talvez v
-casa do desembargador pedir a Fidelia que, em
-comemorao da victoria prussiana, nos d um
-pedao de Wagner.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">3 de Setembro.</p>
-
-<p>Nem Wagner, nem outro. Tristo estava l e
-deu-nos um trecho de <i>Tannhauser</i>, mas a viuva
-Noronha recusou o pedido. Supondo que fosse
-luto pela lembrana da derrota franceza, pedi-lhe
-um autor francez qualquer, antigo ou moderno,
-posto que a arte,&mdash;disse-lhe com alguma afectao,&mdash;naturaliza
-a todos na mesma patria superior.
-Sorriu e no tocou; tinha um pouco de dor
-de cabea. Aguiar e Carmo, que l estavam tambem,
-no me acompanharam no pedido, como
-se lhes doesse a cabea da amiga. Outra
-preciosidade de estilo, esta renovada de Sevign.
-Emenda essa lingua, velho diplomata!</p>
-
-<p>A razo verdadeira da recusa pode no ser dor
-de cabea nem de outra qualquer parte. Quer-me
-parecer que Fidelia vae um tanto commigo, e
-tocaria para si, caso estivesse s. Naquella outra
-noite, em casa do Aguiar, deixou-se arrastar e tocar
-para as doze pessoas que l estavam, levada
-do sobresalto, de um acordar do gosto antigo;
-agora abana a cabea, no quer divertir os outros.
-Tocar para o tio, de manh, e para si durante as
-horas de desembargo. Quando muito satisfar os
-dous paes postios, alguma vez. Signal de que
-no tinha dor de cabea que ouviu a Tristo
-com evidente prazer, e aplaudiu sorrindo. No
-digo que a musica no tenha o dom de fazer esquecer
-um mal fisico, mas desconfio que no foi
-assim neste caso.</p>
-
-<p>Os dous conversaram de Wagner e de outros
-autores, com interesse, e provavelmente com
-acerto. Eu falei tambem o meu pouco; depois
-atendi ao que me disse Aguiar, cerca de Tristo.</p>
-
-<p>&mdash;Parece que vem liquidar tambem alguns
-negocios do pae; soube hoje por elle mesmo.
-Deus queira que no acabe to cedo.</p>
-
-<p>&mdash;Deus tambem ama a chicana, quem sabe?</p>
-
-<p>&mdash;No so negocios do foro; e se algum chegar
-l, provavelmente elle deixa procurador aqui.
-Sabe j que elle vae entrar na camara?</p>
-
-<p>&mdash;Sei; disse-me que aceitou de alguns chefes
-de Lisboa elegel-o deputado.</p>
-
-<p>&mdash;Carmo, que queria prendel-o por um anno
-ou mais, ficou aborrecida e triste, e eu com ella.
-Trocmos os nossos aborrecimentos, quero dizer
-que os sommos, e ficamos com o dobro cada
-um...</p>
-
-<p>Gostei desta palavra de Aguiar, e decorei-a
-bem para me no esquecer e escrevel-a aqui.
-Aquelle gerente de banco no perdeu o vicio
-poetico. bom homem; creio que j o escrevi
-alguma vez, mas l vae ainda agora. No perco
-nada em repetil-o.</p>
-
-<p>Falavamos a um canto da sala, onde Campos e
-Tristo foram ter comnosco, deixando as duas
-damas entregues uma outra. E eu c de longe
-fiquei a miral-as, encantadoras naquella expresso
-de si mesmas. A harmonia dos cabellos brancos
-de uma e dos cabellos pretos de outra, as vozes
-que trocavam baixo sorrindo, com os olhos brandos
-e amigos, tudo isso me faria perguntar a mim
-mesmo, porque no eram realmente me e filha,
-esta cazada com algum rapaz que a merecesse, e
-aquella cazada ou viuva, no importa; consolar-se-ia
-do marido perdido com a filha eterna. Toda
-filha moa eterna para as mes envelhecidas.
-Mas ainda uma vez notei que pareciam antes
-irms, tal a arte de D. Carmo em se fazer moa
-com as moas. A materia da conversao no sei
-qual fosse, nem vale a pena cogital-a; no daria
-mais interesse ao grupo. De uma vez, demorando-se
-Fidelia em concertar a posio do broche,
-D. Carmo substituiu-lhe os dedos pelos seus,
-e concertou-lh'a de todo.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">4 de Setembro.</p>
-
-<p>Relendo o dia de hontem fiz commigo uma
-reflexo que escrevo aqui para me lembrar mais
-tarde. Quem sabe se aquella afeio de D. Carmo,
-to meticulosa e to servial, no acabar fazendo
-damno bella Fidelia? A carreira desta, apezar
-de viuva, o cazamento; est na idade de cazar,
-e pode aparecer alguem que realmente a queira
-por espoza. No falo de mim, Deus meu, que
-apenas tive veleidades sexagenarias; digo alguem
-de verdade, pessoa que possa e deva amar como
-a dona merece. Ella, entregue a si mesma, poderia
-acabar de receber o noivo, e iriam ambos
-para o altar; mas entregue a D. Carmo, amigas
-uma da outra, no dar pelo pretendente, e l se
-vae embora um destino. Em vez de me de familia,
-ficar viuva solitaria, porque a amiga velha
-hade morrer, e a amiga moa acabar de morrer
-um dia, depois de muitos dias...</p>
-
-<p>A reflexo verdadeira, por mais que se lhe
-possa dizer em contrario. No afirmo que as cousas
-se passem exactamente assim, e que os tres,&mdash;os
-quatro, contando o velho Aguiar,&mdash;os
-cinco e seis, juntando o tio e o primo,&mdash;no
-faam com o noivo adventicio, uma s familia de
-afeio e de sangue; mas a reflexo verdadeira.
-A afeio, o costume, o feitio crescente, e por
-fim o tempo, complice de attentados, negaro a
-bella viuva a qualquer namorado trazido pela natureza
-e pela sociedade. Assim chegar ella aos
-trinta annos, depois aos trinta e cinco e quarenta.
-Quando a espoza Aguiar morrer no se contentar
-de a chorar, lembrar-se-ha della, e as saudades
-iro crescendo com o tempo. O pretendente ter
-desaparecido ou passado a outras alegrias.</p>
-
-<p>Reli tambem este dia de hoje, e temo haver-lhe
-posto (principalmente no fim) alguma nota poetica
-ou romanesca, mas no ha disso; antes tudo
-prosa, como a realidade possivel. Esqueceu-me
-trazer um elemento para a viuvez definitiva da
-moa, a propria lembrana do marido. Daqui a
-cinco annos, ella mandar transferir os ossos do
-pae para a cova do marido, e os conciliar na terra
-uma vez que a eternidade os conciliou j. Aqui e
-alli toda a politica se resume em viverem uns com
-outros, no mesmo que eram, e ser para nunca
-mais.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">5 de Setembro.</p>
-
-<p>Os dous filhos postios do cazal Aguiar no tm
-ciumes um do outro, no se sentem diminuidos
-pela afeio que recebem dos velhos. Ao contrario,
-parecem achar que a poro de cada um
-cresce com a que o outro recebe tambem. Eis ahi
-uma boa diviso de amigos; ha casos em que os
-filhos de verdade no se mostram to cordatos.</p>
-
-<p>Mana Rita, a quem comuniquei esta impresso,
-acha tambem que assim. Acrescenta, porm,
-uma reflexo mais fina que essa, e no tenho
-duvida em a escrever aqui ao p da minha, tanto
-mais que lhe repliquei com outra, no menos fina
-que a sua. V este elogio a ns ambos. Sempre
-hade haver quem nos desgabe um pouco, e ahi
-fica j a compensao. Nem custa muito elogiar-se
-a gente a si mesma. Eis o que me disse a
-mana:</p>
-
-<p>&mdash;Esse sentimento hade custar pouco ao Tristo,
-estando aqui de passagem.</p>
-
-<p>Ao que eu repliquei:</p>
-
-<p>&mdash;Tambem no lhe custar muito a Fidelia,
-sabendo que elle se vae embora daqui a pouco.</p>
-
-<p>Escritas as palavras de ambos ns, entro a
-duvidar da finura della e minha. Por mais rapida
-que fosse a passagem do rapaz, elle gostaria de se
-ver exclusivamente querido, e ella tambem a si.
-Penso outra vez que a qualidade do afecto filial
-que os faz assim generosos e abertos. Repito o
-que l disse acima: casos ha em que no vivem
-com tanto acordo filhos verdadeiros.</p>
-
-<p>Rita deu-me outras noticias da caza Aguiar,
-onde no piso ha mais de uma semana, creio.
-Todas confirmam a communho de boa vontade
-da parte de moos e velhos. Os quatro passam os
-dias em conversa, e hontem a viuva Noronha
-tocou piano, um pouquinho, verdade, mas
-tocou. Parece que j uma vez jogaram cartas.
-Rita disse mais:</p>
-
-<p>&mdash;Fidelia, que desde que saiu do colegio
-nunca mais fez trabalhos de agulha, comea agora
-a imitar a amiga, e j hontem trabalharam juntas.
-Quando eu l cheguei s duas horas da tarde e
-dei com ellas, defronte uma da outra, movendo
-agulhas, voc no imagina a alegria com que me
-receberam; D. Carmo mostrava um pouco de
-orgulho tambem, ou cousa parecida. Faziam um
-par de sapatinhos de creana. O trabalho de Fidelia
-no tinha a perfeio do da outra, e no estava
-to adeantado, mas tambem o de D. Carmo podia
-ir mais depressa; talvez fosse inteno della no
-deixar a moa muito atraz, e por isso iria demorando
-os dedos. Quiz rir, perguntando a qual
-dellas destinavam taes sapatos, mas no tive tempo;
-Fidelia disse-me que eram para o filho de uma
-creada de D. Carmo que fora dar luz em casa do
-marido. D. Carmo ia comear o crochet quando
-Fidelia lhe apareceu, e quiz acompanhal-a.
-Consentiu para no sair trabalho de velha.</p>
-
-<p>O mais que a mana me disse no vae aqui para
-no encher papel nem tempo, mas era interessante.
-Vae s isto, que jantou l e Fidelia tambem,
-a convite de D. Carmo. O velho Aguiar e Tristo
-tinham saido a passeio, depois do almoo, mas
-voltaram cedo, s quatro horas. No viram a parada
-do dia de hontem (sete) apenas viram passar
-um batalho, que no deixou impresso no moo.
-Todos os batalhes se parecem, disse elle. O
-himno nacional, sim, que acordou nelle algumas
-saudades do tempo de creana e de rapaz;
-assim o confessou, e dahi nasceu a conversao
-musical que levou Fidelia ao piano. A viuva no
-tocou mais de quatro ou cinco minutos, e fel-o a
-pedido de Tristo, que lhe citou um autor; Rita
-no se lembra que autor foi, mas achou bonita a
-musica. Tambem se falou em cousas da Europa,
-e os dous ajustaram bem os modos de ver.</p>
-
-<p>Ouvi tudo isso em Andarahy, onde fui jantar
-hoje com Rita. Propuz-lhe vir commigo e irmos
-ao Flamengo, a mana recusou; estava com o
-somno atrazado, e queria dormir. Voltei s e
-fui caza Aguiar, onde os quatro e o desembargador
-conversaram de festas religiosas, a proposito
-do dia santo de hoje. Ainda uma vez os
-dous deram impresses europeas, e realmente
-ajustaram as reminiscencias. As minhas, quando
-as pediram, ficaram naquelle acordo de cabea,
-que util, quando um assunto cana ou aborrece,
-como este a mim.</p>
-
-<p>Quando o tio e a sobrinha se foram, eu fiquei
-ainda um quarto de hora com a gente Aguiar.
-O resto amanh; tambem eu estou com somno.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">9 de Setembro.</p>
-
-<p>O resto a noticia de ter chegado Osorio, o
-advogado do Banco do Sul, que foi ha tempos
-ao Recife, onde o pae estava doente e morreu.</p>
-
-<p>&mdash;Voltou triste, e o luto ainda o faz mais
-triste, disse Aguiar.</p>
-
-<p>&mdash;Ser s a morte do pae? perguntei.</p>
-
-<p>&mdash;Que mais pode ser?</p>
-
-<p>&mdash;No me disseram, ou eu adivinhei que elle
-andava meio apaixonado por D. Fidelia...?</p>
-
-<p>&mdash;Andava, sim, e talvez mais que meio, explicou
-Aguiar, mas j l vae naturalmente.</p>
-
-<p>&mdash;Em todo caso no se lhe declarou?</p>
-
-<p>&mdash;Com o gesto, possvel; ella tacitamente
-recusou, e foi pena; ambos se merecem.</p>
-
-<p>Aguiar louvou as qualidades profissionaes do
-moo, a educao e as virtudes. Acreditei tudo,
-como era do meu dever, e alis no tinha razo
-para duvidar de nada. D. Carmo confirmou
-as palavras do marido, sem afirmar que era
-pena no se terem casado. Calou esse ponto, e
-foi mais discreta que elle. Pode ser que nelle
-falasse tambem o gerente do banco. Tristo durante
-esse tempo folheava um livro de gravuras.</p>
-
-<p>Digo que eram gravuras, porque me fui despedir
-delle, que se levantou logo, com grande
-cortezia; mas de longe pensei que fosse o album
-de retratos. No era; o album estava ao p,
-aberto justamente na pagina em que figuram as
-duas fotografias de Carmo e do marido. Tristo,
-deixou tambem aberto o livro das gravuras e
-veiu commigo porta, acompanhando Aguiar,
-e ali me despedi de ambos.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
- <p class="right">9 de Setembro tarde.</p>
-
-<p>Parece que a gente Aguiar me vae pegando
-o gosto de filhos, ou a saudade delles, que expresso
-mais engraada. Vindo agora pela rua
-da Gloria, dei com sete creanas, meninos e meninas,
-de vario tamanho, que iam em linha, prezas
-pelas mos. A idade, o riso e a viveza chamaram-me
-a ateno, e eu parei na calada, a
-fital-as. Eram to graciosas todas, e pareciam
-to amigas que entrei a rir de gosto. Nisto ficaria
-a narrao, caso chegasse a escrevel-a, se no
-fosse o dito de uma dellas, uma menina, que me
-viu rir parado, e disse s suas companheiras:</p>
-
-<p>&mdash;Olha aquelle moo que est rindo para ns.</p>
-
-<p>Esta palavra me mostrou o que so olhos de
-creanas. A mim, com estes bigodes brancos e
-cabellos grisalhos, chamaram-me moo! Provavelmente
-do este nome estatura da pessoa,
-sem lhe pedir certido de idade.</p>
-
-<p>Deixei andar as creanas e vim fazendo commigo
-aquella reflexo. Ellas foram saltando,
-parando, puxando-se direita e esquerda, rompendo
-alguma vez a linha e recozendo-a logo.
-No sei onde se dispersaram; sei que dahi a dez
-minutos no vi nenhuma dellas, mas outras, ss
-ou em grupos de duas. Algumas destas carregaram
-trouxas ou cestas, que lhes pezavam cabea
-ou s costas, comeando a trabalhar, ao tempo em
-que as outras no acabavam ainda de rir. Dar-se-ha
-que a no ter carregado nada na meninice
-devo eu o aspecto de moo que as primeiras
-me acharam agora? No, no foi isso. A idade d
-o mesmo aspecto s cousas; a infancia v naturalmente
-verde. Tambem estas, se eu risse, achariam
-que aquelle moo ria para ellas, mas eu
-ia serio, pensando, acaso doendo-me de as sentir
-canadas; ellas, no vendo que os meus cabelos
-brancos deviam ter-lhes o aspecto de pretos,
-no diziam cousa nenhuma, foram andando e eu
-tambem.</p>
-
-<p>Ao chegar porta de casa dei com o meu creado
-Jos, que disse estar ali minha espera.</p>
-
-<p>&mdash;Para qu?</p>
-
-<p>&mdash;Para nada; vim esperar V. Ex. c embaixo.</p>
-
-<p>Era mentira; veiu distrair as pernas rua, ou
-ver passar creadas visinhas, tambem necessitadas
-de distrao; mas, como elle habil, engenhoso,
-cortez, grave, amigo de seu dever,&mdash;todos os
-talentos e virtudes,&mdash;preferiu mentir nobremente
-a confessara verdade. Eu nobremente lh'o
-perdoei e fui dormir antes de jantar.</p>
-
-<p>Dormi pouco, uns vinte minutos, apenas o
-bastante para sonhar que todas as creanas deste
-mundo, com carga ou sem ella, faziam um grande
-circulo em volta de mim, e danavam uma dana
-to alegre que quasi estourei de riso. Todas
-falavam deste moo que ria tanto. Acordei
-com fome, lavei-me, vesti-me e vim primeiro
-escrever isto. Agora vou jantar. Depois, irei provavelmente
-ao Flamengo.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">9 de Setembro, noite.</p>
-
-<p>Fui ao Flamengo. A viuva no estava l; estava
-o Osorio, e no o achei triste, como Aguiar
-havia dito, tambem no estava alegre; falava
-pouco. Tristo, que lhe fora apresentado hoje,
-falava mais que elle, sem falar muito. Noite sem
-interesse. Voltei cedo e vou dormir.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">12 de Setembro.</p>
-
-<p>Quando cheguei hoje cidade, eram duas horas,
-e ia a sair do bonde, chegou-se a elle a bella
-Fidelia, com o seu gracioso e austero meio luto de
-viuva. Vinha de compras, naturalmente. Comprimentamo-nos,
-dei-lhe a mo para subir. Perguntou-me
-pela mana, eu pelo tio, ambos por ns, e
-ainda houve tempo de trocar esta meia duzia de
-palavras. Ella:</p>
-
-<p>&mdash;Ainda agora?</p>
-
-<p>&mdash;A minha preguia de apozentado no me
-permitiu sair mais cedo, disse eu rindo, e afastei-me.</p>
-
-<p>O bonde partiu. Na esquina estava no menos
-que o Dr. Osorio sem olhos, porque ella os levava
-arrastados no bonde em que ia; foi o que
-conclui da cegueira com que no me viu passar
-por elle... Ai, requinte de estilo!</p>
-
-<p>Entrei nesta duvida,&mdash;se teriam estado juntos
-na rua ou no loja a que ella veiu, ou no banco,
-ou no inferno, que tambem logar de namorados,
- certo que de namorados viciosos, <i>del mal
-perverso.</i> Achei que no, e comprehendi que elle,
-se acaso a comprimentou na rua, no ousou
-falar-lhe, apenas a acompanhou de longe, at
-que a viu meter-se no bonde e partir.</p>
-
-<p>Tambem achei outra cousa; que a paixo antiga
-e recusada no estava morta nelle, ou revivia
-com a vista nova da pessoa. No era por ser
-agora a dona rica, j antes era ella herdeira unica,
-e vivia de si mesma. No, elle bom, e o
-proprio Aguiar afirma que os dous se merecem.</p>
-
-<p>Ia nessas conjecturas, em direo Escola
-Politecnica, e vi-o passar por mim, cabisbaixo,
-no sei se triste ou alegre; no pude ver-lhe a
-cara. Mas parece que a tristeza que cabisbaixa,
-a alegria distribue os olhos felizes direita e
-esquerda; alguma vez ao ceu tambem. suposio
-minha, e pode no ser verdade. A verdade
-certa que, s duas horas da tarde, aquelle
-advogado andava atraz das moas, em vez de
-estar no foro; ou mau advogado, ou feliz namorado.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">14 de Setembro.</p>
-
-<p>Nem uma cousa nem outra. Refiro-me ao que
-escrevi ante-hontem do Osorio, que no namorado
-feliz, pelo que me disse Aguiar hoje, nem
-mu advogado, pelo que li nos jornaes. Li que
-venceu uma demanda do Banco do Sul, e Aguiar
-no lhe regateou louvores ao zelo com que a
-pleiteou antes do embarque e depois do desembarque.
-Eis ahi um homem que sabe cazar o zelo
-e a tristeza, e bem pode ser isto um simbolo, se
-elle o zelo, e Fidelia a tristeza. Talvez acabem
-cazando. Mas ainda depois da recusa? Tudo possivel
-debaixo do sol,&mdash;e a mesma cousa sucedar
-acima d'elle,&mdash;Deus sabe.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">18 de Setembro.</p>
-
-<p>Venho da gente Aguiar, e no me quero ir
-deitar sem escrever primeiro o que l se passou.
-Cheguei cedo, estavam ss os dous velhos e receberam-me
-familiarmente.</p>
-
-<p>&mdash;Venha o terceiro velho, disse Aguiar, venha
-fazer companhia aos dous que aqui ficaram
-abandonados.</p>
-
-<p>Esta palavra, que podia ser de queixa, foi dita
-rindo, e percebi pelo tom que era alegre. Foi-me
-dita quasi porta da sala, onde elle foi ter commigo,
-ficando ella em uma das duas cadeiras de
-balano, unidas e trocadas, em forma de conversadeira,
-onde costumavam passar as horas solitarias.
-Respondi que trazia a minha velhice para
-sommar s duas e formar com ellas uma s e
-verde mocidade, das que j no ha na terra. Sobre
-este tema gasto e vulgar disseram tambem algo
-de riso, e taes foram os primeiros minutos.</p>
-
-<p>&mdash;Talvez no nos encontrasse, se eu no estivesse
-doente de um joelho, disse D. Carmo.</p>
-
-<p>&mdash;Doente?</p>
-
-<p>&mdash;De-me um pouco este joelho, e o logar melindroso
-para andar. Tristo foi sozinho casa do
-desembargador, aonde vo hoje alguns amigos
-do fro. Aguiar tambem queria ir, mas Tristo
-disse-lhe que era melhor ficar; elle se incumbiria
-de dar l todas as desculpas, e foi sozinho.</p>
-
-<p>&mdash;Quiz que eu ficasse fazendo companhia
-madrinha, explicou Aguiar. Se eu teimo em ir
-elle era capaz de ficar para a no deixar sozinha.</p>
-
-<p>&mdash;Pode ser, disse D. Carmo com os olhos.</p>
-
-<p>S com os olhos. De boca disse logo depois
-que talvez elle fosse tambem, espera de ver l
-moas. provavel que os velhos amigos levem
-as filhas.</p>
-
-<p>&mdash;Mas ento alguma festa? perguntei.</p>
-
-<p>&mdash;No, conselheiro, acudiu Aguiar; os amigos
-so uns tres ou quatro que hontem ajustaram
-entre si l ir hoje, e avizaram disso o desembargador.
-Foi o que Fidelia nos contou hontem
-mesmo, aqui em casa.</p>
-
-<p>E D. Carmo continuou o que ia dizendo antes:</p>
-
-<p>&mdash;Alguns levaro as filhas, e natural a um
-rapaz o dezejo de ver moas. Tristo acha que as
-suas patricias so muito graciosas; mais de uma
-vez o tem dito. Tambem se no houver l nenhuma
- provavel que acabe a visita cedo e torne
-para caza. Tristo cada vez mais amigo nosso.</p>
-
-<p>Conhecia este outro tema, e acenei de cabea
-que sim. Aguiar disse a mesma cousa. O que elle
-no disse, nem eu esperei, foi a nota melancolica
-que a mulher trouxe conversao, e que eu
-cuidei de atenuar, como pude.</p>
-
-<p>&mdash;Os dias vo correndo, disse ella, e os ultimos
-correro mais depressa; brevemente o nosso
-Tristo volta para Lisboa e nunca mais vir c, ou
-s vir para ver as nossas covas.</p>
-
-<p>&mdash;Ora D. Carmo! deixe-se de ideias tristes.</p>
-
-<p>&mdash;Carmo tem razo, interveiu o marido; o
-tempo acabar depressa para que elle se v, e no
-ficar s nossas ordens para que fiquemos eternamente
-na vida.</p>
-
-<p>&mdash;Todos ns l vamos, disse eu. A morte
-outro desembargador, conta muitos amigos que
-l passam as noites, e os que tem filhas levam
-as filhas. Isto certo, mas o melhor no pensar
-nella.</p>
-
-<p>&mdash;No nella, nelle, emendou D. Carmo;
-falo do nosso Tristo, que se ir brevemente.</p>
-
-<p>Sorri e disse:</p>
-
-<p>&mdash;<i>Elle</i> se ir, creio, mas ficar <i>ella.</i></p>
-
-<p>Acentuei bem os pronomes, e no seria preciso;
-Carmo entendeu-me logo e bem. O ar de riso
-que se lhe espraiou do rosto mostrou que entendera
-a aluso bella Fidelia. Era uma consolao
-grande. No obstante, a consolao s cabe ao que
-doe, e a dor da perda de um j no seria menor
-que o prazer da conservao da outra. Logo vi
-essas duas expresses no rosto da boa senhora,
-combinadas em uma s e unica, especie de meio
-luto. Aguiar tambem sentiria como a mulher, mas
-o oficio de banqueiro obriga e acostuma a dissimular.
-E talvez ainda no falassem entre si do
-proximo regresso do Tristo; felicidade rima com
-eternidade, e estes eram felizes.</p>
-
-<p>Eram felizes, e foi o marido que primeiro arrolou
-as qualidades novas de Tristo. A mulher
-deixou-se ir no mesmo servio, e eu tive de os
-ouvir com aquella complacencia, que uma qualidade
-minha, e no das novas. Quasi que a trouxe
-da escola, se no foi do bero. Contava minha
-me que eu raro chorava por mama; apenas fazia
-uma cara teia e implorativa. Na escola no briguei
-com ninguem, ouvia o mestre, ouvia os companheiros,
-e se alguma vez estes eram extremados
-e discutiam, eu fazia da minha alma um
-compasso, que abria as pontas aos dous extremos.
-Elles acabavam esmurrando-se e amando-me.</p>
-
-<p>No quero elogiar-me.... Onde estava eu? Ah!
-no ponto em que os dous velhos diziam das qualidades
-do moo. No mentiam; quando muito,
-podiam exagerar alguma, mas as que citavam
-deviam ser verdadeiras, bom, carinhoso, attento,
-justo, puro de sentimentos, indole pacifica, maneiras
-educadas, capaz de sacrificios, se fosse necessario.
-No o tinham achado mu nem falho,
-quando elle chegou; agora porm, s qualidades
-antigas estavam apuradas, e algumas novas appareciam.
-Ainda que eu discordasse d'elles no
-diria nada para os no aborrecer, mas que sabia
-eu que pudesse contrariar essa opinio de amigos?
-Nada; concordei com ambos.</p>
-
-<p>D. Carmo entendeu acaso que o assunto podia
-ser enfadonho a extranhos, e trocou as mos
-conversa. No totalmente, verdade; falou da
-casa do desembargador Campos e do que iria por
-l. Eu (habilmente, confesso) querendo saber o
-estado do corao de Osorio, perguntei se elle
-no estaria l tambem, elle, que tambem do
-fro. Aguiar disse logo que podia ser que sim;
-conforme. Sobre isto falmos um pouco, e as
-qualidades do advogado foram ainda honradas,
-mas no eram tantas, nem tamanhas como as de
-Tristo. Falavam com simpatia, Aguiar mais que
-D. Carmo; eram relaes propriamente do banco
-e do foro.</p>
-
-<p>&mdash;Mas no haver ainda nelle alguma faisca
-antiga? perguntei.</p>
-
-<p>&mdash;Pode ser, e ser mais uma razo para fugir,
-concluiu elle.</p>
-
-<p>No quiz dizer o que vira na rua, e alis a concluso
-delle no era errada. D. Carmo escutava
-agora sem falar, embora com interesse. A discrio
-daquella senhora das mais completas
-que tenho achado na vida. No quiz ella entrar
-em tal assunto, e o marido no tardou muito
-que o deixasse. Eu no retive a um nem a outro.</p>
-
-<p>Assim o destino dos namorados sem ventura;
-os proprios amigos, como Aguiar parece que
-de Osorio, tratam logo de outra cousa. Elles que
-se fiquem comsigo. Ns passmos a tratar de algumas
-noticias de sociedade e das ultimas noticias
-novellescas de Paris. Neste capitulo D. Carmo
-sabe mais que eu, e muito mais que o marido,
-que no sabe nada; mas Aguiar acompanhou a
-conversao como se soubesse alguma cousa.
-Elle compra-lhe os livros, que ella l e resume
-para elle ouvir. Como a memoria delle grande,
-cita tambem as narraes escritas, com a diferena
-que ella, tendo impresso direta, a analise
-que faz mais viva e interessante. Ouvi-lhe dizer
-de alguns nomes contemporaneos muita cousa
-fina e propria. claro que, se o marido escrevesse
-tambem, achal-o-hia melhor que ninguem,,
-porque ella o ama devras, tanto ou mais que no
-primeiro dia; a impresso que ainda hoje me
-deixou.</p>
-
-<p>Eu, para lhes ser agradavel,&mdash;e um pouco a
-mim mesmo, porque os queria gozar tambem,&mdash;voltei
-ao assunto principal para ambos, que no
-seria Fidelia s, nem s Tristo, mas os dous
-juntos.</p>
-
-<p>&mdash;Digam-me, se elles fossem irmos e seus
-filhos, no seria melhor que apenas amigos e extranhos
-um ao outro?</p>
-
-<p>Era a primeira vez que lhes dizia uma cousa
-d'estas, e o interesse foi tamanho que elles pegaram
-do assunto para dizer cousas interessantissimas.
-No as escrevo por ser tarde, mas c
-me ficam de memoria. Digo s que, quando sa,
-D. Carmo, apezar do joelho doente, e por mais
-que eu quizesse detel-a, veiu commigo porta da
-sala. Aguiar acompanhou-me at porta do jardim,
-emquanto ella veiu janela, donde se despedia
-ainda uma vez.</p>
-
-<p>&mdash;Olhe o sereno, boa noite, disse-lhe eu c
-debaixo.</p>
-
-<p>&mdash;Boa noite.</p>
-
-<p>D. Carmo entrou. Aguiar e eu apertmos a
-mo um do outro. Indo a sair, lembrou-me falar
-do co ali sepultado. No lhe falei logo, dei tres
-ou quatro investidas, mas to rapidas que, se
-gastei um minuto, foi o mais; nem tanto. Aguiar
-ouviu-me espantado e constrangido.</p>
-
-<p>&mdash;Quem lhe contou isso?</p>
-
-<p>&mdash;O Dr. Tristo.</p>
-
-<p>No lhe quiz citar o Campos, que tambem me
-falou do animal. Aguiar confessou calando, depois
-falando, mas no falou muito. Confirmou que
-tiveram muita amizade ao bicho, e referiu-me os
-padecimentos que a doena e a morte deste produziram
-na mulher. No disse os seus, mas tambem
-os tivera; olhou uma vez para o lado da
-parede, e depois de uma pausa:</p>
-
-<p>&mdash;Tristo riu-se naturalmente do nosso carinho?</p>
-
-<p>&mdash;Ao contrario, falou-me com muito louvor;
-tem bom corao aquelle rapaz.</p>
-
-<p>&mdash;Muito bom.</p>
-
-<p>Apezar de no ser dado a melancolias, nem
-achar que oficio de banqueiro v com taes lastimas,
-separei-me delle com simpatia. Vim pela rua
-da Princeza, pensando nelle e nella, sem me dar
-de um co que, ouvindo os meus passos na rua,
-latia de dentro de uma chacara. No faltam ces
-atraz da gente, uns feios, outros bonitos, e todos
-impertinentes. Perto da rua do Cattete, o latido ia
-diminuindo, e ento pareceu-me que me mandava
-este recado: Meu amigo, no lhe importe
-saber o motivo que me inspira este discurso;
-late-se como se morre, tudo oficio de ces, e
-o co do cazal Aguiar latia tambem outrora; agora
-esquece, que oficio de defunto.</p>
-
-<p>Pareceu-me este dizer to subtil e to espevitado
-que preferi attribuil-o a algum co que latisse
-dentro do meu proprio cerebro. Quando eu
-era moo e andava pela Europa ouvi dizer de
-certa cantora que era um elefante que engulira
-um rouxinol. Creio que falavam da Alboni, grande
-e grossa de corpo, e voz deliciosa. Pois eu terei
-engolido um co filosofo, e o merito do discurso
-ser todo delle. Quem sabe l o que me haver
-dado algum dia o meu cozinheiro? Nem era novo
-para mim este comparar de vozes vivas com vozes
-defuntas.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">20 de Setembro.</p>
-
-<p>Aquelle dia 18 de Setembro (ante-hontem) ha
-de ficar-me na memoria, mais fixo e mais claro
-que outros, por causa da noite que passmos os
-tres velhos. Talvez no escrevesse tudo nem to
-bem; mas bastou-me relel-o hontem e hoje para
-sentir que o escrito me acordou lembranas
-vivas e interessantes, a boa velha, o bom velho,
-a lembrana dos dous filhos postios... Continuo
-a dar-lhes este nome, por no achar melhor...
-Principalmente aquella felicidade mdia ou turva
-de pessoas que vo perder um de dous bens do
-ceu, essa expresso que vi em D. Carmo mais
-forte ainda que no Aguiar...</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">21 de Setembro.</p>
-
-<p>Ao sair hoje de casa, vi passar na rua, do lado
-oposto, a irm do corretor Miranda, D. Cesaria,
-to risonha que parecia falar mal de mim, mas
-no falava, ia s,&mdash;ou falava de mim comsigo;
-mas s comsigo no teria tanto prazer. Comprimentmo-nos
-e seguimos.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">22 de Setembro.</p>
-
-<p>...encantadora Fidelia! No escrevo isto porque
-a deseje, mas porque assim mesmo:
-encantadora! Pois no que esta creatura de
-Deus, encontrando-se commigo de manh, veiu
-agradecer-me a companhia que fiz aos seus amigos
-do Flamengo, na noite de 18?</p>
-
-<p>&mdash;No tive merecimento nisso; fui l, achei-os
-ss, passei a noite.</p>
-
-<p>&mdash;Isso mesmo. D. Carmo disse-me que, se no
-foi uma noite cheia, foi s por lhe faltarmos o
-Dr. Tristo e eu, mas que, ainda assim, o senhor
-teve o dom de nos fazer esquecer.</p>
-
-<p>Sorri incredulamente, depois expliquei o caso,
-dizendo que, se os fiz esquecer, foi por serem
-elles o proprio assunto da conversao...</p>
-
-<p>&mdash;Isso que ella no me disse, interrompeu
-Fidelia espantada.</p>
-
-<p>&mdash;Nem dir; nem lh'o pergunte. O melhor
-crer que eu, com os meus cabelos brancos, ajudei
-a encher o tempo. A senhora no sabe o que
-podem dizer tres velhos juntos, se alguma vez
-sentiram e pensaram alguma cousa.</p>
-
-<p>&mdash;Sei, sei, j tenho visto e ouvido os tres.</p>
-
-<p>&mdash;Mas nessas ocasies a senhora d outra
-nota recente e viva conversao.</p>
-
-<p>Era verdade e era comprimento; Fidelia sorriu
-agradecida e despediu-se. Eu&mdash;aqui o digo ante
-Deus e o Diabo, se tambem este senhor me v a
-encher o meu caderno de lembranas,&mdash;eu
-deixei-me ir atraz della. No era curiosidade, menos
-ainda outra cousa, era puro gosto estetico.
-Tinha graa andando; era o que l disse acima:
-encantadora. No fazia crer que o sabia, mas devia
-sabel-o. Ainda no encontrei encantadora que
-o no soubesse. A simples suposio de o ser
-tenta persuadir que o .</p>
-
-<p>No largo de S. Francisco estava um carro della,
-perto da egreja. Iamos da rua do Ouvidor, a dez
-passos de distancia ou pouco mais. Parei na esquina,
-vi-a caminhar, parar, falar ao cocheiro,
-entrar no carro, que partiu logo pela travessa,
-naturalmente para os lados de Botafogo. Quando
-ia a voltar dei com o moo Tristo, que ainda
-olhava para o carro, no meio do largo, como se a
-tivesse visto entrar. Elle vinha agora para a rua
-do Ouvidor, e tambem me viu; detive-me espera.
-Tristo trazia os olhos deslumbrados, e esta
-palavra na boca:</p>
-
-<p>&mdash;Grande talento!</p>
-
-<p>Percebi que se referia ao talento musical, e
-nem por isso fiquei menos espantado; quasi me
-esqueceu concordar com elle. Concordei de gesto
-e de palavra, sem entender nada. Tambem eu
-gosto de musica, e sinto no tocar alguma cousa
-para me aliviar da solido; entretanto, se fosse
-elle, e apezar de todos os Schumanns e seus
-emulos, ao vel-a parar no largo de S. Francisco e
-entrar no carro, no soltaria a mesma exclamao,
-antes outra, igualmente estetica, verdade,
-mas de uma estetica visual, no auditiva. No
-entendi logo.</p>
-
-<p>Depois, quando nos separmos na esquina da
-rua da Quitanda, entrei a cogitar se elle ao dar
-commigo, com pz aquella palavra para o fim de
-mostrar que, mais que tudo, admira nella arte
-musical. Pode ser isto; ha nelle muita compostura
-e alguma dissimulao. No quiz parecer
-admirador de ps bonitos; referiu-se aos dedos
-habeis. Tudo vinha a dar na mesma pessoa.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">30 de Setembro.</p>
-
-<p>Se eu estivesse a escrever uma novela, riscaria
-as paginas do dia 12 e do dia 22 deste mez. Uma
-novela no permitiria aquella paridade de sucessos.
-Em ambos esses dias,&mdash;que ento chamaria
-capitulos,&mdash;encontrei na rua a viuva Noronha,
-trocmos algumas palavras, vi-a entrar no
-bonde ou no carro, e partir; logo dei com dous
-sujeitos que pareciam admiral-a. Piscaria os dous
-capitulos, ou os faria mui diversos um de outro;
-em todo caso diminuiria a verdade exata, que
-aqui me parece mais util que na obra de imaginao.</p>
-
-<p>J l vo muitas paginas falei das simetrias que
-ha na vida, citando os casos de Osorio e de Fidelia,
-ambos com os paes doentes fora daqui, e daqui
-saindo para elles, cada um por sua parte. Tudo
-isso repugna s composies imaginadas, que pedem
-variedade e at contradio nos termos. A
-vida, entretanto, assim mesmo, uma repetio
-de actos e meneios, como nas recepes, comidas,
-visitas e outros folgares; nos trabalhos a mesma
-cousa. Os sucessos, por mais que o acaso os tea
-e devolva, saem muita vez iguaes no tempo e
-nas circumstancias; assim a historia, assim o
-resto.</p>
-
-<p>Dou estas satisfaes a mim mesmo, afim de
-mencionar o meu joelho doente, tal qual o de
-D. Carmo. Outra paridade de situaes... Ha duas
-diferenas. A primeira que nella o mal puro
-e confessado reumatismo. Em mim tambem, mas
-o meu criado Jos chama-lhe nevralgia, ou por
-mais elegante ou por menos doloroso; um dos
-seus modos de amar o patro. A segunda diferena...</p>
-
-<p>A segunda diferena,&mdash;ai, Deus! a segunda
-diferena que, ainda que lhe da muito o
-joelho, D. Carmo l tem o marido e os dous filhos
-postios. Eu tenho a mulher embaixo do cho de
-Vienna e nenhum dos meus filhos saiu do bero
-do Nada. Estou s, totalmente s. Os rumores de
-fra, carros, bestas, gentes, campainhas e assobios,
-nada disto vive para mim. Quando muito o
-meu relogio de parede, batendo as horas, parece
-falar alguma cousa,&mdash;mas fala tardo, pouco e
-funebre. Eu mesmo, relendo estas ultimas linhas,
-pareo-me um coveiro.</p>
-
-<p>Mana Rita no me veiu visitar, porque no
-sabe nada, e provavelmente no tem sado; sei
-que est boa. O meu mal comeou ha sete dias.
-Durmo bem s noites, mas no me faz bem andar,
-doe-me. Amanh, se no acordar peor, saio.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">2 de Outubro.</p>
-
-<p>Estou melhor, mas choveu e no sa.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">3 de Outubro.</p>
-
-<p>&mdash;Foi um duelo entre mim e a velhice, que
-me disparou esta bala no joelho; uma dr reumatica.
-J sei que vem jantar commigo?</p>
-
-<p>O desembargador respondeu que no; disseram-lhe
-que eu estava doente e vinha saber o
-que era. D. Carmo tambem est melhor do joelho,
-disse-me. J sae, mas pouco, pela praia do Flamengo,
-at do Russell.</p>
-
-<p>&mdash;Sempre com a amiguinha, no?</p>
-
-<p>&mdash;Nem sempre; l tem o seu Tristo que a
-acompanha de manh. Fidelia manda-lhe visitas,
-e pode ser que Aguiar venha c hoje; souberam
-hontem, noite, como eu.</p>
-
-<p>Logo depois contou-me Campos que a sobrinha
-queria ir passar algum tempo fazenda.</p>
-
-<p>&mdash;Os libertos, apezar da amizade que lhe tm
-ou dizem ter, comearam a deixar o trabalho, e
-ella quer ver como est aquillo antes de concluir
-a venda de tudo.</p>
-
-<p>No entendi bem, mas no me cabia pedir explicao.
-Campos incumbiu-se de me dizer que tambem
-elle no entendia bem a ideia da sobrinha, e
-acrescentou que, por gosto, ella partiria j. A
-doena de D. Carmo que a fez aceitar o que
-lhe propz o tio, a saber, que adiassem a viagem
-para as frias.</p>
-
-<p>&mdash;Iremos pelas frias, concluiu elle; provavelmente
-j o trabalho estar parado de todo; o
-administrador, que no tem tido fora para deter
-a saida dos libertos at hoje, no a ter at ento.
-Fidelia cuida que a presena della bastar
-pare suspender o abandono.</p>
-
-<p>&mdash;Logo, se fr mais depressa... aventurei eu,
-querendo sorrir.</p>
-
-<p>&mdash;Foi o argumento della; eu creio que no
-ser tanto assim, e, como tenho de a acompanhar,
-prefiro Dezembro a Outubro. Quer-me parecer
-que ella teme menos a fuga dos libertos que outra
-cousa...</p>
-
-<p>No acabou; levantou-se para concertar um
-lao da cortina, e voltou coando o queixo e
-olhando para o tecto. Sentou-se e cruzou as pernas.
-Eu, para me no deixar ir a perguntas, peguei
-do gesto do desembargador, dizendo-lhe que
-elle acabava de fazer com as pernas o que ainda
-me custaria um pouco; mas foi como se falasse
-cortina, ao lao ou palhinha do cho. Campos
-no me respondeu nem provavelmente me ouviu.
-Ergueu-se, disse que estimava as minhas melhoras
-e despediu-se at breve. Teimei que jantasse.</p>
-
-<p>&mdash;No posso; tenho gente de fora; o Tristo
-janta commigo.</p>
-
-<p>Para lhe mostrar que convalecia, fui ao patamar
-pizando rijo. Agradeci-lhe o obsequio da
-visita, e tornei sala, com a viuva deante dos
-olhos, caminho da fazenda. Mas que ter que a
-faa ir meter-se na fazenda, com meia duzia de
-libertos, se ainda achar alguns? Pouco depois,
-outra visita, o Aguiar, que me trazia lembranas
-da mulher. Estimou ver-me de p, no meio da
-sala.</p>
-
-<p>&mdash;No valia a pena, disse-lhe; foi uma cousa
-de nada, estou quasi bom, e hoje mesmo, se a
-chuva parar, como est querendo, l vou leval-o
- casa, depois do jantar. Janta commigo?</p>
-
-<p>&mdash;No posso; tenho gente de fra. Uma das
-pessoas no me impediria, a Fidelia, que l
-janta comnosco, e quasi da familia. Mas vae
-tambem um colega do banco.</p>
-
-<p>&mdash;Pois irei tomar ch.</p>
-
-<p>&mdash;V, se quer, mas no faa isso, o meu
-conselho. Ainda que no chova, sempre haver
-humidade, e para reumatismo...</p>
-
-<p>&mdash;Mas D. Carmo tem saido, creio.</p>
-
-<p>&mdash;Tem, e pode-se dizer que est boa. Apezar
-disso, j hoje no saiu, por cousa do tempo. V,
-se quer; eu no seu caso no saa.</p>
-
-<p>Aguiar no disse mais nada, e despediu-se. Pareceu-me
-(ou foi iluso) que elle queria acrescentar
-alguma cousa e no acabou de querer.
-No sei que seria. No sentisse eu mesmo algum
-medo da humidade e iria vel-os noite, mas a humidade
- certa, e creio que a chuva tambem. Fico
-em casa. Se aparecer algum enxadrista, jogarei
-xadrez; se apenas jogar cartas, cartas. Se no
-vier ninguem, atiro-me a compr um poema de
-cabea.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">6 de Outubro.</p>
-
-<p style="margin-left: 10%;">
-Mana Rita, Mana Rita<br />
-Foi a ultima visita,<br />
-</p>
-
-<p>e o resto do poema em prosa, que a minha musa
-no d para mais. Foi assim que o compuz, no
-na outra noite, a de 3, mas na de hoje, 6, depois
-de levar a mana a Andarahy. Apareceu-me aqui
-de manh. J outros, amigos e at indiferentes,
-me tinham visitado, como aquelle Dr. Faria, que
-me deixou lembranas da mulher, e o corretor
-Miranda, que tambem m'as trouxe da sua.
-Tristo esteve c ante-hontem, e eu sa tarde
-e hontem de manh. Estou bom, nem por isso
-deixei de lhe chamar ingrata. Rita confessou-me
-que ha mais de tres semanas no sae de casa
-para ver se tinha um irmo que se lembrasse
-della.</p>
-
-<p>&mdash;Tinha e tem, retorqui-lhe, mas um irmo
-que s agora convaleceu de todo.</p>
-
-<p>Contei-lhe a dr e a recluso. Rita, que a principio
-no queria crer e ria, acabou convencida e
-contristada. Censurou-me naturalmente; eu disse-lhe
-que continuava a guardal-a para a doena
-mortal e ultima. Assim trocmos muitas palavras
-amigas e doces, algumas alegres. Corno lhe perguntasse
-se estivera com a gente Aguiar ou com a
-familia Campos, respondeu-me que no. Se fosse
-a uma daquellas casas teria sabido do meu incomodo,
-e no receberia a noticia aqui, acrescentou.</p>
-
-<p>&mdash;Ento voc no sabe nada do projeto de
-ir fazenda? perguntei-lhe.</p>
-
-<p>&mdash;Projeto de quem?</p>
-
-<p>&mdash;Da viuva Noronha.</p>
-
-<p>&mdash;Ir fazenda?</p>
-
-<p>&mdash;Sim, ir a Santa-Pia, para ver como andam
-l as cousas; parece que os libertos esto
-abandonando a roa. Foi o que me disse o tio
-da viuva.</p>
-
-<p>&mdash;No ouvi dizer nada. Ha perto de um mez
-que no saio de casa. Mas o tio por que no vae?</p>
-
-<p>&mdash;O tio vae, mas com ella; a sobrinha quer
-a companhia delle, mas s a companhia, parece,
-no querer tambem a colaborao. Vo pelas
-ferias. Eu no comprenhendo esta necessidade de
-ir ella mesma, quando era melhor um homem.</p>
-
-<p>Rita quiz ir saber da propria Fidelia. Ponderei-lhe
-que era indiscreto, e faria crer da
-nossa parte alguma curiosidade. Saiu a voltas, e
-tornou. Confesso uma cousa; depois que a vi sair
-imaginei se teria ido saber da viuva ou dos
-amigos a verdadeira causa da viagem, e disse-lh'o
-ao jantar. Ella ficou sria e abanou a cabea.
-Se me tem jurado que no, provavel
-que me enterrasse o espinho da duvida, mas
-falou com simplicidade, e nomeou as visitas que
-fez. Uma dellas foi a D. Carmo.</p>
-
-<p>&mdash;Carmo est s como um pro, disse-me;
-recebeu-me rindo como s ella sabe rir, um rir
-de dentro, to simples, to franco... Falmos de
-Fidelia, falamos de Tristo, ella com a ternura e
-amizade que voc j lhe tem visto.</p>
-
-<p>&mdash;Ainda no sabe da viagem fazenda?</p>
-
-<p>&mdash;Sabe, e parece que nem esperam as ferias;
- daqui a dias. Sabe da viagem e do motivo, e
-aprova; diz que a viuva tem muito prestigio
-entre os libertos. Se pudesse iria tambem, mas
-Aguiar no ficaria s, e elle no pode deixar
-agora o banco.</p>
-
-<p>&mdash;Mas elle no ficaria s; o Tristo ahi est.</p>
-
-<p>&mdash;No, por duas razes; a primeira que
-Tristo nem ninguem supre a boa Carmo. A
-viagem que ella fez este anno a Nova-Friburgo
-custou muito ao marido. No foi ella que me
-disse isto; eu que soube, e percebe-se, todos
-sabem; Aguiar sem Carmo nada. A segunda
-razo que o proprio Tristo est com vontade,
-de acompanhar o desembargador e Fidelia,
-nunca viu uma fazenda, e tem vontade, antes
-de voltar para Lisboa...</p>
-
-<p>&mdash;E a nossa amiga, deante desse eclipse dos
-dous, no est aborrecida?</p>
-
-<p>&mdash;Foi o que lhe perguntei; disse-me que
-por poucos dias, e espera; em todo caso, se
-houver demora dos outros, Tristo vir embora.
-Quer passar com ella e o marido o mais tempo
-que puder.</p>
-
-<p>Mana Rita (percebe-se) est com vontade de
-achar algum defeito grande no afilhado do
-Aguiar, mas no acha nenhum, grande ou
-pequeno, e peza-lh'o. O bem que diz delle
-repetio confessada do que ouviu. Eu no penso
-mal, antes bem, creio que j o escrevi em alguma
-destas paginas; mas no disse se bem nem
-mal. Deixei-me ficar a condenar o meu pobre
-jantar, que foi ruim, s o frango prestou e a
-fruta, menos as peras...</p>
-
-<p>Ao caf, mana Rita contou-me algumas anedotas
-de Andarahy, aonde a fui levar, seriam dez
-horas e donde voltei para escrever isto, acabar e
-repetir como principiei:</p>
-
-<p style="margin-left: 10%;">
-Mana Rita, mana Rita<br />
-Foi a ultima visita.<br />
-</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">10 de Outubro.</p>
-
-<p>Entendam l mulheres! Tanta necessidade de
-ir fazenda e j. Campos alcana uma licena de
-alguns dias, Tristo apronta a mala, e, tudo
-feito cessa a necessidade de partir. Foram s o
-Campos e o Tristo. Tal a notcia que me deram
-as duas (Carmo e Fidelia) hoje, tarde, quando
-eu ia a entrar no jardim da casa do Flamengo.
-As duas vinham chegando ao porto.</p>
-
-<p>&mdash;No fui, confirmou Fidelia as primeiras
-palavras de D. Carmo. Um homem basta e sobra,
-e acaba depressa todas as duvidas. Tambem as
-noticias agora so melhores.</p>
-
-<p>&mdash;Lucram os seus amigos, retorqui.</p>
-
-<p>D. Carmo disse o mesmo que eu, mas sem
-palavras, com os olhos apenas. Como iam a
-passeio, dispuz-me a acompanhal-as, depois de
-algumas noticias que trocmos, D. Carmo e eu,
-sobre os nossos reumatismos; estamos bons. As
-duas iam de brao, eu ao lado, entre ellas e o
-mar que no batia com fora. A conversao
-no foi constante, porque a viuva levava os olhos
-no cho. A amiga falava-me, mas olhava de
-quando em quando para ella, e eu tambem.
-Fidelia falava pouco, e s ento olhava para a
-outra.</p>
-
-<p>O passeio foi curto; tornei com ellas ao jardim,
-aonde pouco depois chegou Aguiar trazendo cartas
-de Lisboa para Tristo, tres ou quatro. Conhecia
-a letra de uma, era do pae, e provavelmente
-havia dentro outra da me, to volumosa
-era. A ideia de as mandar para Santa-Pia passara-lhe
-pela cabea, mas recuou por no saber se o
-rapaz voltar, amanh ou depois, ou se ficar
-mais tempo. Se voltar j, espera; se ficar, manda-lh'as.
-Queria consultar a mulher.</p>
-
-<p>D. Carmo achou mais pratico escrever-lhe um
-bilhete perguntando quando conta vir, para lhe
-mandar ou no a correspondencia. Fidelia no
-sabia nada da volta do tio. Acha provavel que
-fique alguns dias mais para dar as ultimas providencias
-e coligir as notas necessarias
-venda da caza e das terras; ia vendel-as, por
-intermedio do Banco do Sul, mas nem ella nem
-Aguiar sabiam nada positivamente.</p>
-
-<p>Eu, convidado a opinar, disse que o rapaz,
-sabendo de correspondencia numerosa e presumindo
-alguma della politica, pediria logo a remessa,
-se no viesse abril-a em pessoa. A segunda
-hipothese no foi mal acolhida pela madrinha;
-pareceu-lhe certa. Ao cabo, que faria elle l depois
-de ver a fazenda? A fazenda naturalmente
-via-se depressa, no tendo elle nenhuma cousa
-de recordao pessoal, ou costume velho que
-reviver. Assim disse eu, ou por outras palavras,
-e os dous concordaram commigo. Como perguntasse
-a Fidelia se no sentiria saudades da caza
-em que nasceu e se criou, respondeu-me que
-sim, mas j no ter gosto em l viver.</p>
-
-<p>&mdash;Aquillo agora para mos de homem, concluiu.</p>
-
-<p>Estas palavras foram ouvidas por D. Carmo,
-com vivo prazer. Aguiar provavelmente teria a
-mesma sensao, mas saira calada para falar a
-um visinho, e no as ouviu. Quando voltou, achou
-que me despedia das duas senhoras, e nem por
-isso deixou de me pedir que ficasse e jantasse.
-Recusei, e sa. Andando, ouvi que elle dizia
-mulher e amiga:</p>
-
-<p>&mdash;Quem sabe o que traro estas cartas?</p>
-
-<p>Em caminho, arrependi-me de no ter ficado
-para jantar. Ouviria o <i>grande talento</i> que arrancou
-a voz exclamativa ao Tristo. No seria novo
-para mim, mas seria mais uma vez, comquanto
-parea que ella anda a recusar-se agora ao piano.
- verdade que talvez os dous a vo levar noite
-a Botafogo. Tambem pode ser que ella durma
-ali hoje, em casa dos paes postios.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">12 de Outubro.</p>
-
-<p>Aguiar e D. Carmo foram hontem levar a amiga
-a Botafogo, e voltaram cedo. Assim o soube
-hoje por elle, porta do Banco, onde me achava
-a conversar com o corretor Miranda. Nenhuma
-noticia de Tristo, mas o bilhete do padrinho j
-est no correio, e segue hoje mesmo para Santa-Pia.</p>
-
-<p>Que as azas postaes o levem, digo eu aqui neste
-cantinho de papel, sem advertir no rebuscado da
-imagem. Advirto agora, e no a risco nem substituo;
-azas postaes servem, uma vez que vo ter
- fazenda e no percam o bilhete em caminho.
-Quer-me parecer que tambem eu estou curioso
-de saber o que trazem as taes cartas de Lisboa,
-curioso apenas, e alis no admira que desta vez
-so numerosas e bastas; escrevem-se geralmente
-pouco. Seja o que fr os dous velhos esto anciosos
-de saber se o mandam voltar de c. No o
-dizem, mas v-se.</p>
-
-<p>Miranda continuou a dizer das saudades que a
-mulher, a cunhada Cesaria, o cunhado Faria, toda
-a caza delle tem de mim;&mdash;cousas que ouvi
-agradecido, prometendo ir devolvel-as em pessoa
-um dia destes. Em suma, o corretor no
-mau homem, e j me serviu urna vez em negocio
-do seu oficio. Usa a nota alegre, sem juvenilidade,
-e acha grande interesse em cousas que
-nenhum tem.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">13 de Outubro.</p>
-
-<p>Campos escreveu sobrinha, referindo-lhe o
-estado da fazenda, e contando os passeios que
-deu por ella com o moo Tristo. Este curioso
-e discreto no exame das cousas que v e nas noticias
-que pede. L est o capelo, e mais o juiz
-municipal. A carta anterior ao bilhete do Aguiar,
-no fala nelle, mas diz que Tristo no se demorar
-muito; conta vir daqui a dias.</p>
-
-<p>D. Carmo espera que os dias sero abreviados
-logo que elle receba o bilhete do marido. No
-m'o disse a mim, quando l estive hontem,
-noite, nem o ouvi a ninguem; eu que pensei
-haver-lh'o lido no rosto. A carta do desembargador
-foi-lhe levada pela propria Fidelia, que l estava
-hontem, e desta vez tocou piano, no sei se
-to bem como Tristo, mas bem; os dous podiam
-tocar juntos. Eramos apenas cinco; o estudante
-primo de Fidelia viera trazel-a e tornou com ella
-para Botafogo, s dez horas.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">17 de Outubro.</p>
-
-<p>Chegou Tristo. Ignoro o que ter lido nas
-cartas de Lisboa, no falei a nenhuma das pessoas
-que poderiam sabel-o. Irei ao Flamengo um
-dia destes, amanh.</p>
-
-<p>Hoje conto no sair de casa, que fao annos.
-Chego aos meus sessenta e... No escrevas todo o
-algarismo, querido velho; basta que o saiba teu
-corao e v sendo contado pelo Tempo no livro
-de lucros e perdas. No escrevas tudo, querido
-amigo.</p>
-
-<p>No saio de casa. Se a mana Rita vier jantar,
-como fez o anno passado, irei leval-a noite a
-Andarahy. Se no vier, deixo-me ficar ssinho.</p>
-
-<p>Vou ocupar o tempo em reler uns papeis velhos
-que o meu creado Jos achou dentro de uma
-velha mala e me trouxe agora. A cara delle tinha
-a expresso de prazer que d o servio inesperado;
-aquelle gosto de descobrir papeis que podem
-ser importantes fazia-o risonho, olhos escancarados,
-quasi commovido.</p>
-
-<p>&mdash;Vossa Excellencia talvez os procure ha
-muito tempo.</p>
-
-<p>Eram cartas, apontamentos, minutas, contas,
-um inferno de lembranas que era melhor no se
-terem achado. Que perdia eu sem ellas? J no
-curava dellas; provavelmente no me fariam
-falta. Agora estou entre estes dous extremos, ou
-lel-as primeiro, ou queimal-as j. Inclino-me ao
-segundo. Ante mim continuava o meu Jos com a
-mesma expresso de gosto que lhe deu o achado.
-Naturalmente agradecia sua boa Fortuna que
-lh'o deparou; contar que mais um elo que nos
-prenda. Talvez a ideia que o levou mala fosse a
-esperana de algum valor extraviado, uma joia,
-por exemplo, ou ainda menos, uma camisa, um
-colete, um leno, e sendo assim o silencio era
-mui possvel. Achou papeis velhos, veio fielmente
-entregar-m'os.</p>
-
-<p>No lhe quero mal por isso. No lh'o quiz no
-dia em que descobri que elle me levava dos coletes,
-ao escoval-os, dous ou tres tostes por dia.
-Foi ha dous mezes, e possivelmente ja o faria antes,
-desde que entrou c em casa. No me zanguei
-com elle; tratei de acautelar os nickeis, isso
-sim; mas, para que no se creia descoberto, l
-deixo alguns, uma vez ou outra, que elle pontualmente
-diminue; no me vendo zangar provavel
-que me chame nomes feios, descuidado, tonto,
-papalvo que seja... No lhe quero mal do furto
-nem dos nomes. Elle serve bem e gosta de mim;
-podia levar mais e chamar-me peor.</p>
-
-<p>Resolvo mandar queimar os papeis, ainda que
-d grande magua ao Jos que imaginou haver
-achado recordaes grandes e saudades. Poderia
-dizer-lhe que a gente traz na cabea outros
-papeis velhos que no ardem nunca nem se perdem
-por malas antigas; no me entenderia.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">17 de Outubro, duas horas.</p>
-
-<p>Comeo a receber cartes de visita pelo dia de
-hoje, entre elles os do cazal Aguiar e do Tristo,
-e um de Fidelia. A viuva escreveu estas palavras:
-<i>comprimentos de boa amizade.</i> Agora me lembra
-que no dia 12, quando a encontrei no Flamengo,
-em caza do Aguiar, usei desta expresso boa
-amizade, como a mais doce que podia desejar
-della; foi um modo de concluir o elogio discreto
-que lhe fazia, apoiando a outro que D. Carmo
-lhe fazia tamben. Dahi este comprimento de hoje.
-O bilhete de Tristo traz a formula admirativa,
-os dos Aguiares afeto e apreo. Rita no me
-escreveu; certamente vir jantar.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">Meia noite.</p>
-
-<p>Veiu, veiu, Rita veiu jantar com a alegria
-do costume, e examinou todas as cartas e cartes
-de comprimentos. Explicou-me que estivera
-hontem no Flamengo, onde dera noticia do meu
-anniversario; dahi as cortezias de hoje.</p>
-
-<p>Ouvindo isto, no me pude ter que lhe no
-falasse das cartas que aguardavam o Tristo. Disse-me
-que sabia dellas; eram dos paes e de amigos
-polticos. Entre as primeiras vinha uma para D.
-Carmo, com um <i>post-scriptum</i> para o marido.
-Depois de alguma hesitao, perguntei-lhe se instavam
-pela volta delle.</p>
-
-<p>&mdash;Os paes no, respondeu-me Rita; os amigos
-no sei, apenas ouvi de D. Carmo que elles falam
-muito da politica de l. E dizia-me isto um
-pouco aborrecida, como receiosa, e ella teme j
-a separao; entretanto, a coisa mais natural
-do mundo.</p>
-
-<p>&mdash;Tristo no disse nada?</p>
-
-<p>&mdash;Que eu ouvisse, nada. Passei l uma boa
-meia hora de conversa, e o principal assunto
-foi a visita de Tristo a Santa-Pia, que elle achou
-interessante como documento de costumes. Gostou
-de ver a varanda, a senzala antiga, a cisterna,
-a plantao, o sino. Chegou a desenhar algumas
-cousas. Fidelia ouvia tudo com muito interesse,
-e perguntava tambem, e elle lhe respondia.</p>
-
-<p>&mdash;Ella vae sempre vender a fazenda?</p>
-
-<p>&mdash;No ouvi falar disso.</p>
-
-<p>&mdash;Vae, vae vendel-a. Ao menos, era plano ha
-tempos, e o desembargador l ficou para cuidar
-de apontamentos. Elle quando vem?</p>
-
-<p>&mdash;Ouvi dizer que daqui a oito ou sete dias;
-duas semanas, quando muito.</p>
-
-<p>&mdash;Fidelia jantou com elles naturalmente?</p>
-
-<p>&mdash;No. Quando eu sa s quatro horas, Carmo
-pediu-me que ficasse. Tendo de fazer outra visita,
-recusei. Fidelia disse ento que aproveitava a
-minha companhia. A outra instou com ella que
-jantasse, mas a amiga alegou que era esperada
-em caza e no podia; voltaria hoje ou amanh.
-Carmo e Tristo acompanharam-nos porta do
-jardim. Eu e Fidelia viemos andando, e, ao
-chegar esquina da rua da Princeza, no me
-lembrou logo voltar a cabea. Fidelia lembrou-se,
-eu imitei-a, e os dous parados na calada
-diziam-nos adeus com a mo.</p>
-
-<p>Rita contou-me que foi at Botafogo com a
-viuva Noronha. De caminho falaram pouco, ou
-antes Fidelia que no falou muito; ia preocupada.
-Apezar disso, mostrou-se o que sempre
-foi, afavel, quasi meiga; pareceu interessar-se
-pela vida de Rita, confessou saudades, sentia que
-se no vissem mais vezes, e pediu desculpa de
-no ir, ha muito, a Andarahy. Se as palavras
-eram poucas, no eram secas, ao contrario.</p>
-
-<p>Naturalmente falaram de D. Carmo e de
-Aguiar; tambem disseram alguma cousa de Tristo,
-concordaram que parecia amigo dos padrinhos.</p>
-
-<p>Perto da casa do tio, Fidelia entrou em uma
-fabrica de flores para encomendar as que
-levar no dia 2 de Novembro sepultura do
-marido. Rita, que alis no pensra ainda nisso,
-deixou de encomendar as suas; fal-o-ha quando
-o dia dos mortos estiver mais proximo, e tral-as-ha
-comsigo da cidade. Referiu-me as encomendas
-da viuva, a escolha, as exigencias, o numero
-de grinaldas, tres,e a composio das cores
-que teriam; no quiz deixar nada ao fabricante.</p>
-
-<p>Ouvi todas essas minucias e ainda outras com
-interesse. Sempre me sucedeu apreciar a maneira
-porque os carateres se exprimem e se
-compem, e muita vez no me desgosta o
-arranjo dos proprios factos. Gosto de ver e antever,
-e tambem de concluir. Esta Fidelia foge a
-alguma cousa, se no foge a si mesma. Querendo
-dizer isto a Rita, usei do conselho antigo, dei
-sete voltas lingua, primeiro que falasse, e no
-falei nada; a mana podia entornar o caldo. Tambem
-pode ser que me engane.</p>
-
-<p>No escrevo o resto. Quando ella acabou e
-contou o regresso, perguntei-lhe porque no
-viera hontem jantar commigo. Respondeu-me
-que, tendo de vir hoje, no queria ser convidada
-de vespera. Ri-me e fomos para a meza, que
-estava posta. Ao centro um ramo de flores, ideia
-della, que o mandou trazer s escondidas, e,
-como eu lhe perguntasse se eram das que Fidelia
-encomendara, riu-se tambem. Agradeci-lhe
-a lembrana, exprimindo-lhe todo o meu afeto,
-comemos alegremente, recordando anedotas da
-infancia e da familia.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">18 de Outubro.</p>
-
-<p>Ao levantar da cama, a primeira ideia que me
-acudiu foi aquella que escrevi hontem, meia
-noite: Esta moa (Fidelia) foge a alguma cousa,
-se no foge a si mesma.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">22 de Outubro.</p>
-
-<p>Fidelia no voltou ao Flamengo, apezar da promessa
-que D. Carmo lhe fez fazer. D. Carmo fora
-achal-a a pintar; Fidelia lembrara-se de haver pintado
-em menina, e comeara um trecho do jardim
-da propria casa. Prometeu voltar ao Flamengo
-no dia seguinte, e no foi.</p>
-
-<p>Tristo ao saber do motivo da ausencia, advertiu
-que a viuva Noronha podia ter em pintura
-talento igual ao da musica, e no sei se lh'o chamou
-grande; no m'o disse. Que elle mesmo
-que me referiu o que ahi fica, e mais o que vou
-incluir nesta pagina antes que me esquea. Tinha
-vindo almoar commigo.</p>
-
-<p>&mdash;Venho almoar, conselheiro; voltando agora
-do meu passeio, lembrou-me subir e perguntar
-por Vossa Excellencia. O seu creado disse-me
-que ia almoar; ouso pedir-lhe um logar
-meza.</p>
-
-<p>&mdash;Um, dous, tres, doutor, acudi eu, quantos
-a sua amizade pedir para o seu apetite.</p>
-
-<p>Deu-me noticias da gente Aguiar; esto bons;
-falou-me dos seus e das cartas politicas de Lisboa.
-J as leu ao padrinho e madrinha. Uma s dellas
-alude ao desejo de o ver tornar breve: esperamos
-que no se demorar muito no Rio de Janeiro.</p>
-
-<p>&mdash;E demora-se muito? perguntei-lhe.</p>
-
-<p>&mdash;No sei, mas natural que pouco; a politica
-chama-me.</p>
-
-<p>Ao almoo que Tristo me contou a historia
-da tela que a viuva est pintando, da promessa
-que fez amiga e no cumpriu. E disse-me depois:</p>
-
-<p>&mdash;Se ella sabe pintar pareceu-me que, melhor
-quadro que o seu jardim, um trecho marinho
-do Flamengo, por exemplo, com a serra ao longe,
-a entrada da barra, alguma das ilhas, uma lancha,
-etc. A madrinha concordou logo, e foi propor
- amiga a troca do quadro. Agradou-lhe este
-outro, prometeu vir ao Flamengo dezenhal-o, e
-no veiu.</p>
-
-<p>&mdash; que est namorada do seu jardim. Geralmente
-os artistas sentem melhor as proprias
-imaginaes. Ella ainda saber pintar, como diz
-que pintou em menina?</p>
-
-<p>&mdash;A madrinha viu-lhe apenas algumas linhas
-de dezenho, e pareceram-lhe boas.</p>
-
-<p>Concordamos que deviam ser boas. Uma cousa
-traz outra, falamos das graas da viuva, da compostura,
-da discrio, da memoria das viagens,
-do gosto, dos gestos e creio que dos olhos tambem.
-Eu, com certeza, falei dos olhos, e agora
-me lembra que elle disse serem juntamente lindos
-e graves. Opinio ou diverso, acrescentou que
-os olhos das suas antigas patricias eram em geral
-bellos, e falou compridamente de outras damas;
-assim no parecia louvar somente a viuva Noronha.
-Achei isto bem, como equidade e como estetica.
-No meio da conversao tive uma ideia;
-disse-lhe que D. Carmo, que lhes queria tanto, em
-vez de propor amiga a simples tela da praia,
-devia propor-lh'a com alguma figura humana. A
-delle ficaria bem para lhe lembrar, quando elle
-partisse, a pessoa do filho pintada pela filha.
-Tristo ouviu sorrindo isto que lhe disse; depois
-repetiu, como quem pensava:</p>
-
-<p>&mdash;A pessoa do filho pintada pela filha...</p>
-
-<p>No ponho aqui o sorriso porque foi uma mistura
-de desejo, de esperana e de saudade, e eu
-no sei descrever nem pintar. Mas foi, foi isso
-mesmo que ahi digo, se as tres palavras podem
-dar ideia da mistura, ou se a mistura no era
-ainda maior. Dahi saltmos s galerias de arte da
-Europa, e falmos do que sabiamos. Quando demos
-por ns, tinhamos acabado de almoar. Ofereci-lhe
-charutos e o meu corao. Quero dizer
-que lhe pedi viesse muitas vezes dar-me aquella
-hora deliciosa. Retorquiu-me que dal-a no, mas
-tomal-a para s. Era a volta do comprimento, e
-com graa.</p>
-
-<p>Despediu-se e saiu. Quiz sair logo, mas vim
-primeiro escrever isto, para que me no esquea,
-como l digo atraz. E agora que o escrevi confirmo
-a impresso, que me deixou o rapaz, e foi
-boa, como a principio. Talvez elle tenha alguma
-dissimulao, alem de outros defeitos de sociedade,
-mas neste mundo a imperfeio cousa
-precisa. Pronto; vou sair, e amanh ou depois
-irei saber da paizagem ou da marinha da bella
-Fidelia.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">28 de Outubro.</p>
-
-<p>Nem marinha nem paizagem, no soube de
-nada. Fidelia no tem aparecido no Flamengo, e
-escreveu hoje velha amiga um bilhete de desculpas;
-esta tomando as contas ao tio, que voltou
-hontem da fazenda. No me lembra se j escrevi
-que o Banco do Sul que far a transferencia de
-Santa-Pia.</p>
-
-<p>D. Carmo, a pretexto do estilo, deu-me o
-bilhete a ler. Tem graa, de certo, mas o verdadeiro
-motivo a ternura que ella sente em ler a
-amiga e fazel-a ler aos outros. Depois que lh'o
-restitui, leu-o outra vez para si. J devia trazel-o
-de cr. Em meio disto achou modo de aprovar
-a minha ideia do filho pintado pela filha, ouvida
-ao Tristo.</p>
-
-<p>&mdash;Hei-de dizel-a a Fidelia.</p>
-
-<p>Tristo no estava presente; fora jantar com
-um ministro. Francamente, era mais facil moa
-prometer que pintar a marinha. O que a boa
-Carmo disse que faria penso que o no far; no
-ir propor viuva que venha copiar a figura do
-afilhado na marinha do Flamengo. A familiaridade
-que haja porventura entre elles no se ajustar
-muito a esta ao de arte, incomoda ou
-no sei que diga...</p>
-
-<p>Suspendo aqui a penna para ir dormir, e escreverei
-amanh o resto da noite.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">29 de Outubro.</p>
-
-<p>O resto da noite foi passado em casa do Faria.
-Eram annos delle e estive l mais tempo do que
-contava. Havia gente e alegria, algum canto e
-piano, e tambem conversa.</p>
-
-<p>Faria, apezar do dia e da festa, ria mal, ria
-srio, ria aborrecido, no acho forma de dizer
-que exprima com exao a verdade. um desses
-homens nascidos para enfadar, todo arestas,
-toda secura. A mulher, D. Cesaria, estava alegre
-e tinha a pilheria do costume. No disse mal de
-ninguem por falta de tempo, no de materia,
-creio; tudo materia a linguas agudas. A maneira
-porque aprovava alguma cousa era quasi sarcastica;
-e dificil de entender a quem no tivesse
-a pratica e o gosto destas creaturas, como eu,
-velho maldizente que sou tambem. Ou serei o
-contrario, quem sabe? No primeiro dia de chuva
-implicante heide fazer a analise de mim mesmo.</p>
-
-<p>Quando sa de l, Faria agradeceu-me, com o
-seu prazer nasal e surdo,&mdash;assim defino as palavras
-que lhe ouvi, acompanhadas de um fugaz
-sorriso de carcere.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">1 de Novembro.</p>
-
-<p>Este o dia de todos os santos; amanh
-o de todos os mortos. A egreja andou bem marcando
-uma data para comemorar os que se
-foram. No tumulto da vida e suas sedues, fique
-um dia para elles... A reticencia que ahi deixo
-exprime o esforo que fiz para acabar esta pagina
-em melancolia; no posso, nunca pude. Tristezas
-no so commigo. Entretanto, em rapaz,&mdash;quando
-fiz versos, nunca os fiz se no tristissimos.
-As lagrimas que verti ento,&mdash;pretas, porque
-a tinta era preta,&mdash;podiam encher este
-mundo, valle dellas.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">2 de Novembro.</p>
-
-<p>Mana Rita foi hoje ao cemiterio levar flores aos
-nossos.</p>
-
-<p>&mdash;Voc no imagina; acordei s cinco e meia
-para me vestir e estar cedo em S. Joo Baptista.
-Cheguei s oito e pouco; achei muita gente, no
-tanta, porm, como hade ser logo, tarde. No
-vim buscar voc, porque sei que no iria.</p>
-
-<p>&mdash;Pois eu fui missa da Gloria.</p>
-
-<p>&mdash;A egreja perto.</p>
-
-<p>&mdash;Talvez fosse ao cemiterio. Muitas sepulturas
-bonitas?</p>
-
-<p>&mdash;Bastantes; entre ellas a do marido de Fidelia.
-As coroas e flores que ella encomendou ha
-dias l estavam bem dispostas e faziam grande
-efeito; parece que o desembargador mandou
-tambem o seu ramo; estava escrito n'uma fita.</p>
-
-<p>&mdash;Vocs falaram-se?</p>
-
-<p>&mdash;No; ella j tinha sado.</p>
-
-<p>&mdash;Como sabe voc que ella que foi levar as
-flores e coroas?</p>
-
-<p>&mdash;Adivinha-se pela disposio.</p>
-
-<p>&mdash;Sim?</p>
-
-<p>&mdash;De certo, mano. A disposio, o arranjo,
-a combinao, tudo era de mulher. Ha dessas
-cousas que mo de homem no faz; mo de homem
- pesada ou trapalhona, e mais se de desembargador,
-como elle. Por exemplo, o nome
-do marido, o nome proprio s, no todo, estava
-cercado de perpetuas; isto cousa que s uma
-senhora inventa e faz. As outras flores, rosas e
-papoulas, distribuiam-se com tal simetria que pediu
-tempo e gosto. Um homem chegava ali pegava
-das flores e espalhava-as toa.</p>
-
-<p>&mdash;Admira que voc a no visse.</p>
-
-<p>&mdash; que foi muito cedo.</p>
-
-<p>&mdash;Mas n'um dia como o de hoje, tendo tanta
-cousa que arranjar. Daquella vez que a encontramos
-era mais tarde.</p>
-
-<p>&mdash;Era, mas o dia era outro; hoje havia muita
-gente, no quiz que a vissem, o que foi.</p>
-
-<p>Mana Rita desenvolveu esta ideia, que achei
-aceitavel; depois falou de outros jazigos. Como
-dos jazigos passamos ao ministerio e a D. Cesaria
-no me lembra, mas falmos delle e della com
-interesse, e a mana com graa. Tinham estado
-juntas as duas, hontem tarde; Rita desculpara-se
-de no ter l ido no dia 28. Contou-me parte do
-que lhe ouviu cerca de duas pessoas que l estiveram...</p>
-
-<p>&mdash;Que l estiveram?</p>
-
-<p>&mdash;Parece que sim.</p>
-
-<p>E entrou a repetir uma serie de anedotas e
-ditos, que ouvi durante uns dez minutos, com
-ateno. A maledicencia no to mau costume
-como parece. Um espirito vadio ou vazio, ou
-ambas estas cousas acha nella util emprego. E
-depois, a inteno de mostrar que outros no
-prestam para nada, se nem sempre fundada,
-muita vez o , e basta que o seja alguma vez para
-justificar as outras. Disse isto a Rita por palavras
-graciosas, que ella reprovou e deitou conta
-da minha perversidade.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">9 de Novembro.</p>
-
-<p>A marinha interrompeu a paizagem, ou de todo
-a poz de lado. Fidelia consentiu em ir pintar um
-trecho da praia do Flamengo, no sei se com
-Tristo ou sem elle. Aguiar, que me deu a noticia,
-limitou-se a dizer que ella j comeou a tela
-com muito gosto.</p>
-
-<p>&mdash;V l amanh, conselheiro, entre uma e
-duas horas.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">11 de Novembro.</p>
-
-<p>No fui hontem, fui hoje ver a marinha. Achei
-Fidelia no jardim, junto da casa, com o pincel e
-a palheta nas mos, os olhos no mar e na tela,
-em p. Ao lado, sentada, estava D. Carmo, com
-o seu riso bom e maternal. Viu-me porta do
-jardim, e fez um gesto convidando-me a entrar;
-entrei.</p>
-
-<p>&mdash;Venha, disse ella, ande ver a minha artista.</p>
-
-<p>Fidelia pareceu vexada com estas palavras, e
-estendeu-me a mo, j livre do pincel, dizendo:</p>
-
-<p>&mdash;No olhe, no olhe que no presta.</p>
-
-<p>Olhei, prestava. Est ainda em comeo, e no
-ser obra-prima; a polidez obrigava-me a achal-a
-excelente, e disse-lh'o, com um gesto de admirao;
-mas, em verdade, presta. O fundo, serra
-e ceu, faz bom efeito; a agua creio que ter movimento
-e boa cr. Faltava Tristo; no vi nem
-sombra do filho pintado pela filha. Posto no
-extranhasse a ausencia, lembrou-me insinual-a.
-Disse-lhe que podia pr na praia a figura da boa
-amiga, que ali estava a acompanhal-a com os
-seus dous olhos amigos. Esta ia a dizer alguma
-cousa, mas Fidelia replicou:</p>
-
-<p>&mdash;No me atrevi, por no conhecer bem a
-arte de figura; no colegio pintava flores e paizagens,
-algum pedao de mar ou de ceu. Se no
-fosse isso, tirava o retrato de D. Carmo.</p>
-
-<p>D. Carmo confirmou:</p>
-
-<p>&mdash;Eu pedi-lhe que pintasse Tristo neste quadro
-e ella respondeu-me a mesma cousa.</p>
-
-<p>Aceitei a razo, aceitei uma cadeira vaga que
-ali estava, e pedi viuva que continuasse a obra.
-Queria vel-a pintar. Na Europa tinha assistido ao
-trabalho de alguns artistas homens; era a primeira
-vez que uma senhora pintava deante de
-mim. Fidelia dispoz-se e continuou. Aps alguns
-minutos os tres falavamos de varias cousas. A
-viuva estava em toda a graa do costume, sem
-nenhum ar petulante que porventura pudesse tirar
-do exercicio; pintava modestamente. Alguma
-vez interrompia o trabalho, ou para ouvir melhor,
-ou para dizer mais longo,&mdash;e logo tornava ao
-pincel e tela.</p>
-
-<p>Ao cabo de alguns minutos cuidava eu de sair,
-quando vi aparecer porta da casa nada menos
-que Tristo. A porta larga, d para um saguo,
-donde se comunica para cima por dous pequenos
-lanos de degros, tecto baixo. Tristo vinha
-de concluir a correspondencia que vae mandar
-para o correio, segundo soube logo depois, e
-tornava ao logar em que estivera, ao p das duas.
-Mandou vir cadeira; a que eu ocupava era a que
-elle ocupava antes, e no havia outra. Talvez estes
-pormenores no tenham valor, mas cabem
-aqui para o fim de acentuar bem que Tristo
-estava com ellas antes da minha chegada, e para
-lembrar que antes de vir a cadeira me consultou
-acerca da pintora; respondi o que cumpria.</p>
-
-<p>&mdash;No ? disse elle contente do meu apoio.</p>
-
-<p>E acrescentou algumas palavras de louvor,
-calidas, sinceras de certo, que a viuva apreciou
-comsigo naturalmente; no as contestou, tambem
-no sorriu como sucede quando a gente aprova
-interioramente uma cousa que lhe vae bem com a
-alma. Ouviu pintando, recuando ou chegando, e
-deitando os olhos para longe. Quando os encaminhou
-para elle (j ento sentado) no esperou
-que Tristo afastasse os seus; encontrou-os e
-deixou-os ficar onde estavam, indo continuar a
-marinha com tanta ateno que era como se ns
-outros no falssemos de nada, e ns falavamos
-de muita cousa, elle acaso menos, para ver melhor
-a pintura.</p>
-
-<p>Aquelle silencio de Fidelia, em contraste com
-a palestra de pouco antes, pareceu-me indicar
-que ella considerava a obra em atrazo. Tambem
-podia ser que o amor da arte a retivesse agora
-mais que a principio, e a convidasse a pintar exclusivamente.
-A causa secreta de um acto escapa
-muita vez a olhos agudos, e muito mais aos meus
-que perderam com a idade a natural agudeza;
-mas creio que seria uma daquellas, e no ha razo
-para descrer que fossem ambas successivamente.</p>
-
-<p>Quem parecia contente de tudo, palavras e silencios,
-era a dona da casa. Posto me dsse a
-principal ateno, no o fazia em maneira que
-esquecesse a tela e os filhos. Mirava a tela e falava
-aos filhos com a ternura velha que j estou
-canado de notar, e talvez a ternura fosse agora
-maior que de outras vezes; pelo menos, trazia
-certo alvoroo como de alma que soletra uma
-felicidade nova ou inesperada; no digo tudo
-para me no arriscar a engano.</p>
-
-<p>A verdade que eu, que pensra em sair, fui
-ficando, ficando, at que a viuva Noronha suspendeu
-o trabalho; tinha passado quasi uma hora.
-Confessou que estava canada, e cuidou de recolher
-os pinceis e cobrir a pintura, ajudada nisso
-pelo moo Tristo, que o fazia com a mesma
-graa que ella, e um dezejo de bem servir, que
- a alma da polidez. Eu, alm de velho, no podia
-deixar a boa Carmo, que s os ajudou com
-os olhos, e ajudou-os bem; iam de um para outro,
-no s alegres, mas ainda interrogativos.
-Elles acabaram tudo e vieram sentar-se deante de
-ns, um cheio de riso, outra no cheia, mas
-tocada apenas do seu, que era igualmente agradecido
-e bom.</p>
-
-<p>A minha prezena era j longa, e apezar das
-relaes que ha entre ns, comearia a parecer
-indiscreta. Era tempo de sair; quiz sair e ficar a um
-tempo, cousa impossivel; vivi assim alguns instantes
-de impulsos contrarios. Tristo podia resolver
-esta minha luta interior cantando alguma
-cousa que me obrigasse a ouvil-o, mas estava
-ento ocupado em dizer finezas artista, viuva,
- irm, a todas aquellas tres pessoas consubstanciadas
-na mesma dama encantadora. Fidelia sorria
-com recato e ateno, e respondia tambem.
-Despedi-me, e achei (se no foi engano) que
-D. Carmo estimou a minha sada para se dar inteiramente
-aos dous filhos. Certo , porm, que
-os tres me falaram com apreo e cortezia. Vim
-por ahi fra pensando nelles.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">12 de Novembro.</p>
-
-<p>Fiz mal em no pr aqui hontem o que trouxe
-de l commigo. Creio que Tristo anda namorado
-de Fidelia. No meu tempo de rapaz dizia-se <i>mordido</i>;
-era mais energico, mas menos gracioso, e
-no tinha a espiritualidade da outra expresso,
-que classica. Namoro banal, d ideia de uma
-ocupao de vadios ou sensuaes, mas namorado
- bonito. Ala de namorados era a daquelles
-cavaleiros antigos que se bateram por amor das
-damas... tempos!</p>
-
-<p>A minha impresso que elle anda ou comea
-a andar namorado da viuva. Outra impresso que
-tambem no escrevi que a madrinha parece
-perceber o mesmo, e tira dahi certo alvoroo.
-Quando l fr agora heide abrir todas as velas
-minha sagacidade, a ver se confirmo ou desminto
-estas duas impresses. Pode ser engano,
-mas pode ser verdade.</p>
-
-<p>Hoje, que no saio, vou glozar este mote.
-Acudo assim necessidade de falar commigo, j
-que o no posso fazer com outros; o meu mal.
-A indole e a vida me deram o gosto e o costume de
-conversar. A diplomacia me ensinou a aturar
-com paciencia uma infinidade de sujeitos intoleraveis
-que este mundo nutre para os seus propositos
-secretos. A apozentao me restituiu a mim
-mesmo; mas l vem dia em que, no saindo de
-caza e canado de ler, sou obrigado a falar, e
-no podendo falar s, escrevo.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">13 de Novembro.</p>
-
-<p>Aguiar veiu a mim, e disse:</p>
-
-<p>&mdash;J sei que gostou da marinha.</p>
-
-<p>&mdash;Gostei muito. Est adeantada?</p>
-
-<p>&mdash;Est.</p>
-
-<p>&mdash;A artista no tem parado?</p>
-
-<p>&mdash;No; vae l todos os dias e pinta com
-amor.</p>
-
-<p>&mdash;Com amor? Essa a corda principal della.
-No sei se j lhe disse que o que me encanta na
-afeio que ella tem aos senhores, e particularmente
-a D. Carmo, o toque de subordinao
-graciosa, que lhe d totalmente um ar de filha.
- isso, a obediencia discreta e pontual com que
-que ella acode aos dezejos dos seus paes de corao.</p>
-
-<p>&mdash;Diz bem, conselheiro.</p>
-
-<p>Estavamos no Tezouro, aonde fomos por negocios,
-e saimos dali a p, caminho do Rocio, a
-pegar um bonde, mas no pegmos nada. A conversao
-foi o melhor vehiculo; desses que tem
-as rodas surdas e rapidas, e fazem andar sem
-solavancos. Viemos descendo, a continuar o
-assunto, e a dizer cousas interessantes; eu, pelo
-menos, porque elle vivia mais nos olhos e nos
-ouvidos que na boca. Ouvia com ateno, e
-alguma vez com desateno; no segundo caso,
-era todo olhos, mas to alongados, que esqueciam
-a rua e o companheiro.</p>
-
-<p>Uma das confidencias que me fez merece ser
-posta aqui. Para me dar razo no que lhe disse
-da subordinao graciosa da viuva, referiu-me
-que as duas costumavam ir missa, ao domingo,
-na matriz da Gloria; a viuva vinha sempre acompanhar
-D. Carmo ao Flamengo, donde tornava
-logo para Botafogo, se no almoava com elles.</p>
-
-<p>&mdash;Carmo, para a no obrigar a vir to longe,
-ia algum domingo ouvir missa a Botafogo, mas
-Fidelia vinha quasi sempre Gloria.</p>
-
-<p>&mdash;E agora j no vem?</p>
-
-<p>&mdash;Agora Carmo que no vae a uma nem a
-outra parte, ou s raro. A minha pobre mulher
-anda canada; l tem o seu livro, com as suas
-rezas marcadas. Ao domingo, mesma hora,
-antes de catar noticias nas gazetas, pega em si e
-no livro, e acompanha a missa toda. Eu, que j
-sei a hora, no a perturbo nunca; se me acontece
-por acaso entrar no gabinete onde ella tem o seu
-altarzinho e o seu Christo, recuo a tempo, mas no
-lhe arranco os olhos da pagina; como se no
-entrasse ninguem. Acaba, beija a imagem e torna
-ao mundo. No sae de casa sem a beijar primeiro,
-como um pedido de proteo, nem volta sem
-fazer o mesmo, ainda vestida e de chapeu, como
-a dar graas. O mesmo ao deitar e ao levantar.</p>
-
-<p>Como esses, referiu Aguiar outros habitos cazeiros
-da consorte, que ouvi com agrado. No
-seriam grandemente interessantes, mas eu tenho
-a alma feita em maneira que dou apreo ao minimo,
-uma vez que seja sincero. No diria isto a
-ninguem cara a cara, mas a ti, papel, a ti que
-me recebes com paciencia, e alguma vez com satisfao,
-a ti, amigo velho, a ti digo e direi, ainda
-que me custe, e no me custa nada. Creio que
-outras damas leiam tambem a missa em casa, ou
-por fadiga, ou por doena, ou por estar chovendo,
-e ha sempre que louvar em pessoa que
-respeita os seus elos espirituaes. S me aborrece
-a que os enfia ao modo de colar para dar melhor
-vista ao pescoo. Tal no aquella boa senhora
-do Flamengo. A piedade dessa estende-se memoria
-da me e do pae, saudade das amigas, e
-(ainda que me cance repetil-o) a amizade dos
-seus dous filhos de emprestimo.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">20 de Novembro.</p>
-
-<p>J l voltei tres vezes. Achei sempre D. Carmo,
-Fidelia e Tristo. Da terceira vez Aguiar chegou
-mais cedo, e assistiu s ultimas pinceladas.</p>
-
-<p>Creio que sim; creio que o moo admira
-menos a tela que a pintora, ou mais a pintora
-que a tela, escolha. Uma ou outra hipothese,
-j certo que est namorado. Chegou ao ponto de
-esquecer-nos e ficar preso della, embebido nella,
-levado por ella. Eu, com a arte que o Diabo me
-deu, divido a ateno entre a me e os dous
-filhos para concertar a cortezia e a curiosidade, e
-ambas saem satisfeitas do meu gesto.</p>
-
-<p>Quando escrevi ha dias (duas ou tres vezes)
-que a moa Fidelia foge a alguma cousa, se
-no foge a si mesma, tinha em mira o afastamento
-em que ella vinha estando da casa da
-amiga. Eil-a que continua a l ir, e a se deixar
-ver do irmo que a amiga lhe deu. Ou no lhe
-quer fugir,&mdash;ou (cousa mais grave) no quer
-fugir a si mesma. Mas ainda no vi nada claro;
-parece antes perdoar.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">30 de Novembro.</p>
-
-<p>Tristo convidou-me a subir s Paineiras, amanh;
-aceitei e vou.</p>
-
-<p>Ha dez dias no escrevo nada. No doena ou
-achaque de qualquer especie, nem preguia. Tambem
-no falta de materia, ao contrario. Nestes
-dez dias soube que novas cartas chamam Tristo
-Europa, agora formalmente, ainda que sem instancia;
-ha eleies proximas. Tristo resolveu
-no ir j, antes do principio do anno, mas no
-pode deixar de ir. Taes foram as novidades que
-me deram no Flamengo e fra dali. Fra ouvi-as
-da boca da graciosa Cesaria, que me disse com
-melancolia:</p>
-
-<p>&mdash;Elle gosta da Fidelia, mas claro que lhe
-prefere a politica.</p>
-
-<p>Era a melancolia do prazer recondito,ou como
-se deva dizer para explicar um achado gostoso
-que a gente precisa disfarar em tristeza. Havia
-naquella palavra tal ou qual condenao do
-moo, mas s aparente; o sentido verdadeiro era
-o gosto de ver a dama preterida. Para encubril-o
-bem, D. Cesaria disse todo o mal que pensa do
-rapaz, e no pouco. A graa foi a mesma de
-seu uso, as lembranas agudas, as maneiras elegantes.
-Ri-me naturalmente, negando ou calando.
-Dentro de mim achei que a opinio era injusta,
-mas talvez este meu conceito seja filho da afeio
-que vou tendo ao moo. Ella cresce-me, com a
-vista e a pratica dos seus dotes, e naturalmente
-com a afeio e a confiana que me tem, ou parece
-ter. Seja o que fr, a verdade que no o
-defendi de todo, mas s em parte, e a graciosa dama
-apelou para o meu gosto, o equilibrio do meu
-espirito, o longo conhecimento que tenho dos
-homens... Todas as grandes qualidades deste
-mundo.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">1 de Dezembro.</p>
-
-<p>Volto espantado das Paineiras. L fui hoje com
-Tristo. No fim do almoo, acima da cidade e do
-mar, ouvi-lhe nem mais nem menos que a confisso
-do amor que dedica formosa Fidelia. Uso
-os seus proprios termos: dedica formosa Fidelia.
-O verbo no vivo, mas pode ser elegante, e
-em todo caso, exprime a unidade do destino. As
-theses escolares dedicam-se a paes, a parentes, a
-amigos; o amor these para uma s pessoa.</p>
-
-<p>Novidade no era, a confisso que me espantou,
-e provavelmente elle leu esse efeito em mim.
-No lhe respondi logo, salvo por um gesto de
-aquiescencia, preciso em taes casos, no se devendo
-duvidar nunca da boa escolha, ao contrario.</p>
-
-<p>&mdash;No disse isto a ninguem, conselheiro, nem
- madrinha nem ao padrinho. Se lh'o fao aqui
- que no ouso fazel-o quelles dous, e no tenho
-terceira pessoa a quem o diga. Dil-o-hia a sua
-irm, se me atrevesse a tanto; mas apezar do
-bom trato, no lhe acho franqueza igual sua.
-Parece-lhe que o meu corao escolhe bem?</p>
-
-<p>&mdash;Pergunta ociosa, doutor; basta amar para
-escolher bem. Ao Diabo que fosse era sempre boa
-escolha.</p>
-
-<p>&mdash;Essa a regra, sei; mas no caso particular
-daquelle senhora no acha que admiravel?</p>
-
-<p>&mdash;Acho.</p>
-
-<p>&mdash;Tambem assim penso; independentemente
-da cegueira que me daria a paixo, vejo claro
-que a escolha perfeita. J tivemos ocasio de
-falar nella, e combinmos no parecer. Digo-lhe
-at que foi esse o motivo que me levou a confessar-me
-hoje. Lembra-se que ha algum tempo,
-em sua caza, almoando...? Concordmos em
-achar-lhe todas as prendas moraes e fisicas.
-Comprehendi que me aprovaria, e resolvi falar-lhe
- cerca deste sentimento e seus efeitos.</p>
-
-<p>&mdash;A resposta estava dada, como diz; no ha
-consulta nova.</p>
-
-<p>&mdash;Ha; ainda lhe no disse tudo.</p>
-
-<p>&mdash;Pois diga o resto. Disponho-me a ouvil-o,
-como se eu mesmo fosse rapaz. Gosta della ha
-muito tempo?</p>
-
-<p>&mdash;Logo que cheguei comecei a gostar della.</p>
-
-<p>&mdash;No reparei.</p>
-
-<p>&mdash;Nem ella, nem eu tambem. Senti que lhe
-achava alguma cousa, mas a austeridade de viuva
-e a minha proxima volta no deixavam entender
-bem o que era. Poderia ser dessas preferencias
-que se do a mulheres, no havendo plano nem
-possibilidade de as receber na vida. Alem dessa
-<i>cousa</i>, gostava de a ouvir falar, de lhe comunicar
-ideias e observaes, e todas as nossas conversas
-eram interessantes. Os seus modos, aquelle
-gesto de acordo manso e calado, tudo me prendia.
-Um dia entrei a pensar nella com tal insistencia
-que desconfiei. Recorda-se quando resolvi
-ir fazenda de Santa-Pia com ella e o tio?</p>
-
-<p>&mdash;Recordo-me.</p>
-
-<p>&mdash;Era j a dificuldade de ficar aqui sem ella,
-no sabia porquanto tempo; e depois contava que
-na roa, mais a ss, chegaria a fazer-lhe sentir
-tudo, o que me pezava e dispol-a a ouvir-me. Resoluo
-perdida; ella no foi e eu tive de acompanhar
-o desembargador sozinho; pouco depois
-voltei...</p>
-
-<p>&mdash;Lembra-me.</p>
-
-<p>Tristo deteve-se naquelle ponto e estendeu os
-olhos abaixo e ao longo. Um creado veiu servir-nos
-caf, emquanto dous grandes passaros negros
-cortavam o ar, um atraz do outro. Podia ser um
-cazal, elle que a perseguia, ella que negava.
-Ento eu, para sorrir da confidencia, suggeri a
-ideia de que a bella Fidelia estivesse a fazer o
-mesmo gesto da ave fugitiva; talvez j gostasse
-delle. No me retrucou sim, nem no, mas a expresso
-do rosto era negativa, e eu, para no
-perder o resto, perguntei-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;Quem lhe diz que no, doutor?</p>
-
-<p>A curiosidade ia-me fazendo deslisar da discrio,
-e acaso da compostura; nem s a curiosidade,
-um pouco de temperamento tambem. Tem-se
-visto muito rapaz falar de damas amadas, e
-muita viuva sair da viuvez ou ficar nella! Naquelle
-caso os dous personagens davam interesse especial
- aventura. C me acordava a afirmao de
-mana Rita. Que Fidelia no caza. Que no cazar
-nunca. A situao de ambos, a vida que chama
-Tristo para fra daqui, a morte que prende a
-viuva terra e s suas saudades, tudo somava
-o interesse da aventura, no contando que a esses
-motivos de separao, eu proprio ia-me a outros
-de unio possvel dos dous.</p>
-
-<p>Tristo no se deixou rogar muito; desfiou
-varios dos seus enganos e desenganos. Custou-lhe
-a principio, mas, dito um caso, vieram outros,
-e com pouco sabia eu que aparencias iludiram
-as suas esperanas, e que desiluses as mataram.
-Agora cr devras o peor.</p>
-
-<p>No lhe dei as minhas razes contrarias; podiam
-no ser mais que aparencias. Tambem no
-aludi s suspeitas que atribuo madrinha e ao
-padrinho; elles podem enganar-se como eu. Ao
-demais,&mdash;e o principal,&mdash;isso viria dando ao
-meu papel aspeto menos grave do que convinha.
-Basta que j aquella conversao lhe fosse deitando
-as manguinhas de fora,&mdash;e a mim tambem; no
-fim dos charutos, estavamos quasi como dous estudantes
-do primeiro anno e do primeiro namoro,
-ainda que com outro estilo.</p>
-
-<p>Creio que, ao descer, vinha arrependido ou
-vexado da confisso; trocou de assunto, conversmos
-de cousas alheias, do trem e da estrada, do
-mato e do morro, e c embaixo um pouco da politica
-de ambos os paizes.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">2 de Dezembro.</p>
-
-<p>Uma observao. Como que Tristo foi to
-franco hontem nas Paineiras, e to cauteloso naquelle
-dia do largo de S. Francisco, onde dei com
-elle embebido a ver entrar a moa no carro.
-Grande talento! exclamou ento, o talento de
-pianista, que ella no levava nas saias. E j ento
-gostava della, pelo que lhe ouvi hontem, visto
-que comeou a querer-lhe pouco depois de chegado.
-A razo que s agora a paixo subiu to
-alto; isso, e a confiana que lhe inspiro. No sei
-pde conter, o que foi.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">3 de Dezembro.</p>
-
-<p>Ayres amigo, confessa que ouvindo ao moo
-Tristo a dor de no ser amado, sentiste tal ou
-qual prazer, que alis no foi longo nem se repetiu.
-Tu no a queres para ti, mas terias algum
-desgosto em a saber apaixonada delle; explica-te
-se podes, no podes. Logo depois entraste em ti
-mesmo, e viste que nenhuma lei divina impede a
-felicidade de ambos, se ambos a quizerem ter
-juntos. A questo querel-o, e ella parece que o
-no quer.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">5 de Dezembro.</p>
-
-<p>A marinha est quasi prompta. Mana Rita veiu
-encantada da tela, da autora e da dona, porque
-Fidelia destina a obra a D. Carmo. Esteve s com
-as duas amigas; no achou l Tristo nem Aguiar,
-e conversaram as tres longamente, at que a viuva
-se despediu e tornou para Botafogo, apezar de
-instada para jantar no Flamengo; no podia e partiu
-antes de cair a tarde.</p>
-
-<p>Rita ficou e ainda bem que ficou, porque ouviu
-a D. Carmo a noticia do amor de Tristo, com um
-acrescimo que aqui vae para ligar ao que escrevi
-nestes ultimos dias. Esse acrescimo nada menos
-que o desejo de D. Carmo de os ver cazados.</p>
-
-<p>&mdash;Digo isto s senhora e peo-lhe que no
-conte a ninguem, acabou D. Carmo, eu gostaria
-de os ver cazados, no s porque se merecem,
-como pela amizade que lhes tenho e que elles
-me pagam do mesmo modo.</p>
-
-<p>Rita achou que D. Carmo dizia verdade, e achou
-mais que, cazando-os, teria assim um meio de
-prender o filho aqui. A mana dessas pessoas que
-no pedem reter o que pensam, e confiou logo
-o achado amiga. D. Carmo sorriu com expresso
-de acordo; e foi o que pensou e me disse a
-propria Rita. Tambem assim me pareceu, mas
-eu quiz deitar a minha gota de fel do costume, e
-disse:</p>
-
-<p>&mdash;Talvez a terceira razo seja a principal, se
-no foi unica.</p>
-
-<p>Rita acudiu que no. Unica no era, no podia
-ser. Eu, por maldade e riso, teimei que sim, mas
-dentro de mim acabei concordando com ella. As
-tres razes podiam combinar-se bem naquella
-senhora. A ultima, quando muito, daria maior
-alma s duas primeiras: era natural. No tardaria
-a perder o filho postio, que se vae embora,
-e a filha de emprestimo pode vir a amar outro e
-cazar, e ainda que no saia daqui, seguir outra
-familia. Unidos os dous aqui, amados aqui, tel-os-hia
-ella abraados ao proprio peito, e elles a
-ajudariam a morrer. Resumo assim o que pensei
-e agora confirmo, acrescentando que o confiei
-tambem mana.</p>
-
-<p>&mdash;O que eu disse ha pouco foi por gracejo;
-acho que voc tem razo. E parece-lhe que ella
-alcance o que deseja?</p>
-
-<p>&mdash;No afirmo nem nego, mas j me parece
-dificil; aqui est por qu. Tristo e Aguiar chegaram
-pouco antes da hora de jantar, e jantmos.
-Aguiar indagou da pintura, D. Carmo respondeu-lhe,
-elle ouviu com interesse, e creio que elle e
-ella olharam alguma vez para o afilhado; Tristo
-no dizia nada; parecia at no atender ao que
-elles diziam.</p>
-
-<p>&mdash;Talvez fingisse.</p>
-
-<p>&mdash;No fim do jantar, antes do caf, Tristo declarou
-aos padrinhos que talvez parta antes do
-fim do anno...</p>
-
-<p>&mdash;Antes?</p>
-
-<p>&mdash;Antes.</p>
-
-<p>&mdash;E elles no sabiam?</p>
-
-<p>&mdash;Parece que no, porque ficaram desconsolados,
-e o jantar acabou triste.</p>
-
-<p>&mdash;Mas como que elle no dissera isso ao
-padrinho, vindo com elle de fra?</p>
-
-<p>&mdash;No vieram juntos; Tristo chegou depois
-do Aguiar. Pensavamos at que jantasse fra de
-caza. Foi assim; no fim deu noticia da partida.
-Contou que uma carta atrazada... mas no mostrou
-a carta; ter mostrado depois que sa de l.</p>
-
-<p>Pensei commigo, e expliquei:</p>
-
-<p>&mdash;Mana, pode ser at que no haja carta nenhuma;
-elle foge-lhe, no tem esperanas, quer
-ir quanto antes. J isso de chegar tarde a caza
-prova que no quer encontrar a viuva; o que .
-Os dous velhos no procuraram dissuadil-o da resoluo?</p>
-
-<p>&mdash;A principio no disseram nada; ficaram
-acabrunhados. Depois o Aguiar entrou a dizer
-alguma cousa, que D. Carmo ouviu e apoiou apenas
-com os olhos; estava triste, e para me no
-deixar s, falava commigo; eu respondia apertando-lhe
-os dedos com piedade sincera. Olhe,
-mano, at eu cuidei de pedir ao rapaz que se demorasse
-mais tempo. Elle agradeceu a minha interveno
-com um sorriso tambem triste, mas declarou
-que no podia; pedem-lhe muito que volte.</p>
-
-<p>&mdash;Bem, disse eu rindo, voc mostrou ahi que
-se compadeceu da amiga D. Carmo, mas voc
-esquece agora neste mez de Dezembro a aposta
-que fez commigo no principio de Janeiro. No se
-lembra do que me disse no cemiterio? No apostou
-que a viuva Noronha no tornaria a cazar? Como
- que pediu hoje ao Tristo que ficasse,&mdash;com
-o pensamento intimo de o ver cazar com ella?</p>
-
-<p>Conclu pegando-lhe no queixo e levantando-lhe
-o rosto para mim, que estava de p. A mana
-confessou a contradio e explicou-a. Antes de
-tudo, o seu pensamento era poupar a tristeza da
-amiga; seriam alguns dias ou semanas mais que
-passariam juntos, elles e o afilhado. Mas bem podia
-ser tambem que Fidelia, aconselhada por
-elles, acabasse despozando Tristo; as circumstancias
-seriam outras.</p>
-
-<p>&mdash;Logo, eu tinha razo naquelle dia?</p>
-
-<p>&mdash;Inteiramente no; mas tudo pode acontecer
-neste mundo.</p>
-
-<p>&mdash;Neste mundo e no outro.</p>
-
-<p>Quiz acabar a conversao notando-lhe que, a
-despeito do pedido de D. Carmo, quando lhe
-confiou a inteno recondita e lhe recomendou
-segredo, ella acabava de me revelar tudo; mas
-o corao tolheu-me o remoque, por mais fraternal
-e innocente que me saisse. Podia resentir-se,
-e ella no o merece; ella boa.</p>
-
-<p>Em resumo, pode ser que Rita tivesse razo
-no cemiterio. Se a viuva Noronha, como l escrevi
-ha dias, foge a si mesma, que tem medo de
-cair e prefere a viuvez ao outro estado.</p>
-
-
-<p class="right">10 de Dezembro.</p>
-
-<p>Fidelia sabe j que Tristo resolveu partir no
-dia 24. Foi elle mesmo que lh'o disse em caza
-della.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">15 de Dezembro.</p>
-
-<p>Se eu estivesse certo de poder cazar os dous,
-cazava-os, por mais que me custe confessal-o a
-mim mesmo, e, a rigor, no custa muito. Estou
-s, entre quatro paredes, e os meus sessenta e
-tres annos no rejeitam a ideia do oficio eclesiastico.
-<i>Ego conjugo vos...</i></p>
-
-<p>A razo de tal sentimento a tristeza que vejo
-nos padrinhos, medida que se aproxima o dia 24.
-D. Carmo perguntou a Tristo implorativamente
-porque que no adiava para 9 de Janeiro a viagem;
-eram mais quinze dias que lhe dava. Elle
-respondeu que no pode. Eu, algo incredulo,
-perguntei-lhe se j comprara bilhete; disse-nos
-que vae compral-o amanh. A minha ideia que
-elle espera achar todas as passagens tomadas, e
-adiar a viagem por fora maior. No lh'o disse,
-mas tudo se deve esperar dos homens, e particularmente
-dos namorados.</p>
-
-<p>Foi hontem que falmos disso os tres; Aguiar
-estava presente e no opinou. Pouco depois chegou
-o desembargador com a sobrinha; tinham
-saido em visita ao presidente do tribunal, mas
-apenas na rua, Fidelia propoz ao tio virem passar
-a noite no Flamengo, e vieram; eram nove horas.</p>
-
-<p>Tudo o que se passou at s dez e meia teria
-aqui tres ou quatro paginas, se eu no sentisse
-algum canasso nos dedos. Paginas de conjeturas,
-porque os dous apenas se falaram, mas
-conjeturas firmadas na comoo visivel de um
-e de outro, nos silencios da Fidelia, embora
-orlados da ateno que dava amiga. Os quatro
-homens pouco a pouco nos ligamos. Campos
-chegou a propor cartas, nenhum de ns tres
-aceitou a ideia. Aguiar ia aceitando, ainda que
-a meia voz, mas Tristo alegou dor de cabea ou
-dor nas costas, e era verdade; tinha passado
-toda a manh curvado, a arranjar cousas velhas.
-O mesmo canasso dos dedos agora resto da fadiga
-de hontem; ficmos a conversar, at que as
-duas visitas sairam, e eu com ellas.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">20 de Dezembro.</p>
-
-<p>Sucedeu como eu cuidava. Tristo achou
-todas as passagens de 24 vendidas. Vae no dia 9.
-O peor que, sendo natural comprar bilhete
-desde logo, para lhe no acontecer o mesmo,
-no comprou cousa nenhuma. Sei disto por elle, a
-quem perguntei se se no aparelhava j; respondeu
-que no, que ha tempo. Agora imagino
-que, se houver tempo e achar bilhete, elle pode
-converter a necessidade de amar a moa no dezejo
-de ceder aos velhos, e ficar mais duas ou tres
-semanas. Os velhos no sero a causa verdadeira,
-mas no ha s filhos de emprestimo, ha
-tambem causas de emprestimo.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">22 de Dezembro.</p>
-
-<p>A verdadeira causa&mdash;ou uma dellas, estava
-hoje no Flamengo, acabando a marinha. Tristo
-l estava tambem, e ambos faziam a estetica
-um do outro. Elle admirava menos a tela que a
-pintora, ella menos o expectaculo que o admirador,
-e eu via-os com estes olhos que a terra fria
-hade comer.</p>
-
-<p>D. Carmo dava-me a parte de ateno a que
-a cortezia a obrigava, mas to somente essa.
-Olhava para os dous a miudo, a espreital-os, e,
-se fosse preciso, a animal-os. Mas j no era
-preciso. Um e outro esqueciam-se de ns e deixavam-se
-ir ao som daquella musica interior, que
-no nova para ella.</p>
-
-<p>Observando a moa e os seus gestos, pensei no
-que me disseram ha uma semana, a ideia que
-ella teve de ir passar o vero em Santa-Pia, que
-ainda no vendeu. No lhe importaria l ficar
-com os seus libertos; faltou-lhe pessoa que a
-acompanhasse. Ultimamente pensou em ir para
-Petropolis, mas ahi provavel que fosse tambem
-Tristo, e a inteno della era fugir-lhe, creio eu.
-Creio tambem que ella foi sincera em ambos os
-projetos. Fidelia ouviu porta do corao
-aquelle outro corao que lhe bate, e sentiu taes
-ou quaes veleidades de trancar o seu. Digo veleidades,
-que no obrigam nem arrastam a
-pessoa. A pessoa quer cousa diversa e oposta,
-e o sentimento, se no j dominante, para l
-caminha.</p>
-
-<p>Uma impresso que trago do Flamengo que
-D. Carmo despediu-se de mim, quando me levantei,
-com o mesmo prazer que lhe dei ha dias, para
-ficar a ss com elles. No lhes ter dito nada com
-palavras, mas at onde pode ir a alma sem ellas,
-foi de certo. S a compostura da boa senhora
-ter impedido que os abrace e lhes diga: Amem-se,
-meus filhos!</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">28 de Dezembro.</p>
-
-<p>Estive hoje com Tristo, e no lhe ouvi nada
-a no ser que recebeu cartas de Lisboa, cartas
-politicas; tambem as recebeu do pae e da me.
-A me, se elle se demorar muito, diz que vir
-ver a sua terra. Deu-me noticias dos seus outros
-paes de c, mas no falou da moa.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="Ib" id="Ib">1889</a></h5>
-
-
-<p class="right">2 de Janeiro.</p>
-
-<p>Emfim, amam-se. A viuva fugiu-lhe e fugiu a
-si mesma, emquanto pde, mas j no pde.
-Agora parece delle, ri com elle, e no dia 9 chorar
-por elle, naturalmente, se elle lhe no estancar
-a fonte das lagrimas com um gesto. As
-visitas so agora diarias, os jantares frequentes;
-D. Carmo acompanha algumas vezes o afilhado
-a Botafogo, e Aguiar vae buscal-os.</p>
-
-<p>Se j esto formalmente declarados o que
-no sei; ter faltado ocasio ou animo a elle
-para confiar outra o que ella sabe pelos olhos,
-mas no tardar muito. O que ahi digo o que
-sei por observaes e conjeturas, e principalmente
-pela felicidade que ha no rosto do cazal
-Aguiar. A mana no tem saido de caza; no dia
-de anno bom fui jantar com ella, mas no falmos
-disso.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">7 de Janeiro.</p>
-
-<p>Tristo j no vae a 9, por uma razo que me
-no deu, nem lh'a pedi. Some disse que no vae;
-escreveu para Lisboa e ia levar as cartas ao correio.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">9 de Janeiro.</p>
-
-<p>Segundo anniversario da minha volta definitiva
-ao Rio. No ouvi hoje os preges do anno
-passado e do outro. Desta vez lembrou-me a data
-sem nenhum som exterior; veiu de si mesma.
-Esperei ver a mana entrar-me em caza e convidar-me
-a ir com ella ao cemiterio. No veiu
-(so quatro horas da tarde) ou porque se no
-lembrou, ou por lhe no parecer necessario
-todos os annos.</p>
-
-<p>Quem sabe se no iriamos dar com a viuva
-Noronha ao p da sepultura do marido, as mos
-cruzadas, rezando, como ha um anno? Se eu
-tivesse ainda agora a impresso que me levou
-a apostar com Rita o cazamento da moa, poderia
-crer que tal presena e tal attitude me dariam
-gosto. Acharia nellas o signal de que no ama
-a Tristo, e, no podendo eu despozal-a, preferia
-que amasse o defunto. Mas no, no
-isso; o que vou dizer.</p>
-
-<p>Se eu a visse no mesmo logar e postura, no
-duvidaria ainda assim do amor que Tristo lhe
-inspira. Tudo poderia existir na mesma pessoa,
-sem hipocrisia da viuva nem infidelidade da
-proxima espoza. Era o acordo ou o contraste do
-individuo e da especie. A recordao do finado
-vive nella, sem embargo da ao do pretendente;
-vive com todas as douras e melancolias antigas,
-com o segredo das estras de um corao que
-aprendeu na escola do morto. Mas o genio da
-especie faz reviver o extinto em outra frma, e
-aqui lh'o d, aqui lh'o entrega e recomenda.
-Emquanto pde fugir, fugiu-lhe, como escrevi
-ha dias, e agora o repito, para me no esquecer
-nunca.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">12 de Janeiro.</p>
-
-<p>Amanh (13) faz annos a bella Fidelia. Tal a
-razo que levou Tristo a transferir a viagem de
-9 para outro dia que ainda no fixou. Assim o
-disse aos padrinhos que o aprovaram naturalmente
-e alegremente; esta mesma razo me foi
-confessada por elle hoje, quando o encontrei a
-buscar uma lembrana para deixar viuva. Taes
-foram as suas palavras, mas no traziam alma de
-convico. A razo da ficada outra.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
- <p class="right">13 de Janeiro.</p>
-
-<p>Antes de me despir quero escrever o que ouvi
-agora ha pouco (meia noite) picante Cesaria.
-Vim com ella e o marido da caza do desembargador
-onde fomos tomar ch com a gracioza
-viuva. Os amigos desta l estiveram, menos Rita,
-que mandou carto de comprimentos; parece
-que est adoentada.</p>
-
-<p>No escrevo porque seja verdade o que D.
-Cesaria me disse, mas por ser maligno. Esta senhora
-se no tivesse fel talvez no prestasse; eu
-nunca a vejo sem elle, e uma delicia. Ou j
-sabia da afeio da viuva ao Tristo, ou reparou
-nella esta noite. Fosse como fosse, disse-me que
-Tristo no voltar to cedo a Lisboa.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, concordei, parece que lhe custa muito
-deixar os padrinhos.</p>
-
-<p>&mdash;Os padrinhos? redarguiu Cesaria rindo.
-Ora, conselheiro! Certamente chama assim aos
-dous olhos da viuva, que so bem ruins padrinhos.
-Mas l tem comsigo a agua benta para o batizado.</p>
-
-<p>No entendendo, perguntei-lhe que agua benta
-era, e que batizado. O marido, com a sua rabugem
-do costume, respondeu que a agua benta era
-o dinheiro, e esfregou o pollegar e o indice;
-ella riu apoiando, e eu comprehendi que atribuiam
-ao moo uma afeio de interesse.</p>
-
-<p>Quiz ponderar dama que isto que me dizia
-agora estava em contradio com o que uma vez
-lhe ouvi. Ouvi-lhe ento (e creio que o escrevi
-neste <i>Memorial</i>) que Tristo preferia a politica
-viuva, e por isso a deixava. No lh'o lembrei por duas
-razes, a primeira que seria inutil, e at prejudicial
-s nossas relaes, a segunda que ofenderia
-a propria natureza. D. Cesaria pensa realmente
-o mal que diz. A contradio aparente;
-est toda no odio que ella tem a Fidelia, e este sentimento
- a causa intima e unica das duas opinies
-opostas. Preterida pela politica ou preferida pelo
-dinheiro, tudo diminuir a outra dama. A essas
-duas razes para ouvil-a calado acresceu a frma.
-Tudo lhe sae com palavras relativamente doces e
-honestas, ficando o veneno ou a inteno no
-fundo. Ha ocasies em que a graa de D. Cesaria
- tanta que a gente tem pena de que no seja
-verdade o que ella diz, e facilmente lh'o perdoa.</p>
-
-<p>Tudo isto considerado, e mais a hora, a viagem
-curta, e a presena do marido, que diabo ganhava
-eu em desfazer o que ella dizia? Commigo, sim,
-logo que elles me deixaram, vim pensando no
-Tristo, que tambem rico, que ama devras a
-viuva, amado por ella, e acabar cazando. Vim
-recordando a noite e os seus epizodios, que no
-escrevo por ser tarde, mas foram interessantes.
-O desembargador parece que j descobriu a inclinao
-da sobrinha, e no a desaprova. O cazal
-Aguiar estava feliz; ainda l ficou para vir com o
-afilhado.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">23 de Janeiro.</p>
-
-<p>Agora me lembra que amanh faz um anno das
-bodas de prata do cazal Aguiar. L estive naquella
-festa intima, que me deu prazer grande. Tambem
-l esteve Fidelia, e fez o seu brinde de filha boa
-Carmo, tudo correu na melhor harmonia. Ainda
-c no chegra Tristo, nem era esperado. Oxal
-me no esquea de lhes mandar cedo o meu bilhete
-de felicitaes, e pde ser que l v de
-noite. Vou, vou.</p>
-
-<p>....Rita escreveu-me agora (seis da tarde)
-pedindo que a espere amanh, noite, para
-irmos juntos ao Flamengo. Vou; ha seis dias que
-l no pizo.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">25 de Janeiro.</p>
-
-<p>No havia muita gente no Flamengo. Os quatro,&mdash;cazal
-Aguiar, Tristo e Fidelia (no conto o
-desembargador, que estava jogando) os quatro
-pareciam viver de uma novidade recente e dezejada.
-Quem sabe se a mo da viuva no foi j
-pedida e concedida por ella? Comuniquei esta
-suposio a Rita, que me disse suspeital-o tambem.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">29 de Janeiro.</p>
-
-<p>Tnhamos razo na noite de 24. Os namorados
-esto declarados. A mo da viuva foi pedida
-naquelle mesmo dia, justamente por ser o 26 anniversario
-do cazamento dos padrinhos de Tristo;
-foi pedida em Botafogo, na casa do tio, e em
-presena deste, concedida pela dona, com assentimento
-do desembargador, que alis nada tinha
-que opor a dous coraes que se amam. Mas tudo
-neste negocio devia sair assim, de acordo uns
-com outros, e todos comsigo.</p>
-
-<p>D. Carmo e Aguiar, que haviam abraado a
-Tristo com grande ternura antes e depois do
-pedido, estavam naquella noite em plena aurora
-de bem-aventurana. Valha-me Deus, pareciam
-ainda mais felizes que os dous. A viuva punha
-certa moderao na ventura, necessaria contiguidade
-dos dous estados, mas esquecia-se algumas
-vezes, e totalmente no fim. Nada se sabia
-ento da novidade, e agora mesmo creio que s
-eu a sei (assim m'o disse hoje o noivo); alguns
-poderiam supol-a, como a mana Rita, que j
-sabia metade della; os menos sagazes tero dito
-comsigo, ao vel-os, que bom que Fidelia v aliviando
-o luto do corao.</p>
-
-<p>Referindo-me o que se passou ha cinco dias,
-Tristo explicou esta comunicao nova: sentia-se
-obrigado a contar-me o final de um idilio, cujo
-principio me confira em frma elegiaca. Usou
-dessas mesmas expresses, e quasi me citou Theocrito.
-Eu apertei-lhe a mo com sincero gosto,
-e prometi calar.</p>
-
-<p>Em verdade, estimo vel-os unidos. J escrevi
-que era um modo de acudir tristeza do cazal
-Aguiar. Agora acrescento (se j o no disse tambem)
-que elles se merecem, so moos, bellos,
-amam-se, tm o direito natural e legitimo de se
-possuirem.</p>
-
-<p>&mdash;No publicamos oficialmente o nosso cazamento
-proximo, concluiu Tristo, porque eu
-escrevi a meus paes, e s nos cazaremos depois
-que me chegar a resposta. A resposta sabida, e
-se pudesse ser contraria, nem por isso deixariamos
-de cazar-nos; todavia, no quero publicar j
-o acordo, uma frma de respeito aos velhos.</p>
-
-<p>Em seguida comeou a desfiar as excelentes
-qualidades da moa. J lhe ouvira algumas e conhecia-as
-todas, mas quando se trata com esta
-especie de gente preciso ter a maior indulgencia
-do mundo. Tristo falava com tal sinceridade e
-gosto que seria duro no lhe dar ouvidos complacentes
-e palavras de aprovao; dei-lh'os;
-elle acabou pedindo-me o primeiro abrao de
-pessoa extranha; dei-lh'o apertado.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">2 de Fevereiro.</p>
-
-<p>O abrao que l contei atraz fez-me bem; foi
-sincero. Podia ser afetado ou apenas de cortezia,
-mas no foi; gostei de ver feliz aquelle rapaz, e
-com elle a dama, e com elles os dous velhos de c
-e os de l.</p>
-
-<p>Talvez seja engano meu, mas acho a viuva
-agora mais bonita. A causa disto pode ser a mudana
-proxima do estado. A melancolia de antes
-era verdadeira, mas extranha ou hospede, no sei
-como diga para significar uma especie de visita
-de pezames, poucos minutos e poucas palavras.
-J l escrevi, ha tres semanas, a 9 do mez passado,
-alguma cousa que de certo modo explica e ata os
-dous estados.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">6 de Fevereiro.</p>
-
-<p>No ha como um grande segredo para ser divulgado
-depressa. Alm de mim, que sei, e de Rita,
-que desconfia, ha j quem afirme que os dous se
-cazam; ou porque o sabem ou porque desconfiam
-somente, mas afirmam. Osorio, que ouviu falar
-disso, recebeu a noticia como um grande golpe
-novo e inesperado. Nem faltaro outros que gostem
-della ou morram por ella, e faam figas ao
-Tristo.</p>
-
-<p>Verdade que Osorio estava j desenganado,
-mas foi isto mesmo que lhe reabriu a ferida. O
-desengano da parte della era a fidelidade ao
-morto; desde que ella vae para outro, podia ir
-para elle, e isto que o irrita, como sucede ao
-parceiro do gamo que d com o copo no taboleiro
-se lhe sae o peor mumero de dados.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">10 de Fevereiro.</p>
-
-<p>A felicidade palreira. D. Carmo ainda me
-no disse que os dous esto para cazar, mas j
-hoje me confiou que escreveu comadre, me de
-Tristo, a quem no escreve ha muito. Justamente
-pelo mesmo paquete que levou a carta do afilhado.
-Naturalmente reforou o pedido e analisou as
-graas phisicas e moraes de Fidelia, e se lhe no
-pediu que os deixe c, e venha ella tambem, acabar
-por ahi. Nessa occasio me dir o resto, ou
-antes.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">12 de Fevereiro.</p>
-
-<p>Estava com dezejo de ir passar um mez em
-Petropolis, mas o gosto de acompanhar aquelles
-dous namorados me faz hesitar um pouco, e acabar
-por me prender aqui. Rita tem o mesmo
-gosto, e j agora os frequenta mais. Hontem disse-me
-que o cazamento certo.</p>
-
-<p>&mdash;Mas quem disse a voc que elles se cazam?</p>
-
-<p>&mdash;Ninguem me disse, eu que adivinhei.
-D. Carmo, a quem falei nisto, ficou um pouco embaraada;
-no queria confessar e tinha vergonha
-de negar, o que ; mas eu desconversei e falei
-de outra cousa. S se elles no lhe disseram ainda
-nada...</p>
-
-<p>No sei que escrupulo me deteve a lingua; no
-lhe contei o que sabia da parte do proprio Tristo,
-mas no me custou nada; apenas retruquei
-disfarando:</p>
-
-<p>&mdash;Bem, a viuva no caza commigo, caza com
-outro, segundo lhe parece: mas ento voc confessa
-que perdeu a aposta.</p>
-
-<p>&mdash;No digo que no. Tudo est nas mos de
-Deus.</p>
-
-<p>&mdash;Lembra-se daquelle dia no cemiterio?</p>
-
-<p>&mdash;Lembra-me; ha um anno.</p>
-
-<p>Repito, no me custou ser discreto; virtude
-em que no tenho merecimento. Algum dia,
-quando sentir que vou morrer, heide ler esta
-pagina a mana Rita; e se eu morrer de repente,
-ella que me leia e me desculpe; no foi por duvidar
-della que lhe no contei o que j escrevi
-atraz.</p>
-
-<p>Leia, e leia tambem esta outra confisso que fao
-das suas qualidades de senhora e de parenta. Talvez
-eu, se vivessemos juntos, lhe descobrisse algum
-pequenino defeito, ou ella em mim, mas assim
-separados um gosto particular ver-nos. Quando
-eu lia classicos lembra-me que achei em Joo
-de Barros, certa resposta de um rei africano aos
-navegadores portuguezes que o convidaram a dar-lhes
-ali um pedao de terra para um pouso de
-amigos. Respondeu-lhes o rei que era melhor
-ficarem amigos de longe; amigos ao p seriam como
-aquelle penedo contiguo ao mar, que batia nelle
-com violencia. A imagem era viva, e se no foi
-a propria ouvida ao rei de Africa, era comtudo
-verdadeira.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">12 de Fevereiro, <i>onze horas da noite.</i></p>
-
-<p>Antes de me deitar, reli o que escrevi hoje ao
-meio dia, e achei o final demaziado sceptico. A
-mana que me perdoe.</p>
-
-<p>Chego do Flamengo, onde achei Aguiar meio
-adoentado, na sala, numa cadeira de extenso, as
-portas fechadas, grande silencio, os dous ss.
-Tristo saira para Botafogo, no que no quizesse
-ficar, mas padrinho e madrinha disseram-lhe que
-fosse, que Fidelia podia ficar assustada se elle
-no aparecesse, que lhe dsse lembranas. Tristo
-cedeu e foi. Eu cederia tambem, sem teimar
-muito, como provavelmente este no teimou
-nada.</p>
-
-<p>No me disseram as cousas naquelles termos
-instantes, mas os que empregaram vinham a dar
-nelles. Continuam a calar o negocio do cazamento.</p>
-
-<p>A doena do Aguiar parece que um resfriado,
-e desaparecer com um suadouro; nem por isso
-elle me despediu mais cedo. D. Carmo teimava
-em fazel-o recolher, e eu em sair, mas o homem
-temia que eu viesse meter-me em casa ssinho e
-aborrecido; foi o que elle mesmo me disse, e
-reteve-me em quanto pde. No sa muito tarde,
-mas tive tempo de ver a dona da casa ir de um
-para outro cabo do espirito, entre os cuidados
-de um e as alegrias de outro. Interrogativa
-e inquieta, apalpava a testa e o pulso ao
-marido; logo depois aceitava a ponta da conversao
-que elle lhe dava, acerca da Fidelia ou do
-Tristo, e a noite passou assim alternada, entre o
-bater do mar e do relogio.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">13 de Fevereiro.</p>
-
-<p>Mandei saber do Aguiar; amanheceu bom; no
-sae para se no arriscar, mas est bom. Escreveu-me
-que v jantar com elles. Respondi-lhe que a
-doena foi um pretexto para passar o dia de hoje
-ao p da espoza, e por isso mesmo no me possivel
-ir contemplar de perto esse quadro de Theocrito.</p>
-
-<p>Realmente, no posso, tenho de ir jantar com
-o encarregado de negocios da Belgica. Confesso
-que preferia os Aguiares, no que o diplomata
-seja aborrecido, ao contrario; mas os dous velhos
-vo com a minha velhice, e acho nelles um
-pouco da perdida mocidade. O belga moo, mas
- belga. Quero dizer que, canado de ouvir e de
-falar a lingua franceza, achei vida nova e original
-na minha lingua, e j agora quero morrer com
-ella na boca e nas orelhas. Todos os meus dias vo
-contados, no ha recobrar sombra do que se perder.</p>
-
-<p>Quadro de Theocrito, escreveu-me Aguiar
-em resposta minha recuza, quer dizer alguma
-cousa mais particular do que parece. Venha explicar-m'o
-amanh, entre a sopa e o caf, e contar-me-ha
-ento os planos secretos da Belgica.
-Tristo diz-me que jantar tambem, se V. Ex.
-vier. Veja a que ponto chegou este ingrato, que s
-janta comnosco, se houver visitas; se no, some-se.
-Vir, conselheiro?</p>
-
-<p>Respondi que sim, e vou. A frase final do bilhete
-traz uma afetao de magua, algo parecido
-com prazer que se encobre; por outras palavras,
-sabe-lhes aquella ausencia do rapaz, uma vez que
-tudo amarem-se duas creaturas que os amam,
-e a quem elles amam tambem. Heide ver que,
-acabado o jantar, os primeiros que o remetem
-para Botafogo so elles mesmos.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">15 de Fevereiro.</p>
-
-<p>No, no remeteram Tristo para Botafogo.
-Creio que o desejassem e o fizessem, mas no tiveram
-tempo. To depressa acabamos de jantar,
-apareceram Fidelia e o tio. Conclui que os dous
-namorados houvessem concertado isto mesmo.</p>
-
-<p>Noite boa para todos. Eu proprio achei prazer
-em observar os dous. No que elles no buscassem
-disfarar, ella principalmente, mas no ha
-disfarce que baste em taes lances. A agitao interior
-transtornava os calculos, e os olhos contavam
-os segredos. Quando falavam pouco ou nada,
-o silencio dizia mais que palavras, e elles davam
-por si pendentes um do outro, e ambos do ceu.
-Foi o que me pareceu. No me pareceu menos
-que o ceu os animava e que elles nos mandavam
-a todos os diabos, a mim e aos tres velhos, e aos
-paes de Tristo, aos paquetes, s malas, s cartas
-que esperavam, a tudo que no fosse um padre e
-latim,&mdash;latim breve e padre brevissimo, que os
-aliviasse do celibato e da viuvez. E desta maneira
-diziam tudo o que sabiam de si.</p>
-
-<p>Sabiam tudo. Parece incrivel como duas pessoas
-que se no viram nunca, ou s alguma vez
-de passagem e sem maior interesse, parece incrivel
-como agora se conhecem textualmente e
-de cr. Conheciam-se integralmente. Se alguma
-celula ou desvo lhes faltava descobrir, elles iam
-logo e pronto, e penetravam um no outro, com
-uma luz viva que ninguem acendeu. Isto que digo
-pode ser obscuro, mas no fantazia; foi o
-que vi com estes olhos. E tive-lhes inveja. No
-emendo esta frase, tive inveja aos dous, porque
-naquella transfuzo desapareciam os sexos diferentes
-para s ficar um estado unico.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">16 de Fevereiro.</p>
-
-<p>Esqueceu-me notar hontem uma cousa que se
-passou ante-hontem, no comeo do jantar do Flamengo.
-Aqui vae ella; talvez me seja precisa
-amanh ou depois.</p>
-
-<p>As primeiras colheres de sopa foram tanto ou
-quanto caladas e atadas. Tinham chegado cartas
-da Europa (duas) e Tristo as leu janella, rapidamente,
-parecendo no haver gostado do assunto.
-Comeu sem ateno nem prazer, a principio.
-Naturalmente os padrinhos desconfiaram
-alguma cousa, mas no se atreveram a perguntar-lhe
-nada. Olharam para elle, socapa; eu, para
-lhes no perturbar o espirito, no trazia assunto
-extranho, e comia commigo. Depressa acabou o
-constrangimento, e o resto do jantar foi alegre.
-J l deixei notado o que foi o resto da noite.</p>
-
-<p>Se eu quizesse saber o que diziam as cartas bastaria
-ser indiscreto ou descortez; era perguntar-lh'o
-em particular. Tristo me confiaria, creio,
-visto que entro cada vez mais no corao daquelle
-moo. Ouve-me, fala-me, busca-me, quer os meus
-conselhos e opinies. Mas a impresso m foi to
-breve que provavelmente no foi grande, e elle
-acabaria referindo tudo aos padrinhos quando ficaram
-ss, e mais certamente noiva, hontem. Devem
-estar j no periodo dos segredos comuns.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">18 de Fevereiro.</p>
-
-<p>Telegrama dos paes de Tristo, dizendo-lhe
-que sim, que aprovam, que os abenoam. O estilo
-telegrafico mais concizo, mas foi assim que
-Tristo m'o traduziu de cr; contentamento traz
-derramamento. Apertei-lhe a mo com prazer;
-elle quiz um abrao. Foi aqui em casa, quando eu
-ia a sair, duas horas da tarde. Saimos juntos, e tive
-de ouvir tres panegiricos, um dos paes, outro
-dos padrinhos, e o terceiro (alis vigesimo) da
-propria dama dos seus pensamentos.</p>
-
-<p>&mdash;D. Fidelia ficou contentissima; diz que
-nunca duvidou da resposta, mas a declarao telegrafica
-mostra que os velhos no se puderam
-guardar para o correio, e responderam logo.
-Agora esperamos cartas, mas a publicao do cazamento
-faz-se j.</p>
-
-<p>Ao sair do bonde ouvi um quarto panegirico,
-o dos seus chefes politicos que esto anciosos por
-vel-o na camara dos deputados e escreveram-lhe.
-Um delles chegou a confessar-lhe que abandonaria
-a politica, se elle a deixasse tambem.</p>
-
-<p>&mdash; exagero, concluiu Tristo sorrindo, mas
-isto prova que me querem. Tambem pode ter sido
-um meio de me chamar depressa; o outro limitou-se
-a dizer que a minha eleio certa, e a candidatura
-vae ser aprezentada.</p>
-
-<p>&mdash;Sim? Felicito-o.</p>
-
-<p>&mdash;No j, nem publicamente. No disse nada
-disto aos padrinhos; a D. Fidelia, sim, contei-lh'o
-em particular, e agora a V. Ex. pedindo-lhe
-a maior reserva.</p>
-
-<p>Provavelmente eram as duas cartas do outro
-dia. Mas, de facto, partir elle, ou ainda est incerto
-se ceder ou no espoza, caso ella pense
-em ficar? A rezerva que me pediu explicar uma
-e outra soluo...</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">22 de Fevereiro.</p>
-
-<p>Est publicado o cazamento de Tristo e de Fidelia,
-no nos jornaes, e antes fosse nelles tambem;
-est s publicado entre as relaes das
-duas familias...</p>
-
-<p>Eu gosto de ver impressas as noticias particulares,
- bom uso, faz da vida de cada um ocupao
-de todos. J as tenho visto assim, e no s
-impressas, mas at gravadas. Tempo hade vir em
-que a fotografia entrar no quarto dos moribundos
-para lhes fixar os ultimos instantes; e se
-ocorrer maior intimidade entrar tambem.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">25 de Fevereiro.</p>
-
-<p>Quando mana Rita veiu trazer-me a noticia
-oficial do cazamento mostrei-lhe a minha carta de
-participao, e fiz um gesto de triunfo, perguntando-lhe
-quem tinha razo no cemiterio, ha
-um anno. Ainda uma vez concordou que era
-eu, mas emendou em parte, dizendo que a nossa
-aposta que ella cazaria commigo, e citou a
-aposta entre Deus e o Diabo a proposito de Fausto,
-que eu lhe li aqui em caza no texto de Goethe.</p>
-
-<p>&mdash;No, trapalhona, voc que me incitou a
-tental-o, e desculpou a minha idade, com palavras
-bonitas, lembra-se?</p>
-
-<p>Lembrava-se, sorrimos, e entrmos a falar dos
-noivos. Eu disse bem de ambos, ella no disse
-mal de nenhum, mas falou sem calor. Talvez no
-gostasse de ver cazar a viuva, como se fosse cousa
-condenavel ou nova. No tendo cazado outra
-vez, pareceu-lhe que ninguem deve passar a segundas
-nupcias. Ou ento (releve-me a doce mana,
-se algum dia ler este papel), ou ento padeceu
-agora taes ou quaes remorsos de no havel-o feito
-tambem... Mas, no, seria suspeitar de mais
-de pessoa to excelente.</p>
-
-<p>Ahi fica, mal resumida, a nossa conversao.
-No falmos da data do cazamento, nem da partida
-do cazal, se partisse. Rita era pouca para
-referir anedotas, repetir ditos e boatos, nenhum
-malevolo nem feio, todos interessantes, ouvidos
- gente Aguiar.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">Seis horas da tarde.</p>
-
-<p>Vim agora da rua, onde me confirmaram que
-o corretor Miranda teve hoje de manh uma congesto
-cerebral. Rita s me falou disso ao sair
-daqui, e esqueceu-me escrevel-o. Estavamos no
-patamar da escada quando ella me contou que
-ouvira a noticia, no bonde, a dous desconhecidos.</p>
-
-<p>&mdash;S agora que voc me d esta novidade?
-disse-lhe eu. Tem razo; a vida tem os seus
-direitos imprescritiveis; primeiro os vivos e os
-seus consorcios; os mortos e os seus enterros
-que esperem.</p>
-
-<p>Tambem eu fiz o mesmo; s agora falo do
-homem.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">26 de Fevereiro.</p>
-
-<p>Miranda morreu hontem s dez horas; enterra-se
-hoje s quatro. Creio que deixa a familia bem.
-Davamo-nos sem ser grandes amigos. Eu, se
-fosse a somar os amigos que tenho perdido por
-esse mundo, chegaria a algumas duzias delles. Os
-jornaes dizem que no ha convites para o enterro;
-irei ao enterro sem convite.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">Dez horas da noite.</p>
-
-<p>L fui a enterrar o Miranda. No valeria a
-pena contal-o, se no fosse o que me sucedeu no
-fim. Muita gente, as tristezas do costume. A
-propria Cesaria parecia abatida; no digo se chorava
-ou no. Aguiar e Campos tambem compareceram,
-e outros conhecidos.</p>
-
-<p>No cemiterio, deitada a ultima p de terra na
-cova, lembrou-me ir ao jazigo dos meus. Desviei-me
-e fui; achei-o lavado como de costume, e
-depois de alguns minutos, vendo que a gente
-no acabava de sair, caminhei para o tumulo do
-Noronha, marido de Fidelia. Sabia onde ficava,
-mas ainda l no fora.</p>
-
-<p>Agora que a viuva est prestes a enterral-o de
-novo, pareceu-me interessante miral-o tambem,
-se que no levara tal ou qual sabor em atribuir
-ao defunto o verso de Shelley que j puzera na
-minha boca, a respeito da mesma bella dama: <i>I
-can, etc.</i> Tumulo grave e bonito, bem conservado,
-com dous vasos de flores naturaes, no ali plantadas,
-mas colhidas e trazidas naquella mesma
-manh. Esta circumstancia fez-me crer que as
-flores seriam da propria Fidelia, e um coveiro
-que vinha chegando respondeu minha pergunta:
-So de uma senhora que ahi as traz
-de vez em quando...</p>
-
-<p>A pergunta foi feita to naturalmente que o
-coveiro no teve duvida em responder, nem eu
-em contal-o aqui. Tambem no quero calar o que
-vim pensando commigo. J no havia ninguem
-dos que acompanharam o enterro do Miranda.
-Chegava outro, e entre um e outro meti-me no
-carro e vim para casa. Em caminho pensei que a
-viuva Noronha, se efetivamente ainda leva flores
-ao tumulo do marido, que lhe ficou este costume,
-se lhe no ficou essa afeio. Escolha
-quem quizer; eu estudei a questo por ambos
-os lados, e quando a a achar terceira soluo
-chegara porta da casa. Desci, dei ao cocheiro a
-molhadura de uso, e enfiei pelo corredor. Vinha
-canado, despi-me, escrevi esta nota e vou jantar.
-Ao fim da noite se puder, direi a terceira soluo:
-se no, amanh. A terceira soluo a
-que l fica atraz, no me lembra o dia... ah! foi
-no segundo anniversario do meu regresso ao Rio
-de Janeiro, quando eu imaginei poder encontral-a
-deante da pessoa extinta, como se fosse a
-pessoa futura, fazendo de ambas uma s creatura
-presente. No me explico melhor, porque me
-entendo assim mesmo, ainda que pouco. D. Cesaria,
-se vier a sabel-o capaz de ir dizel-o ao
-proprio Tristo, com uma gota amarga ou corrupta,
-ou ambas as cousas para variar... J j,
-no; est ainda com a morte do cunhado na
-garganta, mas tudo passa, at os cunhados.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">Sem data.</p>
-
-<p>J l vo dias que no escrevo nada. A principio
-foi um pouco de reumatismo no dedo, depois
-visitas, falta de materia, emfim preguia.
-Sacudo a preguia.</p>
-
-<p>A noite passada estive em casa da viuva Noronha,
-quasi que a ss com ella; havia a mais o
-tio, um colega da Relao e uma parenta velha.
-Tristo fra a Petropolis, levado pelos padrinhos
-at barca da Prainha, e por mim que os vi passar
-na rua da Quitanda, e subi ao carro convidado
-por elles. No lhes ouvi ento o motivo da ida a
-Petropolis, mas j o sabia de vespera; foi examinar
-uma caza para o noivado. Conclui, no sei
-porque, que elles ficavam morando aqui.</p>
-
-<p>Posso dizer que verdadeiramente fiquei a ss
-com ella. Tendo ouvido ao tio que a sobrinha
-andava com saudades do velho amigo,&mdash;que sou
-eu&mdash;imaginei que era mentira; o tio queria
-parceiro para cartas. No fui e acertei; a parenta
-foi ao voltarete com os dous magistrados.</p>
-
-<p>Eu, relativamente a Fidelia, j cheguei liberdade
-de lhe perguntar se no tinha saudades do
-noivo. A resposta foi afirmativa, mas calada, um
-sorriso breve e um gesto de sobrancelhas. Tristo
-foi o assunto mais frequente da conversao,
-dizendo eu todo o bem que penso delle e francamente
- muito, ao que ella retrucava sem vaidade,
-antes com modestia e discrio; em si mesma
-devia estar feliz. Disse-me que elle recebera cartas
-da familia, confirmando por extenso o que
-j lhe mandra em resumo. A da me era toda
-ternura, citou-me algumas frases da futura sogra,
-e foi buscar a carta della para que eu a lesse
-tambem.</p>
-
-<p>&mdash;Cartas politicas no vieram?</p>
-
-<p>&mdash;Parece que vieram.</p>
-
-<p>Li e louvei muito a carta da paulista, que achei
-efetivamente terna, ainda que derramada, mas
-ternura de mo no conhece sobriedade de estilo.
-Era escrita propria Fidelia.</p>
-
-<p>Vendo que esta gostava da conversa, no lhe
-pedi musica; ella que foi de si mesma tocar
-piano, um trecho no sei de que autor, que se
-Tristo no ouviu em Petropolis no foi por falta
-de expresso da pianista. A eternidade mais
-longe, e ella j l mandou outros pedaos da alma;
-vantagem grande da musica, que fala a mortos e
-a ausentes.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">Sabado.</p>
-
-<p>Fidelia parece retrair-se agora depois das primeiras
-confidencias que me fez, e natural. Como
-eu lhe pedisse noticias de Tristo, respondeu-me
-que no as tinha, e falou de outra cousa; mas
-falando-lhe eu da alegria recente de D. Carmo,
-referiu-me as tristezas que lhe ouviu uma vez a
-proposito da volta do afilhado, e do conselho que
-ento lhe deu de ir com elle; ao que a boa
-senhora retrucou que seria preciso separar-se do
-marido e no podia.</p>
-
-<p>&mdash;Veja o perigo de dividir a alma com duas
-pessoas; eu, em moo, nunca o fiz, menos o
-faria agora depois de velho.</p>
-
-<p>Sobre isto (que no tinha sentido claro nem
-inteno) dissemos cousas que no importa escrever
-aqui. Ella falou com graa, e provavelmente
-com verdade, mas no tratmos do assunto
-principal do corao da moa. Eu deleitava-me
-em aprecial-a por dentro e por fora, no a
-achando menos curiosa interna que externamente.
-Sem perder a discrio que lhe vae to
-bem, Fidelia abre a alma sem biocos, cheia de
-confiana que lhe agradeo daqui.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">9 de Maro.</p>
-
-<p>Tristo voltou de Petropolis. Deixou casa alugada
-em Westphalia, casa posta pelo comendador
-Josino, que a vae deixar por algum tempo
-e segue com a familia para o sul; passou-lhe o
-contracto por tres mezes. D. Carmo e Fidelia
-sobem a vel-a esta semana. Andam agora muito
-mais juntas, em casa ou na rua, naturalmente a
-confidencia maior. Tambem eu ando com ellas
-se as encontro, tambem ouo as palavras de
-ambas.</p>
-
-<p>&mdash;Mana, disse eu a Rita contando-lhe estas
-cousas em Andarahy, eis aqui em que acaba um
-velho e grave diplomata apozentado, sem os canassos
-do oficio, certo, mas tambem sem as
-esperanas da promoo.</p>
-
-<p>Rita entendeu e quasi me puxou o nariz; preferiu
-dizer com saudade e consolao que no
-tivesse ideias de cemiterio. Esta aluso visita
-que fizemos ao jazigo da familia, ha mais de um
-anno, levou-me quasi a confessar o sentimento
-paterno que Fidelia acaso acorda em mim, mas
-recuei a tempo. Era provavel que Rita me dissesse,
-como fez um dia, que eram desculpas de
-mau pagador. A mana gosta de mofar, sem
-criar odio a ninguem, e menos a mim que a outro.
-Ao cabo, ha cousas que apenas se devem escrever
-e calar, o que eu fao a esta especie de
-afeio nova que acho na viuva.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">13 de Maro.</p>
-
-<p>No ha como a paixo do amor para fazer original
-o que comum, e novo o que morre de
-velho. Taes so os dous noivos, a quem no me
-cano de ouvir por serem interessantes. Aquelle
-drama de amor, que parece haver nascido da perfidia
-da serpente e da desobediencia do homem,
-ainda no deixou de dar enchentes a este mundo.
-Urna vez ou outra algum poeta empresta-lhe a
-sua lingua, entre as lagrimas dos expectadores;
-s isso. O drama de todos os dias e de todas as
-formas, e novo como o sol, que tambem velho.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">20 de Maro.</p>
-
-<p>D. Carmo tomou a si adornar a casa dos noivos.
-Soube isto pelo desembargador, que chegou de
-Petropolis e deixou a casa uma belleza com a
-ordem em que ella dispe os moveis e os adornos,
-alguns destes obra j de suas mos.</p>
-
-<p>&mdash;J? perguntei.</p>
-
-<p>&mdash;J; D. Carmo trabalha depressa, e neste
-momento com grande afeio ; deu-lhes tambem
-muitos trabalhos seus. Converse com o Aguiar,
-que lhe dir a mesma cousa, e Tristo tambem;
-Fidelia do mesmo parecer.</p>
-
-<p>Rita, sem nada ver, acredita que seja assim; foi
-o que me respondeu. Quanto a D. Cesaria tambem
-no viu nada, mas inclina-se a crer que lhe falte
-alguma harmonia.</p>
-
-<p>&mdash;Pode ser que no, aventurei.</p>
-
-<p>&mdash;No digo que D. Carmo no pudesse fazer
-alguma cousa capaz, mas com esta pressa, s carreiras,
-no provavel. Demais ella no possue
-tanto gosto como se quer; algum tem, mas falta-lhe
-graa. Aos noivos tambem; elle parece-me
-espalhafatoso...</p>
-
-<p>Quiz defender os tres, mas a certeza de que
-ella no tem de mim melhor opinio, fez-me recuar,
-e dizer-lhe que nunca lhe achei tanto espirito.
-Fui alm; gabei-lhe os olhos. Como ento
-passasse os dedos pelas sobrancelhas, gabei-lhe a
-mo, e iria aos ps, se me mostrasse os ps, mas
-no me mostrou mais nada.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">21 de Maro.</p>
-
-<p>Explico o texto de hontem. No foi o medo que
-me levou a admirar o espirito de D. Cesaria, os
-olhos, as mos, e implicitamente o resto da pessoa.
-J confessei alguns dos seus merecimentos.
-A verdade, porm, que o gosto de dizer mal no
-se perde com elogios recebidos, e aquella dama,
-por mais que eu lhe ache os dentes bonitos, no
-deixar de m'os meter pelas costas, se for oportuno.
-No; no a elogiei para desarmal-a, mas
-para divertir-me, e o resto da noite no passei
-mal. Estava em caza della, onde a irm escurecia
-tudo com a sua viuvez recente. D. Cesaria disse
-muitas cousas de fel e de mel, trocando-as e
-completando-as com tal arte que alguma vez
-uma cousa parecia outra, e ambas pareciam as
-duas unidas.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">22 de Maro.</p>
-
-<p>A reflexo que vou fazer curta; se tal no
-fora, melhor seria guardal-a para amanh, ou logo
-mais tarde, quando me recolher; mas curta.</p>
-
-<p>Curta e lucida. Tristo pode acabar deitando ao
-mar a candidatura politica. Pelo que ouvi e escrevi
-o anno passado da primeira parte da vida delle,
-no se fixou logo, logo, em uma s cousa, mudou
-de afeies, mudou de preferencias, a propria
-carreira ia ser outra, e acabou medico e
-politico; agora mesmo, vindo a negocios e recreios,
-acaba cazando. Nesta parte no ha que
-admirar; o destino trouxe-lhe um feliz encontro,
-e o homem aceitar algemas, se as houver bonitas,
-e aqui so lindas.</p>
-
-<p>J me fala menos de partidos e eleies, e no
-me conta o que os chefes lhe escrevem. Commigo,
-ao menos, s me fala da viuva, e no creio
-que com outros seja mais franco, nem mais extenso,
-dizendo as suas ambies politicas, proximas
-e remotas. No; todo elle Fidelia, e pode
-bem mandar a cadeira das Cortes ao Diabo, se a
-noiva lh'o pedir. Dir-se-ha que um versatil, cativo
-do mais recente encanto? Pode ser; tanto
-melhor para os Aguiares. Se assim acontecer, lerei
-esta pagina aos dous velhos, com esta mesma
-linha ultima.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">25 de Maro.</p>
-
-<p>Era minha ideia hoje, anniversario da Constituio,
-ir comprimentar o imperador, mas a visita
-de Tristo fez-me abrir mo do plano. Deixei-me
-estar a conversar com elle de mil cousas varias,
-depois samos, passemos e tornmos a casa.</p>
-
-<p>No aceitou jantar commigo por ter de ir
-jantar com ella. Naturalmente falmos della algumas
-vezes, elle com entusiasmo, eu com simpatia.
-Talvez eu falasse menos que elle, verdade;
-mas eu sou apenas amigo de ambos, e, de
-costume, prefiro ouvir.</p>
-
-<p>Outro assunto que nos prendeu tambem, menos
-que ella, foi a politica, no a de c nem a de
-l, mas a de alm e de outras linguas. Tristo
-assistiu Communa, em Frana, e parece ter
-temperamento conservador fora da Inglaterra;
-em Inglaterra liberal; na Italia continua latino.
-Tudo se pega e se ajusta naquelle espirito diverso.
-O que lhe notei bem que em qualquer parte
-gosta da politica. V-se que nasceu em terra della
-e vive em terra della. Tambem se v que no conhece
-a politica do odio, nem saber perseguir;
-em suma, um bom rapaz, no me cano de o
-escrever, nem o calaria agora que elle vae cazar;
-todos os noivos so bons rapazes.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">26 de Maro.</p>
-
-<p><i>Or bene</i>, marcou-se o dia do cazamento de
-Tristo e Fidelia; a 15 de Maio. J estava disposto
-entre elles, secretamente, para que os papeis
-corressem em Lisboa, a tempo. Os de c
-vo correr j.</p>
-
-<p>Foi a propria D. Carmo que me deu a noticia
-hoje, antes que me venha por carta, como se tratasse
-de pessoas minhas, noivo e noiva, to frequentes
-somos os tres e os quatro, mas logo reduziu
-tudo a si mesma.</p>
-
-<p>&mdash;Realisa-se um grande sonho meu, conselheiro,
-disse ella. Tel-os-hei finalmente commigo.
-Espero arranjar-lhes caza aqui mesmo no Flamengo.
-Ella disse-me uma vez que seria minha
-filha...</p>
-
-<p>&mdash;Foi por occasio das suas bodas de prata,
-no foi?</p>
-
-<p>&mdash;Ouviu?</p>
-
-<p>&mdash;No ouvi; mas vi-lhe um gesto que vinha
-a dar na mesma. Lembre-se que eu estava a seu
-lado, e ella ao p de seu marido; a distancia era
-curta, e eu no esqueo nada.</p>
-
-<p>&mdash;Justamente. Senti-me feliz, mas no contei
-que a felicidade viesse a ser maior.</p>
-
-<p>Eu, para levar a conversa a outro ponto, insisti
-que no esqueo nada, e referi varias anedotas
-de lembrana viva, todas verdadeiras, mas da
-minha mocidade. Agora muita cousa me passa,
-muitas se confundem, algumas trocam-se. Mas,
-emfim, mudra o caminho da conversao, que
-o que eu queria para no atalhar a felicidade da
-boa Aguiar com pergunta indiscreta cerca de politica.
-No contei que ella propria falasse disso,
-como fez. Tristo ja lhe no toca em politica, e
-as cartas escasseiam ou tratam de materia aborrecida,
-que elle no comunica a ninguem, guardando-as
-ou lendo-as por alto e de passagem. A
-me escreveu-lhe ultimamente.</p>
-
-<p>&mdash;A comadre mandou-me dizer que eu lhe
-quero roubar o filho, e ameaou-me de o vir
-buscar com uma esquadra; respondi-lhe gracejando
-tambem.</p>
-
-<p>D. Cesaria, que entrava ento na sala, recebeu
-a noticia do dia do cazamento; ouvira falar disso,
-e vinha saber se era verdade. O alvoroo e doura
-com que falou outra compensou em grande
-parte o mal que me dissera della, e por outra
-maneira confirmou o que l pensei uma vez (e no
-sei se escrevi) sobre a propriedade deste mundo.
-Deus vencia aqui o Diabo, com um sorriso to
-manso e terno que faria esquecer a existencia do
-immundo consocio. O marido daquella dama no
-seria capaz de tamanho contraste, creio eu; falta-lhe
-disposio, e principalmente maneiras. sujeito
-capaz de pagar com um pontap a noticia
-que lhe trouxerem da sorte grande. No sabe ser
-feliz, posto no lhe custe nada; no sei se me explico
-bem, mas basta que o sinta commigo. Isto e
-outras cousas que fui pensando vieram comendo
-o tempo, e s onze horas estava em casa.</p>
-
-<p>Antes de me meter na cama, refleti que efetivamente
-Tristo j me no fala em politica, nem
-me cita as cartas que recebe, e pode ser que ellas
-escasseiem devras. Soubesse eu fazer versos e
-acabaria com um cntico ao deus do amor; no
-sabendo, v mesmo em proza: Amor, partido
-grande entre os partidos, tu s o mais forte partido
-da terra... Lerei esta outra pagina aos dous
-moos, depois de cazados.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">4 de Abril.</p>
-
-<p>No esperava por esta. Tristo veiu pedir-me
-que lhe sirva de padrinho ao cazamento. No podia
-negar-lh'o, e aceitei o convite, ainda que sem
-grande gosto. Ahi tinha elle o Aguiar, ou o Campos,
-mas emfim, quero ajudar a felicidade de
-todos. Deu-me outros pormenores: cazamento
-capucha, entre onze horas e meio dia, almoo no
-Flamengo, em familia, e os dous sero levados
- Prainha modestamente, embarcaro alli para
-Petropolis. Minucias escusadas, mas tudo se
-deve escutar com interesse a um corao que
-ama.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">8 de Abril.</p>
-
-<p>&mdash;Sabe o que D. Fidelia me escreveu agora?
-perguntou-me Aguiar. Que o Banco tome a si
-vender Santa-Pia.</p>
-
-<p>&mdash;Creio que j ouvi falar nisso...</p>
-
-<p>&mdash;Sim, ha tempos, mas era ideia que podia
-passar; vejo agora que no passou.</p>
-
-<p>&mdash;Os libertos tm continuado no trabalho?</p>
-
-<p>&mdash;Tm, mas dizem que por ella.</p>
-
-<p>No me lembra se fiz alguma reflexo cerca
-da liberdade e da escravido, mas possivel, no
-me interessando em nada que Santa-Pia seja ou
-no vendida. O que me interessa particularmente
- a fazendeira,&mdash;esta fazendeira da cidade, que
-vae cazar na cidade. J se fala no cazamento com
-alguma insistencia, bastante admirao, e provavelmente
-inveja. No falta quem pergunte pelo
-Noronha. Onde est o Noronha? Mas que fim
-levou o Noronha?</p>
-
-<p>No so muitos que perguntam, mas as mulheres
-so mais numerosas,&mdash;ou porque as afligiam
-as lagrimas de Fidelia,&mdash;ou porque achem
-Tristo interessante,&mdash;ou porque no neguem
-belleza viuva. Tambem pode ser que as tres
-razes concorram juntas para tanta curiosidade;
-mas, emfim, a pergunta faz-se, e a resposta
-um gesto parecido com esta ou outra resposta equivalente:&mdash;Ah!
-minha amiga (ou meu amigo),
-se eu fosse a indagar onde param os mortos, andaria
-o infinito e acabaria a eternidade.</p>
-
-<p> engenhoso, mas no bom, principalmente
-no certo. Os mortos param no cemiterio, e l
-vae ter a afeio dos vivos, com as suas flores e
-recordaes. Tal suceder propria Fidelia,
-quando para l fr; tal sucede ao Noronha, que
-l est. A questo que virtualmente no se
-quebre este lao, e que a lei da vida no destrua
-o que foi da vida e da morte. Creio nas afeies
-de Fidelia; chego a crer que as duas formam uma
-s, continuada.</p>
-
-<p>Quando eu era do corpo diplomatico efetivo
-no acreditava em tanta cousa junta, era inquieto
-e desconfiado; mas, se me apozentei foi justamente
-para crer na sinceridade dos outros. Que
-os efetivos desconfiem!</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">15 de Abril.</p>
-
-<p>J se no vende Santa-Pia, no por falta de
-compradores, ao contrario; em cinco dias apareceram
-logo dous, que conhecem a fazenda, e
-s o primeiro recusou o preo. No se vende;
-o que me disseram hoje de manh. Conclui que o
-cazal Tristo iria l passar o resto dos seus dias.
-Podia ser, mas ainda mais inesperado.</p>
-
-<p>O que ouvi depois que Tristo, sabendo da
-resoluo da viuva, formulou um plano e foi communicar-lh'o.
-No o fez nos proprios termos claros
-e diretos, mas por insinuao. Uma vez que
-os libertos conservam a enxada por amor da sinh-moa,
-que impedia que ella pegasse da fazenda e
-a dsse aos seus cativos antigos? Elles que a
-trabalhem para si. No foi bem assim que lhe
-falou; poz-lhe uma nota voluntariamente seca,
-em maneira que lhe apagasse a cr generosa da
-lembrana. Assim o interpretou a propria Fidelia,
-que o referiu a D. Carmo, que m'o contou,
-acrescentando:</p>
-
-<p>&mdash;Tristo capaz da inteno e do disfarce,
-mas eu tambem acho possivel que o principal
-motivo fosse arredar qualquer suspeita de interesse
-no cazamento. Seja o que for, parece que
-assim se far.</p>
-
-<p>&mdash;E andam criticos a contender sobre romantismos
-e naturalismos!</p>
-
-<p>Parece que D. Carmo no me achou graa
-exclamao, e eu mesmo no lhe acho graa nem
-sentido. Aplaudi a mudana do plano, e alis
-o novo me parece bem. Se elles no tm de ir
-viver na roa, e no precisam do valor da fazenda,
-melhor dal-a aos libertos. Podero estes fazer
-a obra comum e corresponder boa vontade da
-sinh-moa? outra questo, mas no se me d
-de a ver ou no resolvida; ha muita outra cousa
-neste mundo mais interessante.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">19 de Abril.</p>
-
-<p>Tristo, a quem falei da doao de Santa-Pia,
-no me confiou os seus motivos secretos; disse-me
-s que Fidelia vae assinar o documento
-amanh ou depois. Estavamos no Carceller tomando
-caf. Ouvi-lhe tambem dizer que recebeu
-cartas de Lisboa, duas politicas; instam por elle.
-Quiz saber se acudiria ao chamado, mas o gesto
-com que elle via subir o fumo do charuto parecia
-mirar to somente a noiva, o altar e a felicidade;
-no ousei passar adeante.</p>
-
-<p>Saindo do Carceller, ouvi-lhe que ia fazer
-uma encomenda; talvez algum presente para a
-noiva, mas no me disse o que era, nem o destino.
-Falou-me, sim, da madrinha e da amizade
-que ella lhe tem; ao que redargui, confirmando:</p>
-
-<p>&mdash;Posso dizer-lhe que grande.</p>
-
-<p>&mdash; grande e antiga.</p>
-
-<p>Contou-me ento o que eu j sei, anedotas da
-infancia e da adolescencia, e nisto me entreteve
-andando alguns minutos largos; parece-me realmente
-bom e amigo. A idade em que foi daqui
-e o tempo que tem vivido l fora do a este moo
-uma pronuncia mesclada do Rio e de Lisboa que
-lhe no fica mal, ao contrario. Despedimo-nos
-porta de um ourives; hade ser alguma joia.</p>
-
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">28 de Abril.</p>
-
-<p>L se foi Santa-Pia para os libertos, que a recebero
-provavelmente com danas e com lagrimas;
-mas tambem pode ser que esta responsabilidade
-nova ou primeira...</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">6 de Maio.</p>
-
-<p>A gente Aguiar parece estar sobressaltada. Tristo
-recebeu novas cartas e alguns jornaes de Lisboa,
-e longamente os leu para si, agora alegre,
-logo carrancudo. O que leu nos jornaes foram
-trechos marcados a lapis azul e a tinta preta, e
-nada referiu aos dous velhos. Ao contrario, levou
-os jornaes para o quarto, onde nenhum delles
-lh'os foi pedir nem ver. Tambem no lhe perguntaram
-nada, elle ficou a pensar comsigo, e assim
-correu o resto da tarde. Depois de jantar foram
-para Botafogo.</p>
-
-<p>L se desfizeram as sombras, porque o encontro
-de Tristo e Fidelia era sempre uma aurora
-para ambos, a preocupao dos Aguiares passou,
-e a noite acabou, com a mesma familia de bem-aventurados.</p>
-
-<p>No estive l; soube isto por mana Rita, que
-conversou com D. Carmo, e veiu confiar-me tudo
-como a um cofre, disse ella. Eu aceitei a
-confidencia e agradeci a definio, e aqui as deixo
-com esta linha ultima. Em verdade, Tristo feito
-de modo que a politica o pde levar sem esforo,
-e Fidelia retel-o sem dificuldade.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">8 de Maio.</p>
-
-<p>Tristo quer ser cazado pelo padre Bessa e pediu-lh'o.
-O padre mal pde ouvir o pedido, consentiu
-e agradeceu deslumbrado. Ha uma ideia
-de simetria na beno do cazamento dada pelo
-mesmo sacerdote que o batizou, que entrar por
-alguma cousa na resoluo do noivo, mas tambem
-pde ser que a principal inteno fosse fazel-o
-feliz. Aquelle sacerdote obscuro e escondido na
-praia Formosa vir subir a escadaria da matriz da
-Gloria (o cazamento na matriz da Gloria) para
-abenoar o cazamento de duas pessoas lustrosas e
-vistosas. Aguiar disse-me que o padre est que
-parecia ser elle proprio o noivo.</p>
-
-<p>&mdash;Note bem, conselheiro, concluiu elle, dando-me
-aquella noticia que j de alguns dias, note
-que quando Tristo lhe fez presente de uma batina
-nova, o padre Bessa recebeu-a vexado, porque
-ento a velhice da sua lhe entrou melhor pelos
-olhos. Agora a alegria grande e franca, no
-imagina. Creio que do papel espiritual e sacramental
-que lhe offerecem; elle j no caza ninguem
-ha muitos annos.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">15 de Maio.</p>
-
-<p>Emfim, cazados. Venho agora da Prainha, aonde
-os fui embarcar para Petropolis. O cazamento foi
-ao meio-dia em ponto na matriz da Gloria, poucas
-pessoas, muita comoo. Fidelia vestia escuro
-e afogado, as mangas prezas nos pulsos por
-botes de granada, e o gesto grave. D. Carmo,
-austeramente posta, verdade, ia cheia de riso,
-e o marido tambem. Tristo estava radiante. Ao
-subir a escadaria, troquei um olhar com a mana
-Rita, e creio que sorrimos; no sei se nella, mas
-em mim era a lembrana daquelle dia do cemiterio,
-e do que lhe ouvi sobre a viuva Noronha.
-Ahi vinhamos ns com ella a outras nupcias. Tal
-era a vontade do Destino. Chamo-lhe assim, para
-dar um nome a que a leitura antiga me acostumou,
-e francamente gosto d'elle. Tem um ar fixo
-e definitivo. Ao cabo, rima com <i>divino</i>, e poupa-me
-a cogitaes filosoficas.</p>
-
-<p>Na egreja havia curiosos do bairro, damas principalmente.
-Cada uma destas era pouca para apanhar
-com os olhos as figuras dos noivos, desde a
-porta at o altar-mr. Movimento, sussurro, cabeas
-inclinadas, tudo isso encheria este pedao de
-papel sem proveito. Mais interessante seria o que
-alguma boca disse do primeiro cazamento e suas
-alegrias, e da viuva e suas tristezas, e os demais
-quartos dessa perpetua lua da creao.</p>
-
-<p>Quando acabou a ceremonia e o padre Bessa
-deixou o altar, a efuso da madrinha foi grande.
-Vi o abrao que deu aos dous, um depois de outro,
-e afinal juntos; Tristo beijou-lhe a mo,
-Fidelia tambem, ambos comovidos, e ella, ainda
-mais commovida que elles, selou tudo com dous
-beijos de me. uma hora da tarde estavamos
-de volta ao Flamengo, e pouco depois almoavamos.
-Venho canado de mais para dizer tudo o
-que alli se passou antes, durante e depois da comida,
-at hora em que fomos levar os recem-cazados
- Prainha. Passou-se o costume, salvo a
-nota particular que os quatro me deram e foi
-profunda. No citei entre os assistentes o Campos,
-que no era dos menos satisfeitos, embora Tristo
-lhe leve a sobrinha, meia espoza e meia filha pela
-ordem que lhe punha em caza desde que foi viver
-com elle. Tambem no falei do filho delle,
-primo della. O resto, pessoas intimas e poucas.</p>
-
-<p>Um incidente, to ajustado que pareceu de
-encomenda. Em meio do almoo chegou um telegrama
-de Lisboa para Tristo com duas palavras,
-dous nomes e a data: Deus abenoe.
-Os paes sabiam pelo correio que o cazamento
-era hoje, e quizeram mandar-lhes a beno pelo
-cabo. Tristo leu as palavras para si e depois
-para todos, e o papel correu a meza. Naturalmente
-os recem-cazados apertaram as mos, e
-D. Carmo adotou o texto da verdadeira me com
-o seu olhar de me postia. Eu deixei-me ir atraz
-daquella ternura, no que a compartisse, mas fazia-me
-bem. J no sou deste mundo, mas no
-mau afastar-se a gente da praia com os olhos na
-gente que fica.</p>
-
-<p>Dahi a brindar pelos noivos no me custou
-nada; fil-o discretamente, e estendi o brinde
-gente Aguiar, que me ficou reconhecida. Rita
-disse-me, ao voltar da Prainha, que as minhas
-palavras foram deliciosas. Confessei-lhe que seriam
-mais adequadas se eu as resumisse em
-emendar Bernardim Ribeiro: Viuva e noiva me
-levaram da caza de meus paes para longes terras...
-Mas, alm de lembrar o primeiro marido,
-podia estenderas longas terras alm de Petropolis,
-e viria afligir a festa to bonita.</p>
-
-<p>&mdash;Foi melhor ficar nas palavras deliciosas que
-eu disse, conclui modestamente.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">26 de Maio.</p>
-
-<p>Nestes ultimos dias s tenho visitado o cazal
-Aguiar, que parece meter-me cada vez mais no
-corao. Vivem felizes, recebem e mandam noticias
-aos dous filhos de emprestimo. Estes descero
-na semana proxima para subir no mesmo
-dia; o unico fim abraar os velhos.</p>
-
-<p>Em Petropolis tem chovido, mas tambem ha
-dias bonitos, e delles e das chuvas Fidelia manda
-impresses interessantes; talvez a principal causa
-destas seja o proprio estado conjugal. A alma da
-gente d vida s cousas externas, amarga ou doce,
-conforme ella fr ou estiver, e o texto de Fidelia
- dulcissimo. D. Carmo mostrou-me hontem a ultima
-carta da moa, escrita nas quatro paginas,
-letra miuda e cerrada, e linhas estreitas. A ternura
-no embarga a discrio nem esta diminue
-aquella. No fim da carta, Fidelia insinua a ideia
-de irem todos quatro Europa, ou os tres, se
-Aguiar no puder deixar o Banco. A velha vae dizer
-que no pode ser por ora.</p>
-
-<p>&mdash;Nem por ora, nem jamais, concluiu dobrando
-a carta; estou canada e fraca, conselheiro, e
-meia doente. No dou para folias de viagens.</p>
-
-<p>&mdash;Viagens do saude e fora, opinei.</p>
-
-<p>&mdash;Pode ser, mas em outra idade; na minha
-j impossivel.</p>
-
-<p>Seguiu-se uma pausa, durante a qual Aguiar
-olhou de soslaio para a mulher, ella para si, e eu
-para ambos alternadamente. Entrou um visinho,
-e falmos de outras cousas.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">Quinta-feira.</p>
-
-<p>Tristo e Fidelia desceram hoje e Aguiar os foi
-buscar Prainha. Dali vieram almoar ao Flamengo,
-onde D. Carmo esperava os recem-cazados
-e os abraou cheia de corao. O velho ficou de
-ir do Banco Prainha, quando a barca houvesse
-de sair tarde para Petropolis.</p>
-
-<p>Tudo isso ouvi de noite aos dous velhos, e ouvi
-mais que a velha e os moos passaram um dia
-deleitosissimo. No foi este o proprio vocabulo
-empregado por ella; j l disse algures que
-D. Carmo no possue o estilo enfatico. Mas o total
-do que me disse vem a dar nelle.</p>
-
-<p>Conversaram os tres de varias cousas, de Petropolis,
-de musica e de pintura; os dous tocaram
-piano, e logo depois sairam praia, com a
-velha. Justamente na praia, Fidelia pegou da ideia
-que propuzera em carta de fazerem uma viagem
- Europa, qual D. Carmo se recuzou por debil
-e canada. Ento Fidelia explicou o que seria a
-viagem; em primeiro logar curta, a Lisboa, para
-ver a me de Tristo, depois a Paris, e se houvesse
-tempo, a Italia; partiriam em Agosto ou
-Setembro, e em Dezembro estariam de volta.</p>
-
-<p>&mdash;No o tempo, filha, replicou D. Carmo;
-pouco ou muito, desde que l estivesse iria ao fim,
-mas este corpo j canado, e depois, no indo
-Aguiar, quem hade cuidar delle?</p>
-
-<p>&mdash;Pois elle que v tambem, acudiu Tristo.</p>
-
-<p>&mdash;Este anno no pode.</p>
-
-<p>A conversao foi andando com elles, ao longo
-da praia, onde o mar, indo e vindo, era como se
-os convidasse a meterem-se nelle at desembarcar
-no porto da inclyta Ullyssa, como diz o
-poeta. D. Carmo ainda se lembrou de lhes perguntar
-porque no transferiam a viagem para o
-anno; Aguiar poderia ir tambem. No responderam.</p>
-
-<p>&mdash;Recusaria o acordo eu, disse Aguiar noite,
-ao me contarem isto. Assim repliquei aos dous
-na Prainha, quando ali os fui meter na barca.
-tambem eu no deixaria Carmo.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">11 de Junho.</p>
-
-<p>Hoje apareceram-me os recem-cazados pela
-primeira vez, encontro casual, na rua do Ouvidor,
-s duas horas da tarde; iam a compras. Gostei
-de os ouvir, e ainda mais de a ver. A graa com
-que ella dava o brao ao marido e deslizava na
-rua era mais completa que a anterior ao cazamento;
-obra do cazamento e da felicidade. Iam
-ouvindo, iam falando, iam parando aos mostradores.</p>
-
-<p>Descem definitivamente no dia 20 deste mez, e
-partem nos primeiros dias de Agosto para Lisboa;
-iro logo a outras partes.</p>
-
-<p>&mdash;Porque no vem dahi, conselheiro? perguntou-me
-Tristo?</p>
-
-<p>&mdash;Depois de tanta viagem? Sou agora pouco
-para reconciliar-me com a <i>nossa</i> terra.</p>
-
-<p>Sublinho este <i>nossa</i>, porque disse a palavra
-meio sublinhada; mas elle creio que no a ouviu
-de nenhuma especie. Olhava para a consorte,
-como avivando o programa da viagem que iam
-fazer, e seguiram pela rua abaixo com a mesma
-graa vagarosa.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">25 de Junho.</p>
-
-<p>Campos e Aguiar queriam, sua vez, que o
-joven cazal viesse aposentar-se em casa delles e
-alegaram a razo de ser por poucos dias, pois
-que tinham de embarcar. Tristo e Fidelia recusaram
-e foram para o Hotel dos Estranjeiros. A
-razo alegada por estes foi a mesma dos poucos
-dias, e eu creio que era verdadeira, mas principalmente
-seria a de no dar preferencia a um
-nem a outro.</p>
-
-<p>&mdash;Passaremos estes ultimos dias nas duas cazas,
-alternadamente, propoz Tristo.</p>
-
-<p>&mdash;No, isso no, acudiu o desembargador;
-passaremos todos no Flamengo.</p>
-
-<p>Era natural e cortez, sendo elle s e Aguiar
-cazado. Assim fazem desde o dia 20, em que os
-dous desceram de Petropolis; l os vi hontem,
-dia de S. Joo.</p>
-
-<p>No escrevo o que l se passou para me no
-demorar a dizer tudo, que muito. Vi-os felizes
-a todos quatro. D. Carmo parecia esconder a tristeza
-da viagem que se aproxima ou temperal-a com a
-ideia da volta, a que aludia frequentemente e a
-proposito de tudo, como a avivar a obrigao. Assim
-correram as horas depressa. Sai com elles at o
-Hotel; dali seguiu Campos para Botafogo e vim eu
-para o Cattete.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">29 de junho.</p>
-
-<p>A outra visita foi por noite de S. Joo, noite de S. Pedro,
-chegarei tambm ao Flamengo, e se couber, falaremos tambem
-das cousas antigas.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">30 de junho.</p>
-
-<p>L estive ma casa Aguiar. No falamos de cousas velhas,
-mas s das futuras. No fim da noite adverti que falvamos
-todos, menos o casal recente; esse, depois de algumas palavras
-mal atadas, entrou a dizer de si mesmo, um dizer calado,
-espraiado e fundido. De quando em quando os dous davam
-alguma silaba conversao, e logo tornavam ao puro
-silencio. Tambem tocaram piano. Tambem foram falar entre si
-ao canto da janela. Ss os quatro velhos,&mdash;o
-desembargador com os tres,&mdash;faziamos planos
-futuros.</p>
-
-<p>Certo que D. Carmo alguma vez acompanhou
-os dous com os seus olhos inquietos, como a perguntar-lhes
-que parte viriam elles ter no futuro
-que ella e ns imaginavamos; mas o receio de os
-interromper na felicidade tapava-lhe a boca, e a
-santa senhora contentava-se de os mirar e amar.
-Ao ch a conversao fez-se de todos, e Tristo
-referiu alguns casos de Lisboa, casos de politica
-e de recreao.</p>
-
-<p>Vindo para caza acudiu-me em caminho uma
-ideia, indiscreta, de certo, mas felizmente no a
-disse a ninguem, e mal a deixo nesta folha de
-papel. A ideia saber se Fidelia ter voltado ao
-cemiterio depois de cazada. Possivelmente, sim;
-possivelmente no. No a censurarei, se no: a
-alma de uma pessoa pode ser estreita para duas
-afeies grandes. Se sim, no lhe ficarei querendo
-mal, ao contrario. Os mortos podem muito
-bem combater os vivos, sem os vencer inteiramente.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">Sem data.</p>
-
-<p>Hoje foi a ultima recepo dos Aguiares, e eu
-quiz despedir-me dos viajantes que embarcam
-depois de amanh. Bastante gente, entre ella o
-Faria e D. Cesaria, e a viuva do corretor Miranda,
-ainda abatida. A nota geral da noite no era alegre,
-ao contrario: todos buscavam ir pelo tom da
-caza, que era tristonha. A propria Fidelia parecia
-definhar-se ao p da amiga, e uma vez a mana
-Rita a foi achar que dizia outra:</p>
-
-<p>&mdash;D. Carmo, porque no vem comnosco?
-Ainda tempo de comprar bilhetes, e se os no
-houver, Tristo adia viagem, e vamos no outro
-paquete.</p>
-
-<p>D. Carmo respondia que no; sentia-se canada
-e abatida.</p>
-
-<p>&mdash;Viagem no cana, e l chegando cria alma
-nova.</p>
-
-<p>Rita juntou o seu voto ao da moa, e ambas
-teimaram com ella, mas no puderam nada. Como
-ultima razo, vinha a separao do marido, razo
-velha e parece que decisiva. Rita notou que as
-duas estavam sinceramente desconsoladas, mas
-D. Carmo buscava fortalecer-se, emquanto que
-Fidelia no acabava de vencer o desgosto.</p>
-
-<p>&mdash;Olhe, mano, eu ainda creio que ella desfaz
-a viagem...</p>
-
-<p>Era no escuro, a vinda da praia; por isso a
-mana no me pde ver o gesto incredulo, mas
-certamente o adivinhou e trocou o que disse.
-No, que desfaa no digo, mas daria muito
-para no ter consentido em partir. Repetiu-me
-as palavras que Fidelia lhe disse de D. Carmo,
-chamando-lhe boa e santa, a santa Aguiar.</p>
-
-<p>Confesso que vim de l aborrecido; preferia
-no ter ido, ou quizera ter saido logo. Tristo
-vem c almoar commigo amanh.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">Vespera do embarque.</p>
-
-<p>Tristo cumpriu a promessa, veiu almoar commigo,
-eram onze horas e meia. Vinha triste,&mdash;triste
-e calado. Quer dizer que falmos muito
-pouco. No havendo melhor assunto de conversa
-que esse mesmo silencio, lembrou-me dizer-lhe
-que comprehendia as saudades que elle
-levava daqui, j da terra, j das pessoas, e particularmente
-das duas pessoas que lhe queriam
-tanto. A ocasio era boa para dizer dos dous
-velhos as melhores cousas,&mdash;ou repetil-as,
-pois j m'as tinha confiado varias vezes; outrosim,
-inteirar-me dos seus planos de futuro, at
-onde ia a viagem, e em que tempo tornaria com
-a formosa espoza. No me disse nada; afirmou
-de cabea e mergulhou no mesmo grande silencio
-do principio. Creio que no me ouviu metade.</p>
-
-<p>No fim do almoo, como fumassemos, deu-me
-novamente a indicao da caza em Lisboa, o titulo
-da folha politica em que colabora, e ia confiar-me
-alguma cousa mais que calou, pareceu-me.
-Mergulhou outra vez no silencio. Eu respeitava
-aquella melancolia e deixava-me ir atraz do fumo
-do charuto. Tristo finalmente despediu-se.</p>
-
-<p>&mdash;No nos veremos mais? perguntou-me.</p>
-
-<p>&mdash;Irei ao caes Pharoux, pode ser que a bordo
-tambem.</p>
-
-<p>&mdash;At amanh; v fazendo as encomendas.</p>
-
-<p>Levei-o at escada, que elle comeou a descer
-vagarosamente, depois de me apertar a mo
-com fora. A meio caminho deteve-se e subiu
-outra vez.</p>
-
-<p>&mdash;Olhe, conselheiro, Fidelia e eu fizemos
-tudo para que a velha e o velho vo comnosco;
-no podem, ella diz que est canada, elle que
-no se separa della, e ambos esperam que voltemos.</p>
-
-<p>&mdash;Pois voltem depressa, aconselhei.</p>
-
-<p>Tristo fitou-me os olhos cheios de misterios,
-e tornou sala; vim com elle.</p>
-
-<p>&mdash;Conselheiro, vou fazer-lhe uma confidencia,
-que no fiz nem fao a ninguem mais; fio do seu
-silencio.</p>
-
-<p>Fiz um gesto de. assentimento. Tristo meteu
-a mo na algibeira das calas e tirou de l um papel
-de cr; abriu-o e entregou-m'o que lsse.
-Era um telegrama do pae, datado da vespera;
-anuncia-lhe a eleio para daqui a oito dias.</p>
-
-<p>Ficmos a olhar um para o outro, calados ambos,
-elle como que a apertar os dentes. Depois de
-alguns segundos de pausa:</p>
-
-<p>&mdash;Eleio certa, disse elle. As cartas j me faziam
-crer isto, mas no cuidei que fosse to proxima.</p>
-
-<p>Restitui-lhe o telegrama. Tristo insistiu pelo
-meu silencio, e acrescentou:</p>
-
-<p>&mdash;Queria que elles viessem comnosco; eu
-lhes diria a bordo o que convisesse, e o resto seria
-regulado entre as duas,&mdash;ou entre as tres,
-contando minha me. Fidelia mesma que me
-lembrou este plano, e trabalhou por elle, mas
-no alcanmos nada; ficam esperando.</p>
-
-<p>Quiz dizer-lhe que era esperarem por sapatos
-de defunto, mas evitei o dito, e mudei de pensamento.
-Como elle no dissesse mais, fiquei um
-tanto acanhado; Tristo, porm, completou a
-inteno do acto, acrescentando:</p>
-
-<p>&mdash;Confesso-lhe isto para que alguem que nos
-merece a todos d um dia testemunho do que fiz
-e tentei para me no separar dos meus velhos
-paes de estimao; fica sabendo que no alcancei
-nada. Que quer, conselheiro? A vida assim
-cheia de liames e de imprevistos...</p>
-
-<p>No sei que disse mais; a mim chegava-me
-outra ideia que tambem deixei passar, no querendo
-ser indiscreto. Era indagar se Fidelia sabia
-j do telegrama; elle dissera-me que o no
-mostrra a ninguem, mas claro que a mulher
-era elle mesmo, e estava excluida do silencio que
-tivera com os outros.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">18 de Julho.</p>
-
-<p>Vim de bordo, aonde fui acompanhar os dous,
-com o velho Aguiar, o desembargador Campos
-e outros amigos. D. Carmo foi s at o caes; estava
-sucumbida, e enxugava os olhos. Ficou parada,
-a ver a lancha em que iamos, dizendo
-adeus com o leno: no tardou que o espao nos
-separasse inteiramente da vista.</p>
-
-<p>Fidelia ia realmente triste; o mar no tardaria
-em espancar as sombras, e depois a outra terra,
-que a receberia com a outra gente. Eu, no tombadilho
-do paquete, imaginei o cemiterio, o tumulo,
-a figura, as mos postas e o resto. Tristo,
- despedida, disse palavras amigas e saudosas a
-Aguiar, mandou outras para a madrinha, e a mim
-pediu-me que no esquecesse os paes de emprestimo
-e os fosse ver e consolar. Prometi que
-sim. Descemos para a lancha e afastamo-nos do
-paquete.</p>
-
-<p>Tenho embarcado e desembarcado muitas vezes,
-devia estar gasto. Pois no estou. No sentia a separao,
- verdade; trazia os olhos no velho
-Aguiar e o pensamento na velha Carmo. Quanto
-ao desembargador vinha triste com a separao,
-mas a sobrinha obrigou-o a prometer, ultima
-hora, que iria vel-a no anno proximo, e elle no
-advertiu que o pedido desdizia da promessa que
-lhe tinha feito de regressar no fim do anno ao
-Rio de Janeiro.</p>
-
-<p>Despedimo-nos no caes. Aguiar seguiu para o
-Banco, eu vim para casa, onde escrevo isto. De
-noite irei ao Flamengo, a cumprir desde j a promessa
-que fiz a Tristo e a Fidelia.</p>
-
-<p>No acabarei esta pagina sem dizer que me
-passou agora pela frente a figura de Fidelia, tal
-como a deixei a bordo, mas sem lagrimas. Sentou-se
-no canap e ficmos a olhar um para o outro,
-ella desfeita em graa, eu desmentindo Shelley
-com todas as foras sexagenarias restantes. Ah!
-basta! Cuidemos de ir logo aos velhos.</p>
-
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">Dez horas da noite.</p>
-
-<p>Venho do Flamengo. Quizera ficar mais tempo,
-mas elles precizavam descanar da separao.
-Campos tambem l foi, e ambos samos cedo,
-nove e meia; no se falou dos viajantes.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">29 de Agosto.</p>
-
-<p>Chegou paquete da Europa, trouxe cartas de
-Lisboa e noticias politicas. As cartas eram saudosas,
-e as noticias interessantes; alis s vieram
- noite. Na rua tinha-me Aguiar dito o que havia
-nas cartas de Tristo e de Fidelia e na que a comadre
-escrevera a D. Carmo; fui vel-as ao Flamengo.
-A da comadre era cheia de louvores
-nora, que achava mais bella que no retrato, e
-mais terna que ninguem; foram as proprias palavras
-della, e para uma sogra no me destoaram
-muito. Assim o disse a D. Carmo, que sorria
-complacente, com uma especie de ternura morbida.
-Eramos ss os tres, e a saudade grande.</p>
-
-<p>Pouco depois chegou Campos. Vinha aturdido,
-e ao dar commigo pareceu querer falar-me em
-particular. Em particular, a um canto, disse-me
-que Tristo lhe escrevera dizendo achar-se eleito
-deputado quando desembarcou em Lisboa, e pedindo-lhe
-que dsse a noticia gente Aguiar como
-entendesse melhor; no lhes escrevia a elles
-sobre isso para evitar o sobresalto. Que me parecia?</p>
-
-<p>&mdash;Sempre se lhes hade dizer tudo, respondi;
-o melhor que seja logo, e aqui estamos para
-dizer as cousas cautelosamente.</p>
-
-<p>&mdash;Tambem me parece.</p>
-
-<p>&mdash;Eu engenharei uma fabula...</p>
-
-<p>Engenhei o que pude. Falei do golpe que o
-moo recebeu quando desembarcou deputado, e
-viu misturadas as alegrias dos paes com as dos
-amigos politicos; devia dizer tambem que a primeira
-ideia de Tristo foi rejeitar o diploma e
-vir para Santa-Pia; mas que o partido, os chefes,
-os paes... No fui to longe; seria mentir de
-mais. Ao cabo, no teria tempo. Os dous velhos
-ficaram fulminados, a mulher verteu algumas
-lagrimas silenciosas, e o marido cuidou de lh'as
-enxugar.</p>
-
-<p>Assim correram as cousas, a mentira e os efeitos.
-Os dous procurmos levantar-lhes o animo.
-Eu empreguei algumas reflexes e metaforas,
-afirmando que elles viriam este anno mesmo ou
-no principio do outro; bastava saberem a dor
-que causava aqui a noticia.</p>
-
-<p>D. Carmo no parecia ouvir-me, nem elle;
-olhavam para l, para longe, para onde se perde a
-vida presente, e tudo se esvae depressa. Aguiar
-ainda pegou na carta que o desembargador lhe
-mostrava; leu para si as palavras de Tristo, que
-eram aborrecidas em si mesmas, alm da nota
-que o autor intencionalmente lhes poz. D. Carmo
-pediu-lh'a com o gesto, elle meteu-a na carteira.
-A boa velha no insistiu. Campos e eu samos
-pouco depois.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">30 de Agosto.</p>
-
-<p>Praia fra (esqueceu-me notar-isto hontem)
-praia fra viemos falando daquella orfandade
-s avessas em que os dous velhos ficavam, e eu
-acrescentei, lembrando-me do marido defunto:</p>
-
-<p>&mdash;Desembargador, se os mortos vo depressa,
-os velhos ainda vo mais depressa que os mortos...
-Viva a mocidade!</p>
-
-<p>Campos no me entendeu, nem logo, nem completamente.
-Tive ento de lhe dizer que aludia ao
-marido defunto, e aos dous velhos deixados pelos
-dous moos, e conclui que a mocidade tem o direito
-de viver e amar, e separar-se alegremente do
-extinto e do caduco. No concordou,&mdash;o que
-mostra que ainda ento no me entendeu completamente.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="right">Sem data.</p>
-
-<p>Ha seis ou sete dias que eu no ia ao Flamengo.
-Agora tarde lembrou-me l passar antes
-de vir para caza. Fui a p; achei aberta a porta
-do jardim, entrei e parei logo.</p>
-
-<p>&mdash;L esto elles, disse commigo.</p>
-
-<p>Ao fundo, entrada do saguo, dei com os
-dous velhos sentados, olhando um para o outro.
-Aguiar estava encostado ao portal direito, com as
-mos sobre os joelhos. D. Carmo, esquerda,
-tinha os braos cruzados cinta. Hesitei entre ir
-adeante ou desandar o caminho; continuei parado
-alguns segundos at que recuei p ante p.
-Ao transpor a porta para a rua, vi-lhes no rosto
-e na atitude uma expresso a que no acho
-nome certo ou claro digo o que me pareceu.
-Queriam ser risonhos e mal se podiam consolar.
-Consolava-os a saudade de si mesmos.</p>
-
-
-<h4>FIM</h4>
-
-
-
-
-
-
-
-
-<pre>
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Memorial de Ayres, by Machado de Assis
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIAL DE AYRES ***
-
-***** This file should be named 55797-h.htm or 55797-h.zip *****
-This and all associated files of various formats will be found in:
- http://www.gutenberg.org/5/5/7/9/55797/
-
-Produced by Laura Natal Rodriguez & Marc D'Hooghe at Free
-Literature (online soon in an extended version, also linking
-to free sources for education worldwide ... MOOC's,
-educational materials,...) (Images generously made available
-by the Internet Archive.)
-
-
-Updated editions will replace the previous one--the old editions will
-be renamed.
-
-Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright
-law means that no one owns a United States copyright in these works,
-so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United
-States without permission and without paying copyright
-royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part
-of this license, apply to copying and distributing Project
-Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm
-concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark,
-and may not be used if you charge for the eBooks, unless you receive
-specific permission. If you do not charge anything for copies of this
-eBook, complying with the rules is very easy. You may use this eBook
-for nearly any purpose such as creation of derivative works, reports,
-performances and research. They may be modified and printed and given
-away--you may do practically ANYTHING in the United States with eBooks
-not protected by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the
-trademark license, especially commercial redistribution.
-
-START: FULL LICENSE
-
-THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
-PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
-
-To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
-distribution of electronic works, by using or distributing this work
-(or any other work associated in any way with the phrase "Project
-Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full
-Project Gutenberg-tm License available with this file or online at
-www.gutenberg.org/license.
-
-Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project
-Gutenberg-tm electronic works
-
-1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
-electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
-and accept all the terms of this license and intellectual property
-(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
-the terms of this agreement, you must cease using and return or
-destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your
-possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a
-Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound
-by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the
-person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph
-1.E.8.
-
-1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
-used on or associated in any way with an electronic work by people who
-agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
-things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
-even without complying with the full terms of this agreement. See
-paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
-Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this
-agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm
-electronic works. See paragraph 1.E below.
-
-1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the
-Foundation" or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection
-of Project Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual
-works in the collection are in the public domain in the United
-States. If an individual work is unprotected by copyright law in the
-United States and you are located in the United States, we do not
-claim a right to prevent you from copying, distributing, performing,
-displaying or creating derivative works based on the work as long as
-all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope
-that you will support the Project Gutenberg-tm mission of promoting
-free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg-tm
-works in compliance with the terms of this agreement for keeping the
-Project Gutenberg-tm name associated with the work. You can easily
-comply with the terms of this agreement by keeping this work in the
-same format with its attached full Project Gutenberg-tm License when
-you share it without charge with others.
-
-1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
-what you can do with this work. Copyright laws in most countries are
-in a constant state of change. If you are outside the United States,
-check the laws of your country in addition to the terms of this
-agreement before downloading, copying, displaying, performing,
-distributing or creating derivative works based on this work or any
-other Project Gutenberg-tm work. The Foundation makes no
-representations concerning the copyright status of any work in any
-country outside the United States.
-
-1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
-
-1.E.1. The following sentence, with active links to, or other
-immediate access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear
-prominently whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work
-on which the phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the
-phrase "Project Gutenberg" is associated) is accessed, displayed,
-performed, viewed, copied or distributed:
-
- This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
- most other parts of the world at no cost and with almost no
- restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it
- under the terms of the Project Gutenberg License included with this
- eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the
- United States, you'll have to check the laws of the country where you
- are located before using this ebook.
-
-1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is
-derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not
-contain a notice indicating that it is posted with permission of the
-copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in
-the United States without paying any fees or charges. If you are
-redistributing or providing access to a work with the phrase "Project
-Gutenberg" associated with or appearing on the work, you must comply
-either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or
-obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg-tm
-trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9.
-
-1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
-with the permission of the copyright holder, your use and distribution
-must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any
-additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms
-will be linked to the Project Gutenberg-tm License for all works
-posted with the permission of the copyright holder found at the
-beginning of this work.
-
-1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
-License terms from this work, or any files containing a part of this
-work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
-
-1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
-electronic work, or any part of this electronic work, without
-prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
-active links or immediate access to the full terms of the Project
-Gutenberg-tm License.
-
-1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
-compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including
-any word processing or hypertext form. However, if you provide access
-to or distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format
-other than "Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official
-version posted on the official Project Gutenberg-tm web site
-(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense
-to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means
-of obtaining a copy upon request, of the work in its original "Plain
-Vanilla ASCII" or other form. Any alternate format must include the
-full Project Gutenberg-tm License as specified in paragraph 1.E.1.
-
-1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
-performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
-unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
-
-1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
-access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works
-provided that
-
-* You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
- the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
- you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed
- to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he has
- agreed to donate royalties under this paragraph to the Project
- Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid
- within 60 days following each date on which you prepare (or are
- legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty
- payments should be clearly marked as such and sent to the Project
- Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in
- Section 4, "Information about donations to the Project Gutenberg
- Literary Archive Foundation."
-
-* You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
- you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
- does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
- License. You must require such a user to return or destroy all
- copies of the works possessed in a physical medium and discontinue
- all use of and all access to other copies of Project Gutenberg-tm
- works.
-
-* You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of
- any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
- electronic work is discovered and reported to you within 90 days of
- receipt of the work.
-
-* You comply with all other terms of this agreement for free
- distribution of Project Gutenberg-tm works.
-
-1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project
-Gutenberg-tm electronic work or group of works on different terms than
-are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing
-from both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and The
-Project Gutenberg Trademark LLC, the owner of the Project Gutenberg-tm
-trademark. Contact the Foundation as set forth in Section 3 below.
-
-1.F.
-
-1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
-effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
-works not protected by U.S. copyright law in creating the Project
-Gutenberg-tm collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm
-electronic works, and the medium on which they may be stored, may
-contain "Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate
-or corrupt data, transcription errors, a copyright or other
-intellectual property infringement, a defective or damaged disk or
-other medium, a computer virus, or computer codes that damage or
-cannot be read by your equipment.
-
-1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
-of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
-Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
-Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
-liability to you for damages, costs and expenses, including legal
-fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
-LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
-PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
-TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
-LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
-INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
-DAMAGE.
-
-1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
-defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
-receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
-written explanation to the person you received the work from. If you
-received the work on a physical medium, you must return the medium
-with your written explanation. The person or entity that provided you
-with the defective work may elect to provide a replacement copy in
-lieu of a refund. If you received the work electronically, the person
-or entity providing it to you may choose to give you a second
-opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If
-the second copy is also defective, you may demand a refund in writing
-without further opportunities to fix the problem.
-
-1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
-in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO
-OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT
-LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
-
-1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
-warranties or the exclusion or limitation of certain types of
-damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement
-violates the law of the state applicable to this agreement, the
-agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or
-limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or
-unenforceability of any provision of this agreement shall not void the
-remaining provisions.
-
-1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
-trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
-providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in
-accordance with this agreement, and any volunteers associated with the
-production, promotion and distribution of Project Gutenberg-tm
-electronic works, harmless from all liability, costs and expenses,
-including legal fees, that arise directly or indirectly from any of
-the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this
-or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or
-additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any
-Defect you cause.
-
-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
-
-Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
-electronic works in formats readable by the widest variety of
-computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
-exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
-from people in all walks of life.
-
-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
-assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
-goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
-remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
-and permanent future for Project Gutenberg-tm and future
-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at
-www.gutenberg.org Section 3. Information about the Project Gutenberg
-Literary Archive Foundation
-
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
-U.S. federal laws and your state's laws.
-
-The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the
-mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its
-volunteers and employees are scattered throughout numerous
-locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt
-Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to
-date contact information can be found at the Foundation's web site and
-official page at www.gutenberg.org/contact
-
-For additional contact information:
-
- Dr. Gregory B. Newby
- Chief Executive and Director
- gbnewby@pglaf.org
-
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
-Literary Archive Foundation
-
-Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
-spread public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
-charities and charitable donations in all 50 states of the United
-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
-considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
-with these requirements. We do not solicit donations in locations
-where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
-DONATIONS or determine the status of compliance for any particular
-state visit www.gutenberg.org/donate
-
-While we cannot and do not solicit contributions from states where we
-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
-against accepting unsolicited donations from donors in such states who
-approach us with offers to donate.
-
-International donations are gratefully accepted, but we cannot make
-any statements concerning tax treatment of donations received from
-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
-
-Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations. To
-donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
-
-Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works.
-
-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of
-volunteer support.
-
-Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
-the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
-necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
-edition.
-
-Most people start at our Web site which has the main PG search
-facility: www.gutenberg.org
-
-This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
-including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
-subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
-
-
-
-</pre>
-
-</body>
-</html>
diff --git a/old/55797-h/images/cover.jpg b/old/55797-h/images/cover.jpg
deleted file mode 100644
index 0917d86..0000000
--- a/old/55797-h/images/cover.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ