summaryrefslogtreecommitdiff
path: root/old/55752-8.txt
diff options
context:
space:
mode:
Diffstat (limited to 'old/55752-8.txt')
-rw-r--r--old/55752-8.txt9109
1 files changed, 0 insertions, 9109 deletions
diff --git a/old/55752-8.txt b/old/55752-8.txt
deleted file mode 100644
index b3bfcf9..0000000
--- a/old/55752-8.txt
+++ /dev/null
@@ -1,9109 +0,0 @@
-The Project Gutenberg EBook of Dom Casmurro, by Machado de Assis
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
-to check the laws of the country where you are located before using this ebook.
-
-Title: Dom Casmurro
-
-Author: Machado de Assis
-
-Release Date: October 15, 2017 [EBook #55752]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: ISO-8859-1
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DOM CASMURRO ***
-
-
-
-
-Produced by Laura Natal Rodriguez & Marc D'Hooghe at Free
-Literature (online soon in an extended version,also linking
-to free sources for education worldwide ... MOOC's,
-educational materials,...) (Images generously made available
-by the Bibliotheca Nacional Digital Brasil.)
-
-
-
-
-
-DOM CASMURRO
-
-POR
-
-MACHADO DE ASSIS
-
-DA ACADEMIA BRAZILEIRA
-
-H. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR
-
-RUA MOREIRA CEZAR, 71
-
-RIO DE JANEIRO
-
-6, RUE DES SAINTS-PÈRES, 6
-
-PARIZ
-
-
-
-
-I
-
-Do titulo.
-
-Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no
-trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e
-de chapéo. Comprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e
-dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os
-versos póde ser que não fossem inteiramente maus. Succedeu, porém, que
-como eu estava cançado, fechei os olhos tres ou quatro vezes; tanto
-bastou para que elle interrompesse a leitura e mettesse os versos no
-bolso.
-
---Continue, disse eu accordando.
-
---Já acabei, murmurou elle.
-
---São muito bonitos.
-
-Vi-lhe fazer um gesto para tiral-os outra vez do bolso, mas não passou
-do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes
-feios, e acabou alcunhando-me _Dom Casmurro._ Os visinhos, que não
-gostam dos meus habitos reclusos e calados, deram curso á alcunha, que
-afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anecdota aos amigos da
-cidade, e elles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: «Dom
-Casmurro, domingo vou jantar com você.»--«Vou para Petropolis, Dom
-Casmurro; a casa é a mesma da Rhenania; vê se deixas essa caverna do
-Engenho Novo, e vae lá passar uns quinze dias commigo.»--«Meu caro Dom
-Casmurro, não cuide que o dispenso do theatro amanhã; venha e dormirá
-aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe cama; só não lhe
-dou moça.»
-
-Não consultes diccionarios. _Casmurro_ não está aqui no sentido que
-elles lhe dão, mas no que lhe poz o vulgo de homem calado e mettido
-comsigo. _Dom_ veiu por ironia, para attribuir-me fumos de fidalgo.
-Tudo por estar cochilando! Tambem não achei melhor titulo para a minha
-narração; se não tiver outro d'aqui até ao fim do livro, vae este
-mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor.
-E com pequeno esforço, sendo o titulo seu, poderá cuidar que a obra
-é sua. Ha livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem
-tanto.
-
-
-
-
-II.
-
-Do livro.
-
-Agora que expliquei o titulo, passo a escrever o livro. Antes disso,
-porém, digamos os motivos que me põem a penna na mão.
-
-Vivo só, com um creado. A casa em que moro é propria; fil-a
-construir de proposito, levado de um desejo tão particular que me
-vexa imprimil-o, mas vá lá. Um dia, ha bastantes annos, lembrou-me
-reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga rua de
-Matacavallos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquella outra,
-que desappareceu. Constructor e pintor entenderam bem as indicações
-que lhes fiz: é o mesmo predio assobradado, tres janellas de frente,
-varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. Na principal destas, a
-pintura do tecto e das paredes é mais ou menos egual, umas grinaldas de
-flores miudas e grandes passaros que as tomam nos bicos, de espaço a
-espaço. Nos quatro cantos do tecto as figuras das estações, e ao centro
-das paredes os medalhões de Cesar, Augusto, Nero e Massinissa, com os
-nomes por baixo... Não alcanço a razão de taes personagens. Quando
-fomos para a casa de Matacavallos, já ella estava assim decorada; vinha
-do decennio anterior. Naturalmente era gosto do tempo metter sabor
-classico e figuras antigas em pinturas americanas. O mais é tambem
-analogo e parecido. Tenho chacarinha, flôres, legume, uma casuarina, um
-poço e lavadouro. Uso louça velha e mobilia velha. Emfim, agora, como
-outr'ora, ha aqui o mesmo contraste da vida interior, que é pacata, com
-a exterior, que é ruidosa.
-
-O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na
-velhice a adolescencia. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi
-nem o que fui. Em tudo, se o rosto é egual, a physionomia é differente.
-Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos
-das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. O que
-aqui está é, mal comparando, semelhante á pintura que se põe na barba e
-nos cabellos, e que apenas conserva o habito externo, como se diz nas
-autopsias; o interno não aguenta tinta. Uma certidão que me desse vinte
-annos de edade poderia enganar os extranhos, como todos os documentos
-falsos, mas não a mim. Os amigos que me restam são de data recente;
-todos os antigos foram estudar a geologia dos campos santos. Quanto ás
-amigas, algumas datam de quinze annos, outras de menos, e quasi todas
-creem na mocidade. Duas ou tres fariam crer nella aos outros, mas a
-lingua que falam obriga muita vez a consultar os diccionarios, e tal
-frequencia é cançativa.
-
-Entretanto, vida differente não quer dizer vida peor; é outra cousa.
-A certos respeitos, aquella vida antiga apparece-me despida de muitos
-encantos que lhe achei; mas é tambem exacto que perdeu muito espinho
-que a fez molesta, e, de memoria, conservo alguma recordação doce e
-feiticeira. Em verdade, pouco appareco e menos falo. Distracções raras.
-O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e não durmo
-mal.
-
-Ora, como tudo cança, esta monotonia acabou por exhaurir-me tambem.
-Quiz variar, e lembrou-me escrever um livro. Jurisprudencia,
-philosophia e politica acudiram-me, mas não me acudiram as forças
-necessarias. Depois, pensei em fazer uma _Historia dos Suburbios_,
-menos secca que as memorias do padre Luiz Gonçalves dos Santos,
-relativas á cidade; era obra modesta, mas exigia documentos e datas,
-como preliminares, tudo arido e longo. Foi então que os bustos pintados
-nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que, uma vez que elles não
-alcançavam reconstituir-me os tempos idos, pegasse da penna e contasse
-alguns. Talvez a narração me désse a illusão, e as sombras viessem
-perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem, mas o do _Fausto: Ahi
-vindes outra vez, inquietas sombras...?_
-
-Fiquei tão alegre com esta ideia, que ainda agora me treme a penna na
-mão. Sim, Nero, Augusto, Massinissa, e tu, grande Cesar, que me incitas
-a fazer os meus commentarios, agradeço-vos o conselho, e vou deitar ao
-papel as reminiscencias que me vierem vindo. Deste modo, viverei o que
-vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo. Eia, comecemos
-a evocação por uma celebre tarde de Novembro, que nunca me esqueceu.
-Tive outras muitas, melhores, e peores, mas aquella nunca se me apagou
-do espirito. É o que vás entender, lendo.
-
-
-
-
-III
-
-A denuncia.
-
-Ia a entrar na sala de visitas, quando ouvi proferir o meu nome e
-escondi-me atraz da porta. A casa era a da rua de Matacavallos, o mez
-Novembro, o anno é que é um tanto remoto, mas eu não hei de trocar as
-datas á minha vida só para agradar ás pessoas que não amam historias
-velhas; o anno era de 1857.
-
---D. Gloria, a senhora persiste na ideia de metter o nosso Bentinho no
-seminario? É mais que tempo, e já agora póde haver uma difficuldade.
-
---Que difficuldade?
-
---Uma grande difficuldade.
-
-Minha mãe quiz saber o que era. José Dias, depois de alguns instantes
-de concentrarão, veiu ver se havia alguem no corredor; não deu por mim,
-voltou e, abafando a voz, disse que a difficuldade estava na casa ao
-pé, a gente do Padua.
-
---A gente do Padua?
-
---Ha algum tempo estou para lhe dizer isto, mas não me atrevia. Não
-me parece bonito que o nosso Bentinho ande mettido nos cantos com a
-filha do _Tartaruga_, e esta é a difficuldade, porque se elles pegam de
-namoro, a senhora terá muito que lutar para separal-os.
-
---Não acho. Mettidos nos cantos?
-
---É um modo de falar. Em segredinhos, sempre juntos. Bentinho quasi
-que não sae de lá. A pequena é uma desmiolada; o pae faz que não vê;
-tomara elle que as cousas corressem de maneira, que... Comprehendo o
-seu gesto; a senhora não crê em taes calculos, parece-lhe que todos têm
-a alma candida...
-
---Mas, Sr. José Dias, tenho visto os pequenos brincando, e nunca vi
-nada que faça desconfiar. Basta a edade; Bentinho mal tem quinze annos.
-Capitú fez quatorze á semana passada; são dous creançolas. Não se
-esqueça que foram criados juntos, desde aquella grande enchente, ha
-dez annos, em que a familia Padua perdeu tanta cousa; d'ahi vieram as
-nossas relações. Pois eu hei de crer...? Mano Cosme, você que acha?
-
-Tio Cosme respondeu com um «Ora!» que, traduzido em vulgar, queria
-dizer: «São imaginações do José Dias; os pequenos divertem-se, eu
-divirto-me; onde está o gamão?»
-
---Sim, creio que o senhor está enganado.
-
---Póde ser, minha senhora. Oxalá tenham razão; mas creia que não falei
-senão depois de muito examinar...
-
---Em todo caso, vae sendo tempo, interrompeu minha mãe; vou tratar de
-mettel-o no seminario quanto antes.
-
---Bem, uma vez que não perdeu a ideia de o fazer padre, tem-se ganho o
-principal. Bentinho ha de satisfazer os desejos de sua mãe. E depois
-a egreja brasileira tem altos destinos. Não esqueçamos que um bispo
-presidiu a Constituinte, e que o padre Feijó governou o imperio...
-
---Governou como a cara d'elle! atalhou tio Cosme, cedendo a antigos
-rancores politicos.
-
---Perdão, doutor, não estou defendendo ninguem, estou citando. O que eu
-quero é dizer que o clero ainda tem grande papel no Brasil.
-
---Você o que quer é um capote; ande, vá buscar o gamão. Quanto ao
-pequeno, se tem de ser padre, realmente é melhor que não comece a dizer
-missa atraz das portas. Mas, olhe cá, mana Gloria, ha mesmo necessidade
-de fazel-o padre?
-
---É promessa, ha de cumprir-se.
-
---Sei que você fez promessa... mas, uma promessa assim... não sei...
-Creio que, bem pensado... Você que acha, prima Justina?
-
---Eu?
-
---Verdade é que cada um sabe melhor de si, continuou tio Cosme; Deus é
-que sabe do todos. Comtudo, uma promessa de tantos annos... Mas, que
-é isso, mana Gloria? Está chorando? Ora esta! Pois isto é cousa de
-lagrimas?
-
-Minha mãe assoou-se sem responder. Prima Justina creio que se levantou
-e foi ter com ella. Seguiu-se um alto silencio, durante o qual estive
-a pique de entrar na sala, mas outra força maior, outra emoção... Não
-pude ouvir as palavras que tio Cosme entrou a dizer. Prima Justina
-exhortava: «Prima Gloria! prima Gloria!» José Dias desculpava-se: «Se
-soubesse, não teria falado, mas falei pela veneração, pela estima, pelo
-affecto, para cumprir um dever amargo, um dever amarissimo...»
-
-
-
-
-IV
-
-Um dever amarissimo!
-
-José Dias amava os superlativos. Era um modo de dar feição monumental
-ás ideias; não as havendo, servir a prolongar as phrases. Levantou-se
-para ir buscar o gamão, que estava no interior da casa. Cosi-me muito á
-parede, e vi-o passar com as suas calças brancas engommadas, presilhas,
-rodaque e gravata de mola. Foi dos ultimos que usaram presilhas no Rio
-de Janeiro, e talvez neste mundo. Trazia as calças curtas para que lhe
-ficassem bem esticadas. A gravata de setim preto, com um aro de aço
-por dentro, immobilisava-lhe o pescoço; era então moda. O rodaque de
-chita, veste caseira o leve, parecia nelle uma casaca de cerimonia. Era
-magro, chupado, com um principio de calva; teria os seus cincoenta e
-cinco annos. Levantou-se com o passo vagaroso do costume, não aquelle
-vagar arrastado dos preguiçosos, mas um vagar calculado e deduzido, um
-syllogismo completo, a premissa antes da consequencia, a consequencia
-antes da conclusão. Um dever amarissimo!
-
-
-
-
-V
-
-O aggregado.
-
-Nem sempre ia naquelle passo vagaroso e rigido. Tambem se descompunha
-em accionados, era muita vez rapido e lepido nos movimentos, tão
-natural nesta como naquella maneira. Outrosim, ria largo, se era
-preciso, de um grande riso sem vontade, mas communicativo, a tal ponto
-as bochechas, os dentes, os olhos, toda a cara, todo a pessoa, todo o
-mundo pareciam rir nelle. Nos lances graves, gravissimo.
-
-Era nosso aggregado desde muitos annos; meu pae ainda estava na
-antiga fazenda de Itaguahy, e eu acabava de nascer. Um dia appareceu
-alli vendendo-se por medico homeopatha; levava um _Manual_ e uma
-botica. Havia então um andaço de febres; José Dias curou o feitor
-e uma escrava, e não quiz receber nenhuma remuneração. Então meu
-pae propoz-lhe ficar alli vivendo, com pequeno ordenado. José Dias
-recusou, dizendo que era justo levar a saude á casa de sapé do pobre.
-
---Quem lhe impede que vá a outras partes? Vá aonde quizer, mas fique
-morando comnosco.
-
---Voltarei daqui a tres mezes.
-
-Voltou dalli a duas semanas, acceitou casa e comida sem outro
-estipendio, salvo o que quizessem dar por festas. Quando meu pae foi
-eleito deputado e veiu para o Rio de Janeiro com a familia, elle veiu
-tambem, e teve o seu quarto ao fundo da chacara. Um dia, reinando
-outra vez febres em Itaguahy, disse-lhe meu pae que fosse ver a nossa
-escravatura. José Dias deixou-se estar calado, suspirou e acabou
-confessando que não era medico. Tomára este titulo para ajudar a
-propaganda da nova escola, e não o fez sem estudar muito e muito; mas a
-consciencia não lhe permittia acceitar mais doentes.
-
---Mas, você curou das outras vezes.
-
---Creio que sim; o mais acertado, porém, é dizer que foram os remedios
-indicados nos livros. Elles, sim, elles, abaixo de Deus. Eu era um
-charlatão... Não negue; os motivos do meu procedimento podiam ser e
-eram dignos; a homeopathia é a verdade, e, para servir á verdade,
-menti; mas é tempo de restabelecer tudo.
-
-Não foi despedido, como pedia então; meu pae já não podia dispensal-o.
-Tinha o dom de se fazer acceito e necessario; dava-se por falta delle,
-como de pessoa de familia. Quando meu pae morreu, a dôr que o pungiu
-foi enorme, disseram-me, não me lembra. Minha mãe ficou-lhe muito
-grata, e não consentiu que elle deixasse o quarto da chacara; ao setimo
-dia, depois da missa, elle foi despedir-se della.
-
---Fique, José Dias.
-
---Obedeço, minha senhora.
-
-Teve um pequeno legado no testamento, uma apolice e quatro palavras de
-louvor. Copiou as palavras, encaixilhou-as e pendurou-as no quarto,
-por cima da cama. «Esta é a melhor apolice», dizia elle muita vez. Com
-o tempo, adquiriu certa autoridade na familia, certa audiencia, ao
-menos; não abusava, e sabia opinar obedecendo. Ao cabo, era amigo, não
-direi optimo, mas nem tudo é optimo neste mundo. E não lhe supponhas
-alma subalterna; as cortezias que fizesse vinham antes do calculo
-que da indole. A roupa durava-lhe muito; ao contrario das pessoas
-que enxovalham depressa o vestido novo, elle trazia o velho escovado
-e liso, cirzido, abotoado, de uma elegancia pobre e modesta. Era
-lido, posto que de atropello, o bastante para divertir ao serão e á
-sobremesa, ou explicar algum phenomeno, falar dos effeitos do calor e
-do frio, dos polos e de Robespierre. Contava muita vez uma viagem que
-fizera á Europa, e confessava que a não sermos nós, já teria voltado
-para lá; tinha amigos em Lisboa, mas a nossa familia, dizia elle,
-abaixo de Deus, era tudo.
-
---Abaixo ou acima? perguntou-lhe tio Cosme um dia.
-
---Abaixo, repetiu José Dias cheio de veneração.
-
-E minha mãe, que era religiosa, gostou de ver que elle punha Deus no
-devido logar, e sorriu approvando. José Dias agradeceu de cabeça. Minha
-mãe dava-lhe de quando em quando alguns cobres. Tio Cosme, que era
-advogado, confiava-lhe a copia de papeis de autos.
-
-
-
-
-VI
-
-Tio Cosme.
-
-Tio Cosme vivia com minha mãe, desde que ella enviuvou. Já então era
-viuvo, como prima Justina; era a casa dos tres viuvos.
-
-A fortuna troca muita vez as mãos á natureza. Formado para as serenas
-funccões do capitalismo, tio Cosme não enriquecia no fòro: ia comendo.
-Tinha o escriptorio na antiga rua das Violas, perto do jury, que era no
-extincto Aljube. Trabalhava no crime. José Dias não perdia as defesas
-oraes de tio Cosme. Era quem lhe vestia e despia a toga, com muitos
-comprimentos no fim. Em casa, referia os debates. Tio Cosme, por mais
-modesto que quizesse ser, sorria de persuasão.
-
-Era gordo e pesado, tinha a respiração curta e os olhos dorminhocos.
-Uma das minhas recordações mais antigas era vel-o montar todas as
-manhãs a besta que minha mãe lhe deu e que o levava ao escriptorio.
-O preto que a tinha ido buscar á cocheira, segurava o freio, emquanto
-elle erguia o pé e pousava no estribo; a isto seguia-se um minuto de
-descanço ou reflexão. Depois, dava um impulso, o primeiro, o corpo
-ameaçava subir, mas não subia; segundo impulso, egual effeito. Emfim,
-após alguns instantes largos, tio Cosme enfeixava todas as forças
-physicas e moraes, dava o ultimo surto da terra, e desta vez caía em
-cima do selim. Raramente a besta deixava de mostrar por um gesto que
-acabava de receber o mundo. Tio Cosme accommodava as carnes, e a besta
-partia a trote.
-
-Tambem não me esqueceu o que elle me fez uma tarde. Posto que nascido
-na roça (donde vim com dous annos) e apezar dos costumes do tempo,
-eu não sabia montar, e tinha medo ao cavallo. Tio Cosme pegou em mim
-e escanchou-me em cima da besta. Quando me vi no alto (tinha nove
-annos), sósinho e desamparado, o chão lá embaixo, entrei a gritar
-desesperadamente: «Mamãe! mamãe!» Ella acudiu pallida e tremula, cuidou
-que me estivessem matando, apeou-me, affagou-me, emquanto o irmão
-perguntava:
-
---Mana Gloria, pois um tamanhão destes tem medo de besta mansa?
-
---Não está acostumado.
-
---Deve acostumar-se. Padre que seja, se fôr vigario na roça, é preciso
-que monte a cavallo; e, aqui mesmo, ainda não sendo padre, se quizer
-florear como os outros rapazes, e não souber, ha de queixar-se de você,
-mana Gloria.
-
---Pois que se queixe; tenho medo.
-
---Medo! Ora, medo!
-
-A verdade é que eu só vim a apprender equitação mais tarde, menos por
-gosto que por vergonha de dizer que não sabia montar. «Agora é que
-elle vae namorar devéras», disseram quando eu comecei as licções. Não
-se diria o mesmo de tio Cosme. Nelle era velho costume e necessidade.
-Já não dava para namoros. Contam que, em rapaz, foi acceito de muitas
-damas, além de partidario exaltado; mas os annos levaram-lhe o mais
-do ardor politico e sexual, e a gordura acabou com o resto de ideias
-publicas e especificas. Agora só cumpria as obrigações do officio e
-sem amor. Nas horas de lazer vivia olhando ou jogava. Uma ou outra vez
-dizia pilherias.
-
-
-
-
-VII
-
-D. Gloria.
-
-Minha mãe era boa creatura. Quando lhe morreu o marido, Pedro de
-Albuquerque Santiago, contava trinta e um annos de edade, e podia
-voltar para Itaguahy. Não quiz; preferiu ficar perto da egreja em que
-meu pae fòra sepultado. Vendeu a fazendola e os escravos, comprou
-alguns que pôz ao ganho ou alugou, uma duzia de predios, certo numero
-de apolices, e deixou-se estar na casa de Matacavallos, onde vivera
-os dous ultimos annos de casada. Era filha de uma senhora mineira,
-descendente de outra paulista, a familia Fernandes.
-
-Ora, pois, naquelle anno da graça de 1857, D. Maria da Gloria Fernandes
-Santiago contava quarenta e dous annos de edade. Era ainda bonita e
-moça, mas teimava em esconder os saldos da juventude, por mais que a
-natureza quizesse preserval-a da acção do tempo. Vivia mettida em um
-eterno vestido escuro, sem adornos, com um chale preto, dobrado em
-triangulo e abrochado ao peito por um camafeu. Os cabellos, em bandós,
-eram apanhados sobre a nuca por um velho pente de tartaruga; alguma vez
-trazia touca branca de fólhos. Lidava assim, com os seus sapatos de
-cordavão rasos e surdos, a um lado e outro, vendo e guiando os serviços
-todos da casa inteira, desde manhã até á noite.
-
-Tenho alli na parede o retrato della, ao lado do do marido, taes
-quaes na outra casa. A pintura escureceu muito, mas ainda dá ideia de
-ambos. Não me lembra nada delle, a não ser vagamente que era alto e
-usava cabelleira grande; o retrato mostra uns olhos redondos, que me
-acompanham para todos os lados, effeito da pintura que me assombrava em
-pequeno. O pescoço sae de uma gravata preta de muitas voltas, a cara
-é toda rapada, salvo um trechosinho pegado ás orelhas. O de minha mãe
-mostra que era linda. Contava então vinte annos, e tinha uma flôr entre
-os dedos. No painel parece offerecer a flôr ao marido. O que se lè na
-cara do ambos é que, se a felicidade conjugal póde ser comparada á
-sorte grande, elles a tiraram no bilhete comprado de sociedade.
-
-Concluo que não se devem abolir as loterias. Nenhum premiado as accusou
-ainda de immoraes, como ninguem tachou de má a boceta de Pandora, por
-lhe ter tirado a esperança no fundo; em alguma parte ha de ella ficar.
-Aqui os tenho aos dous bem casados de outr'ora, os bem-amados, os
-bem-aventurados, que se foram desta para a outra vida, continuar um
-sonho provavelmente. Quando a loteria e Pandora me aborrecem, ergo os
-olhos para elles, e esqueço os bilhetes brancos e a boceta fatidica.
-São retratos que valem por originaes. O de minha mãe, estendendo a flôr
-ao marido, parece dizer: «Sou toda sua, meu guapo cavalheiro!» O de meu
-pae, olhando para a gente, faz este commentario: «Vejam como esta moça
-me quer...» Se padeceram molestias, não sei, como não sei se tiveram
-desgostos: era creança e comecei por não ser nascido. Depois da morte
-delle, lembra-me que ella chorou muito; mas aqui estão os retratos de
-ambos, sem que o encardido do tempo lhes tirasse a primeira expressão.
-São como photographias instantaneas da felicidade.
-
-
-
-
-VIII
-
-É tempo!
-
-Mas é tempo de tomar áquella tarde de Novembro, uma tarde clara e
-fresca, socegada como a nossa casa e o trecho da rua em que moravamos.
-Verdadeiramente foi o principio da minha vida; tudo o que succedera
-antes foi como o pintar e vestir das pessoas que tinham de entrar em
-scena, o accender das luzes, o preparo das rabecas, a symphonia...
-Agora é que eu ia começar a minha opera. «A vida é uma opera,» dizia-me
-um velho tenor italiano que aqui viveu e morreu... E explicou-me um dia
-a definição, em tal maneira que me fez crer nella. Talvez valha a pena
-dal-a; é só um capitulo.
-
-
-
-
-IX
-
-A opera.
-
-Já não tinha voz, mas teimava em dizer que a tinha. «O desuso é que
-me faz mal», accrescentava. Sempre que uma companhia nova chegava da
-Europa, ia ao empresario e expunha-lhe todas as injustiças da terra e
-do ceu; o empresario commettia mais uma, e elle saía a bradar contra
-a iniquidade. Trazia ainda os bigodes dos seus papeis. Quando andava,
-apezar de velho, parecia cortejar uma princeza de Babylonia. Ás vezes,
-cantarolava, sem abrir a bocca, algum trecho ainda mais edoso que elle
-ou tanto; vozes assim abafadas são sempre possiveis. Vinha aqui jantar
-commigo algumas vezes. Uma noite, depois de muito Chianti, repetiu-me
-a definição do costume, e como eu lhe dissesse que a vida tanto podia
-sor uma opera, como uma viagem de mar ou uma batalha, abanou a cabeça e
-replicou:
-
---A vida é uma opera e uma grande opera. O tenor e o barytono lutam
-pelo soprano, em presença do baixo e dos comprimarios, quando não são o
-soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo baixo
-e dos mesmos comprimarios. Ha córos numerosos, muitos bailados, e a
-orchestração é excellente...
-
---Mas, meu caro Marcolini...
-
---Quê...?
-
-E, depois de beber um gole de licor, pousou o calix, e expoz-me a
-historia da creação, com palavras que vou resumir.
-
-Deus é o poeta. A musica é de Satanaz, joven maestro de muito futuro,
-que apprendeu no conservatorio do ceu. Rival de Miguel, Raphael e
-Gabriel, não tolerava a precedencia que elles tinham na distribuição
-dos premios. Póde ser tambem que a musica em demasia doce e mystica
-daquelles outros condiscipulos fosse aborrecivel ao seu genio
-essencialmente tragico. Tramou uma rebellião que foi descoberta a
-tempo, e elle expulso do conservatorio. Tudo se teria passado sem mais
-nada, se Deus não houvesse escripto um libretto de opera, do qual
-abrira mão, por entender que tal genero de recreio era improprio da
-sua eternidade. Satanaz levou o manuscripto comsigo para o inferno.
-Com o fim de mostrar que valia mais que os outros,--e acaso para
-reconciliar-se com o ceu--compoz a partitura, e logo que a acabou foi
-leval-a ao Padre Eterno.
-
---Senhor, não desapprendi as licções recebidas, disse-lhe. Aqui tendes
-a partitura, escutai-a, emendai-a, fazei-a executar, e se a achardes
-digna das alturas, admitti-me com ella a vossos pés...
-
---Não, retorquiu o Senhor, não quero ouvir nada.
-
---Mas, Senhor...
-
---Nada! nada!
-
-Satanaz supplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cançado e
-cheio de misericordia, consentiu em que a opera fosse executada, mas
-fóra do ceu. Creou um theatro especial, este planeta, e inventou uma
-companhia inteira, com todas as partes, primarias e comprimarias, córos
-e bailarinos.
-
---Ouvi agora alguns ensaios!
-
---Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libretto;
-estou prompto a dividir comtigo os direitos de autor.
-
-Foi talvez um mal esta recusa; della resultaram alguns desconcertos
-que a audiencia prévia e a collaboração amiga teriam evitado. Com
-effeito, ha logares em que o verso vae para a direita e a musica para
-a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a belleza da
-composição, fugindo á monotonia, e assim explicam o tercetto do Eden,
-a aria de Abel, os córos da guilhotina e da escravidão. Não é raro que
-os mesmos lances se reproduzam, sem razao sufficiente. Certos motivos
-cançam á força de repetição. Tambem ha obscuridades; o maestro abusa
-das massas choraes, encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso.
-As partes orchestraes são aliás tratadas com grande pericia. Tal é a
-opinião dos imparciaes.
-
-Os amigos do maestro querem que difficilmente se possa achar obra
-tão bem acabada. Um ou outro admitte certas rudezas e taes ou
-quaes lacunas, mas com o andar da opera é provavel que estas sejam
-preenchidas ou explicadas, e aquellas desapparecam inteiramente, não se
-negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo
-ao pensamento sublime do poeta. Já não dizem o mesmo os amigos deste.
-Juram que o libretto foi sacrificado, que a partitura corrompeu o
-sentido da lettra, e, posto seja bonita em alguns logares, e trabalhada
-com arte em outros, é absolutamente diversa e até contraria ao drama. O
-grotesco, por exemplo, não está no texto do poeta; é uma excrescencia
-para imitar as _Mulheres patuscas de Windsor._ Este ponto é contestado
-pelos satanistas com alguma apparencia de razão. Dizem elles que, ao
-tempo em que o joven Satanaz compoz a grande opera, nem essa farça nem
-Shakespeare eram nascidos. Chegam a affirmar que o poeta inglez não
-teve outro genio senão transcrever a lettra da opera, com tal arte
-e fidelidade, que parece elle proprio o autor da composição; mas,
-evidentemente, é um plagiario.
-
---Esta peça, concluiu o velho tenor, durará emquanto durar o theatro,
-não se podendo calcular em que tempo será elle demolido por utilidade
-astronomica. O exito é crescente. Poeta e musico recebem pontualmente
-os seus direitos autoraes, que não são os mesmos, porque a regra da
-divisão é aquillo da Escriptura: «Muitos são os chamados, poucos os
-escolhidos.» Deus recebe em ouro, Satanaz em papel.
-
---Tem graça...
-
---Graça? bradou elle com furia; mas aquietou-se logo, e replicou: Caro
-Santiago, eu não tenho graça, eu tenho horror á graça. Isto que digo é
-a verdade pura e ultima. Um dia, quando todos os livros forem queimados
-por inuteis, ha de haver alguem, póde ser que tenor, e talvez italiano,
-que ensine esta verdade aos homens. Tudo é musica, meu amigo. No
-principio era o _dó_, e o _dó_ fez-se _ré_, etc. Este calix (e enchia-o
-novamente) este calix é um breve estribilho. Não se ouve? Tambem não se
-ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma opera...
-
-
-
-
-X
-
-Acceito a theoria.
-
-Que é demasiada metaphysica para um só tenor, não ha duvida; mas a
-perda da voz explica tudo, e ha philosophos que são, em resumo, tenores
-desempregados.
-
-Eu, leitor amigo, acceito a theoria do meu velho Marcolini, não só pela
-verosimilhança, que é muita vez toda a verdade, mas porque a minha vida
-se casa bem á definição. Cantei um _duo_ ternissimo, depois um _trio_,
-depois um _quatuor..._ Mas não adeantemos; vamos á primeira tarde, em
-que eu vim a saber que já cantava, porque a denuncia de José Dias,
-meu caro leitor, foi dada principalmente a mim. A mim é que elle me
-denunciou.
-
-
-
-
-XI
-
-A promessa.
-
-Tão depressa vi desapparecer o aggregado no corredor, deixei o
-esconderijo, e corri á varanda do fundo. Não quiz saber de lagrimas nem
-da causa que as fazia verter a minha mãe. A causa eram provavelmente os
-seus projectos ecclesiasticos, e a occasião destes é a que vou dizer,
-por ser já então historia velha; datava de dezeseis annos.
-
-Os projectos vinham do tempo em que fui concebido. Tendo-lhe nascido
-morto o primeiro filho, minha mãe pegou-se com Deus para que o segundo
-vingasse, promettendo, se fosse varão, mettel-o na egreja. Talvez
-esperasse uma menina. Não disse nada a meu pae, nem antes, nem depois
-de me dar á luz; contava fazel-o quando eu entrasse para a escola,
-mas enviuvou antes disso. Viuva, sentiu terror de separar-se de mim;
-mas era tão devota, tão temente a Deus, que buscou testemunhas da
-obrigação, confiando a promessa a parentes e familiares. Unicamente,
-para que nos separassemos o mais tarde possivel, fez-me apprender em
-casa primeiras lettras, latim e doutrina, por aquelle padre Cabral,
-velho amigo do tio Cosme, que ia lá jogar ás noites.
-
-Prazos largos são faceis de subscrever; a imaginação os faz infinitos.
-Minha mãe esperou que os annos viessem vindo. Entretanto, ia-me
-affeiçoando á ideia da egreja; brincos de creança, livros devotos,
-imagens de santos, conversações de casa, tudo convergia para o altar.
-Quando iamos á missa, dizia-me sempre que era para apprender a ser
-padre, e que reparasse no padre, não tirasse os olhos do padre. Em
-casa, brincava de missa,--um tanto ás escondidas, porque minha mãe
-dizia que missa não era cousa de brincadeira. Arranjavamos um altar,
-Capitú e eu. Ella servia de sacristão, e alteravamos o ritual, no
-sentido do dividirmos a hostia entre nós; a hostia era sempre um
-doce. No tempo em que brincavamos assim, era muito commum ouvir á
-minha visinha: «Hoje ha missa?» Eu já sabia o que isto queria dizer,
-respondia affirmativamente, e ia pedir hostia por outro nome. Voltava
-com ella, arranjavamos o altar, engrolavamos o latim e precipitavamos
-as cerimonias. _Dominus, non sum dignus..._ Isto, que eu devia dizer
-tres vezes, penso que só dizia uma, tal era a golodice do padre e do
-sacristão. Não bebiamos vinho nem agua; não tinhamos o primeiro, e a
-segunda viria tirar-nos o gosto do sacrificio.
-
-Ultimamente não me falavam já do seminario, a tal ponto que eu suppunha
-ser negocio findo. Quinze annos, não havendo vocação, pediam antes o
-seminario do mundo que o de S. José. Minha mãe ficava muita vez a olhar
-para mim, como alma perdida, ou pegava-me na mão, a pretexto de nada,
-para apertal-a muito.
-
-
-
-
-XII
-
-Na varanda.
-
-Parei na varanda; ia tonto, atordoado, as pernas bambas, o coração
-parecendo querer sair-me pela bocca fóra. Não me atrevia a descer á
-chacara, e passar ao quintal visinho. Comecei a andar de um lado para
-outro, estacando para amparar-me, e andava outra vez e estacava. Vozes
-confusas repetiam o discurso do José Dias:
-
-«Sempre juntos...»
-
-«Em segredinhos...»
-
-«Se elles pegam de namoro...»
-
-Tijolos que pisei e repisei naquella tarde, columnas amarelladas que
-me passastes á direita ou á esquerda, segundo eu ia ou vinha, em vós
-me ficou a melhor parte da crise, a sensação de um goso novo, que me
-envolvia em mim mesmo, e logo me dispersava, e me trazia arrepios, e
-me derramava não sei que balsamo interior. Ás vezes dava por mim,
-sorrindo, um ar do riso de satisfação, que desmentia a abominação do
-meu peccado. E as vozes repetiam-se confusas:
-
-«Em segredinhos...»
-
-«Sempre juntos...»
-
-«Se elles pegam de namoro...»
-
-Um coqueiro, vendo-me inquieto e adivinhando a causa, murmurou de
-cima de si que não era feio que os meninos de quinze annos andassem
-nos cantos com as meninas de quatorze; ao contrario, os adolescentes
-daquella edade não tinham outro officio, nem os cantos outra utilidade.
-Era um coqueiro velho, e eu cria nos coqueiros velhos, mais ainda que
-nos velhos livros. Passaros, borboletas, uma cigarra que ensaiava o
-estio, toda a gente viva do ar era da mesma opinião.
-
-Com que então eu amava Capitú, e Capitú a mim? Realmente, andava cosido
-ás saias della, mas não me occorria nada entre nós que fosse devéras
-secreto. Antes della ir para o collegio, eram tudo travessuras de
-creanca; depois que saiu do collegio, é certo que não restabelecemos
-logo a antiga intimidade, mas esta voltou pouco a pouco, e no ultimo
-anno era completa. Entretanto, a materia das nossas conversações era
-a de sempre. Capitú chamava-me ás vezes bonito, mocetão, uma flòr;
-outras pegava-me nas mãos para contar-me os dedos. E comecei a recordar
-esses e outros gestos e palavras, o prazer que sentia quando ella
-me passava a mão pelos cabellos, dizendo que os achava lindissimos.
-Eu, sem fazer o mesmo aos della, dizia que os della eram muito mais
-lindos que os meus. Então Capitú abanava a cabeça com uma grande
-expressão de desengano e melancolia, tanto mais de espantar quanto que
-tinha os cabellos realmente admiraveis; mas eu retorquia chamando-lhe
-maluca. Quando me perguntava se sonhára com ella na vespera, e eu
-dizia que não, ouvia-lhe contar que sonhára commigo, e eram aventuras
-extraordinarias, que subiamos ao Corcovado pelo ar, que dansavamos na
-lua, ou então que os anjos vinham perguntar-nos pelos nomes, afim de
-os dar a outros anjos que acabavam de nascer. Em todos esses sonhos
-andavamos unidinhos. Os que eu tinha com ella não eram assim, apenas
-reproduziam a nossa familiaridade, e muita vez não passavam da simples
-repetição do dia, alguma phrase, algum gesto. Tambem eu os contava.
-Capitú um dia notou a differença, dizendo que os della eram mais
-bonitos que os meus; eu, depois de certa hesitação, disse-lhe que eram
-como a pessoa que sonhava... Fez-se còr de pitanga.
-
-Pois, francamente, só agora entendia a emoção que me davam essas e
-outras confidencias. A emoção era doce e nova, mas a causa della
-fugia-me, sem que eu a buscasse nem suspeitasse. Os silencios dos
-ultimos dias, que me não descobriam nada, agora os sentia como signaes
-de alguma cousa, e assim as meias palavras, as perguntas curiosas, as
-respostas vagas, os cuidados, o gosto de recordar a infancia. Tambem
-adverti que era phenomeno recente accordar com o pensamento em Capitú,
-e escutal-a de memoria, e estremecer quando lhe ouvia os passos. Se
-se falava nella, em minha casa, prestava mais altenção que d'antes,
-e, segundo era louvor ou critica, assim me trazia gosto ou desgosto
-mais intensos que outr'ora, quando eramos sómente companheiros de
-travessuras. Cheguei a pensar nella durante as missas daquelle mez, com
-intervallos, é verdade, mas com exclusivismo tambem.
-
-Tudo isto me era agora apresentado pela bocca de José Dias, que me
-denunciara a mim mesmo, e a quem eu perdoava tudo, o mal que dissera,
-o mal que fizera, e o que pudesse vir de um e do outro. Naquelle
-instante, a eterna Verdade não valeria mais que elle, nem a eterna
-Bondade, nem as demais Virtudes eternas. Em amava Capitú! Capitú
-amava-me! E as minhas pernas andavam, desandavam, estacavam, tremulas
-e crentes de abarcar o mundo. Esse primeiro palpitar da seiva, essa
-revelação da consciencia a si propria, nunca mais me esqueceu, nem
-achei que lhe fosse comparavel qualquer outra sensação da mesma
-especie. Naturalmente por ser minha. Naturalmente tambem por ser a
-primeira.
-
-
-
-
-XIII
-
-Capitú.
-
-De repente, ouvi bradar uma voz de dentro da casa ao pé:
-
---Capitú!
-
-E no quintal:
-
---Mamãe!
-
-E outra vez na casa:
-
---Vem cá!
-
-Não me pude ter. As pernas desceram-me os tres degraus que davam para
-a chacara, e caminharam para o quintal visinho. Era costume dellas, ás
-tardes, e ás manhãs tambem. Que as pernas tambem são pessoas, apenas
-interiores aos braços, e valem de si mesmas, quando a cabeça não as
-rege por meio de ideias. As minhas chegaram ao pé do muro. Havia alli
-uma porta de communicação mandada rasgar por minha mãe, quando Capitú
-e eu éramos pequenos. A porta não tinha chave nem taramela, abria-se
-empurrando de um lado ou puxando de outro, e fechava-se ao peso de
-uma pedra pendente de uma corda. Era quasi que exclusivamente nossa.
-Em creancas, faziamos visita batendo de um lado, e sendo recebidos
-do outro com muitas mesuras. Quando as bonecas de Capitú adoeciam,
-o medico era eu. Entrava no quintal della com um pau debaixo do
-braço, para imitar o bengalão do doutor João da Costa; tomava o pulso
-á doente, e pedia-lhe que mostrasse a lingua. «É surda, coitada!»
-exclamava Capitú. Então eu coçava o queixo, como o doutor, e acabava
-mandando applicar-lhe umas sanguesugas ou dar-lhe um vomitorio: era a
-therapeutica habitual do medico.
-
---Capitú!
-
---Mamãe!
-
---Deixa de estar esburacando o muro; vem cá.
-
-A voz da mãe era agora mais perto, como se viesse já da porta dos
-fundos. Quiz passar ao quintal, mas as pernas, ha pouco tão andarilhas,
-pareciam agora presas ao chão. Afinal fiz um esforço, empurrei a porta,
-e entrei. Capitú estava ao pé do muro fronteiro, voltada para elle,
-riscando com um prego. O rumor da porta fel-a olhar para traz; ao dar
-commigo, encostou-se ao muro, como se quizesse esconder alguma cousa.
-Caminhei para ella; naturalmente levava o gesto mudado, porque ella
-veiu a mim, e perguntou-me inquieta:
-
---Que é que você tem?
-
---Eu? Nada.
-
---Nada, não; você tem alguma cousa.
-
-Quiz insistir que nada, mas não achei lingua. Todo eu era olhos e
-coração, um coração que desta vez ia sair, com certeza, pela bocca
-fora. Não podia tirar os olhos daquella creatura de quatorze annos,
-alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita, meio desbotado.
-Os cabellos grossos, feitos em duas tranças, com as pontas atadas uma á
-outra, á moda do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena, olhos claros
-e grandes, nariz recto e comprido, tinha a bocca fina e o queixo largo.
-As mãos, a despeito de alguns officios rudes, eram curadas com amor;
-não cheiravam a sabões finos nem aguas de toucador, mas com agua do
-poço e sabão commum trazia-as sem macula. Calçava sapatos de duraque,
-rasos e velhos, a que ella mesma dera alguns pontos.
-
---Que é que você tem? repetiu.
-
---Não é nada, balbuciei finalmente.
-
-E emendei logo:
-
---É uma noticia.
-
---Noticia de què?
-
-Pensei em dizer-lhe que ia entrar para o seminario e espreitar a
-impressão que lhe faria. Se a consternasse é que realmente gostava de
-mim; se não, é que não gostava. Mas todo esse calculo foi obscuro e
-rapido; senti que não poderia falar claramente, tinha agora a vista não
-sei como...
-
---Então?
-
---Você sabe...
-
-Nisto olhei para o muro, o logar em que ella estivera riscando,
-escrevendo ou esburacando, como dissera a mãe. Vi uns riscos abertos, e
-lembrou-me o gesto que ella fizera para cobril-os. Então quiz vel-os
-de perto, e dei um passo. Capitú agarrou-me, mas, ou por temer que
-eu acabasse fugindo, ou por negar de outra maneira, correu adeante e
-apagou o escripto. Foi o mesmo que accender em mim o desejo de ler o
-que era.
-
-
-
-
-XIV
-
-A inscripção.
-
-Tudo o que contei no fim do outro capitulo foi obra de um instante.
-O que se lhe seguiu foi ainda mais rapido. Dei um pulo, e antes que
-ella raspasse o muro, li estes dous nomes, abertos ao prego, o assim
-dispostos:
-
-BENTO CAPITOLINA
-
-Voltei-me para ella; Capitú tinha os olhos no chão. Ergueu-os logo,
-devagar, e ficámos a olhar um para o outro... Confissão de creanças,
-tu valias bem duas ou tres paginas, mas quero ser poupado. Em verdade,
-não falámos nada; o muro falou por nós. Não nos movemos, as mãos é que
-se estenderam pouco a pouco, todas quatro, pegando-se, apertando-se,
-fundindo-se. Não marquei a hora exacta daquelle gesto. Devia tel-a
-marcado; sinto a falta de uma nota escripta naquella mesma noite, e
-que eu poria aqui com os erros de orthographia que trouxesse, mas não
-traria nenhum, tal era a differença entre o estudante e o adolescente.
-Conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amar; tinha orgias
-de latim e era virgem de mulheres.
-
-Não soltámos as mãos, nem ellas se deixaram cair de cançadas ou de
-esquecidas. Os olhos fitavam-se e desfitavam-se, e depois de vagarem ao
-perto, tornavam a metter-se uns pelos outros... Padre futuro, estava
-assim deante della como de um altar, sendo uma das faces a Epistola e
-a outra o Evangelho. A bocca podia ser o calix, os labios a patena.
-Faltava dizer a missa nova, por um latim que ninguem apprende, e é a
-lingua catholica dos homens. Não me tenhas por sacrilego, leitora minha
-devota; a limpeza da intenção lava o que puder haver menos curial no
-estylo. Estavamos alli com o ceu em nós. As mãos, unindo os nervos,
-faziam das duas creaturas uma só, mas uma só creatura seraphica. Os
-olhos continuaram a dizer cousas infinitas, as palavras de bocca é que
-nem tentavam sair, tornavam ao coração caladas como vinham...
-
-
-
-
-XV
-
-Outra voz repentina.
-
-Outra voz repentina, mas desta vez uma voz de homem:
-
---Vocês estão jogando o siso?
-
-Era o pae de Capitú, que estava á porta dos fundos, ao pé da mulher.
-Soltámos as mãos depressa, e ficámos atrapalhados. Capitú foi ao muro,
-e, com o prego, disfarçadamente, apagou os nossos nomes escriptos.
-
---Capitú!
-
---Papae!
-
---Não me estragues o reboco do muro.
-
-Capitú riscava sobre o riscado, para apagar bem o escripto. Padua saiu
-ao quintal, a ver o que era, mas já a filha tinha começado outra cousa,
-um perfil, que disse ser o retrato delle, e tanto podia ser delle como
-da mãe; fel-o rir, era o essencial. De resto, elle chegou sem colera,
-todo meigo, apezar do gesto duvidoso ou menos que duvidoso em que nos
-apanhou. Era um homem baixo e grosso, pernas e braços curtos, costas
-abahuladas, donde lhe veiu a alcunha de Tartaruga, que José Dias lhe
-poz. Ninguem lhe chamava assim lá em casa; era só o aggregado.
-
---Vocês estavam jogando o siso? perguntou,
-
-Olhei para um pé do sabugueiro que ficava perto; Capitú respondeu por
-ambos.
-
---Estavamos, sim, senhor, mas Bentinho ri logo, não aguenta.
-
---Quando eu cheguei á porta, não ria.
-
---Já tinha rido das outras vezes; não póde. Papae quer ver?
-
-E séria, fitou em mim os olhos, convidando-me ao jogo. O susto é
-naturalmente serio; eu estava ainda sob a acção do que trouxe a entrada
-de Padua, e não fui capaz de rir, por mais que devesse fazel-o, para
-legitimar a resposta de Capitú. Esta, cançada de esperar, desviou
-o rosto, dizendo que eu não ria daquella vez por estar ao pé do
-pae. E nem assim ri. Ha cousas que só se apprendem tarde; é mister
-nascer com ellas para fazel-as cedo. E melhor é naturalmente cedo que
-artificialmente tarde. Capitú, após duas voltas, foi ter com a mãe,
-que continuava á porta da casa, deixando-nos a mim e ao pae encantados
-della; o pae, olhando para ella e para mim, dizia-me, cheio de ternura:
-
---Quem dirá que esta pequena tem quatorze annos? Parece dezesete. Mamãe
-está boa? continuou voltando-se inteiramente para mim.
-
---Está.
-
---Ha muitos dias que não a vejo. Estou com vontade de dar um capote
-ao doutor, mas não tenho podido, ando com trabalhos da repartição, em
-casa; escrevo todos os noites que é em desespero; negocio de relatorio.
-Você já viu o meu gaturamo? Está alli no fundo. Ia agora mesmo buscar a
-gaiola; ande ver.
-
-Que o meu desejo era nenhum, crê-se facilmente, sem ser preciso jurar
-pelo ceu nem pela terra. Meu desejo era ir atraz de Capitú e falar-lhe
-agora do mal que nos esperava, mas o pae era o pae, e demais amava
-particularmente os passarinhos. Tinha-os de varia especie, côr e
-tamanho. A área que havia no centro da casa era cercada de gaiolas de
-canarios, que faziam cantando um barulho de todos os diabos. Trocava
-passaros com outros amadores, comprava-os, apanhava alguns, no proprio
-quintal, armando alçapões. Tambem, se adoeciam, tratava delles como se
-fossem gente.
-
-
-
-
-XVI
-
-O administrador interino.
-
-Padua era empregado em repartição dependente do ministerio da guerra.
-Não ganhava muito, mas a mulher gastava pouco, e a vida era barata.
-Demais, a casa em que morava, assobradada como a nossa, posto que
-menor, era propriedade delle. Comprou-a com a sorte grande que lhe saiu
-n'um meio bilhete de loteria, dez contos de reis. A primeira ideia do
-Padua, quando lhe saiu o premio, foi comprar um cavallo do Cabo, um
-adereço de brilhantes para a mulher, uma sepultura perpetua de familia,
-mandar vir da Europa alguns passaros, etc.; mas a mulher, esta D.
-Fortunata que alli está á porta dos fundos da casa, em pé, falando á
-filha, alta, forte, cheia, como a filha, a mesma cabeça, os mesmos
-olhos claros, a mulher é que lhe disse que o melhor era comprar a casa,
-e guardar o que sobrasse para acudir ás molestias grandes. Padua
-hesitou muito; afinal, teve de ceder aos conselhos de minha mãe, a quem
-D. Fortunata pediu auxilio. Nem foi só nessa occasião que minha mãe
-lhes valeu; um dia chegou a salvar a vida ao Padua. Escutai; a anecdota
-é curta.
-
-O administrador da repartição em que Padua trabalhava teve de ir ao
-Norte, em commissão. Padua, ou por ordem regulamentar, ou por especial
-designação, ficou substituindo o administrador com os respectivos
-honorarios. Esta mudança de fortuna trouxe-lhe certa vertigem: era
-antes dos dez contos. Não se contentou de reformar a roupa e a copa,
-atirou-se ás despezas superfluas, deu joias á mulher, nos dias de
-festa matava um leitão, era visto em theatros, chegou aos sapatos de
-verniz. Viveu assim vinte e dous mezes na supposição de uma eterna
-interinidade. Uma tarde entrou em nossa casa, afflicto e desvairado,
-ia perder o logar, porque chegara o effectivo naquella manhã. Pediu a
-minha mãe que velasse pelas infelizes que deixava; não podia soffrer
-a desgraça, matava-se. Minha mãe falou-lhe com bondade, mas elle não
-attendia a cousa nenhuma.
-
---Não, minha senhora, não consentirei em tal vergonha! Fazer descer
-a familia, tornar atraz... Já disse, mato-me! Não hei de confessar á
-minha gente esta miseria. E os outros? Que dirão os visinhos? E os
-amigos? E o publico?
-
---Que publico, Sr. Padua? Deixe-se disso; seja homem. Lembre-se que sua
-mulher não tem outra pessoa... e que ha de fazer? Pois um homem...
-Seja homem, ande.
-
-Padua enxugou os olhos e foi para casa, onde viveu prostrado alguns
-dias, mudo, fechado na alcova,--ou então no quintal, ao pé do poço,
-como se a ideia da morte teimasse nelle. D. Fortunata ralhava:
-
---Joãosinho, você é creança?
-
-Mas, tanto lhe ouviu falar em morte que teve medo, e um dia correu
-a pedir a minha mãe que lhe fizesse o favor de ver se lhe salvava o
-marido que se queria matar. Minha mãe foi achal-o á beira do poço, e
-intimou-lhe que vivesse. Que maluquice era aquella de parecer que ia
-ficar desgraçado, por causa de uma gratificação menos, e perder um
-emprego interino? Não, senhor, devia ser homem, pae de familia, imitar
-a mulher e a filha... Padua obedeceu; confessou que acharia forças para
-cumprir a vontade de minha mãe.
-
---Vontade minha, não; é obrigação sua.
-
---Pois seja obrigação; não desconheço que é assim mesmo.
-
-Nos dias seguintes, continuou a entrar e sair de casa, cosido á parede,
-cara no chão. Não era o mesmo homem que estragava o chapéo em cortejar
-a visinhança, risonho, olhos no ar, antes mesmo da administração
-interina. Vieram as semanas, a ferida foi sarando. Padua começou a
-interessar-se pelos negocios domesticos, a cuidar dos passarinhos, a
-dormir tranquillo as noites e as tardes, a conversar e dar noticias da
-rua. A serenidade regressou; atraz della veiu a alegria, um domingo,
-na figura de dous amigos, que iam jogar o solo, a tentos. Já elle ria,
-já brincava, tinha o ar do costume; a ferida sarou de todo.
-
-Com o tempo veiu um phenomeno interessante. Padua começou a falar da
-administração interina, não sómente sem as saudades dos honorarios,
-nem o vexame da perda, mas até com desvanecimento e orgulho. A
-administração ficou sendo a hegyra, donde elle contava para deante e
-para traz.
-
---No tempo em que eu era administrador...
-
-Ou então:
-
---Ah! sim, lembra-me, foi antes da minha administração, um ou dous
-mezes antes... Ora espere; a minha administração começou... É isto, mez
-e meio antes; foi mez e meio antes, não foi mais.
-
-Ou ainda:
-
---Justamente; havia já seis mezes que eu administrava...
-
-Tal é o sabor posthumo das glorias interinas. José Dias bradava que
-era a vaidade sobrevivente; mas o padre Cabral, que levava tudo para a
-Escriptura, dizia que com o visinho Padua se dava a licção de Eliphaz a
-Job: «Não desprezes a correcção do Senhor; elle fere e cura.»
-
-
-
-
-XVII
-
-Os vermes.
-
-«Elle fere e cura!» Quando, mais tarde, vim a saber que a lança
-de Achilles tambem curou uma ferida que fez, tive taes ou quaes
-velleidades de escrever uma dissertação a este proposito. Cheguei a
-pegar em livros velhos, livros mortos, livros enterrados, a abril-os, a
-comparal-os, calando o texto e o sentido, para achar a origem commum do
-oraculo pagão e do pensamento israelita. Catei os proprios vermes dos
-livros, para que me dissessem o que havia nos textos roidos por elles.
-
---Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, uns não sabemos
-absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que roemos,
-nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.
-
-Não lhe arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessem
-passado palavra, repeliam a mesma cantilena. Talvez esse discreto
-silencio sobre os textos roidos, fosse ainda um modo de roer o roido.
-
-
-
-
-XVIII
-
-Um plano.
-
-Pae nem mãe foram ter comnosco, quando Capitú e eu, na sala de visitas,
-falavamos do seminario. Com os olhos em mim, Capitú queria saber que
-noticia era a que me affligia tanto. Quando lhe disse o que era, fez-se
-côr de cêra.
-
---Mas eu não quero, acudi logo, não quero entrar em seminarios; não
-entro, é excusado teimarem commigo, não entro.
-
-Capitú, a principio não disse nada. Recolheu os olhos, metteu-os
-em si e deixou-se estar com as pupillas vagas e surtias, a bocca
-entre-aberta, toda parada. Então eu, para dar forca ás affirmações,
-comecei a jurar que não seria padre. Naquelle tempo jurava muito e
-rijo, pela vida e pela morte. Jurei pela hora da morte. Que a luz me
-faltasse na hora da morte se fosse para o seminario. Capitú não parecia
-crer nem descrer, não parecia sequer ouvir; era uma figura de pau. Quiz
-chamal-a, sacudil-a, mas faltou-me animo. Essa creatura que brincára
-commigo, que pulára, dansára, creio até que dormira commigo, deixava-me
-agora com os braços atados e medrosos. Emfim, tornou a si, mas tinha a
-cara livida, e rompeu nestas palavras furiosas:
-
---Beata! carola! papa-missas!
-
-Fiquei aturdido. Capitú gostava tanto de minha mãe, e minha mãe della,
-que eu não podia entender tamanha explosão. É verdade que tambem
-gostava de mim, e naturalmente mais, ou melhor, ou de outra maneira,
-cousa bastante a explicar o despeito que lhe trazia a ameaça da
-separação; mas os improperios, como entender que lhe chamasse nomes tão
-feios, e principalmente para deprimir costumes religiosos, que eram os
-seus? Que ella tambem ia á missa, e tres ou quatro vezes minha mãe é
-que a levou, na nossa velha sege. Tambem lhe dera um rosario, uma cruz
-de ouro e um livro de _Horas..._ Quiz defendel-a, mas Capitú não me
-deixou, continuou a chamar-lhe beata e carola, em voz tão alta que tive
-medo fosse ouvida dos paes. Nunca a vi tão irritada como então; parecia
-disposta a dizer tudo a todos. Cerrava os dentes, abanava a cabeça...
-Eu, assustado, não sabia que fizesse; repetia os juramentos, promettia
-ir naquella mesma noite declarar em casa que, por nada neste mundo,
-entraria no seminario.
-
---Você? Você entra.
-
---Não entro.
-
---Você verá se entra ou não.
-
-Calou-se outra vez. Quando tornou a falar, tinha mudado; não era ainda
-a Capitú do costume, mas quasi. Estava seria, sem afflicção, falava
-baixo. Quiz saber a conversação da minha casa; eu contei-lh'a toda,
-menos a parte que lhe dizia respeito.
-
---E que interesse tem José Dias em lembrar isto? perguntou-me no fim.
-
---Acho que nenhum; foi só para fazer mal. É um sujeito muito ruim; mas,
-deixe estar que me ha de pagar. Quando eu fôr dono da casa, quem vae
-para a rua é elle, você verá; não me fica um instante. Mamãe é boa de
-mais; dá-lhe attenção de mais. Parece até que chorou.
-
---José Dias?
-
---Não, mamãe.
-
---Chorou porque?
-
---Não sei; ouvi só dizer que ella não chorasse, que não era cousa de
-choro... Elle chegou a mostrar-se arrependido, e saiu; eu então, para
-não ser apanhado, deixei o canto e corri para a varanda. Mas, deixe
-estar, que elle me paga!
-
-Disse isto fechando o punho, e proferi outras ameaças. Ao relembral-as,
-não me acho ridiculo; a adolescencia e a infancia não são, neste ponto,
-ridiculas; e um dos seus privilegios. Este mal ou este perigo começa
-na mocidade, cresce na madurera e attinge o maior grão na velhice. Aos
-quinze annos, ha até certa graça em ameaçar muito e não executar nada.
-
-Capitú reflectia. A reflexão não era cousa rara nella, e conheciam-se
-as occasiões pelo apertado dos olhos. Pediu-me algumas circumstancias
-mais, as proprias palavras de uns e de outros, e o tom dellas. Como eu
-não queria dizer o ponto inicial da conversa, que era ella mesma, não
-lhe pude dar toda a significação. A attenção de Capitú estava agora
-particularmente nas lagrimas de minha mãe; não acabava de entendel-as.
-Em meio disto, confessou que certamente não era por mal que minha mãe
-me queria fazer padre; era a promessa antiga, que ella, temente a Deus,
-não podia deixar de cumprir. Fiquei tão satisfeito de ver que assim
-espontaneamente reparava as injurias que lhe sairam do peito, pouco
-antes, que peguei da mão della e apertei-a muito. Capitú deixou-se ir,
-rindo; depois a conversa entrou a cochilar e dormir. Tinhamos chegado
-á janella; um preto, que, desde algum tempo, vinha apregoando cocadas,
-parou em frente e perguntou:
-
---Sinhásinha, qué cocada hoje?
-
---Não, respondeu Capitú.
-
---Cocadinha tá boa.
-
---Vá-se embora, replicou ella sem rispidez.
-
---Dê ca! disse eu descendo o braço para receber duas.
-
-Comprei-as, mas tive de as comer sósinho; Capitú recusou. Vi que, em
-meio da crise, eu conservava um canto para as cocadas, o que tanto póde
-ser perfeição como imperfeição, mas o momento não é para definições
-taes; fiquemos em que a minha amiga, apezar de equilibrada e lucida,
-não quiz saber de doce, e gostava muito de doce. Ao contrario, o
-pregão que o preto foi cantando, o prégão das velhas tardes, tão sabido
-do bairro e da nossa infancia:
-
- Chora, menina, chora,
- Chora, porque não tem
- Vintem,
-
-a modo que lhe deixára uma impressão aborrecida, Da toada não era;
-ella a sabia de cór e de longe, usava repetil-a nos nossos jogos da
-puericia, rindo, saltando, trocando os papeis commigo, ora vendendo,
-ora comprando um doce ausente. Creio que a lettra, destinada a picar
-a vaidade das crianças, foi que a enojou agora, porque logo depois me
-disse:
-
---Se eu fosse rica, você fugia, mettia-se no paquete e ia para a Europa.
-
-Dito isto, espreitou-me os olhos, mas creio que elles não lhe disseram
-nada, ou só agradeceram a boa intenção. Com effeito, o sentimento era
-tão amigo que eu podia excusar o extraordinario da aventura.
-
-Como vês, Capitú, aos quatorze annos, tinha já ideias atrevidas,
-muito menos que outras que lhe vieram depois; mas eram só atrevidas
-em si, na pratica faziam-se habeis, sinuosas, surdas, e alcançavam o
-fim proposto, não de salto, mas aos saltinhos. não sei se me explico
-bem. Supponde uma concepção grande executada por meios pequenos.
-Assim, para não sair do desejo vago e hypothetico de me mandar para
-a Europa, Capitú, se pudesse cumpril-o, não me faria embarcar no
-paquete e fugir; estenderia uma fila de canoas daqui até lá, por
-onde eu, parecendo ir á fortaleza da Lage em ponte movediça, iria
-realmente até Bordéos, deixando minha mãe na praia, á espera. Tal era
-a feição particular do caracter da minha amiga; pelo que, não admira
-que, combatendo os meus projectos de resistencia franca, fosse antes
-pelos meios brandos, pela acção do empenho, da palavra, da persuasão
-lenta e diuturna, e examinasse antes as pessoas com quem podiamos
-contar. Rejeitou tio Cosme; era um «boa-vida»; se não approvava a
-minha ordenação, não era capaz de dar um passo para suspendel-a. Prima
-Justina era melhor que elle, e melhor que os dous seria o padre Cabral,
-pela autoridade, mas o padre não havia de trabalhar contra a egreja; só
-se eu lhe confessasse que não tinha vocação....
-
---Posso confessar?
-
---Pois, sim, mas seria apparecer francamente, e o melhor é outra cousa.
-José Dias....
-
---Que tem José Dias?
-
---Póde ser um bom empenho.
-
---Mas se foi elle mesmo que falou....
-
---Não importa, continuou Capitú; dirá agora outra cousa. Elle gosta
-muito de você. Não lhe fale acanhado. Tudo é que você não tenha medo,
-mostre que ha de vir a ser dono da casa, mostre que quer e que póde.
-Dê-lhe bem a entender que não é favor. Faça-lhe tambem elogios; elle
-gosta muito de ser elogiado. D. Gloria presta-lhe attenção; mas o
-principal não é isso; é que elle, tendo de servir a você, falará com
-muito mais calor que outra pessoa.
-
---Não acho. não, Capitú.
-
---Então vá para o seminario.
-
---Isso não.
-
---Mas que se perde em experimentar? Experimentemos; faça o que lhe
-digo. D. Gloria póde ser que mude de resolução; se não mudar, faz-se
-outra cousa, mette-se então o padre Cabral. Você não se lembra como
-é que foi ao theatro pela primeira vez, ha dous mezes? D. Gloria não
-queria, e bastava isso para que José Dias não teimasse; mas elle queria
-ir, e fez um discurso, lembra-se?
-
---Lembra-me; disse que o theatro era uma escola de costumes.
-
---Justo; tanto falou que sua mãe acabou consentindo, e pagou a entrada
-aos dous.... Ande, peça, mande. Olhe; diga-lhe que está prompto a ir
-estudar leis em S. Paulo.
-
-Estremeci de prazer. S. Paulo era um fragil biombo, destinado a ser
-arredado um dia, em vez da grossa parede espiritual e eterna. Prometti
-falar a José Dias nos termos propostos. Capitú repetiu-os, accentuando
-alguns, como principaes; e inquiria-me depois sobre elles, a ver se
-entendera bem, se não trocara uns por outros. E insistia em que pedisse
-com boa cara, mas assim como quem pede um copo de agua a pessoa que
-tem obrigação de o trazer. Conto estas minucias para que melhor se
-entenda aquella manhã da minha amiga; logo virá a tarde, e da manhã
-e da tarde se fará o primeiro dia, como no Genesis, onde se fizeram
-successivamente sete.
-
-
-
-
-XIX
-
-Sem falta.
-
-Quando voltei a casa era noite. Vim depressa, não tanto, porém, que não
-pensasse nos termos em que falaria ao aggregado. Formulei o pedido de
-cabeça, escolhendo as palavras que diria e o tom dellas, entre secco
-e benevolo. Na chacara, antes de entrar em casa, repeti-as commigo,
-depois em voz alia, para ver se eram adequadas e se obedeciam ás
-recommendações de Capitú: «Preciso falar-lhe, _sem falta_, amanhã;
-escolha o logar e diga-me.» Proferi-as lentamente, e mais lentamente
-ainda as palavras _sem falta_, como para sublinhal-as. Repeti-as ainda,
-e então achei-as seccas de mais, quasi rispidas, e, francamente,
-improprias de um creançola para um homem maduro. Cuidei de escolher
-outras, e parei.
-
-Afinal disse commigo que as palavras podiam servir, tudo era dizel-as
-em tom que não offendesse. E a prova é que, repetindo-as novamente,
-saíram-me quasi supplices. Bastava não carregar tanto, nem adoçar
-muito, um meio termo. «E Capitú tem razão, pensei, a casa é minha, elle
-é um simples aggregado... Geitoso é, póde muito bem trabalhar por mim,
-e desfazer o plano de mamãe.»
-
-
-
-
-XX
-
-Mil padre-nossos e mil ave-marias.
-
-Levantei os olhos ao ceu, que começava a embruscar-se, mas não foi para
-vel-o coberto ou descoberto. Era ao outro ceu que eu erguia a minha
-alma; era ao meu refugio, ao meu amigo. E então disse de mim para mim:
-
---Prometto rezar mil padre-nossos e mil ave-marias, se José Dias
-arranjar que eu não vá para o seminario.
-
-A somma era enorme. A razão é que eu andava carregado de promessas
-não cumpridas. A ultima foi de duzentos padre-nossos e duzentas
-ave-marias, se não chovesse em certa tarde de passeio a Santa Theresa.
-Não choveu, mas eu não rezei as orações. Desde pequenino acostumara-me
-a pedir ao ceu os seus favores, mediante orações que diria, se elles
-viessem. Disse as primeiras, as outras foram adiadas, e á medida que
-se amontoavam iam sendo esquecidas. Assim cheguei aos numeros vinte,
-trinta, cincoenta. Entrei nas centenas e agora no milhar. Era um modo
-de peitar a vontade divina pela quantia das orações; além disso, cada
-promessa nova era feita e jurada no sentido de pagar a divida antiga.
-Mas vão lá matar a preguiça de uma alma que a trazia do berço e não a
-sentia attenuada pela vida! O ceu fazia-me o favor, eu adiava a paga.
-Afinal perdi-me nas contas.
-
---Mil, mil, repeti commigo.
-
-Realmente, a materia do beneficio era agora immensa, não menos que a
-salvação ou o naufragio da minha existencia inteira. Mil, mil, mil.
-Era preciso uma somma que pagasse os atrazados todos. Deus podia
-muito bem, irritado com os esquecimentos, negar-se a ouvir-me sem
-muito dinheiro.... Homem grave, é possivel que estas agitações de
-menino te enfadem, se é que não as achas ridiculas. Sublimes não eram.
-Cogitei muito no modo de resgatar a divida espiritual. Não achava
-outra especie em que, mediante a intenção, tudo se cumprisse, fechando
-a escripturação da minha consciencia moral sem _deficit._ Mandar
-dizer cem missas, ou subir do joelhos a ladeira da Gloria para ouvir
-uma, ir á Terra-Santa, tudo o que as velhas escravas me contavam de
-promessas celebres, tudo me acudia sem se fixar de vez no espirito.
-Era muito duro subir uma ladeira de joelhos; devia feril-os por força.
-A Terra-Santa ficava muito longe. As missas eram numerosas, podiam
-empenhar-mo outra vez a alma....
-
-
-
-
-XXI
-
-Prima Justina.
-
-Na varanda achei prima Justina, passeando de um lado para outro. Veiu
-ao patamar e perguntou-me onde estivera.
-
---Estive aqui ao pé, conversando com D. Fortunata, e distraí-me. É
-tarde, não é? Mamãe perguntou por mim?
-
---Perguntou, mas eu disse que você já tinha vindo.
-
-A mentira espantou-me, não menos que a franqueza da noticia. Não é que
-prima Justina fosse de biocos; dizia francamente a Pedro o mal que
-pensava de Paulo, e a Paulo o que pensava de Pedro; mas, confessar que
-mentira é que me pareceu novidade. Era quadragenaria, magra e pallida,
-bocca fina e olhos curiosos. Vivia comnosco por favor de minha mãe, e
-tambem por interesse; minha mãe queria ter uma senhora intima ao pé de
-si, e antes parenta que extranha.
-
-Passeámos alguns minutos na varanda, alumiada por um lampião. Quiz
-saber se eu não esquecera os projectos ecclesiasticos de minha mãe, e
-dizendo-lhe eu que não, inquiriu-me sobre o gosto que eu tinha á vida
-de padre. Respondi esquivo:
-
---Vida de padre é muito bonita.
-
---Sim, é bonita; mas o que pergunto é se você gostaria de ser padre,
-explicou rindo.
-
---Eu gósto do que mamãe quizer.
-
---Prima Gloria deseja muito que você se ordene, mas ainda que não
-desejasse, ha cá em casa quem lhe metta isso na cabeça.
-
---Quem é?
-
---Ora, quem! Quem é que hade ser? Primo Cosme não é, que não se importa
-com isso; eu tambem não.
-
---José Dias? conclui.
-
---Naturalmente.
-
-Enruguei a testa interrogativamente, como se não soubesse nada. Prima
-Justina completou a noticia dizendo que ainda naquella tarde José Dias
-lembrára a minha mãe a promessa antiga.
-
---Prima Gloria póde ser que, em passando os dias, vá esquecendo a
-promessa; mas como ha de esquecer se uma pessoa estiver sempre, nos
-ouvidos, zás que darás, falando do seminario? E os discursos que elle
-faz, os elogios da egreja, e que a vida de padre é isto e aquillo, tudo
-com aquellas palavras que só elle conhece, e aquella affectação...
-Note que é só para fazer mal, porque elle é tão religioso, como este
-lampião. Pois é verdade, ainda hoje. Você não se dê por achado... Hoje
-de tarde falou como você não imagina.
-
---Mas falou á toa? perguntei, a ver se ella contava a denuncia do meu
-namoro com a visinha.
-
-Não contou; fez apenas um gesto como indicando que havia outra cousa
-que não podia dizer. Novamente me recommendou que não me désse por
-achado, e recapitulou todo o mal que pensava de José Dias, e não era
-pouco, um intrigante, um bajulador, um especulador, e, apezar da casca
-de polidez, um grosseirão. Eu, passados alguns instantes, disse:
-
---Prima Justina, a senhora era capaz de uma cousa?
-
---De quê?
-
---Era capaz de... Supponha que eu não gostasse de ser padre... a
-senhora podia pedir a mamãe...
-
---Isso não, atalhou promptamente; prima Gloria tem este negocio firme
-na cabeça, e não ha nada no mundo que a faça mudar de resolução; só
-o tempo. Você ainda era pequenino, já ella contava isto a todas as
-pessoas da nossa amizade, ou só conhecidas. Lá avivar-lhe a memoria,
-não, que eu não trabalho para a desgraça dos outros; mas tambem,
-pedir outra cousa, não peço. Se ella me consultasse, bem; se ella me
-dissesse: «Prima Justina, você que acha?» a minha resposta era: «Prima
-Gloria, eu penso que, se elle gosta de ser padre, póde ir; mas, se não
-gosta, o melhor é ficar.» E o que eu diria e direi se ella me consultar
-algum dia. Agora, ir falar-lhe sem ser chamada, não faço.
-
-
-
-
-XXII
-
-Sensações alheias.
-
-Não alcancei mais nada, e para o fim arrependi-me do pedido: devia
-ter seguido o conselho de Capitú. Então, como eu quizesse ir para
-dentro, prima Justina reteve-me alguns minutos, falando do calor e da
-proxima festa da Conceição, dos meus velhos oratorios, e finalmente de
-Capitú. Não disse mal della; ao contrario insinuou-me que podia vir a
-ser uma moça bonita. Eu, que já a achava lindissima, bradaria que era
-a mais bella creatura do mundo, se o receio me não fizesse discreto.
-Entretanto, como prima Justina se mettesse a elogiar-lhe os modos, a
-gravidade, os costumes, o trabalhar para os seus, o amor que tinha a
-minha mãe, tudo isto me accendeu a ponto de elogial-a tambem. Quando
-não era com palavras, era com o gesto de approvação que dava a cada
-uma das assersões da outra, e certamente com a felicidade que devia
-illuminar-me a cara. Não adverti que assim confirmava a denuncia de
-José Dias, ouvida por ella, á tarde, na sala de visitas, se é que
-tambem ella não desconfiava já. Só pensei nisso na cama. Só então senti
-que os olhos de prima Justina, quando eu falava, pareciam apalpar-me,
-ouvir-me, cheirar-me, gostar-me, fazer o officio de todos os sentidos.
-Ciumes não podiam ser; entre um pirralho da minha edade e uma viuva
-quarentona não havia logar para ciumes. É certo que, após algum
-tempo, modificou os elogios a Capitú, e até lhe fez algumas criticas,
-disse-me que era um pouco trefega e olhava por baixo; mas ainda assim,
-não creio que fossem ciumes. Creio antes... sim... sim, creio isto.
-Creio que prima Justina achou no espectaculo das sensações alheias uma
-resurreição vaga das proprias. Tambem se goza por influição dos labios
-que narram.
-
-
-
-
-XXIII
-
-Prazo dado.
-
---Preciso falar-lhe amanhã, sem falta; escolha o logar e diga-me.
-
-Creio que José Dias achou desusado este meu falar. O tom não me sairia
-tão imperativo como eu receiava, mas as palavras o eram, e o não
-interrogar, não pedir, não hesitar, como era proprio da creança e do
-meu estylo habitual, certamente lhe deu ideia de uma pessoa nova e de
-uma nova situação. Foi no corredor, quando iamos para o chá; José Dias
-vinha andando cheio da leitura de Walter Scott que fizera a minha mãe
-e a prima Justina. Lia cantado e compassado. Os castellos e os parques
-saíam maiores da bocca delle, os lagos tinham mais agua e a «abobada
-celeste» contava alguns milhares mais de estrellas centelhantes. Nos
-dialogos, alternava o som das vozes, que eram levemente grossas ou
-finas, conforme o sexo dos interlocutores, e reproduziam com moderação
-a ternura e a colera.
-
-Ao despedir-se de mim, na varanda, disse-me elle:
-
---Amanhã, na rua. Tenho umas compras que fazer, você póde ir commigo,
-pedirei a mamãe. É dia de licção?
-
---A licção foi hoje.
-
---Perfeitamente. Não lhe pergunto o que é; affirmo desde já que é
-materia grave e pura.
-
---Sim, senhor.
-
---Até amanhã.
-
-Fez-se tudo o melhor possivel. Houve só uma alteração: minha mãe achou
-o dia quente e não consentiu que eu fosse a pé; entrámos no omnibus, á
-porta de casa.
-
---Não importa, disse-me José Dias; podemos apear-nos á porta do Passeio
-Publico.
-
-
-
-
-XXIV
-
-De mãe e de servo.
-
-José Dias tratava-me com extremos de mãe e attenções de servo. A
-primeira cousa que conseguiu logo que comecei a andar fora, foi
-dispensar-me o pagem; fez-se pagem, ia commigo á rua. Cuidava dos meus
-arranjos em casa, dos meus livros, dos meus sapatos, da minha hygiene e
-da minha prosodia. Aos oito annos os meus pluraes careciam, alguma vez,
-da desinencia exacta, elle a corrigia, meio serio para dar autoridade
-á licção, meio risonho para obter o perdão da emenda. Ajudava assim
-o mestre de primeiras lettras. Mais tarde, quando o padre Cabral me
-ensinava latim, doutrina e historia sagrada, elle assistia ás licções,
-fazia reflexões ecclesiasticas, e, no fim, perguntava ao padre: «Não
-é verdade que o nosso joven amigo caminha depressa?» Chamava-me «um
-prodigio»; dizia a minha mãe ter conhecido outr'ora meninos muito
-intelligentes, mas que eu excedia a todos esses, sem contar que, para a
-minha edade, possuia já certo numero de qualidades moraes solidas. Eu,
-posto não avaliasse todo o valor deste outro elogio, gostava do elogio;
-era um elogio.
-
-
-
-
-XXV
-
-No Passeio Publico.
-
-Entrámos no Passeio Publico. Algumas caras velhas, outras doentes ou só
-vadias espalhavam-se melancolicamente no caminho que vae da porta ao
-terraço. Seguimos para o terraço. Andando, para me dar animo, falei do
-jardim:
-
---Ha muito tempo que não venho aqui, talvez um anno.
-
---Perdôe-me, atalhou elle, não ha tres mezes que esteve aqui com o
-nosso visinho Padua; não se lembra?
-
---É verdade, mas foi tão de passagem...
-
---Elle pediu a sua mãe que o deixasse trazer comsigo, e ella, que é boa
-como a mãe de Deus, consentiu; mas ouça-me, já que falamos nisto, não é
-bonito que você ande com o Padua na rua.
-
---Mas eu andei algumas vezes...
-
---Quando era mais joven; em creança, era natural, elle podia passar por
-creado. Mas você está ficando moco, e elle vae tomando confiança. D.
-Gloria, afinal, não pode gostar disto. A gente Padua não é de todo má.
-Capitú, apesar daquelles olhos que o diabo lhe deu... Você já reparou
-nos olhos della? São assim de cigana obliqua e dissimulada. Pois,
-apesar delles, poderia passar, se não fosse a vaidade e a adulação.
-Oh! a adulação! D. Fortunata merece estima, e elle não nego que seja
-honesto, tem um bom emprego, possue a casa em que móra, mas honestidade
-e estima não bastam, e as outras qualidades perdem muito de valor com
-as más companhias em que elle anda. Padua tem uma tendencia para gente
-réles. Em lhe cheirando a homem chulo é com elle. Não digo isto por
-odio, nem por que elle fale mal de mim e se ria, como se riu, ha dias,
-dos meus sapatos acalcanhados...
-
---Perdão, interrompi suspendendo o passo, nunca ouvi que falasse mal
-do senhor; pelo contrario, um dia, não ha muito tempo, disse elle a um
-sujeito, em minha presença, que o senhor era «um homem de capacidade e
-sabia falar corno um deputado nas camaras.»
-
-José Dias sorriu deliciosamente, mas fez um esforço grande e fechou
-outra vez o rosto; depois replicou:
-
---Não lhe agradeço nada. Outros, de melhor sangue, me tem feito o favor
-de juizos altos. E nada disso impede que elle seja o que lhe digo.
-
-Tinhamos outra vez andado, subimos ao terraço, e olhámos para o mar.
-
---Vejo que o senhor não quer senão o meu beneficio, disse eu depois de
-alguns instantes.
-
---Pois que outra cousa, Bentinho?
-
---Neste caso, peço-lhe um favor.
-
---Um favor? Mande, ordene, que é?
-
---Mamãe...
-
-Durante algum tempo não pude dizer o resto, que era pouco, e vinha de
-cór. José Dias tornou a perguntar o que era, sacudia-me com brandura,
-levantava-me o queixo e espetava os olhos em mim, ancioso tambem, como
-a prima Justina na vespera.
-
---Mamãe quê? Que é que tem mamãe?
-
---Mamãe quer que eu seja padre, mas eu não posso ser padre, disse
-finalmente.
-
-José Dias endireitou-se pasmado.
-
---Não posso, continuei eu, não menos pasmado que elle, não tenho geito,
-não gósto da vida de padre. Estou por tudo o que ella quizer; mamãe
-sabe que eu faço tudo o que ella manda; estou prompto a ser o que fôr
-do seu agrado, até cocheiro de omnibus. Padre, não; não posso ser
-padre. A carreira é bonita, mas não é para mim.
-
-Todo esse discurso não me saiu assim, de vez, enfiado naturalmente,
-peremptorio, como póde parecer do texto, mas aos pedaços, mastigado,
-em voz um pouco surda e timida. Não obstante, José Dias ouvira-o
-espantado. Não contava certamente com a resistencia, por mais acanhada
-que fosse; mas o que ainda mais o assombrou foi esta conclusão:
-
---Conto com o senhor para salvar-me.
-
-Os olhos do aggregado escancararam-se, as sobrancelhas arquearam-se,
-e o prazer que eu contava dar-lhe com a escolha da protecção não se
-mostrou em nenhum dos musculos. Toda a cara delle era pouca para a
-estupefacção. Realmente, a materia do discurso revelára em mim uma alma
-nova; eu proprio não me conhecia. Mas a palavra final é que trouxe um
-vigor unico. José Dias ficou aturdido. Quando os olhos tornaram ás
-dimensões ordinarias:
-
---Mas que posso eu fazer? perguntou.
-
---Póde muito. O senhor sabe que, em nossa casa, todos o apreciam. Mamãe
-pede muita vez os seus conselhos, não é? Tio Cosme diz que o senhor é
-pessoa de talento...
-
---São bondades, retorquiu lisonjeado. São favores de pessoas dignas,
-que merecem tudo... Ahi está! nunca ninguem me ha de ouvir dizer nada
-de pessoas taes; porque? porque são illustres e virtuosas. Sua mãe
-é uma santa, seu tio é um cavalheiro perfeitissimo. Tenho conhecido
-familias distinctas; nenhuma poderá vencer a sua em nobreza de
-sentimentos. O talento que seu tio acha em mim confesso que o tenho,
-mas é só um,--é o talento de saber o que é bom e digno de admiração e
-de apreço.
-
---Ha de ter tambem o de proteger os amigos, como eu.
-
---Em que lhe posso valer, anjo do ceu? Não hei de dissuadir sua mãe
-de um projecto que é, além de promessa, a ambição e o sonho de longos
-annos. Quando pudesse, é tarde. Ainda hontem fez-me o favor de dizer:
-«José Dias, preciso metter Bentinho no seminario.»
-
-Timidez não é tão ruim moeda, como parece. Se eu fosse destemido, é
-provavel que, com a indignação que experimentei, rompesse a chamar-lhe
-mentiroso, mas então seria preciso confessar-lhe que estivera á escuta,
-atraz da porta, e uma acção valia outra. Contentei-me de responder que
-não era tarde.
-
---Não é tarde, ainda é tempo, se o senhor quizer.
-
---Se eu quizer? Mas que outra cousa quero eu, senão servil-o? Que
-desejo, senão que seja feliz, como merece?
-
---Pois ainda é tempo. Olhe, não é por vadiação. Estou prompto para
-tudo; se ella quizer que eu estude leis, vou para S. Paulo...
-
-
-
-
-XXVI
-
-As leis são bellas.
-
-Pela cara de José Dias passou algo parecido com o reflexo de uma
-ideia,--uma ideia que o alegrou extraordinariamente. Calou-se alguns
-instantes; eu tinha os olhos nelle, elle voltara os seus para o lado da
-barra. Como insistisse:
-
---É tarde, disse elle; mas, para lhe provar que não ha falta de
-vontade, irei falar a sua mãe. Não prometto vencer, mas lutar;
-trabalharei com alma. Devéras, não quer ser padre? As leis são bellas,
-meu querido... Póde ir a S. Paulo, a Pernambuco, ou ainda mais longe.
-Ha boas universidades por esse mundo fóra. Vá para as leis, se tal é
-a sua vocação. Vou falar a D. Gloria, mas não conte só commigo; fale
-tambem a seu tio.
-
---Hei de falar.
-
---Pegue-se tambem com Deus,--com Deus e a Virgem Santissima, concluiu
-apontando para o ceu.
-
-O ceu estava meio enfarruscado. No ar, perto da praia, grandes passaros
-negros faziam giros, avoaçando ou pairando, e desciam a roçar os pés,
-na agua, e tornavam a erguer-se para descer novamente. Mas nem as
-sombras do ceu, nem as dansas fantasticas dos passaros me desviavam
-o espirito do meu interlocutor. Depois de lhe responder que sim,
-emendei-me:
-
---Deus fará o que o senhor quizer.
-
---Não blaspheme. Deus é dono de tudo; elle é, só por si, a terra e
-o ceu, o passado, o presente e o futuro. Peça-lhe a sua felicidade,
-que eu não faço outra cousa... Uma vez que você não póde ser padre, e
-prefere as leis... As leis são bellas, sem desfazer na theologia, que
-é melhor que tudo, como a vida ecclesiastica é a mais santa... Porque
-não ha de ir estudar leis fóra daqui? Melhor é ir logo para alguma
-universidade, e ao mesmo tempo que estuda, viaja. Podemos ir juntos;
-veremos as terras estranjeiras, ouviremos inglez, francez, italiano,
-hespanhol, russo e até sueco. D. Gloria provavelmente não poderá
-acompanhal-o; ainda que possa e vá, não quererá guiar os negocios,
-papeis, matriculas, e cuidar de hospedarias, e andar com você de um
-lado para outro... Oh! as leis são bellissimas!
-
---Está dito, pede a mamãe que me não metia no seminario?
-
---Pedir, peço, mas pedir não é alcançar. Anjo do meu coração, se
-vontade de servir é poder de mandar, estamos aqui, estamos a bordo.
-Ali! você não imagina o que é a Europa; oh! a Europa...
-
-Levantou a perna e fez uma pirueta. Uma das suas ambições era tornar á
-Europa, falava della muitos vezes, sem acabar de tentar minha mãe nem
-tio Cosme, por mais que louvasse os ares e as bellezas... Não contava
-com esta possibilidade de ir commigo, e lá ficar durante a eternidade
-dos meus estudos.
-
---Estamos a bordo, Bentinho, estamos a bordo!
-
-
-
-
-XXVII
-
-Ao portão.
-
-Ao portão do Passeio, um mendigo estendeu-nos a mão. José Dias passou
-adiante, mas eu pensei em Capitú e no seminario, tirei dous vintens do
-bolso e dei-os ao mendigo. Este beijou a moeda; eu pedi-lhe que rogasse
-a Deus por mim, afim de que eu pudesse satisfazer todos os meus desejos.
-
---Sim, meu devoto!
-
---Chamo-me Bento, accrescentei para esclarecel-o.
-
-
-
-
-XXVIII
-
-Na rua.
-
-José Dias ia tão contente que trocou o homem dos momentos graves,
-como era á rua, pelo homem dobradiço e inquieto. Mexia-se todo,
-falava de tudo, fazia-me parar a cada passo deante de um mostrador
-ou de um cartaz de theatro. Contava-me o enredo de algumas peças,
-recitava monologos em verso. Fez os recados todos, pagou contas,
-recebeu alugueis de casa; para si comprou um vigesimo de loteria.
-Afinal, o homem tezo rendeu o flexivel, e passou a falar pausado, com
-superlativos. Não vi que a mudança era natural; temi que houvesse
-mudado a resolução assentada, e entrei a tratal-o com palavras e gestos
-carinhosos, até entrarmos no omnibus.
-
-
-
-
-XXIX
-
-O imperador.
-
-Em caminho, encontrámos o imperador, que vinha da Escola de Medicina.
-O omnibus em que iamos parou, como todos os vehiculos; os passageiros
-desceram á rua e tiraram o chapeu, até que o coche imperial passasse.
-Quanto tornei ao meu logar, trazia uma ideia fantastica, a ideia de ir
-ter com o imperador, contar-lhe tudo e pedir-lhe a intervenção. Não
-confiaria. esta ideia a Capitú. «Sua Majestade pedindo, mamãe cede,»
-pensei commigo.
-
-Vi então o imperador escutando-me, reflectindo e acabando por dizer que
-sim, que iria falar a minha mãe; eu beijava-lhe a mão, com lagrimas. E
-logo me achei cm casa, á espera, até que ouvi os batedores e o piquete
-de cavallaria; é o imperador! é o imperador! toda a gente chegava ás
-janellas para vel-o passar, mas não passava, o coche parava á nossa
-porta, o imperador apeava-se e entrava. Grande alvoroço na visinhança:
-«O imperador entrou em casa de D. Gloria! Que será? Que não será?
-«A nossa familia saía a recebel-o; minha mãe era a primeira que lhe
-beijava a mão. Então o imperador, todo risonho, sem entrar na sala ou
-entrando,--não me lembra bem, os sonhos são muita vez confusos,--pedia
-a minha mãe que me não fizesse padre,--e ella, lisongeada e obediente,
-promettia que não.
-
---A medicina,--porque lhe não manda ensinar medicina?
-
-Uma vez que é do agrado de Vossa Majestade...
-
---Mande ensinar-lhe medicina; é uma bonita carreira, e nós temos aqui
-bons professores. Nunca foi á nossa Escola? É uma bella Escola. Já
-temos medicos de primeira ordem, que pódem hombrear com os melhores de
-outras terras. A medicina é uma grande sciencia; basta só isto de dar
-a saude aos outros, conhecer as molestias, combatel-as, vencel-as... A
-senhora mesma ha de ter visto milagres. Seu marido morreu, mas a doença
-era fatal, e elle não tinha cuidado em si... É uma bonita carreira;
-mande-o para a nossa Escola. Faça isso por mim, sim? Você quer,
-Bentinho?
-
---Mamãe querendo.
-
---Quero, meu filho. Sua Majestade manda.
-
-Então o imperador dava outra vez a mão a beijar, e saía, acompanhado de
-todos nós, a rua cheia de gente, as janellas atopetadas, um silencio de
-assombro; o imperador entrava no coche, inclinava-se e fazia um gesto
-de adeus, dizendo ainda: «A medicina, a nossa Escola.» E o coche partia
-entre invejas e agradecimentos.
-
-Tudo isso vi e ouvi. Não, a imaginação de Ariosto não é mais fertil
-que a das creanças e dos namorados, nem a visão do impossivel precisa
-mais que de um recanto de omnibus. Consolei-me por instantes, digamos
-minutos, até destruir-se o plano e voltar-me para as caras sem sonhos
-dos meus companheiros.
-
-
-
-
-XXX
-
-O Santissimo.
-
-Terás entendido que aquella lembrança do imperador ácerca da medicina
-não era mais que a suggestão da minha pouca vontade de sair do Rio de
-Janeiro. Os sonhos do accordado são como os outros sonhos, tecem-se
-pelo desenho das nossas inclinações e das nossas recordações. Vá que
-fosse para S. Paulo, mas a Europa... Era muito longe, muito mar e muito
-tempo. Viva a medicina! Iria contar estas esperanças a Capitú.
-
---Parece que vae sair o Santíssimo, disse alguem no omnibus. Ouço um
-sino; é, creio que é em Santo Antonio dos Pobres. Pare, Sr. recebedor!
-
-O recebedor das passagens puxou a correia que ia ter ao braço do
-cocheiro, o omnibus parou, e o homem desceu. José Dias deu duas voltas
-rapidas á cabeça, pegou-me no braço e fez-me descer comsigo. Iriamos
-tambem acompanhar o Santissimo. Effectivamente, o sino chamava os
-fieis áquelle serviço da ultima hora. Já havia algumas pessoas na
-sacristia. Era a primeira vez que me achava em momento tão grave;
-obedeci, a principio constrangido, mas logo depois satisfeito, menos
-pela caridade do serviço que por me dar um officio de homem. Quando o
-sacristão começou a distribuir as opas, entrou um sujeito esbaforido;
-era o meu visinho Padua, que tambem ia acompanhar o Santissimo. Deu
-comnosco, veiu comprimentar-nos. José Dias fez um gesto de aborrecido,
-e apenas lhe respondeu com uma palavra secca, olhando para o padre,
-que lavava as mãos. Depois, como Padua falasse ao sacristão, baixinho,
-approximou-se delles; eu fiz a mesma cousa. Padua solicitava do
-sacristão uma das varas do pallio. José Dias pediu uma para si.
-
---Ha só uma disponível, disse o sacristão.
-
---Pois essa, disse José Dias.
-
---Mas eu tinha pedido primeiro, aventurou Padua.
-
---Pediu primeiro, mas entrou tarde, retorquiu José Dias; eu já cá
-estava. Leve uma tocha.
-
-Padua, apesar do medo que tinha ao outro, teimava em querer a vara,
-tudo isto em voz baixa e surda. O sacristão achou meio de conciliar a
-rivalidade, tomando a si obter de um dos outros seguradores do pallio
-que cedesse a vara ao Padua, conhecido na parochia, como José Dias.
-Assim fez; mas José Dias transtornou ainda esta combinação. Não, uma
-vez que tinhamos outra vara disponivel, pedia-a para mim, «joven
-seminarista», a quem esta distincção cabia mais direitamente. Padua
-ficou pallido, como as tochas. Era pôr á prova o coração de um pae. O
-sacristão, que me conhecia de me ver alli com minha mãe, aos domingos,
-perguntou de curioso se eu era devéras seminarista.
-
---Ainda não, mas vae sel-o, respondeu José Dias piscando o olho
-esquerdo para mim, que, apesar do aviso, fiquei zangado.
-
---Bem, cedo ao nosso Bentinho, suspirou o pae de Capitú.
-
-Pela minha parte, quiz ceder-lhe a vara; lembrou-me que elle costumava
-acompanhar o Santissimo Sacramento aos moribundos, levando uma tocha,
-mas que a ultima vez conseguira uma vara do pallio. A distincção
-especial do pallio vinha de cobrir o vigario e o sacramento; para tocha
-qualquer pessoa servia. Foi elle mesmo que me contou e explicou isto,
-cheio de uma gloria pia e risonha. Assim fica entendido o alvoroço
-com que entrára na egreja; era a segunda vez do pallio, tanto que
-cuidou logo de ir pedil-o. E nada! E tornava á tocha commum, outra
-vez a interinidade interrompida; o administrador regressava ao antigo
-cargo... Quiz ceder-lhe a vara; o aggregado tolheu-me esse acto de
-generosidade, e pediu ao sacristão que nos puzesse, a elle e a mim, com
-as duas varas da frente, rompendo a marcha do pallio.
-
-Opas enfiadas, tochas distribuidas e accesas, padre e ciborio promptos,
-o sacristão de hyssope e campainha nos mãos, saiu o prestito á
-rua. Quando me vi com uma das varas, passando pelos fieis, que se
-ajoelhavam, fiquei commovido. Padua roía a tocha amargamente. É uma
-metaphora, não acho outra fórma mais viva de dizer a dôr e a humilhação
-do meu visinho. De resto, não pude miral-o por muito tempo, nem ao
-aggregado, que, parallelamente a mim, erguia a cabeça com o ar de ser
-elle proprio o Deus dos exercitos. Com pouco, senti-me cançado; os
-braços caíam-me, felizmente a casa era perto, na rua do Senado.
-
-A enferma era uma senhora viuva, tisica, tinha uma filha de quinze ou
-dezeseis annos, que estava chorando á porta do quarto. A moça não era
-formosa, talvez nem tivesse graça; os cabellos caíam despenteados, e
-as lagrimas faziam-lhe encarquilhar os olhos. Não obstante, o total
-falava e captivava o coração. O vigário confessou a doente, deu-lhe a
-communhão e os santos oleos. O pranto da moça redobrou tanto que senti
-os meus olhos molhados e fugi. Vim para porto de uma jannela. Pobre
-creatura! A dor era communicativa em si mesma; complicada da lembrança
-de minha mãe, doeu-me mais, e, quando emfim pensei em Capitú, senti um
-impeto de soluçar tambem, enfiei pelo corredor, e ouvi alguem dizer-me:
-
---Não chore assim!
-
-A imagem de Capitú ia commigo, e a minha imaginação, assim como lhe
-attribuira lagrimas, ha pouco, assim lhe encheu a bocca de riso agora;
-vi-a escrever no muro, falar-me, andar á volta, com os braços no ar;
-ouvi distinctamente o meu nome, de uma doçura que me embriagou, e a
-voz era della. As tochas accesas, tão lugubres na occasião, tinham-me
-ares de um lustre nupcial... Que era lustre nupcial? Não sei; era
-alguma cousa contraria á morte, e não vejo outra mais que bodas. Esta
-nova sensação me dominou tanto que José Dias veiu a mim, e me disse ao
-ouvido, em voz baixa:
-
---Não ria assim!
-
-Fiquei serio depressa. Era o momento da saida. Peguei da minha vara; e,
-como já conhecia a distancia, e agora voltavamos para a egreja, o que
-fazia a distancia menor,--o peso da vara era mui pequeno. Demais, o sol
-cá fora, a animação da rua, os rapazes da minha edade que me fitavam
-cheios de inveja, as devotas que chegavam ás janellas ou entravam nos
-corredores e se ajoelhavam á nossa passagem, tudo me enchia a alma de
-lepidez nova.
-
-Padua, ao contrario, ia mais humilhado. Apesar de substituido por mim,
-não acabava de se consolar da tocha, da miseravel tocha. E comtudo
-havia outros que tambem traziam tocha, e apenas mostravam a compostura
-do acto; não iam garridos, mas tambem não iam tristes. Via-se que
-caminhavam com honra.
-
-
-
-
-XXXI
-
-As curiosidades de Capitú.
-
-Capitú preferia tudo ao seminario. Em vez de ficar abatida com a
-ameaça da larga separação, se vingasse a ideia da Europa, mostrou-se
-satisfeita. E quando eu lhe contei o meu sonho imperial:
-
---Não, Bentinho, deixemos o imperador socegado, replicou; fiquemos por
-ora com a promessa de José Dias. Quando é que elle disse que falaria a
-sua mãe?
-
---Não marcou dia; prometteu que ia ver, que falaria logo que pudesse, e
-que me pegasse com Deus.
-
-Capitú quiz que lhe repetisse as respostas todas do aggregado, as
-alterações do gesto e até a pirueta, que apenas lhe contára. Pedia o
-som das palavras. Era minuciosa e attenta; a narração e o dialogo, tudo
-parecia remoer comsigo. Tambem se póde dizer que conferia, rotulava e
-pregava na memoria a minha exposição. Esta imagem é por ventura melhor
-que a outra, mas a optima dellas é nenhuma. Capitú era Capitú, isto é,
-uma creatura mui particular, mais mulher do que eu era homem. Se ainda
-o não disse, ahi fica. Se disse, fica tambem. Ha conceitos que se devem
-incutir na alma do leitor, á força de repetição.
-
-Era tambem mais curiosa. As curiosidades de Capitú dão para um
-capitulo. Eram de varia especie, explicaveis e inexplicaveis, assim
-uteis como inuteis, umas graves, outras frivolas; gostava de saber
-tudo. No collegio onde, desde os sete annos, apprendera a ler, escrever
-e contar, francez, doutrina e obras de agulha, não apprendeu, por
-exemplo, a fazer renda; por isso mesmo, quiz que prima Justtina lh'o
-ensinasse. Se não estudou latim com o padre Cabral foi porque o padre,
-depois de lh'o propôr gracejando, acabou dizendo que latim não era
-lingua de meninas. Capitú confessou-me um dia que esta razão accendeu
-nella o desejo de o saber. Em compensação, quiz apprender inglez com
-um velho professor amigo do pae e parceiro deste ao sólo, mas não foi
-adeante. Tio Cosme ensinou-lhe gamão.
-
---Anda apanhar um capotinho, Capitú, dizia-lhe elle.
-
-Capitú obedecia e jogava com facilidade, com attenção, não sei se diga
-com amor. Um dia fui achal-a desenhando a lapís um retraio; dava os
-ultimos rasgos, e pediu-me que esperasse para ver se estava parecido.
-Era o de meu pae, copiado da tela que minha mãe tinha na sala e que
-ainda agora está commigo. Perfeição não era; ao contrario, os olhos
-sairam esbogalhados, e os cabellos eram pequenos circulos uns sobre
-outros. Mas, não tendo ella rudimento algum de arte, e havendo feito
-aquillo de memoria em poucos minutos, achei que era obra de muito
-merecimento; descontai-me a edade e a sympathia. Ainda assim, estou
-que apprenderia facilmente pintura, como apprendeu musica mais tarde.
-Já então namorava o piano da nossa casa, velho traste inutil, apenas
-de estimação. Lia os nossos romances, folheava os nossos livros de
-gravuras, querendo saber das ruinas, das pessoas, das campanhas, o
-nome, a historia, o lograr. José Dias dava-lhe essas noticias com certo
-orgulho de erudito. A erudição deste não avultava muito mais que a sua
-homoepathia de Cantagallo.
-
-Um dia, Capitú quiz saber o que eram as figuras da sala de visitas. O
-aggregado disse-lho summariamente, demorando-se um pouco mais em Cesar,
-com exclamações e latins:
-
---Cesar! Julio Cesar! Grande homem! _Tu quoque, Brute?_
-
-Capitú não achava bonito o perfil de Cesar, mas as acções citadas por
-José Dias davam-lhe gestos de admiração. Ficou muito tempo com a cara
-virada para elle. Um homem que podia tudo! que fazia tudo! Um homem que
-dava a uma senhora uma perola do valor de seis milhões de sestercios!
-
---E quanto valia cada sestercio?
-
-José Dias, não tendo presente o valor do sestercio, respondeu
-enthusiasmado:
-
---É o maior homem da historia!
-
-A perola de Cesar accendia os olhos de Capitú. Foi nessa occasião
-que ella perguntou a minha mãe porque é que já não usava as joias do
-retrato; preferia-se ao que estava na sala, com o de meu pae; tinha um
-grande collar, um diadema e brincos.
-
---São joias viuvas, como eu, Capitú.
-
---Quando é que botou estas?
-
---Foi pelas festas da Coroação.
-
---Oh! conte-me as festas da Coroação!
-
-Sabia já o que os paes lhe haviam dito, mas naturalmente tinha para
-si que elles pouco mais conheceriam do que o que se passou nas ruas.
-Queria a noticia das tribunas da Capella Imperial e dos salões dos
-bailes. Nascera muito depois daquellas festas celebres. Ouvindo falar
-varias vezes da Maioridade, teimou um dia em saber o que fora este
-acontecimento; disseram-lh'o, e achou que o imperador fizera muito
-bem em querer subir ao throno aos quinze annos. Tudo era materia ás
-curiosidades de Capitú, mobilias antigas, alfaias velhas, costumes,
-noticias de Itaguahy, a infancia e a mocidade de minha mãe, um dito
-daqui, uma lembrança dalli, um adagio d'acolá...
-
-
-
-
-XXXII
-
-Olhos de ressaca.
-
-Tudo era materia ás curiosidades de Capitú. Caso houve, porém, no qual
-não sei se apprendeu ou ensinou, ou se fez ambas as cousas, como eu. É
-o que contarei no outro capitulo. N'este direi sómente que, passados
-alguns dias do ajuste com o aggregado, fui ver a minha amiga; eram dez
-horas da manhã. D. Fortunata, que estava no quintal, nem esperou que eu
-lhe perguntasse pela filha.
-
---Está na sala penteando o cabello, disse-me; vá devagarzinho para lhe
-pregar um susto.
-
-Fui devagar, mas ou o pé ou o espelho traiu-me. Este póde ser que não
-fosse; era um espelhinho de pataca (perdoai a barateza), comprado a
-um mascate italiano, moldura tosca, argolinha de latão, pendente da
-parede, entre as duas janellas. Se não foi elle, foi o pé. Um ou outro,
-a verdade é que, apenas entrei na sala, pente, cabellos, toda ella
-voou pelos ares, e só lhe ouvi esta pergunta:
-
---Ha alguma cousa?
-
---Não ha nada, respondi; vim ver você antes que o padre Cabral chegue
-para a licção. Como passou a noite?
-
---Eu bem. José Dias ainda não falou?
-
---Parece que não.
-
---Mas então quando fala?
-
---Disse-me que hoje ou amanhã pretende tocar no assumpto; não vae
-logo de pancada, falará assim por alto e por longe, um toque. Depois,
-entrará em materia. Quer primeiro ver se mamãe tem a resolução feita...
-
---Que tem, tem, interrompeu Capitú. E se não fosse preciso alguem para
-vencer já, e de todo, não se lhe falaria. Eu já nem sei se José Dias
-poderá influir tanto; acho que fará tudo, se sentir que você realmente
-não quer ser padre, mas poderá alcançar...? Elle é attendido; se,
-porém... É um inferno isto! Você teime com elle, Bentinho.
-
---Teimo; hoje mesmo elle ha de falar.
-
---Você jura?
-
---Juro! Deixe ver os olhos, Capitú.
-
-Tinha-me lembrado a definição que José dera delles, «olhos de cigana
-obliqua e dissimulada.» Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada
-sabia, e queria ver se se podiam chamar assim. Capitú deixou-se fitar e
-examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada achei
-extraordinário; a côr e a doçura eram minhas lhe deu outra ideia
-do meu intento; imaginou que era um pretexto para miral-os mais de
-perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados nelles, e á isto
-attribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal
-expressão que...
-
-Rhetorica dos namorados, dá-me uma comparação exacta e poetica para
-dizer o que foram aquelles olhos de Capitú. Não me acode imagem capaz
-de dizer, sem quebra da dignidade do estylo, o que elles foram e me
-fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquella
-feição nova. Traziam não sei que fluido mysterioso e energico, uma
-força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia,
-nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me ás outras
-partes visinhas, ás orelhas, aos braços, aos cabellos espalhados pelos
-hombros; mas tão depressa buscava as pupillas, a onda que saía dellas
-vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e
-tragar-me. Quantos minutos gastámos naquelle jogo? Só os relogios do
-ceu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas
-pendulas nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das
-felicidades e dos supplicios. Ha de dobrar o gozo aos bemaventurados
-do ceu conhecer a somma dos tormentos que já terão padecido no inferno
-os seus inimigos; assim tambem a quantidade das delicias que terão
-gozado no ceu os seus desaffectos augmentará as dores aos condemnados
-do inferno. Este outro supplicio escapou ao divino Dante; mas eu não
-estou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um
-tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabellos de Capitú,
-mas então com as mãos, e disse-lhe,--para dizer alguma cousa,--que era
-capaz de os pentear, se quizesse.
-
---Você?
-
---Eu mesmo.
-
---Vae embaraçar-me o cabello todo, isso, sim.
-
---Se embaraçar, você desembaraça depois.
-
---Vamos ver.
-
-
-
-
-XXXIII
-
-O penteado.
-
-Capitú deu-me as costas, voltando-se para o espelhinho. Peguei-lhe dos
-cabellos, colhi-os todos e entrei a alisal-os com o pente, desde a
-testa até ás ultimas pontas, que lhe desciam á cintura. Em pé não dava
-geito: não esquecestes que ella era um nadinha mais alta que eu, mas
-ainda que fosse da mesma altura. Pedi-lhe que se sentasse.
-
---Senta aqui, é melhor.
-
-Sentou-se. «Vamos ver o grande cabelleireiro», disse-me rindo.
-Continuei a alisar os cabellos, com muito cuidado, e dividi-os em duas
-porções eguaes, para compor as duas trancas. Não as fiz logo, nem assim
-depressa, como podem suppôr os cabelleireiros de officio, mas devagar,
-devagarinho, saboreando pelo tacto aquelles fios grossos, que eram
-parte della. O trabalho era atrapálhado, ás vezes por desaso, outras
-de proposito, para desfazer o feito e refazel-o. Os dedos roçavam na
-nuca da pequena ou nas espaduas vestidas de chita, e a sensação era
-um deleite. Mas, emfim, os cabellos iam acabando, por mais que eu os
-quizesse interminaveis. Não pedi ao ceu que elles fossem tão longos
-como os da Aurora, porque não conhecia ainda esta divindade que os
-velhos poetas me apresentaram depois; mas, desejei penteal-os por
-todos os seculos dos seculos, tecer duas tranças que pudessem envolver
-o infinito por um numero innominavel de vezes. Se isto vos parecer
-emphatico, desgraçado leitor, é que nunca penteastes uma pequena, nunca
-puzestes aos mãos adolescentes na joven cabeça de uma nympha... Uma
-nympha! Todo eu estou mythologico. Ainda ha pouco, falando dos seus
-olhos de ressaca, cheguei a escrever Thetis; risquei Thetis, risquemos
-nympha; digamos somente uma creatura amada, palavra que envolve todas
-as potencias christãs e pagãs. Emfim, acabei as duas tranças. Onde
-estava a fita para atar-lhes as pontas? Em cima da mesa, um triste
-pedaço de fita enxovalhada. Juntei as pontas das tranças, uni-as por um
-laço, retoquei a obra, alargando aqui, achatando alli, até que exclamei:
-
---Prompto!
-
---Estará bom?
-
---Veja no espelho.
-
-Em vez de ir ao espelho, que pensaes que fez Capitú? Não vos esqueçaes
-quo estava sentada, de costas para mim. Capitú derreou a cabeça, a tal
-ponto que me foi preciso acudir com as mãos e amparal-a; o espaldar
-da cadeira era baixo. Inclinei-me depois sobre ella, rosto a rosto,
-mas trocados, os olhos de um na linha da bocca do outro. Pedi-lhe que
-levantasse a cabeça, podia ficar tonta, machucar o pescoço. Cheguei a
-dizer-lhe que estava feia; mas nem esta razão a moveu.
-
---Levanta, Capitú!
-
-Não quiz, não levantou a cabeça, e ficámos assim a olhar um para o
-outro, até que ella abrochou os labios, eu desci os meus, e...
-
-Grande foi a sensação do beijo; Capitú ergueu-se, rapida, eu recuei
-até á parede com uma especie de vertigem, sem fala, os olhos escuros.
-Quando elles me clarearam, vi que Capitú tinha os seus no chão. Não
-me atrevi a dizer nada; ainda que quizesse, faltava-me lingua. Preso,
-atordoado, não achava gesto nem impeto que me descolasse da parede e me
-atirasse a ella com mil palavras callidas e mimosas... Não mofes dos
-meus quinze annos, leitor precoce. Com dezesete, Des Grieux (e mais era
-Des Grieux) não pensava ainda na differença dos sexos.
-
-
-
-
-XXXIV
-
-Sou homem!
-
-Ouvimos passos no corredor; era D. Fortunata. Capitú compoz-se
-depressa, tão depressa que, quando a mãe apontou á porta, ella
-abanava a cabeça e ria. Nenhum laivo amarello. nenhuma contracção de
-acanhamento, um riso espontaneo e claro, que ella explicou por estas
-palavras alegres:
-
---Mamãe, olhe como este senhor cabelleireiro me penteou; pediu-me para
-acabar o penteado, e fez isto. Veja que tranças!
-
---Que tem? acudiu a mãe, transbordando de benevolencia. Está muito bem,
-ninguem dirá que é de pessoa que não sabe pentear.
-
---O que, mamãe? Isto? redarguiu Capitú desfazendo as tranças. Ora,
-mamãe!
-
-E com um enfadamento gracioso e voluntario que ás vezes tinha, pegou
-do pente e alisou os cabellos para renovar o penteado. D. Fortunata
-chamou-lhe tonta, e disse-me que não fizesse caso, não era nada,
-maluquices da filha. Olhava com ternura para mim e para ella. Depois,
-parece-me que desconfiou. Vendo-me calado, enfiado, cosido á parede,
-achou talvez que houvera entre nós algo mais que penteado, e sorriu por
-dissimulação...
-
-Como eu quizesse falar tambem para disfarçar o meu estado, chamei
-algumas palavras cá de dentro, e ellas acudiram de prompto, mas de
-atropello, e encheram-me a bocca sem poder sair nenhuma. O beijo de
-Capitú fechava-me os labios. Uma exclamação, um simples artigo, por
-mais que investissem com força, não logravam romper de dentro. E todas
-as palavras recolheram-se ao coração, murmurando: «Eis aqui um que não
-fará grande carreira no mundo, por menos que as emoções o dominem...»
-
-Assim, apanhados pela mãe, éramos dous e contrarios, ella encobrindo
-com a palavra o que eu publicava pelo silencio. D. Fortunata tirou-me
-daquella hesitação, dizendo que minha mãe me mandára chamar para a
-licção de latim; o padre Cabral estava á minha espera. Era uma saida;
-despedi-me e enfiei pelo corredor. Andando, ouvi que a mãe censurava as
-maneiras da filha, mas a filha não dizia nada.
-
-Corri ao meu quarto, peguei dos livros, mas não passei a sala da
-licção; sentei-me na cama, recordando o penteado e o resto. Tinha
-estremeções, linha uns esquecimentos em que perdia a consciencia de
-mim e das cousas que me rodeavam, para viver não sei onde nem como.
-E tornava a mim, e via a cama, as paredes, os livros, o chão, ouvia
-algum som de fóra, vago, proximo ou remoto, e logo perdia tudo para
-sentir sómente os beiços de Capitú... Sentia-os estirados, embaixo dos
-meus, egualmente esticados para os della, e unindo-se uns aos outros.
-De repente, sem querer, sem pensar, saiu-me da boca esta palavra de
-orgulho:
-
---Sou homem!
-
-Suppuz que me tivessem ouvido, porque a palavra saiu em voz alta, e
-corri á porta da alcova. Não havia ninguem fóra. Voltei para dentro,
-e, baixinho, repeti que era homem. Ainda agora tenho o éco aos meus
-ouvidos. O gosto que isto me deu foi enorme. Colombo não o teve maior,
-descobrindo a America, e perdoai a banalidade em favor do cabimento;
-com effeito, ha em cada adolescente um mundo encoberto, um almirante e
-um sol de Outubro. Fiz outros achados mais tarde; nenhum me deslumbrou
-tanto. A denuncia de José Dias alvoroçara-me, a licção do velho
-coqueiro tambem, a vista dos nossos nomes abertos por ella no muro do
-quintal deu-me grande abalo, como vistes; nada disso valeu a sensação
-do beijo. Podiam ser mentira ou illusão. Sendo verdade, eram os ossos
-da verdade, não eram a carne e o sangue della. As proprias mãos
-tocadas, apertadas, como que fundidas, não podiam dizer tudo.
-
---Sou homem!
-
-Quando repeti isto, pela terceira vez, pensei no seminario, mas como
-se pensa em perigo que passou, um mal abortado, um pesadelo extincto;
-todos os meus nervos me disseram que homens não são padres. O sangue
-era da mesma opinião. Outra vez senti os beiços de Capitú. Talvez abuso
-um pouco das reminiscencias osculares; mas a saudade é isto mesmo; é o
-passar e repassar das memorias antigas. Ora, de todas as daquelle tempo
-creio que a mais doce é esta, a mais nova, a mais comprehensiva, a que
-inteiramente me revelou a mim mesmo. Outras tenho, vastas e numerosas,
-doces tambem, de varia especie, muitas intellectuaes, egualmente
-intensas. Grande homem que fosse, a recordação era menor que esta.
-
-
-
-
-XXXV
-
-O protonotario apostolico.
-
-Enfim, peguei dos livros e corri á licção. Não corri precisamente; a
-meio caminho parei, advertindo que devia ser muito tarde, e podiam
-ler-me no semblante alguma cousa. Tive ideia de mentir, allegar uma
-vertigem que me houvesse deitado ao chão; mas o susto que causaria
-a minha mãe fez-me rejeital-a. Pensei em prometter algumas dezenas
-de padre-nossos; tinha, porém, outra promessa em aberto e outro
-favor pendente... Não, vamos ver; fui andando, ouvi vozes alegres,
-conversavam cuidadosamente. Quando entrei na sala, ninguem ralhou
-commigo.
-
-O padre Cabral recebera na vespera um recado do internuncio; foi
-ter com elle, e soube que, por decreto pontificio, acabava de ser
-nomeado protonotario apostolico. Esta distincção do papa dera-lhe
-grande contentamento e a todos os nossos. Tio Cosme e prima Justina
-repetiam o titulo com admiração; era a primeira vez que elle soava aos
-nossos ouvidos, acostumados a conegos, monsenhores, bispos, nuncios,
-e internuncios; mas que era protonotario apostolico? O padre Cabral
-explicou que não era propriamente o cargo da curia, mas as honras
-delle. Tio Cosme viu exalçar-se no parceiro de voltarete, e repetia:
-
---Protonotario apostolico!
-
-E voltando-se para mim:
-
---Prepara-te, Bentinho; tu pódes vir a ser protonotario apostolico.
-
-Cabral ouvia com gosto a repetição do titulo. Estava em pé, dava alguns
-passos, sorria ou tamborilava na tampa da boceta. O tamanho do titulo
-como que lhe dobrava a magnificencia, posto que, para ligal-o ao nome,
-era demasiado comprido; esta segunda reflexão foi tio Cosme que a fez.
-Padre Cabral acudiu que não era preciso dizel-o todo, bastava que lhe
-chamassem o protonotario Cabral. Subentendia-se apostolico.
-
---Protonotario Cabral.
-
---Sim, tem razão; protonotario Cabral.
-
---Mas, Sr. protonotario,--acudiu prima Justina para se ir acostumando
-ao uso do titulo,--isto o obriga a ir a Roma?
-
---Não, D. Justina.
-
---Não, são só as honras, observou minha mãe.
-
---Agora, não impede,--disse Cabral, que continuava a reflectir,--não
-impede que nos casos de maior formalidade, actos publicos, cartas
-de cerimonia, etc., se empregue o titulo inteiro: protonotario
-apostolico. No uso commum, basta protonotario.
-
---Justamente, assentiram todos.
-
-José Dias, que entrou pouco depois de mim, applaudiu a distincção, e
-recordou, a proposito, os primeiros actos politicos de Pio IX, grandes
-esperanças da Italia; mas ninguem pegou do assumpto; o principal da
-hora e do logar era o meu velho mestre de latim. Eu, voltando a mim
-do receio, entendi que devia comprimental-o tambem, e este applauso
-não lhe foi menos ao coração que os outros. Bateu-me na bochecha
-paternalmente, e acabou dando-me férias. Era muita felicidade para uma
-só hora. Um beijo e férias! Creio que o meu rosto disse isto mesmo,
-porque tio Cosme, sacudindo a barriga, chamou-me peralta; mas José Dias
-corrigiu a alegria:
-
---Não tem que festejar a vadiação; o latim sempre lhe ha de ser
-preciso, _ainda que não venha a ser padre._
-
-Conheci aqui o meu homem. Era a primeira palavra, a semente lançada á
-terra, assim de passagem, como para acostumar os ouvidos da familia.
-Minha mãe sorriu para mim, cheia de amor e de tristeza, mas respondeu
-logo:
-
---Ha de ser padre, e padre bonito.
-
---Não esqueça, mana Gloria, e protonotario tambem. Protonotario
-apostolico.
-
---O protonotario Santiago, accentuou Cabral.
-
-Se a intenção tio meu mestre de latim era ir acostumando ao uso do
-titulo com o nome, não sei bem; o que sei é que quando ouvi o meu
-nome ligado a tal titulo, deu-me vontade de dizer um desaforo. Mas a
-vontade aqui foi antes uma ideia, uma ideia sem lingua, que se deixou
-ficar quieta e muda, tal como d'ahi a pouco outras ideias... Mas
-essas pedem um capitulo especial. Rematemos este dizendo que o mestre
-de latim falou algum tempo da minha ordenação ecclesiastica, ainda
-que sem grande interesse. Elle buscava um assumpto alheio para se
-mostrar esquecido da propria gloria, mas era esta que o deslumbrava na
-occasião. Era um velho magro, sereno, dotado de qualidades boas. Alguns
-defeitos tinha; o mais excelso delles era ser guloso, não propriamente
-glotão; comia pouco, mas estimava o fino e o raro, e a nossa cosinha,
-se era simples, era menos pobre que a delle. Assim, quando minha mãe
-lhe disse que viesse jantar, afim de se lhe fazer uma saude, os olhos
-com que acceitou seriam de protonotario, mas não eram aposlolicos. E
-para agradar a minha mãe novamente pegou em mim, descrevendo o meu
-futuro ecclesiastico, e queria saber se ia para o seminario agora, no
-anuo proximo, e offerecia-se a falar ao «senhor bispo», tudo marchetado
-do «protonotario Santiago.»
-
-
-
-
-XXXVI
-
-Ideia sem pernas e ideia sem braços.
-
-Deixei-os, a pretexto de brincar, e fui-me outra vez a pensar na
-aventura da manhã. Era o que melhor podia fazer, sem latim, e até com
-latim. Ao cabo de cinco minutos, lembrou-me ir correndo á casa visinha,
-agarrar Capitú, desfazer-lhe as tranças, refazel-as e concluil-as
-daquella maneira particular, bocca sobre bocca. É isto, vamos, é
-isto... Ideia só! ideia sem pernas! As outras pernas não queriam correr
-nem andar. Muito depois é que sairam vagarosamente e levaram-me á
-casa de Capitú. Quando alli cheguei, dei com ella na sala, na mesma
-sala, sentada na marqueza, almofada no regaço, cosendo em paz. Não me
-olhou de rosto, mas a furto e a medo, ou, se preferes a phraseologia
-do aggregado, obliqua e dissimulada. As mãos pararam, depois de
-encravada a agulha no panno. Eu, do lado opposto da mesa, não sabia que
-fizesse; e outra vez me fugiram as palavras que trazia. Assim gastámos
-alguns minutos compridos, até que ella deixou inteiramente a costura,
-ergueu-se e esperou-me. Fui ter com ella, e perguntei se a mãe havia
-dito alguma cousa; respondeu-me que não. A bocca com que respondeu era
-tal que cuido haver-me provocado um gesto de approximação. Certo é que
-Capitú recuou um pouco.
-
-Era occasião de pegal-a, puxal-a e beijal-a... Ideia só ideia sem
-braços! Os meus ficaram caidos e mortos. Não conhecia nada da
-Escriptura. Se conhecesse, é provavel que o espirito de Satanaz me
-fizesse dar a lingua mystica do _Cantico_ um sentido directo e natural.
-Então obedeceria ao primeiro versiculo; «Applique elle os labios,
-dando-me o osculo da sua bocca.» E pelo que respeita aos braços, que
-tinha inertes, bastaria cumprir o vers. 6.o do cap. II:
-«A sua mão esquerda se pôz já debaixo da minha cabeça, e a sua mão
-direita me abraçará depois.» Vedes ahi a chronologia dos gestos. Era só
-executal-a; mas ainda que eu conhecesse o texto, as attitudes de Capitú
-eram agora tão retrahidas, que não sei se não continuaria parado, foi
-ella entretanto, que me tirou daquella situação.
-
-
-
-
-XXXVII
-
-A alma é cheia de mysterios.
-
-Padre Cabral eslava esperando ha muito tempo?
-
---Hoje não dei licção; tive férias.
-
-Expliquei-lhe o motivo das férias. Contei-lhe tambem que o padre Cabral
-falara da minha entrada no seminario, apoiando a resolução de minha
-mãe, e disse delle cousas feias e duras. Capitú reflectiu algum tempo,
-e acabou perguntando-me se podia ir comprimentar o padre, á tarde, em
-minha casa.
-
---Póde, mas para que?
-
-Papae naturalmente ha de querer ir tambem, mas é melhor que elle vá á
-casa do padre; é mais bonito. Eu não, que já sou meia moça, concluiu
-rindo.
-
-O riso animou-me. As palavras pareciam ser uma troça comsigo mesma, uma
-vez que, desde manhã, era mulher, como eu era homem. Achei-lhe graça,
-e, para dizer tudo, quiz provar-lhe que era moça inteira. Peguei-lhe
-levemente na mão direita, depois na esquerda, e fiquei assim pasmado e
-tremulo. Era a ideia com mãos. Quiz puxar as de Capitú, para obrigal-a
-a vir atraz dellas, mas ainda agora a acção não respondeu á intenção.
-Comtudo, achei-me forte e atrevido. Não imitava ninguem; não vivia com
-rapazes, que me ensinassem anecdotas de amor. Não conhecia a violação
-de Lucrecia. Dos romanos apenas sabia que falavam pela artinha do
-padre Pereira e eram patricios de Poncio Pilatos. Não nego que o final
-do penteado da manhã era um grande passo no caminho da movimentação
-amorosa, mas o gesto de então foi justamente o contrario deste. De
-manhã, ella derreou a cabeça, agora fugia-me; nem é só nisso que os
-lances differiam; em outro ponto, parecendo haver repetição, houve
-contraste.
-
-Penso que ameacei puxal-a a mim. Não juro, começava a estar tão
-alvoroçado, que não pude ter toda a consciência dos meus actos; mas
-concluo que sim, porque ella recuou e quiz tirar as mãos das minhas;
-depois, talvez por não poder recuar mais, collocou um dos pés adeante
-e o outro atraz, e fugiu com o busto. Foi este gesto que me obrigou
-a reter-lhe as mãos com força. O busto afinal cançou e cedeu, mas a
-cabeça não quiz ceder tambem, e, caida para traz, inutilisava lodos
-os meus esforços, porque eu já fazia esforços, leitor amigo. Não
-conhecendo a licção do _Cantico_, não me acudiu estender a mão esquerda
-por baixo do cabeça della; demais, este gesto suppõe um accordo de
-vontades, e Capitú, que me resistia agora, aproveitaria o gesto para
-arrancar-se á outra mão e fugir-me inteiramente. Ficámos naquelle luta,
-sem estrepito, porque apesar do ataque e da defesa, não perdiamos a
-cautela necessaria para não sermos ouvidos lá de dentro; a alma é cheia
-de mysterios. Agora sei que a puxava; a cabeça continuou a recuar, até
-que cançou; mas então foi a vez da bocca. A bocca de Capitú iniciou um
-movimento inverso, relativamente á minha, indo para um lado, quando
-eu a buscava do lado opposto. Naquelle desencontro estivemos, sem que
-ousasse um pouco mais, e bastaria um pouco mais...
-
-Nisto ouvimos bater á porta e falar no corredor. Era o pae de Capitú,
-que voltava da repartição um pouco mais cedo, como usava ás vezes.
-«Abre, Nanata! Capitú, abre!» Apparentemente era o mesmo lance da
-manhã, quando a mãe deu comnosco, mas só apparentemente; em verdade,
-era outro. Considerai que de manhã tudo estava acabado, e o passo de D.
-Fortunata foi um aviso para que nos compuzessemos. Agora lutavamos com
-as mãos presas, e nada estava sequer começado.
-
-Ouvimos o ferrolho da porta que dava para o corredor interno; era a mãe
-que abria. Eu, uma vez que confesso tudo, digo aqui que não tive tempo
-de soltar as mãos da minha amiga; pensei nisso, cheguei a tental-o, mas
-Capitú, antes que o pae acabasse de entrar, fez um gesto inesperado,
-pousou a bocca na minha bocca, e deu de vontade o que estava a recusar
-á força. Repito, a alma é cheia de mysterios.
-
-
-
-
-XXXVIII
-
-Que susto, meu Deus!
-
-Quando Padua, vindo pelo interior, entrou na sala de visitas,
-Capitú, em pé, de costas para mim, inclinada sobre a costura, como a
-recolhel-a, perguntava em voz alta:
-
---Mas, Bentinho, que ó protonotario apostolico?
-
---Ora, vivam! exclamou o pae.
-
---Que susto, meu Deus!
-
-Agora é que o lance é o mesmo; mas se conto aqui, taes quaes, os
-dous lances de ha quarenta annos, é para mostrar que Capitú não se
-dominava só em presença da mãe; o pae não lhe metteu mais medo. No
-meio de uma situação que me atava a lingua, usava da palavra com a
-maior ingenuidade deste mundo. A minha persuasão é que o coração não
-lhe batia mais mais nem menos. Allegou susto, e deu á cara um ar meio
-enfiado; mas eu, que sabia tudo, vi que era mentira e fiquei com
-inveja. Foi logo falar ao pae, que apertou a minha mão, e quiz saber
-porque a filha falava em protonotario apostolico. Capitú repeliu-lhe
-o que ouvira de mim, e opinou logo que o pae devia ir comprimentar o
-padre em casa delle; ella iria á minha. E colligindo os petrechos da
-costura, enfiou pelo corredor, bradando infantilmente:
-
---Mamãe, jantar, papae chegou!
-
-
-
-
-XXXIX
-
-A vocação.
-
-Padre Cabral estava naquella primeira hora das honras em que as
-minimas congratulações valem por odes. Tempo chega em que os
-dignificados recebem os louvores como um tributo usual, cara morta,
-sem agradecimentos. O alvoroço da primeira hora é melhor; esse estado
-da alma que vê na inclinação do arbusto, tocado do vento, um parabém
-da flora universal, traz sensações mais intimas e finas que qualquer
-outro. Cabral ouviu as palavras de Capitú com infinito prazer.
-
---Obrigado, Capitú, muito obrigado; estimo que você goste tambem. Papae
-está bom? E mamãe? A voce não se pergunta; essa cara é mesmo de quem
-vende saude. E como vamos de rezas?
-
-A todas as perguntas, Capitú ia respondendo promptamente e bem.
-Trazia um vestidinho melhor e os sapatos de sair. Não entrou com a
-familiaridade do costume, deteve-se um instante á porta da sala, antes
-de ir beijar a mão a minha mãe e ao padre. Como désse a este, duas
-vezes em cinco minutos, o titulo de protonotario, José Dias, para se
-desforrar da concurrencia, fez um pequeno discurso em honra «ao coração
-paternal e augustissimo de Pio IX.»
-
---Você é um grande _prosa_, disse tio Cosme, quando elle acabou.
-
-José Dias sorriu sem vexame. Padre Cabral confirmou os louvores do
-aggregado, sem os seus superlativos; ao que este accrescentou que
-o cardeal Mastai evidentemente fôra talhado para a tiára desde o
-principio dos tempos. E, piscando-me o olho, concluiu:
-
---A vocação é tudo. O estado ecclesiastico é perfeitissimo, comtanto
-que o sacerdote venha já destinado do berço. Não havendo vocação, falo
-de vocação sincera e real, um joven póde muito bem estudar as lettras
-humanas, que tambem são uteis e honradas.
-
-Padre Cabral retorquia:
-
---A vocação é muito, mas o poder de Deus é soberano. Um homem póde não
-ter gosto á egreja e até perseguil-a, e um dia a voz de Deus lhe fala,
-e elle sae apostolo; veja S. Paulo.
-
---Não contesto, mas o que eu digo é outra cousa. O que eu digo é que se
-póde muito bem servir a Deus sem ser padre, cá fóra; póde-se ou não se
-póde?
-
---Póde-se.
-
---Pois então! exclamou José Dias triumphalmente, olhando em volta de
-si. Sem vocação é que não ha bom padre, e em qualquer profissão liberal
-se serve a Deus, como todos devemos.
-
---Perfeitamente, mas vocação não é só do berço que se traz.
-
---Homem, é a melhor.
-
---Um moço sem gosto nenhum á vida ecclesiastica póde acabar por ser
-muito bom padre; tudo é que Deus o determine. Não me quero dar por
-modelo, mas aqui estou eu que nasci com a vocação da medicina; meu
-padrinho, que era coadjutor de Santa Rita, teimou com meu pae para que
-me mettesse no seminario; meu pae cedeu. Pois, senhor, tomei tal gosto
-aos estudos e á companhia dos padres, que acabei ordenando-me. Mas,
-supponha que não acontecia assim, e que eu não mudava de vocação, o que
-é que acontecia? Tinha estudado no seminario algumas materias que é bom
-saber, e são sempre melhor ensinadas naquellas casas.
-
-Prima Justina interveiu:
-
---Como? Então póde-se entrar para o seminario e não sair padre?
-
-Padre Cabral respondeu que sim, que se podia, e, voltando-se para
-mim, falou da minha vocação, que era manifesta; os meus brinquedos
-foram sempre de egreja, e eu adorava os officios divinos. A prova
-não provava; todas as creanças do meu tempo eram devotas. Cabral
-accrescentou que o reitor de S. José, a quem contara ultimamente a
-promessa de minha mãe, tinha o meu nascimento por milagre; elle era
-da mesma opinião. Capitú, cosida ás saias de minha mãe, não attendia
-aos olhos anciosos que eu lhe mandava; tambem não parecia escutar a
-conversação sobre o seminario e suas consequencias, e, aliás, decorou o
-principal, como vim a saber depois. Duas vezes fui á janella, esperando
-que ella fosse tambem, e ficassemos á vontade, sósinhos, até acabar o
-mundo, se acabasse, mas Capitú não me appareceu. Não deixou minha mãe,
-senão para ir embora. Eram ave-marias, despediu-se.
-
---Vae com ella, Bentinho, disse minha mãe.
-
---Não precisa, não, D. Gloria, acudiu ella rindo, eu sei o caminho.
-Adeus, Sr. protonotario...
-
---Adeus, Capitú.
-
-Tendo dado um passo no sentido de atravessar a sala, é claro que o
-meu dever, o meu gosto, todos os impulsos da edade e da occasião
-eram atravessal-a de todo, seguir a visinha corredor fóra, descer á
-chacara, entrar no quintal, dar-lhe terceiro beijo, e despedir-me. Não
-me importou a recusa, que cuidei simulada, e enfiei pelo corredor;
-mas, Capitú que ia depressa, estacou e fez-me signal que voltasse. Não
-obedeci; cheguei-me a ella.
-
---Não venha, não; amanhã falaremos.
-
---Mas eu queria dizer a você...
-
---Amanhã.
-
---Escuta!
-
---Fica!
-
-Falava baixinho; pegou-me na mão, e poz o dedo na bocca. Uma preta,
-que veiu de dentro accender o lampião do corredor, vendo-nos naquella
-attitude, quasi ás escuras, riu de sympathia e murmurou em tom que
-ouvissemos alguma cousa que não entendí bem nem mal. Capitú segredou-me
-que a escrava desconfiara, e ia talvez contar ás outras. Novamente me
-intimou que ficasse, e retirou-se; eu deixei-me estar parado, pregado,
-agarrado ao chão.
-
-
-
-
-XL
-
-Uma egua.
-
-Ficando só, reflecti algum tempo, e tive uma fantasia. Já conheceis as
-minhas fantasias. Contei-vos a da visita imperial; disse-vos a desta
-casa do Engenho Novo, reproduzindo a de Matacavallos... A imaginação
-foi a companheira de toda a minha existencia, viva, rapida, inquieta,
-alguma vez timida e amiga de empacar, as mais dellas capaz de engolir
-campanhas e campanhas, correndo. Creio haver lido em Tacito que as
-eguas iberas concebiam pelo vento; se não foi nelle, foi n'outro autor
-antigo, que entendeu guardar essa crendice nos seus livros. Neste
-particular, a minha imaginação era uma grande egua ibera; a menor brisa
-lhe dava um potro, que saía logo cavallo de Alexandre; mas deixemos
-metaphoras atrevidas e improprias dos meus quinze annos. Digamos o
-caso simplesmente. A fantasia daquella hora foi confessar a minha mãe
-os meus amores para lhe dizer que não tinha vocação ecclesiastica. A
-conversa sobre vocação tornava-me agora toda inteira, e, ao passo que
-me assustava, abria-me uma porta de saida. «Sim, é isto, pensei; vou
-dizer a mamãe que não tenho vocação e confesso o nosso namoro; se ella
-duvidar, conto-lhe o que se passou outro dia, o penteado e o resto... »
-
-
-
-
-XLI
-
-A audiencia secreta.
-
-O resto fez-me ficar mais algum tempo, no corredor, pensando. Vi entrar
-o doutor João da Costa, e preparou-se logo o voltarete do costume.
-Minha mãe saiu da sala, e, dando commigo, perguntou se acompanhara
-Capitú.
-
---Não, senhora, ella foi só.
-
-E quasi investindo para ella:
-
---Mamãe, eu queria dizer-lhe uma cousa.
-
---Que é?
-
-Toda assustada, quiz saber o que é que me doia, se a cabeça, se o
-peito, se o estomago, e apalpava-me a testa para ver se tinha febre.
-
---Não tenho nada, não, senhora.
-
---Mas então que é?
-
---É uma cousa, mamãe... Mas, escute, olhe, é melhor depois do chá;
-logo... Não é nada mau; mamãe assusta-se por tudo; não é cousa de
-cuidado.
-
---Não é molestia?
-
---Não, senhora.
-
---É, isso é volta de constipação. Disfarças para não tomar suadouro,
-mas tu estás constipado; conhece-se pela voz.
-
-Tentei rir, para mostrar que não tinha nada. Nem por isso permittiu
-adiar a confidencia, pegou em mim, levou-me ao quarto della, accendeu
-vela, e ordenou-me que lhe dissesse tudo. Então eu perguntei-lhe, para
-principiar, quando é que ia para o seminario.
-
---Agora só para o anno, depois das férias.
-
---Vou... para ficar?
-
---Como ficar?
-
---Não volto para casa?
-
---Voltas aos sabbados e pelas férias; é melhor. Quando te ordenares
-padre, vens morar commigo.
-
-Enxuguei os olhos e o nariz. Ella afagou-me, depois quiz
-reprehender-me, mas creio que a voz lhe tremia, e pareceu-me que tinha
-os olhos humidos. Disse-lhe que tambem sentia a nossa separação. Negou
-que fosse separação; era só alguma ausencia, por causa dos estudos; só
-os primeiros dias. Em pouco tempo eu me acostumaria aos companheiros e
-aos mestres, e acabaria gostando de viver com elles.
-
---Eu só gosto de mamãe.
-
-Não houve calculo nesta palavra, mas estimei dizel-a, por fazer crer
-que ella era a minha unica affeição; desviava as suspeitas de cima
-de Capitú. Quantas intenções viciosas ha assim que embarcam, a meio
-caminho, n'uma phrase innocente e pura! Chega a fazer suspeitar que a
-mentira é, muita vez, tão involuntaria como a transpiração. Por outro
-lado, leitor amigo, nota que eu queria desviar as suspeitas de cima de
-Capitú, quando havia chamado minha mãe justamente para confirmal-as;
-mas as contradicções são deste mundo. A verdade é que minha mãe era
-candida como a primeira aurora, anterior ao primeiro peccado; nem
-por simples intuição era capaz de deduzir uma cousa de outra, isto
-é, não concluiria da minha repentina opposição que eu andasse em
-segredinhos com Capitú, como lhe dissera José Dias. Calou-se durante
-alguns instantes; depois replicou-me sem imposição nem autoridade, o
-que me veiu animando á resistencia. Dahi o falar-lhe na vocação que se
-discutira naquella tarde, e que eu confessei não sentir em mim.
-
---Mas tu gostavas tanto de ser padre, disse ella; não te lembras que
-até pedias para ir ver sair os seminaristas de S. José, com as suas
-batinas? Em casa, quando José Dias te chamava Reverendissimo, tu rias
-com tanto gosto! Como é que agora...? Não creio, não, Bentinho. E
-depois... Vocação? Mas a vocação vem com o costume, continuou repetindo
-as reflexões que ouvira ao meu professor de latim.
-
-Como eu buscasse contestal-a, reprehendeu-me sem aspereza, mas com
-alguma força, e eu tornei ao filho submisso que era. Depois, ainda
-falou gravemente e longamente sobre a promessa que fizera; não me disse
-as circumstancias, nem a occasião, nem os motivos della, cousas que só
-vim a saber mais tarde. Affirmou o principal, isto é, que a havia do
-cumprir, em pagamento a Deus.
-
---Nosso Senhor me acudiu, salvando a tua existencia, não lhe hei de
-mentir nem faltar, Bentinho; são cousas que não se fazem sem peccado, e
-Deus que é grande e poderoso, não me deixaria assim, não, Bentinho; eu
-sei que seria castigada e bem castigada. Ser padre é bom e santo; você
-conhece muitos, como o padre Cabral, que vive tao feliz com a irmã; um
-tio meu tambem foi padre, e escapou de ser bispo, dizem... Deixa de
-manha, Bentinho.
-
-Creio que os olhos que lhe deitei foram tão queixosos, que ella emendou
-logo a palavra; manha, não, não podia ser manha, sabia muito bem que
-eu era amigo della, e não seria capaz de fingir um sentimento que não
-tivesse. Molleza é o que queria dizer, que me deixasse de molleza, que
-me fizesse homem e obedecesse ao que cumpria, em beneficio della e para
-bem da minha alma. Todas essas cousas e outras foram ditas um pouco
-atropelladamente, e a voz não lhe saia clara, mas velada e esganada.
-Vi que a emoção della era outra vez grande, mas não recuava dos seus
-propositos, e aventurei-me a perguntar-lhe:
-
---E se mamãe pedisse a Deus que a dispensasse da promessa?
-
---Não, não peço. Estás tonto, Bentinho? E como havia de saber que Deus
-me dispensava?
-
---Talvez em sonho; eu sonho as vezes com anjos e santos.
-
---Tambem eu, num filho; mas é inútil... Vamos, é tarde; vamos para a
-sala. Está entendido: no primeiro ou no segundo mez do anno que vem,
-irás para o seminario. O que eu quero é que saibas bem os livros que
-estás estudando; é bonito, não só para ti, como para o padre Cabral. No
-seminario ha interesse em conhecer-te, porque o padre Cabral fala de ti
-com enthusiasmo.
-
-Caminhou para a porta, saimos ambos. Antes de sair, voltou-se para mim,
-e quasi a vi saltar-me ao collo e dizer-me que não seria padre. Este
-era já o seu desejo intimo, á proporção que se approximava o tempo.
-Quizera um modo de pagar a divida contrahida, outra moeda, que valesse
-tanto ou mais, e não achava nenhuma.
-
-
-
-
-XLII
-
-Capitú reflectindo.
-
-No dia seguinte fui á casa visinha, logo que pude. Capitú despedia-se
-de tres amigas que tinham ido visital-a, Paula e Sandia, companheiras
-de collegio, aquella de quinze, esta de desessete annos, a primeira
-filha de um medico, a segunda de um commerciante de objectos
-americanos. Estava abatida, trazia um lenço atado na cabeça; a mãe
-contou-me que fora excesso de leitura na vespera, antes e depois
-do chá, na sala e na cama, até muito depois da meia noite, e com
-lamparina...
-
---Se eu accendesse vela, mamãe zangava-se. Já estou boa.
-
-E como desatasse o lenço, a mãe disse-lhe timidamente que era melhor
-atal-o, mas Capitú respondeu que não era preciso, estava boa.
-
-Ficámos sós na sala; Capitú continuou a narração da mãe, accrescentando
-que passara mal por causa do que ouvira em minha casa. Tambem eu lhe
-contei o que se déra commigo, a entrevista com minha mãe, as minhas
-supplicas, as lagrimas della, e por fim as ultimas respostas decisivas:
-dentro de dous ou tres mezes iria para o seminario. Que fariamos agora?
-Capitú ouvia-me com attenção sofrega, depois sombria; quando acabei,
-respirava a custo, como prestes a estalar de colera, mas conteve-se.
-
-Ha tanto tempo que isto succedeu que não posso dizer com segurança se
-chorou devéras, ou se sómente enxugou os olhos; cuido que os enxugou
-sómente. Vendo-lhe o gesto, peguei-lhe na mão para animal-a, mas tambem
-eu precisava ser animado. Caimos no canapé, e ficámos a olhar para o
-ar. Minto; ella olhava para o chão. Fiz o mesmo, logo que a vi assim...
-Mas eu creio que Capitú olhava para dentro de si mesma, emquanto que
-eu fitava devéras o chão, o roido das fendas, duas moscas andando e um
-pé de cadeira lascado. Era pouco, mas distraía-me da afflicção. Quando
-tornei a olhar para Capitú, vi que não se mexia, e fiquei com tal medo
-que a sacudi brandamente. Capitú tornou cá para fora e pediu-me que
-outra vez lhe contasse o que se passára com minha mãe. Satisfil-a,
-attenuando o texto desta vez, para não amofinal-a. Não me chames
-dissimulado, chama-me compassivo; é certo que receiava perder Capitú,
-se lhe morressem as esperanças todas, mas doia-me vel-a padecer. Agora,
-a verdade ultima, a verdade das verdades, é que já me arrependia de
-haver falado a minha mãe, antes de qualquer trabalho effectivo por
-parte de José Dias; examinando bem, não quizera ter ouvido um desengano
-que eu reputava certo, ainda que demorado. Capitú reflectia, reflectia,
-reflectia...
-
-
-
-
-XLIII
-
-Você tem medo?
-
-De repente, cessando a reflexão, fitou em mim os olhos de ressaca, e
-perguntou-me se tinha medo.
-
---Medo?
-
---Sim, pergunto se você tem medo.
-
---Medo de que?
-
---Medo de apanhar, de ser preso, de brigar, do andar, de trabalhar...
-
-Não entendi. Se ella me tem dito simplesmente: «Vamos embora!» póde
-ser que eu obedecesse ou não; em todo caso, entenderia. Mas aquella
-pergunta assim, vaga e solta, não pude atinar o que era.
-
---Mas... não entendo. De apanhar?
-
---Sim.
-
---Apanhar de quem? Quem é que me dá pancada?
-
-Capitú fez um gesto de impaciencia. Os olhos de ressaca não se mexiam
-e pareciam crescer. Sem saber de mim, e, não querendo interrogal-a
-novamente, entrei a cogitar d'onde me viriam pancadas, e porque, e
-tambem porque é que seria preso, e quem é que me havia de prender.
-Valha-me Deus! vi de imaginação o aljube, uma casa escura e infecta.
-Tambem vi a presiganga, o quartel dos Barbonos e a Casa de Correcção.
-Todas essas bellas instituições sociaes me envolviam no seu mysterio,
-sem que os olhos de ressaca de Capitú deixassem de crescer para mim,
-a tal ponto que as fizeram esquecer de todo. O erro de Capitú foi
-não deixal-os crescer infinitamente, antes diminuir até ás dimensões
-normaes, e dar-lhes o movimento do costume. Capitú tornou ao que era,
-disse-me que estava brincando, não precisava affligir-me, e, com um
-gesto cheio de graça, bateu-me na casa sorrindo, e disse:
-
---Medroso!
-
---Eu? Mas...
-
---Não é nada, Bentinho. Pois quem é que ha de dar pancada ou prender
-você? Desculpe que eu hoje estou meia maluca; quero brincar, e...
-
---Não, Capitú; você não está brincando; nesta occasião, nenhum de nós
-tom vontade de brincar.
-
---Tem razão, foi só maluquice; até logo.
-
---Como até logo?
-
---Está-me voltando a dôr do cabeça; vou botar uma rodella de limão nas
-fontes.
-
-Fez o que disse, e atou o lenço outra vez na testa. Em seguida,
-acompanhou-me ao quintal para se despedir de mim; mas, ainda ahi nos
-detivemos por alguns minutos, sentados sobre a borda do poço. Ventava,
-o ceu estava coberto. Capitú falou novamente da nossa separação, como
-de um facto certo e definitivo, por mais que eu, receioso disso mesmo,
-buscasse agora razões para animal-a. Capitú, quando não falava, riscava
-no chão, com um pedaço cie taquara, narizes e perfis. Desde que se
-mettera a desenhar, era uma das suas diversões; tudo lhe servia de
-papel e lapis. Como me lembrassem os nossos nomes abertos por ella no
-muro, quiz fazer o mesmo no chão, e pedi-lhe a taquara. Não me ouviu ou
-não me attendeu.
-
-
-
-
-XLIV
-
-O primeiro filho.
-
---Dê cá, deixe escrever uma cousa.
-
-Capitú olhou para mim, mas de um modo que me fez lembrar a definição
-de José Dias, obliquo e dissimulado; levantou o olhar, sem levantar os
-olhos. A voz, um tanto sumida, perguntou-me:
-
---Diga-me uma cousa, mas fale verdade, não quero disfarce; ha de
-responder com o coração na mão.
-
---Que é? Diga.
-
---Se você tivesse de escolher entre mim e sua mãe, a quem é que
-escolhia?
-
---Eu?
-
-Fez-me signal que sim.
-
---Eu escolhia... mas para que escolher? Mamãe não é capaz de me
-perguntar isso.
-
---Pois, sim, mas eu pergunto. Supponha você que está no seminario e
-recebe a noticia de que eu vou morrer...
-
---Não diga isso!
-
---... Ou que me mato de saudades, se você não vier logo, e sua mãe não
-quizer que você venha, diga-me, você vem?
-
---Venho.
-
---Contra a ordem de sua mãe?
-
---Contra a ordem de mamãe.
-
---Você deixa seminario, deixa sua mãe, deixa tudo, para me ver morrer?
-
---Não fale em morrer, Capitú!
-
-Capitú teve um risinho descorado e incredulo, e com a taquara escreveu
-uma palavra no chão; inclinei-me e li: _mentiroso._
-
-Era tão extranho tudo aquillo, que não achei resposta. Não atinava com
-a razão do escripto, como não atinava com a do falado. Se me acudisse
-alli uma injuria grande ou pequena, é possivel que a escrevesse tambem,
-com a mesma taquara, mas não me lembrava nada. Tinha a cabeça vazia.
-Ao mesmo tempo tomei-me de receio de que alguem nos pudesse ouvir ou
-ler. Quem, se eramos sós? D. Fortunata chegara uma vez á porta da casa,
-mas entrou logo depois. A solidão era completa. Lembra-me que umas
-andorinhas passaram por cima do quintal e foram para os lados do morro
-de Santa Theresa; ninguem mais. Ao longe, vozes vagas e confusas, na
-rua um tropel de bestas, do lado da casa o chilrear dos passarinhos
-do Padua. Nada mais, ou sómente este phenomeno curioso, que o nome
-escripto por ella, não só me espiava do chão com gesto escarninho,
-mas até me pareceu que repercutia no ar. Tive então uma ideia ruim;
-disse-lhe que, afinal de contas, a vida de padre não era má, e eu podia
-acceital-a sem grande pena. Como desforço, era pueril; mas eu sentia a
-secreta esperança de vel-a atirar-se a mim lavada em lagrimas. Capitú
-limitou-se a arregalar muito os olhos, e acabou por dizer:
-
---Padre é bom, não ha duvida; melhor que padre só conego, por causa das
-meias roxas. O roxo é côr muito bonita. Pensando bem, é melhor conego.
-
---Mas não se póde ser conego sem ser primeiramente padre, disse-lhe eu
-mordendo os beiços.
-
---Bem; comece pelas meias pretas, depois virão as roxas. O que eu não
-quero perder é a sua missa nova; avise-me a tempo para fazer um vestido
-á moda, saia balão e babados grandes... Mas talvez nesse tempo a moda
-seja outra. A egreja ha de ser grande, Carmo ou S. Francisco.
-
---Ou Candelaria.
-
---Candelaria tambem. Qualquer sorve, comtanto que eu ouça a missa nova.
-Hei de fazer um figurão. Muita gente ha de perguntar: «Quem é aquella
-moça faceira que alli está com um vestido tão bonito?»--«Aquella é D.
-Capitolina, uma moça que morou na rua de Matacavallos...»
-
---Que morou? Você vae mudar-se?
-
---Quem sabe onde é que ha do morar amanhã? disse ella com um tom leve
-de melancolia; mas tornando logo ao sarcasmo: E você no altar, mettido
-na alva, com a capa de ouro por cima, cantando... _Pater noster..._
-
-Ah! como eu sinto não ser um poeta romantico para dizer que isto era um
-duello de ironias! Contaria os meus botes e os della, a graça de um e a
-promptidão de outro, e o sangue correndo, e o furor na alma, até ao meu
-golpe final que foi este:
-
---Pois, sim, Capitú, você ouvirá a minha missa nova, mas com uma
-condição.
-
-Ao que ella respondeu:
-
---Vossa Reverendíssima póde falar.
-
---Promette uma cousa?
-
---Que é?
-
---Diga se promette.
-
---Não sabendo o que é, não prometto.
-
---A falar verdade são duas cousas, continuei eu, por haver-me acudido
-outra ideia.
-
---Duas? Diga quaes são.
-
---A primeira é que só se ha de confessar commigo, para eu lhe dar a
-penitencia e a absolvição. A segunda é que...
-
---A primeira está promettida, disse ella vendo-me hesitar, e
-accrescentou que esperava a segunda.
-
-Palavra que me custou, e antes não me chegasse a sair da boca; não
-ouviria o que ouvi, o não escreveria aqui uma cousa que vae talvez
-achar incredulos.
-
---A segunda... sim... é que... Promette-me que seja eu o padre que case
-você?
-
-Que me case? disso ella um tanto commovida.
-
-Logo depois fez descair os labios, e abanou a cabeça.
-
---Não, Bentinho, disse, seria esperar muito tempo; você não vae ser
-padre já amanhã, leva muitos annos... Olhe, prometto outra cousa;
-prometto que ha de baptisar o meu primeiro filho.
-
-
-
-
-XLV
-
-Abane a cabeça, leitor.
-
-Abane a cabeça, leitor; faça todos os gestos de incredulidade. Chegue a
-deitar fóra este livro, se o tédio já o não obrigou a isso antes; tudo
-é possivel. Mas, se o não fez antes e só agora, fio que torne a pegar
-do livro e que o abra na mesma pagina, sem crer por isso na veracidade
-do autor. Todavia, não ha nada mais exacto. Foi assim mesmo que Capitú
-falou, com taes palavras e maneiras. Falou do primeiro filho, como se
-fosse a primeira boneca.
-
-Quanto ao meu espanto, se tambem foi grande, veiu de mistura com uma
-sensação exquisita. Percorreu-me um fluido. Aquella ameaça de um
-primeiro filho, o primeiro filho de Capitú, o casamento della com
-outro, portanto, a separação absoluta, a perda, a anniquilação, tudo
-isso produzia um tal effeito, que não achei palavra nem gesto; fiquei
-estupido. Capitú sorria; eu via o primeiro filho brincando no chão...
-
-
-
-
-XLVI
-
-As pazes.
-
-As pazes fizeram-se como a guerra, depressa. Buscasse eu neste livro
-a minha gloria, e diria que as negociações partiram de mim; mas não,
-foi ella que as iniciou. Alguns instantes depois, como eu estivesse
-cabisbaixo, ella abaixou tambem a cabeça, mas voltando os olhos para
-cima afim de ver os meus. Fiz-me de rogado; depois quiz levantar-me
-para ir embora, mas nem me levantei, nem sei se iria. Capitú fitou-me
-uns olhos tao ternos, e a posição os fazia tão supplices, que me deixei
-ficar, passei-lhe o braço pela cintura, ella pegou-me na ponta dos
-dedos, e...
-
-Outra vez D. Fortunata appareceu á porta da casa; não sei para quê,
-se nem me deixou tempo de puxar o braço; desappareceu logo. Podia ser
-um simples descargo de consciencia, uma cerimonia, como as rezas de
-obrigação, sem devoção, que se dizem de tropel; a não ser que fosse
-para certificar aos proprios olhos a realidade que o coração lhe
-dizia...
-
-Fosse o que fosse, o meu braço continuou a apertar a cintura da filha,
-e foi assim que nos pacificámos. O bonito é que cada um de nós queria
-agora as culpas para si, e pediamos reciprocamente perdão. Capitú
-allegava a insomnia, a dôr de cabeça, o abatimento do espirito, e
-finalmente «os seus calundús.» Eu, que era muito chorão por esse tempo,
-sentia os olhos molhados... Era amor puro, era effeito dos padecimentos
-da amiguinha, era a ternura da reconciliação.
-
-
-
-
-XLVII
-
-«A senhora saiu.»
-
---Está bom, acabou, disso eu finalmente; mas, explique-me só uma cousa,
-porque é que você me perguntou se eu tinha medo de apanhar?
-
---Não foi por nada, respondeu Capitú, depois de alguma hesitação...
-Para que bolir nisso?
-
---Diga sempre. Foi por causa do seminario?
-
---Foi; ouvi dizer que lá dão pancada... Não? Eu tambem não creio.
-
-A explicação agradou-me; não tinha outra. Se, como penso, Capitú
-não disse a verdade, força é reconhecer que não podia dizel-a, e a
-mentira é dessas creadas que se dão pressa em responder ás visitas
-que «a senhora saiu», quando a senhora não quer falar a ninguem. Ha
-nessa cumplicidade um gosto particular; o peccado em commum eguala
-por instantes a condição das pessoas, não contando o prazer que dá a
-cara das visitas enganadas, e as costas com que ellas descem... A
-verdade não saiu, ficou em casa, no coração de Capitú, cochilando o
-seu arrependimento. E eu não desci triste nem zangado; achei a creada
-galante, appetecivel, melhor que a ama.
-
-As andorinhas vinham agora em sentido contrario, ou não seriam as
-mesmas. Nós é que eramos os mesmos; alli ficámos sommando as nossas
-illusões, os nossos temores, começando já a sommar as nossas saudades.
-
-
-
-
-XLVIII
-
-Juramento do poço.
-
---Não! exclamei de repente.
-
---Não quê?
-
-Tinha havido alguns minutos de silencio, durante os quaes reflecti
-muito e acabei por uma ideia; o tom da exclamação, porém, foi tão alto
-que espantou a minha visinha.
-
---Não ha de ser assim, continuei. Dizem que não estamos em edade de
-casar, que somos creanças, creançolas,--já ouvi dizer creançolas. Bem;
-mas dous ou tres annos passam depressa. Você jura uma cousa? Jura que
-só ha de casar commigo?
-
-Capitú não hesitou em jurar, e até lhe vi as faces vermelhas de prazer.
-Jurou duas vezes e uma terceira:
-
---Ainda que você case com outra, cumprirei o meu juramento, não casando
-nunca.
-
---Que eu case com outra?
-
---Tudo póde ser, Bentinho. Você póde achar outra moça que lhe queira,
-apaixonar-se por ella e casar. Quem sou eu para você lembrar-se de mim
-nessa occasião?
-
---Mas eu tambem juro! Juro, Capitú, juro por Deus Nosso Senhor que só
-me casarei com você. Basta isto?
-
---Devia bastar, disse ella; eu não me atrevo a pedir mais. Sim, você
-jura... Mas juremos por outro modo; juremos que nos havemos de casar um
-com outro, haja o que houver.
-
-Comprehendeis a differença; era mais que a eleição do conjuge, era a
-affirmação do matrimonio. A cabeça da minha amiga sabia pensar claro e
-depressa. Realmente, a formula anterior era limitada, apenas exclusiva.
-Podiamos acabar solteirões, como o sol e a lua, sem mentir ao juramento
-do poço. Esta formula era melhor, e tinha a vantagem de me fortalecer
-o coração contra a investidura ecclesiastica. Jurámos pela segunda
-formula, e ficámos tão felizes que todo receio de perigo desappareceu.
-Eramos religiosos, tínhamos o ceu por testemunha. Eu nem já temia o
-seminario.
-
-**--Se teimarem muito, irei; mas faço de conta que é um collegio
-qualquer; não tomo ordens.
-
-Capitú temia a nossa separação, mas acabou acceitando este alvitre, que
-era o melhor. Não affligiamos minha mãe, e o tempo correria até o ponto
-em que o casamento pudesse fazer-se. Ao contrario, qualquer resistencia
-ao seminario confirmaria a denuncia de José Dias. Esta reflexão não foi
-minha, mas della.
-
-
-
-
-XLIX
-
-Uma vela aos sabbados.
-
-Eis aqui como, após tantas canceiras, tocavamos o porto a que nos
-deviamos ter abrigado logo. Não nos censures, piloto de má sorte,
-não se navegam corações como os outros mares deste mundo. Estavamos
-contentes, entramos a falar do futuro. Eu promettia a minha esposa uma
-vida socegada e bella, na roça ou fóra da cidade. Viriamos aqui uma vez
-por anno. Se fosse em arrabalde, seria longe, onde ninguem nos fosse
-aborrecer. A casa, na minha opinião, não devia ser grande nem pequena,
-um meio termo; plantei-lhe flôres, escolhi moveis, uma sege e um
-oratorio. Sim, haviamos de ter um oratorio bonito, alto, de jacarandá,
-com a imagem de Nossa Senhora da Conceição. Demorei-me mais nisto que
-no resto, em parte porque eramos religiosos, em parte para compensar a
-batina que eu ia deitar as ortigas: mas ainda restava uma parte que
-attribuo ao intuito secreto e inconsciente de captara protecção do ceu.
-Haviamos de accender uma vela aos sabbabos...
-
-
-
-
-L
-
-Um meio termo.
-
-Mezes depois fui para o seminario de S. José. Se eu pudesse contar as
-lagrimas que chorei na vespera e na manhã, sommaria mais que todas
-as vertidas desde Adão e Eva. Ha nisto alguma exageração; mas é bom
-ser emphatico, uma ou outra vez, para compensar este escrupulo de
-exactidão que me afflige. Entretanto, se eu me ativer só á lembrança da
-sensação, não fico longe da verdade; aos quinze annos, tudo é infinito.
-Realmente, por mais preparado que estivesse, padeci muito. Minha mãe
-tambem padeceu, mas soffria com alma e coração; demais, o padre Cabral
-achára um meio termo, experimentar-me a vocação; se no fim de dous
-annos, eu não revelasse vocação ecclesiastica, seguiria outra carreira.
-
---As promessas devem ser cumpridas conforme Deus quer. Supponha que
-Nosso Senhor nega disposição a seu filho, e que o costume do seminario
-não lhe dá o gosto que me concedeu a mim, é que a vontade divina é
-outra. A senhora não podia pôr em seu filho, antes de nascido, uma
-vocação que Nosso Senhor lhe recusou...
-
-Era uma concessão do padre. Dava a minha mãe um perdão antecipado,
-fazendo vir do credor a relevação da divida. Os olhos della brilharam,
-mas a bocca disse que não. José Dias, não tendo alcançado ir commigo
-para a Europa, agarrou-se ao mais proximo, e apoiou o «alvitre do Sr.
-protonotario»; só lhe parecia que um anno era bastante.
-
---Estou certo, disse elle, piscando-me o olho, que dentro de um anno a
-vocação ecclesiastica do nosso Bentinho se manifesta clara e decisiva.
-Ha de dar um padre de mão cheia. Tambem se não vier em um anno...
-
-E a mim, mais tarde, em particular:
-
---Vá por um anno; um anno passa depressa. Se não sentir gosto nenhum,
-é que Deus não quer, como diz o padre, e nesse caso, meu amiguinho, o
-melhor remedio é a Europa.
-
-Capitú deu-me egual conselho, quando minha mãe lhe annunciou a minha
-ida definitiva para o seminario:
-
---Minha filha, você vae perder o seu companheiro de creança...
-
-Fez-lhe tão bem este tratamento de _filha_ (era a primeira vez que
-minha mãe lh'o dava), que nem teve tempo de ficar triste; beijou-lhe
-a mão, e disse-lhe que já sabia disso por mim mesmo. Em particular
-animou-me a supportar tudo com paciencia; no fim de um anno as cousas
-estariam mudadas, e um anno andava depressa. Não foi ainda a nossa
-despedida; esta fez-se na vespera, por um modo que pede capitulo
-especial. O que unicamente digo aqui é que, ao passo que nos prendiamos
-um ao outro, ella ia prendendo minha mãe, fez-se mais assidua e terna,
-vivia ao pé della, com os olhos nella. Minha mãe era de natural
-sympathico, e egualmente sensivel; tanto se doía como se aprazia de
-qualquer cousa. Entrou a achar em Capitú uma porção de graças novas, de
-dotes finos e raros; deu-lhe um anel dos seus e algumas galanterias.
-Não consentiu em photographar-se, como a pequena lhe pedia, para lhe
-dar um retrato; mas tinha uma miniatura, feita aos vinte e cinco annos,
-e, depois de algumas hesitações, resolveu dar-lh'a. Os olhos de Capitú,
-quando recebeu o mimo, não se descrevem; não eram obliquos, nem de
-ressaca, eram direitos, claros, lucidos. Beijou o retrato com paixão,
-minha mãe fez-lhe a mesma cousa a ella. Tudo isto me lembra a nossa
-despedida.
-
-
-
-
-LI
-
-Entre luz e fusco.
-
-Entre luz e fusco, tudo ha de ser breve como esse instante. Nem durou
-muito a nossa despedida, foi o mais que pôde, em casa della, na sala
-de visitas, antes do accender das velas; ahi é que nos despedimos
-de uma vez. Jurámos novamente que haviamos de casar um com outro, e
-não foi só o aperto de mão que sellou o contracto, como no quintal,
-foi a conjuncção das nossas boccas amorosas... Talvez risque isto na
-impressão, se até lá não pensar de outra maneira; se pensar, fica. E
-desde já fica, porque, em verdade, é a nossa defesa. O que o mandamento
-divino quer é que não juremos _em vão_ pelo santo nome de Deus. Eu
-não ia mentir ao seminario, uma vez que levava um contracto feito
-no proprio cartorio do ceu. Quanto ao sello, Deus, como fez os mãos
-limpas, assim fez os labios limpos, e a malicia está antes na tua
-cabeça perversa que na daquelle casal de adolescentes... Oh! minha
-doce companheira da meninice, eu era puro, e puro fiquei, e puro entrei
-na aula de S. José, a buscar de apparencia a investidura sacerdotal, e
-antes della a vocação. Mas a vocação eras tu, a investidura eras tu.
-
-
-
-
-LII
-
-O velho Padua.
-
-Ja agora conto tambem os adeuses do velho Padua. Logo cedo veiu á nossa
-casa. Minha mãe disse-lhe que fosse falar-me ao quarto.
-
---Dá licença? perguntou mettendo a cabeça pela porta.
-
-Fui apertar-lhe a mão; elle abraçou-me com ternura.
-
---Seja feliz! disse-me. A mim e a toda a minha gente creia que ficam
-muitas saudades. Todos nós estimamos muito o senhor, como merece. Se
-lhe disserem outra cousa, não acredite. São intrigas. Tambem eu, quando
-me casei, fui victima de intrigas; desfizeram-se. Deus é grande e
-descobre a verdade. Se algum dia perder sua mãe e seu tio,--cousa que
-eu, por esta luz que me allumia, não desejo, porque são boas pessoas,
-excedentes pessoas, e eu sou grato ás finezas recebidas... Não, eu não
-sou como outros, certos parasitas, vindos de fóra para desunião das
-familias, aduladores baixos, não; eu sou de outra especie; não vivo
-papando os jantares nem morando em casa alheia... Emfim, são os mais
-felizes!
-
---Porque falará assim? pensei. Naturalmente sabe que José Dias diz mal
-delle.
-
---Mas, como ia dizendo, se algum dia perder os seus parentes, póde
-contar com a nossa companhia. Não é sufficiente em importancia, mas a
-affeição é immensa, creia. Padre que seja, a nossa casa está ás suas
-ordens. Quero só que me não esqueça; não esqueça o velho Padua...
-
-Suspirou e continuou:
-
---Não esqueça o seu velho Padua, e, se tem algum trapinho que me deixe
-em lembrança, um caderno latino, qualquer cousa, um botão de collete,
-cousa que já lhe não preste para nada. O valer é a lembrança.
-
-Tive um sobresalto. Havia embrulhado em um papel um cacho dos meus
-cabellos, tão grandes e tão bonitos, cortados na vespera. A intenção
-era leval-os a Capitú, ao sair; mas tive ideia de dal-o ao pae, a filha
-saberia lomal-o e guardal-o. Peguei do embrulho e dei-lh'o.
-
---Aqui está, guarde.
-
---Um cachinho dos seus cabellos! exclamou Padua abrindo e fechando o
-embrulho. Oh! obrigado! obrigado por mim e pela minha gente! Vou dai-o
-á velha, para guardal-o, ou á pequena, que é mais cuidadosa que a mãe.
-Que lindos que são! Como é que se corta uma belleza destas? Dê cá um
-abraço! outro! mais outro! adeus!
-
-Tinha os olhos humidos devéras; levava a cara dos desenganados, como
-quem empregou em um só bilhete todas as suas economias de esperanças, e
-vê sair branco o maldito numero,--um numero tão bonito!
-
-
-
-
-LIII
-
-A caminho!
-
-Fui para o seminario. Poupa-me as outras despedidas. Minha mãe
-apertava-me ao peito. Prima Justina suspirava. Talvez chorasse mal ou
-nada. Ha pessoas a quem as lagrimas não acodem logo nem nunca; diz-se
-que padecem mais que as outras. Prima Justina disfarçava naturalmente
-os seus padecimentos intimos, emendando os descuidos de minha mãe,
-fazendo-me recommendações, dando ordens. Tio Cosme, quando eu lhe
-beijei a mão em despedida, disse-me rindo:
-
---Anda lá, rapaz, volta-me papa!
-
-José Dias, composto e grave, não dizia nada a principio; tinhamos
-falado na vespera, no quarto delle, onde fui ver se era ainda possivel
-evitar o seminario. Já não era, mas deu-me esperanças e principalmente
-animou-me muito. Antes de um anno estariamos a bordo. Como eu achasse
-muito breve, explicou-se.
-
---Dizem que não é bom tempo de atravessar o Atlantico, vou indagar; se
-não fôr, iremos em Março ou Abril.
-
---Posso estudar medicina aqui mesmo.
-
-José Dias correu os dedos pelos suspensorios com um gesto de
-impaciencia, apertou os beiços, até que formalmente rejeitou o alvitre.
-
---Não duvidaria approvar a ideia, disse elle, se na Escola de Medicina
-não ensinassem, exclusivamente, a podridão allopatha. A allopathia
-é o erro dos seculos, e vae morrer; é o assassinato, é a mentira, é
-a illusão. Se lhe disserem que póde apprender na Escola de Medicina
-aquella parte da sciencia commum a todos os systemas, é verdade; a
-allopathia é erro na therapeutica. Physiologia, anatomia, pathologia,
-não são allopathicas nem homeopathicas, mas é melhor apprender logo
-tudo de uma vez, por livros e por lingua de homens cultores da
-verdade...
-
-Assim falára na vespera e no quarto. Agora não dizia nada, ou proferia
-algum aphorismo sobre a religião e a familia; lembro-me deste:
-«Dividil-o com Deus é ainda possuil-o.» Quando minha mãe me deu o
-ultimo beijo: «Quadro amantissimo!» suspirou elle. Era manhã de um
-lindo dia. Os moleques cochichavam; as escravas tomavam a benção:
-«Benção, nhõ Bentinho! não se esqueça de sua Joanna! Sua Miquelina fica
-rezando por vosmecê!» Na rua José Dias insistiu nas esperanças:
-
---Aguente um anno; até lá tudo estará arranjado.
-
-
-
-
-LIV
-
-Panegyrico de Santa Monica.
-
-No seminario... Ah! não vou contar o seminario, nem me bastaria a isso
-um capitulo. Não, senhor meu amigo; algum dia, sim, é possivel que
-componha um abreviado do que alli vi e vivi, das pessoas que tratei,
-dos costumes, de todo o resto. Esta sarna de escrever, quando pega aos
-cincoenta annos, não despega mais. Na mocidade é possivel curar-se um
-homem della; e, sem ir mais longe, aqui mesmo no seminario tive um
-companheiro que compoz versos, a maneira dos de Junqueira Freire, cujo
-livro de frade poeta era recente. Ordenou-se: annos depois encontrei-o
-no còro de S. Pedro e pedi-lhe que me mostrasse os versos novos.
-
---Que versos? perguntou meio espantado.
-
---Os seus. Pois não se lembra que no seminario...
-
---Ah! sorriu elle.
-
-Sorriu, e continuando a procurar n'um livro aberto a hora em que tinha
-do cantar no dia seguinte, confessou-me que não fizera mais versos
-depois de ordenado. Foram cocegas da mocidade; coçou-se, passou, estava
-bom. E falou-me em prosa de uma infinidade de cousas do dia, a vida
-cara, um sermão do padre X... uma vigairaria mineira...
-
-Contrario a isso foi um seminarista que não seguiu a carreira.
-Chamava-se... Não é preciso dizer o nome; baste o caso. Tinha composto
-um _Panegyrico de Santa Monica_, elogiado por algumas pessoas e então
-lido entre os seminaristas. Alcançou licença de imprimil-o, o dedicou-o
-a Santo Agostinho. Tudo isso é historia velha; o que é mais moço é que
-um dia, em 1882, indo ver certo negocio em repartição de marinha, alli
-dei com este meu collega, feito chefe de uma secção administrativa.
-Deixára seminario, deixára lettras, casára e esquecera tudo, menos
-o _Panegyrico de Santa Monica_, umas vinte e nove paginas, que veiu
-distribuindo pela vida fóra. Como eu precisasse de algumas informações,
-fui pedir-lh'as, e seria impossivel achar melhor nem mais prompta
-vontade; deu-me tudo, claro, certo, copioso. Naturalmente conversamos
-do passado, memorias pessoaes, casos de estudo, incidentes de nada,
-um livro, um verbo, um mote, toda a velha palhada saiu cá fóra, e
-rimos juntos, e suspiramos de companhia. Vivemos algum tempo do nosso
-velho seminario. Ou porque eram delle, ou porque eramos então moços,
-as recordações traziam tal poder de felicidade que, se alguma sombra
-contraria houve então, não appareceu agora. Elle confessou-me que
-perdera de vista todos os companheiros do seminario.
-
---Tambem eu, quasi todos; uma vez ordenados, voltaram naturalmente ás
-suas provincias, e os daqui tomaram vigairarias fóra.
-
---Bom tempo! suspirou elle.
-
-E, após alguma reflexão, fitando em mim uns olhos murchos e teimosos,
-perguntou-me:
-
---Conservou o meu _Panegyrico?_
-
-Não achei que dizer; tentei mover os beiços, mas não tinha palavra;
-afinal, perguntei:
-
---Panegyrico? Que panegyrico?
-
---O meu _Panegyrico de Santa Monica._
-
-Não me lembrou logo, mas a explicação devia bastar; e depois de
-alguns instantes de pesquiza mental, respondi que por muito tempo o
-conservára, mas as mudanças, as viagens...
-
---Hei de levar-lhe um exemplar.
-
-Antes de vinte e quatro horas estava em minha casa, com o folheto, um
-velho folheto de vinte e seis annos, encardido, manchado do tempo, mas
-sem lacuna, e com uma dedicatoria manuscripta e respeitosa.
-
---E o penultimo exemplar, disse-me; agora só me resta um, que não posso
-dar a ninguem.
-
-E como me visse folhear o opusculo:
-
---Veja se lhe lembra algum pedaço, disse-me.
-
-Vinte e seis annos de intervallo fazem morrer amizades mais estreitas e
-assiduas, mas era cortezia, era quasi caridade recordar alguma lauda;
-li uma dellas, accentuando certas phrases para lhe dar a impressão de
-que achavam echo em minha memoria. Concordou que fossem bellas, mas
-preferia outras, e apontou-as.
-
---Recorda-se bem?
-
---Perfeitamente. _Panegyrico de Santa Monica!_ Como isto me faz
-remontar os annos da minha mocidade! Nunca me esqueceu o seminario,
-creia. Os annos passam, os acontecimentos vêm uns sobre outros, e as
-sensações tambem, e vieram amizades novas, que tambem se foram depois,
-como é lei da vida... Pois, meu caro collega, nada fez apagar aquelle
-tempo da nossa convivencia, os padres, as licções, os recreios... os
-nossos recreios, lembra-se? o padre Lopes, oh! o padre Lopes...
-
-Elle, com os olhos no ar, devia estar ouvindo, e naturalmente ouvia,
-mas só me disse uma palavra, e ainda assim depois de algum tempo de
-silencio, recolhendo os olhos e um suspiro!
-
---Tem agradado muito este meu _Panegyrico!_
-
-
-
-
-LV
-
-Um soneto.
-
-Dita a palavra, apertou-me as mãos com as forças todas de um vasto
-agradecimento, despediu-se e saiu. Fiquei só com o _Panegyrico_, e
-o que as folhas delle me lembraram foi tal que merece um capitulo
-ou mais. Antes, porém, e porque tambem eu tive o meu _Panegyrico_,
-contarei a historia de um soneto que nunca fiz; era no tempo do
-seminario, e o primeiro verso é o que ides ler:
-
- Oh! flòr do ceu! oh! flòr candida e pura!
-
-Como e porque me saiu este verso da cabeça, não sei; saiu assim,
-estando eu na cama, como uma exclamação solta, e, ao notar que tinha
-a medida de verso, pensei em compor com elle alguma cousa, um soneto.
-A insonmia, musa de olhos arregalados, não me deixou dormir uma longa
-hora ou duas; as cocegas pediam-me unhas, e eu coçava-me com alma.
-Não escolhi logo, logo o soneto; a principio cuidei de outra fórma, e
-tanto de rima como de verso solto, mas afinal ative-me ao soneto. Era
-um poema breve e prestadio. Quanto á ideia, o primeiro verso não era
-ainda uma ideia, era uma exclamação; a ideia viria depois. Assim na
-cama, envolvido no lençol, tratei de poetar. Tinha o alvoroço da mãe
-que sente o filho, e o primeiro filho. Ia ser poeta, ia competir com
-aquelle monge da Bahia, pouco antes revelado, e então na moda; eu,
-seminarista, diria em verso as minhas tristezas, como elle dissera as
-suas no claustro. Decorei bem o verso, e repetia-o em voz baixa, aos
-lençóes; francamente, achava-o bonito, e ainda agora não me parece máu:
-
- Oh! flòr do ceu! oh! flòr candida e pura!
-
-Quem era a flòr? Capitú, naturalmente; mas podia ser a virtude, a
-poesia, a religião, qualquer outro conceito a que coubesse a metaphora
-da flòr, e flòr do ceu. Aguardei o resto, recitando sempre o verso,
-e deitado ora sobre o lado direito, ora sobre o esquerdo; atinai
-deixei-me estar de costas, com os olhos no tecto, mas nem assim vinha
-mais nada. Então adverti que os sonetos mais gabados eram os que
-concluiam com chave de ouro, isto é, um desses versos capitaes no
-sentido e na fórma. Pensei em forjar uma de taes chaves, considerando
-que o verso final, saindo chronologicamente dos treze anteriores, com
-difficuldade traria a perfeição louvada; imaginei que taes chaves eram
-fundidas antes da fechadura. Assim foi que me determinei a compôr o
-ultimo verso do soneto, e, depois de muito suar, saiu este:
-
- Perde-se a vida, ganha-se a batalha!
-
-Sem vaidade, e falando como se fosse de outro, era um verso magnifico.
-Sonoro, não ha duvida. E tinha um pensamento, a victoria ganha á custa
-da propria vida, pensamento alevantado e nobre. Que não fosse novidade,
-é possivel, mas tambem não era vulgar; e ainda agora não explico por
-que via mysteriosa entrou n'uma cabeça de tão poucos annos. Naquella
-occasião achei-o sublime. Recitei uma e muitas vezes a chave de ouro;
-depois repeti os dous versos seguidamente, e dispuz-me a ligal-os pelos
-doze centraes. A ideia agora, á vista do ultimo verso, pareceu-me
-melhor não ser Capitú; seria a justiça. Era mais proprio dizer que, na
-pugna pela justiça, perder-se-hia acaso a vida, mas a batalha ficava
-ganha. Tambem me occorreu acceitar a batalha, no sentido natural, e
-fazer della a lula pela patria, por exemplo; nesse caso a flor do ceu
-seria a liberdade. Esta accepção, porém, sendo o poeta um seminarista,
-podia não caber tanto como a primeira, e gastei alguns minutos em
-escolher uma ou outra. Achei melhor a justiça, mas afinal acceitei
-definitivamente uma ideia nova, a caridade, e recitei os dous versos,
-cada um a sou modo, um languidamente:
-
- Oh! flòr do ceu! oh! flòr candida e pura!
-
-e o outro com grande brio:
-
- Perde-se a vida, ganha-se a batalha!
-
-A sensação que tive é que ia sair um soneto perfeito. Começar bem e
-acabar bem não era pouco. Para me dar um banho de inspiração, evoquei
-alguns sonetos celebres, e notei que os mais delles eram facilimos;
-os versos saíam uns dos outros, com a ideia em si, tão naturalmente,
-que se não acabava de crer se ella é que os fizera, se elles é que a
-suscitavam. Então tornava ao meu soneto, e novamente repetia o primeiro
-verso e esperava o segundo; o segundo não vinha, nem terceiro, nem
-quarto; não vinha nenhum. Tive alguns impetos de raiva, e mais de
-uma vez pensei em sair da cama e ir ver tinta e papel; póde ser que,
-escrevendo, os versos acudissem, mas...
-
-Cançado de esperar, lembrou-me alterar o sentido do ultimo verso, com a
-simples transposição do duas palavras, assim:
-
- Ganha-se a vida, perde-se a batalha!
-
-O sentido vinha a ser justamente o contrario, mas talvez isso mesmo
-trouxesse a inspiração. Neste caso, era uma ironia: não exercendo a
-caridade, póde-se ganhar a vida, mas perde-se a batalha do ceu. Criei
-forças novas o esperei. Não tinha janella; se tivesse, é possivel que
-fosse pedir uma ideia á noite. E quem sabe se os vagalumes, luzindo cá
-em baixo, não seriam para mim como rimas das estrellas, e esta viva
-metaphora não me daria os versos esquivos, com os seus consoantes e
-sentidos proprios?
-
-Trabalhei em vão, busquei, catei, esperei, não vieram os versos. Pelo
-tempo adeante escrevi algumas paginas em prosa, e agora estou compondo
-esta narração, não achando maior difficuldade que escrever, bem ou
-mal. Pois, senhores, nada me consola daquelle soneto que não fiz. Mas,
-como eu creio que os sonetos existem feitos, como as odes e os dramas,
-e as demais obras de arte, por uma razão de ordem metaphysica, dou
-esses dous versos ao primeiro desoccupado que os quizer. Ao domingo, ou
-se estiver chovendo, ou na roça, em qualquer occasião de lazer, póde
-tentar ver se o soneto sae. Tudo é dar-lhe uma ideia e encher o centro
-que falta.
-
-
-
-
-LVI
-
-Um seminarista.
-
-Tudo me ia repetindo o diabo do opusculo, com as suas lettras
-velhas e citações latinas. Vi sair daquellas folhas muitos perfis
-de seminaristas, os irmãos Albuquerques, por exemplo, um dos quaes
-é conego na Bahia, emquanto o outro seguiu medicina e dizem haver
-descoberto um especifico contra a febre amarella. Vi o Bastos, um
-magricella, que está de vigario em Meia-Ponte, se não morreu já;
-Luiz Borges, apesar de padre, fez-se politico, e acabou senador do
-imperio... Quantas outras caras me fitavam das paginas frias do
-_Panegyrico!_ Não, não eram frias; traziam o calor da juventude
-nascente, o calor do passado, o meu proprio calor. Queria lel-as outra
-vez, e lograva entender algum texto, tão recente como no primeiro
-dia, ainda que mais breve. Era um encanto ir por elle; ás vezes,
-inconscientemente, dobrava a folha como se estivesse lendo de verdade;
-creio que era quando os olhos me caíam na palavra do fim da pagina, e a
-mão, acostumada a ajudal-os, faziam o seu officio...
-
-Eis aqui outro seminarista. Chamava-se Ezequiel de Souza Escobar. Era
-um rapaz esbelto, olhos claros, um pouco fugitivos, como as mãos, como
-os pés, como a fala, como tudo. Quem não estivesse acostumado com
-elle podia acaso sentir-se mal, não sabendo por onde lhe pegasse. Não
-fitava de rosto, não falava claro nem seguido; as mãos não apertavam
-as outras, nem se deixavam apertar dellas, porque os dedos, sendo
-delgados e curtos, quando a gente cuidava tel-os entre os seus, já
-não tinha nada. O mesmo digo dos pés, que tão depressa estavam aqui
-como lá. Esta difficuldade em pousar foi o maior obstaculo que achou
-para tomar os costumes do seminario. O sorriso era instantaneo, mas
-tambem ria folgado e largo. Uma cousa não seria tão fugitiva, como o
-resto, a reflexão; iamos dar com elle, muita vez, olhos enfiados em si,
-cogitando. Respondia-nus sempre que meditava algum ponto espiritual, ou
-então que recordava a licção da vespera. Quando elle entrou na minha
-intimidade pedia-me frequentemente explicações e repetições miudas,
-e tinha memoria para guardal-as todas, até as palavras. Talvez esta
-faculdade prejudicasse alguma outra.
-
-Era mais velho que eu trez annos, filho de um advogado de Corityba,
-aparentado com um commerciante do Rio de Janeiro, que servia de
-correspondente ao pae. Este era homem de fortes sentimentos
-catholicos. Escobar tinha uma irmã, que era um anjo, dizia elle.
-
---Não é só na belleza que é um anjo, mas tambem na bondade. Não imagina
-que boa creatura que ella é. Escreve-me muita vez, hei de mostrar-lhe
-as cartas della.
-
-De facto, eram simples e affectuosas, cheias de caricias e conselhos.
-Escobar contava-me historias della, interessantes, todas as quaes
-vinham a dar na bondade e no espirito daquella creatura; taes eram
-que me fariam capaz de acabar casando com ella, se não fosse Capitú.
-Morreu pouco depois. Eu, seduzido pelas palavras delle, estive quasi
-a contar-lhe logo, logo, a minha historia. A principio fui timido,
-mas elle fez-se entrado na minha confiança. Aquelles modos fugitivos
-cessavam quando elle queria, e o meio e o tempo os fizeram mais
-pousados. Escobar veiu abrindo a alma toda, desde a porta da rua até
-ao fundo do quintal. A alma da gente, como sabes, e uma casa assim
-disposta, não raro com janellas para todos os lados, muita luz e ar
-puro. Tambem as ha fechadas e escuras, sem janellas, ou com poucas e
-gradeadas, á semelhança de conventos o prisões. Outrosim, capellas e
-bazares, simples alpendres ou paços sumptuosos.
-
-Não sei o que era a minha. Eu não era ainda casmurro, nem dom casmurro;
-o receio é que me tolhia a franqueza, mas como as portas não tinham
-chaves nem fechaduras, bastava empurral-as, e Escobar empurrou-as e
-entrou. Cá o achei dentro, cá ficou, até que...
-
-
-
-
-LVII
-
-De preparação.
-
-Ah! mas não eram só os seminaristas que me iam saindo daquellas folhas
-velhas do _Panegyrico._ Ellas me trouxeram tambem sensações passadas,
-taes e tantas que eu não poderia dizel-as todas, sem tirar espaço ao
-resto. Uma dessas, e das primeiras, quizera contal'a aqui eu latim.
-Não é que a materia não ache termos honestos em nossa lingua, que é
-casta para os castos, como póde ser torpe para os torpes. Sim, leitora
-castissima, como diria o meu finado José Dias, podeis ler o capitulo
-até ao fim, sem susto nem vexame.
-
-Já agora metto a historia em outro capitulo. Por mais composto que este
-me saia, ha sempre no assumpto alguma cousa menos austera, que pede
-umas linhas de repouso e preparação. Sirva este de preparação. E isto é
-muito, leitor meu amigo; o coração, quando examina a possibilidade do
-que ha de vir. as proporções dos acontecimentos e a copia delles, fica
-robusto e disposto, e o mal é menor mal. Tambem, se não fica então, não
-fica nunca. E aqui verás tal ou qual esperteza minha; porquanto, ao ler
-o que vás ler, é provavel que o aches menos cru do que esperavas.
-
-
-
-
-LVIII
-
-O tratado.
-
-Foi o caso que, uma segunda-feira, voltando eu para o seminario, vi
-cair na rua uma senhora. O meu primeiro gesto, em tal caso, devia ser
-de pena ou de riso; não foi uma nem outra cousa, porquanto (e é isto
-que eu quizera dizer em latim) porquanto, a senhora tinha as meias mui
-lavadas, e não as sujou, levava ligas de seda, e não as perdeu. Varias
-pessoas acudiram, mas não tiveram tempo de a levantar; ella ergueu-se
-muito vexada, sacudiu-se, agradeceu, e enfiou pela rua proxima.
-
---Este gosto de imitar as francezas da rua do Ouvidor, dizia-me José
-Dias andando e commentando a queda, é evidentemente um erro. As nossas
-moças devem andar como sempre andaram, com sou vagar e paciencia, e não
-este tique-tique afrancezado...
-
-Eu mal podia ouvil-o. As meias e as ligas da senhora branqueavam e
-enroscavam-se deante de mim, e andavam, caíam, erguiam-se e iam-se
-embora. Quando chegámos á esquina, olhei para a outra rua, e vi, a
-distancia, a nossa desastrada, que ia no mesmo passo, tique-tique,
-tique-tique...
-
---Parece que não se machucou, disse eu.
-
---Tanto melhor para ella, mas é impossivel que não tenha arranhado os
-joelhos; aquella presteza é manha...
-
-Creio que foi «manha» que elle disse; eu fiquei «nos joelhos
-arranhados». Dalli em deante, até o seminario, não vi mulher na rua, a
-quem não desejasse uma quéda; a algumas adivinhei que trazia as meias
-esticadas e as ligas, justas... Tal haveria que nem levasse meias...
-Mas eu as via com ellas... Ou então... Tambem é possivel...
-
-Vou esgarçando isto com reticencias, para dar uma ideia das minhas
-ideias, que eram assim diffusas e confusas; com certeza não dou nada.
-A cabeça ia-me quente, e o andar não era seguro. No seminario, a
-primeira hora foi insupportavel. As batinas traziam ar de saias, e
-lembravam-me a quéda da senhora. Já não era uma só que eu via cair;
-todas as que eu encontrara na rua, mostravam-me agora de relance as
-ligas azues; eram azues. De noite, sonhei com ellas. Uma multidão de
-abominaveis creaturas veiu andar á roda de mim, tique-tique... Eram
-bellas, umas finas, outras grossas, todas ageis como o diabo. Accordei,
-busquei afugental-as com esconjuros e outros methodos, mas tão depressa
-dormi como tornaram, e, com as mãos presas em volta de mim, faziam
-um vasto circulo de saias, ou, trepadas no ar, choviam pés e pernas
-sobre a minha cabeça. Assim fui até madrugada. Não dormi mais; rezei
-padre-nossos, ave-marias, e credos, e sendo este livro a verdade pura,
-é força confessar que tive de interromper mais de uma vez as minhas
-orações para acompanhar no escuro uma figura ao longe, tique-tique,
-tique-tique... Pegava depressa na oração, sempre no meio para
-concertal-a bem, como se não tivesse havido interrupção, mas certamente
-não unia a phrase nova á antiga.
-
-Vindo o mal pela manha adeante, tentei vencel-o, mas por um modo que
-o não perdesse de todo. Sabios da escriptura, adivinhai o que podia
-ser. Foi isto. Não podendo rejeitar de mim aquelles quadros, recorri a
-um tratado entre a minha consciencia e a minha imaginação. As visões
-feminis seriam de ora avante consideradas como simples encarnações dos
-vicios, e por isso mesmo contemplaveis, como o melhor modo de temperar
-o caracter e aguerril-o para os combates asperos da vida. Não formulei
-isto por palavras, nem fui preciso; o contracto fez-se tacitamente, com
-alguma repugnancia, mas fez-se. E por alguns dias, era eu mesmo que
-evocava as visões para fortalecer-me, e não as rejeitava, senão quando
-ellas mesmas, de cançadas, se iam embora.
-
-
-
-
-LIX
-
-Convivas de boa memoria.
-
-Ha dessas reminiscências que não descançam antes que a penna ou a
-lingua as publique. Um antigo dizia arrenegar de conviva que tem boa
-memoria. A vida é cheia de taes convivas, e eu sou acaso um delles,
-comquanto a prova de ter a memoria fraca seja exactamente não me acudir
-agora o nome de tal antigo; mas era um antigo, e basta.
-
-Não, não, a minha memoria não é boa. Ao contrario, é comparavel a
-alguem que tivesse vivido por hospedarias, sem guardar dellas nem caras
-nem nomes, e sómente raras circumstancias. A quem passe a vida na
-mesma casa de familia, com os seus eternos moveis e costumes, pessoas
-e affeições, é que se lhe grava tudo pela continuidade e repetição.
-Como eu invejo os que não esqueceram a còr das primeiras calças que
-vestiram! Eu não atino com a das que enfiei hontem. Juro só que não
-eram amarellas porque execro essa côr; mas isso mesmo póde ser olvido
-e confusão.
-
-E antes seja olvido que confusão; explico-me. Nada se emenda bem nos
-livros confusos, mas tudo se póde metter nos livros omissos. Eu, quando
-leio algum desta outra casta, não me afflijo nunca. O que faço, em
-chegando ao fim, é cerrar os olhos e evocar todas as cousas que não
-achei nelle. Quantas ideias finas me acodem então! Que de reflexões
-profundas! Os rios, as montanhas, as egrejas que não vi nas folhas
-lidas, todos me apparecem agora com as suas aguas, as suas arvores,
-os seus altares, e os generaes sacam das espadas que tinham ficado
-na bainha, e os clarins soltam as notas que dormiam no metal, e tudo
-marcha com uma alma imprevista.
-
-É que tudo se acha fóra de um livro falho, leitor amigo. Assim preencho
-as lacunas alheias; assim pódes tambem preencher as minhas.
-
-
-
-
-LX
-
-Querido opusculo!
-
-Assim fiz eu ao _Panegyrico de Santa Monica_, e fiz mais: puz-lhe não
-só o que faltava da santa, mas ainda cousas que não eram della. Viste o
-soneto, as meias, as ligas, o seminarista Escobar e vários outros. Vás
-agora ver o mais que naquelle dia me foi saindo das paginas amarellas
-do opusculo.
-
-Querido opusculo, tu não prestavas para nada, mas que mais presta um
-velho par de chinellas? Entretanto, ha muita vez no casal de chinellas
-um como aroma e calor de dous pés. Gastas e rotas, não deixam de
-lembrar que uma pessoa as calçava de manhã, ao erguer da cama, ou as
-descalçava á noite, ao entrar nella. E se a comparação não vale, porque
-as chinellas são ainda uma parte da pessoa e tiveram o contacto dos
-pés, aqui estão outras lembranças, como a pedra da rua, a porta da
-casa, um assobio particular, um prégão de quitanda, como aquelle das
-cocadas que contei no cap. XVIII. Justamente, quando contei o prégão
-das cocadas, fiquei tão curtido de saudades que me lembrou fazel-o
-escrever por um amigo, mestre de musica, e grudal-o ás pernas do
-capitulo. Se depois jarretei o capitulo, foi porque outro musico, a
-quem o mostrei, me confessou ingenuamente não achar no trecho escripto
-nada que lhe accordasse saudades. Para que não aconteça o mesmo aos
-outros profissionaes que por ventura me lerem, melhor é poupar ao
-editor do livro o trabalho e a despeza da gravura. Vès que não puz
-nada, nem ponho. Já agora creio que não basta que os pregões de rua,
-como os opusculos de seminario, encerrem casos, pessoas e sensações; é
-preciso que a gente os tenha conhecido e padecido no tempo, sem o que
-tudo é calado e incolor.
-
-Mas, vamos ao mais que me foi saindo das paginas amarellas.
-
-
-
-
-LXI
-
-A vacca de Homero.
-
-O mais foi muito. Vi sairem os primeiros dias da separação, duros e
-opacos, sem embargo das palavras de conforto que me deram os padres e
-os seminaristas, e as de minha mãe e tio Cosme, trazidas por José Dias
-ao seminario.
-
---Todos estão saudosos, disse-me este, mas a maior saudade está
-naturalmente no maior dos corações; e qual é elle? perguntou escrevendo
-a resposta nos olhos.
-
---Mamãe, acudi eu.
-
-José Dias apertou-me as mãos com alvoroço, e logo pintou a tristeza de
-minha mãe, que falava de mim todos os dias, quasi a todas as horas.
-Como a approvasse sempre, e accrescentasse alguma palavra relativamente
-aos dotes que Deus me dera, o desvanecimento de minha mãe nessas
-occasiões era indescriptivel; e contava-me tudo isso cheio de uma
-admiração lacrimosa. Tio Cosme tambem se enternecia muito.
-
---Hontem até se deu um caso interessante. Tendo eu dito á
-Excellentissima que Deus lhe dera, não um filho, mas um anjo do ceu, o
-doutor ficou tão commovido que não achou outro modo de vencer o choro
-senão fazendo-me um daquelles elogios de galhofa que só elle sabe. Não
-é preciso dizer que D. Gloria enxugou furtivamente uma lagrima. Ou ella
-não fosse mãe! Que coração amantissimo!
-
---Mas, Sr. José Dias, e a minha saida daqui?
-
---Isso é negocio meu. A viagem á Europa é o que é preciso, mas póde
-fazer-se daqui a um ou dous annos, em 1859 ou 1860...
-
---Tão tarde!
-
---Era melhor que fosse este mesmo anno, mas demos tempo ao tempo. Tenha
-paciencia, vá estudando, não se perde nada em ir sabendo já daqui
-alguma cousa; e, demais, ainda não acabando padre, a vida do seminario
-é util, e vale sempre entrar no mundo ungido com os santos oleos da
-theologia...
-
-Neste ponto,--lembra-me como se fosse hoje,--os olhos de José
-Dias fulguraram tão intensamente que me encheram de espanto. As
-palpebras cairam depois, e assim ficaram por alguns instantes, até
-que novamente se ergueram, e os olhos fixaram-se na parede do palco,
-como que embebidos em alguma cousa, se não era em si mesmos; depois
-despegaram-se da parede e entraram a vagar pelo pateo todo. Podia
-comparal-o aqui á vacca de Homero; andava e gemia em volta da cria
-que acabava de parir. Não lhe perguntei o que é que tinha, já por
-acanhamento, já porque dous lentes, um delles de theologia, vinham
-caminhando na nossa direcção. Ao passarem por nós, o aggregado, que os
-conhecia, cortejou-os com as deferencias devidas, e pediu-lhes noticias
-minhas.
-
---Por ora nada se póde affiançar, disse um delles. mas parece que dará
-conta da mão.
-
---É o que eu lhe dizia agora mesmo, acudiu José Dias. Conto ouvir-lhe
-a missa nova; mas ainda que não chegue a ordenar-se, não póde ter
-melhores estudos que os que fizer aqui. Para a viagem da existencia,
-concluiu demorando mais as palavras, irá ungido com os santos oleos da
-theologia...
-
-Desta vez a fulguração dos olhos foi menor, as palpebras não lhe cairam
-nem as pupillas fizeram os movimentos anteriores. Ao contrario, todo
-elle era attenção e interrogação; quando muito, um sorriso claro e
-amigo lhe errava nos labios. O lente de theologia gostou da metaphora,
-e disse-lh'o; elle agradeceu, explicando que eram ideias que lhe
-escapavam no correr da conversação; não escrevia nem orava. Eu é que
-não gostei nada; e logo que os lentes se foram, sacudi a cabeça:
-
---Não quero saber dos santos oleos da theologia; desejo sair daqui o
-mais cedo que puder, ou já...
-
---Já, meu anjo, não póde ser; mas póde succeder que muito antes do que
-imaginamos. Quem sabe se este mesmo anno de 58? Tenho um plano feito,
-e penso já nas palavras com que hei de expôl-o a D. Gloria; estou certo
-que ella cederá e irá comnosco.
-
---Duvido que mamãe embarque.
-
---Veremos. Mãe é capaz de tudo; mas, com ella ou sem ella, tenho por
-certa a nossa ida, e não haverá esforço que eu não empregue, deixe
-estar. Paciencia é que é preciso. E não faça aqui nada que dê logar a
-censuras ou queixas; muita docilidade e toda a apparente satisfação.
-Não ouviu o elogio do lente? E que você tem-se portado bem. Pois
-continue.
-
---Mas, 1859 ou 1860 é muito tarde.
-
---Será este anno, replicou José Dias.
-
---Daqui a tres mezes?
-
---Ou seis.
-
---Não; tres mezes.
-
---Pois sim. Tenho agora um plano, que me parece melhor que outro
-qualquer. É combinar a ausencia de vocação ecclesiastica e a
-necessidade de mudar de ares. Você porque não tosse?
-
---Por que não tusso?
-
---Já, já, não, mas eu hei de avisar você para tossir, quando fôr
-preciso, aos poucos, uma tossesinha secca, e algum fastio; eu irei
-preparando a Excellentissima... Oh! tudo isto é em beneficio della.
-Uma vez que o filho não póde servir a egreja, como deve ser servida, o
-melhor modo de cumprir a vontade de Deus é dedical-o a outra cousa. O
-mundo tambem é egreja para os bons...
-
-Pareceu-me outra vez a vacca de Homero, como se este «mundo tambem é
-egreja para os bons», fosse outro bezerro, irmão dos «santos oleos da
-theologia.» Mas não dei tempo á ternura materna, e repliquei:
-
---Ah! entendo! mostrar que estou doente para embarcar, não é?
-
-José Dias hesitou um pouco, depois explicou-se:
-
---Mostrar a verdade, porque, francamente, Bentinho, eu ha mezes que
-desconfio do seu peito. Você não anda bom do peito. Em pequeno,
-teve umas febres e uma ronqueira... Passou tudo, mas ha dias em que
-está mais descorado. Não digo que já seja o mal, mas o mal póde vir
-depressa. N'uma hora cae a casa. Por isso, se aquella santa senhora não
-quizer ir comnosco,--ou para que vá mais depressa, acho que uma boa
-tosse... Se a tosse ha de vir de verdade, melhor é apressal-a... Deixe
-estar, eu aviso...
-
---Bem, mas em saindo daqui não ha de ser para embarcar logo; saio
-primeiro, depois cuidaremos do embarque; o embarque é que póde ficar
-para o anno. Não dizem que o melhor tempo é abril ou maio? Pois seja
-maio. Primeiro deixo o seminario, daqui a dous mezes...
-
-E porque a palavra me estivesse a pigarrear na garganta, dei uma volta
-rapida, e perguntei-lhe á queima-roupa:
-
---Capitú como vae?
-
-
-
-
-LXII
-
-Uma ponta de Iago.
-
-A pergunta era imprudente, na occasião em que eu cuidava de transferir
-o embarque. Equivalia a confessar que o motivo principal ou unico
-da minha repulsa ao seminario era Capitú, e lazer crer improvavel a
-viagem. Comprehendi isto depois que falei; quiz emendar-me, mas nem
-soube como, nem elle me deu tempo.
-
---Tem andado alegre, como sempre; é uma tontinha. Aquillo emquanto não
-pegar algum peralta da visinhança, que case com ella...
-
-Estou que empallideci; pelo menos, senti correr um frio pelo corpo
-todo. A noticia de que ella vivia alegre, quando eu chorava todas
-as noites, produziu-me aquelle effeito, acompanhado de um bater de
-coração, tão violento, que ainda agora cuido ouvil-o. Ha alguma
-exageração nisto; mas o discurso humano é assim mesmo, um composto de
-partes excessivas e partes diminutas, que se compensam, ajustando-se.
-Por outro lado, se entendermos que a audiencia aqui não é das orelhas,
-senão da memoria, chegaremos á exacta verdade. A minha memoria ouve
-ainda agora as pancadas do coração naquelle instante. Não esqueças
-que era a emoção do primeiro amor. Estive quasi a perguntar a José
-Dias que me explicasse a alegria de Capitú, o que é que ella fazia, se
-vivia rindo, cantando ou pulando, mas retive-me a tempo, e depois outra
-ideia...
-
-Outra ideia, não,--um sentimento cruel e desconhecido, o puro ciume,
-leitor das minhas entranhas. Tal foi o que me mordeu, ao repetir
-commigo as palavras de José Dias: « Algum peralta da visinhança.» Em
-verdade, nunca pensara em tal desastre. Vivia tão nella, della e para
-ella, que a intervenção de um peralta era como uma noção sem realidade;
-nunca me acudiu que havia peraltas na visinhança, vária idade e feitio,
-grandes passeadores das tardes. Agora lembrava-me que alguns olhavam
-para Capitú,--e tão senhor me sentia della que era como se olhassem
-para mim, um simples dever de admiração e de inveja. Separados um do
-outro pelo espaço e pelo destino, o mal apparecia-me agora, não só
-possivel, mas certo. E a alegria de Capitú confirmava a suspeita; se
-ella vivia alegre é que já namorava a outro, acompanhal-o-hia com os
-olhos na rua, falar-lhe-hia á janella, ás ave-marias, trocariam flores
-e...
-
-E... que? Sabes o que é que trocariam mais; se o não achas por ti
-mesmo, escusado é ler o resto do capitulo e do livro, não acharás mais
-nada, ainda que eu o diga com todas as lettras da etymologia. Mas se o
-achaste, comprehenderás que eu, depois de estremecer, tivesse um impeto
-de atirar-me pelo portão fora, descer o resto da ladeira, correr,
-chegar a casa do Padua, agarrar Capitú e intimar-lhe que me confessasse
-quantos, quantos, quantos já lhe dera o peralta da visinhança. Não
-fiz nada. Os mesmos sonhos que ora conto não tiveram, naquelles tres
-ou quatro minutos, esta logica de movimentos e pensamentos. Eram
-soltos, emendados e mal emendados, com o desenho truncado e torto,
-uma confusão, um turbilhão, que me cegava e ensurdecia. Quando tornei
-a mim, José Dias concluía uma phrase, cujo principio não ouvi, e
-o mesmo fim era vago: «A conta que dará de si.» Que conta e quem?
-Cuidei naturalmente que falava ainda de Capitú, e quiz perguntar-lh'o,
-mas a vontade morreu ao nascer, como tantas outras gerações dellas.
-Limitei-me a inquirir do aggregado quando é que iria a casa ver minha
-mãe.
-
---Estou com saudades de mamãe. Posso ir já esta semana?
-
---Vae sabbado.
-
---Sabbado? Ah! sim! sim! Peça a mamãe que me mande buscar sabbado!
-Sabbado! Este sabbado, não? Que me mande buscar, sem falta.
-
-
-
-
-LXIII
-
-Metades de um sonho.
-
-Fiquei ancioso pelo sabbado. Até lá os sonhos perseguiam-me, ainda
-accordado, e não os digo aqui para não alongar esta parte do livro. Um
-só ponho, e no menor numero de palavras, ou antes porei dous, porque
-um nasceu de outro, a não ser que ambos formem duas metades de um só.
-Tudo isto é obscuro, dona leitora, mas a culpa é do vosso sexo, que
-perturbava assim a adolescencia de um pobre seminarista. Não fosse
-elle, e este livro seria talvez uma simples pratica parochial, se eu
-fosse padre, ou uma pastoral, se bispo, ou uma encyclica, se papa, como
-me recommendára tio Cosme: «Anda lá, meu rapaz, volta-me papa!» Ah!
-porque não cumpri esse desejo? Depois de Napoleão, tenente e imperador,
-todos os destinos estão neste seculo.
-
-Quanto ao sonho foi isto. Como estivesse a espiar os peraltas da
-visinhança, vi um destes que conversava com a minha amiga ao pé da
-janella. Corri ao logar, elle fugiu; avancei para Capitú, mas não
-estava só, tinha o pae ao pé de si, enxugando os olhos e mirando um
-triste bilhete de loteria. Não me parecendo isto claro, ia pedir a
-explicação, quando elle de si mesmo a deu; o peralta fôra levar-lhe a
-lista dos premios da loteria, e o bilhete saira branco. Tinha o numero
-4004. Disse-me que esta symetria de algarismos era mysteriosa e bella,
-e provavelmente a roda andára mal; era impossivel que não devesse ter
-a sorte grande. Emquanto elle falava, Capitú dava-me com os olhos
-todas as sortes grandes e pequenas. A maior destas devia ser dada com
-a bocca. E aqui entra a segunda parte do sonho. Padua desappareceu,
-como as suas esperanças do bilhete. Capitú inclinou-se para fóra,
-eu relancei do olhos pela rua, estava deserta. Peguei-lhe nas mãos,
-resmunguei não sei que palavras, e accordei sósinho no dormitorio.
-
-O interesse do que acabas de ler não está na materia do sonho, mas nos
-esforços que fiz para ver se dormia novamente e pegava nelle outra vez.
-Nunca dos nuncas poderás saber a energia e obstinação que empreguei em
-fechar os olhos, apertal-os bem, esquecer tudo para dormir, mas não
-dormia. Esse mesmo trabalho fez-me perder o somno até á madrugada.
-Sobre a madrugada, consegui concilial-o, mas então nem peraltas, nem
-bilhetes de loteria, nem sortes grandes ou pequenas,--nada dos nadas
-veiu ter commigo. Não sonhei mais aquella noite, e dei mal as licções
-daquelle dia.
-
-
-
-
-LXIV
-
-Uma ideia e um escrupulo.
-
-Relendo o capitulo passado, acóde-me uma ideia e um escrupulo. O
-escrupulo é justamente de escrever a ideia, não a havendo mais
-banal na terra, posto que daquella banalidade do sol e da lua, que
-o ceu nos dá todos os dias e todos os mezes. Deixei o manuscripto,
-e olhei para as paredes. Sabes que esta casa do Engenho Novo, nas
-dimensões, disposições e pinturas, é reproducção da minha antiga casa
-de Matacavallos. Outrosim, como te disse no capitulo II, o meu fim
-em imitar a outra foi ligar as duas pontas da vida, o que aliás não
-alcancei. Pois o mesmo succedeu áquelle sonho do seminario, por mais
-que tentasse dormir e dormisse. Donde concluo que um dos officios do
-homem é fechar e apertar muito os olhos, a ver se continua pela noite
-velha o sonho truncado da noite moça. Tal é a ideia banal e nova que
-eu não quizera pôr aqui, e só provisoriamente a escrevo.
-
-Antes de concluir este capitulo, fui á janella indagar da noite por que
-razão os sonhos hão de ser assim tão tenues que se esgarçam ao menor
-abrir de olhos ou voltar de corpo, e não continuam mais. A noite não
-me respondeu logo. Estava deliciosamente bella, os morros pallejavam
-de luar e o espaço morria de silencio. Como eu insistisse, declarou-me
-que os sonhos já não pertencem á sua jurisdicção. Quando elles moravam
-na ilha que Luciano lhes deu, onde ella tinha o seu palacio, e donde os
-fazia sair com as suas caras de varia feição, dar-me-hia explicações
-possiveis. Mas os tempos mudaram tudo. Os sonhos antigos foram
-aposentados, e os modernos moram no cerebro da pessoa. Estes, ainda que
-quizessem imitar os outros, não poderiam fazel-o; a ilha dos sonhos,
-como a dos amores, como todas as ilhas de todos os mares, são agora
-objecto da ambição e da rivalidade da Europa e dos Estados-Unidos.
-
-Era uma allusão ás Fillipinas. Pois que não amo a politica, e ainda
-menos a politica internacional, fechei a janella e vim acabar este
-capitulo para ir dormir. Não peço agora os sonhos de Luciano, nem
-outros, filhos da memoria ou da digestão; basta-me um somno quieto e
-apagado. De manhã, com a fresca, irei dizendo o mais da minha historia
-e suas pessoas.
-
-
-
-
-LXV
-
-A dissimulação.
-
-Chegou o sabbado, chegaram outros sabbados, e eu acabei affeiçoando-me
-á vida nova. Ia alternando a casa e o seminario. Os padres gostavam de
-mim, os rapazes tambem, e Escobar mais que os rapazes e os padres. No
-fim de cinco semanas estive quasi a contar a este as minhas penas e
-esperanças; Capitú refreou-me.
-
---Escobar é muito meu amigo, Capitú!
-
---Mas não é meu amigo.
-
---Póde vir a ser; elle já me disse que ha de vir cá para conhecer mamãe.
-
---Não importa; você não tem direito de contar um segredo que não é só
-seu, mas tambem meu, e eu não lhe dou licença de dizer nada a pessoa
-nenhuma.
-
-Era justo, calei-me e obedeci. Outra cousa em que obedeci ás suas
-reflexões foi, logo no primeiro sabbado, quando eu fui á casa della,
-e, após alguns minutos de conversa, me aconselhou a ir embora.
-
---Hoje não fique aqui mais tempo; vá para casa, que eu lá vou logo. É
-natural que D. Gloria queira estar com você muito tempo, ou todo, se
-puder.
-
-Em tudo isso mostrava a minha amiga tanta lucidez que eu bem podia
-deixar de citar um terceiro exemplo, mas os exemplos não se fizeram
-senão para ser citados, e este é tão bom que a omissão seria um crime.
-Foi á minha terceira ou quarta vinda á casa. Minha mãe depois que lhe
-respondi ás mil perguntas que me fez sobre o tratamento que me davam,
-os estudos, as relações, a disciplina, e se me doia alguma cousa, e
-se dormia bem, tudo o que a ternura das mães inventa para cançar a
-paciencia de um filho, concluiu voltando-se para José Dias:
-
---Sr. José Dias, ainda duvida que saia daqui um bom padre?
-
---Excellentissima...
-
---E você, Capitú, interrompeu minha mãe voltando-se para a filha do
-Padua que estava na sala, com ella,--você não acha que o nosso Bentinho
-dará um bom padre?
-
---Acho que sim, senhora, respondeu Capitú cheia de convicção.
-
-Não gostei da convicção. Assim lh'o disse, na manhã seguinte, na
-quintal della, recordando as palavras da vespera, e lançando-lho em
-rosto, pela primeira vez, a alegria que ella mostrára desde a minha
-entrada no seminario, quando eu vivia curtido de saudades. Capitú
-fez-se muito séria, e perguntou-me como é que queria que se portasse,
-uma vez que suspeitavam de nós; tambem tivera noites desconsoladas, e
-os dias, em casa della, foram tão tristes como os meus; podia indagal-o
-do pae e da mãe. A mãe chegou a dizer-lhe, por palavras encobertas, que
-não pensasse mais em mim.
-
---Com D. Gloria e D. Justina mostro-me naturalmente alegre, para que
-não pareça que a denuncia de José Dias é verdadeira. Se parecesse,
-ellas tratariam de separar-nos mais, e talvez acabassem não me
-recebendo... Para mim, basta o nosso juramento de que nos havemos de
-casar um com outro.
-
-Era isto mesmo; deviamos dissimular para matar qualquer suspeita, e ao
-mesmo tempo gosar toda a liberdade anterior, e construir tranquillos o
-nosso futuro. Mas o exemplo completa-se com o que ouvi no dia seguinte,
-ao almoço; minha mãe, dizendo tio Cosme que ainda queria ver com que
-mão havia en de abençoar o povo á missa, contou que, dias antes,
-estando a falar de moças que se casam cedo, Capitú lhe dissera: «Pois a
-mim quem me ha de casar ha de ser o padre Bentinho; eu espero que elle
-se ordene!» Tio Cosmo riu da graça, José Dias não dessorriu, só prima
-Justina é que franziu a testa, e olhou para mim interrogativamente. Eu,
-que havia olhado para todos, não pude resistir ao gesto da prima, e
-tratei de comer. Mas comi mal; estava tão contente com aquella grande
-dissimulação de Capitú que não vi mais nada, e, logo que almocei, corri
-a referir-lhe a conversa e a louvar-lhe a astucia. Capitú sorriu de
-agradecida.
-
---Você tem razão, Capitú, concluí eu; vamos enganar toda esta gente.
-
---Não é? disse ella com ingenuidade.
-
-
-
-
-LXVI
-
-Intimidade.
-
-Capitú ia agora entrando na alma de minha mãe. Viviam o mais do tempo
-juntas, falando de mim, a proposito do sol e da chuva, ou de nada;
-Capitú ia lá coser, ás manhãs; alguma vez ficava para jantar.
-
-Prima Justina não acompanhava a parenta naquellas finezas, mas não
-tratava de todo mal a minha amiga. Era assaz sincera para dizer o mal
-que sentia de alguem, e não sentia bem de pessoa alguma. Talvez do
-marido, mas o marido era morto; em todo caso, não existira homem capaz
-de competir com elle na affeição, no trabalho e na honestidade, nas
-maneiras e na agudeza de espirito. Esta opinião, segundo tio Cosme,
-era posthuma, pois em vida andavam ás brigas, e os ultimos seis mezes
-acabaram separados. Tanto melhor para a justiça della; o louvor dos
-mortos é um modo de orar por elles. Tambem gostaria de minha mãe, ou
-se algum mal pensou della foi entre si e o travesseiro. Comprehende-se
-que, de apparencia, lhe désse a estima devida. Não penso que ella
-aspirasse a algum legado; as pessoas assim dispostas excedem os
-serviços naturaes, fazem-se mais risonhas, mais assiduas, multiplicam
-os cuidados, precedem os famulos. Tudo isso era contrario á natureza
-de prima Justina, feita de azedume e de implicancia. Como vivesse de
-favor na casa, explica-se que não desestimasse a dona e calasse os seus
-resentimentos, ou só dissesse mal della a Deus e ao diabo.
-
-Caso tivesse resentimentos de minha mãe, não era uma razão mais para
-detestar Capitú, nem ella precisava de razões supplementares. Comtudo,
-a intimidade de Capitú fel-o mais aborrecivel á minha parenta. Se a
-principio não a tratava mal, com o tempo trocou de maneiras e acabou
-fugindo-lhe. Capitú, attenta, desde que a não via, indagava della e
-ia procural-a. Prima Justina tolerava esses cuidados. A vida é cheia
-de obrigações que a gente cumpre, por mais vontade que tenha de os
-infringir deslavadamente. Demais, Capitú usava certa magia que captiva;
-prima Justina acabava sorrindo, ainda que azedo, mas a sós com minha
-mãe achava alguma palavra ruim que dizer da menina.
-
-Como minha mãe adoecesse de uma febre, que a pòz ás portas da morte,
-quiz que Capitú lhe servisse de enfermeira. Prima Justina, posto que
-isto a aliviasse de cuidados penosos, não perdoou á minha amiga a
-intervenção. Um dia, perguntou-lhe se não tinha que fazer em casa;
-outro dia, rindo, soltou-lhe este epigramma: «Não precisa correr tanto;
-o que tiver de ser seu ás mãos lhe ha de ir.»
-
-
-
-
-LXVII
-
-Um peccado.
-
-Já agora não tiro a doente da cama sem contar o que se deu commigo. Ao
-cabo de cinco dias, minha mãe amanheceu tão transtornada que ordenou me
-mandassem buscar ao seminario. Em vão tio Cosme:
-
---Mana Gloria, você assusta-se sem motivo, a febre passa...
-
---Não! não! mandem buscal-o! Posso morrer, e a minha alma não se salva,
-se Bentinho não estiver ao pé de mim.
-
---Vamos assustal-o,
-
---Pois não lhe digam nada, mas vão buscal-o, já, já, não se demorem.
-
-Cuidaram fosse delirio; mas, não custando nada trazer-me, José Dias
-foi incumbido do recado. Entrou tão atordoado que me assustou. Contou
-particularmente ao reitor o que havia, e recebi licença para ir a casa.
-Na rua, iamos calados, elle não alterando o passo do costume,--a
-premissa antes da consequencia, a consequencia antes do conclusão,--mas
-cabisbaixo e suspirando, eu temendo ler no rosto delle alguma noticia
-dura e definitiva. Só me falára na doença, como negocio simples; mas
-o chamado, o silencio, os suspiros podiam dizer alguma cousa mais. O
-coração batia-me com força, as pernas bambeavam-me, mais de uma vez
-cuidei cair...
-
-O anceio de escutar a verdade complicava-se em mim com o temor de a
-saber. Era a primeira vez que a morte me apparecia assim perto, me
-envolvia, me encarava com os olhos furados e escuros. Quanto mais
-andava aquella rua dos Barbonos, mais me aterrava a ideia de chegar a
-casa, de entrar, de ouvir os prantos, de ver um corpo defuncto... Oh!
-eu não poderia nunca expòr aqui tudo o que senti naquelles terriveis
-minutos. A rua, por mais que José Dias andasse superlativamente
-devagar, parecia fugir-me debaixo dos pés, as casas voavam de um e
-outro lado, e uma corneta que nessa occasião tocava no quartel dos
-Municipaes Permanentes resoava aos meus ouvidos como a trombeta do
-juizo final.
-
-Fui, cheguei aos Arcos, entrei na rua de Matacavallos. A casa não era
-logo alli, mas muito além da dos Invalidos, perto da do Senado. Trez ou
-quatro vezes, quizera interrogar o meu companheiro, sem ousar abrir a
-bocca; mas agora, já nem tinha tal desejo. Ia só andando, acceitando o
-peor, como um gesto do destino, como uma necessidade da obra humana,
-e foi então que a Esperança, para combater o Terror, me segredou ao
-coração, não estas palavras, pois nada articulou parecido com palavras,
-mas uma ideia que poderia ser traduzida por ellas: «Mamãe defuncta,
-acaba o seminario.»
-
-Leitor, foi um relampago. Tão depressa alumiou a noite, como se esvaiu,
-e a escuridão fez-se mais cerrada, pelo effeito do remorso que me
-ficou. Foi uma suggestão da luxuria e do egoismo. A piedade filial
-desmaiou um instante, com a perspectiva da liberdade certa, pelo
-desapparecimento da divida e do devedor; foi um instante, menos que um
-instante, o centesimo de um instante, ainda assim o sufficiente para
-complicar a minha afflicção com um remorso.
-
-José Dias suspirava. Uma vez olhou para mim tão cheio de pena que me
-pareceu haver-me adivinhado, e eu quiz pedir-lhe que não dissesse nada
-a ninguem, que eu ia castigar-me, etc. Mas a pena trazia tanto amor,
-que não podia ser pezar do meu peccado; mas então era sempre a morte de
-minha mãe... Senti uma angustia grande, um nó na garganta, e não pude
-mais, chorei de uma vez.
-
---Que é, Bentinho?
-
---Mamãe...?
-
---Não! não! Que ideia é essa? O estado della é gravissimo, mas não é
-mal de morte, e Deus póde tudo. Enxugue os olhos, que é feio um mocinho
-da sua edade andar chorando na rua. Não ha de ser nada, uma febre... As
-febres, assim como dão com força assim tambem se vão embora... Com os
-dedos, não; onde está o lenço?
-
-Enxuguei os olhos, posto que de todas as palavras de José Dias uma só
-me ficasse no coração; foi aquelle _gravissimo._ Vi depois que elle só
-queria dizer _grave_, mas o uso do superlativo faz a bocca longa, e,
-por amor do periodo, José Dias fez crescer a minha tristeza. Se achares
-neste livro algum caso da mesma familia, avisa-me, leitor, para que o
-emende na segunda edição; nada ha mais feio que dar pernas longuissimas
-a ideias brevissimas. Enxuguei os olhos, repito, e fui andando, ancioso
-agora por chegar a casa, e pedir perdão a minha mãe do ruim pensamento
-que tive. Emfim, chegámos, entramos, subi tremulo os seis degraus da
-escada, e d'ahi a pouco, debruçado sobre a cama, ouvia as palavras
-ternas de minha mãe que me apertava muito as mãos, chamando-me seu
-filho. Estava queimando, os olhos ardiam nos meus, toda ella parecia
-consumida por um volcão interno. Ajoelhei-me ao pé do leito, mas como
-este era alto, fiquei longe das suas caricias:
-
---Não, meu filho, levanta, levanta!
-
-Capitú, que estava na alcova, gostou de ver a minha entrada, os
-meus gestos, palavras e lagrimas, segundo me disse depois; mas não
-suspeitou naturalmente todas as causas da minha afflicção. Entrando no
-meu quarto, pensei em dizer tudo a minha mãe, logo que ella ficasse
-boa, mas esta ideia não me mordia, era uma velleidade pura, uma acção
-que eu não faria nunca, por mais que o peccado me doesse. Então,
-levado do remorso, usei ainda uma vez do meu velho meio das promessas
-espirituaes, e pedi a Deus que me perdoasse e salvasse a vida de
-minha mãe, e eu lhe rezaria dous mil padre-nossos. Padre que me lês,
-perdoa este recurso; foi a ultima vez que o empreguei. A crise em
-que me achava, não menos que o costume e a fé, explica tudo. Eram
-mais dous mil; onde iam os antigos? Não paguei uns nem outros, mas
-saindo de almas candidas e verdadeiras taes promessas são como a moeda
-fiduciaria,--ainda que o devedor as não pague, valem a somma que dizem.
-
-
-
-
-LXVIII
-
-Adiemos a virtude.
-
-Poucos teriam animo de confessar aquelle meu pensamento da rua de
-Matacavallos. Eu confessarei tudo o que importar á minha historia.
-Montaigne escreveu de si: _ce ne sont pas mes gestes que j'ecris; c'est
-moi, c'est mon essence._ Ora, ha só um modo de escrever a propria
-essencia, é contal-a toda, o bem e o mal. Tal faço eu, á medida que me
-vae lembrando o convindo á construção ou reconstrucção de mim mesmo.
-Por exemplo, agora que contei um peccado, diria com muito gosto alguma
-bella acção contemporanea, se me lembrasse, mas não me lembra; fica
-transferida a melhor opportunidade.
-
-Nem perderás em esperar, meu amigo; ao contrario, acóde-me agora que...
-Não só as bellas acções são bellas em qualquer occasião, como são
-tambem possiveis e provaveis, pela theoria que tenho dos peccados e
-das virtudes, não menos simples que clara. Reduz-se a isto que cada
-pessoa nasce com certo numero delles e dellas, alliados por matrimonio
-para se compensarem na vida. Quando um de taes conjuges é mais forte
-que o outro, elle só guia o individuo, sem que este, por não haver
-praticado tal virtude ou commettido tal peccado, se possa dizer isento
-de um ou de outro; mas a regra é dar-se a pratica simultanea dos dous,
-com vantagem do portador de ambos, e alguma vez com resplendor maior da
-terra e do ceu. É pena que eu não possa fundamentar isto com um ou mais
-casos extranhos; falta-me tempo.
-
-Pelo que me toca, é certo que nasci com alguns daquelles casaes, e
-naturalmente ainda os possuo. Já me succedeu, aqui no Engenho Novo, por
-estar uma noite com muita dòr de cabeça, desejar que o trem da Central
-estourasse longe dos meus ouvidos e interrompesse a linha por muitas
-horas, ainda que morresse alguem; e no dia seguinte perdi o trem da
-mesma estrada, por ter ido dar a minha bengala a um cego que não trazia
-bordão. _Voilà mes gestes, voilà mon essence._
-
-
-
-
-LXIX
-
-A missa.
-
-Um dos gestos que melhor exprimem a minha essencia foi a devoção
-com que corri no domingo proximo a ouvir missa em S. Antonio dos
-Pobres. O aggregado quiz ir commigo, e principiou a vestir-se, mas
-era tão lento nos suspensorios e nas presilhas, que não pude esperar
-por elle. Demais, eu queria estar só. Sentia necessidade de evitar
-qualquer conversação que me desviasse o pensamento do fim a que ia,
-e era reconciliar-me com Deus, depois do que se passou no capitulo
-LXVII. Nem era só pedir-lhe perdão do peccado, era tambem agradecer
-o restabelecimento de minha mãe, e, visto que digo tudo, fazel-o
-renunciar ao pagamento da minha promessa. Jehovah, posto que divino,
-ou por isso mesmo, é um Rothschild muito mais humano, e não faz
-moratorias, perdoa as dividas integralmente, uma vez que o devedor
-queira devéras emendar a vida e cortar nas despezas. Ora, eu não
-queria outra cousa; dalli em deante não faria mais promessas que não
-pudesse pagar, e pagaria logo as que fizesse.
-
-Ouvi missa; ao levantar a Deus, agradeci a vida e saude de minha mãe;
-depois pedi perdão do peccado e relevação da divida, e recebi a benção
-final do officiante como um acto solemne de reconciliação. No fim,
-lembrou-me que a egreja estabeleceu no confessionario um cartorio
-seguro, e na confissão o mais authentico dos instrumentos para o ajuste
-de contas moraes entre o homem e Deus. Mas a minha incorrigivel timidez
-me fechou essa porta certa; receiei não achar palavras com que dizer ao
-confessor o meu segredo. Como o homem muda! Hoje chego a publical-o.
-
-
-
-
-LXX
-
-Depois da missa.
-
-Rezei ainda, persignei-me, fechei o livro de missa e caminhei para a
-porta. A gente mão era muita, mas a egreja tambem não é grande, e não
-pude sair logo, logo, mas devagar. Havia homens e mulheres, velhos e
-moços, sedas e chitas, e provavelmente olhos feios e bellos, mas eu
-não vi uns nem outros. Ia na direcção da porta, com a onda, ouvindo
-as saudações e os cochichos. No adro, onde se fez claro, parei e
-olhei para todos. Vi então uma moça e um homem, que saíam da egreja e
-pararam; e a moça olhava para mim falando ao homem, e o homem olhava
-para mim, ouvindo a moça. E chegaram-me estas palavras:
-
---Mas que queres?
-
---Queria saber della; papae pergunte.
-
-Era sinhásinha Sancha, a companheira de collegio de Capitú, que
-queria noticias de minha mãe. O pae veiu a mim; disse-lhe que estava
-restabelecida. Depois saimos, mostrou-me a casa delle, e, como eu vinha
-na mesma direcção, viemos juntos. Gurgel era homem de quarenta annos ou
-pouco mais, com propensão a engrossar o ventre; era muito obsequioso;
-chegando á porta da casa, quiz por força que eu fosse almoçar com elle.
-
---Obrigado; mamãe espera-me.
-
---Manda-se lá um preto dizer que o senhor fica almoçando, e irá mais
-tarde.
-
---Venho outro dia.
-
-Sinhásinha Sancha, voltada para o pae, ouvia e esperava. Não era feia;
-só se lhe podia notar a semelhança do nariz, que tambem acabava grosso,
-mas ha feições que tiram a graça de uns para dal-a a outros. Vestia
-simples. Gurgel era viuvo e morria pela filha. Como eu recusasse o
-almoço, quiz que descançasse alguns minutos. Não pude recusar e subi.
-Quis saber a minha edade, os meus estudos, a minha fé, e dava-me
-conselhos para o caso de vir a ser padre; disse-me o numero do armazem,
-rua da Quitanda. Emfim, despedi-me, veiu ao patamar da escada; a filha
-deu-me rocommendações para Capitú e para minha mãe. Da rua olhei para
-cima; o pae estava á janella e fez-me um gosto largo de despedida.
-
-
-
-
-LXXI
-
-Visita de Escobar.
-
-Em casa, tinham já mentido dizendo a minha mãe que eu voltára e estava
-mudando de roupa.
-
-«A missa das oito já ha de ter acabado... Bentinho devia estar de
-volta... Teria acontecido alguma cousa, mano Cosme?... Mandem ver...»
-Assim falava ella, de minuto a minuto, mas eu entrei e commigo a
-tranquillidade.
-
-Era o dia das boas sensações. Escobar foi visitar-me e saber da saude
-de minha mãe. Nunca me visitára até alli, nem as nossas relações
-estavam já tão estreitas, como vieram a ser depois; mas sabendo a razão
-da minha saida, tres dias antes, aproveitou o domingo para ir ter
-commigo e perguntar se continuava o perigo ou não. Quando lhe disse que
-não, respirou.
-
---Tive receio, disse elle.
-
---Os outros souberam?
-
---Parece que sim: alguns souberam.
-
-Tio Cosme e José Dias gostaram do moço; o aggregado disse-lhe que vira
-uma vez o pae no Rio de Janeiro. Escobar era muito polido; e, comquanto
-falasse mais do que veiu a falar depois, ainda assim não era tanto como
-os rapazes da nossa edade; naquelle dia achei-o um pouco mais expansivo
-que de costume. Tio Cosme quiz que jantasse comnosco. Escobar reflectiu
-um instante e acabou dizendo que o correspondente do pae esperava por
-elle. Eu, lembrando-me das palavras do Gurgel, repeti-as:
-
---Manda-se lá um preto dizer que o senhor janta aqui, e irá depois.
-
---Tanto incommodo!
-
---Incommodo nenhum, interveiu tio Cosme.
-
-Escobar acceitou, e jantou. Notei que os movimentos rápidos que tinha e
-dominava na aula tambem os dominava agora, na sala como na mesa. A hora
-que passou commigo foi de franca amizade. Mostrei-lhe os poucos livros
-que possuia. Gostou muito do retrato de meu pae; depois de alguns
-instantes de contemplação, virou-se e disse-me:
-
---Vê-se que era um coração puro!
-
-Os olhos de Escobar, claros como já disse, eram dulcissimos; assim
-os definiu José Dias, depois que elle saiu, e mantenho esta palavra,
-apesar dos quarenta annos que traz em cima de si. Nisto não houve
-exageração do aggregado. A cara rapada mostrava uma pelle alva e lisa.
-A testa é que era um pouco baixa, vindo a risca do cabello quasi em
-cima da sobrancelha esquerda; mas tinha sempre a altura necessaria
-para não affrontar as outras feições, nem diminuir a graça dellas.
-Realmente, era interessante de rosto, a bocca fina e chocarreira, o
-nariz curvo e delgado. Tinha o séstro de sacudir o hombro direito, de
-quando em quando, e veiu a perdel-o, desde que um de nós lh'o notou
-um dia no seminario; primeiro exemplo que vi de que um homem póde
-corrigir-se muito bem dos defeitos miudos.
-
-Nunca deixei de sentir tal ou qual desvanecimento em que os meus amigos
-agradassem a todos. Em casa, ficaram querendo bem a Escobar; a mesma
-prima Justina achou que era um moço muito apreciavel, apesar... Apesar
-de que? perguntou-lhe José Dias, vendo que ella não acabava a phrase.
-Não teve resposta, nem podia tel-a; prima Justina provavelmente não
-viu defeito claro ou importante no nosso hospede; o _apesar_ era uma
-especie de resalva para algum que lhe viesse a descobrir um dia; ou
-então foi obra de uso velho, que a levou a restringir, onde não achára
-restricção.
-
-Escobar despediu-se logo depois de jantar; fui leval-o á porta,
-onde esperámos a passagem de um omnibus. Disse-me que o armazem do
-correspondente era na rua dos Pescadores, e ficava aberto até ás nove
-horas: elle é que se não queria demorar fóra. Separámo-nos com muito
-affecto: elle, de dentro do omnibus, ainda me disse adeus, com a mão.
-Conservei-me á porta, a ver se, ao longe, ainda olharia para traz, mas
-não olhou.
-
---Que amigo é esse tamanho? perguntou alguem de uma janella ao pé.
-
-Não é preciso dizer que era Capitú. São cousas que se adivinham na
-vida, como nos livros, sejam romances, sejam historias verdadeiras. Era
-Capitú, que nos espreitara desde algum tempo, por dentro da veneziana,
-e agora abrira inteiramente a janella, e apparecera. Viu as nossas
-despedidas tão rasgadas e affectuosas, e quiz saber quem era que me
-merecia tanto.
-
---É o Escobar, disse eu indo pôr-me embaixo da janella, a olhar para
-cima.
-
-
-
-
-LXXII
-
-Uma reforma dramatica.
-
-Nem eu, nem tu, nem ella, nem qualquer outra pessoa desta historia
-poderia responder mais, tão certo é que o destino, como todos os
-dramaturgos, não annuncia as peripecias nem o desfecho. Elles chegam a
-seu tempo, até que o panno cae, apagam-se as luzes, e os espectadores
-vão dormir. Nesse genero ha porventura alguma cousa que reformar, e
-eu proporia, como ensaio, que as peças começassem pelo fim. Othello
-mataria a si e a Desdemona no primeiro acto, os tres seguintes seriam
-dados á acção lenta e decrescente do ciume, e o ultimo ficaria só com
-as scenas iniciaes da ameaça dos turcos, as explicações de Othello e
-Desdemona, e o bom conselho do fino Iago: «Mette dinheiro na bolsa.»
-Desta maneira, o espectador, por um lado, acharia no theatro a charada
-habitual que os periodicos lhe dão, porque os ultimos actos explicariam
-o desfecho do primeiro, especie de conceito, e, por outro lado, ia
-para a cama com uma boa impressão de ternura e de amor:
-
- Ella amou o que me affligira,
- Eu amei a piedade della.
-
-
-
-
-LXXIII
-
-O contra-regra.
-
-O destino não é só dramaturgo, é tambem o seu proprio contra-regra,
-isto é, designa a entrada dos personagens em scena, dá-lhes as cartas
-e outros objectos, e executa dentro os signaes correspondentes
-ao dialogo, uma trovoada, um carro, um tiro. Quando eu era moço,
-representou-se ahi, em não sei que theatro, um drama que acabava pelo
-juizo final. O principal personagem era Ashaverus, que no ultimo
-quadro concluia um monologo por esta exclamação: «Ouço a trombeta do
-archanjo!» Não se ouviu trombeta nenhuma. Ashaverus, envergonhado,
-repetiu a palavra, agora mais alto, para advertir o contra-regra, mas
-ainda nada. Então caminhou para o fundo, disfarçamente tragico, mas
-effectivamente com o fim de falar ao bastidor, e dizer em voz surda:**
-«O piston! o piston! o piston!» O publico ouviu esta palavra e desatou
-a rir, até que, quando a trombeta soou devéras, e Ashaverus bradou
-pela terceira vez que era a do archanjo, um gaiato da platéa corrigiu
-cá debaixo: «Não, senhor, é o piston do archanjo!»
-
-Assim se explicam a minha estada debaixo da janella de Capitú e a
-passagem de um cavalleiro, um _dandy_, como então diziamos. Montava
-um bello cavallo alazão, firme na sella, redea na mão esquerda, a
-direita á cinta, botas de verniz, figura e postura esbeltas: a cara
-não me era desconhecida. Tinham passado outros, e ainda outros viriam
-atraz; todos iam ás suas namoradas. Era uso do tempo namorar a cavallo.
-Relê Alencar: «Porque um estudante (dizia um dos seus personagens de
-theatro de 1858) não póde estar sem estas duas cousas, um cavallo e uma
-namorada.» Relê Alvares de Azevedo. Uma das suas poesias é destinada
-a contar (1851) que residia em Catumby, e, para ver a namorada no
-Cattete, alugara um cavallo por trez mil reis... Trez mil reis! tudo se
-perde na noite dos tempos!
-
-Ora, o _dandy_ do cavallo baio não passou como os outros; era a
-trombeta do juizo final e soou a tempo; assim faz o Destino, que é o
-seu proprio contra-regra. O cavalleiro não se contentou de ir andando,
-mas voltou a cabeça para o nosso lado, o lado de Capitú, e olhou
-para Capitú, e Capitú para elle; o cavallo andava, a cabeça do homem
-deixava-se ir voltando para traz. Tal foi o segundo dente de ciume que
-me mordeu. A rigor, era natural admirar as bellas figuras; mas aquelle
-sujeito costumava pagar alli, ás tardes; morava no antigo Campo da
-Acclamação, e depois... e depois... Vão lá raciocinar com um coração de
-braza, como era o meu!
-
-Nem disse nada a Capitú; saí da rua á pressa, enfiei pelo meu corredor,
-e, quando dei por mim, estava na sala de visitas.
-
-
-
-
-LXXIV
-
-A presilha.
-
-Na sala de visitas, tio Cosme e José Dias conversavam, um sentado,
-outro andando e parando. A vista de José Dias lembrou-me o que elle
-me disséra no seminario: «Aquillo emquanto não pegar algum peralta da
-visinhança que case com ella....» Era certamente allusão ao cavalleiro.
-Tal recordação aggravou a impressão que eu trazia da rua; mas não
-seria essa palavra, inconscientemente guardada, que me dispoz a crer
-na malicia dos seus olhares? A vontade que tive foi pegar em José Dias
-pela gola, leval-o ao corredor e perguntar-lhe se falara de verdade ou
-por hypothese; mas José Dias, que parára ao ver-me entrar, continuou a
-andar e a falar. Eu, impaciente, queria ir á casa ao pé, imaginava que
-Capitú saisse da janella assustada e não tardasse a apparecer, para
-indagar e explicar.... E os dous falavam, até que tio Cosme ergueu-se
-para ir ver a doente, e José Dias veiu ter commigo, ao vão da outra
-janella.
-
-Ha um instante tinha eu desejo de lhe perguntar o que havia entre
-Capitú e os peraltas do bairro; agora, imaginando que vinha justamente
-dizer-m'o, fiquei com medo de ouvil-o. Quiz tapar-lhe a bocca. José
-Dias viu no meu rosto algum signal differente da expressão habitual, e
-perguntou-me com interesse:
-
---Que é, Bentinho?
-
-Para não fital-o, deixei cair os olhos. Os olhos, caindo, viram que uma
-das presilhas das calças do aggregado estava desabotoada, e, como elle
-insistisse em saber o que é que eu tinha, respondi apontando com o dedo:
-
---Olhe a presilha, abotoe a presilha.
-
-José Dias inclinou-se, eu saí correndo.
-
-
-
-
-LXXV
-
-O desespero.
-
-Escapei ao aggregado, escapei a minha mãe não indo ao quarto della, mas
-não escapei a mim mesmo. Corri ao meu quarto, e entrei atraz de mim.
-Eu falava-me, eu perseguia-me, eu atirava-me á cama, e rolava commigo,
-e chorava, e abafava os soluços com a ponta do lençol. Jurei não ir
-ver Capitú aquella tarde, nem nunca mais, e fazer-me padre de uma vez.
-Via-me já ordenado, deante d'ella, que choraria de arrependimento e me
-pediria perdão, mas eu, frio e sereno, não teria mais que desprezo,
-muito desprezo; voltava-lhe as costas. Chamava-lhe perversa. Duas vezes
-dei por mim mordendo os dentes, como se a tivesse entre elles.
-
-Da cama ouvia voz della, que viera passar o resto da tarde com minha
-mãe, e naturalmente commigo, como das outras vezes; mas, por maior que
-fosse o abalo que me deu, não me fez sair do quarto. Capitú ria alto,
-falava alto, como se me avisasse; eu continuava surdo, a sós commigo
-e o meu desprezo. A vontade que me dava era cravar-lhe as unhas no
-pescoço, enterral-as bem, até ver-lhe sair a vida com o sangue....
-
-
-
-
-LXXVI
-
-Explicação.
-
-Ao fim de algum tempo, estava socegado, mas abatido. Como me achasse
-estirado na cama, com os olhos no tecto, lembrou-me a recommendação que
-minha mãe fazia de me não deitar depois de jantar para evitar alguma
-congestão. Ergui-me de golpe, mas não saí do quarto. Capitú ria agora
-menos e falava mais baixo; estaria afflicta com a minha reclusão, mas
-nem por isso me abalou.
-
-Não ceei e dormi mal. Na manhã seguinte não estava melhor, estava
-differente. A minha dòr agora complicava-se do receio de haver ido além
-do que convinha, deixando de examinar o negocio. Posto que a cabeça
-me doesse um pouco, simulei maior incommodo, com o fim de não ir ao
-seminario e falar a Capitú. Podia estar zangada commigo, podia não
-querer-me agora e preferir o cavalleiro. Quiz resolver tudo, ouvil-a e
-julgal-a; podia ser que tivesse defesa e explicação.
-
-Tinha ambas as cousas. Quando soube a causa da minha reclusão da
-vespera, disse-me que era grande injuria que lhe fazia; não podia
-crer que depois da nossa troca de juramentos, tão leviana a julgasse
-que pudesse crer.... E aqui romperam-lhe lagrimas, e fez um gesto de
-separação; mas eu acudi de prompto, peguei-lhe das mãos e beijei-as
-com tanta alma e calor que as senti estremecer. Enxugou os olhos com
-os dedos, eu os beijei de novo, por elles e pelas lagrimas; depois
-suspirou, depois abanou a cabeça. Confessou-me que não conhecia o
-rapaz, senão como os outros que alli passavam ás tardes, a cavallo ou a
-pé. Se olhara para elle, era prova exactamente de não haver nada entre
-ambos; se houvesse, era natural dissimular.
-
---E que poderia haver, se elle vae casar? concluiu.
-
---Vae casar?
-
-Ia casar, disse-me com quem, com uma moça da rua dos Barbonos. Esta
-razão quadrou-me mais que tudo, e ella o sentiu no meu gesto; nem por
-isso deixou de dizer que, para evitar nova equivocação, deixaria de ir
-mais á janella.
-
---Não! não! não! não lhe peço isto!
-
-Consentiu em retirar a promessa, mas fez outra, e foi que, á primeira
-suspeita da minha parte, tudo estaria dissolvido entro nós. Acceitei a
-ameaça, e jurei que nunca a haveria de cumprir: era a primeira suspeita
-e a ultima.
-
-
-
-
-LXXVII
-
-Prazer das dôres velhas.
-
-Contando aquella crise do meu amor adolescente, sinto uma cousa que não
-sei se explico bem, e é que as dôres daquella quadra, a tal ponto se
-espiritualisaram com o tempo, que chegam a diluir-se no prazer. Não é
-claro isto, mas nem tudo é claro na vida ou nos livros. A verdade é que
-sinto um gosto particular em referir tal aborrecimento, quando é certo
-que elle me lembra outros que não quizera lembrar por nada.
-
-
-
-
-LXXVIII
-
-Segredo por segredo.
-
-De resto, naquelle mesmo tempo senti tal ou qual necessidade de contar
-a alguem o que se passava entre mim e Capitú. Não referi tudo, mas só
-uma parte, e foi Escobar que a recebeu. Quando voltei ao seminario,
-na quarta-feira, achei-o inquieto; disse-me que era sua intenção ir
-ver-me, se eu me demorasse mais um dia em casa. Perguntava-me com
-interesse o que é que tivera, e se estava bom de todo.
-
---Estou.
-
-Ouvia, espetando-me os olhos. Tres dias depois disse que me estavam
-achando muito distrahido; era bom disfarçar o mais que pudesse. Elle, á
-sua parte, tinha razões para andar distrahido tambem, mas buscava ficar
-attento.
-
---Então parece-lhe....?
-
---Sim, você ás vezes está que não ouve nada, olhando para hontem;
-disfarce, Santiago.
-
---Tenho motivos....
-
---Creio; ninguem se distrae á toa.
-
---Escobar....
-
-Hesitei; elle esperou.
-
---Que é?
-
---Escobar, você é meu amigo, eu sou seu amigo tambem; aqui no seminario
-você é a pessoa que mais me tem entrado no coração, e lá fóra, a não
-ser a gente da familia, não tenho propriamente um amigo.
-
---Se eu disser a mesma cousa, retorquiu elle sorrindo, perde a graça;
-parece que estou repetindo. Mas a verdade é que não tenho aqui relações
-com ninguem, você é o primeiro e creio que já notaram; mas eu não me
-importo com isso.
-
-Commovido, senti que a voz se me precipitava da garganta.
-
---Escobar, você é capaz de guardar um segredo?
-
---Você que pergunta é porque duvida, e nesse caso....
-
---Desculpe, é um modo de falar. Eu sei que é moço serio, e faço de
-conta que me confesso a um padre.
-
---Se precisa de absolvição, está absolvido.
-
---Escobar, eu não posso ser padre. Estou aqui, os meus acreditam, o
-esperam; mas eu não posso ser padre.
-
---Nem eu, Santiago.
-
---Nem você?
-
---Segredo por segredo; tambem eu tenho o proposito de não acabar o
-curso; meu desejo é o commercio, mas não diga nada, absolutamente
-nada; fica só entre nós. E não é que eu não seja religioso; sou
-religioso, mas o commercio é a minha paixão.
-
---Só isso?
-
---Que mais ha de ser?
-
-Dei duas voltas e sussurrei a primeira palavra da minha confidencia,
-tão escassa e surda, que não a ouvi eu mesmo; sei porém que disse «uma
-pessoa...» com reticencia. Uma pessoa....? Não foi preciso mais para
-que elle entendesse. Uma pessoa devia ser uma moça. Nem cuides que
-pasmou de me ver namorado; achou até natural e espetou-me outra vez os
-olhos. Então contei-lhe por alto o que podia, mas demoradamente para
-ter o gosto de repisar o assumpto. Escobar escutava com interesse; no
-fim da nossa conversação, declarou-me que era segredo enterrado em
-cemiterio. Deu-me de conselho que não me fizesse padre. Não podia levar
-para a egreja um coração que não era do ceu, mas da terra; seria um mau
-padre, nem seria padre. Ao contrario. Deus protegia os sinceros; uma
-vez que eu só podia servil-o no mundo, ahi me cumpria ficar.
-
-Não calculas o prazer que me deu a confidencia que lhe fiz. Era como
-que uma felicidade mais. Aquelle coração moço que me ouvia e me dava
-razão, trazia a este mundo um aspecto extraordinario. Era um grande e
-bello mundo, a vida uma carreira excellente, e eu nem mais nem menos um
-mimoso do ceu; eis a minha sensação. Nota que eu não lhe disse tudo,
-nem o melhor; não lhe referi o capitulo do penteado, por exemplo, nem
-outros assim; mas o contado era muito.
-
-Que voltámos ao assumpto, não é preciso dizel-o. Voltámos uma e muitas
-vezes; eu louvava as qualidades moraes de Capitú, materia adequada á
-admiração de um seminarista, a simpleza, a modestia, o amor do trabalho
-e os costumes religiosos. Não lhe tocava nas graças physicas, nem elle
-me perguntava por ellas; apenas insinuei a conveniencia de a conhecer
-de vista.
-
---Agora não é possivel, disse-lhe na primeira semana, ao voltar de
-casa; Capitú vae passar uns dias com uma amiga da rua dos Invalidos.
-Quando ella vier, você irá lá; mas póde ir antes, póde ir sempre;
-porque não foi hontem jantar commigo?
-
---Você não me convidou.
-
---Pois precisa convidar? Lá em casa todos ficaram gostando muito de
-você.
-
---Tambem eu fiquei gostando de todos, mas se é possivel fazer
-distincção, confesso-lhe que sua mãe é uma senhora adoravel.
-
---Não é verdade? retorqui cheio de alvoroço.
-
-
-
-
-LXXIX
-
-Vamos ao capitulo.
-
-Com effeito, gostei de ouvil-o falar assim. Sabes a opinião que eu
-tinha de minha mãe. Ainda agora, depois de interromper esta linha para
-mirar-lhe o retrato que pende da parede, acho que trazia no rosto
-impressa aquella qualidade. Nem de outro modo se explica a opinião de
-Escobar, que apenas trocara com ella quatro palavras. Uma só bastava a
-penetrar-lhe a essencia intima; sim, sim, minha mãe era adoravel. Por
-mais que me estivesse então obrigando a uma carreira que eu não queria,
-não podia deixar de sentir que era adoravel, como uma santa.
-
-E por ventura era certo que me obrigava á carreira ecclesiastica? Aqui
-chego a um ponto, que esperei viesse depois, tanto que já pesquizava em
-que altura lhe daria um capitulo. Realmente, não cabia dizer agora o
-que só mais tarde presumi descobrir; mas, uma vez que toquei no ponto,
-melhor é acabar com elle. É grave e complexo, delicado e subtil, um
-destes em que o autor tem de attender ao filho, e o filho ha de ouvir
-o autor, para que um e outro digam a verdade, só a verdade, mas toda a
-verdade. Cabe ainda notar que esse ponto é que torna justamente a santa
-mais adoravel, sem prejuizo (ao contrario!) da parte humana e terrestre
-que havia nella. Basta de prefacio ao capitulo; vamos ao capitulo.
-
-
-
-
-LXXX
-
-Venhamos ao capitulo.
-
-Venhamos ao capitulo. Minha mãe era temente a Deus; sabes disto, e das
-suas praticas religiosas, e da fé pura que as animava. Nem ignoras que
-a minha carreira ecclesiastica era objecto de promessa feita quando
-fui concebido. Tudo está contado opportunamente. Outrosim, sabes que
-para o fim de apertar o vinculo moral da obrigação, confiou os seus
-projectos e motivos a parentes e familiares. A promessa, feita com
-fervor, acceita com misericordia, foi guardada por ella, com alegria,
-no mais intimo do coração. Penso que lhe senti o sabor da felicidade no
-leite que me deu a mamar. Meu pae, se vivesse, é possivel que alterasse
-os planos, e, como tinha a vocação da politica, é provavel que me
-encaminhasse somente á politica, embora os dous officios não fossem nem
-sejam inconciliaveis, e mais de um padre entre na luta dos partidos e
-no governo dos homens. Mas meu pae morrera sem saber nada, e ella ficou
-deante do contracto, como unica devedora.
-
-Um dos aphorismos de Franklin é que, para quem tem de pagar na paschoa,
-a quaresma é curta. A nossa quaresma não foi mais longa que as outras,
-e minha mãe, posto me mandasse ensinar latim e doutrina, começou a
-adiar a minha entrada no seminario. É o que se chama, commercialmente
-falando, reformar uma lettra. O credor era archi-millionario, não
-dependia daquella quantia para comer, e consentiu nas transferencias de
-pagamento, sem sequer aggravar a taxa do juro. Um dia, porém, um dos
-familiares que serviam de endossantes da letra, falou da necessidade de
-entregar o preço ajustado; está n'um dos capitulos primeiros. Minha mãe
-concordou e recolhi-me a S. José.
-
-Ora, nesse mesmo capitulo, verteu ella umas lagrimas, que enxugou sem
-explicar, e que nenhum dos presentes, nem tio Cosme, mau prima Justina,
-nem o aggregado José Dias entendeu absolutamente; eu, que estava atraz
-da porta, não as entendi mais que elles. Bem examinadas, apesar da
-distancia, vê-se que eram saudades prévias, a magoa da separação,--e
-póde ser tambem (é o principio do ponto), póde ser que arrependimento
-da promessa. Catholica e devota, sentia muito bem que as promessas
-se cumprem; a questão é se é opportuno e adequado fazel-as todas, e
-naturalmente inclinava-se á negativa. Porque é que Deus a puniria,
-negando-lhe um segundo filho? A vontade divina podia ser a minha vida,
-sem necessidade de lh'a dedicar _ab ovo._ Era um raciocinio tardio;
-devia ter sido feito no dia em que fui gerado. Em todo caso, era uma
-conclusão primeira; mas, não bastando concluir para destruir, tudo se
-manteve, e eu fui para o seminario.
-
-Um cochilo da fé teria resolvido a questão a meu favor, mas a fé velava
-com os seus grandes olhos ingenuos. Minha mãe faria, se pudesse,
-uma troca de promessa, dando parte dos seus annos para conservar-me
-comsigo, fóra do clero, casado e pae; é o que presumo, assim como
-supponho que rejeitou tal ideia, por lhe parecer uma deslealdade. Assim
-a senti sempre na corrente da vida ordinaria.
-
-Succedeu que a minha ausencia foi logo temperada pela assiduidade de
-Capitú. Esta começou a fazer-se-lhe necessaria. Pouco a pouco veiu-lhe
-a persuasão de que a pequena me faria feliz. Então (é o final do ponto
-annunciado), a esperança de que o nosso amor, tornando-me absolutamente
-incompativel com o seminario, me levasse a não ficar lá nem por Deus
-nem pelo diabo, esta esperança intima e secreta entrou a invadir o
-coração de minha mãe. Neste caso, eu romperia o contracto sem que ella
-tivesse culpa. Ella ficava commigo sem acto propriamente seu. Era como
-se, tendo confiado a alguem a importancia de uma divida para leval-a
-ao credor, o portador guardasse o dinheiro comsigo e não levasse nada.
-Na vida commum, o acto de terceiro não desobriga o contractante; mas a
-vantagem de contractar com o ceu é que intenção vale dinheiro.
-
-Has de ter tido conflictos parecidos com esse, e, se és religioso,
-haverás buscado alguma vez conciliar o ceu e a terra, por modo identico
-ou analogo. O ceu e a terra acabam conciliando-se; elles são quasi
-irmãos gemeos, tendo o ceu sido feito no segundo dia e a terra no
-terceiro. Como Abrahão, minha mãe levou o filho ao monte da Visão,
-e mais a lenha para o holocausto, o fogo e o cutello. E atou Isaac
-em cima do feixe de lenha, pegou do cutello e levantou-o ao alto. No
-momento de fazel-o cair, ouve a voz do anjo que lhe ordena da parte do
-Senhor: «Não faças mal algum a teu filho; conheci que temes a Deus.»
-Tal seria a esperança secreta de minha mãe.
-
-Capitú era naturalmente o anjo da Escriptura. A verdade é que minha mãe
-não podia tel-a agora longe de si. A affeição crescente era manifesta
-por actos extraordinarios. Capitú passou a ser a flôr da casa, o sol
-das manhãs, o frescor das tardes, a lua das noites; lá vivia horas e
-horas, ouvindo, falando e cantando. Minha mãe apalpava-lhe o coração,
-revolvia-lhe os olhos, e o meu nome era entre ambas como a senha da
-vida futura.
-
-
-
-
-LXXXI
-
-Uma palavra.
-
-Assim contado o que descobri mais tarde, posso trasladar para aqui
-uma palavra de minha mãe. Agora se entenderá que ella me dissesse, no
-primeiro sabbado, quando eu cheguei a casa, e soube que Capitú estava
-na rua dos Invalidos, com Sinhásinha Gurgel.
-
---Porque não vaes vel-a? Não me disseste que o pae de Sancha te
-offereceu a casa?
-
---Offereceu.
-
---Pois então? Mas é se queres. Capitú devia ter voltado hoje para
-acabar um trabalho commigo; certamente a amiga pediu-lhe que dormisse
-lá.
-
---Talvez ficassem namorando, insinuou prima Justina.
-
-Não a matei por não ter a mão ferro nem corda, pistola nem punhal; mas
-os olhos que lhe deitei, se pudessem matar, teriam supprido tudo. Um
-dos erros da Providencia foi deixar ao homem unicamente os braços e
-os dentes, como armas de ataque, e as pernas como armas de fuga ou de
-defesa. Os olhos bastavam ao primeiro effeito. Um mover delles faria
-parar ou cair um inimigo ou um rival, exerceriam vingança prompta,
-com este accressimo que, para desnortear a justiça, os mesmos olhos
-matadores seriam olhos piedosos, e correriam a chorar a victima.
-Prima Justina escapou aos meus; eu é que não escapei ao effeito da
-insinuação, e no domingo, ás onze horas, corri á rua dos Invalidos.
-
-O pae de Sancha recebeu-me em desalinho e triste. A filha estava
-enferma; caira na vespera com uma febre, que se ia aggravando. Como
-elle queria muito á filha, pensava já vel-a morta, e annunciou-me que
-se mataria tambem. Eis aqui um capitulo funebre como um cemiterio,
-mortes, suicidios e assassinatos. Eu anciava por um raio de luz clara e
-ceu azul. Foi Capitú que os trouxe á porta da sala, vindo dizer ao pae
-de Sancha que a filha o mandara chamar.
-
---Está peor? perguntou Gurgel assustado.
-
---Não, senhor, mas quer falar-lhe.
-
---Fique aqui um bocadinho, disse-lhe elle; e voltando-se para mim: É a
-enfermeira de Sancha, que não quer outra; eu já volto.
-
-Capitú trazia signaes de fadiga e commoção, mas tão depressa me viu,
-ficou toda outra, a mocinha de sempre, fresca e lepida, não menos que
-espantada. Custou-lhe a crer que fosse eu. Falou-me, quiz que lhe
-falasse, e effectivamente conversámos por alguns minutos, mas tão
-baixo e abafado que nem as paredes ouviram, ellas que tèm ouvidos. De
-resto, se ellas ouviram algo, nada entenderam, nem ellas nem os moveis,
-que estavam tão tristes como o dono.
-
-
-
-
-LXXXII
-
-O canapé.
-
-Delles, só o canapé pareceu haver comprehendido a nossa situação
-moral, visto que nos offereceu os serviços da sua palhinha, com tal
-insistencia que os acceitámos e nos sentámos. Data dahi a opinião
-particular que tenho do canapé. Elle faz alliar a intimidade e o
-decoro, e mostra a casa toda sem sair da sala. Dous homens sentados
-nelle pódem debater o destino de um imperio, e duas mulheres a graça
-de um vestido; mas, um homem e uma mulher só por aberração das leis
-naturaes dirão outra cousa que não seja de si mesmos. Foi o que
-fizemos, Capitú e eu. Vagamente lembra-me que lhe perguntei se a demora
-alli seria grande...
-
---Não sei; a febre parece que cede... mas...
-
-Tambem me lembra, vagamente, que lhe expliquei a minha visita á rua dos
-Invalidos, com a pura verdade, isto é, a conselho de minha mãe.
-
---Conselho della? murmurou Capitú.
-
-E accrescentou com os olhos, que brilhavam extraordinariamente:
-
---Seremos felizes!
-
-Repeti esta palavras, com os simples dedos, apertando os della. O
-canapé, quer visse ou não, continuou a prestar os seus serviços ás
-nossas mãos presas e ás nossas cabeças juntas ou quasi juntas.
-
-
-
-
-LXXXIII
-
-O retrato.
-
-Gurgel tornou á sala e disse a Capitú que a filha chamava por ella.
-Eu levantei-me depressa e não achei compostura; mettia os olhos pelas
-cadeiras. Ao contrario, Capitú ergueu-se naturalmente e perguntou-lhe
-se a febre augmentára.
-
---Não, disse elle.
-
-Nem sobresalto nem nada, nenhum ar de mysterio da parte de Capitú;
-voltou-se para mim, e disse-me que levasse lembranças a minha mãe e
-a prima Justina, e que até breve; estendeu-me a mão e enfiou pelo
-corredor. Todas as minhas invejas foram com ella. Como era possivel que
-Capitú se governasse tão facilmente e eu não?
-
---Está uma moça, observou Gurgel olhando tambem para ella.
-
-Murmurei que sim. Na verdade, Capitú ia crescendo ás carreiras, as
-fórmas arredondavam-se e avigoravam-se com grande intensidade;
-moralmente, a mesma cousa. Era mulher por dentro e por fóra, mulher á
-direita e á esquerda, mulher por todos os lados, e desde os pés até á
-cabeça. Esse arvorecer era mais apressado, agora que eu a via de dias
-a dias; de cada vez que vinha a casa achava-a mais alta e mais cheia;
-os olhos pareciam ter outra reflexão, e a bocca outro imperio. Gurgel,
-voltando-se para a parede da sala, onde pendia um retrato de moça,
-perguntou-me se Capitú era parecida com o retrato.
-
-Um dos costumes da minha vida foi sempre concordar com a opinião
-provavel do meu interlocutor, desde que a materia não me aggrava,
-aborrece ou impõe. Antes de examinar se effectivamente Capitú era
-parecida com o retrato, fui respondendo que sim. Então elle disse que
-era o retrato da mulher delle, e que as pessoas que a conheceram diziam
-a mesma cousa. Tambem achava que as feições eram semelhantes, a testa
-principalmente e os olhos. Quanto ao genio, era um; pareciam irmãs.
-
---Finalmente, até a amizade que ella tem a Sanchinha; a mãe não era
-mais amiga della... Na vida ha dessas semelhanças assim exquisitas.
-
-
-
-
-LXXXIV
-
-Chamado.
-
-No saguão e na rua, examinei ainda commigo se effectivamente elle
-teria desconfiado alguma cousa, mas achei que não e puz-me a andar. Ia
-satisfeito com a visita, com a alegria de Capitú, com os louvores de
-Gurgel, a tal ponto que não acudi logo a uma voz que me chamava:
-
---Sr. Bentinho! Sr. Bentinho!
-
-Só depois que a voz cresceu e o dono della chegou á porta é que eu
-parei e vi o que era e onde estava. Estava já na rua de Matacavallos.
-A casa era uma loja de louça, escassa e pobre; tinha as portas
-meio-cerradas, e a pessoa que me chamava era um pobre homem grisalho e
-mal vestido.
-
---Sr. Bentinho, disse-me elle chorando; sabe que meu filho Manduca
-morreu?
-
---Morreu?
-
---Morreu ha meia hora, enterra-se amanhã. Mandei recado a sua mãe
-agora mesmo, e ella fez-me a caridade de mandar algumas flores para
-botar no caixão. Meu pobre filho! Tinha de morrer, e foi bom que
-morresse, coitado, mas apesar de tudo sempre doe. Que vida que elle
-teve!... Um dia destes ainda se lembrou do senhor, e perguntou se
-estava no seminario... Quer vel-o? Entre, ande vel-o...
-
-Custa-me dizer isto, mas antes peque por excessivo que por diminuto.
-Quiz responder que não, que não queria ver o Manduca, e fiz até um
-gesto para fugir. Não era medo; n'outra occasião póde ser até que
-entrasse com facilidade e curiosidade, mas agora ia tão contente! Ver
-um defuncto ao voltar de uma namorada... Ha cousas que se não ajustam
-nem combinam. A simples noticia era já uma turvação grande. Às minhas
-ideias de ouro perderam todas a côr e o metal para se trocarem em
-cinza escura e feia, e não distingui mais nada. Penso que cheguei
-a dizer que tinha pressa, mas provavelmente não falei por palavras
-claras, nem sequer humanas, porque elle, encostado ao portal, abria-me
-espaço com o gesto, e eu, sem alma para entrar nem fugir, deixei ao
-corpo fazer o que pudesse, e o corpo acabou entrando.
-
-Não culpo ao homem; para elle, a cousa mais importante do momento
-era o filho. Mas tambem não me culpem a mim; para mim, a cousa mais
-importante era Capitú. O mal foi que os dous casos se conjugassem na
-mesma tarde, e que a morte de um viesse metter o nariz na vida do
-outro. Eis o mal todo. Se eu passasse antes ou depois, ou se o Manduca
-esperasse algumas horas para morrer, nenhuma nota aborrecida viria
-interromper as melodias da minha alma. Porque morrer exactamente ha
-meia hora? Toda hora é apropriada ao obito; morre-se muito bem ás seis
-ou sete horas da tarde.
-
-
-
-
-LXXXV
-
-O defuncto.
-
-Tal foi o sentimento confuso com que entrei na loja de louça. A
-loja era escura, e o interior da casa menos luz tinha, agora que as
-janellas da área estavam cerradas. A um canto da sala de jantar vi a
-mãe chorando; á porta da alcova duas creanças olhavam espantadas para
-dentro, com o dedo na bocca. O cadaver jazia na cama; a cama...
-
-Suspendamos a penna e vamos á janella espairecer a memoria. Realmente,
-o quadro era feio, já pela morte, já pelo defuncto, que era horrivel...
-Isto aqui, sim, é outra cousa. Tudo o que vejo lá fóra respira vida, a
-cabra que rumina ao pé de uma carroça, a gallinha que marisca no chão
-da rua, o trem da Estrada Central que bufa, assobia, fumega e passa, a
-palmeira que investe para o ceu, e finalmente aquella torre de egreja,
-apesar de não ter musculos nem folhagem. Um rapaz, que alli no becco
-empina um papagaio de papel, não morreu nem morre, posto tambem se
-chame Manduca.
-
-Verdade é que o outro Manduca era mais velho que este,** pouco mais
-velho. Teria dezoito ou dezenove annos, mas tanto lhe darias quinze
-como vinte e dous, a cara não permittia trazer a edade á vista, antes a
-escondia nas dobras da... Vá, diga-se tudo; é morto, os seus parentes
-são mortos, se existe algum não é em tal evidencia que se vexe ou
-dôa. Diga-se tudo; Manduca padecia de uma cruel enfermidade, nada
-menos que a lepra. Vivo era feio; morto pareceu-me horrivel. Quando
-eu vi, estendido na cama, o triste corpo daquelle meu visinho, fiquei
-apavorado e desviei os olhos. Não sei que mão occulta me compelliu a
-olhar outra vez, ainda que de fugida; cedi, olhei, tornei a olhar, até
-que recuei de todo e saí do quarto.
-
---Padeceu muito! suspirou o pae.
-
---Coitado de Manduca! soluçava a mãe.
-
-Eu cuidei de sair, disse que era esperado em casa, e despedi-me. O pae
-perguntou-me se lhe faria o favor de ir ao enterro; respondi com a
-verdade, que não sabia, faria o que minha mãe quizesse. E rapido saí,
-atravessei a loja, e saltei á rua.
-
-
-
-
-LXXXVI
-
-Amai, rapazes!
-
-Era tão perto, que antes de tres minutos me achei em casa. Parei
-no corredor, a tomar folego; buscava esquecer o defuncto, pallido
-e disforme, e o mais que não disse para não dar a estas paginas um
-aspecto repugnante, mas pódes imaginal-o. Tudo arredei da vista, em
-poucos segundos; bastou-me pensar na outra casa, e mais na vida e na
-cara fresca e lepida de Capitú... Amai, rapazes! e, principalmente,
-amai moças lindase graciosas; ellas dão remedio ao mal, aroma ao
-infecto, trocam a morte pela vida... Amai, rapazes!
-
-
-
-
-LXXXVII
-
-A sege.
-
-Chegara ao ultimo degrau, e uma ideia me entrou no cerebro, como se
-estivesse a esperar por mim, entre as grades da cancella. Ouvi de
-memoria as palavras do pae de Manduca pedindo-me que fosse ao enterro
-no dia seguinte. Parei no degrau. Reflecti um instante; sim, podia ir
-ao enterro, pediria a minha mãe que me alugasse um carro...
-
-Não cuides que era o desejo de andar de carro, por mais que tivesse o
-gosto da conducção. Em pequeno, lembra-me que ia assim muita vez com
-minha mãe ás visitas de amizade ou de ceremonia, e á missa, se chovia.
-Era uma velha sege de meu pae, que ella conservou o mais que poude. O
-cocheiro, que era nosso escravo, tão velho como a sege, quando me via á
-poria, vestido, esperando minha mãe, dizia-me rindo:
-
---Pae João vae levar nhonhô!
-
-E era raro que eu não lhe recommendasse:
-
---João, demora muito as bestas; vae devagar.
-
---Nhã Gloria não gosta.
-
---Mas demora!
-
-Fica entendido que era para saborear a sege, não pela vaidade, porque
-ella não permittia ver as pessoas que iam dentro. Era uma velha sege
-obsoleta, de duas rodas, estreita e curta, com duas cortinas de couro
-na frente, que corriam para os lados quando era preciso entrar ou sair.
-Cada cortina tinha um oculo de vidro, por onde eu gostava de espiar
-para fóra.
-
---Senta, Bentinho!
-
---Deixa espiar, mamãe!
-
-E em pé, quando era mais pequeno, mettia a cara no vidro, e via o
-cocheiro com as suas grandes botas, escanchado na mula da esquerda, e
-segurando a redea da outra; na mão levava o chicote grosso e comprido.
-Tudo incommodo, as botas, o chicote e as mulas, mas elle gostava e
-eu tambem. Dos lados via passar as casas, lojas ou não, abertas ou
-fechadas, com gente ou sem ella, e na rua as pessoas que iam e vinham,
-ou atravessavam deante da sege, com grandes pernadas ou passos miudos.
-Quando havia impedimento de gente ou de animaes, a sege parava, e então
-o espectaculo era particularmente interessante; as pessoas paradas na
-calçada ou á porta das casas, olhavam para a sege e falavam entre si,
-naturalmente sobre quem iria dentro. Quando fui crescendo em edade
-imaginei que adivinhavam e diziam: «É aquella senhora da rua de
-Matacavallos, que tem um filho, Bentinho...»
-
-A sege ia tanto com a vida recondita de minha mãe, que quando já não
-havia nenhuma outra, continuámos a andar nella, e era conhecida na rua
-e no bairro pela «sege antiga». Afinal minha mãe consentiu em deixal-a,
-sem a vender logo; só abriu mão della porque as despezas de cocheira
-a obrigaram a isso. A razão de a guardar inutil foi exclusivamente
-sentimental; era a lembrança do marido. Tudo o que vinha de meu pae
-era conservado como um pedaço delle, um resto da pessoa, a mesma alma
-integral e pura. Mas o uso, esse era filho tambem do carrancismo que
-ella confessava aos amigos. Minha mãe exprimia bem a fidelidade aos
-velhos habitos, velhas maneiras, velhas ideias, velhas modas. Tinha o
-seu museo de reliquias, pentes desusados, um trecho de mantilha, umas
-moedas de cobre datadas de 1824 e 1825, e, para que tudo fosse antigo,
-a si mesma se queria fazer velha; mas já deixei dito que, neste ponto,
-não alcançava tudo o que queria.
-
-
-
-
-LXXXVIII
-
-Um pretexto honesto.
-
-Não, a ideia de ir ao enterro não vinha da lembrança do carro e suas
-doçuras. A origem era outra: era porque, acompanhando o enterro no dia
-seguinte, não iria ao seminario, e podia fazer outra visita a Capitú,
-um tanto mais demorada. Eis ahi o que era. A lembrança do carro podia
-vir accessoriamente depois, mas a principal e immediata foi aquella.
-Voltaria á rua dos Invalidos, a pretexto de saber de Sinházinha Gurgel.
-Contava que tudo me saisse como naquelle dia, Gurgel afflicto, Capitú
-commigo no canapé, as mãos presas, o penteado...
-
---Vou pedir a mamãe.
-
-Abri a cancella. Antes de transpôl-a, assim como ouvira da memoria a
-palavra do pae do morto, ouvi agora a da mãe, e repeti a meia voz:
-
---Coitado de Manduca!
-
-
-
-
-LXXXIX
-
-A recusa.
-
-Minha mãe ficou perplexa quando lhe pedi para ir ao enterro.
-
---Perder um dia de seminario...
-
-Fiz-lhe notar a amizade que o Manduca me tinha, e depois era gente
-pobre... Tudo o que me lembrou dizer, disse. Prima Justina opinou pela
-negativa.
-
---Você acha que não deve ir? perguntou-lhe minha mãe.
-
---Acho que não. Que amizade é essa que eu nunca vi?
-
-Prima Justina venceu. Quando referi o caso ao aggregado, este sorriu, e
-disse-me que o motivo escondido da prima era provavelmente não dar ao
-enterro «o lustre da minha pessoa.» Fosse o que fosse, fiquei amuado;
-no dia seguinte, pensando no motivo, não me desagradou; mais tarde
-achei-lhe um sabor particular.
-
-
-
-
-XC
-
-A polemica.
-
-No dia seguinte, passei pela casa do defuncto, sem entrar nem
-parar,--ou, se parei, foi só um instante, ainda mais breve que este em
-que vol-o digo. Se me não engano, andei até mais depressa, receiando
-que me chamassem como na vespera. Uma vez que não ia ao enterro, antes
-longe que proximo. Fui andando e pensando no pobre diabo.
-
-Não eramos amigos, nem nos conheciamos de muito. Intimidade, que
-intimidade podia haver entre a doença delle e a minha saude? Tivemos
-relações breves e distantes. Fui pensando nellas, recordando algumas.
-Reduziam-se todas a uma polemica, entre nós, dous annos antes, a
-proposito... Mal podeis crer a que proposito foi. Foi a guerra da
-Criméa.
-
-Manduca vivia no interior da casa, deitado na cama, lendo por
-desfastio. Ao domingo, sobre a tarde, o pae enfiava-lhe uma camisola
-escura, e trazia-o para o fundo da loja, donde elle espiava um palmo da
-rua e a gente que passava. Era todo o seu recreio. Foi alli que o vi
-uma vez, e não fiquei pouco espantado; a doença ia-lhe comendo parte
-das carnes, os dedos queriam apertar-se; o aspecto não attrahia, de
-certo. Tinha eu de treze para quatorze annos. Da segunda vez que o vi
-alli, como falassemos da guerra da Criméa, que então ardia e andava nos
-jornaes, Manduca disse que os alliados haviam de vencer, e eu respondi
-que não.
-
---Pois veremos, tornou elle. Só se a justiça não vencer neste mundo, o
-que é impossivel, e a justiça está com os alliados.
-
---Não, senhor, a razão é dos russos.
-
-Naturalmente, iamos com o que nos diziam os jornaes da cidade,
-transcrevendo os de fóra, mas póde ser tambem que cada um de nós
-tivesse a opinião do seu temperamento. Fui sempre um tanto moscovita
-nas minhas ideias. Defendi o direito da Russia, Manduca fez o mesmo ao
-dos alliados, e o terceiro domingo em que entrei na loja tocámos outra
-vez no assumpto. Então Manduca propoz que trocassemos a argumentação
-por escripto, e na terça ou quarta-feira recebi duas folhas de papel
-contendo a exposição e defesa do direito dos alliados, e da integridade
-da Turquia, concluindo por esta phrase prophetica:
-
-«Os russos não hão de entrar em Constantinopla!»
-
-Li-a e metti-me a refutal-a. Não me recorda um só dos argumentos que
-empreguei, nem talvez interesse conhecel-os, agora que o seculo está
-a expirar; mas a ideia que me ficou delles é que eram irrespondiveis.
-Fui eu mesmo levar-lhe o meu papel. Fizeram-me entrar na alcova, onde
-elle jazia estirado na cama, mal coberto por uma colcha de retalhos.
-Ou gosto da polemica ou qualquer outra causa que não alcanço, não me
-deixou sentir toda a repugnancia que saía da cama e do doente, e o
-prazer com que lhe dei o papel foi sincero. Manduca, pela sua parte,
-por mais nojosa que tivesse então a cara, o sorriso que a accendou
-dissimulou o mal physico. A convicção com que me recebeu o papel e
-disse que ia ler e responderia é que não tem palavras nossas nem
-alheias que a digam de todo e com verdade; não era exaltada, não era
-ruidosa, não tinha gestos, nem a molestia os permittiria, era simples,
-grande, profunda, um goso infinito de victoria, antes de saber os meus
-argumentos. Tinha já papel, penna e tinta ao pé da cama. Dias depois
-recebi a réplica; não me lembra se trazia cousas novas ou não; o calor
-é que crescia, e o final era o mesmo:
-
-«Os russos não hão de entrar em Constantinopla!»
-
-Trepliquei, e dahi continuou por algum tempo uma polemica ardente, em
-que nenhum de nós cedia, defendendo cada um os seus clientes com força
-e brio. Manduca era mais longo e prompto que eu. Naturalmente a mim
-sobravam mil cousas que distrahiam, o estudo, os recreios, a familia,
-e a propria saude, que me chamava a outros exercicios. Manduca, salvo
-o palmo de rua ao domingo de tarde, tinha só esta guerra, assumpto da
-cidade e do mundo, mas que ninguem ia tratar com elle. O acaso dera-lhe
-em mim um adversario; elle, que tinha gosto á escripta, deitou-se ao
-debate, como a um remedio novo e radical. As horas tristes e compridas
-eram agora breves e alegres; os olhos desapprenderam de chorar, se por
-ventura choravam antes. Senti esta mudança delle nas proprias maneiras
-do pae e da mãe.
-
---Não imagina como elle anda agora, depois que o senhor lhe escreve
-aquelles papeis, dizia-me o dono da loja, uma vez, á porta da rua. Fala
-e ri muito. Logo que eu mando o caixeiro levar-lhe os papeis delle,
-entra a indagar da resposta, e se demorará muito, e que pergunte ao
-moleque, quando passar. Emquanto espera, relê jornaes e toma notas. Mas
-tambem, apenas recebe os seus papeis, atira-se a lel-os, e começa logo
-a escrever a resposta. Ha occasiões em que não come ou come mal; tanto
-que eu queria pedir-lhe uma cousa, é que não os mande á hora do almoço
-ou de jantar...
-
-Fui eu que cancei primeiro. Comecei a demorar as respostas, até que não
-dei mais nenhuma; elle ainda teimou duas ou tres vezes depois do meu
-silencio, mas não recebendo contestação alguma, por fadiga tambem ou
-por não aborrecer, acabou de todo com as suas apologias. A ultima, como
-a primeira, como todas, affirmava a mesma predicção eterna:
-
-«Os russos não hão de entrar em Constantinopla!»
-
-Não entraram, effectivamente, nem então, nem depois, nem até agora.
-Mas a predicção será eterna? Não chegarão a entrar algum dia? Problema
-difficil. O proprio Manduca, para entrar na sepultura, gastou tres
-annos de dissolução, tão certo é que a natureza, como a historia, não
-se faz brincando. A vida delle resistiu como a Turquia; se afinal
-cedeu foi porque lhe faltou uma alliança como a anglo-franceza, não se
-podendo considerar tal o simples accordo da medicina e da pharmacia.
-Morreu afinal, como os Estados morrem; no nosso caso particular, a
-questão é saber, não se a Turquia morrerá, porque a morte não poupa a
-ninguem, mas se os russos entrarão algum dia em Constantinopla; essa
-era a questão para o meu visinho leproso, debaixo da triste, rota e
-infecta colcha de retalhos...
-
-
-
-
-XCI
-
-Achado que consola.
-
-É claro que as reflexões que ahi deixo não foram feitas então, a
-caminho do seminario, mas agora no gabinete do Engenho Novo. Então,
-não fiz propriamente nenhuma, a não ser esta: que servi de allivio um
-dia ao meu visinho Manduca. Hoje, pensando melhor, acho que não só
-servi de allivio, mas até lhe dei felicidade. E o achado consola-me;
-já agora não esquecerei mais que dei dous ou tres mezes de felicidade
-a um pobre diabo, fazendo-lhe esquecer o mal e o resto. É alguma
-cousa na liquidação da minha vida. Se ha no outro mundo tal ou qual
-premio para as virtudes sem intenção, esta pagará um ou dous dos meus
-muitos peccados. Quanto ao Manduca, não creio que fosse peccado opinar
-contra a Russia, mas, se era, elle estará purgando ha quarenta annos
-a felicidade que alcançou em dous ou tres mezes,--donde concluirá (já
-tarde) que era ainda melhor haver gemido sómente, sem opinar cousa
-nenhuma.
-
-
-
-
-XCII
-
-O diabo não é tão feio como se pinta.
-
-Manduca enterrou-se sem mim. A muitas outros aconteceu a mesma cousa,
-sem que eu sentisse nada, mas este caso affligiu-me particularmente
-pela razão já dita. Tambem senti não sei que melancolia ao recordar a
-primeira polemica da vida, o gosto com que elle recebia os meus papeis
-e se propunha a refutal-os, não contando o gosto do carro... Mas o
-tempo apagou depressa todas essas saudades e resurreições. Nem foi só
-elle; duas pessoas vieram ajudal-o, Capitú, cuja imagem dormiu commigo
-na mesma noite, e outra que direi no capitulo que vem. O resto deste
-capitulo e só para pedir que, se alguem tiver de ler o meu livro com
-alguma attenção mais da que lhe exigir o preço do exemplar, não deixe
-de concluir que o diabo não é tão feio como se pinta. Quero dizer...
-
-Quero dizer que o meu visinho de Matacavallos, temperando o mal com
-a opinião anti-russa, dava á podridão das suas carnes um reflexo
-espiritual que as consolava. Ha consolações maiores, de certo, e uma
-das mais excellentes é não padecer esse nem outro mal algum, mas a
-natureza é tão divina que se diverte com taes contrastes, e aos mais
-nojentos ou mais afflictos acena com uma flòr. E talvez saia assim a
-flòr mais bella; o meu jardineiro affirma que as violetas, para terem
-um cheiro superior, hão mister de estrume de porco. Não examinei, mas
-deve ser verdade.
-
-
-
-
-XCIII
-
-Um amigo por um defuncto.
-
-Quanto á outra pessoa que teve a força obliterativa, foi o meu collega
-Escobar que no domingo, antes do meio dia, veiu ter a Matacavallos. Um
-amigo suppria assim um defuncto, e tal amigo que durante cerca de cinco
-minutos esteve com a minha mão entre as suas, como se me não visse
-desde longos mezes.
-
---Você janta commigo, Escobar?
-
---Vim para isto mesmo.
-
-Minha mãe agradeceu-lhe a amizade que me tinha, e elle respondeu com
-muita polidez, ainda que um tanto atado, como se carecesse de palavra
-prompta. Já viste que não era assim, a palavra obedecia-lhe, mas o
-homem não é sempre o mesmo em todos os instantes. O que elle disse, em
-resumo, foi que me estimava pelas minhas boas qualidades e aprimorada
-educação; no seminario todos me queriam bem, nem podia deixar de ser
-assim, accrescentou. Insistia na educação, nos bons exemplos, «na doce
-e rara mãe» que o ceu me deu... Tudo isso com a voz engasgada e tremula.
-
-Todos ficaram gostando delle. Eu estava tão contente como se Escobar
-fosse invenção minha. José Dias desfechou-lhe dous superlativos, tio
-Cosme dous capotes, e prima Justina não achou tacha que lhe pôr;
-depois, sim, no segundo ou terceiro domingo, veiu ella confessar-nos
-que o meu amigo Escobar era um tanto mettidiço e tinha uns olhos
-policiaes a que não escapava nada.
-
---São os olhos delle, expliquei.
-
---Nem eu digo que sejam de outro.
-
---São olhos reflectidos, opinou tio Cosme.
-
---Seguramente, acudiu José Dias, entretanto, póde ser que a senhora D.
-Justina tenha alguma razão. A verdade é que uma cousa não impede outra,
-e a reflexão casa-se muito bem á curiosidade natural. Parece curioso,
-isso parece, mas...
-
---A mim parece-me um mocinho muito serio, disse minha mãe.
-
---Justamente! confirmou José Dias para não discordar della.
-
-Quando eu referi a Escobar aquella opinião de minha mãe (sem lhe contar
-as outras naturalmente) vi que o prazer delle foi extraordinario.
-Agradeceu, dizendo que eram bondades, e elogiou tambem minha mãe,
-senhora grave, distincta e moça, muito moça... Que edade teria?
-
---Já fez quarenta, respondi eu vagam ente por vaidade.
-
---Não é possivel! exclamou Escobar. Quarenta annos! Nem parece trinta;
-está muito moça e bonita. Tambem a alguem ha de você sair, com esses
-olhos que Deus lhe deu; são exactamente os della. Enviuvou ha muitos
-annos?
-
-Contei-lhe o que sabia da vida della e de meu pae. Escobar escutava
-attento, perguntando mais, pedindo explicação das passagens omissas ou
-só escuras. Quando eu lhe disse que não me lembrava nada da roça, tão
-pequenino viera, contou-me duas ou tres reminiscencias dos seus tres
-annos de edade, ainda agora frescas. E não contavamos voltar á roça?
-
---Não, agora não voltamos mais. Olhe, aquelle preto que alli vae
-passando, é de lá. Thomaz!
-
---Nhonhô!
-
-Estavamos na horta da minha casa, e o preto andava em serviço;
-chegou-se a nós e esperou.
-
---É casado, disse eu para Escobar. Maria onde está?
-
---Está soccando milho, sim, senhor.
-
---Você ainda se lembra da roça, Thomaz?
-
---Alembra, sim, senhor.
-
---Bem, vá-se embora.
-
-Mostrei outro, mais outro, e ainda outro, este Pedro, aquelle José,
-aquelle outro Damião...
-
---Todas as lettras do alphabeto, interrompeu Escobar.
-
-Com effeito, eram differentes lettras, e só então reparei nisto;
-apontei ainda outros escravos, alguns com os mesmos nomes,
-distinguindo-se por um appellido, ou da pessoa, como João Fulo, Maria
-Gorda, ou de nação como Pedro Benguella, Antonio Moçambique...
-
---E estão todos aqui em casa? perguntou elle.
-
---Não, alguns andam ganhando na rua, outros estão alugados. Não era
-possivel ter todos em casa. Nem são todos os da roça; a maior parte
-ficou lá.
-
---O que me admira é que D. Gloria se acostumasse logo a viver em casa
-da cidade, onde tudo é apertado; a de lá é naturalmente grande.
-
---Não sei, mas parece. Mamãe tem outras casas maiores que esta; diz
-porém que ha de morrer aqui. As outras estão alugadas. Algumas são bem
-grandes, como a da rua da Quitanda...
-
---Conheço essa; é bonita.
-
---Tem tambem no Rio Comprido, na Cidade-Nova, uma no Cattete...
-
---Não lhe hão de faltar tectos, concluiu elle sorrindo com sympathia.
-
-Caminhámos para o fundo. Passámos o lavadouro; elle parou um instante
-ahi, mirando a pedra de bater roupa e fazendo reflexões a proposito
-do asseio; depois continuámos. Quaes foram as reflexões não me lembra
-agora; lembra-me só que as achei engenhosas, e ri, elle riu tambem. A
-minha alegria accordava a delle, e o ceu estava tão azul, e o ar tão
-claro, que a natureza parecia rir tambem comnosco. São assim as boas
-horas deste mundo. Escobar confessou esse accordo do interno com o
-externo, por palavras tão finas e altas que me commoveram; depois, a
-proposito da belleza moral que se ajusta á physica, tornou a falar de
-minha mãe, «um anjo dobrado», disse elle.
-
-
-
-
-XCIV
-
-Ideias arithmeticas.
-
-Não digo o mais, que foi muito. Nem elle sabia só elogiar e pensar,
-sabia tambem calcular depressa e bem. Era das cabeças arithmeticas
-de Holmes (2+2=4). Não se imagina a facilidade com que elle sommava
-ou multiplicava de cór. A divisão, que foi sempre uma das operações
-difficeis para mim, era para elle como nada: cerrava um pouco os olhos,
-voltados para cima, e sussurrava as denominações dos algarismos: estava
-prompto. Isto com sete, treze, vinte algarismos. A vocação era tal que
-o fazia amar os proprios signaes das sommas, e tinha esta opinião que
-os algarismos, sendo poucos, eram muito mais conceituosos que as vinte
-e cinco letras do alphabeto.
-
---Ha lettras inuteis e lettras dispensaveis, dizia elle. Que serviço
-diverso prestam o _d_ e o _t_? Tem quasi o mesmo som. O mesmo digo do
-_b_ e do _p_, o mesmo do _s_, do _c_ e do _z_, o mesmo do _k_ e do
-_g_, etc. São trapalhices calligraphicas. Veja os algarismos: não ha
-dous que façam o mesmo officio; 4 é 4, e 7 é 7. E admire a belleza com
-que um 4 e um 7 formam esta cousa que se exprime por 11. Agora dobre 11
-e terá 22; multiplique por egual numero, dá 484, e assim por deante.
-Mas onde o perfeição é maior é no emprego do _zero._ O valor do _zero_
-é, em si mesmo, nada; mas o officio deste signal negativo é justamente
-augmentar. Um 5 sósinho é um 5; ponha-lhe dous 00, é 500. Assim, o que
-não vale nada faz valer muito, cousa que não fazem as letras dobradas,
-pois eu tanto _approvo_ com um _p_ como com dous _pp._
-
-Criado na orthographia de meus paes, custava-me a ouvir taes
-blasphemias, mas não ousava refutal-o. Com tudo, um dia, proferi
-algumas palavras de defesa, ao que elle respondeu que era um
-preconceito, e accrescentou que as ideias arithmeticas podiam ir ao
-infinito, com a vantagem que eram mais faceis de menear. Assim que,
-eu não era capaz de resolver de momento um problema philosophico ou
-linguistico, ao passo que elle podia sommar, em tres minutos, quaesquer
-quantias.
-
---Por exemplo... dê-me um caso, dê-me uma porção de numeros que eu não
-saiba nem possa saber antes... olhe, dê-me o numero das casas de sua
-mãe e os alugueis de cada uma, e se eu não disser a somma total em
-dous, em um minuto, enforque-me!
-
-Acceitei a aposta, e na semana seguinte levei-lhe escriptos em um
-papel os algarismos das casas e dos alugueis. Escobar pegou no papel,
-passou-os pelos olhos afim de os decorar, e emquanto eu fitava o
-relogio, elle erguia as pupillas, cerrava as palpebras, e sussurrava...
-Oh! o vento não é mais rápido! Foi dito e feito; em meio minuto
-bradava-me:
-
---Dá tudo 1:070$000 mensaes.
-
-Fiquei pasmado. Considera que eram não menos de nove casas, e que os
-alugueis variavam de uma para outra, indo de 70$000 a 180$000. Pois
-tudo isto em que eu gastaria tres ou quatro minutos,--e havia de ser
-no papel,--fel-o Escobar de cór, brincando. Olhava-me triumphalmente,
-e perguntava se não era exacto. Eu, só por lhe mostrar que sim, tirei
-do bolso o papelinho que levava com a somma total, e mostrei-lh'o; era
-aquillo mesmo, nem um erro: 1:070$000.
-
---Isto prova que as ideias arithmeticas são mais simples, e portanto
-mais naturaes. A natureza é simples. A arte é atrapalhada.
-
-Fiquei tão enthusiasmado com a facilidade mental do meu amigo, que não
-pude deixar de abraçal-o. Era no pateo; outros seminaristas notaram a
-nossa effusão; um padre que estava com elles não gostou.
-
---A modestia, disse-nos, não consente esses gestos excessivos; pódem
-estimar-se com moderação.
-
-Escobar observou-me que os outros e o padre falavam de inveja e
-propoz-me viver separados. Interrompi-o dizendo que não; se era
-inveja, tanto peor para elles.
-
---Quebremos-lhe a castanha na bocca!
-
---Mas...
-
---Fiquemos ainda mais amigos que até aqui.
-
-Escobar apertou-me a mão ás escondidas, com tal força que ainda me
-doem os dedos. É illusão, de certo, se não é effeito das longas horas
-que tenho estado a escrever sem parar. Suspendamos a penna por alguns
-instantes...
-
-
-
-
-XCV
-
-O papa.
-
-A amizade de Escobar fez-se grande e fecunda; a de José Dias não lhe
-quiz ficar atraz. Na primeira semana disse-me este em casa:
-
---Agora é certo que você vae sair já do seminario.
-
---Como?
-
---Espere até amanhã. Vou jogar com elles que me chamaram; amanhã, lá
-no quarto, no quintal, ou na rua, indo á missa, conto-lhe o que ha. A
-ideia é tão santa que não está mal no santuario. Amanhã, Bentinho.
-
---Mas é cousa certa?
-
---Certíssima!
-
-No dia seguinte revelou-me o mysterio. Ao primeiro aspecto,
-confesso que fiquei deslumbrado. Trazia uma nota de grandeza e de
-espiritualidade que falava aos meus olhos de seminarista. Era não
-menos que isto. Minha mãe, ao parecer delle, estava arrependida do que
-fizera, e desejaria ver-me cá fóra, mas entendia que o vinculo moral da
-promessa a prendia indissoluvelmente. Cumpria rompel-o, e para tanto
-valia a Escriptura, com o poder de desligar dado aos apostolos. Assim
-que, elle e eu iriamos a Roma pedir a absolvição do papa... Que me
-parecia?
-
---Parece-me bem, respondi depois de alguns segundos de reflexão. Póde
-ser um bom remedio.
-
---É o unico, Bentinho, é o unico! Vou já hoje conversar com D. Gloria,
-exponho-lhe tudo, e podemos partir daqui a dous mezes, ou antes...
-
---Melhor é falar domingo que vem; deixe-me pensar primeiro...
-
---Oh! Bentinho! interrompeu o aggregado. Pensar em que? Você o que
-quer... Digo? não se amofina com o seu velho? Você o que quer é
-consultar a uma pessoa.
-
-Rigorosamente, eram duas pessoas, Capitú e Escobar, mas eu neguei a pés
-juntos que quizesse consultar ninguem. E que pessoa, o reitor? Não era
-natural que lhe confiasse tal assumpto. Não, nem reitor, nem professor,
-nem ninguem; era só o tempo de reflectir, uma semana, no domingo daria
-a resposta, e desde já lhe dizia que a ideia não me parecia má.
-
---Não?
-
---Não.
-
---Pois resolvamos hoje mesmo.
-
---Não se vae a Roma brincando.
-
---Quem tem bocca vae a Roma, e bocca no nosso caso é a moeda. Ora,
-você póde muito bem gastar comsigo... Commigo, não; um par de calças,
-tres camisas e o pão diário, não preciso mais. Serei como S. Paulo,
-que vivia do officio emquanto ia prégando a palavra divina. Pois eu
-vou, não prégal-a, mas buscal-a. Levaremos cartas do internuncio e
-do bispo, cartas para o nosso ministro, cartas de capuchinhos...
-Bem sei a objecção que se póde oppôr a esta ideia; dirão que é dado
-pedir a dispensa cá de longe; mas, além do mais que não digo, basta
-reflectir que é muito mais solemne e bonito ver entrar no Vaticano,
-e prostrar-se aos pés do papa o proprio objecto do favor, o levita
-promettido, que vae pedir para sua mãe ternissima e dulcissima a
-dispensa de Deus. Considere o quadro, você beijando o pé ao príncipe
-dos apostolos; Sua Santidade, com o sorriso evangelico, inclina-se,
-interroga, ouve, absolve e abençoa. Os anjos o contemplam, a Virgem
-recommenda ao santissimo filho que todos os seus desejos, Bentinho,
-sejam satisfeitos, e que o que você amar na terra seja egualmente amado
-no ceu...
-
-Não digo mais, porque é preciso acabar o capitulo, e elle não acabou o
-discurso. Falou a todos os meus sentimentos de catholico e de namorado.
-Vi a alma alliviada de minha mãe, vi a alma feliz de Capitú, ambas em
-casa, e eu com ellas, e elle comnosco, tudo mediante uma pequena viagem
-a Roma, que eu só geographicamente sabia onde ficava; espiritualmente,
-tambem, mas a distancia que estaria da vontade de Capitú é que
-não. Eis o ponto essencial. Se Capitú achasse longe, não iria; mas
-era preciso ouvil-a, e assim tambem a Escobar, que me daria um bom
-conselho.
-
-
-
-
-XCVI
-
-Um substituto.
-
-Expuz a Capitú a ideia de José Dias. Ouviu-me attentamente, e acabou
-triste.
-
---Você indo, disse ella, esquece-me inteiramente.
-
---Nunca!
-
---Esquece. A Europa dizem que é tão bonita, e a Italia principalmente.
-Não é de lá que vêm as cantoras? Você esquece-me, Bentinho. E não
-haverá outro meio? D. Gloria está morta para que você saia do seminario.
-
---Sim, mas julga-se presa pela promessa.
-
-Capitú não achava outra ideia, nem acabava de adoptar esta. De caminho,
-pediu-me que, se acaso fosse a Roma, jurasse que no fim de seis mezes
-estaria de volta.
-
---Juro.
-
---Por Deus?
-
---Por Deus, por tudo. Juro que no fim de seis mezes estarei de volta.
-
---Mas se o papa não tiver ainda soltado a você?
-
---Mando dizer isso mesmo.
-
---E se você mentir?
-
-Esta palavra doeu-me muito, e não achei logo que lhe replicasse.
-Capitú metteu o negocio á bulha, rindo e chamando-me disfarçado.
-Depois, declarou crer que eu cumpriria o juramento, mas ainda assim
-não consentiu logo; ia ver se não haveria outra cousa, e eu que visse
-tambem por meu lado.
-
-Quando voltei ao seminario, contei tudo ao meu amigo Escobar, que
-me ouviu com egual attenção e acabou com a mesma tristeza da outra.
-Os olhos, de costume fugidios, quasi me comeram de contemplação. De
-repente, vi-lhe no rosto um clarão, um reflexo de ideia. E ouvi-lhe
-dizer com volubilidade:
-
---Não, Bentinho, não é preciso isso. Ha melhor,--não digo melhor,
-porque o Santo Padre vale sempre mais que tudo,--mas ha cousa que
-produz o mesmo effeito.
-
---Que é?
-
---Sua mãe fez promessa a Deus de lhe dar um sacerdote, não é? Pois bem,
-dê-lhe um sacerdote, que não seja você. Ella póde muito bem tomar a si
-algum mocinho orphão, fazel-o ordenar á sua custa, está dado um padre
-ao altar, sem que você...
-
---Entendo, entendo, é isso mesmo.
-
---Não acha? continuou elle. Consulte sobre isto o protonotario; elle
-lhe dirá se não é a mesma cousa, ou eu mesmo consulto, se quer; e se
-elle hesitar, fala-se ao Sr. bispo.
-
-Eu, reflectindo:
-
---Sim, parece que é isso; realmente, a promessa cumpre-se, não se
-perdendo o padre.
-
-Escobar observou que, pelo lado economico, a questão era facil; minha
-mãe gastaria o mesmo que commigo, e um orphão não precisaria grandes
-commodidades. Citou a somma dos alugueis das casas, 1:070$000, além dos
-escravos...
-
---Não ha outra cousa, disse eu.
-
---E saimos juntos.
-
---Você tambem?
-
---Tambem eu. Vou melhorar o meu latim e saio; nem dou theologia. O
-proprio latim não é preciso; para quê no commercio?
-
---_In hoc signo vinces_, disse eu rindo.
-
-Sentia-me pilherico. Oh! como a esperança alegra tudo. Escobar sorriu,
-parecendo gostar da resposta. Depois ficámos a cuidar de nós mesmos,
-cada um com os seus olhos perdidos, provavelmente. Os delle estavam
-assim, quando tornei de longe, e agradeci de novo o plano lembrado; não
-podia havel-o melhor. Escobar ouviu-me contentissimo.
-
---Ainda uma vez, disse elle gravemente, a religião e a liberdade fazem
-boa companhia.
-
-
-
-
-XCVII
-
-A saida.
-
-Tudo se fez por esse teor. Minha mãe hesitou um pouco, mas acabou
-cedendo, depois que o padre Cabral, tendo consultado o bispo, voltou a
-dizer-lhe que sim, que podia ser. Saí do seminario no fim do anno.
-
-Tinha então pouco mais de dezesete... Aqui devia ser o meio do livro,
-mas a inexperiencia fez-me ir atraz da penna, e chego quasi ao fim
-do papel, com o melhor da narração por dizer. Agora não ha mais que
-leval-a a grandes pernadas, capitulo sobre capitulo, pouca emenda,
-pouca reflexão, tudo em resumo. Já esta pagina vale por mezes, outras
-valerão por annos, e assim chegaremos ao fim. Um dos sacrificios
-que faço a esta dura necessidade é a analyse das minhas emoções dos
-dezesete annos. Não sei se alguma vez tiveste dezesete annos. Se
-sim, deves saber que é a edade em que a metade do homem e a metade
-do menino formam um só curioso. Eu era um curiosissimo, diria o meu
-aggregado José Dias, e não diria mal. O que essa qualidade superlativa
-me rendeu não poderia nunca dizel-o aqui, sem cair no erro que acabo de
-condemnar; a analyse das minhas emoções daquelle tempo é que entrava
-no meu plano. Posto que filho do seminario e de minha mãe, sentia
-já, debaixo do recolhimento casto, uns assomos de petulancia e de
-atrevimento; eram do sangue, mas eram tambem das moças que na rua ou da
-janella não me deixavam viver socegado. Achavam-me lindo, e diziam-m'o;
-algumas queriam mirar de mais perto a minha belleza, e a vaidade é um
-principio de corrupção.
-
-
-
-
-XCVIII
-
-Cinco annos.
-
-Venceu a razão; fui-me aos estudos. Passei os dezoito annos, os
-dezenove, os vinte, os vinte e um; aos vinte e dous era bacharel em
-direito.
-
-Tudo mudára em volta de mim. Minha mãe resolvera-se a envelhecer;
-ainda assim os cabellos brancos vinham de má vontade, aos poucos e
-espalhadamente; a touca, os vestidos, os sapatos rasos e surdos eram
-os mesmos de outr'ora. Já não andaria tanto de um lado para outro. Tio
-Cosme padecia do coração e ia descançar. A prima Justina apenas estava
-mais edosa. José Dias tambem, não tanto que me não fizesse a fineza
-de ir assistir á minha graduação, e descer commigo a serra, lepido e
-viçoso, como se o bacharel fosse elle. A mãe de Capitú fallecera, o pae
-aposentára-se no mesmo cargo em que quiz dar demissão da vida.
-
-Escobar começava a negociar em café depois de haver trabalhado quatro
-annos em uma das primeiras casas do Rio de Janeiro. Era opinião de
-prima Justina que elle affagára a ideia de convidar minha mãe a
-segundas nupcias; mas, se tal ideia houve, cumpre não esquecer a grande
-differença de edade. Talvez elle não pensasse em mais que associal-a
-aos seus primeiros tentamens commerciaes, e de facto, a pedido meu,
-minha mãe adeantou-lhe alguns dinheiros, que elle lhe restituiu,
-logo que poude, não sem este remoque: «D. Gloria é medrosa e não tem
-ambição.»
-
-A separação não nos esfriou. Elle foi o terceiro na troca das cartas
-entre mim e Capitú. Desde que a viu animou-me muito no nosso amor. As
-relações que travou com o pae de Sancha estreitaram as que já trazia
-com Capitú, e fel-o servir a ambos nós, como amigo. A principio,
-custou-lhe a ella acceital-o, preferia José Dias, mas José Dias
-repugnava-me por um resto de respeito de creança. Venceu Escobar; posto
-que vexada, Capitú entregou-lhe a primeira carta, que foi mãe e avó
-das outras. Nem depois de casado suspendeu elle o obsequio... Que elle
-casou,--adivinha com quem,--casou com a boa Sancha, a amiga de Capitú,
-quasi irmã della, tanto que alguma vez, escrevendo-me, chamava a esta
-a «sua cunhadinha.» Assim se formam as affeições e os parentescos, as
-aventuras e os livros.
-
-
-
-
-XCIX
-
-O filho é a cara do pae.
-
-Minha mãe, quando eu regressei bacharel quasi estalou de felicidade.
-Ainda ouço a voz de José Dias, lembrando o evangelho de S. João, e
-dizendo ao ver-nos abraçados.
-
---Mulher, eis ahi o teu filho! Filho, eis ahi a tua mãe!
-
-Minha mãe, entre lagrimas:
-
---Mano Cosme, é a cara do pae, não é?
-
---Sim, tem alguma cousa, os olhos, a disposição do rosto. É o pae, um
-pouco mais moderno, concluiu por chalaça. E diga-me agora, mana Gloria,
-não foi melhor que elle não teimasse em ser padre? Veja se este peralta
-daria um padre capaz.
-
---Como vae o meu substituto?
-
---Vae indo, ordena-se para o anno, respondeu tio Cosme. Has de ir ver a
-ordenação; eu tambem, se o meu senhor coração consentir. É bom que te
-sintas na alma do outro, como se recebesses em ti mesmo a sagração.
-
---Justamente! exclamou minha mãe. Mas veja bem, mano Cosme, veja se não
-é a figura do meu defuncto. Olha, Bentinho, olha bem para mim. Sempre
-achei que te parecias com elle, agora é muito mais. O bigode é que
-desfaz um pouco...
-
---Sim, mana Gloria, o bigode realmente... mas é muito parecido.
-
-E minha mãe beijava-me com uma ternura que não sei escrever. Tio
-Cosme, para alegral-a, chamava-me doutor, José Dias tambem, e todos em
-casa, a prima, os escravos, as visitas, Padua, a filha, e ella mesma
-repetiam-me o titulo.
-
-
-
-
-C
-
-«Tu serás feliz, Bentinho!»
-
-No quarto, desfazendo a mala e tirando a carta de bacharel de dentro
-da lata, ia pensando na felicidade e na gloria. Via o casamento e a
-carreira illustre, emquanto José Dias me ajudava calado e zeloso.
-Uma fada invisivel desceu alli, e me disse em voz egualmente macia e
-callida: «Tu serás feliz, Bentinho; tu vaes ser feliz.»
-
---E porque não seria feliz? perguntou José Dias endireitando o tronco e
-fitando-me.
-
---Você ouviu? perguntei eu erguendo-me tambem, espantado.
-
---Ouvi o que?
-
---Ouviu uma voz que dizia que eu serei feliz?
-
---É boa! Você mesmo é que está dizendo...
-
-Ainda agora sou capaz de jurar que a voz era da fada; naturalmente as
-fadas, expulsas dos contos e dos versos, metteram-se no coração da
-gente e falam de dentro para fóra. Esta, por exemplo, muita vez a ouvi
-clara e distincta. Ha de ser prima das feiticeiras da Escocia: «Tu
-serás rei, Macbeth!»--«Tu serás feliz, Bentinho!» Ao cabo, é a mesma
-predicção, pela mesma toada universal e eterna. Quando voltei do meu
-espanto, ouvi o resto do discurso de José Dias:
-
---... Ha de ser feliz, como merece, assim como mereceu esse diploma
-que alli está, que não é favor de ninguem. A distincção que tirou em
-todas as materias é prova disso; já lhe contei que ouvi da bocca dos
-lentes, em particular, os maiores elogios. Demais, a felicidade não é
-só a gloria, é tambem outra cousa... Ah! você não confiou tudo ao velho
-José Dias! O pobre José Dias está ahi para um canto, é cajú chupado,
-não vale nada; agora são os novos, os Escobares... Não lhe nego que é
-moço muito distincto, e trabalhador, e marido de truz; mas, **enfim, velho
-tambem sabe amar...
-
---Mas que é?
-
---Que ha de ser? Quem é que não sabe tudo?... Aquella intimidade de
-visinhos tinha de acabar nisto, que é verdadeiramente uma benção do
-ceu, porque ella é um anjo, é um _anjissimo_... Perdoe a cincada,
-Bentinho, foi um modo de accentuar a perfeição daquella moça. Cuidei
-o contrario, outr'ora; confundi os modos de creança com expressões de
-caracter, e não vi que essa menina travêssa e já de olhos pensativos
-era a flòr caprichosa de um fructo sadio e doce... Porque é que não
-me contou tambem o que outros sabem, e cá em casa está mais que
-adivinhado e approvado?
-
---Mamãe approva devéras?
-
---Pois então? Temos falado sobre isso, e ella fez-me o favor de pedir a
-minha opinião. Pergunte-lhe o que é que eu lhe disse em termos claros
-e positivos; pergunte-lhe. Disse-lhe que não podia desejar melhor nora
-para si, boa, discreta, prendada, amiga da gente... e uma dona de casa,
-que não lhe digo nada. Depois da morte da mãe, tomou conta de tudo.
-Padua, agora que se aposentou, não faz mais que receber o ordenado e
-entregal-o á filha. A filha é que distribue o dinheiro, paga as contas,
-faz o rol das despezas, cuida de tudo, mantimento, roupa, luz; você
-já a viu o anno passado. E quanto á formosura você sabe melhor que
-ninguem...
-
---Mas, devéras, mamãe consultou o senhor sobre o nosso casamento?
-
---Positivamente, não; fez-me o favor de perguntar se Capitú não daria
-uma boa esposa; eu é que, na resposta, falei em nora. D. Gloria não
-negou e até deu um ar de riso.
-
---Mamãe sempre que me escrevia, falava de Capitú.
-
---Você sabe que ellas se dão muito, e por isso é que sua prima anda
-cada vez mais amuada. Talvez agora case mais depressa.
-
---Prima Justina?
-
---Não sabe? São contos, naturalmente; mas emfim, o doutor João da Gosta
-enviuvou ha poucos mezes, e dizem (não sei, o protonotario é que me
-contou) dizem que os dous andam meio inclinados a acabar com a viuvez,
-entre si, casando-se. Ha de ver que não ha nada, mas não é fora de
-proposito, comquanto ella sempre achasse que o doutor era um feixe de
-ossos... Só se ella é um cemiterio, commentou rindo; e logo serio: Digo
-isto por gracejo...
-
-Não ouvi o resto. Ouvia só a voz da minha fada interior, que me
-repetia, mas já então sem palavras: «Tu serás feliz, Bentinho » E a voz
-de Capitú me disse a mesma cousa, com termos diversos, e assim tambem
-a de Escobar, os quaes ambos me confirmaram a noticia de José Dias
-pela sua propria impressão. Emfim, minha mãe, algumas semanas depois,
-quando lhe fui pedir licença para casar, além do consentimento, deu-me
-egual prophecia, salva a redacção própria de mãe: «Tu serás feliz, meu
-filho!»
-
-
-
-
-CI
-
-No ceu.
-
-Pois sejamos felizes de uma vez, antes que o leitor pegue em si, morto
-de esperar, e vá espairecer a outra parte; casemo-nos. Foi em 1865,
-uma tarde do março, por signal que chovia. Quando chegámos ao alto da
-Tijuca, onde era o nosso ninho de noivos, o ceu recolheu a chuva e
-accendeu as estrellas, não só as já conhecidas, mas ainda as que só
-serão descobertas daqui a muitos seculos. Foi grande fineza e não foi
-unica. S. Pedro, que tem as chaves do ceu, abriu-nos as portas delle,
-fez-nos entrar, e depois de tocar-nos com o baculo, recitou alguns
-versiculos da sua primeira epistola: «As mulheres sejam sujeitas a seus
-maridos... Não seja o adorno dellas o enfeite dos cabellos riçados ou
-as rendas de ouro, mas o homem que está escondido no coração.... Do
-mesmo modo, vós, maridos, co-habitai com ellas, tratando-as com honra,
-como a vasos mais fracos, e herdeiras comvosco da graça da vida....»
-Em seguida, fez signal aos anjos, e elles entoaram um trecho do
-_Cantico_, tão concertadamente, que desmentiriam a hypothese do tenor
-italiano, se a execução fosse na terra; mas era no ceu. A musica ia com
-o texto, como se houvessem nascido juntos, á maneira de uma opera de
-Wagner. Depois, visitámos uma parte daquelle logar infinito. Descança
-que não farei descripção alguma, nem a lingua humana possue fórmas
-idoneas para tanto.
-
-Ao cabo, póde ser que tudo fosse um sonho; nada mais natural a um
-ex-seminarista que ouvir por toda a parte latim e Escriptura. É verdade
-que Capitú, que não sabia Escriptura nem latim, decorou algumas
-palavras, como estas, por exemplo: «Sentei-me á sombra daquelle que
-tanto havia desejado.» Quanto ás de S. Pedro, disse-me no dia seguinte
-que estava por tudo, que eu era a unica renda e o unico enfeite que
-jamais poria em si. Ao que eu repliquei que a minha esposa teria sempre
-as mais finas rendas deste mundo.
-
-
-
-
-CII
-
-De casada.
-
-Imagina um relogio que só tivesse pendulo, sem mostrador, de maneira
-que não se vissem as horas escriptas. O pendulo iria de um lado para
-outro, mas nenhum signal externo mostraria a marcha do tempo. Tal foi
-aquella semana da Tijuca.
-
-De quando em quando, tornavamos ao passado e divertiamo-nos em
-relembrar as nossas tristezas e calamidades, mas isso mesmo era um modo
-de não sairmos de nós. Assim vivemos novamente a nossa longa espera de
-namorados, os annos da adolescencia, a denuncia que está nos primeiros
-capitulos, e riamos de José Dias, que conspirou a nossa desunião, e
-acabou festejando o nosso consorcio. Uma ou outra vez, falavamos em
-descer, mas as manhãs marcadas eram sempre de chuva ou de sol, e nós
-esperávamos um dia encoberto, que teimava em não vir.
-
-Não obstante, achei que Capitú estava um tanto impaciente por descer.
-Concordava em ficar, mas ia falando do pae e de minha mãe, da falta de
-noticias nossas, disto e daquillo, a ponto que nos arrufámos um pouco.
-Perguntei-lhe se já estava aborrecida de mim.
-
---Eu?
-
---Parece.
-
---Você ha de ser sempre creança, disse ella fechando-me a cara entre
-as mãos e chegando muito os olhos aos meus. Então eu esperei tantos
-annos para aborrecer-me em sete dias? Não, Bentinho; digo isto porque
-é realmente assim, creio que elles pódem estar desejosos de ver-nos e
-imaginar alguma doença, e, confesso, pela minha parte, que queria ver
-papae.
-
---Pois vamos amanhã.
-
---Não; ha de ser com tempo encoberto, redarguiu rindo.
-
-Peguei-lhe no riso e na palavra, mas a impaciencia continuou, e
-descemos com sol.
-
-A alegria com que poz o seu chapéo de casada, e o ar de casada com
-que me deu a mão para entrar e sair do carro, e o braço para andar
-na rua, tudo me mostrou que a causa da impaciencia de Capitú eram os
-signaes exteriores do novo estado. Não lhe bastava ser casada entre
-quatro paredes e algumas arvores; precisava do resto do mundo tambem.
-E quando eu me vi embaixo, pisando as ruas com ella, parando, olhando,
-falando, senti a mesma cousa. Inventava passeios para que me vissem,
-me confirmasses e me invejassem. Na rua, muitos voltavam a cabeça
-curiosos, outros paravam, alguns perguntavam: «Quem são?» e um sabido
-explicava: «Este é o doutor Santiago, que casou ha dias com aquella
-moça, D. Capitolina, depois de uma longa paixão de creanças; moram na
-Gloria, as familias residem em Matacavallos.» E ambos os dous: « É uma
-mocetona!»
-
-
-
-
-CIII
-
-A felicidade tem boa alma.
-
-Mocetona é vulgar; José Dias achou melhor. Foi a unica pessoa cá de
-baixo que nos visitou na Tijuca, levando abraços dos nossos e palavras
-suas, mas palavras que eram musicas verdadeiras; não as ponho aqui para
-ir poupando papel, mas foram deliciosas. Um dia, comparou-nos a aves
-criadas em dous vãos de telhado contiguos. Imagina o resto, as aves
-emplumando as azas e surtindo ao ceu, e o ceu agora mais largo para
-poder contel-as tambem. Nenhum de nós riu; ambos escutavamos commovidos
-e convencidos, esquecendo tudo, desde a tarde de 1858.... A felicidade
-tem boa alma.
-
-
-
-
-CIV
-
-As pyramides.
-
-José Dias dividia-se agora entre mim e minha mãe, alternando os
-jantares da Gloria com os almoços de Matacavallos. Tudo corria bem.
-Ao fim de dous annos de casado, salvo o desgosto grande de não ter um
-filho, tudo corria bem. Perdera meu sogro, é verdade, e o tio Cosme
-estava por pouco, mas a saude de minha mãe era boa; a nossa excellente.
-
-Eu era advogado de algumas casas ricas, e os processos vinham chegando.
-Escobar contribuira muito para as minhas estréas no fòro. Interveiu com
-um advogado celebre para que me admitisse á sua banca, e arranjou-me
-algumas procurações, tudo espontaneamente.
-
-Demais, as nossas relações de familia estavam previamente feitas;
-Sancha e Capitú continuavam depois de casadas a amizade da escola,
-Escobar e eu a do seminario. Elles moravam em Andarahy, aonde queriam
-que fossemos muitas vezes, e, não podendo ser tantas como desejavamos,
-iamos lá jantar alguns domingos, ou elles vinham fazel-o comnosco.
-Jantar é pouco. Iamos sempre muito cedo, logo depois do almoço, para
-gozarmos o dia compridamente, e só nos separavamos ás nove, dez e onze
-horas, quando não podia ser mais. Agora que penso naquelles dias de
-Andarahy e da Gloria, sinto que a vida e o resto não sejam tão rijos
-como as Pyramides.
-
-Escobar e a mulher viviam felizes; tinham uma filhinha. Em tempo ouvi
-falar de uma aventura do marido, negocio de theatro, não sei que actriz
-ou bailarina, mas se foi certo, não deu escandalo. Sancha era modesta,
-o marido trabalhador. Como eu um dia dissesse a Escobar que lastimava
-não ter um filho, replicou-me:
-
---Homem, deixa lá. Deus os dará quando quizer, e se não der nenhum é
-que os quer para si, e melhor será que fiquem no ceu.
-
---Uma creanca, um filho é o complemento natural da vida.
-
---Virá, so fòr necessário.
-
-Não vinha. Capitú pedia-o em suas orações, eu mais de uma vez dava
-por mim a rezar e a pedil-o. Já não era como em creança; agora pagava
-antecipadamente, como os alugueis da casa.
-
-
-
-
-CV
-
-Os braços.
-
-No mais, tudo corria bem. Capitú gostava de rir e divertir-se, e, nos
-primeiros tempos, quando iamos a passeios ou espectaculos, era como
-um passaro que saisse da gaiola. Arranjava-se com graça e modestia.
-Embora gostasse de joias, como as outras moças, não queria que eu lhe
-comprasse muitas nem caras, e um dia affligiu-se tanto que prometti não
-comprar mais nenhuma; mas foi só por pouco tempo.
-
-A nossa vida era mais ou menos placida. Quando não estavamos com a
-familia ou com amigos, ou se não iamos a algum espectaculo ou serão
-particular (e estes eram raros) passavamos as noites á nossa janella
-da Gloria, mirando o mar e o ceu, a sombra das montanhas e dos navios,
-ou a gente que passava na praia. Ás vezes, eu contava a Capitú a
-historia da cidade, outras dava-lhe noticias de astronomia; noticias
-de amador que ella escutava attenta e curiosa, nem sempre tanto que não
-cochillasse um pouco. Não sabendo piano, apprendeu depois de casada, e
-depressa, e dahi a pouco tocava nas casas de amizade. Na Gloria era uma
-das nossas recreações; tambem cantava, mas pouco e raro, por não ter
-voz; um dia chegou a entender que era melhor não cantar nada e cumpriu
-o alvitre. De dansar gostava, e enfeitava-se com amor quando ia a um
-baile; os braços é que... Os braços merecem um periodo.
-
-Eram bellos, e na primeira noite que os levou nús a um baile, não creio
-que houvesse eguaes na cidade, nem os seus, leitora, que eram então de
-menina, se eram nascidos, mas provavelmente estariam ainda no marmore,
-donde vieram, ou nas mãos do divino esculptor. Eram os mais bellos da
-noite, a ponto que me encheram de desvanecimento. Conversava mal com
-as outras pessoas, só para vel-os, por mais que elles se entrelaçassem
-aos das casacas alheias. Já não foi assim no segundo baile; nesse,
-quando vi que os homens não se fartavam de olhar para elles, de os
-buscar, quasi de os pedir, e que roçavam por elles as mangas pretas,
-fiquei vexado e aborrecido. Ao terceiro não fui, e aqui tive o apoio
-de Escobar, a quem confiei candidamente os meus tedios; concordou logo
-commigo.
-
---Sanchinha tambem não vae, ou irá de mangas compridas; o contrario
-parece-me indecente.
-
---Não é? Mas não diga o motivo; hão de chamar-nos seminaristas. Capitú
-já me chamou assim.
-
-Nem por isso deixei de contar a Capitú a approvação de Escobar. Ella
-sorriu e respondeu que os braços de Sanchinha eram mal feitos, mas
-cedeu depressa, e não foi ao baile; a outros foi, mas levou-os meio
-vestidos de escomilha ou não sei quê, que nem cobria nem descobria
-inteiramente, como o sendal de Camões.
-
-
-
-
-CVI
-
-Dez libras esterlinas.
-
-Já disse que era poupada, ou fica dito agora, e não só de dinheiro
-mas tambem de cousas usadas, dessas que se guardam por tradição, por
-lembrança ou por saudade. Uns sapatos, por exemplo, uns sapatinhos
-rasos de fitas pretas que se cruzavam no peito do pé e principio da
-perna, os ultimos que usou antes de calçar botinas, trouxe-os para
-casa, e tirava-os de longe em longe da gaveta da commoda, com outras
-velharias, dizendo-me que eram pedaços de creança. Minha mãe, que tinha
-o mesmo genio, gostava de ouvir falar e fazer assim.
-
-Quanto ás puras economias de dinheiro, direi um caso, e basta. Foi
-justamente por occasião de uma licção de astronomia, á praia da Gloria.
-Sabes que alguma vez a fiz cochilar um pouco. Uma noite perdeu-se em
-fitar o mar, com tal força e concentração, que me deu ciumes.
-
---Você não me ouve, Capitú.
-
---Eu? Ouço perfeitamente.
-
---O que é que eu dizia?
-
---Você... você falava de Sirius.
-
---Qual, Sirius, Capitú. Ha vinte minutos que eu falei de Sirius.
-
---Falava de... falava de Marte, emendou ella apressada.
-
-Realmente, era de Marte, mas é claro que só apanhára o som da palavra,
-não o sentido. Fiquei serio, e o impeto que me deu foi deixar a sala;
-Capitú, ao percebel-o, fez-se a mais mimosa das creaturas, pegou-me na
-mão, confessou-me que estivera contando, isto é, sommando uns dinheiros
-para descobrir certa parcella que não achava. Tratava-se de uma
-conversão de papel em ouro. A principio suppuz que era um recurso para
-desentadar-me, mas d'ahi a pouco estava eu mesmo calculando tambem, já
-então com papel e lapis, sobre o joelho, e dava a differença que ella
-buscam.
-
---Mas que libras são essas? perguntei-lhe no fim.
-
-Capitú fitou-me rindo, e replicou que a culpa de romper o segredo era
-minha. Ergueu-se, foi ao quarto e voltou com dez libras esterlinas, na
-mão; eram as sobras do dinheiro que eu lhe dava mensalmente para as
-despezas.
-
---Tudo isto?
-
---Não é muito, dez libras só; é o que a avarenta de sua mulher poude
-arranjar, em alguns mezes, concluiu fazendo tinir o ouro na mão.
-
---Quem foi o corretor?
-
---O seu amigo Escobar.
-
---Como é que elle não me disse nada?
-
---Foi hoje mesmo.
-
---Elle esteve cá?
-
---Pouco antes de você chegar; eu não disse para que você não
-desconfiasse.
-
-Tive vontade de gastar o dobro do ouro em algum presente commemorativo,
-mas Capitú deteve-me. Ao contrario, consultou-me sobre o que haviamos
-de fazer daquellas libras.
-
---São suas, respondi.
-
---São nossas, emendou.
-
---Pois você guarde-as.
-
-No dia seguinte, fui ter com Escobar ao armazem, e ri-me do segredo de
-ambos. Escobar sorriu e disse-me que estava para ir ao meu escriptorio
-contar-me tudo. A cunhadinha (continuava a dar este nome a Capitú)
-tinha-lhe falado naquillo por occasião da nossa ultima visita a
-Andarahy, e disse-lhe a razão do segredo.
-
---Quando contei isto a Sanchinha, concluiu elle, ficou espantada: «Como
-é que Capitú póde economisar, agora que tudo está tão caro?»--«Não sei,
-filha; sei que arranjou dez libras.»
-
---Vê se ella apprende tambem.
-
---Não creio; Sanchinha não é gastadeira, mas tambem não é poupada; o
-que lhe dou chega, mas só chega.
-
-Eu, depois de alguns instantes de reflexão:
-
---Capitú é um anjo!
-
-Escobar concordou de cabeça, mas sem enthusiasmo, como quem sentia não
-poder dizer o mesmo da mulher. Assim pensarias tu tambem, tão certo
-é que as virtudes das pessoas proximas nos dão tal ou qual vaidade,
-orgulho ou consolação.
-
-
-
-
-CVII
-
-Ciumes do mar.
-
-Se não fosse a astronomia, não descobriria eu tão cedo as dez libras
-de Capitú; mas não é por isso que torno a ella, é para que não cuides
-que a vaidade de professor é que me fez padecer com a desattenção de
-Capitú e ter ciumes do mar. Não, meu amigo. Venho explicar-te que tive
-taes ciumes pelo que podia estar na cabeça de minha mulher, não fóra
-ou acima della. É sabido que as distracções de uma pessoa pódem ser
-culpadas, metade culpadas, um terço, um quinto, um decimo de culpadas,
-pois que em materia de culpa a graduação é infinita. A recordação
-de uns simples olhos basta para fixar outros que os recordem e se
-deleitem com a imaginação delles. Não é mister peccado effectivo e
-mortal, nem papel trocado, simples palavra, aceno, suspiro ou signal
-ainda mais miudo e leve. Um anonymo ou anonyma que passe na esquina da
-rua faz com que mettamos Sirius dentro do Marte, e tu sabes, leitor,
-a differença que ha de um a outro na distancia e no tamanho, mas a
-astronomia tem dessas confusões. Foi isto que mo fez empallidecer,
-calar e querer fugir da sala para voltar. Deus sabe quando;
-provavelmente, dez minutos depois. Dez minutos depois, estaria eu outra
-vez na sala, ao piano ou á janella, continuando a licção interrompida:
-
---Marte está a distancia de...
-
-Tão pouco tempo? Sim, tão pouco tempo, dez minutos. Os meus ciumes eram
-intensos, mas curtos; com pouco derrubaria tudo, mas com o mesmo pouco
-ou menos reconstruiria o ceu, a terra e as estrellas.
-
-A verdade é que fiquei mais amigo de Capitú, se era possivel, ella
-ainda mais meiga, o ar mais brando, as noites mais claras, e Deus mais
-Deus. E não foram propriamente as dez libras esterlinas que fizeram
-isto, nem o sentimento de economia que revelavam e que eu conhecia,
-mas as cautelas que Capitú empregou para o fim de descobrir-me um dia
-o cuidado de todos os dias. Escobar tambem se me fez mais pegado ao
-coração. As nossas visitas foram-se tornando mais proximas, e as nossas
-conversações mais intimas.
-
-
-
-
-CVIII
-
-Um filho.
-
-Pois nem todo isso me matava a sède de um filho, um triste menino
-que fosse, amarello e magro, mas um filho, um filho proprio da minha
-pessoa. Quando iamos a Andarahy e viamos a filha de Escobar e Sancha,
-familiarmente Capitúsinha, por differençal-a de minha mulher, visto
-que lhe deram o mesmo nome á pia, ficavamos cheios de invejas. A
-pequena era graciosa e gorducha, faladeira e curiosa. Os paes, como
-os outros paes, contavam as travessuras e agudezas da menina, e nós,
-quando voltavamos á noite para a Gloria, vinhamos suspirando as nossas
-invejas, e pedindo mentalmente ao ceu que nol-as matassem...
-
-... As invejas morreram, as esperanças nasceram, e não tardou que
-viesse ao mundo o fructo dellas. Não era escasso nem feio, como eu já
-pedia, mas um rapagão robusto e lindo.
-
-A minha alegria quando elle nasceu, não sei dizel-a; nunca a tive
-egual, nem creio que a possa haver identica, ou que de longe ou
-de perto se pareça com ella. Foi uma vertigem e uma loucura. Não
-cantava na rua por natural vergonha, nem em casa para não affligir
-Capitú convalescente. Tambem não caía, porque ha um deus para os paes
-novos. Fóra, vivia com o espirito no menino; em casa, com os olhos, a
-observal-o, a miral-o, a perguntar-lhe donde vinha, e porque é que eu
-estava tão inteiramente nelle, e varias outras tolices sem palavras,
-mas pensadas ou deliradas a cada instante. Talvez perdi algumas causas
-no fòro por descuido.
-
-Capitú não era menos terna para elle e para mim. Davamos as mãos um
-ao outro, e, quando não olhavamos para o nosso filho, conversavamos
-de nós, do nosso passado e do nosso futuro. As horas de maior encanto
-e mysterio eram as de amamentação. Quando eu via o meu filho chupando
-o leite da mãe, e toda aquella união da natureza para a nutrição e
-vida de um ser que não fòra nada, mas que o nosso destino affirmou
-que seria, e a nossa constancia e o nosso amor fizeram que chegasse a
-ser, ficava que não sei dizer nem digo; positivamente não me lembra, e
-receio que o que dissesse me saisse escuro.
-
-Escusai minucias. Assim que, não é preciso contar a dedicação de minha
-mãe e de Sancha, que tambem foi passar com Capitú os primeiros dias e
-noites. Quiz rejeitar o obsequio de Sandia; respondeu-me que eu não
-tinha nada com isso; tambem Capitú, em solteira, fora tratal-a á rua
-dos Invalidos.
-
---Não se lembra que o senhor foi lá vel-a?
-
---Lembra-me; mas Escobar...
-
---Eu virei jantar com vocês, e ás noites sigo para Andarahy; oito dias,
-e está tudo passado. Bem se vê que você é pae de primeira viagem.
-
---Tambem você; onde está a segunda?
-
-Usavamos então estas graças em familia. Hoje, que me recolhi á minha
-casmurrice, não sei se ainda ha tal linguagem, mas deve haver. Escobar
-cumpriu o que disse; jantava comnosco, e ia-se á noite. Sobre tarde
-desciamos á praia ou iamos ao Passeio Publico, fazendo elle os seus
-calculos, eu os meus sonhos. Eu via o meu filho medico, advogado,
-negociante, metti-o em varias universidades e bancos, e até acceitei a
-hypothese de ser poeta. A possibilidade de politico foi consultada, e
-cri que me saisse orador, e grande orador.
-
---Póde ser, redarguia Escobar; ninguem diria o que veiu a ser
-Desmosthenes.
-
-Escobar acompanhava muita vez as minhas creancices; tambem interrogava
-o futuro. Chegou a falar da hypothese de casar o pequeno com a filha.
-A amizade existe; esteve toda nas mãos com que apertei as de Escobar,
-ao ouvir-lhe isto, e na total ausencia de palavras com que alli
-assignei o pacto; estas vieram depois, de atropelo, afinadas pelo
-coração, que batia com grande força. Acceitei a lembrança, e propuz
-que os encaminhassemos a este fim, pela educarão egual e commum, pela
-infancia unida e correcta.
-
-Era minha ideia que Escobar fosse padrinho do pequeno; a madrinha devia
-ser e seria minha mãe. Mas a primeira parte se trocou por intervenção
-do tio Cosme, que, ao ver a creança, disse-lhe entre outros carinhos.
-
---Anda, toma o benção a teu padrinho, velhaco.
-
-E, voltando-se para mim:
-
---Não desisto do favor; e ha de ser depressa o baptisado, antes que a
-minha doença me leve de vez.
-
-Contei discretamente a anecdota a Escobar, para que elle me
-comprehendesse e desculpasse; riu-se e não se magoou. Fez mais, quiz
-que o almoço do baptisado fosse na chacara delle, e foi. Eu ainda
-tentei espaçar a cerimonia a ver se tio Cosme succumbia primeiro á
-doença, mas parece que esta era mais de aborrecer que de matar. Não
-houve remedio senão levar o menino á pia, onde se lhe deu o nome de
-Ezequiel; era o de Escobar, e eu quiz supprir deste modo a falta de
-compadrio.
-
-
-
-
-CIX
-
-Um filho unico.
-
-Ezequiel, quando começou o capitulo anterior, não era ainda gerado;
-quando acabou era christão e catholico. Este outro é destinado a fazer
-chegar o meu Ezequiel aos cinco annos, um rapagão bonito, com os seus
-olhos claros, já inquietos, como se quizessem namorar todas as moças da
-visinhança, ou quasi todas.
-
-Agora, se considerares que elle foi unico, que nenhum outro veiu, certo
-nem incerto, morto nem vivo, um só e unico, imaginarás os cuidados que
-nos deu, os somnos que nos tirou, e que sustos nos metteram as crises
-dos dentes e outras, a menor febricula, toda a existencia commum das
-creanças. A tudo acudiamos, segundo cumpria e urgia, cousa que não era
-necessario dizer, mas ha leitores tão obtusos, que nada entendem, se se
-lhes não relata tudo e o resto. Vamos ao resto.
-
-
-
-
-CX
-
-Rasgos da infancia.
-
-O resto come-me ainda muitos capitulos; ha vidas que os tem menos, e
-fazem-se ainda assim completas e acabadas.
-
-Aos cinco e seis annos, Ezequiel não parecia desmentir os meus sonhos
-da praia da Gloria; ao contrario, adivinhavam-se nelle todos as
-vocações possiveis, desde vadio até apostolo. Vadio é aqui posto no
-bom sentido, no sentido de homem que pensa e cala; mettia-se ás vezes
-comsigo, e nisto fazia lembrar a mãe, desde pequena. Assim tambem,
-agitava-se todo e instava por ir persuadir ás visinhas que os doces que
-eu lhe trazia eram doces devéras; não o fazia antes de farto d'elles,
-mas tambem os apostolos não levam a boa doutrina senão depois de a
-terem toda no coração. Escobar, bom negociante, opinava que a causa
-principal desta outra inclinação, talvez fosse convidar implicitamente
-as visinhas a egual apostolado, quando os paes lhe trouxessem doces; e
-ria-se da propria graça, e annunciava-me que o faria seu socio.
-
-Gostava de musica, não menos que de doce, e eu disse a Capitú que lhe
-tirasse ao piano o prégão do preto das cocadas de Matacavallos...
-
---Não me lembra.
-
---Não diga isso; você não se lembra daquelle preto que vendia doce, ás
-tardes...
-
---Lembro-me de um preto que vendia doce, mas não sei mais da toada.
-
---Nem das palavras?
-
---Nem das palavras.
-
-A leitora, que ainda se lembrará das palavras, dado que me tenha lido
-com attenção, ficará espantada de tamanho esquecimento, tanto mais que
-lhe lembrarão ainda as vozes da sua infancia e adolescencia; haverá
-olvidado algumas, mas nem tudo fica na cabeça. Assim me replicou
-Capitú, e não achei treplica. Fiz, porém, o que ella não esperava;
-corri aos meus papeis velhos. Em S. Paulo, quando estudante, pedi a
-um professor de musica que me transcrevesse a toada do prégão; elle
-o fez com prazer (bastou-me repetir-lh'o de memoria), e eu guardei o
-papelinho; fui procural-o. D'ahi a pouco interrompi um romance que ella
-tocava, com o pedacinho de papel na mão. Expliquei-lh'o; ella teclou as
-dezeseis notas.
-
-Capitú achou á toada um sabor particular, quasi delicioso; contou ao
-filho a historia do prégão, e assim o cantava e teclava. Ezequiel
-aproveitou a musica para pedir-me que desmentisse o texto dando-lhe
-algum dinheiro.
-
-Fazia de medico, de militar, de actor e bailarino. Nunca lhe dei
-oratorios; mas cavallos de pau e espada á cinta eram com elle. Já não
-falo dos batalhões que passavam na rua, e que elle corria a ver: todas
-as creancas o fazem. O que nem todas fazem é ter os olhos que esta
-tinha. Em nenhuma vi as ancias de gosto com que assistia á passagem da
-tropa e ouvia tocar a marcha dos tambores.
-
---Olha, papae! olha!
-
---Estou vendo, meu filho!
-
---Olha o commandante! Olha o cavallo do commandante! Olha os soldados!
-
-Um dia amanheceu tocando corneta com a mão; dei-lhe uma cornetinha de
-metal. Comprei-lhe soldadinhos de chumbo, gravuras de batalhas que
-elle mirava por muito tempo, querendo que lhe explicasse uma peça
-de artilharia, um soldado caído, outro de espada alçada, e todos os
-seus amores iam para o de espada alçada. Um dia (ingenua edade!)
-perguntou-me impaciente:
-
---Mas, papae, porque é que elle não deixa cair a espada de uma vez?
-
---Meu filho, é porque é pintado.
-
---Mas então porque é que elle se pintou?
-
-Ri-me do engano e expliquei-lhe que não era o soldado que se tinha
-pintado no papel, mas o gravador, e tive de explicar tambem, o que era
-gravador e o que era gravura: as curiosidades de Capitú, em summa.
-
-Taes são os principaes rasgos da infancia: mais um e acabo o capitulo.
-Um dia, na chacara de Escobar, deu com um gato que tinha um rato
-atravessado na bocca. O gato nem deixava a presa, nem via por onde
-fugisse. Ezequiel não disse nada, deteve-se, acocorou-se, e ficou
-olhando. Ao vel-o assim attento, perguntámos-lhe de longe o que era;
-fez-nos signal que nos calassemos. Escobar concluiu:
-
---Vão ver que é o gato que apanhou algum rato. Os ratos continuam a
-infestar-me a casa, que é o diabo. Vamos ver.
-
-Capitú quiz tambem ver o filho; acompanhei-os. Effectivamente, era
-um gato e um rato, lance banal, sem interesse nem graça. A unica
-circumstancia particular era estar o rato vivo, esperneando, e o meu
-pequeno enlevado. De resto, o instante foi curto. O gato, logo que
-sentiu mais gente, dispoz-se a correr; o menino, sem tirar-lhe os olhos
-de cima, fez-nos outro signal de silencio; e o silencio não podia
-ser maior. Ia dizer religioso, risquei a palavra, mas aqui a ponho
-outra vez, não só por significar a totalidade do silencio, mas tambem
-porque havia naquella acção do gato e do rato alguma cousa que prendia
-com ritual. O unico rumor eram os ultimos guinchos do rato, aliás
-frouxissimos; as pernas mal se lhe moviam e desordenadamente. Um tanto
-aborrecido, bati palmas para que o gato fugisse, e o gato fugiu. Os
-outros nem tiveram tempo de atalhar-me, Ezequiel ficou abatido.
-
---Ora, papae!
-
---Que foi? A esta hora o rato está comido.
-
---Pois sim, mas eu queria ver.
-
-Os dous riram-se; eu mesmo achei-lhe graça.
-
-
-
-
-CXI
-
-Contado depressa.
-
-Achei-lhe graça, e não lh'a nego ainda agora, apesar do tempo passado,
-dos successos occorridos, e da tal ou qual sympathia ao rato que acho
-em mim; teve graça. Não me pesa dizel-o; os que amam a natureza como
-ella quer ser amada, sem repudio parcial nem exclusões injustas, não
-acham nella nada inferior. Amo o rato, não desamo o gato. Já pensei
-em os fazer viver juntos, mas vi que são incompativeis. Em verdade,
-um roe-me os livros, outro o queijo; mas não é muito que eu lhes
-perdoe, se já perdoei a um cachorro que me levou o descanço em peores
-circumstancias. Contarei o caso depressa.
-
-Foi quando nasceu Ezequiel; a mãe estava com febre, Sancha vivia ao pé
-della, e tres cães na rua latiam toda a noite. Procurei o fiscal, e foi
-como se procurasse o leitor, que só agora sabe disto. Então resolvi
-matal-os; comprei veneno, mandei fazer tres bolas de carne, e eu mesmo
-inseri nellas a droga. De noite, saí; era uma hora; nem a doente, nem
-a enfermeira podiam dormir, com a bulha dos cães. Quando elles me
-viram, afastaram-se, dous desceram para o lado da praia do Flamengo, um
-ficou a curta distancia, como que esperando. Fui-me a elle, assobiando
-e dando estalinhos com os dedos. O diabo ainda latiu, mas fiado nos
-signaes de amizade, foi-se calando, até que se calou de todo. Como
-eu continuasse, elle veiu a mim, devagar, mexendo a cauda, que é o
-seu modo de rir delles; eu tinha já na mão as bolas envenenadas, e ia
-deitar-lhe uma dellas, quando aquelle riso especial, carinho, confiança
-ou o que quer que seja, me atou a vontade; fiquei assim não sei como,
-tocado de pena e guardei as bolas no bolso. Ao leitor póde parecer
-que foi o cheiro da carne que remetteu o cão ao silencio. Não digo
-que não; eu cuido que elle não me quiz attribuir perfidia ao gesto, e
-entregou-se-me. A conclusão é que se livrou.
-
-
-
-
-CXII
-
-As imitações de Ezequiel.
-
-Tal não faria Ezequiel. Não comporia bolas envenenadas, supponho, mas
-não as recusaria tambem. O que faria com certeza era ir atraz dos cães,
-a pedrada, até onde lhe dessem as pernas. E se tivesse um pau, iria a
-pau. Capitú morria por aquelle batalhador futuro.
-
---Não sae a nós, que gostamos da paz, disse-me ella um dia, mas papae
-em moço era assim tambem; mamãe é que contava.
-
---Sim, não sairá maricas, repliquei; eu só lhe descubro um
-defeitosinho, gosta de imitar os outros.
-
---Imitar como?
-
---Imitar os gestos, as modos, os altitudes; imita prima Justina, imita
-José Dias; já lhe achei até um geito dos pés de Escobar e dos olhos...
-
-Capitú deixou-se estar pensando e olhando para mim, e disse afinal que
-era preciso emendal-o. Agora reparava que realmente era vezo do filho,
-mas parecia-lhe que era só imitar por imitar, como succede a muitas
-pessoas grandes, que tomam as maneiras dos outros; e para que não fosse
-mais longe...
-
---Tambem não vamos mortifical-o. Sempre ha tempo de corrigil-o.
-
---Ha, vou ver. Você tambem não era assim, quando se zangava com
-alguem...
-
---Quando me zangava, concordo; vingança de menino.
-
---Sim, mas eu não gosto de imitações em casa.
-
---E naquelle tempo gostavas de mim? disse eu batendo-lhe na face.
-
-A resposta do Capitú foi um riso doce de escarneo, um desses risos que
-não se descrevem, e apenas se pintarão; depois estirou os braços e
-atirou-m'os sobre os hombros, tão cheios de graça que pareciam (velha
-imagem!) um collar de flores. Eu fiz o mesmo aos meus, e senti não
-haver alli um esculptor que nos transferisse a altitude a um pedaço de
-marmore. Só brilharia o artista, é certo. Quando uma pessoa ou um grupo
-saem bem, ninguem quer saber de modelo, mas da obra, e a obra é que
-fica. Não importa; nós saberiamos que eramos nós.
-
-
-
-
-CXIII
-
-Embargos de terceiro.
-
-Por falar nisto, é natural que me perguntes se, sendo antes tão cioso
-della, não continuei a sel-o apesar do filho e dos annos. Sim, senhor,
-continuei. Continuei, a tal ponto que o menor gesto me affligia, a mais
-intima palavra, uma insistencia qualquer: muita vez só a indifferença
-bastava. Cheguei a ter ciumes de tudo e de todos. Um visinho, um par
-de valsa, qualquer homem, moço ou maduro, me enchia de terror ou
-desconfiança. E certo que Capitú gostava de ser vista, e o meio mais
-proprio a tal fim (disse-me uma senhora, um dia) é ver tambem, e não ha
-ver sem mostrar que se vê.
-
-A senhora que me disse isto cuido que gostou de mim, e foi naturalmente
-por não achar da minha parte correspondencia aos seus affectos que
-me explicou daquella maneira os seus olhos teimosos. Outros olhos
-me procuravam tambem, não muitos, e não digo nada sobre elles, tendo
-aliás confessado a principio as minhas aventuras vindouras, mas eram
-ainda vindouras. Naquelle tempo, por mais mulheres bonitas que achasse,
-nenhuma receberia a minima parte do amor que tinha a Capitú. A minha
-propria mãe não queria mais que metade. Capitú era tudo e mais que
-tudo; não vivia nem trabalhava que não fosse pensando nella. Ao theatro
-iamos juntos; só me lembra que fosse duas vezes sem ella, um beneficio
-de actor, e uma estréa de opera, a que ella não foi por ter adoecido,
-mas quiz por força que eu fosse. Era tarde para mandar o camarote a
-Escobar; saí, mas voltei no fim do primeiro acto. Encontrei Escobar á
-porta do corredor.
-
---Vinha falar-te, disse-me elle.
-
-Expliquei-lhe que tenha saido para o theatro, donde voltára receioso de
-Capitú, que ficára doente.
-
---Doente de que? perguntou Escobar.
-
---Queixava-se da cabeça e do estomago.
-
---Então, vou-me embora. Vinha para aquelle negocio dos embargos...
-
-Eram uns embargos de terceiro; occorrera um incidente importante, e,
-tendo elle jantado na cidade, não quiz ir para casa sem dizer-me o que
-era, mas já agora falaria depois...
-
---Não, falemos já, sóbe; ella póde estar melhor. Se estiver peor,
-desces.
-
-Capitú estava melhor e até boa. Confessou-me que apenas tivera uma
-dor de cabeça de nada, mas aggravára o padecimento para que eu fosse
-divertir-me. Não falava alegre, o que me fez desconfiar quo mentia,
-para me não metter medo, mas jurou que era a verdade pura. Escobar
-sorriu e disse:
-
---A cunhadinha está tão doente como você ou eu. Vamos aos embargos.
-
-
-
-
-CXIV
-
-Em que se explica o explicado.
-
-Antes de ir aos embargos, expliquemos ainda um ponto que já ficou
-explicado, mas não bem explicado. Viste que eu pedi (cap. CX) a um
-professor de musica de S. Paulo que me escrevesse a toada daquelle
-prégão de doces de Matacavallos. Em si, a materia é chocha, e não vale
-a pena de um capitulo, quanto mais dous; mas ha materias taes que
-trazem ensinamentos interessantes, senão agradaveis. Expliquemos o
-explicado.
-
-Capitú e eu tinhamos jurado não esquecer mais aquelle prégão; foi em
-momento de grande ternura, e o tabellião divino sabe as cousas que se
-juram em taes momentos, elle que as registra nos livros eternos.
-
---Você jura?
-
---Juro, disse ella estendendo tragicamente o braço.
-
-Aproveitei o gesto para beijar-lhe a mão; estava ainda no seminario.
-Quando fui para S. Paulo, querendo um dia relembrar a toada, vi que a
-ia perdendo inteiramente; consegui recordal-a e corri ao professor, que
-me fez o obsequio de a escrever no pedacinho de papel. Foi para não
-faltar ao juramento que fiz isto. Mas has de crer que, quando corri aos
-papeis velhos, naquelle noite da Gloria, tambem me não lembrava já da
-toada nem do texto? Fiz-me de pontual ao juramento, e este é que foi o
-meu peccado; esquecer, qualquer esquece.
-
-Ao certo, ninguem sabe se ha de manter ou não um juramento. Cousas
-futuras! Portanto, a nossa constituição politica, transferindo o
-juramento á affirmação simples, é profundamente moral. Acabou com um
-peccado terrivel. Faltar ao compromisso é sempre infidelidade, mas a
-alguem que tenha mais temor a Deus que aos homens não lhe importara
-mentir, uma vez ou outra, desde que não mette a alma no purgatorio. Não
-confundam purgatorio com inferno, que é o eterno naufragio. Purgatorio
-é uma casa de penhores, que empresta sobre todas as virtudes, a juro
-alto e prazo curto. Mas os prazos renovam-se, até que um dia uma ou
-duas virtudes medianas pagam todos os peccados grandes e pequenos.
-
-
-
-
-CXV
-
-Duvidas sobre duvidas.
-
-Vamos agora aos embargos... E porque iremos aos embargos? Deus sabe o
-que custa escrevel-os, quanto mais contal-os. Da circumstancia nova que
-Escobar me trazia apenas digo o que lhe disse então, isto é, que não
-valia nada.
-
---Nada?
-
---Quasi nada.
-
---Então vale alguma cousa.
-
---Para reforçar as razões que já temos vale menos que o chá que você
-vae tomar commigo.
-
---É tarde para tomar chá.
-
---Tomaremos depressa.
-
-Tomámos depressa. Durante elle, Escobar olhava para mim desconfiado,
-como se cuidasse que eu recusava a circumstancia nova por forrar-me a
-escrevel-a; mas tal suspeita não ia com a nossa amizade.
-
-Quando elle saiu, referi as minhas duvidas a Capitú; ella as desfez
-com a arte fina que possuia, um geito, uma graça toda sua, capaz de
-dissipar as mesmas tristezas de Olympio.
-
---Seria o negocio dos embargos, concluiu; e elle que veiu até aqui, a
-esta hora, é que está impressionado com a demanda.
-
---Tens razão.
-
-Palavra puxa palavra, falei de outras duvidas. Eu era então um poço
-dellas; coaxavam dentro do mim, como verdadeiras rans, a ponto de me
-tirarem o somno algumas vezes. Disse-lhe que começava a achar minha mãe
-um tanto fria e arredia com ella. Pois aqui mesmo valeu a arte fina de
-Capitú!
-
---Ja disse a você o que é; cousas de sogra. Mamãesinha tem ciumes de
-você; logo que elles passem e as saudades augmentem, ella torna a ser o
-que era. Em lhe faltando o neto...
-
---Mas eu tenho notado que já é fria tambem com Ezequiel. Quando elle
-vae commigo, mamãe não lhe faz as mesmas graças.
-
---Quem sabe se não anda doente?
-
---Vamos nós jantar com ella amanhã?
-
---Vamos... Não... Pois vamos.
-
-Fomos jantar com a minha velha. Já lhe podia chamar assim, posto
-que os seus cabellos brancos não o fossem todos nem totalmente, e o
-rosto estivesse comparativamente fresco; era uma especie de mocidade
-quinquagenaria ou do ancianidade viçosa, á escolha... Mas nada de
-melancolias; não quer falar dos olhos molhados, á entrada e á saida.
-Pouco entrou na conversação. Tambem não era differente da costumada.
-José Dias falou do casamento e suas bellezas, da politica, da Europa
-e da homeopathia, tio Cosme das suas molestias, prima Justina da
-visinhança, ou de José Dias, quando este saía da sala.
-
-Quando voltámos, á noite, viemos por alli a pé, falando das minhas
-duvidas. Capitú novamente me aconselhou que esperassemos. Sogras
-eram todas assim; lá vinha um dia e mudavam. Ao passo que me falava,
-recrudescia de ternura. Dalli em deante foi cada vez mais doce commigo;
-não me ia esperar á janella, para não espertar-me os ciumes, mas quando
-eu subia, via no alto da escada, entre as grades da cancella, a cara
-deliciosa da minha amiga e esposa, risonha como toda a nossa infancia.
-Ezequiel ás vezes estava com ella; nós o havíamos acostumado a ver o
-osculo da chegada e da saida, e elle enchia-me a cara de beijos.
-
-
-
-
-CXVI
-
-Filho do homem.
-
-Apalpei José Dias sobre as maneiras novas de minha mãe; ficou
-espantado. Não havia nada, nem podia haver cousa nenhuma, tantos eram
-os louvores incessantes que elle ouvia «á bella e virtuosa Capitú.»
-
---Agora, quando os ouço, entro tambem no côro, mas a principio ficava
-envergonhadissimo. Para quem chegou, como eu, a arrenegar deste
-casamento, era duro confessar que elle foi uma verdadeira benção do
-ceu. Que digna senhora nos saiu a creança travessa de Matacavallos! O
-pae é que nos separou um pouco, em quanto não nos conheciamos, mas tudo
-acabou em bem. Pois, sim, senhor, quando D. Gloria elogia a sua nora e
-comadre...
-
---Então mamãe?...
-
---Perfeitamente!
-
---Mas, porque e não nos visita ha tanto tempo?
-
---Creio que tem andando mais achacada dos seus rheumatismos. Este anno
-tem feito muito frio... Imagine a afflicção della, que andava o dia
-inteiro; agora é obrigada a estar quieta, ao pé do irmão, que lá tem o
-seu mal...
-
-Quiz observar-lhe que tal razão explicava a interrupção das visitas,
-e não a frieza quando iamos nós a Matacavallos; mas não estendi tão
-longe a intimidade do aggregado. José Dias pediu para ver o nosso
-«prophetasinho» (assim chamava a Ezequiel) e fez-lhe as festas do
-costume. Desta vez falou ao modo biblico (estivera na vespera a folhear
-o livro de Ezequiel, como soube depois), e perguntava-lhe: «Como vae
-isso, filho do homem?» «Dize-me, filho do homem, onde estão os teus
-brinquedos?» «Queres comer doce, filho do homem?»
-
---Que filho do homem é esse, perguntou-lhe Capitú agastada.
-
---São os modos de dizer da Biblia.
-
---Pois eu não gosto delles, replicou ella com aspereza.
-
---Tem razão, Capitú, concordou o aggregado. Voce não imagina como a
-Biblia é cheia de expressões cruas e grosseiras. Eu falava assim para
-variar... Tu como vaes, meu anjo? Meu anjo, como é que eu ando na rua?
-
---Não, atalhou Capitú; já lhe vou tirando esse costume do imitar os
-outros.
-
-**--Mas tem muita graça; a mim, quando elle copia os meus gestos,
-parece-me que sou eu mesmo, pequenino. Outro dia chegou a fazer um
-gesto de D. Gloria, tão bom que ella lhe deu um beijo em paga. Vamos,
-como é que eu ando?
-
---Não, Ezequiel, disse eu, mamãe não quer.
-
-Eu mesmo achava feio tal séstro. Alguns dos gestos já lhe iam ficando
-mais repetidos, como o das mãos e pés de Escobar; ultimamente, até
-apanhara o modo de voltar da cabeça deste, quando falava, e o de
-deixal-a cair, quando ria. Capitú ralhava. Mas o menino era travesso,
-como o diabo; apenas começámos a falar de outra cousa, saltou ao meio
-da sala, dizendo a José Dias:
-
---O senhor anda assim.
-
-Não podemos deixar de rir, eu mais que ninguem. A primeira pessoa que
-fechou a cara, que o reprehendeu e chamou a si foi Capitú.
-
---Não quero isso, ouviu?
-
-
-
-
-CXVII
-
-Amigos proximos.
-
-Já então Escobar deixára Andarahy e comprára uma casa no Flamengo, casa
-que ainda alli vi, ha dias, quando me deu na gana experimentar se as
-sensações antigas estavam mortas ou dormiam só; não posso dizel-o bem,
-porque os somnos, quando são pesados, confundem vivos e defunctos, a
-não ser a respiração. Eu respirava um pouco, mas póde ser que fosse do
-mar, meio agitado. Emfim, passei, accendi um charuto, e dei por mim no
-Cattete; tinha subido pela rua da Princeza, uma rua antiga... Ó ruas
-antigas! ó casas antigas! ó pernas antigas! Todos nós éramos antigos, e
-não é preciso dizer que no máu sentido, no sentido de velho e acabado.
-
-Velha é a casa, mas não lhe alteraram nada. Não sei até se ainda tem
-o mesmo numero. Não digo que numero é para não irem indagar e cavar
-a historia. Não é que Escobar ainda lá more nem sequer viva; morreu
-pouco depois, por um modo que hei de contar. Emquanto viveu, uma vez
-que estavamos tão proximos, tinhamos por assim dizer uma só casa, eu
-vivia na delle, elle na minha, e o pedaço de praia entre a Gloria e
-o Flamengo era como um caminho de uso proprio e particular. Fazia-me
-pensar nas duas casas de Matacavallos, com o seu muro de permeio.
-
-Um historiador da nossa lingua, creio que João de Barros, põe na boca
-de um rei barbaro algumas palavras mansas, quando os portuguezes lhe
-propunham estabelecer alli ao pé uma fortaleza; dizia o rei que os
-bons amigos deviam ficar longe uns dos outros, não perto, para se não
-zangarem como as aguas do mar que batiam furiosas no rochedo que elles
-viam dalli. Que a sombra do escriptor me perdoe, se eu duvido que o
-rei dissesse tal palavra nem que ella seja verdadeira. Provavelmente
-foi o mesmo escriptor que a inventou para adornar o texto, e não fez
-mal, porque é bonita; realmente, é bonita. Eu creio que o mar então
-batia na pedra, como é seu costume, desde Ullysses e antes. Agora
-que a comparação seja verdadeira é que não. Seguramente ha inimigos
-contiguos, mas tambem ha amigos do perto e do peito. E o escriptor
-esquecia (salvo se ainda não era do seu tempo) esquecia o adagio:
-longe dos olhos, longe do coração. Nós não podiamos ter os corações
-agora mais perto. As nossas mulheres viviam na casa uma da outra, nós
-passavamos as noites cá ou lá conversando, jogando ou mirando o mar.
-Os dous pequenos passavam dias, ora no Flamengo, ora na Gloria.
-
-Como eu observasse que podia acontecer com elles o que se dera entre
-mim e Capitú, acharam todos que sim, e Sancha accrescentou que até já
-se iam parecendo. Eu expliquei:
-
---Não; é porque Ezequiel imita os gestos dos outros.
-
-Escobar concordou commigo, e insinuou que alguma vez as creanças que
-se frequentam muito acabam parecendo-se umas com as outras. Opinei de
-cabeça, como me succedia nas materias que eu não sabia bem nem mal.
-Tudo podia ser. O certo é que elles se queriam muito, e podiam acabar
-casados, mas não acabaram casados.
-
-
-
-
-CXVIII
-
-A mão de Sancha.
-
-Tudo acaba, leitor; é um velho truismo, a que se póde accrescentar
-que nem tudo o que dura dura muito tempo. Esta segunda parte não acha
-crentes faceis; ao contrario, a ideia de que um castello de vento dura
-mais que o mesmo vento de que é feito, difficilmente se despegará
-da cabeça, e é bom que seja assim, para que se não perca o costume
-daquellas construcções quasi eternas.
-
-O nosso castello era solido, mas um domingo... Na vespera tinhamos
-passado a noite no Flamengo, não só os dous casaes inseparaveis, como
-ainda o aggregado e prima Justina. Foi então que Escobar, falando-me á
-janella, disse-me que fossemos lá jantar no dia seguinte; precisavamos
-falar de um projecto em familia, um projecto para os quatro.
-
---Para os quatro? Uma contradança.
-
---Não. Não és capaz de adivinhar o que seja, nem eu digo. Vem amanhã.
-
-Sancha não tirava os olhos de nós durante a conversa, ao canto da
-janella. Quando o marido saiu, veiu ter commigo. Perguntou-me de que
-é que falaramos; disse-lhe que de um projecto que eu não sabia qual
-fosse; ella pediu-me segredo, e revelou-me o que era: uma viagem á
-Europa dalli a dous annos. Disse isto de costas para dentro, quasi
-suspirando. O mar batia com grande força na praia; havia ressaca.
-
---Vamos todos? perguntei por fim.
-
---Vamos.
-
-Sancha ergueu a cabeça e olhou para mim com tanto prazer que eu,
-graças ás relações della e Capitú, não se me daria beijal-a na testa.
-Entretanto, os olhos de Sancha não convidavam a expansões fraternaes,
-pareciam quentes e intimativos, diziam outra cousa, e não tardou que se
-afastassem da janella, onde eu fiquei olhando para o mar, pensativo. A
-noite era clara.
-
-Dalli mesmo busquei os olhos de Sancha, ao pé do piano; encontrei-os
-em caminho. Pararam os quatro e ficaram deante uns dos outros, uns
-esperando que os outros passassem, mas nenhuns passavam. Tal se dá
-na rua entre dous teimosos. A cautela desligou-nos; eu tornei a
-voltar-me para fóra. E assim posto entrei a cavar na memoria se a
-alguma vez olhára para ella com a mesma expressão, e fiquei incerto.
-Tive uma certeza só, é que um dia pensei nella, como se pensa na bella
-desconhecida que passa**; mas então dar-se-hia que ella adivinhando...
-Talvez o simples pensamento me transluzisse cá fóra, e ella me fugisse
-outr'ora irritada ou acanhada, e agora por um movimento invencivel...
-Invencivel; esta palavra foi como uma benção de padre á missa, que a
-gente recebe e repete em si mesma.
-
---O mar amanhã está de desafiar a gente, disse-me a voz de Escobar, ao
-pé de mim.
-
---Você entra no mar amanhã?
-
---Tenho entrado com mares maiores, muito maiores.--Você não imagina o
-que é um bom mar em hora bravia. É preciso nadar bem, como eu, e ter
-estes pulmões,--disse elle batendo no peito, e estes braços; apalpa.
-
-Apalpei-lhe os braços, como se fossem os de Sancha. Custa-me esta
-confissão, mas não posso supprimil-a; era jarretar a verdade. Nem só
-os apalpei com essa ideia, mas ainda senti outra cousa: achei-os mais
-grossos e fortes que os meus, e tive-lhes inveja; accresce que sabiam
-nadar.
-
-Quando saímos, tornei a falar com os olhos á dona da casa. A mão della
-apertou muito a minha, e demorou-se mais que de costume.
-
-A modestia pedia então, como agora, que eu visse naquelle gesto de
-Sancha uma sancção ao projecto do marido e um agradecimento. Assim
-devia ser, mas um fluido particular que me correu todo o corpo desviou
-de mim a conclusão que deixo escripta. Senti ainda os dedos de Sancha
-entre os meus, apertando uns aos outros. Foi um instante de vertigem
-e de peccado. Passou depressa no relogio do tempo; quando cheguei o
-relogio ao ouvido, trabalhavam só os minutos da virtude e da razão.
-
-**--...Uma senhora deliciosissima, concluiu José Dias um discurso que
-vinha fazendo.
-
---Deliciosissima! repeti com algum ardor, que moderei logo,
-emendando-me: Realmente, uma bella noite!
-
---Como devem ser todas as daquella casa, continuou o aggregado. Cá
-fóra, não; cá fóra o mar está zangado; escute.
-
-Ouvia-se o mar forte,--como já se ouvia de casa,--a ressaca era
-grande, e, a distancia, viam-se crescer as ondas. Capitú e prima
-Justina, que iam adeante, detiveram-se n'uma das voltas da praia, e
-fomos conversando os quatro; mas eu conversava mal. Não havia meio de
-esquecer inteiramente a mão de Sancha nem os olhos que trocámos. Agora
-achava-lhes isto, agora aquillo. Os instantes do diabo intercalavam-se
-nos minutos de Deus, e o relogio foi assim marcando alternativamente
-a minha perdição e a minha salvação. José Dias despediu-se de nós
-á porta. Prima Justina dormiu em nossa casa; iria embora, no dia
-seguinte, depois do almoço e da missa. Eu recolhi-me ao meu gabinete,
-onde me demorei mais que de costume.
-
-O retrato de Escobar, que eu tinha alli, ao pé do de minha mãe,
-falou-me como se fosse a propria pessoa. Combati sinceramente os
-impulsos que trazia do Flamengo; rejeitei a figura da mulher do
-meu amigo, e chamei-me desleal. Demais, quem me affirmava que
-houvesse alguma intenção daquella especie no gesto da despedida e nos
-anteriores? Tudo podia ligar-se ao interesse da nossa viagem. Sancha
-e Capitú eram tão amigas que seria um prazer mais para ellas irem
-juntas. Quando houvesse alguma intenção sexual, quem me provaria que
-não era mais que uma sensação fulgurante, destinada a morrer com a
-noite e o somno? Ha remorsos que não nascem de outro peccado, nem tem
-maior duração. Agarrei-me a esta hypothese que se conciliava com a
-mão de Sancha, que eu sentia de memoria dentro da minha mão, quente e
-demorada, apertada e apertando...
-
-Sinceramente, eu achava-me mal entre um amigo e a attracção. A timidez
-póde ser que fosse outra causa daquella crise; não é só o ceu que dá as
-nossas virtudes, a timidez tambem, não contando o acaso, mas o acaso
-é um méro accidente; a melhor origem dellas é o ceu. Entretanto, como
-a timidez vem do ceu, que nos dá a compleição, a virtude, filha della
-é, genealogicamente, o mesmo sangue celestial. Assim reflectiria, se
-pudesse; mas a principio vaguei á tôa. Paixão não era nem inclinação.
-Capricho seria ou quê? Ao fim de vinte minutos era nada, inteiramente
-nada. O retrato de Escobar pareceu falar-me; vi-lhe a altitude franca e
-simples, sacudi a cabeça e fui deitar-me.
-
-
-
-
-CXIX
-
-Não faça isso, querida.
-
-A leitora, que é minha amiga e abriu este livro com o fim de descançar
-da cavatina de hontem para a valsa de hoje, quer fechal-o ás pressas,
-ao ver que beiramos um abysmo. Não faça isso, querida; eu mudo de rumo.
-
-
-
-
-CXX
-
-Os autos.
-
-Na manhã seguinte accordei livre das abominações da vespera;
-chamei-lhes allucinações, tomei café, percorri os jornaes e fui
-estudar uns autos. Capitú e prima Justina sairam para a missa das
-nove, na Lapa. A figura de Sancha desappareceu inteiramente no meio
-das allegações da parte adversa, que eu ia lendo nos autos, allegações
-falsas, inadmissiveis, sem apoio na lei nem nas praxes. Vi que era
-facil ganhar a demanda; consultei Dalloz, Pereira e Souza...
-
-Uma só vez olhei para o retrato de Escobar. Era uma bella photographia
-tirada um anno antes. Estava de pé, sobrecasaca abotoada, a mão
-esquerda no dorso de uma cadeira, a direita mettida ao peito, o olhar
-ao longe para a esquerda do espectador. Tinha garbo e naturalidade.
-A moldura que lhe mandei pôr não encobria a dedicatoria, escripta
-embaixo, não nas costas do cartão: «Ao meu querido Bentinho o seu
-querido Escobar 20-4-70.» Estas palavras fortaleceram-me os pensamentos
-daquella manhã, e espancaram de todo as recordações da vespera.
-Naquelle tempo a minha vista era boa; eu podia lel-as do logar em que
-estava. Tornei aos autos.
-
-
-
-
-CXXI
-
-A catastrophe.
-
-No melhor delles, ouvi passos precipitados na escada, a campainha soou,
-soaram palmas, golpes na cancella, vozes, acudiram todos, acudi eu
-mesmo. Era um escravo da casa de Sancha que me chamava:
-
---Para ir lá... sinhô nadando, sinhô morrendo.
-
-Não disse mais nada, ou eu não lhe ouvi o resto. Vesti-me, deixei
-recado a Capitú e corri ao Flamengo.
-
-Em caminho, fui adivinhando a verdade. Escobar metteu-se a nadar, como
-usava fazer, arriscou-se um pouco mais fóra que de costume, apesar do
-mar bravio, foi enrolado e morreu. As canoas que acudiram mal puderam
-trazer-lhe o cadaver.
-
-
-
-
-CXXII
-
-O enterro.
-
-A viuva... Poupo-vos as lagrimas da viuva, as minhas, as da outra
-gente. Sai de lá cerca de onze horas; Capitú e prima Justina
-esperavam-me, uma com o parecer abatido e estupido, outra enfastiada
-apenas.
-
---Vão fazer companhia a pobre Sanchinha; eu vou cuidar do enterro.
-
-Assim fizemos. Quiz que o enterro fosse pomposo, e a affluencia dos
-amigos foi numerosa. Praia, ruas, praça da Gloria, tudo eram carros,
-muitos delles particulares. A casa, não sendo grande, não podiam lá
-caber todos; muitos estavam na praia, falando do desastre, apontando
-o logar em que Escobar fallecèra, ouvindo referir a chegada do morto.
-José Dias ouviu tambem falar dos negocios do finado, divergindo alguns
-na avaliação dos bens, mas havendo accordo em que o passivo devia ser
-pequeno. Elogiavam as qualidades de Escobar. Um ou outro discutia
-o recente gabinete Rio Branco; estavamos em Março de 1871. Nunca me
-esqueceu o mez nem o anno.
-
-Como eu houvesse resolvido falar no cemiterio, escrevi algumas linhas e
-mostrei-as em casa a José Dias, que as achou realmente dignas do morto
-e de mim. Pediu-me o papel, recitou lentamente o discurso, pesando
-as palavras, e confirmou a primeira opinião; no Flamengo espalhou a
-noticia. Alguns conhecidos vieram interrogar-me:
-
---Então, vamos ouvil-o?
-
---Quatro palavras.
-
-Poucas mais seriam. Tinha-as escripto com receio de que a emoção me
-impedisse de improvisar. No tilbury em que andei uma ou duas horas, não
-fizera mais que recordar o tempo do seminario, as relações de Escobar,
-as nossas sympathias, a nossa amizade, começada, continuada e nunca
-interrompida, até que um lance da fortuna fez separar para sempre duas
-creaturas que promettiam ficar por muito tempo unidas. De quando em
-quando enxugava os olhos. O cocheiro aventurou duas ou tres perguntas
-sobre a minha situação moral; não me arrancando nada, continuou o seu
-officio. Chegando a casa, deitei aquellas emoções ao papel; tal seria o
-discurso.
-
-
-
-
-CXXIII
-
-Olhos de ressaca.
-
-Emfim, chegou a hora da encommendação e da partida. Sancha quiz
-despedir-se do marido, e o desespero daquelle lance consternou a todos.
-Muitos homem choravam tambem, as mulheres todas. Só Capitú, amparando
-a viuva, parecia vencer-se a si mesma. Consolava a outra, queria
-arrancal-a dalli. A confusão era geral. No meio della, Capitú olhou
-alguns instantes para o cadaver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que
-não admira lhe saltassem algumas lagrimas poucas e caladas...
-
-As minhas cessaram logo. Fiquei a ver as della; Capitú enxugou-as
-depressa, olhando a furto para a gente que estava na sala. Redobrou
-de caricias para a amiga, e quiz leval-a; mas o cadaver parece que
-a retinha tambem. Momento houve em que os olhos de Capitú fitaram o
-defuncto, quaes os da viuva, sem o pranto nem palavras desta, mas
-grandes e abertos, como a vaga do mar lá fóra, como se quizesse tragar
-tambem o nadador da manhã.
-
-
-
-
-CXXIV
-
-O discurso.
-
---Vamos, são horas...
-
-Era José Dias que me convidava a fechar o ataúde. Fechámol-o, e eu
-peguei n'uma das argolas; rompeu o alarido final. Palavra que, quando
-cheguei á porta, vi o sol claro, tudo gente e carros, as cabeças
-descobertas, tive um daquelles meus impulsos que nunca chegavam á
-execução: foi atirar á rua caixao, defuncto e tudo. No carro disse a
-José Dias que se calasse. No cemiterio tive de repetir a cerimonia
-da casa, desatar as correias, e ajudar a levar o feretro á cova. O
-que isto me custou imagina. Descido o cadaver á cova, trouxeram a cal
-e a pá; sabes disto, terás ido a mais de um enterro, mas o que não
-sabes nem póde saber nenhum dos teus amigos, leitor, ou qualquer outro
-extranho, é a crise que me tornou quando vi todos os olhos em mim,
-os pés quietos, as orelhas attentas, e, ao cabo de alguns instantes
-de total silencio, um sussurro vago, algumas vozes interrogativas,
-signaes, e alguem, José Dias, que me dizia ao ouvido:
-
---Então, fale.
-
-Era o discurso. Queriam o discurso. Tinham jus ao discurso annunciado.
-Machinalmente, metti a mão no bolso, saquei o papel e li-o aos
-trambolhões, não todo, nem seguido, nem claro; a voz parecia-me entrar
-em vez de sair, as mãos tremiam-me. Não era só a emoção nova que me
-fazia assim, era o proprio texto, as memorias do amigo, as saudades
-confessadas, os louvores á pessoa e aos seus meritos; tudo isto que
-eu era obrigado a dizer e dizia mal. Ao mesmo tempo, temendo que me
-adivinhassem a verdade, forcejava por escondel-a bem. Creio que poucos
-me ouviram, mas o gesto geral foi de comprehensão e de approvação.
-As mãos que me deram a apertar eram de solidariedade; alguns diziam:
-«Muito bonito! muito bem! magnifico!» José Dias achou que a eloquencia
-estivera na altura da piedade. Um homem, que me pareceu jornalista,
-pediu-me licença para levar o manuscripto e imprimil-o. Só a minha
-grande turvação recusaria um obsequio tão simples.
-
-
-
-
-CXXV
-
-Uma comparação.
-
-Priamo julga-se o mais infeliz dos homens, por beijar a mão daquelle
-que lhe matou o filho. Homero é que relata isto, e é um bom autor, não
-obstante contal-o em verso, mas ha narrações exactas em verso, e até
-mau verso. Compara tu a situação de Priamo com a minha; eu acabava de
-louvar as virtudes do homem que recebera defuncto aquelles olhos... E
-impossivel que algum Homero não tirasse da minha situação muito melhor
-effeito, ou quando menos, egual. Nem digas que nos faltam Homeros,
-pela causa apontada em Camões; não, senhor, faltam-nos, é certo, mas é
-porque os Priamos procuram a sombra e o silencio. As lagrimas, se as
-tèm, são enxugadas atraz da porta, para que as caras appareçam limpas
-e serenas; os discursos são antes de alegria que do melancolia, e tudo
-passa como se Achilles não matasse Heitor.
-
-
-
-
-CXXVI
-
-Scismando.
-
-Pouco depois de sair do cemiterio, rasguei o discurso e deitei os
-pedaços pela portinhola fóra, sem embargo dos esforços de José Dias
-para impedil-o.
-
---Não presta para nada, disse-lhe eu, e como posso ter a tentação de
-dal-o a imprimir, fica já destruido de uma vez. Não presta, não vale
-nada.
-
-José Dias demonstrou longamente o contrario, depois elogiou o enterro,
-e por ultimo fez o panegyrico do morto, uma grande alma, espirito
-activo, coração recto, amigo, bom amigo, digno da esposa amantissima
-que Deus lhe dera...
-
-Neste ponto do discurso, deixei-o falar sósinho e peguei a scismar
-commigo. O que scismei foi tão escuro e confuso que não me deixou tomar
-pé. No Cattete mandei parar o carro, disse a José Dias que fosse buscar
-as senhoras ao Flamengo e as levasse para casa; eu iria a pé.
-
---Mas...
-
---Vou fazer uma visita.
-
-A razão d'isto era acabar de scismar, e escolher uma resolução que
-fosse adequada ao momento. O carro andaria mais depressa que as
-pernas; estas iriam pausadas ou não, podiam afrouxar o passo, parar,
-arrepiar caminho, e deixar que a cabeça scismasse á vontade. Fui
-andando e scismando. Tinha já comparado o gesto de Sancha na vespera e
-o desespero daquelle dia; eram inconciliaveis. A viuva era realmente
-amantissima. Assim se desvaneceu de todo a illusão da minha vaidade.
-Não seria o mesmo caso de Capitú? Cuidei de recompôr-lhe os olhos, a
-posição em que a vi, o ajuntamento de pessoas que devia naturalmente
-impôr-lhe a dissimulação, se houvesse algo que dissimular. O que aqui
-vae por ordem logica e deductiva, tinha sido antes uma barafunda de
-ideias e sensações, graças aos solavancos do carro e ás interrupções de
-José Dias. Agora, porém, raciocinava e evocava claro e bem. Conclui de
-mim para mim que era a antiga paixão que me offuscava ainda e me fazia
-desvairar como sempre.
-
-Quando cheguei a esta conclusão final, chegava tambem á porta de
-casa, mas voltei para traz, e subi outra vez a rua do Cattete. Eram
-as duvidas que me affligiam ou a necessidade de affligir Capitú com
-a minha grande demora? Ponhamos que eram as duas causas; andei largo
-espaço, até que me senti socegar, e endireitei para casa. Batiam oito
-hora n'uma padaria.
-
-
-
-
-CXXVII
-
-O barbeiro.
-
-Perto de casa, havia um barbeiro, que me conhecia de vista, amava a
-rabeca e não tocava inteiramente mal. Na occasião em que ia passando,
-executava não sei que peça. Parei na calçada a ouvil-o (tudo são
-pretextos a um coração agoniado), elle viu-me, o continuou a tocar. Não
-attendeu a um freguez, e logo a outro, que alli foram, a despeito da
-hora e de ser domingo, confiar-lhe as caras á navalha. Perdeu-os sem
-perder uma nota; ia tocando para mim. Esta consideração fez-me chegar
-francamente a porta da loja, voltado para elle. Ao fundo, levantando
-a cortina de chita que fechava o interior da casa, vi apontar uma
-moça trigueira, vestido claro, flôr no cabello. Era a mulher delle;
-creio que me descobriu de dentro, e veiu agradecer-me com a presença o
-favor que eu fazia ao marido. Se me não engano, chegou a dizel-o com
-os olhos. Quanto ao marido, tocava agora com mais calor; sem ver a
-mulher, sem ver freguezes, grudava a face ao instrumento, passava a
-alma ao arco, e tocava, tocava...
-
-Divina arte! Ia-se formando um grupo, deixei a porta da loja e
-vim andando para casa; enfiei pelo corredor e subi as escadas sem
-estrepito. Nunca me esqueceu o caso deste barbeiro, ou por estar
-ligado a um momento grave da minha vida, ou por esta maxima, que os
-compiladores, pódem tirar daqui e inserir nos compendios de escola.
-A maxima é que a gente esquece devagar as boas acções que pratica,
-e verdadeiramente não as esquece nunca. Pobre barbeiro! perdeu duas
-barbas naquella noite, que eram o pão do dia seguinte, tudo para ser
-ouvido de um transeunte. Suppõe agora que este, em vez de ir-se embora,
-como eu fui, ficava á porta a ouvil-o e a namorar-lhe a mulher; então
-é que elle, todo arco, todo rabeca, tocaria desesperadamente. Divina
-arte!
-
-
-
-
-CXXVIII
-
-Punhado de successos.
-
-Como ia dizendo, subi as escadas sem estrepito, empurrei a cancella,
-que estava apenas encostada, o dei com prima Justina e José Dias
-jogando cartas na saleta proxima. Capitú levantou-se do canapé e veiu
-a mim. O rosto della era agora sereno e puro. Os outros suspenderam
-o jogo, e todos falámos do desastre e da viuva. Capitú censurou a
-imprudencia de Escobar, e não dissimulou a tristeza que lhe trazia a
-dor da amiga. Perguntei-lhe por que não ficára com Sancha aquella noite.
-
---Tem lá muita gente; ainda assim offereci-me, mas não quiz. Tambem lhe
-disse que era melhor vir para cá, e passar aqui uns dias comnosco.
-
---Tambem não quiz?
-
---Tambem não.
-
---Entretanto, a vista do mar ha de ser-lhe penosa, todas as manhãs,
-ponderou José Dias, e não sei como poderá...
-
---Mas, passa; o que é que não passa? atalhou prima Justina.
-
-E como em torno desta ideia, começassemos uma troca de palavras,
-Capitú saiu para ir ver se o filho dormia. Ao passar pelo espelho,
-concertou os cabellos tão demoradamente que pareceria affectação, se
-não soubessemos que ella era muito amiga de si. Quando tornou trazia
-os olhos vermelhos; disse-nos que, ao mirar o filho dormindo pensára
-na filhinha de Sancha, e na afflicção da viuva. E, sem se lhe dar das
-visitas, nem reparar se havia algum criado, abraçou-me e disse-me que,
-se quizesse pensar nella, era preciso pensar primeiro na minha vida.
-José Dias achou a phrase «lindissima», e perguntou a Capitú porque é
-que não fazia versos. Tentei metter o caso á bulha, e assim acabámos a
-noite.
-
-No dia seguinte, arrependi-me de haver rasgado o discurso, não que
-quizesse dal-o a imprimir, mas era lembrança do finado. Pensei em
-recompôl-o, mas só achei phrases soltas, que uma vez juntas não tinham
-sentido. Tambem pensei em fazer outro, mas era já difficil, e podia ser
-apanhado em falso pelos que me tinham ouvido no cemiterio. Quanto a
-recolher os pedacinhos de papel deitados á rua, era tarde; estariam já
-varridos.
-
-Inventariei as lembranças de Escobar, livros, um tinteiro de bronze,
-uma bengala de marfim, um passaro, o album de Capitú, duas paizagens
-do Paraná e outras. Tambem elle as possuia de minha mão. Vivemos
-assim a trocar memorias e regalos, ora em dia de annos, ora sem razão
-particular. Tudo isso me empanava os olhos... Vieram os jornaes do
-dia: davam noticia do desastre e da morte de Escobar, os estudos e
-os negocios deste, as qualidades pessoaes, a sympathia do commercio,
-e tambem falavam dos bens deixados, da mulher e da filha. Todo isso
-foi na segunda feira. Na terça-feira foi aberto o testamento, que me
-nomeava segundo testamenteiro; o primeiro logar cabia á mulher. Não
-me deixava nada, mas as palavras que me escrevera em carta separada
-eram sublimes de amizade e estima. Capitú desta vez chorou muito; mas
-compoz-se depressa.
-
-Testamento, inventario, tudo andou quasi tão depressa como aqui vae
-dito. Ao cabo de pouco tempo, Sancha retirou-se para a casa dos
-parentes no Paraná.
-
-
-
-
-CXXIX
-
-A D. Sancha.
-
-D. Sancha, peço-lhe que não leia este livro; ou, se o houver lido até
-aqui, abandone o resto. Basta fechal-o; melhor será queimal-o, para lhe
-não dar tentação e abril-o outra vez. Se, apesar do aviso, quizer ir
-até o fim, a culpa é sua; não respondo pelo mal que receber. O que já
-lhe tiver feito, contando os gestos daquelle sabbado, esse acabou, uma
-vez que os acontecimentos, e eu com elles, desmentimos a minha illusão;
-mas o que agora a alcançar, esse é indelevel. Não, amiga minha, não
-leia mais. Vá envelhecendo, sem marido nem filha, que eu faço a mesma
-cousa, e é ainda o melhor que se póde fazer depois da mocidade. Um dia,
-iremos daqui até a porta do ceu, onde nos encontraremos renovados, como
-as plantas novas, _come piante novelle_,
-
- Rinovalatte di novelle fronde.
-
-O resto em Dante.
-
-
-
-
-CXXX
-
-Um dia...
-
-Porquanto, um dia Capitú quiz saber o que é que me fazia andar calado
-e aborrecido. E propoz-me a Europa, Minas, Petropolis, uma serie de
-bailes, mil desses remedios aconselhados aos melancolicos. Eu não
-sabia que lhe respondesse; recusei as diversões. Como insistisse,
-repliquei-lhe que os meus negocios andavam mal. Capitú sorriu para
-animar-me. E que tinha que andassem mal? Tornariam a andar bem, e até
-lá as joias, os objectos de algum valor seriam vendidos, e iriamos
-residir em algum becco. Viveriamos socegados e esquecidos; depois
-tornariamos á tona da agua. A ternura com que me disse isto era de
-commover as pedras. Pois nem assim. Respondi-lhe seccamente que
-não era preciso vender nada. Deixei-me estar calado e aborrecido.
-Ella propoz-me jogar cartas ou damas, um passeio a pé, uma visita a
-Matacavallos; e, como eu não acceitasse nada, foi para a sala, abriu o
-piano, e começou a tocar; eu aproveitei a ausencia, peguei do chapéo e
-saí.
-
-... Perdão, mas este capitulo devia ser precedido de outro, em que
-contasse um incidente, occorrido poucas semanas antes, dous mezes
-depois da partida de Sancha. Vou escrevel-o; podia antepôl-o a este,
-antes de mandar o livro ao prélo, mas custa muito alterar o numero dos
-paginas; vae assim mesmo, depois a narração seguirá direita até o fim.
-Demais, é curto.
-
-
-
-
-CXXXI
-
-Anterior ao anterior.
-
-Foi o caso que a minha vida em outra vez doce e placida, a banca do
-advogado rendia-me bastante, Capitú estava mais bella, Ezequiel ia
-crescendo. Começava o anno de 1872.
-
---Você já reparou que Ezequiel tem nos olhos uma espressão exquisita?
-perguntou-me Capitú. Só vi duas pessoas assim, um amigo de papae e o
-defuncto Escobar. Olha, Ezequiel; olha firme, assim, vira para o lado
-de papae, não precisa revirar os olhos, assim, assim...
-
-Era depois de jantar; estavamos ainda á mesa, Capitú brincava com
-o filho, ou elle com ella, ou um com outro, porque, em verdade,
-queriam-se muito, mas é tambem certo que elle me queria ainda mais a
-mim. Approximei-me de Ezequiel, achei que Capitú tinha razão; eram os
-olhos de Escobar, mas não me pareceram exquisitos por isso. Afinal
-não haveria mais que meia duzia de expressões no mundo, e muitas
-semelhanças se dariam naturalmente. Ezequiel não entendeu nada, olhou
-espantado para ella e para mim, e afinal saltou-me ao collo:
-
---Vamos passear, papae?
-
---Logo, meu filho.
-
-Capitú, alheia a ambos, fitava agora a outra borda da mesa; mas,
-dizendo-lhe eu que, na belleza, os olhos de Ezequiel saíam aos da mãe,
-Capitú sorriu abanando a cabeça com um ar que nunca achei em mulher
-alguma, provavelmente porque não gostei tanto das outras. As pessoas
-valem o que vale a affeição da gente, e é dahi que mestre Povo tirou
-aquelle adagio que quem o feio ama bonito lhe parece. Capitú tinha meia
-duzia de gestos unicos na terra. Aquelle entrou-me pela alma dentro.
-Assim fica explicado que eu corresse á minha esposa e amiga e lhe
-enchesse a cara de beijos; mas este outro incidente não é radicalmente
-necessario á comprehensão do capitulo passado e dos futuros; fiquemos
-nos olhos de Ezequiel.
-
-
-
-
-CXXXII
-
-O debuxo e o colorido.
-
-Nem só os olhos, mas as restantes feições, a cara, o corpo, a pessoa
-inteira, iam-se apurando com o tempo. Eram como um debuxo primitivo
-que o artista vae enchendo e colorindo aos poucos, e a figura entra a
-ver, sorrir, palpitar, falar quasi, até que a familia pendura o quadro
-na parede, em memoria do que foi e já não póde ser. Aqui podia ser e
-era. O costume valeu muito contra o effeito da mudança: mas a mudança
-fez-se, não á maneira de theatro, fez-se como a manhã que aponta
-vagarosa, primeiro que se possa ler uma carta, depois lê-se a carta na
-rua, em casa, no gabinete, sem abrir as janellas; a luz coada pelas
-persianas basta a distinguir as lettras. Li a carta, mal a principio e
-não toda, depois fui lendo melhor. Fugia-lhe, é certo, mettia o papel
-no bolso, corria a casa, fechava-me, não abria as vidraças, chegava a
-fechar os olhos. Quando novamente abria os olhos e a carta, a lettra
-era clara e a noticia clarissima.
-
-Escobar vinha assim surgindo da sepultura, do seminario e do Flamengo
-para se sentar commigo á mesa, receber-me na escada, beijar-me no
-gabinete de manhã, ou pedir-me á noite a benção do costume. Todas
-essas acções eram repulsivas; eu tolerava-as e praticava-as, para me
-não descobrir a mim mesmo e ao mundo. Mas o que pudesse dissimular
-ao mundo, não podia fazel-o a mim, que vivia mais perto de mim que
-ninguem. Quando nem mãe nem filho estavam commigo o meu desespero
-era grande, e eu jurava matal-os a ambos, ora de golpe, ora devagar,
-para dividir pelo tempo da morte todas os minutos da vida embaçada
-e agoniada. Quando, porém, tornava a casa e via no alto da escada a
-creaturinha que me queria e esperava, ficava desarmado e differia o
-castigo de um dia para outro.
-
-O que se passava entre mim e Capitú naquelles dias sombrios, não se
-notará aqui, por ser tão miudo e repetido, e já tão tarde que não
-se poderá dizel-o sem falha nem canceira. Mas o principal irá. E o
-principal é que os nossos temporaes eram agora continuos e terriveis.
-Antes de descoberta aquella má terra da verdade, tivemos outros de
-pouca dura; não tardava que o ceu se fizesse azul, o sol claro e o mar
-chão, por onde abríamos novamente as velas que nos levavam ás ilhas e
-costas mais bellas do universo, até que outro pé de vento desbaratava
-tudo, e nós, postos á capa, esperavamos outra bonança, que não era
-tardia nem dubia, antes total, proxima e firme.
-
-Releva-me estas metaphoras; cheiram ao mar e á maré que deram morte ao
-meu amigo e comborço Escobar. Cheiram tambem aos olhos de ressaca de
-Capitú. Assim, posto sempre fosse homem de terra, conto aquella parte
-da minha vida, como um marujo contaria o seu naufragio.
-
-Já entre nós só faltava dizer a palavra ultima; nós a liamos, porém,
-nos olhos um do outro, vibrante e decisiva, e sempre que Ezequiel vinha
-para nós não fazia mais que separar-nos. Capitú propoz mettel-o em um
-collegio, donde só viesse aos sabbados; custou muito ao menino acceitar
-esta situação.
-
---Quero ir com papae! Papae ha de ir commigo! bradava elle.
-
-Fui eu mesmo que o levei um dia de manhã, uma segunda feira. Era no
-antigo largo da Lapa, perto da nossa casa. Levei-o a pé, pela mão, como
-levára o ataúde do outro. O pequeno ia chorando e fazendo perguntas a
-cada passo, se voltaria para casa, e quando, e se eu iria vel-o...
-
---Vou.
-
---Papae não vae!
-
---Vou sim.
-
---Jura, papae!
-
---Pois sim.
-
---Papae não diz que jura.
-
---Pois juro.
-
-E lá o levei e deixei. A ausencia temporaria não atalhou o mal, e toda
-a arte fina de Capitú para fazel-o attenuar, ao menos, foi como se
-não fosse; eu sentia-me cada vez peor. A mesma situação nova aggravou
-a minha paixão. Ezequiel vivia agora mais fóra da minha vista; mas a
-volta delle, ao fim das semanas, ou pelo descostume em que eu ficava,
-ou porque o tempo fosse andando e completando a semelhança, era a
-volta de Escobar mais vivo e ruidoso. Até a voz; dentro de pouco, já
-me parecia a mesma. Aos sabbados, buscava não jantar em casa e só
-entrar quando elle estivesse dormindo; mas não escapava ao domingo, no
-gabinete, quando eu me achava entre jornaes e autos. Ezequiel entrava
-turbulento, expansivo, cheio de riso e de amor, porque o demo do
-pequeno cada vez morria mais por mim. Eu, a falar verdade, sentia agora
-uma aversão que mal podia disfarçar, tanto a ella como aos outros. Não
-podendo encobrir inteiramente esta disposição moral, cuidava de me
-não fazer encontradiço com elle, ou só o menos que pudesse; ora tinha
-trabalho que me obrigava a fechar o gabinete, ora saía ao domingo para
-ir passear pela cidade o arrebaldes o meu mal secreto.
-
-
-
-
-CXXXIII
-
-Uma ideia.
-
-Um dia,--era uma sexta feira,--não pude mais. Certa ideia, que
-negrejava em mim, abriu as azas e entrou a batel-as de um lado para
-outro, como fazem as ideias que querem sair. O ser sexta-feira creio
-que foi acaso, mas tambem póde ter sido proposito; fui educado no
-terror daquelle dia; ouvi cantar balladas em casa, vindas da roça e
-da antiga metropole, nas quaes a sexta-feira era o dia de agouro.
-Entretanto, não havendo almanaks no cerebro, é provavel que a ideia
-não batesse as azas senão pela necessidade que sentia do vir ao ar e
-á vida. A vida é tão bella que a mesma ideia da morte precisa de vir
-primeiro a ella, antes de se ver cumprida. Já me vás entendendo; lê
-agora outro capitulo.
-
-
-
-
-CXXXIV
-
-O dia de sabbado.
-
-A ideia saiu finalmente do cerebro. Era noite, e não pude dormir, por
-mais que a sacudisse de mim. Tambem nenhuma noite me passou tão curta.
-Amanheceu, quando cuidava não ser mais que uma ou duas horas. Sai,
-suppondo deixar a ideia em casa; ella veiu commigo. Cá fóra tinha a
-mesma côr escura, as mesmas azas trepidas, e posto avoasse com ellas,
-era como se fosse fixa; eu a levava na retina, não que me encobrisse as
-cousas externas, mas via-as atra vez della, com a côr mais pallida que
-de costume, e sem se demorarem nada.
-
-Não me lembra bem o resto do dia. Sei que escrevi algumas cartas,
-comprei uma substancia, que não digo, para não espertar o desejo de
-proval-a. A pharmacia falliu, é verdade; o dono fez-se banqueiro, e
-o banco prospera. Quando me achei com a morte no bolso senti tamanha
-alegria como se acabasse de tirar a sorte grande, ou ainda maior,
-porque o premio da loteria gasta-se, e a morte não se gasta. Fui a
-casa de minha mãe, com o fim de despedir-me, a titulo de visita. Ou de
-verdade ou por illusão, tudo alli me pareceu melhor nesse dia, minha
-mãe menos triste, tio Cosme esquecido do coração, prima Justina da
-lingua. Passei uma hora em paz. Cheguei a abrir mão do projecto. Que
-era preciso para viver? Nunca mais deixar aquella casa, ou prender
-aquella hora a mim mesmo...
-
-
-
-
-CXXXV
-
-Othello.
-
-Jantei fóra. De noite fui ao theatro. Representava-se justamente
-_Othello_, que eu não vira nem lera nunca; sabia apenas o assumpto,
-e estimei a coincidencia. Vi as grandes raivas do mouro, por causa
-de um lenço,--um simples lenço!--e aqui dou materia á meditação dos
-psychologos deste e de outros continentes, pois não me pude furtar á
-observação de que um lenço bastou a accender os ciumes de Othello e
-compor a mais sublime tragedia deste mundo. Os lenços perderam-se, hoje
-são precisos os proprios lençóes; alguma vez nem lençóes ha, e valem
-só as camisas. Taes eram as ideias que me iam passando pela cabeça,
-vagas e turvas, á medida que o mouro rolava convulso, e Iago distilava
-a sua calumnia. Nos intervallos não me levantava da cadeira; não queria
-expôr-me a encontrar algum conhecido. As senhoras ficavam quasi todas
-nos camarotes, emquanto os homens iam fumar. Então eu perguntava a
-mim mesmo se alguma daquellas não teria amado alguem que jazesse agora
-no cemiterio, e vinham outras incoherencias, até que o panno subia e
-continuava a peça. O ultimo acto mostrou-me que não eu, mas Capitú
-devia morrer. Ouvi as supplicas de Desdemona, as suas palavras amorosas
-e puras, e a furia do mouro, e a morte que este lhe deu entre applausos
-freneticos do publico.
-
---E era innocente, vinha eu dizendo rua abaixo;--que faria o publico,
-se ella devéras fosse culpada, tão culpada como Capitú? E que morte lhe
-daria o mouro? Um travesseiro não bastaria; era preciso sangue e fogo,
-um fogo intenso e vasto, que a consumisse de todo, e a reduzisse a pó,
-e o pó seria lançado ao vento, como eterna extincção...
-
-Vaguei pelas ruas o resto da noite. Ceei, é verdade, um quasi nada,
-mas o bastante para ir até á manhã. Vi as ultimas horas da noite e
-as primeiras do dia, vi os derradeiros passeadores e os primeiros
-varredores, as primeiras carroças, os primeiros ruidos, os primeiros
-albores, um dia que vinha depois do outro e me veria ir para nunca mais
-voltar. As ruas que eu andava como que me fugiam por si mesmas. Não
-tornaria a contemplar o mar da Gloria, nem a serra dos Orgãos, nem a
-fortaleza de Santa-Cruz e as outras. A gente que passava não era tanta,
-como nos dias communs da semana, mas era já numerosa e ia a algum
-trabalho, que repetiria depois; eu é que não repetiria mais nada.
-
-Cheguei a casa, abri a porta devagarinho, subi pé ante-pé, e metti-me
-no gabinete; iam dar seis horas. Tirei o veneno do bolso, fiquei em
-mangas de camisa, e escrevi ainda uma carta, a ultima, dirigida a
-Capitú. Nenhuma das outras era para ella; senti necessidade de lhe
-dizer uma palavra em que lhe ficasse o remorso da minha morte. Escrevi
-dous textos. O primeiro queimei-o por ser longo e diffuso. O segundo
-continha só o necessário, claro e breve. Não lhe lembrava o nosso
-passado, nem as lutas havidas, nem alegria alguma; falava-lhe só de
-Escobar e da necessidade de morrer.
-
-
-
-
-CXXXVI
-
-A chicara de café.
-
-O meu plano foi esperar o café, dissolver nelle a droga e ingeril-a.
-Até lá, não tendo esquecido de todo a minha historia romana, lembrou-me
-que Catão, antes de se matar, leu e releu um livro de Platão. Não tinha
-Platão commigo; mas um tomo truncado de Plutarcho, em que era narrada
-a vida do celebre romano, bastou-me a occupar aquelle pouco tempo, e,
-para em tudo imital-o, estirei-me no canapé. Nem era só imital-o nisso;
-tinha necessidade de incutir em mim a coragem delle, assim como elle
-precisára dos sentimentos do philosopho, para intrepidamente morrer. Um
-dos males da ignorancia é não ter este remedio á ultima hora. Ha muita
-gente que se mata sem elle, e nobremente expira; mas estou que muita
-mais gente poria termo aos seus dias, se pudesse achar essa especie de
-cocaina moral dos bons livros. Entretanto, querendo fugir a qualquer
-suspeita de imitação, lembra-me bem que, para não ser encontrado ao pé
-de mim o livro de Plutarcho, nem ser dada a noticia nas gazetas com a
-da côr das calças que eu então vestia, assentei de pôl-o novamente no
-seu logar, antes de beber o veneno.
-
-O copeiro trouxe o café. Ergui-me, guardei o livro, e fui para a
-mesa onde ficára a chicara. Já a casa estava em rumores; era tempo
-de acabar commigo. A mão tremeu-me ao abrir o papel em que trazia a
-droga embrulhada. Ainda assim tive animo de despejar a substancia
-na chicara, e comecei a mexer o café, os olhos vagos, a memoria em
-Desdemona innocente; o espectaculo da vespera vinha intrometter-se na
-realidade da manhã. Mas a photographia de Escobar deu-me o animo que me
-ia faltando; lá estava elle, com a mão nas costas da cadeira, a olhar
-ao longe...
-
---Acabemos com isto, pensei.
-
-Quando ia a beber, cogitei se não seria melhor esperar que Capitú e o
-filho saissem para a missa; beberia depois; era melhor. Assim disposto,
-entrei a passear no gabinete. Ouvi a voz de Ezequiel no corredor, vi-o
-entrar e correr a mim bradando:
-
---Papae! papae!
-
-Leitor, houve aqui um gesto que eu não descrevo por havel-o
-inteiramente esquecido, mas crê que foi bello e tragico.
-Effectivamente, a figura do pequeno fez-me recuar até dar de costas na
-estante. Ezequiel abraçou-me os joelhos, esticou-se na ponta dos pés,
-como querendo subir e dar-me o beijo do costume; e repetia, puxando-me:
-
---Papae! papae!
-
-
-
-
-CXXXVII
-
-Segundo impulso.
-
-Se eu não olhasse para Ezequiel, é provavel que não estivesse aqui
-escrevendo este livro, porque o meu primeiro impeto foi correr ao café
-e bebel-o. Cheguei a pegar na chicara, mas o pequeno beijava-me a mão,
-como de costume, e a vista delle, como o gesto, deu-me outro impulso
-que me custa dizer aqui; mas vã lá, diga-se tudo. Chamem-me embora
-assassino; não serei eu que os desdiga ou contradiga; o meu segundo
-impulso foi criminoso. Inclinei-me e perguntei a Ezequiel se já tomára
-café.
-
---Já, papae; vou á missa com mamãe.
-
---Toma outra chicara, meia chicara só.
-
---E papae?
-
---Eu mando vir mais; anda, bebe!
-
-Ezequiel abriu a boca. Cheguei-lhe a chicara, tão tremulo que quasi a
-entornei, mas disposto a fazel-a cair pela guela abaixo, caso o sabor
-lhe repugnasse, ou a temperatura, porque o café estava frio... Mas não
-sei que senti que me fez recuar. Puz a chicara em cima da mesa, e dei
-por mim a beijar doudamente a cabeça do menino.
-
---Papae papae! exclamava Ezequiel.
-
---Não, não, eu não sou teu pae!
-
-
-
-
-CXXXVIII
-
-Capitú que entra.
-
-Quando levantei a cabeça, dei com a figura de Capitú deante de mim.
-Eis ahi outro lance, que parecerá de theatro, e é tão natural como o
-primeiro, uma vez que a mãe e o filho iam á missa, e Capitú não saía
-sem falar-me. Era já um falar secco e breve; a mór parte das vezes, eu
-nem olhava para ella. Ella olhava sempre, esperando.
-
-Desta vez, ao dar com ella, não sei se era dos meus olhos, mas Capitú
-pareceu-me livida. Seguiu-se um daquelles silencios, a que, sem mentir,
-se pódem chamar de um seculo, tal é a extensão do tempo nas grandes
-crises. Capitú recompoz-se; disse ao filho que se fosse embora, e
-pediu-me que lhe explicasse...
-
---Não ha que explicar, disse eu.
-
---Ha tudo; não entendo as tuas lagrimas nem as de Ezequiel. Que houve
-entre vocês?
-
---Não ouviu o que lhe disse?
-
-Capitú respondeu que ouvira choro e rumor de palavras. Eu creio que
-ouvira tudo claramente, mas confessal-o seria perder a esperança do
-silencio e da reconciliação; por isso negou a audiencia e confirmou
-unicamente a vista. Sem lhe contar o episodio do café, repeti-lhe as
-palavras do final do capitulo.
-
---O que? perguntou ella como se ouvira mal.
-
---Que não é meu filho.
-
-Grande foi a estupefacção de Capitú, e não menor a indignação que
-lhe succedeu, tão naturaes ambas que fariam duvidar as primeiras
-testemunhas de vista do nosso fôro. Já** ouvi que as ha para varios
-casos, questão de preço; eu não creio, tanto mais que a pessoa que me
-contou isto acabava de perder uma demanda. Mas, haja ou não testemunhas
-alugadas, a minha era verdadeira; a propria natureza jurava por si, e
-eu não queria duvidar della. Assim que, sem attender á linguagem de
-Capitú, aos seus gestos, á dôr que a retorcia, a cousa nenhuma, repeti
-as palavras ditas duas vezes com tal resolução que a fizeram afrouxar.
-Após alguns instantes, disse-me ella:
-
---Só se póde explicar tal injuria pela convicção sincera; entretanto,
-você que era tão cioso dos menores gestos, nunca revelou a menor sombra
-de desconfiança. Que é que lhe deu tal ideia? Diga,--continuou vendo
-que eu não respondia nada,--diga tudo; depois do que ouvi, posso ouvir
-o resto, não póde ser muito. Que é que lhe deu agora tal convicção?
-Ande, Bentinho, fale! fale! Despeça-me d'aqui, mas diga tudo primeiro.
-
---Ha cousas que se não dizem.
-
---Que se não dizem só metade; mas já que disse metade, diga tudo.
-
-Tinha-se sentado n'uma cadeira ao pé da mesa. Podia estar um tanto
-confusa, o porte não era de accusada. Pedi-lhe ainda uma vez que não
-teimasse.
-
---Não, Bentinho, ou conte o resto, para que eu me defenda, se você acha
-que tenho defesa, ou peço-lhe desde já a nossa separação: não posso
-mais!
-
---A separação é cousa decidida, redargui pegando-lhe na proposta. Era
-melhor que a fizessemos por meias palavras ou em silencio; cada um iria
-com a sua ferida. Uma vez, porém, que a senhora insiste, aqui vae o que
-lhe posso dizer, e é tudo.
-
-Não disse tudo; mal pude alludir aos amores de Escobar sem proferir-lhe
-o nome. Capitú não poude deixar de rir, de um riso que eu sinto
-não poder transcrever aqui; depois, em um tom juntamente ironico e
-melancolico:
-
---Pois até os defunctos! Nem os mortos escapam aos seus ciumes!
-
-Concertou a capinha e ergueu-se. Suspirou, creio que suspirou, emquanto
-eu, que não pedia outra cousa mais que a plena justificação della,
-disse-lhe não sei que palavras adequadas a este fim. Capitú olhou para
-mim com desdem, e murmurou:
-
---Sei a razão disto; é a casualidade da semelhança... A vontade de
-Deus explicará tudo... Ri-se? É natural; apesar do seminario, não
-acredita em Deus; eu creio... Mas não falemos nisto; não nos fica bem
-dizer mais nada.
-
-
-
-
-CXXXIX
-
-A photographia.
-
-Palavra que estive a pique de crer que era victima de uma grande
-illusão, uma phantasmagoria de allucinado; mas a entrada repentina de
-Ezequiel, gritando:--«Mamãe! mamãe! é hora da missa!» restituiu-me
-á consciencia da realidade. Capitú e eu, involuntariamente, olhámos
-para a photographia de Escobar, e depois um para o outro. Desta vez
-a confusão della fez-se confissão pura. Este era aquelle; havia por
-força alguma photographia de Escobar pequeno que seria o nosso pequeno
-Ezequiel. De bocca, porém, não confessou nada; repetiu as ultimas
-palavras, puxou do filho e sairam para a missa.
-
-
-
-
-CXL
-
-Volta da egreja.
-
-Ficando só, era natural pegar do café e bebel-o. Pois, não, senhor;
-tinha perdido o gosto á morte. A morte era uma solução; eu acabava de
-achar outra, tanto melhor quanto que não era definitiva, e deixava
-a porta aberta á reparação, se devesse havel-a. Não disse _perdão_,
-mas _reparação_, isto é, justiça. Qualquer que fosse a razão do acto,
-rejeitei a morte, e esperei o regresso de Capitú. Este foi mais
-demorado que de costume; cheguei a temer que ella houvesse ido á casa
-de minha mãe, mas não foi.
-
---Confiei a Deus todas as minhas amarguras, disse-me Capitú ao voltar
-da egreja; ouvi dentro de mim que a nossa separação é indispensavel, e
-estou ás suas ordens.
-
-Os olhos com que me disse isto eram embuçados, como espreitando um
-gesto de recusa ou de espera. Contava com a minha debilidade ou com
-a propria incerteza em que eu podia estar da paternidade do outro,
-mas falhou tudo. Acaso haveria em mim um homem novo, um que apparecia
-agora, desde que impressões novas e fortes o descobriam? Nesse caso era
-um homem apenas encoberto. Respondi-lhe que ia pensar, e fariamos o que
-eu pensasse. Em verdade vos digo que tudo estava pensado e feito.
-
-No intervallo, evocára as palavras do finado Gurgel, quando me
-mostrou em casa delle o retrato da mulher, parecido com Capitú. Has
-de lembrar-te dellas; se não, relê o capitulo, cujo numero não ponho
-aqui, por não me lembrar já qual seja, mas não fica longe. Reduzem-se
-a dizer que ha taes semelhanças inexplicaveis... Pelo dia adeante, e
-nos outros dias, Ezequiel ia ter commigo ao gabinete, e as feições
-do pequeno davam ideia clara das do outro, ou eu ia attentando
-mais nellas. De envolta, lembravam-me episodios vagos e remotos,
-palavras, encontros e incidentes, tudo em que a minha cegueira não
-poz malicia, e a que faltou o meu velho ciume. Uma vez em que os fui
-achar sósinhos e calados, um segredo que me fez rir, uma palavra
-della sonhando, todas essas reminiscencias vieram vindo agora, em tal
-atropello que me atordoaram... E porque os não esganei um dia, quando
-desviei os olhos da rua onde estavam duas andorinhas trepadas no fio
-telegraphico? Dentro, as minhas outras andorinhas estavam trepadas no
-ar, os olhos enfiados nos olhos, mas tão cautelosos que se desenfiaram
-logo, dizendo-me uma palavra amiga e alegre. Contei-lhes o namoro
-das andorinhas de fóra, e acharam-lhe graça; Escobar declarou que,
-para elle, seria melhor se as andorinhas, em vez de trepadas no fio
-de arame, estivessem á mesa do jantar cosidas. «Nunca comi os ninhos
-dellas, continuou, mas devem ser bons, se os chins os inventaram.» E
-ficámos a tratar dos chins e dos classicos que falaram delles, emquanto
-Capitú, confessando que a aborreciamos, foi a outros cuidados. Agora
-lembrava-me tudo o que então me pareceu nada.
-
-
-
-
-CXLI
-
-A solução.
-
-Aqui está o que fizemos. Pegámos em nós e fomos para a Europa,
-não passear, nem ver nada, novo nem velho; parámos na Suissa. Uma
-professora do Rio-Grande, que foi comnosco, ficou de companhia a
-Capitú, ensinando a lingua materna a Ezequiel, que apprenderia o resto
-nas escolas do paiz. Assim regulada a vida, tornei ao Brazil.
-
-Ao cabo de alguns mezes, Capitú começára a escrever-me cartas, a que
-respondi com brevidade e sequidão. As della eram submissas, sem odio,
-acaso affectuosas, e para o fim saudosas; pedia-me que a fosse ver.
-Embarquei um anno depois, mas não a procurei, e repeti a viagem com o
-mesmo resultado. Na volta, os que se lembravam della, queriam noticias,
-e eu dava-lh'as, como se acabasse de viver com ella; naturalmente as
-viagens eram feitas com o intuito de simular isto mesmo, e enganar a
-opinião. Um dia, finalmente...
-
-
-
-
-CXLII
-
-Uma santa.
-
-Entenda-se que, se nas viagens que fiz á Europa, José Dias não foi
-commigo, não é que lhe faltasse vontade; ficava de companhia a tio
-Cosme, quasi invalido, e a minha mãe, que envelheceu depressa. Tambem
-elle estava velho, posto que rijo. Ia a bordo despedir-se de mim, e
-as palavras que me dizia, os gestos de lenço, os proprios olhos que
-enxugava eram taes que me commoviam tambem. A ultima vez não foi o
-bordo.
-
---Venha...
-
---Não posso.
-
---Está com medo?
-
---Não; não posso. Agora, adeus, Bentinho, não sei sé me verá mais;
-creio que vou para a outra Europa, a eterna...
-
-Não foi logo; minha mãe embarcou primeiro. Procura no cemiterio de S.
-João Baptista uma sepultura sem nome, com esta unica indicação: _Uma
-santa._ É ahi. Fiz fazer essa inscripção com alguma difficuldade. O
-esculptor achou-a exquisita; o administrador do cemiterio consultou o
-vigario da parochia; este ponderou-me que as santas estão no altar e no
-ceu.
-
---Mas, perdão, atalhei, eu não quero dizer que naquella sepultura está
-uma canonisada. A minha ideia é dar com tal palavra uma definição
-terrena de todas as virtudes que a finada possuiu na vida. Tanto é
-assim que, sendo a modestia uma dellas, desejo conserval-a postuma, não
-lhe escrevendo o nome.
-
---Todavia, o nome, afiliação, as datas...
-
---Quem lhe importará com datas, filiação, nem nomes, depois que eu
-acabar?
-
---Quer dizer que era uma santa senhora, não?
-
---Justamente. O protonotario Cabral, se fosse vivo, confirmaria aqui o
-que lhe digo.
-
---Nem eu contesto a verdade, hesito só na formula. Conheceu então o
-protonotario?
-
---Conheci-o. Era um padre-modelo.
-
---Bom canonista, bom latinista, pio e caridoso, continuou o vigário.
-
---E possuia algumas prendas de sociedade, disse eu; lá em casa sempre
-ouvi que era insigne parceiro ao gamão...
-
---Tinha muito bom dado! suspirou lentamente o vigario. Um dado de
-mestre!
-
---Então, parece-lhe...?
-
---Uma vez que não ha outro sentido, nem poderia havel-o, sim, senhor,
-admitte-se...
-
-José Dias assistiu a estas diligencias, com grande melancolia. No fim,
-quando saimos, disse mal do padre, chamou-lhe meticuloso. Só lhe achava
-desculpa por não ter conhecido minha mãe, nem elle nem os outros homens
-do cemiterio.
-
---Não a conheceram; se a conhecessem, mandariam esculpir _santissima._
-
-
-
-
-CXLIII
-
-O ultimo superlativo.
-
-Não foi o ultimo superlativo de José Dias. Outros teve que não vale
-a pena escrever aqui, até que veiu o ultimo, o melhor delles, o mais
-doce, o que lhe fez da morte um pedaço de vida. Já então morava
-commigo; posto que minha mãe lhe deixasse uma pequena lembrança, veiu
-dizer-me que, com legado ou sem elle, não se separaria de mim. Talvez a
-esperança delle fosse enterrar-me. Correspondia-se com Capitú, a quem
-pedia que lhe mandasse o retrato de Ezequiel; mas Capitú ia adiando a
-remessa de correio a correio, até que elle não pediu mais nada, a não
-ser o coração do joven estudante; pedia-lhe tambem que não deixasse de
-falar a Ezequiel no velho amigo do pae e do avô, «destinado pelo ceu
-a amar o mesmo sangue.» Era assim que elle preparava os cuidados da
-terceira geração; mas a morte veiu antes de Ezequiel. A doença foi
-rapida. Mandei chamar um medico homeopatha.
-
---Não, Bentinho, disse elle; basta um allopatha; em todas as escolas se
-morre. Demais, foram ideias da mocidade, que o tempo levou; converto-me
-á fé de meus paes. A allopathia é o catholicismo da medicina...
-
-Morreu sereno, após uma agonia curta. Pouco antes ouviu que o ceu
-estava lindo, e pediu que abrissemos a janella.
-
---Não, o ar póde fazer-lhe mal.
-
---Que mal? Ar é vida.
-
-Abrimos a janella. Realmente, estava um ceu azul e claro. José Dias
-soergueu-se e olhou para fóra; após alguns instantes, deixou cair a
-cabeça, murmurando: Lindissimo! Foi a ultima palavra que proferiu neste
-mundo. Pobre José Dias! Porque hei de negar que chorei por elle?
-
-
-
-
-CXLIV
-
-Uma pergunta tardia.
-
-Assim chorem por mim todos os olhos de amigos e amigas que deixo neste
-mundo, mas não é provavel. Tenho-me feito esquecer. Móro longe e saio
-pouco. Não é que haja effectivamente ligado as duas pontas da vida.
-Esta casa do Engenho Novo, comquanto reproduza a de Matacavallos,
-apenas me lembra aquella, e mais por effeito de comparação e de
-reflexão que de sentimento. Já disse isto mesmo.
-
-Hão de perguntar-me por que razão, tendo a propria casa velha, na mesma
-rua antiga, não impedi que a demolissem e vim reproduzil-a nesta. A
-pergunta devia ser feita a principio, mas aqui vae a resposta. A razão
-é que, logo que minha mãe morreu, querendo ir para lá, fiz primeiro
-uma longa visita de inspecção por alguns dias, e toda a casa me
-desconheceu. No quintal a aroeira e a pitangueira, o poço, a caçamba
-velha e o lavadouro, nada sabia de mim. A casuarina era a mesma que eu
-deixara ao fundo, mas o tronco, em vez de recto, como outr'ora, tinha
-agora um ar de ponto de interrogação; naturalmente pasmava do intruso.
-Corri os olhos pelo ar, buscando algum pensamento que alli deixasse, e
-não achei nenhum. Ao contrario, a ramagem começou a sussurrar alguma
-cousa que não entendi logo, e parece que era a cantiga das manhãs
-novas. Ao pé dessa musica sonora e jovial, ouvi tambem o grunhir dos
-porcos, especie de troça concentrada e philosophica.
-
-Tudo me era extranho e adverso. Deixei que demolissem a casa, e,
-mais tarde, quando vim para o Engenho Novo, lembrou-me fazer esta
-reproducção por explicações que dei ao architecto segundo contei em
-tempo.
-
-
-
-
-CXLV
-
-O regresso.
-
-Ora, foi já nesta casa que um dia, estando a vestir-me para almoçar,
-recebi um cartão com este nome:
-
- EZEQUIEL A. DE SANTIAGO
-
---A pessoa está ahi? perguntei ao criado.
-
---Sim, senhor; ficou esperando.
-
-Não fui logo, logo; fil-o esperar um dez ou quinze minutos na sala.
-Só depois é que me lembrou que cumpria ter certo alvoroço e correr,
-abraçal-o, falar-lhe na mãe. A mãe,--creio que ainda não disse que
-estava morta e enterrada. Estava; lá repousa na velha Suissa. Acabei de
-vestir-me ás pressas. Quando saí do quarto, tomei ares de pae, um pae
-entre manso e crespo, metade Dom Casmurro. Ao entrar na sala, dei com
-um rapaz, de costas, mirando o busto de Massinissa, pintado na parede.
-Vim cauteloso, e não fiz rumor. Não obstante, ouviu-me os passos, e
-voltou-se depressa. Conheceu-me pelos retratos e correu para mim. Não
-me mexi; era nem mais nem menos o meu antigo e joven companheiro do
-seminario de S. José, um pouco mais baixo, menos cheio de corpo, e,
-salvo as cores, que eram vivas, o mesmo rosto do meu amigo. Trajava á
-moderna, naturalmente, e as maneiras eram differentes, mas o aspecto
-geral reproduzia a pessoa morta. Era o proprio, o exacto, o verdadeiro
-Escobar. Era o meu comborço; era o filho de seu pae. Vestia de luto
-pela mãe; eu tambem estava de preto. Sentámo-nos.
-
---Papae não faz differença dos ultimos retratos, disse-me elle.
-
-A voz era a mesma de Escobar, o sotaque era afrancezado. Expliquei-lhe
-que realmente pouco diferia do que era, e comecei um interrogatorio
-para ter menos que falar e dominar assim a minha emoção. Mas isto mesmo
-dava animação á cara delle, e o meu collega do seminario ia resurgindo
-cada vez mais do cemiterio. Eil-o aqui, deante de mim, com egual riso
-e maior respeito; total, o mesmo obsequio e a mesma graça. Anciava por
-ver-me. A mãe falava muito em mim, louvando-me extraordinariamente,
-como o homem mais puro do mundo, o mais digno de ser querido.
-
---Morreu bonita, concluiu.
-
---Vamos almoçar.
-
-Se pensas que o almoço foi amargo, enganas-te. Teve seus minutos de
-aborrecimento, é verdade; a principio doeu-me que Ezequiel não fosse
-realmente meu filho, que me não completasse e continuasse. Se o rapaz
-tem saido á mae, eu acabava crendo tudo, tanto mais facilmente quanto
-que elle parecia haver-me deixado na vespera, evocava a meninice,
-scenas e palavras, a ida para o collegio...
-
---Papae ainda se lembra quando me levou para o collegio? perguntou
-rindo.
-
---Pois não hei de lembrar-me?
-
---Era na Lapa; eu ia desesperado, e papae não parava, dava-me cada
-puxão, e eu com as perninhas.... Sim, senhor, acceito.
-
-Estendeu o copo ao vinho que eu lhe offerecia, bebeu um gole, e
-continuou a comer. Escobar comia assim tambem, com a cara mettida no
-prato. Contou-me a vida na Europa, os estudos, particularmente os de
-archeologia, que era a sua paixão. Falava da antiguidade com amor,
-contava o Egypto e os seus milhares de seculos, sem se perder nos
-algarismos; tinha a cabeça arithmetica do pae. Eu, posto que a ideia
-da paternidade do outro me estivesse já familiar, não gostava da
-resurreição. Ás vezes, fechava os olhos para não ver gestos nem nada,
-mas o diabrete falava e ria, e o defuncto falava e ria por elle.
-
-Não havendo remedio senão ficar com elle, fiz-me pae deveras. A ideia
-de que pudesse ter visto alguma photographia de Escobar, que Capitú por
-descuido levasse comsigo, não me acudiu, nem, se acudisse, persistiria.
-Ezequiel cria em mim, como na mãe. Se fosse vivo José Dias, acharia
-nelle a minha propria pessoa. Prima Justina quiz vel-o, mas estando
-enferma, pediu-me que o levasse lá. Conhecia aquella parenta. Creio que
-o desejo de ver Ezequiel era para o fim de verificar no moço o debuxo
-que por ventura houvesse achado no menino. Seria um regalo ultimo;
-atalhei-o a tempo.
-
---Está muito mal, disse eu a Ezequiel que queria ir vel-a, qualquer
-emoção póde trazer-lhe a morte. Iremos vel-a, quando ficar melhor.
-
-Não fomos; a morte levou-a dentro de poucos dias. Ella descança no
-Senhor ou como quer que seja. Ezequiel viu-lhe a cara no caixão e não a
-conheceu, nem podia, tão outra a fizeram os annos e a morte. No caminho
-para o cemiterio, iam-lhe lembrando uma porção de cousas, alguma rua,
-alguma torre, um trecho de praia, e era todo alegria. Assim acontecia
-sempre que voltava para casa, ao fim do dia; contava-me as recordações
-que ia recebendo das ruas e das casas. Admirava-se que muitas destas
-fossem as mesmas que elle deixára, como se as casas morressem meninas.
-
-Ao cabo de seis mezes, Ezequiel falou-me em uma viagem á Grecia, ao
-Egypto, e á Palestina, viagem scientifica, promessa feita a alguns
-amigos.
-
---De que sexo? perguntei rindo.
-
-Sorriu vexado, e respondeu-me que as mulheres eram creaturas tão
-da moda e do dia que nunca haviam de entender uma ruina de trinta
-seculos. Eram dous collegas da universidade. Prometti-lhe recursos,
-e dei-lhe logo os primeiros dinheiros precisos. Commigo disse que
-uma das consequencias dos amores furtivos do pae era pagar eu as
-archeologias do filho; antes lhe pagasse a lepra.... Quando esta ideia
-me atravessou o cerebro, senti-me tão cruel e perverso que peguei no
-rapaz, e quiz apertal-o ao coração, mas recuei; encarei-o depois, como
-se faz a um filho de verdade; os olhos que elle me deitou foram ternos
-e agradecidos.
-
-
-
-
-CXLVI
-
-Não houve lepra.
-
-Não houve lepra, mas ha febres por todas essas terras humanas, sejam
-velhas ou novas. Onze mezes depois, Ezequiel morreu de uma febre
-typhoide, e foi enterrado nas immediações de Jerusalem, onde os dous
-amigos da universidade lhe levantaram um tumulo com esta inscripção,
-tirada do propheta Ezequiel, em grego: «Tu eras perfeito nos teus
-caminhos.» Mandaram-me ambos os textos, grego e latino, o desenho da
-sepultura, a conta das despesas e o resto do dinheiro que elle levava;
-pagaria o triplo para não tornar a vel-o.
-
-Como quizesse verificar o texto, consultei a minha Vulgata, e achei que
-era exacto, mas tinha ainda um complemento: «Tu eras perfeito nos teus
-caminhos, _desde o dia da tua creação._» Parei e perguntei calado:
-«Quando seria o dia da creação de Ezequiel?» Ninguem me respondeu. Eis
-ahi mais um mysterio para ajuntar aos tantos deste mundo. Apesar de
-tudo, jantei bem e fui ao theatro.
-
-
-
-
-CXLVII
-
-A exposição retrospectiva.
-
-Já sabes que a minha alma, por mais lacerada que tenha sido, não
-ficou ahi para um canto como uma flor livida e solitaria. Não lhe dei
-essa côr ou descôr. Vivi o melhor que pude, sem me faltarem amigas
-que me consolassem da primeira. Caprichos de pouca dura, é verdade.
-Ellas é que me deixavam como pessoas que assistem a uma exposição
-retrospectiva, e, ou se fartam de vel-a, ou a luz da sala esmorece. Uma
-só dessas visitas tinha carro á porta e cocheiro de libré. As outras
-iam modestamente, _calcante pede_, e, se chovia, eu é que ia buscar um
-carro de praça, e as mettia dentro, com grandes despedidas, e maiores
-recommendações:
-
---Levas o catalogo?
-
---Levo; até amanhã.
-
---Até amanhã.
-
-Não voltavam mais. Eu ficava á porta, esperando, ia até á esquina,
-espiava, consultava o relogio, e não via nada nem ninguem. Então, se
-apparecia outra visita, dava-lhe o braço, entravamos, mostrava-lhe
-as paizagens, os quadros historicos ou de genero, uma aquarella,
-um pastel, uma _gouache_, e tambem esta cançava, e ia embora com o
-catalogo na mão....
-
-
-
-
-CXLVIII
-
-E bem, e o resto?
-
-Agora, porque é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a
-primeira amada do meu coração? Talvez porque nenhuma tinha os olhos
-de ressaca, nem os de cigana obliqua e dissimulada. Mas não é este
-propriamente o resto do livro. O resto é saber se a Capitú da praia
-da Gloria já estava dentro da de Matacavallos, ou se esta foi mudada
-naquella por effeito de algum caso incidente. Jesus, filho de Sirach,
-se soubesse dos meus primeiros ciumes, dir-me-hia, como no seu cap. IX,
-vers. 1: «Não tenhas ciumes de tua mulher para que ella não se metta a
-enganar-te com a malicia que apprender de ti.» Mas eu creio que não,
-e tu concordarás commigo; se te lembras bem da Capitú menina, has de
-reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca.
-
-E bem, qualquer que seja a solução, uma cousa fica, e é a summa das
-summas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e
-o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos tambem, quiz o
-destino que acabassem juntando-se e enganando-me.... A terra lhes seja
-leve! Vamos á _Historia dos suburbios._
-
-
-FIM
-
-
-
-
-INDICE
-
- Capitulo I Do titulo
- II Do livro
- III A denuncia
- IV Um dever amarissimo!
- V O aggregado
- VI Tio Cosme
- VII D. Gloria
- VIII É tempo!
- IX A opera
- X Acceito a theoria
- XI A promessa
- XII Na varanda
- XIII Capitú
- XIV A inscripção
- XV Outra voz repentina
- XVI O administrador interino
- XVII Os vermes
- XVIII Um plano
- XIX Sem falta
- XX Mil padre-nossos e mil ave-marias
- XXI Prima Justina
- XXII Sensações alheias
- XXIII Prazo dado
- XXIV De mãe e de servo
- XXV No Passeio Publico
- XXVI As leis são bellas
- XXVII Ao portão
- XXVIII Na rua
- XXIX O imperador
- XXX O Santissimo
- XXXI As curiosidades de Capitú
- XXXII Olhos de ressaca
- XXXIII O penteado
- XXXIV Sou homem!
- XXXV O protonotario apostolico
- XXXVI Ideia sem pernas e ideia sem braços
- XXXVII A alma é cheia de mysterios
- XXXVIII Que susto, meu Deus!
- XXXIX A vocação
- XL Uma egua
- XLI A audiencia secreta
- XLII Capitú reflectindo
- XLIII Você tem medo?
- XLIV O primeiro filho
- XLV Abane a cabeça, leitor
- XLVI As pazes
- XLVII «A senhora saiu»
- XLVIII Juramento do poço
- XLIX Uma vela aos sabbados
- L Um meio termo
- LI Entre luz e fusco
- LII O velho Padua
- LIII A caminho!
- LIV Panegyrico de Santa Monica
- LV Um soneto
- LVI Um seminarista
- LVII De preparação
- LVI O tratado
- LIX Convivas de boa memoria
- LX Querido opusculo
- LXI A vacca de Homero
- LXII Uma ponta de Iago
- LXII Metades de um sonho
- LXIV Uma ideia e um escrupulo
- LXV A dissimulação
- LXVI Intimidade
- LXVI Um peccado
- LXVII Adiemos a virtude
- LXIX A missa
- LXX Depois da missa
- LXXI Visita de Escobar
- LXXII Uma reforma dramatica
- LXXIH O contra-regra
- LXXIV A presilha
- LXXV O desespero
- LXXVI Explicação
- LXXVII Prazer das dôres velhas
- LXXVIII Segredo por segredo
- LXXIX Vamos ao capitulo
- LXXX Venhamos ao capitulo
- LXXXI Uma palavra
- LXXXII O canapé
- LXXXIII O retrato
- LXXXIV Chamado
- LXXXV O defuncto
- LXXXVI Amai, rapazes
- LXXXVII A sege
- LXXXVIII Um pretexto honesto
- LXXXIX A recusa
- XC A polemica
- XCI Achado que consola
- XCII O diabo não é tão feio como se pinta
- XCIII Um amigo por um defuncto
- XCIV Ideias arithmeticas
- XCV O papa
- XCVI Um substituto
- XCVII A saida
- XCVIII Cinco annos
- XCIX O filho é a cara do pae
- C «Tu serás feliz, Bentinho!»
- CI No ceu
- CII De casada
- CIII A felicidade tem boa alma
- CIV As pyramides
- CV Os braços
- CVI Dez libras esterlinas
- CVII Ciumes do mar
- CVIII Um filho
- CIX Um filho unico
- CX Rasgos da infancia
- CXI Contado depressa
- CXII As imitações de Ezequiel
- CXIII Embargos de terceiro
- CXIV Em que se explica o explicado
- CXV Duvidas sobre duvidas
- CXVI Filho do homem
- CXVII Amigos proximos
- CXVIII A mão de Sancha
- CXIX Não faça isso, querida
- CXX Os autos
- CXXI A catastrophe
- CXXII O enterro
- CXXIII Olhos de ressaca
- CXXIV O discurso
- CXXV Uma comparação
- CXXVI Scismando
- CXXVII O barbeiro
- CXXVIII Punhado de successos
- CXXIX A D. Sancha
- CXXX Um dia
- CXXXI Anterior ao anterior
- CXXXII O debuxo e o colorido
- CXXXIII Uma ideia
- CXXXIV O dia de sabbado
- CXXXV Othello
- CXXXVI A chicara de café
- CXXXVII Segundo impulso
- CXXXVIII Capitú que entra
- CXXXIX A photographia
- CXL Volta da egreja
- CXLI A solução
- CXLII Uma santa
- CXLIII O ultimo superlativo
- CXLIV Uma pergunta tardia
- CXLV O regresso
- CXLVI Não houve lepra
- CXLVII A exposição retrospectiva
- CXLVIII É bem, e o resto?
-
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Dom Casmurro, by Machado de Assis
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DOM CASMURRO ***
-
-***** This file should be named 55752-8.txt or 55752-8.zip *****
-This and all associated files of various formats will be found in:
- http://www.gutenberg.org/5/5/7/5/55752/
-
-Produced by Laura Natal Rodriguez & Marc D'Hooghe at Free
-Literature (online soon in an extended version,also linking
-to free sources for education worldwide ... MOOC's,
-educational materials,...) (Images generously made available
-by the Bibliotheca Nacional Digital Brasil.)
-
-Updated editions will replace the previous one--the old editions will
-be renamed.
-
-Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright
-law means that no one owns a United States copyright in these works,
-so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United
-States without permission and without paying copyright
-royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part
-of this license, apply to copying and distributing Project
-Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm
-concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark,
-and may not be used if you charge for the eBooks, unless you receive
-specific permission. If you do not charge anything for copies of this
-eBook, complying with the rules is very easy. You may use this eBook
-for nearly any purpose such as creation of derivative works, reports,
-performances and research. They may be modified and printed and given
-away--you may do practically ANYTHING in the United States with eBooks
-not protected by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the
-trademark license, especially commercial redistribution.
-
-START: FULL LICENSE
-
-THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
-PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
-
-To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
-distribution of electronic works, by using or distributing this work
-(or any other work associated in any way with the phrase "Project
-Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full
-Project Gutenberg-tm License available with this file or online at
-www.gutenberg.org/license.
-
-Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project
-Gutenberg-tm electronic works
-
-1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
-electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
-and accept all the terms of this license and intellectual property
-(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
-the terms of this agreement, you must cease using and return or
-destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your
-possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a
-Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound
-by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the
-person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph
-1.E.8.
-
-1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
-used on or associated in any way with an electronic work by people who
-agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
-things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
-even without complying with the full terms of this agreement. See
-paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
-Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this
-agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm
-electronic works. See paragraph 1.E below.
-
-1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the
-Foundation" or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection
-of Project Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual
-works in the collection are in the public domain in the United
-States. If an individual work is unprotected by copyright law in the
-United States and you are located in the United States, we do not
-claim a right to prevent you from copying, distributing, performing,
-displaying or creating derivative works based on the work as long as
-all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope
-that you will support the Project Gutenberg-tm mission of promoting
-free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg-tm
-works in compliance with the terms of this agreement for keeping the
-Project Gutenberg-tm name associated with the work. You can easily
-comply with the terms of this agreement by keeping this work in the
-same format with its attached full Project Gutenberg-tm License when
-you share it without charge with others.
-
-1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
-what you can do with this work. Copyright laws in most countries are
-in a constant state of change. If you are outside the United States,
-check the laws of your country in addition to the terms of this
-agreement before downloading, copying, displaying, performing,
-distributing or creating derivative works based on this work or any
-other Project Gutenberg-tm work. The Foundation makes no
-representations concerning the copyright status of any work in any
-country outside the United States.
-
-1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
-
-1.E.1. The following sentence, with active links to, or other
-immediate access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear
-prominently whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work
-on which the phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the
-phrase "Project Gutenberg" is associated) is accessed, displayed,
-performed, viewed, copied or distributed:
-
- This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
- most other parts of the world at no cost and with almost no
- restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it
- under the terms of the Project Gutenberg License included with this
- eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the
- United States, you'll have to check the laws of the country where you
- are located before using this ebook.
-
-1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is
-derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not
-contain a notice indicating that it is posted with permission of the
-copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in
-the United States without paying any fees or charges. If you are
-redistributing or providing access to a work with the phrase "Project
-Gutenberg" associated with or appearing on the work, you must comply
-either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or
-obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg-tm
-trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9.
-
-1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
-with the permission of the copyright holder, your use and distribution
-must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any
-additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms
-will be linked to the Project Gutenberg-tm License for all works
-posted with the permission of the copyright holder found at the
-beginning of this work.
-
-1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
-License terms from this work, or any files containing a part of this
-work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
-
-1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
-electronic work, or any part of this electronic work, without
-prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
-active links or immediate access to the full terms of the Project
-Gutenberg-tm License.
-
-1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
-compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including
-any word processing or hypertext form. However, if you provide access
-to or distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format
-other than "Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official
-version posted on the official Project Gutenberg-tm web site
-(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense
-to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means
-of obtaining a copy upon request, of the work in its original "Plain
-Vanilla ASCII" or other form. Any alternate format must include the
-full Project Gutenberg-tm License as specified in paragraph 1.E.1.
-
-1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
-performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
-unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
-
-1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
-access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works
-provided that
-
-* You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
- the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
- you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed
- to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he has
- agreed to donate royalties under this paragraph to the Project
- Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid
- within 60 days following each date on which you prepare (or are
- legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty
- payments should be clearly marked as such and sent to the Project
- Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in
- Section 4, "Information about donations to the Project Gutenberg
- Literary Archive Foundation."
-
-* You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
- you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
- does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
- License. You must require such a user to return or destroy all
- copies of the works possessed in a physical medium and discontinue
- all use of and all access to other copies of Project Gutenberg-tm
- works.
-
-* You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of
- any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
- electronic work is discovered and reported to you within 90 days of
- receipt of the work.
-
-* You comply with all other terms of this agreement for free
- distribution of Project Gutenberg-tm works.
-
-1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project
-Gutenberg-tm electronic work or group of works on different terms than
-are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing
-from both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and The
-Project Gutenberg Trademark LLC, the owner of the Project Gutenberg-tm
-trademark. Contact the Foundation as set forth in Section 3 below.
-
-1.F.
-
-1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
-effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
-works not protected by U.S. copyright law in creating the Project
-Gutenberg-tm collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm
-electronic works, and the medium on which they may be stored, may
-contain "Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate
-or corrupt data, transcription errors, a copyright or other
-intellectual property infringement, a defective or damaged disk or
-other medium, a computer virus, or computer codes that damage or
-cannot be read by your equipment.
-
-1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
-of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
-Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
-Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
-liability to you for damages, costs and expenses, including legal
-fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
-LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
-PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
-TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
-LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
-INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
-DAMAGE.
-
-1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
-defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
-receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
-written explanation to the person you received the work from. If you
-received the work on a physical medium, you must return the medium
-with your written explanation. The person or entity that provided you
-with the defective work may elect to provide a replacement copy in
-lieu of a refund. If you received the work electronically, the person
-or entity providing it to you may choose to give you a second
-opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If
-the second copy is also defective, you may demand a refund in writing
-without further opportunities to fix the problem.
-
-1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
-in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO
-OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT
-LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
-
-1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
-warranties or the exclusion or limitation of certain types of
-damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement
-violates the law of the state applicable to this agreement, the
-agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or
-limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or
-unenforceability of any provision of this agreement shall not void the
-remaining provisions.
-
-1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
-trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
-providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in
-accordance with this agreement, and any volunteers associated with the
-production, promotion and distribution of Project Gutenberg-tm
-electronic works, harmless from all liability, costs and expenses,
-including legal fees, that arise directly or indirectly from any of
-the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this
-or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or
-additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any
-Defect you cause.
-
-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
-
-Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
-electronic works in formats readable by the widest variety of
-computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
-exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
-from people in all walks of life.
-
-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
-assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
-goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
-remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
-and permanent future for Project Gutenberg-tm and future
-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at
-www.gutenberg.org
-
-
-
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
-U.S. federal laws and your state's laws.
-
-The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the
-mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its
-volunteers and employees are scattered throughout numerous
-locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt
-Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to
-date contact information can be found at the Foundation's web site and
-official page at www.gutenberg.org/contact
-
-For additional contact information:
-
- Dr. Gregory B. Newby
- Chief Executive and Director
- gbnewby@pglaf.org
-
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
-Literary Archive Foundation
-
-Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
-spread public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
-charities and charitable donations in all 50 states of the United
-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
-considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
-with these requirements. We do not solicit donations in locations
-where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
-DONATIONS or determine the status of compliance for any particular
-state visit www.gutenberg.org/donate
-
-While we cannot and do not solicit contributions from states where we
-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
-against accepting unsolicited donations from donors in such states who
-approach us with offers to donate.
-
-International donations are gratefully accepted, but we cannot make
-any statements concerning tax treatment of donations received from
-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
-
-Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations. To
-donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
-
-Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works.
-
-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of
-volunteer support.
-
-Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
-the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
-necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
-edition.
-
-Most people start at our Web site which has the main PG search
-facility: www.gutenberg.org
-
-This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
-including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
-subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
-