diff options
| -rw-r--r-- | .gitattributes | 4 | ||||
| -rw-r--r-- | LICENSE.txt | 11 | ||||
| -rw-r--r-- | README.md | 2 | ||||
| -rw-r--r-- | old/54829-8.txt | 8845 | ||||
| -rw-r--r-- | old/54829-8.zip | bin | 158965 -> 0 bytes | |||
| -rw-r--r-- | old/54829-h.zip | bin | 210718 -> 0 bytes | |||
| -rw-r--r-- | old/54829-h/54829-h.htm | 9057 | ||||
| -rw-r--r-- | old/54829-h/images/cover.jpg | bin | 50235 -> 0 bytes |
8 files changed, 17 insertions, 17902 deletions
diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..d7b82bc --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,4 @@ +*.txt text eol=lf +*.htm text eol=lf +*.html text eol=lf +*.md text eol=lf diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize +this eBook outside of the United States should confirm copyright +status under the laws that apply to them. diff --git a/README.md b/README.md new file mode 100644 index 0000000..2e7b617 --- /dev/null +++ b/README.md @@ -0,0 +1,2 @@ +Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for +eBook #54829 (https://www.gutenberg.org/ebooks/54829) diff --git a/old/54829-8.txt b/old/54829-8.txt deleted file mode 100644 index 5dc2367..0000000 --- a/old/54829-8.txt +++ /dev/null @@ -1,8845 +0,0 @@ -Project Gutenberg's Memorias Postumas de Braz Cubas, by Machado de Assis - -This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most -other parts of the world at no cost and with almost no restrictions -whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of -the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: Memorias Postumas de Braz Cubas - -Author: Machado de Assis - -Release Date: June 2, 2017 [EBook #54829] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: ISO-8859-1 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIAS POSTUMAS DE BRAZ CUBAS *** - - - - -Produced by Laura Natal Rodriguez & Marc D'Hooghe at Free -Literature (online soon in an extended version, also linking -to free sources for education worldwide ... MOOC's, -educational materials,...) - - - - - -MEMÓRIAS PÓSTHUMAS - -DE - -BRAZ CUBAS - -POR - -MACHADO DE ASSIS - -RIO DE JANEIRO - -TYPOGRAPHIA NACIONAL - -1881 - - - - -OBRAS DO AUTOR - - Memórias Pósthumas de Braz Cubas - Helena, romance - Yayá Garcia, romance - Resurreição, romance - A mão e a luva, romance - Historias da meia noite - Contos Fluminenses - Americanas, poesias - Phalenas, poesias - Chrysalidas, poesias - Tu só, tu, puro amor, comédia - Os deuses de casaca, comédia - Desencantos, comédia - Theatro - - - - -AO LEITOR - - -Que, no alto do principal de seus livros, confessasse Stendhal havel-o -escripto para cem leitores, cousa é que admira e consterna. O que não -admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver -os cem leitores de Stendhal, nem cincoenta, nem vinte, e quando muito, -dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra diffusa, -na qual eu, Braz Cubas, se adoptei a fórma livre de um Sterne, de -um Lamb, ou de um de Maistre, não sei se lhe metti algumas rabugens -de pessimismo. Póde ser. Obra de finado. Escrevi-a com a penna da -galhofa e a tinta da melancholia; e não é difficil antever o que poderá -sair desse connubio. Accresce que a gente grave achará no livro umas -apparencias de puro romance, ao passo que a gente frivola não achará -nelle o seu romance usual; e eil-o ahi fica privado da estima dos -graves e do amor dos frivolos, que são as duas columnas maximas da -opinião. - -Mas eu ainda espero angariar as sympatias da opinião, e o meio efficaz -para isso é fugir a um prologo explicito e longo. O melhor prologo -é o que contém menos cousas, ou o que as diz de um geito obscuro e -truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinario que -empreguei na composição destas _Memórias_, trabalhadas cá no outro -seculo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessario ao -entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino -leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, -e adeus. - -BRAZ CUBAS. - - - - AO VERME - - QUE - - PRIMEIRO ROEU AS FRIAS CARNES - - DO MEU CADAVER - - DEDICO - - COMO SAUDOSA LEMBRANÇA - - ESTAS - - MEMÓRIAS PÓSTHUMAS - - - - -CAPITULO I - - -Obito do autor - - -Algum tempo hesitei se devia abrir estas memorias pelo principio ou -pelo fim, isto é, se poria em primeiro logar o meu nascimento ou a -minha morte. Supposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas -considerações me levaram a adoptar differente methodo: a primeira é que -eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para -quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escripto ficaria assim -mais galante e mais novo. Moysés, que tambem contou a sua morte, não a -poz no introito, mas no cabo: differença radical entre este livro e o -Pentateuco. - -Dito isto, expirei ás duas horas da tarde de uma sexta feira do mez de -agosto de 1869, na minha bella chacara de Catumby. Tinha uns sessenta -e quatro annos, rijos e prosperos, era solteiro, possuia cerca de -tresentos contos e fui acompanhado ao cemiterio por onze amigos. -Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem annuncios. Accresce -que chovia--peneirava--uma chuvinha miuda, triste e constante, tão -constante e tão triste, que levou um daquelles fieis da ultima hora -a intercalar esta engenhosa idéa no discurso que proferiu á beira de -minha cova:--«Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer -commigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparavel de -um dos mais bellos caracteres que tem honrado a humanidade. Este ar -sombrio, estas gotas do ceu, aquellas nuvens escuras que cobrem o -azul como um crepe funereo, tudo isso é a dor crua e má que lhe róe á -natureza as mais intimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao -nosso illustre finado.» - -Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apolices que lhe -deixei. E foi assim que cheguei á clausula dos meus dias; foi assim que -me encaminhei para o _undiscovered country_ de Hamlet, sem as ancias -nem as duvidas do moço principe, mas pausado e tropego, como quem se -retira tarde do expectaculo. Tarde e aborrecido. Viram-me ir umas nove -ou dez pessoas, entre ellas tres senhoras,--minha irmã Sabina, casada -com o Cotrim,--a filha, um lyrio do valle,--e... Tenham paciência! -daqui a pouco lhes direi quem era a terceira senhora. Contentem-se de -saber que essa anonyma, ainda que não parenta, padeceu mais do que as -parentas. É verdade, padeceu mais. Não digo que se carpisse, não digo -que se deixasse rolar pelo chão, epileptica. Nem o meu óbito era cousa -altamente dramatica... Um solteirão que expira aos sessenta e quatro -annos, não parece que reuna em si todos os elementos de uma tragedia. E -dado que sim, o que menos convinha a essa anonyma era apparental-o. De -pé, á cabeceira da cama, com os olhos estúpidos, a boca entreaberta, a -triste senhora mal podia crêr na minha extincção. - ---Morto! morto! dizia comsigo. - -E a imaginação della, como as cegonhas que um illustre viajante viu -desferirem o vôo desde o Illysso ás ribas africanas, sem embargo das -ruinas e dos tempos,--a imaginação dessa senhora tambem voou por -sobre os destroços presentes até ás ribas de uma Africa juvenil... -Deixal-a ir; lá iremos mais tarde; lá iremos quando eu me restituir aos -primeiros annos. Agora, quero morrer tranquillamente, methodicamente, -ouvindo os soluços das damas, as fallas baixas dos homens, a chuva que -tamborila nas folhas de tinhorão da chacara, e o som estridulo de uma -navalha que um amolador está afiando lá fóra, á porta de um correeiro. -Juro-lhes que essa orchestra da morte foi muito menos triste do que -podia parecer; e de certo ponto em deante chegou a ser deliciosa. -A vida estrebuchava-me no peito, com uns impetos de vaga marinha, -esvaia-se-me a consciencia, eu descia á immobilidade physica e moral, -e o corpo fazia-se-me planta, e pedra, e lodo, e cousa nenhuma. - -Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do -que uma idéa grandiosa e util, a causa da minha morte, é possivel que o -leitor me não creia, e todavia é verdade. Vou expor-lhe summariamente o -caso. Julgue-o por si mesmo. - - - - -CAPITULO II - - -O emplasto - - -Com effeito, um dia de manhã, estando a passear na chacara, -pendurou-se-me uma idéa no trapezio que eu tinha no cerebro. Uma vez -pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas -cabriolas de volantim, que é possivel crer. Eu deixei-me estar a -contemplal-a. Subito, deu um grande salto, estendeu os braços e as -pernas, até tomar a fórma de um X: decifra-me ou devoro-te. - -Essa idéa era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um -emplasto anti-hypocondriaco, destinado a alliviar a nossa melancholica -humanidade. Na petição de privilegio que então redigi, chamei a -attenção do governo para esse resultado, verdadeiramente christão. -Todavia, não neguei aos amigos as vantagens pecuniarias que deviam -resultar da distribuição de um producto de tamanhos e tão profundos -effeitos, Agora, porém, que estou cá do outro lado da vida, posso -confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de ver -impressas nos jornaes, mostradores, folhetos, esquinas, e emfim nas -caixinhas do remedio, estas tres palavras: _emplasto Braz Cubas._ Para -que negal-o? Eu tinha a paixão do arruido, do cartaz, do foguete de -lagrimas. Talvez os modestos me arguam esse defeito; fio porém que esse -talento me hão de reconhecer os habeis; e eu era habil. Assim, a minha -idéa trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o publico, -outra para mim. De um lado, philanthropia e lucro; de outro lado, sêde -de nomeada. Digamos:--amor da gloria. - -Um tio meu, conego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da -gloria temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a gloria -eterna. Ao que retorquia outro tio, official de um dos antigos terços -de infantaria, que o amor da gloria era a cousa mais verdadeiramente -humana que ha no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuina feição. - -Decida o leitor entre o militar e o conego; eu volto ao emplasto. - - - - -CAPITULO III - - -Genealogia - - -Mas, já que fallei nos meus dous tios, deixem-me fazer aqui um curto -esboço genealogico. - -O fundador da minha familia foi um certo Damião Cubas, que floreceu -na primeira metade do seculo XVIII. Era tanoeiro de officio, natural -do Rio de Janeiro, onde teria morrido na penuria e na obscuridade, -se sómente exercesse a tanoaria. Mas não; fez-se lavrador, plantou, -colheu, permutou o seu producto por boas e honradas patacas, até que -morreu, deixando grosso cabedal a um filho, o licenciado Luiz Cubas. -Neste rapaz é que verdadeiramente começa a serie de meus avós--dos -avós que a minha familia sempre confessou--, porque o Damião Cubas era -afinal de contas um tanoeiro, e talvez mau tanoeiro, ao passo que o -Luiz Cubas estudou em Coimbra, primou no Estado, e foi um dos amigos -particulares do vice-rei conde da Cunha. - -Como este appellido de Cubas lhe cheirasse excessivamente a tanoaria, -allegava meu pae, bisneto do Damião, que o dito appellido fôra dado a -um cavalleiro, heroe nas jornadas da Africa, em premio da façanha que -praticou, arrebatando tresentas cubas aos mouros. Meu pae era homem de -imaginação; escapou á tanoaria nas azas de um _calembour._ Era um bom -caracter meu pae, varão digno e leal como poucos. Tinha, é verdade, uns -fumos de pacholice; mas quem não é um pouco pachola nesse mundo? Releva -notar que elle não recorreu á inventiva, senão depois de experimentar -a falsificação; primeiramente, entroncou-se na familia daquelle meu -famoso homonymo, o capitão-mór Braz Cubas, que fundou a villa de S. -Vicente, onde morreu em 1592, e por esse motivo é que me deu o nome de -Braz. Oppoz-se-lhe porém a familia do capitão-mór; e foi então que elle -imaginou as tresentas cubas mouriscas. - -Vivem ainda alguns membros de minha familia, minha sobrinha Venancia, -por exemplo, o lyrio do valle, que é a flor das damas do seu tempo; -vive o pae, o Cotrim, um sujeito que... Mas não anticipemos os -successos; acabemos de uma vez com o nosso emplasto. - - - - -CAPITULO IV - - -A idéa fixa - - -A minha idéa, depois de tantas cabriolas, constituira-se idéa fixa. -Deus te livre, leitor, de uma idéa fixa; antes um argueiro, antes uma -trave no olho. Vê o Cavour; foi a idéa fixa da unidade italiana que o -matou. Verdade é que o Bismark não morreu; mas, cumpre advertir que -a natureza é uma grande caprichosa e a historia uma eterna loureira. -Por exemplo, o Suetonio deu-nos um Claudio, que era um verdadeiro -banana,--ou «uma abobora» como lhe chamou Seneca, e um Tito, que -mereceu ser as delicias de Roma. Veiu modernamente um professor e achou -meio de demonstrar que ambos esses conceitos eram erroneos e abstrusos, -e que dos dous cesares, o delicioso, o verdadeiramente delicioso, foi -o «abobora» de Seneca. E tu, madama Lucrecia, flor dos Borgias, se um -poeta te pintou como a Messalina catholica, appareceu um Gregorovius -incredulo que te apagou muito essa qualidade, e, se não vieste a -lyrio, tambem não ficaste pantano. Eu deixo-me estar entre o poeta e o -sabio. - -Viva pois a historia, a voluvel historia que dá para tudo; e, tornando -á idéa fixa, direi que é ella a que faz os varões fortes e os doudos; -a idéa mobil, vaga ou furta-cor é a que faz os Claudios,--formula -Suetonio. - -Era fixa a minha idéa, fixa como... Não me occorre nada que seja assaz -fixo nesse mundo: talvez a lua, talvez as pyramides do Egypto, talvez -a finada dieta germanica. Veja o leitor a comparação que melhor lhe -quadrar, veja-a e não esteja dahi a torcer-me o nariz, só porque ainda -não chegámos á parte narrativa destas memorias. Lá iremos. Creio que -prefere a anecdota á reflexão, como os outros leitores, seus confrades, -e acho que faz muito bem. Pois lá iremos. Todavia, importa dizer que -este livro é escripto com pachorra, com a pachorra de um homem já -desaffrontado da brevidade do seculo, obra supinamente philosophica, de -uma philosophia desegual, agora austera, logo brincalhona, cousa que -não edifica nem destróe, não inflamma nem regéla, e é todavia mais do -que passatempo e menos do que apostolado. - -Vamos lá; rectifique o seu nariz, e tornemos ao emplasto. Deixemos a -historia com os seus caprichos de dama elegante. Nenhum de nós pelejou -a batalha de Salamina, nenhum escreveu a confissão do Augsburgo; pela -minha parte, se alguma vez me lembro de Cromwell, é só pela idéa de que -Sua Alteza, com a mesma mão que trancara o parlamento, teria imposto -aos inglezes o emplasto Braz Cubas. Não se riam dessa victoria commum -da pharmacia e do puritanismo. Quem não sabe que ao pé de cada bandeira -grande, publica, ostensiva, ha muitas vezes varias outras bandeiras -modestamente particulares, que se hasteam e fluctuam á sombra daquella, -com ella cahem, e não poucas vezes lhe sobrelevam? Mal comparando, é -como a arraia-miuda, que se acolhia á sombra do castello-feudal; cahiu -este e a arraia ficou. Verdade é que se fez graúda e castellã... Não, a -comparação não presta. - - - - -CAPITULO V - - -Em que apparece a orelha de uma senhora - - -Vae se não quando, estando eu occupado em preparar e apurar a minha -invenção, recebi em cheio um golpe de ar; adoeci logo, e não me -tratei. Tinha o emplasto no cerebro; trazia commigo a idéa fixa dos -doudos e dos fortes. Via-me, ao longe, ascender do chão das turbas, e -remontar ao ceu, como uma aguia immortal; e não é deante de tão excelso -expectaculo que um homem pode sentir a dor que o punge. No outro dia -estava peor; tratei-me emfim, mas incompletamente, sem methodo, nem -cuidado, nem persistencia; tal foi a origem do mal que me trouxe á -eternidade. Sabem ja que morri n'uma sexta feira, dia aziago, e creio -haver provado que foi a minha invenção que me matou. Ha demonstrações -menos lúcidas e não menos triumphantes. - -Não era impossivel, entretanto, que eu chegasse a galgar o cimo de um -seculo, e a figurar nas folhas publicas, entre macrobios. Tinha saude -e robustez. Supponha-se que, em vez de estar lançando os alicerces de -uma invenção pharmaceutica, tratava de colligir os elementos de uma -instituição politica, ou de uma reforma religiosa. Vinha a corrente -do ar, que vence, em efficacia, o calculo humano, e lá se ia tudo. Um -sopro de ar foi portanto o meu grão de arêa de Cromwell. Assim corre a -sorte dos homens. - -Com esta reflexão me despedi eu da mulher, não direi mais discreta, mas -com certeza mais formosa entre as contemporaneas suas, a anonyma do -primeiro capitulo, a tal, cuja imaginação á semelhança das cegonhas do -Illysso... Tinha então 54 annos, era uma ruina, uma imponente ruina. -Imagine o leitor que nos amámos, ella e eu, muitos annos antes, e que -um dia, já enfermo, vejo-a assomar á porta da alcova... - - - - -CAPITULO VI - - -Chimène, qui l'eut dit?--Rodrigue, qui l'eut cru? - - -Vejo-a assomar á porta da alcova, pallida, commovida, trajada de preto, -e alli ficar durante uns dez segundos, sem animo de entrar, ou detida -pela presença de um homem que estava commigo. Da cama, onde jazia, -contemplei-a durante esse tempo, esquecido de lhe dizer nada ou de -fazer nenhum gesto. Havia já dous annos que nos não viamos; e eu via-a -agora não qual era, mas qual fora**, quaes foramos ambos, porque um -Ezechias mysterioso fizera recuar o sol até os dias juvenis. Recuou -o sol, sacudi todas as miserias; e este punhado de pó, que a morte -ia espalhar na eternidade do nada, pôde mais do que tempo, que é o -ministro da morte. Nenhuma agua de Juventa egualaria alli a simples -saudade. - -Cream-me, o menos mau é recordar; ninguem se fie da felicidade -presente; ha nella uma gota da baba de Caim. Corrido o tempo e cessado -o espasmo, então sim, então talvez se póde gozar deveras, porque entre -uma e outra dessas duas illusões, melhor é a que se gosta, sem doer. - -Não durou muito a evocação; a realidade dominou logo; o presente -expelliu o passado. Talvez eu exponha ao leitor, em algum canto deste -livro, a minha theoria das edições humanas. O que por agora importa -saber é que Virgilia--chamava-se Virgilia--entrou na alcova, firme, -com a gravidade que lhe davam as roupas e os annos, e veiu até o meu -leito. O extranho levantou-se e sahiu. Era um sujeito, que me visitava -todos os dias para fallar do cambio, da colonisação e da necessidade de -desenvolver a viação ferrea; nada mais interessante para um moribundo. -Saiu; Virgilia deixou-se estar de pé; durante algum tempo ficamos a -olhar um para o outro, sem articular palavra. Quem diria? De dous -grandes namorados, de duas paixões sem freio, nada mais havia alli, -vinte annos depois; havia apenas dous corações murchos, devastados pela -vida e saciados della, não sei se em egual dóse, mas emfim saciados. -Virgilia tinha agora a belleza da velhice, um ar austero e maternal; -estava menos magra do que quando a vi, pela ultima vez, n'uma festa -de S. João, na Tijuca; e porque era das que resistem muito, só agora -começavam os cabellos escuros a intercalar-se de alguns fios de prata. - ---Anda visitando os defuntos? disse-lhe eu.--Ora, defuntos! respondeu -Virgilia com um muxoxo. E depois de me apertar as mãos:--Ando a ver se -ponho os vadios para a rua. - -Não tinha a caricia lacrymosa de outro tempo; mas a voz era amiga e -doce. Sentou-se. Eu estava só, em casa, com um simples enfermeiro; -podiamos fallar um ao outro, sem perigo. Virgilia deu-me longas -noticias de fóra, narrando-as com graça, com um certo travo de má -lingua, que era o sal da palestra; eu, prestes a deixar o mundo, sentia -um prazer satanico em mofar delle, em persuadir-me que não deixava nada. - ---Que idéas essas! interrompeu-me Virgilia um tanto zangada. Olhe que -eu não volto mais. Morrer! Todos nós havemos de morrer; basta estarmos -vivos. - -E vendo o relogio: - ---Jesus! são tres horas. Vou-me embora. - ---Já? - ---Já; virei amanhã ou depois. - ---Não sei se faz bem, retorqui; o doente é um solteirão e a casa não -tem senhoras... - ---Sua mana? - ---Ha de vir cá passar uns dias, mas não póde ser antes de sabbado. - -Virgilia reflectiu um instante, levantou os hombros e disse com -gravidade: - ---Estou velha! Ninguem mais repara em mim. Mas, para cortar duvidas, -virei com o Nhonhô. - -Nhonhô era um bacharel, unico filho de seu casamento, que, na edade -de cinco annos, fôra complice inconsciente de nossos amores. Vieram -juntos, dous dias depois; e confesso que, ao vel-os alli, na minha -alcova, fui tomado de um acanhamento que nem me permittiu corresponder -logo ás palavras affaveis do rapaz. Virgilia adivinhou-mo e disse ao -filho: - ---Nhonhô, não repares nosso grande manhoso que ahi está; não quer -fallar para fazer crer que está á morte. - -Sorriu o filho; eu creio quo tambem sorri; e tudo acabou em pura -galhofa. Virgilia estava serena e risonha, tinha o aspecto das -vidas immaculadas. Nenhum olhar suspeito, nenhum gesto que pudesse -denunciar nada; uma egualdade de palavra e de espirito, uma dominação -sobre si mesma, que pareciam e talvez fossem raras. Como tocassemos, -casualmente, n'uns amores illegitimos, meio secretos, meio divulgados, -vi-a fallar com desdem e um pouco de indignação da mulher de que se -tratava, aliás sua amiga; e o filho sentia-se satisfeito, ouvindo -aquella palavra digna e forte, e eu perguntava a mim mesmo o que diriam -de nós os gaviões, se Buffon tivesse nascido gavião... - -Era o meu delirio que começava. - - - - -CAPITULO VII - - -O delirio - - -Que me conste, ainda ninguem relatou o seu proprio delirio; faço-o eu, -e a sciencia m'o agradecerá. Se o leitor não é dado á contemplação -destes phenomenos mentaes, póde saltar o capitulo; vá direito á -narração. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo que é -interessante saber o que se passou na minha cabeça durante uns vinte a -trinta minutos. - -Primeiramente, tomei a figura de um barbeiro chinez, bojudo, destro, -escanhoando um mandarim, que me pagava o trabalho com beliscões e -confeitos: caprichos de mandarim. - -Logo depois, senti-me transformado na _Summa Theologica_ de S. Thomaz, -impressa n'um volume, e encadernada em marroquim, com fechos de prata e -estampas; idéa esta que me deu ao corpo a mais completa immobilidade; -e ainda agora me lembra que, sendo as minhas mãos os fechos do livro, -e cruzando-as eu sobre o ventre, alguem as descruzava (Virgilia de -certo), porque a attitude lhe dava a imagem de um defunto. - -Ultimamente, restituido á fórma humana, vi chegar um hippopotamo, que -me arrebatou. Deixei-me ir, calado, não sei se por medo ou confiança, -mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou vertiginosa, que -me atrevi a interrogal-o, e com alguma arte lhe disse que a viagem me -parecia sem destino. - ---Engana-se, replicou o animal, nós vamos á origem dos seculos. - -Insinuei que deveria ser muitissimo longe; mas o hippopotamo não me -entendeu ou não me ouviu, se é que não fingiu uma dessas cousas; e, -perguntando-lhe, visto que elle fallava, se era descendente do cavallo -de Achilles ou da asna de Balaão, retorquiu-me com um gesto peculiar a -estes dous quadrupedes: abanou as orelhas. Pela minha parte fechei os -olhos e deixei-me ir á ventura. Já agora não se me dá de confessar que -sentia umas taes ou quaes cocegas de curiosidade, por saber onde ficava -a origem dos seculos, se era tão mysteriosa como a origem do Nilo, e -sobretudo se valia alguma cousa mais ou menos do que a consummação dos -mesmos seculos; tudo isto reflexões de um cerebro enfermo. Como ia de -olhos fechados, não via o caminho; lembra-me só que a sensação de frio -augmentava com a jornada, e que chegou uma occasião em que me pareceu -entrar na região dos gelos eternos. Com effeito, abri os olhos e vi que -o meu animal galopava n'uma planicie branca de neve, com uma ou outra -montanha de neve, vegetação de neve, e varios animaes grandes e de -neve. Tudo neve; chegava a gelar-nos um sol de neve. Tentei fallar, mas -apenas pude grunhir esta pergunta anciosa: - ---Onde estamos? - ---Já passámos o Eden. - ---Bem; paremos na tenda de Abrahão. - ---Mas se nós caminhamos para traz! redarguiu motejando a minha -cavalgadura. - -Fiquei vexado e aturdido. A jornada entrou a parecer-me enfadonha e -extravagante, o frio incommodo, a conducção violenta, e o resultado -impalpavel. E depois--cogitações de enfermo--dado que chegassemos ao -fim indicado, não era impossivel que os seculos, irritados com lhes -devassarem a origem, me esmagassem entre as unhas, que deviam ser tão -seculares como elles. Em quanto assim pensava, iamos devorando caminho, -e a planicie voava debaixo dos nossos pés, até que o animal estacou, e -pude olhar mais tranquillamente em torno de mim. Olhar sómente; nada -vi, além da immensa brancura da neve, que desta vez invadira o proprio -ceu*, até alli azul. Talvez, a espaços, me apparecia uma ou outra -planta, enorme, brutesca, meneando ao vento as suas largas folhas. O -silencio daquella região era egual ao do sepulchro: dissera-se que a -vida das cousas ficára estupida deante do homem. - -Cahiu do ar? destacou-se da terra? não sei; sei que um vulto immenso, -uma figura de mulher me appareceu então, fitando-me uns olhos -rutilantes como o sol. Tudo nessa figura tinha a vastidão das fórmas -selvaticas, e tudo escapava á comprehensão do olhar humano, porque os -contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia espesso era muita voz -diaphano. Estupefacto, não disse nada, não cheguei sequer a soltar um -grito; mas, ao cabo de algum tempo, que foi breve, perguntei quem era e -como se chamava; curiosidade de delirio. - ---Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga. - -Ao ouvir esta ultima palavra, recuei um pouco, tomado de susto. A -figura soltou uma gargalhada, que produziu em torno de nós o effeito de -um tufão; as plantas torceram-se e um longo gemido quebrou a mudez das -cousas externas. - ---Não te assustes, disse ella, minha inimizade não mata; é sobretudo -pela vida que se affirma. Vives: não quero outro flagello. - ---Vivo? perguntei eu, enterrando as unhas nas mãos, como para -certificar-me da existencia. - ---Sim, verme, tu vives. Não receies perder esse andrajo que é teu -orgulho; provarás ainda, por algumas horas, o pão da dôr e o vinho -da miseria. Vives: agora mesmo que ensandeceste, vives; e se a tua -consciência rehouver um instante de sagacidade, tu dirás que queres -viver. - -Dizendo isto, a visão estendeu o braço, segurou-me pelos cabellos e -levantou-me ao ar, como se fôra uma simples pluma. Só então pude -ver-lhe de perto o rosto, que era enorme. Nada mais quieto; nenhuma -contorsão violenta, nenhuma expressão de odio ou ferocidade; a feição -unica, geral, completa, era a da impassibilidade egoista, a da eterna -surdez, a da vontade immovel. Raivas, se as tinha, ficavam encerradas -no coração. Ao mesmo tempo, nesse rosto de expressão glacial, havia um -ar de juventude, mescla de força e viço, diante do qual me sentia eu o -mais debil e descrepito dos seres. - ---Entendeste-me? disse ella, no fim de algum tempo de mutua -contemplação. - ---Não, respondi; nem quero entender-te; tu és absurda, tu és uma -fabula. Estou sonhando, de certo, ou, se é verdade que enlouqueci, tu -não passas de uma concepção de alienado, isto é, uma cousa vã, que a -razão ausente não póde reger nem palpar. Natureza, tu? a Natureza que -eu conheço é só mãe e não inimiga; não faz da vida um flagello, nem, -como tu, traz esse rosto indifferente, como o sepulchro. E porque -Pandora? - ---Porque levo na minha bolsa os bens e os males, e o maior de todos, a -esperança, consolação dos homens. Tremes? - ---Sim; o teu olhar fascina-me. - ---Creio; eu não sou somente a vida; sou tambem a morte, e tu estás -prestes a devolver-me o que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a -voluptuosidade do nada. - -Quando esta palavra echoou, como um trovão, naquelle immenso valle, -afigurou-se-me que era o ultimo som que chegava a meus ouvidos; -pareceu-me sentir a decomposição subita de mim mesmo. Então, encarei-a -com olhos supplices, e pedi mais alguns annos. - ---Pobre minuto! exclamou. Para que queres tu mais alguns instantes -de vida? Para devorar e seres devorado depois? Não estás farto do -expectaculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei -menos torpe ou menos afflictivo: o alvor do dia, a melancholia da -tarde, a quietação da noite, os aspectos da terra, o somno, emfim, o -maior beneficio das minhas mãos. Que mais queres tu, sublime idiota? - ---Viver somente, não te peço mais nada. Quem me poz no coração este -amor da vida, se não tu? e, se eu amo a vida, porque te has de golpear -a ti mesma, matando-me? - ---Porque já não preciso de ti. Não importa ao tempo o minuto que passa, -mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte, jocundo, suppõe trazer -em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o outro, mas o -tempo subsiste. Egoismo, dizes tu? Sim, egoismo, não tenho outra lei. -Egoismo, conservação. A onça mata o novilho porque o raciocinio da -onça é que ella deve viver, e se o novilho é tenro tanto melhor: eis o -estatuto universal. Sobe e olha. - -Isto dizendo, arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os olhos -a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, -atravez de um nevoeiro, uma cousa unica. Imagina tu, leitor, uma -reducção dos seculos, e um desfilar de todos elles, as raças todas, -todas as paixões, o tumulto dos imperios, a guerra dos appetites e -dos odios, a destruição reciproca dos seres e das cousas. Tal era -o expectaculo, acerbo e curioso expectaculo. A historia do homem -e da terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem -a imaginação nem a sciencia, porque a sciencia é mais lenta e a -imaginação mais vaga, emquanto que o que eu alli via era a condensação -viva de todos os tempos. Para descrevel-a seria preciso fixar o -relampago. Os seculos desfilavam n'um turbilhão, e, não obstante, -porque os olhos do delirio são outros, eu via tudo o que passava diante -de mim,--flagellos e delicias,--desde essa cousa que se chama gloria -até essa outra que se chama miseria, e via o amor multiplicando a -miseria, e via a miseria aggravando a debilidade. Ahi vinham a cobiça -que devora, a colera que inflamma, a inveja que baba, e a enxada e a -penna, humidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancholia, -a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até -destruil-o, como um farrapo. Eram as formas varias de um mal, que ora -mordia a viscera, ora mordia o pensamento, e passeiava eternamente as -suas vestes de arlequim, em derredor da especie humana. A dor cedia -alguma vez, mas cedia á indifferença, que era um somno sem sonhos, -ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagellado e -rebelde, corria diante da fatalidade das cousas, atraz de uma figura -nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpavel, outro -de improvavel, outro de invisivel, cosidos todos a ponto precario, -com a agulha da imaginação; e essa figura,--nada menos que a chimera -da felicidade,--ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar -pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ella ria, como um -escarneo, e sumia-se, como uma illusão. - -Ao contemplar tanta calamidade, não pude reter um grito de angustia, -que Natureza ou Pandora escutou sem protestar nem rir; e não sei por -que lei de transtorno cerebral, fui eu que me puz a rir,--de um riso -descompassado e idiota. - ---Tens razão, disse eu, a cousa é divertida e vale a pena,--talvez -monotona--mas vale a pena. Quando Job amaldiçoava o dia em que fôra -concebido, é porque lhe davam ganas de ver cá de cima o espectáculo. -Vamos lá, Pandora, abre o ventre, e digere-me; a cousa é divertida, mas -digere-me. - -A resposta foi compellir-me fortemente a olhar para baixo, e a ver os -seculos que continuavam a passar, velozes e turbulentos, as gerações -que se superpunham ás gerações, umas tristes, como os Hebreus do -captiveiro, outras alegres, como os devassos de Commodo, e todas -ellas pontuaes na sepultura. Quiz fugir, mas uma força mysteriosa me -retinha os pés; então disse commigo:--«Bem, os seculos vão passando, -chegará o meu, e passará tambem, até o ultimo, que me dará a decifração -da eternidade.» E fixei os olhos, e continuei a ver as edades, que -vinham chegando e passando, já então tranquillo e resoluto, não sei -até se alegre. Talvez alegre. Cada seculo trazia a sua porção de -sombra e de luz, de apathia e de combate, de verdade e de erro, e o -seu cortejo de systemas, de idéas novas, de novas illusões; em cada -um delles rebentavam as verduras de uma primavera, e amarelleciam -depois, para remoçar mais tarde. Ao passo que a vida tinha assim uma -regularidade de calendario, fazia-se a historia e a civilisação, e o -homem, nu e desarmado, armava-se e vestia-se, construia o tugurio e -o palacio, a rude aldêa e Thebas de cem portas, creava a sciencia, -que perscruta, e a arte que enleva, fazia-se orador, mecanico, -philosopho, corria a face do globo, descia ao ventre da terra, subia -á esphera das nuvens, collaborando assim na obra mysteriosa, com que -entretinha a necessidade da vida e a melancholia do desamparo. Meu -olhar, enfarado e distrahido*, viu emfim chegar o seculo presente, e -atraz delle os futuros. Aquelle vinha agil, destro, vibrante, cheio -de si, um pouco diffuso, audaz, sabedor, mas ao cabo tão miseravel -como os primeiros, e assim passou e assim passaram os outros, com a -mesma rapidez e egual monotonia. Redobrei de attenção; fitei a vista; -ia emfim ver o ultimo,--o ultimo!; mas então já a rapidez da marcha -era tal, que escapava a toda a comprehensão; ao pé della o relampago -seria um seculo. Talvez por isso entraram os objectos a trocarem-se; -uns cresceram, outros minguaram, outros perderam-se no ambiente; um -nevoeiro cobriu tudo,--menos o hippopotamo que alli me trouxera, e que -aliás começou a diminuir, a diminuir, a diminuir, até ficar do tamanho -de um gato. Era effectivamente um gato. Encarei-o bem; era o meu gato -_Sultão_, que brincava á porta da alcova, com uma bola de papel... - - - - -CAPITULO VIII - - -Razão contra Sandice - - -Já o leitor comprehendeu que era a Razão que voltava á casa, e -convidava a Sandice a sair, clamando, e com melhor jus, as palavras de -Tartufo: - - La maison est á moi, c'est á vous d'en sortir. - -Mas é sestro antigo da Sandice criar amor ás casas alheias, de modo -que, apenas senhora de uma, difficilmente lh'a farão despejar. É -sestro; não se tira dahi; ha muito que lhe callejou a vergonha. Agora, -se advertirmos no immenso numero de casas que occupa, umas de vez, -outras durante as suas estações calmosas, concluiremos que esta amavel -peregrina é o terror dos proprietarios. No nosso caso, houve quasi -um disturbio á porta do meu cerebro, porque a adventicia não queria -entregar a casa, e a dona não cedia da intenção de tomar o que era seu. -Afinal, já a Sandice se contentava com um cantinho no sotão. - ---Não, senhora, replicou a Razão, estou cançada de lhe ceder sotãos, -cançada e experimentada, o que você quer é passar mansamente do sotão á -sala de jantar, dahi á de visitas e ao resto. - ---Está bem, deixe-me ficar algum tempo mais, estou na pista de um -mysterio. - ---Que mysterio? - ---De dous, emendou a Sandice; o da vida e o da morte; peço-lhe só uns -dez minutos. - -A Razão poz-se a rir. - ---Has de ser sempre a mesma cousa... sempre a mesma cousa... sempre a -mesma cousa... - -E, dizendo isto, travou-lhe dos pulsos e arrastou-a para fóra; depois -entrou e fechou-se. A Sandice ainda gemeu algumas supplicas; ainda -grunhiu algumas zangas; mas desenganou-se depressa, deitou a lingua de -fóra, em ar de surriada, e foi andando... foi andando... Provavelmente -andará até á consummação dos seculos. - - - - -CAPITULO IX - - -Transição - - -E vejam agora com que destreza, com que fina arte faço eu a maior -transição deste livro. Vejam: o meu delirio começou em presença -de Virgilia; Virgilia foi o meu grão peccado da juventude; não ha -juventude sem meninice; meninice suppõe nascimento; e eis aqui como -chegamos nós, sem esforço, ao dia 20 de outubro de 1805, em que nasci. -Viram? Nenhuma juntura apparente, nada que divirta a attenção pausada -do leitor; nada. De modo que o livro fica assim com todas as vantagens -do methodo, sem a rigidez do methodo. Na verdade, era tempo. Que isto -de methodo, sendo, como é, uma cousa indispensavel, todavia é melhor -tel-o sem gravata nem suspensorios, mas um pouco á fresca e á solta, -como quem não se lhe dá da visinha fronteira, nem do inspector de -quarteirão. É como a eloquencia, que ha uma genuina e vibrante, de uma -arte natural e feiticeira, e outra tesa, engommada e chocha. Vamos ao -dia 20 de Outubro. - - - - -CAPITULO X - - -Naquelle dia... - - -Naquelle dia, a arvore dos Cubas brotou uma graciosa flor. Nasci; -recebeu-me nos braços a Pascoela, insigne parteira minhota, que -se gabava de ter aberto a porta do mundo a uma geração inteira de -fidalgos. Não é impossivel que meu pae lhe ouvisse tal declaração; -creio, todavia, que o sentimento paterno é que o induziu a gratifical-a -com duas meias dobras. Lavado e enfaixado, fui desde logo o heroe da -nossa casa. Cada qual prognosticava a meu respeito o que mais lhe -quadrava ao sabor. Meu tio João, o antigo official de infantaria, -achava-me um certo olhar de Bonaparte, cousa que meu pae não pôde ouvir -sem nauseas; meu tio Ildefonso, então simples padre, farejava-me conego. - ---Conego é o que elle ha de ser, e não digo mais por não parecer -orgulho; mas não me admiraria nada se Deus o destinasse á um bispado... -É verdade, um bispado; não é cousa impossivel. Que diz você, mano -Bento? - -Meu pae respondia a todos que eu seria o que Deus quizesse; e alçava-me -ao ar, como se intentasse mostrar-me á cidade e ao mundo; perguntava a -todos se eu me parecia com elle, se era intelligente, bonito... - -Digo essas cousas por alto, segundo as ouvi narrar annos depois; ignoro -a mór parte dos pormenores daquelle famoso dia. Sei que a visinhança -veiu ou mandou comprimentar o recem-nascido, e que durante as primeiras -semanas muitas foram as visitas em nossa casa. Não houve cadeirinha -que não trabalhasse; aventou-se muita casaca e muito calção; e se hão -conto os mimos, os beijos, as admirações, as bençãos, é porque, se os -contasse, não acabaria mais o capitulo, e é preciso acabal-o. - -Item, não posso dizer nada do meu baptizado, porque nada me referiram -a tal respeito, a não ser que foi uma das mais galhardas festas do -anuo seguinte, 1806; baptizei-me na egreja de S. Domingos, uma terça -feira de março, dia claro, luminoso e puro, sendo padrinhos o coronel -Rodrigues de Mattos e sua senhora. Um e outro descendiam de velhas -familias do norte e honravam devéras o sangue que lhes corria nas -veias, outr'ora derramado na guerra contra Hollanda. Cuido que os nomes -de ambos foram das primeiras cousas que aprendi; e certamente os dizia -com muita graça, ou revelava algum talento precoce, porque não havia -pessoa extranha diante de quem me não obrigassem a recital-os. - ---Nhonhô, diga a estes senhores como é que se chama seu padrinho. - ---Meu padrinho? é o coronel Paulo Vaz Lobo Cezar de Andrade e Souza -Rodrigues de Mattos; minha madrinha é a Excellentissima Senhora D. -Maria Luiza de Macedo Rezende e Souza Rodrigues de Mattos. - ---É muito esperto o seu menino, commentavam os ouvintes. - ---Muito esperto, concordava meu pae; e os olhos babavam-se-lhe de -orgulho, e elle espalmava a mão sobre a minha cabeça, fitava-me longo -tempo, namorado, cheio de si. - -Item, comecei a andar, não sei bem quando, mas antes do tempo. Talvez -por apressar a natureza, obrigavam-me cedo a agarrar ás cadeiras, -pegavam-me da fralda, davam-me carrinhos de páu.--Só só, nhonhô, só só, -dizia-me a mucama. E eu, attrahido pelo chocalho de lata, que minha mãe -agitava diante de mim, lá ia para a frente, cahe aqui, cahe acolá; e -andava, provavelmente mal, mas andava, e fiquei andando. - - - - -CAPITULO XI - - -O menino é pai do homen. - - -Cresci; e nisso é que a familia não interveiu; cresci naturalmente, -como crescem as magnolias e os gatos. Talvez os gatos são menos -matreiros, e, com certeza, as magnolias são menos inquietas do que eu -era na minha infancia. Um poeta dizia que o menino é pae do homem. Se -isto é verdade, vejamos alguns lineamentos do menino. - -Desde os cinco annos merecera eu a alcunha de «menino diabo»; e -verdadeiramente não era outra cousa; fui dos mais malignos do meu -tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um -dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negára uma colhér do -doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o maleficio, -deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, -fui dizer a minha mãe que a escrava é que estragára o doce «por -pirraça»; e eu tinha apenas seis annos. Prudencio, um moleque de casa, -era o meu cavallo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um -cordel nos queixos, á guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma -varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e elle -obedecia,--algumas vezes gemendo,--mas obedecia sem dizer palavra, -ou, quando muito, um--«ai, nhonhô!»--ao que eu retorquia:--«Cala a -boca, besta!»--Esconder os chapéos das visitas, deitar rabos de papel -a pessoas graves, puxar pelo rabicho das cabelleiras, dar beliscões -nos braços das matronas, e outras muitas façanhas deste jaez, eram -mostras de um genio indocil, mas devo crer que eram tambem expressões -de um espirito robusto, porque meu pae tinha-me em grande admiração; -e se ás vezes me reprehendia, á vista de gente, fazia-o por simples -formalidade: em particular dava-me beijos. - -Não se conclua daqui que eu levasse todo o resto da minha vida a -quebrar a cabeça dos outros nem a esconder-lhes os chapéos; mas -opiniatico, egoista e algo contemptor dos homens, isso fui; se não -passei o tempo a esconder-lhes os chapéos, alguma vez lhes puxei pelo -rabicho das cabelleiras. - -Outrosim, affeiçoei-me á contemplação da injustiça humana, inclinei-me -a attenual-a, a explical-a, a classifical-a por partes, a entendel-a, -não segundo um padrão rigido, mas ao sabor das circumstancias e -logares. Minha mãe doutrinava-me a seu modo, fazia-me decorar alguns -preceitos e orações; mas eu sentia que, mais do que as orações, me -governavam os nervos e o sangue, e a boa regra perdia o espirito, que -a faz viver, para se tornar uma vã formula. De manhã, antes do mingáu, -e de noite, antes da cama, pedia a Deus que me perdoasse, assim como -eu perdoava aos meus devedores; mas entre a manhã e a noite fazia uma -grande maldade, e meu pae, passado o alvoroço, dava-me pancadinhas na -cara, e exclamava a rir: Ah! bregeiro! ah! bregeiro! - -Sim, meu pae adorava-me, tinha-me esse amor sem merito, que é um -simples e forte impulso da carne; amor que a razão não contrasta -nem rége. Minha mãe era uma senhora fraca, de pouco cerebro e muito -coração, assaz credula, sinceramente piedosa,--caseira, apezar de -bonita, e modesta, apezar de abastada; temente ás trovoadas e ao -marido. O marido era na terra o seu deus. Da collaboração dessas duas -creaturas nasceu a minha educação, que, se tinha alguma cousa boa, era -no geral viciosa, incompleta, e, em partes, negativa. Meu tio conego -fazia ás vezes alguns reparos ao irmão; dizia-lhe que elle me dava -mais liberdade do que ensino, e mais affeição do que emenda; mas meu -pae respondia que applicava na minha educação um systema inteiramente -superior ao systema usado; e por este modo, sem confundir o irmão, -illudia-se a si proprio. - -Havia em minha mãe uma sombra de melancholia, que eu herdei, como -herdei de meu pae a fatuidade. Os aspectos da vida accrescentaram-lhe a -natural tendencia. Tinha coração de mais, uma sensibilidade melindrosa, -exigente, doentia. - -De envolta com a transmissão e a educação, houve ainda o exemplo -extranho, o meio domestico. Vimos os paes; vejamos os tios. Um delles, -o João, era um homem de lingua solta, vida galante, conversa picaresca. -Desde os onze annos entrou a admittir-me ás anecdotas, reaes ou não, -eivadas todas de obscenidade ou immundicie. Não me respeitava a -adolescencia, como não respeitava a batina do irmão; com a differença -que este fugia logo que elle enveredava por assumpto escabroso. Eu não; -deixava-me estar, sem entender nada, a principio, depois entendendo, e -emfim achando-lhe graça. No fim de certo tempo, quem o procurava era -eu; e elle gostava muito de mim, dava-me doces, levava-me a passeio. Em -casa, quando lá ia passar alguns dias, não poucas vezes me aconteceu -achal-o, no fundo da chacara, no lavadouro, a palestrar com as escravas -que batiam roupa; e ahi é que era um desfiar de anecdotas, de ditos, -de perguntas, e um estalar de risadas, que ninguem podia ouvir, porque -o lavadouro ficava muito longe de casa. As pretas, com uma tanga -no ventre, a arregaçar-lhes um palmo dos vestidos, umas dentro do -tanque, outras fóra, inclinadas sobre as peças de roupa, a batel-as, a -ensaboal-as, a torcel-as, iam ouvindo e redarguindo ás pilherias do tio -João, e a commental-as de quando em quando com esta palavra: - ---Cruz, diabo!... Este sinhô João é o diabo! - -Bem differente era o tio conego. Esse tinha muita austeridade e -pureza; taes dotes, comtudo, não realçavam um espirito superior, -apenas compensavam um espirito mediocre. Não era homem que visse a -parte substancial da egreja; via o lado externo, a hierarchia, as -preeminencias, as sobrepelizes, as circumflexões. Vinha antes da -sacristia que do altar. Uma lacuna no ritual excitava-o mais do que -uma infracção dos mandamentos. Agora, a tantos annos de distancia, -não estou certo se elle poderia atinar facilmente com um trecho de -Tertuliano, ou expor, sem titubear, a historia do symbolo de Nicéa; -mas ninguem, nas festas cantadas, sabia melhor o numero e caso das -cortezias que se deviam ao officiante. Conego foi a unica ambição de -sua vida; e dizia de coração que era a maior dignidade a que podia -aspirar. Piedoso, severo nos costumes, minucioso na observancia das -regras, frouxo, acanhado, subalterno, possuia algumas virtudes, em que -era exemplar, mas carecia absolutamente da força de as incutir, de as -impôr aos outros. - -Não digo nada de minha tia materna, D. Emerenciana, e aliás era a -pessoa que mais autoridade tinha sobre mim; essa differençava-se -grandemente dos outros; mas viveu pouco tempo em nossa companhia, -uns dous annos. Outros parentes e alguns intimos não merecem a pena -de ser citados; não tivemos uma vida commum, mas intermittente, com -grandes claros de separação. O que importa é a expressão geral do meio -domestico, e essa ahi fica indicada,--vulgaridade de caracteres, amor -das apparencias rutilantes, do arruido, frouxidão da vontade, dominio -do capricho, e o mais. Dessa terra e desse estrume é que nasceu esta -flôr. - - - - -CAPITULO XII - - -Um episodio de 1814 - - -Mas eu não quero passar adeante, sem contar summariamente um galante -episodio de 1814; tinha nove annos. - -Napoleão, quando eu nasci, estava já em todo o explendor da gloria -e do poder; era imperador e grangeára inteiramente a admiração dos -homens. Meu pae, que á força de persuadir os outros da nossa nobreza, -acabara persuadindo-se a si proprio, nutria contra elle um odio -puramente mental. Era isso motivo de renhidas contendas em nossa casa, -porque meu tio João, não sei se por espirito de classe e sympathia de -officio, perdoava no despota o que admirava no general, meu tio padre -era inflexivel contra o corso, os outros parentes dividiam-se; dahi as -controversias e as rusgas. - -Chegando ao Rio de Janeiro a noticia da primeira quéda de Napoleão, -houve naturalmente grande abalo em nossa casa, mas nenhum chasco ou -remoque. Os vencidos, testemunhas do regozijo publico, julgaram mais -decoroso o silencio; alguns foram além e bateram palmas. A população, -cordialmente alegre, não regateou demonstrações de affecto á real -familia; houve illuminações, salvas, _Te-Deum_, cortejo e acclamações. -Figurei nesses dias com um espadim novo, que meu padrinho me dera no -dia de Santo Antonio; e, francamente, interessava-me mais o espadim -do que a quéda de Bonaparte. Nunca me esqueceu esse phenomeno. Nunca -mais deixei de pensar commigo que o nosso espadim é sempre maior do que -a espada de Napoleão. E notem que eu ouvi muito discurso, quando era -vivo, li muita pagina rumorosa de grandes idéas e maiores palavras, mas -não sei porque, no fundo dos applausos que me arrancavam da boca, lá -echoava alguma vez este conceito de experimentado: - ---Vae-te embora, tu só cuidas do espadim. - -Não se contentou a minha familia em ter um quinhão anonymo no regozijo -publico; entendeu opportuno e indispensavel celebrar a destituição -do imperador com um jantar, e tal jantar que o ruido das acclamações -chegasse aos ouvidos de Sua Alteza, ou, quando menos, de seus -ministros. Dito e feito. Veiu abaixo toda a velha prataria, herdada do -meu avô Luiz Cubas; vieram as toalhas de Flandres, as grandes jarras -da India; matou-se um capado; encommendaram-se ás madres da Ajuda as -compotas e marmeladas; lavaram-se, arearam-se, poliram-se as salas, -escadas, castiçaes, arandellas, as vastas mangas de vidro, todos os -apparelhos do luxo classico. - -Dada a hora, achou*-se reunida uma sociedade selecta, o juiz de fóra, -tres ou quatro officiaes militares, alguns commerciantes e lettrados, -varios funccionarios da administração, uns com suas mulheres e filhas, -outros sem ellas, mas todos commungando no desejo de atolar a memoria -de Bonaparte no papo de um perú. Não era um jantar, mas um _Te-Deum_; -foi o que pouco mais ou menos disse um dos lettrados presentes, o -Dr. Villaça, glosador insigne, que accrescentou aos pratos de casa o -acepipe das musas. Lembra-me, como se fosse hontem, lembra-me de o ver -erguer-se, com a sua longa cabelleira de rabicho, casaca de seda, uma -esmeralda no dedo, pedir a meu tio padre que lhe repetisse o mote, -e, repetido o mote, cravar os olhos na testa de uma senhora, depois -tossir, alçar a mão direita, toda fechada, menos o dedo indice, que -apontava para o tecto; e, assim posto e composto, devolver o mote -glosado. Não fez uma glosa, mas tres; depois jurou aos seus deuses não -acabar mais. Pedia um mote, davam-lh'o, elle glosava-o promptamente, -e logo pedia outro e mais outro; a tal ponto que uma das senhoras -presentes não pôde calar a sua grande admiração. - ---A senhora diz isso, retorquia modestamente o Villaça, porque nunca -ouviu o Bocage, como eu ouvi, no fim do século, em Lisboa. Aquillo sim! -que facilidade! e que versos! Tivemos lutas de uma e duas horas, no -botequim do Nicola, a glosarmos, no meio de palmas e bravos. Immenso -talento o do Bocage! Era o que me dizia, ha dias, a Sra. duqueza de -Cadaval... - -E estas tres palavras ultimas, expressas com muita emphasis, produziram -em toda a assembléa um fremito de admiração e pasmo. Pois esse homem -tão dado, tão simples, além de pleitear com poetas, discreteava com -duquezas! Um Bocage e uma Cadaval! Ao contacto de tal homem, as -damas sentiam-se superfinas; os varões olhavam-n'o com respeito, -alguns com inveja, não raros com incredulidade. Elle, entretanto, -ia caminho, a accummular adjectivo sobre adjectivo, adverbio sobre -adverbio, a desfiar todas as rimas de _tyranno_ e de _usurpador._ Era -á sobremeza; ninguem já pensava em comer. No intervallo das glosas, -corria um borborinho alegre, um palavrear de estomagos satisfeitos; -os olhos, molles e humidos, ou vivos e calidos, espreguiçavam-se ou -saltitavam de uma ponta a outra da meza, atulhada de doces e fructas, -aqui o ananaz em fatias, alli o melão em talhadas, as compoteiras de -crystal deixando ver o doce de coco, finamente ralado, amarello como -uma gemma,--ou então o melado escuro e grosso, não longe do queijo -e do cará. De quando em quando um riso jovial, amplo, desabotoado, -um riso de familia, vinha quebrar a gravidade politica do banquete. -No meio do interesse grande e commum, agitavam-se tambem os pequenos -e particulares. As moças fallavam das modinhas que haviam de cantar -ao cravo, e do minuete e do solo inglez; nem faltava matrona que -promettesse bailar um oitavado de compasso, só para mostrar como -folgára nos seus bons tempos de criança. Um sujeito, ao pé de mim, dava -a outro noticia recente dos negros novos, que estavam a vir, segundo -cartas que recebera de Loanda, uma carta em que o sobrinho lhe dizia -ter já negociado cerca de quarenta cabeças, e outra-carta em que... -Trazia-as justamente na algibeira, mas não as podia ler naquella -occasião. O que afiançava é que podiamos contar, só nessa viagem, uns -cento e vinte negros, pelo menos. - ---Trás...trás...trás...fazia o Villaça batendo com as mãos uma na -outra. O rumor cessava de subito, como um estacado de orchestra, -e todos os olhos se voltavam para o glosador. Quem ficava longe -aconcheava a mão atraz da orelha para não perder palavra; a mór parte, -antes mesmo da glosa, tinha já um meio riso de applauso, trivial e -candido. - -Quanto a mim, lá estava, solitario e deslembrado, a namorar uma -certa compota da minha feição. No fim de cada glosa ficava muito -contente, esperando que fosse a ultima; mas não era, e a sobremeza -continuava intacta. Ninguem se lembrava de dar a primeira voz. Meu -pae, á cabeceira, saboreava a goles extensos, a alegria dos convivas, -mirava-se todo nos carões alegres, nos pratos, nas flores, deliciava-se -com a familiaridade travada entre os mais distantes espiritos, influxo -de um bom jantar. Eu via isso, porque arrastava os olhos da compota -para elle e delle para a compota, como a pedir-lhe que m'a servisse; -mas fazia-o em vão. Elle não via nada; via-se a si mesmo. E as glosas -succediam-se, como bategas d'agua, obrigando-me a recolher o desejo e -o pedido. Pacientei quanto pude; e não pude muito. Pedi em voz baixa o -doce; emfim, bradei, berrei, bati com os pés. Meu pae, que seria capaz -de me dar o sol, se eu lh*'o exigisse, chamou um escravo para me servir -o doce; mas era tarde. A tia Emerenciana arrancára-me da cadeira e -entregára-me a uma escrava, não obstante os meus gritos e repellões. - -Não foi outro o delicto do glosador: retardára a compota e dera causa -á minha exclusão. Tanto bastou para que eu cogitasse uma vingança, -qualquer que fosse, mas grande e exemplar, cousa que de alguma maneira -o tornasse ridiculo. Que elle era um homem grave o Dr. Villaça, medido -e lento, quarenta e sete annos, casado e pae. Não me contentava o -rabo de papel nem o rabicho da cabelleira; havia de ser cousa peor. -Entrei a espreital-o, durante o resto da tarde, a seguil-o, na chacara, -aonde todos desceram a passear. Vi-o conversar com D. Eusebia, irmã do -sargento-mór Domingues, uma robusta donzellona, que se não era bonita, -tambem não era feia. - ---Estou muito zangada com o senhor, dizia ella. - ---Porque? - ---Porque ... não sei porque ... porque é a minha sina ... creio ás -vezes que é melhor morrer... - -Tinham penetrado n'uma pequena moita; era lusco-fusco; eu segui-os. O -Villaça levava nos olhos umas chispas de vinho e de volupia. - ---Deixe-me, disse ella. - ---Ninguem nos vê. Morrer, meu anjo? Que idéas são essas! Você sabe que -eu morrerei tambem ... que digo?... morro todos os dias, de paixão, de -saudades... - -D. Eusebia levou o lenço aos olhos. O glosador vasculhava na memoria -algum pedaço litterario, e achou este, que mais tarde verifiquei ser de -uma das operas do Judeu: - ---Não chores, meu bem; não queiras que o dia amanheça com duas auroras. - -Disse isto; puxou-a para si; ella resistiu um pouco, mas deixou-se ir; -uniram os rostos, e eu ouvi estalar, muito ao de leve, um beijo, o mais -medroso dos beijos. - ---O Dr. Villaça deu um beijo em D. Eusebia! bradei eu correndo pela -chacara. - -Foi um estouro esta minha palavra; a estupefacção immobilisou a todos; -os olhos espraiavam-se a uma e outra banda; trocavam-se sorrisos, -segredos, á socapa, as mães arrastavam as filhas, pretextando o sereno. -Meu pae puxou-me as orelhas, disfarçadamente, irritado devéras com -a indiscrição; mas no dia seguinte, ao almoço, lembrando o caso, -sacudiu-me o nariz, a rir:--Ah! brejeiro! ah! brejeiro! - - - - -CAPITULO XIII - - -Um salto - - -Unamos agora os pés e demos um salto por cima da eschola, a enfadonha -eschola, onde aprendi a ler, escrever, contar, dar cacholetas, -apanhal-as, e ir fazer diabruras, ora nos morros, ora nas praias, onde -quer que fosse propicio a ociosos. - -Tinha amarguras esse tempo; tinha os ralhos, os castigos, as lições -arduas e longas, e pouco mais, mui pouco e mui leve. Só era pesada a -palmatoria, e ainda assim... Ó palmatoria, terror dos meus dias pueris, -tu que foste o _compelle intrare_ com que um velho mestre, ossudo e -calvo, me incutiu no cerebro o alphabeto, a prosodia, a syntaxe, e o -mais que elle sabia, benta palmatoria, tão praguejada dos modernos, -quem me dera ter ficado sob o teu jugo, com a minha alma imberbe, as -minhas ignorancias, e o meu espadim, aquelle espadim de 1814, tão -superior á espada de Napoleão! Que querias tu, afinal, meu velho mestre -de primeiras lettras? Lição de cór e compostura na aula; nada mais, -nada menos do que quer a vida, que é a mestra das ultimas lettras; -com a differenca que tu, se me mettias medo, nunca me metteste zanga. -Vejo-te ainda agora entrar na sala, com as tuas chinellas de couro -branco, capote, lenço na mão, calva á mostra, barba rapada; vejo-te -sentar, bufar, grunhir, absorver uma pitada inicial, e chamar-nos -depois á lição. E fizeste isto durante vinte e tres annos, calado, -obscuro, pontual, mettido n'uma casinha da rua do Piolho, sem enfadar -o mundo com a tua mediocridade, até que um dia déste o grande mergulho -nas trevas, e ninguem te chorou, salvo um preto velho,--ninguem, nem -eu, que te devo os rudimentos da escripta. - -Chamava-se Ludgero o mestre; quero escrever-lhe o nome todo nesta -pagina: Ludgero Barata,--um nome funesto, que servia aos meninos de -eterno mote a chufas. Um de nós, o Quincas Borba, esse então era cruel -com o pobre homem. Duas, tres vezes por semana, havia de lhe deixar na -algibeira das calças,--umas largas calças de enfiar--, ou na gaveta -da mesa, ou ao pé do tinteiro, uma barata morta. Se elle a encontrava -ainda nas horas da aula, dava um pulo, circulava os olhos chammejantes, -dizia-nos os ultimos nomes; eramos sevandijas, capadocios, mal criados, -moleques.--Uns tremiam, outros rosnavam; o Quincas Borba, porém, -deixava-se estar quieto, com os olhos espetados no ar. - -Uma flôr, o Quincas Borba. Nunca em minha infancia, nunca em toda a -minha vida, achei um menino mais gracioso, inventivo e travesso. Era -a flôr, e não já da eschola, senão de toda a cidade. A mãe, viuva, -com alguma cousa de seu, adorava o filho e trazia-o amimado, aceiado, -enfeitado, com um vistoso pagem atraz, um pagem que nos deixava gazear -a eschola, ir caçar ninhos de passaros, ou perseguir lagartixas no -morro do Livramento e da Conceição, ou simplesmente arruar, á toa, -como dous peraltas sem emprego. E de imperador! Era um gosto ver o -Quincas Borba fazer de imperador nas festas do Espirito Santo. De -resto, nos nossos jogos pueris, elle escolhia sempre um papel de rei, -ministro, general, uma supremacia, qualquer que fosse. Tinha garbo o -traquinas, e gravidade, certa magnificencia nas attitudes, nos meneios. -Quem diria que... Suspendamos a penna; não adeantemos os successos. -Fujamos sobretudo desse passado tão remoto, tão coberto, ai de mim! de -cruzes funebres. Vamos do um salto a 1822, data da nossa independencia -politica, e do meu primeiro captiveiro pessoal. - - - - -CAPITULO XIV - - -O primeiro beijo - - -Tinha dezesete annos; pungia-me um buçosinho que eu forcejava por -trazer a bigode. Os olhos, vivos e resolutos, eram a minha feição -verdadeiramente mascula. Como ostentasse certa arrogancia, não se -distinguia bem se era uma criança com fumos de homem, se um homem -com ares de menino. Ao cabo, era um lindo garção, lindo e audaz, que -entrava na vida de botas e esporas, chicote na mão e sangue nas veias, -cavalgando um corsel nervoso, rijo, veloz, como o corsel das antigas -balladas, que o romantismo foi buscar ao castello medieval, para dar -com elle nas ruas do nosso seculo. O peor é que o estafaram a tal -ponto, que foi preciso deital-o á margem, onde o realismo o veiu achar, -comido de lazeira e vermes, e, por compaixão, o transportou para os -seus livros. - -Sim, eu era esse garção bonito, airoso, abastado; e facilmente -se imagina que mais de uma dama inclinou deante de mim a fronte -pensativa, ou levantou para mim os olhos cobiçosos. De todas porém a -que me captivou logo foi um ... uma ... não sei se diga; este livro é -casto, ao menos na intenção; na intenção é castissimo. Mas vá lá; ou se -ha de dizer tudo ou nada. A que me captivou foi uma dama hespanhola, -Marcella, a «linda Marcella», como lhe chamavam os rapazes do tempo. -E tinham razão os rapazes. Era filha de um hortelão das Asturias; -disse-m'o ella mesma, n'um dia de sinceridade, porque a opinião aceita -é que nascera de um lettrado de Madrid, victima da invasão franceza, -ferido, encarcerado, espingardeado, quando ella tinha apenas doze -annos. _Cosas de España._ Quem quer que fosse, porém, o pae, lettrado -ou hortelão, a verdade é que Marcella não possuia a innocencia rustica, -e mal chegava a entender a moral do codigo. Era boa moça, lepida, -sem escrupulos, um pouco tolhida pela austeridade do tempo, que lhe -não permittia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e berlindas; -luxuosa, impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes. Naquelle anno, -morria ella de amores por um certo Xavier, sujeito abastado e -tisico,--uma perola. - -Vi-a, pela primeira vez, no Rocio Grande, na noite das luminarias, logo -que constou a declaração da independencia, uma festa de primavera, um -amanhecer da alma publica. Eramos dous rapazes, o povo e eu; vinhamos -da infancia, com todos os arrebatamentos da juventude. Vi-a sahir -de uma cadeirinha, airosa e vistosa, um corpo esbelto, ondulante, -um desgarre, alguma cousa que nunca achara nas mulheres puras. ---Segue-me, disse ella ao pagem. E eu segui-a, tão pagem como o outro, -como se a ordem me fosse dada, deixei-me ir namorado, vibrante, cheio -das primeiras auroras. A meio caminho, chamaram-lhe «linda Marcella», -lembrou-me que ouvira tal nome a meu tio João, e fiquei, confesso que -fiquei tonto. - -Tres dias depois perguntou-me meu tio, em segredo, se queria ir a uma -ceia de moças, nos Cajueiros. Fomos; era em casa de Marcella. O Xavier, -com todos os seus tuberculos, presidia ao banquete nocturno, em que -eu pouco ou nada comi, porque só tinha olhos para a dona da casa. -Que gentil que ella estava a hespanhola! Havia mais uma meia duzia -de mulheres,--todas de partido--, e bonitas, cheias de graça, mas a -hespanhola... O enthusiasmo, alguns goles de vinho, o genio imperioso, -estouvado, tudo isso me levou a fazer uma cousa unica; á sahida, á -porta da rua, disse a meu tio que esperasse um instante, e tornei a -subir as escadas. - ---Esqueceu alguma cousa? perguntou Marcella de pé, no patamar. - ---O lenço. - -Ella ia abrir-me caminho para tornar á sala; eu segurei-lhe nas mãos, -puxei-a para mim, e dei-lhe um beijo. Não sei se ella disse alguma -cousa, se gritou, se chamou alguem; não sei nada; sei que desci outra -vez as escadas, veloz como um tufão, e incerto como um ebrio. - - - - -CAPITULO XV - - -Marcella - - -Gastei trinta dias para ir do Rocio Grande ao coração de Marcella, -não já cavalgando o corsel do cégo desejo, mas o asno da paciência, -a um tempo manhoso e teimoso. Que, na verdade, ha dous meios de -grangear a vontade das mulheres: o violento, como o touro de Europa, -e o insinuativo, como o cysne de Leda e a chuva de ouro de Danae, -tres inventos do padre Zeus, que, por estarem fóra da moda, ahi ficam -trocados no cavallo e no asno. Não direi as traças que urdi, nem -as pitas, nem as alternativas de confiança e temor, nem as esperas -baldadas, nem nenhuma outra dessas cousas preliminares. Affirmo-lhes -que o asno foi digno do corsel,--um asno de Sancho, deveras philosopho, -que me levou á casa della, no fim do citado periodo; apeei-me, bati-lhe -na anca e mandei-o pastar. - -Primeira commoção da minha juventude, que doce que me foste! Tal devia -ser, na creação biblica, o effeito do primeiro sol. Imagina tu esse -effeito do primeiro sol, a bater de chapa na face de um mundo em flor. -Pois foi a mesma cousa, leitor amigo, e se alguma vez contaste dezoito -annos, deves lembrar-te que foi assim mesmo. - -Teve duas phases a nossa paixão, ou ligação, ou qualquer outro nome, -que eu de nomes não curo; teve a phase consular e a phase imperial. -Na primeira, que foi curta, regemos o Xavier e eu, sem que elle -jamais acreditasse dividir commigo o governo de Roma; mas, quando a -credulidade não pôde resistir á evidencia, o Xavier depoz as insignias, -e eu concentrei todos os poderes na minha mão; foi a phase cesariana. -Era meu o universo; mas, ai triste! não o era de graça. Foi-me preciso -colligir dinheiro, multiplical-o, invental-o. Primeiro explorei as -larguezas de meu pae; elle dava-me tudo o que eu lhe pedia, sem -reprehensão, sem demora, sem frieza; dizia a todos que eu era rapaz -e que elle o fora tambem. Mas a tal extremo chegou o abuso, que elle -restringiu um pouco as franquezas, depois mais, depois mais. Então -recorri a minha mãe, e induzi-a a desviar alguma cousa, que me dava ás -escondidas. Era pouco; lancei mão de um recurso ultimo: entrei a saccar -sobre a herança de meu pae, a assignar obrigações, que devia resgatar -um dia com usura. - ---Na verdade, dizia-me Marcella, quando eu lhe levava alguma seda, -alguma joia; na verdade, você quer brigar commigo... Pois isto é cousa -que se faça... um presente tão caro... - -E, se era joia, dizia isto a contemplal-a entre os dedos, a procurar -melhor luz, a ensaial-a em si, e a rir, e a beijar-me com uma -reincidencia impetuosa e sincera; mas, protestando, derramava-se-lhe -a felicidade dos olhos, e eu sentia-me feliz com vêl-a assim. Gostava -muito das nossas antigas dobras de ouro, e eu levava-lhe quantas podia -obter; Marcella juntava-as todas dentro de uma caixinha de ferro, -cuja chave ninguem nunca jámais soube onde ficava; escondia-a por -medo dos escravos. A casa em que morava, nos Cajueiros, era propria. -Eram solidos e bons os moveis, de jacarandá lavrado, e todas as -demais alfaias, espelhos, jarras, baixella,--uma linda baixella da -India, que lhe doára um desembargador. Baixella do diabo, deste-me -grandes repellões aos nervos. Disse-o muita vez á própria dona; -não lhe dissimulava o tedio que me faziam esses e outros despojos -dos seus amores de antanho. Ella ouvia-me e ria, com uma expressão -candida,--candida e outra cousa, que eu nesse tempo não entendia bem; -mas agora, relembrando o caso, penso que era um riso mixto, como devia -ter a creatura que nascesse, por exemplo, de uma bruxa de Shakespeare -com um seraphim de Klopstock. Não sei se me explico. E porque tinha -noticia dos meus zelos tardios, parece que gostava de os açular mais. -Assim foi que um dia, como eu lhe não pudesse dar certo collar, que -ella vira n'um joalheiro, retorquiu-me que era um simples gracejo, que -o nosso amor não precisava de tão vulgar estimulo. - ---Não lhe perdôo, se você fizer de mim essa triste idéa, concluiu -ameaçando-me com o dedo. - -E logo, subita como um passarinho, espalmou as mãos, cingiu-me com -ellas o rosto, puxou-me a si e fez um tregeito gracioso, um momo de -criança. Depois, reclinada na marqueza, continuou a fallar daquillo, -com simplicidade e franqueza. Jámais consentiria que lhe comprassem os -affectos. Vendera muita vez as apparencias, mas a realidade, guardava-a -para poucos. O Duarte, por exemplo, o alferes Duarte, que ella amára -devéras, dous annos antes, só a custo conseguia dar-lhe alguma cousa de -valor, como me acontecia a mim; ella só lhe aceitava sem reluctancia os -mimos de escasso preço, como a cruz de ouro, que lhe deu, uma vez, de -festas. - ---Esta cruz... - -Dizia isto, mettendo a mão no seio e tirando uma cruz fina, de ouro, -presa a uma fita azul e pendurada ao collo. - ---Mas essa cruz, observei eu, não me disseste que era teu pae que... - -Marcella abanou a cabeça com um ar de lastima: - ---Não percebeste* que era mentira, que eu dizia isso para te não -molestar? Vem cá, _chiquito_, não sejas assim desconfiado commigo... -Amei a outro; que importa, se acabou? Um dia, quando nos separarmos... - ---Não digas isso! bradei eu. - ---Tudo cessa! Um dia... - -Não pôde acabar; um soluço estrangulou-lhe a voz; estendeu as mãos, -tomou das minhas, conchegou-me ao seio, e sussurrou-me baixo ao -ouvido:--Nunca, nunca, meu amor! Eu agradeci-lh'o com os olhos -humidos. No dia seguinte levei-lhe o collar que havia recusado. - ---Para te lembrares de mim, quando nos separarmos, disse eu. - -Marcella teve primeiro um silencio indignado; depois fez um gesto -magnifico: tentou atirar o collar á rua. Eu retive-lhe o braço; -pedi-lhe muito que não me fizesse tal desfeita, que ficasse com a joia. -Sorriu e ficou. - -Entretanto, pagava-me á farta os sacrifícios; espreitava os meus mais -reconditos pensamentos; não havia desejo a que não acudisse com alma, -sem esforço, por uma especie de lei da consciencia e necessidade -do coração. Nunca o desejo era razoavel, mas um capricho puro, uma -criancice, vel-a trajar de certo modo, com taes e taes enfeites, este -vestido e não aquelle, ir a passeio ou outra cousa assim, e ella cedia -a tudo, risonha e palreira. - ---Você é das Arabias, dizia-me. - -E ia pôr o vestido, a renda, os brincos, com uma obediencia de -encantar. - - - - -CAPITULO XVI - - -Uma reflexão immoral - - -Occorre-me uma reflexão immoral, que é ao mesmo tempo uma correcção de -estylo. Cuido haver dito, no cap. XIII, que Marcella morria de amores -pelo Xavier. Não morria, vivia. Viver não é a mesma cousa que morrer -assim o affirmam todos os joalheiros desse mundo, gente muito vista -na grammatica. Bons joalheiros, que seria do amor se não fossem os -vossos dixes e fiados? Um terço ou um quinto do universal commercio -dos corações. Esta é a reflexão immoral que eu pretendia fazer, a qual -é ainda mais obscura do que immoral, porque não se entende bem o que -eu quero dizer. O que eu quero dizer é que a mais bella testa do mundo -não fica menos bella, se a cingir um diadema de pedras finas; nem menos -bella, nem menos amada. Marcella, por exemplo, que era bem bonita, -Marcella amou-me... - - - - -CAPITULO XVII - - -Do trapezio e outras cousas - - -... Marcella amou-me durante quinze mezes e onze contos de réis; nada -menos. Meu pae, logo que teve aragem dos onze contos, sobresaltou-se -devéras; achou que o caso excedia as raias de um capricho juvenil. - ---Desta vez, disse elle, vaes para a Europa; vaes cursar uma -Universidade, provavelmente Coimbra; quero-te para homem serio e não -para arruador e gatuno. E como eu fizesse um gesto de espanto:--Gatuno, -sim, senhor; não é outra cousa um filho que me faz isto... - -Saccou da algibeira os meus titulos de divida, já resgatados por elle, -e sacudiu-m'os na cara;--Vês, peralta? é assim que um moço deve zelar o -nome dos seus? Pensas que eu e meus avós ganhámos o dinheiro em* casas -de jogo ou a vadiar pelas ruas? Pelintra! Desta vez ou tomas juizo, ou -ficas sem cousa nenhuma. - -Estava furioso; mas de um furor temperado e curto. Eu ouvi-o calado, e -nada oppuz á ordem da viagem, como de outras vezes fizera; ruminava, a -idéa de levar Marcella commigo. Fui ter com ella; expuz-lhe a crise e -fiz-lhe a proposta. Marcella ouviu-me com os olhos no ar, sem responder -logo; como insistisse, disse-me que ficava, que não podia ir para a -Europa. - ---Porque não? - ---Não posso, disse ella com ar dolente; não posso ir respirar aquelles -ares, emquanto me lembrar de meu pobre pae, morto por Napoleão... - ---Qual delles: o hortelão ou o advogado? - -Marcella franziu a testa, cantarolou uma seguidilha, entre dentes; -depois queixou-se do calor, e mandou vir um copo de aluá. Trouxe-lh'o -a mucama, n'uma salva de prata, que fazia parte dos meus onze contos. -Marcella offereceu-me polidamente o refresco; minha resposta foi dar -com a mão no copo e na salva; entornou-se-lhe o liquido no regaço, a -preta deu um grito, eu bradei-lhe que se fosse embora. Ficando a sós, -derramei todo o desespero de meu coração; disse-lhe que ella era um -monstro, que jámais me tivera amor, que me deixara descer a tudo, sem -ter ao menos a desculpa da sinceridade; chamei-lhe muitos nomes feios, -fazendo muitos gestos descompostos. Marcella deixára-se estar sentada, -a estalar as unhas nos dentes, fria como um pedaço de marmore. Tive -impetos de a estrangular, de a humiliar ao menos, subjugando-a a meus -pés. Ia talvez fazel-o; mas a acção trocou-se n'outra; fui eu que me -atirei aos pés della, contricto e supplice; beijei-lh'os, recordei -aquelles mezes da nossa felicidade solitaria, repeti-lhe os nomes -queridos de outro tempo, sentado no chão, com a cabeça entre os joelhos -della, apertando-lhe muito as mãos; offegante, desvairado, pedi-lhe com -lagrymas que me não desamparasse... Marcella esteve alguns instantes a -olhar para mim, calados ambos, até que brandamente me desviou e, com um -ar enfastiado: - ---Não me aborreça, disse. - -Levantou-se, sacudiu o vestido, ainda molhado, e caminhou para a -alcova.--Não! bradei eu; não has de entrar... não quero... Ia a -lançar-lhe as mãos: era tarde; ella entrára e fechara-se. - -Sahi desatinado; gastei duas mortaes horas a vaguear pelos bairros mais -excentricos e desertos, onde fosse difficil dar commigo. Ia mastigando -o meu desespero, com uma especie de gula morbida; evocava os dias, as -horas, os instantes de delirio, e ora me comprazia em crer que elles -eram eternos, que tudo aquillo era um pesadelo, ora, enganando-me a mim -mesmo, tentava rejeital-os de mim, como um fardo inutil. Então resolvia -embarcar immediatamente para cortar a minha vida em duas metades, e -deleitava-me com a idéa de que Marcella, sabendo da partida, ficaria -ralada de saudades e remorsos. Que ella amara-me a tonta, devia de -sentir alguma cousa, uma lembrança qualquer, como do alferes Duarte... -Nisto, o dente do ciume enterrava-se-me no coração; e toda a natureza -me bradava que era preciso levar Marcella commigo. - ---Por força... por força... dizia eu ferindo o ar com uma punhada. - -Emfim, tive uma idéa salvadora... Ah! trapezio dos meus peccados, -trapezio das concepções abstrusas! A idéa salvadora trabalhou nelle, -como a do emplasto (cap. II.). Era nada menos que fascinal-a, -fascinal-a muito, deslumbral-a, arrastal-a; lembrou-me pedir-lhe por -um meio mais concreto do que a supplica. Não medi as consequencias; -recorri a um derradeiro emprestimo; fui á rua dos Ourives, comprei a -melhor joia da cidade, tres diamantes grandes, encastoados n'um pente -de marfim; corri á casa de Marcella. - -Marcella estava reclinada n'uma rede, o gesto molle e cançado, uma das -pernas pendentes, a ver-se-lhe o pésinho calçado de meia de seda, os -cabellos soltos, derramados, o olhar quieto e somnolento. - ---Vem commigo, disse eu, arranjei recursos...temos muito dinheiro, -terás tudo o que quizeres...Olha, toma. - -E mostrei-lhe o ponte com os diamantes, Marcella teve um leve -sobresalto; a pupilla rutilou como a de um gavião faminto; ella ergueu -metade do corpo, e, apoiada n'um cotovello, olhou para o pente durante -alguns instantes curtos; depois retirou os olhos; tinha se dominado. -Então, eu lancei-lhe as mãos aos cabellos, colligi-os, enlacei-os á -pressa, improvisei um toucado, sem nenhum alinho, e rematei-o com o -pente de diamantes; recuei, tornei a aproximar-me, corrigi-lhe as -madeixas, abaixei-as do um lado, busquei alguma symetria naquella -desordem, tudo com unia minuciosidade e um carinho de mãe. - ---Prompto, disse eu. - ---Doudo! foi a sua primeira resposta. - -A segunda foi puxar-me para si, e pagar-me o sacrificio com um beijo, o -mais ardente de todos. Depois tirou o pente, admirou muito a materia e -o lavor, olhando a espaços para mim, e abanando a cabeça, com um ar de -reprehensão: - ---Ora você! dizia. - ---Vens commigo? - -Marcella reflectiu um instante. Não gostei da expressão com que -passeava os olhos de mim para a parede, e da parede para a joia; -mas toda a má impressão se desvaneceu, quando ella me respondeu -resolutamente: - ---Vou. Quando embarcas? - ---Daqui a dous ou tres dias. - ---Vou. - -Agradeci-lh'o de joelhos. Tinha achado a minha Marcella dos primeiros -dias, e disse-lh'o; ella sorriu, e foi guardar a joia, emquanto eu -descia a escada. - - - - -CAPITULO XVIII - - -Visão do corredor - - -No fim da escada, ao fundo do corredor escuro, parei alguns instantes -para respirar, apalpar-me, convocar as idéas dispersas, rehaver-me -emfim no meio de tantas sensações profundas e contrarias. Achava-me -feliz. Certo é que os diamantes corrompiam-me um pouco a felicidade; -mas não é menos certo que uma dama bonita pode muito bem amar os gregos -e os seus presentes. E depois eu confiava na minha boa Marcella; podia -ter defeitos, mas amava-me... - ---Um anjo! murmurei eu olhando para o tecto do corredor. - -E ahi, como um escarneo, vi o olhar de Marcella, aquelle olhar que -pouco antes me dera uma sombra de desconfiança, o qual chispava de -cima de um nariz, que era ao mesmo tempo o nariz de Bakbarah e o meu. -Pobre namorado das _Mil e uma noites!_ Vi-te alli mesmo correr atraz da -mulher do vizir, ao longo da galeria, ella a acenar-te com a posse, -e tu a correr, a correr, a correr, até a alameda comprida, donde -sahiste á rua, onde todos os correeiros te apuparam e desancaram. Então -pareceu-me que o corredor de Marcella era a alameda, e que a rua era a -de Bagdad. Com effeito, olhando para a porta, vi na calçada, tres dos -correeiros, um de batina, outro de libré, outro á paisana, os quaes -todos tres entraram no corredor, tomaram-me pelos braços, metteram-me -n'uma sege, meu pae á direita, meu tio conego á esquerda, o da libré -na boléa, e lá me levaram á casa do intendente de policia, donde fui -transportado a uma galera que devia seguir para Lisboa. Imaginem se -resisti; mas toda a resistencia era inutil. - -Tres dias depois segui barra fóra, abatido e mudo. Não chorava sequer; -tinha uma idéa fixa... Malditas idéas fixas! A dessa occasião era dar -um mergulho no oceano, repetindo o nome de Marcella. - - - - -CAPITULO XIX - - -A bordo - - -Eramos onze passageiros, um homem doudo, acompanhado pela mulher, dous -rapazes que iam a passeio, quatro commerciantes e dous criados. Meu -pae recommendou-me a todos, começando pelo capitão do navio, que aliás -tinha muito que cuidar de si, porque, além do mais, levava a mulher -tisica em ultimo gráu. - -Não sei se o capitão suspeitou alguma cousa do meu funebre projecto, ou -se meu pae o poz de sobreaviso; sei que não me tirava os olhos de cima; -chamava-me para toda a parte. Quando não podia estar commigo, levava-me -para a mulher. A mulher ia quasi sempre n'uma camilha raza, a tossir -muito, e a afiançar que me havia de mostrar os arredores de Lisboa. -Não estava magra, estava transparente; era impossivel que não morresse -de uma hora para outra. O capitão fingia não crer na morte proxima, -talvez por enganar-se a si mesmo. Eu não sabia nem pensava nada. Que -me importava a mim o destino de uma mulher tisica, no meio do oceano? O -mundo para mim era Marcella. - -Uma noite, logo no fim do uma semana, achei ensejo propicio para -morrer. Subi cauteloso, mas encontrei o capitão, que junto á amurada, -tinha os olhos fitos no horizonte. - ---Algum temporal? disse eu. - ---Não, respondeu elle estremecendo; não; admiro o explendor da noite. -Veja; está celestial! - -O estylo desmentia da pessoa, assaz rude e apparentemente alheia a -locuções rebuscadas. Fitei-o; elle pareceu saborear o meu espanto. -No fim de alguns segundos, pegou-me na mão e apontou para a lua, -perguntando-me porque não fazia uma ode á noite; respondi-lhe que não -era poeta. O capitão rosnou alguma cousa, deu dous passos, metteu a -mão no bolso, saccou um pedaço de papel, muito amarrotado; depois, á -luz de uma lanterna, leu uma ode horaciana sobre a liberdade da* vida -maritima. Eram versos delle. - ---Que tal? - -Não me lembra o que lhe disse; lembra-me que elle me apertou a mão -com muita força e muitos agradecimentos; logo depois recitou-me dous -sonetos; ia recitar-me outro, quando o vieram chamar da parte da -mulher.--Lá vou, disse elle; e recitou-me o terceiro soneto, com pausa, -com amor. - -Fiquei só; mas a musa do capitão varrera-me do espirito os pensamentos -máus; preferi dormir, que é modo interino de morrer. No dia seguinte, -acordamos debaixo de um temporal, que metteu medo a toda a gente, -menos ao doudo; esse entrou a dar pulos, a dizer que a filha o mandava -buscar, n'uma berlinda; a morte de uma filha fôra a causa da loucura. -Não, nunca me ha de esquecer a figura hedionda do pobre homem, no -meio do tumulto das gentes e dos uivos do furacão, a cantarolar e a -bailar, com os olhos a saltarem-lhe da cara, pallido, a coma hirsuta, -descomposta. Ás* vezes parava, erguia ao ar as mãos ossudas, fazia -umas cruzes com os dedos, depois um xadrez, depois umas argolas, e ria -muito, desesperadamente. A mulher não podia já cuidar delle; entregue -ao terror da morte, rezava por si mesma a todos os santos do céu.* -Emfim, a tempestade amainou depois de longas horas; e confesso que foi -uma diversão excellente á tempestade do meu coração. Eu, que meditava -ir ter com a morte, não ousei fital-a quando ella veiu ter commigo. - -Amainou o temporal, o capitão veiu perguntar-me se tivera medo, se -estivera em risco, se não achára sublime o expectaculo; tudo isso com -um interesse de amigo. Naturalmente a conversa versou sobre a vida do -mar; o capitão perguntou-me se não gostava de idyllios piscatorios; eu -respondi-lhe ingenuamente que não sabia o que era. - ---Vae ver, respondeu elle. - -E recitou-me um poemasinho, depois outro,--uma egloga,--e emfim cinco -sonetos, com os quaes rematou nesse dia a confidencia litteraria. No -dia seguinte, antes de me recitar nada, explicou-me o capitão que só -por motivos graves abraçara a profissão maritima, porque a avó queria -que elle fosse padre, e com effeito possuia algumas lettras latinas; -não chegou a ser padre, mas não deixou de ser poeta, que era a sua -vocação natural; e em prova de que tal era a sua vocação, recitou-me -logo, de corpo presente, uma centena de versos. Notei um phenomeno: os -ademanes que elle usava eram taes, que uma vez me fizeram rir; mas o -capitão, quando recitava, de tal sorte olhava para dentro de si mesmo, -que não viu nem ouviu nada. - -Os dias passavam, e as aguas, e os versos, e com elles ia tambem -passando a vida da mulher. Estava por pouco. Um dia, logo depois do -almoço, disse-me o capitão que a enferma talvez não chegasse ao fim da -semana. - ---Já! exclamei. - ---Passou muito mal a noite. - -Fui vel-a; achei-a, na verdade, quasi moribunda, mas fallando ainda de -descançar em Lisboa alguns dias, antes de ir commigo a Coimbra, porque -era seu proposito levar-me á Universidade. Deixei-a consternado; fui -achar o marido a olhar para as vagas, que vinham morrer na costado -do navio, e tratei de o consolar; elle agradeceu-me, relatou-me a -historia dos seus amores, elogiou a fidelidade e a dedicação da -mulher, relembrou os versos que lhe fez, e recitou-m'os. Neste ponto -vieram buscal-o da parte della; corremos ambos; era uma crise. Esse -e o dia seguinte foram crueis; o terceiro foi o da morte; eu fugi -ao expectaculo, tinha-lhe repugnancia. Meia hora depois encontrei o -capitão, sentado n'um mólho de cabos, com a cabeça nas mãos; disse-lhe -alguma cousa de conforto. - ---Morreu como uma santa, respondeu elle; e, para que estas palavras -não pudessem ser levadas á conta de fraqueza, ergueu-se logo, sacudiu -a cabeça, e fitou o horizonte, com um gesto longo e profundo.--Vamos, -continuou, entreguemol-a á cova que nunca mais se abre. - -Effectivamente, poucas horas depois, era o cadaver lançado ao mar, -com as ceremonias do costume. A tristeza murchára todos os rostos; -o do viuvo trazia a expressão de um cabeço rijamente lascado pelo -raio. Grande silencio. A vaga abriu o ventre, acolheu o despojo, -fechou-se,--uma leve ruga,--e a galera foi andando. Eu deixei-me estar -alguns minutos, á popa, com os olhos naquelle ponto incerto do mar em -que ficava um de nós... Fui dalli ter com o capitão, para distrahil-o. - ---Obrigado, disse-me elle comprehendendo a intenção; creia que nunca me -esquecerei dos seus bons serviços. Deus é que lh'os ha de pagar. Pobre -Leocadia! tu te lembrarás de nós no ceu. - -Enxugou com a manga uma lagrima importuna; eu busquei um derivativo na -poesia, que era a paixão delle. Fallei-lhe dos versos, que me lera, -e offereci-me para imprimil-os. Os olhos do capitão animaram-se um -pouco.--Talvez aceite, disse elle; mas não sei... são bem frouxos -versos. Jurei-lhe que não; pedi que os reunisse e me désse antes do -desembarque. - ---Pobre Leocadia! murmurou elle sem responder ao pedido. Um cadaver... -o mar... o ceu... o navio... - -No dia seguinte veiu ler-me um epicedio composto de fresco, em que -estavam memoradas as circumstancias da morte e da sepultura da -mulher; leu-m'o com a voz commovida devéras, e a mão tremula; no fim -perguntou-me se os versos eram dignos do thesouro que perdera. - ---São, disse eu. - ---Não haverá estro, ponderou elle, no fim de um instante, mas ninguem -me negará sentimento, se não é que o proprio sentimento prejudicou a -perfeição.... - ---Não me parece; acho os versos perfeitos. - ---Sim, eu creio que... Versos de marujo. - ---De marujo poeta. - -Elle levantou os hombros, olhou para o papel, e tornou a recitar -a composição, mas já então sem tremuras, accentuando as intenções -litterarias, dando relevo ás imagens e melodia aos versos. No fim, -confessou-me que era a sua obra mais acabada, eu disse-lhe que sim; -elle apertou-me muito a mão e predisse-me um grande futuro. - - - - -CAPITULO XX - - -Bacharelo-me - - -Um grande futuro! Em quanto esta palavra me batia no ouvido, devolvia -eu os olhos, ao longe, no horizonte mysterioso e vago. Uma idéa -expellia outra, a ambição desmontava Marcella. Um grande futuro? -Talvez naturalista, litterato, archeologo, banqueiro, politico, ou até -bispo,--bispo que fosse,--uma vez que fosse um cargo, uma preeminencia, -uma grande reputação, uma posição superior. A ambição, dado que fosse -aguia, quebrou nessa occasião o ovo, e desvendou a pupilla fulva e -penetrante. Adeus, amores; adeus, Marcella; dias de delirio, joias -sem preço, vida sem regimen, adeus. Cá me vou ás fadigas e á gloria; -deixo-vos com as calcinhas da primeira edade. - -E foi assim que desembarquei em Lisboa e segui para Coimbra. A -Universidade esperava-me com as suas materias arduas, e não sei -se profundas; estudei-as muito mediocremente, e nem por isso perdi -o gráu de bacharel; deram-m'o com a solemnidade do estylo, após -os annos da lei; uma bella festa que me encheu de orgulho e de -saudades,--principalmente de saudades. Tinha eu conquistado em Coimbra -uma grande nomeada de folião; era um academico estroina, superficial, -tumultuario e petulante, dado ás aventuras, fazendo romantismo pratico -e liberalismo theorico, vivendo na pura fé dos olhos pretos e das -constituições escriptas. No dia em que a Universidade me attestou, em -pergaminho, uma sciencia que eu estava longe de trazer arraigada no -cerebro, confesso que me achei de de algum modo logrado, ainda que -orgulhoso. Explico-me: o diploma era uma carta de alforria; se me dava -a liberdade, dava-me a responsabilidade. Guardei-o, deixei as margens -do Mondego, e vim por alli fóra assaz desconsolado, mas sentindo já -uns impetos, uma curiosidade, um desejo de acotovellar os outros, de -influir, de gozar, de viver,--de prolongar a Universidade pela vida -adeante... - - - - -CAPITULO XXI - - -O almocreve - - -Vae então, empacou o jumento em que eu vinha montado; fustiguei-o, elle -deu dous corcovos, depois mais tres, emfim mais um, que me sacudiu -fóra da sella, e com tal desastre, que o pé esquerdo me ficou preso no -estribo; tento agarrar-me ao ventre do animal, mas já então, espantado, -disparou pela estrada fóra. Digo mal: tentou disparar, e effectivamente -deu dous saltos, mas um almocreve, que alli estava, acudiu atempo de -lhe pegar na redea e detel-o, não sem esforço nem perigo. Dominado o -bruto, desvencilhei-me do estribo e puz-me de pé. - ---Olhe do que vosmecê escapou, disse o almocreve. - -E era verdade; se o jumento corre por alli fóra, contundia-me -devéras, e não sei se a morte não estaria no fim do desastre; cabeça -partida, uma congestão, qualquer transtorno cá dentro; e lá se me -ia a bacharelice em flor. O almocreve salvara-me talvez a vida; -era positivo; eu sentia-o no sangue que me agitava o coração. Bom -almocreve! emquanto eu tornava á consciencia de mim mesmo, elle cuidava -de concertar os arreios do jumento, com muito zelo e arte. Resolvi -dar-lho tres moedas de ouro das cinco que trazia commigo; não porque -tal fosse o preço da minha vida,--essa era inestimavel; mas por que era -uma recompensa digna da dedicação com que elle me salvou. Está dito, -dou-lhe as tres moedas. - ---Prompto, disse elle apresentando-me a redea da cavalgadura. - ---Daqui a nada, respondi; deixa-me, que ainda não estou em mim... - ---Ora qual! - ---Pois não é certo que ia morrendo? - ---Se o jumento corre por ahi fóra, é possivel; mas, com a ajuda do -Senhor, viu vosmecê que não aconteceu nada. - -Fui aos alforges, tirei um collete velho, em cujo bolso trazia as cinco -moedas de ouro, e durante esse tempo cogitei se não era excessiva a -gratificação, se não bastavam duas moedas. Talvez uma. Com effeito, uma -moeda era bastante para lhe dar estremeções de alegria. Examinei-lhe -a roupa; era um pobre diabo, que nunca jamais vira uma moeda de ouro. -Portanto, uma moeda. Tirei-a, vi-a reluzir á luz do sol; não a viu o -almocreve, por que eu tinha-lhe voltado as costas; mas suspeitou-o -talvez, entrou a fallar ao jumento de um modo significativo; dava-lhe -conselhos, dizia-lhe que tomasse juizo, que o «senhor doutor» podia -castigal-o; um monologo paternal. Valha-me Deus! até ouvi estalar um -beijo: era o almocreve que lhe beijava a testa. - ---Olé! exclamei. - ---Queira vosmecê perdoar, mas o diabo do bicho está a olhar para a -gente com tanta graça... - -Ri-me, hesitei, metti-lhe na mão um cruzado em prata, cavalguei o -jumento, e segui a trote largo, um pouco vexado, melhor direi um pouco -incerto do effeito da pratinha. Mas a algumas braças de distancia, -olhei para traz, o almocreve fazia-me grandes cortezias, com evidentes -mostras de contentamento. Adverti que devia ser assim mesmo; eu -pagara-lhe bem, pagara-lhe talvez de mais. Metti os dedos no bolso -do collete que trazia no corpo e senti umas moedas de cobre; eram os -vintens que eu devera ter dado ao almocreve, em logar do cruzado em -prata. Porque, emfim, elle não levou em mira nenhuma recompensa ou -virtude, cedeu a um impulso natural, ao temperamento, aos habitos do -officio; accresce que a circumstancia de estar, não mais adeante nem -mais atraz, mas justamente no ponto do desastre, parecia constituil-o -simples instrumento de Providencia; e de um ou de outro modo, o -merito do acto era positivamente nenhum. Fiquei desconsolado com esta -reflexão, chamei-me prodigo, lancei o cruzado á conta das minhas -dissipações antigas; tive (porque não direi tudo?) tive remorsos. - - - - -CAPITULO XXII - - -Volta ao Rio - - -Jumento de uma figa, cortaste-me o fio ás reflexões. Já agora não digo -o que pensei dalli até Lisboa, nem o que fiz em Lisboa, na peninsula e -em outros logares da Europa, da velha Europa, que nesse tempo parecia -remoçar. Não, não direi que assisti ás alvoradas do romantismo, que -tambem eu fui fazer poesia effectiva no regaço da Italia; não direi -cousa nenhuma. Teria de escrever um diario de viagem e não umas -memorias, como estas são, nas quaes só entra a substancia da vida. - -Ao cabo de alguns annos de peregrinação attendi ás supplicas de meu -pae:--«Vem, dizia elle na ultima carta; se não vieres depressa, acharás -tua mãe morta!» Esta ultima palavra foi para mim um golpe. Eu amava -minha mãe; tinha ainda deante dos olhos as circumstancias da ultima -benção que ella me dera, a bordo do navio. «Meu triste filho, nunca -mais te verei», soluçava a pobre senhora apertando-me ao peito. E -essas palavras resoavam-me agora, como uma prophecia realizada. - -Note-se que eu estava em Veneza, ainda rescendente aos versos de lord -Byron; lá estava, mergulhado em pleno sonho, revivendo o preterito, -crendo-me na Serenissima Republica. É verdade; uma vez aconteceu-me -perguntar ao locandeiro se o doge ia a passeio nesse dia.--Que doge, -_signor mio?_ Cahi em mim, mas não confessei a illusão; disse-lhe que -a minha pergunta era um genero de charada americana; elle mostrou -comprehender, e accrescentou que gostava muito das charadas americanas. -Era um locandeiro. Pois deixei tudo isso, o locandeiro, o doge, a ponte -dos Suspiros, a gondola, os versos do lord, as damas do Rialto, deixei -tudo, e disparei como uma bala na direcção do Rio de Janeiro. - -Vim... Mas não; não alonguemos este capitulo. Ás vezes, esqueço-me a -escrever, e a penna vae comendo papel, com grave prejuizo meu, que -sou autor. Capitulos compridos quadram melhor a leitores pesadões; e -nós não somos um publico _in-folio_, mas _in_-12, pouco texto, larga -margem, typo elegante, corte dourado e vinhetas... principalmente -vinhetas... Não, não alonguemos o capitulo. - - - - -CAPITULO XXIII - - -Triste, mas curto - - -Vim; e não nego que, ao avistar a cidade natal, tive uma sensação nova. -Não era effeito da minha patria politica; era-o do logar da infancia, -a rua, a torre, o chafariz da esquina, a mulher de mantilha, o preto -do ganho, as cousas e scenas da meninice, buriladas na memoria. Nada -menos que uma renascença. O espirito, como um passaro, não se lhe deu -da corrente dos annos, arrepiou o vôo na direcção da fonte original, e -foi beber da agua fresca e pura, ainda não mesclada do enxurro da vida. - -Reparando bem, ha ahi um logar-commum. Outro logar-commum, tristemente -commum, foi a consternação da familia. Meu pae abraçou-me com -lagrimas.--Tua mãe não póde viver, disse-me elle. Com effeito, não era -já o rheumatismo que a matava, era um cancro no estomago. A infeliz -padecia de um modo crú, porque o cancro é indifferente ás virtudes do -sujeito; quando róe, róe; roer é o seu officio. Minha irmã Sabina, já -então casada com o Cotrim, andava a cair de fadiga. Pobre moça! dormia -tres horas por noite, nada mais. O proprio tio João estava abatido e -triste. D. Eusebia e algumas outras senhoras lá estavam tambem, não -menos tristes e não menos dedicadas. - ---Meu filho! - -A dor suspendeu por um pouco as tenazes; um sorriso allumiou o rosto da -enferma, sobre o qual a morte batia a aza eterna. Era menos um rosto do -que uma caveira; a belleza passára, como um dia brilhante; restavam os -ossos, que não emmagrecem nunca. Mal poderia conhecel-a; havia oito ou -nove annos que nos não viamos. Ajoelhado, ao pé da cama, com as mãos -della entre as minhas, fiquei mudo e quieto, sem ousar fallar, porque -cada palavra seria um soluço, e nós temiamos avisal-a do fim. Vão -temor! Ella sabia que estava prestes a acabar; disse-m'o; verificamol-o -na seguinte manhã. - -Longa foi a agonia, longa e cruel, de uma crueldade minuciosa, fria, -repisada, que me encheu de dor e estupefacção. Era a primeira vez -que eu via morrer alguem. Conhecia a morte de outiva; quando muito, -tinha-a visto já petrificada no rosto de algum cadaver, que acompanhei -ao cemiterio, ou trazia-lhe a idéa embrulhada nas amplificações de -rhetorica dos professores de cousas antigas,--a morte aleivosa de -Cesar, a austera de Socrates, a orgulhosa de Catão. Mas esse duello do -ser e do não ser, a morte em acção, dolorida, contrahida, convulsa, -sem apparelho politico ou philosophico, a morte de uma pessoa amada, -essa foi a primeira vez que a pude encarar. Não chorei; lembra-me -que não chorei durante o expectaculo; tinha os olhos estupidos, a -garganta presa, a consciência boquiaberta. Que? uma creatura tão -docil, tão meiga, tão santa, que nunca jamais fizera verter uma -lagrima de desgosto, mãe carinhosa, esposa immaculada, era força que -morresse assim, trateada, mordida pelo dente tenaz de uma doença -sem misericordia? Confesso que tudo aquillo me pareceu obscuro, -incongruente, insano... - -Triste capitulo; passemos a outro mais alegre. - - - - -CAPITULO XXIV - - -Curto, mas alegro - - -Fiquei prostrado. E comtudo era eu, nesse tempo, um fiel compendio de -trivialidade e presumpção. Jamais o problema da vida e da morte me -opprimira o cerebro; nunca até esse dia me debruçara sobre o abysmo do -Inexplicavel; faltava-me o essencial, que é o estimulo, a vertigem... - -Para lhes dizer a verdade toda, eu reflectia as opiniões de um -cabelleireiro, que achei em Modena, o qual se distinguia por não as -ter absolutamente. Era a flor dois cabelleireiros; por mais demorada -que fosse a operação do toucado, não enfadava nunca; elle intercalava -as penteadelas com muitos motes e pulhas, cheios de um pico, de -um sabor... E não tinha outra philosophia. Nem eu. Não digo que a -Universidade me não tivesse ensinado alguma; mas eu decorei-lhe só -as formulas, o vocabulario, o esqueleto. Tratei-a, como tratei o -latim: embolsei tres versos de Virgilio, dous de Horacio, uma duzia -de locuções moraes e politicas, para as despezas da conversação. -Tratei-os como tratei a historia e a jurisprudencia. Colhi de todas as -cousas a phraseologia, a casca, a ornamentação, que eram para o meu -espirito, vaidoso e nu, o mesmo que, para o peito do selvagem, são as -conchas do mar e os dentes de pessoa morta. - -Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a -minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um -defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a -luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar -os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que -faz á consciência; e o melhor da obrigação é quando, á força de -embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso -poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hypocrisia, que é -um vicio hediondo. Mas, na morte, que differença! que desabafo! que -liberdade! Como a gente póde sacudir fóra a capa, deitar ao fosso as -lentejoulas, despregar-se, despintar-se, desaffeitar-se, confessar -lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em summa, já não ha -visinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem extranhos; não -ha platéa. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a -virtude, logo que pisamos o territorio da morte; não digo que elle se -não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não -se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não ha nada tão -incommensuravel como o desdem dos finados. - - - - -CAPITULO XXV - - -Na Tijuca - - -Ui! lá me ia a penna a escorregar para o emphatico. Sejamos simples, -como era simples a vida que levei na Tijuca, durante as primeiras -semanas depois da morte de minha mãe. - -No setimo dia, acabada a missa funebre, travei de uma espingarda, -alguns livros, roupa, charutos, um moleque,--o Prudencio da capitulo -XI,--e fui metter-me n'uma velha, casa de nossa propriedade. Meu -pae forcejou por me torcer a resolução, mas eu é que não podia nem -queria obedecer-lhe. Sabina desejava que eu fosse morar com ella algum -tempo,--duas semanas, ao menos; meu cunhado esteve a ponto de me levar -á fina força. Era um bom rapaz este Cotrim; passára de estroina a -circumspecto. Agora commerciava em generos de estiva, labutava de manhã -até á noite, com ardor, com perseverança. De noite, sentado á janella, -a encaracolar as suiças, não pensava em outra cousa. Amava a mulher e -um filho, que então tinha, e que lhe morreu alguns annos depois. Diziam -que era avaro. - -Renunciei tudo; tinha o espirito attonito. Creio que por então é -que começou a desabotoar em mim a hypocondria, essa flor amarella, -solitaria e morbida, de um cheiro inebriante e subtil.--«Que bom -que é estar triste e não dizer cousa nenhuma!»--Quando esta palavra -de Shakespeare me chamou a attenção, confesso que senti em mim um -echo, um echo delicioso. Lembra-me que estava sentado, debaixo de um -tamarineiro, com o livro do poeta aberto nas mãos, e o espirito ainda -mais cabisbaixo do que a figura,--ou jururú, como dizemos das gallinhas -tristes. Apertava ao peito a minha dor taciturna, com uma sensação -unica, uma cousa a que poderia chamar volupia do aborrecimento. Volupia -do aborrecimento: decora esta expressão, leitor; guarda-a, examina-a, -e se não chegares a entendel-a, podes concluir que ignoras uma das -sensações mais subtis desse mundo e daquelle tempo. - -Ás vezes caçava, outras dormia, outras lia,--lia muito,--outras emfim -não fazia nada; deixava-me atoar de idéa em idéa, de imaginação em -imaginação, como uma borboleta vadia ou faminta; e as horas iam -pingando uma a uma, o sol cahia, as sombras da noite velavam a montanha -e a cidade. Ninguem me visitava; recommendei expressamente que me -deixassem só. Um dia, dous dias, tres dias, uma semana inteira passada -assim, sem dizer palavra, era bastante para sacudir-me da Tijuca fóra -e restituir-me ao bulicio. Com effeito, ao cabo de sete dias, estava -farto da solidão; a dor applacára; o espirito já se não contentava com -o uso da espingarda e dos livros, nem com a vista do arvoredo e do ceu. -Reagia a mocidade, era preciso viver. Metti no bahú o problema da vida -e da morte, os hypocondriacos do poeta, as camisas, as meditações, as -gravatas, e ia fechal-o, quando o moleque Prudencio me disse que uma -pessoa do meu conhecimento se mudára na vespera para uma casa roxa, -situada a duzentos passos da nossa. - ---Quem? - ---Nhonhô talvez não se lembre mais de D. Eusebia... - ---Lembra-me... É ella? - ---Ella e a filha. Vieram hontem de manhã. - -Occorreu-me logo o episodio de 1814, e senti-me vexado; mas adverti que -os acontecimentos tinham-me dado razão. Na verdade, fôra impossivel -evitar as relações intimas do Villaça com a irmã do sargento-mór; antes -mesmo do meu embarque, já se boquejava mysteriosamente no nascimento -de uma menina. Meu tio João mandou-me dizer depois que o Villaça, ao -morrer, deixara um bom legado a D. Eusebia, cousa que deu muito que -fallar em todo o bairro. O proprio tio João, guloso de escandalos, não -tratou de outro assumpto na carta, aliás de muitas folhas. Tinham-me -dado razão os acontecimentos. Ainda porém que m'a não dessem, 1814 lá -ia longe, e, com elle, a travessura, e o Villaça, e o beijo da moita; -finalmente, nenhumas relações estreitas existiam entre mim e ella. Fiz -commigo essa reflexão e acabei de fechar o bahú. - ---Nhonhô não vae visitar sinhá D. Eusebia? perguntou-me o Prudencio. -Foi ella quem vestiu o corpo da minha defunta senhora. - -Lembrei-me que a vira, entre outras senhoras, por occasião da morte e -do enterro; ignorava porém que ella houvesse prestado a minha mãe esse -derradeiro obsequio. A ponderação do moleque era razoavel; eu devia-lhe -uma visita; determinei fazel-a immediatamente, e descer. - - - - -CAPITULO XXVI - - -O autor hesita - - -Súbito ouço uma voz:--Olá, meu rapaz, isto não é vida! Era meu pae, que -chegava com duas propostas na algibeira. Sentei-me no bahú e recebi-o -sem alvoroço. Elle esteve alguns instantes de pé, a olhar para mim; -depois estendeu-me a mão com um gesto commovido: - ---Meu filho, conforma-te com a vontade de Deus. - ---Já me conformei, foi a minha resposta, e beijei-lhe a mão. - -Não tinha almoçado; almoçámos juntos. Nenhum de nós alludiu ao triste -motivo da minha reclusão. Uma só vez fallámos nisso, de passagem, -quando meu pae fez recahir a conversa na Regencia; foi então que -alludiu á carta de pezames que um dos Regentes lhe mandara. Trazia a -carta comsigo, já bastante amarrotada, talvez por havel-a lido a muitas -outras pessoas. Creio haver dito que era de um dos Regentes. Leu-m'a -duas vezes. - ---Já lhe fui agradecer este signal de consideração, concluiu meu pae, e -acho que deves ir tambem... - ---Eu? - ---Tu; é um homem notavel, faz hoje as vezes de Imperador. Demais trago -commigo uma idéa, um projecto, ou... sim, digo-te tudo; trago dous -projectos, um logar de deputado e um casamento. - -Meu pae disse isto com pausa, e não no mesmo tom, mas dando ás palavras -um geito e disposição, cujo fim era caval-as mais profundamente no -meu espirito. A proposta, porém, desdizia tanto das minhas sensações -ultimas, que eu cheguei a não entendel-a bem. Meu pae não fraqueou e -repetiu-a; encareceu o logar e a noiva. - ---Aceitas? - ---Não entendo de politica, disse eu depois de um instante; quanto á -noiva... deixe-me viver como um urso, que sou. - ---Mas os ursos casam-se, replicou elle. - ---Pois traga-me uma ursa. Olhe, a Ursa-Maior. - -Riu-se meu pae, e depois de rir, tornou a fallar serio. Era-me -necessaria a carreira politica, dizia elle, por vinte e tantas razões, -que deduziu com singular volubilidade, illustrando-as com exemplos -de pessoas do nosso conhecimento. Quanto á noiva, bastava que eu a -visse; se a visse, iria logo pedil-a ao pae, logo, sem demora de um -dia. Experimentou assim a fascinação, depois a persuasão, depois a -intimação; eu não dava resposta, afiava a ponta de um palito ou fazia -bolas de miolo de pão, a sorrir ou a reflectir; e, para tudo dizer, nem -docil nem rebelde á proposta. Sentia-me aturdido. Uma parte de mim -mesmo dizia que sim, que uma esposa formosa e uma posição politica eram -bens dignos de apreço; outra dizia que não; e a morte de minha mãe me -apparecia como um exemplo da fragilidade das cousas, das affeições, da -familia... - ---Não vou daqui sem uma resposta definitiva, disse meu pae. -De-fi-ni-ti-va! repetiu, batendo as syllabas com o dedo. - -Bebeu o ultimo gole de café; repotreou-se, e entrou a fallar de tudo, -do senado, da camara, da Regencia, da restauração, do Evaristo, de um -coche que pretendia comprar, da nossa casa de Matta-cavallos... Eu -deixava-me estar ao canto da mesa, a escrever desvairadamente n'um -pedaço de papel, com uma ponta de lapis; traçava uma palavra, uma -phrase, um verso, um nariz, um triangulo, e repetia-os muitas vezes, -sem ordem, ao acaso, assim: - - arma virumque cano - A - Arma virumque cano - arma virumque cano - arma virumque - arma virumque cano - virumque - -Machinalmente tudo isto; e, não obstante, havia certa lógica, certa -deducção; por exemplo, foi o _virumque_ que me fez chegar ao nome -do proprio poeta, por causa da primeira syllaba; ia a escrever -_virumque_--e sae-me _Virgilio_, então continuei: - - Vir Virgilio - Virgilio Virgilio - Virgilio - Virgilio - -Meu pae, um pouco despeitado com aquella indifferença, ergueu-se, veiu -a mim, lançou os olhos ao papel... - ---Virgilio! exclamou. És tu, meu rapaz; a tua noiva chama-se justamente -Virgilia. - - - - -CAPITULO XXVII - - -Virgilia? - - -Virgilia? Mas então era a mesma senhora que alguns annos depois...? A -mesma; era justamente a senhora, que em 1869 devia assistir aos meus -ultimos dias, e que antes, muito antes, teve larga parte nas minhas -mais intimas sensações. Naquelle tempo contava apenas uns quinze ou -dezeseis annos, e era talvez a mais atrevida creatura da nossa raça, -e, com certeza, a mais voluntariosa. Não digo que já lhe coubesse -a primazia da belleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto não -é romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos -ás sardas e espinhas; mas tambem não digo que lhe maculasse o rosto -nenhuma sarda ou espinha; não. Era bonita, fresca, sahia das mãos da -natureza, cheia daquelle feitiço, precario e eterno, que o individuo -passa a outro individuo, para os fins secretos da creação. Era isto -Virgilia, e era clara, muito clara, faceira, ignorante, pueril, cheia -de uns impetos mysteriosos; muita preguiça e alguma devoção,--devoção, -ou talvez medo; creio que medo. - -Ahi tem o leitor, em poucas linhas, o retrato physico e moral da pessoa -que devia influir mais tarde na minha vida; era aquillo com dezeseis -annos. Tu que me lês, se ainda fores viva, quando estas paginas vierem -á luz,--tu que me lês, Virgilia amada, não reparas na differença entre -a linguagem de hoje e a que primeiro empreguei quando te vi? Crê que -era tão sincero então como agora; a morte não me tornou rabujento, nem -injusto. - ---Mas, dirás tu, se você não guardou na retina da memoria a imagem do -que fui, como é que póde assim discernir a verdade daquelle tempo, e -exprimil-a depois de tantos annos? - -Ah! indiscreta! ah! ignorantona! Mas é isso mesmo que nos faz -senhores da terra, é esse poder de restaurar o passado, para tocar a -instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos nossos affectos. -Deixa lá dizer o Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é -uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, -que corrige a anterior, e que será corrigida tambem, até a edição -definitiva, que o editor dá de graça aos vermes. - - - - -CAPITULO XXVIII - - -Contanto que... - - ---Virgilia? interrompi eu. - ---Sim, senhor; é o nome da noiva. Um anjo, meu pateta, um anjo sem -azas. Imagina uma moça assim, desta altura, viva como um azougue, e uns -olhos... filha do Dutra... - ---Que Dutra? - ---O Conselheiro Dutra; não conheces; uma influencia politica. Vamos lá; -aceitas? - -Não respondi logo; fitei por alguns segundos a ponta do botim; declarei -depois que estava disposto a examinar as duas cousas, a candidatura e o -casamento, comtanto que... - ---Comtanto que? - ---Comtanto que não fique obrigado a aceitar as duas; creio que posso -ser separadamente homem casado ou homem publico... - ---Todo o homem publico deve ser casado, interrompeu sentenciosamente -meu pae. Mas seja como queres; estou por tudo; fico certo de que a -vista fará fé. Demais, a noiva e o casamento são a mesma cousa... isto -é, não... saberás depois... Vá; aceito a dilação, comtanto que... - ---Comtanto que?.. interrompi eu imitando-lhe a voz. - ---Ah! brejeiro! Comtanto que não te deixes ficar ahi inutil, obscuro, -e triste; não gastei dinheiro, cuidados, empenhos, para te não ver -brilhar, como deves, e te convem, e a todos nós; é preciso continuar -o nosso nome, continual-o e illustral-o ainda mais. Olha, estou com -sessenta annos, mas se fosse necessário começar vida nova, começava-a -sem hesitar um só minuto. Teme a obscuridade, Braz; foge do que é -infimo. Olha que os homens valem por differentes modos, e que o mais -seguro de todos é valer pela opinião dos outros homens. Não estragues -as vantagens da tua posição, os teus meios... - -E foi por deante o magico, a agitar deante de mim um chocalho, como me -faziam, em pequeno, para eu andar depressa, e a flor da hypocondria -recolheu-se ao botão para deixar a outra flor menos amarella, e nada -morbida,--o amor da nomeada, o emplasto Braz Cubas. - - - - -CAPITULO XXIX - - -A visita - - -Vencera meu pae; dispuz-me a aceitar o diploma e o casamento, Virgilia -e a camara dos deputados.--As duas Virgilias, disse elle n'um assomo -de ternura politica. Aceitei-os; meu pae deu-me dous fortes abraços. -Era o seu proprio sangue que elle, emfim, reconhecia. Rigorosamente, -o filho delle acabava de desembarcar naquelle instante, de rodaque de -linho e mãos nos bolsos. Havia então nos olhos de meu pae alguma cousa -do velho Cid; era a alma que colligira n'uma só flamma todas as ultimas -scentelhas. - ---Desces commigo? - ---Desço amanhã. Vou fazer primeiramente uma visita a D. Eusebia... - -Meu pae torceu o nariz, mas não disse nada; despediu-se e desceu. Eu, -na tarde desse mesmo dia, fui visitar D. Eusebia. Achei-a a reprehender -um preto jardineiro, mas deixou tudo para vir fallar-me, com um -alvoroço, um prazer tão sincero, que me desacanhou logo. Creio que -chegou a cingir-me com o seu par de braços robustos. Fez-me sentar ao -pé de si, na varanda, entre muitas exclamações de contentamento. - ---Ora, o Brázinho! Um homem! Quem diria, ha annos... Um homemzarrão! E -bonito! Qual! Você não se lembra bem de mim... - -Disse-lhe que sim, que não era possivel esquecer uma amiga tão -familiar de nossa casa. D. Eusebia começou a fallar de minha mãe, com -muitas saudades, com tantas saudades, que me captivou logo, posto -me entristecesse. Ella percebeu-o nos meus olhos, e torceu a rédea -á conversação; pediu-me que lhe contasse a viagem, os estudos, os -namoros... Sim, os namoros tambem; confessou-me que era uma velha -patusca. Nisto recordei-me do episodio de 1814, ella, o Villaça, a -moita, o beijo, o meu grito; e estando a recordal-o, ouço um ranger de -porta, um farfalhar de saias e esta palavra: - ---Mamãe... mamãe... - - - - -CAPITULO XXX - - -A flor da moita - - -A voz e as saias pertenciam a uma mocinha morena, que se deteve á -porta, alguns instantes, ao ver gente extranha. Silencio curto e -constrangido. D. Eusebia quebrou-o, enfim, com resolução e franqueza: - ---Vem cá, Eugenia, disse ella, comprimenta o Dr. Braz Cubas, filho do -Sr. Cubas; veiu da Europa. - -E voltando-se para mim: - ---Minha filha Eugenia. - -Eugenia, a flor da moita, mal respondeu ao gesto de cortezia que lhe -fiz; olhou-me admirada e acanhada, e lentamente se aproximou da cadeira -da mãe. A mãe arranjou-lhe uma das tranças do cabello, cuja ponta se -desmanchara.--Ah! travessa! dizia. Não imagina, doutor, o que isto -é... E beijou-a com tão expansiva ternura que me commoveu um pouco; -lembrou-me minha mãe, e,--direi tudo,--tive umas cocegas de ser pae. - ---Travêssa? disse eu. Pois já não está em edade propria, ao que parece. - ---Quantos lhe dá? - ---Dezesete. - ---Menos um. - ---Dezeseis. Pois então! é uma moça. - -Não pôde Eugenia encobrir a satisfação que sentia com esta minha -palavra, mas emendou-se logo, e ficou como d'antes, erecta, fria e -muda. Na verdade, ella parecia ainda mais mulher do que era; seria -criança nos seus folgares de moça; mas assim quieta, impassivel, -tinha a compostura da mulher casada. Talvez essa circumstancia lhe -diminuia um pouco da graça virginal. Depressa nos familiarisámos; a mãe -fazia-lhe grandes elogios, eu escutava-os de boa sombra; e ella sorria, -com os olhos fulgidos, como se lá dentro do cerebro lhe estivesse a -voar uma borboletinha de azas de ouro e olhos de diamante... - -Digo lá dentro, porque cá fóra o que esvoaçou foi uma borboleta preta, -que subitamente penetrou na varanda, e começou a bater as azas em -derredor de D. Eusebia. D. Eusebia deu um grito, levantou-se, praguejou -umas palavras soltas:--T'esconjuro!... sáe, diabo!... Virgem Nossa -Senhora!... - ---Não tenha medo, disse eu; e, tirando o lenço, expelli a borboleta. D. -Eusebia sentou-se outra vez, offegante, um pouco envergonhada; a filha, -pode ser que pallida de medo, dissimulava a impressão com muita força -de vontade. Apertei-lhes a mão e saí, a rir commigo da superstição -das duas mulheres, um rir philosophico, desinteressado, superior. -De tarde, vi passar a cavallo afilha de D. Eusebia, seguida de um -pagem; fez-me um comprimento com a ponta do chicote; e confesso que me -lisongeei com a idéa de que, alguns passos adeante, ella voltaria a -cabeça para traz; mas não voltou. - - - - -CAPITULO XXXI - - -A borboleta preta - - -No dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou -no meu quarto uma borboleta, tão negra como a outra, e muito maior do -que ella. Lembrou-me o caso da vespera, e ri-me; entrei logo a pensar -na filha de D. Eusebia, no susto que tivera, e na dignidade que, apezar -delle, soube conservar. A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno -de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ella foi pousar na vidraça; e, -porque eu a sacudisse de novo, saíu* dalli e veiu parar em cima de um -velho retrato de meu pae. Era negra como a noite; e o gesto brando -com que, uma vez posta, começou a mover as azas, tinha um certo ar -escarninho, uma especie de ironia mephistophelica, que me aborreceu -muito. Dei de hombros, saí do quarto; mas tornando lá, minutos depois, -e achando-a ainda no mesmo logar, senti um repellão dos nervos, lancei -mão de uma toalha, bati-lhe e ella caíu. - -Não caíu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. -Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depol-a no peitoril da -janella. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei -um pouco aborrecido, incommodado. - ---Tambem porque diabo não era ella azul? disse eu commigo. - -E esta reflexão,--uma das mais profundas que se tem feito, desde a -invenção das borboletas,--me consolou do maleficio, e me reconciliou -commigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadaver, com alguma -sympathia, confesso. Imaginei que ella saíra do mato, almoçada e feliz. -A manhã era linda. Veiu por alli fóra, modesta e negra, espairecendo -as suas borboletices sob a vasta cupula de um céo azul, que é sempre -azul, para todas as azas. Passa pela minha janella, entra e dá commigo. -Supponho que nunca teria visto um homem; não-sabia, portanto, o que era -o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que -me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura -collossal. Então disse comsigo: «Este é provavelmente o inventor das -borboletas.» A idéa subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é tambem -suggestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu creador -era beijal-o na testa; e ella beijou-me na testa. Quando enxotada por -mim, foi pousar na vidraça, viu dalli o retrato de meu pae, e não é -impossivel que descobrisse meia verdade, a saber, que estava alli o pae -do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericordia. - -Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a immensidade -azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra -uma toalha de rosto, dous palmos de linho crú. Vejam como é bom ser -superior ás borboletas! Porque, é* justo dizel-o, se ella fosse azul, -ou côr de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossivel -que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. Não -era. Esta ultima idéa restituiu-me a consolação, uni o dedo grande ao -polegar, despedi um piparote e o cadaver caiu no jardim. Era tempo; ahi -vinham já as providas formigas... Não, volto á primeira idéa; creio que -para ella era melhor ter nascido azul. - - - - -CAPITULO XXXII - - -Coxa de nascença - - -Fui dalli acabar os preparativos da viagem. Já agora não me demoro -mais. Desço immediatamente; desço ainda que algum leitor circumspecto -me detenha para perguntar se o capitulo passado é apenas uma sensaboria -ou se chega a empulhação... Ai de mim! Não contava com D. Eusebia. -Estava prompto, quando me entrou por casa. Vinha convidar-me para -transferir a descida, e ir lá jantar nesse dia. Cheguei a recusar; mas -instou tanto, tanto, tanto, que não pude deixar de aceitar; demais, -era-lhe devida aquella compensação; fui. - -Eugenia desataviou-se nesse dia por minha causa. Creio que foi por -minha causa,--se é que não andava muita vez assim. Nem as bichas de -ouro, que trazia na vespera, lhe pendiam agora das orelhas, duas -orelhas finamente recortadas n'uma cabeça de nympha. Um simples vestido -branco, de cassa, sem enfeites, tendo ao collo, em vez de broche, um -botão de madreperola, e outro botão nos punhos, fechando as mangas, e -nem sombra de pulseira. - -Era isso no corpo; não era outra cousa no espirito. Idéas claras, -maneiras chãs, certa graça natural, um ar de senhora, e não sei se -alguma outra cousa; sim, a boca, exactamente a boca da mãe, a qual me -lembrava o episodio de 1814, e então dava-me impetos de glosar o mesmo -mote á filha... - ---Agora vou mostrar-lhe a chacara, disse a mãe, logo que exgotámos o -ultimo gole de café. - -Saímos á varanda, dalli á chacara; e foi então que notei uma -circumstancia. Eugenia coxeava um pouco, tão pouco, que eu cheguei a -perguntar-lhe se machucara o pé. A mãe calou-se; a filha respondeu sem -titubear: - ---Não, senhor, sou coxa de nascença. - -Mandei-me a todos os diabos; chamei-me desastrado, grosseirão. Com -effeito, a simples possibilidade de ser coxa era bastante para lhe -não perguntar nada. Então lembrou-me que da primeira vez que a vi na -vespera--a moça chegára-se lentamente á cadeira da mãe, e que naquelle -dia já a achei á mesa de jantar. Talvez fosse para encobrir o defeito; -mas por que razão o confessava agora? Olhei para ella e reparei que ia -triste. - -Tratei de apagar os vestigios de meu desaso;--não me foi difficil, por -que a mãe era, segundo confessara, uma velha patusca, e promptamente -travou de conversa commigo. Vimos toda a chacara, arvores, flores, -tanque de patos, tanque de lavar, uma infinidade de cousas, que ella me -ia mostrando, e commentando, ao passo que eu, de soslaio, perscrutava -os olhos de Eugenia... - -Palavra que o olhar de Eugenia não era coxo, mas direito, perfeitamente -são; vinha de uns olhos pretos e tranquillos. Creio que duas ou tres -vezes baixaram elles a terra, um pouco turvados; mas duas ou tres -vezes sómente; em geral, fitavam-me com franqueza, sem temeridade, nem -biocos. - - - - -CAPITULO XXXIII - - -Bemaventurados os que não descem - - -O peor é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma -compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a -natureza é ás vezes um immenso escarneo. Porque bonita, se coxa? porque -coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo -ao voltar para casa, de noite; e não atinava com a solução do enigma. -O melhor que ha, quando se não resolve um enigma, é sacudil-o pela -janella fóra; foi o que eu fiz; lancei mão de uma toalha e enxotei essa -outra borboleta preta, que me adejava no cerebro. Fiquei alliviado e -fui dormir. Mas o sonho, que é uma fresta do espirito, deixou novamente -entrar o bichinho, e ahi fiquei eu a noite toda a cavar o mysterio, sem -explical-o. - -Amanheceu chovendo, transferi a descida; mas no outro dia, a manhã -era limpida e azul, e apezar disso deixei-me ficar, não menos que -no terceiro dia, e no quarto, até o fim da semana. Manhãs bonitas, -frescas, convidativas; lá em baixo a familia a chamar-me, e a noiva, e -o parlamento, e eu sem acudir a cousa nenhuma, enlevado ao pé da minha -Venus Manca. Enlevado é uma maneira de realçar o estylo; não havia -enlevo, mas gosto, uma certa satisfação physica e moral. Queria-lhe, -é verdade; ao pé dessa creatura tão singela, filha espuria e coxa, -feita de amor e desprezo, ao pé della sentia-me bem, e ella creio que -ainda se sentia melhor ao pé de mim. E isto na Tijuca. Uma simples -egloga. D. Eusebia vigiava-nos, mas pouco; temperava a necessidade -com a conveniencia; e a filha, nessa primeira explosão da natureza, -entregava-me a alma em flôr. - ---O senhor desce amanhã? disse-me ella no sabbado. - ---Pretendo. - ---Não desça. - -Não desci; e accrescentei um versiculo ao Evangelho:--Bemaventurados -os que não descem, porque delles é o primeiro beijo das damas. Com -effeito, foi no domingo esse primeiro beijo de Eugenia,--o primeiro que -nenhum outro varão jamais lhe tomára, e não furtado ou arrebatado, mas -candidamente entregue, como um devedor honesto paga uma divida. Pobre -Eugenia! Se tu soubesses que idéas me vagavam pela mente fóra n'aquella -occasião! Tu, tremula de commoção, com os braços nos meus hombros, a -contemplar em mim o teu bemvindo esposo, e eu com os olhos em 1814, na -moita, no Villaça, e a suspeitar que não podias mentir ao teu sangue, á -tua origem... - -D. Eusebia entrou inesperadamente, mas não tão subita, que nos -apanhasse ao pé um do outro. Eu fui até á janella: Eugenia sentou-se a -concertar uma das tranças. Que dissimulação graciosa! que arte infinita -e delicada! que tartufice profunda! e tudo isso natural vivo, não -estudado, natural como o appetite, natural como o somno. Tanto melhor! -D. Eusebia não suspeitou nada. - - - - -CAPITULO XXXIV - - -A uma alma sensivel - - -Ha ahi, entre as cinco ou dez pessoas que me leem, ha ahi uma alma -sensivel, que está de certo um pouquito agastada com o capitulo -anterior, começa a tremer pela sorte de Eugenia, e talvez... sim, -talvez, lá no fundo de si mesma, me chame cynico. Eu cynico, alma -sensivel? Pela coxa de Diana! esta injuria merecia ser lavada com -sangue, se o sangue lavasse alguma cousa nesse mundo. Não, alma -sensivel, eu não sou cynico, eu fui homem; meu cerebro foi um tablado -em que se deram peças de todo o genero, o drama sacro, o austero, o -piegas, a comedia louçã, a desgrenhada farça, os autos, as bufonerias, -um pandemonium, alma sensível, uma barafunda de cousas e pessoas, -em que podias ver tudo, desde a rosa de Smyrna até a arruda do teu -quintal, desde o magnifico leito de Cleopatra até o recanto da praia -em que o mendigo tirita o seu somno. Cruzavam-se nelle pensamentos -de varia casta e feição. Não havia alli a atmosphera sómente da aguia -e do beija-flor, havia tambem a da lesma e do sapo. Retira, pois, a -expressão, alma sensivel, castiga os nervos, limpa os oculos,--que isso -ás vezes é dos oculos,--e acabemos de uma vez com esta flor da moita. - - - - -CAPITULO XXXV - - -O caminho de damasco - - -Ora aconteceu, que, oito dias depois, como eu estivesse no caminho -de Damasco, ouvi uma voz misteriosa, que me sussurrou as palavras da -Escriptura (_Act._, IX, 7): «Levanta-te, e entra na cidade.» Essa voz -saia de mim mesmo, e tinha duas origens: a piedade, que me desarmava -ante a candura da pequena, e o terror de vir a amar devéras, e -desposal-a. Uma mulher coxa! Quanto a este motivo da minha descida, não -ha duvidar que ella o achou e m'o disse. Foi na varanda, na tarde de -uma segunda-feira, ao annunciar-lhe que na seguinte manhã viria para -baixo.--Adeus, suspirou ella estendendo-me a mão com simplicidade; faz -bem.--E como eu nada dissesse, continuou:--Faz bem em fugir ao ridículo -de casar commigo. Ia dizer-lhe que não; ella retirou-se lentamente, -engolindo as lagrimas. Alcancei-a a poucos passos, e jurei-lhe por -todos os santos do ceu que eu era obrigado a descer, mas que não -deixava de lhe querer e muito; tudo hyperboles frias, que ella escutou -sem dizer nada. - ---Acredita-me? perguntei eu no fim. - ---Não; e digo-lhe que faz bem. - -Quiz retel-a, mas o olhar que me lançou não foi já de supplica, senão -de imperio. Eu desci da Tijuca, na manhã seguinte, um pouco amargurado, -outro pouco satisfeito; e vinha dizendo a mim mesmo que era justo -obedecer a meu pae, que era conveniente abraçar a carreira politica... -que a constituição... que a minha noiva... que o meu cavallo... - - - - -CAPITULO XXXVI - - -A proposito de botas - - -Meu pae, que me não esperava, abraçou-me cheio de ternura e -agradecimento.--Agora é devéras? disse elle. Posso emfim....? - -Deixei-o nessa reticencia, e fui descalçar as botas, que estavam -apertadas. Uma vez alliviado, respirei á larga, e deitei-me a fio -comprido, emquanto os pés, e todo eu atraz delles, entravamos n'uma -relativa bem-aventurança. Então considerei que as botas apertadas -são uma das maiores venturas da terra, porque, fazendo doer os pés, -dão azo ao prazer de as descalçar. Mortifica os pés, desgraçado, -desmortifica-os depois, e ahi tens a felicidade barata, ao sabor dos -sapateiros e de Epicuro. Emquanto esta idéa me trabalhava no famoso -trapezio, lançava eu os olhos para a Tijuca, e via a aleijadinha -perder-se no horizonte do preterito, e sentia que o meu coração não -tardaria tambem a descalçar as suas botas. E descalçou-as o lascivo. -Quatro ou cinco dias depois, saboreava esse rapido, ineffavel e -incoercivel momento de gozo, que succede a uma dôr pungente, a uma -preoccupação, a um incommodo... Daqui inferi eu que a vida é o mais -engenhoso dos phenomenos, porque só aguça a fome, com o fim de deparar -a occasião de comer, e não inventou os callos, senão porque elles -aperfeiçoam a felicidade terrestre. Em verdade vos digo que toda a -sabedoria humana não vale um par de botas curtas. - -Tu, minha Eugenia, é que não as descalçaste nunca; foste ahi pela -estrada da vida, manquejando da perna e do amor, triste como os -enterros pobres, solitaria, calada, laboriosa, até que vieste tambem -para esta outra margem... O que eu não sei é se a tua existência era -muito necessaria ao século. Quem sabe? Talvez um comparsa de menos -fizesse patear a tragedia humana. - - - - -CAPITULO XXXVII - - -Emfim - - -Emfim! eis aqui Virgilia. Antes de ir á casa do Conselheiro Dutra, -perguntei a meu pae se havia algum ajuste prévio de casamento. - ---Nenhum ajuste. Ha tempos, conversando com elle a teu respeito, -confessei-lhe o desejo que tinha de te ver deputado; e de tal modo -fallei, que elle prometteu fazer alguma cousa, e creio que o fará. -Quanto á noiva, é o nome que dou a uma creaturinha, que é uma joia, uma -flôr, uma estrella, uma cousa rara... é a filha delle; imaginei que, se -casasses com ella, mais depressa serias deputado. - ---Só isto? - ---Só isto. - -Fomos dalli á casa do Dutra. Era uma perola esse homem, risonho, -jovial, patriota, um pouco irritado com os males publicos, mas não -desesperando de os curar depressa. Achou que a minha candidatura era -legitima; convinha, porém, esperar alguns mezes. E logo me apresentou á -mulher,--uma estimavel senhora,--e á filha, que não desmentiu em nada -o panegyrico de meu pae. Juro-vos que em nada. Relêde o Cap. XXVIII. -Eu, que levava idéas a respeito da pequena, fitei-a de certo modo; -ella, que não sei se as tinha, não me fitou de modo differente; e o -nosso olhar primeiro foi pura e simplesmente conjugal. No fim de um mez -estavamos intimos. - - - - -CAPITULO XXXVIII - - -A quarta edição - - ---Venha cá jantar amanhã, disse-me o Dutra uma noite. - -Aceitei o convite. No dia seguinte, mandei que a sege me esperasse no -largo de S. Francisco de Paula, e fui dar varias voltas. Lembra-vos -ainda a minha theoria das edições humanas? Pois sabei que, naquelle -tempo, estava eu na quarta edição, revista e emendada, mas ainda -inçada de descuidos e barbarismos; defeito que, aliás, achava alguma -compensação no typo, que era elegante, e na encadernação, que era -luxuosa. Dadas as voltas, ao passar pela rua dos Ourives, consulto o -relogio e cáe-me o vidro na calçada. Entro na primeira loja que tinha á -mão; era um cubiculo,--pouco mais,--empoeirado e escuro. - -Ao fundo, por traz do balcão, estava sentada uma mulher, cujo rosto -amarello e bexiguento não se destacava logo, á primeira vista; mas logo -que se destacava era um expectaculo curioso. Não podia ter sido feia; -ao contrario, via-se que fora bonita, e não pouco bonita; mas a doença -e uma velhice precoce, destruiram-lhe a flor das graças. As bexigas -tinham sido terriveis; os signaes, grandes e muitos, faziam saliencias -e encarnas, declives e acclives; e davam uma sensação de lixa grossa, -enormemente grossa. Eram os olhos a melhor parte do vulto, e aliás -tinham uma expressão singular e repugnante, que mudou, entretanto, logo -que eu comecei a fallar. Quanto ao cabello, penteado ao desdem, estava -ruço e quasi tão poento como os portaes do loja. N'um dos dedos da mão -esquerda fulgia-lhe um diamante. Crel-o-heis, posteros? essa mulher era -Marcella. - -Não a conheci logo; era difficil; ella porém conheceu-me apenas lhe -dirigi a palavra. Os olhos chisparam e trocaram a expressão usual -por outra, meia doce e meia triste. Vi-lhe um movimento como para -esconder-se ou fugir; era o instincto da vaidade, que não durou mais de -um instante. Marcella accommodou-se e sorriu. - ---Quer comprar alguma cousa? disse ella estendendo-me a mão. - -Não respondi nada; Marcella comprehendeu a causa do meu silencio (não -era difficil), e só hesitou, creio eu, em decidir o que dominava -mais, se o assombro do presente, se a memoria do passado. Deu-me uma -cadeira, e, com o balcão permeio, fallou-me longamente de si, da vida -que levára, das lagrimas que eu lhe fizera verter, das saudades, dos -desastres, emfim das bexigas, que lhe escalavraram o rosto, e do -tempo, que ajudou a molestia, adiantando-lhe a decadencia. Verdade é -que tinha a alma decrepita. Vendera tudo, quasi tudo; um homem, que a -amára outr'ora, e lhe morreu nos braços, deixara-lhe aquella loja de -ourivesaria, mas, para que a desgraça fosse completa, era agora pouco -buscada a loja--talvez pela singularidade de a dirigir uma mulher. Em -seguida pediu-me que lhe contasse a minha vida. Gastei pouco tempo em -dizer-ll'a; não era longa, nem interessante. - ---Casou? disse Marcella no fim de minha narração. - ---Ainda não, respondi seccamente. - -Marcella lançou os olhos para a rua, com a atonia de quem reflecte ou -relembra; eu deixei-me ir então ao passado, e, no meio das recordações -e saudades, perguntei a mim mesmo por que motivo fizera tanto desatino. -Não era esta certamente a Marcella de 1822; mas a belleza de outro -tempo valia uma terça parte dos meus sacrificios? Era o que eu buscava -saber, interrogando o rosto de Marcella. O rosto dizia-me que não; ao -mesmo tempo os olhos me contavam que, já outr'ora, como hoje, ardia -nelles a flamma da cobiça. Os meus é que não souberam ver-lh'a; eram -olhos da primeira edição. - ---Mas por que entrou aqui? viu-me da rua? porguntou ella, saindo -daquella especie de torpor. - ---Não, suppunha entrar n'uma casa de relojoeiro; queria comprar um -vidro para este relogio; vou a outra parte; desculpe-me; tenho pressa. - -Marcella suspirou com tristeza. A verdade é que eu me sentia pungido -e aborrecido, ao mesmo tempo, e anciava por me ver fóra daquella casa. -Marcella, entretanto, chamou um moleque, deu-lhe o relogio, e, apezar -da minha opposição, mandou-o, a uma loja na visinhança, comprar o -vidro. Não havia remedio; sentei-me outra vez. Disse ella então que -desejava ter a protecção dos conhecidos de outro tempo; ponderou que -mais tarde ou mais cedo era natural que me casasse, e afiançou que me -daria finas joias por preços baratos. Não disse _preços baratos_, mas -usou uma metaphora delicada e transparente. Entrei a desconfiar que -não padecera nenhum desastre (salvo a molestia), que tinha o dinheiro -a bom recado, e que negociava com o unico fim de acudir á paixão do -lucro, que era o verme roedor daquella existencia; foi isso mesmo que -me disseram depois. - - - - -CAPITULO XXXIX - - -O visinho - - -Emquanto eu fazia commigo mesmo aquella reflexão, entrou na loja um -sujeito baixo, sem chapeu, trazendo pela mão uma menina de quatro annos. - ---Como passou de hoje de manhã? disse elle a Marcella. - ---Assim, assim. Vem cá, Maricota. - -O sujeito levantou a criança pelos braços e passou-a para dentro do -balcão. - ---Anda, disse elle; pergunta a D. Marcella como passou a noite. Estava -anciosa por vir cá, mas a mãe não tinha podido vestil-a... Então, -Maricota? Toma a benção. .. Olha a vara de marmelo! Assim... Não -imagina o que ella é lá em casa; falla na senhora a todos os instantes, -e aqui parece uma pamonha. Ainda hontem... Digo, Maricota? - ---Não, diga, não, papae. - ---Então foi alguma cousa feia? perguntou Marcella batendo na cara da -menina. - ---Eu lhe digo; a mãe ensina-lhe a rezar todas as noites um padre-nosso -e uma ave-maria, offerecidos a Nossa Senhora; mas a pequena hontem -veiu pedir-me com voz muito humilde... imagine o que?... que queria -offerecel-os a Santa Marcella. - ---Coitadinha! disse Marcella beijando-a. - ---É um namoro, uma paixão, como a senhora não imagina ... A mãe diz que -é feitiço... - -Contou mais algumas cousas o sujeito, todas mui agradaveis, até que -saiu levando a menina, não sem deitar-me um olhar interrogativo ou -suspeitoso. Perguntei a Marcella quem era elle. - ---É um relojoeiro de visinhança, um bom homem; a mulher tambem; e a -filha é galante, não? Parecem gostar muito de mim... é boa gente. - -Ao proferir estas palavras havia um tremor de alegria na voz de -Marcella; e no rosto como que se lhe espraiou uma onda de ventura... - - - - -CAPITULO XL - - -Na sege - - -Nisto entrou o moleque trazendo o relogio com o vidro novo. Era tempo; -já me custava estar alli; dei uma moedinha de prata ao moleque; disse -a Marcella que voltaria n'outra occasião, e saí a passo largo. Para -dizer tudo, devo confessar que o coração me batia um pouco; mas era -uma especie de dobre de finados. O espirito ia travado de impressões -oppostas. Notem que aquelle dia amanhecera alegre para mim. Meu pae, ao -almoço, repetiu-me, por anticipação, o primeiro discurso que eu tinha -de proferir na camara dos deputados; rimo-nos muito, e o sol tambem, -que estava brilhante, como nos mais bellos dias do mundo; do mesmo modo -que Virgilia devia rir, quando eu lhe contasse as nossas fantasias do -almoço. Vae se não quando, cáe-me o vidro do relogio; entro na primeira -loja que me fica á mão; e eis me surge o passado, eil-o que me lacera -e beija; eil-o que me interroga, com um rosto cortado de saudades e -bexigas... - -Lá o deixei; metti-me ás pressas na sege, que me esperava no largo -do S. Francisco de Paula, e ordenei ao boleeiro que rodasse pelas -ruas fóra. O boleeiro atiçou as bestas, a sege entrou a sacolejar-me, -as molas gemiam, as rodas sulcavam rapidamente a lama que deixara a -chuva recente, e tudo isso me parecia estar parado. Não ha, ás vezes, -um certo vento, morno que não bochorno, não forte nem aspero, mas -abafadiço, que nos não leva o chapéo da cabeça, nem rodomoinha nas -saias das mulheres, e todavia é ou parece ser peior do que se fizesse -uma e outra cousa, porque abate, afrouxa, e como que dissolve os -espiritos? Pois eu tinha esse vento commigo; e, certo de que elle me -soprava por achar-me naquella especie de garganta entre o passado e o -presente, almejava por sair á planicie do futuro. O peior é que a sege -não andava. - ---João, bradei eu ao boleeiro. Esta sege anda ou não anda? - ---Uê! nhonhô! Já estamos parados na porta de sinhô Conselheiro. - - - - -CAPITULO XLI - - -A allucinação - - -E era verdade. Entrei apressado; achei Virgilia anciosa, mau humor, -fronte nublada. A mãe, que era surda, estava na sala com ella. No fim -dos comprimentos disse-me a moça com sequidão: - ---Esperavamos que viesse mais cedo. - -Defendi-me do melhor modo; fallei do cavallo que empacara, e de um -amigo, que me detivera. De repente morre-me a voz nos labios, fico -tolhido de assombro. Virgilia... seria Virgilia aquella moça? Fitei-a -muito; e a sensação foi tão penosa, que recuei um passo e desviei a -vista. Tornei a olhal-a. As bexigas tinham-lhe comido o rosto; a pelle, -ainda na vespera tão fina, rosada e pura, apparecia-me agora amarella, -stigmada pelo mesmo flagello, que devastara o rosto da hespanhola. Os -olhos, que eram travessos, fizeram-se murchos; tinha o labio triste -e a attitude cançada. Olhei-a bem; peguei-lhe na mão, e chamei-a -brandamente a mim. Não me enganava; eram as bexigas. Creio que fiz um -gesto de repulsa. - -Virgilia afastou-se, e foi sentar-se no sophá. Eu fiquei algum tempo -a olhar para os meus proprios pés. Devia, sair ou ficar? Rejeitei o -primeiro alvitre, que era simplesmente absurdo, e encaminhei-me para -Virgilia, que lá estava sentada e calada. Ceus! Era outra vez a fresca, -a juvenil, a florida Virgilia. Em vão procurei no rosto delia algum -vestigio da doença; nenhum havia; era a pelle fina e branca do costume. - ---Nunca me viu? perguntou Virgilia, vendo que a encarava com insistência. - ---Tão bonita, nunca. - -Sentei-me, emquanto Virgilia, calada, fazia estalar as unhas. -Seguiram-se alguns segundos de pausa. Fallei-lhe de cousas extranhas ao -incidente; ella porém não me respondia nada, nem olhava para mim. Menos -o estalido, era a estatua do Silencio. Uma só vez me deitou os olhos, -mas muito de cima, soerguendo a pontinha esquerda do labio, contrahindo -as sobrancelhas, ao ponto de as unir; e todo esse conjuncto de cousas -dava-lhe ao rosto uma expressão media, entre comica e tragica. - -Havia alguma affectação naquelle desdem; era um arrebique do gesto. -Lá dentro, ella padecia, e não pouco,--ou fosse magua pura, ou só -despeito; e porque a dor que se dissimula dóe mais, é mui provável que -Virgilia padecesse em dobro do que realmente devia padecer. Creio que -isto é metaphysica. - - - - -CAPITULO XLII - - -Que escapou a Aristoteles - - -Outra cousa que tambem me parece metaphysica é isto:--Dá-se movimento a -uma bola, por exemplo; róla esta, encontra outra bola, transmitte-lhe -o impulso, e eis a segunda bola a rolar como a primeira rolou. -Supponhamos que a primeira bola se chama... Marcella,--é uma simples -supposição; a segunda, Braz Cubas;--a terceira, Virgilia. Temos que -Marcella, recebendo um piparote do passado rolou até tocar em Braz -Cubas,--o qual, cedendo á força impulsiva, entrou a rolar tambem até -esbarrar em Virgilia, que não tinha nada com a primeira bola; e eis -ahi como, pela simples transmissão de uma força, se tocam os extremos -sociaes, e se estabelece uma cousa que poderemos chamar--solidariedade -do aborrecimento humano. Como é que este capitulo escapou a -Aristoteles? - - - - -CAPITULO XLIII - - -Marqueza, porque eu serei marquez - - -Positivamente, era um diabrete Virgilia, um diabrete angelico, se -querem, mas era-o, e então... - -E então appareceu o Lobo Neves, um homem que não era mais esbelto -do que eu, nem mais elegante, nem mais lido, nem mais sympathico, e -todavia foi quem me arrebatou Virgilia e a candidatura, dentro de -poucas semanas, com um impeto verdadeiramente cesariano. Não precedeu -nenhum despeito; não houve a menor violencia de familia. O Dutra veiu -dizer-me, um dia, que esperasse outra aragem, porque a candidatura -de Lobo Neves era apoiada por grandes influencias. Cedi; e tal foi o -começo da minha derrota. Uma semana depois, Virgilia perguntou ao Lobo -Neves, a sorrir, quando seria elle ministro. - ---Pela minha vontade, já; pela dos outros, daqui a um anno. - -Virgilia replicou: - ---Promette que algum dia me fará baroneza? - ---Marqueza, porque eu serei marquez. - -Desde então fiquei perdido. Virgilia comparou a aguia e o pavão, e -elegeu a aguia, deixando o pavão com o seu espanto, o seu despeito, e -tres ou quatro beijos que lhe dera. Talvez cinco beijos; mas dez que -fossem não queria dizer cousa nenhuma. O labio do homem não é como -a pata do cavallo de Attila que esterilisava o solo em que batia; é -justamente o contrario. - - - - -CAPITULO XLIV - - -Um Cubas! - - -Meu pae ficou attonito com o desenlace, e quer-me parecer que não -morreu de outra cousa. Eram tantos os castellos que engenhára, tantos -e tantissimos os sonhos, que não podia vel-os assim esboroados, sem -padecer um forte abalo no organismo. A principio não quiz crel-o. Um -Cubas! um galho da arvore illustre dos Cubas! E dizia isto com tal -convicção, que eu, já então informado da nossa tanoaria, esqueci um -instante a voluvel dama, para só contemplar aquelle phenomeno, não -raro, mas curioso: uma imaginação graduada em consciência. - ---Um Cubas! repetia-me elle na seguinte manhã, ao almoço. - -Não foi alegre o almoço; eu proprio estava a caír de somno. Tinha -velado uma parte da noite. De amor? Era impossivel; não se ama duas -vezes a mesma mulher, e eu, que tinha de amar aquella, tempos depois, -não lhe estava agora preso por nenhum outro vinculo, além de uma -phantasia passageira, alguma obediencia e muita fatuidade. E isto -basta a explicar a vigilia; era despeito, um despeitosinho agudo como -ponta de alfinete, o qual se desfez, com charutos, murros, leituras -truncadas, até romper a aurora, a mais tranquilla das auroras. - -Mas eu era moço, tinha o remedio em mim mesmo. Meu pae é que não pôde -supportar facilmente a pancada. Pensando bem, pode ser que não morresse -precisamente do desastre; mas que o desastre lhe complicou as ultimas -dores, é positivo. Morreu dahi a quatro mezes,--acabrunhado, triste, -com uma preoccupação intensa e continua, á semelhança de remorso, um -desencanto mortal, que lhe substituiu os rheumatismos e tosses. Teve -ainda uma meia hora de alegria; foi quando um dos ministros o visitou. -Vi-lhe,--lembra-me bem,--vi-lhe o grato sorriso de outro tempo, e nos -olhos uma concentração de luz, que era, por assim dizer, o ultimo -lampejo da alma expirante. Mas a tristeza tornou logo, a tristeza de -morrer sem me ver posto em algum logar alto, como aliás me cabia. - ---Um Cubas! - -Morreu alguns dias depois da visita do ministro, uma manhã de maio, -entre os dois filhos, Sabina e eu, e mais o tio Ildefonso e meu -cunhado. Morreu sem lhe poder valer a sciencia dos medicos, nem o nosso -amor, nem os cuidados, que foram muitos, nem cousa nenhuma; tinha de -morrer, morreu. - ---Um Cubas! - - - - -CAPITULO XLV - - -Notas - - -Soluços, lagrimas, casa armada, velludo preto nos portaes, um homem -que veiu vestir o cadaver, outro que tomou a medida do caixão, caixão, -eça, tocheiros, convites, convidados que entravam, lentamente, a passo -surdo, e apertavam a mão á familia, alguns tristes, todos serios e -calados, padre e sacristão, rezas, aspersões d'agua benta, o fechar -do caixão, a prego e martello, seis pessoas que o tomam da eça, e o -levantam, e o descem a custo pela escada, não obstante os gritos, -soluços e novas lagrimas da familia, e vão até o coche funebre, e o -collocam em cima, e traspassam e apertam as corrêas, o rodar do coche, -o rodar dos carros, um a um... Isto que parece um simples inventario, -eram notas que eu havia tomado para um capitulo extremamente -succulento, em que provava que a terra deve continuar a girar em volta -do sol; porquanto:--_a_) a natureza não inventou a morte, senão -com o fim de dar vida a algumas industrias,--armadores, segeiros, -emprezas funerarias, typographias, e outras que ella sagazmente -previu;--_b_) mortas essas industrias, pela ausencia da morte humana, -não é improvavel que viessem a morrer os respectivos industriaes; o que -dava na mesma. Mas tudo isto são apenas notas de um capitulo, que não -escrevo. - - - - -CAPITULO XLVI - - -A herança - - -Veja-nos agora o leitor, oito dias depois da morte de meu pae,--minha -irmã sentada n'um sophá,--pouco adiante, o Cotrim, de pé, encostado a -um consolo, com os braços cruzados e a morder o bigode,--eu a passeiar -de um lado para outro, com os olhos no chão. Luto pezado. Profundo -silencio. - ---Mas afinal, disse o Cotrim; esta casa pouco mais póde valer de trinta -contos; demos que valha trinta e cinco... - ---Vale cincoenta, ponderei; a Sabina sabe que custou cincoenta e oito... - ---Podia custar até sessenta, tornou o Cotrim; mas não se segue que -os valesse, e menos ainda que os valha hoje. Você sabe que as casas, -aqui ha annos, baixaram muito. Olhe, se esta vale os cincoenta contos, -quantos não vale a que você deseja para si, a do Campo? - ---Não fale nisso! Uma casa velha. - ---Velha! exclamou Sabina, levantando as mãos ao tecto. - ---Parece-lhe nova, aposto? - ---Ora, mano, deixe-se dessas cousas, disse Sabina, erguendo-se do -sophá; podemos arranjar tudo em boa amizade, e com lisura. Por exemplo, -o Cotrim não aceita os pretos, quer só o boleeiro de papae e o Paulo... - ---O boleeiro não, acudi eu; fico com a sege e não hei de ir comprar -outro. - ---Bem; fico com o Paulo e o Prudencio. - ---O Prudencio está livre. - ---Livre? - ---Ha dois annos. - ---Livre? Como seu pae arranjava estas cousas cá por casa, sem dar parte -a ninguem! Está direito. Quanto á prata... creio que não libertou a -prata? - -Tinhamos falado na prata, a velha prataria do tempo de D. José I, a -porção mais grave da herança, já pelo lavor, já pela vetustez, já pela -origem da propriedade; dizia meu pae que o conde da Cunha, quando -vice-rei do Brazil, a dera de presente a meu bisavô Luiz Cubas. - ---Quanto á prata, continuou o Cotrim, eu não faria questão nenhuma, -se não fosse o desejo que sua irmã tem de ficar com ella; e acho-lhe -razão. Sabina é casada, e precisa de uma copa digna, apresentavel. Você -é solteiro, não recebe, não... - ---Mas posso casar. - ---Para que? interrompeu Sabina. - -Era tão sublime esta pergunta, que por alguns instantes me fez esquecer -os interesses. Sorri; peguei na mão de Sabina, bati-lhe levemente na -palma, tudo isso com tão boa sombra, que o Cotrim interpretou o gesto -como de acquiescencia, e agradeceu-m'o. - ---Que é lá? redargui; não cedi cousa nenhuma, nem cedo. - ---Nem cede? - -Abanei a cabeça. - ---Deixa, Cotrim, disse minha irmã ao marido; vê se elle quer ficar -tambem com a nossa roupa do corpo; é só o que falta. - ---Não falta mais nada. Quer a sege, quer o boleeiro, quer a prata, -quer tudo. Olhe, é muito mais summario citar-nos a juizo e provar com -testemunhas que Sabina não é sua irmã, que eu não sou seu cunhado, e -que Deus não é Deus. Faça isto, e não perde nada, nem uma colherinha. -Ora, meu amigo, outro officio! - -Estava tão agastado, e eu não menos, que entendi offerecer um meio de -conciliação; dividir a prata. Riu-se e perguntou-me a quem caberia -o bule e a quem o assucareiro; e depois desta pergunta, declarou -que teriamos tempo de liquidar a pretenção, quando menos em juizo. -Entretanto, Sabina fôra até á janella que dava para a chacara,--e -depois de um instante, voltou, e propoz ceder o Paulo e outro preto, -com a condição de ficar com a prata; eu ia dizer que não me convinha, -mas o Cotrim adiantou-se e disse a mesma cousa. - ---Isso nunca! não faço esmolas! disse elle. - -Jantámos tristes. Meu tio conego appareceu á sobremeza, e ainda -presenciou uma pequena altercação. - ---Meus filhos, disse elle, lembrem-se que meu irmão deixou um pão bem -grande para ser repartido por todos. - -Mas o Cotrim: - ---Creio, creio. A questão, porem, não é de pão, é de manteiga. Pão -secco é que eu não engulo. - -Fizeram-se finalmente as partilhas, mas nós estavamos brigados. E -digo-lhes que, ainda assim, custou-me muito a brigar com Sabina. Eramos -tão amigos! Jogos pueris, furias de criança, risos e tristezas da -edade adulta, dividimos muita vez esse pão da alegria e da miseria, -irmãmente, como bons irmãos que eramos. Mas estavamos brigados. Tal -qual a belleza de Marcella, que se esvaiu com as bexigas. - - - - -CAPITULO XLVII - - -O recluso - - -Marcella, Sabina, Virgilia... ahi estou eu a fundir todos os -contrastes, como se esses nomes e pessoas não fossem mais do que modos -de ser da minha affeição interior. Penna de máus costumes, ata uma -gravata ao teu estylo, veste-lhe um collete menos sordido; e depois -sim, depois vem commigo, entra nessa casa, estira-te nessa rede que me -embalou a melhor parte dos annos que decorreram desde o inventario de -meu pae até 1842. Vem; se te cheirar a algum aroma de toucador, não -cuides que o mandei derramar para meu regalo; é um vestígio da N. ou -da Z. ou da U.--que todas essas lettras maiusculas embalaram ahi a sua -elegante abjecção. Mas, se além do aroma, quizeres outra cousa, fica-te -com o desejo, porque eu não guardei retratos, nem cartas, nem memorias; -a mesma commoção esvaiu-se, e só me ficaram as lettras iniciaes. - -Vivi meio recluso, indo de longe em longe a algum baile, ou theatro, -ou palestra, mas a mór parte do tempo passei-a commigo mesmo. Vivia; -deixava-me ir ao curso e recurso dos successos e dos dias, ora -boliçoso, ora apathico, entre a ambição e o desanimo. Escrevia politica -e fazia litteratura. Mandava artigos e versos para as folhas publicas, -e cheguei a alcançar certa reputação de polemista e de poeta. Quando -me lembrava do Lobo Neves, que era já deputado, e de Virgilia, futura -marqueza, perguntava a mim mesmo porque não seria melhor deputado e -melhor marquez do que o Lobo Neves,--eu, que valia mais, muito mais do -que elle,--e dizia isto a olhar para a ponta do nariz... - - - - -CAPITULO XLVIII - - -Um primo de Virgilia - - ---Sabe quem chegou hontem de S. Paulo? perguntou-me uma noite o Luiz -Dutra. - -O Luiz Dutra era um primo de Virgilia, que tambem privava com as -musas. Os versos delle agradavam e valiam mais do que os meus; mas -elle tinha necessidade da sancção de alguns, que lhe confirmasse o -applauso dos outros. Como fosse acanhado, não interrogava a ninguem; -mas deleitava-se com ouvir alguma palavra de apreço; então criava novas -forças e arremettia juvenilmente ao trabalho. - -Pobre Luiz Dutra! Apenas publicava alguma cousa corria á minha casa, -e entrava a girar em volta de mim, á espreita de um juizo, de uma -palavra, de um gesto, que lhe approvasse a recente producção, e eu -falava-lhe de mil cousas differentes,--do ultimo baile do Cattete, da -discussão das camaras, de berlindas e cavallos,--de tudo, menos dos -seus versos ou prosas. Elle respondia-me, a principio com animação, -depois mais frouxo, torcia a redea da conversa para o seu assumpto -delle, abria um livro, perguntava-me se tinha algum trabalho novo, e eu -dizia-lhe que sim ou que não, mas torcia a redea para o outro lado, e -lá ia elle atraz de mim, até que empacava de todo e saía triste. Minha -intenção era fazel-o duvidar de si mesmo, desanimal-o, eliminal-o. E -tudo isto a olhar para a ponta do nariz... - - - - -CAPITULO XLIX - - -A ponta do nariz - - -Nariz, consciencia sem remorsos, tu me valeste muito na vida... Já -meditaste alguma vez no destino do nariz, amado leitor? A explicação -do doutor Pangloss é que o nariz foi creado para uso dos oculos,--e -tal explicação confesso que até certo tempo me pareceu definitiva; mas -veiu um dia, em que, estando a ruminar esse e outros pontos obscuros de -philosophia, atinei com a unica, verdadeira e definitiva explicação. - -Com effeito, bastou-me attentar no costume do fakir. Sabe o leitor -que o fakir gasta longas horas a olhar para a ponta do nariz, com -o fim unico de ver a luz celeste. Quando elle finca os olhos na -ponta do nariz, perde o sentimento das cousas externas, embelleza-se -no invisivel, apprehende o impalpavel, desvincula-se da terra, -dissolve-se, etherisa-se. Essa sublimação do ser pela ponta do nariz -é o phenomeno mais excelso do espirito; e a faculdade de a obter não -pertence ao fakir sómente; é universal. Cada homem tem necessidade -e poder de contemplar o seu proprio nariz, para o fim de ver a luz -celeste; e tal contemplação, cujo effeito é a subordinação do universo -a um nariz sómente, constitue o equilibrio das sociedades. Se os -narizes se contemplassem exclusivamente uns aos outros, o genero humano -não chegaria a durar dois séculos: extinguia-se com as primeiras tribos. - -Ouço daqui uma objecção do leitor:--Como pode ser assim, diz elle, -se nunca jamais ninguem não viu estarem os homens a contemplar o seu -proprio nariz? - -Leitor obtuso, isso prova que nunca entraste no cerebro de um -chapeleiro. Um chapeleiro passa por uma loja de chapeus; é a loja de -um rival, que a abriu ha dois annos; tinha então duas portas, hoje tem -quatro; promette ter seis e oito. Nas vidraças ostentam-se os chapeus -do rival; pelas portas entram os freguezes do rival; e o chapeleiro -compara aquella loja com a sua, que é mais antiga e tem só duas portas, -e aquelles chapeus com os seus, menos buscados, ainda que de egual -preço. Mortifica-se naturalmente; mas vae andando, concentrado, com os -olhos para baixo ou para a frente, a indagar as causas da prosperidade -do outro e do seu proprio atrazo, quando elle chapeleiro é muito melhor -chapeleiro do que o outro chapeleiro... Nesse instante é que os olhos -se fixam na ponta do nariz. - -A conclusão, portanto, é que ha duas forças capitaes: o amor, que -multiplica a especie, e o nariz, que a subordina ao individuo. -Procreação, equilibrio. - - - - -CAPITULO L - - -Virgilia casada - - ---Quem chegou de S. Paulo foi minha prima Virgilia, casada com o Lobo -Neves, continuou o Luiz Dutra. - ---Ah! - ---E só hoje é que eu soube uma cousa, seu maganão... - ---Que foi? - ---Que você quiz casar com ella. - ---Idéas de meu pae. Quem lhe disse isso? - ---Ella mesma. Falei-lhe muito em você, e ella então contou-me tudo. - -No dia seguinte, estando na rua do Ouvidor, á porta da typographia do -Plancher, vi assomar, a distancia, uma mulher esplendida. Era ella; só -a reconheci a poucos passos, tão outra estava, a tal ponto a natureza -e a arte lhe haviam dado o ultimo apuro. Cortejámo-nos; ella seguiu; -entrou com o marido na carruagem, que os esperava um pouco acima; eu -fiquei attonito. - -Oito dias depois, encontrei-a num baile; creio que chegámos a trocar -duas ou tres palavras. Mas n'outro baile, dado dahi a um mez, em -casa de uma senhora, que ornara os salões do primeiro reinado, e não -desornava então os do segundo, a aproximação foi maior e mais longa, -porque conversámos e valsámos. A valsa é uma deliciosa cousa. Valsámos; -e não nego que, ao conchegar ao meu corpo aquelle corpo flexivel e -magnifico, tive uma singular sensação, uma sensação de homem roubado. - ---Está muito calor, disse ella, logo que acabámos. Vamos ao terraço? - ---Não; pode constipar-se. Vamos a outra sala. - -Na outra sala estava o Lobo Neves, que me fez muitos comprimentos, -ácerca dos meus escriptos politicos, accrescentando que nada dizia -dos litterarios, por não entender delles; mas os politicos eram -excellentes, bem pensados e bem escriptos. Respondi-lhe com eguaes -esmeros de cortezia, e separámos-nos contentes um do outro. - -Cerca de tres semanas depois recebi um convite delle para uma reunião -intima. Fui; Virgilia recebeu-me com esta graciosa palavra:--O senhor -hoje ha de valsar commigo.--Na verdade, eu tinha fama e era valsista -emerito; não admira que ella me preferisse. Valsámos uma vez, e mais -outra vez. Um livro perdeu Francesca; cá foi a valsa que nos perdeu. -Creio que nessa noite apertei-lhe a mão com muita força, e ella -deixou-a ficar, como esquecida, e eu a abraçal-a, e todos com os olhos -em nós, e nos outros que tambem se abraçavam e giravam...Um delirio. - - - - -CAPITULO LI - - -É minha! - - ---É minha! disse eu commigo, logo que a passei a outro cavalheiro; e -confesso que durante o resto da noite, foi-se-me a idéa entranhando -no espirito, não á força de martello, mas de verruma, que é mais -insinuativa. - ---É minha! dizia eu ao chegar á porta de casa. - -Mas ahi, como se o destino ou o acaso, ou o que quer que fosse, se -lembrasse de dar algum pasto aos meus arroubos possessorios, luziu-me -no chão uma cousa redonda e amarella. Abaixei-me; era uma moeda de -ouro, uma meia-dobra. - ---É minha! repeti eu a rir-me; e metti-a no bolso. - -Nessa noite não pensei mais na moeda; mas no dia seguinte, recordando o -caso, senti uns repellões da consciencia, e uma voz que me perguntava -porque diabo seria minha uma moeda que eu não herdara nem ganhara, mas -sómente achara na rua. Evidentemente não era minha; era de outro, -daquelle que a perdera, rico ou pobre, e talvez fosse pobre, algum -operario que não teria com que dar de comer á mulher e aos filhos; mas -se fosse rico, o meu dever ficava o mesmo. Cumpria restituir a moeda, e -o melhor meio, o unico meio, era fazel-o por intermedio de um annuncio -ou da policia. Enviei uma carta ao chefe de policia, remettendo-lhe -o achado, e rogando-lhe que, pelos meios a seu alcance, fizesse -devolvel-o ás mãos do verdadeiro dono. - -Mandei a carta e almocei tranquillo, posso até dizer que jubiloso. -Minha consciencia valsára tanto na vespera, que chegou a ficar -suffocada, sem respiração; mas a restituição da meia dobra foi uma -janella que se abriu para o outro lado da moral; entrou uma onda de -ar puro, e a pobre dama respirou á larga. Ventilae as consciências! -não vos digo mais nada. Todavia, despido de quaesquer outras -circumstancias, o meu acto era bonito, porque exprimia um justo -escrupulo, um sentimento de alma delicada. Era o que me dizia a minha -dama interior, com um modo austero e meigo a um tempo; é o que ella me -dizia, reclinada ao peitoril da janella aberta. - ---Fizeste bem, Cubas; andaste perfeitamente. Este ar não é só puro, é -balsamico, e uma transpiração dos eternos jardins. Queres ver o que -fizeste, Cubas? - -E a boa dama sacou um espelho e abriu-m'o deante dos olhos. Vi, -claramente vista, a meia dobra da vespera, redonda, brilhante, nitida, -multiplicando-se por si mesma,--ser dez--depois trinta--depois -quinhentas,--exprimindo assim o beneficio que me daria na vida e -na morte o simples acto da restituição. E eu espraiava todo o meu -ser na contemplação daquelle acto, revia-me nelle, achava-me bom, -talvez grande. Uma simples moeda, hem? Vejam o que é ter valsado um -poucochinho mais. - -Assim, eu, Braz Cubas, descobri uma lei sublime, a lei da equivalencia -das janellas, e estabeleci que o modo de compensar uma janella fechada -é abrir outra, afim de que a moral possa arejar continuamente a -consciencia. Talvez não entendas o que ahi fica; talvez queiras uma -cousa mais concreta, um embrulho, por exemplo, um embrulho mysterioso. -Pois toma lá o embrulho mysterioso. - - - - -CAPITULO LII - - -O embrulho mysterioso - - -Foi o caso que, alguns dias depois, indo eu a Botafogo tropecei n'um -embrulho, que estava na praia. Não digo bem; houve menos tropeção que -pontapé. Vendo um embrulho, não grande, mas limpo e correctamente -feito, atado com um barbante rijo, uma cousa que parecia alguma cousa, -lembrou-me bater-lhe com o pé, assim por experiencia, e bati, e o -embrulho resistiu. Relanceei os olhos em volta de mim; a praia estava -deserta; ao longe uns meninos brincavam,--um pescador curava as redes -ainda mais longe,--ninguem que pudesse ver a minha acção; inclinei-me, -apanhei o embrulho e segui. - -Segui, mas não sem receio. Podia ser uma pulha de rapazes. Tive idéa de -devolver o achado á praia, mas apalpei-o e rejeitei a idea. Um pouco -adeante, desandei o caminho e guiei para casa. - ---Vejamos, disse eu ao entrar no gabinete. - -E hesitei um instante, creio que por vergonha; assaltou-me outra vez o -receio da pulha. É certo que não havia alli nenhuma testemunha externa; -mas eu tinha dentro de mim mesmo um garoto, que havia de assoviar, -guinchar, grunhir, patear, apupar, cacarejar, fazer o diabo, se me -visse abrir o embrulho e achar dentro uma duzia de lenços velhos ou -duas duzias de goiabas verdes. Mas era tarde; a curiosidade estava -aguçada, como deve estar a do leitor; desfiz o embrulho, e vi... -achei... contei... recontei nada menos de cinco contos de reis. Nada -menos. Talvez um dez mil reis mais. Cinco contos em boas notas e -dobras, tudo aceiadinho e arranjadinho, um achado raro. Embrulhei-as -de novo. Ao jantar pareceu-me que um dos moleques falara a outro com -os olhos. Ter-me-iam espreitado? Interroguei-os discretamente, e -conclui que não. Sobre o jantar, fui outra vez ao gabinete, examinei -o dinheiro, e ri-me dos meus cuidados maternaes a respeito de cinco -contos,--eu, que era abastado. - -Para não pensar mais naquillo fui de noite á casa do Lobo Neves, -que instára muito commigo não deixasse de frequentar as recepções -da mulher. Lá encontrei o chefe de policia; fui-lhe apresentado; -elle lembrou-se logo da carta e da meia dobra que eu lhe remettera -alguns dias antes. Aventou o caso; Virgilia pareceu saborear o meu -procedimento, e cada um dos presentes acertou de contar uma anecdota -analoga, que eu ouvi com impaciencias de mulher hysterica. - -De noite, no dia seguinte, em toda aquella semana pensei o menos que -pude nos cinco contos, e até confesso que os deixei muito quietinhos -na gaveta da secretaria. Gostava de falar de todas as cousas, menos de -dinheiro, e principalmente de dinheiro achado; e todavia não era crime -achar dinheiro, era uma felicidade, um bom acaso, era talvez um lance -da Providencia. Não podia ser outra cousa. Não se perdem cinco contos, -como se perde um lenço de tabaco. Cinco contos levam-se com trinta mil -sentidos, apalpam-se a miudo, não se lhes tiram os olhos de cima, nem -as mãos, nem o pensamento, e para se perderem assim tolamente, n'uma -praia, é necessário que... Crime é que não podia ser o achado; nem -crime, nem deshonra, nem nada que embaciasse o caracter de um homem. -Era um achado, um acerto feliz, como a sorte grande, como as apostas -de cavallo, como os ganhos de um jogo honesto; e até direi que a minha -felicidade era merecida, porque eu não me sentia máu, nem indigno dos -beneficios da Providencia. - ---Estes cinco contos, dizia eu com migo, tres semanas depois, hei de -empregal-os em alguma acção bôa, talvez um dote a alguma menina pobre, -ou outra cousa assim... hei de ver... - -Nesse mesmo dia levei-os ao Banco do Brazil. Lá me receberam com -muitas e delicadas allusões ao caso de meia dobra, cuja noticia andava -já espalhada entre as pessoas do meu conhecimento; respondi enfadado -que a cousa não valia a pena de tamanho estrondo; louvaram-me então -a modestia,--e porque eu me encolerisasse, replicaram-me que era -simplesmente grande. - - - - -CAPITULO LIII - - -.......... - -Virgilia é que já se não lembrava da meia dobra; toda ella -estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha vida, no meu -pensamento;--era o que dizia, e era verdade. - -Ha umas plantas que nascem e crescem depressa; outras são tardias -e pecas. O nosso amor era daquellas; brotou com tal impeto e tanta -seiva, que, dentro em pouco, era a mais vasta, folhuda e exuberante -creatura dos bosques. Não lhes poderei dizer, ao certo, os dias -que durou esse crescimento. Lembra-me, sim, que, em certa noite, -abotoou-se a flor, ou o beijo, se assim lhe quizerem chamar, um beijo -que ella me deu, tremula,--coitadinha,--tremula de medo, porque era -ao portão da chacara, á vista das estrellas,--das castas estrellas de -Othello,--_you chaste stars!_ Uniu-nos esse beijo unico,--breve como -a occasião, ardente como o amor, prologo de uma vida de delicias, de -terrores, de remorsos, de prazeres que rematavam em dor, de afflicções -que desabrochavam em alegria,--uma hypocrisia paciente e systematica, -unico freio de uma paixão sem freio,--vida de agitações, de coleras, -de desesperos e de ciumes, que uma hora pagava á farta e de sobra; -mas outra hora vinha e engolia aquella, como tudo mais, para deixar á -tona as agitações e o resto, e o resto do resto, que é o fastio e a -saciedade: tal foi o livro daquelle prologo. - - - - -CAPITULO LIV - - -A pendula - - -Saí dalli a saborear o beijo. Não pude dormir; estirei-me na cama, -é certo, mas foi o mesmo que nada. Ouvi as horas todas da noite. -Usualmente, quando eu perdia o somno, o bater da pendula fazia-me muito -mal; esse _tic-tac_ soturno, vagaroso e secco parecia dizer a cada -golpe que eu ia ter um instante menos de vida. Imaginava então um velho -diabo, sentado entre dous saccos, o da vida e da morte, a tirar as -moedas da vida para dal-as á morte, e a contal-as assim: - ---Outra de menos... - ---Outra de menos... - ---Outra de menos... - ---Outra de menos... - -O mais singular é que, se o relogio parava, eu dava-lhe corda, para -que elle não deixasse de bater nunca, e eu pudesse contar todos os -meus instantes perdidos. Invenções ha, que se transformam ou acabam; -as mesmas instituições morrem; o relogio é definitivo e perpetuo. O -derradeiro homem, ao despedir-se do sol frio e gasto, hade ter um -relogio na algibeira, para saber a hora exacta em que morre. - -Naquella noite não padeci essa triste sensação de enfado, mas outra, e -deleitosa. As phantasias tumultuavam-me cá dentro, vinham umas sobre -outras, á semelhança de devotas que se abalroam para ver o anjo-cantor -das procissões. Não ouvia os instantes perdidos, mas os minutos -ganhados; e de certo tempo em diante não ouvi cousa nenhuma, porque o -meu pensamento, ardiloso e traquinas, saltou pela janella fóra e bateu -as azas na direcção da casa de Virgilia. Ahi achou ao peitoril de uma -janella o pensamento de Virgilia, saudaram-se e ficaram de palestra. -Nós a rolarmos na cama, talvez com frio, necessitados de repouso, e os -dous vadios alli postos, a repetirem o velho dialogo de Adão e Eva. - - - - -CAPITULO LV - - -O velho dialogo de Adão e Eva - - -BRAZ CUBAS - - . . . . ? - -VIRGILIA - -. . - -BRAZ CUBAS - - . . . . . . . . . - - . . . - - -VIRGILIA - - . . . ! - -BRAZ CUBAS - - . . - -VIRGILIA - -. . . . . . . . . -. . . . . ? . . . . . -. . . . . . . . . . . . - -BRAZ CUBAS - -. . . . . . - - -VIRGILIA - -. . . . - -BRAZ CUBAS - -. . . . . . . . . . . . . - -. . . . . . . . . . . . . - -. . . . . . . . . ! . . - -. . ! . . . . . . . . - -. . . . . . . . . . . ! - -VIRGILIA - -. . . . . . . . . . . . .? - -BRAZ CUBAS - -. . . . .! - -VIRGILIA - -. . . . .! - - - - -CAPITULO LVI - - -O momento opportuno - - -Mas, com a breca! quem me explicará a razão desta differença? Um dia -vimo-nos, tratámos o casamento, desfizemol-o e separamo-nos, a frio, -sem dor, porque não houvera paixão nenhuma; mordeu-me apenas algum -despeito e nada mais. Correm annos, torno a vel-a, damos tres ou quatro -giros de valsa, e eis-nos a amar um ao outro com delirio. A belleza -de Virgilia chegára, é certo, a um alto gráu de apuro, mas nós eramos -substancialmente os mesmos, e eu, á minha parte, não me tornára mais -bonito nem mais elegante. Quem me explicará a razão dessa differença? - -A razão não podia ser outra senão o momento opportuno. Não era -opportuno o primeiro momento, porque, se nenhum de nós estava verde -para o amor, ambos o estavamos para o _nosso_ amor: distincção -fundamental. Não ha amor possivel sem a opportunidade dos sujeitos. -Esta explicação achei-a eu mesmo, dous annos depois do beijo, um -dia em que Virgilia se me queixava de um pintalegrete que lá ia e -tenazmente a galanteava. - ---Que importuno! dizia ella fazendo uma careta de raiva. - -Estremeci, fitei-a, vi que a indignação era sincera; então occorreu-me -que talvez eu tivesse provocado alguma vez aquella mesma careta, e -comprehendi logo toda a grandeza da minha evolução. Tinha vindo de -importuno a opportuno. - - - - -CAPITULO LVII - - -Destino - - -Sim, senhor, amavamos. Agora, que todas as leis sociaes nol-o impediam, -agora é que nos amavamos devéras. Achavamo-nos jungi-los um ao outro, -como as duas almas que o poeta encontrou no Purgatorio: - - Di pari, come buoi, che vanno a giogo; - -e digo mal, comparando-nos a bois, porque nós eramos outra especie de -animal menos tardo, mais velhaco e lascivo. Eis-nos a caminhar sem -saber até onde, nem porque estradas escusas; problema que me assustou, -durante algumas semanas, mas cuja solução entreguei ao destino. Pobre -Destino! Onde andarás agora, grande procurador dos negocios humanos? -Talvez estejas a criar pelle nova, outra cara, outras maneiras, outro -nome, e não é impossivel que... Já me não lembra onde estava... Ah! -nas estradas escusas. Disse eu commigo que já agora seria o que -Deus quisesse. Era a nossa sorte amar-nos; se assim não fora, como -explicariamos a valsa e o resto? Virgilia pensava a mesma cousa. Um -dia, depois de me confessar que tinha momentos de remorsos, como eu lhe -dissesse que, se tinha remorsos, é porque me não tinha amor, Virgilia -cingiu-me com os seus magnificos braços, murmurando: - ---Amo-te, é a vontade do ceu. - -E esta palavra não vinha á toa; Virgilia era um pouco religiosa. Não -ouvia missa aos domingos, é verdade, e creio até que só ia ás igrejas -em dia de festa, e quando havia logar vago em alguma tribuna. Mas -rezava todas as noites, com fervor, ou, pelo menos, com somno. Tinha -medo ás trovoadas; nessas occasiões, tapava os ouvidos, e resmoneava -todas as orações do catecismo. Na alcova della havia um oratoriosinho -de jacarandá, obra de talha, de tres palmos de altura, com tres imagens -dentro; mas não falava delle ás amigas; ao contrario, taxava de beatas -as que eram só religiosas. Algum tempo desconfiei que havia nella certo -vexame de crer, e que a sua religião era uma especie de camisa de -flanella, preservativa e clandestina; mas evidentemente era engano meu. - - - - -CAPITULO LVIII - - -Confidencia - - -O Lobo Neves, a principio, mettia-me grandes sustos. Pura illusão! -Como adorasse a mulher, não se vexava de m'o dizer muitas vezes; -achava que Virgilia era a perfeição mesma, um conjunto de qualidades -solidas e finas, amoravel, elegante, austera, um modelo. E a confiança -não parava ahi. De fresta que era, chegou a porta escancarada. Um dia -confessou-me que trazia uma triste carcoma na existencia; faltava-lhe -a gloria publica. Animei-o; disse-lhe muitas cousas bonitas, que elle -ouviu com aquella uncção religiosa de um desejo que não quer acabar de -morrer; então comprehendi que a ambição delle andava cançada de bater -as azas, sem poder abrir o vôo. Dias depois disse-me todos os seus -tedios e desfallecimentos, as amarguras engolidas, as raivas sopitadas; -contou-me que a vida politica era um tecido de invejas, despeitos, -intrigas, perfidias, interesses, vaidades. Evidentemente havia ahi uma -crise de melancolia; tratei de combatel-a. - ---Sei o que lhe digo, replicou-me com tristeza. Não póde imaginar o -que tenho passado. Entrei na politica por gosto, por familia, por -ambição, e um pouco por vaidade. Já vê que reuni em mim só todos os -motivos que levam o homem á vida publica; faltou-me só o interesse de -outra natureza. Vira o theatro pelo lado da platéa; e, palavra, que era -bonito! Soberbo scenario, vida, movimento e graça na representação. -Escripturei-me; deram-me um papel que... Mas para que o estou a fatigar -com isto? Deixe-me ficar com as minhas amofinações. Creia que tenho -passado horas e dias... Não ha constância de sentimentos, não ha -gratidão, não ha nada... nada... nada... - -Calou-se, profundamente abatido, com os olhos no ar, parecendo não -ouvir cousa nenhuma, a não ser o echo de seus proprios pensamentos. -Após alguns instantes, ergueu-se e estendeu-me a mão:--O senhor ha de -rir-se de mim, disse elle; mas desculpe aquelle desabafo; tinha um -negocio, que me mordia o espirito. E ria, de um geito sombrio e triste; -depois pediu-me que não referisse a ninguem o que se passara entre nós; -ponderei-lhe que a rigor não se passara nada. Entraram dous deputados -e um chefe politico da parochia. O Lobo Neves recebeu-os com alegria, -a principio um tanto postiça, mas logo depois natural. No fim de meia -hora, ninguem diria que elle não era o mais afortunado dos homens; -conversava, chasqueava, e ria, e riam todos. - - - - -CAPITULO LIX - - -Um encontro - - -Deve ser um vinho hem energico a politica, dizia eu commigo, ao sair -da casa de Lobo Neves; e fui andando, fui andando, até que na rua dos -Barbonos vi uma sege, e dentro um dos ministros, meu antigo companheiro -de collegio. Cortejámo-nos affectuosamente, a sege seguiu, e eu fui -andando... andando... andando.... - ---Porque não serei eu ministro? - -Esta idéa, rútila e grande,--trajada ao bizarro, como diria o padre -Bernardes,--esta idéa começou uma vertigem de cabriolas e eu deixei-me -estar com os olhos nella, a achar-lhe graça. E não pensei mais na -tristeza de Lobo Neves; senti a attracção do abysmo. Recordei aquelle -companheiro de collegio, as correrias nos morros, as alegrias e -travessuras, e comparei o menino com o homem, o perguntei a mim mesmo -porque não seria eu como elle. Entrava então no Passeio Publico; -e tudo me parecia dizer a mesma cousa.--Porque não serás ministro, -Cubas?--Cubas, porque não serás ministro de Estado? Ao ouvil-o, uma -deliciosa sensação me refrescava todo o systema. Entrei, fui sentar-me -n'um banco, a cavar commigo aquella idéa. E Virgilia que havia de -gostar! Alguns minutos depois vejo encaminhar-se para mim uma cara, que -me não pareceu desconhecida. Conhecia-a, fosse d'onde fosse. - -Imaginem um homem de trinta e oito a quarenta annos, alto, magro e -pallido. As roupas, salvo o feitio, pareciam ter escapado ao captiveiro -de Babylonia; o chapéu era contemporaneo do de Gessler. Imaginem -agora uma sobrecasaca, mais larga do que pediam as carnes,--ou, -litteralmente, os ossos da pessoa; a côr preta ia cedendo o passo a -um amarello sem brilho; o pello desapparecia aos poucos; dos oito -primitivos botões restavam tres. As calças, de brim pardo, tinham duas -fortes joelheiras, em quanto as bainhas eram roidas pelo tacão de um -botim sem misericordia nem graxa. Ao pescoço fluctuavam as pontas de -uma gravata de duas cores, ambas desmaiadas, apertando um collarinho de -oito dias. Creio que trazia tambem collete, um collete de seda escura, -roto a espaços, e desabotoado. - ---Aposto que me não conhece, Sr. Dr. Cubas? disse elle. - ---Não me lembra... - ---Sou o Borba, o Quincas Borba. - -Recuei espantado... Quem me dera agora o verbo solemne de um Bossuet -ou de Vieira, para contar tamanha desolação! Era o Quincas Borba, o -gracioso menino de outro tempo, o meu companheiro de collegio, tão -intelligente e abastado. O Quincas Borba! Não, impossível; não pode -ser. Não podia acabar de crer que essa figura esqualida, essa barba -pintada de branco, esse maltrapilho avelhentado, que toda essa ruina -fosse o Quincas Borba. E era. Os olhos tinham um resto da expressão de -outro tempo; e o sorriso não perdera certo ar escarninho, que lhe era -peculiar. Entretanto, elle supportava com firmeza o meu espanto. No fim -de algum tempo arredei os olhos; se a figura repellia, a comparação -acabrunhava. - ---Não é preciso contar-lhe nada, disse elle emfim; o senhor adivinha -tudo. Uma vida de miserias, de attribulações e de lutas. Lembra-se -das nossas festas, em que eu figurava de rei? Que trambolhão! Acabo -mendigo... - -E alçando a mão direita e os hombros, com um ar de indifferença, -parecia resignado aos golpes da fortuna, e não sei até se contente. -Talvez contente. Com certeza, impassivel. Não havia nelle a resignação -christã, nem a conformidade philosophica. Parece que a miseria lhe -callejára a alma, a ponto de lhe tirar a sensação da lama. Arrastava os -andrajos, como outr'ora a purpura: com certa graça indolente. - ---Procure-me, disse eu, poderei arranjar-lhe alguma cousa. - -Um sorriso magnifico lhe abriu os lábios.--Não é o primeiro que me -promette alguma cousa, replicou; e não sei se será o ultimo que não -me fará nada. E para que? Eu nada peço, a não ser dinheiro; dinheiro -sim, porque é necessario comer, e as casas de pasto não fiam. Nem as -quitandeiras. Uma cousa de nada, uns dous vinténs de angú, nem isso -fiam as malditas quitandeiras.... Um inferno, meu... ia dizer meu -amigo.... Um inferno! o diabo! todos os diabos! Olhe, ainda hoje não -almocei. - ---Não? - ---Não; saí muito cedo de casa. Sabe onde moro? No terceiro degráu das -escadas de S. Francisco, á esquerda de quem sobe; não precisa bater na -porta. Casa fresca, extremamente fresca. Pois saí cedo, e ainda não -comi... - -Tirei a carteira, escolhi uma nota de cinco mil réis,--a menos -limpa,--e dei-lh'a. Elle recebeu-m'a com os olhos scintillantes de -cobiça. Levantou a nota ao ar, e agitou-a enthusiasmado. - ---_In hoc signo vinces!_ bradou. - -E depois beijou-a, com muitos ademanes de ternura, e tão ruidosa -expansão, que me produziu um sentimento mixto de nôjo e lastima. Elle, -que era arguto, entendeu-me; ficou serio, grotescamente serio, e -pediu-me desculpa da alegria, dizendo que era alegria de pobre que não -via, desde muitos annos, uma nota de cinco mil réis. - ---Pois está em suas mãos ver outras muitas, disse eu. - ---Sim? acudiu elle, dando um bote para mim. - ---Trabalhando, conclui eu. - -Fez um gesto de desdem; calou-se alguns instantes; depois disse-me -positivamente que não queria trabalhar. Eu estava enjoado dessa -abjecção tão comica e tão triste, e preparei-me para sair. - ---Não vá sem eu lhe ensinar a minha philosophia da miseria, disse elle, -escarranchando-se diante de mim. - - - - -CAPITULO LX - - -O abraço - - -Cuidei que o pobre diabo estivesse doudo, e ia afastar-me, quando -elle me pegou no pulso, e olhou alguns instantes para o brilhante que -eu trazia no dedo. Senti-lhe na mão uns estremeções de cobiça, uns -pruridos de posse. - ---Magnifico! disse elle. - -Depois começou a andar á roda de mim e a examinar-me muito. - ---O senhor trata-se, disse elle. Joias, roupa fina, elegante e... -Compare esses sapatos aos meus; que differença! Podera não! Digo-lhe -que se trata. E moças? Como vão ellas? Está casado? - ---Não... - ---Nem eu. - ---Móro na rua... - ---Não quero saber onde mora, atalhou o Quincas Borba. Se alguma vez nos -virmos, dê-me outra nota de cinco mil réis; mas permitta-me que não a -vá buscar a sua casa. É uma especie de orgulho.... Agora, adeus; vejo -que está impaciente. - ---Adeus! - ---E obrigado. Deixa-me agradecer-lhe de mais perto? - -E dizendo isto abraçou-me com tal impeto, que eu não pude evital-o. -Separamo-nos finalmente, eu a passo largo, com a camisa amarrotada do -abraço, enfadado e triste. Já não dominava em mim a parte sympathica da -sensação, mas a outra. Quizera ver-lhe a miseria digna. Comtudo, não -pude deixar de comparar outra vez o homem de agora com o de outr'ora, -entristecer-me, e encarar o abysmo que separa as esperanças de um tempo -da realidade de outro tempo... - ---Ora adeus! Vamos jantar, disse commigo. - -Metto a mão no collete e não acho o relogio. Ultima desillusão! o Borba -furtára-m'o no abraço. - - - - -CAPITULO LXI - - -Um projecto - - -Jantei triste. Não era a falta do relogio que me pungia, era a -imagem do autor do furto, e as reminiscencias de criança, e outra -vez a comparação, e a conclusão... Desde a sopa, começou a abrir em -mim a flor amarella e morbida do cap. XXV, e então jantei depressa, -para correr á casa de Virgilia. Virgilia era o presente; eu queria -refugiar-me nelle, para escapar ás oppressões do passado, porque o -encontro do Quincas Borba tornara-me aos olhos o passado, não qual fora -devéras, mas um passado roto, abjecto, mendigo e gatuno. - -Saí de casa, mas era cedo; iria achal-os á mesa. Outra vez pensei no -Quincas Borba, e tive então um desejo de tornar ao Passeio Publico, -a ver se o achava; a idéa de o regenerar surgiu-me como uma forte -necessidade. Fui; mas já não o achei. Indaguei do guarda; disse-me que -effectivamente «esse sujeito» ia por alli ás vezes. - ---A que horas? - ---Não tem hora certa. - -Não era impossivel encontral-o n'outra occasião; prometti a mim mesmo -lá voltar. A necessidade de o regenerar, de o trazer ao trabalho e ao -respeito de sua pessôa enchia-me o coração; eu começava a sentir um -bem-estar, uma elevação, uma admiração de mim proprio... Nisto caía a -noite; fui ter com Virgilia. - - - - -CAPITULO LXII - - -O travesseiro - - -Fui ter com Virgilia; bem depressa esqueci o Quincas Borba. Virgilia -era o travesseiro do meu espirito, um travesseiro molle, tepido, -aromatico, enfronhado em cambraia e bruxellas. Era alli que elle -costumava repousar de todas as sensações más, simplesmente enfadonhas, -ou até dolorosas. E, bem pesadas as cousas, não era outra a razão da -existencia de Virgilia; não podia ser. Cinco minutos bastaram para -olvidar inteiramente o Quincas Borba; cinco minutos de uma contemplação -mutua, com as mãos presas umas nas outras; cinco minutos e um beijo. E -lá se foi a lembrança do Quincas Borba... Escrofula da vida, andrajo do -passado, que me importa que existas, que molestes os olhos dos outros, -se eu tenho dous palmos de um travesseiro divino, para fechar os olhos -e dormir? - - - - -CAPITULO LXIII - - -Fujamos! - - -Ai! nem sempre dormir. Tres semanas depois, indo á casa de -Virgilia,--eram quatro horas da tarde,--achei-a triste e abatida. Não -me quiz dizer o que era; mas, como eu instasse muito: - ---Creio que o Damião desconfia alguma cousa. Noto agora umas -exquisitices nelle... Não sei... Trata-me bem, não ha duvida; mas o -olhar parece que não é o mesmo. Durmo, mal; ainda esta noite acordei, -aterrada; estava sonhando que elle me ia matar. Talvez seja illusão, -mas eu penso que elle desconfia... - -Tranquillisei-a como pude; disse que podiam ser cuidados politicos. -Virgilia concordou que seriam, mas ficou ainda muito excitada e -nervosa. Estavamos na sala de visitas, que dava justamente para a -chacara, onde trocáramos o beijo inicial. Uma janella aberta deixava -entrar o vento, que sacudia frouxamente as cortinas; e eu fiquei -a olhar para as cortinas, sem as ver. Empunhára o binoculo da -imaginação; lobrigava, ao longe, uma casa nossa, uma vida nossa, um -mundo nosso, em que não havia Lobo Neves, nem casamento, nem moral, nem -nenhum outro liame, que nos tolhesse a expansão da vontade. Esta idéa -embriagou-me; eliminados assim o mundo, a moral e o marido, não haveria -mais do que penetrar naquella habitação dos anjos. - ---Virgilia, disse eu, proponho-te uma cousa. - ---Que é? - ---Amas-me? - ---Oh! suspirou ella, cingindo-me os braços ao pescoço. - -Virgilia amava-me com furia; aquella resposta era a verdade patente. -Com os braços ao meu pescoço, calada, respirando muito, deixou-se -ficar a olhar para mim, com os seus grandes e bellos olhos, que davam -uma sensação singular de luz humida; e eu deixei-me estar a vel-os, a -namorar-lhe a boca, fresca como a madrugada, e insaciavel como a morte. -A belleza de Virgilia tinha agora um tom grandioso, que não possuira -antes de casar. Era dessas figuras talhadas em pentelico, de um lavor -nobre, rasgado e puro, tranquillamente bella, como as estatuas, mas não -apathica nem fria. Ao contrario, tinha o aspecto das naturezas calidas, -e podia-se dizer, que, na realidade, resumia todo o amor. Resumia-o -sobretudo naquella occasião, em que exprimia mudamente tudo quanto -póde dizer a pupilla humana. Mas o tempo urgia; deslacei-lhe as mãos, -peguei-lhe nos pulsos, e, fito nella, perguntei-lhe se tinha coragem. - ---De que? - ---De fugir. Iremos para onde nos fôr mais commodo, uma casa grande ou -pequena, á tua vontade, na roça ou na cidade, ou na Europa, onde te -parecer, onde ninguem nos aborreça, e não haja perigos pára ti, onde -vivamos um para o outro... Sim? fujamos. Tarde ou cedo, elle póde -descobrir alguma cousa, e estarás perdida... ouves? perdida... morta... -e elle tambem, porque eu o matarei, juro-te. - -Interrompi-me; Virgilia empallidecêra muito, deixou cair os braços -e sentou-se no canapé. Esteve assim alguns instantes, sem me dizer -palavra, não sei se vacillante na escolha, se aterrada com a idéa da -descoberta e da morte. Fui-me a ella, insisti na proposta, disse-lhe -todas as vantagens de uma vida a sós, sem zelos, nem terrores, nem -afflicções. Virgilia ouvia-me calada; depois disse: - ---Não escapariamos talvez; elle iria ter commigo e matava-me do mesmo -modo. - -Mostrei-lhe que não. O mundo era assás vasto, e eu tinha os meios de -viver onde quer que houvesse ar puro e muito sol; elle não chegaria até -lá; só as grandes paixões são capazes de grandes acções, e elle não a -amava tanto que pudesse ir buscal-a, se ella estivesse longe. Virgilia -fez um gesto de espanto e quasi indignação; murmurou que o marido -gostava muito della. - ---Póde ser, respondi eu; póde ser que sim... - -E fui até a janella, e comecei a assobiar e a rufar com os dedos no -peitoril, Virgilia chamou-me; eu deixei-me estar, a remoer os meus -zelos, a desejar estrangular o marido, se o tivesse alli á mão... -Justamente, nesse instante, entrou na chacara o Lobo Neves. Não tremas -assim, leitora pallida; descança, que não hei de rubricar esta lauda -com um pingo de sangue. Logo que o Lobo Neves entrou na chacara, -fiz-lhe um gesto amigo, acompanhado de uma palavra graciosa; Virgilia -retirou-se apressadamente da sala, e elle entrou dahi a tres minutos. - ---Está cá ha muito tempo? disse-me elle. - ---Não. - -Entrára serio, pesado, derramando os olhos de um modo distrahido, -costume seu, que trocou logo por uma verdadeira expansão de -jovialidade, quando viu, chegar o filho, o nhonhô, o futuro bacharel do -cap. VIII; tomou-o nos braços, levantou-o ao ar, beijou-o muitas vezes. -Eu, que tinha odio ao menino, afastei-me de ambos. Virgilia tornou á -sala. - ---Ah! respirou o Lobo Neves, sentando-se preguiçosamente no sophá. - ---Cançado? perguntei eu. - ---Muito; aturei duas massadas de primeira ordem, uma na camara e outra -na rua. E ainda temos terceira, accrescentou, olhando para a mulher.. - ---Que é? perguntou Virgilia. - ---Um... Adivinha! - -Virgilia sentara-se ao lado delle, pegou-lhe n'uma das mãos, compoz-lhe -a gravata, e tornou a perguntar o que era. - ---Nada menos que um camarote. - ---Para a Candiani? - ---Para a Candiani. - -Virgilia bateu palmas, levantou-se, deu um beijo no filho, com um ar -de alegria pueril, que destoava muito da figura; depois perguntou se o -camarote era de boca ou do centro, consultou o marido, em voz baixa, -acerca da _toilette_ que faria, da opera que se cantava, e de não sei -que outras cousas. - ---Você janta comnosco, doutor, disse-me o Lobo Neves. - ---Veiu para isso mesmo, confirmou a mulher; diz que você possue o -melhor vinho do Rio de Janeiro. - ---Nem por isso bebe muito. - -Ao jantar, desmenti-o; bebi mais do que costumava; ainda assim, menos -do que era preciso para perder a razão. Já estava excitado, fiquei urn -pouco mais. Era a primeira grande colera que eu sentia contra Virgilia. -Não olhei uma só vez para ella durante o jantar; falei de politica, da -imprensa, do ministerio, creio que falaria de theologia, se a soubesse, -ou se me lembrasse. O Lobo Neves acompanhava-me com muita placidez e -dignidade, e até com certa benevolencia superior; e tudo aquillo me -irritava tambem, e me tornava mais amargo e longo o jantar. Despedi-me -apenas nos levantámos da mesa. - ---Até logo, não? perguntou o Lobo Neves. - ---Póde ser. - -E sai. - - - - -CAPITULO LXIV - - -A transacção - - -Vaguei pelas ruas e recolhi-me ás nove horas. Não podendo dormir, -atirei-me a ler e escrever. Ás onze horas estava arrependido de não -ter ido ao theatro, consultei o relogio, quiz vestir-me, e saír. -Julguei, porém, que chegaria tarde; demais, era dar prova de fraqueza. -Evidentemente, Virgilia começava a aborrecer-se de mim, pensava eu. -E esta idéa fez-me successivamente desesperado e frio, disposto a -esquecel-a e a matal-a. Via-a d'alli mesmo, reclinada no camarote, -com os seus magnificos braços nús,--os braços que eram meus, só -meus,--fascinando os olhos de todos, com o vestido soberbo que havia -de ter, o collo de leite, os cabellos postos em bandós, á maneira do -tempo, e os brilhantes, menos luzidios que os olhos della... Via-a -assim, e doía-me que a vissem outros. Depois, começava a despil-a, -a pôr de lado as joias e sedas, a despenteal-a com as minhas mãos -sofregas e lascivas, a tornal-a,--não sei se mais bella, se mais -natural,--a tornal-a minha, sómente minha, unicamente minha. - -No dia seguinte, não me pude ter; fui cedo á casa de Virgilia; achei-a -com os olhos vermelhos de chorar. - ---Que houve? perguntei. - ---Você não me ama, foi a sua resposta; nunca me teve a menor somma de -amor. Tratou-me hontem como se me tivesse odio. Se eu ao menos soubesse -o que é que fiz! Mas não sei. Não me dirá o que foi? - ---Que foi o que? Creio que não houve nada. - ---Nada? Tratou-me como não se trata um cachorro... - -A esta palavra, peguei-lhe nas mãos, beijei-as, e duas lagrimas -rebentaram-lhe dos olhos. - ---Acabou, acabou, disse eu. - -Não tive animo de arguir, e, aliás, arguil-a de que? Não era culpa -della se o marido a amava. Disse-lhe que não me fizera cousa nenhuma, -que eu tinha necessariamente ciumes do outro, que nem sempre o podia -supportar de cara alegre; accrescentei que talvez houvesse nelle muito -de dissimulação, e que o melhor meio de fechar a porta aos sustos e ás -dissensões era aceitar a minha idéa da vespera. - ---Pensei nisso, acudiu Virgilia; uma casinha só nossa, solitaria, -mettida n'um jardim, em alguma rua escondida, não é? Acho a idéa boa; -mas para que fugir? - -Disse isto com o tom ingenuo e preguiçoso de quem não cuida em mal, e o -sorriso que lhe derreava os cantos da boca trazia a mesma expressão de -candidez. Então, afastando-me, respondi: - ---Você é que nunca me teve amor. - ---Eu? - ---Sim, é uma egoista! prefere ver-me padecer todos os dias... é uma -egoista sem nome! - -Virgilia desatou a chorar, e para não attrahir gente, mettia o lenço na -boca, recalcava os soluços; explosão que me desconcertou. Se alguem a -ouvisse, perdia-se tudo. Inclinei-me para ella, travei-lhe dos pulsos, -susurrei-lhe os nomes mais doces da nossa intimidade; mostrei-lhe o -perigo; o terror apaziguou-a. - ---Não posso, disse ella dahi a alguns instantes; não deixo meu filho; -se o levar, estou certa de que elle me irá buscar ao fim do mundo. Não -posso; mate-me você, se o quizer, ou deixe-me morrer... Ah! meu Deus! -meu Deus! - ---Socegue; olhe que podem ouvil-a. - ---Que ouçam! Não me importa. - -Estava ainda excitada; pedi-lhe que esquecesse tudo, que me perdoasse, -que eu era um doudo, mas que a minha insania provinha della e com ella -acabaria. Virgilia enxugou os olhos e estendeu-me a mão. Sorrimos -ambos; minutos depois, tornávamos ao assumpto da casinha solitaria, em -alguma rua escusa... - - - - -CAPITULO LXV - - -Olheiros e escutas - - -Interrompeu-nos o rumor de um carro na chacara. Veiu um escravo dizer -que era a baroneza X. Virgilia consultou-me com os olhos. - ---Se a senhora está assim com dor de cabeça, disse eu, parece que o -melhor é não receber. - ---Já se apeou? perguntou Virgilia ao escravo. - ---Já se apeou; diz que precisa muito de falar com sinhá! - ---Que entre! - -A baroneza entrou dahi a pouco. Não sei se contava commigo na sala; mas -era impossivel mostrar maior alvoroço. - ---Bons olhos o vejam! explodiu ella. Onde se mette o senhor que não -apparece em parte nenhuma? Pois olhe, hontem admirou-me não o ver no -theatro. A Candiani esteve deliciosa. Que mulher! Gosta da Candiani? -É natural. Os senhores são todos os mesmos. O barão dizia hontem, no -camarote, que uma só italiana vale por cinco brazileiras. Que desaforo! -e desaforo de velho, que é peor. Mas porque é que o senhor não foi -hontem ao theatro? - ---Uma enxaqueca. - ---Qual! Algum namoro; não acha, Virgilia? Pois, meu amigo, apresse-se, -porque o senhor deve estar com quarenta annos... ou perto disso... Não -tem quarenta annos? - ---Não lhe posso dizer com certeza, respondi eu; mas se me dá licença, -vou consultar a certidão de baptismo. - ---Vá, vá... E estendendo-me a mão:--Até quando? Sabbado ficamos em -casa; o barão está com umas saudades suas... - -Chegando á rua, arrependi-me de ter saído. A baroneza era uma das -pessoas que mais desconfiavam de nós. Cincoenta e cinco annos, que -pareciam quarenta, macia, risonha, vestigios de belleza, porte elegante -e maneiras finas. Não falava muito nem sempre; possuia a grande arte -de escutar os outros, espiando-os; reclinava-se então na cadeira, -desembainhava um olhar afiado e comprido, e deixava-se estar. Os -outros, não sabendo o que era, falavam, olhavam, gesticulavam, ao tempo -que ella olhava só, ora fixa, ora mobil, levando a astucia ao ponto de -olhar ás vezes para dentro de si, porque deixava cair as palpebras; -mas, como as pestanas eram rotulas, o olhar continuava o seu officio, -remexendo a alma e a vida dos outros. - -A segunda pessoa era um parente de Virgilia, o Viegas, um cangalho de -setenta invernos, chupado e amarellado, que padecia de um rheumatismo -teimoso, de uma asthma não menos teimosa e de uma lesão do coração: era -um hospital concentrado. Os olhos porém luziam de muita vida e saúde. -Virgilia, nas primeiras semanas, não lhe tinha medo nenhum; dizia-me -que, quando o Viegas parecia espreitar, com o olhar fixo, estava -simplesmente contando dinheiro. Com effeito, era um grande avaro. - -Havia ainda o primo de Virgilia, o Luiz Dutra, que eu, entretanto, -desarmava á força de lhe falar nos versos e prosas, e de o apresentar -aos conhecidos. Quando estes, ligando o nome á pessoa, se mostravam -contentes da apresentação, não ha duvida que o Luiz Dutra exultava de -felicidade; mas eu curava-me da felicidade com a esperança de que elle -nos não denunciasse nunca. Havia, emfim, umas duas ou tres senhoras, -vários gamenhos, e os famulos, que naturalmente se desforravam assim -da condição servil, e tudo isso constituia uma verdadeira floresta -de olheiros e escutas, por entre os quaes tinhamos de resvalar com a -tactica e maciez das cobras. - - - - -CAPITULO LXVI - - -As pernas - - -Ora, emquanto eu pensava naquella gente, iam-me as pernas levando, -ruas abaixo, de modo que insensivelmente me achei á porta do hotel -Pharoux. De costume jantava ahi; mas, não tendo deliberadamente andado, -nenhum merecimento da acção me cabe, e sim ás pernas, que a fizeram. -Abençoadas pernas! E ha quem vos trate com desdem ou indifferença. -Eu mesmo, até então, tinha-vos em má conta, zangava-me quando vos -fatigaveis, quando não podieis ir além de certo ponto, e me deixaveis -com o desejo a avoaçar, á semelhança de gallinha atada pelos pés. - -Aquelle caso, porém, foi um raio de luz. Sim, pernas amigas, vós -deixastes á minha cabeça o trabalho de pensarem Virgilia, e dissestes -uma á outra:--Elle precisa comer, são horas de jantar, vamos levai-o ao -Pharoux; dividamos a consciencia delle, uma parte fique lá com a dama, -tomemos nós a outra, para que elle vá direito, não abalroe as gentes e -as carroças, tire o chapeu aos conhecidos, e finalmente chegue são e -salvo ao hotel. E cumpristes á risca o vosso proposito, amaveis pernas, -o que me obriga a immortalisar-vos nesta pagina. - - - - -CAPITULO LXVII - - -A casinha - - -Jantei e fui á casa. Lá achei uma caixa de charutos, que me mandára o -Lobo Neves, embrulhada em papel de seda, e ornada de fitinhas côr de -rosa. Entendi, abri-a, e tirei este bilhete: - - «Meu B... - - «Desconfiam de nós; tudo está perdido; esqueça-me para - sempre. Não nos veremos mais. Adeus; esqueça-se da infeliz - - «V...a» - -Foi um golpe esta carta; não obstante, apenas fechou a noite, corri á -casa de Virgilia. Era tempo; estava arrependida. Ao vão de uma janella, -contou-me o que se passára com a baroneza. A baroneza disse-lhe -francamente que se falára muito, no theatro, na noite anterior, -a proposito da minha ausencia do camarote de Lobo Neves; tinham -commentado as minhas relações na casa; em suma, eramos objecto da -suspeita publica. Conclui dizendo que não sabia o que fazer. - ---O melhor é fugirmos, insinuei. - ---Nunca, respondeu ella abanando a cabeça. - -Vi que era impossivel separar duas cousas que no espirito della estavam -inteiramente ligadas: o nosso amor e a consideração publica. Virgilia -era capaz de eguaes e grandes sacrificios para conservar ambas as -vantagens; e a fuga só lhe deixava uma. Talvez senti alguma cousa -semelhante a despeito; mas as comoções daquelles dous dias eram já -muitas, e o despeito morreu depressa. Vá lá; arranjemos a casinha. - -Com effeito, achei-a, dias depois, expressamente feita, em um -recanto da Gamboa. Um brinco! Nova, caiada de fresco, com quatro -janellas na frente e duas de cada lado,--todas com venezianas côr de -tijolo,--trepadeira nos cantos, jardim na frente; mysterio e solidão. -Um brinco! - -Convencionámos que iria morar alli uma mulher, conhecida de Virgilia, -em cuja casa fora costureira e aggregada. Virgilia exercia sobre ella -verdadeira fascinação. Não se lhe diria tudo; ella aceitaria facilmente -o resto. - -Para mim era aquillo uma situação nova do nosso amor, uma apparencia -do posse exclusiva, de dominio absoluto, alguma cousa que me faria -adormecer a consciencia o resguardar o decoro. Já estava cançado das -cortinas do outro, das cadeiras, do tapete, do canapé, de todas essas -cousas, que me traziam aos olhos constantemente a nossa duplicidade. -Agora podia evitar os jantares frequentes, o chá de todas as noites, -emfim a presença do filho delles, meu complice e meu inimigo. A casa -resgatava-me tudo; o mundo vulgar terminaria á porta;--dalli para -dentro era o infinito, um mundo eterno, superior, excepcional, nosso, -somente nosso, sem leis, sem instituições, sem baronezas, sem olheiros, -sem escutas,--um só mundo, um só casal, uma só vida, uma só vontade, -uma só affeição,--a unidade moral de todas as cousas pela exclusão das -que me eram contrarias. - - - - -CAPITULO LXVIII - - -O vergalho - - -Taes eram as reflexões que eu vinha fazendo, por aquelle Valongo fóra, -logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-m'as um ajuntamento; -era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a -fugir; gemia somente estas unicas palavras: - ---«Não, perdão, meu senhor; meu senhor, perdão!» Mas o primeiro não -fazia caso, e, a cada supplica, respondia com uma vergalhada nova. - ---Toma, diabo! dizia elle; toma mais perdão, bebado! - ---Meu senhor! gemia o outro. - ---Cala a boca, besta! replicava o vergalho. - -Parei, olhei... Justos ceus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada -menos que o meu moleque Prudencio,--o que meu pae libertára alguns -annos antes. Cheguei-me; elle deteve-se logo e pediu-me a benção; -perguntei-lhe se aquelle preto era escravo delle. - ---E, sim, nhonhô. - ---Fez-te alguma cousa? - ---É um vadio e um bebado muito grande. Ainda hoje deixei elle na -quitanda, em quanto eu ia lá embaixo na cidade, e elle deixou a -quitanda para ir na venda beber. - ---Está bom, perdoa-lhe, disse eu. - ---Pois não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bebado! - -Saí do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas conjecturas. -Segui caminho, a cavar cá dentro uma infinidade de reflexões, que sinto -haver inteiramente perdido; aliás, seria materia para um bom capitulo, -e talvez alegre. Eu gósto dos capitulos alegres; é o meu fraco. -Exteriormente, era torvo o episodio do Valongo; mas só exteriormente. -Logo que metti mais dentro a faca do raciocinio achei-lhe um miolo -gaiato, fino, e até profundo. Era um modo que o Prudencio tinha de -se desfazer das pancadas recebidas,--transmittindo-as a outro. Eu, -em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem -compaixão; elle gemia e soffria. Agora, porém, que era livre, dispunha -de si mesmo, dos braços, das pernas, podia, trabalhar, folgar, dormir, -desagrilhoado da antiga condição, agora é que elle se desbancava: -comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de -mim recebera. Vejam as subtilezas do maroto! - - - - -CAPITULO LXIX - - -Um grão de sandice - - -Este caso faz-me lembrar um doudo que conheci. Chamava-se Romualdo e -dizia ser Tamerlão. Era a sua grande e unica mania, e tinha uma curiosa -maneira de a explicar. - ---Eu sou o illustre Tamerlão, dizia elle. Outr'ora fui Romualdo, mas -adoeci, e tomei tanto tartaro, tanto tartaro, tanto tartaro, que fiquei -Tartaro, e até rei dos Tartaros. O tartaro tem a virtude de fazer -Tartaros. - -Pobre Romualdo! A gente ria da resposta, mas é provavel que o leitor -não se ria, e com razão; eu não lhe acho graça nenhuma. Ouvida, tinha -algum chiste; mas assim contada, no papel, e a proposito de um vergalho -recebido e transferido, força é confessar que é muito melhor voltar á -casinha da Gamboa; deixemos os Romualdos e Prudencios. - - - - -CAPITULO LXX - - -D. Placida - - -Voltemos á casinha. Não serias capaz de lá entrar hoje, curioso leitor; -envelheceu, ennegreceu, apodreceu, e o proprietario deitou-a abaixo -para substituil-a por outra, tres vezes maior, mas juro-te que muito -menor que a primeira. O mundo era estreito para Alexandre; um desvão de -telhado é o infinito para as andorinhas. - -E vejam agora a neutralidade deste globo, que nos leva, atravez dos -espaços, como uma lancha de naufragos, que vae dar á costa: dorme hoje -um casal de virtudes no mesmo espaço de chão que soffreu um casal de -peccados. Amanhã pode lá dormir um ecclesiastico, depois um assassino, -depois um ferreiro, depois um poeta, e todos abençoarão esse canto de -terra, que lhes deu algumas illusões. - -Virgilia fez daquillo um brinco; designou as alfaias mais idoneas, e -dispol-as com a intuição esthetica da mulher elegante; eu levei para -lá alguns livros; e tudo ficou sob a guarda de D. Placida, supposta, e, -a certos respeitos, verdadeira dona da casa. - -Custou-lhe muito a aceitar a casa; farejára a intenção, e doia-lhe o -officio; mas afinal cedeu. Creio que chorava, a principio: tinha nojo -de si mesma. Ao menos, é certo que não levantou os olhos para mim -durante os primeiros dous mezes; falava-me com elles baixos, séria, -carrancuda, ás vezes triste. Eu queria angarial-a, e não me dava por -offendido, tratava-a com carinho e respeito; forcejava por obter-lhe a -benevolencia, depois a confiança. Quando obtive a confiança, imaginei -uma historia pathetica dos meus amores com Virgilia, um caso anterior -ao casamento, a resistencia do pae, a dureza do marido, e não sei que -outros toques de novella. D. Placida não rejeitou uma só pagina da -novella; aceitou-as todas. Era uma necessidade da consciencia. Ao cabo -de seis mezes quem nos visse a todos tres juntos diria que D. Placida -era minha sogra. - -Não fui ingrato; fiz-lhe um peculio de cinco contos,--os cinco -contos achados em Botafogo,--como um pão para a velhice. D. Placida -agradeceu-me com lagrimas nos olhos; e nunca mais deixou de rezar por -mim, todas as noites, deante de uma imagem da Virgem, que tinha no -quarto. Foi assim que lhe acabou o nojo. - - - - -CAPITULO LXXI - - -O senão do livro - - -Começo a arrepender-me deste livro. Não que elle me cance; eu não tenho -que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capitulos para esse -mundo sempre é tarefa que distráe um pouco da eternidade. Mas o livro -é enfadonho, cheira a sepulchro, traz certa contracção cadaverica; -vicio grave, e aliás infimo, porque o maior defeito deste livro és tu, -leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a -narração direita e nutrida, o estylo regular e fluente, e este livro e -o meu estylo são como os ebrios, guinam á direita e á esquerda, andam e -param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o ceu, escorregam e cáem... - -E cáem!--Folhas miserrimas do meu cypreste, heis de cair, como -quaesquer outras bellas e vistosas; e, se eu tivesse olhos, dar-vos-hia -uma lagrima de saudade. Esta é a grande vantagem da morte, que se -não deixa boca para rir, tambem não deixa olhos para chorar... Heis -de cair. Turvo é o ar que respiraes, amadas folhas. O sol que vos -allumia, com ser de toda a gente, é um sol opaco e reles, de cemiterio -e carnaval. - - - - -CAPITULO LXXII - - -O bibliomano - - -Talvez supprima o capitulo anterior; entre outros motivos, ha* ahi, nas -ultimas linhas, uma phrase muito parecida com desproposito, e eu não -quero dar pasto á critica do futuro. - -Olhae: daqui a setenta annos, um sugeito magro, amarello, grisalho, que -não ama nenhuma outra cousa além dos livros, inclina-se sobre a pagina -anterior, a ver se lhe descobre o desproposito; lê, relê, treslê, -desengonça as palavras, sacca uma syllaba, depois outra, mais outra, -e as restantes, examina-as por dentro e por fóra, por todos os lados, -contra a luz, espaneja-as, esfrega-as no joelho, lava-as, e nada. Fica -sempre o mesmo desproposito. - -É um bibliomano. Não conhece o autor; este nome de Braz Cubas não vem -nos seus diccionarios biographicos. Achou o volume, por acaso, no -pardieiro de um alfarrabista. Comprou-o por duzentos réis. Indagou, -pesquizou, esgaravatou, e veiu a descobrir que era um exemplar, -unico... Unico! Vós, que não só amaes os livros, senão que padeceis a -mania delles, vós sabeis mui bem o valor desta palavra, e adivinhaes, -portanto, as delicias de meu bibliomano. Elle regeitaria a corôa das -Indias, o papado, todos os muzeus da Italia e da Hollanda, se os -houvesse de trocar por esse unico exemplar; e não porque seja o das -minhas _Memorias_; faria a mesma cousa com o _Almanak_ de Laemmert, uma -vez que fosse unico. - -O peor é o desproposito. Lá continúa o homem inclinado sobre a pagina, -com uma lente no olho direito, todo entregue á nobre e aspera funcção -de decifrar o desproposito. Já prometteu a si mesmo escrever uma -breve memoria, na qual relate o achado do livro e a descoberta da -sublimidade, se a houver por baixo daquella phrase obscura. Ao cabo, -não descobre nada e contenta-se com a posse. Fecha o livro, mira-o, -remira-o, chega-se á janella e mostra-o ao sol. Um exemplar unico! -Nesse momento passa-lhe por baixo da janella um Cesar ou um Cromwell, -a caminho do poder. Elle dá de hombros, fecha a janella, estira-se -na rede e folhea o livro devagar, com amor, aos goles... Um exemplar -unico! - - - - -CAPITULO LXXIII - - -O lunch - - -O desproposito fez-me perder outro capitulo. Que melhor não era dizer -as cousas lisamente, sem todos estes solavancos! Já comparei o meu -estylo ao andar dos ebrios. Se a idéa vos parece indecorosa, direi -que elle é o que eram as minhas refeições com Virgilia, na casinha da -Gamboa, onde ás vezes faziamos a nossa patuscada, o nosso _lunch._ -Vinho, fructas, compotas. Comiamos, é verdade, mas era um comer -virgulado de palavrinhas doces, de olhares ternos, de criancices, -uma infinidade desses apartes do coração, aliás o verdadeiro, o -ininterrupto discurso do amor. Ás vezes vinha o arrufo temperar o -nimio adocicado da situação. Ella deixava-me, refugiava-se n'um canto -do canapé, ou ia para o interior ouvir as denguices de D. Placida. -Cinco ou dez minutos depois, reatavamos a palestra, como eu reato a -narração, para desatal-a outra vez. Note-se que, longe de termos horror -ao methodo, era nosso costume convidal-o, na pessoa de D. Placida, a -sentar-se comnosco á meza; mas D. Placida não aceitava nunca. - ---Você parece que não gosta mais de mim, disse-lhe um dia Virgilia. - ---Virgem Nossa Senhora! exclamou a boa dama alçando as mãos para o -tecto. Não gosto de Yayá! Mas então de quem é que eu gostaria neste -mundo? - -E, pegando-lhe nas mãos, olhou-a fixamente, fixamente, fixamente, até -molharem-se-lhe os olhos, de tão fixo que era. Virgilia acariciou-a -muito; eu deixei-lhe uma pratinha na algibeira do vestido. - - - - -CAPITULO LXXIV - - -Historia de D. Placida - - -Não te arrependas de ser generoso; a pratinha rendeu-me uma confidencia -de D. Placida, e conseguintemente este capitulo. Dias depois, como eu -a achasse só em casa, travámos palestra, e ella contou-me em breves -termos a sua historia. Era filha natural de um sacristão da Sé e de -uma mulher que fazia doces para fóra. Perdeu o pae aos dez annos. Já -então ralava côco e fazia não sei que outros misteres de doceira, -compativeis com a edade. Aos quinze ou dezeseis casou com um alfaiate, -que morreu tisico algum tempo depois, deixando-lhe uma filha. Viuva, -com pouco mais de vinte annos, ficaram a seu cargo a filha, com dous, e -a mãe, cançada de trabalhar. Tinha de sustentar a tres pessoas. Fazia -doces, que era o seu officio, mas cosia tambem, de dia e de noite, com -affinco, para tres ou quatro lojas, e ensinava algumas crianças do -bairro, a dez tostões por mez. Com isto iam-se passando os annos, não -a belleza, porque não a tivera nunca. Appareceram-lhe alguns namoros, -propostas, seducções, a que resistia. - ---Se eu pudesse encontrar outro marido, disse-me ella, creia que me -teria casado; mas ninguem queria casar commigo. - -Um dos pretendentes conseguiu fazer-se aceito; não sendo, porém, mais -delicado que os outros, D. Placida despediu-o do mesmo modo, e depois -de o despedir chorou muito. Continuou a coser para fóra e a escumar -os tachos. A mãe tinha a rabugem do temperamento, dos annos e da -necessidade; mortificava a filha para que tomasse um dos maridos de -emprestimo e de occasião, que lh'a pediam. E bradava: - ---Queres ser melhor do eu? Não sei donde te vem essas fiducias de -pessoa rica. Minha camarada, a vida não se arranja á toa; não se -come vento. Ora esta! Moços tão bons como o Polycarpo da venda, -coitado...Esperas algum fidalgo, não é? - -D. Placida jurou-me que não esperava fidalgo nenhum. Era genio. Queria -ser casada. Sabia muito bem que a mãe o não fôra, e conhecia algumas -que tinham só o seu moço dellas; mas era genio e queria ser casada. -Não queria tambem que a filha fosse outra cousa. E trabalhava muito, -queimando os dedos ao fogão, e os olhos ao candieiro, para comer e não -cair. Emmagreceu, adoeceu, perdeu a mãe, enterrou-a por subscripção, -e continuou a trabalhar. A filha estava com quatorze annos; mas era -muito fraquinha, e não fazia nada, a não ser namorar os capadocios -que lhe rondavam a rotula. D. Placida vivia com immensos cuidados, -levando-a comsigo, quando tinha de ir entregar costuras; e a gente das -lojas arregalava e piscava os olhos, convencida de que ella a levava -para colher marido ou outra cousa. Alguns diziam graçolas, faziam -comprimentos; a mãe chegou a receber propostas de dinheiro... - -Interrompeu-se um instante, e continuou logo: - ---Minha filha fugiu-me; foi com um sujeito, nem quero saber... -Deixou-me só, mas tão triste, tão triste, que pensei morrer. Não tinha -ninguem mais no mundo e estava quasi velha e doente. Foi por esse tempo -que conheci a familia de Yayá; boa gente, que me deu que fazer, e até -chegou a me dar casa. Estive lá muitos mezes, um anno, mais de um anno, -aggregada, costurando. Saí quando Yayá casou. Depois vivi como Deus -foi servido. Olhe os meus dedos, olhe estas mãos... E mostrou-me as -mãos grossas e gretadas, as pontas dos dedos picadas da agulha.--Não -se cria isto á toa, meu senhor; Deus sabe como é que isto se cria... -Felizmente, Yayá me protegeu, e o senhor doutor tambem... Eu tinha um -medo de acabar na rua, pedindo esmola... - -Ao soltar a ultima phrase, D. Placida teve um calafrio. Depois, como se -tornasse a si, pareceu attentar na inconveniência daquella confissão -ao amante de uma mulher casada, e começou a rir, a desdizer-se, a -chamar-se tola, «cheia de fiducias», como lhe dizia a mãe; enfim, -cançada do meu silencio, retirou-se da sala. Eu fiquei a olhar para a -ponta do botim. - - - - -CAPITULO LXXV - - -Commigo - - -Podendo acontecer que algum dos meus leitores tenha pulado o capitulo -anterior, observo que é preciso lel-o para entender o que eu disse -commigo, logo depois que D. Placida saiu da sala. O que eu disse foi -isto: - ---Assim, pois, o sacristão da Sé, um dia, ajudando a missa, viu entrar -a dama, que devia ser sua collaboradora na vida de D. Placida. Viu-a -outros dias, durante semanas inteiras, gostou, disse-lhe alguma graça, -pisou-lhe o pé, ao acender os altares, nos dias de festa. Ella gostou -delle, acercaram-se, amaram-se. Dessa conjuncção de luxurias vadias -brotou D. Placida. É de crer que D. Placida não falasse ainda quando -nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias:--Aqui -estou. Para que me chamastes? E o sacristão e a sacristã naturalmente -lhe respondi riam:--Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, -os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para -outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e -sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas -sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia -na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, n'um momento de -sympathia. - - - - -CAPITULO LXXVI - - -O estrume - - -Subito deu-me a consciência um repellão; accusou-me de ter feito -capitular a probidade de D. Placida, obrigando-a a um papel torpe, -depois de uma longa vida de trabalho e privações. Medianeira não era, -melhor que concubina; e eu tinha-a baixado a esse officio, á custa -de obsequios e dinheiros. Foi o que me disse a consciencia; e eu -fiquei uns dez minutos sem saber que lhe replicasse. Ella accrescentou -que eu me aproveitára da fascinação exercida por Virgilia sobre a -ex-costureira, da gratidão desta, emfim da necessidade. Notou a -resistência de D. Placida, as lagrimas dos primeiros dias, as caras -feias, os silencios, os olhos baixos, e a minha arte em supportar -tudo isso, até vencel-a. E repuxou-me outra vez de um modo irritado e -nervoso. - -Concordei que assim era, mas alleguei que a velhice de D. Placida -estava agora ao abrigo da mendicidade; era uma compensação. E -raciocinei então que, se não fossem os meus amores, provavelmente -D. Placida acabaria como tantas outras creaturas humanas; donde se -poderia deduzir que o vicio é muitas vezes o estrume da virtude. O que -não impede que a virtude, seja uma flor cheirosa e sã. A consciência -concordou, e eu fui abrir a porta a Virgilia. - - - - -CAPITULO LXXVII - - -Entrevista - - -Virgilia entrou risonha e socegada. Os tempos tinham levado os -sustos e vexames. Que doce que era vel-a chegar, nos primeiros dias, -envergonhada e tremula! Ia de sege, velado o rosto, envolvida n'uma -especie de manteu, que lhe disfarçava as ondulações do talhe. Da -primeira vez deixou-se cair no canapé, offegante, escarlate, com os -olhos no chão; e, palavra! em nenhuma outra occasião a achei tão bella, -talvez porque nunca me senti mais lisonjeado. - -Agora, porém, como eu dizia, tinham acabado os sustos e vexames; as -entrevistas entravam no periodo chronometrico. A intensidade de amor -era a mesma; a differença é que a chamma perdera o tresloucado dos -primeiros dias para constituir-se um simples feixe de raios, tranquillo -e constante, como nos casamentos. - ---Estou muito zangada com você, disse ella sentando-se. - ---Porque? - ---Porque não foi lá hontem, como me tinha dito. O Damião perguntou -muitas vezes se você não iria, ao menos, tomar chá. Porque é que não -foi? - -Com effeito, eu havia faltado á palavra que dera, e a culpa era toda de -Virgilia, Questão de ciúmes. Essa mulher esplendida sabia que o era, e -gostava de o ouvir dizer, fosse em voz alta ou baixa. Na antevespera, -em casa da baroneza, valsara duas vezes com o mesmo peralta, depois -de lhe escutar as cortezanices, ao canto de uma janella. Estava tão -alegre! tão derramada! tão cheia de si! Quando descobriu, entre as -minhas sobrancelhas, a ruga interrogativa e ameaçadora, não teve nenhum -sobresalto, nem ficou subitamente séria; mas deitou ao mar o peralta -e as cortezanices. Veiu depois a mim, tomou-me o braço, e levou-me -até outra sala, menos povoada, onde se me queixou de cançaço, e disse -muitas outras cousas, com o ar pueril que costumava ter, em certas -occasiões, e eu ouvi-a quasi sem responder nada. - -Agora mesmo, custava-me responder alguma cousa, mas emfim contei-lhe -o motivo da minha ausencia... Não, eternas estrellas, nunca vi olhos -mais pasmados. A boca semi-aberta, as sobrancelhas arqueadas, uma -estupefacção visivel, tangivel, que senão podia negar, tal foi a -primeira replica de Virgilia; abanou a cabeça com um sorriso de piedade -e ternura, que inteiramente me confundiu. - ---Ora você! - -E foi tirar o chapéo, lepida, jovial, como a menina que torna do -collegio; depois veiu a mim, que estava sentado, deu-me pancadinhas na -testa, com um só dedo, a repetir;--Isto, isto;--e eu não tive remedio -senão rir tambem, e tudo acabou em galhofa. Era claro que me enganára. - - - - -CAPITULO LXXVIII - - -A presidencia - - -Certo dia, mezes depois, entrou o Lobo Neves em casa, dizendo que iria -talvez occupar uma presidencia de provincia. Olhei para Virgilia, que -empallideceu; elle, que a viu empallidecer, perguntou-lhe: - ---A modo que não gostaste, Virgilia? - -Virgilia abanou a cabeça. - ---Não me agrada muito, foi a sua resposta. - -Não se disse mais nada; mas de noite o Lobo Neves insistiu no projecto, -um pouco mais resolutamente do que de tarde; e dous dias depois -declarou á mulher que a presidencia era cousa definitiva. Virgilia não -pôde dissimular a repugnancia que isto lhe causava. O marido respondia -a tudo com as necessidades politicas. E accrescentava: - ---Não posso recusar o que me pedem; é até conveniencia nossa, do -nosso futuro, dos teus brazões, meu amor, porque eu prometti que -serias marqueza, e nem baroneza estás. Dirás que sou ambicioso? Sou-o -devéras, mas é preciso que me não ponhas um peso nas azas da ambição. - -Virgilia ficou desorientada. No dia seguinte achei-a triste, na casa -da Gamboa, á minha espera; tinha dito tudo a D. Placida, que buscava -consolal-a, como podia. Não fiquei menos abatido. - ---Você hade ir comnosco, disse-me Virgilia. - ---Está douda? Seria uma insensatez. - ---Mas então...? - ---Então, é preciso desfazer o projecto. - ---É impossível. - ---Já aceitou? - ---Parece que sim. - -Levantei-me, atirei o chapeu a uma cadeira, e entrei a passeiar de um -lado para outro, sem saber o que faria. Cogitei largamente, e não achei -nada. Emfim, cheguei-me a Virgilia, que estava sentada, e travei-lhe da -mão; D. Placida foi á janella. - ---Nesta pequenina mão está toda a minha existencia, disse eu; voce é -responsavel por ella; faça o que lhe parecer. - -Virgilia teve um gesto afflictivo; eu fui encostar-me ao consolo -fronteiro. Decorreram alguns instantes do silencio; ouviamos sómente -o latir de um cão, e não sei se o rumor da agua, que morria na praia. -Vendo que não falava, olhei para ella. Virgilia tinha os olhos no -chão, parados, sem luz, as mãos deixadas sobre os joelhos, com os -dedos cruzados, na attitude da suprema desesperança. N'outra occasião, -por differente motivo, é certo que eu me lançaria aos pés della, -e a ampararia com a minha razão e a minha ternura; agora, porém, -era preciso compellil-a ao esforço de si mesma, ao sacrificio, á -responsabilidade da nossa vida commun, e conseguintemente desamparal-a, -deixal-a, e saír; foi o que fiz. - ---Repito, a minha felicidade está nas tuas mãos, disse eu. - -Virgilia quiz agarrar-me, mas eu já estava fóra da porta. Cheguei a -ouvir um proromper de lagrimas, e digo-lhes que estive a ponto de -voltar, para as enxugar com um beijo; mas subjuguei-me e sai. - - - - -CAPITULO LXXIX - - -Compromisso de gato - - -Não acabaria se houvesse de contar pelo miudo o que padeci nas -primeiras horas. Vacillava entre um querer e um não querer, -entre a piedade que me empuxava á casa de Virgilia e outro -sentimento,--egoismo, supponhamos,--que me dizia:--Fica; deixa-a a -sós com o problema, deixa-a que ella o resolverá no sentido do amor. -Creio que essas duas forças tinham egual intensidade, investiam e -resistiam ao mesmo tempo, com ardor, com tenacidade, e nenhuma cedia -definitivamente. Ás rezes sentia um dentesinho de remorso; parecia-me -que abusava da fraqueza de uma mulher amante e culpada, sem nada -sacrificar nem arriscar de mim proprio; e, quando ia a capitular, -vinha outra vez o amor, e me repetia o conselho egoista, e eu ficava -irresoluto e inquieto, desejoso do a ver, e receioso de que a vista me -levasse a compartir a responsabilidade da solução. - -Por fim interveiu um compromisso entre o egoismo e a piedade; eu iria -vel-a em casa, e só em casa, em presença do marido, para lhe não dizer -nada, á espera do effeito da minha intimação. Deste modo, poderia -conciliar as duas forças. Agora, que isto escrevo, quer-me parecer que -o compromisso era uma burla, que essa piedade era ainda um fórma de -egoismo, e que a resolução de ir consolar Virgilia não passava de uma -suggestão de meu proprio padecimento. Occorre-me a este proposito um -naturalista,--não me lembra qual,--mas era um naturalista,--em quem li -esta observação curiosa: «O gato não nos affaga, affaga-se em nós.» -Vejo que eu fazia um compromisso de gato. - - - - -CAPITULO LXXX - - -Do secretario - - -Na noite seguinte fui effectivamente á casa do Lobo Neves; estavam -ambos, Virgilia muito triste, elle muito jovial. Juro que ella sentiu -certo allivio, quando os nossos olhos se encontraram, cheios de -curiosidade e ternura; e não direi o que senti, porque isso já ficou -expresso no capitulo anterior, _in fine._ O Lobo Neves contou-me os -planos que levava para a presidencia, as difficuldades locaes, as -esperanças, as resoluções; estava tão contente! tão esperançado! -Virgilia, ao pé da meza, fingia ler um livro, mas por cima da pagina -olhava-me de quando em quando, interrogativa e ansiosa. - ---O peor, disse-me de repente o Lobo Neves, é que ainda não achei -secretario. - ---Não? - ---Não, e tenho uma idéia. - ---Ah! - ---Uma idéa... Quer você dar um passeio ao norte? Não sei o que lhe -disse. - ---Você é rico, continuou elle, não precisa de um magro ordenado; mas se -quizesse obsequiar-me, ia de secretario commigo. - -Meu espirito deu um salto para traz, como se descobrisse uma serpente -deante de si. Encarei o Lobo Neves, fixamente, imperiosamente, a ver -se lhe apanhava algum pensamento occulto... Nem sombra disso; o olhar -vinha direito e franco, a placidez do rosto era natural, não violenta, -uma placidez salpicada de alegria. Respirei, e não tive animo de -olhar para Virgilia; senti por cima da pagina o olhar della, que me -pedia tambem a mesma cousa, e disse que sim, que iria. Na verdade, um -presidente, uma presidenta, um secretario, era resolver as cousas de um -modo administrativo. - - - - -CAPITULO LXXXI - - -A reconciliação - - -E comtudo, ao sair de lá, tive umas sombras de duvida; cogitei se não -ia expor insanamente a reputação de Virgilia, se não haveria outro -meio razoavel de combinar o Estado e a Gamboa. Não achei nada. No dia -seguinte, ao levantar-mo da cama, trazia o espirito feito e resoluto a -aceitar a nomeação. Ao meio dia, veiu o creado dizer-me que estava na -sala uma senhora, coberta com um véo. Corro; era minha irmã Sabina. - ---Isto não pode continuar assim, disse ella; é preciso que, de uma vez -por todas, façamos as pazes. Nossa familia está acabando; não havemos -de ficar como dous inimigos. - ---Mas se eu não te peço outra cousa, mana! bradei eu estendendo-lhe os -braços. - -E sentei-a ao pé de mim, e falei-lhe do marido, da filha, dos negocios, -de tudo. Tudo ia bem; a filha estava linda como os amores. O marido -viria mostrar-m'a, se eu consentissse. - ---Ora essa! irei eu mesmo vel-a. - ---Sim? - ---Palavra. - ---Tanto melhor! respirou Sabina. É tempo de acabar com isto. - -Achei-a mais gorda, e talvez mais moça. Parecia ter vinte annos, -e contava mais de trinta. Graciosa, affavel, nenhum acanhamento, -nenhum resentimento. Olhavamos um para o outro, com as mãos seguras, -falando de tudo e de nada, como dous namorados. Era a minha infancia -que resurgia, fresca, travessa e loura; os annos iam caindo, como as -fileiras de cartas de jogar encurvadas, com que eu brincava em pequeno, -e deixavam-me ver a nossa casa, a nossa familia, as nossas festas. -Supportei a recordação com algum esforço; mas um barbeiro da visinhança -lembrou-se de zangarrear na classica rabeca, e essa voz,--porque até -então a recordação era muda,--essa voz do passado, fanhosa e saudosa, a -tal ponto me commoveu, que... - -Os olhos della estavam seccos. Sabina não herdára a flor amarella e -mórbida. Que importa? Era minha irmã, meu sangue, um pedaço de minha -mãe, e eu disse-lh'o com ternura, com sinceridade... Subito, ouço bater -á porta da sala; vou abrir; era um anjinho de cinco annos. - ---Entra, Sára, disse Sabina. - -Era minha sobrinha. Apanhei-a do chão, beijei-a muitas vezes; a -pequena, espantada, empurrava-me o hombro com a mãosinha, quebrando -o corpo para descer... Nisto, apparece-me á porta um chapéu, e logo -um homem, o Cotrim, nada menos que o Cotrim. Eu estava tão commovido, -que deixei a filha e lancei-me aos braços do pae. Talvez essa effusão -o desconcertou um pouco; é certo que me pareceu acanhado. Simples -prologo. Dahi a pouco falavamos como bons amigos velhos. Nenhuma -allusão ao passado, muitos planos de futuro, promessa de jantarmos em -casa um do outro; e não deixei de dizer que essa troca de jantares -podia ser que tivesse uma curta interrupção, por que eu andava com -idéas de uma viagem ao norte. Sabina olhou para o Cotrim, o Cotrim para -Sabina; ambos concordaram que essas idéas não tinham senso commum. -Que diacho podia eu achar no norte? Pois não era na côrte, em plena -côrte, que devia continuar a luzir, a metter n'um chinello os rapazes -do tempo? Que, na verdade, nenhum havia que se me comparasse; elle, -Cotrim, acompanhava-me de longe, e, não obstante uma briga ridicula, -teve sempre interesse, orgulho, vaidade nos meus triumphos. Ouvia o -que se dizia a meu respeito, nas ruas e nas salas; era um concerto de -louvores e admirações. E deixa-se isso para ir passar alguns mezes na -provincia, sem necessidade, sem motivo serio? A menos que não fosse -politica... - ---Justamente política, disse eu. - ---Nem assim, replicou elle dahi a um instante--E depois de outro -silencio:--Seja como for, venha jantar hoje comnosco. - ---Certamente que vou; mas, amanhã ou depois, hão de vir jantar commigo. - ---Não sei, não sei, objectou Sabina; casa de homem solteiro... Você -precisa casar, mano. Tambem eu quero uma sobrinha, ouviu? - -O Cotrim reprimiu-a com um gesto, que não entendi bem. Não importa; a -reconciliação de uma familia vale bem um gesto enigmatico. - - - - -CAPITULO LXXXII - - -Questão de botanica - - -Digam o que quizerem dizer os hypocondriacos: a vida é uma cousa -doce. Foi o que eu pensei commigo, ao ver Sabina, o marido e a filha -descerem de tropel as escadas, dizendo muitas palavras affectuosas -para cima, onde eu ficava--no patamar,--a dizer-lhes outras tantas -para baixo. E continuei a pensar que, na verdade, era feliz. Amava-me -uma mulher, tinha a confiança do marido, ia por secretario de ambos, e -reconciliava-me com os meus. Que podia desejar mais, em vinte e quatro -horas? - -Nesse mesmo dia, tratando de apparelhar os animos, comecei a espalhar -que talvez fosse para o norte, como secretario de provincia, afim de -realizar certos designios politicos, que me eram pessoaes. Disse-o na -rua do Ouvidor, repeti-o no dia seguinte, no Pharoux e no theatro. -Alguns, ligando a minha nomeação á do Lobo Neves, que já andava em -boatos, sorriam maliciosamente, outros batiam-me no hombro. No theatro -disse-me uma senhora que era levar muito longe o amor da esculptura. -Referia-se ás bellas fórmas de Virgilia. - -Mas a allusão mais rasgada que me fizeram foi em casa de Sabina, tres -dias depois. Fel-a um certo Garcez, velho cirurgião, pequenino, trivial -e grulha, que podia chegar aos setenta, aos oitenta, aos noventa annos, -sem adquirir jamais aquella compostura austera, que é a gentileza do -ancião. A velhice ridicula é, porventura, a mais triste e derradeira -sorpresa da natureza humana. - ---Já sei, desta vez vae ler Cicero, disse-me elle, ao saber da viagem. - ---Cicero! exclamou Sabina. - ---Pois então? Seu mano é um grande latinista. Traduz Virgilio de -relance. Olhe que é Virgilio, e não Virgilia... não confunda... - -E ria, de um riso grosso, rasteiro e frivolo. Sabina empallideceu e -olhou para mim, receiosa de alguma replica; mas sorriu, quando me viu -sorrir, e voltou o rosto para disfarçal-o. As outras pessoas olhavam-me -com um ar de curiosidade, indulgencia e sympathia; era transparente que -não acabavam de ouvir nenhuma novidade. O caso dos meus amores andava -mais publico do que eu podia suppor. E entretanto sorri, um sorriso -curto, fugitivo e guloso,--palreiro como as pegas de Cintra. Virgilia -era um bello erro, e é tão facil confessar um bello erro! Costumava -ficar carrancudo, a principio, quando ouvia alguma allusão aos nossos -amores; mas, palavra de honra! sentia cá dentro uma impressão suave e -linsongeira. Uma vez, porém, aconteceu-me sorrir, e continuei a fazel-o -das outras vezes. Não sei se ha ahi algum Hobbes ou Spinoza, que -explique o phenomeno. Eu explico-o assim: a principio, o contentamento, -sendo interior, era por assim dizer o mesmo sorriso, mas abotoado; -andando o tempo, desabotou-se em flor, e appareceu aos olhos do -proximo. Simples questão de botanica. - - - - -CAPITULO LXXXIII - - -13 - - -O Cotrim tirou-me daquelle gozo, levando-me á janella.--Você quer que -lhe diga uma cousa? perguntou elle;--não faça essa viagem; é insensata, -é perigosa. - ---Porque? - ---Você bem sabe porque, tornou elle: é, sobretudo, perigosa, muito -perigosa. Aqui na côrte, um caso desses perde-se na multidão da gente -e dos interesses; mas na provincia muda de figura; e tratando-se de -personagens politicos, é realmente insensatez. As gazetas de opposição, -logo que farejarem o negocio, passam a imprimil-o com todas as lettras, -e ahi virão as chufas, os remoques, as alcunhas... - ---Mas não entendo... - ---Entende, entende; e, na verdade, seria bem pouco amigo nosso, se me -negasse o que toda a gente sabe. Eu sei disso ha longos mezes. Repito, -não faça semelhante viagem; supporte a ausencia, que é melhor, e evite -algum grande escandalo e maior desgosto... - -Disse isto, e foi para dentro. Eu deixei-me estar com os olhos no -lampião da esquina,--um antigo lampião de azeite,--triste, obscuro e -recurvado, como um ponto de interrogação. Que me cumpria fazer? Era o -caso de Hamlet: ou dobrar-me á fortuna, ou lutar com ella e subjugal-a. -Por outros termos: embarcar ou não embarcar. Esta era a questão. O -lampião não me dizia nada. As palavras do Cotrim resoavam-me aos -ouvidos da memoria, de um modo bem diverso do das palavras do Garcez. -Talvez o Cotrim tivesse razão: mas podia eu separar-me de Virgilia? - -Sabina veiu ter commigo, e perguntou-me em que estava pensando. -Respondi que em cousa nenhuma, que tinha somno e ia para casa. Sabina -esteve um instante calada.--O que você precisa, sei eu; é uma noiva. -Deixe, que eu ainda arranjo uma noiva para você. Saí de lá oppresso, -desorientado. Tudo prompto para embarcar,--espirito e coração,--e eis -ahi me surge esse porteiro das conveniencias, que me pede o cartão de -ingresso. Dei ao diabo as conveniências, e com ellas a constituição, o -corpo legislativo, o ministerio, tudo. - -No dia seguinte, abro uma folha politica e leio a noticia de que, por -decretos de 13, tínhamos sido nomeados presidente e secretario da -provincia de *** o Lobo Neves e eu. Escrevi immediatamente a Virgilia, -e segui duas horas depois para a Gamboa. Coitada de D. Placida! Estava -cada vez mais afflicta; perguntou-me se esqueceriamos a nossa velha, se -a ausencia era grande e se a provincia ficava longe. Consolei-a; mas -eu proprio precisava de consolações; a objecção do Cotrim affligia-me -profundamente. Virgilia chegou dahi a pouco, lepida como uma andorinha; -mas, ao ver-me triste, ficou muito seria. - ---Que aconteceu? - ---Vacillo, disse eu; não sei se devo aceitar... - -Virgilia deixou-se cair, no canapé, a rir.--Porque? disse ella. - ---Não é conveniente, dá muito na vista... - ---Mas nós já não vamos. - ---Como assim? - -Contou-me que o marido ia recusar a nomeação, e por motivo que só disse -a ella, pedindo-lhe o maior segredo; não podia confessal-o a ninguem -mais.--É pueril, observou elle, é ridiculo; mas em summa, é um motivo -poderoso para mim. E referiu-lhe que o decreto trazia a data de 13, e -que esse numero significava para elle uma recordação funebre. O pae -morreu n'um dia 13, treze dias depois de um jantar, em que havia treze -pessoas. A casa em que morrera a mãe tinha o n. 13. Et cætera. Era um -algarismo fatidico. Não podia allegar semelhante cousa ao ministro; -dir-lhe-hia que tinha razões particulares para não aceitar. Eu fiquei -como ha de estar o leitor,--um pouco assombrado com esse sacrifício a -um numero; mas, sendo elle ambicioso, o sacrificio devia ser sincero... -E ficavamos. Para alguma cousa ha de servir a superstição dos homens. - - - - -CAPITULO LXXXIV - - -O conflicto - - -Numero fatidico, lembras-te que te abençoei muitas vezes? Assim tambem -as virgens ruivas de Thebas deviam abençoar a egua, de ruiva crina, -que as substituiu no sacrificio de Pelopidas,--uma donosa egua, que -lá morreu, coberta de flores, sem que ninguem lhe désse nunca uma -palavra de saudade. Pois dou-t'a eu, egua piedosa, não só pela morte -havida, como porque, entre as donzellas escapas, não é impossivel -que figurasse uma avó dos Cubas... Numero fatidico, tu foste a nossa -salvação. Não me confessou o marido a causa da recusa; disse-me tambem -que eram negocios particulares, e o rosto serio, convencido, com que -eu o escutei, fez honra á dissimulação humana. Elle é que mal podia -encobrir a tristeza profunda que o minava; falava pouco, absorvia-se, -mettia-se em casa, a ler. Outras vezes recebia, e então conversava e -ria muito, com estrepito e affectação. Opprimiam-n'o duas cousas,--a -ambição, que um escrupulo desazára, e logo depois a duvida, e talvez -o arrependimento,--mas um arrependimento, que viria outra vez, si se -repetisse a hypothese, porque o fundo supersticioso existia. Duvidava -da superstição, sem chegar a rejeital-a. Essa persistencia de um -sentimento, que repugna ao mesmo individuo, era um phenomeno digno de -alguma attenção. Mas eu preferia a pura ingenuidade de D. Placida, -quando confessava não poder ver um sapato voltado para o ar. - ---Que tem isso? perguntava-lhe eu. - ---Faz mal, era a sua resposta. - -Isto somente, esta unica resposta, que valia para ella o livro dos sete -sellos. Faz mal. Disseram-lhe isso em criança, sem outra explicação; -e ella contentava-se com a certeza do mal. Já não acontecia a mesma -cousa quando se falava de apontar uma estrella com o dedo; ahi sabia -perfeitamente que era caso de crear uma verruga. - -Ou verruga ou outra cousa, que valia isso, para quem não perde uma -presidencia de provincia? Tolera-se uma superstição gratuita ou barata; -é insupportavel a que leva uma parte da vida. Este era o caso do Lobo -Neves; com o accrescimo da duvida e do terror de haver sido ridiculo. -E mais este outro accrescimo, que o ministro não acreditou nos motivos -particulares; attribuiu a recusa do Lobo Neves a manejos politicos, -illusão complicada de algumas apparencias; tratou-o mal, communicou a -desconfiança aos collegas; sobrevieram incidentes; emfim, com o tempo, -o presidente resignatario foi para a opposição. - - - - -CAPITULO LXXXV - - -O cimo da montanha - - -Quem escapa a um perigo ama a vida com outra intensidade; eu entrei -a amar Virgilia com muito mais ardor, depois que estive a pique de a -perder, e a mesma cousa lhe aconteceu a ella. Assim, a presidencia não -fez mais do que avivar a affeição primitiva; foi a droga de Malabar, -com que tornámos mais saboroso o nosso amor, e mais prezado tambem. Nos -primeiros dias, depois daquelle incidente, folgavamos de imaginar a -dôr da separação, se houvesse separação, a tristeza de um e de outro, -á proporção que o mar, como uma toalha elastica, se fosse dilatando -entre nós; e, semelhantes ás crianças, que se achegam ao regaço das -mães, para fugir a uma simples careta, fugiamos do supposto perigo, -apertando-nos com abraços. - ---Minha boa Virgilia! - ---Meu amor! - ---Tu és minha, não? - ---Tua, tua... - -E assim reatámos o fio da aventura, como a sultana Scheherazade o dos -seus contos. Esse foi, cuido eu, o ponto maximo do nosso amor, o cimo -da montanha, donde por algum tempo divisámos os valles de leste e de -oeste, e por cima de nós o ceu tranquillo e azul. Repousado esse tempo, -começámos a descer a encosta, com as mãos presas ou soltas, mas a -descer, a descer... - - - - -CAPITULO LXXXVI - - -O mysterio - - -Serra abaixo, como eu a visse um pouco differente, não sei se abatida -ou outra cousa, perguntei-lhe o que tinha; calou-se, fez um gesto de -enfado, de máu estar, de fadiga; ateimei, ella disse-me que... Um -fluido subtil percorreu todo o meu corpo: sensação forte; rapida, -singular, que eu não chegarei jamais a fixar no papel. Travei-lhe das -mãos, puxei-a levemente a mim, e beijei-a na testa, com uma delicadeza -de zephyro e uma gravidade de Abrahão. Ella estremeceu, colheu-me a -cabeça entre as palmas, fitou-me os olhos, depois affagou-me com um -gesto maternal...Eis ahi um mysterio; deixemos ao leitor o tempo de -decifrar este mysterio. - - - - -CAPITULO LXXXVII - - -Geologia - - -Succedeu por esse tempo um desastre: a morte do Viegas. O Viegas passou -ahi de relance, n'um capitulo, com os seus setenta annos, abafados -de asthma, desconjuntados de rheumatismo, e uma lesão de coração por -quebra. Foi um dos finos espreitadores da nossa aventura. Virgilia -nutria grandes esperanças em que esse velho parente, avaro como um -sepulchro, lhe amparasse o futuro do filho, com algum legado; e, se -o marido tinha eguaes pensamentos, encobria-os ou estrangulava-os. -Tudo se deve dizer: havia no Lobo Neves certa dignidade fundamental, -uma camada de rocha, que resistia ao commercio dos homens. As outras, -as camadas de cima, terra solta e arêa, levou-lh'as a vida, que é -um enxurro perpetuo. Se o leitor ainda se lembra do cap. XXXIII, -observará que é agora a segunda vez que eu comparo a vida a um -enxurro; mas tambem ha de reparar que desta vez accrescento-lhe -um adjectivo--perpetuo. E Deus sabe a força de um adjectivo, -principalmente em paizes novos e cálidos. - -O que é novo neste livro é a geologia moral do Lobo Neves, e -provavelmente a do cavalheiro, que me está lendo. Sim, essas camadas -de caracter, que a vida altera, conserva ou dissolve, conforme a -resistencia dellas, essas camadas mereceriam um capitulo, que eu não -escrevo, por não alongar a narração. Digo apenas que o homem mais -probo que conheci em minha vida foi um certo Jacob Medeiros ou Jacob -Valladares, não me recorda bem o nome. Talvez fosse Jacob Rodrigues; -em summa, Jacob. Era a probidade mesma; podia ser rico, violentando um -pequenino escapulo, e não quiz; deixou ir pelas mãos fóra nada menos de -uns quatrocentos contos; tinha a probidade tão exemplar, que chegava -a ser miuda e cançativa. Um dia, como nos achassemos, a sós, em casa -delle, em boa palestra, vieram dizer que o procurava o Dr. B., um -sujeito enfadonho. O Jacob mandou dizer que não estava em casa. - ---Não péga, bradou uma voz do corredor; cá estou de dentro. - -E, com effeito, era o Dr. B., que appareceu logo á porta da sala. O -Jacob foi recebel-o, affirmando que cuidava ser outra pessoa, e não -elle, e accrescentando que tinha muito prazer com a visita, o que nos -rendeu hora e meia de enfado mortal, e isto mesmo, porque o Jacob tirou -o relogio; o Dr. B. pergutou-lhe então se ia sair. - ---Com minha mulher, disse o Jacob. - -Retirou-se o Dr. B. e respiramos. Uma vez respirados, disse eu ao -Jacob que elle acabava de mentir quatro vezes, em menos de duas horas: -a primeira, negando-se; a segunda, alegrando-se com a presença do -importuno; a terceira, dizendo que ia sair; a quarta, accrescentando -que com a mulher. O Jacob reflectiu um instante, depois confessou a -justeza da minha observação, mas desculpou-se dizendo que a veracidade -absoluta era incompativel com um estado social adiantado, e que a paz -das cidades só se podia obter á custa de embaçadellas reciprocas... Ah! -lembra-me agora: chamava-se Jacob Tavares. - - - - -CAPITULO LXXXVIII - - -O enfermo - - -Não é preciso dizer que refutei tão perniciosa doutrina, com os mais -elementares argumentos; mas elle estava tão vexado do meu reparo, -que resistiu até o fim, mostrando certo calor ficticio, talvez para -atordoar a consciencia. - -O caso de Virgilia tinha alguma gravidade mais. Ella era menos -escrupulosa que o marido; manifestava claramente as esperanças que -trazia no legado, cumulava o parente de todas as cortezias, attenções -e affagos que poderiam render, pelo menos, um codicillo. Propriamente, -adulava-o; mas eu observei que a adulação das mulheres não é a mesma -cousa que a dos homens. Esta orça pela servilidade; a outra confunde-se -com a affeição. As formas graciosamente curvas, a palavra doce, a mesma -fraqueza physica dão á acção lisonjeira da mulher uma côr local, um -aspecto legitimo. Não importa a edade do adulado; a mulher ha de ter -sempre para elle uns ares de mãe ou de irmã,--ou ainda de enfermeira, -outro officio feminil, em que o mais habil dos homens carecerá sempre -de um _quid_, um fluido, alguma cousa. - -Era o que eu pensava commigo, quando Virgilia se desfazia toda em -affagos ao velho parente. Ella ia recebel-o á porta, falando e rindo, -tirava-lhe o chapeu e a bengala, dava-lhe o braço e levava-o até uma -cadeira, ou até á cadeira, porque havia lá em casa a «cadeira do -Viegas», obra especial, conchegada, feita para gente enferma ou anciã. -Ia fechar a janella proxima, se havia alguma brisa, ou abril-a, se -estava calor, mas com cuidado, combinando de modo que lhe não désse um -golpe de ar. - ---Então? hoje está mais fortesinho... - ---Qual! Passei mal a noite; o diabo da asthma não me deixa. - -E bufava o homem, repousando a pouco e pouco do cançaço da entrada e -da subida, não do caminho, porque ia sempre de sege. Ao lado, um pouco -mais para a frente, sentava-se Virgilia, n'uma banquinha, com as mãos -nos joelhos do enfermo. Entretanto, o nhonhô chegava á sala, sem os -pulos do costume, mas discreto, meigo, serio. O Viegas gostava muito -delle. - ---Vem cá, nhonhô, dizia-lhe; e a custo introduzia a mão na ampla -algibeira, tirava uma caixinha de pastilhas, mettia uma na boca o dava -outra ao pequeno. Pastilhas anti-asthmaticas. O pequeno dizia que eram -muito boas. - -Repetia-se isto, com variantes. Como o Viegas gostasse de jogar damas, -Virgilia cumpria-lhe o desejo, aturando-o por largo tempo, a mover as -pedras com a mão frouxa e tarda. Outras vezes, desciam a passear na -chacara, dando-lhe ella o braço, que elle nem sempre aceitava, por -dizer-se rijo e capaz de andar uma legua. Iam, sentavam-se, tornavam -a ir, a falar de cousas varias, ora de um negocio de familia, ora de -uma bisbilhotice de alcova, ora emfim de uma casa que elle meditava -construir, para residencia propria, casa de feitio moderno, porque a -delle era das antigas, contemporânea de el-rei D. João VI, á maneira -de algumas que ainda hoje (creio eu) se podem ver no bairro de S. -Christovão, com as suas grossas columnas na frente. Parecia-lhe que o -casarão em que morava podia ser substituido, e já tinha encommendado -o risco a um pedreiro de fama. Ah! então sim, então é que Virgilia -chegaria a ver o que era um velho de gosto. - -Falava, como se póde suppôr, lentamente e a custo, intervallado de uma -arfagem incommoda para elle e para os outros. De quando em quando, -vinha um accesso de tosse; curvo, gemendo, levava o lenço á boca, e -investigava-o; passado o accesso, tornava ao plano da casa, que devia -ter taes e taes quartos, um terraço, cocheira, um primor. - - - - -CAPITULO LXXXIX - - -In extremis - - ---Amanhã vou passar o dia em casa do Viegas, disse-me ella uma vez. -Coitado! não tem ninguem... - -O Viegas caíra na cama, definitivamente; a filha, casada, adoecera -justamente agora, e não podia fazer-lhe companhia. Virgilia ia lá -de quando em quando. Eu aproveitei a circumstancia para passar todo -aquelle dia ao pé della. Eram duas horas da tarde quando cheguei. O -Viegas tossia com tal força que me fazia arder o peito; no intervallo -dos accessos debatia o preço de uma casa, com um sujeito magro. O -sujeito offerecia trinta contos, o Viegas exigia quarenta. O comprador -instava como quem receia perder o trem da estrada de ferro, mas o -Viegas não cedia; recusou primeiramente os trinta contos, depois -mais dous, depois mais tres, emfim teve um forte accesso, que lhe -tolheu a fala durante quinze minutos. O comprador acarinhou-o muito, -arranjou-lhe os travesseiros, offereceu-lhe trinta e seis contos. - ---Nunca! gemeu o enfermo. - -E mandou buscar um maço de papeis á escrivaninha; não tendo forças -para tirar a fita de borracha que prendia os papeis, pediu-me que os -deslaçasse: fil-o. Eram as contas das despezas com a construcção da -casa: contas de pedreiro, de carpinteiro, de pintor; contas do papel da -sala de visitas, da sala de jantar, das alcovas, dos gabinetes; contas -das ferragens; custo do terreno. Elle abria-as, uma por uma, com a mão -tremula, e pedia-me que as lesse, e eu lia-as. - ---Veja; mil e duzentos, papel de mil e duzentos a peça. Dobradiças -francezas... Veja, é de graça, concluiu elle depois de lida a ultima -conta. - ---Pois bem... mas... - ---Quarenta contos; não lhe dou por menos. Só os juros... faça a conta -dos juros... - -Vinham tossidas estas palavras, ás golfadas, ás syllabas, como se -fossem migalhas de um pulmão desfeito. Nas orbitas fundas rolavam os -olhos lampejantes, que me faziam lembrar a lamparina da madrugada. Sob -o lençol desenhava-se a estructura ossea do corpo, pontudo em dous -lugares, nos joelhos e nos pés; a pelle amarellada, bamba, rugosa, -revestia apenas a caveira de um rosto sem expressão; uma carapuça de -algodão branco cobria-lhe o craneo rapado pelo tempo. - ---Então? disse o sujeito magro. - -Fiz-lhe signal para que não insistisse, e elle calou-se por alguns -instantes. O doente ficou a olhar para o tecto, calado, a arfar muito; -Virgilia empallideceu, levantou-se, foi até á janella. Suspeitara a -morte e tinha medo. Eu procurei falar de outras cousas. O sujeito magro -contou uma anecdota, e tornou a tratar da casa, alteando a proposta. - ---Trinta e oito contos, disse elle. - ---Am?... gemeu o enfermo. - -O sujeito magro aproximou-se da cama, pegou-lhe na mão, e sentiu-a -fria. Eu acheguei-me ao doente, perguntei-lhe se sentia alguma cousa, -se queria tomar um calice de vinho. - ---Não... não... quar... quaren... quar... quar... - -Teve um accesso de tosse, e foi o ultimo; dahi a pouco expirava elle, -com grande consternação do sujeito magro, que me confessou depois a -disposição em que estava de offerecer os quarenta contos; mas era -tarde. - - - - -CAPITULO XC - - -O velho colloquio de Adão e Caim - - -E nada. Nenhuma lembrança testamentaria, uma pastilha que fosse, com -que do todo em todo não parecesse ingrato ou esquecido. Nada. Virgilia -tragou raivosa esse mallogro, e disse-m'o com certa cautela, não pela -cousa em si, senão porque entendia com o filho, de quem sabia que eu -não gostava muito, nem pouco. Insinuei-lhe que não devia pensar mais em -semelhante negocio. O melhor de tudo era esquecer o defunto, um lorpa, -um cainho sem nome, e tratar de cousas alegres; o nosso filho, por -exemplo. - -Lá me escapou a decifração do mysterio, esse doce mysterio de algumas -semanas antes, quando Virgilia me pareceu um pouco differente do que -era. Um filho! Um ser tirado do meu ser! Esta era a minha preoccupação -exclusiva daquelle tempo. Olhos do mundo, zelos do marido, morte do -Viegas, nada me interessava por então, nem conflictos politicos, -nem revoluções, nem terremotos, nem nada. En só pensava naquelle -embryão anonymo, de obscura paternidade, e uma voz secreta me dizia: -é teu filho. Meu filho! E repetia estas duas palavras, com certa -voluptuosidade indefinivel, e não sei que assomos de orgulho. Sentia-me -homem. - -O melhor é que conversávamos os dous, o embryão e eu, falavamos -de cousas presentes e futuras. O maroto amava-me, era um pelintra -gracioso, dava-me pancadinhas na cara com as mãosinhas gordas, ou -então traçava a beca de bacharel, porque elle havia de ser bacharel, -e fazia um discurso na camara dos deputados. E o pae a ouvil-o de uma -tribuna, com os olhos rasos de lagrimas. De bacharel passava outra vez -á escola, pequenino, lousa e livros debaixo do braço, ou então caía no -berço para tornar a erguer-se homem. Em vão buscava fixar no espirito -uma edade, uma attitude; esse embryão tinha a meus olhos todos os -tamanhos e gestos: elle mamava, elle escrevia, elle valsava, elle era -o interminável nos limites de um quarto de hora,--_baby_ e deputado, -collegial e pintalegrete. Ás vezes, ao pé de Virgilia, esquecia-me -della e de tudo; Virgilia sacudia-me, reprochava-me o silencio, dizia -que eu já lhe não queria nada. A verdade é que estava em dialogo com -o embryão; era o velho colloquio de Adão e Caim, uma conversa sem -palavras entre a vida e a vida, o mysterio e o mysterio. - - - - -CAPITULO XCI - - -Uma carta extraordinaria - - -Por esse tempo recebi uma carta extraordinaria, acompanhada de um -objecto não menos extraordinario. Eis o que a carta dizia: - - «Meu caro Braz Cubas. - - «Ha tempos, no Passeio Publico, tomei-lhe de emprestimo - um relogio. Tenho a satisfação de restituir-lh'o com esta - carta. A differença é que não é o mesmo, porém outro, não - digo superior, mas egual ao primeiro. _Que voulez-vous, - monseigneur_,--como dizia Figaro,--_c'est la misère._ Muitas - cousas se deram depois do nosso encontro; irei contal-as - pelo miudo, se me não fechar a porta. Saiba que já não trago - aquellas botas caducas, nem envergo uma famosa sobrecasaca - cujas abas se perdiam na noite dos tempos. Cedi o meu degrau - da escada de S. Francisco; finalmente, almóço. - - «Dito isto, peço licença para ir um dia destes expor-lhe - um trabalho, fructo de longo estudo, um novo systema de - philosophia, que não só explica e descreve a origem e a - consummação das cousas, como faz dar um grande passo adeante - de Zenon e Seneca, cujo stoicismo era um verdadeiro brinco - de crianças ao pé da minha receita moral. É singularmente - espantoso este meu systema; rectifica o espirito humano, - supprime a dor, assegura a felicidade, e enche de immensa - gloria o nosso paiz. Chamo-lhe humanitismo, de _Humanitas_, - principio das cousas. Minha primeira idéa revelava uma grande - enfatuação; era chamar-lhe borbismo, de Borba; denominação - vaidosa, além de rude e molesta. E com certeza exprimia - menos. Verá, meu caro Braz Cubas, verá que é devéras um - monumento; e se alguma cousa ha que possa fazer-me esquecer - as amarguras da vida, é o gosto de haver emfim apanhado - a verdade e a felicidade. Eil-as na minha mão essas - duas esquivas; após tantos seculos de lutas, pesquizas, - descobertas, systemas e quédas, eil-as nas mãos do homem. Até - breve, meu caro Braz Cubas. Saudades do - - Velho amigo Joaquim Borba dos Santos.» - -Li esta carta sem entendel-a. Vinha com ella uma boceta contendo -um bonito relogio com as minhas iniciaes gravadas, e esta phrase: -_Lembrança do velho Quincas._ Voltei á carta, reli-a com pausa, com -attenção. A restituição do relogio excluia toda a idéa de burla; -a lucidez, a serenidade, a convicção,--um pouco jactanciosa, é -certo,--pareciam excluir a suspeita de insensatez. Naturalmente -o Quincas Borba herdara de algum dos seus parentes de Minas, e a -abastança devolvera-lhe a primitiva dignidade. Não digo tanto; ha -cousas que se não podem rehaver integralmente; mas emfim a regeneração -não era impossivel. Guardei a carta e o relogio, e esperei a -philosophia. - - - - -CAPITULO XCII - - -Um homem extraordinario - - -Já agora acabo com as cousas extraordinarias. Vinha de guardar a -carta e o relogio, quando me procurou um homem magro e meão, com um -bilhete do Cotrim, convidando-me para jantar. O portador era casado -com uma irmã do Cotrim, chegára poucos dias antes do norte, chamava-se -Damasceno, e fizera a revolução de 1831. Foi elle mesmo que me disse -isto, no espaço de cinco minutos. Saíra do Rio de Janeiro, por -desaccordo com o Regente, que era um asno, pouco menos asno do que os -ministros que serviram com elle. De resto, a revolução estava outra -vez ás portas. Neste ponto, comquanto trouxesse as idéas politicas -um pouco baralhadas, consegui organisar e formular o governo de suas -preferencias: era um despotismo temperado,--não por cantigas, como -dizem alhures,--mas por pennachos da guarda nacional. Só não pude -alcançar se elle queria o despotismo de um, de tres, de trinta ou de -tresentos. Opinava por varias cousas, entre outras, o desenvolvimento -do trafico dos africanos e a expulsão dos inglezes. Gostava muito -de theatro; logo que chegou foi ao theatro de S. Pedro, onde viu um -drama soberbo, a _Maria Joanna_, e uma comedia muito interessante, -_Kettly, ou a volta á Suissa._ Tambem gostara muito da Deperini, na -_Sapho_, ou na _Anna Bolena_, não se lembrava bem. Mas a Candiani! -sim, senhor, era papa-fina. Agora queria ouvir o _Ernani_, que a filha -delle cantava em casa, ao piano: _Ernani, Ernani, involami..._--E dizia -isto levantando-se e cantarolando a meia voz.--No norte essas cousas -chegavam como um echo. A filha morria por ouvir todas as operas. Tinha -uma voz muito mimosa a filha. E gosto, muito gosto. Ah! elle estava -ancioso por voltar ao Rio de Janeiro. Já havia corrido a cidade toda, -com umas saudades... Palavra! em alguns logares teve vontade de chorar. -Mas não embarcaria mais. Enjoára muito a bordo, como todos os outros -passageiros, excepto um inglez... Que os levasse o diabo os inglezes! -Isto não ficava direito sem irem todos elles barra fóra. Que é que a -Inglaterra podia fazer-nos? Se elle encontrasse algumas pessoas de -boa vontade, era obra de uma noite a expulsão dos taes _godemes_... -Graças a Deus, tinha patriotismo,--e batia no peito,--o que não -admirava porque era de familia; descendia de um antigo capitão-mór -muito patriota. Sim, não era nenhum pé-rapado. Viesse a occasião, e -elle havia de mostrar de que pau era a canoa... Mas fazia-se tarde, -ia dizer que eu não faltaria ao jantar, e lá me esperava para -maior palestra.--Levei-o até á porta da sala; elle parou dizendo -que sympathisava muito commigo. Quando casára, estava eu na Europa. -Conheceu meu pae, um homem ás direitas, com quem dansára n'um celebre -baile da Praia Grande... Coisas! coisas! Falaria depois, fazia-se -tarde, tinha de ir levar a resposta ao Cotrim. Saiu; fechei-lhe a -porta... Uf! - - - - -CAPITULO XCIII - - -O jantar - - -Que supplicio que foi o jantar! Felizmente, Sabina fez-me sentar ao pé -da filha do Damasceno, uma D. Eulalia, ou mais familiarmente Nhã-lóló, -moça bem graciosa, um tanto acanhada a principio, mas só a principio. -Faltava-lhe elegancia, mas compensava-a com os olhos, que eram -soberbos e só tinham o defeito de se não arrancarem de mim, excepto -quando desciam ao prato; mas Nhã-lóló comia tão pouco, que quasi não -olhava para o prato. De noite cantou; a voz era como dizia o pae, -«muito mimosa». Não obstante, esquivei-me. Sabina veiu até á porta, e -perguntou-me que tal achára a filha do Damasceno. - ---Assim, assim. - ---Muito sympathica, não é? acudiu ella; falta-lhe um pouco mais de -corte. Mas que coração! é uma perola. Bem boa noiva para você. - ---Não gosto de perolas. - ---Casmurro! Para quando é que você se guarda? para quando estiver a -cair de maduro, já sei. Pois, meu rico, quer você queira quer não, ha -de casar com Nhã-lóló. - -E dizia isto a bater-me na face com os dedos, meiga como uma pomba, e -ao mesmo tempo intimativa e resoluta. Santo Deus! seria esse o motivo -da reconciliação? Fiquei um pouco desconsolado com a idéa, mas uma voz -mysteriosa chamava-me á casa do Lobo Neves, disse adeus a Sabina e ás -suas ameaças. - - - - -CAPITULO XCIV - - -A causa secreta - - ---Como está a minha querida mamãe? - -A esta palavra, Virgilia amuou-se, como sempre. Estava ao canto de uma -janella, sosinha, a olhar para a lua, e recebeu-me alegremente; mas -quando lhe falei no nosso filho amuou-se. Não gostava de semelhante -allusão, aborreciam-lhe as minhas anticipadas caricias paternaes. -E eu, para quem ella era já uma pessoa sagrada, uma ambula divina, -deixava-a estar quieta. Suppuz a principio que o embryão, esse perfil -do incognito, projectando-se na nossa aventura, lhe restituira a -consciência do mal. E enganava-me. Nunca Virgilia me parecera mais -expansiva, mais sem reservas, menos preoccupada dos outros e do marido. -Não eram remorsos. Imaginei tambem que a concepção seria um puro -invento, um modo de prender-me a ella, recurso sem longa efficacia, que -talvez começava de opprimil-a. Não era absurda esta hypothese; a minha -doce Virgilia mentia ás vezes, com tanta graça! - -Naquella noite descobri a causa verdadeira. Era medo do parto e -vexame da gravidez. Padecera muito quando lhe nasceu o primeiro -filho; e essa hora, feita de minutos de vida e minutos de morte, -dava-lhe já imaginariamente os calefrios do patibulo. Quanto ao -vexame, complicava-se ainda da forçada privação de certos habitos -da vida elegante. Com certeza, era isso mesmo; dei-lh'o a entender, -reprehendendo-a, um pouco em nome dos meus direitos de pae. Virgilia -fitou-me; em seguida desviou os olhos e sorriu de um geito incredulo. - - - - -CAPITULO XCV - - -Flores de antanho - - -Onde estão ellas as flores de antanho? Uma tarde, apoz algumas semanas -de gestação, esboroou-se todo o edificio das minhas chimeras paternaes. -Foi-se o embryão, naquelle ponto em que se não distingue Laplace de -uma tartaruga. Tive a noticia por boca do Lobo Neves, que me deixou na -sala, e acompanhou o medico á alcova da frustrada mãe. Eu encostei-me -á janella, a olhar para a chacara, onde verdejavam as laranjeiras sem -flores. Onde iam ellas as flores de antanho? - - - - -CAPITULO XCVI - - -A carta anonyma - - -Senti tocar-me no hombro; era o Lobo Neves. Encaramo-nos alguns -instantes, mudos, inconsolaveis. Indaguei de Virgilia, depois ficamos -a conversar uma meia hora. No fim desse tempo, vieram trazer-lhe uma -carta; elle leu-a, empallideceu muito, e fechou-a com a mão tremula. -Creio que lhe vi fazer um gesto, como se quizesse atirar-se sobre mim; -mas não me lembra bem. O que me lembra claramente é que durante os dias -seguintes recebeu-me frio e taciturno. Emfim, Virgilia contou-me tudo, -dahi a dias na Gamboa. - -O marido mostrou-lhe a carta, logo que ella se restabeleceu. Era -anonyma e denunciava-nos. Não dizia tudo; não falava, por exemplo, das -nossas entrevistas externas; limitava-se a precavel-o contra a minha -intimidade, e accrescentava que a suspeita era publica. Virgilia leu a -carta e disse com indignação que era uma calumnia infame. - ---Calumnia? perguntou o Lobo Neves. - ---Infame. - -O marido respirou; mas, tornando á carta, parece que cada palavra della -lhe fazia com o dedo um signal negativo, cada lettra bradava contra a -indignação da mulher. Esse homem, aliás intrepido, era agora a mais -fragil das creaturas. Talvez a imaginação lhe mostrou, ao longe, o -famoso olho da opinião, a fital-o sarcasticamente, com um ar de pulha; -talvez uma boca invisivel lhe repetiu ao ouvido as chufas que elle -escutara ou dissera outr'ora. Instou com a mulher que lhe confessasse -tudo, porque tudo lhe perdoaria. Virgilia comprehendeu que estava -salva; mostrou-se irritada com a insistencia, jurou que da minha parte -só ouvira palavras de gracejo e cortezia. A carta havia de ser de algum -namorado sem ventura. E citou alguns,--um que a galanteára francamente, -durante algumas semanas, outro que lhe escrevera uma carta, e ainda -outros e outros. Citava-os pelo nome, com circumstancias, estudando -os olhos do marido, e concluiu dizendo que, para não dar margem á -calumnia, tratar-me-hia de maneira que eu não voltaria lá. - -Ouvi tudo isto um pouco turbado, não pelo accrescimo de dissimulação -que era preciso empregar de ora em diante, até afastar-me inteiramente -da casa do Lobo Neves, mas pela tranquillidade moral de Virgilia, pela -falta de commoção, de susto, de saudades, e até de remorsos. Virgilia -notou a minha preoccupação, levantou-me a cabeça, porque eu olhava -então para o soalho, e disse-me com certa amargura: - ---Você não merece os sacrifícios que lhe faço. - -Não lhe disse nada; era ocioso ponderar-lhe que um pouco de desespero -e terror daria á nossa situação o sabor caustico dos primeiros dias; -mas se lh'o dissesse, não é impossivel que ella chegasse lenta e -artificiosamente até esse pouco de desespero e terror. Não lhe disse -nada. Ella batia nervosamente com a ponta do pé no chão; aproximei-me e -beijei-a na testa. Virgilia recuou, como se fosse um beijo de defuncto. - - - - -CAPITULO XCVII - - -Entre a boca e a testa - - -Sinto que o leitor estremeceu,--ou devia estremecer. Naturalmente -a ultima palavra suggeriu-lhe tres ou quatro reflexões. Veja bem o -quadro: n'uma casinha da Gambôa*, duas pessoas que se amam ha muito -tempo, uma inclinada para a outra, a dar-lhe um beijo na testa, e a -outra a recuar, como se sentisse o contacto de uma boca de cadaver. -Ha ahi, no breve intervallo, entre a boca e a testa, antes do beijo e -depois do beijo, ha ahi largo espaço para muita cousa,--a contracção de -um resentimento,--a ruga da desconfiança,--ou emfim o nariz pallido e -somnolento da saciedade.. - - - - -CAPITULO XCVIII - - -Supprimido - - -Separamo-nos alegremente. Jantei reconciliado com a situação. A carta -anonyma restituia á nossa aventura o sal do mysterio e a pimenta do -perigo; e afinal foi bem bom que Virgilia não perdesse naquella crise a -posse de si mesma. De noite fui ao theatro de S. Pedro; representava-se -uma grande peça, em que a Estella arrancava lagrimas. Entro; corro -os olhos pelos camarotes; vejo em um delles o Damasceno e a familia. -Trajava a filha com outra elegancia e certo apuro, cousa difficil de -explicar, porque o pae ganhava apenas o necessario para endividar-se; e -dahi, talvez fosse por isso mesmo. - -No intervallo fui visital-os. O Damasceno recebeu-me com muitas -palavras, a mulher com muitos sorrisos. Quanto a Nhã-lóló, não tirou -mais os olhos de mim; e realmente parecia-me agora mais bonita que -no dia do jantar. Achei-lhe certa suavidade etherea casada ao polido -das fórmas terrenas:--expressão vaga, e condigna de um capitulo em -que tudo ha de ser vago. Realmente, não sei como lhes diga que não me -senti mal, ao pé da moça, trajando garridamente um vestido fino, um -vestido que me dava cocegas de Tartuffo. Ao contemplal-o, cobrindo -casta e redondamente o joelho, foi que eu fiz uma descoberta subtil, a -saber, que a natureza previu a vestidura humana, condição necessaria -ao desenvolvimento da nossa especie. A nudez habitual, dada a -multiplicação das obras e dos cuidados do individuo, tenderia a embotar -os sentidos e a retardar os sexos, ao passo que o vestuario, negaceando -a natureza, aguça e attráe as vontades, activa-as, reprodul-as, e -conseguintemente faz andar a civilisação. Abençoado uso que nos deu -_Othello_ e os paquetes transatlânticos! - -Estou com vontade de supprimir este capitulo. O declive é perigoso. -Mas emfim eu escrevo as minhas memorias e não as tuas, leitor pacato. -Ao pé da graciosa donzella, parecia-me tomado de uma sensação dupla -e indefinivel. Ella exprimia inteiramente a dualidade de Pascal, -_l'ange et la bête_, com a differença que o jansenista não admittia a -simultaneidade das duas naturezas, ao passo que ellas ahi estavam bem -juntinhas,--_l'ange_, que dizia algumas cousas do ceu,--e _la bête_, -que... Não; decididamente supprimo este capitulo. - - - - -CAPITULO XCIX - - -Na platéa - - -Na platéa achei o Lobo Neves, de conversa com alguns amigos; falámos -por alto, a frio, constrangidos um e outro. Mas no intervallo seguinte, -prestes a levantar o panno, encontramo-nos n'um dos corredores, em que -não havia ninguem. Elle veiu a mim, com muita affabilidade e riso, -puxou-me a um dos oculos do theatro, e falamos muito, principalmente -elle, que parecia o mais tranquillo dos homens. Cheguei a perguntar-lhe -pela mulher; respondeu que estava boa, mas torceu logo a conversação -para assumptos geraes, expansivo, quasi risonho. Adivinhe quem quizera -causa da differença; eu fujo ao Damasceno que me espreita alli da porta -do camarote. - -Não ouvi nada do seguinte acto, nem as palavras dos actores, nem -as palmas do publico. Reclinado na cadeira, apanhava de memoria os -retalhos da conversação do Lobo Neves, refazia as maneiras delle, e -concluia que era muito melhor a nova situaçao. Bastava-nos a Gamboa. A -frequencia da outra casa aguçaria as invejas. E rigorosamente podiamos -dispensar-nos de falar todos os dias; era até melhor, mettia a saudade -de permeio nos amores. Ao demais, eu galgara os quarenta annos, e não -era nada, nem simples eleitor de parochia. Urgia fazer alguma cousa, -ainda por amor de Virgilia, que havia de ufanar-se quando visse luzir o -meu nome... Creio que nessa occasião houve grandes applausos, mas não -juro; eu pensava em outra cousa. - -Multidão, cujo amor cobicei até á morte, era assim que eu me vingava ás -vezes de ti; deixava borborinhar em volta do meu corpo a gente humana, -sem a ouvir, como o Prometheu de Eschylo fazia aos seus verdugos. -Ah! tu cuidavas encadear-me ao rochedo da tua frivolidade, da tua -indifferença, ou da tua agitação? Frageis cadeias, amiga minha; eu -rompia-as de um gesto de Gulliver. Vulgar cousa é ir considerar no -ermo. O voluptuoso, o exquisito, é insular-se o homem no meio de um -mar de gestos e palavras, de nervos e paixões, decretar-se alheiado, -inaccessivel, ausente. O mais que podem dizer, quando elle torna a -si,--isto é, quando torna aos outros,--é que baixa do mundo da lua; mas -o mundo da lua, esse desvão luminoso e recatado do cerebro, que outra -cousa é senão a affirmação desdenhosa da nossa liberdade espiritual? -Vive Deus! eis um bom fecho de capitulo. - - - - -CAPITULO C - - -O caso provavel - - -Se esse mundo não fosse uma região de espiritos desattentos, era -escusado lembrar ao leitor que eu só affirmo certas leis, quando -as possuo deveras; em relação a outras restrinjo-me á admissão da -probabilidade. Um exemplo da segunda classe constitue o presente -capitulo, cuja leitura recommendo a todas as pessoas que amam o estudo -dos phenomenos sociaes. Segundo parece, e não é improvavel, existe -entre os factos da vida publica e os da vida particular uma certa acção -reciproca, regular, e talvez periodica,--ou, para usar de uma imagem, -ha alguma cousa semelhante ás marés da praia do Flamengo e de outras -egualmente marulhosas. Com effeito, quando a onda investe a praia, -alaga-a muitos palmos a dentro; mas essa mesma agua torna ao mar, com -variavel força, e vae engrossar a onda que ha de vir, e que terá de -tornar como a primeira. Esta é a imagem; vejamos a applicação. - -Deixei dito n'outra pagina que o Lobo Neves, nomeado presidente de -provincia, recusou a nomeação por motivo da data do decreto, que era -13; acto grave, cuja consequência foi separar do ministerio o marido de -Virgilia. Assim, o facto particular da ogerisa de um numero produziu o -phenomeno da dissidencia politica. Resta ver como, tempos depois, um -acto politico determinou na vida particular uma cessação de movimento. -Não convindo ao methodo deste livro descrever immediatamente esse outro -phenomeno, limito-me a dizer por ora que o Lobo Neves, quatro mezes -depois de nosso encontro no theatro, reconciliou-se com o ministerio; -facto que o leitor não deve perder de vista, se quizer penetrar a -subtileza do meu pensamento. - - - - -CAPITULO CI - - -A revolução dalmata - - -Foi Virgilia quem me deu noticia da vira-volta politica do marido, -certa manhã de outubro, entre onze e meio dia; falou-me de reuniões, de -conversas, de um discurso... - ---De maneira que desta vez fica você baroneza, interrompi eu. - -Ella derreou os cantos da boca, e moveu a cabeça a um e outro lado; -mas esse gesto de indifferença era desmentido por alguma cousa menos -definivel, menos clara, uma expressão de gosto e de esperança. E não -sei por que imaginei que a carta imperial da nomeação podia attraíl-a á -virtude, não digo pela virtude em si mesma, mas por gratidão ao marido. -Que ella amava cordialmente a nobreza; e um dos maiores desgostos de -nossa vida foi o apparecimento de um certo pelintra de legação,--da -legação da Dalmacia, supponhamos,--o conde B. V., que a namorou durante -tres mezes. - -Esse homem, vero fidalgo de raça, transtornara um pouco a cabeça -de Virgilia, que, além do mais, possuia a vocação diplomatica. Não -chego a alcançar o que seria de mim, se não rebentasse na Dalmacia -uma revolução, que derrocou o governo e purificou as embaixadas. Foi -sangrenta a revolução, dolorosa, formidavel; os jornaes, a cada navio -que chegava da Europa, transcreviam os horrores, mediam o sangue, -contavam as cabeças; toda a gente fremia de indignação e piedade... -Eu não; eu abençoava interiormente essa tragedia, que me tirára uma -pedrinha do sapato. E depois a Dalmacia era tão longe! - - - - -CAPITULO CII - - -De repouso - - -Mas este mesmo homem, que se alegrou com a partida do outro, praticou -dahi a tempos... Não, não hei de contal-o nesta pagina; fique esse -capitulo para repouso do meu vexame. Uma acção grosseira, baixa, sem -explicação possivel... Repito, não contarei o caso nesta pagina. - - - - -CAPITULO CIII - - -Distracção - - ---Não, senhor doutor, isto não se faz. Perdoe-me, isto não se faz. - -Tinha razão D. Placida. Nenhum cavalheiro chega uma hora mais tarde -ao logar em que o espera a sua dama. Entrei esbaforido; Virgilia -tinha ido embora. D. Placida contou-me que ella esperára muito, que -se irritara, que chorara, que jurára* votar-me ao desprezo, e outras -mais cousas que a nossa caseira dizia com lagrimas na voz, pedindo-me -que não desamparasse Yayá, que era ser muito injusto com uma moça que -me sacrificara tudo. Expliquei-lhe então que um equivoco... E não era; -cuido que foi simples distração. Um dito, uma conversa, uma anecdota, -qualquer cousa; simples distracção. - -Coitada de D. Placida! Estava afflicta deveras. Andava de um lado para -outro, abanando a cabeça, suspirando com estrepito, espiando pela -rotula. Coitada de D. Placida! Com que arte conchegava as roupas, -bafejava as faces, acalentava as manhas do nosso amor! que imaginação -fertil em tornar as horas mais apraziveis e breves! Flores, doces,--os -bons doces de outros dias,--e muito riso, muito affago, um riso e um -affago que cresciam com o tempo, como se ella quizesse fixar a nossa -aventura, ou restituir-lhe a primeira flor. Nada esquecia a nossa -confidente e caseira; nada, nem a mentira, porque a um e outro referia -suspiros e saudades que não presenciára; nada, nem a calumnia, porque -uma vez chegou a attribuir-me uma paixão nova.--Você sabe que não -posso gostar de outra mulher, foi a minha resposta, quando Virgilia me -falou em semelhante cousa. E esta só palavra, sem nenhum protesto ou -admoestação, dissipou o aleive-de D. Placida, que ficou triste. - ---Está bem, disse-lhe eu, depois de um quarto de hora; Virgilia hade -reconhecer que não tive culpa nenhuma... Quer você levar-lhe uma carta -agora mesmo? - ---Ella hade estar bem triste, coitadinha! Olhe, eu não desejo a morte -de ninguem; mas, se o senhor doutor algum dia chegar a casar com Yayá, -então sim, é que hade ver o anjo que ella é! - -Lembra-me que desviei o rosto e baixei os olhos ao chão. Recommendo -este gesto ás pessoas que não tiverem uma palavra prompta para -responder, ou ainda ás que receiarem encarar a pupilla do outros olhos. -Em taes casos, alguns preferem recitar uma oitava dos _Lusíadas_, -outros adoptam o recurso de assobiar a _Norma_; eu atenho-me ao gesto -indicado; é mais simples, exige menos esforço. - -Tres dias depois, estava tudo explicado. Supponho que Virgilia ficou -um pouco admirada, quando lhe pedi desculpa das lagrimas que derramára -naquella triste occasião; e não me lembra se interiormente as attribui -a D. Placida. Com effeito, podia acontecer que D. Placida chorasse, ao -vel-a desapontada, e, por um phenomeno da visão, as lagrimas que tinha -nos proprios olhos lhe parecessem cair dos olhos de Virgilia. Fosse -como fosse, tudo estava explicado, mas não perdoado, e menos ainda -esquecido. Virgilia dizia-me uma porção de cousas duras, ameaçava-me -com a separação, emfim louvava o marido. Esse sim, era um homem digno, -muito superior a mim, delicado, um primor de cortezia e affeição; é -o que ella dizia, emquanto eu, sentado, com os braços fincados nos -joelhos, olhava para o chão, onde uma mosca arrastava uma formiga que -lhe mordia o pé. Pobre mosca! pobre formiga! - ---Mas você não diz nada, nada? perguntou Virgilia, parando deante de -mim. - ---Que heide dizer? Já expliquei tudo; você teima em zangar-se; que -heide dizer? Sabe o que me parece? Parece-me que você está enfastiada, -que se aborrece, que quer acabar... - ---Justamente! - -Foi dali pôr o chapéu, com a mão tremula, raivosa...--Adeus, D. -Placida, bradou ella para dentro. Depois foi até á porta, correu o -fecho, ia sair; agarrei-a pela cintura.--Está bom, está bom, disse-lhe. -Virgilia ainda forcejou por sair. Eu retive-a, pedi-lhe que ficasse, -que esquecesse; ella afastou-se da porta e foi cair no canapé. -Sentei-me ao pé della, disse-lhe muitas cousas meigas, outras humildes, -outras graciosas. Não affirmo se os nossos labios chegaram á distancia -de um fio de cambraia ou ainda menos; é matéria controversa. Lembra-me, -sim, que na agitação caiu um brinco de Virgilia, que eu inclinei-me a -apanhal-o, e que a mosca de ha pouco trepou ao brinco, levando sempre a -formiga no pé. Então eu, com a delicadeza nativa de um homem do nosso -século, puz na palma da mão aquelle casal de mortificados; calculei -toda a distancia que ia da minha mão ao planeta Saturno, e perguntei -a mim mesmo que interesse podia haver n'um episodio tão mofino. Se -conclues dahi que eu era um barbaro, enganas-te, porque eu pedi um -grampo a Virgilia, afim de separar os dous insectos; mas a mosca -farejou a minha intenção, abriu as azas e foi-se embora. Pobre mosca! -pobre formiga! E Deus viu que isto era bom, como se diz na Escriptura. - - - - -CAPITULO CIV - - -Era elle! - - -Restitui o grampo a Virgilia, que o repregou nos cabellos, e -preparou-se para sair. Era tarde; tinham dado tres horas. Tudo estava -esquecido e perdoado. D. Placida, que espreitava a occasião idonea para -a saída, fecha subitamente a janella e exclama: - ---Virgem Nossa Senhora! ahi vem o marido de Yayá! - -O momento de terror foi curto, mas completo. Virgilia fez-se da côr* -das rendas do vestido, correu até a porta da alcova; D. Placida, que -fechára a rotula, queria fechar tambem a porta de dentro; eu dispuz-me -a esperar o Lobo Neves. Esse curto instante passou. Virgilia tornou -a si, empurrou-me para a alcova, disse a D. Placida que voltasse á -janella; a confidente obedeceu. - -Era elle. D. Placida abriu-lhe a porta com muitas exclamações de -pasmo:--O senhor por aqui! honrando a casa de sua velha! Entre, faça -favor. Adivinhe quem está cá... Não tem que adivinhar: não veiu por -outra cousa... Appareça, Yayá. - -Virgilia, que estava a um canto, atirou-se ao marido. Eu espreitava-os -pelo buraco da fechadura. O Lobo Neves entrou lentamente, pallido, -frio, quieto, sem explosão, sem arrebatamento, e circulou um olhar em -volta da sala. - ---Que é isto? exclamou Virgilia. Você por aqui? - ---Ia passando, vi D. Placida á janella, e vim comprimental-a. - ---Muito obrigada, acudiu esta. E digam que as velhas não valem alguma -cousa... Olhae, gentes! Yayá parece estar com ciumes. E acariciando-a -muito:--Este anjinho é que nunca se esqueceu da velha Placida. -Coitadinha! é mesmo a cara da mãe... Sente-se, senhor doutor... - ---Não me demoro. - ---Você vae para casa? disse Virgilia. Vamos juntos. - ---Vou. - ---Dê cá o meu chapéu, D. Placida. - ---Está aqui. - -D. Placida foi buscar um espelho, abriu-o deante della. Virgilia punha -o chapéu, atava as fitas, arranjava os cabellos, falando ao marido, -que não respondia nada. A nossa boa velha tagarellava de mais; era um -modo de disfarçar as tremuras do corpo. Virgilia, dominado o primeiro -instante, tornára á posse de si mesma. - ---Prompta! disse ella. Adeus, D. Placida; não se esqueça de apparecer, -ouviu? A outra prometteu que sim, e abriu-lhes a porta. - - - - -CAPITULO CV - - -Equivalencia das janellas - - -D. Placida fechou a porta e caiu n'uma cadeira. Eu deixei -immediatamente a alcova, e dei dous passos para sair á rua, com o fim -de arrancar Virgilia ao marido; foi o que disse, e em bem que o disse, -porque D. Placida deteve-me por um braço. Tempo houve em que eu cheguei -a suppor que não dissera aquillo senão para que ella me detivesse; -mas a simples reflexão basta para mostrar que, depois dos dez minutos -da alcova, o gesto mais genuino e cordial não podia ser senão esse. E -isto por aquella famosa lei da equivalencia das janellas, que eu tive -a satisfação de descobrir e formular, no cap. LI. Era preciso arejar -a consciencia. A alcova foi uma janella fechada; eu abri outra com o -gesto de sair, e respirei. - - - - -CAPITULO CVI - - -Jogo perigoso - - -Respirei e sentei-me. D. Placida atroava a sala com exclamações e -lastimas. Eu ouvia, sem lhe dizer cousa nenhuma; reflectia commigo se -não era melhor ter fechado Virgilia na alcova e ficado na sala; mas -adverti logo que seria peior; confirmaria a suspeita, e chegaria o -fogo á polvora e uma scena de sangue... Foi muito melhor assim. Mas -depois? que ia acontecer em casa de Virgilia? Matal-a-hia o marido? -espancal-a-hia? encerral-a-hia? expulsal-a-hia? Estas interrogações -percorriam lentamente o meu cerebro, como os pontinhos e virgulas -escuras percorrem o campo visual dos olhos enfermos ou cansados. Iam e -vinham, com o seu aspecto secco e tragico, e eu não podia agarrar um -dellos e dizer: és tu, tu e não outro. - -De repente vejo um vulto negro; era D. Placida, que fôra dentro, -enfiára a mantilha, e vinha offerecer-se-me para ir á casa do Lobo -Neves. Ponderei-lhe que era arriscado, porque elle desconfiaria da -visita tão proxima. - ---Socegue, interrompeu ella; eu saberei arranjar as cousas. Se elle -estiver em casa não entro. - -Saiu; eu fiquei a ruminar o successo e as consequencias possiveis. Ao -cabo, parecia-me jogar um jogo perigoso, e perguntava a mim mesmo se -não era tempo de levantar e espairecer, como um parceiro do _whist._ -E então senti-me tomado de uma saudade do casamento, de um desejo de -canalizar a vida. Porque não? Meu coração tinha ainda que explorar; -não me sentia incapaz de um amor casto, severo e puro. Na verdade, -as aventuras são a parte torrencial e vertiginosa da vida, isto é, a -excepção; eu estava enfarado dellas; não sei até se me pungia algum -remorso. Mal pensei naquillo, deixei-me ir atraz da imaginação; vi-me -logo casado, ao pé de uma mulher adoravel, deante de um _baby_, que -dormia no regaço da ama, todos nós no fundo do uma chacara sombria -e verde, a espiarmos atravez das arvores uma nesga do ceu azul, -extremamente azul... - - - - -CAPITULO CVII - - -Bilhete - - «Não houve nada, mas elle suspeita alguma cousa; está muito - serio e não fala; agora saiu. Sorriu uma vez somente, para - nhonhô, depois de o fitar muito tempo, carrancudo. Não me - tratou mal nem bem. Não sei o que vae acontecer; Deus queira - que isto passe. Muita cautela, por ora, muita cautela.» - - - - -CAPITULO CVIII - - -Que se não entende - - -Eis ahi o drama, eis ahi a ponta da orelha tragica de Shakespeare. Esse -retalhinho de papel, garatujado em partes, machucado das mãos, era um -documento de analyse, que eu não farei neste capitulo, nem no outro, -nem talvez em todo o resto do livro. Poderia eu tirar ao leitor o gosto -de notar por si mesmo a frieza, a perspicacia e o animo dessas poucas -linhas traçadas á pressa; e por traz dellas a tempestade de outro -cerebro, a raiva dissimulada, o desespero que se constrange e medita, -por que tem de resolver-se na lama, ou no sangue, ou nas lagrymas? - -Quanto a mim, se vos disser que li o bilhete tres ou quatro vezes, -naquelle dia, accreditai-o, que é verdade; se vos disser mais que o -reli no dia seguinte, antes e depois do almoço, podeis crel-o, é a -realidade pura. Mas se vos disser a commoção que tive, duvidai um pouco -da asserção, e não a acceiteis sem provas. Nem então, nem ainda agora -cheguei a discernir o que experimentei. Era medo, e não era medo; -era dó e não era dó; era vaidade e não era vaidade; emfim, era amor -sem amor, isto é, sem delirio; e tudo isso dava uma combinação assás -complexa e vaga, uma cousa que não podereis entender, como eu não -entendi. Supponhamos que não disse nada. - - - - -CAPITULO CIX - - -O philosopho - - -Sabido que reli a carta, antes e depois do almoço, sabido fica que -almocei, e só resta dizer que essa refeição foi das mais parcas -da minha vida: um ovo, uma fatia de pão, uma chicara de chá. Não -me esqueceu esta circumstancia minima; no meio de tanta cousa -importante obliterada escapou esse almoço. A razão principal poderia -ser justamente o meu desastre; mas não foi; a principal razão foi -a reflexão que me fez o Quincas Borba, cuja visita recebi naquelle -dia. Disse-me elle que a frugalidade não era necessaria para entender -o Humanitismo, é menos ainda pratical-o; que esta philosophia -acommodava-se facilmente com os prazeres da vida, inclusive a mesa, -o espectaculo e os amores; e que, ao contrario, a frugalidade podia -indicar certa tendencia para o ascetismo, o qual era a expressão -acabada da tolice humana. - ---Veja S. João, continuou elle; mantinha-se de gafanhotos, no deserto, -em vez de engordar tranquillamente na cidade, e fazer emmagrecer o -pharisaismo na synagoga. - -Deus me livre de contar a historia do Quincas Borba, que aliás ouvi -toda naquella triste occasião, uma historia longa, complicada, -mas interessante. E se não conto a historia, dispenso-me outrosim -de descrever-lhe a figura, aliás mui diversa da que me appareceu -no Passeio Publico. Calo-me; digo somente que se o principal -característico do homem não são as feições, mas o vestuário, elle -não era o Quincas Borba; era um desembargador sem beca, um general -sem farda, um negociante sem _deficit._ Notei-lhe a perfeição da -sobrecasaca, a alvura da camisa, o aceio das botas. A mesma voz, -roufenha outr'ora, parecia restituida á primitiva sonoridade. Quanto -á gesticulação, sem que houvesse perdido a viveza de outro tempo, não -tinha já a desordem, sujeitava-se a um certo methodo. Mas eu não quero -descrevel-o. Se falasse, por exemplo, no botão de ouro que trazia ao -peito, e na qualidade do couro das botas, iniciaria uma descripção, -que omitto por brevidade. Contentem-se de saber que as botas eram de -verniz. Saibam mais que elle herdára alguns pares de contos de réis de -um velho tio de Barbacena. - -Meu espirito, (permittam-me aqui uma comparação de criança!) meu -espirito era n'aquella occasião uma especie de peteca. A narração do -Quincas Borba dava-lhe uma palmada, elle subia; quando ia a cair, -o bilhete de Virgilia dava-lhe outra palmada, e elle era de novo -arremessado aos ares; descia, e o episodio do Passeio Publico recebia-o -com outra palmada, egualmente rija e efficaz. Cuido que não nasci -para situações complexas. Esse puxar e empuxar de cousas oppostas, -desequilibrava-me; tinha vontade de embrulhar o Quincas Borba, o Lobo -Neves e o bilhete de Virgilia na mesma philosophia, e mandal-os de -presente a Aristoteles. E, comtudo, era instructiva a narração do nosso -philosopho; admirava-lhe sobretudo o talento de observação com que -descrevia a gestação e o crescimento do vicio, as luctas interiores, as -capitulações vagarosas, o uso da lama. - ---Olhe, observou elle; a primeira noite que passei, na escada de S. -Francisco, dormi-a inteira, como se fosse a mais fina pluma. Porque? -Porque fui gradualmente da cama de esteira ao catre de pau, do quarto -proprio ao corpo da guarda, do corpo da guarda ao xadrez, do xadrez á -rua... - -Quiz expor-me finalmente a philosophia; eu pedi-lhe que não.--Estou -assaz preocupado hoje e não poderia attendel-o; venha depois; estou -sempre em casa. O Quincas Borba sorriu de um modo malicioso; talvez -soubesse da minha aventura, mas não accrescentou nada. Só me disse -estas ultimas palavras á porta: - ---Venha para o Humanitismo; elle é o grande regaço dos espiritos, o -mar eterno em que mergulhei para arrancar de lá a verdade. Os gregos -faziam-na sair de um poço. Que concepção mesquinha! Um poço! Mas -é por isso mesmo que nunca atinaram com ella. Gregos, sub-gregos, -anti-gregos, toda a longa serie dos homens tem-se debruçado sobre -o poço, para ver sair a verdade, que não está la. Gastaram cordas e -caçambas; alguns mais afoutos desceram ao fundo e trouxeram um sapo. Eu -fui directamente ao mar. Venha para o Humanitismo. - - - - -CAPITULO CX - - -31 - - -Uma semana depois, o Lobo Neves foi nomeado presidente de provincia. -Agarrei-me á esperança da recusa, se o decreto viesse outra vez datado -de 13; trouxe, porém, a data de 31; e esta simples transposição de -algarismos eliminou delles a substancia diabolica. Que profundas que -são as molas da vida! - - - - -CAPITULO CXI - - -O muro - - -Não sendo meu costume dissimular ou esconder nada, contarei nesta -pagina o caso do muro. Elles estavam prestes a embarcar. Entrando -em casa de D. Placida, vi um papelinho dobrado sobre a mesa; era um -bilhete de Virgilia; dizia que me esperava á noite, na chacara, sem -falta. E concluía: «O muro é baixo do lado do becco.» - -Fiz um gesto de desagrado. A carta pareceu-me descommunalmente -audaciosa, mal pensada e até ridicula. Não era só convidar o escandalo, -era convidal-o de parceria com a risota. Imaginei-me a saltar o muro, -embora baixo e do lado do becco; e, quando ia a galgal-o, via-me -agarrado por um pedestre de policia, que me levava ao corpo da guarda. -O muro é baixo! E que tinha que fosse baixo? Naturalmente Virgilia não -soube o que fez; era possivel que já estivesse arrependida. Olhei para -o papel, um pedaço de papel amarrotado, mas inflexivel. Tive comichões -de o rasgar, em trinta mil pedaços, e atiral-os ao vento, como o ultimo -despojo da minha aventura; mas recuei a tempo; o amor-proprio, o vexame -da fuga, a idéa do medo... Não havia remedio senão ir. - ---Diga-lhe que vou. - ---Aonde? perguntou D. Placida. - ---Onde ella disse que me espera. - ---Não me disse nada. - ---Neste papel. - -D. Placida arregalou os olhos:--Mas esse papel, achei-o hoje de manhã, -nesta sua gaveta, e pensei que... - -Tive uma sensação exquisita. Reli o papel, mirei-o, remirei-o; era, na -verdade, um antigo bilhete de Virgilia, recebido no começo dos nossos -amores, uma certa entrevista na chacara, que me levou effectivamente a -saltar o muro, um muro baixo e discreto. Guardei o papel e... Tive uma -sensação exquisita. - - - - -CAPITULO CXII - - -A opinião - - -Mas estava escripto que esse dia devia ser o dos lances dubios. Poucas -horas depois, encontrava-me eu com o Lobo Neves, na rua do Ouvidor, -e falavamos da presidencia e da politica. Elle aproveitou o primeiro -conhecido que nos passou á ilharga, e deixou-me, depois de muitos -comprimentos. Lembra-me que estava retraindo, mas de um retrahimento -que forcejava por dissimular. Pareceu-me então (e peço perdão á -critica, se este meu juizo fôr temerário!) pareceu-me que elle tinha -medo--não medo de mim, nem de si, nem do codigo, nem da consciencia; -tinha medo da opinião. Suppuz que esse tribunal anonymo e invisivel, -em que cada membro accusa e julga, era o limite posto á vontade do -Lobo Neves. Talvez que elle já não amasse a mulher; e, assim, póde ser -que o coração fosse estranho á indulgencia dos seus ultimos actos. -Cuido (e de novo insto pela boa vontade da critica!) cuido que elle -estaria prompto a separar-se da mulher, como o leitor se terá separado -de muitas relações pessoaes; mas a opinião, essa opinião que lhe -arrastaria a vida por todas as ruas, que abriria minucioso inquerito -ácerca do caso, que colligiria uma a uma todas as circumstancias, -antecedencias, inducções, provas, que as relataria na palestra das -chacaras desoccupadas, essa terrivel opinião, tão curiosa das alcovas, -obstou á dispersão da familia. Ao mesmo tempo tornou impossivel o -desforço, que seria a divulgação. Elle não podia mostrar-se resentido -commigo, sem egualmente buscar a separação conjugal; e teve então -de simular a mesma ignorancia de outr'ora, e, por deducção, eguaes -sentimentos. - -Que lhe custasse creio; naquelles dias, principalmente, vi-o de modo -que devia custar-lhe muito. Mas o tempo (e é outro ponto em que eu -espero a indulgencia dos homens pensadores!), o tempo calleja a -sensibilidade, e oblitera a memoria das cousas; era de suppor que os -annos lhe despontassem os espinhos, que a distancia dos factos apagasse -os respectivos contornos, que uma sombra de duvida retrospectiva -cobrisse a nudez da realidade; emfim, que a opinião se occupasse um -pouco com outras aventuras. O filho, crescendo, buscaria satisfazer -as ambições do pae; seria o herdeiro de todos os seus affectos. Isso, -e a actividade externa, e o prestigio publico, e a velhice depois, a -doença, o declinio, a morte, um responso, uma noticia biographica, e -estava fechado o livro da vida, sem nenhuma pagina de sangue. - - - - -CAPITULO CXIII - - -A solda - - -A conclusão, se ha alguma no capitulo anterior, é que a opinião é -uma bôa solda das instituições domesticas. Não é impossivel que eu -desenvolva este pensamento, antes de acabar o livro; mas tambem não é -impossivel que o deixe como está. De um ou de outro modo, é uma bôa -solda a opinião, e tanto na ordem domestica, como na politica. Alguns -metaphysicos biliosos tem chegado ao extremo de a darem como simples -producto da gente chocha ou mediocre; mas é evidente que, ainda quando -um conceito tão extremado não trouxesse em si mesmo a resposta, bastava -considerar os effeitos salutares da opinião, para concluir que ella é a -obra superfina da flor dos homens, a saber, do maior numero. - - - - -CAPITULO CXIV - - -Fim de um dialogo - ---Sim, é amanhã. Você vae a bordo? - ---Está douda? É impossível. - ---Então, adeus! - ---Adeus! - ---Não se esqueça de D. Placida. Vá vel-a algumas vezes. Coitada! Foi -hontem despedir-se de nós; chorou muito, disse que eu não a veria -mais... É uma boa creatura, não? - ---Certamente. - ---Se tivermos de escrever, ella receberá as cartas. Agora até daqui a... - ---Talvez dous annos? - ---Qual! elle diz que é só até fazer as eleições. - ---Sim? então até breve. Olhe que estão olhando para nós. - ---Quem? - ---Alli do sophá. Separemo-nos. - ---Custa-me muito. - ---Mas é preciso; adeus, Virgilia! - ---Até breve. Adeus! - - - - -CAPITULO CXV - - -O almoço - - -Não a vi partir; mas á hora marcada senti alguma cousa que não era dor -nem prazer, uma cousa mixta, allivio e saudade, tudo misturado, em -eguaes doses. Não se irrite o leitor com esta confissão. Eu bem sei -que, para titillar-lhe os nervos da fantasia, devia padecer um grande -desespero, derramar algumas lagrimas, e não almoçar. Seria romanesco; -mas não seria biographico. A realidade pura é que eu almocei, como nos -demais dias, acudindo ao coração com as lembranças da minha aventura, e -ao estomago com os acepipes de Mr. Pruddon... - -...Velhos do meu tempo, lembrai-vos desse mestre cosinheiro do hotel -Pharoux, um sujeito que, segundo dizia o dono da casa, havia servido -nos famosos Véry e Véfour, de Paris, e mais nos palacios do conde -Molé e do duque de la Rochefoucauld? Era insigne. Entrou no Rio de -Janeiro com a polka... A polka, Mr. Pruddon, o Tivoli, o baile dos -estrangeiros, o Casino, eis algumas das melhores recordações daquelle -tempo; mas sobretudo os acepipes do mestre eram deliciosos. - -Eram, e naquella manhã parece que o diabo do homem adivinhára a nossa -catastrophe. Jámais o engenho e a arte lhe foram tão propicios. Que -requinte de temperos! que tenrura de carnes! que rebuscado de fórmas! -Comia-se com a bocca, com os olhos, com o nariz. Não guardei a conta -desse dia; do contrario, é mui provavel que a deixasse nestas paginas. -Sei que foi cara. Ai dor! era-me preciso enterrar magnificamente os -meus amores. Elles la iam, mar em fóra, no espaço e no tempo, e eu -ficava-me alli n'uma ponta de mesa, com os meus quarenta e tantos -annos, tão vadios e tão vazios; ficava-me para os não ver nunca mais, -porque ella poderia tornar e tornou, mas o effluvio da manhã quem é que -o pediu ao crepúsculo da tarde? - - - - -CAPITULO CXVI - - -Philosophia das folhas velhas - - -Fiquei tão triste com o fim do ultimo capitulo que estava capaz de não -escrever este, descançar um pouco, purgar o espirito da melancolia que -o empacha, e continuar depois. Mas não, não quero perder tempo. - -A partida de Virgilia deu-me uma amostra da viuvez. Nos primeiros -dias metti-me em casa, a fisgar moscas, como Domiciano, se não mente -o Suetonio, mas a fisgal-as de um modo particular: com os olhos. -Fisgava-as uma a uma, no fundo de uma sala grande, estirado na rede, -com um livro aberto entre as mãos. Era tudo: saudades, ambições, um -pouco de tedio, e muito devaneio solto. Meu tio conego morreu nesse -intervallo; item, dous primos; e eu não me dei por abalado; levei-os ao -cemiterio, como quem leva dinheiro a um banco. Que digo? como quem leva -cartas ao correio: sellei as cartas, metti-as na caixinha, e deixei ao -carteiro o cuidado de as entregar em mão propria. Foi tambem per esse -tempo que nasceu minha sobrinha Venancia, filha do Cotrim. Morriam uns, -nasciam outros: eu continuava ás moscas. - -Outras vezes agitava-me. Ia ás gavetas, entornava as cartas antigas, -dos amigos, dos parentes, das namoradas, (até as de Marcella), e -abria-as todas, lia-as uma a uma, e recompunha o preterito... Leitor -ignaro, se não guardas as cartas da juventude, não conhecerás um dia -a philosophia das folhas velhas, não gostarás o prazer de ver-te, ao -longe, na penumbra, com um chapéu de tres bicos, botas de sete leguas -e longas barbas assyrias, a bailar ao som de uma gaita anacreontica. -Guarda as tuas cartas da juventude! - -Ou, se te não apraz o chapéu de tres bicos, empregarei a locução de um -velho marujo, familiar da casa do Cotrim; direi que, se guardares as -cartas da juventude, acharás occasião de «cantar uma saudade.» Parece -que os nossos marujos dão este nome ás cantigas de terra, entoadas no -alto mar. Como expressão poetica, é o que se póde exigir mais triste. - - - - -CAPITULO CXVII - - -O Humanitismo - - -Duas forças, porém, além de uma terceira, compelliam-me a tornar á vida -agitada do costume: Sabina e o Quincas Borba. Minha irmã encaminhou a -candidatura conjugal de Nhã-loló de um modo verdadeiramente impetuoso. -Quando dei por mim estava com a moça quasi nos braços. Quanto ao -Quincas Borba, expoz-me emfim o Humanitismo, systema de philosophia -destinado a arruinar todos os demais systemas. - ---Humanitas, dizia elle, o principio das cousas, não é outro senão o -mesmo homem repartido por todos os homens. Conta tres phases Humanitas; -a _statica_, anterior a toda a creação; a _expansiva_, começo das -cousas; a _dispersiva_, apparecimento do homem; e contará mais uma, -a _contractiva_, absorpção do homem e das cousas. A _expansão_, -iniciando o universo, suggeriu a Humanitas o desejo de o gozar, e dahi -a _dispersão_, que não é mais do que a multiplicação personificada da -substancia original. - -Como me não apparecesse assaz clara esta exposição, o Quincas Borba -desenvolveu-a de um modo profundo, fazendo notar as grandes linhas -do systema. Explicou-me que, por um lado, o Humanitismo ligava-se ao -Brahmanismo, a saber, na distribuição dos homens pelas differentes -partes do corpo de Humanitas; mas aquillo que na religião indiana -tinha apenas uma estreita significação theologica e politica, era no -Humanitismo a grande lei do valor pessoal. Assim, descender do peito -ou dos rins de Humanitas, isto é, ser _um forte_, não era o mesmo que -descender dos cabellos ou da ponta do nariz. Dahi a necessidade de -cultivar e temperar o musculo. Hercules ou Herakles não foi senão um -symbolo antecipado do Humanitismo. Neste ponto o Quincas Borba ponderou -que o paganismo poderia ter chegado á verdade, se se não houvesse -amesquinhado com a parte galante dos seus mythos. Nada disso acontecerá -com o Humanitismo. Nesta egreja nova não ha aventuras faceis, nem -quedas, nem tristezas, nem alegrias pueris. O amor, por exemplo, é um -sacerdocio, a reproducção um ritual. Como a vida é o maior beneficio -do universo, e não ha mendigo que não prefira a miseria á morte (o -que é um delicioso influxo de Humanitas), segue-se que a transmissão -da vida, longe de ser uma occasião de galanteio, é a hora suprema da -missa espiritual. Porquanto, verdadeiramente ha só uma desgraça: é não -nascer. - ---Imagina, por exemplo, que eu não tinha nascido, continuou o Quincas -Borba; é positivo que não teria agora o prazer de conversar comtigo, -comer esta batata, ir ao theatro, e para tudo dizer n'uma só palavra: -viver. Nota que eu não faço do homem um simples vehiculo de Humanitas; -não, elle é ao mesmo tempo vehiculo, cocheiro e passageiro; elle é -o proprio Humanitas reduzido; dahi a necessidade de adorar-se a si -proprio. Queres uma prova da superioridade do meu systema? Contempla -a inveja. Não ha moralista grego ou turco, christão ou mussulmano, -que não troveje contra o sentimento da inveja. O accordo é universal, -desde os campos da Iduméa até o alto da Tijuca. Ora bem; abre mão dos -velhos preconceitos, esquece as rhetoricas rafadas, e estuda a inveja, -esse sentimento tão subtil e tão nobre. Sendo cada homem uma reducção -de Humanitas, é claro que nenhum homem é fundamentalmente opposto a -outro homem, quaesquer que sejam as apparencias contrarias. Assim, por -exemplo, o algoz que executa o condemnado póde excitar o vão clamor -dos poetas; mas substancialmente é Humanitas que corrige em Humanitas -uma infracção da lei de Humanitas. O mesmo direi do individuo que -estripa a outro; é uma manifestação da força de Humanitas. Nada obsta -(e ha exemplos) que elle seja egualmente estripado. Si entendeste -bem, facilmente comprehenderás que a inveja não é senão uma admiração -que luta, e sendo a luta a grande funcção do genero humano, todos os -sentimentos bellicosos são os mais adequados á sua felicidade. Dahi vem -que a inveja é uma virtude. - -Para que negal-o? eu estava estupefacto. A clareza da exposição, a -logica dos principios, o rigor das consequencias, tudo isso parecia -superiormente grande, e foi-me preciso suspender a conversa por alguns -minutos, em quanto digeria a philosophia nova. O Quincas Borba mal -podia encobrir a satisfação do triumpho. Tinha uma aza de frango no -prato, e trincava-a com philosophica serenidade. Eu fiz-lhe ainda -alguma objecções, mas tão frouxas, que elle não gastou muito tempo em -destruil-as. - ---Para entender bem o meu systema, concluiu elle, importa não esquecer -nunca o principio universal, repartido e resumido em cada homem. Olha: -a guerra, que parece uma calamidade, é uma operação conveniente, -como se dissessemos o estalar dos dedos de Humanitas; a fome (e elle -chupava philosophicamente a aza do frango), a fome é uma prova a que -Humanitas submette a propria viscera. Mas eu não quero outro documento -da sublimidade do meu systema, senão este mesmo frango. Nutriu-se de -milho, que foi plantado por um africano, supponhamos, importado de -Angola. Nasceu esse africano, cresceu, foi vendido um navio o trouxe, -um navio construido de madeira cortada no matto por dez ou doze -homens, levado por velas, que oito ou dez homens teceram, sem contar -a cordoalha e outras partes do apparelho nautico. Assim, este frango, -que eu almocei agora mesmo, é o resultado de uma multidão de esforços e -lutas, executados com o unico fim de dar mate ao meu appetite. - -Entre o queijo e o café, demonstrou-me o Quincas Borba que o seu -systema era a destruição da dôr. A dôr, segundo o Humanitismo, é uma -pura illusão. Quando a criança é ameaçada por um páu, antes mesmo de -ter sido espancada, fecha os olhos e treme; essa _predisposição_ é que -constitue a base da illusão humana, herdada e transmittida. Não basta -certamente a adopção do systema para acabar logo com a dôr; mas é -indispensavel; o resto é a natural evolução das cousas. Uma vez que o -homem se compenetre bem de que elle é o proprio Humanitas, não tem mais -do que remontar o pensamento á substancia original para obstar qualquer -sensação dolorosa. A evolução porém é tão profunda, que mal se lhe -podem assignar alguns milhares de annos. - -O Quincas Borba leu-me dahi a dias a sua grande obra. Eram quatro -volumes manuscriptos, de cem paginas cada um, com letra miuda e -citações latinas. O ultimo volume compunha-se de um tratado politico, -fundado no Humanitismo; era talvez a parte mais enfadonha do systema, -posto que concebida com um formidavel rigor de logica. Reorganisada a -sociedade pelo methodo delle, nem por isso ficavam eliminadas a guerra, -a insurreição, o simples murro, a facada anonyma, a miseria, a fome, as -doenças; mas sendo esses suppostos flagellos verdadeiros equivocos do -entendimento, porque não passariam de movimentos externos da substancia -interior, destinados a não influir sobre o homem, senão como simples -quebra da monotonia universal, claro estava que a sua existencia não -impediria a felicidade humana. Mas ainda quando taes flagellos (o que -era radicalmente falso) correspondessem no futuro á concepção acanhada -de antigos tempos, nem por isso ficava destruido o systema, e por dous -motivos: 1.° porque sendo Humanitas a substancia creadora e absoluta, -cada individuo deveria achar a maior delicia do mundo em sacrificar-se -ao principio de que descende; 2.° porque, ainda assim, não diminuiria o -poder espiritual do homem sobre a terra, inventada unicamente para seu -recreio delle, como as estrellas, as brisas, as tamaras e o rhuibarbo. -Pangloss, dizia-me elle ao fechar o livro, não era tão tolo como o -pintou Voltaire. - - - - -CAPITULO CXVIII - - -A terceira força - - -A terceira força (Veja a primeira linha do capitulo passado) a -terceira força que me chamava ao bulicio era a impaciencia de luzir, -e, sobretudo, a incapacidade de viver só. A multidão attrahia-me, o -applauso namorava-me, a gala, o tumulto, o rufo, eram outros tantos -objectos de seducção. Se a idéa do emplasto me tem apparecido nesse -tempo, quem sabe? não teria morrido logo e estaria celebre. Mas o -emplasto não veiu. Veiu o desejo de agitar-me em alguma cousa, com -alguma cousa e por alguma cousa. _Tout notre mal vient de ne pouvoir -être seuls._ Esta maxima de la Bruyère sempre me pareceu um grande -disparate. Não ha duvida que a sociabilidade é a primeira virtude dos -homens, a segunda é a curiosidade, a terceira é a pontualidade dos -pagamentos, a quarta o valor militar, e assim por diante. - - - - -CAPITULO CXIX - - -Parenthesis - - -(Haverá uma critica tão perversa que possa attribuir a minha opinião -sobre la Bruyère á inveja das suas maximas? Eu aparo desde já esse -golpe, transcrevendo algumas das que compuz por aquelle tempo, e -rasguei logo depois, por não me parecerem dignas do prélo. Fil-as n'um -periodo em que a flor amarella do capitulo XXV tornára a abrir; eram -bocejos de enfado. E se não vejam: - - Supporta-se com paciência a colica do proximo. - - Matamos o tempo; o tempo nos enterra. - - Um cocheiro philosopho costumava dizer que o gosto da - carruagem seria diminuto, se todos andassem de carruagem. - - Crê em ti; mas nem sempre duvides dos outros. - - Não se comprehende que um botocudo fure o beiço para - enfeital-o com um pedaço de páu. Esta reflexão é de um - joalheiro. - - Não te irrites se te pagarem mal um beneficio: antes cair das - nuvens, que de um terceiro andar.) - - - - -CAPITULO CXX - - -Compelle intrare - - ---Não, senhor, agora quer você queira, quer não, ha de casar, disse-me -Sabina. Que bello futuro! Um solteirão sem filhos. - -Sem filhos! Eis o dardo secreto. A idéa de ter filhos deu-me um -sobresalto; percorreu-me outra vez o fluido mysterioso. Sim, cumpria -ser pae. A vida celibata podia ter certas vantagens proprias, mas -seriam tenues, e compradas a troco da solidão. Sem filhos! Não; -impossivel. Dispuz-me a aceitar tudo, ainda mesmo a alliança do -Damasceno. Sem filhos! Como já então depositasse grande confiança no -Quincas Borba, fui ter com elle e expuz-lhe os movimentos internos da -minha paternidade. O philosopho ouviu-me com alvoroço; declarou-me que -Humanitas se agitava em meu seio; animou-me ao casamento; ponderou -que eram mais alguns convivas que batiam á porta, etc. _Compelle -intrare_, como dizia Jesus. E não me deixou sem provar que o apologo -evangelico não era mais do que um prenuncio do Humanitismo, erradamente -interpretado pelos padres. - - - - -CAPITULO CXXI - - -Morro abaixo - - -No fim de tres mezes, ia tudo á maravilha. O fluido, Sabina, os olhos -da moça, os desejos do pae, eram outros tantos impulsos que me levavam -ao matrimonio. A lembrança de Virgilia apparecia de quando em quando, -á porta; e com ella um diabo negro, que me mettia á cara um espelho, -no qual eu via ao longe Virgilia desfeita em lagrimas; mas outro diabo -vinha, côr de rosa, com outro espelho, em que se reflectia a figura de -Nhã-loló, terna, luminosa, angelica. - -Não falo dos annos. Eu não os sentia; acrescentarei até que os deitára -fóra, certo domingo, em que fui á missa na capella do Livramento. Como -o Damasceno morava nos Cajueiros, eu acompanhava-os muitas vezes á -missa. O morro estava ainda nú de habitações, salvo o velho palacete do -alto, onde era a capella. Pois um domingo, ao descer com Nhã-loló pelo -braço, não sei que phenomeno se deu que fui deixando aqui dous annos, -alli quatro, logo adiante cinco, de maneira que, quando cheguei abaixo, -estava com vinte annos apenas, tão lépidos como elles tinham sido. - -Agora, se querem saber em que circumstancias se deu o phenomeno, -basta-lhes ler este capitulo até o fim. Vinhamos da missa, ella, o pae -e eu. No meio do morro achámos um grupo de homens. O Damasceno, que -vinha ao pé de nós, percebeu o que era e adiantou-se alvoroçado; nós -fomos atraz delle. E vimos isto: homens de todas as edades, tamanhos e -côres, uns em mangas de camisa, outros de jaqueta, outros mettidos em -sobrecasacas esfrangalhadas; attitudes diversas, uns de cócaras, outros -com as mãos apoiadas nos joelhos, estes sentados em pedras, aquelles -encostados ao muro; e todos com os olhos fixos no centro, e as almas -debruçadas das pupillas. - ---Que é? perguntou-me Nhã-loló. - -Fiz-lhe signal que se calasse; abri subtilmente caminho, e todos -me foram cedendo espaço, sem que positivamente ninguem me visse. O -centro tinha-lhes atado os olhos. Era uma briga de gallos. Vi os dous -contendores, dous gallos de esporão agudo, olho de fogo e bico afiado. -Ambos agitavam as cristas em sangue; o peito de um e de outro estava -desplumado e rubro; invadia-os o cançasso. Mas lutavam ainda assim, -olhos fitos nos olhos, bico abaixo, bico acima, golpe deste, golpe -daquelle, vibrantes e raivosos. O Damasceno não sabia mais de nada; o -espectaculo eliminou para elle todo o universo. Em vão lhe disse que -era tempo de descer: elle não respondia, não ouvia, concentrara-se no -duello. A briga de gallos era uma de suas paixões. - -Foi nessa occasião que Nhã-loló me puxou brandamente pelo braço, -dizendo que nos fossemos embora. Aceitei o conselho e vim com ella por -alli abaixo. Já disse que o morro era então deshabitado; disse-lhes -tambem que vinhamos da missa, e não lhes tendo dito que chovia, era -claro que fazia bom tempo, um sol delicioso. E forte. Tão forte que eu -abri logo o guarda-sol, segurei-o pelo centro do cabo, e inclinei-o por -modo que ajuntei uma pagina á philosophia do Quincas Borba: Humanitas -osculou Humanitas... Foi assim que os annos me vieram caindo pelo morro -abaixo. - -Ao sopé detivemo-nos alguns minutos; á espera do Damasceno; elle -veiu dahi a pouco, rodeado dos apostadores, a commentar com elles a -briga. Um destes, thesoureiro das apostas, distribuia um velho maço -de notas de dez tostões, que os triumphadores recebiam duplamente -alegres. Quanto aos gallos vinham sobraçados pelo respectivo dono. Um -delles trazia a crista tão comida e ensanguentada, que vi logo nelle o -vencido; mas era engano,--o vencido era o outro, que não trazia crista -nenhuma. Ambos tinham o bico aberto, respirando a custo, esfalfados. -Os apostadores, ao contrario, vinham alegres, sem embargo das fortes -commoções da luta; biographavam os contendores, relembravam as proezas -de ambos. Eu fui andando, vexado; Nhã-loló, vexadissima. - - - - -CAPITULO CXXII - - -Uma intenção mui fina - - -O que vexava a Nhã-loló era o pae. A facilidade com que elle se mettêra -com os apostadores punha em relevo antigos costumes e affinidades -sociaes; e Nhã-loló chegára a temer que tal sogro me parecesse indigno. -Era notavel a differença que ella fazia de si mesma; estudava-se e -estudava-me. A vida elegante e polida attrahia-a, principalmente -porque lhe parecia o meio mais seguro de ajustar as nossas pessoas. -Nhã-loló observava, imitava, adivinhava; ao mesmo tempo dava-se ao -esforço de mascarar a inferioridade da familia. Naquelle dia, porém, -a manifestação do pae foi tamanha que a entristeceu grandemente. Eu -busquei então divertil-a do assumpto, dizendo-lhe muitas chanças e -motes de bom tom; vãos esforços, que não a alegravam mais. Era tão -profundo o abatimento, tão expressivo o desanimo, que eu cheguei a -attribuir a Nhã-loló a intenção positiva de separar, no meu espirito, -a sua causa da causa do pae. Este sentimento pareceu-me de grande -elevação; era uma affinidade mais entre nós. - ---Não ha remedio, disse eu commigo, vou arrancar esta flor a este -pantano. - - - - -CAPITULO CXXIII - - -O verdadeiro Cotrim - - -Não obstante os meus quarenta e tantos annos, como eu amasse a harmonia -da familia, entendi não tratar o casamento sem primeiro falar ao -Cotrim. Elle ouviu-me e respondeu-me seriamente que não tinha opinião -em negocio de parentes seus. Podiam suppor-lhe algum interesse, se -acaso louvasse, as raras prendas de Nhã-loló; por isso calava-se. Mais: -estava certo de que a sobrinha nutria por mim verdadeira paixão, mas se -ella o consultasse, o seu conselho seria negativo. Não era levado por -nenhum odio; apreciava as minhas bôas qualidades,--não se fartava de -as elogiar, como era de justiça; e pelo que respeita a Nhã-loló, não -chegaria jámais a negar que era noiva excellente; mas dahi a aconselhar -o casamento ia um abysmo. - ---Lavo inteiramente as mãos, concluiu elle. - ---Mas você achava outro dia que eu devia casar quanto antes... - ---Isso é outro negocio. Acho que é indispensavel casar, principalmente -tendo ambições politicas. Saiba que na politica o celibato é uma -rémora. Agora, quanto á noiva, não posso ter voto, não quero, não devo, -não é de minha honra. Parece-me que Sabina foi além, fazendo-lhe certas -confidencias, segundo me disse; mas em todo caso ella não é tia carnal -de Nhã-loló, como eu. Olhe... mas não... não digo... - ---Diga. - ---Não; não digo nada. - -Talvez pareça excessivo o escrupulo do Cotrim, a quem não souber que -elle possuia um caracter ferozmente honrado. Eu mesmo fui injusto -com elle durante os annos que se seguiram ao inventario do meu pae. -Reconheço que era um modelo. Arguiam-n'o de avareza, e cuido que -tinham razão; mas a avareza é apenas a exageração de uma virtude, -e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo que -o _deficit._ Como era muito secco de maneiras tinha inimigos, que -chegavam a accusal-o de barbaro. O unico facto allegado neste -particular era o de mandar com frequencia escravos ao calabouço, donde -elles desciam a escorrer sangue; mas, além de que elle só mandava os -perversos e os fujões, occorre que, tendo longamente contrabandeado em -escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que -esse genero de negocio requeria, e não se póde honestamente attribuir á -indole original de um homem o que é puro effeito de relações sociaes. -A prova de que o Cotrim tinha sentimentos pios encontrava-se no seu -amor aos filhos, e na dôr que padeceu quando lhe morreu Sára, dalli a -alguns mezes; prova irrefutavel, acho eu; e não unica. Era thesoureiro -de uma confraria, e irmão de varias irmandades, e até irmão remido de -uma destas, o que não se coaduna muito com a reputação da avareza; -verdade é que o beneficio não caíra no chão: a irmandade (de que elle -fôra juiz,) mandara-lhe tirar o retrato a oleo. Não era perfeito, -de certo; tinha, por exemplo, o sestro de mandar para os jornaes a -noticia de um ou outro beneficio que praticava,--sestro reprehensivel -ou não louvavel, concordo; mas elle desculpava-se dizendo que as bôas -acções eram contagiosas, quando publicas; razão a que se não pode negar -algum peso. Creio mesmo (e nisto faço o seu maior elogio) que elle -não praticava, de quando em quando, esses beneficios senão com o fim -de espertar a philantropia dos outros; e se tal era o intuito, força -é confessar que a publicidade tornava-se uma condição _sine qua non._ -Em summa, poderia dever algumas attenções, mas não devia um real a -ninguem. - - - - -CAPIULO CXXIV - - -Vá de intermedio - - -Que ha entre a vida e a morte? Uma curta ponte. Não obstante, se eu -não compuzesse este capitulo, padeceria o leitor um forte abalo, assaz -damnoso ao effeito do livro. Saltar de um retrato a um epitaphio, póde -ser real e commum; o leitor, entretanto, não se refugia no livro, senão -para escapar á vida. Não digo que este pensamento seja meu; digo que -ha nelle uma dose de verdade, e que, ao menos, a fórma é pittoresca. E -repito: não é meu. - -Vá de intermedio, e contemos a este proposito uma anecdota. Foi no -tempo da minha vida parlamentar; eramos cinco; falavamos de cousas e -lousas, e aconteceu tocar nos negocios do Rio da Prata. Então, disse -um:--O governo não deve esquecer que o dinheiro é o nervo da guerra. Ao -que eu redargui que não, que o nervo da guerra eram os bons soldados. -Um dos ouvintes coçou o nariz, outro consultou o relogio, o terceiro -tamborilou sobre o joelho, o quarto deu algumas pernadas pela sala, -o quinto era eu. Mas, continuando a falar, ponderei que essa idéa, -inteiramente justa, não era minha, e sim de Machiavelli; circumstancia -que levou o primeiro a não coçar o nariz, o segundo a não consultar o -relogio, o terceiro a não tamborilar sobre o joelho, e o quarto a não -dar pernadas; e todos me rodearam, e me pediram que repetisse o dito, -e repeti, e elles extasiavam-se, e batiam com a cabeça approvando, -saboreando, decorando. O que estimei, porque fui sempre amador de idéas -justas. Mas vamos ao epitaphio. - - - - -CAPITULO CXXV - - -Epitaphio - - - AQUI JAZ - - D. EULALIA DAMASCENA DE BRITO - - MORTA - - AOS DEZENOVE ANNOS DE IDADE - - ORAI POR ELLA! - - - - -CAPITULO CXXVI - - -Desconsolação - - -O epitaphio diz tudo. Vale mais do que se lhes narrasse a molestia de -Nhã-loló, a morte, o desespero da familia, o enterro. Ficam sabendo -que morreu; accrescentarei que foi por occasião da primeira entrada -da febre amarella. Não digo mais nada, a não ser que a acompanhei até -o ultimo jazigo, e me despedi triste, mas sem lagrimas. Conclui que -talvez não a amasse devéras. - -Vejam agora a que excessos póde levar uma inadvertencia; doeu-me um -pouco a cegueira da epidemia que, matando á direita e á esquerda, levou -tambem uma jovem dama, que tinha de ser minha mulher; e não cheguei -a entender a necessidade da epidemia, e menos ainda daquella morte. -Creio até que esta me pareceu ainda mais absurda que todas as outras -mortes. O Quincas Borba, porém, explicou-me que as epidemias eram uteis -á especie, embora desastrosas para uma certa porção de indivíduos; e -fez-me notar que, por mais horrendo que fosse o espectaculo, havia -uma vantagem de muito peso: a sobrevivencia do maior numero. Chegou a -perguntar-me se, no meio do luto geral, não sentia eu algum secreto -encanto em ter escapado ás garras da peste; mas esta pergunta era tão -insensata, que ficou sem resposta. - -Se não contei a morte, não conto igualmente a missa do setimo dia. -A tristeza do Damasceno era profunda; esse pobre homem parecia uma -ruina. Quinze dias depois estive com elle; continuava inconsolavel, e -dizia que a dor grande com que Deus o castigára fora ainda augmentada -com a que lhe infligiram os homens. Não me disse mais nada. Tres -semanas depois tornou ao assumpto, e então confessou-me que, no no -meio do desastre irreparavel, quizera ter a consolação da presença dos -amigos. Doze pessoas apenas, e tres quartas partes amigos do Cotrim, -acompanharam á cova o cadaver de sua querida filha. E elle fizera -expedir oitenta convites. Ponderei-lhe que as perdas eram tão geraes -que bem se podia desculpar essa desattenção apparente. O Damasceno -abanava a cabeça de um modo incrédulo e triste. - ---Qual! gemia elle, desampararam-me. - -O Cotrim, que estava presente: - ---Vieram os que devéras se interessam por você é por nós. Os oitenta -viriam por formalidade, falariam da inercia do governo, das panacéas -dos boticarios, do preço das casas, ou uns dos outros... - -O Damasceno ouviu calado, abanou outra vez a cabeça, e suspirou: - ---Mas viessem! - - - - -CAPITULO CXXVII - - -Formalidade - - -Grande cousa é haver recebido do ceu uma particula da sabedoria, o dom -de achar as relações das cousas, a faculdade de as comparar e o talento -de concluir! Eu tive essa distincção psychica; eu a agradeço ainda -agora do fundo do meu sepulchro. - -De facto, o homem vulgar que ouvisse a ultima palavra do Damasceno, -não se lembraria della, quando, tempos depois, houvesse de olhar para -uma gravura representando seis damas turcas. Pois eu lembrei-me. Eram -seis damas de Constantinopla,--modernas,--em trajos de rua, com a -cara tapada, não tapada á outra maneira, com um espesso panno que as -cobrisse devéras, mas com um veu tenuissimo, que simulava descobrir -somente os olhos, e na realidade descobria a cara inteira. E eu achei -graça a essa esperteza da faceirice musulmana, que assim esconde o -rosto,--e cumpre o uso,--mas não o esconde,--e divulga a belleza. -Apparentemente, nada ha entre as damas turcas e o Damasceno; mas se -tu és um espirito profundo e penetrante (e duvido muito que me negues -isso), comprehenderás que, tanto n'um como n'outro caso, surge ahi a -orelha de uma rigida e meiga companheira do homem social... - -Amavel Formalidade, tu és, sim, o bordão da vida, o balsamo dos -corações, a medianeira entre os homens, o vinculo da terra e do ceu; tu -enxugas as lagrimas de um pae, tu captas a indulgencia de um Propheta; -e se a dôr adormece, e se a consciencia se accommoda, a quem, senão a -ti, deverão esse immenso beneficio? A estima que passa de chapeu na -cabeça não diz nada á alma; mas a indifferença que corteja deixa-lhe -uma deleitosa impressão. A razão é que, ao contrario de uma velha -formula absurda, não é a lettra que mata; a lettra dá vida; o espirito -é que é objecto de controversia, de duvida, de interpretação, e -conseguintemente de luta e de morte. Vive tu, amavel Formalidade, para -socego do Damasceno e gloria de Muhammed. - - - - -CAPITULO CXXVIII - - -Na camara - -E notai bem que eu vi a gravura turca, dous annos depois das palavras -de Damasceno, e vi-a na camara dos deputados, em meio de grande -borborinho, emquanto um deputado discutia um parecer da commissão de -orçamento, sendo eu tambem deputado. Para quem ha lido este livro é -escusado encarecer a minha satisfação, e para os outros é igualmente -inutil. Era deputado, e vi a gravura turca, recostado na minha cadeira, -entre um collega, que contava uma anecdota, e outro, que tirava a -lapis, nas costas de uma sobrecarta, o perfil do orador. O orador era o -Lobo Neves. A onda da vida trouxe-nos á mesma praia, como duas botelhas -de naufragos, elle contendo o seu resentimento, eu devendo conter o meu -remorso; e emprégo esta fórma suspensiva, dubitativa ou condicional, -para o fim de dizer que effectivamente não continha nada, a não ser a -ambição de ser ministro. - - - - -CAPITULO CXXIX - - -Sem remorsos - - -Não tinha remorsos. Se possuisse os apparelhos proprios, incluia neste -livro uma pagina de chimica, porque havia de decompor o remorso até -os mais simples elementos, com o fim de saber, de um modo positivo e -concludente, por que razão Achilles passea á roda de Troya o cadaver -do adversario, e lady Macbeth passea á volta da sala a sua mancha de -sangue. Mas eu não tenho apparelhos chimicos, como não tinha remorsos; -tinha vontade de ser ministro de Estado. Comtudo, se hei de acabar este -capitulo, direi que não quizera ser Achilles nem lady Macbeth; e que a -ser alguma cousa, antes Achilles, antes passear ovante o cadaver do que -a mancha; ouvem-se no fim as supplicas de Priamo, e ganha-se uma bonita -reputação militar e litteraria. Eu não ouvia as supplicas de Priamo, -mas o discurso do Lobo Neves, e não tinha remorsos. - - - - -CAPITULO CXXX - - -Para intercalar no cap. CXXIX - - -A primeira vez que pude falar a Virgilia, depois da presidencia, foi -n'um baile em 1855. Trazia um soberbo vestido de gorgorão azul, e -ostentava ás luzes o mesmo par de hombros de outro tempo. Não era a -frescura da primeira edade; ao contrario; mas ainda estava formosa, -de uma formosura outoniça, realçada pela noite. Lembra-me que falamos -muito; e lembra-me que não alludimos a cousa nenhuma do passado. -Subentendia-se tudo. Um dito remoto, vago, ou então um olhar, e mais -cousa nenhuma. Pouco depois retirou-se; eu fui vel-a descer as escadas, -e não sei por que phenomeno de ventriloquismo cerebral (perdoem-me -os philologos essa phrase barbara), murmurei commigo esta palavra -profundamente retrospectiva: - ---Magnifica! - -Convém intercalar este capitulo entre a primeira oração e a segunda do -cap. CXXIX. - - - - -CAPITULO CXXXI - - -De uma calumnia - - -Como eu acabava de dizer aquillo, pelo processo ventriloco-cerebral,--o -que era simples opinião e não remorso,--senti que alguem me punha a mão -no hombro. Voltei-me; era um antigo companheiro, official de marinha, -jovial, um pouco despejado de maneiras. Elle sorriu maliciosamente, e -disse-me: - ---Seu maganão! Recordações do passado, hein? - ---Viva o passado! - ---Você naturalmente foi reintegrado no emprego. - ---Salta, pelintra! disse eu, ameaçando-o com o dedo. - -Confesso que este dialogo era uma indiscrição,--principalmente a ultima -replica. E com tanto maior prazer o confesso, quanto que as mulheres é -que tem fama de indiscretas, e não quero acabar o livro sem rectificar -essa noção do espirito humano. Em pontos de aventura amorosa, achei -homens que sorriam, ou negavam a custo, de um modo frio, monosyllabico, -etc., ao passo que as parceiras não davam por si, e jurariam aos -Santos Evangelhos, que era tudo uma calumnia. A razão desta differença -é que a mulher (salva a hypothese do cap. CI e outras) entrega-se por -amor, ou seja o amor-paixão de Stendhal, ou o puramente physico de -algumas damas romanas, por exemplo, ou polynesias, laponias, cafres, -e póde ser que outras raças civilisadas; mas o homem,--falo do homem -de uma sociedade culta e elegante,--o homem conjuga a sua vaidade ao -outro sentimento. Alem disso (e refiro-me sempre aos casos defesos), -a mulher, quando ama outro homem, parece-lhe que mente a um dever, e -portanto tem de dissimular com arte maior, tem de refinar a aleivosia; -ao passo que o homem, sentindo-se causa da infracção e vencedor de -outro homem, fica legitimamente orgulhoso, e logo passa a outro -sentimento menos rispido e menos secreto,--essa meiga fatuidade, que é -a transpiração luminosa do merito. - -Mas seja ou não verdadeira a minha explicação, basta-me deixar escripto -nesta pagina, para uso dos seculos, que a indiscrição das mulheres -é uma burla inventada pelos homens; em amor, pelo menos, elas são -um verdadeiro sepulchro. Perdem-se muita vez por desastradas, por -inquietas, por não saberem resistir aos gestos, aos olhares; e é por -isso que uma grande dama e fino espirito, a rainha de Navarra, empregou -algures esta metaphora para dizer, que toda a aventura amorosa vinha a -descobrir-se por força, mais tarde ou mais cedo: «não ha cachorrinho -tão adestrado, que alfim lhe não ouçamos o latir.» - - - - -CAPITULO CXXXII - - -Que não é serio - - -Citando o dito da rainha de Navarra, occorre-me que entre o nosso povo, -quando uma pessoa vê outra pessoa arrufada, costuma perguntar-lhe: -«Gentes, quem matou seus cachorrinhos?» como se dissesse:--«quem lhe -levou os amores, as aventuras secretas, etc.» Mas este capitulo não é -serio. - - - - -CAPITULO CXXXIII - - -O principio de Helvetius - - -Estavamos ao ponto era que o official de marinha me arrancou a -confissão dos amores de Virgilia; e aqui emendo eu o principio de -Helvetius,--ou, por outra, explico-o. O meu interesse era calar; -confirmar a suspeita de uma cousa antiga fôra provocar algum odio -supitado, dar origem a um escandalo, quando menos adquirir a reputação -de indiscreto. Era esse o interesse; e entendendo-se o principio -de Helvetius de um modo superficial, isso é o que devia ter feito. -Mas eu já dei o motivo da indiscrição masculina: antes daquelle -interesse de _segurança_, havia outro, o do _desvanecimento_, que é -mais intimo, mais immediato: o primeiro era reflexivo, suppunha um -syllogismo anterior; o segundo era espontaneo, instintivo, vinha das -entranhas do sugeito; finalmente, o primeiro tinha o effeito remoto, -o segundo proximo. Conclusão: o principio de Helvetius é verdadeiro -no meu caso;--a diferença é que não era o interesse apparente, mas o -recondito. - - - - -CAPITULO CXXXIV - - -Cincoenta annos - - -Não lhes disse ainda,--mas digo-o agora,--que quando Virgilia descia a -escada, e o official de marinha me tocava no hombro, tinha eu cincoenta -annos. Era portanto a minha vida que descia pela escada abaixo,--ou a -melhor parte, ao menos, uma parte cheia de prazeres, de agitações, de -sustos,--capeada de dissimulação e duplicidade,--mas emfim a melhor, -se devemos falar a linguagem usual. Si, porém, empregarmos outra mais -sublime, a melhor parte foi a restante, como eu terei a honra de lhes -dizer nas poucas paginas deste livro. - -Cincoenta annos! Não era preciso confessal-o. Já se vae sentindo que o -meu estylo não é tão lesto como nos primeiros dias. Naquella occasião, -cessado o dialogo com o official de marinha, que enfiou a capa e saiu, -confesso que fiquei um pouco triste. Voltei á sala, lembrou-me dansar -uma polka, embriagar-me das luzes, das flores, dos crystaes, dos olhos -bonitos, e do borburinho surdo e ligeiro das conversas particulares. -E não me arrependo; remocei. Mas, meia hora depois, quando me retirei -do baile, ás quatro da manhã, o que é que fui achar no fundo do carro? -Os meus cincoenta annos. Lá estavam elles os teimosos, não tolhidos -de frio, nem rheumaticos,--mas cochillando a sua fadiga, um pouco -cobiçosos de cama e de repouso. Então,--e vejam até que ponto póde ir -a imaginação de um homem, com somno,--então pareceu-me ouvir de um -morcego encarapitado no tejadilho:--Sr. Braz Cubas, a rejuvenescencia -estava na sala, nos crystaes, nas luzes, nas sedas,--emfim, nos outros. - - - - -CAPITULO CXXXV - - -Oblivion - - -E agora sinto que, se alguma dama tem seguido estas paginas, fecha o -livro e não lê as restantes. Para ella extinguiu-se o interesse da -minha vida, que era o amor. Cincoenta annos! Não é ainda a invalidez, -mais já não é a frescura. Venham mais dez, e eu entenderei o que um -inglez dizia, entenderei que «cousa é não achar já quem se lembre de -meus paes, e de que modo me ha de encarar o proprio ESQUECIMENTO.» - -Vae em versaletes esse nome. OBLIVION! Justo é que se dem todas as -honras a um personagem tão desprezado e tão digno, conviva da ultima -hora, mas certo. Sabe-o a dama que luziu na aurora do actual reinado; e -mais dolorosamente a que ostentou suas graças em flor sob o ministerio -Paraná, porque esta acha-se mais perto do triumpho, e sente já que -outras lhe tomaram o carro. Então, se é digna de si mesma, não teima em -espertar a lembrança morta ou expirante; não busca no olhar de hoje a -mesma saudação do olhar de hontem, quando eram outros os que encetavam -a marcha da vida, de alma alegre e pé veloz. _Tempora mutantur._ E -ella comprehenderá que este turbilhão é assim mesmo, leva as folhas do -mato e os farrapos do caminho, sem excepção nem piedade; e se tiver um -pouco de philosophia, não invejará, mas lastimará as que lhe tomaram o -carro, porque tambem ellas hão de ser apeadas pelo estribeiro OBLIVION. -Espectaculo, cujo fim é divertir o planeta Saturno, que anda muito -aborrecido. - - - - -CAPITULO CXXXVI - - -Inutilidade - - -Mas, ou muito me engano, ou acabo de escrever um capitulo inútil. - - - - -CAPITULO CXXXVII - - -A barretina - - -E dahi, não; elle resume as reflexões que fiz no dia seguinte ao -Quincas Borba, accrescentando que me sentia acabrunhado, e mil -outras cousas tristes. Mas esse philosopho, com o elevado tino de -que dispunha, bradou-me que eu ia escorregando na ladeira fatal da -melancolia. - ---Meu caro Braz Cubas, não te deixes vencer desses vapores. Que diacho! -é preciso ser homem! ser forte! lutar! vencer! brilhar! influir! -dominar! Cincoenta annos é a edade da sciencia e do governo. Animo, -Braz Cubas; não me sejas palerma. Que tens tu com essa successão de -ruina a ruina ou de flor a flor? Trata de saborear a vida; e fica -sabendo que a peor philosophia é a do choramigas que se deita á -margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das aguas. O -officio dellas é não parar nunca; accommoda-te com a lei, e trata de -aproveital-a. - -Ve-se nas menores cousas o que vale a autoridade de um grande -philosopho. As palavras do Quincas Borba tiveram o condão de sacudir -o torpor moral e mental em que andava. Vamos lá; façamo-nos governo. -Crel-o-eis, posteros? Eu não havia intervindo até então nos grandes -debates. Cortejava a pasta por meio de rapapés, chás, commissões e -votos; e a pasta não vinha. Urgia apoderar-me da tribuna. - -Comecei de vagar. Tres dias depois, discutindo-se o orçamento da -justiça, aproveitei o ensejo para perguntar modestamente ao ministro -se não julgava util diminuir a barretina da guarda nacional. Não -tinha vasto alcance o objecto da pergunta; mas ainda assim demonstrei -que não era indigno das cogitações de um homem de Estado; e citei -Philopemen, que ordenou a substituição dos broqueis de suas tropas, -que eram pequenos, por outros maiores, e bem assim as lanças, que -eram demasiado leves; facto que a historia não achou que desmentisse -a gravidade de suas paginas. O tamanho das nossas barretinas estava -pedindo um córte profundo, não só por serem deselegantes, mas tambem -por serem anti-hygienicas. Nas paradas, ao sol, o excesso do calor -produzido por ellas podia ser fatal. Sendo certo que um dos preceitos -de Hippocrates era trazer a cabeça fresca, parecia cruel obrigar um -cidadão, por simples consideração de uniforme, a arriscar a saude e -a vida, e consequentemente o futuro da familia. A camara e o governo -deviam lembrar-se que a guarda nacional era o anteparo da liberdade -e da independencia, e que o cidadão, chamado a um serviço gratuito, -frequente e penoso, tinha direito a que se lhe diminuisse o onus, -decretando um uniforme leve e maneiro. Accrescia que a barretina, -por seu peso, abatia a cabeça dos cidadãos, e a patria precisava de -cidadãos cuja fronte pudesse levantar-se altiva e serena diante do -poder; e conclui com esta idéa: O chorão, que inclina os seus galhos -para a terra, é arvore de cemiterio; a palmeira, erecta e firme, é -arvore do deserto, das praças e dos jardins. - -Vária foi a impressão deste discurso. Quanto á forma, ao rapto -eloquente, á parte litteraria e philosophica, a opinião foi só uma; -disseram-me todos que era completo, e que de uma barretina ninguem -ainda conseguira tirar tantas idéas. Mas a parte politica foi -considerada por muitos deploravel; alguns achavam o meu discurso um -desastre parlamentar; emfim, vieram dizer-me que outros me davam já -em opposição, entrando nesse numero os opposicionistas da camara, -que chegaram a insinuar a conveniencia de uma moção de desconfiança. -Repelli energicamente tal interpretação, que não era só erronea, mas -calumniosa, á vista da notoriedade com que eu sustentava o gabinete; -accrescentei que a necessidade de diminuir a barretina, não era -tamanha que não pudesse esperar alguns annos; e que, em todo caso, -eu transigiria na extensão do córte, contentando-me com tres quartos -de polegada ou menos; emfim, dado mesmo que a minha idéa não fosse -adoptada, bastava-me tel-a iniciado no parlamento. - -O Quincas Borba, porém, não fez restricção alguma. Não sou homem -politico, disse-me elle ao jantar; não sei se andaste bem ou mal; -sei que fizeste um excellente discurso. E então notou as partes -mais salientes, as bellas imagens, os argumentos fortes, com esse -comedimento de louvor que tão bem fica a um grande philosopho; depois, -tomou o assumpto á sua conta, e impugnou a barretina com tal força, -com tamanha lucidez, que acabou convencendo-me effectivamente do seu -perigo. - - - - -CAPITULO CXXXVIII - - -A um Critico - - - Meu caro critico, - - Algumas paginas atraz, dizendo eu que tinha cincoenta annos, - accrescentei: «Já se vae sentindo que o meu estylo não é tão - lesto como nos primeiros dias.» Talvez aches esta phrase - incomprehensivel, sabendo-se o meu actual estado; mas eu - chamo a tua attenção para a subtileza daquelle pensamento. O - que eu quero dizer não é que esteja agora mais velho do que - quando comecei o livro. A morte não envelhece. Quero dizer, - sim, que em cada phase da narração da minha vida experimento - a sensação correspondente. Valha-me Deus! é preciso explicar - tudo. - - - - -CAPITULO CXXXIX - - -De como não fui ministro de estado - -. . . . . . . . . . . -. . . . . . . . . -. . . . . . . . . - . . - . . . . . . . . - - - - -CAPITULO CXL - - -Que explica o anterior - - -Ha cousas que melhor se dizem calando; tal é a materia do capitulo -anterior. Podem entendel-o os ambiciosos mallogrados. Se a paixão -do poder é a mais forte de todas, como alguns inculcam, imaginem o -desespero, a dôr, o abatimento do dia em que perdi a cadeira da camara -dos deputados. Iam-se-me as esperanças todas; terminava a carreira -politica. E notem que o Quincas Borba, por inducções philosophicas -que fez, achou que a minha ambição não era a paixão verdadeira do -poder, mas um capricho, um desejo de folgar. Na opinião delle, este -sentimento, não sendo mais profundo que o outro, amofina muito mais, -porque orça pelo amor que as mulheres tem ás rendas e toucados. Um -Cromwell ou um Bonaparte, acrescentava elle, por isso mesmo que os -queima a paixão do poder, lá chegam á fina força, ou pela escada da -direita, ou pela da esquerda. Não era assim o meu sentimento; este, -não tendo em si a mesma força, não tem a mesma certeza do resultado; -e dahi a maior afflicção, o maior desencanto, a maior tristeza. O meu -sentimento, segundo o Humanitismo... - ---Vae para o diabo com o teu Humanitismo, interrompi-o; estou farto de -philosophias que me não levam a cousa nenhuma. - -A dureza da interrupção, tratando-se de tamanho philosopho, equivalia a -um desacato; mas elle proprio desculpou a irritação com que lhe falei. -Trouxeram-nos café; era uma hora da tarde, estavamos na minha sala de -estudo, uma bella sala, que dava para o fundo da chacara, bons livros, -objectos d'arte, um Voltaire entre elles, um Voltaire de bronze, que -nessa occasião parecia accentuar o risinho de sarcasmo, com que me -olhava, o ladrão; cadeiras excellentes; fóra, o sol, um grande sol, -que o Quincas Borba, não sei se por chalaça ou poesia, chamou um dos -ministros da natureza; corria um vento fresco, o ceu estava nitidamente -azul. De cada janella,--eram trez--pendia uma gaiola com passaros, -que chilreavam as suas operas rusticas. Tudo tinha a apparencia de -uma conspiração das cousas contra o homem: e, comquanto eu estivesse -na _minha_ sala, olhando para a _minha_ chacara, sentado na _minha_ -cadeira, ouvindo os _meus_ passaros, ao pé dos _meus_ livros, allumiado -pelo _meu_ sol, não chegava a curar-me das saudades daquella outra -cadeira, que não era minha. - - - - -CAPITULO CXLI - - -Os cães - - ---Mas, emfim, que pretendes fazer agora? perguntou-me o Quincas Borbas, -indo pôr a chicara vazia no parapeito de uma das janellas. - -Não sei; vou metter-me na Tijuca; fugir aos homens. Estou envergonhado, -aborrecido. Tantos sonhos, meu caro Borba, tantos sonhos, e não sou -nada. - ---Nada! interrompeu-me o Quincas Borba com um gesto de indignação. - -Para distrair-me, convidou-me a sair; saimos para os lados do Engenho -Velho. Iamos a pé, philosophando as cousas. Nunca me hade esquecer o -beneficio desse passeio, que me restituiu o socego e a força. A palavra -daquelle grande homem era o cordial da sabedoria. Disse-me elle que eu -não podia fugir ao combate; se me fechavam a tribuna, cumpria-me abrir -um jornal. Chegou a usar uma expressão menos elevada, mostrando assim -que a lingua philosophica podia, uma ou outra vez, retemperar-se no -calão do povo. Funda um jornal, disse-me elle, e «desmancha toda esta -egrejinha.» - ---Magnifica idéa! Vou fundar um jornal, vou escachal-os, vou... - ---Lutar. Pódes escachal-os ou não; o essencial é que lutes. Vida é -luta. Vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal. - -Dahi a pouco demos com uma briga de cães; facto que aos olhos de um -homem vulgar não teria valor. O Quincas Borba fez-me parar e observar -os cães. Eram dous. Notou que ao pé delles estava um osso, motivo da -guerra, e não deixou de chamar a minha attenção para a circumstancia -de que o osso não tinha carne. Um simples osso nú. Os cães mordiam-se, -rosnavam, com o furor nos olhos... O Quincas Borba metteu a bengala -debaixo do braço, encostou o queixo no castão, e parecia em extasis. - ---Que bello que isto é! dizia elle de quando em quando. - -Quiz arrancar-me dalli, mas não pude; elle estava arraigado ao chão, -e só continuou a andar, quando a briga cessou inteiramente, e um -dos cães, mordido e vencido, foi levar a sua fome a outra parte. -Notei que ficára sinceramente alegre, posto contivesse a alegria, -segundo convinha a um grande philosopho. Fez-me observar a belleza do -espectaculo, relembrou o objecto da luta, concluiu que os cães tinham -fome; mas a privação do alimento era nada para os effeitos geraes da -philosophia. Nem deixou de recordar que em algumas partes do globo -o espectaculo é mais grandioso: as creaturas humanas é que disputam -aos cães os ossos e outros manjares menos appeteciveis; luta que se -complica muito, porque entra em acção a intelligencia do homem, com -todo o accumulo de sagacidade que lhe deram os seculos, etc. - - - - -CAPITULO CXLII - - -O pedido secreto - - -Quanta cousa n'um minuete! como dizia o outro. Quanta cousa n'uma briga -de cães! Mas eu não era um discipulo servil ou medroso, que deixasse de -fazer uma ou outra objecção adequada. Andando, disse-lhe que tinha uma -duvida; não estava bem certo da vantagem de disputar a comida aos cães. -Elle respondeu-me com excepcional brandura: - ---Disputai-a aos outros homens é mais logico, porque a condição dos -contendores é a mesma, e leva o osso o que fôr mais forte. Mas porque -não será um espectaculo grandioso disputal-o aos cães? Voluntariamente, -comem-se gafanhotos, como o Precursor, ou cousa peor, como Ezequiel; -logo, o ruim é comivel; resta saber se é mais digno do homem -disputal-o, por virtude de uma necessidade natural, ou preferil-o, para -obedecer a uma exaltação religiosa, isto é, modificavel, ao passo que a -fome é eterna, como a vida e como a morte. - -Estavamos á porta de casa; deram-me uma carta, dizendo que vinha de uma -senhora. Entramos; e o Quincas Borba, com a discrição propria de um -philosopho, foi ler a lombada dos livros de uma estante, emquanto eu -lia a carta, que era de Virgilia: - - «Meu bom amigo, - - «D. Placida está muito mal. Peço-lhe o favor de fazer alguma - cousa por ella; mora no becco das Escadinhas; veja se alcança - metei-a na Misericórdia. - - Sua amiga sincera, - - [signature] - -Não era a letra fina e correcta de Virgilia, mas grossa e desegual; o -V da assignatura não passava de um rabisco sem intenção alphabetica; -de maneira que, se a carta apparecesse, era mui difficil attribuir-lhe -a autoria. Virei e revirei o papel. Pobre D. Placida! Mas eu tinha-lhe -deixado os cinco contos da praia da Gambôa, enão podia comprehender -que... - ---Vaes comprehender, disse o Quincas Borba, tirando um livro da estante. - ---O que? perguntei espantado. - ---Vaes comprehender que eu só te disse a verdade. Pascal é um dos meus -avós espirituaes; e, çomquanto a minha philosophia valha mais que a -delle, não posso negar que era um grande homem. Ora, que diz elle -nesta pagina?--E, chapéu na cabeça, bengala sobraçada, apontava o logar -com o dedo.--Que diz elle? Diz que o homem tem «uma grande vantagem -sobre o resto do universo: sabe que morre, ao passo que o universo -ignora-o absolutamente.» Vês? Logo, o homem que disputa o osso a um cão -tem sobre este a grande vantagem de saber que tem fome; e é isto que -torna grandiosa a luta, como eu dizia. «Sabe que morre» é uma expressão -profunda; creio todavia que é mais profunda a minha expressão: sabe -que tem fome. Porquanto, o facto da morte limita, por assim dizer, o -entendimento humano; a consciencia da extincção dura um breve instante -e acaba para nunca mais, ao passo que a fome tem a vantagem de voltar, -de prolongar o estado consciente. Parece-me (se não vae nisso alguma -immodestia), que a fórmula de Pascal é inferior á minha, sem todavia -deixar de ser um grande pensamento, e Pascal um grande homem. - - - - -CAPITULO CXLIII - - -Não vou - - -Emquanto elle restituia o livro á estante, relia eu o bilhete. Ao -jantar, vendo que eu falava pouco, mastigava sem acabar de engulir, -fitava o canto da sala, a ponta da meza, um prato, uma cadeira, uma -mosca invisivel, disse-me elle:--Tens alguma cousa; aposto que foi -aquella carta?--Foi. Realmente, sentia-me aborrecido, incommodado, com -o pedido de Virgilia. Tinha dado a D. Placida cinco contos de réis; -duvido muito que ninguem fosse mais generoso do que eu, nem tanto. -Cinco contos! E que fizera delles? Naturalmente botou-os fóra, comeu-os -em grandes festas, e agora toca para a Misericordia, e eu que a leve! -Morre-se em qualquer parte. Accresce que eu não sabia, ou não me -lembrava do tal becco das Escadinhas; mas, pelo nome, parecia-me algum -recanto estreito e escuro da cidade. Tinha de lá ir, chamar a attenção -dos visinhos, bater á porta, etc. Que massada! Não vou. - - - - -CAPITULO CXLIV - - -Utilidade relativa - - -Mas a noite, que é boa conselheira, ponderou que a cortezia mandava -obedecer aos desejos da minha antiga dama. - ---Letras vencidas, urge pagal-as, disse eu ao levantar-me. - -Depois do almoço fui á casa de D. Placida; achei um mólho de ossos, -envolto em molambos, estendido sobre um catre velho e nauseabundo; -dei-lhe algum dinheiro. No dia seguinte fil-a transportar para a -Misericordia, onde ella morreu uma semana depois. Minto: amanheceu -morta; saiu da vida ás escondidas, tal qual entrára. Outra vez -perguntei, a mim mesmo, como no cap. LXXV, se era para isto que o -sachristão da Sé e a doceira trouxeram D. Placida á luz, n'um momento -de sympathia especifica. Mas adverti logo que, se não fosse D. Placida, -talvez os meus amores com Virgilia tivessem sido interrompidos, ou -immediatamente quebrados, em plena effervescencia; tal foi, portanto, a -utilidade da vida de D. Placida. Utilidade relativa, convenho; mas que -diacho ha absoluto nesse mundo? - - - - -CAPITULO CXLV - - -Simples repetição - - -Quanto aos cinco contos, não vale a pena dizer que um canteiro da -visinhança fingiu-se enamorado de D. Placida, logrou espertar-lhe -os sentidos, ou a vaidade, e casou com ella; no fim de alguns mezes -inventou um negocio, vendeu as apolices e fugiu com o dinheiro. Não -vale a pena. É o caso dos cães do Quincas Borba. Simples repetição de -um capitulo. - - - - -CAPITULO CXLVI - - -O programma - - -Urgia fundar o jornal. Redigi o programma, que era uma applicação -politica do Humanitismo; somente, como o Quincas Borba não houvesse -ainda publicado o livro, (que aperfeiçoava de anno em anno) assentamos -de lhe não fazer nenhuma referencia. O Quincas Borba exigiu apenas uma -declaração, autographa e reservada, de que alguns principios novos -applicados á politica eram tirados do livro delle, ainda inedito. - -Era a fina flôr dos programmas; promettia curar a sociedade, destruir -os abusos, defender os sãos principios de liberdade e conservação; -fazia um appello ao commercio e á lavoura; citava Guizot e Ledru-Rollin -e acabava com esta ameaça, que o Quincas Borba achou mesquinha e -local: «A nova doutrina que professamos ha de inevitavelmente derribar -o actual ministerio.» Confesso que, nas circumstancias politicas da -occasião, o programma pareceu-me uma obra-prima. A ameaça do fim, que -o Quincas Borba achou mesquinha, demonstrei-lhe que era saturada do -mais puro Humanitismo, e elle mesmo o confessou depois. Porquanto, o -Humanitismo não excluia nada; as guerras de Napoleão e uma contenda -de cabras eram, segundo a nossa doutrina, a mesma sublimidade, com a -differença que os soldados de Napoleão sabiam que morriam, cousa que -apparentemente não acontece ás cabras. Ora, eu não fazia mais do que -applicar ás circumstancias a nossa fórmula philosophica: Humanitas -queria substituir Humanitas para consolação de Humanitas. - ---Tu és o meu discipulo amado, o meu califa, bradou o Quincas Borba, -com uma nota de ternura, que até então lhe não ouvira. Posso dizer -como o grande Muhammed: nem que venham agora contra mim o sol e a lua, -não recuarei das minhas idéas. Crê, meu caro Braz Cubas, que esta é a -verdade eterna, anterior aos mundos, posterior aos seculos. - - - - -CAPITULO CXLVII - - -O desatino - - -Mandei logo para a imprensa uma noticia discreta, dizendo que -provavelmente começaria a publicação de um jornal opposicionista, dahi -a algumas semanas, redigido pelo Dr. Braz Cubas. O Quincas Borba, a -quem li a noticia, pegou da penna, e acrescentou ao meu nome, com uma -fraternidade verdadeiramente humanistica, esta phrase: «um dos mais -gloriosos membros da passada camara.» - -No dia seguinte entra-me em casa o Cotrim. Vinha um pouco transtornado, -mas dissimulava, affectando socego e até alegria. Vira a noticia -do jornal, e achou que devia, como amigo e parente, dissuadir-me -de semelhante idéa. Era um erro, um erro fatal. Mostrou que eu ia -collocar-me n'uma situação difficil, e de certa maneira trancar as -portas do parlamento. O ministerio, não só lhe parecia excellente, -o que aliás podia não ser a minha opinião, mas com certeza viveria -muito; e que podia eu ganhar com indispol-o contra mim? Sabia que -alguns dos ministros me eram affeiçoados; não era impossivel uma vaga, -e... Interrompi-o nesse ponto, para lhe dizer que meditára muito o -passo que ia dar, e não podia recuar uma linha. Cheguei a propôr-lhe a -leitura do programma, mas elle recusou energicamente, dizendo que não -queria ter a minima parte no meu desatino. - ---É um verdadeiro desatino, repetiu elle; pense ainda alguns dias, e -verá que é* um desatino. - -A mesma cousa disse Sabina, á noite, no theatro. Deixou a filha no -camarote, como Cotrim, e trouxe-me ao corredor. - ---Mano Braz, que é que você vae fazer? perguntou-me afflicta. Que idéa -é essa de provocar o governo, sem necessidade, quando podia.... - -Expliquei-lhe que não me convinha mendigar uma cadeira no parlamento; -que a minha idéa era derrubar o ministerio, por não me parecer adequado -á situação--e a certa fórmula philosophica; afiancei que empregaria -sempre uma linguagem cortez, embora energica. A violencia não era -especiaria do meu paladar. Sabina bateu com o leque na ponta dos dedos, -abanou a cabeça, e tornou ao assumpto com um ar de supplica e ameaça, -alternadamente; eu disse-lhe que não, que não, e que não. Desenganada, -lançou-me em rosto preferir os conselhos de pessoas estranhas e -invejosas aos della e do marido.--Pois siga o que, lhe parecer, -concluiu; nós cumprimos a nossa obrigação. Deu-me as costas e voltou ao -camarote. - - - - -CAPITULO CXLVIII - - -O problema insoluvel - - -Publiquei o jornal. Vinte e quatro horas depois, apparecia em outros -uma declaração do Cotrim, dizendo, era substancia, que «posto não -militasse em nenhum dos partidos em que se dividia a patria, achava -conveniente deixar bem claro que não tinha influencia nem parte directa -ou indirecta na folha de seu cunhado, o Dr. Braz Cubas, cujas idéas -e procedimento politico inteiramente reprovava. O actual ministerio -(como aliás qualquer outro composto de eguaes capacidades) parecia-lhe -destinado a promover a felicidade publica.» - -Não podia acabar de crer nos meus olhos. Esfreguei-os uma e duas -vezes, e reli a declaração inopportuna, insolita e enigmatica. Se -elle nada tinha com os partidos, que lhe importava um incidente tão -vulgar como a publicação de uma folha? Nem todos os cidadãos que acham -bom ou mau um ministerio fazem declarações taes pela imprensa, nem -são obrigados a fazel-as. Realmente, era um mysterio a intrusão do -Cotrim neste negocio, não menos que a sua aggressão pessoal. Nossas -relações até então tinham sido lhanas e benevolas; não me lembrava -nenhum dissentimento, nenhuma sombra, nada, depois da reconciliação. -Ao contrario, as recordações eram de verdadeiros obsequios; assim, por -exemplo, sendo eu deputado, pude obter-lhe uns fornecimentos para o -arsenal de marinha, fornecimentos que elle continuava a fazer com a -maior pontualidade, e dos quaes me dizia algumas semanas antes, que -no fim de mais trez annos, podiam dar-lhe uns duzentos contos. Pois -a lembrança de tamanho obsequio não teve força para obstar que elle -viesse a publico enxovalhar o cunhado? Devia ser mui poderoso o motivo -da declaração, que o fazia commetter ao mesmo tempo um destempero e uma -ingratidão; confesso que era um problema insoluvel... - - - - -CAPITULO CXLIX - - -Theoria do beneficio - - -... Tão insoluvel que o Quincas Borba não pôde dar com elle, apezar de -estudal-o longamente e com boa vontade.--Ora adeus! concluiu; nem todos -os problemas valem cinco minutos de attenção. - -Quanto á censura de ingratidão, o Quincas Borba rejeitou-a -inteiramente, não como improvavel, mas como absurda, por não obedecer -ás conclusões de uma boa philosophia humanistica: - ---Não me pódes negar um facto, disse elle; é que o prazer do -beneficiador é sempre maior que o do beneficiado. Que é o beneficio? é -um acto que faz cessar certa privação do beneficiado. Uma vez produzido -o effeito essencial, isto é, uma vez cessada a privação, torna o -organismo ao estado anterior, ao estado indifferente. Suppõe que tens -apertado em demasia o cós das calças; para fazer cessar o incommodo, -desabotôas o cós, respiras, saboreas um instante de gozo, o organismo -torna á indifferença, e não te lembras dos teus dedos que praticaram o -acto. Não havendo nada que perdure, é natural que a memoria se esvaeça, -porque ella não é uma planta aerea, precisa de chão. A esperança de -outros favores, é certo, conserva sempre no beneficiado a lembrança do -primeiro; mas este facto, aliás um dos mais sublimes que a philosophia -póde achar em seu caminho, explica-se pela memoria da privação, ou, -usando de outra fórmula, pela privação continuada na memoria, que -repercute a dor passada e aconselha a precaução do remedio opportuno. -Não digo que, ainda sem esta circumstancia, não aconteça, algumas -vezes, persistir a memoria do obsequio, acompanhada de certa affeição -mais ou menos intensa; mas são verdadeiras aberrações, sem nenhum valor -aos olhos de um philosopho. - ---Mas, repliquei eu, se nenhuma razão ha para que perdure a memoria do -obsequio no obsequiado, menos ha de haver em relação ao obsequiador. -Quizera que me explicasses este ponto. - ---Não se explica o que é de sua natureza evidente, retorquiu o Quincas -Borba; mas eu direi alguma cousa mais. A persistencia do beneficio na -memoria de quem o exerce explica-se pela natureza mesma do beneficio -e seus effeitos. Primeiramente, ha o sentimento de uma boa acção, e -deductivamente a consciencia de que somos capazes de boas acções; em -segundo logar, recebe-se uma convicção de superioridade sobre outra -creatura, superioridade no estado e nos meios; e esta é uma das -cousas mais legitimamente agradaveis, segundo as melhores opiniões, -ao organismo humano. Erasmo, que no seu _Elogio da Sandice_ escreveu -algumas cousas boas, chamou a attenção para a complacencia com que dois -burros se coçam um ao outro. Estou longe de rejeitar essa observação de -Erasmo; mas direi o que elle não disse, a saber, que se um dos burros -coçar melhor o outro, esse ha de ter nos olhos algum indicio especial -de satisfação. Porque é que uma mulher bonita olha muitas vezes para -o espelho, senão porque se acha bonita, e porque isso lhe dá certa -superioridade sobre uma multidão de outras mulheres menos bonitas -ou absolutamente feias? A consciencia é a mesma cousa; remira-se a -miudo, quando se acha bella. Nem o remorso é outra cousa mais do que o -trejeito de uma consciencia que se vê hedionda. Não esqueças que, sendo -tudo uma simples irradiação de Humanitas, o beneficio e seus effeitos, -são phenomenos perfeitamente admiráveis. - - - - -CAPITULO CL - - -Rotação e translação - - -Ha em cada empreza, affeição ou edade um cyclo inteiro da vida humana. -O primeiro numero do meu jornal encheu-me a alma de uma vasta aurora, -coroou-me de verduras, restituiu-me a lepidez da mocidade. Seis mezes -depois batia a hora da velhice, e dahi a duas semanas a da morte, que -foi clandestina, como a de D. Placida. No dia em que o jornal amanheceu -morto, respirei como um homem que vem de longo caminho. De modo que, -se eu disser que a vida humana nutre de si mesma outras vidas, mais -ou menos ephemeras, como o corpo alimenta os seus parasitas, creio -não dizer uma cousa inteiramente absurda. Mas, para não arriscar essa -figura menos nitida e adequada, prefiro uma imagem astronomica: o homem -executa á roda do grande mysterio um movimento duplo de rotação e -translação; tem os seus dias, deseguaes como os de Jupiter, e delles -compõe o seu anno mais ou menos longo. - -No momento em que eu terminava o meu movimento de rotação, concluia o -Lobo Neves o seu movimento de translação. Morria com o pé na escada -ministerial. Correu ao menos, durante algumas semanas, que elle ia ser -ministro; e pois que o boato me encheu de muita irritação e inveja, não -é impossivel que a noticia da morte me deixasse alguma tranquillidade, -allivio, e um ou dous minutos de prazer. Prazer é muito, mas é verdade; -juro aos seculos que é a pura verdade. - -Fui ao enterro. Na sala mortuaria achei Virgilia, ao pé do feretro, a -soluçar. Quando levantou a cabeça, vi que chorava deveras. Ao sair o -enterro, abraçou-se ao caixão, afflicta; vieram tiral-a e leval-a para -dentro. Digo-vos que as lagrimas eram verdadeiras. Eu fui ao cemiterio; -e, para dizer tudo, não tinha muita vontade de falar; levava uma pedra -na garganta ou na consciencia. No cemiterio, principalmente quando -deixei cair a pá de cal sobre o caixão, no fundo da cova, o baque surdo -da cal deu-me um estremecimento passageiro, é certo, mas desagradavel; -e depois a tarde tinha o peso e a côr do chumbo; o cemiterio, as roupas -pretas... - - - - -CAPITULO CLI - - -Philosophia dos epitaphios - - -Saí, afastando-me dos grupos, e fingindo ler os epitaphios. E, aliás, -gosto dos epitaphios; elles são, entre a gente civilisada, uma -expressão daquelle pio e secreto egoismo que induz o homem a arrancar -á morte um farrapo ao menos da sombra que passou. Dahi vem, talvez, -a tristeza inconsolavel dos que levam os seus mortos á valla commum; -parece-lhes que a podridão anonyma os alcança a elles mesmos. - - - - -CAPITULO CLII - - -A moeda do Vespasiano - - -Tinham ido todos; só o meu carro esperava pelo dono. Accendi um -charuto; afastei-me do cemiterio. Não podia sacudir dos olhos a -ceremonia do enterro, nem dos ouvidos os soluços de Virgilia. Os -soluços, principalmente, tinham o som vago e mysterioso de um problema. -Virgilia trahira o marido, com sinceridade; e agora chorava-o com -sinceridade. Eis uma combinação difficil que não pude fazer em todo -o trajecto; em casa, porém, apeando-me do carro, suspeitei que a -combinação era possivel, e até facil. Meiga Natura! A taxa da dor é -como a moeda de Vespasiano; não cheira á origem, e tanto se colhe do -mal como do bem. A moral reprehenderá, porventura, a minha complice; -é o que te não importa, implacavel amiga, uma vez que lhe recebeste -pontualmente as lagrimas. Meiga, tres vezes meiga Natura! - - - - -CAPÍTULO CLIII - - -O alienista - - -Começo a ficar pathetico; e prefiro dormir. Dormi, sonhei que era -nababo, e acordei com a idéa de ser nababo. Eu gostava, ás vezes, -de imaginar esses contrastes de região, estado e credo. Alguns dias -antes tinha pensado na hypothese de uma revolução social, religiosa e -politica, que transferisse o arcebispo de Cantuaria a simples collector -de Petropolis, e fiz longos calculos para saber se o collector -eliminaria o arcebispo, ou se o arcebispo rejeitaria o collector, ou -que porção de arcebispo póde jazer n'um collector, ou que somma de -collector póde combinar com um arcebispo, etc. Questões insoluveis, -apparentemente, mas na realidade perfeitamente soluveis, desde que se -attenda que póde haver n'um arcebispo dous arcebispos,--o da bulla e o -outro. Está dito, vou ser nababo. - -Era um simples gracejo; disse-o, todavia, ao Quincas Borba, que -olhou para mim com certa cautella e pena, levando a sua bondade a -communicar-me que eu estava doudo. Ri-me a principio; mas a nobre -convicção do philosopho incutiu-me certo medo. A unica objecção contra -a palavra do Quincas Borba é que não me sentia doudo, mas não tendo -geralmente os doudos outro conceito de si mesmos, tal objecção ficava -sem valor. E vêde se ha algum fundamento na crença popular de que os -philosophos são homens alheios ás cousas minimas. No dia seguinte -mandou-me o Quincas Borba um alienista. Conhecia-o, fiquei aterrado. -Elle porém houve-se com a maior delicadeza e habilidade, despedindo-se -tão alegremente que me animou a perguntar-lhe se deveras me não achava -doudo. - ---Não, disse elle sorrindo; raros homens terão tanto juizo como o -senhor. - ---Então o Quincas Borba enganou-se? - ---Redondamente. E depois:--Ao contrario, se é amigo delle... peço-lhe -que o distraia... que... - ---Justos ceus! Parece-lhe?... Um homem de tamanho espirito! um -philosopho! - -Não importa; a loucura entra em todas as casas. Imaginem a minha -afflicção. O alienista, vendo o effeito de suas palavras, reconheceu -que eu era amigo do Quincas Borba, e tratou de diminuir a gravidade da -advertencia. Observou que podia não ser nada, e accrescentou até que um -grãosinho de sandice, longe de fazer mal, dava certo pico á vida. Como -eu rejeitasse com horror esta opinião, o alienista sorriu e disse-me -uma cousa tão extraordinaria, tão extraordinaria, que não merece menos -de um capitulo. - - - - -CAPITULO CLIV - - -Os navios do Pireu - - ---Ha de lembrar-se, disse-me o alienista, daquelle famoso maniaco -atheniense, que suppunha que todos os navios entrados no Pireu eram -de sua propriedade. Não passava de um pobretão, que talvez não -tivesse, para dormir, a cuba de Diogenes; mas a posse imaginaria dos -navios valia por todas as drachmas da Hellade. Ora bem, ha em todos -nós um maniaco de Athenas; e quem jurar que não possuiu alguma vez, -mentalmente, dous ou tres patachos, pelo menos, póde crer que jura -falso. - ---Tambem o senhor? perguntei-lhe. - ---Tambem eu. - ---Tambem eu? - ---Tambem o senhor; e o seu criado, não menos, se é seu criado esse -homem que alli está sacudindo os tapetes á janella. - -De facto, era um dos meus criados que batia os tapetes, emquanto -nós falavamos no jardim, ao lado. O alienista notou então que elle -escancarára as janellas todas, desde longo tempo, que alçára as -cortinas, que devassára o mais possivel a sala, ricamente alfaiada, -para que a vissem de fóra, e concluiu:--Este seu criado tem a mania do -atheniense: crê que os navios são delle; uma hora de illusão que lhe dá -a maior felicidade da terra. - - - - -CAPITULO CLV - - -Reflexão cordial - - ---Se o alienista tem razão, disse eu commigo, não haverá muito que -lastimar o Quincas Borba; e uma questão de mais ou de menos. Comtudo, -é justo cuidar delle, e evitar que lhe entrem no cerebro maniacos de -outras paragens. - - - - -CAPITULO CLVI - - -Orgulho tem servilidade - - -O Quincas Borba divergiu do alienista em relação ao meu -criado.--Póde-se, por imagem, disse elle, attribuir ao teu criado -a mania de atheniense; mas imagens não são idéas nem observações -tomadas á natureza. O que o teu criado tem é um sentimento nobre -e perfeitamente regido pelas leis do Humanitismo: é o orgulho -da servilidade. A intenção delle é mostrar que não é criado de -_qualquer._--Depois chamou a minha attenção para os cocheiros de casa -grande, mais impertigados que o amo, para os criados de hotel, cuja -solicitude obedece ás variações sociaes da freguezia, etc. E concluiu -que era tudo a expressão daquelle sentimento delicado e nobre,--prova -cabal de que muitas vezes o homem, ainda a engraxar botas, é sublime. - - - - -CAPITULO CLVII - - -Phase brilhante - - ---Sublime és tu, bradei eu, lançando-lhe os braços ao pescoço. - -Com effeito, era impossível crer que um homem tão profundo pudesse -chegar á demencia; e foi o que lhe disse após o meu abraço, -denunciando-lhe a suspeita do alienista. Não posso descrever a -impressão que lhe fez a denuncia; lembra-me que elle estremeceu e ficou -muito pallido. - -Foi por esse tempo que eu me reconciliei outra vez com o Cotrim, sem -chegar a saber a causa do dissentimento. Reconciliação opportuna, -porque a solidão pesava-me, como um remorso, e a vida era para mim -a peor das fadigas, que é a fadiga sem trabalho. Pouco depois fui -convidado por elle a filiar-me n'uma Ordem Terceira; o que eu não fiz -sem consultar o Quincas Borba: - ---Vae se queres, disse-me este, mas temporariamente. Eu trato de -annexar á minha philosophia uma parte dogmatica e liturgica. O -Humanitismo ha de ser tambem uma religião, a do futuro, a unica -verdadeira. O christianismo é bom para as mulheres e os mendigos, e as -outras religiões não valem mais do que essa: orçam todas pela mesma -vulgaridade ou fraqueza. O paraiso christão é um digno emulo do paraiso -mussulmano; e quanto ao nirvana de Buddha não passa de uma concepção de -paralyticos. Verás o que é a religião humanistica. A absorpção final, -a phase _contractiva_, é a reconstituição da substancia, não o seu -anniquilamento, etc. Vae aonde te chamam; não esqueças, porém, que és o -meu califa. - -E vede agora a minha, modestia; filiei-me na Ordem Terceira de ***, -exerci alli alguns cargos, foi essa a phase mais brilhante da minha -vida. Não obstante, calo-me, não digo nada, não conto os meus serviços, -o que fiz aos pobres e aos enfermos, nem as recompensas que recebi, -nada, não digo absolutamente nada. - -Talvez a economia social pudesse ganhar alguma cousa, si eu mostrasse -como todo e qualquer premio estranho vale pouco ao lado do premio -subjectivo e immediato; mas seria romper o silencio que jurei guardar -neste ponto. Demais, os phenomenos da consciencia são de difficil -analyse; por outro lado, se contasse um, teria de contar todos os que -a elle se prendessem, e acabava fazendo um capitulo de psychologia. -Affirmo sómente que foi a phase mais brilhante da minha vida. Os -quadros eram tristes; tinham a monotonia da desgraça, que é tão -aborrecida como a do gozo, e talvez peor. Mas a alegria que se dá á -alma dos doentes e dos pobres, é recompensa de algum valor; e não me -digam que é negativa, por só recebel-a o obsequiado. Não; eu recebia-a -de um modo reflexo, e ainda assim grande, tão grande que me dava -excellente idéa de mim mesmo. - - - - -CAPITULO CLVIII - - -Dous encontros - - -No fim de alguns annos, tres ou quatro, estava enfarado do officio, -e deixei-o, não sem um donativo importante, que me deu direito ao -retrato na sacristia. Não acabarei, porém, o capitulo sem dizer que vi -morrer no hospital da Ordem, adivinhem quem?... a linda Marcella; e -vi-a morrer no mesmo dia em que, visitando um cortiço, para distribuir -esmolas, achei... Agora é que não são capazes de adivinhar... achei a -flôr da moita, Eugenia, a filha de D. Eusebia e do Villaça, tão coxa -como a deixara, e ainda mais triste. - -Esta, ao reconhecer-me, ficou pallida, e baixou os olhos; mas foi obra -de um instante. Ergueu logo a cabeça, e fitou-me com muita dignidade. -Comprehendi que não receberia esmolas da minha algibeira, e estendi-lhe -a mão, como faria á esposa de um capitalista. Cortejou-me e fechou-se -no cubiculo. Nunca mais a vi; não soube nada da vida della, nem se a -mãe era morta, nem que desastre a trouxera a tamanha miseria. Sei que -continuava coxa e triste. Foi com esta impressão profunda que cheguei -ao hospital, onde Marcella entrara na vespera, e onde a vi expirar meia -hora depois, feia, magra, decrepita... - - - - -CAPITULO CLIX - - -A semi-demencia - - -Comprehendi que estava velho, e precisava de uma força; mas o Quincas -Borba partira seis mezes antes para Minas Geraes, e levou comsigo a -melhor das philosophias. Voltou quatro mezes depois, e entrou-me em -casa, certa manhã, quasi no estado em que eu o vira no Passeio Publico. -A differença é que o olhar era outro. Vinha demente. Contou-me que, -para o fim de aperfeiçoar o Humanitismo, queimára o manuscripto todo e -ia recomeçal-o. A parte dogmatica ficava completa, embora não escripta; -era a verdadeira religião do futuro. - ---Juras por Humanitas? perguntou-me. - ---Sabes que sim. - -A voz mal podia sair-me do peito; e aliás não tinha descoberto toda -a cruel verdade. O Quincas Borba não só estava louco, mas sabia que -estava louco, e esse resto de consciencia, como uma frouxa lamparina -no meio das trevas, complicava muito o horror da situação. Sabia-o, -e não se irritava contra o mal; ao contrario, dizia-me que era ainda -uma prova de Humanitas, que assim brincava comsigo mesmo. Recitava-me -longos capitulos do livro, e antiphonas, e litanias espirituaes; chegou -até a reproduzir uma dansa sacra que inventara para as ceremonias do -Humanitismo. A graça lugubre com que elle levantava e sacudia as pernas -era singularmente fantastica. Outras vezes amuava-se a um canto, com os -olhos fitos no ar, uns olhos em que, de longe em longe, fulgurava um -raio persistente da razão, triste como uma lagrima... - -Morreu pouco tempo depois, em minha casa, jurando e repetindo sempre -que a dor era uma illusão, e que Pangloss, o calumniado Pangloss, não -era tão tolo como o suppoz Voltaire. - - - - -CAPITULO CLX - - -Das negativas - - -Entre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os successos -narrados na primeira parte do livro. O principal delles foi a invenção -do _emplasto Braz Cubas_, que morreu commigo, por causa da molestia -que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro logar entre os -homens, acima da sciencia e da riqueza, porque eras a genuina e directa -inspiração do ceu. O acaso determinou o contrario; e ahi vos ficaes -eternamente hypocondriacos. - -Este ultimo capitulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do -emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. -Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não -comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais: não padeci a morte de D. -Placida, nem a semi-demencia do Quincas Borba. Sommadas umas cousas e -outras, qualquer pessoa imaginará que não houve mingua nem sobra, e -conseguintemente que sai quite com a vida. E imaginará mal; porque ao -chegar a este outro lado do mysterio, achei-me com um pequeno saldo, -que é a derradeira negativa deste capitulo de negativas:--Não tive -filhos, não transmitti a nenhuma creatura o legado da nossa miseria. - -FIM - - - -ÍNDICE - - -Ao leitor v - -Dedicatória vii - -Capitulo - - - I Obito do auto - II O emplasto - III Genealogia - IV A idéa fixa - V Em que apparece a orelha de uma senhora - VI Chimène, qui l'eut dit? Rodrigue, qui l'eut cru? - VII O delirio - VIII Razão contra Sandice - IX Transição - X Naquelle dia - XI O menino é pae do homem - XII Um episodio de 1814 - XIII Um salto - XIV O primeiro beijo - XV Marcella - XVI Uma reflexão immoral - XVII Do trapezio o outras cousas - XVIII Visão do corredor - XIX A bordo - XX Bacharelo-me - XXI O almocreve - XXII Volta ao Rio - XXIII Triste, mas curto - XXIV Curto, era alegre - XXV Na Tijuca - XXVI O autor hesita - XXVII Virgilia? - XXVIII Contanto que - XXIX A visita - XXX A flor da moita - XXXI A borboleta preta - XXXII Côxa de nascença - XXXIII Bem aventurados os que não descem - XXXIV A uma alma sensivel - XXXV O caminho de Damasco - XXXVI A proposito de botas - XXXVII Emfim! - XXXVIII A quarta edição - XXXIX O visinho - XL Na sege - XLI A allucinação - XLII Que escapou a Aristoteles - XLIII Marqueza, porque eu serei marquez - XLIV Um Cubas! - XLV Notas - XLVI A herança - XLVII O recluso - XLVIII Um primo de Virgilia - XLIX A ponta do nariz - L Virgilia casada - LI É minha! - LII O embrulho mysterioso - LIII . . . . . . - LIV A pendula - LV O velho dialogo de Adão e Eva - LVI O momento opportuno - LVII Destino - LVIII Confidencia - LIX Um encontro - LX O abraço - LXI Um projecto - LXII O travesseiro - LXIII Fujamos! - LXIV A transacção - LXV Olheiros e escutas - LXVI As pernas - LXVII A casinha - LXVIII O vergalho - LXIX Um grão de sandice - LXX D. Placida - LXXI O senão do livro - LXXII O bibliomano - LXXIII O _lunch_ - LXXIV Historia de D. Placida - LXXV Commigo - LXXVI O estrume - LXXVII Entrevista - LXXVIII A presidencia - LXXIX Compromisso de gato - LXXX De secretario - LXXXI A reconciliação - LXXXII Questão de botanica - LXXXIII 13 - LXXXIV O conflicto - LXXXV O cimo da montanha - LXXXVI O mysterio - LXXXVII Geologia - LXXXVIII O enfermo - LXXXIX _In extremis_ - XC O velho colloquio do Adão e Caim - XCI Uma carta extraordinaria - XCII Um homem extraordinario - XCIII O jantar - XCIV A causa secreta - XCV Flores de antanho - XCVI A carta anonyma - XCVII Entre a boca e a testa - XCVIII Supprimido - XCIX Na plateia - C O caso provavel - CI A revolução dalmata - CII De repouso - CIII Distracção - CIV Era elle! - CV Equivalencia das janellas - CVI Jogo perigoso - CVII Bilhete - CVIII Que se não entende - CIX O philosopho - CX 31 - CXI O muro - CXII A opinião - CXIII A solda - CXIV Fim do um dialogo - CXV O almoço - CXVI Philosophia das folhas velhas - CXVII O Humanitismo - CXVIII A terceira força - CXIX Parenthesis - CXX _Compelle intrare_ - CXXI Morro abaixo - CXXII Uma intenção mui fina - CXXIII O verdadeiro Cotrim - CXXIV Vá de intermedio - CXXV Epitaphio - CXXVI Desconsolação - CXXVII Formalidade - CXXVIII Na camara - CXXIX Sem remorsos - CXXX Por intercallar no cap. CXXIX - CXXXI De uma calumnia - CXXXII Que não é serio - CXXXIII O principio de Helvetius - CXXXIV Cincoenta annos - CXXXV _Oblivion_ - CXXXVI Inutilidade - CXXXVII A barretina - CXXXVIII A um critico - CXXXIX De como não fui ministro d'Estado - CXL Que explica o anterior - CXLI Os cães - CXLII O pedido secreto - CXLIII Não vou - CXLIV Utilidade relativa - CXLV Simples repetição - CXLVI O programma - CXLVII O desatino - CXLVIII O problema insoluvel - CXLIX Theoria do beneficio - CL Rotação e translação - CLI Philosophia dos epitaphios - CLII A moeda de Vespasiano - CLIII O alienista - CLIV Os navios do Pireu - CLV Reflexão cordial - CLVI Orgulho da servilidade - CLVII Phase brilhante - CLVIII Dous encontros - CLIX A semi-demencia - CLX Das negativas - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Memorias Postumas de Braz Cubas, by -Machado de Assis - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIAS POSTUMAS DE BRAZ CUBAS *** - -***** This file should be named 54829-8.txt or 54829-8.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/5/4/8/2/54829/ - -Produced by Laura Natal Rodriguez & Marc D'Hooghe at Free -Literature (online soon in an extended version, also linking -to free sources for education worldwide ... MOOC's, -educational materials,...) - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm -concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, -and may not be used if you charge for the eBooks, unless you receive -specific permission. If you do not charge anything for copies of this -eBook, complying with the rules is very easy. You may use this eBook -for nearly any purpose such as creation of derivative works, reports, -performances and research. They may be modified and printed and given -away--you may do practically ANYTHING in the United States with eBooks -not protected by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the -trademark license, especially commercial redistribution. - -START: FULL LICENSE - -THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE -PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK - -To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase "Project -Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg-tm License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. - -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project -Gutenberg-tm electronic works - -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all -the terms of this agreement, you must cease using and return or -destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your -possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a -Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound -by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the -person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph -1.E.8. - -1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be -used on or associated in any way with an electronic work by people who -agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few -things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works -even without complying with the full terms of this agreement. See -paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project -Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this -agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm -electronic works. See paragraph 1.E below. - -1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the -Foundation" or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection -of Project Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual -works in the collection are in the public domain in the United -States. If an individual work is unprotected by copyright law in the -United States and you are located in the United States, we do not -claim a right to prevent you from copying, distributing, performing, -displaying or creating derivative works based on the work as long as -all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope -that you will support the Project Gutenberg-tm mission of promoting -free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg-tm -works in compliance with the terms of this agreement for keeping the -Project Gutenberg-tm name associated with the work. You can easily -comply with the terms of this agreement by keeping this work in the -same format with its attached full Project Gutenberg-tm License when -you share it without charge with others. - -1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern -what you can do with this work. Copyright laws in most countries are -in a constant state of change. If you are outside the United States, -check the laws of your country in addition to the terms of this -agreement before downloading, copying, displaying, performing, -distributing or creating derivative works based on this work or any -other Project Gutenberg-tm work. The Foundation makes no -representations concerning the copyright status of any work in any -country outside the United States. - -1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: - -1.E.1. The following sentence, with active links to, or other -immediate access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear -prominently whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work -on which the phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the -phrase "Project Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, -performed, viewed, copied or distributed: - - This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and - most other parts of the world at no cost and with almost no - restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it - under the terms of the Project Gutenberg License included with this - eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the - United States, you'll have to check the laws of the country where you - are located before using this ebook. - -1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is -derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not -contain a notice indicating that it is posted with permission of the -copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in -the United States without paying any fees or charges. If you are -redistributing or providing access to a work with the phrase "Project -Gutenberg" associated with or appearing on the work, you must comply -either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or -obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg-tm -trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9. - -1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted -with the permission of the copyright holder, your use and distribution -must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any -additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms -will be linked to the Project Gutenberg-tm License for all works -posted with the permission of the copyright holder found at the -beginning of this work. - -1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm -License terms from this work, or any files containing a part of this -work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. - -1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this -electronic work, or any part of this electronic work, without -prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with -active links or immediate access to the full terms of the Project -Gutenberg-tm License. - -1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, -compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including -any word processing or hypertext form. However, if you provide access -to or distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format -other than "Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official -version posted on the official Project Gutenberg-tm web site -(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense -to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means -of obtaining a copy upon request, of the work in its original "Plain -Vanilla ASCII" or other form. Any alternate format must include the -full Project Gutenberg-tm License as specified in paragraph 1.E.1. - -1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, -performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works -unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. - -1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing -access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works -provided that - -* You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from - the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method - you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed - to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he has - agreed to donate royalties under this paragraph to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid - within 60 days following each date on which you prepare (or are - legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty - payments should be clearly marked as such and sent to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in - Section 4, "Information about donations to the Project Gutenberg - Literary Archive Foundation." - -* You provide a full refund of any money paid by a user who notifies - you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he - does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm - License. You must require such a user to return or destroy all - copies of the works possessed in a physical medium and discontinue - all use of and all access to other copies of Project Gutenberg-tm - works. - -* You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of - any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the - electronic work is discovered and reported to you within 90 days of - receipt of the work. - -* You comply with all other terms of this agreement for free - distribution of Project Gutenberg-tm works. - -1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project -Gutenberg-tm electronic work or group of works on different terms than -are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing -from both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and The -Project Gutenberg Trademark LLC, the owner of the Project Gutenberg-tm -trademark. Contact the Foundation as set forth in Section 3 below. - -1.F. - -1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable -effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread -works not protected by U.S. copyright law in creating the Project -Gutenberg-tm collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm -electronic works, and the medium on which they may be stored, may -contain "Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate -or corrupt data, transcription errors, a copyright or other -intellectual property infringement, a defective or damaged disk or -other medium, a computer virus, or computer codes that damage or -cannot be read by your equipment. - -1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right -of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project -Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project -Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all -liability to you for damages, costs and expenses, including legal -fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT -LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE -PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE -TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE -LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR -INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH -DAMAGE. - -1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a -defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can -receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a -written explanation to the person you received the work from. If you -received the work on a physical medium, you must return the medium -with your written explanation. The person or entity that provided you -with the defective work may elect to provide a replacement copy in -lieu of a refund. If you received the work electronically, the person -or entity providing it to you may choose to give you a second -opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If -the second copy is also defective, you may demand a refund in writing -without further opportunities to fix the problem. - -1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth -in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO -OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT -LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. - -1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied -warranties or the exclusion or limitation of certain types of -damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement -violates the law of the state applicable to this agreement, the -agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or -limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or -unenforceability of any provision of this agreement shall not void the -remaining provisions. - -1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the -trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone -providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in -accordance with this agreement, and any volunteers associated with the -production, promotion and distribution of Project Gutenberg-tm -electronic works, harmless from all liability, costs and expenses, -including legal fees, that arise directly or indirectly from any of -the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this -or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or -additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any -Defect you cause. - -Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm - -Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of -electronic works in formats readable by the widest variety of -computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It -exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations -from people in all walks of life. - -Volunteers and financial support to provide volunteers with the -assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's -goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will -remain freely available for generations to come. In 2001, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure -and permanent future for Project Gutenberg-tm and future -generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see -Sections 3 and 4 and the Foundation information page at -www.gutenberg.org - - - -Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation - -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by -U.S. federal laws and your state's laws. - -The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the -mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its -volunteers and employees are scattered throughout numerous -locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt -Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to -date contact information can be found at the Foundation's web site and -official page at www.gutenberg.org/contact - -For additional contact information: - - Dr. Gregory B. Newby - Chief Executive and Director - gbnewby@pglaf.org - -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide -spread public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. - -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. We do not solicit donations in locations -where we have not received written confirmation of compliance. To SEND -DONATIONS or determine the status of compliance for any particular -state visit www.gutenberg.org/donate - -While we cannot and do not solicit contributions from states where we -have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition -against accepting unsolicited donations from donors in such states who -approach us with offers to donate. - -International donations are gratefully accepted, but we cannot make -any statements concerning tax treatment of donations received from -outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. - -Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation -methods and addresses. Donations are accepted in a number of other -ways including checks, online payments and credit card donations. To -donate, please visit: www.gutenberg.org/donate - -Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works. - -Professor Michael S. Hart was the originator of the Project -Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of -volunteer support. - -Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. - -Most people start at our Web site which has the main PG search -facility: www.gutenberg.org - -This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. - diff --git a/old/54829-8.zip b/old/54829-8.zip Binary files differdeleted file mode 100644 index 7b87ae5..0000000 --- a/old/54829-8.zip +++ /dev/null diff --git a/old/54829-h.zip b/old/54829-h.zip Binary files differdeleted file mode 100644 index f468c39..0000000 --- a/old/54829-h.zip +++ /dev/null diff --git a/old/54829-h/54829-h.htm b/old/54829-h/54829-h.htm deleted file mode 100644 index a6c80c2..0000000 --- a/old/54829-h/54829-h.htm +++ /dev/null @@ -1,9057 +0,0 @@ -<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" - "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> -<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml" xml:lang="pt" lang="pt"> - <head> - <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html;charset=iso-8859-1" /> - <meta http-equiv="Content-Style-Type" content="text/css" /> - <title> - The Project Gutenberg eBook of Memorias Posthumas de Braz Cubas, by Machado de Assis. - </title> - <style type="text/css"> - -body { - margin-left: 10%; - margin-right: 10%; -} - - h1,h2,h3,h4,h5,h6 { - text-align: center; /* all headings centered */ - clear: both; -} - -p { - margin-top: .51em; - text-align: justify; - margin-bottom: .49em; -} - -.p2 {margin-top: 2em;} -.p4 {margin-top: 4em;} -.p6 {margin-top: 6em;} - -hr { - width: 33%; - margin-top: 2em; - margin-bottom: 2em; - margin-left: auto; - margin-right: auto; - clear: both; -} - -hr.tb {width: 45%;} -hr.chap {width: 65%} -hr.full {width: 95%;} - -hr.r5 {width: 5%; margin-top: 1em; margin-bottom: 1em;} -hr.r65 {width: 65%; margin-top: 3em; margin-bottom: 3em;} - -table { - margin-left: auto; - margin-right: auto; -} - - .tdl {text-align: left;} - .tdr {text-align: right;} - .tdc {text-align: center;} - -.pagenum { /* uncomment the next line for invisible page numbers */ - /* visibility: hidden; */ - position: absolute; - left: 92%; - font-size: smaller; - text-align: right; -} /* page numbers */ - -.linenum { - position: absolute; - top: auto; - left: 4%; -} /* poetry number */ - -.blockquot { - margin-left: 5%; - margin-right: 10%; -} - -a:link {color: #000099; text-decoration: underline; } - -v:link {color: #000099; text-decoration: underline; } - -.center {text-align: center;} - -.right {text-align: right;} - -.smcap {font-variant: small-caps;} - - -.caption {font-weight: bold;} - -/* Images */ -.figcenter { - margin: auto; - text-align: center; -} - -.figleft { - float: left; - clear: left; - margin-left: 0; - margin-bottom: 1em; - margin-top: 1em; - margin-right: 1em; - padding: 0; - text-align: center; -} - -.figright { - float: right; - clear: right; - margin-left: 1em; - margin-bottom: - 1em; - margin-top: 1em; - margin-right: 0; - padding: 0; - text-align: center; -} - -/* Footnotes */ -.footnotes {border: dashed 1px;} - -.footnote {margin-left: 10%; margin-right: 10%; font-size: 0.9em;} - -.footnote .label {position: absolute; right: 84%; text-align: right;} - -.fnanchor { - vertical-align: super; - font-size: .8em; - text-decoration: - none; -} - -.poem br {display: none;} - -.poem .stanza {margin: 1em 0em 1em 0em;} - -/* Transcriber's notes */ -.transnote {background-color: #E6E6FA; - color: black; - font-size:smaller; - padding:0.5em; - margin-bottom:5em; - font-family:sans-serif, serif; } - </style> - </head> -<body> - - -<pre> - -Project Gutenberg's Memorias Postumas de Braz Cubas, by Machado de Assis - -This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most -other parts of the world at no cost and with almost no restrictions -whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of -the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: Memorias Postumas de Braz Cubas - -Author: Machado de Assis - -Release Date: June 2, 2017 [EBook #54829] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: ISO-8859-1 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIAS POSTUMAS DE BRAZ CUBAS *** - - - - -Produced by Laura Natal Rodriguez & Marc D'Hooghe at Free -Literature (online soon in an extended version, also linking -to free sources for education worldwide ... MOOC's, -educational materials,...) - - - - - - -</pre> - - -<div class="figcenter" style="width: 400px;"> -<img src="images/cover.jpg" width="400" alt="" /> -</div> - -<h1>MEMORIAS POSTHUMAS</h1> - -<h3>DE</h3> - -<h1>BRAZ CUBAS</h1> - -<h3>POR</h3> - -<h2>MACHADO DE ASSIS</h2> - -<h5>RIO DE JANEIRO</h5> - -<h5>TYPOGRAPHIA NACIONAL</h5> - -<h5>1881</h5> - -<hr class="full" /> -<p style="font-size: 0.8em;"><a href="#INDICE">ÍNDICE</a></p> -<hr class="chap" /> -<h5>OBRAS DO AUTOR</h5> - -<p style="margin-left: 25%;"> -Memorias Posthumas de Braz Cubas<br /> -Helena, romance<br /> -Yayá Garcia, romance<br /> -Resurreição, romance<br /> -A mão e a luva, romance<br /> -Historias da meia noite<br /> -Contos Fluminenses<br /> -Americanas, poesias<br /> -Phalenas, poesias<br /> -Chrysalidas, poesias<br /> -Tu só, tu, puro amor, comédia<br /> -Os deuses de casaca, comédia<br /> -Desencantos, comédia<br /> -Theatro<br /> -</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h4><a name="AO_LEITOR" id="AO_LEITOR">AO LEITOR</a></h4> - - -<p>Que, no alto do principal de seus livros, confessasse Stendhal havel-o -escripto para cem leitores, cousa é que admira e consterna. O que não -admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver -os cem leitores de Stendhal, nem cincoenta, nem vinte, e quando muito, -dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra diffusa, -na qual eu, Braz Cubas, se adoptei a fórma livre de um Sterne, de -um Lamb, ou de um de Maistre, não sei se lhe metti algumas rabugens -de pessimismo. Póde ser. Obra de finado. Escrevi-a com a penna da -galhofa e a tinta da melancholia; e não é difficil antever o que poderá -sair desse connubio. Accresce que a gente grave achará no livro umas -apparencias de puro romance, ao passo que a gente frivola não achará -nelle o seu romance usual; e eil-o ahi fica privado da estima dos -graves e do amor dos frivolos, que são as duas columnas maximas da -opinião.</p> - -<p>Mas eu ainda espero angariar as sympatias da opinião, e o meio efficaz -para isso é fugir a um prologo explicito e longo. O melhor prologo -é o que contém menos cousas, ou o que as diz de um geito obscuro e -truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinario que -empreguei na composição destas <i>Memorias</i>, trabalhadas cá no outro -seculo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessario ao -entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino -leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, -e adeus.</p> - -<p class="smcap" style="text-align: right;">Braz Cubas.</p> - -<hr class="chap" /> - -<p class="center" style="font-size: 0.8em;"> -AO VERME<br /> -<br /> -QUE<br /> -<br /> -PRIMEIRO ROEU AS FRIAS CARNES<br /> -<br /> -DO MEU CADAVER<br /> -<br /> -DEDICO<br /> -<br /> -COMO SAUDOSA LEMBRANÇA<br /> -<br /> -ESTAS<br /> -<br /> -MEMORIAS POSTHUMAS<br /> -</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CAPITULO_I" id="CAPITULO_I">CAPITULO I</a></h5> - - -<h4>Obito do autor</h4> - - -<p>Algum tempo hesitei se devia abrir estas memorias pelo principio ou -pelo fim, isto é, se poria em primeiro logar o meu nascimento ou a -minha morte. Supposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas -considerações me levaram a adoptar differente methodo: a primeira é que -eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para -quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escripto ficaria assim -mais galante e mais novo. Moysés, que tambem contou a sua morte, não a -poz no introito, mas no cabo: differença radical entre este livro e o -Pentateuco.</p> - -<p>Dito isto, expirei ás duas horas da tarde de uma sexta feira do mez de -agosto de 1869, na minha bella chacara de Catumby. Tinha uns sessenta -e quatro annos, rijos e prosperos, era solteiro, possuia cerca de -tresentos contos e fui acompanhado ao cemiterio por onze amigos. -Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem annuncios. Accresce -que chovia—peneirava—uma chuvinha miuda, triste e constante, tão -constante e tão triste, que levou um daquelles fieis da ultima hora -a intercalar esta engenhosa idéa no discurso que proferiu á beira de -minha cova:—«Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer -commigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparavel de -um dos mais bellos caracteres que tem honrado a humanidade. Este ar -sombrio, estas gotas do ceu, aquellas nuvens escuras que cobrem o -azul como um crepe funereo, tudo isso é a dor crua e má que lhe róe á -natureza as mais intimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao -nosso illustre finado.»</p> - -<p>Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apolices que lhe -deixei. E foi assim que cheguei á clausula dos meus dias; foi assim que -me encaminhei para o <i>undiscovered country</i> de Hamlet, sem as ancias -nem as duvidas do moço principe, mas pausado e tropego, como quem se -retira tarde do expectaculo. Tarde e aborrecido. Viram-me ir umas nove -ou dez pessoas, entre ellas tres senhoras,—minha irmã Sabina, casada -com o Cotrim,—a filha, um lyrio do valle,—e... Tenham paciencia! -daqui a pouco lhes direi quem era a terceira senhora. Contentem-se de -saber que essa anonyma, ainda que não parenta, padeceu mais do que as -parentas. É verdade, padeceu mais. Não digo que se carpisse, não digo -que se deixasse rolar pelo chão, epileptica. Nem o meu obito era cousa -altamente dramatica... Um solteirão que expira aos sessenta e quatro -annos, não parece que reuna em si todos os elementos de uma tragedia. E -dado que sim, o que menos convinha a essa anonyma era apparental-o. De -pé, á cabeceira da cama, com os olhos estúpidos, a boca entreaberta, a -triste senhora mal podia crêr na minha extincção.</p> - -<p>—Morto! morto! dizia comsigo.</p> - -<p>E a imaginação della, como as cegonhas que um illustre viajante viu -desferirem o vôo desde o Illysso ás ribas africanas, sem embargo das -ruinas e dos tempos,—a imaginação dessa senhora tambem voou por -sobre os destroços presentes até ás ribas de uma Africa juvenil... -Deixal-a ir; lá iremos mais tarde; lá iremos quando eu me restituir aos -primeiros annos. Agora, quero morrer tranquillamente, methodicamente, -ouvindo os soluços das damas, as fallas baixas dos homens, a chuva que -tamborila nas folhas de tinhorão da chacara, e o som estridulo de uma -navalha que um amolador está afiando lá fóra, á porta de um correeiro. -Juro-lhes que essa orchestra da morte foi muito menos triste do que -podia parecer; e de certo ponto em deante chegou a ser deliciosa. -A vida estrebuchava-me no peito, com uns impetos de vaga marinha, -esvaia-se-me a consciencia, eu descia á immobilidade physica e moral, -e o corpo fazia-se-me planta, e pedra, e lodo, e cousa nenhuma.</p> - -<p>Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do -que uma idéa grandiosa e util, a causa da minha morte, é possivel que o -leitor me não creia, e todavia é verdade. Vou expor-lhe summariamente o -caso. Julgue-o por si mesmo.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_II" id="CAPITULO_II">CAPITULO II</a></h5> - - -<h4>O emplasto</h4> - - -<p>Com effeito, um dia de manhã, estando a passear na chacara, -pendurou-se-me uma idéa no trapezio que eu tinha no cerebro. Uma vez -pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas -cabriolas de volantim, que é possivel crer. Eu deixei-me estar a -contemplal-a. Subito, deu um grande salto, estendeu os braços e as -pernas, até tomar a fórma de um X: decifra-me ou devoro-te.</p> - -<p>Essa idéa era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um -emplasto anti-hypocondriaco, destinado a alliviar a nossa melancholica -humanidade. Na petição de privilegio que então redigi, chamei a -attenção do governo para esse resultado, verdadeiramente christão. -Todavia, não neguei aos amigos as vantagens pecuniarias que deviam -resultar da distribuição de um producto de tamanhos e tão profundos -effeitos, Agora, porém, que estou cá do outro lado da vida, posso -confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de ver -impressas nos jornaes, mostradores, folhetos, esquinas, e emfim nas -caixinhas do remedio, estas tres palavras: <i>emplasto Braz Cubas.</i> Para -que negal-o? Eu tinha a paixão do arruido, do cartaz, do foguete de -lagrimas. Talvez os modestos me arguam esse defeito; fio porém que esse -talento me hão de reconhecer os habeis; e eu era habil. Assim, a minha -idéa trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o publico, -outra para mim. De um lado, philanthropia e lucro; de outro lado, sêde -de nomeada. Digamos:—amor da gloria.</p> - -<p>Um tio meu, conego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da -gloria temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a gloria -eterna. Ao que retorquia outro tio, official de um dos antigos terços -de infantaria, que o amor da gloria era a cousa mais verdadeiramente -humana que ha no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuina feição.</p> - -<p>Decida o leitor entre o militar e o conego; eu volto ao emplasto.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_III" id="CAPITULO_III">CAPITULO III</a></h5> - - -<h4>Genealogia</h4> - - -<p>Mas, já que fallei nos meus dous tios, deixem-me fazer aqui um curto -esboço genealogico.</p> - -<p>O fundador da minha familia foi um certo Damião Cubas, que floreceu -na primeira metade do seculo XVIII. Era tanoeiro de officio, natural -do Rio de Janeiro, onde teria morrido na penuria e na obscuridade, -se sómente exercesse a tanoaria. Mas não; fez-se lavrador, plantou, -colheu, permutou o seu producto por boas e honradas patacas, até que -morreu, deixando grosso cabedal a um filho, o licenciado Luiz Cubas. -Neste rapaz é que verdadeiramente começa a serie de meus avós—dos -avós que a minha familia sempre confessou—, porque o Damião Cubas era -afinal de contas um tanoeiro, e talvez mau tanoeiro, ao passo que o -Luiz Cubas estudou em Coimbra, primou no Estado, e foi um dos amigos -particulares do vice-rei conde da Cunha.</p> - -<p>Como este appellido de Cubas lhe cheirasse excessivamente a tanoaria, -allegava meu pae, bisneto do Damião, que o dito appellido fôra dado a -um cavalleiro, heroe nas jornadas da Africa, em premio da façanha que -praticou, arrebatando tresentas cubas aos mouros. Meu pae era homem de -imaginação; escapou á tanoaria nas azas de um <i>calembour.</i> Era um bom -caracter meu pae, varão digno e leal como poucos. Tinha, é verdade, uns -fumos de pacholice; mas quem não é um pouco pachola nesse mundo? Releva -notar que elle não recorreu á inventiva, senão depois de experimentar -a falsificação; primeiramente, entroncou-se na familia daquelle meu -famoso homonymo, o capitão-mór Braz Cubas, que fundou a villa de S. -Vicente, onde morreu em 1592, e por esse motivo é que me deu o nome de -Braz. Oppoz-se-lhe porém a familia do capitão-mór; e foi então que elle -imaginou as tresentas cubas mouriscas.</p> - -<p>Vivem ainda alguns membros de minha familia, minha sobrinha Venancia, -por exemplo, o lyrio do valle, que é a flor das damas do seu tempo; -vive o pae, o Cotrim, um sujeito que... Mas não anticipemos os -successos; acabemos de uma vez com o nosso emplasto.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_IV" id="CAPITULO_IV">CAPITULO IV</a></h5> - - -<h4>A idéa fixa</h4> - - -<p>A minha idéa, depois de tantas cabriolas, constituira-se idéa fixa. -Deus te livre, leitor, de uma idéa fixa; antes um argueiro, antes uma -trave no olho. Vê o Cavour; foi a idéa fixa da unidade italiana que o -matou. Verdade é que o Bismark não morreu; mas, cumpre advertir que -a natureza é uma grande caprichosa e a historia uma eterna loureira. -Por exemplo, o Suetonio deu-nos um Claudio, que era um verdadeiro -banana,—ou «uma abobora» como lhe chamou Seneca, e um Tito, que -mereceu ser as delicias de Roma. Veiu modernamente um professor e achou -meio de demonstrar que ambos esses conceitos eram erroneos e abstrusos, -e que dos dous cesares, o delicioso, o verdadeiramente delicioso, foi -o «abobora» de Seneca. E tu, madama Lucrecia, flor dos Borgias, se um -poeta te pintou como a Messalina catholica, appareceu um Gregorovius -incredulo que te apagou muito essa qualidade, e, se não vieste a -lyrio, tambem não ficaste pantano. Eu deixo-me estar entre o poeta e o -sabio.</p> - -<p>Viva pois a historia, a voluvel historia que dá para tudo; e, tornando -á idéa fixa, direi que é ella a que faz os varões fortes e os doudos; -a idéa mobil, vaga ou furta-cor é a que faz os Claudios,—formula -Suetonio.</p> - -<p>Era fixa a minha idéa, fixa como... Não me occorre nada que seja assaz -fixo nesse mundo: talvez a lua, talvez as pyramides do Egypto, talvez -a finada dieta germanica. Veja o leitor a comparação que melhor lhe -quadrar, veja-a e não esteja dahi a torcer-me o nariz, só porque ainda -não chegámos á parte narrativa destas memorias. Lá iremos. Creio que -prefere a anecdota á reflexão, como os outros leitores, seus confrades, -e acho que faz muito bem. Pois lá iremos. Todavia, importa dizer que -este livro é escripto com pachorra, com a pachorra de um homem já -desaffrontado da brevidade do seculo, obra supinamente philosophica, de -uma philosophia desegual, agora austera, logo brincalhona, cousa que -não edifica nem destróe, não inflamma nem regéla, e é todavia mais do -que passatempo e menos do que apostolado.</p> - -<p>Vamos lá; rectifique o seu nariz, e tornemos ao emplasto. Deixemos a -historia com os seus caprichos de dama elegante. Nenhum de nós pelejou -a batalha de Salamina, nenhum escreveu a confissão do Augsburgo; pela -minha parte, se alguma vez me lembro de Cromwell, é só pela idéa de que -Sua Alteza, com a mesma mão que trancara o parlamento, teria imposto -aos inglezes o emplasto Braz Cubas. Não se riam dessa victoria commum -da pharmacia e do puritanismo. Quem não sabe que ao pé de cada bandeira -grande, publica, ostensiva, ha muitas vezes varias outras bandeiras -modestamente particulares, que se hasteam e fluctuam á sombra daquella, -com ella cahem, e não poucas vezes lhe sobrelevam? Mal comparando, é -como a arraia-miuda, que se acolhia á sombra do castello-feudal; cahiu -este e a arraia ficou. Verdade é que se fez graúda e castellã... Não, a -comparação não presta.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_V" id="CAPITULO_V">CAPITULO V</a></h5> - - -<h4>Em que apparece a orelha de uma senhora</h4> - - -<p>Vae se não quando, estando eu occupado em preparar e apurar a minha -invenção, recebi em cheio um golpe de ar; adoeci logo, e não me -tratei. Tinha o emplasto no cerebro; trazia commigo a idéa fixa dos -doudos e dos fortes. Via-me, ao longe, ascender do chão das turbas, e -remontar ao ceu, como uma aguia immortal; e não é deante de tão excelso -expectaculo que um homem pode sentir a dor que o punge. No outro dia -estava peor; tratei-me emfim, mas incompletamente, sem methodo, nem -cuidado, nem persistencia; tal foi a origem do mal que me trouxe á -eternidade. Sabem ja que morri n'uma sexta feira, dia aziago, e creio -haver provado que foi a minha invenção que me matou. Ha demonstrações -menos lucidas e não menos triumphantes.</p> - -<p>Não era impossivel, entretanto, que eu chegasse a galgar o cimo de um -seculo, e a figurar nas folhas publicas, entre macrobios. Tinha saude -e robustez. Supponha-se que, em vez de estar lançando os alicerces de -uma invenção pharmaceutica, tratava de colligir os elementos de uma -instituição politica, ou de uma reforma religiosa. Vinha a corrente -do ar, que vence, em efficacia, o calculo humano, e lá se ia tudo. Um -sopro de ar foi portanto o meu grão de arêa de Cromwell. Assim corre a -sorte dos homens.</p> - -<p>Com esta reflexão me despedi eu da mulher, não direi mais discreta, mas -com certeza mais formosa entre as contemporaneas suas, a anonyma do -primeiro capitulo, a tal, cuja imaginação á semelhança das cegonhas do -Illysso... Tinha então 54 annos, era uma ruina, uma imponente ruina. -Imagine o leitor que nos amámos, ella e eu, muitos annos antes, e que -um dia, já enfermo, vejo-a assomar á porta da alcova...</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_VI" id="CAPITULO_VI">CAPITULO VI</a></h5> - - -<h4>Chimène, qui l'eut dit?—Rodrigue, qui l'eut cru?</h4> - - -<p>Vejo-a assomar á porta da alcova, pallida, commovida, trajada de preto, -e alli ficar durante uns dez segundos, sem animo de entrar, ou detida -pela presença de um homem que estava commigo. Da cama, onde jazia, -contemplei-a durante esse tempo, esquecido de lhe dizer nada ou de -fazer nenhum gesto. Havia já dous annos que nos não viamos; e eu via-a -agora não qual era, mas qual fôra, quaes foramos ambos, porque um -Ezechias mysterioso fizera recuar o sol até os dias juvenis. Recuou -o sol, sacudi todas as miserias; e este punhado de pó, que a morte -ia espalhar na eternidade do nada, pôde mais do que tempo, que é o -ministro da morte. Nenhuma agua de Juventa egualaria alli a simples -saudade.</p> - -<p>Cream-me, o menos mau é recordar; ninguem se fie da felicidade -presente; ha nella uma gota da baba de Caim. Corrido o tempo e cessado -o espasmo, então sim, então talvez se póde gozar deveras, porque entre -uma e outra dessas duas illusões, melhor é a que se gosta, sem doer.</p> - -<p>Não durou muito a evocação; a realidade dominou logo; o presente -expelliu o passado. Talvez eu exponha ao leitor, em algum canto deste -livro, a minha theoria das edições humanas. O que por agora importa -saber é que Virgilia—chamava-se Virgilia—entrou na alcova, firme, -com a gravidade que lhe davam as roupas e os annos, e veiu até o meu -leito. O extranho levantou-se e sahiu. Era um sujeito, que me visitava -todos os dias para fallar do cambio, da colonisação e da necessidade de -desenvolver a viação ferrea; nada mais interessante para um moribundo. -Saiu; Virgilia deixou-se estar de pé; durante algum tempo ficamos a -olhar um para o outro, sem articular palavra. Quem diria? De dous -grandes namorados, de duas paixões sem freio, nada mais havia alli, -vinte annos depois; havia apenas dous corações murchos, devastados pela -vida e saciados della, não sei se em egual dóse, mas emfim saciados. -Virgilia tinha agora a belleza da velhice, um ar austero e maternal; -estava menos magra do que quando a vi, pela ultima vez, n'uma festa -de S. João, na Tijuca; e porque era das que resistem muito, só agora -começavam os cabellos escuros a intercalar-se de alguns fios de prata.</p> - -<p>—Anda visitando os defuntos? disse-lhe eu.—Ora, defuntos! respondeu -Virgilia com um muxoxo. E depois de me apertar as mãos:—Ando a ver se -ponho os vadios para a rua.</p> - -<p>Não tinha a caricia lacrymosa de outro tempo; mas a voz era amiga e -doce. Sentou-se. Eu estava só, em casa, com um simples enfermeiro; -podiamos fallar um ao outro, sem perigo. Virgilia deu-me longas -noticias de fóra, narrando-as com graça, com um certo travo de má -lingua, que era o sal da palestra; eu, prestes a deixar o mundo, sentia -um prazer satanico em mofar delle, em persuadir-me que não deixava nada.</p> - -<p>—Que idéas essas! interrompeu-me Virgilia um tanto zangada. Olhe que -eu não volto mais. Morrer! Todos nós havemos de morrer; basta estarmos -vivos.</p> - -<p>E vendo o relogio:</p> - -<p>—Jesus! são tres horas. Vou-me embora.</p> - -<p>—Já?</p> - -<p>—Já; virei amanhã ou depois.</p> - -<p>—Não sei se faz bem, retorqui; o doente é um solteirão e a casa não -tem senhoras...</p> - -<p>—Sua mana?</p> - -<p>—Ha de vir cá passar uns dias, mas não póde ser antes de sabbado.</p> - -<p>Virgilia reflectiu um instante, levantou os hombros e disse com -gravidade:</p> - -<p>—Estou velha! Ninguem mais repara em mim. Mas, para cortar duvidas, -virei com o Nhonhô.</p> - -<p>Nhonhô era um bacharel, unico filho de seu casamento, que, na edade -de cinco annos, fôra complice inconsciente de nossos amores. Vieram -juntos, dous dias depois; e confesso que, ao vel-os alli, na minha -alcova, fui tomado de um acanhamento que nem me permittiu corresponder -logo ás palavras affaveis do rapaz. Virgilia adivinhou-mo e disse ao -filho:</p> - -<p>—Nhonhô, não repares nosso grande manhoso que ahi está; não quer -fallar para fazer crer que está á morte.</p> - -<p>Sorriu o filho; eu creio quo tambem sorri; e tudo acabou em pura -galhofa. Virgilia estava serena e risonha, tinha o aspecto das -vidas immaculadas. Nenhum olhar suspeito, nenhum gesto que pudesse -denunciar nada; uma egualdade de palavra e de espirito, uma dominação -sobre si mesma, que pareciam e talvez fossem raras. Como tocassemos, -casualmente, n'uns amores illegitimos, meio secretos, meio divulgados, -vi-a fallar com desdem e um pouco de indignação da mulher de que se -tratava, aliás sua amiga; e o filho sentia-se satisfeito, ouvindo -aquella palavra digna e forte, e eu perguntava a mim mesmo o que diriam -de nós os gaviões, se Buffon tivesse nascido gavião...</p> - -<p>Era o meu delirio que começava.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_VII" id="CAPITULO_VII">CAPITULO VII</a></h5> - - -<h4>O delirio</h4> - - -<p>Que me conste, ainda ninguem relatou o seu proprio delirio; faço-o eu, -e a sciencia m'o agradecerá. Se o leitor não é dado á contemplação -destes phenomenos mentaes, póde saltar o capitulo; vá direito á -narração. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo que é -interessante saber o que se passou na minha cabeça durante uns vinte a -trinta minutos.</p> - -<p>Primeiramente, tomei a figura de um barbeiro chinez, bojudo, destro, -escanhoando um mandarim, que me pagava o trabalho com beliscões e -confeitos: caprichos de mandarim.</p> - -<p>Logo depois, senti-me transformado na <i>Summa Theologica</i> de S. Thomaz, -impressa n'um volume, e encadernada em marroquim, com fechos de prata e -estampas; idéa esta que me deu ao corpo a mais completa immobilidade; -e ainda agora me lembra que, sendo as minhas mãos os fechos do livro, -e cruzando-as eu sobre o ventre, alguem as descruzava (Virgilia de -certo), porque a attitude lhe dava a imagem de um defunto.</p> - -<p>Ultimamente, restituido á fórma humana, vi chegar um hippopotamo, que -me arrebatou. Deixei-me ir, calado, não sei se por medo ou confiança, -mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou vertiginosa, que -me atrevi a interrogal-o, e com alguma arte lhe disse que a viagem me -parecia sem destino.</p> - -<p>—Engana-se, replicou o animal, nós vamos á origem dos seculos.</p> - -<p>Insinuei que deveria ser muitissimo longe; mas o hippopotamo não me -entendeu ou não me ouviu, se é que não fingiu uma dessas cousas; e, -perguntando-lhe, visto que elle fallava, se era descendente do cavallo -de Achilles ou da asna de Balaão, retorquiu-me com um gesto peculiar a -estes dous quadrupedes: abanou as orelhas. Pela minha parte fechei os -olhos e deixei-me ir á ventura. Já agora não se me dá de confessar que -sentia umas taes ou quaes cocegas de curiosidade, por saber onde ficava -a origem dos seculos, se era tão mysteriosa como a origem do Nilo, e -sobretudo se valia alguma cousa mais ou menos do que a consummação dos -mesmos seculos; tudo isto reflexões de um cerebro enfermo. Como ia de -olhos fechados, não via o caminho; lembra-me só que a sensação de frio -augmentava com a jornada, e que chegou uma occasião em que me pareceu -entrar na região dos gelos eternos. Com effeito, abri os olhos e vi que -o meu animal galopava n'uma planicie branca de neve, com uma ou outra -montanha de neve, vegetação de neve, e varios animaes grandes e de -neve. Tudo neve; chegava a gelar-nos um sol de neve. Tentei fallar, mas -apenas pude grunhir esta pergunta anciosa:</p> - -<p>—Onde estamos?</p> - -<p>—Já passámos o Eden.</p> - -<p>—Bem; paremos na tenda de Abrahão.</p> - -<p>—Mas se nós caminhamos para traz! redarguiu motejando a minha -cavalgadura.</p> - -<p>Fiquei vexado e aturdido. A jornada entrou a parecer-me enfadonha e -extravagante, o frio incommodo, a conducção violenta, e o resultado -impalpavel. E depois—cogitações de enfermo—dado que chegassemos ao -fim indicado, não era impossivel que os seculos, irritados com lhes -devassarem a origem, me esmagassem entre as unhas, que deviam ser tão -seculares como elles. Em quanto assim pensava, iamos devorando caminho, -e a planicie voava debaixo dos nossos pés, até que o animal estacou, e -pude olhar mais tranquillamente em torno de mim. Olhar sómente; nada -vi, além da immensa brancura da neve, que desta vez invadira o proprio -ceu, até alli azul. Talvez, a espaços, me apparecia uma ou outra -planta, enorme, brutesca, meneando ao vento as suas largas folhas. O -silencio daquella região era egual ao do sepulchro: dissera-se que a -vida das cousas ficára estupida deante do homem.</p> - -<p>Cahiu do ar? destacou-se da terra? não sei; sei que um vulto immenso, -uma figura de mulher me appareceu então, fitando-me uns olhos -rutilantes como o sol. Tudo nessa figura tinha a vastidão das fórmas -selvaticas, e tudo escapava á comprehensão do olhar humano, porque os -contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia espesso era muita voz -diaphano. Estupefacto, não disse nada, não cheguei sequer a soltar um -grito; mas, ao cabo de algum tempo, que foi breve, perguntei quem era e -como se chamava; curiosidade de delirio.</p> - -<p>—Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga.</p> - -<p>Ao ouvir esta ultima palavra, recuei um pouco, tomado de susto. A -figura soltou uma gargalhada, que produziu em torno de nós o effeito de -um tufão; as plantas torceram-se e um longo gemido quebrou a mudez das -cousas externas.</p> - -<p>—Não te assustes, disse ella, minha inimizade não mata; é sobretudo -pela vida que se affirma. Vives: não quero outro flagello.</p> - -<p>—Vivo? perguntei eu, enterrando as unhas nas mãos, como para -certificar-me da existencia.</p> - -<p>—Sim, verme, tu vives. Não receies perder esse andrajo que é teu -orgulho; provarás ainda, por algumas horas, o pão da dôr e o vinho -da miseria. Vives: agora mesmo que ensandeceste, vives; e se a tua -consciencia rehouver um instante de sagacidade, tu dirás que queres -viver.</p> - -<p>Dizendo isto, a visão estendeu o braço, segurou-me pelos cabellos e -levantou-me ao ar, como se fôra uma simples pluma. Só então pude -ver-lhe de perto o rosto, que era enorme. Nada mais quieto; nenhuma -contorsão violenta, nenhuma expressão de odio ou ferocidade; a feição -unica, geral, completa, era a da impassibilidade egoista, a da eterna -surdez, a da vontade immovel. Raivas, se as tinha, ficavam encerradas -no coração. Ao mesmo tempo, nesse rosto de expressão glacial, havia um -ar de juventude, mescla de força e viço, diante do qual me sentia eu o -mais debil e descrepito dos seres.</p> - -<p>—Entendeste-me? disse ella, no fim de algum tempo de mutua -contemplação.</p> - -<p>—Não, respondi; nem quero entender-te; tu és absurda, tu és uma -fabula. Estou sonhando, de certo, ou, se é verdade que enlouqueci, tu -não passas de uma concepção de alienado, isto é, uma cousa vã, que a -razão ausente não póde reger nem palpar. Natureza, tu? a Natureza que -eu conheço é só mãe e não inimiga; não faz da vida um flagello, nem, -como tu, traz esse rosto indifferente, como o sepulchro. E porque -Pandora?</p> - -<p>—Porque levo na minha bolsa os bens e os males, e o maior de todos, a -esperança, consolação dos homens. Tremes?</p> - -<p>—Sim; o teu olhar fascina-me.</p> - -<p>—Creio; eu não sou somente a vida; sou tambem a morte, e tu estás -prestes a devolver-me o que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a -voluptuosidade do nada.</p> - -<p>Quando esta palavra echoou, como um trovão, naquelle immenso valle, -afigurou-se-me que era o ultimo som que chegava a meus ouvidos; -pareceu-me sentir a decomposição subita de mim mesmo. Então, encarei-a -com olhos supplices, e pedi mais alguns annos.</p> - -<p>—Pobre minuto! exclamou. Para que queres tu mais alguns instantes -de vida? Para devorar e seres devorado depois? Não estás farto do -expectaculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei -menos torpe ou menos afflictivo: o alvor do dia, a melancholia da -tarde, a quietação da noite, os aspectos da terra, o somno, emfim, o -maior beneficio das minhas mãos. Que mais queres tu, sublime idiota?</p> - -<p>—Viver somente, não te peço mais nada. Quem me poz no coração este -amor da vida, se não tu? e, se eu amo a vida, porque te has de golpear -a ti mesma, matando-me?</p> - -<p>—Porque já não preciso de ti. Não importa ao tempo o minuto que passa, -mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte, jocundo, suppõe trazer -em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o outro, mas o -tempo subsiste. Egoismo, dizes tu? Sim, egoismo, não tenho outra lei. -Egoismo, conservação. A onça mata o novilho porque o raciocinio da -onça é que ella deve viver, e se o novilho é tenro tanto melhor: eis o -estatuto universal. Sobe e olha.</p> - -<p>Isto dizendo, arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os olhos -a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, -atravez de um nevoeiro, uma cousa unica. Imagina tu, leitor, uma -reducção dos seculos, e um desfilar de todos elles, as raças todas, -todas as paixões, o tumulto dos imperios, a guerra dos appetites e -dos odios, a destruição reciproca dos seres e das cousas. Tal era -o expectaculo, acerbo e curioso expectaculo. A historia do homem -e da terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem -a imaginação nem a sciencia, porque a sciencia é mais lenta e a -imaginação mais vaga, emquanto que o que eu alli via era a condensação -viva de todos os tempos. Para descrevel-a seria preciso fixar o -relampago. Os seculos desfilavam n'um turbilhão, e, não obstante, -porque os olhos do delirio são outros, eu via tudo o que passava diante -de mim,—flagellos e delicias,—desde essa cousa que se chama gloria -até essa outra que se chama miseria, e via o amor multiplicando a -miseria, e via a miseria aggravando a debilidade. Ahi vinham a cobiça -que devora, a colera que inflamma, a inveja que baba, e a enxada e a -penna, humidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancholia, -a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até -destruil-o, como um farrapo. Eram as formas varias de um mal, que ora -mordia a viscera, ora mordia o pensamento, e passeiava eternamente as -suas vestes de arlequim, em derredor da especie humana. A dor cedia -alguma vez, mas cedia á indifferença, que era um somno sem sonhos, -ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagellado e -rebelde, corria diante da fatalidade das cousas, atraz de uma figura -nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpavel, outro -de improvavel, outro de invisivel, cosidos todos a ponto precario, -com a agulha da imaginação; e essa figura,—nada menos que a chimera -da felicidade,—ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar -pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ella ria, como um -escarneo, e sumia-se, como uma illusão.</p> - -<p>Ao contemplar tanta calamidade, não pude reter um grito de angustia, -que Natureza ou Pandora escutou sem protestar nem rir; e não sei por -que lei de transtorno cerebral, fui eu que me puz a rir,—de um riso -descompassado e idiota.</p> - -<p>—Tens razão, disse eu, a cousa é divertida e vale a pena,—talvez -monotona—mas vale a pena. Quando Job amaldiçoava o dia em que fôra -concebido, é porque lhe davam ganas de ver cá de cima o expectaculo. -Vamos lá, Pandora, abre o ventre, e digere-me; a cousa é divertida, mas -digere-me.</p> - -<p>A resposta foi compellir-me fortemente a olhar para baixo, e a ver os -seculos que continuavam a passar, velozes e turbulentos, as gerações -que se superpunham ás gerações, umas tristes, como os Hebreus do -captiveiro, outras alegres, como os devassos de Commodo, e todas -ellas pontuaes na sepultura. Quiz fugir, mas uma força mysteriosa me -retinha os pés; então disse commigo:—«Bem, os seculos vão passando, -chegará o meu, e passará tambem, até o ultimo, que me dará a decifração -da eternidade.» E fixei os olhos, e continuei a ver as edades, que -vinham chegando e passando, já então tranquillo e resoluto, não sei -até se alegre. Talvez alegre. Cada seculo trazia a sua porção de -sombra e de luz, de apathia e de combate, de verdade e de erro, e o -seu cortejo de systemas, de idéas novas, de novas illusões; em cada -um delles rebentavam as verduras de uma primavera, e amarelleciam -depois, para remoçar mais tarde. Ao passo que a vida tinha assim uma -regularidade de calendario, fazia-se a historia e a civilisação, e o -homem, nu e desarmado, armava-se e vestia-se, construia o tugurio e -o palacio, a rude aldêa e Thebas de cem portas, creava a sciencia, -que perscruta, e a arte que enleva, fazia-se orador, mecanico, -philosopho, corria a face do globo, descia ao ventre da terra, subia -á esphera das nuvens, collaborando assim na obra mysteriosa, com que -entretinha a necessidade da vida e a melancholia do desamparo. Meu -olhar, enfarado e distrahido, viu emfim chegar o seculo presente, e -atraz delle os futuros. Aquelle vinha agil, destro, vibrante, cheio -de si, um pouco diffuso, audaz, sabedor, mas ao cabo tão miseravel -como os primeiros, e assim passou e assim passaram os outros, com a -mesma rapidez e egual monotonia. Redobrei de attenção; fitei a vista; -ia emfim ver o ultimo,—o ultimo!; mas então já a rapidez da marcha -era tal, que escapava a toda a comprehensão; ao pé della o relampago -seria um seculo. Talvez por isso entraram os objectos a trocarem-se; -uns cresceram, outros minguaram, outros perderam-se no ambiente; um -nevoeiro cobriu tudo,—menos o hippopotamo que alli me trouxera, e que -aliás começou a diminuir, a diminuir, a diminuir, até ficar do tamanho -de um gato. Era effectivamente um gato. Encarei-o bem; era o meu gato -<i>Sultão</i>, que brincava á porta da alcova, com uma bola de papel...</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_VIII" id="CAPITULO_VIII">CAPITULO VIII</a></h5> - - -<h4>Razão contra Sandice</h4> - - -<p>Já o leitor comprehendeu que era a Razão que voltava á casa, e -convidava a Sandice a sair, clamando, e com melhor jus, as palavras de -Tartufo:</p> - -<p> -La maison est à moi, c'est à vous d'en sortir.<br /> -</p> - -<p>Mas é sestro antigo da Sandice criar amor ás casas alheias, de modo -que, apenas senhora de uma, difficilmente lh'a farão despejar. É -sestro; não se tira dahi; ha muito que lhe callejou a vergonha. Agora, -se advertirmos no immenso numero de casas que occupa, umas de vez, -outras durante as suas estações calmosas, concluiremos que esta amavel -peregrina é o terror dos proprietarios. No nosso caso, houve quasi -um disturbio á porta do meu cerebro, porque a adventicia não queria -entregar a casa, e a dona não cedia da intenção de tomar o que era seu. -Afinal, já a Sandice se contentava com um cantinho no sotão.</p> - -<p>—Não, senhora, replicou a Razão, estou cançada de lhe ceder sotãos, -cançada e experimentada, o que você quer é passar mansamente do sotão á -sala de jantar, dahi á de visitas e ao resto.</p> - -<p>—Está bem, deixe-me ficar algum tempo mais, estou na pista de um -mysterio.</p> - -<p>—Que mysterio?</p> - -<p>—De dous, emendou a Sandice; o da vida e o da morte; peço-lhe só uns -dez minutos.</p> - -<p>A Razão poz-se a rir.</p> - -<p>—Has de ser sempre a mesma cousa... sempre a mesma cousa... sempre a -mesma cousa...</p> - -<p>E, dizendo isto, travou-lhe dos pulsos e arrastou-a para fóra; depois -entrou e fechou-se. A Sandice ainda gemeu algumas supplicas; ainda -grunhiu algumas zangas; mas desenganou-se depressa, deitou a lingua de -fóra, em ar de surriada, e foi andando... foi andando... Provavelmente -andará até á consummação dos seculos.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_IX" id="CAPITULO_IX">CAPITULO IX</a></h5> - - -<h4>Transição</h4> - - -<p>E vejam agora com que destreza, com que fina arte faço eu a maior -transição deste livro. Vejam: o meu delirio começou em presença -de Virgilia; Virgilia foi o meu grão peccado da juventude; não ha -juventude sem meninice; meninice suppõe nascimento; e eis aqui como -chegamos nós, sem esforço, ao dia 20 de outubro de 1805, em que nasci. -Viram? Nenhuma juntura apparente, nada que divirta a attenção pausada -do leitor; nada. De modo que o livro fica assim com todas as vantagens -do methodo, sem a rigidez do methodo. Na verdade, era tempo. Que isto -de methodo, sendo, como é, uma cousa indispensavel, todavia é melhor -tel-o sem gravata nem suspensorios, mas um pouco á fresca e á solta, -como quem não se lhe dá da visinha fronteira, nem do inspector de -quarteirão. É como a eloquencia, que ha uma genuina e vibrante, de uma -arte natural e feiticeira, e outra tesa, engommada e chocha. Vamos ao -dia 20 de Outubro.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_X" id="CAPITULO_X">CAPITULO X</a></h5> - - -<h4>Naquelle dia...</h4> - - -<p>Naquelle dia, a arvore dos Cubas brotou uma graciosa flor. Nasci; -recebeu-me nos braços a Pascoela, insigne parteira minhota, que -se gabava de ter aberto a porta do mundo a uma geração inteira de -fidalgos. Não é impossivel que meu pae lhe ouvisse tal declaração; -creio, todavia, que o sentimento paterno é que o induziu a gratifical-a -com duas meias dobras. Lavado e enfaixado, fui desde logo o heroe da -nossa casa. Cada qual prognosticava a meu respeito o que mais lhe -quadrava ao sabor. Meu tio João, o antigo official de infantaria, -achava-me um certo olhar de Bonaparte, cousa que meu pae não pôde ouvir -sem nauseas; meu tio Ildefonso, então simples padre, farejava-me conego.</p> - -<p>—Conego é o que elle ha de ser, e não digo mais por não parecer -orgulho; mas não me admiraria nada se Deus o destinasse á um bispado... -É verdade, um bispado; não é cousa impossivel. Que diz você, mano -Bento?</p> - -<p>Meu pae respondia a todos que eu seria o que Deus quizesse; e alçava-me -ao ar, como se intentasse mostrar-me á cidade e ao mundo; perguntava a -todos se eu me parecia com elle, se era intelligente, bonito...</p> - -<p>Digo essas cousas por alto, segundo as ouvi narrar annos depois; ignoro -a mór parte dos pormenores daquelle famoso dia. Sei que a visinhança -veiu ou mandou comprimentar o recem-nascido, e que durante as primeiras -semanas muitas foram as visitas em nossa casa. Não houve cadeirinha -que não trabalhasse; aventou-se muita casaca e muito calção; e se hão -conto os mimos, os beijos, as admirações, as bençãos, é porque, se os -contasse, não acabaria mais o capitulo, e é preciso acabal-o.</p> - -<p>Item, não posso dizer nada do meu baptizado, porque nada me referiram -a tal respeito, a não ser que foi uma das mais galhardas festas do -anno seguinte, 1806; baptizei-me na egreja de S. Domingos, uma terça -feira de março, dia claro, luminoso e puro, sendo padrinhos o coronel -Rodrigues de Mattos e sua senhora. Um e outro descendiam de velhas -familias do norte e honravam devéras o sangue que lhes corria nas -veias, outr'ora derramado na guerra contra Hollanda. Cuido que os nomes -de ambos foram das primeiras cousas que aprendi; e certamente os dizia -com muita graça, ou revelava algum talento precoce, porque não havia -pessoa extranha diante de quem me não obrigassem a recital-os.</p> - -<p>—Nhonhô, diga a estes senhores como é que se chama seu padrinho.</p> - -<p>—Meu padrinho? é o coronel Paulo Vaz Lobo Cezar de Andrade e Souza -Rodrigues de Mattos; minha madrinha é a Excellentissima Senhora D. -Maria Luiza de Macedo Rezende e Souza Rodrigues de Mattos.</p> - -<p>—É muito esperto o seu menino, commentavam os ouvintes.</p> - -<p>—Muito esperto, concordava meu pae; e os olhos babavam-se-lhe de -orgulho, e elle espalmava a mão sobre a minha cabeça, fitava-me longo -tempo, namorado, cheio de si.</p> - -<p>Item, comecei a andar, não sei bem quando, mas antes do tempo. Talvez -por apressar a natureza, obrigavam-me cedo a agarrar ás cadeiras, -pegavam-me da fralda, davam-me carrinhos de páu.—Só só, nhonhô, só só, -dizia-me a mucama. E eu, attrahido pelo chocalho de lata, que minha mãe -agitava diante de mim, lá ia para a frente, cahe aqui, cahe acolá; e -andava, provavelmente mal, mas andava, e fiquei andando.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XI" id="CAPITULO_XI">CAPITULO XI</a></h5> - - -<h4>O menino é pai do homen.</h4> - - -<p>Cresci; e nisso é que a familia não interveiu; cresci naturalmente, -como crescem as magnolias e os gatos. Talvez os gatos são menos -matreiros, e, com certeza, as magnolias são menos inquietas do que eu -era na minha infancia. Um poeta dizia que o menino é pae do homem. Se -isto é verdade, vejamos alguns lineamentos do menino.</p> - -<p>Desde os cinco annos merecera eu a alcunha de «menino diabo»; e -verdadeiramente não era outra cousa; fui dos mais malignos do meu -tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um -dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negára uma colhér do -doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o maleficio, -deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, -fui dizer a minha mãe que a escrava é que estragára o doce «por -pirraça»; e eu tinha apenas seis annos. Prudencio, um moleque de casa, -era o meu cavallo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um -cordel nos queixos, á guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma -varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e elle -obedecia,—algumas vezes gemendo,—mas obedecia sem dizer palavra, -ou, quando muito, um—«ai, nhonhô!»—ao que eu retorquia:—«Cala a -boca, besta!»—Esconder os chapéos das visitas, deitar rabos de papel -a pessoas graves, puxar pelo rabicho das cabelleiras, dar beliscões -nos braços das matronas, e outras muitas façanhas deste jaez, eram -mostras de um genio indocil, mas devo crer que eram tambem expressões -de um espirito robusto, porque meu pae tinha-me em grande admiração; -e se ás vezes me reprehendia, á vista de gente, fazia-o por simples -formalidade: em particular dava-me beijos.</p> - -<p>Não se conclua daqui que eu levasse todo o resto da minha vida a -quebrar a cabeça dos outros nem a esconder-lhes os chapéos; mas -opiniatico, egoista e algo contemptor dos homens, isso fui; se não -passei o tempo a esconder-lhes os chapéos, alguma vez lhes puxei pelo -rabicho das cabelleiras.</p> - -<p>Outrosim, affeiçoei-me á contemplação da injustiça humana, inclinei-me -a attenual-a, a explical-a, a classifical-a por partes, a entendel-a, -não segundo um padrão rigido, mas ao sabor das circumstancias e -logares. Minha mãe doutrinava-me a seu modo, fazia-me decorar alguns -preceitos e orações; mas eu sentia que, mais do que as orações, me -governavam os nervos e o sangue, e a boa regra perdia o espirito, que -a faz viver, para se tornar uma vã formula. De manhã, antes do mingáu, -e de noite, antes da cama, pedia a Deus que me perdoasse, assim como -eu perdoava aos meus devedores; mas entre a manhã e a noite fazia uma -grande maldade, e meu pae, passado o alvoroço, dava-me pancadinhas na -cara, e exclamava a rir: Ah! bregeiro! ah! bregeiro!</p> - -<p>Sim, meu pae adorava-me, tinha-me esse amor sem merito, que é um -simples e forte impulso da carne; amor que a razão não contrasta -nem rége. Minha mãe era uma senhora fraca, de pouco cerebro e muito -coração, assaz credula, sinceramente piedosa,—caseira, apezar de -bonita, e modesta, apezar de abastada; temente ás trovoadas e ao -marido. O marido era na terra o seu deus. Da collaboração dessas duas -creaturas nasceu a minha educação, que, se tinha alguma cousa boa, era -no geral viciosa, incompleta, e, em partes, negativa. Meu tio conego -fazia ás vezes alguns reparos ao irmão; dizia-lhe que elle me dava -mais liberdade do que ensino, e mais affeição do que emenda; mas meu -pae respondia que applicava na minha educação um systema inteiramente -superior ao systema usado; e por este modo, sem confundir o irmão, -illudia-se a si proprio.</p> - -<p>Havia em minha mãe uma sombra de melancholia, que eu herdei, como -herdei de meu pae a fatuidade. Os aspectos da vida accrescentaram-lhe a -natural tendencia. Tinha coração de mais, uma sensibilidade melindrosa, -exigente, doentia.</p> - -<p>De envolta com a transmissão e a educação, houve ainda o exemplo -extranho, o meio domestico. Vimos os paes; vejamos os tios. Um delles, -o João, era um homem de lingua solta, vida galante, conversa picaresca. -Desde os onze annos entrou a admittir-me ás anecdotas, reaes ou não, -eivadas todas de obscenidade ou immundicie. Não me respeitava a -adolescencia, como não respeitava a batina do irmão; com a differença -que este fugia logo que elle enveredava por assumpto escabroso. Eu não; -deixava-me estar, sem entender nada, a principio, depois entendendo, e -emfim achando-lhe graça. No fim de certo tempo, quem o procurava era -eu; e elle gostava muito de mim, dava-me doces, levava-me a passeio. Em -casa, quando lá ia passar alguns dias, não poucas vezes me aconteceu -achal-o, no fundo da chacara, no lavadouro, a palestrar com as escravas -que batiam roupa; e ahi é que era um desfiar de anecdotas, de ditos, -de perguntas, e um estalar de risadas, que ninguem podia ouvir, porque -o lavadouro ficava muito longe de casa. As pretas, com uma tanga -no ventre, a arregaçar-lhes um palmo dos vestidos, umas dentro do -tanque, outras fóra, inclinadas sobre as peças de roupa, a batel-as, a -ensaboal-as, a torcel-as, iam ouvindo e redarguindo ás pilherias do tio -João, e a commental-as de quando em quando com esta palavra:</p> - -<p>—Cruz, diabo!... Este sinhô João é o diabo!</p> - -<p>Bem differente era o tio conego. Esse tinha muita austeridade e -pureza; taes dotes, comtudo, não realçavam um espirito superior, -apenas compensavam um espirito mediocre. Não era homem que visse a -parte substancial da egreja; via o lado externo, a hierarchia, as -preeminencias, as sobrepelizes, as circumflexões. Vinha antes da -sacristia que do altar. Uma lacuna no ritual excitava-o mais do que -uma infracção dos mandamentos. Agora, a tantos annos de distancia, -não estou certo se elle poderia atinar facilmente com um trecho de -Tertuliano, ou expor, sem titubear, a historia do symbolo de Nicéa; -mas ninguem, nas festas cantadas, sabia melhor o numero e caso das -cortezias que se deviam ao officiante. Conego foi a unica ambição de -sua vida; e dizia de coração que era a maior dignidade a que podia -aspirar. Piedoso, severo nos costumes, minucioso na observancia das -regras, frouxo, acanhado, subalterno, possuia algumas virtudes, em que -era exemplar, mas carecia absolutamente da força de as incutir, de as -impôr aos outros.</p> - -<p>Não digo nada de minha tia materna, D. Emerenciana, e aliás era a -pessoa que mais autoridade tinha sobre mim; essa differençava-se -grandemente dos outros; mas viveu pouco tempo em nossa companhia, -uns dous annos. Outros parentes e alguns intimos não merecem a pena -de ser citados; não tivemos uma vida commum, mas intermittente, com -grandes claros de separação. O que importa é a expressão geral do meio -domestico, e essa ahi fica indicada,—vulgaridade de caracteres, amor -das apparencias rutilantes, do arruido, frouxidão da vontade, dominio -do capricho, e o mais. Dessa terra e desse estrume é que nasceu esta -flôr.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XII" id="CAPITULO_XII">CAPITULO XII</a></h5> - - -<h4>Um episodio de 1814</h4> - - -<p>Mas eu não quero passar adeante, sem contar summariamente um galante -episodio de 1814; tinha nove annos.</p> - -<p>Napoleão, quando eu nasci, estava já em todo o explendor da gloria -e do poder; era imperador e grangeára inteiramente a admiração dos -homens. Meu pae, que á força de persuadir os outros da nossa nobreza, -acabara persuadindo-se a si proprio, nutria contra elle um odio -puramente mental. Era isso motivo de renhidas contendas em nossa casa, -porque meu tio João, não sei se por espirito de classe e sympathia de -officio, perdoava no despota o que admirava no general, meu tio padre -era inflexivel contra o corso, os outros parentes dividiam-se; dahi as -controversias e as rusgas.</p> - -<p>Chegando ao Rio de Janeiro a noticia da primeira quéda de Napoleão, -houve naturalmente grande abalo em nossa casa, mas nenhum chasco ou -remoque. Os vencidos, testemunhas do regozijo publico, julgaram mais -decoroso o silencio; alguns foram além e bateram palmas. A população, -cordialmente alegre, não regateou demonstrações de affecto á real -familia; houve illuminações, salvas, <i>Te-Deum</i>, cortejo e acclamações. -Figurei nesses dias com um espadim novo, que meu padrinho me dera no -dia de Santo Antonio; e, francamente, interessava-me mais o espadim -do que a quéda de Bonaparte. Nunca me esqueceu esse phenomeno. Nunca -mais deixei de pensar commigo que o nosso espadim é sempre maior do que -a espada de Napoleão. E notem que eu ouvi muito discurso, quando era -vivo, li muita pagina rumorosa de grandes idéas e maiores palavras, mas -não sei porque, no fundo dos applausos que me arrancavam da boca, lá -echoava alguma vez este conceito de experimentado:</p> - -<p>—Vae-te embora, tu só cuidas do espadim.</p> - -<p>Não se contentou a minha familia em ter um quinhão anonymo no regozijo -publico; entendeu opportuno e indispensavel celebrar a destituição -do imperador com um jantar, e tal jantar que o ruido das acclamações -chegasse aos ouvidos de Sua Alteza, ou, quando menos, de seus -ministros. Dito e feito. Veiu abaixo toda a velha prataria, herdada do -meu avô Luiz Cubas; vieram as toalhas de Flandres, as grandes jarras -da India; matou-se um capado; encommendaram-se ás madres da Ajuda as -compotas e marmeladas; lavaram-se, arearam-se, poliram-se as salas, -escadas, castiçaes, arandellas, as vastas mangas de vidro, todos os -apparelhos do luxo classico.</p> - -<p>Dada a hora, achou-se reunida uma sociedade selecta, o juiz de fóra, -tres ou quatro officiaes militares, alguns commerciantes e lettrados, -varios funccionarios da administração, uns com suas mulheres e filhas, -outros sem ellas, mas todos commungando no desejo de atolar a memoria -de Bonaparte no papo de um perú. Não era um jantar, mas um <i>Te-Deum</i>; -foi o que pouco mais ou menos disse um dos lettrados presentes, o -Dr. Villaça, glosador insigne, que accrescentou aos pratos de casa o -acepipe das musas. Lembra-me, como se fosse hontem, lembra-me de o ver -erguer-se, com a sua longa cabelleira de rabicho, casaca de seda, uma -esmeralda no dedo, pedir a meu tio padre que lhe repetisse o mote, -e, repetido o mote, cravar os olhos na testa de uma senhora, depois -tossir, alçar a mão direita, toda fechada, menos o dedo indice, que -apontava para o tecto; e, assim posto e composto, devolver o mote -glosado. Não fez uma glosa, mas tres; depois jurou aos seus deuses não -acabar mais. Pedia um mote, davam-lh'o, elle glosava-o promptamente, -e logo pedia outro e mais outro; a tal ponto que uma das senhoras -presentes não pôde calar a sua grande admiração.</p> - -<p>—A senhora diz isso, retorquia modestamente o Villaça, porque nunca -ouviu o Bocage, como eu ouvi, no fim do seculo, em Lisboa. Aquillo sim! -que facilidade! e que versos! Tivemos lutas de uma e duas horas, no -botequim do Nicola, a glosarmos, no meio de palmas e bravos. Immenso -talento o do Bocage! Era o que me dizia, ha dias, a Sra. duqueza de -Cadaval...</p> - -<p>E estas tres palavras ultimas, expressas com muita emphasis, produziram -em toda a assembléa um fremito de admiração e pasmo. Pois esse homem -tão dado, tão simples, além de pleitear com poetas, discreteava com -duquezas! Um Bocage e uma Cadaval! Ao contacto de tal homem, as -damas sentiam-se superfinas; os varões olhavam-n'o com respeito, -alguns com inveja, não raros com incredulidade. Elle, entretanto, -ia caminho, a accummular adjectivo sobre adjectivo, adverbio sobre -adverbio, a desfiar todas as rimas de <i>tyranno</i> e de <i>usurpador.</i> Era -á sobremeza; ninguem já pensava em comer. No intervallo das glosas, -corria um borborinho alegre, um palavrear de estomagos satisfeitos; -os olhos, molles e humidos, ou vivos e calidos, espreguiçavam-se ou -saltitavam de uma ponta a outra da meza, atulhada de doces e fructas, -aqui o ananaz em fatias, alli o melão em talhadas, as compoteiras de -crystal deixando ver o doce de coco, finamente ralado, amarello como -uma gemma,—ou então o melado escuro e grosso, não longe do queijo -e do cará. De quando em quando um riso jovial, amplo, desabotoado, -um riso de familia, vinha quebrar a gravidade politica do banquete. -No meio do interesse grande e commum, agitavam-se tambem os pequenos -e particulares. As moças fallavam das modinhas que haviam de cantar -ao cravo, e do minuete e do solo inglez; nem faltava matrona que -promettesse bailar um oitavado de compasso, só para mostrar como -folgára nos seus bons tempos de criança. Um sujeito, ao pé de mim, dava -a outro noticia recente dos negros novos, que estavam a vir, segundo -cartas que recebera de Loanda, uma carta em que o sobrinho lhe dizia -ter já negociado cerca de quarenta cabeças, e outra-carta em que... -Trazia-as justamente na algibeira, mas não as podia ler naquella -occasião. O que afiançava é que podiamos contar, só nessa viagem, uns -cento e vinte negros, pelo menos.</p> - -<p>—Trás...trás...trás...fazia o Villaça batendo com as mãos uma na -outra. O rumor cessava de subito, como um estacado de orchestra, -e todos os olhos se voltavam para o glosador. Quem ficava longe -aconcheava a mão atraz da orelha para não perder palavra; a mór parte, -antes mesmo da glosa, tinha já um meio riso de applauso, trivial e -candido.</p> - -<p>Quanto a mim, lá estava, solitario e deslembrado, a namorar uma -certa compota da minha feição. No fim de cada glosa ficava muito -contente, esperando que fosse a ultima; mas não era, e a sobremeza -continuava intacta. Ninguem se lembrava de dar a primeira voz. Meu -pae, á cabeceira, saboreava a goles extensos, a alegria dos convivas, -mirava-se todo nos carões alegres, nos pratos, nas flores, deliciava-se -com a familiaridade travada entre os mais distantes espiritos, influxo -de um bom jantar. Eu via isso, porque arrastava os olhos da compota -para elle e delle para a compota, como a pedir-lhe que m'a servisse; -mas fazia-o em vão. Elle não via nada; via-se a si mesmo. E as glosas -succediam-se, como bategas d'agua, obrigando-me a recolher o desejo e -o pedido. Pacientei quanto pude; e não pude muito. Pedi em voz baixa o -doce; emfim, bradei, berrei, bati com os pés. Meu pae, que seria capaz -de me dar o sol, se eu lh'o exigisse, chamou um escravo para me servir -o doce; mas era tarde. A tia Emerenciana arrancára-me da cadeira e -entregára-me a uma escrava, não obstante os meus gritos e repellões.</p> - -<p>Não foi outro o delicto do glosador: retardára a compota e dera causa -á minha exclusão. Tanto bastou para que eu cogitasse uma vingança, -qualquer que fosse, mas grande e exemplar, cousa que de alguma maneira -o tornasse ridiculo. Que elle era um homem grave o Dr. Villaça, medido -e lento, quarenta e sete annos, casado e pae. Não me contentava o -rabo de papel nem o rabicho da cabelleira; havia de ser cousa peor. -Entrei a espreital-o, durante o resto da tarde, a seguil-o, na chacara, -aonde todos desceram a passear. Vi-o conversar com D. Eusebia, irmã do -sargento-mór Domingues, uma robusta donzellona, que se não era bonita, -tambem não era feia.</p> - -<p>—Estou muito zangada com o senhor, dizia ella.</p> - -<p>—Porque?</p> - -<p>—Porque ... não sei porque ... porque é a minha sina ... creio ás -vezes que é melhor morrer...</p> - -<p>Tinham penetrado n'uma pequena moita; era lusco-fusco; eu segui-os. O -Villaça levava nos olhos umas chispas de vinho e de volupia.</p> - -<p>—Deixe-me, disse ella.</p> - -<p>—Ninguem nos vê. Morrer, meu anjo? Que idéas são essas! Você sabe que -eu morrerei tambem ... que digo?... morro todos os dias, de paixão, de -saudades...</p> - -<p>D. Eusebia levou o lenço aos olhos. O glosador vasculhava na memoria -algum pedaço litterario, e achou este, que mais tarde verifiquei ser de -uma das operas do Judeu:</p> - -<p>—Não chores, meu bem; não queiras que o dia amanheça com duas auroras.</p> - -<p>Disse isto; puxou-a para si; ella resistiu um pouco, mas deixou-se ir; -uniram os rostos, e eu ouvi estalar, muito ao de leve, um beijo, o mais -medroso dos beijos.</p> - -<p>—O Dr. Villaça deu um beijo em D. Eusebia! bradei eu correndo pela -chacara.</p> - -<p>Foi um estouro esta minha palavra; a estupefacção immobilisou a todos; -os olhos espraiavam-se a uma e outra banda; trocavam-se sorrisos, -segredos, á socapa, as mães arrastavam as filhas, pretextando o sereno. -Meu pae puxou-me as orelhas, disfarçadamente, irritado devéras com -a indiscrição; mas no dia seguinte, ao almoço, lembrando o caso, -sacudiu-me o nariz, a rir:—Ah! brejeiro! ah! brejeiro!</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XIII" id="CAPITULO_XIII">CAPITULO XIII</a></h5> - - -<h4>Um salto</h4> - - -<p>Unamos agora os pés e demos um salto por cima da eschola, a enfadonha -eschola, onde aprendi a ler, escrever, contar, dar cacholetas, -apanhal-as, e ir fazer diabruras, ora nos morros, ora nas praias, onde -quer que fosse propicio a ociosos.</p> - -<p>Tinha amarguras esse tempo; tinha os ralhos, os castigos, as lições -arduas e longas, e pouco mais, mui pouco e mui leve. Só era pesada a -palmatoria, e ainda assim... Ó palmatoria, terror dos meus dias pueris, -tu que foste o <i>compelle intrare</i> com que um velho mestre, ossudo e -calvo, me incutiu no cerebro o alphabeto, a prosodia, a syntaxe, e o -mais que elle sabia, benta palmatoria, tão praguejada dos modernos, -quem me dera ter ficado sob o teu jugo, com a minha alma imberbe, as -minhas ignorancias, e o meu espadim, aquelle espadim de 1814, tão -superior á espada de Napoleão! Que querias tu, afinal, meu velho mestre -de primeiras lettras? Lição de cór e compostura na aula; nada mais, -nada menos do que quer a vida, que é a mestra das ultimas lettras; -com a differenca que tu, se me mettias medo, nunca me metteste zanga. -Vejo-te ainda agora entrar na sala, com as tuas chinellas de couro -branco, capote, lenço na mão, calva á mostra, barba rapada; vejo-te -sentar, bufar, grunhir, absorver uma pitada inicial, e chamar-nos -depois á lição. E fizeste isto durante vinte e tres annos, calado, -obscuro, pontual, mettido n'uma casinha da rua do Piolho, sem enfadar -o mundo com a tua mediocridade, até que um dia déste o grande mergulho -nas trevas, e ninguem te chorou, salvo um preto velho,—ninguem, nem -eu, que te devo os rudimentos da escripta.</p> - -<p>Chamava-se Ludgero o mestre; quero escrever-lhe o nome todo nesta -pagina: Ludgero Barata,—um nome funesto, que servia aos meninos de -eterno mote a chufas. Um de nós, o Quincas Borba, esse então era cruel -com o pobre homem. Duas, tres vezes por semana, havia de lhe deixar na -algibeira das calças,—umas largas calças de enfiar—, ou na gaveta -da mesa, ou ao pé do tinteiro, uma barata morta. Se elle a encontrava -ainda nas horas da aula, dava um pulo, circulava os olhos chammejantes, -dizia-nos os ultimos nomes; eramos sevandijas, capadocios, mal criados, -moleques.—Uns tremiam, outros rosnavam; o Quincas Borba, porém, -deixava-se estar quieto, com os olhos espetados no ar.</p> - -<p>Uma flôr, o Quincas Borba. Nunca em minha infancia, nunca em toda a -minha vida, achei um menino mais gracioso, inventivo e travesso. Era -a flôr, e não já da eschola, senão de toda a cidade. A mãe, viuva, -com alguma cousa de seu, adorava o filho e trazia-o amimado, aceiado, -enfeitado, com um vistoso pagem atraz, um pagem que nos deixava gazear -a eschola, ir caçar ninhos de passaros, ou perseguir lagartixas no -morro do Livramento e da Conceição, ou simplesmente arruar, á toa, -como dous peraltas sem emprego. E de imperador! Era um gosto ver o -Quincas Borba fazer de imperador nas festas do Espirito Santo. De -resto, nos nossos jogos pueris, elle escolhia sempre um papel de rei, -ministro, general, uma supremacia, qualquer que fosse. Tinha garbo o -traquinas, e gravidade, certa magnificencia nas attitudes, nos meneios. -Quem diria que... Suspendamos a penna; não adeantemos os successos. -Fujamos sobretudo desse passado tão remoto, tão coberto, ai de mim! de -cruzes funebres. Vamos do um salto a 1822, data da nossa independencia -politica, e do meu primeiro captiveiro pessoal.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XIV" id="CAPITULO_XIV">CAPITULO XIV</a></h5> - - -<h4>O primeiro beijo</h4> - - -<p>Tinha dezesete annos; pungia-me um buçosinho que eu forcejava por -trazer a bigode. Os olhos, vivos e resolutos, eram a minha feição -verdadeiramente mascula. Como ostentasse certa arrogancia, não se -distinguia bem se era uma criança com fumos de homem, se um homem -com ares de menino. Ao cabo, era um lindo garção, lindo e audaz, que -entrava na vida de botas e esporas, chicote na mão e sangue nas veias, -cavalgando um corsel nervoso, rijo, veloz, como o corsel das antigas -balladas, que o romantismo foi buscar ao castello medieval, para dar -com elle nas ruas do nosso seculo. O peor é que o estafaram a tal -ponto, que foi preciso deital-o á margem, onde o realismo o veiu achar, -comido de lazeira e vermes, e, por compaixão, o transportou para os -seus livros.</p> - -<p>Sim, eu era esse garção bonito, airoso, abastado; e facilmente -se imagina que mais de uma dama inclinou deante de mim a fronte -pensativa, ou levantou para mim os olhos cobiçosos. De todas porém a -que me captivou logo foi um ... uma ... não sei se diga; este livro é -casto, ao menos na intenção; na intenção é castissimo. Mas vá lá; ou se -ha de dizer tudo ou nada. A que me captivou foi uma dama hespanhola, -Marcella, a «linda Marcella», como lhe chamavam os rapazes do tempo. -E tinham razão os rapazes. Era filha de um hortelão das Asturias; -disse-m'o ella mesma, n'um dia de sinceridade, porque a opinião aceita -é que nascera de um lettrado de Madrid, victima da invasão franceza, -ferido, encarcerado, espingardeado, quando ella tinha apenas doze -annos. <i>Cosas de España.</i> Quem quer que fosse, porém, o pae, lettrado -ou hortelão, a verdade é que Marcella não possuia a innocencia rustica, -e mal chegava a entender a moral do codigo. Era boa moça, lepida, -sem escrupulos, um pouco tolhida pela austeridade do tempo, que lhe -não permittia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e berlindas; -luxuosa, impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes. Naquelle anno, -morria ella de amores por um certo Xavier, sujeito abastado e -tisico,—uma perola.</p> - -<p>Vi-a, pela primeira vez, no Rocio Grande, na noite das luminarias, logo -que constou a declaração da independencia, uma festa de primavera, um -amanhecer da alma publica. Eramos dous rapazes, o povo e eu; vinhamos -da infancia, com todos os arrebatamentos da juventude. Vi-a sahir -de uma cadeirinha, airosa e vistosa, um corpo esbelto, ondulante, -um desgarre, alguma cousa que nunca achara nas mulheres puras. -—Segue-me, disse ella ao pagem. E eu segui-a, tão pagem como o outro, -como se a ordem me fosse dada, deixei-me ir namorado, vibrante, cheio -das primeiras auroras. A meio caminho, chamaram-lhe «linda Marcella», -lembrou-me que ouvira tal nome a meu tio João, e fiquei, confesso que -fiquei tonto.</p> - -<p>Tres dias depois perguntou-me meu tio, em segredo, se queria ir a uma -ceia de moças, nos Cajueiros. Fomos; era em casa de Marcella. O Xavier, -com todos os seus tuberculos, presidia ao banquete nocturno, em que -eu pouco ou nada comi, porque só tinha olhos para a dona da casa. -Que gentil que ella estava a hespanhola! Havia mais uma meia duzia -de mulheres,—todas de partido—, e bonitas, cheias de graça, mas a -hespanhola... O enthusiasmo, alguns goles de vinho, o genio imperioso, -estouvado, tudo isso me levou a fazer uma cousa unica; á sahida, á -porta da rua, disse a meu tio que esperasse um instante, e tornei a -subir as escadas.</p> - -<p>—Esqueceu alguma cousa? perguntou Marcella de pé, no patamar.</p> - -<p>—O lenço.</p> - -<p>Ella ia abrir-me caminho para tornar á sala; eu segurei-lhe nas mãos, -puxei-a para mim, e dei-lhe um beijo. Não sei se ella disse alguma -cousa, se gritou, se chamou alguem; não sei nada; sei que desci outra -vez as escadas, veloz como um tufão, e incerto como um ebrio.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XV" id="CAPITULO_XV">CAPITULO XV</a></h5> - - -<h4>Marcella</h4> - - -<p>Gastei trinta dias para ir do Rocio Grande ao coração de Marcella, -não já cavalgando o corsel do cégo desejo, mas o asno da paciencia, -a um tempo manhoso e teimoso. Que, na verdade, ha dous meios de -grangear a vontade das mulheres: o violento, como o touro de Europa, -e o insinuativo, como o cysne de Leda e a chuva de ouro de Danae, -tres inventos do padre Zeus, que, por estarem fóra da moda, ahi ficam -trocados no cavallo e no asno. Não direi as traças que urdi, nem -as pitas, nem as alternativas de confiança e temor, nem as esperas -baldadas, nem nenhuma outra dessas cousas preliminares. Affirmo-lhes -que o asno foi digno do corsel,—um asno de Sancho, deveras philosopho, -que me levou á casa della, no fim do citado periodo; apeei-me, bati-lhe -na anca e mandei-o pastar.</p> - -<p>Primeira commoção da minha juventude, que doce que me foste! Tal devia -ser, na creação biblica, o effeito do primeiro sol. Imagina tu esse -effeito do primeiro sol, a bater de chapa na face de um mundo em flor. -Pois foi a mesma cousa, leitor amigo, e se alguma vez contaste dezoito -annos, deves lembrar-te que foi assim mesmo.</p> - -<p>Teve duas phases a nossa paixão, ou ligação, ou qualquer outro nome, -que eu de nomes não curo; teve a phase consular e a phase imperial. -Na primeira, que foi curta, regemos o Xavier e eu, sem que elle -jamais acreditasse dividir commigo o governo de Roma; mas, quando a -credulidade não pôde resistir á evidencia, o Xavier depoz as insignias, -e eu concentrei todos os poderes na minha mão; foi a phase cesariana. -Era meu o universo; mas, ai triste! não o era de graça. Foi-me preciso -colligir dinheiro, multiplical-o, invental-o. Primeiro explorei as -larguezas de meu pae; elle dava-me tudo o que eu lhe pedia, sem -reprehensão, sem demora, sem frieza; dizia a todos que eu era rapaz -e que elle o fora tambem. Mas a tal extremo chegou o abuso, que elle -restringiu um pouco as franquezas, depois mais, depois mais. Então -recorri a minha mãe, e induzi-a a desviar alguma cousa, que me dava ás -escondidas. Era pouco; lancei mão de um recurso ultimo: entrei a saccar -sobre a herança de meu pae, a assignar obrigações, que devia resgatar -um dia com usura.</p> - -<p>—Na verdade, dizia-me Marcella, quando eu lhe levava alguma seda, -alguma joia; na verdade, você quer brigar commigo... Pois isto é cousa -que se faça... um presente tão caro...</p> - -<p>E, se era joia, dizia isto a contemplal-a entre os dedos, a procurar -melhor luz, a ensaial-a em si, e a rir, e a beijar-me com uma -reincidencia impetuosa e sincera; mas, protestando, derramava-se-lhe -a felicidade dos olhos, e eu sentia-me feliz com vêl-a assim. Gostava -muito das nossas antigas dobras de ouro, e eu levava-lhe quantas podia -obter; Marcella juntava-as todas dentro de uma caixinha de ferro, -cuja chave ninguem nunca jámais soube onde ficava; escondia-a por -medo dos escravos. A casa em que morava, nos Cajueiros, era propria. -Eram solidos e bons os moveis, de jacarandá lavrado, e todas as -demais alfaias, espelhos, jarras, baixella,—uma linda baixella da -India, que lhe doára um desembargador. Baixella do diabo, deste-me -grandes repellões aos nervos. Disse-o muita vez á própria dona; -não lhe dissimulava o tedio que me faziam esses e outros despojos -dos seus amores de antanho. Ella ouvia-me e ria, com uma expressão -candida,—candida e outra cousa, que eu nesse tempo não entendia bem; -mas agora, relembrando o caso, penso que era um riso mixto, como devia -ter a creatura que nascesse, por exemplo, de uma bruxa de Shakespeare -com um seraphim de Klopstock. Não sei se me explico. E porque tinha -noticia dos meus zelos tardios, parece que gostava de os açular mais. -Assim foi que um dia, como eu lhe não pudesse dar certo collar, que -ella vira n'um joalheiro, retorquiu-me que era um simples gracejo, que -o nosso amor não precisava de tão vulgar estimulo.</p> - -<p>—Não lhe perdôo, se você fizer de mim essa triste idéa, concluiu -ameaçando-me com o dedo.</p> - -<p>E logo, subita como um passarinho, espalmou as mãos, cingiu-me com -ellas o rosto, puxou-me a si e fez um tregeito gracioso, um momo de -criança. Depois, reclinada na marqueza, continuou a fallar daquillo, -com simplicidade e franqueza. Jámais consentiria que lhe comprassem os -affectos. Vendera muita vez as apparencias, mas a realidade, guardava-a -para poucos. O Duarte, por exemplo, o alferes Duarte, que ella amára -devéras, dous annos antes, só a custo conseguia dar-lhe alguma cousa de -valor, como me acontecia a mim; ella só lhe aceitava sem reluctancia os -mimos de escasso preço, como a cruz de ouro, que lhe deu, uma vez, de -festas.</p> - -<p>—Esta cruz...</p> - -<p>Dizia isto, mettendo a mão no seio e tirando uma cruz fina, de ouro, -presa a uma fita azul e pendurada ao collo.</p> - -<p>—Mas essa cruz, observei eu, não me disseste que era teu pae que...</p> - -<p>Marcella abanou a cabeça com um ar de lastima:</p> - -<p>—Não percebeste que era mentira, que eu dizia isso para te não -molestar? Vem cá, <i>chiquito</i>, não sejas assim desconfiado commigo... -Amei a outro; que importa, se acabou? Um dia, quando nos separarmos...</p> - -<p>—Não digas isso! bradei eu.</p> - -<p>—Tudo cessa! Um dia...</p> - -<p>Não pôde acabar; um soluço estrangulou-lhe a voz; estendeu as mãos, -tomou das minhas, conchegou-me ao seio, e sussurrou-me baixo ao -ouvido:—Nunca, nunca, meu amor! Eu agradeci-lh'o com os olhos -humidos. No dia seguinte levei-lhe o collar que havia recusado.</p> - -<p>—Para te lembrares de mim, quando nos separarmos, disse eu.</p> - -<p>Marcella teve primeiro um silencio indignado; depois fez um gesto -magnifico: tentou atirar o collar á rua. Eu retive-lhe o braço; -pedi-lhe muito que não me fizesse tal desfeita, que ficasse com a joia. -Sorriu e ficou.</p> - -<p>Entretanto, pagava-me á farta os sacrificios; espreitava os meus mais -reconditos pensamentos; não havia desejo a que não acudisse com alma, -sem esforço, por uma especie de lei da consciencia e necessidade -do coração. Nunca o desejo era razoavel, mas um capricho puro, uma -criancice, vel-a trajar de certo modo, com taes e taes enfeites, este -vestido e não aquelle, ir a passeio ou outra cousa assim, e ella cedia -a tudo, risonha e palreira.</p> - -<p>—Você é das Arabias, dizia-me.</p> - -<p>E ia pôr o vestido, a renda, os brincos, com uma obediencia de -encantar.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XVI" id="CAPITULO_XVI">CAPITULO XVI</a></h5> - - -<h4>Uma reflexão immoral</h4> - - -<p>Occorre-me uma reflexão immoral, que é ao mesmo tempo uma correcção de -estylo. Cuido haver dito, no cap. XIII, que Marcella morria de amores -pelo Xavier. Não morria, vivia. Viver não é a mesma cousa que morrer -assim o affirmam todos os joalheiros desse mundo, gente muito vista -na grammatica. Bons joalheiros, que seria do amor se não fossem os -vossos dixes e fiados? Um terço ou um quinto do universal commercio -dos corações. Esta é a reflexão immoral que eu pretendia fazer, a qual -é ainda mais obscura do que immoral, porque não se entende bem o que -eu quero dizer. O que eu quero dizer é que a mais bella testa do mundo -não fica menos bella, se a cingir um diadema de pedras finas; nem menos -bella, nem menos amada. Marcella, por exemplo, que era bem bonita, -Marcella amou-me...</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XVII" id="CAPITULO_XVII">CAPITULO XVII</a></h5> - - -<h4>Do trapezio e outras cousas</h4> - - -<p>... Marcella amou-me durante quinze mezes e onze contos de réis; nada -menos. Meu pae, logo que teve aragem dos onze contos, sobresaltou-se -devéras; achou que o caso excedia as raias de um capricho juvenil.</p> - -<p>—Desta vez, disse elle, vaes para a Europa; vaes cursar uma -Universidade, provavelmente Coimbra; quero-te para homem serio e não -para arruador e gatuno. E como eu fizesse um gesto de espanto:—Gatuno, -sim, senhor; não é outra cousa um filho que me faz isto...</p> - -<p>Saccou da algibeira os meus titulos de divida, já resgatados por elle, -e sacudiu-m'os na cara;—Vês, peralta? é assim que um moço deve zelar o -nome dos seus? Pensas que eu e meus avós ganhámos o dinheiro em casas -de jogo ou a vadiar pelas ruas? Pelintra! Desta vez ou tomas juizo, ou -ficas sem cousa nenhuma.</p> - -<p>Estava furioso; mas de um furor temperado e curto. Eu ouvi-o calado, e -nada oppuz á ordem da viagem, como de outras vezes fizera; ruminava, a -idéa de levar Marcella commigo. Fui ter com ella; expuz-lhe a crise e -fiz-lhe a proposta. Marcella ouviu-me com os olhos no ar, sem responder -logo; como insistisse, disse-me que ficava, que não podia ir para a -Europa.</p> - -<p>—Porque não?</p> - -<p>—Não posso, disse ella com ar dolente; não posso ir respirar aquelles -ares, emquanto me lembrar de meu pobre pae, morto por Napoleão...</p> - -<p>—Qual delles: o hortelão ou o advogado?</p> - -<p>Marcella franziu a testa, cantarolou uma seguidilha, entre dentes; -depois queixou-se do calor, e mandou vir um copo de aluá. Trouxe-lh'o -a mucama, n'uma salva de prata, que fazia parte dos meus onze contos. -Marcella offereceu-me polidamente o refresco; minha resposta foi dar -com a mão no copo e na salva; entornou-se-lhe o liquido no regaço, a -preta deu um grito, eu bradei-lhe que se fosse embora. Ficando a sós, -derramei todo o desespero de meu coração; disse-lhe que ella era um -monstro, que jámais me tivera amor, que me deixara descer a tudo, sem -ter ao menos a desculpa da sinceridade; chamei-lhe muitos nomes feios, -fazendo muitos gestos descompostos. Marcella deixára-se estar sentada, -a estalar as unhas nos dentes, fria como um pedaço de marmore. Tive -impetos de a estrangular, de a humiliar ao menos, subjugando-a a meus -pés. Ia talvez fazel-o; mas a acção trocou-se n'outra; fui eu que me -atirei aos pés della, contricto e supplice; beijei-lh'os, recordei -aquelles mezes da nossa felicidade solitaria, repeti-lhe os nomes -queridos de outro tempo, sentado no chão, com a cabeça entre os joelhos -della, apertando-lhe muito as mãos; offegante, desvairado, pedi-lhe com -lagrymas que me não desamparasse... Marcella esteve alguns instantes a -olhar para mim, calados ambos, até que brandamente me desviou e, com um -ar enfastiado:</p> - -<p>—Não me aborreça, disse.</p> - -<p>Levantou-se, sacudiu o vestido, ainda molhado, e caminhou para a -alcova.—Não! bradei eu; não has de entrar... não quero... Ia a -lançar-lhe as mãos: era tarde; ella entrára e fechara-se.</p> - -<p>Sahi desatinado; gastei duas mortaes horas a vaguear pelos bairros mais -excentricos e desertos, onde fosse difficil dar commigo. Ia mastigando -o meu desespero, com uma especie de gula morbida; evocava os dias, as -horas, os instantes de delirio, e ora me comprazia em crer que elles -eram eternos, que tudo aquillo era um pesadelo, ora, enganando-me a mim -mesmo, tentava rejeital-os de mim, como um fardo inutil. Então resolvia -embarcar immediatamente para cortar a minha vida em duas metades, e -deleitava-me com a idéa de que Marcella, sabendo da partida, ficaria -ralada de saudades e remorsos. Que ella amara-me a tonta, devia de -sentir alguma cousa, uma lembrança qualquer, como do alferes Duarte... -Nisto, o dente do ciume enterrava-se-me no coração; e toda a natureza -me bradava que era preciso levar Marcella commigo.</p> - -<p>—Por força... por força... dizia eu ferindo o ar com uma punhada.</p> - -<p>Emfim, tive uma idéa salvadora... Ah! trapezio dos meus peccados, -trapezio das concepções abstrusas! A idéa salvadora trabalhou nelle, -como a do emplasto (cap. II.). Era nada menos que fascinal-a, -fascinal-a muito, deslumbral-a, arrastal-a; lembrou-me pedir-lhe por -um meio mais concreto do que a supplica. Não medi as consequencias; -recorri a um derradeiro emprestimo; fui á rua dos Ourives, comprei a -melhor joia da cidade, tres diamantes grandes, encastoados n'um pente -de marfim; corri á casa de Marcella.</p> - -<p>Marcella estava reclinada n'uma rede, o gesto molle e cançado, uma das -pernas pendentes, a ver-se-lhe o pésinho calçado de meia de seda, os -cabellos soltos, derramados, o olhar quieto e somnolento.</p> - -<p>—Vem commigo, disse eu, arranjei recursos...temos muito dinheiro, -terás tudo o que quizeres...Olha, toma.</p> - -<p>E mostrei-lhe o ponte com os diamantes. Marcella teve um leve -sobresalto; a pupilla rutilou como a de um gavião faminto; ella ergueu -metade do corpo, e, apoiada n'um cotovello, olhou para o pente durante -alguns instantes curtos; depois retirou os olhos; tinha se dominado. -Então, eu lancei-lhe as mãos aos cabellos, colligi-os, enlacei-os á -pressa, improvisei um toucado, sem nenhum alinho, e rematei-o com o -pente de diamantes; recuei, tornei a aproximar-me, corrigi-lhe as -madeixas, abaixei-as do um lado, busquei alguma symetria naquella -desordem, tudo com unia minuciosidade e um carinho de mãe.</p> - -<p>—Prompto, disse eu.</p> - -<p>—Doudo! foi a sua primeira resposta.</p> - -<p>A segunda foi puxar-me para si, e pagar-me o sacrificio com um beijo, o -mais ardente de todos. Depois tirou o pente, admirou muito a materia e -o lavor, olhando a espaços para mim, e abanando a cabeça, com um ar de -reprehensão:</p> - -<p>—Ora você! dizia.</p> - -<p>—Vens commigo?</p> - -<p>Marcella reflectiu um instante. Não gostei da expressão com que -passeava os olhos de mim para a parede, e da parede para a joia; -mas toda a má impressão se desvaneceu, quando ella me respondeu -resolutamente:</p> - -<p>—Vou. Quando embarcas?</p> - -<p>—Daqui a dous ou tres dias.</p> - -<p>—Vou.</p> - -<p>Agradeci-lh'o de joelhos. Tinha achado a minha Marcella dos primeiros -dias, e disse-lh'o; ella sorriu, e foi guardar a joia, emquanto eu -descia a escada.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XVIII" id="CAPITULO_XVIII">CAPITULO XVIII</a></h5> - - -<h4>Visão do corredor</h4> - - -<p>No fim da escada, ao fundo do corredor escuro, parei alguns instantes -para respirar, apalpar-me, convocar as idéas dispersas, rehaver-me -emfim no meio de tantas sensações profundas e contrarias. Achava-me -feliz. Certo é que os diamantes corrompiam-me um pouco a felicidade; -mas não é menos certo que uma dama bonita pode muito bem amar os gregos -e os seus presentes. E depois eu confiava na minha boa Marcella; podia -ter defeitos, mas amava-me...</p> - -<p>—Um anjo! murmurei eu olhando para o tecto do corredor.</p> - -<p>E ahi, como um escarneo, vi o olhar de Marcella, aquelle olhar que -pouco antes me dera uma sombra de desconfiança, o qual chispava de -cima de um nariz, que era ao mesmo tempo o nariz de Bakbarah e o meu. -Pobre namorado das <i>Mil e uma noites!</i> Vi-te alli mesmo correr atraz da -mulher do vizir, ao longo da galeria, ella a acenar-te com a posse, -e tu a correr, a correr, a correr, até a alameda comprida, donde -sahiste á rua, onde todos os correeiros te apuparam e desancaram. Então -pareceu-me que o corredor de Marcella era a alameda, e que a rua era a -de Bagdad. Com effeito, olhando para a porta, vi na calçada, tres dos -correeiros, um de batina, outro de libré, outro á paisana, os quaes -todos tres entraram no corredor, tomaram-me pelos braços, metteram-me -n'uma sege, meu pae á direita, meu tio conego á esquerda, o da libré -na boléa, e lá me levaram á casa do intendente de policia, donde fui -transportado a uma galera que devia seguir para Lisboa. Imaginem se -resisti; mas toda a resistencia era inutil.</p> - -<p>Tres dias depois segui barra fóra, abatido e mudo. Não chorava sequer; -tinha uma idéa fixa... Malditas idéas fixas! A dessa occasião era dar -um mergulho no oceano, repetindo o nome de Marcella.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XIX" id="CAPITULO_XIX">CAPITULO XIX</a></h5> - - -<h4>A bordo</h4> - - -<p>Eramos onze passageiros, um homem doudo, acompanhado pela mulher, dous -rapazes que iam a passeio, quatro commerciantes e dous criados. Meu -pae recommendou-me a todos, começando pelo capitão do navio, que aliás -tinha muito que cuidar de si, porque, além do mais, levava a mulher -tisica em ultimo gráu.</p> - -<p>Não sei se o capitão suspeitou alguma cousa do meu funebre projecto, ou -se meu pae o poz de sobreaviso; sei que não me tirava os olhos de cima; -chamava-me para toda a parte. Quando não podia estar commigo, levava-me -para a mulher. A mulher ia quasi sempre n'uma camilha raza, a tossir -muito, e a afiançar que me havia de mostrar os arredores de Lisboa. -Não estava magra, estava transparente; era impossivel que não morresse -de uma hora para outra. O capitão fingia não crer na morte proxima, -talvez por enganar-se a si mesmo. Eu não sabia nem pensava nada. Que -me importava a mim o destino de uma mulher tisica, no meio do oceano? O -mundo para mim era Marcella.</p> - -<p>Uma noite, logo no fim do uma semana, achei ensejo propicio para -morrer. Subi cauteloso, mas encontrei o capitão, que junto á amurada, -tinha os olhos fitos no horizonte.</p> - -<p>—Algum temporal? disse eu.</p> - -<p>—Não, respondeu elle estremecendo; não; admiro o explendor da noite. -Veja; está celestial!</p> - -<p>O estylo desmentia da pessoa, assaz rude e apparentemente alheia a -locuções rebuscadas. Fitei-o; elle pareceu saborear o meu espanto. -No fim de alguns segundos, pegou-me na mão e apontou para a lua, -perguntando-me porque não fazia uma ode á noite; respondi-lhe que não -era poeta. O capitão rosnou alguma cousa, deu dous passos, metteu a -mão no bolso, saccou um pedaço de papel, muito amarrotado; depois, á -luz de uma lanterna, leu uma ode horaciana sobre a liberdade da vida -maritima. Eram versos delle.</p> - -<p>—Que tal?</p> - -<p>Não me lembra o que lhe disse; lembra-me que elle me apertou a mão -com muita força e muitos agradecimentos; logo depois recitou-me dous -sonetos; ia recitar-me outro, quando o vieram chamar da parte da -mulher.—Lá vou, disse elle; e recitou-me o terceiro soneto, com pausa, -com amor.</p> - -<p>Fiquei só; mas a musa do capitão varrera-me do espirito os pensamentos -máus; preferi dormir, que é modo interino de morrer. No dia seguinte, -acordamos debaixo de um temporal, que metteu medo a toda a gente, -menos ao doudo; esse entrou a dar pulos, a dizer que a filha o mandava -buscar, n'uma berlinda; a morte de uma filha fôra a causa da loucura. -Não, nunca me ha de esquecer a figura hedionda do pobre homem, no -meio do tumulto das gentes e dos uivos do furacão, a cantarolar e a -bailar, com os olhos a saltarem-lhe da cara, pallido, a coma hirsuta, -descomposta. Ás vezes parava, erguia ao ar as mãos ossudas, fazia -umas cruzes com os dedos, depois um xadrez, depois umas argolas, e ria -muito, desesperadamente. A mulher não podia já cuidar delle; entregue -ao terror da morte, rezava por si mesma a todos os santos do céu. -Emfim, a tempestade amainou depois de longas horas; e confesso que foi -uma diversão excellente á tempestade do meu coração. Eu, que meditava -ir ter com a morte, não ousei fital-a quando ella veiu ter commigo.</p> - -<p>Amainou o temporal, o capitão veiu perguntar-me se tivera medo, se -estivera em risco, se não achára sublime o expectaculo; tudo isso com -um interesse de amigo. Naturalmente a conversa versou sobre a vida do -mar; o capitão perguntou-me se não gostava de idyllios piscatorios; eu -respondi-lhe ingenuamente que não sabia o que era.</p> - -<p>—Vae ver, respondeu elle.</p> - -<p>E recitou-me um poemasinho, depois outro,—uma egloga,—e emfim cinco -sonetos, com os quaes rematou nesse dia a confidencia litteraria. No -dia seguinte, antes de me recitar nada, explicou-me o capitão que só -por motivos graves abraçara a profissão maritima, porque a avó queria -que elle fosse padre, e com effeito possuia algumas lettras latinas; -não chegou a ser padre, mas não deixou de ser poeta, que era a sua -vocação natural; e em prova de que tal era a sua vocação, recitou-me -logo, de corpo presente, uma centena de versos. Notei um phenomeno: os -ademanes que elle usava eram taes, que uma vez me fizeram rir; mas o -capitão, quando recitava, de tal sorte olhava para dentro de si mesmo, -que não viu nem ouviu nada.</p> - -<p>Os dias passavam, e as aguas, e os versos, e com elles ia tambem -passando a vida da mulher. Estava por pouco. Um dia, logo depois do -almoço, disse-me o capitão que a enferma talvez não chegasse ao fim da -semana.</p> - -<p>—Já! exclamei.</p> - -<p>—Passou muito mal a noite.</p> - -<p>Fui vel-a; achei-a, na verdade, quasi moribunda, mas fallando ainda de -descançar em Lisboa alguns dias, antes de ir commigo a Coimbra, porque -era seu proposito levar-me á Universidade. Deixei-a consternado; fui -achar o marido a olhar para as vagas, que vinham morrer na costado -do navio, e tratei de o consolar; elle agradeceu-me, relatou-me a -historia dos seus amores, elogiou a fidelidade e a dedicação da -mulher, relembrou os versos que lhe fez, e recitou-m'os. Neste ponto -vieram buscal-o da parte della; corremos ambos; era uma crise. Esse -e o dia seguinte foram crueis; o terceiro foi o da morte; eu fugi -ao expectaculo, tinha-lhe repugnancia. Meia hora depois encontrei o -capitão, sentado n'um mólho de cabos, com a cabeça nas mãos; disse-lhe -alguma cousa de conforto.</p> - -<p>—Morreu como uma santa, respondeu elle; e, para que estas palavras -não pudessem ser levadas á conta de fraqueza, ergueu-se logo, sacudiu -a cabeça, e fitou o horizonte, com um gesto longo e profundo.—Vamos, -continuou, entreguemol-a á cova que nunca mais se abre.</p> - -<p>Effectivamente, poucas horas depois, era o cadaver lançado ao mar, -com as ceremonias do costume. A tristeza murchára todos os rostos; -o do viuvo trazia a expressão de um cabeço rijamente lascado pelo -raio. Grande silencio. A vaga abriu o ventre, acolheu o despojo, -fechou-se,—uma leve ruga,—e a galera foi andando. Eu deixei-me estar -alguns minutos, á popa, com os olhos naquelle ponto incerto do mar em -que ficava um de nós... Fui dalli ter com o capitão, para distrahil-o.</p> - -<p>—Obrigado, disse-me elle comprehendendo a intenção; creia que nunca me -esquecerei dos seus bons serviços. Deus é que lh'os ha de pagar. Pobre -Leocadia! tu te lembrarás de nós no céu.</p> - -<p>Enxugou com a manga uma lagrima importuna; eu busquei um derivativo na -poesia, que era a paixão delle. Fallei-lhe dos versos, que me lera, -e offereci-me para imprimil-os. Os olhos do capitão animaram-se um -pouco.—Talvez aceite, disse elle; mas não sei... são bem frouxos -versos. Jurei-lhe que não; pedi que os reunisse e me désse antes do -desembarque.</p> - -<p>—Pobre Leocadia! murmurou elle sem responder ao pedido. Um cadaver... -o mar... o céu... o navio...</p> - -<p>No dia seguinte veiu ler-me um epicedio composto de fresco, em que -estavam memoradas as circumstancias da morte e da sepultura da -mulher; leu-m'o com a voz commovida devéras, e a mão tremula; no fim -perguntou-me se os versos eram dignos do thesouro que perdera.</p> - -<p>—São, disse eu.</p> - -<p>—Não haverá estro, ponderou elle, no fim de um instante, mas ninguem -me negará sentimento, se não é que o proprio sentimento prejudicou a -perfeição....</p> - -<p>—Não me parece; acho os versos perfeitos.</p> - -<p>—Sim, eu creio que... Versos de marujo.</p> - -<p>—De marujo poeta.</p> - -<p>Elle levantou os hombros, olhou para o papel, e tornou a recitar -a composição, mas já então sem tremuras, accentuando as intenções -litterarias, dando relevo ás imagens e melodia aos versos. No fim, -confessou-me que era a sua obra mais acabada, eu disse-lhe que sim; -elle apertou-me muito a mão e predisse-me um grande futuro.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XX" id="CAPITULO_XX">CAPITULO XX</a></h5> - - -<h4>Bacharelo-me</h4> - - -<p>Um grande futuro! Em quanto esta palavra me batia no ouvido, devolvia -eu os olhos, ao longe, no horizonte mysterioso e vago. Uma idéa -expellia outra, a ambição desmontava Marcella. Um grande futuro? -Talvez naturalista, litterato, archeologo, banqueiro, politico, ou até -bispo,—bispo que fosse,—uma vez que fosse um cargo, uma preeminencia, -uma grande reputação, uma posição superior. A ambição, dado que fosse -aguia, quebrou nessa occasião o ovo, e desvendou a pupilla fulva e -penetrante. Adeus, amores; adeus, Marcella; dias de delirio, joias -sem preço, vida sem regimen, adeus. Cá me vou ás fadigas e á gloria; -deixo-vos com as calcinhas da primeira edade.</p> - -<p>E foi assim que desembarquei em Lisboa e segui para Coimbra. A -Universidade esperava-me com as suas materias arduas, e não sei -se profundas; estudei-as muito mediocremente, e nem por isso perdi -o gráu de bacharel; deram-m'o com a solemnidade do estylo, após -os annos da lei; uma bella festa que me encheu de orgulho e de -saudades,—principalmente de saudades. Tinha eu conquistado em Coimbra -uma grande nomeada de folião; era um academico estroina, superficial, -tumultuario e petulante, dado ás aventuras, fazendo romantismo pratico -e liberalismo theorico, vivendo na pura fé dos olhos pretos e das -constituições escriptas. No dia em que a Universidade me attestou, em -pergaminho, uma sciencia que eu estava longe de trazer arraigada no -cerebro, confesso que me achei de de algum modo logrado, ainda que -orgulhoso. Explico-me: o diploma era uma carta de alforria; se me dava -a liberdade, dava-me a responsabilidade. Guardei-o, deixei as margens -do Mondego, e vim por alli fóra assaz desconsolado, mas sentindo já -uns impetos, uma curiosidade, um desejo de acotovellar os outros, de -influir, de gozar, de viver,—de prolongar a Universidade pela vida -adeante...</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XXI" id="CAPITULO_XXI">CAPITULO XXI</a></h5> - - -<h4>O almocreve</h4> - - -<p>Vae então, empacou o jumento em que eu vinha montado; fustiguei-o, elle -deu dous corcovos, depois mais tres, emfim mais um, que me sacudiu -fóra da sella, e com tal desastre, que o pé esquerdo me ficou preso no -estribo; tento agarrar-me ao ventre do animal, mas já então, espantado, -disparou pela estrada fóra. Digo mal: tentou disparar, e effectivamente -deu dous saltos, mas um almocreve, que alli estava, acudiu atempo de -lhe pegar na redea e detel-o, não sem esforço nem perigo. Dominado o -bruto, desvencilhei-me do estribo e puz-me de pé.</p> - -<p>—Olhe do que vosmecê escapou, disse o almocreve.</p> - -<p>E era verdade; se o jumento corre por alli fóra, contundia-me -devéras, e não sei se a morte não estaria no fim do desastre; cabeça -partida, uma congestão, qualquer transtorno cá dentro; e lá se me -ia a bacharelice em flor. O almocreve salvara-me talvez a vida; -era positivo; eu sentia-o no sangue que me agitava o coração. Bom -almocreve! emquanto eu tornava á consciencia de mim mesmo, elle cuidava -de concertar os arreios do jumento, com muito zelo e arte. Resolvi -dar-lho tres moedas de ouro das cinco que trazia commigo; não porque -tal fosse o preço da minha vida,—essa era inestimavel; mas por que era -uma recompensa digna da dedicação com que elle me salvou. Está dito, -dou-lhe as tres moedas.</p> - -<p>—Prompto, disse elle apresentando-me a redea da cavalgadura.</p> - -<p>—Daqui a nada, respondi; deixa-me, que ainda não estou em mim...</p> - -<p>—Ora qual!</p> - -<p>—Pois não é certo que ia morrendo?</p> - -<p>—Se o jumento corre por ahi fóra, é possivel; mas, com a ajuda do -Senhor, viu vosmecê que não aconteceu nada.</p> - -<p>Fui aos alforges, tirei um collete velho, em cujo bolso trazia as cinco -moedas de ouro, e durante esse tempo cogitei se não era excessiva a -gratificação, se não bastavam duas moedas. Talvez uma. Com effeito, uma -moeda era bastante para lhe dar estremeções de alegria. Examinei-lhe -a roupa; era um pobre diabo, que nunca jamais vira uma moeda de ouro. -Portanto, uma moeda. Tirei-a, vi-a reluzir á luz do sol; não a viu o -almocreve, por que eu tinha-lhe voltado as costas; mas suspeitou-o -talvez, entrou a fallar ao jumento de um modo significativo; dava-lhe -conselhos, dizia-lhe que tomasse juizo, que o «senhor doutor» podia -castigal-o; um monologo paternal. Valha-me Deus! até ouvi estalar um -beijo: era o almocreve que lhe beijava a testa.</p> - -<p>—Olé! exclamei.</p> - -<p>—Queira vosmecê perdoar, mas o diabo do bicho está a olhar para a -gente com tanta graça...</p> - -<p>Ri-me, hesitei, metti-lhe na mão um cruzado em prata, cavalguei o -jumento, e segui a trote largo, um pouco vexado, melhor direi um pouco -incerto do effeito da pratinha. Mas a algumas braças de distancia, -olhei para traz, o almocreve fazia-me grandes cortezias, com evidentes -mostras de contentamento. Adverti que devia ser assim mesmo; eu -pagara-lhe bem, pagara-lhe talvez de mais. Metti os dedos no bolso -do collete que trazia no corpo e senti umas moedas de cobre; eram os -vintens que eu devera ter dado ao almocreve, em logar do cruzado em -prata. Porque, emfim, elle não levou em mira nenhuma recompensa ou -virtude, cedeu a um impulso natural, ao temperamento, aos habitos do -officio; accresce que a circumstancia de estar, não mais adeante nem -mais atraz, mas justamente no ponto do desastre, parecia constituil-o -simples instrumento de Providencia; e de um ou de outro modo, o -merito do acto era positivamente nenhum. Fiquei desconsolado com esta -reflexão, chamei-me prodigo, lancei o cruzado á conta das minhas -dissipações antigas; tive (porque não direi tudo?) tive remorsos.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XXII" id="CAPITULO_XXII">CAPITULO XXII</a></h5> - - -<h4>Volta ao Rio</h4> - - -<p>Jumento de uma figa, cortaste-me o fio ás reflexões. Já agora não digo -o que pensei dalli até Lisboa, nem o que fiz em Lisboa, na peninsula e -em outros logares da Europa, da velha Europa, que nesse tempo parecia -remoçar. Não, não direi que assisti ás alvoradas do romantismo, que -tambem eu fui fazer poesia effectiva no regaço da Italia; não direi -cousa nenhuma. Teria de escrever um diario de viagem e não umas -memorias, como estas são, nas quaes só entra a substancia da vida.</p> - -<p>Ao cabo de alguns annos de peregrinação attendi ás supplicas de meu -pae:—«Vem, dizia elle na ultima carta; se não vieres depressa, acharás -tua mãe morta!» Esta ultima palavra foi para mim um golpe. Eu amava -minha mãe; tinha ainda deante dos olhos as circumstancias da ultima -benção que ella me dera, a bordo do navio. «Meu triste filho, nunca -mais te verei», soluçava a pobre senhora apertando-me ao peito. E -essas palavras resoavam-me agora, como uma prophecia realizada.</p> - -<p>Note-se que eu estava em Veneza, ainda rescendente aos versos de lord -Byron; lá estava, mergulhado em pleno sonho, revivendo o preterito, -crendo-me na Serenissima Republica. É verdade; uma vez aconteceu-me -perguntar ao locandeiro se o doge ia a passeio nesse dia.—Que doge, -<i>signor mio?</i> Cahi em mim, mas não confessei a illusão; disse-lhe que -a minha pergunta era um genero de charada americana; elle mostrou -comprehender, e accrescentou que gostava muito das charadas americanas. -Era um locandeiro. Pois deixei tudo isso, o locandeiro, o doge, a ponte -dos Suspiros, a gondola, os versos do lord, as damas do Rialto, deixei -tudo, e disparei como uma bala na direcção do Rio de Janeiro.</p> - -<p>Vim... Mas não; não alonguemos este capitulo. Ás vezes, esqueço-me a -escrever, e a penna vae comendo papel, com grave prejuizo meu, que -sou autor. Capitulos compridos quadram melhor a leitores pesadões; e -nós não somos um publico <i>in-folio</i>, mas <i>in</i>-12, pouco texto, larga -margem, typo elegante, córte dourado e vinhetas... principalmente -vinhetas... Não, não alonguemos o capitulo.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XXIII" id="CAPITULO_XXIII">CAPITULO XXIII</a></h5> - - -<h4>Triste, mas curto</h4> - - -<p>Vim; e não nego que, ao avistar a cidade natal, tive uma sensação nova. -Não era effeito da minha patria politica; era-o do logar da infancia, -a rua, a torre, o chafariz da esquina, a mulher de mantilha, o preto -do ganho, as cousas e scenas da meninice, buriladas na memoria. Nada -menos que uma renascença. O espirito, como um passaro, não se lhe deu -da corrente dos annos, arrepiou o vôo na direcção da fonte original, e -foi beber da agua fresca e pura, ainda não mesclada do enxurro da vida.</p> - -<p>Reparando bem, ha ahi um logar-commum. Outro logar-commum, tristemente -commum, foi a consternação da familia. Meu pae abraçou-me com -lagrimas.—Tua mãe não póde viver, disse-me elle. Com effeito, não era -já o rheumatismo que a matava, era um cancro no estomago. A infeliz -padecia de um modo crú, porque o cancro é indifferente ás virtudes do -sujeito; quando róe, róe; roer é o seu officio. Minha irmã Sabina, já -então casada com o Cotrim, andava a cair de fadiga. Pobre moça! dormia -tres horas por noite, nada mais. O proprio tio João estava abatido e -triste. D. Eusebia e algumas outras senhoras lá estavam tambem, não -menos tristes e não menos dedicadas.</p> - -<p>—Meu filho!</p> - -<p>A dor suspendeu por um pouco as tenazes; um sorriso allumiou o rosto da -enferma, sobre o qual a morte batia a aza eterna. Era menos um rosto do -que uma caveira; a belleza passára, como um dia brilhante; restavam os -ossos, que não emmagrecem nunca. Mal poderia conhecel-a; havia oito ou -nove annos que nos não viamos. Ajoelhado, ao pé da cama, com as mãos -della entre as minhas, fiquei mudo e quieto, sem ousar fallar, porque -cada palavra seria um soluço, e nós temiamos avisal-a do fim. Vão -temor! Ella sabia que estava prestes a acabar; disse-m'o; verificamol-o -na seguinte manhã.</p> - -<p>Longa foi a agonia, longa e cruel, de uma crueldade minuciosa, fria, -repisada, que me encheu de dor e estupefacção. Era a primeira vez -que eu via morrer alguem. Conhecia a morte de outiva; quando muito, -tinha-a visto já petrificada no rosto de algum cadaver, que acompanhei -ao cemiterio, ou trazia-lhe a idéa embrulhada nas amplificações de -rhetorica dos professores de cousas antigas,—a morte aleivosa de -Cesar, a austera de Socrates, a orgulhosa de Catão. Mas esse duello do -ser e do não ser, a morte em acção, dolorida, contrahida, convulsa, -sem apparelho politico ou philosophico, a morte de uma pessoa amada, -essa foi a primeira vez que a pude encarar. Não chorei; lembra-me -que não chorei durante o expectaculo; tinha os olhos estupidos, a -garganta presa, a consciencia boquiaberta. Que? uma creatura tão -docil, tão meiga, tão santa, que nunca jamais fizera verter uma -lagrima de desgosto, mãe carinhosa, esposa immaculada, era força que -morresse assim, trateada, mordida pelo dente tenaz de uma doença -sem misericordia? Confesso que tudo aquillo me pareceu obscuro, -incongruente, insano...</p> - -<p>Triste capitulo; passemos a outro mais alegre.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XXIV" id="CAPITULO_XXIV">CAPITULO XXIV</a></h5> - - -<h4>Curto, mas alegre</h4> - - -<p>Fiquei prostrado. E comtudo era eu, nesse tempo, um fiel compendio de -trivialidade e presumpção. Jamais o problema da vida e da morte me -opprimira o cerebro; nunca até esse dia me debruçara sobre o abysmo do -Inexplicavel; faltava-me o essencial, que é o estimulo, a vertigem...</p> - -<p>Para lhes dizer a verdade toda, eu reflectia as opiniões de um -cabelleireiro, que achei em Modena, o qual se distinguia por não as -ter absolutamente. Era a flor dois cabelleireiros; por mais demorada -que fosse a operação do toucado, não enfadava nunca; elle intercalava -as penteadelas com muitos motes e pulhas, cheios de um pico, de -um sabor... E não tinha outra philosophia. Nem eu. Não digo que a -Universidade me não tivesse ensinado alguma; mas eu decorei-lhe só -as formulas, o vocabulario, o esqueleto. Tratei-a, como tratei o -latim: embolsei tres versos de Virgilio, dous de Horacio, uma duzia -de locuções moraes e politicas, para as despezas da conversação. -Tratei-os como tratei a historia e a jurisprudencia. Colhi de todas as -cousas a phraseologia, a casca, a ornamentação, que eram para o meu -espirito, vaidoso e nu, o mesmo que, para o peito do selvagem, são as -conchas do mar e os dentes de pessoa morta.</p> - -<p>Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a -minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um -defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a -luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar -os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que -faz á consciencia; e o melhor da obrigação é quando, á força de -embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso -poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hypocrisia, que é -um vicio hediondo. Mas, na morte, que differença! que desabafo! que -liberdade! Como a gente póde sacudir fóra a capa, deitar ao fosso as -lentejoulas, despregar-se, despintar-se, desaffeitar-se, confessar -lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em summa, já não ha -visinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem extranhos; não -ha platéa. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a -virtude, logo que pisamos o territorio da morte; não digo que elle se -não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não -se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não ha nada tão -incommensuravel como o desdem dos finados.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XXV" id="CAPITULO_XXV">CAPITULO XXV</a></h5> - - -<h4>Na Tijuca</h4> - - -<p>Ui! lá me ia a penna a escorregar para o emphatico. Sejamos simples, -como era simples a vida que levei na Tijuca, durante as primeiras -semanas depois da morte de minha mãe.</p> - -<p>No setimo dia, acabada a missa funebre, travei de uma espingarda, -alguns livros, roupa, charutos, um moleque,—o Prudencio da capitulo -XI,—e fui metter-me n'uma velha, casa de nossa propriedade. Meu -pae forcejou por me torcer a resolução, mas eu é que não podia nem -queria obedecer-lhe. Sabina desejava que eu fosse morar com ella algum -tempo,—duas semanas, ao menos; meu cunhado esteve a ponto de me levar -á fina força. Era um bom rapaz este Cotrim; passára de estroina a -circumspecto. Agora commerciava em generos de estiva, labutava de manhã -até á noite, com ardor, com perseverança. De noite, sentado á janella, -a encaracolar as suiças, não pensava em outra cousa. Amava a mulher e -um filho, que então tinha, e que lhe morreu alguns annos depois. Diziam -que era avaro.</p> - -<p>Renunciei tudo; tinha o espirito attonito. Creio que por então é -que começou a desabotoar em mim a hypocondria, essa flor amarella, -solitaria e morbida, de um cheiro inebriante e subtil.—«Que bom -que é estar triste e não dizer cousa nenhuma!»—Quando esta palavra -de Shakespeare me chamou a attenção, confesso que senti em mim um -echo, um echo delicioso. Lembra-me que estava sentado, debaixo de um -tamarineiro, com o livro do poeta aberto nas mãos, e o espirito ainda -mais cabisbaixo do que a figura,—ou jururú, como dizemos das gallinhas -tristes. Apertava ao peito a minha dor taciturna, com uma sensação -unica, uma cousa a que poderia chamar volupia do aborrecimento. Volupia -do aborrecimento: decora esta expressão, leitor; guarda-a, examina-a, -e se não chegares a entendel-a, podes concluir que ignoras uma das -sensações mais subtis desse mundo e daquelle tempo.</p> - -<p>Ás vezes caçava, outras dormia, outras lia,—lia muito,—outras emfim -não fazia nada; deixava-me atoar de idéa em idéa, de imaginação em -imaginação, como uma borboleta vadia ou faminta; e as horas iam -pingando uma a uma, o sol cahia, as sombras da noite velavam a montanha -e a cidade. Ninguem me visitava; recommendei expressamente que me -deixassem só. Um dia, dous dias, tres dias, uma semana inteira passada -assim, sem dizer palavra, era bastante para sacudir-me da Tijuca fóra -e restituir-me ao bulicio. Com effeito, ao cabo de sete dias, estava -farto da solidão; a dor applacára; o espirito já se não contentava com -o uso da espingarda e dos livros, nem com a vista do arvoredo e do céu. -Reagia a mocidade, era preciso viver. Metti no bahú o problema da vida -e da morte, os hypocondriacos do poeta, as camisas, as meditações, as -gravatas, e ia fechal-o, quando o moleque Prudencio me disse que uma -pessoa do meu conhecimento se mudára na vespera para uma casa roxa, -situada a duzentos passos da nossa.</p> - -<p>—Quem?</p> - -<p>—Nhonhô talvez não se lembre mais de D. Eusebia...</p> - -<p>—Lembra-me... É ella?</p> - -<p>—Ella e a filha. Vieram hontem de manhã.</p> - -<p>Occorreu-me logo o episodio de 1814, e senti-me vexado; mas adverti que -os acontecimentos tinham-me dado razão. Na verdade, fôra impossivel -evitar as relações intimas do Villaça com a irmã do sargento-mór; antes -mesmo do meu embarque, já se boquejava mysteriosamente no nascimento -de uma menina. Meu tio João mandou-me dizer depois que o Villaça, ao -morrer, deixara um bom legado a D. Eusebia, cousa que deu muito que -fallar em todo o bairro. O proprio tio João, guloso de escandalos, não -tratou de outro assumpto na carta, aliás de muitas folhas. Tinham-me -dado razão os acontecimentos. Ainda porém que m'a não dessem, 1814 lá -ia longe, e, com elle, a travessura, e o Villaça, e o beijo da moita; -finalmente, nenhumas relações estreitas existiam entre mim e ella. Fiz -commigo essa reflexão e acabei de fechar o bahú.</p> - -<p>—Nhonhô não vae visitar sinhá D. Eusebia? perguntou-me o Prudencio. -Foi ella quem vestiu o corpo da minha defunta senhora.</p> - -<p>Lembrei-me que a vira, entre outras senhoras, por occasião da morte e -do enterro; ignorava porém que ella houvesse prestado a minha mãe esse -derradeiro obsequio. A ponderação do moleque era razoavel; eu devia-lhe -uma visita; determinei fazel-a immediatamente, e descer.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XXVI" id="CAPITULO_XXVI">CAPITULO XXVI</a></h5> - - -<h4>O autor hesita</h4> - - -<p>Subito ouço uma voz:—Olá, meu rapaz, isto não é vida! Era meu pae, que -chegava com duas propostas na algibeira. Sentei-me no bahú e recebi-o -sem alvoroço. Elle esteve alguns instantes de pé, a olhar para mim; -depois estendeu-me a mão com um gesto commovido:</p> - -<p>—Meu filho, conforma-te com a vontade de Deus.</p> - -<p>—Já me conformei, foi a minha resposta, e beijei-lhe a mão.</p> - -<p>Não tinha almoçado; almoçámos juntos. Nenhum de nós alludiu ao triste -motivo da minha reclusão. Uma só vez fallámos nisso, de passagem, -quando meu pae fez recahir a conversa na Regencia; foi então que -alludiu á carta de pezames que um dos Regentes lhe mandara. Trazia a -carta comsigo, já bastante amarrotada, talvez por havel-a lido a muitas -outras pessoas. Creio haver dito que era de um dos Regentes. Leu-m'a -duas vezes.</p> - -<p>—Já lhe fui agradecer este signal de consideração, concluiu meu pae, e -acho que deves ir tambem...</p> - -<p>—Eu?</p> - -<p>—Tu; é um homem notavel, faz hoje as vezes de Imperador. Demais trago -commigo uma idéa, um projecto, ou... sim, digo-te tudo; trago dous -projectos, um logar de deputado e um casamento.</p> - -<p>Meu pae disse isto com pausa, e não no mesmo tom, mas dando ás palavras -um geito e disposição, cujo fim era caval-as mais profundamente no -meu espirito. A proposta, porém, desdizia tanto das minhas sensações -ultimas, que eu cheguei a não entendel-a bem. Meu pae não fraqueou e -repetiu-a; encareceu o logar e a noiva.</p> - -<p>—Aceitas?</p> - -<p>—Não entendo de politica, disse eu depois de um instante; quanto á -noiva... deixe-me viver como um urso, que sou.</p> - -<p>—Mas os ursos casam-se, replicou elle.</p> - -<p>—Pois traga-me uma ursa. Olhe, a Ursa-Maior.</p> - -<p>Riu-se meu pae, e depois de rir, tornou a fallar serio. Era-me -necessaria a carreira politica, dizia elle, por vinte e tantas razões, -que deduziu com singular volubilidade, illustrando-as com exemplos -de pessoas do nosso conhecimento. Quanto á noiva, bastava que eu a -visse; se a visse, iria logo pedil-a ao pae, logo, sem demora de um -dia. Experimentou assim a fascinação, depois a persuasão, depois a -intimação; eu não dava resposta, afiava a ponta de um palito ou fazia -bolas de miolo de pão, a sorrir ou a reflectir; e, para tudo dizer, nem -docil nem rebelde á proposta. Sentia-me aturdido. Uma parte de mim -mesmo dizia que sim, que uma esposa formosa e uma posição politica eram -bens dignos de apreço; outra dizia que não; e a morte de minha mãe me -apparecia como um exemplo da fragilidade das cousas, das affeições, da -familia...</p> - -<p>—Não vou daqui sem uma resposta definitiva, disse meu pae. -De-fi-ni-ti-va! repetiu, batendo as syllabas com o dedo.</p> - -<p>Bebeu o ultimo gole de café; repotreou-se, e entrou a fallar de tudo, -do senado, da camara, da Regencia, da restauração, do Evaristo, de um -coche que pretendia comprar, da nossa casa de Matta-cavallos... Eu -deixava-me estar ao canto da mesa, a escrever desvairadamente n'um -pedaço de papel, com uma ponta de lapis; traçava uma palavra, uma -phrase, um verso, um nariz, um triangulo, e repetia-os muitas vezes, -sem ordem, ao acaso, assim:</p> - -<p style="margin-left: 10%;"> -<span style="margin-left: 12.5em;">arma virumque cano</span><br /> -<span style="margin-left: 2.5em;">A</span><br /> -<span style="margin-left: 2.5em;">Arma virumque cano</span><br /> -<span style="margin-left: 7.5em;">arma virumque cano</span><br /> -<span style="margin-left: 5em;">arma virumque</span><br /> -<span style="margin-left: 12.5em;">arma virumque cano</span><br /> -<span style="margin-left: 7.5em;">virumque</span><br /> -</p> - -<p>Machinalmente tudo isto; e, não obstante, havia certa logica, certa -deducção; por exemplo, foi o <i>virumque</i> que me fez chegar ao nome -do proprio poeta, por causa da primeira syllaba; ia a escrever -<i>virumque</i>—e sae-me <i>Virgilio</i>, então continuei:</p> - -<pre style="margin-left: 10%; font-size: 1.1em;"> - Vir Virgilio - Virgilio Virgilio - Virgilio - Virgilio -</pre> - -<p>Meu pae, um pouco despeitado com aquella indifferença, ergueu-se, veiu -a mim, lançou os olhos ao papel...</p> - -<p>—Virgilio! exclamou. És tu, meu rapaz; a tua noiva chama-se justamente -Virgilia.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XXVII" id="CAPITULO_XXVII">CAPITULO XXVII</a></h5> - - -<h4>Virgilia?</h4> - - -<p>Virgilia? Mas então era a mesma senhora que alguns annos depois...? A -mesma; era justamente a senhora, que em 1869 devia assistir aos meus -ultimos dias, e que antes, muito antes, teve larga parte nas minhas -mais intimas sensações. Naquelle tempo contava apenas uns quinze ou -dezeseis annos, e era talvez a mais atrevida creatura da nossa raça, -e, com certeza, a mais voluntariosa. Não digo que já lhe coubesse -a primazia da belleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto não -é romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos -ás sardas e espinhas; mas tambem não digo que lhe maculasse o rosto -nenhuma sarda ou espinha; não. Era bonita, fresca, sahia das mãos da -natureza, cheia daquelle feitiço, precario e eterno, que o individuo -passa a outro individuo, para os fins secretos da creação. Era isto -Virgilia, e era clara, muito clara, faceira, ignorante, pueril, cheia -de uns impetos mysteriosos; muita preguiça e alguma devoção,—devoção, -ou talvez medo; creio que medo.</p> - -<p>Ahi tem o leitor, em poucas linhas, o retrato physico e moral da pessoa -que devia influir mais tarde na minha vida; era aquillo com dezeseis -annos. Tu que me lês, se ainda fores viva, quando estas paginas vierem -á luz,—tu que me lês, Virgilia amada, não reparas na differença entre -a linguagem de hoje e a que primeiro empreguei quando te vi? Crê que -era tão sincero então como agora; a morte não me tornou rabujento, nem -injusto.</p> - -<p>—Mas, dirás tu, se você não guardou na retina da memoria a imagem do -que fui, como é que póde assim discernir a verdade daquelle tempo, e -exprimil-a depois de tantos annos?</p> - -<p>Ah! indiscreta! ah! ignorantona! Mas é isso mesmo que nos faz -senhores da terra, é esse poder de restaurar o passado, para tocar a -instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos nossos affectos. -Deixa lá dizer o Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é -uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, -que corrige a anterior, e que será corrigida tambem, até a edição -definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XXVIII" id="CAPITULO_XXVIII">CAPITULO XXVIII</a></h5> - - -<h4>Contanto que...</h4> - - -<p>—Virgilia? interrompi eu.</p> - -<p>—Sim, senhor; é o nome da noiva. Um anjo, meu pateta, um anjo sem -azas. Imagina uma moça assim, desta altura, viva como um azougue, e uns -olhos... filha do Dutra...</p> - -<p>—Que Dutra?</p> - -<p>—O Conselheiro Dutra; não conheces; uma influencia politica. Vamos lá; -aceitas?</p> - -<p>Não respondi logo; fitei por alguns segundos a ponta do botim; declarei -depois que estava disposto a examinar as duas cousas, a candidatura e o -casamento, comtanto que...</p> - -<p>—Comtanto que?</p> - -<p>—Comtanto que não fique obrigado a aceitar as duas; creio que posso -ser separadamente homem casado ou homem publico...</p> - -<p>—Todo o homem publico deve ser casado, interrompeu sentenciosamente -meu pae. Mas seja como queres; estou por tudo; fico certo de que a -vista fará fé. Demais, a noiva e o casamento são a mesma cousa... isto -é, não... saberás depois... Vá; aceito a dilação, comtanto que...</p> - -<p>—Comtanto que?.. interrompi eu imitando-lhe a voz.</p> - -<p>—Ah! brejeiro! Comtanto que não te deixes ficar ahi inutil, obscuro, -e triste; não gastei dinheiro, cuidados, empenhos, para te não ver -brilhar, como deves, e te convem, e a todos nós; é preciso continuar -o nosso nome, continual-o e illustral-o ainda mais. Olha, estou com -sessenta annos, mas se fosse necessario começar vida nova, começava-a -sem hesitar um só minuto. Teme a obscuridade, Braz; foge do que é -infimo. Olha que os homens valem por differentes modos, e que o mais -seguro de todos é valer pela opinião dos outros homens. Não estragues -as vantagens da tua posição, os teus meios...</p> - -<p>E foi por deante o magico, a agitar deante de mim um chocalho, como me -faziam, em pequeno, para eu andar depressa, e a flor da hypocondria -recolheu-se ao botão para deixar a outra flor menos amarella, e nada -morbida,—o amor da nomeada, o emplasto Braz Cubas.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XXIX" id="CAPITULO_XXIX">CAPITULO XXIX</a></h5> - - -<h4>A visita</h4> - - -<p>Vencera meu pae; dispuz-me a aceitar o diploma e o casamento, Virgilia -e a camara dos deputados.—As duas Virgilias, disse elle n'um assomo -de ternura politica. Aceitei-os; meu pae deu-me dous fortes abraços. -Era o seu proprio sangue que elle, emfim, reconhecia. Rigorosamente, -o filho delle acabava de desembarcar naquelle instante, de rodaque de -linho e mãos nos bolsos. Havia então nos olhos de meu pae alguma cousa -do velho Cid; era a alma que colligira n'uma só flamma todas as ultimas -scentelhas.</p> - -<p>—Desces commigo?</p> - -<p>—Desço amanhã. Vou fazer primeiramente uma visita a D. Eusebia...</p> - -<p>Meu pae torceu o nariz, mas não disse nada; despediu-se e desceu. Eu, -na tarde desse mesmo dia, fui visitar D. Eusebia. Achei-a a reprehender -um preto jardineiro, mas deixou tudo para vir fallar-me, com um -alvoroço, um prazer tão sincero, que me desacanhou logo. Creio que -chegou a cingir-me com o seu par de braços robustos. Fez-me sentar ao -pé de si, na varanda, entre muitas exclamações de contentamento:</p> - -<p>—Ora, o Brázinho! Um homem! Quem diria, ha annos... Um homemzarrão! E -bonito! Qual! Você não se lembra bem de mim...</p> - -<p>Disse-lhe que sim, que não era possivel esquecer uma amiga tão -familiar de nossa casa. D. Eusebia começou a fallar de minha mãe, com -muitas saudades, com tantas saudades, que me captivou logo, posto -me entristecesse. Ella percebeu-o nos meus olhos, e torceu a rédea -á conversação; pediu-me que lhe contasse a viagem, os estudos, os -namoros... Sim, os namoros tambem; confessou-me que era uma velha -patusca. Nisto recordei-me do episodio de 1814, ella, o Villaça, a -moita, o beijo, o meu grito; e estando a recordal-o, ouço um ranger de -porta, um farfalhar de saias e esta palavra:</p> - -<p>—Mamãe... mamãe...</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XXX" id="CAPITULO_XXX">CAPITULO XXX</a></h5> - - -<h4>A flor da moita</h4> - - -<p>A voz e as saias pertenciam a uma mocinha morena, que se deteve á -porta, alguns instantes, ao ver gente extranha. Silencio curto e -constrangido. D. Eusebia quebrou-o, enfim, com resolução e franqueza:</p> - -<p>—Vem cá, Eugenia, disse ella, comprimenta o Dr. Braz Cubas, filho do -Sr. Cubas; veiu da Europa.</p> - -<p>E voltando-se para mim:</p> - -<p>—Minha filha Eugenia.</p> - -<p>Eugenia, a flor da moita, mal respondeu ao gesto de cortezia que lhe -fiz; olhou-me admirada e acanhada, e lentamente se aproximou da cadeira -da mãe. A mãe arranjou-lhe uma das tranças do cabello, cuja ponta se -desmanchara.—Ah! travessa! dizia. Não imagina, doutor, o que isto -é... E beijou-a com tão expansiva ternura que me commoveu um pouco; -lembrou-me minha mãe, e,—direi tudo,—tive umas cocegas de ser pae.</p> - -<p>—Travêssa? disse eu. Pois já não está em edade propria, ao que parece.</p> - -<p>—Quantos lhe dá?</p> - -<p>—Dezesete.</p> - -<p>—Menos um.</p> - -<p>—Dezeseis. Pois então! é uma moça.</p> - -<p>Não pôde Eugenia encobrir a satisfação que sentia com esta minha -palavra, mas emendou-se logo, e ficou como d'antes, erecta, fria e -muda. Na verdade, ella parecia ainda mais mulher do que era; seria -criança nos seus folgares de moça; mas assim quieta, impassivel, -tinha a compostura da mulher casada. Talvez essa circumstancia lhe -diminuia um pouco da graça virginal. Depressa nos familiarisámos; a mãe -fazia-lhe grandes elogios, eu escutava-os de boa sombra; e ella sorria, -com os olhos fulgidos, como se lá dentro do cerebro lhe estivesse a -voar uma borboletinha de azas de ouro e olhos de diamante...</p> - -<p>Digo lá dentro, porque cá fóra o que esvoaçou foi uma borboleta preta, -que subitamente penetrou na varanda, e começou a bater as azas em -derredor de D. Eusebia. D. Eusebia deu um grito, levantou-se, praguejou -umas palavras soltas:—T'esconjuro!... sáe, diabo!... Virgem Nossa -Senhora!...</p> - -<p>—Não tenha medo, disse eu; e, tirando o lenço, expelli a borboleta. D. -Eusebia sentou-se outra vez, offegante, um pouco envergonhada; a filha, -pode ser que pallida de medo, dissimulava a impressão com muita força -de vontade. Apertei-lhes a mão e saí, a rir commigo da superstição -das duas mulheres, um rir philosophico, desinteressado, superior. -De tarde, vi passar a cavallo a filha de D. Eusebia, seguida de um -pagem; fez-me um comprimento com a ponta do chicote; e confesso que me -lisongeei com a idéa de que, alguns passos adeante, ella voltaria a -cabeça para traz; mas não voltou.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XXXI" id="CAPITULO_XXXI">CAPITULO XXXI</a></h5> - - -<h4>A borboleta preta</h4> - - -<p>No dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou -no meu quarto uma borboleta, tão negra como a outra, e muito maior do -que ella. Lembrou-me o caso da vespera, e ri-me; entrei logo a pensar -na filha de D. Eusebia, no susto que tivera, e na dignidade que, apezar -delle, soube conservar. A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno -de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ella foi pousar na vidraça; e, -porque eu a sacudisse de novo, saíu dalli e veiu parar em cima de um -velho retrato de meu pae. Era negra como a noite; e o gesto brando -com que, uma vez posta, começou a mover as azas, tinha um certo ar -escarninho, uma especie de ironia mephistophelica, que me aborreceu -muito. Dei de hombros, saí do quarto; mas tornando lá, minutos depois, -e achando-a ainda no mesmo logar, senti um repellão dos nervos, lancei -mão de uma toalha, bati-lhe e ella caíu.</p> - -<p>Não caíu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. -Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depol-a no peitoril da -janella. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei -um pouco aborrecido, incommodado.</p> - -<p>—Tambem porque diabo não era ella azul? disse eu commigo.</p> - -<p>E esta reflexão,—uma das mais profundas que se tem feito, desde a -invenção das borboletas,—me consolou do maleficio, e me reconciliou -commigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadaver, com alguma -sympathia, confesso. Imaginei que ella saíra do mato, almoçada e feliz. -A manhã era linda. Veiu por alli fóra, modesta e negra, espairecendo -as suas borboletices sob a vasta cupula de um céo azul, que é sempre -azul, para todas as azas. Passa pela minha janella, entra e dá commigo. -Supponho que nunca teria visto um homem; não sabia, portanto, o que era -o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que -me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura -collossal. Então disse comsigo: «Este é provavelmente o inventor das -borboletas.» A idéa subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é tambem -suggestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu creador -era beijal-o na testa; e ella beijou-me na testa. Quando enxotada por -mim, foi pousar na vidraça, viu dalli o retrato de meu pae, e não é -impossivel que descobrisse meia verdade, a saber, que estava alli o pae -do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericordia.</p> - -<p>Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a immensidade -azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra -uma toalha de rosto, dous palmos de linho crú. Vejam como é bom ser -superior ás borboletas! Porque, é justo dizel-o, se ella fosse azul, -ou cor de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossivel -que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. Não -era. Esta ultima idéa restituiu-me a consolação, uni o dedo grande ao -polegar, despedi um piparote e o cadaver caiu no jardim. Era tempo; ahi -vinham já as providas formigas... Não, volto á primeira idéa; creio que -para ella era melhor ter nascido azul.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XXXII" id="CAPITULO_XXXII">CAPITULO XXXII</a></h5> - - -<h4>Coxa de nascença</h4> - - -<p>Fui dalli acabar os preparativos da viagem. Já agora não me demoro -mais. Desço immediatamente; desço ainda que algum leitor circumspecto -me detenha para perguntar se o capitulo passado é apenas uma sensaboria -ou se chega a empulhação... Ai de mim! Não contava com D. Eusebia. -Estava prompto, quando me entrou por casa. Vinha convidar-me para -transferir a descida, e ir lá jantar nesse dia. Cheguei a recusar; mas -instou tanto, tanto, tanto, que não pude deixar de aceitar; demais, -era-lhe devida aquella compensação; fui.</p> - -<p>Eugenia desataviou-se nesse dia por minha causa. Creio que foi por -minha causa,—se é que não andava muita vez assim. Nem as bichas de -ouro, que trazia na vespera, lhe pendiam agora das orelhas, duas -orelhas finamente recortadas n'uma cabeça de nympha. Um simples vestido -branco, de cassa, sem enfeites, tendo ao collo, em vez de broche, um -botão de madreperola, e outro botão nos punhos, fechando as mangas, e -nem sombra de pulseira.</p> - -<p>Era isso no corpo; não era outra cousa no espirito. Idéas claras, -maneiras chãs, certa graça natural, um ar de senhora, e não sei se -alguma outra cousa; sim, a boca, exactamente a boca da mãe, a qual me -lembrava o episodio de 1814, e então dava-me impetos de glosar o mesmo -mote á filha...</p> - -<p>—Agora vou mostrar-lhe a chacara, disse a mãe, logo que exgotámos o -ultimo gole de café.</p> - -<p>Saímos á varanda, dalli á chacara; e foi então que notei uma -circumstancia. Eugenia coxeava um pouco, tão pouco, que eu cheguei a -perguntar-lhe se machucara o pé. A mãe calou-se; a filha respondeu sem -titubear:</p> - -<p>—Não, senhor, sou coxa de nascença.</p> - -<p>Mandei-me a todos os diabos; chamei-me desastrado, grosseirão. Com -effeito, a simples possibilidade de ser coxa era bastante para lhe -não perguntar nada. Então lembrou-me que da primeira vez que a vi na -vespera—a moça chegára-se lentamente á cadeira da mãe, e que naquelle -dia já a achei á mesa de jantar. Talvez fosse para encobrir o defeito; -mas por que razão o confessava agora? Olhei para ella e reparei que ia -triste.</p> - -<p>Tratei de apagar os vestigios de meu desaso;—não me foi difficil, por -que a mãe era, segundo confessára, uma velha patusca, e promptamente -travou de conversa commigo. Vimos toda a chacara, arvores, flores, -tanque de patos, tanque de lavar, uma infinidade de cousas, que ella me -ia mostrando, e commentando, ao passo que eu, de soslaio, perscrutava -os olhos de Eugenia...</p> - -<p>Palavra que o olhar de Eugenia não era coxo, mas direito, perfeitamente -são; vinha de uns olhos pretos e tranquillos. Creio que duas ou tres -vezes baixaram elles a terra, um pouco turvados; mas duas ou tres -vezes sómente; em geral, fitavam-me com franqueza, sem temeridade, nem -biocos.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XXXIII" id="CAPITULO_XXXIII">CAPITULO XXXIII</a></h5> - - -<h4>Bemaventurados os que não descem</h4> - - -<p>O peor é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma -compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a -natureza é ás vezes um immenso escarneo. Porque bonita, se coxa? porque -coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo -ao voltar para casa, de noite; e não atinava com a solução do enigma. -O melhor que ha, quando se não resolve um enigma, é sacudil-o pela -janella fóra; foi o que eu fiz; lancei mão de uma toalha e enxotei essa -outra borboleta preta, que me adejava no cerebro. Fiquei alliviado e -fui dormir. Mas o sonho, que é uma fresta do espirito, deixou novamente -entrar o bichinho, e ahi fiquei eu a noite toda a cavar o mysterio, sem -explical-o.</p> - -<p>Amanheceu chovendo, transferi a descida; mas no outro dia, a manhã -era limpida e azul, e apezar disso deixei-me ficar, não menos que -no terceiro dia, e no quarto, até o fim da semana. Manhãs bonitas, -frescas, convidativas; lá em baixo a familia a chamar-me, e a noiva, e -o parlamento, e eu sem acudir a cousa nenhuma, enlevado ao pé da minha -Venus Manca. Enlevado é uma maneira de realçar o estylo; não havia -enlevo, mas gosto, uma certa satisfação physica e moral. Queria-lhe, -é verdade; ao pé dessa creatura tão singela, filha espuria e coxa, -feita de amor e desprezo, ao pé della sentia-me bem, e ella creio que -ainda se sentia melhor ao pé de mim. E isto na Tijuca. Uma simples -egloga. D. Eusebia vigiava-nos, mas pouco; temperava a necessidade -com a conveniencia; e a filha, nessa primeira explosão da natureza, -entregava-me a alma em flôr.</p> - -<p>—O senhor desce amanhã? disse-me ella no sabbado.</p> - -<p>—Pretendo.</p> - -<p>—Não desça.</p> - -<p>Não desci; e accrescentei um versiculo ao Evangelho:—Bemaventurados -os que não descem, porque delles é o primeiro beijo das damas. Com -effeito, foi no domingo esse primeiro beijo de Eugenia,—o primeiro que -nenhum outro varão jámais lhe tomára, e não furtado ou arrebatado, mas -candidamente entregue, como um devedor honesto paga uma divida. Pobre -Eugenia! Se tu soubesses que idéas me vagavam pela mente fóra n'aquella -occasião! Tu, tremula de commoção, com os braços nos meus hombros, a -contemplar em mim o teu bemvindo esposo, e eu com os olhos em 1814, na -moita, no Villaça, e a suspeitar que não podias mentir ao teu sangue, á -tua origem...</p> - -<p>D. Eusebia entrou inesperadamente, mas não tão subita, que nos -apanhasse ao pé um do outro. Eu fui até á janella: Eugenia sentou-se a -concertar uma das tranças. Que dissimulação graciosa! que arte infinita -e delicada! que tartufice profunda! e tudo isso natural vivo, não -estudado, natural como o appetite, natural como o somno. Tanto melhor! -D. Eusebia não suspeitou nada.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XXXIV" id="CAPITULO_XXXIV">CAPITULO XXXIV</a></h5> - - -<h4>A uma alma sensivel</h4> - - -<p>Ha ahi, entre as cinco ou dez pessoas que me leem, ha ahi uma alma -sensivel, que está de certo um pouquito agastada com o capitulo -anterior, começa a tremer pela sorte de Eugenia, e talvez... sim, -talvez, lá no fundo de si mesma, me chame cynico. Eu cynico, alma -sensivel? Pela coxa de Diana! esta injuria merecia ser lavada com -sangue, se o sangue lavasse alguma cousa nesse mundo. Não, alma -sensivel, eu não sou cynico, eu fui homem; meu cerebro foi um tablado -em que se deram peças de todo o genero, o drama sacro, o austero, o -piegas, a comedia louçã, a desgrenhada farça, os autos, as bufonerias, -um pandemonium, alma sensivel, uma barafunda de cousas e pessoas, -em que podias ver tudo, desde a rosa de Smyrna até a arruda do teu -quintal, desde o magnifico leito de Cleopatra até o recanto da praia -em que o mendigo tirita o seu somno. Cruzavam-se nelle pensamentos -de varia casta e feição. Não havia alli a atmosphera sómente da aguia -e do beija-flor, havia tambem a da lesma e do sapo. Retira, pois, a -expressão, alma sensivel, castiga os nervos, limpa os oculos,—que isso -ás vezes é dos oculos,—e acabemos de uma vez com esta flor da moita.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XXXV" id="CAPITULO_XXXV">CAPITULO XXXV</a></h5> - - -<h4>O caminho de damasco</h4> - - -<p>Ora aconteceu, que, oito dias depois, como eu estivesse no caminho -de Damasco, ouvi uma voz mysteriosa, que me sussurrou as palavras da -Escriptura (<i>Act.</i>, IX, 7): «Levanta-te, e entra na cidade.» Essa voz -saia de mim mesmo, e tinha duas origens: a piedade, que me desarmava -ante a candura da pequena, e o terror de vir a amar devéras, e -desposal-a. Uma mulher coxa! Quanto a este motivo da minha descida, não -ha duvidar que ella o achou e m'o disse. Foi na varanda, na tarde de -uma segunda-feira, ao annunciar-lhe que na seguinte manhã viria para -baixo.—Adeus, suspirou ella estendendo-me a mão com simplicidade; faz -bem.—E como eu nada dissesse, continuou:—Faz bem em fugir ao ridiculo -de casar commigo. Ia dizer-lhe que não; ella retirou-se lentamente, -engolindo as lagrimas. Alcancei-a a poucos passos, e jurei-lhe por -todos os santos do ceu que eu era obrigado a descer, mas que não -deixava de lhe querer e muito; tudo hyperboles frias, que ella escutou -sem dizer nada.</p> - -<p>—Acredita-me? perguntei eu no fim.</p> - -<p>—Não; e digo-lhe que faz bem.</p> - -<p>Quiz retel-a, mas o olhar que me lançou não foi já de supplica, senão -de imperio. Eu desci da Tijuca, na manhã seguinte, um pouco amargurado, -outro pouco satisfeito; e vinha dizendo a mim mesmo que era justo -obedecer a meu pae, que era conveniente abraçar a carreira politica... -que a constituição... que a minha noiva... que o meu cavallo...</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XXXVI" id="CAPITULO_XXXVI">CAPITULO XXXVI</a></h5> - - -<h4>A proposito de botas</h4> - - -<p>Meu pae, que me não esperava, abraçou-me cheio de ternura e -agradecimento.—Agora é devéras? disse elle. Posso emfim....?</p> - -<p>Deixei-o nessa reticencia, e fui descalçar as botas, que estavam -apertadas. Uma vez alliviado, respirei á larga, e deitei-me a fio -comprido, emquanto os pés, e todo eu atraz delles, entravamos n'uma -relativa bem-aventurança. Então considerei que as botas apertadas -são uma das maiores venturas da terra, porque, fazendo doer os pés, -dão azo ao prazer de as descalçar. Mortifica os pés, desgraçado, -desmortifica-os depois, e ahi tens a felicidade barata, ao sabor dos -sapateiros e de Epicuro. Emquanto esta idéa me trabalhava no famoso -trapezio, lançava eu os olhos para a Tijuca, e via a aleijadinha -perder-se no horizonte do preterito, e sentia que o meu coração não -tardaria tambem a descalçar as suas botas. E descalçou-as o lascivo. -Quatro ou cinco dias depois, saboreava esse rapido, ineffavel e -incoercivel momento de gozo, que succede a uma dôr pungente, a uma -preoccupação, a um incommodo... Daqui inferi eu que a vida é o mais -engenhoso dos phenomenos, porque só aguça a fome, com o fim de deparar -a occasião de comer, e não inventou os callos, senão porque elles -aperfeiçoam a felicidade terrestre. Em verdade vos digo que toda a -sabedoria humana não vale um par de botas curtas.</p> - -<p>Tu, minha Eugenia, é que não as descalçaste nunca; foste ahi pela -estrada da vida, manquejando da perna e do amor, triste como os -enterros pobres, solitaria, calada, laboriosa, até que vieste tambem -para esta outra margem... O que eu não sei é se a tua existencia era -muito necessaria ao seculo. Quem sabe? Talvez um comparsa de menos -fizesse patear a tragedia humana.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XXXVII" id="CAPITULO_XXXVII">CAPITULO XXXVII</a></h5> - - -<h4>Emfim</h4> - - -<p>Emfim! eis aqui Virgilia. Antes de ir á casa do Conselheiro Dutra, -perguntei a meu pae se havia algum ajuste prévio de casamento.</p> - -<p>—Nenhum ajuste. Ha tempos, conversando com elle a teu respeito, -confessei-lhe o desejo que tinha de te ver deputado; e de tal modo -fallei, que elle prometteu fazer alguma cousa, e creio que o fará. -Quanto á noiva, é o nome que dou a uma creaturinha, que é uma joia, uma -flôr, uma estrella, uma cousa rara... é a filha delle; imaginei que, se -casasses com ella, mais depressa serias deputado.</p> - -<p>—Só isto?</p> - -<p>—Só isto.</p> - -<p>Fomos dalli á casa do Dutra. Era uma perola esse homem, risonho, -jovial, patriota, um pouco irritado com os males publicos, mas não -desesperando de os curar depressa. Achou que a minha candidatura era -legitima; convinha, porém, esperar alguns mezes. E logo me apresentou á -mulher,—uma estimavel senhora,—e á filha, que não desmentiu em nada -o panegyrico de meu pae. Juro-vos que em nada. Relêde o Cap. XXVIII. -Eu, que levava idéas a respeito da pequena, fitei-a de certo modo; -ella, que não sei se as tinha, não me fitou de modo differente; e o -nosso olhar primeiro foi pura e simplesmente conjugal. No fim de um mez -estavamos intimos.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XXXVIII" id="CAPITULO_XXXVIII">CAPITULO XXXVIII</a></h5> - - -<h4>A quarta edição</h4> - - -<p>—Venha cá jantar amanhã, disse-me o Dutra uma noite.</p> - -<p>Aceitei o convite. No dia seguinte, mandei que a sege me esperasse no -largo de S. Francisco de Paula, e fui dar varias voltas. Lembra-vos -ainda a minha theoria das edições humanas? Pois sabei que, naquelle -tempo, estava eu na quarta edição, revista e emendada, mas ainda -inçada de descuidos e barbarismos; defeito que, aliás, achava alguma -compensação no typo, que era elegante, e na encadernação, que era -luxuosa. Dadas as voltas, ao passar pela rua dos Ourives, consulto o -relogio e cáe-me o vidro na calçada. Entro na primeira loja que tinha á -mão; era um cubiculo,—pouco mais,—empoeirado e escuro.</p> - -<p>Ao fundo, por traz do balcão, estava sentada uma mulher, cujo rosto -amarello e bexiguento não se destacava logo, á primeira vista; mas logo -que se destacava era um expectaculo curioso. Não podia ter sido feia; -ao contrario, via-se que fora bonita, e não pouco bonita; mas a doença -e uma velhice precoce, destruiram-lhe a flor das graças. As bexigas -tinham sido terriveis; os signaes, grandes e muitos, faziam saliencias -e encarnas, declives e acclives; e davam uma sensação de lixa grossa, -enormemente grossa. Eram os olhos a melhor parte do vulto, e aliás -tinham uma expressão singular e repugnante, que mudou, entretanto, logo -que eu comecei a fallar. Quanto ao cabello, penteado ao desdem, estava -ruço e quasi tão poento como os portaes do loja. N'um dos dedos da mão -esquerda fulgia-lhe um diamante. Crel-o-heis, posteros? essa mulher era -Marcella.</p> - -<p>Não a conheci logo; era difficil; ella porém conheceu-me apenas lhe -dirigi a palavra. Os olhos chisparam e trocaram a expressão usual -por outra, meia doce e meia triste. Vi-lhe um movimento como para -esconder-se ou fugir; era o instincto da vaidade, que não durou mais de -um instante. Marcella accommodou-se e sorriu.</p> - -<p>—Quer comprar alguma cousa? disse ella estendendo-me a mão.</p> - -<p>Não respondi nada; Marcella comprehendeu a causa do meu silencio (não -era difficil), e só hesitou, creio eu, em decidir o que dominava -mais, se o assombro do presente, se a memoria do passado. Deu-me uma -cadeira, e, com o balcão permeio, fallou-me longamente de si, da vida -que levára, das lagrimas que eu lhe fizera verter, das saudades, dos -desastres, emfim das bexigas, que lhe escalavraram o rosto, e do -tempo, que ajudou a molestia, adiantando-lhe a decadencia. Verdade é -que tinha a alma decrepita. Vendera tudo, quasi tudo; um homem, que a -amára outr'ora, e lhe morreu nos braços, deixara-lhe aquella loja de -ourivesaria, mas, para que a desgraça fosse completa, era agora pouco -buscada a loja—talvez pela singularidade de a dirigir uma mulher. Em -seguida pediu-me que lhe contasse a minha vida. Gastei pouco tempo em -dizer-ll'a; não era longa, nem interessante.</p> - -<p>—Casou? disse Marcella no fim de minha narração.</p> - -<p>—Ainda não, respondi seccamente.</p> - -<p>Marcella lançou os olhos para a rua, com a atonia de quem reflecte ou -relembra; eu deixei-me ir então ao passado, e, no meio das recordações -e saudades, perguntei a mim mesmo por que motivo fizera tanto desatino. -Não era esta certamente a Marcella de 1822; mas a belleza de outro -tempo valia uma terça parte dos meus sacrificios? Era o que eu buscava -saber, interrogando o rosto de Marcella. O rosto dizia-me que não; ao -mesmo tempo os olhos me contavam que, já outr'ora, como hoje, ardia -nelles a flamma da cobiça. Os meus é que não souberam ver-lh'a; eram -olhos da primeira edição.</p> - -<p>—Mas por que entrou aqui? viu-me da rua? porguntou ella, saindo -daquella especie de torpor.</p> - -<p>—Não, suppunha entrar n'uma casa de relojoeiro; queria comprar um -vidro para este relogio; vou a outra parte; desculpe-me; tenho pressa.</p> - -<p>Marcella suspirou com tristeza. A verdade é que eu me sentia pungido -e aborrecido, ao mesmo tempo, e anciava por me ver fóra daquella casa. -Marcella, entretanto, chamou um moleque, deu-lhe o relogio, e, apezar -da minha opposição, mandou-o, a uma loja na visinhança, comprar o -vidro. Não havia remedio; sentei-me outra vez. Disse ella então que -desejava ter a protecção dos conhecidos de outro tempo; ponderou que -mais tarde ou mais cedo era natural que me casasse, e afiançou que me -daria finas joias por preços baratos. Não disse <i>preços baratos</i>, mas -usou uma metaphora delicada e transparente. Entrei a desconfiar que -não padecera nenhum desastre (salvo a molestia), que tinha o dinheiro -a bom recado, e que negociava com o unico fim de acudir á paixão do -lucro, que era o verme roedor daquella existencia; foi isso mesmo que -me disseram depois.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XXXIX" id="CAPITULO_XXXIX">CAPITULO XXXIX</a></h5> - - -<h4>O visinho</h4> - - -<p>Emquanto eu fazia commigo mesmo aquella reflexão, entrou na loja um -sujeito baixo, sem chapeu, trazendo pela mão uma menina de quatro annos.</p> - -<p>—Como passou de hoje de manhã? disse elle a Marcella.</p> - -<p>—Assim, assim. Vem cá, Maricota.</p> - -<p>O sujeito levantou a criança pelos braços e passou-a para dentro do -balcão.</p> - -<p>—Anda, disse elle; pergunta a D. Marcella como passou a noite. Estava -anciosa por vir cá, mas a mãe não tinha podido vestil-a... Então, -Maricota? Toma a benção. .. Olha a vara de marmelo! Assim... Não -imagina o que ella é lá em casa; falla na senhora a todos os instantes, -e aqui parece uma pamonha. Ainda hontem... Digo, Maricota?</p> - -<p>—Não, diga, não, papae.</p> - -<p>—Então foi alguma cousa feia? perguntou Marcella batendo na cara da -menina.</p> - -<p>—Eu lhe digo; a mãe ensina-lhe a rezar todas as noites um padre-nosso -e uma ave-maria, offerecidos a Nossa Senhora; mas a pequena hontem -veiu pedir-me com voz muito humilde... imagine o que?... que queria -offerecel-os a Santa Marcella.</p> - -<p>—Coitadinha! disse Marcella beijando-a.</p> - -<p>—É um namoro, uma paixão, como a senhora não imagina ... A mãe diz que -é feitiço...</p> - -<p>Contou mais algumas cousas o sujeito, todas mui agradaveis, até que -saíu levando a menina, não sem deitar-me um olhar interrogativo ou -suspeitoso. Perguntei a Marcella quem era elle.</p> - -<p>—É um relojoeiro de visinhança, um bom homem; a mulher tambem; e a -filha é galante, não? Parecem gostar muito de mim... é boa gente.</p> - -<p>Ao proferir estas palavras havia um tremor de alegria na voz de -Marcella; e no rosto como que se lhe espraiou uma onda de ventura...</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XL" id="CAPITULO_XL">CAPITULO XL</a></h5> - - -<h4>Na sege</h4> - - -<p>Nisto entrou o moleque trazendo o relogio com o vidro novo. Era tempo; -já me custava estar alli; dei uma moedinha de prata ao moleque; disse -a Marcella que voltaria n'outra occasião, e saí a passo largo. Para -dizer tudo, devo confessar que o coração me batia um pouco; mas era -uma especie de dobre de finados. O espirito ia travado de impressões -oppostas. Notem que aquelle dia amanhecera alegre para mim. Meu pae, ao -almoço, repetiu-me, por anticipação, o primeiro discurso que eu tinha -de proferir na camara dos deputados; rimo-nos muito, e o sol tambem, -que estava brilhante, como nos mais bellos dias do mundo; do mesmo modo -que Virgilia devia rir, quando eu lhe contasse as nossas fantasias do -almoço. Vae se não quando, cáe-me o vidro do relogio; entro na primeira -loja que me fica á mão; e eis me surge o passado, eil-o que me lacera -e beija; eil-o que me interroga, com um rosto cortado de saudades e -bexigas...</p> - -<p>Lá o deixei; metti-me ás pressas na sege, que me esperava no largo -do S. Francisco de Paula, e ordenei ao boleeiro que rodasse pelas -ruas fóra. O boleeiro atiçou as bestas, a sege entrou a sacolejar-me, -as molas gemiam, as rodas sulcavam rapidamente a lama que deixara a -chuva recente, e tudo isso me parecia estar parado. Não ha, ás vezes, -um certo vento, morno que não bochorno, não forte nem aspero, mas -abafadiço, que nos não leva o chapéo da cabeça, nem rodomoinha nas -saias das mulheres, e todavia é ou parece ser peior do que se fizesse -uma e outra cousa, porque abate, afrouxa, e como que dissolve os -espiritos? Pois eu tinha esse vento commigo; e, certo de que elle me -soprava por achar-me naquella especie de garganta entre o passado e o -presente, almejava por saír á planicie do futuro. O peior é que a sege -não andava.</p> - -<p>—João, bradei eu ao boleeiro. Esta sege anda ou não anda?</p> - -<p>—Uê! nhonhô! Já estamos parados na porta de sinhô Conselheiro.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XLI" id="CAPITULO_XLI">CAPITULO XLI</a></h5> - - -<h4>A allucinação</h4> - - -<p>E era verdade. Entrei apressado; achei Virgilia anciosa, mau humor, -fronte nublada. A mãe, que era surda, estava na sala com ella. No fim -dos comprimentos disse-me a moça com sequidão:</p> - -<p>—Esperavamos que viesse mais cedo.</p> - -<p>Defendi-me do melhor modo; fallei do cavallo que empacara, e de um -amigo, que me detivera. De repente morre-me a voz nos labios, fico -tolhido de assombro. Virgilia... seria Virgilia aquella moça? Fitei-a -muito; e a sensação foi tão penosa, que recuei um passo e desviei a -vista. Tornei a olhal-a. As bexigas tinham-lhe comido o rosto; a pelle, -ainda na vespera tão fina, rosada e pura, apparecia-me agora amarella, -stigmada pelo mesmo flagello, que devastara o rosto da hespanhola. Os -olhos, que eram travessos, fizeram-se murchos; tinha o labio triste -e a attitude cançada. Olhei-a bem; peguei-lhe na mão, e chamei-a -brandamente a mim. Não me enganava; eram as bexigas. Creio que fiz um -gesto de repulsa.</p> - -<p>Virgilia afastou-se, e foi sentar-se no sophá. Eu fiquei algum tempo -a olhar para os meus proprios pés. Devia, saír ou ficar? Rejeitei o -primeiro alvitre, que era simplesmente absurdo, e encaminhei-me para -Virgilia, que lá estava sentada e calada. Ceus! Era outra vez a fresca, -a juvenil, a florida Virgilia. Em vão procurei no rosto della algum -vestigio da doença; nenhum havia; era a pelle fina e branca do costume.</p> - -<p>—Nunca me viu? perguntou Virgilia, vendo que a encarava com insistencia.</p> - -<p>—Tão bonita, nunca.</p> - -<p>Sentei-me, emquanto Virgilia, calada, fazia estalar as unhas. -Seguiram-se alguns segundos de pausa. Fallei-lhe de cousas extranhas ao -incidente; ella porém não me respondia nada, nem olhava para mim. Menos -o estalido, era a estatua do Silencio. Uma só vez me deitou os olhos, -mas muito de cima, soerguendo a pontinha esquerda do labio, contrahindo -as sobrancelhas, ao ponto de as unir; e todo esse conjuncto de cousas -dava-lhe ao rosto uma expressão media, entre comica e tragica.</p> - -<p>Havia alguma affectação naquelle desdem; era um arrebique do gesto. -Lá dentro, ella padecia, e não pouco,—ou fosse magua pura, ou só -despeito; e porque a dor que se dissimula dóe mais, é mui provavel que -Virgilia padecesse em dobro do que realmente devia padecer. Creio que -isto é metaphysica.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XLII" id="CAPITULO_XLII">CAPITULO XLII</a></h5> - - -<h4>Que escapou a Aristoteles</h4> - - -<p>Outra cousa que tambem me parece metaphysica é isto:—Dá-se movimento a -uma bola, por exemplo; róla esta, encontra outra bola, transmitte-lhe -o impulso, e eis a segunda bola a rolar como a primeira rolou. -Supponhamos que a primeira bola se chama... Marcella,—é uma simples -supposição; a segunda, Braz Cubas;—a terceira, Virgilia. Temos que -Marcella, recebendo um piparote do passado rolou até tocar em Braz -Cubas,—o qual, cedendo á força impulsiva, entrou a rolar tambem até -esbarrar em Virgilia, que não tinha nada com a primeira bola; e eis -ahi como, pela simples transmissão de uma força, se tocam os extremos -sociaes, e se estabelece uma cousa que poderemos chamar—solidariedade -do aborrecimento humano. Como é que este capitulo escapou a -Aristoteles?</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XLIII" id="CAPITULO_XLIII">CAPITULO XLIII</a></h5> - - -<h4>Marqueza, porque eu serei marquez</h4> - - -<p>Positivamente, era um diabrete Virgilia, um diabrete angelico, se -querem, mas era-o, e então...</p> - -<p>E então appareceu o Lobo Neves, um homem que não era mais esbelto -do que eu, nem mais elegante, nem mais lido, nem mais sympathico, e -todavia foi quem me arrebatou Virgilia e a candidatura, dentro de -poucas semanas, com um impeto verdadeiramente cesariano. Não precedeu -nenhum despeito; não houve a menor violencia de familia. O Dutra veiu -dizer-me, um dia, que esperasse outra aragem, porque a candidatura -de Lobo Neves era apoiada por grandes influencias. Cedi; e tal foi o -começo da minha derrota. Uma semana depois, Virgilia perguntou ao Lobo -Neves, a sorrir, quando seria elle ministro.</p> - -<p>—Pela minha vontade, ja; pela dos outros, daqui a um anno.</p> - -<p>Virgilia replicou:</p> - -<p>—Promette que algum dia me fará baroneza?</p> - -<p>—Marqueza, porque eu serei marquez.</p> - -<p>Desde então fiquei perdido. Virgilia comparou a aguia e o pavão, e -elegeu a aguia, deixando o pavão com o seu espanto, o seu despeito, e -tres ou quatro beijos que lhe dera. Talvez cinco beijos; mas dez que -fossem não queria dizer cousa nenhuma. O labio do homem não é como -a pata do cavallo de Attila que esterilisava o solo em que batia; é -justamente o contrario.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XLIV" id="CAPITULO_XLIV">CAPITULO XLIV</a></h5> - - -<h4>Um Cubas!</h4> - - -<p>Meu pae ficou attonito com o desenlace, e quer-me parecer que não -morreu de outra cousa. Eram tantos os castellos que engenhára, tantos -e tantissimos os sonhos, que não podia vel-os assim esboroados, sem -padecer um forte abalo no organismo. A principio não quiz crel-o. Um -Cubas! um galho da arvore illustre dos Cubas! E dizia isto com tal -convicção, que eu, já então informado da nossa tanoaria, esqueci um -instante a voluvel dama, para só contemplar aquelle phenomeno, não -raro, mas curioso: uma imaginação graduada em consciencia.</p> - -<p>—Um Cubas! repetia-me elle na seguinte manhã, ao almoço.</p> - -<p>Não foi alegre o almoço; eu proprio estava a caír de somno. Tinha -velado uma parte da noite. De amor? Era impossivel; não se ama duas -vezes a mesma mulher, e eu, que tinha de amar aquella, tempos depois, -não lhe estava agora preso por nenhum outro vinculo, além de uma -phantasia passageira, alguma obediencia e muita fatuidade. E isto -basta a explicar a vigilia; era despeito, um despeitosinho agudo como -ponta de alfinete, o qual se desfez, com charutos, murros, leituras -truncadas, até romper a aurora, a mais tranquilla das auroras.</p> - -<p>Mas eu era moço, tinha o remedio em mim mesmo. Meu pae é que não pôde -supportar facilmente a pancada. Pensando bem, pode ser que não morresse -precisamente do desastre; mas que o desastre lhe complicou as ultimas -dores, é positivo. Morreu dahi a quatro mezes,—acabrunhado, triste, -com uma preoccupação intensa e continua, á semelhança de remorso, um -desencanto mortal, que lhe substituiu os rheumatismos e tosses. Teve -ainda uma meia hora de alegria; foi quando um dos ministros o visitou. -Vi-lhe,—lembra-me bem,—vi-lhe o grato sorriso de outro tempo, e nos -olhos uma concentração de luz, que era, por assim dizer, o ultimo -lampejo da alma expirante. Mas a tristeza tornou logo, a tristeza de -morrer sem me ver posto em algum logar alto, como aliás me cabia.</p> - -<p>—Um Cubas!</p> - -<p>Morreu alguns dias depois da visita do ministro, uma manhã de maio, -entre os dois filhos, Sabina e eu, e mais o tio Ildefonso e meu -cunhado. Morreu sem lhe poder valer a sciencia dos medicos, nem o nosso -amor, nem os cuidados, que foram muitos, nem cousa nenhuma; tinha de -morrer, morreu.</p> - -<p>—Um Cubas!</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XLV" id="CAPITULO_XLV">CAPITULO XLV</a></h5> - - -<h4>Notas</h4> - - -<p>Soluços, lagrimas, casa armada, velludo preto nos portaes, um homem -que veiu vestir o cadaver, outro que tomou a medida do caixão, caixão, -eça, tocheiros, convites, convidados que entravam, lentamente, a passo -surdo, e apertavam a mão á familia, alguns tristes, todos serios e -calados, padre e sacristão, rezas, aspersões d'agua benta, o fechar -do caixão, a prego e martello, seis pessoas que o tomam da eça, e o -levantam, e o descem a custo pela escada, não obstante os gritos, -soluços e novas lagrimas da familia, e vão até o coche funebre, e o -collocam em cima, e traspassam e apertam as corrêas, o rodar do coche, -o rodar dos carros, um a um... Isto que parece um simples inventario, -eram notas que eu havia tomado para um capitulo extremamente -succulento, em que provava que a terra deve continuar a girar em volta -do sol; porquanto:—<i>a</i>) a natureza não inventou a morte, senão -com o fim de dar vida a algumas industrias,—armadores, segeiros, -emprezas funerarias, typographias, e outras que ella sagazmente -previu;—<i>b</i>) mortas essas industrias, pela ausencia da morte humana, -não é improvavel que viessem a morrer os respectivos industriaes; o que -dava na mesma. Mas tudo isto são apenas notas de um capitulo, que não -escrevo.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XLVI" id="CAPITULO_XLVI">CAPITULO XLVI</a></h5> - - -<h4>A herança</h4> - - -<p>Veja-nos agora o leitor, oito dias depois da morte de meu pae,—minha -irmã sentada n'um sophá,—pouco adiante, o Cotrim, de pé, encostado a -um consolo, com os braços cruzados e a morder o bigode,—eu a passeiar -de um lado para outro, com os olhos no chão. Luto pezado. Profundo -silencio.</p> - -<p>—Mas afinal, disse o Cotrim; esta casa pouco mais póde valer de trinta -contos; demos que valha trinta e cinco...</p> - -<p>—Vale cincoenta, ponderei; a Sabina sabe que custou cincoenta e oito...</p> - -<p>—Podia custar até sessenta, tornou o Cotrim; mas não se segue que -os valesse, e menos ainda que os valha hoje. Você sabe que as casas, -aqui ha annos, baixaram muito. Olhe, se esta vale os cincoenta contos, -quantos não vale a que você deseja para si, a do Campo?</p> - -<p>—Não fale nisso! Uma casa velha.</p> - -<p>—Velha! exclamou Sabina, levantando as mãos ao tecto.</p> - -<p>—Parece-lhe nova, aposto?</p> - -<p>—Ora, mano, deixe-se dessas cousas, disse Sabina, erguendo-se do -sophá; podemos arranjar tudo em boa amizade, e com lisura. Por exemplo, -o Cotrim não aceita os pretos, quer só o boleeiro de papae e o Paulo...</p> - -<p>—O boleeiro não, acudi eu; fico com a sege e não hei de ir comprar -outro.</p> - -<p>—Bem; fico com o Paulo e o Prudencio.</p> - -<p>—O Prudencio está livre.</p> - -<p>—Livre?</p> - -<p>—Ha dois annos.</p> - -<p>—Livre? Como seu pae arranjava estas cousas cá por casa, sem dar parte -a ninguem! Está direito. Quanto á prata... creio que não libertou a -prata?</p> - -<p>Tinhamos falado na prata, a velha prataria do tempo de D. José I, a -porção mais grave da herança, já pelo lavor, já pela vetustez, já pela -origem da propriedade; dizia meu pae que o conde da Cunha, quando -vice-rei do Brazil, a dera de presente a meu bisavô Luiz Cubas.</p> - -<p>—Quanto á prata, continuou o Cotrim, eu não faria questão nenhuma, -se não fosse o desejo que sua irmã tem de ficar com ella; e acho-lhe -razão. Sabina é casada, e precisa de uma copa digna, apresentavel. Você -é solteiro, não recebe, não...</p> - -<p>—Mas posso casar.</p> - -<p>—Para que? interrompeu Sabina.</p> - -<p>Era tão sublime esta pergunta, que por alguns instantes me fez esquecer -os interesses. Sorri; peguei na mão de Sabina, bati-lhe levemente na -palma, tudo isso com tão boa sombra, que o Cotrim interpretou o gesto -como de acquiescencia, e agradeceu-m'o.</p> - -<p>—Que é lá? redargui; não cedi cousa nenhuma, nem cedo.</p> - -<p>—Nem cede?</p> - -<p>Abanei a cabeça.</p> - -<p>—Deixa, Cotrim, disse minha irmã ao marido; vê se elle quer ficar -tambem com a nossa roupa do corpo; é só o que falta.</p> - -<p>—Não falta mais nada. Quer a sege, quer o boleeiro, quer a prata, -quer tudo. Olhe, é muito mais summario citar-nos a juizo e provar com -testemunhas que Sabina não é sua irmã, que eu não sou seu cunhado, e -que Deus não é Deus. Faça isto, e não perde nada, nem uma colherinha. -Ora, meu amigo, outro officio!</p> - -<p>Estava tão agastado, e eu não menos, que entendi offerecer um meio de -conciliação; dividir a prata. Riu-se e perguntou-me a quem caberia -o bule e a quem o assucareiro; e depois desta pergunta, declarou -que teriamos tempo de liquidar a pretenção, quando menos em juizo. -Entretanto, Sabina fôra até á janella que dava para a chacara,—e -depois de um instante, voltou, e propoz ceder o Paulo e outro preto, -com a condição de ficar com a prata; eu ia dizer que não me convinha, -mas o Cotrim adiantou-se e disse a mesma cousa.</p> - -<p>—Isso nunca! não faço esmolas! disse elle.</p> - -<p>Jantámos tristes. Meu tio conego appareceu á sobremeza, e ainda -presenciou uma pequena altercação.</p> - -<p>—Meus filhos, disse elle, lembrem-se que meu irmão deixou um pão bem -grande para ser repartido por todos.</p> - -<p>Mas o Cotrim:</p> - -<p>—Creio, creio. A questão, porem, não é de pão, é de manteiga. Pão -secco é que eu não engulo.</p> - -<p>Fizeram-se finalmente as partilhas, mas nós estavamos brigados. E -digo-lhes que, ainda assim, custou-me muito a brigar com Sabina. Eramos -tão amigos! Jogos pueris, furias de criança, risos e tristezas da -edade adulta, dividimos muita vez esse pão da alegria e da miseria, -irmãmente, como bons irmãos que eramos. Mas estavamos brigados. Tal -qual a belleza de Marcella, que se esvaiu com as bexigas.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XLVII" id="CAPITULO_XLVII">CAPITULO XLVII</a></h5> - - -<h4>O recluso</h4> - - -<p>Marcella, Sabina, Virgilia... ahi estou eu a fundir todos os -contrastes, como se esses nomes e pessoas não fossem mais do que modos -de ser da minha affeição interior. Penna de máus costumes, ata uma -gravata ao teu estylo, veste-lhe um collete menos sordido; e depois -sim, depois vem commigo, entra nessa casa, estira-te nessa rede que me -embalou a melhor parte dos annos que decorreram desde o inventario de -meu pae até 1842. Vem; se te cheirar a algum aroma de toucador, não -cuides que o mandei derramar para meu regalo; é um vestígio da N. ou -da Z. ou da U.—que todas essas lettras maiusculas embalaram ahi a sua -elegante abjecção. Mas, se além do aroma, quizeres outra cousa, fica-te -com o desejo, porque eu não guardei retratos, nem cartas, nem memorias; -a mesma commoção esvaiu-se, e só me ficaram as lettras iniciaes.</p> - -<p>Vivi meio recluso, indo de longe em longe a algum baile, ou theatro, -ou palestra, mas a mór parte do tempo passei-a commigo mesmo. Vivia; -deixava-me ir ao curso e recurso dos successos e dos dias, ora -boliçoso, ora apathico, entre a ambição e o desanimo. Escrevia politica -e fazia litteratura. Mandava artigos e versos para as folhas publicas, -e cheguei a alcançar certa reputação de polemista e de poeta. Quando -me lembrava do Lobo Neves, que era já deputado, e de Virgilia, futura -marqueza, perguntava a mim mesmo porque não seria melhor deputado e -melhor marquez do que o Lobo Neves,—eu, que valia mais, muito mais do -que elle,—e dizia isto a olhar para a ponta do nariz...</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XLVIII" id="CAPITULO_XLVIII">CAPITULO XLVIII</a></h5> - - -<h4>Um primo de Virgilia</h4> - - -<p>—Sabe quem chegou hontem de S. Paulo? perguntou-me uma noite o Luiz -Dutra.</p> - -<p>O Luiz Dutra era um primo de Virgilia, que tambem privava com as -musas. Os versos delle agradavam e valiam mais do que os meus; mas -elle tinha necessidade da sancção de alguns, que lhe confirmasse o -applauso dos outros. Como fosse acanhado, não interrogava a ninguem; -mas deleitava-se com ouvir alguma palavra de apreço; então criava novas -forças e arremettia juvenilmente ao trabalho.</p> - -<p>Pobre Luiz Dutra! Apenas publicava alguma cousa corria á minha casa, -e entrava a girar em volta de mim, á espreita de um juizo, de uma -palavra, de um gesto, que lhe approvasse a recente producção, e eu -falava-lhe de mil cousas differentes,—do ultimo baile do Cattete, da -discussão das camaras, de berlindas e cavallos,—de tudo, menos dos -seus versos ou prosas. Elle respondia-me, a principio com animação, -depois mais frouxo, torcia a redea da conversa para o seu assumpto -delle, abria um livro, perguntava-me se tinha algum trabalho novo, e eu -dizia-lhe que sim ou que não, mas torcia a redea para o outro lado, e -lá ia elle atraz de mim, até que empacava de todo e saía triste. Minha -intenção era fazel-o duvidar de si mesmo, desanimal-o, eliminal-o. E -tudo isto a olhar para a ponta do nariz...</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XLIX" id="CAPITULO_XLIX">CAPITULO XLIX</a></h5> - - -<h4>A ponta do nariz</h4> - - -<p>Nariz, consciencia sem remorsos, tu me valeste muito na vida... Já -meditaste alguma vez no destino do nariz, amado leitor? A explicação -do doutor Pangloss é que o nariz foi creado para uso dos oculos,—e -tal explicação confesso que até certo tempo me pareceu definitiva; mas -veiu um dia, em que, estando a ruminar esse e outros pontos obscuros de -philosophia, atinei com a unica, verdadeira e definitiva explicação.</p> - -<p>Com effeito, bastou-me attentar no costume do fakir. Sabe o leitor -que o fakir gasta longas horas a olhar para a ponta do nariz, com -o fim unico de ver a luz celeste. Quando elle finca os olhos na -ponta do nariz, perde o sentimento das cousas externas, embelleza-se -no invisivel, apprehende o impalpavel, desvincula-se da terra, -dissolve-se, etherisa-se. Essa sublimação do ser pela ponta do nariz -é o phenomeno mais excelso do espirito; e a faculdade de a obter não -pertence ao fakir sómente; é universal. Cada homem tem necessidade -e poder de contemplar o seu proprio nariz, para o fim de ver a luz -celeste; e tal contemplação, cujo effeito é a subordinação do universo -a um nariz sómente, constitue o equilibrio das sociedades. Se os -narizes se contemplassem exclusivamente uns aos outros, o genero humano -não chegaria a durar dois séculos: extinguia-se com as primeiras tribos.</p> - -<p>Ouço daqui uma objecção do leitor:—Como pode ser assim, diz elle, -se nunca jamais ninguem não viu estarem os homens a contemplar o seu -proprio nariz?</p> - -<p>Leitor obtuso, isso prova que nunca entraste no cerebro de um -chapeleiro. Um chapeleiro passa por uma loja de chapeus; é a loja de -um rival, que a abriu ha dois annos; tinha então duas portas, hoje tem -quatro; promette ter seis e oito. Nas vidraças ostentam-se os chapeus -do rival; pelas portas entram os freguezes do rival; e o chapeleiro -compara aquella loja com a sua, que é mais antiga e tem só duas portas, -e aquelles chapeus com os seus, menos buscados, ainda que de egual -preço. Mortifica-se naturalmente; mas vae andando, concentrado, com os -olhos para baixo ou para a frente, a indagar as causas da prosperidade -do outro e do seu proprio atrazo, quando elle chapeleiro é muito melhor -chapeleiro do que o outro chapeleiro... Nesse instante é que os olhos -se fixam na ponta do nariz.</p> - -<p>A conclusão, portanto, é que ha duas forças capitaes: o amor, que -multiplica a especie, e o nariz, que a subordina ao individuo. -Procreação, equilibrio.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_L" id="CAPITULO_L">CAPITULO L</a></h5> - - -<h4>Virgilia casada</h4> - - -<p>—Quem chegou de S. Paulo foi minha prima Virgilia, casada com o Lobo -Neves, continuou o Luiz Dutra.</p> - -<p>—Ah!</p> - -<p>—E só hoje é que eu soube uma cousa, seu maganão...</p> - -<p>—Que foi?</p> - -<p>—Que você quiz casar com ella.</p> - -<p>—Idéas de meu pae. Quem lhe disse isso?</p> - -<p>—Ella mesma. Falei-lhe muito em você, e ella então contou-me tudo.</p> - -<p>No dia seguinte, estando na rua do Ouvidor, á porta da typographia do -Plancher, vi assomar, a distancia, uma mulher esplendida. Era ella; só -a reconheci a poucos passos, tão outra estava, a tal ponto a natureza -e a arte lhe haviam dado o ultimo apuro. Cortejámo-nos; ella seguiu; -entrou com o marido na carruagem, que os esperava um pouco acima; eu -fiquei attonito.</p> - -<p>Oito dias depois, encontrei-a num baile; creio que chegámos a trocar -duas ou tres palavras. Mas n'outro baile, dado dahi a um mez, em -casa de uma senhora, que ornara os salões do primeiro reinado, e não -desornava então os do segundo, a aproximação foi maior e mais longa, -porque conversámos e valsámos. A valsa é uma deliciosa cousa. Valsámos; -e não nego que, ao conchegar ao meu corpo aquelle corpo flexivel e -magnifico, tive uma singular sensação, uma sensação de homem roubado.</p> - -<p>—Está muito calor, disse ella, logo que acabámos. Vamos ao terraço?</p> - -<p>—Não; pode constipar-se. Vamos a outra sala.</p> - -<p>Na outra sala estava o Lobo Neves, que me fez muitos comprimentos, -ácerca dos meus escriptos politicos, accrescentando que nada dizia -dos litterarios, por não entender delles; mas os politicos eram -excellentes, bem pensados e bem escriptos. Respondi-lhe com eguaes -esmeros de cortezia, e separámos-nos contentes um do outro.</p> - -<p>Cerca de tres semanas depois recebi um convite delle para uma reunião -intima. Fui; Virgilia recebeu-me com esta graciosa palavra:—O senhor -hoje ha de valsar commigo.—Na verdade, eu tinha fama e era valsista -emerito; não admira que ella me preferisse. Valsámos uma vez, e mais -outra vez. Um livro perdeu Francesca; cá foi a valsa que nos perdeu. -Creio que nessa noite apertei-lhe a mão com muita força, e ella -deixou-a ficar, como esquecida, e eu a abraçal-a, e todos com os olhos -em nós, e nos outros que tambem se abraçavam e giravam...Um delirio.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LI" id="CAPITULO_LI">CAPITULO LI</a></h5> - - -<h4>É minha!</h4> - - -<p>—É minha! disse eu commigo, logo que a passei a outro cavalheiro; e -confesso que durante o resto da noite, foi-se-me a idéa entranhando -no espirito, não á força de martello, mas de verruma, que é mais -insinuativa.</p> - -<p>—É minha! dizia eu ao chegar á porta de casa.</p> - -<p>Mas ahi, como se o destino ou o acaso, ou o que quer que fosse, se -lembrasse de dar algum pasto aos meus arroubos possessorios, luziu-me -no chão uma cousa redonda e amarella. Abaixei-me; era uma moeda de -ouro, uma meia-dobra.</p> - -<p>—É minha! repeti eu a rir-me; e metti-a no bolso.</p> - -<p>Nessa noite não pensei mais na moeda; mas no dia seguinte, recordando o -caso, senti uns repellões da consciencia, e uma voz que me perguntava -porque diabo seria minha uma moeda que eu não herdara nem ganhara, mas -sómente achara na rua. Evidentemente não era minha; era de outro, -daquelle que a perdera, rico ou pobre, e talvez fosse pobre, algum -operario que não teria com que dar de comer á mulher e aos filhos; mas -se fosse rico, o meu dever ficava o mesmo. Cumpria restituir a moeda, e -o melhor meio, o unico meio, era fazel-o por intermedio de um annuncio -ou da policia. Enviei uma carta ao chefe de policia, remettendo-lhe -o achado, e rogando-lhe que, pelos meios a seu alcance, fizesse -devolvel-o ás mãos do verdadeiro dono.</p> - -<p>Mandei a carta e almocei tranquillo, posso até dizer que jubiloso. -Minha consciencia valsára tanto na vespera, que chegou a ficar -suffocada, sem respiração; mas a restituição da meia dobra foi uma -janella que se abriu para o outro lado da moral; entrou uma onda de -ar puro, e a pobre dama respirou á larga. Ventilae as consciencias! -não vos digo mais nada. Todavia, despido de quaesquer outras -circumstancias, o meu acto era bonito, porque exprimia um justo -escrupulo, um sentimento de alma delicada. Era o que me dizia a minha -dama interior, com um modo austero e meigo a um tempo; é o que ella me -dizia, reclinada ao peitoril da janella aberta.</p> - -<p>—Fizeste bem, Cubas; andaste perfeitamente. Este ar não é só puro, é -balsamico, e uma transpiração dos eternos jardins. Queres ver o que -fizeste, Cubas?</p> - -<p>E a boa dama sacou um espelho e abriu-m'o deante dos olhos. Vi, -claramente vista, a meia dobra da vespera, redonda, brilhante, nitida, -multiplicando-se por si mesma,—ser dez—depois trinta—depois -quinhentas,—exprimindo assim o beneficio que me daria na vida e -na morte o simples acto da restituição. E eu espraiava todo o meu -ser na contemplação daquelle acto, revia-me nelle, achava-me bom, -talvez grande. Uma simples moeda, hem? Vejam o que é ter valsado um -poucochinho mais.</p> - -<p>Assim, eu, Braz Cubas, descobri uma lei sublime, a lei da equivalencia -das janellas, e estabeleci que o modo de compensar uma janella fechada -é abrir outra, afim de que a moral possa arejar continuamente a -consciencia. Talvez não entendas o que ahi fica; talvez queiras uma -cousa mais concreta, um embrulho, por exemplo, um embrulho mysterioso. -Pois toma lá o embrulho mysterioso.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LII" id="CAPITULO_LII">CAPITULO LII</a></h5> - - -<h4>O embrulho mysterioso</h4> - - -<p>Foi o caso que, alguns dias depois, indo eu a Botafogo tropecei n'um -embrulho, que estava na praia. Não digo bem; houve menos tropeção que -pontapé. Vendo um embrulho, não grande, mas limpo e correctamente -feito, atado com um barbante rijo, uma cousa que parecia alguma cousa, -lembrou-me bater-lhe com o pé, assim por experiencia, e bati, e o -embrulho resistiu. Relanceei os olhos em volta de mim; a praia estava -deserta; ao longe uns meninos brincavam,—um pescador curava as redes -ainda mais longe,—ninguem que pudesse ver a minha acção; inclinei-me, -apanhei o embrulho e segui.</p> - -<p>Segui, mas não sem receio. Podia ser uma pulha de rapazes. Tive idéa de -devolver o achado á praia, mas apalpei-o e rejeitei a idea. Um pouco -adeante, desandei o caminho e guiei para casa.</p> - -<p>—Vejamos, disse eu ao entrar no gabinete.</p> - -<p>E hesitei um instante, creio que por vergonha; assaltou-me outra vez o -receio da pulha. É certo que não havia alli nenhuma testemunha externa; -mas eu tinha dentro de mim mesmo um garoto, que havia de assoviar, -guinchar, grunhir, patear, apupar, cacarejar, fazer o diabo, se me -visse abrir o embrulho e achar dentro uma duzia de lenços velhos ou -duas duzias de goiabas verdes. Mas era tarde; a curiosidade estava -aguçada, como deve estar a do leitor; desfiz o embrulho, e vi... -achei... contei... recontei nada menos de cinco contos de reis. Nada -menos. Talvez um dez mil reis mais. Cinco contos em boas notas e -dobras, tudo aceiadinho e arranjadinho, um achado raro. Embrulhei-as -de novo. Ao jantar pareceu-me que um dos moleques falara a outro com -os olhos. Ter-me-iam espreitado? Interroguei-os discretamente, e -conclui que não. Sobre o jantar, fui outra vez ao gabinete, examinei -o dinheiro, e ri-me dos meus cuidados maternaes a respeito de cinco -contos,—eu, que era abastado.</p> - -<p>Para não pensar mais naquillo fui de noite á casa do Lobo Neves, -que instára muito commigo não deixasse de frequentar as recepções -da mulher. Lá encontrei o chefe de policia; fui-lhe apresentado; -elle lembrou-se logo da carta e da meia dobra que eu lhe remettera -alguns dias antes. Aventou o caso; Virgilia pareceu saborear o meu -procedimento, e cada um dos presentes acertou de contar uma anecdota -analoga, que eu ouvi com impaciencias de mulher hysterica.</p> - -<p>De noite, no dia seguinte, em toda aquella semana pensei o menos que -pude nos cinco contos, e até confesso que os deixei muito quietinhos -na gaveta da secretaria. Gostava de falar de todas as cousas, menos de -dinheiro, e principalmente de dinheiro achado; e todavia não era crime -achar dinheiro, era uma felicidade, um bom acaso, era talvez um lance -da Providencia. Não podia ser outra cousa. Não se perdem cinco contos, -como se perde um lenço de tabaco. Cinco contos levam-se com trinta mil -sentidos, apalpam-se a miudo, não se lhes tiram os olhos de cima, nem -as mãos, nem o pensamento, e para se perderem assim tolamente, n'uma -praia, é necessário que... Crime é que não podia ser o achado; nem -crime, nem deshonra, nem nada que embaciasse o caracter de um homem. -Era um achado, um acerto feliz, como a sorte grande, como as apostas -de cavallo, como os ganhos de um jogo honesto; e até direi que a minha -felicidade era merecida, porque eu não me sentia máu, nem indigno dos -beneficios da Providencia.</p> - -<p>—Estes cinco contos, dizia eu commigo, tres semanas depois, hei de -empregal-os em alguma acção bôa, talvez um dote a alguma menina pobre, -ou outra cousa assim... hei de ver...</p> - -<p>Nesse mesmo dia levei-os ao Banco do Brazil. Lá me receberam com -muitas e delicadas allusões ao caso de meia dobra, cuja noticia andava -já espalhada entre as pessoas do meu conhecimento; respondi enfadado -que a cousa não valia a pena de tamanho estrondo; louvaram-me então -a modestia,—e porque eu me encolerisasse, replicaram-me que era -simplesmente grande.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LIII" id="CAPITULO_LIII">CAPITULO LIII</a></h5> - - -<h4>..........</h4> - -<p>Virgilia é que já se não lembrava da meia dobra; toda ella -estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha vida, no meu -pensamento;—era o que dizia, e era verdade.</p> - -<p>Ha umas plantas que nascem e crescem depressa; outras são tardias -e pecas. O nosso amor era daquellas; brotou com tal impeto e tanta -seiva, que, dentro em pouco, era a mais vasta, folhuda e exuberante -creatura dos bosques. Não lhes poderei dizer, ao certo, os dias -que durou esse crescimento. Lembra-me, sim, que, em certa noite, -abotoou-se a flor, ou o beijo, se assim lhe quizerem chamar, um beijo -que ella me deu, tremula,—coitadinha,—tremula de medo, porque era -ao portão da chacara, á vista das estrellas,—das castas estrellas de -Othello,—<i>you chaste stars!</i> Uniu-nos esse beijo unico,—breve como -a occasião, ardente como o amor, prologo de uma vida de delicias, de -terrores, de remorsos, de prazeres que rematavam em dor, de afflicções -que desabrochavam em alegria,—uma hypocrisia paciente e systematica, -unico freio de uma paixão sem freio,—vida de agitações, de coleras, -de desesperos e de ciumes, que uma hora pagava á farta e de sobra; -mas outra hora vinha e engolia aquella, como tudo mais, para deixar á -tona as agitações e o resto, e o resto do resto, que é o fastio e a -saciedade: tal foi o livro daquelle prologo.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LIV" id="CAPITULO_LIV">CAPITULO LIV</a></h5> - - -<h4>A pendula</h4> - - -<p>Saí dalli a saborear o beijo. Não pude dormir; estirei-me na cama, -é certo, mas foi o mesmo que nada. Ouvi as horas todas da noite. -Usualmente, quando eu perdia o somno, o bater da pendula fazia-me muito -mal; esse <i>tic-tac</i> soturno, vagaroso e secco parecia dizer a cada -golpe que eu ia ter um instante menos de vida. Imaginava então um velho -diabo, sentado entre dous saccos, o da vida e da morte, a tirar as -moedas da vida para dal-as á morte, e a contal-as assim:</p> - -<p>—Outra de menos...</p> - -<p>—Outra de menos...</p> - -<p>—Outra de menos...</p> - -<p>—Outra de menos...</p> - -<p>O mais singular é que, se o relogio parava, eu dava-lhe corda, para -que elle não deixasse de bater nunca, e eu pudesse contar todos os -meus instantes perdidos. Invenções ha, que se transformam ou acabam; -as mesmas instituições morrem; o relogio é definitivo e perpetuo. O -derradeiro homem, ao despedir-se do sol frio e gasto, hade ter um -relogio na algibeira, para saber a hora exacta em que morre.</p> - -<p>Naquella noite não padeci essa triste sensação de enfado, mas outra, e -deleitosa. As phantasias tumultuavam-me cá dentro, vinham umas sobre -outras, á semelhança de devotas que se abalroam para ver o anjo-cantor -das procissões. Não ouvia os instantes perdidos, mas os minutos -ganhados; e de certo tempo em diante não ouvi cousa nenhuma, porque o -meu pensamento, ardiloso e traquinas, saltou pela janella fóra e bateu -as azas na direcção da casa de Virgilia. Ahi achou ao peitoril de uma -janella o pensamento de Virgilia, saudaram-se e ficaram de palestra. -Nós a rolarmos na cama, talvez com frio, necessitados de repouso, e os -dous vadios alli postos, a repetirem o velho dialogo de Adão e Eva.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LV" id="CAPITULO_LV">CAPITULO LV</a></h5> - - -<h4>O velho dialogo de Adão e Eva</h4> - - -<p>BRAZ CUBAS</p> - -<pre style="font-size: 1.4em;"> . . . . ?</pre> - -<p>VIRGILIA</p> - -<pre style="font-size: 1.4em;">. .</pre> - -<p>BRAZ CUBAS</p> - -<pre style="font-size: 1.4em;"> . . . . . . . . .</pre> - -<pre style="font-size: 1.4em;"> . . .</pre> - -<p>VIRGILIA</p> - -<pre style="font-size: 1.4em;"> . . . !</pre> - -<p>BRAZ CUBAS</p> - -<pre style="font-size: 1.4em;"> . .</pre> - -<p>VIRGILIA</p> - -<pre style="font-size: 1.4em;"> -. . . . . . . . . -. . . . . ? . . . . . -. . . . . . . . . . . . -</pre> - -<p>BRAZ CUBAS</p> - -<pre style="font-size: 1.4em;">. . . . . .</pre> - -<p>VIRGILIA</p> - -<pre style="font-size: 1.4em;">. . . .</pre> - -<p>BRAZ CUBAS</p> - -<pre style="font-size: 1.4em;">. . . . . . . . . . . . . - -. . . . . . . . . . . . . - -. . . . . . . . . ! . . - -. . ! . . . . . . . . - -. . . . . . . . . . . !</pre> - -<p>VIRGILIA</p> - -<pre style="font-size: 1.4em;">. . . . . . . . . . . . .?</pre> - -<p>BRAZ CUBAS</p> - -<pre style="font-size: 1.4em;">. . . . .!</pre> - -<p>VIRGILIA</p> - -<pre style="font-size: 1.4em;">. . . . .!</pre> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LVI" id="CAPITULO_LVI">CAPITULO LVI</a></h5> - - -<h4>O momento opportuno</h4> - - -<p>Mas, com a breca! quem me explicará a razão desta differença? Um dia -vimo-nos, tratámos o casamento, desfizemol-o e separamo-nos, a frio, -sem dor, porque não houvera paixão nenhuma; mordeu-me apenas algum -despeito e nada mais. Correm annos, torno a vel-a, damos tres ou quatro -giros de valsa, e eis-nos a amar um ao outro com delirio. A belleza -de Virgilia chegára, é certo, a um alto gráu de apuro, mas nós eramos -substancialmente os mesmos, e eu, á minha parte, não me tornára mais -bonito nem mais elegante. Quem me explicará a razão dessa differença?</p> - -<p>A razão não podia ser outra senão o momento opportuno. Não era -opportuno o primeiro momento, porque, se nenhum de nós estava verde -para o amor, ambos o estavamos para o <i>nosso</i> amor: distincção -fundamental. Não ha amor possivel sem a opportunidade dos sujeitos. -Esta explicação achei-a eu mesmo, dous annos depois do beijo, um -dia em que Virgilia se me queixava de um pintalegrete que lá ia e -tenazmente a galanteava.</p> - -<p>—Que importuno! dizia ella fazendo uma careta de raiva.</p> - -<p>Estremeci, fitei-a, vi que a indignação era sincera; então occorreu-me -que talvez eu tivesse provocado alguma vez aquella mesma careta, e -comprehendi logo toda a grandeza da minha evolução. Tinha vindo de -importuno a opportuno.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LVII" id="CAPITULO_LVII">CAPITULO LVII</a></h5> - - -<h4>Destino</h4> - - -<p>Sim, senhor, amavamos. Agora, que todas as leis sociaes nol-o impediam, -agora é que nos amavamos devéras. Achavamo-nos jungidos um ao outro, -como as duas almas que o poeta encontrou no Purgatorio:</p> - -<p> -Di pari, come buoi, che vanno a giogo;<br /> -</p> - -<p>e digo mal, comparando-nos a bois, porque nós eramos outra especie de -animal menos tardo, mais velhaco e lascivo. Eis-nos a caminhar sem -saber até onde, nem porque estradas escusas; problema que me assustou, -durante algumas semanas, mas cuja solução entreguei ao destino. Pobre -Destino! Onde andarás agora, grande procurador dos negocios humanos? -Talvez estejas a criar pelle nova, outra cara, outras maneiras, outro -nome, e não é impossivel que... Já me não lembra onde estava... Ah! -nas estradas escusas. Disse eu commigo que já agora seria o que -Deus quisesse. Era a nossa sorte amar-nos; se assim não fora, como -explicariamos a valsa e o resto? Virgilia pensava a mesma cousa. Um -dia, depois de me confessar que tinha momentos de remorsos, como eu lhe -dissesse que, se tinha remorsos, é porque me não tinha amor, Virgilia -cingiu-me com os seus magnificos braços, murmurando:</p> - -<p>—Amo-te, é a vontade do céu.</p> - -<p>E esta palavra não vinha á toa; Virgilia era um pouco religiosa. Não -ouvia missa aos domingos, é verdade, e creio até que só ia ás igrejas -em dia de festa, e quando havia logar vago em alguma tribuna. Mas -rezava todas as noites, com fervor, ou, pelo menos, com somno. Tinha -medo ás trovoadas; nessas occasiões, tapava os ouvidos, e resmoneava -todas as orações do catecismo. Na alcova della havia um oratoriosinho -de jacarandá, obra de talha, de tres palmos de altura, com tres imagens -dentro; mas não falava delle ás amigas; ao contrario, taxava de beatas -as que eram só religiosas. Algum tempo desconfiei que havia nella certo -vexame de crer, e que a sua religião era uma especie de camisa de -flanella, preservativa e clandestina; mas evidentemente era engano meu.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LVIII" id="CAPITULO_LVIII">CAPITULO LVIII</a></h5> - - -<h4>Confidencia</h4> - - -<p>O Lobo Neves, a principio, mettia-me grandes sustos. Pura illusão! -Como adorasse a mulher, não se vexava de m'o dizer muitas vezes; -achava que Virgilia era a perfeição mesma, um conjunto de qualidades -solidas e finas, amoravel, elegante, austera, um modelo. E a confiança -não parava ahi. De fresta que era, chegou a porta escancarada. Um dia -confessou-me que trazia uma triste carcoma na existencia; faltava-lhe -a gloria publica. Animei-o; disse-lhe muitas cousas bonitas, que elle -ouviu com aquella uncção religiosa de um desejo que não quer acabar de -morrer; então comprehendi que a ambição delle andava cançada de bater -as azas, sem poder abrir o vôo. Dias depois disse-me todos os seus -tedios e desfallecimentos, as amarguras engolidas, as raivas sopitadas; -contou-me que a vida politica era um tecido de invejas, despeitos, -intrigas, perfidias, interesses, vaidades. Evidentemente havia ahi uma -crise de melancolia; tratei de combatel-a.</p> - -<p>—Sei o que lhe digo, replicou-me com tristeza. Não póde imaginar o -que tenho passado. Entrei na politica por gosto, por familia, por -ambição, e um pouco por vaidade. Já vê que reuni em mim só todos os -motivos que levam o homem á vida publica; faltou-me só o interesse de -outra natureza. Vira o theatro pelo lado da platéa; e, palavra, que era -bonito! Soberbo scenario, vida, movimento e graça na representação. -Escripturei-me; deram-me um papel que... Mas para que o estou a fatigar -com isto? Deixe-me ficar com as minhas amofinações. Creia que tenho -passado horas e dias... Não ha constancia de sentimentos, não ha -gratidão, não ha nada... nada... nada...</p> - -<p>Calou-se, profundamente abatido, com os olhos no ar, parecendo não -ouvir cousa nenhuma, a não ser o echo de seus proprios pensamentos. -Após alguns instantes, ergueu-se e estendeu-me a mão:—O senhor ha de -rir-se de mim, disse elle; mas desculpe aquelle desabafo; tinha um -negocio, que me mordia o espirito. E ria, de um geito sombrio e triste; -depois pediu-me que não referisse a ninguem o que se passara entre nós; -ponderei-lhe que a rigor não se passara nada. Entraram dous deputados -e um chefe politico da parochia. O Lobo Neves recebeu-os com alegria, -a principio um tanto postiça, mas logo depois natural. No fim de meia -hora, ninguem diria que elle não era o mais afortunado dos homens; -conversava, chasqueava, e ria, e riam todos.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LIX" id="CAPITULO_LIX">CAPITULO LIX</a></h5> - - -<h4>Um encontro</h4> - - -<p>Deve ser um vinho bem energico a politica, dizia eu commigo, ao sair -da casa de Lobo Neves; e fui andando, fui andando, até que na rua dos -Barbonos vi uma sege, e dentro um dos ministros, meu antigo companheiro -de collegio. Cortejámo-nos affectuosamente, a sege seguiu, e eu fui -andando... andando... andando....</p> - -<p>—Porque não serei eu ministro?</p> - -<p>Esta idéa, rútila e grande,—trajada ao bizarro, como diria o padre -Bernardes,—esta idéa começou uma vertigem de cabriolas e eu deixei-me -estar com os olhos nella, a achar-lhe graça. E não pensei mais na -tristeza de Lobo Neves; senti a attracção do abysmo. Recordei aquelle -companheiro de collegio, as correrias nos morros, as alegrias e -travessuras, e comparei o menino com o homem, o perguntei a mim mesmo -porque não seria eu como elle. Entrava então no Passeio Publico; -e tudo me parecia dizer a mesma cousa.—Porque não serás ministro, -Cubas?—Cubas, porque não serás ministro de Estado? Ao ouvil-o, uma -deliciosa sensação me refrescava todo o systema. Entrei, fui sentar-me -n'um banco, a cavar commigo aquella idéa. E Virgilia que havia de -gostar! Alguns minutos depois vejo encaminhar-se para mim uma cara, que -me não pareceu desconhecida. Conhecia-a, fosse d'onde fosse.</p> - -<p>Imaginem um homem de trinta e oito a quarenta annos, alto, magro e -pallido. As roupas, salvo o feitio, pareciam ter escapado ao captiveiro -de Babylonia; o chapéu era contemporaneo do de Gessler. Imaginem -agora uma sobrecasaca, mais larga do que pediam as carnes,—ou, -litteralmente, os ossos da pessoa; a côr preta ia cedendo o passo a -um amarello sem brilho; o pello desapparecia aos poucos; dos oito -primitivos botões restavam tres. As calças, de brim pardo, tinham duas -fortes joelheiras, em quanto as bainhas eram roidas pelo tacão de um -botim sem misericordia nem graxa. Ao pescoço fluctuavam as pontas de -uma gravata de duas cores, ambas desmaiadas, apertando um collarinho de -oito dias. Creio que trazia tambem collete, um collete de seda escura, -roto a espaços, e desabotoado.</p> - -<p>—Aposto que me não conhece, Sr. Dr. Cubas? disse elle.</p> - -<p>—Não me lembra...</p> - -<p>—Sou o Borba, o Quincas Borba.</p> - -<p>Recuei espantado... Quem me dera agora o verbo solemne de um Bossuet -ou de Vieira, para contar tamanha desolação! Era o Quincas Borba, o -gracioso menino de outro tempo, o meu companheiro de collegio, tão -intelligente e abastado. O Quincas Borba! Não, impossível; não pode -ser. Não podia acabar de crer que essa figura esqualida, essa barba -pintada de branco, esse maltrapilho avelhentado, que toda essa ruina -fosse o Quincas Borba. E era. Os olhos tinham um resto da expressão de -outro tempo; e o sorriso não perdera certo ar escarninho, que lhe era -peculiar. Entretanto, elle supportava com firmeza o meu espanto. No fim -de algum tempo arredei os olhos; se a figura repellia, a comparação -acabrunhava.</p> - -<p>—Não é preciso contar-lhe nada, disse elle emfim; o senhor adivinha -tudo. Uma vida de miserias, de attribulações e de lutas. Lembra-se -das nossas festas, em que eu figurava de rei? Que trambolhão! Acabo -mendigo...</p> - -<p>E alçando a mão direita e os hombros, com um ar de indifferença, -parecia resignado aos golpes da fortuna, e não sei até se contente. -Talvez contente. Com certeza, impassivel. Não havia nelle a resignação -christã, nem a conformidade philosophica. Parece que a miseria lhe -callejàra a alma, a ponto de lhe tirar a sensação da lama. Arrastava os -andrajos, como outr'ora a purpura: com certa graça indolente.</p> - -<p>—Procure-me, disse eu, poderei arranjar-lhe alguma cousa.</p> - -<p>Um sorriso magnifico lhe abriu os labios.—Não é o primeiro que me -promette alguma cousa, replicou; e não sei se será o ultimo que não -me fará nada. E para que? Eu nada peço, a não ser dinheiro; dinheiro -sim, porque é necessario comer, e as casas de pasto não fiam. Nem as -quitandeiras. Uma cousa de nada, uns dous vintens de angú, nem isso -fiam as malditas quitandeiras.... Um inferno, meu... ia dizer meu -amigo.... Um inferno! o diabo! todos os diabos! Olhe, ainda hoje não -almocei.</p> - -<p>—Não?</p> - -<p>—Não; saí muito cedo de casa. Sabe onde moro? No terceiro degráu das -escadas de S. Francisco, á esquerda de quem sobe; não precisa bater na -porta. Casa fresca, extremamente fresca. Pois saí cedo, e ainda não -comi...</p> - -<p>Tirei a carteira, escolhi uma nota de cinco mil réis,—a menos -limpa,—e dei-lh'a. Elle recebeu-m'a com os olhos scintillantes de -cobiça. Levantou a nota ao ar, e agitou-a enthusiasmado.</p> - -<p>—<i>In hoc signo vinces!</i> bradou.</p> - -<p>E depois beijou-a, com muitos ademanes de ternura, e tão ruidosa -expansão, que me produziu um sentimento mixto de nôjo e lastima. Elle, -que era arguto, entendeu-me; ficou serio, grotescamente serio, e -pediu-me desculpa da alegria, dizendo que era alegria de pobre que não -via, desde muitos annos, uma nota de cinco mil réis.</p> - -<p>—Pois está em suas mãos ver outras muitas, disse eu.</p> - -<p>—Sim? acudiu elle, dando um bote para mim.</p> - -<p>—Trabalhando, conclui eu.</p> - -<p>Fez um gesto de desdem; calou-se alguns instantes; depois disse-me -positivamente que não queria trabalhar. Eu estava enjoado dessa -abjecção tão comica e tão triste, e preparei-me para sair.</p> - -<p>—Não vá sem eu lhe ensinar a minha philosophia da miseria, disse elle, -escarranchando-se diante de mim.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LX" id="CAPITULO_LX">CAPITULO LX</a></h5> - - -<h4>O abraço</h4> - - -<p>Cuidei que o pobre diabo estivesse doudo, e ia afastar-me, quando -elle me pegou no pulso, e olhou alguns instantes para o brilhante que -eu trazia no dedo. Senti-lhe na mão uns estremeções de cobiça, uns -pruridos de posse.</p> - -<p>—Magnifico! disse elle.</p> - -<p>Depois começou a andar á roda de mim e a examinar-me muito.</p> - -<p>—O senhor trata-se, disse elle. Joias, roupa fina, elegante e... -Compare esses sapatos aos meus; que differença! Podera não! Digo-lhe -que se trata. E moças? Como vão ellas? Está casado?</p> - -<p>—Não...</p> - -<p>—Nem eu.</p> - -<p>—Móro na rua...</p> - -<p>—Não quero saber onde móra, atalhou o Quincas Borba. Se alguma vez nos -virmos, dê-me outra nota de cinco mil réis; mas permitta-me que não a -vá buscar a sua casa. É uma especie de orgulho.... Agora, adeus; vejo -que está impaciente.</p> - -<p>—Adeus!</p> - -<p>—E obrigado. Deixa-me agradecer-lhe de mais perto?</p> - -<p>E dizendo isto abraçou-me com tal impeto, que eu não pude evital-o. -Separamo-nos finalmente, eu a passo largo, com a camisa amarrotada do -abraço, enfadado e triste. Já não dominava em mim a parte sympathica da -sensação, mas a outra. Quizera ver-lhe a miseria digna. Comtudo, não -pude deixar de comparar outra vez o homem de agora com o de outr'ora, -entristecer-me, e encarar o abysmo que separa as esperanças de um tempo -da realidade de outro tempo...</p> - -<p>—Ora adeus! Vamos jantar, disse commigo.</p> - -<p>Metto a mão no collete e não acho o relogio. Ultima desillusão! o Borba -furtára-m'o no abraço.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LXI" id="CAPITULO_LXI">CAPITULO LXI</a></h5> - - -<h4>Um projecto</h4> - - -<p>Jantei triste. Não era a falta do relogio que me pungia, era a -imagem do autor do furto, e as reminiscencias de criança, e outra -vez a comparação, e a conclusão... Desde a sopa, começou a abrir em -mim a flor amarella e morbida do cap. XXV, e então jantei depressa, -para correr á casa de Virgilia. Virgilia era o presente; eu queria -refugiar-me nelle, para escapar ás oppressões do passado, porque o -encontro do Quincas Borba tornara-me aos olhos o passado, não qual fora -devéras, mas um passado roto, abjecto, mendigo e gatuno.</p> - -<p>Saí de casa, mas era cedo; iria achal-os á mesa. Outra vez pensei no -Quincas Borba, e tive então um desejo de tornar ao Passeio Publico, -a ver se o achava; a idéa de o regenerar surgiu-me como uma forte -necessidade. Fui; mas já não o achei. Indaguei do guarda; disse-me que -effectivamente «esse sujeito» ia por alli ás vezes.</p> - -<p>—A que horas?</p> - -<p>—Não tem hora certa.</p> - -<p>Não era impossivel encontral-o n'outra occasião; prometti a mim mesmo -lá voltar. A necessidade de o regenerar, de o trazer ao trabalho e ao -respeito de sua pessôa enchia-me o coração; eu começava a sentir um -bem-estar, uma elevação, uma admiração de mim proprio... Nisto caía a -noite; fui ter com Virgilia.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LXII" id="CAPITULO_LXII">CAPITULO LXII</a></h5> - - -<h4>O travesseiro</h4> - - -<p>Fui ter com Virgilia; bem depressa esqueci o Quincas Borba. Virgilia -era o travesseiro do meu espirito, um travesseiro molle, tepido, -aromatico, enfronhado em cambraia e bruxellas. Era alli que elle -costumava repousar de todas as sensações más, simplesmente enfadonhas, -ou até dolorosas. E, bem pesadas as cousas, não era outra a razão da -existencia de Virgilia; não podia ser. Cinco minutos bastaram para -olvidar inteiramente o Quincas Borba; cinco minutos de uma contemplação -mutua, com as mãos presas umas nas outras; cinco minutos e um beijo. E -lá se foi a lembrança do Quincas Borba... Escrofula da vida, andrajo do -passado, que me importa que existas, que molestes os olhos dos outros, -se eu tenho dous palmos de um travesseiro divino, para fechar os olhos -e dormir?</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LXIII" id="CAPITULO_LXIII">CAPITULO LXIII</a></h5> - - -<h4>Fujamos!</h4> - - -<p>Ai! nem sempre dormir. Tres semanas depois, indo á casa de -Virgilia,—eram quatro horas da tarde,—achei-a triste e abatida. Não -me quiz dizer o que era; mas, como eu instasse muito:</p> - -<p>—Creio que o Damião desconfia alguma cousa. Noto agora umas -exquisitices nelle... Não sei... Trata-me bem, não ha duvida; mas o -olhar parece que não é o mesmo. Durmo mal; ainda esta noite acordei, -aterrada; estava sonhando que elle me ia matar. Talvez seja illusão, -mas eu penso que elle desconfia...</p> - -<p>Tranquillisei-a como pude; disse que podiam ser cuidados politicos. -Virgilia concordou que seriam, mas ficou ainda muito excitada e -nervosa. Estavamos na sala de visitas, que dava justamente para a -chacara, onde trocáramos o beijo inicial. Uma janella aberta deixava -entrar o vento, que sacudia frouxamente as cortinas; e eu fiquei -a olhar para as cortinas, sem as ver. Empunhára o binoculo da -imaginação; lobrigava, ao longe, uma casa nossa, uma vida nossa, um -mundo nosso, em que não havia Lobo Neves, nem casamento, nem moral, nem -nenhum outro liame, que nos tolhesse a expansão da vontade. Esta idéa -embriagou-me; eliminados assim o mundo, a moral e o marido, não haveria -mais do que penetrar naquella habitação dos anjos.</p> - -<p>—Virgilia, disse eu, proponho-te uma cousa.</p> - -<p>—Que é?</p> - -<p>—Amas-me?</p> - -<p>—Oh! suspirou ella, cingindo-me os braços ao pescoço.</p> - -<p>Virgilia amava-me com furia; aquella resposta era a verdade patente. -Com os braços ao meu pescoço, calada, respirando muito, deixou-se -ficar a olhar para mim, com os seus grandes e bellos olhos, que davam -uma sensação singular de luz humida; e eu deixei-me estar a vel-os, a -namorar-lhe a boca, fresca como a madrugada, e insaciavel como a morte. -A belleza de Virgilia tinha agora um tom grandioso, que não possuira -antes de casar. Era dessas figuras talhadas em pentelico, de um lavor -nobre, rasgado e puro, tranquillamente bella, como as estatuas, mas não -apathica nem fria. Ao contrario, tinha o aspecto das naturezas calidas, -e podia-se dizer, que, na realidade, resumia todo o amor. Resumia-o -sobretudo naquella occasião, em que exprimia mudamente tudo quanto -póde dizer a pupilla humana. Mas o tempo urgia; deslacei-lhe as mãos, -peguei-lhe nos pulsos, e, fito nella, perguntei-lhe se tinha coragem.</p> - -<p>—De que?</p> - -<p>—De fugir. Iremos para onde nos fôr mais commodo, uma casa grande ou -pequena, á tua vontade, na roça ou na cidade, ou na Europa, onde te -parecer, onde ninguem nos aborreça, e não haja perigos para ti, onde -vivamos um para o outro... Sim? fujamos. Tarde ou cedo, elle póde -descobrir alguma cousa, e estarás perdida... ouves? perdida... morta... -e elle tambem, porque eu o matarei, juro-te.</p> - -<p>Interrompi-me; Virgilia empallidecêra muito, deixou cair os braços -e sentou-se no canapé. Esteve assim alguns instantes, sem me dizer -palavra, não sei se vacillante na escolha, se aterrada com a idéa da -descoberta e da morte. Fui-me a ella, insisti na proposta, disse-lhe -todas as vantagens de uma vida a sós, sem zelos, nem terrores, nem -afflicções. Virgilia ouvia-me calada; depois disse:</p> - -<p>—Não escapariamos talvez; elle iria ter commigo e matava-me do mesmo -modo.</p> - -<p>Mostrei-lhe que não. O mundo era assás vasto, e eu tinha os meios de -viver onde quer que houvesse ar puro e muito sol; elle não chegaria até -lá; só as grandes paixões são capazes de grandes acções, e elle não a -amava tanto que pudesse ir buscal-a, se ella estivesse longe. Virgilia -fez um gesto de espanto e quasi indignação; murmurou que o marido -gostava muito della.</p> - -<p>—Póde ser, respondi eu; póde ser que sim...</p> - -<p>E fui até a janella, e comecei a assobiar e a rufar com os dedos no -peitoril, Virgilia chamou-me; eu deixei-me estar, a remoer os meus -zelos, a desejar estrangular o marido, se o tivesse alli á mão... -Justamente, nesse instante, entrou na chacara o Lobo Neves. Não tremas -assim, leitora pallida; descança, que não hei de rubricar esta lauda -com um pingo de sangue. Logo que o Lobo Neves entrou na chacara, -fiz-lhe um gesto amigo, acompanhado de uma palavra graciosa; Virgilia -retirou-se apressadamente da sala, e elle entrou dahi a tres minutos.</p> - -<p>—Está cá ha muito tempo? disse-me elle.</p> - -<p>—Não.</p> - -<p>Entrára serio, pesado, derramando os olhos de um modo distrahido, -costume seu, que trocou logo por uma verdadeira expansão de -jovialidade, quando viu, chegar o filho, o nhonhô, o futuro bacharel do -cap. VIII; tomou-o nos braços, levantou-o ao ar, beijou-o muitas vezes. -Eu, que tinha odio ao menino, afastei-me de ambos. Virgilia tornou á -sala.</p> - -<p>—Ah! respirou o Lobo Neves, sentando-se preguiçosamente no sophá.</p> - -<p>—Cançado? perguntei eu.</p> - -<p>—Muito; aturei duas massadas de primeira ordem, uma na camara e outra -na rua. E ainda temos terceira, accrescentou, olhando para a mulher..</p> - -<p>—Que é? perguntou Virgilia.</p> - -<p>—Um... Adivinha!</p> - -<p>Virgilia sentara-se ao lado delle, pegou-lhe n'uma das mãos, compoz-lhe -a gravata, e tornou a perguntar o que era.</p> - -<p>—Nada menos que um camarote.</p> - -<p>—Para a Candiani?</p> - -<p>—Para a Candiani.</p> - -<p>Virgilia bateu palmas, levantou-se, deu um beijo no filho, com um ar -de alegria pueril, que destoava muito da figura; depois perguntou se o -camarote era de boca ou do centro, consultou o marido, em voz baixa, -acerca da <i>toilette</i> que faria, da opera que se cantava, e de não sei -que outras cousas.</p> - -<p>—Você janta comnosco, doutor, disse-me o Lobo Neves.</p> - -<p>—Veiu para isso mesmo, confirmou a mulher; diz que você possue o -melhor vinho do Rio de Janeiro.</p> - -<p>—Nem por isso bebe muito.</p> - -<p>Ao jantar, desmenti-o; bebi mais do que costumava; ainda assim, menos -do que era preciso para perder a razão. Já estava excitado, fiquei urn -pouco mais. Era a primeira grande colera que eu sentia contra Virgilia. -Não olhei uma só vez para ella durante o jantar; falei de politica, da -imprensa, do ministerio, creio que falaria de theologia, se a soubesse, -ou se me lembrasse. O Lobo Neves acompanhava-me com muita placidez e -dignidade, e até com certa benevolencia superior; e tudo aquillo me -irritava tambem, e me tornava mais amargo e longo o jantar. Despedi-me -apenas nos levantámos da mesa.</p> - -<p>—Até logo, não? perguntou o Lobo Neves.</p> - -<p>—Póde ser.</p> - -<p>E saí.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LXIV" id="CAPITULO_LXIV">CAPITULO LXIV</a></h5> - - -<h4>A transacção</h4> - - -<p>Vaguei pelas ruas e recolhi-me ás nove horas. Não podendo dormir, -atirei-me a ler e escrever. Ás onze horas estava arrependido de não -ter ido ao theatro, consultei o relogio, quiz vestir-me, e saír. -Julguei, porém, que chegaria tarde; demais, era dar prova de fraqueza. -Evidentemente, Virgilia começava a aborrecer-se de mim, pensava eu. -E esta idéa fez-me successivamente desesperado e frio, disposto a -esquecel-a e a matal-a. Via-a d'alli mesmo, reclinada no camarote, -com os seus magnificos braços nús,—os braços que eram meus, só -meus,—fascinando os olhos de todos, com o vestido soberbo que havia -de ter, o collo de leite, os cabellos postos em bandós, á maneira do -tempo, e os brilhantes, menos luzidios que os olhos della... Via-a -assim, e doía-me que a vissem outros. Depois, começava a despil-a, -a pôr de lado as joias e sedas, a despenteal-a com as minhas mãos -sofregas e lascivas, a tornal-a,—não sei se mais bella, se mais -natural,—a tornal-a minha, sómente minha, unicamente minha.</p> - -<p>No dia seguinte, não me pude ter; fui cedo á casa de Virgilia; achei-a -com os olhos vermelhos de chorar.</p> - -<p>—Que houve? perguntei.</p> - -<p>—Você não me ama, foi a sua resposta; nunca me teve a menor somma de -amor. Tratou-me hontem como se me tivesse odio. Se eu ao menos soubesse -o que é que fiz! Mas não sei. Não me dirá o que foi?</p> - -<p>—Que foi o que? Creio que não houve nada.</p> - -<p>—Nada? Tratou-me como não se trata um cachorro...</p> - -<p>A esta palavra, peguei-lhe nas mãos, beijei-as, e duas lagrimas -rebentaram-lhe dos olhos.</p> - -<p>—Acabou, acabou, disse eu.</p> - -<p>Não tive animo de arguir, e, aliás, arguil-a de que? Não era culpa -della se o marido a amava. Disse-lhe que não me fizera cousa nenhuma, -que eu tinha necessariamente ciumes do outro, que nem sempre o podia -supportar de cara alegre; accrescentei que talvez houvesse nelle muito -de dissimulação, e que o melhor meio de fechar a porta aos sustos e ás -dissensões era aceitar a minha idéa da vespera.</p> - -<p>—Pensei nisso, acudiu Virgilia; uma casinha só nossa, solitaria, -mettida n'um jardim, em alguma rua escondida, não é? Acho a idéa boa; -mas para que fugir?</p> - -<p>Disse isto com o tom ingenuo e preguiçoso de quem não cuida em mal, e o -sorriso que lhe derreava os cantos da boca trazia a mesma expressão de -candidez. Então, afastando-me, respondi:</p> - -<p>—Você é que nunca me teve amor.</p> - -<p>—Eu?</p> - -<p>—Sim, é uma egoista! prefere ver-me padecer todos os dias... é uma -egoista sem nome!</p> - -<p>Virgilia desatou a chorar, e para não attrahir gente, mettia o lenço na -boca, recalcava os soluços; explosão que me desconcertou. Se alguem a -ouvisse, perdia-se tudo. Inclinei-me para ella, travei-lhe dos pulsos, -susurrei-lhe os nomes mais doces da nossa intimidade; mostrei-lhe o -perigo; o terror apaziguou-a.</p> - -<p>—Não posso, disse ella dahi a alguns instantes; não deixo meu filho; -se o levar, estou certa de que elle me irá buscar ao fim do mundo. Não -posso; mate-me você, se o quizer, ou deixe-me morrer... Ah! meu Deus! -meu Deus!</p> - -<p>—Socegue; olhe que podem ouvil-a.</p> - -<p>—Que ouçam! Não me importa.</p> - -<p>Estava ainda excitada; pedi-lhe que esquecesse tudo, que me perdoasse, -que eu era um doudo, mas que a minha insania provinha della e com ella -acabaria. Virgilia enxugou os olhos e estendeu-me a mão. Sorrimos -ambos; minutos depois, tornavamos ao assumpto da casinha solitaria, em -alguma rua escusa...</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LXV" id="CAPITULO_LXV">CAPITULO LXV</a></h5> - - -<h4>Olheiros e escutas</h4> - - -<p>Interrompeu-nos o rumor de um carro na chacara. Veiu um escravo dizer -que era a baroneza X. Virgilia consultou-me com os olhos.</p> - -<p>—Se a senhora está assim com dor de cabeça, disse eu, parece que o -melhor é não receber.</p> - -<p>—Já se apeou? perguntou Virgilia ao escravo.</p> - -<p>—Já se apeou; diz que precisa muito de falar com sinhá!</p> - -<p>—Que entre!</p> - -<p>A baroneza entrou dahi a pouco. Não sei se contava commigo na sala; mas -era impossivel mostrar maior alvoroço.</p> - -<p>—Bons olhos o vejam! explodiu ella. Onde se mette o senhor que não -apparece em parte nenhuma? Pois olhe, hontem admirou-me não o ver no -theatro. A Candiani esteve deliciosa. Que mulher! Gosta da Candiani? -É natural. Os senhores são todos os mesmos. O barão dizia hontem, no -camarote, que uma só italiana vale por cinco brazileiras. Que desaforo! -e desaforo de velho, que é peor. Mas porque é que o senhor não foi -hontem ao theatro?</p> - -<p>—Uma enxaqueca.</p> - -<p>—Qual! Algum namoro; não acha, Virgilia? Pois, meu amigo, apresse-se, -porque o senhor deve estar com quarenta annos... ou perto disso... Não -tem quarenta annos?</p> - -<p>—Não lhe posso dizer com certeza, respondi eu; mas se me dá licença, -vou consultar a certidão de baptismo.</p> - -<p>—Vá, vá... E estendendo-me a mão:—Até quando? Sabbado ficamos em -casa; o barão está com umas saudades suas...</p> - -<p>Chegando á rua, arrependi-me de ter saído. A baroneza era uma das -pessoas que mais desconfiavam de nós. Cincoenta e cinco annos, que -pareciam quarenta, macia, risonha, vestigios de belleza, porte elegante -e maneiras finas. Não falava muito nem sempre; possuia a grande arte -de escutar os outros, espiando-os; reclinava-se então na cadeira, -desembainhava um olhar afiado e comprido, e deixava-se estar. Os -outros, não sabendo o que era, falavam, olhavam, gesticulavam, ao tempo -que ella olhava só, ora fixa, ora mobil, levando a astucia ao ponto de -olhar ás vezes para dentro de si, porque deixava cair as palpebras; -mas, como as pestanas eram rotulas, o olhar continuava o seu officio, -remexendo a alma e a vida dos outros.</p> - -<p>A segunda pessoa era um parente de Virgilia, o Viegas, um cangalho de -setenta invernos, chupado e amarellado, que padecia de um rheumatismo -teimoso, de uma asthma não menos teimosa e de uma lesão do coração: era -um hospital concentrado. Os olhos porém luziam de muita vida e saúde. -Virgilia, nas primeiras semanas, não lhe tinha medo nenhum; dizia-me -que, quando o Viegas parecia espreitar, com o olhar fixo, estava -simplesmente contando dinheiro. Com effeito, era um grande avaro.</p> - -<p>Havia ainda o primo de Virgilia, o Luiz Dutra, que eu, entretanto, -desarmava á força de lhe falar nos versos e prosas, e de o apresentar -aos conhecidos. Quando estes, ligando o nome á pessoa, se mostravam -contentes da apresentação, não ha duvida que o Luiz Dutra exultava de -felicidade; mas eu curava-me da felicidade com a esperança de que elle -nos não denunciasse nunca. Havia, emfim, umas duas ou tres senhoras, -vários gamenhos, e os famulos, que naturalmente se desforravam assim -da condição servil, e tudo isso constituia uma verdadeira floresta -de olheiros e escutas, por entre os quaes tinhamos de resvalar com a -tactica e maciez das cobras.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LXVI" id="CAPITULO_LXVI">CAPITULO LXVI</a></h5> - - -<h4>As pernas</h4> - - -<p>Ora, emquanto eu pensava naquella gente, iam-me as pernas levando, -ruas abaixo, de modo que insensivelmente me achei á porta do hotel -Pharoux. De costume jantava ahi; mas, não tendo deliberadamente andado, -nenhum merecimento da acção me cabe, e sim ás pernas, que a fizeram. -Abençoadas pernas! E ha quem vos trate com desdem ou indifferença. -Eu mesmo, até então, tinha-vos em má conta, zangava-me quando vos -fatigaveis, quando não podieis ir além de certo ponto, e me deixaveis -com o desejo a avoaçar, á semelhança de gallinha atada pelos pés.</p> - -<p>Aquelle caso, porém, foi um raio de luz. Sim, pernas amigas, vós -deixastes á minha cabeça o trabalho de pensarem Virgilia, e dissestes -uma á outra:—Elle precisa comer, são horas de jantar, vamos levai-o ao -Pharoux; dividamos a consciencia delle, uma parte fique lá com a dama, -tomemos nós a outra, para que elle vá direito, não abalroe as gentes e -as carroças, tire o chapeu aos conhecidos, e finalmente chegue são e -salvo ao hotel. E cumpristes á risca o vosso proposito, amaveis pernas, -o que me obriga a immortalisar-vos nesta pagina.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LXVII" id="CAPITULO_LXVII">CAPITULO LXVII</a></h5> - - -<h4>A casinha</h4> - - -<p>Jantei e fui á casa. Lá achei uma caixa de charutos, que me mandára o -Lobo Neves, embrulhada em papel de seda, e ornada de fitinhas côr de -rosa. Entendi, abri-a, e tirei este bilhete:</p> - -<blockquote> - -<p>«Meu B...</p> - -<p>«Desconfiam de nós; tudo está perdido; esqueça-me para -sempre. Não nos veremos mais. Adeus; esqueça-se da infeliz</p> - -<p>«V...a»</p></blockquote> - -<p>Foi um golpe esta carta; não obstante, apenas fechou a noite, corri á -casa de Virgilia. Era tempo; estava arrependida. Ao vão de uma janella, -contou-me o que se passára com a baroneza. A baroneza disse-lhe -francamente que se falára muito, no theatro, na noite anterior, -a proposito da minha ausencia do camarote de Lobo Neves; tinham -commentado as minhas relações na casa; em suma, eramos objecto da -suspeita publica. Conclui dizendo que não sabia o que fazer.</p> - -<p>—O melhor é fugirmos, insinuei.</p> - -<p>—Nunca, respondeu ella abanando a cabeça.</p> - -<p>Vi que era impossivel separar duas cousas que no espirito della estavam -inteiramente ligadas: o nosso amor e a consideração publica. Virgilia -era capaz de eguaes e grandes sacrificios para conservar ambas as -vantagens; e a fuga só lhe deixava uma. Talvez senti alguma cousa -semelhante a despeito; mas as comoções daquelles dous dias eram já -muitas, e o despeito morreu depressa. Vá lá; arranjemos a casinha.</p> - -<p>Com effeito, achei-a, dias depois, expressamente feita, em um -recanto da Gamboa. Um brinco! Nova, caiada de fresco, com quatro -janellas na frente e duas de cada lado,—todas com venezianas côr de -tijolo,—trepadeira nos cantos, jardim na frente; mysterio e solidão. -Um brinco!</p> - -<p>Convencionámos que iria morar alli uma mulher, conhecida de Virgilia, -em cuja casa fora costureira e aggregada. Virgilia exercia sobre ella -verdadeira fascinação. Não se lhe diria tudo; ella aceitaria facilmente -o resto.</p> - -<p>Para mim era aquillo uma situação nova do nosso amor, uma apparencia -do posse exclusiva, de dominio absoluto, alguma cousa que me faria -adormecer a consciencia o resguardar o decoro. Já estava cançado das -cortinas do outro, das cadeiras, do tapete, do canapé, de todas essas -cousas, que me traziam aos olhos constantemente a nossa duplicidade. -Agora podia evitar os jantares frequentes, o chá de todas as noites, -emfim a presença do filho delles, meu complice e meu inimigo. A casa -resgatava-me tudo; o mundo vulgar terminaria á porta;—dalli para -dentro era o infinito, um mundo eterno, superior, excepcional, nosso, -somente nosso, sem leis, sem instituições, sem baronezas, sem olheiros, -sem escutas,—um só mundo, um só casal, uma só vida, uma só vontade, -uma só affeição,—a unidade moral de todas as cousas pela exclusão das -que me eram contrarias.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LXVIII" id="CAPITULO_LXVIII">CAPITULO LXVIII</a></h5> - - -<h4>O vergalho</h4> - - -<p>Taes eram as reflexões que eu vinha fazendo, por aquelle Valongo fóra, -logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-m'as um ajuntamento; -era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a -fugir; gemia somente estas unicas palavras:</p> - -<p>—«Não, perdão, meu senhor; meu senhor, perdão!» Mas o primeiro não -fazia caso, e, a cada supplica, respondia com uma vergalhada nova.</p> - -<p>—Toma, diabo! dizia elle; toma mais perdão, bebado!</p> - -<p>—Meu senhor! gemia o outro.</p> - -<p>—Cala a boca, besta! replicava o vergalho.</p> - -<p>Parei, olhei... Justos ceus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada -menos que o meu moleque Prudencio,—o que meu pae libertára alguns -annos antes. Cheguei-me; elle deteve-se logo e pediu-me a benção; -perguntei-lhe se aquelle preto era escravo delle.</p> - -<p>—E, sim, nhonhô.</p> - -<p>—Fez-te alguma cousa?</p> - -<p>—É um vadio e um bebado muito grande. Ainda hoje deixei elle na -quitanda, em quanto eu ia lá embaixo na cidade, e elle deixou a -quitanda para ir na venda beber.</p> - -<p>—Está bom, perdoa-lhe, disse eu.</p> - -<p>—Pois não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bebado!</p> - -<p>Saí do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas conjecturas. -Segui caminho, a cavar cá dentro uma infinidade de reflexões, que sinto -haver inteiramente perdido; aliás, seria materia para um bom capitulo, -e talvez alegre. Eu gósto dos capitulos alegres; é o meu fraco. -Exteriormente, era torvo o episodio do Valongo; mas só exteriormente. -Logo que metti mais dentro a faca do raciocinio achei-lhe um miolo -gaiato, fino, e até profundo. Era um modo que o Prudencio tinha de -se desfazer das pancadas recebidas,—transmittindo-as a outro. Eu, -em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem -compaixão; elle gemia e soffria. Agora, porém, que era livre, dispunha -de si mesmo, dos braços, das pernas, podia, trabalhar, folgar, dormir, -desagrilhoado da antiga condição, agora é que elle se desbancava: -comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de -mim recebera. Vejam as subtilezas do maroto!</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LXIX" id="CAPITULO_LXIX">CAPITULO LXIX</a></h5> - - -<h4>Um grão de sandice</h4> - - -<p>Este caso faz-me lembrar um doudo que conheci. Chamava-se Romualdo e -dizia ser Tamerlão. Era a sua grande e unica mania, e tinha uma curiosa -maneira de a explicar.</p> - -<p>—Eu sou o illustre Tamerlão, dizia elle. Outr'ora fui Romualdo, mas -adoeci, e tomei tanto tartaro, tanto tartaro, tanto tartaro, que fiquei -Tartaro, e até rei dos Tartaros. O tartaro tem a virtude de fazer -Tartaros.</p> - -<p>Pobre Romualdo! A gente ria da resposta, mas é provavel que o leitor -não se ria, e com razão; eu não lhe acho graça nenhuma. Ouvida, tinha -algum chiste; mas assim contada, no papel, e a proposito de um vergalho -recebido e transferido, força é confessar que é muito melhor voltar á -casinha da Gamboa; deixemos os Romualdos e Prudencios.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LXX" id="CAPITULO_LXX">CAPITULO LXX</a></h5> - - -<h4>D. Placida</h4> - - -<p>Voltemos á casinha. Não serias capaz de lá entrar hoje, curioso leitor; -envelheceu, ennegreceu, apodreceu, e o proprietario deitou-a abaixo -para substituil-a por outra, tres vezes maior, mas juro-te que muito -menor que a primeira. O mundo era estreito para Alexandre; um desvão de -telhado é o infinito para as andorinhas.</p> - -<p>E vejam agora a neutralidade deste globo, que nos leva, atravez dos -espaços, como uma lancha de naufragos, que vae dar á costa: dorme hoje -um casal de virtudes no mesmo espaço de chão que soffreu um casal de -peccados. Amanhã pode lá dormir um ecclesiastico, depois um assassino, -depois um ferreiro, depois um poeta, e todos abençoarão esse canto de -terra, que lhes deu algumas illusões.</p> - -<p>Virgilia fez daquillo um brinco; designou as alfaias mais idoneas, e -dispol-as com a intuição esthetica da mulher elegante; eu levei para -lá alguns livros; e tudo ficou sob a guarda de D. Placida, supposta, e, -a certos respeitos, verdadeira dona da casa.</p> - -<p>Custou-lhe muito a aceitar a casa; farejára a intenção, e doia-lhe o -officio; mas afinal cedeu. Creio que chorava, a principio: tinha nojo -de si mesma. Ao menos, é certo que não levantou os olhos para mim -durante os primeiros dous mezes; falava-me com elles baixos, séria, -carrancuda, ás vezes triste. Eu queria angarial-a, e não me dava por -offendido, tratava-a com carinho e respeito; forcejava por obter-lhe a -benevolencia, depois a confiança. Quando obtive a confiança, imaginei -uma historia pathetica dos meus amores com Virgilia, um caso anterior -ao casamento, a resistencia do pae, a dureza do marido, e não sei que -outros toques de novella. D. Placida não rejeitou uma só pagina da -novella; aceitou-as todas. Era uma necessidade da consciencia. Ao cabo -de seis mezes quem nos visse a todos tres juntos diria que D. Placida -era minha sogra.</p> - -<p>Não fui ingrato; fiz-lhe um peculio de cinco contos,—os cinco -contos achados em Botafogo,—como um pão para a velhice. D. Placida -agradeceu-me com lagrimas nos olhos; e nunca mais deixou de rezar por -mim, todas as noites, deante de uma imagem da Virgem, que tinha no -quarto. Foi assim que lhe acabou o nojo.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LXXI" id="CAPITULO_LXXI">CAPITULO LXXI</a></h5> - - -<h4>O senão do livro</h4> - - -<p>Começo a arrepender-me deste livro. Não que elle me cance; eu não tenho -que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capitulos para esse -mundo sempre é tarefa que distráe um pouco da eternidade. Mas o livro -é enfadonho, cheira a sepulchro, traz certa contracção cadaverica; -vicio grave, e aliás infimo, porque o maior defeito deste livro és tu, -leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a -narração direita e nutrida, o estylo regular e fluente, e este livro e -o meu estylo são como os ebrios, guinam á direita e á esquerda, andam e -param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o ceu, escorregam e cáem...</p> - -<p>E cáem!—Folhas miserrimas do meu cypreste, heis de cair, como -quaesquer outras bellas e vistosas; e, se eu tivesse olhos, dar-vos-hia -uma lagrima de saudade. Esta é a grande vantagem da morte, que se -não deixa boca para rir, tambem não deixa olhos para chorar... Heis -de cair. Turvo é o ar que respiraes, amadas folhas. O sol que vos -allumia, com ser de toda a gente, é um sol opaco e reles, de cemiterio -e carnaval.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LXXII" id="CAPITULO_LXXII">CAPITULO LXXII</a></h5> - - -<h4>O bibliomano</h4> - - -<p>Talvez supprima o capitulo anterior; entre outros motivos, ha ahi, nas -ultimas linhas, uma phrase muito parecida com desproposito, e eu não -quero dar pasto á critica do futuro.</p> - -<p>Olhae: daqui a setenta annos, um sugeito magro, amarello, grisalho, que -não ama nenhuma outra cousa além dos livros, inclina-se sobre a pagina -anterior, a ver se lhe descobre o desproposito; lê, relê, treslê, -desengonça as palavras, sacca uma syllaba, depois outra, mais outra, -e as restantes, examina-as por dentro e por fóra, por todos os lados, -contra a luz, espaneja-as, esfrega-as no joelho, lava-as, e nada. Fica -sempre o mesmo desproposito.</p> - -<p>É um bibliomano. Não conhece o autor; este nome de Braz Cubas não vem -nos seus diccionarios biographicos. Achou o volume, por acaso, no -pardieiro de um alfarrabista. Comprou-o por duzentos réis. Indagou, -pesquizou, esgaravatou, e veiu a descobrir que era um exemplar, -unico... Unico! Vós, que não só amaes os livros, senão que padeceis a -mania delles, vós sabeis mui bem o valor desta palavra, e adivinhaes, -portanto, as delicias de meu bibliomano. Elle regeitaria a corôa das -Indias, o papado, todos os muzeus da Italia e da Hollanda, se os -houvesse de trocar por esse unico exemplar; e não porque seja o das -minhas <i>Memorias</i>; faria a mesma cousa com o <i>Almanak</i> de Laemmert, uma -vez que fosse unico.</p> - -<p>O peor é o desproposito. Lá continúa o homem inclinado sobre a pagina, -com uma lente no olho direito, todo entregue á nobre e aspera funcção -de decifrar o desproposito. Já prometteu a si mesmo escrever uma -breve memoria, na qual relate o achado do livro e a descoberta da -sublimidade, se a houver por baixo daquella phrase obscura. Ao cabo, -não descobre nada e contenta-se com a posse. Fecha o livro, mira-o, -remira-o, chega-se á janella e mostra-o ao sol. Um exemplar unico! -Nesse momento passa-lhe por baixo da janella um Cesar ou um Cromwell, -a caminho do poder. Elle dá de hombros, fecha a janella, estira-se -na rede e folhea o livro devagar, com amor, aos goles... Um exemplar -unico!</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LXXIII" id="CAPITULO_LXXIII">CAPITULO LXXIII</a></h5> - - -<h4>O lunch</h4> - - -<p>O desproposito fez-me perder outro capitulo. Que melhor não era dizer -as cousas lisamente, sem todos estes solavancos! Já comparei o meu -estylo ao andar dos ebrios. Se a idéa vos parece indecorosa, direi -que elle é o que eram as minhas refeições com Virgilia, na casinha da -Gamboa, onde ás vezes faziamos a nossa patuscada, o nosso <i>lunch.</i> -Vinho, fructas, compotas. Comiamos, é verdade, mas era um comer -virgulado de palavrinhas doces, de olhares ternos, de criancices, -uma infinidade desses apartes do coração, aliás o verdadeiro, o -ininterrupto discurso do amor. Ás vezes vinha o arrufo temperar o -nimio adocicado da situação. Ella deixava-me, refugiava-se n'um canto -do canapé, ou ia para o interior ouvir as denguices de D. Placida. -Cinco ou dez minutos depois, reatavamos a palestra, como eu reato a -narração, para desatal-a outra vez. Note-se que, longe de termos horror -ao methodo, era nosso costume convidal-o, na pessoa de D. Placida, a -sentar-se comnosco á meza; mas D. Placida não aceitava nunca.</p> - -<p>—Você parece que não gosta mais de mim, disse-lhe um dia Virgilia.</p> - -<p>—Virgem Nossa Senhora! exclamou a boa dama alçando as mãos para o -tecto. Não gosto de Yayá! Mas então de quem é que eu gostaria neste -mundo?</p> - -<p>E, pegando-lhe nas mãos, olhou-a fixamente, fixamente, fixamente, até -molharem-se-lhe os olhos, de tão fixo que era. Virgilia acariciou-a -muito; eu deixei-lhe uma pratinha na algibeira do vestido.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LXXIV" id="CAPITULO_LXXIV">CAPITULO LXXIV</a></h5> - - -<h4>Historia de D. Placida</h4> - - -<p>Não te arrependas de ser generoso; a pratinha rendeu-me uma confidencia -de D. Placida, e conseguintemente este capitulo. Dias depois, como eu -a achasse só em casa, travámos palestra, e ella contou-me em breves -termos a sua historia. Era filha natural de um sacristão da Sé e de -uma mulher que fazia doces para fóra. Perdeu o pae aos dez annos. Já -então ralava côco e fazia não sei que outros misteres de doceira, -compativeis com a edade. Aos quinze ou dezeseis casou com um alfaiate, -que morreu tisico algum tempo depois, deixando-lhe uma filha. Viuva, -com pouco mais de vinte annos, ficaram a seu cargo a filha, com dous, e -a mãe, cançada de trabalhar. Tinha de sustentar a tres pessoas. Fazia -doces, que era o seu officio, mas cosia tambem, de dia e de noite, com -affinco, para tres ou quatro lojas, e ensinava algumas crianças do -bairro, a dez tostões por mez. Com isto iam-se passando os annos, não -a belleza, porque não a tivera nunca. Appareceram-lhe alguns namoros, -propostas, seducções, a que resistia.</p> - -<p>—Se eu pudesse encontrar outro marido, disse-me ella, creia que me -teria casado; mas ninguem queria casar commigo.</p> - -<p>Um dos pretendentes conseguiu fazer-se aceito; não sendo, porém, mais -delicado que os outros, D. Placida despediu-o do mesmo modo, e depois -de o despedir chorou muito. Continuou a coser para fóra e a escumar -os tachos. A mãe tinha a rabugem do temperamento, dos annos e da -necessidade; mortificava a filha para que tomasse um dos maridos de -emprestimo e de occasião, que lh'a pediam. E bradava:</p> - -<p>—Queres ser melhor do eu? Não sei donde te vem essas fiducias de -pessoa rica. Minha camarada, a vida não se arranja á toa; não se -come vento. Ora esta! Moços tão bons como o Polycarpo da venda, -coitado...Esperas algum fidalgo, não é?</p> - -<p>D. Placida jurou-me que não esperava fidalgo nenhum. Era genio. Queria -ser casada. Sabia muito bem que a mãe o não fôra, e conhecia algumas -que tinham só o seu moço dellas; mas era genio e queria ser casada. -Não queria tambem que a filha fosse outra cousa. E trabalhava muito, -queimando os dedos ao fogão, e os olhos ao candieiro, para comer e não -cair. Emmagreceu, adoeceu, perdeu a mãe, enterrou-a por subscripção, -e continuou a trabalhar. A filha estava com quatorze annos; mas era -muito fraquinha, e não fazia nada, a não ser namorar os capadocios -que lhe rondavam a rotula. D. Placida vivia com immensos cuidados, -levando-a comsigo, quando tinha de ir entregar costuras; e a gente das -lojas arregalava e piscava os olhos, convencida de que ella a levava -para colher marido ou outra cousa. Alguns diziam graçolas, faziam -comprimentos; a mãe chegou a receber propostas de dinheiro...</p> - -<p>Interrompeu-se um instante, e continuou logo:</p> - -<p>—Minha filha fugiu-me; foi com um sujeito, nem quero saber... -Deixou-me só, mas tão triste, tão triste, que pensei morrer. Não tinha -ninguem mais no mundo e estava quasi velha e doente. Foi por esse tempo -que conheci a familia de Yayá; boa gente, que me deu que fazer, e até -chegou a me dar casa. Estive lá muitos mezes, um anno, mais de um anno, -aggregada, costurando. Saí quando Yayá casou. Depois vivi como Deus -foi servido. Olhe os meus dedos, olhe estas mãos... E mostrou-me as -mãos grossas e gretadas, as pontas dos dedos picadas da agulha.—Não -se cria isto á toa, meu senhor; Deus sabe como é que isto se cria... -Felizmente, Yayá me protegeu, e o senhor doutor tambem... Eu tinha um -medo de acabar na rua, pedindo esmola...</p> - -<p>Ao soltar a ultima phrase, D. Placida teve um calafrio. Depois, como se -tornasse a si, pareceu attentar na inconveniencia daquella confissão -ao amante de uma mulher casada, e começou a rir, a desdizer-se, a -chamar-se tola, «cheia de fiducias», como lhe dizia a mãe; enfim, -cançada do meu silencio, retirou-se da sala. Eu fiquei a olhar para a -ponta do botim.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LXXV" id="CAPITULO_LXXV">CAPITULO LXXV</a></h5> - - -<h4>Commigo</h4> - - -<p>Podendo acontecer que algum dos meus leitores tenha pulado o capitulo -anterior, observo que é preciso lel-o para entender o que eu disse -commigo, logo depois que D. Placida saiu da sala. O que eu disse foi -isto:</p> - -<p>—Assim, pois, o sacristão da Sé, um dia, ajudando a missa, viu entrar -a dama, que devia ser sua collaboradora na vida de D. Placida. Viu-a -outros dias, durante semanas inteiras, gostou, disse-lhe alguma graça, -pisou-lhe o pé, ao acender os altares, nos dias de festa. Ella gostou -delle, acercaram-se, amaram-se. Dessa conjuncção de luxurias vadias -brotou D. Placida. É de crer que D. Placida não falasse ainda quando -nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias:—Aqui -estou. Para que me chamastes? E o sacristão e a sacristã naturalmente -lhe respondi riam:—Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, -os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para -outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e -sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas -sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia -na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, n'um momento de -sympathia.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LXXVI" id="CAPITULO_LXXVI">CAPITULO LXXVI</a></h5> - - -<h4>O estrume</h4> - - -<p>Subito deu-me a consciencia um repellão; accusou-me de ter feito -capitular a probidade de D. Placida, obrigando-a a um papel torpe, -depois de uma longa vida de trabalho e privações. Medianeira não era, -melhor que concubina; e eu tinha-a baixado a esse officio, á custa -de obsequios e dinheiros. Foi o que me disse a consciencia; e eu -fiquei uns dez minutos sem saber que lhe replicasse. Ella accrescentou -que eu me aproveitára da fascinação exercida por Virgilia sobre a -ex-costureira, da gratidão desta, emfim da necessidade. Notou a -resistencia de D. Placida, as lagrimas dos primeiros dias, as caras -feias, os silencios, os olhos baixos, e a minha arte em supportar -tudo isso, até vencel-a. E repuxou-me outra vez de um modo irritado e -nervoso.</p> - -<p>Concordei que assim era, mas alleguei que a velhice de D. Placida -estava agora ao abrigo da mendicidade; era uma compensação. E -raciocinei então que, se não fossem os meus amores, provavelmente -D. Placida acabaria como tantas outras creaturas humanas; donde se -poderia deduzir que o vicio é muitas vezes o estrume da virtude. O que -não impede que a virtude, seja uma flor cheirosa e sã. A consciência -concordou, e eu fui abrir a porta a Virgilia.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LXXVII" id="CAPITULO_LXXVII">CAPITULO LXXVII</a></h5> - - -<h4>Entrevista</h4> - - -<p>Virgilia entrou risonha e socegada. Os tempos tinham levado os -sustos e vexames. Que doce que era vel-a chegar, nos primeiros dias, -envergonhada e tremula! Ia de sege, velado o rosto, envolvida n'uma -especie de manteu, que lhe disfarçava as ondulações do talhe. Da -primeira vez deixou-se cair no canapé, offegante, escarlate, com os -olhos no chão; e, palavra! em nenhuma outra occasião a achei tão bella, -talvez porque nunca me senti mais lisonjeado.</p> - -<p>Agora, porém, como eu dizia, tinham acabado os sustos e vexames; as -entrevistas entravam no periodo chronometrico. A intensidade de amor -era a mesma; a differença é que a chamma perdera o tresloucado dos -primeiros dias para constituir-se um simples feixe de raios, tranquillo -e constante, como nos casamentos.</p> - -<p>—Estou muito zangada com você, disse ella sentando-se.</p> - -<p>—Porque?</p> - -<p>—Porque não foi lá hontem, como me tinha dito. O Damião perguntou -muitas vezes se você não iria, ao menos, tomar chá. Porque é que não -foi?</p> - -<p>Com effeito, eu havia faltado á palavra que dera, e a culpa era toda de -Virgilia, Questão de ciumes. Essa mulher esplendida sabia que o era, e -gostava de o ouvir dizer, fosse em voz alta ou baixa. Na antevespera, -em casa da baroneza, valsara duas vezes com o mesmo peralta, depois -de lhe escutar as cortezanices, ao canto de uma janella. Estava tão -alegre! tão derramada! tão cheia de si! Quando descobriu, entre as -minhas sobrancelhas, a ruga interrogativa e ameaçadora, não teve nenhum -sobresalto, nem ficou subitamente séria; mas deitou ao mar o peralta -e as cortezanices. Veiu depois a mim, tomou-me o braço, e levou-me -até outra sala, menos povoada, onde se me queixou de cançaço, e disse -muitas outras cousas, com o ar pueril que costumava ter, em certas -occasiões, e eu ouvi-a quasi sem responder nada.</p> - -<p>Agora mesmo, custava-me responder alguma cousa, mas emfim contei-lhe -o motivo da minha ausencia... Não, eternas estrellas, nunca vi olhos -mais pasmados. A boca semi-aberta, as sobrancelhas arqueadas, uma -estupefacção visivel, tangivel, que senão podia negar, tal foi a -primeira replica de Virgilia; abanou a cabeça com um sorriso de piedade -e ternura, que inteiramente me confundiu.</p> - -<p>—Ora você!</p> - -<p>E foi tirar o chapéo, lepida, jovial, como a menina que torna do -collegio; depois veiu a mim, que estava sentado, deu-me pancadinhas na -testa, com um só dedo, a repetir;—Isto, isto;—e eu não tive remedio -senão rir tambem, e tudo acabou em galhofa. Era claro que me enganára.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LXXVIII" id="CAPITULO_LXXVIII">CAPITULO LXXVIII</a></h5> - - -<h4>A presidencia</h4> - - -<p>Certo dia, mezes depois, entrou o Lobo Neves em casa, dizendo que iria -talvez occupar uma presidencia de provincia. Olhei para Virgilia, que -empallideceu; elle, que a viu empallidecer, perguntou-lhe:</p> - -<p>—A modo que não gostaste, Virgilia?</p> - -<p>Virgilia abanou a cabeça.</p> - -<p>—Não me agrada muito, foi a sua resposta.</p> - -<p>Não se disse mais nada; mas de noite o Lobo Neves insistiu no projecto, -um pouco mais resolutamente do que de tarde; e dous dias depois -declarou á mulher que a presidencia era cousa definitiva. Virgilia não -pôde dissimular a repugnancia que isto lhe causava. O marido respondia -a tudo com as necessidades politicas. E accrescentava:</p> - -<p>—Não posso recusar o que me pedem; é até conveniencia nossa, do -nosso futuro, dos teus brazões, meu amor, porque eu prometti que -serias marqueza, e nem baroneza estás. Dirás que sou ambicioso? Sou-o -devéras, mas é preciso que me não ponhas um peso nas azas da ambição.</p> - -<p>Virgilia ficou desorientada. No dia seguinte achei-a triste, na casa -da Gamboa, á minha espera; tinha dito tudo a D. Placida, que buscava -consolal-a, como podia. Não fiquei menos abatido.</p> - -<p>—Você hade ir comnosco, disse-me Virgilia.</p> - -<p>—Está douda? Seria uma insensatez.</p> - -<p>—Mas então...?</p> - -<p>—Então, é preciso desfazer o projecto.</p> - -<p>—É impossível.</p> - -<p>—Já aceitou?</p> - -<p>—Parece que sim.</p> - -<p>Levantei-me, atirei o chapeu a uma cadeira, e entrei a passeiar de um -lado para outro, sem saber o que faria. Cogitei largamente, e não achei -nada. Emfim, cheguei-me a Virgilia, que estava sentada, e travei-lhe da -mão; D. Placida foi á janella.</p> - -<p>—Nesta pequenina mão está toda a minha existencia, disse eu; voce é -responsavel por ella; faça o que lhe parecer.</p> - -<p>Virgilia teve um gesto afflictivo; eu fui encostar-me ao consolo -fronteiro. Decorreram alguns instantes do silencio; ouviamos sómente -o latir de um cão, e não sei se o rumor da agua, que morria na praia. -Vendo que não falava, olhei para ella. Virgilia tinha os olhos no -chão, parados, sem luz, as mãos deixadas sobre os joelhos, com os -dedos cruzados, na attitude da suprema desesperança. N'outra occasião, -por differente motivo, é certo que eu me lançaria aos pés della, -e a ampararia com a minha razão e a minha ternura; agora, porém, -era preciso compellil-a ao esforço de si mesma, ao sacrificio, á -responsabilidade da nossa vida commun, e conseguintemente desamparal-a, -deixal-a, e saír; foi o que fiz.</p> - -<p>—Repito, a minha felicidade está nas tuas mãos, disse eu.</p> - -<p>Virgilia quiz agarrar-me, mas eu já estava fóra da porta. Cheguei a -ouvir um proromper de lagrimas, e digo-lhes que estive a ponto de -voltar, para as enxugar com um beijo; mas subjuguei-me e saí.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LXXIX" id="CAPITULO_LXXIX">CAPITULO LXXIX</a></h5> - - -<h4>Compromisso de gato</h4> - - -<p>Não acabaria se houvesse de contar pelo miudo o que padeci nas -primeiras horas. Vacillava entre um querer e um não querer, -entre a piedade que me empuxava á casa de Virgilia e outro -sentimento,—egoismo, supponhamos,—que me dizia:—Fica; deixa-a a -sós com o problema, deixa-a que ella o resolverá no sentido do amor. -Creio que essas duas forças tinham egual intensidade, investiam e -resistiam ao mesmo tempo, com ardor, com tenacidade, e nenhuma cedia -definitivamente. Ás rezes sentia um dentesinho de remorso; parecia-me -que abusava da fraqueza de uma mulher amante e culpada, sem nada -sacrificar nem arriscar de mim proprio; e, quando ia a capitular, -vinha outra vez o amor, e me repetia o conselho egoista, e eu ficava -irresoluto e inquieto, desejoso do a ver, e receioso de que a vista me -levasse a compartir a responsabilidade da solução.</p> - -<p>Por fim interveiu um compromisso entre o egoismo e a piedade; eu iria -vel-a em casa, e só em casa, em presença do marido, para lhe não dizer -nada, á espera do effeito da minha intimação. Deste modo, poderia -conciliar as duas forças. Agora, que isto escrevo, quer-me parecer que -o compromisso era uma burla, que essa piedade era ainda um fórma de -egoismo, e que a resolução de ir consolar Virgilia não passava de uma -suggestão de meu proprio padecimento. Occorre-me a este proposito um -naturalista,—não me lembra qual,—mas era um naturalista,—em quem li -esta observação curiosa: «O gato não nos affaga, affaga-se em nós.» -Vejo que eu fazia um compromisso de gato.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LXXX" id="CAPITULO_LXXX">CAPITULO LXXX</a></h5> - - -<h4>Do secretario</h4> - - -<p>Na noite seguinte fui effectivamente á casa do Lobo Neves; estavam -ambos, Virgilia muito triste, elle muito jovial. Juro que ella sentiu -certo allivio, quando os nossos olhos se encontraram, cheios de -curiosidade e ternura; e não direi o que senti, porque isso já ficou -expresso no capitulo anterior, <i>in fine.</i> O Lobo Neves contou-me os -planos que levava para a presidencia, as difficuldades locaes, as -esperanças, as resoluções; estava tão contente! tão esperançado! -Virgilia, ao pé da meza, fingia ler um livro, mas por cima da pagina -olhava-me de quando em quando, interrogativa e ansiosa.</p> - -<p>—O peor, disse-me de repente o Lobo Neves, é que ainda não achei -secretario.</p> - -<p>—Não?</p> - -<p>—Não, e tenho uma idéa.</p> - -<p>—Ah!</p> - -<p>—Uma idéa... Quer você dar um passeio ao norte? Não sei o que lhe -disse.</p> - -<p>—Você é rico, continuou elle, não precisa de um magro ordenado; mas se -quizesse obsequiar-me, ia de secretario commigo.</p> - -<p>Meu espirito deu um salto para traz, como se descobrisse uma serpente -deante de si. Encarei o Lobo Neves, fixamente, imperiosamente, a ver -se lhe apanhava algum pensamento occulto... Nem sombra disso; o olhar -vinha direito e franco, a placidez do rosto era natural, não violenta, -uma placidez salpicada de alegria. Respirei, e não tive animo de -olhar para Virgilia; senti por cima da pagina o olhar della, que me -pedia tambem a mesma cousa, e disse que sim, que iria. Na verdade, um -presidente, uma presidenta, um secretario, era resolver as cousas de um -modo administrativo.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LXXXI" id="CAPITULO_LXXXI">CAPITULO LXXXI</a></h5> - - -<h4>A reconciliação</h4> - - -<p>E comtudo, ao sair de lá, tive umas sombras de duvida; cogitei se não -ia expor insanamente a reputação de Virgilia, se não haveria outro -meio razoavel de combinar o Estado e a Gamboa. Não achei nada. No dia -seguinte, ao levantar-mo da cama, trazia o espirito feito e resoluto a -aceitar a nomeação. Ao meio dia, veiu o creado dizer-me que estava na -sala uma senhora, coberta com um véo. Corro; era minha irmã Sabina.</p> - -<p>—Isto não pode continuar assim, disse ella; é preciso que, de uma vez -por todas, façamos as pazes. Nossa familia está acabando; não havemos -de ficar como dous inimigos.</p> - -<p>—Mas se eu não te peço outra cousa, mana! bradei eu estendendo-lhe os -braços.</p> - -<p>E sentei-a ao pé de mim, e falei-lhe do marido, da filha, dos negocios, -de tudo. Tudo ia bem; a filha estava linda como os amores. O marido -viria mostrar-m'a, se eu consentissse.</p> - -<p>—Ora essa! irei eu mesmo vel-a.</p> - -<p>—Sim?</p> - -<p>—Palavra.</p> - -<p>—Tanto melhor! respirou Sabina. É tempo de acabar com isto.</p> - -<p>Achei-a mais gorda, e talvez mais moça. Parecia ter vinte annos, -e contava mais de trinta. Graciosa, affavel, nenhum acanhamento, -nenhum resentimento. Olhavamos um para o outro, com as mãos seguras, -falando de tudo e de nada, como dous namorados. Era a minha infancia -que resurgia, fresca, travessa e loura; os annos iam caindo, como as -fileiras de cartas de jogar encurvadas, com que eu brincava em pequeno, -e deixavam-me ver a nossa casa, a nossa familia, as nossas festas. -Supportei a recordação com algum esforço; mas um barbeiro da visinhança -lembrou-se de zangarrear na classica rabeca, e essa voz,—porque até -então a recordação era muda,—essa voz do passado, fanhosa e saudosa, a -tal ponto me commoveu, que...</p> - -<p>Os olhos della estavam seccos. Sabina não herdára a flor amarella e -morbida. Que importa? Era minha irmã, meu sangue, um pedaço de minha -mãe, e eu disse-lh'o com ternura, com sinceridade... Subito, ouço bater -á porta da sala; vou abrir; era um anjinho de cinco annos.</p> - -<p>—Entra, Sára, disse Sabina.</p> - -<p>Era minha sobrinha. Apanhei-a do chão, beijei-a muitas vezes; a -pequena, espantada, empurrava-me o hombro com a mãosinha, quebrando -o corpo para descer... Nisto, apparece-me á porta um chapéu, e logo -um homem, o Cotrim, nada menos que o Cotrim. Eu estava tão commovido, -que deixei a filha e lancei-me aos braços do pae. Talvez essa effusão -o desconcertou um pouco; é certo que me pareceu acanhado. Simples -prologo. Dahi a pouco falavamos como bons amigos velhos. Nenhuma -allusão ao passado, muitos planos de futuro, promessa de jantarmos em -casa um do outro; e não deixei de dizer que essa troca de jantares -podia ser que tivesse uma curta interrupção, por que eu andava com -idéas de uma viagem ao norte. Sabina olhou para o Cotrim, o Cotrim para -Sabina; ambos concordaram que essas idéas não tinham senso commum. -Que diacho podia eu achar no norte? Pois não era na côrte, em plena -côrte, que devia continuar a luzir, a metter n'um chinello os rapazes -do tempo? Que, na verdade, nenhum havia que se me comparasse; elle, -Cotrim, acompanhava-me de longe, e, não obstante uma briga ridicula, -teve sempre interesse, orgulho, vaidade nos meus triumphos. Ouvia o -que se dizia a meu respeito, nas ruas e nas salas; era um concerto de -louvores e admirações. E deixa-se isso para ir passar alguns mezes na -provincia, sem necessidade, sem motivo serio? A menos que não fosse -politica...</p> - -<p>—Justamente política, disse eu.</p> - -<p>—Nem assim, replicou elle dahi a um instante—E depois de outro -silencio:—Seja como for, venha jantar hoje comnosco.</p> - -<p>—Certamente que vou; mas, amanhã ou depois, hão de vir jantar commigo.</p> - -<p>—Não sei, não sei, objectou Sabina; casa de homem solteiro... Você -precisa casar, mano. Tambem eu quero uma sobrinha, ouviu?</p> - -<p>O Cotrim reprimiu-a com um gesto, que não entendi bem. Não importa; a -reconciliação de uma familia vale bem um gesto enigmatico.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LXXXII" id="CAPITULO_LXXXII">CAPITULO LXXXII</a></h5> - - -<h4>Questão de botanica</h4> - - -<p>Digam o que quizerem dizer os hypocondriacos: a vida é uma cousa -doce. Foi o que eu pensei commigo, ao ver Sabina, o marido e a filha -descerem de tropel as escadas, dizendo muitas palavras affectuosas -para cima, onde eu ficava—no patamar,—a dizer-lhes outras tantas -para baixo. E continuei a pensar que, na verdade, era feliz. Amava-me -uma mulher, tinha a confiança do marido, ia por secretario de ambos, e -reconciliava-me com os meus. Que podia desejar mais, em vinte e quatro -horas?</p> - -<p>Nesse mesmo dia, tratando de apparelhar os animos, comecei a espalhar -que talvez fosse para o norte, como secretario de provincia, afim de -realizar certos designios politicos, que me eram pessoaes. Disse-o na -rua do Ouvidor, repeti-o no dia seguinte, no Pharoux e no theatro. -Alguns, ligando a minha nomeação á do Lobo Neves, que já andava em -boatos, sorriam maliciosamente, outros batiam-me no hombro. No theatro -disse-me uma senhora que era levar muito longe o amor da esculptura. -Referia-se ás bellas fórmas de Virgilia.</p> - -<p>Mas a allusão mais rasgada que me fizeram foi em casa de Sabina, tres -dias depois. Fel-a um certo Garcez, velho cirurgião, pequenino, trivial -e grulha, que podia chegar aos setenta, aos oitenta, aos noventa annos, -sem adquirir jamais aquella compostura austera, que é a gentileza do -ancião. A velhice ridicula é, porventura, a mais triste e derradeira -sorpresa da natureza humana.</p> - -<p>—Já sei, desta vez vae ler Cicero, disse-me elle, ao saber da viagem.</p> - -<p>—Cicero! exclamou Sabina.</p> - -<p>—Pois então? Seu mano é um grande latinista. Traduz Virgilio de -relance. Olhe que é Virgilio, e não Virgilia... não confunda...</p> - -<p>E ria, de um riso grosso, rasteiro e frivolo. Sabina empallideceu e -olhou para mim, receiosa de alguma replica; mas sorriu, quando me viu -sorrir, e voltou o rosto para disfarçal-o. As outras pessoas olhavam-me -com um ar de curiosidade, indulgencia e sympathia; era transparente que -não acabavam de ouvir nenhuma novidade. O caso dos meus amores andava -mais publico do que eu podia suppor. E entretanto sorri, um sorriso -curto, fugitivo e guloso,—palreiro como as pegas de Cintra. Virgilia -era um bello erro, e é tão facil confessar um bello erro! Costumava -ficar carrancudo, a principio, quando ouvia alguma allusão aos nossos -amores; mas, palavra de honra! sentia cá dentro uma impressão suave e -linsongeira. Uma vez, porém, aconteceu-me sorrir, e continuei a fazel-o -das outras vezes. Não sei se ha ahi algum Hobbes ou Spinoza, que -explique o phenomeno. Eu explico-o assim: a principio, o contentamento, -sendo interior, era por assim dizer o mesmo sorriso, mas abotoado; -andando o tempo, desabotou-se em flor, e appareceu aos olhos do -proximo. Simples questão de botanica.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LXXXIII" id="CAPITULO_LXXXIII">CAPITULO LXXXIII</a></h5> - - -<h4>13</h4> - - -<p>O Cotrim tirou-me daquelle gozo, levando-me á janella.—Você quer que -lhe diga uma cousa? perguntou elle;—não faça essa viagem; é insensata, -é perigosa.</p> - -<p>—Porque?</p> - -<p>—Você bem sabe porque, tornou elle: é, sobretudo, perigosa, muito -perigosa. Aqui na côrte, um caso desses perde-se na multidão da gente -e dos interesses; mas na provincia muda de figura; e tratando-se de -personagens politicos, é realmente insensatez. As gazetas de opposição, -logo que farejarem o negocio, passam a imprimil-o com todas as lettras, -e ahi virão as chufas, os remoques, as alcunhas...</p> - -<p>—Mas não entendo...</p> - -<p>—Entende, entende; e, na verdade, seria bem pouco amigo nosso, se me -negasse o que toda a gente sabe. Eu sei disso ha longos mezes. Repito, -não faça semelhante viagem; supporte a ausencia, que é melhor, e evite -algum grande escandalo e maior desgosto...</p> - -<p>Disse isto, e foi para dentro. Eu deixei-me estar com os olhos no -lampião da esquina,—um antigo lampião de azeite,—triste, obscuro e -recurvado, como um ponto de interrogação. Que me cumpria fazer? Era o -caso de Hamlet: ou dobrar-me á fortuna, ou lutar com ella e subjugal-a. -Por outros termos: embarcar ou não embarcar. Esta era a questão. O -lampião não me dizia nada. As palavras do Cotrim resoavam-me aos -ouvidos da memoria, de um modo bem diverso do das palavras do Garcez. -Talvez o Cotrim tivesse razão: mas podia eu separar-me de Virgilia?</p> - -<p>Sabina veiu ter commigo, e perguntou-me em que estava pensando. -Respondi que em cousa nenhuma, que tinha somno e ia para casa. Sabina -esteve um instante calada.—O que você precisa, sei eu; é uma noiva. -Deixe, que eu ainda arranjo uma noiva para você. Saí de lá oppresso, -desorientado. Tudo prompto para embarcar,—espirito e coração,—e eis -ahi me surge esse porteiro das conveniencias, que me pede o cartão de -ingresso. Dei ao diabo as conveniências, e com ellas a constituição, o -corpo legislativo, o ministerio, tudo.</p> - -<p>No dia seguinte, abro uma folha politica e leio a noticia de que, por -decretos de 13, tínhamos sido nomeados presidente e secretario da -provincia de *** o Lobo Neves e eu. Escrevi immediatamente a Virgilia, -e segui duas horas depois para a Gamboa. Coitada de D. Placida! Estava -cada vez mais afflicta; perguntou-me se esqueceriamos a nossa velha, se -a ausencia era grande e se a provincia ficava longe. Consolei-a; mas -eu proprio precisava de consolações; a objecção do Cotrim affligia-me -profundamente. Virgilia chegou dahi a pouco, lepida como uma andorinha; -mas, ao ver-me triste, ficou muito seria.</p> - -<p>—Que aconteceu?</p> - -<p>—Vacillo, disse eu; não sei se devo aceitar...</p> - -<p>Virgilia deixou-se cair, no canapé, a rir.—Porque? disse ella.</p> - -<p>—Não é conveniente, dá muito na vista...</p> - -<p>—Mas nós já não vamos.</p> - -<p>—Como assim?</p> - -<p>Contou-me que o marido ia recusar a nomeação, e por motivo que só disse -a ella, pedindo-lhe o maior segredo; não podia confessal-o a ninguem -mais.—É pueril, observou elle, é ridiculo; mas em summa, é um motivo -poderoso para mim. E referiu-lhe que o decreto trazia a data de 13, e -que esse numero significava para elle uma recordação funebre. O pae -morreu n'um dia 13, treze dias depois de um jantar, em que havia treze -pessoas. A casa em que morrera a mãe tinha o n. 13. Et cætera. Era um -algarismo fatidico. Não podia allegar semelhante cousa ao ministro; -dir-lhe-hia que tinha razões particulares para não aceitar. Eu fiquei -como ha de estar o leitor,—um pouco assombrado com esse sacrificio a -um numero; mas, sendo elle ambicioso, o sacrificio devia ser sincero... -E ficavamos. Para alguma cousa ha de servir a superstição dos homens.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LXXXIV" id="CAPITULO_LXXXIV">CAPITULO LXXXIV</a></h5> - - -<h4>O conflicto</h4> - - -<p>Numero fatidico, lembras-te que te abençoei muitas vezes? Assim tambem -as virgens ruivas de Thebas deviam abençoar a egua, de ruiva crina, -que as substituiu no sacrificio de Pelopidas,—uma donosa egua, que -lá morreu, coberta de flores, sem que ninguem lhe désse nunca uma -palavra de saudade. Pois dou-t'a eu, egua piedosa, não só pela morte -havida, como porque, entre as donzellas escapas, não é impossivel -que figurasse uma avó dos Cubas... Numero fatidico, tu foste a nossa -salvação. Não me confessou o marido a causa da recusa; disse-me tambem -que eram negocios particulares, e o rosto serio, convencido, com que -eu o escutei, fez honra á dissimulação humana. Elle é que mal podia -encobrir a tristeza profunda que o minava; falava pouco, absorvia-se, -mettia-se em casa, a ler. Outras vezes recebia, e então conversava e -ria muito, com estrepito e affectação. Opprimiam-n'o duas cousas,—a -ambição, que um escrupulo desazára, e logo depois a duvida, e talvez -o arrependimento,—mas um arrependimento, que viria outra vez, si se -repetisse a hypothese, porque o fundo supersticioso existia. Duvidava -da superstição, sem chegar a rejeital-a. Essa persistencia de um -sentimento, que repugna ao mesmo individuo, era um phenomeno digno de -alguma attenção. Mas eu preferia a pura ingenuidade de D. Placida, -quando confessava não poder ver um sapato voltado para o ar.</p> - -<p>—Que tem isso? perguntava-lhe eu.</p> - -<p>—Faz mal, era a sua resposta.</p> - -<p>Isto somente, esta unica resposta, que valia para ella o livro dos sete -sellos. Faz mal. Disseram-lhe isso em criança, sem outra explicação; -e ella contentava-se com a certeza do mal. Já não acontecia a mesma -cousa quando se falava de apontar uma estrella com o dedo; ahi sabia -perfeitamente que era caso de crear uma verruga.</p> - -<p>Ou verruga ou outra cousa, que valia isso, para quem não perde uma -presidencia de provincia? Tolera-se uma superstição gratuita ou barata; -é insupportavel a que leva uma parte da vida. Este era o caso do Lobo -Neves; com o accrescimo da duvida e do terror de haver sido ridiculo. -E mais este outro accrescimo, que o ministro não acreditou nos motivos -particulares; attribuiu a recusa do Lobo Neves a manejos politicos, -illusão complicada de algumas apparencias; tratou-o mal, communicou a -desconfiança aos collegas; sobrevieram incidentes; emfim, com o tempo, -o presidente resignatario foi para a opposição.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LXXXV" id="CAPITULO_LXXXV">CAPITULO LXXXV</a></h5> - - -<h4>O cimo da montanha</h4> - - -<p>Quem escapa a um perigo ama a vida com outra intensidade; eu entrei -a amar Virgilia com muito mais ardor, depois que estive a pique de a -perder, e a mesma cousa lhe aconteceu a ella. Assim, a presidencia não -fez mais do que avivar a affeição primitiva; foi a droga de Malabar, -com que tornámos mais saboroso o nosso amor, e mais prezado tambem. Nos -primeiros dias, depois daquelle incidente, folgavamos de imaginar a -dôr da separação, se houvesse separação, a tristeza de um e de outro, -á proporção que o mar, como uma toalha elastica, se fosse dilatando -entre nós; e, semelhantes ás crianças, que se achegam ao regaço das -mães, para fugir a uma simples careta, fugiamos do supposto perigo, -apertando-nos com abraços.</p> - -<p>—Minha boa Virgilia!</p> - -<p>—Meu amor!</p> - -<p>—Tu és minha, não?</p> - -<p>—Tua, tua...</p> - -<p>E assim reatámos o fio da aventura, como a sultana Scheherazade o dos -seus contos. Esse foi, cuido eu, o ponto maximo do nosso amor, o cimo -da montanha, donde por algum tempo divisámos os valles de leste e de -oeste, e por cima de nós o ceu tranquillo e azul. Repousado esse tempo, -começámos a descer a encosta, com as mãos presas ou soltas, mas a -descer, a descer...</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LXXXVI" id="CAPITULO_LXXXVI">CAPITULO LXXXVI</a></h5> - - -<h4>O mysterio</h4> - - -<p>Serra abaixo, como eu a visse um pouco differente, não sei se abatida -ou outra cousa, perguntei-lhe o que tinha; calou-se, fez um gesto de -enfado, de máu estar, de fadiga; ateimei, ella disse-me que... Um -fluido subtil percorreu todo o meu corpo: sensação forte; rapida, -singular, que eu não chegarei jamais a fixar no papel. Travei-lhe das -mãos, puxei-a levemente a mim, e beijei-a na testa, com uma delicadeza -de zephyro e uma gravidade de Abrahão. Ella estremeceu, colheu-me a -cabeça entre as palmas, fitou-me os olhos, depois affagou-me com um -gesto maternal...Eis ahi um mysterio; deixemos ao leitor o tempo de -decifrar este mysterio.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LXXXVII" id="CAPITULO_LXXXVII">CAPITULO LXXXVII</a></h5> - - -<h4>Geologia</h4> - - -<p>Succedeu por esse tempo um desastre: a morte do Viegas. O Viegas passou -ahi de relance, n'um capitulo, com os seus setenta annos, abafados -de asthma, desconjuntados de rheumatismo, e uma lesão de coração por -quebra. Foi um dos finos espreitadores da nossa aventura. Virgilia -nutria grandes esperanças em que esse velho parente, avaro como um -sepulchro, lhe amparasse o futuro do filho, com algum legado; e, se -o marido tinha eguaes pensamentos, encobria-os ou estrangulava-os. -Tudo se deve dizer: havia no Lobo Neves certa dignidade fundamental, -uma camada de rocha, que resistia ao commercio dos homens. As outras, -as camadas de cima, terra solta e arêa, levou-lh'as a vida, que é -um enxurro perpetuo. Se o leitor ainda se lembra do cap. XXXIII, -observará que é agora a segunda vez que eu comparo a vida a um -enxurro; mas tambem ha de reparar que desta vez accrescento-lhe -um adjectivo—perpetuo. E Deus sabe a força de um adjectivo, -principalmente em paizes novos e cálidos.</p> - -<p>O que é novo neste livro é a geologia moral do Lobo Neves, e -provavelmente a do cavalheiro, que me está lendo. Sim, essas camadas -de caracter, que a vida altera, conserva ou dissolve, conforme a -resistencia dellas, essas camadas mereceriam um capitulo, que eu não -escrevo, por não alongar a narração. Digo apenas que o homem mais -probo que conheci em minha vida foi um certo Jacob Medeiros ou Jacob -Valladares, não me recorda bem o nome. Talvez fosse Jacob Rodrigues; -em summa, Jacob. Era a probidade mesma; podia ser rico, violentando um -pequenino escapulo, e não quiz; deixou ir pelas mãos fóra nada menos de -uns quatrocentos contos; tinha a probidade tão exemplar, que chegava -a ser miuda e cançativa. Um dia, como nos achassemos, a sós, em casa -delle, em boa palestra, vieram dizer que o procurava o Dr. B., um -sujeito enfadonho. O Jacob mandou dizer que não estava em casa.</p> - -<p>—Não péga, bradou uma voz do corredor; cá estou de dentro.</p> - -<p>E, com effeito, era o Dr. B., que appareceu logo á porta da sala. O -Jacob foi recebel-o, affirmando que cuidava ser outra pessoa, e não -elle, e accrescentando que tinha muito prazer com a visita, o que nos -rendeu hora e meia de enfado mortal, e isto mesmo, porque o Jacob tirou -o relogio; o Dr. B. pergutou-lhe então se ia sair.</p> - -<p>—Com minha mulher, disse o Jacob.</p> - -<p>Retirou-se o Dr. B. e respiramos. Uma vez respirados, disse eu ao -Jacob que elle acabava de mentir quatro vezes, em menos de duas horas: -a primeira, negando-se; a segunda, alegrando-se com a presença do -importuno; a terceira, dizendo que ia sair; a quarta, accrescentando -que com a mulher. O Jacob reflectiu um instante, depois confessou a -justeza da minha observação, mas desculpou-se dizendo que a veracidade -absoluta era incompativel com um estado social adiantado, e que a paz -das cidades só se podia obter á custa de embaçadellas reciprocas... Ah! -lembra-me agora: chamava-se Jacob Tavares.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LXXXVIII" id="CAPITULO_LXXXVIII">CAPITULO LXXXVIII</a></h5> - - -<h4>O enfermo</h4> - - -<p>Não é preciso dizer que refutei tão perniciosa doutrina, com os mais -elementares argumentos; mas elle estava tão vexado do meu reparo, -que resistiu até o fim, mostrando certo calor ficticio, talvez para -atordoar a consciencia.</p> - -<p>O caso de Virgilia tinha alguma gravidade mais. Ella era menos -escrupulosa que o marido; manifestava claramente as esperanças que -trazia no legado, cumulava o parente de todas as cortezias, attenções -e affagos que poderiam render, pelo menos, um codicillo. Propriamente, -adulava-o; mas eu observei que a adulação das mulheres não é a mesma -cousa que a dos homens. Esta orça pela servilidade; a outra confunde-se -com a affeição. As formas graciosamente curvas, a palavra doce, a mesma -fraqueza physica dão á acção lisonjeira da mulher uma côr local, um -aspecto legitimo. Não importa a edade do adulado; a mulher ha de ter -sempre para elle uns ares de mãe ou de irmã,—ou ainda de enfermeira, -outro officio feminil, em que o mais habil dos homens carecerá sempre -de um <i>quid</i>, um fluido, alguma cousa.</p> - -<p>Era o que eu pensava commigo, quando Virgilia se desfazia toda em -affagos ao velho parente. Ella ia recebel-o á porta, falando e rindo, -tirava-lhe o chapeu e a bengala, dava-lhe o braço e levava-o até uma -cadeira, ou até á cadeira, porque havia lá em casa a «cadeira do -Viegas», obra especial, conchegada, feita para gente enferma ou anciã. -Ia fechar a janella proxima, se havia alguma brisa, ou abril-a, se -estava calor, mas com cuidado, combinando de modo que lhe não désse um -golpe de ar.</p> - -<p>—Então? hoje está mais fortesinho...</p> - -<p>—Qual! Passei mal a noite; o diabo da asthma não me deixa.</p> - -<p>E bufava o homem, repousando a pouco e pouco do cançaço da entrada e -da subida, não do caminho, porque ia sempre de sege. Ao lado, um pouco -mais para a frente, sentava-se Virgilia, n'uma banquinha, com as mãos -nos joelhos do enfermo. Entretanto, o nhonhô chegava á sala, sem os -pulos do costume, mas discreto, meigo, serio. O Viegas gostava muito -delle.</p> - -<p>—Vem cá, nhonhô, dizia-lhe; e a custo introduzia a mão na ampla -algibeira, tirava uma caixinha de pastilhas, mettia uma na boca o dava -outra ao pequeno. Pastilhas anti-asthmaticas. O pequeno dizia que eram -muito boas.</p> - -<p>Repetia-se isto, com variantes. Como o Viegas gostasse de jogar damas, -Virgilia cumpria-lhe o desejo, aturando-o por largo tempo, a mover as -pedras com a mão frouxa e tarda. Outras vezes, desciam a passear na -chacara, dando-lhe ella o braço, que elle nem sempre aceitava, por -dizer-se rijo e capaz de andar uma legua. Iam, sentavam-se, tornavam -a ir, a falar de cousas varias, ora de um negocio de familia, ora de -uma bisbilhotice de alcova, ora emfim de uma casa que elle meditava -construir, para residencia propria, casa de feitio moderno, porque a -delle era das antigas, contemporanea de el-rei D. João VI, á maneira -de algumas que ainda hoje (creio eu) se podem ver no bairro de S. -Christovão, com as suas grossas columnas na frente. Parecia-lhe que o -casarão em que morava podia ser substituido, e já tinha encommendado -o risco a um pedreiro de fama. Ah! então sim, então é que Virgilia -chegaria a ver o que era um velho de gosto.</p> - -<p>Falava, como se póde suppôr, lentamente e a custo, intervallado de uma -arfagem incommoda para elle e para os outros. De quando em quando, -vinha um accesso de tosse; curvo, gemendo, levava o lenço á boca, e -investigava-o; passado o accesso, tornava ao plano da casa, que devia -ter taes e taes quartos, um terraço, cocheira, um primor.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_LXXXIX" id="CAPITULO_LXXXIX">CAPITULO LXXXIX</a></h5> - - -<h4>In extremis</h4> - - -<p>—Amanhã vou passar o dia em casa do Viegas, disse-me ella uma vez. -Coitado! não tem ninguem...</p> - -<p>O Viegas caíra na cama, definitivamente; a filha, casada, adoecera -justamente agora, e não podia fazer-lhe companhia. Virgilia ia lá -de quando em quando. Eu aproveitei a circumstancia para passar todo -aquelle dia ao pé della. Eram duas horas da tarde quando cheguei. O -Viegas tossia com tal força que me fazia arder o peito; no intervallo -dos accessos debatia o preço de uma casa, com um sujeito magro. O -sujeito offerecia trinta contos, o Viegas exigia quarenta. O comprador -instava como quem receia perder o trem da estrada de ferro, mas o -Viegas não cedia; recusou primeiramente os trinta contos, depois -mais dous, depois mais tres, emfim teve um forte accesso, que lhe -tolheu a fala durante quinze minutos. O comprador acarinhou-o muito, -arranjou-lhe os travesseiros, offereceu-lhe trinta e seis contos.</p> - -<p>—Nunca! gemeu o enfermo.</p> - -<p>E mandou buscar um maço de papeis á escrivaninha; não tendo forças -para tirar a fita de borracha que prendia os papeis, pediu-me que os -deslaçasse: fil-o. Eram as contas das despezas com a construcção da -casa: contas de pedreiro, de carpinteiro, de pintor; contas do papel da -sala de visitas, da sala de jantar, das alcovas, dos gabinetes; contas -das ferragens; custo do terreno. Elle abria-as, uma por uma, com a mão -tremula, e pedia-me que as lesse, e eu lia-as.</p> - -<p>—Veja; mil e duzentos, papel de mil e duzentos a peça. Dobradiças -francezas... Veja, é de graça, concluiu elle depois de lida a ultima -conta.</p> - -<p>—Pois bem... mas...</p> - -<p>—Quarenta contos; não lhe dou por menos. Só os juros... faça a conta -dos juros...</p> - -<p>Vinham tossidas estas palavras, ás golfadas, ás syllabas, como se -fossem migalhas de um pulmão desfeito. Nas orbitas fundas rolavam os -olhos lampejantes, que me faziam lembrar a lamparina da madrugada. Sob -o lençol desenhava-se a estructura ossea do corpo, pontudo em dous -lugares, nos joelhos e nos pés; a pelle amarellada, bamba, rugosa, -revestia apenas a caveira de um rosto sem expressão; uma carapuça de -algodão branco cobria-lhe o craneo rapado pelo tempo.</p> - -<p>—Então? disse o sujeito magro.</p> - -<p>Fiz-lhe signal para que não insistisse, e elle calou-se por alguns -instantes. O doente ficou a olhar para o tecto, calado, a arfar muito; -Virgilia empallideceu, levantou-se, foi até á janella. Suspeitara a -morte e tinha medo. Eu procurei falar de outras cousas. O sujeito magro -contou uma anecdota, e tornou a tratar da casa, alteando a proposta.</p> - -<p>—Trinta e oito contos, disse elle.</p> - -<p>—Am?... gemeu o enfermo.</p> - -<p>O sujeito magro aproximou-se da cama, pegou-lhe na mão, e sentiu-a -fria. Eu acheguei-me ao doente, perguntei-lhe se sentia alguma cousa, -se queria tomar um calice de vinho.</p> - -<p>—Não... não... quar... quaren... quar... quar...</p> - -<p>Teve um accesso de tosse, e foi o ultimo; dahi a pouco expirava elle, -com grande consternação do sujeito magro, que me confessou depois a -disposição em que estava de offerecer os quarenta contos; mas era -tarde.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XC" id="CAPITULO_XC">CAPITULO XC</a></h5> - - -<h4>O velho colloquio de Adão e Caim</h4> - - -<p>E nada. Nenhuma lembrança testamentaria, uma pastilha que fosse, com -que do todo em todo não parecesse ingrato ou esquecido. Nada. Virgilia -tragou raivosa esse mallogro, e disse-m'o com certa cautela, não pela -cousa em si, senão porque entendia com o filho, de quem sabia que eu -não gostava muito, nem pouco. Insinuei-lhe que não devia pensar mais em -semelhante negocio. O melhor de tudo era esquecer o defunto, um lorpa, -um cainho sem nome, e tratar de cousas alegres; o nosso filho, por -exemplo.</p> - -<p>Lá me escapou a decifração do mysterio, esse doce mysterio de algumas -semanas antes, quando Virgilia me pareceu um pouco differente do que -era. Um filho! Um ser tirado do meu ser! Esta era a minha preoccupação -exclusiva daquelle tempo. Olhos do mundo, zelos do marido, morte do -Viegas, nada me interessava por então, nem conflictos politicos, -nem revoluções, nem terremotos, nem nada. En só pensava naquelle -embryão anonymo, de obscura paternidade, e uma voz secreta me dizia: -é teu filho. Meu filho! E repetia estas duas palavras, com certa -voluptuosidade indefinivel, e não sei que assomos de orgulho. Sentia-me -homem.</p> - -<p>O melhor é que conversavamos os dous, o embryão e eu, falavamos -de cousas presentes e futuras. O maroto amava-me, era um pelintra -gracioso, dava-me pancadinhas na cara com as mãosinhas gordas, ou -então traçava a beca de bacharel, porque elle havia de ser bacharel, -e fazia um discurso na camara dos deputados. E o pae a ouvil-o de uma -tribuna, com os olhos rasos de lagrimas. De bacharel passava outra vez -á escola, pequenino, lousa e livros debaixo do braço, ou então caía no -berço para tornar a erguer-se homem. Em vão buscava fixar no espirito -uma edade, uma attitude; esse embryão tinha a meus olhos todos os -tamanhos e gestos: elle mamava, elle escrevia, elle valsava, elle era -o interminavel nos limites de um quarto de hora,—<i>baby</i> e deputado, -collegial e pintalegrete. Ás vezes, ao pé de Virgilia, esquecia-me -della e de tudo; Virgilia sacudia-me, reprochava-me o silencio, dizia -que eu já lhe não queria nada. A verdade é que estava em dialogo com -o embryão; era o velho colloquio de Adão e Caim, uma conversa sem -palavras entre a vida e a vida, o mysterio e o mysterio.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XCI" id="CAPITULO_XCI">CAPITULO XCI</a></h5> - - -<h4>Uma carta extraordinaria</h4> - - -<p>Por esse tempo recebi uma carta extraordinaria, acompanhada de um -objecto não menos extraordinario. Eis o que a carta dizia:</p> - -<blockquote> - -<p>«Meu caro Braz Cubas.</p> - -<p>«Ha tempos, no Passeio Publico, tomei-lhe de emprestimo -um relogio. Tenho a satisfação de restituir-lh'o com esta -carta. A differença é que não é o mesmo, porém outro, não -digo superior, mas egual ao primeiro. <i>Que voulez-vous, -monseigneur</i>,—como dizia Figaro,—<i>c'est la misère.</i> Muitas -cousas se deram depois do nosso encontro; irei contal-as -pelo miudo, se me não fechar a porta. Saiba que já não trago -aquellas botas caducas, nem envergo uma famosa sobrecasaca -cujas abas se perdiam na noite dos tempos. Cedi o meu degrau -da escada de S. Francisco; finalmente, almóço.</p> - -<p>«Dito isto, peço licença para ir um dia destes expor-lhe -um trabalho, fructo de longo estudo, um novo systema de -philosophia, que não só explica e descreve a origem e a -consummação das cousas, como faz dar um grande passo adeante -de Zenon e Seneca, cujo stoicismo era um verdadeiro brinco -de crianças ao pé da minha receita moral. É singularmente -espantoso este meu systema; rectifica o espirito humano, -supprime a dor, assegura a felicidade, e enche de immensa -gloria o nosso paiz. Chamo-lhe humanitismo, de <i>Humanitas</i>, -principio das cousas. Minha primeira idéa revelava uma grande -enfatuação; era chamar-lhe borbismo, de Borba; denominação -vaidosa, além de rude e molesta. E com certeza exprimia -menos. Verá, meu caro Braz Cubas, verá que é devéras um -monumento; e se alguma cousa ha que possa fazer-me esquecer -as amarguras da vida, é o gosto de haver emfim apanhado -a verdade e a felicidade. Eil-as na minha mão essas -duas esquivas; após tantos seculos de lutas, pesquizas, -descobertas, systemas e quédas, eil-as nas mãos do homem. Até -breve, meu caro Braz Cubas. Saudades do</p> - -<p>Velho amigo Joaquim Borba dos Santos.»</p></blockquote> - -<p>Li esta carta sem entendel-a. Vinha com ella uma boceta contendo -um bonito relogio com as minhas iniciaes gravadas, e esta phrase: -<i>Lembrança do velho Quincas.</i> Voltei á carta, reli-a com pausa, com -attenção. A restituição do relogio excluia toda a idéa de burla; -a lucidez, a serenidade, a convicção,—um pouco jactanciosa, é -certo,—pareciam excluir a suspeita de insensatez. Naturalmente -o Quincas Borba herdara de algum dos seus parentes de Minas, e a -abastança devolvera-lhe a primitiva dignidade. Não digo tanto; ha -cousas que se não podem rehaver integralmente; mas emfim a regeneração -não era impossivel. Guardei a carta e o relogio, e esperei a -philosophia.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XCII" id="CAPITULO_XCII">CAPITULO XCII</a></h5> - - -<h4>Um homem extraordinario</h4> - - -<p>Já agora acabo com as cousas extraordinarias. Vinha de guardar a -carta e o relogio, quando me procurou um homem magro e meão, com um -bilhete do Cotrim, convidando-me para jantar. O portador era casado -com uma irmã do Cotrim, chegára poucos dias antes do norte, chamava-se -Damasceno, e fizera a revolução de 1831. Foi elle mesmo que me disse -isto, no espaço de cinco minutos. Saíra do Rio de Janeiro, por -desaccordo com o Regente, que era um asno, pouco menos asno do que os -ministros que serviram com elle. De resto, a revolução estava outra -vez ás portas. Neste ponto, comquanto trouxesse as idéas politicas -um pouco baralhadas, consegui organisar e formular o governo de suas -preferencias: era um despotismo temperado,—não por cantigas, como -dizem alhures,—mas por pennachos da guarda nacional. Só não pude -alcançar se elle queria o despotismo de um, de tres, de trinta ou de -tresentos. Opinava por varias cousas, entre outras, o desenvolvimento -do trafico dos africanos e a expulsão dos inglezes. Gostava muito -de theatro; logo que chegou foi ao theatro de S. Pedro, onde viu um -drama soberbo, a <i>Maria Joanna</i>, e uma comedia muito interessante, -<i>Kettly, ou a volta á Suissa.</i> Tambem gostara muito da Deperini, na -<i>Sapho</i>, ou na <i>Anna Bolena</i>, não se lembrava bem. Mas a Candiani! -sim, senhor, era papa-fina. Agora queria ouvir o <i>Ernani</i>, que a filha -delle cantava em casa, ao piano: <i>Ernani, Ernani, involami...</i>—E dizia -isto levantando-se e cantarolando a meia voz.—No norte essas cousas -chegavam como um echo. A filha morria por ouvir todas as operas. Tinha -uma voz muito mimosa a filha. E gosto, muito gosto. Ah! elle estava -ancioso por voltar ao Rio de Janeiro. Já havia corrido a cidade toda, -com umas saudades... Palavra! em alguns logares teve vontade de chorar. -Mas não embarcaria mais. Enjoára muito a bordo, como todos os outros -passageiros, excepto um inglez... Que os levasse o diabo os inglezes! -Isto não ficava direito sem irem todos elles barra fóra. Que é que a -Inglaterra podia fazer-nos? Se elle encontrasse algumas pessoas de -boa vontade, era obra de uma noite a expulsão dos taes <i>godemes</i>... -Graças a Deus, tinha patriotismo,—e batia no peito,—o que não -admirava porque era de familia; descendia de um antigo capitão-mór -muito patriota. Sim, não era nenhum pé-rapado. Viesse a occasião, e -elle havia de mostrar de que pau era a canoa... Mas fazia-se tarde, -ia dizer que eu não faltaria ao jantar, e lá me esperava para -maior palestra.—Levei-o até á porta da sala; elle parou dizendo -que sympathisava muito commigo. Quando casára, estava eu na Europa. -Conheceu meu pae, um homem ás direitas, com quem dansára n'um celebre -baile da Praia Grande... Coisas! coisas! Falaria depois, fazia-se -tarde, tinha de ir levar a resposta ao Cotrim. Saiu; fechei-lhe a -porta... Uf!</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XCIII" id="CAPITULO_XCIII">CAPITULO XCIII</a></h5> - - -<h4>O jantar</h4> - - -<p>Que supplicio que foi o jantar! Felizmente, Sabina fez-me sentar ao pé -da filha do Damasceno, uma D. Eulalia, ou mais familiarmente Nhã-lóló, -moça bem graciosa, um tanto acanhada a principio, mas só a principio. -Faltava-lhe elegancia, mas compensava-a com os olhos, que eram -soberbos e só tinham o defeito de se não arrancarem de mim, excepto -quando desciam ao prato; mas Nhã-lóló comia tão pouco, que quasi não -olhava para o prato. De noite cantou; a voz era como dizia o pae, -«muito mimosa». Não obstante, esquivei-me. Sabina veiu até á porta, e -perguntou-me que tal achára a filha do Damasceno.</p> - -<p>—Assim, assim.</p> - -<p>—Muito sympathica, não é? acudiu ella; falta-lhe um pouco mais de -corte. Mas que coração! é uma perola. Bem boa noiva para você.</p> - -<p>—Não gosto de perolas.</p> - -<p>—Casmurro! Para quando é que você se guarda? para quando estiver a -cair de maduro, já sei. Pois, meu rico, quer você queira quer não, ha -de casar com Nhã-lóló.</p> - -<p>E dizia isto a bater-me na face com os dedos, meiga como uma pomba, e -ao mesmo tempo intimativa e resoluta. Santo Deus! seria esse o motivo -da reconciliação? Fiquei um pouco desconsolado com a idéa, mas uma voz -mysteriosa chamava-me á casa do Lobo Neves, disse adeus a Sabina e ás -suas ameaças.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XCIV" id="CAPITULO_XCIV">CAPITULO XCIV</a></h5> - - -<h4>A causa secreta</h4> - - -<p>—Como está a minha querida mamãe?</p> - -<p>A esta palavra, Virgilia amuou-se, como sempre. Estava ao canto de uma -janella, sosinha, a olhar para a lua, e recebeu-me alegremente; mas -quando lhe falei no nosso filho amuou-se. Não gostava de semelhante -allusão, aborreciam-lhe as minhas anticipadas caricias paternaes. -E eu, para quem ella era já uma pessoa sagrada, uma ambula divina, -deixava-a estar quieta. Suppuz a principio que o embryão, esse perfil -do incognito, projectando-se na nossa aventura, lhe restituira a -consciencia do mal. E enganava-me. Nunca Virgilia me parecera mais -expansiva, mais sem reservas, menos preoccupada dos outros e do marido. -Não eram remorsos. Imaginei tambem que a concepção seria um puro -invento, um modo de prender-me a ella, recurso sem longa efficacia, que -talvez começava de opprimil-a. Não era absurda esta hypothese; a minha -doce Virgilia mentia ás vezes, com tanta graça!</p> - -<p>Naquella noite descobri a causa verdadeira. Era medo do parto e -vexame da gravidez. Padecera muito quando lhe nasceu o primeiro -filho; e essa hora, feita de minutos de vida e minutos de morte, -dava-lhe já imaginariamente os calefrios do patibulo. Quanto ao -vexame, complicava-se ainda da forçada privação de certos habitos -da vida elegante. Com certeza, era isso mesmo; dei-lh'o a entender, -reprehendendo-a, um pouco em nome dos meus direitos de pae. Virgilia -fitou-me; em seguida desviou os olhos e sorriu de um geito incredulo.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XCV" id="CAPITULO_XCV">CAPITULO XCV</a></h5> - - -<h4>Flores de antanho</h4> - - -<p>Onde estão ellas as flores de antanho? Uma tarde, apoz algumas semanas -de gestação, esboroou-se todo o edificio das minhas chimeras paternaes. -Foi-se o embryão, naquelle ponto em que se não distingue Laplace de -uma tartaruga. Tive a noticia por boca do Lobo Neves, que me deixou na -sala, e acompanhou o medico á alcova da frustrada mãe. Eu encostei-me -á janella, a olhar para a chacara, onde verdejavam as laranjeiras sem -flores. Onde iam ellas as flores de antanho?</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XCVI" id="CAPITULO_XCVI">CAPITULO XCVI</a></h5> - - -<h4>A carta anonyma</h4> - - -<p>Senti tocar-me no hombro; era o Lobo Neves. Encaramo-nos alguns -instantes, mudos, inconsolaveis. Indaguei de Virgilia, depois ficamos -a conversar uma meia hora. No fim desse tempo, vieram trazer-lhe uma -carta; elle leu-a, empallideceu muito, e fechou-a com a mão tremula. -Creio que lhe vi fazer um gesto, como se quizesse atirar-se sobre mim; -mas não me lembra bem. O que me lembra claramente é que durante os dias -seguintes recebeu-me frio e taciturno. Emfim, Virgilia contou-me tudo, -dahi a dias na Gamboa.</p> - -<p>O marido mostrou-lhe a carta, logo que ella se restabeleceu. Era -anonyma e denunciava-nos. Não dizia tudo; não falava, por exemplo, das -nossas entrevistas externas; limitava-se a precavel-o contra a minha -intimidade, e accrescentava que a suspeita era publica. Virgilia leu a -carta e disse com indignação que era uma calumnia infame.</p> - -<p>—Calumnia? perguntou o Lobo Neves.</p> - -<p>—Infame.</p> - -<p>O marido respirou; mas, tornando á carta, parece que cada palavra della -lhe fazia com o dedo um signal negativo, cada lettra bradava contra a -indignação da mulher. Esse homem, aliás intrepido, era agora a mais -fragil das creaturas. Talvez a imaginação lhe mostrou, ao longe, o -famoso olho da opinião, a fital-o sarcasticamente, com um ar de pulha; -talvez uma boca invisivel lhe repetiu ao ouvido as chufas que elle -escutara ou dissera outr'ora. Instou com a mulher que lhe confessasse -tudo, porque tudo lhe perdoaria. Virgilia comprehendeu que estava -salva; mostrou-se irritada com a insistencia, jurou que da minha parte -só ouvira palavras de gracejo e cortezia. A carta havia de ser de algum -namorado sem ventura. E citou alguns,—um que a galanteára francamente, -durante algumas semanas, outro que lhe escrevera uma carta, e ainda -outros e outros. Citava-os pelo nome, com circumstancias, estudando -os olhos do marido, e concluiu dizendo que, para não dar margem á -calumnia, tratar-me-hia de maneira que eu não voltaria lá.</p> - -<p>Ouvi tudo isto um pouco turbado, não pelo accrescimo de dissimulação -que era preciso empregar de ora em diante, até afastar-me inteiramente -da casa do Lobo Neves, mas pela tranquillidade moral de Virgilia, pela -falta de commoção, de susto, de saudades, e até de remorsos. Virgilia -notou a minha preoccupação, levantou-me a cabeça, porque eu olhava -então para o soalho, e disse-me com certa amargura:</p> - -<p>—Você não merece os sacrificios que lhe faço.</p> - -<p>Não lhe disse nada; era ocioso ponderar-lhe que um pouco de desespero -e terror daria á nossa situação o sabor caustico dos primeiros dias; -mas se lh'o dissesse, não é impossivel que ella chegasse lenta e -artificiosamente até esse pouco de desespero e terror. Não lhe disse -nada. Ella batia nervosamente com a ponta do pé no chão; aproximei-me e -beijei-a na testa. Virgilia recuou, como se fosse um beijo de defuncto.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XCVII" id="CAPITULO_XCVII">CAPITULO XCVII</a></h5> - - -<h4>Entre a boca e a testa</h4> - - -<p>Sinto que o leitor estremeceu,—ou devia estremecer. Naturalmente -a ultima palavra suggeriu-lhe tres ou quatro reflexões. Veja bem o -quadro: n'uma casinha da Gamboa, duas pessoas que se amam ha muito -tempo, uma inclinada para a outra, a dar-lhe um beijo na testa, e a -outra a recuar, como se sentisse o contacto de uma boca de cadaver. -Ha ahi, no breve intervallo, entre a boca e a testa, antes do beijo e -depois do beijo, ha ahi largo espaço para muita cousa,—a contracção de -um resentimento,—a ruga da desconfiança,—ou emfim o nariz pallido e -somnolento da saciedade...</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XCVIII" id="CAPITULO_XCVIII">CAPITULO XCVIII</a></h5> - - -<h4>Supprimido</h4> - - -<p>Separamo-nos alegremente. Jantei reconciliado com a situação. A carta -anonyma restituia á nossa aventura o sal do mysterio e a pimenta do -perigo; e afinal foi bem bom que Virgilia não perdesse naquella crise a -posse de si mesma. De noite fui ao theatro de S. Pedro; representava-se -uma grande peça, em que a Estella arrancava lagrimas. Entro; corro -os olhos pelos camarotes; vejo em um delles o Damasceno e a familia. -Trajava a filha com outra elegancia e certo apuro, cousa difficil de -explicar, porque o pae ganhava apenas o necessario para endividar-se; e -dahi, talvez fosse por isso mesmo.</p> - -<p>No intervallo fui visital-os. O Damasceno recebeu-me com muitas -palavras, a mulher com muitos sorrisos. Quanto a Nhã-lóló, não tirou -mais os olhos de mim; e realmente parecia-me agora mais bonita que -no dia do jantar. Achei-lhe certa suavidade etherea casada ao polido -das fórmas terrenas:—expressão vaga, e condigna de um capitulo em -que tudo ha de ser vago. Realmente, não sei como lhes diga que não me -senti mal, ao pé da moça, trajando garridamente um vestido fino, um -vestido que me dava cocegas de Tartuffo. Ao contemplal-o, cobrindo -casta e redondamente o joelho, foi que eu fiz uma descoberta subtil, a -saber, que a natureza previu a vestidura humana, condição necessaria -ao desenvolvimento da nossa especie. A nudez habitual, dada a -multiplicação das obras e dos cuidados do individuo, tenderia a embotar -os sentidos e a retardar os sexos, ao passo que o vestuario, negaceando -a natureza, aguça e attráe as vontades, activa-as, reprodul-as, e -conseguintemente faz andar a civilisação. Abençoado uso que nos deu -<i>Othello</i> e os paquetes transatlanticos!</p> - -<p>Estou com vontade de supprimir este capitulo. O declive é perigoso. -Mas emfim eu escrevo as minhas memorias e não as tuas, leitor pacato. -Ao pé da graciosa donzella, parecia-me tomado de uma sensação dupla -e indefinivel. Ella exprimia inteiramente a dualidade de Pascal, -<i>l'ange et la bête</i>, com a differença que o jansenista não admittia a -simultaneidade das duas naturezas, ao passo que ellas ahi estavam bem -juntinhas,—<i>l'ange</i>, que dizia algumas cousas do ceu,—e <i>la bête</i>, -que... Não; decididamente supprimo este capitulo.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_XCIX" id="CAPITULO_XCIX">CAPITULO XCIX</a></h5> - - -<h4>Na platéa</h4> - - -<p>Na platéa achei o Lobo Neves, de conversa com alguns amigos; falámos -por alto, a frio, constrangidos um e outro. Mas no intervallo seguinte, -prestes a levantar o panno, encontramo-nos n'um dos corredores, em que -não havia ninguem. Elle veiu a mim, com muita affabilidade e riso, -puxou-me a um dos oculos do theatro, e falamos muito, principalmente -elle, que parecia o mais tranquillo dos homens. Cheguei a perguntar-lhe -pela mulher; respondeu que estava boa, mas torceu logo a conversação -para assumptos geraes, expansivo, quasi risonho. Adivinhe quem quizera -causa da differença; eu fujo ao Damasceno que me espreita alli da porta -do camarote.</p> - -<p>Não ouvi nada do seguinte acto, nem as palavras dos actores, nem -as palmas do publico. Reclinado na cadeira, apanhava de memoria os -retalhos da conversação do Lobo Neves, refazia as maneiras delle, e -concluia que era muito melhor a nova situaçao. Bastava-nos a Gamboa. A -frequencia da outra casa aguçaria as invejas. E rigorosamente podiamos -dispensar-nos de falar todos os dias; era até melhor, mettia a saudade -de permeio nos amores. Ao demais, eu galgara os quarenta annos, e não -era nada, nem simples eleitor de parochia. Urgia fazer alguma cousa, -ainda por amor de Virgilia, que havia de ufanar-se quando visse luzir o -meu nome... Creio que nessa occasião houve grandes applausos, mas não -juro; eu pensava em outra cousa.</p> - -<p>Multidão, cujo amor cobicei até á morte, era assim que eu me vingava ás -vezes de ti; deixava borborinhar em volta do meu corpo a gente humana, -sem a ouvir, como o Prometheu de Eschylo fazia aos seus verdugos. -Ah! tu cuidavas encadear-me ao rochedo da tua frivolidade, da tua -indifferença, ou da tua agitação? Frageis cadeias, amiga minha; eu -rompia-as de um gesto de Gulliver. Vulgar cousa é ir considerar no -ermo. O voluptuoso, o exquisito, é insular-se o homem no meio de um -mar de gestos e palavras, de nervos e paixões, decretar-se alheiado, -inaccessivel, ausente. O mais que podem dizer, quando elle torna a -si,—isto é, quando torna aos outros,—é que baixa do mundo da lua; mas -o mundo da lua, esse desvão luminoso e recatado do cerebro, que outra -cousa é senão a affirmação desdenhosa da nossa liberdade espiritual? -Vive Deus! eis um bom fecho de capitulo.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_C" id="CAPITULO_C">CAPITULO C</a></h5> - - -<h4>O caso provavel</h4> - - -<p>Se esse mundo não fosse uma região de espiritos desattentos, era -escusado lembrar ao leitor que eu só affirmo certas leis, quando -as possuo deveras; em relação a outras restrinjo-me á admissão da -probabilidade. Um exemplo da segunda classe constitue o presente -capitulo, cuja leitura recommendo a todas as pessoas que amam o estudo -dos phenomenos sociaes. Segundo parece, e não é improvavel, existe -entre os factos da vida publica e os da vida particular uma certa acção -reciproca, regular, e talvez periodica,—ou, para usar de uma imagem, -ha alguma cousa semelhante ás marés da praia do Flamengo e de outras -egualmente marulhosas. Com effeito, quando a onda investe a praia, -alaga-a muitos palmos a dentro; mas essa mesma agua torna ao mar, com -variavel força, e vae engrossar a onda que ha de vir, e que terá de -tornar como a primeira. Esta é a imagem; vejamos a applicação.</p> - -<p>Deixei dito n'outra pagina que o Lobo Neves, nomeado presidente de -provincia, recusou a nomeação por motivo da data do decreto, que era -13; acto grave, cuja consequencia foi separar do ministerio o marido de -Virgilia. Assim, o facto particular da ogerisa de um numero produziu o -phenomeno da dissidencia politica. Resta ver como, tempos depois, um -acto politico determinou na vida particular uma cessação de movimento. -Não convindo ao methodo deste livro descrever immediatamente esse outro -phenomeno, limito-me a dizer por ora que o Lobo Neves, quatro mezes -depois de nosso encontro no theatro, reconciliou-se com o ministerio; -facto que o leitor não deve perder de vista, se quizer penetrar a -subtileza do meu pensamento.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CI" id="CAPITULO_CI">CAPITULO CI</a></h5> - - -<h4>A revolução dalmata</h4> - - -<p>Foi Virgilia quem me deu noticia da vira-volta politica do marido, -certa manhã de outubro, entre onze e meio dia; falou-me de reuniões, de -conversas, de um discurso...</p> - -<p>—De maneira que desta vez fica você baroneza, interrompi eu.</p> - -<p>Ella derreou os cantos da boca, e moveu a cabeça a um e outro lado; -mas esse gesto de indifferença era desmentido por alguma cousa menos -definivel, menos clara, uma expressão de gosto e de esperança. E não -sei por que imaginei que a carta imperial da nomeação podia attraíl-a á -virtude, não digo pela virtude em si mesma, mas por gratidão ao marido. -Que ella amava cordialmente a nobreza; e um dos maiores desgostos de -nossa vida foi o apparecimento de um certo pelintra de legação,—da -legação da Dalmacia, supponhamos,—o conde B. V., que a namorou durante -tres mezes.</p> - -<p>Esse homem, vero fidalgo de raça, transtornara um pouco a cabeça -de Virgilia, que, além do mais, possuia a vocação diplomatica. Não -chego a alcançar o que seria de mim, se não rebentasse na Dalmacia -uma revolução, que derrocou o governo e purificou as embaixadas. Foi -sangrenta a revolução, dolorosa, formidavel; os jornaes, a cada navio -que chegava da Europa, transcreviam os horrores, mediam o sangue, -contavam as cabeças; toda a gente fremia de indignação e piedade... -Eu não; eu abençoava interiormente essa tragedia, que me tirára uma -pedrinha do sapato. E depois a Dalmacia era tão longe!</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CII" id="CAPITULO_CII">CAPITULO CII</a></h5> - - -<h4>De repouso</h4> - - -<p>Mas este mesmo homem, que se alegrou com a partida do outro, praticou -dahi a tempos... Não, não hei de contal-o nesta pagina; fique esse -capitulo para repouso do meu vexame. Uma acção grosseira, baixa, sem -explicação possivel... Repito, não contarei o caso nesta pagina.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CIII" id="CAPITULO_CIII">CAPITULO CIII</a></h5> - - -<h4>Distracção</h4> - - -<p>—Não, senhor doutor, isto não se faz. Perdoe-me, isto não se faz.</p> - -<p>Tinha razão D. Placida. Nenhum cavalheiro chega uma hora mais tarde -ao logar em que o espera a sua dama. Entrei esbaforido; Virgilia -tinha ido embora. D. Placida contou-me que ella esperára muito, que -se irritara, que chorara, que jurára votar-me ao desprezo, e outras -mais cousas que a nossa caseira dizia com lagrimas na voz, pedindo-me -que não desamparasse Yayá, que era ser muito injusto com uma moça que -me sacrificara tudo. Expliquei-lhe então que um equivoco... E não era; -cuido que foi simples distracção. Um dito, uma conversa, uma anecdota, -qualquer cousa; simples distracção.</p> - -<p>Coitada de D. Placida! Estava afflicta deveras. Andava de um lado para -outro, abanando a cabeça, suspirando com estrepito, espiando pela -rotula. Coitada de D. Placida! Com que arte conchegava as roupas, -bafejava as faces, acalentava as manhas do nosso amor! que imaginação -fertil em tornar as horas mais apraziveis e breves! Flores, doces,—os -bons doces de outros dias,—e muito riso, muito affago, um riso e um -affago que cresciam com o tempo, como se ella quizesse fixar a nossa -aventura, ou restituir-lhe a primeira flor. Nada esquecia a nossa -confidente e caseira; nada, nem a mentira, porque a um e outro referia -suspiros e saudades que não presenciára; nada, nem a calumnia, porque -uma vez chegou a attribuir-me uma paixão nova.—Você sabe que não -posso gostar de outra mulher, foi a minha resposta, quando Virgilia me -falou em semelhante cousa. E esta só palavra, sem nenhum protesto ou -admoestação, dissipou o aleive-de D. Placida, que ficou triste.</p> - -<p>—Está bem, disse-lhe eu, depois de um quarto de hora; Virgilia hade -reconhecer que não tive culpa nenhuma... Quer você levar-lhe uma carta -agora mesmo?</p> - -<p>—Ella hade estar bem triste, coitadinha! Olhe, eu não desejo a morte -de ninguem; mas, se o senhor doutor algum dia chegar a casar com Yayá, -então sim, é que hade ver o anjo que ella é!</p> - -<p>Lembra-me que desviei o rosto e baixei os olhos ao chão. Recommendo -este gesto ás pessoas que não tiverem uma palavra prompta para -responder, ou ainda ás que receiarem encarar a pupilla do outros olhos. -Em taes casos, alguns preferem recitar uma oitava dos <i>Lusiadas</i>, -outros adoptam o recurso de assobiar a <i>Norma</i>; eu atenho-me ao gesto -indicado; é mais simples, exige menos esforço.</p> - -<p>Tres dias depois, estava tudo explicado. Supponho que Virgilia ficou -um pouco admirada, quando lhe pedi desculpa das lagrimas que derramára -naquella triste occasião; e não me lembra se interiormente as attribui -a D. Placida. Com effeito, podia acontecer que D. Placida chorasse, ao -vel-a desapontada, e, por um phenomeno da visão, as lagrimas que tinha -nos proprios olhos lhe parecessem cair dos olhos de Virgilia. Fosse -como fosse, tudo estava explicado, mas não perdoado, e menos ainda -esquecido. Virgilia dizia-me uma porção de cousas duras, ameaçava-me -com a separação, emfim louvava o marido. Esse sim, era um homem digno, -muito superior a mim, delicado, um primor de cortezia e affeição; é -o que ella dizia, emquanto eu, sentado, com os braços fincados nos -joelhos, olhava para o chão, onde uma mosca arrastava uma formiga que -lhe mordia o pé. Pobre mosca! pobre formiga!</p> - -<p>—Mas você não diz nada, nada? perguntou Virgilia, parando deante de -mim.</p> - -<p>—Que heide dizer? Já expliquei tudo; você teima em zangar-se; que -heide dizer? Sabe o que me parece? Parece-me que você está enfastiada, -que se aborrece, que quer acabar...</p> - -<p>—Justamente!</p> - -<p>Foi dali pôr o chapéu, com a mão tremula, raivosa...—Adeus, D. -Placida, bradou ella para dentro. Depois foi até á porta, correu o -fecho, ia sair; agarrei-a pela cintura.—Está bom, está bom, disse-lhe. -Virgilia ainda forcejou por sair. Eu retive-a, pedi-lhe que ficasse, -que esquecesse; ella afastou-se da porta e foi cair no canapé. -Sentei-me ao pé della, disse-lhe muitas cousas meigas, outras humildes, -outras graciosas. Não affirmo se os nossos labios chegaram á distancia -de um fio de cambraia ou ainda menos; é matéria controversa. Lembra-me, -sim, que na agitação caiu um brinco de Virgilia, que eu inclinei-me a -apanhal-o, e que a mosca de ha pouco trepou ao brinco, levando sempre a -formiga no pé. Então eu, com a delicadeza nativa de um homem do nosso -seculo, puz na palma da mão aquelle casal de mortificados; calculei -toda a distancia que ia da minha mão ao planeta Saturno, e perguntei -a mim mesmo que interesse podia haver n'um episodio tão mofino. Se -conclues dahi que eu era um barbaro, enganas-te, porque eu pedi um -grampo a Virgilia, afim de separar os dous insectos; mas a mosca -farejou a minha intenção, abriu as azas e foi-se embora. Pobre mosca! -pobre formiga! E Deus viu que isto era bom, como se diz na Escriptura.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CIV" id="CAPITULO_CIV">CAPITULO CIV</a></h5> - - -<h4>Era elle!</h4> - - -<p>Restitui o grampo a Virgilia, que o repregou nos cabellos, e -preparou-se para sair. Era tarde; tinham dado tres horas. Tudo estava -esquecido e perdoado. D. Placida, que espreitava a occasião idonea para -a saída, fecha subitamente a janella e exclama:</p> - -<p>—Virgem Nossa Senhora! ahi vem o marido de Yayá!</p> - -<p>O momento de terror foi curto, mas completo. Virgilia fez-se da cor -das rendas do vestido, correu até a porta da alcova; D. Placida, que -fechára a rotula, queria fechar tambem a porta de dentro; eu dispuz-me -a esperar o Lobo Neves. Esse curto instante passou. Virgilia tornou -a si, empurrou-me para a alcova, disse a D. Placida que voltasse á -janella; a confidente obedeceu.</p> - -<p>Era elle. D. Placida abriu-lhe a porta com muitas exclamações de -pasmo:—O senhor por aqui! honrando a casa de sua velha! Entre, faça -favor. Adivinhe quem está cá... Não tem que adivinhar: não veiu por -outra cousa... Appareça, Yayá.</p> - -<p>Virgilia, que estava a um canto, atirou-se ao marido. Eu espreitava-os -pelo buraco da fechadura. O Lobo Neves entrou lentamente, pallido, -frio, quieto, sem explosão, sem arrebatamento, e circulou um olhar em -volta da sala.</p> - -<p>—Que é isto? exclamou Virgilia. Você por aqui?</p> - -<p>—Ia passando, vi D. Placida á janella, e vim comprimental-a.</p> - -<p>—Muito obrigada, acudiu esta. E digam que as velhas não valem alguma -cousa... Olhae, gentes! Yayá parece estar com ciumes. E acariciando-a -muito:—Este anjinho é que nunca se esqueceu da velha Placida. -Coitadinha! é mesmo a cara da mãe... Sente-se, senhor doutor...</p> - -<p>—Não me demoro.</p> - -<p>—Você vae para casa? disse Virgilia. Vamos juntos.</p> - -<p>—Vou.</p> - -<p>—Dê cá o meu chapéu, D. Placida.</p> - -<p>—Está aqui.</p> - -<p>D. Placida foi buscar um espelho, abriu-o deante della. Virgilia punha -o chapéu, atava as fitas, arranjava os cabellos, falando ao marido, -que não respondia nada. A nossa boa velha tagarellava de mais; era um -modo de disfarçar as tremuras do corpo. Virgilia, dominado o primeiro -instante, tornára á posse de si mesma.</p> - -<p>—Prompta! disse ella. Adeus, D. Placida; não se esqueça de apparecer, -ouviu? A outra prometteu que sim, e abriu-lhes a porta.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CV" id="CAPITULO_CV">CAPITULO CV</a></h5> - - -<h4>Equivalencia das janellas</h4> - - -<p>D. Placida fechou a porta e caiu n'uma cadeira. Eu deixei -immediatamente a alcova, e dei dous passos para sair á rua, com o fim -de arrancar Virgilia ao marido; foi o que disse, e em bem que o disse, -porque D. Placida deteve-me por um braço. Tempo houve em que eu cheguei -a suppor que não dissera aquillo senão para que ella me detivesse; -mas a simples reflexão basta para mostrar que, depois dos dez minutos -da alcova, o gesto mais genuino e cordial não podia ser senão esse. E -isto por aquella famosa lei da equivalencia das janellas, que eu tive -a satisfação de descobrir e formular, no cap. LI. Era preciso arejar -a consciencia. A alcova foi uma janella fechada; eu abri outra com o -gesto de sair, e respirei.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CVI" id="CAPITULO_CVI">CAPITULO CVI</a></h5> - - -<h4>Jogo perigoso</h4> - - -<p>Respirei e sentei-me. D. Placida atroava a sala com exclamações e -lastimas. Eu ouvia, sem lhe dizer cousa nenhuma; reflectia commigo se -não era melhor ter fechado Virgilia na alcova e ficado na sala; mas -adverti logo que seria peior; confirmaria a suspeita, e chegaria o -fogo á polvora e uma scena de sangue... Foi muito melhor assim. Mas -depois? que ia acontecer em casa de Virgilia? Matal-a-hia o marido? -espancal-a-hia? encerral-a-hia? expulsal-a-hia? Estas interrogações -percorriam lentamente o meu cerebro, como os pontinhos e virgulas -escuras percorrem o campo visual dos olhos enfermos ou cansados. Iam e -vinham, com o seu aspecto secco e tragico, e eu não podia agarrar um -dellos e dizer: és tu, tu e não outro.</p> - -<p>De repente vejo um vulto negro; era D. Placida, que fôra dentro, -enfiára a mantilha, e vinha offerecer-se-me para ir á casa do Lobo -Neves. Ponderei-lhe que era arriscado, porque elle desconfiaria da -visita tão proxima.</p> - -<p>—Socegue, interrompeu ella; eu saberei arranjar as cousas. Se elle -estiver em casa não entro.</p> - -<p>Saiu; eu fiquei a ruminar o successo e as consequencias possiveis. Ao -cabo, parecia-me jogar um jogo perigoso, e perguntava a mim mesmo se -não era tempo de levantar e espairecer, como um parceiro do <i>whist.</i> -E então senti-me tomado de uma saudade do casamento, de um desejo de -canalizar a vida. Porque não? Meu coração tinha ainda que explorar; -não me sentia incapaz de um amor casto, severo e puro. Na verdade, -as aventuras são a parte torrencial e vertiginosa da vida, isto é, a -excepção; eu estava enfarado dellas; não sei até se me pungia algum -remorso. Mal pensei naquillo, deixei-me ir atraz da imaginação; vi-me -logo casado, ao pé de uma mulher adoravel, deante de um <i>baby</i>, que -dormia no regaço da ama, todos nós no fundo do uma chacara sombria -e verde, a espiarmos atravez das arvores uma nesga do ceu azul, -extremamente azul...</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CVII" id="CAPITULO_CVII">CAPITULO CVII</a></h5> - - -<h4>Bilhete</h4> - -<blockquote> - -<p>«Não houve nada, mas elle suspeita alguma cousa; está muito -serio e não fala; agora saiu. Sorriu uma vez somente, para -nhonhô, depois de o fitar muito tempo, carrancudo. Não me -tratou mal nem bem. Não sei o que vae acontecer; Deus queira -que isto passe. Muita cautela, por ora, muita cautela.»</p></blockquote> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CVIII" id="CAPITULO_CVIII">CAPITULO CVIII</a></h5> - - -<h4>Que se não entende</h4> - - -<p>Eis ahi o drama, eis ahi a ponta da orelha tragica de Shakespeare. Esse -retalhinho de papel, garatujado em partes, machucado das mãos, era um -documento de analyse, que eu não farei neste capitulo, nem no outro, -nem talvez em todo o resto do livro. Poderia eu tirar ao leitor o gosto -de notar por si mesmo a frieza, a perspicacia e o animo dessas poucas -linhas traçadas á pressa; e por traz dellas a tempestade de outro -cerebro, a raiva dissimulada, o desespero que se constrange e medita, -por que tem de resolver-se na lama, ou no sangue, ou nas lagrymas?</p> - -<p>Quanto a mim, se vos disser que li o bilhete tres ou quatro vezes, -naquelle dia, accreditai-o, que é verdade; se vos disser mais que o -reli no dia seguinte, antes e depois do almoço, podeis crel-o, é a -realidade pura. Mas se vos disser a commoção que tive, duvidai um pouco -da asserção, e não a acceiteis sem provas. Nem então, nem ainda agora -cheguei a discernir o que experimentei. Era medo, e não era medo; -era dó e não era dó; era vaidade e não era vaidade; emfim, era amor -sem amor, isto é, sem delirio; e tudo isso dava uma combinação assás -complexa e vaga, uma cousa que não podereis entender, como eu não -entendi. Supponhamos que não disse nada.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CIX" id="CAPITULO_CIX">CAPITULO CIX</a></h5> - - -<h4>O philosopho</h4> - - -<p>Sabido que reli a carta, antes e depois do almoço, sabido fica que -almocei, e só resta dizer que essa refeição foi das mais parcas -da minha vida: um ovo, uma fatia de pão, uma chicara de chá. Não -me esqueceu esta circumstancia minima; no meio de tanta cousa -importante obliterada escapou esse almoço. A razão principal poderia -ser justamente o meu desastre; mas não foi; a principal razão foi -a reflexão que me fez o Quincas Borba, cuja visita recebi naquelle -dia. Disse-me elle que a frugalidade não era necessaria para entender -o Humanitismo, é menos ainda pratical-o; que esta philosophia -acommodava-se facilmente com os prazeres da vida, inclusive a mesa, -o espectaculo e os amores; e que, ao contrario, a frugalidade podia -indicar certa tendencia para o ascetismo, o qual era a expressão -acabada da tolice humana.</p> - -<p>—Veja S. João, continuou elle; mantinha-se de gafanhotos, no deserto, -em vez de engordar tranquillamente na cidade, e fazer emmagrecer o -pharisaismo na synagoga.</p> - -<p>Deus me livre de contar a historia do Quincas Borba, que aliás ouvi -toda naquella triste occasião, uma historia longa, complicada, -mas interessante. E se não conto a historia, dispenso-me outrosim -de descrever-lhe a figura, aliás mui diversa da que me appareceu -no Passeio Publico. Calo-me; digo somente que se o principal -caracteristico do homem não são as feições, mas o vestuario, elle -não era o Quincas Borba; era um desembargador sem beca, um general -sem farda, um negociante sem <i>deficit.</i> Notei-lhe a perfeição da -sobrecasaca, a alvura da camisa, o aceio das botas. A mesma voz, -roufenha outr'ora, parecia restituida á primitiva sonoridade. Quanto -á gesticulação, sem que houvesse perdido a viveza de outro tempo, não -tinha já a desordem, sujeitava-se a um certo methodo. Mas eu não quero -descrevel-o. Se falasse, por exemplo, no botão de ouro que trazia ao -peito, e na qualidade do couro das botas, iniciaria uma descripção, -que omitto por brevidade. Contentem-se de saber que as botas eram de -verniz. Saibam mais que elle herdára alguns pares de contos de réis de -um velho tio de Barbacena.</p> - -<p>Meu espirito, (permittam-me aqui uma comparação de criança!) meu -espirito era n'aquella occasião uma especie de peteca. A narração do -Quincas Borba dava-lhe uma palmada, elle subia; quando ia a cair, -o bilhete de Virgilia dava-lhe outra palmada, e elle era de novo -arremessado aos ares; descia, e o episodio do Passeio Publico recebia-o -com outra palmada, egualmente rija e efficaz. Cuido que não nasci -para situações complexas. Esse puxar e empuxar de cousas oppostas, -desequilibrava-me; tinha vontade de embrulhar o Quincas Borba, o Lobo -Neves e o bilhete de Virgilia na mesma philosophia, e mandal-os de -presente a Aristoteles. E, comtudo, era instructiva a narração do nosso -philosopho; admirava-lhe sobretudo o talento de observação com que -descrevia a gestação e o crescimento do vicio, as luctas interiores, as -capitulações vagarosas, o uso da lama.</p> - -<p>—Olhe, observou elle; a primeira noite que passei, na escada de S. -Francisco, dormi-a inteira, como se fosse a mais fina pluma. Porque? -Porque fui gradualmente da cama de esteira ao catre de pau, do quarto -proprio ao corpo da guarda, do corpo da guarda ao xadrez, do xadrez á -rua...</p> - -<p>Quiz expor-me finalmente a philosophia; eu pedi-lhe que não.—Estou -assaz preocupado hoje e não poderia attendel-o; venha depois; estou -sempre em casa. O Quincas Borba sorriu de um modo malicioso; talvez -soubesse da minha aventura, mas não accrescentou nada. Só me disse -estas ultimas palavras á porta:</p> - -<p>—Venha para o Humanitismo; elle é o grande regaço dos espiritos, o -mar eterno em que mergulhei para arrancar de lá a verdade. Os gregos -faziam-na sair de um poço. Que concepção mesquinha! Um poço! Mas -é por isso mesmo que nunca atinaram com ella. Gregos, sub-gregos, -anti-gregos, toda a longa serie dos homens tem-se debruçado sobre -o poço, para ver sair a verdade, que não está lá. Gastaram cordas e -caçambas; alguns mais afoutos desceram ao fundo e trouxeram um sapo. Eu -fui directamente ao mar. Venha para o Humanitismo.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CX" id="CAPITULO_CX">CAPITULO CX</a></h5> - - -<h4>31</h4> - - -<p>Uma semana depois, o Lobo Neves foi nomeado presidente de provincia. -Agarrei-me á esperança da recusa, se o decreto viesse outra vez datado -de 13; trouxe, porém, a data de 31; e esta simples transposição de -algarismos eliminou delles a substancia diabolica. Que profundas que -são as molas da vida!</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXI" id="CAPITULO_CXI">CAPITULO CXI</a></h5> - - -<h4>O muro</h4> - - -<p>Não sendo meu costume dissimular ou esconder nada, contarei nesta -pagina o caso do muro. Elles estavam prestes a embarcar. Entrando -em casa de D. Placida, vi um papelinho dobrado sobre a mesa; era um -bilhete de Virgilia; dizia que me esperava á noite, na chacara, sem -falta. E concluía: «O muro é baixo do lado do becco.»</p> - -<p>Fiz um gesto de desagrado. A carta pareceu-me descommunalmente -audaciosa, mal pensada e até ridicula. Não era só convidar o escandalo, -era convidal-o de parceria com a risota. Imaginei-me a saltar o muro, -embora baixo e do lado do becco; e, quando ia a galgal-o, via-me -agarrado por um pedestre de policia, que me levava ao corpo da guarda. -O muro é baixo! E que tinha que fosse baixo? Naturalmente Virgilia não -soube o que fez; era possivel que já estivesse arrependida. Olhei para -o papel, um pedaço de papel amarrotado, mas inflexivel. Tive comichões -de o rasgar, em trinta mil pedaços, e atiral-os ao vento, como o ultimo -despojo da minha aventura; mas recuei a tempo; o amor-proprio, o vexame -da fuga, a idéa do medo... Não havia remedio senão ir.</p> - -<p>—Diga-lhe que vou.</p> - -<p>—Aonde? perguntou D. Placida.</p> - -<p>—Onde ella disse que me espera.</p> - -<p>—Não me disse nada.</p> - -<p>—Neste papel.</p> - -<p>D. Placida arregalou os olhos:—Mas esse papel, achei-o hoje de manhã, -nesta sua gaveta, e pensei que...</p> - -<p>Tive uma sensação exquisita. Reli o papel, mirei-o, remirei-o; era, na -verdade, um antigo bilhete de Virgilia, recebido no começo dos nossos -amores, uma certa entrevista na chacara, que me levou effectivamente a -saltar o muro, um muro baixo e discreto. Guardei o papel e... Tive uma -sensação exquisita.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXII" id="CAPITULO_CXII">CAPITULO CXII</a></h5> - - -<h4>A opinião</h4> - - -<p>Mas estava escripto que esse dia devia ser o dos lances dubios. Poucas -horas depois, encontrava-me eu com o Lobo Neves, na rua do Ouvidor, -e falavamos da presidencia e da politica. Elle aproveitou o primeiro -conhecido que nos passou á ilharga, e deixou-me, depois de muitos -comprimentos. Lembra-me que estava retraindo, mas de um retrahimento -que forcejava por dissimular. Pareceu-me então (e peço perdão á -critica, se este meu juizo fôr temerario!) pareceu-me que elle tinha -medo—não medo de mim, nem de si, nem do codigo, nem da consciencia; -tinha medo da opinião. Suppuz que esse tribunal anonymo e invisivel, -em que cada membro accusa e julga, era o limite posto á vontade do -Lobo Neves. Talvez que elle já não amasse a mulher; e, assim, póde ser -que o coração fosse estranho á indulgencia dos seus ultimos actos. -Cuido (e de novo insto pela boa vontade da critica!) cuido que elle -estaria prompto a separar-se da mulher, como o leitor se terá separado -de muitas relações pessoaes; mas a opinião, essa opinião que lhe -arrastaria a vida por todas as ruas, que abriria minucioso inquerito -ácerca do caso, que colligiria uma a uma todas as circumstancias, -antecedencias, inducções, provas, que as relataria na palestra das -chacaras desoccupadas, essa terrivel opinião, tão curiosa das alcovas, -obstou á dispersão da familia. Ao mesmo tempo tornou impossivel o -desforço, que seria a divulgação. Elle não podia mostrar-se resentido -commigo, sem egualmente buscar a separação conjugal; e teve então -de simular a mesma ignorancia de outr'ora, e, por deducção, eguaes -sentimentos.</p> - -<p>Que lhe custasse creio; naquelles dias, principalmente, vi-o de modo -que devia custar-lhe muito. Mas o tempo (e é outro ponto em que eu -espero a indulgencia dos homens pensadores!), o tempo calleja a -sensibilidade, e oblitera a memoria das cousas; era de suppor que os -annos lhe despontassem os espinhos, que a distancia dos factos apagasse -os respectivos contornos, que uma sombra de duvida retrospectiva -cobrisse a nudez da realidade; emfim, que a opinião se occupasse um -pouco com outras aventuras. O filho, crescendo, buscaria satisfazer -as ambições do pae; seria o herdeiro de todos os seus affectos. Isso, -e a actividade externa, e o prestigio publico, e a velhice depois, a -doença, o declinio, a morte, um responso, uma noticia biographica, e -estava fechado o livro da vida, sem nenhuma pagina de sangue.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXIII" id="CAPITULO_CXIII">CAPITULO CXIII</a></h5> - - -<h4>A solda</h4> - - -<p>A conclusão, se ha alguma no capitulo anterior, é que a opinião é -uma bôa solda das instituições domesticas. Não é impossivel que eu -desenvolva este pensamento, antes de acabar o livro; mas tambem não é -impossivel que o deixe como está. De um ou de outro modo, é uma bôa -solda a opinião, e tanto na ordem domestica, como na politica. Alguns -metaphysicos biliosos tem chegado ao extremo de a darem como simples -producto da gente chocha ou mediocre; mas é evidente que, ainda quando -um conceito tão extremado não trouxesse em si mesmo a resposta, bastava -considerar os effeitos salutares da opinião, para concluir que ella é a -obra superfina da flôr dos homens, a saber, do maior numero.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXIV" id="CAPITULO_CXIV">CAPITULO CXIV</a></h5> - - -<h4>Fim de um dialogo</h4> - - -<p>—Sim, é amanhã. Você vae a bordo?</p> - -<p>—Está douda? É impossível.</p> - -<p>—Então, adeus!</p> - -<p>—Adeus!</p> - -<p>—Não se esqueça de D. Placida. Vá vel-a algumas vezes. Coitada! Foi -hontem despedir-se de nós; chorou muito, disse que eu não a veria -mais... É uma boa creatura, não?</p> - -<p>—Certamente.</p> - -<p>—Se tivermos de escrever, ella receberá as cartas. Agora até daqui a...</p> - -<p>—Talvez dous annos?</p> - -<p>—Qual! elle diz que é só até fazer as eleições.</p> - -<p>—Sim? então até breve. Olhe que estão olhando para nós.</p> - -<p>—Quem?</p> - -<p>—Alli do sophá. Separemo-nos.</p> - -<p>—Custa-me muito.</p> - -<p>—Mas é preciso; adeus, Virgilia!</p> - -<p>—Até breve. Adeus!</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXV" id="CAPITULO_CXV">CAPITULO CXV</a></h5> - - -<h4>O almoço</h4> - - -<p>Não a vi partir; mas á hora marcada senti alguma cousa que não era dor -nem prazer, uma cousa mixta, allivio e saudade, tudo misturado, em -eguaes doses. Não se irrite o leitor com esta confissão. Eu bem sei -que, para titillar-lhe os nervos da fantasia, devia padecer um grande -desespero, derramar algumas lagrimas, e não almoçar. Seria romanesco; -mas não seria biographico. A realidade pura é que eu almocei, como nos -demais dias, acudindo ao coração com as lembranças da minha aventura, e -ao estomago com os acepipes de Mr. Pruddon...</p> - -<p>...Velhos do meu tempo, lembrai-vos desse mestre cosinheiro do hotel -Pharoux, um sujeito que, segundo dizia o dono da casa, havia servido -nos famosos Véry e Véfour, de Paris, e mais nos palacios do conde -Molé e do duque de la Rochefoucauld? Era insigne. Entrou no Rio de -Janeiro com a polka... A polka, Mr. Pruddon, o Tivoli, o baile dos -estrangeiros, o Casino, eis algumas das melhores recordações daquelle -tempo; mas sobretudo os acepipes do mestre eram deliciosos.</p> - -<p>Eram, e naquella manhã parece que o diabo do homem adivinhára a nossa -catastrophe. Jámais o engenho e a arte lhe foram tão propicios. Que -requinte de temperos! que tenrura de carnes! que rebuscado de fórmas! -Comia-se com a bocca, com os olhos, com o nariz. Não guardei a conta -desse dia; do contrario, é mui provavel que a deixasse nestas paginas. -Sei que foi cara. Ai dor! era-me preciso enterrar magnificamente os -meus amores. Elles lá iam, mar em fóra, no espaço e no tempo, e eu -ficava-me alli n'uma ponta de mesa, com os meus quarenta e tantos -annos, tão vadios e tão vazios; ficava-me para os não ver nunca mais, -porque ella poderia tornar e tornou, mas o effluvio da manhã quem é que -o pediu ao crepusculo da tarde?</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXVI" id="CAPITULO_CXVI">CAPITULO CXVI</a></h5> - - -<h4>Philosophia das folhas velhas</h4> - - -<p>Fiquei tão triste com o fim do ultimo capitulo que estava capaz de não -escrever este, descançar um pouco, purgar o espirito da melancolia que -o empacha, e continuar depois. Mas não, não quero perder tempo.</p> - -<p>A partida de Virgilia deu-me uma amostra da viuvez. Nos primeiros -dias metti-me em casa, a fisgar moscas, como Domiciano, se não mente -o Suetonio, mas a fisgal-as de um modo particular: com os olhos. -Fisgava-as uma a uma, no fundo de uma sala grande, estirado na rede, -com um livro aberto entre as mãos. Era tudo: saudades, ambições, um -pouco de tedio, e muito devaneio solto. Meu tio conego morreu nesse -intervallo; item, dous primos; e eu não me dei por abalado; levei-os ao -cemiterio, como quem leva dinheiro a um banco. Que digo? como quem leva -cartas ao correio: sellei as cartas, metti-as na caixinha, e deixei ao -carteiro o cuidado de as entregar em mão propria. Foi tambem per esse -tempo que nasceu minha sobrinha Venancia, filha do Cotrim. Morriam uns, -nasciam outros: eu continuava ás moscas.</p> - -<p>Outras vezes agitava-me. Ia ás gavetas, entornava as cartas antigas, -dos amigos, dos parentes, das namoradas, (até as de Marcella), e -abria-as todas, lia-as uma a uma, e recompunha o preterito... Leitor -ignaro, se não guardas as cartas da juventude, não conhecerás um dia -a philosophia das folhas velhas, não gostarás o prazer de ver-te, ao -longe, na penumbra, com um chapéu de tres bicos, botas de sete leguas -e longas barbas assyrias, a bailar ao som de uma gaita anacreontica. -Guarda as tuas cartas da juventude!</p> - -<p>Ou, se te não apraz o chapéu de tres bicos, empregarei a locução de um -velho marujo, familiar da casa do Cotrim; direi que, se guardares as -cartas da juventude, acharás occasião de «cantar uma saudade.» Parece -que os nossos marujos dão este nome ás cantigas de terra, entoadas no -alto mar. Como expressão poetica, é o que se póde exigir mais triste.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXVII" id="CAPITULO_CXVII">CAPITULO CXVII</a></h5> - - -<h4>O Humanitismo</h4> - - -<p>Duas forças, porém, além de uma terceira, compelliam-me a tornar á vida -agitada do costume: Sabina e o Quincas Borba. Minha irmã encaminhou a -candidatura conjugal de Nhã-loló de um modo verdadeiramente impetuoso. -Quando dei por mim estava com a moça quasi nos braços. Quanto ao -Quincas Borba, expoz-me emfim o Humanitismo, systema de philosophia -destinado a arruinar todos os demais systemas.</p> - -<p>—Humanitas, dizia elle, o principio das cousas, não é outro senão o -mesmo homem repartido por todos os homens. Conta tres phases Humanitas; -a <i>statica</i>, anterior a toda a creação; a <i>expansiva</i>, começo das -cousas; a <i>dispersiva</i>, apparecimento do homem; e contará mais uma, -a <i>contractiva</i>, absorpção do homem e das cousas. A <i>expansão</i>, -iniciando o universo, suggeriu a Humanitas o desejo de o gozar, e dahi -a <i>dispersão</i>, que não é mais do que a multiplicação personificada da -substancia original.</p> - -<p>Como me não apparecesse assaz clara esta exposição, o Quincas Borba -desenvolveu-a de um modo profundo, fazendo notar as grandes linhas -do systema. Explicou-me que, por um lado, o Humanitismo ligava-se ao -Brahmanismo, a saber, na distribuição dos homens pelas differentes -partes do corpo de Humanitas; mas aquillo que na religião indiana -tinha apenas uma estreita significação theologica e politica, era no -Humanitismo a grande lei do valor pessoal. Assim, descender do peito -ou dos rins de Humanitas, isto é, ser <i>um forte</i>, não era o mesmo que -descender dos cabellos ou da ponta do nariz. Dahi a necessidade de -cultivar e temperar o musculo. Hercules ou Herakles não foi senão um -symbolo antecipado do Humanitismo. Neste ponto o Quincas Borba ponderou -que o paganismo poderia ter chegado á verdade, se se não houvesse -amesquinhado com a parte galante dos seus mythos. Nada disso acontecerá -com o Humanitismo. Nesta egreja nova não ha aventuras faceis, nem -quedas, nem tristezas, nem alegrias pueris. O amor, por exemplo, é um -sacerdocio, a reproducção um ritual. Como a vida é o maior beneficio -do universo, e não ha mendigo que não prefira a miseria á morte (o -que é um delicioso influxo de Humanitas), segue-se que a transmissão -da vida, longe de ser uma occasião de galanteio, é a hora suprema da -missa espiritual. Porquanto, verdadeiramente ha só uma desgraça: é não -nascer.</p> - -<p>—Imagina, por exemplo, que eu não tinha nascido, continuou o Quincas -Borba; é positivo que não teria agora o prazer de conversar comtigo, -comer esta batata, ir ao theatro, e para tudo dizer n'uma só palavra: -viver. Nota que eu não faço do homem um simples vehiculo de Humanitas; -não, elle é ao mesmo tempo vehiculo, cocheiro e passageiro; elle é -o proprio Humanitas reduzido; dahi a necessidade de adorar-se a si -proprio. Queres uma prova da superioridade do meu systema? Contempla -a inveja. Não ha moralista grego ou turco, christão ou mussulmano, -que não troveje contra o sentimento da inveja. O accordo é universal, -desde os campos da Iduméa até o alto da Tijuca. Ora bem; abre mão dos -velhos preconceitos, esquece as rhetoricas rafadas, e estuda a inveja, -esse sentimento tão subtil e tão nobre. Sendo cada homem uma reducção -de Humanitas, é claro que nenhum homem é fundamentalmente opposto a -outro homem, quaesquer que sejam as apparencias contrarias. Assim, por -exemplo, o algoz que executa o condemnado póde excitar o vão clamor -dos poetas; mas substancialmente é Humanitas que corrige em Humanitas -uma infracção da lei de Humanitas. O mesmo direi do individuo que -estripa a outro; é uma manifestação da força de Humanitas. Nada obsta -(e ha exemplos) que elle seja egualmente estripado. Si entendeste -bem, facilmente comprehenderás que a inveja não é senão uma admiração -que luta, e sendo a luta a grande funcção do genero humano, todos os -sentimentos bellicosos são os mais adequados á sua felicidade. Dahi vem -que a inveja é uma virtude.</p> - -<p>Para que negal-o? eu estava estupefacto. A clareza da exposição, a -logica dos principios, o rigor das consequencias, tudo isso parecia -superiormente grande, e foi-me preciso suspender a conversa por alguns -minutos, em quanto digeria a philosophia nova. O Quincas Borba mal -podia encobrir a satisfação do triumpho. Tinha uma aza de frango no -prato, e trincava-a com philosophica serenidade. Eu fiz-lhe ainda -alguma objecções, mas tão frouxas, que elle não gastou muito tempo em -destruil-as.</p> - -<p>—Para entender bem o meu systema, concluiu elle, importa não esquecer -nunca o principio universal, repartido e resumido em cada homem. Olha: -a guerra, que parece uma calamidade, é uma operação conveniente, -como se dissessemos o estalar dos dedos de Humanitas; a fome (e elle -chupava philosophicamente a aza do frango), a fome é uma prova a que -Humanitas submette a propria viscera. Mas eu não quero outro documento -da sublimidade do meu systema, senão este mesmo frango. Nutriu-se de -milho, que foi plantado por um africano, supponhamos, importado de -Angola. Nasceu esse africano, cresceu, foi vendido um navio o trouxe, -um navio construido de madeira cortada no matto por dez ou doze -homens, levado por velas, que oito ou dez homens teceram, sem contar -a cordoalha e outras partes do apparelho nautico. Assim, este frango, -que eu almocei agora mesmo, é o resultado de uma multidão de esforços e -lutas, executados com o unico fim de dar mate ao meu appetite.</p> - -<p>Entre o queijo e o café, demonstrou-me o Quincas Borba que o seu -systema era a destruição da dôr. A dôr, segundo o Humanitismo, é uma -pura illusão. Quando a criança é ameaçada por um páu, antes mesmo de -ter sido espancada, fecha os olhos e treme; essa <i>predisposição</i> é que -constitue a base da illusão humana, herdada e transmittida. Não basta -certamente a adopção do systema para acabar logo com a dôr; mas é -indispensavel; o resto é a natural evolução das cousas. Uma vez que o -homem se compenetre bem de que elle é o proprio Humanitas, não tem mais -do que remontar o pensamento á substancia original para obstar qualquer -sensação dolorosa. A evolução porém é tão profunda, que mal se lhe -podem assignar alguns milhares de annos.</p> - -<p>O Quincas Borba leu-me dahi a dias a sua grande obra. Eram quatro -volumes manuscriptos, de cem paginas cada um, com letra miuda e -citações latinas. O ultimo volume compunha-se de um tratado politico, -fundado no Humanitismo; era talvez a parte mais enfadonha do systema, -posto que concebida com um formidavel rigor de logica. Reorganisada a -sociedade pelo methodo delle, nem por isso ficavam eliminadas a guerra, -a insurreição, o simples murro, a facada anonyma, a miseria, a fome, as -doenças; mas sendo esses suppostos flagellos verdadeiros equivocos do -entendimento, porque não passariam de movimentos externos da substancia -interior, destinados a não influir sobre o homem, senão como simples -quebra da monotonia universal, claro estava que a sua existencia não -impediria a felicidade humana. Mas ainda quando taes flagellos (o que -era radicalmente falso) correspondessem no futuro á concepção acanhada -de antigos tempos, nem por isso ficava destruido o systema, e por dous -motivos: 1.° porque sendo Humanitas a substancia creadora e absoluta, -cada individuo deveria achar a maior delicia do mundo em sacrificar-se -ao principio de que descende; 2.° porque, ainda assim, não diminuiria o -poder espiritual do homem sobre a terra, inventada unicamente para seu -recreio delle, como as estrellas, as brisas, as tamaras e o rhuibarbo. -Pangloss, dizia-me elle ao fechar o livro, não era tão tolo como o -pintou Voltaire.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXVIII" id="CAPITULO_CXVIII">CAPITULO CXVIII</a></h5> - - -<h4>A terceira força</h4> - - -<p>A terceira força (Veja a primeira linha do capitulo passado) a -terceira força que me chamava ao bulicio era a impaciencia de luzir, -e, sobretudo, a incapacidade de viver só. A multidão attrahia-me, o -applauso namorava-me, a gala, o tumulto, o rufo, eram outros tantos -objectos de seducção. Se a idéa do emplasto me tem apparecido nesse -tempo, quem sabe? não teria morrido logo e estaria celebre. Mas o -emplasto não veiu. Veiu o desejo de agitar-me em alguma cousa, com -alguma cousa e por alguma cousa. <i>Tout notre mal vient de ne pouvoir -être seuls.</i> Esta maxima de la Bruyère sempre me pareceu um grande -disparate. Não ha duvida que a sociabilidade é a primeira virtude dos -homens, a segunda é a curiosidade, a terceira é a pontualidade dos -pagamentos, a quarta o valor militar, e assim por diante.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXIX" id="CAPITULO_CXIX">CAPITULO CXIX</a></h5> - - -<h4>Parenthesis</h4> - - -<p>(Haverá uma critica tão perversa que possa attribuir a minha opinião -sobre la Bruyère á inveja das suas maximas? Eu aparo desde já esse -golpe, transcrevendo algumas das que compuz por aquelle tempo, e -rasguei logo depois, por não me parecerem dignas do prélo. Fil-as n'um -periodo em que a flor amarella do capitulo XXV tornára a abrir; eram -bocejos de enfado. E se não vejam:</p> - -<blockquote> - -<p>Supporta-se com paciencia a colica do proximo.</p></blockquote> - -<blockquote> - -<p>Matamos o tempo; o tempo nos enterra.</p></blockquote> - -<blockquote> - -<p>Um cocheiro philosopho costumava dizer que o gosto da -carruagem seria diminuto, se todos andassem de carruagem.</p> - -<p>Crê em ti; mas nem sempre duvides dos outros.</p></blockquote> - -<blockquote> - -<p>Não se comprehende que um botocudo fure o beiço para -enfeital-o com um pedaço de páu. Esta reflexão é de um -joalheiro.</p></blockquote> - -<blockquote> - -<p>Não te irrites se te pagarem mal um beneficio: antes cair das -nuvens, que de um terceiro andar.)</p></blockquote> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXX" id="CAPITULO_CXX">CAPITULO CXX</a></h5> - - -<h4>Compelle intrare</h4> - - -<p>—Não, senhor, agora quer você queira, quer não, ha de casar, disse-me -Sabina. Que bello futuro! Um solteirão sem filhos.</p> - -<p>Sem filhos! Eis o dardo secreto. A idéa de ter filhos deu-me um -sobresalto; percorreu-me outra vez o fluido mysterioso. Sim, cumpria -ser pae. A vida celibata podia ter certas vantagens proprias, mas -seriam tenues, e compradas a troco da solidão. Sem filhos! Não; -impossivel. Dispuz-me a aceitar tudo, ainda mesmo a alliança do -Damasceno. Sem filhos! Como já então depositasse grande confiança no -Quincas Borba, fui ter com elle e expuz-lhe os movimentos internos da -minha paternidade. O philosopho ouviu-me com alvoroço; declarou-me que -Humanitas se agitava em meu seio; animou-me ao casamento; ponderou -que eram mais alguns convivas que batiam á porta, etc. <i>Compelle -intrare</i>, como dizia Jesus. E não me deixou sem provar que o apologo -evangelico não era mais do que um prenuncio do Humanitismo, erradamente -interpretado pelos padres.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXXI" id="CAPITULO_CXXI">CAPITULO CXXI</a></h5> - - -<h4>Morro abaixo</h4> - - -<p>No fim de tres mezes, ia tudo á maravilha. O fluido, Sabina, os olhos -da moça, os desejos do pae, eram outros tantos impulsos que me levavam -ao matrimonio. A lembrança de Virgilia apparecia de quando em quando, -á porta; e com ella um diabo negro, que me mettia á cara um espelho, -no qual eu via ao longe Virgilia desfeita em lagrimas; mas outro diabo -vinha, côr de rosa, com outro espelho, em que se reflectia a figura de -Nhã-loló, terna, luminosa, angelica.</p> - -<p>Não falo dos annos. Eu não os sentia; acrescentarei até que os deitára -fóra, certo domingo, em que fui á missa na capella do Livramento. Como -o Damasceno morava nos Cajueiros, eu acompanhava-os muitas vezes á -missa. O morro estava ainda nú de habitações, salvo o velho palacete do -alto, onde era a capella. Pois um domingo, ao descer com Nhã-loló pelo -braço, não sei que phenomeno se deu que fui deixando aqui dous annos, -alli quatro, logo adiante cinco, de maneira que, quando cheguei abaixo, -estava com vinte annos apenas, tão lépidos como elles tinham sido.</p> - -<p>Agora, se querem saber em que circumstancias se deu o phenomeno, -basta-lhes ler este capitulo até o fim. Vinhamos da missa, ella, o pae -e eu. No meio do morro achámos um grupo de homens. O Damasceno, que -vinha ao pé de nós, percebeu o que era e adiantou-se alvoroçado; nós -fomos atraz delle. E vimos isto: homens de todas as edades, tamanhos e -côres, uns em mangas de camisa, outros de jaqueta, outros mettidos em -sobrecasacas esfrangalhadas; attitudes diversas, uns de cócaras, outros -com as mãos apoiadas nos joelhos, estes sentados em pedras, aquelles -encostados ao muro; e todos com os olhos fixos no centro, e as almas -debruçadas das pupillas.</p> - -<p>—Que é? perguntou-me Nhã-loló.</p> - -<p>Fiz-lhe signal que se calasse; abri subtilmente caminho, e todos -me foram cedendo espaço, sem que positivamente ninguem me visse. O -centro tinha-lhes atado os olhos. Era uma briga de gallos. Vi os dous -contendores, dous gallos de esporão agudo, olho de fogo e bico afiado. -Ambos agitavam as cristas em sangue; o peito de um e de outro estava -desplumado e rubro; invadia-os o cançasso. Mas lutavam ainda assim, -olhos fitos nos olhos, bico abaixo, bico acima, golpe deste, golpe -daquelle, vibrantes e raivosos. O Damasceno não sabia mais de nada; o -espectaculo eliminou para elle todo o universo. Em vão lhe disse que -era tempo de descer: elle não respondia, não ouvia, concentrara-se no -duello. A briga de gallos era uma de suas paixões.</p> - -<p>Foi nessa occasião que Nhã-loló me puxou brandamente pelo braço, -dizendo que nos fossemos embora. Aceitei o conselho e vim com ella por -alli abaixo. Já disse que o morro era então deshabitado; disse-lhes -tambem que vinhamos da missa, e não lhes tendo dito que chovia, era -claro que fazia bom tempo, um sol delicioso. E forte. Tão forte que eu -abri logo o guarda-sol, segurei-o pelo centro do cabo, e inclinei-o por -modo que ajuntei uma pagina á philosophia do Quincas Borba: Humanitas -osculou Humanitas... Foi assim que os annos me vieram caindo pelo morro -abaixo.</p> - -<p>Ao sopé detivemo-nos alguns minutos; á espera do Damasceno; elle -veiu dahi a pouco, rodeado dos apostadores, a commentar com elles a -briga. Um destes, thesoureiro das apostas, distribuia um velho maço -de notas de dez tostões, que os triumphadores recebiam duplamente -alegres. Quanto aos gallos vinham sobraçados pelo respectivo dono. Um -delles trazia a crista tão comida e ensanguentada, que vi logo nelle o -vencido; mas era engano,—o vencido era o outro, que não trazia crista -nenhuma. Ambos tinham o bico aberto, respirando a custo, esfalfados. -Os apostadores, ao contrario, vinham alegres, sem embargo das fortes -commoções da luta; biographavam os contendores, relembravam as proezas -de ambos. Eu fui andando, vexado; Nhã-loló, vexadissima.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXXII" id="CAPITULO_CXXII">CAPITULO CXXII</a></h5> - - -<h4>Uma intenção mui fina</h4> - - -<p>O que vexava a Nhã-loló era o pae. A facilidade com que elle se mettêra -com os apostadores punha em relevo antigos costumes e affinidades -sociaes; e Nhã-loló chegára a temer que tal sogro me parecesse indigno. -Era notavel a differença que ella fazia de si mesma; estudava-se e -estudava-me. A vida elegante e polida attrahia-a, principalmente -porque lhe parecia o meio mais seguro de ajustar as nossas pessoas. -Nhã-loló observava, imitava, adivinhava; ao mesmo tempo dava-se ao -esforço de mascarar a inferioridade da familia. Naquelle dia, porém, -a manifestação do pae foi tamanha que a entristeceu grandemente. Eu -busquei então divertil-a do assumpto, dizendo-lhe muitas chanças e -motes de bom tom; vãos esforços, que não a alegravam mais. Era tão -profundo o abatimento, tão expressivo o desanimo, que eu cheguei a -attribuir a Nhã-loló a intenção positiva de separar, no meu espirito, -a sua causa da causa do pae. Este sentimento pareceu-me de grande -elevação; era uma affinidade mais entre nós.</p> - -<p>—Não ha remedio, disse eu commigo, vou arrancar esta flor a este -pantano.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXXIII" id="CAPITULO_CXXIII">CAPITULO CXXIII</a></h5> - - -<h4>O verdadeiro Cotrim</h4> - - -<p>Não obstante os meus quarenta e tantos annos, como eu amasse a harmonia -da familia, entendi não tratar o casamento sem primeiro falar ao -Cotrim. Elle ouviu-me e respondeu-me seriamente que não tinha opinião -em negocio de parentes seus. Podiam suppor-lhe algum interesse, se -acaso louvasse, as raras prendas de Nhã-loló; por isso calava-se. Mais: -estava certo de que a sobrinha nutria por mim verdadeira paixão, mas se -ella o consultasse, o seu conselho seria negativo. Não era levado por -nenhum odio; apreciava as minhas bôas qualidades,—não se fartava de -as elogiar, como era de justiça; e pelo que respeita a Nhã-loló, não -chegaria jámais a negar que era noiva excellente; mas dahi a aconselhar -o casamento ia um abysmo.</p> - -<p>—Lavo inteiramente as mãos, concluiu elle.</p> - -<p>—Mas você achava outro dia que eu devia casar quanto antes...</p> - -<p>—Isso é outro negocio. Acho que é indispensavel casar, principalmente -tendo ambições politicas. Saiba que na politica o celibato é uma -rémora. Agora, quanto á noiva, não posso ter voto, não quero, não devo, -não é de minha honra. Parece-me que Sabina foi além, fazendo-lhe certas -confidencias, segundo me disse; mas em todo caso ella não é tia carnal -de Nhã-loló, como eu. Olhe... mas não... não digo...</p> - -<p>—Diga.</p> - -<p>—Não; não digo nada.</p> - -<p>Talvez pareça excessivo o escrupulo do Cotrim, a quem não souber que -elle possuia um caracter ferozmente honrado. Eu mesmo fui injusto -com elle durante os annos que se seguiram ao inventario do meu pae. -Reconheço que era um modelo. Arguiam-n'o de avareza, e cuido que -tinham razão; mas a avareza é apenas a exageração de uma virtude, -e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo que -o <i>deficit.</i> Como era muito secco de maneiras tinha inimigos, que -chegavam a accusal-o de barbaro. O unico facto allegado neste -particular era o de mandar com frequencia escravos ao calabouço, donde -elles desciam a escorrer sangue; mas, além de que elle só mandava os -perversos e os fujões, occorre que, tendo longamente contrabandeado em -escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que -esse genero de negocio requeria, e não se póde honestamente attribuir á -indole original de um homem o que é puro effeito de relações sociaes. -A prova de que o Cotrim tinha sentimentos pios encontrava-se no seu -amor aos filhos, e na dôr que padeceu quando lhe morreu Sára, dalli a -alguns mezes; prova irrefutavel, acho eu; e não unica. Era thesoureiro -de uma confraria, e irmão de varias irmandades, e até irmão remido de -uma destas, o que não se coaduna muito com a reputação da avareza; -verdade é que o beneficio não caíra no chão: a irmandade (de que elle -fôra juiz,) mandara-lhe tirar o retrato a oleo. Não era perfeito, -de certo; tinha, por exemplo, o sestro de mandar para os jornaes a -noticia de um ou outro beneficio que praticava,—sestro reprehensivel -ou não louvavel, concordo; mas elle desculpava-se dizendo que as bôas -acções eram contagiosas, quando publicas; razão a que se não pode negar -algum peso. Creio mesmo (e nisto faço o seu maior elogio) que elle -não praticava, de quando em quando, esses beneficios senão com o fim -de espertar a philantropia dos outros; e se tal era o intuito, força -é confessar que a publicidade tornava-se uma condição <i>sine qua non.</i> -Em summa, poderia dever algumas attenções, mas não devia um real a -ninguem.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPIULO_CXXIV" id="CAPIULO_CXXIV">CAPIULO CXXIV</a></h5> - - -<h4>Vá de intermedio</h4> - - -<p>Que ha entre a vida e a morte? Uma curta ponte. Não obstante, se eu -não compuzesse este capitulo, padeceria o leitor um forte abalo, assaz -damnoso ao effeito do livro. Saltar de um retrato a um epitaphio, póde -ser real e commum; o leitor, entretanto, não se refugia no livro, senão -para escapar á vida. Não digo que este pensamento seja meu; digo que -ha nelle uma dose de verdade, e que, ao menos, a fórma é pittoresca. E -repito: não é meu.</p> - -<p>Vá de intermedio, e contemos a este proposito uma anecdota. Foi no -tempo da minha vida parlamentar; eramos cinco; falavamos de cousas e -lousas, e aconteceu tocar nos negocios do Rio da Prata. Então, disse -um:—O governo não deve esquecer que o dinheiro é o nervo da guerra. Ao -que eu redargui que não, que o nervo da guerra eram os bons soldados. -Um dos ouvintes coçou o nariz, outro consultou o relogio, o terceiro -tamborilou sobre o joelho, o quarto deu algumas pernadas pela sala, -o quinto era eu. Mas, continuando a falar, ponderei que essa idéa, -inteiramente justa, não era minha, e sim de Machiavelli; circumstancia -que levou o primeiro a não coçar o nariz, o segundo a não consultar o -relogio, o terceiro a não tamborilar sobre o joelho, e o quarto a não -dar pernadas; e todos me rodearam, e me pediram que repetisse o dito, -e repeti, e elles extasiavam-se, e batiam com a cabeça approvando, -saboreando, decorando. O que estimei, porque fui sempre amador de idéas -justas. Mas vamos ao epitaphio.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXXV" id="CAPITULO_CXXV">CAPITULO CXXV</a></h5> - - -<h4>Epitaphio</h4> - - -<p class="center"> -AQUI JAZ<br /> -<br /> -D. EULALIA DAMASCENA DE BRITO<br /> -<br /> -MORTA<br /> -<br /> -AOS DEZENOVE ANNOS DE IDADE<br /> -<br /> -ORAI POR ELLA!<br /> -</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXXVI" id="CAPITULO_CXXVI">CAPITULO CXXVI</a></h5> - - -<h4>Desconsolação</h4> - - -<p>O epitaphio diz tudo. Vale mais do que se lhes narrasse a molestia de -Nhã-loló, a morte, o desespero da familia, o enterro. Ficam sabendo -que morreu; accrescentarei que foi por occasião da primeira entrada -da febre amarella. Não digo mais nada, a não ser que a acompanhei até -o ultimo jazigo, e me despedi triste, mas sem lagrimas. Conclui que -talvez não a amasse devéras.</p> - -<p>Vejam agora a que excessos póde levar uma inadvertencia; doeu-me um -pouco a cegueira da epidemia que, matando á direita e á esquerda, levou -tambem uma jovem dama, que tinha de ser minha mulher; e não cheguei -a entender a necessidade da epidemia, e menos ainda daquella morte. -Creio até que esta me pareceu ainda mais absurda que todas as outras -mortes. O Quincas Borba, porém, explicou-me que as epidemias eram uteis -á especie, embora desastrosas para uma certa porção de individuos; e -fez-me notar que, por mais horrendo que fosse o espectaculo, havia -uma vantagem de muito peso: a sobrevivencia do maior numero. Chegou a -perguntar-me se, no meio do luto geral, não sentia eu algum secreto -encanto em ter escapado ás garras da peste; mas esta pergunta era tão -insensata, que ficou sem resposta.</p> - -<p>Se não contei a morte, não conto igualmente a missa do setimo dia. -A tristeza do Damasceno era profunda; esse pobre homem parecia uma -ruina. Quinze dias depois estive com elle; continuava inconsolavel, e -dizia que a dor grande com que Deus o castigára fora ainda augmentada -com a que lhe infligiram os homens. Não me disse mais nada. Tres -semanas depois tornou ao assumpto, e então confessou-me que, no no -meio do desastre irreparavel, quizera ter a consolação da presença dos -amigos. Doze pessoas apenas, e tres quartas partes amigos do Cotrim, -acompanharam á cova o cadaver de sua querida filha. E elle fizera -expedir oitenta convites. Ponderei-lhe que as perdas eram tão geraes -que bem se podia desculpar essa desattenção apparente. O Damasceno -abanava a cabeça de um modo incredulo e triste.</p> - -<p>—Qual! gemia elle, desampararam-me.</p> - -<p>O Cotrim, que estava presente:</p> - -<p>—Vieram os que devéras se interessam por você é por nós. Os oitenta -viriam por formalidade, falariam da inercia do governo, das panacéas -dos boticarios, do preço das casas, ou uns dos outros...</p> - -<p>O Damasceno ouviu calado, abanou outra vez a cabeça, e suspirou:</p> - -<p>—Mas viessem!</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXXVII" id="CAPITULO_CXXVII">CAPITULO CXXVII</a></h5> - - -<h4>Formalidade</h4> - - -<p>Grande cousa é haver recebido do ceu uma particula da sabedoria, o dom -de achar as relações das cousas, a faculdade de as comparar e o talento -de concluir! Eu tive essa distincção psychica; eu a agradeço ainda -agora do fundo do meu sepulchro.</p> - -<p>De facto, o homem vulgar que ouvisse a ultima palavra do Damasceno, -não se lembraria della, quando, tempos depois, houvesse de olhar para -uma gravura representando seis damas turcas. Pois eu lembrei-me. Eram -seis damas de Constantinopla,—modernas,—em trajos de rua, com a -cara tapada, não tapada á outra maneira, com um espesso panno que as -cobrisse devéras, mas com um veu tenuissimo, que simulava descobrir -somente os olhos, e na realidade descobria a cara inteira. E eu achei -graça a essa esperteza da faceirice musulmana, que assim esconde o -rosto,—e cumpre o uso,—mas não o esconde,—e divulga a belleza. -Apparentemente, nada ha entre as damas turcas e o Damasceno; mas se -tu és um espirito profundo e penetrante (e duvido muito que me negues -isso), comprehenderás que, tanto n'um como n'outro caso, surge ahi a -orelha de uma rigida e meiga companheira do homem social...</p> - -<p>Amavel Formalidade, tu és, sim, o bordão da vida, o balsamo dos -corações, a medianeira entre os homens, o vinculo da terra e do ceu; tu -enxugas as lagrimas de um pae, tu captas a indulgencia de um Propheta; -e se a dôr adormece, e se a consciencia se accommoda, a quem, senão a -ti, deverão esse immenso beneficio? A estima que passa de chapeu na -cabeça não diz nada á alma; mas a indifferença que corteja deixa-lhe -uma deleitosa impressão. A razão é que, ao contrario de uma velha -formula absurda, não é a lettra que mata; a lettra dá vida; o espirito -é que é objecto de controversia, de duvida, de interpretação, e -conseguintemente de luta e de morte. Vive tu, amavel Formalidade, para -socego do Damasceno e gloria de Muhammed.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXXVIII" id="CAPITULO_CXXVIII">CAPITULO CXXVIII</a></h5> - - -<h4>Na camara</h4> - -<p>E notai bem que eu vi a gravura turca, dous annos depois das palavras -de Damasceno, e vi-a na camara dos deputados, em meio de grande -borborinho, emquanto um deputado discutia um parecer da commissão de -orçamento, sendo eu tambem deputado. Para quem ha lido este livro é -escusado encarecer a minha satisfação, e para os outros é igualmente -inutil. Era deputado, e vi a gravura turca, recostado na minha cadeira, -entre um collega, que contava uma anecdota, e outro, que tirava a -lapis, nas costas de uma sobrecarta, o perfil do orador. O orador era o -Lobo Neves. A onda da vida trouxe-nos á mesma praia, como duas botelhas -de naufragos, elle contendo o seu resentimento, eu devendo conter o meu -remorso; e emprégo esta fórma suspensiva, dubitativa ou condicional, -para o fim de dizer que effectivamente não continha nada, a não ser a -ambição de ser ministro.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXXIX" id="CAPITULO_CXXIX">CAPITULO CXXIX</a></h5> - - -<h4>Sem remorsos</h4> - - -<p>Não tinha remorsos. Se possuisse os apparelhos proprios, incluia neste -livro uma pagina de chimica, porque havia de decompor o remorso até -os mais simples elementos, com o fim de saber, de um modo positivo e -concludente, por que razão Achilles passea á roda de Troya o cadaver -do adversario, e lady Macbeth passea á volta da sala a sua mancha de -sangue. Mas eu não tenho apparelhos chimicos, como não tinha remorsos; -tinha vontade de ser ministro de Estado. Comtudo, se hei de acabar este -capitulo, direi que não quizera ser Achilles nem lady Macbeth; e que a -ser alguma cousa, antes Achilles, antes passear ovante o cadaver do que -a mancha; ouvem-se no fim as supplicas de Priamo, e ganha-se uma bonita -reputação militar e litteraria. Eu não ouvia as supplicas de Priamo, -mas o discurso do Lobo Neves, e não tinha remorsos.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXXX" id="CAPITULO_CXXX">CAPITULO CXXX</a></h5> - - -<h4>Para intercalar no cap. <span class="smcap">CXXIX</span></h4> - - -<p>A primeira vez que pude falar a Virgilia, depois da presidencia, foi -n'um baile em 1855. Trazia um soberbo vestido de gorgorão azul, e -ostentava ás luzes o mesmo par de hombros de outro tempo. Não era a -frescura da primeira edade; ao contrario; mas ainda estava formosa, -de uma formosura outoniça, realçada pela noite. Lembra-me que falamos -muito; e lembra-me que não alludimos a cousa nenhuma do passado. -Subentendia-se tudo. Um dito remoto, vago, ou então um olhar, e mais -cousa nenhuma. Pouco depois retirou-se; eu fui vel-a descer as escadas, -e não sei por que phenomeno de ventriloquismo cerebral (perdoem-me -os philologos essa phrase barbara), murmurei commigo esta palavra -profundamente retrospectiva:</p> - -<p>—Magnifica!</p> - -<p>Convém intercalar este capitulo entre a primeira oração e a segunda do -cap. <span class="smcap">CXXIX</span>.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXXXI" id="CAPITULO_CXXXI">CAPITULO CXXXI</a></h5> - - -<h4>De uma calumnia</h4> - - -<p>Como eu acabava de dizer aquillo, pelo processo ventriloco-cerebral,—o -que era simples opinião e não remorso,—senti que alguem me punha a mão -no hombro. Voltei-me; era um antigo companheiro, official de marinha, -jovial, um pouco despejado de maneiras. Elle sorriu maliciosamente, e -disse-me:</p> - -<p>—Seu maganão! Recordações do passado, hein?</p> - -<p>—Viva o passado!</p> - -<p>—Você naturalmente foi reintegrado no emprego.</p> - -<p>—Salta, pelintra! disse eu, ameaçando-o com o dedo.</p> - -<p>Confesso que este dialogo era uma indiscrição,—principalmente a ultima -replica. E com tanto maior prazer o confesso, quanto que as mulheres é -que tem fama de indiscretas, e não quero acabar o livro sem rectificar -essa noção do espirito humano. Em pontos de aventura amorosa, achei -homens que sorriam, ou negavam a custo, de um modo frio, monosyllabico, -etc., ao passo que as parceiras não davam por si, e jurariam aos -Santos Evangelhos, que era tudo uma calumnia. A razão desta differença -é que a mulher (salva a hypothese do cap. CI e outras) entrega-se por -amor, ou seja o amor-paixão de Stendhal, ou o puramente physico de -algumas damas romanas, por exemplo, ou polynesias, laponias, cafres, -e póde ser que outras raças civilisadas; mas o homem,—falo do homem -de uma sociedade culta e elegante,—o homem conjuga a sua vaidade ao -outro sentimento. Alem disso (e refiro-me sempre aos casos defesos), -a mulher, quando ama outro homem, parece-lhe que mente a um dever, e -portanto tem de dissimular com arte maior, tem de refinar a aleivosia; -ao passo que o homem, sentindo-se causa da infracção e vencedor de -outro homem, fica legitimamente orgulhoso, e logo passa a outro -sentimento menos rispido e menos secreto,—essa meiga fatuidade, que é -a transpiração luminosa do merito.</p> - -<p>Mas seja ou não verdadeira a minha explicação, basta-me deixar escripto -nesta pagina, para uso dos seculos, que a indiscrição das mulheres -é uma burla inventada pelos homens; em amor, pelo menos, elas são -um verdadeiro sepulchro. Perdem-se muita vez por desastradas, por -inquietas, por não saberem resistir aos gestos, aos olhares; e é por -isso que uma grande dama e fino espirito, a rainha de Navarra, empregou -algures esta metaphora para dizer, que toda a aventura amorosa vinha a -descobrir-se por força, mais tarde ou mais cedo: «não ha cachorrinho -tão adestrado, que alfim lhe não ouçamos o latir.»</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXXXII" id="CAPITULO_CXXXII">CAPITULO CXXXII</a></h5> - - -<h4>Que não é serio</h4> - - -<p>Citando o dito da rainha de Navarra, occorre-me que entre o nosso povo, -quando uma pessoa vê outra pessoa arrufada, costuma perguntar-lhe: -«Gentes, quem matou seus cachorrinhos?» como se dissesse:—«quem lhe -levou os amores, as aventuras secretas, etc.» Mas este capitulo não é -serio.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXXXIII" id="CAPITULO_CXXXIII">CAPITULO CXXXIII</a></h5> - - -<h4>O principio de Helvetius</h4> - - -<p>Estavamos ao ponto era que o official de marinha me arrancou a -confissão dos amores de Virgilia; e aqui emendo eu o principio de -Helvetius,—ou, por outra, explico-o. O meu interesse era calar; -confirmar a suspeita de uma cousa antiga fôra provocar algum odio -supitado, dar origem a um escandalo, quando menos adquirir a reputação -de indiscreto. Era esse o interesse; e entendendo-se o principio -de Helvetius de um modo superficial, isso é o que devia ter feito. -Mas eu já dei o motivo da indiscrição masculina: antes daquelle -interesse de <i>segurança</i>, havia outro, o do <i>desvanecimento</i>, que é -mais intimo, mais immediato: o primeiro era reflexivo, suppunha um -syllogismo anterior; o segundo era espontaneo, instintivo, vinha das -entranhas do sugeito; finalmente, o primeiro tinha o effeito remoto, -o segundo proximo. Conclusão: o principio de Helvetius é verdadeiro -no meu caso;—a diferença é que não era o interesse apparente, mas o -recondito.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXXXIV" id="CAPITULO_CXXXIV">CAPITULO CXXXIV</a></h5> - - -<h4>Cincoenta annos</h4> - - -<p>Não lhes disse ainda,—mas digo-o agora,—que quando Virgilia descia a -escada, e o official de marinha me tocava no hombro, tinha eu cincoenta -annos. Era portanto a minha vida que descia pela escada abaixo,—ou a -melhor parte, ao menos, uma parte cheia de prazeres, de agitações, de -sustos,—capeada de dissimulação e duplicidade,—mas emfim a melhor, -se devemos falar a linguagem usual. Si, porém, empregarmos outra mais -sublime, a melhor parte foi a restante, como eu terei a honra de lhes -dizer nas poucas paginas deste livro.</p> - -<p>Cincoenta annos! Não era preciso confessal-o. Já se vae sentindo que o -meu estylo não é tão lesto como nos primeiros dias. Naquella occasião, -cessado o dialogo com o official de marinha, que enfiou a capa e saiu, -confesso que fiquei um pouco triste. Voltei á sala, lembrou-me dansar -uma polka, embriagar-me das luzes, das flores, dos crystaes, dos olhos -bonitos, e do borburinho surdo e ligeiro das conversas particulares. -E não me arrependo; remocei. Mas, meia hora depois, quando me retirei -do baile, ás quatro da manhã, o que é que fui achar no fundo do carro? -Os meus cincoenta annos. Lá estavam elles os teimosos, não tolhidos -de frio, nem rheumaticos,—mas cochillando a sua fadiga, um pouco -cobiçosos de cama e de repouso. Então,—e vejam até que ponto póde ir -a imaginação de um homem, com somno,—então pareceu-me ouvir de um -morcego encarapitado no tejadilho:—Sr. Braz Cubas, a rejuvenescencia -estava na sala, nos crystaes, nas luzes, nas sedas,—emfim, nos outros.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXXXV" id="CAPITULO_CXXXV">CAPITULO CXXXV</a></h5> - - -<h4>Oblivion</h4> - - -<p>E agora sinto que, se alguma dama tem seguido estas paginas, fecha o -livro e não lê as restantes. Para ella extinguiu-se o interesse da -minha vida, que era o amor. Cincoenta annos! Não é ainda a invalidez, -mais já não é a frescura. Venham mais dez, e eu entenderei o que um -inglez dizia, entenderei que «cousa é não achar já quem se lembre de -meus paes, e de que modo me ha de encarar o proprio ESQUECIMENTO.»</p> - -<p>Vae em versaletes esse nome. OBLIVION! Justo é que se dem todas as -honras a um personagem tão desprezado e tão digno, conviva da ultima -hora, mas certo. Sabe-o a dama que luziu na aurora do actual reinado; e -mais dolorosamente a que ostentou suas graças em flor sob o ministerio -Paraná, porque esta acha-se mais perto do triumpho, e sente já que -outras lhe tomaram o carro. Então, se é digna de si mesma, não teima em -espertar a lembrança morta ou expirante; não busca no olhar de hoje a -mesma saudação do olhar de hontem, quando eram outros os que encetavam -a marcha da vida, de alma alegre e pé veloz. <i>Tempora mutantur.</i> E -ella comprehenderá que este turbilhão é assim mesmo, leva as folhas do -mato e os farrapos do caminho, sem excepção nem piedade; e se tiver um -pouco de philosophia, não invejará, mas lastimará as que lhe tomaram o -carro, porque tambem ellas hão de ser apeadas pelo estribeiro OBLIVION. -Espectaculo, cujo fim é divertir o planeta Saturno, que anda muito -aborrecido.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXXXVI" id="CAPITULO_CXXXVI">CAPITULO CXXXVI</a></h5> - - -<h4>Inutilidade</h4> - - -<p>Mas, ou muito me engano, ou acabo de escrever um capitulo inutil.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXXXVII" id="CAPITULO_CXXXVII">CAPITULO CXXXVII</a></h5> - - -<h4>A barretina</h4> - - -<p>E dahi, não; elle resume as reflexões que fiz no dia seguinte ao -Quincas Borba, accrescentando que me sentia acabrunhado, e mil -outras cousas tristes. Mas esse philosopho, com o elevado tino de -que dispunha, bradou-me que eu ia escorregando na ladeira fatal da -melancolia.</p> - -<p>—Meu caro Braz Cubas, não te deixes vencer desses vapores. Que diacho! -é preciso ser homem! ser forte! lutar! vencer! brilhar! influir! -dominar! Cincoenta annos é a edade da sciencia e do governo. Animo, -Braz Cubas; não me sejas palerma. Que tens tu com essa successão de -ruina a ruina ou de flor a flor? Trata de saborear a vida; e fica -sabendo que a peor philosophia é a do choramigas que se deita á -margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das aguas. O -officio dellas é não parar nunca; accommoda-te com a lei, e trata de -aproveital-a.</p> - -<p>Ve-se nas menores cousas o que vale a autoridade de um grande -philosopho. As palavras do Quincas Borba tiveram o condão de sacudir -o torpor moral e mental em que andava. Vamos lá; façamo-nos governo. -Crel-o-eis, posteros? Eu não havia intervindo até então nos grandes -debates. Cortejava a pasta por meio de rapapés, chás, commissões e -votos; e a pasta não vinha. Urgia apoderar-me da tribuna.</p> - -<p>Comecei de vagar. Tres dias depois, discutindo-se o orçamento da -justiça, aproveitei o ensejo para perguntar modestamente ao ministro -se não julgava util diminuir a barretina da guarda nacional. Não -tinha vasto alcance o objecto da pergunta; mas ainda assim demonstrei -que não era indigno das cogitações de um homem de Estado; e citei -Philopemen, que ordenou a substituição dos broqueis de suas tropas, -que eram pequenos, por outros maiores, e bem assim as lanças, que -eram demasiado leves; facto que a historia não achou que desmentisse -a gravidade de suas paginas. O tamanho das nossas barretinas estava -pedindo um córte profundo, não só por serem deselegantes, mas tambem -por serem anti-hygienicas. Nas paradas, ao sol, o excesso do calor -produzido por ellas podia ser fatal. Sendo certo que um dos preceitos -de Hippocrates era trazer a cabeça fresca, parecia cruel obrigar um -cidadão, por simples consideração de uniforme, a arriscar a saude e -a vida, e consequentemente o futuro da familia. A camara e o governo -deviam lembrar-se que a guarda nacional era o anteparo da liberdade -e da independencia, e que o cidadão, chamado a um serviço gratuito, -frequente e penoso, tinha direito a que se lhe diminuisse o onus, -decretando um uniforme leve e maneiro. Accrescia que a barretina, -por seu peso, abatia a cabeça dos cidadãos, e a patria precisava de -cidadãos cuja fronte pudesse levantar-se altiva e serena diante do -poder; e conclui com esta idéa: O chorão, que inclina os seus galhos -para a terra, é arvore de cemiterio; a palmeira, erecta e firme, é -arvore do deserto, das praças e dos jardins.</p> - -<p>Vária foi a impressão deste discurso. Quanto á forma, ao rapto -eloquente, á parte litteraria e philosophica, a opinião foi só uma; -disseram-me todos que era completo, e que de uma barretina ninguem -ainda conseguira tirar tantas idéas. Mas a parte politica foi -considerada por muitos deploravel; alguns achavam o meu discurso um -desastre parlamentar; emfim, vieram dizer-me que outros me davam já -em opposição, entrando nesse numero os opposicionistas da camara, -que chegaram a insinuar a conveniencia de uma moção de desconfiança. -Repelli energicamente tal interpretação, que não era só erronea, mas -calumniosa, á vista da notoriedade com que eu sustentava o gabinete; -accrescentei que a necessidade de diminuir a barretina, não era -tamanha que não pudesse esperar alguns annos; e que, em todo caso, -eu transigiria na extensão do córte, contentando-me com tres quartos -de polegada ou menos; emfim, dado mesmo que a minha idéa não fosse -adoptada, bastava-me tel-a iniciado no parlamento.</p> - -<p>O Quincas Borba, porém, não fez restricção alguma. Não sou homem -politico, disse-me elle ao jantar; não sei se andaste bem ou mal; -sei que fizeste um excellente discurso. E então notou as partes -mais salientes, as bellas imagens, os argumentos fortes, com esse -comedimento de louvor que tão bem fica a um grande philosopho; depois, -tomou o assumpto á sua conta, e impugnou a barretina com tal força, -com tamanha lucidez, que acabou convencendo-me effectivamente do seu -perigo.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXXXVIII" id="CAPITULO_CXXXVIII">CAPITULO CXXXVIII</a></h5> - - -<h4>A um Critico</h4> - - -<blockquote> - -<p>Meu caro critico,</p> - -<p>Algumas paginas atraz, dizendo eu que tinha cincoenta annos, -accrescentei: «Já se vae sentindo que o meu estylo não é tão -lesto como nos primeiros dias.» Talvez aches esta phrase -incomprehensivel, sabendo-se o meu actual estado; mas eu -chamo a tua attenção para a subtileza daquelle pensamento. O -que eu quero dizer não é que esteja agora mais velho do que -quando comecei o livro. A morte não envelhece. Quero dizer, -sim, que em cada phase da narração da minha vida experimento -a sensação correspondente. Valha-me Deus! é preciso explicar -tudo.</p></blockquote> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXXXIX" id="CAPITULO_CXXXIX">CAPITULO CXXXIX</a></h5> - - -<h4>De como não fui ministro de estado</h4> - -<pre style="font-size: 0.8em;"> -. . . . . . . . . . . -. . . . . . . . . -. . . . . . . . . - . . - . . . . . . . . -</pre> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXL" id="CAPITULO_CXL">CAPITULO CXL</a></h5> - - -<h4>Que explica o anterior</h4> - - -<p>Ha cousas que melhor se dizem calando; tal é a materia do capitulo -anterior. Podem entendel-o os ambiciosos mallogrados. Se a paixão -do poder é a mais forte de todas, como alguns inculcam, imaginem o -desespero, a dôr, o abatimento do dia em que perdi a cadeira da camara -dos deputados. Iam-se-me as esperanças todas; terminava a carreira -politica. E notem que o Quincas Borba, por inducções philosophicas -que fez, achou que a minha ambição não era a paixão verdadeira do -poder, mas um capricho, um desejo de folgar. Na opinião delle, este -sentimento, não sendo mais profundo que o outro, amofina muito mais, -porque orça pelo amor que as mulheres tem ás rendas e toucados. Um -Cromwell ou um Bonaparte, acrescentava elle, por isso mesmo que os -queima a paixão do poder, lá chegam á fina força, ou pela escada da -direita, ou pela da esquerda. Não era assim o meu sentimento; este, -não tendo em si a mesma força, não tem a mesma certeza do resultado; -e dahi a maior afflicção, o maior desencanto, a maior tristeza. O meu -sentimento, segundo o Humanitismo...</p> - -<p>—Vae para o diabo com o teu Humanitismo, interrompi-o; estou farto de -philosophias que me não levam a cousa nenhuma.</p> - -<p>A dureza da interrupção, tratando-se de tamanho philosopho, equivalia a -um desacato; mas elle proprio desculpou a irritação com que lhe falei. -Trouxeram-nos café; era uma hora da tarde, estavamos na minha sala de -estudo, uma bella sala, que dava para o fundo da chacara, bons livros, -objectos d'arte, um Voltaire entre elles, um Voltaire de bronze, que -nessa occasião parecia accentuar o risinho de sarcasmo, com que me -olhava, o ladrão; cadeiras excellentes; fóra, o sol, um grande sol, -que o Quincas Borba, não sei se por chalaça ou poesia, chamou um dos -ministros da natureza; corria um vento fresco, o ceu estava nitidamente -azul. De cada janella,—eram trez—pendia uma gaiola com passaros, -que chilreavam as suas operas rusticas. Tudo tinha a apparencia de -uma conspiração das cousas contra o homem: e, comquanto eu estivesse -na <i>minha</i> sala, olhando para a <i>minha</i> chacara, sentado na <i>minha</i> -cadeira, ouvindo os <i>meus</i> passaros, ao pé dos <i>meus</i> livros, allumiado -pelo <i>meu</i> sol, não chegava a curar-me das saudades daquella outra -cadeira, que não era minha.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXLI" id="CAPITULO_CXLI">CAPITULO CXLI</a></h5> - - -<h4>Os cães</h4> - - -<p>—Mas, emfim, que pretendes fazer agora? perguntou-me o Quincas Borbas, -indo pôr a chicara vazia no parapeito de uma das janellas.</p> - -<p>Não sei; vou metter-me na Tijuca; fugir aos homens. Estou envergonhado, -aborrecido. Tantos sonhos, meu caro Borba, tantos sonhos, e não sou -nada.</p> - -<p>—Nada! interrompeu-me o Quincas Borba com um gesto de indignação.</p> - -<p>Para distrair-me, convidou-me a sair; saimos para os lados do Engenho -Velho. Iamos a pé, philosophando as cousas. Nunca me hade esquecer o -beneficio desse passeio, que me restituiu o socego e a força. A palavra -daquelle grande homem era o cordial da sabedoria. Disse-me elle que eu -não podia fugir ao combate; se me fechavam a tribuna, cumpria-me abrir -um jornal. Chegou a usar uma expressão menos elevada, mostrando assim -que a lingua philosophica podia, uma ou outra vez, retemperar-se no -calão do povo. Funda um jornal, disse-me elle, e «desmancha toda esta -egrejinha.»</p> - -<p>—Magnifica idéa! Vou fundar um jornal, vou escachal-os, vou...</p> - -<p>—Lutar. Pódes escachal-os ou não; o essencial é que lutes. Vida é -luta. Vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal.</p> - -<p>Dahi a pouco demos com uma briga de cães; facto que aos olhos de um -homem vulgar não teria valor. O Quincas Borba fez-me parar e observar -os cães. Eram dous. Notou que ao pé delles estava um osso, motivo da -guerra, e não deixou de chamar a minha attenção para a circumstancia -de que o osso não tinha carne. Um simples osso nú. Os cães mordiam-se, -rosnavam, com o furor nos olhos... O Quincas Borba metteu a bengala -debaixo do braço, encostou o queixo no castão, e parecia em extasis.</p> - -<p>—Que bello que isto é! dizia elle de quando em quando.</p> - -<p>Quiz arrancar-me dalli, mas não pude; elle estava arraigado ao chão, -e só continuou a andar, quando a briga cessou inteiramente, e um -dos cães, mordido e vencido, foi levar a sua fome a outra parte. -Notei que ficára sinceramente alegre, posto contivesse a alegria, -segundo convinha a um grande philosopho. Fez-me observar a belleza do -espectaculo, relembrou o objecto da luta, concluiu que os cães tinham -fome; mas a privação do alimento era nada para os effeitos geraes da -philosophia. Nem deixou de recordar que em algumas partes do globo -o espectaculo é mais grandioso: as creaturas humanas é que disputam -aos cães os ossos e outros manjares menos appeteciveis; luta que se -complica muito, porque entra em acção a intelligencia do homem, com -todo o accumulo de sagacidade que lhe deram os seculos, etc.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXLII" id="CAPITULO_CXLII">CAPITULO CXLII</a></h5> - - -<h4>O pedido secreto</h4> - - -<p>Quanta cousa n'um minuete! como dizia o outro. Quanta cousa n'uma briga -de cães! Mas eu não era um discipulo servil ou medroso, que deixasse de -fazer uma ou outra objecção adequada. Andando, disse-lhe que tinha uma -duvida; não estava bem certo da vantagem de disputar a comida aos cães. -Elle respondeu-me com excepcional brandura:</p> - -<p>—Disputai-a aos outros homens é mais logico, porque a condição dos -contendores é a mesma, e leva o osso o que fôr mais forte. Mas porque -não será um espectaculo grandioso disputal-o aos cães? Voluntariamente, -comem-se gafanhotos, como o Precursor, ou cousa peor, como Ezequiel; -logo, o ruim é comivel; resta saber se é mais digno do homem -disputal-o, por virtude de uma necessidade natural, ou preferil-o, para -obedecer a uma exaltação religiosa, isto é, modificavel, ao passo que a -fome é eterna, como a vida e como a morte.</p> - -<p>Estavamos á porta de casa; deram-me uma carta, dizendo que vinha de uma -senhora. Entramos; e o Quincas Borba, com a discrição propria de um -philosopho, foi ler a lombada dos livros de uma estante, emquanto eu -lia a carta, que era de Virgilia:</p> - -<blockquote> - -<p>«Meu bom amigo,</p> - -<p>«D. Placida está muito mal. Peço-lhe o favor de fazer alguma -cousa por ella; mora no becco das Escadinhas; veja se alcança -metei-a na Misericordia.</p> - -<p>Sua amiga sincera,</p> - -<p>[signature]</p></blockquote> - -<p>Não era a letra fina e correcta de Virgilia, mas grossa e desegual; o -V da assignatura não passava de um rabisco sem intenção alphabetica; -de maneira que, se a carta apparecesse, era mui difficil attribuir-lhe -a autoria. Virei e revirei o papel. Pobre D. Placida! Mas eu tinha-lhe -deixado os cinco contos da praia da Gamboa, e não podia comprehender -que...</p> - -<p>—Vaes comprehender, disse o Quincas Borba, tirando um livro da estante.</p> - -<p>—O que? perguntei espantado.</p> - -<p>—Vaes comprehender que eu só te disse a verdade. Pascal é um dos meus -avós espirituaes; e, comquanto a minha philosophia valha mais que a -delle, não posso negar que era um grande homem. Ora, que diz elle -nesta pagina?—E, chapéu na cabeça, bengala sobraçada, apontava o logar -com o dedo.—Que diz elle? Diz que o homem tem «uma grande vantagem -sobre o resto do universo: sabe que morre, ao passo que o universo -ignora-o absolutamente.» Vês? Logo, o homem que disputa o osso a um cão -tem sobre este a grande vantagem de saber que tem fome; e é isto que -torna grandiosa a luta, como eu dizia. «Sabe que morre» é uma expressão -profunda; creio todavia que é mais profunda a minha expressão: sabe -que tem fome. Porquanto, o facto da morte limita, por assim dizer, o -entendimento humano; a consciencia da extincção dura um breve instante -e acaba para nunca mais, ao passo que a fome tem a vantagem de voltar, -de prolongar o estado consciente. Parece-me (se não vae nisso alguma -immodestia), que a fórmula de Pascal é inferior á minha, sem todavia -deixar de ser um grande pensamento, e Pascal um grande homem.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXLIII" id="CAPITULO_CXLIII">CAPITULO CXLIII</a></h5> - - -<h4>Não vou</h4> - - -<p>Emquanto elle restituia o livro á estante, relia eu o bilhete. Ao -jantar, vendo que eu falava pouco, mastigava sem acabar de engulir, -fitava o canto da sala, a ponta da meza, um prato, uma cadeira, uma -mosca invisivel, disse-me elle:—Tens alguma cousa; aposto que foi -aquella carta?—Foi. Realmente, sentia-me aborrecido, incommodado, com -o pedido de Virgilia. Tinha dado a D. Placida cinco contos de réis; -duvido muito que ninguem fosse mais generoso do que eu, nem tanto. -Cinco contos! E que fizera delles? Naturalmente botou-os fóra, comeu-os -em grandes festas, e agora toca para a Misericordia, e eu que a leve! -Morre-se em qualquer parte. Accresce que eu não sabia, ou não me -lembrava do tal becco das Escadinhas; mas, pelo nome, parecia-me algum -recanto estreito e escuro da cidade. Tinha de lá ir, chamar a attenção -dos visinhos, bater á porta, etc. Que massada! Não vou.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXLIV" id="CAPITULO_CXLIV">CAPITULO CXLIV</a></h5> - - -<h4>Utilidade relativa</h4> - - -<p>Mas a noite, que é boa conselheira, ponderou que a cortezia mandava -obedecer aos desejos da minha antiga dama.</p> - -<p>—Letras vencidas, urge pagal-as, disse eu ao levantar-me.</p> - -<p>Depois do almoço fui á casa de D. Placida; achei um mólho de ossos, -envolto em molambos, estendido sobre um catre velho e nauseabundo; -dei-lhe algum dinheiro. No dia seguinte fil-a transportar para a -Misericordia, onde ella morreu uma semana depois. Minto: amanheceu -morta; saiu da vida ás escondidas, tal qual entrára. Outra vez -perguntei, a mim mesmo, como no cap. LXXV, se era para isto que o -sachristão da Sé e a doceira trouxeram D. Placida á luz, n'um momento -de sympathia especifica. Mas adverti logo que, se não fosse D. Placida, -talvez os meus amores com Virgilia tivessem sido interrompidos, ou -immediatamente quebrados, em plena effervescencia; tal foi, portanto, a -utilidade da vida de D. Placida. Utilidade relativa, convenho; mas que -diacho ha absoluto nesse mundo?</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXLV" id="CAPITULO_CXLV">CAPITULO CXLV</a></h5> - - -<h4>Simples repetição</h4> - - -<p>Quanto aos cinco contos, não vale a pena dizer que um canteiro da -visinhança fingiu-se enamorado de D. Placida, logrou espertar-lhe -os sentidos, ou a vaidade, e casou com ella; no fim de alguns mezes -inventou um negocio, vendeu as apolices e fugiu com o dinheiro. Não -vale a pena. É o caso dos cães do Quincas Borba. Simples repetição de -um capitulo.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXLVI" id="CAPITULO_CXLVI">CAPITULO CXLVI</a></h5> - - -<h4>O programma</h4> - - -<p>Urgia fundar o jornal. Redigi o programma, que era uma applicação -politica do Humanitismo; somente, como o Quincas Borba não houvesse -ainda publicado o livro, (que aperfeiçoava de anno em anno) assentamos -de lhe não fazer nenhuma referencia. O Quincas Borba exigiu apenas uma -declaração, autographa e reservada, de que alguns principios novos -applicados á politica eram tirados do livro delle, ainda inedito.</p> - -<p>Era a fina flôr dos programmas; promettia curar a sociedade, destruir -os abusos, defender os sãos principios de liberdade e conservação; -fazia um appello ao commercio e á lavoura; citava Guizot e Ledru-Rollin -e acabava com esta ameaça, que o Quincas Borba achou mesquinha e -local: «A nova doutrina que professamos ha de inevitavelmente derribar -o actual ministerio.» Confesso que, nas circumstancias politicas da -occasião, o programma pareceu-me uma obra-prima. A ameaça do fim, que -o Quincas Borba achou mesquinha, demonstrei-lhe que era saturada do -mais puro Humanitismo, e elle mesmo o confessou depois. Porquanto, o -Humanitismo não excluia nada; as guerras de Napoleão e uma contenda -de cabras eram, segundo a nossa doutrina, a mesma sublimidade, com a -differença que os soldados de Napoleão sabiam que morriam, cousa que -apparentemente não acontece ás cabras. Ora, eu não fazia mais do que -applicar ás circumstancias a nossa fórmula philosophica: Humanitas -queria substituir Humanitas para consolação de Humanitas.</p> - -<p>—Tu és o meu discipulo amado, o meu califa, bradou o Quincas Borba, -com uma nota de ternura, que até então lhe não ouvira. Posso dizer -como o grande Muhammed: nem que venham agora contra mim o sol e a lua, -não recuarei das minhas idéas. Crê, meu caro Braz Cubas, que esta é a -verdade eterna, anterior aos mundos, posterior aos seculos.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXLVII" id="CAPITULO_CXLVII">CAPITULO CXLVII</a></h5> - - -<h4>O desatino</h4> - - -<p>Mandei logo para a imprensa uma noticia discreta, dizendo que -provavelmente começaria a publicação de um jornal opposicionista, dahi -a algumas semanas, redigido pelo Dr. Braz Cubas. O Quincas Borba, a -quem li a noticia, pegou da penna, e acrescentou ao meu nome, com uma -fraternidade verdadeiramente humanistica, esta phrase: «um dos mais -gloriosos membros da passada camara.»</p> - -<p>No dia seguinte entra-me em casa o Cotrim. Vinha um pouco transtornado, -mas dissimulava, affectando socego e até alegria. Vira a noticia -do jornal, e achou que devia, como amigo e parente, dissuadir-me -de semelhante idéa. Era um erro, um erro fatal. Mostrou que eu ia -collocar-me n'uma situação difficil, e de certa maneira trancar as -portas do parlamento. O ministerio, não só lhe parecia excellente, -o que aliás podia não ser a minha opinião, mas com certeza viveria -muito; e que podia eu ganhar com indispol-o contra mim? Sabia que -alguns dos ministros me eram affeiçoados; não era impossivel uma vaga, -e... Interrompi-o nesse ponto, para lhe dizer que meditára muito o -passo que ia dar, e não podia recuar uma linha. Cheguei a propôr-lhe a -leitura do programma, mas elle recusou energicamente, dizendo que não -queria ter a minima parte no meu desatino.</p> - -<p>—É um verdadeiro desatino, repetiu elle; pense ainda alguns dias, e -verá que é um desatino.</p> - -<p>A mesma cousa disse Sabina, á noite, no theatro. Deixou a filha no -camarote, como Cotrim, e trouxe-me ao corredor.</p> - -<p>—Mano Braz, que é que você vae fazer? perguntou-me afflicta. Que idéa -é essa de provocar o governo, sem necessidade, quando podia....</p> - -<p>Expliquei-lhe que não me convinha mendigar uma cadeira no parlamento; -que a minha idéa era derrubar o ministerio, por não me parecer adequado -á situação—e a certa fórmula philosophica; afiancei que empregaria -sempre uma linguagem cortez, embora energica. A violencia não era -especiaria do meu paladar. Sabina bateu com o leque na ponta dos dedos, -abanou a cabeça, e tornou ao assumpto com um ar de supplica e ameaça, -alternadamente; eu disse-lhe que não, que não, e que não. Desenganada, -lançou-me em rosto preferir os conselhos de pessoas estranhas e -invejosas aos della e do marido.—Pois siga o que, lhe parecer, -concluiu; nós cumprimos a nossa obrigação. Deu-me as costas e voltou ao -camarote.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXLVIII" id="CAPITULO_CXLVIII">CAPITULO CXLVIII</a></h5> - - -<h4>O problema insoluvel</h4> - - -<p>Publiquei o jornal. Vinte e quatro horas depois, apparecia em outros -uma declaração do Cotrim, dizendo, era substancia, que «posto não -militasse em nenhum dos partidos em que se dividia a patria, achava -conveniente deixar bem claro que não tinha influencia nem parte directa -ou indirecta na folha de seu cunhado, o Dr. Braz Cubas, cujas idéas -e procedimento politico inteiramente reprovava. O actual ministerio -(como aliás qualquer outro composto de eguaes capacidades) parecia-lhe -destinado a promover a felicidade publica.»</p> - -<p>Não podia acabar de crer nos meus olhos. Esfreguei-os uma e duas -vezes, e reli a declaração inopportuna, insolita e enigmatica. Se -elle nada tinha com os partidos, que lhe importava um incidente tão -vulgar como a publicação de uma folha? Nem todos os cidadãos que acham -bom ou mau um ministerio fazem declarações taes pela imprensa, nem -são obrigados a fazel-as. Realmente, era um mysterio a intrusão do -Cotrim neste negocio, não menos que a sua aggressão pessoal. Nossas -relações até então tinham sido lhanas e benevolas; não me lembrava -nenhum dissentimento, nenhuma sombra, nada, depois da reconciliação. -Ao contrario, as recordações eram de verdadeiros obsequios; assim, por -exemplo, sendo eu deputado, pude obter-lhe uns fornecimentos para o -arsenal de marinha, fornecimentos que elle continuava a fazer com a -maior pontualidade, e dos quaes me dizia algumas semanas antes, que -no fim de mais trez annos, podiam dar-lhe uns duzentos contos. Pois -a lembrança de tamanho obsequio não teve força para obstar que elle -viesse a publico enxovalhar o cunhado? Devia ser mui poderoso o motivo -da declaração, que o fazia commetter ao mesmo tempo um destempero e uma -ingratidão; confesso que era um problema insoluvel...</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CXLIX" id="CAPITULO_CXLIX">CAPITULO CXLIX</a></h5> - - -<h4>Theoria do beneficio</h4> - - -<p>... Tão insoluvel que o Quincas Borba não pôde dar com elle, apezar de -estudal-o longamente e com boa vontade.—Ora adeus! concluiu; nem todos -os problemas valem cinco minutos de attenção.</p> - -<p>Quanto á censura de ingratidão, o Quincas Borba rejeitou-a -inteiramente, não como improvavel, mas como absurda, por não obedecer -ás conclusões de uma boa philosophia humanistica:</p> - -<p>—Não me pódes negar um facto, disse elle; é que o prazer do -beneficiador é sempre maior que o do beneficiado. Que é o beneficio? é -um acto que faz cessar certa privação do beneficiado. Uma vez produzido -o effeito essencial, isto é, uma vez cessada a privação, torna o -organismo ao estado anterior, ao estado indifferente. Suppõe que tens -apertado em demasia o cós das calças; para fazer cessar o incommodo, -desabotôas o cós, respiras, saboreas um instante de gozo, o organismo -torna á indifferença, e não te lembras dos teus dedos que praticaram o -acto. Não havendo nada que perdure, é natural que a memoria se esvaeça, -porque ella não é uma planta aerea, precisa de chão. A esperança de -outros favores, é certo, conserva sempre no beneficiado a lembrança do -primeiro; mas este facto, aliás um dos mais sublimes que a philosophia -póde achar em seu caminho, explica-se pela memoria da privação, ou, -usando de outra fórmula, pela privação continuada na memoria, que -repercute a dor passada e aconselha a precaução do remedio opportuno. -Não digo que, ainda sem esta circumstancia, não aconteça, algumas -vezes, persistir a memoria do obsequio, acompanhada de certa affeição -mais ou menos intensa; mas são verdadeiras aberrações, sem nenhum valor -aos olhos de um philosopho.</p> - -<p>—Mas, repliquei eu, se nenhuma razão ha para que perdure a memoria do -obsequio no obsequiado, menos ha de haver em relação ao obsequiador. -Quizera que me explicasses este ponto.</p> - -<p>—Não se explica o que é de sua natureza evidente, retorquiu o Quincas -Borba; mas eu direi alguma cousa mais. A persistencia do beneficio na -memoria de quem o exerce explica-se pela natureza mesma do beneficio -e seus effeitos. Primeiramente, ha o sentimento de uma boa acção, e -deductivamente a consciencia de que somos capazes de boas acções; em -segundo logar, recebe-se uma convicção de superioridade sobre outra -creatura, superioridade no estado e nos meios; e esta é uma das -cousas mais legitimamente agradaveis, segundo as melhores opiniões, -ao organismo humano. Erasmo, que no seu <i>Elogio da Sandice</i> escreveu -algumas cousas boas, chamou a attenção para a complacencia com que dois -burros se coçam um ao outro. Estou longe de rejeitar essa observação de -Erasmo; mas direi o que elle não disse, a saber, que se um dos burros -coçar melhor o outro, esse ha de ter nos olhos algum indicio especial -de satisfação. Porque é que uma mulher bonita olha muitas vezes para -o espelho, senão porque se acha bonita, e porque isso lhe dá certa -superioridade sobre uma multidão de outras mulheres menos bonitas -ou absolutamente feias? A consciencia é a mesma cousa; remira-se a -miudo, quando se acha bella. Nem o remorso é outra cousa mais do que o -trejeito de uma consciencia que se vê hedionda. Não esqueças que, sendo -tudo uma simples irradiação de Humanitas, o beneficio e seus effeitos, -são phenomenos perfeitamente admiraveis.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CL" id="CAPITULO_CL">CAPITULO CL</a></h5> - - -<h4>Rotação e translação</h4> - - -<p>Ha em cada empreza, affeição ou edade um cyclo inteiro da vida humana. -O primeiro numero do meu jornal encheu-me a alma de uma vasta aurora, -coroou-me de verduras, restituiu-me a lepidez da mocidade. Seis mezes -depois batia a hora da velhice, e dahi a duas semanas a da morte, que -foi clandestina, como a de D. Placida. No dia em que o jornal amanheceu -morto, respirei como um homem que vem de longo caminho. De modo que, -se eu disser que a vida humana nutre de si mesma outras vidas, mais -ou menos ephemeras, como o corpo alimenta os seus parasitas, creio -não dizer uma cousa inteiramente absurda. Mas, para não arriscar essa -figura menos nitida e adequada, prefiro uma imagem astronomica: o homem -executa á roda do grande mysterio um movimento duplo de rotação e -translação; tem os seus dias, deseguaes como os de Jupiter, e delles -compõe o seu anno mais ou menos longo.</p> - -<p>No momento em que eu terminava o meu movimento de rotação, concluia o -Lobo Neves o seu movimento de translação. Morria com o pé na escada -ministerial. Correu ao menos, durante algumas semanas, que elle ia ser -ministro; e pois que o boato me encheu de muita irritação e inveja, não -é impossivel que a noticia da morte me deixasse alguma tranquillidade, -allivio, e um ou dous minutos de prazer. Prazer é muito, mas é verdade; -juro aos seculos que é a pura verdade.</p> - -<p>Fui ao enterro. Na sala mortuaria achei Virgilia, ao pé do feretro, a -soluçar. Quando levantou a cabeça, vi que chorava deveras. Ao sair o -enterro, abraçou-se ao caixão, afflicta; vieram tiral-a e leval-a para -dentro. Digo-vos que as lagrimas eram verdadeiras. Eu fui ao cemiterio; -e, para dizer tudo, não tinha muita vontade de falar; levava uma pedra -na garganta ou na consciencia. No cemiterio, principalmente quando -deixei cair a pá de cal sobre o caixão, no fundo da cova, o baque surdo -da cal deu-me um estremecimento passageiro, é certo, mas desagradavel; -e depois a tarde tinha o peso e a côr do chumbo; o cemiterio, as roupas -pretas...</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CLI" id="CAPITULO_CLI">CAPITULO CLI</a></h5> - - -<h4>Philosophia dos epitaphios</h4> - - -<p>Saí, afastando-me dos grupos, e fingindo ler os epitaphios. E, aliás, -gosto dos epitaphios; elles são, entre a gente civilisada, uma -expressão daquelle pio e secreto egoismo que induz o homem a arrancar -á morte um farrapo ao menos da sombra que passou. Dahi vem, talvez, -a tristeza inconsolavel dos que levam os seus mortos á valla commum; -parece-lhes que a podridão anonyma os alcança a elles mesmos.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CLII" id="CAPITULO_CLII">CAPITULO CLII</a></h5> - - -<h4>A moeda do Vespasiano</h4> - - -<p>Tinham ido todos; só o meu carro esperava pelo dono. Accendi um -charuto; afastei-me do cemiterio. Não podia sacudir dos olhos a -ceremonia do enterro, nem dos ouvidos os soluços de Virgilia. Os -soluços, principalmente, tinham o som vago e mysterioso de um problema. -Virgilia trahira o marido, com sinceridade; e agora chorava-o com -sinceridade. Eis uma combinação difficil que não pude fazer em todo -o trajecto; em casa, porém, apeando-me do carro, suspeitei que a -combinação era possivel, e até facil. Meiga Natura! A taxa da dor é -como a moeda de Vespasiano; não cheira á origem, e tanto se colhe do -mal como do bem. A moral reprehenderá, porventura, a minha complice; -é o que te não importa, implacavel amiga, uma vez que lhe recebeste -pontualmente as lagrimas. Meiga, tres vezes meiga Natura!</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CLIII" id="CAPITULO_CLIII">CAPÍTULO CLIII</a></h5> - - -<h4>O alienista</h4> - - -<p>Começo a ficar pathetico; e prefiro dormir. Dormi, sonhei que era -nababo, e acordei com a idéa de ser nababo. Eu gostava, ás vezes, -de imaginar esses contrastes de região, estado e credo. Alguns dias -antes tinha pensado na hypothese de uma revolução social, religiosa e -politica, que transferisse o arcebispo de Cantuaria a simples collector -de Petropolis, e fiz longos calculos para saber se o collector -eliminaria o arcebispo, ou se o arcebispo rejeitaria o collector, ou -que porção de arcebispo póde jazer n'um collector, ou que somma de -collector póde combinar com um arcebispo, etc. Questões insoluveis, -apparentemente, mas na realidade perfeitamente soluveis, desde que se -attenda que póde haver n'um arcebispo dous arcebispos,—o da bulla e o -outro. Está dito, vou ser nababo.</p> - -<p>Era um simples gracejo; disse-o, todavia, ao Quincas Borba, que -olhou para mim com certa cautella e pena, levando a sua bondade a -communicar-me que eu estava doudo. Ri-me a principio; mas a nobre -convicção do philosopho incutiu-me certo medo. A unica objecção contra -a palavra do Quincas Borba é que não me sentia doudo, mas não tendo -geralmente os doudos outro conceito de si mesmos, tal objecção ficava -sem valor. E vêde se ha algum fundamento na crença popular de que os -philosophos são homens alheios ás cousas minimas. No dia seguinte -mandou-me o Quincas Borba um alienista. Conhecia-o, fiquei aterrado. -Elle porém houve-se com a maior delicadeza e habilidade, despedindo-se -tão alegremente que me animou a perguntar-lhe se deveras me não achava -doudo.</p> - -<p>—Não, disse elle sorrindo; raros homens terão tanto juizo como o -senhor.</p> - -<p>—Então o Quincas Borba enganou-se?</p> - -<p>—Redondamente. E depois:—Ao contrario, se é amigo delle... peço-lhe -que o distraia... que...</p> - -<p>—Justos ceus! Parece-lhe?... Um homem de tamanho espirito! um -philosopho!</p> - -<p>Não importa; a loucura entra em todas as casas. Imaginem a minha -afflicção. O alienista, vendo o effeito de suas palavras, reconheceu -que eu era amigo do Quincas Borba, e tratou de diminuir a gravidade da -advertencia. Observou que podia não ser nada, e accrescentou até que um -grãosinho de sandice, longe de fazer mal, dava certo pico á vida. Como -eu rejeitasse com horror esta opinião, o alienista sorriu e disse-me -uma cousa tão extraordinaria, tão extraordinaria, que não merece menos -de um capitulo.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CLIV" id="CAPITULO_CLIV">CAPITULO CLIV</a></h5> - - -<h4>Os navios do Pireu</h4> - - -<p>—Ha de lembrar-se, disse-me o alienista, daquelle famoso maniaco -atheniense, que suppunha que todos os navios entrados no Pireu eram -de sua propriedade. Não passava de um pobretão, que talvez não -tivesse, para dormir, a cuba de Diogenes; mas a posse imaginaria dos -navios valia por todas as drachmas da Hellade. Ora bem, ha em todos -nós um maniaco de Athenas; e quem jurar que não possuiu alguma vez, -mentalmente, dous ou tres patachos, pelo menos, póde crer que jura -falso.</p> - -<p>—Tambem o senhor? perguntei-lhe.</p> - -<p>—Tambem eu.</p> - -<p>—Tambem eu?</p> - -<p>—Tambem o senhor; e o seu criado, não menos, se é seu criado esse -homem que alli está sacudindo os tapetes á janella.</p> - -<p>De facto, era um dos meus criados que batia os tapetes, emquanto -nós falavamos no jardim, ao lado. O alienista notou então que elle -escancarára as janellas todas, desde longo tempo, que alçára as -cortinas, que devassára o mais possivel a sala, ricamente alfaiada, -para que a vissem de fóra, e concluiu:—Este seu criado tem a mania do -atheniense: crê que os navios são delle; uma hora de illusão que lhe dá -a maior felicidade da terra.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CLV" id="CAPITULO_CLV">CAPITULO CLV</a></h5> - - -<h4>Reflexão cordial</h4> - - -<p>—Se o alienista tem razão, disse eu commigo, não haverá muito que -lastimar o Quincas Borba; e uma questão de mais ou de menos. Comtudo, -é justo cuidar delle, e evitar que lhe entrem no cerebro maniacos de -outras paragens.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CLVI" id="CAPITULO_CLVI">CAPITULO CLVI</a></h5> - - -<p>Orgulho tem servilidade</p> - - -<p>O Quincas Borba divergiu do alienista em relação ao meu -criado.—Póde-se, por imagem, disse elle, attribuir ao teu criado -a mania de atheniense; mas imagens não são idéas nem observações -tomadas á natureza. O que o teu criado tem é um sentimento nobre -e perfeitamente regido pelas leis do Humanitismo: é o orgulho -da servilidade. A intenção delle é mostrar que não é criado de -<i>qualquer.</i>—Depois chamou a minha attenção para os cocheiros de casa -grande, mais impertigados que o amo, para os criados de hotel, cuja -solicitude obedece ás variações sociaes da freguezia, etc. E concluiu -que era tudo a expressão daquelle sentimento delicado e nobre,—prova -cabal de que muitas vezes o homem, ainda a engraxar botas, é sublime.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CLVII" id="CAPITULO_CLVII">CAPITULO CLVII</a></h5> - - -<h4>Phase brilhante</h4> - - -<p>—Sublime és tu, bradei eu, lançando-lhe os braços ao pescoço.</p> - -<p>Com effeito, era impossivel crer que um homem tão profundo pudesse -chegar á demencia; e foi o que lhe disse após o meu abraço, -denunciando-lhe a suspeita do alienista. Não posso descrever a -impressão que lhe fez a denuncia; lembra-me que elle estremeceu e ficou -muito pallido.</p> - -<p>Foi por esse tempo que eu me reconciliei outra vez com o Cotrim, sem -chegar a saber a causa do dissentimento. Reconciliação opportuna, -porque a solidão pesava-me, como um remorso, e a vida era para mim -a peor das fadigas, que é a fadiga sem trabalho. Pouco depois fui -convidado por elle a filiar-me n'uma Ordem Terceira; o que eu não fiz -sem consultar o Quincas Borba:</p> - -<p>—Vae se queres, disse-me este, mas temporariamente. Eu trato de -annexar á minha philosophia uma parte dogmatica e liturgica. O -Humanitismo ha de ser tambem uma religião, a do futuro, a unica -verdadeira. O christianismo é bom para as mulheres e os mendigos, e as -outras religiões não valem mais do que essa: orçam todas pela mesma -vulgaridade ou fraqueza. O paraiso christão é um digno emulo do paraiso -mussulmano; e quanto ao nirvana de Buddha não passa de uma concepção de -paralyticos. Verás o que é a religião humanistica. A absorpção final, -a phase <i>contractiva</i>, é a reconstituição da substancia, não o seu -anniquilamento, etc. Vae aonde te chamam; não esqueças, porém, que és o -meu califa.</p> - -<p>E vede agora a minha, modestia; filiei-me na Ordem Terceira de ***, -exerci alli alguns cargos, foi essa a phase mais brilhante da minha -vida. Não obstante, calo-me, não digo nada, não conto os meus serviços, -o que fiz aos pobres e aos enfermos, nem as recompensas que recebi, -nada, não digo absolutamente nada.</p> - -<p>Talvez a economia social pudesse ganhar alguma cousa, si eu mostrasse -como todo e qualquer premio estranho vale pouco ao lado do premio -subjectivo e immediato; mas seria romper o silencio que jurei guardar -neste ponto. Demais, os phenomenos da consciencia são de difficil -analyse; por outro lado, se contasse um, teria de contar todos os que -a elle se prendessem, e acabava fazendo um capitulo de psychologia. -Affirmo sómente que foi a phase mais brilhante da minha vida. Os -quadros eram tristes; tinham a monotonia da desgraça, que é tão -aborrecida como a do gozo, e talvez peor. Mas a alegria que se dá á -alma dos doentes e dos pobres, é recompensa de algum valor; e não me -digam que é negativa, por só recebel-a o obsequiado. Não; eu recebia-a -de um modo reflexo, e ainda assim grande, tão grande que me dava -excellente idéa de mim mesmo.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CLVIII" id="CAPITULO_CLVIII">CAPITULO CLVIII</a></h5> - - -<h4>Dous encontros</h4> - - -<p>No fim de alguns annos, tres ou quatro, estava enfarado do officio, -e deixei-o, não sem um donativo importante, que me deu direito ao -retrato na sacristia. Não acabarei, porém, o capitulo sem dizer que vi -morrer no hospital da Ordem, adivinhem quem?... a linda Marcella; e -vi-a morrer no mesmo dia em que, visitando um cortiço, para distribuir -esmolas, achei... Agora é que não são capazes de adivinhar... achei a -flôr da moita, Eugenia, a filha de D. Eusebia e do Villaça, tão coxa -como a deixara, e ainda mais triste.</p> - -<p>Esta, ao reconhecer-me, ficou pallida, e baixou os olhos; mas foi obra -de um instante. Ergueu logo a cabeça, e fitou-me com muita dignidade. -Comprehendi que não receberia esmolas da minha algibeira, e estendi-lhe -a mão, como faria á esposa de um capitalista. Cortejou-me e fechou-se -no cubiculo. Nunca mais a vi; não soube nada da vida della, nem se a -mãe era morta, nem que desastre a trouxera a tamanha miseria. Sei que -continuava coxa e triste. Foi com esta impressão profunda que cheguei -ao hospital, onde Marcella entrara na vespera, e onde a vi expirar meia -hora depois, feia, magra, decrepita...</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CLIX" id="CAPITULO_CLIX">CAPITULO CLIX</a></h5> - - -<h4>A semi-demencia</h4> - - -<p>Comprehendi que estava velho, e precisava de uma força; mas o Quincas -Borba partira seis mezes antes para Minas Geraes, e levou comsigo a -melhor das philosophias. Voltou quatro mezes depois, e entrou-me em -casa, certa manhã, quasi no estado em que eu o vira no Passeio Publico. -A differença é que o olhar era outro. Vinha demente. Contou-me que, -para o fim de aperfeiçoar o Humanitismo, queimára o manuscripto todo e -ia recomeçal-o. A parte dogmatica ficava completa, embora não escripta; -era a verdadeira religião do futuro.</p> - -<p>—Juras por Humanitas? perguntou-me.</p> - -<p>—Sabes que sim.</p> - -<p>A voz mal podia sair-me do peito; e aliás não tinha descoberto toda -a cruel verdade. O Quincas Borba não só estava louco, mas sabia que -estava louco, e esse resto de consciencia, como uma frouxa lamparina -no meio das trevas, complicava muito o horror da situação. Sabia-o, -e não se irritava contra o mal; ao contrario, dizia-me que era ainda -uma prova de Humanitas, que assim brincava comsigo mesmo. Recitava-me -longos capitulos do livro, e antiphonas, e litanias espirituaes; chegou -até a reproduzir uma dansa sacra que inventara para as ceremonias do -Humanitismo. A graça lugubre com que elle levantava e sacudia as pernas -era singularmente fantastica. Outras vezes amuava-se a um canto, com os -olhos fitos no ar, uns olhos em que, de longe em longe, fulgurava um -raio persistente da razão, triste como uma lagrima...</p> - -<p>Morreu pouco tempo depois, em minha casa, jurando e repetindo sempre -que a dor era uma illusão, e que Pangloss, o calumniado Pangloss, não -era tão tolo como o suppoz Voltaire.</p> - - - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="CAPITULO_CLX" id="CAPITULO_CLX">CAPITULO CLX</a></h5> - - -<h4>Das negativas</h4> - - -<p>Entre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os successos -narrados na primeira parte do livro. O principal delles foi a invenção -do <i>emplasto Braz Cubas</i>, que morreu commigo, por causa da molestia -que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro logar entre os -homens, acima da sciencia e da riqueza, porque eras a genuina e directa -inspiração do ceu. O acaso determinou o contrario; e ahi vos ficaes -eternamente hypocondriacos.</p> - -<p>Este ultimo capitulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do -emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. -Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não -comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais: não padeci a morte de D. -Placida, nem a semi-demencia do Quincas Borba. Sommadas umas cousas e -outras, qualquer pessoa imaginará que não houve mingua nem sobra, e -conseguintemente que sai quite com a vida. E imaginará mal; porque ao -chegar a este outro lado do mysterio, achei-me com um pequeno saldo, -que é a derradeira negativa deste capitulo de negativas:—Não tive -filhos, não transmitti a nenhuma creatura o legado da nossa miseria.</p> - -<h4>FIM</h4> - -<hr class="full" /> - -<hr class="tb" /> -<h5><a name="INDICE" id="INDICE">ÍNDICE</a></h5> - - -<p>Ao leitor</p> - -<p>Dedicatória</p> - - -<div class="center"> -<table border="0" cellpadding="2" cellspacing="0" summary=""> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_I">I</a> —</td><td align="left">Obito do auto</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_II">II</a> —</td><td align="left">O emplasto</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_III">III</a> —</td><td align="left">Genealogia</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_IV">IV</a> —</td><td align="left">A idéa fixa</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_V">V</a> —</td><td align="left">Em que apparece a orelha de uma senhora</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_VI">VI</a> —</td><td align="left">Chimène, qui l'eut dit? Rodrigue, qui l'eut cru?</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_VII">VII</a> —</td><td align="left">O delirio</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_VIII">VIII</a> —</td><td align="left">Razão contra Sandice</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_IX">IX</a> —</td><td align="left">Transição</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_X">X</a> —</td><td align="left">Naquelle dia</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XI">XI</a> —</td><td align="left">O menino é pae do homem</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XII">XII</a> —</td><td align="left">Um episodio de 1814</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XIII">XIII</a> —</td><td align="left">Um salto</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XIV">XIV</a> —</td><td align="left">O primeiro beijo</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XV">XV</a> —</td><td align="left">Marcella</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XVI">XVI</a> —</td><td align="left">Uma reflexão immoral</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XVII">XVII</a> —</td><td align="left">Do trapezio o outras cousas</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XVIII">XVIII</a> —</td><td align="left">Visão do corredor</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XIX">XIX</a> —</td><td align="left">A bordo</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XX">XX</a> —</td><td align="left">Bacharelo-me</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXI">XXI</a> —</td><td align="left">O almocreve</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXII">XXII</a> —</td><td align="left">Volta ao Rio</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXIII">XXIII</a> —</td><td align="left">Triste, mas curto</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXIV">XXIV</a> —</td><td align="left">Curto, era alegre</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXV">XXV</a> —</td><td align="left">Na Tijuca</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXVI">XXVI</a> —</td><td align="left">O autor hesita</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXVII">XXVII</a> —</td><td align="left">Virgilia?</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXVIII">XXVIII</a> —</td><td align="left">Contanto que</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXIX">XXIX</a> —</td><td align="left">A visita</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXX">XXX</a> —</td><td align="left">A flor da moita</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXXI">XXXI</a> —</td><td align="left">A borboleta preta</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXXII">XXXII</a> —</td><td align="left">Côxa de nascença</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXXIII">XXXIII</a> —</td><td align="left">Bem aventurados os que não descem</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXXIV">XXXIV</a> —</td><td align="left">A uma alma sensivel</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXXV">XXXV</a> —</td><td align="left">O caminho de Damasco</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXXVI">XXXVI</a> —</td><td align="left">A proposito de botas</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXXVII">XXXVII</a> —</td><td align="left">Emfim!</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXXVIII">XXXVIII</a> —</td><td align="left">A quarta edição</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXXIX">XXXIX</a> —</td><td align="left">O visinho</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XL">XL</a> —</td><td align="left">Na sege</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XLI">XLI</a> —</td><td align="left">A allucinação</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XLII">XLII</a> —</td><td align="left">Que escapou a Aristoteles</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XLIII">XLIII</a> —</td><td align="left">Marqueza, porque eu serei marquez</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XLIV">XLIV</a> —</td><td align="left">Um Cubas!</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XLV">XLV</a> —</td><td align="left">Notas</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XLVI">XLVI</a> —</td><td align="left">A herança</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XLVII">XLVII</a> —</td><td align="left">O recluso</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XLVIII">XLVIII</a> —</td><td align="left">Um primo de Virgilia</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XLIX">XLIX</a> —</td><td align="left">A ponta do nariz</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_L">L</a> —</td><td align="left">Virgilia casada</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LI">LI</a> —</td><td align="left">É minha!</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LII">LII</a> —</td><td align="left">O embrulho mysterioso</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LIII">LIII</a> —</td><td align="left">. . . . . .</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LIV">LIV</a> —</td><td align="left">A pendula</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LV">LV</a> —</td><td align="left">O velho dialogo de Adão e Eva</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LVI">LVI</a> —</td><td align="left">O momento opportuno</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LVII">LVII</a> —</td><td align="left">Destino</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LVIII">LVIII</a> —</td><td align="left">Confidencia</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LIX">LIX</a> —</td><td align="left">Um encontro</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LX">LX</a> —</td><td align="left">O abraço</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXI">LXI</a> —</td><td align="left">Um projecto</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXII">LXII</a> —</td><td align="left">O travesseiro</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXIII">LXIII</a> —</td><td align="left">Fujamos!</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXIV">LXIV</a> —</td><td align="left">A transacção</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXV">LXV</a> —</td><td align="left">Olheiros e escutas</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXVI">LXVI</a> —</td><td align="left">As pernas</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXVII">LXVII</a> —</td><td align="left">A casinha</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXVIII">LXVIII</a> —</td><td align="left">O vergalho</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXIX">LXIX</a> —</td><td align="left">Um grão de sandice</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXX">LXX</a> —</td><td align="left">D. Placida</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXI">LXXI</a> —</td><td align="left">O senão do livro</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXII">LXXII</a> —</td><td align="left">O bibliomano</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXIII">LXXIII</a> —</td><td align="left">O <i>lunch</i></td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXIV">LXXIV</a> —</td><td align="left">Historia de D. Placida</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXV">LXXV</a> —</td><td align="left">Commigo</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXVI">LXXVI</a> —</td><td align="left">O estrume</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXVII">LXXVII</a> —</td><td align="left">Entrevista</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXVIII">LXXVIII</a> —</td><td align="left">A presidencia</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXIX">LXXIX</a> —</td><td align="left">Compromisso de gato</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXX">LXXX</a> —</td><td align="left">De secretario</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXXI">LXXXI</a> —</td><td align="left">A reconciliação</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXXII">LXXXII</a> —</td><td align="left">Questão de botanica</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXXIII">LXXXIII</a> —</td><td align="left">13</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXXIV">LXXXIV</a> —</td><td align="left">O conflicto</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXXV">LXXXV</a> —</td><td align="left">O cimo da montanha</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXXVI">LXXXVI</a> —</td><td align="left">O mysterio</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXXVII">LXXXVII</a> —</td><td align="left">Geologia</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXXVIII">LXXXVIII</a> —</td><td align="left">O enfermo</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXXIX">LXXXIX</a> —</td><td align="left"><i>In extremis</i></td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XC">XC</a> —</td><td align="left">O velho colloquio do Adão e Caim</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XCI">XCI</a> —</td><td align="left">Uma carta extraordinaria</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XCII">XCII</a> —</td><td align="left">Um homem extraordinario</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XCIII">XCIII</a> —</td><td align="left">O jantar</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XCIV">XCIV</a> —</td><td align="left">A causa secreta</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XCV">XCV</a> —</td><td align="left">Flores de antanho</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XCVI">XCVI</a> —</td><td align="left">A carta anonyma</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XCVII">XCVII</a> —</td><td align="left">Entre a boca e a testa</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XCVIII">XCVIII</a> —</td><td align="left">Supprimido</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XCIX">XCIX</a> —</td><td align="left">Na plateia</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_C">C</a> —</td><td align="left">O caso provavel</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CI">CI</a> —</td><td align="left">A revolução dalmata</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CII">CII</a> —</td><td align="left">De repouso</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CIII">CIII</a> —</td><td align="left">Distracção</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CIV">CIV</a> —</td><td align="left">Era elle!</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CV">CV</a> —</td><td align="left">Equivalencia das janellas</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CVI">CVI</a> —</td><td align="left">Jogo perigoso</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CVII">CVII</a> —</td><td align="left">Bilhete</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CVIII">CVIII</a> —</td><td align="left">Que se não entende</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CIX">CIX</a> —</td><td align="left">O philosopho</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CX">CX</a> —</td><td align="left">31</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXI">CXI</a> —</td><td align="left">O muro</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXII">CXII</a> —</td><td align="left">A opinião</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXIII">CXIII</a> —</td><td align="left">A solda</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXIV">CXIV</a> —</td><td align="left">Fim do um dialogo</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXV">CXV</a> —</td><td align="left">O almoço</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXVI">CXVI</a> —</td><td align="left">Philosophia das folhas velhas</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXVII">CXVII</a> —</td><td align="left">O Humanitismo</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXVIII">CXVIII</a> —</td><td align="left">A terceira força</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXIX">CXIX</a> —</td><td align="left">Parenthesis</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXX">CXX</a> —</td><td align="left"><i>Compelle intrare</i></td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXI">CXXI</a> —</td><td align="left">Morro abaixo</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXII">CXXII</a> —</td><td align="left">Uma intenção mui fina</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXIII">CXXIII</a> —</td><td align="left">O verdadeiro Cotrim</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPIULO_CXXIV">CXXIV</a> —</td><td align="left">Vá de intermedio</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXV">CXXV</a> —</td><td align="left">Epitaphio</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXVI">CXXVI</a> —</td><td align="left">Desconsolação</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXVIII">CXXVII</a> —</td><td align="left">Formalidade</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXVIII">CXXVIII</a> —</td><td align="left">Na camara</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXIX">CXXIX</a> —</td><td align="left">Sem remorsos</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXX">CXXX</a> —</td><td align="left">Por intercallar no cap. CXXIX</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXXI">CXXXI</a> —</td><td align="left">De uma calumnia</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXXII">CXXXII</a> —</td><td align="left">Que não é serio</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXXIII">CXXXIII</a> —</td><td align="left">O principio de Helvetius</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXXIV">CXXXIV</a> —</td><td align="left">Cincoenta annos</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXXV">CXXXV</a> —</td><td align="left"><i>Oblivion</i></td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXXVI">CXXXVI</a> —</td><td align="left">Inutilidade</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXXVII">CXXXVII</a> —</td><td align="left">A barretina</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXXVIII">CXXXVIII</a> —</td><td align="left">A um critico</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXXIX">CXXXIX</a> —</td><td align="left">De como não fui ministro d'Estado</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXL">CXL</a> —</td><td align="left">Que explica o anterior</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXLI">CXLI</a> —</td><td align="left">Os cães</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXLII">CXLII</a> —</td><td align="left">O pedido secreto</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXLIII">CXLIII</a> —</td><td align="left">Não vou</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXLIV">CXLIV</a> —</td><td align="left">Utilidade relativa</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXLV">CXLV</a> —</td><td align="left">Simples repetição</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXLVI">CXLVI</a> —</td><td align="left">O programma</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXLVII">CXLVII</a> —</td><td align="left">O desatino</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXLVIII">CXLVIII</a> —</td><td align="left">O problema insoluvel</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXLIX">CXLIX</a> —</td><td align="left">Theoria do beneficio</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CL">CL</a> —</td><td align="left">Rotação e translação</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CLI">CLI</a> —</td><td align="left">Philosophia dos epitaphios</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CLII">CLII</a> —</td><td align="left">A moeda de Vespasiano</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CLIII">CLIII</a> —</td><td align="left">O alienista</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CLIV">CLIV</a> —</td><td align="left">Os navios do Pireu</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CLV">CLV</a> —</td><td align="left">Reflexão cordial</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CLVI">CLVI</a> —</td><td align="left">Orgulho da servilidade</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CLVII">CLVII</a> —</td><td align="left">Phase brilhante</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CLVIII">CLVIII</a> —</td><td align="left">Dous encontros</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CLIX">CLIX</a> —</td><td align="left">A semi-demencia</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CLX">CLX</a> —</td><td align="left">Das negativas</td></tr> -</table></div> - - - - - - - - - -<pre> - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Memorias Postumas de Braz Cubas, by -Machado de Assis - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIAS POSTUMAS DE BRAZ CUBAS *** - -***** This file should be named 54829-h.htm or 54829-h.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/5/4/8/2/54829/ - -Produced by Laura Natal Rodriguez & Marc D'Hooghe at Free -Literature (online soon in an extended version, also linking -to free sources for education worldwide ... MOOC's, -educational materials,...) - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm -concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, -and may not be used if you charge for the eBooks, unless you receive -specific permission. If you do not charge anything for copies of this -eBook, complying with the rules is very easy. You may use this eBook -for nearly any purpose such as creation of derivative works, reports, -performances and research. They may be modified and printed and given -away--you may do practically ANYTHING in the United States with eBooks -not protected by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the -trademark license, especially commercial redistribution. - -START: FULL LICENSE - -THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE -PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK - -To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase "Project -Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg-tm License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. - -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project -Gutenberg-tm electronic works - -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all -the terms of this agreement, you must cease using and return or -destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your -possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a -Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound -by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the -person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph -1.E.8. - -1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be -used on or associated in any way with an electronic work by people who -agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few -things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works -even without complying with the full terms of this agreement. See -paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project -Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this -agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm -electronic works. See paragraph 1.E below. - -1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the -Foundation" or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection -of Project Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual -works in the collection are in the public domain in the United -States. If an individual work is unprotected by copyright law in the -United States and you are located in the United States, we do not -claim a right to prevent you from copying, distributing, performing, -displaying or creating derivative works based on the work as long as -all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope -that you will support the Project Gutenberg-tm mission of promoting -free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg-tm -works in compliance with the terms of this agreement for keeping the -Project Gutenberg-tm name associated with the work. You can easily -comply with the terms of this agreement by keeping this work in the -same format with its attached full Project Gutenberg-tm License when -you share it without charge with others. - -1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern -what you can do with this work. Copyright laws in most countries are -in a constant state of change. If you are outside the United States, -check the laws of your country in addition to the terms of this -agreement before downloading, copying, displaying, performing, -distributing or creating derivative works based on this work or any -other Project Gutenberg-tm work. The Foundation makes no -representations concerning the copyright status of any work in any -country outside the United States. - -1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: - -1.E.1. The following sentence, with active links to, or other -immediate access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear -prominently whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work -on which the phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the -phrase "Project Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, -performed, viewed, copied or distributed: - - This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and - most other parts of the world at no cost and with almost no - restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it - under the terms of the Project Gutenberg License included with this - eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the - United States, you'll have to check the laws of the country where you - are located before using this ebook. - -1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is -derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not -contain a notice indicating that it is posted with permission of the -copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in -the United States without paying any fees or charges. If you are -redistributing or providing access to a work with the phrase "Project -Gutenberg" associated with or appearing on the work, you must comply -either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or -obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg-tm -trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9. - -1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted -with the permission of the copyright holder, your use and distribution -must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any -additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms -will be linked to the Project Gutenberg-tm License for all works -posted with the permission of the copyright holder found at the -beginning of this work. - -1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm -License terms from this work, or any files containing a part of this -work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. - -1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this -electronic work, or any part of this electronic work, without -prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with -active links or immediate access to the full terms of the Project -Gutenberg-tm License. - -1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, -compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including -any word processing or hypertext form. However, if you provide access -to or distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format -other than "Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official -version posted on the official Project Gutenberg-tm web site -(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense -to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means -of obtaining a copy upon request, of the work in its original "Plain -Vanilla ASCII" or other form. Any alternate format must include the -full Project Gutenberg-tm License as specified in paragraph 1.E.1. - -1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, -performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works -unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. - -1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing -access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works -provided that - -* You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from - the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method - you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed - to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he has - agreed to donate royalties under this paragraph to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid - within 60 days following each date on which you prepare (or are - legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty - payments should be clearly marked as such and sent to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in - Section 4, "Information about donations to the Project Gutenberg - Literary Archive Foundation." - -* You provide a full refund of any money paid by a user who notifies - you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he - does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm - License. You must require such a user to return or destroy all - copies of the works possessed in a physical medium and discontinue - all use of and all access to other copies of Project Gutenberg-tm - works. - -* You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of - any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the - electronic work is discovered and reported to you within 90 days of - receipt of the work. - -* You comply with all other terms of this agreement for free - distribution of Project Gutenberg-tm works. - -1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project -Gutenberg-tm electronic work or group of works on different terms than -are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing -from both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and The -Project Gutenberg Trademark LLC, the owner of the Project Gutenberg-tm -trademark. Contact the Foundation as set forth in Section 3 below. - -1.F. - -1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable -effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread -works not protected by U.S. copyright law in creating the Project -Gutenberg-tm collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm -electronic works, and the medium on which they may be stored, may -contain "Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate -or corrupt data, transcription errors, a copyright or other -intellectual property infringement, a defective or damaged disk or -other medium, a computer virus, or computer codes that damage or -cannot be read by your equipment. - -1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right -of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project -Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project -Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all -liability to you for damages, costs and expenses, including legal -fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT -LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE -PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE -TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE -LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR -INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH -DAMAGE. - -1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a -defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can -receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a -written explanation to the person you received the work from. If you -received the work on a physical medium, you must return the medium -with your written explanation. The person or entity that provided you -with the defective work may elect to provide a replacement copy in -lieu of a refund. If you received the work electronically, the person -or entity providing it to you may choose to give you a second -opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If -the second copy is also defective, you may demand a refund in writing -without further opportunities to fix the problem. - -1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth -in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO -OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT -LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. - -1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied -warranties or the exclusion or limitation of certain types of -damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement -violates the law of the state applicable to this agreement, the -agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or -limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or -unenforceability of any provision of this agreement shall not void the -remaining provisions. - -1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the -trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone -providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in -accordance with this agreement, and any volunteers associated with the -production, promotion and distribution of Project Gutenberg-tm -electronic works, harmless from all liability, costs and expenses, -including legal fees, that arise directly or indirectly from any of -the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this -or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or -additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any -Defect you cause. - -Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm - -Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of -electronic works in formats readable by the widest variety of -computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It -exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations -from people in all walks of life. - -Volunteers and financial support to provide volunteers with the -assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's -goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will -remain freely available for generations to come. In 2001, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure -and permanent future for Project Gutenberg-tm and future -generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see -Sections 3 and 4 and the Foundation information page at -www.gutenberg.org - - - -Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation - -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by -U.S. federal laws and your state's laws. - -The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the -mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its -volunteers and employees are scattered throughout numerous -locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt -Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to -date contact information can be found at the Foundation's web site and -official page at www.gutenberg.org/contact - -For additional contact information: - - Dr. Gregory B. Newby - Chief Executive and Director - gbnewby@pglaf.org - -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide -spread public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. - -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. We do not solicit donations in locations -where we have not received written confirmation of compliance. To SEND -DONATIONS or determine the status of compliance for any particular -state visit www.gutenberg.org/donate - -While we cannot and do not solicit contributions from states where we -have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition -against accepting unsolicited donations from donors in such states who -approach us with offers to donate. - -International donations are gratefully accepted, but we cannot make -any statements concerning tax treatment of donations received from -outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. - -Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation -methods and addresses. Donations are accepted in a number of other -ways including checks, online payments and credit card donations. To -donate, please visit: www.gutenberg.org/donate - -Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works. - -Professor Michael S. Hart was the originator of the Project -Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of -volunteer support. - -Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. - -Most people start at our Web site which has the main PG search -facility: www.gutenberg.org - -This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. - - - -</pre> - -</body> -</html> diff --git a/old/54829-h/images/cover.jpg b/old/54829-h/images/cover.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index ab03921..0000000 --- a/old/54829-h/images/cover.jpg +++ /dev/null |
