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-Project Gutenberg's Memorias Postumas de Braz Cubas, by Machado de Assis
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
-to check the laws of the country where you are located before using this ebook.
-
-Title: Memorias Postumas de Braz Cubas
-
-Author: Machado de Assis
-
-Release Date: June 2, 2017 [EBook #54829]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: ISO-8859-1
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIAS POSTUMAS DE BRAZ CUBAS ***
-
-
-
-
-Produced by Laura Natal Rodriguez & Marc D'Hooghe at Free
-Literature (online soon in an extended version, also linking
-to free sources for education worldwide ... MOOC's,
-educational materials,...)
-
-
-
-
-
-MEMÓRIAS PÓSTHUMAS
-
-DE
-
-BRAZ CUBAS
-
-POR
-
-MACHADO DE ASSIS
-
-RIO DE JANEIRO
-
-TYPOGRAPHIA NACIONAL
-
-1881
-
-
-
-
-OBRAS DO AUTOR
-
- Memórias Pósthumas de Braz Cubas
- Helena, romance
- Yayá Garcia, romance
- Resurreição, romance
- A mão e a luva, romance
- Historias da meia noite
- Contos Fluminenses
- Americanas, poesias
- Phalenas, poesias
- Chrysalidas, poesias
- Tu só, tu, puro amor, comédia
- Os deuses de casaca, comédia
- Desencantos, comédia
- Theatro
-
-
-
-
-AO LEITOR
-
-
-Que, no alto do principal de seus livros, confessasse Stendhal havel-o
-escripto para cem leitores, cousa é que admira e consterna. O que não
-admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver
-os cem leitores de Stendhal, nem cincoenta, nem vinte, e quando muito,
-dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra diffusa,
-na qual eu, Braz Cubas, se adoptei a fórma livre de um Sterne, de
-um Lamb, ou de um de Maistre, não sei se lhe metti algumas rabugens
-de pessimismo. Póde ser. Obra de finado. Escrevi-a com a penna da
-galhofa e a tinta da melancholia; e não é difficil antever o que poderá
-sair desse connubio. Accresce que a gente grave achará no livro umas
-apparencias de puro romance, ao passo que a gente frivola não achará
-nelle o seu romance usual; e eil-o ahi fica privado da estima dos
-graves e do amor dos frivolos, que são as duas columnas maximas da
-opinião.
-
-Mas eu ainda espero angariar as sympatias da opinião, e o meio efficaz
-para isso é fugir a um prologo explicito e longo. O melhor prologo
-é o que contém menos cousas, ou o que as diz de um geito obscuro e
-truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinario que
-empreguei na composição destas _Memórias_, trabalhadas cá no outro
-seculo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessario ao
-entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino
-leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote,
-e adeus.
-
-BRAZ CUBAS.
-
-
-
- AO VERME
-
- QUE
-
- PRIMEIRO ROEU AS FRIAS CARNES
-
- DO MEU CADAVER
-
- DEDICO
-
- COMO SAUDOSA LEMBRANÇA
-
- ESTAS
-
- MEMÓRIAS PÓSTHUMAS
-
-
-
-
-CAPITULO I
-
-
-Obito do autor
-
-
-Algum tempo hesitei se devia abrir estas memorias pelo principio ou
-pelo fim, isto é, se poria em primeiro logar o meu nascimento ou a
-minha morte. Supposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas
-considerações me levaram a adoptar differente methodo: a primeira é que
-eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para
-quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escripto ficaria assim
-mais galante e mais novo. Moysés, que tambem contou a sua morte, não a
-poz no introito, mas no cabo: differença radical entre este livro e o
-Pentateuco.
-
-Dito isto, expirei ás duas horas da tarde de uma sexta feira do mez de
-agosto de 1869, na minha bella chacara de Catumby. Tinha uns sessenta
-e quatro annos, rijos e prosperos, era solteiro, possuia cerca de
-tresentos contos e fui acompanhado ao cemiterio por onze amigos.
-Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem annuncios. Accresce
-que chovia--peneirava--uma chuvinha miuda, triste e constante, tão
-constante e tão triste, que levou um daquelles fieis da ultima hora
-a intercalar esta engenhosa idéa no discurso que proferiu á beira de
-minha cova:--«Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer
-commigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparavel de
-um dos mais bellos caracteres que tem honrado a humanidade. Este ar
-sombrio, estas gotas do ceu, aquellas nuvens escuras que cobrem o
-azul como um crepe funereo, tudo isso é a dor crua e má que lhe róe á
-natureza as mais intimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao
-nosso illustre finado.»
-
-Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apolices que lhe
-deixei. E foi assim que cheguei á clausula dos meus dias; foi assim que
-me encaminhei para o _undiscovered country_ de Hamlet, sem as ancias
-nem as duvidas do moço principe, mas pausado e tropego, como quem se
-retira tarde do expectaculo. Tarde e aborrecido. Viram-me ir umas nove
-ou dez pessoas, entre ellas tres senhoras,--minha irmã Sabina, casada
-com o Cotrim,--a filha, um lyrio do valle,--e... Tenham paciência!
-daqui a pouco lhes direi quem era a terceira senhora. Contentem-se de
-saber que essa anonyma, ainda que não parenta, padeceu mais do que as
-parentas. É verdade, padeceu mais. Não digo que se carpisse, não digo
-que se deixasse rolar pelo chão, epileptica. Nem o meu óbito era cousa
-altamente dramatica... Um solteirão que expira aos sessenta e quatro
-annos, não parece que reuna em si todos os elementos de uma tragedia. E
-dado que sim, o que menos convinha a essa anonyma era apparental-o. De
-pé, á cabeceira da cama, com os olhos estúpidos, a boca entreaberta, a
-triste senhora mal podia crêr na minha extincção.
-
---Morto! morto! dizia comsigo.
-
-E a imaginação della, como as cegonhas que um illustre viajante viu
-desferirem o vôo desde o Illysso ás ribas africanas, sem embargo das
-ruinas e dos tempos,--a imaginação dessa senhora tambem voou por
-sobre os destroços presentes até ás ribas de uma Africa juvenil...
-Deixal-a ir; lá iremos mais tarde; lá iremos quando eu me restituir aos
-primeiros annos. Agora, quero morrer tranquillamente, methodicamente,
-ouvindo os soluços das damas, as fallas baixas dos homens, a chuva que
-tamborila nas folhas de tinhorão da chacara, e o som estridulo de uma
-navalha que um amolador está afiando lá fóra, á porta de um correeiro.
-Juro-lhes que essa orchestra da morte foi muito menos triste do que
-podia parecer; e de certo ponto em deante chegou a ser deliciosa.
-A vida estrebuchava-me no peito, com uns impetos de vaga marinha,
-esvaia-se-me a consciencia, eu descia á immobilidade physica e moral,
-e o corpo fazia-se-me planta, e pedra, e lodo, e cousa nenhuma.
-
-Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do
-que uma idéa grandiosa e util, a causa da minha morte, é possivel que o
-leitor me não creia, e todavia é verdade. Vou expor-lhe summariamente o
-caso. Julgue-o por si mesmo.
-
-
-
-
-CAPITULO II
-
-
-O emplasto
-
-
-Com effeito, um dia de manhã, estando a passear na chacara,
-pendurou-se-me uma idéa no trapezio que eu tinha no cerebro. Uma vez
-pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas
-cabriolas de volantim, que é possivel crer. Eu deixei-me estar a
-contemplal-a. Subito, deu um grande salto, estendeu os braços e as
-pernas, até tomar a fórma de um X: decifra-me ou devoro-te.
-
-Essa idéa era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um
-emplasto anti-hypocondriaco, destinado a alliviar a nossa melancholica
-humanidade. Na petição de privilegio que então redigi, chamei a
-attenção do governo para esse resultado, verdadeiramente christão.
-Todavia, não neguei aos amigos as vantagens pecuniarias que deviam
-resultar da distribuição de um producto de tamanhos e tão profundos
-effeitos, Agora, porém, que estou cá do outro lado da vida, posso
-confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de ver
-impressas nos jornaes, mostradores, folhetos, esquinas, e emfim nas
-caixinhas do remedio, estas tres palavras: _emplasto Braz Cubas._ Para
-que negal-o? Eu tinha a paixão do arruido, do cartaz, do foguete de
-lagrimas. Talvez os modestos me arguam esse defeito; fio porém que esse
-talento me hão de reconhecer os habeis; e eu era habil. Assim, a minha
-idéa trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o publico,
-outra para mim. De um lado, philanthropia e lucro; de outro lado, sêde
-de nomeada. Digamos:--amor da gloria.
-
-Um tio meu, conego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da
-gloria temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a gloria
-eterna. Ao que retorquia outro tio, official de um dos antigos terços
-de infantaria, que o amor da gloria era a cousa mais verdadeiramente
-humana que ha no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuina feição.
-
-Decida o leitor entre o militar e o conego; eu volto ao emplasto.
-
-
-
-
-CAPITULO III
-
-
-Genealogia
-
-
-Mas, já que fallei nos meus dous tios, deixem-me fazer aqui um curto
-esboço genealogico.
-
-O fundador da minha familia foi um certo Damião Cubas, que floreceu
-na primeira metade do seculo XVIII. Era tanoeiro de officio, natural
-do Rio de Janeiro, onde teria morrido na penuria e na obscuridade,
-se sómente exercesse a tanoaria. Mas não; fez-se lavrador, plantou,
-colheu, permutou o seu producto por boas e honradas patacas, até que
-morreu, deixando grosso cabedal a um filho, o licenciado Luiz Cubas.
-Neste rapaz é que verdadeiramente começa a serie de meus avós--dos
-avós que a minha familia sempre confessou--, porque o Damião Cubas era
-afinal de contas um tanoeiro, e talvez mau tanoeiro, ao passo que o
-Luiz Cubas estudou em Coimbra, primou no Estado, e foi um dos amigos
-particulares do vice-rei conde da Cunha.
-
-Como este appellido de Cubas lhe cheirasse excessivamente a tanoaria,
-allegava meu pae, bisneto do Damião, que o dito appellido fôra dado a
-um cavalleiro, heroe nas jornadas da Africa, em premio da façanha que
-praticou, arrebatando tresentas cubas aos mouros. Meu pae era homem de
-imaginação; escapou á tanoaria nas azas de um _calembour._ Era um bom
-caracter meu pae, varão digno e leal como poucos. Tinha, é verdade, uns
-fumos de pacholice; mas quem não é um pouco pachola nesse mundo? Releva
-notar que elle não recorreu á inventiva, senão depois de experimentar
-a falsificação; primeiramente, entroncou-se na familia daquelle meu
-famoso homonymo, o capitão-mór Braz Cubas, que fundou a villa de S.
-Vicente, onde morreu em 1592, e por esse motivo é que me deu o nome de
-Braz. Oppoz-se-lhe porém a familia do capitão-mór; e foi então que elle
-imaginou as tresentas cubas mouriscas.
-
-Vivem ainda alguns membros de minha familia, minha sobrinha Venancia,
-por exemplo, o lyrio do valle, que é a flor das damas do seu tempo;
-vive o pae, o Cotrim, um sujeito que... Mas não anticipemos os
-successos; acabemos de uma vez com o nosso emplasto.
-
-
-
-
-CAPITULO IV
-
-
-A idéa fixa
-
-
-A minha idéa, depois de tantas cabriolas, constituira-se idéa fixa.
-Deus te livre, leitor, de uma idéa fixa; antes um argueiro, antes uma
-trave no olho. Vê o Cavour; foi a idéa fixa da unidade italiana que o
-matou. Verdade é que o Bismark não morreu; mas, cumpre advertir que
-a natureza é uma grande caprichosa e a historia uma eterna loureira.
-Por exemplo, o Suetonio deu-nos um Claudio, que era um verdadeiro
-banana,--ou «uma abobora» como lhe chamou Seneca, e um Tito, que
-mereceu ser as delicias de Roma. Veiu modernamente um professor e achou
-meio de demonstrar que ambos esses conceitos eram erroneos e abstrusos,
-e que dos dous cesares, o delicioso, o verdadeiramente delicioso, foi
-o «abobora» de Seneca. E tu, madama Lucrecia, flor dos Borgias, se um
-poeta te pintou como a Messalina catholica, appareceu um Gregorovius
-incredulo que te apagou muito essa qualidade, e, se não vieste a
-lyrio, tambem não ficaste pantano. Eu deixo-me estar entre o poeta e o
-sabio.
-
-Viva pois a historia, a voluvel historia que dá para tudo; e, tornando
-á idéa fixa, direi que é ella a que faz os varões fortes e os doudos;
-a idéa mobil, vaga ou furta-cor é a que faz os Claudios,--formula
-Suetonio.
-
-Era fixa a minha idéa, fixa como... Não me occorre nada que seja assaz
-fixo nesse mundo: talvez a lua, talvez as pyramides do Egypto, talvez
-a finada dieta germanica. Veja o leitor a comparação que melhor lhe
-quadrar, veja-a e não esteja dahi a torcer-me o nariz, só porque ainda
-não chegámos á parte narrativa destas memorias. Lá iremos. Creio que
-prefere a anecdota á reflexão, como os outros leitores, seus confrades,
-e acho que faz muito bem. Pois lá iremos. Todavia, importa dizer que
-este livro é escripto com pachorra, com a pachorra de um homem já
-desaffrontado da brevidade do seculo, obra supinamente philosophica, de
-uma philosophia desegual, agora austera, logo brincalhona, cousa que
-não edifica nem destróe, não inflamma nem regéla, e é todavia mais do
-que passatempo e menos do que apostolado.
-
-Vamos lá; rectifique o seu nariz, e tornemos ao emplasto. Deixemos a
-historia com os seus caprichos de dama elegante. Nenhum de nós pelejou
-a batalha de Salamina, nenhum escreveu a confissão do Augsburgo; pela
-minha parte, se alguma vez me lembro de Cromwell, é só pela idéa de que
-Sua Alteza, com a mesma mão que trancara o parlamento, teria imposto
-aos inglezes o emplasto Braz Cubas. Não se riam dessa victoria commum
-da pharmacia e do puritanismo. Quem não sabe que ao pé de cada bandeira
-grande, publica, ostensiva, ha muitas vezes varias outras bandeiras
-modestamente particulares, que se hasteam e fluctuam á sombra daquella,
-com ella cahem, e não poucas vezes lhe sobrelevam? Mal comparando, é
-como a arraia-miuda, que se acolhia á sombra do castello-feudal; cahiu
-este e a arraia ficou. Verdade é que se fez graúda e castellã... Não, a
-comparação não presta.
-
-
-
-
-CAPITULO V
-
-
-Em que apparece a orelha de uma senhora
-
-
-Vae se não quando, estando eu occupado em preparar e apurar a minha
-invenção, recebi em cheio um golpe de ar; adoeci logo, e não me
-tratei. Tinha o emplasto no cerebro; trazia commigo a idéa fixa dos
-doudos e dos fortes. Via-me, ao longe, ascender do chão das turbas, e
-remontar ao ceu, como uma aguia immortal; e não é deante de tão excelso
-expectaculo que um homem pode sentir a dor que o punge. No outro dia
-estava peor; tratei-me emfim, mas incompletamente, sem methodo, nem
-cuidado, nem persistencia; tal foi a origem do mal que me trouxe á
-eternidade. Sabem ja que morri n'uma sexta feira, dia aziago, e creio
-haver provado que foi a minha invenção que me matou. Ha demonstrações
-menos lúcidas e não menos triumphantes.
-
-Não era impossivel, entretanto, que eu chegasse a galgar o cimo de um
-seculo, e a figurar nas folhas publicas, entre macrobios. Tinha saude
-e robustez. Supponha-se que, em vez de estar lançando os alicerces de
-uma invenção pharmaceutica, tratava de colligir os elementos de uma
-instituição politica, ou de uma reforma religiosa. Vinha a corrente
-do ar, que vence, em efficacia, o calculo humano, e lá se ia tudo. Um
-sopro de ar foi portanto o meu grão de arêa de Cromwell. Assim corre a
-sorte dos homens.
-
-Com esta reflexão me despedi eu da mulher, não direi mais discreta, mas
-com certeza mais formosa entre as contemporaneas suas, a anonyma do
-primeiro capitulo, a tal, cuja imaginação á semelhança das cegonhas do
-Illysso... Tinha então 54 annos, era uma ruina, uma imponente ruina.
-Imagine o leitor que nos amámos, ella e eu, muitos annos antes, e que
-um dia, já enfermo, vejo-a assomar á porta da alcova...
-
-
-
-
-CAPITULO VI
-
-
-Chimène, qui l'eut dit?--Rodrigue, qui l'eut cru?
-
-
-Vejo-a assomar á porta da alcova, pallida, commovida, trajada de preto,
-e alli ficar durante uns dez segundos, sem animo de entrar, ou detida
-pela presença de um homem que estava commigo. Da cama, onde jazia,
-contemplei-a durante esse tempo, esquecido de lhe dizer nada ou de
-fazer nenhum gesto. Havia já dous annos que nos não viamos; e eu via-a
-agora não qual era, mas qual fora**, quaes foramos ambos, porque um
-Ezechias mysterioso fizera recuar o sol até os dias juvenis. Recuou
-o sol, sacudi todas as miserias; e este punhado de pó, que a morte
-ia espalhar na eternidade do nada, pôde mais do que tempo, que é o
-ministro da morte. Nenhuma agua de Juventa egualaria alli a simples
-saudade.
-
-Cream-me, o menos mau é recordar; ninguem se fie da felicidade
-presente; ha nella uma gota da baba de Caim. Corrido o tempo e cessado
-o espasmo, então sim, então talvez se póde gozar deveras, porque entre
-uma e outra dessas duas illusões, melhor é a que se gosta, sem doer.
-
-Não durou muito a evocação; a realidade dominou logo; o presente
-expelliu o passado. Talvez eu exponha ao leitor, em algum canto deste
-livro, a minha theoria das edições humanas. O que por agora importa
-saber é que Virgilia--chamava-se Virgilia--entrou na alcova, firme,
-com a gravidade que lhe davam as roupas e os annos, e veiu até o meu
-leito. O extranho levantou-se e sahiu. Era um sujeito, que me visitava
-todos os dias para fallar do cambio, da colonisação e da necessidade de
-desenvolver a viação ferrea; nada mais interessante para um moribundo.
-Saiu; Virgilia deixou-se estar de pé; durante algum tempo ficamos a
-olhar um para o outro, sem articular palavra. Quem diria? De dous
-grandes namorados, de duas paixões sem freio, nada mais havia alli,
-vinte annos depois; havia apenas dous corações murchos, devastados pela
-vida e saciados della, não sei se em egual dóse, mas emfim saciados.
-Virgilia tinha agora a belleza da velhice, um ar austero e maternal;
-estava menos magra do que quando a vi, pela ultima vez, n'uma festa
-de S. João, na Tijuca; e porque era das que resistem muito, só agora
-começavam os cabellos escuros a intercalar-se de alguns fios de prata.
-
---Anda visitando os defuntos? disse-lhe eu.--Ora, defuntos! respondeu
-Virgilia com um muxoxo. E depois de me apertar as mãos:--Ando a ver se
-ponho os vadios para a rua.
-
-Não tinha a caricia lacrymosa de outro tempo; mas a voz era amiga e
-doce. Sentou-se. Eu estava só, em casa, com um simples enfermeiro;
-podiamos fallar um ao outro, sem perigo. Virgilia deu-me longas
-noticias de fóra, narrando-as com graça, com um certo travo de má
-lingua, que era o sal da palestra; eu, prestes a deixar o mundo, sentia
-um prazer satanico em mofar delle, em persuadir-me que não deixava nada.
-
---Que idéas essas! interrompeu-me Virgilia um tanto zangada. Olhe que
-eu não volto mais. Morrer! Todos nós havemos de morrer; basta estarmos
-vivos.
-
-E vendo o relogio:
-
---Jesus! são tres horas. Vou-me embora.
-
---Já?
-
---Já; virei amanhã ou depois.
-
---Não sei se faz bem, retorqui; o doente é um solteirão e a casa não
-tem senhoras...
-
---Sua mana?
-
---Ha de vir cá passar uns dias, mas não póde ser antes de sabbado.
-
-Virgilia reflectiu um instante, levantou os hombros e disse com
-gravidade:
-
---Estou velha! Ninguem mais repara em mim. Mas, para cortar duvidas,
-virei com o Nhonhô.
-
-Nhonhô era um bacharel, unico filho de seu casamento, que, na edade
-de cinco annos, fôra complice inconsciente de nossos amores. Vieram
-juntos, dous dias depois; e confesso que, ao vel-os alli, na minha
-alcova, fui tomado de um acanhamento que nem me permittiu corresponder
-logo ás palavras affaveis do rapaz. Virgilia adivinhou-mo e disse ao
-filho:
-
---Nhonhô, não repares nosso grande manhoso que ahi está; não quer
-fallar para fazer crer que está á morte.
-
-Sorriu o filho; eu creio quo tambem sorri; e tudo acabou em pura
-galhofa. Virgilia estava serena e risonha, tinha o aspecto das
-vidas immaculadas. Nenhum olhar suspeito, nenhum gesto que pudesse
-denunciar nada; uma egualdade de palavra e de espirito, uma dominação
-sobre si mesma, que pareciam e talvez fossem raras. Como tocassemos,
-casualmente, n'uns amores illegitimos, meio secretos, meio divulgados,
-vi-a fallar com desdem e um pouco de indignação da mulher de que se
-tratava, aliás sua amiga; e o filho sentia-se satisfeito, ouvindo
-aquella palavra digna e forte, e eu perguntava a mim mesmo o que diriam
-de nós os gaviões, se Buffon tivesse nascido gavião...
-
-Era o meu delirio que começava.
-
-
-
-
-CAPITULO VII
-
-
-O delirio
-
-
-Que me conste, ainda ninguem relatou o seu proprio delirio; faço-o eu,
-e a sciencia m'o agradecerá. Se o leitor não é dado á contemplação
-destes phenomenos mentaes, póde saltar o capitulo; vá direito á
-narração. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo que é
-interessante saber o que se passou na minha cabeça durante uns vinte a
-trinta minutos.
-
-Primeiramente, tomei a figura de um barbeiro chinez, bojudo, destro,
-escanhoando um mandarim, que me pagava o trabalho com beliscões e
-confeitos: caprichos de mandarim.
-
-Logo depois, senti-me transformado na _Summa Theologica_ de S. Thomaz,
-impressa n'um volume, e encadernada em marroquim, com fechos de prata e
-estampas; idéa esta que me deu ao corpo a mais completa immobilidade;
-e ainda agora me lembra que, sendo as minhas mãos os fechos do livro,
-e cruzando-as eu sobre o ventre, alguem as descruzava (Virgilia de
-certo), porque a attitude lhe dava a imagem de um defunto.
-
-Ultimamente, restituido á fórma humana, vi chegar um hippopotamo, que
-me arrebatou. Deixei-me ir, calado, não sei se por medo ou confiança,
-mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou vertiginosa, que
-me atrevi a interrogal-o, e com alguma arte lhe disse que a viagem me
-parecia sem destino.
-
---Engana-se, replicou o animal, nós vamos á origem dos seculos.
-
-Insinuei que deveria ser muitissimo longe; mas o hippopotamo não me
-entendeu ou não me ouviu, se é que não fingiu uma dessas cousas; e,
-perguntando-lhe, visto que elle fallava, se era descendente do cavallo
-de Achilles ou da asna de Balaão, retorquiu-me com um gesto peculiar a
-estes dous quadrupedes: abanou as orelhas. Pela minha parte fechei os
-olhos e deixei-me ir á ventura. Já agora não se me dá de confessar que
-sentia umas taes ou quaes cocegas de curiosidade, por saber onde ficava
-a origem dos seculos, se era tão mysteriosa como a origem do Nilo, e
-sobretudo se valia alguma cousa mais ou menos do que a consummação dos
-mesmos seculos; tudo isto reflexões de um cerebro enfermo. Como ia de
-olhos fechados, não via o caminho; lembra-me só que a sensação de frio
-augmentava com a jornada, e que chegou uma occasião em que me pareceu
-entrar na região dos gelos eternos. Com effeito, abri os olhos e vi que
-o meu animal galopava n'uma planicie branca de neve, com uma ou outra
-montanha de neve, vegetação de neve, e varios animaes grandes e de
-neve. Tudo neve; chegava a gelar-nos um sol de neve. Tentei fallar, mas
-apenas pude grunhir esta pergunta anciosa:
-
---Onde estamos?
-
---Já passámos o Eden.
-
---Bem; paremos na tenda de Abrahão.
-
---Mas se nós caminhamos para traz! redarguiu motejando a minha
-cavalgadura.
-
-Fiquei vexado e aturdido. A jornada entrou a parecer-me enfadonha e
-extravagante, o frio incommodo, a conducção violenta, e o resultado
-impalpavel. E depois--cogitações de enfermo--dado que chegassemos ao
-fim indicado, não era impossivel que os seculos, irritados com lhes
-devassarem a origem, me esmagassem entre as unhas, que deviam ser tão
-seculares como elles. Em quanto assim pensava, iamos devorando caminho,
-e a planicie voava debaixo dos nossos pés, até que o animal estacou, e
-pude olhar mais tranquillamente em torno de mim. Olhar sómente; nada
-vi, além da immensa brancura da neve, que desta vez invadira o proprio
-ceu*, até alli azul. Talvez, a espaços, me apparecia uma ou outra
-planta, enorme, brutesca, meneando ao vento as suas largas folhas. O
-silencio daquella região era egual ao do sepulchro: dissera-se que a
-vida das cousas ficára estupida deante do homem.
-
-Cahiu do ar? destacou-se da terra? não sei; sei que um vulto immenso,
-uma figura de mulher me appareceu então, fitando-me uns olhos
-rutilantes como o sol. Tudo nessa figura tinha a vastidão das fórmas
-selvaticas, e tudo escapava á comprehensão do olhar humano, porque os
-contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia espesso era muita voz
-diaphano. Estupefacto, não disse nada, não cheguei sequer a soltar um
-grito; mas, ao cabo de algum tempo, que foi breve, perguntei quem era e
-como se chamava; curiosidade de delirio.
-
---Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga.
-
-Ao ouvir esta ultima palavra, recuei um pouco, tomado de susto. A
-figura soltou uma gargalhada, que produziu em torno de nós o effeito de
-um tufão; as plantas torceram-se e um longo gemido quebrou a mudez das
-cousas externas.
-
---Não te assustes, disse ella, minha inimizade não mata; é sobretudo
-pela vida que se affirma. Vives: não quero outro flagello.
-
---Vivo? perguntei eu, enterrando as unhas nas mãos, como para
-certificar-me da existencia.
-
---Sim, verme, tu vives. Não receies perder esse andrajo que é teu
-orgulho; provarás ainda, por algumas horas, o pão da dôr e o vinho
-da miseria. Vives: agora mesmo que ensandeceste, vives; e se a tua
-consciência rehouver um instante de sagacidade, tu dirás que queres
-viver.
-
-Dizendo isto, a visão estendeu o braço, segurou-me pelos cabellos e
-levantou-me ao ar, como se fôra uma simples pluma. Só então pude
-ver-lhe de perto o rosto, que era enorme. Nada mais quieto; nenhuma
-contorsão violenta, nenhuma expressão de odio ou ferocidade; a feição
-unica, geral, completa, era a da impassibilidade egoista, a da eterna
-surdez, a da vontade immovel. Raivas, se as tinha, ficavam encerradas
-no coração. Ao mesmo tempo, nesse rosto de expressão glacial, havia um
-ar de juventude, mescla de força e viço, diante do qual me sentia eu o
-mais debil e descrepito dos seres.
-
---Entendeste-me? disse ella, no fim de algum tempo de mutua
-contemplação.
-
---Não, respondi; nem quero entender-te; tu és absurda, tu és uma
-fabula. Estou sonhando, de certo, ou, se é verdade que enlouqueci, tu
-não passas de uma concepção de alienado, isto é, uma cousa vã, que a
-razão ausente não póde reger nem palpar. Natureza, tu? a Natureza que
-eu conheço é só mãe e não inimiga; não faz da vida um flagello, nem,
-como tu, traz esse rosto indifferente, como o sepulchro. E porque
-Pandora?
-
---Porque levo na minha bolsa os bens e os males, e o maior de todos, a
-esperança, consolação dos homens. Tremes?
-
---Sim; o teu olhar fascina-me.
-
---Creio; eu não sou somente a vida; sou tambem a morte, e tu estás
-prestes a devolver-me o que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a
-voluptuosidade do nada.
-
-Quando esta palavra echoou, como um trovão, naquelle immenso valle,
-afigurou-se-me que era o ultimo som que chegava a meus ouvidos;
-pareceu-me sentir a decomposição subita de mim mesmo. Então, encarei-a
-com olhos supplices, e pedi mais alguns annos.
-
---Pobre minuto! exclamou. Para que queres tu mais alguns instantes
-de vida? Para devorar e seres devorado depois? Não estás farto do
-expectaculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei
-menos torpe ou menos afflictivo: o alvor do dia, a melancholia da
-tarde, a quietação da noite, os aspectos da terra, o somno, emfim, o
-maior beneficio das minhas mãos. Que mais queres tu, sublime idiota?
-
---Viver somente, não te peço mais nada. Quem me poz no coração este
-amor da vida, se não tu? e, se eu amo a vida, porque te has de golpear
-a ti mesma, matando-me?
-
---Porque já não preciso de ti. Não importa ao tempo o minuto que passa,
-mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte, jocundo, suppõe trazer
-em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o outro, mas o
-tempo subsiste. Egoismo, dizes tu? Sim, egoismo, não tenho outra lei.
-Egoismo, conservação. A onça mata o novilho porque o raciocinio da
-onça é que ella deve viver, e se o novilho é tenro tanto melhor: eis o
-estatuto universal. Sobe e olha.
-
-Isto dizendo, arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os olhos
-a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe,
-atravez de um nevoeiro, uma cousa unica. Imagina tu, leitor, uma
-reducção dos seculos, e um desfilar de todos elles, as raças todas,
-todas as paixões, o tumulto dos imperios, a guerra dos appetites e
-dos odios, a destruição reciproca dos seres e das cousas. Tal era
-o expectaculo, acerbo e curioso expectaculo. A historia do homem
-e da terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem
-a imaginação nem a sciencia, porque a sciencia é mais lenta e a
-imaginação mais vaga, emquanto que o que eu alli via era a condensação
-viva de todos os tempos. Para descrevel-a seria preciso fixar o
-relampago. Os seculos desfilavam n'um turbilhão, e, não obstante,
-porque os olhos do delirio são outros, eu via tudo o que passava diante
-de mim,--flagellos e delicias,--desde essa cousa que se chama gloria
-até essa outra que se chama miseria, e via o amor multiplicando a
-miseria, e via a miseria aggravando a debilidade. Ahi vinham a cobiça
-que devora, a colera que inflamma, a inveja que baba, e a enxada e a
-penna, humidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancholia,
-a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até
-destruil-o, como um farrapo. Eram as formas varias de um mal, que ora
-mordia a viscera, ora mordia o pensamento, e passeiava eternamente as
-suas vestes de arlequim, em derredor da especie humana. A dor cedia
-alguma vez, mas cedia á indifferença, que era um somno sem sonhos,
-ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagellado e
-rebelde, corria diante da fatalidade das cousas, atraz de uma figura
-nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpavel, outro
-de improvavel, outro de invisivel, cosidos todos a ponto precario,
-com a agulha da imaginação; e essa figura,--nada menos que a chimera
-da felicidade,--ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar
-pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ella ria, como um
-escarneo, e sumia-se, como uma illusão.
-
-Ao contemplar tanta calamidade, não pude reter um grito de angustia,
-que Natureza ou Pandora escutou sem protestar nem rir; e não sei por
-que lei de transtorno cerebral, fui eu que me puz a rir,--de um riso
-descompassado e idiota.
-
---Tens razão, disse eu, a cousa é divertida e vale a pena,--talvez
-monotona--mas vale a pena. Quando Job amaldiçoava o dia em que fôra
-concebido, é porque lhe davam ganas de ver cá de cima o espectáculo.
-Vamos lá, Pandora, abre o ventre, e digere-me; a cousa é divertida, mas
-digere-me.
-
-A resposta foi compellir-me fortemente a olhar para baixo, e a ver os
-seculos que continuavam a passar, velozes e turbulentos, as gerações
-que se superpunham ás gerações, umas tristes, como os Hebreus do
-captiveiro, outras alegres, como os devassos de Commodo, e todas
-ellas pontuaes na sepultura. Quiz fugir, mas uma força mysteriosa me
-retinha os pés; então disse commigo:--«Bem, os seculos vão passando,
-chegará o meu, e passará tambem, até o ultimo, que me dará a decifração
-da eternidade.» E fixei os olhos, e continuei a ver as edades, que
-vinham chegando e passando, já então tranquillo e resoluto, não sei
-até se alegre. Talvez alegre. Cada seculo trazia a sua porção de
-sombra e de luz, de apathia e de combate, de verdade e de erro, e o
-seu cortejo de systemas, de idéas novas, de novas illusões; em cada
-um delles rebentavam as verduras de uma primavera, e amarelleciam
-depois, para remoçar mais tarde. Ao passo que a vida tinha assim uma
-regularidade de calendario, fazia-se a historia e a civilisação, e o
-homem, nu e desarmado, armava-se e vestia-se, construia o tugurio e
-o palacio, a rude aldêa e Thebas de cem portas, creava a sciencia,
-que perscruta, e a arte que enleva, fazia-se orador, mecanico,
-philosopho, corria a face do globo, descia ao ventre da terra, subia
-á esphera das nuvens, collaborando assim na obra mysteriosa, com que
-entretinha a necessidade da vida e a melancholia do desamparo. Meu
-olhar, enfarado e distrahido*, viu emfim chegar o seculo presente, e
-atraz delle os futuros. Aquelle vinha agil, destro, vibrante, cheio
-de si, um pouco diffuso, audaz, sabedor, mas ao cabo tão miseravel
-como os primeiros, e assim passou e assim passaram os outros, com a
-mesma rapidez e egual monotonia. Redobrei de attenção; fitei a vista;
-ia emfim ver o ultimo,--o ultimo!; mas então já a rapidez da marcha
-era tal, que escapava a toda a comprehensão; ao pé della o relampago
-seria um seculo. Talvez por isso entraram os objectos a trocarem-se;
-uns cresceram, outros minguaram, outros perderam-se no ambiente; um
-nevoeiro cobriu tudo,--menos o hippopotamo que alli me trouxera, e que
-aliás começou a diminuir, a diminuir, a diminuir, até ficar do tamanho
-de um gato. Era effectivamente um gato. Encarei-o bem; era o meu gato
-_Sultão_, que brincava á porta da alcova, com uma bola de papel...
-
-
-
-
-CAPITULO VIII
-
-
-Razão contra Sandice
-
-
-Já o leitor comprehendeu que era a Razão que voltava á casa, e
-convidava a Sandice a sair, clamando, e com melhor jus, as palavras de
-Tartufo:
-
- La maison est á moi, c'est á vous d'en sortir.
-
-Mas é sestro antigo da Sandice criar amor ás casas alheias, de modo
-que, apenas senhora de uma, difficilmente lh'a farão despejar. É
-sestro; não se tira dahi; ha muito que lhe callejou a vergonha. Agora,
-se advertirmos no immenso numero de casas que occupa, umas de vez,
-outras durante as suas estações calmosas, concluiremos que esta amavel
-peregrina é o terror dos proprietarios. No nosso caso, houve quasi
-um disturbio á porta do meu cerebro, porque a adventicia não queria
-entregar a casa, e a dona não cedia da intenção de tomar o que era seu.
-Afinal, já a Sandice se contentava com um cantinho no sotão.
-
---Não, senhora, replicou a Razão, estou cançada de lhe ceder sotãos,
-cançada e experimentada, o que você quer é passar mansamente do sotão á
-sala de jantar, dahi á de visitas e ao resto.
-
---Está bem, deixe-me ficar algum tempo mais, estou na pista de um
-mysterio.
-
---Que mysterio?
-
---De dous, emendou a Sandice; o da vida e o da morte; peço-lhe só uns
-dez minutos.
-
-A Razão poz-se a rir.
-
---Has de ser sempre a mesma cousa... sempre a mesma cousa... sempre a
-mesma cousa...
-
-E, dizendo isto, travou-lhe dos pulsos e arrastou-a para fóra; depois
-entrou e fechou-se. A Sandice ainda gemeu algumas supplicas; ainda
-grunhiu algumas zangas; mas desenganou-se depressa, deitou a lingua de
-fóra, em ar de surriada, e foi andando... foi andando... Provavelmente
-andará até á consummação dos seculos.
-
-
-
-
-CAPITULO IX
-
-
-Transição
-
-
-E vejam agora com que destreza, com que fina arte faço eu a maior
-transição deste livro. Vejam: o meu delirio começou em presença
-de Virgilia; Virgilia foi o meu grão peccado da juventude; não ha
-juventude sem meninice; meninice suppõe nascimento; e eis aqui como
-chegamos nós, sem esforço, ao dia 20 de outubro de 1805, em que nasci.
-Viram? Nenhuma juntura apparente, nada que divirta a attenção pausada
-do leitor; nada. De modo que o livro fica assim com todas as vantagens
-do methodo, sem a rigidez do methodo. Na verdade, era tempo. Que isto
-de methodo, sendo, como é, uma cousa indispensavel, todavia é melhor
-tel-o sem gravata nem suspensorios, mas um pouco á fresca e á solta,
-como quem não se lhe dá da visinha fronteira, nem do inspector de
-quarteirão. É como a eloquencia, que ha uma genuina e vibrante, de uma
-arte natural e feiticeira, e outra tesa, engommada e chocha. Vamos ao
-dia 20 de Outubro.
-
-
-
-
-CAPITULO X
-
-
-Naquelle dia...
-
-
-Naquelle dia, a arvore dos Cubas brotou uma graciosa flor. Nasci;
-recebeu-me nos braços a Pascoela, insigne parteira minhota, que
-se gabava de ter aberto a porta do mundo a uma geração inteira de
-fidalgos. Não é impossivel que meu pae lhe ouvisse tal declaração;
-creio, todavia, que o sentimento paterno é que o induziu a gratifical-a
-com duas meias dobras. Lavado e enfaixado, fui desde logo o heroe da
-nossa casa. Cada qual prognosticava a meu respeito o que mais lhe
-quadrava ao sabor. Meu tio João, o antigo official de infantaria,
-achava-me um certo olhar de Bonaparte, cousa que meu pae não pôde ouvir
-sem nauseas; meu tio Ildefonso, então simples padre, farejava-me conego.
-
---Conego é o que elle ha de ser, e não digo mais por não parecer
-orgulho; mas não me admiraria nada se Deus o destinasse á um bispado...
-É verdade, um bispado; não é cousa impossivel. Que diz você, mano
-Bento?
-
-Meu pae respondia a todos que eu seria o que Deus quizesse; e alçava-me
-ao ar, como se intentasse mostrar-me á cidade e ao mundo; perguntava a
-todos se eu me parecia com elle, se era intelligente, bonito...
-
-Digo essas cousas por alto, segundo as ouvi narrar annos depois; ignoro
-a mór parte dos pormenores daquelle famoso dia. Sei que a visinhança
-veiu ou mandou comprimentar o recem-nascido, e que durante as primeiras
-semanas muitas foram as visitas em nossa casa. Não houve cadeirinha
-que não trabalhasse; aventou-se muita casaca e muito calção; e se hão
-conto os mimos, os beijos, as admirações, as bençãos, é porque, se os
-contasse, não acabaria mais o capitulo, e é preciso acabal-o.
-
-Item, não posso dizer nada do meu baptizado, porque nada me referiram
-a tal respeito, a não ser que foi uma das mais galhardas festas do
-anuo seguinte, 1806; baptizei-me na egreja de S. Domingos, uma terça
-feira de março, dia claro, luminoso e puro, sendo padrinhos o coronel
-Rodrigues de Mattos e sua senhora. Um e outro descendiam de velhas
-familias do norte e honravam devéras o sangue que lhes corria nas
-veias, outr'ora derramado na guerra contra Hollanda. Cuido que os nomes
-de ambos foram das primeiras cousas que aprendi; e certamente os dizia
-com muita graça, ou revelava algum talento precoce, porque não havia
-pessoa extranha diante de quem me não obrigassem a recital-os.
-
---Nhonhô, diga a estes senhores como é que se chama seu padrinho.
-
---Meu padrinho? é o coronel Paulo Vaz Lobo Cezar de Andrade e Souza
-Rodrigues de Mattos; minha madrinha é a Excellentissima Senhora D.
-Maria Luiza de Macedo Rezende e Souza Rodrigues de Mattos.
-
---É muito esperto o seu menino, commentavam os ouvintes.
-
---Muito esperto, concordava meu pae; e os olhos babavam-se-lhe de
-orgulho, e elle espalmava a mão sobre a minha cabeça, fitava-me longo
-tempo, namorado, cheio de si.
-
-Item, comecei a andar, não sei bem quando, mas antes do tempo. Talvez
-por apressar a natureza, obrigavam-me cedo a agarrar ás cadeiras,
-pegavam-me da fralda, davam-me carrinhos de páu.--Só só, nhonhô, só só,
-dizia-me a mucama. E eu, attrahido pelo chocalho de lata, que minha mãe
-agitava diante de mim, lá ia para a frente, cahe aqui, cahe acolá; e
-andava, provavelmente mal, mas andava, e fiquei andando.
-
-
-
-
-CAPITULO XI
-
-
-O menino é pai do homen.
-
-
-Cresci; e nisso é que a familia não interveiu; cresci naturalmente,
-como crescem as magnolias e os gatos. Talvez os gatos são menos
-matreiros, e, com certeza, as magnolias são menos inquietas do que eu
-era na minha infancia. Um poeta dizia que o menino é pae do homem. Se
-isto é verdade, vejamos alguns lineamentos do menino.
-
-Desde os cinco annos merecera eu a alcunha de «menino diabo»; e
-verdadeiramente não era outra cousa; fui dos mais malignos do meu
-tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um
-dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negára uma colhér do
-doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o maleficio,
-deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura,
-fui dizer a minha mãe que a escrava é que estragára o doce «por
-pirraça»; e eu tinha apenas seis annos. Prudencio, um moleque de casa,
-era o meu cavallo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um
-cordel nos queixos, á guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma
-varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e elle
-obedecia,--algumas vezes gemendo,--mas obedecia sem dizer palavra,
-ou, quando muito, um--«ai, nhonhô!»--ao que eu retorquia:--«Cala a
-boca, besta!»--Esconder os chapéos das visitas, deitar rabos de papel
-a pessoas graves, puxar pelo rabicho das cabelleiras, dar beliscões
-nos braços das matronas, e outras muitas façanhas deste jaez, eram
-mostras de um genio indocil, mas devo crer que eram tambem expressões
-de um espirito robusto, porque meu pae tinha-me em grande admiração;
-e se ás vezes me reprehendia, á vista de gente, fazia-o por simples
-formalidade: em particular dava-me beijos.
-
-Não se conclua daqui que eu levasse todo o resto da minha vida a
-quebrar a cabeça dos outros nem a esconder-lhes os chapéos; mas
-opiniatico, egoista e algo contemptor dos homens, isso fui; se não
-passei o tempo a esconder-lhes os chapéos, alguma vez lhes puxei pelo
-rabicho das cabelleiras.
-
-Outrosim, affeiçoei-me á contemplação da injustiça humana, inclinei-me
-a attenual-a, a explical-a, a classifical-a por partes, a entendel-a,
-não segundo um padrão rigido, mas ao sabor das circumstancias e
-logares. Minha mãe doutrinava-me a seu modo, fazia-me decorar alguns
-preceitos e orações; mas eu sentia que, mais do que as orações, me
-governavam os nervos e o sangue, e a boa regra perdia o espirito, que
-a faz viver, para se tornar uma vã formula. De manhã, antes do mingáu,
-e de noite, antes da cama, pedia a Deus que me perdoasse, assim como
-eu perdoava aos meus devedores; mas entre a manhã e a noite fazia uma
-grande maldade, e meu pae, passado o alvoroço, dava-me pancadinhas na
-cara, e exclamava a rir: Ah! bregeiro! ah! bregeiro!
-
-Sim, meu pae adorava-me, tinha-me esse amor sem merito, que é um
-simples e forte impulso da carne; amor que a razão não contrasta
-nem rége. Minha mãe era uma senhora fraca, de pouco cerebro e muito
-coração, assaz credula, sinceramente piedosa,--caseira, apezar de
-bonita, e modesta, apezar de abastada; temente ás trovoadas e ao
-marido. O marido era na terra o seu deus. Da collaboração dessas duas
-creaturas nasceu a minha educação, que, se tinha alguma cousa boa, era
-no geral viciosa, incompleta, e, em partes, negativa. Meu tio conego
-fazia ás vezes alguns reparos ao irmão; dizia-lhe que elle me dava
-mais liberdade do que ensino, e mais affeição do que emenda; mas meu
-pae respondia que applicava na minha educação um systema inteiramente
-superior ao systema usado; e por este modo, sem confundir o irmão,
-illudia-se a si proprio.
-
-Havia em minha mãe uma sombra de melancholia, que eu herdei, como
-herdei de meu pae a fatuidade. Os aspectos da vida accrescentaram-lhe a
-natural tendencia. Tinha coração de mais, uma sensibilidade melindrosa,
-exigente, doentia.
-
-De envolta com a transmissão e a educação, houve ainda o exemplo
-extranho, o meio domestico. Vimos os paes; vejamos os tios. Um delles,
-o João, era um homem de lingua solta, vida galante, conversa picaresca.
-Desde os onze annos entrou a admittir-me ás anecdotas, reaes ou não,
-eivadas todas de obscenidade ou immundicie. Não me respeitava a
-adolescencia, como não respeitava a batina do irmão; com a differença
-que este fugia logo que elle enveredava por assumpto escabroso. Eu não;
-deixava-me estar, sem entender nada, a principio, depois entendendo, e
-emfim achando-lhe graça. No fim de certo tempo, quem o procurava era
-eu; e elle gostava muito de mim, dava-me doces, levava-me a passeio. Em
-casa, quando lá ia passar alguns dias, não poucas vezes me aconteceu
-achal-o, no fundo da chacara, no lavadouro, a palestrar com as escravas
-que batiam roupa; e ahi é que era um desfiar de anecdotas, de ditos,
-de perguntas, e um estalar de risadas, que ninguem podia ouvir, porque
-o lavadouro ficava muito longe de casa. As pretas, com uma tanga
-no ventre, a arregaçar-lhes um palmo dos vestidos, umas dentro do
-tanque, outras fóra, inclinadas sobre as peças de roupa, a batel-as, a
-ensaboal-as, a torcel-as, iam ouvindo e redarguindo ás pilherias do tio
-João, e a commental-as de quando em quando com esta palavra:
-
---Cruz, diabo!... Este sinhô João é o diabo!
-
-Bem differente era o tio conego. Esse tinha muita austeridade e
-pureza; taes dotes, comtudo, não realçavam um espirito superior,
-apenas compensavam um espirito mediocre. Não era homem que visse a
-parte substancial da egreja; via o lado externo, a hierarchia, as
-preeminencias, as sobrepelizes, as circumflexões. Vinha antes da
-sacristia que do altar. Uma lacuna no ritual excitava-o mais do que
-uma infracção dos mandamentos. Agora, a tantos annos de distancia,
-não estou certo se elle poderia atinar facilmente com um trecho de
-Tertuliano, ou expor, sem titubear, a historia do symbolo de Nicéa;
-mas ninguem, nas festas cantadas, sabia melhor o numero e caso das
-cortezias que se deviam ao officiante. Conego foi a unica ambição de
-sua vida; e dizia de coração que era a maior dignidade a que podia
-aspirar. Piedoso, severo nos costumes, minucioso na observancia das
-regras, frouxo, acanhado, subalterno, possuia algumas virtudes, em que
-era exemplar, mas carecia absolutamente da força de as incutir, de as
-impôr aos outros.
-
-Não digo nada de minha tia materna, D. Emerenciana, e aliás era a
-pessoa que mais autoridade tinha sobre mim; essa differençava-se
-grandemente dos outros; mas viveu pouco tempo em nossa companhia,
-uns dous annos. Outros parentes e alguns intimos não merecem a pena
-de ser citados; não tivemos uma vida commum, mas intermittente, com
-grandes claros de separação. O que importa é a expressão geral do meio
-domestico, e essa ahi fica indicada,--vulgaridade de caracteres, amor
-das apparencias rutilantes, do arruido, frouxidão da vontade, dominio
-do capricho, e o mais. Dessa terra e desse estrume é que nasceu esta
-flôr.
-
-
-
-
-CAPITULO XII
-
-
-Um episodio de 1814
-
-
-Mas eu não quero passar adeante, sem contar summariamente um galante
-episodio de 1814; tinha nove annos.
-
-Napoleão, quando eu nasci, estava já em todo o explendor da gloria
-e do poder; era imperador e grangeára inteiramente a admiração dos
-homens. Meu pae, que á força de persuadir os outros da nossa nobreza,
-acabara persuadindo-se a si proprio, nutria contra elle um odio
-puramente mental. Era isso motivo de renhidas contendas em nossa casa,
-porque meu tio João, não sei se por espirito de classe e sympathia de
-officio, perdoava no despota o que admirava no general, meu tio padre
-era inflexivel contra o corso, os outros parentes dividiam-se; dahi as
-controversias e as rusgas.
-
-Chegando ao Rio de Janeiro a noticia da primeira quéda de Napoleão,
-houve naturalmente grande abalo em nossa casa, mas nenhum chasco ou
-remoque. Os vencidos, testemunhas do regozijo publico, julgaram mais
-decoroso o silencio; alguns foram além e bateram palmas. A população,
-cordialmente alegre, não regateou demonstrações de affecto á real
-familia; houve illuminações, salvas, _Te-Deum_, cortejo e acclamações.
-Figurei nesses dias com um espadim novo, que meu padrinho me dera no
-dia de Santo Antonio; e, francamente, interessava-me mais o espadim
-do que a quéda de Bonaparte. Nunca me esqueceu esse phenomeno. Nunca
-mais deixei de pensar commigo que o nosso espadim é sempre maior do que
-a espada de Napoleão. E notem que eu ouvi muito discurso, quando era
-vivo, li muita pagina rumorosa de grandes idéas e maiores palavras, mas
-não sei porque, no fundo dos applausos que me arrancavam da boca, lá
-echoava alguma vez este conceito de experimentado:
-
---Vae-te embora, tu só cuidas do espadim.
-
-Não se contentou a minha familia em ter um quinhão anonymo no regozijo
-publico; entendeu opportuno e indispensavel celebrar a destituição
-do imperador com um jantar, e tal jantar que o ruido das acclamações
-chegasse aos ouvidos de Sua Alteza, ou, quando menos, de seus
-ministros. Dito e feito. Veiu abaixo toda a velha prataria, herdada do
-meu avô Luiz Cubas; vieram as toalhas de Flandres, as grandes jarras
-da India; matou-se um capado; encommendaram-se ás madres da Ajuda as
-compotas e marmeladas; lavaram-se, arearam-se, poliram-se as salas,
-escadas, castiçaes, arandellas, as vastas mangas de vidro, todos os
-apparelhos do luxo classico.
-
-Dada a hora, achou*-se reunida uma sociedade selecta, o juiz de fóra,
-tres ou quatro officiaes militares, alguns commerciantes e lettrados,
-varios funccionarios da administração, uns com suas mulheres e filhas,
-outros sem ellas, mas todos commungando no desejo de atolar a memoria
-de Bonaparte no papo de um perú. Não era um jantar, mas um _Te-Deum_;
-foi o que pouco mais ou menos disse um dos lettrados presentes, o
-Dr. Villaça, glosador insigne, que accrescentou aos pratos de casa o
-acepipe das musas. Lembra-me, como se fosse hontem, lembra-me de o ver
-erguer-se, com a sua longa cabelleira de rabicho, casaca de seda, uma
-esmeralda no dedo, pedir a meu tio padre que lhe repetisse o mote,
-e, repetido o mote, cravar os olhos na testa de uma senhora, depois
-tossir, alçar a mão direita, toda fechada, menos o dedo indice, que
-apontava para o tecto; e, assim posto e composto, devolver o mote
-glosado. Não fez uma glosa, mas tres; depois jurou aos seus deuses não
-acabar mais. Pedia um mote, davam-lh'o, elle glosava-o promptamente,
-e logo pedia outro e mais outro; a tal ponto que uma das senhoras
-presentes não pôde calar a sua grande admiração.
-
---A senhora diz isso, retorquia modestamente o Villaça, porque nunca
-ouviu o Bocage, como eu ouvi, no fim do século, em Lisboa. Aquillo sim!
-que facilidade! e que versos! Tivemos lutas de uma e duas horas, no
-botequim do Nicola, a glosarmos, no meio de palmas e bravos. Immenso
-talento o do Bocage! Era o que me dizia, ha dias, a Sra. duqueza de
-Cadaval...
-
-E estas tres palavras ultimas, expressas com muita emphasis, produziram
-em toda a assembléa um fremito de admiração e pasmo. Pois esse homem
-tão dado, tão simples, além de pleitear com poetas, discreteava com
-duquezas! Um Bocage e uma Cadaval! Ao contacto de tal homem, as
-damas sentiam-se superfinas; os varões olhavam-n'o com respeito,
-alguns com inveja, não raros com incredulidade. Elle, entretanto,
-ia caminho, a accummular adjectivo sobre adjectivo, adverbio sobre
-adverbio, a desfiar todas as rimas de _tyranno_ e de _usurpador._ Era
-á sobremeza; ninguem já pensava em comer. No intervallo das glosas,
-corria um borborinho alegre, um palavrear de estomagos satisfeitos;
-os olhos, molles e humidos, ou vivos e calidos, espreguiçavam-se ou
-saltitavam de uma ponta a outra da meza, atulhada de doces e fructas,
-aqui o ananaz em fatias, alli o melão em talhadas, as compoteiras de
-crystal deixando ver o doce de coco, finamente ralado, amarello como
-uma gemma,--ou então o melado escuro e grosso, não longe do queijo
-e do cará. De quando em quando um riso jovial, amplo, desabotoado,
-um riso de familia, vinha quebrar a gravidade politica do banquete.
-No meio do interesse grande e commum, agitavam-se tambem os pequenos
-e particulares. As moças fallavam das modinhas que haviam de cantar
-ao cravo, e do minuete e do solo inglez; nem faltava matrona que
-promettesse bailar um oitavado de compasso, só para mostrar como
-folgára nos seus bons tempos de criança. Um sujeito, ao pé de mim, dava
-a outro noticia recente dos negros novos, que estavam a vir, segundo
-cartas que recebera de Loanda, uma carta em que o sobrinho lhe dizia
-ter já negociado cerca de quarenta cabeças, e outra-carta em que...
-Trazia-as justamente na algibeira, mas não as podia ler naquella
-occasião. O que afiançava é que podiamos contar, só nessa viagem, uns
-cento e vinte negros, pelo menos.
-
---Trás...trás...trás...fazia o Villaça batendo com as mãos uma na
-outra. O rumor cessava de subito, como um estacado de orchestra,
-e todos os olhos se voltavam para o glosador. Quem ficava longe
-aconcheava a mão atraz da orelha para não perder palavra; a mór parte,
-antes mesmo da glosa, tinha já um meio riso de applauso, trivial e
-candido.
-
-Quanto a mim, lá estava, solitario e deslembrado, a namorar uma
-certa compota da minha feição. No fim de cada glosa ficava muito
-contente, esperando que fosse a ultima; mas não era, e a sobremeza
-continuava intacta. Ninguem se lembrava de dar a primeira voz. Meu
-pae, á cabeceira, saboreava a goles extensos, a alegria dos convivas,
-mirava-se todo nos carões alegres, nos pratos, nas flores, deliciava-se
-com a familiaridade travada entre os mais distantes espiritos, influxo
-de um bom jantar. Eu via isso, porque arrastava os olhos da compota
-para elle e delle para a compota, como a pedir-lhe que m'a servisse;
-mas fazia-o em vão. Elle não via nada; via-se a si mesmo. E as glosas
-succediam-se, como bategas d'agua, obrigando-me a recolher o desejo e
-o pedido. Pacientei quanto pude; e não pude muito. Pedi em voz baixa o
-doce; emfim, bradei, berrei, bati com os pés. Meu pae, que seria capaz
-de me dar o sol, se eu lh*'o exigisse, chamou um escravo para me servir
-o doce; mas era tarde. A tia Emerenciana arrancára-me da cadeira e
-entregára-me a uma escrava, não obstante os meus gritos e repellões.
-
-Não foi outro o delicto do glosador: retardára a compota e dera causa
-á minha exclusão. Tanto bastou para que eu cogitasse uma vingança,
-qualquer que fosse, mas grande e exemplar, cousa que de alguma maneira
-o tornasse ridiculo. Que elle era um homem grave o Dr. Villaça, medido
-e lento, quarenta e sete annos, casado e pae. Não me contentava o
-rabo de papel nem o rabicho da cabelleira; havia de ser cousa peor.
-Entrei a espreital-o, durante o resto da tarde, a seguil-o, na chacara,
-aonde todos desceram a passear. Vi-o conversar com D. Eusebia, irmã do
-sargento-mór Domingues, uma robusta donzellona, que se não era bonita,
-tambem não era feia.
-
---Estou muito zangada com o senhor, dizia ella.
-
---Porque?
-
---Porque ... não sei porque ... porque é a minha sina ... creio ás
-vezes que é melhor morrer...
-
-Tinham penetrado n'uma pequena moita; era lusco-fusco; eu segui-os. O
-Villaça levava nos olhos umas chispas de vinho e de volupia.
-
---Deixe-me, disse ella.
-
---Ninguem nos vê. Morrer, meu anjo? Que idéas são essas! Você sabe que
-eu morrerei tambem ... que digo?... morro todos os dias, de paixão, de
-saudades...
-
-D. Eusebia levou o lenço aos olhos. O glosador vasculhava na memoria
-algum pedaço litterario, e achou este, que mais tarde verifiquei ser de
-uma das operas do Judeu:
-
---Não chores, meu bem; não queiras que o dia amanheça com duas auroras.
-
-Disse isto; puxou-a para si; ella resistiu um pouco, mas deixou-se ir;
-uniram os rostos, e eu ouvi estalar, muito ao de leve, um beijo, o mais
-medroso dos beijos.
-
---O Dr. Villaça deu um beijo em D. Eusebia! bradei eu correndo pela
-chacara.
-
-Foi um estouro esta minha palavra; a estupefacção immobilisou a todos;
-os olhos espraiavam-se a uma e outra banda; trocavam-se sorrisos,
-segredos, á socapa, as mães arrastavam as filhas, pretextando o sereno.
-Meu pae puxou-me as orelhas, disfarçadamente, irritado devéras com
-a indiscrição; mas no dia seguinte, ao almoço, lembrando o caso,
-sacudiu-me o nariz, a rir:--Ah! brejeiro! ah! brejeiro!
-
-
-
-
-CAPITULO XIII
-
-
-Um salto
-
-
-Unamos agora os pés e demos um salto por cima da eschola, a enfadonha
-eschola, onde aprendi a ler, escrever, contar, dar cacholetas,
-apanhal-as, e ir fazer diabruras, ora nos morros, ora nas praias, onde
-quer que fosse propicio a ociosos.
-
-Tinha amarguras esse tempo; tinha os ralhos, os castigos, as lições
-arduas e longas, e pouco mais, mui pouco e mui leve. Só era pesada a
-palmatoria, e ainda assim... Ó palmatoria, terror dos meus dias pueris,
-tu que foste o _compelle intrare_ com que um velho mestre, ossudo e
-calvo, me incutiu no cerebro o alphabeto, a prosodia, a syntaxe, e o
-mais que elle sabia, benta palmatoria, tão praguejada dos modernos,
-quem me dera ter ficado sob o teu jugo, com a minha alma imberbe, as
-minhas ignorancias, e o meu espadim, aquelle espadim de 1814, tão
-superior á espada de Napoleão! Que querias tu, afinal, meu velho mestre
-de primeiras lettras? Lição de cór e compostura na aula; nada mais,
-nada menos do que quer a vida, que é a mestra das ultimas lettras;
-com a differenca que tu, se me mettias medo, nunca me metteste zanga.
-Vejo-te ainda agora entrar na sala, com as tuas chinellas de couro
-branco, capote, lenço na mão, calva á mostra, barba rapada; vejo-te
-sentar, bufar, grunhir, absorver uma pitada inicial, e chamar-nos
-depois á lição. E fizeste isto durante vinte e tres annos, calado,
-obscuro, pontual, mettido n'uma casinha da rua do Piolho, sem enfadar
-o mundo com a tua mediocridade, até que um dia déste o grande mergulho
-nas trevas, e ninguem te chorou, salvo um preto velho,--ninguem, nem
-eu, que te devo os rudimentos da escripta.
-
-Chamava-se Ludgero o mestre; quero escrever-lhe o nome todo nesta
-pagina: Ludgero Barata,--um nome funesto, que servia aos meninos de
-eterno mote a chufas. Um de nós, o Quincas Borba, esse então era cruel
-com o pobre homem. Duas, tres vezes por semana, havia de lhe deixar na
-algibeira das calças,--umas largas calças de enfiar--, ou na gaveta
-da mesa, ou ao pé do tinteiro, uma barata morta. Se elle a encontrava
-ainda nas horas da aula, dava um pulo, circulava os olhos chammejantes,
-dizia-nos os ultimos nomes; eramos sevandijas, capadocios, mal criados,
-moleques.--Uns tremiam, outros rosnavam; o Quincas Borba, porém,
-deixava-se estar quieto, com os olhos espetados no ar.
-
-Uma flôr, o Quincas Borba. Nunca em minha infancia, nunca em toda a
-minha vida, achei um menino mais gracioso, inventivo e travesso. Era
-a flôr, e não já da eschola, senão de toda a cidade. A mãe, viuva,
-com alguma cousa de seu, adorava o filho e trazia-o amimado, aceiado,
-enfeitado, com um vistoso pagem atraz, um pagem que nos deixava gazear
-a eschola, ir caçar ninhos de passaros, ou perseguir lagartixas no
-morro do Livramento e da Conceição, ou simplesmente arruar, á toa,
-como dous peraltas sem emprego. E de imperador! Era um gosto ver o
-Quincas Borba fazer de imperador nas festas do Espirito Santo. De
-resto, nos nossos jogos pueris, elle escolhia sempre um papel de rei,
-ministro, general, uma supremacia, qualquer que fosse. Tinha garbo o
-traquinas, e gravidade, certa magnificencia nas attitudes, nos meneios.
-Quem diria que... Suspendamos a penna; não adeantemos os successos.
-Fujamos sobretudo desse passado tão remoto, tão coberto, ai de mim! de
-cruzes funebres. Vamos do um salto a 1822, data da nossa independencia
-politica, e do meu primeiro captiveiro pessoal.
-
-
-
-
-CAPITULO XIV
-
-
-O primeiro beijo
-
-
-Tinha dezesete annos; pungia-me um buçosinho que eu forcejava por
-trazer a bigode. Os olhos, vivos e resolutos, eram a minha feição
-verdadeiramente mascula. Como ostentasse certa arrogancia, não se
-distinguia bem se era uma criança com fumos de homem, se um homem
-com ares de menino. Ao cabo, era um lindo garção, lindo e audaz, que
-entrava na vida de botas e esporas, chicote na mão e sangue nas veias,
-cavalgando um corsel nervoso, rijo, veloz, como o corsel das antigas
-balladas, que o romantismo foi buscar ao castello medieval, para dar
-com elle nas ruas do nosso seculo. O peor é que o estafaram a tal
-ponto, que foi preciso deital-o á margem, onde o realismo o veiu achar,
-comido de lazeira e vermes, e, por compaixão, o transportou para os
-seus livros.
-
-Sim, eu era esse garção bonito, airoso, abastado; e facilmente
-se imagina que mais de uma dama inclinou deante de mim a fronte
-pensativa, ou levantou para mim os olhos cobiçosos. De todas porém a
-que me captivou logo foi um ... uma ... não sei se diga; este livro é
-casto, ao menos na intenção; na intenção é castissimo. Mas vá lá; ou se
-ha de dizer tudo ou nada. A que me captivou foi uma dama hespanhola,
-Marcella, a «linda Marcella», como lhe chamavam os rapazes do tempo.
-E tinham razão os rapazes. Era filha de um hortelão das Asturias;
-disse-m'o ella mesma, n'um dia de sinceridade, porque a opinião aceita
-é que nascera de um lettrado de Madrid, victima da invasão franceza,
-ferido, encarcerado, espingardeado, quando ella tinha apenas doze
-annos. _Cosas de España._ Quem quer que fosse, porém, o pae, lettrado
-ou hortelão, a verdade é que Marcella não possuia a innocencia rustica,
-e mal chegava a entender a moral do codigo. Era boa moça, lepida,
-sem escrupulos, um pouco tolhida pela austeridade do tempo, que lhe
-não permittia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e berlindas;
-luxuosa, impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes. Naquelle anno,
-morria ella de amores por um certo Xavier, sujeito abastado e
-tisico,--uma perola.
-
-Vi-a, pela primeira vez, no Rocio Grande, na noite das luminarias, logo
-que constou a declaração da independencia, uma festa de primavera, um
-amanhecer da alma publica. Eramos dous rapazes, o povo e eu; vinhamos
-da infancia, com todos os arrebatamentos da juventude. Vi-a sahir
-de uma cadeirinha, airosa e vistosa, um corpo esbelto, ondulante,
-um desgarre, alguma cousa que nunca achara nas mulheres puras.
---Segue-me, disse ella ao pagem. E eu segui-a, tão pagem como o outro,
-como se a ordem me fosse dada, deixei-me ir namorado, vibrante, cheio
-das primeiras auroras. A meio caminho, chamaram-lhe «linda Marcella»,
-lembrou-me que ouvira tal nome a meu tio João, e fiquei, confesso que
-fiquei tonto.
-
-Tres dias depois perguntou-me meu tio, em segredo, se queria ir a uma
-ceia de moças, nos Cajueiros. Fomos; era em casa de Marcella. O Xavier,
-com todos os seus tuberculos, presidia ao banquete nocturno, em que
-eu pouco ou nada comi, porque só tinha olhos para a dona da casa.
-Que gentil que ella estava a hespanhola! Havia mais uma meia duzia
-de mulheres,--todas de partido--, e bonitas, cheias de graça, mas a
-hespanhola... O enthusiasmo, alguns goles de vinho, o genio imperioso,
-estouvado, tudo isso me levou a fazer uma cousa unica; á sahida, á
-porta da rua, disse a meu tio que esperasse um instante, e tornei a
-subir as escadas.
-
---Esqueceu alguma cousa? perguntou Marcella de pé, no patamar.
-
---O lenço.
-
-Ella ia abrir-me caminho para tornar á sala; eu segurei-lhe nas mãos,
-puxei-a para mim, e dei-lhe um beijo. Não sei se ella disse alguma
-cousa, se gritou, se chamou alguem; não sei nada; sei que desci outra
-vez as escadas, veloz como um tufão, e incerto como um ebrio.
-
-
-
-
-CAPITULO XV
-
-
-Marcella
-
-
-Gastei trinta dias para ir do Rocio Grande ao coração de Marcella,
-não já cavalgando o corsel do cégo desejo, mas o asno da paciência,
-a um tempo manhoso e teimoso. Que, na verdade, ha dous meios de
-grangear a vontade das mulheres: o violento, como o touro de Europa,
-e o insinuativo, como o cysne de Leda e a chuva de ouro de Danae,
-tres inventos do padre Zeus, que, por estarem fóra da moda, ahi ficam
-trocados no cavallo e no asno. Não direi as traças que urdi, nem
-as pitas, nem as alternativas de confiança e temor, nem as esperas
-baldadas, nem nenhuma outra dessas cousas preliminares. Affirmo-lhes
-que o asno foi digno do corsel,--um asno de Sancho, deveras philosopho,
-que me levou á casa della, no fim do citado periodo; apeei-me, bati-lhe
-na anca e mandei-o pastar.
-
-Primeira commoção da minha juventude, que doce que me foste! Tal devia
-ser, na creação biblica, o effeito do primeiro sol. Imagina tu esse
-effeito do primeiro sol, a bater de chapa na face de um mundo em flor.
-Pois foi a mesma cousa, leitor amigo, e se alguma vez contaste dezoito
-annos, deves lembrar-te que foi assim mesmo.
-
-Teve duas phases a nossa paixão, ou ligação, ou qualquer outro nome,
-que eu de nomes não curo; teve a phase consular e a phase imperial.
-Na primeira, que foi curta, regemos o Xavier e eu, sem que elle
-jamais acreditasse dividir commigo o governo de Roma; mas, quando a
-credulidade não pôde resistir á evidencia, o Xavier depoz as insignias,
-e eu concentrei todos os poderes na minha mão; foi a phase cesariana.
-Era meu o universo; mas, ai triste! não o era de graça. Foi-me preciso
-colligir dinheiro, multiplical-o, invental-o. Primeiro explorei as
-larguezas de meu pae; elle dava-me tudo o que eu lhe pedia, sem
-reprehensão, sem demora, sem frieza; dizia a todos que eu era rapaz
-e que elle o fora tambem. Mas a tal extremo chegou o abuso, que elle
-restringiu um pouco as franquezas, depois mais, depois mais. Então
-recorri a minha mãe, e induzi-a a desviar alguma cousa, que me dava ás
-escondidas. Era pouco; lancei mão de um recurso ultimo: entrei a saccar
-sobre a herança de meu pae, a assignar obrigações, que devia resgatar
-um dia com usura.
-
---Na verdade, dizia-me Marcella, quando eu lhe levava alguma seda,
-alguma joia; na verdade, você quer brigar commigo... Pois isto é cousa
-que se faça... um presente tão caro...
-
-E, se era joia, dizia isto a contemplal-a entre os dedos, a procurar
-melhor luz, a ensaial-a em si, e a rir, e a beijar-me com uma
-reincidencia impetuosa e sincera; mas, protestando, derramava-se-lhe
-a felicidade dos olhos, e eu sentia-me feliz com vêl-a assim. Gostava
-muito das nossas antigas dobras de ouro, e eu levava-lhe quantas podia
-obter; Marcella juntava-as todas dentro de uma caixinha de ferro,
-cuja chave ninguem nunca jámais soube onde ficava; escondia-a por
-medo dos escravos. A casa em que morava, nos Cajueiros, era propria.
-Eram solidos e bons os moveis, de jacarandá lavrado, e todas as
-demais alfaias, espelhos, jarras, baixella,--uma linda baixella da
-India, que lhe doára um desembargador. Baixella do diabo, deste-me
-grandes repellões aos nervos. Disse-o muita vez á própria dona;
-não lhe dissimulava o tedio que me faziam esses e outros despojos
-dos seus amores de antanho. Ella ouvia-me e ria, com uma expressão
-candida,--candida e outra cousa, que eu nesse tempo não entendia bem;
-mas agora, relembrando o caso, penso que era um riso mixto, como devia
-ter a creatura que nascesse, por exemplo, de uma bruxa de Shakespeare
-com um seraphim de Klopstock. Não sei se me explico. E porque tinha
-noticia dos meus zelos tardios, parece que gostava de os açular mais.
-Assim foi que um dia, como eu lhe não pudesse dar certo collar, que
-ella vira n'um joalheiro, retorquiu-me que era um simples gracejo, que
-o nosso amor não precisava de tão vulgar estimulo.
-
---Não lhe perdôo, se você fizer de mim essa triste idéa, concluiu
-ameaçando-me com o dedo.
-
-E logo, subita como um passarinho, espalmou as mãos, cingiu-me com
-ellas o rosto, puxou-me a si e fez um tregeito gracioso, um momo de
-criança. Depois, reclinada na marqueza, continuou a fallar daquillo,
-com simplicidade e franqueza. Jámais consentiria que lhe comprassem os
-affectos. Vendera muita vez as apparencias, mas a realidade, guardava-a
-para poucos. O Duarte, por exemplo, o alferes Duarte, que ella amára
-devéras, dous annos antes, só a custo conseguia dar-lhe alguma cousa de
-valor, como me acontecia a mim; ella só lhe aceitava sem reluctancia os
-mimos de escasso preço, como a cruz de ouro, que lhe deu, uma vez, de
-festas.
-
---Esta cruz...
-
-Dizia isto, mettendo a mão no seio e tirando uma cruz fina, de ouro,
-presa a uma fita azul e pendurada ao collo.
-
---Mas essa cruz, observei eu, não me disseste que era teu pae que...
-
-Marcella abanou a cabeça com um ar de lastima:
-
---Não percebeste* que era mentira, que eu dizia isso para te não
-molestar? Vem cá, _chiquito_, não sejas assim desconfiado commigo...
-Amei a outro; que importa, se acabou? Um dia, quando nos separarmos...
-
---Não digas isso! bradei eu.
-
---Tudo cessa! Um dia...
-
-Não pôde acabar; um soluço estrangulou-lhe a voz; estendeu as mãos,
-tomou das minhas, conchegou-me ao seio, e sussurrou-me baixo ao
-ouvido:--Nunca, nunca, meu amor! Eu agradeci-lh'o com os olhos
-humidos. No dia seguinte levei-lhe o collar que havia recusado.
-
---Para te lembrares de mim, quando nos separarmos, disse eu.
-
-Marcella teve primeiro um silencio indignado; depois fez um gesto
-magnifico: tentou atirar o collar á rua. Eu retive-lhe o braço;
-pedi-lhe muito que não me fizesse tal desfeita, que ficasse com a joia.
-Sorriu e ficou.
-
-Entretanto, pagava-me á farta os sacrifícios; espreitava os meus mais
-reconditos pensamentos; não havia desejo a que não acudisse com alma,
-sem esforço, por uma especie de lei da consciencia e necessidade
-do coração. Nunca o desejo era razoavel, mas um capricho puro, uma
-criancice, vel-a trajar de certo modo, com taes e taes enfeites, este
-vestido e não aquelle, ir a passeio ou outra cousa assim, e ella cedia
-a tudo, risonha e palreira.
-
---Você é das Arabias, dizia-me.
-
-E ia pôr o vestido, a renda, os brincos, com uma obediencia de
-encantar.
-
-
-
-
-CAPITULO XVI
-
-
-Uma reflexão immoral
-
-
-Occorre-me uma reflexão immoral, que é ao mesmo tempo uma correcção de
-estylo. Cuido haver dito, no cap. XIII, que Marcella morria de amores
-pelo Xavier. Não morria, vivia. Viver não é a mesma cousa que morrer
-assim o affirmam todos os joalheiros desse mundo, gente muito vista
-na grammatica. Bons joalheiros, que seria do amor se não fossem os
-vossos dixes e fiados? Um terço ou um quinto do universal commercio
-dos corações. Esta é a reflexão immoral que eu pretendia fazer, a qual
-é ainda mais obscura do que immoral, porque não se entende bem o que
-eu quero dizer. O que eu quero dizer é que a mais bella testa do mundo
-não fica menos bella, se a cingir um diadema de pedras finas; nem menos
-bella, nem menos amada. Marcella, por exemplo, que era bem bonita,
-Marcella amou-me...
-
-
-
-
-CAPITULO XVII
-
-
-Do trapezio e outras cousas
-
-
-... Marcella amou-me durante quinze mezes e onze contos de réis; nada
-menos. Meu pae, logo que teve aragem dos onze contos, sobresaltou-se
-devéras; achou que o caso excedia as raias de um capricho juvenil.
-
---Desta vez, disse elle, vaes para a Europa; vaes cursar uma
-Universidade, provavelmente Coimbra; quero-te para homem serio e não
-para arruador e gatuno. E como eu fizesse um gesto de espanto:--Gatuno,
-sim, senhor; não é outra cousa um filho que me faz isto...
-
-Saccou da algibeira os meus titulos de divida, já resgatados por elle,
-e sacudiu-m'os na cara;--Vês, peralta? é assim que um moço deve zelar o
-nome dos seus? Pensas que eu e meus avós ganhámos o dinheiro em* casas
-de jogo ou a vadiar pelas ruas? Pelintra! Desta vez ou tomas juizo, ou
-ficas sem cousa nenhuma.
-
-Estava furioso; mas de um furor temperado e curto. Eu ouvi-o calado, e
-nada oppuz á ordem da viagem, como de outras vezes fizera; ruminava, a
-idéa de levar Marcella commigo. Fui ter com ella; expuz-lhe a crise e
-fiz-lhe a proposta. Marcella ouviu-me com os olhos no ar, sem responder
-logo; como insistisse, disse-me que ficava, que não podia ir para a
-Europa.
-
---Porque não?
-
---Não posso, disse ella com ar dolente; não posso ir respirar aquelles
-ares, emquanto me lembrar de meu pobre pae, morto por Napoleão...
-
---Qual delles: o hortelão ou o advogado?
-
-Marcella franziu a testa, cantarolou uma seguidilha, entre dentes;
-depois queixou-se do calor, e mandou vir um copo de aluá. Trouxe-lh'o
-a mucama, n'uma salva de prata, que fazia parte dos meus onze contos.
-Marcella offereceu-me polidamente o refresco; minha resposta foi dar
-com a mão no copo e na salva; entornou-se-lhe o liquido no regaço, a
-preta deu um grito, eu bradei-lhe que se fosse embora. Ficando a sós,
-derramei todo o desespero de meu coração; disse-lhe que ella era um
-monstro, que jámais me tivera amor, que me deixara descer a tudo, sem
-ter ao menos a desculpa da sinceridade; chamei-lhe muitos nomes feios,
-fazendo muitos gestos descompostos. Marcella deixára-se estar sentada,
-a estalar as unhas nos dentes, fria como um pedaço de marmore. Tive
-impetos de a estrangular, de a humiliar ao menos, subjugando-a a meus
-pés. Ia talvez fazel-o; mas a acção trocou-se n'outra; fui eu que me
-atirei aos pés della, contricto e supplice; beijei-lh'os, recordei
-aquelles mezes da nossa felicidade solitaria, repeti-lhe os nomes
-queridos de outro tempo, sentado no chão, com a cabeça entre os joelhos
-della, apertando-lhe muito as mãos; offegante, desvairado, pedi-lhe com
-lagrymas que me não desamparasse... Marcella esteve alguns instantes a
-olhar para mim, calados ambos, até que brandamente me desviou e, com um
-ar enfastiado:
-
---Não me aborreça, disse.
-
-Levantou-se, sacudiu o vestido, ainda molhado, e caminhou para a
-alcova.--Não! bradei eu; não has de entrar... não quero... Ia a
-lançar-lhe as mãos: era tarde; ella entrára e fechara-se.
-
-Sahi desatinado; gastei duas mortaes horas a vaguear pelos bairros mais
-excentricos e desertos, onde fosse difficil dar commigo. Ia mastigando
-o meu desespero, com uma especie de gula morbida; evocava os dias, as
-horas, os instantes de delirio, e ora me comprazia em crer que elles
-eram eternos, que tudo aquillo era um pesadelo, ora, enganando-me a mim
-mesmo, tentava rejeital-os de mim, como um fardo inutil. Então resolvia
-embarcar immediatamente para cortar a minha vida em duas metades, e
-deleitava-me com a idéa de que Marcella, sabendo da partida, ficaria
-ralada de saudades e remorsos. Que ella amara-me a tonta, devia de
-sentir alguma cousa, uma lembrança qualquer, como do alferes Duarte...
-Nisto, o dente do ciume enterrava-se-me no coração; e toda a natureza
-me bradava que era preciso levar Marcella commigo.
-
---Por força... por força... dizia eu ferindo o ar com uma punhada.
-
-Emfim, tive uma idéa salvadora... Ah! trapezio dos meus peccados,
-trapezio das concepções abstrusas! A idéa salvadora trabalhou nelle,
-como a do emplasto (cap. II.). Era nada menos que fascinal-a,
-fascinal-a muito, deslumbral-a, arrastal-a; lembrou-me pedir-lhe por
-um meio mais concreto do que a supplica. Não medi as consequencias;
-recorri a um derradeiro emprestimo; fui á rua dos Ourives, comprei a
-melhor joia da cidade, tres diamantes grandes, encastoados n'um pente
-de marfim; corri á casa de Marcella.
-
-Marcella estava reclinada n'uma rede, o gesto molle e cançado, uma das
-pernas pendentes, a ver-se-lhe o pésinho calçado de meia de seda, os
-cabellos soltos, derramados, o olhar quieto e somnolento.
-
---Vem commigo, disse eu, arranjei recursos...temos muito dinheiro,
-terás tudo o que quizeres...Olha, toma.
-
-E mostrei-lhe o ponte com os diamantes, Marcella teve um leve
-sobresalto; a pupilla rutilou como a de um gavião faminto; ella ergueu
-metade do corpo, e, apoiada n'um cotovello, olhou para o pente durante
-alguns instantes curtos; depois retirou os olhos; tinha se dominado.
-Então, eu lancei-lhe as mãos aos cabellos, colligi-os, enlacei-os á
-pressa, improvisei um toucado, sem nenhum alinho, e rematei-o com o
-pente de diamantes; recuei, tornei a aproximar-me, corrigi-lhe as
-madeixas, abaixei-as do um lado, busquei alguma symetria naquella
-desordem, tudo com unia minuciosidade e um carinho de mãe.
-
---Prompto, disse eu.
-
---Doudo! foi a sua primeira resposta.
-
-A segunda foi puxar-me para si, e pagar-me o sacrificio com um beijo, o
-mais ardente de todos. Depois tirou o pente, admirou muito a materia e
-o lavor, olhando a espaços para mim, e abanando a cabeça, com um ar de
-reprehensão:
-
---Ora você! dizia.
-
---Vens commigo?
-
-Marcella reflectiu um instante. Não gostei da expressão com que
-passeava os olhos de mim para a parede, e da parede para a joia;
-mas toda a má impressão se desvaneceu, quando ella me respondeu
-resolutamente:
-
---Vou. Quando embarcas?
-
---Daqui a dous ou tres dias.
-
---Vou.
-
-Agradeci-lh'o de joelhos. Tinha achado a minha Marcella dos primeiros
-dias, e disse-lh'o; ella sorriu, e foi guardar a joia, emquanto eu
-descia a escada.
-
-
-
-
-CAPITULO XVIII
-
-
-Visão do corredor
-
-
-No fim da escada, ao fundo do corredor escuro, parei alguns instantes
-para respirar, apalpar-me, convocar as idéas dispersas, rehaver-me
-emfim no meio de tantas sensações profundas e contrarias. Achava-me
-feliz. Certo é que os diamantes corrompiam-me um pouco a felicidade;
-mas não é menos certo que uma dama bonita pode muito bem amar os gregos
-e os seus presentes. E depois eu confiava na minha boa Marcella; podia
-ter defeitos, mas amava-me...
-
---Um anjo! murmurei eu olhando para o tecto do corredor.
-
-E ahi, como um escarneo, vi o olhar de Marcella, aquelle olhar que
-pouco antes me dera uma sombra de desconfiança, o qual chispava de
-cima de um nariz, que era ao mesmo tempo o nariz de Bakbarah e o meu.
-Pobre namorado das _Mil e uma noites!_ Vi-te alli mesmo correr atraz da
-mulher do vizir, ao longo da galeria, ella a acenar-te com a posse,
-e tu a correr, a correr, a correr, até a alameda comprida, donde
-sahiste á rua, onde todos os correeiros te apuparam e desancaram. Então
-pareceu-me que o corredor de Marcella era a alameda, e que a rua era a
-de Bagdad. Com effeito, olhando para a porta, vi na calçada, tres dos
-correeiros, um de batina, outro de libré, outro á paisana, os quaes
-todos tres entraram no corredor, tomaram-me pelos braços, metteram-me
-n'uma sege, meu pae á direita, meu tio conego á esquerda, o da libré
-na boléa, e lá me levaram á casa do intendente de policia, donde fui
-transportado a uma galera que devia seguir para Lisboa. Imaginem se
-resisti; mas toda a resistencia era inutil.
-
-Tres dias depois segui barra fóra, abatido e mudo. Não chorava sequer;
-tinha uma idéa fixa... Malditas idéas fixas! A dessa occasião era dar
-um mergulho no oceano, repetindo o nome de Marcella.
-
-
-
-
-CAPITULO XIX
-
-
-A bordo
-
-
-Eramos onze passageiros, um homem doudo, acompanhado pela mulher, dous
-rapazes que iam a passeio, quatro commerciantes e dous criados. Meu
-pae recommendou-me a todos, começando pelo capitão do navio, que aliás
-tinha muito que cuidar de si, porque, além do mais, levava a mulher
-tisica em ultimo gráu.
-
-Não sei se o capitão suspeitou alguma cousa do meu funebre projecto, ou
-se meu pae o poz de sobreaviso; sei que não me tirava os olhos de cima;
-chamava-me para toda a parte. Quando não podia estar commigo, levava-me
-para a mulher. A mulher ia quasi sempre n'uma camilha raza, a tossir
-muito, e a afiançar que me havia de mostrar os arredores de Lisboa.
-Não estava magra, estava transparente; era impossivel que não morresse
-de uma hora para outra. O capitão fingia não crer na morte proxima,
-talvez por enganar-se a si mesmo. Eu não sabia nem pensava nada. Que
-me importava a mim o destino de uma mulher tisica, no meio do oceano? O
-mundo para mim era Marcella.
-
-Uma noite, logo no fim do uma semana, achei ensejo propicio para
-morrer. Subi cauteloso, mas encontrei o capitão, que junto á amurada,
-tinha os olhos fitos no horizonte.
-
---Algum temporal? disse eu.
-
---Não, respondeu elle estremecendo; não; admiro o explendor da noite.
-Veja; está celestial!
-
-O estylo desmentia da pessoa, assaz rude e apparentemente alheia a
-locuções rebuscadas. Fitei-o; elle pareceu saborear o meu espanto.
-No fim de alguns segundos, pegou-me na mão e apontou para a lua,
-perguntando-me porque não fazia uma ode á noite; respondi-lhe que não
-era poeta. O capitão rosnou alguma cousa, deu dous passos, metteu a
-mão no bolso, saccou um pedaço de papel, muito amarrotado; depois, á
-luz de uma lanterna, leu uma ode horaciana sobre a liberdade da* vida
-maritima. Eram versos delle.
-
---Que tal?
-
-Não me lembra o que lhe disse; lembra-me que elle me apertou a mão
-com muita força e muitos agradecimentos; logo depois recitou-me dous
-sonetos; ia recitar-me outro, quando o vieram chamar da parte da
-mulher.--Lá vou, disse elle; e recitou-me o terceiro soneto, com pausa,
-com amor.
-
-Fiquei só; mas a musa do capitão varrera-me do espirito os pensamentos
-máus; preferi dormir, que é modo interino de morrer. No dia seguinte,
-acordamos debaixo de um temporal, que metteu medo a toda a gente,
-menos ao doudo; esse entrou a dar pulos, a dizer que a filha o mandava
-buscar, n'uma berlinda; a morte de uma filha fôra a causa da loucura.
-Não, nunca me ha de esquecer a figura hedionda do pobre homem, no
-meio do tumulto das gentes e dos uivos do furacão, a cantarolar e a
-bailar, com os olhos a saltarem-lhe da cara, pallido, a coma hirsuta,
-descomposta. Ás* vezes parava, erguia ao ar as mãos ossudas, fazia
-umas cruzes com os dedos, depois um xadrez, depois umas argolas, e ria
-muito, desesperadamente. A mulher não podia já cuidar delle; entregue
-ao terror da morte, rezava por si mesma a todos os santos do céu.*
-Emfim, a tempestade amainou depois de longas horas; e confesso que foi
-uma diversão excellente á tempestade do meu coração. Eu, que meditava
-ir ter com a morte, não ousei fital-a quando ella veiu ter commigo.
-
-Amainou o temporal, o capitão veiu perguntar-me se tivera medo, se
-estivera em risco, se não achára sublime o expectaculo; tudo isso com
-um interesse de amigo. Naturalmente a conversa versou sobre a vida do
-mar; o capitão perguntou-me se não gostava de idyllios piscatorios; eu
-respondi-lhe ingenuamente que não sabia o que era.
-
---Vae ver, respondeu elle.
-
-E recitou-me um poemasinho, depois outro,--uma egloga,--e emfim cinco
-sonetos, com os quaes rematou nesse dia a confidencia litteraria. No
-dia seguinte, antes de me recitar nada, explicou-me o capitão que só
-por motivos graves abraçara a profissão maritima, porque a avó queria
-que elle fosse padre, e com effeito possuia algumas lettras latinas;
-não chegou a ser padre, mas não deixou de ser poeta, que era a sua
-vocação natural; e em prova de que tal era a sua vocação, recitou-me
-logo, de corpo presente, uma centena de versos. Notei um phenomeno: os
-ademanes que elle usava eram taes, que uma vez me fizeram rir; mas o
-capitão, quando recitava, de tal sorte olhava para dentro de si mesmo,
-que não viu nem ouviu nada.
-
-Os dias passavam, e as aguas, e os versos, e com elles ia tambem
-passando a vida da mulher. Estava por pouco. Um dia, logo depois do
-almoço, disse-me o capitão que a enferma talvez não chegasse ao fim da
-semana.
-
---Já! exclamei.
-
---Passou muito mal a noite.
-
-Fui vel-a; achei-a, na verdade, quasi moribunda, mas fallando ainda de
-descançar em Lisboa alguns dias, antes de ir commigo a Coimbra, porque
-era seu proposito levar-me á Universidade. Deixei-a consternado; fui
-achar o marido a olhar para as vagas, que vinham morrer na costado
-do navio, e tratei de o consolar; elle agradeceu-me, relatou-me a
-historia dos seus amores, elogiou a fidelidade e a dedicação da
-mulher, relembrou os versos que lhe fez, e recitou-m'os. Neste ponto
-vieram buscal-o da parte della; corremos ambos; era uma crise. Esse
-e o dia seguinte foram crueis; o terceiro foi o da morte; eu fugi
-ao expectaculo, tinha-lhe repugnancia. Meia hora depois encontrei o
-capitão, sentado n'um mólho de cabos, com a cabeça nas mãos; disse-lhe
-alguma cousa de conforto.
-
---Morreu como uma santa, respondeu elle; e, para que estas palavras
-não pudessem ser levadas á conta de fraqueza, ergueu-se logo, sacudiu
-a cabeça, e fitou o horizonte, com um gesto longo e profundo.--Vamos,
-continuou, entreguemol-a á cova que nunca mais se abre.
-
-Effectivamente, poucas horas depois, era o cadaver lançado ao mar,
-com as ceremonias do costume. A tristeza murchára todos os rostos;
-o do viuvo trazia a expressão de um cabeço rijamente lascado pelo
-raio. Grande silencio. A vaga abriu o ventre, acolheu o despojo,
-fechou-se,--uma leve ruga,--e a galera foi andando. Eu deixei-me estar
-alguns minutos, á popa, com os olhos naquelle ponto incerto do mar em
-que ficava um de nós... Fui dalli ter com o capitão, para distrahil-o.
-
---Obrigado, disse-me elle comprehendendo a intenção; creia que nunca me
-esquecerei dos seus bons serviços. Deus é que lh'os ha de pagar. Pobre
-Leocadia! tu te lembrarás de nós no ceu.
-
-Enxugou com a manga uma lagrima importuna; eu busquei um derivativo na
-poesia, que era a paixão delle. Fallei-lhe dos versos, que me lera,
-e offereci-me para imprimil-os. Os olhos do capitão animaram-se um
-pouco.--Talvez aceite, disse elle; mas não sei... são bem frouxos
-versos. Jurei-lhe que não; pedi que os reunisse e me désse antes do
-desembarque.
-
---Pobre Leocadia! murmurou elle sem responder ao pedido. Um cadaver...
-o mar... o ceu... o navio...
-
-No dia seguinte veiu ler-me um epicedio composto de fresco, em que
-estavam memoradas as circumstancias da morte e da sepultura da
-mulher; leu-m'o com a voz commovida devéras, e a mão tremula; no fim
-perguntou-me se os versos eram dignos do thesouro que perdera.
-
---São, disse eu.
-
---Não haverá estro, ponderou elle, no fim de um instante, mas ninguem
-me negará sentimento, se não é que o proprio sentimento prejudicou a
-perfeição....
-
---Não me parece; acho os versos perfeitos.
-
---Sim, eu creio que... Versos de marujo.
-
---De marujo poeta.
-
-Elle levantou os hombros, olhou para o papel, e tornou a recitar
-a composição, mas já então sem tremuras, accentuando as intenções
-litterarias, dando relevo ás imagens e melodia aos versos. No fim,
-confessou-me que era a sua obra mais acabada, eu disse-lhe que sim;
-elle apertou-me muito a mão e predisse-me um grande futuro.
-
-
-
-
-CAPITULO XX
-
-
-Bacharelo-me
-
-
-Um grande futuro! Em quanto esta palavra me batia no ouvido, devolvia
-eu os olhos, ao longe, no horizonte mysterioso e vago. Uma idéa
-expellia outra, a ambição desmontava Marcella. Um grande futuro?
-Talvez naturalista, litterato, archeologo, banqueiro, politico, ou até
-bispo,--bispo que fosse,--uma vez que fosse um cargo, uma preeminencia,
-uma grande reputação, uma posição superior. A ambição, dado que fosse
-aguia, quebrou nessa occasião o ovo, e desvendou a pupilla fulva e
-penetrante. Adeus, amores; adeus, Marcella; dias de delirio, joias
-sem preço, vida sem regimen, adeus. Cá me vou ás fadigas e á gloria;
-deixo-vos com as calcinhas da primeira edade.
-
-E foi assim que desembarquei em Lisboa e segui para Coimbra. A
-Universidade esperava-me com as suas materias arduas, e não sei
-se profundas; estudei-as muito mediocremente, e nem por isso perdi
-o gráu de bacharel; deram-m'o com a solemnidade do estylo, após
-os annos da lei; uma bella festa que me encheu de orgulho e de
-saudades,--principalmente de saudades. Tinha eu conquistado em Coimbra
-uma grande nomeada de folião; era um academico estroina, superficial,
-tumultuario e petulante, dado ás aventuras, fazendo romantismo pratico
-e liberalismo theorico, vivendo na pura fé dos olhos pretos e das
-constituições escriptas. No dia em que a Universidade me attestou, em
-pergaminho, uma sciencia que eu estava longe de trazer arraigada no
-cerebro, confesso que me achei de de algum modo logrado, ainda que
-orgulhoso. Explico-me: o diploma era uma carta de alforria; se me dava
-a liberdade, dava-me a responsabilidade. Guardei-o, deixei as margens
-do Mondego, e vim por alli fóra assaz desconsolado, mas sentindo já
-uns impetos, uma curiosidade, um desejo de acotovellar os outros, de
-influir, de gozar, de viver,--de prolongar a Universidade pela vida
-adeante...
-
-
-
-
-CAPITULO XXI
-
-
-O almocreve
-
-
-Vae então, empacou o jumento em que eu vinha montado; fustiguei-o, elle
-deu dous corcovos, depois mais tres, emfim mais um, que me sacudiu
-fóra da sella, e com tal desastre, que o pé esquerdo me ficou preso no
-estribo; tento agarrar-me ao ventre do animal, mas já então, espantado,
-disparou pela estrada fóra. Digo mal: tentou disparar, e effectivamente
-deu dous saltos, mas um almocreve, que alli estava, acudiu atempo de
-lhe pegar na redea e detel-o, não sem esforço nem perigo. Dominado o
-bruto, desvencilhei-me do estribo e puz-me de pé.
-
---Olhe do que vosmecê escapou, disse o almocreve.
-
-E era verdade; se o jumento corre por alli fóra, contundia-me
-devéras, e não sei se a morte não estaria no fim do desastre; cabeça
-partida, uma congestão, qualquer transtorno cá dentro; e lá se me
-ia a bacharelice em flor. O almocreve salvara-me talvez a vida;
-era positivo; eu sentia-o no sangue que me agitava o coração. Bom
-almocreve! emquanto eu tornava á consciencia de mim mesmo, elle cuidava
-de concertar os arreios do jumento, com muito zelo e arte. Resolvi
-dar-lho tres moedas de ouro das cinco que trazia commigo; não porque
-tal fosse o preço da minha vida,--essa era inestimavel; mas por que era
-uma recompensa digna da dedicação com que elle me salvou. Está dito,
-dou-lhe as tres moedas.
-
---Prompto, disse elle apresentando-me a redea da cavalgadura.
-
---Daqui a nada, respondi; deixa-me, que ainda não estou em mim...
-
---Ora qual!
-
---Pois não é certo que ia morrendo?
-
---Se o jumento corre por ahi fóra, é possivel; mas, com a ajuda do
-Senhor, viu vosmecê que não aconteceu nada.
-
-Fui aos alforges, tirei um collete velho, em cujo bolso trazia as cinco
-moedas de ouro, e durante esse tempo cogitei se não era excessiva a
-gratificação, se não bastavam duas moedas. Talvez uma. Com effeito, uma
-moeda era bastante para lhe dar estremeções de alegria. Examinei-lhe
-a roupa; era um pobre diabo, que nunca jamais vira uma moeda de ouro.
-Portanto, uma moeda. Tirei-a, vi-a reluzir á luz do sol; não a viu o
-almocreve, por que eu tinha-lhe voltado as costas; mas suspeitou-o
-talvez, entrou a fallar ao jumento de um modo significativo; dava-lhe
-conselhos, dizia-lhe que tomasse juizo, que o «senhor doutor» podia
-castigal-o; um monologo paternal. Valha-me Deus! até ouvi estalar um
-beijo: era o almocreve que lhe beijava a testa.
-
---Olé! exclamei.
-
---Queira vosmecê perdoar, mas o diabo do bicho está a olhar para a
-gente com tanta graça...
-
-Ri-me, hesitei, metti-lhe na mão um cruzado em prata, cavalguei o
-jumento, e segui a trote largo, um pouco vexado, melhor direi um pouco
-incerto do effeito da pratinha. Mas a algumas braças de distancia,
-olhei para traz, o almocreve fazia-me grandes cortezias, com evidentes
-mostras de contentamento. Adverti que devia ser assim mesmo; eu
-pagara-lhe bem, pagara-lhe talvez de mais. Metti os dedos no bolso
-do collete que trazia no corpo e senti umas moedas de cobre; eram os
-vintens que eu devera ter dado ao almocreve, em logar do cruzado em
-prata. Porque, emfim, elle não levou em mira nenhuma recompensa ou
-virtude, cedeu a um impulso natural, ao temperamento, aos habitos do
-officio; accresce que a circumstancia de estar, não mais adeante nem
-mais atraz, mas justamente no ponto do desastre, parecia constituil-o
-simples instrumento de Providencia; e de um ou de outro modo, o
-merito do acto era positivamente nenhum. Fiquei desconsolado com esta
-reflexão, chamei-me prodigo, lancei o cruzado á conta das minhas
-dissipações antigas; tive (porque não direi tudo?) tive remorsos.
-
-
-
-
-CAPITULO XXII
-
-
-Volta ao Rio
-
-
-Jumento de uma figa, cortaste-me o fio ás reflexões. Já agora não digo
-o que pensei dalli até Lisboa, nem o que fiz em Lisboa, na peninsula e
-em outros logares da Europa, da velha Europa, que nesse tempo parecia
-remoçar. Não, não direi que assisti ás alvoradas do romantismo, que
-tambem eu fui fazer poesia effectiva no regaço da Italia; não direi
-cousa nenhuma. Teria de escrever um diario de viagem e não umas
-memorias, como estas são, nas quaes só entra a substancia da vida.
-
-Ao cabo de alguns annos de peregrinação attendi ás supplicas de meu
-pae:--«Vem, dizia elle na ultima carta; se não vieres depressa, acharás
-tua mãe morta!» Esta ultima palavra foi para mim um golpe. Eu amava
-minha mãe; tinha ainda deante dos olhos as circumstancias da ultima
-benção que ella me dera, a bordo do navio. «Meu triste filho, nunca
-mais te verei», soluçava a pobre senhora apertando-me ao peito. E
-essas palavras resoavam-me agora, como uma prophecia realizada.
-
-Note-se que eu estava em Veneza, ainda rescendente aos versos de lord
-Byron; lá estava, mergulhado em pleno sonho, revivendo o preterito,
-crendo-me na Serenissima Republica. É verdade; uma vez aconteceu-me
-perguntar ao locandeiro se o doge ia a passeio nesse dia.--Que doge,
-_signor mio?_ Cahi em mim, mas não confessei a illusão; disse-lhe que
-a minha pergunta era um genero de charada americana; elle mostrou
-comprehender, e accrescentou que gostava muito das charadas americanas.
-Era um locandeiro. Pois deixei tudo isso, o locandeiro, o doge, a ponte
-dos Suspiros, a gondola, os versos do lord, as damas do Rialto, deixei
-tudo, e disparei como uma bala na direcção do Rio de Janeiro.
-
-Vim... Mas não; não alonguemos este capitulo. Ás vezes, esqueço-me a
-escrever, e a penna vae comendo papel, com grave prejuizo meu, que
-sou autor. Capitulos compridos quadram melhor a leitores pesadões; e
-nós não somos um publico _in-folio_, mas _in_-12, pouco texto, larga
-margem, typo elegante, corte dourado e vinhetas... principalmente
-vinhetas... Não, não alonguemos o capitulo.
-
-
-
-
-CAPITULO XXIII
-
-
-Triste, mas curto
-
-
-Vim; e não nego que, ao avistar a cidade natal, tive uma sensação nova.
-Não era effeito da minha patria politica; era-o do logar da infancia,
-a rua, a torre, o chafariz da esquina, a mulher de mantilha, o preto
-do ganho, as cousas e scenas da meninice, buriladas na memoria. Nada
-menos que uma renascença. O espirito, como um passaro, não se lhe deu
-da corrente dos annos, arrepiou o vôo na direcção da fonte original, e
-foi beber da agua fresca e pura, ainda não mesclada do enxurro da vida.
-
-Reparando bem, ha ahi um logar-commum. Outro logar-commum, tristemente
-commum, foi a consternação da familia. Meu pae abraçou-me com
-lagrimas.--Tua mãe não póde viver, disse-me elle. Com effeito, não era
-já o rheumatismo que a matava, era um cancro no estomago. A infeliz
-padecia de um modo crú, porque o cancro é indifferente ás virtudes do
-sujeito; quando róe, róe; roer é o seu officio. Minha irmã Sabina, já
-então casada com o Cotrim, andava a cair de fadiga. Pobre moça! dormia
-tres horas por noite, nada mais. O proprio tio João estava abatido e
-triste. D. Eusebia e algumas outras senhoras lá estavam tambem, não
-menos tristes e não menos dedicadas.
-
---Meu filho!
-
-A dor suspendeu por um pouco as tenazes; um sorriso allumiou o rosto da
-enferma, sobre o qual a morte batia a aza eterna. Era menos um rosto do
-que uma caveira; a belleza passára, como um dia brilhante; restavam os
-ossos, que não emmagrecem nunca. Mal poderia conhecel-a; havia oito ou
-nove annos que nos não viamos. Ajoelhado, ao pé da cama, com as mãos
-della entre as minhas, fiquei mudo e quieto, sem ousar fallar, porque
-cada palavra seria um soluço, e nós temiamos avisal-a do fim. Vão
-temor! Ella sabia que estava prestes a acabar; disse-m'o; verificamol-o
-na seguinte manhã.
-
-Longa foi a agonia, longa e cruel, de uma crueldade minuciosa, fria,
-repisada, que me encheu de dor e estupefacção. Era a primeira vez
-que eu via morrer alguem. Conhecia a morte de outiva; quando muito,
-tinha-a visto já petrificada no rosto de algum cadaver, que acompanhei
-ao cemiterio, ou trazia-lhe a idéa embrulhada nas amplificações de
-rhetorica dos professores de cousas antigas,--a morte aleivosa de
-Cesar, a austera de Socrates, a orgulhosa de Catão. Mas esse duello do
-ser e do não ser, a morte em acção, dolorida, contrahida, convulsa,
-sem apparelho politico ou philosophico, a morte de uma pessoa amada,
-essa foi a primeira vez que a pude encarar. Não chorei; lembra-me
-que não chorei durante o expectaculo; tinha os olhos estupidos, a
-garganta presa, a consciência boquiaberta. Que? uma creatura tão
-docil, tão meiga, tão santa, que nunca jamais fizera verter uma
-lagrima de desgosto, mãe carinhosa, esposa immaculada, era força que
-morresse assim, trateada, mordida pelo dente tenaz de uma doença
-sem misericordia? Confesso que tudo aquillo me pareceu obscuro,
-incongruente, insano...
-
-Triste capitulo; passemos a outro mais alegre.
-
-
-
-
-CAPITULO XXIV
-
-
-Curto, mas alegro
-
-
-Fiquei prostrado. E comtudo era eu, nesse tempo, um fiel compendio de
-trivialidade e presumpção. Jamais o problema da vida e da morte me
-opprimira o cerebro; nunca até esse dia me debruçara sobre o abysmo do
-Inexplicavel; faltava-me o essencial, que é o estimulo, a vertigem...
-
-Para lhes dizer a verdade toda, eu reflectia as opiniões de um
-cabelleireiro, que achei em Modena, o qual se distinguia por não as
-ter absolutamente. Era a flor dois cabelleireiros; por mais demorada
-que fosse a operação do toucado, não enfadava nunca; elle intercalava
-as penteadelas com muitos motes e pulhas, cheios de um pico, de
-um sabor... E não tinha outra philosophia. Nem eu. Não digo que a
-Universidade me não tivesse ensinado alguma; mas eu decorei-lhe só
-as formulas, o vocabulario, o esqueleto. Tratei-a, como tratei o
-latim: embolsei tres versos de Virgilio, dous de Horacio, uma duzia
-de locuções moraes e politicas, para as despezas da conversação.
-Tratei-os como tratei a historia e a jurisprudencia. Colhi de todas as
-cousas a phraseologia, a casca, a ornamentação, que eram para o meu
-espirito, vaidoso e nu, o mesmo que, para o peito do selvagem, são as
-conchas do mar e os dentes de pessoa morta.
-
-Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a
-minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um
-defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a
-luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar
-os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que
-faz á consciência; e o melhor da obrigação é quando, á força de
-embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso
-poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hypocrisia, que é
-um vicio hediondo. Mas, na morte, que differença! que desabafo! que
-liberdade! Como a gente póde sacudir fóra a capa, deitar ao fosso as
-lentejoulas, despregar-se, despintar-se, desaffeitar-se, confessar
-lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em summa, já não ha
-visinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem extranhos; não
-ha platéa. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a
-virtude, logo que pisamos o territorio da morte; não digo que elle se
-não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não
-se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não ha nada tão
-incommensuravel como o desdem dos finados.
-
-
-
-
-CAPITULO XXV
-
-
-Na Tijuca
-
-
-Ui! lá me ia a penna a escorregar para o emphatico. Sejamos simples,
-como era simples a vida que levei na Tijuca, durante as primeiras
-semanas depois da morte de minha mãe.
-
-No setimo dia, acabada a missa funebre, travei de uma espingarda,
-alguns livros, roupa, charutos, um moleque,--o Prudencio da capitulo
-XI,--e fui metter-me n'uma velha, casa de nossa propriedade. Meu
-pae forcejou por me torcer a resolução, mas eu é que não podia nem
-queria obedecer-lhe. Sabina desejava que eu fosse morar com ella algum
-tempo,--duas semanas, ao menos; meu cunhado esteve a ponto de me levar
-á fina força. Era um bom rapaz este Cotrim; passára de estroina a
-circumspecto. Agora commerciava em generos de estiva, labutava de manhã
-até á noite, com ardor, com perseverança. De noite, sentado á janella,
-a encaracolar as suiças, não pensava em outra cousa. Amava a mulher e
-um filho, que então tinha, e que lhe morreu alguns annos depois. Diziam
-que era avaro.
-
-Renunciei tudo; tinha o espirito attonito. Creio que por então é
-que começou a desabotoar em mim a hypocondria, essa flor amarella,
-solitaria e morbida, de um cheiro inebriante e subtil.--«Que bom
-que é estar triste e não dizer cousa nenhuma!»--Quando esta palavra
-de Shakespeare me chamou a attenção, confesso que senti em mim um
-echo, um echo delicioso. Lembra-me que estava sentado, debaixo de um
-tamarineiro, com o livro do poeta aberto nas mãos, e o espirito ainda
-mais cabisbaixo do que a figura,--ou jururú, como dizemos das gallinhas
-tristes. Apertava ao peito a minha dor taciturna, com uma sensação
-unica, uma cousa a que poderia chamar volupia do aborrecimento. Volupia
-do aborrecimento: decora esta expressão, leitor; guarda-a, examina-a,
-e se não chegares a entendel-a, podes concluir que ignoras uma das
-sensações mais subtis desse mundo e daquelle tempo.
-
-Ás vezes caçava, outras dormia, outras lia,--lia muito,--outras emfim
-não fazia nada; deixava-me atoar de idéa em idéa, de imaginação em
-imaginação, como uma borboleta vadia ou faminta; e as horas iam
-pingando uma a uma, o sol cahia, as sombras da noite velavam a montanha
-e a cidade. Ninguem me visitava; recommendei expressamente que me
-deixassem só. Um dia, dous dias, tres dias, uma semana inteira passada
-assim, sem dizer palavra, era bastante para sacudir-me da Tijuca fóra
-e restituir-me ao bulicio. Com effeito, ao cabo de sete dias, estava
-farto da solidão; a dor applacára; o espirito já se não contentava com
-o uso da espingarda e dos livros, nem com a vista do arvoredo e do ceu.
-Reagia a mocidade, era preciso viver. Metti no bahú o problema da vida
-e da morte, os hypocondriacos do poeta, as camisas, as meditações, as
-gravatas, e ia fechal-o, quando o moleque Prudencio me disse que uma
-pessoa do meu conhecimento se mudára na vespera para uma casa roxa,
-situada a duzentos passos da nossa.
-
---Quem?
-
---Nhonhô talvez não se lembre mais de D. Eusebia...
-
---Lembra-me... É ella?
-
---Ella e a filha. Vieram hontem de manhã.
-
-Occorreu-me logo o episodio de 1814, e senti-me vexado; mas adverti que
-os acontecimentos tinham-me dado razão. Na verdade, fôra impossivel
-evitar as relações intimas do Villaça com a irmã do sargento-mór; antes
-mesmo do meu embarque, já se boquejava mysteriosamente no nascimento
-de uma menina. Meu tio João mandou-me dizer depois que o Villaça, ao
-morrer, deixara um bom legado a D. Eusebia, cousa que deu muito que
-fallar em todo o bairro. O proprio tio João, guloso de escandalos, não
-tratou de outro assumpto na carta, aliás de muitas folhas. Tinham-me
-dado razão os acontecimentos. Ainda porém que m'a não dessem, 1814 lá
-ia longe, e, com elle, a travessura, e o Villaça, e o beijo da moita;
-finalmente, nenhumas relações estreitas existiam entre mim e ella. Fiz
-commigo essa reflexão e acabei de fechar o bahú.
-
---Nhonhô não vae visitar sinhá D. Eusebia? perguntou-me o Prudencio.
-Foi ella quem vestiu o corpo da minha defunta senhora.
-
-Lembrei-me que a vira, entre outras senhoras, por occasião da morte e
-do enterro; ignorava porém que ella houvesse prestado a minha mãe esse
-derradeiro obsequio. A ponderação do moleque era razoavel; eu devia-lhe
-uma visita; determinei fazel-a immediatamente, e descer.
-
-
-
-
-CAPITULO XXVI
-
-
-O autor hesita
-
-
-Súbito ouço uma voz:--Olá, meu rapaz, isto não é vida! Era meu pae, que
-chegava com duas propostas na algibeira. Sentei-me no bahú e recebi-o
-sem alvoroço. Elle esteve alguns instantes de pé, a olhar para mim;
-depois estendeu-me a mão com um gesto commovido:
-
---Meu filho, conforma-te com a vontade de Deus.
-
---Já me conformei, foi a minha resposta, e beijei-lhe a mão.
-
-Não tinha almoçado; almoçámos juntos. Nenhum de nós alludiu ao triste
-motivo da minha reclusão. Uma só vez fallámos nisso, de passagem,
-quando meu pae fez recahir a conversa na Regencia; foi então que
-alludiu á carta de pezames que um dos Regentes lhe mandara. Trazia a
-carta comsigo, já bastante amarrotada, talvez por havel-a lido a muitas
-outras pessoas. Creio haver dito que era de um dos Regentes. Leu-m'a
-duas vezes.
-
---Já lhe fui agradecer este signal de consideração, concluiu meu pae, e
-acho que deves ir tambem...
-
---Eu?
-
---Tu; é um homem notavel, faz hoje as vezes de Imperador. Demais trago
-commigo uma idéa, um projecto, ou... sim, digo-te tudo; trago dous
-projectos, um logar de deputado e um casamento.
-
-Meu pae disse isto com pausa, e não no mesmo tom, mas dando ás palavras
-um geito e disposição, cujo fim era caval-as mais profundamente no
-meu espirito. A proposta, porém, desdizia tanto das minhas sensações
-ultimas, que eu cheguei a não entendel-a bem. Meu pae não fraqueou e
-repetiu-a; encareceu o logar e a noiva.
-
---Aceitas?
-
---Não entendo de politica, disse eu depois de um instante; quanto á
-noiva... deixe-me viver como um urso, que sou.
-
---Mas os ursos casam-se, replicou elle.
-
---Pois traga-me uma ursa. Olhe, a Ursa-Maior.
-
-Riu-se meu pae, e depois de rir, tornou a fallar serio. Era-me
-necessaria a carreira politica, dizia elle, por vinte e tantas razões,
-que deduziu com singular volubilidade, illustrando-as com exemplos
-de pessoas do nosso conhecimento. Quanto á noiva, bastava que eu a
-visse; se a visse, iria logo pedil-a ao pae, logo, sem demora de um
-dia. Experimentou assim a fascinação, depois a persuasão, depois a
-intimação; eu não dava resposta, afiava a ponta de um palito ou fazia
-bolas de miolo de pão, a sorrir ou a reflectir; e, para tudo dizer, nem
-docil nem rebelde á proposta. Sentia-me aturdido. Uma parte de mim
-mesmo dizia que sim, que uma esposa formosa e uma posição politica eram
-bens dignos de apreço; outra dizia que não; e a morte de minha mãe me
-apparecia como um exemplo da fragilidade das cousas, das affeições, da
-familia...
-
---Não vou daqui sem uma resposta definitiva, disse meu pae.
-De-fi-ni-ti-va! repetiu, batendo as syllabas com o dedo.
-
-Bebeu o ultimo gole de café; repotreou-se, e entrou a fallar de tudo,
-do senado, da camara, da Regencia, da restauração, do Evaristo, de um
-coche que pretendia comprar, da nossa casa de Matta-cavallos... Eu
-deixava-me estar ao canto da mesa, a escrever desvairadamente n'um
-pedaço de papel, com uma ponta de lapis; traçava uma palavra, uma
-phrase, um verso, um nariz, um triangulo, e repetia-os muitas vezes,
-sem ordem, ao acaso, assim:
-
- arma virumque cano
- A
- Arma virumque cano
- arma virumque cano
- arma virumque
- arma virumque cano
- virumque
-
-Machinalmente tudo isto; e, não obstante, havia certa lógica, certa
-deducção; por exemplo, foi o _virumque_ que me fez chegar ao nome
-do proprio poeta, por causa da primeira syllaba; ia a escrever
-_virumque_--e sae-me _Virgilio_, então continuei:
-
- Vir Virgilio
- Virgilio Virgilio
- Virgilio
- Virgilio
-
-Meu pae, um pouco despeitado com aquella indifferença, ergueu-se, veiu
-a mim, lançou os olhos ao papel...
-
---Virgilio! exclamou. És tu, meu rapaz; a tua noiva chama-se justamente
-Virgilia.
-
-
-
-
-CAPITULO XXVII
-
-
-Virgilia?
-
-
-Virgilia? Mas então era a mesma senhora que alguns annos depois...? A
-mesma; era justamente a senhora, que em 1869 devia assistir aos meus
-ultimos dias, e que antes, muito antes, teve larga parte nas minhas
-mais intimas sensações. Naquelle tempo contava apenas uns quinze ou
-dezeseis annos, e era talvez a mais atrevida creatura da nossa raça,
-e, com certeza, a mais voluntariosa. Não digo que já lhe coubesse
-a primazia da belleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto não
-é romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos
-ás sardas e espinhas; mas tambem não digo que lhe maculasse o rosto
-nenhuma sarda ou espinha; não. Era bonita, fresca, sahia das mãos da
-natureza, cheia daquelle feitiço, precario e eterno, que o individuo
-passa a outro individuo, para os fins secretos da creação. Era isto
-Virgilia, e era clara, muito clara, faceira, ignorante, pueril, cheia
-de uns impetos mysteriosos; muita preguiça e alguma devoção,--devoção,
-ou talvez medo; creio que medo.
-
-Ahi tem o leitor, em poucas linhas, o retrato physico e moral da pessoa
-que devia influir mais tarde na minha vida; era aquillo com dezeseis
-annos. Tu que me lês, se ainda fores viva, quando estas paginas vierem
-á luz,--tu que me lês, Virgilia amada, não reparas na differença entre
-a linguagem de hoje e a que primeiro empreguei quando te vi? Crê que
-era tão sincero então como agora; a morte não me tornou rabujento, nem
-injusto.
-
---Mas, dirás tu, se você não guardou na retina da memoria a imagem do
-que fui, como é que póde assim discernir a verdade daquelle tempo, e
-exprimil-a depois de tantos annos?
-
-Ah! indiscreta! ah! ignorantona! Mas é isso mesmo que nos faz
-senhores da terra, é esse poder de restaurar o passado, para tocar a
-instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos nossos affectos.
-Deixa lá dizer o Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é
-uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição,
-que corrige a anterior, e que será corrigida tambem, até a edição
-definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.
-
-
-
-
-CAPITULO XXVIII
-
-
-Contanto que...
-
-
---Virgilia? interrompi eu.
-
---Sim, senhor; é o nome da noiva. Um anjo, meu pateta, um anjo sem
-azas. Imagina uma moça assim, desta altura, viva como um azougue, e uns
-olhos... filha do Dutra...
-
---Que Dutra?
-
---O Conselheiro Dutra; não conheces; uma influencia politica. Vamos lá;
-aceitas?
-
-Não respondi logo; fitei por alguns segundos a ponta do botim; declarei
-depois que estava disposto a examinar as duas cousas, a candidatura e o
-casamento, comtanto que...
-
---Comtanto que?
-
---Comtanto que não fique obrigado a aceitar as duas; creio que posso
-ser separadamente homem casado ou homem publico...
-
---Todo o homem publico deve ser casado, interrompeu sentenciosamente
-meu pae. Mas seja como queres; estou por tudo; fico certo de que a
-vista fará fé. Demais, a noiva e o casamento são a mesma cousa... isto
-é, não... saberás depois... Vá; aceito a dilação, comtanto que...
-
---Comtanto que?.. interrompi eu imitando-lhe a voz.
-
---Ah! brejeiro! Comtanto que não te deixes ficar ahi inutil, obscuro,
-e triste; não gastei dinheiro, cuidados, empenhos, para te não ver
-brilhar, como deves, e te convem, e a todos nós; é preciso continuar
-o nosso nome, continual-o e illustral-o ainda mais. Olha, estou com
-sessenta annos, mas se fosse necessário começar vida nova, começava-a
-sem hesitar um só minuto. Teme a obscuridade, Braz; foge do que é
-infimo. Olha que os homens valem por differentes modos, e que o mais
-seguro de todos é valer pela opinião dos outros homens. Não estragues
-as vantagens da tua posição, os teus meios...
-
-E foi por deante o magico, a agitar deante de mim um chocalho, como me
-faziam, em pequeno, para eu andar depressa, e a flor da hypocondria
-recolheu-se ao botão para deixar a outra flor menos amarella, e nada
-morbida,--o amor da nomeada, o emplasto Braz Cubas.
-
-
-
-
-CAPITULO XXIX
-
-
-A visita
-
-
-Vencera meu pae; dispuz-me a aceitar o diploma e o casamento, Virgilia
-e a camara dos deputados.--As duas Virgilias, disse elle n'um assomo
-de ternura politica. Aceitei-os; meu pae deu-me dous fortes abraços.
-Era o seu proprio sangue que elle, emfim, reconhecia. Rigorosamente,
-o filho delle acabava de desembarcar naquelle instante, de rodaque de
-linho e mãos nos bolsos. Havia então nos olhos de meu pae alguma cousa
-do velho Cid; era a alma que colligira n'uma só flamma todas as ultimas
-scentelhas.
-
---Desces commigo?
-
---Desço amanhã. Vou fazer primeiramente uma visita a D. Eusebia...
-
-Meu pae torceu o nariz, mas não disse nada; despediu-se e desceu. Eu,
-na tarde desse mesmo dia, fui visitar D. Eusebia. Achei-a a reprehender
-um preto jardineiro, mas deixou tudo para vir fallar-me, com um
-alvoroço, um prazer tão sincero, que me desacanhou logo. Creio que
-chegou a cingir-me com o seu par de braços robustos. Fez-me sentar ao
-pé de si, na varanda, entre muitas exclamações de contentamento.
-
---Ora, o Brázinho! Um homem! Quem diria, ha annos... Um homemzarrão! E
-bonito! Qual! Você não se lembra bem de mim...
-
-Disse-lhe que sim, que não era possivel esquecer uma amiga tão
-familiar de nossa casa. D. Eusebia começou a fallar de minha mãe, com
-muitas saudades, com tantas saudades, que me captivou logo, posto
-me entristecesse. Ella percebeu-o nos meus olhos, e torceu a rédea
-á conversação; pediu-me que lhe contasse a viagem, os estudos, os
-namoros... Sim, os namoros tambem; confessou-me que era uma velha
-patusca. Nisto recordei-me do episodio de 1814, ella, o Villaça, a
-moita, o beijo, o meu grito; e estando a recordal-o, ouço um ranger de
-porta, um farfalhar de saias e esta palavra:
-
---Mamãe... mamãe...
-
-
-
-
-CAPITULO XXX
-
-
-A flor da moita
-
-
-A voz e as saias pertenciam a uma mocinha morena, que se deteve á
-porta, alguns instantes, ao ver gente extranha. Silencio curto e
-constrangido. D. Eusebia quebrou-o, enfim, com resolução e franqueza:
-
---Vem cá, Eugenia, disse ella, comprimenta o Dr. Braz Cubas, filho do
-Sr. Cubas; veiu da Europa.
-
-E voltando-se para mim:
-
---Minha filha Eugenia.
-
-Eugenia, a flor da moita, mal respondeu ao gesto de cortezia que lhe
-fiz; olhou-me admirada e acanhada, e lentamente se aproximou da cadeira
-da mãe. A mãe arranjou-lhe uma das tranças do cabello, cuja ponta se
-desmanchara.--Ah! travessa! dizia. Não imagina, doutor, o que isto
-é... E beijou-a com tão expansiva ternura que me commoveu um pouco;
-lembrou-me minha mãe, e,--direi tudo,--tive umas cocegas de ser pae.
-
---Travêssa? disse eu. Pois já não está em edade propria, ao que parece.
-
---Quantos lhe dá?
-
---Dezesete.
-
---Menos um.
-
---Dezeseis. Pois então! é uma moça.
-
-Não pôde Eugenia encobrir a satisfação que sentia com esta minha
-palavra, mas emendou-se logo, e ficou como d'antes, erecta, fria e
-muda. Na verdade, ella parecia ainda mais mulher do que era; seria
-criança nos seus folgares de moça; mas assim quieta, impassivel,
-tinha a compostura da mulher casada. Talvez essa circumstancia lhe
-diminuia um pouco da graça virginal. Depressa nos familiarisámos; a mãe
-fazia-lhe grandes elogios, eu escutava-os de boa sombra; e ella sorria,
-com os olhos fulgidos, como se lá dentro do cerebro lhe estivesse a
-voar uma borboletinha de azas de ouro e olhos de diamante...
-
-Digo lá dentro, porque cá fóra o que esvoaçou foi uma borboleta preta,
-que subitamente penetrou na varanda, e começou a bater as azas em
-derredor de D. Eusebia. D. Eusebia deu um grito, levantou-se, praguejou
-umas palavras soltas:--T'esconjuro!... sáe, diabo!... Virgem Nossa
-Senhora!...
-
---Não tenha medo, disse eu; e, tirando o lenço, expelli a borboleta. D.
-Eusebia sentou-se outra vez, offegante, um pouco envergonhada; a filha,
-pode ser que pallida de medo, dissimulava a impressão com muita força
-de vontade. Apertei-lhes a mão e saí, a rir commigo da superstição
-das duas mulheres, um rir philosophico, desinteressado, superior.
-De tarde, vi passar a cavallo afilha de D. Eusebia, seguida de um
-pagem; fez-me um comprimento com a ponta do chicote; e confesso que me
-lisongeei com a idéa de que, alguns passos adeante, ella voltaria a
-cabeça para traz; mas não voltou.
-
-
-
-
-CAPITULO XXXI
-
-
-A borboleta preta
-
-
-No dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou
-no meu quarto uma borboleta, tão negra como a outra, e muito maior do
-que ella. Lembrou-me o caso da vespera, e ri-me; entrei logo a pensar
-na filha de D. Eusebia, no susto que tivera, e na dignidade que, apezar
-delle, soube conservar. A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno
-de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ella foi pousar na vidraça; e,
-porque eu a sacudisse de novo, saíu* dalli e veiu parar em cima de um
-velho retrato de meu pae. Era negra como a noite; e o gesto brando
-com que, uma vez posta, começou a mover as azas, tinha um certo ar
-escarninho, uma especie de ironia mephistophelica, que me aborreceu
-muito. Dei de hombros, saí do quarto; mas tornando lá, minutos depois,
-e achando-a ainda no mesmo logar, senti um repellão dos nervos, lancei
-mão de uma toalha, bati-lhe e ella caíu.
-
-Não caíu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça.
-Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depol-a no peitoril da
-janella. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei
-um pouco aborrecido, incommodado.
-
---Tambem porque diabo não era ella azul? disse eu commigo.
-
-E esta reflexão,--uma das mais profundas que se tem feito, desde a
-invenção das borboletas,--me consolou do maleficio, e me reconciliou
-commigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadaver, com alguma
-sympathia, confesso. Imaginei que ella saíra do mato, almoçada e feliz.
-A manhã era linda. Veiu por alli fóra, modesta e negra, espairecendo
-as suas borboletices sob a vasta cupula de um céo azul, que é sempre
-azul, para todas as azas. Passa pela minha janella, entra e dá commigo.
-Supponho que nunca teria visto um homem; não-sabia, portanto, o que era
-o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que
-me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura
-collossal. Então disse comsigo: «Este é provavelmente o inventor das
-borboletas.» A idéa subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é tambem
-suggestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu creador
-era beijal-o na testa; e ella beijou-me na testa. Quando enxotada por
-mim, foi pousar na vidraça, viu dalli o retrato de meu pae, e não é
-impossivel que descobrisse meia verdade, a saber, que estava alli o pae
-do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericordia.
-
-Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a immensidade
-azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra
-uma toalha de rosto, dous palmos de linho crú. Vejam como é bom ser
-superior ás borboletas! Porque, é* justo dizel-o, se ella fosse azul,
-ou côr de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossivel
-que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. Não
-era. Esta ultima idéa restituiu-me a consolação, uni o dedo grande ao
-polegar, despedi um piparote e o cadaver caiu no jardim. Era tempo; ahi
-vinham já as providas formigas... Não, volto á primeira idéa; creio que
-para ella era melhor ter nascido azul.
-
-
-
-
-CAPITULO XXXII
-
-
-Coxa de nascença
-
-
-Fui dalli acabar os preparativos da viagem. Já agora não me demoro
-mais. Desço immediatamente; desço ainda que algum leitor circumspecto
-me detenha para perguntar se o capitulo passado é apenas uma sensaboria
-ou se chega a empulhação... Ai de mim! Não contava com D. Eusebia.
-Estava prompto, quando me entrou por casa. Vinha convidar-me para
-transferir a descida, e ir lá jantar nesse dia. Cheguei a recusar; mas
-instou tanto, tanto, tanto, que não pude deixar de aceitar; demais,
-era-lhe devida aquella compensação; fui.
-
-Eugenia desataviou-se nesse dia por minha causa. Creio que foi por
-minha causa,--se é que não andava muita vez assim. Nem as bichas de
-ouro, que trazia na vespera, lhe pendiam agora das orelhas, duas
-orelhas finamente recortadas n'uma cabeça de nympha. Um simples vestido
-branco, de cassa, sem enfeites, tendo ao collo, em vez de broche, um
-botão de madreperola, e outro botão nos punhos, fechando as mangas, e
-nem sombra de pulseira.
-
-Era isso no corpo; não era outra cousa no espirito. Idéas claras,
-maneiras chãs, certa graça natural, um ar de senhora, e não sei se
-alguma outra cousa; sim, a boca, exactamente a boca da mãe, a qual me
-lembrava o episodio de 1814, e então dava-me impetos de glosar o mesmo
-mote á filha...
-
---Agora vou mostrar-lhe a chacara, disse a mãe, logo que exgotámos o
-ultimo gole de café.
-
-Saímos á varanda, dalli á chacara; e foi então que notei uma
-circumstancia. Eugenia coxeava um pouco, tão pouco, que eu cheguei a
-perguntar-lhe se machucara o pé. A mãe calou-se; a filha respondeu sem
-titubear:
-
---Não, senhor, sou coxa de nascença.
-
-Mandei-me a todos os diabos; chamei-me desastrado, grosseirão. Com
-effeito, a simples possibilidade de ser coxa era bastante para lhe
-não perguntar nada. Então lembrou-me que da primeira vez que a vi na
-vespera--a moça chegára-se lentamente á cadeira da mãe, e que naquelle
-dia já a achei á mesa de jantar. Talvez fosse para encobrir o defeito;
-mas por que razão o confessava agora? Olhei para ella e reparei que ia
-triste.
-
-Tratei de apagar os vestigios de meu desaso;--não me foi difficil, por
-que a mãe era, segundo confessara, uma velha patusca, e promptamente
-travou de conversa commigo. Vimos toda a chacara, arvores, flores,
-tanque de patos, tanque de lavar, uma infinidade de cousas, que ella me
-ia mostrando, e commentando, ao passo que eu, de soslaio, perscrutava
-os olhos de Eugenia...
-
-Palavra que o olhar de Eugenia não era coxo, mas direito, perfeitamente
-são; vinha de uns olhos pretos e tranquillos. Creio que duas ou tres
-vezes baixaram elles a terra, um pouco turvados; mas duas ou tres
-vezes sómente; em geral, fitavam-me com franqueza, sem temeridade, nem
-biocos.
-
-
-
-
-CAPITULO XXXIII
-
-
-Bemaventurados os que não descem
-
-
-O peor é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma
-compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a
-natureza é ás vezes um immenso escarneo. Porque bonita, se coxa? porque
-coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo
-ao voltar para casa, de noite; e não atinava com a solução do enigma.
-O melhor que ha, quando se não resolve um enigma, é sacudil-o pela
-janella fóra; foi o que eu fiz; lancei mão de uma toalha e enxotei essa
-outra borboleta preta, que me adejava no cerebro. Fiquei alliviado e
-fui dormir. Mas o sonho, que é uma fresta do espirito, deixou novamente
-entrar o bichinho, e ahi fiquei eu a noite toda a cavar o mysterio, sem
-explical-o.
-
-Amanheceu chovendo, transferi a descida; mas no outro dia, a manhã
-era limpida e azul, e apezar disso deixei-me ficar, não menos que
-no terceiro dia, e no quarto, até o fim da semana. Manhãs bonitas,
-frescas, convidativas; lá em baixo a familia a chamar-me, e a noiva, e
-o parlamento, e eu sem acudir a cousa nenhuma, enlevado ao pé da minha
-Venus Manca. Enlevado é uma maneira de realçar o estylo; não havia
-enlevo, mas gosto, uma certa satisfação physica e moral. Queria-lhe,
-é verdade; ao pé dessa creatura tão singela, filha espuria e coxa,
-feita de amor e desprezo, ao pé della sentia-me bem, e ella creio que
-ainda se sentia melhor ao pé de mim. E isto na Tijuca. Uma simples
-egloga. D. Eusebia vigiava-nos, mas pouco; temperava a necessidade
-com a conveniencia; e a filha, nessa primeira explosão da natureza,
-entregava-me a alma em flôr.
-
---O senhor desce amanhã? disse-me ella no sabbado.
-
---Pretendo.
-
---Não desça.
-
-Não desci; e accrescentei um versiculo ao Evangelho:--Bemaventurados
-os que não descem, porque delles é o primeiro beijo das damas. Com
-effeito, foi no domingo esse primeiro beijo de Eugenia,--o primeiro que
-nenhum outro varão jamais lhe tomára, e não furtado ou arrebatado, mas
-candidamente entregue, como um devedor honesto paga uma divida. Pobre
-Eugenia! Se tu soubesses que idéas me vagavam pela mente fóra n'aquella
-occasião! Tu, tremula de commoção, com os braços nos meus hombros, a
-contemplar em mim o teu bemvindo esposo, e eu com os olhos em 1814, na
-moita, no Villaça, e a suspeitar que não podias mentir ao teu sangue, á
-tua origem...
-
-D. Eusebia entrou inesperadamente, mas não tão subita, que nos
-apanhasse ao pé um do outro. Eu fui até á janella: Eugenia sentou-se a
-concertar uma das tranças. Que dissimulação graciosa! que arte infinita
-e delicada! que tartufice profunda! e tudo isso natural vivo, não
-estudado, natural como o appetite, natural como o somno. Tanto melhor!
-D. Eusebia não suspeitou nada.
-
-
-
-
-CAPITULO XXXIV
-
-
-A uma alma sensivel
-
-
-Ha ahi, entre as cinco ou dez pessoas que me leem, ha ahi uma alma
-sensivel, que está de certo um pouquito agastada com o capitulo
-anterior, começa a tremer pela sorte de Eugenia, e talvez... sim,
-talvez, lá no fundo de si mesma, me chame cynico. Eu cynico, alma
-sensivel? Pela coxa de Diana! esta injuria merecia ser lavada com
-sangue, se o sangue lavasse alguma cousa nesse mundo. Não, alma
-sensivel, eu não sou cynico, eu fui homem; meu cerebro foi um tablado
-em que se deram peças de todo o genero, o drama sacro, o austero, o
-piegas, a comedia louçã, a desgrenhada farça, os autos, as bufonerias,
-um pandemonium, alma sensível, uma barafunda de cousas e pessoas,
-em que podias ver tudo, desde a rosa de Smyrna até a arruda do teu
-quintal, desde o magnifico leito de Cleopatra até o recanto da praia
-em que o mendigo tirita o seu somno. Cruzavam-se nelle pensamentos
-de varia casta e feição. Não havia alli a atmosphera sómente da aguia
-e do beija-flor, havia tambem a da lesma e do sapo. Retira, pois, a
-expressão, alma sensivel, castiga os nervos, limpa os oculos,--que isso
-ás vezes é dos oculos,--e acabemos de uma vez com esta flor da moita.
-
-
-
-
-CAPITULO XXXV
-
-
-O caminho de damasco
-
-
-Ora aconteceu, que, oito dias depois, como eu estivesse no caminho
-de Damasco, ouvi uma voz misteriosa, que me sussurrou as palavras da
-Escriptura (_Act._, IX, 7): «Levanta-te, e entra na cidade.» Essa voz
-saia de mim mesmo, e tinha duas origens: a piedade, que me desarmava
-ante a candura da pequena, e o terror de vir a amar devéras, e
-desposal-a. Uma mulher coxa! Quanto a este motivo da minha descida, não
-ha duvidar que ella o achou e m'o disse. Foi na varanda, na tarde de
-uma segunda-feira, ao annunciar-lhe que na seguinte manhã viria para
-baixo.--Adeus, suspirou ella estendendo-me a mão com simplicidade; faz
-bem.--E como eu nada dissesse, continuou:--Faz bem em fugir ao ridículo
-de casar commigo. Ia dizer-lhe que não; ella retirou-se lentamente,
-engolindo as lagrimas. Alcancei-a a poucos passos, e jurei-lhe por
-todos os santos do ceu que eu era obrigado a descer, mas que não
-deixava de lhe querer e muito; tudo hyperboles frias, que ella escutou
-sem dizer nada.
-
---Acredita-me? perguntei eu no fim.
-
---Não; e digo-lhe que faz bem.
-
-Quiz retel-a, mas o olhar que me lançou não foi já de supplica, senão
-de imperio. Eu desci da Tijuca, na manhã seguinte, um pouco amargurado,
-outro pouco satisfeito; e vinha dizendo a mim mesmo que era justo
-obedecer a meu pae, que era conveniente abraçar a carreira politica...
-que a constituição... que a minha noiva... que o meu cavallo...
-
-
-
-
-CAPITULO XXXVI
-
-
-A proposito de botas
-
-
-Meu pae, que me não esperava, abraçou-me cheio de ternura e
-agradecimento.--Agora é devéras? disse elle. Posso emfim....?
-
-Deixei-o nessa reticencia, e fui descalçar as botas, que estavam
-apertadas. Uma vez alliviado, respirei á larga, e deitei-me a fio
-comprido, emquanto os pés, e todo eu atraz delles, entravamos n'uma
-relativa bem-aventurança. Então considerei que as botas apertadas
-são uma das maiores venturas da terra, porque, fazendo doer os pés,
-dão azo ao prazer de as descalçar. Mortifica os pés, desgraçado,
-desmortifica-os depois, e ahi tens a felicidade barata, ao sabor dos
-sapateiros e de Epicuro. Emquanto esta idéa me trabalhava no famoso
-trapezio, lançava eu os olhos para a Tijuca, e via a aleijadinha
-perder-se no horizonte do preterito, e sentia que o meu coração não
-tardaria tambem a descalçar as suas botas. E descalçou-as o lascivo.
-Quatro ou cinco dias depois, saboreava esse rapido, ineffavel e
-incoercivel momento de gozo, que succede a uma dôr pungente, a uma
-preoccupação, a um incommodo... Daqui inferi eu que a vida é o mais
-engenhoso dos phenomenos, porque só aguça a fome, com o fim de deparar
-a occasião de comer, e não inventou os callos, senão porque elles
-aperfeiçoam a felicidade terrestre. Em verdade vos digo que toda a
-sabedoria humana não vale um par de botas curtas.
-
-Tu, minha Eugenia, é que não as descalçaste nunca; foste ahi pela
-estrada da vida, manquejando da perna e do amor, triste como os
-enterros pobres, solitaria, calada, laboriosa, até que vieste tambem
-para esta outra margem... O que eu não sei é se a tua existência era
-muito necessaria ao século. Quem sabe? Talvez um comparsa de menos
-fizesse patear a tragedia humana.
-
-
-
-
-CAPITULO XXXVII
-
-
-Emfim
-
-
-Emfim! eis aqui Virgilia. Antes de ir á casa do Conselheiro Dutra,
-perguntei a meu pae se havia algum ajuste prévio de casamento.
-
---Nenhum ajuste. Ha tempos, conversando com elle a teu respeito,
-confessei-lhe o desejo que tinha de te ver deputado; e de tal modo
-fallei, que elle prometteu fazer alguma cousa, e creio que o fará.
-Quanto á noiva, é o nome que dou a uma creaturinha, que é uma joia, uma
-flôr, uma estrella, uma cousa rara... é a filha delle; imaginei que, se
-casasses com ella, mais depressa serias deputado.
-
---Só isto?
-
---Só isto.
-
-Fomos dalli á casa do Dutra. Era uma perola esse homem, risonho,
-jovial, patriota, um pouco irritado com os males publicos, mas não
-desesperando de os curar depressa. Achou que a minha candidatura era
-legitima; convinha, porém, esperar alguns mezes. E logo me apresentou á
-mulher,--uma estimavel senhora,--e á filha, que não desmentiu em nada
-o panegyrico de meu pae. Juro-vos que em nada. Relêde o Cap. XXVIII.
-Eu, que levava idéas a respeito da pequena, fitei-a de certo modo;
-ella, que não sei se as tinha, não me fitou de modo differente; e o
-nosso olhar primeiro foi pura e simplesmente conjugal. No fim de um mez
-estavamos intimos.
-
-
-
-
-CAPITULO XXXVIII
-
-
-A quarta edição
-
-
---Venha cá jantar amanhã, disse-me o Dutra uma noite.
-
-Aceitei o convite. No dia seguinte, mandei que a sege me esperasse no
-largo de S. Francisco de Paula, e fui dar varias voltas. Lembra-vos
-ainda a minha theoria das edições humanas? Pois sabei que, naquelle
-tempo, estava eu na quarta edição, revista e emendada, mas ainda
-inçada de descuidos e barbarismos; defeito que, aliás, achava alguma
-compensação no typo, que era elegante, e na encadernação, que era
-luxuosa. Dadas as voltas, ao passar pela rua dos Ourives, consulto o
-relogio e cáe-me o vidro na calçada. Entro na primeira loja que tinha á
-mão; era um cubiculo,--pouco mais,--empoeirado e escuro.
-
-Ao fundo, por traz do balcão, estava sentada uma mulher, cujo rosto
-amarello e bexiguento não se destacava logo, á primeira vista; mas logo
-que se destacava era um expectaculo curioso. Não podia ter sido feia;
-ao contrario, via-se que fora bonita, e não pouco bonita; mas a doença
-e uma velhice precoce, destruiram-lhe a flor das graças. As bexigas
-tinham sido terriveis; os signaes, grandes e muitos, faziam saliencias
-e encarnas, declives e acclives; e davam uma sensação de lixa grossa,
-enormemente grossa. Eram os olhos a melhor parte do vulto, e aliás
-tinham uma expressão singular e repugnante, que mudou, entretanto, logo
-que eu comecei a fallar. Quanto ao cabello, penteado ao desdem, estava
-ruço e quasi tão poento como os portaes do loja. N'um dos dedos da mão
-esquerda fulgia-lhe um diamante. Crel-o-heis, posteros? essa mulher era
-Marcella.
-
-Não a conheci logo; era difficil; ella porém conheceu-me apenas lhe
-dirigi a palavra. Os olhos chisparam e trocaram a expressão usual
-por outra, meia doce e meia triste. Vi-lhe um movimento como para
-esconder-se ou fugir; era o instincto da vaidade, que não durou mais de
-um instante. Marcella accommodou-se e sorriu.
-
---Quer comprar alguma cousa? disse ella estendendo-me a mão.
-
-Não respondi nada; Marcella comprehendeu a causa do meu silencio (não
-era difficil), e só hesitou, creio eu, em decidir o que dominava
-mais, se o assombro do presente, se a memoria do passado. Deu-me uma
-cadeira, e, com o balcão permeio, fallou-me longamente de si, da vida
-que levára, das lagrimas que eu lhe fizera verter, das saudades, dos
-desastres, emfim das bexigas, que lhe escalavraram o rosto, e do
-tempo, que ajudou a molestia, adiantando-lhe a decadencia. Verdade é
-que tinha a alma decrepita. Vendera tudo, quasi tudo; um homem, que a
-amára outr'ora, e lhe morreu nos braços, deixara-lhe aquella loja de
-ourivesaria, mas, para que a desgraça fosse completa, era agora pouco
-buscada a loja--talvez pela singularidade de a dirigir uma mulher. Em
-seguida pediu-me que lhe contasse a minha vida. Gastei pouco tempo em
-dizer-ll'a; não era longa, nem interessante.
-
---Casou? disse Marcella no fim de minha narração.
-
---Ainda não, respondi seccamente.
-
-Marcella lançou os olhos para a rua, com a atonia de quem reflecte ou
-relembra; eu deixei-me ir então ao passado, e, no meio das recordações
-e saudades, perguntei a mim mesmo por que motivo fizera tanto desatino.
-Não era esta certamente a Marcella de 1822; mas a belleza de outro
-tempo valia uma terça parte dos meus sacrificios? Era o que eu buscava
-saber, interrogando o rosto de Marcella. O rosto dizia-me que não; ao
-mesmo tempo os olhos me contavam que, já outr'ora, como hoje, ardia
-nelles a flamma da cobiça. Os meus é que não souberam ver-lh'a; eram
-olhos da primeira edição.
-
---Mas por que entrou aqui? viu-me da rua? porguntou ella, saindo
-daquella especie de torpor.
-
---Não, suppunha entrar n'uma casa de relojoeiro; queria comprar um
-vidro para este relogio; vou a outra parte; desculpe-me; tenho pressa.
-
-Marcella suspirou com tristeza. A verdade é que eu me sentia pungido
-e aborrecido, ao mesmo tempo, e anciava por me ver fóra daquella casa.
-Marcella, entretanto, chamou um moleque, deu-lhe o relogio, e, apezar
-da minha opposição, mandou-o, a uma loja na visinhança, comprar o
-vidro. Não havia remedio; sentei-me outra vez. Disse ella então que
-desejava ter a protecção dos conhecidos de outro tempo; ponderou que
-mais tarde ou mais cedo era natural que me casasse, e afiançou que me
-daria finas joias por preços baratos. Não disse _preços baratos_, mas
-usou uma metaphora delicada e transparente. Entrei a desconfiar que
-não padecera nenhum desastre (salvo a molestia), que tinha o dinheiro
-a bom recado, e que negociava com o unico fim de acudir á paixão do
-lucro, que era o verme roedor daquella existencia; foi isso mesmo que
-me disseram depois.
-
-
-
-
-CAPITULO XXXIX
-
-
-O visinho
-
-
-Emquanto eu fazia commigo mesmo aquella reflexão, entrou na loja um
-sujeito baixo, sem chapeu, trazendo pela mão uma menina de quatro annos.
-
---Como passou de hoje de manhã? disse elle a Marcella.
-
---Assim, assim. Vem cá, Maricota.
-
-O sujeito levantou a criança pelos braços e passou-a para dentro do
-balcão.
-
---Anda, disse elle; pergunta a D. Marcella como passou a noite. Estava
-anciosa por vir cá, mas a mãe não tinha podido vestil-a... Então,
-Maricota? Toma a benção. .. Olha a vara de marmelo! Assim... Não
-imagina o que ella é lá em casa; falla na senhora a todos os instantes,
-e aqui parece uma pamonha. Ainda hontem... Digo, Maricota?
-
---Não, diga, não, papae.
-
---Então foi alguma cousa feia? perguntou Marcella batendo na cara da
-menina.
-
---Eu lhe digo; a mãe ensina-lhe a rezar todas as noites um padre-nosso
-e uma ave-maria, offerecidos a Nossa Senhora; mas a pequena hontem
-veiu pedir-me com voz muito humilde... imagine o que?... que queria
-offerecel-os a Santa Marcella.
-
---Coitadinha! disse Marcella beijando-a.
-
---É um namoro, uma paixão, como a senhora não imagina ... A mãe diz que
-é feitiço...
-
-Contou mais algumas cousas o sujeito, todas mui agradaveis, até que
-saiu levando a menina, não sem deitar-me um olhar interrogativo ou
-suspeitoso. Perguntei a Marcella quem era elle.
-
---É um relojoeiro de visinhança, um bom homem; a mulher tambem; e a
-filha é galante, não? Parecem gostar muito de mim... é boa gente.
-
-Ao proferir estas palavras havia um tremor de alegria na voz de
-Marcella; e no rosto como que se lhe espraiou uma onda de ventura...
-
-
-
-
-CAPITULO XL
-
-
-Na sege
-
-
-Nisto entrou o moleque trazendo o relogio com o vidro novo. Era tempo;
-já me custava estar alli; dei uma moedinha de prata ao moleque; disse
-a Marcella que voltaria n'outra occasião, e saí a passo largo. Para
-dizer tudo, devo confessar que o coração me batia um pouco; mas era
-uma especie de dobre de finados. O espirito ia travado de impressões
-oppostas. Notem que aquelle dia amanhecera alegre para mim. Meu pae, ao
-almoço, repetiu-me, por anticipação, o primeiro discurso que eu tinha
-de proferir na camara dos deputados; rimo-nos muito, e o sol tambem,
-que estava brilhante, como nos mais bellos dias do mundo; do mesmo modo
-que Virgilia devia rir, quando eu lhe contasse as nossas fantasias do
-almoço. Vae se não quando, cáe-me o vidro do relogio; entro na primeira
-loja que me fica á mão; e eis me surge o passado, eil-o que me lacera
-e beija; eil-o que me interroga, com um rosto cortado de saudades e
-bexigas...
-
-Lá o deixei; metti-me ás pressas na sege, que me esperava no largo
-do S. Francisco de Paula, e ordenei ao boleeiro que rodasse pelas
-ruas fóra. O boleeiro atiçou as bestas, a sege entrou a sacolejar-me,
-as molas gemiam, as rodas sulcavam rapidamente a lama que deixara a
-chuva recente, e tudo isso me parecia estar parado. Não ha, ás vezes,
-um certo vento, morno que não bochorno, não forte nem aspero, mas
-abafadiço, que nos não leva o chapéo da cabeça, nem rodomoinha nas
-saias das mulheres, e todavia é ou parece ser peior do que se fizesse
-uma e outra cousa, porque abate, afrouxa, e como que dissolve os
-espiritos? Pois eu tinha esse vento commigo; e, certo de que elle me
-soprava por achar-me naquella especie de garganta entre o passado e o
-presente, almejava por sair á planicie do futuro. O peior é que a sege
-não andava.
-
---João, bradei eu ao boleeiro. Esta sege anda ou não anda?
-
---Uê! nhonhô! Já estamos parados na porta de sinhô Conselheiro.
-
-
-
-
-CAPITULO XLI
-
-
-A allucinação
-
-
-E era verdade. Entrei apressado; achei Virgilia anciosa, mau humor,
-fronte nublada. A mãe, que era surda, estava na sala com ella. No fim
-dos comprimentos disse-me a moça com sequidão:
-
---Esperavamos que viesse mais cedo.
-
-Defendi-me do melhor modo; fallei do cavallo que empacara, e de um
-amigo, que me detivera. De repente morre-me a voz nos labios, fico
-tolhido de assombro. Virgilia... seria Virgilia aquella moça? Fitei-a
-muito; e a sensação foi tão penosa, que recuei um passo e desviei a
-vista. Tornei a olhal-a. As bexigas tinham-lhe comido o rosto; a pelle,
-ainda na vespera tão fina, rosada e pura, apparecia-me agora amarella,
-stigmada pelo mesmo flagello, que devastara o rosto da hespanhola. Os
-olhos, que eram travessos, fizeram-se murchos; tinha o labio triste
-e a attitude cançada. Olhei-a bem; peguei-lhe na mão, e chamei-a
-brandamente a mim. Não me enganava; eram as bexigas. Creio que fiz um
-gesto de repulsa.
-
-Virgilia afastou-se, e foi sentar-se no sophá. Eu fiquei algum tempo
-a olhar para os meus proprios pés. Devia, sair ou ficar? Rejeitei o
-primeiro alvitre, que era simplesmente absurdo, e encaminhei-me para
-Virgilia, que lá estava sentada e calada. Ceus! Era outra vez a fresca,
-a juvenil, a florida Virgilia. Em vão procurei no rosto delia algum
-vestigio da doença; nenhum havia; era a pelle fina e branca do costume.
-
---Nunca me viu? perguntou Virgilia, vendo que a encarava com insistência.
-
---Tão bonita, nunca.
-
-Sentei-me, emquanto Virgilia, calada, fazia estalar as unhas.
-Seguiram-se alguns segundos de pausa. Fallei-lhe de cousas extranhas ao
-incidente; ella porém não me respondia nada, nem olhava para mim. Menos
-o estalido, era a estatua do Silencio. Uma só vez me deitou os olhos,
-mas muito de cima, soerguendo a pontinha esquerda do labio, contrahindo
-as sobrancelhas, ao ponto de as unir; e todo esse conjuncto de cousas
-dava-lhe ao rosto uma expressão media, entre comica e tragica.
-
-Havia alguma affectação naquelle desdem; era um arrebique do gesto.
-Lá dentro, ella padecia, e não pouco,--ou fosse magua pura, ou só
-despeito; e porque a dor que se dissimula dóe mais, é mui provável que
-Virgilia padecesse em dobro do que realmente devia padecer. Creio que
-isto é metaphysica.
-
-
-
-
-CAPITULO XLII
-
-
-Que escapou a Aristoteles
-
-
-Outra cousa que tambem me parece metaphysica é isto:--Dá-se movimento a
-uma bola, por exemplo; róla esta, encontra outra bola, transmitte-lhe
-o impulso, e eis a segunda bola a rolar como a primeira rolou.
-Supponhamos que a primeira bola se chama... Marcella,--é uma simples
-supposição; a segunda, Braz Cubas;--a terceira, Virgilia. Temos que
-Marcella, recebendo um piparote do passado rolou até tocar em Braz
-Cubas,--o qual, cedendo á força impulsiva, entrou a rolar tambem até
-esbarrar em Virgilia, que não tinha nada com a primeira bola; e eis
-ahi como, pela simples transmissão de uma força, se tocam os extremos
-sociaes, e se estabelece uma cousa que poderemos chamar--solidariedade
-do aborrecimento humano. Como é que este capitulo escapou a
-Aristoteles?
-
-
-
-
-CAPITULO XLIII
-
-
-Marqueza, porque eu serei marquez
-
-
-Positivamente, era um diabrete Virgilia, um diabrete angelico, se
-querem, mas era-o, e então...
-
-E então appareceu o Lobo Neves, um homem que não era mais esbelto
-do que eu, nem mais elegante, nem mais lido, nem mais sympathico, e
-todavia foi quem me arrebatou Virgilia e a candidatura, dentro de
-poucas semanas, com um impeto verdadeiramente cesariano. Não precedeu
-nenhum despeito; não houve a menor violencia de familia. O Dutra veiu
-dizer-me, um dia, que esperasse outra aragem, porque a candidatura
-de Lobo Neves era apoiada por grandes influencias. Cedi; e tal foi o
-começo da minha derrota. Uma semana depois, Virgilia perguntou ao Lobo
-Neves, a sorrir, quando seria elle ministro.
-
---Pela minha vontade, já; pela dos outros, daqui a um anno.
-
-Virgilia replicou:
-
---Promette que algum dia me fará baroneza?
-
---Marqueza, porque eu serei marquez.
-
-Desde então fiquei perdido. Virgilia comparou a aguia e o pavão, e
-elegeu a aguia, deixando o pavão com o seu espanto, o seu despeito, e
-tres ou quatro beijos que lhe dera. Talvez cinco beijos; mas dez que
-fossem não queria dizer cousa nenhuma. O labio do homem não é como
-a pata do cavallo de Attila que esterilisava o solo em que batia; é
-justamente o contrario.
-
-
-
-
-CAPITULO XLIV
-
-
-Um Cubas!
-
-
-Meu pae ficou attonito com o desenlace, e quer-me parecer que não
-morreu de outra cousa. Eram tantos os castellos que engenhára, tantos
-e tantissimos os sonhos, que não podia vel-os assim esboroados, sem
-padecer um forte abalo no organismo. A principio não quiz crel-o. Um
-Cubas! um galho da arvore illustre dos Cubas! E dizia isto com tal
-convicção, que eu, já então informado da nossa tanoaria, esqueci um
-instante a voluvel dama, para só contemplar aquelle phenomeno, não
-raro, mas curioso: uma imaginação graduada em consciência.
-
---Um Cubas! repetia-me elle na seguinte manhã, ao almoço.
-
-Não foi alegre o almoço; eu proprio estava a caír de somno. Tinha
-velado uma parte da noite. De amor? Era impossivel; não se ama duas
-vezes a mesma mulher, e eu, que tinha de amar aquella, tempos depois,
-não lhe estava agora preso por nenhum outro vinculo, além de uma
-phantasia passageira, alguma obediencia e muita fatuidade. E isto
-basta a explicar a vigilia; era despeito, um despeitosinho agudo como
-ponta de alfinete, o qual se desfez, com charutos, murros, leituras
-truncadas, até romper a aurora, a mais tranquilla das auroras.
-
-Mas eu era moço, tinha o remedio em mim mesmo. Meu pae é que não pôde
-supportar facilmente a pancada. Pensando bem, pode ser que não morresse
-precisamente do desastre; mas que o desastre lhe complicou as ultimas
-dores, é positivo. Morreu dahi a quatro mezes,--acabrunhado, triste,
-com uma preoccupação intensa e continua, á semelhança de remorso, um
-desencanto mortal, que lhe substituiu os rheumatismos e tosses. Teve
-ainda uma meia hora de alegria; foi quando um dos ministros o visitou.
-Vi-lhe,--lembra-me bem,--vi-lhe o grato sorriso de outro tempo, e nos
-olhos uma concentração de luz, que era, por assim dizer, o ultimo
-lampejo da alma expirante. Mas a tristeza tornou logo, a tristeza de
-morrer sem me ver posto em algum logar alto, como aliás me cabia.
-
---Um Cubas!
-
-Morreu alguns dias depois da visita do ministro, uma manhã de maio,
-entre os dois filhos, Sabina e eu, e mais o tio Ildefonso e meu
-cunhado. Morreu sem lhe poder valer a sciencia dos medicos, nem o nosso
-amor, nem os cuidados, que foram muitos, nem cousa nenhuma; tinha de
-morrer, morreu.
-
---Um Cubas!
-
-
-
-
-CAPITULO XLV
-
-
-Notas
-
-
-Soluços, lagrimas, casa armada, velludo preto nos portaes, um homem
-que veiu vestir o cadaver, outro que tomou a medida do caixão, caixão,
-eça, tocheiros, convites, convidados que entravam, lentamente, a passo
-surdo, e apertavam a mão á familia, alguns tristes, todos serios e
-calados, padre e sacristão, rezas, aspersões d'agua benta, o fechar
-do caixão, a prego e martello, seis pessoas que o tomam da eça, e o
-levantam, e o descem a custo pela escada, não obstante os gritos,
-soluços e novas lagrimas da familia, e vão até o coche funebre, e o
-collocam em cima, e traspassam e apertam as corrêas, o rodar do coche,
-o rodar dos carros, um a um... Isto que parece um simples inventario,
-eram notas que eu havia tomado para um capitulo extremamente
-succulento, em que provava que a terra deve continuar a girar em volta
-do sol; porquanto:--_a_) a natureza não inventou a morte, senão
-com o fim de dar vida a algumas industrias,--armadores, segeiros,
-emprezas funerarias, typographias, e outras que ella sagazmente
-previu;--_b_) mortas essas industrias, pela ausencia da morte humana,
-não é improvavel que viessem a morrer os respectivos industriaes; o que
-dava na mesma. Mas tudo isto são apenas notas de um capitulo, que não
-escrevo.
-
-
-
-
-CAPITULO XLVI
-
-
-A herança
-
-
-Veja-nos agora o leitor, oito dias depois da morte de meu pae,--minha
-irmã sentada n'um sophá,--pouco adiante, o Cotrim, de pé, encostado a
-um consolo, com os braços cruzados e a morder o bigode,--eu a passeiar
-de um lado para outro, com os olhos no chão. Luto pezado. Profundo
-silencio.
-
---Mas afinal, disse o Cotrim; esta casa pouco mais póde valer de trinta
-contos; demos que valha trinta e cinco...
-
---Vale cincoenta, ponderei; a Sabina sabe que custou cincoenta e oito...
-
---Podia custar até sessenta, tornou o Cotrim; mas não se segue que
-os valesse, e menos ainda que os valha hoje. Você sabe que as casas,
-aqui ha annos, baixaram muito. Olhe, se esta vale os cincoenta contos,
-quantos não vale a que você deseja para si, a do Campo?
-
---Não fale nisso! Uma casa velha.
-
---Velha! exclamou Sabina, levantando as mãos ao tecto.
-
---Parece-lhe nova, aposto?
-
---Ora, mano, deixe-se dessas cousas, disse Sabina, erguendo-se do
-sophá; podemos arranjar tudo em boa amizade, e com lisura. Por exemplo,
-o Cotrim não aceita os pretos, quer só o boleeiro de papae e o Paulo...
-
---O boleeiro não, acudi eu; fico com a sege e não hei de ir comprar
-outro.
-
---Bem; fico com o Paulo e o Prudencio.
-
---O Prudencio está livre.
-
---Livre?
-
---Ha dois annos.
-
---Livre? Como seu pae arranjava estas cousas cá por casa, sem dar parte
-a ninguem! Está direito. Quanto á prata... creio que não libertou a
-prata?
-
-Tinhamos falado na prata, a velha prataria do tempo de D. José I, a
-porção mais grave da herança, já pelo lavor, já pela vetustez, já pela
-origem da propriedade; dizia meu pae que o conde da Cunha, quando
-vice-rei do Brazil, a dera de presente a meu bisavô Luiz Cubas.
-
---Quanto á prata, continuou o Cotrim, eu não faria questão nenhuma,
-se não fosse o desejo que sua irmã tem de ficar com ella; e acho-lhe
-razão. Sabina é casada, e precisa de uma copa digna, apresentavel. Você
-é solteiro, não recebe, não...
-
---Mas posso casar.
-
---Para que? interrompeu Sabina.
-
-Era tão sublime esta pergunta, que por alguns instantes me fez esquecer
-os interesses. Sorri; peguei na mão de Sabina, bati-lhe levemente na
-palma, tudo isso com tão boa sombra, que o Cotrim interpretou o gesto
-como de acquiescencia, e agradeceu-m'o.
-
---Que é lá? redargui; não cedi cousa nenhuma, nem cedo.
-
---Nem cede?
-
-Abanei a cabeça.
-
---Deixa, Cotrim, disse minha irmã ao marido; vê se elle quer ficar
-tambem com a nossa roupa do corpo; é só o que falta.
-
---Não falta mais nada. Quer a sege, quer o boleeiro, quer a prata,
-quer tudo. Olhe, é muito mais summario citar-nos a juizo e provar com
-testemunhas que Sabina não é sua irmã, que eu não sou seu cunhado, e
-que Deus não é Deus. Faça isto, e não perde nada, nem uma colherinha.
-Ora, meu amigo, outro officio!
-
-Estava tão agastado, e eu não menos, que entendi offerecer um meio de
-conciliação; dividir a prata. Riu-se e perguntou-me a quem caberia
-o bule e a quem o assucareiro; e depois desta pergunta, declarou
-que teriamos tempo de liquidar a pretenção, quando menos em juizo.
-Entretanto, Sabina fôra até á janella que dava para a chacara,--e
-depois de um instante, voltou, e propoz ceder o Paulo e outro preto,
-com a condição de ficar com a prata; eu ia dizer que não me convinha,
-mas o Cotrim adiantou-se e disse a mesma cousa.
-
---Isso nunca! não faço esmolas! disse elle.
-
-Jantámos tristes. Meu tio conego appareceu á sobremeza, e ainda
-presenciou uma pequena altercação.
-
---Meus filhos, disse elle, lembrem-se que meu irmão deixou um pão bem
-grande para ser repartido por todos.
-
-Mas o Cotrim:
-
---Creio, creio. A questão, porem, não é de pão, é de manteiga. Pão
-secco é que eu não engulo.
-
-Fizeram-se finalmente as partilhas, mas nós estavamos brigados. E
-digo-lhes que, ainda assim, custou-me muito a brigar com Sabina. Eramos
-tão amigos! Jogos pueris, furias de criança, risos e tristezas da
-edade adulta, dividimos muita vez esse pão da alegria e da miseria,
-irmãmente, como bons irmãos que eramos. Mas estavamos brigados. Tal
-qual a belleza de Marcella, que se esvaiu com as bexigas.
-
-
-
-
-CAPITULO XLVII
-
-
-O recluso
-
-
-Marcella, Sabina, Virgilia... ahi estou eu a fundir todos os
-contrastes, como se esses nomes e pessoas não fossem mais do que modos
-de ser da minha affeição interior. Penna de máus costumes, ata uma
-gravata ao teu estylo, veste-lhe um collete menos sordido; e depois
-sim, depois vem commigo, entra nessa casa, estira-te nessa rede que me
-embalou a melhor parte dos annos que decorreram desde o inventario de
-meu pae até 1842. Vem; se te cheirar a algum aroma de toucador, não
-cuides que o mandei derramar para meu regalo; é um vestígio da N. ou
-da Z. ou da U.--que todas essas lettras maiusculas embalaram ahi a sua
-elegante abjecção. Mas, se além do aroma, quizeres outra cousa, fica-te
-com o desejo, porque eu não guardei retratos, nem cartas, nem memorias;
-a mesma commoção esvaiu-se, e só me ficaram as lettras iniciaes.
-
-Vivi meio recluso, indo de longe em longe a algum baile, ou theatro,
-ou palestra, mas a mór parte do tempo passei-a commigo mesmo. Vivia;
-deixava-me ir ao curso e recurso dos successos e dos dias, ora
-boliçoso, ora apathico, entre a ambição e o desanimo. Escrevia politica
-e fazia litteratura. Mandava artigos e versos para as folhas publicas,
-e cheguei a alcançar certa reputação de polemista e de poeta. Quando
-me lembrava do Lobo Neves, que era já deputado, e de Virgilia, futura
-marqueza, perguntava a mim mesmo porque não seria melhor deputado e
-melhor marquez do que o Lobo Neves,--eu, que valia mais, muito mais do
-que elle,--e dizia isto a olhar para a ponta do nariz...
-
-
-
-
-CAPITULO XLVIII
-
-
-Um primo de Virgilia
-
-
---Sabe quem chegou hontem de S. Paulo? perguntou-me uma noite o Luiz
-Dutra.
-
-O Luiz Dutra era um primo de Virgilia, que tambem privava com as
-musas. Os versos delle agradavam e valiam mais do que os meus; mas
-elle tinha necessidade da sancção de alguns, que lhe confirmasse o
-applauso dos outros. Como fosse acanhado, não interrogava a ninguem;
-mas deleitava-se com ouvir alguma palavra de apreço; então criava novas
-forças e arremettia juvenilmente ao trabalho.
-
-Pobre Luiz Dutra! Apenas publicava alguma cousa corria á minha casa,
-e entrava a girar em volta de mim, á espreita de um juizo, de uma
-palavra, de um gesto, que lhe approvasse a recente producção, e eu
-falava-lhe de mil cousas differentes,--do ultimo baile do Cattete, da
-discussão das camaras, de berlindas e cavallos,--de tudo, menos dos
-seus versos ou prosas. Elle respondia-me, a principio com animação,
-depois mais frouxo, torcia a redea da conversa para o seu assumpto
-delle, abria um livro, perguntava-me se tinha algum trabalho novo, e eu
-dizia-lhe que sim ou que não, mas torcia a redea para o outro lado, e
-lá ia elle atraz de mim, até que empacava de todo e saía triste. Minha
-intenção era fazel-o duvidar de si mesmo, desanimal-o, eliminal-o. E
-tudo isto a olhar para a ponta do nariz...
-
-
-
-
-CAPITULO XLIX
-
-
-A ponta do nariz
-
-
-Nariz, consciencia sem remorsos, tu me valeste muito na vida... Já
-meditaste alguma vez no destino do nariz, amado leitor? A explicação
-do doutor Pangloss é que o nariz foi creado para uso dos oculos,--e
-tal explicação confesso que até certo tempo me pareceu definitiva; mas
-veiu um dia, em que, estando a ruminar esse e outros pontos obscuros de
-philosophia, atinei com a unica, verdadeira e definitiva explicação.
-
-Com effeito, bastou-me attentar no costume do fakir. Sabe o leitor
-que o fakir gasta longas horas a olhar para a ponta do nariz, com
-o fim unico de ver a luz celeste. Quando elle finca os olhos na
-ponta do nariz, perde o sentimento das cousas externas, embelleza-se
-no invisivel, apprehende o impalpavel, desvincula-se da terra,
-dissolve-se, etherisa-se. Essa sublimação do ser pela ponta do nariz
-é o phenomeno mais excelso do espirito; e a faculdade de a obter não
-pertence ao fakir sómente; é universal. Cada homem tem necessidade
-e poder de contemplar o seu proprio nariz, para o fim de ver a luz
-celeste; e tal contemplação, cujo effeito é a subordinação do universo
-a um nariz sómente, constitue o equilibrio das sociedades. Se os
-narizes se contemplassem exclusivamente uns aos outros, o genero humano
-não chegaria a durar dois séculos: extinguia-se com as primeiras tribos.
-
-Ouço daqui uma objecção do leitor:--Como pode ser assim, diz elle,
-se nunca jamais ninguem não viu estarem os homens a contemplar o seu
-proprio nariz?
-
-Leitor obtuso, isso prova que nunca entraste no cerebro de um
-chapeleiro. Um chapeleiro passa por uma loja de chapeus; é a loja de
-um rival, que a abriu ha dois annos; tinha então duas portas, hoje tem
-quatro; promette ter seis e oito. Nas vidraças ostentam-se os chapeus
-do rival; pelas portas entram os freguezes do rival; e o chapeleiro
-compara aquella loja com a sua, que é mais antiga e tem só duas portas,
-e aquelles chapeus com os seus, menos buscados, ainda que de egual
-preço. Mortifica-se naturalmente; mas vae andando, concentrado, com os
-olhos para baixo ou para a frente, a indagar as causas da prosperidade
-do outro e do seu proprio atrazo, quando elle chapeleiro é muito melhor
-chapeleiro do que o outro chapeleiro... Nesse instante é que os olhos
-se fixam na ponta do nariz.
-
-A conclusão, portanto, é que ha duas forças capitaes: o amor, que
-multiplica a especie, e o nariz, que a subordina ao individuo.
-Procreação, equilibrio.
-
-
-
-
-CAPITULO L
-
-
-Virgilia casada
-
-
---Quem chegou de S. Paulo foi minha prima Virgilia, casada com o Lobo
-Neves, continuou o Luiz Dutra.
-
---Ah!
-
---E só hoje é que eu soube uma cousa, seu maganão...
-
---Que foi?
-
---Que você quiz casar com ella.
-
---Idéas de meu pae. Quem lhe disse isso?
-
---Ella mesma. Falei-lhe muito em você, e ella então contou-me tudo.
-
-No dia seguinte, estando na rua do Ouvidor, á porta da typographia do
-Plancher, vi assomar, a distancia, uma mulher esplendida. Era ella; só
-a reconheci a poucos passos, tão outra estava, a tal ponto a natureza
-e a arte lhe haviam dado o ultimo apuro. Cortejámo-nos; ella seguiu;
-entrou com o marido na carruagem, que os esperava um pouco acima; eu
-fiquei attonito.
-
-Oito dias depois, encontrei-a num baile; creio que chegámos a trocar
-duas ou tres palavras. Mas n'outro baile, dado dahi a um mez, em
-casa de uma senhora, que ornara os salões do primeiro reinado, e não
-desornava então os do segundo, a aproximação foi maior e mais longa,
-porque conversámos e valsámos. A valsa é uma deliciosa cousa. Valsámos;
-e não nego que, ao conchegar ao meu corpo aquelle corpo flexivel e
-magnifico, tive uma singular sensação, uma sensação de homem roubado.
-
---Está muito calor, disse ella, logo que acabámos. Vamos ao terraço?
-
---Não; pode constipar-se. Vamos a outra sala.
-
-Na outra sala estava o Lobo Neves, que me fez muitos comprimentos,
-ácerca dos meus escriptos politicos, accrescentando que nada dizia
-dos litterarios, por não entender delles; mas os politicos eram
-excellentes, bem pensados e bem escriptos. Respondi-lhe com eguaes
-esmeros de cortezia, e separámos-nos contentes um do outro.
-
-Cerca de tres semanas depois recebi um convite delle para uma reunião
-intima. Fui; Virgilia recebeu-me com esta graciosa palavra:--O senhor
-hoje ha de valsar commigo.--Na verdade, eu tinha fama e era valsista
-emerito; não admira que ella me preferisse. Valsámos uma vez, e mais
-outra vez. Um livro perdeu Francesca; cá foi a valsa que nos perdeu.
-Creio que nessa noite apertei-lhe a mão com muita força, e ella
-deixou-a ficar, como esquecida, e eu a abraçal-a, e todos com os olhos
-em nós, e nos outros que tambem se abraçavam e giravam...Um delirio.
-
-
-
-
-CAPITULO LI
-
-
-É minha!
-
-
---É minha! disse eu commigo, logo que a passei a outro cavalheiro; e
-confesso que durante o resto da noite, foi-se-me a idéa entranhando
-no espirito, não á força de martello, mas de verruma, que é mais
-insinuativa.
-
---É minha! dizia eu ao chegar á porta de casa.
-
-Mas ahi, como se o destino ou o acaso, ou o que quer que fosse, se
-lembrasse de dar algum pasto aos meus arroubos possessorios, luziu-me
-no chão uma cousa redonda e amarella. Abaixei-me; era uma moeda de
-ouro, uma meia-dobra.
-
---É minha! repeti eu a rir-me; e metti-a no bolso.
-
-Nessa noite não pensei mais na moeda; mas no dia seguinte, recordando o
-caso, senti uns repellões da consciencia, e uma voz que me perguntava
-porque diabo seria minha uma moeda que eu não herdara nem ganhara, mas
-sómente achara na rua. Evidentemente não era minha; era de outro,
-daquelle que a perdera, rico ou pobre, e talvez fosse pobre, algum
-operario que não teria com que dar de comer á mulher e aos filhos; mas
-se fosse rico, o meu dever ficava o mesmo. Cumpria restituir a moeda, e
-o melhor meio, o unico meio, era fazel-o por intermedio de um annuncio
-ou da policia. Enviei uma carta ao chefe de policia, remettendo-lhe
-o achado, e rogando-lhe que, pelos meios a seu alcance, fizesse
-devolvel-o ás mãos do verdadeiro dono.
-
-Mandei a carta e almocei tranquillo, posso até dizer que jubiloso.
-Minha consciencia valsára tanto na vespera, que chegou a ficar
-suffocada, sem respiração; mas a restituição da meia dobra foi uma
-janella que se abriu para o outro lado da moral; entrou uma onda de
-ar puro, e a pobre dama respirou á larga. Ventilae as consciências!
-não vos digo mais nada. Todavia, despido de quaesquer outras
-circumstancias, o meu acto era bonito, porque exprimia um justo
-escrupulo, um sentimento de alma delicada. Era o que me dizia a minha
-dama interior, com um modo austero e meigo a um tempo; é o que ella me
-dizia, reclinada ao peitoril da janella aberta.
-
---Fizeste bem, Cubas; andaste perfeitamente. Este ar não é só puro, é
-balsamico, e uma transpiração dos eternos jardins. Queres ver o que
-fizeste, Cubas?
-
-E a boa dama sacou um espelho e abriu-m'o deante dos olhos. Vi,
-claramente vista, a meia dobra da vespera, redonda, brilhante, nitida,
-multiplicando-se por si mesma,--ser dez--depois trinta--depois
-quinhentas,--exprimindo assim o beneficio que me daria na vida e
-na morte o simples acto da restituição. E eu espraiava todo o meu
-ser na contemplação daquelle acto, revia-me nelle, achava-me bom,
-talvez grande. Uma simples moeda, hem? Vejam o que é ter valsado um
-poucochinho mais.
-
-Assim, eu, Braz Cubas, descobri uma lei sublime, a lei da equivalencia
-das janellas, e estabeleci que o modo de compensar uma janella fechada
-é abrir outra, afim de que a moral possa arejar continuamente a
-consciencia. Talvez não entendas o que ahi fica; talvez queiras uma
-cousa mais concreta, um embrulho, por exemplo, um embrulho mysterioso.
-Pois toma lá o embrulho mysterioso.
-
-
-
-
-CAPITULO LII
-
-
-O embrulho mysterioso
-
-
-Foi o caso que, alguns dias depois, indo eu a Botafogo tropecei n'um
-embrulho, que estava na praia. Não digo bem; houve menos tropeção que
-pontapé. Vendo um embrulho, não grande, mas limpo e correctamente
-feito, atado com um barbante rijo, uma cousa que parecia alguma cousa,
-lembrou-me bater-lhe com o pé, assim por experiencia, e bati, e o
-embrulho resistiu. Relanceei os olhos em volta de mim; a praia estava
-deserta; ao longe uns meninos brincavam,--um pescador curava as redes
-ainda mais longe,--ninguem que pudesse ver a minha acção; inclinei-me,
-apanhei o embrulho e segui.
-
-Segui, mas não sem receio. Podia ser uma pulha de rapazes. Tive idéa de
-devolver o achado á praia, mas apalpei-o e rejeitei a idea. Um pouco
-adeante, desandei o caminho e guiei para casa.
-
---Vejamos, disse eu ao entrar no gabinete.
-
-E hesitei um instante, creio que por vergonha; assaltou-me outra vez o
-receio da pulha. É certo que não havia alli nenhuma testemunha externa;
-mas eu tinha dentro de mim mesmo um garoto, que havia de assoviar,
-guinchar, grunhir, patear, apupar, cacarejar, fazer o diabo, se me
-visse abrir o embrulho e achar dentro uma duzia de lenços velhos ou
-duas duzias de goiabas verdes. Mas era tarde; a curiosidade estava
-aguçada, como deve estar a do leitor; desfiz o embrulho, e vi...
-achei... contei... recontei nada menos de cinco contos de reis. Nada
-menos. Talvez um dez mil reis mais. Cinco contos em boas notas e
-dobras, tudo aceiadinho e arranjadinho, um achado raro. Embrulhei-as
-de novo. Ao jantar pareceu-me que um dos moleques falara a outro com
-os olhos. Ter-me-iam espreitado? Interroguei-os discretamente, e
-conclui que não. Sobre o jantar, fui outra vez ao gabinete, examinei
-o dinheiro, e ri-me dos meus cuidados maternaes a respeito de cinco
-contos,--eu, que era abastado.
-
-Para não pensar mais naquillo fui de noite á casa do Lobo Neves,
-que instára muito commigo não deixasse de frequentar as recepções
-da mulher. Lá encontrei o chefe de policia; fui-lhe apresentado;
-elle lembrou-se logo da carta e da meia dobra que eu lhe remettera
-alguns dias antes. Aventou o caso; Virgilia pareceu saborear o meu
-procedimento, e cada um dos presentes acertou de contar uma anecdota
-analoga, que eu ouvi com impaciencias de mulher hysterica.
-
-De noite, no dia seguinte, em toda aquella semana pensei o menos que
-pude nos cinco contos, e até confesso que os deixei muito quietinhos
-na gaveta da secretaria. Gostava de falar de todas as cousas, menos de
-dinheiro, e principalmente de dinheiro achado; e todavia não era crime
-achar dinheiro, era uma felicidade, um bom acaso, era talvez um lance
-da Providencia. Não podia ser outra cousa. Não se perdem cinco contos,
-como se perde um lenço de tabaco. Cinco contos levam-se com trinta mil
-sentidos, apalpam-se a miudo, não se lhes tiram os olhos de cima, nem
-as mãos, nem o pensamento, e para se perderem assim tolamente, n'uma
-praia, é necessário que... Crime é que não podia ser o achado; nem
-crime, nem deshonra, nem nada que embaciasse o caracter de um homem.
-Era um achado, um acerto feliz, como a sorte grande, como as apostas
-de cavallo, como os ganhos de um jogo honesto; e até direi que a minha
-felicidade era merecida, porque eu não me sentia máu, nem indigno dos
-beneficios da Providencia.
-
---Estes cinco contos, dizia eu com migo, tres semanas depois, hei de
-empregal-os em alguma acção bôa, talvez um dote a alguma menina pobre,
-ou outra cousa assim... hei de ver...
-
-Nesse mesmo dia levei-os ao Banco do Brazil. Lá me receberam com
-muitas e delicadas allusões ao caso de meia dobra, cuja noticia andava
-já espalhada entre as pessoas do meu conhecimento; respondi enfadado
-que a cousa não valia a pena de tamanho estrondo; louvaram-me então
-a modestia,--e porque eu me encolerisasse, replicaram-me que era
-simplesmente grande.
-
-
-
-
-CAPITULO LIII
-
-
-..........
-
-Virgilia é que já se não lembrava da meia dobra; toda ella
-estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha vida, no meu
-pensamento;--era o que dizia, e era verdade.
-
-Ha umas plantas que nascem e crescem depressa; outras são tardias
-e pecas. O nosso amor era daquellas; brotou com tal impeto e tanta
-seiva, que, dentro em pouco, era a mais vasta, folhuda e exuberante
-creatura dos bosques. Não lhes poderei dizer, ao certo, os dias
-que durou esse crescimento. Lembra-me, sim, que, em certa noite,
-abotoou-se a flor, ou o beijo, se assim lhe quizerem chamar, um beijo
-que ella me deu, tremula,--coitadinha,--tremula de medo, porque era
-ao portão da chacara, á vista das estrellas,--das castas estrellas de
-Othello,--_you chaste stars!_ Uniu-nos esse beijo unico,--breve como
-a occasião, ardente como o amor, prologo de uma vida de delicias, de
-terrores, de remorsos, de prazeres que rematavam em dor, de afflicções
-que desabrochavam em alegria,--uma hypocrisia paciente e systematica,
-unico freio de uma paixão sem freio,--vida de agitações, de coleras,
-de desesperos e de ciumes, que uma hora pagava á farta e de sobra;
-mas outra hora vinha e engolia aquella, como tudo mais, para deixar á
-tona as agitações e o resto, e o resto do resto, que é o fastio e a
-saciedade: tal foi o livro daquelle prologo.
-
-
-
-
-CAPITULO LIV
-
-
-A pendula
-
-
-Saí dalli a saborear o beijo. Não pude dormir; estirei-me na cama,
-é certo, mas foi o mesmo que nada. Ouvi as horas todas da noite.
-Usualmente, quando eu perdia o somno, o bater da pendula fazia-me muito
-mal; esse _tic-tac_ soturno, vagaroso e secco parecia dizer a cada
-golpe que eu ia ter um instante menos de vida. Imaginava então um velho
-diabo, sentado entre dous saccos, o da vida e da morte, a tirar as
-moedas da vida para dal-as á morte, e a contal-as assim:
-
---Outra de menos...
-
---Outra de menos...
-
---Outra de menos...
-
---Outra de menos...
-
-O mais singular é que, se o relogio parava, eu dava-lhe corda, para
-que elle não deixasse de bater nunca, e eu pudesse contar todos os
-meus instantes perdidos. Invenções ha, que se transformam ou acabam;
-as mesmas instituições morrem; o relogio é definitivo e perpetuo. O
-derradeiro homem, ao despedir-se do sol frio e gasto, hade ter um
-relogio na algibeira, para saber a hora exacta em que morre.
-
-Naquella noite não padeci essa triste sensação de enfado, mas outra, e
-deleitosa. As phantasias tumultuavam-me cá dentro, vinham umas sobre
-outras, á semelhança de devotas que se abalroam para ver o anjo-cantor
-das procissões. Não ouvia os instantes perdidos, mas os minutos
-ganhados; e de certo tempo em diante não ouvi cousa nenhuma, porque o
-meu pensamento, ardiloso e traquinas, saltou pela janella fóra e bateu
-as azas na direcção da casa de Virgilia. Ahi achou ao peitoril de uma
-janella o pensamento de Virgilia, saudaram-se e ficaram de palestra.
-Nós a rolarmos na cama, talvez com frio, necessitados de repouso, e os
-dous vadios alli postos, a repetirem o velho dialogo de Adão e Eva.
-
-
-
-
-CAPITULO LV
-
-
-O velho dialogo de Adão e Eva
-
-
-BRAZ CUBAS
-
- . . . . ?
-
-VIRGILIA
-
-. .
-
-BRAZ CUBAS
-
- . . . . . . . . .
-
- . . .
-
-
-VIRGILIA
-
- . . . !
-
-BRAZ CUBAS
-
- . .
-
-VIRGILIA
-
-. . . . . . . . .
-. . . . . ? . . . . .
-. . . . . . . . . . . .
-
-BRAZ CUBAS
-
-. . . . . .
-
-
-VIRGILIA
-
-. . . .
-
-BRAZ CUBAS
-
-. . . . . . . . . . . . .
-
-. . . . . . . . . . . . .
-
-. . . . . . . . . ! . .
-
-. . ! . . . . . . . .
-
-. . . . . . . . . . . !
-
-VIRGILIA
-
-. . . . . . . . . . . . .?
-
-BRAZ CUBAS
-
-. . . . .!
-
-VIRGILIA
-
-. . . . .!
-
-
-
-
-CAPITULO LVI
-
-
-O momento opportuno
-
-
-Mas, com a breca! quem me explicará a razão desta differença? Um dia
-vimo-nos, tratámos o casamento, desfizemol-o e separamo-nos, a frio,
-sem dor, porque não houvera paixão nenhuma; mordeu-me apenas algum
-despeito e nada mais. Correm annos, torno a vel-a, damos tres ou quatro
-giros de valsa, e eis-nos a amar um ao outro com delirio. A belleza
-de Virgilia chegára, é certo, a um alto gráu de apuro, mas nós eramos
-substancialmente os mesmos, e eu, á minha parte, não me tornára mais
-bonito nem mais elegante. Quem me explicará a razão dessa differença?
-
-A razão não podia ser outra senão o momento opportuno. Não era
-opportuno o primeiro momento, porque, se nenhum de nós estava verde
-para o amor, ambos o estavamos para o _nosso_ amor: distincção
-fundamental. Não ha amor possivel sem a opportunidade dos sujeitos.
-Esta explicação achei-a eu mesmo, dous annos depois do beijo, um
-dia em que Virgilia se me queixava de um pintalegrete que lá ia e
-tenazmente a galanteava.
-
---Que importuno! dizia ella fazendo uma careta de raiva.
-
-Estremeci, fitei-a, vi que a indignação era sincera; então occorreu-me
-que talvez eu tivesse provocado alguma vez aquella mesma careta, e
-comprehendi logo toda a grandeza da minha evolução. Tinha vindo de
-importuno a opportuno.
-
-
-
-
-CAPITULO LVII
-
-
-Destino
-
-
-Sim, senhor, amavamos. Agora, que todas as leis sociaes nol-o impediam,
-agora é que nos amavamos devéras. Achavamo-nos jungi-los um ao outro,
-como as duas almas que o poeta encontrou no Purgatorio:
-
- Di pari, come buoi, che vanno a giogo;
-
-e digo mal, comparando-nos a bois, porque nós eramos outra especie de
-animal menos tardo, mais velhaco e lascivo. Eis-nos a caminhar sem
-saber até onde, nem porque estradas escusas; problema que me assustou,
-durante algumas semanas, mas cuja solução entreguei ao destino. Pobre
-Destino! Onde andarás agora, grande procurador dos negocios humanos?
-Talvez estejas a criar pelle nova, outra cara, outras maneiras, outro
-nome, e não é impossivel que... Já me não lembra onde estava... Ah!
-nas estradas escusas. Disse eu commigo que já agora seria o que
-Deus quisesse. Era a nossa sorte amar-nos; se assim não fora, como
-explicariamos a valsa e o resto? Virgilia pensava a mesma cousa. Um
-dia, depois de me confessar que tinha momentos de remorsos, como eu lhe
-dissesse que, se tinha remorsos, é porque me não tinha amor, Virgilia
-cingiu-me com os seus magnificos braços, murmurando:
-
---Amo-te, é a vontade do ceu.
-
-E esta palavra não vinha á toa; Virgilia era um pouco religiosa. Não
-ouvia missa aos domingos, é verdade, e creio até que só ia ás igrejas
-em dia de festa, e quando havia logar vago em alguma tribuna. Mas
-rezava todas as noites, com fervor, ou, pelo menos, com somno. Tinha
-medo ás trovoadas; nessas occasiões, tapava os ouvidos, e resmoneava
-todas as orações do catecismo. Na alcova della havia um oratoriosinho
-de jacarandá, obra de talha, de tres palmos de altura, com tres imagens
-dentro; mas não falava delle ás amigas; ao contrario, taxava de beatas
-as que eram só religiosas. Algum tempo desconfiei que havia nella certo
-vexame de crer, e que a sua religião era uma especie de camisa de
-flanella, preservativa e clandestina; mas evidentemente era engano meu.
-
-
-
-
-CAPITULO LVIII
-
-
-Confidencia
-
-
-O Lobo Neves, a principio, mettia-me grandes sustos. Pura illusão!
-Como adorasse a mulher, não se vexava de m'o dizer muitas vezes;
-achava que Virgilia era a perfeição mesma, um conjunto de qualidades
-solidas e finas, amoravel, elegante, austera, um modelo. E a confiança
-não parava ahi. De fresta que era, chegou a porta escancarada. Um dia
-confessou-me que trazia uma triste carcoma na existencia; faltava-lhe
-a gloria publica. Animei-o; disse-lhe muitas cousas bonitas, que elle
-ouviu com aquella uncção religiosa de um desejo que não quer acabar de
-morrer; então comprehendi que a ambição delle andava cançada de bater
-as azas, sem poder abrir o vôo. Dias depois disse-me todos os seus
-tedios e desfallecimentos, as amarguras engolidas, as raivas sopitadas;
-contou-me que a vida politica era um tecido de invejas, despeitos,
-intrigas, perfidias, interesses, vaidades. Evidentemente havia ahi uma
-crise de melancolia; tratei de combatel-a.
-
---Sei o que lhe digo, replicou-me com tristeza. Não póde imaginar o
-que tenho passado. Entrei na politica por gosto, por familia, por
-ambição, e um pouco por vaidade. Já vê que reuni em mim só todos os
-motivos que levam o homem á vida publica; faltou-me só o interesse de
-outra natureza. Vira o theatro pelo lado da platéa; e, palavra, que era
-bonito! Soberbo scenario, vida, movimento e graça na representação.
-Escripturei-me; deram-me um papel que... Mas para que o estou a fatigar
-com isto? Deixe-me ficar com as minhas amofinações. Creia que tenho
-passado horas e dias... Não ha constância de sentimentos, não ha
-gratidão, não ha nada... nada... nada...
-
-Calou-se, profundamente abatido, com os olhos no ar, parecendo não
-ouvir cousa nenhuma, a não ser o echo de seus proprios pensamentos.
-Após alguns instantes, ergueu-se e estendeu-me a mão:--O senhor ha de
-rir-se de mim, disse elle; mas desculpe aquelle desabafo; tinha um
-negocio, que me mordia o espirito. E ria, de um geito sombrio e triste;
-depois pediu-me que não referisse a ninguem o que se passara entre nós;
-ponderei-lhe que a rigor não se passara nada. Entraram dous deputados
-e um chefe politico da parochia. O Lobo Neves recebeu-os com alegria,
-a principio um tanto postiça, mas logo depois natural. No fim de meia
-hora, ninguem diria que elle não era o mais afortunado dos homens;
-conversava, chasqueava, e ria, e riam todos.
-
-
-
-
-CAPITULO LIX
-
-
-Um encontro
-
-
-Deve ser um vinho hem energico a politica, dizia eu commigo, ao sair
-da casa de Lobo Neves; e fui andando, fui andando, até que na rua dos
-Barbonos vi uma sege, e dentro um dos ministros, meu antigo companheiro
-de collegio. Cortejámo-nos affectuosamente, a sege seguiu, e eu fui
-andando... andando... andando....
-
---Porque não serei eu ministro?
-
-Esta idéa, rútila e grande,--trajada ao bizarro, como diria o padre
-Bernardes,--esta idéa começou uma vertigem de cabriolas e eu deixei-me
-estar com os olhos nella, a achar-lhe graça. E não pensei mais na
-tristeza de Lobo Neves; senti a attracção do abysmo. Recordei aquelle
-companheiro de collegio, as correrias nos morros, as alegrias e
-travessuras, e comparei o menino com o homem, o perguntei a mim mesmo
-porque não seria eu como elle. Entrava então no Passeio Publico;
-e tudo me parecia dizer a mesma cousa.--Porque não serás ministro,
-Cubas?--Cubas, porque não serás ministro de Estado? Ao ouvil-o, uma
-deliciosa sensação me refrescava todo o systema. Entrei, fui sentar-me
-n'um banco, a cavar commigo aquella idéa. E Virgilia que havia de
-gostar! Alguns minutos depois vejo encaminhar-se para mim uma cara, que
-me não pareceu desconhecida. Conhecia-a, fosse d'onde fosse.
-
-Imaginem um homem de trinta e oito a quarenta annos, alto, magro e
-pallido. As roupas, salvo o feitio, pareciam ter escapado ao captiveiro
-de Babylonia; o chapéu era contemporaneo do de Gessler. Imaginem
-agora uma sobrecasaca, mais larga do que pediam as carnes,--ou,
-litteralmente, os ossos da pessoa; a côr preta ia cedendo o passo a
-um amarello sem brilho; o pello desapparecia aos poucos; dos oito
-primitivos botões restavam tres. As calças, de brim pardo, tinham duas
-fortes joelheiras, em quanto as bainhas eram roidas pelo tacão de um
-botim sem misericordia nem graxa. Ao pescoço fluctuavam as pontas de
-uma gravata de duas cores, ambas desmaiadas, apertando um collarinho de
-oito dias. Creio que trazia tambem collete, um collete de seda escura,
-roto a espaços, e desabotoado.
-
---Aposto que me não conhece, Sr. Dr. Cubas? disse elle.
-
---Não me lembra...
-
---Sou o Borba, o Quincas Borba.
-
-Recuei espantado... Quem me dera agora o verbo solemne de um Bossuet
-ou de Vieira, para contar tamanha desolação! Era o Quincas Borba, o
-gracioso menino de outro tempo, o meu companheiro de collegio, tão
-intelligente e abastado. O Quincas Borba! Não, impossível; não pode
-ser. Não podia acabar de crer que essa figura esqualida, essa barba
-pintada de branco, esse maltrapilho avelhentado, que toda essa ruina
-fosse o Quincas Borba. E era. Os olhos tinham um resto da expressão de
-outro tempo; e o sorriso não perdera certo ar escarninho, que lhe era
-peculiar. Entretanto, elle supportava com firmeza o meu espanto. No fim
-de algum tempo arredei os olhos; se a figura repellia, a comparação
-acabrunhava.
-
---Não é preciso contar-lhe nada, disse elle emfim; o senhor adivinha
-tudo. Uma vida de miserias, de attribulações e de lutas. Lembra-se
-das nossas festas, em que eu figurava de rei? Que trambolhão! Acabo
-mendigo...
-
-E alçando a mão direita e os hombros, com um ar de indifferença,
-parecia resignado aos golpes da fortuna, e não sei até se contente.
-Talvez contente. Com certeza, impassivel. Não havia nelle a resignação
-christã, nem a conformidade philosophica. Parece que a miseria lhe
-callejára a alma, a ponto de lhe tirar a sensação da lama. Arrastava os
-andrajos, como outr'ora a purpura: com certa graça indolente.
-
---Procure-me, disse eu, poderei arranjar-lhe alguma cousa.
-
-Um sorriso magnifico lhe abriu os lábios.--Não é o primeiro que me
-promette alguma cousa, replicou; e não sei se será o ultimo que não
-me fará nada. E para que? Eu nada peço, a não ser dinheiro; dinheiro
-sim, porque é necessario comer, e as casas de pasto não fiam. Nem as
-quitandeiras. Uma cousa de nada, uns dous vinténs de angú, nem isso
-fiam as malditas quitandeiras.... Um inferno, meu... ia dizer meu
-amigo.... Um inferno! o diabo! todos os diabos! Olhe, ainda hoje não
-almocei.
-
---Não?
-
---Não; saí muito cedo de casa. Sabe onde moro? No terceiro degráu das
-escadas de S. Francisco, á esquerda de quem sobe; não precisa bater na
-porta. Casa fresca, extremamente fresca. Pois saí cedo, e ainda não
-comi...
-
-Tirei a carteira, escolhi uma nota de cinco mil réis,--a menos
-limpa,--e dei-lh'a. Elle recebeu-m'a com os olhos scintillantes de
-cobiça. Levantou a nota ao ar, e agitou-a enthusiasmado.
-
---_In hoc signo vinces!_ bradou.
-
-E depois beijou-a, com muitos ademanes de ternura, e tão ruidosa
-expansão, que me produziu um sentimento mixto de nôjo e lastima. Elle,
-que era arguto, entendeu-me; ficou serio, grotescamente serio, e
-pediu-me desculpa da alegria, dizendo que era alegria de pobre que não
-via, desde muitos annos, uma nota de cinco mil réis.
-
---Pois está em suas mãos ver outras muitas, disse eu.
-
---Sim? acudiu elle, dando um bote para mim.
-
---Trabalhando, conclui eu.
-
-Fez um gesto de desdem; calou-se alguns instantes; depois disse-me
-positivamente que não queria trabalhar. Eu estava enjoado dessa
-abjecção tão comica e tão triste, e preparei-me para sair.
-
---Não vá sem eu lhe ensinar a minha philosophia da miseria, disse elle,
-escarranchando-se diante de mim.
-
-
-
-
-CAPITULO LX
-
-
-O abraço
-
-
-Cuidei que o pobre diabo estivesse doudo, e ia afastar-me, quando
-elle me pegou no pulso, e olhou alguns instantes para o brilhante que
-eu trazia no dedo. Senti-lhe na mão uns estremeções de cobiça, uns
-pruridos de posse.
-
---Magnifico! disse elle.
-
-Depois começou a andar á roda de mim e a examinar-me muito.
-
---O senhor trata-se, disse elle. Joias, roupa fina, elegante e...
-Compare esses sapatos aos meus; que differença! Podera não! Digo-lhe
-que se trata. E moças? Como vão ellas? Está casado?
-
---Não...
-
---Nem eu.
-
---Móro na rua...
-
---Não quero saber onde mora, atalhou o Quincas Borba. Se alguma vez nos
-virmos, dê-me outra nota de cinco mil réis; mas permitta-me que não a
-vá buscar a sua casa. É uma especie de orgulho.... Agora, adeus; vejo
-que está impaciente.
-
---Adeus!
-
---E obrigado. Deixa-me agradecer-lhe de mais perto?
-
-E dizendo isto abraçou-me com tal impeto, que eu não pude evital-o.
-Separamo-nos finalmente, eu a passo largo, com a camisa amarrotada do
-abraço, enfadado e triste. Já não dominava em mim a parte sympathica da
-sensação, mas a outra. Quizera ver-lhe a miseria digna. Comtudo, não
-pude deixar de comparar outra vez o homem de agora com o de outr'ora,
-entristecer-me, e encarar o abysmo que separa as esperanças de um tempo
-da realidade de outro tempo...
-
---Ora adeus! Vamos jantar, disse commigo.
-
-Metto a mão no collete e não acho o relogio. Ultima desillusão! o Borba
-furtára-m'o no abraço.
-
-
-
-
-CAPITULO LXI
-
-
-Um projecto
-
-
-Jantei triste. Não era a falta do relogio que me pungia, era a
-imagem do autor do furto, e as reminiscencias de criança, e outra
-vez a comparação, e a conclusão... Desde a sopa, começou a abrir em
-mim a flor amarella e morbida do cap. XXV, e então jantei depressa,
-para correr á casa de Virgilia. Virgilia era o presente; eu queria
-refugiar-me nelle, para escapar ás oppressões do passado, porque o
-encontro do Quincas Borba tornara-me aos olhos o passado, não qual fora
-devéras, mas um passado roto, abjecto, mendigo e gatuno.
-
-Saí de casa, mas era cedo; iria achal-os á mesa. Outra vez pensei no
-Quincas Borba, e tive então um desejo de tornar ao Passeio Publico,
-a ver se o achava; a idéa de o regenerar surgiu-me como uma forte
-necessidade. Fui; mas já não o achei. Indaguei do guarda; disse-me que
-effectivamente «esse sujeito» ia por alli ás vezes.
-
---A que horas?
-
---Não tem hora certa.
-
-Não era impossivel encontral-o n'outra occasião; prometti a mim mesmo
-lá voltar. A necessidade de o regenerar, de o trazer ao trabalho e ao
-respeito de sua pessôa enchia-me o coração; eu começava a sentir um
-bem-estar, uma elevação, uma admiração de mim proprio... Nisto caía a
-noite; fui ter com Virgilia.
-
-
-
-
-CAPITULO LXII
-
-
-O travesseiro
-
-
-Fui ter com Virgilia; bem depressa esqueci o Quincas Borba. Virgilia
-era o travesseiro do meu espirito, um travesseiro molle, tepido,
-aromatico, enfronhado em cambraia e bruxellas. Era alli que elle
-costumava repousar de todas as sensações más, simplesmente enfadonhas,
-ou até dolorosas. E, bem pesadas as cousas, não era outra a razão da
-existencia de Virgilia; não podia ser. Cinco minutos bastaram para
-olvidar inteiramente o Quincas Borba; cinco minutos de uma contemplação
-mutua, com as mãos presas umas nas outras; cinco minutos e um beijo. E
-lá se foi a lembrança do Quincas Borba... Escrofula da vida, andrajo do
-passado, que me importa que existas, que molestes os olhos dos outros,
-se eu tenho dous palmos de um travesseiro divino, para fechar os olhos
-e dormir?
-
-
-
-
-CAPITULO LXIII
-
-
-Fujamos!
-
-
-Ai! nem sempre dormir. Tres semanas depois, indo á casa de
-Virgilia,--eram quatro horas da tarde,--achei-a triste e abatida. Não
-me quiz dizer o que era; mas, como eu instasse muito:
-
---Creio que o Damião desconfia alguma cousa. Noto agora umas
-exquisitices nelle... Não sei... Trata-me bem, não ha duvida; mas o
-olhar parece que não é o mesmo. Durmo, mal; ainda esta noite acordei,
-aterrada; estava sonhando que elle me ia matar. Talvez seja illusão,
-mas eu penso que elle desconfia...
-
-Tranquillisei-a como pude; disse que podiam ser cuidados politicos.
-Virgilia concordou que seriam, mas ficou ainda muito excitada e
-nervosa. Estavamos na sala de visitas, que dava justamente para a
-chacara, onde trocáramos o beijo inicial. Uma janella aberta deixava
-entrar o vento, que sacudia frouxamente as cortinas; e eu fiquei
-a olhar para as cortinas, sem as ver. Empunhára o binoculo da
-imaginação; lobrigava, ao longe, uma casa nossa, uma vida nossa, um
-mundo nosso, em que não havia Lobo Neves, nem casamento, nem moral, nem
-nenhum outro liame, que nos tolhesse a expansão da vontade. Esta idéa
-embriagou-me; eliminados assim o mundo, a moral e o marido, não haveria
-mais do que penetrar naquella habitação dos anjos.
-
---Virgilia, disse eu, proponho-te uma cousa.
-
---Que é?
-
---Amas-me?
-
---Oh! suspirou ella, cingindo-me os braços ao pescoço.
-
-Virgilia amava-me com furia; aquella resposta era a verdade patente.
-Com os braços ao meu pescoço, calada, respirando muito, deixou-se
-ficar a olhar para mim, com os seus grandes e bellos olhos, que davam
-uma sensação singular de luz humida; e eu deixei-me estar a vel-os, a
-namorar-lhe a boca, fresca como a madrugada, e insaciavel como a morte.
-A belleza de Virgilia tinha agora um tom grandioso, que não possuira
-antes de casar. Era dessas figuras talhadas em pentelico, de um lavor
-nobre, rasgado e puro, tranquillamente bella, como as estatuas, mas não
-apathica nem fria. Ao contrario, tinha o aspecto das naturezas calidas,
-e podia-se dizer, que, na realidade, resumia todo o amor. Resumia-o
-sobretudo naquella occasião, em que exprimia mudamente tudo quanto
-póde dizer a pupilla humana. Mas o tempo urgia; deslacei-lhe as mãos,
-peguei-lhe nos pulsos, e, fito nella, perguntei-lhe se tinha coragem.
-
---De que?
-
---De fugir. Iremos para onde nos fôr mais commodo, uma casa grande ou
-pequena, á tua vontade, na roça ou na cidade, ou na Europa, onde te
-parecer, onde ninguem nos aborreça, e não haja perigos pára ti, onde
-vivamos um para o outro... Sim? fujamos. Tarde ou cedo, elle póde
-descobrir alguma cousa, e estarás perdida... ouves? perdida... morta...
-e elle tambem, porque eu o matarei, juro-te.
-
-Interrompi-me; Virgilia empallidecêra muito, deixou cair os braços
-e sentou-se no canapé. Esteve assim alguns instantes, sem me dizer
-palavra, não sei se vacillante na escolha, se aterrada com a idéa da
-descoberta e da morte. Fui-me a ella, insisti na proposta, disse-lhe
-todas as vantagens de uma vida a sós, sem zelos, nem terrores, nem
-afflicções. Virgilia ouvia-me calada; depois disse:
-
---Não escapariamos talvez; elle iria ter commigo e matava-me do mesmo
-modo.
-
-Mostrei-lhe que não. O mundo era assás vasto, e eu tinha os meios de
-viver onde quer que houvesse ar puro e muito sol; elle não chegaria até
-lá; só as grandes paixões são capazes de grandes acções, e elle não a
-amava tanto que pudesse ir buscal-a, se ella estivesse longe. Virgilia
-fez um gesto de espanto e quasi indignação; murmurou que o marido
-gostava muito della.
-
---Póde ser, respondi eu; póde ser que sim...
-
-E fui até a janella, e comecei a assobiar e a rufar com os dedos no
-peitoril, Virgilia chamou-me; eu deixei-me estar, a remoer os meus
-zelos, a desejar estrangular o marido, se o tivesse alli á mão...
-Justamente, nesse instante, entrou na chacara o Lobo Neves. Não tremas
-assim, leitora pallida; descança, que não hei de rubricar esta lauda
-com um pingo de sangue. Logo que o Lobo Neves entrou na chacara,
-fiz-lhe um gesto amigo, acompanhado de uma palavra graciosa; Virgilia
-retirou-se apressadamente da sala, e elle entrou dahi a tres minutos.
-
---Está cá ha muito tempo? disse-me elle.
-
---Não.
-
-Entrára serio, pesado, derramando os olhos de um modo distrahido,
-costume seu, que trocou logo por uma verdadeira expansão de
-jovialidade, quando viu, chegar o filho, o nhonhô, o futuro bacharel do
-cap. VIII; tomou-o nos braços, levantou-o ao ar, beijou-o muitas vezes.
-Eu, que tinha odio ao menino, afastei-me de ambos. Virgilia tornou á
-sala.
-
---Ah! respirou o Lobo Neves, sentando-se preguiçosamente no sophá.
-
---Cançado? perguntei eu.
-
---Muito; aturei duas massadas de primeira ordem, uma na camara e outra
-na rua. E ainda temos terceira, accrescentou, olhando para a mulher..
-
---Que é? perguntou Virgilia.
-
---Um... Adivinha!
-
-Virgilia sentara-se ao lado delle, pegou-lhe n'uma das mãos, compoz-lhe
-a gravata, e tornou a perguntar o que era.
-
---Nada menos que um camarote.
-
---Para a Candiani?
-
---Para a Candiani.
-
-Virgilia bateu palmas, levantou-se, deu um beijo no filho, com um ar
-de alegria pueril, que destoava muito da figura; depois perguntou se o
-camarote era de boca ou do centro, consultou o marido, em voz baixa,
-acerca da _toilette_ que faria, da opera que se cantava, e de não sei
-que outras cousas.
-
---Você janta comnosco, doutor, disse-me o Lobo Neves.
-
---Veiu para isso mesmo, confirmou a mulher; diz que você possue o
-melhor vinho do Rio de Janeiro.
-
---Nem por isso bebe muito.
-
-Ao jantar, desmenti-o; bebi mais do que costumava; ainda assim, menos
-do que era preciso para perder a razão. Já estava excitado, fiquei urn
-pouco mais. Era a primeira grande colera que eu sentia contra Virgilia.
-Não olhei uma só vez para ella durante o jantar; falei de politica, da
-imprensa, do ministerio, creio que falaria de theologia, se a soubesse,
-ou se me lembrasse. O Lobo Neves acompanhava-me com muita placidez e
-dignidade, e até com certa benevolencia superior; e tudo aquillo me
-irritava tambem, e me tornava mais amargo e longo o jantar. Despedi-me
-apenas nos levantámos da mesa.
-
---Até logo, não? perguntou o Lobo Neves.
-
---Póde ser.
-
-E sai.
-
-
-
-
-CAPITULO LXIV
-
-
-A transacção
-
-
-Vaguei pelas ruas e recolhi-me ás nove horas. Não podendo dormir,
-atirei-me a ler e escrever. Ás onze horas estava arrependido de não
-ter ido ao theatro, consultei o relogio, quiz vestir-me, e saír.
-Julguei, porém, que chegaria tarde; demais, era dar prova de fraqueza.
-Evidentemente, Virgilia começava a aborrecer-se de mim, pensava eu.
-E esta idéa fez-me successivamente desesperado e frio, disposto a
-esquecel-a e a matal-a. Via-a d'alli mesmo, reclinada no camarote,
-com os seus magnificos braços nús,--os braços que eram meus, só
-meus,--fascinando os olhos de todos, com o vestido soberbo que havia
-de ter, o collo de leite, os cabellos postos em bandós, á maneira do
-tempo, e os brilhantes, menos luzidios que os olhos della... Via-a
-assim, e doía-me que a vissem outros. Depois, começava a despil-a,
-a pôr de lado as joias e sedas, a despenteal-a com as minhas mãos
-sofregas e lascivas, a tornal-a,--não sei se mais bella, se mais
-natural,--a tornal-a minha, sómente minha, unicamente minha.
-
-No dia seguinte, não me pude ter; fui cedo á casa de Virgilia; achei-a
-com os olhos vermelhos de chorar.
-
---Que houve? perguntei.
-
---Você não me ama, foi a sua resposta; nunca me teve a menor somma de
-amor. Tratou-me hontem como se me tivesse odio. Se eu ao menos soubesse
-o que é que fiz! Mas não sei. Não me dirá o que foi?
-
---Que foi o que? Creio que não houve nada.
-
---Nada? Tratou-me como não se trata um cachorro...
-
-A esta palavra, peguei-lhe nas mãos, beijei-as, e duas lagrimas
-rebentaram-lhe dos olhos.
-
---Acabou, acabou, disse eu.
-
-Não tive animo de arguir, e, aliás, arguil-a de que? Não era culpa
-della se o marido a amava. Disse-lhe que não me fizera cousa nenhuma,
-que eu tinha necessariamente ciumes do outro, que nem sempre o podia
-supportar de cara alegre; accrescentei que talvez houvesse nelle muito
-de dissimulação, e que o melhor meio de fechar a porta aos sustos e ás
-dissensões era aceitar a minha idéa da vespera.
-
---Pensei nisso, acudiu Virgilia; uma casinha só nossa, solitaria,
-mettida n'um jardim, em alguma rua escondida, não é? Acho a idéa boa;
-mas para que fugir?
-
-Disse isto com o tom ingenuo e preguiçoso de quem não cuida em mal, e o
-sorriso que lhe derreava os cantos da boca trazia a mesma expressão de
-candidez. Então, afastando-me, respondi:
-
---Você é que nunca me teve amor.
-
---Eu?
-
---Sim, é uma egoista! prefere ver-me padecer todos os dias... é uma
-egoista sem nome!
-
-Virgilia desatou a chorar, e para não attrahir gente, mettia o lenço na
-boca, recalcava os soluços; explosão que me desconcertou. Se alguem a
-ouvisse, perdia-se tudo. Inclinei-me para ella, travei-lhe dos pulsos,
-susurrei-lhe os nomes mais doces da nossa intimidade; mostrei-lhe o
-perigo; o terror apaziguou-a.
-
---Não posso, disse ella dahi a alguns instantes; não deixo meu filho;
-se o levar, estou certa de que elle me irá buscar ao fim do mundo. Não
-posso; mate-me você, se o quizer, ou deixe-me morrer... Ah! meu Deus!
-meu Deus!
-
---Socegue; olhe que podem ouvil-a.
-
---Que ouçam! Não me importa.
-
-Estava ainda excitada; pedi-lhe que esquecesse tudo, que me perdoasse,
-que eu era um doudo, mas que a minha insania provinha della e com ella
-acabaria. Virgilia enxugou os olhos e estendeu-me a mão. Sorrimos
-ambos; minutos depois, tornávamos ao assumpto da casinha solitaria, em
-alguma rua escusa...
-
-
-
-
-CAPITULO LXV
-
-
-Olheiros e escutas
-
-
-Interrompeu-nos o rumor de um carro na chacara. Veiu um escravo dizer
-que era a baroneza X. Virgilia consultou-me com os olhos.
-
---Se a senhora está assim com dor de cabeça, disse eu, parece que o
-melhor é não receber.
-
---Já se apeou? perguntou Virgilia ao escravo.
-
---Já se apeou; diz que precisa muito de falar com sinhá!
-
---Que entre!
-
-A baroneza entrou dahi a pouco. Não sei se contava commigo na sala; mas
-era impossivel mostrar maior alvoroço.
-
---Bons olhos o vejam! explodiu ella. Onde se mette o senhor que não
-apparece em parte nenhuma? Pois olhe, hontem admirou-me não o ver no
-theatro. A Candiani esteve deliciosa. Que mulher! Gosta da Candiani?
-É natural. Os senhores são todos os mesmos. O barão dizia hontem, no
-camarote, que uma só italiana vale por cinco brazileiras. Que desaforo!
-e desaforo de velho, que é peor. Mas porque é que o senhor não foi
-hontem ao theatro?
-
---Uma enxaqueca.
-
---Qual! Algum namoro; não acha, Virgilia? Pois, meu amigo, apresse-se,
-porque o senhor deve estar com quarenta annos... ou perto disso... Não
-tem quarenta annos?
-
---Não lhe posso dizer com certeza, respondi eu; mas se me dá licença,
-vou consultar a certidão de baptismo.
-
---Vá, vá... E estendendo-me a mão:--Até quando? Sabbado ficamos em
-casa; o barão está com umas saudades suas...
-
-Chegando á rua, arrependi-me de ter saído. A baroneza era uma das
-pessoas que mais desconfiavam de nós. Cincoenta e cinco annos, que
-pareciam quarenta, macia, risonha, vestigios de belleza, porte elegante
-e maneiras finas. Não falava muito nem sempre; possuia a grande arte
-de escutar os outros, espiando-os; reclinava-se então na cadeira,
-desembainhava um olhar afiado e comprido, e deixava-se estar. Os
-outros, não sabendo o que era, falavam, olhavam, gesticulavam, ao tempo
-que ella olhava só, ora fixa, ora mobil, levando a astucia ao ponto de
-olhar ás vezes para dentro de si, porque deixava cair as palpebras;
-mas, como as pestanas eram rotulas, o olhar continuava o seu officio,
-remexendo a alma e a vida dos outros.
-
-A segunda pessoa era um parente de Virgilia, o Viegas, um cangalho de
-setenta invernos, chupado e amarellado, que padecia de um rheumatismo
-teimoso, de uma asthma não menos teimosa e de uma lesão do coração: era
-um hospital concentrado. Os olhos porém luziam de muita vida e saúde.
-Virgilia, nas primeiras semanas, não lhe tinha medo nenhum; dizia-me
-que, quando o Viegas parecia espreitar, com o olhar fixo, estava
-simplesmente contando dinheiro. Com effeito, era um grande avaro.
-
-Havia ainda o primo de Virgilia, o Luiz Dutra, que eu, entretanto,
-desarmava á força de lhe falar nos versos e prosas, e de o apresentar
-aos conhecidos. Quando estes, ligando o nome á pessoa, se mostravam
-contentes da apresentação, não ha duvida que o Luiz Dutra exultava de
-felicidade; mas eu curava-me da felicidade com a esperança de que elle
-nos não denunciasse nunca. Havia, emfim, umas duas ou tres senhoras,
-vários gamenhos, e os famulos, que naturalmente se desforravam assim
-da condição servil, e tudo isso constituia uma verdadeira floresta
-de olheiros e escutas, por entre os quaes tinhamos de resvalar com a
-tactica e maciez das cobras.
-
-
-
-
-CAPITULO LXVI
-
-
-As pernas
-
-
-Ora, emquanto eu pensava naquella gente, iam-me as pernas levando,
-ruas abaixo, de modo que insensivelmente me achei á porta do hotel
-Pharoux. De costume jantava ahi; mas, não tendo deliberadamente andado,
-nenhum merecimento da acção me cabe, e sim ás pernas, que a fizeram.
-Abençoadas pernas! E ha quem vos trate com desdem ou indifferença.
-Eu mesmo, até então, tinha-vos em má conta, zangava-me quando vos
-fatigaveis, quando não podieis ir além de certo ponto, e me deixaveis
-com o desejo a avoaçar, á semelhança de gallinha atada pelos pés.
-
-Aquelle caso, porém, foi um raio de luz. Sim, pernas amigas, vós
-deixastes á minha cabeça o trabalho de pensarem Virgilia, e dissestes
-uma á outra:--Elle precisa comer, são horas de jantar, vamos levai-o ao
-Pharoux; dividamos a consciencia delle, uma parte fique lá com a dama,
-tomemos nós a outra, para que elle vá direito, não abalroe as gentes e
-as carroças, tire o chapeu aos conhecidos, e finalmente chegue são e
-salvo ao hotel. E cumpristes á risca o vosso proposito, amaveis pernas,
-o que me obriga a immortalisar-vos nesta pagina.
-
-
-
-
-CAPITULO LXVII
-
-
-A casinha
-
-
-Jantei e fui á casa. Lá achei uma caixa de charutos, que me mandára o
-Lobo Neves, embrulhada em papel de seda, e ornada de fitinhas côr de
-rosa. Entendi, abri-a, e tirei este bilhete:
-
- «Meu B...
-
- «Desconfiam de nós; tudo está perdido; esqueça-me para
- sempre. Não nos veremos mais. Adeus; esqueça-se da infeliz
-
- «V...a»
-
-Foi um golpe esta carta; não obstante, apenas fechou a noite, corri á
-casa de Virgilia. Era tempo; estava arrependida. Ao vão de uma janella,
-contou-me o que se passára com a baroneza. A baroneza disse-lhe
-francamente que se falára muito, no theatro, na noite anterior,
-a proposito da minha ausencia do camarote de Lobo Neves; tinham
-commentado as minhas relações na casa; em suma, eramos objecto da
-suspeita publica. Conclui dizendo que não sabia o que fazer.
-
---O melhor é fugirmos, insinuei.
-
---Nunca, respondeu ella abanando a cabeça.
-
-Vi que era impossivel separar duas cousas que no espirito della estavam
-inteiramente ligadas: o nosso amor e a consideração publica. Virgilia
-era capaz de eguaes e grandes sacrificios para conservar ambas as
-vantagens; e a fuga só lhe deixava uma. Talvez senti alguma cousa
-semelhante a despeito; mas as comoções daquelles dous dias eram já
-muitas, e o despeito morreu depressa. Vá lá; arranjemos a casinha.
-
-Com effeito, achei-a, dias depois, expressamente feita, em um
-recanto da Gamboa. Um brinco! Nova, caiada de fresco, com quatro
-janellas na frente e duas de cada lado,--todas com venezianas côr de
-tijolo,--trepadeira nos cantos, jardim na frente; mysterio e solidão.
-Um brinco!
-
-Convencionámos que iria morar alli uma mulher, conhecida de Virgilia,
-em cuja casa fora costureira e aggregada. Virgilia exercia sobre ella
-verdadeira fascinação. Não se lhe diria tudo; ella aceitaria facilmente
-o resto.
-
-Para mim era aquillo uma situação nova do nosso amor, uma apparencia
-do posse exclusiva, de dominio absoluto, alguma cousa que me faria
-adormecer a consciencia o resguardar o decoro. Já estava cançado das
-cortinas do outro, das cadeiras, do tapete, do canapé, de todas essas
-cousas, que me traziam aos olhos constantemente a nossa duplicidade.
-Agora podia evitar os jantares frequentes, o chá de todas as noites,
-emfim a presença do filho delles, meu complice e meu inimigo. A casa
-resgatava-me tudo; o mundo vulgar terminaria á porta;--dalli para
-dentro era o infinito, um mundo eterno, superior, excepcional, nosso,
-somente nosso, sem leis, sem instituições, sem baronezas, sem olheiros,
-sem escutas,--um só mundo, um só casal, uma só vida, uma só vontade,
-uma só affeição,--a unidade moral de todas as cousas pela exclusão das
-que me eram contrarias.
-
-
-
-
-CAPITULO LXVIII
-
-
-O vergalho
-
-
-Taes eram as reflexões que eu vinha fazendo, por aquelle Valongo fóra,
-logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-m'as um ajuntamento;
-era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a
-fugir; gemia somente estas unicas palavras:
-
---«Não, perdão, meu senhor; meu senhor, perdão!» Mas o primeiro não
-fazia caso, e, a cada supplica, respondia com uma vergalhada nova.
-
---Toma, diabo! dizia elle; toma mais perdão, bebado!
-
---Meu senhor! gemia o outro.
-
---Cala a boca, besta! replicava o vergalho.
-
-Parei, olhei... Justos ceus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada
-menos que o meu moleque Prudencio,--o que meu pae libertára alguns
-annos antes. Cheguei-me; elle deteve-se logo e pediu-me a benção;
-perguntei-lhe se aquelle preto era escravo delle.
-
---E, sim, nhonhô.
-
---Fez-te alguma cousa?
-
---É um vadio e um bebado muito grande. Ainda hoje deixei elle na
-quitanda, em quanto eu ia lá embaixo na cidade, e elle deixou a
-quitanda para ir na venda beber.
-
---Está bom, perdoa-lhe, disse eu.
-
---Pois não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bebado!
-
-Saí do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas conjecturas.
-Segui caminho, a cavar cá dentro uma infinidade de reflexões, que sinto
-haver inteiramente perdido; aliás, seria materia para um bom capitulo,
-e talvez alegre. Eu gósto dos capitulos alegres; é o meu fraco.
-Exteriormente, era torvo o episodio do Valongo; mas só exteriormente.
-Logo que metti mais dentro a faca do raciocinio achei-lhe um miolo
-gaiato, fino, e até profundo. Era um modo que o Prudencio tinha de
-se desfazer das pancadas recebidas,--transmittindo-as a outro. Eu,
-em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem
-compaixão; elle gemia e soffria. Agora, porém, que era livre, dispunha
-de si mesmo, dos braços, das pernas, podia, trabalhar, folgar, dormir,
-desagrilhoado da antiga condição, agora é que elle se desbancava:
-comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de
-mim recebera. Vejam as subtilezas do maroto!
-
-
-
-
-CAPITULO LXIX
-
-
-Um grão de sandice
-
-
-Este caso faz-me lembrar um doudo que conheci. Chamava-se Romualdo e
-dizia ser Tamerlão. Era a sua grande e unica mania, e tinha uma curiosa
-maneira de a explicar.
-
---Eu sou o illustre Tamerlão, dizia elle. Outr'ora fui Romualdo, mas
-adoeci, e tomei tanto tartaro, tanto tartaro, tanto tartaro, que fiquei
-Tartaro, e até rei dos Tartaros. O tartaro tem a virtude de fazer
-Tartaros.
-
-Pobre Romualdo! A gente ria da resposta, mas é provavel que o leitor
-não se ria, e com razão; eu não lhe acho graça nenhuma. Ouvida, tinha
-algum chiste; mas assim contada, no papel, e a proposito de um vergalho
-recebido e transferido, força é confessar que é muito melhor voltar á
-casinha da Gamboa; deixemos os Romualdos e Prudencios.
-
-
-
-
-CAPITULO LXX
-
-
-D. Placida
-
-
-Voltemos á casinha. Não serias capaz de lá entrar hoje, curioso leitor;
-envelheceu, ennegreceu, apodreceu, e o proprietario deitou-a abaixo
-para substituil-a por outra, tres vezes maior, mas juro-te que muito
-menor que a primeira. O mundo era estreito para Alexandre; um desvão de
-telhado é o infinito para as andorinhas.
-
-E vejam agora a neutralidade deste globo, que nos leva, atravez dos
-espaços, como uma lancha de naufragos, que vae dar á costa: dorme hoje
-um casal de virtudes no mesmo espaço de chão que soffreu um casal de
-peccados. Amanhã pode lá dormir um ecclesiastico, depois um assassino,
-depois um ferreiro, depois um poeta, e todos abençoarão esse canto de
-terra, que lhes deu algumas illusões.
-
-Virgilia fez daquillo um brinco; designou as alfaias mais idoneas, e
-dispol-as com a intuição esthetica da mulher elegante; eu levei para
-lá alguns livros; e tudo ficou sob a guarda de D. Placida, supposta, e,
-a certos respeitos, verdadeira dona da casa.
-
-Custou-lhe muito a aceitar a casa; farejára a intenção, e doia-lhe o
-officio; mas afinal cedeu. Creio que chorava, a principio: tinha nojo
-de si mesma. Ao menos, é certo que não levantou os olhos para mim
-durante os primeiros dous mezes; falava-me com elles baixos, séria,
-carrancuda, ás vezes triste. Eu queria angarial-a, e não me dava por
-offendido, tratava-a com carinho e respeito; forcejava por obter-lhe a
-benevolencia, depois a confiança. Quando obtive a confiança, imaginei
-uma historia pathetica dos meus amores com Virgilia, um caso anterior
-ao casamento, a resistencia do pae, a dureza do marido, e não sei que
-outros toques de novella. D. Placida não rejeitou uma só pagina da
-novella; aceitou-as todas. Era uma necessidade da consciencia. Ao cabo
-de seis mezes quem nos visse a todos tres juntos diria que D. Placida
-era minha sogra.
-
-Não fui ingrato; fiz-lhe um peculio de cinco contos,--os cinco
-contos achados em Botafogo,--como um pão para a velhice. D. Placida
-agradeceu-me com lagrimas nos olhos; e nunca mais deixou de rezar por
-mim, todas as noites, deante de uma imagem da Virgem, que tinha no
-quarto. Foi assim que lhe acabou o nojo.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXI
-
-
-O senão do livro
-
-
-Começo a arrepender-me deste livro. Não que elle me cance; eu não tenho
-que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capitulos para esse
-mundo sempre é tarefa que distráe um pouco da eternidade. Mas o livro
-é enfadonho, cheira a sepulchro, traz certa contracção cadaverica;
-vicio grave, e aliás infimo, porque o maior defeito deste livro és tu,
-leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a
-narração direita e nutrida, o estylo regular e fluente, e este livro e
-o meu estylo são como os ebrios, guinam á direita e á esquerda, andam e
-param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o ceu, escorregam e cáem...
-
-E cáem!--Folhas miserrimas do meu cypreste, heis de cair, como
-quaesquer outras bellas e vistosas; e, se eu tivesse olhos, dar-vos-hia
-uma lagrima de saudade. Esta é a grande vantagem da morte, que se
-não deixa boca para rir, tambem não deixa olhos para chorar... Heis
-de cair. Turvo é o ar que respiraes, amadas folhas. O sol que vos
-allumia, com ser de toda a gente, é um sol opaco e reles, de cemiterio
-e carnaval.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXII
-
-
-O bibliomano
-
-
-Talvez supprima o capitulo anterior; entre outros motivos, ha* ahi, nas
-ultimas linhas, uma phrase muito parecida com desproposito, e eu não
-quero dar pasto á critica do futuro.
-
-Olhae: daqui a setenta annos, um sugeito magro, amarello, grisalho, que
-não ama nenhuma outra cousa além dos livros, inclina-se sobre a pagina
-anterior, a ver se lhe descobre o desproposito; lê, relê, treslê,
-desengonça as palavras, sacca uma syllaba, depois outra, mais outra,
-e as restantes, examina-as por dentro e por fóra, por todos os lados,
-contra a luz, espaneja-as, esfrega-as no joelho, lava-as, e nada. Fica
-sempre o mesmo desproposito.
-
-É um bibliomano. Não conhece o autor; este nome de Braz Cubas não vem
-nos seus diccionarios biographicos. Achou o volume, por acaso, no
-pardieiro de um alfarrabista. Comprou-o por duzentos réis. Indagou,
-pesquizou, esgaravatou, e veiu a descobrir que era um exemplar,
-unico... Unico! Vós, que não só amaes os livros, senão que padeceis a
-mania delles, vós sabeis mui bem o valor desta palavra, e adivinhaes,
-portanto, as delicias de meu bibliomano. Elle regeitaria a corôa das
-Indias, o papado, todos os muzeus da Italia e da Hollanda, se os
-houvesse de trocar por esse unico exemplar; e não porque seja o das
-minhas _Memorias_; faria a mesma cousa com o _Almanak_ de Laemmert, uma
-vez que fosse unico.
-
-O peor é o desproposito. Lá continúa o homem inclinado sobre a pagina,
-com uma lente no olho direito, todo entregue á nobre e aspera funcção
-de decifrar o desproposito. Já prometteu a si mesmo escrever uma
-breve memoria, na qual relate o achado do livro e a descoberta da
-sublimidade, se a houver por baixo daquella phrase obscura. Ao cabo,
-não descobre nada e contenta-se com a posse. Fecha o livro, mira-o,
-remira-o, chega-se á janella e mostra-o ao sol. Um exemplar unico!
-Nesse momento passa-lhe por baixo da janella um Cesar ou um Cromwell,
-a caminho do poder. Elle dá de hombros, fecha a janella, estira-se
-na rede e folhea o livro devagar, com amor, aos goles... Um exemplar
-unico!
-
-
-
-
-CAPITULO LXXIII
-
-
-O lunch
-
-
-O desproposito fez-me perder outro capitulo. Que melhor não era dizer
-as cousas lisamente, sem todos estes solavancos! Já comparei o meu
-estylo ao andar dos ebrios. Se a idéa vos parece indecorosa, direi
-que elle é o que eram as minhas refeições com Virgilia, na casinha da
-Gamboa, onde ás vezes faziamos a nossa patuscada, o nosso _lunch._
-Vinho, fructas, compotas. Comiamos, é verdade, mas era um comer
-virgulado de palavrinhas doces, de olhares ternos, de criancices,
-uma infinidade desses apartes do coração, aliás o verdadeiro, o
-ininterrupto discurso do amor. Ás vezes vinha o arrufo temperar o
-nimio adocicado da situação. Ella deixava-me, refugiava-se n'um canto
-do canapé, ou ia para o interior ouvir as denguices de D. Placida.
-Cinco ou dez minutos depois, reatavamos a palestra, como eu reato a
-narração, para desatal-a outra vez. Note-se que, longe de termos horror
-ao methodo, era nosso costume convidal-o, na pessoa de D. Placida, a
-sentar-se comnosco á meza; mas D. Placida não aceitava nunca.
-
---Você parece que não gosta mais de mim, disse-lhe um dia Virgilia.
-
---Virgem Nossa Senhora! exclamou a boa dama alçando as mãos para o
-tecto. Não gosto de Yayá! Mas então de quem é que eu gostaria neste
-mundo?
-
-E, pegando-lhe nas mãos, olhou-a fixamente, fixamente, fixamente, até
-molharem-se-lhe os olhos, de tão fixo que era. Virgilia acariciou-a
-muito; eu deixei-lhe uma pratinha na algibeira do vestido.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXIV
-
-
-Historia de D. Placida
-
-
-Não te arrependas de ser generoso; a pratinha rendeu-me uma confidencia
-de D. Placida, e conseguintemente este capitulo. Dias depois, como eu
-a achasse só em casa, travámos palestra, e ella contou-me em breves
-termos a sua historia. Era filha natural de um sacristão da Sé e de
-uma mulher que fazia doces para fóra. Perdeu o pae aos dez annos. Já
-então ralava côco e fazia não sei que outros misteres de doceira,
-compativeis com a edade. Aos quinze ou dezeseis casou com um alfaiate,
-que morreu tisico algum tempo depois, deixando-lhe uma filha. Viuva,
-com pouco mais de vinte annos, ficaram a seu cargo a filha, com dous, e
-a mãe, cançada de trabalhar. Tinha de sustentar a tres pessoas. Fazia
-doces, que era o seu officio, mas cosia tambem, de dia e de noite, com
-affinco, para tres ou quatro lojas, e ensinava algumas crianças do
-bairro, a dez tostões por mez. Com isto iam-se passando os annos, não
-a belleza, porque não a tivera nunca. Appareceram-lhe alguns namoros,
-propostas, seducções, a que resistia.
-
---Se eu pudesse encontrar outro marido, disse-me ella, creia que me
-teria casado; mas ninguem queria casar commigo.
-
-Um dos pretendentes conseguiu fazer-se aceito; não sendo, porém, mais
-delicado que os outros, D. Placida despediu-o do mesmo modo, e depois
-de o despedir chorou muito. Continuou a coser para fóra e a escumar
-os tachos. A mãe tinha a rabugem do temperamento, dos annos e da
-necessidade; mortificava a filha para que tomasse um dos maridos de
-emprestimo e de occasião, que lh'a pediam. E bradava:
-
---Queres ser melhor do eu? Não sei donde te vem essas fiducias de
-pessoa rica. Minha camarada, a vida não se arranja á toa; não se
-come vento. Ora esta! Moços tão bons como o Polycarpo da venda,
-coitado...Esperas algum fidalgo, não é?
-
-D. Placida jurou-me que não esperava fidalgo nenhum. Era genio. Queria
-ser casada. Sabia muito bem que a mãe o não fôra, e conhecia algumas
-que tinham só o seu moço dellas; mas era genio e queria ser casada.
-Não queria tambem que a filha fosse outra cousa. E trabalhava muito,
-queimando os dedos ao fogão, e os olhos ao candieiro, para comer e não
-cair. Emmagreceu, adoeceu, perdeu a mãe, enterrou-a por subscripção,
-e continuou a trabalhar. A filha estava com quatorze annos; mas era
-muito fraquinha, e não fazia nada, a não ser namorar os capadocios
-que lhe rondavam a rotula. D. Placida vivia com immensos cuidados,
-levando-a comsigo, quando tinha de ir entregar costuras; e a gente das
-lojas arregalava e piscava os olhos, convencida de que ella a levava
-para colher marido ou outra cousa. Alguns diziam graçolas, faziam
-comprimentos; a mãe chegou a receber propostas de dinheiro...
-
-Interrompeu-se um instante, e continuou logo:
-
---Minha filha fugiu-me; foi com um sujeito, nem quero saber...
-Deixou-me só, mas tão triste, tão triste, que pensei morrer. Não tinha
-ninguem mais no mundo e estava quasi velha e doente. Foi por esse tempo
-que conheci a familia de Yayá; boa gente, que me deu que fazer, e até
-chegou a me dar casa. Estive lá muitos mezes, um anno, mais de um anno,
-aggregada, costurando. Saí quando Yayá casou. Depois vivi como Deus
-foi servido. Olhe os meus dedos, olhe estas mãos... E mostrou-me as
-mãos grossas e gretadas, as pontas dos dedos picadas da agulha.--Não
-se cria isto á toa, meu senhor; Deus sabe como é que isto se cria...
-Felizmente, Yayá me protegeu, e o senhor doutor tambem... Eu tinha um
-medo de acabar na rua, pedindo esmola...
-
-Ao soltar a ultima phrase, D. Placida teve um calafrio. Depois, como se
-tornasse a si, pareceu attentar na inconveniência daquella confissão
-ao amante de uma mulher casada, e começou a rir, a desdizer-se, a
-chamar-se tola, «cheia de fiducias», como lhe dizia a mãe; enfim,
-cançada do meu silencio, retirou-se da sala. Eu fiquei a olhar para a
-ponta do botim.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXV
-
-
-Commigo
-
-
-Podendo acontecer que algum dos meus leitores tenha pulado o capitulo
-anterior, observo que é preciso lel-o para entender o que eu disse
-commigo, logo depois que D. Placida saiu da sala. O que eu disse foi
-isto:
-
---Assim, pois, o sacristão da Sé, um dia, ajudando a missa, viu entrar
-a dama, que devia ser sua collaboradora na vida de D. Placida. Viu-a
-outros dias, durante semanas inteiras, gostou, disse-lhe alguma graça,
-pisou-lhe o pé, ao acender os altares, nos dias de festa. Ella gostou
-delle, acercaram-se, amaram-se. Dessa conjuncção de luxurias vadias
-brotou D. Placida. É de crer que D. Placida não falasse ainda quando
-nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias:--Aqui
-estou. Para que me chamastes? E o sacristão e a sacristã naturalmente
-lhe respondi riam:--Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos,
-os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para
-outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e
-sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas
-sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia
-na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, n'um momento de
-sympathia.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXVI
-
-
-O estrume
-
-
-Subito deu-me a consciência um repellão; accusou-me de ter feito
-capitular a probidade de D. Placida, obrigando-a a um papel torpe,
-depois de uma longa vida de trabalho e privações. Medianeira não era,
-melhor que concubina; e eu tinha-a baixado a esse officio, á custa
-de obsequios e dinheiros. Foi o que me disse a consciencia; e eu
-fiquei uns dez minutos sem saber que lhe replicasse. Ella accrescentou
-que eu me aproveitára da fascinação exercida por Virgilia sobre a
-ex-costureira, da gratidão desta, emfim da necessidade. Notou a
-resistência de D. Placida, as lagrimas dos primeiros dias, as caras
-feias, os silencios, os olhos baixos, e a minha arte em supportar
-tudo isso, até vencel-a. E repuxou-me outra vez de um modo irritado e
-nervoso.
-
-Concordei que assim era, mas alleguei que a velhice de D. Placida
-estava agora ao abrigo da mendicidade; era uma compensação. E
-raciocinei então que, se não fossem os meus amores, provavelmente
-D. Placida acabaria como tantas outras creaturas humanas; donde se
-poderia deduzir que o vicio é muitas vezes o estrume da virtude. O que
-não impede que a virtude, seja uma flor cheirosa e sã. A consciência
-concordou, e eu fui abrir a porta a Virgilia.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXVII
-
-
-Entrevista
-
-
-Virgilia entrou risonha e socegada. Os tempos tinham levado os
-sustos e vexames. Que doce que era vel-a chegar, nos primeiros dias,
-envergonhada e tremula! Ia de sege, velado o rosto, envolvida n'uma
-especie de manteu, que lhe disfarçava as ondulações do talhe. Da
-primeira vez deixou-se cair no canapé, offegante, escarlate, com os
-olhos no chão; e, palavra! em nenhuma outra occasião a achei tão bella,
-talvez porque nunca me senti mais lisonjeado.
-
-Agora, porém, como eu dizia, tinham acabado os sustos e vexames; as
-entrevistas entravam no periodo chronometrico. A intensidade de amor
-era a mesma; a differença é que a chamma perdera o tresloucado dos
-primeiros dias para constituir-se um simples feixe de raios, tranquillo
-e constante, como nos casamentos.
-
---Estou muito zangada com você, disse ella sentando-se.
-
---Porque?
-
---Porque não foi lá hontem, como me tinha dito. O Damião perguntou
-muitas vezes se você não iria, ao menos, tomar chá. Porque é que não
-foi?
-
-Com effeito, eu havia faltado á palavra que dera, e a culpa era toda de
-Virgilia, Questão de ciúmes. Essa mulher esplendida sabia que o era, e
-gostava de o ouvir dizer, fosse em voz alta ou baixa. Na antevespera,
-em casa da baroneza, valsara duas vezes com o mesmo peralta, depois
-de lhe escutar as cortezanices, ao canto de uma janella. Estava tão
-alegre! tão derramada! tão cheia de si! Quando descobriu, entre as
-minhas sobrancelhas, a ruga interrogativa e ameaçadora, não teve nenhum
-sobresalto, nem ficou subitamente séria; mas deitou ao mar o peralta
-e as cortezanices. Veiu depois a mim, tomou-me o braço, e levou-me
-até outra sala, menos povoada, onde se me queixou de cançaço, e disse
-muitas outras cousas, com o ar pueril que costumava ter, em certas
-occasiões, e eu ouvi-a quasi sem responder nada.
-
-Agora mesmo, custava-me responder alguma cousa, mas emfim contei-lhe
-o motivo da minha ausencia... Não, eternas estrellas, nunca vi olhos
-mais pasmados. A boca semi-aberta, as sobrancelhas arqueadas, uma
-estupefacção visivel, tangivel, que senão podia negar, tal foi a
-primeira replica de Virgilia; abanou a cabeça com um sorriso de piedade
-e ternura, que inteiramente me confundiu.
-
---Ora você!
-
-E foi tirar o chapéo, lepida, jovial, como a menina que torna do
-collegio; depois veiu a mim, que estava sentado, deu-me pancadinhas na
-testa, com um só dedo, a repetir;--Isto, isto;--e eu não tive remedio
-senão rir tambem, e tudo acabou em galhofa. Era claro que me enganára.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXVIII
-
-
-A presidencia
-
-
-Certo dia, mezes depois, entrou o Lobo Neves em casa, dizendo que iria
-talvez occupar uma presidencia de provincia. Olhei para Virgilia, que
-empallideceu; elle, que a viu empallidecer, perguntou-lhe:
-
---A modo que não gostaste, Virgilia?
-
-Virgilia abanou a cabeça.
-
---Não me agrada muito, foi a sua resposta.
-
-Não se disse mais nada; mas de noite o Lobo Neves insistiu no projecto,
-um pouco mais resolutamente do que de tarde; e dous dias depois
-declarou á mulher que a presidencia era cousa definitiva. Virgilia não
-pôde dissimular a repugnancia que isto lhe causava. O marido respondia
-a tudo com as necessidades politicas. E accrescentava:
-
---Não posso recusar o que me pedem; é até conveniencia nossa, do
-nosso futuro, dos teus brazões, meu amor, porque eu prometti que
-serias marqueza, e nem baroneza estás. Dirás que sou ambicioso? Sou-o
-devéras, mas é preciso que me não ponhas um peso nas azas da ambição.
-
-Virgilia ficou desorientada. No dia seguinte achei-a triste, na casa
-da Gamboa, á minha espera; tinha dito tudo a D. Placida, que buscava
-consolal-a, como podia. Não fiquei menos abatido.
-
---Você hade ir comnosco, disse-me Virgilia.
-
---Está douda? Seria uma insensatez.
-
---Mas então...?
-
---Então, é preciso desfazer o projecto.
-
---É impossível.
-
---Já aceitou?
-
---Parece que sim.
-
-Levantei-me, atirei o chapeu a uma cadeira, e entrei a passeiar de um
-lado para outro, sem saber o que faria. Cogitei largamente, e não achei
-nada. Emfim, cheguei-me a Virgilia, que estava sentada, e travei-lhe da
-mão; D. Placida foi á janella.
-
---Nesta pequenina mão está toda a minha existencia, disse eu; voce é
-responsavel por ella; faça o que lhe parecer.
-
-Virgilia teve um gesto afflictivo; eu fui encostar-me ao consolo
-fronteiro. Decorreram alguns instantes do silencio; ouviamos sómente
-o latir de um cão, e não sei se o rumor da agua, que morria na praia.
-Vendo que não falava, olhei para ella. Virgilia tinha os olhos no
-chão, parados, sem luz, as mãos deixadas sobre os joelhos, com os
-dedos cruzados, na attitude da suprema desesperança. N'outra occasião,
-por differente motivo, é certo que eu me lançaria aos pés della,
-e a ampararia com a minha razão e a minha ternura; agora, porém,
-era preciso compellil-a ao esforço de si mesma, ao sacrificio, á
-responsabilidade da nossa vida commun, e conseguintemente desamparal-a,
-deixal-a, e saír; foi o que fiz.
-
---Repito, a minha felicidade está nas tuas mãos, disse eu.
-
-Virgilia quiz agarrar-me, mas eu já estava fóra da porta. Cheguei a
-ouvir um proromper de lagrimas, e digo-lhes que estive a ponto de
-voltar, para as enxugar com um beijo; mas subjuguei-me e sai.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXIX
-
-
-Compromisso de gato
-
-
-Não acabaria se houvesse de contar pelo miudo o que padeci nas
-primeiras horas. Vacillava entre um querer e um não querer,
-entre a piedade que me empuxava á casa de Virgilia e outro
-sentimento,--egoismo, supponhamos,--que me dizia:--Fica; deixa-a a
-sós com o problema, deixa-a que ella o resolverá no sentido do amor.
-Creio que essas duas forças tinham egual intensidade, investiam e
-resistiam ao mesmo tempo, com ardor, com tenacidade, e nenhuma cedia
-definitivamente. Ás rezes sentia um dentesinho de remorso; parecia-me
-que abusava da fraqueza de uma mulher amante e culpada, sem nada
-sacrificar nem arriscar de mim proprio; e, quando ia a capitular,
-vinha outra vez o amor, e me repetia o conselho egoista, e eu ficava
-irresoluto e inquieto, desejoso do a ver, e receioso de que a vista me
-levasse a compartir a responsabilidade da solução.
-
-Por fim interveiu um compromisso entre o egoismo e a piedade; eu iria
-vel-a em casa, e só em casa, em presença do marido, para lhe não dizer
-nada, á espera do effeito da minha intimação. Deste modo, poderia
-conciliar as duas forças. Agora, que isto escrevo, quer-me parecer que
-o compromisso era uma burla, que essa piedade era ainda um fórma de
-egoismo, e que a resolução de ir consolar Virgilia não passava de uma
-suggestão de meu proprio padecimento. Occorre-me a este proposito um
-naturalista,--não me lembra qual,--mas era um naturalista,--em quem li
-esta observação curiosa: «O gato não nos affaga, affaga-se em nós.»
-Vejo que eu fazia um compromisso de gato.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXX
-
-
-Do secretario
-
-
-Na noite seguinte fui effectivamente á casa do Lobo Neves; estavam
-ambos, Virgilia muito triste, elle muito jovial. Juro que ella sentiu
-certo allivio, quando os nossos olhos se encontraram, cheios de
-curiosidade e ternura; e não direi o que senti, porque isso já ficou
-expresso no capitulo anterior, _in fine._ O Lobo Neves contou-me os
-planos que levava para a presidencia, as difficuldades locaes, as
-esperanças, as resoluções; estava tão contente! tão esperançado!
-Virgilia, ao pé da meza, fingia ler um livro, mas por cima da pagina
-olhava-me de quando em quando, interrogativa e ansiosa.
-
---O peor, disse-me de repente o Lobo Neves, é que ainda não achei
-secretario.
-
---Não?
-
---Não, e tenho uma idéia.
-
---Ah!
-
---Uma idéa... Quer você dar um passeio ao norte? Não sei o que lhe
-disse.
-
---Você é rico, continuou elle, não precisa de um magro ordenado; mas se
-quizesse obsequiar-me, ia de secretario commigo.
-
-Meu espirito deu um salto para traz, como se descobrisse uma serpente
-deante de si. Encarei o Lobo Neves, fixamente, imperiosamente, a ver
-se lhe apanhava algum pensamento occulto... Nem sombra disso; o olhar
-vinha direito e franco, a placidez do rosto era natural, não violenta,
-uma placidez salpicada de alegria. Respirei, e não tive animo de
-olhar para Virgilia; senti por cima da pagina o olhar della, que me
-pedia tambem a mesma cousa, e disse que sim, que iria. Na verdade, um
-presidente, uma presidenta, um secretario, era resolver as cousas de um
-modo administrativo.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXXI
-
-
-A reconciliação
-
-
-E comtudo, ao sair de lá, tive umas sombras de duvida; cogitei se não
-ia expor insanamente a reputação de Virgilia, se não haveria outro
-meio razoavel de combinar o Estado e a Gamboa. Não achei nada. No dia
-seguinte, ao levantar-mo da cama, trazia o espirito feito e resoluto a
-aceitar a nomeação. Ao meio dia, veiu o creado dizer-me que estava na
-sala uma senhora, coberta com um véo. Corro; era minha irmã Sabina.
-
---Isto não pode continuar assim, disse ella; é preciso que, de uma vez
-por todas, façamos as pazes. Nossa familia está acabando; não havemos
-de ficar como dous inimigos.
-
---Mas se eu não te peço outra cousa, mana! bradei eu estendendo-lhe os
-braços.
-
-E sentei-a ao pé de mim, e falei-lhe do marido, da filha, dos negocios,
-de tudo. Tudo ia bem; a filha estava linda como os amores. O marido
-viria mostrar-m'a, se eu consentissse.
-
---Ora essa! irei eu mesmo vel-a.
-
---Sim?
-
---Palavra.
-
---Tanto melhor! respirou Sabina. É tempo de acabar com isto.
-
-Achei-a mais gorda, e talvez mais moça. Parecia ter vinte annos,
-e contava mais de trinta. Graciosa, affavel, nenhum acanhamento,
-nenhum resentimento. Olhavamos um para o outro, com as mãos seguras,
-falando de tudo e de nada, como dous namorados. Era a minha infancia
-que resurgia, fresca, travessa e loura; os annos iam caindo, como as
-fileiras de cartas de jogar encurvadas, com que eu brincava em pequeno,
-e deixavam-me ver a nossa casa, a nossa familia, as nossas festas.
-Supportei a recordação com algum esforço; mas um barbeiro da visinhança
-lembrou-se de zangarrear na classica rabeca, e essa voz,--porque até
-então a recordação era muda,--essa voz do passado, fanhosa e saudosa, a
-tal ponto me commoveu, que...
-
-Os olhos della estavam seccos. Sabina não herdára a flor amarella e
-mórbida. Que importa? Era minha irmã, meu sangue, um pedaço de minha
-mãe, e eu disse-lh'o com ternura, com sinceridade... Subito, ouço bater
-á porta da sala; vou abrir; era um anjinho de cinco annos.
-
---Entra, Sára, disse Sabina.
-
-Era minha sobrinha. Apanhei-a do chão, beijei-a muitas vezes; a
-pequena, espantada, empurrava-me o hombro com a mãosinha, quebrando
-o corpo para descer... Nisto, apparece-me á porta um chapéu, e logo
-um homem, o Cotrim, nada menos que o Cotrim. Eu estava tão commovido,
-que deixei a filha e lancei-me aos braços do pae. Talvez essa effusão
-o desconcertou um pouco; é certo que me pareceu acanhado. Simples
-prologo. Dahi a pouco falavamos como bons amigos velhos. Nenhuma
-allusão ao passado, muitos planos de futuro, promessa de jantarmos em
-casa um do outro; e não deixei de dizer que essa troca de jantares
-podia ser que tivesse uma curta interrupção, por que eu andava com
-idéas de uma viagem ao norte. Sabina olhou para o Cotrim, o Cotrim para
-Sabina; ambos concordaram que essas idéas não tinham senso commum.
-Que diacho podia eu achar no norte? Pois não era na côrte, em plena
-côrte, que devia continuar a luzir, a metter n'um chinello os rapazes
-do tempo? Que, na verdade, nenhum havia que se me comparasse; elle,
-Cotrim, acompanhava-me de longe, e, não obstante uma briga ridicula,
-teve sempre interesse, orgulho, vaidade nos meus triumphos. Ouvia o
-que se dizia a meu respeito, nas ruas e nas salas; era um concerto de
-louvores e admirações. E deixa-se isso para ir passar alguns mezes na
-provincia, sem necessidade, sem motivo serio? A menos que não fosse
-politica...
-
---Justamente política, disse eu.
-
---Nem assim, replicou elle dahi a um instante--E depois de outro
-silencio:--Seja como for, venha jantar hoje comnosco.
-
---Certamente que vou; mas, amanhã ou depois, hão de vir jantar commigo.
-
---Não sei, não sei, objectou Sabina; casa de homem solteiro... Você
-precisa casar, mano. Tambem eu quero uma sobrinha, ouviu?
-
-O Cotrim reprimiu-a com um gesto, que não entendi bem. Não importa; a
-reconciliação de uma familia vale bem um gesto enigmatico.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXXII
-
-
-Questão de botanica
-
-
-Digam o que quizerem dizer os hypocondriacos: a vida é uma cousa
-doce. Foi o que eu pensei commigo, ao ver Sabina, o marido e a filha
-descerem de tropel as escadas, dizendo muitas palavras affectuosas
-para cima, onde eu ficava--no patamar,--a dizer-lhes outras tantas
-para baixo. E continuei a pensar que, na verdade, era feliz. Amava-me
-uma mulher, tinha a confiança do marido, ia por secretario de ambos, e
-reconciliava-me com os meus. Que podia desejar mais, em vinte e quatro
-horas?
-
-Nesse mesmo dia, tratando de apparelhar os animos, comecei a espalhar
-que talvez fosse para o norte, como secretario de provincia, afim de
-realizar certos designios politicos, que me eram pessoaes. Disse-o na
-rua do Ouvidor, repeti-o no dia seguinte, no Pharoux e no theatro.
-Alguns, ligando a minha nomeação á do Lobo Neves, que já andava em
-boatos, sorriam maliciosamente, outros batiam-me no hombro. No theatro
-disse-me uma senhora que era levar muito longe o amor da esculptura.
-Referia-se ás bellas fórmas de Virgilia.
-
-Mas a allusão mais rasgada que me fizeram foi em casa de Sabina, tres
-dias depois. Fel-a um certo Garcez, velho cirurgião, pequenino, trivial
-e grulha, que podia chegar aos setenta, aos oitenta, aos noventa annos,
-sem adquirir jamais aquella compostura austera, que é a gentileza do
-ancião. A velhice ridicula é, porventura, a mais triste e derradeira
-sorpresa da natureza humana.
-
---Já sei, desta vez vae ler Cicero, disse-me elle, ao saber da viagem.
-
---Cicero! exclamou Sabina.
-
---Pois então? Seu mano é um grande latinista. Traduz Virgilio de
-relance. Olhe que é Virgilio, e não Virgilia... não confunda...
-
-E ria, de um riso grosso, rasteiro e frivolo. Sabina empallideceu e
-olhou para mim, receiosa de alguma replica; mas sorriu, quando me viu
-sorrir, e voltou o rosto para disfarçal-o. As outras pessoas olhavam-me
-com um ar de curiosidade, indulgencia e sympathia; era transparente que
-não acabavam de ouvir nenhuma novidade. O caso dos meus amores andava
-mais publico do que eu podia suppor. E entretanto sorri, um sorriso
-curto, fugitivo e guloso,--palreiro como as pegas de Cintra. Virgilia
-era um bello erro, e é tão facil confessar um bello erro! Costumava
-ficar carrancudo, a principio, quando ouvia alguma allusão aos nossos
-amores; mas, palavra de honra! sentia cá dentro uma impressão suave e
-linsongeira. Uma vez, porém, aconteceu-me sorrir, e continuei a fazel-o
-das outras vezes. Não sei se ha ahi algum Hobbes ou Spinoza, que
-explique o phenomeno. Eu explico-o assim: a principio, o contentamento,
-sendo interior, era por assim dizer o mesmo sorriso, mas abotoado;
-andando o tempo, desabotou-se em flor, e appareceu aos olhos do
-proximo. Simples questão de botanica.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXXIII
-
-
-13
-
-
-O Cotrim tirou-me daquelle gozo, levando-me á janella.--Você quer que
-lhe diga uma cousa? perguntou elle;--não faça essa viagem; é insensata,
-é perigosa.
-
---Porque?
-
---Você bem sabe porque, tornou elle: é, sobretudo, perigosa, muito
-perigosa. Aqui na côrte, um caso desses perde-se na multidão da gente
-e dos interesses; mas na provincia muda de figura; e tratando-se de
-personagens politicos, é realmente insensatez. As gazetas de opposição,
-logo que farejarem o negocio, passam a imprimil-o com todas as lettras,
-e ahi virão as chufas, os remoques, as alcunhas...
-
---Mas não entendo...
-
---Entende, entende; e, na verdade, seria bem pouco amigo nosso, se me
-negasse o que toda a gente sabe. Eu sei disso ha longos mezes. Repito,
-não faça semelhante viagem; supporte a ausencia, que é melhor, e evite
-algum grande escandalo e maior desgosto...
-
-Disse isto, e foi para dentro. Eu deixei-me estar com os olhos no
-lampião da esquina,--um antigo lampião de azeite,--triste, obscuro e
-recurvado, como um ponto de interrogação. Que me cumpria fazer? Era o
-caso de Hamlet: ou dobrar-me á fortuna, ou lutar com ella e subjugal-a.
-Por outros termos: embarcar ou não embarcar. Esta era a questão. O
-lampião não me dizia nada. As palavras do Cotrim resoavam-me aos
-ouvidos da memoria, de um modo bem diverso do das palavras do Garcez.
-Talvez o Cotrim tivesse razão: mas podia eu separar-me de Virgilia?
-
-Sabina veiu ter commigo, e perguntou-me em que estava pensando.
-Respondi que em cousa nenhuma, que tinha somno e ia para casa. Sabina
-esteve um instante calada.--O que você precisa, sei eu; é uma noiva.
-Deixe, que eu ainda arranjo uma noiva para você. Saí de lá oppresso,
-desorientado. Tudo prompto para embarcar,--espirito e coração,--e eis
-ahi me surge esse porteiro das conveniencias, que me pede o cartão de
-ingresso. Dei ao diabo as conveniências, e com ellas a constituição, o
-corpo legislativo, o ministerio, tudo.
-
-No dia seguinte, abro uma folha politica e leio a noticia de que, por
-decretos de 13, tínhamos sido nomeados presidente e secretario da
-provincia de *** o Lobo Neves e eu. Escrevi immediatamente a Virgilia,
-e segui duas horas depois para a Gamboa. Coitada de D. Placida! Estava
-cada vez mais afflicta; perguntou-me se esqueceriamos a nossa velha, se
-a ausencia era grande e se a provincia ficava longe. Consolei-a; mas
-eu proprio precisava de consolações; a objecção do Cotrim affligia-me
-profundamente. Virgilia chegou dahi a pouco, lepida como uma andorinha;
-mas, ao ver-me triste, ficou muito seria.
-
---Que aconteceu?
-
---Vacillo, disse eu; não sei se devo aceitar...
-
-Virgilia deixou-se cair, no canapé, a rir.--Porque? disse ella.
-
---Não é conveniente, dá muito na vista...
-
---Mas nós já não vamos.
-
---Como assim?
-
-Contou-me que o marido ia recusar a nomeação, e por motivo que só disse
-a ella, pedindo-lhe o maior segredo; não podia confessal-o a ninguem
-mais.--É pueril, observou elle, é ridiculo; mas em summa, é um motivo
-poderoso para mim. E referiu-lhe que o decreto trazia a data de 13, e
-que esse numero significava para elle uma recordação funebre. O pae
-morreu n'um dia 13, treze dias depois de um jantar, em que havia treze
-pessoas. A casa em que morrera a mãe tinha o n. 13. Et cætera. Era um
-algarismo fatidico. Não podia allegar semelhante cousa ao ministro;
-dir-lhe-hia que tinha razões particulares para não aceitar. Eu fiquei
-como ha de estar o leitor,--um pouco assombrado com esse sacrifício a
-um numero; mas, sendo elle ambicioso, o sacrificio devia ser sincero...
-E ficavamos. Para alguma cousa ha de servir a superstição dos homens.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXXIV
-
-
-O conflicto
-
-
-Numero fatidico, lembras-te que te abençoei muitas vezes? Assim tambem
-as virgens ruivas de Thebas deviam abençoar a egua, de ruiva crina,
-que as substituiu no sacrificio de Pelopidas,--uma donosa egua, que
-lá morreu, coberta de flores, sem que ninguem lhe désse nunca uma
-palavra de saudade. Pois dou-t'a eu, egua piedosa, não só pela morte
-havida, como porque, entre as donzellas escapas, não é impossivel
-que figurasse uma avó dos Cubas... Numero fatidico, tu foste a nossa
-salvação. Não me confessou o marido a causa da recusa; disse-me tambem
-que eram negocios particulares, e o rosto serio, convencido, com que
-eu o escutei, fez honra á dissimulação humana. Elle é que mal podia
-encobrir a tristeza profunda que o minava; falava pouco, absorvia-se,
-mettia-se em casa, a ler. Outras vezes recebia, e então conversava e
-ria muito, com estrepito e affectação. Opprimiam-n'o duas cousas,--a
-ambição, que um escrupulo desazára, e logo depois a duvida, e talvez
-o arrependimento,--mas um arrependimento, que viria outra vez, si se
-repetisse a hypothese, porque o fundo supersticioso existia. Duvidava
-da superstição, sem chegar a rejeital-a. Essa persistencia de um
-sentimento, que repugna ao mesmo individuo, era um phenomeno digno de
-alguma attenção. Mas eu preferia a pura ingenuidade de D. Placida,
-quando confessava não poder ver um sapato voltado para o ar.
-
---Que tem isso? perguntava-lhe eu.
-
---Faz mal, era a sua resposta.
-
-Isto somente, esta unica resposta, que valia para ella o livro dos sete
-sellos. Faz mal. Disseram-lhe isso em criança, sem outra explicação;
-e ella contentava-se com a certeza do mal. Já não acontecia a mesma
-cousa quando se falava de apontar uma estrella com o dedo; ahi sabia
-perfeitamente que era caso de crear uma verruga.
-
-Ou verruga ou outra cousa, que valia isso, para quem não perde uma
-presidencia de provincia? Tolera-se uma superstição gratuita ou barata;
-é insupportavel a que leva uma parte da vida. Este era o caso do Lobo
-Neves; com o accrescimo da duvida e do terror de haver sido ridiculo.
-E mais este outro accrescimo, que o ministro não acreditou nos motivos
-particulares; attribuiu a recusa do Lobo Neves a manejos politicos,
-illusão complicada de algumas apparencias; tratou-o mal, communicou a
-desconfiança aos collegas; sobrevieram incidentes; emfim, com o tempo,
-o presidente resignatario foi para a opposição.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXXV
-
-
-O cimo da montanha
-
-
-Quem escapa a um perigo ama a vida com outra intensidade; eu entrei
-a amar Virgilia com muito mais ardor, depois que estive a pique de a
-perder, e a mesma cousa lhe aconteceu a ella. Assim, a presidencia não
-fez mais do que avivar a affeição primitiva; foi a droga de Malabar,
-com que tornámos mais saboroso o nosso amor, e mais prezado tambem. Nos
-primeiros dias, depois daquelle incidente, folgavamos de imaginar a
-dôr da separação, se houvesse separação, a tristeza de um e de outro,
-á proporção que o mar, como uma toalha elastica, se fosse dilatando
-entre nós; e, semelhantes ás crianças, que se achegam ao regaço das
-mães, para fugir a uma simples careta, fugiamos do supposto perigo,
-apertando-nos com abraços.
-
---Minha boa Virgilia!
-
---Meu amor!
-
---Tu és minha, não?
-
---Tua, tua...
-
-E assim reatámos o fio da aventura, como a sultana Scheherazade o dos
-seus contos. Esse foi, cuido eu, o ponto maximo do nosso amor, o cimo
-da montanha, donde por algum tempo divisámos os valles de leste e de
-oeste, e por cima de nós o ceu tranquillo e azul. Repousado esse tempo,
-começámos a descer a encosta, com as mãos presas ou soltas, mas a
-descer, a descer...
-
-
-
-
-CAPITULO LXXXVI
-
-
-O mysterio
-
-
-Serra abaixo, como eu a visse um pouco differente, não sei se abatida
-ou outra cousa, perguntei-lhe o que tinha; calou-se, fez um gesto de
-enfado, de máu estar, de fadiga; ateimei, ella disse-me que... Um
-fluido subtil percorreu todo o meu corpo: sensação forte; rapida,
-singular, que eu não chegarei jamais a fixar no papel. Travei-lhe das
-mãos, puxei-a levemente a mim, e beijei-a na testa, com uma delicadeza
-de zephyro e uma gravidade de Abrahão. Ella estremeceu, colheu-me a
-cabeça entre as palmas, fitou-me os olhos, depois affagou-me com um
-gesto maternal...Eis ahi um mysterio; deixemos ao leitor o tempo de
-decifrar este mysterio.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXXVII
-
-
-Geologia
-
-
-Succedeu por esse tempo um desastre: a morte do Viegas. O Viegas passou
-ahi de relance, n'um capitulo, com os seus setenta annos, abafados
-de asthma, desconjuntados de rheumatismo, e uma lesão de coração por
-quebra. Foi um dos finos espreitadores da nossa aventura. Virgilia
-nutria grandes esperanças em que esse velho parente, avaro como um
-sepulchro, lhe amparasse o futuro do filho, com algum legado; e, se
-o marido tinha eguaes pensamentos, encobria-os ou estrangulava-os.
-Tudo se deve dizer: havia no Lobo Neves certa dignidade fundamental,
-uma camada de rocha, que resistia ao commercio dos homens. As outras,
-as camadas de cima, terra solta e arêa, levou-lh'as a vida, que é
-um enxurro perpetuo. Se o leitor ainda se lembra do cap. XXXIII,
-observará que é agora a segunda vez que eu comparo a vida a um
-enxurro; mas tambem ha de reparar que desta vez accrescento-lhe
-um adjectivo--perpetuo. E Deus sabe a força de um adjectivo,
-principalmente em paizes novos e cálidos.
-
-O que é novo neste livro é a geologia moral do Lobo Neves, e
-provavelmente a do cavalheiro, que me está lendo. Sim, essas camadas
-de caracter, que a vida altera, conserva ou dissolve, conforme a
-resistencia dellas, essas camadas mereceriam um capitulo, que eu não
-escrevo, por não alongar a narração. Digo apenas que o homem mais
-probo que conheci em minha vida foi um certo Jacob Medeiros ou Jacob
-Valladares, não me recorda bem o nome. Talvez fosse Jacob Rodrigues;
-em summa, Jacob. Era a probidade mesma; podia ser rico, violentando um
-pequenino escapulo, e não quiz; deixou ir pelas mãos fóra nada menos de
-uns quatrocentos contos; tinha a probidade tão exemplar, que chegava
-a ser miuda e cançativa. Um dia, como nos achassemos, a sós, em casa
-delle, em boa palestra, vieram dizer que o procurava o Dr. B., um
-sujeito enfadonho. O Jacob mandou dizer que não estava em casa.
-
---Não péga, bradou uma voz do corredor; cá estou de dentro.
-
-E, com effeito, era o Dr. B., que appareceu logo á porta da sala. O
-Jacob foi recebel-o, affirmando que cuidava ser outra pessoa, e não
-elle, e accrescentando que tinha muito prazer com a visita, o que nos
-rendeu hora e meia de enfado mortal, e isto mesmo, porque o Jacob tirou
-o relogio; o Dr. B. pergutou-lhe então se ia sair.
-
---Com minha mulher, disse o Jacob.
-
-Retirou-se o Dr. B. e respiramos. Uma vez respirados, disse eu ao
-Jacob que elle acabava de mentir quatro vezes, em menos de duas horas:
-a primeira, negando-se; a segunda, alegrando-se com a presença do
-importuno; a terceira, dizendo que ia sair; a quarta, accrescentando
-que com a mulher. O Jacob reflectiu um instante, depois confessou a
-justeza da minha observação, mas desculpou-se dizendo que a veracidade
-absoluta era incompativel com um estado social adiantado, e que a paz
-das cidades só se podia obter á custa de embaçadellas reciprocas... Ah!
-lembra-me agora: chamava-se Jacob Tavares.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXXVIII
-
-
-O enfermo
-
-
-Não é preciso dizer que refutei tão perniciosa doutrina, com os mais
-elementares argumentos; mas elle estava tão vexado do meu reparo,
-que resistiu até o fim, mostrando certo calor ficticio, talvez para
-atordoar a consciencia.
-
-O caso de Virgilia tinha alguma gravidade mais. Ella era menos
-escrupulosa que o marido; manifestava claramente as esperanças que
-trazia no legado, cumulava o parente de todas as cortezias, attenções
-e affagos que poderiam render, pelo menos, um codicillo. Propriamente,
-adulava-o; mas eu observei que a adulação das mulheres não é a mesma
-cousa que a dos homens. Esta orça pela servilidade; a outra confunde-se
-com a affeição. As formas graciosamente curvas, a palavra doce, a mesma
-fraqueza physica dão á acção lisonjeira da mulher uma côr local, um
-aspecto legitimo. Não importa a edade do adulado; a mulher ha de ter
-sempre para elle uns ares de mãe ou de irmã,--ou ainda de enfermeira,
-outro officio feminil, em que o mais habil dos homens carecerá sempre
-de um _quid_, um fluido, alguma cousa.
-
-Era o que eu pensava commigo, quando Virgilia se desfazia toda em
-affagos ao velho parente. Ella ia recebel-o á porta, falando e rindo,
-tirava-lhe o chapeu e a bengala, dava-lhe o braço e levava-o até uma
-cadeira, ou até á cadeira, porque havia lá em casa a «cadeira do
-Viegas», obra especial, conchegada, feita para gente enferma ou anciã.
-Ia fechar a janella proxima, se havia alguma brisa, ou abril-a, se
-estava calor, mas com cuidado, combinando de modo que lhe não désse um
-golpe de ar.
-
---Então? hoje está mais fortesinho...
-
---Qual! Passei mal a noite; o diabo da asthma não me deixa.
-
-E bufava o homem, repousando a pouco e pouco do cançaço da entrada e
-da subida, não do caminho, porque ia sempre de sege. Ao lado, um pouco
-mais para a frente, sentava-se Virgilia, n'uma banquinha, com as mãos
-nos joelhos do enfermo. Entretanto, o nhonhô chegava á sala, sem os
-pulos do costume, mas discreto, meigo, serio. O Viegas gostava muito
-delle.
-
---Vem cá, nhonhô, dizia-lhe; e a custo introduzia a mão na ampla
-algibeira, tirava uma caixinha de pastilhas, mettia uma na boca o dava
-outra ao pequeno. Pastilhas anti-asthmaticas. O pequeno dizia que eram
-muito boas.
-
-Repetia-se isto, com variantes. Como o Viegas gostasse de jogar damas,
-Virgilia cumpria-lhe o desejo, aturando-o por largo tempo, a mover as
-pedras com a mão frouxa e tarda. Outras vezes, desciam a passear na
-chacara, dando-lhe ella o braço, que elle nem sempre aceitava, por
-dizer-se rijo e capaz de andar uma legua. Iam, sentavam-se, tornavam
-a ir, a falar de cousas varias, ora de um negocio de familia, ora de
-uma bisbilhotice de alcova, ora emfim de uma casa que elle meditava
-construir, para residencia propria, casa de feitio moderno, porque a
-delle era das antigas, contemporânea de el-rei D. João VI, á maneira
-de algumas que ainda hoje (creio eu) se podem ver no bairro de S.
-Christovão, com as suas grossas columnas na frente. Parecia-lhe que o
-casarão em que morava podia ser substituido, e já tinha encommendado
-o risco a um pedreiro de fama. Ah! então sim, então é que Virgilia
-chegaria a ver o que era um velho de gosto.
-
-Falava, como se póde suppôr, lentamente e a custo, intervallado de uma
-arfagem incommoda para elle e para os outros. De quando em quando,
-vinha um accesso de tosse; curvo, gemendo, levava o lenço á boca, e
-investigava-o; passado o accesso, tornava ao plano da casa, que devia
-ter taes e taes quartos, um terraço, cocheira, um primor.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXXIX
-
-
-In extremis
-
-
---Amanhã vou passar o dia em casa do Viegas, disse-me ella uma vez.
-Coitado! não tem ninguem...
-
-O Viegas caíra na cama, definitivamente; a filha, casada, adoecera
-justamente agora, e não podia fazer-lhe companhia. Virgilia ia lá
-de quando em quando. Eu aproveitei a circumstancia para passar todo
-aquelle dia ao pé della. Eram duas horas da tarde quando cheguei. O
-Viegas tossia com tal força que me fazia arder o peito; no intervallo
-dos accessos debatia o preço de uma casa, com um sujeito magro. O
-sujeito offerecia trinta contos, o Viegas exigia quarenta. O comprador
-instava como quem receia perder o trem da estrada de ferro, mas o
-Viegas não cedia; recusou primeiramente os trinta contos, depois
-mais dous, depois mais tres, emfim teve um forte accesso, que lhe
-tolheu a fala durante quinze minutos. O comprador acarinhou-o muito,
-arranjou-lhe os travesseiros, offereceu-lhe trinta e seis contos.
-
---Nunca! gemeu o enfermo.
-
-E mandou buscar um maço de papeis á escrivaninha; não tendo forças
-para tirar a fita de borracha que prendia os papeis, pediu-me que os
-deslaçasse: fil-o. Eram as contas das despezas com a construcção da
-casa: contas de pedreiro, de carpinteiro, de pintor; contas do papel da
-sala de visitas, da sala de jantar, das alcovas, dos gabinetes; contas
-das ferragens; custo do terreno. Elle abria-as, uma por uma, com a mão
-tremula, e pedia-me que as lesse, e eu lia-as.
-
---Veja; mil e duzentos, papel de mil e duzentos a peça. Dobradiças
-francezas... Veja, é de graça, concluiu elle depois de lida a ultima
-conta.
-
---Pois bem... mas...
-
---Quarenta contos; não lhe dou por menos. Só os juros... faça a conta
-dos juros...
-
-Vinham tossidas estas palavras, ás golfadas, ás syllabas, como se
-fossem migalhas de um pulmão desfeito. Nas orbitas fundas rolavam os
-olhos lampejantes, que me faziam lembrar a lamparina da madrugada. Sob
-o lençol desenhava-se a estructura ossea do corpo, pontudo em dous
-lugares, nos joelhos e nos pés; a pelle amarellada, bamba, rugosa,
-revestia apenas a caveira de um rosto sem expressão; uma carapuça de
-algodão branco cobria-lhe o craneo rapado pelo tempo.
-
---Então? disse o sujeito magro.
-
-Fiz-lhe signal para que não insistisse, e elle calou-se por alguns
-instantes. O doente ficou a olhar para o tecto, calado, a arfar muito;
-Virgilia empallideceu, levantou-se, foi até á janella. Suspeitara a
-morte e tinha medo. Eu procurei falar de outras cousas. O sujeito magro
-contou uma anecdota, e tornou a tratar da casa, alteando a proposta.
-
---Trinta e oito contos, disse elle.
-
---Am?... gemeu o enfermo.
-
-O sujeito magro aproximou-se da cama, pegou-lhe na mão, e sentiu-a
-fria. Eu acheguei-me ao doente, perguntei-lhe se sentia alguma cousa,
-se queria tomar um calice de vinho.
-
---Não... não... quar... quaren... quar... quar...
-
-Teve um accesso de tosse, e foi o ultimo; dahi a pouco expirava elle,
-com grande consternação do sujeito magro, que me confessou depois a
-disposição em que estava de offerecer os quarenta contos; mas era
-tarde.
-
-
-
-
-CAPITULO XC
-
-
-O velho colloquio de Adão e Caim
-
-
-E nada. Nenhuma lembrança testamentaria, uma pastilha que fosse, com
-que do todo em todo não parecesse ingrato ou esquecido. Nada. Virgilia
-tragou raivosa esse mallogro, e disse-m'o com certa cautela, não pela
-cousa em si, senão porque entendia com o filho, de quem sabia que eu
-não gostava muito, nem pouco. Insinuei-lhe que não devia pensar mais em
-semelhante negocio. O melhor de tudo era esquecer o defunto, um lorpa,
-um cainho sem nome, e tratar de cousas alegres; o nosso filho, por
-exemplo.
-
-Lá me escapou a decifração do mysterio, esse doce mysterio de algumas
-semanas antes, quando Virgilia me pareceu um pouco differente do que
-era. Um filho! Um ser tirado do meu ser! Esta era a minha preoccupação
-exclusiva daquelle tempo. Olhos do mundo, zelos do marido, morte do
-Viegas, nada me interessava por então, nem conflictos politicos,
-nem revoluções, nem terremotos, nem nada. En só pensava naquelle
-embryão anonymo, de obscura paternidade, e uma voz secreta me dizia:
-é teu filho. Meu filho! E repetia estas duas palavras, com certa
-voluptuosidade indefinivel, e não sei que assomos de orgulho. Sentia-me
-homem.
-
-O melhor é que conversávamos os dous, o embryão e eu, falavamos
-de cousas presentes e futuras. O maroto amava-me, era um pelintra
-gracioso, dava-me pancadinhas na cara com as mãosinhas gordas, ou
-então traçava a beca de bacharel, porque elle havia de ser bacharel,
-e fazia um discurso na camara dos deputados. E o pae a ouvil-o de uma
-tribuna, com os olhos rasos de lagrimas. De bacharel passava outra vez
-á escola, pequenino, lousa e livros debaixo do braço, ou então caía no
-berço para tornar a erguer-se homem. Em vão buscava fixar no espirito
-uma edade, uma attitude; esse embryão tinha a meus olhos todos os
-tamanhos e gestos: elle mamava, elle escrevia, elle valsava, elle era
-o interminável nos limites de um quarto de hora,--_baby_ e deputado,
-collegial e pintalegrete. Ás vezes, ao pé de Virgilia, esquecia-me
-della e de tudo; Virgilia sacudia-me, reprochava-me o silencio, dizia
-que eu já lhe não queria nada. A verdade é que estava em dialogo com
-o embryão; era o velho colloquio de Adão e Caim, uma conversa sem
-palavras entre a vida e a vida, o mysterio e o mysterio.
-
-
-
-
-CAPITULO XCI
-
-
-Uma carta extraordinaria
-
-
-Por esse tempo recebi uma carta extraordinaria, acompanhada de um
-objecto não menos extraordinario. Eis o que a carta dizia:
-
- «Meu caro Braz Cubas.
-
- «Ha tempos, no Passeio Publico, tomei-lhe de emprestimo
- um relogio. Tenho a satisfação de restituir-lh'o com esta
- carta. A differença é que não é o mesmo, porém outro, não
- digo superior, mas egual ao primeiro. _Que voulez-vous,
- monseigneur_,--como dizia Figaro,--_c'est la misère._ Muitas
- cousas se deram depois do nosso encontro; irei contal-as
- pelo miudo, se me não fechar a porta. Saiba que já não trago
- aquellas botas caducas, nem envergo uma famosa sobrecasaca
- cujas abas se perdiam na noite dos tempos. Cedi o meu degrau
- da escada de S. Francisco; finalmente, almóço.
-
- «Dito isto, peço licença para ir um dia destes expor-lhe
- um trabalho, fructo de longo estudo, um novo systema de
- philosophia, que não só explica e descreve a origem e a
- consummação das cousas, como faz dar um grande passo adeante
- de Zenon e Seneca, cujo stoicismo era um verdadeiro brinco
- de crianças ao pé da minha receita moral. É singularmente
- espantoso este meu systema; rectifica o espirito humano,
- supprime a dor, assegura a felicidade, e enche de immensa
- gloria o nosso paiz. Chamo-lhe humanitismo, de _Humanitas_,
- principio das cousas. Minha primeira idéa revelava uma grande
- enfatuação; era chamar-lhe borbismo, de Borba; denominação
- vaidosa, além de rude e molesta. E com certeza exprimia
- menos. Verá, meu caro Braz Cubas, verá que é devéras um
- monumento; e se alguma cousa ha que possa fazer-me esquecer
- as amarguras da vida, é o gosto de haver emfim apanhado
- a verdade e a felicidade. Eil-as na minha mão essas
- duas esquivas; após tantos seculos de lutas, pesquizas,
- descobertas, systemas e quédas, eil-as nas mãos do homem. Até
- breve, meu caro Braz Cubas. Saudades do
-
- Velho amigo Joaquim Borba dos Santos.»
-
-Li esta carta sem entendel-a. Vinha com ella uma boceta contendo
-um bonito relogio com as minhas iniciaes gravadas, e esta phrase:
-_Lembrança do velho Quincas._ Voltei á carta, reli-a com pausa, com
-attenção. A restituição do relogio excluia toda a idéa de burla;
-a lucidez, a serenidade, a convicção,--um pouco jactanciosa, é
-certo,--pareciam excluir a suspeita de insensatez. Naturalmente
-o Quincas Borba herdara de algum dos seus parentes de Minas, e a
-abastança devolvera-lhe a primitiva dignidade. Não digo tanto; ha
-cousas que se não podem rehaver integralmente; mas emfim a regeneração
-não era impossivel. Guardei a carta e o relogio, e esperei a
-philosophia.
-
-
-
-
-CAPITULO XCII
-
-
-Um homem extraordinario
-
-
-Já agora acabo com as cousas extraordinarias. Vinha de guardar a
-carta e o relogio, quando me procurou um homem magro e meão, com um
-bilhete do Cotrim, convidando-me para jantar. O portador era casado
-com uma irmã do Cotrim, chegára poucos dias antes do norte, chamava-se
-Damasceno, e fizera a revolução de 1831. Foi elle mesmo que me disse
-isto, no espaço de cinco minutos. Saíra do Rio de Janeiro, por
-desaccordo com o Regente, que era um asno, pouco menos asno do que os
-ministros que serviram com elle. De resto, a revolução estava outra
-vez ás portas. Neste ponto, comquanto trouxesse as idéas politicas
-um pouco baralhadas, consegui organisar e formular o governo de suas
-preferencias: era um despotismo temperado,--não por cantigas, como
-dizem alhures,--mas por pennachos da guarda nacional. Só não pude
-alcançar se elle queria o despotismo de um, de tres, de trinta ou de
-tresentos. Opinava por varias cousas, entre outras, o desenvolvimento
-do trafico dos africanos e a expulsão dos inglezes. Gostava muito
-de theatro; logo que chegou foi ao theatro de S. Pedro, onde viu um
-drama soberbo, a _Maria Joanna_, e uma comedia muito interessante,
-_Kettly, ou a volta á Suissa._ Tambem gostara muito da Deperini, na
-_Sapho_, ou na _Anna Bolena_, não se lembrava bem. Mas a Candiani!
-sim, senhor, era papa-fina. Agora queria ouvir o _Ernani_, que a filha
-delle cantava em casa, ao piano: _Ernani, Ernani, involami..._--E dizia
-isto levantando-se e cantarolando a meia voz.--No norte essas cousas
-chegavam como um echo. A filha morria por ouvir todas as operas. Tinha
-uma voz muito mimosa a filha. E gosto, muito gosto. Ah! elle estava
-ancioso por voltar ao Rio de Janeiro. Já havia corrido a cidade toda,
-com umas saudades... Palavra! em alguns logares teve vontade de chorar.
-Mas não embarcaria mais. Enjoára muito a bordo, como todos os outros
-passageiros, excepto um inglez... Que os levasse o diabo os inglezes!
-Isto não ficava direito sem irem todos elles barra fóra. Que é que a
-Inglaterra podia fazer-nos? Se elle encontrasse algumas pessoas de
-boa vontade, era obra de uma noite a expulsão dos taes _godemes_...
-Graças a Deus, tinha patriotismo,--e batia no peito,--o que não
-admirava porque era de familia; descendia de um antigo capitão-mór
-muito patriota. Sim, não era nenhum pé-rapado. Viesse a occasião, e
-elle havia de mostrar de que pau era a canoa... Mas fazia-se tarde,
-ia dizer que eu não faltaria ao jantar, e lá me esperava para
-maior palestra.--Levei-o até á porta da sala; elle parou dizendo
-que sympathisava muito commigo. Quando casára, estava eu na Europa.
-Conheceu meu pae, um homem ás direitas, com quem dansára n'um celebre
-baile da Praia Grande... Coisas! coisas! Falaria depois, fazia-se
-tarde, tinha de ir levar a resposta ao Cotrim. Saiu; fechei-lhe a
-porta... Uf!
-
-
-
-
-CAPITULO XCIII
-
-
-O jantar
-
-
-Que supplicio que foi o jantar! Felizmente, Sabina fez-me sentar ao pé
-da filha do Damasceno, uma D. Eulalia, ou mais familiarmente Nhã-lóló,
-moça bem graciosa, um tanto acanhada a principio, mas só a principio.
-Faltava-lhe elegancia, mas compensava-a com os olhos, que eram
-soberbos e só tinham o defeito de se não arrancarem de mim, excepto
-quando desciam ao prato; mas Nhã-lóló comia tão pouco, que quasi não
-olhava para o prato. De noite cantou; a voz era como dizia o pae,
-«muito mimosa». Não obstante, esquivei-me. Sabina veiu até á porta, e
-perguntou-me que tal achára a filha do Damasceno.
-
---Assim, assim.
-
---Muito sympathica, não é? acudiu ella; falta-lhe um pouco mais de
-corte. Mas que coração! é uma perola. Bem boa noiva para você.
-
---Não gosto de perolas.
-
---Casmurro! Para quando é que você se guarda? para quando estiver a
-cair de maduro, já sei. Pois, meu rico, quer você queira quer não, ha
-de casar com Nhã-lóló.
-
-E dizia isto a bater-me na face com os dedos, meiga como uma pomba, e
-ao mesmo tempo intimativa e resoluta. Santo Deus! seria esse o motivo
-da reconciliação? Fiquei um pouco desconsolado com a idéa, mas uma voz
-mysteriosa chamava-me á casa do Lobo Neves, disse adeus a Sabina e ás
-suas ameaças.
-
-
-
-
-CAPITULO XCIV
-
-
-A causa secreta
-
-
---Como está a minha querida mamãe?
-
-A esta palavra, Virgilia amuou-se, como sempre. Estava ao canto de uma
-janella, sosinha, a olhar para a lua, e recebeu-me alegremente; mas
-quando lhe falei no nosso filho amuou-se. Não gostava de semelhante
-allusão, aborreciam-lhe as minhas anticipadas caricias paternaes.
-E eu, para quem ella era já uma pessoa sagrada, uma ambula divina,
-deixava-a estar quieta. Suppuz a principio que o embryão, esse perfil
-do incognito, projectando-se na nossa aventura, lhe restituira a
-consciência do mal. E enganava-me. Nunca Virgilia me parecera mais
-expansiva, mais sem reservas, menos preoccupada dos outros e do marido.
-Não eram remorsos. Imaginei tambem que a concepção seria um puro
-invento, um modo de prender-me a ella, recurso sem longa efficacia, que
-talvez começava de opprimil-a. Não era absurda esta hypothese; a minha
-doce Virgilia mentia ás vezes, com tanta graça!
-
-Naquella noite descobri a causa verdadeira. Era medo do parto e
-vexame da gravidez. Padecera muito quando lhe nasceu o primeiro
-filho; e essa hora, feita de minutos de vida e minutos de morte,
-dava-lhe já imaginariamente os calefrios do patibulo. Quanto ao
-vexame, complicava-se ainda da forçada privação de certos habitos
-da vida elegante. Com certeza, era isso mesmo; dei-lh'o a entender,
-reprehendendo-a, um pouco em nome dos meus direitos de pae. Virgilia
-fitou-me; em seguida desviou os olhos e sorriu de um geito incredulo.
-
-
-
-
-CAPITULO XCV
-
-
-Flores de antanho
-
-
-Onde estão ellas as flores de antanho? Uma tarde, apoz algumas semanas
-de gestação, esboroou-se todo o edificio das minhas chimeras paternaes.
-Foi-se o embryão, naquelle ponto em que se não distingue Laplace de
-uma tartaruga. Tive a noticia por boca do Lobo Neves, que me deixou na
-sala, e acompanhou o medico á alcova da frustrada mãe. Eu encostei-me
-á janella, a olhar para a chacara, onde verdejavam as laranjeiras sem
-flores. Onde iam ellas as flores de antanho?
-
-
-
-
-CAPITULO XCVI
-
-
-A carta anonyma
-
-
-Senti tocar-me no hombro; era o Lobo Neves. Encaramo-nos alguns
-instantes, mudos, inconsolaveis. Indaguei de Virgilia, depois ficamos
-a conversar uma meia hora. No fim desse tempo, vieram trazer-lhe uma
-carta; elle leu-a, empallideceu muito, e fechou-a com a mão tremula.
-Creio que lhe vi fazer um gesto, como se quizesse atirar-se sobre mim;
-mas não me lembra bem. O que me lembra claramente é que durante os dias
-seguintes recebeu-me frio e taciturno. Emfim, Virgilia contou-me tudo,
-dahi a dias na Gamboa.
-
-O marido mostrou-lhe a carta, logo que ella se restabeleceu. Era
-anonyma e denunciava-nos. Não dizia tudo; não falava, por exemplo, das
-nossas entrevistas externas; limitava-se a precavel-o contra a minha
-intimidade, e accrescentava que a suspeita era publica. Virgilia leu a
-carta e disse com indignação que era uma calumnia infame.
-
---Calumnia? perguntou o Lobo Neves.
-
---Infame.
-
-O marido respirou; mas, tornando á carta, parece que cada palavra della
-lhe fazia com o dedo um signal negativo, cada lettra bradava contra a
-indignação da mulher. Esse homem, aliás intrepido, era agora a mais
-fragil das creaturas. Talvez a imaginação lhe mostrou, ao longe, o
-famoso olho da opinião, a fital-o sarcasticamente, com um ar de pulha;
-talvez uma boca invisivel lhe repetiu ao ouvido as chufas que elle
-escutara ou dissera outr'ora. Instou com a mulher que lhe confessasse
-tudo, porque tudo lhe perdoaria. Virgilia comprehendeu que estava
-salva; mostrou-se irritada com a insistencia, jurou que da minha parte
-só ouvira palavras de gracejo e cortezia. A carta havia de ser de algum
-namorado sem ventura. E citou alguns,--um que a galanteára francamente,
-durante algumas semanas, outro que lhe escrevera uma carta, e ainda
-outros e outros. Citava-os pelo nome, com circumstancias, estudando
-os olhos do marido, e concluiu dizendo que, para não dar margem á
-calumnia, tratar-me-hia de maneira que eu não voltaria lá.
-
-Ouvi tudo isto um pouco turbado, não pelo accrescimo de dissimulação
-que era preciso empregar de ora em diante, até afastar-me inteiramente
-da casa do Lobo Neves, mas pela tranquillidade moral de Virgilia, pela
-falta de commoção, de susto, de saudades, e até de remorsos. Virgilia
-notou a minha preoccupação, levantou-me a cabeça, porque eu olhava
-então para o soalho, e disse-me com certa amargura:
-
---Você não merece os sacrifícios que lhe faço.
-
-Não lhe disse nada; era ocioso ponderar-lhe que um pouco de desespero
-e terror daria á nossa situação o sabor caustico dos primeiros dias;
-mas se lh'o dissesse, não é impossivel que ella chegasse lenta e
-artificiosamente até esse pouco de desespero e terror. Não lhe disse
-nada. Ella batia nervosamente com a ponta do pé no chão; aproximei-me e
-beijei-a na testa. Virgilia recuou, como se fosse um beijo de defuncto.
-
-
-
-
-CAPITULO XCVII
-
-
-Entre a boca e a testa
-
-
-Sinto que o leitor estremeceu,--ou devia estremecer. Naturalmente
-a ultima palavra suggeriu-lhe tres ou quatro reflexões. Veja bem o
-quadro: n'uma casinha da Gambôa*, duas pessoas que se amam ha muito
-tempo, uma inclinada para a outra, a dar-lhe um beijo na testa, e a
-outra a recuar, como se sentisse o contacto de uma boca de cadaver.
-Ha ahi, no breve intervallo, entre a boca e a testa, antes do beijo e
-depois do beijo, ha ahi largo espaço para muita cousa,--a contracção de
-um resentimento,--a ruga da desconfiança,--ou emfim o nariz pallido e
-somnolento da saciedade..
-
-
-
-
-CAPITULO XCVIII
-
-
-Supprimido
-
-
-Separamo-nos alegremente. Jantei reconciliado com a situação. A carta
-anonyma restituia á nossa aventura o sal do mysterio e a pimenta do
-perigo; e afinal foi bem bom que Virgilia não perdesse naquella crise a
-posse de si mesma. De noite fui ao theatro de S. Pedro; representava-se
-uma grande peça, em que a Estella arrancava lagrimas. Entro; corro
-os olhos pelos camarotes; vejo em um delles o Damasceno e a familia.
-Trajava a filha com outra elegancia e certo apuro, cousa difficil de
-explicar, porque o pae ganhava apenas o necessario para endividar-se; e
-dahi, talvez fosse por isso mesmo.
-
-No intervallo fui visital-os. O Damasceno recebeu-me com muitas
-palavras, a mulher com muitos sorrisos. Quanto a Nhã-lóló, não tirou
-mais os olhos de mim; e realmente parecia-me agora mais bonita que
-no dia do jantar. Achei-lhe certa suavidade etherea casada ao polido
-das fórmas terrenas:--expressão vaga, e condigna de um capitulo em
-que tudo ha de ser vago. Realmente, não sei como lhes diga que não me
-senti mal, ao pé da moça, trajando garridamente um vestido fino, um
-vestido que me dava cocegas de Tartuffo. Ao contemplal-o, cobrindo
-casta e redondamente o joelho, foi que eu fiz uma descoberta subtil, a
-saber, que a natureza previu a vestidura humana, condição necessaria
-ao desenvolvimento da nossa especie. A nudez habitual, dada a
-multiplicação das obras e dos cuidados do individuo, tenderia a embotar
-os sentidos e a retardar os sexos, ao passo que o vestuario, negaceando
-a natureza, aguça e attráe as vontades, activa-as, reprodul-as, e
-conseguintemente faz andar a civilisação. Abençoado uso que nos deu
-_Othello_ e os paquetes transatlânticos!
-
-Estou com vontade de supprimir este capitulo. O declive é perigoso.
-Mas emfim eu escrevo as minhas memorias e não as tuas, leitor pacato.
-Ao pé da graciosa donzella, parecia-me tomado de uma sensação dupla
-e indefinivel. Ella exprimia inteiramente a dualidade de Pascal,
-_l'ange et la bête_, com a differença que o jansenista não admittia a
-simultaneidade das duas naturezas, ao passo que ellas ahi estavam bem
-juntinhas,--_l'ange_, que dizia algumas cousas do ceu,--e _la bête_,
-que... Não; decididamente supprimo este capitulo.
-
-
-
-
-CAPITULO XCIX
-
-
-Na platéa
-
-
-Na platéa achei o Lobo Neves, de conversa com alguns amigos; falámos
-por alto, a frio, constrangidos um e outro. Mas no intervallo seguinte,
-prestes a levantar o panno, encontramo-nos n'um dos corredores, em que
-não havia ninguem. Elle veiu a mim, com muita affabilidade e riso,
-puxou-me a um dos oculos do theatro, e falamos muito, principalmente
-elle, que parecia o mais tranquillo dos homens. Cheguei a perguntar-lhe
-pela mulher; respondeu que estava boa, mas torceu logo a conversação
-para assumptos geraes, expansivo, quasi risonho. Adivinhe quem quizera
-causa da differença; eu fujo ao Damasceno que me espreita alli da porta
-do camarote.
-
-Não ouvi nada do seguinte acto, nem as palavras dos actores, nem
-as palmas do publico. Reclinado na cadeira, apanhava de memoria os
-retalhos da conversação do Lobo Neves, refazia as maneiras delle, e
-concluia que era muito melhor a nova situaçao. Bastava-nos a Gamboa. A
-frequencia da outra casa aguçaria as invejas. E rigorosamente podiamos
-dispensar-nos de falar todos os dias; era até melhor, mettia a saudade
-de permeio nos amores. Ao demais, eu galgara os quarenta annos, e não
-era nada, nem simples eleitor de parochia. Urgia fazer alguma cousa,
-ainda por amor de Virgilia, que havia de ufanar-se quando visse luzir o
-meu nome... Creio que nessa occasião houve grandes applausos, mas não
-juro; eu pensava em outra cousa.
-
-Multidão, cujo amor cobicei até á morte, era assim que eu me vingava ás
-vezes de ti; deixava borborinhar em volta do meu corpo a gente humana,
-sem a ouvir, como o Prometheu de Eschylo fazia aos seus verdugos.
-Ah! tu cuidavas encadear-me ao rochedo da tua frivolidade, da tua
-indifferença, ou da tua agitação? Frageis cadeias, amiga minha; eu
-rompia-as de um gesto de Gulliver. Vulgar cousa é ir considerar no
-ermo. O voluptuoso, o exquisito, é insular-se o homem no meio de um
-mar de gestos e palavras, de nervos e paixões, decretar-se alheiado,
-inaccessivel, ausente. O mais que podem dizer, quando elle torna a
-si,--isto é, quando torna aos outros,--é que baixa do mundo da lua; mas
-o mundo da lua, esse desvão luminoso e recatado do cerebro, que outra
-cousa é senão a affirmação desdenhosa da nossa liberdade espiritual?
-Vive Deus! eis um bom fecho de capitulo.
-
-
-
-
-CAPITULO C
-
-
-O caso provavel
-
-
-Se esse mundo não fosse uma região de espiritos desattentos, era
-escusado lembrar ao leitor que eu só affirmo certas leis, quando
-as possuo deveras; em relação a outras restrinjo-me á admissão da
-probabilidade. Um exemplo da segunda classe constitue o presente
-capitulo, cuja leitura recommendo a todas as pessoas que amam o estudo
-dos phenomenos sociaes. Segundo parece, e não é improvavel, existe
-entre os factos da vida publica e os da vida particular uma certa acção
-reciproca, regular, e talvez periodica,--ou, para usar de uma imagem,
-ha alguma cousa semelhante ás marés da praia do Flamengo e de outras
-egualmente marulhosas. Com effeito, quando a onda investe a praia,
-alaga-a muitos palmos a dentro; mas essa mesma agua torna ao mar, com
-variavel força, e vae engrossar a onda que ha de vir, e que terá de
-tornar como a primeira. Esta é a imagem; vejamos a applicação.
-
-Deixei dito n'outra pagina que o Lobo Neves, nomeado presidente de
-provincia, recusou a nomeação por motivo da data do decreto, que era
-13; acto grave, cuja consequência foi separar do ministerio o marido de
-Virgilia. Assim, o facto particular da ogerisa de um numero produziu o
-phenomeno da dissidencia politica. Resta ver como, tempos depois, um
-acto politico determinou na vida particular uma cessação de movimento.
-Não convindo ao methodo deste livro descrever immediatamente esse outro
-phenomeno, limito-me a dizer por ora que o Lobo Neves, quatro mezes
-depois de nosso encontro no theatro, reconciliou-se com o ministerio;
-facto que o leitor não deve perder de vista, se quizer penetrar a
-subtileza do meu pensamento.
-
-
-
-
-CAPITULO CI
-
-
-A revolução dalmata
-
-
-Foi Virgilia quem me deu noticia da vira-volta politica do marido,
-certa manhã de outubro, entre onze e meio dia; falou-me de reuniões, de
-conversas, de um discurso...
-
---De maneira que desta vez fica você baroneza, interrompi eu.
-
-Ella derreou os cantos da boca, e moveu a cabeça a um e outro lado;
-mas esse gesto de indifferença era desmentido por alguma cousa menos
-definivel, menos clara, uma expressão de gosto e de esperança. E não
-sei por que imaginei que a carta imperial da nomeação podia attraíl-a á
-virtude, não digo pela virtude em si mesma, mas por gratidão ao marido.
-Que ella amava cordialmente a nobreza; e um dos maiores desgostos de
-nossa vida foi o apparecimento de um certo pelintra de legação,--da
-legação da Dalmacia, supponhamos,--o conde B. V., que a namorou durante
-tres mezes.
-
-Esse homem, vero fidalgo de raça, transtornara um pouco a cabeça
-de Virgilia, que, além do mais, possuia a vocação diplomatica. Não
-chego a alcançar o que seria de mim, se não rebentasse na Dalmacia
-uma revolução, que derrocou o governo e purificou as embaixadas. Foi
-sangrenta a revolução, dolorosa, formidavel; os jornaes, a cada navio
-que chegava da Europa, transcreviam os horrores, mediam o sangue,
-contavam as cabeças; toda a gente fremia de indignação e piedade...
-Eu não; eu abençoava interiormente essa tragedia, que me tirára uma
-pedrinha do sapato. E depois a Dalmacia era tão longe!
-
-
-
-
-CAPITULO CII
-
-
-De repouso
-
-
-Mas este mesmo homem, que se alegrou com a partida do outro, praticou
-dahi a tempos... Não, não hei de contal-o nesta pagina; fique esse
-capitulo para repouso do meu vexame. Uma acção grosseira, baixa, sem
-explicação possivel... Repito, não contarei o caso nesta pagina.
-
-
-
-
-CAPITULO CIII
-
-
-Distracção
-
-
---Não, senhor doutor, isto não se faz. Perdoe-me, isto não se faz.
-
-Tinha razão D. Placida. Nenhum cavalheiro chega uma hora mais tarde
-ao logar em que o espera a sua dama. Entrei esbaforido; Virgilia
-tinha ido embora. D. Placida contou-me que ella esperára muito, que
-se irritara, que chorara, que jurára* votar-me ao desprezo, e outras
-mais cousas que a nossa caseira dizia com lagrimas na voz, pedindo-me
-que não desamparasse Yayá, que era ser muito injusto com uma moça que
-me sacrificara tudo. Expliquei-lhe então que um equivoco... E não era;
-cuido que foi simples distração. Um dito, uma conversa, uma anecdota,
-qualquer cousa; simples distracção.
-
-Coitada de D. Placida! Estava afflicta deveras. Andava de um lado para
-outro, abanando a cabeça, suspirando com estrepito, espiando pela
-rotula. Coitada de D. Placida! Com que arte conchegava as roupas,
-bafejava as faces, acalentava as manhas do nosso amor! que imaginação
-fertil em tornar as horas mais apraziveis e breves! Flores, doces,--os
-bons doces de outros dias,--e muito riso, muito affago, um riso e um
-affago que cresciam com o tempo, como se ella quizesse fixar a nossa
-aventura, ou restituir-lhe a primeira flor. Nada esquecia a nossa
-confidente e caseira; nada, nem a mentira, porque a um e outro referia
-suspiros e saudades que não presenciára; nada, nem a calumnia, porque
-uma vez chegou a attribuir-me uma paixão nova.--Você sabe que não
-posso gostar de outra mulher, foi a minha resposta, quando Virgilia me
-falou em semelhante cousa. E esta só palavra, sem nenhum protesto ou
-admoestação, dissipou o aleive-de D. Placida, que ficou triste.
-
---Está bem, disse-lhe eu, depois de um quarto de hora; Virgilia hade
-reconhecer que não tive culpa nenhuma... Quer você levar-lhe uma carta
-agora mesmo?
-
---Ella hade estar bem triste, coitadinha! Olhe, eu não desejo a morte
-de ninguem; mas, se o senhor doutor algum dia chegar a casar com Yayá,
-então sim, é que hade ver o anjo que ella é!
-
-Lembra-me que desviei o rosto e baixei os olhos ao chão. Recommendo
-este gesto ás pessoas que não tiverem uma palavra prompta para
-responder, ou ainda ás que receiarem encarar a pupilla do outros olhos.
-Em taes casos, alguns preferem recitar uma oitava dos _Lusíadas_,
-outros adoptam o recurso de assobiar a _Norma_; eu atenho-me ao gesto
-indicado; é mais simples, exige menos esforço.
-
-Tres dias depois, estava tudo explicado. Supponho que Virgilia ficou
-um pouco admirada, quando lhe pedi desculpa das lagrimas que derramára
-naquella triste occasião; e não me lembra se interiormente as attribui
-a D. Placida. Com effeito, podia acontecer que D. Placida chorasse, ao
-vel-a desapontada, e, por um phenomeno da visão, as lagrimas que tinha
-nos proprios olhos lhe parecessem cair dos olhos de Virgilia. Fosse
-como fosse, tudo estava explicado, mas não perdoado, e menos ainda
-esquecido. Virgilia dizia-me uma porção de cousas duras, ameaçava-me
-com a separação, emfim louvava o marido. Esse sim, era um homem digno,
-muito superior a mim, delicado, um primor de cortezia e affeição; é
-o que ella dizia, emquanto eu, sentado, com os braços fincados nos
-joelhos, olhava para o chão, onde uma mosca arrastava uma formiga que
-lhe mordia o pé. Pobre mosca! pobre formiga!
-
---Mas você não diz nada, nada? perguntou Virgilia, parando deante de
-mim.
-
---Que heide dizer? Já expliquei tudo; você teima em zangar-se; que
-heide dizer? Sabe o que me parece? Parece-me que você está enfastiada,
-que se aborrece, que quer acabar...
-
---Justamente!
-
-Foi dali pôr o chapéu, com a mão tremula, raivosa...--Adeus, D.
-Placida, bradou ella para dentro. Depois foi até á porta, correu o
-fecho, ia sair; agarrei-a pela cintura.--Está bom, está bom, disse-lhe.
-Virgilia ainda forcejou por sair. Eu retive-a, pedi-lhe que ficasse,
-que esquecesse; ella afastou-se da porta e foi cair no canapé.
-Sentei-me ao pé della, disse-lhe muitas cousas meigas, outras humildes,
-outras graciosas. Não affirmo se os nossos labios chegaram á distancia
-de um fio de cambraia ou ainda menos; é matéria controversa. Lembra-me,
-sim, que na agitação caiu um brinco de Virgilia, que eu inclinei-me a
-apanhal-o, e que a mosca de ha pouco trepou ao brinco, levando sempre a
-formiga no pé. Então eu, com a delicadeza nativa de um homem do nosso
-século, puz na palma da mão aquelle casal de mortificados; calculei
-toda a distancia que ia da minha mão ao planeta Saturno, e perguntei
-a mim mesmo que interesse podia haver n'um episodio tão mofino. Se
-conclues dahi que eu era um barbaro, enganas-te, porque eu pedi um
-grampo a Virgilia, afim de separar os dous insectos; mas a mosca
-farejou a minha intenção, abriu as azas e foi-se embora. Pobre mosca!
-pobre formiga! E Deus viu que isto era bom, como se diz na Escriptura.
-
-
-
-
-CAPITULO CIV
-
-
-Era elle!
-
-
-Restitui o grampo a Virgilia, que o repregou nos cabellos, e
-preparou-se para sair. Era tarde; tinham dado tres horas. Tudo estava
-esquecido e perdoado. D. Placida, que espreitava a occasião idonea para
-a saída, fecha subitamente a janella e exclama:
-
---Virgem Nossa Senhora! ahi vem o marido de Yayá!
-
-O momento de terror foi curto, mas completo. Virgilia fez-se da côr*
-das rendas do vestido, correu até a porta da alcova; D. Placida, que
-fechára a rotula, queria fechar tambem a porta de dentro; eu dispuz-me
-a esperar o Lobo Neves. Esse curto instante passou. Virgilia tornou
-a si, empurrou-me para a alcova, disse a D. Placida que voltasse á
-janella; a confidente obedeceu.
-
-Era elle. D. Placida abriu-lhe a porta com muitas exclamações de
-pasmo:--O senhor por aqui! honrando a casa de sua velha! Entre, faça
-favor. Adivinhe quem está cá... Não tem que adivinhar: não veiu por
-outra cousa... Appareça, Yayá.
-
-Virgilia, que estava a um canto, atirou-se ao marido. Eu espreitava-os
-pelo buraco da fechadura. O Lobo Neves entrou lentamente, pallido,
-frio, quieto, sem explosão, sem arrebatamento, e circulou um olhar em
-volta da sala.
-
---Que é isto? exclamou Virgilia. Você por aqui?
-
---Ia passando, vi D. Placida á janella, e vim comprimental-a.
-
---Muito obrigada, acudiu esta. E digam que as velhas não valem alguma
-cousa... Olhae, gentes! Yayá parece estar com ciumes. E acariciando-a
-muito:--Este anjinho é que nunca se esqueceu da velha Placida.
-Coitadinha! é mesmo a cara da mãe... Sente-se, senhor doutor...
-
---Não me demoro.
-
---Você vae para casa? disse Virgilia. Vamos juntos.
-
---Vou.
-
---Dê cá o meu chapéu, D. Placida.
-
---Está aqui.
-
-D. Placida foi buscar um espelho, abriu-o deante della. Virgilia punha
-o chapéu, atava as fitas, arranjava os cabellos, falando ao marido,
-que não respondia nada. A nossa boa velha tagarellava de mais; era um
-modo de disfarçar as tremuras do corpo. Virgilia, dominado o primeiro
-instante, tornára á posse de si mesma.
-
---Prompta! disse ella. Adeus, D. Placida; não se esqueça de apparecer,
-ouviu? A outra prometteu que sim, e abriu-lhes a porta.
-
-
-
-
-CAPITULO CV
-
-
-Equivalencia das janellas
-
-
-D. Placida fechou a porta e caiu n'uma cadeira. Eu deixei
-immediatamente a alcova, e dei dous passos para sair á rua, com o fim
-de arrancar Virgilia ao marido; foi o que disse, e em bem que o disse,
-porque D. Placida deteve-me por um braço. Tempo houve em que eu cheguei
-a suppor que não dissera aquillo senão para que ella me detivesse;
-mas a simples reflexão basta para mostrar que, depois dos dez minutos
-da alcova, o gesto mais genuino e cordial não podia ser senão esse. E
-isto por aquella famosa lei da equivalencia das janellas, que eu tive
-a satisfação de descobrir e formular, no cap. LI. Era preciso arejar
-a consciencia. A alcova foi uma janella fechada; eu abri outra com o
-gesto de sair, e respirei.
-
-
-
-
-CAPITULO CVI
-
-
-Jogo perigoso
-
-
-Respirei e sentei-me. D. Placida atroava a sala com exclamações e
-lastimas. Eu ouvia, sem lhe dizer cousa nenhuma; reflectia commigo se
-não era melhor ter fechado Virgilia na alcova e ficado na sala; mas
-adverti logo que seria peior; confirmaria a suspeita, e chegaria o
-fogo á polvora e uma scena de sangue... Foi muito melhor assim. Mas
-depois? que ia acontecer em casa de Virgilia? Matal-a-hia o marido?
-espancal-a-hia? encerral-a-hia? expulsal-a-hia? Estas interrogações
-percorriam lentamente o meu cerebro, como os pontinhos e virgulas
-escuras percorrem o campo visual dos olhos enfermos ou cansados. Iam e
-vinham, com o seu aspecto secco e tragico, e eu não podia agarrar um
-dellos e dizer: és tu, tu e não outro.
-
-De repente vejo um vulto negro; era D. Placida, que fôra dentro,
-enfiára a mantilha, e vinha offerecer-se-me para ir á casa do Lobo
-Neves. Ponderei-lhe que era arriscado, porque elle desconfiaria da
-visita tão proxima.
-
---Socegue, interrompeu ella; eu saberei arranjar as cousas. Se elle
-estiver em casa não entro.
-
-Saiu; eu fiquei a ruminar o successo e as consequencias possiveis. Ao
-cabo, parecia-me jogar um jogo perigoso, e perguntava a mim mesmo se
-não era tempo de levantar e espairecer, como um parceiro do _whist._
-E então senti-me tomado de uma saudade do casamento, de um desejo de
-canalizar a vida. Porque não? Meu coração tinha ainda que explorar;
-não me sentia incapaz de um amor casto, severo e puro. Na verdade,
-as aventuras são a parte torrencial e vertiginosa da vida, isto é, a
-excepção; eu estava enfarado dellas; não sei até se me pungia algum
-remorso. Mal pensei naquillo, deixei-me ir atraz da imaginação; vi-me
-logo casado, ao pé de uma mulher adoravel, deante de um _baby_, que
-dormia no regaço da ama, todos nós no fundo do uma chacara sombria
-e verde, a espiarmos atravez das arvores uma nesga do ceu azul,
-extremamente azul...
-
-
-
-
-CAPITULO CVII
-
-
-Bilhete
-
- «Não houve nada, mas elle suspeita alguma cousa; está muito
- serio e não fala; agora saiu. Sorriu uma vez somente, para
- nhonhô, depois de o fitar muito tempo, carrancudo. Não me
- tratou mal nem bem. Não sei o que vae acontecer; Deus queira
- que isto passe. Muita cautela, por ora, muita cautela.»
-
-
-
-
-CAPITULO CVIII
-
-
-Que se não entende
-
-
-Eis ahi o drama, eis ahi a ponta da orelha tragica de Shakespeare. Esse
-retalhinho de papel, garatujado em partes, machucado das mãos, era um
-documento de analyse, que eu não farei neste capitulo, nem no outro,
-nem talvez em todo o resto do livro. Poderia eu tirar ao leitor o gosto
-de notar por si mesmo a frieza, a perspicacia e o animo dessas poucas
-linhas traçadas á pressa; e por traz dellas a tempestade de outro
-cerebro, a raiva dissimulada, o desespero que se constrange e medita,
-por que tem de resolver-se na lama, ou no sangue, ou nas lagrymas?
-
-Quanto a mim, se vos disser que li o bilhete tres ou quatro vezes,
-naquelle dia, accreditai-o, que é verdade; se vos disser mais que o
-reli no dia seguinte, antes e depois do almoço, podeis crel-o, é a
-realidade pura. Mas se vos disser a commoção que tive, duvidai um pouco
-da asserção, e não a acceiteis sem provas. Nem então, nem ainda agora
-cheguei a discernir o que experimentei. Era medo, e não era medo;
-era dó e não era dó; era vaidade e não era vaidade; emfim, era amor
-sem amor, isto é, sem delirio; e tudo isso dava uma combinação assás
-complexa e vaga, uma cousa que não podereis entender, como eu não
-entendi. Supponhamos que não disse nada.
-
-
-
-
-CAPITULO CIX
-
-
-O philosopho
-
-
-Sabido que reli a carta, antes e depois do almoço, sabido fica que
-almocei, e só resta dizer que essa refeição foi das mais parcas
-da minha vida: um ovo, uma fatia de pão, uma chicara de chá. Não
-me esqueceu esta circumstancia minima; no meio de tanta cousa
-importante obliterada escapou esse almoço. A razão principal poderia
-ser justamente o meu desastre; mas não foi; a principal razão foi
-a reflexão que me fez o Quincas Borba, cuja visita recebi naquelle
-dia. Disse-me elle que a frugalidade não era necessaria para entender
-o Humanitismo, é menos ainda pratical-o; que esta philosophia
-acommodava-se facilmente com os prazeres da vida, inclusive a mesa,
-o espectaculo e os amores; e que, ao contrario, a frugalidade podia
-indicar certa tendencia para o ascetismo, o qual era a expressão
-acabada da tolice humana.
-
---Veja S. João, continuou elle; mantinha-se de gafanhotos, no deserto,
-em vez de engordar tranquillamente na cidade, e fazer emmagrecer o
-pharisaismo na synagoga.
-
-Deus me livre de contar a historia do Quincas Borba, que aliás ouvi
-toda naquella triste occasião, uma historia longa, complicada,
-mas interessante. E se não conto a historia, dispenso-me outrosim
-de descrever-lhe a figura, aliás mui diversa da que me appareceu
-no Passeio Publico. Calo-me; digo somente que se o principal
-característico do homem não são as feições, mas o vestuário, elle
-não era o Quincas Borba; era um desembargador sem beca, um general
-sem farda, um negociante sem _deficit._ Notei-lhe a perfeição da
-sobrecasaca, a alvura da camisa, o aceio das botas. A mesma voz,
-roufenha outr'ora, parecia restituida á primitiva sonoridade. Quanto
-á gesticulação, sem que houvesse perdido a viveza de outro tempo, não
-tinha já a desordem, sujeitava-se a um certo methodo. Mas eu não quero
-descrevel-o. Se falasse, por exemplo, no botão de ouro que trazia ao
-peito, e na qualidade do couro das botas, iniciaria uma descripção,
-que omitto por brevidade. Contentem-se de saber que as botas eram de
-verniz. Saibam mais que elle herdára alguns pares de contos de réis de
-um velho tio de Barbacena.
-
-Meu espirito, (permittam-me aqui uma comparação de criança!) meu
-espirito era n'aquella occasião uma especie de peteca. A narração do
-Quincas Borba dava-lhe uma palmada, elle subia; quando ia a cair,
-o bilhete de Virgilia dava-lhe outra palmada, e elle era de novo
-arremessado aos ares; descia, e o episodio do Passeio Publico recebia-o
-com outra palmada, egualmente rija e efficaz. Cuido que não nasci
-para situações complexas. Esse puxar e empuxar de cousas oppostas,
-desequilibrava-me; tinha vontade de embrulhar o Quincas Borba, o Lobo
-Neves e o bilhete de Virgilia na mesma philosophia, e mandal-os de
-presente a Aristoteles. E, comtudo, era instructiva a narração do nosso
-philosopho; admirava-lhe sobretudo o talento de observação com que
-descrevia a gestação e o crescimento do vicio, as luctas interiores, as
-capitulações vagarosas, o uso da lama.
-
---Olhe, observou elle; a primeira noite que passei, na escada de S.
-Francisco, dormi-a inteira, como se fosse a mais fina pluma. Porque?
-Porque fui gradualmente da cama de esteira ao catre de pau, do quarto
-proprio ao corpo da guarda, do corpo da guarda ao xadrez, do xadrez á
-rua...
-
-Quiz expor-me finalmente a philosophia; eu pedi-lhe que não.--Estou
-assaz preocupado hoje e não poderia attendel-o; venha depois; estou
-sempre em casa. O Quincas Borba sorriu de um modo malicioso; talvez
-soubesse da minha aventura, mas não accrescentou nada. Só me disse
-estas ultimas palavras á porta:
-
---Venha para o Humanitismo; elle é o grande regaço dos espiritos, o
-mar eterno em que mergulhei para arrancar de lá a verdade. Os gregos
-faziam-na sair de um poço. Que concepção mesquinha! Um poço! Mas
-é por isso mesmo que nunca atinaram com ella. Gregos, sub-gregos,
-anti-gregos, toda a longa serie dos homens tem-se debruçado sobre
-o poço, para ver sair a verdade, que não está la. Gastaram cordas e
-caçambas; alguns mais afoutos desceram ao fundo e trouxeram um sapo. Eu
-fui directamente ao mar. Venha para o Humanitismo.
-
-
-
-
-CAPITULO CX
-
-
-31
-
-
-Uma semana depois, o Lobo Neves foi nomeado presidente de provincia.
-Agarrei-me á esperança da recusa, se o decreto viesse outra vez datado
-de 13; trouxe, porém, a data de 31; e esta simples transposição de
-algarismos eliminou delles a substancia diabolica. Que profundas que
-são as molas da vida!
-
-
-
-
-CAPITULO CXI
-
-
-O muro
-
-
-Não sendo meu costume dissimular ou esconder nada, contarei nesta
-pagina o caso do muro. Elles estavam prestes a embarcar. Entrando
-em casa de D. Placida, vi um papelinho dobrado sobre a mesa; era um
-bilhete de Virgilia; dizia que me esperava á noite, na chacara, sem
-falta. E concluía: «O muro é baixo do lado do becco.»
-
-Fiz um gesto de desagrado. A carta pareceu-me descommunalmente
-audaciosa, mal pensada e até ridicula. Não era só convidar o escandalo,
-era convidal-o de parceria com a risota. Imaginei-me a saltar o muro,
-embora baixo e do lado do becco; e, quando ia a galgal-o, via-me
-agarrado por um pedestre de policia, que me levava ao corpo da guarda.
-O muro é baixo! E que tinha que fosse baixo? Naturalmente Virgilia não
-soube o que fez; era possivel que já estivesse arrependida. Olhei para
-o papel, um pedaço de papel amarrotado, mas inflexivel. Tive comichões
-de o rasgar, em trinta mil pedaços, e atiral-os ao vento, como o ultimo
-despojo da minha aventura; mas recuei a tempo; o amor-proprio, o vexame
-da fuga, a idéa do medo... Não havia remedio senão ir.
-
---Diga-lhe que vou.
-
---Aonde? perguntou D. Placida.
-
---Onde ella disse que me espera.
-
---Não me disse nada.
-
---Neste papel.
-
-D. Placida arregalou os olhos:--Mas esse papel, achei-o hoje de manhã,
-nesta sua gaveta, e pensei que...
-
-Tive uma sensação exquisita. Reli o papel, mirei-o, remirei-o; era, na
-verdade, um antigo bilhete de Virgilia, recebido no começo dos nossos
-amores, uma certa entrevista na chacara, que me levou effectivamente a
-saltar o muro, um muro baixo e discreto. Guardei o papel e... Tive uma
-sensação exquisita.
-
-
-
-
-CAPITULO CXII
-
-
-A opinião
-
-
-Mas estava escripto que esse dia devia ser o dos lances dubios. Poucas
-horas depois, encontrava-me eu com o Lobo Neves, na rua do Ouvidor,
-e falavamos da presidencia e da politica. Elle aproveitou o primeiro
-conhecido que nos passou á ilharga, e deixou-me, depois de muitos
-comprimentos. Lembra-me que estava retraindo, mas de um retrahimento
-que forcejava por dissimular. Pareceu-me então (e peço perdão á
-critica, se este meu juizo fôr temerário!) pareceu-me que elle tinha
-medo--não medo de mim, nem de si, nem do codigo, nem da consciencia;
-tinha medo da opinião. Suppuz que esse tribunal anonymo e invisivel,
-em que cada membro accusa e julga, era o limite posto á vontade do
-Lobo Neves. Talvez que elle já não amasse a mulher; e, assim, póde ser
-que o coração fosse estranho á indulgencia dos seus ultimos actos.
-Cuido (e de novo insto pela boa vontade da critica!) cuido que elle
-estaria prompto a separar-se da mulher, como o leitor se terá separado
-de muitas relações pessoaes; mas a opinião, essa opinião que lhe
-arrastaria a vida por todas as ruas, que abriria minucioso inquerito
-ácerca do caso, que colligiria uma a uma todas as circumstancias,
-antecedencias, inducções, provas, que as relataria na palestra das
-chacaras desoccupadas, essa terrivel opinião, tão curiosa das alcovas,
-obstou á dispersão da familia. Ao mesmo tempo tornou impossivel o
-desforço, que seria a divulgação. Elle não podia mostrar-se resentido
-commigo, sem egualmente buscar a separação conjugal; e teve então
-de simular a mesma ignorancia de outr'ora, e, por deducção, eguaes
-sentimentos.
-
-Que lhe custasse creio; naquelles dias, principalmente, vi-o de modo
-que devia custar-lhe muito. Mas o tempo (e é outro ponto em que eu
-espero a indulgencia dos homens pensadores!), o tempo calleja a
-sensibilidade, e oblitera a memoria das cousas; era de suppor que os
-annos lhe despontassem os espinhos, que a distancia dos factos apagasse
-os respectivos contornos, que uma sombra de duvida retrospectiva
-cobrisse a nudez da realidade; emfim, que a opinião se occupasse um
-pouco com outras aventuras. O filho, crescendo, buscaria satisfazer
-as ambições do pae; seria o herdeiro de todos os seus affectos. Isso,
-e a actividade externa, e o prestigio publico, e a velhice depois, a
-doença, o declinio, a morte, um responso, uma noticia biographica, e
-estava fechado o livro da vida, sem nenhuma pagina de sangue.
-
-
-
-
-CAPITULO CXIII
-
-
-A solda
-
-
-A conclusão, se ha alguma no capitulo anterior, é que a opinião é
-uma bôa solda das instituições domesticas. Não é impossivel que eu
-desenvolva este pensamento, antes de acabar o livro; mas tambem não é
-impossivel que o deixe como está. De um ou de outro modo, é uma bôa
-solda a opinião, e tanto na ordem domestica, como na politica. Alguns
-metaphysicos biliosos tem chegado ao extremo de a darem como simples
-producto da gente chocha ou mediocre; mas é evidente que, ainda quando
-um conceito tão extremado não trouxesse em si mesmo a resposta, bastava
-considerar os effeitos salutares da opinião, para concluir que ella é a
-obra superfina da flor dos homens, a saber, do maior numero.
-
-
-
-
-CAPITULO CXIV
-
-
-Fim de um dialogo
-
---Sim, é amanhã. Você vae a bordo?
-
---Está douda? É impossível.
-
---Então, adeus!
-
---Adeus!
-
---Não se esqueça de D. Placida. Vá vel-a algumas vezes. Coitada! Foi
-hontem despedir-se de nós; chorou muito, disse que eu não a veria
-mais... É uma boa creatura, não?
-
---Certamente.
-
---Se tivermos de escrever, ella receberá as cartas. Agora até daqui a...
-
---Talvez dous annos?
-
---Qual! elle diz que é só até fazer as eleições.
-
---Sim? então até breve. Olhe que estão olhando para nós.
-
---Quem?
-
---Alli do sophá. Separemo-nos.
-
---Custa-me muito.
-
---Mas é preciso; adeus, Virgilia!
-
---Até breve. Adeus!
-
-
-
-
-CAPITULO CXV
-
-
-O almoço
-
-
-Não a vi partir; mas á hora marcada senti alguma cousa que não era dor
-nem prazer, uma cousa mixta, allivio e saudade, tudo misturado, em
-eguaes doses. Não se irrite o leitor com esta confissão. Eu bem sei
-que, para titillar-lhe os nervos da fantasia, devia padecer um grande
-desespero, derramar algumas lagrimas, e não almoçar. Seria romanesco;
-mas não seria biographico. A realidade pura é que eu almocei, como nos
-demais dias, acudindo ao coração com as lembranças da minha aventura, e
-ao estomago com os acepipes de Mr. Pruddon...
-
-...Velhos do meu tempo, lembrai-vos desse mestre cosinheiro do hotel
-Pharoux, um sujeito que, segundo dizia o dono da casa, havia servido
-nos famosos Véry e Véfour, de Paris, e mais nos palacios do conde
-Molé e do duque de la Rochefoucauld? Era insigne. Entrou no Rio de
-Janeiro com a polka... A polka, Mr. Pruddon, o Tivoli, o baile dos
-estrangeiros, o Casino, eis algumas das melhores recordações daquelle
-tempo; mas sobretudo os acepipes do mestre eram deliciosos.
-
-Eram, e naquella manhã parece que o diabo do homem adivinhára a nossa
-catastrophe. Jámais o engenho e a arte lhe foram tão propicios. Que
-requinte de temperos! que tenrura de carnes! que rebuscado de fórmas!
-Comia-se com a bocca, com os olhos, com o nariz. Não guardei a conta
-desse dia; do contrario, é mui provavel que a deixasse nestas paginas.
-Sei que foi cara. Ai dor! era-me preciso enterrar magnificamente os
-meus amores. Elles la iam, mar em fóra, no espaço e no tempo, e eu
-ficava-me alli n'uma ponta de mesa, com os meus quarenta e tantos
-annos, tão vadios e tão vazios; ficava-me para os não ver nunca mais,
-porque ella poderia tornar e tornou, mas o effluvio da manhã quem é que
-o pediu ao crepúsculo da tarde?
-
-
-
-
-CAPITULO CXVI
-
-
-Philosophia das folhas velhas
-
-
-Fiquei tão triste com o fim do ultimo capitulo que estava capaz de não
-escrever este, descançar um pouco, purgar o espirito da melancolia que
-o empacha, e continuar depois. Mas não, não quero perder tempo.
-
-A partida de Virgilia deu-me uma amostra da viuvez. Nos primeiros
-dias metti-me em casa, a fisgar moscas, como Domiciano, se não mente
-o Suetonio, mas a fisgal-as de um modo particular: com os olhos.
-Fisgava-as uma a uma, no fundo de uma sala grande, estirado na rede,
-com um livro aberto entre as mãos. Era tudo: saudades, ambições, um
-pouco de tedio, e muito devaneio solto. Meu tio conego morreu nesse
-intervallo; item, dous primos; e eu não me dei por abalado; levei-os ao
-cemiterio, como quem leva dinheiro a um banco. Que digo? como quem leva
-cartas ao correio: sellei as cartas, metti-as na caixinha, e deixei ao
-carteiro o cuidado de as entregar em mão propria. Foi tambem per esse
-tempo que nasceu minha sobrinha Venancia, filha do Cotrim. Morriam uns,
-nasciam outros: eu continuava ás moscas.
-
-Outras vezes agitava-me. Ia ás gavetas, entornava as cartas antigas,
-dos amigos, dos parentes, das namoradas, (até as de Marcella), e
-abria-as todas, lia-as uma a uma, e recompunha o preterito... Leitor
-ignaro, se não guardas as cartas da juventude, não conhecerás um dia
-a philosophia das folhas velhas, não gostarás o prazer de ver-te, ao
-longe, na penumbra, com um chapéu de tres bicos, botas de sete leguas
-e longas barbas assyrias, a bailar ao som de uma gaita anacreontica.
-Guarda as tuas cartas da juventude!
-
-Ou, se te não apraz o chapéu de tres bicos, empregarei a locução de um
-velho marujo, familiar da casa do Cotrim; direi que, se guardares as
-cartas da juventude, acharás occasião de «cantar uma saudade.» Parece
-que os nossos marujos dão este nome ás cantigas de terra, entoadas no
-alto mar. Como expressão poetica, é o que se póde exigir mais triste.
-
-
-
-
-CAPITULO CXVII
-
-
-O Humanitismo
-
-
-Duas forças, porém, além de uma terceira, compelliam-me a tornar á vida
-agitada do costume: Sabina e o Quincas Borba. Minha irmã encaminhou a
-candidatura conjugal de Nhã-loló de um modo verdadeiramente impetuoso.
-Quando dei por mim estava com a moça quasi nos braços. Quanto ao
-Quincas Borba, expoz-me emfim o Humanitismo, systema de philosophia
-destinado a arruinar todos os demais systemas.
-
---Humanitas, dizia elle, o principio das cousas, não é outro senão o
-mesmo homem repartido por todos os homens. Conta tres phases Humanitas;
-a _statica_, anterior a toda a creação; a _expansiva_, começo das
-cousas; a _dispersiva_, apparecimento do homem; e contará mais uma,
-a _contractiva_, absorpção do homem e das cousas. A _expansão_,
-iniciando o universo, suggeriu a Humanitas o desejo de o gozar, e dahi
-a _dispersão_, que não é mais do que a multiplicação personificada da
-substancia original.
-
-Como me não apparecesse assaz clara esta exposição, o Quincas Borba
-desenvolveu-a de um modo profundo, fazendo notar as grandes linhas
-do systema. Explicou-me que, por um lado, o Humanitismo ligava-se ao
-Brahmanismo, a saber, na distribuição dos homens pelas differentes
-partes do corpo de Humanitas; mas aquillo que na religião indiana
-tinha apenas uma estreita significação theologica e politica, era no
-Humanitismo a grande lei do valor pessoal. Assim, descender do peito
-ou dos rins de Humanitas, isto é, ser _um forte_, não era o mesmo que
-descender dos cabellos ou da ponta do nariz. Dahi a necessidade de
-cultivar e temperar o musculo. Hercules ou Herakles não foi senão um
-symbolo antecipado do Humanitismo. Neste ponto o Quincas Borba ponderou
-que o paganismo poderia ter chegado á verdade, se se não houvesse
-amesquinhado com a parte galante dos seus mythos. Nada disso acontecerá
-com o Humanitismo. Nesta egreja nova não ha aventuras faceis, nem
-quedas, nem tristezas, nem alegrias pueris. O amor, por exemplo, é um
-sacerdocio, a reproducção um ritual. Como a vida é o maior beneficio
-do universo, e não ha mendigo que não prefira a miseria á morte (o
-que é um delicioso influxo de Humanitas), segue-se que a transmissão
-da vida, longe de ser uma occasião de galanteio, é a hora suprema da
-missa espiritual. Porquanto, verdadeiramente ha só uma desgraça: é não
-nascer.
-
---Imagina, por exemplo, que eu não tinha nascido, continuou o Quincas
-Borba; é positivo que não teria agora o prazer de conversar comtigo,
-comer esta batata, ir ao theatro, e para tudo dizer n'uma só palavra:
-viver. Nota que eu não faço do homem um simples vehiculo de Humanitas;
-não, elle é ao mesmo tempo vehiculo, cocheiro e passageiro; elle é
-o proprio Humanitas reduzido; dahi a necessidade de adorar-se a si
-proprio. Queres uma prova da superioridade do meu systema? Contempla
-a inveja. Não ha moralista grego ou turco, christão ou mussulmano,
-que não troveje contra o sentimento da inveja. O accordo é universal,
-desde os campos da Iduméa até o alto da Tijuca. Ora bem; abre mão dos
-velhos preconceitos, esquece as rhetoricas rafadas, e estuda a inveja,
-esse sentimento tão subtil e tão nobre. Sendo cada homem uma reducção
-de Humanitas, é claro que nenhum homem é fundamentalmente opposto a
-outro homem, quaesquer que sejam as apparencias contrarias. Assim, por
-exemplo, o algoz que executa o condemnado póde excitar o vão clamor
-dos poetas; mas substancialmente é Humanitas que corrige em Humanitas
-uma infracção da lei de Humanitas. O mesmo direi do individuo que
-estripa a outro; é uma manifestação da força de Humanitas. Nada obsta
-(e ha exemplos) que elle seja egualmente estripado. Si entendeste
-bem, facilmente comprehenderás que a inveja não é senão uma admiração
-que luta, e sendo a luta a grande funcção do genero humano, todos os
-sentimentos bellicosos são os mais adequados á sua felicidade. Dahi vem
-que a inveja é uma virtude.
-
-Para que negal-o? eu estava estupefacto. A clareza da exposição, a
-logica dos principios, o rigor das consequencias, tudo isso parecia
-superiormente grande, e foi-me preciso suspender a conversa por alguns
-minutos, em quanto digeria a philosophia nova. O Quincas Borba mal
-podia encobrir a satisfação do triumpho. Tinha uma aza de frango no
-prato, e trincava-a com philosophica serenidade. Eu fiz-lhe ainda
-alguma objecções, mas tão frouxas, que elle não gastou muito tempo em
-destruil-as.
-
---Para entender bem o meu systema, concluiu elle, importa não esquecer
-nunca o principio universal, repartido e resumido em cada homem. Olha:
-a guerra, que parece uma calamidade, é uma operação conveniente,
-como se dissessemos o estalar dos dedos de Humanitas; a fome (e elle
-chupava philosophicamente a aza do frango), a fome é uma prova a que
-Humanitas submette a propria viscera. Mas eu não quero outro documento
-da sublimidade do meu systema, senão este mesmo frango. Nutriu-se de
-milho, que foi plantado por um africano, supponhamos, importado de
-Angola. Nasceu esse africano, cresceu, foi vendido um navio o trouxe,
-um navio construido de madeira cortada no matto por dez ou doze
-homens, levado por velas, que oito ou dez homens teceram, sem contar
-a cordoalha e outras partes do apparelho nautico. Assim, este frango,
-que eu almocei agora mesmo, é o resultado de uma multidão de esforços e
-lutas, executados com o unico fim de dar mate ao meu appetite.
-
-Entre o queijo e o café, demonstrou-me o Quincas Borba que o seu
-systema era a destruição da dôr. A dôr, segundo o Humanitismo, é uma
-pura illusão. Quando a criança é ameaçada por um páu, antes mesmo de
-ter sido espancada, fecha os olhos e treme; essa _predisposição_ é que
-constitue a base da illusão humana, herdada e transmittida. Não basta
-certamente a adopção do systema para acabar logo com a dôr; mas é
-indispensavel; o resto é a natural evolução das cousas. Uma vez que o
-homem se compenetre bem de que elle é o proprio Humanitas, não tem mais
-do que remontar o pensamento á substancia original para obstar qualquer
-sensação dolorosa. A evolução porém é tão profunda, que mal se lhe
-podem assignar alguns milhares de annos.
-
-O Quincas Borba leu-me dahi a dias a sua grande obra. Eram quatro
-volumes manuscriptos, de cem paginas cada um, com letra miuda e
-citações latinas. O ultimo volume compunha-se de um tratado politico,
-fundado no Humanitismo; era talvez a parte mais enfadonha do systema,
-posto que concebida com um formidavel rigor de logica. Reorganisada a
-sociedade pelo methodo delle, nem por isso ficavam eliminadas a guerra,
-a insurreição, o simples murro, a facada anonyma, a miseria, a fome, as
-doenças; mas sendo esses suppostos flagellos verdadeiros equivocos do
-entendimento, porque não passariam de movimentos externos da substancia
-interior, destinados a não influir sobre o homem, senão como simples
-quebra da monotonia universal, claro estava que a sua existencia não
-impediria a felicidade humana. Mas ainda quando taes flagellos (o que
-era radicalmente falso) correspondessem no futuro á concepção acanhada
-de antigos tempos, nem por isso ficava destruido o systema, e por dous
-motivos: 1.° porque sendo Humanitas a substancia creadora e absoluta,
-cada individuo deveria achar a maior delicia do mundo em sacrificar-se
-ao principio de que descende; 2.° porque, ainda assim, não diminuiria o
-poder espiritual do homem sobre a terra, inventada unicamente para seu
-recreio delle, como as estrellas, as brisas, as tamaras e o rhuibarbo.
-Pangloss, dizia-me elle ao fechar o livro, não era tão tolo como o
-pintou Voltaire.
-
-
-
-
-CAPITULO CXVIII
-
-
-A terceira força
-
-
-A terceira força (Veja a primeira linha do capitulo passado) a
-terceira força que me chamava ao bulicio era a impaciencia de luzir,
-e, sobretudo, a incapacidade de viver só. A multidão attrahia-me, o
-applauso namorava-me, a gala, o tumulto, o rufo, eram outros tantos
-objectos de seducção. Se a idéa do emplasto me tem apparecido nesse
-tempo, quem sabe? não teria morrido logo e estaria celebre. Mas o
-emplasto não veiu. Veiu o desejo de agitar-me em alguma cousa, com
-alguma cousa e por alguma cousa. _Tout notre mal vient de ne pouvoir
-être seuls._ Esta maxima de la Bruyère sempre me pareceu um grande
-disparate. Não ha duvida que a sociabilidade é a primeira virtude dos
-homens, a segunda é a curiosidade, a terceira é a pontualidade dos
-pagamentos, a quarta o valor militar, e assim por diante.
-
-
-
-
-CAPITULO CXIX
-
-
-Parenthesis
-
-
-(Haverá uma critica tão perversa que possa attribuir a minha opinião
-sobre la Bruyère á inveja das suas maximas? Eu aparo desde já esse
-golpe, transcrevendo algumas das que compuz por aquelle tempo, e
-rasguei logo depois, por não me parecerem dignas do prélo. Fil-as n'um
-periodo em que a flor amarella do capitulo XXV tornára a abrir; eram
-bocejos de enfado. E se não vejam:
-
- Supporta-se com paciência a colica do proximo.
-
- Matamos o tempo; o tempo nos enterra.
-
- Um cocheiro philosopho costumava dizer que o gosto da
- carruagem seria diminuto, se todos andassem de carruagem.
-
- Crê em ti; mas nem sempre duvides dos outros.
-
- Não se comprehende que um botocudo fure o beiço para
- enfeital-o com um pedaço de páu. Esta reflexão é de um
- joalheiro.
-
- Não te irrites se te pagarem mal um beneficio: antes cair das
- nuvens, que de um terceiro andar.)
-
-
-
-
-CAPITULO CXX
-
-
-Compelle intrare
-
-
---Não, senhor, agora quer você queira, quer não, ha de casar, disse-me
-Sabina. Que bello futuro! Um solteirão sem filhos.
-
-Sem filhos! Eis o dardo secreto. A idéa de ter filhos deu-me um
-sobresalto; percorreu-me outra vez o fluido mysterioso. Sim, cumpria
-ser pae. A vida celibata podia ter certas vantagens proprias, mas
-seriam tenues, e compradas a troco da solidão. Sem filhos! Não;
-impossivel. Dispuz-me a aceitar tudo, ainda mesmo a alliança do
-Damasceno. Sem filhos! Como já então depositasse grande confiança no
-Quincas Borba, fui ter com elle e expuz-lhe os movimentos internos da
-minha paternidade. O philosopho ouviu-me com alvoroço; declarou-me que
-Humanitas se agitava em meu seio; animou-me ao casamento; ponderou
-que eram mais alguns convivas que batiam á porta, etc. _Compelle
-intrare_, como dizia Jesus. E não me deixou sem provar que o apologo
-evangelico não era mais do que um prenuncio do Humanitismo, erradamente
-interpretado pelos padres.
-
-
-
-
-CAPITULO CXXI
-
-
-Morro abaixo
-
-
-No fim de tres mezes, ia tudo á maravilha. O fluido, Sabina, os olhos
-da moça, os desejos do pae, eram outros tantos impulsos que me levavam
-ao matrimonio. A lembrança de Virgilia apparecia de quando em quando,
-á porta; e com ella um diabo negro, que me mettia á cara um espelho,
-no qual eu via ao longe Virgilia desfeita em lagrimas; mas outro diabo
-vinha, côr de rosa, com outro espelho, em que se reflectia a figura de
-Nhã-loló, terna, luminosa, angelica.
-
-Não falo dos annos. Eu não os sentia; acrescentarei até que os deitára
-fóra, certo domingo, em que fui á missa na capella do Livramento. Como
-o Damasceno morava nos Cajueiros, eu acompanhava-os muitas vezes á
-missa. O morro estava ainda nú de habitações, salvo o velho palacete do
-alto, onde era a capella. Pois um domingo, ao descer com Nhã-loló pelo
-braço, não sei que phenomeno se deu que fui deixando aqui dous annos,
-alli quatro, logo adiante cinco, de maneira que, quando cheguei abaixo,
-estava com vinte annos apenas, tão lépidos como elles tinham sido.
-
-Agora, se querem saber em que circumstancias se deu o phenomeno,
-basta-lhes ler este capitulo até o fim. Vinhamos da missa, ella, o pae
-e eu. No meio do morro achámos um grupo de homens. O Damasceno, que
-vinha ao pé de nós, percebeu o que era e adiantou-se alvoroçado; nós
-fomos atraz delle. E vimos isto: homens de todas as edades, tamanhos e
-côres, uns em mangas de camisa, outros de jaqueta, outros mettidos em
-sobrecasacas esfrangalhadas; attitudes diversas, uns de cócaras, outros
-com as mãos apoiadas nos joelhos, estes sentados em pedras, aquelles
-encostados ao muro; e todos com os olhos fixos no centro, e as almas
-debruçadas das pupillas.
-
---Que é? perguntou-me Nhã-loló.
-
-Fiz-lhe signal que se calasse; abri subtilmente caminho, e todos
-me foram cedendo espaço, sem que positivamente ninguem me visse. O
-centro tinha-lhes atado os olhos. Era uma briga de gallos. Vi os dous
-contendores, dous gallos de esporão agudo, olho de fogo e bico afiado.
-Ambos agitavam as cristas em sangue; o peito de um e de outro estava
-desplumado e rubro; invadia-os o cançasso. Mas lutavam ainda assim,
-olhos fitos nos olhos, bico abaixo, bico acima, golpe deste, golpe
-daquelle, vibrantes e raivosos. O Damasceno não sabia mais de nada; o
-espectaculo eliminou para elle todo o universo. Em vão lhe disse que
-era tempo de descer: elle não respondia, não ouvia, concentrara-se no
-duello. A briga de gallos era uma de suas paixões.
-
-Foi nessa occasião que Nhã-loló me puxou brandamente pelo braço,
-dizendo que nos fossemos embora. Aceitei o conselho e vim com ella por
-alli abaixo. Já disse que o morro era então deshabitado; disse-lhes
-tambem que vinhamos da missa, e não lhes tendo dito que chovia, era
-claro que fazia bom tempo, um sol delicioso. E forte. Tão forte que eu
-abri logo o guarda-sol, segurei-o pelo centro do cabo, e inclinei-o por
-modo que ajuntei uma pagina á philosophia do Quincas Borba: Humanitas
-osculou Humanitas... Foi assim que os annos me vieram caindo pelo morro
-abaixo.
-
-Ao sopé detivemo-nos alguns minutos; á espera do Damasceno; elle
-veiu dahi a pouco, rodeado dos apostadores, a commentar com elles a
-briga. Um destes, thesoureiro das apostas, distribuia um velho maço
-de notas de dez tostões, que os triumphadores recebiam duplamente
-alegres. Quanto aos gallos vinham sobraçados pelo respectivo dono. Um
-delles trazia a crista tão comida e ensanguentada, que vi logo nelle o
-vencido; mas era engano,--o vencido era o outro, que não trazia crista
-nenhuma. Ambos tinham o bico aberto, respirando a custo, esfalfados.
-Os apostadores, ao contrario, vinham alegres, sem embargo das fortes
-commoções da luta; biographavam os contendores, relembravam as proezas
-de ambos. Eu fui andando, vexado; Nhã-loló, vexadissima.
-
-
-
-
-CAPITULO CXXII
-
-
-Uma intenção mui fina
-
-
-O que vexava a Nhã-loló era o pae. A facilidade com que elle se mettêra
-com os apostadores punha em relevo antigos costumes e affinidades
-sociaes; e Nhã-loló chegára a temer que tal sogro me parecesse indigno.
-Era notavel a differença que ella fazia de si mesma; estudava-se e
-estudava-me. A vida elegante e polida attrahia-a, principalmente
-porque lhe parecia o meio mais seguro de ajustar as nossas pessoas.
-Nhã-loló observava, imitava, adivinhava; ao mesmo tempo dava-se ao
-esforço de mascarar a inferioridade da familia. Naquelle dia, porém,
-a manifestação do pae foi tamanha que a entristeceu grandemente. Eu
-busquei então divertil-a do assumpto, dizendo-lhe muitas chanças e
-motes de bom tom; vãos esforços, que não a alegravam mais. Era tão
-profundo o abatimento, tão expressivo o desanimo, que eu cheguei a
-attribuir a Nhã-loló a intenção positiva de separar, no meu espirito,
-a sua causa da causa do pae. Este sentimento pareceu-me de grande
-elevação; era uma affinidade mais entre nós.
-
---Não ha remedio, disse eu commigo, vou arrancar esta flor a este
-pantano.
-
-
-
-
-CAPITULO CXXIII
-
-
-O verdadeiro Cotrim
-
-
-Não obstante os meus quarenta e tantos annos, como eu amasse a harmonia
-da familia, entendi não tratar o casamento sem primeiro falar ao
-Cotrim. Elle ouviu-me e respondeu-me seriamente que não tinha opinião
-em negocio de parentes seus. Podiam suppor-lhe algum interesse, se
-acaso louvasse, as raras prendas de Nhã-loló; por isso calava-se. Mais:
-estava certo de que a sobrinha nutria por mim verdadeira paixão, mas se
-ella o consultasse, o seu conselho seria negativo. Não era levado por
-nenhum odio; apreciava as minhas bôas qualidades,--não se fartava de
-as elogiar, como era de justiça; e pelo que respeita a Nhã-loló, não
-chegaria jámais a negar que era noiva excellente; mas dahi a aconselhar
-o casamento ia um abysmo.
-
---Lavo inteiramente as mãos, concluiu elle.
-
---Mas você achava outro dia que eu devia casar quanto antes...
-
---Isso é outro negocio. Acho que é indispensavel casar, principalmente
-tendo ambições politicas. Saiba que na politica o celibato é uma
-rémora. Agora, quanto á noiva, não posso ter voto, não quero, não devo,
-não é de minha honra. Parece-me que Sabina foi além, fazendo-lhe certas
-confidencias, segundo me disse; mas em todo caso ella não é tia carnal
-de Nhã-loló, como eu. Olhe... mas não... não digo...
-
---Diga.
-
---Não; não digo nada.
-
-Talvez pareça excessivo o escrupulo do Cotrim, a quem não souber que
-elle possuia um caracter ferozmente honrado. Eu mesmo fui injusto
-com elle durante os annos que se seguiram ao inventario do meu pae.
-Reconheço que era um modelo. Arguiam-n'o de avareza, e cuido que
-tinham razão; mas a avareza é apenas a exageração de uma virtude,
-e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo que
-o _deficit._ Como era muito secco de maneiras tinha inimigos, que
-chegavam a accusal-o de barbaro. O unico facto allegado neste
-particular era o de mandar com frequencia escravos ao calabouço, donde
-elles desciam a escorrer sangue; mas, além de que elle só mandava os
-perversos e os fujões, occorre que, tendo longamente contrabandeado em
-escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que
-esse genero de negocio requeria, e não se póde honestamente attribuir á
-indole original de um homem o que é puro effeito de relações sociaes.
-A prova de que o Cotrim tinha sentimentos pios encontrava-se no seu
-amor aos filhos, e na dôr que padeceu quando lhe morreu Sára, dalli a
-alguns mezes; prova irrefutavel, acho eu; e não unica. Era thesoureiro
-de uma confraria, e irmão de varias irmandades, e até irmão remido de
-uma destas, o que não se coaduna muito com a reputação da avareza;
-verdade é que o beneficio não caíra no chão: a irmandade (de que elle
-fôra juiz,) mandara-lhe tirar o retrato a oleo. Não era perfeito,
-de certo; tinha, por exemplo, o sestro de mandar para os jornaes a
-noticia de um ou outro beneficio que praticava,--sestro reprehensivel
-ou não louvavel, concordo; mas elle desculpava-se dizendo que as bôas
-acções eram contagiosas, quando publicas; razão a que se não pode negar
-algum peso. Creio mesmo (e nisto faço o seu maior elogio) que elle
-não praticava, de quando em quando, esses beneficios senão com o fim
-de espertar a philantropia dos outros; e se tal era o intuito, força
-é confessar que a publicidade tornava-se uma condição _sine qua non._
-Em summa, poderia dever algumas attenções, mas não devia um real a
-ninguem.
-
-
-
-
-CAPIULO CXXIV
-
-
-Vá de intermedio
-
-
-Que ha entre a vida e a morte? Uma curta ponte. Não obstante, se eu
-não compuzesse este capitulo, padeceria o leitor um forte abalo, assaz
-damnoso ao effeito do livro. Saltar de um retrato a um epitaphio, póde
-ser real e commum; o leitor, entretanto, não se refugia no livro, senão
-para escapar á vida. Não digo que este pensamento seja meu; digo que
-ha nelle uma dose de verdade, e que, ao menos, a fórma é pittoresca. E
-repito: não é meu.
-
-Vá de intermedio, e contemos a este proposito uma anecdota. Foi no
-tempo da minha vida parlamentar; eramos cinco; falavamos de cousas e
-lousas, e aconteceu tocar nos negocios do Rio da Prata. Então, disse
-um:--O governo não deve esquecer que o dinheiro é o nervo da guerra. Ao
-que eu redargui que não, que o nervo da guerra eram os bons soldados.
-Um dos ouvintes coçou o nariz, outro consultou o relogio, o terceiro
-tamborilou sobre o joelho, o quarto deu algumas pernadas pela sala,
-o quinto era eu. Mas, continuando a falar, ponderei que essa idéa,
-inteiramente justa, não era minha, e sim de Machiavelli; circumstancia
-que levou o primeiro a não coçar o nariz, o segundo a não consultar o
-relogio, o terceiro a não tamborilar sobre o joelho, e o quarto a não
-dar pernadas; e todos me rodearam, e me pediram que repetisse o dito,
-e repeti, e elles extasiavam-se, e batiam com a cabeça approvando,
-saboreando, decorando. O que estimei, porque fui sempre amador de idéas
-justas. Mas vamos ao epitaphio.
-
-
-
-
-CAPITULO CXXV
-
-
-Epitaphio
-
-
- AQUI JAZ
-
- D. EULALIA DAMASCENA DE BRITO
-
- MORTA
-
- AOS DEZENOVE ANNOS DE IDADE
-
- ORAI POR ELLA!
-
-
-
-
-CAPITULO CXXVI
-
-
-Desconsolação
-
-
-O epitaphio diz tudo. Vale mais do que se lhes narrasse a molestia de
-Nhã-loló, a morte, o desespero da familia, o enterro. Ficam sabendo
-que morreu; accrescentarei que foi por occasião da primeira entrada
-da febre amarella. Não digo mais nada, a não ser que a acompanhei até
-o ultimo jazigo, e me despedi triste, mas sem lagrimas. Conclui que
-talvez não a amasse devéras.
-
-Vejam agora a que excessos póde levar uma inadvertencia; doeu-me um
-pouco a cegueira da epidemia que, matando á direita e á esquerda, levou
-tambem uma jovem dama, que tinha de ser minha mulher; e não cheguei
-a entender a necessidade da epidemia, e menos ainda daquella morte.
-Creio até que esta me pareceu ainda mais absurda que todas as outras
-mortes. O Quincas Borba, porém, explicou-me que as epidemias eram uteis
-á especie, embora desastrosas para uma certa porção de indivíduos; e
-fez-me notar que, por mais horrendo que fosse o espectaculo, havia
-uma vantagem de muito peso: a sobrevivencia do maior numero. Chegou a
-perguntar-me se, no meio do luto geral, não sentia eu algum secreto
-encanto em ter escapado ás garras da peste; mas esta pergunta era tão
-insensata, que ficou sem resposta.
-
-Se não contei a morte, não conto igualmente a missa do setimo dia.
-A tristeza do Damasceno era profunda; esse pobre homem parecia uma
-ruina. Quinze dias depois estive com elle; continuava inconsolavel, e
-dizia que a dor grande com que Deus o castigára fora ainda augmentada
-com a que lhe infligiram os homens. Não me disse mais nada. Tres
-semanas depois tornou ao assumpto, e então confessou-me que, no no
-meio do desastre irreparavel, quizera ter a consolação da presença dos
-amigos. Doze pessoas apenas, e tres quartas partes amigos do Cotrim,
-acompanharam á cova o cadaver de sua querida filha. E elle fizera
-expedir oitenta convites. Ponderei-lhe que as perdas eram tão geraes
-que bem se podia desculpar essa desattenção apparente. O Damasceno
-abanava a cabeça de um modo incrédulo e triste.
-
---Qual! gemia elle, desampararam-me.
-
-O Cotrim, que estava presente:
-
---Vieram os que devéras se interessam por você é por nós. Os oitenta
-viriam por formalidade, falariam da inercia do governo, das panacéas
-dos boticarios, do preço das casas, ou uns dos outros...
-
-O Damasceno ouviu calado, abanou outra vez a cabeça, e suspirou:
-
---Mas viessem!
-
-
-
-
-CAPITULO CXXVII
-
-
-Formalidade
-
-
-Grande cousa é haver recebido do ceu uma particula da sabedoria, o dom
-de achar as relações das cousas, a faculdade de as comparar e o talento
-de concluir! Eu tive essa distincção psychica; eu a agradeço ainda
-agora do fundo do meu sepulchro.
-
-De facto, o homem vulgar que ouvisse a ultima palavra do Damasceno,
-não se lembraria della, quando, tempos depois, houvesse de olhar para
-uma gravura representando seis damas turcas. Pois eu lembrei-me. Eram
-seis damas de Constantinopla,--modernas,--em trajos de rua, com a
-cara tapada, não tapada á outra maneira, com um espesso panno que as
-cobrisse devéras, mas com um veu tenuissimo, que simulava descobrir
-somente os olhos, e na realidade descobria a cara inteira. E eu achei
-graça a essa esperteza da faceirice musulmana, que assim esconde o
-rosto,--e cumpre o uso,--mas não o esconde,--e divulga a belleza.
-Apparentemente, nada ha entre as damas turcas e o Damasceno; mas se
-tu és um espirito profundo e penetrante (e duvido muito que me negues
-isso), comprehenderás que, tanto n'um como n'outro caso, surge ahi a
-orelha de uma rigida e meiga companheira do homem social...
-
-Amavel Formalidade, tu és, sim, o bordão da vida, o balsamo dos
-corações, a medianeira entre os homens, o vinculo da terra e do ceu; tu
-enxugas as lagrimas de um pae, tu captas a indulgencia de um Propheta;
-e se a dôr adormece, e se a consciencia se accommoda, a quem, senão a
-ti, deverão esse immenso beneficio? A estima que passa de chapeu na
-cabeça não diz nada á alma; mas a indifferença que corteja deixa-lhe
-uma deleitosa impressão. A razão é que, ao contrario de uma velha
-formula absurda, não é a lettra que mata; a lettra dá vida; o espirito
-é que é objecto de controversia, de duvida, de interpretação, e
-conseguintemente de luta e de morte. Vive tu, amavel Formalidade, para
-socego do Damasceno e gloria de Muhammed.
-
-
-
-
-CAPITULO CXXVIII
-
-
-Na camara
-
-E notai bem que eu vi a gravura turca, dous annos depois das palavras
-de Damasceno, e vi-a na camara dos deputados, em meio de grande
-borborinho, emquanto um deputado discutia um parecer da commissão de
-orçamento, sendo eu tambem deputado. Para quem ha lido este livro é
-escusado encarecer a minha satisfação, e para os outros é igualmente
-inutil. Era deputado, e vi a gravura turca, recostado na minha cadeira,
-entre um collega, que contava uma anecdota, e outro, que tirava a
-lapis, nas costas de uma sobrecarta, o perfil do orador. O orador era o
-Lobo Neves. A onda da vida trouxe-nos á mesma praia, como duas botelhas
-de naufragos, elle contendo o seu resentimento, eu devendo conter o meu
-remorso; e emprégo esta fórma suspensiva, dubitativa ou condicional,
-para o fim de dizer que effectivamente não continha nada, a não ser a
-ambição de ser ministro.
-
-
-
-
-CAPITULO CXXIX
-
-
-Sem remorsos
-
-
-Não tinha remorsos. Se possuisse os apparelhos proprios, incluia neste
-livro uma pagina de chimica, porque havia de decompor o remorso até
-os mais simples elementos, com o fim de saber, de um modo positivo e
-concludente, por que razão Achilles passea á roda de Troya o cadaver
-do adversario, e lady Macbeth passea á volta da sala a sua mancha de
-sangue. Mas eu não tenho apparelhos chimicos, como não tinha remorsos;
-tinha vontade de ser ministro de Estado. Comtudo, se hei de acabar este
-capitulo, direi que não quizera ser Achilles nem lady Macbeth; e que a
-ser alguma cousa, antes Achilles, antes passear ovante o cadaver do que
-a mancha; ouvem-se no fim as supplicas de Priamo, e ganha-se uma bonita
-reputação militar e litteraria. Eu não ouvia as supplicas de Priamo,
-mas o discurso do Lobo Neves, e não tinha remorsos.
-
-
-
-
-CAPITULO CXXX
-
-
-Para intercalar no cap. CXXIX
-
-
-A primeira vez que pude falar a Virgilia, depois da presidencia, foi
-n'um baile em 1855. Trazia um soberbo vestido de gorgorão azul, e
-ostentava ás luzes o mesmo par de hombros de outro tempo. Não era a
-frescura da primeira edade; ao contrario; mas ainda estava formosa,
-de uma formosura outoniça, realçada pela noite. Lembra-me que falamos
-muito; e lembra-me que não alludimos a cousa nenhuma do passado.
-Subentendia-se tudo. Um dito remoto, vago, ou então um olhar, e mais
-cousa nenhuma. Pouco depois retirou-se; eu fui vel-a descer as escadas,
-e não sei por que phenomeno de ventriloquismo cerebral (perdoem-me
-os philologos essa phrase barbara), murmurei commigo esta palavra
-profundamente retrospectiva:
-
---Magnifica!
-
-Convém intercalar este capitulo entre a primeira oração e a segunda do
-cap. CXXIX.
-
-
-
-
-CAPITULO CXXXI
-
-
-De uma calumnia
-
-
-Como eu acabava de dizer aquillo, pelo processo ventriloco-cerebral,--o
-que era simples opinião e não remorso,--senti que alguem me punha a mão
-no hombro. Voltei-me; era um antigo companheiro, official de marinha,
-jovial, um pouco despejado de maneiras. Elle sorriu maliciosamente, e
-disse-me:
-
---Seu maganão! Recordações do passado, hein?
-
---Viva o passado!
-
---Você naturalmente foi reintegrado no emprego.
-
---Salta, pelintra! disse eu, ameaçando-o com o dedo.
-
-Confesso que este dialogo era uma indiscrição,--principalmente a ultima
-replica. E com tanto maior prazer o confesso, quanto que as mulheres é
-que tem fama de indiscretas, e não quero acabar o livro sem rectificar
-essa noção do espirito humano. Em pontos de aventura amorosa, achei
-homens que sorriam, ou negavam a custo, de um modo frio, monosyllabico,
-etc., ao passo que as parceiras não davam por si, e jurariam aos
-Santos Evangelhos, que era tudo uma calumnia. A razão desta differença
-é que a mulher (salva a hypothese do cap. CI e outras) entrega-se por
-amor, ou seja o amor-paixão de Stendhal, ou o puramente physico de
-algumas damas romanas, por exemplo, ou polynesias, laponias, cafres,
-e póde ser que outras raças civilisadas; mas o homem,--falo do homem
-de uma sociedade culta e elegante,--o homem conjuga a sua vaidade ao
-outro sentimento. Alem disso (e refiro-me sempre aos casos defesos),
-a mulher, quando ama outro homem, parece-lhe que mente a um dever, e
-portanto tem de dissimular com arte maior, tem de refinar a aleivosia;
-ao passo que o homem, sentindo-se causa da infracção e vencedor de
-outro homem, fica legitimamente orgulhoso, e logo passa a outro
-sentimento menos rispido e menos secreto,--essa meiga fatuidade, que é
-a transpiração luminosa do merito.
-
-Mas seja ou não verdadeira a minha explicação, basta-me deixar escripto
-nesta pagina, para uso dos seculos, que a indiscrição das mulheres
-é uma burla inventada pelos homens; em amor, pelo menos, elas são
-um verdadeiro sepulchro. Perdem-se muita vez por desastradas, por
-inquietas, por não saberem resistir aos gestos, aos olhares; e é por
-isso que uma grande dama e fino espirito, a rainha de Navarra, empregou
-algures esta metaphora para dizer, que toda a aventura amorosa vinha a
-descobrir-se por força, mais tarde ou mais cedo: «não ha cachorrinho
-tão adestrado, que alfim lhe não ouçamos o latir.»
-
-
-
-
-CAPITULO CXXXII
-
-
-Que não é serio
-
-
-Citando o dito da rainha de Navarra, occorre-me que entre o nosso povo,
-quando uma pessoa vê outra pessoa arrufada, costuma perguntar-lhe:
-«Gentes, quem matou seus cachorrinhos?» como se dissesse:--«quem lhe
-levou os amores, as aventuras secretas, etc.» Mas este capitulo não é
-serio.
-
-
-
-
-CAPITULO CXXXIII
-
-
-O principio de Helvetius
-
-
-Estavamos ao ponto era que o official de marinha me arrancou a
-confissão dos amores de Virgilia; e aqui emendo eu o principio de
-Helvetius,--ou, por outra, explico-o. O meu interesse era calar;
-confirmar a suspeita de uma cousa antiga fôra provocar algum odio
-supitado, dar origem a um escandalo, quando menos adquirir a reputação
-de indiscreto. Era esse o interesse; e entendendo-se o principio
-de Helvetius de um modo superficial, isso é o que devia ter feito.
-Mas eu já dei o motivo da indiscrição masculina: antes daquelle
-interesse de _segurança_, havia outro, o do _desvanecimento_, que é
-mais intimo, mais immediato: o primeiro era reflexivo, suppunha um
-syllogismo anterior; o segundo era espontaneo, instintivo, vinha das
-entranhas do sugeito; finalmente, o primeiro tinha o effeito remoto,
-o segundo proximo. Conclusão: o principio de Helvetius é verdadeiro
-no meu caso;--a diferença é que não era o interesse apparente, mas o
-recondito.
-
-
-
-
-CAPITULO CXXXIV
-
-
-Cincoenta annos
-
-
-Não lhes disse ainda,--mas digo-o agora,--que quando Virgilia descia a
-escada, e o official de marinha me tocava no hombro, tinha eu cincoenta
-annos. Era portanto a minha vida que descia pela escada abaixo,--ou a
-melhor parte, ao menos, uma parte cheia de prazeres, de agitações, de
-sustos,--capeada de dissimulação e duplicidade,--mas emfim a melhor,
-se devemos falar a linguagem usual. Si, porém, empregarmos outra mais
-sublime, a melhor parte foi a restante, como eu terei a honra de lhes
-dizer nas poucas paginas deste livro.
-
-Cincoenta annos! Não era preciso confessal-o. Já se vae sentindo que o
-meu estylo não é tão lesto como nos primeiros dias. Naquella occasião,
-cessado o dialogo com o official de marinha, que enfiou a capa e saiu,
-confesso que fiquei um pouco triste. Voltei á sala, lembrou-me dansar
-uma polka, embriagar-me das luzes, das flores, dos crystaes, dos olhos
-bonitos, e do borburinho surdo e ligeiro das conversas particulares.
-E não me arrependo; remocei. Mas, meia hora depois, quando me retirei
-do baile, ás quatro da manhã, o que é que fui achar no fundo do carro?
-Os meus cincoenta annos. Lá estavam elles os teimosos, não tolhidos
-de frio, nem rheumaticos,--mas cochillando a sua fadiga, um pouco
-cobiçosos de cama e de repouso. Então,--e vejam até que ponto póde ir
-a imaginação de um homem, com somno,--então pareceu-me ouvir de um
-morcego encarapitado no tejadilho:--Sr. Braz Cubas, a rejuvenescencia
-estava na sala, nos crystaes, nas luzes, nas sedas,--emfim, nos outros.
-
-
-
-
-CAPITULO CXXXV
-
-
-Oblivion
-
-
-E agora sinto que, se alguma dama tem seguido estas paginas, fecha o
-livro e não lê as restantes. Para ella extinguiu-se o interesse da
-minha vida, que era o amor. Cincoenta annos! Não é ainda a invalidez,
-mais já não é a frescura. Venham mais dez, e eu entenderei o que um
-inglez dizia, entenderei que «cousa é não achar já quem se lembre de
-meus paes, e de que modo me ha de encarar o proprio ESQUECIMENTO.»
-
-Vae em versaletes esse nome. OBLIVION! Justo é que se dem todas as
-honras a um personagem tão desprezado e tão digno, conviva da ultima
-hora, mas certo. Sabe-o a dama que luziu na aurora do actual reinado; e
-mais dolorosamente a que ostentou suas graças em flor sob o ministerio
-Paraná, porque esta acha-se mais perto do triumpho, e sente já que
-outras lhe tomaram o carro. Então, se é digna de si mesma, não teima em
-espertar a lembrança morta ou expirante; não busca no olhar de hoje a
-mesma saudação do olhar de hontem, quando eram outros os que encetavam
-a marcha da vida, de alma alegre e pé veloz. _Tempora mutantur._ E
-ella comprehenderá que este turbilhão é assim mesmo, leva as folhas do
-mato e os farrapos do caminho, sem excepção nem piedade; e se tiver um
-pouco de philosophia, não invejará, mas lastimará as que lhe tomaram o
-carro, porque tambem ellas hão de ser apeadas pelo estribeiro OBLIVION.
-Espectaculo, cujo fim é divertir o planeta Saturno, que anda muito
-aborrecido.
-
-
-
-
-CAPITULO CXXXVI
-
-
-Inutilidade
-
-
-Mas, ou muito me engano, ou acabo de escrever um capitulo inútil.
-
-
-
-
-CAPITULO CXXXVII
-
-
-A barretina
-
-
-E dahi, não; elle resume as reflexões que fiz no dia seguinte ao
-Quincas Borba, accrescentando que me sentia acabrunhado, e mil
-outras cousas tristes. Mas esse philosopho, com o elevado tino de
-que dispunha, bradou-me que eu ia escorregando na ladeira fatal da
-melancolia.
-
---Meu caro Braz Cubas, não te deixes vencer desses vapores. Que diacho!
-é preciso ser homem! ser forte! lutar! vencer! brilhar! influir!
-dominar! Cincoenta annos é a edade da sciencia e do governo. Animo,
-Braz Cubas; não me sejas palerma. Que tens tu com essa successão de
-ruina a ruina ou de flor a flor? Trata de saborear a vida; e fica
-sabendo que a peor philosophia é a do choramigas que se deita á
-margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das aguas. O
-officio dellas é não parar nunca; accommoda-te com a lei, e trata de
-aproveital-a.
-
-Ve-se nas menores cousas o que vale a autoridade de um grande
-philosopho. As palavras do Quincas Borba tiveram o condão de sacudir
-o torpor moral e mental em que andava. Vamos lá; façamo-nos governo.
-Crel-o-eis, posteros? Eu não havia intervindo até então nos grandes
-debates. Cortejava a pasta por meio de rapapés, chás, commissões e
-votos; e a pasta não vinha. Urgia apoderar-me da tribuna.
-
-Comecei de vagar. Tres dias depois, discutindo-se o orçamento da
-justiça, aproveitei o ensejo para perguntar modestamente ao ministro
-se não julgava util diminuir a barretina da guarda nacional. Não
-tinha vasto alcance o objecto da pergunta; mas ainda assim demonstrei
-que não era indigno das cogitações de um homem de Estado; e citei
-Philopemen, que ordenou a substituição dos broqueis de suas tropas,
-que eram pequenos, por outros maiores, e bem assim as lanças, que
-eram demasiado leves; facto que a historia não achou que desmentisse
-a gravidade de suas paginas. O tamanho das nossas barretinas estava
-pedindo um córte profundo, não só por serem deselegantes, mas tambem
-por serem anti-hygienicas. Nas paradas, ao sol, o excesso do calor
-produzido por ellas podia ser fatal. Sendo certo que um dos preceitos
-de Hippocrates era trazer a cabeça fresca, parecia cruel obrigar um
-cidadão, por simples consideração de uniforme, a arriscar a saude e
-a vida, e consequentemente o futuro da familia. A camara e o governo
-deviam lembrar-se que a guarda nacional era o anteparo da liberdade
-e da independencia, e que o cidadão, chamado a um serviço gratuito,
-frequente e penoso, tinha direito a que se lhe diminuisse o onus,
-decretando um uniforme leve e maneiro. Accrescia que a barretina,
-por seu peso, abatia a cabeça dos cidadãos, e a patria precisava de
-cidadãos cuja fronte pudesse levantar-se altiva e serena diante do
-poder; e conclui com esta idéa: O chorão, que inclina os seus galhos
-para a terra, é arvore de cemiterio; a palmeira, erecta e firme, é
-arvore do deserto, das praças e dos jardins.
-
-Vária foi a impressão deste discurso. Quanto á forma, ao rapto
-eloquente, á parte litteraria e philosophica, a opinião foi só uma;
-disseram-me todos que era completo, e que de uma barretina ninguem
-ainda conseguira tirar tantas idéas. Mas a parte politica foi
-considerada por muitos deploravel; alguns achavam o meu discurso um
-desastre parlamentar; emfim, vieram dizer-me que outros me davam já
-em opposição, entrando nesse numero os opposicionistas da camara,
-que chegaram a insinuar a conveniencia de uma moção de desconfiança.
-Repelli energicamente tal interpretação, que não era só erronea, mas
-calumniosa, á vista da notoriedade com que eu sustentava o gabinete;
-accrescentei que a necessidade de diminuir a barretina, não era
-tamanha que não pudesse esperar alguns annos; e que, em todo caso,
-eu transigiria na extensão do córte, contentando-me com tres quartos
-de polegada ou menos; emfim, dado mesmo que a minha idéa não fosse
-adoptada, bastava-me tel-a iniciado no parlamento.
-
-O Quincas Borba, porém, não fez restricção alguma. Não sou homem
-politico, disse-me elle ao jantar; não sei se andaste bem ou mal;
-sei que fizeste um excellente discurso. E então notou as partes
-mais salientes, as bellas imagens, os argumentos fortes, com esse
-comedimento de louvor que tão bem fica a um grande philosopho; depois,
-tomou o assumpto á sua conta, e impugnou a barretina com tal força,
-com tamanha lucidez, que acabou convencendo-me effectivamente do seu
-perigo.
-
-
-
-
-CAPITULO CXXXVIII
-
-
-A um Critico
-
-
- Meu caro critico,
-
- Algumas paginas atraz, dizendo eu que tinha cincoenta annos,
- accrescentei: «Já se vae sentindo que o meu estylo não é tão
- lesto como nos primeiros dias.» Talvez aches esta phrase
- incomprehensivel, sabendo-se o meu actual estado; mas eu
- chamo a tua attenção para a subtileza daquelle pensamento. O
- que eu quero dizer não é que esteja agora mais velho do que
- quando comecei o livro. A morte não envelhece. Quero dizer,
- sim, que em cada phase da narração da minha vida experimento
- a sensação correspondente. Valha-me Deus! é preciso explicar
- tudo.
-
-
-
-
-CAPITULO CXXXIX
-
-
-De como não fui ministro de estado
-
-. . . . . . . . . . .
-. . . . . . . . .
-. . . . . . . . .
- . .
- . . . . . . . .
-
-
-
-
-CAPITULO CXL
-
-
-Que explica o anterior
-
-
-Ha cousas que melhor se dizem calando; tal é a materia do capitulo
-anterior. Podem entendel-o os ambiciosos mallogrados. Se a paixão
-do poder é a mais forte de todas, como alguns inculcam, imaginem o
-desespero, a dôr, o abatimento do dia em que perdi a cadeira da camara
-dos deputados. Iam-se-me as esperanças todas; terminava a carreira
-politica. E notem que o Quincas Borba, por inducções philosophicas
-que fez, achou que a minha ambição não era a paixão verdadeira do
-poder, mas um capricho, um desejo de folgar. Na opinião delle, este
-sentimento, não sendo mais profundo que o outro, amofina muito mais,
-porque orça pelo amor que as mulheres tem ás rendas e toucados. Um
-Cromwell ou um Bonaparte, acrescentava elle, por isso mesmo que os
-queima a paixão do poder, lá chegam á fina força, ou pela escada da
-direita, ou pela da esquerda. Não era assim o meu sentimento; este,
-não tendo em si a mesma força, não tem a mesma certeza do resultado;
-e dahi a maior afflicção, o maior desencanto, a maior tristeza. O meu
-sentimento, segundo o Humanitismo...
-
---Vae para o diabo com o teu Humanitismo, interrompi-o; estou farto de
-philosophias que me não levam a cousa nenhuma.
-
-A dureza da interrupção, tratando-se de tamanho philosopho, equivalia a
-um desacato; mas elle proprio desculpou a irritação com que lhe falei.
-Trouxeram-nos café; era uma hora da tarde, estavamos na minha sala de
-estudo, uma bella sala, que dava para o fundo da chacara, bons livros,
-objectos d'arte, um Voltaire entre elles, um Voltaire de bronze, que
-nessa occasião parecia accentuar o risinho de sarcasmo, com que me
-olhava, o ladrão; cadeiras excellentes; fóra, o sol, um grande sol,
-que o Quincas Borba, não sei se por chalaça ou poesia, chamou um dos
-ministros da natureza; corria um vento fresco, o ceu estava nitidamente
-azul. De cada janella,--eram trez--pendia uma gaiola com passaros,
-que chilreavam as suas operas rusticas. Tudo tinha a apparencia de
-uma conspiração das cousas contra o homem: e, comquanto eu estivesse
-na _minha_ sala, olhando para a _minha_ chacara, sentado na _minha_
-cadeira, ouvindo os _meus_ passaros, ao pé dos _meus_ livros, allumiado
-pelo _meu_ sol, não chegava a curar-me das saudades daquella outra
-cadeira, que não era minha.
-
-
-
-
-CAPITULO CXLI
-
-
-Os cães
-
-
---Mas, emfim, que pretendes fazer agora? perguntou-me o Quincas Borbas,
-indo pôr a chicara vazia no parapeito de uma das janellas.
-
-Não sei; vou metter-me na Tijuca; fugir aos homens. Estou envergonhado,
-aborrecido. Tantos sonhos, meu caro Borba, tantos sonhos, e não sou
-nada.
-
---Nada! interrompeu-me o Quincas Borba com um gesto de indignação.
-
-Para distrair-me, convidou-me a sair; saimos para os lados do Engenho
-Velho. Iamos a pé, philosophando as cousas. Nunca me hade esquecer o
-beneficio desse passeio, que me restituiu o socego e a força. A palavra
-daquelle grande homem era o cordial da sabedoria. Disse-me elle que eu
-não podia fugir ao combate; se me fechavam a tribuna, cumpria-me abrir
-um jornal. Chegou a usar uma expressão menos elevada, mostrando assim
-que a lingua philosophica podia, uma ou outra vez, retemperar-se no
-calão do povo. Funda um jornal, disse-me elle, e «desmancha toda esta
-egrejinha.»
-
---Magnifica idéa! Vou fundar um jornal, vou escachal-os, vou...
-
---Lutar. Pódes escachal-os ou não; o essencial é que lutes. Vida é
-luta. Vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal.
-
-Dahi a pouco demos com uma briga de cães; facto que aos olhos de um
-homem vulgar não teria valor. O Quincas Borba fez-me parar e observar
-os cães. Eram dous. Notou que ao pé delles estava um osso, motivo da
-guerra, e não deixou de chamar a minha attenção para a circumstancia
-de que o osso não tinha carne. Um simples osso nú. Os cães mordiam-se,
-rosnavam, com o furor nos olhos... O Quincas Borba metteu a bengala
-debaixo do braço, encostou o queixo no castão, e parecia em extasis.
-
---Que bello que isto é! dizia elle de quando em quando.
-
-Quiz arrancar-me dalli, mas não pude; elle estava arraigado ao chão,
-e só continuou a andar, quando a briga cessou inteiramente, e um
-dos cães, mordido e vencido, foi levar a sua fome a outra parte.
-Notei que ficára sinceramente alegre, posto contivesse a alegria,
-segundo convinha a um grande philosopho. Fez-me observar a belleza do
-espectaculo, relembrou o objecto da luta, concluiu que os cães tinham
-fome; mas a privação do alimento era nada para os effeitos geraes da
-philosophia. Nem deixou de recordar que em algumas partes do globo
-o espectaculo é mais grandioso: as creaturas humanas é que disputam
-aos cães os ossos e outros manjares menos appeteciveis; luta que se
-complica muito, porque entra em acção a intelligencia do homem, com
-todo o accumulo de sagacidade que lhe deram os seculos, etc.
-
-
-
-
-CAPITULO CXLII
-
-
-O pedido secreto
-
-
-Quanta cousa n'um minuete! como dizia o outro. Quanta cousa n'uma briga
-de cães! Mas eu não era um discipulo servil ou medroso, que deixasse de
-fazer uma ou outra objecção adequada. Andando, disse-lhe que tinha uma
-duvida; não estava bem certo da vantagem de disputar a comida aos cães.
-Elle respondeu-me com excepcional brandura:
-
---Disputai-a aos outros homens é mais logico, porque a condição dos
-contendores é a mesma, e leva o osso o que fôr mais forte. Mas porque
-não será um espectaculo grandioso disputal-o aos cães? Voluntariamente,
-comem-se gafanhotos, como o Precursor, ou cousa peor, como Ezequiel;
-logo, o ruim é comivel; resta saber se é mais digno do homem
-disputal-o, por virtude de uma necessidade natural, ou preferil-o, para
-obedecer a uma exaltação religiosa, isto é, modificavel, ao passo que a
-fome é eterna, como a vida e como a morte.
-
-Estavamos á porta de casa; deram-me uma carta, dizendo que vinha de uma
-senhora. Entramos; e o Quincas Borba, com a discrição propria de um
-philosopho, foi ler a lombada dos livros de uma estante, emquanto eu
-lia a carta, que era de Virgilia:
-
- «Meu bom amigo,
-
- «D. Placida está muito mal. Peço-lhe o favor de fazer alguma
- cousa por ella; mora no becco das Escadinhas; veja se alcança
- metei-a na Misericórdia.
-
- Sua amiga sincera,
-
- [signature]
-
-Não era a letra fina e correcta de Virgilia, mas grossa e desegual; o
-V da assignatura não passava de um rabisco sem intenção alphabetica;
-de maneira que, se a carta apparecesse, era mui difficil attribuir-lhe
-a autoria. Virei e revirei o papel. Pobre D. Placida! Mas eu tinha-lhe
-deixado os cinco contos da praia da Gambôa, enão podia comprehender
-que...
-
---Vaes comprehender, disse o Quincas Borba, tirando um livro da estante.
-
---O que? perguntei espantado.
-
---Vaes comprehender que eu só te disse a verdade. Pascal é um dos meus
-avós espirituaes; e, çomquanto a minha philosophia valha mais que a
-delle, não posso negar que era um grande homem. Ora, que diz elle
-nesta pagina?--E, chapéu na cabeça, bengala sobraçada, apontava o logar
-com o dedo.--Que diz elle? Diz que o homem tem «uma grande vantagem
-sobre o resto do universo: sabe que morre, ao passo que o universo
-ignora-o absolutamente.» Vês? Logo, o homem que disputa o osso a um cão
-tem sobre este a grande vantagem de saber que tem fome; e é isto que
-torna grandiosa a luta, como eu dizia. «Sabe que morre» é uma expressão
-profunda; creio todavia que é mais profunda a minha expressão: sabe
-que tem fome. Porquanto, o facto da morte limita, por assim dizer, o
-entendimento humano; a consciencia da extincção dura um breve instante
-e acaba para nunca mais, ao passo que a fome tem a vantagem de voltar,
-de prolongar o estado consciente. Parece-me (se não vae nisso alguma
-immodestia), que a fórmula de Pascal é inferior á minha, sem todavia
-deixar de ser um grande pensamento, e Pascal um grande homem.
-
-
-
-
-CAPITULO CXLIII
-
-
-Não vou
-
-
-Emquanto elle restituia o livro á estante, relia eu o bilhete. Ao
-jantar, vendo que eu falava pouco, mastigava sem acabar de engulir,
-fitava o canto da sala, a ponta da meza, um prato, uma cadeira, uma
-mosca invisivel, disse-me elle:--Tens alguma cousa; aposto que foi
-aquella carta?--Foi. Realmente, sentia-me aborrecido, incommodado, com
-o pedido de Virgilia. Tinha dado a D. Placida cinco contos de réis;
-duvido muito que ninguem fosse mais generoso do que eu, nem tanto.
-Cinco contos! E que fizera delles? Naturalmente botou-os fóra, comeu-os
-em grandes festas, e agora toca para a Misericordia, e eu que a leve!
-Morre-se em qualquer parte. Accresce que eu não sabia, ou não me
-lembrava do tal becco das Escadinhas; mas, pelo nome, parecia-me algum
-recanto estreito e escuro da cidade. Tinha de lá ir, chamar a attenção
-dos visinhos, bater á porta, etc. Que massada! Não vou.
-
-
-
-
-CAPITULO CXLIV
-
-
-Utilidade relativa
-
-
-Mas a noite, que é boa conselheira, ponderou que a cortezia mandava
-obedecer aos desejos da minha antiga dama.
-
---Letras vencidas, urge pagal-as, disse eu ao levantar-me.
-
-Depois do almoço fui á casa de D. Placida; achei um mólho de ossos,
-envolto em molambos, estendido sobre um catre velho e nauseabundo;
-dei-lhe algum dinheiro. No dia seguinte fil-a transportar para a
-Misericordia, onde ella morreu uma semana depois. Minto: amanheceu
-morta; saiu da vida ás escondidas, tal qual entrára. Outra vez
-perguntei, a mim mesmo, como no cap. LXXV, se era para isto que o
-sachristão da Sé e a doceira trouxeram D. Placida á luz, n'um momento
-de sympathia especifica. Mas adverti logo que, se não fosse D. Placida,
-talvez os meus amores com Virgilia tivessem sido interrompidos, ou
-immediatamente quebrados, em plena effervescencia; tal foi, portanto, a
-utilidade da vida de D. Placida. Utilidade relativa, convenho; mas que
-diacho ha absoluto nesse mundo?
-
-
-
-
-CAPITULO CXLV
-
-
-Simples repetição
-
-
-Quanto aos cinco contos, não vale a pena dizer que um canteiro da
-visinhança fingiu-se enamorado de D. Placida, logrou espertar-lhe
-os sentidos, ou a vaidade, e casou com ella; no fim de alguns mezes
-inventou um negocio, vendeu as apolices e fugiu com o dinheiro. Não
-vale a pena. É o caso dos cães do Quincas Borba. Simples repetição de
-um capitulo.
-
-
-
-
-CAPITULO CXLVI
-
-
-O programma
-
-
-Urgia fundar o jornal. Redigi o programma, que era uma applicação
-politica do Humanitismo; somente, como o Quincas Borba não houvesse
-ainda publicado o livro, (que aperfeiçoava de anno em anno) assentamos
-de lhe não fazer nenhuma referencia. O Quincas Borba exigiu apenas uma
-declaração, autographa e reservada, de que alguns principios novos
-applicados á politica eram tirados do livro delle, ainda inedito.
-
-Era a fina flôr dos programmas; promettia curar a sociedade, destruir
-os abusos, defender os sãos principios de liberdade e conservação;
-fazia um appello ao commercio e á lavoura; citava Guizot e Ledru-Rollin
-e acabava com esta ameaça, que o Quincas Borba achou mesquinha e
-local: «A nova doutrina que professamos ha de inevitavelmente derribar
-o actual ministerio.» Confesso que, nas circumstancias politicas da
-occasião, o programma pareceu-me uma obra-prima. A ameaça do fim, que
-o Quincas Borba achou mesquinha, demonstrei-lhe que era saturada do
-mais puro Humanitismo, e elle mesmo o confessou depois. Porquanto, o
-Humanitismo não excluia nada; as guerras de Napoleão e uma contenda
-de cabras eram, segundo a nossa doutrina, a mesma sublimidade, com a
-differença que os soldados de Napoleão sabiam que morriam, cousa que
-apparentemente não acontece ás cabras. Ora, eu não fazia mais do que
-applicar ás circumstancias a nossa fórmula philosophica: Humanitas
-queria substituir Humanitas para consolação de Humanitas.
-
---Tu és o meu discipulo amado, o meu califa, bradou o Quincas Borba,
-com uma nota de ternura, que até então lhe não ouvira. Posso dizer
-como o grande Muhammed: nem que venham agora contra mim o sol e a lua,
-não recuarei das minhas idéas. Crê, meu caro Braz Cubas, que esta é a
-verdade eterna, anterior aos mundos, posterior aos seculos.
-
-
-
-
-CAPITULO CXLVII
-
-
-O desatino
-
-
-Mandei logo para a imprensa uma noticia discreta, dizendo que
-provavelmente começaria a publicação de um jornal opposicionista, dahi
-a algumas semanas, redigido pelo Dr. Braz Cubas. O Quincas Borba, a
-quem li a noticia, pegou da penna, e acrescentou ao meu nome, com uma
-fraternidade verdadeiramente humanistica, esta phrase: «um dos mais
-gloriosos membros da passada camara.»
-
-No dia seguinte entra-me em casa o Cotrim. Vinha um pouco transtornado,
-mas dissimulava, affectando socego e até alegria. Vira a noticia
-do jornal, e achou que devia, como amigo e parente, dissuadir-me
-de semelhante idéa. Era um erro, um erro fatal. Mostrou que eu ia
-collocar-me n'uma situação difficil, e de certa maneira trancar as
-portas do parlamento. O ministerio, não só lhe parecia excellente,
-o que aliás podia não ser a minha opinião, mas com certeza viveria
-muito; e que podia eu ganhar com indispol-o contra mim? Sabia que
-alguns dos ministros me eram affeiçoados; não era impossivel uma vaga,
-e... Interrompi-o nesse ponto, para lhe dizer que meditára muito o
-passo que ia dar, e não podia recuar uma linha. Cheguei a propôr-lhe a
-leitura do programma, mas elle recusou energicamente, dizendo que não
-queria ter a minima parte no meu desatino.
-
---É um verdadeiro desatino, repetiu elle; pense ainda alguns dias, e
-verá que é* um desatino.
-
-A mesma cousa disse Sabina, á noite, no theatro. Deixou a filha no
-camarote, como Cotrim, e trouxe-me ao corredor.
-
---Mano Braz, que é que você vae fazer? perguntou-me afflicta. Que idéa
-é essa de provocar o governo, sem necessidade, quando podia....
-
-Expliquei-lhe que não me convinha mendigar uma cadeira no parlamento;
-que a minha idéa era derrubar o ministerio, por não me parecer adequado
-á situação--e a certa fórmula philosophica; afiancei que empregaria
-sempre uma linguagem cortez, embora energica. A violencia não era
-especiaria do meu paladar. Sabina bateu com o leque na ponta dos dedos,
-abanou a cabeça, e tornou ao assumpto com um ar de supplica e ameaça,
-alternadamente; eu disse-lhe que não, que não, e que não. Desenganada,
-lançou-me em rosto preferir os conselhos de pessoas estranhas e
-invejosas aos della e do marido.--Pois siga o que, lhe parecer,
-concluiu; nós cumprimos a nossa obrigação. Deu-me as costas e voltou ao
-camarote.
-
-
-
-
-CAPITULO CXLVIII
-
-
-O problema insoluvel
-
-
-Publiquei o jornal. Vinte e quatro horas depois, apparecia em outros
-uma declaração do Cotrim, dizendo, era substancia, que «posto não
-militasse em nenhum dos partidos em que se dividia a patria, achava
-conveniente deixar bem claro que não tinha influencia nem parte directa
-ou indirecta na folha de seu cunhado, o Dr. Braz Cubas, cujas idéas
-e procedimento politico inteiramente reprovava. O actual ministerio
-(como aliás qualquer outro composto de eguaes capacidades) parecia-lhe
-destinado a promover a felicidade publica.»
-
-Não podia acabar de crer nos meus olhos. Esfreguei-os uma e duas
-vezes, e reli a declaração inopportuna, insolita e enigmatica. Se
-elle nada tinha com os partidos, que lhe importava um incidente tão
-vulgar como a publicação de uma folha? Nem todos os cidadãos que acham
-bom ou mau um ministerio fazem declarações taes pela imprensa, nem
-são obrigados a fazel-as. Realmente, era um mysterio a intrusão do
-Cotrim neste negocio, não menos que a sua aggressão pessoal. Nossas
-relações até então tinham sido lhanas e benevolas; não me lembrava
-nenhum dissentimento, nenhuma sombra, nada, depois da reconciliação.
-Ao contrario, as recordações eram de verdadeiros obsequios; assim, por
-exemplo, sendo eu deputado, pude obter-lhe uns fornecimentos para o
-arsenal de marinha, fornecimentos que elle continuava a fazer com a
-maior pontualidade, e dos quaes me dizia algumas semanas antes, que
-no fim de mais trez annos, podiam dar-lhe uns duzentos contos. Pois
-a lembrança de tamanho obsequio não teve força para obstar que elle
-viesse a publico enxovalhar o cunhado? Devia ser mui poderoso o motivo
-da declaração, que o fazia commetter ao mesmo tempo um destempero e uma
-ingratidão; confesso que era um problema insoluvel...
-
-
-
-
-CAPITULO CXLIX
-
-
-Theoria do beneficio
-
-
-... Tão insoluvel que o Quincas Borba não pôde dar com elle, apezar de
-estudal-o longamente e com boa vontade.--Ora adeus! concluiu; nem todos
-os problemas valem cinco minutos de attenção.
-
-Quanto á censura de ingratidão, o Quincas Borba rejeitou-a
-inteiramente, não como improvavel, mas como absurda, por não obedecer
-ás conclusões de uma boa philosophia humanistica:
-
---Não me pódes negar um facto, disse elle; é que o prazer do
-beneficiador é sempre maior que o do beneficiado. Que é o beneficio? é
-um acto que faz cessar certa privação do beneficiado. Uma vez produzido
-o effeito essencial, isto é, uma vez cessada a privação, torna o
-organismo ao estado anterior, ao estado indifferente. Suppõe que tens
-apertado em demasia o cós das calças; para fazer cessar o incommodo,
-desabotôas o cós, respiras, saboreas um instante de gozo, o organismo
-torna á indifferença, e não te lembras dos teus dedos que praticaram o
-acto. Não havendo nada que perdure, é natural que a memoria se esvaeça,
-porque ella não é uma planta aerea, precisa de chão. A esperança de
-outros favores, é certo, conserva sempre no beneficiado a lembrança do
-primeiro; mas este facto, aliás um dos mais sublimes que a philosophia
-póde achar em seu caminho, explica-se pela memoria da privação, ou,
-usando de outra fórmula, pela privação continuada na memoria, que
-repercute a dor passada e aconselha a precaução do remedio opportuno.
-Não digo que, ainda sem esta circumstancia, não aconteça, algumas
-vezes, persistir a memoria do obsequio, acompanhada de certa affeição
-mais ou menos intensa; mas são verdadeiras aberrações, sem nenhum valor
-aos olhos de um philosopho.
-
---Mas, repliquei eu, se nenhuma razão ha para que perdure a memoria do
-obsequio no obsequiado, menos ha de haver em relação ao obsequiador.
-Quizera que me explicasses este ponto.
-
---Não se explica o que é de sua natureza evidente, retorquiu o Quincas
-Borba; mas eu direi alguma cousa mais. A persistencia do beneficio na
-memoria de quem o exerce explica-se pela natureza mesma do beneficio
-e seus effeitos. Primeiramente, ha o sentimento de uma boa acção, e
-deductivamente a consciencia de que somos capazes de boas acções; em
-segundo logar, recebe-se uma convicção de superioridade sobre outra
-creatura, superioridade no estado e nos meios; e esta é uma das
-cousas mais legitimamente agradaveis, segundo as melhores opiniões,
-ao organismo humano. Erasmo, que no seu _Elogio da Sandice_ escreveu
-algumas cousas boas, chamou a attenção para a complacencia com que dois
-burros se coçam um ao outro. Estou longe de rejeitar essa observação de
-Erasmo; mas direi o que elle não disse, a saber, que se um dos burros
-coçar melhor o outro, esse ha de ter nos olhos algum indicio especial
-de satisfação. Porque é que uma mulher bonita olha muitas vezes para
-o espelho, senão porque se acha bonita, e porque isso lhe dá certa
-superioridade sobre uma multidão de outras mulheres menos bonitas
-ou absolutamente feias? A consciencia é a mesma cousa; remira-se a
-miudo, quando se acha bella. Nem o remorso é outra cousa mais do que o
-trejeito de uma consciencia que se vê hedionda. Não esqueças que, sendo
-tudo uma simples irradiação de Humanitas, o beneficio e seus effeitos,
-são phenomenos perfeitamente admiráveis.
-
-
-
-
-CAPITULO CL
-
-
-Rotação e translação
-
-
-Ha em cada empreza, affeição ou edade um cyclo inteiro da vida humana.
-O primeiro numero do meu jornal encheu-me a alma de uma vasta aurora,
-coroou-me de verduras, restituiu-me a lepidez da mocidade. Seis mezes
-depois batia a hora da velhice, e dahi a duas semanas a da morte, que
-foi clandestina, como a de D. Placida. No dia em que o jornal amanheceu
-morto, respirei como um homem que vem de longo caminho. De modo que,
-se eu disser que a vida humana nutre de si mesma outras vidas, mais
-ou menos ephemeras, como o corpo alimenta os seus parasitas, creio
-não dizer uma cousa inteiramente absurda. Mas, para não arriscar essa
-figura menos nitida e adequada, prefiro uma imagem astronomica: o homem
-executa á roda do grande mysterio um movimento duplo de rotação e
-translação; tem os seus dias, deseguaes como os de Jupiter, e delles
-compõe o seu anno mais ou menos longo.
-
-No momento em que eu terminava o meu movimento de rotação, concluia o
-Lobo Neves o seu movimento de translação. Morria com o pé na escada
-ministerial. Correu ao menos, durante algumas semanas, que elle ia ser
-ministro; e pois que o boato me encheu de muita irritação e inveja, não
-é impossivel que a noticia da morte me deixasse alguma tranquillidade,
-allivio, e um ou dous minutos de prazer. Prazer é muito, mas é verdade;
-juro aos seculos que é a pura verdade.
-
-Fui ao enterro. Na sala mortuaria achei Virgilia, ao pé do feretro, a
-soluçar. Quando levantou a cabeça, vi que chorava deveras. Ao sair o
-enterro, abraçou-se ao caixão, afflicta; vieram tiral-a e leval-a para
-dentro. Digo-vos que as lagrimas eram verdadeiras. Eu fui ao cemiterio;
-e, para dizer tudo, não tinha muita vontade de falar; levava uma pedra
-na garganta ou na consciencia. No cemiterio, principalmente quando
-deixei cair a pá de cal sobre o caixão, no fundo da cova, o baque surdo
-da cal deu-me um estremecimento passageiro, é certo, mas desagradavel;
-e depois a tarde tinha o peso e a côr do chumbo; o cemiterio, as roupas
-pretas...
-
-
-
-
-CAPITULO CLI
-
-
-Philosophia dos epitaphios
-
-
-Saí, afastando-me dos grupos, e fingindo ler os epitaphios. E, aliás,
-gosto dos epitaphios; elles são, entre a gente civilisada, uma
-expressão daquelle pio e secreto egoismo que induz o homem a arrancar
-á morte um farrapo ao menos da sombra que passou. Dahi vem, talvez,
-a tristeza inconsolavel dos que levam os seus mortos á valla commum;
-parece-lhes que a podridão anonyma os alcança a elles mesmos.
-
-
-
-
-CAPITULO CLII
-
-
-A moeda do Vespasiano
-
-
-Tinham ido todos; só o meu carro esperava pelo dono. Accendi um
-charuto; afastei-me do cemiterio. Não podia sacudir dos olhos a
-ceremonia do enterro, nem dos ouvidos os soluços de Virgilia. Os
-soluços, principalmente, tinham o som vago e mysterioso de um problema.
-Virgilia trahira o marido, com sinceridade; e agora chorava-o com
-sinceridade. Eis uma combinação difficil que não pude fazer em todo
-o trajecto; em casa, porém, apeando-me do carro, suspeitei que a
-combinação era possivel, e até facil. Meiga Natura! A taxa da dor é
-como a moeda de Vespasiano; não cheira á origem, e tanto se colhe do
-mal como do bem. A moral reprehenderá, porventura, a minha complice;
-é o que te não importa, implacavel amiga, uma vez que lhe recebeste
-pontualmente as lagrimas. Meiga, tres vezes meiga Natura!
-
-
-
-
-CAPÍTULO CLIII
-
-
-O alienista
-
-
-Começo a ficar pathetico; e prefiro dormir. Dormi, sonhei que era
-nababo, e acordei com a idéa de ser nababo. Eu gostava, ás vezes,
-de imaginar esses contrastes de região, estado e credo. Alguns dias
-antes tinha pensado na hypothese de uma revolução social, religiosa e
-politica, que transferisse o arcebispo de Cantuaria a simples collector
-de Petropolis, e fiz longos calculos para saber se o collector
-eliminaria o arcebispo, ou se o arcebispo rejeitaria o collector, ou
-que porção de arcebispo póde jazer n'um collector, ou que somma de
-collector póde combinar com um arcebispo, etc. Questões insoluveis,
-apparentemente, mas na realidade perfeitamente soluveis, desde que se
-attenda que póde haver n'um arcebispo dous arcebispos,--o da bulla e o
-outro. Está dito, vou ser nababo.
-
-Era um simples gracejo; disse-o, todavia, ao Quincas Borba, que
-olhou para mim com certa cautella e pena, levando a sua bondade a
-communicar-me que eu estava doudo. Ri-me a principio; mas a nobre
-convicção do philosopho incutiu-me certo medo. A unica objecção contra
-a palavra do Quincas Borba é que não me sentia doudo, mas não tendo
-geralmente os doudos outro conceito de si mesmos, tal objecção ficava
-sem valor. E vêde se ha algum fundamento na crença popular de que os
-philosophos são homens alheios ás cousas minimas. No dia seguinte
-mandou-me o Quincas Borba um alienista. Conhecia-o, fiquei aterrado.
-Elle porém houve-se com a maior delicadeza e habilidade, despedindo-se
-tão alegremente que me animou a perguntar-lhe se deveras me não achava
-doudo.
-
---Não, disse elle sorrindo; raros homens terão tanto juizo como o
-senhor.
-
---Então o Quincas Borba enganou-se?
-
---Redondamente. E depois:--Ao contrario, se é amigo delle... peço-lhe
-que o distraia... que...
-
---Justos ceus! Parece-lhe?... Um homem de tamanho espirito! um
-philosopho!
-
-Não importa; a loucura entra em todas as casas. Imaginem a minha
-afflicção. O alienista, vendo o effeito de suas palavras, reconheceu
-que eu era amigo do Quincas Borba, e tratou de diminuir a gravidade da
-advertencia. Observou que podia não ser nada, e accrescentou até que um
-grãosinho de sandice, longe de fazer mal, dava certo pico á vida. Como
-eu rejeitasse com horror esta opinião, o alienista sorriu e disse-me
-uma cousa tão extraordinaria, tão extraordinaria, que não merece menos
-de um capitulo.
-
-
-
-
-CAPITULO CLIV
-
-
-Os navios do Pireu
-
-
---Ha de lembrar-se, disse-me o alienista, daquelle famoso maniaco
-atheniense, que suppunha que todos os navios entrados no Pireu eram
-de sua propriedade. Não passava de um pobretão, que talvez não
-tivesse, para dormir, a cuba de Diogenes; mas a posse imaginaria dos
-navios valia por todas as drachmas da Hellade. Ora bem, ha em todos
-nós um maniaco de Athenas; e quem jurar que não possuiu alguma vez,
-mentalmente, dous ou tres patachos, pelo menos, póde crer que jura
-falso.
-
---Tambem o senhor? perguntei-lhe.
-
---Tambem eu.
-
---Tambem eu?
-
---Tambem o senhor; e o seu criado, não menos, se é seu criado esse
-homem que alli está sacudindo os tapetes á janella.
-
-De facto, era um dos meus criados que batia os tapetes, emquanto
-nós falavamos no jardim, ao lado. O alienista notou então que elle
-escancarára as janellas todas, desde longo tempo, que alçára as
-cortinas, que devassára o mais possivel a sala, ricamente alfaiada,
-para que a vissem de fóra, e concluiu:--Este seu criado tem a mania do
-atheniense: crê que os navios são delle; uma hora de illusão que lhe dá
-a maior felicidade da terra.
-
-
-
-
-CAPITULO CLV
-
-
-Reflexão cordial
-
-
---Se o alienista tem razão, disse eu commigo, não haverá muito que
-lastimar o Quincas Borba; e uma questão de mais ou de menos. Comtudo,
-é justo cuidar delle, e evitar que lhe entrem no cerebro maniacos de
-outras paragens.
-
-
-
-
-CAPITULO CLVI
-
-
-Orgulho tem servilidade
-
-
-O Quincas Borba divergiu do alienista em relação ao meu
-criado.--Póde-se, por imagem, disse elle, attribuir ao teu criado
-a mania de atheniense; mas imagens não são idéas nem observações
-tomadas á natureza. O que o teu criado tem é um sentimento nobre
-e perfeitamente regido pelas leis do Humanitismo: é o orgulho
-da servilidade. A intenção delle é mostrar que não é criado de
-_qualquer._--Depois chamou a minha attenção para os cocheiros de casa
-grande, mais impertigados que o amo, para os criados de hotel, cuja
-solicitude obedece ás variações sociaes da freguezia, etc. E concluiu
-que era tudo a expressão daquelle sentimento delicado e nobre,--prova
-cabal de que muitas vezes o homem, ainda a engraxar botas, é sublime.
-
-
-
-
-CAPITULO CLVII
-
-
-Phase brilhante
-
-
---Sublime és tu, bradei eu, lançando-lhe os braços ao pescoço.
-
-Com effeito, era impossível crer que um homem tão profundo pudesse
-chegar á demencia; e foi o que lhe disse após o meu abraço,
-denunciando-lhe a suspeita do alienista. Não posso descrever a
-impressão que lhe fez a denuncia; lembra-me que elle estremeceu e ficou
-muito pallido.
-
-Foi por esse tempo que eu me reconciliei outra vez com o Cotrim, sem
-chegar a saber a causa do dissentimento. Reconciliação opportuna,
-porque a solidão pesava-me, como um remorso, e a vida era para mim
-a peor das fadigas, que é a fadiga sem trabalho. Pouco depois fui
-convidado por elle a filiar-me n'uma Ordem Terceira; o que eu não fiz
-sem consultar o Quincas Borba:
-
---Vae se queres, disse-me este, mas temporariamente. Eu trato de
-annexar á minha philosophia uma parte dogmatica e liturgica. O
-Humanitismo ha de ser tambem uma religião, a do futuro, a unica
-verdadeira. O christianismo é bom para as mulheres e os mendigos, e as
-outras religiões não valem mais do que essa: orçam todas pela mesma
-vulgaridade ou fraqueza. O paraiso christão é um digno emulo do paraiso
-mussulmano; e quanto ao nirvana de Buddha não passa de uma concepção de
-paralyticos. Verás o que é a religião humanistica. A absorpção final,
-a phase _contractiva_, é a reconstituição da substancia, não o seu
-anniquilamento, etc. Vae aonde te chamam; não esqueças, porém, que és o
-meu califa.
-
-E vede agora a minha, modestia; filiei-me na Ordem Terceira de ***,
-exerci alli alguns cargos, foi essa a phase mais brilhante da minha
-vida. Não obstante, calo-me, não digo nada, não conto os meus serviços,
-o que fiz aos pobres e aos enfermos, nem as recompensas que recebi,
-nada, não digo absolutamente nada.
-
-Talvez a economia social pudesse ganhar alguma cousa, si eu mostrasse
-como todo e qualquer premio estranho vale pouco ao lado do premio
-subjectivo e immediato; mas seria romper o silencio que jurei guardar
-neste ponto. Demais, os phenomenos da consciencia são de difficil
-analyse; por outro lado, se contasse um, teria de contar todos os que
-a elle se prendessem, e acabava fazendo um capitulo de psychologia.
-Affirmo sómente que foi a phase mais brilhante da minha vida. Os
-quadros eram tristes; tinham a monotonia da desgraça, que é tão
-aborrecida como a do gozo, e talvez peor. Mas a alegria que se dá á
-alma dos doentes e dos pobres, é recompensa de algum valor; e não me
-digam que é negativa, por só recebel-a o obsequiado. Não; eu recebia-a
-de um modo reflexo, e ainda assim grande, tão grande que me dava
-excellente idéa de mim mesmo.
-
-
-
-
-CAPITULO CLVIII
-
-
-Dous encontros
-
-
-No fim de alguns annos, tres ou quatro, estava enfarado do officio,
-e deixei-o, não sem um donativo importante, que me deu direito ao
-retrato na sacristia. Não acabarei, porém, o capitulo sem dizer que vi
-morrer no hospital da Ordem, adivinhem quem?... a linda Marcella; e
-vi-a morrer no mesmo dia em que, visitando um cortiço, para distribuir
-esmolas, achei... Agora é que não são capazes de adivinhar... achei a
-flôr da moita, Eugenia, a filha de D. Eusebia e do Villaça, tão coxa
-como a deixara, e ainda mais triste.
-
-Esta, ao reconhecer-me, ficou pallida, e baixou os olhos; mas foi obra
-de um instante. Ergueu logo a cabeça, e fitou-me com muita dignidade.
-Comprehendi que não receberia esmolas da minha algibeira, e estendi-lhe
-a mão, como faria á esposa de um capitalista. Cortejou-me e fechou-se
-no cubiculo. Nunca mais a vi; não soube nada da vida della, nem se a
-mãe era morta, nem que desastre a trouxera a tamanha miseria. Sei que
-continuava coxa e triste. Foi com esta impressão profunda que cheguei
-ao hospital, onde Marcella entrara na vespera, e onde a vi expirar meia
-hora depois, feia, magra, decrepita...
-
-
-
-
-CAPITULO CLIX
-
-
-A semi-demencia
-
-
-Comprehendi que estava velho, e precisava de uma força; mas o Quincas
-Borba partira seis mezes antes para Minas Geraes, e levou comsigo a
-melhor das philosophias. Voltou quatro mezes depois, e entrou-me em
-casa, certa manhã, quasi no estado em que eu o vira no Passeio Publico.
-A differença é que o olhar era outro. Vinha demente. Contou-me que,
-para o fim de aperfeiçoar o Humanitismo, queimára o manuscripto todo e
-ia recomeçal-o. A parte dogmatica ficava completa, embora não escripta;
-era a verdadeira religião do futuro.
-
---Juras por Humanitas? perguntou-me.
-
---Sabes que sim.
-
-A voz mal podia sair-me do peito; e aliás não tinha descoberto toda
-a cruel verdade. O Quincas Borba não só estava louco, mas sabia que
-estava louco, e esse resto de consciencia, como uma frouxa lamparina
-no meio das trevas, complicava muito o horror da situação. Sabia-o,
-e não se irritava contra o mal; ao contrario, dizia-me que era ainda
-uma prova de Humanitas, que assim brincava comsigo mesmo. Recitava-me
-longos capitulos do livro, e antiphonas, e litanias espirituaes; chegou
-até a reproduzir uma dansa sacra que inventara para as ceremonias do
-Humanitismo. A graça lugubre com que elle levantava e sacudia as pernas
-era singularmente fantastica. Outras vezes amuava-se a um canto, com os
-olhos fitos no ar, uns olhos em que, de longe em longe, fulgurava um
-raio persistente da razão, triste como uma lagrima...
-
-Morreu pouco tempo depois, em minha casa, jurando e repetindo sempre
-que a dor era uma illusão, e que Pangloss, o calumniado Pangloss, não
-era tão tolo como o suppoz Voltaire.
-
-
-
-
-CAPITULO CLX
-
-
-Das negativas
-
-
-Entre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os successos
-narrados na primeira parte do livro. O principal delles foi a invenção
-do _emplasto Braz Cubas_, que morreu commigo, por causa da molestia
-que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro logar entre os
-homens, acima da sciencia e da riqueza, porque eras a genuina e directa
-inspiração do ceu. O acaso determinou o contrario; e ahi vos ficaes
-eternamente hypocondriacos.
-
-Este ultimo capitulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do
-emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento.
-Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não
-comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais: não padeci a morte de D.
-Placida, nem a semi-demencia do Quincas Borba. Sommadas umas cousas e
-outras, qualquer pessoa imaginará que não houve mingua nem sobra, e
-conseguintemente que sai quite com a vida. E imaginará mal; porque ao
-chegar a este outro lado do mysterio, achei-me com um pequeno saldo,
-que é a derradeira negativa deste capitulo de negativas:--Não tive
-filhos, não transmitti a nenhuma creatura o legado da nossa miseria.
-
-FIM
-
-
-
-ÍNDICE
-
-
-Ao leitor v
-
-Dedicatória vii
-
-Capitulo
-
-
- I Obito do auto
- II O emplasto
- III Genealogia
- IV A idéa fixa
- V Em que apparece a orelha de uma senhora
- VI Chimène, qui l'eut dit? Rodrigue, qui l'eut cru?
- VII O delirio
- VIII Razão contra Sandice
- IX Transição
- X Naquelle dia
- XI O menino é pae do homem
- XII Um episodio de 1814
- XIII Um salto
- XIV O primeiro beijo
- XV Marcella
- XVI Uma reflexão immoral
- XVII Do trapezio o outras cousas
- XVIII Visão do corredor
- XIX A bordo
- XX Bacharelo-me
- XXI O almocreve
- XXII Volta ao Rio
- XXIII Triste, mas curto
- XXIV Curto, era alegre
- XXV Na Tijuca
- XXVI O autor hesita
- XXVII Virgilia?
- XXVIII Contanto que
- XXIX A visita
- XXX A flor da moita
- XXXI A borboleta preta
- XXXII Côxa de nascença
- XXXIII Bem aventurados os que não descem
- XXXIV A uma alma sensivel
- XXXV O caminho de Damasco
- XXXVI A proposito de botas
- XXXVII Emfim!
- XXXVIII A quarta edição
- XXXIX O visinho
- XL Na sege
- XLI A allucinação
- XLII Que escapou a Aristoteles
- XLIII Marqueza, porque eu serei marquez
- XLIV Um Cubas!
- XLV Notas
- XLVI A herança
- XLVII O recluso
- XLVIII Um primo de Virgilia
- XLIX A ponta do nariz
- L Virgilia casada
- LI É minha!
- LII O embrulho mysterioso
- LIII . . . . . .
- LIV A pendula
- LV O velho dialogo de Adão e Eva
- LVI O momento opportuno
- LVII Destino
- LVIII Confidencia
- LIX Um encontro
- LX O abraço
- LXI Um projecto
- LXII O travesseiro
- LXIII Fujamos!
- LXIV A transacção
- LXV Olheiros e escutas
- LXVI As pernas
- LXVII A casinha
- LXVIII O vergalho
- LXIX Um grão de sandice
- LXX D. Placida
- LXXI O senão do livro
- LXXII O bibliomano
- LXXIII O _lunch_
- LXXIV Historia de D. Placida
- LXXV Commigo
- LXXVI O estrume
- LXXVII Entrevista
- LXXVIII A presidencia
- LXXIX Compromisso de gato
- LXXX De secretario
- LXXXI A reconciliação
- LXXXII Questão de botanica
- LXXXIII 13
- LXXXIV O conflicto
- LXXXV O cimo da montanha
- LXXXVI O mysterio
- LXXXVII Geologia
- LXXXVIII O enfermo
- LXXXIX _In extremis_
- XC O velho colloquio do Adão e Caim
- XCI Uma carta extraordinaria
- XCII Um homem extraordinario
- XCIII O jantar
- XCIV A causa secreta
- XCV Flores de antanho
- XCVI A carta anonyma
- XCVII Entre a boca e a testa
- XCVIII Supprimido
- XCIX Na plateia
- C O caso provavel
- CI A revolução dalmata
- CII De repouso
- CIII Distracção
- CIV Era elle!
- CV Equivalencia das janellas
- CVI Jogo perigoso
- CVII Bilhete
- CVIII Que se não entende
- CIX O philosopho
- CX 31
- CXI O muro
- CXII A opinião
- CXIII A solda
- CXIV Fim do um dialogo
- CXV O almoço
- CXVI Philosophia das folhas velhas
- CXVII O Humanitismo
- CXVIII A terceira força
- CXIX Parenthesis
- CXX _Compelle intrare_
- CXXI Morro abaixo
- CXXII Uma intenção mui fina
- CXXIII O verdadeiro Cotrim
- CXXIV Vá de intermedio
- CXXV Epitaphio
- CXXVI Desconsolação
- CXXVII Formalidade
- CXXVIII Na camara
- CXXIX Sem remorsos
- CXXX Por intercallar no cap. CXXIX
- CXXXI De uma calumnia
- CXXXII Que não é serio
- CXXXIII O principio de Helvetius
- CXXXIV Cincoenta annos
- CXXXV _Oblivion_
- CXXXVI Inutilidade
- CXXXVII A barretina
- CXXXVIII A um critico
- CXXXIX De como não fui ministro d'Estado
- CXL Que explica o anterior
- CXLI Os cães
- CXLII O pedido secreto
- CXLIII Não vou
- CXLIV Utilidade relativa
- CXLV Simples repetição
- CXLVI O programma
- CXLVII O desatino
- CXLVIII O problema insoluvel
- CXLIX Theoria do beneficio
- CL Rotação e translação
- CLI Philosophia dos epitaphios
- CLII A moeda de Vespasiano
- CLIII O alienista
- CLIV Os navios do Pireu
- CLV Reflexão cordial
- CLVI Orgulho da servilidade
- CLVII Phase brilhante
- CLVIII Dous encontros
- CLIX A semi-demencia
- CLX Das negativas
-
-
-
-
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-Machado de Assis
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-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIAS POSTUMAS DE BRAZ CUBAS ***
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- The Project Gutenberg eBook of Memorias Posthumas de Braz Cubas, by Machado de Assis.
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-<pre>
-
-Project Gutenberg's Memorias Postumas de Braz Cubas, by Machado de Assis
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
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-
-Title: Memorias Postumas de Braz Cubas
-
-Author: Machado de Assis
-
-Release Date: June 2, 2017 [EBook #54829]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: ISO-8859-1
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIAS POSTUMAS DE BRAZ CUBAS ***
-
-
-
-
-Produced by Laura Natal Rodriguez & Marc D'Hooghe at Free
-Literature (online soon in an extended version, also linking
-to free sources for education worldwide ... MOOC's,
-educational materials,...)
-
-
-
-
-
-
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-
-<h1>MEMORIAS POSTHUMAS</h1>
-
-<h3>DE</h3>
-
-<h1>BRAZ CUBAS</h1>
-
-<h3>POR</h3>
-
-<h2>MACHADO DE ASSIS</h2>
-
-<h5>RIO DE JANEIRO</h5>
-
-<h5>TYPOGRAPHIA NACIONAL</h5>
-
-<h5>1881</h5>
-
-<hr class="full" />
-<p style="font-size: 0.8em;"><a href="#INDICE">ÍNDICE</a></p>
-<hr class="chap" />
-<h5>OBRAS DO AUTOR</h5>
-
-<p style="margin-left: 25%;">
-Memorias Posthumas de Braz Cubas<br />
-Helena, romance<br />
-Yayá Garcia, romance<br />
-Resurreição, romance<br />
-A mão e a luva, romance<br />
-Historias da meia noite<br />
-Contos Fluminenses<br />
-Americanas, poesias<br />
-Phalenas, poesias<br />
-Chrysalidas, poesias<br />
-Tu só, tu, puro amor, comédia<br />
-Os deuses de casaca, comédia<br />
-Desencantos, comédia<br />
-Theatro<br />
-</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h4><a name="AO_LEITOR" id="AO_LEITOR">AO LEITOR</a></h4>
-
-
-<p>Que, no alto do principal de seus livros, confessasse Stendhal havel-o
-escripto para cem leitores, cousa é que admira e consterna. O que não
-admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver
-os cem leitores de Stendhal, nem cincoenta, nem vinte, e quando muito,
-dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra diffusa,
-na qual eu, Braz Cubas, se adoptei a fórma livre de um Sterne, de
-um Lamb, ou de um de Maistre, não sei se lhe metti algumas rabugens
-de pessimismo. Póde ser. Obra de finado. Escrevi-a com a penna da
-galhofa e a tinta da melancholia; e não é difficil antever o que poderá
-sair desse connubio. Accresce que a gente grave achará no livro umas
-apparencias de puro romance, ao passo que a gente frivola não achará
-nelle o seu romance usual; e eil-o ahi fica privado da estima dos
-graves e do amor dos frivolos, que são as duas columnas maximas da
-opinião.</p>
-
-<p>Mas eu ainda espero angariar as sympatias da opinião, e o meio efficaz
-para isso é fugir a um prologo explicito e longo. O melhor prologo
-é o que contém menos cousas, ou o que as diz de um geito obscuro e
-truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinario que
-empreguei na composição destas <i>Memorias</i>, trabalhadas cá no outro
-seculo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessario ao
-entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino
-leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote,
-e adeus.</p>
-
-<p class="smcap" style="text-align: right;">Braz Cubas.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p class="center" style="font-size: 0.8em;">
-AO VERME<br />
-<br />
-QUE<br />
-<br />
-PRIMEIRO ROEU AS FRIAS CARNES<br />
-<br />
-DO MEU CADAVER<br />
-<br />
-DEDICO<br />
-<br />
-COMO SAUDOSA LEMBRANÇA<br />
-<br />
-ESTAS<br />
-<br />
-MEMORIAS POSTHUMAS<br />
-</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CAPITULO_I" id="CAPITULO_I">CAPITULO I</a></h5>
-
-
-<h4>Obito do autor</h4>
-
-
-<p>Algum tempo hesitei se devia abrir estas memorias pelo principio ou
-pelo fim, isto é, se poria em primeiro logar o meu nascimento ou a
-minha morte. Supposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas
-considerações me levaram a adoptar differente methodo: a primeira é que
-eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para
-quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escripto ficaria assim
-mais galante e mais novo. Moysés, que tambem contou a sua morte, não a
-poz no introito, mas no cabo: differença radical entre este livro e o
-Pentateuco.</p>
-
-<p>Dito isto, expirei ás duas horas da tarde de uma sexta feira do mez de
-agosto de 1869, na minha bella chacara de Catumby. Tinha uns sessenta
-e quatro annos, rijos e prosperos, era solteiro, possuia cerca de
-tresentos contos e fui acompanhado ao cemiterio por onze amigos.
-Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem annuncios. Accresce
-que chovia&mdash;peneirava&mdash;uma chuvinha miuda, triste e constante, tão
-constante e tão triste, que levou um daquelles fieis da ultima hora
-a intercalar esta engenhosa idéa no discurso que proferiu á beira de
-minha cova:&mdash;«Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer
-commigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparavel de
-um dos mais bellos caracteres que tem honrado a humanidade. Este ar
-sombrio, estas gotas do ceu, aquellas nuvens escuras que cobrem o
-azul como um crepe funereo, tudo isso é a dor crua e má que lhe róe á
-natureza as mais intimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao
-nosso illustre finado.»</p>
-
-<p>Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apolices que lhe
-deixei. E foi assim que cheguei á clausula dos meus dias; foi assim que
-me encaminhei para o <i>undiscovered country</i> de Hamlet, sem as ancias
-nem as duvidas do moço principe, mas pausado e tropego, como quem se
-retira tarde do expectaculo. Tarde e aborrecido. Viram-me ir umas nove
-ou dez pessoas, entre ellas tres senhoras,&mdash;minha irmã Sabina, casada
-com o Cotrim,&mdash;a filha, um lyrio do valle,&mdash;e... Tenham paciencia!
-daqui a pouco lhes direi quem era a terceira senhora. Contentem-se de
-saber que essa anonyma, ainda que não parenta, padeceu mais do que as
-parentas. É verdade, padeceu mais. Não digo que se carpisse, não digo
-que se deixasse rolar pelo chão, epileptica. Nem o meu obito era cousa
-altamente dramatica... Um solteirão que expira aos sessenta e quatro
-annos, não parece que reuna em si todos os elementos de uma tragedia. E
-dado que sim, o que menos convinha a essa anonyma era apparental-o. De
-pé, á cabeceira da cama, com os olhos estúpidos, a boca entreaberta, a
-triste senhora mal podia crêr na minha extincção.</p>
-
-<p>&mdash;Morto! morto! dizia comsigo.</p>
-
-<p>E a imaginação della, como as cegonhas que um illustre viajante viu
-desferirem o vôo desde o Illysso ás ribas africanas, sem embargo das
-ruinas e dos tempos,&mdash;a imaginação dessa senhora tambem voou por
-sobre os destroços presentes até ás ribas de uma Africa juvenil...
-Deixal-a ir; lá iremos mais tarde; lá iremos quando eu me restituir aos
-primeiros annos. Agora, quero morrer tranquillamente, methodicamente,
-ouvindo os soluços das damas, as fallas baixas dos homens, a chuva que
-tamborila nas folhas de tinhorão da chacara, e o som estridulo de uma
-navalha que um amolador está afiando lá fóra, á porta de um correeiro.
-Juro-lhes que essa orchestra da morte foi muito menos triste do que
-podia parecer; e de certo ponto em deante chegou a ser deliciosa.
-A vida estrebuchava-me no peito, com uns impetos de vaga marinha,
-esvaia-se-me a consciencia, eu descia á immobilidade physica e moral,
-e o corpo fazia-se-me planta, e pedra, e lodo, e cousa nenhuma.</p>
-
-<p>Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do
-que uma idéa grandiosa e util, a causa da minha morte, é possivel que o
-leitor me não creia, e todavia é verdade. Vou expor-lhe summariamente o
-caso. Julgue-o por si mesmo.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_II" id="CAPITULO_II">CAPITULO II</a></h5>
-
-
-<h4>O emplasto</h4>
-
-
-<p>Com effeito, um dia de manhã, estando a passear na chacara,
-pendurou-se-me uma idéa no trapezio que eu tinha no cerebro. Uma vez
-pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas
-cabriolas de volantim, que é possivel crer. Eu deixei-me estar a
-contemplal-a. Subito, deu um grande salto, estendeu os braços e as
-pernas, até tomar a fórma de um X: decifra-me ou devoro-te.</p>
-
-<p>Essa idéa era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um
-emplasto anti-hypocondriaco, destinado a alliviar a nossa melancholica
-humanidade. Na petição de privilegio que então redigi, chamei a
-attenção do governo para esse resultado, verdadeiramente christão.
-Todavia, não neguei aos amigos as vantagens pecuniarias que deviam
-resultar da distribuição de um producto de tamanhos e tão profundos
-effeitos, Agora, porém, que estou cá do outro lado da vida, posso
-confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de ver
-impressas nos jornaes, mostradores, folhetos, esquinas, e emfim nas
-caixinhas do remedio, estas tres palavras: <i>emplasto Braz Cubas.</i> Para
-que negal-o? Eu tinha a paixão do arruido, do cartaz, do foguete de
-lagrimas. Talvez os modestos me arguam esse defeito; fio porém que esse
-talento me hão de reconhecer os habeis; e eu era habil. Assim, a minha
-idéa trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o publico,
-outra para mim. De um lado, philanthropia e lucro; de outro lado, sêde
-de nomeada. Digamos:&mdash;amor da gloria.</p>
-
-<p>Um tio meu, conego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da
-gloria temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a gloria
-eterna. Ao que retorquia outro tio, official de um dos antigos terços
-de infantaria, que o amor da gloria era a cousa mais verdadeiramente
-humana que ha no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuina feição.</p>
-
-<p>Decida o leitor entre o militar e o conego; eu volto ao emplasto.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_III" id="CAPITULO_III">CAPITULO III</a></h5>
-
-
-<h4>Genealogia</h4>
-
-
-<p>Mas, já que fallei nos meus dous tios, deixem-me fazer aqui um curto
-esboço genealogico.</p>
-
-<p>O fundador da minha familia foi um certo Damião Cubas, que floreceu
-na primeira metade do seculo XVIII. Era tanoeiro de officio, natural
-do Rio de Janeiro, onde teria morrido na penuria e na obscuridade,
-se sómente exercesse a tanoaria. Mas não; fez-se lavrador, plantou,
-colheu, permutou o seu producto por boas e honradas patacas, até que
-morreu, deixando grosso cabedal a um filho, o licenciado Luiz Cubas.
-Neste rapaz é que verdadeiramente começa a serie de meus avós&mdash;dos
-avós que a minha familia sempre confessou&mdash;, porque o Damião Cubas era
-afinal de contas um tanoeiro, e talvez mau tanoeiro, ao passo que o
-Luiz Cubas estudou em Coimbra, primou no Estado, e foi um dos amigos
-particulares do vice-rei conde da Cunha.</p>
-
-<p>Como este appellido de Cubas lhe cheirasse excessivamente a tanoaria,
-allegava meu pae, bisneto do Damião, que o dito appellido fôra dado a
-um cavalleiro, heroe nas jornadas da Africa, em premio da façanha que
-praticou, arrebatando tresentas cubas aos mouros. Meu pae era homem de
-imaginação; escapou á tanoaria nas azas de um <i>calembour.</i> Era um bom
-caracter meu pae, varão digno e leal como poucos. Tinha, é verdade, uns
-fumos de pacholice; mas quem não é um pouco pachola nesse mundo? Releva
-notar que elle não recorreu á inventiva, senão depois de experimentar
-a falsificação; primeiramente, entroncou-se na familia daquelle meu
-famoso homonymo, o capitão-mór Braz Cubas, que fundou a villa de S.
-Vicente, onde morreu em 1592, e por esse motivo é que me deu o nome de
-Braz. Oppoz-se-lhe porém a familia do capitão-mór; e foi então que elle
-imaginou as tresentas cubas mouriscas.</p>
-
-<p>Vivem ainda alguns membros de minha familia, minha sobrinha Venancia,
-por exemplo, o lyrio do valle, que é a flor das damas do seu tempo;
-vive o pae, o Cotrim, um sujeito que... Mas não anticipemos os
-successos; acabemos de uma vez com o nosso emplasto.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_IV" id="CAPITULO_IV">CAPITULO IV</a></h5>
-
-
-<h4>A idéa fixa</h4>
-
-
-<p>A minha idéa, depois de tantas cabriolas, constituira-se idéa fixa.
-Deus te livre, leitor, de uma idéa fixa; antes um argueiro, antes uma
-trave no olho. Vê o Cavour; foi a idéa fixa da unidade italiana que o
-matou. Verdade é que o Bismark não morreu; mas, cumpre advertir que
-a natureza é uma grande caprichosa e a historia uma eterna loureira.
-Por exemplo, o Suetonio deu-nos um Claudio, que era um verdadeiro
-banana,&mdash;ou «uma abobora» como lhe chamou Seneca, e um Tito, que
-mereceu ser as delicias de Roma. Veiu modernamente um professor e achou
-meio de demonstrar que ambos esses conceitos eram erroneos e abstrusos,
-e que dos dous cesares, o delicioso, o verdadeiramente delicioso, foi
-o «abobora» de Seneca. E tu, madama Lucrecia, flor dos Borgias, se um
-poeta te pintou como a Messalina catholica, appareceu um Gregorovius
-incredulo que te apagou muito essa qualidade, e, se não vieste a
-lyrio, tambem não ficaste pantano. Eu deixo-me estar entre o poeta e o
-sabio.</p>
-
-<p>Viva pois a historia, a voluvel historia que dá para tudo; e, tornando
-á idéa fixa, direi que é ella a que faz os varões fortes e os doudos;
-a idéa mobil, vaga ou furta-cor é a que faz os Claudios,&mdash;formula
-Suetonio.</p>
-
-<p>Era fixa a minha idéa, fixa como... Não me occorre nada que seja assaz
-fixo nesse mundo: talvez a lua, talvez as pyramides do Egypto, talvez
-a finada dieta germanica. Veja o leitor a comparação que melhor lhe
-quadrar, veja-a e não esteja dahi a torcer-me o nariz, só porque ainda
-não chegámos á parte narrativa destas memorias. Lá iremos. Creio que
-prefere a anecdota á reflexão, como os outros leitores, seus confrades,
-e acho que faz muito bem. Pois lá iremos. Todavia, importa dizer que
-este livro é escripto com pachorra, com a pachorra de um homem já
-desaffrontado da brevidade do seculo, obra supinamente philosophica, de
-uma philosophia desegual, agora austera, logo brincalhona, cousa que
-não edifica nem destróe, não inflamma nem regéla, e é todavia mais do
-que passatempo e menos do que apostolado.</p>
-
-<p>Vamos lá; rectifique o seu nariz, e tornemos ao emplasto. Deixemos a
-historia com os seus caprichos de dama elegante. Nenhum de nós pelejou
-a batalha de Salamina, nenhum escreveu a confissão do Augsburgo; pela
-minha parte, se alguma vez me lembro de Cromwell, é só pela idéa de que
-Sua Alteza, com a mesma mão que trancara o parlamento, teria imposto
-aos inglezes o emplasto Braz Cubas. Não se riam dessa victoria commum
-da pharmacia e do puritanismo. Quem não sabe que ao pé de cada bandeira
-grande, publica, ostensiva, ha muitas vezes varias outras bandeiras
-modestamente particulares, que se hasteam e fluctuam á sombra daquella,
-com ella cahem, e não poucas vezes lhe sobrelevam? Mal comparando, é
-como a arraia-miuda, que se acolhia á sombra do castello-feudal; cahiu
-este e a arraia ficou. Verdade é que se fez graúda e castellã... Não, a
-comparação não presta.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_V" id="CAPITULO_V">CAPITULO V</a></h5>
-
-
-<h4>Em que apparece a orelha de uma senhora</h4>
-
-
-<p>Vae se não quando, estando eu occupado em preparar e apurar a minha
-invenção, recebi em cheio um golpe de ar; adoeci logo, e não me
-tratei. Tinha o emplasto no cerebro; trazia commigo a idéa fixa dos
-doudos e dos fortes. Via-me, ao longe, ascender do chão das turbas, e
-remontar ao ceu, como uma aguia immortal; e não é deante de tão excelso
-expectaculo que um homem pode sentir a dor que o punge. No outro dia
-estava peor; tratei-me emfim, mas incompletamente, sem methodo, nem
-cuidado, nem persistencia; tal foi a origem do mal que me trouxe á
-eternidade. Sabem ja que morri n'uma sexta feira, dia aziago, e creio
-haver provado que foi a minha invenção que me matou. Ha demonstrações
-menos lucidas e não menos triumphantes.</p>
-
-<p>Não era impossivel, entretanto, que eu chegasse a galgar o cimo de um
-seculo, e a figurar nas folhas publicas, entre macrobios. Tinha saude
-e robustez. Supponha-se que, em vez de estar lançando os alicerces de
-uma invenção pharmaceutica, tratava de colligir os elementos de uma
-instituição politica, ou de uma reforma religiosa. Vinha a corrente
-do ar, que vence, em efficacia, o calculo humano, e lá se ia tudo. Um
-sopro de ar foi portanto o meu grão de arêa de Cromwell. Assim corre a
-sorte dos homens.</p>
-
-<p>Com esta reflexão me despedi eu da mulher, não direi mais discreta, mas
-com certeza mais formosa entre as contemporaneas suas, a anonyma do
-primeiro capitulo, a tal, cuja imaginação á semelhança das cegonhas do
-Illysso... Tinha então 54 annos, era uma ruina, uma imponente ruina.
-Imagine o leitor que nos amámos, ella e eu, muitos annos antes, e que
-um dia, já enfermo, vejo-a assomar á porta da alcova...</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_VI" id="CAPITULO_VI">CAPITULO VI</a></h5>
-
-
-<h4>Chimène, qui l'eut dit?&mdash;Rodrigue, qui l'eut cru?</h4>
-
-
-<p>Vejo-a assomar á porta da alcova, pallida, commovida, trajada de preto,
-e alli ficar durante uns dez segundos, sem animo de entrar, ou detida
-pela presença de um homem que estava commigo. Da cama, onde jazia,
-contemplei-a durante esse tempo, esquecido de lhe dizer nada ou de
-fazer nenhum gesto. Havia já dous annos que nos não viamos; e eu via-a
-agora não qual era, mas qual fôra, quaes foramos ambos, porque um
-Ezechias mysterioso fizera recuar o sol até os dias juvenis. Recuou
-o sol, sacudi todas as miserias; e este punhado de pó, que a morte
-ia espalhar na eternidade do nada, pôde mais do que tempo, que é o
-ministro da morte. Nenhuma agua de Juventa egualaria alli a simples
-saudade.</p>
-
-<p>Cream-me, o menos mau é recordar; ninguem se fie da felicidade
-presente; ha nella uma gota da baba de Caim. Corrido o tempo e cessado
-o espasmo, então sim, então talvez se póde gozar deveras, porque entre
-uma e outra dessas duas illusões, melhor é a que se gosta, sem doer.</p>
-
-<p>Não durou muito a evocação; a realidade dominou logo; o presente
-expelliu o passado. Talvez eu exponha ao leitor, em algum canto deste
-livro, a minha theoria das edições humanas. O que por agora importa
-saber é que Virgilia&mdash;chamava-se Virgilia&mdash;entrou na alcova, firme,
-com a gravidade que lhe davam as roupas e os annos, e veiu até o meu
-leito. O extranho levantou-se e sahiu. Era um sujeito, que me visitava
-todos os dias para fallar do cambio, da colonisação e da necessidade de
-desenvolver a viação ferrea; nada mais interessante para um moribundo.
-Saiu; Virgilia deixou-se estar de pé; durante algum tempo ficamos a
-olhar um para o outro, sem articular palavra. Quem diria? De dous
-grandes namorados, de duas paixões sem freio, nada mais havia alli,
-vinte annos depois; havia apenas dous corações murchos, devastados pela
-vida e saciados della, não sei se em egual dóse, mas emfim saciados.
-Virgilia tinha agora a belleza da velhice, um ar austero e maternal;
-estava menos magra do que quando a vi, pela ultima vez, n'uma festa
-de S. João, na Tijuca; e porque era das que resistem muito, só agora
-começavam os cabellos escuros a intercalar-se de alguns fios de prata.</p>
-
-<p>&mdash;Anda visitando os defuntos? disse-lhe eu.&mdash;Ora, defuntos! respondeu
-Virgilia com um muxoxo. E depois de me apertar as mãos:&mdash;Ando a ver se
-ponho os vadios para a rua.</p>
-
-<p>Não tinha a caricia lacrymosa de outro tempo; mas a voz era amiga e
-doce. Sentou-se. Eu estava só, em casa, com um simples enfermeiro;
-podiamos fallar um ao outro, sem perigo. Virgilia deu-me longas
-noticias de fóra, narrando-as com graça, com um certo travo de má
-lingua, que era o sal da palestra; eu, prestes a deixar o mundo, sentia
-um prazer satanico em mofar delle, em persuadir-me que não deixava nada.</p>
-
-<p>&mdash;Que idéas essas! interrompeu-me Virgilia um tanto zangada. Olhe que
-eu não volto mais. Morrer! Todos nós havemos de morrer; basta estarmos
-vivos.</p>
-
-<p>E vendo o relogio:</p>
-
-<p>&mdash;Jesus! são tres horas. Vou-me embora.</p>
-
-<p>&mdash;Já?</p>
-
-<p>&mdash;Já; virei amanhã ou depois.</p>
-
-<p>&mdash;Não sei se faz bem, retorqui; o doente é um solteirão e a casa não
-tem senhoras...</p>
-
-<p>&mdash;Sua mana?</p>
-
-<p>&mdash;Ha de vir cá passar uns dias, mas não póde ser antes de sabbado.</p>
-
-<p>Virgilia reflectiu um instante, levantou os hombros e disse com
-gravidade:</p>
-
-<p>&mdash;Estou velha! Ninguem mais repara em mim. Mas, para cortar duvidas,
-virei com o Nhonhô.</p>
-
-<p>Nhonhô era um bacharel, unico filho de seu casamento, que, na edade
-de cinco annos, fôra complice inconsciente de nossos amores. Vieram
-juntos, dous dias depois; e confesso que, ao vel-os alli, na minha
-alcova, fui tomado de um acanhamento que nem me permittiu corresponder
-logo ás palavras affaveis do rapaz. Virgilia adivinhou-mo e disse ao
-filho:</p>
-
-<p>&mdash;Nhonhô, não repares nosso grande manhoso que ahi está; não quer
-fallar para fazer crer que está á morte.</p>
-
-<p>Sorriu o filho; eu creio quo tambem sorri; e tudo acabou em pura
-galhofa. Virgilia estava serena e risonha, tinha o aspecto das
-vidas immaculadas. Nenhum olhar suspeito, nenhum gesto que pudesse
-denunciar nada; uma egualdade de palavra e de espirito, uma dominação
-sobre si mesma, que pareciam e talvez fossem raras. Como tocassemos,
-casualmente, n'uns amores illegitimos, meio secretos, meio divulgados,
-vi-a fallar com desdem e um pouco de indignação da mulher de que se
-tratava, aliás sua amiga; e o filho sentia-se satisfeito, ouvindo
-aquella palavra digna e forte, e eu perguntava a mim mesmo o que diriam
-de nós os gaviões, se Buffon tivesse nascido gavião...</p>
-
-<p>Era o meu delirio que começava.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_VII" id="CAPITULO_VII">CAPITULO VII</a></h5>
-
-
-<h4>O delirio</h4>
-
-
-<p>Que me conste, ainda ninguem relatou o seu proprio delirio; faço-o eu,
-e a sciencia m'o agradecerá. Se o leitor não é dado á contemplação
-destes phenomenos mentaes, póde saltar o capitulo; vá direito á
-narração. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo que é
-interessante saber o que se passou na minha cabeça durante uns vinte a
-trinta minutos.</p>
-
-<p>Primeiramente, tomei a figura de um barbeiro chinez, bojudo, destro,
-escanhoando um mandarim, que me pagava o trabalho com beliscões e
-confeitos: caprichos de mandarim.</p>
-
-<p>Logo depois, senti-me transformado na <i>Summa Theologica</i> de S. Thomaz,
-impressa n'um volume, e encadernada em marroquim, com fechos de prata e
-estampas; idéa esta que me deu ao corpo a mais completa immobilidade;
-e ainda agora me lembra que, sendo as minhas mãos os fechos do livro,
-e cruzando-as eu sobre o ventre, alguem as descruzava (Virgilia de
-certo), porque a attitude lhe dava a imagem de um defunto.</p>
-
-<p>Ultimamente, restituido á fórma humana, vi chegar um hippopotamo, que
-me arrebatou. Deixei-me ir, calado, não sei se por medo ou confiança,
-mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou vertiginosa, que
-me atrevi a interrogal-o, e com alguma arte lhe disse que a viagem me
-parecia sem destino.</p>
-
-<p>&mdash;Engana-se, replicou o animal, nós vamos á origem dos seculos.</p>
-
-<p>Insinuei que deveria ser muitissimo longe; mas o hippopotamo não me
-entendeu ou não me ouviu, se é que não fingiu uma dessas cousas; e,
-perguntando-lhe, visto que elle fallava, se era descendente do cavallo
-de Achilles ou da asna de Balaão, retorquiu-me com um gesto peculiar a
-estes dous quadrupedes: abanou as orelhas. Pela minha parte fechei os
-olhos e deixei-me ir á ventura. Já agora não se me dá de confessar que
-sentia umas taes ou quaes cocegas de curiosidade, por saber onde ficava
-a origem dos seculos, se era tão mysteriosa como a origem do Nilo, e
-sobretudo se valia alguma cousa mais ou menos do que a consummação dos
-mesmos seculos; tudo isto reflexões de um cerebro enfermo. Como ia de
-olhos fechados, não via o caminho; lembra-me só que a sensação de frio
-augmentava com a jornada, e que chegou uma occasião em que me pareceu
-entrar na região dos gelos eternos. Com effeito, abri os olhos e vi que
-o meu animal galopava n'uma planicie branca de neve, com uma ou outra
-montanha de neve, vegetação de neve, e varios animaes grandes e de
-neve. Tudo neve; chegava a gelar-nos um sol de neve. Tentei fallar, mas
-apenas pude grunhir esta pergunta anciosa:</p>
-
-<p>&mdash;Onde estamos?</p>
-
-<p>&mdash;Já passámos o Eden.</p>
-
-<p>&mdash;Bem; paremos na tenda de Abrahão.</p>
-
-<p>&mdash;Mas se nós caminhamos para traz! redarguiu motejando a minha
-cavalgadura.</p>
-
-<p>Fiquei vexado e aturdido. A jornada entrou a parecer-me enfadonha e
-extravagante, o frio incommodo, a conducção violenta, e o resultado
-impalpavel. E depois&mdash;cogitações de enfermo&mdash;dado que chegassemos ao
-fim indicado, não era impossivel que os seculos, irritados com lhes
-devassarem a origem, me esmagassem entre as unhas, que deviam ser tão
-seculares como elles. Em quanto assim pensava, iamos devorando caminho,
-e a planicie voava debaixo dos nossos pés, até que o animal estacou, e
-pude olhar mais tranquillamente em torno de mim. Olhar sómente; nada
-vi, além da immensa brancura da neve, que desta vez invadira o proprio
-ceu, até alli azul. Talvez, a espaços, me apparecia uma ou outra
-planta, enorme, brutesca, meneando ao vento as suas largas folhas. O
-silencio daquella região era egual ao do sepulchro: dissera-se que a
-vida das cousas ficára estupida deante do homem.</p>
-
-<p>Cahiu do ar? destacou-se da terra? não sei; sei que um vulto immenso,
-uma figura de mulher me appareceu então, fitando-me uns olhos
-rutilantes como o sol. Tudo nessa figura tinha a vastidão das fórmas
-selvaticas, e tudo escapava á comprehensão do olhar humano, porque os
-contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia espesso era muita voz
-diaphano. Estupefacto, não disse nada, não cheguei sequer a soltar um
-grito; mas, ao cabo de algum tempo, que foi breve, perguntei quem era e
-como se chamava; curiosidade de delirio.</p>
-
-<p>&mdash;Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga.</p>
-
-<p>Ao ouvir esta ultima palavra, recuei um pouco, tomado de susto. A
-figura soltou uma gargalhada, que produziu em torno de nós o effeito de
-um tufão; as plantas torceram-se e um longo gemido quebrou a mudez das
-cousas externas.</p>
-
-<p>&mdash;Não te assustes, disse ella, minha inimizade não mata; é sobretudo
-pela vida que se affirma. Vives: não quero outro flagello.</p>
-
-<p>&mdash;Vivo? perguntei eu, enterrando as unhas nas mãos, como para
-certificar-me da existencia.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, verme, tu vives. Não receies perder esse andrajo que é teu
-orgulho; provarás ainda, por algumas horas, o pão da dôr e o vinho
-da miseria. Vives: agora mesmo que ensandeceste, vives; e se a tua
-consciencia rehouver um instante de sagacidade, tu dirás que queres
-viver.</p>
-
-<p>Dizendo isto, a visão estendeu o braço, segurou-me pelos cabellos e
-levantou-me ao ar, como se fôra uma simples pluma. Só então pude
-ver-lhe de perto o rosto, que era enorme. Nada mais quieto; nenhuma
-contorsão violenta, nenhuma expressão de odio ou ferocidade; a feição
-unica, geral, completa, era a da impassibilidade egoista, a da eterna
-surdez, a da vontade immovel. Raivas, se as tinha, ficavam encerradas
-no coração. Ao mesmo tempo, nesse rosto de expressão glacial, havia um
-ar de juventude, mescla de força e viço, diante do qual me sentia eu o
-mais debil e descrepito dos seres.</p>
-
-<p>&mdash;Entendeste-me? disse ella, no fim de algum tempo de mutua
-contemplação.</p>
-
-<p>&mdash;Não, respondi; nem quero entender-te; tu és absurda, tu és uma
-fabula. Estou sonhando, de certo, ou, se é verdade que enlouqueci, tu
-não passas de uma concepção de alienado, isto é, uma cousa vã, que a
-razão ausente não póde reger nem palpar. Natureza, tu? a Natureza que
-eu conheço é só mãe e não inimiga; não faz da vida um flagello, nem,
-como tu, traz esse rosto indifferente, como o sepulchro. E porque
-Pandora?</p>
-
-<p>&mdash;Porque levo na minha bolsa os bens e os males, e o maior de todos, a
-esperança, consolação dos homens. Tremes?</p>
-
-<p>&mdash;Sim; o teu olhar fascina-me.</p>
-
-<p>&mdash;Creio; eu não sou somente a vida; sou tambem a morte, e tu estás
-prestes a devolver-me o que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a
-voluptuosidade do nada.</p>
-
-<p>Quando esta palavra echoou, como um trovão, naquelle immenso valle,
-afigurou-se-me que era o ultimo som que chegava a meus ouvidos;
-pareceu-me sentir a decomposição subita de mim mesmo. Então, encarei-a
-com olhos supplices, e pedi mais alguns annos.</p>
-
-<p>&mdash;Pobre minuto! exclamou. Para que queres tu mais alguns instantes
-de vida? Para devorar e seres devorado depois? Não estás farto do
-expectaculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei
-menos torpe ou menos afflictivo: o alvor do dia, a melancholia da
-tarde, a quietação da noite, os aspectos da terra, o somno, emfim, o
-maior beneficio das minhas mãos. Que mais queres tu, sublime idiota?</p>
-
-<p>&mdash;Viver somente, não te peço mais nada. Quem me poz no coração este
-amor da vida, se não tu? e, se eu amo a vida, porque te has de golpear
-a ti mesma, matando-me?</p>
-
-<p>&mdash;Porque já não preciso de ti. Não importa ao tempo o minuto que passa,
-mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte, jocundo, suppõe trazer
-em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o outro, mas o
-tempo subsiste. Egoismo, dizes tu? Sim, egoismo, não tenho outra lei.
-Egoismo, conservação. A onça mata o novilho porque o raciocinio da
-onça é que ella deve viver, e se o novilho é tenro tanto melhor: eis o
-estatuto universal. Sobe e olha.</p>
-
-<p>Isto dizendo, arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os olhos
-a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe,
-atravez de um nevoeiro, uma cousa unica. Imagina tu, leitor, uma
-reducção dos seculos, e um desfilar de todos elles, as raças todas,
-todas as paixões, o tumulto dos imperios, a guerra dos appetites e
-dos odios, a destruição reciproca dos seres e das cousas. Tal era
-o expectaculo, acerbo e curioso expectaculo. A historia do homem
-e da terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem
-a imaginação nem a sciencia, porque a sciencia é mais lenta e a
-imaginação mais vaga, emquanto que o que eu alli via era a condensação
-viva de todos os tempos. Para descrevel-a seria preciso fixar o
-relampago. Os seculos desfilavam n'um turbilhão, e, não obstante,
-porque os olhos do delirio são outros, eu via tudo o que passava diante
-de mim,&mdash;flagellos e delicias,&mdash;desde essa cousa que se chama gloria
-até essa outra que se chama miseria, e via o amor multiplicando a
-miseria, e via a miseria aggravando a debilidade. Ahi vinham a cobiça
-que devora, a colera que inflamma, a inveja que baba, e a enxada e a
-penna, humidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancholia,
-a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até
-destruil-o, como um farrapo. Eram as formas varias de um mal, que ora
-mordia a viscera, ora mordia o pensamento, e passeiava eternamente as
-suas vestes de arlequim, em derredor da especie humana. A dor cedia
-alguma vez, mas cedia á indifferença, que era um somno sem sonhos,
-ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagellado e
-rebelde, corria diante da fatalidade das cousas, atraz de uma figura
-nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpavel, outro
-de improvavel, outro de invisivel, cosidos todos a ponto precario,
-com a agulha da imaginação; e essa figura,&mdash;nada menos que a chimera
-da felicidade,&mdash;ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar
-pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ella ria, como um
-escarneo, e sumia-se, como uma illusão.</p>
-
-<p>Ao contemplar tanta calamidade, não pude reter um grito de angustia,
-que Natureza ou Pandora escutou sem protestar nem rir; e não sei por
-que lei de transtorno cerebral, fui eu que me puz a rir,&mdash;de um riso
-descompassado e idiota.</p>
-
-<p>&mdash;Tens razão, disse eu, a cousa é divertida e vale a pena,&mdash;talvez
-monotona&mdash;mas vale a pena. Quando Job amaldiçoava o dia em que fôra
-concebido, é porque lhe davam ganas de ver cá de cima o expectaculo.
-Vamos lá, Pandora, abre o ventre, e digere-me; a cousa é divertida, mas
-digere-me.</p>
-
-<p>A resposta foi compellir-me fortemente a olhar para baixo, e a ver os
-seculos que continuavam a passar, velozes e turbulentos, as gerações
-que se superpunham ás gerações, umas tristes, como os Hebreus do
-captiveiro, outras alegres, como os devassos de Commodo, e todas
-ellas pontuaes na sepultura. Quiz fugir, mas uma força mysteriosa me
-retinha os pés; então disse commigo:&mdash;«Bem, os seculos vão passando,
-chegará o meu, e passará tambem, até o ultimo, que me dará a decifração
-da eternidade.» E fixei os olhos, e continuei a ver as edades, que
-vinham chegando e passando, já então tranquillo e resoluto, não sei
-até se alegre. Talvez alegre. Cada seculo trazia a sua porção de
-sombra e de luz, de apathia e de combate, de verdade e de erro, e o
-seu cortejo de systemas, de idéas novas, de novas illusões; em cada
-um delles rebentavam as verduras de uma primavera, e amarelleciam
-depois, para remoçar mais tarde. Ao passo que a vida tinha assim uma
-regularidade de calendario, fazia-se a historia e a civilisação, e o
-homem, nu e desarmado, armava-se e vestia-se, construia o tugurio e
-o palacio, a rude aldêa e Thebas de cem portas, creava a sciencia,
-que perscruta, e a arte que enleva, fazia-se orador, mecanico,
-philosopho, corria a face do globo, descia ao ventre da terra, subia
-á esphera das nuvens, collaborando assim na obra mysteriosa, com que
-entretinha a necessidade da vida e a melancholia do desamparo. Meu
-olhar, enfarado e distrahido, viu emfim chegar o seculo presente, e
-atraz delle os futuros. Aquelle vinha agil, destro, vibrante, cheio
-de si, um pouco diffuso, audaz, sabedor, mas ao cabo tão miseravel
-como os primeiros, e assim passou e assim passaram os outros, com a
-mesma rapidez e egual monotonia. Redobrei de attenção; fitei a vista;
-ia emfim ver o ultimo,&mdash;o ultimo!; mas então já a rapidez da marcha
-era tal, que escapava a toda a comprehensão; ao pé della o relampago
-seria um seculo. Talvez por isso entraram os objectos a trocarem-se;
-uns cresceram, outros minguaram, outros perderam-se no ambiente; um
-nevoeiro cobriu tudo,&mdash;menos o hippopotamo que alli me trouxera, e que
-aliás começou a diminuir, a diminuir, a diminuir, até ficar do tamanho
-de um gato. Era effectivamente um gato. Encarei-o bem; era o meu gato
-<i>Sultão</i>, que brincava á porta da alcova, com uma bola de papel...</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_VIII" id="CAPITULO_VIII">CAPITULO VIII</a></h5>
-
-
-<h4>Razão contra Sandice</h4>
-
-
-<p>Já o leitor comprehendeu que era a Razão que voltava á casa, e
-convidava a Sandice a sair, clamando, e com melhor jus, as palavras de
-Tartufo:</p>
-
-<p>
-La maison est à moi, c'est à vous d'en sortir.<br />
-</p>
-
-<p>Mas é sestro antigo da Sandice criar amor ás casas alheias, de modo
-que, apenas senhora de uma, difficilmente lh'a farão despejar. É
-sestro; não se tira dahi; ha muito que lhe callejou a vergonha. Agora,
-se advertirmos no immenso numero de casas que occupa, umas de vez,
-outras durante as suas estações calmosas, concluiremos que esta amavel
-peregrina é o terror dos proprietarios. No nosso caso, houve quasi
-um disturbio á porta do meu cerebro, porque a adventicia não queria
-entregar a casa, e a dona não cedia da intenção de tomar o que era seu.
-Afinal, já a Sandice se contentava com um cantinho no sotão.</p>
-
-<p>&mdash;Não, senhora, replicou a Razão, estou cançada de lhe ceder sotãos,
-cançada e experimentada, o que você quer é passar mansamente do sotão á
-sala de jantar, dahi á de visitas e ao resto.</p>
-
-<p>&mdash;Está bem, deixe-me ficar algum tempo mais, estou na pista de um
-mysterio.</p>
-
-<p>&mdash;Que mysterio?</p>
-
-<p>&mdash;De dous, emendou a Sandice; o da vida e o da morte; peço-lhe só uns
-dez minutos.</p>
-
-<p>A Razão poz-se a rir.</p>
-
-<p>&mdash;Has de ser sempre a mesma cousa... sempre a mesma cousa... sempre a
-mesma cousa...</p>
-
-<p>E, dizendo isto, travou-lhe dos pulsos e arrastou-a para fóra; depois
-entrou e fechou-se. A Sandice ainda gemeu algumas supplicas; ainda
-grunhiu algumas zangas; mas desenganou-se depressa, deitou a lingua de
-fóra, em ar de surriada, e foi andando... foi andando... Provavelmente
-andará até á consummação dos seculos.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_IX" id="CAPITULO_IX">CAPITULO IX</a></h5>
-
-
-<h4>Transição</h4>
-
-
-<p>E vejam agora com que destreza, com que fina arte faço eu a maior
-transição deste livro. Vejam: o meu delirio começou em presença
-de Virgilia; Virgilia foi o meu grão peccado da juventude; não ha
-juventude sem meninice; meninice suppõe nascimento; e eis aqui como
-chegamos nós, sem esforço, ao dia 20 de outubro de 1805, em que nasci.
-Viram? Nenhuma juntura apparente, nada que divirta a attenção pausada
-do leitor; nada. De modo que o livro fica assim com todas as vantagens
-do methodo, sem a rigidez do methodo. Na verdade, era tempo. Que isto
-de methodo, sendo, como é, uma cousa indispensavel, todavia é melhor
-tel-o sem gravata nem suspensorios, mas um pouco á fresca e á solta,
-como quem não se lhe dá da visinha fronteira, nem do inspector de
-quarteirão. É como a eloquencia, que ha uma genuina e vibrante, de uma
-arte natural e feiticeira, e outra tesa, engommada e chocha. Vamos ao
-dia 20 de Outubro.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_X" id="CAPITULO_X">CAPITULO X</a></h5>
-
-
-<h4>Naquelle dia...</h4>
-
-
-<p>Naquelle dia, a arvore dos Cubas brotou uma graciosa flor. Nasci;
-recebeu-me nos braços a Pascoela, insigne parteira minhota, que
-se gabava de ter aberto a porta do mundo a uma geração inteira de
-fidalgos. Não é impossivel que meu pae lhe ouvisse tal declaração;
-creio, todavia, que o sentimento paterno é que o induziu a gratifical-a
-com duas meias dobras. Lavado e enfaixado, fui desde logo o heroe da
-nossa casa. Cada qual prognosticava a meu respeito o que mais lhe
-quadrava ao sabor. Meu tio João, o antigo official de infantaria,
-achava-me um certo olhar de Bonaparte, cousa que meu pae não pôde ouvir
-sem nauseas; meu tio Ildefonso, então simples padre, farejava-me conego.</p>
-
-<p>&mdash;Conego é o que elle ha de ser, e não digo mais por não parecer
-orgulho; mas não me admiraria nada se Deus o destinasse á um bispado...
-É verdade, um bispado; não é cousa impossivel. Que diz você, mano
-Bento?</p>
-
-<p>Meu pae respondia a todos que eu seria o que Deus quizesse; e alçava-me
-ao ar, como se intentasse mostrar-me á cidade e ao mundo; perguntava a
-todos se eu me parecia com elle, se era intelligente, bonito...</p>
-
-<p>Digo essas cousas por alto, segundo as ouvi narrar annos depois; ignoro
-a mór parte dos pormenores daquelle famoso dia. Sei que a visinhança
-veiu ou mandou comprimentar o recem-nascido, e que durante as primeiras
-semanas muitas foram as visitas em nossa casa. Não houve cadeirinha
-que não trabalhasse; aventou-se muita casaca e muito calção; e se hão
-conto os mimos, os beijos, as admirações, as bençãos, é porque, se os
-contasse, não acabaria mais o capitulo, e é preciso acabal-o.</p>
-
-<p>Item, não posso dizer nada do meu baptizado, porque nada me referiram
-a tal respeito, a não ser que foi uma das mais galhardas festas do
-anno seguinte, 1806; baptizei-me na egreja de S. Domingos, uma terça
-feira de março, dia claro, luminoso e puro, sendo padrinhos o coronel
-Rodrigues de Mattos e sua senhora. Um e outro descendiam de velhas
-familias do norte e honravam devéras o sangue que lhes corria nas
-veias, outr'ora derramado na guerra contra Hollanda. Cuido que os nomes
-de ambos foram das primeiras cousas que aprendi; e certamente os dizia
-com muita graça, ou revelava algum talento precoce, porque não havia
-pessoa extranha diante de quem me não obrigassem a recital-os.</p>
-
-<p>&mdash;Nhonhô, diga a estes senhores como é que se chama seu padrinho.</p>
-
-<p>&mdash;Meu padrinho? é o coronel Paulo Vaz Lobo Cezar de Andrade e Souza
-Rodrigues de Mattos; minha madrinha é a Excellentissima Senhora D.
-Maria Luiza de Macedo Rezende e Souza Rodrigues de Mattos.</p>
-
-<p>&mdash;É muito esperto o seu menino, commentavam os ouvintes.</p>
-
-<p>&mdash;Muito esperto, concordava meu pae; e os olhos babavam-se-lhe de
-orgulho, e elle espalmava a mão sobre a minha cabeça, fitava-me longo
-tempo, namorado, cheio de si.</p>
-
-<p>Item, comecei a andar, não sei bem quando, mas antes do tempo. Talvez
-por apressar a natureza, obrigavam-me cedo a agarrar ás cadeiras,
-pegavam-me da fralda, davam-me carrinhos de páu.&mdash;Só só, nhonhô, só só,
-dizia-me a mucama. E eu, attrahido pelo chocalho de lata, que minha mãe
-agitava diante de mim, lá ia para a frente, cahe aqui, cahe acolá; e
-andava, provavelmente mal, mas andava, e fiquei andando.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XI" id="CAPITULO_XI">CAPITULO XI</a></h5>
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-<h4>O menino é pai do homen.</h4>
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-<p>Cresci; e nisso é que a familia não interveiu; cresci naturalmente,
-como crescem as magnolias e os gatos. Talvez os gatos são menos
-matreiros, e, com certeza, as magnolias são menos inquietas do que eu
-era na minha infancia. Um poeta dizia que o menino é pae do homem. Se
-isto é verdade, vejamos alguns lineamentos do menino.</p>
-
-<p>Desde os cinco annos merecera eu a alcunha de «menino diabo»; e
-verdadeiramente não era outra cousa; fui dos mais malignos do meu
-tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um
-dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negára uma colhér do
-doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o maleficio,
-deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura,
-fui dizer a minha mãe que a escrava é que estragára o doce «por
-pirraça»; e eu tinha apenas seis annos. Prudencio, um moleque de casa,
-era o meu cavallo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um
-cordel nos queixos, á guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma
-varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e elle
-obedecia,&mdash;algumas vezes gemendo,&mdash;mas obedecia sem dizer palavra,
-ou, quando muito, um&mdash;«ai, nhonhô!»&mdash;ao que eu retorquia:&mdash;«Cala a
-boca, besta!»&mdash;Esconder os chapéos das visitas, deitar rabos de papel
-a pessoas graves, puxar pelo rabicho das cabelleiras, dar beliscões
-nos braços das matronas, e outras muitas façanhas deste jaez, eram
-mostras de um genio indocil, mas devo crer que eram tambem expressões
-de um espirito robusto, porque meu pae tinha-me em grande admiração;
-e se ás vezes me reprehendia, á vista de gente, fazia-o por simples
-formalidade: em particular dava-me beijos.</p>
-
-<p>Não se conclua daqui que eu levasse todo o resto da minha vida a
-quebrar a cabeça dos outros nem a esconder-lhes os chapéos; mas
-opiniatico, egoista e algo contemptor dos homens, isso fui; se não
-passei o tempo a esconder-lhes os chapéos, alguma vez lhes puxei pelo
-rabicho das cabelleiras.</p>
-
-<p>Outrosim, affeiçoei-me á contemplação da injustiça humana, inclinei-me
-a attenual-a, a explical-a, a classifical-a por partes, a entendel-a,
-não segundo um padrão rigido, mas ao sabor das circumstancias e
-logares. Minha mãe doutrinava-me a seu modo, fazia-me decorar alguns
-preceitos e orações; mas eu sentia que, mais do que as orações, me
-governavam os nervos e o sangue, e a boa regra perdia o espirito, que
-a faz viver, para se tornar uma vã formula. De manhã, antes do mingáu,
-e de noite, antes da cama, pedia a Deus que me perdoasse, assim como
-eu perdoava aos meus devedores; mas entre a manhã e a noite fazia uma
-grande maldade, e meu pae, passado o alvoroço, dava-me pancadinhas na
-cara, e exclamava a rir: Ah! bregeiro! ah! bregeiro!</p>
-
-<p>Sim, meu pae adorava-me, tinha-me esse amor sem merito, que é um
-simples e forte impulso da carne; amor que a razão não contrasta
-nem rége. Minha mãe era uma senhora fraca, de pouco cerebro e muito
-coração, assaz credula, sinceramente piedosa,&mdash;caseira, apezar de
-bonita, e modesta, apezar de abastada; temente ás trovoadas e ao
-marido. O marido era na terra o seu deus. Da collaboração dessas duas
-creaturas nasceu a minha educação, que, se tinha alguma cousa boa, era
-no geral viciosa, incompleta, e, em partes, negativa. Meu tio conego
-fazia ás vezes alguns reparos ao irmão; dizia-lhe que elle me dava
-mais liberdade do que ensino, e mais affeição do que emenda; mas meu
-pae respondia que applicava na minha educação um systema inteiramente
-superior ao systema usado; e por este modo, sem confundir o irmão,
-illudia-se a si proprio.</p>
-
-<p>Havia em minha mãe uma sombra de melancholia, que eu herdei, como
-herdei de meu pae a fatuidade. Os aspectos da vida accrescentaram-lhe a
-natural tendencia. Tinha coração de mais, uma sensibilidade melindrosa,
-exigente, doentia.</p>
-
-<p>De envolta com a transmissão e a educação, houve ainda o exemplo
-extranho, o meio domestico. Vimos os paes; vejamos os tios. Um delles,
-o João, era um homem de lingua solta, vida galante, conversa picaresca.
-Desde os onze annos entrou a admittir-me ás anecdotas, reaes ou não,
-eivadas todas de obscenidade ou immundicie. Não me respeitava a
-adolescencia, como não respeitava a batina do irmão; com a differença
-que este fugia logo que elle enveredava por assumpto escabroso. Eu não;
-deixava-me estar, sem entender nada, a principio, depois entendendo, e
-emfim achando-lhe graça. No fim de certo tempo, quem o procurava era
-eu; e elle gostava muito de mim, dava-me doces, levava-me a passeio. Em
-casa, quando lá ia passar alguns dias, não poucas vezes me aconteceu
-achal-o, no fundo da chacara, no lavadouro, a palestrar com as escravas
-que batiam roupa; e ahi é que era um desfiar de anecdotas, de ditos,
-de perguntas, e um estalar de risadas, que ninguem podia ouvir, porque
-o lavadouro ficava muito longe de casa. As pretas, com uma tanga
-no ventre, a arregaçar-lhes um palmo dos vestidos, umas dentro do
-tanque, outras fóra, inclinadas sobre as peças de roupa, a batel-as, a
-ensaboal-as, a torcel-as, iam ouvindo e redarguindo ás pilherias do tio
-João, e a commental-as de quando em quando com esta palavra:</p>
-
-<p>&mdash;Cruz, diabo!... Este sinhô João é o diabo!</p>
-
-<p>Bem differente era o tio conego. Esse tinha muita austeridade e
-pureza; taes dotes, comtudo, não realçavam um espirito superior,
-apenas compensavam um espirito mediocre. Não era homem que visse a
-parte substancial da egreja; via o lado externo, a hierarchia, as
-preeminencias, as sobrepelizes, as circumflexões. Vinha antes da
-sacristia que do altar. Uma lacuna no ritual excitava-o mais do que
-uma infracção dos mandamentos. Agora, a tantos annos de distancia,
-não estou certo se elle poderia atinar facilmente com um trecho de
-Tertuliano, ou expor, sem titubear, a historia do symbolo de Nicéa;
-mas ninguem, nas festas cantadas, sabia melhor o numero e caso das
-cortezias que se deviam ao officiante. Conego foi a unica ambição de
-sua vida; e dizia de coração que era a maior dignidade a que podia
-aspirar. Piedoso, severo nos costumes, minucioso na observancia das
-regras, frouxo, acanhado, subalterno, possuia algumas virtudes, em que
-era exemplar, mas carecia absolutamente da força de as incutir, de as
-impôr aos outros.</p>
-
-<p>Não digo nada de minha tia materna, D. Emerenciana, e aliás era a
-pessoa que mais autoridade tinha sobre mim; essa differençava-se
-grandemente dos outros; mas viveu pouco tempo em nossa companhia,
-uns dous annos. Outros parentes e alguns intimos não merecem a pena
-de ser citados; não tivemos uma vida commum, mas intermittente, com
-grandes claros de separação. O que importa é a expressão geral do meio
-domestico, e essa ahi fica indicada,&mdash;vulgaridade de caracteres, amor
-das apparencias rutilantes, do arruido, frouxidão da vontade, dominio
-do capricho, e o mais. Dessa terra e desse estrume é que nasceu esta
-flôr.</p>
-
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-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XII" id="CAPITULO_XII">CAPITULO XII</a></h5>
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-
-<h4>Um episodio de 1814</h4>
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-
-<p>Mas eu não quero passar adeante, sem contar summariamente um galante
-episodio de 1814; tinha nove annos.</p>
-
-<p>Napoleão, quando eu nasci, estava já em todo o explendor da gloria
-e do poder; era imperador e grangeára inteiramente a admiração dos
-homens. Meu pae, que á força de persuadir os outros da nossa nobreza,
-acabara persuadindo-se a si proprio, nutria contra elle um odio
-puramente mental. Era isso motivo de renhidas contendas em nossa casa,
-porque meu tio João, não sei se por espirito de classe e sympathia de
-officio, perdoava no despota o que admirava no general, meu tio padre
-era inflexivel contra o corso, os outros parentes dividiam-se; dahi as
-controversias e as rusgas.</p>
-
-<p>Chegando ao Rio de Janeiro a noticia da primeira quéda de Napoleão,
-houve naturalmente grande abalo em nossa casa, mas nenhum chasco ou
-remoque. Os vencidos, testemunhas do regozijo publico, julgaram mais
-decoroso o silencio; alguns foram além e bateram palmas. A população,
-cordialmente alegre, não regateou demonstrações de affecto á real
-familia; houve illuminações, salvas, <i>Te-Deum</i>, cortejo e acclamações.
-Figurei nesses dias com um espadim novo, que meu padrinho me dera no
-dia de Santo Antonio; e, francamente, interessava-me mais o espadim
-do que a quéda de Bonaparte. Nunca me esqueceu esse phenomeno. Nunca
-mais deixei de pensar commigo que o nosso espadim é sempre maior do que
-a espada de Napoleão. E notem que eu ouvi muito discurso, quando era
-vivo, li muita pagina rumorosa de grandes idéas e maiores palavras, mas
-não sei porque, no fundo dos applausos que me arrancavam da boca, lá
-echoava alguma vez este conceito de experimentado:</p>
-
-<p>&mdash;Vae-te embora, tu só cuidas do espadim.</p>
-
-<p>Não se contentou a minha familia em ter um quinhão anonymo no regozijo
-publico; entendeu opportuno e indispensavel celebrar a destituição
-do imperador com um jantar, e tal jantar que o ruido das acclamações
-chegasse aos ouvidos de Sua Alteza, ou, quando menos, de seus
-ministros. Dito e feito. Veiu abaixo toda a velha prataria, herdada do
-meu avô Luiz Cubas; vieram as toalhas de Flandres, as grandes jarras
-da India; matou-se um capado; encommendaram-se ás madres da Ajuda as
-compotas e marmeladas; lavaram-se, arearam-se, poliram-se as salas,
-escadas, castiçaes, arandellas, as vastas mangas de vidro, todos os
-apparelhos do luxo classico.</p>
-
-<p>Dada a hora, achou-se reunida uma sociedade selecta, o juiz de fóra,
-tres ou quatro officiaes militares, alguns commerciantes e lettrados,
-varios funccionarios da administração, uns com suas mulheres e filhas,
-outros sem ellas, mas todos commungando no desejo de atolar a memoria
-de Bonaparte no papo de um perú. Não era um jantar, mas um <i>Te-Deum</i>;
-foi o que pouco mais ou menos disse um dos lettrados presentes, o
-Dr. Villaça, glosador insigne, que accrescentou aos pratos de casa o
-acepipe das musas. Lembra-me, como se fosse hontem, lembra-me de o ver
-erguer-se, com a sua longa cabelleira de rabicho, casaca de seda, uma
-esmeralda no dedo, pedir a meu tio padre que lhe repetisse o mote,
-e, repetido o mote, cravar os olhos na testa de uma senhora, depois
-tossir, alçar a mão direita, toda fechada, menos o dedo indice, que
-apontava para o tecto; e, assim posto e composto, devolver o mote
-glosado. Não fez uma glosa, mas tres; depois jurou aos seus deuses não
-acabar mais. Pedia um mote, davam-lh'o, elle glosava-o promptamente,
-e logo pedia outro e mais outro; a tal ponto que uma das senhoras
-presentes não pôde calar a sua grande admiração.</p>
-
-<p>&mdash;A senhora diz isso, retorquia modestamente o Villaça, porque nunca
-ouviu o Bocage, como eu ouvi, no fim do seculo, em Lisboa. Aquillo sim!
-que facilidade! e que versos! Tivemos lutas de uma e duas horas, no
-botequim do Nicola, a glosarmos, no meio de palmas e bravos. Immenso
-talento o do Bocage! Era o que me dizia, ha dias, a Sra. duqueza de
-Cadaval...</p>
-
-<p>E estas tres palavras ultimas, expressas com muita emphasis, produziram
-em toda a assembléa um fremito de admiração e pasmo. Pois esse homem
-tão dado, tão simples, além de pleitear com poetas, discreteava com
-duquezas! Um Bocage e uma Cadaval! Ao contacto de tal homem, as
-damas sentiam-se superfinas; os varões olhavam-n'o com respeito,
-alguns com inveja, não raros com incredulidade. Elle, entretanto,
-ia caminho, a accummular adjectivo sobre adjectivo, adverbio sobre
-adverbio, a desfiar todas as rimas de <i>tyranno</i> e de <i>usurpador.</i> Era
-á sobremeza; ninguem já pensava em comer. No intervallo das glosas,
-corria um borborinho alegre, um palavrear de estomagos satisfeitos;
-os olhos, molles e humidos, ou vivos e calidos, espreguiçavam-se ou
-saltitavam de uma ponta a outra da meza, atulhada de doces e fructas,
-aqui o ananaz em fatias, alli o melão em talhadas, as compoteiras de
-crystal deixando ver o doce de coco, finamente ralado, amarello como
-uma gemma,&mdash;ou então o melado escuro e grosso, não longe do queijo
-e do cará. De quando em quando um riso jovial, amplo, desabotoado,
-um riso de familia, vinha quebrar a gravidade politica do banquete.
-No meio do interesse grande e commum, agitavam-se tambem os pequenos
-e particulares. As moças fallavam das modinhas que haviam de cantar
-ao cravo, e do minuete e do solo inglez; nem faltava matrona que
-promettesse bailar um oitavado de compasso, só para mostrar como
-folgára nos seus bons tempos de criança. Um sujeito, ao pé de mim, dava
-a outro noticia recente dos negros novos, que estavam a vir, segundo
-cartas que recebera de Loanda, uma carta em que o sobrinho lhe dizia
-ter já negociado cerca de quarenta cabeças, e outra-carta em que...
-Trazia-as justamente na algibeira, mas não as podia ler naquella
-occasião. O que afiançava é que podiamos contar, só nessa viagem, uns
-cento e vinte negros, pelo menos.</p>
-
-<p>&mdash;Trás...trás...trás...fazia o Villaça batendo com as mãos uma na
-outra. O rumor cessava de subito, como um estacado de orchestra,
-e todos os olhos se voltavam para o glosador. Quem ficava longe
-aconcheava a mão atraz da orelha para não perder palavra; a mór parte,
-antes mesmo da glosa, tinha já um meio riso de applauso, trivial e
-candido.</p>
-
-<p>Quanto a mim, lá estava, solitario e deslembrado, a namorar uma
-certa compota da minha feição. No fim de cada glosa ficava muito
-contente, esperando que fosse a ultima; mas não era, e a sobremeza
-continuava intacta. Ninguem se lembrava de dar a primeira voz. Meu
-pae, á cabeceira, saboreava a goles extensos, a alegria dos convivas,
-mirava-se todo nos carões alegres, nos pratos, nas flores, deliciava-se
-com a familiaridade travada entre os mais distantes espiritos, influxo
-de um bom jantar. Eu via isso, porque arrastava os olhos da compota
-para elle e delle para a compota, como a pedir-lhe que m'a servisse;
-mas fazia-o em vão. Elle não via nada; via-se a si mesmo. E as glosas
-succediam-se, como bategas d'agua, obrigando-me a recolher o desejo e
-o pedido. Pacientei quanto pude; e não pude muito. Pedi em voz baixa o
-doce; emfim, bradei, berrei, bati com os pés. Meu pae, que seria capaz
-de me dar o sol, se eu lh'o exigisse, chamou um escravo para me servir
-o doce; mas era tarde. A tia Emerenciana arrancára-me da cadeira e
-entregára-me a uma escrava, não obstante os meus gritos e repellões.</p>
-
-<p>Não foi outro o delicto do glosador: retardára a compota e dera causa
-á minha exclusão. Tanto bastou para que eu cogitasse uma vingança,
-qualquer que fosse, mas grande e exemplar, cousa que de alguma maneira
-o tornasse ridiculo. Que elle era um homem grave o Dr. Villaça, medido
-e lento, quarenta e sete annos, casado e pae. Não me contentava o
-rabo de papel nem o rabicho da cabelleira; havia de ser cousa peor.
-Entrei a espreital-o, durante o resto da tarde, a seguil-o, na chacara,
-aonde todos desceram a passear. Vi-o conversar com D. Eusebia, irmã do
-sargento-mór Domingues, uma robusta donzellona, que se não era bonita,
-tambem não era feia.</p>
-
-<p>&mdash;Estou muito zangada com o senhor, dizia ella.</p>
-
-<p>&mdash;Porque?</p>
-
-<p>&mdash;Porque ... não sei porque ... porque é a minha sina ... creio ás
-vezes que é melhor morrer...</p>
-
-<p>Tinham penetrado n'uma pequena moita; era lusco-fusco; eu segui-os. O
-Villaça levava nos olhos umas chispas de vinho e de volupia.</p>
-
-<p>&mdash;Deixe-me, disse ella.</p>
-
-<p>&mdash;Ninguem nos vê. Morrer, meu anjo? Que idéas são essas! Você sabe que
-eu morrerei tambem ... que digo?... morro todos os dias, de paixão, de
-saudades...</p>
-
-<p>D. Eusebia levou o lenço aos olhos. O glosador vasculhava na memoria
-algum pedaço litterario, e achou este, que mais tarde verifiquei ser de
-uma das operas do Judeu:</p>
-
-<p>&mdash;Não chores, meu bem; não queiras que o dia amanheça com duas auroras.</p>
-
-<p>Disse isto; puxou-a para si; ella resistiu um pouco, mas deixou-se ir;
-uniram os rostos, e eu ouvi estalar, muito ao de leve, um beijo, o mais
-medroso dos beijos.</p>
-
-<p>&mdash;O Dr. Villaça deu um beijo em D. Eusebia! bradei eu correndo pela
-chacara.</p>
-
-<p>Foi um estouro esta minha palavra; a estupefacção immobilisou a todos;
-os olhos espraiavam-se a uma e outra banda; trocavam-se sorrisos,
-segredos, á socapa, as mães arrastavam as filhas, pretextando o sereno.
-Meu pae puxou-me as orelhas, disfarçadamente, irritado devéras com
-a indiscrição; mas no dia seguinte, ao almoço, lembrando o caso,
-sacudiu-me o nariz, a rir:&mdash;Ah! brejeiro! ah! brejeiro!</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XIII" id="CAPITULO_XIII">CAPITULO XIII</a></h5>
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-<h4>Um salto</h4>
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-
-<p>Unamos agora os pés e demos um salto por cima da eschola, a enfadonha
-eschola, onde aprendi a ler, escrever, contar, dar cacholetas,
-apanhal-as, e ir fazer diabruras, ora nos morros, ora nas praias, onde
-quer que fosse propicio a ociosos.</p>
-
-<p>Tinha amarguras esse tempo; tinha os ralhos, os castigos, as lições
-arduas e longas, e pouco mais, mui pouco e mui leve. Só era pesada a
-palmatoria, e ainda assim... Ó palmatoria, terror dos meus dias pueris,
-tu que foste o <i>compelle intrare</i> com que um velho mestre, ossudo e
-calvo, me incutiu no cerebro o alphabeto, a prosodia, a syntaxe, e o
-mais que elle sabia, benta palmatoria, tão praguejada dos modernos,
-quem me dera ter ficado sob o teu jugo, com a minha alma imberbe, as
-minhas ignorancias, e o meu espadim, aquelle espadim de 1814, tão
-superior á espada de Napoleão! Que querias tu, afinal, meu velho mestre
-de primeiras lettras? Lição de cór e compostura na aula; nada mais,
-nada menos do que quer a vida, que é a mestra das ultimas lettras;
-com a differenca que tu, se me mettias medo, nunca me metteste zanga.
-Vejo-te ainda agora entrar na sala, com as tuas chinellas de couro
-branco, capote, lenço na mão, calva á mostra, barba rapada; vejo-te
-sentar, bufar, grunhir, absorver uma pitada inicial, e chamar-nos
-depois á lição. E fizeste isto durante vinte e tres annos, calado,
-obscuro, pontual, mettido n'uma casinha da rua do Piolho, sem enfadar
-o mundo com a tua mediocridade, até que um dia déste o grande mergulho
-nas trevas, e ninguem te chorou, salvo um preto velho,&mdash;ninguem, nem
-eu, que te devo os rudimentos da escripta.</p>
-
-<p>Chamava-se Ludgero o mestre; quero escrever-lhe o nome todo nesta
-pagina: Ludgero Barata,&mdash;um nome funesto, que servia aos meninos de
-eterno mote a chufas. Um de nós, o Quincas Borba, esse então era cruel
-com o pobre homem. Duas, tres vezes por semana, havia de lhe deixar na
-algibeira das calças,&mdash;umas largas calças de enfiar&mdash;, ou na gaveta
-da mesa, ou ao pé do tinteiro, uma barata morta. Se elle a encontrava
-ainda nas horas da aula, dava um pulo, circulava os olhos chammejantes,
-dizia-nos os ultimos nomes; eramos sevandijas, capadocios, mal criados,
-moleques.&mdash;Uns tremiam, outros rosnavam; o Quincas Borba, porém,
-deixava-se estar quieto, com os olhos espetados no ar.</p>
-
-<p>Uma flôr, o Quincas Borba. Nunca em minha infancia, nunca em toda a
-minha vida, achei um menino mais gracioso, inventivo e travesso. Era
-a flôr, e não já da eschola, senão de toda a cidade. A mãe, viuva,
-com alguma cousa de seu, adorava o filho e trazia-o amimado, aceiado,
-enfeitado, com um vistoso pagem atraz, um pagem que nos deixava gazear
-a eschola, ir caçar ninhos de passaros, ou perseguir lagartixas no
-morro do Livramento e da Conceição, ou simplesmente arruar, á toa,
-como dous peraltas sem emprego. E de imperador! Era um gosto ver o
-Quincas Borba fazer de imperador nas festas do Espirito Santo. De
-resto, nos nossos jogos pueris, elle escolhia sempre um papel de rei,
-ministro, general, uma supremacia, qualquer que fosse. Tinha garbo o
-traquinas, e gravidade, certa magnificencia nas attitudes, nos meneios.
-Quem diria que... Suspendamos a penna; não adeantemos os successos.
-Fujamos sobretudo desse passado tão remoto, tão coberto, ai de mim! de
-cruzes funebres. Vamos do um salto a 1822, data da nossa independencia
-politica, e do meu primeiro captiveiro pessoal.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XIV" id="CAPITULO_XIV">CAPITULO XIV</a></h5>
-
-
-<h4>O primeiro beijo</h4>
-
-
-<p>Tinha dezesete annos; pungia-me um buçosinho que eu forcejava por
-trazer a bigode. Os olhos, vivos e resolutos, eram a minha feição
-verdadeiramente mascula. Como ostentasse certa arrogancia, não se
-distinguia bem se era uma criança com fumos de homem, se um homem
-com ares de menino. Ao cabo, era um lindo garção, lindo e audaz, que
-entrava na vida de botas e esporas, chicote na mão e sangue nas veias,
-cavalgando um corsel nervoso, rijo, veloz, como o corsel das antigas
-balladas, que o romantismo foi buscar ao castello medieval, para dar
-com elle nas ruas do nosso seculo. O peor é que o estafaram a tal
-ponto, que foi preciso deital-o á margem, onde o realismo o veiu achar,
-comido de lazeira e vermes, e, por compaixão, o transportou para os
-seus livros.</p>
-
-<p>Sim, eu era esse garção bonito, airoso, abastado; e facilmente
-se imagina que mais de uma dama inclinou deante de mim a fronte
-pensativa, ou levantou para mim os olhos cobiçosos. De todas porém a
-que me captivou logo foi um ... uma ... não sei se diga; este livro é
-casto, ao menos na intenção; na intenção é castissimo. Mas vá lá; ou se
-ha de dizer tudo ou nada. A que me captivou foi uma dama hespanhola,
-Marcella, a «linda Marcella», como lhe chamavam os rapazes do tempo.
-E tinham razão os rapazes. Era filha de um hortelão das Asturias;
-disse-m'o ella mesma, n'um dia de sinceridade, porque a opinião aceita
-é que nascera de um lettrado de Madrid, victima da invasão franceza,
-ferido, encarcerado, espingardeado, quando ella tinha apenas doze
-annos. <i>Cosas de España.</i> Quem quer que fosse, porém, o pae, lettrado
-ou hortelão, a verdade é que Marcella não possuia a innocencia rustica,
-e mal chegava a entender a moral do codigo. Era boa moça, lepida,
-sem escrupulos, um pouco tolhida pela austeridade do tempo, que lhe
-não permittia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e berlindas;
-luxuosa, impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes. Naquelle anno,
-morria ella de amores por um certo Xavier, sujeito abastado e
-tisico,&mdash;uma perola.</p>
-
-<p>Vi-a, pela primeira vez, no Rocio Grande, na noite das luminarias, logo
-que constou a declaração da independencia, uma festa de primavera, um
-amanhecer da alma publica. Eramos dous rapazes, o povo e eu; vinhamos
-da infancia, com todos os arrebatamentos da juventude. Vi-a sahir
-de uma cadeirinha, airosa e vistosa, um corpo esbelto, ondulante,
-um desgarre, alguma cousa que nunca achara nas mulheres puras.
-&mdash;Segue-me, disse ella ao pagem. E eu segui-a, tão pagem como o outro,
-como se a ordem me fosse dada, deixei-me ir namorado, vibrante, cheio
-das primeiras auroras. A meio caminho, chamaram-lhe «linda Marcella»,
-lembrou-me que ouvira tal nome a meu tio João, e fiquei, confesso que
-fiquei tonto.</p>
-
-<p>Tres dias depois perguntou-me meu tio, em segredo, se queria ir a uma
-ceia de moças, nos Cajueiros. Fomos; era em casa de Marcella. O Xavier,
-com todos os seus tuberculos, presidia ao banquete nocturno, em que
-eu pouco ou nada comi, porque só tinha olhos para a dona da casa.
-Que gentil que ella estava a hespanhola! Havia mais uma meia duzia
-de mulheres,&mdash;todas de partido&mdash;, e bonitas, cheias de graça, mas a
-hespanhola... O enthusiasmo, alguns goles de vinho, o genio imperioso,
-estouvado, tudo isso me levou a fazer uma cousa unica; á sahida, á
-porta da rua, disse a meu tio que esperasse um instante, e tornei a
-subir as escadas.</p>
-
-<p>&mdash;Esqueceu alguma cousa? perguntou Marcella de pé, no patamar.</p>
-
-<p>&mdash;O lenço.</p>
-
-<p>Ella ia abrir-me caminho para tornar á sala; eu segurei-lhe nas mãos,
-puxei-a para mim, e dei-lhe um beijo. Não sei se ella disse alguma
-cousa, se gritou, se chamou alguem; não sei nada; sei que desci outra
-vez as escadas, veloz como um tufão, e incerto como um ebrio.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XV" id="CAPITULO_XV">CAPITULO XV</a></h5>
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-
-<h4>Marcella</h4>
-
-
-<p>Gastei trinta dias para ir do Rocio Grande ao coração de Marcella,
-não já cavalgando o corsel do cégo desejo, mas o asno da paciencia,
-a um tempo manhoso e teimoso. Que, na verdade, ha dous meios de
-grangear a vontade das mulheres: o violento, como o touro de Europa,
-e o insinuativo, como o cysne de Leda e a chuva de ouro de Danae,
-tres inventos do padre Zeus, que, por estarem fóra da moda, ahi ficam
-trocados no cavallo e no asno. Não direi as traças que urdi, nem
-as pitas, nem as alternativas de confiança e temor, nem as esperas
-baldadas, nem nenhuma outra dessas cousas preliminares. Affirmo-lhes
-que o asno foi digno do corsel,&mdash;um asno de Sancho, deveras philosopho,
-que me levou á casa della, no fim do citado periodo; apeei-me, bati-lhe
-na anca e mandei-o pastar.</p>
-
-<p>Primeira commoção da minha juventude, que doce que me foste! Tal devia
-ser, na creação biblica, o effeito do primeiro sol. Imagina tu esse
-effeito do primeiro sol, a bater de chapa na face de um mundo em flor.
-Pois foi a mesma cousa, leitor amigo, e se alguma vez contaste dezoito
-annos, deves lembrar-te que foi assim mesmo.</p>
-
-<p>Teve duas phases a nossa paixão, ou ligação, ou qualquer outro nome,
-que eu de nomes não curo; teve a phase consular e a phase imperial.
-Na primeira, que foi curta, regemos o Xavier e eu, sem que elle
-jamais acreditasse dividir commigo o governo de Roma; mas, quando a
-credulidade não pôde resistir á evidencia, o Xavier depoz as insignias,
-e eu concentrei todos os poderes na minha mão; foi a phase cesariana.
-Era meu o universo; mas, ai triste! não o era de graça. Foi-me preciso
-colligir dinheiro, multiplical-o, invental-o. Primeiro explorei as
-larguezas de meu pae; elle dava-me tudo o que eu lhe pedia, sem
-reprehensão, sem demora, sem frieza; dizia a todos que eu era rapaz
-e que elle o fora tambem. Mas a tal extremo chegou o abuso, que elle
-restringiu um pouco as franquezas, depois mais, depois mais. Então
-recorri a minha mãe, e induzi-a a desviar alguma cousa, que me dava ás
-escondidas. Era pouco; lancei mão de um recurso ultimo: entrei a saccar
-sobre a herança de meu pae, a assignar obrigações, que devia resgatar
-um dia com usura.</p>
-
-<p>&mdash;Na verdade, dizia-me Marcella, quando eu lhe levava alguma seda,
-alguma joia; na verdade, você quer brigar commigo... Pois isto é cousa
-que se faça... um presente tão caro...</p>
-
-<p>E, se era joia, dizia isto a contemplal-a entre os dedos, a procurar
-melhor luz, a ensaial-a em si, e a rir, e a beijar-me com uma
-reincidencia impetuosa e sincera; mas, protestando, derramava-se-lhe
-a felicidade dos olhos, e eu sentia-me feliz com vêl-a assim. Gostava
-muito das nossas antigas dobras de ouro, e eu levava-lhe quantas podia
-obter; Marcella juntava-as todas dentro de uma caixinha de ferro,
-cuja chave ninguem nunca jámais soube onde ficava; escondia-a por
-medo dos escravos. A casa em que morava, nos Cajueiros, era propria.
-Eram solidos e bons os moveis, de jacarandá lavrado, e todas as
-demais alfaias, espelhos, jarras, baixella,&mdash;uma linda baixella da
-India, que lhe doára um desembargador. Baixella do diabo, deste-me
-grandes repellões aos nervos. Disse-o muita vez á própria dona;
-não lhe dissimulava o tedio que me faziam esses e outros despojos
-dos seus amores de antanho. Ella ouvia-me e ria, com uma expressão
-candida,&mdash;candida e outra cousa, que eu nesse tempo não entendia bem;
-mas agora, relembrando o caso, penso que era um riso mixto, como devia
-ter a creatura que nascesse, por exemplo, de uma bruxa de Shakespeare
-com um seraphim de Klopstock. Não sei se me explico. E porque tinha
-noticia dos meus zelos tardios, parece que gostava de os açular mais.
-Assim foi que um dia, como eu lhe não pudesse dar certo collar, que
-ella vira n'um joalheiro, retorquiu-me que era um simples gracejo, que
-o nosso amor não precisava de tão vulgar estimulo.</p>
-
-<p>&mdash;Não lhe perdôo, se você fizer de mim essa triste idéa, concluiu
-ameaçando-me com o dedo.</p>
-
-<p>E logo, subita como um passarinho, espalmou as mãos, cingiu-me com
-ellas o rosto, puxou-me a si e fez um tregeito gracioso, um momo de
-criança. Depois, reclinada na marqueza, continuou a fallar daquillo,
-com simplicidade e franqueza. Jámais consentiria que lhe comprassem os
-affectos. Vendera muita vez as apparencias, mas a realidade, guardava-a
-para poucos. O Duarte, por exemplo, o alferes Duarte, que ella amára
-devéras, dous annos antes, só a custo conseguia dar-lhe alguma cousa de
-valor, como me acontecia a mim; ella só lhe aceitava sem reluctancia os
-mimos de escasso preço, como a cruz de ouro, que lhe deu, uma vez, de
-festas.</p>
-
-<p>&mdash;Esta cruz...</p>
-
-<p>Dizia isto, mettendo a mão no seio e tirando uma cruz fina, de ouro,
-presa a uma fita azul e pendurada ao collo.</p>
-
-<p>&mdash;Mas essa cruz, observei eu, não me disseste que era teu pae que...</p>
-
-<p>Marcella abanou a cabeça com um ar de lastima:</p>
-
-<p>&mdash;Não percebeste que era mentira, que eu dizia isso para te não
-molestar? Vem cá, <i>chiquito</i>, não sejas assim desconfiado commigo...
-Amei a outro; que importa, se acabou? Um dia, quando nos separarmos...</p>
-
-<p>&mdash;Não digas isso! bradei eu.</p>
-
-<p>&mdash;Tudo cessa! Um dia...</p>
-
-<p>Não pôde acabar; um soluço estrangulou-lhe a voz; estendeu as mãos,
-tomou das minhas, conchegou-me ao seio, e sussurrou-me baixo ao
-ouvido:&mdash;Nunca, nunca, meu amor! Eu agradeci-lh'o com os olhos
-humidos. No dia seguinte levei-lhe o collar que havia recusado.</p>
-
-<p>&mdash;Para te lembrares de mim, quando nos separarmos, disse eu.</p>
-
-<p>Marcella teve primeiro um silencio indignado; depois fez um gesto
-magnifico: tentou atirar o collar á rua. Eu retive-lhe o braço;
-pedi-lhe muito que não me fizesse tal desfeita, que ficasse com a joia.
-Sorriu e ficou.</p>
-
-<p>Entretanto, pagava-me á farta os sacrificios; espreitava os meus mais
-reconditos pensamentos; não havia desejo a que não acudisse com alma,
-sem esforço, por uma especie de lei da consciencia e necessidade
-do coração. Nunca o desejo era razoavel, mas um capricho puro, uma
-criancice, vel-a trajar de certo modo, com taes e taes enfeites, este
-vestido e não aquelle, ir a passeio ou outra cousa assim, e ella cedia
-a tudo, risonha e palreira.</p>
-
-<p>&mdash;Você é das Arabias, dizia-me.</p>
-
-<p>E ia pôr o vestido, a renda, os brincos, com uma obediencia de
-encantar.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XVI" id="CAPITULO_XVI">CAPITULO XVI</a></h5>
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-
-<h4>Uma reflexão immoral</h4>
-
-
-<p>Occorre-me uma reflexão immoral, que é ao mesmo tempo uma correcção de
-estylo. Cuido haver dito, no cap. XIII, que Marcella morria de amores
-pelo Xavier. Não morria, vivia. Viver não é a mesma cousa que morrer
-assim o affirmam todos os joalheiros desse mundo, gente muito vista
-na grammatica. Bons joalheiros, que seria do amor se não fossem os
-vossos dixes e fiados? Um terço ou um quinto do universal commercio
-dos corações. Esta é a reflexão immoral que eu pretendia fazer, a qual
-é ainda mais obscura do que immoral, porque não se entende bem o que
-eu quero dizer. O que eu quero dizer é que a mais bella testa do mundo
-não fica menos bella, se a cingir um diadema de pedras finas; nem menos
-bella, nem menos amada. Marcella, por exemplo, que era bem bonita,
-Marcella amou-me...</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XVII" id="CAPITULO_XVII">CAPITULO XVII</a></h5>
-
-
-<h4>Do trapezio e outras cousas</h4>
-
-
-<p>... Marcella amou-me durante quinze mezes e onze contos de réis; nada
-menos. Meu pae, logo que teve aragem dos onze contos, sobresaltou-se
-devéras; achou que o caso excedia as raias de um capricho juvenil.</p>
-
-<p>&mdash;Desta vez, disse elle, vaes para a Europa; vaes cursar uma
-Universidade, provavelmente Coimbra; quero-te para homem serio e não
-para arruador e gatuno. E como eu fizesse um gesto de espanto:&mdash;Gatuno,
-sim, senhor; não é outra cousa um filho que me faz isto...</p>
-
-<p>Saccou da algibeira os meus titulos de divida, já resgatados por elle,
-e sacudiu-m'os na cara;&mdash;Vês, peralta? é assim que um moço deve zelar o
-nome dos seus? Pensas que eu e meus avós ganhámos o dinheiro em casas
-de jogo ou a vadiar pelas ruas? Pelintra! Desta vez ou tomas juizo, ou
-ficas sem cousa nenhuma.</p>
-
-<p>Estava furioso; mas de um furor temperado e curto. Eu ouvi-o calado, e
-nada oppuz á ordem da viagem, como de outras vezes fizera; ruminava, a
-idéa de levar Marcella commigo. Fui ter com ella; expuz-lhe a crise e
-fiz-lhe a proposta. Marcella ouviu-me com os olhos no ar, sem responder
-logo; como insistisse, disse-me que ficava, que não podia ir para a
-Europa.</p>
-
-<p>&mdash;Porque não?</p>
-
-<p>&mdash;Não posso, disse ella com ar dolente; não posso ir respirar aquelles
-ares, emquanto me lembrar de meu pobre pae, morto por Napoleão...</p>
-
-<p>&mdash;Qual delles: o hortelão ou o advogado?</p>
-
-<p>Marcella franziu a testa, cantarolou uma seguidilha, entre dentes;
-depois queixou-se do calor, e mandou vir um copo de aluá. Trouxe-lh'o
-a mucama, n'uma salva de prata, que fazia parte dos meus onze contos.
-Marcella offereceu-me polidamente o refresco; minha resposta foi dar
-com a mão no copo e na salva; entornou-se-lhe o liquido no regaço, a
-preta deu um grito, eu bradei-lhe que se fosse embora. Ficando a sós,
-derramei todo o desespero de meu coração; disse-lhe que ella era um
-monstro, que jámais me tivera amor, que me deixara descer a tudo, sem
-ter ao menos a desculpa da sinceridade; chamei-lhe muitos nomes feios,
-fazendo muitos gestos descompostos. Marcella deixára-se estar sentada,
-a estalar as unhas nos dentes, fria como um pedaço de marmore. Tive
-impetos de a estrangular, de a humiliar ao menos, subjugando-a a meus
-pés. Ia talvez fazel-o; mas a acção trocou-se n'outra; fui eu que me
-atirei aos pés della, contricto e supplice; beijei-lh'os, recordei
-aquelles mezes da nossa felicidade solitaria, repeti-lhe os nomes
-queridos de outro tempo, sentado no chão, com a cabeça entre os joelhos
-della, apertando-lhe muito as mãos; offegante, desvairado, pedi-lhe com
-lagrymas que me não desamparasse... Marcella esteve alguns instantes a
-olhar para mim, calados ambos, até que brandamente me desviou e, com um
-ar enfastiado:</p>
-
-<p>&mdash;Não me aborreça, disse.</p>
-
-<p>Levantou-se, sacudiu o vestido, ainda molhado, e caminhou para a
-alcova.&mdash;Não! bradei eu; não has de entrar... não quero... Ia a
-lançar-lhe as mãos: era tarde; ella entrára e fechara-se.</p>
-
-<p>Sahi desatinado; gastei duas mortaes horas a vaguear pelos bairros mais
-excentricos e desertos, onde fosse difficil dar commigo. Ia mastigando
-o meu desespero, com uma especie de gula morbida; evocava os dias, as
-horas, os instantes de delirio, e ora me comprazia em crer que elles
-eram eternos, que tudo aquillo era um pesadelo, ora, enganando-me a mim
-mesmo, tentava rejeital-os de mim, como um fardo inutil. Então resolvia
-embarcar immediatamente para cortar a minha vida em duas metades, e
-deleitava-me com a idéa de que Marcella, sabendo da partida, ficaria
-ralada de saudades e remorsos. Que ella amara-me a tonta, devia de
-sentir alguma cousa, uma lembrança qualquer, como do alferes Duarte...
-Nisto, o dente do ciume enterrava-se-me no coração; e toda a natureza
-me bradava que era preciso levar Marcella commigo.</p>
-
-<p>&mdash;Por força... por força... dizia eu ferindo o ar com uma punhada.</p>
-
-<p>Emfim, tive uma idéa salvadora... Ah! trapezio dos meus peccados,
-trapezio das concepções abstrusas! A idéa salvadora trabalhou nelle,
-como a do emplasto (cap. II.). Era nada menos que fascinal-a,
-fascinal-a muito, deslumbral-a, arrastal-a; lembrou-me pedir-lhe por
-um meio mais concreto do que a supplica. Não medi as consequencias;
-recorri a um derradeiro emprestimo; fui á rua dos Ourives, comprei a
-melhor joia da cidade, tres diamantes grandes, encastoados n'um pente
-de marfim; corri á casa de Marcella.</p>
-
-<p>Marcella estava reclinada n'uma rede, o gesto molle e cançado, uma das
-pernas pendentes, a ver-se-lhe o pésinho calçado de meia de seda, os
-cabellos soltos, derramados, o olhar quieto e somnolento.</p>
-
-<p>&mdash;Vem commigo, disse eu, arranjei recursos...temos muito dinheiro,
-terás tudo o que quizeres...Olha, toma.</p>
-
-<p>E mostrei-lhe o ponte com os diamantes. Marcella teve um leve
-sobresalto; a pupilla rutilou como a de um gavião faminto; ella ergueu
-metade do corpo, e, apoiada n'um cotovello, olhou para o pente durante
-alguns instantes curtos; depois retirou os olhos; tinha se dominado.
-Então, eu lancei-lhe as mãos aos cabellos, colligi-os, enlacei-os á
-pressa, improvisei um toucado, sem nenhum alinho, e rematei-o com o
-pente de diamantes; recuei, tornei a aproximar-me, corrigi-lhe as
-madeixas, abaixei-as do um lado, busquei alguma symetria naquella
-desordem, tudo com unia minuciosidade e um carinho de mãe.</p>
-
-<p>&mdash;Prompto, disse eu.</p>
-
-<p>&mdash;Doudo! foi a sua primeira resposta.</p>
-
-<p>A segunda foi puxar-me para si, e pagar-me o sacrificio com um beijo, o
-mais ardente de todos. Depois tirou o pente, admirou muito a materia e
-o lavor, olhando a espaços para mim, e abanando a cabeça, com um ar de
-reprehensão:</p>
-
-<p>&mdash;Ora você! dizia.</p>
-
-<p>&mdash;Vens commigo?</p>
-
-<p>Marcella reflectiu um instante. Não gostei da expressão com que
-passeava os olhos de mim para a parede, e da parede para a joia;
-mas toda a má impressão se desvaneceu, quando ella me respondeu
-resolutamente:</p>
-
-<p>&mdash;Vou. Quando embarcas?</p>
-
-<p>&mdash;Daqui a dous ou tres dias.</p>
-
-<p>&mdash;Vou.</p>
-
-<p>Agradeci-lh'o de joelhos. Tinha achado a minha Marcella dos primeiros
-dias, e disse-lh'o; ella sorriu, e foi guardar a joia, emquanto eu
-descia a escada.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XVIII" id="CAPITULO_XVIII">CAPITULO XVIII</a></h5>
-
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-<h4>Visão do corredor</h4>
-
-
-<p>No fim da escada, ao fundo do corredor escuro, parei alguns instantes
-para respirar, apalpar-me, convocar as idéas dispersas, rehaver-me
-emfim no meio de tantas sensações profundas e contrarias. Achava-me
-feliz. Certo é que os diamantes corrompiam-me um pouco a felicidade;
-mas não é menos certo que uma dama bonita pode muito bem amar os gregos
-e os seus presentes. E depois eu confiava na minha boa Marcella; podia
-ter defeitos, mas amava-me...</p>
-
-<p>&mdash;Um anjo! murmurei eu olhando para o tecto do corredor.</p>
-
-<p>E ahi, como um escarneo, vi o olhar de Marcella, aquelle olhar que
-pouco antes me dera uma sombra de desconfiança, o qual chispava de
-cima de um nariz, que era ao mesmo tempo o nariz de Bakbarah e o meu.
-Pobre namorado das <i>Mil e uma noites!</i> Vi-te alli mesmo correr atraz da
-mulher do vizir, ao longo da galeria, ella a acenar-te com a posse,
-e tu a correr, a correr, a correr, até a alameda comprida, donde
-sahiste á rua, onde todos os correeiros te apuparam e desancaram. Então
-pareceu-me que o corredor de Marcella era a alameda, e que a rua era a
-de Bagdad. Com effeito, olhando para a porta, vi na calçada, tres dos
-correeiros, um de batina, outro de libré, outro á paisana, os quaes
-todos tres entraram no corredor, tomaram-me pelos braços, metteram-me
-n'uma sege, meu pae á direita, meu tio conego á esquerda, o da libré
-na boléa, e lá me levaram á casa do intendente de policia, donde fui
-transportado a uma galera que devia seguir para Lisboa. Imaginem se
-resisti; mas toda a resistencia era inutil.</p>
-
-<p>Tres dias depois segui barra fóra, abatido e mudo. Não chorava sequer;
-tinha uma idéa fixa... Malditas idéas fixas! A dessa occasião era dar
-um mergulho no oceano, repetindo o nome de Marcella.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XIX" id="CAPITULO_XIX">CAPITULO XIX</a></h5>
-
-
-<h4>A bordo</h4>
-
-
-<p>Eramos onze passageiros, um homem doudo, acompanhado pela mulher, dous
-rapazes que iam a passeio, quatro commerciantes e dous criados. Meu
-pae recommendou-me a todos, começando pelo capitão do navio, que aliás
-tinha muito que cuidar de si, porque, além do mais, levava a mulher
-tisica em ultimo gráu.</p>
-
-<p>Não sei se o capitão suspeitou alguma cousa do meu funebre projecto, ou
-se meu pae o poz de sobreaviso; sei que não me tirava os olhos de cima;
-chamava-me para toda a parte. Quando não podia estar commigo, levava-me
-para a mulher. A mulher ia quasi sempre n'uma camilha raza, a tossir
-muito, e a afiançar que me havia de mostrar os arredores de Lisboa.
-Não estava magra, estava transparente; era impossivel que não morresse
-de uma hora para outra. O capitão fingia não crer na morte proxima,
-talvez por enganar-se a si mesmo. Eu não sabia nem pensava nada. Que
-me importava a mim o destino de uma mulher tisica, no meio do oceano? O
-mundo para mim era Marcella.</p>
-
-<p>Uma noite, logo no fim do uma semana, achei ensejo propicio para
-morrer. Subi cauteloso, mas encontrei o capitão, que junto á amurada,
-tinha os olhos fitos no horizonte.</p>
-
-<p>&mdash;Algum temporal? disse eu.</p>
-
-<p>&mdash;Não, respondeu elle estremecendo; não; admiro o explendor da noite.
-Veja; está celestial!</p>
-
-<p>O estylo desmentia da pessoa, assaz rude e apparentemente alheia a
-locuções rebuscadas. Fitei-o; elle pareceu saborear o meu espanto.
-No fim de alguns segundos, pegou-me na mão e apontou para a lua,
-perguntando-me porque não fazia uma ode á noite; respondi-lhe que não
-era poeta. O capitão rosnou alguma cousa, deu dous passos, metteu a
-mão no bolso, saccou um pedaço de papel, muito amarrotado; depois, á
-luz de uma lanterna, leu uma ode horaciana sobre a liberdade da vida
-maritima. Eram versos delle.</p>
-
-<p>&mdash;Que tal?</p>
-
-<p>Não me lembra o que lhe disse; lembra-me que elle me apertou a mão
-com muita força e muitos agradecimentos; logo depois recitou-me dous
-sonetos; ia recitar-me outro, quando o vieram chamar da parte da
-mulher.&mdash;Lá vou, disse elle; e recitou-me o terceiro soneto, com pausa,
-com amor.</p>
-
-<p>Fiquei só; mas a musa do capitão varrera-me do espirito os pensamentos
-máus; preferi dormir, que é modo interino de morrer. No dia seguinte,
-acordamos debaixo de um temporal, que metteu medo a toda a gente,
-menos ao doudo; esse entrou a dar pulos, a dizer que a filha o mandava
-buscar, n'uma berlinda; a morte de uma filha fôra a causa da loucura.
-Não, nunca me ha de esquecer a figura hedionda do pobre homem, no
-meio do tumulto das gentes e dos uivos do furacão, a cantarolar e a
-bailar, com os olhos a saltarem-lhe da cara, pallido, a coma hirsuta,
-descomposta. Ás vezes parava, erguia ao ar as mãos ossudas, fazia
-umas cruzes com os dedos, depois um xadrez, depois umas argolas, e ria
-muito, desesperadamente. A mulher não podia já cuidar delle; entregue
-ao terror da morte, rezava por si mesma a todos os santos do céu.
-Emfim, a tempestade amainou depois de longas horas; e confesso que foi
-uma diversão excellente á tempestade do meu coração. Eu, que meditava
-ir ter com a morte, não ousei fital-a quando ella veiu ter commigo.</p>
-
-<p>Amainou o temporal, o capitão veiu perguntar-me se tivera medo, se
-estivera em risco, se não achára sublime o expectaculo; tudo isso com
-um interesse de amigo. Naturalmente a conversa versou sobre a vida do
-mar; o capitão perguntou-me se não gostava de idyllios piscatorios; eu
-respondi-lhe ingenuamente que não sabia o que era.</p>
-
-<p>&mdash;Vae ver, respondeu elle.</p>
-
-<p>E recitou-me um poemasinho, depois outro,&mdash;uma egloga,&mdash;e emfim cinco
-sonetos, com os quaes rematou nesse dia a confidencia litteraria. No
-dia seguinte, antes de me recitar nada, explicou-me o capitão que só
-por motivos graves abraçara a profissão maritima, porque a avó queria
-que elle fosse padre, e com effeito possuia algumas lettras latinas;
-não chegou a ser padre, mas não deixou de ser poeta, que era a sua
-vocação natural; e em prova de que tal era a sua vocação, recitou-me
-logo, de corpo presente, uma centena de versos. Notei um phenomeno: os
-ademanes que elle usava eram taes, que uma vez me fizeram rir; mas o
-capitão, quando recitava, de tal sorte olhava para dentro de si mesmo,
-que não viu nem ouviu nada.</p>
-
-<p>Os dias passavam, e as aguas, e os versos, e com elles ia tambem
-passando a vida da mulher. Estava por pouco. Um dia, logo depois do
-almoço, disse-me o capitão que a enferma talvez não chegasse ao fim da
-semana.</p>
-
-<p>&mdash;Já! exclamei.</p>
-
-<p>&mdash;Passou muito mal a noite.</p>
-
-<p>Fui vel-a; achei-a, na verdade, quasi moribunda, mas fallando ainda de
-descançar em Lisboa alguns dias, antes de ir commigo a Coimbra, porque
-era seu proposito levar-me á Universidade. Deixei-a consternado; fui
-achar o marido a olhar para as vagas, que vinham morrer na costado
-do navio, e tratei de o consolar; elle agradeceu-me, relatou-me a
-historia dos seus amores, elogiou a fidelidade e a dedicação da
-mulher, relembrou os versos que lhe fez, e recitou-m'os. Neste ponto
-vieram buscal-o da parte della; corremos ambos; era uma crise. Esse
-e o dia seguinte foram crueis; o terceiro foi o da morte; eu fugi
-ao expectaculo, tinha-lhe repugnancia. Meia hora depois encontrei o
-capitão, sentado n'um mólho de cabos, com a cabeça nas mãos; disse-lhe
-alguma cousa de conforto.</p>
-
-<p>&mdash;Morreu como uma santa, respondeu elle; e, para que estas palavras
-não pudessem ser levadas á conta de fraqueza, ergueu-se logo, sacudiu
-a cabeça, e fitou o horizonte, com um gesto longo e profundo.&mdash;Vamos,
-continuou, entreguemol-a á cova que nunca mais se abre.</p>
-
-<p>Effectivamente, poucas horas depois, era o cadaver lançado ao mar,
-com as ceremonias do costume. A tristeza murchára todos os rostos;
-o do viuvo trazia a expressão de um cabeço rijamente lascado pelo
-raio. Grande silencio. A vaga abriu o ventre, acolheu o despojo,
-fechou-se,&mdash;uma leve ruga,&mdash;e a galera foi andando. Eu deixei-me estar
-alguns minutos, á popa, com os olhos naquelle ponto incerto do mar em
-que ficava um de nós... Fui dalli ter com o capitão, para distrahil-o.</p>
-
-<p>&mdash;Obrigado, disse-me elle comprehendendo a intenção; creia que nunca me
-esquecerei dos seus bons serviços. Deus é que lh'os ha de pagar. Pobre
-Leocadia! tu te lembrarás de nós no céu.</p>
-
-<p>Enxugou com a manga uma lagrima importuna; eu busquei um derivativo na
-poesia, que era a paixão delle. Fallei-lhe dos versos, que me lera,
-e offereci-me para imprimil-os. Os olhos do capitão animaram-se um
-pouco.&mdash;Talvez aceite, disse elle; mas não sei... são bem frouxos
-versos. Jurei-lhe que não; pedi que os reunisse e me désse antes do
-desembarque.</p>
-
-<p>&mdash;Pobre Leocadia! murmurou elle sem responder ao pedido. Um cadaver...
-o mar... o céu... o navio...</p>
-
-<p>No dia seguinte veiu ler-me um epicedio composto de fresco, em que
-estavam memoradas as circumstancias da morte e da sepultura da
-mulher; leu-m'o com a voz commovida devéras, e a mão tremula; no fim
-perguntou-me se os versos eram dignos do thesouro que perdera.</p>
-
-<p>&mdash;São, disse eu.</p>
-
-<p>&mdash;Não haverá estro, ponderou elle, no fim de um instante, mas ninguem
-me negará sentimento, se não é que o proprio sentimento prejudicou a
-perfeição....</p>
-
-<p>&mdash;Não me parece; acho os versos perfeitos.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, eu creio que... Versos de marujo.</p>
-
-<p>&mdash;De marujo poeta.</p>
-
-<p>Elle levantou os hombros, olhou para o papel, e tornou a recitar
-a composição, mas já então sem tremuras, accentuando as intenções
-litterarias, dando relevo ás imagens e melodia aos versos. No fim,
-confessou-me que era a sua obra mais acabada, eu disse-lhe que sim;
-elle apertou-me muito a mão e predisse-me um grande futuro.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XX" id="CAPITULO_XX">CAPITULO XX</a></h5>
-
-
-<h4>Bacharelo-me</h4>
-
-
-<p>Um grande futuro! Em quanto esta palavra me batia no ouvido, devolvia
-eu os olhos, ao longe, no horizonte mysterioso e vago. Uma idéa
-expellia outra, a ambição desmontava Marcella. Um grande futuro?
-Talvez naturalista, litterato, archeologo, banqueiro, politico, ou até
-bispo,&mdash;bispo que fosse,&mdash;uma vez que fosse um cargo, uma preeminencia,
-uma grande reputação, uma posição superior. A ambição, dado que fosse
-aguia, quebrou nessa occasião o ovo, e desvendou a pupilla fulva e
-penetrante. Adeus, amores; adeus, Marcella; dias de delirio, joias
-sem preço, vida sem regimen, adeus. Cá me vou ás fadigas e á gloria;
-deixo-vos com as calcinhas da primeira edade.</p>
-
-<p>E foi assim que desembarquei em Lisboa e segui para Coimbra. A
-Universidade esperava-me com as suas materias arduas, e não sei
-se profundas; estudei-as muito mediocremente, e nem por isso perdi
-o gráu de bacharel; deram-m'o com a solemnidade do estylo, após
-os annos da lei; uma bella festa que me encheu de orgulho e de
-saudades,&mdash;principalmente de saudades. Tinha eu conquistado em Coimbra
-uma grande nomeada de folião; era um academico estroina, superficial,
-tumultuario e petulante, dado ás aventuras, fazendo romantismo pratico
-e liberalismo theorico, vivendo na pura fé dos olhos pretos e das
-constituições escriptas. No dia em que a Universidade me attestou, em
-pergaminho, uma sciencia que eu estava longe de trazer arraigada no
-cerebro, confesso que me achei de de algum modo logrado, ainda que
-orgulhoso. Explico-me: o diploma era uma carta de alforria; se me dava
-a liberdade, dava-me a responsabilidade. Guardei-o, deixei as margens
-do Mondego, e vim por alli fóra assaz desconsolado, mas sentindo já
-uns impetos, uma curiosidade, um desejo de acotovellar os outros, de
-influir, de gozar, de viver,&mdash;de prolongar a Universidade pela vida
-adeante...</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XXI" id="CAPITULO_XXI">CAPITULO XXI</a></h5>
-
-
-<h4>O almocreve</h4>
-
-
-<p>Vae então, empacou o jumento em que eu vinha montado; fustiguei-o, elle
-deu dous corcovos, depois mais tres, emfim mais um, que me sacudiu
-fóra da sella, e com tal desastre, que o pé esquerdo me ficou preso no
-estribo; tento agarrar-me ao ventre do animal, mas já então, espantado,
-disparou pela estrada fóra. Digo mal: tentou disparar, e effectivamente
-deu dous saltos, mas um almocreve, que alli estava, acudiu atempo de
-lhe pegar na redea e detel-o, não sem esforço nem perigo. Dominado o
-bruto, desvencilhei-me do estribo e puz-me de pé.</p>
-
-<p>&mdash;Olhe do que vosmecê escapou, disse o almocreve.</p>
-
-<p>E era verdade; se o jumento corre por alli fóra, contundia-me
-devéras, e não sei se a morte não estaria no fim do desastre; cabeça
-partida, uma congestão, qualquer transtorno cá dentro; e lá se me
-ia a bacharelice em flor. O almocreve salvara-me talvez a vida;
-era positivo; eu sentia-o no sangue que me agitava o coração. Bom
-almocreve! emquanto eu tornava á consciencia de mim mesmo, elle cuidava
-de concertar os arreios do jumento, com muito zelo e arte. Resolvi
-dar-lho tres moedas de ouro das cinco que trazia commigo; não porque
-tal fosse o preço da minha vida,&mdash;essa era inestimavel; mas por que era
-uma recompensa digna da dedicação com que elle me salvou. Está dito,
-dou-lhe as tres moedas.</p>
-
-<p>&mdash;Prompto, disse elle apresentando-me a redea da cavalgadura.</p>
-
-<p>&mdash;Daqui a nada, respondi; deixa-me, que ainda não estou em mim...</p>
-
-<p>&mdash;Ora qual!</p>
-
-<p>&mdash;Pois não é certo que ia morrendo?</p>
-
-<p>&mdash;Se o jumento corre por ahi fóra, é possivel; mas, com a ajuda do
-Senhor, viu vosmecê que não aconteceu nada.</p>
-
-<p>Fui aos alforges, tirei um collete velho, em cujo bolso trazia as cinco
-moedas de ouro, e durante esse tempo cogitei se não era excessiva a
-gratificação, se não bastavam duas moedas. Talvez uma. Com effeito, uma
-moeda era bastante para lhe dar estremeções de alegria. Examinei-lhe
-a roupa; era um pobre diabo, que nunca jamais vira uma moeda de ouro.
-Portanto, uma moeda. Tirei-a, vi-a reluzir á luz do sol; não a viu o
-almocreve, por que eu tinha-lhe voltado as costas; mas suspeitou-o
-talvez, entrou a fallar ao jumento de um modo significativo; dava-lhe
-conselhos, dizia-lhe que tomasse juizo, que o «senhor doutor» podia
-castigal-o; um monologo paternal. Valha-me Deus! até ouvi estalar um
-beijo: era o almocreve que lhe beijava a testa.</p>
-
-<p>&mdash;Olé! exclamei.</p>
-
-<p>&mdash;Queira vosmecê perdoar, mas o diabo do bicho está a olhar para a
-gente com tanta graça...</p>
-
-<p>Ri-me, hesitei, metti-lhe na mão um cruzado em prata, cavalguei o
-jumento, e segui a trote largo, um pouco vexado, melhor direi um pouco
-incerto do effeito da pratinha. Mas a algumas braças de distancia,
-olhei para traz, o almocreve fazia-me grandes cortezias, com evidentes
-mostras de contentamento. Adverti que devia ser assim mesmo; eu
-pagara-lhe bem, pagara-lhe talvez de mais. Metti os dedos no bolso
-do collete que trazia no corpo e senti umas moedas de cobre; eram os
-vintens que eu devera ter dado ao almocreve, em logar do cruzado em
-prata. Porque, emfim, elle não levou em mira nenhuma recompensa ou
-virtude, cedeu a um impulso natural, ao temperamento, aos habitos do
-officio; accresce que a circumstancia de estar, não mais adeante nem
-mais atraz, mas justamente no ponto do desastre, parecia constituil-o
-simples instrumento de Providencia; e de um ou de outro modo, o
-merito do acto era positivamente nenhum. Fiquei desconsolado com esta
-reflexão, chamei-me prodigo, lancei o cruzado á conta das minhas
-dissipações antigas; tive (porque não direi tudo?) tive remorsos.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XXII" id="CAPITULO_XXII">CAPITULO XXII</a></h5>
-
-
-<h4>Volta ao Rio</h4>
-
-
-<p>Jumento de uma figa, cortaste-me o fio ás reflexões. Já agora não digo
-o que pensei dalli até Lisboa, nem o que fiz em Lisboa, na peninsula e
-em outros logares da Europa, da velha Europa, que nesse tempo parecia
-remoçar. Não, não direi que assisti ás alvoradas do romantismo, que
-tambem eu fui fazer poesia effectiva no regaço da Italia; não direi
-cousa nenhuma. Teria de escrever um diario de viagem e não umas
-memorias, como estas são, nas quaes só entra a substancia da vida.</p>
-
-<p>Ao cabo de alguns annos de peregrinação attendi ás supplicas de meu
-pae:&mdash;«Vem, dizia elle na ultima carta; se não vieres depressa, acharás
-tua mãe morta!» Esta ultima palavra foi para mim um golpe. Eu amava
-minha mãe; tinha ainda deante dos olhos as circumstancias da ultima
-benção que ella me dera, a bordo do navio. «Meu triste filho, nunca
-mais te verei», soluçava a pobre senhora apertando-me ao peito. E
-essas palavras resoavam-me agora, como uma prophecia realizada.</p>
-
-<p>Note-se que eu estava em Veneza, ainda rescendente aos versos de lord
-Byron; lá estava, mergulhado em pleno sonho, revivendo o preterito,
-crendo-me na Serenissima Republica. É verdade; uma vez aconteceu-me
-perguntar ao locandeiro se o doge ia a passeio nesse dia.&mdash;Que doge,
-<i>signor mio?</i> Cahi em mim, mas não confessei a illusão; disse-lhe que
-a minha pergunta era um genero de charada americana; elle mostrou
-comprehender, e accrescentou que gostava muito das charadas americanas.
-Era um locandeiro. Pois deixei tudo isso, o locandeiro, o doge, a ponte
-dos Suspiros, a gondola, os versos do lord, as damas do Rialto, deixei
-tudo, e disparei como uma bala na direcção do Rio de Janeiro.</p>
-
-<p>Vim... Mas não; não alonguemos este capitulo. Ás vezes, esqueço-me a
-escrever, e a penna vae comendo papel, com grave prejuizo meu, que
-sou autor. Capitulos compridos quadram melhor a leitores pesadões; e
-nós não somos um publico <i>in-folio</i>, mas <i>in</i>-12, pouco texto, larga
-margem, typo elegante, córte dourado e vinhetas... principalmente
-vinhetas... Não, não alonguemos o capitulo.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XXIII" id="CAPITULO_XXIII">CAPITULO XXIII</a></h5>
-
-
-<h4>Triste, mas curto</h4>
-
-
-<p>Vim; e não nego que, ao avistar a cidade natal, tive uma sensação nova.
-Não era effeito da minha patria politica; era-o do logar da infancia,
-a rua, a torre, o chafariz da esquina, a mulher de mantilha, o preto
-do ganho, as cousas e scenas da meninice, buriladas na memoria. Nada
-menos que uma renascença. O espirito, como um passaro, não se lhe deu
-da corrente dos annos, arrepiou o vôo na direcção da fonte original, e
-foi beber da agua fresca e pura, ainda não mesclada do enxurro da vida.</p>
-
-<p>Reparando bem, ha ahi um logar-commum. Outro logar-commum, tristemente
-commum, foi a consternação da familia. Meu pae abraçou-me com
-lagrimas.&mdash;Tua mãe não póde viver, disse-me elle. Com effeito, não era
-já o rheumatismo que a matava, era um cancro no estomago. A infeliz
-padecia de um modo crú, porque o cancro é indifferente ás virtudes do
-sujeito; quando róe, róe; roer é o seu officio. Minha irmã Sabina, já
-então casada com o Cotrim, andava a cair de fadiga. Pobre moça! dormia
-tres horas por noite, nada mais. O proprio tio João estava abatido e
-triste. D. Eusebia e algumas outras senhoras lá estavam tambem, não
-menos tristes e não menos dedicadas.</p>
-
-<p>&mdash;Meu filho!</p>
-
-<p>A dor suspendeu por um pouco as tenazes; um sorriso allumiou o rosto da
-enferma, sobre o qual a morte batia a aza eterna. Era menos um rosto do
-que uma caveira; a belleza passára, como um dia brilhante; restavam os
-ossos, que não emmagrecem nunca. Mal poderia conhecel-a; havia oito ou
-nove annos que nos não viamos. Ajoelhado, ao pé da cama, com as mãos
-della entre as minhas, fiquei mudo e quieto, sem ousar fallar, porque
-cada palavra seria um soluço, e nós temiamos avisal-a do fim. Vão
-temor! Ella sabia que estava prestes a acabar; disse-m'o; verificamol-o
-na seguinte manhã.</p>
-
-<p>Longa foi a agonia, longa e cruel, de uma crueldade minuciosa, fria,
-repisada, que me encheu de dor e estupefacção. Era a primeira vez
-que eu via morrer alguem. Conhecia a morte de outiva; quando muito,
-tinha-a visto já petrificada no rosto de algum cadaver, que acompanhei
-ao cemiterio, ou trazia-lhe a idéa embrulhada nas amplificações de
-rhetorica dos professores de cousas antigas,&mdash;a morte aleivosa de
-Cesar, a austera de Socrates, a orgulhosa de Catão. Mas esse duello do
-ser e do não ser, a morte em acção, dolorida, contrahida, convulsa,
-sem apparelho politico ou philosophico, a morte de uma pessoa amada,
-essa foi a primeira vez que a pude encarar. Não chorei; lembra-me
-que não chorei durante o expectaculo; tinha os olhos estupidos, a
-garganta presa, a consciencia boquiaberta. Que? uma creatura tão
-docil, tão meiga, tão santa, que nunca jamais fizera verter uma
-lagrima de desgosto, mãe carinhosa, esposa immaculada, era força que
-morresse assim, trateada, mordida pelo dente tenaz de uma doença
-sem misericordia? Confesso que tudo aquillo me pareceu obscuro,
-incongruente, insano...</p>
-
-<p>Triste capitulo; passemos a outro mais alegre.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XXIV" id="CAPITULO_XXIV">CAPITULO XXIV</a></h5>
-
-
-<h4>Curto, mas alegre</h4>
-
-
-<p>Fiquei prostrado. E comtudo era eu, nesse tempo, um fiel compendio de
-trivialidade e presumpção. Jamais o problema da vida e da morte me
-opprimira o cerebro; nunca até esse dia me debruçara sobre o abysmo do
-Inexplicavel; faltava-me o essencial, que é o estimulo, a vertigem...</p>
-
-<p>Para lhes dizer a verdade toda, eu reflectia as opiniões de um
-cabelleireiro, que achei em Modena, o qual se distinguia por não as
-ter absolutamente. Era a flor dois cabelleireiros; por mais demorada
-que fosse a operação do toucado, não enfadava nunca; elle intercalava
-as penteadelas com muitos motes e pulhas, cheios de um pico, de
-um sabor... E não tinha outra philosophia. Nem eu. Não digo que a
-Universidade me não tivesse ensinado alguma; mas eu decorei-lhe só
-as formulas, o vocabulario, o esqueleto. Tratei-a, como tratei o
-latim: embolsei tres versos de Virgilio, dous de Horacio, uma duzia
-de locuções moraes e politicas, para as despezas da conversação.
-Tratei-os como tratei a historia e a jurisprudencia. Colhi de todas as
-cousas a phraseologia, a casca, a ornamentação, que eram para o meu
-espirito, vaidoso e nu, o mesmo que, para o peito do selvagem, são as
-conchas do mar e os dentes de pessoa morta.</p>
-
-<p>Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a
-minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um
-defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a
-luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar
-os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que
-faz á consciencia; e o melhor da obrigação é quando, á força de
-embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso
-poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hypocrisia, que é
-um vicio hediondo. Mas, na morte, que differença! que desabafo! que
-liberdade! Como a gente póde sacudir fóra a capa, deitar ao fosso as
-lentejoulas, despregar-se, despintar-se, desaffeitar-se, confessar
-lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em summa, já não ha
-visinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem extranhos; não
-ha platéa. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a
-virtude, logo que pisamos o territorio da morte; não digo que elle se
-não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não
-se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não ha nada tão
-incommensuravel como o desdem dos finados.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XXV" id="CAPITULO_XXV">CAPITULO XXV</a></h5>
-
-
-<h4>Na Tijuca</h4>
-
-
-<p>Ui! lá me ia a penna a escorregar para o emphatico. Sejamos simples,
-como era simples a vida que levei na Tijuca, durante as primeiras
-semanas depois da morte de minha mãe.</p>
-
-<p>No setimo dia, acabada a missa funebre, travei de uma espingarda,
-alguns livros, roupa, charutos, um moleque,&mdash;o Prudencio da capitulo
-XI,&mdash;e fui metter-me n'uma velha, casa de nossa propriedade. Meu
-pae forcejou por me torcer a resolução, mas eu é que não podia nem
-queria obedecer-lhe. Sabina desejava que eu fosse morar com ella algum
-tempo,&mdash;duas semanas, ao menos; meu cunhado esteve a ponto de me levar
-á fina força. Era um bom rapaz este Cotrim; passára de estroina a
-circumspecto. Agora commerciava em generos de estiva, labutava de manhã
-até á noite, com ardor, com perseverança. De noite, sentado á janella,
-a encaracolar as suiças, não pensava em outra cousa. Amava a mulher e
-um filho, que então tinha, e que lhe morreu alguns annos depois. Diziam
-que era avaro.</p>
-
-<p>Renunciei tudo; tinha o espirito attonito. Creio que por então é
-que começou a desabotoar em mim a hypocondria, essa flor amarella,
-solitaria e morbida, de um cheiro inebriante e subtil.&mdash;«Que bom
-que é estar triste e não dizer cousa nenhuma!»&mdash;Quando esta palavra
-de Shakespeare me chamou a attenção, confesso que senti em mim um
-echo, um echo delicioso. Lembra-me que estava sentado, debaixo de um
-tamarineiro, com o livro do poeta aberto nas mãos, e o espirito ainda
-mais cabisbaixo do que a figura,&mdash;ou jururú, como dizemos das gallinhas
-tristes. Apertava ao peito a minha dor taciturna, com uma sensação
-unica, uma cousa a que poderia chamar volupia do aborrecimento. Volupia
-do aborrecimento: decora esta expressão, leitor; guarda-a, examina-a,
-e se não chegares a entendel-a, podes concluir que ignoras uma das
-sensações mais subtis desse mundo e daquelle tempo.</p>
-
-<p>Ás vezes caçava, outras dormia, outras lia,&mdash;lia muito,&mdash;outras emfim
-não fazia nada; deixava-me atoar de idéa em idéa, de imaginação em
-imaginação, como uma borboleta vadia ou faminta; e as horas iam
-pingando uma a uma, o sol cahia, as sombras da noite velavam a montanha
-e a cidade. Ninguem me visitava; recommendei expressamente que me
-deixassem só. Um dia, dous dias, tres dias, uma semana inteira passada
-assim, sem dizer palavra, era bastante para sacudir-me da Tijuca fóra
-e restituir-me ao bulicio. Com effeito, ao cabo de sete dias, estava
-farto da solidão; a dor applacára; o espirito já se não contentava com
-o uso da espingarda e dos livros, nem com a vista do arvoredo e do céu.
-Reagia a mocidade, era preciso viver. Metti no bahú o problema da vida
-e da morte, os hypocondriacos do poeta, as camisas, as meditações, as
-gravatas, e ia fechal-o, quando o moleque Prudencio me disse que uma
-pessoa do meu conhecimento se mudára na vespera para uma casa roxa,
-situada a duzentos passos da nossa.</p>
-
-<p>&mdash;Quem?</p>
-
-<p>&mdash;Nhonhô talvez não se lembre mais de D. Eusebia...</p>
-
-<p>&mdash;Lembra-me... É ella?</p>
-
-<p>&mdash;Ella e a filha. Vieram hontem de manhã.</p>
-
-<p>Occorreu-me logo o episodio de 1814, e senti-me vexado; mas adverti que
-os acontecimentos tinham-me dado razão. Na verdade, fôra impossivel
-evitar as relações intimas do Villaça com a irmã do sargento-mór; antes
-mesmo do meu embarque, já se boquejava mysteriosamente no nascimento
-de uma menina. Meu tio João mandou-me dizer depois que o Villaça, ao
-morrer, deixara um bom legado a D. Eusebia, cousa que deu muito que
-fallar em todo o bairro. O proprio tio João, guloso de escandalos, não
-tratou de outro assumpto na carta, aliás de muitas folhas. Tinham-me
-dado razão os acontecimentos. Ainda porém que m'a não dessem, 1814 lá
-ia longe, e, com elle, a travessura, e o Villaça, e o beijo da moita;
-finalmente, nenhumas relações estreitas existiam entre mim e ella. Fiz
-commigo essa reflexão e acabei de fechar o bahú.</p>
-
-<p>&mdash;Nhonhô não vae visitar sinhá D. Eusebia? perguntou-me o Prudencio.
-Foi ella quem vestiu o corpo da minha defunta senhora.</p>
-
-<p>Lembrei-me que a vira, entre outras senhoras, por occasião da morte e
-do enterro; ignorava porém que ella houvesse prestado a minha mãe esse
-derradeiro obsequio. A ponderação do moleque era razoavel; eu devia-lhe
-uma visita; determinei fazel-a immediatamente, e descer.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XXVI" id="CAPITULO_XXVI">CAPITULO XXVI</a></h5>
-
-
-<h4>O autor hesita</h4>
-
-
-<p>Subito ouço uma voz:&mdash;Olá, meu rapaz, isto não é vida! Era meu pae, que
-chegava com duas propostas na algibeira. Sentei-me no bahú e recebi-o
-sem alvoroço. Elle esteve alguns instantes de pé, a olhar para mim;
-depois estendeu-me a mão com um gesto commovido:</p>
-
-<p>&mdash;Meu filho, conforma-te com a vontade de Deus.</p>
-
-<p>&mdash;Já me conformei, foi a minha resposta, e beijei-lhe a mão.</p>
-
-<p>Não tinha almoçado; almoçámos juntos. Nenhum de nós alludiu ao triste
-motivo da minha reclusão. Uma só vez fallámos nisso, de passagem,
-quando meu pae fez recahir a conversa na Regencia; foi então que
-alludiu á carta de pezames que um dos Regentes lhe mandara. Trazia a
-carta comsigo, já bastante amarrotada, talvez por havel-a lido a muitas
-outras pessoas. Creio haver dito que era de um dos Regentes. Leu-m'a
-duas vezes.</p>
-
-<p>&mdash;Já lhe fui agradecer este signal de consideração, concluiu meu pae, e
-acho que deves ir tambem...</p>
-
-<p>&mdash;Eu?</p>
-
-<p>&mdash;Tu; é um homem notavel, faz hoje as vezes de Imperador. Demais trago
-commigo uma idéa, um projecto, ou... sim, digo-te tudo; trago dous
-projectos, um logar de deputado e um casamento.</p>
-
-<p>Meu pae disse isto com pausa, e não no mesmo tom, mas dando ás palavras
-um geito e disposição, cujo fim era caval-as mais profundamente no
-meu espirito. A proposta, porém, desdizia tanto das minhas sensações
-ultimas, que eu cheguei a não entendel-a bem. Meu pae não fraqueou e
-repetiu-a; encareceu o logar e a noiva.</p>
-
-<p>&mdash;Aceitas?</p>
-
-<p>&mdash;Não entendo de politica, disse eu depois de um instante; quanto á
-noiva... deixe-me viver como um urso, que sou.</p>
-
-<p>&mdash;Mas os ursos casam-se, replicou elle.</p>
-
-<p>&mdash;Pois traga-me uma ursa. Olhe, a Ursa-Maior.</p>
-
-<p>Riu-se meu pae, e depois de rir, tornou a fallar serio. Era-me
-necessaria a carreira politica, dizia elle, por vinte e tantas razões,
-que deduziu com singular volubilidade, illustrando-as com exemplos
-de pessoas do nosso conhecimento. Quanto á noiva, bastava que eu a
-visse; se a visse, iria logo pedil-a ao pae, logo, sem demora de um
-dia. Experimentou assim a fascinação, depois a persuasão, depois a
-intimação; eu não dava resposta, afiava a ponta de um palito ou fazia
-bolas de miolo de pão, a sorrir ou a reflectir; e, para tudo dizer, nem
-docil nem rebelde á proposta. Sentia-me aturdido. Uma parte de mim
-mesmo dizia que sim, que uma esposa formosa e uma posição politica eram
-bens dignos de apreço; outra dizia que não; e a morte de minha mãe me
-apparecia como um exemplo da fragilidade das cousas, das affeições, da
-familia...</p>
-
-<p>&mdash;Não vou daqui sem uma resposta definitiva, disse meu pae.
-De-fi-ni-ti-va! repetiu, batendo as syllabas com o dedo.</p>
-
-<p>Bebeu o ultimo gole de café; repotreou-se, e entrou a fallar de tudo,
-do senado, da camara, da Regencia, da restauração, do Evaristo, de um
-coche que pretendia comprar, da nossa casa de Matta-cavallos... Eu
-deixava-me estar ao canto da mesa, a escrever desvairadamente n'um
-pedaço de papel, com uma ponta de lapis; traçava uma palavra, uma
-phrase, um verso, um nariz, um triangulo, e repetia-os muitas vezes,
-sem ordem, ao acaso, assim:</p>
-
-<p style="margin-left: 10%;">
-<span style="margin-left: 12.5em;">arma virumque cano</span><br />
-<span style="margin-left: 2.5em;">A</span><br />
-<span style="margin-left: 2.5em;">Arma virumque cano</span><br />
-<span style="margin-left: 7.5em;">arma virumque cano</span><br />
-<span style="margin-left: 5em;">arma virumque</span><br />
-<span style="margin-left: 12.5em;">arma virumque cano</span><br />
-<span style="margin-left: 7.5em;">virumque</span><br />
-</p>
-
-<p>Machinalmente tudo isto; e, não obstante, havia certa logica, certa
-deducção; por exemplo, foi o <i>virumque</i> que me fez chegar ao nome
-do proprio poeta, por causa da primeira syllaba; ia a escrever
-<i>virumque</i>&mdash;e sae-me <i>Virgilio</i>, então continuei:</p>
-
-<pre style="margin-left: 10%; font-size: 1.1em;">
- Vir Virgilio
- Virgilio Virgilio
- Virgilio
- Virgilio
-</pre>
-
-<p>Meu pae, um pouco despeitado com aquella indifferença, ergueu-se, veiu
-a mim, lançou os olhos ao papel...</p>
-
-<p>&mdash;Virgilio! exclamou. És tu, meu rapaz; a tua noiva chama-se justamente
-Virgilia.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XXVII" id="CAPITULO_XXVII">CAPITULO XXVII</a></h5>
-
-
-<h4>Virgilia?</h4>
-
-
-<p>Virgilia? Mas então era a mesma senhora que alguns annos depois...? A
-mesma; era justamente a senhora, que em 1869 devia assistir aos meus
-ultimos dias, e que antes, muito antes, teve larga parte nas minhas
-mais intimas sensações. Naquelle tempo contava apenas uns quinze ou
-dezeseis annos, e era talvez a mais atrevida creatura da nossa raça,
-e, com certeza, a mais voluntariosa. Não digo que já lhe coubesse
-a primazia da belleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto não
-é romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos
-ás sardas e espinhas; mas tambem não digo que lhe maculasse o rosto
-nenhuma sarda ou espinha; não. Era bonita, fresca, sahia das mãos da
-natureza, cheia daquelle feitiço, precario e eterno, que o individuo
-passa a outro individuo, para os fins secretos da creação. Era isto
-Virgilia, e era clara, muito clara, faceira, ignorante, pueril, cheia
-de uns impetos mysteriosos; muita preguiça e alguma devoção,&mdash;devoção,
-ou talvez medo; creio que medo.</p>
-
-<p>Ahi tem o leitor, em poucas linhas, o retrato physico e moral da pessoa
-que devia influir mais tarde na minha vida; era aquillo com dezeseis
-annos. Tu que me lês, se ainda fores viva, quando estas paginas vierem
-á luz,&mdash;tu que me lês, Virgilia amada, não reparas na differença entre
-a linguagem de hoje e a que primeiro empreguei quando te vi? Crê que
-era tão sincero então como agora; a morte não me tornou rabujento, nem
-injusto.</p>
-
-<p>&mdash;Mas, dirás tu, se você não guardou na retina da memoria a imagem do
-que fui, como é que póde assim discernir a verdade daquelle tempo, e
-exprimil-a depois de tantos annos?</p>
-
-<p>Ah! indiscreta! ah! ignorantona! Mas é isso mesmo que nos faz
-senhores da terra, é esse poder de restaurar o passado, para tocar a
-instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos nossos affectos.
-Deixa lá dizer o Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é
-uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição,
-que corrige a anterior, e que será corrigida tambem, até a edição
-definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XXVIII" id="CAPITULO_XXVIII">CAPITULO XXVIII</a></h5>
-
-
-<h4>Contanto que...</h4>
-
-
-<p>&mdash;Virgilia? interrompi eu.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, senhor; é o nome da noiva. Um anjo, meu pateta, um anjo sem
-azas. Imagina uma moça assim, desta altura, viva como um azougue, e uns
-olhos... filha do Dutra...</p>
-
-<p>&mdash;Que Dutra?</p>
-
-<p>&mdash;O Conselheiro Dutra; não conheces; uma influencia politica. Vamos lá;
-aceitas?</p>
-
-<p>Não respondi logo; fitei por alguns segundos a ponta do botim; declarei
-depois que estava disposto a examinar as duas cousas, a candidatura e o
-casamento, comtanto que...</p>
-
-<p>&mdash;Comtanto que?</p>
-
-<p>&mdash;Comtanto que não fique obrigado a aceitar as duas; creio que posso
-ser separadamente homem casado ou homem publico...</p>
-
-<p>&mdash;Todo o homem publico deve ser casado, interrompeu sentenciosamente
-meu pae. Mas seja como queres; estou por tudo; fico certo de que a
-vista fará fé. Demais, a noiva e o casamento são a mesma cousa... isto
-é, não... saberás depois... Vá; aceito a dilação, comtanto que...</p>
-
-<p>&mdash;Comtanto que?.. interrompi eu imitando-lhe a voz.</p>
-
-<p>&mdash;Ah! brejeiro! Comtanto que não te deixes ficar ahi inutil, obscuro,
-e triste; não gastei dinheiro, cuidados, empenhos, para te não ver
-brilhar, como deves, e te convem, e a todos nós; é preciso continuar
-o nosso nome, continual-o e illustral-o ainda mais. Olha, estou com
-sessenta annos, mas se fosse necessario começar vida nova, começava-a
-sem hesitar um só minuto. Teme a obscuridade, Braz; foge do que é
-infimo. Olha que os homens valem por differentes modos, e que o mais
-seguro de todos é valer pela opinião dos outros homens. Não estragues
-as vantagens da tua posição, os teus meios...</p>
-
-<p>E foi por deante o magico, a agitar deante de mim um chocalho, como me
-faziam, em pequeno, para eu andar depressa, e a flor da hypocondria
-recolheu-se ao botão para deixar a outra flor menos amarella, e nada
-morbida,&mdash;o amor da nomeada, o emplasto Braz Cubas.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XXIX" id="CAPITULO_XXIX">CAPITULO XXIX</a></h5>
-
-
-<h4>A visita</h4>
-
-
-<p>Vencera meu pae; dispuz-me a aceitar o diploma e o casamento, Virgilia
-e a camara dos deputados.&mdash;As duas Virgilias, disse elle n'um assomo
-de ternura politica. Aceitei-os; meu pae deu-me dous fortes abraços.
-Era o seu proprio sangue que elle, emfim, reconhecia. Rigorosamente,
-o filho delle acabava de desembarcar naquelle instante, de rodaque de
-linho e mãos nos bolsos. Havia então nos olhos de meu pae alguma cousa
-do velho Cid; era a alma que colligira n'uma só flamma todas as ultimas
-scentelhas.</p>
-
-<p>&mdash;Desces commigo?</p>
-
-<p>&mdash;Desço amanhã. Vou fazer primeiramente uma visita a D. Eusebia...</p>
-
-<p>Meu pae torceu o nariz, mas não disse nada; despediu-se e desceu. Eu,
-na tarde desse mesmo dia, fui visitar D. Eusebia. Achei-a a reprehender
-um preto jardineiro, mas deixou tudo para vir fallar-me, com um
-alvoroço, um prazer tão sincero, que me desacanhou logo. Creio que
-chegou a cingir-me com o seu par de braços robustos. Fez-me sentar ao
-pé de si, na varanda, entre muitas exclamações de contentamento:</p>
-
-<p>&mdash;Ora, o Brázinho! Um homem! Quem diria, ha annos... Um homemzarrão! E
-bonito! Qual! Você não se lembra bem de mim...</p>
-
-<p>Disse-lhe que sim, que não era possivel esquecer uma amiga tão
-familiar de nossa casa. D. Eusebia começou a fallar de minha mãe, com
-muitas saudades, com tantas saudades, que me captivou logo, posto
-me entristecesse. Ella percebeu-o nos meus olhos, e torceu a rédea
-á conversação; pediu-me que lhe contasse a viagem, os estudos, os
-namoros... Sim, os namoros tambem; confessou-me que era uma velha
-patusca. Nisto recordei-me do episodio de 1814, ella, o Villaça, a
-moita, o beijo, o meu grito; e estando a recordal-o, ouço um ranger de
-porta, um farfalhar de saias e esta palavra:</p>
-
-<p>&mdash;Mamãe... mamãe...</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XXX" id="CAPITULO_XXX">CAPITULO XXX</a></h5>
-
-
-<h4>A flor da moita</h4>
-
-
-<p>A voz e as saias pertenciam a uma mocinha morena, que se deteve á
-porta, alguns instantes, ao ver gente extranha. Silencio curto e
-constrangido. D. Eusebia quebrou-o, enfim, com resolução e franqueza:</p>
-
-<p>&mdash;Vem cá, Eugenia, disse ella, comprimenta o Dr. Braz Cubas, filho do
-Sr. Cubas; veiu da Europa.</p>
-
-<p>E voltando-se para mim:</p>
-
-<p>&mdash;Minha filha Eugenia.</p>
-
-<p>Eugenia, a flor da moita, mal respondeu ao gesto de cortezia que lhe
-fiz; olhou-me admirada e acanhada, e lentamente se aproximou da cadeira
-da mãe. A mãe arranjou-lhe uma das tranças do cabello, cuja ponta se
-desmanchara.&mdash;Ah! travessa! dizia. Não imagina, doutor, o que isto
-é... E beijou-a com tão expansiva ternura que me commoveu um pouco;
-lembrou-me minha mãe, e,&mdash;direi tudo,&mdash;tive umas cocegas de ser pae.</p>
-
-<p>&mdash;Travêssa? disse eu. Pois já não está em edade propria, ao que parece.</p>
-
-<p>&mdash;Quantos lhe dá?</p>
-
-<p>&mdash;Dezesete.</p>
-
-<p>&mdash;Menos um.</p>
-
-<p>&mdash;Dezeseis. Pois então! é uma moça.</p>
-
-<p>Não pôde Eugenia encobrir a satisfação que sentia com esta minha
-palavra, mas emendou-se logo, e ficou como d'antes, erecta, fria e
-muda. Na verdade, ella parecia ainda mais mulher do que era; seria
-criança nos seus folgares de moça; mas assim quieta, impassivel,
-tinha a compostura da mulher casada. Talvez essa circumstancia lhe
-diminuia um pouco da graça virginal. Depressa nos familiarisámos; a mãe
-fazia-lhe grandes elogios, eu escutava-os de boa sombra; e ella sorria,
-com os olhos fulgidos, como se lá dentro do cerebro lhe estivesse a
-voar uma borboletinha de azas de ouro e olhos de diamante...</p>
-
-<p>Digo lá dentro, porque cá fóra o que esvoaçou foi uma borboleta preta,
-que subitamente penetrou na varanda, e começou a bater as azas em
-derredor de D. Eusebia. D. Eusebia deu um grito, levantou-se, praguejou
-umas palavras soltas:&mdash;T'esconjuro!... sáe, diabo!... Virgem Nossa
-Senhora!...</p>
-
-<p>&mdash;Não tenha medo, disse eu; e, tirando o lenço, expelli a borboleta. D.
-Eusebia sentou-se outra vez, offegante, um pouco envergonhada; a filha,
-pode ser que pallida de medo, dissimulava a impressão com muita força
-de vontade. Apertei-lhes a mão e saí, a rir commigo da superstição
-das duas mulheres, um rir philosophico, desinteressado, superior.
-De tarde, vi passar a cavallo a filha de D. Eusebia, seguida de um
-pagem; fez-me um comprimento com a ponta do chicote; e confesso que me
-lisongeei com a idéa de que, alguns passos adeante, ella voltaria a
-cabeça para traz; mas não voltou.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XXXI" id="CAPITULO_XXXI">CAPITULO XXXI</a></h5>
-
-
-<h4>A borboleta preta</h4>
-
-
-<p>No dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou
-no meu quarto uma borboleta, tão negra como a outra, e muito maior do
-que ella. Lembrou-me o caso da vespera, e ri-me; entrei logo a pensar
-na filha de D. Eusebia, no susto que tivera, e na dignidade que, apezar
-delle, soube conservar. A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno
-de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ella foi pousar na vidraça; e,
-porque eu a sacudisse de novo, saíu dalli e veiu parar em cima de um
-velho retrato de meu pae. Era negra como a noite; e o gesto brando
-com que, uma vez posta, começou a mover as azas, tinha um certo ar
-escarninho, uma especie de ironia mephistophelica, que me aborreceu
-muito. Dei de hombros, saí do quarto; mas tornando lá, minutos depois,
-e achando-a ainda no mesmo logar, senti um repellão dos nervos, lancei
-mão de uma toalha, bati-lhe e ella caíu.</p>
-
-<p>Não caíu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça.
-Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depol-a no peitoril da
-janella. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei
-um pouco aborrecido, incommodado.</p>
-
-<p>&mdash;Tambem porque diabo não era ella azul? disse eu commigo.</p>
-
-<p>E esta reflexão,&mdash;uma das mais profundas que se tem feito, desde a
-invenção das borboletas,&mdash;me consolou do maleficio, e me reconciliou
-commigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadaver, com alguma
-sympathia, confesso. Imaginei que ella saíra do mato, almoçada e feliz.
-A manhã era linda. Veiu por alli fóra, modesta e negra, espairecendo
-as suas borboletices sob a vasta cupula de um céo azul, que é sempre
-azul, para todas as azas. Passa pela minha janella, entra e dá commigo.
-Supponho que nunca teria visto um homem; não sabia, portanto, o que era
-o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que
-me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura
-collossal. Então disse comsigo: «Este é provavelmente o inventor das
-borboletas.» A idéa subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é tambem
-suggestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu creador
-era beijal-o na testa; e ella beijou-me na testa. Quando enxotada por
-mim, foi pousar na vidraça, viu dalli o retrato de meu pae, e não é
-impossivel que descobrisse meia verdade, a saber, que estava alli o pae
-do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericordia.</p>
-
-<p>Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a immensidade
-azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra
-uma toalha de rosto, dous palmos de linho crú. Vejam como é bom ser
-superior ás borboletas! Porque, é justo dizel-o, se ella fosse azul,
-ou cor de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossivel
-que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. Não
-era. Esta ultima idéa restituiu-me a consolação, uni o dedo grande ao
-polegar, despedi um piparote e o cadaver caiu no jardim. Era tempo; ahi
-vinham já as providas formigas... Não, volto á primeira idéa; creio que
-para ella era melhor ter nascido azul.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XXXII" id="CAPITULO_XXXII">CAPITULO XXXII</a></h5>
-
-
-<h4>Coxa de nascença</h4>
-
-
-<p>Fui dalli acabar os preparativos da viagem. Já agora não me demoro
-mais. Desço immediatamente; desço ainda que algum leitor circumspecto
-me detenha para perguntar se o capitulo passado é apenas uma sensaboria
-ou se chega a empulhação... Ai de mim! Não contava com D. Eusebia.
-Estava prompto, quando me entrou por casa. Vinha convidar-me para
-transferir a descida, e ir lá jantar nesse dia. Cheguei a recusar; mas
-instou tanto, tanto, tanto, que não pude deixar de aceitar; demais,
-era-lhe devida aquella compensação; fui.</p>
-
-<p>Eugenia desataviou-se nesse dia por minha causa. Creio que foi por
-minha causa,&mdash;se é que não andava muita vez assim. Nem as bichas de
-ouro, que trazia na vespera, lhe pendiam agora das orelhas, duas
-orelhas finamente recortadas n'uma cabeça de nympha. Um simples vestido
-branco, de cassa, sem enfeites, tendo ao collo, em vez de broche, um
-botão de madreperola, e outro botão nos punhos, fechando as mangas, e
-nem sombra de pulseira.</p>
-
-<p>Era isso no corpo; não era outra cousa no espirito. Idéas claras,
-maneiras chãs, certa graça natural, um ar de senhora, e não sei se
-alguma outra cousa; sim, a boca, exactamente a boca da mãe, a qual me
-lembrava o episodio de 1814, e então dava-me impetos de glosar o mesmo
-mote á filha...</p>
-
-<p>&mdash;Agora vou mostrar-lhe a chacara, disse a mãe, logo que exgotámos o
-ultimo gole de café.</p>
-
-<p>Saímos á varanda, dalli á chacara; e foi então que notei uma
-circumstancia. Eugenia coxeava um pouco, tão pouco, que eu cheguei a
-perguntar-lhe se machucara o pé. A mãe calou-se; a filha respondeu sem
-titubear:</p>
-
-<p>&mdash;Não, senhor, sou coxa de nascença.</p>
-
-<p>Mandei-me a todos os diabos; chamei-me desastrado, grosseirão. Com
-effeito, a simples possibilidade de ser coxa era bastante para lhe
-não perguntar nada. Então lembrou-me que da primeira vez que a vi na
-vespera&mdash;a moça chegára-se lentamente á cadeira da mãe, e que naquelle
-dia já a achei á mesa de jantar. Talvez fosse para encobrir o defeito;
-mas por que razão o confessava agora? Olhei para ella e reparei que ia
-triste.</p>
-
-<p>Tratei de apagar os vestigios de meu desaso;&mdash;não me foi difficil, por
-que a mãe era, segundo confessára, uma velha patusca, e promptamente
-travou de conversa commigo. Vimos toda a chacara, arvores, flores,
-tanque de patos, tanque de lavar, uma infinidade de cousas, que ella me
-ia mostrando, e commentando, ao passo que eu, de soslaio, perscrutava
-os olhos de Eugenia...</p>
-
-<p>Palavra que o olhar de Eugenia não era coxo, mas direito, perfeitamente
-são; vinha de uns olhos pretos e tranquillos. Creio que duas ou tres
-vezes baixaram elles a terra, um pouco turvados; mas duas ou tres
-vezes sómente; em geral, fitavam-me com franqueza, sem temeridade, nem
-biocos.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XXXIII" id="CAPITULO_XXXIII">CAPITULO XXXIII</a></h5>
-
-
-<h4>Bemaventurados os que não descem</h4>
-
-
-<p>O peor é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma
-compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a
-natureza é ás vezes um immenso escarneo. Porque bonita, se coxa? porque
-coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo
-ao voltar para casa, de noite; e não atinava com a solução do enigma.
-O melhor que ha, quando se não resolve um enigma, é sacudil-o pela
-janella fóra; foi o que eu fiz; lancei mão de uma toalha e enxotei essa
-outra borboleta preta, que me adejava no cerebro. Fiquei alliviado e
-fui dormir. Mas o sonho, que é uma fresta do espirito, deixou novamente
-entrar o bichinho, e ahi fiquei eu a noite toda a cavar o mysterio, sem
-explical-o.</p>
-
-<p>Amanheceu chovendo, transferi a descida; mas no outro dia, a manhã
-era limpida e azul, e apezar disso deixei-me ficar, não menos que
-no terceiro dia, e no quarto, até o fim da semana. Manhãs bonitas,
-frescas, convidativas; lá em baixo a familia a chamar-me, e a noiva, e
-o parlamento, e eu sem acudir a cousa nenhuma, enlevado ao pé da minha
-Venus Manca. Enlevado é uma maneira de realçar o estylo; não havia
-enlevo, mas gosto, uma certa satisfação physica e moral. Queria-lhe,
-é verdade; ao pé dessa creatura tão singela, filha espuria e coxa,
-feita de amor e desprezo, ao pé della sentia-me bem, e ella creio que
-ainda se sentia melhor ao pé de mim. E isto na Tijuca. Uma simples
-egloga. D. Eusebia vigiava-nos, mas pouco; temperava a necessidade
-com a conveniencia; e a filha, nessa primeira explosão da natureza,
-entregava-me a alma em flôr.</p>
-
-<p>&mdash;O senhor desce amanhã? disse-me ella no sabbado.</p>
-
-<p>&mdash;Pretendo.</p>
-
-<p>&mdash;Não desça.</p>
-
-<p>Não desci; e accrescentei um versiculo ao Evangelho:&mdash;Bemaventurados
-os que não descem, porque delles é o primeiro beijo das damas. Com
-effeito, foi no domingo esse primeiro beijo de Eugenia,&mdash;o primeiro que
-nenhum outro varão jámais lhe tomára, e não furtado ou arrebatado, mas
-candidamente entregue, como um devedor honesto paga uma divida. Pobre
-Eugenia! Se tu soubesses que idéas me vagavam pela mente fóra n'aquella
-occasião! Tu, tremula de commoção, com os braços nos meus hombros, a
-contemplar em mim o teu bemvindo esposo, e eu com os olhos em 1814, na
-moita, no Villaça, e a suspeitar que não podias mentir ao teu sangue, á
-tua origem...</p>
-
-<p>D. Eusebia entrou inesperadamente, mas não tão subita, que nos
-apanhasse ao pé um do outro. Eu fui até á janella: Eugenia sentou-se a
-concertar uma das tranças. Que dissimulação graciosa! que arte infinita
-e delicada! que tartufice profunda! e tudo isso natural vivo, não
-estudado, natural como o appetite, natural como o somno. Tanto melhor!
-D. Eusebia não suspeitou nada.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XXXIV" id="CAPITULO_XXXIV">CAPITULO XXXIV</a></h5>
-
-
-<h4>A uma alma sensivel</h4>
-
-
-<p>Ha ahi, entre as cinco ou dez pessoas que me leem, ha ahi uma alma
-sensivel, que está de certo um pouquito agastada com o capitulo
-anterior, começa a tremer pela sorte de Eugenia, e talvez... sim,
-talvez, lá no fundo de si mesma, me chame cynico. Eu cynico, alma
-sensivel? Pela coxa de Diana! esta injuria merecia ser lavada com
-sangue, se o sangue lavasse alguma cousa nesse mundo. Não, alma
-sensivel, eu não sou cynico, eu fui homem; meu cerebro foi um tablado
-em que se deram peças de todo o genero, o drama sacro, o austero, o
-piegas, a comedia louçã, a desgrenhada farça, os autos, as bufonerias,
-um pandemonium, alma sensivel, uma barafunda de cousas e pessoas,
-em que podias ver tudo, desde a rosa de Smyrna até a arruda do teu
-quintal, desde o magnifico leito de Cleopatra até o recanto da praia
-em que o mendigo tirita o seu somno. Cruzavam-se nelle pensamentos
-de varia casta e feição. Não havia alli a atmosphera sómente da aguia
-e do beija-flor, havia tambem a da lesma e do sapo. Retira, pois, a
-expressão, alma sensivel, castiga os nervos, limpa os oculos,&mdash;que isso
-ás vezes é dos oculos,&mdash;e acabemos de uma vez com esta flor da moita.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XXXV" id="CAPITULO_XXXV">CAPITULO XXXV</a></h5>
-
-
-<h4>O caminho de damasco</h4>
-
-
-<p>Ora aconteceu, que, oito dias depois, como eu estivesse no caminho
-de Damasco, ouvi uma voz mysteriosa, que me sussurrou as palavras da
-Escriptura (<i>Act.</i>, IX, 7): «Levanta-te, e entra na cidade.» Essa voz
-saia de mim mesmo, e tinha duas origens: a piedade, que me desarmava
-ante a candura da pequena, e o terror de vir a amar devéras, e
-desposal-a. Uma mulher coxa! Quanto a este motivo da minha descida, não
-ha duvidar que ella o achou e m'o disse. Foi na varanda, na tarde de
-uma segunda-feira, ao annunciar-lhe que na seguinte manhã viria para
-baixo.&mdash;Adeus, suspirou ella estendendo-me a mão com simplicidade; faz
-bem.&mdash;E como eu nada dissesse, continuou:&mdash;Faz bem em fugir ao ridiculo
-de casar commigo. Ia dizer-lhe que não; ella retirou-se lentamente,
-engolindo as lagrimas. Alcancei-a a poucos passos, e jurei-lhe por
-todos os santos do ceu que eu era obrigado a descer, mas que não
-deixava de lhe querer e muito; tudo hyperboles frias, que ella escutou
-sem dizer nada.</p>
-
-<p>&mdash;Acredita-me? perguntei eu no fim.</p>
-
-<p>&mdash;Não; e digo-lhe que faz bem.</p>
-
-<p>Quiz retel-a, mas o olhar que me lançou não foi já de supplica, senão
-de imperio. Eu desci da Tijuca, na manhã seguinte, um pouco amargurado,
-outro pouco satisfeito; e vinha dizendo a mim mesmo que era justo
-obedecer a meu pae, que era conveniente abraçar a carreira politica...
-que a constituição... que a minha noiva... que o meu cavallo...</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XXXVI" id="CAPITULO_XXXVI">CAPITULO XXXVI</a></h5>
-
-
-<h4>A proposito de botas</h4>
-
-
-<p>Meu pae, que me não esperava, abraçou-me cheio de ternura e
-agradecimento.&mdash;Agora é devéras? disse elle. Posso emfim....?</p>
-
-<p>Deixei-o nessa reticencia, e fui descalçar as botas, que estavam
-apertadas. Uma vez alliviado, respirei á larga, e deitei-me a fio
-comprido, emquanto os pés, e todo eu atraz delles, entravamos n'uma
-relativa bem-aventurança. Então considerei que as botas apertadas
-são uma das maiores venturas da terra, porque, fazendo doer os pés,
-dão azo ao prazer de as descalçar. Mortifica os pés, desgraçado,
-desmortifica-os depois, e ahi tens a felicidade barata, ao sabor dos
-sapateiros e de Epicuro. Emquanto esta idéa me trabalhava no famoso
-trapezio, lançava eu os olhos para a Tijuca, e via a aleijadinha
-perder-se no horizonte do preterito, e sentia que o meu coração não
-tardaria tambem a descalçar as suas botas. E descalçou-as o lascivo.
-Quatro ou cinco dias depois, saboreava esse rapido, ineffavel e
-incoercivel momento de gozo, que succede a uma dôr pungente, a uma
-preoccupação, a um incommodo... Daqui inferi eu que a vida é o mais
-engenhoso dos phenomenos, porque só aguça a fome, com o fim de deparar
-a occasião de comer, e não inventou os callos, senão porque elles
-aperfeiçoam a felicidade terrestre. Em verdade vos digo que toda a
-sabedoria humana não vale um par de botas curtas.</p>
-
-<p>Tu, minha Eugenia, é que não as descalçaste nunca; foste ahi pela
-estrada da vida, manquejando da perna e do amor, triste como os
-enterros pobres, solitaria, calada, laboriosa, até que vieste tambem
-para esta outra margem... O que eu não sei é se a tua existencia era
-muito necessaria ao seculo. Quem sabe? Talvez um comparsa de menos
-fizesse patear a tragedia humana.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XXXVII" id="CAPITULO_XXXVII">CAPITULO XXXVII</a></h5>
-
-
-<h4>Emfim</h4>
-
-
-<p>Emfim! eis aqui Virgilia. Antes de ir á casa do Conselheiro Dutra,
-perguntei a meu pae se havia algum ajuste prévio de casamento.</p>
-
-<p>&mdash;Nenhum ajuste. Ha tempos, conversando com elle a teu respeito,
-confessei-lhe o desejo que tinha de te ver deputado; e de tal modo
-fallei, que elle prometteu fazer alguma cousa, e creio que o fará.
-Quanto á noiva, é o nome que dou a uma creaturinha, que é uma joia, uma
-flôr, uma estrella, uma cousa rara... é a filha delle; imaginei que, se
-casasses com ella, mais depressa serias deputado.</p>
-
-<p>&mdash;Só isto?</p>
-
-<p>&mdash;Só isto.</p>
-
-<p>Fomos dalli á casa do Dutra. Era uma perola esse homem, risonho,
-jovial, patriota, um pouco irritado com os males publicos, mas não
-desesperando de os curar depressa. Achou que a minha candidatura era
-legitima; convinha, porém, esperar alguns mezes. E logo me apresentou á
-mulher,&mdash;uma estimavel senhora,&mdash;e á filha, que não desmentiu em nada
-o panegyrico de meu pae. Juro-vos que em nada. Relêde o Cap. XXVIII.
-Eu, que levava idéas a respeito da pequena, fitei-a de certo modo;
-ella, que não sei se as tinha, não me fitou de modo differente; e o
-nosso olhar primeiro foi pura e simplesmente conjugal. No fim de um mez
-estavamos intimos.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XXXVIII" id="CAPITULO_XXXVIII">CAPITULO XXXVIII</a></h5>
-
-
-<h4>A quarta edição</h4>
-
-
-<p>&mdash;Venha cá jantar amanhã, disse-me o Dutra uma noite.</p>
-
-<p>Aceitei o convite. No dia seguinte, mandei que a sege me esperasse no
-largo de S. Francisco de Paula, e fui dar varias voltas. Lembra-vos
-ainda a minha theoria das edições humanas? Pois sabei que, naquelle
-tempo, estava eu na quarta edição, revista e emendada, mas ainda
-inçada de descuidos e barbarismos; defeito que, aliás, achava alguma
-compensação no typo, que era elegante, e na encadernação, que era
-luxuosa. Dadas as voltas, ao passar pela rua dos Ourives, consulto o
-relogio e cáe-me o vidro na calçada. Entro na primeira loja que tinha á
-mão; era um cubiculo,&mdash;pouco mais,&mdash;empoeirado e escuro.</p>
-
-<p>Ao fundo, por traz do balcão, estava sentada uma mulher, cujo rosto
-amarello e bexiguento não se destacava logo, á primeira vista; mas logo
-que se destacava era um expectaculo curioso. Não podia ter sido feia;
-ao contrario, via-se que fora bonita, e não pouco bonita; mas a doença
-e uma velhice precoce, destruiram-lhe a flor das graças. As bexigas
-tinham sido terriveis; os signaes, grandes e muitos, faziam saliencias
-e encarnas, declives e acclives; e davam uma sensação de lixa grossa,
-enormemente grossa. Eram os olhos a melhor parte do vulto, e aliás
-tinham uma expressão singular e repugnante, que mudou, entretanto, logo
-que eu comecei a fallar. Quanto ao cabello, penteado ao desdem, estava
-ruço e quasi tão poento como os portaes do loja. N'um dos dedos da mão
-esquerda fulgia-lhe um diamante. Crel-o-heis, posteros? essa mulher era
-Marcella.</p>
-
-<p>Não a conheci logo; era difficil; ella porém conheceu-me apenas lhe
-dirigi a palavra. Os olhos chisparam e trocaram a expressão usual
-por outra, meia doce e meia triste. Vi-lhe um movimento como para
-esconder-se ou fugir; era o instincto da vaidade, que não durou mais de
-um instante. Marcella accommodou-se e sorriu.</p>
-
-<p>&mdash;Quer comprar alguma cousa? disse ella estendendo-me a mão.</p>
-
-<p>Não respondi nada; Marcella comprehendeu a causa do meu silencio (não
-era difficil), e só hesitou, creio eu, em decidir o que dominava
-mais, se o assombro do presente, se a memoria do passado. Deu-me uma
-cadeira, e, com o balcão permeio, fallou-me longamente de si, da vida
-que levára, das lagrimas que eu lhe fizera verter, das saudades, dos
-desastres, emfim das bexigas, que lhe escalavraram o rosto, e do
-tempo, que ajudou a molestia, adiantando-lhe a decadencia. Verdade é
-que tinha a alma decrepita. Vendera tudo, quasi tudo; um homem, que a
-amára outr'ora, e lhe morreu nos braços, deixara-lhe aquella loja de
-ourivesaria, mas, para que a desgraça fosse completa, era agora pouco
-buscada a loja&mdash;talvez pela singularidade de a dirigir uma mulher. Em
-seguida pediu-me que lhe contasse a minha vida. Gastei pouco tempo em
-dizer-ll'a; não era longa, nem interessante.</p>
-
-<p>&mdash;Casou? disse Marcella no fim de minha narração.</p>
-
-<p>&mdash;Ainda não, respondi seccamente.</p>
-
-<p>Marcella lançou os olhos para a rua, com a atonia de quem reflecte ou
-relembra; eu deixei-me ir então ao passado, e, no meio das recordações
-e saudades, perguntei a mim mesmo por que motivo fizera tanto desatino.
-Não era esta certamente a Marcella de 1822; mas a belleza de outro
-tempo valia uma terça parte dos meus sacrificios? Era o que eu buscava
-saber, interrogando o rosto de Marcella. O rosto dizia-me que não; ao
-mesmo tempo os olhos me contavam que, já outr'ora, como hoje, ardia
-nelles a flamma da cobiça. Os meus é que não souberam ver-lh'a; eram
-olhos da primeira edição.</p>
-
-<p>&mdash;Mas por que entrou aqui? viu-me da rua? porguntou ella, saindo
-daquella especie de torpor.</p>
-
-<p>&mdash;Não, suppunha entrar n'uma casa de relojoeiro; queria comprar um
-vidro para este relogio; vou a outra parte; desculpe-me; tenho pressa.</p>
-
-<p>Marcella suspirou com tristeza. A verdade é que eu me sentia pungido
-e aborrecido, ao mesmo tempo, e anciava por me ver fóra daquella casa.
-Marcella, entretanto, chamou um moleque, deu-lhe o relogio, e, apezar
-da minha opposição, mandou-o, a uma loja na visinhança, comprar o
-vidro. Não havia remedio; sentei-me outra vez. Disse ella então que
-desejava ter a protecção dos conhecidos de outro tempo; ponderou que
-mais tarde ou mais cedo era natural que me casasse, e afiançou que me
-daria finas joias por preços baratos. Não disse <i>preços baratos</i>, mas
-usou uma metaphora delicada e transparente. Entrei a desconfiar que
-não padecera nenhum desastre (salvo a molestia), que tinha o dinheiro
-a bom recado, e que negociava com o unico fim de acudir á paixão do
-lucro, que era o verme roedor daquella existencia; foi isso mesmo que
-me disseram depois.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XXXIX" id="CAPITULO_XXXIX">CAPITULO XXXIX</a></h5>
-
-
-<h4>O visinho</h4>
-
-
-<p>Emquanto eu fazia commigo mesmo aquella reflexão, entrou na loja um
-sujeito baixo, sem chapeu, trazendo pela mão uma menina de quatro annos.</p>
-
-<p>&mdash;Como passou de hoje de manhã? disse elle a Marcella.</p>
-
-<p>&mdash;Assim, assim. Vem cá, Maricota.</p>
-
-<p>O sujeito levantou a criança pelos braços e passou-a para dentro do
-balcão.</p>
-
-<p>&mdash;Anda, disse elle; pergunta a D. Marcella como passou a noite. Estava
-anciosa por vir cá, mas a mãe não tinha podido vestil-a... Então,
-Maricota? Toma a benção. .. Olha a vara de marmelo! Assim... Não
-imagina o que ella é lá em casa; falla na senhora a todos os instantes,
-e aqui parece uma pamonha. Ainda hontem... Digo, Maricota?</p>
-
-<p>&mdash;Não, diga, não, papae.</p>
-
-<p>&mdash;Então foi alguma cousa feia? perguntou Marcella batendo na cara da
-menina.</p>
-
-<p>&mdash;Eu lhe digo; a mãe ensina-lhe a rezar todas as noites um padre-nosso
-e uma ave-maria, offerecidos a Nossa Senhora; mas a pequena hontem
-veiu pedir-me com voz muito humilde... imagine o que?... que queria
-offerecel-os a Santa Marcella.</p>
-
-<p>&mdash;Coitadinha! disse Marcella beijando-a.</p>
-
-<p>&mdash;É um namoro, uma paixão, como a senhora não imagina ... A mãe diz que
-é feitiço...</p>
-
-<p>Contou mais algumas cousas o sujeito, todas mui agradaveis, até que
-saíu levando a menina, não sem deitar-me um olhar interrogativo ou
-suspeitoso. Perguntei a Marcella quem era elle.</p>
-
-<p>&mdash;É um relojoeiro de visinhança, um bom homem; a mulher tambem; e a
-filha é galante, não? Parecem gostar muito de mim... é boa gente.</p>
-
-<p>Ao proferir estas palavras havia um tremor de alegria na voz de
-Marcella; e no rosto como que se lhe espraiou uma onda de ventura...</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XL" id="CAPITULO_XL">CAPITULO XL</a></h5>
-
-
-<h4>Na sege</h4>
-
-
-<p>Nisto entrou o moleque trazendo o relogio com o vidro novo. Era tempo;
-já me custava estar alli; dei uma moedinha de prata ao moleque; disse
-a Marcella que voltaria n'outra occasião, e saí a passo largo. Para
-dizer tudo, devo confessar que o coração me batia um pouco; mas era
-uma especie de dobre de finados. O espirito ia travado de impressões
-oppostas. Notem que aquelle dia amanhecera alegre para mim. Meu pae, ao
-almoço, repetiu-me, por anticipação, o primeiro discurso que eu tinha
-de proferir na camara dos deputados; rimo-nos muito, e o sol tambem,
-que estava brilhante, como nos mais bellos dias do mundo; do mesmo modo
-que Virgilia devia rir, quando eu lhe contasse as nossas fantasias do
-almoço. Vae se não quando, cáe-me o vidro do relogio; entro na primeira
-loja que me fica á mão; e eis me surge o passado, eil-o que me lacera
-e beija; eil-o que me interroga, com um rosto cortado de saudades e
-bexigas...</p>
-
-<p>Lá o deixei; metti-me ás pressas na sege, que me esperava no largo
-do S. Francisco de Paula, e ordenei ao boleeiro que rodasse pelas
-ruas fóra. O boleeiro atiçou as bestas, a sege entrou a sacolejar-me,
-as molas gemiam, as rodas sulcavam rapidamente a lama que deixara a
-chuva recente, e tudo isso me parecia estar parado. Não ha, ás vezes,
-um certo vento, morno que não bochorno, não forte nem aspero, mas
-abafadiço, que nos não leva o chapéo da cabeça, nem rodomoinha nas
-saias das mulheres, e todavia é ou parece ser peior do que se fizesse
-uma e outra cousa, porque abate, afrouxa, e como que dissolve os
-espiritos? Pois eu tinha esse vento commigo; e, certo de que elle me
-soprava por achar-me naquella especie de garganta entre o passado e o
-presente, almejava por saír á planicie do futuro. O peior é que a sege
-não andava.</p>
-
-<p>&mdash;João, bradei eu ao boleeiro. Esta sege anda ou não anda?</p>
-
-<p>&mdash;Uê! nhonhô! Já estamos parados na porta de sinhô Conselheiro.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XLI" id="CAPITULO_XLI">CAPITULO XLI</a></h5>
-
-
-<h4>A allucinação</h4>
-
-
-<p>E era verdade. Entrei apressado; achei Virgilia anciosa, mau humor,
-fronte nublada. A mãe, que era surda, estava na sala com ella. No fim
-dos comprimentos disse-me a moça com sequidão:</p>
-
-<p>&mdash;Esperavamos que viesse mais cedo.</p>
-
-<p>Defendi-me do melhor modo; fallei do cavallo que empacara, e de um
-amigo, que me detivera. De repente morre-me a voz nos labios, fico
-tolhido de assombro. Virgilia... seria Virgilia aquella moça? Fitei-a
-muito; e a sensação foi tão penosa, que recuei um passo e desviei a
-vista. Tornei a olhal-a. As bexigas tinham-lhe comido o rosto; a pelle,
-ainda na vespera tão fina, rosada e pura, apparecia-me agora amarella,
-stigmada pelo mesmo flagello, que devastara o rosto da hespanhola. Os
-olhos, que eram travessos, fizeram-se murchos; tinha o labio triste
-e a attitude cançada. Olhei-a bem; peguei-lhe na mão, e chamei-a
-brandamente a mim. Não me enganava; eram as bexigas. Creio que fiz um
-gesto de repulsa.</p>
-
-<p>Virgilia afastou-se, e foi sentar-se no sophá. Eu fiquei algum tempo
-a olhar para os meus proprios pés. Devia, saír ou ficar? Rejeitei o
-primeiro alvitre, que era simplesmente absurdo, e encaminhei-me para
-Virgilia, que lá estava sentada e calada. Ceus! Era outra vez a fresca,
-a juvenil, a florida Virgilia. Em vão procurei no rosto della algum
-vestigio da doença; nenhum havia; era a pelle fina e branca do costume.</p>
-
-<p>&mdash;Nunca me viu? perguntou Virgilia, vendo que a encarava com insistencia.</p>
-
-<p>&mdash;Tão bonita, nunca.</p>
-
-<p>Sentei-me, emquanto Virgilia, calada, fazia estalar as unhas.
-Seguiram-se alguns segundos de pausa. Fallei-lhe de cousas extranhas ao
-incidente; ella porém não me respondia nada, nem olhava para mim. Menos
-o estalido, era a estatua do Silencio. Uma só vez me deitou os olhos,
-mas muito de cima, soerguendo a pontinha esquerda do labio, contrahindo
-as sobrancelhas, ao ponto de as unir; e todo esse conjuncto de cousas
-dava-lhe ao rosto uma expressão media, entre comica e tragica.</p>
-
-<p>Havia alguma affectação naquelle desdem; era um arrebique do gesto.
-Lá dentro, ella padecia, e não pouco,&mdash;ou fosse magua pura, ou só
-despeito; e porque a dor que se dissimula dóe mais, é mui provavel que
-Virgilia padecesse em dobro do que realmente devia padecer. Creio que
-isto é metaphysica.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XLII" id="CAPITULO_XLII">CAPITULO XLII</a></h5>
-
-
-<h4>Que escapou a Aristoteles</h4>
-
-
-<p>Outra cousa que tambem me parece metaphysica é isto:&mdash;Dá-se movimento a
-uma bola, por exemplo; róla esta, encontra outra bola, transmitte-lhe
-o impulso, e eis a segunda bola a rolar como a primeira rolou.
-Supponhamos que a primeira bola se chama... Marcella,&mdash;é uma simples
-supposição; a segunda, Braz Cubas;&mdash;a terceira, Virgilia. Temos que
-Marcella, recebendo um piparote do passado rolou até tocar em Braz
-Cubas,&mdash;o qual, cedendo á força impulsiva, entrou a rolar tambem até
-esbarrar em Virgilia, que não tinha nada com a primeira bola; e eis
-ahi como, pela simples transmissão de uma força, se tocam os extremos
-sociaes, e se estabelece uma cousa que poderemos chamar&mdash;solidariedade
-do aborrecimento humano. Como é que este capitulo escapou a
-Aristoteles?</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XLIII" id="CAPITULO_XLIII">CAPITULO XLIII</a></h5>
-
-
-<h4>Marqueza, porque eu serei marquez</h4>
-
-
-<p>Positivamente, era um diabrete Virgilia, um diabrete angelico, se
-querem, mas era-o, e então...</p>
-
-<p>E então appareceu o Lobo Neves, um homem que não era mais esbelto
-do que eu, nem mais elegante, nem mais lido, nem mais sympathico, e
-todavia foi quem me arrebatou Virgilia e a candidatura, dentro de
-poucas semanas, com um impeto verdadeiramente cesariano. Não precedeu
-nenhum despeito; não houve a menor violencia de familia. O Dutra veiu
-dizer-me, um dia, que esperasse outra aragem, porque a candidatura
-de Lobo Neves era apoiada por grandes influencias. Cedi; e tal foi o
-começo da minha derrota. Uma semana depois, Virgilia perguntou ao Lobo
-Neves, a sorrir, quando seria elle ministro.</p>
-
-<p>&mdash;Pela minha vontade, ja; pela dos outros, daqui a um anno.</p>
-
-<p>Virgilia replicou:</p>
-
-<p>&mdash;Promette que algum dia me fará baroneza?</p>
-
-<p>&mdash;Marqueza, porque eu serei marquez.</p>
-
-<p>Desde então fiquei perdido. Virgilia comparou a aguia e o pavão, e
-elegeu a aguia, deixando o pavão com o seu espanto, o seu despeito, e
-tres ou quatro beijos que lhe dera. Talvez cinco beijos; mas dez que
-fossem não queria dizer cousa nenhuma. O labio do homem não é como
-a pata do cavallo de Attila que esterilisava o solo em que batia; é
-justamente o contrario.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XLIV" id="CAPITULO_XLIV">CAPITULO XLIV</a></h5>
-
-
-<h4>Um Cubas!</h4>
-
-
-<p>Meu pae ficou attonito com o desenlace, e quer-me parecer que não
-morreu de outra cousa. Eram tantos os castellos que engenhára, tantos
-e tantissimos os sonhos, que não podia vel-os assim esboroados, sem
-padecer um forte abalo no organismo. A principio não quiz crel-o. Um
-Cubas! um galho da arvore illustre dos Cubas! E dizia isto com tal
-convicção, que eu, já então informado da nossa tanoaria, esqueci um
-instante a voluvel dama, para só contemplar aquelle phenomeno, não
-raro, mas curioso: uma imaginação graduada em consciencia.</p>
-
-<p>&mdash;Um Cubas! repetia-me elle na seguinte manhã, ao almoço.</p>
-
-<p>Não foi alegre o almoço; eu proprio estava a caír de somno. Tinha
-velado uma parte da noite. De amor? Era impossivel; não se ama duas
-vezes a mesma mulher, e eu, que tinha de amar aquella, tempos depois,
-não lhe estava agora preso por nenhum outro vinculo, além de uma
-phantasia passageira, alguma obediencia e muita fatuidade. E isto
-basta a explicar a vigilia; era despeito, um despeitosinho agudo como
-ponta de alfinete, o qual se desfez, com charutos, murros, leituras
-truncadas, até romper a aurora, a mais tranquilla das auroras.</p>
-
-<p>Mas eu era moço, tinha o remedio em mim mesmo. Meu pae é que não pôde
-supportar facilmente a pancada. Pensando bem, pode ser que não morresse
-precisamente do desastre; mas que o desastre lhe complicou as ultimas
-dores, é positivo. Morreu dahi a quatro mezes,&mdash;acabrunhado, triste,
-com uma preoccupação intensa e continua, á semelhança de remorso, um
-desencanto mortal, que lhe substituiu os rheumatismos e tosses. Teve
-ainda uma meia hora de alegria; foi quando um dos ministros o visitou.
-Vi-lhe,&mdash;lembra-me bem,&mdash;vi-lhe o grato sorriso de outro tempo, e nos
-olhos uma concentração de luz, que era, por assim dizer, o ultimo
-lampejo da alma expirante. Mas a tristeza tornou logo, a tristeza de
-morrer sem me ver posto em algum logar alto, como aliás me cabia.</p>
-
-<p>&mdash;Um Cubas!</p>
-
-<p>Morreu alguns dias depois da visita do ministro, uma manhã de maio,
-entre os dois filhos, Sabina e eu, e mais o tio Ildefonso e meu
-cunhado. Morreu sem lhe poder valer a sciencia dos medicos, nem o nosso
-amor, nem os cuidados, que foram muitos, nem cousa nenhuma; tinha de
-morrer, morreu.</p>
-
-<p>&mdash;Um Cubas!</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XLV" id="CAPITULO_XLV">CAPITULO XLV</a></h5>
-
-
-<h4>Notas</h4>
-
-
-<p>Soluços, lagrimas, casa armada, velludo preto nos portaes, um homem
-que veiu vestir o cadaver, outro que tomou a medida do caixão, caixão,
-eça, tocheiros, convites, convidados que entravam, lentamente, a passo
-surdo, e apertavam a mão á familia, alguns tristes, todos serios e
-calados, padre e sacristão, rezas, aspersões d'agua benta, o fechar
-do caixão, a prego e martello, seis pessoas que o tomam da eça, e o
-levantam, e o descem a custo pela escada, não obstante os gritos,
-soluços e novas lagrimas da familia, e vão até o coche funebre, e o
-collocam em cima, e traspassam e apertam as corrêas, o rodar do coche,
-o rodar dos carros, um a um... Isto que parece um simples inventario,
-eram notas que eu havia tomado para um capitulo extremamente
-succulento, em que provava que a terra deve continuar a girar em volta
-do sol; porquanto:&mdash;<i>a</i>) a natureza não inventou a morte, senão
-com o fim de dar vida a algumas industrias,&mdash;armadores, segeiros,
-emprezas funerarias, typographias, e outras que ella sagazmente
-previu;&mdash;<i>b</i>) mortas essas industrias, pela ausencia da morte humana,
-não é improvavel que viessem a morrer os respectivos industriaes; o que
-dava na mesma. Mas tudo isto são apenas notas de um capitulo, que não
-escrevo.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XLVI" id="CAPITULO_XLVI">CAPITULO XLVI</a></h5>
-
-
-<h4>A herança</h4>
-
-
-<p>Veja-nos agora o leitor, oito dias depois da morte de meu pae,&mdash;minha
-irmã sentada n'um sophá,&mdash;pouco adiante, o Cotrim, de pé, encostado a
-um consolo, com os braços cruzados e a morder o bigode,&mdash;eu a passeiar
-de um lado para outro, com os olhos no chão. Luto pezado. Profundo
-silencio.</p>
-
-<p>&mdash;Mas afinal, disse o Cotrim; esta casa pouco mais póde valer de trinta
-contos; demos que valha trinta e cinco...</p>
-
-<p>&mdash;Vale cincoenta, ponderei; a Sabina sabe que custou cincoenta e oito...</p>
-
-<p>&mdash;Podia custar até sessenta, tornou o Cotrim; mas não se segue que
-os valesse, e menos ainda que os valha hoje. Você sabe que as casas,
-aqui ha annos, baixaram muito. Olhe, se esta vale os cincoenta contos,
-quantos não vale a que você deseja para si, a do Campo?</p>
-
-<p>&mdash;Não fale nisso! Uma casa velha.</p>
-
-<p>&mdash;Velha! exclamou Sabina, levantando as mãos ao tecto.</p>
-
-<p>&mdash;Parece-lhe nova, aposto?</p>
-
-<p>&mdash;Ora, mano, deixe-se dessas cousas, disse Sabina, erguendo-se do
-sophá; podemos arranjar tudo em boa amizade, e com lisura. Por exemplo,
-o Cotrim não aceita os pretos, quer só o boleeiro de papae e o Paulo...</p>
-
-<p>&mdash;O boleeiro não, acudi eu; fico com a sege e não hei de ir comprar
-outro.</p>
-
-<p>&mdash;Bem; fico com o Paulo e o Prudencio.</p>
-
-<p>&mdash;O Prudencio está livre.</p>
-
-<p>&mdash;Livre?</p>
-
-<p>&mdash;Ha dois annos.</p>
-
-<p>&mdash;Livre? Como seu pae arranjava estas cousas cá por casa, sem dar parte
-a ninguem! Está direito. Quanto á prata... creio que não libertou a
-prata?</p>
-
-<p>Tinhamos falado na prata, a velha prataria do tempo de D. José I, a
-porção mais grave da herança, já pelo lavor, já pela vetustez, já pela
-origem da propriedade; dizia meu pae que o conde da Cunha, quando
-vice-rei do Brazil, a dera de presente a meu bisavô Luiz Cubas.</p>
-
-<p>&mdash;Quanto á prata, continuou o Cotrim, eu não faria questão nenhuma,
-se não fosse o desejo que sua irmã tem de ficar com ella; e acho-lhe
-razão. Sabina é casada, e precisa de uma copa digna, apresentavel. Você
-é solteiro, não recebe, não...</p>
-
-<p>&mdash;Mas posso casar.</p>
-
-<p>&mdash;Para que? interrompeu Sabina.</p>
-
-<p>Era tão sublime esta pergunta, que por alguns instantes me fez esquecer
-os interesses. Sorri; peguei na mão de Sabina, bati-lhe levemente na
-palma, tudo isso com tão boa sombra, que o Cotrim interpretou o gesto
-como de acquiescencia, e agradeceu-m'o.</p>
-
-<p>&mdash;Que é lá? redargui; não cedi cousa nenhuma, nem cedo.</p>
-
-<p>&mdash;Nem cede?</p>
-
-<p>Abanei a cabeça.</p>
-
-<p>&mdash;Deixa, Cotrim, disse minha irmã ao marido; vê se elle quer ficar
-tambem com a nossa roupa do corpo; é só o que falta.</p>
-
-<p>&mdash;Não falta mais nada. Quer a sege, quer o boleeiro, quer a prata,
-quer tudo. Olhe, é muito mais summario citar-nos a juizo e provar com
-testemunhas que Sabina não é sua irmã, que eu não sou seu cunhado, e
-que Deus não é Deus. Faça isto, e não perde nada, nem uma colherinha.
-Ora, meu amigo, outro officio!</p>
-
-<p>Estava tão agastado, e eu não menos, que entendi offerecer um meio de
-conciliação; dividir a prata. Riu-se e perguntou-me a quem caberia
-o bule e a quem o assucareiro; e depois desta pergunta, declarou
-que teriamos tempo de liquidar a pretenção, quando menos em juizo.
-Entretanto, Sabina fôra até á janella que dava para a chacara,&mdash;e
-depois de um instante, voltou, e propoz ceder o Paulo e outro preto,
-com a condição de ficar com a prata; eu ia dizer que não me convinha,
-mas o Cotrim adiantou-se e disse a mesma cousa.</p>
-
-<p>&mdash;Isso nunca! não faço esmolas! disse elle.</p>
-
-<p>Jantámos tristes. Meu tio conego appareceu á sobremeza, e ainda
-presenciou uma pequena altercação.</p>
-
-<p>&mdash;Meus filhos, disse elle, lembrem-se que meu irmão deixou um pão bem
-grande para ser repartido por todos.</p>
-
-<p>Mas o Cotrim:</p>
-
-<p>&mdash;Creio, creio. A questão, porem, não é de pão, é de manteiga. Pão
-secco é que eu não engulo.</p>
-
-<p>Fizeram-se finalmente as partilhas, mas nós estavamos brigados. E
-digo-lhes que, ainda assim, custou-me muito a brigar com Sabina. Eramos
-tão amigos! Jogos pueris, furias de criança, risos e tristezas da
-edade adulta, dividimos muita vez esse pão da alegria e da miseria,
-irmãmente, como bons irmãos que eramos. Mas estavamos brigados. Tal
-qual a belleza de Marcella, que se esvaiu com as bexigas.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XLVII" id="CAPITULO_XLVII">CAPITULO XLVII</a></h5>
-
-
-<h4>O recluso</h4>
-
-
-<p>Marcella, Sabina, Virgilia... ahi estou eu a fundir todos os
-contrastes, como se esses nomes e pessoas não fossem mais do que modos
-de ser da minha affeição interior. Penna de máus costumes, ata uma
-gravata ao teu estylo, veste-lhe um collete menos sordido; e depois
-sim, depois vem commigo, entra nessa casa, estira-te nessa rede que me
-embalou a melhor parte dos annos que decorreram desde o inventario de
-meu pae até 1842. Vem; se te cheirar a algum aroma de toucador, não
-cuides que o mandei derramar para meu regalo; é um vestígio da N. ou
-da Z. ou da U.&mdash;que todas essas lettras maiusculas embalaram ahi a sua
-elegante abjecção. Mas, se além do aroma, quizeres outra cousa, fica-te
-com o desejo, porque eu não guardei retratos, nem cartas, nem memorias;
-a mesma commoção esvaiu-se, e só me ficaram as lettras iniciaes.</p>
-
-<p>Vivi meio recluso, indo de longe em longe a algum baile, ou theatro,
-ou palestra, mas a mór parte do tempo passei-a commigo mesmo. Vivia;
-deixava-me ir ao curso e recurso dos successos e dos dias, ora
-boliçoso, ora apathico, entre a ambição e o desanimo. Escrevia politica
-e fazia litteratura. Mandava artigos e versos para as folhas publicas,
-e cheguei a alcançar certa reputação de polemista e de poeta. Quando
-me lembrava do Lobo Neves, que era já deputado, e de Virgilia, futura
-marqueza, perguntava a mim mesmo porque não seria melhor deputado e
-melhor marquez do que o Lobo Neves,&mdash;eu, que valia mais, muito mais do
-que elle,&mdash;e dizia isto a olhar para a ponta do nariz...</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XLVIII" id="CAPITULO_XLVIII">CAPITULO XLVIII</a></h5>
-
-
-<h4>Um primo de Virgilia</h4>
-
-
-<p>&mdash;Sabe quem chegou hontem de S. Paulo? perguntou-me uma noite o Luiz
-Dutra.</p>
-
-<p>O Luiz Dutra era um primo de Virgilia, que tambem privava com as
-musas. Os versos delle agradavam e valiam mais do que os meus; mas
-elle tinha necessidade da sancção de alguns, que lhe confirmasse o
-applauso dos outros. Como fosse acanhado, não interrogava a ninguem;
-mas deleitava-se com ouvir alguma palavra de apreço; então criava novas
-forças e arremettia juvenilmente ao trabalho.</p>
-
-<p>Pobre Luiz Dutra! Apenas publicava alguma cousa corria á minha casa,
-e entrava a girar em volta de mim, á espreita de um juizo, de uma
-palavra, de um gesto, que lhe approvasse a recente producção, e eu
-falava-lhe de mil cousas differentes,&mdash;do ultimo baile do Cattete, da
-discussão das camaras, de berlindas e cavallos,&mdash;de tudo, menos dos
-seus versos ou prosas. Elle respondia-me, a principio com animação,
-depois mais frouxo, torcia a redea da conversa para o seu assumpto
-delle, abria um livro, perguntava-me se tinha algum trabalho novo, e eu
-dizia-lhe que sim ou que não, mas torcia a redea para o outro lado, e
-lá ia elle atraz de mim, até que empacava de todo e saía triste. Minha
-intenção era fazel-o duvidar de si mesmo, desanimal-o, eliminal-o. E
-tudo isto a olhar para a ponta do nariz...</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XLIX" id="CAPITULO_XLIX">CAPITULO XLIX</a></h5>
-
-
-<h4>A ponta do nariz</h4>
-
-
-<p>Nariz, consciencia sem remorsos, tu me valeste muito na vida... Já
-meditaste alguma vez no destino do nariz, amado leitor? A explicação
-do doutor Pangloss é que o nariz foi creado para uso dos oculos,&mdash;e
-tal explicação confesso que até certo tempo me pareceu definitiva; mas
-veiu um dia, em que, estando a ruminar esse e outros pontos obscuros de
-philosophia, atinei com a unica, verdadeira e definitiva explicação.</p>
-
-<p>Com effeito, bastou-me attentar no costume do fakir. Sabe o leitor
-que o fakir gasta longas horas a olhar para a ponta do nariz, com
-o fim unico de ver a luz celeste. Quando elle finca os olhos na
-ponta do nariz, perde o sentimento das cousas externas, embelleza-se
-no invisivel, apprehende o impalpavel, desvincula-se da terra,
-dissolve-se, etherisa-se. Essa sublimação do ser pela ponta do nariz
-é o phenomeno mais excelso do espirito; e a faculdade de a obter não
-pertence ao fakir sómente; é universal. Cada homem tem necessidade
-e poder de contemplar o seu proprio nariz, para o fim de ver a luz
-celeste; e tal contemplação, cujo effeito é a subordinação do universo
-a um nariz sómente, constitue o equilibrio das sociedades. Se os
-narizes se contemplassem exclusivamente uns aos outros, o genero humano
-não chegaria a durar dois séculos: extinguia-se com as primeiras tribos.</p>
-
-<p>Ouço daqui uma objecção do leitor:&mdash;Como pode ser assim, diz elle,
-se nunca jamais ninguem não viu estarem os homens a contemplar o seu
-proprio nariz?</p>
-
-<p>Leitor obtuso, isso prova que nunca entraste no cerebro de um
-chapeleiro. Um chapeleiro passa por uma loja de chapeus; é a loja de
-um rival, que a abriu ha dois annos; tinha então duas portas, hoje tem
-quatro; promette ter seis e oito. Nas vidraças ostentam-se os chapeus
-do rival; pelas portas entram os freguezes do rival; e o chapeleiro
-compara aquella loja com a sua, que é mais antiga e tem só duas portas,
-e aquelles chapeus com os seus, menos buscados, ainda que de egual
-preço. Mortifica-se naturalmente; mas vae andando, concentrado, com os
-olhos para baixo ou para a frente, a indagar as causas da prosperidade
-do outro e do seu proprio atrazo, quando elle chapeleiro é muito melhor
-chapeleiro do que o outro chapeleiro... Nesse instante é que os olhos
-se fixam na ponta do nariz.</p>
-
-<p>A conclusão, portanto, é que ha duas forças capitaes: o amor, que
-multiplica a especie, e o nariz, que a subordina ao individuo.
-Procreação, equilibrio.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_L" id="CAPITULO_L">CAPITULO L</a></h5>
-
-
-<h4>Virgilia casada</h4>
-
-
-<p>&mdash;Quem chegou de S. Paulo foi minha prima Virgilia, casada com o Lobo
-Neves, continuou o Luiz Dutra.</p>
-
-<p>&mdash;Ah!</p>
-
-<p>&mdash;E só hoje é que eu soube uma cousa, seu maganão...</p>
-
-<p>&mdash;Que foi?</p>
-
-<p>&mdash;Que você quiz casar com ella.</p>
-
-<p>&mdash;Idéas de meu pae. Quem lhe disse isso?</p>
-
-<p>&mdash;Ella mesma. Falei-lhe muito em você, e ella então contou-me tudo.</p>
-
-<p>No dia seguinte, estando na rua do Ouvidor, á porta da typographia do
-Plancher, vi assomar, a distancia, uma mulher esplendida. Era ella; só
-a reconheci a poucos passos, tão outra estava, a tal ponto a natureza
-e a arte lhe haviam dado o ultimo apuro. Cortejámo-nos; ella seguiu;
-entrou com o marido na carruagem, que os esperava um pouco acima; eu
-fiquei attonito.</p>
-
-<p>Oito dias depois, encontrei-a num baile; creio que chegámos a trocar
-duas ou tres palavras. Mas n'outro baile, dado dahi a um mez, em
-casa de uma senhora, que ornara os salões do primeiro reinado, e não
-desornava então os do segundo, a aproximação foi maior e mais longa,
-porque conversámos e valsámos. A valsa é uma deliciosa cousa. Valsámos;
-e não nego que, ao conchegar ao meu corpo aquelle corpo flexivel e
-magnifico, tive uma singular sensação, uma sensação de homem roubado.</p>
-
-<p>&mdash;Está muito calor, disse ella, logo que acabámos. Vamos ao terraço?</p>
-
-<p>&mdash;Não; pode constipar-se. Vamos a outra sala.</p>
-
-<p>Na outra sala estava o Lobo Neves, que me fez muitos comprimentos,
-ácerca dos meus escriptos politicos, accrescentando que nada dizia
-dos litterarios, por não entender delles; mas os politicos eram
-excellentes, bem pensados e bem escriptos. Respondi-lhe com eguaes
-esmeros de cortezia, e separámos-nos contentes um do outro.</p>
-
-<p>Cerca de tres semanas depois recebi um convite delle para uma reunião
-intima. Fui; Virgilia recebeu-me com esta graciosa palavra:&mdash;O senhor
-hoje ha de valsar commigo.&mdash;Na verdade, eu tinha fama e era valsista
-emerito; não admira que ella me preferisse. Valsámos uma vez, e mais
-outra vez. Um livro perdeu Francesca; cá foi a valsa que nos perdeu.
-Creio que nessa noite apertei-lhe a mão com muita força, e ella
-deixou-a ficar, como esquecida, e eu a abraçal-a, e todos com os olhos
-em nós, e nos outros que tambem se abraçavam e giravam...Um delirio.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LI" id="CAPITULO_LI">CAPITULO LI</a></h5>
-
-
-<h4>É minha!</h4>
-
-
-<p>&mdash;É minha! disse eu commigo, logo que a passei a outro cavalheiro; e
-confesso que durante o resto da noite, foi-se-me a idéa entranhando
-no espirito, não á força de martello, mas de verruma, que é mais
-insinuativa.</p>
-
-<p>&mdash;É minha! dizia eu ao chegar á porta de casa.</p>
-
-<p>Mas ahi, como se o destino ou o acaso, ou o que quer que fosse, se
-lembrasse de dar algum pasto aos meus arroubos possessorios, luziu-me
-no chão uma cousa redonda e amarella. Abaixei-me; era uma moeda de
-ouro, uma meia-dobra.</p>
-
-<p>&mdash;É minha! repeti eu a rir-me; e metti-a no bolso.</p>
-
-<p>Nessa noite não pensei mais na moeda; mas no dia seguinte, recordando o
-caso, senti uns repellões da consciencia, e uma voz que me perguntava
-porque diabo seria minha uma moeda que eu não herdara nem ganhara, mas
-sómente achara na rua. Evidentemente não era minha; era de outro,
-daquelle que a perdera, rico ou pobre, e talvez fosse pobre, algum
-operario que não teria com que dar de comer á mulher e aos filhos; mas
-se fosse rico, o meu dever ficava o mesmo. Cumpria restituir a moeda, e
-o melhor meio, o unico meio, era fazel-o por intermedio de um annuncio
-ou da policia. Enviei uma carta ao chefe de policia, remettendo-lhe
-o achado, e rogando-lhe que, pelos meios a seu alcance, fizesse
-devolvel-o ás mãos do verdadeiro dono.</p>
-
-<p>Mandei a carta e almocei tranquillo, posso até dizer que jubiloso.
-Minha consciencia valsára tanto na vespera, que chegou a ficar
-suffocada, sem respiração; mas a restituição da meia dobra foi uma
-janella que se abriu para o outro lado da moral; entrou uma onda de
-ar puro, e a pobre dama respirou á larga. Ventilae as consciencias!
-não vos digo mais nada. Todavia, despido de quaesquer outras
-circumstancias, o meu acto era bonito, porque exprimia um justo
-escrupulo, um sentimento de alma delicada. Era o que me dizia a minha
-dama interior, com um modo austero e meigo a um tempo; é o que ella me
-dizia, reclinada ao peitoril da janella aberta.</p>
-
-<p>&mdash;Fizeste bem, Cubas; andaste perfeitamente. Este ar não é só puro, é
-balsamico, e uma transpiração dos eternos jardins. Queres ver o que
-fizeste, Cubas?</p>
-
-<p>E a boa dama sacou um espelho e abriu-m'o deante dos olhos. Vi,
-claramente vista, a meia dobra da vespera, redonda, brilhante, nitida,
-multiplicando-se por si mesma,&mdash;ser dez&mdash;depois trinta&mdash;depois
-quinhentas,&mdash;exprimindo assim o beneficio que me daria na vida e
-na morte o simples acto da restituição. E eu espraiava todo o meu
-ser na contemplação daquelle acto, revia-me nelle, achava-me bom,
-talvez grande. Uma simples moeda, hem? Vejam o que é ter valsado um
-poucochinho mais.</p>
-
-<p>Assim, eu, Braz Cubas, descobri uma lei sublime, a lei da equivalencia
-das janellas, e estabeleci que o modo de compensar uma janella fechada
-é abrir outra, afim de que a moral possa arejar continuamente a
-consciencia. Talvez não entendas o que ahi fica; talvez queiras uma
-cousa mais concreta, um embrulho, por exemplo, um embrulho mysterioso.
-Pois toma lá o embrulho mysterioso.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LII" id="CAPITULO_LII">CAPITULO LII</a></h5>
-
-
-<h4>O embrulho mysterioso</h4>
-
-
-<p>Foi o caso que, alguns dias depois, indo eu a Botafogo tropecei n'um
-embrulho, que estava na praia. Não digo bem; houve menos tropeção que
-pontapé. Vendo um embrulho, não grande, mas limpo e correctamente
-feito, atado com um barbante rijo, uma cousa que parecia alguma cousa,
-lembrou-me bater-lhe com o pé, assim por experiencia, e bati, e o
-embrulho resistiu. Relanceei os olhos em volta de mim; a praia estava
-deserta; ao longe uns meninos brincavam,&mdash;um pescador curava as redes
-ainda mais longe,&mdash;ninguem que pudesse ver a minha acção; inclinei-me,
-apanhei o embrulho e segui.</p>
-
-<p>Segui, mas não sem receio. Podia ser uma pulha de rapazes. Tive idéa de
-devolver o achado á praia, mas apalpei-o e rejeitei a idea. Um pouco
-adeante, desandei o caminho e guiei para casa.</p>
-
-<p>&mdash;Vejamos, disse eu ao entrar no gabinete.</p>
-
-<p>E hesitei um instante, creio que por vergonha; assaltou-me outra vez o
-receio da pulha. É certo que não havia alli nenhuma testemunha externa;
-mas eu tinha dentro de mim mesmo um garoto, que havia de assoviar,
-guinchar, grunhir, patear, apupar, cacarejar, fazer o diabo, se me
-visse abrir o embrulho e achar dentro uma duzia de lenços velhos ou
-duas duzias de goiabas verdes. Mas era tarde; a curiosidade estava
-aguçada, como deve estar a do leitor; desfiz o embrulho, e vi...
-achei... contei... recontei nada menos de cinco contos de reis. Nada
-menos. Talvez um dez mil reis mais. Cinco contos em boas notas e
-dobras, tudo aceiadinho e arranjadinho, um achado raro. Embrulhei-as
-de novo. Ao jantar pareceu-me que um dos moleques falara a outro com
-os olhos. Ter-me-iam espreitado? Interroguei-os discretamente, e
-conclui que não. Sobre o jantar, fui outra vez ao gabinete, examinei
-o dinheiro, e ri-me dos meus cuidados maternaes a respeito de cinco
-contos,&mdash;eu, que era abastado.</p>
-
-<p>Para não pensar mais naquillo fui de noite á casa do Lobo Neves,
-que instára muito commigo não deixasse de frequentar as recepções
-da mulher. Lá encontrei o chefe de policia; fui-lhe apresentado;
-elle lembrou-se logo da carta e da meia dobra que eu lhe remettera
-alguns dias antes. Aventou o caso; Virgilia pareceu saborear o meu
-procedimento, e cada um dos presentes acertou de contar uma anecdota
-analoga, que eu ouvi com impaciencias de mulher hysterica.</p>
-
-<p>De noite, no dia seguinte, em toda aquella semana pensei o menos que
-pude nos cinco contos, e até confesso que os deixei muito quietinhos
-na gaveta da secretaria. Gostava de falar de todas as cousas, menos de
-dinheiro, e principalmente de dinheiro achado; e todavia não era crime
-achar dinheiro, era uma felicidade, um bom acaso, era talvez um lance
-da Providencia. Não podia ser outra cousa. Não se perdem cinco contos,
-como se perde um lenço de tabaco. Cinco contos levam-se com trinta mil
-sentidos, apalpam-se a miudo, não se lhes tiram os olhos de cima, nem
-as mãos, nem o pensamento, e para se perderem assim tolamente, n'uma
-praia, é necessário que... Crime é que não podia ser o achado; nem
-crime, nem deshonra, nem nada que embaciasse o caracter de um homem.
-Era um achado, um acerto feliz, como a sorte grande, como as apostas
-de cavallo, como os ganhos de um jogo honesto; e até direi que a minha
-felicidade era merecida, porque eu não me sentia máu, nem indigno dos
-beneficios da Providencia.</p>
-
-<p>&mdash;Estes cinco contos, dizia eu commigo, tres semanas depois, hei de
-empregal-os em alguma acção bôa, talvez um dote a alguma menina pobre,
-ou outra cousa assim... hei de ver...</p>
-
-<p>Nesse mesmo dia levei-os ao Banco do Brazil. Lá me receberam com
-muitas e delicadas allusões ao caso de meia dobra, cuja noticia andava
-já espalhada entre as pessoas do meu conhecimento; respondi enfadado
-que a cousa não valia a pena de tamanho estrondo; louvaram-me então
-a modestia,&mdash;e porque eu me encolerisasse, replicaram-me que era
-simplesmente grande.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LIII" id="CAPITULO_LIII">CAPITULO LIII</a></h5>
-
-
-<h4>..........</h4>
-
-<p>Virgilia é que já se não lembrava da meia dobra; toda ella
-estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha vida, no meu
-pensamento;&mdash;era o que dizia, e era verdade.</p>
-
-<p>Ha umas plantas que nascem e crescem depressa; outras são tardias
-e pecas. O nosso amor era daquellas; brotou com tal impeto e tanta
-seiva, que, dentro em pouco, era a mais vasta, folhuda e exuberante
-creatura dos bosques. Não lhes poderei dizer, ao certo, os dias
-que durou esse crescimento. Lembra-me, sim, que, em certa noite,
-abotoou-se a flor, ou o beijo, se assim lhe quizerem chamar, um beijo
-que ella me deu, tremula,&mdash;coitadinha,&mdash;tremula de medo, porque era
-ao portão da chacara, á vista das estrellas,&mdash;das castas estrellas de
-Othello,&mdash;<i>you chaste stars!</i> Uniu-nos esse beijo unico,&mdash;breve como
-a occasião, ardente como o amor, prologo de uma vida de delicias, de
-terrores, de remorsos, de prazeres que rematavam em dor, de afflicções
-que desabrochavam em alegria,&mdash;uma hypocrisia paciente e systematica,
-unico freio de uma paixão sem freio,&mdash;vida de agitações, de coleras,
-de desesperos e de ciumes, que uma hora pagava á farta e de sobra;
-mas outra hora vinha e engolia aquella, como tudo mais, para deixar á
-tona as agitações e o resto, e o resto do resto, que é o fastio e a
-saciedade: tal foi o livro daquelle prologo.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LIV" id="CAPITULO_LIV">CAPITULO LIV</a></h5>
-
-
-<h4>A pendula</h4>
-
-
-<p>Saí dalli a saborear o beijo. Não pude dormir; estirei-me na cama,
-é certo, mas foi o mesmo que nada. Ouvi as horas todas da noite.
-Usualmente, quando eu perdia o somno, o bater da pendula fazia-me muito
-mal; esse <i>tic-tac</i> soturno, vagaroso e secco parecia dizer a cada
-golpe que eu ia ter um instante menos de vida. Imaginava então um velho
-diabo, sentado entre dous saccos, o da vida e da morte, a tirar as
-moedas da vida para dal-as á morte, e a contal-as assim:</p>
-
-<p>&mdash;Outra de menos...</p>
-
-<p>&mdash;Outra de menos...</p>
-
-<p>&mdash;Outra de menos...</p>
-
-<p>&mdash;Outra de menos...</p>
-
-<p>O mais singular é que, se o relogio parava, eu dava-lhe corda, para
-que elle não deixasse de bater nunca, e eu pudesse contar todos os
-meus instantes perdidos. Invenções ha, que se transformam ou acabam;
-as mesmas instituições morrem; o relogio é definitivo e perpetuo. O
-derradeiro homem, ao despedir-se do sol frio e gasto, hade ter um
-relogio na algibeira, para saber a hora exacta em que morre.</p>
-
-<p>Naquella noite não padeci essa triste sensação de enfado, mas outra, e
-deleitosa. As phantasias tumultuavam-me cá dentro, vinham umas sobre
-outras, á semelhança de devotas que se abalroam para ver o anjo-cantor
-das procissões. Não ouvia os instantes perdidos, mas os minutos
-ganhados; e de certo tempo em diante não ouvi cousa nenhuma, porque o
-meu pensamento, ardiloso e traquinas, saltou pela janella fóra e bateu
-as azas na direcção da casa de Virgilia. Ahi achou ao peitoril de uma
-janella o pensamento de Virgilia, saudaram-se e ficaram de palestra.
-Nós a rolarmos na cama, talvez com frio, necessitados de repouso, e os
-dous vadios alli postos, a repetirem o velho dialogo de Adão e Eva.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LV" id="CAPITULO_LV">CAPITULO LV</a></h5>
-
-
-<h4>O velho dialogo de Adão e Eva</h4>
-
-
-<p>BRAZ CUBAS</p>
-
-<pre style="font-size: 1.4em;"> . . . . ?</pre>
-
-<p>VIRGILIA</p>
-
-<pre style="font-size: 1.4em;">. .</pre>
-
-<p>BRAZ CUBAS</p>
-
-<pre style="font-size: 1.4em;"> . . . . . . . . .</pre>
-
-<pre style="font-size: 1.4em;"> . . .</pre>
-
-<p>VIRGILIA</p>
-
-<pre style="font-size: 1.4em;"> . . . !</pre>
-
-<p>BRAZ CUBAS</p>
-
-<pre style="font-size: 1.4em;"> . .</pre>
-
-<p>VIRGILIA</p>
-
-<pre style="font-size: 1.4em;">
-. . . . . . . . .
-. . . . . ? . . . . .
-. . . . . . . . . . . .
-</pre>
-
-<p>BRAZ CUBAS</p>
-
-<pre style="font-size: 1.4em;">. . . . . .</pre>
-
-<p>VIRGILIA</p>
-
-<pre style="font-size: 1.4em;">. . . .</pre>
-
-<p>BRAZ CUBAS</p>
-
-<pre style="font-size: 1.4em;">. . . . . . . . . . . . .
-
-. . . . . . . . . . . . .
-
-. . . . . . . . . ! . .
-
-. . ! . . . . . . . .
-
-. . . . . . . . . . . !</pre>
-
-<p>VIRGILIA</p>
-
-<pre style="font-size: 1.4em;">. . . . . . . . . . . . .?</pre>
-
-<p>BRAZ CUBAS</p>
-
-<pre style="font-size: 1.4em;">. . . . .!</pre>
-
-<p>VIRGILIA</p>
-
-<pre style="font-size: 1.4em;">. . . . .!</pre>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LVI" id="CAPITULO_LVI">CAPITULO LVI</a></h5>
-
-
-<h4>O momento opportuno</h4>
-
-
-<p>Mas, com a breca! quem me explicará a razão desta differença? Um dia
-vimo-nos, tratámos o casamento, desfizemol-o e separamo-nos, a frio,
-sem dor, porque não houvera paixão nenhuma; mordeu-me apenas algum
-despeito e nada mais. Correm annos, torno a vel-a, damos tres ou quatro
-giros de valsa, e eis-nos a amar um ao outro com delirio. A belleza
-de Virgilia chegára, é certo, a um alto gráu de apuro, mas nós eramos
-substancialmente os mesmos, e eu, á minha parte, não me tornára mais
-bonito nem mais elegante. Quem me explicará a razão dessa differença?</p>
-
-<p>A razão não podia ser outra senão o momento opportuno. Não era
-opportuno o primeiro momento, porque, se nenhum de nós estava verde
-para o amor, ambos o estavamos para o <i>nosso</i> amor: distincção
-fundamental. Não ha amor possivel sem a opportunidade dos sujeitos.
-Esta explicação achei-a eu mesmo, dous annos depois do beijo, um
-dia em que Virgilia se me queixava de um pintalegrete que lá ia e
-tenazmente a galanteava.</p>
-
-<p>&mdash;Que importuno! dizia ella fazendo uma careta de raiva.</p>
-
-<p>Estremeci, fitei-a, vi que a indignação era sincera; então occorreu-me
-que talvez eu tivesse provocado alguma vez aquella mesma careta, e
-comprehendi logo toda a grandeza da minha evolução. Tinha vindo de
-importuno a opportuno.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LVII" id="CAPITULO_LVII">CAPITULO LVII</a></h5>
-
-
-<h4>Destino</h4>
-
-
-<p>Sim, senhor, amavamos. Agora, que todas as leis sociaes nol-o impediam,
-agora é que nos amavamos devéras. Achavamo-nos jungidos um ao outro,
-como as duas almas que o poeta encontrou no Purgatorio:</p>
-
-<p>
-Di pari, come buoi, che vanno a giogo;<br />
-</p>
-
-<p>e digo mal, comparando-nos a bois, porque nós eramos outra especie de
-animal menos tardo, mais velhaco e lascivo. Eis-nos a caminhar sem
-saber até onde, nem porque estradas escusas; problema que me assustou,
-durante algumas semanas, mas cuja solução entreguei ao destino. Pobre
-Destino! Onde andarás agora, grande procurador dos negocios humanos?
-Talvez estejas a criar pelle nova, outra cara, outras maneiras, outro
-nome, e não é impossivel que... Já me não lembra onde estava... Ah!
-nas estradas escusas. Disse eu commigo que já agora seria o que
-Deus quisesse. Era a nossa sorte amar-nos; se assim não fora, como
-explicariamos a valsa e o resto? Virgilia pensava a mesma cousa. Um
-dia, depois de me confessar que tinha momentos de remorsos, como eu lhe
-dissesse que, se tinha remorsos, é porque me não tinha amor, Virgilia
-cingiu-me com os seus magnificos braços, murmurando:</p>
-
-<p>&mdash;Amo-te, é a vontade do céu.</p>
-
-<p>E esta palavra não vinha á toa; Virgilia era um pouco religiosa. Não
-ouvia missa aos domingos, é verdade, e creio até que só ia ás igrejas
-em dia de festa, e quando havia logar vago em alguma tribuna. Mas
-rezava todas as noites, com fervor, ou, pelo menos, com somno. Tinha
-medo ás trovoadas; nessas occasiões, tapava os ouvidos, e resmoneava
-todas as orações do catecismo. Na alcova della havia um oratoriosinho
-de jacarandá, obra de talha, de tres palmos de altura, com tres imagens
-dentro; mas não falava delle ás amigas; ao contrario, taxava de beatas
-as que eram só religiosas. Algum tempo desconfiei que havia nella certo
-vexame de crer, e que a sua religião era uma especie de camisa de
-flanella, preservativa e clandestina; mas evidentemente era engano meu.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LVIII" id="CAPITULO_LVIII">CAPITULO LVIII</a></h5>
-
-
-<h4>Confidencia</h4>
-
-
-<p>O Lobo Neves, a principio, mettia-me grandes sustos. Pura illusão!
-Como adorasse a mulher, não se vexava de m'o dizer muitas vezes;
-achava que Virgilia era a perfeição mesma, um conjunto de qualidades
-solidas e finas, amoravel, elegante, austera, um modelo. E a confiança
-não parava ahi. De fresta que era, chegou a porta escancarada. Um dia
-confessou-me que trazia uma triste carcoma na existencia; faltava-lhe
-a gloria publica. Animei-o; disse-lhe muitas cousas bonitas, que elle
-ouviu com aquella uncção religiosa de um desejo que não quer acabar de
-morrer; então comprehendi que a ambição delle andava cançada de bater
-as azas, sem poder abrir o vôo. Dias depois disse-me todos os seus
-tedios e desfallecimentos, as amarguras engolidas, as raivas sopitadas;
-contou-me que a vida politica era um tecido de invejas, despeitos,
-intrigas, perfidias, interesses, vaidades. Evidentemente havia ahi uma
-crise de melancolia; tratei de combatel-a.</p>
-
-<p>&mdash;Sei o que lhe digo, replicou-me com tristeza. Não póde imaginar o
-que tenho passado. Entrei na politica por gosto, por familia, por
-ambição, e um pouco por vaidade. Já vê que reuni em mim só todos os
-motivos que levam o homem á vida publica; faltou-me só o interesse de
-outra natureza. Vira o theatro pelo lado da platéa; e, palavra, que era
-bonito! Soberbo scenario, vida, movimento e graça na representação.
-Escripturei-me; deram-me um papel que... Mas para que o estou a fatigar
-com isto? Deixe-me ficar com as minhas amofinações. Creia que tenho
-passado horas e dias... Não ha constancia de sentimentos, não ha
-gratidão, não ha nada... nada... nada...</p>
-
-<p>Calou-se, profundamente abatido, com os olhos no ar, parecendo não
-ouvir cousa nenhuma, a não ser o echo de seus proprios pensamentos.
-Após alguns instantes, ergueu-se e estendeu-me a mão:&mdash;O senhor ha de
-rir-se de mim, disse elle; mas desculpe aquelle desabafo; tinha um
-negocio, que me mordia o espirito. E ria, de um geito sombrio e triste;
-depois pediu-me que não referisse a ninguem o que se passara entre nós;
-ponderei-lhe que a rigor não se passara nada. Entraram dous deputados
-e um chefe politico da parochia. O Lobo Neves recebeu-os com alegria,
-a principio um tanto postiça, mas logo depois natural. No fim de meia
-hora, ninguem diria que elle não era o mais afortunado dos homens;
-conversava, chasqueava, e ria, e riam todos.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LIX" id="CAPITULO_LIX">CAPITULO LIX</a></h5>
-
-
-<h4>Um encontro</h4>
-
-
-<p>Deve ser um vinho bem energico a politica, dizia eu commigo, ao sair
-da casa de Lobo Neves; e fui andando, fui andando, até que na rua dos
-Barbonos vi uma sege, e dentro um dos ministros, meu antigo companheiro
-de collegio. Cortejámo-nos affectuosamente, a sege seguiu, e eu fui
-andando... andando... andando....</p>
-
-<p>&mdash;Porque não serei eu ministro?</p>
-
-<p>Esta idéa, rútila e grande,&mdash;trajada ao bizarro, como diria o padre
-Bernardes,&mdash;esta idéa começou uma vertigem de cabriolas e eu deixei-me
-estar com os olhos nella, a achar-lhe graça. E não pensei mais na
-tristeza de Lobo Neves; senti a attracção do abysmo. Recordei aquelle
-companheiro de collegio, as correrias nos morros, as alegrias e
-travessuras, e comparei o menino com o homem, o perguntei a mim mesmo
-porque não seria eu como elle. Entrava então no Passeio Publico;
-e tudo me parecia dizer a mesma cousa.&mdash;Porque não serás ministro,
-Cubas?&mdash;Cubas, porque não serás ministro de Estado? Ao ouvil-o, uma
-deliciosa sensação me refrescava todo o systema. Entrei, fui sentar-me
-n'um banco, a cavar commigo aquella idéa. E Virgilia que havia de
-gostar! Alguns minutos depois vejo encaminhar-se para mim uma cara, que
-me não pareceu desconhecida. Conhecia-a, fosse d'onde fosse.</p>
-
-<p>Imaginem um homem de trinta e oito a quarenta annos, alto, magro e
-pallido. As roupas, salvo o feitio, pareciam ter escapado ao captiveiro
-de Babylonia; o chapéu era contemporaneo do de Gessler. Imaginem
-agora uma sobrecasaca, mais larga do que pediam as carnes,&mdash;ou,
-litteralmente, os ossos da pessoa; a côr preta ia cedendo o passo a
-um amarello sem brilho; o pello desapparecia aos poucos; dos oito
-primitivos botões restavam tres. As calças, de brim pardo, tinham duas
-fortes joelheiras, em quanto as bainhas eram roidas pelo tacão de um
-botim sem misericordia nem graxa. Ao pescoço fluctuavam as pontas de
-uma gravata de duas cores, ambas desmaiadas, apertando um collarinho de
-oito dias. Creio que trazia tambem collete, um collete de seda escura,
-roto a espaços, e desabotoado.</p>
-
-<p>&mdash;Aposto que me não conhece, Sr. Dr. Cubas? disse elle.</p>
-
-<p>&mdash;Não me lembra...</p>
-
-<p>&mdash;Sou o Borba, o Quincas Borba.</p>
-
-<p>Recuei espantado... Quem me dera agora o verbo solemne de um Bossuet
-ou de Vieira, para contar tamanha desolação! Era o Quincas Borba, o
-gracioso menino de outro tempo, o meu companheiro de collegio, tão
-intelligente e abastado. O Quincas Borba! Não, impossível; não pode
-ser. Não podia acabar de crer que essa figura esqualida, essa barba
-pintada de branco, esse maltrapilho avelhentado, que toda essa ruina
-fosse o Quincas Borba. E era. Os olhos tinham um resto da expressão de
-outro tempo; e o sorriso não perdera certo ar escarninho, que lhe era
-peculiar. Entretanto, elle supportava com firmeza o meu espanto. No fim
-de algum tempo arredei os olhos; se a figura repellia, a comparação
-acabrunhava.</p>
-
-<p>&mdash;Não é preciso contar-lhe nada, disse elle emfim; o senhor adivinha
-tudo. Uma vida de miserias, de attribulações e de lutas. Lembra-se
-das nossas festas, em que eu figurava de rei? Que trambolhão! Acabo
-mendigo...</p>
-
-<p>E alçando a mão direita e os hombros, com um ar de indifferença,
-parecia resignado aos golpes da fortuna, e não sei até se contente.
-Talvez contente. Com certeza, impassivel. Não havia nelle a resignação
-christã, nem a conformidade philosophica. Parece que a miseria lhe
-callejàra a alma, a ponto de lhe tirar a sensação da lama. Arrastava os
-andrajos, como outr'ora a purpura: com certa graça indolente.</p>
-
-<p>&mdash;Procure-me, disse eu, poderei arranjar-lhe alguma cousa.</p>
-
-<p>Um sorriso magnifico lhe abriu os labios.&mdash;Não é o primeiro que me
-promette alguma cousa, replicou; e não sei se será o ultimo que não
-me fará nada. E para que? Eu nada peço, a não ser dinheiro; dinheiro
-sim, porque é necessario comer, e as casas de pasto não fiam. Nem as
-quitandeiras. Uma cousa de nada, uns dous vintens de angú, nem isso
-fiam as malditas quitandeiras.... Um inferno, meu... ia dizer meu
-amigo.... Um inferno! o diabo! todos os diabos! Olhe, ainda hoje não
-almocei.</p>
-
-<p>&mdash;Não?</p>
-
-<p>&mdash;Não; saí muito cedo de casa. Sabe onde moro? No terceiro degráu das
-escadas de S. Francisco, á esquerda de quem sobe; não precisa bater na
-porta. Casa fresca, extremamente fresca. Pois saí cedo, e ainda não
-comi...</p>
-
-<p>Tirei a carteira, escolhi uma nota de cinco mil réis,&mdash;a menos
-limpa,&mdash;e dei-lh'a. Elle recebeu-m'a com os olhos scintillantes de
-cobiça. Levantou a nota ao ar, e agitou-a enthusiasmado.</p>
-
-<p>&mdash;<i>In hoc signo vinces!</i> bradou.</p>
-
-<p>E depois beijou-a, com muitos ademanes de ternura, e tão ruidosa
-expansão, que me produziu um sentimento mixto de nôjo e lastima. Elle,
-que era arguto, entendeu-me; ficou serio, grotescamente serio, e
-pediu-me desculpa da alegria, dizendo que era alegria de pobre que não
-via, desde muitos annos, uma nota de cinco mil réis.</p>
-
-<p>&mdash;Pois está em suas mãos ver outras muitas, disse eu.</p>
-
-<p>&mdash;Sim? acudiu elle, dando um bote para mim.</p>
-
-<p>&mdash;Trabalhando, conclui eu.</p>
-
-<p>Fez um gesto de desdem; calou-se alguns instantes; depois disse-me
-positivamente que não queria trabalhar. Eu estava enjoado dessa
-abjecção tão comica e tão triste, e preparei-me para sair.</p>
-
-<p>&mdash;Não vá sem eu lhe ensinar a minha philosophia da miseria, disse elle,
-escarranchando-se diante de mim.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LX" id="CAPITULO_LX">CAPITULO LX</a></h5>
-
-
-<h4>O abraço</h4>
-
-
-<p>Cuidei que o pobre diabo estivesse doudo, e ia afastar-me, quando
-elle me pegou no pulso, e olhou alguns instantes para o brilhante que
-eu trazia no dedo. Senti-lhe na mão uns estremeções de cobiça, uns
-pruridos de posse.</p>
-
-<p>&mdash;Magnifico! disse elle.</p>
-
-<p>Depois começou a andar á roda de mim e a examinar-me muito.</p>
-
-<p>&mdash;O senhor trata-se, disse elle. Joias, roupa fina, elegante e...
-Compare esses sapatos aos meus; que differença! Podera não! Digo-lhe
-que se trata. E moças? Como vão ellas? Está casado?</p>
-
-<p>&mdash;Não...</p>
-
-<p>&mdash;Nem eu.</p>
-
-<p>&mdash;Móro na rua...</p>
-
-<p>&mdash;Não quero saber onde móra, atalhou o Quincas Borba. Se alguma vez nos
-virmos, dê-me outra nota de cinco mil réis; mas permitta-me que não a
-vá buscar a sua casa. É uma especie de orgulho.... Agora, adeus; vejo
-que está impaciente.</p>
-
-<p>&mdash;Adeus!</p>
-
-<p>&mdash;E obrigado. Deixa-me agradecer-lhe de mais perto?</p>
-
-<p>E dizendo isto abraçou-me com tal impeto, que eu não pude evital-o.
-Separamo-nos finalmente, eu a passo largo, com a camisa amarrotada do
-abraço, enfadado e triste. Já não dominava em mim a parte sympathica da
-sensação, mas a outra. Quizera ver-lhe a miseria digna. Comtudo, não
-pude deixar de comparar outra vez o homem de agora com o de outr'ora,
-entristecer-me, e encarar o abysmo que separa as esperanças de um tempo
-da realidade de outro tempo...</p>
-
-<p>&mdash;Ora adeus! Vamos jantar, disse commigo.</p>
-
-<p>Metto a mão no collete e não acho o relogio. Ultima desillusão! o Borba
-furtára-m'o no abraço.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LXI" id="CAPITULO_LXI">CAPITULO LXI</a></h5>
-
-
-<h4>Um projecto</h4>
-
-
-<p>Jantei triste. Não era a falta do relogio que me pungia, era a
-imagem do autor do furto, e as reminiscencias de criança, e outra
-vez a comparação, e a conclusão... Desde a sopa, começou a abrir em
-mim a flor amarella e morbida do cap. XXV, e então jantei depressa,
-para correr á casa de Virgilia. Virgilia era o presente; eu queria
-refugiar-me nelle, para escapar ás oppressões do passado, porque o
-encontro do Quincas Borba tornara-me aos olhos o passado, não qual fora
-devéras, mas um passado roto, abjecto, mendigo e gatuno.</p>
-
-<p>Saí de casa, mas era cedo; iria achal-os á mesa. Outra vez pensei no
-Quincas Borba, e tive então um desejo de tornar ao Passeio Publico,
-a ver se o achava; a idéa de o regenerar surgiu-me como uma forte
-necessidade. Fui; mas já não o achei. Indaguei do guarda; disse-me que
-effectivamente «esse sujeito» ia por alli ás vezes.</p>
-
-<p>&mdash;A que horas?</p>
-
-<p>&mdash;Não tem hora certa.</p>
-
-<p>Não era impossivel encontral-o n'outra occasião; prometti a mim mesmo
-lá voltar. A necessidade de o regenerar, de o trazer ao trabalho e ao
-respeito de sua pessôa enchia-me o coração; eu começava a sentir um
-bem-estar, uma elevação, uma admiração de mim proprio... Nisto caía a
-noite; fui ter com Virgilia.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LXII" id="CAPITULO_LXII">CAPITULO LXII</a></h5>
-
-
-<h4>O travesseiro</h4>
-
-
-<p>Fui ter com Virgilia; bem depressa esqueci o Quincas Borba. Virgilia
-era o travesseiro do meu espirito, um travesseiro molle, tepido,
-aromatico, enfronhado em cambraia e bruxellas. Era alli que elle
-costumava repousar de todas as sensações más, simplesmente enfadonhas,
-ou até dolorosas. E, bem pesadas as cousas, não era outra a razão da
-existencia de Virgilia; não podia ser. Cinco minutos bastaram para
-olvidar inteiramente o Quincas Borba; cinco minutos de uma contemplação
-mutua, com as mãos presas umas nas outras; cinco minutos e um beijo. E
-lá se foi a lembrança do Quincas Borba... Escrofula da vida, andrajo do
-passado, que me importa que existas, que molestes os olhos dos outros,
-se eu tenho dous palmos de um travesseiro divino, para fechar os olhos
-e dormir?</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LXIII" id="CAPITULO_LXIII">CAPITULO LXIII</a></h5>
-
-
-<h4>Fujamos!</h4>
-
-
-<p>Ai! nem sempre dormir. Tres semanas depois, indo á casa de
-Virgilia,&mdash;eram quatro horas da tarde,&mdash;achei-a triste e abatida. Não
-me quiz dizer o que era; mas, como eu instasse muito:</p>
-
-<p>&mdash;Creio que o Damião desconfia alguma cousa. Noto agora umas
-exquisitices nelle... Não sei... Trata-me bem, não ha duvida; mas o
-olhar parece que não é o mesmo. Durmo mal; ainda esta noite acordei,
-aterrada; estava sonhando que elle me ia matar. Talvez seja illusão,
-mas eu penso que elle desconfia...</p>
-
-<p>Tranquillisei-a como pude; disse que podiam ser cuidados politicos.
-Virgilia concordou que seriam, mas ficou ainda muito excitada e
-nervosa. Estavamos na sala de visitas, que dava justamente para a
-chacara, onde trocáramos o beijo inicial. Uma janella aberta deixava
-entrar o vento, que sacudia frouxamente as cortinas; e eu fiquei
-a olhar para as cortinas, sem as ver. Empunhára o binoculo da
-imaginação; lobrigava, ao longe, uma casa nossa, uma vida nossa, um
-mundo nosso, em que não havia Lobo Neves, nem casamento, nem moral, nem
-nenhum outro liame, que nos tolhesse a expansão da vontade. Esta idéa
-embriagou-me; eliminados assim o mundo, a moral e o marido, não haveria
-mais do que penetrar naquella habitação dos anjos.</p>
-
-<p>&mdash;Virgilia, disse eu, proponho-te uma cousa.</p>
-
-<p>&mdash;Que é?</p>
-
-<p>&mdash;Amas-me?</p>
-
-<p>&mdash;Oh! suspirou ella, cingindo-me os braços ao pescoço.</p>
-
-<p>Virgilia amava-me com furia; aquella resposta era a verdade patente.
-Com os braços ao meu pescoço, calada, respirando muito, deixou-se
-ficar a olhar para mim, com os seus grandes e bellos olhos, que davam
-uma sensação singular de luz humida; e eu deixei-me estar a vel-os, a
-namorar-lhe a boca, fresca como a madrugada, e insaciavel como a morte.
-A belleza de Virgilia tinha agora um tom grandioso, que não possuira
-antes de casar. Era dessas figuras talhadas em pentelico, de um lavor
-nobre, rasgado e puro, tranquillamente bella, como as estatuas, mas não
-apathica nem fria. Ao contrario, tinha o aspecto das naturezas calidas,
-e podia-se dizer, que, na realidade, resumia todo o amor. Resumia-o
-sobretudo naquella occasião, em que exprimia mudamente tudo quanto
-póde dizer a pupilla humana. Mas o tempo urgia; deslacei-lhe as mãos,
-peguei-lhe nos pulsos, e, fito nella, perguntei-lhe se tinha coragem.</p>
-
-<p>&mdash;De que?</p>
-
-<p>&mdash;De fugir. Iremos para onde nos fôr mais commodo, uma casa grande ou
-pequena, á tua vontade, na roça ou na cidade, ou na Europa, onde te
-parecer, onde ninguem nos aborreça, e não haja perigos para ti, onde
-vivamos um para o outro... Sim? fujamos. Tarde ou cedo, elle póde
-descobrir alguma cousa, e estarás perdida... ouves? perdida... morta...
-e elle tambem, porque eu o matarei, juro-te.</p>
-
-<p>Interrompi-me; Virgilia empallidecêra muito, deixou cair os braços
-e sentou-se no canapé. Esteve assim alguns instantes, sem me dizer
-palavra, não sei se vacillante na escolha, se aterrada com a idéa da
-descoberta e da morte. Fui-me a ella, insisti na proposta, disse-lhe
-todas as vantagens de uma vida a sós, sem zelos, nem terrores, nem
-afflicções. Virgilia ouvia-me calada; depois disse:</p>
-
-<p>&mdash;Não escapariamos talvez; elle iria ter commigo e matava-me do mesmo
-modo.</p>
-
-<p>Mostrei-lhe que não. O mundo era assás vasto, e eu tinha os meios de
-viver onde quer que houvesse ar puro e muito sol; elle não chegaria até
-lá; só as grandes paixões são capazes de grandes acções, e elle não a
-amava tanto que pudesse ir buscal-a, se ella estivesse longe. Virgilia
-fez um gesto de espanto e quasi indignação; murmurou que o marido
-gostava muito della.</p>
-
-<p>&mdash;Póde ser, respondi eu; póde ser que sim...</p>
-
-<p>E fui até a janella, e comecei a assobiar e a rufar com os dedos no
-peitoril, Virgilia chamou-me; eu deixei-me estar, a remoer os meus
-zelos, a desejar estrangular o marido, se o tivesse alli á mão...
-Justamente, nesse instante, entrou na chacara o Lobo Neves. Não tremas
-assim, leitora pallida; descança, que não hei de rubricar esta lauda
-com um pingo de sangue. Logo que o Lobo Neves entrou na chacara,
-fiz-lhe um gesto amigo, acompanhado de uma palavra graciosa; Virgilia
-retirou-se apressadamente da sala, e elle entrou dahi a tres minutos.</p>
-
-<p>&mdash;Está cá ha muito tempo? disse-me elle.</p>
-
-<p>&mdash;Não.</p>
-
-<p>Entrára serio, pesado, derramando os olhos de um modo distrahido,
-costume seu, que trocou logo por uma verdadeira expansão de
-jovialidade, quando viu, chegar o filho, o nhonhô, o futuro bacharel do
-cap. VIII; tomou-o nos braços, levantou-o ao ar, beijou-o muitas vezes.
-Eu, que tinha odio ao menino, afastei-me de ambos. Virgilia tornou á
-sala.</p>
-
-<p>&mdash;Ah! respirou o Lobo Neves, sentando-se preguiçosamente no sophá.</p>
-
-<p>&mdash;Cançado? perguntei eu.</p>
-
-<p>&mdash;Muito; aturei duas massadas de primeira ordem, uma na camara e outra
-na rua. E ainda temos terceira, accrescentou, olhando para a mulher..</p>
-
-<p>&mdash;Que é? perguntou Virgilia.</p>
-
-<p>&mdash;Um... Adivinha!</p>
-
-<p>Virgilia sentara-se ao lado delle, pegou-lhe n'uma das mãos, compoz-lhe
-a gravata, e tornou a perguntar o que era.</p>
-
-<p>&mdash;Nada menos que um camarote.</p>
-
-<p>&mdash;Para a Candiani?</p>
-
-<p>&mdash;Para a Candiani.</p>
-
-<p>Virgilia bateu palmas, levantou-se, deu um beijo no filho, com um ar
-de alegria pueril, que destoava muito da figura; depois perguntou se o
-camarote era de boca ou do centro, consultou o marido, em voz baixa,
-acerca da <i>toilette</i> que faria, da opera que se cantava, e de não sei
-que outras cousas.</p>
-
-<p>&mdash;Você janta comnosco, doutor, disse-me o Lobo Neves.</p>
-
-<p>&mdash;Veiu para isso mesmo, confirmou a mulher; diz que você possue o
-melhor vinho do Rio de Janeiro.</p>
-
-<p>&mdash;Nem por isso bebe muito.</p>
-
-<p>Ao jantar, desmenti-o; bebi mais do que costumava; ainda assim, menos
-do que era preciso para perder a razão. Já estava excitado, fiquei urn
-pouco mais. Era a primeira grande colera que eu sentia contra Virgilia.
-Não olhei uma só vez para ella durante o jantar; falei de politica, da
-imprensa, do ministerio, creio que falaria de theologia, se a soubesse,
-ou se me lembrasse. O Lobo Neves acompanhava-me com muita placidez e
-dignidade, e até com certa benevolencia superior; e tudo aquillo me
-irritava tambem, e me tornava mais amargo e longo o jantar. Despedi-me
-apenas nos levantámos da mesa.</p>
-
-<p>&mdash;Até logo, não? perguntou o Lobo Neves.</p>
-
-<p>&mdash;Póde ser.</p>
-
-<p>E saí.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LXIV" id="CAPITULO_LXIV">CAPITULO LXIV</a></h5>
-
-
-<h4>A transacção</h4>
-
-
-<p>Vaguei pelas ruas e recolhi-me ás nove horas. Não podendo dormir,
-atirei-me a ler e escrever. Ás onze horas estava arrependido de não
-ter ido ao theatro, consultei o relogio, quiz vestir-me, e saír.
-Julguei, porém, que chegaria tarde; demais, era dar prova de fraqueza.
-Evidentemente, Virgilia começava a aborrecer-se de mim, pensava eu.
-E esta idéa fez-me successivamente desesperado e frio, disposto a
-esquecel-a e a matal-a. Via-a d'alli mesmo, reclinada no camarote,
-com os seus magnificos braços nús,&mdash;os braços que eram meus, só
-meus,&mdash;fascinando os olhos de todos, com o vestido soberbo que havia
-de ter, o collo de leite, os cabellos postos em bandós, á maneira do
-tempo, e os brilhantes, menos luzidios que os olhos della... Via-a
-assim, e doía-me que a vissem outros. Depois, começava a despil-a,
-a pôr de lado as joias e sedas, a despenteal-a com as minhas mãos
-sofregas e lascivas, a tornal-a,&mdash;não sei se mais bella, se mais
-natural,&mdash;a tornal-a minha, sómente minha, unicamente minha.</p>
-
-<p>No dia seguinte, não me pude ter; fui cedo á casa de Virgilia; achei-a
-com os olhos vermelhos de chorar.</p>
-
-<p>&mdash;Que houve? perguntei.</p>
-
-<p>&mdash;Você não me ama, foi a sua resposta; nunca me teve a menor somma de
-amor. Tratou-me hontem como se me tivesse odio. Se eu ao menos soubesse
-o que é que fiz! Mas não sei. Não me dirá o que foi?</p>
-
-<p>&mdash;Que foi o que? Creio que não houve nada.</p>
-
-<p>&mdash;Nada? Tratou-me como não se trata um cachorro...</p>
-
-<p>A esta palavra, peguei-lhe nas mãos, beijei-as, e duas lagrimas
-rebentaram-lhe dos olhos.</p>
-
-<p>&mdash;Acabou, acabou, disse eu.</p>
-
-<p>Não tive animo de arguir, e, aliás, arguil-a de que? Não era culpa
-della se o marido a amava. Disse-lhe que não me fizera cousa nenhuma,
-que eu tinha necessariamente ciumes do outro, que nem sempre o podia
-supportar de cara alegre; accrescentei que talvez houvesse nelle muito
-de dissimulação, e que o melhor meio de fechar a porta aos sustos e ás
-dissensões era aceitar a minha idéa da vespera.</p>
-
-<p>&mdash;Pensei nisso, acudiu Virgilia; uma casinha só nossa, solitaria,
-mettida n'um jardim, em alguma rua escondida, não é? Acho a idéa boa;
-mas para que fugir?</p>
-
-<p>Disse isto com o tom ingenuo e preguiçoso de quem não cuida em mal, e o
-sorriso que lhe derreava os cantos da boca trazia a mesma expressão de
-candidez. Então, afastando-me, respondi:</p>
-
-<p>&mdash;Você é que nunca me teve amor.</p>
-
-<p>&mdash;Eu?</p>
-
-<p>&mdash;Sim, é uma egoista! prefere ver-me padecer todos os dias... é uma
-egoista sem nome!</p>
-
-<p>Virgilia desatou a chorar, e para não attrahir gente, mettia o lenço na
-boca, recalcava os soluços; explosão que me desconcertou. Se alguem a
-ouvisse, perdia-se tudo. Inclinei-me para ella, travei-lhe dos pulsos,
-susurrei-lhe os nomes mais doces da nossa intimidade; mostrei-lhe o
-perigo; o terror apaziguou-a.</p>
-
-<p>&mdash;Não posso, disse ella dahi a alguns instantes; não deixo meu filho;
-se o levar, estou certa de que elle me irá buscar ao fim do mundo. Não
-posso; mate-me você, se o quizer, ou deixe-me morrer... Ah! meu Deus!
-meu Deus!</p>
-
-<p>&mdash;Socegue; olhe que podem ouvil-a.</p>
-
-<p>&mdash;Que ouçam! Não me importa.</p>
-
-<p>Estava ainda excitada; pedi-lhe que esquecesse tudo, que me perdoasse,
-que eu era um doudo, mas que a minha insania provinha della e com ella
-acabaria. Virgilia enxugou os olhos e estendeu-me a mão. Sorrimos
-ambos; minutos depois, tornavamos ao assumpto da casinha solitaria, em
-alguma rua escusa...</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LXV" id="CAPITULO_LXV">CAPITULO LXV</a></h5>
-
-
-<h4>Olheiros e escutas</h4>
-
-
-<p>Interrompeu-nos o rumor de um carro na chacara. Veiu um escravo dizer
-que era a baroneza X. Virgilia consultou-me com os olhos.</p>
-
-<p>&mdash;Se a senhora está assim com dor de cabeça, disse eu, parece que o
-melhor é não receber.</p>
-
-<p>&mdash;Já se apeou? perguntou Virgilia ao escravo.</p>
-
-<p>&mdash;Já se apeou; diz que precisa muito de falar com sinhá!</p>
-
-<p>&mdash;Que entre!</p>
-
-<p>A baroneza entrou dahi a pouco. Não sei se contava commigo na sala; mas
-era impossivel mostrar maior alvoroço.</p>
-
-<p>&mdash;Bons olhos o vejam! explodiu ella. Onde se mette o senhor que não
-apparece em parte nenhuma? Pois olhe, hontem admirou-me não o ver no
-theatro. A Candiani esteve deliciosa. Que mulher! Gosta da Candiani?
-É natural. Os senhores são todos os mesmos. O barão dizia hontem, no
-camarote, que uma só italiana vale por cinco brazileiras. Que desaforo!
-e desaforo de velho, que é peor. Mas porque é que o senhor não foi
-hontem ao theatro?</p>
-
-<p>&mdash;Uma enxaqueca.</p>
-
-<p>&mdash;Qual! Algum namoro; não acha, Virgilia? Pois, meu amigo, apresse-se,
-porque o senhor deve estar com quarenta annos... ou perto disso... Não
-tem quarenta annos?</p>
-
-<p>&mdash;Não lhe posso dizer com certeza, respondi eu; mas se me dá licença,
-vou consultar a certidão de baptismo.</p>
-
-<p>&mdash;Vá, vá... E estendendo-me a mão:&mdash;Até quando? Sabbado ficamos em
-casa; o barão está com umas saudades suas...</p>
-
-<p>Chegando á rua, arrependi-me de ter saído. A baroneza era uma das
-pessoas que mais desconfiavam de nós. Cincoenta e cinco annos, que
-pareciam quarenta, macia, risonha, vestigios de belleza, porte elegante
-e maneiras finas. Não falava muito nem sempre; possuia a grande arte
-de escutar os outros, espiando-os; reclinava-se então na cadeira,
-desembainhava um olhar afiado e comprido, e deixava-se estar. Os
-outros, não sabendo o que era, falavam, olhavam, gesticulavam, ao tempo
-que ella olhava só, ora fixa, ora mobil, levando a astucia ao ponto de
-olhar ás vezes para dentro de si, porque deixava cair as palpebras;
-mas, como as pestanas eram rotulas, o olhar continuava o seu officio,
-remexendo a alma e a vida dos outros.</p>
-
-<p>A segunda pessoa era um parente de Virgilia, o Viegas, um cangalho de
-setenta invernos, chupado e amarellado, que padecia de um rheumatismo
-teimoso, de uma asthma não menos teimosa e de uma lesão do coração: era
-um hospital concentrado. Os olhos porém luziam de muita vida e saúde.
-Virgilia, nas primeiras semanas, não lhe tinha medo nenhum; dizia-me
-que, quando o Viegas parecia espreitar, com o olhar fixo, estava
-simplesmente contando dinheiro. Com effeito, era um grande avaro.</p>
-
-<p>Havia ainda o primo de Virgilia, o Luiz Dutra, que eu, entretanto,
-desarmava á força de lhe falar nos versos e prosas, e de o apresentar
-aos conhecidos. Quando estes, ligando o nome á pessoa, se mostravam
-contentes da apresentação, não ha duvida que o Luiz Dutra exultava de
-felicidade; mas eu curava-me da felicidade com a esperança de que elle
-nos não denunciasse nunca. Havia, emfim, umas duas ou tres senhoras,
-vários gamenhos, e os famulos, que naturalmente se desforravam assim
-da condição servil, e tudo isso constituia uma verdadeira floresta
-de olheiros e escutas, por entre os quaes tinhamos de resvalar com a
-tactica e maciez das cobras.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LXVI" id="CAPITULO_LXVI">CAPITULO LXVI</a></h5>
-
-
-<h4>As pernas</h4>
-
-
-<p>Ora, emquanto eu pensava naquella gente, iam-me as pernas levando,
-ruas abaixo, de modo que insensivelmente me achei á porta do hotel
-Pharoux. De costume jantava ahi; mas, não tendo deliberadamente andado,
-nenhum merecimento da acção me cabe, e sim ás pernas, que a fizeram.
-Abençoadas pernas! E ha quem vos trate com desdem ou indifferença.
-Eu mesmo, até então, tinha-vos em má conta, zangava-me quando vos
-fatigaveis, quando não podieis ir além de certo ponto, e me deixaveis
-com o desejo a avoaçar, á semelhança de gallinha atada pelos pés.</p>
-
-<p>Aquelle caso, porém, foi um raio de luz. Sim, pernas amigas, vós
-deixastes á minha cabeça o trabalho de pensarem Virgilia, e dissestes
-uma á outra:&mdash;Elle precisa comer, são horas de jantar, vamos levai-o ao
-Pharoux; dividamos a consciencia delle, uma parte fique lá com a dama,
-tomemos nós a outra, para que elle vá direito, não abalroe as gentes e
-as carroças, tire o chapeu aos conhecidos, e finalmente chegue são e
-salvo ao hotel. E cumpristes á risca o vosso proposito, amaveis pernas,
-o que me obriga a immortalisar-vos nesta pagina.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LXVII" id="CAPITULO_LXVII">CAPITULO LXVII</a></h5>
-
-
-<h4>A casinha</h4>
-
-
-<p>Jantei e fui á casa. Lá achei uma caixa de charutos, que me mandára o
-Lobo Neves, embrulhada em papel de seda, e ornada de fitinhas côr de
-rosa. Entendi, abri-a, e tirei este bilhete:</p>
-
-<blockquote>
-
-<p>«Meu B...</p>
-
-<p>«Desconfiam de nós; tudo está perdido; esqueça-me para
-sempre. Não nos veremos mais. Adeus; esqueça-se da infeliz</p>
-
-<p>«V...a»</p></blockquote>
-
-<p>Foi um golpe esta carta; não obstante, apenas fechou a noite, corri á
-casa de Virgilia. Era tempo; estava arrependida. Ao vão de uma janella,
-contou-me o que se passára com a baroneza. A baroneza disse-lhe
-francamente que se falára muito, no theatro, na noite anterior,
-a proposito da minha ausencia do camarote de Lobo Neves; tinham
-commentado as minhas relações na casa; em suma, eramos objecto da
-suspeita publica. Conclui dizendo que não sabia o que fazer.</p>
-
-<p>&mdash;O melhor é fugirmos, insinuei.</p>
-
-<p>&mdash;Nunca, respondeu ella abanando a cabeça.</p>
-
-<p>Vi que era impossivel separar duas cousas que no espirito della estavam
-inteiramente ligadas: o nosso amor e a consideração publica. Virgilia
-era capaz de eguaes e grandes sacrificios para conservar ambas as
-vantagens; e a fuga só lhe deixava uma. Talvez senti alguma cousa
-semelhante a despeito; mas as comoções daquelles dous dias eram já
-muitas, e o despeito morreu depressa. Vá lá; arranjemos a casinha.</p>
-
-<p>Com effeito, achei-a, dias depois, expressamente feita, em um
-recanto da Gamboa. Um brinco! Nova, caiada de fresco, com quatro
-janellas na frente e duas de cada lado,&mdash;todas com venezianas côr de
-tijolo,&mdash;trepadeira nos cantos, jardim na frente; mysterio e solidão.
-Um brinco!</p>
-
-<p>Convencionámos que iria morar alli uma mulher, conhecida de Virgilia,
-em cuja casa fora costureira e aggregada. Virgilia exercia sobre ella
-verdadeira fascinação. Não se lhe diria tudo; ella aceitaria facilmente
-o resto.</p>
-
-<p>Para mim era aquillo uma situação nova do nosso amor, uma apparencia
-do posse exclusiva, de dominio absoluto, alguma cousa que me faria
-adormecer a consciencia o resguardar o decoro. Já estava cançado das
-cortinas do outro, das cadeiras, do tapete, do canapé, de todas essas
-cousas, que me traziam aos olhos constantemente a nossa duplicidade.
-Agora podia evitar os jantares frequentes, o chá de todas as noites,
-emfim a presença do filho delles, meu complice e meu inimigo. A casa
-resgatava-me tudo; o mundo vulgar terminaria á porta;&mdash;dalli para
-dentro era o infinito, um mundo eterno, superior, excepcional, nosso,
-somente nosso, sem leis, sem instituições, sem baronezas, sem olheiros,
-sem escutas,&mdash;um só mundo, um só casal, uma só vida, uma só vontade,
-uma só affeição,&mdash;a unidade moral de todas as cousas pela exclusão das
-que me eram contrarias.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LXVIII" id="CAPITULO_LXVIII">CAPITULO LXVIII</a></h5>
-
-
-<h4>O vergalho</h4>
-
-
-<p>Taes eram as reflexões que eu vinha fazendo, por aquelle Valongo fóra,
-logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-m'as um ajuntamento;
-era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a
-fugir; gemia somente estas unicas palavras:</p>
-
-<p>&mdash;«Não, perdão, meu senhor; meu senhor, perdão!» Mas o primeiro não
-fazia caso, e, a cada supplica, respondia com uma vergalhada nova.</p>
-
-<p>&mdash;Toma, diabo! dizia elle; toma mais perdão, bebado!</p>
-
-<p>&mdash;Meu senhor! gemia o outro.</p>
-
-<p>&mdash;Cala a boca, besta! replicava o vergalho.</p>
-
-<p>Parei, olhei... Justos ceus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada
-menos que o meu moleque Prudencio,&mdash;o que meu pae libertára alguns
-annos antes. Cheguei-me; elle deteve-se logo e pediu-me a benção;
-perguntei-lhe se aquelle preto era escravo delle.</p>
-
-<p>&mdash;E, sim, nhonhô.</p>
-
-<p>&mdash;Fez-te alguma cousa?</p>
-
-<p>&mdash;É um vadio e um bebado muito grande. Ainda hoje deixei elle na
-quitanda, em quanto eu ia lá embaixo na cidade, e elle deixou a
-quitanda para ir na venda beber.</p>
-
-<p>&mdash;Está bom, perdoa-lhe, disse eu.</p>
-
-<p>&mdash;Pois não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bebado!</p>
-
-<p>Saí do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas conjecturas.
-Segui caminho, a cavar cá dentro uma infinidade de reflexões, que sinto
-haver inteiramente perdido; aliás, seria materia para um bom capitulo,
-e talvez alegre. Eu gósto dos capitulos alegres; é o meu fraco.
-Exteriormente, era torvo o episodio do Valongo; mas só exteriormente.
-Logo que metti mais dentro a faca do raciocinio achei-lhe um miolo
-gaiato, fino, e até profundo. Era um modo que o Prudencio tinha de
-se desfazer das pancadas recebidas,&mdash;transmittindo-as a outro. Eu,
-em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem
-compaixão; elle gemia e soffria. Agora, porém, que era livre, dispunha
-de si mesmo, dos braços, das pernas, podia, trabalhar, folgar, dormir,
-desagrilhoado da antiga condição, agora é que elle se desbancava:
-comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de
-mim recebera. Vejam as subtilezas do maroto!</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LXIX" id="CAPITULO_LXIX">CAPITULO LXIX</a></h5>
-
-
-<h4>Um grão de sandice</h4>
-
-
-<p>Este caso faz-me lembrar um doudo que conheci. Chamava-se Romualdo e
-dizia ser Tamerlão. Era a sua grande e unica mania, e tinha uma curiosa
-maneira de a explicar.</p>
-
-<p>&mdash;Eu sou o illustre Tamerlão, dizia elle. Outr'ora fui Romualdo, mas
-adoeci, e tomei tanto tartaro, tanto tartaro, tanto tartaro, que fiquei
-Tartaro, e até rei dos Tartaros. O tartaro tem a virtude de fazer
-Tartaros.</p>
-
-<p>Pobre Romualdo! A gente ria da resposta, mas é provavel que o leitor
-não se ria, e com razão; eu não lhe acho graça nenhuma. Ouvida, tinha
-algum chiste; mas assim contada, no papel, e a proposito de um vergalho
-recebido e transferido, força é confessar que é muito melhor voltar á
-casinha da Gamboa; deixemos os Romualdos e Prudencios.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LXX" id="CAPITULO_LXX">CAPITULO LXX</a></h5>
-
-
-<h4>D. Placida</h4>
-
-
-<p>Voltemos á casinha. Não serias capaz de lá entrar hoje, curioso leitor;
-envelheceu, ennegreceu, apodreceu, e o proprietario deitou-a abaixo
-para substituil-a por outra, tres vezes maior, mas juro-te que muito
-menor que a primeira. O mundo era estreito para Alexandre; um desvão de
-telhado é o infinito para as andorinhas.</p>
-
-<p>E vejam agora a neutralidade deste globo, que nos leva, atravez dos
-espaços, como uma lancha de naufragos, que vae dar á costa: dorme hoje
-um casal de virtudes no mesmo espaço de chão que soffreu um casal de
-peccados. Amanhã pode lá dormir um ecclesiastico, depois um assassino,
-depois um ferreiro, depois um poeta, e todos abençoarão esse canto de
-terra, que lhes deu algumas illusões.</p>
-
-<p>Virgilia fez daquillo um brinco; designou as alfaias mais idoneas, e
-dispol-as com a intuição esthetica da mulher elegante; eu levei para
-lá alguns livros; e tudo ficou sob a guarda de D. Placida, supposta, e,
-a certos respeitos, verdadeira dona da casa.</p>
-
-<p>Custou-lhe muito a aceitar a casa; farejára a intenção, e doia-lhe o
-officio; mas afinal cedeu. Creio que chorava, a principio: tinha nojo
-de si mesma. Ao menos, é certo que não levantou os olhos para mim
-durante os primeiros dous mezes; falava-me com elles baixos, séria,
-carrancuda, ás vezes triste. Eu queria angarial-a, e não me dava por
-offendido, tratava-a com carinho e respeito; forcejava por obter-lhe a
-benevolencia, depois a confiança. Quando obtive a confiança, imaginei
-uma historia pathetica dos meus amores com Virgilia, um caso anterior
-ao casamento, a resistencia do pae, a dureza do marido, e não sei que
-outros toques de novella. D. Placida não rejeitou uma só pagina da
-novella; aceitou-as todas. Era uma necessidade da consciencia. Ao cabo
-de seis mezes quem nos visse a todos tres juntos diria que D. Placida
-era minha sogra.</p>
-
-<p>Não fui ingrato; fiz-lhe um peculio de cinco contos,&mdash;os cinco
-contos achados em Botafogo,&mdash;como um pão para a velhice. D. Placida
-agradeceu-me com lagrimas nos olhos; e nunca mais deixou de rezar por
-mim, todas as noites, deante de uma imagem da Virgem, que tinha no
-quarto. Foi assim que lhe acabou o nojo.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LXXI" id="CAPITULO_LXXI">CAPITULO LXXI</a></h5>
-
-
-<h4>O senão do livro</h4>
-
-
-<p>Começo a arrepender-me deste livro. Não que elle me cance; eu não tenho
-que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capitulos para esse
-mundo sempre é tarefa que distráe um pouco da eternidade. Mas o livro
-é enfadonho, cheira a sepulchro, traz certa contracção cadaverica;
-vicio grave, e aliás infimo, porque o maior defeito deste livro és tu,
-leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a
-narração direita e nutrida, o estylo regular e fluente, e este livro e
-o meu estylo são como os ebrios, guinam á direita e á esquerda, andam e
-param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o ceu, escorregam e cáem...</p>
-
-<p>E cáem!&mdash;Folhas miserrimas do meu cypreste, heis de cair, como
-quaesquer outras bellas e vistosas; e, se eu tivesse olhos, dar-vos-hia
-uma lagrima de saudade. Esta é a grande vantagem da morte, que se
-não deixa boca para rir, tambem não deixa olhos para chorar... Heis
-de cair. Turvo é o ar que respiraes, amadas folhas. O sol que vos
-allumia, com ser de toda a gente, é um sol opaco e reles, de cemiterio
-e carnaval.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LXXII" id="CAPITULO_LXXII">CAPITULO LXXII</a></h5>
-
-
-<h4>O bibliomano</h4>
-
-
-<p>Talvez supprima o capitulo anterior; entre outros motivos, ha ahi, nas
-ultimas linhas, uma phrase muito parecida com desproposito, e eu não
-quero dar pasto á critica do futuro.</p>
-
-<p>Olhae: daqui a setenta annos, um sugeito magro, amarello, grisalho, que
-não ama nenhuma outra cousa além dos livros, inclina-se sobre a pagina
-anterior, a ver se lhe descobre o desproposito; lê, relê, treslê,
-desengonça as palavras, sacca uma syllaba, depois outra, mais outra,
-e as restantes, examina-as por dentro e por fóra, por todos os lados,
-contra a luz, espaneja-as, esfrega-as no joelho, lava-as, e nada. Fica
-sempre o mesmo desproposito.</p>
-
-<p>É um bibliomano. Não conhece o autor; este nome de Braz Cubas não vem
-nos seus diccionarios biographicos. Achou o volume, por acaso, no
-pardieiro de um alfarrabista. Comprou-o por duzentos réis. Indagou,
-pesquizou, esgaravatou, e veiu a descobrir que era um exemplar,
-unico... Unico! Vós, que não só amaes os livros, senão que padeceis a
-mania delles, vós sabeis mui bem o valor desta palavra, e adivinhaes,
-portanto, as delicias de meu bibliomano. Elle regeitaria a corôa das
-Indias, o papado, todos os muzeus da Italia e da Hollanda, se os
-houvesse de trocar por esse unico exemplar; e não porque seja o das
-minhas <i>Memorias</i>; faria a mesma cousa com o <i>Almanak</i> de Laemmert, uma
-vez que fosse unico.</p>
-
-<p>O peor é o desproposito. Lá continúa o homem inclinado sobre a pagina,
-com uma lente no olho direito, todo entregue á nobre e aspera funcção
-de decifrar o desproposito. Já prometteu a si mesmo escrever uma
-breve memoria, na qual relate o achado do livro e a descoberta da
-sublimidade, se a houver por baixo daquella phrase obscura. Ao cabo,
-não descobre nada e contenta-se com a posse. Fecha o livro, mira-o,
-remira-o, chega-se á janella e mostra-o ao sol. Um exemplar unico!
-Nesse momento passa-lhe por baixo da janella um Cesar ou um Cromwell,
-a caminho do poder. Elle dá de hombros, fecha a janella, estira-se
-na rede e folhea o livro devagar, com amor, aos goles... Um exemplar
-unico!</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LXXIII" id="CAPITULO_LXXIII">CAPITULO LXXIII</a></h5>
-
-
-<h4>O lunch</h4>
-
-
-<p>O desproposito fez-me perder outro capitulo. Que melhor não era dizer
-as cousas lisamente, sem todos estes solavancos! Já comparei o meu
-estylo ao andar dos ebrios. Se a idéa vos parece indecorosa, direi
-que elle é o que eram as minhas refeições com Virgilia, na casinha da
-Gamboa, onde ás vezes faziamos a nossa patuscada, o nosso <i>lunch.</i>
-Vinho, fructas, compotas. Comiamos, é verdade, mas era um comer
-virgulado de palavrinhas doces, de olhares ternos, de criancices,
-uma infinidade desses apartes do coração, aliás o verdadeiro, o
-ininterrupto discurso do amor. Ás vezes vinha o arrufo temperar o
-nimio adocicado da situação. Ella deixava-me, refugiava-se n'um canto
-do canapé, ou ia para o interior ouvir as denguices de D. Placida.
-Cinco ou dez minutos depois, reatavamos a palestra, como eu reato a
-narração, para desatal-a outra vez. Note-se que, longe de termos horror
-ao methodo, era nosso costume convidal-o, na pessoa de D. Placida, a
-sentar-se comnosco á meza; mas D. Placida não aceitava nunca.</p>
-
-<p>&mdash;Você parece que não gosta mais de mim, disse-lhe um dia Virgilia.</p>
-
-<p>&mdash;Virgem Nossa Senhora! exclamou a boa dama alçando as mãos para o
-tecto. Não gosto de Yayá! Mas então de quem é que eu gostaria neste
-mundo?</p>
-
-<p>E, pegando-lhe nas mãos, olhou-a fixamente, fixamente, fixamente, até
-molharem-se-lhe os olhos, de tão fixo que era. Virgilia acariciou-a
-muito; eu deixei-lhe uma pratinha na algibeira do vestido.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LXXIV" id="CAPITULO_LXXIV">CAPITULO LXXIV</a></h5>
-
-
-<h4>Historia de D. Placida</h4>
-
-
-<p>Não te arrependas de ser generoso; a pratinha rendeu-me uma confidencia
-de D. Placida, e conseguintemente este capitulo. Dias depois, como eu
-a achasse só em casa, travámos palestra, e ella contou-me em breves
-termos a sua historia. Era filha natural de um sacristão da Sé e de
-uma mulher que fazia doces para fóra. Perdeu o pae aos dez annos. Já
-então ralava côco e fazia não sei que outros misteres de doceira,
-compativeis com a edade. Aos quinze ou dezeseis casou com um alfaiate,
-que morreu tisico algum tempo depois, deixando-lhe uma filha. Viuva,
-com pouco mais de vinte annos, ficaram a seu cargo a filha, com dous, e
-a mãe, cançada de trabalhar. Tinha de sustentar a tres pessoas. Fazia
-doces, que era o seu officio, mas cosia tambem, de dia e de noite, com
-affinco, para tres ou quatro lojas, e ensinava algumas crianças do
-bairro, a dez tostões por mez. Com isto iam-se passando os annos, não
-a belleza, porque não a tivera nunca. Appareceram-lhe alguns namoros,
-propostas, seducções, a que resistia.</p>
-
-<p>&mdash;Se eu pudesse encontrar outro marido, disse-me ella, creia que me
-teria casado; mas ninguem queria casar commigo.</p>
-
-<p>Um dos pretendentes conseguiu fazer-se aceito; não sendo, porém, mais
-delicado que os outros, D. Placida despediu-o do mesmo modo, e depois
-de o despedir chorou muito. Continuou a coser para fóra e a escumar
-os tachos. A mãe tinha a rabugem do temperamento, dos annos e da
-necessidade; mortificava a filha para que tomasse um dos maridos de
-emprestimo e de occasião, que lh'a pediam. E bradava:</p>
-
-<p>&mdash;Queres ser melhor do eu? Não sei donde te vem essas fiducias de
-pessoa rica. Minha camarada, a vida não se arranja á toa; não se
-come vento. Ora esta! Moços tão bons como o Polycarpo da venda,
-coitado...Esperas algum fidalgo, não é?</p>
-
-<p>D. Placida jurou-me que não esperava fidalgo nenhum. Era genio. Queria
-ser casada. Sabia muito bem que a mãe o não fôra, e conhecia algumas
-que tinham só o seu moço dellas; mas era genio e queria ser casada.
-Não queria tambem que a filha fosse outra cousa. E trabalhava muito,
-queimando os dedos ao fogão, e os olhos ao candieiro, para comer e não
-cair. Emmagreceu, adoeceu, perdeu a mãe, enterrou-a por subscripção,
-e continuou a trabalhar. A filha estava com quatorze annos; mas era
-muito fraquinha, e não fazia nada, a não ser namorar os capadocios
-que lhe rondavam a rotula. D. Placida vivia com immensos cuidados,
-levando-a comsigo, quando tinha de ir entregar costuras; e a gente das
-lojas arregalava e piscava os olhos, convencida de que ella a levava
-para colher marido ou outra cousa. Alguns diziam graçolas, faziam
-comprimentos; a mãe chegou a receber propostas de dinheiro...</p>
-
-<p>Interrompeu-se um instante, e continuou logo:</p>
-
-<p>&mdash;Minha filha fugiu-me; foi com um sujeito, nem quero saber...
-Deixou-me só, mas tão triste, tão triste, que pensei morrer. Não tinha
-ninguem mais no mundo e estava quasi velha e doente. Foi por esse tempo
-que conheci a familia de Yayá; boa gente, que me deu que fazer, e até
-chegou a me dar casa. Estive lá muitos mezes, um anno, mais de um anno,
-aggregada, costurando. Saí quando Yayá casou. Depois vivi como Deus
-foi servido. Olhe os meus dedos, olhe estas mãos... E mostrou-me as
-mãos grossas e gretadas, as pontas dos dedos picadas da agulha.&mdash;Não
-se cria isto á toa, meu senhor; Deus sabe como é que isto se cria...
-Felizmente, Yayá me protegeu, e o senhor doutor tambem... Eu tinha um
-medo de acabar na rua, pedindo esmola...</p>
-
-<p>Ao soltar a ultima phrase, D. Placida teve um calafrio. Depois, como se
-tornasse a si, pareceu attentar na inconveniencia daquella confissão
-ao amante de uma mulher casada, e começou a rir, a desdizer-se, a
-chamar-se tola, «cheia de fiducias», como lhe dizia a mãe; enfim,
-cançada do meu silencio, retirou-se da sala. Eu fiquei a olhar para a
-ponta do botim.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LXXV" id="CAPITULO_LXXV">CAPITULO LXXV</a></h5>
-
-
-<h4>Commigo</h4>
-
-
-<p>Podendo acontecer que algum dos meus leitores tenha pulado o capitulo
-anterior, observo que é preciso lel-o para entender o que eu disse
-commigo, logo depois que D. Placida saiu da sala. O que eu disse foi
-isto:</p>
-
-<p>&mdash;Assim, pois, o sacristão da Sé, um dia, ajudando a missa, viu entrar
-a dama, que devia ser sua collaboradora na vida de D. Placida. Viu-a
-outros dias, durante semanas inteiras, gostou, disse-lhe alguma graça,
-pisou-lhe o pé, ao acender os altares, nos dias de festa. Ella gostou
-delle, acercaram-se, amaram-se. Dessa conjuncção de luxurias vadias
-brotou D. Placida. É de crer que D. Placida não falasse ainda quando
-nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias:&mdash;Aqui
-estou. Para que me chamastes? E o sacristão e a sacristã naturalmente
-lhe respondi riam:&mdash;Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos,
-os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para
-outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e
-sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas
-sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia
-na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, n'um momento de
-sympathia.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LXXVI" id="CAPITULO_LXXVI">CAPITULO LXXVI</a></h5>
-
-
-<h4>O estrume</h4>
-
-
-<p>Subito deu-me a consciencia um repellão; accusou-me de ter feito
-capitular a probidade de D. Placida, obrigando-a a um papel torpe,
-depois de uma longa vida de trabalho e privações. Medianeira não era,
-melhor que concubina; e eu tinha-a baixado a esse officio, á custa
-de obsequios e dinheiros. Foi o que me disse a consciencia; e eu
-fiquei uns dez minutos sem saber que lhe replicasse. Ella accrescentou
-que eu me aproveitára da fascinação exercida por Virgilia sobre a
-ex-costureira, da gratidão desta, emfim da necessidade. Notou a
-resistencia de D. Placida, as lagrimas dos primeiros dias, as caras
-feias, os silencios, os olhos baixos, e a minha arte em supportar
-tudo isso, até vencel-a. E repuxou-me outra vez de um modo irritado e
-nervoso.</p>
-
-<p>Concordei que assim era, mas alleguei que a velhice de D. Placida
-estava agora ao abrigo da mendicidade; era uma compensação. E
-raciocinei então que, se não fossem os meus amores, provavelmente
-D. Placida acabaria como tantas outras creaturas humanas; donde se
-poderia deduzir que o vicio é muitas vezes o estrume da virtude. O que
-não impede que a virtude, seja uma flor cheirosa e sã. A consciência
-concordou, e eu fui abrir a porta a Virgilia.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LXXVII" id="CAPITULO_LXXVII">CAPITULO LXXVII</a></h5>
-
-
-<h4>Entrevista</h4>
-
-
-<p>Virgilia entrou risonha e socegada. Os tempos tinham levado os
-sustos e vexames. Que doce que era vel-a chegar, nos primeiros dias,
-envergonhada e tremula! Ia de sege, velado o rosto, envolvida n'uma
-especie de manteu, que lhe disfarçava as ondulações do talhe. Da
-primeira vez deixou-se cair no canapé, offegante, escarlate, com os
-olhos no chão; e, palavra! em nenhuma outra occasião a achei tão bella,
-talvez porque nunca me senti mais lisonjeado.</p>
-
-<p>Agora, porém, como eu dizia, tinham acabado os sustos e vexames; as
-entrevistas entravam no periodo chronometrico. A intensidade de amor
-era a mesma; a differença é que a chamma perdera o tresloucado dos
-primeiros dias para constituir-se um simples feixe de raios, tranquillo
-e constante, como nos casamentos.</p>
-
-<p>&mdash;Estou muito zangada com você, disse ella sentando-se.</p>
-
-<p>&mdash;Porque?</p>
-
-<p>&mdash;Porque não foi lá hontem, como me tinha dito. O Damião perguntou
-muitas vezes se você não iria, ao menos, tomar chá. Porque é que não
-foi?</p>
-
-<p>Com effeito, eu havia faltado á palavra que dera, e a culpa era toda de
-Virgilia, Questão de ciumes. Essa mulher esplendida sabia que o era, e
-gostava de o ouvir dizer, fosse em voz alta ou baixa. Na antevespera,
-em casa da baroneza, valsara duas vezes com o mesmo peralta, depois
-de lhe escutar as cortezanices, ao canto de uma janella. Estava tão
-alegre! tão derramada! tão cheia de si! Quando descobriu, entre as
-minhas sobrancelhas, a ruga interrogativa e ameaçadora, não teve nenhum
-sobresalto, nem ficou subitamente séria; mas deitou ao mar o peralta
-e as cortezanices. Veiu depois a mim, tomou-me o braço, e levou-me
-até outra sala, menos povoada, onde se me queixou de cançaço, e disse
-muitas outras cousas, com o ar pueril que costumava ter, em certas
-occasiões, e eu ouvi-a quasi sem responder nada.</p>
-
-<p>Agora mesmo, custava-me responder alguma cousa, mas emfim contei-lhe
-o motivo da minha ausencia... Não, eternas estrellas, nunca vi olhos
-mais pasmados. A boca semi-aberta, as sobrancelhas arqueadas, uma
-estupefacção visivel, tangivel, que senão podia negar, tal foi a
-primeira replica de Virgilia; abanou a cabeça com um sorriso de piedade
-e ternura, que inteiramente me confundiu.</p>
-
-<p>&mdash;Ora você!</p>
-
-<p>E foi tirar o chapéo, lepida, jovial, como a menina que torna do
-collegio; depois veiu a mim, que estava sentado, deu-me pancadinhas na
-testa, com um só dedo, a repetir;&mdash;Isto, isto;&mdash;e eu não tive remedio
-senão rir tambem, e tudo acabou em galhofa. Era claro que me enganára.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LXXVIII" id="CAPITULO_LXXVIII">CAPITULO LXXVIII</a></h5>
-
-
-<h4>A presidencia</h4>
-
-
-<p>Certo dia, mezes depois, entrou o Lobo Neves em casa, dizendo que iria
-talvez occupar uma presidencia de provincia. Olhei para Virgilia, que
-empallideceu; elle, que a viu empallidecer, perguntou-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;A modo que não gostaste, Virgilia?</p>
-
-<p>Virgilia abanou a cabeça.</p>
-
-<p>&mdash;Não me agrada muito, foi a sua resposta.</p>
-
-<p>Não se disse mais nada; mas de noite o Lobo Neves insistiu no projecto,
-um pouco mais resolutamente do que de tarde; e dous dias depois
-declarou á mulher que a presidencia era cousa definitiva. Virgilia não
-pôde dissimular a repugnancia que isto lhe causava. O marido respondia
-a tudo com as necessidades politicas. E accrescentava:</p>
-
-<p>&mdash;Não posso recusar o que me pedem; é até conveniencia nossa, do
-nosso futuro, dos teus brazões, meu amor, porque eu prometti que
-serias marqueza, e nem baroneza estás. Dirás que sou ambicioso? Sou-o
-devéras, mas é preciso que me não ponhas um peso nas azas da ambição.</p>
-
-<p>Virgilia ficou desorientada. No dia seguinte achei-a triste, na casa
-da Gamboa, á minha espera; tinha dito tudo a D. Placida, que buscava
-consolal-a, como podia. Não fiquei menos abatido.</p>
-
-<p>&mdash;Você hade ir comnosco, disse-me Virgilia.</p>
-
-<p>&mdash;Está douda? Seria uma insensatez.</p>
-
-<p>&mdash;Mas então...?</p>
-
-<p>&mdash;Então, é preciso desfazer o projecto.</p>
-
-<p>&mdash;É impossível.</p>
-
-<p>&mdash;Já aceitou?</p>
-
-<p>&mdash;Parece que sim.</p>
-
-<p>Levantei-me, atirei o chapeu a uma cadeira, e entrei a passeiar de um
-lado para outro, sem saber o que faria. Cogitei largamente, e não achei
-nada. Emfim, cheguei-me a Virgilia, que estava sentada, e travei-lhe da
-mão; D. Placida foi á janella.</p>
-
-<p>&mdash;Nesta pequenina mão está toda a minha existencia, disse eu; voce é
-responsavel por ella; faça o que lhe parecer.</p>
-
-<p>Virgilia teve um gesto afflictivo; eu fui encostar-me ao consolo
-fronteiro. Decorreram alguns instantes do silencio; ouviamos sómente
-o latir de um cão, e não sei se o rumor da agua, que morria na praia.
-Vendo que não falava, olhei para ella. Virgilia tinha os olhos no
-chão, parados, sem luz, as mãos deixadas sobre os joelhos, com os
-dedos cruzados, na attitude da suprema desesperança. N'outra occasião,
-por differente motivo, é certo que eu me lançaria aos pés della,
-e a ampararia com a minha razão e a minha ternura; agora, porém,
-era preciso compellil-a ao esforço de si mesma, ao sacrificio, á
-responsabilidade da nossa vida commun, e conseguintemente desamparal-a,
-deixal-a, e saír; foi o que fiz.</p>
-
-<p>&mdash;Repito, a minha felicidade está nas tuas mãos, disse eu.</p>
-
-<p>Virgilia quiz agarrar-me, mas eu já estava fóra da porta. Cheguei a
-ouvir um proromper de lagrimas, e digo-lhes que estive a ponto de
-voltar, para as enxugar com um beijo; mas subjuguei-me e saí.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LXXIX" id="CAPITULO_LXXIX">CAPITULO LXXIX</a></h5>
-
-
-<h4>Compromisso de gato</h4>
-
-
-<p>Não acabaria se houvesse de contar pelo miudo o que padeci nas
-primeiras horas. Vacillava entre um querer e um não querer,
-entre a piedade que me empuxava á casa de Virgilia e outro
-sentimento,&mdash;egoismo, supponhamos,&mdash;que me dizia:&mdash;Fica; deixa-a a
-sós com o problema, deixa-a que ella o resolverá no sentido do amor.
-Creio que essas duas forças tinham egual intensidade, investiam e
-resistiam ao mesmo tempo, com ardor, com tenacidade, e nenhuma cedia
-definitivamente. Ás rezes sentia um dentesinho de remorso; parecia-me
-que abusava da fraqueza de uma mulher amante e culpada, sem nada
-sacrificar nem arriscar de mim proprio; e, quando ia a capitular,
-vinha outra vez o amor, e me repetia o conselho egoista, e eu ficava
-irresoluto e inquieto, desejoso do a ver, e receioso de que a vista me
-levasse a compartir a responsabilidade da solução.</p>
-
-<p>Por fim interveiu um compromisso entre o egoismo e a piedade; eu iria
-vel-a em casa, e só em casa, em presença do marido, para lhe não dizer
-nada, á espera do effeito da minha intimação. Deste modo, poderia
-conciliar as duas forças. Agora, que isto escrevo, quer-me parecer que
-o compromisso era uma burla, que essa piedade era ainda um fórma de
-egoismo, e que a resolução de ir consolar Virgilia não passava de uma
-suggestão de meu proprio padecimento. Occorre-me a este proposito um
-naturalista,&mdash;não me lembra qual,&mdash;mas era um naturalista,&mdash;em quem li
-esta observação curiosa: «O gato não nos affaga, affaga-se em nós.»
-Vejo que eu fazia um compromisso de gato.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LXXX" id="CAPITULO_LXXX">CAPITULO LXXX</a></h5>
-
-
-<h4>Do secretario</h4>
-
-
-<p>Na noite seguinte fui effectivamente á casa do Lobo Neves; estavam
-ambos, Virgilia muito triste, elle muito jovial. Juro que ella sentiu
-certo allivio, quando os nossos olhos se encontraram, cheios de
-curiosidade e ternura; e não direi o que senti, porque isso já ficou
-expresso no capitulo anterior, <i>in fine.</i> O Lobo Neves contou-me os
-planos que levava para a presidencia, as difficuldades locaes, as
-esperanças, as resoluções; estava tão contente! tão esperançado!
-Virgilia, ao pé da meza, fingia ler um livro, mas por cima da pagina
-olhava-me de quando em quando, interrogativa e ansiosa.</p>
-
-<p>&mdash;O peor, disse-me de repente o Lobo Neves, é que ainda não achei
-secretario.</p>
-
-<p>&mdash;Não?</p>
-
-<p>&mdash;Não, e tenho uma idéa.</p>
-
-<p>&mdash;Ah!</p>
-
-<p>&mdash;Uma idéa... Quer você dar um passeio ao norte? Não sei o que lhe
-disse.</p>
-
-<p>&mdash;Você é rico, continuou elle, não precisa de um magro ordenado; mas se
-quizesse obsequiar-me, ia de secretario commigo.</p>
-
-<p>Meu espirito deu um salto para traz, como se descobrisse uma serpente
-deante de si. Encarei o Lobo Neves, fixamente, imperiosamente, a ver
-se lhe apanhava algum pensamento occulto... Nem sombra disso; o olhar
-vinha direito e franco, a placidez do rosto era natural, não violenta,
-uma placidez salpicada de alegria. Respirei, e não tive animo de
-olhar para Virgilia; senti por cima da pagina o olhar della, que me
-pedia tambem a mesma cousa, e disse que sim, que iria. Na verdade, um
-presidente, uma presidenta, um secretario, era resolver as cousas de um
-modo administrativo.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LXXXI" id="CAPITULO_LXXXI">CAPITULO LXXXI</a></h5>
-
-
-<h4>A reconciliação</h4>
-
-
-<p>E comtudo, ao sair de lá, tive umas sombras de duvida; cogitei se não
-ia expor insanamente a reputação de Virgilia, se não haveria outro
-meio razoavel de combinar o Estado e a Gamboa. Não achei nada. No dia
-seguinte, ao levantar-mo da cama, trazia o espirito feito e resoluto a
-aceitar a nomeação. Ao meio dia, veiu o creado dizer-me que estava na
-sala uma senhora, coberta com um véo. Corro; era minha irmã Sabina.</p>
-
-<p>&mdash;Isto não pode continuar assim, disse ella; é preciso que, de uma vez
-por todas, façamos as pazes. Nossa familia está acabando; não havemos
-de ficar como dous inimigos.</p>
-
-<p>&mdash;Mas se eu não te peço outra cousa, mana! bradei eu estendendo-lhe os
-braços.</p>
-
-<p>E sentei-a ao pé de mim, e falei-lhe do marido, da filha, dos negocios,
-de tudo. Tudo ia bem; a filha estava linda como os amores. O marido
-viria mostrar-m'a, se eu consentissse.</p>
-
-<p>&mdash;Ora essa! irei eu mesmo vel-a.</p>
-
-<p>&mdash;Sim?</p>
-
-<p>&mdash;Palavra.</p>
-
-<p>&mdash;Tanto melhor! respirou Sabina. É tempo de acabar com isto.</p>
-
-<p>Achei-a mais gorda, e talvez mais moça. Parecia ter vinte annos,
-e contava mais de trinta. Graciosa, affavel, nenhum acanhamento,
-nenhum resentimento. Olhavamos um para o outro, com as mãos seguras,
-falando de tudo e de nada, como dous namorados. Era a minha infancia
-que resurgia, fresca, travessa e loura; os annos iam caindo, como as
-fileiras de cartas de jogar encurvadas, com que eu brincava em pequeno,
-e deixavam-me ver a nossa casa, a nossa familia, as nossas festas.
-Supportei a recordação com algum esforço; mas um barbeiro da visinhança
-lembrou-se de zangarrear na classica rabeca, e essa voz,&mdash;porque até
-então a recordação era muda,&mdash;essa voz do passado, fanhosa e saudosa, a
-tal ponto me commoveu, que...</p>
-
-<p>Os olhos della estavam seccos. Sabina não herdára a flor amarella e
-morbida. Que importa? Era minha irmã, meu sangue, um pedaço de minha
-mãe, e eu disse-lh'o com ternura, com sinceridade... Subito, ouço bater
-á porta da sala; vou abrir; era um anjinho de cinco annos.</p>
-
-<p>&mdash;Entra, Sára, disse Sabina.</p>
-
-<p>Era minha sobrinha. Apanhei-a do chão, beijei-a muitas vezes; a
-pequena, espantada, empurrava-me o hombro com a mãosinha, quebrando
-o corpo para descer... Nisto, apparece-me á porta um chapéu, e logo
-um homem, o Cotrim, nada menos que o Cotrim. Eu estava tão commovido,
-que deixei a filha e lancei-me aos braços do pae. Talvez essa effusão
-o desconcertou um pouco; é certo que me pareceu acanhado. Simples
-prologo. Dahi a pouco falavamos como bons amigos velhos. Nenhuma
-allusão ao passado, muitos planos de futuro, promessa de jantarmos em
-casa um do outro; e não deixei de dizer que essa troca de jantares
-podia ser que tivesse uma curta interrupção, por que eu andava com
-idéas de uma viagem ao norte. Sabina olhou para o Cotrim, o Cotrim para
-Sabina; ambos concordaram que essas idéas não tinham senso commum.
-Que diacho podia eu achar no norte? Pois não era na côrte, em plena
-côrte, que devia continuar a luzir, a metter n'um chinello os rapazes
-do tempo? Que, na verdade, nenhum havia que se me comparasse; elle,
-Cotrim, acompanhava-me de longe, e, não obstante uma briga ridicula,
-teve sempre interesse, orgulho, vaidade nos meus triumphos. Ouvia o
-que se dizia a meu respeito, nas ruas e nas salas; era um concerto de
-louvores e admirações. E deixa-se isso para ir passar alguns mezes na
-provincia, sem necessidade, sem motivo serio? A menos que não fosse
-politica...</p>
-
-<p>&mdash;Justamente política, disse eu.</p>
-
-<p>&mdash;Nem assim, replicou elle dahi a um instante&mdash;E depois de outro
-silencio:&mdash;Seja como for, venha jantar hoje comnosco.</p>
-
-<p>&mdash;Certamente que vou; mas, amanhã ou depois, hão de vir jantar commigo.</p>
-
-<p>&mdash;Não sei, não sei, objectou Sabina; casa de homem solteiro... Você
-precisa casar, mano. Tambem eu quero uma sobrinha, ouviu?</p>
-
-<p>O Cotrim reprimiu-a com um gesto, que não entendi bem. Não importa; a
-reconciliação de uma familia vale bem um gesto enigmatico.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LXXXII" id="CAPITULO_LXXXII">CAPITULO LXXXII</a></h5>
-
-
-<h4>Questão de botanica</h4>
-
-
-<p>Digam o que quizerem dizer os hypocondriacos: a vida é uma cousa
-doce. Foi o que eu pensei commigo, ao ver Sabina, o marido e a filha
-descerem de tropel as escadas, dizendo muitas palavras affectuosas
-para cima, onde eu ficava&mdash;no patamar,&mdash;a dizer-lhes outras tantas
-para baixo. E continuei a pensar que, na verdade, era feliz. Amava-me
-uma mulher, tinha a confiança do marido, ia por secretario de ambos, e
-reconciliava-me com os meus. Que podia desejar mais, em vinte e quatro
-horas?</p>
-
-<p>Nesse mesmo dia, tratando de apparelhar os animos, comecei a espalhar
-que talvez fosse para o norte, como secretario de provincia, afim de
-realizar certos designios politicos, que me eram pessoaes. Disse-o na
-rua do Ouvidor, repeti-o no dia seguinte, no Pharoux e no theatro.
-Alguns, ligando a minha nomeação á do Lobo Neves, que já andava em
-boatos, sorriam maliciosamente, outros batiam-me no hombro. No theatro
-disse-me uma senhora que era levar muito longe o amor da esculptura.
-Referia-se ás bellas fórmas de Virgilia.</p>
-
-<p>Mas a allusão mais rasgada que me fizeram foi em casa de Sabina, tres
-dias depois. Fel-a um certo Garcez, velho cirurgião, pequenino, trivial
-e grulha, que podia chegar aos setenta, aos oitenta, aos noventa annos,
-sem adquirir jamais aquella compostura austera, que é a gentileza do
-ancião. A velhice ridicula é, porventura, a mais triste e derradeira
-sorpresa da natureza humana.</p>
-
-<p>&mdash;Já sei, desta vez vae ler Cicero, disse-me elle, ao saber da viagem.</p>
-
-<p>&mdash;Cicero! exclamou Sabina.</p>
-
-<p>&mdash;Pois então? Seu mano é um grande latinista. Traduz Virgilio de
-relance. Olhe que é Virgilio, e não Virgilia... não confunda...</p>
-
-<p>E ria, de um riso grosso, rasteiro e frivolo. Sabina empallideceu e
-olhou para mim, receiosa de alguma replica; mas sorriu, quando me viu
-sorrir, e voltou o rosto para disfarçal-o. As outras pessoas olhavam-me
-com um ar de curiosidade, indulgencia e sympathia; era transparente que
-não acabavam de ouvir nenhuma novidade. O caso dos meus amores andava
-mais publico do que eu podia suppor. E entretanto sorri, um sorriso
-curto, fugitivo e guloso,&mdash;palreiro como as pegas de Cintra. Virgilia
-era um bello erro, e é tão facil confessar um bello erro! Costumava
-ficar carrancudo, a principio, quando ouvia alguma allusão aos nossos
-amores; mas, palavra de honra! sentia cá dentro uma impressão suave e
-linsongeira. Uma vez, porém, aconteceu-me sorrir, e continuei a fazel-o
-das outras vezes. Não sei se ha ahi algum Hobbes ou Spinoza, que
-explique o phenomeno. Eu explico-o assim: a principio, o contentamento,
-sendo interior, era por assim dizer o mesmo sorriso, mas abotoado;
-andando o tempo, desabotou-se em flor, e appareceu aos olhos do
-proximo. Simples questão de botanica.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LXXXIII" id="CAPITULO_LXXXIII">CAPITULO LXXXIII</a></h5>
-
-
-<h4>13</h4>
-
-
-<p>O Cotrim tirou-me daquelle gozo, levando-me á janella.&mdash;Você quer que
-lhe diga uma cousa? perguntou elle;&mdash;não faça essa viagem; é insensata,
-é perigosa.</p>
-
-<p>&mdash;Porque?</p>
-
-<p>&mdash;Você bem sabe porque, tornou elle: é, sobretudo, perigosa, muito
-perigosa. Aqui na côrte, um caso desses perde-se na multidão da gente
-e dos interesses; mas na provincia muda de figura; e tratando-se de
-personagens politicos, é realmente insensatez. As gazetas de opposição,
-logo que farejarem o negocio, passam a imprimil-o com todas as lettras,
-e ahi virão as chufas, os remoques, as alcunhas...</p>
-
-<p>&mdash;Mas não entendo...</p>
-
-<p>&mdash;Entende, entende; e, na verdade, seria bem pouco amigo nosso, se me
-negasse o que toda a gente sabe. Eu sei disso ha longos mezes. Repito,
-não faça semelhante viagem; supporte a ausencia, que é melhor, e evite
-algum grande escandalo e maior desgosto...</p>
-
-<p>Disse isto, e foi para dentro. Eu deixei-me estar com os olhos no
-lampião da esquina,&mdash;um antigo lampião de azeite,&mdash;triste, obscuro e
-recurvado, como um ponto de interrogação. Que me cumpria fazer? Era o
-caso de Hamlet: ou dobrar-me á fortuna, ou lutar com ella e subjugal-a.
-Por outros termos: embarcar ou não embarcar. Esta era a questão. O
-lampião não me dizia nada. As palavras do Cotrim resoavam-me aos
-ouvidos da memoria, de um modo bem diverso do das palavras do Garcez.
-Talvez o Cotrim tivesse razão: mas podia eu separar-me de Virgilia?</p>
-
-<p>Sabina veiu ter commigo, e perguntou-me em que estava pensando.
-Respondi que em cousa nenhuma, que tinha somno e ia para casa. Sabina
-esteve um instante calada.&mdash;O que você precisa, sei eu; é uma noiva.
-Deixe, que eu ainda arranjo uma noiva para você. Saí de lá oppresso,
-desorientado. Tudo prompto para embarcar,&mdash;espirito e coração,&mdash;e eis
-ahi me surge esse porteiro das conveniencias, que me pede o cartão de
-ingresso. Dei ao diabo as conveniências, e com ellas a constituição, o
-corpo legislativo, o ministerio, tudo.</p>
-
-<p>No dia seguinte, abro uma folha politica e leio a noticia de que, por
-decretos de 13, tínhamos sido nomeados presidente e secretario da
-provincia de *** o Lobo Neves e eu. Escrevi immediatamente a Virgilia,
-e segui duas horas depois para a Gamboa. Coitada de D. Placida! Estava
-cada vez mais afflicta; perguntou-me se esqueceriamos a nossa velha, se
-a ausencia era grande e se a provincia ficava longe. Consolei-a; mas
-eu proprio precisava de consolações; a objecção do Cotrim affligia-me
-profundamente. Virgilia chegou dahi a pouco, lepida como uma andorinha;
-mas, ao ver-me triste, ficou muito seria.</p>
-
-<p>&mdash;Que aconteceu?</p>
-
-<p>&mdash;Vacillo, disse eu; não sei se devo aceitar...</p>
-
-<p>Virgilia deixou-se cair, no canapé, a rir.&mdash;Porque? disse ella.</p>
-
-<p>&mdash;Não é conveniente, dá muito na vista...</p>
-
-<p>&mdash;Mas nós já não vamos.</p>
-
-<p>&mdash;Como assim?</p>
-
-<p>Contou-me que o marido ia recusar a nomeação, e por motivo que só disse
-a ella, pedindo-lhe o maior segredo; não podia confessal-o a ninguem
-mais.&mdash;É pueril, observou elle, é ridiculo; mas em summa, é um motivo
-poderoso para mim. E referiu-lhe que o decreto trazia a data de 13, e
-que esse numero significava para elle uma recordação funebre. O pae
-morreu n'um dia 13, treze dias depois de um jantar, em que havia treze
-pessoas. A casa em que morrera a mãe tinha o n. 13. Et cætera. Era um
-algarismo fatidico. Não podia allegar semelhante cousa ao ministro;
-dir-lhe-hia que tinha razões particulares para não aceitar. Eu fiquei
-como ha de estar o leitor,&mdash;um pouco assombrado com esse sacrificio a
-um numero; mas, sendo elle ambicioso, o sacrificio devia ser sincero...
-E ficavamos. Para alguma cousa ha de servir a superstição dos homens.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LXXXIV" id="CAPITULO_LXXXIV">CAPITULO LXXXIV</a></h5>
-
-
-<h4>O conflicto</h4>
-
-
-<p>Numero fatidico, lembras-te que te abençoei muitas vezes? Assim tambem
-as virgens ruivas de Thebas deviam abençoar a egua, de ruiva crina,
-que as substituiu no sacrificio de Pelopidas,&mdash;uma donosa egua, que
-lá morreu, coberta de flores, sem que ninguem lhe désse nunca uma
-palavra de saudade. Pois dou-t'a eu, egua piedosa, não só pela morte
-havida, como porque, entre as donzellas escapas, não é impossivel
-que figurasse uma avó dos Cubas... Numero fatidico, tu foste a nossa
-salvação. Não me confessou o marido a causa da recusa; disse-me tambem
-que eram negocios particulares, e o rosto serio, convencido, com que
-eu o escutei, fez honra á dissimulação humana. Elle é que mal podia
-encobrir a tristeza profunda que o minava; falava pouco, absorvia-se,
-mettia-se em casa, a ler. Outras vezes recebia, e então conversava e
-ria muito, com estrepito e affectação. Opprimiam-n'o duas cousas,&mdash;a
-ambição, que um escrupulo desazára, e logo depois a duvida, e talvez
-o arrependimento,&mdash;mas um arrependimento, que viria outra vez, si se
-repetisse a hypothese, porque o fundo supersticioso existia. Duvidava
-da superstição, sem chegar a rejeital-a. Essa persistencia de um
-sentimento, que repugna ao mesmo individuo, era um phenomeno digno de
-alguma attenção. Mas eu preferia a pura ingenuidade de D. Placida,
-quando confessava não poder ver um sapato voltado para o ar.</p>
-
-<p>&mdash;Que tem isso? perguntava-lhe eu.</p>
-
-<p>&mdash;Faz mal, era a sua resposta.</p>
-
-<p>Isto somente, esta unica resposta, que valia para ella o livro dos sete
-sellos. Faz mal. Disseram-lhe isso em criança, sem outra explicação;
-e ella contentava-se com a certeza do mal. Já não acontecia a mesma
-cousa quando se falava de apontar uma estrella com o dedo; ahi sabia
-perfeitamente que era caso de crear uma verruga.</p>
-
-<p>Ou verruga ou outra cousa, que valia isso, para quem não perde uma
-presidencia de provincia? Tolera-se uma superstição gratuita ou barata;
-é insupportavel a que leva uma parte da vida. Este era o caso do Lobo
-Neves; com o accrescimo da duvida e do terror de haver sido ridiculo.
-E mais este outro accrescimo, que o ministro não acreditou nos motivos
-particulares; attribuiu a recusa do Lobo Neves a manejos politicos,
-illusão complicada de algumas apparencias; tratou-o mal, communicou a
-desconfiança aos collegas; sobrevieram incidentes; emfim, com o tempo,
-o presidente resignatario foi para a opposição.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LXXXV" id="CAPITULO_LXXXV">CAPITULO LXXXV</a></h5>
-
-
-<h4>O cimo da montanha</h4>
-
-
-<p>Quem escapa a um perigo ama a vida com outra intensidade; eu entrei
-a amar Virgilia com muito mais ardor, depois que estive a pique de a
-perder, e a mesma cousa lhe aconteceu a ella. Assim, a presidencia não
-fez mais do que avivar a affeição primitiva; foi a droga de Malabar,
-com que tornámos mais saboroso o nosso amor, e mais prezado tambem. Nos
-primeiros dias, depois daquelle incidente, folgavamos de imaginar a
-dôr da separação, se houvesse separação, a tristeza de um e de outro,
-á proporção que o mar, como uma toalha elastica, se fosse dilatando
-entre nós; e, semelhantes ás crianças, que se achegam ao regaço das
-mães, para fugir a uma simples careta, fugiamos do supposto perigo,
-apertando-nos com abraços.</p>
-
-<p>&mdash;Minha boa Virgilia!</p>
-
-<p>&mdash;Meu amor!</p>
-
-<p>&mdash;Tu és minha, não?</p>
-
-<p>&mdash;Tua, tua...</p>
-
-<p>E assim reatámos o fio da aventura, como a sultana Scheherazade o dos
-seus contos. Esse foi, cuido eu, o ponto maximo do nosso amor, o cimo
-da montanha, donde por algum tempo divisámos os valles de leste e de
-oeste, e por cima de nós o ceu tranquillo e azul. Repousado esse tempo,
-começámos a descer a encosta, com as mãos presas ou soltas, mas a
-descer, a descer...</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LXXXVI" id="CAPITULO_LXXXVI">CAPITULO LXXXVI</a></h5>
-
-
-<h4>O mysterio</h4>
-
-
-<p>Serra abaixo, como eu a visse um pouco differente, não sei se abatida
-ou outra cousa, perguntei-lhe o que tinha; calou-se, fez um gesto de
-enfado, de máu estar, de fadiga; ateimei, ella disse-me que... Um
-fluido subtil percorreu todo o meu corpo: sensação forte; rapida,
-singular, que eu não chegarei jamais a fixar no papel. Travei-lhe das
-mãos, puxei-a levemente a mim, e beijei-a na testa, com uma delicadeza
-de zephyro e uma gravidade de Abrahão. Ella estremeceu, colheu-me a
-cabeça entre as palmas, fitou-me os olhos, depois affagou-me com um
-gesto maternal...Eis ahi um mysterio; deixemos ao leitor o tempo de
-decifrar este mysterio.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LXXXVII" id="CAPITULO_LXXXVII">CAPITULO LXXXVII</a></h5>
-
-
-<h4>Geologia</h4>
-
-
-<p>Succedeu por esse tempo um desastre: a morte do Viegas. O Viegas passou
-ahi de relance, n'um capitulo, com os seus setenta annos, abafados
-de asthma, desconjuntados de rheumatismo, e uma lesão de coração por
-quebra. Foi um dos finos espreitadores da nossa aventura. Virgilia
-nutria grandes esperanças em que esse velho parente, avaro como um
-sepulchro, lhe amparasse o futuro do filho, com algum legado; e, se
-o marido tinha eguaes pensamentos, encobria-os ou estrangulava-os.
-Tudo se deve dizer: havia no Lobo Neves certa dignidade fundamental,
-uma camada de rocha, que resistia ao commercio dos homens. As outras,
-as camadas de cima, terra solta e arêa, levou-lh'as a vida, que é
-um enxurro perpetuo. Se o leitor ainda se lembra do cap. XXXIII,
-observará que é agora a segunda vez que eu comparo a vida a um
-enxurro; mas tambem ha de reparar que desta vez accrescento-lhe
-um adjectivo&mdash;perpetuo. E Deus sabe a força de um adjectivo,
-principalmente em paizes novos e cálidos.</p>
-
-<p>O que é novo neste livro é a geologia moral do Lobo Neves, e
-provavelmente a do cavalheiro, que me está lendo. Sim, essas camadas
-de caracter, que a vida altera, conserva ou dissolve, conforme a
-resistencia dellas, essas camadas mereceriam um capitulo, que eu não
-escrevo, por não alongar a narração. Digo apenas que o homem mais
-probo que conheci em minha vida foi um certo Jacob Medeiros ou Jacob
-Valladares, não me recorda bem o nome. Talvez fosse Jacob Rodrigues;
-em summa, Jacob. Era a probidade mesma; podia ser rico, violentando um
-pequenino escapulo, e não quiz; deixou ir pelas mãos fóra nada menos de
-uns quatrocentos contos; tinha a probidade tão exemplar, que chegava
-a ser miuda e cançativa. Um dia, como nos achassemos, a sós, em casa
-delle, em boa palestra, vieram dizer que o procurava o Dr. B., um
-sujeito enfadonho. O Jacob mandou dizer que não estava em casa.</p>
-
-<p>&mdash;Não péga, bradou uma voz do corredor; cá estou de dentro.</p>
-
-<p>E, com effeito, era o Dr. B., que appareceu logo á porta da sala. O
-Jacob foi recebel-o, affirmando que cuidava ser outra pessoa, e não
-elle, e accrescentando que tinha muito prazer com a visita, o que nos
-rendeu hora e meia de enfado mortal, e isto mesmo, porque o Jacob tirou
-o relogio; o Dr. B. pergutou-lhe então se ia sair.</p>
-
-<p>&mdash;Com minha mulher, disse o Jacob.</p>
-
-<p>Retirou-se o Dr. B. e respiramos. Uma vez respirados, disse eu ao
-Jacob que elle acabava de mentir quatro vezes, em menos de duas horas:
-a primeira, negando-se; a segunda, alegrando-se com a presença do
-importuno; a terceira, dizendo que ia sair; a quarta, accrescentando
-que com a mulher. O Jacob reflectiu um instante, depois confessou a
-justeza da minha observação, mas desculpou-se dizendo que a veracidade
-absoluta era incompativel com um estado social adiantado, e que a paz
-das cidades só se podia obter á custa de embaçadellas reciprocas... Ah!
-lembra-me agora: chamava-se Jacob Tavares.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LXXXVIII" id="CAPITULO_LXXXVIII">CAPITULO LXXXVIII</a></h5>
-
-
-<h4>O enfermo</h4>
-
-
-<p>Não é preciso dizer que refutei tão perniciosa doutrina, com os mais
-elementares argumentos; mas elle estava tão vexado do meu reparo,
-que resistiu até o fim, mostrando certo calor ficticio, talvez para
-atordoar a consciencia.</p>
-
-<p>O caso de Virgilia tinha alguma gravidade mais. Ella era menos
-escrupulosa que o marido; manifestava claramente as esperanças que
-trazia no legado, cumulava o parente de todas as cortezias, attenções
-e affagos que poderiam render, pelo menos, um codicillo. Propriamente,
-adulava-o; mas eu observei que a adulação das mulheres não é a mesma
-cousa que a dos homens. Esta orça pela servilidade; a outra confunde-se
-com a affeição. As formas graciosamente curvas, a palavra doce, a mesma
-fraqueza physica dão á acção lisonjeira da mulher uma côr local, um
-aspecto legitimo. Não importa a edade do adulado; a mulher ha de ter
-sempre para elle uns ares de mãe ou de irmã,&mdash;ou ainda de enfermeira,
-outro officio feminil, em que o mais habil dos homens carecerá sempre
-de um <i>quid</i>, um fluido, alguma cousa.</p>
-
-<p>Era o que eu pensava commigo, quando Virgilia se desfazia toda em
-affagos ao velho parente. Ella ia recebel-o á porta, falando e rindo,
-tirava-lhe o chapeu e a bengala, dava-lhe o braço e levava-o até uma
-cadeira, ou até á cadeira, porque havia lá em casa a «cadeira do
-Viegas», obra especial, conchegada, feita para gente enferma ou anciã.
-Ia fechar a janella proxima, se havia alguma brisa, ou abril-a, se
-estava calor, mas com cuidado, combinando de modo que lhe não désse um
-golpe de ar.</p>
-
-<p>&mdash;Então? hoje está mais fortesinho...</p>
-
-<p>&mdash;Qual! Passei mal a noite; o diabo da asthma não me deixa.</p>
-
-<p>E bufava o homem, repousando a pouco e pouco do cançaço da entrada e
-da subida, não do caminho, porque ia sempre de sege. Ao lado, um pouco
-mais para a frente, sentava-se Virgilia, n'uma banquinha, com as mãos
-nos joelhos do enfermo. Entretanto, o nhonhô chegava á sala, sem os
-pulos do costume, mas discreto, meigo, serio. O Viegas gostava muito
-delle.</p>
-
-<p>&mdash;Vem cá, nhonhô, dizia-lhe; e a custo introduzia a mão na ampla
-algibeira, tirava uma caixinha de pastilhas, mettia uma na boca o dava
-outra ao pequeno. Pastilhas anti-asthmaticas. O pequeno dizia que eram
-muito boas.</p>
-
-<p>Repetia-se isto, com variantes. Como o Viegas gostasse de jogar damas,
-Virgilia cumpria-lhe o desejo, aturando-o por largo tempo, a mover as
-pedras com a mão frouxa e tarda. Outras vezes, desciam a passear na
-chacara, dando-lhe ella o braço, que elle nem sempre aceitava, por
-dizer-se rijo e capaz de andar uma legua. Iam, sentavam-se, tornavam
-a ir, a falar de cousas varias, ora de um negocio de familia, ora de
-uma bisbilhotice de alcova, ora emfim de uma casa que elle meditava
-construir, para residencia propria, casa de feitio moderno, porque a
-delle era das antigas, contemporanea de el-rei D. João VI, á maneira
-de algumas que ainda hoje (creio eu) se podem ver no bairro de S.
-Christovão, com as suas grossas columnas na frente. Parecia-lhe que o
-casarão em que morava podia ser substituido, e já tinha encommendado
-o risco a um pedreiro de fama. Ah! então sim, então é que Virgilia
-chegaria a ver o que era um velho de gosto.</p>
-
-<p>Falava, como se póde suppôr, lentamente e a custo, intervallado de uma
-arfagem incommoda para elle e para os outros. De quando em quando,
-vinha um accesso de tosse; curvo, gemendo, levava o lenço á boca, e
-investigava-o; passado o accesso, tornava ao plano da casa, que devia
-ter taes e taes quartos, um terraço, cocheira, um primor.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_LXXXIX" id="CAPITULO_LXXXIX">CAPITULO LXXXIX</a></h5>
-
-
-<h4>In extremis</h4>
-
-
-<p>&mdash;Amanhã vou passar o dia em casa do Viegas, disse-me ella uma vez.
-Coitado! não tem ninguem...</p>
-
-<p>O Viegas caíra na cama, definitivamente; a filha, casada, adoecera
-justamente agora, e não podia fazer-lhe companhia. Virgilia ia lá
-de quando em quando. Eu aproveitei a circumstancia para passar todo
-aquelle dia ao pé della. Eram duas horas da tarde quando cheguei. O
-Viegas tossia com tal força que me fazia arder o peito; no intervallo
-dos accessos debatia o preço de uma casa, com um sujeito magro. O
-sujeito offerecia trinta contos, o Viegas exigia quarenta. O comprador
-instava como quem receia perder o trem da estrada de ferro, mas o
-Viegas não cedia; recusou primeiramente os trinta contos, depois
-mais dous, depois mais tres, emfim teve um forte accesso, que lhe
-tolheu a fala durante quinze minutos. O comprador acarinhou-o muito,
-arranjou-lhe os travesseiros, offereceu-lhe trinta e seis contos.</p>
-
-<p>&mdash;Nunca! gemeu o enfermo.</p>
-
-<p>E mandou buscar um maço de papeis á escrivaninha; não tendo forças
-para tirar a fita de borracha que prendia os papeis, pediu-me que os
-deslaçasse: fil-o. Eram as contas das despezas com a construcção da
-casa: contas de pedreiro, de carpinteiro, de pintor; contas do papel da
-sala de visitas, da sala de jantar, das alcovas, dos gabinetes; contas
-das ferragens; custo do terreno. Elle abria-as, uma por uma, com a mão
-tremula, e pedia-me que as lesse, e eu lia-as.</p>
-
-<p>&mdash;Veja; mil e duzentos, papel de mil e duzentos a peça. Dobradiças
-francezas... Veja, é de graça, concluiu elle depois de lida a ultima
-conta.</p>
-
-<p>&mdash;Pois bem... mas...</p>
-
-<p>&mdash;Quarenta contos; não lhe dou por menos. Só os juros... faça a conta
-dos juros...</p>
-
-<p>Vinham tossidas estas palavras, ás golfadas, ás syllabas, como se
-fossem migalhas de um pulmão desfeito. Nas orbitas fundas rolavam os
-olhos lampejantes, que me faziam lembrar a lamparina da madrugada. Sob
-o lençol desenhava-se a estructura ossea do corpo, pontudo em dous
-lugares, nos joelhos e nos pés; a pelle amarellada, bamba, rugosa,
-revestia apenas a caveira de um rosto sem expressão; uma carapuça de
-algodão branco cobria-lhe o craneo rapado pelo tempo.</p>
-
-<p>&mdash;Então? disse o sujeito magro.</p>
-
-<p>Fiz-lhe signal para que não insistisse, e elle calou-se por alguns
-instantes. O doente ficou a olhar para o tecto, calado, a arfar muito;
-Virgilia empallideceu, levantou-se, foi até á janella. Suspeitara a
-morte e tinha medo. Eu procurei falar de outras cousas. O sujeito magro
-contou uma anecdota, e tornou a tratar da casa, alteando a proposta.</p>
-
-<p>&mdash;Trinta e oito contos, disse elle.</p>
-
-<p>&mdash;Am?... gemeu o enfermo.</p>
-
-<p>O sujeito magro aproximou-se da cama, pegou-lhe na mão, e sentiu-a
-fria. Eu acheguei-me ao doente, perguntei-lhe se sentia alguma cousa,
-se queria tomar um calice de vinho.</p>
-
-<p>&mdash;Não... não... quar... quaren... quar... quar...</p>
-
-<p>Teve um accesso de tosse, e foi o ultimo; dahi a pouco expirava elle,
-com grande consternação do sujeito magro, que me confessou depois a
-disposição em que estava de offerecer os quarenta contos; mas era
-tarde.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XC" id="CAPITULO_XC">CAPITULO XC</a></h5>
-
-
-<h4>O velho colloquio de Adão e Caim</h4>
-
-
-<p>E nada. Nenhuma lembrança testamentaria, uma pastilha que fosse, com
-que do todo em todo não parecesse ingrato ou esquecido. Nada. Virgilia
-tragou raivosa esse mallogro, e disse-m'o com certa cautela, não pela
-cousa em si, senão porque entendia com o filho, de quem sabia que eu
-não gostava muito, nem pouco. Insinuei-lhe que não devia pensar mais em
-semelhante negocio. O melhor de tudo era esquecer o defunto, um lorpa,
-um cainho sem nome, e tratar de cousas alegres; o nosso filho, por
-exemplo.</p>
-
-<p>Lá me escapou a decifração do mysterio, esse doce mysterio de algumas
-semanas antes, quando Virgilia me pareceu um pouco differente do que
-era. Um filho! Um ser tirado do meu ser! Esta era a minha preoccupação
-exclusiva daquelle tempo. Olhos do mundo, zelos do marido, morte do
-Viegas, nada me interessava por então, nem conflictos politicos,
-nem revoluções, nem terremotos, nem nada. En só pensava naquelle
-embryão anonymo, de obscura paternidade, e uma voz secreta me dizia:
-é teu filho. Meu filho! E repetia estas duas palavras, com certa
-voluptuosidade indefinivel, e não sei que assomos de orgulho. Sentia-me
-homem.</p>
-
-<p>O melhor é que conversavamos os dous, o embryão e eu, falavamos
-de cousas presentes e futuras. O maroto amava-me, era um pelintra
-gracioso, dava-me pancadinhas na cara com as mãosinhas gordas, ou
-então traçava a beca de bacharel, porque elle havia de ser bacharel,
-e fazia um discurso na camara dos deputados. E o pae a ouvil-o de uma
-tribuna, com os olhos rasos de lagrimas. De bacharel passava outra vez
-á escola, pequenino, lousa e livros debaixo do braço, ou então caía no
-berço para tornar a erguer-se homem. Em vão buscava fixar no espirito
-uma edade, uma attitude; esse embryão tinha a meus olhos todos os
-tamanhos e gestos: elle mamava, elle escrevia, elle valsava, elle era
-o interminavel nos limites de um quarto de hora,&mdash;<i>baby</i> e deputado,
-collegial e pintalegrete. Ás vezes, ao pé de Virgilia, esquecia-me
-della e de tudo; Virgilia sacudia-me, reprochava-me o silencio, dizia
-que eu já lhe não queria nada. A verdade é que estava em dialogo com
-o embryão; era o velho colloquio de Adão e Caim, uma conversa sem
-palavras entre a vida e a vida, o mysterio e o mysterio.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XCI" id="CAPITULO_XCI">CAPITULO XCI</a></h5>
-
-
-<h4>Uma carta extraordinaria</h4>
-
-
-<p>Por esse tempo recebi uma carta extraordinaria, acompanhada de um
-objecto não menos extraordinario. Eis o que a carta dizia:</p>
-
-<blockquote>
-
-<p>«Meu caro Braz Cubas.</p>
-
-<p>«Ha tempos, no Passeio Publico, tomei-lhe de emprestimo
-um relogio. Tenho a satisfação de restituir-lh'o com esta
-carta. A differença é que não é o mesmo, porém outro, não
-digo superior, mas egual ao primeiro. <i>Que voulez-vous,
-monseigneur</i>,&mdash;como dizia Figaro,&mdash;<i>c'est la misère.</i> Muitas
-cousas se deram depois do nosso encontro; irei contal-as
-pelo miudo, se me não fechar a porta. Saiba que já não trago
-aquellas botas caducas, nem envergo uma famosa sobrecasaca
-cujas abas se perdiam na noite dos tempos. Cedi o meu degrau
-da escada de S. Francisco; finalmente, almóço.</p>
-
-<p>«Dito isto, peço licença para ir um dia destes expor-lhe
-um trabalho, fructo de longo estudo, um novo systema de
-philosophia, que não só explica e descreve a origem e a
-consummação das cousas, como faz dar um grande passo adeante
-de Zenon e Seneca, cujo stoicismo era um verdadeiro brinco
-de crianças ao pé da minha receita moral. É singularmente
-espantoso este meu systema; rectifica o espirito humano,
-supprime a dor, assegura a felicidade, e enche de immensa
-gloria o nosso paiz. Chamo-lhe humanitismo, de <i>Humanitas</i>,
-principio das cousas. Minha primeira idéa revelava uma grande
-enfatuação; era chamar-lhe borbismo, de Borba; denominação
-vaidosa, além de rude e molesta. E com certeza exprimia
-menos. Verá, meu caro Braz Cubas, verá que é devéras um
-monumento; e se alguma cousa ha que possa fazer-me esquecer
-as amarguras da vida, é o gosto de haver emfim apanhado
-a verdade e a felicidade. Eil-as na minha mão essas
-duas esquivas; após tantos seculos de lutas, pesquizas,
-descobertas, systemas e quédas, eil-as nas mãos do homem. Até
-breve, meu caro Braz Cubas. Saudades do</p>
-
-<p>Velho amigo Joaquim Borba dos Santos.»</p></blockquote>
-
-<p>Li esta carta sem entendel-a. Vinha com ella uma boceta contendo
-um bonito relogio com as minhas iniciaes gravadas, e esta phrase:
-<i>Lembrança do velho Quincas.</i> Voltei á carta, reli-a com pausa, com
-attenção. A restituição do relogio excluia toda a idéa de burla;
-a lucidez, a serenidade, a convicção,&mdash;um pouco jactanciosa, é
-certo,&mdash;pareciam excluir a suspeita de insensatez. Naturalmente
-o Quincas Borba herdara de algum dos seus parentes de Minas, e a
-abastança devolvera-lhe a primitiva dignidade. Não digo tanto; ha
-cousas que se não podem rehaver integralmente; mas emfim a regeneração
-não era impossivel. Guardei a carta e o relogio, e esperei a
-philosophia.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XCII" id="CAPITULO_XCII">CAPITULO XCII</a></h5>
-
-
-<h4>Um homem extraordinario</h4>
-
-
-<p>Já agora acabo com as cousas extraordinarias. Vinha de guardar a
-carta e o relogio, quando me procurou um homem magro e meão, com um
-bilhete do Cotrim, convidando-me para jantar. O portador era casado
-com uma irmã do Cotrim, chegára poucos dias antes do norte, chamava-se
-Damasceno, e fizera a revolução de 1831. Foi elle mesmo que me disse
-isto, no espaço de cinco minutos. Saíra do Rio de Janeiro, por
-desaccordo com o Regente, que era um asno, pouco menos asno do que os
-ministros que serviram com elle. De resto, a revolução estava outra
-vez ás portas. Neste ponto, comquanto trouxesse as idéas politicas
-um pouco baralhadas, consegui organisar e formular o governo de suas
-preferencias: era um despotismo temperado,&mdash;não por cantigas, como
-dizem alhures,&mdash;mas por pennachos da guarda nacional. Só não pude
-alcançar se elle queria o despotismo de um, de tres, de trinta ou de
-tresentos. Opinava por varias cousas, entre outras, o desenvolvimento
-do trafico dos africanos e a expulsão dos inglezes. Gostava muito
-de theatro; logo que chegou foi ao theatro de S. Pedro, onde viu um
-drama soberbo, a <i>Maria Joanna</i>, e uma comedia muito interessante,
-<i>Kettly, ou a volta á Suissa.</i> Tambem gostara muito da Deperini, na
-<i>Sapho</i>, ou na <i>Anna Bolena</i>, não se lembrava bem. Mas a Candiani!
-sim, senhor, era papa-fina. Agora queria ouvir o <i>Ernani</i>, que a filha
-delle cantava em casa, ao piano: <i>Ernani, Ernani, involami...</i>&mdash;E dizia
-isto levantando-se e cantarolando a meia voz.&mdash;No norte essas cousas
-chegavam como um echo. A filha morria por ouvir todas as operas. Tinha
-uma voz muito mimosa a filha. E gosto, muito gosto. Ah! elle estava
-ancioso por voltar ao Rio de Janeiro. Já havia corrido a cidade toda,
-com umas saudades... Palavra! em alguns logares teve vontade de chorar.
-Mas não embarcaria mais. Enjoára muito a bordo, como todos os outros
-passageiros, excepto um inglez... Que os levasse o diabo os inglezes!
-Isto não ficava direito sem irem todos elles barra fóra. Que é que a
-Inglaterra podia fazer-nos? Se elle encontrasse algumas pessoas de
-boa vontade, era obra de uma noite a expulsão dos taes <i>godemes</i>...
-Graças a Deus, tinha patriotismo,&mdash;e batia no peito,&mdash;o que não
-admirava porque era de familia; descendia de um antigo capitão-mór
-muito patriota. Sim, não era nenhum pé-rapado. Viesse a occasião, e
-elle havia de mostrar de que pau era a canoa... Mas fazia-se tarde,
-ia dizer que eu não faltaria ao jantar, e lá me esperava para
-maior palestra.&mdash;Levei-o até á porta da sala; elle parou dizendo
-que sympathisava muito commigo. Quando casára, estava eu na Europa.
-Conheceu meu pae, um homem ás direitas, com quem dansára n'um celebre
-baile da Praia Grande... Coisas! coisas! Falaria depois, fazia-se
-tarde, tinha de ir levar a resposta ao Cotrim. Saiu; fechei-lhe a
-porta... Uf!</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XCIII" id="CAPITULO_XCIII">CAPITULO XCIII</a></h5>
-
-
-<h4>O jantar</h4>
-
-
-<p>Que supplicio que foi o jantar! Felizmente, Sabina fez-me sentar ao pé
-da filha do Damasceno, uma D. Eulalia, ou mais familiarmente Nhã-lóló,
-moça bem graciosa, um tanto acanhada a principio, mas só a principio.
-Faltava-lhe elegancia, mas compensava-a com os olhos, que eram
-soberbos e só tinham o defeito de se não arrancarem de mim, excepto
-quando desciam ao prato; mas Nhã-lóló comia tão pouco, que quasi não
-olhava para o prato. De noite cantou; a voz era como dizia o pae,
-«muito mimosa». Não obstante, esquivei-me. Sabina veiu até á porta, e
-perguntou-me que tal achára a filha do Damasceno.</p>
-
-<p>&mdash;Assim, assim.</p>
-
-<p>&mdash;Muito sympathica, não é? acudiu ella; falta-lhe um pouco mais de
-corte. Mas que coração! é uma perola. Bem boa noiva para você.</p>
-
-<p>&mdash;Não gosto de perolas.</p>
-
-<p>&mdash;Casmurro! Para quando é que você se guarda? para quando estiver a
-cair de maduro, já sei. Pois, meu rico, quer você queira quer não, ha
-de casar com Nhã-lóló.</p>
-
-<p>E dizia isto a bater-me na face com os dedos, meiga como uma pomba, e
-ao mesmo tempo intimativa e resoluta. Santo Deus! seria esse o motivo
-da reconciliação? Fiquei um pouco desconsolado com a idéa, mas uma voz
-mysteriosa chamava-me á casa do Lobo Neves, disse adeus a Sabina e ás
-suas ameaças.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XCIV" id="CAPITULO_XCIV">CAPITULO XCIV</a></h5>
-
-
-<h4>A causa secreta</h4>
-
-
-<p>&mdash;Como está a minha querida mamãe?</p>
-
-<p>A esta palavra, Virgilia amuou-se, como sempre. Estava ao canto de uma
-janella, sosinha, a olhar para a lua, e recebeu-me alegremente; mas
-quando lhe falei no nosso filho amuou-se. Não gostava de semelhante
-allusão, aborreciam-lhe as minhas anticipadas caricias paternaes.
-E eu, para quem ella era já uma pessoa sagrada, uma ambula divina,
-deixava-a estar quieta. Suppuz a principio que o embryão, esse perfil
-do incognito, projectando-se na nossa aventura, lhe restituira a
-consciencia do mal. E enganava-me. Nunca Virgilia me parecera mais
-expansiva, mais sem reservas, menos preoccupada dos outros e do marido.
-Não eram remorsos. Imaginei tambem que a concepção seria um puro
-invento, um modo de prender-me a ella, recurso sem longa efficacia, que
-talvez começava de opprimil-a. Não era absurda esta hypothese; a minha
-doce Virgilia mentia ás vezes, com tanta graça!</p>
-
-<p>Naquella noite descobri a causa verdadeira. Era medo do parto e
-vexame da gravidez. Padecera muito quando lhe nasceu o primeiro
-filho; e essa hora, feita de minutos de vida e minutos de morte,
-dava-lhe já imaginariamente os calefrios do patibulo. Quanto ao
-vexame, complicava-se ainda da forçada privação de certos habitos
-da vida elegante. Com certeza, era isso mesmo; dei-lh'o a entender,
-reprehendendo-a, um pouco em nome dos meus direitos de pae. Virgilia
-fitou-me; em seguida desviou os olhos e sorriu de um geito incredulo.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XCV" id="CAPITULO_XCV">CAPITULO XCV</a></h5>
-
-
-<h4>Flores de antanho</h4>
-
-
-<p>Onde estão ellas as flores de antanho? Uma tarde, apoz algumas semanas
-de gestação, esboroou-se todo o edificio das minhas chimeras paternaes.
-Foi-se o embryão, naquelle ponto em que se não distingue Laplace de
-uma tartaruga. Tive a noticia por boca do Lobo Neves, que me deixou na
-sala, e acompanhou o medico á alcova da frustrada mãe. Eu encostei-me
-á janella, a olhar para a chacara, onde verdejavam as laranjeiras sem
-flores. Onde iam ellas as flores de antanho?</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XCVI" id="CAPITULO_XCVI">CAPITULO XCVI</a></h5>
-
-
-<h4>A carta anonyma</h4>
-
-
-<p>Senti tocar-me no hombro; era o Lobo Neves. Encaramo-nos alguns
-instantes, mudos, inconsolaveis. Indaguei de Virgilia, depois ficamos
-a conversar uma meia hora. No fim desse tempo, vieram trazer-lhe uma
-carta; elle leu-a, empallideceu muito, e fechou-a com a mão tremula.
-Creio que lhe vi fazer um gesto, como se quizesse atirar-se sobre mim;
-mas não me lembra bem. O que me lembra claramente é que durante os dias
-seguintes recebeu-me frio e taciturno. Emfim, Virgilia contou-me tudo,
-dahi a dias na Gamboa.</p>
-
-<p>O marido mostrou-lhe a carta, logo que ella se restabeleceu. Era
-anonyma e denunciava-nos. Não dizia tudo; não falava, por exemplo, das
-nossas entrevistas externas; limitava-se a precavel-o contra a minha
-intimidade, e accrescentava que a suspeita era publica. Virgilia leu a
-carta e disse com indignação que era uma calumnia infame.</p>
-
-<p>&mdash;Calumnia? perguntou o Lobo Neves.</p>
-
-<p>&mdash;Infame.</p>
-
-<p>O marido respirou; mas, tornando á carta, parece que cada palavra della
-lhe fazia com o dedo um signal negativo, cada lettra bradava contra a
-indignação da mulher. Esse homem, aliás intrepido, era agora a mais
-fragil das creaturas. Talvez a imaginação lhe mostrou, ao longe, o
-famoso olho da opinião, a fital-o sarcasticamente, com um ar de pulha;
-talvez uma boca invisivel lhe repetiu ao ouvido as chufas que elle
-escutara ou dissera outr'ora. Instou com a mulher que lhe confessasse
-tudo, porque tudo lhe perdoaria. Virgilia comprehendeu que estava
-salva; mostrou-se irritada com a insistencia, jurou que da minha parte
-só ouvira palavras de gracejo e cortezia. A carta havia de ser de algum
-namorado sem ventura. E citou alguns,&mdash;um que a galanteára francamente,
-durante algumas semanas, outro que lhe escrevera uma carta, e ainda
-outros e outros. Citava-os pelo nome, com circumstancias, estudando
-os olhos do marido, e concluiu dizendo que, para não dar margem á
-calumnia, tratar-me-hia de maneira que eu não voltaria lá.</p>
-
-<p>Ouvi tudo isto um pouco turbado, não pelo accrescimo de dissimulação
-que era preciso empregar de ora em diante, até afastar-me inteiramente
-da casa do Lobo Neves, mas pela tranquillidade moral de Virgilia, pela
-falta de commoção, de susto, de saudades, e até de remorsos. Virgilia
-notou a minha preoccupação, levantou-me a cabeça, porque eu olhava
-então para o soalho, e disse-me com certa amargura:</p>
-
-<p>&mdash;Você não merece os sacrificios que lhe faço.</p>
-
-<p>Não lhe disse nada; era ocioso ponderar-lhe que um pouco de desespero
-e terror daria á nossa situação o sabor caustico dos primeiros dias;
-mas se lh'o dissesse, não é impossivel que ella chegasse lenta e
-artificiosamente até esse pouco de desespero e terror. Não lhe disse
-nada. Ella batia nervosamente com a ponta do pé no chão; aproximei-me e
-beijei-a na testa. Virgilia recuou, como se fosse um beijo de defuncto.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XCVII" id="CAPITULO_XCVII">CAPITULO XCVII</a></h5>
-
-
-<h4>Entre a boca e a testa</h4>
-
-
-<p>Sinto que o leitor estremeceu,&mdash;ou devia estremecer. Naturalmente
-a ultima palavra suggeriu-lhe tres ou quatro reflexões. Veja bem o
-quadro: n'uma casinha da Gamboa, duas pessoas que se amam ha muito
-tempo, uma inclinada para a outra, a dar-lhe um beijo na testa, e a
-outra a recuar, como se sentisse o contacto de uma boca de cadaver.
-Ha ahi, no breve intervallo, entre a boca e a testa, antes do beijo e
-depois do beijo, ha ahi largo espaço para muita cousa,&mdash;a contracção de
-um resentimento,&mdash;a ruga da desconfiança,&mdash;ou emfim o nariz pallido e
-somnolento da saciedade...</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XCVIII" id="CAPITULO_XCVIII">CAPITULO XCVIII</a></h5>
-
-
-<h4>Supprimido</h4>
-
-
-<p>Separamo-nos alegremente. Jantei reconciliado com a situação. A carta
-anonyma restituia á nossa aventura o sal do mysterio e a pimenta do
-perigo; e afinal foi bem bom que Virgilia não perdesse naquella crise a
-posse de si mesma. De noite fui ao theatro de S. Pedro; representava-se
-uma grande peça, em que a Estella arrancava lagrimas. Entro; corro
-os olhos pelos camarotes; vejo em um delles o Damasceno e a familia.
-Trajava a filha com outra elegancia e certo apuro, cousa difficil de
-explicar, porque o pae ganhava apenas o necessario para endividar-se; e
-dahi, talvez fosse por isso mesmo.</p>
-
-<p>No intervallo fui visital-os. O Damasceno recebeu-me com muitas
-palavras, a mulher com muitos sorrisos. Quanto a Nhã-lóló, não tirou
-mais os olhos de mim; e realmente parecia-me agora mais bonita que
-no dia do jantar. Achei-lhe certa suavidade etherea casada ao polido
-das fórmas terrenas:&mdash;expressão vaga, e condigna de um capitulo em
-que tudo ha de ser vago. Realmente, não sei como lhes diga que não me
-senti mal, ao pé da moça, trajando garridamente um vestido fino, um
-vestido que me dava cocegas de Tartuffo. Ao contemplal-o, cobrindo
-casta e redondamente o joelho, foi que eu fiz uma descoberta subtil, a
-saber, que a natureza previu a vestidura humana, condição necessaria
-ao desenvolvimento da nossa especie. A nudez habitual, dada a
-multiplicação das obras e dos cuidados do individuo, tenderia a embotar
-os sentidos e a retardar os sexos, ao passo que o vestuario, negaceando
-a natureza, aguça e attráe as vontades, activa-as, reprodul-as, e
-conseguintemente faz andar a civilisação. Abençoado uso que nos deu
-<i>Othello</i> e os paquetes transatlanticos!</p>
-
-<p>Estou com vontade de supprimir este capitulo. O declive é perigoso.
-Mas emfim eu escrevo as minhas memorias e não as tuas, leitor pacato.
-Ao pé da graciosa donzella, parecia-me tomado de uma sensação dupla
-e indefinivel. Ella exprimia inteiramente a dualidade de Pascal,
-<i>l'ange et la bête</i>, com a differença que o jansenista não admittia a
-simultaneidade das duas naturezas, ao passo que ellas ahi estavam bem
-juntinhas,&mdash;<i>l'ange</i>, que dizia algumas cousas do ceu,&mdash;e <i>la bête</i>,
-que... Não; decididamente supprimo este capitulo.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_XCIX" id="CAPITULO_XCIX">CAPITULO XCIX</a></h5>
-
-
-<h4>Na platéa</h4>
-
-
-<p>Na platéa achei o Lobo Neves, de conversa com alguns amigos; falámos
-por alto, a frio, constrangidos um e outro. Mas no intervallo seguinte,
-prestes a levantar o panno, encontramo-nos n'um dos corredores, em que
-não havia ninguem. Elle veiu a mim, com muita affabilidade e riso,
-puxou-me a um dos oculos do theatro, e falamos muito, principalmente
-elle, que parecia o mais tranquillo dos homens. Cheguei a perguntar-lhe
-pela mulher; respondeu que estava boa, mas torceu logo a conversação
-para assumptos geraes, expansivo, quasi risonho. Adivinhe quem quizera
-causa da differença; eu fujo ao Damasceno que me espreita alli da porta
-do camarote.</p>
-
-<p>Não ouvi nada do seguinte acto, nem as palavras dos actores, nem
-as palmas do publico. Reclinado na cadeira, apanhava de memoria os
-retalhos da conversação do Lobo Neves, refazia as maneiras delle, e
-concluia que era muito melhor a nova situaçao. Bastava-nos a Gamboa. A
-frequencia da outra casa aguçaria as invejas. E rigorosamente podiamos
-dispensar-nos de falar todos os dias; era até melhor, mettia a saudade
-de permeio nos amores. Ao demais, eu galgara os quarenta annos, e não
-era nada, nem simples eleitor de parochia. Urgia fazer alguma cousa,
-ainda por amor de Virgilia, que havia de ufanar-se quando visse luzir o
-meu nome... Creio que nessa occasião houve grandes applausos, mas não
-juro; eu pensava em outra cousa.</p>
-
-<p>Multidão, cujo amor cobicei até á morte, era assim que eu me vingava ás
-vezes de ti; deixava borborinhar em volta do meu corpo a gente humana,
-sem a ouvir, como o Prometheu de Eschylo fazia aos seus verdugos.
-Ah! tu cuidavas encadear-me ao rochedo da tua frivolidade, da tua
-indifferença, ou da tua agitação? Frageis cadeias, amiga minha; eu
-rompia-as de um gesto de Gulliver. Vulgar cousa é ir considerar no
-ermo. O voluptuoso, o exquisito, é insular-se o homem no meio de um
-mar de gestos e palavras, de nervos e paixões, decretar-se alheiado,
-inaccessivel, ausente. O mais que podem dizer, quando elle torna a
-si,&mdash;isto é, quando torna aos outros,&mdash;é que baixa do mundo da lua; mas
-o mundo da lua, esse desvão luminoso e recatado do cerebro, que outra
-cousa é senão a affirmação desdenhosa da nossa liberdade espiritual?
-Vive Deus! eis um bom fecho de capitulo.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_C" id="CAPITULO_C">CAPITULO C</a></h5>
-
-
-<h4>O caso provavel</h4>
-
-
-<p>Se esse mundo não fosse uma região de espiritos desattentos, era
-escusado lembrar ao leitor que eu só affirmo certas leis, quando
-as possuo deveras; em relação a outras restrinjo-me á admissão da
-probabilidade. Um exemplo da segunda classe constitue o presente
-capitulo, cuja leitura recommendo a todas as pessoas que amam o estudo
-dos phenomenos sociaes. Segundo parece, e não é improvavel, existe
-entre os factos da vida publica e os da vida particular uma certa acção
-reciproca, regular, e talvez periodica,&mdash;ou, para usar de uma imagem,
-ha alguma cousa semelhante ás marés da praia do Flamengo e de outras
-egualmente marulhosas. Com effeito, quando a onda investe a praia,
-alaga-a muitos palmos a dentro; mas essa mesma agua torna ao mar, com
-variavel força, e vae engrossar a onda que ha de vir, e que terá de
-tornar como a primeira. Esta é a imagem; vejamos a applicação.</p>
-
-<p>Deixei dito n'outra pagina que o Lobo Neves, nomeado presidente de
-provincia, recusou a nomeação por motivo da data do decreto, que era
-13; acto grave, cuja consequencia foi separar do ministerio o marido de
-Virgilia. Assim, o facto particular da ogerisa de um numero produziu o
-phenomeno da dissidencia politica. Resta ver como, tempos depois, um
-acto politico determinou na vida particular uma cessação de movimento.
-Não convindo ao methodo deste livro descrever immediatamente esse outro
-phenomeno, limito-me a dizer por ora que o Lobo Neves, quatro mezes
-depois de nosso encontro no theatro, reconciliou-se com o ministerio;
-facto que o leitor não deve perder de vista, se quizer penetrar a
-subtileza do meu pensamento.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CI" id="CAPITULO_CI">CAPITULO CI</a></h5>
-
-
-<h4>A revolução dalmata</h4>
-
-
-<p>Foi Virgilia quem me deu noticia da vira-volta politica do marido,
-certa manhã de outubro, entre onze e meio dia; falou-me de reuniões, de
-conversas, de um discurso...</p>
-
-<p>&mdash;De maneira que desta vez fica você baroneza, interrompi eu.</p>
-
-<p>Ella derreou os cantos da boca, e moveu a cabeça a um e outro lado;
-mas esse gesto de indifferença era desmentido por alguma cousa menos
-definivel, menos clara, uma expressão de gosto e de esperança. E não
-sei por que imaginei que a carta imperial da nomeação podia attraíl-a á
-virtude, não digo pela virtude em si mesma, mas por gratidão ao marido.
-Que ella amava cordialmente a nobreza; e um dos maiores desgostos de
-nossa vida foi o apparecimento de um certo pelintra de legação,&mdash;da
-legação da Dalmacia, supponhamos,&mdash;o conde B. V., que a namorou durante
-tres mezes.</p>
-
-<p>Esse homem, vero fidalgo de raça, transtornara um pouco a cabeça
-de Virgilia, que, além do mais, possuia a vocação diplomatica. Não
-chego a alcançar o que seria de mim, se não rebentasse na Dalmacia
-uma revolução, que derrocou o governo e purificou as embaixadas. Foi
-sangrenta a revolução, dolorosa, formidavel; os jornaes, a cada navio
-que chegava da Europa, transcreviam os horrores, mediam o sangue,
-contavam as cabeças; toda a gente fremia de indignação e piedade...
-Eu não; eu abençoava interiormente essa tragedia, que me tirára uma
-pedrinha do sapato. E depois a Dalmacia era tão longe!</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CII" id="CAPITULO_CII">CAPITULO CII</a></h5>
-
-
-<h4>De repouso</h4>
-
-
-<p>Mas este mesmo homem, que se alegrou com a partida do outro, praticou
-dahi a tempos... Não, não hei de contal-o nesta pagina; fique esse
-capitulo para repouso do meu vexame. Uma acção grosseira, baixa, sem
-explicação possivel... Repito, não contarei o caso nesta pagina.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CIII" id="CAPITULO_CIII">CAPITULO CIII</a></h5>
-
-
-<h4>Distracção</h4>
-
-
-<p>&mdash;Não, senhor doutor, isto não se faz. Perdoe-me, isto não se faz.</p>
-
-<p>Tinha razão D. Placida. Nenhum cavalheiro chega uma hora mais tarde
-ao logar em que o espera a sua dama. Entrei esbaforido; Virgilia
-tinha ido embora. D. Placida contou-me que ella esperára muito, que
-se irritara, que chorara, que jurára votar-me ao desprezo, e outras
-mais cousas que a nossa caseira dizia com lagrimas na voz, pedindo-me
-que não desamparasse Yayá, que era ser muito injusto com uma moça que
-me sacrificara tudo. Expliquei-lhe então que um equivoco... E não era;
-cuido que foi simples distracção. Um dito, uma conversa, uma anecdota,
-qualquer cousa; simples distracção.</p>
-
-<p>Coitada de D. Placida! Estava afflicta deveras. Andava de um lado para
-outro, abanando a cabeça, suspirando com estrepito, espiando pela
-rotula. Coitada de D. Placida! Com que arte conchegava as roupas,
-bafejava as faces, acalentava as manhas do nosso amor! que imaginação
-fertil em tornar as horas mais apraziveis e breves! Flores, doces,&mdash;os
-bons doces de outros dias,&mdash;e muito riso, muito affago, um riso e um
-affago que cresciam com o tempo, como se ella quizesse fixar a nossa
-aventura, ou restituir-lhe a primeira flor. Nada esquecia a nossa
-confidente e caseira; nada, nem a mentira, porque a um e outro referia
-suspiros e saudades que não presenciára; nada, nem a calumnia, porque
-uma vez chegou a attribuir-me uma paixão nova.&mdash;Você sabe que não
-posso gostar de outra mulher, foi a minha resposta, quando Virgilia me
-falou em semelhante cousa. E esta só palavra, sem nenhum protesto ou
-admoestação, dissipou o aleive-de D. Placida, que ficou triste.</p>
-
-<p>&mdash;Está bem, disse-lhe eu, depois de um quarto de hora; Virgilia hade
-reconhecer que não tive culpa nenhuma... Quer você levar-lhe uma carta
-agora mesmo?</p>
-
-<p>&mdash;Ella hade estar bem triste, coitadinha! Olhe, eu não desejo a morte
-de ninguem; mas, se o senhor doutor algum dia chegar a casar com Yayá,
-então sim, é que hade ver o anjo que ella é!</p>
-
-<p>Lembra-me que desviei o rosto e baixei os olhos ao chão. Recommendo
-este gesto ás pessoas que não tiverem uma palavra prompta para
-responder, ou ainda ás que receiarem encarar a pupilla do outros olhos.
-Em taes casos, alguns preferem recitar uma oitava dos <i>Lusiadas</i>,
-outros adoptam o recurso de assobiar a <i>Norma</i>; eu atenho-me ao gesto
-indicado; é mais simples, exige menos esforço.</p>
-
-<p>Tres dias depois, estava tudo explicado. Supponho que Virgilia ficou
-um pouco admirada, quando lhe pedi desculpa das lagrimas que derramára
-naquella triste occasião; e não me lembra se interiormente as attribui
-a D. Placida. Com effeito, podia acontecer que D. Placida chorasse, ao
-vel-a desapontada, e, por um phenomeno da visão, as lagrimas que tinha
-nos proprios olhos lhe parecessem cair dos olhos de Virgilia. Fosse
-como fosse, tudo estava explicado, mas não perdoado, e menos ainda
-esquecido. Virgilia dizia-me uma porção de cousas duras, ameaçava-me
-com a separação, emfim louvava o marido. Esse sim, era um homem digno,
-muito superior a mim, delicado, um primor de cortezia e affeição; é
-o que ella dizia, emquanto eu, sentado, com os braços fincados nos
-joelhos, olhava para o chão, onde uma mosca arrastava uma formiga que
-lhe mordia o pé. Pobre mosca! pobre formiga!</p>
-
-<p>&mdash;Mas você não diz nada, nada? perguntou Virgilia, parando deante de
-mim.</p>
-
-<p>&mdash;Que heide dizer? Já expliquei tudo; você teima em zangar-se; que
-heide dizer? Sabe o que me parece? Parece-me que você está enfastiada,
-que se aborrece, que quer acabar...</p>
-
-<p>&mdash;Justamente!</p>
-
-<p>Foi dali pôr o chapéu, com a mão tremula, raivosa...&mdash;Adeus, D.
-Placida, bradou ella para dentro. Depois foi até á porta, correu o
-fecho, ia sair; agarrei-a pela cintura.&mdash;Está bom, está bom, disse-lhe.
-Virgilia ainda forcejou por sair. Eu retive-a, pedi-lhe que ficasse,
-que esquecesse; ella afastou-se da porta e foi cair no canapé.
-Sentei-me ao pé della, disse-lhe muitas cousas meigas, outras humildes,
-outras graciosas. Não affirmo se os nossos labios chegaram á distancia
-de um fio de cambraia ou ainda menos; é matéria controversa. Lembra-me,
-sim, que na agitação caiu um brinco de Virgilia, que eu inclinei-me a
-apanhal-o, e que a mosca de ha pouco trepou ao brinco, levando sempre a
-formiga no pé. Então eu, com a delicadeza nativa de um homem do nosso
-seculo, puz na palma da mão aquelle casal de mortificados; calculei
-toda a distancia que ia da minha mão ao planeta Saturno, e perguntei
-a mim mesmo que interesse podia haver n'um episodio tão mofino. Se
-conclues dahi que eu era um barbaro, enganas-te, porque eu pedi um
-grampo a Virgilia, afim de separar os dous insectos; mas a mosca
-farejou a minha intenção, abriu as azas e foi-se embora. Pobre mosca!
-pobre formiga! E Deus viu que isto era bom, como se diz na Escriptura.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CIV" id="CAPITULO_CIV">CAPITULO CIV</a></h5>
-
-
-<h4>Era elle!</h4>
-
-
-<p>Restitui o grampo a Virgilia, que o repregou nos cabellos, e
-preparou-se para sair. Era tarde; tinham dado tres horas. Tudo estava
-esquecido e perdoado. D. Placida, que espreitava a occasião idonea para
-a saída, fecha subitamente a janella e exclama:</p>
-
-<p>&mdash;Virgem Nossa Senhora! ahi vem o marido de Yayá!</p>
-
-<p>O momento de terror foi curto, mas completo. Virgilia fez-se da cor
-das rendas do vestido, correu até a porta da alcova; D. Placida, que
-fechára a rotula, queria fechar tambem a porta de dentro; eu dispuz-me
-a esperar o Lobo Neves. Esse curto instante passou. Virgilia tornou
-a si, empurrou-me para a alcova, disse a D. Placida que voltasse á
-janella; a confidente obedeceu.</p>
-
-<p>Era elle. D. Placida abriu-lhe a porta com muitas exclamações de
-pasmo:&mdash;O senhor por aqui! honrando a casa de sua velha! Entre, faça
-favor. Adivinhe quem está cá... Não tem que adivinhar: não veiu por
-outra cousa... Appareça, Yayá.</p>
-
-<p>Virgilia, que estava a um canto, atirou-se ao marido. Eu espreitava-os
-pelo buraco da fechadura. O Lobo Neves entrou lentamente, pallido,
-frio, quieto, sem explosão, sem arrebatamento, e circulou um olhar em
-volta da sala.</p>
-
-<p>&mdash;Que é isto? exclamou Virgilia. Você por aqui?</p>
-
-<p>&mdash;Ia passando, vi D. Placida á janella, e vim comprimental-a.</p>
-
-<p>&mdash;Muito obrigada, acudiu esta. E digam que as velhas não valem alguma
-cousa... Olhae, gentes! Yayá parece estar com ciumes. E acariciando-a
-muito:&mdash;Este anjinho é que nunca se esqueceu da velha Placida.
-Coitadinha! é mesmo a cara da mãe... Sente-se, senhor doutor...</p>
-
-<p>&mdash;Não me demoro.</p>
-
-<p>&mdash;Você vae para casa? disse Virgilia. Vamos juntos.</p>
-
-<p>&mdash;Vou.</p>
-
-<p>&mdash;Dê cá o meu chapéu, D. Placida.</p>
-
-<p>&mdash;Está aqui.</p>
-
-<p>D. Placida foi buscar um espelho, abriu-o deante della. Virgilia punha
-o chapéu, atava as fitas, arranjava os cabellos, falando ao marido,
-que não respondia nada. A nossa boa velha tagarellava de mais; era um
-modo de disfarçar as tremuras do corpo. Virgilia, dominado o primeiro
-instante, tornára á posse de si mesma.</p>
-
-<p>&mdash;Prompta! disse ella. Adeus, D. Placida; não se esqueça de apparecer,
-ouviu? A outra prometteu que sim, e abriu-lhes a porta.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CV" id="CAPITULO_CV">CAPITULO CV</a></h5>
-
-
-<h4>Equivalencia das janellas</h4>
-
-
-<p>D. Placida fechou a porta e caiu n'uma cadeira. Eu deixei
-immediatamente a alcova, e dei dous passos para sair á rua, com o fim
-de arrancar Virgilia ao marido; foi o que disse, e em bem que o disse,
-porque D. Placida deteve-me por um braço. Tempo houve em que eu cheguei
-a suppor que não dissera aquillo senão para que ella me detivesse;
-mas a simples reflexão basta para mostrar que, depois dos dez minutos
-da alcova, o gesto mais genuino e cordial não podia ser senão esse. E
-isto por aquella famosa lei da equivalencia das janellas, que eu tive
-a satisfação de descobrir e formular, no cap. LI. Era preciso arejar
-a consciencia. A alcova foi uma janella fechada; eu abri outra com o
-gesto de sair, e respirei.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CVI" id="CAPITULO_CVI">CAPITULO CVI</a></h5>
-
-
-<h4>Jogo perigoso</h4>
-
-
-<p>Respirei e sentei-me. D. Placida atroava a sala com exclamações e
-lastimas. Eu ouvia, sem lhe dizer cousa nenhuma; reflectia commigo se
-não era melhor ter fechado Virgilia na alcova e ficado na sala; mas
-adverti logo que seria peior; confirmaria a suspeita, e chegaria o
-fogo á polvora e uma scena de sangue... Foi muito melhor assim. Mas
-depois? que ia acontecer em casa de Virgilia? Matal-a-hia o marido?
-espancal-a-hia? encerral-a-hia? expulsal-a-hia? Estas interrogações
-percorriam lentamente o meu cerebro, como os pontinhos e virgulas
-escuras percorrem o campo visual dos olhos enfermos ou cansados. Iam e
-vinham, com o seu aspecto secco e tragico, e eu não podia agarrar um
-dellos e dizer: és tu, tu e não outro.</p>
-
-<p>De repente vejo um vulto negro; era D. Placida, que fôra dentro,
-enfiára a mantilha, e vinha offerecer-se-me para ir á casa do Lobo
-Neves. Ponderei-lhe que era arriscado, porque elle desconfiaria da
-visita tão proxima.</p>
-
-<p>&mdash;Socegue, interrompeu ella; eu saberei arranjar as cousas. Se elle
-estiver em casa não entro.</p>
-
-<p>Saiu; eu fiquei a ruminar o successo e as consequencias possiveis. Ao
-cabo, parecia-me jogar um jogo perigoso, e perguntava a mim mesmo se
-não era tempo de levantar e espairecer, como um parceiro do <i>whist.</i>
-E então senti-me tomado de uma saudade do casamento, de um desejo de
-canalizar a vida. Porque não? Meu coração tinha ainda que explorar;
-não me sentia incapaz de um amor casto, severo e puro. Na verdade,
-as aventuras são a parte torrencial e vertiginosa da vida, isto é, a
-excepção; eu estava enfarado dellas; não sei até se me pungia algum
-remorso. Mal pensei naquillo, deixei-me ir atraz da imaginação; vi-me
-logo casado, ao pé de uma mulher adoravel, deante de um <i>baby</i>, que
-dormia no regaço da ama, todos nós no fundo do uma chacara sombria
-e verde, a espiarmos atravez das arvores uma nesga do ceu azul,
-extremamente azul...</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CVII" id="CAPITULO_CVII">CAPITULO CVII</a></h5>
-
-
-<h4>Bilhete</h4>
-
-<blockquote>
-
-<p>«Não houve nada, mas elle suspeita alguma cousa; está muito
-serio e não fala; agora saiu. Sorriu uma vez somente, para
-nhonhô, depois de o fitar muito tempo, carrancudo. Não me
-tratou mal nem bem. Não sei o que vae acontecer; Deus queira
-que isto passe. Muita cautela, por ora, muita cautela.»</p></blockquote>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CVIII" id="CAPITULO_CVIII">CAPITULO CVIII</a></h5>
-
-
-<h4>Que se não entende</h4>
-
-
-<p>Eis ahi o drama, eis ahi a ponta da orelha tragica de Shakespeare. Esse
-retalhinho de papel, garatujado em partes, machucado das mãos, era um
-documento de analyse, que eu não farei neste capitulo, nem no outro,
-nem talvez em todo o resto do livro. Poderia eu tirar ao leitor o gosto
-de notar por si mesmo a frieza, a perspicacia e o animo dessas poucas
-linhas traçadas á pressa; e por traz dellas a tempestade de outro
-cerebro, a raiva dissimulada, o desespero que se constrange e medita,
-por que tem de resolver-se na lama, ou no sangue, ou nas lagrymas?</p>
-
-<p>Quanto a mim, se vos disser que li o bilhete tres ou quatro vezes,
-naquelle dia, accreditai-o, que é verdade; se vos disser mais que o
-reli no dia seguinte, antes e depois do almoço, podeis crel-o, é a
-realidade pura. Mas se vos disser a commoção que tive, duvidai um pouco
-da asserção, e não a acceiteis sem provas. Nem então, nem ainda agora
-cheguei a discernir o que experimentei. Era medo, e não era medo;
-era dó e não era dó; era vaidade e não era vaidade; emfim, era amor
-sem amor, isto é, sem delirio; e tudo isso dava uma combinação assás
-complexa e vaga, uma cousa que não podereis entender, como eu não
-entendi. Supponhamos que não disse nada.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CIX" id="CAPITULO_CIX">CAPITULO CIX</a></h5>
-
-
-<h4>O philosopho</h4>
-
-
-<p>Sabido que reli a carta, antes e depois do almoço, sabido fica que
-almocei, e só resta dizer que essa refeição foi das mais parcas
-da minha vida: um ovo, uma fatia de pão, uma chicara de chá. Não
-me esqueceu esta circumstancia minima; no meio de tanta cousa
-importante obliterada escapou esse almoço. A razão principal poderia
-ser justamente o meu desastre; mas não foi; a principal razão foi
-a reflexão que me fez o Quincas Borba, cuja visita recebi naquelle
-dia. Disse-me elle que a frugalidade não era necessaria para entender
-o Humanitismo, é menos ainda pratical-o; que esta philosophia
-acommodava-se facilmente com os prazeres da vida, inclusive a mesa,
-o espectaculo e os amores; e que, ao contrario, a frugalidade podia
-indicar certa tendencia para o ascetismo, o qual era a expressão
-acabada da tolice humana.</p>
-
-<p>&mdash;Veja S. João, continuou elle; mantinha-se de gafanhotos, no deserto,
-em vez de engordar tranquillamente na cidade, e fazer emmagrecer o
-pharisaismo na synagoga.</p>
-
-<p>Deus me livre de contar a historia do Quincas Borba, que aliás ouvi
-toda naquella triste occasião, uma historia longa, complicada,
-mas interessante. E se não conto a historia, dispenso-me outrosim
-de descrever-lhe a figura, aliás mui diversa da que me appareceu
-no Passeio Publico. Calo-me; digo somente que se o principal
-caracteristico do homem não são as feições, mas o vestuario, elle
-não era o Quincas Borba; era um desembargador sem beca, um general
-sem farda, um negociante sem <i>deficit.</i> Notei-lhe a perfeição da
-sobrecasaca, a alvura da camisa, o aceio das botas. A mesma voz,
-roufenha outr'ora, parecia restituida á primitiva sonoridade. Quanto
-á gesticulação, sem que houvesse perdido a viveza de outro tempo, não
-tinha já a desordem, sujeitava-se a um certo methodo. Mas eu não quero
-descrevel-o. Se falasse, por exemplo, no botão de ouro que trazia ao
-peito, e na qualidade do couro das botas, iniciaria uma descripção,
-que omitto por brevidade. Contentem-se de saber que as botas eram de
-verniz. Saibam mais que elle herdára alguns pares de contos de réis de
-um velho tio de Barbacena.</p>
-
-<p>Meu espirito, (permittam-me aqui uma comparação de criança!) meu
-espirito era n'aquella occasião uma especie de peteca. A narração do
-Quincas Borba dava-lhe uma palmada, elle subia; quando ia a cair,
-o bilhete de Virgilia dava-lhe outra palmada, e elle era de novo
-arremessado aos ares; descia, e o episodio do Passeio Publico recebia-o
-com outra palmada, egualmente rija e efficaz. Cuido que não nasci
-para situações complexas. Esse puxar e empuxar de cousas oppostas,
-desequilibrava-me; tinha vontade de embrulhar o Quincas Borba, o Lobo
-Neves e o bilhete de Virgilia na mesma philosophia, e mandal-os de
-presente a Aristoteles. E, comtudo, era instructiva a narração do nosso
-philosopho; admirava-lhe sobretudo o talento de observação com que
-descrevia a gestação e o crescimento do vicio, as luctas interiores, as
-capitulações vagarosas, o uso da lama.</p>
-
-<p>&mdash;Olhe, observou elle; a primeira noite que passei, na escada de S.
-Francisco, dormi-a inteira, como se fosse a mais fina pluma. Porque?
-Porque fui gradualmente da cama de esteira ao catre de pau, do quarto
-proprio ao corpo da guarda, do corpo da guarda ao xadrez, do xadrez á
-rua...</p>
-
-<p>Quiz expor-me finalmente a philosophia; eu pedi-lhe que não.&mdash;Estou
-assaz preocupado hoje e não poderia attendel-o; venha depois; estou
-sempre em casa. O Quincas Borba sorriu de um modo malicioso; talvez
-soubesse da minha aventura, mas não accrescentou nada. Só me disse
-estas ultimas palavras á porta:</p>
-
-<p>&mdash;Venha para o Humanitismo; elle é o grande regaço dos espiritos, o
-mar eterno em que mergulhei para arrancar de lá a verdade. Os gregos
-faziam-na sair de um poço. Que concepção mesquinha! Um poço! Mas
-é por isso mesmo que nunca atinaram com ella. Gregos, sub-gregos,
-anti-gregos, toda a longa serie dos homens tem-se debruçado sobre
-o poço, para ver sair a verdade, que não está lá. Gastaram cordas e
-caçambas; alguns mais afoutos desceram ao fundo e trouxeram um sapo. Eu
-fui directamente ao mar. Venha para o Humanitismo.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CX" id="CAPITULO_CX">CAPITULO CX</a></h5>
-
-
-<h4>31</h4>
-
-
-<p>Uma semana depois, o Lobo Neves foi nomeado presidente de provincia.
-Agarrei-me á esperança da recusa, se o decreto viesse outra vez datado
-de 13; trouxe, porém, a data de 31; e esta simples transposição de
-algarismos eliminou delles a substancia diabolica. Que profundas que
-são as molas da vida!</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXI" id="CAPITULO_CXI">CAPITULO CXI</a></h5>
-
-
-<h4>O muro</h4>
-
-
-<p>Não sendo meu costume dissimular ou esconder nada, contarei nesta
-pagina o caso do muro. Elles estavam prestes a embarcar. Entrando
-em casa de D. Placida, vi um papelinho dobrado sobre a mesa; era um
-bilhete de Virgilia; dizia que me esperava á noite, na chacara, sem
-falta. E concluía: «O muro é baixo do lado do becco.»</p>
-
-<p>Fiz um gesto de desagrado. A carta pareceu-me descommunalmente
-audaciosa, mal pensada e até ridicula. Não era só convidar o escandalo,
-era convidal-o de parceria com a risota. Imaginei-me a saltar o muro,
-embora baixo e do lado do becco; e, quando ia a galgal-o, via-me
-agarrado por um pedestre de policia, que me levava ao corpo da guarda.
-O muro é baixo! E que tinha que fosse baixo? Naturalmente Virgilia não
-soube o que fez; era possivel que já estivesse arrependida. Olhei para
-o papel, um pedaço de papel amarrotado, mas inflexivel. Tive comichões
-de o rasgar, em trinta mil pedaços, e atiral-os ao vento, como o ultimo
-despojo da minha aventura; mas recuei a tempo; o amor-proprio, o vexame
-da fuga, a idéa do medo... Não havia remedio senão ir.</p>
-
-<p>&mdash;Diga-lhe que vou.</p>
-
-<p>&mdash;Aonde? perguntou D. Placida.</p>
-
-<p>&mdash;Onde ella disse que me espera.</p>
-
-<p>&mdash;Não me disse nada.</p>
-
-<p>&mdash;Neste papel.</p>
-
-<p>D. Placida arregalou os olhos:&mdash;Mas esse papel, achei-o hoje de manhã,
-nesta sua gaveta, e pensei que...</p>
-
-<p>Tive uma sensação exquisita. Reli o papel, mirei-o, remirei-o; era, na
-verdade, um antigo bilhete de Virgilia, recebido no começo dos nossos
-amores, uma certa entrevista na chacara, que me levou effectivamente a
-saltar o muro, um muro baixo e discreto. Guardei o papel e... Tive uma
-sensação exquisita.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXII" id="CAPITULO_CXII">CAPITULO CXII</a></h5>
-
-
-<h4>A opinião</h4>
-
-
-<p>Mas estava escripto que esse dia devia ser o dos lances dubios. Poucas
-horas depois, encontrava-me eu com o Lobo Neves, na rua do Ouvidor,
-e falavamos da presidencia e da politica. Elle aproveitou o primeiro
-conhecido que nos passou á ilharga, e deixou-me, depois de muitos
-comprimentos. Lembra-me que estava retraindo, mas de um retrahimento
-que forcejava por dissimular. Pareceu-me então (e peço perdão á
-critica, se este meu juizo fôr temerario!) pareceu-me que elle tinha
-medo&mdash;não medo de mim, nem de si, nem do codigo, nem da consciencia;
-tinha medo da opinião. Suppuz que esse tribunal anonymo e invisivel,
-em que cada membro accusa e julga, era o limite posto á vontade do
-Lobo Neves. Talvez que elle já não amasse a mulher; e, assim, póde ser
-que o coração fosse estranho á indulgencia dos seus ultimos actos.
-Cuido (e de novo insto pela boa vontade da critica!) cuido que elle
-estaria prompto a separar-se da mulher, como o leitor se terá separado
-de muitas relações pessoaes; mas a opinião, essa opinião que lhe
-arrastaria a vida por todas as ruas, que abriria minucioso inquerito
-ácerca do caso, que colligiria uma a uma todas as circumstancias,
-antecedencias, inducções, provas, que as relataria na palestra das
-chacaras desoccupadas, essa terrivel opinião, tão curiosa das alcovas,
-obstou á dispersão da familia. Ao mesmo tempo tornou impossivel o
-desforço, que seria a divulgação. Elle não podia mostrar-se resentido
-commigo, sem egualmente buscar a separação conjugal; e teve então
-de simular a mesma ignorancia de outr'ora, e, por deducção, eguaes
-sentimentos.</p>
-
-<p>Que lhe custasse creio; naquelles dias, principalmente, vi-o de modo
-que devia custar-lhe muito. Mas o tempo (e é outro ponto em que eu
-espero a indulgencia dos homens pensadores!), o tempo calleja a
-sensibilidade, e oblitera a memoria das cousas; era de suppor que os
-annos lhe despontassem os espinhos, que a distancia dos factos apagasse
-os respectivos contornos, que uma sombra de duvida retrospectiva
-cobrisse a nudez da realidade; emfim, que a opinião se occupasse um
-pouco com outras aventuras. O filho, crescendo, buscaria satisfazer
-as ambições do pae; seria o herdeiro de todos os seus affectos. Isso,
-e a actividade externa, e o prestigio publico, e a velhice depois, a
-doença, o declinio, a morte, um responso, uma noticia biographica, e
-estava fechado o livro da vida, sem nenhuma pagina de sangue.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXIII" id="CAPITULO_CXIII">CAPITULO CXIII</a></h5>
-
-
-<h4>A solda</h4>
-
-
-<p>A conclusão, se ha alguma no capitulo anterior, é que a opinião é
-uma bôa solda das instituições domesticas. Não é impossivel que eu
-desenvolva este pensamento, antes de acabar o livro; mas tambem não é
-impossivel que o deixe como está. De um ou de outro modo, é uma bôa
-solda a opinião, e tanto na ordem domestica, como na politica. Alguns
-metaphysicos biliosos tem chegado ao extremo de a darem como simples
-producto da gente chocha ou mediocre; mas é evidente que, ainda quando
-um conceito tão extremado não trouxesse em si mesmo a resposta, bastava
-considerar os effeitos salutares da opinião, para concluir que ella é a
-obra superfina da flôr dos homens, a saber, do maior numero.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXIV" id="CAPITULO_CXIV">CAPITULO CXIV</a></h5>
-
-
-<h4>Fim de um dialogo</h4>
-
-
-<p>&mdash;Sim, é amanhã. Você vae a bordo?</p>
-
-<p>&mdash;Está douda? É impossível.</p>
-
-<p>&mdash;Então, adeus!</p>
-
-<p>&mdash;Adeus!</p>
-
-<p>&mdash;Não se esqueça de D. Placida. Vá vel-a algumas vezes. Coitada! Foi
-hontem despedir-se de nós; chorou muito, disse que eu não a veria
-mais... É uma boa creatura, não?</p>
-
-<p>&mdash;Certamente.</p>
-
-<p>&mdash;Se tivermos de escrever, ella receberá as cartas. Agora até daqui a...</p>
-
-<p>&mdash;Talvez dous annos?</p>
-
-<p>&mdash;Qual! elle diz que é só até fazer as eleições.</p>
-
-<p>&mdash;Sim? então até breve. Olhe que estão olhando para nós.</p>
-
-<p>&mdash;Quem?</p>
-
-<p>&mdash;Alli do sophá. Separemo-nos.</p>
-
-<p>&mdash;Custa-me muito.</p>
-
-<p>&mdash;Mas é preciso; adeus, Virgilia!</p>
-
-<p>&mdash;Até breve. Adeus!</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXV" id="CAPITULO_CXV">CAPITULO CXV</a></h5>
-
-
-<h4>O almoço</h4>
-
-
-<p>Não a vi partir; mas á hora marcada senti alguma cousa que não era dor
-nem prazer, uma cousa mixta, allivio e saudade, tudo misturado, em
-eguaes doses. Não se irrite o leitor com esta confissão. Eu bem sei
-que, para titillar-lhe os nervos da fantasia, devia padecer um grande
-desespero, derramar algumas lagrimas, e não almoçar. Seria romanesco;
-mas não seria biographico. A realidade pura é que eu almocei, como nos
-demais dias, acudindo ao coração com as lembranças da minha aventura, e
-ao estomago com os acepipes de Mr. Pruddon...</p>
-
-<p>...Velhos do meu tempo, lembrai-vos desse mestre cosinheiro do hotel
-Pharoux, um sujeito que, segundo dizia o dono da casa, havia servido
-nos famosos Véry e Véfour, de Paris, e mais nos palacios do conde
-Molé e do duque de la Rochefoucauld? Era insigne. Entrou no Rio de
-Janeiro com a polka... A polka, Mr. Pruddon, o Tivoli, o baile dos
-estrangeiros, o Casino, eis algumas das melhores recordações daquelle
-tempo; mas sobretudo os acepipes do mestre eram deliciosos.</p>
-
-<p>Eram, e naquella manhã parece que o diabo do homem adivinhára a nossa
-catastrophe. Jámais o engenho e a arte lhe foram tão propicios. Que
-requinte de temperos! que tenrura de carnes! que rebuscado de fórmas!
-Comia-se com a bocca, com os olhos, com o nariz. Não guardei a conta
-desse dia; do contrario, é mui provavel que a deixasse nestas paginas.
-Sei que foi cara. Ai dor! era-me preciso enterrar magnificamente os
-meus amores. Elles lá iam, mar em fóra, no espaço e no tempo, e eu
-ficava-me alli n'uma ponta de mesa, com os meus quarenta e tantos
-annos, tão vadios e tão vazios; ficava-me para os não ver nunca mais,
-porque ella poderia tornar e tornou, mas o effluvio da manhã quem é que
-o pediu ao crepusculo da tarde?</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXVI" id="CAPITULO_CXVI">CAPITULO CXVI</a></h5>
-
-
-<h4>Philosophia das folhas velhas</h4>
-
-
-<p>Fiquei tão triste com o fim do ultimo capitulo que estava capaz de não
-escrever este, descançar um pouco, purgar o espirito da melancolia que
-o empacha, e continuar depois. Mas não, não quero perder tempo.</p>
-
-<p>A partida de Virgilia deu-me uma amostra da viuvez. Nos primeiros
-dias metti-me em casa, a fisgar moscas, como Domiciano, se não mente
-o Suetonio, mas a fisgal-as de um modo particular: com os olhos.
-Fisgava-as uma a uma, no fundo de uma sala grande, estirado na rede,
-com um livro aberto entre as mãos. Era tudo: saudades, ambições, um
-pouco de tedio, e muito devaneio solto. Meu tio conego morreu nesse
-intervallo; item, dous primos; e eu não me dei por abalado; levei-os ao
-cemiterio, como quem leva dinheiro a um banco. Que digo? como quem leva
-cartas ao correio: sellei as cartas, metti-as na caixinha, e deixei ao
-carteiro o cuidado de as entregar em mão propria. Foi tambem per esse
-tempo que nasceu minha sobrinha Venancia, filha do Cotrim. Morriam uns,
-nasciam outros: eu continuava ás moscas.</p>
-
-<p>Outras vezes agitava-me. Ia ás gavetas, entornava as cartas antigas,
-dos amigos, dos parentes, das namoradas, (até as de Marcella), e
-abria-as todas, lia-as uma a uma, e recompunha o preterito... Leitor
-ignaro, se não guardas as cartas da juventude, não conhecerás um dia
-a philosophia das folhas velhas, não gostarás o prazer de ver-te, ao
-longe, na penumbra, com um chapéu de tres bicos, botas de sete leguas
-e longas barbas assyrias, a bailar ao som de uma gaita anacreontica.
-Guarda as tuas cartas da juventude!</p>
-
-<p>Ou, se te não apraz o chapéu de tres bicos, empregarei a locução de um
-velho marujo, familiar da casa do Cotrim; direi que, se guardares as
-cartas da juventude, acharás occasião de «cantar uma saudade.» Parece
-que os nossos marujos dão este nome ás cantigas de terra, entoadas no
-alto mar. Como expressão poetica, é o que se póde exigir mais triste.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXVII" id="CAPITULO_CXVII">CAPITULO CXVII</a></h5>
-
-
-<h4>O Humanitismo</h4>
-
-
-<p>Duas forças, porém, além de uma terceira, compelliam-me a tornar á vida
-agitada do costume: Sabina e o Quincas Borba. Minha irmã encaminhou a
-candidatura conjugal de Nhã-loló de um modo verdadeiramente impetuoso.
-Quando dei por mim estava com a moça quasi nos braços. Quanto ao
-Quincas Borba, expoz-me emfim o Humanitismo, systema de philosophia
-destinado a arruinar todos os demais systemas.</p>
-
-<p>&mdash;Humanitas, dizia elle, o principio das cousas, não é outro senão o
-mesmo homem repartido por todos os homens. Conta tres phases Humanitas;
-a <i>statica</i>, anterior a toda a creação; a <i>expansiva</i>, começo das
-cousas; a <i>dispersiva</i>, apparecimento do homem; e contará mais uma,
-a <i>contractiva</i>, absorpção do homem e das cousas. A <i>expansão</i>,
-iniciando o universo, suggeriu a Humanitas o desejo de o gozar, e dahi
-a <i>dispersão</i>, que não é mais do que a multiplicação personificada da
-substancia original.</p>
-
-<p>Como me não apparecesse assaz clara esta exposição, o Quincas Borba
-desenvolveu-a de um modo profundo, fazendo notar as grandes linhas
-do systema. Explicou-me que, por um lado, o Humanitismo ligava-se ao
-Brahmanismo, a saber, na distribuição dos homens pelas differentes
-partes do corpo de Humanitas; mas aquillo que na religião indiana
-tinha apenas uma estreita significação theologica e politica, era no
-Humanitismo a grande lei do valor pessoal. Assim, descender do peito
-ou dos rins de Humanitas, isto é, ser <i>um forte</i>, não era o mesmo que
-descender dos cabellos ou da ponta do nariz. Dahi a necessidade de
-cultivar e temperar o musculo. Hercules ou Herakles não foi senão um
-symbolo antecipado do Humanitismo. Neste ponto o Quincas Borba ponderou
-que o paganismo poderia ter chegado á verdade, se se não houvesse
-amesquinhado com a parte galante dos seus mythos. Nada disso acontecerá
-com o Humanitismo. Nesta egreja nova não ha aventuras faceis, nem
-quedas, nem tristezas, nem alegrias pueris. O amor, por exemplo, é um
-sacerdocio, a reproducção um ritual. Como a vida é o maior beneficio
-do universo, e não ha mendigo que não prefira a miseria á morte (o
-que é um delicioso influxo de Humanitas), segue-se que a transmissão
-da vida, longe de ser uma occasião de galanteio, é a hora suprema da
-missa espiritual. Porquanto, verdadeiramente ha só uma desgraça: é não
-nascer.</p>
-
-<p>&mdash;Imagina, por exemplo, que eu não tinha nascido, continuou o Quincas
-Borba; é positivo que não teria agora o prazer de conversar comtigo,
-comer esta batata, ir ao theatro, e para tudo dizer n'uma só palavra:
-viver. Nota que eu não faço do homem um simples vehiculo de Humanitas;
-não, elle é ao mesmo tempo vehiculo, cocheiro e passageiro; elle é
-o proprio Humanitas reduzido; dahi a necessidade de adorar-se a si
-proprio. Queres uma prova da superioridade do meu systema? Contempla
-a inveja. Não ha moralista grego ou turco, christão ou mussulmano,
-que não troveje contra o sentimento da inveja. O accordo é universal,
-desde os campos da Iduméa até o alto da Tijuca. Ora bem; abre mão dos
-velhos preconceitos, esquece as rhetoricas rafadas, e estuda a inveja,
-esse sentimento tão subtil e tão nobre. Sendo cada homem uma reducção
-de Humanitas, é claro que nenhum homem é fundamentalmente opposto a
-outro homem, quaesquer que sejam as apparencias contrarias. Assim, por
-exemplo, o algoz que executa o condemnado póde excitar o vão clamor
-dos poetas; mas substancialmente é Humanitas que corrige em Humanitas
-uma infracção da lei de Humanitas. O mesmo direi do individuo que
-estripa a outro; é uma manifestação da força de Humanitas. Nada obsta
-(e ha exemplos) que elle seja egualmente estripado. Si entendeste
-bem, facilmente comprehenderás que a inveja não é senão uma admiração
-que luta, e sendo a luta a grande funcção do genero humano, todos os
-sentimentos bellicosos são os mais adequados á sua felicidade. Dahi vem
-que a inveja é uma virtude.</p>
-
-<p>Para que negal-o? eu estava estupefacto. A clareza da exposição, a
-logica dos principios, o rigor das consequencias, tudo isso parecia
-superiormente grande, e foi-me preciso suspender a conversa por alguns
-minutos, em quanto digeria a philosophia nova. O Quincas Borba mal
-podia encobrir a satisfação do triumpho. Tinha uma aza de frango no
-prato, e trincava-a com philosophica serenidade. Eu fiz-lhe ainda
-alguma objecções, mas tão frouxas, que elle não gastou muito tempo em
-destruil-as.</p>
-
-<p>&mdash;Para entender bem o meu systema, concluiu elle, importa não esquecer
-nunca o principio universal, repartido e resumido em cada homem. Olha:
-a guerra, que parece uma calamidade, é uma operação conveniente,
-como se dissessemos o estalar dos dedos de Humanitas; a fome (e elle
-chupava philosophicamente a aza do frango), a fome é uma prova a que
-Humanitas submette a propria viscera. Mas eu não quero outro documento
-da sublimidade do meu systema, senão este mesmo frango. Nutriu-se de
-milho, que foi plantado por um africano, supponhamos, importado de
-Angola. Nasceu esse africano, cresceu, foi vendido um navio o trouxe,
-um navio construido de madeira cortada no matto por dez ou doze
-homens, levado por velas, que oito ou dez homens teceram, sem contar
-a cordoalha e outras partes do apparelho nautico. Assim, este frango,
-que eu almocei agora mesmo, é o resultado de uma multidão de esforços e
-lutas, executados com o unico fim de dar mate ao meu appetite.</p>
-
-<p>Entre o queijo e o café, demonstrou-me o Quincas Borba que o seu
-systema era a destruição da dôr. A dôr, segundo o Humanitismo, é uma
-pura illusão. Quando a criança é ameaçada por um páu, antes mesmo de
-ter sido espancada, fecha os olhos e treme; essa <i>predisposição</i> é que
-constitue a base da illusão humana, herdada e transmittida. Não basta
-certamente a adopção do systema para acabar logo com a dôr; mas é
-indispensavel; o resto é a natural evolução das cousas. Uma vez que o
-homem se compenetre bem de que elle é o proprio Humanitas, não tem mais
-do que remontar o pensamento á substancia original para obstar qualquer
-sensação dolorosa. A evolução porém é tão profunda, que mal se lhe
-podem assignar alguns milhares de annos.</p>
-
-<p>O Quincas Borba leu-me dahi a dias a sua grande obra. Eram quatro
-volumes manuscriptos, de cem paginas cada um, com letra miuda e
-citações latinas. O ultimo volume compunha-se de um tratado politico,
-fundado no Humanitismo; era talvez a parte mais enfadonha do systema,
-posto que concebida com um formidavel rigor de logica. Reorganisada a
-sociedade pelo methodo delle, nem por isso ficavam eliminadas a guerra,
-a insurreição, o simples murro, a facada anonyma, a miseria, a fome, as
-doenças; mas sendo esses suppostos flagellos verdadeiros equivocos do
-entendimento, porque não passariam de movimentos externos da substancia
-interior, destinados a não influir sobre o homem, senão como simples
-quebra da monotonia universal, claro estava que a sua existencia não
-impediria a felicidade humana. Mas ainda quando taes flagellos (o que
-era radicalmente falso) correspondessem no futuro á concepção acanhada
-de antigos tempos, nem por isso ficava destruido o systema, e por dous
-motivos: 1.° porque sendo Humanitas a substancia creadora e absoluta,
-cada individuo deveria achar a maior delicia do mundo em sacrificar-se
-ao principio de que descende; 2.° porque, ainda assim, não diminuiria o
-poder espiritual do homem sobre a terra, inventada unicamente para seu
-recreio delle, como as estrellas, as brisas, as tamaras e o rhuibarbo.
-Pangloss, dizia-me elle ao fechar o livro, não era tão tolo como o
-pintou Voltaire.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXVIII" id="CAPITULO_CXVIII">CAPITULO CXVIII</a></h5>
-
-
-<h4>A terceira força</h4>
-
-
-<p>A terceira força (Veja a primeira linha do capitulo passado) a
-terceira força que me chamava ao bulicio era a impaciencia de luzir,
-e, sobretudo, a incapacidade de viver só. A multidão attrahia-me, o
-applauso namorava-me, a gala, o tumulto, o rufo, eram outros tantos
-objectos de seducção. Se a idéa do emplasto me tem apparecido nesse
-tempo, quem sabe? não teria morrido logo e estaria celebre. Mas o
-emplasto não veiu. Veiu o desejo de agitar-me em alguma cousa, com
-alguma cousa e por alguma cousa. <i>Tout notre mal vient de ne pouvoir
-être seuls.</i> Esta maxima de la Bruyère sempre me pareceu um grande
-disparate. Não ha duvida que a sociabilidade é a primeira virtude dos
-homens, a segunda é a curiosidade, a terceira é a pontualidade dos
-pagamentos, a quarta o valor militar, e assim por diante.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXIX" id="CAPITULO_CXIX">CAPITULO CXIX</a></h5>
-
-
-<h4>Parenthesis</h4>
-
-
-<p>(Haverá uma critica tão perversa que possa attribuir a minha opinião
-sobre la Bruyère á inveja das suas maximas? Eu aparo desde já esse
-golpe, transcrevendo algumas das que compuz por aquelle tempo, e
-rasguei logo depois, por não me parecerem dignas do prélo. Fil-as n'um
-periodo em que a flor amarella do capitulo XXV tornára a abrir; eram
-bocejos de enfado. E se não vejam:</p>
-
-<blockquote>
-
-<p>Supporta-se com paciencia a colica do proximo.</p></blockquote>
-
-<blockquote>
-
-<p>Matamos o tempo; o tempo nos enterra.</p></blockquote>
-
-<blockquote>
-
-<p>Um cocheiro philosopho costumava dizer que o gosto da
-carruagem seria diminuto, se todos andassem de carruagem.</p>
-
-<p>Crê em ti; mas nem sempre duvides dos outros.</p></blockquote>
-
-<blockquote>
-
-<p>Não se comprehende que um botocudo fure o beiço para
-enfeital-o com um pedaço de páu. Esta reflexão é de um
-joalheiro.</p></blockquote>
-
-<blockquote>
-
-<p>Não te irrites se te pagarem mal um beneficio: antes cair das
-nuvens, que de um terceiro andar.)</p></blockquote>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXX" id="CAPITULO_CXX">CAPITULO CXX</a></h5>
-
-
-<h4>Compelle intrare</h4>
-
-
-<p>&mdash;Não, senhor, agora quer você queira, quer não, ha de casar, disse-me
-Sabina. Que bello futuro! Um solteirão sem filhos.</p>
-
-<p>Sem filhos! Eis o dardo secreto. A idéa de ter filhos deu-me um
-sobresalto; percorreu-me outra vez o fluido mysterioso. Sim, cumpria
-ser pae. A vida celibata podia ter certas vantagens proprias, mas
-seriam tenues, e compradas a troco da solidão. Sem filhos! Não;
-impossivel. Dispuz-me a aceitar tudo, ainda mesmo a alliança do
-Damasceno. Sem filhos! Como já então depositasse grande confiança no
-Quincas Borba, fui ter com elle e expuz-lhe os movimentos internos da
-minha paternidade. O philosopho ouviu-me com alvoroço; declarou-me que
-Humanitas se agitava em meu seio; animou-me ao casamento; ponderou
-que eram mais alguns convivas que batiam á porta, etc. <i>Compelle
-intrare</i>, como dizia Jesus. E não me deixou sem provar que o apologo
-evangelico não era mais do que um prenuncio do Humanitismo, erradamente
-interpretado pelos padres.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXXI" id="CAPITULO_CXXI">CAPITULO CXXI</a></h5>
-
-
-<h4>Morro abaixo</h4>
-
-
-<p>No fim de tres mezes, ia tudo á maravilha. O fluido, Sabina, os olhos
-da moça, os desejos do pae, eram outros tantos impulsos que me levavam
-ao matrimonio. A lembrança de Virgilia apparecia de quando em quando,
-á porta; e com ella um diabo negro, que me mettia á cara um espelho,
-no qual eu via ao longe Virgilia desfeita em lagrimas; mas outro diabo
-vinha, côr de rosa, com outro espelho, em que se reflectia a figura de
-Nhã-loló, terna, luminosa, angelica.</p>
-
-<p>Não falo dos annos. Eu não os sentia; acrescentarei até que os deitára
-fóra, certo domingo, em que fui á missa na capella do Livramento. Como
-o Damasceno morava nos Cajueiros, eu acompanhava-os muitas vezes á
-missa. O morro estava ainda nú de habitações, salvo o velho palacete do
-alto, onde era a capella. Pois um domingo, ao descer com Nhã-loló pelo
-braço, não sei que phenomeno se deu que fui deixando aqui dous annos,
-alli quatro, logo adiante cinco, de maneira que, quando cheguei abaixo,
-estava com vinte annos apenas, tão lépidos como elles tinham sido.</p>
-
-<p>Agora, se querem saber em que circumstancias se deu o phenomeno,
-basta-lhes ler este capitulo até o fim. Vinhamos da missa, ella, o pae
-e eu. No meio do morro achámos um grupo de homens. O Damasceno, que
-vinha ao pé de nós, percebeu o que era e adiantou-se alvoroçado; nós
-fomos atraz delle. E vimos isto: homens de todas as edades, tamanhos e
-côres, uns em mangas de camisa, outros de jaqueta, outros mettidos em
-sobrecasacas esfrangalhadas; attitudes diversas, uns de cócaras, outros
-com as mãos apoiadas nos joelhos, estes sentados em pedras, aquelles
-encostados ao muro; e todos com os olhos fixos no centro, e as almas
-debruçadas das pupillas.</p>
-
-<p>&mdash;Que é? perguntou-me Nhã-loló.</p>
-
-<p>Fiz-lhe signal que se calasse; abri subtilmente caminho, e todos
-me foram cedendo espaço, sem que positivamente ninguem me visse. O
-centro tinha-lhes atado os olhos. Era uma briga de gallos. Vi os dous
-contendores, dous gallos de esporão agudo, olho de fogo e bico afiado.
-Ambos agitavam as cristas em sangue; o peito de um e de outro estava
-desplumado e rubro; invadia-os o cançasso. Mas lutavam ainda assim,
-olhos fitos nos olhos, bico abaixo, bico acima, golpe deste, golpe
-daquelle, vibrantes e raivosos. O Damasceno não sabia mais de nada; o
-espectaculo eliminou para elle todo o universo. Em vão lhe disse que
-era tempo de descer: elle não respondia, não ouvia, concentrara-se no
-duello. A briga de gallos era uma de suas paixões.</p>
-
-<p>Foi nessa occasião que Nhã-loló me puxou brandamente pelo braço,
-dizendo que nos fossemos embora. Aceitei o conselho e vim com ella por
-alli abaixo. Já disse que o morro era então deshabitado; disse-lhes
-tambem que vinhamos da missa, e não lhes tendo dito que chovia, era
-claro que fazia bom tempo, um sol delicioso. E forte. Tão forte que eu
-abri logo o guarda-sol, segurei-o pelo centro do cabo, e inclinei-o por
-modo que ajuntei uma pagina á philosophia do Quincas Borba: Humanitas
-osculou Humanitas... Foi assim que os annos me vieram caindo pelo morro
-abaixo.</p>
-
-<p>Ao sopé detivemo-nos alguns minutos; á espera do Damasceno; elle
-veiu dahi a pouco, rodeado dos apostadores, a commentar com elles a
-briga. Um destes, thesoureiro das apostas, distribuia um velho maço
-de notas de dez tostões, que os triumphadores recebiam duplamente
-alegres. Quanto aos gallos vinham sobraçados pelo respectivo dono. Um
-delles trazia a crista tão comida e ensanguentada, que vi logo nelle o
-vencido; mas era engano,&mdash;o vencido era o outro, que não trazia crista
-nenhuma. Ambos tinham o bico aberto, respirando a custo, esfalfados.
-Os apostadores, ao contrario, vinham alegres, sem embargo das fortes
-commoções da luta; biographavam os contendores, relembravam as proezas
-de ambos. Eu fui andando, vexado; Nhã-loló, vexadissima.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXXII" id="CAPITULO_CXXII">CAPITULO CXXII</a></h5>
-
-
-<h4>Uma intenção mui fina</h4>
-
-
-<p>O que vexava a Nhã-loló era o pae. A facilidade com que elle se mettêra
-com os apostadores punha em relevo antigos costumes e affinidades
-sociaes; e Nhã-loló chegára a temer que tal sogro me parecesse indigno.
-Era notavel a differença que ella fazia de si mesma; estudava-se e
-estudava-me. A vida elegante e polida attrahia-a, principalmente
-porque lhe parecia o meio mais seguro de ajustar as nossas pessoas.
-Nhã-loló observava, imitava, adivinhava; ao mesmo tempo dava-se ao
-esforço de mascarar a inferioridade da familia. Naquelle dia, porém,
-a manifestação do pae foi tamanha que a entristeceu grandemente. Eu
-busquei então divertil-a do assumpto, dizendo-lhe muitas chanças e
-motes de bom tom; vãos esforços, que não a alegravam mais. Era tão
-profundo o abatimento, tão expressivo o desanimo, que eu cheguei a
-attribuir a Nhã-loló a intenção positiva de separar, no meu espirito,
-a sua causa da causa do pae. Este sentimento pareceu-me de grande
-elevação; era uma affinidade mais entre nós.</p>
-
-<p>&mdash;Não ha remedio, disse eu commigo, vou arrancar esta flor a este
-pantano.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXXIII" id="CAPITULO_CXXIII">CAPITULO CXXIII</a></h5>
-
-
-<h4>O verdadeiro Cotrim</h4>
-
-
-<p>Não obstante os meus quarenta e tantos annos, como eu amasse a harmonia
-da familia, entendi não tratar o casamento sem primeiro falar ao
-Cotrim. Elle ouviu-me e respondeu-me seriamente que não tinha opinião
-em negocio de parentes seus. Podiam suppor-lhe algum interesse, se
-acaso louvasse, as raras prendas de Nhã-loló; por isso calava-se. Mais:
-estava certo de que a sobrinha nutria por mim verdadeira paixão, mas se
-ella o consultasse, o seu conselho seria negativo. Não era levado por
-nenhum odio; apreciava as minhas bôas qualidades,&mdash;não se fartava de
-as elogiar, como era de justiça; e pelo que respeita a Nhã-loló, não
-chegaria jámais a negar que era noiva excellente; mas dahi a aconselhar
-o casamento ia um abysmo.</p>
-
-<p>&mdash;Lavo inteiramente as mãos, concluiu elle.</p>
-
-<p>&mdash;Mas você achava outro dia que eu devia casar quanto antes...</p>
-
-<p>&mdash;Isso é outro negocio. Acho que é indispensavel casar, principalmente
-tendo ambições politicas. Saiba que na politica o celibato é uma
-rémora. Agora, quanto á noiva, não posso ter voto, não quero, não devo,
-não é de minha honra. Parece-me que Sabina foi além, fazendo-lhe certas
-confidencias, segundo me disse; mas em todo caso ella não é tia carnal
-de Nhã-loló, como eu. Olhe... mas não... não digo...</p>
-
-<p>&mdash;Diga.</p>
-
-<p>&mdash;Não; não digo nada.</p>
-
-<p>Talvez pareça excessivo o escrupulo do Cotrim, a quem não souber que
-elle possuia um caracter ferozmente honrado. Eu mesmo fui injusto
-com elle durante os annos que se seguiram ao inventario do meu pae.
-Reconheço que era um modelo. Arguiam-n'o de avareza, e cuido que
-tinham razão; mas a avareza é apenas a exageração de uma virtude,
-e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo que
-o <i>deficit.</i> Como era muito secco de maneiras tinha inimigos, que
-chegavam a accusal-o de barbaro. O unico facto allegado neste
-particular era o de mandar com frequencia escravos ao calabouço, donde
-elles desciam a escorrer sangue; mas, além de que elle só mandava os
-perversos e os fujões, occorre que, tendo longamente contrabandeado em
-escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que
-esse genero de negocio requeria, e não se póde honestamente attribuir á
-indole original de um homem o que é puro effeito de relações sociaes.
-A prova de que o Cotrim tinha sentimentos pios encontrava-se no seu
-amor aos filhos, e na dôr que padeceu quando lhe morreu Sára, dalli a
-alguns mezes; prova irrefutavel, acho eu; e não unica. Era thesoureiro
-de uma confraria, e irmão de varias irmandades, e até irmão remido de
-uma destas, o que não se coaduna muito com a reputação da avareza;
-verdade é que o beneficio não caíra no chão: a irmandade (de que elle
-fôra juiz,) mandara-lhe tirar o retrato a oleo. Não era perfeito,
-de certo; tinha, por exemplo, o sestro de mandar para os jornaes a
-noticia de um ou outro beneficio que praticava,&mdash;sestro reprehensivel
-ou não louvavel, concordo; mas elle desculpava-se dizendo que as bôas
-acções eram contagiosas, quando publicas; razão a que se não pode negar
-algum peso. Creio mesmo (e nisto faço o seu maior elogio) que elle
-não praticava, de quando em quando, esses beneficios senão com o fim
-de espertar a philantropia dos outros; e se tal era o intuito, força
-é confessar que a publicidade tornava-se uma condição <i>sine qua non.</i>
-Em summa, poderia dever algumas attenções, mas não devia um real a
-ninguem.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPIULO_CXXIV" id="CAPIULO_CXXIV">CAPIULO CXXIV</a></h5>
-
-
-<h4>Vá de intermedio</h4>
-
-
-<p>Que ha entre a vida e a morte? Uma curta ponte. Não obstante, se eu
-não compuzesse este capitulo, padeceria o leitor um forte abalo, assaz
-damnoso ao effeito do livro. Saltar de um retrato a um epitaphio, póde
-ser real e commum; o leitor, entretanto, não se refugia no livro, senão
-para escapar á vida. Não digo que este pensamento seja meu; digo que
-ha nelle uma dose de verdade, e que, ao menos, a fórma é pittoresca. E
-repito: não é meu.</p>
-
-<p>Vá de intermedio, e contemos a este proposito uma anecdota. Foi no
-tempo da minha vida parlamentar; eramos cinco; falavamos de cousas e
-lousas, e aconteceu tocar nos negocios do Rio da Prata. Então, disse
-um:&mdash;O governo não deve esquecer que o dinheiro é o nervo da guerra. Ao
-que eu redargui que não, que o nervo da guerra eram os bons soldados.
-Um dos ouvintes coçou o nariz, outro consultou o relogio, o terceiro
-tamborilou sobre o joelho, o quarto deu algumas pernadas pela sala,
-o quinto era eu. Mas, continuando a falar, ponderei que essa idéa,
-inteiramente justa, não era minha, e sim de Machiavelli; circumstancia
-que levou o primeiro a não coçar o nariz, o segundo a não consultar o
-relogio, o terceiro a não tamborilar sobre o joelho, e o quarto a não
-dar pernadas; e todos me rodearam, e me pediram que repetisse o dito,
-e repeti, e elles extasiavam-se, e batiam com a cabeça approvando,
-saboreando, decorando. O que estimei, porque fui sempre amador de idéas
-justas. Mas vamos ao epitaphio.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXXV" id="CAPITULO_CXXV">CAPITULO CXXV</a></h5>
-
-
-<h4>Epitaphio</h4>
-
-
-<p class="center">
-AQUI JAZ<br />
-<br />
-D. EULALIA DAMASCENA DE BRITO<br />
-<br />
-MORTA<br />
-<br />
-AOS DEZENOVE ANNOS DE IDADE<br />
-<br />
-ORAI POR ELLA!<br />
-</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXXVI" id="CAPITULO_CXXVI">CAPITULO CXXVI</a></h5>
-
-
-<h4>Desconsolação</h4>
-
-
-<p>O epitaphio diz tudo. Vale mais do que se lhes narrasse a molestia de
-Nhã-loló, a morte, o desespero da familia, o enterro. Ficam sabendo
-que morreu; accrescentarei que foi por occasião da primeira entrada
-da febre amarella. Não digo mais nada, a não ser que a acompanhei até
-o ultimo jazigo, e me despedi triste, mas sem lagrimas. Conclui que
-talvez não a amasse devéras.</p>
-
-<p>Vejam agora a que excessos póde levar uma inadvertencia; doeu-me um
-pouco a cegueira da epidemia que, matando á direita e á esquerda, levou
-tambem uma jovem dama, que tinha de ser minha mulher; e não cheguei
-a entender a necessidade da epidemia, e menos ainda daquella morte.
-Creio até que esta me pareceu ainda mais absurda que todas as outras
-mortes. O Quincas Borba, porém, explicou-me que as epidemias eram uteis
-á especie, embora desastrosas para uma certa porção de individuos; e
-fez-me notar que, por mais horrendo que fosse o espectaculo, havia
-uma vantagem de muito peso: a sobrevivencia do maior numero. Chegou a
-perguntar-me se, no meio do luto geral, não sentia eu algum secreto
-encanto em ter escapado ás garras da peste; mas esta pergunta era tão
-insensata, que ficou sem resposta.</p>
-
-<p>Se não contei a morte, não conto igualmente a missa do setimo dia.
-A tristeza do Damasceno era profunda; esse pobre homem parecia uma
-ruina. Quinze dias depois estive com elle; continuava inconsolavel, e
-dizia que a dor grande com que Deus o castigára fora ainda augmentada
-com a que lhe infligiram os homens. Não me disse mais nada. Tres
-semanas depois tornou ao assumpto, e então confessou-me que, no no
-meio do desastre irreparavel, quizera ter a consolação da presença dos
-amigos. Doze pessoas apenas, e tres quartas partes amigos do Cotrim,
-acompanharam á cova o cadaver de sua querida filha. E elle fizera
-expedir oitenta convites. Ponderei-lhe que as perdas eram tão geraes
-que bem se podia desculpar essa desattenção apparente. O Damasceno
-abanava a cabeça de um modo incredulo e triste.</p>
-
-<p>&mdash;Qual! gemia elle, desampararam-me.</p>
-
-<p>O Cotrim, que estava presente:</p>
-
-<p>&mdash;Vieram os que devéras se interessam por você é por nós. Os oitenta
-viriam por formalidade, falariam da inercia do governo, das panacéas
-dos boticarios, do preço das casas, ou uns dos outros...</p>
-
-<p>O Damasceno ouviu calado, abanou outra vez a cabeça, e suspirou:</p>
-
-<p>&mdash;Mas viessem!</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXXVII" id="CAPITULO_CXXVII">CAPITULO CXXVII</a></h5>
-
-
-<h4>Formalidade</h4>
-
-
-<p>Grande cousa é haver recebido do ceu uma particula da sabedoria, o dom
-de achar as relações das cousas, a faculdade de as comparar e o talento
-de concluir! Eu tive essa distincção psychica; eu a agradeço ainda
-agora do fundo do meu sepulchro.</p>
-
-<p>De facto, o homem vulgar que ouvisse a ultima palavra do Damasceno,
-não se lembraria della, quando, tempos depois, houvesse de olhar para
-uma gravura representando seis damas turcas. Pois eu lembrei-me. Eram
-seis damas de Constantinopla,&mdash;modernas,&mdash;em trajos de rua, com a
-cara tapada, não tapada á outra maneira, com um espesso panno que as
-cobrisse devéras, mas com um veu tenuissimo, que simulava descobrir
-somente os olhos, e na realidade descobria a cara inteira. E eu achei
-graça a essa esperteza da faceirice musulmana, que assim esconde o
-rosto,&mdash;e cumpre o uso,&mdash;mas não o esconde,&mdash;e divulga a belleza.
-Apparentemente, nada ha entre as damas turcas e o Damasceno; mas se
-tu és um espirito profundo e penetrante (e duvido muito que me negues
-isso), comprehenderás que, tanto n'um como n'outro caso, surge ahi a
-orelha de uma rigida e meiga companheira do homem social...</p>
-
-<p>Amavel Formalidade, tu és, sim, o bordão da vida, o balsamo dos
-corações, a medianeira entre os homens, o vinculo da terra e do ceu; tu
-enxugas as lagrimas de um pae, tu captas a indulgencia de um Propheta;
-e se a dôr adormece, e se a consciencia se accommoda, a quem, senão a
-ti, deverão esse immenso beneficio? A estima que passa de chapeu na
-cabeça não diz nada á alma; mas a indifferença que corteja deixa-lhe
-uma deleitosa impressão. A razão é que, ao contrario de uma velha
-formula absurda, não é a lettra que mata; a lettra dá vida; o espirito
-é que é objecto de controversia, de duvida, de interpretação, e
-conseguintemente de luta e de morte. Vive tu, amavel Formalidade, para
-socego do Damasceno e gloria de Muhammed.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXXVIII" id="CAPITULO_CXXVIII">CAPITULO CXXVIII</a></h5>
-
-
-<h4>Na camara</h4>
-
-<p>E notai bem que eu vi a gravura turca, dous annos depois das palavras
-de Damasceno, e vi-a na camara dos deputados, em meio de grande
-borborinho, emquanto um deputado discutia um parecer da commissão de
-orçamento, sendo eu tambem deputado. Para quem ha lido este livro é
-escusado encarecer a minha satisfação, e para os outros é igualmente
-inutil. Era deputado, e vi a gravura turca, recostado na minha cadeira,
-entre um collega, que contava uma anecdota, e outro, que tirava a
-lapis, nas costas de uma sobrecarta, o perfil do orador. O orador era o
-Lobo Neves. A onda da vida trouxe-nos á mesma praia, como duas botelhas
-de naufragos, elle contendo o seu resentimento, eu devendo conter o meu
-remorso; e emprégo esta fórma suspensiva, dubitativa ou condicional,
-para o fim de dizer que effectivamente não continha nada, a não ser a
-ambição de ser ministro.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXXIX" id="CAPITULO_CXXIX">CAPITULO CXXIX</a></h5>
-
-
-<h4>Sem remorsos</h4>
-
-
-<p>Não tinha remorsos. Se possuisse os apparelhos proprios, incluia neste
-livro uma pagina de chimica, porque havia de decompor o remorso até
-os mais simples elementos, com o fim de saber, de um modo positivo e
-concludente, por que razão Achilles passea á roda de Troya o cadaver
-do adversario, e lady Macbeth passea á volta da sala a sua mancha de
-sangue. Mas eu não tenho apparelhos chimicos, como não tinha remorsos;
-tinha vontade de ser ministro de Estado. Comtudo, se hei de acabar este
-capitulo, direi que não quizera ser Achilles nem lady Macbeth; e que a
-ser alguma cousa, antes Achilles, antes passear ovante o cadaver do que
-a mancha; ouvem-se no fim as supplicas de Priamo, e ganha-se uma bonita
-reputação militar e litteraria. Eu não ouvia as supplicas de Priamo,
-mas o discurso do Lobo Neves, e não tinha remorsos.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXXX" id="CAPITULO_CXXX">CAPITULO CXXX</a></h5>
-
-
-<h4>Para intercalar no cap. <span class="smcap">CXXIX</span></h4>
-
-
-<p>A primeira vez que pude falar a Virgilia, depois da presidencia, foi
-n'um baile em 1855. Trazia um soberbo vestido de gorgorão azul, e
-ostentava ás luzes o mesmo par de hombros de outro tempo. Não era a
-frescura da primeira edade; ao contrario; mas ainda estava formosa,
-de uma formosura outoniça, realçada pela noite. Lembra-me que falamos
-muito; e lembra-me que não alludimos a cousa nenhuma do passado.
-Subentendia-se tudo. Um dito remoto, vago, ou então um olhar, e mais
-cousa nenhuma. Pouco depois retirou-se; eu fui vel-a descer as escadas,
-e não sei por que phenomeno de ventriloquismo cerebral (perdoem-me
-os philologos essa phrase barbara), murmurei commigo esta palavra
-profundamente retrospectiva:</p>
-
-<p>&mdash;Magnifica!</p>
-
-<p>Convém intercalar este capitulo entre a primeira oração e a segunda do
-cap. <span class="smcap">CXXIX</span>.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXXXI" id="CAPITULO_CXXXI">CAPITULO CXXXI</a></h5>
-
-
-<h4>De uma calumnia</h4>
-
-
-<p>Como eu acabava de dizer aquillo, pelo processo ventriloco-cerebral,&mdash;o
-que era simples opinião e não remorso,&mdash;senti que alguem me punha a mão
-no hombro. Voltei-me; era um antigo companheiro, official de marinha,
-jovial, um pouco despejado de maneiras. Elle sorriu maliciosamente, e
-disse-me:</p>
-
-<p>&mdash;Seu maganão! Recordações do passado, hein?</p>
-
-<p>&mdash;Viva o passado!</p>
-
-<p>&mdash;Você naturalmente foi reintegrado no emprego.</p>
-
-<p>&mdash;Salta, pelintra! disse eu, ameaçando-o com o dedo.</p>
-
-<p>Confesso que este dialogo era uma indiscrição,&mdash;principalmente a ultima
-replica. E com tanto maior prazer o confesso, quanto que as mulheres é
-que tem fama de indiscretas, e não quero acabar o livro sem rectificar
-essa noção do espirito humano. Em pontos de aventura amorosa, achei
-homens que sorriam, ou negavam a custo, de um modo frio, monosyllabico,
-etc., ao passo que as parceiras não davam por si, e jurariam aos
-Santos Evangelhos, que era tudo uma calumnia. A razão desta differença
-é que a mulher (salva a hypothese do cap. CI e outras) entrega-se por
-amor, ou seja o amor-paixão de Stendhal, ou o puramente physico de
-algumas damas romanas, por exemplo, ou polynesias, laponias, cafres,
-e póde ser que outras raças civilisadas; mas o homem,&mdash;falo do homem
-de uma sociedade culta e elegante,&mdash;o homem conjuga a sua vaidade ao
-outro sentimento. Alem disso (e refiro-me sempre aos casos defesos),
-a mulher, quando ama outro homem, parece-lhe que mente a um dever, e
-portanto tem de dissimular com arte maior, tem de refinar a aleivosia;
-ao passo que o homem, sentindo-se causa da infracção e vencedor de
-outro homem, fica legitimamente orgulhoso, e logo passa a outro
-sentimento menos rispido e menos secreto,&mdash;essa meiga fatuidade, que é
-a transpiração luminosa do merito.</p>
-
-<p>Mas seja ou não verdadeira a minha explicação, basta-me deixar escripto
-nesta pagina, para uso dos seculos, que a indiscrição das mulheres
-é uma burla inventada pelos homens; em amor, pelo menos, elas são
-um verdadeiro sepulchro. Perdem-se muita vez por desastradas, por
-inquietas, por não saberem resistir aos gestos, aos olhares; e é por
-isso que uma grande dama e fino espirito, a rainha de Navarra, empregou
-algures esta metaphora para dizer, que toda a aventura amorosa vinha a
-descobrir-se por força, mais tarde ou mais cedo: «não ha cachorrinho
-tão adestrado, que alfim lhe não ouçamos o latir.»</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXXXII" id="CAPITULO_CXXXII">CAPITULO CXXXII</a></h5>
-
-
-<h4>Que não é serio</h4>
-
-
-<p>Citando o dito da rainha de Navarra, occorre-me que entre o nosso povo,
-quando uma pessoa vê outra pessoa arrufada, costuma perguntar-lhe:
-«Gentes, quem matou seus cachorrinhos?» como se dissesse:&mdash;«quem lhe
-levou os amores, as aventuras secretas, etc.» Mas este capitulo não é
-serio.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXXXIII" id="CAPITULO_CXXXIII">CAPITULO CXXXIII</a></h5>
-
-
-<h4>O principio de Helvetius</h4>
-
-
-<p>Estavamos ao ponto era que o official de marinha me arrancou a
-confissão dos amores de Virgilia; e aqui emendo eu o principio de
-Helvetius,&mdash;ou, por outra, explico-o. O meu interesse era calar;
-confirmar a suspeita de uma cousa antiga fôra provocar algum odio
-supitado, dar origem a um escandalo, quando menos adquirir a reputação
-de indiscreto. Era esse o interesse; e entendendo-se o principio
-de Helvetius de um modo superficial, isso é o que devia ter feito.
-Mas eu já dei o motivo da indiscrição masculina: antes daquelle
-interesse de <i>segurança</i>, havia outro, o do <i>desvanecimento</i>, que é
-mais intimo, mais immediato: o primeiro era reflexivo, suppunha um
-syllogismo anterior; o segundo era espontaneo, instintivo, vinha das
-entranhas do sugeito; finalmente, o primeiro tinha o effeito remoto,
-o segundo proximo. Conclusão: o principio de Helvetius é verdadeiro
-no meu caso;&mdash;a diferença é que não era o interesse apparente, mas o
-recondito.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXXXIV" id="CAPITULO_CXXXIV">CAPITULO CXXXIV</a></h5>
-
-
-<h4>Cincoenta annos</h4>
-
-
-<p>Não lhes disse ainda,&mdash;mas digo-o agora,&mdash;que quando Virgilia descia a
-escada, e o official de marinha me tocava no hombro, tinha eu cincoenta
-annos. Era portanto a minha vida que descia pela escada abaixo,&mdash;ou a
-melhor parte, ao menos, uma parte cheia de prazeres, de agitações, de
-sustos,&mdash;capeada de dissimulação e duplicidade,&mdash;mas emfim a melhor,
-se devemos falar a linguagem usual. Si, porém, empregarmos outra mais
-sublime, a melhor parte foi a restante, como eu terei a honra de lhes
-dizer nas poucas paginas deste livro.</p>
-
-<p>Cincoenta annos! Não era preciso confessal-o. Já se vae sentindo que o
-meu estylo não é tão lesto como nos primeiros dias. Naquella occasião,
-cessado o dialogo com o official de marinha, que enfiou a capa e saiu,
-confesso que fiquei um pouco triste. Voltei á sala, lembrou-me dansar
-uma polka, embriagar-me das luzes, das flores, dos crystaes, dos olhos
-bonitos, e do borburinho surdo e ligeiro das conversas particulares.
-E não me arrependo; remocei. Mas, meia hora depois, quando me retirei
-do baile, ás quatro da manhã, o que é que fui achar no fundo do carro?
-Os meus cincoenta annos. Lá estavam elles os teimosos, não tolhidos
-de frio, nem rheumaticos,&mdash;mas cochillando a sua fadiga, um pouco
-cobiçosos de cama e de repouso. Então,&mdash;e vejam até que ponto póde ir
-a imaginação de um homem, com somno,&mdash;então pareceu-me ouvir de um
-morcego encarapitado no tejadilho:&mdash;Sr. Braz Cubas, a rejuvenescencia
-estava na sala, nos crystaes, nas luzes, nas sedas,&mdash;emfim, nos outros.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXXXV" id="CAPITULO_CXXXV">CAPITULO CXXXV</a></h5>
-
-
-<h4>Oblivion</h4>
-
-
-<p>E agora sinto que, se alguma dama tem seguido estas paginas, fecha o
-livro e não lê as restantes. Para ella extinguiu-se o interesse da
-minha vida, que era o amor. Cincoenta annos! Não é ainda a invalidez,
-mais já não é a frescura. Venham mais dez, e eu entenderei o que um
-inglez dizia, entenderei que «cousa é não achar já quem se lembre de
-meus paes, e de que modo me ha de encarar o proprio ESQUECIMENTO.»</p>
-
-<p>Vae em versaletes esse nome. OBLIVION! Justo é que se dem todas as
-honras a um personagem tão desprezado e tão digno, conviva da ultima
-hora, mas certo. Sabe-o a dama que luziu na aurora do actual reinado; e
-mais dolorosamente a que ostentou suas graças em flor sob o ministerio
-Paraná, porque esta acha-se mais perto do triumpho, e sente já que
-outras lhe tomaram o carro. Então, se é digna de si mesma, não teima em
-espertar a lembrança morta ou expirante; não busca no olhar de hoje a
-mesma saudação do olhar de hontem, quando eram outros os que encetavam
-a marcha da vida, de alma alegre e pé veloz. <i>Tempora mutantur.</i> E
-ella comprehenderá que este turbilhão é assim mesmo, leva as folhas do
-mato e os farrapos do caminho, sem excepção nem piedade; e se tiver um
-pouco de philosophia, não invejará, mas lastimará as que lhe tomaram o
-carro, porque tambem ellas hão de ser apeadas pelo estribeiro OBLIVION.
-Espectaculo, cujo fim é divertir o planeta Saturno, que anda muito
-aborrecido.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXXXVI" id="CAPITULO_CXXXVI">CAPITULO CXXXVI</a></h5>
-
-
-<h4>Inutilidade</h4>
-
-
-<p>Mas, ou muito me engano, ou acabo de escrever um capitulo inutil.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXXXVII" id="CAPITULO_CXXXVII">CAPITULO CXXXVII</a></h5>
-
-
-<h4>A barretina</h4>
-
-
-<p>E dahi, não; elle resume as reflexões que fiz no dia seguinte ao
-Quincas Borba, accrescentando que me sentia acabrunhado, e mil
-outras cousas tristes. Mas esse philosopho, com o elevado tino de
-que dispunha, bradou-me que eu ia escorregando na ladeira fatal da
-melancolia.</p>
-
-<p>&mdash;Meu caro Braz Cubas, não te deixes vencer desses vapores. Que diacho!
-é preciso ser homem! ser forte! lutar! vencer! brilhar! influir!
-dominar! Cincoenta annos é a edade da sciencia e do governo. Animo,
-Braz Cubas; não me sejas palerma. Que tens tu com essa successão de
-ruina a ruina ou de flor a flor? Trata de saborear a vida; e fica
-sabendo que a peor philosophia é a do choramigas que se deita á
-margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das aguas. O
-officio dellas é não parar nunca; accommoda-te com a lei, e trata de
-aproveital-a.</p>
-
-<p>Ve-se nas menores cousas o que vale a autoridade de um grande
-philosopho. As palavras do Quincas Borba tiveram o condão de sacudir
-o torpor moral e mental em que andava. Vamos lá; façamo-nos governo.
-Crel-o-eis, posteros? Eu não havia intervindo até então nos grandes
-debates. Cortejava a pasta por meio de rapapés, chás, commissões e
-votos; e a pasta não vinha. Urgia apoderar-me da tribuna.</p>
-
-<p>Comecei de vagar. Tres dias depois, discutindo-se o orçamento da
-justiça, aproveitei o ensejo para perguntar modestamente ao ministro
-se não julgava util diminuir a barretina da guarda nacional. Não
-tinha vasto alcance o objecto da pergunta; mas ainda assim demonstrei
-que não era indigno das cogitações de um homem de Estado; e citei
-Philopemen, que ordenou a substituição dos broqueis de suas tropas,
-que eram pequenos, por outros maiores, e bem assim as lanças, que
-eram demasiado leves; facto que a historia não achou que desmentisse
-a gravidade de suas paginas. O tamanho das nossas barretinas estava
-pedindo um córte profundo, não só por serem deselegantes, mas tambem
-por serem anti-hygienicas. Nas paradas, ao sol, o excesso do calor
-produzido por ellas podia ser fatal. Sendo certo que um dos preceitos
-de Hippocrates era trazer a cabeça fresca, parecia cruel obrigar um
-cidadão, por simples consideração de uniforme, a arriscar a saude e
-a vida, e consequentemente o futuro da familia. A camara e o governo
-deviam lembrar-se que a guarda nacional era o anteparo da liberdade
-e da independencia, e que o cidadão, chamado a um serviço gratuito,
-frequente e penoso, tinha direito a que se lhe diminuisse o onus,
-decretando um uniforme leve e maneiro. Accrescia que a barretina,
-por seu peso, abatia a cabeça dos cidadãos, e a patria precisava de
-cidadãos cuja fronte pudesse levantar-se altiva e serena diante do
-poder; e conclui com esta idéa: O chorão, que inclina os seus galhos
-para a terra, é arvore de cemiterio; a palmeira, erecta e firme, é
-arvore do deserto, das praças e dos jardins.</p>
-
-<p>Vária foi a impressão deste discurso. Quanto á forma, ao rapto
-eloquente, á parte litteraria e philosophica, a opinião foi só uma;
-disseram-me todos que era completo, e que de uma barretina ninguem
-ainda conseguira tirar tantas idéas. Mas a parte politica foi
-considerada por muitos deploravel; alguns achavam o meu discurso um
-desastre parlamentar; emfim, vieram dizer-me que outros me davam já
-em opposição, entrando nesse numero os opposicionistas da camara,
-que chegaram a insinuar a conveniencia de uma moção de desconfiança.
-Repelli energicamente tal interpretação, que não era só erronea, mas
-calumniosa, á vista da notoriedade com que eu sustentava o gabinete;
-accrescentei que a necessidade de diminuir a barretina, não era
-tamanha que não pudesse esperar alguns annos; e que, em todo caso,
-eu transigiria na extensão do córte, contentando-me com tres quartos
-de polegada ou menos; emfim, dado mesmo que a minha idéa não fosse
-adoptada, bastava-me tel-a iniciado no parlamento.</p>
-
-<p>O Quincas Borba, porém, não fez restricção alguma. Não sou homem
-politico, disse-me elle ao jantar; não sei se andaste bem ou mal;
-sei que fizeste um excellente discurso. E então notou as partes
-mais salientes, as bellas imagens, os argumentos fortes, com esse
-comedimento de louvor que tão bem fica a um grande philosopho; depois,
-tomou o assumpto á sua conta, e impugnou a barretina com tal força,
-com tamanha lucidez, que acabou convencendo-me effectivamente do seu
-perigo.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXXXVIII" id="CAPITULO_CXXXVIII">CAPITULO CXXXVIII</a></h5>
-
-
-<h4>A um Critico</h4>
-
-
-<blockquote>
-
-<p>Meu caro critico,</p>
-
-<p>Algumas paginas atraz, dizendo eu que tinha cincoenta annos,
-accrescentei: «Já se vae sentindo que o meu estylo não é tão
-lesto como nos primeiros dias.» Talvez aches esta phrase
-incomprehensivel, sabendo-se o meu actual estado; mas eu
-chamo a tua attenção para a subtileza daquelle pensamento. O
-que eu quero dizer não é que esteja agora mais velho do que
-quando comecei o livro. A morte não envelhece. Quero dizer,
-sim, que em cada phase da narração da minha vida experimento
-a sensação correspondente. Valha-me Deus! é preciso explicar
-tudo.</p></blockquote>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXXXIX" id="CAPITULO_CXXXIX">CAPITULO CXXXIX</a></h5>
-
-
-<h4>De como não fui ministro de estado</h4>
-
-<pre style="font-size: 0.8em;">
-. . . . . . . . . . .
-. . . . . . . . .
-. . . . . . . . .
- . .
- . . . . . . . .
-</pre>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXL" id="CAPITULO_CXL">CAPITULO CXL</a></h5>
-
-
-<h4>Que explica o anterior</h4>
-
-
-<p>Ha cousas que melhor se dizem calando; tal é a materia do capitulo
-anterior. Podem entendel-o os ambiciosos mallogrados. Se a paixão
-do poder é a mais forte de todas, como alguns inculcam, imaginem o
-desespero, a dôr, o abatimento do dia em que perdi a cadeira da camara
-dos deputados. Iam-se-me as esperanças todas; terminava a carreira
-politica. E notem que o Quincas Borba, por inducções philosophicas
-que fez, achou que a minha ambição não era a paixão verdadeira do
-poder, mas um capricho, um desejo de folgar. Na opinião delle, este
-sentimento, não sendo mais profundo que o outro, amofina muito mais,
-porque orça pelo amor que as mulheres tem ás rendas e toucados. Um
-Cromwell ou um Bonaparte, acrescentava elle, por isso mesmo que os
-queima a paixão do poder, lá chegam á fina força, ou pela escada da
-direita, ou pela da esquerda. Não era assim o meu sentimento; este,
-não tendo em si a mesma força, não tem a mesma certeza do resultado;
-e dahi a maior afflicção, o maior desencanto, a maior tristeza. O meu
-sentimento, segundo o Humanitismo...</p>
-
-<p>&mdash;Vae para o diabo com o teu Humanitismo, interrompi-o; estou farto de
-philosophias que me não levam a cousa nenhuma.</p>
-
-<p>A dureza da interrupção, tratando-se de tamanho philosopho, equivalia a
-um desacato; mas elle proprio desculpou a irritação com que lhe falei.
-Trouxeram-nos café; era uma hora da tarde, estavamos na minha sala de
-estudo, uma bella sala, que dava para o fundo da chacara, bons livros,
-objectos d'arte, um Voltaire entre elles, um Voltaire de bronze, que
-nessa occasião parecia accentuar o risinho de sarcasmo, com que me
-olhava, o ladrão; cadeiras excellentes; fóra, o sol, um grande sol,
-que o Quincas Borba, não sei se por chalaça ou poesia, chamou um dos
-ministros da natureza; corria um vento fresco, o ceu estava nitidamente
-azul. De cada janella,&mdash;eram trez&mdash;pendia uma gaiola com passaros,
-que chilreavam as suas operas rusticas. Tudo tinha a apparencia de
-uma conspiração das cousas contra o homem: e, comquanto eu estivesse
-na <i>minha</i> sala, olhando para a <i>minha</i> chacara, sentado na <i>minha</i>
-cadeira, ouvindo os <i>meus</i> passaros, ao pé dos <i>meus</i> livros, allumiado
-pelo <i>meu</i> sol, não chegava a curar-me das saudades daquella outra
-cadeira, que não era minha.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXLI" id="CAPITULO_CXLI">CAPITULO CXLI</a></h5>
-
-
-<h4>Os cães</h4>
-
-
-<p>&mdash;Mas, emfim, que pretendes fazer agora? perguntou-me o Quincas Borbas,
-indo pôr a chicara vazia no parapeito de uma das janellas.</p>
-
-<p>Não sei; vou metter-me na Tijuca; fugir aos homens. Estou envergonhado,
-aborrecido. Tantos sonhos, meu caro Borba, tantos sonhos, e não sou
-nada.</p>
-
-<p>&mdash;Nada! interrompeu-me o Quincas Borba com um gesto de indignação.</p>
-
-<p>Para distrair-me, convidou-me a sair; saimos para os lados do Engenho
-Velho. Iamos a pé, philosophando as cousas. Nunca me hade esquecer o
-beneficio desse passeio, que me restituiu o socego e a força. A palavra
-daquelle grande homem era o cordial da sabedoria. Disse-me elle que eu
-não podia fugir ao combate; se me fechavam a tribuna, cumpria-me abrir
-um jornal. Chegou a usar uma expressão menos elevada, mostrando assim
-que a lingua philosophica podia, uma ou outra vez, retemperar-se no
-calão do povo. Funda um jornal, disse-me elle, e «desmancha toda esta
-egrejinha.»</p>
-
-<p>&mdash;Magnifica idéa! Vou fundar um jornal, vou escachal-os, vou...</p>
-
-<p>&mdash;Lutar. Pódes escachal-os ou não; o essencial é que lutes. Vida é
-luta. Vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal.</p>
-
-<p>Dahi a pouco demos com uma briga de cães; facto que aos olhos de um
-homem vulgar não teria valor. O Quincas Borba fez-me parar e observar
-os cães. Eram dous. Notou que ao pé delles estava um osso, motivo da
-guerra, e não deixou de chamar a minha attenção para a circumstancia
-de que o osso não tinha carne. Um simples osso nú. Os cães mordiam-se,
-rosnavam, com o furor nos olhos... O Quincas Borba metteu a bengala
-debaixo do braço, encostou o queixo no castão, e parecia em extasis.</p>
-
-<p>&mdash;Que bello que isto é! dizia elle de quando em quando.</p>
-
-<p>Quiz arrancar-me dalli, mas não pude; elle estava arraigado ao chão,
-e só continuou a andar, quando a briga cessou inteiramente, e um
-dos cães, mordido e vencido, foi levar a sua fome a outra parte.
-Notei que ficára sinceramente alegre, posto contivesse a alegria,
-segundo convinha a um grande philosopho. Fez-me observar a belleza do
-espectaculo, relembrou o objecto da luta, concluiu que os cães tinham
-fome; mas a privação do alimento era nada para os effeitos geraes da
-philosophia. Nem deixou de recordar que em algumas partes do globo
-o espectaculo é mais grandioso: as creaturas humanas é que disputam
-aos cães os ossos e outros manjares menos appeteciveis; luta que se
-complica muito, porque entra em acção a intelligencia do homem, com
-todo o accumulo de sagacidade que lhe deram os seculos, etc.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXLII" id="CAPITULO_CXLII">CAPITULO CXLII</a></h5>
-
-
-<h4>O pedido secreto</h4>
-
-
-<p>Quanta cousa n'um minuete! como dizia o outro. Quanta cousa n'uma briga
-de cães! Mas eu não era um discipulo servil ou medroso, que deixasse de
-fazer uma ou outra objecção adequada. Andando, disse-lhe que tinha uma
-duvida; não estava bem certo da vantagem de disputar a comida aos cães.
-Elle respondeu-me com excepcional brandura:</p>
-
-<p>&mdash;Disputai-a aos outros homens é mais logico, porque a condição dos
-contendores é a mesma, e leva o osso o que fôr mais forte. Mas porque
-não será um espectaculo grandioso disputal-o aos cães? Voluntariamente,
-comem-se gafanhotos, como o Precursor, ou cousa peor, como Ezequiel;
-logo, o ruim é comivel; resta saber se é mais digno do homem
-disputal-o, por virtude de uma necessidade natural, ou preferil-o, para
-obedecer a uma exaltação religiosa, isto é, modificavel, ao passo que a
-fome é eterna, como a vida e como a morte.</p>
-
-<p>Estavamos á porta de casa; deram-me uma carta, dizendo que vinha de uma
-senhora. Entramos; e o Quincas Borba, com a discrição propria de um
-philosopho, foi ler a lombada dos livros de uma estante, emquanto eu
-lia a carta, que era de Virgilia:</p>
-
-<blockquote>
-
-<p>«Meu bom amigo,</p>
-
-<p>«D. Placida está muito mal. Peço-lhe o favor de fazer alguma
-cousa por ella; mora no becco das Escadinhas; veja se alcança
-metei-a na Misericordia.</p>
-
-<p>Sua amiga sincera,</p>
-
-<p>[signature]</p></blockquote>
-
-<p>Não era a letra fina e correcta de Virgilia, mas grossa e desegual; o
-V da assignatura não passava de um rabisco sem intenção alphabetica;
-de maneira que, se a carta apparecesse, era mui difficil attribuir-lhe
-a autoria. Virei e revirei o papel. Pobre D. Placida! Mas eu tinha-lhe
-deixado os cinco contos da praia da Gamboa, e não podia comprehender
-que...</p>
-
-<p>&mdash;Vaes comprehender, disse o Quincas Borba, tirando um livro da estante.</p>
-
-<p>&mdash;O que? perguntei espantado.</p>
-
-<p>&mdash;Vaes comprehender que eu só te disse a verdade. Pascal é um dos meus
-avós espirituaes; e, comquanto a minha philosophia valha mais que a
-delle, não posso negar que era um grande homem. Ora, que diz elle
-nesta pagina?&mdash;E, chapéu na cabeça, bengala sobraçada, apontava o logar
-com o dedo.&mdash;Que diz elle? Diz que o homem tem «uma grande vantagem
-sobre o resto do universo: sabe que morre, ao passo que o universo
-ignora-o absolutamente.» Vês? Logo, o homem que disputa o osso a um cão
-tem sobre este a grande vantagem de saber que tem fome; e é isto que
-torna grandiosa a luta, como eu dizia. «Sabe que morre» é uma expressão
-profunda; creio todavia que é mais profunda a minha expressão: sabe
-que tem fome. Porquanto, o facto da morte limita, por assim dizer, o
-entendimento humano; a consciencia da extincção dura um breve instante
-e acaba para nunca mais, ao passo que a fome tem a vantagem de voltar,
-de prolongar o estado consciente. Parece-me (se não vae nisso alguma
-immodestia), que a fórmula de Pascal é inferior á minha, sem todavia
-deixar de ser um grande pensamento, e Pascal um grande homem.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXLIII" id="CAPITULO_CXLIII">CAPITULO CXLIII</a></h5>
-
-
-<h4>Não vou</h4>
-
-
-<p>Emquanto elle restituia o livro á estante, relia eu o bilhete. Ao
-jantar, vendo que eu falava pouco, mastigava sem acabar de engulir,
-fitava o canto da sala, a ponta da meza, um prato, uma cadeira, uma
-mosca invisivel, disse-me elle:&mdash;Tens alguma cousa; aposto que foi
-aquella carta?&mdash;Foi. Realmente, sentia-me aborrecido, incommodado, com
-o pedido de Virgilia. Tinha dado a D. Placida cinco contos de réis;
-duvido muito que ninguem fosse mais generoso do que eu, nem tanto.
-Cinco contos! E que fizera delles? Naturalmente botou-os fóra, comeu-os
-em grandes festas, e agora toca para a Misericordia, e eu que a leve!
-Morre-se em qualquer parte. Accresce que eu não sabia, ou não me
-lembrava do tal becco das Escadinhas; mas, pelo nome, parecia-me algum
-recanto estreito e escuro da cidade. Tinha de lá ir, chamar a attenção
-dos visinhos, bater á porta, etc. Que massada! Não vou.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXLIV" id="CAPITULO_CXLIV">CAPITULO CXLIV</a></h5>
-
-
-<h4>Utilidade relativa</h4>
-
-
-<p>Mas a noite, que é boa conselheira, ponderou que a cortezia mandava
-obedecer aos desejos da minha antiga dama.</p>
-
-<p>&mdash;Letras vencidas, urge pagal-as, disse eu ao levantar-me.</p>
-
-<p>Depois do almoço fui á casa de D. Placida; achei um mólho de ossos,
-envolto em molambos, estendido sobre um catre velho e nauseabundo;
-dei-lhe algum dinheiro. No dia seguinte fil-a transportar para a
-Misericordia, onde ella morreu uma semana depois. Minto: amanheceu
-morta; saiu da vida ás escondidas, tal qual entrára. Outra vez
-perguntei, a mim mesmo, como no cap. LXXV, se era para isto que o
-sachristão da Sé e a doceira trouxeram D. Placida á luz, n'um momento
-de sympathia especifica. Mas adverti logo que, se não fosse D. Placida,
-talvez os meus amores com Virgilia tivessem sido interrompidos, ou
-immediatamente quebrados, em plena effervescencia; tal foi, portanto, a
-utilidade da vida de D. Placida. Utilidade relativa, convenho; mas que
-diacho ha absoluto nesse mundo?</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXLV" id="CAPITULO_CXLV">CAPITULO CXLV</a></h5>
-
-
-<h4>Simples repetição</h4>
-
-
-<p>Quanto aos cinco contos, não vale a pena dizer que um canteiro da
-visinhança fingiu-se enamorado de D. Placida, logrou espertar-lhe
-os sentidos, ou a vaidade, e casou com ella; no fim de alguns mezes
-inventou um negocio, vendeu as apolices e fugiu com o dinheiro. Não
-vale a pena. É o caso dos cães do Quincas Borba. Simples repetição de
-um capitulo.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXLVI" id="CAPITULO_CXLVI">CAPITULO CXLVI</a></h5>
-
-
-<h4>O programma</h4>
-
-
-<p>Urgia fundar o jornal. Redigi o programma, que era uma applicação
-politica do Humanitismo; somente, como o Quincas Borba não houvesse
-ainda publicado o livro, (que aperfeiçoava de anno em anno) assentamos
-de lhe não fazer nenhuma referencia. O Quincas Borba exigiu apenas uma
-declaração, autographa e reservada, de que alguns principios novos
-applicados á politica eram tirados do livro delle, ainda inedito.</p>
-
-<p>Era a fina flôr dos programmas; promettia curar a sociedade, destruir
-os abusos, defender os sãos principios de liberdade e conservação;
-fazia um appello ao commercio e á lavoura; citava Guizot e Ledru-Rollin
-e acabava com esta ameaça, que o Quincas Borba achou mesquinha e
-local: «A nova doutrina que professamos ha de inevitavelmente derribar
-o actual ministerio.» Confesso que, nas circumstancias politicas da
-occasião, o programma pareceu-me uma obra-prima. A ameaça do fim, que
-o Quincas Borba achou mesquinha, demonstrei-lhe que era saturada do
-mais puro Humanitismo, e elle mesmo o confessou depois. Porquanto, o
-Humanitismo não excluia nada; as guerras de Napoleão e uma contenda
-de cabras eram, segundo a nossa doutrina, a mesma sublimidade, com a
-differença que os soldados de Napoleão sabiam que morriam, cousa que
-apparentemente não acontece ás cabras. Ora, eu não fazia mais do que
-applicar ás circumstancias a nossa fórmula philosophica: Humanitas
-queria substituir Humanitas para consolação de Humanitas.</p>
-
-<p>&mdash;Tu és o meu discipulo amado, o meu califa, bradou o Quincas Borba,
-com uma nota de ternura, que até então lhe não ouvira. Posso dizer
-como o grande Muhammed: nem que venham agora contra mim o sol e a lua,
-não recuarei das minhas idéas. Crê, meu caro Braz Cubas, que esta é a
-verdade eterna, anterior aos mundos, posterior aos seculos.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXLVII" id="CAPITULO_CXLVII">CAPITULO CXLVII</a></h5>
-
-
-<h4>O desatino</h4>
-
-
-<p>Mandei logo para a imprensa uma noticia discreta, dizendo que
-provavelmente começaria a publicação de um jornal opposicionista, dahi
-a algumas semanas, redigido pelo Dr. Braz Cubas. O Quincas Borba, a
-quem li a noticia, pegou da penna, e acrescentou ao meu nome, com uma
-fraternidade verdadeiramente humanistica, esta phrase: «um dos mais
-gloriosos membros da passada camara.»</p>
-
-<p>No dia seguinte entra-me em casa o Cotrim. Vinha um pouco transtornado,
-mas dissimulava, affectando socego e até alegria. Vira a noticia
-do jornal, e achou que devia, como amigo e parente, dissuadir-me
-de semelhante idéa. Era um erro, um erro fatal. Mostrou que eu ia
-collocar-me n'uma situação difficil, e de certa maneira trancar as
-portas do parlamento. O ministerio, não só lhe parecia excellente,
-o que aliás podia não ser a minha opinião, mas com certeza viveria
-muito; e que podia eu ganhar com indispol-o contra mim? Sabia que
-alguns dos ministros me eram affeiçoados; não era impossivel uma vaga,
-e... Interrompi-o nesse ponto, para lhe dizer que meditára muito o
-passo que ia dar, e não podia recuar uma linha. Cheguei a propôr-lhe a
-leitura do programma, mas elle recusou energicamente, dizendo que não
-queria ter a minima parte no meu desatino.</p>
-
-<p>&mdash;É um verdadeiro desatino, repetiu elle; pense ainda alguns dias, e
-verá que é um desatino.</p>
-
-<p>A mesma cousa disse Sabina, á noite, no theatro. Deixou a filha no
-camarote, como Cotrim, e trouxe-me ao corredor.</p>
-
-<p>&mdash;Mano Braz, que é que você vae fazer? perguntou-me afflicta. Que idéa
-é essa de provocar o governo, sem necessidade, quando podia....</p>
-
-<p>Expliquei-lhe que não me convinha mendigar uma cadeira no parlamento;
-que a minha idéa era derrubar o ministerio, por não me parecer adequado
-á situação&mdash;e a certa fórmula philosophica; afiancei que empregaria
-sempre uma linguagem cortez, embora energica. A violencia não era
-especiaria do meu paladar. Sabina bateu com o leque na ponta dos dedos,
-abanou a cabeça, e tornou ao assumpto com um ar de supplica e ameaça,
-alternadamente; eu disse-lhe que não, que não, e que não. Desenganada,
-lançou-me em rosto preferir os conselhos de pessoas estranhas e
-invejosas aos della e do marido.&mdash;Pois siga o que, lhe parecer,
-concluiu; nós cumprimos a nossa obrigação. Deu-me as costas e voltou ao
-camarote.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXLVIII" id="CAPITULO_CXLVIII">CAPITULO CXLVIII</a></h5>
-
-
-<h4>O problema insoluvel</h4>
-
-
-<p>Publiquei o jornal. Vinte e quatro horas depois, apparecia em outros
-uma declaração do Cotrim, dizendo, era substancia, que «posto não
-militasse em nenhum dos partidos em que se dividia a patria, achava
-conveniente deixar bem claro que não tinha influencia nem parte directa
-ou indirecta na folha de seu cunhado, o Dr. Braz Cubas, cujas idéas
-e procedimento politico inteiramente reprovava. O actual ministerio
-(como aliás qualquer outro composto de eguaes capacidades) parecia-lhe
-destinado a promover a felicidade publica.»</p>
-
-<p>Não podia acabar de crer nos meus olhos. Esfreguei-os uma e duas
-vezes, e reli a declaração inopportuna, insolita e enigmatica. Se
-elle nada tinha com os partidos, que lhe importava um incidente tão
-vulgar como a publicação de uma folha? Nem todos os cidadãos que acham
-bom ou mau um ministerio fazem declarações taes pela imprensa, nem
-são obrigados a fazel-as. Realmente, era um mysterio a intrusão do
-Cotrim neste negocio, não menos que a sua aggressão pessoal. Nossas
-relações até então tinham sido lhanas e benevolas; não me lembrava
-nenhum dissentimento, nenhuma sombra, nada, depois da reconciliação.
-Ao contrario, as recordações eram de verdadeiros obsequios; assim, por
-exemplo, sendo eu deputado, pude obter-lhe uns fornecimentos para o
-arsenal de marinha, fornecimentos que elle continuava a fazer com a
-maior pontualidade, e dos quaes me dizia algumas semanas antes, que
-no fim de mais trez annos, podiam dar-lhe uns duzentos contos. Pois
-a lembrança de tamanho obsequio não teve força para obstar que elle
-viesse a publico enxovalhar o cunhado? Devia ser mui poderoso o motivo
-da declaração, que o fazia commetter ao mesmo tempo um destempero e uma
-ingratidão; confesso que era um problema insoluvel...</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CXLIX" id="CAPITULO_CXLIX">CAPITULO CXLIX</a></h5>
-
-
-<h4>Theoria do beneficio</h4>
-
-
-<p>... Tão insoluvel que o Quincas Borba não pôde dar com elle, apezar de
-estudal-o longamente e com boa vontade.&mdash;Ora adeus! concluiu; nem todos
-os problemas valem cinco minutos de attenção.</p>
-
-<p>Quanto á censura de ingratidão, o Quincas Borba rejeitou-a
-inteiramente, não como improvavel, mas como absurda, por não obedecer
-ás conclusões de uma boa philosophia humanistica:</p>
-
-<p>&mdash;Não me pódes negar um facto, disse elle; é que o prazer do
-beneficiador é sempre maior que o do beneficiado. Que é o beneficio? é
-um acto que faz cessar certa privação do beneficiado. Uma vez produzido
-o effeito essencial, isto é, uma vez cessada a privação, torna o
-organismo ao estado anterior, ao estado indifferente. Suppõe que tens
-apertado em demasia o cós das calças; para fazer cessar o incommodo,
-desabotôas o cós, respiras, saboreas um instante de gozo, o organismo
-torna á indifferença, e não te lembras dos teus dedos que praticaram o
-acto. Não havendo nada que perdure, é natural que a memoria se esvaeça,
-porque ella não é uma planta aerea, precisa de chão. A esperança de
-outros favores, é certo, conserva sempre no beneficiado a lembrança do
-primeiro; mas este facto, aliás um dos mais sublimes que a philosophia
-póde achar em seu caminho, explica-se pela memoria da privação, ou,
-usando de outra fórmula, pela privação continuada na memoria, que
-repercute a dor passada e aconselha a precaução do remedio opportuno.
-Não digo que, ainda sem esta circumstancia, não aconteça, algumas
-vezes, persistir a memoria do obsequio, acompanhada de certa affeição
-mais ou menos intensa; mas são verdadeiras aberrações, sem nenhum valor
-aos olhos de um philosopho.</p>
-
-<p>&mdash;Mas, repliquei eu, se nenhuma razão ha para que perdure a memoria do
-obsequio no obsequiado, menos ha de haver em relação ao obsequiador.
-Quizera que me explicasses este ponto.</p>
-
-<p>&mdash;Não se explica o que é de sua natureza evidente, retorquiu o Quincas
-Borba; mas eu direi alguma cousa mais. A persistencia do beneficio na
-memoria de quem o exerce explica-se pela natureza mesma do beneficio
-e seus effeitos. Primeiramente, ha o sentimento de uma boa acção, e
-deductivamente a consciencia de que somos capazes de boas acções; em
-segundo logar, recebe-se uma convicção de superioridade sobre outra
-creatura, superioridade no estado e nos meios; e esta é uma das
-cousas mais legitimamente agradaveis, segundo as melhores opiniões,
-ao organismo humano. Erasmo, que no seu <i>Elogio da Sandice</i> escreveu
-algumas cousas boas, chamou a attenção para a complacencia com que dois
-burros se coçam um ao outro. Estou longe de rejeitar essa observação de
-Erasmo; mas direi o que elle não disse, a saber, que se um dos burros
-coçar melhor o outro, esse ha de ter nos olhos algum indicio especial
-de satisfação. Porque é que uma mulher bonita olha muitas vezes para
-o espelho, senão porque se acha bonita, e porque isso lhe dá certa
-superioridade sobre uma multidão de outras mulheres menos bonitas
-ou absolutamente feias? A consciencia é a mesma cousa; remira-se a
-miudo, quando se acha bella. Nem o remorso é outra cousa mais do que o
-trejeito de uma consciencia que se vê hedionda. Não esqueças que, sendo
-tudo uma simples irradiação de Humanitas, o beneficio e seus effeitos,
-são phenomenos perfeitamente admiraveis.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CL" id="CAPITULO_CL">CAPITULO CL</a></h5>
-
-
-<h4>Rotação e translação</h4>
-
-
-<p>Ha em cada empreza, affeição ou edade um cyclo inteiro da vida humana.
-O primeiro numero do meu jornal encheu-me a alma de uma vasta aurora,
-coroou-me de verduras, restituiu-me a lepidez da mocidade. Seis mezes
-depois batia a hora da velhice, e dahi a duas semanas a da morte, que
-foi clandestina, como a de D. Placida. No dia em que o jornal amanheceu
-morto, respirei como um homem que vem de longo caminho. De modo que,
-se eu disser que a vida humana nutre de si mesma outras vidas, mais
-ou menos ephemeras, como o corpo alimenta os seus parasitas, creio
-não dizer uma cousa inteiramente absurda. Mas, para não arriscar essa
-figura menos nitida e adequada, prefiro uma imagem astronomica: o homem
-executa á roda do grande mysterio um movimento duplo de rotação e
-translação; tem os seus dias, deseguaes como os de Jupiter, e delles
-compõe o seu anno mais ou menos longo.</p>
-
-<p>No momento em que eu terminava o meu movimento de rotação, concluia o
-Lobo Neves o seu movimento de translação. Morria com o pé na escada
-ministerial. Correu ao menos, durante algumas semanas, que elle ia ser
-ministro; e pois que o boato me encheu de muita irritação e inveja, não
-é impossivel que a noticia da morte me deixasse alguma tranquillidade,
-allivio, e um ou dous minutos de prazer. Prazer é muito, mas é verdade;
-juro aos seculos que é a pura verdade.</p>
-
-<p>Fui ao enterro. Na sala mortuaria achei Virgilia, ao pé do feretro, a
-soluçar. Quando levantou a cabeça, vi que chorava deveras. Ao sair o
-enterro, abraçou-se ao caixão, afflicta; vieram tiral-a e leval-a para
-dentro. Digo-vos que as lagrimas eram verdadeiras. Eu fui ao cemiterio;
-e, para dizer tudo, não tinha muita vontade de falar; levava uma pedra
-na garganta ou na consciencia. No cemiterio, principalmente quando
-deixei cair a pá de cal sobre o caixão, no fundo da cova, o baque surdo
-da cal deu-me um estremecimento passageiro, é certo, mas desagradavel;
-e depois a tarde tinha o peso e a côr do chumbo; o cemiterio, as roupas
-pretas...</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CLI" id="CAPITULO_CLI">CAPITULO CLI</a></h5>
-
-
-<h4>Philosophia dos epitaphios</h4>
-
-
-<p>Saí, afastando-me dos grupos, e fingindo ler os epitaphios. E, aliás,
-gosto dos epitaphios; elles são, entre a gente civilisada, uma
-expressão daquelle pio e secreto egoismo que induz o homem a arrancar
-á morte um farrapo ao menos da sombra que passou. Dahi vem, talvez,
-a tristeza inconsolavel dos que levam os seus mortos á valla commum;
-parece-lhes que a podridão anonyma os alcança a elles mesmos.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CLII" id="CAPITULO_CLII">CAPITULO CLII</a></h5>
-
-
-<h4>A moeda do Vespasiano</h4>
-
-
-<p>Tinham ido todos; só o meu carro esperava pelo dono. Accendi um
-charuto; afastei-me do cemiterio. Não podia sacudir dos olhos a
-ceremonia do enterro, nem dos ouvidos os soluços de Virgilia. Os
-soluços, principalmente, tinham o som vago e mysterioso de um problema.
-Virgilia trahira o marido, com sinceridade; e agora chorava-o com
-sinceridade. Eis uma combinação difficil que não pude fazer em todo
-o trajecto; em casa, porém, apeando-me do carro, suspeitei que a
-combinação era possivel, e até facil. Meiga Natura! A taxa da dor é
-como a moeda de Vespasiano; não cheira á origem, e tanto se colhe do
-mal como do bem. A moral reprehenderá, porventura, a minha complice;
-é o que te não importa, implacavel amiga, uma vez que lhe recebeste
-pontualmente as lagrimas. Meiga, tres vezes meiga Natura!</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CLIII" id="CAPITULO_CLIII">CAPÍTULO CLIII</a></h5>
-
-
-<h4>O alienista</h4>
-
-
-<p>Começo a ficar pathetico; e prefiro dormir. Dormi, sonhei que era
-nababo, e acordei com a idéa de ser nababo. Eu gostava, ás vezes,
-de imaginar esses contrastes de região, estado e credo. Alguns dias
-antes tinha pensado na hypothese de uma revolução social, religiosa e
-politica, que transferisse o arcebispo de Cantuaria a simples collector
-de Petropolis, e fiz longos calculos para saber se o collector
-eliminaria o arcebispo, ou se o arcebispo rejeitaria o collector, ou
-que porção de arcebispo póde jazer n'um collector, ou que somma de
-collector póde combinar com um arcebispo, etc. Questões insoluveis,
-apparentemente, mas na realidade perfeitamente soluveis, desde que se
-attenda que póde haver n'um arcebispo dous arcebispos,&mdash;o da bulla e o
-outro. Está dito, vou ser nababo.</p>
-
-<p>Era um simples gracejo; disse-o, todavia, ao Quincas Borba, que
-olhou para mim com certa cautella e pena, levando a sua bondade a
-communicar-me que eu estava doudo. Ri-me a principio; mas a nobre
-convicção do philosopho incutiu-me certo medo. A unica objecção contra
-a palavra do Quincas Borba é que não me sentia doudo, mas não tendo
-geralmente os doudos outro conceito de si mesmos, tal objecção ficava
-sem valor. E vêde se ha algum fundamento na crença popular de que os
-philosophos são homens alheios ás cousas minimas. No dia seguinte
-mandou-me o Quincas Borba um alienista. Conhecia-o, fiquei aterrado.
-Elle porém houve-se com a maior delicadeza e habilidade, despedindo-se
-tão alegremente que me animou a perguntar-lhe se deveras me não achava
-doudo.</p>
-
-<p>&mdash;Não, disse elle sorrindo; raros homens terão tanto juizo como o
-senhor.</p>
-
-<p>&mdash;Então o Quincas Borba enganou-se?</p>
-
-<p>&mdash;Redondamente. E depois:&mdash;Ao contrario, se é amigo delle... peço-lhe
-que o distraia... que...</p>
-
-<p>&mdash;Justos ceus! Parece-lhe?... Um homem de tamanho espirito! um
-philosopho!</p>
-
-<p>Não importa; a loucura entra em todas as casas. Imaginem a minha
-afflicção. O alienista, vendo o effeito de suas palavras, reconheceu
-que eu era amigo do Quincas Borba, e tratou de diminuir a gravidade da
-advertencia. Observou que podia não ser nada, e accrescentou até que um
-grãosinho de sandice, longe de fazer mal, dava certo pico á vida. Como
-eu rejeitasse com horror esta opinião, o alienista sorriu e disse-me
-uma cousa tão extraordinaria, tão extraordinaria, que não merece menos
-de um capitulo.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CLIV" id="CAPITULO_CLIV">CAPITULO CLIV</a></h5>
-
-
-<h4>Os navios do Pireu</h4>
-
-
-<p>&mdash;Ha de lembrar-se, disse-me o alienista, daquelle famoso maniaco
-atheniense, que suppunha que todos os navios entrados no Pireu eram
-de sua propriedade. Não passava de um pobretão, que talvez não
-tivesse, para dormir, a cuba de Diogenes; mas a posse imaginaria dos
-navios valia por todas as drachmas da Hellade. Ora bem, ha em todos
-nós um maniaco de Athenas; e quem jurar que não possuiu alguma vez,
-mentalmente, dous ou tres patachos, pelo menos, póde crer que jura
-falso.</p>
-
-<p>&mdash;Tambem o senhor? perguntei-lhe.</p>
-
-<p>&mdash;Tambem eu.</p>
-
-<p>&mdash;Tambem eu?</p>
-
-<p>&mdash;Tambem o senhor; e o seu criado, não menos, se é seu criado esse
-homem que alli está sacudindo os tapetes á janella.</p>
-
-<p>De facto, era um dos meus criados que batia os tapetes, emquanto
-nós falavamos no jardim, ao lado. O alienista notou então que elle
-escancarára as janellas todas, desde longo tempo, que alçára as
-cortinas, que devassára o mais possivel a sala, ricamente alfaiada,
-para que a vissem de fóra, e concluiu:&mdash;Este seu criado tem a mania do
-atheniense: crê que os navios são delle; uma hora de illusão que lhe dá
-a maior felicidade da terra.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CLV" id="CAPITULO_CLV">CAPITULO CLV</a></h5>
-
-
-<h4>Reflexão cordial</h4>
-
-
-<p>&mdash;Se o alienista tem razão, disse eu commigo, não haverá muito que
-lastimar o Quincas Borba; e uma questão de mais ou de menos. Comtudo,
-é justo cuidar delle, e evitar que lhe entrem no cerebro maniacos de
-outras paragens.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CLVI" id="CAPITULO_CLVI">CAPITULO CLVI</a></h5>
-
-
-<p>Orgulho tem servilidade</p>
-
-
-<p>O Quincas Borba divergiu do alienista em relação ao meu
-criado.&mdash;Póde-se, por imagem, disse elle, attribuir ao teu criado
-a mania de atheniense; mas imagens não são idéas nem observações
-tomadas á natureza. O que o teu criado tem é um sentimento nobre
-e perfeitamente regido pelas leis do Humanitismo: é o orgulho
-da servilidade. A intenção delle é mostrar que não é criado de
-<i>qualquer.</i>&mdash;Depois chamou a minha attenção para os cocheiros de casa
-grande, mais impertigados que o amo, para os criados de hotel, cuja
-solicitude obedece ás variações sociaes da freguezia, etc. E concluiu
-que era tudo a expressão daquelle sentimento delicado e nobre,&mdash;prova
-cabal de que muitas vezes o homem, ainda a engraxar botas, é sublime.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CLVII" id="CAPITULO_CLVII">CAPITULO CLVII</a></h5>
-
-
-<h4>Phase brilhante</h4>
-
-
-<p>&mdash;Sublime és tu, bradei eu, lançando-lhe os braços ao pescoço.</p>
-
-<p>Com effeito, era impossivel crer que um homem tão profundo pudesse
-chegar á demencia; e foi o que lhe disse após o meu abraço,
-denunciando-lhe a suspeita do alienista. Não posso descrever a
-impressão que lhe fez a denuncia; lembra-me que elle estremeceu e ficou
-muito pallido.</p>
-
-<p>Foi por esse tempo que eu me reconciliei outra vez com o Cotrim, sem
-chegar a saber a causa do dissentimento. Reconciliação opportuna,
-porque a solidão pesava-me, como um remorso, e a vida era para mim
-a peor das fadigas, que é a fadiga sem trabalho. Pouco depois fui
-convidado por elle a filiar-me n'uma Ordem Terceira; o que eu não fiz
-sem consultar o Quincas Borba:</p>
-
-<p>&mdash;Vae se queres, disse-me este, mas temporariamente. Eu trato de
-annexar á minha philosophia uma parte dogmatica e liturgica. O
-Humanitismo ha de ser tambem uma religião, a do futuro, a unica
-verdadeira. O christianismo é bom para as mulheres e os mendigos, e as
-outras religiões não valem mais do que essa: orçam todas pela mesma
-vulgaridade ou fraqueza. O paraiso christão é um digno emulo do paraiso
-mussulmano; e quanto ao nirvana de Buddha não passa de uma concepção de
-paralyticos. Verás o que é a religião humanistica. A absorpção final,
-a phase <i>contractiva</i>, é a reconstituição da substancia, não o seu
-anniquilamento, etc. Vae aonde te chamam; não esqueças, porém, que és o
-meu califa.</p>
-
-<p>E vede agora a minha, modestia; filiei-me na Ordem Terceira de ***,
-exerci alli alguns cargos, foi essa a phase mais brilhante da minha
-vida. Não obstante, calo-me, não digo nada, não conto os meus serviços,
-o que fiz aos pobres e aos enfermos, nem as recompensas que recebi,
-nada, não digo absolutamente nada.</p>
-
-<p>Talvez a economia social pudesse ganhar alguma cousa, si eu mostrasse
-como todo e qualquer premio estranho vale pouco ao lado do premio
-subjectivo e immediato; mas seria romper o silencio que jurei guardar
-neste ponto. Demais, os phenomenos da consciencia são de difficil
-analyse; por outro lado, se contasse um, teria de contar todos os que
-a elle se prendessem, e acabava fazendo um capitulo de psychologia.
-Affirmo sómente que foi a phase mais brilhante da minha vida. Os
-quadros eram tristes; tinham a monotonia da desgraça, que é tão
-aborrecida como a do gozo, e talvez peor. Mas a alegria que se dá á
-alma dos doentes e dos pobres, é recompensa de algum valor; e não me
-digam que é negativa, por só recebel-a o obsequiado. Não; eu recebia-a
-de um modo reflexo, e ainda assim grande, tão grande que me dava
-excellente idéa de mim mesmo.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CLVIII" id="CAPITULO_CLVIII">CAPITULO CLVIII</a></h5>
-
-
-<h4>Dous encontros</h4>
-
-
-<p>No fim de alguns annos, tres ou quatro, estava enfarado do officio,
-e deixei-o, não sem um donativo importante, que me deu direito ao
-retrato na sacristia. Não acabarei, porém, o capitulo sem dizer que vi
-morrer no hospital da Ordem, adivinhem quem?... a linda Marcella; e
-vi-a morrer no mesmo dia em que, visitando um cortiço, para distribuir
-esmolas, achei... Agora é que não são capazes de adivinhar... achei a
-flôr da moita, Eugenia, a filha de D. Eusebia e do Villaça, tão coxa
-como a deixara, e ainda mais triste.</p>
-
-<p>Esta, ao reconhecer-me, ficou pallida, e baixou os olhos; mas foi obra
-de um instante. Ergueu logo a cabeça, e fitou-me com muita dignidade.
-Comprehendi que não receberia esmolas da minha algibeira, e estendi-lhe
-a mão, como faria á esposa de um capitalista. Cortejou-me e fechou-se
-no cubiculo. Nunca mais a vi; não soube nada da vida della, nem se a
-mãe era morta, nem que desastre a trouxera a tamanha miseria. Sei que
-continuava coxa e triste. Foi com esta impressão profunda que cheguei
-ao hospital, onde Marcella entrara na vespera, e onde a vi expirar meia
-hora depois, feia, magra, decrepita...</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CLIX" id="CAPITULO_CLIX">CAPITULO CLIX</a></h5>
-
-
-<h4>A semi-demencia</h4>
-
-
-<p>Comprehendi que estava velho, e precisava de uma força; mas o Quincas
-Borba partira seis mezes antes para Minas Geraes, e levou comsigo a
-melhor das philosophias. Voltou quatro mezes depois, e entrou-me em
-casa, certa manhã, quasi no estado em que eu o vira no Passeio Publico.
-A differença é que o olhar era outro. Vinha demente. Contou-me que,
-para o fim de aperfeiçoar o Humanitismo, queimára o manuscripto todo e
-ia recomeçal-o. A parte dogmatica ficava completa, embora não escripta;
-era a verdadeira religião do futuro.</p>
-
-<p>&mdash;Juras por Humanitas? perguntou-me.</p>
-
-<p>&mdash;Sabes que sim.</p>
-
-<p>A voz mal podia sair-me do peito; e aliás não tinha descoberto toda
-a cruel verdade. O Quincas Borba não só estava louco, mas sabia que
-estava louco, e esse resto de consciencia, como uma frouxa lamparina
-no meio das trevas, complicava muito o horror da situação. Sabia-o,
-e não se irritava contra o mal; ao contrario, dizia-me que era ainda
-uma prova de Humanitas, que assim brincava comsigo mesmo. Recitava-me
-longos capitulos do livro, e antiphonas, e litanias espirituaes; chegou
-até a reproduzir uma dansa sacra que inventara para as ceremonias do
-Humanitismo. A graça lugubre com que elle levantava e sacudia as pernas
-era singularmente fantastica. Outras vezes amuava-se a um canto, com os
-olhos fitos no ar, uns olhos em que, de longe em longe, fulgurava um
-raio persistente da razão, triste como uma lagrima...</p>
-
-<p>Morreu pouco tempo depois, em minha casa, jurando e repetindo sempre
-que a dor era uma illusão, e que Pangloss, o calumniado Pangloss, não
-era tão tolo como o suppoz Voltaire.</p>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="CAPITULO_CLX" id="CAPITULO_CLX">CAPITULO CLX</a></h5>
-
-
-<h4>Das negativas</h4>
-
-
-<p>Entre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os successos
-narrados na primeira parte do livro. O principal delles foi a invenção
-do <i>emplasto Braz Cubas</i>, que morreu commigo, por causa da molestia
-que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro logar entre os
-homens, acima da sciencia e da riqueza, porque eras a genuina e directa
-inspiração do ceu. O acaso determinou o contrario; e ahi vos ficaes
-eternamente hypocondriacos.</p>
-
-<p>Este ultimo capitulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do
-emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento.
-Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não
-comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais: não padeci a morte de D.
-Placida, nem a semi-demencia do Quincas Borba. Sommadas umas cousas e
-outras, qualquer pessoa imaginará que não houve mingua nem sobra, e
-conseguintemente que sai quite com a vida. E imaginará mal; porque ao
-chegar a este outro lado do mysterio, achei-me com um pequeno saldo,
-que é a derradeira negativa deste capitulo de negativas:&mdash;Não tive
-filhos, não transmitti a nenhuma creatura o legado da nossa miseria.</p>
-
-<h4>FIM</h4>
-
-<hr class="full" />
-
-<hr class="tb" />
-<h5><a name="INDICE" id="INDICE">ÍNDICE</a></h5>
-
-
-<p>Ao leitor</p>
-
-<p>Dedicatória</p>
-
-
-<div class="center">
-<table border="0" cellpadding="2" cellspacing="0" summary="">
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_I">I</a> &mdash;</td><td align="left">Obito do auto</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_II">II</a> &mdash;</td><td align="left">O emplasto</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_III">III</a> &mdash;</td><td align="left">Genealogia</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_IV">IV</a> &mdash;</td><td align="left">A idéa fixa</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_V">V</a> &mdash;</td><td align="left">Em que apparece a orelha de uma senhora</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_VI">VI</a> &mdash;</td><td align="left">Chimène, qui l'eut dit? Rodrigue, qui l'eut cru?</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_VII">VII</a> &mdash;</td><td align="left">O delirio</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_VIII">VIII</a> &mdash;</td><td align="left">Razão contra Sandice</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_IX">IX</a> &mdash;</td><td align="left">Transição</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_X">X</a> &mdash;</td><td align="left">Naquelle dia</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XI">XI</a> &mdash;</td><td align="left">O menino é pae do homem</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XII">XII</a> &mdash;</td><td align="left">Um episodio de 1814</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XIII">XIII</a> &mdash;</td><td align="left">Um salto</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XIV">XIV</a> &mdash;</td><td align="left">O primeiro beijo</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XV">XV</a> &mdash;</td><td align="left">Marcella</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XVI">XVI</a> &mdash;</td><td align="left">Uma reflexão immoral</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XVII">XVII</a> &mdash;</td><td align="left">Do trapezio o outras cousas</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XVIII">XVIII</a> &mdash;</td><td align="left">Visão do corredor</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XIX">XIX</a> &mdash;</td><td align="left">A bordo</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XX">XX</a> &mdash;</td><td align="left">Bacharelo-me</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXI">XXI</a> &mdash;</td><td align="left">O almocreve</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXII">XXII</a> &mdash;</td><td align="left">Volta ao Rio</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXIII">XXIII</a> &mdash;</td><td align="left">Triste, mas curto</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXIV">XXIV</a> &mdash;</td><td align="left">Curto, era alegre</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXV">XXV</a> &mdash;</td><td align="left">Na Tijuca</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXVI">XXVI</a> &mdash;</td><td align="left">O autor hesita</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXVII">XXVII</a> &mdash;</td><td align="left">Virgilia?</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXVIII">XXVIII</a> &mdash;</td><td align="left">Contanto que</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXIX">XXIX</a> &mdash;</td><td align="left">A visita</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXX">XXX</a> &mdash;</td><td align="left">A flor da moita</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXXI">XXXI</a> &mdash;</td><td align="left">A borboleta preta</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXXII">XXXII</a> &mdash;</td><td align="left">Côxa de nascença</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXXIII">XXXIII</a> &mdash;</td><td align="left">Bem aventurados os que não descem</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXXIV">XXXIV</a> &mdash;</td><td align="left">A uma alma sensivel</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXXV">XXXV</a> &mdash;</td><td align="left">O caminho de Damasco</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXXVI">XXXVI</a> &mdash;</td><td align="left">A proposito de botas</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXXVII">XXXVII</a> &mdash;</td><td align="left">Emfim!</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXXVIII">XXXVIII</a> &mdash;</td><td align="left">A quarta edição</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XXXIX">XXXIX</a> &mdash;</td><td align="left">O visinho</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XL">XL</a> &mdash;</td><td align="left">Na sege</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XLI">XLI</a> &mdash;</td><td align="left">A allucinação</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XLII">XLII</a> &mdash;</td><td align="left">Que escapou a Aristoteles</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XLIII">XLIII</a> &mdash;</td><td align="left">Marqueza, porque eu serei marquez</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XLIV">XLIV</a> &mdash;</td><td align="left">Um Cubas!</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XLV">XLV</a> &mdash;</td><td align="left">Notas</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XLVI">XLVI</a> &mdash;</td><td align="left">A herança</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XLVII">XLVII</a> &mdash;</td><td align="left">O recluso</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XLVIII">XLVIII</a> &mdash;</td><td align="left">Um primo de Virgilia</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XLIX">XLIX</a> &mdash;</td><td align="left">A ponta do nariz</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_L">L</a> &mdash;</td><td align="left">Virgilia casada</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LI">LI</a> &mdash;</td><td align="left">É minha!</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LII">LII</a> &mdash;</td><td align="left">O embrulho mysterioso</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LIII">LIII</a> &mdash;</td><td align="left">. . . . . .</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LIV">LIV</a> &mdash;</td><td align="left">A pendula</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LV">LV</a> &mdash;</td><td align="left">O velho dialogo de Adão e Eva</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LVI">LVI</a> &mdash;</td><td align="left">O momento opportuno</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LVII">LVII</a> &mdash;</td><td align="left">Destino</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LVIII">LVIII</a> &mdash;</td><td align="left">Confidencia</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LIX">LIX</a> &mdash;</td><td align="left">Um encontro</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LX">LX</a> &mdash;</td><td align="left">O abraço</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXI">LXI</a> &mdash;</td><td align="left">Um projecto</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXII">LXII</a> &mdash;</td><td align="left">O travesseiro</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXIII">LXIII</a> &mdash;</td><td align="left">Fujamos!</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXIV">LXIV</a> &mdash;</td><td align="left">A transacção</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXV">LXV</a> &mdash;</td><td align="left">Olheiros e escutas</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXVI">LXVI</a> &mdash;</td><td align="left">As pernas</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXVII">LXVII</a> &mdash;</td><td align="left">A casinha</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXVIII">LXVIII</a> &mdash;</td><td align="left">O vergalho</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXIX">LXIX</a> &mdash;</td><td align="left">Um grão de sandice</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXX">LXX</a> &mdash;</td><td align="left">D. Placida</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXI">LXXI</a> &mdash;</td><td align="left">O senão do livro</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXII">LXXII</a> &mdash;</td><td align="left">O bibliomano</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXIII">LXXIII</a> &mdash;</td><td align="left">O <i>lunch</i></td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXIV">LXXIV</a> &mdash;</td><td align="left">Historia de D. Placida</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXV">LXXV</a> &mdash;</td><td align="left">Commigo</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXVI">LXXVI</a> &mdash;</td><td align="left">O estrume</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXVII">LXXVII</a> &mdash;</td><td align="left">Entrevista</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXVIII">LXXVIII</a> &mdash;</td><td align="left">A presidencia</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXIX">LXXIX</a> &mdash;</td><td align="left">Compromisso de gato</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXX">LXXX</a> &mdash;</td><td align="left">De secretario</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXXI">LXXXI</a> &mdash;</td><td align="left">A reconciliação</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXXII">LXXXII</a> &mdash;</td><td align="left">Questão de botanica</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXXIII">LXXXIII</a> &mdash;</td><td align="left">13</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXXIV">LXXXIV</a> &mdash;</td><td align="left">O conflicto</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXXV">LXXXV</a> &mdash;</td><td align="left">O cimo da montanha</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXXVI">LXXXVI</a> &mdash;</td><td align="left">O mysterio</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXXVII">LXXXVII</a> &mdash;</td><td align="left">Geologia</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXXVIII">LXXXVIII</a> &mdash;</td><td align="left">O enfermo</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_LXXXIX">LXXXIX</a> &mdash;</td><td align="left"><i>In extremis</i></td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XC">XC</a> &mdash;</td><td align="left">O velho colloquio do Adão e Caim</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XCI">XCI</a> &mdash;</td><td align="left">Uma carta extraordinaria</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XCII">XCII</a> &mdash;</td><td align="left">Um homem extraordinario</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XCIII">XCIII</a> &mdash;</td><td align="left">O jantar</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XCIV">XCIV</a> &mdash;</td><td align="left">A causa secreta</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XCV">XCV</a> &mdash;</td><td align="left">Flores de antanho</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XCVI">XCVI</a> &mdash;</td><td align="left">A carta anonyma</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XCVII">XCVII</a> &mdash;</td><td align="left">Entre a boca e a testa</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XCVIII">XCVIII</a> &mdash;</td><td align="left">Supprimido</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_XCIX">XCIX</a> &mdash;</td><td align="left">Na plateia</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_C">C</a> &mdash;</td><td align="left">O caso provavel</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CI">CI</a> &mdash;</td><td align="left">A revolução dalmata</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CII">CII</a> &mdash;</td><td align="left">De repouso</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CIII">CIII</a> &mdash;</td><td align="left">Distracção</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CIV">CIV</a> &mdash;</td><td align="left">Era elle!</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CV">CV</a> &mdash;</td><td align="left">Equivalencia das janellas</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CVI">CVI</a> &mdash;</td><td align="left">Jogo perigoso</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CVII">CVII</a> &mdash;</td><td align="left">Bilhete</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CVIII">CVIII</a> &mdash;</td><td align="left">Que se não entende</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CIX">CIX</a> &mdash;</td><td align="left">O philosopho</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CX">CX</a> &mdash;</td><td align="left">31</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXI">CXI</a> &mdash;</td><td align="left">O muro</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXII">CXII</a> &mdash;</td><td align="left">A opinião</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXIII">CXIII</a> &mdash;</td><td align="left">A solda</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXIV">CXIV</a> &mdash;</td><td align="left">Fim do um dialogo</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXV">CXV</a> &mdash;</td><td align="left">O almoço</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXVI">CXVI</a> &mdash;</td><td align="left">Philosophia das folhas velhas</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXVII">CXVII</a> &mdash;</td><td align="left">O Humanitismo</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXVIII">CXVIII</a> &mdash;</td><td align="left">A terceira força</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXIX">CXIX</a> &mdash;</td><td align="left">Parenthesis</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXX">CXX</a> &mdash;</td><td align="left"><i>Compelle intrare</i></td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXI">CXXI</a> &mdash;</td><td align="left">Morro abaixo</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXII">CXXII</a> &mdash;</td><td align="left">Uma intenção mui fina</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXIII">CXXIII</a> &mdash;</td><td align="left">O verdadeiro Cotrim</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPIULO_CXXIV">CXXIV</a> &mdash;</td><td align="left">Vá de intermedio</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXV">CXXV</a> &mdash;</td><td align="left">Epitaphio</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXVI">CXXVI</a> &mdash;</td><td align="left">Desconsolação</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXVIII">CXXVII</a> &mdash;</td><td align="left">Formalidade</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXVIII">CXXVIII</a> &mdash;</td><td align="left">Na camara</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXIX">CXXIX</a> &mdash;</td><td align="left">Sem remorsos</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXX">CXXX</a> &mdash;</td><td align="left">Por intercallar no cap. CXXIX</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXXI">CXXXI</a> &mdash;</td><td align="left">De uma calumnia</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXXII">CXXXII</a> &mdash;</td><td align="left">Que não é serio</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXXIII">CXXXIII</a> &mdash;</td><td align="left">O principio de Helvetius</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXXIV">CXXXIV</a> &mdash;</td><td align="left">Cincoenta annos</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXXV">CXXXV</a> &mdash;</td><td align="left"><i>Oblivion</i></td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXXVI">CXXXVI</a> &mdash;</td><td align="left">Inutilidade</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXXVII">CXXXVII</a> &mdash;</td><td align="left">A barretina</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXXVIII">CXXXVIII</a> &mdash;</td><td align="left">A um critico</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXXXIX">CXXXIX</a> &mdash;</td><td align="left">De como não fui ministro d'Estado</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXL">CXL</a> &mdash;</td><td align="left">Que explica o anterior</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXLI">CXLI</a> &mdash;</td><td align="left">Os cães</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXLII">CXLII</a> &mdash;</td><td align="left">O pedido secreto</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXLIII">CXLIII</a> &mdash;</td><td align="left">Não vou</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXLIV">CXLIV</a> &mdash;</td><td align="left">Utilidade relativa</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXLV">CXLV</a> &mdash;</td><td align="left">Simples repetição</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXLVI">CXLVI</a> &mdash;</td><td align="left">O programma</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXLVII">CXLVII</a> &mdash;</td><td align="left">O desatino</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXLVIII">CXLVIII</a> &mdash;</td><td align="left">O problema insoluvel</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CXLIX">CXLIX</a> &mdash;</td><td align="left">Theoria do beneficio</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CL">CL</a> &mdash;</td><td align="left">Rotação e translação</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CLI">CLI</a> &mdash;</td><td align="left">Philosophia dos epitaphios</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CLII">CLII</a> &mdash;</td><td align="left">A moeda de Vespasiano</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CLIII">CLIII</a> &mdash;</td><td align="left">O alienista</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CLIV">CLIV</a> &mdash;</td><td align="left">Os navios do Pireu</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CLV">CLV</a> &mdash;</td><td align="left">Reflexão cordial</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CLVI">CLVI</a> &mdash;</td><td align="left">Orgulho da servilidade</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CLVII">CLVII</a> &mdash;</td><td align="left">Phase brilhante</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CLVIII">CLVIII</a> &mdash;</td><td align="left">Dous encontros</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CLIX">CLIX</a> &mdash;</td><td align="left">A semi-demencia</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CAPITULO_CLX">CLX</a> &mdash;</td><td align="left">Das negativas</td></tr>
-</table></div>
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-<pre>
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-End of the Project Gutenberg EBook of Memorias Postumas de Braz Cubas, by
-Machado de Assis
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-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIAS POSTUMAS DE BRAZ CUBAS ***
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