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If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - - - -Title: A Mao e A Luva - -Author: Machado de Assis - -Release Date: September 20, 2016 [EBook #53101] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: ISO-8859-1 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MAO E A LUVA *** - - - - -Produced by Laura Natal Rodriguez and Marc D'Hooghe at -Free Literature (online soon in an extended version, also -linking to free sources for education worldwide ... MOOC's, -educational materials,...) Images generously made available -by the Bodleian Library, Oxford. - - - - - - -A MÃO - -E - -A LUVA - -De - -MACHADO DE ASSIS - -da Academia Brasileira - -Livraria Garnier - -109, Rua do Ouvidor,109 -RIO DE JANEIRO - -6, Rue des Saints-Pères, 6 -PARIS - - -COLLECÇÃO DOS AUTORES CELEBRES - -DA - -LITTERATURA - -1919 - - - - -ADVERTÊNCIA DE 1907 - -Os trinta e tantos annos decorridos do apparecimento desta novella -á reimpressão que ora se faz parece que explicam as differenças de -composição e de maneira do autor. Se este não lhe daria agora a mesma -feição, é certo que lh'a deu outr'ora, e, ao cabo, tudo pode servir a -definir a mesma pessoa. - -Não existia, ha muito, no mercado. O autor acceitou o conselho de -confiar a reimpressão ao editor dos outros livros seus. Não lhe -alterou nada; apenas emendou erros typographicos, fez correcções de -orthographia, e eliminou cerca de quinze linhas. Vae como saiu em 1874. - -M. DE A. - - - -ADVERTÊNCIA DE 1874 - -Ésta novella, sugeita ás urgências da publicação diaria, saiu das mãos -do autor capitulo a capitulo, sendo natural que a narração e o estylo -padecessem com esse methodo de composição, um pouco fóra dos hábitos -do autor. Se a escrevêra em outras condições, dera-lhe desenvolvimento -maior, e algum colorido mais aos caracteres, que ahi ficam esboçados. -Convem dizer que o desenho de taes caracteres,--o de Guiomar, -sobretudo,--foi o meu objecto principal, senão exclusivo, servindo-me a -acção apenas de tela em que lancei os contornos dos perfis. Incompletos -embora, terão elles saido naturaes e verdadeiros? - -Mas talvez estou eu a dar proporções muito graves a uma cousa de tão -pequeno tomo. O que ahi vae são umas poucas paginas que o leitor -esgotará de um trago, se ellas lhe aguçarem a curiosidade ou se lhe -sobrar alguma hora que absolutamente não possa empregar em outra -cousa,--mais bella ou mais util. - -Novembro de 1814. - -M. DE A. - - - - -A MÃO E A LUVA - - - - -I - - -O fim da carta. - - ---Mas que pretendes fazer agora? - ---Morrer. - ---Morrer? Que ideia! Deixa-te disso, Estevão. Não se morre por tão -pouco.... - ---Morre-se. Quem não padece estas dores não as póde avaliar. O golpe -foi profundo, e o meu coração é pusillanime; por mais aborrecivel que -pareça a ideia da morte, peior, muito, peior do que ella, é a de viver. -Ah! tu não sabes o que isto é? - ---Sei: um namoro gorado.... - ---Luiz! - ---.... E se em cada caso de namoro gorado morresse um homem, tinha já -diminuído muito o genero humano, e Malthus perderia o latim. Anda, sobe. - -Estevão metteu a mão nos cabellos com um gesto de augustia; Luiz -Alves sacudiu a cabeça e sorriu. Achavam-se os dous no corredor da -casa de Luiz Alves, á rua da Constituição,--que então se chamava dos -Ciganos;--então, isto é, em 1853, uma bagatella de vinte annos que lá -vão, levando talvez comsigo as illusões do leitor, e deixando-lhe em -troca (usurarios!) uma triste, crua e desconsolada experiencia. - -Eram nove horas da noite; Luiz Alves recolhia-se para casa, justamente -no occasião em que Estevão o ia procurar; encontraram-se á porta. Alli -mesmo lhe confiou Estevão tudo o que havia, e que o leitor saberá daqui -a pouco, caso não aborreça estas historias de amor, velhas como Adão, -e eternas como o ceu. Os dous amigos demoraram-se ainda algum tempo no -corredor, um a insistir com o outro para que subisse, o outro a teimar -que queria ir morrer, tão tenazes ambos, que não haveria meio de os -vencer, se a Luiz não occoresse uma transacção. - ---Pois sim, disse elle, convenho em que deves morrer, mas ha de ser -amanhã. Cede da tua parte, e vem passar a noite commigo. Nestas ultimas -horas que tens de viver na terra dar-me-has uma lição de amor, que eu -te pagarei com outra de philosophia. - -Dizendo isto, Luiz Alves travou do braço de Estevão, que não resistiu -dessa vez, ou porque a ideia da morte não se lhe houvesse entranhado -deveras no cerebro, ou porque cedesse ao doloroso gosto de falar da -mulher amada, ou, o que é mais provavel, por esses dous motivos juntos. -Vamos nós com elles, escada acima, até a sala de visitas, onde Luiz foi -beijar a mão de sua mãe. - ---Mamãe, disse elle, hade fazer-me o favor de mandar o chá ao meu -quarto; o Estevão passa a noite commigo. - -Estevão murmurou algumas palavras, a que tentou dar um ar de gracejo, -mas que eram funebres como um cypreste. Luiz viu-lhe então, á luz -das estearinas, alguma vermelhidão nos olhos, e adivinhou,--não -era difficil,--que houvesse chorado. Pobre rapaz! suspirou elle -mentalmente. D'alli foram os dous para o quarto, que era uma vasta -sala, com tres camas, cadeiras de todos os feitios, duas estantes -com livros e uma secretaria,--vindo a ser ao mesmo tempo, alcova e -gabinette, de estudo. - -O chá subiu dahi a pouco. Estevão, a muito rogo do hospede, bebeu dous -goles; accendeu um cigarro e entrou a passear ao longo do aposento, -em quanto Luiz Alves, preferindo um charuto e um sophá, accendeu o -primeiro e estirou-se no segundo, cruzando beatificamente as mãos sobre -o ventre e contemplando o bico das chinellas, com aquella placidez -de um homem a quem se não gorou nenhum namoro. O silencio não era -completo; ouvia-se o rodar de carros que passavam fóra; no aposento, -porêm, o unico rumor era dos botins de Estevão na palhinha do chão. - -Cursavam estes dous moços a academia de S. Paulo, estando Luiz Alves, -no quarto anno e Estevão no terceiro. Conheceram-se na academia, e -ficaram amigos intimos, tanto quanto podiam sel-o dous espiritos -differentes, ou talvez por isso mesmo que o eram. Estevão, dotado de -extrema sensibilidade, e não menor fraqueza de animo, affectuoso e -bom, não daquella bondade varonil, que é apanagio de uma alma forte, -mas dessa outra bondade molle e de cera, que vai á mercê de todas as -circumstancias, tinha, além de tudo isso, o infortunio de trazer ainda -sobre o nariz os oculos côr de rosa de suas virginaes illusões. Luiz -Alves via bem com os olhos da cara. Não era mau rapaz, mas tinha o seu -grão de egoismo, e se não era incapaz de affeições, sabia regel-as, -moderal-as, e sobretudo guial-as ao seu proprio interesse. Entre estes -dous homens travara-se amizade intima, nascida para um na sympathia, -para outro no costume. Eram elles os naturaes confidentes um do outro, -com a differença que Luiz Alves dava menos do que recebia, e, ainda -assim, nem tudo o que dava exprimia grande confiança. - -Estevão referira ao amigo, desde tempos, toda a historia do amor, -agora mallogrado, suas esperanças, desalentos e glorias, e, emfim, -o inesperado desfecho. O pobre rapaz, que folheava o capitulo mais -delicioso do romance--no sentir delle--caiu de toda a altura das -illusões na mais dura, prosaica e miseravel realidade. - -A namorada de Estevão,--é tempo de dizer alguma cousa della,--era uma -moça de 17 annos, e, por ora, simples alumna-professora no collegio de -uma tia do nosso estudante, á rua dos Invalidos. Estevão tinha-a visto, -pela primeira vez, seis mezes antes, e desde logo sentiu-se preso por -ella, «até á morte», disse elle ao amigo, referindo-lhe o encontro, -o que o fez sorrir de tão estirado prazo. Qualquer que elle fosse, -porém, o prazo fatal daquelle captiveiro, a verdade é que Estevão no -mesmo ponto em que a viu logo a amou, como se ama pela primeira vez na -vida--amor um pouco estouvado e cego, mas sincero e puro. Amava-o ella? -Estevão dizia que sim, e devia crel-o; alguns olhares ternos, meia -duzia de apertos de mão significativos, embora a largos intervallos, -davam a entender que o coração de Guiomar--chamava-se Guiomar--não era -surdo á paixão do academico. Mas, fora disso, nada mais, ou pouco mais. - -O pouco mais foi uma flor, não colhida do pé em toda a original -frescura, mas já murcha e sem cheiro, e não dada, senão pedida. - ---Faz-me um favor? disse um dia Estevão apontando para a flor que -ella trazia nos cabellos; esta flor está murcha, e, naturalmente, vai -deital-a fóra ao despentear-se; eu desejava que m'a désse. - -Guiomar, sorrindo, tirou a flor do cabello, e deu-lh'a; Estevão -recebeu-a com egual contentamento ao que teria se lhe antecipassem o -seu quinhão do ceu. Além da flor, e para supprir as cartas, que não -havia, nada mais obtivera. Estevão durante aquelles seis compridos -mezes, a não serem os taes olhares, que afinal são olhares, e vão-se -com os olhos donde vieram. Era aquillo amor, capricho, passatempo ou -que outra cousa era? - -Naquella tarde, a tarde fatal, estando ambos a sós, o que era raro e -difficil, disse-lhe elle que em breve ia voltar para S. Paulo, levando -comsigo a imagem della, e pedindo-lhe em cambio, que uma vez ao menos -lhe escrevesse. Guiomar franziu a testa e fitou nelle o seu magnifico -par de olhos castanhos, com tanta irritação e dignidade, que o pobre -rapaz ficou attonito e perplexo. Imagina-se a augustia delle diante -do silencio que reinou entre ambos por alguns segundos; o que se não -imagina é a dor que o prostrou,--a dor e o espanto,--quando ella, -erguendo-se da cadeira em que estava, lhe respondeu, saindo: - ---Esqueça-se disso. - ---Pois quanto a mim,--disse Luiz Alves ouvindo pela terceira vez a -narração de tão cru desenlace; quanto a mim, obedecia-lhe pontualmente; -esquecia-me disso e ia curar-me cima dos compendios; direito romano e -philosophia, não conheço remedio melhor para taes achaques. - -Estevão não ouvia as palavras do amigo; estava então assentado na cama, -com os cotovellos fincados nas pernas, e a cabeça mettida nas mãos, -parecendo que chorava. A principio chorou em silencio; mas não tardou -que Luiz Alves o visse deitar-se na cama, estorcer-se convulsivamente, -a soluçar, a abafar quanto podia os gritos que lhe saiam do peito, -a puxar os cabellos, a pedir a morte, tudo entremeado com o nome de -Guiomar, tão d'alma tudo aquillo, tão lastimosamente natural, que emfim -o commoveu, e não houve remedio se não dizer-lhe algumas palavras de -conforto. A consolação veiu a tempo; a dor, chegada ao paroxismo, -declinou pouco a pouco, e as lagrimas estancaram, ao menos por algum -tempo. - ---Sei que tudo isto hade parecer-te ridículo, disse Estevão sentando-se -na cama; mas que queres tu? Eu vivia na persuasão de que era amado, e -era-o talvez. Por isso mesmo não entendo o que se passou hoje. Ou o que -eu suppunha ser amor, não passava talvez de passatempo ou zombaria... - ---Talvez, talvez, interrompeu Luiz Alves, comprehendendo que o melhor -meio de o curar do amor era metter-lhe em brios o amor-proprio. - -Estevão ficou alguns instantes pensativo. - ---Não, não, é possível, contestou elle. Tu não a conheces. É uma grave -e nobre creatura, incapaz de conceber um sentimento desses, que seria -vulgar ou cruel. - ---As mulheres... - ---Já pensei se aquillo de hoje não seria uma maneira de -experimentar-me, de ver até que ponto eu lhe queria... Escusas de -rir-te, Luiz; eu nada affirmo; digo que pode ser. Não admira que ella -fizesse esse calculo,--um bom calculo, nesse caso, todo filho do -coração... - -A imaginação de Estevão desceu por este declivio de floridas -conjecturas, e Luiz Alves entendeu que era de bom aviso não -espantar-lhe os cavallos. Ella foi, foi, foi por alli abaixo, -redea frouxa e riso nos labios. Boa viagem! exclamou mentalmente o -collega voltando a estirar-se no sophá. A viagem não foi longa, mas -produziu effeito salutar no animo do namorado, adoçando-lhe as penas, -circumstancia que Luiz Alves aproveitou para lhe falar de cem cousas -alheias ao coração e divertil-o do pensamento que o absorvia. Conseguiu -o seu intento durante meia hora, e conseguiu mais, por que fez com -que o collega risse, a principio de um riso amargo e dubio, depois -de um riso jovial e franco incompatível com intuitos tragicos. Mas, -ai triste! a dor delle era uma especie de tosse moral, que aplacava -e reapparecia, intensa ás vezes, ás vezes mais fraca, mas sempre -infallivel. O rapaz acertara de abrir uma pagina de _Werther_; leu meia -duzia de linhas, e o accesso voltou mais forte que nunca. - -Luiz Alves acudiu-lhe com as pastilhas da consolação; o accesso passou; -nova palestra, novo riso, novo desespero, e assim se foram escoando -as horas da noite, que o relogio da sala de jantar batia secca e -regularmente, como a lembrar aos dous amigos que as nossas paixões não -acceleram nem moderam o passo do tempo. - -A aurora para os dous academicos coincidiu com as badaladas do meio -dia, o que não admira, pois só adormeceram quando ella começava -a apagar as estrellas. Estevão passou a noite,--a manhã, quero -dizer,--muito socegado e livre de sonhos maus. Quando abriu os olhos -extranhou o aposento e os objectos que o rodeavam. Logo que os -reconheceu, despertou-se-lhe, com a memoria, o coração, onde já não -havia aquella dor aguda da vespera. Os successos, embora recentes, -começavam a envolver-se na sombra crepuscular do passado. - -A natureza tem suas leis imperiosas; e o homem, ser complexo, vive não -só do que ama, mas também (fôrça é dizel-o) do que come. Sirva isto de -excusa ao nosso estudante, que almoçou nesse dia, como nos anteriores, -bastando dizer em seu abono que, se o não fez com lagrimas, também o -não fez alegre. Mas o certo é que a tempestade serenara; o que havia -era uma ressaca, ainda forte, mas que diminuiria com o tempo. Luiz -Alves evitou falar-lhe de Guiomar; Estevão foi o primeiro a recordar-se -della. - ---Dá tempo ao tempo, respondeu Luiz Alves, e ainda te has de rir -dos teus planos de hontem. Sobretudo, agradece ao destino o haveres -escapado tão depressa. E queres um conselho? - ---Dize. - ---O amor é uma carta, mais ou menos longa, escripta em papel velino, -córte-dourado, muito cheiroso e catita; carta de parabens quando se lê, -carta de pezames quando se acabou de ler. Tu que chegaste ao fim, põe a -epistola no fundo da gaveta, e não te lembres de ir ver se ella tem um -«post-scriptum»... - -Estavão applaudiu a metaphora com um sorriso de bom agouro. - -Duas vezes viu elle a formosa Guiomar, antes de seguir para S. Paulo. -Da primeira sentiu-se ainda abalado, por que a ferida não cicatrisara -de todo; da segunda, pôde encaral-a sem perturbação. Era melhor,--mais -romantico pelo menos, que eu o puzesse a caminho da academia, com o -desespero no coração, lavado em lagrimas, ou a bebel-as em silencio, -como lhe pedia a sua dignidade de homem. Mas que lhe hei de eu fazer? -Elle foi daqui com os olhos enxutos, distrahindo-se dos tedios da -viagem com alguma pilheria de rapaz,--rapaz outra vez, como dantes. - - - - -II - - -Um roupão. - - -Um mez depois de chegar Estevão a S. Paulo, achava-se a sua paixão -definitivamente morta e enterrada, cantando elle mesmo um responso, -a vozes alternadas, com duas ou tres moças da capital,--todas ellas, -por passatempo. Claro é que dous annos depois, quando tomou o grão de -bacharel, nenhuma ideia lhe restava do namoro da rua dos Invalidos. -Demais, a bella Guiomar desde muito tempo deixara o collegio e fora -morar com a madrinha. Já elle a não vira da primeira vez que veiu á -corte. Agora voltava graduado em sciencias juridicas e sociaes, como -fica dito, mais desejoso de devassar o futuro que de reler o passado. - -A corte divertia-se, como sempre se divertiu, mais ou menos, e para -os que transpuzeram a linha dos Cincoenta divertia-se mais do que -hoje, eterno reparo dos que já não dão á vida toda a flor dos seus -primeiros annos. Para os varões maduros, nunca a mocidade folga como -no tempo delles, o que é natural dizer, porque cada homem vê as cousas -com os olhos da sua edade. Os recreios da juventude não são de certo -egualmenle nobres, nem egualmente frivolos, em todos os tempos; mas a -culpa ou o merecimento não é della,--a pobre juventude,--é sim do tempo -que lhe cae em sorte. - -A corte divertia-se, apesar dos recentes estragos do cholera--; -bailava-se, cantava-se, passeava-se, ia-se ao theatro. O Cassino abria -os seus salões, como os abria o Club, como os abria o Congresso, todos -tres fluminenses no nome e na alma. Eram os tempos homericos do theatro -lyrico, a quadra memoravel daquellas lutas e rivalidades renovadas em -cada semestre, talvez por um excesso de ardor e enthusiasmo, que o -tempo diminuiu, ou transferiu,--Deus lhe perdôe,--a cousas de menor -tomo. Quem se não lembra,--ou quem não ouviu falar das batalhas -feridas naquella classica plateia do Campo da Acclamação, entre a -legião casalonica e a phalange chartonica, mas sobretudo entre esta e -o regimento lagruista? Eram batalhas campaes, com tropas frescas,--e -maduras tambem,--apercebidas de flores, de versos, de coroas, e até -de estalinhos. Uma noite a acção travou-se entre o campo lagruista -e o campo chartonista, com tal violencia, que parecia uma pagina da -_Illiada._ Desta vez, a Venus da situação saiu ferida do combate; -um estalo rebentára no rosto da Charton. O furor, o delirio, a -confusão foram indescriptiveis; o applauso e a pateada deram-se -as mãos,--e os pés. A peleja passou aos jornaes. «Vergonha eterna -(dizia um) aos cavalheiros que cuspiram na face de uma dama!»--«Si -for mister (replicava outro) daremos os nomes dos aristarchos que -no saguão do theatro juraram desfeitear Mlle. Lagrua.)»--«Patuleia -desenfreada!»--«Fidalguice balofa!» - -Os que escaparam daquellas guerras de alecrim e mangerona hão de sentir -hoje, após dezoito annos, que despenderam excessivo enthusiasmo em -cousas que pediam repouso de espirito e lição de gosto. - -Estevão é uma das relíquias daquella Troya, e foi um dos mais -fervorosos lagruistas, antes e depois do grão. A causa principal das -suas preferencias, era de certo o talento da cantora; mas a que elle -costumava dar, nas horas de bom humor, que eram todas as vinte e quatro -do dia, tirantes as do somno, essa causa que mais que tudo o ligava -aos «arraiaes do bom gosto» dizia elle, era,--imaginem lá,--era o buço -de Mlle. Lagrua. Talvez não fosse elle o unico amador do buço; mas -outro mais férvido duvido que houvesse nesta boa cidade. Um chartonista -machiavelico, aliás escriptor elegante, elevava o tal buço á cathegoria -de bigode, comprehendendo sagazmente que, se o buço era graça, o bigode -era excrescencia; e elle nem ao labio da Lagrua queria perdoar. - ---Oh! aquelle buço! exclamava Estevão nos intervallos de uma opera, -aquelle delicioso buço hade ser a perdição da gente de bem! Quem me -dera ir encaracolado por alli acima, até ficar mais proximo do ceu, -quero dizer dos seus olhos, e ser visto por ella, que me não descobre -na turba innumeravel dos seus adoradores! Querem saber uma cousa? Alli -é que ella hade ter a alma, e eu quizera entreter-me com a alma della, -e dizer-lhe muita cousinha que tenho cá dentro á espera de um buço que -as queira ouvir. - -Estevão era mais ou menos o mesmo homem de dous annos antes. Vinha -cheirando ainda aos cueiros da Academia, meio estudante e meio doutor, -alliando em si, como em edade de transição, o estouvamento de um com -a dignidade do outro. As mesmas chimeras tinha, e a mesmas simplesa -de coração; só não as mostrára nos versos que imprimiu em jornaes -academicos, os quaes eram todos repassados do mais puro byronismo, -moda muito do tempo. Nelles confessava o rapaz á cidade e ao mundo -a profunda incredulidade do seu espirito, e o seu fastio puramente -litterario. A collação de grão interrompeu, ou talvez acabou, aquella -vocação poetica; o ultimo suspiro desse genero que lhe saiu do peito -foram umas sextilhas á sua _juventude perdida._ Felizmente, que só a -perdeu em verso; na prosa e na realidade era rapaz como poucos. - -Posto fizesse boa figura na academia, mais presava do que amava a -sciencia do direito. Suas preferencias intellectuaes dividiam-se, ou -antes abrangiam a polilica e a litteratura, e ainda assim, a politica -só lhe acenava com o que podia haver litterario nella. Tinha leitura de -uma e outra cousa, mas leitura veloz e á flor das paginas. Estevão não -comprehendería nunca este axioma de lord Macaulay--que mais aproveita -digerir uma lauda que devorar um volume. Não digeria nada; e dahi vinha -o seu nenhum apego ás sciencias que estudara. Venceu a repugnancia por -amor proprio; mas, uma, vez dobrado o cabo das Tormentas disciplinares, -deixou a outros o cuidado de aproar á India. - -Suas aspirações políticas deviam naturalmente morrer em germen, não só -porque lhe minguava o apoio necessario para as arvorecer e fructificar, -mas ainda por que elle não tinha em si a força indispensavel a todo o -homem que põe a mira acima do estado em que nasceu. Eram aspirações -vagas, intermittentes, vaporosas, umas visões legislativas e -ministeriaes, que tão depressa lhe namoravam a imaginação, como logo -se esvaeciam, ao resvalar dos primeiros olhos bonitos, que esses, sim, -amava-os elle deveras. Opiniões não as tinha; alguns escriptos que -publicara durante a quadra academica eram um complexo de doutrinas de -toda a casta, que lhe fluctuavam no espirito, sem se fixarem nunca, -indo e vindo, alçando-se ou descendo, conforme a recente leitura ou a -actual disposição de espirito. - -Por agora militava nas fileiras do lagruismo, com ardor, dedicação -e fidelidade de bom apostolo. Não era abastado para pagar o luxo de -uma opinião lyrica; nascera pobre e não tinha parente em boa posição. -Alguns poucos recursos possuia, provenientes do seu officio de -advogado, que exercia com o amigo Luiz Alves. - -Uma noite assistira á representação de _Othello_, palmeando até romper -as luvas, acclamando até cansar-lhe a voz, mas acabando a noite -satisfeito dos seus e de si. Terminado o expectaculo, foi elle, segundo -costumava, assistir á saida das senhoras, uma procissão de rendas, -e sedas, e leques, e veus, e diamantes, e olhos de todas as cores e -linguagens. Estevão era pontual nessas occasiões de espera, e raro -deixava de ser o ultimo que saía. Tinha agora os olhos pregados em -outros olhos, não pardos como os delle, mas azues, de um azul-ferrete, -infelizmente uns olhos casados, quando sentiu alguem bater-lhe no -hombro, e dizer-lhe baixinho estas palavras: - ---Larga o pinto, que é das almas. - -Estevão voltou-se. - ---Ah! és tu! disse elle vendo Luiz Alves. Quando chegaste? - ---Hoje mesmo, respondeu o collega; venho sequioso de musica. Vassouras -não tem Lagrua nem _Othello_... - ---Vieste lavar a alma da poeira do caminho, disse Estevão, que, ainda -falando em prosa, cultivava as suas metaphoras poeticas. Fizeste bem; -não te perdoaria se preferisses a outra, a lambisgoia, que aqui nos -querem impingir por grande cousa, e que não chega aos calcanhares do -buço... - -Interrompeu-se. Luiz Alves acabava de comprimentar ceremoniosamente -alguem que passava; Estevão volveu a cabeça para ver quem era. Era uma -moça, que elle não chegou a ver, porque já descia as escadas; mas tão -elegante e gentil que os olhos lhe fuzilaram de admiração. - ---Algum namoro? perguntou ao amigo. - ---Não; uma visinha. - -A desfilada acabou; sairam os dous e foram dalli cear a um hotel, -seguindo depois para Botafogo, onde morava Luiz Alves, desde que -perdera a mãe, alguns mezes antes. - -A casa de Luiz Alves ficava quasi no fim da praia de Botafogo, tendo -ao lado direito outra casa, muito maior e de apparencia rica. A noite -estava bella, como as mais bellas noites daquelle arrabalde. Havia -luar, ceu limpido, infinidade de estrellas e a vaga a bater mollemente -na praia, todo o material, em summa, de uma boa composição poetica, em -vinte estrophes pelo menos, obrigada a rima rica, com alguns exdruxulos -rebuscados nos diccionarios. Estevão poetou, mas poetou em prosa, com -um enthusiasmo legitimo e sincero. Luiz Alves, menos propenso ás cousas -bellas, preferia a mais util de todas naquella occasião, que era ir -dormir. Não o conseguiu sem ouvir ao hospede tudo quanto elle pensava -ácerca daquelle «pinto, que era das almas,» aquelles olhos azues, « -profundos como o ceu,» exclamava Estevão. - -Afinal dormiram ambos; mas, ou fosse porque os taes olhos o -perseguissem, ainda em sonhos, ou porque extranhasse a cama, ou por que -o destino assim o resolvera, a verdade é que Estevão dormiu pouco, e, -cousa rara, accordou logo depois de apparecer a arraiada. - -A manhã estava fresca e serena; era tudo silencio, mal quebrado -pelo bater do mar e pelo chilrear dos passarinhos nas chacaras -da visinhança. Estevão, amuado por não poder conciliar o somno, -resolvera-se a ir ver a manhã, de mais perto. Ergueu-se de manso, -lavou-se, vestiu-se, e pediu que lhe levassem café ao jardim, para onde -foi sobraçando um livro que acaso topou ao pé da cama. - -O jardim ficava nos fundos da casa; era separado da chacara visinha -por uma cerca. Relanceando os olhos pela chacara, viu Estevão que era -plantada com esmero e arte, assaz vasta, recortada por muitas ruas -curvas e duas grandes ruas rectas. Uma destas começava das escadas de -pedra da casa e ia até o fim da chacara; a outra ia da cerca de Luiz -Alves até á extremidade opposta, cortando a primeira no centro. Do -lugar em que ficava Estevão só a segunda rua podia ser vista de ponta a -ponta. - -Sentou-se o bacharel em um banco que alli achou, recebeu a chicara de -café, que o escravo lhe trouxe dahi a pouco, accendeu um charuto e -abriu o livro. O livro era uma _Pratica Forense._ Demos-lhe razão ao -despeito com que o fechou e atirou ao chão, contentando-se com o canto -dos passaros e o cheiro das flores, e a sua imaginação tambem, que -valia as flores e os passaros. - -Deus sabe até onde iria ella, com as azas faceis que tinha, se um -incidente lh'as não colhera e fizera descer á terra. Da casa visinha -saíra um roupão,--elle não viu mais que um roupão,--e seguira pela -rua que enfrentava com casa, a passo lento e meditativo. Estevão, que -adorava todos os roupões, fossem ou não meditativos, deu as graças á -Providencia, pela boa fortuna que lhe deparava, e afiou os olhos para -contemplar aquella graciosa madrugadora. Graciosa, ainda elle não sabia -se o era; mas assentou que devia de ser, justamente porque desejava que -o fosse. - -A deliciosa paisagem ia ter emfim uma alma; o elemento humano vinha -coroar a natureza. - -Ergueu-se Estevão, de toda a sua estatura elevada e gentil, para ver -melhor,--e ser visto, digamos a verdade toda,--aquella desconhecida -visinha, que devia ser por força a que Luiz Alves comprimentara -no theatro. Acteon christão e modesto, não sorprehendia Diana no -banho, mas ao sair delle; todavia, não palpitava menos de commoção e -curiosidade. - -O roupão ia andando. - - - - -III - - -Ao pé da cerca. - - -A primeira cousa que Estevão pôde descobrir é que a visinha era -moça. Via-lhe o perfil, em cada aberta que deixavam as arvores, um -perfil correcto e puro, como de esculptura antiga. Via-lhe a face côr -de leite, sobre a qual se destacava a côr escura dos cabellos, não -penteados de vez, mas frouxamente atados no alto da cabeça, com aquelle -deleixo matinal que faz mais bellas as mulheres bellas. O roupão,--de -musselina branca,--finamente bordado, não deixava ver toda a graça do -talhe, que devia ser e era elegante, dessa elegancia que nasce com a -creatura ou se apura com a educação, sem nada pedir, ou pedindo pouco -á thesoura da costureira. Todo o collo ia coberto até o pescoço, onde -o roupão era preso por um pequeno broche de saphira. Um botão, do -mesmo mineral, fechava em cada pulso as mangas estreitas e lisas, que -rematavam em folhos de renda. - -Estevão, da distancia e na posição em que se achava, não podia ver -todas estas minucias que aqui lhes aponto, em desempenho deste meu -dever de contador de historias. O que elle viu, além do perfil, dos -cabellos, e da tez branca, foi a estatura da moça, que era alta, talvez -um pouco menos do que parecia com o vestido roçagante que levava. Pôde -ver-lhe também um livrinho, aberto nas mãos, sobre o qual pousava os -olhos, levantando-os de espaço a espaço, quando lhe era mister voltar a -folha, e deixando-os cair outra vez para embeber-se na leitura. - -Ia assim andando, sem cuidar que a visse alguem, tão serena e grave, -como se atravesára um salão. Estevão, que não tirava os olhos della, -mentalmente pedia ao ceu a fortuna de a ter mais proxima, e anciava por -vel-a chegar á rua que lhe ficava diante. Comtudo, era difficil que lhe -parecesse mais formosa do que era, vista assim de perfil, a escapar -por entre as arvores. O jovem bacharel, par não perder o sestro dos -primeiros tempos, avocava todas as suas reminiscencias litterarias; a -desconhecida foi successivamente comparada a um seraphim de Klopstock, -a uma fada de Shakespeare, a tudo quanto na memoria delle havia mais -aereo, transparente, ideial. - -Em quanto elle trabalhava o espirito nestas comparações poeticas, -não descabidas, se quizerem, em tal lugar, e ao pé de tão graciosa -creatura, ella seguia lentamente e chegara á encrusilhada das duas -grandes ruas da chacara. Estevão esperava que voltasse á direita, isto -é, que viesse para o lado delle, mas sobretudo receiava que seguisse -pela mesma rua adiante e se perdesse no fundo da chacara. A moça -escolheu um meio termo, voltou á esquerda, dando as costas ao seu -curioso admirador e continuando no mesmo passo vagaroso e regular. - -A chacara não era em demasia grande; e por mais lento que fosse o passo -da madrugadora, não gastaria ella immenso tempo em percorrer até o fim -aquella porção da rua em que entrára. Mas alli, ao pé daquelle coração -juvenil e impaciente, cada minuto parecia, não direi um seculo,--seria -abusar dos direitos do estylo,--mas uma hora, uma hora lhe parecia, com -certeza. - -A moça entretanto, chegando ao fim, parou alguns instantes, pousou a -mão nas costas de um banco rustico que alli havia e enfrentava com -outro, collocado na extremidade opposta. A outra mão descaira-lhe, e os -olhos tambem, o que magoou o seu curioso observador. Seriam saudades -de alguem? Estevão sentiu uma cousa, a que chamarei ciume antecipado, -mas que na realidade eram invejas da alheia fortuna. A inveja é um -sentimento mau; mas nelle, que nascera para amar, e que, além disso, -tinha em si o contraste do nascimento com o instincto, um berço obscuro -e umas aspirações á vida elegante,--nelle a inveja era quasi um -sentimento desculpavel. - -A moça voltou e veiu pela rua adiante. Emfim, disse comsigo Estevão, -vou contemplal-a de mais perto. Ao mesmo tempo, receioso de que, -descobrindo alli um extranho, guiasse os passos para casa, Estevão -afastou-se do logar em que ficára, resoluto a apparecer, quando ella -estivesse proxima á cerca do jardim. A moça vinha andando com o livro -fechado, e os olhos ora no chão, ora nas andorinhas e camachilras que -esvoaçavam na chacara. Se trazia saudades, não se lhe podiam ler no -rosto, que era quieto e pensativo, sim, mas sem a menor sombra de pena -ou de tristeza. - -Estevão do logar onde estava podia examinar-lhe as feições, sem ser -visto por ella; mas foi justamente do que não cuidou, desde que -lh'as pôde distinguir. Valia a pena, entretanto, contemplar aquelles -grandes olhos castanhos, meio velados pelas longas, finas e bastas -pestanas, não maviosos nem quebrados, como elle os cuidara ver, mas -de uma belleza severa, casta e fria. Valia a pena admirar como elles -communicavam a todo o rosto e o toda a figura um ar de magestade -tranquilla e senhora de si. Não era ella uma dessas bellezas que, ao -mesmo tempo, que subjugam o coração, accendem os sentidos; falava á -intelligencia primeiro do que ao coração, tanto a arte parecia haver -collaborado com a natureza naquella creatura, meia estatua e meia -mulher. - -Tudo isto podia ver e considerar o nosso bacharel. A verdade, porém, é -que a nenhuma destas cousas attendeu. Desde que distinguíra as feições -de moça, ficou como tomado de assombro, com os olhos parados, a bocca -entreaberta, fugindo-lhe a vida e o sangue todo para o coração. - -A moça chegara á cerca; esteve de pé algum tempo, olhou em derredor -e por fim sentou-se no banco que alli havia, dando as costas para o -jardim de Luiz Alves. Abriu novamente o livro, e continuou a leitura -do ponto em que a deixara tão só comsigo, tão embebida no livro que -tinha deante, que não a despertou o rumor, aliás sumido, dos passos de -Estevão nas folhas seccas do chão. Teria percorrido meia pagina, quando -Estevão, reclinando-se sobre a cerca, e procurando abafar a voz para -que só chegasse aos ouvidos della, proferiu este simples nome: - ---Guiomar! - -A moça soltou um grito de sorpreza e de susto, e voltou-se sobresaltada -para o lado donde partira a voz. Ao mesmo tempo levantára-se. A -impressão que lhe produzira, e não sei se tambem algum ar de colera que -lhe notasse no rosto; e além de tudo, o remorso de não haver suffocado -aquelle grito de seu coração, fez com que Estevão, quasi no mesmo -instante murmurasse em tom de súpplica: - ---Perdoe-me; foi uma scentelha do passado que estava debaixo da cinza: -apagou-se de todo. - -Guiomar,--sabemos agora que era este o seu nome,--olhou séria e -quieta para o seu mal aventurado interruptor, dous longos e mortaes -minutos. Estevão, confuso e vexado, tinha os olhos em terra; o coração -palpitava-lhe com força, como a despedir-se da vida. A situação ora em -demasia afflictiva e embaraçosa para que se podesse prolongar mais. -Estevão ia corteja-la e despedir-se; mas a moça, com um sorriso de mais -piedade que affecto, murmurou: - ---Está perdoado. - -Caminhou para a cerca e estendeu-lhe a mão, que elle apertou,--apertou -não é bem dito,--em que elle tocou apenas, o mais ceremoniosamente que -podia e devia naquella situação. - -E depois ficaram a olhar um para o outro, sem se atreverem a dizer -nada, nem a sair dalli, a verem ambos o espectro do passado, aquelle -tão amargo passado para um delles. Guiomar foi a primeira que rompeu o -silencio, fazendo a Estevão uma pergunta natural, como não podia deixar -de ser naquellas circumstancias mas ainda assim, ou por isso mesmo, a -mais acerba que elle podia ouvir: - ---Ha dous annos que nos não vemos, creio eu? - ---Ha dous annos, murmurou Estevão abafando um suspiro. - ---Já está formado, não? Lembra-me ter lido o seu nome.... - ---Estou formado. Sabe que era o desejo maior de minha tía... - ---Não a vejo ha muito tempo, interrompeu Guiomar; eu saí do collegio, -logo depois que o senhor seguiu para S. Paulo. Saí a convite da -baroneza, minha madrinha, que lá foi buscar-me um dia, allegando que eu -já não tinha que aprender, e que me não convinha ensinar. - ---De certo, assentiu Estevão.--Minha tia é que não deixou nem podia -deixar de ensinar; acabou no officio. - ---Acabou? - ---Morreu. - ---Ah! - ---Morreu ha cerca de um anno. - ---Era uma boa creatura, continuou Guiomar, depois de alguns instantes -de silencio, muito carinhosa e muito prendada. Devo-lhe o que -aprendi..., Está admirando esta flor? - -Estevão, apanhado em flagrante delicto de admiração, não da flor mas da -mão que a sustinha,--uma deliciosa mão, que devia ser por força a que -se perdeu da Venus de Milo, Estevão balbuciou: - ---Com effeito, é linda! - ---Ha muita flor bonita aqui na chacara. A baroneza tem immenso gesto a -estas cousas, e o nosso jardineiro é homem que sabe do seu officio. - -Aquelle natural acanhamento da primeira occasião foi desapparecendo aos -poucos, e a conversa veiu a ser, não tão familiar, como outr'ora, mas -em todo o caso menos fria do que a principio estivera. Havia, comtudo, -uma differença entre os dous: elle, sem embargo do desembaraço, -sentia-se abalado e commovido; ella, porém, vencido o sobresalto do -principio, mostrava-se tranquilla e fria, sempre polida e grave, -risonha ás vezes, mas de um risonho á flor do rosto, que não lhe -alterava a serenidade e compostura. - -O sitio e a hora eram mais proprios de um idylio, que de uma fria e -descolorida pratica. Um ceu claro e limpido, um ar puro, o sol a coar -por entre as folhas uma luz ainda frouxa e tepida, a vegetação em -derredor, todo aquelle reviver das cousas parecia estar pedindo uma -egual aurora nas almas. Estas é que deviam falar alli a sua lingua -dellas, amorosa e candida, em vez da outra, cortez, elegante e rigida, -que a nenhum delles desprazia, de certo, mas que era muito menos -volontaria nos labios de Estevão. - -Guiomar falava com certa graça, um pouco hirta e pausada, sem viveza, -nem calor. - -Estevão, que a maior parte do tempo ficara a ouvil-a, observava entre -si que as maneiras da moça não lhe eram desnaturaes, ainda que podiam -ser calculadas naquella situação. A Guiomar que elle conhecera e amara -era o embryão da Guiomar de hoje, o esboço do painel agora perfeito; -faltava-lhe outr'ora o colorido, mas já se lhe viam as linhas do -desenho. - -A conversa durou cerca de tres quartos de hora, uma migalha de tempo -para elle, que desejara muito mais. Mas era preciso acabar; ella foi a -primeira a dizer-lh'o. - ---O senhor fez-me perder muito tempo. Ha talvez uma hora que estamos -aqui a conversar. Era natural, depois de dous annos. Dous annos! Mas o -que não era natural, continuou ella mudando de tom, era atrever-me a -falar com un estranho neste _déshabillé_ tão pouco elegante... - ---Elegantissimo, pelo contrario. - ---O senhor tem sempre um comprimento de reserva: vejo que não perdeu -o tempo na academia. Vou-me embora. São horas da baroneza dar o seu -passeio pela chacara. - ---Será aquella senhora que alli está no alto da escada? perguntou -Estevão. - ---É ella mesma, respondeu Guiomar. Está á espera que lhe vá dar o braço. - -E com um gesto friamente fidalgo, estendeu a mão a Estevão, dizendo: - ---Passe bem, senhor doutor, estimei vêl-o. - -Estevão tocou-lhe levemente na mão, fina e macia, e inclinou-se -respeitoso. A moça caminhou para casa. Elle acompanhou-a com os olhos, -admirando a gentileza com que ella, desta vez a passo accelerado, -resvalava por entre as arvores até subir as escadas da casa. Viu-a -dar o braço á madrinha, descerem e seguirem vagarosamente pelo mesmo -caminho por onde Guiomar seguira da primeira vez. - -Estevão ainda ficou algum tempo encostado á cerca, na esperança de que -ella olhasse ou dirigisse os passos para aquelle lado; ella porém, -passou indifferente, como se nem da existencia delle soubera. Estevão -retirou-se dalli cabisbaixo e triste, batido de contrários sentimentos, -cheio de uma tristeza e de uma alegria que mal se combinavam, e por -cima de tudo isso o éco vago e surdo desta interrogação: - ---Entro num drama ou saio de uma comedia? - - - - -IV - - -Latet anguis. - - -O passeio da baroneza durou pouco mais de meia hora. O sol começava -a aquecer, e apesar de ser bastante sombreada a chacara, o calor -aconselhava á boa senhora que se recolhesse. Guiomar deu-lhe o braço, e -ambas, seguindo pelo mesmo caminho, guiaram para casa. - ---Parece muito tarde, Guiomar, disse a baroneza ao cabo de alguns -segundos. - ---E é, madrinha. Demorei-me hoje mais do que costumo, por causa de um -encontro que tive aqui na chacara. - ---Um encontro? - ---Um homem. - ---Algum ladrão? perguntou a madrinha parando. - ---Não, senhora, respondeu Guiomar sorrindo, não era ladrão. A minha -mestra de collegio... sabe que morreu? - ---Quem disse isso? - ---O sobrinho, o tal sugeito que encontrei aqui hoje. - ---Você está zombando commigo! Um homem na chacara? - ---Não era bem na chacara, mas no jardim do Dr. Luiz Alves. Estava -encostado á cerca; trocámos algumas palavras. - -A baroneza olhou para ella alguns segundos. - ---Mas, menina, isso não é bonito. Que diriam se os vissem?... Eu não -diria nada, porque conheço o que você vale, e sei a discrição que Deus -lhe deu.--Mas as apparencias....Que qualidade de homem é esse sobrinho? - -Interrompeu-as uma mulher de quarenta e quatro a quarenta e cinco -annos, alta e magra, cabello entre louro e branco, olhos azues, -aceiadamente vestida, a Sra. Oswald,--ou mais britannicamente, Mrs. -Oswald,--dama de companhia da baroneza, desde alguns annos. Mrs. -Oswald conhecêra a baroneza em 1846; viuva e sem familia, acceitou as -prospostas que esta lhe fez. Era mulher intelligente e sagaz, dotada -de boa indole e serviçal. Antes da ida de Guiomar para a companhia da -madrinha, era Mrs. Oswald a alma da casa; a presença de Guiomar, que a -baroneza amava extremosamente, alterou um pouco a situação. - ---São nove horas! disse de longe a ingleza; pensei que hoje não queriam -voltar para casa. O calor está forte; e a senhora baroneza sabe que não -é conveniente expor-se aos ardores do sol, sobretudo neste tempo de -epidemias. - ---Tem razão, Mrs. Oswald; mas Guiomar tardou hoje tanto em ir -buscar-me, que o passeio começou tarde. - ---Porque me não mandou chamar? - ---Estava talvez a dormir, ou entretida com o seu Walter Scott... - ---Milton, emendou gravemente a ingleza; esta manhã foi dedicada a -Milton. Que immenso poeta, D. Guiomar! - ---Tamanho como este calor, observou Guiomar sorrindo. Apertemos o passo -e lá dentro a ouviremos com melhor disposição. - -Foram as tres andando, subiram a escada e entraram na sala de jantar, -que era vasta, com seis janellas para a chacara. Dalli seguiram para -uma saleta, onde a baroneza sentou-se na sua poltrona, a esperar a hora -do almoço. Guiomar saiu para ir cuidar da _toilette_; e a baroneza que -desde alguns minutos estivera cabisbaixa e pensativa, olhou fixamente -para Mrs. Oswald, sem dizer palavra. - -Era ella uma senhora de cincoenta annos, refeita, vestida com esse -alinho e esmero da velhice, que é um resto da elegancia da mocidade. Os -cabellos, côr de prata fosca, emmolduravam-lhe o rosto sereno, algum -tanto arrugado, não por desgostos, que os não tivera, mas pelos annos. -Os olhos luziam de muita vida, e eram a parte mais juvenil do rosto. - -Tendo casado cedo, coube-lhe a boa fortuna de ser egualemente feliz -desde o dia do noivado até o da viuvez. A viuvez custara-lhe muito; mas -já lá iam alguns annos, e da crua dor que tivera ficara-lhe agora a -consolação da saudade. - ---Chegue-se mais perto; preciso falar-lhe a sós, disse ella á ingleza, -que se achava a alguns passos de distancia. - -Mrs. Oswald foi ate a porta espreitar se viria alguém e voltou a -sentar-se ao pé da baroneza. A baroneza estava outra vez pensativa, com -as mãos crusadas no regaço e os olhos no chão. - -Estiveram as duas alli silenciosas alguns dous ou tres minutos. A -baroneza despertou emfim das reflexões, e voltou-se para a ingleza: - ---Mrs. Oswald, disse ella, parece estar escripto que não serei -completamente feliz. Nenhum sonho me falhou nunca; este, porém, não -passará de sonho, e era o mais bello de minha velhice. - ---Mas porque desespera? disse a ingleza. Tenha animo, e tudo se hade -arranjar. Pela minha parte, oxalá pudesse contribuir para a completa -felicidade desta familia, a quem devo tantos e tamanhos benefícios. - ---Benefícios! - ---E que outra cousa são os seus carinhos, a protecção que me tem dado, -a confiança... - ---Está bom, está bom, interrompeu affectuasamente a baroneza; falemos -de outra cousa. - ---Della, não é? Diz-me o coração que com alguma paciencia tudo se -alcançará. Todos os meios se hão de tentar; e todos elles são bons -se se trata de fazer a felicidade sua e della. Bem está o que bem -acaba, disse um poeta nosso, homem de juizo. Por em quanto só vejo um -obstaculo: a pouca disposição... - ---Só esse? - ---Que outro mais? - ---Talvez outro, disse a baroneza abaixando a voz; póde ser que não, mas -tão infeliz sou neste meu desejo, que hade vir a ser obstaculo, talvez. - ---Mas que é? - ---Um homem, um moço, não sei quem, sobrinho da mestra que foi de -Guiomar... Ella mesma contou-me tudo ha pouco. - ---Tudo o que? - ---Não sei se tudo; mas emfim disse-me que, estando a passear na -chacara, vira o tal sobrinho da mestra, junto á cerca do Dr. Luiz -Alves, e ficara a conversar com elle. Que será isto, Mrs. Oswald? -Algum amor que continua ou recomeça agora,--agora, que ella já não é a -simples herdeira da pobreza de seus pais, mas a minha filha, a filha do -meu coração. - -A commoção da baroneza ao proferir estas palavras era tal, que Mrs. -Oswald pegou-lhe affectuosamente das mãos e procurou conforta-la com -outras palavras de esperança e confiança. Disse-lhe, além disso, que o -simples conversar com esse homem, que aliás nenhuma delias conhecia, -não era razão para suppor uma paixão anterior. - ---Emfim, concluiu a ingleza, custa-me crer que ella ame a alguem neste -mundo. Por em quanto estou que não gosta de ninguém, e a nossa vantagem -não é outra senão essa. Sua afilhada tem uma alma singular; passa -facilmente do enthusiasmo á frieza, e da confiança ao retrahimento. -Ha de vir a amar, mas não creio que tenha grandes paixões, ao menos -duradouras. Em todo o caso, posso responder-lhe actualmente pelo seu -coração, como se tivesse a chave na minha algibeira. - -A baroneza abanou a cabeça. - ---Quanto a esse homem, continuou Mrs. Oswald, saberemos quem é elle, e -que relações de affecto houve no passado. - ---Parece-lhe possivel? - ---Naturalmente! - -A ingleza proferiu esta unica palavra com a segurança necessaria para -serenar o animo da boa senhora, que ficou algum tempo a olhar pasmada -para ella, como quem reflectia. - ---Ha occasiões, disse emfim a baroneza ao cabo de alguns segundos de -silencio, ha occasiões em que eu quasi chego a sentir remorsos do amor -que tenho a Guiomar. Ella veiu preencher na minha vida o vacuo deixado -por aquella pobre Henriqueta, a filha das minhas entranhas, que a morte -levou comsigno, para mal de sua mãe. Se havia de ser infeliz, melhor é -que a chore morta, com a esperança de a ir encontrar no ceu. Mas não -lhe quiz mais, nem talvez tanto, como a esta criança, que levei á pia, -e de quem Deus me fez mãe... - -A baroneza calou-se; ouvira passos no corredor. - -Guiomar, embora tivesse ido vestir-se e aprimorar-se, com tão singellos -meios o fizera, que não desdizia daquelle matinal desalinho em que o -leitor a viu no capitulo anterior. O penteado era um capricho seu, -expressamente inventado para realçar a um tempo a abundancia dos -cabellos e a senhoril belleza da testa. As pontas bordadas de um -collarinho de cambraia dobravam-se faceiramente sobre o azul do vestido -de _glacé_, talhado e ornado com uma simplicidade artistica. Isto, e -pouco mais, era toda a moldura do painel,--um dos mais bellos paineis -que havia por aquelles tempos em toda a praia de Botafogo. - ---Viva a minha rainha de Inglaterra! exclamou Mrs. Oswald quando a viu -assomar á porta da saleta. - -E Guiomar sorriu com tanta, satisfação e gôzo ao ouvir-lhe esta -saudação familiar, que um observador attento hesitaria em dizer se era -aquillo simples vaidade de moça, ou se alguma cousa mais. - -A baroneza poz os olhos na afilhada, uns olhos amorosos e tristes, -em que a moça reparou, e que a tornaram séria durante alguns rapidos -segundos. Mas sorriu depois; e pegando das mãos da madrinha deu-lhe -dous beijos no rosto, com tanta ternura e tão sincera, que a boa -senhora sorriu de contentamento. - ---Não precisa falar, disse Guiomar, já sei que me acha bonita. É o -que me diz todos os dias, com risco de me perder, porque se eu acabo -vaidosa, adeus, minhas encommendas, ninguem mais poderá commigo. - -Guiomar disse isto com tanta graça e singeleza, que a madrinha não -pôde deixar de rir, e a melancolia acabou de todo. A sineta do almoço -chamou-as a outros cuidados, e a nós tambem, amigo leitor. Em quanto as -tres almoçam, relanceemos os olhos ao passado, e vejamos quem era esta -Guiomar, tão gentil, tão buscada e tão singular, como dizia Mrs. Oswald. - - - - -V - - -Meninice. - - -Guiomar tivera humilde nascimento; era filha de um empregado subalterno -não sei de que repartição do Estado, homem probo, que morreu quando -ella contava apenas sete annos, legando á viuva o cuidado de a educar -e manter. A viuva era mulher energica e resoluta, enxugou as lagrimas -com a manga do modesto vestido, olhou de frente para a situação e -determinou-se á luta e á victoria. - -A madrinha de Guiomar não lhe faltou naquelle duro transe, e olhou por -ellas, como entendia que era seu dever. A solicitude, porém, não foi -tão constante a principio como veiu a ser depois; outros cuidados de -familia lhe chamavam a attenção. - -Guiomar annunciava desde pequena as graças que o tempo lhe desabrochou -e perfez. Era uma creaturinha galante e delicada, assaz intelligente e -viva, um pouco travêssa, de certo, mas muito menos do que é usual na -infancia. Sua mãe, depois que lhe morrera o marido, não tinha outro -cuidado na terra, nem outra ambição mais, que a de ve-la prendada e -feliz. Ella mesma lhe ensinou a ler mal, como ella sabia,--e a coser e -bordar, e o pouco mais que possuia de seu officio de mulher. Guiomar -não tinha difficuldade nenhuma em reter o que a mãe lhe ensinava, e -com tal affinco lidava por aprender, que a viuva,--ao menos nessa -parte,--sentia-se venturosa. Has-de ser a minha doutora, dizia-lhe -muita vez; e esta simples expressão de ternura alegrava a menina e lhe -servia de incentivo á applicação. - -A casa em que moravam era naturalmente modesta. Alli correu a -infancia,--mas solitaria, o que é um pouco mais grave. A mãe, quando a -via embebida nos jogos proprios da edade, infantilmente alegre,--mas -de uma alegria que fazia mal a seus olhos de mãe, tão fundo lhe doia -aquelle viver,--a mãe sentia ás vezes pularem-lhe as lagrimas dos -olhos fora. A filha não as via, porque ella sabia escondel-as; mas -advinhava-as atravez da tristeza que lhe ficava no rosto. Só não -adivinhava o motivo, mas bastava que fossem maguas de sua mãe, para lhe -descair tambem a alegria. - -Com o tempo, avultou outra causa de tristeza para a pobre viuva, ainda -mais dolorosa que a primeira. Na edade apenas de dez annos, tinha -Guiomar uns desmaios de espirito, uns dias de concentração e mudez, -uma seriedade, a principio intermittente e rara, depois frequente e -prolongada, que desdiziam da meninice e faziam crer á mãe que eram -prenuncios de que Deus a chamava para si. Hoje sabemos que não eram. -Seria acaso effeito daquella vida solitaria e austera, que já lhe ia -affeiçoando a alma e como que apurando as forças para as pugnas da vida? - -A primeira vez que esta gravidade da menina se lhe tornou mais patente -foi uma tarde, em que ella estivera a brincar no quintal da casa. O -muro do fundo tinha uma larga fenda, por onde se via parte da chacara -pertencente a uma casa da visinhança. A fenda era recente; e Guiomar -acostumára-se a ir espairecer alli os olhos, já serios e pensativos. -Naquella tarde, como estivesse olhando para as mangueiras, a cobiçar -talvez as doces fructas amarellas que lhe pendiam dos ramos, viu -repentinamente apparecer-lhe deante, a cinco ou seis passos do lugar em -que estava, um rancho de moças, todas bonitas, que arrastavam por entre -as arvores os seus vestidos, e faziam luzir aos ultimos raios do sol -poente as joias que as enfeitavam. Ellas passaram alegres, descuidadas, -felizes; uma ou outra lhe dispensou talvez algum affago; mas foram-se, -e com ellas os olhos da interessante pequena, que alli ficou largo -tempo absorta, alheia de si, vendo ainda na memoria o quadro que -passára. - -A noite veiu, a menina recolheu-se pensativa e melancolica, sem nada -explicar á solicita curiosidade da mãe. Que explicaria ella, se mal -podia comprehender a impressão que as cousas lhe deixavam? Mas, como -a mãe entristecesse com aquillo, Guiomar domou o proprio espirito e -fez-se tão jovial como nos melhores dias. - -Esta era ainda outra feição da menina; tinha uma força de vontade -superior aos seus annos. Com ella, e a viveza intellectual que Deus lhe -dera, logrou aprender tudo o que a mãe lhe ensinara, e melhor ainda -do que ella o sabia, desde que o tempo lhe permittiu desenvolver os -primeiros elementos. - -Aos trese annos ficou orphã; este fundo golpe em seu coração, foi o -primeiro que ella verdadeiramente pode sentir, e o maior que a fortuna -lhe desfechou. Já então a madrinha a fizera entrar para um collegio, -onde aperfeiçoava o que sabia e onde lhe ensinavam muita cousa mais. - -Vivia ainda então a filha de baroneza, uma interessante creança de -trese annos, que era toda a alma e encanto de sua mãe. Guiomar visitava -a casa da madrinha; a edade quasi egual das duas meninas, a affeição -que as ligava a belleza e meiguice de Guiomar, a graciosa compostura -de seus modos, tudo apertou entre a madrinha e a afilhada os laços -puramente espirituaes que as uniam antes. Guiomar correspondia aos -sentimentos daquella segunda mãe; havia talvez em seu affecto, aliás -sincero, um tal encarecimento que podia parecer simulação. O affecto -era espontaneo; o encarecimento é que seria voluntário. - -Tinha a moça dezeseis annos quando passou para o collegio da tia de -Estevão, onde pareceu á baroneza se lhe poderia dar mais apurada -educação. Guiomar manifestára então o desejo de ser professora. - ---Não ha outro recurso, disse ella á baroneza quando lhe confiou esta -aspiração. - ---Como assim? perguntou a madrinha. - ---Não ha, repetiu Guiomar. Não duvido, nem posso negar o amor que -a senhora me tem; mas a cada qual cabe uma obrigação, que se deve -cumprir. A minha é... é ganhar o pão. - -Estas ultimas palavras passaram-lhe pelos lábios como que á força. -O rubor subiu-lhe ás faces; dissera-se que a alma cobria o rosto de -vergonha. - ---Guiomar! exclamou a baroneza. - ---Peço-lhe uma cousa honrosa para mim, respondeu Guiomar com -simplicidade. - -A madrinha sorriu e approvou-a com um beijo,--assentimento de boca, a -que já o coração não respondia, e que o destino devia mudar. - -Pouco tempo depois padeceu a baroneza o golpe quasi mortal a que -alludiu no capitulo anterior. A filha morreu de repente, e o inopinado -do desastre quasi levou a mãe á sepultura. - -A affeição de Guiomar não se desmentiu nessa dolorosa situação. Ninguém -mostrou sentir mais do que ella a morte de Henriqueta, ninguém consolou -tão dedicadamente a infeliz que lhe sobrevivia. Eram ainda verdes os -seus annos; todavia revellou ella a posse de uma alma egualmente terna -e energica, affectuosa e resoluta. Guiomar foi durante alguns dias a -verdadeira dona da casa; a catastrophe abatera a propria Mrs. Oswald. - -O coração da pobre mãe ficára tão vasio, e a vida lhe pareceu tão agra -e deserta sem a filha, que ella morreria talvez de saudade, se não fora -a presença de Guiomar. Nenhuma outra creatura poderia preencher, como -esta, o logar de Henriqueta. Guiomar era já meia filha da baroneza as -circumstancias, não menos que o coração, tinham-n'as destinado uma para -a outra. Um dia, em que a afilhada fora visitar a madrinha, esta lhe -disse que a iria em breve buscar para sua casa. - ---Você será a filha que eu perdi; elle não me amou mais, nem eu já -agora teria outra consolação. - ---Oh! madrinha! exclamou Guiomar beijando-lhe as mãos. - -A baroneza estava assentada; Guiomar ajoelhou-se-lhe aos pés e poz-lhe -a cabeça no regaço. A boa mãe curvou-se e beijou-lh'a ternamente, -com os olhos naquella filha que os successos lhe haviam dado, e o -pensamento no ceu, onde devia estar a outra, que Deus lhe dera e levou -para si. - - * * * * * - -Pouco depois estabeleceu-se Guiomar definitivamente em casa da -madrinha, onde a alegria reviveu, gradualmente, graças á nova -moradora, em quem havia um tino e sagacidade raros. Tendo presenciado, -durante algum tempo, e não breve, o modo de viver entre a madrinha e -Henriqueta, Guiomar poz todo o seu esforço em reproduzir pelo mesmo -teor os habitos de outro tempo, de maneira que a baroneza mal pudesse -sentir a ausencia da filha. Nenhum dos cuidados da outra lhe esqueceu, -e se em algum ponto os alterou foi para augmentar-lhe novos. Esta -intenção não escapou ao espirito da baroneza, e é superfluo dizer que -deste modo os vinculos do affecto mais se apertaram entre ambas. - -Ao mesmo tempo que ia provando os sentimentos de seu coração, revelava -a moça, não menos, a plena harmonia de seus instinctos com a sociedade -em que entrára. A educação, que nos últimos tempos recebera, fez muito, -mas não fez tudo. A natureza incumbira-se de completar a obra,--melhor -diremos, começal-a. Ninguem adivinharia nas maneiras finamente -elegantes daquella moça, a origem mediana que ella tivera; a borboleta -fazia esquecer a chrysalida. - - - - -VI - - -O post-scriptum. - - -Aquelle conselho de Luiz Alves, na fatal noite de dous annos antes, não -ha duvida que era judicioso e devera ter ficado no espirito de Estevão. -Não convinha reler a carta, sob pena de lhe achar um _post-scriptum._ -Estevão era curioso de epistolas; não pode ter-se que não abrisse -aquella. O _post-scriptum_ lá estava no fim. - -Vindo á linguagem natural, Estevão saiu do jardim de Luiz Alves com -o coração meio inclinado a amar de novo a mulher que tanto o fizera -padecer um dia. Daqui concluirá alguem que elle verdadeiramente não -deixára de a amar Póde ser; havia talvez debaixo da cinza uma faisca, -uma só, e essa bastava a repetir o incendio. Mas fosse de um ou de -outro modo, o certo é que Estevão saiu dalli com o príncipio do amor no -coração. - -Todo aquelle dia foi de alvoroço e agitação para elle, que não se -resignou logo, antes buscou reagir contra a entrada da paixão nova. A -tentativa era sincera; as forças é que eram escassas. Elle desviava de -si a imagem da moça; ella, porém perseguia-o, tenaz, como se fora um -remorso, fatal como a voz de seu destino. - -Estevão nada disse a Luiz Alves do encontro e da conversa qui tivera -com a moça no jardim; e não lh'o escondeu por desconfiança, mas por -vergonha. Que lhe diria porém elle que o não tivesse visto e percebido -Luiz Alves? Da janella de seu quarto, que dava para o jardim, enfiando -os olhos pela fresta das cortinas pôde observa-los durantes aquelles -tres quartos de hora de innocente palestra. O espectaculo não o -divertiu muito; Luiz Alves achou um pouco atrevida a escolha do logar. - -A circumstancia de os ver juntos chamou-lhe a attenção para a -coincidencia do nome da visinha com o da antiga namorada do collega; -era naturalmente a mesma pessoa. - ---Vai contar-me tudo, pensou Luiz Alves quando viu o collega -affastar-se da cerca e dirigir os passos para casa. - -Estevão, como disse, foi discreto. Vinha preocupado, muito outro do que -entrára na vespera, a ler-se-lhe no rosto alguma cousa mais séria do -que elle proprio costumava ser. - -Tinha Estevão contra si o passado e o futuro. O presente, sim, -defendia-o; elle sentia que alguma cousa o distanciava de Guiomar. -Mas o passado falava-lhe de todas as doces recordações,--as menos -amargas,--e a memoria quasi não sabe de outras quando relembra o -que foi. O futuro acenava-lhe com as suas esperanças todas, e basta -dizer que eram infinitas. Além disso, a Guiomar que elle via agora, -surgia-lhe no meio de outra atmosphera,--a mesma que o seu espirito -almejava respirar; e apparecia-lhe para fugir logo. Sobre tudo isto -o obstaculo, aquella porta fechada, que bem podia ser a da _cittá -dolente_, mas que em todo o caso elle quizera ver franqueada ás suas -ambições. - -Os dias correram alternados de confiança e desanimo, tecidos de ouro e -fio negro, um lutar de todas as horas, que acabou como era de prever e -devia acabar. O coração levou Estevão atraz de si. - -Nenhum meio, dos que tinha á mão, lhe esqueceu para ver Guiomar. As -janellas da casa estavam quasi sempre desertas. Duas ou tres vezes -aconteceu vel-a de longe; ao approximar-se-lhe, sumira-se o vulto na -sombra do salão Não perdia theatro; mas só duas vezes teve o gosto de -a ver: uma no Lyrico, onde se cantava _Somnambula_, outra no Gymnasio, -onde se representavam os _Parisienses_, sem que elle ouvisse uma nota -da opera, nem uma palavra da comedia. Todo elle, olhos e pensamento, -estava no camarote de Guiomar. No Lyrico foi baldada essa comtemplação; -a moça não deu por elle. No Gymnasio, sim; o theatro era pequeno; -comtudo, antes não fôra visto, tão tenazmente deviou ella os olhos do -logar em que elle ficára. - -Nem por isso deixou Estavão de ir esperal-a á saida, collocar-se -francamente no seu caminho, sollicitar-lhe audazmente os olhos e -attenção. A familia desceu da 2a ordem pela escada do lado de S. -Francisco; a estreiteza do logar era excellente. Dava o braço á -baroneza um moço de vinte e cinco annos, figura elegante, ainda que um -tanto affectada. Desceram todos tres e ficaram á espera do carro alguns -minutos. Na meia sombra que alli havia destacava-se o rosto marmoreo -de Guiomar e a gentileza de seu talhe. Seus grandes olhos vagavam pela -multidão, mas não fitavam ninguem. Ella possuia, como nenhuma outra, a -arte de gozar, sem as ver, as homenagens da admiração publica. - -Irritado com a indifferença da moça, vagou Estevão toda aquella noite, -a sós com o seu despeito e o seu amor, tecendo e destecendo mil planos, -todos mais absurdos uns que outros. A taça enchera de todo; era mister -entornal-a no seio de um amigo, de um amigo que houvesse nas suas mãos -o unico remedio que elle nessa occasião pedia;--a chave daquella porta. -Luiz Alves era esse homem. - ---Outra vez caido! exclamou elle rindo quando Estevão lhe contou tudo. -Eu já o havia percebido. Isto de mulheres... Queres então que te leve -lá? - ---Quero. - -Luiz Alves reflectiu alguns intantes. - ---E uma viagem, não te seria bom fazer uma viagem? Já sei o que me vás -dizer; mas tambem não te proponho uma viagem de recreio, á Europa. -Olha, arranjo-te, se queres, um logar de juiz municipal... - -A proposta era sincera; Estevão cuidou ver-lhe uma ponta de zombaria -e ergueu os hombros com enfado. A proposta, entretanto, merecia ser -examinada; era uma carreira, e vinha de um homem que estava a entrar na -vida politica, que esperava dahi a algumas semanas o resultado de uma -eleição, com a certeza, ou quasi, de haver triumphado. Era influencia -que nascia, e de força viria a crescer. Mas para Estevão, naquella -occasião, toda a carreira publica, influencia, futuro, leis, tudo -estava nos olhos castanhos de Guiomar. - ---Eu amo-a, disse elle emfim, isto para mim é tudo. Póde bem ser -que tenhas razão; talvez me espere algum grande desgosto; mas são -reflexões, e eu não reflicto agora, eu sinto... - ---Em todo o caso, acudiu Luiz Alves, desempenho o meu dever de amigo; -digo-te que vocês não nasceram um para outro; que, se ella te não amou -naquelle tempo, muito menos te amará hoje, e que emfim... - -Luiz Alves estacou. - ---Emfim? perguntou Estevão. - ---Emfim pedes-me um sacrificio, concluiu rindo o advogado, por que -também eu já a namorisquei... Não é preciso carregares o sobr'olho; foi -namoro de visinho, tentativa que durou pouco mais de vinte e quatro -horas. Com vergonha o digo, ella não me prestou uma migalha de attenção -sequer, e eu voltei aos meus autos. - ---Então... gostas della? perguntou Estevão. - ---Acho-a bonita e nada mais. Aquillo foi um lançar barro á parede; se -acceitasse, casava-me; não acceitou... - ---Já vês que somos differentes. - ---Queres, então?... - ---Um serviço de amigo. - ---Bem, disse por fim Luiz Alves, faça-se a tua vontade. A baroneza vai -cuidar agora de um processo e mandou-me falar. Eu passo-te a prebenda; -entrarás alli, como advogado, o que de alguma maneira me tira um peso -da consciência. - -Estevão, que só pedia um pretexto, acceitou a offerta com ambas as -mãos, e agradeceu-lh'a com tão expansiva ternura, que fez sorrir o -outro. - -A promessa cumpriu-se pontualmente. Luiz Alves apresentou Estevão -á baroneza, na seguinte noite, como seu companheiro e amigo, como -advogado capaz de zelar os interesses da illustre cliente. A recepção, -foi geralmente boa, salvo por parte de Guiomar, que pareceu aborrecida -de o ver naquella casa. Quando Estevão a saudou, como quem a conhecia -de longo tempo, ella mal pode retribuir-lhe o cumprimento; em todo o -resto da noite não lhe deu palavra. Daquella parte o acolhimento não -podia ser peior; mas Estevão sentia-se feliz, desde que vel-a, respirar -o mesmo ar, nada mais pedindo por ora, e deixando o resto á fortuna. - -De todas as pessoas de casa da baroneza, a primeira que reparou na -indifferença com que Guiomar tratára Estevão, foi Mrs. Oswald. A sagaz -ingleza afivellou a mascara mais impassivel que trouxera das ilhas -britannicas e não os perdeu de vista. Nem da primeira nem da segunda -vez viu nada mais que os olhos delle, que sollicitavam os della, e -os della que pareciam surdos. Havia de certo uma paixão, solitaria e -desattendida. - ---Sabe que descobri um namorado seu? perguntou ella alguns dias depois -a Guiomar. - -Guiomar fez um gesto de estranheza. - ---Entendamo-nos, observou a ingleza; não digo que a senhora o namore -também; digo que é elle quem anda apaixonado. Não adivinha? - ---Talvez. - ---O Dr. Estevão. - -Guiomar fez um gesto de desdem. - ---Vejo que tinha adivinhado, disse Mrs. Oswald; também não era -difficil. Quem tem alguma pratica destas cousas fareja uma paixão a -cem legoas de distancia, por mais que ella busque recatar-se dos olhos -estranhos. Os namorados geralmente suppõem que ninguem os vê; é uma -lastima. Olhe, da senhora posso eu jurar que não está namorada de -pessoa nenhuma. - ---Que sabe disso? perguntou Guiomar deitando os olhos para o espelho de -seu guarda vestidos. Pois estou, mas de mim mesma. - -Mrs. Oswald desatou a rir, de um riso grave e pausado. Ella sabia que -a moça tinha orgulho de suas graças; era bom caminho affagar-lhe o -sentimento. Disse-lhe muita cousa bonita, que não vem para aqui, e -concluiu pondo-lhe as mãos nos hombros, encarando-a fito a fito, a -emfim rompendo nestas palavras, meias suspiradas: - ---A senhora é a flor desta sua terra. Quem a colherá? Alguem sei eu que -a merece... - -Guiomar ficou séria, e desviou brandamente as mãos da ingleza, -murmurando: - ---Mrs. Oswald, falemos de outra cousa. - - - - -VII - - -Um rival. - - -Não era a primeira vez que Mrs. Oswald alludia a alguma cousa que -desagradava a Guiomar, nem a primeira que esta lhe respondia com a -sequidão que e leitor viu no fim do capitulo anterior. A boa ingleza -ficou séria e calada alguns dous ou tres minutos, a olhar para Guiomar, -apparentemente buscando interrogar-lhe o pensamento, mas na realidade -sem saber como sair de situação. A moça rompeu o silencio: - ---Está bom, disse ella sorrindo, não vejo razao para que se zangue -commigo. - ---Não estou zangada, acudiu promptamente Mrs. Oswald. Zangada porque? -Pêza-me, de certo, que a natureza me não dê razão, e que uma alliança -tão conveniente, para ambos, seja repellida pela senhora; mas se isto é -motivo de desgosto, não pode sel-o de zanga.... - ---Desgosto? - ---Para mim.... e naturalmente para elle. - -Guiomar respondeu com um simples sacudir de hombros, sêcco e rápido, -como quem se lhe não dava do mal ou não acreditava nelle. Mrs. Oswald -não atinou qual destas impressões seria, e concluiu que fossem ambas. A -moça, entretanto, pareceu arrepender-se daquelle movimento; travou das -mãos da ingleza, e com uma voz ainda mais doce e macia que de costume, -lhe disse: - ---Veja o que é ser creança! Não parece que ainda em cima me zango com a -senhora? - ---Parece. - ---Pois não é exacto. Isto são caprichos de menina mal educada. Dei para -não gostar que me adorem... Minto; disso gósto eu; mas quizera que me -adorassem somente, não lhe parece? - -E Guiomar acompanhou estas palavras com uma risadinha mimosa e uns -gestos de creança travêssa, que destoavam inteiramente da sua gravidade -habitual. - ---Já sei, gosta de uma adoração como a do Dr. Estevão, silenciosa e -resignada, uma adoração.. - -E Mrs. Oswald, que, como boa protestante que era, tinha a Escriptura na -ponta dos dedos, continuou por este modo, accentuando as palavras: - -Uma adoração como a que devia inspirar José, filho de Jacob, que era -bello como a senhora: «por elle as moças andavam por cima da cerca...» - ---Da cerca? perguntou Guiomar tornando-se séria. - ---Do muro, diz a Escriptura, mas eu digo da cerca porque... nem eu sei -porque. Não core! Olhe que se denuncia. - -Guiomar corára deveras; mas era a altivez e o pundonor offendido que -lhe falavam no rosto. Olhou fria e longamente para a ingleza, com um -desses olhares, que são, por assim dizer, um gesto da alma indignada. -O que a irritava não era a allusão, que não valia muito, era a pessoa -que a fazia,--inferior e mercenaria. Mrs. Oswald percebeu isto mesmo; -mordeu a ponta do labio, mas transigiu com a moça. - ---Meu Deus! disse ella. Parece que se zangou por uma bricadeira á toa. -Bem sabe que eu não podia querer aggraval-a; suppol-o é offender-me a -mim,--a mim, que também lhe tenho affecto de mãe.... - -A ultima palavra aquietou, o animo de Guiomar; ella tinha cedido ao -impulso do seu caracter altivo, mas a razão veiu depois, e o coração -tambem, que não era mau. A ingleza, que possuía longa pratica da vida -e sabia ceder a tempo, uniu o gesto á palavra e chamou-a com os braços -para si. Guiomar deixou-se ir, um pouco de má vontade, e a conversa -teria acabado alli, se Mrs. Oswald não lhe dissesse com a mais doce voz -que daquella garganta podia sair: - ---Convença-se de que eu sou importuna e indiscreta por affeição, e -que a felicidade desta familia é toda a ambição da minha alma. Não -pode haver intenção melhor do que esta. Um conselho ultimo,--ultimo se -me não consentir mais falar-lhe nisto;--eu creio que a senhora sonha -talvez de mais. Sonhará uns amores de romance, quasi ímpossiveis? -digo-lhe que faz mal, que é melhor, muito melhor contentar-se com a -realidade; se ella não é brilhante como os sonhos, tem pelo menos a -vantagem de existir. - -Guiomar cravara desta vez os olhos no chão, com a expressão vaga -e morta de quem os apagou para as cousas externas. As palavras de -Mrs. Oswald responder-lhe-hiam acaso a alguma voz intima? A ingleza -proseguiu na mesma ordem de ideias, sem que ella a interrompesse ou -desse signal de si. Quando ella acabou, Guiomar estremeceu, como se -acordasse; levantou a cabeça, e lenta, e commovida, proferiu esta unica -resposta: - ---Talvez tenha razão, Mrs. Oswald, mas em todo o caso os sonhos são tão -bons! - -Mrs. Oswald abanou a cabeça e saiu; Guiomar acompanhou-a com os olhos, -a sorrir, satisfeita de si mesma, e a murmurar tão baixo que mal a -ouvia o seu proprio coração: - ---Sonhos, não, realidade pura. - -Supponho, que o leitor estará curioso de saber quem era o feliz ou -infeliz mortal, de quem as duas trataram no dialogo que precede, se -é que já não suspeitou que esse era nem mais nem menos o sobrinho da -baroneza,--aquelle moço que apenas de passagem lhe apontei nas escadas -do Gymnasio. - -Era um rapaz de vinte e cinco a vinte e seis annos. Jorge chamava-se -elle; não era feio, mas a arte estragava um pouco a obra da natureza. -O muito mimo empece a planta, disse o poeta, e esta maxima não é só -applicavel à poesia, mas tambem ao homem. Jorge tinha um lindo bigode -castanho, untado e retesado com excessivo esmero. Os olhos, claros e -vivos, seriam mais bellos, se elle não os movesse com affectação, ás -vezes feminina. O mesmo direi dos modos, que seriam faceis e naturaes, -se os não tornasse tão alinhados e medidos. As palavras saíam-lhe -lentas e contadas, como a fazer sentir toda a munificencia do autor. -Não as proferia como as demais pessoas; cada syllaba era por assim -dizer espremida, sendo facil ver ao cabo de alguns minutos, que elle -fazia consistir toda a belleza da elocução nesse alongar do vocabulo. -As ideias orçavam pelo modo de as exprimir; eram chochas por dentro, -mas traziam uma codea de gravidade pesadona, que dava vontade de ir -espairecer o ouvido em cousas leves e folgazãs. - -Taes eram os defeitos apparentes de Jorge. Outros havia, e desses, o -maior era um peccado mortal, o setimo. O nome que lhe deixara o pae, e -a influencia da tia podiam servir-lhe nas mãos para fazer carreira em -alguma cousa publica; elle, porém, preferia vegetar á toa, vivendo do -peculio que dos paes herdára e das esperanças que tinha na affeição de -baroneza. Não se lhe conhecia outra occupação. - -Não obstante os defeitos apontados, havia nelle qualidades boas: sabia -dedicar-se, era generoso, incapaz de malfazer, e tinha sincero amor á -velha parenta. A baroneza, pela sua parte, queria-lhe muito. Guiomar e -elle eram as suas duas affeições principaes, quasi exclusivas. - -Tal era a pessoa cujos interesses defendia Mrs. Oswald, por amor da -baroneza, e não menos de si propria. A baroneza tambem tinha os seus -sonhos, como ella mesma disse, e esses eram deixar felizes aquellas -duas crianças. Jorge pela sua parte estava dispóto a estender o collo -ao sacrificio; e, bem examinadas as cousas, talvez amasse sinceramente -a moça. A differença entre elle e Estevão é que o seu amor era tão -medido como os seus gestos, e tão superficial como as suas outras -impressões. - -Do que ahi fica dito, facilmente comprehenderá o leitor que, dos dous -namorados, só um percebeu logo o sentimento do outro. A alma de Estevão -andava-lhe nos olhos, enchendo-os de maneira que elle não podia ver -nada mais além de Guiomar. - -Ao cabo de duas semanas a situação de Estevão podia dízer-se menos -má; na opinião delle era excellente. A baroneza soube quem elle era; -Guiomar contara-lhe tudo; mas a ingleza, não menos que a observação -propria, lhe mostrou que nenhum perigo corria Guiomar, e excluido o -perigo, restavam as boas qualidades do bacharel, que de todo lhe caiu -em graça. Mrs. Oswald navegou nas mesmas aguas mansas. O proprio Jorge, -naturalmente por que confiava em si, não temeu do rival, e pouco tardou -que lhe abrisse os cancellos da sua gravidade. Que admira, pois, que a -mesma Guiomar afrouxasse um pouco da primeira rigidez? - -Aquelle bom rapaz tinha a salutar crendice da esperança, em que muita -vez se resumem todas as bençãos da vida. Pedia muito, como alma -sequiosa que era, mas bem pouco bastava a contental-o. A imaginação -multiplicava os zeros; com um grão de areia construiria um mundo. A -affabilidade de uns e a cortezia de outros, tanto bastou para que -elle se julgasse quasi no termo de suas aspirações; e posto não lhe -désse Guiomar uma só das animações de outro tempo,--que aliás tão -frageis eram, ainda assim acreditou elle piamente que o amor nascia, ou -renascia, naquelle rebelde coração. - -Guiomar, no meio das affeições que a cercavam, sabia manter-se superior -ás esperanças de uns e ás suspeitas de outros. Egualmente cortez, mas -egualmente impassível para todos, movia os olhos com a serenidade -da isenção, não namorados, nem sequer namoradores. Ella teria, se -quizesse, a arte de Armida; saberia refrear ou aguilhoar os corações, -conforme elles fossem impacientes ou tibios; faltava-lhe porém o -gosto,--ou melhor, sobrava-lhe o sentimento do que ella achava que era -a sua dignidade pessoal. - - - - -VIII - - -Golpe. - - -Um dia de manhã accordou Estevão com a resolução feita de dar o golpe -decisivo. Os corações frouxos tem destas energias subitas, e é proprio -da pusilanimidade illudir-se a si mesma. Elle confessava que nada havia -feito, e que a situação exigia alguma cousa mais. - ---Nunca as circumstancias foram mais propicias do que hoje, pensava -o rapaz; Guiomar trata me com affabilidade de bom agouro. Demais, ha -nella espirito elevado; ha de reconhecer que um sentimento discreto e -respeitoso, como este meu, vale um pouco mais do que lisonjarias de -sala. - -A resolução estava essentada; restava o meio de a tornar affectiva. -Estevão hesitou largo tempo entre dizer de viva voz o que sentia ou -transmittil-o por via do papel. Qualquer dos modos tinha para elle mais -perigos que vantagens. Elle receiava ser frio na declaração escripta ou -incompleto na confissão oral. Irresoluto e vacillante, ambos os meios -adoptou e repelliu, a curtos intervallos; emfim, deferiu a escolha para -outra occasião. - -O acaso suppriu a resolução, e o premeditado cedeu o passo ao fortuito. - -Uma tarde, havendo algumas pessoas a jantar em casa da baroneza, foram -passear á chacara. Estevão que, como Luiz Alves, era dos convivas, -affastou-se gradualmente dos outros grupos, e approximou-se daquella -cerca historica onde, após dous annos de ausencia e esquecimento, vira, -ja transformada, a formosa Guiomar. Era a primeira vez que elle punha -os olhos nesse sitio, depois da conversa, que ahi tivera com ella. A -commoção que sentiu foi naturalmente grande; resurgia-lhe o quadro ante -os olhos, a hora, o ceu brilhante, o doce alento da manhã, e por fim a -figura da moça, que alli appareceu, como a alma do quadro, trazendo-lhe -recordações, que elle julgava mortas, esperanças que suppunha -impossiveis. - -Estevão curvou a cabeça ao doce peso daquellas memorias, a alma bebeu, -a largos haustos, a vida toda que a imaginação lhe creava e talvez a -noite o tomasse na mesma attitude, se a voz maviosa de Guiomar, lhe não -dissesse a poucos passos de distancia: - ---Sr. doutor, perdeu alguma cousa? - -O rapaz volveu rapidamente a cabeça, e viu a moça, que atravessava -uma das calhes proximas, a olhar e a sorrir para elle. Estevão sorriu -tambem, e com uma presença de espirito assaz rara em namorados, -sobretudo em namorados como elle era, promptamente respondeu: - ---Não perdi nada, mas achei uma cousa. - ---Vejamos o que foi. - -E Guiomar approximou-se, a passo firme e seguro, e Estevão, sem muito -vacillar, alli mesmo forjou uma reflexão philosophica a respeito de -um insecto que casualmente passava por cima de uma folha secca. A -reflexão não valia muito, e tinha o defeito de vir um pouco forçada e -de acarreto; a moça sorriu, entretanto, e ia continuar o seu caminho, -quando elle, colhendo as forças todas, a fez deter com estas palavras: - ---E se eu tivesse achado outra cousa? - ---Ainda mais! exclamou ella voltando-se risonha. - -Estevão deu dous passos para Guiomar, desta vez commovido e resoluto. A -moça fez-se seria e dispoz-se a ouvil-o. - ---Se eu tivesse achado neste logar, continuou elle, longos dias de -esperança e de saudade, um passado que eu julgára não reviver mais, uma -dor occulta e medrosa, vivida na solidão, nutrida e consolada de minhas -próprias lagrimas? Se eu tivesse achado aqui a pagina rota de uma -historia começada e interrompida, não por culpa de ninguem na terra, -mas da estrella sinistra da minha vida, que um anjo mau accendeu no -ceu, e que, talvez, talvez ninguem nunca apagará? - -Estevão calou-se e ficou a olhar fixamente para Guiomar. - -Aquella declaração repentina e rosto a rosto estava tão longe do -temperamento do rapaz, que ella gastou alguns segundos longos primeiro -que voltasse a si do assombro. Elle proprio admirava-se do atrevimento -que tivera; e emquanto pendia dos labios da moca, repassava na memoria, -aliás confusamente, o que tão a frouxo lhe saira do peito naquella hora -de abençoada temeridade. - ---Se tivesse achado tudo isso, respondeu Guiomar sorrindo, é natural -que preferisse achar outra cousa menos melancolica. Entretanto, -parece que nada mais achou do que esta occasião de falar, com a viva -imaginação que Deus lhe deu; n'um ou n'outro caso, porém, posso de -certo lastimal-o ou admiral-o, mas não me é dado ouvil-o. - -E Guiomar ia de novo affastar-se, quando Estevão, receiando perder a -occasião que a fortuna lhe offerecia, disse de longe com voz triste e -supplice: - ---Attenda-me um só munito! - ---Não um, mas dez--respondeu a moça estacando o passo e voltando o -rosto para elle--e serão provavelmente os ultimos em que falaremos -a sós. Cedo á commiseração que me inspira o seu estado; e pois que -rompeu o longo e expressivo silencio em que se tem conservado até hoje, -concedo-lhe que diga tudo, para me ouvir uma só palavra. - -A moça falára n'um tom secco e imperioso, em que mais dominava a -impaciencia do que a commiseração a que vinha de alludir. O coração de -Estevão batia-lhe como nunca,--como o coração costuma bater nas crises -de uma angustia suprema. Todo aquelle castello de vento, laboriosamente -construido nos seus dias de illusão, todo elle se esboroava e desfazia, -como vento que era. Estevão arrependera-se do impulso que o levára a -violar ainda uma vez o segredo dos seus sentimentos intimos, a abrir -mão de tantas esperanças, alimentadas com o melhor do seu sangue -juvenil. - -Alguns instantes decorreram em que nem um nem outro falou; ambos -pareciam medir-se, ella serena e quieta, elle tremulo e gelado. - ---Uma só palavra, repetiu Estevão, e essa adivinho que será de -desengano. Embora! Pois que me atrevi a dizer-lhe alguma cousa, força -é que lhe diga tudo,--feliz, se me restar, ao menos, a maior fortuna a -que já agora posso aspirar,--o seu remorso. - -Guiomar ouvira-o tranquillamente; a ultima palavra fel-a estremecer. -Sorriu, entretanto, de um sorriso um pouco voluntario e esperou. - -A narração foi longa, tanto quanto o permittiam a occasião, o logar -e a pessoa; durou apenas dez minutos. Estevão nada lhe escondeu, nem -o amor que lhe tivera out'rora, nem o que agora lhe renascia, mais -violento que o primeiro; disse-lhe as dores que curtira, as esperanças -que afinal lhe enfloravam a alma, tudo quanto emprehendêra para ler a -ventura de a contemplar de perto, de gozar naquelle escasso ponto da -terra a maior de todas as bem aventuranças. - -Tal é a transcripção, não litteral, mas fiel, do que disse Estevão -durante esse dez minutos. As palavras caíam-lhe tremulas e a voz -saía-lhe sumida, em parte por que elle forcejava em a abafar, afim -de que o não ouvissem, em parte porque a commoção lhe comprimia a -garganta. A dor era visivelmente sincera; a eloquência vinha do coração. - -Guiomar não ouvira tudo com a mesma expressão; a principio um meio riso -parecia desabrochar-lhe os labios, mas não tardou que pelo rosto abaixo -lhe caísse um veu mais compassivo e humano. Havia nella impaciencia e -anciedade de acabar, de sair dalli; era, sem duvida, o receio de que a -ausência se prolongasse de maneira que inspirasse suspeitas. Mas havia -também commiseração e piedade. - ---Nenhuma culpa lhe pode caber do mal que tenho padecido, disse Estevão -concluindo; sobretudo agora, só eu, só a minha cabeça é a causa unica -de tudo. Parecia-me ver o contrario do que existia; cheguei a suppor -que havia em seu coração alguma cousa que não era a total indifferença; -vejo que foi tudo illusão. - -O tom em que elle falára era o mesmo das palavras que ahi ficam, todas -humildes e resignadas, sem o menor laivo de queixa ou de reproche. Uma -submissão assim devia por força commover a uma mulher amada. Guiomar -falou-lhe sem azedume: - ---Era illusão, disse ella. O sentimento que me acaba de revellar -inteiro, ninguem o recebe ou nutre de vontade; a natureza o infunde ou -nega. Posso eu ter culpa disso? - ---Nenhuma. - ---Nem o senhor tambem, e espero que esta mutua justiça avigore o -sentimento de estima devemos ter um para com o outro. Mas estima -apenas, não póde haver outra cousa,--da minha parte ao menos. É pouco, -de certo... - ---Não é pouco, é cousa differente, interrompeu Estevão. - ---Mas não espere nada mais, concluiu Guiomar sem ouvir a interrupção. - -Estevão abriu a bocca para falar, mas não achou palavra que lhe -dissesse o que sentia; levou a mão ao coração, que batia fortemente, e -ficou a olhar para ella com os olhos seccos e parados, a voz extincta, -como se a alma lhe fugira toda. Era claro, depois daquelle desengano, -que lhe cumpria não voltar alli mais, pelo menos com a assiduidade da -esperança; e assim era que a unica e amarga satisfação de a ver, nem -essa já agora se lhe consentia. - ---Dou-lhe um conselho, disse Guiomar depois de alguns segundos de -pausa, seja homem, vença-se a si proprio; seu grande defeito é ter -ficado com a alma creança. - ---Talvez, respondeu o moço suspirando. - ---E adeus. Falamos a sós, mais do que convinha; não sei se outra -consentiria nisto. Mas eu não só reconheço os seus sentimentos de -respeito, como desejo que estas poucas palavras trocadas agora ponham -termo a aspirações impossiveis. - -Guiomar estendeu-lhe a mão, em que elle tocou levemente. - -A baroneza appareceu, entretanto, a algumas braças de distancia; vinha -encostada ao braço do sobrinho, que lhe falava, mas a quem ella já não -ouvia. Tinha os olhos cravados nos dous interlocutores de ha pouco. -A moça apenas vira de longe a madrinha, deu affoutamente o braço a -Estevão, e seguiram ambos a encontrar-se com ella; o rosto de Guiomar -não revelava nada; o de Estevão vinha perturbado e abatido. A baroneza -franziu a testa: - ---Jorge, disse ella em voz baixa, precisamos conversar. - - - - -IX - - -Conspiração. - - -A baroneza, quando se lhe approximaram os dous interlocutores da cerca, -mais receiosa ficou e mais perplexa. Guiomar vinha risonha e até -gracejadora; mas o abatimento de Estevão era tão mal disfarçado, que de -duas uma,--ou ella acabava de lhe dar o ultimo desengano,--ou aquillo -era apenas um arrufo serio, que o moço não podia ou não queria esconder -de olhos extranhos. Isto é o que a baroneza pensou. O que ella concluiu -foi que, em todo caso, urgia tentar alguma cousa em favor do maior,--do -unico senho da sua velhice. - -Jorge não percebeu a verdadeira razão porque a tia lhe dissera ser -necessário conversar com ella; imaginou que se trataria de Guiomar e -Estevão,--mas estava longe de suppor todo o alcance da entrevista. - -A entrevista não pode ser logo nesse dia; as visitas ficaram alli -até tarde, e a noite foi a mais agradavel e distrahida de todas as -noites; Guiomar, sobretudo, esteve como nunca, jovial e interessante. -A serenidade parecia morar-lhe na alma e reflectir-se-lhe no -rosto,--tantas vezes pensativo, mas agora tão frio e tão nú. - -Não será preciso dizer a um leitor arguto e de boa vontade... Oh! -sobretudo de boa vontade, porque é mister havel-a, e muita, para vir -até aqui, e seguir até o fim, uma historia, como esta, em que o autor -mais se occupa de desenhar um ou dous caracteres, e de expor alguns -sentimentos humanos, que de outra qualquer cousa, por que outra cousa -não se animaria a fazer;--não será preciso declarar ao leitor, dizia -eu, que toda aquella jovialidade de Guiomar eram punhaes que se lhe -cravavam no peito ao nosso Estevão. Elle não podia suppol-a abatida; -mas penalisada, ao menos, um pouco respeitosa para com a dor que havia -nelle, isto, sim, imaginava que sería. Mas nada disso foi, e o pobre -rapaz saiu dalli mais cedo do que pensára e quizera sair. - -Na alcova, se elle podesse vel-a mais tarde na alcova, solitaria -e toda comsigo, sentada na poltrona rasa ao lado da cama, com os -cabellos desfeitos, os pésinhos mettidos nas chinellas de setim preto, -as mãos no regaço e os olhos vagando de objecto em objecto, como se -reproduzissem fóra as attitudes interiores do pensamento, alli não -só elle a adoraria de joelhos, mas até poderia suppor que alguma -preoccupação lhe tirava o somno e que essa era nem mais nem menos elle -proprio. - -Talvez fosse; em parte ao menos seria elle. Guiomar não tinha um -coração tão mau, que lhe não doessem as maguas de um homem que -acertara ou desacertara de a amar. Mas fosse uma, ou fossem muitas as -causas daquella preoccupação, a verdade é que ella durou muito tempo. -Guiomar passou da poltrona á janella, que abriu toda, para contemplar -a noite,--o luar que batia nas aguas, o ceu sereno e eterno. Eterno, -sim, eterno, leitora minha, que é a mais dasconsoladora lição que nos -poderia dar Deus, no meio das nossas agitações, lutas, ancias, paixões -insaciáveis, dores de um dia, gozos de um instante, que se acabam e -passam comnosco, debaixo daquella azul eternidade, impassivel e muda -como a morte. - -Pensaria nisto Guiomar? Não, não pensou nisto um minuto sequer; ella -era toda da vida e do mundo, desabrochava agora o coração, vivia -em plena aurora. Que lhe importava,--ou quem lhe chegara a fazer -comprehender esta philosophia secca e arida? Ella vivia do presente -e do futuro e,--tamanho era o seu futuro, quero dizer as ambições -que lh'o enchiam,--tamanho, que bastava a occupar-lhe o pensamento, -ainda que o presente nada mais lhe dera. Do passado nada queria saber; -provavelmente havia-o esquecido. - -A madrugada achou-a dormindo; mas os primeiros raios do sol vieram -accordal-a, na fórma do costume, para o matinal passeio com a madrinha. -Guiomar sacrificava tudo á dedicação filial de que ja dera tantas -provas. A baroneza, entretanto, estava preoccupada; o passeio foi -differente do dos outros dias. - -Ao meio-dia metteu-se Guiomar no carro, com Mrs. Oswald, e sairam a -uma visita. A baroneza ficou só; Jorge não a deixou ficar só por muito -tempo, porque chegou dahi a pouco. - -A baroneza não perdeu tempo em circunloquios. Apenas viu o sobrinho -interpellou-o directamente: - ---Disseram-me, foi Mrs. Oswald quem me disse que tu gostas de Guiomar. - -Jorge não contava muito com semelhante interrogação; todavia, não era -tão ingenuo que corasse, nem tão apaixonado que lhe tremesse a voz. -Puchou gravemente os punhos da camisa, concertou a gravata, e respondeu -singellamente: - ---Não me atrevia a falar-lhe destas cousas... - ---Porque não?--interrompeu a baroneza; são assumptos que se podem -tratar entre mim e ti, sem desar para nemhum de nós. É então verdade o -que me disse Mrs. Oswald? - ---É. - ---Amas deveras, ou... - ---Deveras. Recuaria, se visse que uma alliança entre nós ficava mal ao -lustre de nossa familia; mas, posto que ella seja... - ---Guiomar é minha filha, apressou-se a dizer a baroneza. - ---Justamente; não pode haver melhor titulo. - ---Tem ainda outro, continuou a baroneza; é uma alma angélica e pura. -Henriqueta não teve melhor coração nem mais amor aos seus. Além disso, -a natureza deu-lhe um espirito superior, de maneira que a fortuna não -fez mais do que emendar o equivoco do nascimento. Finalmente é de uma -belleza pouco commum... - ---Rara, titia, póde dizer que é de uma belleza rara, acudiu Jorge, -e pela primeira vez lhe luziu nos olhos alguma cousa, que não era a -gravidade de costume. - ---Já vês, proseguiu a baroneza, que ella possue todos os direitos ao -amor e á mão de um homem, como tu. - -A baroneza tinha um coração ingenuo e lizo, sem desvios nem astucias; -comtudo, ha occasiões em que o mais recto espirito emprega, como por -instincto, finuras diplomaticas. A boa senhora tinha tanto a peito -aquella união do sobrinho com a afilhada, que não confiava só do amor; -procurava interessar-lhe tambem o amor proprio. - -Jorge curvou-se com affectada modestia. - ---Um homem, como eu,--disse elle--vale pouco por si mesmo; o valor que -tenho, e esse é muito, vem do nome de meus pais e do seu, titia, e das -santas qualidades que a adornam... - ---Só uma, Jorge, só uma qualidade santissima: é a de amal-os, a ti e -a ella. Por isso foi immenso o gôsto que senti quando Mrs. Oswald me -disse que gostavas de Guiomar. Acredita que se eu tivesse a fortuna de -ver a vocês unidos e felizes, morreria contente. - ---Oh! isso! disse Jorge com ar de duvida. - ---Julgas impossivel o casamento? - ---Impossivel, não; impossivel, nada ha. Mas... mas supponho que a -vontade della é indispensavel, tão indispensavel como duvidosa. - ---Duvidosa! Estás certo disso? - -Jorge tinha-se levantado e dera alguns passos, não agitado de todo, -mas um pouco fóra da impassibilidade usual. A ideia do casamento -apparecia-lhe agora um pouco mais possivel e exequivel, desde que a tia -francamente lhe propuzesse alliança. - ---Estás certo disso? repetiu a baroneza. - ---Certo não; mas ha toda a razão para a duvida. Guiomar sabe que eu -gósto della; e comtudo não me dá o menor signal de corresponder aos -meus sentimentos. - -Jorge expos longamente todas as razões que tinha para crer que a -vontade de Guiomar não correspondia á delle; referiu-lhe, com a maior -exacção e fidelidade, uns tres on quatro episodios que lhe pareciam boa -prova daquillo que dizia. A baroneza não ouvia tudo com egual attenção. -Quando elle acabou: - ---Guiomar será muito vexada,--disse ella--e ás vezes, e por isso mesmo, -tem essas apparencias frias. Nada impede, porém, a que venha a amar-te, -se é que ja te não ama. Ha nella certa altivez natural, que póde -explicar também essa frieza; parece-me que lhe seria penoso receber o -amor de alguem que julgasse levantal-a até si. - ---Isso, talvez... - ---Mas esse sentimento, que póde ser e é honroso, não é de certo -invencivel. - -Todas estas palavras da baroneza lisonjeavam o sobrinho, em cujos -labios pairava agora um sorriso de íntima satisfação. De quando em -quando não ouvia elle nada do que lhe dizia a tia; seus ouvidos -voltavam-se para dentro; elle escutava-se a si proprio. O amor de -Guiomar começava a parecer-lhe possivel; tudo quanto a baroneza lhe -dizia era razoavel, com a vantagem de lhe esclarecer as faces obscuras -da situação. Demais, até que ponto a baroneza conjecturava ou revelava? -Bem podia ser que ella tivesse lido mais fundo no coração da moça. - -Estas reflexões fel-as Jorge, em quanto a baroneza continuava a falar e -a desenvolver a ideia que ultimamente indicara. Até aquelle dia havia -elle limitado toda a sua acção a alguns olhares, e raras palavras de -comprimento; a entrevista com a tia dera-lhe animação; pareceu-lhe -chegado o ensejo de sair daquella paz armada. - -Guiomar chegou d'ahi a pouco e achou-os na «saleta de trabalho,» -euphemismo elegante, que queria dizer litteralmente--saleta de -conversação entremeada de _crochet._ Mrs. Oswald vinha com ella; ambas -riam alegremente de não sei que episodio visto no caminho. Jorge -erguera-se, pausado mas risonho, apertou a mão de Guiomar,--apertou-a -deveras, mais do que era usual e cortez. Guiomar não pareceu -afligir-se; perguntou-lhe pela saude, transmittiu á madrinha as -lembranças que lhe mandavam e dispoz-se a sair. - -Durante esse tempo, Jorge olhava para ella, enlevado deveras na -contemplação de toda aquella nobre figura, agora mais bella que -d'antes, desde que se lhe tornara possivel a alliança ha muito sonhada. -Havia nos olhos de Jorge uns taes ou quaes vestigios lubricos, donde -se podia colher que, se elle fosse poeta, e poeta arcadico, editaria -pela millionesima vez a comparação da Venus e dos seus seus infalliveis -amorinhos; comparação detestavel, sobretudo, porque a casta belleza de -moça, se alguma cousa pagã lhe podia ser chamada, seria antes Diana -convertida ao Evangelho. - -Jorge saiu dalli singularmente agitado; a conversa da baroneza dera-lhe -nervo e resolução, e o quadro do casamento começou a desenhar-se-lhe no -espirito, como o relogio que o menino tem de usar pela primeira vez. -Até alli deixara-se elle ir á feição das aguas; agora via a necessidade -e a possibilidade de abicar á riba feliz do matrimonio. - -As duvidas de Estevão não lhe saltearam o espirito; apenas chegou a -casa travou da penna, e lançou na folha branca e lustrosa de seu papel -uma confissão elegante e polida, que todavia refundiu duas ou tres -vezes, primeiro que a désse por prompta. Acabada a redacção final, -transcreveu aquella prosa do coração na mais nitida folha que havia em -casa,--dobrou o metteu-o na algibeira. - -De noite foi á casa da tia. Achou as senhoras á volta de uma meza; -Guiomar lia, para a madrinha ouvir, um romance francez, recentemente -publicado em Paris e trazido pelo ultimo paquete. Mrs. Oswald lia -tambem, mas para si, um grosso volume de Sir Walter Scott, edição -Constable, de Edimburgo. - -Jorge veiu interrompel-as um pouco, mas só interromper, porque a -leitura continuou logo depois, ajudando elle proprio a Guiomar naquella -filial tarefa. Veiu o chá, veiu depois a hora de recolher, e a baroneza -deu por findo o serão, ainda que o livro estava quasi findo. - ---Um capitulo mais, aventurou Jorge com o livro aberto nas mãos. - -A baroneza sorriu e voltou os olhos para Guiomar, a cuja conta lançou -aquella dedicação do sobrinho; recusou comtudo, por estar a cair de -somno. - ---Eu é que não me deito sem saber o resto, declarou Guiomar; levo o -livro commigo. - ---Ah! disse Jorge com um gesto de satisfação. - -E emquanto Guiomar se dispunha a acompanhar a madrinha até á porta do -quarto, e Mrs. Oswald marcava a pagina e fechava o seu livro, Jorge -egualmente fechava o outro, mas com tal demora e cuidado, que deu muito -que entender á ingleza. Se ella chegou entender, vel-o-hemos depois; -o certo é que o livro foi emfim entregue a Guiomar, tendo a pagina -marcada, não com a fita que lá estava pendente, mas com um pedacinho de -papel. - -O pedacinho de papel era a carta; apenas uns poucos centímetros de -altura; mas por mais exiguas que tivesse as dimensões, bem podia ser -que levasse alli dentro nada menos que uma tempestade próxima. - - - - -X - - -A revelação. - - -Meia hora depois, indo a abrir o livro para continuar a leitura, viu -Guiomar a cartinha de Jorge. Não tinha sobrecarta; era um simples -papelinho dobrado, rescendendo a amores. O espirito de Guiomar estava -tão longe d'aquillo que não suspeitou nada e distrahidamente o abriu. A -primeira palavra escripta era o seu nome; a ultima era o de Jorge. - -O primeiro gesto de Guiomar foi de colera. Se elle pudesse espreita-la -pelo buraco da fechadura, e ver-lhe a expressão do rosto, é mui -provavel que se lhe convertesse em aborrecimento todo o amor que até -agora nutria. Mas elle não estava alli, a moça podia traduzir fielmente -no rosto os movimentos do coração. - ---Mais um, pensou ella; este porém... - -E desta vez o gesto não foi de colera, foi de alguma cousa mais, metade -fastio, metade lastima, mescla difficil e rara. - -A moça ficou algum tempo quieta, a olhar para o papel, sem o querer -ler, como a hesitar entre queimal-o ou restitui-lo intacto a seu autor. -Mas a curiosidade venceu por fim; Guiomar abriu o papel e leu estas -linhas: - -«Guiomar! Perdoe-me se lhe chamo assim; as convenções sociaes -condemnam-me de certo, mas o coração approva, que digo? elle mesmo -escreve estas letras. Não é a minha penna, não são os meus labios que -lhe falam deste modo, são todas as forças vivas da minha existencia, -que em alta voz proclamam o immenso e profundo amor que lhe tenho. - -«Antes de o ler neste papel, já a senhora o hade ter visto, pelo menos -adivinhado nos meus olhos, na doce embriaguez que em mim produz a -presença dos seus. Persuado-me de que todo o meu esforço em recalcar -este affecto é vão; por mais que eu sinceramente deseje esquecel-a, -não o alcançarei nunca; não alcançarei mais que uma afflição nova. O -remorso de o tentar virá coroar os demais infortunios. - -«Porque razão rompo hoje o silencio em que me tenho conservado, medroso -e respeitoso silencio que, se me não abre a caminho da gloria, ao menos -conserva-me a palma da esperança? Nem eu mesmo saberia responder-lhe; -falo, porque uma força interior me manda falar, como trasborda o rio, -como se derrama a luz; falo porque morreria talvez se me calasse, do -mesmo modo que morrerei de desespero, se além do perdão que lhe peço, -ma não der uma esperança mais segura do que esta, que me faz viver e -consumir.--Jorge.» - -Guiomar leu esta carta duas vezes, uma leitura de curiosidade, outra -de analyse e reflexão, e ao cabo da segunda achava-se tão fria como -antes da primeira. Olhou algum tempo para o papel e mentalmente para o -homem que o havia escripto; emfim, poz a carta de lado, abriu o livro e -continuou o romance. - -Mas o espirito, que não ficara tão indifferente como o coração, entrou -a fugir-lhe do romance para a vida com tal tenacidade que não houve -remedio senão irem os olhos atraz delle, e a moça de novo mergulhou nas -reflexões que lhe suggeria o caso da paixão de Jorge. - -Paixão não era,--não o seria ao menos no sentido inteiro do vocabulo; -mas alguma cousa menos, ou parecida com ella, e ainda assim verdadeira, -via bem Guiomar que o poderia ser. Até que ponto chegaria entretanto, -o seu adorador, se ella o desattendesse logo; e, dado o amor que a -baroneza tinha ao sobrinho, até que ponto a recusa iria magoal-a? -Guiomar varreu do espirito os receios que lhe nasciam de taes -interrogações; mas sentiu-os primeiro, pezou-os antes de os arredar de -si, o que revelará ao leitor em que proporção estavam nella combinados -o sentimento e a razão, as tendencias da alma e os calculos da vida. - -Excluido o receio, voltou-lhe o riso, aquelle riso interior, que é o -mais involuntario e cruel, e tambem o menos arriscado que a gente póde -dar ás fatuidades humanas. Não podia ser tão despresivel assim o amor -de um homem, cuja ridiculez compensavam algumas qualidades boas, e que -emfim era tambem distincto, ainda que a sua distincção primasse antes -por um estylo rendilhado e complicado, que não é o melhor. Guiomar via -tudo isso, e por outro lado, não podia obstar que elle a amasse; nem -por isso achava menos temeraria aquella confissão. - -A moça reflectia tambem na posição especial que tinha naquella casa -o sobrinho da baroneza; via-se obrigada á presença delle, e talvez -á luta, porque o pretendente não recuaria do primeiro golpe. Não -havia taes receios da parte de Estevão; ella reconhecia que a paixão -deste era ardente e profunda, e por isso mais capaz de desatinos; mas -comparava as indoles dos dous homens, e se ambos lhe pareciam de fraca -compleixão moral, nem por isso desconhecia que ao bacharel faltava -certa presumpção que distinguia o outro, e com a qual teria talvez de -pelejar. - -Quando ella fez esta comparação entre os dous homens, ficaram-lhe os -olhos um pouco mais molles e quebrados, obra de tres minutos apenas, -mas tres minutos que, se Estevão soubera delles, trocaria por elles -o resto de toda a vida. E comtudo, não era amor nem saudade; alguma -sympathia, sim, ainda que leve e sem consequencia; mas sobretudo era -pena de o não poder amar,--ou ainda melhor--era lastima de que tal -coração não fora casado a outro espirito. - -Guiomar reflectiu ainda muito e muito, e não reflectiu só, devaneou -também, soltando o panno todo a essa veleira escuna da imaginação, em -que todos navegamos alguma vez na vida, quando nos cança a terra firme -e dura, e chama-nos o mar vasto e sem praias. A imaginação della porém -não era doentia, nem romantica, nem piegas, nem lhe dava para ir colher -flores em regiões selvaticas ou adormecer á beira de lagos azues. Nada -disso era nem fazia; e por mais longe que velejasse levaria entranhadas -na alma as lembranças da terra. - -Volveu emfim e olhos cairam-lhe na carta. A realidade presente não se -lhe podia mostrar de peor modo. Guiomar ergueu-se irritada, lançou mão -do papel e machucou-o febrilmente; ia talvez rasgal-o, quando ouviu -bater de manso á porta. - ---Quem é? perguntou. - ---Sou eu, respondeu a voz de Mrs. Oswald. - -A moça foi abrir a porta; a ingleza entrou, trajada de dormir, e um -vivo espanto nos olhos, que pareceu tirar-lhe a voz durante alguns -segundos. Guiomar assustada perguntou: - ---Que é? aconteceu alguma cousa a minha madrinha? - ---Longe vá o agouro! exclamou a ingleza. Não lhe aconteceu nada; a -senhora baroneza dorme naturalmente a somno solto. Venho porque do meu -quarto pareceu-me ouvir rumor de passos aqui, e depois vi luz. Pensei -que tivesse algum incommodo. Mas, pelo que vejo, continuou a ingleza -deitando os olhos para a mezinha em que pousava o livro aberto,--pelo -que vejo ainda não acabou de ler o seu romance... - ---Não li ainda uma linha, depois que me recolhi, respondeu Guiomar -cravando os olhos no rosto da ingleza, como tomada de um pensamento -subito. - ---Deveras! - ---Li outra cousa, continuou a moça; li este papel. - -Mrs. Oswald inclinou-se para ler também o papel, que aliás adivinhou -qual fosse; Guiomar atirou-o sobre a mesa. - ---Não precisa, disse ella; é uma declaração amorosa. - ---De quem? perguntou a ingleza abrindo uns olhos espantados e -obedientes. - ---Leia o nome. - -Mrs. Oswald leu a assignatura da carta, que a moça do novo lhe -apresentava. - ---Naturalmente, continuou Guiomar, ha nisto obra sua... - ---Minha! interrompeu a outra um pouco mais rispidamente do que -costumava falar. - -Guiomar tinha ido sentar-se; o pésinho impaciente batia no tapete, com -um movimento rapido e regular; cruzára os braços sobre o peito, fitando -a ingleza com uns olhos em que se podia ler a viva exacerbação do -espirito. Seguiu-se curto silencio; Mrs. Oswald puxou outra cadeira e -sentou-se perto da moça. - ---Por que ha de ser injusta commigo? disse ella dando á voz um tom -mellifluo e supplicante; porque não ha de ver as cousas, como ellas -naturalmente são? O que ha nisto é uma coincidencia curiosa, mas nada -mais. Se lhe falei em semelhante cousa algumas vezes, foi porque eu -mesma percebi o amor que lhe tem o Sr. Jorge; é cousa que todos veem. -Imaginei que o casamento, neste caso, seria agradavel á Sra. baroneza a -quem sou grata. Posso ter feito mal... - ---Muito mal, interrompeu Guiomar; são cousas de familia em que a -senhora nada tem que ver. - -Guiomar levantou-se outra vez, deu alguns, passos, e voltou a -sentar-se. Com o movimento desprenderam-se-lhe os cabellos e cairam-lhe -sobre os hombros. Mrs. Oswald approximou-se della para os colher e -atar, mas a moça seccamente a repelliu: - ---Deixe, deixe... - -E ella mesma os recompoz com as suas mãosinhas finas, e ficou depois -a olhar para o chão, a morder o labio, a respirar fortemente, como se -contivera a palavra que forcejava por sair impetuosa e colerica. Mrs. -Oswald não disse nada durante alguns minutos; esperou que passasse o -periodo agudo da irritação. Quando lhe pareceu que ella afrouxava, -rompeu emfim o silencio. - ---Fiz mal, fiz não ha duvida, mas a intenção não podia ser melhor. -Talvez não me creia; paciencia! O que lhe peço,--nem lhe peço,--o que -eu acredito piamente é que não me hade attribuir algum interesse de -ordem... - -Mrs. Oswald fez uma pausa para dar aberta ao protesto de Guiomar, -mas Guiomar não protestou, quero dizer não protestou de viva voz; -fez apenas um gesto negativo, bastante a satisfazer os melindres -da ingleza. A moça foi sincera; não attribuia realmente a nenhum -interesse vil,--pecuniario,--a acção de Mrs. Oswald. Nem por isso a -absolvia,--não só porque ella viria concorrer talvez para uma crise -penosa, mas também,--bom é notal-o outra vez,--porque a condição da -ingleza naquella casa era relativamente inferior. - -A ingleza continuou a falar em defeza propria, a justificar miudamente -os bons sentimentos do coração, e a prometter que deixava por mão todo -aquelle negocio, a seu juizo, o melhor que a moça podia fazer. - ---A experiencia da vida, concluiu ella, devia ter-me convencido de que -o melhor de todos os sentimentos é um egoismo quieto e calado. - -Em quanto ella falava assim, Guiomar parecia volver a tranquilidade -habitual. A mudança foi,--não súbita,--mas um pouco mais rapida do -que devera ser, tratando-se de um espirito, como o della, em que as -impressões não eram superficiaes nem momentaneas. Havia até uns toques -de affabilidade no rosto e na voz, quando ella começou, a falar, o que -revelaria talvez ser aquella mudança muito voluntaria e meditada. - ---Está bom, Mrs. Oswald, o que passou, passou. Sinto que as cousas -chegassem a este ponto, e que elle se lembrasse de escrever semelhante -carta, confessando uma paixão que acredito sincera, mas a que o meu -coração não póde corresponder. Amores não se encommendam como vestidos: -sobretudo não se fingem, ou não se devem fingir nunca. - ---Oh! decerto! - ---Eu gosto delle, como parente que é de minha madrinha, e também por -que ella lhe tem affeição de mãe, como a mim; somos uma especie de -irmãos, nada mais. - ---Tem muita razão, assentiu Mrs. Oswald. A senhora pensa e fala como um -doutor. Que se lhe ha de fazer? Quem não ama não ama. Delle é que eu -tenho pena! - ---Gosta muito de mim, não? perguntou Guiomar fitando os olhos na -ingleza. - ---Oh! parece que sim! A senhora deve sabel-o tanto como eu; eu sei o -que tenho visto, e creio que é muito. - ---Eu nunca vi nada, respondeu seccamente Guiomar. - -A resposta de Mrs. Oswald foi um sorriso de incredulidade, que a outra -não viu ou não quiz ver. Houve uma pausa; Guiomar continuou nestes -termos: - ---Mas seja como for, a minha resposta é negativa. Estou que elle não me -fará a injuria de querer casar commigo, sem que eu o ame... - -Guiomar parou, como a esperar, que a outra lhe dissesse alguma cousa. -Desta vez coube a Mrs. Oswald não responder nada, nem com a voz nem com -o gesto. A moça inclinou o corpo poz os braços sobre os joelhos, com os -dedos cruzados, e entre um riso amavel e um olhar affectuoso, continuou: - ---A senhora podia, se acaso elle alguma vez lhe falou nisso ou vier a -falar-lhe, podia dissuadi-lo de taes ideias, dizendo-lhe simplesmente, -a verdade e dando-lhe conselhos, os conselhos que a senhora hade saber -dar, e que elle aceitará de certo, porque é um bom coração, um caracter -estimavel... - ---Oh! excellente! um moço excellente! - -E as duas ficaram a olhar uma para a outra, Guiomar a sorrir, mas de um -sorriso, que era uma contracção voluntaria dos musculos, e a ingleza a -fazer um rosto de piedade, e adoração, e pena, e muita cousa junta, que -a moça só começou a comprehender, quando ella rompeu o silencio deste -modo: - ---Estou a duvidar se devo dizer-lhe o resto. - ---O resto? perguntou Guiomar admirada. Pois que ha mais? - -A ingleza approximou a cadeira. Guiomar endireitou o busto e esperou -anciosa a revelação,--se revelação era,--que lhe ia fazer Mrs. Oswald. -Esta não falou logo; era razoavel hesitar um pouco, lutar comsigo -mesma, antes de dizer alguma cousa. Emfim, com um movimento de quem -ajunta as forças todas e as emprega em cousa superior á coragem usual: - ---D. Guiomar, disse ella, pegando-lhe nas mãos, ninguem póde exigir que -se case sem amar o noivo; seria na verdade uma affronta. Mas o que lhe -digo é que o amor que não existe por ora, póde vir mais tarde, e se -vier, e se viesse seria uma grande fortuna... - ---Mas acabe, acabe, interrompeu a moça com impaciencia. - ---Seria uma grande fortuna para a senhora, para elle, ouso dizer que -para mim, que os estimo e adoro, mas sobretudo para a Sra. baroneza. - ---Como assim? disse Guiomar. - ---Oh! para elle seria a maior fortuna da vida, porque é hoje o seu -mais entranhado e vivo desejo, o seu desejo verdadeiramente da alma. A -senhora... - ---Está certa disso? - ---Certissima. - ---Não creio, não vejo nada que... - ---Creia, deve crer. Se me promette nada dizer desta nossa conversa, nem -fazer suspeitar por nenhum modo o que lhe estou contando... - ---Fale. - ---Pois bem,--continuou Mrs. Oswald abaixando a voz, como se alguem -podesse ouvil-a na solidão daquella alcova, e no silencio, profundo -daquella casa, que toda dormia,--pois bem, eu lhe direi que por ella -mesma tive noticia deste seu desejo. Quando eu percebi a paixão do Sr. -Jorge, falei nisso a sua madrinha, gracejando na intimidade que ella -me permitte, e a senhora baroneza em vez de sorrir, como eu esperava -que fizesse, ficou algum tempo pensativa e séria, até que rompeu nestas -palavras: «Oh! se Guiomar gostasse delle e viessem a casar-se, eu seria -completamente feliz. Não tenho hoje outra ambição na terra. Ha de ser a -minha campanha.» - ---Minha madrinha disse isso? perguntou Guiomar. - ---Tal qual. A resposta que lhe dei foi que o casamento não era -impossivel, e que nada mais natural do que virem a amar-se duas pessoas -a principio indifferentes. O amor nasce muita vez do costume. - -Guiomar já mal ouvia o que lhe estava dizendo a ingleza; se ainda -olhava para ella, era com os olhos indecisos e empanados, de quem vae -toda absorvida em pensamentos intimos. - ---Foi desde esse dia, continuou Mrs. Oswald, que me pareceu conveniente -falar-lhe algumas vezes nisso, sondar-lhe o coração, ver se elle -favorecia o sonho de sua madrinha, tornando feliz toda esta casa... -Fiz mal, convenho; mas a intenção era a mais respeitavel e santa deste -mundo. - ---De certo, murmurou Guiomar. - -Mrs. Oswald pegou-lhe n'uma das mãos e beijou-a affectuosamente. -Guiomar não a repelliu nem sequer pareceu dar-se-lhe da ternura da -ingleza. As duas olharam-se uns breves minutos, sem dizer nada, como a -lerem na alma uma da outra. - -Guiomar não tinha a experiencia nem a edade da ingleza, que podia ser -sua mãe; mas a experiencia e a edade eram substituidas, como sabe o -leitor, por um grande tino e sagacidade naturaes. Ha creaturas que -chegam aos cincoenta annos sem nunca passar dos quinze, tão simplices, -tão cegas, tão verdes as compõe a natureza; para essas o crepusculo -é o prolongamento da aurora. Outras não; amadurecem na sazão das -flores; vem ao mundo com a ruga da reflexão no espirito,--embora, sem -prejuiso do sentimento, que nellas vive e influe, mas não domina. -Nestas o coração nasce enfreiado; trota largo, vae a passo ou galopa, -como coração que é, mas não dispara nunca, não se perde nem perde o -cavalleiro. - -O que a afilhada da baroneza buscava ler no rosto de Mrs. Oswald era se -effectivamente a madrinha nutria aquelle desejo, ou se tal revelação -não era mais do que um embuste. O leitor sabe que era verdadeira; mas -admittirá, sem duvida, que a moça só depois de muito interrogar e -examinar lhe désse fé. Creu emfim; creu, porque era verosimil, creu -porque a ingleza não se arriscaria a qualquer indiscrição da parle -della, que de todo a desmascararia. - ---Parece-me, disse Mrs. Oswald, que não fiz mal em lhe dizer tudo o que -sabia. Conselhos não lhe dou nenhuns; o melhor delles não vale a voz -do proprio coração. O seu é puro e recto; consulte-o de boa vontade, e -verá se ha nelle indifferenca, ou se alguma faisca... - ---Eu sei! interrompeu Guiomar. Não me lembrou consultal-o nunca. - ---Faz mal, elle é o relogio da vida. Quem o não consulta, anda -naturalmente fóra do tempo. Mas que vejo! continuou Mrs. Oswald -deitando os olhos para o reloginho de Guiomar. Naquelle outro relogio -faltam dez minutos para uma hora! Uma hora! Que diria a Sra. baroneza -se soubesse que ainda estamos aqui de conversa! Retiro-me; Deus lhe -dê um somno socegado, e sobretudo a faça feliz, como merece. Não lhe -recommendo juizo, porque o tem de sobra. Adeus, até amanhã. - -E Mrs. Oswald sahiu pé ante pé em direcção ao seu quarto. - -Guiomar ficou só, alli sentada ao pé da cama, a ouvir o passo surdo, -e cautelloso da ingleza. Quando o som morreu de todo, e o silencio da -noite volveu ao que era, profundo e sepulchral, a moça deixou cair os -braços na cama, e a cabeça nas mãos, e um suspiro desentranhou-se-lhe -do peito, longo, ruidoso, magoado,--o primeiro que o leitor lhe ouve -desde que a conhece--e emfim estas palavras arrancadas da alma, tão -doloridas,--ia dizer tão lacrimosas,--vinham ellas: - ---Oh meus sonhos! meus sonhos! - -Não chorou; a alma della era das que não tem lagrimas, em quanto -lhe restam forças. Os olhos estavam seccos e firmes quando ella os -ergueu das mãos; o resto tinha vestigios do abalo, mas não havia nelle -desanimo, menos ainda desespero. - - - - -XI - - -Luiz Alves. - - -Durante uma inteira e comprida semana, deixou Estevão de apparecer no -escriptorio onde trabalhava com Luiz Alves; não appareceu tambem em -Botafogo. Ninguem o viu em todo esse tempo nos logares onde elle era -mais ou menos assiduo. Foram seis dias, não digo de reclusão absoluta, -mas de completa solidão, porque ainda nas poucas vezes que saiu, fel-o -sempre a horas ou em direcções que a ninguem via, e de ninguem era -visto. - -Mas não fôra essa crua e malfadada crise, e é quasi certo que elle -metteria uma lança na Africa daquelles dias, que era um ponto muito -serio e grave, a questão magna da rua do Ouvidor e da casa do José -Thomaz, a ponderosa, crespa e complicada questão de saber se a -Stephanoni estrearia no _Ernani._ Esta questão, de que o leitor se -ri hoje, como se hão de rir os seus sobrinhos de outras analogas -puerilidades, esta pretenção a que se oppunha a Lagrua, allegando que -o _Ernani_ era seu, pretenção que fazia gemer as almas e os prelos -daquelle tempo, era cousa muito propria a espertar os brios do nosso -Estevão, tão marechal nas cousas minimas, como recruta nas cousas -maximas. - -Infelizmente elle não apparecia, não sabia sequer do conflicto e do -debate, occupado como estava em travar o aspero e sangrento duelo do -homem contra si mesmo, quando lhe falta o apoio, ou a consolação dos -outros homens. Todo elle era Guiomar; Guiomar era o primeiro e o ultimo -pensamento de cada dia. A sombra da moça vivia ao pé delle e dentro -delle, no livro em que lia, na rua solitaria onde acaso transitava, nos -sonhos da noite, nas estrellas do ceu, nas poucas flores de seu inculto -jardim. - -Um leitor perspicaz, como eu supponho que hade ser o leitor deste -livro, dispensa que eu lhe conte os muitos planos que elle teceu, -diversos e contradictorios, como é de razão em analogas situações. -Apenas direi por alto que elle pensou tres vezes em morrer, duas em -fugir á cidade, quatro em ir affogar a sua dor mortal naquelle ainda -mais mortal pantano de corrupção em que apodrece e morre tantas vezes -a flor da mocidade. Em tudo isto era o seu espirito apenas um joguete -de sensações continuas e variadas. A força, a permanencia do affecto -não lhe bastava a dar seguimento e realidade ás concepções vagas de seu -cerebro,--enfermo, ainda quando estava de saude. - -A ideia do suicidio fincou-se-lhe mais a dentro no espirito, certa -tarde em que elle saiu a espairecer, e viu um enterro que passava, -caminho do Cajú. O prestito era triste,--ainda mais triste pela -indifferença que se lia no rosto dos que iam piedosamente acompanhando -o morto. Estevão descobriu-se e sinceramente desejou ir alli dentro, -mettido naquellas estreitas tabuas de pinho, com todas as suas dores, -paixões e esperanças. - ---Não tenho outro recurso, pensou elle; é necessario que morra. É uma -dôr só, e é a liberdade. - -Ao voltar para casa, uma creança que brincava na rua, em camisa, com os -pés na agua barrenta da sargeta, fel-o parar alguns instantes, invejoso -daquella boa fortuna da infancia, que ri com os pés no charco. Mas a -inveja da morte e a inveja da innocencia foram ainda substituidas pela -inveja da felicidade, quando ao recolher-se viu as janellas abertas de -uma casa visinha, e a sala illuminada, e uma noiva coroada de flores -de laranjeira, a sorrir para o noivo, que sorria igualmente para ella, -ambos com o sorriso indefinivel e unico da occasião. - -Os cinco dias correram-lhe assim, travados de enojo, de desespero, de -lagrimas, de reflexões amargas, de suspiros inuteis, até que raiou a -aurora do sexto dia, e com ella,--ou pouco depois della, uma carta de -Botafogo. Estevão quando viu o creado da baroneza, á porta da saia, -com uma carta na mão, sentiu tamanho alvorôço, que não ouviu nada -do que elle lhe disse. Supporia que a carta era de Guiomar? Talvez; -mas a illusão durou os poucos instantes que elle gastou em romper a -sobrecarta e desdobrar a folha de papel que vinha dentro. - -A carta era da baroneza. - -A baroneza perguntava-lhe graciosamente se elle havia morrido, e pedia -que fosse falar-lhe ácerca da demanda que ella trazia. Estevão chegara -já ao estado de só esperar um pretexto para transigir comsigo mesmo; -não podia havel-o melhor. Escreveu rapidamente duas linhas de resposta, -e á uma hora da tarde apeava-se de um tilbury á porta da funesta e -deliciosa casa, onde havia passado as melhores e as peores horas da -vida. - ---Sabe porque razão lhe dei este incommodo, além do prazer que tinha em -vel-o? perguntou a baroneza logo depois dos primeiros comprimentos. - ---Disse-me que era por causa da demanda... - ---Sim, precisamos assentar algumas cousas, antes da nossa partida. - ---V. Ex. sae da côrte? - ---Vamos para o roça. - -Estevão empallideceu. Na situação delle, aquella viagem era a melhor -cousa que lhe podia acontecer; comtudo, fez-lhe mal a noticia. A -conversa que se seguiu foi toda sobre o assumpto forense, e durou uma -longa hora, sem que apparecesse Guiomar. Ao despedir-se atreveu-se -Estevão a perguntar por ella. - ---Anda passeando, respondeu a baroneza. - -Estevão despediu-se da constituinte, que o acompanhou até á porta da -sala, repetindo-lhe algumas recommendações, que o advogado mal pôde -ouvir e absolutamente lhe não ficaram de memoria. - -A esperança de ver a moça levara-o, mais que tudo, áquella casa; saía -sem ter o gosto de a contemplar ainda uma vez; mais do que isso, -ameaçado de a não ver tão cedo, ou quem sabe se nunca mais. Ia elle -a reflectir nisto e a approximar-se da porta, onde parava ao mesmo -tempo um carro. Estevão estremeceu naturalmente, ante de ver quem ia -apear-se; grudou-se ao portal, com os olhos fitos na portinhola, que um -lacaio abria apressadamente. - -A primeira figura que desceu foi a nossa conhecida Mrs. Oswald, que o -fez, sem dar tempo a que Estevão lhe offerecesse a mão. O bacharel, -desde que a vira, approximara-se rapidamente da portinhola. - -Guiomar desceu logo depois. A mão apertada na luva côr de perola pousou -levemente na mão de Estevão que estremeceu todo. A moça fez-lhe um -comprimento risonho, murmurou um agradecimento e recolheu-se com a -ingleza. Era pouco; mas esse pouco alvoroçou o bacharel, que enfiou -d'alli para a cidade, em direcção ao escriptorio. - -Luiz Alves admirou-se de o ver; não foi com um espanto de seis dias, -como devera ser, mas de quarenta e oito horas, quando muito. Que -admira? A preocupação de Luiz Alves por aquelles dias era a candidatura -eleitoral; a boa nova devia chegar-lhe na primeira mala do norte. Ora, -em boa razão, um homem que está prestes a ser inscripto nas tabuas do -parlamento, não póde cogitar muito dos amores de um rapaz, ainda que o -rapaz seja amigo e os amores verdadeiros. - -Estevão não perdeu tempo em circumloquios; foi entrando e entornando a -alma toda, afflicta e consolada a um tempo, no seio do velho amigo e -companheiro. A cada trecho da confissão plena que elle alli lhe fez, -respondia um commento, ora serio, ora gracioso de Luiz Alves. Quando -Estevão porém lhe deu noticia de que a familia da baroneza ia para a -roça, Luiz Alves recolheu o meio-riso que lhe pousava nos labios desde -começo, e com a mais subita e sincera admiração exclamou: - ---Para a roça! - ---Disse-o agora mesmo a baroneza. - ---Mas... - -Luiz Alves não acabou; olhou ainda meio duvidoso para Estevão, e ficou -algum tempo calado, a coçar o queixo com a faca de marfim e a olhar -para uma gravura que pendia na parede fronteira. - ---Na situação em que estou, continuou Estevão, has de dizer que a -viagem é uma felicidade para mim. Pois não é; não admitto a viagem. Se -ella sair da côrte, eu saio também. - ---Tu estás doudo! - ---Talvez. - -Luiz Alves saiu daquella natural indifferença com que o ouvia, e lhe -falava sempre em tal assumpto. Falou-lhe carinhoso,--talvez pela -primeira vez na vida. O que lhe disse foi apenas ume edição augmentada -de que lhe havia dito em anteriores occasiões,--agora com maior -fundamento, porque depois do formal desengano de Guiomar, não havia -outro recurso mais que ir esquecel-a de todo. - ---Oh! isso nunca! interrompeu Estevão. Demais, não sei, não estou certo -se ella falava de coração naquella tarde... - -A candidez com que Estevão disse isto era a fiel traducção de seu -espirito, e a razão de taes palavras, não a procure o leitor em outra -parte mais que não seja aquelle sorriso de ha pouco, ao pé do carro, -sorriso que lhe bailava no cerebro, como raio de sol coado por entre -nuvens negras de tempestade. - -Luiz Alves sacudiu a cabeça e enfiou os olhos pelas folhas rabiscadas -de uns autos que tinha diante, e que entrou a folhear vagarosamente. -Subito, bateu uma pancadinha, com a mão espalmada sobre os papeis, e -levantou a cabeça: - ---Ha um meio talvez de saber tudo, disse elle, de saber se ella -verdadeiramente te ama, ou... Posso tenta-lo, com uma condição. - ---Qual? - ---A condição de eliminares as tuas pretenções. Que diabo ganhas tu em -nutrir uma paixão sem efficacia nem remedio? - -Esta promessa era a mais dura que se podia arrancar de um coração, -em que as gerações de esperanças se succediam quasi sem solução de -continuidade; fel-a, todavia, Estevão, talvez com a secreta resolução -de a trahir. - -Luiz Alves ficou só dahi a alguns minutos. As ultimas palavras que -disse ao collega foram duas ou tres pilherias de rapaz; mas apenas -ficou só tornou-se serio, e inclinando o corpo para a frente, com os -braços na secretaria, e a raspar as unhas com um canivete, alli esteve -largo tempo, como a reflectir, longe de Estevão, que aliás já não ía -perto, e ainda mais longe dos autos que tinha diante de si. Mas em que -pensava elle, se não era em Estevão, nem nos autos, nem tambem, por -agora, nas suas esperanças eleitoraes Paciencia, leitor; sabel-o-has -daqui a nada. Contenta-te com a noticia de que, ao cabo de vinte -minutos daquella abstracção, Luiz Alves volveu a si, proferindo em alta -voz esta simples palavra: - ---Não ha duvida; é uma ambiciosa. - -E descativado daquella preoccupação, enterrou-se de todo na leitura dos -autos. - - - - -XII - - -A viagem. - - -Mal recomeçára Luiz Alves a leitura dos autos, entrou no gabinete o -criado apresentando-lhe um bilhete de visita. - ---Que entre! disse o advogado lendo o nome do sobrinho da baroneza. - -E logo se ouviu no corredor o passo medido e lento do mancebo, que -d'ahi a nada assomava á porta do gabinete, fazendo uma cortezia, -sisuda, mas graciosa. - ---Venho incommoda-lo, doutor? perguntou Jorge. - ---Pelo amor de Deus! exclamou o advogado erguendo-se e indo buscal-o -á porta. Não me incommodaria em caso nenhum; agora, sobretudo, que a -leitura de uns papeis me fatigou sobre maneira, a maior fortuna que eu -poderia desejar é a presença de um homem de espirito. - -Jorge agradeceu este comprimento um pouco emphatico, e retribuiu-o com -outra lisonjaria muito mais extensa e de maior alcance. Quer dizer que -elle vinha pedir alguma cousa. Effectivamente, passados os minutos de -introito e desfiadas as generalidades, Jorge impertigou-se mais do que -até alli estivera e desfechou esta pergunta abrupta: - ---Sabe que venho pedir-lhe uma cousa grave? - -Luiz Alves inclinou-se. - ---Grave e simples ao mesmo tempo, continuou o sobrinho da baroneza; mas -antes disso precisava saber se é tão amigo da nossa familia, como ella -o é do senhor. - ---Oh! de certo! - ---O senhor é o menos assiduo, talvez, das pessoas que lá vão, apezar de -visinho; só agora o vejo alli mais a miudo; entretanto é como flor que -se trahe pelo aroma; minha tia tem a seu respeito a melhor opinião do -mundo; acha-lhe uma gravidade, e eu tambem a sinto, e nem comprehendo -que um homem possa ser outra cousa. Os taes espiritos futeis... - ---São insupportaveis, concluiu Luiz Alves ancioso por chegar ao objecto -da visita. - -O objecto era a viagem da baroneza. Um commendador, amigo do finado -barão, e fazendeiro em Cantagallo, tinha promessa da viuva, havia dous -annos, de ir lá passar algum tempo. A baroneza esquivara-se sempre -a cumprir a palavra dada; agora porém, tal fora a insistencia, que -se resolvera a ir. Ora, o que Jorge vinha propor era--, expressões -delle,--uma conjuração de amigos para dissuadir a tia daquelle -projecto. Affiançava ao advogado que, ainda descoberta a conjuração, -teria elle a vida sã e salva. - -Luiz Alves suppoz a principio que aquillo era um simples pretexto; mas, -tendo observado que a bella Guiomar não era indifferente ao rapaz, -comprehendeu que este tinha na conjuração proposta, um interesse -inteiramente pessoal. Emfim, Jorge chegou a confessar que, se a tia -insistisse em sair da côrte, elle não tinha remedio senão acompanha-la. - -O accôrdo não foi difficil; ficou assentado que fariam todos os -esforços para dissuadir a baroneza. Jorge quiz sair logo; reteve-o Luiz -Alves algum tempo mais, com expressões de louvor habilmente tecidas e -mais habilmente encastoadas na conversação; e tambem deixando-se ir á -feição do espirito delle, acceitando-lhe as ideias e os preconceitos, e -applaudindo-os discretamente,--serio, quando elles o eram ou pareciam -ser,--chocarreiro quando vinham com ar de graça,--respondendo emfim a -todos os gestos e meneios do outro, como faz o espelho por officio e -obrigação:--toda a arte em summa de tratar os homens, de os attrahir e -de os namorar, que elle aprendera cedo e que lhe devia aproveitar mais -tarde na vida publica. - -De noite foi Luiz Alves á casa da baronesa, onde poucas pessoas havia, -todas de intimidade. A dona da casa, sentada na poltrona do costume, -tinha ao pé de si uma senhora da mesma edade que ella, egualmente -viuva, e defronte as suiças brancas e aposentadas de um ex-funccionario -publico. N'um sophá, viam-se Mrs. Oswald e Jorge a conversarem em -voz, ora muito baixa, ora um pouco mais elevada. Adiante, dous -moços contavam a duas senhoras o enredo da ultima peça do Gymnasio. -Mais longe, uma moça da visinhança gabava a outra a tesoura de Mme. -Bragaldi, que pedia meças, dizia ella, ao pincel do scenographo, seu -marido. Emfim, junto a uma das janellas via-se uma mocinha, viva e -bonita, a dizer mil ninharias graciosas a outra pessoa, que era nada -menos que a nossa conhecida Guiomar. A conversa, assim dividida, -tornava-se ás vezes geral, para recair logo no particularismo anterior; -os grupos modificavam-se tambem de quando em quando, do mesmo modo que -o assumpto, e assim se iam matando agradavelmente as horas, que não -resistiam, coitadas, nem apressavam o passo um minuto sequer. - -Luiz Alves aggregara-se ao grupo da baroneza, ao qual não tardou -juntar-se Jorge. O advogado teve a discrição de esperar que o assumpto -viesse de si, se viesse, ou de o introduzir na conversa, quando lhe -parecesse de feição. Mas Jorge, que estava impaciente, arrastou o -assumpto ao debate. Luiz Alves, mostrou-se fiel á palavra dada; -declarou amavelmente que se oppunha á viagem, como visinho e amigo, -que reclamaria em ultimo caso o auxilio de força publica; que era um -erro e um crime deixar aquella casa viuva da benevolencia e da graça e -do gosto e de todas as mais qualidades excellentes que alli iam achar -os felizes que a frequentavam; que, emfim, o mal era tamanho, que não -deixaria de ser peccado, posto não viesse apontado nos cathecismos, -e como peccado, seria de força punido, com amargas penas, no outro -seculo, pelo que, e o mais dos autos, era sua decisão que a baroneza -devia ficar. - -Todas estas razões foram ditas como deviam de ser, de um modo galante e -folgazão, a que a baroneza respondia egualmente, e que não daria nada -mais de si, se Luiz Alves, mudando de estylo, não fosse pôr o assumpto -em differente terreno. - ---Digamos a verdade, Sra. baroneza, a viagem ha de ser-lhe immensamente -incommoda, se for so isso; suas forças não são de certo eguaes ás de -seus primeiros annos; sua saude é melindrosa e não poderá soffrer tanta -fadiga. Confesso que falo em nome de certo interesse pessoal de amigo -e de visinho; mas a principal razão não é essa. Se houvesse um motivo -urgente, bem; mas tratando-se apenas de uma promessa feita ha tanto -tempo, seria crueldade da minha parte não insistir que ficasse. - -A baroneza defendia-se, e Luiz Alves não tardou em reconhecer de si -para si que ella não se defendia com o vigor de uma resolução original -e propria. A conversa, entretanto, tornára-se mais geral; de todos os -lados partiam votos de opposição. - -Guiomar havia já alguns minutos que não attendia á interlocutora; -tinha o ouvido afiado e assestado sobre o grupo da madrinha. Ninguem -a observava; mas é privilegio do romancista e do leitor ver no rosto -de uma personagem aquillo que as outras não veem ou não podem ver. -No rosto de Guiomar podemos nós ler, não só o tedio que lhe causava -aquella opinião unanime contra o projecto da baroneza, mas ainda a -expressão de um genio imperioso e voluntario. - ---Estamos de accordo, creio eu? perguntou Luiz Alves olhando -alternadamente para a baroneza e as outras pessoas. - ---Não é possível, doutor, respondia a boa senhora. - ---De certo que não é possível, interveiu Guiomar do lugar onde estava. -A viagem não offerece risco, nem minha madrinha está invalida. Demais, -é uma promessa feita; não se pode deixar de cumprir. - -Esta opinião, dita em tom sêcco e firme, ainda que a voz nada perdesse -do seu natural avelludado, equivaleu a um pouco de agua fria lançada na -fervura triumphante dos animos. - ---Guiomar tem razão, disse a baroneza; já agora é preciso ir; são -apenas tres ou quatro mezes. - -Luiz Alves olhou longamente para Guiomar, como a procurar ver-lhe -no rosto todas antecedencias da resolução da baroneza. A opposição -afrouxara; Jorge chamou em vão o advogado em seu auxilio. A resolução -da tia, se alguma vez fora abalada, tornara-se outra vez firme. - -Guiomar, entretanto, erguera-se e chegara ao grupo da madrinha. Jorge -fitou-a com uma expressão de vaidade e cobiça. Luiz Alves, que se -achava de pé, recuou um pouco para deixal-a passar. Os olhos com que -a contemplou não eram de cobiça nem de vaidade; a leitora, que ainda -lembrará da confissão por elle mesmo feita a Estevão, supporá talvez -que eram de amor. Talvez,--quem sabe?--amor um pouco socegado, não -louco e cego como o de Estevão, não pueril e lascivo, como o de Jorge, -um meio termo entre um e outro,--como podia havel-o no coração de um -ambicioso. - ---O Dr. Luiz Alves defende causas más, disse Guiomar sorrindo para -elle; não se trata de uma cousa impossivel. Quanto a mim, Cantagallo -só tem um inconveniente; sera menos divertido que a côrte; mas o tempo -passa depressa... - ---Nesse caso, disse Jorge suspirando eu tambem dispenso theatros e -bailes; sacrifico-me á familia. - ---Queres ir comnosco? perguntou a baroneza alegremente. - ---Que duvida! - -Guiomar mordeu o labio inferior, com uma expressão de despeito, que -pôde conter e abafar, sem que ninguem a percebesse, ninguem, excepto -Luiz Alves. Um sorriso tranquillo e perspicaz roçou os labios do -advogado, em quanto a moça, para esconder a impressão que lhe ficara, -de novo se dirigiu á janella, onde esteve alguns momentos sósinha, meia -voltada para fóra e meia guardada pela sombra que alli fazia a cortina. -Um rumor de passos fel-a voltar-se para dentro. Era Luiz Alves. - ---Ah! disse ella fingindo-se tranquilla; agradeço-lhe não haver -insistido mais nos seus conselhos. - ---A intenção era boa, respondeu Luiz Alves em voz baixa; mas será agora -excellente; nem tudo está perdido: eu me incumbo de salvar o resto. - -Guiomar franziu a testa com o mais vivo e natural espanto; tal -espanto que parecia havel-a feito esquecer outro sentimento, -igualmente natural:--o do despeito que lhe causaria aquella singular -familiaridade. Mas o assombro dominou tudo; Guiomar sentiu que elle -lera nella a razão da insistencia e o desgosto do resultado. - -A ruga desfez se a pouco e pouco, mas a moça não retirou logo os olhos. -Havia nelles uma interrogação imperiosa, que a alma não se atrevia -a transmittir aos lábios. Se ha nos do leitor alguma interrogação, -esperemos o capitulo seguinte. - - - - -XIII - - -Explicações. - - -Luiz Alves comprehendera toda a expressão dos olhos de Guiomar; era, -porém, homem frio resoluto. Inclinou o busto com toda a graça correcta -e de bom tom, e disse-lhe na voz mais branda que lhe permittia o seu -orgão forte e severo: - ---Parece-lhe que fui um pouco audaz, não é? Fui apenas sincero; e ainda -que a sua delicadeza me condemne, estou certo de que ha em seu coração -misericordia de sobra... - -Guiomar tinha readquirido toda a posse de si mesma. - ---Está enganado, disse ella, não o condemno, pela simples razão de que -o não entendi. - ---Tanto melhor, redarguiu Luiz Alves sem pestanejar; o meu delicto -nesse caso não passou da esphera da intenção. - ---Mas... referia-se á viagem? - ---Referia-me; perguntava quando iam. - -Esta presença de espirito de Luiz Alves ia muito com o genio de -Guiomar; era um laço de sympathia. A moça respondeu que o commendador -viria buscal-as dahi a quinze ou vinte dias. - ---Tres mezes apenas? perguntou o advogado. - ---Tres ou quatro. - ---Quatro mezes não é a eternidade, mas Cantagallo, para uma carioca da -gemma, hade ser um degredo, ou quasí... Oxalá,--continuou Luiz Alves, -concluindo mais depressa do que queria, ao ver que Jorge se approximava -da janella,--oxalá não lhe faça esse exilio esquecer o que solemnemente -lhe digo neste momento: que a senhora tem uma alma grande e nobre, e -que eu a admiro! - -Jorge chegára; a conversa tinha de acabar ou tomar differente rumo. - -As ultimas palavras de Luiz Alves eram singularmente dispostas para -deixar sulco profundo na memoria da moça. Não era uma declaração de -amor, nem uma cortezania de sala cousas todas que ella ouvira muita -vez, que podiam lisongea-la, e de certo a lisongeavam; era mais que -um comprimento e não chegava a ser uma declaração. Commoção, não a -havia na voz do advogado; firmeza, sim, e um ar de convicção profunda. -Guiomar olhou para elle quasi sem dar pela presença de Jorge; mas Luiz -Alves voltara-se para o recem-chegado e falava-lhe em tom jovial, bem -differente daquelle que empregára pouco antes. - -Se esse contraste era premeditado,--não sei se o era,--não podia vir -mais de feição ao espirito de Guiomar. De quantos homens a moça tratára -até alli, era o primeiro que lhe inspirava curiosidade, e tambem, -naquella occasião, a primeira pessoa que só compadecia della. Veja o -leitor:--curiosidade e gratidão;--veja se ha duas azas mais proprias -para arrojar uma alma no seio de outra alma,--ou de um abysmo, que é ás -vezes a mesma cousa. - -Eu disse--compadecia--e esta só palavra, desacompanhada de outra cousa, -póde fazer crer ao leitor que, durante aquelles dias em que a perdemos -de vista, tornara-se Guiomar uma creatura desditosa. Nada disso; a -situação era a mesma, não a mesma anteriormente á carta de Jorge, mas -a mesma da noite em que ella a recebeu, situação, de certo, assaz -sombria e carregada para um coração que receia ser constrangido, mas -não desesperada nem angustiosa. - -A baroneza, se soubera dos factos, ou se pudera ler na alma da moça, -seria a primeira a dar-lhe todas as consolações. Mas não sabia. -Seu desejo,--ou antes o sonho da velhice, como ella dizia n'um dos -anteriores capitulos,--era deixar felizes a afilhada e o sobrinho, e -entendia que o melhor meio de os deixar felizes era casal-os um com o -outro. A noticia que tinha do coração da moça, a este respeito, era -incompleta ou inexacta; pintavam-lhe como frieza o que era repugnancia. -Mrs. Oswald dava-lhe sempre esperanças de exilo feliz e proximo, as -coleras da moça não lh'as contava nunca. Da carta de Jorge não soube, -nem da scena havida na alcova. O casamento continuava a apparecer-lhe -com todas as probabilidades de uma esperança realizavel. - -Dirá a leitora que o sobrinho não merecia tanto zelo nem tão pertinaz -esperança, e terá razão; mas os olhos da baroneza não são os da -leitora; ella só lhe via o lado bom,--que era realmente bom,--ainda -que de uma bondade relativa; mas não via o lado mau, não via nem podia -ver-lhe a frivolidade grave do espirito, nem o genero de affecto que se -lhe gerava no coração. - -Jorge era o seu unico parente de sangue,--filho de um irmã que vivêra -infeliz e mais infelizmente morrêra, não repudiada, mas aborrecida -do marido, circumstancia que lhe tornava caro aquelle moço. Mais do -que a afilhada, não; nem tanto, de certo; o coração não chegaria para -dividir-se egualmente em tão grandes porções; queria-lhe, porém, -muito, quanto bastava para desejal-o feliz, e trabalhar por fazel-o. -Accrescentemos que o destino da irmã sempre lhe estava presente -ao espirito, e que ella receiava egual sorte a Guiomar; em Jorge -parecia-lhe ver todos os dotes necessarios para tomal-a venturosa. - -Infelizmente, Mrs. Oswald, sabedora daquelles secretos desejos e mais -ou menos confidente dos sentimentos de Jorge, achara azada occasíão -esta para patentear toda a gratidão de que estava possuida e a profunda -amizade que a ligava á familia da baroneza. Interpoz-se para servir -aos outros, e mais ainda a si propria. Viu a difficuldade, mas não -desanimou; era preciso armar ao reconhecimento da baroneza. Por isso -não hesitou em confiar a Guiomar o desejo da madrinha, exagerando-o, -entretanto,--por que nunca a baroneza dissera que «tal casamento era -a sua campanha,» e Mrs. Oswald attribuiu-lhe esta phrase mortal para -todas as esperanças e sonhos da moça. Mas, se falava demasiado ao pé -de uma, era muito mais sobria de palavras com a outra, e da exageração -ou da attenuação da verdade resultara aquelle perenne estado de luta -abafada, de receios, de indecisão e de amarguras secretas. Convém -dizer, para dar o ultimo traço ao perfil, que esta Mrs. Oswald não -seguia só a voz do seu interesse pessoal, mas também o impulso do -proprio genio, amigo de pôr á prova a natural sagacidade, de tentar e -levar a cabo uma destas operações delicadas e difficeis, de maneira -que, se houvesse uma diplomacia domestica,--ou se se creassem cargos -para ella, Mrs. Oswald podia contar com um lugar de embaixatriz. - -Vindo agora á narração dos successos da historia, cumpre que o leitor -saiba, que a carta de Jorge não teve resposta escripta nem verbal. No -dia seguinte ao da entrega foi elle jantar a Botafogo; mas Guiomar não -saíra do quarto, a pretexto de uma dor de cabeça; a baroneza passou o -dia com ella; Jorge apenas conseguiu saber, quando de lá saiu, que a -moça ia melhor. Nos subsequentes dias nenhuma resposta foi ás mãos do -pretendente, nem elle conseguiu haver uns cinco minutos de conversa -solitaria com a moça; Guiomar esquivava-se sempre, com aquella arte -summa da mulher que aborrece, e que é nem mais nem menos egual á da -mulher que ama. - -Um dia, porém, não houve meio de fugir; e Jorge, que não tinha nenhuma -commoção na voz, porque não tinha muita no coração, olhou para ella -com olhos direitos e francamente lhe pediu uma palavra de esperança -ou de desengano. A moça hesitou alguns segundos; contudo era preciso -responder. Venceu a repugnância dizendo-lhe com um frio sorriso: - ---Nem uma nem outra cousa. - ---Nem desengano? perguntou Jorge alvoroçado. - ---Ninguem pode dar nem uma cousa nem outra, disse ella; costumamos -acceital-as do nosso destino. - -Não era responder, como vê o leitor; Jorge ia pedir uma decisão mais -transparente, mas a moça aproveitara-se da primeira impressão e -esquivara-se. Quando elle recobrou a voz não viu mais que a fimbria do -vestido, que se perdia na volta de uma porta. - -Guiomar encurtou as redeas á familiaridade que existia entre ella e -Jorge; mas, se o tratava com mais reserva, não o fazia com sequidão nem -frieza, nem deixava de ser polida e affavel. A dignidade natural que -havia em toda a sua pessoa servia-lhe, além disso, como de uma torre de -marfim, onde ella se acastellava e mantinha em respeito o pretendente. - -Dos dous homens que lhe queriam, nenhum lhe falava á alma; ella -sentia que Estevão pertencia á phalange dos tibios, Jorge á tribu dos -incapazes, duas classes de homens que não tinham com ella nenhuma -affinidade electiva. Não egualava, de certo, os dous pretendentes; um -era simplesmente trivial, outro sentimental apenas; mas nenhum delles -capaz de crear por si só o seu destino. Se os não egualava, tambem os -não via com os mesmos olhos; Jorge causava-lhe tedio, era um Diogenes -de especie nova; atravez da capa rota da sua importancia, via-se-lhe -palpitar a triste vulgaridade. Estevão inspirava-lhe mais algum -respeito; era uma alma ardente e frouxa, nascida para desejar, não para -vencer, uma especie de condor, capaz de fitar o sol, mas sem azas para -voar até lá. O sentimento de Guiomar em relação a Estevão não podia -nunca chegar ao amor; tinha muito de superioridade e perdão. - -Com outra indole, aspirações differentes e vivida em diversa esphera, -ama-lo-hia com certeza, do mesmo modo que elle a amava. Mas a natureza -e a sociedade deram-se as mãos para a desviar dos gozos puramente -intimos. Pedia amor, mas não o quizera fruir na vida obscura; a maior -das felicidades da terra seria para ella o maximo dos infortunios, -se lh'a puzessem n'um ermo. Creança, iam-lhe os olhos com as sedas e -as joias das mulheres que via na chacara contigua ao pobre quintal -de sua mãe; moça, iam-lhe do mesmo modo com o espectaculo brilhante -das grandezas sociaes. Ella queria um homem que, ao pé de um coração -juvenil e capaz de amar, sentisse dentro em si a força bastante para -subil-a aonde a vissem todos os olhos. Voluntariamente, só uma vez -acceitara a obscuridade e a mediania; foi quando se propoz a seguir o -officio de ensinar; mas é preciso dizer que ella contava com a ternura -da baroneza. - - - - -XIV - - -Ex abrupto. - - -Já o leitor ficou entendendo que a viagem a Cantagallo era obra quasi -exclusiva de Guiomar. A baroneza relutara a principio, como das outras -vezes fizera, e o commendador pouca esperança tinha já de a ver na -fazenda. Mas o voto de Guiomar foi decisivo. Ella fortaleceu, com as -suas, as razões do commendador, allegando não só a obrigação em que a -madrinha estava de desempenhar a palavra dada, mas ainda a vantagem -que lhe podiam trazer aquelles tres mezes de vida roceira, longe das -agitações da côrte; emfim, invocou o seu proprio desejo de ver uma -fazenda e conhecer os habitos do interior. - -Não havia tal desejo, nem cousa que se parecesse com isso; mas Guiomar -sabia que na balança das resoluções da madrinha era de grande peso a -satisfação de um gosto seu. O sacrificio duraria tres ou quatro mezes; -ella afrontaria, porém, dez ou doze se tantos fossem necessarios, para -fugir algum tempo ás pretenções de Jorge, sem embargo de lhe repugnar -todo o viver que não fosse a vida fastosa e agitada da côrte. Eu, que -sou o Plutarcho desta dama illustre, não deixarei de notar, que, neste -lance, havia nella um pouco de Alcibiades,--aquelle gamenho e delicioso -homem de Estado, a quem o despeito tambem deu forças um dia para -supportar a frugalidade spartana. - -Infelizmente, Jorge reduziu todos esses calculos a nada. Ella contava -com o seu demasiado apego aos regalos da côrte, não contava com as -suggestões de Mrs. Oswald, que percebera o plano, e torcera a primeira -resolução de Jorge, que era ficar e esperar. O sacrificio da parte -delle era compensado pela probabilidade da victoria, a qual não -consistia só em haver por esposa uma moça bella e querida, mas ainda -em tornar muito mais summarias as partilhas do que a baroneza deixaria -por sua morte a ambos. Esta consideração, que não era a principal, -tinha ainda assim seu peso no espirito de Jorge, e, sejamos justos, -devia tel-o: possuir era o seu unico officio. Assim era que não só a -moça deixava de obter um bem, mas cahia de um mal em outro maior; tel-o -ao pé de si, onde as distracções seriam menos promptas e variadas, -equivalia a adoecer de fastio e morrer de inanição. - -Imagine-se por isso em que estado lhe ficou o espirito depois da -declaração de Jorge. Não havia meio de fugir ao pretendente, era -preciso tragal-o. Esta perspectiva abateu-lhe totalmente o animo. Uma -confidente, em taes situações, é um presente do ceu; mas Guiomar não a -tinha, e se alguma pessoa lhe merecesse tal confiança, é certo ou quasi -certo que lhe não diria nada. Suas dores eram altivas, as tristezas de -seu coração tinham pudor. Espiritos desta casta ignoram a consolação -que ha, nas horas de crise, em se repartirem com outro; triste, mas -feliz ignorancia que lhes poupa muita vez o contacto de uma consciência -aleivosa e ruim. - -No meio do longo reflectir, soaram-lhe na memoria as palavras de Luiz -Alves; ella ouviu-as de novo, taes quaes elle as proferira, desde a -phrase descortez até à expressão respeitosa. Uma era o commentario da -outra, e ambas podiam explicar-lhe o caracter de Luiz Alves, se tivesse -alguns elementos mais para conhece-lo; em todo o caso, era a ponta do -veu levantada. Embora se lhe não podesse ler no fundo do espirito, -via-se desde já qual era o seu methodo de acção. - -Qualquel outro homem, depois do effeito produzido pela primeira -declaração, não se atreveria ou não lhe importaria tentar mais nada -para desfazer o projecto da viagem. Mas o espirito de Luiz Alves tinha -a obstinação do dogue. Era-lhe necessario que a familia da baroneza -não saisse da côrte; este objecto havia de alcança-lo a todo o trance. -Elle espreitava as occasiões, aproveitava as circumstancias, tinha a -habilidade de intercalar o pedido em qualquer retalho de conversação, -onde menos apropriado pareceria a qualquer outro. Jorge applaudia-o com -as forças todas de que podia dispor o seu interesse. A baroneza oppunha -ás suggestões do advogado a resistencia molle e atada de quem deseja -aquillo mesmo que recusa. - ---O doutor é terrivel, dizia ella. Em se lhe mettendo uma cousa na -cabeça, ninguem mais o tira dahi. - ---Justamente, é uma ideia fixa. Sem ideia fixa não se faz nada bom -neste mundo. - -Guiomar sustentava a resolução da madrinha, posto não o fizesse a -miudo, nem no mesmo tom secco e imperioso da primeira noite. Seu -impulso era ser coherente; ao mesmo tempo não queria parecer aos olhos -de Luiz Alves que lhe acceitava o concurso para obter o que aliás -desejava de todo o coração; sería laval-o da primeira culpa. - -O argumento que mais influia no animo de todos, o que devera ter -affastado a ideia de semelhante viagem, era o perigo de affrontar -o cholera-morbus que por aquelle tempo percorria alguns pontos do -interior. Um dia de manhã soube-se que em Cantagallo havia apparecido o -terrível inimigo. Desta vez Luiz Alves triumphou sem dizer palavra; a -baroneza recuou deante daquelle facto brutal. - -A viagem desfez-se pois, a contento de todos, salvo talvez de Mrs. -Oswald, que receiava muito da mocidade casadeira da côrte, e dos -bellos olhos castanhos de Guiomar. Mrs. Oswald temia ver surgir a cada -passo um novo inimigo emboscado em algum theatro ou baile, ou quando -menos na rua do Ouvidor, e não via que o inimigo novo podia ser que -estivesse litteralmente ao pé da porta. A sagacidade da ingleza desta -vez foi um tanto myope. A razão é que Luiz Alves, em todos aquelles -seus preliminares, houve-se com habilidade; longe de procurar a moça, -parecia nada haver alterado nos seus sentimentos, nem desejar mudar a -especie de relações que até alli mantinha. Guiomar, entretanto, não -podia deixar de comparar aquella especie de attenciosa indifferença que -havia delle para ella, com as palavras que anteriormente lhe ouvira, e -o resultado da comparação não lhe parecia muito claro. - -Na noite do mesmo dia em que ficou assentado defferir a viagem para -melhores tempos, achavam-se em casa da baroneza algumas pessoas -de fóra; Guiomar, sentada ao piano, acabava de tocar, a pedido da -madrinha, um trecho de opera da moda. - ---Muito obrigada, disse ella a Luiz Alves que se approximára para -dirigir-lhe um comprimento. Está alegre! Parece que é a satisfação de -me haver mallogrado o maior desejo que eu tinha nesta occasião. - ---Não fui eu, disse elle, foi a epidemia. - ---Sua alliada, parece. - ---Tudo é alliado do homem que sabe querer, respondeu o advogado dando -a esta phrase um tanto emphatica o maior tom de simplicidade que lhe -podia sair dos labios. - -Guiomar curvou a cabeça e esteve alguns instantes a perpassar os dedos -pelas teclas, em quanto Luiz Alves, tirando de cima do piano outra -musica, dizia-lhe: - ---Podia dar-nos este pedaço de Bellini, se quizesse. - -Guiomar pegou machinalmente na musica e abriu-a na estante. - ---Era então vontade sua? perguntou ella continuando o assumpto -interropido do dialogo. - ---Vontade certamente, porque era necessidade. - ---Necessidade,--tornou ella começando a tocar, menos por tocar que por -encobrir a voz; mas necessidade por que? - ---Por uma razão muito simples, porque a amo. - -A musica estacou. Guiomar erguera-se de um salto. Mas nem o gesto da -moça, nem a sorpresa das outras pessoas, perturbou o advogado; Luiz -Alves inclinou-se para o mocho, como a concertal-o, e voltando-se para -Guiomar, disse-lhe graciosamente: - ---Pode sentar-se-agora; está seguro. - -Guiomar sentou-se outra vez muda, despeitada, a bater-lhe o coração -como nunca lhe batera em nenhuma outra occasião da vida, nem de -susto, nem de colera, nem... de amor, ia eu a dizer, sem que ella o -houvesse sentido jamais. Não se demorou muito tempo alli; com a mão -tremula folheou a musica que estava aberta na estante, deixou-a logo e -levantou-se. - -Nestes derradeiros movimentos ninguem reparou; e se alguem pudesse -reparar em alguma cousa, a moça tomara a peito desvanecer todas as -suspeitas. A primeira impressão fora profunda, mas Guiomar tinha força -bastante para dominar-se e fechar todo o sentimento no coração. - -O que se passou depois, quando, livre de olhos estranhos, pôde -entregar-se a si mesma, isso ninguem soube, a não serem as paredes -mudas do quarto, ou o raio de lua coado pelo tecido raro das cortinas -das janellas, como a espreitar aquella alma faminta de luz. Soube-o, -talvez, o seu espelho, quando no dia seguinte lhe reflectiu o rosto -desfeito e os olhos quebrados. Se foi a meditação nocturna que os -amolleceu e apagou, não o perguntou elle, naturalmente porque o sabia; -mas talvez advertiu comsigo que se eram assim mais bellos, pediam outro -rosto em que caissem melhor. O de Guiomar queria-os como elles eram, -severos, firmes e brilhantes. - -A baroneza tambem não deixou de ver que a afilhada não accordara com o -mesmo ar do costume; achou-a taciturna e distrahida. - ---Eu, madrinha? perguntou Guiomar simulando um sorriso de admiração. - ---Será engano de meus olhos. - ---Não é outra cousa; estou como sempre, como hontem, como amanhã. -Passei a noite um pouco mal, é verdade; mas o que tive desapareceu -inteiramente. A prova... - -Guiomar parou neste ponto, chegou-se á madrinha e deu-lhe um beijo. - ---A prova, continuou ella, é que ainda hoje me acha bonita, não é? - ---Creança! respondeu a baroneza, dando-lhe uma pancadinha na face. - -A tranquillidade da moça era simulada; apenas a madrinha voltou as -costas, cobriu-se-lhe o rosto com o mesmo veu. Ella aprendera desde -creança a disfarçar as suas preoccupações. - -Quanto a Luiz Alves, posto houvesse contado com o seu methodo cru e -abrupto, saiu dalli sem plena certeza do resultado. Esta incerteza -abalou-o mais do que elle suppunha; e foi, sem duvida, a primeira -occasião em que sentiu que a amava devéras, ainda que o seu amor fosse -como elle mesmo: placido e senhor de si. No dia seguinte, Estevão -interrogou-o a respeito de Guiomar. - ---Creio, disse elle depois de reflectir alguns instantes,--creio que -por ora não deves perder as esperanças todas. - - - - -XV - - -Embargos de terceiro. - - -Durante tres dias deixou Luiz Alves de ir á casa da baroneza, estando -aliás a morrer por isso. Entrava porém no plano esta ausencia; era das -instrucções que elle mesmo dera ao seu coração; não havia remedio senão -observal-as. - -No quarto dia recebeu um bilhete da baroneza que o comprimentava pela -eleição. A mala do norte chegára, e com ella a noticia da victoria -eleitoral. Estava Luiz Alves deputado; ia emfim dar a sua demão no -fabricos das leis. Estevão foi o primeiro que o felicitou; era o antigo -companheiro dos bancos da academia; tanto ou mais do que os outros -devia applaudir aquella boa fortuna. Não lhe escondeu, entretanto a -inveja que ella lhe mettia: - ---Deputado! suspirou elle. Oh! eu tambem podia ser deputado. - -Estevão dizia isto, como a creança deseja o dixe que vê no collo -de outra creança,--nada mais. Eram os seus sonhos de outr'ora, -que renasciam taes quaes eram, inconsistentes, vagos, prestes a -dissiparem-se com o primeiro raio da manhã. - -Luiz Alves apressou-se a ir agradecer á baroneza a felicitação. Guiomar -teve um leve estremecimento quando o viu, mas recebeu-o tranquilla e -risonha, quasi indifferente. O advogado era habil; não a perseguiu com -os olhos; sobre accordar a attenção das demais pessoas, era seguir o -methodo commun. Elle não queria parecer-se com os outros. - -Guiomar, entretanto, observava-o a espaços, de revez, como a querer -sorprehendel-o; a pouco e pouco, porém, o seu olhar foi sendo mais -direito e firme. O de Luiz Alves era natural e egual como antes era, -como era ainda agora com todos. - -Ao sair, junto á porta de uma sala, onde acaso a topou, Luiz Alves teve -occasião de lhe dizer esta simples palavra: - ---Perdoou-me? - -A moça retirou a mão, que elle tinha presa na sua, e furtou o corpo, ao -mesmo tempo que lhe caiam as palpebras. - ---Perdoou-me? repetiu-elle. - -Guiomar retirou-se sem dizer palavra. Luiz Alves esperou que ella -desapparecesse e saiu. A moça, entretanto, ficou irritada por nada lhe -ter respondido, sendo verdade que nada achou nem acharia talvez que lhe -responder; mas arrependeu-se e pensou longo tempo naquillo. - -Quer dizer que o amava? Quer dizer que estava prestes a isso. A -arraiada branqueava o ceu, tingiria depois o cimo dos montes, -entornar-se-hia emfim pela encosta abaixo, até apparecer o sol,--o sol -contemporaneo de Adão, e do ultimo homem que hade vir. - -Dalli a dias, entrando Luiz Alves em casa da baroneza, teve a boa -fortuna de encontrar a moça sosinha, na sala do trabalho, d'onde a -baroneza se ausentára cinco minutos antes. Mrs. Oswald achava-se fóra. -Era a hora da tardinha; o dia estava prestes a afogar-se no seio da -noite. - -Guiomar, mollemente sentada n'uma cadeira baixa, tinha um livro aberto -sobre os joelhos e os olhos no ar. Luiz Alves sorprehendeu-a nessa -attitude meditativa, mais bella do que nunca, porque assim, e áquella -hora, e com o vestido meio escuro que lhe realçava a côr de leite da -face, tinha um quê de gracioso e severo, ao mesmo tempo, que parecia -buscado de proposito para recebe-lo. - ---Minha madrinha já vem, disse Guiomar logo depois de lhe estender a -mão, que elle apertou e sentiu um pouco tremula. - ---Talvez daqui a cinco minutos, disse elle; é bastante para decidir o -meu destino. Duas vezes lhe perguntei se me perdoara; pela terceira lhe -peço que me responda; custa pouco uma unica palavra; custa menos ainda, -um unico gesto. - -A moça olhou algum tempo para o livro que tinha diante de si. A manhã, -porem, era já alta no coração de Guiomar, a claridade intensa, o sol -quente e vivo, por que ella não olhou muito tempo para o livro, nem -hesitou mais do que era natural e exigivel naquella occasião. Dous -minutos depois fez o gesto, um gesto só, mas ainda mais eloquente do -que se ella falasse,--estendeu-lhe a mão. - -Luiz Alves apertou-lh'a entre as suas. - -A commoção era natural em ambos; alli estiveram alguns instantes -calados, elle com os olhos fitos nella, ella com os seus no chão. As -mãos tocavam-se e os corações palpitavam unisonos. Decorreram assim -cinco breves minutos. Ella foi a primeira que rompeu o silencio. - ---Um gesto, um só gesto, e é o meu destino que lhe entrego com elle, -disse Guiomar olhando em cheio para o moço. - ---Ainda não. Se os nossos destinos se ligarem, estou convencido de que -o meu amor, pelo menos, terá a virtude de a tornar feliz. Mas nada está -feito ainda, e se eu fui breve e apressado na confissão, não o desejo -ser na consagração que lhe peço. - -Luiz Alves calara-se; a moça olhava para elle como buscando entende-lo. - ---Sim, continuou elle; melhor é que não ceda a um instante de -enthusiasmo. Minha vida é sua; todo o meu destino está nas suas mãos... -Comtudo, não quero sorprehender-lhe o coração neste momento; no dia em -que me julgar verdadeiramente digno de ser seu esposo, ouvi-la-hei e -seguila-hei. - -A resposta da moça foi apertar-lhe as mãos, sorrir, e embeber os seus -olhos nos delle. O passo da baroneza interrompeu esta contemplação. - -Guiomar amava deveras. Mas até que ponto era involuntario aquelle -sentimento? Era-o até o ponto de lhe não desbotar á nossa heroina a -castidade do coração, de lhe não diminuirmos a força de suas faculdades -affectivas. Até ahi só; dahi por diante entrava a fria eleição do -espirito. Eu não a quero dar como uma alma que a paixão desatina e -cega, nem faze-la morrer de um amor silencioso e timido. Nada disso -era, nem faria. Sua natureza exigia e amava essas flores do coração, -mas não havia esperar que as fosse colher em sitios agrestes e nus, nem -nos ramos do arbusto modesto plantado em frente de janella rustica. -Ella queria-as bellas e viçosas, mas em vaso de Sèvres, posto sobre -movel raro, entre duas janellas urbanas, flanqueado o dito vaso e as -ditas flores pelas cortinas de cachemira, que deviam arrastar as pontas -na alcatifa do chão. - -Podia dar-lhe Luiz Alves este genero de amor? Podia; ella sentiu que -podia. As duas ambições tinham-se adivinhado, desde que a intimidade -as reuniu. O proceder de Luiz Alves, sobrio, directo, resoluto, sem -desfallecimentos, nem demasias ociosas, fazia perceber á moça que elle -nascera para vencer, e que a sua ambição tinha verdadeiramente azas, -ao mesmo tempo, que as tinha ou parecia tel-as o coração. Demais, o -primeiro passo do homem publico estava dado; elle ia entrar em cheio -na estrada que leva os fortes á gloria. Em torno delle ia fazer-se -aquella luz, que era a ambição da moça, a atmosphera, que ella -almejava respirar. Estevão dera-lhe a vida sentimental,--Jorge a vida -vegetativa; em Luiz Alves via ella combinadas as affeições domesticas -com o ruido exterior. - -Uma vez entendidos, é difficil que dous corações se encubram, pelo -menos aos olhos mais sagazes. Os de Mrs. Oswald eram dos mais finos. -A ingleza percebeu dentro de pouco tempo que entre elles havia alguma -cousa. Interrogar a moça era inutil, sobre perigoso; seria ir, de -coração leve, em busca de odio, talvez. Todavia se ainda fosse possivel -salvar tudo? Guiomar resistiria difficilmente a um desejo de madrinha; -era possível vencel-a por esse lado. - -Mrs. Oswald concebeu então um projecto insensato, que lhe pareceu aliás -excellente e de bom aviso. O desejo de servir a baroneza e levar uma -ideia ao fim tapou-lhe os olhos de razão. Ella foi directamente a Jorge. - ---Sabe o que me está parecendo? disse ella. Parece-me que ha mouro na -costa. - ---Mouro na costa! exclamou Jorge com uma tal expressão de desgosto, que -era facil comprehender o fundo de suspeita já existente em seu espirito. - ---Nada menos, disse a ingleza; mas um mouro que se póde capturar. - -E a ingleza expoz um plano completo que o sobrinho da baroneza ouviu um -tanto perplexo. O plano consistia em ir Jorge pedir a moça á baroneza, -em presença della propria. A baroneza, que nutria o desejo de os ver -casados, não deixaria de fazer pezar o seu voto na balança, e era muito -difficil que a gratidão de Guiomar não decidisse am favor de Jorge. - ---A gratidão... e o interesse, continuou ella; Devemos contar tambem -com o interesse, que é um grande conselheiro intimo. Ella não ha de -querer sacrificar a affeição da madrinha, que para ella vale... - ---Oh! que triste lembrança! interrompeu Jorge, recuando diante da ideia -de Mrs. Oswald. - -A ingleza sorriu,--e deixou por mão aquelle argumento; firmou-se porém -no da affeição. Guiomar não se opporia a um desejo da madrinha; era -urgente dar-lhe o golpe. Jorge não se atrevia a sorprehender por esse -meio a acquiescencia da moça; mas acreditava na efficacia delle, e -sobretudo receiava perder a causa. Uma vez que a vencesse, tudo podia -confiar do tempo e do seu amor. - -O conselho foi seguido pontualmente. De noite, em presença da -baroneza á hora da despedida,--porque elle hesitara a maior parte do -tempo,--praticou Jorge aquelle acto insensato de declarar á moça que a -amava e de lhe pedir a mão. A tia sorriu de contentamento, mas teve a -prudencia de não proferir nada emquanto Guiomar, empallidecendo, nada -dizia, porque nada achava que dizer. - -O silencio durou cerca de tres e quatro minutos, um silencio acanhado -a vexado, em que nenhum delles se atrevia a reatar a conversação. -A baroneza, pela sua parte, imaginava que os dous estavam emfim -entendidos, e que a declaração era autorisada pela moça. O enleio de -Guiomar não era dos que podessem dar cabimento a esta supposição; mas a -boa senhora via com os olhos dos seus bons desejos. - ---Pela minha parte, declarou emfim a baroneza, não me opponho; -estimaria muito que acabassem por ahi. Mas é negocio do coração; devo -esperar a resposta de Guiomar. - -E voltando-sa para a afilhada: - ---Pensa e resolve, minha filha, disse ella; e se fores feliz, sel-o-hei -ainda mais do que tu. - -Duas vezes pairou a negativa nos labios da moça; mas a lingua não se -atrevia a repellir a palavra do coração. No fim de alguns instantes: - ---Reflectirei, respondeu ella beijando a mão a madrinha; e continuou -voltando-se para Jorge:--Boa noite! Até amanhã. - - - - -XVI - - -A confissão. - - -Na mesma noite em que Jorge, cedendo ás suggestões de Mrs. Oswald, -tentava o ultimo recurso que no intender da ingleza havia, achava-se -Luiz Alves em casa, commodamente sentado n'uma poltrona de couro, -defronte da janella com os olhos no mar e o pensamento nas suas duas -candidaturas vencidas. Meia noite estava a pingar; uma pessoa descia de -um tibury e batia-lhe á porta. - -Era Estevão. - -Luiz Alves naturalmente admirou-se de o ver alli áquella hora; mas -Estevão explicou-lhe tudo. - ---Venho passar meia hora comtigo, ou a noite toda se quizeres. Estava -em casa aborrecido, a pensar... bem sabes em que... - ---Nella? interrompeu Luiz Alves. - ---Agora e sempre. - -Luiz Alves torceu o bigode, e olhou tres ou quatro vezes para o -collega, em quanto este tirava o chapeu e dispunha-se a ir buscar uma -cadeira para sentar-se ao pé do outro. - ---Estevão, disse Luiz Alves depois de algums instantes de reflexão, e -voltando a poltrona para dentro, ouve-me primeiro e resolverás depois -se ficas a noite ou se te vás embora immediatamente. Talvez escolhas -este ultimo alvitre. - ---Vás falar-me de Guiomar? - ---Justamente. - -Estevão sentou-se defronte de Luiz Alves. Seu coração batia appressado; -dissera-se que toda a sua vida pendia dos labios do amigo. Houve um -instante de silencio. - ---Nenhuma.... nenhuma esperança então? murmurou Estevão. - ---Disseste a fatal palavra! exclamou Luiz Alves. Sim, não tens nenhuma -esperança. - ---Mas.... como sabes? - ---Não me interrogues; eu não poderia dizer-te tudo o que ha. Poupa-me, -ao menos, esse triste dever. - -Estevão sentiu arrasarem-se-lhe os olhos d'agua. Quiz falar, mas as -palavras iam-lhe saindo envoltas em soluços. - -Luiz Alves fumava tranquillamente, acompanhando com os olhos os -rolinhos de fumo que lhe fugiam da ponta do charuto. Este silencio -durou cerca de dez minutos. O mar batia compassadamente na praia. A voz -da onda e o latido de um cão ao longe eram os unicos sons que vinham -quebrar a mudez daquella hora solemne para um desses dous homens que ia -perder até o repouso da esperança. - -Estevão foi o primeiro que falou: - ---Ama a outro, não é? perguntou elle com a voz tremula. - ---Ama, respondeu surdamente Luiz Alves. - -Estevão ergueu-se e deu alguns passos na sala, sem dizer palavra, a -morder a ponta do bigode, parando ás vezes, outras traduzindo com um -gesto desordenado os sentimentos que lhe tumultuavam no coração. A dor -devia ser grande, mas a manifestação já não era a mesma que o leitor -lhe viu, dous annos antes, quando elle foi confiar ao amigo o primeiro -desengano de Guiomar. - ---Parece-me que eu adivinhava isto mesmo, disse elle, emfim, parando -em frente de Luiz Alves. Este desejo que me accometteu de vir aqui, a -este hora, sem certeza de encontrar-te, era mais um beneficio do meu -destino. Devia esperal-o. Que vida tem sido a minha, Luiz! Agarrei-me, -nem sei por que, á esperança de ser amado por ella, de a vencer pela -piedade, ou pelo remorso, ou por qualquer outro motivo que fosse,--o -motivo importava pouco... O essencial é que ella me pagasse em ternura -e amor todas as dores que curti, as lagrimas todas que tenho devorado -em silencio... E era so essa esperança que ainda me dava forças... que -me fazia crer feliz, como pode sel-o um desgraçado, como podia sel-o -eu, que nasci debaixo de ruim estrella.... Oh! se tu souberas... Não, -não sabes, nem ella tambem, ninguem sabe nem saberá nunca tudo quanto -tenho padecido, tudo quanto.... - -Interrompeu-se. Duas lagrimas, espremidas do fundo do coração, -saltaram-lhe dos olhos e desceram-lhe rapidas a perder-se entre os -cabellos raros e finos da barba. Elle sentiu que outras podiam vir, e -foi sentar-se n'um sophá, meio voltado de costas para Luiz Alves. As -outras vieram, porque o coração ainda as tinha para as dôres supremas; -mas correram-lhe silenciosas, sem um soluço, sem uma queixa unica. - -Luiz Alves lavantara-se e chegara á janella. Seu espirito, apezar de -frio e quieto, parecia agora um pouco alvoroçado. Não era dor; e não -sei se lhe podia chamar remorso. Mau-estar apenas, e commiseração. -O coração era capaz de affeições; mas, como ficou dito no primeiro -capitulo, elle sabia rege-las, modera-las e guia-las ao seu proprio -interesse. Não era corrupto nem perverso; tambem não se póde dizer -que fosse dedicado nem cavalheresco; era, ao cabo de tudo, um homem -friamente ambicioso. - -Estevão levantara-se outra vez e pegara no chapeu. - ---Vem cá, disse Luiz Alves entrando e indo ter com elle; vejo que estás -mais homem do que antes. Resta o que sejas completamente; varre da -memoria e do coração tudo o que possa referir-se... - ---Que remedio! interrompeu Estevão sorrindo amargamente; que remedio -tenho eu se não esquece-la! Mas quando? - ---Mais breve talvez do que suppões... - -Luiz Alves não acabou; Estevão olhara para elle com um gesto de espanto -e fora sentar-se outra vez. - ---Mais breve do que supponho! exclamou elle. Tu não tens coração: não -tens sequer observação nem memoria. Não vês, não sentes que esta paixão -é o sangue do meu sangue, a vida da minha vida? Esquece-la! Era bom -se eu a pudesse esquecer; mas a minha má sina até essa esperança me -arranca, porque este padecer intimo, constante, ha de ir commigo até á -morte... - -Desta vez era Luiz Alves que passeava de um lado para outro. Em seu -espirito despontava uma ideia, que elle examinava, a ver se a poria -alli mesmo em execução. Era dizer-lhe tudo. Estevão viria a sabel-o -mais tarde; melhor era que o soubesse logo e por elle. Ao mesmo tempo -reflectia na exaltação dos sentimentos do rapaz; a dor certamente se -lhe aggravaria, em sabendo que era elle o preferido de Guiomar. O -coração, que perdoaria a um extranho, condemnaria ao amigo. - -Estevão, assentado, com os olhos no tecto, parecia entregue ás suas -reflexões, mas só parecia, por que elle não pensava, evocava antigas -memorias, fazia surgir diante de seus olhos a figura gentil de Guiomar, -sentia-lhe o imperio dos bellos olhos castanhos, ouvia-lhe a palavra -doce e avelludada entornar-se-lhe no coração. Não evocava só, creava -tambem, pintava com a imaginação a felicidade que lhe poderia dar a -moça, se entre todos os homens o escolhera, se elles dous vinculassem -os seus destinos. Elle via-a ao pé de si, cingia-lhe o braço em volta -da cintura, enchia-lhe de beijos os cabellos, tudo isto em meio de uma -paisagem unica na terra, porque a abundancia da natureza cresceria ao -contacto daquelle sentimento puro, casto e eterno. Não falo eu, leitor; -transcrevo apenas e fielmente as imaginações do namorado; fixo nesta -folha de papel os vôos que elle abria por esse espaço fóra, unica -ventura que lhe era permittida. - -No meio dessas visões foi accordal-o Luiz Alves. - ---Tens razão de sentir, disse este; mas não gastes o coração, que ha -maiores sorpresas na vida... Em todo o caso, deixa-me dizer-te que -nenhuma razão tens de censura... - ---Censuro eu alguém? - ---Ha no amor um germen de odio que póde vir a desenvolver-se depois. -Talvez chegues a accusala de te não querer; nesse dia reflecte que os -movimentos do coração não estão nas mãos da vontade. Ella não tem culpa -se outro lhe despertou o amor. - ---Ah! incumbiu-te da defesa! - -Luiz Alves sorriu; elle contava com a recriminação. - ---Não, não me incumbiu da defesa, disse elle; sou eu que a tomo por -minhas mãos. Que defendo eu aqui se não a natureza, a razão, a logica -dos sentimentos, dura e inflexivel como toda a outra logica? Ha no -fundo das tuas palavras um sentimento de egoismo... - ---O amor não é outra cousa, respondeu Estevão sorrindo por sua vez. -Queres que inda em cima lhe agradeça este desespero? Queres que vá -apertar a mão ao homem que a soube vencer? - -Luiz Alves mordeu a ponta do labio e acercou-se da janella. Quando ia -a voltar para dentro ouviu um rumor na janella ao pé, a primeira da -casa da baroneza. Luiz Alves deu um passo mais. Não viu ninguem; viu -apenas o resto de um vestido que fugia e um objecto que lhe caia aos -pés. Inclinou-se a apanhal-o. Era uma grande folha de papel envolvendo, -para lhe dar mais peso, outra folha pequena dobrada em quarto. Luiz -Alves aproximou-se da luz, e leu rapidamente o que alli vinha escripto. -Leu, metteu o papel na algibeira e encaminhou-se disfarçadamente para a -janella. Ninguem; a casa da baroneza dormia. - -Quando voltou para dentro, Estevão tinha-se levantado. Elle vira cair -o papel, apanhal-o e lel-o Luiz Alves. Não entendeu nada do que se -passara; mas seu olhar como que pedia uma explicação. - -Luiz Alves foi direito ao fim. - ---Estevão, disse elle, vás saber a verdade toda; não poderia -occultar-te o que se ha passado, nem conviria talvez que tu a soubesses -por boca de outro. Guiomar podia amar-te, eras digno della, e ella -digna de ti; mas a natureza não os fez um para o outro. São duas almas -excellentes que seriam infelizes unidas. Quem ha aqui que censurar? -Mas se a natureza explica o sentimento della, egualmente explica o de -um terceiro, que sou eu. Tu confiaste-me as dores e as esperanças de -teu coração; era conhecer toda a minha amisade e a profunda estima que -sempre te consagrei. Mas nem tu nem eu contavamos commigo; por que -tambem eu tenho coração, e os prestigios da belleza tambem falam á -minha alma. Não a pude ver a frio. A paixão obscureceu-me. Nesta minha -felicidade de amar e ser amado, acredita que sou alguma cousa infeliz, -por que ha lagrimas tuas, ha o teu padecer longo e cruel, que eu -imagino e deploro. A confissão é franca; não te falo em arrependimento, -porque são actos do coração e não da consciência, que essa é pura e -honrada. E depois desta exposição fiel, cuido que lastimarás commigo o -encontro em que o acaso ou a má sorte nos reuniu a todos tres; mas não -me accusarás nem me recusarás a tua velha estima. Falo só da estima; a -amisade, creio que não poderá ser a mesma. Mas presarás o meu caracter. -Pela minha parte, nem uma nem outra cousa perece; sei o que vales. Não -sei aonde nos lançará a onda do destino amanhã. Pela ultima vez, porém, -espero que apertarás a mão do teu amigo. - -Luiz Alves concluíra estendo-lhe a mão. Estevão olhou para elle, mas -não disse uma só palavra, não fez um gesto unico: caminhou para a porta -e saiu. - ---Estevão! gritou Luiz Alves. - -Mas só lhe respondeu o rumor dos pés que desciam, e pouco depois o do -tilbury que rolava surdamente na terra humida da praia. - -Luiz Alves levantou seccamente os hombros; chegou-se á luz e releu o -escripto. - - - - -XVII - - -A carta. - - -Não era preciso reler o papel para entendel-o; mas olhos amantes -deliciam-se com letras namoradas. O papel continha uma palavra -unica:--_Peça-me_,--escripta no centro da folha, com uma lettra fina, -elegante, feminina. Luiz Alves olhou algum tempo para o bilhete, -primeiramente como namorado, depois como simples observador. A lettra -não era tremula, mas parecia ter sido lançada ao papel em hora de -commoção. - -Desta observação passou Luiz Alves a uma reflexão muito natural. -Aquelle bilhete, pouco conveniente em quaesquer outras circumstancias, -estava justificado pela declaração que elle proprio fizera á moça -alguns dias antes, quando lhe pediu que o conhecesse primeiro, e que -no dia em que o julgasse digno de o tomar por esposo, elle a ouviria e -acompanharia. Mas se isto era assim em relação ao bilhete, não o era em -relação á hora. Que motivo obrigaria a moça a deitar-lhe da janella, á -meia noite, aquelle papel decisivo, eloquente na mesma sobriedade com -que o escrevêra? - -Luiz Alves concluiu que havia alguma razão urgente, e portanto, que -era preciso acudir á situação com os meios da situação. Quanto á razão -em si, não a pôde descobrir. Occorreu-lhe o facto, aliás patente, da -côrte que o sobrinho da baroneza fazia a Guiomar, mas ignorava as -circumtancias que lhe eram relativas, e não pôde passar além. - -Não direi que Luiz Alves gastasse a noite a cavar fundo no terreno das -conjecturas vagas. Não era homem que perdesse tempo em cousas inuteis; -e nada mais inútil naquella occasião do que tentar explicar o que -nenhuma explicação podia ter para elle. O que resolveu foi obedecer -ao recado da moça; pedi-la sem hesitação nem preambulo. Mas se o caso -lhe não produziu insomnia, não deixou de lhe estender a vigilia, além -da hora usual, como era de geito naquella occasião solemne, sobretudo, -tratando-se de creatura que por aquelles tempos era a inveja e a -cobiça de muitos olhos. Luiz Alves não era, como Estevão, um adoravel -scismador, não se nutria de imaginações e devaneios, alimento que -funde pouco ou nada, mas scismou algum tempo, embebeu-se uma hora -na contemplação ideial da mulher que elle soubera escolher. O somno -chegou, e o devaneio confundiu-se com o sonho. - -Guiomar dormiria tão repousadamente como elle? Dormia; a noite, porém, -fora-lhe muito mais agitada e amarga, como era natural depois da -declaração de Jorge e das insinuações da madrinha. - -A moça recolhera-se ao quarto, logo depois da declaração. As pessoas -da casa nada puderam ler-lhe no rosto, salvo a pallidez repentina e o -rubor que se lhe seguiu: mas, logo que ella se achou só, deu toda a -expansão aos sentimentos que até alli pudera conter. - -O primeiro delles era o despeito; Guiomar sentia-se humilhada com -aquella declaração, assim feita, de emboscada e sobresalto, para -arrancar-se-lhe um consentimento que o coração e a indole repelliam. -Nenhuma consulta, nenhuma autorisação prévia; parecia-lhe que a -tratavam como ente absolutamente passivo, sem vontade nem eleição -propria, destinado a satisfazer caprichos alheios. As palavras da -madrinha desmentiam esta supposição; mas, a noticia que ella tinha -da resolução da baroneza, neste negocio, diminuia muito o valor de -taes palavras. Se era uma campanha, como dissera Mrs. Oswald, queriam -constrangel-a com apparencias de moderação, e o tempo que lhe deixavam -para reflectir era-o realmente para considerar, sosinha comsigo, na -necessidade de pagar os benefícios que recebêra. - -Não a accusem de ter feito estas reflexões, logo que entrou no quarto, -com os olhos scintillantes e os labios frios de colera. Eram naturaes; -primeiramente porque suppunha que o seu casamento com Jorge estava -deliberado e se realisaria, quaesquer que fossem as circumstancias; -depois, porque a alma della era melindrosa; não esquecia os beneficios -recebidos, mas quizera que lh'os não lembrassem por meio de uma -violencia: fazel-o, era o mesmo que lançar-lh'os em rosto. - ---Não! murmurava emfim a moça, forçar-me, reduzir-me á condição de -simples serva, nunca! - -Mas esta colera apaziguou-se, e o coração venceu o coração. Guiomar -recordou a constante ternura da baroneza para com ella, a sollicitude -com que lhe satisfazia os seus menores desejos, que eram alli ordens, -e não combinava tamanho amor com a supposta violencia que lhe queria -fazer. Não tardou em arrepender-se das palavras incoherentes que lhe -haviam fugido, e dos sentimentos maus que attribuíra ao coração da -baroneza. Cruzou as mãos no peito e ergueu o pensamento ao ceu, como a -pedir-lhe perdão. Guiomar, em meio das seducções da vida, que tantas -eram para ella e de todo lhe levavam os olhos, não perdera o sentimento -religioso, nem esquecera o que lhe havia ensinado a fé ingenua e pura -de sua mãe. - -A cólera acabára, mas veiu depois a luta entre a gratidão e o -amor,--entre o noivo que lhe propunha a affeição da madrinha e o que -o seu proprio coração escolhera. Ella nem ousava tirar as esperanças -á baroneza, nem immolar as suas proprias,--e uma de duas cousas era -preciso que fizesse naquella solemne occasião. O que sentiu e pensou -foi longo e cruel; mas se tal duello podia travar-se-lhe na alma, -não era duvidoso o resultado. O resultado devia ser um. A vontade e -a ambição, quando verdadeiramente dominam, podem lutar com outros -sentimentos, mas hão de sempre vencer, porque ellas são as armas do -forte, e a victoria é dos fortes. Guiomar tinha de decidir por um dos -dous homens que lhe propunha o seu destino; elegeu o que lhe falava ao -coração. - -A resposta, porém, não podia a moça demoral-a nem esquival-a, não -convinha, talvez, prolongar a luta e a duvida. Quando isto pensou, -veiu-lhe ao espirito uma ideia decisiva, a de confessar tudo á -madrinha. Hesitou, porém, entre fazel-o ella propria ou por boca -de Luiz Alves, cujas palavras, apontadas acima trazia escriptas na -memoria. Preferia este meio; mas não lhe bastava preferil-o, era mister -realisal-o, e para isso só dous modos tinha, escrever-lhe ou falar-lhe. -O segundo podia não ser tão prompto, e talvez falhasse occasião -apropriada; adoptou o primeiro, e recuou logo. A carta seria mandada -por um famulo, mas o espirito de Guiomar era a tal ponto sobre si que -repelliu semelhante intervenção. A janella estava aberta; dalli viu luz -na sala de Luiz Alves e a sombra do moço, que passeava de um lado para -outro. Occorreu-lhe então a ideia que poz por obra, conforme ficou dito -no capitulo anterior. - -Tal é a historia daquella palavra escripta rapidamente n'uma folha -de papel. Apesar da declaração de Luiz Alves e das circumstancias -em que a moça se achou, o leitor facilmente comprehenderá que ella -não a escreveu sem pelejar comsigo mesma, sem vacillar muito entre a -repugnancia e a necessidade. Afinal foram vencidos os escropulos, que é -tanta vez o seu destino delles, e força é dizer que não os vencem nunca -de graça, porque elles falam, arrazoam, obstam o mais que podem, mas -é vulgar passarem-lhes por cima. A moça entretanto, apenas lançara a -carta, arrependeu-se; a dignidade teve remorsos; a consciência quasi a -accusava de uma acção vil. Era tarde; a carta chegára a seu destino. - -Na manhã seguinte, a baroneza acordou mais alegre que de costume. -Cuidara ver em Guiomar, na noite anterior, alguma cousa que só lhe -pareceu enleio natural da situação. Guiomar erguera-se tarde; a -manhã estava chuvosa e a madrinha não deu o seu passeio. A moça foi -beijar-lhe a mão e a face, como costumava, e receber della o osculo -materno. O rosto parecia cançado mas um veu de affectada alegria -disfarçava-lhe a expressão natural, á semelhança das posturas de -toucador, de maneira que a baroneza, pouco ledora de physionomias, não -discerniu naquella a verdade da impostura. Impostura, digo eu, devendo -entender-se que é honesta e recta, porque a intenção da moça não era -mais do que não amargurar a madrinha, e tirar-lhe motivo a qualquer -afflicção antecipada. - ---Dormiu bem a minha rainha de Inglaterra? perguntou Mrs. Oswald, -pondo-lhe familiarmente as mãos nos hombros. - ---A sua rainha de Inglaterra não tem coroa, respondeu Guiomar comum -sorriso contrafeito. - -Pela volta do meio dia, recebeu a baroneza uma carta de Luiz Alves. -Abriu-a e leu-a. O advogado pedia-lhe a mão de Guiomar. Poucas linhas, -cortezes, simplices, naturaes, feitas por quem parecia senhor da -situação. - ---Mrs. Oswald, disse a baroneza á sua dama de companhia que se achava -na mesma sala, leia isto. - -A ingleza obedeceu. - ---Isto não quer dizer nada, observou ella depois de alguns instantes. É -um pretendente mais; devemos crer, porém, que são muitos, e que se os -outros não lhe escrevem cartas destas, é por que são menos affoutos. -A Sra. baroneza pensa que os olhos de sua afilhada são innocentes? -continuou a ingleza sorrindo. Eu cuido que devem estar carregados de -crimes, e que ha mortos... - ---Mas não vê, Mrs. Oswald, interrompeu a baroneza, que esse homem -parece estar autorisado? - -Mrs. Oswald calou-se como quem reflectia. Logo depois expoz uma serie -de argumentos e considerações, se não graves em substancia, pelo menos -nas roupas com que ella os vestia, umas roupas seriamente britannicas, -como as não talharia melhor a melhor tesoura da camara dos communs. -Toda ella dava ares de um argumento vivo e sem réplica. Havia em seus -cabellos, entre louro e branco, toda a rigidez de um syllogismo; cada -narina parecia uma ponta de um dilemma. A conclusão de tudo é que -nada estava perdido, e que a felicidade de Jorge era cousa não só -possivel, mas até provavel, uma vez que a baroneza mostrasse,--era o -essencial,--certa resolução de animo muito util e até indispensavel -naquella occasião. Mrs. Oswald offerecia-se para ir chamar a moça -immediatamente. - ---Pois vá, vá, disse a baroneza. - -A ingleza saiu d'alli e foi ter com Guiomar. Quando a viu de longe -compoz um sorriso, e Guiomar, vendo-a sorrir, sentiu como que um -movimento interno de repulsa. - ---Venho buscal-a, disse Mrs. Oswald, para uma cousa que a senhora está -longe de imaginar. - -Guiomar interrogou-a com olhos. - ---Para casar! - ---Casar! exclamou Guiomar sem comprehender a intenção da mensageira. - ---Nada menos, respondeu esta. Admira-se, não? Tambem eu; e sua madrinha -egualmente. Mas ha quem tenha o mau gosto de apaixonar-se por seus -bellos olhos, e a affronta de a vir pedir, como se se podissem as -estrellas do ceu... - -Guiomar comprehendeu de que se tratava. Olhou desdenhosamente para a -ingleza, e disse em tom secco e breve: - ---Mas, conclua, Mrs. Oswald. - ---A senhora baroneza manda chamal-a. - -Guiomar dispoz-se a ir ter com a madrinha; Mrs. Oswald fel-a parar um -instante, e com a mais meliflua voz que possuia na escala da garganta, -disse: - ---Toda a felicidade desta casa está em suas mãos. - - - - -XVIII - - -A escolha. - - -Mrs. Oswald tinha falado de mais. A baroneza não a incumbira de dizer á -afilhada a razão porque a mandava chamar. Aconteceu, porém, que aquella -indisçrição não foi a unica. Mrs. Oswald, em vez de esquivar-se e -deixar que entre Guiomar e a baroneza fosse tratado o assumpto que as -ia reunir, cedeu á curiosidade, e acompanhou a moça. - -A baroneza estava sentada, entre duas janellas, com a carta aberta nas -mãos, tão attenta em relel-a, que não ouviu o rumor dos pés de Guiomar -e de Mrs. Oswald. - ---Madrinha chamou-me? perguntou Guiomar parando em frente della. - -A baroneza ergueu a cabeça. - ---Ah! É verdade; sim; chamei-te. Senta-te aqui. - -Guiomar arrastou a cadeira que ficava mais proxima e sentou-se ao pé -da baroneza. Esta, entretanto, havia dobrado lentamente a carta, e -tinha os olhos no chão, como a procurar por onde começaria. Quando os -levantou deu com a ingleza. Ia já a falar, mas estacou. A affeição que -lhe tinha não impediu que achasse demasiada familiaridade a presença de -Mrs. Oswald em semelhante occasião. Esperou alguns instantes; mas como -a ingleza parecesse inteiramente distrahida: - ---Mrs. Oswald, disse a baroneza, vá ver se ja deram de comer aos -passarinhos. - -A ingleza percebeu que estes passarinhos, naquelle caso, eram uma -pura metaphora, e que a baroneza nada mais fazia do que pedir-lhe -delicadamente que se fôsse embora. Todavia, não se deu por achada. - ---Parece-me que não, disse ella; vou já saber disso. - ---Olhe, disse a baroneza quando ella já ia a meio caminho; encoste-me -essas portas, e dê ordem para que ninguem nos interrompa. - -A ingleza obedeceu e saiu. A careta que fez ao sair ninguem lh'a pôde -ver, e não se perdeu nada. - -As duas ficaram sós. - ---Senta-te aqui, Guiomar, disse a baroneza indicando um banquinho que -lhe ficava aos pés. - -Guiomar deixou a cadeira e foi sentar-se no banquinho, pousando -amorosamente os braços nos joelhos da madrinha. Esta cingiu-lhe a -cabeça com as mãos, e assim esteve longo tempo sem falar, mas eloquente -naquella mudez, em que a palavra pertencia ao coração. Ambas estavam -commovidas; e Guiomar, de envolta com um suspiro, murmurou este unico e -doce nome: - ---Mamãe! - -Era a primeira vez que ella lhe dava este nome, e tão fundo lhe calou -na alma á baroneza que a resposta foi cobril-a de beijos. - ---Sim, tua mãe, disse a madrinha; a que te deu o ser não te amaria mais -do que eu. Tens a alma e a ternura da filha que o ceu me levou, e se -todas as mães que perdem filhos podessem substituil-os do mesmo modo, -desapparecia do mundo a maior e mais cruel dor que ha nelle... - -A resposta de Guiomar foi apertar-lhe as mãos e beijar lh'as. Seguiu-se -uma pausa, em que a commoção a pouco e pouco desappareceu, e a baroneza -olhou para a carta de Luiz Alves, amarrotada pelo gesto de Guiomar. - ---Guiomar, disse ella emfim, já reflectiste no pedido de hontem á noite? - -A moça esperava que a madrinha lhe falasse no pedido de Luiz Alves; a -pergunta da baroneza desnorteou-a um pouco. Sua intelligencia, porém, -era clara e sagaz; a resposta foi outra pergunta: - ---Uma noite será bastante para decidir de todo o resto da vida? disse -ella sorrindo. - ---Tens razão, minha filha; mas a pergunta era natural da parte de quem -quer ver realizado um desejo. Jorge pediu-te em casamento. Sabes que é -um excellente caracter? - ---Excellente, respondeu a moça. - ---Uma boa alma, continuou a baroneza, e um moço distincto. Parece -gostar muito de ti, segundo disse hontem, não? É natural; só me admira -que não te amem muitos mais. - -A baroneza parou; Guiomar brincava com as franjas da manga sem se -atrever a levantar os olhos. - ---Deves saber, continuou a baroneza,--que eu estimaria ver que este -casamento se effectuasse; estou convencida de que te faria feliz, e -a elle também, pelo menos tanto quanto é possivel julgar das cousas -presentes... Que diz o teu coração? - -E como Guiomar não respondesse logo: - ---Ah! esquecia-me do que me disseste ha pouco. Uma noite não é bastante -para decidir de todo o resto da vida. Bem; ouvir-me-has mais duas -cousas. A primeira é que... Lê tu mesma esta carta. - -A baroneza deu a carta a Guiomar, que a abriu e leu o pedido que Luiz -Alves fazia de sua mão. Em quanto ella percorria com os olhos as poucas -linhas escriptas, a madrinha parecia observa-la fixamente, como a -tentar ler-lhe no rosto a impressão que o pedido lhe fazia, se espanto, -se satisfação. Não houve espanto nem satisfação apparente; Guiomar leu -a carta e entregou-a á madrinha. - ---Leste? É a primeira cousa que eu queria dizer-te. O Dr. Luiz Alves -pede-te em casamento; tens de escolher entre elle e Jorge. A segunda -cousa é que dos dous pretendentes Jorge é o que meu coração prefere; -mas não sou eu que me caso, és tu; escolhe com plena liberdade aquelle -que te falar ao coração. - -Guiomar erigiu o busto e olhou direitamente para a madrinha, com taes -signaes de espanto no rosto, que esta não poude deixar de lhe perguntar: - ---Que tens? - -A moça não respondeu; quero dizer não lhe respondeu com os labios; -travou-lhe da mão e apertou-a entre as suas, e ficou a olhar para -ella como a reflectir. A expressão de seu rosto passara do espanto á -satisfação e desta a uma cousa que parecia a um tempo indignação e asco. - ---Oh! madrinha! exclamou Guiomar, porque se não entenderam logo os -nossos corações? Não havia mister pôr de permeio um espirito importuno -e desconsolador. Se eu advinhara essas palavras que acabou de dizer, -não teria padecido metade do que me fazem padecer ha longos dias... - ---Padecer? - ---Padecer; nada menos. Mas deixemos isso. Foi o seu coração que falou -e o meu que ouviu; posso agora dizer-lhe francamente o que sinto, sem -receio de a affligir. - -Não precisava dizer mais nada; a escolha que ella ia fazer estava -já indicada pelo menos. Entendeu-o a baroneza, que fechou o rosto e -suspirou. A afilhada ouviu-lhe o suspiro, e percebeu a tristeza subita; -arrependeu-se de ter ido tão longe. - ---Percebo, respondeu a baroneza, queres dizer que dos dous pretendentes -escolhes o Dr. Luiz Alves? - -A moça conservou-se calada; a madrinha olhava para ella com uma -expressão de anciedade que a affligiu. - ---Fala, repetiu a baroneza. - ---Escolho... o Sr. Jorge, suspirou Guiomar depois de alguns instantes. - -A baroneza estremeceu. - ---Falas serio? Não creio; não é esse o sentimento do teu coração. Vê-se -que não é. Queres illudir-me e a ti também. Percebo que o não amas; não -o amaste nunca. Mas amas ao outro, não é? Que tem isso? Não me dá o -prazer que eu teria se... Que importa, se fores feliz? A tua felicidade -está acima das minhas preferencias. Era um sonho meu; desejava-o com -todas as forças; faria o que pudesse para alcançal-o; mas não se -violenta o coração,--um coração, sobretudo, como o teu! Escolhes o -outro? Pois casarás com elle. - -Vê o leitor que a palavra esperada, a palavra que a moça sentia vir-lhe -do coração aos labios e querer rompel-os, não foi ella quem a proferiu, -foi a madrinha; e se leu attento o que precede verá que era isso mesmo -o que ella desejava. Mas porque o nome de Jorge lhe roçou os lábios? -A moça não queria illudir a baroneza, mas traduzir-lhe infielmente -a voz de seu coração, para que a madrinha conferisse, por si mesma, -a traducção com o original. Havia nisto um pouco de meio indirecto, -de tactica, de affectação, estou quasi a dizer de hipocrisia, se não -tomassem á má parte o vocabulo. Havia, mas isto mesmo lhes dirá que -esta Guiomar, sem perder as excellencias de seu coração, era do barro -commum de que Deus fez a nossa pouco sincera humanidade; e lhes dirá -tambem que, apezar de seus verdes annos, ella comprehendia já que as -apparencias de um sacrificio valem mais, muita vez, do que o proprio -sacrificio. - -A baroneza acabára de falar. A alegria do rosto de Guiomar confirmou -a sua primeira impressão, e se a escolha era contraria ao que ella -desejava, a satisfação da afilhada pagou-lhe tudo quanto ella ira -perder. Era assim aquella alma de mãe; boa, dedicada e generosa. - ---Oh! madrinha! obrigada! exclamou a moça. Não me fica odiando? - ---Oh! exclamou a baroneza com um tom de reprehensão. - -E puxou-a para si, e abraçou-a com amor. Guiomar correspondeu ao -movimento, e as duas confundiram as suas alegrias intimas e affeições -sinceras. - -Mrs. Oswald viu-as dahi a pouco, risonhas e entendidas. Era facil -concluir qual dos dous pretendentes vencera; Guiomar não receberia de -tão boa cara o sobrinho da baroneza. Tudo estava acabado; e talvez que -a sua propria pessoa padecêra naquelle lance ultimo. A baroneza pedira -a Guiomar que lhe explicasse a que padecimentos alludíra, mas a moça -preferiu não dizer nada, não só por não affligir a madrinha, como por -não dar um aspecto de rivalidade á situação entre ella e Mrs. Oswald. - -A escolha estava feita, o consentimento dado. A baroneza respondeu -nessa mesma tarde ao pretendente feliz. Estevão teria manifestado -ruidosamente toda a alegria que semelhante resposta lhe causára; sua -alma apaixonada e exuberante contaria a Deus e aos homens aquella -immensa fortuna; Luiz Alves encerrou o prazer, aliás grande, dentro de -si; pensou na moça e no futuro alguns instantes, mas não falou delles a -ninguém. - -A baroneza escreveu nesse mesmo dia ao sobrinho, communicando-lhe a -resposta de Guiomar. Os leitores não terão difficuldade de admittir que -o coração de Jorge não sentiu o golpe profundamente, mas sentiu alguma -cousa. Não foi nessa noite á casa da tia; não foi tembem na segunda; na -terceira chegou a descer as escadas; na quarta embicou para Botafogo. - ---Tudo está acabado, disse-lhe a tia verdadeiramente sentida. - ---Acabado! suspirou Jorge. - ---Agora, é preciso animo; espero que serás homem. - ---Oh! serei homem! suspirou outra vez Jorge. - -E dous suspiros, arrancados do peito de um homem tão grave, deviam ser -por força dous suspiros gravissimos, como facilmente acredita o leitor. - -Effectivamente a physionomia do moço não tinha abatimento nem -afflicção; não a amarrotava o menor vestigio de noite mal dormida, -menos ainda de lagrimas enxutas. Alegre não era, mas grave e austera, -como elle a trazia sempre, a contrastar com o retezado do bigode. - -A baroneza imaginou comtudo que a dor do sobrinho devia te-lo -mortificado muito; apertou-lhe as mãos com ternura e disse-lhe ainda -algumas palavras de animação. - -Imagine-se o que seria o primeiro encontro de Jorge com Guiomar. A moça -estava serena, talvez risonha e até compassiva. Se tivesse de casar com -elle odiara-o de certo; agora já lhe perdoava o amor. Jorge pela sua -parte não deixou de ficar um tanto abalado, em parte commoção, em parte -constrangimento, sendo porém o constrangimento maior do que a commoção. -Nos labios pairou-lhe um desses sorrisos em que o olhar penetrante do -povo ou a sua imaginação pintoresca descobriu a côr amarella. Se outro -fosse o aspecto, é provavel que ella lhe conservasse, ao menos, o -respeito. Mas aquelle sorriso perdeu-o de todo no animo de Guiomar. - -Na primeira occasião que se lhe offereceu, expandiu-se Jorge com Mrs. -Oswald. - ---Perdeu-se tudo... murmurou elle. - -A ingleza não respondeu. - -Jorge continuou ainda a falar, e a ingleza e ouvir, mas a ouvir só, e a -querer divertil-o daquelle assumpto. - ---Tudo se perdeu, disse emfim o sobrinho da baroneza, talvez por culpa -sua. - ---Minha? perguntou Mrs. Oswald. - ---Sua. - ---Mas... - -Jorge hesitou um instante. - ---Não mostrou calor sufficiente, disse elle emfim. - ---Que quer? disse Mrs. Oswald. O coração não se pode dominar, nem ha -meio de impor-lhe um sentimento. D. Guiomar é uma santa creatura, ama -devéras ao seu rival; ha nada mais justo do que casa-los? - ---De maneira que... - ---De maneira que tudo era licito fazer na supposição de que ella não -amava a outro, mas uma vez que ama... - -Luiz Alves, na noite do dia em que recebeu a carta, foi á casa da -baroneza, que o recebeu com o melhor de seus sorrisos. A felicidade -de Guiomar fazia-a completamente feliz; nem iras, nem resentimentos, -como annunciara Mrs. Oswald. Todo o castello de cartas caíra por terra, -desde que a sinceridade da baroneza interveiu. - - - - -XIX - - -Conclusão. - - -Marcado o casamento para dous mezes depois, todo o tempo de intervallo -foi despendido pelos noivos naquelle deleitoso viver, que já não é o -colloquio furtivo do simples namoro, nem é ainda a intimidade conjugal, -mas um estado intermedio e consentido, em que os corações podem -entornar-se livremente um no outro. Aquelles não tinham nada do amor -extatico e romanesco de Estevão, mas amavam sinceramente, ella ainda -mais do que elle, e tão feliz um como outro. - -A gente que os conhecia commentou de todos os modos e feitios aquelle -caso inesperado, e a mais de um roeu a inveja do favor com que o ceu -tratára a Luiz Alves. A gentileza e a elegancia da moça não encontravam -objecção no espirito de ninguem; todos as confessavam e applaudiam, -porque até o silencio mortificado de algumas bellezas rivaes, se -porventura as havia,--era tambem applauso e do melhor. Quanto ao -caracter de Guiomar, divergiam muito as apreciações; e um dia, em que -Luiz Alves lhe contava uns trechos de conversa ouvidos a furto, e de -que era objecto a noiva, ella pareceu reflectir longo tempo, e emfim -respondeu: - ---Não admira que haja tanta opinião differente; é natural, porque nunca -vulgarisei o meu espirito. Entretanto, a opinião dos outros importa-me -pouco; eu quizera saber a sua. - ---A minha é que é um anjo. - -Guiomar fez um gesto gracioso de enfado, como quem não esperava -aquelle comprimento velho e commum, aliás eternamente, novo,--porque -não ha outro mais prompto e mais bello nas nossas linguas christãs. -O noivo sorriu, mas nada lhe disse, e todavia podia dizer-lhe alguma -cousa,--aquillo, pelo menos, que o leitor lhe ouviu n'um dos capitulos -anteriores. - ---Se não sabe o que sou,--continuou Guiomar,--eu mesmo o direi, para -que se não case commigo assim de emboscada, e não lhe aconteça unir-se -a um demonio, suppondo que é um anjo... - ---Um demonio! exclamou Luiz Alves rindo. - ---Nem mais nem menos, retrucou ella rindo tambem. Saiba pois que sou -muito senhora da minha vontade, mas pouco amiga de a exprimir; quero -que me adivinhem e obedeçam; sou tambem um pouco altiva, ás vezes -caprichosa, e por cima de tudo isto tenho um coração exigente. Veja se -é possível encontrar tanto defeito junto. - -Luiz Alves respondeu que eram tudo qualidades excellentes, e esteve -quasi a dizer que lhe faltava mencionar ainda outra, que era a -fundamental de todas; preferiu alludir a ella depois do casamento. - -O casamento effectuou-se, no dia marcado, com as solemnidades do -estylo. A manhã daquelle dia trajava um manto de neblina cerrada, que -o nosso inverno lhe poz aos hombros, como para resguardal-a do rigor -benigno da temperatura, manto que ella sacudiu dalli a nada, afim de se -mostrar qual era, uma deliciosa e fresca manhã fluminense. Não tardou -que o sol batesse de chapa nas aguas tranquillas e azues, e nessas -collinas onde o verde natural ia alternado com a alvura das habitações -humanas. Vento nenhum; apenas uma aragem, branda e fresca, que parecia -o ultimo respirar da noite já remota, e que só a trechos agitava as -folhas do arvoredo. - -A chacara naquelle dia era a mesma que nos outros, mas Guiomar -achou-lhe um aspecto novo e melhor, uma como expansão divina que -animava as cousas em redor della. Toda a alma feliz é pantheista; -parece-lhe que Deus lhe sorri de dentro da flor que desabrocha, do -fundo da agua que serpeia murmurando, e até de envolta com o cipó -humilde e rustico, ou no seixo bronco e despresado do chão. Era assim a -alma de Guiomar naquella manhã. Nunca as arvores, as flores, a gramma -rasteira lhe pareceram mais vecejantes; o sentimento interno hauria -aquella vida exterior, do mesmo modo que o pulmão bebia o puro ar -matinal. - -De envolta com essas sensações communs a toda a alma, havia ainda as -que eram della,--della, que via alli o seu ultimo sol de moça solteira -e contemplava por antecipação a aurora nova, o dia longo e feliz de -suas férvidas ambições. Neste ponto despia a sua fantazia as azas de -folha agreste, com que andara a pairar no meio daquella vegetação, para -envergar outras de seda e brocado, e voar sabe Deus a que sitios de -grandeza humana. - -O acaso quiz que naquella manhã vestisse o mesmo roupão com que Estevão -a vira do outro lado da cerca, e trouxesse no collo e nos pulsos o -mesmo broche e os mesmos botões de saphira. Não tinha o livro; mas, -em falta desta circumstancia, havia outra, que era a mesma daquella -celebre manhã, havia uns olhos que do outro lado do cerca a espreitavam -namorados. Não eram, porém, os mesmos; eram os do noiva, com quem ella -foi encontrar o seus;--e o mais doloroso de tudo é que nem a cerca, nem -os demais accessorios, nada lhe lembrou o outro homem que morria por -ella. A felicidade é isto mesmo; raro lhe sobra memoria para as dores -alheias. - -Não menos alegre do que ella parecia a baroneza naquelle dia. De longe -em longe surgia-lhe na memoria a ideia do sobrinho, mas já não havia -tristeza de não ter effectuado o casamento, como desejára; tão leve -foi o golpe em Jorge e tão indifferente andava elle, que a boa senhora -comprehendeu que o amor, se existira, não era grande, e sobretudo não -perdurou; a ideia de que isto mesmo podia acontecer-lhe ao cabo de seis -semanas de casado, fel-a dar graças a Deus do nenhum exito de seus -planos. - -Mrs. Oswald egualmente se mostrava feliz,--talvez ainda mais, porque -era-o apparatosamente, como se quizesse resgatar as passadas culpas. -Guiomar entendia a intenção latente das manifestações ruidosas com que -ella andava a felicital-a e bajula-la; mas o dia não era de rancores -nem de resentimentos, e ella recebia sorrindo as cortezanices da -ingleza. - -O casamento fez-se, emfim. As lagrimas que a baroneza derramou, quando -viu Guiomar ligada para sempre, foram as mais bellas joias que lhe -podia dar. Nenhuma mãe as verteu mais sinceras; e, seja dito em honra -de Guiomar, nenhuma filha as recebeu mais dentro do coração. - -Na noite do casamento, quem olhasse para o lado do mar, veria pouco -distante dos grupos de curiosos, attrahidos pela festa de uma casa -grande e rica, um vulto de homem sentado sobre uma lagea que acaso -topára alli. Quem está affeito a ler romances, e leu esta narrativa -desde o começo, suppõe logo que esse homem podia ser Estevão. Era elle. -Talvez o leitor, em lance identico, fosse refugiar-se em sítio tão -remoto, que mal podesse acompanhal-o a lembrança do passado. A alma de -Estevão sentiu uma necessidade cruel e singular, o gosto de revolver -o ferro na ferida, uma cousa a que chamaremos--voluptuosidade da dor, -em falta de melhor donominação. E foi para alli, contemplar com os -indifferentes e ociosos aquella casa onde reinava o goso e a vida, e -naquella hora que lhe afundava o passado e o futuro de que vivera. Não -o retinha a constancia do stoico; pela face emmagrecida e pallida lhe -corriam as lagrimas derradeiras, e o coração, colhendo as forças que -lhe restavam, batia-lhe forte na arca do peito. - -Defronte delle refulgia de todas as suas luzes a mansão afortunada; -detraz batia a onda lenta e melancolica, e via-se o fundo da enseada, -escuro e triste. Esta disposição do logar servia ao plano que elle -concebera, e era nada menos do que matar-se alli mesmo, quando já não -pudesse soffrer a dor, especie de vingança ultima que queria tomar -dos que o faziam padecer tanto, complicando-lhes a felicidade com um -remorso. - -Mas este plano não podia realisar-se, pela razão de que era mais um -devaneio, que se lhe dissipou como os outros. A frouxidão do animo -negou-lhe essa ultima ambição. Os olhos podiam fitar a morte, como -podiam encarar a fortuna; mas faltavam-lhe os meios de caminhar a -ella. Esteve alli, pois, até o fim; e em vez de mergulhar na agua e no -nada, como delineára, regressou tristemente para casa, tropego como um -ebrio, deixando alli a sua mocidade toda, porque a que levava era uma -cousa descolorida e sêcca, esteril e morta. Os annos passaram depois, -e á medida que vinham, ia-se Estevão afundando no mar vasto e escuro -da multidão anonyma. O nome, que não passara da lembrança dos amigos, -ahi mesmo morreu, quando a fortuna o distanceou delles. Se elle ainda -vegeta em algum recanto da capital, ou se acabou em alguma villa do -interior, ignora-se. - -O destino não devia mentir nem mentiu á ambição de Luiz Alves. Guiomar -acertara; era aquelle o homem forte. Um mez depois de casados, como -elles estivessem a conversar do que conversam os recem-casados, que -é de si mesmos, e a relembrar a curta campanha do namoro, Guiomar -confessou ao marido que naquella occasião lhe conhecera todo o poder da -sua vontade. - ---Vi que você era homem resoluto, disse a moça a Luiz Alves, que, -assentado, a escutava. - ---Resoluto e ambicioso, ampliou Luiz Alves sorrindo; você deve ter -percebido que sou uma e outra cousa. - ---A ambição não é defeito. - ---Pelo contrario, é virtude; eu sinto que a tenho, e que hei de faze-la -vingar. Não me fio só na mocidade e na força moral; fio-me tambem em -você, que ha de ser para mim uma força nova. - ---Oh! sim! exclamou Guiomar. - -E com um modo gracioso continuou: - ---Mas que me dá você em paga? um logar na camara? uma pasta de ministro? - ---O lustre do meu nome, respondeu elle. - -Guiomar, que estava de pé defronte delle, com as mãos prezas nas -suas, deixou-se cair lentamente sobre os joelhos do marido, e as duas -ambições trocaram o osculo fraternal. Ajustavam-se ambas, como se -aquella luva tivesse sido feita para aquella mão. - - -FIM - - - - INDICE - - Advertência de 1907 - Advertência de 1874 - - I.--O fim da carta - II.--Um roupão - III.--Ao pé da cerca - IV.--Latet anguis - V.--Meninice - VI.--post-scriptum - VII.--Um rival - VIII.--Golpe - IX.--Conspiração - X.--A revelação - XI.--Luiz Alves - XII.--A viagem - XIII.--Explicações - XIV.--Ex-abrupto - XV.--Embargos de terceiro - XVI.--A confissão - XVII.----A carta - XVIII.--A escolha - XIX.--Conclusão - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of A Mao e A Luva, by Machado de Assis - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MAO E A LUVA *** - -***** This file should be named 53101-8.txt or 53101-8.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/5/3/1/0/53101/ - -Produced by Laura Natal Rodriguez and Marc D'Hooghe at -Free Literature (online soon in an extended version, also -linking to free sources for education worldwide ... 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You may copy it, give it away or re-use it under the terms of -the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - - - -Title: A Mao e A Luva - -Author: Machado de Assis - -Release Date: September 20, 2016 [EBook #53101] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: ISO-8859-1 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MAO E A LUVA *** - - - - -Produced by Laura Natal Rodriguez and Marc D'Hooghe at -Free Literature (online soon in an extended version, also -linking to free sources for education worldwide ... MOOC's, -educational materials,...) Images generously made available -by the Bodleian Library, Oxford. - - - - - - -</pre> - - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/cover.jpg" width="500" alt="" /> -</div> -<h1>A MÃO</h1> - -<h3>E</h3> - -<h1>A LUVA</h1> - -<h3>Do</h3> - -<h2>MACHADO DE ASSIS</h2> - -<h4>da Academia Brasileira</h4> - -<h5>Livraria Garnier</h5> - -<h5>109, Rua do Ouvidor,109 -RIO DE JANEIRO</h5> - -<h5>6, Rue des Saints-Pères, 6 -PARIS</h5> - - -<h5>COLLECÇÃO DOS AUTORES CELEBRES</h5> - -<h5>DA</h5> - -<h5>LITTERATURA</h5> - -<h5>1919</h5> - - - -<hr class="full" /> -<h4><a name="ADVERTENCIA_DE_1907" id="ADVERTENCIA_DE_1907">ADVERTÊNCIA DE 1907</a></h4> - -<p>Os trinta e tantos annos decorridos do apparecimento desta novella -á reimpressão que ora se faz parece que explicam as differenças de -composição e de maneira do autor. Se este não lhe daria agora a mesma -feição, é certo que lh'a deu outr'ora, e, ao cabo, tudo pode servir a -definir a mesma pessoa.</p> - -<p>Não existia, ha muito, no mercado. O autor acceitou o conselho de -confiar a reimpressão ao editor dos outros livros seus. Não lhe -alterou nada; apenas emendou erros typographicos, fez correcções de -orthographia, e eliminou cerca de quinze linhas. Vae como saiu em 1874.</p> - -<p class="smcap" style="margin-left: 60%;">M. De A.</p> - -<hr class="r5" /> - -<h4><a id="ADVERTENCIA_DE_1874"></a>ADVERTÊNCIA DE 1874</h4> - -<p>Ésta novella, sugeita ás urgências da publicação diaria, saiu das mãos -do autor capitulo a capitulo, sendo natural que a narração e o estylo -padecessem com esse methodo de composição, um pouco fóra dos hábitos -do autor. Se a escrevêra em outras condições, dera-lhe desenvolvimento -maior, e algum colorido mais aos caracteres, que ahi ficam esboçados. -Convem dizer que o desenho de taes caracteres,—o de Guiomar, -sobretudo,—foi o meu objecto principal, senão exclusivo, servindo-me a -acção apenas de tela em que lancei os contornos dos perfis. Incompletos -embora, terão elles saido naturaes e verdadeiros?</p> - -<p>Mas talvez estou eu a dar proporções muito graves a uma cousa de tão -pequeno tomo. O que ahi vae são umas poucas paginas que o leitor -esgotará de um trago, se ellas lhe aguçarem a curiosidade ou se lhe -sobrar alguma hora que absolutamente não possa empregar em outra -cousa,—mais bella ou mais util.</p> - -<p style="margin-left: 10%; font-size: 0.9em;">Novembro de 1874.</p> - -<p class="smcap" style="margin-left: 60%;">M. De A.</p> - -<hr class="chap" /> -<p><a href="#INDICE">Indice</a></p> -<h3><a name="A_MAO_E_A_LUVA" id="A_MAO_E_A_LUVA">A MÃO E A LUVA</a></h3> - - - -<hr class="tb" /> -<h4><a name="I" id="I">I</a></h4> - - -<h4>O fim da carta.</h4> - - -<p>—Mas que pretendes fazer agora?</p> - -<p>—Morrer.</p> - -<p>—Morrer? Que ideia! Deixa-te disso, Estevão. Não se morre por tão -pouco....</p> - -<p>—Morre-se. Quem não padece estas dores não as póde avaliar. O golpe -foi profundo, e o meu coração é pusillanime; por mais aborrecivel que -pareça a ideia da morte, peior, muito, peior do que ella, é a de viver. -Ah! tu não sabes o que isto é?</p> - -<p>—Sei: um namoro gorado....</p> - -<p>—Luiz!</p> - -<p>—.... E se em cada caso de namoro gorado morresse um homem, tinha já -diminuído muito o genero humano, e Malthus perderia o latim. Anda, sobe.</p> - -<p>Estevão metteu a mão nos cabellos com um gesto de augustia; Luiz -Alves sacudiu a cabeça e sorriu. Achavam-se os dous no corredor da -casa de Luiz Alves, á rua da Constituição,—que então se chamava dos -Ciganos;—então, isto é, em 1853, uma bagatella de vinte annos que lá -vão, levando talvez comsigo as illusões do leitor, e deixando-lhe em -troca (usurarios!) uma triste, crua e desconsolada experiencia.</p> - -<p>Eram nove horas da noite; Luiz Alves recolhia-se para casa, justamente -no occasião em que Estevão o ia procurar; encontraram-se á porta. Alli -mesmo lhe confiou Estevão tudo o que havia, e que o leitor saberá daqui -a pouco, caso não aborreça estas historias de amor, velhas como Adão, -e eternas como o ceu. Os dous amigos demoraram-se ainda algum tempo no -corredor, um a insistir com o outro para que subisse, o outro a teimar -que queria ir morrer, tão tenazes ambos, que não haveria meio de os -vencer, se a Luiz não occoresse uma transacção.</p> - -<p>—Pois sim, disse elle, convenho em que deves morrer, mas ha de ser -amanhã. Cede da tua parte, e vem passar a noite commigo. Nestas ultimas -horas que tens de viver na terra dar-me-has uma lição de amor, que eu -te pagarei com outra de philosophia.</p> - -<p>Dizendo isto, Luiz Alves travou do braço de Estevão, que não resistiu -dessa vez, ou porque a ideia da morte não se lhe houvesse entranhado -deveras no cerebro, ou porque cedesse ao doloroso gosto de falar da -mulher amada, ou, o que é mais provavel, por esses dous motivos juntos. -Vamos nós com elles, escada acima, até a sala de visitas, onde Luiz foi -beijar a mão de sua mãe.</p> - -<p>—Mamãe, disse elle, hade fazer-me o favor de mandar o chá ao meu -quarto; o Estevão passa a noite commigo.</p> - -<p>Estevão murmurou algumas palavras, a que tentou dar um ar de gracejo, -mas que eram funebres como um cypreste. Luiz viu-lhe então, á luz -das estearinas, alguma vermelhidão nos olhos, e adivinhou,—não -era difficil,—que houvesse chorado. Pobre rapaz! suspirou elle -mentalmente. D'alli foram os dous para o quarto, que era uma vasta -sala, com tres camas, cadeiras de todos os feitios, duas estantes -com livros e uma secretaria,—vindo a ser ao mesmo tempo, alcova e -gabinette, de estudo.</p> - -<p>O chá subiu dahi a pouco. Estevão, a muito rogo do hospede, bebeu dous -goles; accendeu um cigarro e entrou a passear ao longo do aposento, -em quanto Luiz Alves, preferindo um charuto e um sophá, accendeu o -primeiro e estirou-se no segundo, cruzando beatificamente as mãos sobre -o ventre e contemplando o bico das chinellas, com aquella placidez -de um homem a quem se não gorou nenhum namoro. O silencio não era -completo; ouvia-se o rodar de carros que passavam fóra; no aposento, -porêm, o unico rumor era dos botins de Estevão na palhinha do chão.</p> - -<p>Cursavam estes dous moços a academia de S. Paulo, estando Luiz Alves, -no quarto anno e Estevão no terceiro. Conheceram-se na academia, e -ficaram amigos intimos, tanto quanto podiam sel-o dous espiritos -differentes, ou talvez por isso mesmo que o eram. Estevão, dotado de -extrema sensibilidade, e não menor fraqueza de animo, affectuoso e -bom, não daquella bondade varonil, que é apanagio de uma alma forte, -mas dessa outra bondade molle e de cera, que vai á mercê de todas as -circumstancias, tinha, além de tudo isso, o infortunio de trazer ainda -sobre o nariz os oculos côr de rosa de suas virginaes illusões. Luiz -Alves via bem com os olhos da cara. Não era mau rapaz, mas tinha o seu -grão de egoismo, e se não era incapaz de affeições, sabia regel-as, -moderal-as, e sobretudo guial-as ao seu proprio interesse. Entre estes -dous homens travara-se amizade intima, nascida para um na sympathia, -para outro no costume. Eram elles os naturaes confidentes um do outro, -com a differença que Luiz Alves dava menos do que recebia, e, ainda -assim, nem tudo o que dava exprimia grande confiança.</p> - -<p>Estevão referira ao amigo, desde tempos, toda a historia do amor, -agora mallogrado, suas esperanças, desalentos e glorias, e, emfim, -o inesperado desfecho. O pobre rapaz, que folheava o capitulo mais -delicioso do romance—no sentir delle—caiu de toda a altura das -illusões na mais dura, prosaica e miseravel realidade.</p> - -<p>A namorada de Estevão,—é tempo de dizer alguma cousa della,—era uma -moça de 17 annos, e, por ora, simples alumna-professora no collegio de -uma tia do nosso estudante, á rua dos Invalidos. Estevão tinha-a visto, -pela primeira vez, seis mezes antes, e desde logo sentiu-se preso por -ella, «até á morte», disse elle ao amigo, referindo-lhe o encontro, -o que o fez sorrir de tão estirado prazo. Qualquer que elle fosse, -porém, o prazo fatal daquelle captiveiro, a verdade é que Estevão no -mesmo ponto em que a viu logo a amou, como se ama pela primeira vez na -vida—amor um pouco estouvado e cego, mas sincero e puro. Amava-o ella? -Estevão dizia que sim, e devia crel-o; alguns olhares ternos, meia -duzia de apertos de mão significativos, embora a largos intervallos, -davam a entender que o coração de Guiomar—chamava-se Guiomar—não era -surdo á paixão do academico. Mas, fora disso, nada mais, ou pouco mais.</p> - -<p>O pouco mais foi uma flor, não colhida do pé em toda a original -frescura, mas já murcha e sem cheiro, e não dada, senão pedida.</p> - -<p>—Faz-me um favor? disse um dia Estevão apontando para a flor que -ella trazia nos cabellos; esta flor está murcha, e, naturalmente, vai -deital-a fóra ao despentear-se; eu desejava que m'a désse.</p> - -<p>Guiomar, sorrindo, tirou a flor do cabello, e deu-lh'a; Estevão -recebeu-a com egual contentamento ao que teria se lhe antecipassem o -seu quinhão do ceu. Além da flor, e para supprir as cartas, que não -havia, nada mais obtivera. Estevão durante aquelles seis compridos -mezes, a não serem os taes olhares, que afinal são olhares, e vão-se -com os olhos donde vieram. Era aquillo amor, capricho, passatempo ou -que outra cousa era?</p> - -<p>Naquella tarde, a tarde fatal, estando ambos a sós, o que era raro e -difficil, disse-lhe elle que em breve ia voltar para S. Paulo, levando -comsigo a imagem della, e pedindo-lhe em cambio, que uma vez ao menos -lhe escrevesse. Guiomar franziu a testa e fitou nelle o seu magnifico -par de olhos castanhos, com tanta irritação e dignidade, que o pobre -rapaz ficou attonito e perplexo. Imagina-se a augustia delle diante -do silencio que reinou entre ambos por alguns segundos; o que se não -imagina é a dor que o prostrou,—a dor e o espanto,—quando ella, -erguendo-se da cadeira em que estava, lhe respondeu, saindo:</p> - -<p>—Esqueça-se disso.</p> - -<p>—Pois quanto a mim,—disse Luiz Alves ouvindo pela terceira vez a -narração de tão cru desenlace; quanto a mim, obedecia-lhe pontualmente; -esquecia-me disso e ia curar-me cima dos compendios; direito romano e -philosophia, não conheço remedio melhor para taes achaques.</p> - -<p>Estevão não ouvia as palavras do amigo; estava então assentado na cama, -com os cotovellos fincados nas pernas, e a cabeça mettida nas mãos, -parecendo que chorava. A principio chorou em silencio; mas não tardou -que Luiz Alves o visse deitar-se na cama, estorcer-se convulsivamente, -a soluçar, a abafar quanto podia os gritos que lhe saiam do peito, -a puxar os cabellos, a pedir a morte, tudo entremeado com o nome de -Guiomar, tão d'alma tudo aquillo, tão lastimosamente natural, que emfim -o commoveu, e não houve remedio se não dizer-lhe algumas palavras de -conforto. A consolação veiu a tempo; a dor, chegada ao paroxismo, -declinou pouco a pouco, e as lagrimas estancaram, ao menos por algum -tempo.</p> - -<p>—Sei que tudo isto hade parecer-te ridículo, disse Estevão sentando-se -na cama; mas que queres tu? Eu vivia na persuasão de que era amado, e -era-o talvez. Por isso mesmo não entendo o que se passou hoje. Ou o que -eu suppunha ser amor, não passava talvez de passatempo ou zombaria...</p> - -<p>—Talvez, talvez, interrompeu Luiz Alves, comprehendendo que o melhor -meio de o curar do amor era metter-lhe em brios o amor-proprio.</p> - -<p>Estevão ficou alguns instantes pensativo.</p> - -<p>—Não, não, é possível, contestou elle. Tu não a conheces. É uma grave -e nobre creatura, incapaz de conceber um sentimento desses, que seria -vulgar ou cruel.</p> - -<p>—As mulheres...</p> - -<p>—Já pensei se aquillo de hoje não seria uma maneira de -experimentar-me, de ver até que ponto eu lhe queria... Escusas de -rir-te, Luiz; eu nada affirmo; digo que pode ser. Não admira que ella -fizesse esse calculo,—um bom calculo, nesse caso, todo filho do -coração...</p> - -<p>A imaginação de Estevão desceu por este declivio de floridas -conjecturas, e Luiz Alves entendeu que era de bom aviso não -espantar-lhe os cavallos. Ella foi, foi, foi por alli abaixo, -redea frouxa e riso nos labios. Boa viagem! exclamou mentalmente o -collega voltando a estirar-se no sophá. A viagem não foi longa, mas -produziu effeito salutar no animo do namorado, adoçando-lhe as penas, -circumstancia que Luiz Alves aproveitou para lhe falar de cem cousas -alheias ao coração e divertil-o do pensamento que o absorvia. Conseguiu -o seu intento durante meia hora, e conseguiu mais, por que fez com -que o collega risse, a principio de um riso amargo e dubio, depois -de um riso jovial e franco incompatível com intuitos tragicos. Mas, -ai triste! a dor delle era uma especie de tosse moral, que aplacava -e reapparecia, intensa ás vezes, ás vezes mais fraca, mas sempre -infallivel. O rapaz acertara de abrir uma pagina de <i>Werther</i>; leu meia -duzia de linhas, e o accesso voltou mais forte que nunca.</p> - -<p>Luiz Alves acudiu-lhe com as pastilhas da consolação; o accesso passou; -nova palestra, novo riso, novo desespero, e assim se foram escoando -as horas da noite, que o relogio da sala de jantar batia secca e -regularmente, como a lembrar aos dous amigos que as nossas paixões não -acceleram nem moderam o passo do tempo.</p> - -<p>A aurora para os dous academicos coincidiu com as badaladas do meio -dia, o que não admira, pois só adormeceram quando ella começava -a apagar as estrellas. Estevão passou a noite,—a manhã, quero -dizer,—muito socegado e livre de sonhos maus. Quando abriu os olhos -extranhou o aposento e os objectos que o rodeavam. Logo que os -reconheceu, despertou-se-lhe, com a memoria, o coração, onde já não -havia aquella dor aguda da vespera. Os successos, embora recentes, -começavam a envolver-se na sombra crepuscular do passado.</p> - -<p>A natureza tem suas leis imperiosas; e o homem, ser complexo, vive não -só do que ama, mas também (fôrça é dizel-o) do que come. Sirva isto de -excusa ao nosso estudante, que almoçou nesse dia, como nos anteriores, -bastando dizer em seu abono que, se o não fez com lagrimas, também o -não fez alegre. Mas o certo é que a tempestade serenara; o que havia -era uma ressaca, ainda forte, mas que diminuiria com o tempo. Luiz -Alves evitou falar-lhe de Guiomar; Estevão foi o primeiro a recordar-se -della.</p> - -<p>—Dá tempo ao tempo, respondeu Luiz Alves, e ainda te has de rir -dos teus planos de hontem. Sobretudo, agradece ao destino o haveres -escapado tão depressa. E queres um conselho?</p> - -<p>—Dize.</p> - -<p>—O amor é uma carta, mais ou menos longa, escripta em papel velino, -córte-dourado, muito cheiroso e catita; carta de parabens quando se lê, -carta de pezames quando se acabou de ler. Tu que chegaste ao fim, põe a -epistola no fundo da gaveta, e não te lembres de ir ver se ella tem um -«post-scriptum»...</p> - -<p>Estavão applaudiu a metaphora com um sorriso de bom agouro.</p> - -<p>Duas vezes viu elle a formosa Guiomar, antes de seguir para S. Paulo. -Da primeira sentiu-se ainda abalado, por que a ferida não cicatrisara -de todo; da segunda, pôde encaral-a sem perturbação. Era melhor,—mais -romantico pelo menos, que eu o puzesse a caminho da academia, com o -desespero no coração, lavado em lagrimas, ou a bebel-as em silencio, -como lhe pedia a sua dignidade de homem. Mas que lhe hei de eu fazer? -Elle foi daqui com os olhos enxutos, distrahindo-se dos tedios da -viagem com alguma pilheria de rapaz,—rapaz outra vez, como dantes.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h4><a name="II" id="II">II</a></h4> - - -<h4>Um roupão.</h4> - - -<p>Um mez depois de chegar Estevão a S. Paulo, achava-se a sua paixão -definitivamente morta e enterrada, cantando elle mesmo um responso, -a vozes alternadas, com duas ou tres moças da capital,—todas ellas, -por passatempo. Claro é que dous annos depois, quando tomou o grão de -bacharel, nenhuma ideia lhe restava do namoro da rua dos Invalidos. -Demais, a bella Guiomar desde muito tempo deixara o collegio e fora -morar com a madrinha. Já elle a não vira da primeira vez que veiu á -corte. Agora voltava graduado em sciencias juridicas e sociaes, como -fica dito, mais desejoso de devassar o futuro que de reler o passado.</p> - -<p>A corte divertia-se, como sempre se divertiu, mais ou menos, e para -os que transpuzeram a linha dos Cincoenta divertia-se mais do que -hoje, eterno reparo dos que já não dão á vida toda a flor dos seus -primeiros annos. Para os varões maduros, nunca a mocidade folga como -no tempo delles, o que é natural dizer, porque cada homem vê as cousas -com os olhos da sua edade. Os recreios da juventude não são de certo -egualmenle nobres, nem egualmente frivolos, em todos os tempos; mas a -culpa ou o merecimento não é della,—a pobre juventude,—é sim do tempo -que lhe cae em sorte.</p> - -<p>A corte divertia-se, apesar dos recentes estragos do cholera—; -bailava-se, cantava-se, passeava-se, ia-se ao theatro. O Cassino abria -os seus salões, como os abria o Club, como os abria o Congresso, todos -tres fluminenses no nome e na alma. Eram os tempos homericos do theatro -lyrico, a quadra memoravel daquellas lutas e rivalidades renovadas em -cada semestre, talvez por um excesso de ardor e enthusiasmo, que o -tempo diminuiu, ou transferiu,—Deus lhe perdôe,—a cousas de menor -tomo. Quem se não lembra,—ou quem não ouviu falar das batalhas -feridas naquella classica plateia do Campo da Acclamação, entre a -legião casalonica e a phalange chartonica, mas sobretudo entre esta e -o regimento lagruista? Eram batalhas campaes, com tropas frescas,—e -maduras tambem,—apercebidas de flores, de versos, de coroas, e até -de estalinhos. Uma noite a acção travou-se entre o campo lagruista -e o campo chartonista, com tal violencia, que parecia uma pagina da -<i>Illiada.</i> Desta vez, a Venus da situação saiu ferida do combate; um -estalo rebentára no rosto da Charton. O furor, o delirio, a confusão -foram indescriptiveis; o applauso e a pateada deram-se as mãos,—e os -pés. A peleja passou aos jornaes. «Vergonha eterna (dizia um) aos -cavalheiros que cuspiram na face de uma dama!»—«Si for mister -(replicava outro) daremos os nomes dos aristarchos que no saguão do -theatro juraram desfeitear Mlle. Lagrua.)»—«Patuleia desenfreada!»—«Fidalguice balofa!»</p> - -<p>Os que escaparam daquellas guerras de alecrim e mangerona hão de sentir -hoje, após dezoito annos, que despenderam excessivo enthusiasmo em -cousas que pediam repouso de espirito e lição de gosto.</p> - -<p>Estevão é uma das relíquias daquella Troya, e foi um dos mais -fervorosos lagruistas, antes e depois do grão. A causa principal das -suas preferencias, era de certo o talento da cantora; mas a que elle -costumava dar, nas horas de bom humor, que eram todas as vinte e quatro -do dia, tirantes as do somno, essa causa que mais que tudo o ligava -aos «arraiaes do bom gosto» dizia elle, era,—imaginem lá,—era o -buço de Mlle. Lagrua. Talvez não fosse elle o unico amador do buço; mas -outro mais férvido duvido que houvesse nesta boa cidade. Um chartonista -machiavelico, aliás escriptor elegante, elevava o tal buço á cathegoria -de bigode, comprehendendo sagazmente que, se o buço era graça, o bigode -era excrescencia; e elle nem ao labio da Lagrua queria perdoar.</p> - -<p>—Oh! aquelle buço! exclamava Estevão nos intervallos de uma opera, -aquelle delicioso buço hade ser a perdição da gente de bem! Quem me -dera ir encaracolado por alli acima, até ficar mais proximo do ceu, -quero dizer dos seus olhos, e ser visto por ella, que me não descobre -na turba innumeravel dos seus adoradores! Querem saber uma cousa? Alli -é que ella hade ter a alma, e eu quizera entreter-me com a alma della, -e dizer-lhe muita cousinha que tenho cá dentro á espera de um buço que -as queira ouvir.</p> - -<p>Estevão era mais ou menos o mesmo homem de dous annos antes. Vinha -cheirando ainda aos cueiros da Academia, meio estudante e meio doutor, -alliando em si, como em edade de transição, o estouvamento de um com -a dignidade do outro. As mesmas chimeras tinha, e a mesmas simplesa -de coração; só não as mostrára nos versos que imprimiu em jornaes -academicos, os quaes eram todos repassados do mais puro byronismo, -moda muito do tempo. Nelles confessava o rapaz á cidade e ao mundo -a profunda incredulidade do seu espirito, e o seu fastio puramente -litterario. A collação de grão interrompeu, ou talvez acabou, aquella -vocação poetica; o ultimo suspiro desse genero que lhe saiu do peito -foram umas sextilhas á sua <i>juventude perdida.</i> Felizmente, que só a -perdeu em verso; na prosa e na realidade era rapaz como poucos.</p> - -<p>Posto fizesse boa figura na academia, mais presava do que amava a -sciencia do direito. Suas preferencias intellectuaes dividiam-se, ou -antes abrangiam a polilica e a litteratura, e ainda assim, a politica -só lhe acenava com o que podia haver litterario nella. Tinha leitura de -uma e outra cousa, mas leitura veloz e á flor das paginas. Estevão não -comprehendería nunca este axioma de lord Macaulay—que mais aproveita -digerir uma lauda que devorar um volume. Não digeria nada; e dahi vinha -o seu nenhum apego ás sciencias que estudara. Venceu a repugnancia por -amor proprio; mas, uma, vez dobrado o cabo das Tormentas disciplinares, -deixou a outros o cuidado de aproar á India.</p> - -<p>Suas aspirações políticas deviam naturalmente morrer em germen, não só -porque lhe minguava o apoio necessario para as arvorecer e fructificar, -mas ainda por que elle não tinha em si a força indispensavel a todo o -homem que põe a mira acima do estado em que nasceu. Eram aspirações -vagas, intermittentes, vaporosas, umas visões legislativas e -ministeriaes, que tão depressa lhe namoravam a imaginação, como logo -se esvaeciam, ao resvalar dos primeiros olhos bonitos, que esses, sim, -amava-os elle deveras. Opiniões não as tinha; alguns escriptos que -publicara durante a quadra academica eram um complexo de doutrinas de -toda a casta, que lhe fluctuavam no espirito, sem se fixarem nunca, -indo e vindo, alçando-se ou descendo, conforme a recente leitura ou a -actual disposição de espirito.</p> - -<p>Por agora militava nas fileiras do lagruismo, com ardor, dedicação -e fidelidade de bom apostolo. Não era abastado para pagar o luxo de -uma opinião lyrica; nascera pobre e não tinha parente em boa posição. -Alguns poucos recursos possuia, provenientes do seu officio de -advogado, que exercia com o amigo Luiz Alves.</p> - -<p>Uma noite assistira á representação de <i>Othello</i>, palmeando até romper -as luvas, acclamando até cansar-lhe a voz, mas acabando a noite -satisfeito dos seus e de si. Terminado o expectaculo, foi elle, segundo -costumava, assistir á saida das senhoras, uma procissão de rendas, -e sedas, e leques, e veus, e diamantes, e olhos de todas as cores e -linguagens. Estevão era pontual nessas occasiões de espera, e raro -deixava de ser o ultimo que saía. Tinha agora os olhos pregados em -outros olhos, não pardos como os delle, mas azues, de um azul-ferrete, -infelizmente uns olhos casados, quando sentiu alguem bater-lhe no -hombro, e dizer-lhe baixinho estas palavras:</p> - -<p>—Larga o pinto, que é das almas.</p> - -<p>Estevão voltou-se.</p> - -<p>—Ah! és tu! disse elle vendo Luiz Alves. Quando chegaste?</p> - -<p>—Hoje mesmo, respondeu o collega; venho sequioso de musica. Vassouras -não tem Lagrua nem <i>Othello</i>...</p> - -<p>—Vieste lavar a alma da poeira do caminho, disse Estevão, que, ainda -falando em prosa, cultivava as suas metaphoras poeticas. Fizeste bem; -não te perdoaria se preferisses a outra, a lambisgoia, que aqui nos -querem impingir por grande cousa, e que não chega aos calcanhares do -buço...</p> - -<p>Interrompeu-se. Luiz Alves acabava de comprimentar ceremoniosamente -alguem que passava; Estevão volveu a cabeça para ver quem era. Era uma -moça, que elle não chegou a ver, porque já descia as escadas; mas tão -elegante e gentil que os olhos lhe fuzilaram de admiração.</p> - -<p>—Algum namoro? perguntou ao amigo.</p> - -<p>—Não; uma visinha.</p> - -<p>A desfilada acabou; sairam os dous e foram dalli cear a um hotel, -seguindo depois para Botafogo, onde morava Luiz Alves, desde que -perdera a mãe, alguns mezes antes.</p> - -<p>A casa de Luiz Alves ficava quasi no fim da praia de Botafogo, tendo -ao lado direito outra casa, muito maior e de apparencia rica. A noite -estava bella, como as mais bellas noites daquelle arrabalde. Havia -luar, ceu limpido, infinidade de estrellas e a vaga a bater mollemente -na praia, todo o material, em summa, de uma boa composição poetica, em -vinte estrophes pelo menos, obrigada a rima rica, com alguns exdruxulos -rebuscados nos diccionarios. Estevão poetou, mas poetou em prosa, com -um enthusiasmo legitimo e sincero. Luiz Alves, menos propenso ás cousas -bellas, preferia a mais util de todas naquella occasião, que era ir -dormir. Não o conseguiu sem ouvir ao hospede tudo quanto elle pensava -ácerca daquelle «pinto, que era das almas,» aquelles olhos azues, « -profundos como o ceu,» exclamava Estevão.</p> - -<p>Afinal dormiram ambos; mas, ou fosse porque os taes olhos o -perseguissem, ainda em sonhos, ou porque extranhasse a cama, ou por que -o destino assim o resolvera, a verdade é que Estevão dormiu pouco, e, -cousa rara, accordou logo depois de apparecer a arraiada.</p> - -<p>A manhã estava fresca e serena; era tudo silencio, mal quebrado -pelo bater do mar e pelo chilrear dos passarinhos nas chacaras -da visinhança. Estevão, amuado por não poder conciliar o somno, -resolvera-se a ir ver a manhã, de mais perto. Ergueu-se de manso, -lavou-se, vestiu-se, e pediu que lhe levassem café ao jardim, para onde -foi sobraçando um livro que acaso topou ao pé da cama.</p> - -<p>O jardim ficava nos fundos da casa; era separado da chacara visinha -por uma cerca. Relanceando os olhos pela chacara, viu Estevão que era -plantada com esmero e arte, assaz vasta, recortada por muitas ruas -curvas e duas grandes ruas rectas. Uma destas começava das escadas de -pedra da casa e ia até o fim da chacara; a outra ia da cerca de Luiz -Alves até á extremidade opposta, cortando a primeira no centro. Do -lugar em que ficava Estevão só a segunda rua podia ser vista de ponta a -ponta.</p> - -<p>Sentou-se o bacharel em um banco que alli achou, recebeu a chicara de -café, que o escravo lhe trouxe dahi a pouco, accendeu um charuto e -abriu o livro. O livro era uma <i>Pratica Forense.</i> Demos-lhe razão ao -despeito com que o fechou e atirou ao chão, contentando-se com o canto -dos passaros e o cheiro das flores, e a sua imaginação tambem, que -valia as flores e os passaros.</p> - -<p>Deus sabe até onde iria ella, com as azas faceis que tinha, se um -incidente lh'as não colhera e fizera descer á terra. Da casa visinha -saíra um roupão,—elle não viu mais que um roupão,—e seguira pela -rua que enfrentava com casa, a passo lento e meditativo. Estevão, que -adorava todos os roupões, fossem ou não meditativos, deu as graças á -Providencia, pela boa fortuna que lhe deparava, e afiou os olhos para -contemplar aquella graciosa madrugadora. Graciosa, ainda elle não sabia -se o era; mas assentou que devia de ser, justamente porque desejava que -o fosse.</p> - -<p>A deliciosa paisagem ia ter emfim uma alma; o elemento humano vinha -coroar a natureza.</p> - -<p>Ergueu-se Estevão, de toda a sua estatura elevada e gentil, para ver -melhor,—e ser visto, digamos a verdade toda,—aquella desconhecida -visinha, que devia ser por força a que Luiz Alves comprimentara -no theatro. Acteon christão e modesto, não sorprehendia Diana no -banho, mas ao sair delle; todavia, não palpitava menos de commoção e -curiosidade.</p> - -<p>O roupão ia andando.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h4><a name="III" id="III">III</a></h4> - - -<h4>Ao pé da cerca.</h4> - - -<p>A primeira cousa que Estevão pôde descobrir é que a visinha era -moça. Via-lhe o perfil, em cada aberta que deixavam as arvores, um -perfil correcto e puro, como de esculptura antiga. Via-lhe a face côr -de leite, sobre a qual se destacava a côr escura dos cabellos, não -penteados de vez, mas frouxamente atados no alto da cabeça, com aquelle -deleixo matinal que faz mais bellas as mulheres bellas. O roupão,—de -musselina branca,—finamente bordado, não deixava ver toda a graça do -talhe, que devia ser e era elegante, dessa elegancia que nasce com a -creatura ou se apura com a educação, sem nada pedir, ou pedindo pouco -á thesoura da costureira. Todo o collo ia coberto até o pescoço, onde -o roupão era preso por um pequeno broche de saphira. Um botão, do -mesmo mineral, fechava em cada pulso as mangas estreitas e lisas, que -rematavam em folhos de renda.</p> - -<p>Estevão, da distancia e na posição em que se achava, não podia ver -todas estas minucias que aqui lhes aponto, em desempenho deste meu -dever de contador de historias. O que elle viu, além do perfil, dos -cabellos, e da tez branca, foi a estatura da moça, que era alta, talvez -um pouco menos do que parecia com o vestido roçagante que levava. Pôde -ver-lhe também um livrinho, aberto nas mãos, sobre o qual pousava os -olhos, levantando-os de espaço a espaço, quando lhe era mister voltar a -folha, e deixando-os cair outra vez para embeber-se na leitura.</p> - -<p>Ia assim andando, sem cuidar que a visse alguem, tão serena e grave, -como se atravesára um salão. Estevão, que não tirava os olhos della, -mentalmente pedia ao ceu a fortuna de a ter mais proxima, e anciava por -vel-a chegar á rua que lhe ficava diante. Comtudo, era difficil que lhe -parecesse mais formosa do que era, vista assim de perfil, a escapar -por entre as arvores. O jovem bacharel, par não perder o sestro dos -primeiros tempos, avocava todas as suas reminiscencias litterarias; a -desconhecida foi successivamente comparada a um seraphim de Klopstock, -a uma fada de Shakespeare, a tudo quanto na memoria delle havia mais -aereo, transparente, ideial.</p> - -<p>Em quanto elle trabalhava o espirito nestas comparações poeticas, -não descabidas, se quizerem, em tal lugar, e ao pé de tão graciosa -creatura, ella seguia lentamente e chegara á encrusilhada das duas -grandes ruas da chacara. Estevão esperava que voltasse á direita, isto -é, que viesse para o lado delle, mas sobretudo receiava que seguisse -pela mesma rua adiante e se perdesse no fundo da chacara. A moça -escolheu um meio termo, voltou á esquerda, dando as costas ao seu -curioso admirador e continuando no mesmo passo vagaroso e regular.</p> - -<p>A chacara não era em demasia grande; e por mais lento que fosse o passo -da madrugadora, não gastaria ella immenso tempo em percorrer até o fim -aquella porção da rua em que entrára. Mas alli, ao pé daquelle coração -juvenil e impaciente, cada minuto parecia, não direi um seculo,—seria -abusar dos direitos do estylo,—mas uma hora, uma hora lhe parecia, com -certeza.</p> - -<p>A moça entretanto, chegando ao fim, parou alguns instantes, pousou a -mão nas costas de um banco rustico que alli havia e enfrentava com -outro, collocado na extremidade opposta. A outra mão descaira-lhe, e os -olhos tambem, o que magoou o seu curioso observador. Seriam saudades -de alguem? Estevão sentiu uma cousa, a que chamarei ciume antecipado, -mas que na realidade eram invejas da alheia fortuna. A inveja é um -sentimento mau; mas nelle, que nascera para amar, e que, além disso, -tinha em si o contraste do nascimento com o instincto, um berço obscuro -e umas aspirações á vida elegante,—nelle a inveja era quasi um -sentimento desculpavel.</p> - -<p>A moça voltou e veiu pela rua adiante. Emfim, disse comsigo Estevão, -vou contemplal-a de mais perto. Ao mesmo tempo, receioso de que, -descobrindo alli um extranho, guiasse os passos para casa, Estevão -afastou-se do logar em que ficára, resoluto a apparecer, quando ella -estivesse proxima á cerca do jardim. A moça vinha andando com o livro -fechado, e os olhos ora no chão, ora nas andorinhas e camachilras que -esvoaçavam na chacara. Se trazia saudades, não se lhe podiam ler no -rosto, que era quieto e pensativo, sim, mas sem a menor sombra de pena -ou de tristeza.</p> - -<p>Estevão do logar onde estava podia examinar-lhe as feições, sem ser -visto por ella; mas foi justamente do que não cuidou, desde que -lh'as pôde distinguir. Valia a pena, entretanto, contemplar aquelles -grandes olhos castanhos, meio velados pelas longas, finas e bastas -pestanas, não maviosos nem quebrados, como elle os cuidara ver, mas -de uma belleza severa, casta e fria. Valia a pena admirar como elles -communicavam a todo o rosto e o toda a figura um ar de magestade -tranquilla e senhora de si. Não era ella uma dessas bellezas que, ao -mesmo tempo, que subjugam o coração, accendem os sentidos; falava á -intelligencia primeiro do que ao coração, tanto a arte parecia haver -collaborado com a natureza naquella creatura, meia estatua e meia -mulher.</p> - -<p>Tudo isto podia ver e considerar o nosso bacharel. A verdade, porém, é -que a nenhuma destas cousas attendeu. Desde que distinguíra as feições -de moça, ficou como tomado de assombro, com os olhos parados, a bocca -entreaberta, fugindo-lhe a vida e o sangue todo para o coração.</p> - -<p>A moça chegara á cerca; esteve de pé algum tempo, olhou em derredor -e por fim sentou-se no banco que alli havia, dando as costas para o -jardim de Luiz Alves. Abriu novamente o livro, e continuou a leitura -do ponto em que a deixara tão só comsigo, tão embebida no livro que -tinha deante, que não a despertou o rumor, aliás sumido, dos passos de -Estevão nas folhas seccas do chão. Teria percorrido meia pagina, quando -Estevão, reclinando-se sobre a cerca, e procurando abafar a voz para -que só chegasse aos ouvidos della, proferiu este simples nome:</p> - -<p>—Guiomar!</p> - -<p>A moça soltou um grito de sorpreza e de susto, e voltou-se sobresaltada -para o lado donde partira a voz. Ao mesmo tempo levantára-se. A -impressão que lhe produzira, e não sei se tambem algum ar de colera que -lhe notasse no rosto; e além de tudo, o remorso de não haver suffocado -aquelle grito de seu coração, fez com que Estevão, quasi no mesmo -instante murmurasse em tom de súpplica:</p> - -<p>—Perdoe-me; foi uma scentelha do passado que estava debaixo da cinza: -apagou-se de todo.</p> - -<p>Guiomar,—sabemos agora que era este o seu nome,—olhou séria e -quieta para o seu mal aventurado interruptor, dous longos e mortaes -minutos. Estevão, confuso e vexado, tinha os olhos em terra; o coração -palpitava-lhe com força, como a despedir-se da vida. A situação ora em -demasia afflictiva e embaraçosa para que se podesse prolongar mais. -Estevão ia corteja-la e despedir-se; mas a moça, com um sorriso de mais -piedade que affecto, murmurou:</p> - -<p>—Está perdoado.</p> - -<p>Caminhou para a cerca e estendeu-lhe a mão, que elle apertou,—apertou -não é bem dito,—em que elle tocou apenas, o mais ceremoniosamente que -podia e devia naquella situação.</p> - -<p>E depois ficaram a olhar um para o outro, sem se atreverem a dizer -nada, nem a sair dalli, a verem ambos o espectro do passado, aquelle -tão amargo passado para um delles. Guiomar foi a primeira que rompeu o -silencio, fazendo a Estevão uma pergunta natural, como não podia deixar -de ser naquellas circumstancias mas ainda assim, ou por isso mesmo, a -mais acerba que elle podia ouvir:</p> - -<p>—Ha dous annos que nos não vemos, creio eu?</p> - -<p>—Ha dous annos, murmurou Estevão abafando um suspiro.</p> - -<p>—Já está formado, não? Lembra-me ter lido o seu nome....</p> - -<p>—Estou formado. Sabe que era o desejo maior de minha tía...</p> - -<p>—Não a vejo ha muito tempo, interrompeu Guiomar; eu saí do collegio, -logo depois que o senhor seguiu para S. Paulo. Saí a convite da -baroneza, minha madrinha, que lá foi buscar-me um dia, allegando que eu -já não tinha que aprender, e que me não convinha ensinar.</p> - -<p>—De certo, assentiu Estevão.—Minha tia é que não deixou nem podia -deixar de ensinar; acabou no officio.</p> - -<p>—Acabou?</p> - -<p>—Morreu.</p> - -<p>—Ah!</p> - -<p>—Morreu ha cerca de um anno.</p> - -<p>—Era uma boa creatura, continuou Guiomar, depois de alguns instantes -de silencio, muito carinhosa e muito prendada. Devo-lhe o que -aprendi..., Está admirando esta flor?</p> - -<p>Estevão, apanhado em flagrante delicto de admiração, não da flor mas da -mão que a sustinha,—uma deliciosa mão, que devia ser por força a que -se perdeu da Venus de Milo, Estevão balbuciou:</p> - -<p>—Com effeito, é linda!</p> - -<p>—Ha muita flor bonita aqui na chacara. A baroneza tem immenso gesto a -estas cousas, e o nosso jardineiro é homem que sabe do seu officio.</p> - -<p>Aquelle natural acanhamento da primeira occasião foi desapparecendo aos -poucos, e a conversa veiu a ser, não tão familiar, como outr'ora, mas -em todo o caso menos fria do que a principio estivera. Havia, comtudo, -uma differença entre os dous: elle, sem embargo do desembaraço, -sentia-se abalado e commovido; ella, porém, vencido o sobresalto do -principio, mostrava-se tranquilla e fria, sempre polida e grave, -risonha ás vezes, mas de um risonho á flor do rosto, que não lhe -alterava a serenidade e compostura.</p> - -<p>O sitio e a hora eram mais proprios de um idylio, que de uma fria e -descolorida pratica. Um ceu claro e limpido, um ar puro, o sol a coar -por entre as folhas uma luz ainda frouxa e tepida, a vegetação em -derredor, todo aquelle reviver das cousas parecia estar pedindo uma -egual aurora nas almas. Estas é que deviam falar alli a sua lingua -dellas, amorosa e candida, em vez da outra, cortez, elegante e rigida, -que a nenhum delles desprazia, de certo, mas que era muito menos -volontaria nos labios de Estevão.</p> - -<p>Guiomar falava com certa graça, um pouco hirta e pausada, sem viveza, -nem calor.</p> - -<p>Estevão, que a maior parte do tempo ficara a ouvil-a, observava entre -si que as maneiras da moça não lhe eram desnaturaes, ainda que podiam -ser calculadas naquella situação. A Guiomar que elle conhecera e amara -era o embryão da Guiomar de hoje, o esboço do painel agora perfeito; -faltava-lhe outr'ora o colorido, mas já se lhe viam as linhas do -desenho.</p> - -<p>A conversa durou cerca de tres quartos de hora, uma migalha de tempo -para elle, que desejara muito mais. Mas era preciso acabar; ella foi a -primeira a dizer-lh'o.</p> - -<p>—O senhor fez-me perder muito tempo. Ha talvez uma hora que estamos -aqui a conversar. Era natural, depois de dous annos. Dous annos! Mas o -que não era natural, continuou ella mudando de tom, era atrever-me a -falar com un estranho neste <i>déshabillé</i> tão pouco elegante...</p> - -<p>—Elegantissimo, pelo contrario.</p> - -<p>—O senhor tem sempre um comprimento de reserva: vejo que não perdeu -o tempo na academia. Vou-me embora. São horas da baroneza dar o seu -passeio pela chacara.</p> - -<p>—Será aquella senhora que alli está no alto da escada? perguntou -Estevão.</p> - -<p>—É ella mesma, respondeu Guiomar. Está á espera que lhe vá dar o braço.</p> - -<p>E com um gesto friamente fidalgo, estendeu a mão a Estevão, dizendo:</p> - -<p>—Passe bem, senhor doutor, estimei vêl-o.</p> - -<p>Estevão tocou-lhe levemente na mão, fina e macia, e inclinou-se -respeitoso. A moça caminhou para casa. Elle acompanhou-a com os olhos, -admirando a gentileza com que ella, desta vez a passo accelerado, -resvalava por entre as arvores até subir as escadas da casa. Viu-a -dar o braço á madrinha, descerem e seguirem vagarosamente pelo mesmo -caminho por onde Guiomar seguira da primeira vez.</p> - -<p>Estevão ainda ficou algum tempo encostado á cerca, na esperança de que -ella olhasse ou dirigisse os passos para aquelle lado; ella porém, -passou indifferente, como se nem da existencia delle soubera. Estevão -retirou-se dalli cabisbaixo e triste, batido de contrários sentimentos, -cheio de uma tristeza e de uma alegria que mal se combinavam, e por -cima de tudo isso o éco vago e surdo desta interrogação:</p> - -<p>—Entro num drama ou saio de uma comedia?</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h4><a name="IV" id="IV">IV</a></h4> - - -<h4>Latet anguis.</h4> - - -<p>O passeio da baroneza durou pouco mais de meia hora. O sol começava -a aquecer, e apesar de ser bastante sombreada a chacara, o calor -aconselhava á boa senhora que se recolhesse. Guiomar deu-lhe o braço, e -ambas, seguindo pelo mesmo caminho, guiaram para casa.</p> - -<p>—Parece muito tarde, Guiomar, disse a baroneza ao cabo de alguns -segundos.</p> - -<p>—E é, madrinha. Demorei-me hoje mais do que costumo, por causa de um -encontro que tive aqui na chacara.</p> - -<p>—Um encontro?</p> - -<p>—Um homem.</p> - -<p>—Algum ladrão? perguntou a madrinha parando.</p> - -<p>—Não, senhora, respondeu Guiomar sorrindo, não era ladrão. A minha -mestra de collegio... sabe que morreu?</p> - -<p>—Quem disse isso?</p> - -<p>—O sobrinho, o tal sugeito que encontrei aqui hoje.</p> - -<p>—Você está zombando commigo! Um homem na chacara?</p> - -<p>—Não era bem na chacara, mas no jardim do Dr. Luiz Alves. Estava -encostado á cerca; trocámos algumas palavras.</p> - -<p>A baroneza olhou para ella alguns segundos.</p> - -<p>—Mas, menina, isso não é bonito. Que diriam se os vissem?... Eu não -diria nada, porque conheço o que você vale, e sei a discrição que Deus -lhe deu.—Mas as apparencias....Que qualidade de homem é esse sobrinho?</p> - -<p>Interrompeu-as uma mulher de quarenta e quatro a quarenta e cinco -annos, alta e magra, cabello entre louro e branco, olhos azues, -aceiadamente vestida, a Sra. Oswald,—ou mais britannicamente, Mrs. -Oswald,—dama de companhia da baroneza, desde alguns annos. Mrs. -Oswald conhecêra a baroneza em 1846; viuva e sem familia, acceitou as -prospostas que esta lhe fez. Era mulher intelligente e sagaz, dotada -de boa indole e serviçal. Antes da ida de Guiomar para a companhia da -madrinha, era Mrs. Oswald a alma da casa; a presença de Guiomar, que a -baroneza amava extremosamente, alterou um pouco a situação.</p> - -<p>—São nove horas! disse de longe a ingleza; pensei que hoje não queriam -voltar para casa. O calor está forte; e a senhora baroneza sabe que não -é conveniente expor-se aos ardores do sol, sobretudo neste tempo de -epidemias.</p> - -<p>—Tem razão, Mrs. Oswald; mas Guiomar tardou hoje tanto em ir -buscar-me, que o passeio começou tarde.</p> - -<p>—Porque me não mandou chamar?</p> - -<p>—Estava talvez a dormir, ou entretida com o seu Walter Scott...</p> - -<p>—Milton, emendou gravemente a ingleza; esta manhã foi dedicada a -Milton. Que immenso poeta, D. Guiomar!</p> - -<p>—Tamanho como este calor, observou Guiomar sorrindo. Apertemos o passo -e lá dentro a ouviremos com melhor disposição.</p> - -<p>Foram as tres andando, subiram a escada e entraram na sala de jantar, -que era vasta, com seis janellas para a chacara. Dalli seguiram para -uma saleta, onde a baroneza sentou-se na sua poltrona, a esperar a hora -do almoço. Guiomar saiu para ir cuidar da <i>toilette</i>; e a baroneza que -desde alguns minutos estivera cabisbaixa e pensativa, olhou fixamente -para Mrs. Oswald, sem dizer palavra.</p> - -<p>Era ella uma senhora de cincoenta annos, refeita, vestida com esse -alinho e esmero da velhice, que é um resto da elegancia da mocidade. Os -cabellos, côr de prata fosca, emmolduravam-lhe o rosto sereno, algum -tanto arrugado, não por desgostos, que os não tivera, mas pelos annos. -Os olhos luziam de muita vida, e eram a parte mais juvenil do rosto.</p> - -<p>Tendo casado cedo, coube-lhe a boa fortuna de ser egualemente feliz -desde o dia do noivado até o da viuvez. A viuvez custara-lhe muito; mas -já lá iam alguns annos, e da crua dor que tivera ficara-lhe agora a -consolação da saudade.</p> - -<p>—Chegue-se mais perto; preciso falar-lhe a sós, disse ella á ingleza, -que se achava a alguns passos de distancia.</p> - -<p>Mrs. Oswald foi ate a porta espreitar se viria alguém e voltou a -sentar-se ao pé da baroneza. A baroneza estava outra vez pensativa, com -as mãos crusadas no regaço e os olhos no chão.</p> - -<p>Estiveram as duas alli silenciosas alguns dous ou tres minutos. A -baroneza despertou emfim das reflexões, e voltou-se para a ingleza:</p> - -<p>—Mrs. Oswald, disse ella, parece estar escripto que não serei -completamente feliz. Nenhum sonho me falhou nunca; este, porém, não -passará de sonho, e era o mais bello de minha velhice.</p> - -<p>—Mas porque desespera? disse a ingleza. Tenha animo, e tudo se hade -arranjar. Pela minha parte, oxalá pudesse contribuir para a completa -felicidade desta familia, a quem devo tantos e tamanhos benefícios.</p> - -<p>—Benefícios!</p> - -<p>—E que outra cousa são os seus carinhos, a protecção que me tem dado, -a confiança...</p> - -<p>—Está bom, está bom, interrompeu affectuasamente a baroneza; falemos -de outra cousa.</p> - -<p>—Della, não é? Diz-me o coração que com alguma paciencia tudo se -alcançará. Todos os meios se hão de tentar; e todos elles são bons -se se trata de fazer a felicidade sua e della. Bem está o que bem -acaba, disse um poeta nosso, homem de juizo. Por em quanto só vejo um -obstaculo: a pouca disposição...</p> - -<p>—Só esse?</p> - -<p>—Que outro mais?</p> - -<p>—Talvez outro, disse a baroneza abaixando a voz; póde ser que não, mas -tão infeliz sou neste meu desejo, que hade vir a ser obstaculo, talvez.</p> - -<p>—Mas que é?</p> - -<p>—Um homem, um moço, não sei quem, sobrinho da mestra que foi de -Guiomar... Ella mesma contou-me tudo ha pouco.</p> - -<p>—Tudo o que?</p> - -<p>—Não sei se tudo; mas emfim disse-me que, estando a passear na -chacara, vira o tal sobrinho da mestra, junto á cerca do Dr. Luiz -Alves, e ficara a conversar com elle. Que será isto, Mrs. Oswald? -Algum amor que continua ou recomeça agora,—agora, que ella já não é a -simples herdeira da pobreza de seus pais, mas a minha filha, a filha do -meu coração.</p> - -<p>A commoção da baroneza ao proferir estas palavras era tal, que Mrs. -Oswald pegou-lhe affectuosamente das mãos e procurou conforta-la com -outras palavras de esperança e confiança. Disse-lhe, além disso, que o -simples conversar com esse homem, que aliás nenhuma delias conhecia, -não era razão para suppor uma paixão anterior.</p> - -<p>—Emfim, concluiu a ingleza, custa-me crer que ella ame a alguem neste -mundo. Por em quanto estou que não gosta de ninguém, e a nossa vantagem -não é outra senão essa. Sua afilhada tem uma alma singular; passa -facilmente do enthusiasmo á frieza, e da confiança ao retrahimento. -Ha de vir a amar, mas não creio que tenha grandes paixões, ao menos -duradouras. Em todo o caso, posso responder-lhe actualmente pelo seu -coração, como se tivesse a chave na minha algibeira.</p> - -<p>A baroneza abanou a cabeça.</p> - -<p>—Quanto a esse homem, continuou Mrs. Oswald, saberemos quem é elle, e -que relações de affecto houve no passado.</p> - -<p>—Parece-lhe possivel?</p> - -<p>—Naturalmente!</p> - -<p>A ingleza proferiu esta unica palavra com a segurança necessaria para -serenar o animo da boa senhora, que ficou algum tempo a olhar pasmada -para ella, como quem reflectia.</p> - -<p>—Ha occasiões, disse emfim a baroneza ao cabo de alguns segundos de -silencio, ha occasiões em que eu quasi chego a sentir remorsos do amor -que tenho a Guiomar. Ella veiu preencher na minha vida o vacuo deixado -por aquella pobre Henriqueta, a filha das minhas entranhas, que a morte -levou comsigno, para mal de sua mãe. Se havia de ser infeliz, melhor é -que a chore morta, com a esperança de a ir encontrar no ceu. Mas não -lhe quiz mais, nem talvez tanto, como a esta criança, que levei á pia, -e de quem Deus me fez mãe...</p> - -<p>A baroneza calou-se; ouvira passos no corredor.</p> - -<p>Guiomar, embora tivesse ido vestir-se e aprimorar-se, com tão singellos -meios o fizera, que não desdizia daquelle matinal desalinho em que o -leitor a viu no capitulo anterior. O penteado era um capricho seu, -expressamente inventado para realçar a um tempo a abundancia dos -cabellos e a senhoril belleza da testa. As pontas bordadas de um -collarinho de cambraia dobravam-se faceiramente sobre o azul do vestido -de <i>glacé</i>, talhado e ornado com uma simplicidade artistica. Isto, e -pouco mais, era toda a moldura do painel,—um dos mais bellos paineis -que havia por aquelles tempos em toda a praia de Botafogo.</p> - -<p>—Viva a minha rainha de Inglaterra! exclamou Mrs. Oswald quando a viu -assomar á porta da saleta.</p> - -<p>E Guiomar sorriu com tanta, satisfação e gôzo ao ouvir-lhe esta -saudação familiar, que um observador attento hesitaria em dizer se era -aquillo simples vaidade de moça, ou se alguma cousa mais.</p> - -<p>A baroneza poz os olhos na afilhada, uns olhos amorosos e tristes, -em que a moça reparou, e que a tornaram séria durante alguns rapidos -segundos. Mas sorriu depois; e pegando das mãos da madrinha deu-lhe -dous beijos no rosto, com tanta ternura e tão sincera, que a boa -senhora sorriu de contentamento.</p> - -<p>—Não precisa falar, disse Guiomar, já sei que me acha bonita. É o -que me diz todos os dias, com risco de me perder, porque se eu acabo -vaidosa, adeus, minhas encommendas, ninguem mais poderá commigo.</p> - -<p>Guiomar disse isto com tanta graça e singeleza, que a madrinha não -pôde deixar de rir, e a melancolia acabou de todo. A sineta do almoço -chamou-as a outros cuidados, e a nós tambem, amigo leitor. Em quanto as -tres almoçam, relanceemos os olhos ao passado, e vejamos quem era esta -Guiomar, tão gentil, tão buscada e tão singular, como dizia Mrs. Oswald.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h4><a name="V" id="V">V</a></h4> - - -<h4>Meninice.</h4> - - -<p>Guiomar tivera humilde nascimento; era filha de um empregado subalterno -não sei de que repartição do Estado, homem probo, que morreu quando -ella contava apenas sete annos, legando á viuva o cuidado de a educar -e manter. A viuva era mulher energica e resoluta, enxugou as lagrimas -com a manga do modesto vestido, olhou de frente para a situação e -determinou-se á luta e á victoria.</p> - -<p>A madrinha de Guiomar não lhe faltou naquelle duro transe, e olhou por -ellas, como entendia que era seu dever. A solicitude, porém, não foi -tão constante a principio como veiu a ser depois; outros cuidados de -familia lhe chamavam a attenção.</p> - -<p>Guiomar annunciava desde pequena as graças que o tempo lhe desabrochou -e perfez. Era uma creaturinha galante e delicada, assaz intelligente e -viva, um pouco travêssa, de certo, mas muito menos do que é usual na -infancia. Sua mãe, depois que lhe morrera o marido, não tinha outro -cuidado na terra, nem outra ambição mais, que a de ve-la prendada e -feliz. Ella mesma lhe ensinou a ler mal, como ella sabia,—e a coser e -bordar, e o pouco mais que possuia de seu officio de mulher. Guiomar -não tinha difficuldade nenhuma em reter o que a mãe lhe ensinava, e -com tal affinco lidava por aprender, que a viuva,—ao menos nessa -parte,—sentia-se venturosa. Has-de ser a minha doutora, dizia-lhe -muita vez; e esta simples expressão de ternura alegrava a menina e lhe -servia de incentivo á applicação.</p> - -<p>A casa em que moravam era naturalmente modesta. Alli correu a -infancia,—mas solitaria, o que é um pouco mais grave. A mãe, quando a -via embebida nos jogos proprios da edade, infantilmente alegre,—mas -de uma alegria que fazia mal a seus olhos de mãe, tão fundo lhe doia -aquelle viver,—a mãe sentia ás vezes pularem-lhe as lagrimas dos -olhos fora. A filha não as via, porque ella sabia escondel-as; mas -advinhava-as atravez da tristeza que lhe ficava no rosto. Só não -adivinhava o motivo, mas bastava que fossem maguas de sua mãe, para lhe -descair tambem a alegria.</p> - -<p>Com o tempo, avultou outra causa de tristeza para a pobre viuva, ainda -mais dolorosa que a primeira. Na edade apenas de dez annos, tinha -Guiomar uns desmaios de espirito, uns dias de concentração e mudez, -uma seriedade, a principio intermittente e rara, depois frequente e -prolongada, que desdiziam da meninice e faziam crer á mãe que eram -prenuncios de que Deus a chamava para si. Hoje sabemos que não eram. -Seria acaso effeito daquella vida solitaria e austera, que já lhe ia -affeiçoando a alma e como que apurando as forças para as pugnas da vida?</p> - -<p>A primeira vez que esta gravidade da menina se lhe tornou mais patente -foi uma tarde, em que ella estivera a brincar no quintal da casa. O -muro do fundo tinha uma larga fenda, por onde se via parte da chacara -pertencente a uma casa da visinhança. A fenda era recente; e Guiomar -acostumára-se a ir espairecer alli os olhos, já serios e pensativos. -Naquella tarde, como estivesse olhando para as mangueiras, a cobiçar -talvez as doces fructas amarellas que lhe pendiam dos ramos, viu -repentinamente apparecer-lhe deante, a cinco ou seis passos do lugar em -que estava, um rancho de moças, todas bonitas, que arrastavam por entre -as arvores os seus vestidos, e faziam luzir aos ultimos raios do sol -poente as joias que as enfeitavam. Ellas passaram alegres, descuidadas, -felizes; uma ou outra lhe dispensou talvez algum affago; mas foram-se, -e com ellas os olhos da interessante pequena, que alli ficou largo -tempo absorta, alheia de si, vendo ainda na memoria o quadro que -passára.</p> - -<p>A noite veiu, a menina recolheu-se pensativa e melancolica, sem nada -explicar á solicita curiosidade da mãe. Que explicaria ella, se mal -podia comprehender a impressão que as cousas lhe deixavam? Mas, como -a mãe entristecesse com aquillo, Guiomar domou o proprio espirito e -fez-se tão jovial como nos melhores dias.</p> - -<p>Esta era ainda outra feição da menina; tinha uma força de vontade -superior aos seus annos. Com ella, e a viveza intellectual que Deus lhe -dera, logrou aprender tudo o que a mãe lhe ensinara, e melhor ainda -do que ella o sabia, desde que o tempo lhe permittiu desenvolver os -primeiros elementos.</p> - -<p>Aos trese annos ficou orphã; este fundo golpe em seu coração, foi o -primeiro que ella verdadeiramente pode sentir, e o maior que a fortuna -lhe desfechou. Já então a madrinha a fizera entrar para um collegio, -onde aperfeiçoava o que sabia e onde lhe ensinavam muita cousa mais.</p> - -<p>Vivia ainda então a filha de baroneza, uma interessante creança de -trese annos, que era toda a alma e encanto de sua mãe. Guiomar visitava -a casa da madrinha; a edade quasi egual das duas meninas, a affeição -que as ligava a belleza e meiguice de Guiomar, a graciosa compostura -de seus modos, tudo apertou entre a madrinha e a afilhada os laços -puramente espirituaes que as uniam antes. Guiomar correspondia aos -sentimentos daquella segunda mãe; havia talvez em seu affecto, aliás -sincero, um tal encarecimento que podia parecer simulação. O affecto -era espontaneo; o encarecimento é que seria voluntário.</p> - -<p>Tinha a moça dezeseis annos quando passou para o collegio da tia de -Estevão, onde pareceu á baroneza se lhe poderia dar mais apurada -educação. Guiomar manifestára então o desejo de ser professora.</p> - -<p>—Não ha outro recurso, disse ella á baroneza quando lhe confiou esta -aspiração.</p> - -<p>—Como assim? perguntou a madrinha.</p> - -<p>—Não ha, repetiu Guiomar. Não duvido, nem posso negar o amor que -a senhora me tem; mas a cada qual cabe uma obrigação, que se deve -cumprir. A minha é... é ganhar o pão.</p> - -<p>Estas ultimas palavras passaram-lhe pelos lábios como que á força. -O rubor subiu-lhe ás faces; dissera-se que a alma cobria o rosto de -vergonha.</p> - -<p>—Guiomar! exclamou a baroneza.</p> - -<p>—Peço-lhe uma cousa honrosa para mim, respondeu Guiomar com -simplicidade.</p> - -<p>A madrinha sorriu e approvou-a com um beijo,—assentimento de boca, a -que já o coração não respondia, e que o destino devia mudar.</p> - -<p>Pouco tempo depois padeceu a baroneza o golpe quasi mortal a que -alludiu no capitulo anterior. A filha morreu de repente, e o inopinado -do desastre quasi levou a mãe á sepultura.</p> - -<p>A affeição de Guiomar não se desmentiu nessa dolorosa situação. Ninguém -mostrou sentir mais do que ella a morte de Henriqueta, ninguém consolou -tão dedicadamente a infeliz que lhe sobrevivia. Eram ainda verdes os -seus annos; todavia revellou ella a posse de uma alma egualmente terna -e energica, affectuosa e resoluta. Guiomar foi durante alguns dias a -verdadeira dona da casa; a catastrophe abatera a propria Mrs. Oswald.</p> - -<p>O coração da pobre mãe ficára tão vasio, e a vida lhe pareceu tão agra -e deserta sem a filha, que ella morreria talvez de saudade, se não fora -a presença de Guiomar. Nenhuma outra creatura poderia preencher, como -esta, o logar de Henriqueta. Guiomar era já meia filha da baroneza as -circumstancias, não menos que o coração, tinham-n'as destinado uma para -a outra. Um dia, em que a afilhada fora visitar a madrinha, esta lhe -disse que a iria em breve buscar para sua casa.</p> - -<p>—Você será a filha que eu perdi; elle não me amou mais, nem eu já -agora teria outra consolação.</p> - -<p>—Oh! madrinha! exclamou Guiomar beijando-lhe as mãos.</p> - -<p>A baroneza estava assentada; Guiomar ajoelhou-se-lhe aos pés e poz-lhe -a cabeça no regaço. A boa mãe curvou-se e beijou-lh'a ternamente, -com os olhos naquella filha que os successos lhe haviam dado, e o -pensamento no ceu, onde devia estar a outra, que Deus lhe dera e levou -para si.</p> - -<hr /> - -<p>Pouco depois estabeleceu-se Guiomar definitivamente em casa da -madrinha, onde a alegria reviveu, gradualmente, graças á nova -moradora, em quem havia um tino e sagacidade raros. Tendo presenciado, -durante algum tempo, e não breve, o modo de viver entre a madrinha e -Henriqueta, Guiomar poz todo o seu esforço em reproduzir pelo mesmo -teor os habitos de outro tempo, de maneira que a baroneza mal pudesse -sentir a ausencia da filha. Nenhum dos cuidados da outra lhe esqueceu, -e se em algum ponto os alterou foi para augmentar-lhe novos. Esta -intenção não escapou ao espirito da baroneza, e é superfluo dizer que -deste modo os vinculos do affecto mais se apertaram entre ambas.</p> - -<p>Ao mesmo tempo que ia provando os sentimentos de seu coração, revelava -a moça, não menos, a plena harmonia de seus instinctos com a sociedade -em que entrára. A educação, que nos últimos tempos recebera, fez muito, -mas não fez tudo. A natureza incumbira-se de completar a obra,—melhor -diremos, começal-a. Ninguem adivinharia nas maneiras finamente -elegantes daquella moça, a origem mediana que ella tivera; a borboleta -fazia esquecer a chrysalida.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h4><a name="VI" id="VI">VI</a></h4> - - -<h4>O post-scriptum.</h4> - - -<p>Aquelle conselho de Luiz Alves, na fatal noite de dous annos antes, não -ha duvida que era judicioso e devera ter ficado no espirito de Estevão. -Não convinha reler a carta, sob pena de lhe achar um <i>post-scriptum.</i> -Estevão era curioso de epistolas; não pode ter-se que não abrisse -aquella. O <i>post-scriptum</i> lá estava no fim.</p> - -<p>Vindo á linguagem natural, Estevão saiu do jardim de Luiz Alves com -o coração meio inclinado a amar de novo a mulher que tanto o fizera -padecer um dia. Daqui concluirá alguem que elle verdadeiramente não -deixára de a amar Póde ser; havia talvez debaixo da cinza uma faisca, -uma só, e essa bastava a repetir o incendio. Mas fosse de um ou de -outro modo, o certo é que Estevão saiu dalli com o príncipio do amor no -coração.</p> - -<p>Todo aquelle dia foi de alvoroço e agitação para elle, que não se -resignou logo, antes buscou reagir contra a entrada da paixão nova. A -tentativa era sincera; as forças é que eram escassas. Elle desviava de -si a imagem da moça; ella, porém perseguia-o, tenaz, como se fora um -remorso, fatal como a voz de seu destino.</p> - -<p>Estevão nada disse a Luiz Alves do encontro e da conversa qui tivera -com a moça no jardim; e não lh'o escondeu por desconfiança, mas por -vergonha. Que lhe diria porém elle que o não tivesse visto e percebido -Luiz Alves? Da janella de seu quarto, que dava para o jardim, enfiando -os olhos pela fresta das cortinas pôde observa-los durantes aquelles -tres quartos de hora de innocente palestra. O espectaculo não o -divertiu muito; Luiz Alves achou um pouco atrevida a escolha do logar.</p> - -<p>A circumstancia de os ver juntos chamou-lhe a attenção para a -coincidencia do nome da visinha com o da antiga namorada do collega; -era naturalmente a mesma pessoa.</p> - -<p>—Vai contar-me tudo, pensou Luiz Alves quando viu o collega -affastar-se da cerca e dirigir os passos para casa.</p> - -<p>Estevão, como disse, foi discreto. Vinha preocupado, muito outro do que -entrára na vespera, a ler-se-lhe no rosto alguma cousa mais séria do -que elle proprio costumava ser.</p> - -<p>Tinha Estevão contra si o passado e o futuro. O presente, sim, -defendia-o; elle sentia que alguma cousa o distanciava de Guiomar. -Mas o passado falava-lhe de todas as doces recordações,—as menos -amargas,—e a memoria quasi não sabe de outras quando relembra o -que foi. O futuro acenava-lhe com as suas esperanças todas, e basta -dizer que eram infinitas. Além disso, a Guiomar que elle via agora, -surgia-lhe no meio de outra atmosphera,—a mesma que o seu espirito -almejava respirar; e apparecia-lhe para fugir logo. Sobre tudo isto -o obstaculo, aquella porta fechada, que bem podia ser a da <i>cittá -dolente</i>, mas que em todo o caso elle quizera ver franqueada ás suas -ambições.</p> - -<p>Os dias correram alternados de confiança e desanimo, tecidos de ouro e -fio negro, um lutar de todas as horas, que acabou como era de prever e -devia acabar. O coração levou Estevão atraz de si.</p> - -<p>Nenhum meio, dos que tinha á mão, lhe esqueceu para ver Guiomar. As -janellas da casa estavam quasi sempre desertas. Duas ou tres vezes -aconteceu vel-a de longe; ao approximar-se-lhe, sumira-se o vulto na -sombra do salão Não perdia theatro; mas só duas vezes teve o gosto de -a ver: uma no Lyrico, onde se cantava <i>Somnambula</i>, outra no Gymnasio, -onde se representavam os <i>Parisienses</i>, sem que elle ouvisse uma nota -da opera, nem uma palavra da comedia. Todo elle, olhos e pensamento, -estava no camarote de Guiomar. No Lyrico foi baldada essa comtemplação; -a moça não deu por elle. No Gymnasio, sim; o theatro era pequeno; -comtudo, antes não fôra visto, tão tenazmente deviou ella os olhos do -logar em que elle ficára.</p> - -<p>Nem por isso deixou Estavão de ir esperal-a á saida, collocar-se -francamente no seu caminho, sollicitar-lhe audazmente os olhos e -attenção. A familia desceu da 2<sup>a</sup> ordem pela escada do lado -de S. Francisco; a estreiteza do logar era excellente. Dava o braço á -baroneza um moço de vinte e cinco annos, figura elegante, ainda que um -tanto affectada. Desceram todos tres e ficaram á espera do carro alguns -minutos. Na meia sombra que alli havia destacava-se o rosto marmoreo -de Guiomar e a gentileza de seu talhe. Seus grandes olhos vagavam pela -multidão, mas não fitavam ninguem. Ella possuia, como nenhuma outra, a -arte de gozar, sem as ver, as homenagens da admiração publica.</p> - -<p>Irritado com a indifferença da moça, vagou Estevão toda aquella noite, -a sós com o seu despeito e o seu amor, tecendo e destecendo mil planos, -todos mais absurdos uns que outros. A taça enchera de todo; era mister -entornal-a no seio de um amigo, de um amigo que houvesse nas suas mãos -o unico remedio que elle nessa occasião pedia;—a chave daquella porta. -Luiz Alves era esse homem.</p> - -<p>—Outra vez caido! exclamou elle rindo quando Estevão lhe contou tudo. -Eu já o havia percebido. Isto de mulheres... Queres então que te leve -lá?</p> - -<p>—Quero.</p> - -<p>Luiz Alves reflectiu alguns intantes.</p> - -<p>—E uma viagem, não te seria bom fazer uma viagem? Já sei o que me vás -dizer; mas tambem não te proponho uma viagem de recreio, á Europa. -Olha, arranjo-te, se queres, um logar de juiz municipal...</p> - -<p>A proposta era sincera; Estevão cuidou ver-lhe uma ponta de zombaria -e ergueu os hombros com enfado. A proposta, entretanto, merecia ser -examinada; era uma carreira, e vinha de um homem que estava a entrar na -vida politica, que esperava dahi a algumas semanas o resultado de uma -eleição, com a certeza, ou quasi, de haver triumphado. Era influencia -que nascia, e de força viria a crescer. Mas para Estevão, naquella -occasião, toda a carreira publica, influencia, futuro, leis, tudo -estava nos olhos castanhos de Guiomar.</p> - -<p>—Eu amo-a, disse elle emfim, isto para mim é tudo. Póde bem ser -que tenhas razão; talvez me espere algum grande desgosto; mas são -reflexões, e eu não reflicto agora, eu sinto...</p> - -<p>—Em todo o caso, acudiu Luiz Alves, desempenho o meu dever de amigo; -digo-te que vocês não nasceram um para outro; que, se ella te não amou -naquelle tempo, muito menos te amará hoje, e que emfim...</p> - -<p>Luiz Alves estacou.</p> - -<p>—Emfim? perguntou Estevão.</p> - -<p>—Emfim pedes-me um sacrificio, concluiu rindo o advogado, por que -também eu já a namorisquei... Não é preciso carregares o sobr'olho; foi -namoro de visinho, tentativa que durou pouco mais de vinte e quatro -horas. Com vergonha o digo, ella não me prestou uma migalha de attenção -sequer, e eu voltei aos meus autos.</p> - -<p>—Então... gostas della? perguntou Estevão.</p> - -<p>—Acho-a bonita e nada mais. Aquillo foi um lançar barro á parede; se -acceitasse, casava-me; não acceitou...</p> - -<p>—Já vês que somos differentes.</p> - -<p>—Queres, então?...</p> - -<p>—Um serviço de amigo.</p> - -<p>—Bem, disse por fim Luiz Alves, faça-se a tua vontade. A baroneza vai -cuidar agora de um processo e mandou-me falar. Eu passo-te a prebenda; -entrarás alli, como advogado, o que de alguma maneira me tira um peso -da consciência.</p> - -<p>Estevão, que só pedia um pretexto, acceitou a offerta com ambas as -mãos, e agradeceu-lh'a com tão expansiva ternura, que fez sorrir o -outro.</p> - -<p>A promessa cumpriu-se pontualmente. Luiz Alves apresentou Estevão -á baroneza, na seguinte noite, como seu companheiro e amigo, como -advogado capaz de zelar os interesses da illustre cliente. A recepção, -foi geralmente boa, salvo por parte de Guiomar, que pareceu aborrecida -de o ver naquella casa. Quando Estevão a saudou, como quem a conhecia -de longo tempo, ella mal pode retribuir-lhe o cumprimento; em todo o -resto da noite não lhe deu palavra. Daquella parte o acolhimento não -podia ser peior; mas Estevão sentia-se feliz, desde que vel-a, respirar -o mesmo ar, nada mais pedindo por ora, e deixando o resto á fortuna.</p> - -<p>De todas as pessoas de casa da baroneza, a primeira que reparou na -indifferença com que Guiomar tratára Estevão, foi Mrs. Oswald. A sagaz -ingleza afivellou a mascara mais impassivel que trouxera das ilhas -britannicas e não os perdeu de vista. Nem da primeira nem da segunda -vez viu nada mais que os olhos delle, que sollicitavam os della, e -os della que pareciam surdos. Havia de certo uma paixão, solitaria e -desattendida.</p> - -<p>—Sabe que descobri um namorado seu? perguntou ella alguns dias depois -a Guiomar.</p> - -<p>Guiomar fez um gesto de estranheza.</p> - -<p>—Entendamo-nos, observou a ingleza; não digo que a senhora o namore -também; digo que é elle quem anda apaixonado. Não adivinha?</p> - -<p>—Talvez.</p> - -<p>—O Dr. Estevão.</p> - -<p>Guiomar fez um gesto de desdem.</p> - -<p>—Vejo que tinha adivinhado, disse Mrs. Oswald; também não era -difficil. Quem tem alguma pratica destas cousas fareja uma paixão a -cem legoas de distancia, por mais que ella busque recatar-se dos olhos -estranhos. Os namorados geralmente suppõem que ninguem os vê; é uma -lastima. Olhe, da senhora posso eu jurar que não está namorada de -pessoa nenhuma.</p> - -<p>—Que sabe disso? perguntou Guiomar deitando os olhos para o espelho de -seu guarda vestidos. Pois estou, mas de mim mesma.</p> - -<p>Mrs. Oswald desatou a rir, de um riso grave e pausado. Ella sabia que -a moça tinha orgulho de suas graças; era bom caminho affagar-lhe o -sentimento. Disse-lhe muita cousa bonita, que não vem para aqui, e -concluiu pondo-lhe as mãos nos hombros, encarando-a fito a fito, a -emfim rompendo nestas palavras, meias suspiradas:</p> - -<p>—A senhora é a flor desta sua terra. Quem a colherá? Alguem sei eu que -a merece...</p> - -<p>Guiomar ficou séria, e desviou brandamente as mãos da ingleza, -murmurando:</p> - -<p>—Mrs. Oswald, falemos de outra cousa.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h4><a name="VII" id="VII">VII</a></h4> - - -<h4>Um rival.</h4> - - -<p>Não era a primeira vez que Mrs. Oswald alludia a alguma cousa que -desagradava a Guiomar, nem a primeira que esta lhe respondia com a -sequidão que e leitor viu no fim do capitulo anterior. A boa ingleza -ficou séria e calada alguns dous ou tres minutos, a olhar para Guiomar, -apparentemente buscando interrogar-lhe o pensamento, mas na realidade -sem saber como sair de situação. A moça rompeu o silencio:</p> - -<p>—Está bom, disse ella sorrindo, não vejo razao para que se zangue -commigo.</p> - -<p>—Não estou zangada, acudiu promptamente Mrs. Oswald. Zangada porque? -Pêza-me, de certo, que a natureza me não dê razão, e que uma alliança -tão conveniente, para ambos, seja repellida pela senhora; mas se isto é -motivo de desgosto, não pode sel-o de zanga....</p> - -<p>—Desgosto?</p> - -<p>—Para mim.... e naturalmente para elle.</p> - -<p>Guiomar respondeu com um simples sacudir de hombros, sêcco e rápido, -como quem se lhe não dava do mal ou não acreditava nelle. Mrs. Oswald -não atinou qual destas impressões seria, e concluiu que fossem ambas. A -moça, entretanto, pareceu arrepender-se daquelle movimento; travou das -mãos da ingleza, e com uma voz ainda mais doce e macia que de costume, -lhe disse:</p> - -<p>—Veja o que é ser creança! Não parece que ainda em cima me zango com a -senhora?</p> - -<p>—Parece.</p> - -<p>—Pois não é exacto. Isto são caprichos de menina mal educada. Dei para -não gostar que me adorem... Minto; disso gósto eu; mas quizera que me -adorassem somente, não lhe parece?</p> - -<p>E Guiomar acompanhou estas palavras com uma risadinha mimosa e uns -gestos de creança travêssa, que destoavam inteiramente da sua gravidade -habitual.</p> - -<p>—Já sei, gosta de uma adoração como a do Dr. Estevão, silenciosa e -resignada, uma adoração..</p> - -<p>E Mrs. Oswald, que, como boa protestante que era, tinha a Escriptura na -ponta dos dedos, continuou por este modo, accentuando as palavras:</p> - -<p>Uma adoração como a que devia inspirar José, filho de Jacob, que era -bello como a senhora: «por elle as moças andavam por cima da cerca...»</p> - -<p>—Da cerca? perguntou Guiomar tornando-se séria.</p> - -<p>—Do muro, diz a Escriptura, mas eu digo da cerca porque... nem eu sei -porque. Não core! Olhe que se denuncia.</p> - -<p>Guiomar corára deveras; mas era a altivez e o pundonor offendido que -lhe falavam no rosto. Olhou fria e longamente para a ingleza, com um -desses olhares, que são, por assim dizer, um gesto da alma indignada. -O que a irritava não era a allusão, que não valia muito, era a pessoa -que a fazia,—inferior e mercenaria. Mrs. Oswald percebeu isto mesmo; -mordeu a ponta do labio, mas transigiu com a moça.</p> - -<p>—Meu Deus! disse ella. Parece que se zangou por uma bricadeira á toa. -Bem sabe que eu não podia querer aggraval-a; suppol-o é offender-me a -mim,—a mim, que também lhe tenho affecto de mãe....</p> - -<p>A ultima palavra aquietou, o animo de Guiomar; ella tinha cedido ao -impulso do seu caracter altivo, mas a razão veiu depois, e o coração -tambem, que não era mau. A ingleza, que possuía longa pratica da vida -e sabia ceder a tempo, uniu o gesto á palavra e chamou-a com os braços -para si. Guiomar deixou-se ir, um pouco de má vontade, e a conversa -teria acabado alli, se Mrs. Oswald não lhe dissesse com a mais doce voz -que daquella garganta podia sair:</p> - -<p>—Convença-se de que eu sou importuna e indiscreta por affeição, e -que a felicidade desta familia é toda a ambição da minha alma. Não -pode haver intenção melhor do que esta. Um conselho ultimo,—ultimo se -me não consentir mais falar-lhe nisto;—eu creio que a senhora sonha -talvez de mais. Sonhará uns amores de romance, quasi ímpossiveis? -digo-lhe que faz mal, que é melhor, muito melhor contentar-se com a -realidade; se ella não é brilhante como os sonhos, tem pelo menos a -vantagem de existir.</p> - -<p>Guiomar cravara desta vez os olhos no chão, com a expressão vaga -e morta de quem os apagou para as cousas externas. As palavras de -Mrs. Oswald responder-lhe-hiam acaso a alguma voz intima? A ingleza -proseguiu na mesma ordem de ideias, sem que ella a interrompesse ou -desse signal de si. Quando ella acabou, Guiomar estremeceu, como se -acordasse; levantou a cabeça, e lenta, e commovida, proferiu esta unica -resposta:</p> - -<p>—Talvez tenha razão, Mrs. Oswald, mas em todo o caso os sonhos são tão -bons!</p> - -<p>Mrs. Oswald abanou a cabeça e saiu; Guiomar acompanhou-a com os olhos, -a sorrir, satisfeita de si mesma, e a murmurar tão baixo que mal a -ouvia o seu proprio coração:</p> - -<p>—Sonhos, não, realidade pura.</p> - -<p>Supponho, que o leitor estará curioso de saber quem era o feliz ou -infeliz mortal, de quem as duas trataram no dialogo que precede, se -é que já não suspeitou que esse era nem mais nem menos o sobrinho da -baroneza,—aquelle moço que apenas de passagem lhe apontei nas escadas -do Gymnasio.</p> - -<p>Era um rapaz de vinte e cinco a vinte e seis annos. Jorge chamava-se -elle; não era feio, mas a arte estragava um pouco a obra da natureza. -O muito mimo empece a planta, disse o poeta, e esta maxima não é só -applicavel à poesia, mas tambem ao homem. Jorge tinha um lindo bigode -castanho, untado e retesado com excessivo esmero. Os olhos, claros e -vivos, seriam mais bellos, se elle não os movesse com affectação, ás -vezes feminina. O mesmo direi dos modos, que seriam faceis e naturaes, -se os não tornasse tão alinhados e medidos. As palavras saíam-lhe -lentas e contadas, como a fazer sentir toda a munificencia do autor. -Não as proferia como as demais pessoas; cada syllaba era por assim -dizer espremida, sendo facil ver ao cabo de alguns minutos, que elle -fazia consistir toda a belleza da elocução nesse alongar do vocabulo. -As ideias orçavam pelo modo de as exprimir; eram chochas por dentro, -mas traziam uma codea de gravidade pesadona, que dava vontade de ir -espairecer o ouvido em cousas leves e folgazãs.</p> - -<p>Taes eram os defeitos apparentes de Jorge. Outros havia, e desses, o -maior era um peccado mortal, o setimo. O nome que lhe deixara o pae, e -a influencia da tia podiam servir-lhe nas mãos para fazer carreira em -alguma cousa publica; elle, porém, preferia vegetar á toa, vivendo do -peculio que dos paes herdára e das esperanças que tinha na affeição de -baroneza. Não se lhe conhecia outra occupação.</p> - -<p>Não obstante os defeitos apontados, havia nelle qualidades boas: sabia -dedicar-se, era generoso, incapaz de malfazer, e tinha sincero amor á -velha parenta. A baroneza, pela sua parte, queria-lhe muito. Guiomar e -elle eram as suas duas affeições principaes, quasi exclusivas.</p> - -<p>Tal era a pessoa cujos interesses defendia Mrs. Oswald, por amor da -baroneza, e não menos de si propria. A baroneza tambem tinha os seus -sonhos, como ella mesma disse, e esses eram deixar felizes aquellas -duas crianças. Jorge pela sua parte estava dispóto a estender o collo -ao sacrificio; e, bem examinadas as cousas, talvez amasse sinceramente -a moça. A differença entre elle e Estevão é que o seu amor era tão -medido como os seus gestos, e tão superficial como as suas outras -impressões.</p> - -<p>Do que ahi fica dito, facilmente comprehenderá o leitor que, dos dous -namorados, só um percebeu logo o sentimento do outro. A alma de Estevão -andava-lhe nos olhos, enchendo-os de maneira que elle não podia ver -nada mais além de Guiomar.</p> - -<p>Ao cabo de duas semanas a situação de Estevão podia dízer-se menos -má; na opinião delle era excellente. A baroneza soube quem elle era; -Guiomar contara-lhe tudo; mas a ingleza, não menos que a observação -propria, lhe mostrou que nenhum perigo corria Guiomar, e excluido o -perigo, restavam as boas qualidades do bacharel, que de todo lhe caiu -em graça. Mrs. Oswald navegou nas mesmas aguas mansas. O proprio Jorge, -naturalmente por que confiava em si, não temeu do rival, e pouco tardou -que lhe abrisse os cancellos da sua gravidade. Que admira, pois, que a -mesma Guiomar afrouxasse um pouco da primeira rigidez?</p> - -<p>Aquelle bom rapaz tinha a salutar crendice da esperança, em que muita -vez se resumem todas as bençãos da vida. Pedia muito, como alma -sequiosa que era, mas bem pouco bastava a contental-o. A imaginação -multiplicava os zeros; com um grão de areia construiria um mundo. A -affabilidade de uns e a cortezia de outros, tanto bastou para que -elle se julgasse quasi no termo de suas aspirações; e posto não lhe -désse Guiomar uma só das animações de outro tempo,—que aliás tão -frageis eram, ainda assim acreditou elle piamente que o amor nascia, ou -renascia, naquelle rebelde coração.</p> - -<p>Guiomar, no meio das affeições que a cercavam, sabia manter-se superior -ás esperanças de uns e ás suspeitas de outros. Egualmente cortez, mas -egualmente impassível para todos, movia os olhos com a serenidade -da isenção, não namorados, nem sequer namoradores. Ella teria, se -quizesse, a arte de Armida; saberia refrear ou aguilhoar os corações, -conforme elles fossem impacientes ou tibios; faltava-lhe porém o -gosto,—ou melhor, sobrava-lhe o sentimento do que ella achava que era -a sua dignidade pessoal.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h4><a name="VIII" id="VIII">VIII</a></h4> - - -<h4>Golpe.</h4> - - -<p>Um dia de manhã accordou Estevão com a resolução feita de dar o golpe -decisivo. Os corações frouxos tem destas energias subitas, e é proprio -da pusilanimidade illudir-se a si mesma. Elle confessava que nada havia -feito, e que a situação exigia alguma cousa mais.</p> - -<p>—Nunca as circumstancias foram mais propicias do que hoje, pensava -o rapaz; Guiomar trata me com affabilidade de bom agouro. Demais, ha -nella espirito elevado; ha de reconhecer que um sentimento discreto e -respeitoso, como este meu, vale um pouco mais do que lisonjarias de -sala.</p> - -<p>A resolução estava essentada; restava o meio de a tornar affectiva. -Estevão hesitou largo tempo entre dizer de viva voz o que sentia ou -transmittil-o por via do papel. Qualquer dos modos tinha para elle mais -perigos que vantagens. Elle receiava ser frio na declaração escripta ou -incompleto na confissão oral. Irresoluto e vacillante, ambos os meios -adoptou e repelliu, a curtos intervallos; emfim, deferiu a escolha para -outra occasião.</p> - -<p>O acaso suppriu a resolução, e o premeditado cedeu o passo ao fortuito.</p> - -<p>Uma tarde, havendo algumas pessoas a jantar em casa da baroneza, foram -passear á chacara. Estevão que, como Luiz Alves, era dos convivas, -affastou-se gradualmente dos outros grupos, e approximou-se daquella -cerca historica onde, após dous annos de ausencia e esquecimento, vira, -ja transformada, a formosa Guiomar. Era a primeira vez que elle punha -os olhos nesse sitio, depois da conversa, que ahi tivera com ella. A -commoção que sentiu foi naturalmente grande; resurgia-lhe o quadro ante -os olhos, a hora, o ceu brilhante, o doce alento da manhã, e por fim a -figura da moça, que alli appareceu, como a alma do quadro, trazendo-lhe -recordações, que elle julgava mortas, esperanças que suppunha -impossiveis.</p> - -<p>Estevão curvou a cabeça ao doce peso daquellas memorias, a alma bebeu, -a largos haustos, a vida toda que a imaginação lhe creava e talvez a -noite o tomasse na mesma attitude, se a voz maviosa de Guiomar, lhe não -dissesse a poucos passos de distancia:</p> - -<p>—Sr. doutor, perdeu alguma cousa?</p> - -<p>O rapaz volveu rapidamente a cabeça, e viu a moça, que atravessava -uma das calhes proximas, a olhar e a sorrir para elle. Estevão sorriu -tambem, e com uma presença de espirito assaz rara em namorados, -sobretudo em namorados como elle era, promptamente respondeu:</p> - -<p>—Não perdi nada, mas achei uma cousa.</p> - -<p>—Vejamos o que foi.</p> - -<p>E Guiomar approximou-se, a passo firme e seguro, e Estevão, sem muito -vacillar, alli mesmo forjou uma reflexão philosophica a respeito de -um insecto que casualmente passava por cima de uma folha secca. A -reflexão não valia muito, e tinha o defeito de vir um pouco forçada e -de acarreto; a moça sorriu, entretanto, e ia continuar o seu caminho, -quando elle, colhendo as forças todas, a fez deter com estas palavras:</p> - -<p>—E se eu tivesse achado outra cousa?</p> - -<p>—Ainda mais! exclamou ella voltando-se risonha.</p> - -<p>Estevão deu dous passos para Guiomar, desta vez commovido e resoluto. A -moça fez-se seria e dispoz-se a ouvil-o.</p> - -<p>—Se eu tivesse achado neste logar, continuou elle, longos dias de -esperança e de saudade, um passado que eu julgára não reviver mais, uma -dor occulta e medrosa, vivida na solidão, nutrida e consolada de minhas -próprias lagrimas? Se eu tivesse achado aqui a pagina rota de uma -historia começada e interrompida, não por culpa de ninguem na terra, -mas da estrella sinistra da minha vida, que um anjo mau accendeu no -ceu, e que, talvez, talvez ninguem nunca apagará?</p> - -<p>Estevão calou-se e ficou a olhar fixamente para Guiomar.</p> - -<p>Aquella declaração repentina e rosto a rosto estava tão longe do -temperamento do rapaz, que ella gastou alguns segundos longos primeiro -que voltasse a si do assombro. Elle proprio admirava-se do atrevimento -que tivera; e emquanto pendia dos labios da moca, repassava na memoria, -aliás confusamente, o que tão a frouxo lhe saira do peito naquella hora -de abençoada temeridade.</p> - -<p>—Se tivesse achado tudo isso, respondeu Guiomar sorrindo, é natural -que preferisse achar outra cousa menos melancolica. Entretanto, -parece que nada mais achou do que esta occasião de falar, com a viva -imaginação que Deus lhe deu; n'um ou n'outro caso, porém, posso de -certo lastimal-o ou admiral-o, mas não me é dado ouvil-o.</p> - -<p>E Guiomar ia de novo affastar-se, quando Estevão, receiando perder a -occasião que a fortuna lhe offerecia, disse de longe com voz triste e -supplice:</p> - -<p>—Attenda-me um só munito!</p> - -<p>—Não um, mas dez—respondeu a moça estacando o passo e voltando o -rosto para elle—e serão provavelmente os ultimos em que falaremos -a sós. Cedo á commiseração que me inspira o seu estado; e pois que -rompeu o longo e expressivo silencio em que se tem conservado até hoje, -concedo-lhe que diga tudo, para me ouvir uma só palavra.</p> - -<p>A moça falára n'um tom secco e imperioso, em que mais dominava a -impaciencia do que a commiseração a que vinha de alludir. O coração de -Estevão batia-lhe como nunca,—como o coração costuma bater nas crises -de uma angustia suprema. Todo aquelle castello de vento, laboriosamente -construido nos seus dias de illusão, todo elle se esboroava e desfazia, -como vento que era. Estevão arrependera-se do impulso que o levára a -violar ainda uma vez o segredo dos seus sentimentos intimos, a abrir -mão de tantas esperanças, alimentadas com o melhor do seu sangue -juvenil.</p> - -<p>Alguns instantes decorreram em que nem um nem outro falou; ambos -pareciam medir-se, ella serena e quieta, elle tremulo e gelado.</p> - -<p>—Uma só palavra, repetiu Estevão, e essa adivinho que será de -desengano. Embora! Pois que me atrevi a dizer-lhe alguma cousa, força -é que lhe diga tudo,—feliz, se me restar, ao menos, a maior fortuna a -que já agora posso aspirar,—o seu remorso.</p> - -<p>Guiomar ouvira-o tranquillamente; a ultima palavra fel-a estremecer. -Sorriu, entretanto, de um sorriso um pouco voluntario e esperou.</p> - -<p>A narração foi longa, tanto quanto o permittiam a occasião, o logar -e a pessoa; durou apenas dez minutos. Estevão nada lhe escondeu, nem -o amor que lhe tivera out'rora, nem o que agora lhe renascia, mais -violento que o primeiro; disse-lhe as dores que curtira, as esperanças -que afinal lhe enfloravam a alma, tudo quanto emprehendêra para ler a -ventura de a contemplar de perto, de gozar naquelle escasso ponto da -terra a maior de todas as bem aventuranças.</p> - -<p>Tal é a transcripção, não litteral, mas fiel, do que disse Estevão -durante esse dez minutos. As palavras caíam-lhe tremulas e a voz -saía-lhe sumida, em parte por que elle forcejava em a abafar, afim -de que o não ouvissem, em parte porque a commoção lhe comprimia a -garganta. A dor era visivelmente sincera; a eloquência vinha do coração.</p> - -<p>Guiomar não ouvira tudo com a mesma expressão; a principio um meio riso -parecia desabrochar-lhe os labios, mas não tardou que pelo rosto abaixo -lhe caísse um veu mais compassivo e humano. Havia nella impaciencia e -anciedade de acabar, de sair dalli; era, sem duvida, o receio de que a -ausência se prolongasse de maneira que inspirasse suspeitas. Mas havia -também commiseração e piedade.</p> - -<p>—Nenhuma culpa lhe pode caber do mal que tenho padecido, disse Estevão -concluindo; sobretudo agora, só eu, só a minha cabeça é a causa unica -de tudo. Parecia-me ver o contrario do que existia; cheguei a suppor -que havia em seu coração alguma cousa que não era a total indifferença; -vejo que foi tudo illusão.</p> - -<p>O tom em que elle falára era o mesmo das palavras que ahi ficam, todas -humildes e resignadas, sem o menor laivo de queixa ou de reproche. Uma -submissão assim devia por força commover a uma mulher amada. Guiomar -falou-lhe sem azedume:</p> - -<p>—Era illusão, disse ella. O sentimento que me acaba de revellar -inteiro, ninguem o recebe ou nutre de vontade; a natureza o infunde ou -nega. Posso eu ter culpa disso?</p> - -<p>—Nenhuma.</p> - -<p>—Nem o senhor tambem, e espero que esta mutua justiça avigore o -sentimento de estima devemos ter um para com o outro. Mas estima -apenas, não póde haver outra cousa,—da minha parte ao menos. É pouco, -de certo...</p> - -<p>—Não é pouco, é cousa differente, interrompeu Estevão.</p> - -<p>—Mas não espere nada mais, concluiu Guiomar sem ouvir a interrupção.</p> - -<p>Estevão abriu a bocca para falar, mas não achou palavra que lhe -dissesse o que sentia; levou a mão ao coração, que batia fortemente, e -ficou a olhar para ella com os olhos seccos e parados, a voz extincta, -como se a alma lhe fugira toda. Era claro, depois daquelle desengano, -que lhe cumpria não voltar alli mais, pelo menos com a assiduidade da -esperança; e assim era que a unica e amarga satisfação de a ver, nem -essa já agora se lhe consentia.</p> - -<p>—Dou-lhe um conselho, disse Guiomar depois de alguns segundos de -pausa, seja homem, vença-se a si proprio; seu grande defeito é ter -ficado com a alma creança.</p> - -<p>—Talvez, respondeu o moço suspirando.</p> - -<p>—E adeus. Falamos a sós, mais do que convinha; não sei se outra -consentiria nisto. Mas eu não só reconheço os seus sentimentos de -respeito, como desejo que estas poucas palavras trocadas agora ponham -termo a aspirações impossiveis.</p> - -<p>Guiomar estendeu-lhe a mão, em que elle tocou levemente.</p> - -<p>A baroneza appareceu, entretanto, a algumas braças de distancia; vinha -encostada ao braço do sobrinho, que lhe falava, mas a quem ella já não -ouvia. Tinha os olhos cravados nos dous interlocutores de ha pouco. -A moça apenas vira de longe a madrinha, deu affoutamente o braço a -Estevão, e seguiram ambos a encontrar-se com ella; o rosto de Guiomar -não revelava nada; o de Estevão vinha perturbado e abatido. A baroneza -franziu a testa:</p> - -<p>—Jorge, disse ella em voz baixa, precisamos conversar.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h4><a name="IX" id="IX">IX</a></h4> - - -<h4>Conspiração.</h4> - - -<p>A baroneza, quando se lhe approximaram os dous interlocutores da cerca, -mais receiosa ficou e mais perplexa. Guiomar vinha risonha e até -gracejadora; mas o abatimento de Estevão era tão mal disfarçado, que de -duas uma,—ou ella acabava de lhe dar o ultimo desengano,—ou aquillo -era apenas um arrufo serio, que o moço não podia ou não queria esconder -de olhos extranhos. Isto é o que a baroneza pensou. O que ella concluiu -foi que, em todo caso, urgia tentar alguma cousa em favor do maior,—do -unico senho da sua velhice.</p> - -<p>Jorge não percebeu a verdadeira razão porque a tia lhe dissera ser -necessário conversar com ella; imaginou que se trataria de Guiomar e -Estevão,—mas estava longe de suppor todo o alcance da entrevista.</p> - -<p>A entrevista não pode ser logo nesse dia; as visitas ficaram alli -até tarde, e a noite foi a mais agradavel e distrahida de todas as -noites; Guiomar, sobretudo, esteve como nunca, jovial e interessante. -A serenidade parecia morar-lhe na alma e reflectir-se-lhe no -rosto,—tantas vezes pensativo, mas agora tão frio e tão nú.</p> - -<p>Não será preciso dizer a um leitor arguto e de boa vontade... Oh! -sobretudo de boa vontade, porque é mister havel-a, e muita, para vir -até aqui, e seguir até o fim, uma historia, como esta, em que o autor -mais se occupa de desenhar um ou dous caracteres, e de expor alguns -sentimentos humanos, que de outra qualquer cousa, por que outra cousa -não se animaria a fazer;—não será preciso declarar ao leitor, dizia -eu, que toda aquella jovialidade de Guiomar eram punhaes que se lhe -cravavam no peito ao nosso Estevão. Elle não podia suppol-a abatida; -mas penalisada, ao menos, um pouco respeitosa para com a dor que havia -nelle, isto, sim, imaginava que sería. Mas nada disso foi, e o pobre -rapaz saiu dalli mais cedo do que pensára e quizera sair.</p> - -<p>Na alcova, se elle podesse vel-a mais tarde na alcova, solitaria -e toda comsigo, sentada na poltrona rasa ao lado da cama, com os -cabellos desfeitos, os pésinhos mettidos nas chinellas de setim preto, -as mãos no regaço e os olhos vagando de objecto em objecto, como se -reproduzissem fóra as attitudes interiores do pensamento, alli não -só elle a adoraria de joelhos, mas até poderia suppor que alguma -preoccupação lhe tirava o somno e que essa era nem mais nem menos elle -proprio.</p> - -<p>Talvez fosse; em parte ao menos seria elle. Guiomar não tinha um -coração tão mau, que lhe não doessem as maguas de um homem que -acertara ou desacertara de a amar. Mas fosse uma, ou fossem muitas as -causas daquella preoccupação, a verdade é que ella durou muito tempo. -Guiomar passou da poltrona á janella, que abriu toda, para contemplar -a noite,—o luar que batia nas aguas, o ceu sereno e eterno. Eterno, -sim, eterno, leitora minha, que é a mais dasconsoladora lição que nos -poderia dar Deus, no meio das nossas agitações, lutas, ancias, paixões -insaciáveis, dores de um dia, gozos de um instante, que se acabam e -passam comnosco, debaixo daquella azul eternidade, impassivel e muda -como a morte.</p> - -<p>Pensaria nisto Guiomar? Não, não pensou nisto um minuto sequer; ella -era toda da vida e do mundo, desabrochava agora o coração, vivia -em plena aurora. Que lhe importava,—ou quem lhe chegara a fazer -comprehender esta philosophia secca e arida? Ella vivia do presente -e do futuro e,—tamanho era o seu futuro, quero dizer as ambições -que lh'o enchiam,—tamanho, que bastava a occupar-lhe o pensamento, -ainda que o presente nada mais lhe dera. Do passado nada queria saber; -provavelmente havia-o esquecido.</p> - -<p>A madrugada achou-a dormindo; mas os primeiros raios do sol vieram -accordal-a, na fórma do costume, para o matinal passeio com a madrinha. -Guiomar sacrificava tudo á dedicação filial de que ja dera tantas -provas. A baroneza, entretanto, estava preoccupada; o passeio foi -differente do dos outros dias.</p> - -<p>Ao meio-dia metteu-se Guiomar no carro, com Mrs. Oswald, e sairam a -uma visita. A baroneza ficou só; Jorge não a deixou ficar só por muito -tempo, porque chegou dahi a pouco.</p> - -<p>A baroneza não perdeu tempo em circunloquios. Apenas viu o sobrinho -interpellou-o directamente:</p> - -<p>—Disseram-me, foi Mrs. Oswald quem me disse que tu gostas de Guiomar.</p> - -<p>Jorge não contava muito com semelhante interrogação; todavia, não era -tão ingenuo que corasse, nem tão apaixonado que lhe tremesse a voz. -Puchou gravemente os punhos da camisa, concertou a gravata, e respondeu -singellamente:</p> - -<p>—Não me atrevia a falar-lhe destas cousas...</p> - -<p>—Porque não?—interrompeu a baroneza; são assumptos que se podem -tratar entre mim e ti, sem desar para nemhum de nós. É então verdade o -que me disse Mrs. Oswald?</p> - -<p>—É.</p> - -<p>—Amas deveras, ou...</p> - -<p>—Deveras. Recuaria, se visse que uma alliança entre nós ficava mal ao -lustre de nossa familia; mas, posto que ella seja...</p> - -<p>—Guiomar é minha filha, apressou-se a dizer a baroneza.</p> - -<p>—Justamente; não pode haver melhor titulo.</p> - -<p>—Tem ainda outro, continuou a baroneza; é uma alma angélica e pura. -Henriqueta não teve melhor coração nem mais amor aos seus. Além disso, -a natureza deu-lhe um espirito superior, de maneira que a fortuna não -fez mais do que emendar o equivoco do nascimento. Finalmente é de uma -belleza pouco commum...</p> - -<p>—Rara, titia, póde dizer que é de uma belleza rara, acudiu Jorge, -e pela primeira vez lhe luziu nos olhos alguma cousa, que não era a -gravidade de costume.</p> - -<p>—Já vês, proseguiu a baroneza, que ella possue todos os direitos ao -amor e á mão de um homem, como tu.</p> - -<p>A baroneza tinha um coração ingenuo e lizo, sem desvios nem astucias; -comtudo, ha occasiões em que o mais recto espirito emprega, como por -instincto, finuras diplomaticas. A boa senhora tinha tanto a peito -aquella união do sobrinho com a afilhada, que não confiava só do amor; -procurava interessar-lhe tambem o amor proprio.</p> - -<p>Jorge curvou-se com affectada modestia.</p> - -<p>—Um homem, como eu,—disse elle—vale pouco por si mesmo; o valor que -tenho, e esse é muito, vem do nome de meus pais e do seu, titia, e das -santas qualidades que a adornam...</p> - -<p>—Só uma, Jorge, só uma qualidade santissima: é a de amal-os, a ti e -a ella. Por isso foi immenso o gôsto que senti quando Mrs. Oswald me -disse que gostavas de Guiomar. Acredita que se eu tivesse a fortuna de -ver a vocês unidos e felizes, morreria contente.</p> - -<p>—Oh! isso! disse Jorge com ar de duvida.</p> - -<p>—Julgas impossivel o casamento?</p> - -<p>—Impossivel, não; impossivel, nada ha. Mas... mas supponho que a -vontade della é indispensavel, tão indispensavel como duvidosa.</p> - -<p>—Duvidosa! Estás certo disso?</p> - -<p>Jorge tinha-se levantado e dera alguns passos, não agitado de todo, -mas um pouco fóra da impassibilidade usual. A ideia do casamento -apparecia-lhe agora um pouco mais possivel e exequivel, desde que a tia -francamente lhe propuzesse alliança.</p> - -<p>—Estás certo disso? repetiu a baroneza.</p> - -<p>—Certo não; mas ha toda a razão para a duvida. Guiomar sabe que eu -gósto della; e comtudo não me dá o menor signal de corresponder aos -meus sentimentos.</p> - -<p>Jorge expos longamente todas as razões que tinha para crer que a -vontade de Guiomar não correspondia á delle; referiu-lhe, com a maior -exacção e fidelidade, uns tres on quatro episodios que lhe pareciam boa -prova daquillo que dizia. A baroneza não ouvia tudo com egual attenção. -Quando elle acabou:</p> - -<p>—Guiomar será muito vexada,—disse ella—e ás vezes, e por isso mesmo, -tem essas apparencias frias. Nada impede, porém, a que venha a amar-te, -se é que ja te não ama. Ha nella certa altivez natural, que póde -explicar também essa frieza; parece-me que lhe seria penoso receber o -amor de alguem que julgasse levantal-a até si.</p> - -<p>—Isso, talvez...</p> - -<p>—Mas esse sentimento, que póde ser e é honroso, não é de certo -invencivel.</p> - -<p>Todas estas palavras da baroneza lisonjeavam o sobrinho, em cujos -labios pairava agora um sorriso de íntima satisfação. De quando em -quando não ouvia elle nada do que lhe dizia a tia; seus ouvidos -voltavam-se para dentro; elle escutava-se a si proprio. O amor de -Guiomar começava a parecer-lhe possivel; tudo quanto a baroneza lhe -dizia era razoavel, com a vantagem de lhe esclarecer as faces obscuras -da situação. Demais, até que ponto a baroneza conjecturava ou revelava? -Bem podia ser que ella tivesse lido mais fundo no coração da moça.</p> - -<p>Estas reflexões fel-as Jorge, em quanto a baroneza continuava a falar e -a desenvolver a ideia que ultimamente indicara. Até aquelle dia havia -elle limitado toda a sua acção a alguns olhares, e raras palavras de -comprimento; a entrevista com a tia dera-lhe animação; pareceu-lhe -chegado o ensejo de sair daquella paz armada.</p> - -<p>Guiomar chegou d'ahi a pouco e achou-os na «saleta de trabalho,» -euphemismo elegante, que queria dizer litteralmente—saleta de -conversação entremeada de <i>crochet.</i> Mrs. Oswald vinha com ella; ambas -riam alegremente de não sei que episodio visto no caminho. Jorge -erguera-se, pausado mas risonho, apertou a mão de Guiomar,—apertou-a -deveras, mais do que era usual e cortez. Guiomar não pareceu -afligir-se; perguntou-lhe pela saude, transmittiu á madrinha as -lembranças que lhe mandavam e dispoz-se a sair.</p> - -<p>Durante esse tempo, Jorge olhava para ella, enlevado deveras na -contemplação de toda aquella nobre figura, agora mais bella que -d'antes, desde que se lhe tornara possivel a alliança ha muito sonhada. -Havia nos olhos de Jorge uns taes ou quaes vestigios lubricos, donde -se podia colher que, se elle fosse poeta, e poeta arcadico, editaria -pela millionesima vez a comparação da Venus e dos seus seus infalliveis -amorinhos; comparação detestavel, sobretudo, porque a casta belleza de -moça, se alguma cousa pagã lhe podia ser chamada, seria antes Diana -convertida ao Evangelho.</p> - -<p>Jorge saiu dalli singularmente agitado; a conversa da baroneza dera-lhe -nervo e resolução, e o quadro do casamento começou a desenhar-se-lhe no -espirito, como o relogio que o menino tem de usar pela primeira vez. -Até alli deixara-se elle ir á feição das aguas; agora via a necessidade -e a possibilidade de abicar á riba feliz do matrimonio.</p> - -<p>As duvidas de Estevão não lhe saltearam o espirito; apenas chegou a -casa travou da penna, e lançou na folha branca e lustrosa de seu papel -uma confissão elegante e polida, que todavia refundiu duas ou tres -vezes, primeiro que a désse por prompta. Acabada a redacção final, -transcreveu aquella prosa do coração na mais nitida folha que havia em -casa,—dobrou o metteu-o na algibeira.</p> - -<p>De noite foi á casa da tia. Achou as senhoras á volta de uma meza; -Guiomar lia, para a madrinha ouvir, um romance francez, recentemente -publicado em Paris e trazido pelo ultimo paquete. Mrs. Oswald lia -tambem, mas para si, um grosso volume de Sir Walter Scott, edição -Constable, de Edimburgo.</p> - -<p>Jorge veiu interrompel-as um pouco, mas só interromper, porque a -leitura continuou logo depois, ajudando elle proprio a Guiomar naquella -filial tarefa. Veiu o chá, veiu depois a hora de recolher, e a baroneza -deu por findo o serão, ainda que o livro estava quasi findo.</p> - -<p>—Um capitulo mais, aventurou Jorge com o livro aberto nas mãos.</p> - -<p>A baroneza sorriu e voltou os olhos para Guiomar, a cuja conta lançou -aquella dedicação do sobrinho; recusou comtudo, por estar a cair de -somno.</p> - -<p>—Eu é que não me deito sem saber o resto, declarou Guiomar; levo o -livro commigo.</p> - -<p>—Ah! disse Jorge com um gesto de satisfação.</p> - -<p>E emquanto Guiomar se dispunha a acompanhar a madrinha até á porta do -quarto, e Mrs. Oswald marcava a pagina e fechava o seu livro, Jorge -egualmente fechava o outro, mas com tal demora e cuidado, que deu muito -que entender á ingleza. Se ella chegou entender, vel-o-hemos depois; -o certo é que o livro foi emfim entregue a Guiomar, tendo a pagina -marcada, não com a fita que lá estava pendente, mas com um pedacinho de -papel.</p> - -<p>O pedacinho de papel era a carta; apenas uns poucos centímetros de -altura; mas por mais exiguas que tivesse as dimensões, bem podia ser -que levasse alli dentro nada menos que uma tempestade próxima.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h4><a name="X" id="X">X</a></h4> - - -<h4>A revelação.</h4> - - -<p>Meia hora depois, indo a abrir o livro para continuar a leitura, viu -Guiomar a cartinha de Jorge. Não tinha sobrecarta; era um simples -papelinho dobrado, rescendendo a amores. O espirito de Guiomar estava -tão longe d'aquillo que não suspeitou nada e distrahidamente o abriu. A -primeira palavra escripta era o seu nome; a ultima era o de Jorge.</p> - -<p>O primeiro gesto de Guiomar foi de colera. Se elle pudesse espreita-la -pelo buraco da fechadura, e ver-lhe a expressão do rosto, é mui -provavel que se lhe convertesse em aborrecimento todo o amor que até -agora nutria. Mas elle não estava alli, a moça podia traduzir fielmente -no rosto os movimentos do coração.</p> - -<p>—Mais um, pensou ella; este porém...</p> - -<p>E desta vez o gesto não foi de colera, foi de alguma cousa mais, metade -fastio, metade lastima, mescla difficil e rara.</p> - -<p>A moça ficou algum tempo quieta, a olhar para o papel, sem o querer -ler, como a hesitar entre queimal-o ou restitui-lo intacto a seu autor. -Mas a curiosidade venceu por fim; Guiomar abriu o papel e leu estas -linhas:</p> - -<p>«Guiomar! Perdoe-me se lhe chamo assim; as convenções sociaes -condemnam-me de certo, mas o coração approva, que digo? elle mesmo -escreve estas letras. Não é a minha penna, não são os meus labios que -lhe falam deste modo, são todas as forças vivas da minha existencia, -que em alta voz proclamam o immenso e profundo amor que lhe tenho.</p> - -<p>«Antes de o ler neste papel, já a senhora o hade ter visto, pelo -menos adivinhado nos meus olhos, na doce embriaguez que em mim produz -a presença dos seus. Persuado-me de que todo o meu esforço em recalcar -este affecto é vão; por mais que eu sinceramente deseje esquecel-a, -não o alcançarei nunca; não alcançarei mais que uma afflição nova. O -remorso de o tentar virá coroar os demais infortunios.</p> - -<p>«Porque razão rompo hoje o silencio em que me tenho conservado, -medroso e respeitoso silencio que, se me não abre a caminho da gloria, -ao menos conserva-me a palma da esperança? Nem eu mesmo saberia -responder-lhe; falo, porque uma força interior me manda falar, como -trasborda o rio, como se derrama a luz; falo porque morreria talvez se -me calasse, do mesmo modo que morrerei de desespero, se além do perdão -que lhe peço, ma não der uma esperança mais segura do que esta, que me -faz viver e consumir.—Jorge.»</p> - -<p>Guiomar leu esta carta duas vezes, uma leitura de curiosidade, outra -de analyse e reflexão, e ao cabo da segunda achava-se tão fria como -antes da primeira. Olhou algum tempo para o papel e mentalmente para o -homem que o havia escripto; emfim, poz a carta de lado, abriu o livro e -continuou o romance.</p> - -<p>Mas o espirito, que não ficara tão indifferente como o coração, entrou -a fugir-lhe do romance para a vida com tal tenacidade que não houve -remedio senão irem os olhos atraz delle, e a moça de novo mergulhou nas -reflexões que lhe suggeria o caso da paixão de Jorge.</p> - -<p>Paixão não era,—não o seria ao menos no sentido inteiro do vocabulo; -mas alguma cousa menos, ou parecida com ella, e ainda assim verdadeira, -via bem Guiomar que o poderia ser. Até que ponto chegaria entretanto, -o seu adorador, se ella o desattendesse logo; e, dado o amor que a -baroneza tinha ao sobrinho, até que ponto a recusa iria magoal-a? -Guiomar varreu do espirito os receios que lhe nasciam de taes -interrogações; mas sentiu-os primeiro, pezou-os antes de os arredar de -si, o que revelará ao leitor em que proporção estavam nella combinados -o sentimento e a razão, as tendencias da alma e os calculos da vida.</p> - -<p>Excluido o receio, voltou-lhe o riso, aquelle riso interior, que é o -mais involuntario e cruel, e tambem o menos arriscado que a gente póde -dar ás fatuidades humanas. Não podia ser tão despresivel assim o amor -de um homem, cuja ridiculez compensavam algumas qualidades boas, e que -emfim era tambem distincto, ainda que a sua distincção primasse antes -por um estylo rendilhado e complicado, que não é o melhor. Guiomar via -tudo isso, e por outro lado, não podia obstar que elle a amasse; nem -por isso achava menos temeraria aquella confissão.</p> - -<p>A moça reflectia tambem na posição especial que tinha naquella casa -o sobrinho da baroneza; via-se obrigada á presença delle, e talvez -á luta, porque o pretendente não recuaria do primeiro golpe. Não -havia taes receios da parte de Estevão; ella reconhecia que a paixão -deste era ardente e profunda, e por isso mais capaz de desatinos; mas -comparava as indoles dos dous homens, e se ambos lhe pareciam de fraca -compleixão moral, nem por isso desconhecia que ao bacharel faltava -certa presumpção que distinguia o outro, e com a qual teria talvez de -pelejar.</p> - -<p>Quando ella fez esta comparação entre os dous homens, ficaram-lhe os -olhos um pouco mais molles e quebrados, obra de tres minutos apenas, -mas tres minutos que, se Estevão soubera delles, trocaria por elles -o resto de toda a vida. E comtudo, não era amor nem saudade; alguma -sympathia, sim, ainda que leve e sem consequencia; mas sobretudo era -pena de o não poder amar,—ou ainda melhor—era lastima de que tal -coração não fora casado a outro espirito.</p> - -<p>Guiomar reflectiu ainda muito e muito, e não reflectiu só, devaneou -também, soltando o panno todo a essa veleira escuna da imaginação, em -que todos navegamos alguma vez na vida, quando nos cança a terra firme -e dura, e chama-nos o mar vasto e sem praias. A imaginação della porém -não era doentia, nem romantica, nem piegas, nem lhe dava para ir colher -flores em regiões selvaticas ou adormecer á beira de lagos azues. Nada -disso era nem fazia; e por mais longe que velejasse levaria entranhadas -na alma as lembranças da terra.</p> - -<p>Volveu emfim e olhos cairam-lhe na carta. A realidade presente não se -lhe podia mostrar de peor modo. Guiomar ergueu-se irritada, lançou mão -do papel e machucou-o febrilmente; ia talvez rasgal-o, quando ouviu -bater de manso á porta.</p> - -<p>—Quem é? perguntou.</p> - -<p>—Sou eu, respondeu a voz de Mrs. Oswald.</p> - -<p>A moça foi abrir a porta; a ingleza entrou, trajada de dormir, e um -vivo espanto nos olhos, que pareceu tirar-lhe a voz durante alguns -segundos. Guiomar assustada perguntou:</p> - -<p>—Que é? aconteceu alguma cousa a minha madrinha?</p> - -<p>—Longe vá o agouro! exclamou a ingleza. Não lhe aconteceu nada; a -senhora baroneza dorme naturalmente a somno solto. Venho porque do meu -quarto pareceu-me ouvir rumor de passos aqui, e depois vi luz. Pensei -que tivesse algum incommodo. Mas, pelo que vejo, continuou a ingleza -deitando os olhos para a mezinha em que pousava o livro aberto,—pelo -que vejo ainda não acabou de ler o seu romance...</p> - -<p>—Não li ainda uma linha, depois que me recolhi, respondeu Guiomar -cravando os olhos no rosto da ingleza, como tomada de um pensamento -subito.</p> - -<p>—Deveras!</p> - -<p>—Li outra cousa, continuou a moça; li este papel.</p> - -<p>Mrs. Oswald inclinou-se para ler também o papel, que aliás adivinhou -qual fosse; Guiomar atirou-o sobre a mesa.</p> - -<p>—Não precisa, disse ella; é uma declaração amorosa.</p> - -<p>—De quem? perguntou a ingleza abrindo uns olhos espantados e -obedientes.</p> - -<p>—Leia o nome.</p> - -<p>Mrs. Oswald leu a assignatura da carta, que a moça do novo lhe -apresentava.</p> - -<p>—Naturalmente, continuou Guiomar, ha nisto obra sua...</p> - -<p>—Minha! interrompeu a outra um pouco mais rispidamente do que -costumava falar.</p> - -<p>Guiomar tinha ido sentar-se; o pésinho impaciente batia no tapete, com -um movimento rapido e regular; cruzára os braços sobre o peito, fitando -a ingleza com uns olhos em que se podia ler a viva exacerbação do -espirito. Seguiu-se curto silencio; Mrs. Oswald puxou outra cadeira e -sentou-se perto da moça.</p> - -<p>—Por que ha de ser injusta commigo? disse ella dando á voz um tom -mellifluo e supplicante; porque não ha de ver as cousas, como ellas -naturalmente são? O que ha nisto é uma coincidencia curiosa, mas nada -mais. Se lhe falei em semelhante cousa algumas vezes, foi porque eu -mesma percebi o amor que lhe tem o Sr. Jorge; é cousa que todos veem. -Imaginei que o casamento, neste caso, seria agradavel á Sra. baroneza a -quem sou grata. Posso ter feito mal...</p> - -<p>—Muito mal, interrompeu Guiomar; são cousas de familia em que a -senhora nada tem que ver.</p> - -<p>Guiomar levantou-se outra vez, deu alguns, passos, e voltou a -sentar-se. Com o movimento desprenderam-se-lhe os cabellos e cairam-lhe -sobre os hombros. Mrs. Oswald approximou-se della para os colher e -atar, mas a moça seccamente a repelliu:</p> - -<p>—Deixe, deixe...</p> - -<p>E ella mesma os recompoz com as suas mãosinhas finas, e ficou depois -a olhar para o chão, a morder o labio, a respirar fortemente, como se -contivera a palavra que forcejava por sair impetuosa e colerica. Mrs. -Oswald não disse nada durante alguns minutos; esperou que passasse o -periodo agudo da irritação. Quando lhe pareceu que ella afrouxava, -rompeu emfim o silencio.</p> - -<p>—Fiz mal, fiz não ha duvida, mas a intenção não podia ser melhor. -Talvez não me creia; paciencia! O que lhe peço,—nem lhe peço,—o que -eu acredito piamente é que não me hade attribuir algum interesse de -ordem...</p> - -<p>Mrs. Oswald fez uma pausa para dar aberta ao protesto de Guiomar, -mas Guiomar não protestou, quero dizer não protestou de viva voz; -fez apenas um gesto negativo, bastante a satisfazer os melindres -da ingleza. A moça foi sincera; não attribuia realmente a nenhum -interesse vil,—pecuniario,—a acção de Mrs. Oswald. Nem por isso a -absolvia,—não só porque ella viria concorrer talvez para uma crise -penosa, mas também,—bom é notal-o outra vez,—porque a condição da -ingleza naquella casa era relativamente inferior.</p> - -<p>A ingleza continuou a falar em defeza propria, a justificar miudamente -os bons sentimentos do coração, e a prometter que deixava por mão todo -aquelle negocio, a seu juizo, o melhor que a moça podia fazer.</p> - -<p>—A experiencia da vida, concluiu ella, devia ter-me convencido de que -o melhor de todos os sentimentos é um egoismo quieto e calado.</p> - -<p>Em quanto ella falava assim, Guiomar parecia volver a tranquilidade -habitual. A mudança foi,—não súbita,—mas um pouco mais rapida do -que devera ser, tratando-se de um espirito, como o della, em que as -impressões não eram superficiaes nem momentaneas. Havia até uns toques -de affabilidade no rosto e na voz, quando ella começou, a falar, o que -revelaria talvez ser aquella mudança muito voluntaria e meditada.</p> - -<p>—Está bom, Mrs. Oswald, o que passou, passou. Sinto que as cousas -chegassem a este ponto, e que elle se lembrasse de escrever semelhante -carta, confessando uma paixão que acredito sincera, mas a que o meu -coração não póde corresponder. Amores não se encommendam como vestidos: -sobretudo não se fingem, ou não se devem fingir nunca.</p> - -<p>—Oh! decerto!</p> - -<p>—Eu gosto delle, como parente que é de minha madrinha, e também por -que ella lhe tem affeição de mãe, como a mim; somos uma especie de -irmãos, nada mais.</p> - -<p>—Tem muita razão, assentiu Mrs. Oswald. A senhora pensa e fala como um -doutor. Que se lhe ha de fazer? Quem não ama não ama. Delle é que eu -tenho pena!</p> - -<p>—Gosta muito de mim, não? perguntou Guiomar fitando os olhos na -ingleza.</p> - -<p>—Oh! parece que sim! A senhora deve sabel-o tanto como eu; eu sei o -que tenho visto, e creio que é muito.</p> - -<p>—Eu nunca vi nada, respondeu seccamente Guiomar.</p> - -<p>A resposta de Mrs. Oswald foi um sorriso de incredulidade, que a outra -não viu ou não quiz ver. Houve uma pausa; Guiomar continuou nestes -termos:</p> - -<p>—Mas seja como for, a minha resposta é negativa. Estou que elle não me -fará a injuria de querer casar commigo, sem que eu o ame...</p> - -<p>Guiomar parou, como a esperar, que a outra lhe dissesse alguma cousa. -Desta vez coube a Mrs. Oswald não responder nada, nem com a voz nem com -o gesto. A moça inclinou o corpo poz os braços sobre os joelhos, com os -dedos cruzados, e entre um riso amavel e um olhar affectuoso, continuou:</p> - -<p>—A senhora podia, se acaso elle alguma vez lhe falou nisso ou vier a -falar-lhe, podia dissuadi-lo de taes ideias, dizendo-lhe simplesmente, -a verdade e dando-lhe conselhos, os conselhos que a senhora hade saber -dar, e que elle aceitará de certo, porque é um bom coração, um caracter -estimavel...</p> - -<p>—Oh! excellente! um moço excellente!</p> - -<p>E as duas ficaram a olhar uma para a outra, Guiomar a sorrir, mas de um -sorriso, que era uma contracção voluntaria dos musculos, e a ingleza a -fazer um rosto de piedade, e adoração, e pena, e muita cousa junta, que -a moça só começou a comprehender, quando ella rompeu o silencio deste -modo:</p> - -<p>—Estou a duvidar se devo dizer-lhe o resto.</p> - -<p>—O resto? perguntou Guiomar admirada. Pois que ha mais?</p> - -<p>A ingleza approximou a cadeira. Guiomar endireitou o busto e esperou -anciosa a revelação,—se revelação era,—que lhe ia fazer Mrs. Oswald. -Esta não falou logo; era razoavel hesitar um pouco, lutar comsigo -mesma, antes de dizer alguma cousa. Emfim, com um movimento de quem -ajunta as forças todas e as emprega em cousa superior á coragem usual:</p> - -<p>—D. Guiomar, disse ella, pegando-lhe nas mãos, ninguem póde exigir que -se case sem amar o noivo; seria na verdade uma affronta. Mas o que lhe -digo é que o amor que não existe por ora, póde vir mais tarde, e se -vier, e se viesse seria uma grande fortuna...</p> - -<p>—Mas acabe, acabe, interrompeu a moça com impaciencia.</p> - -<p>—Seria uma grande fortuna para a senhora, para elle, ouso dizer que -para mim, que os estimo e adoro, mas sobretudo para a Sra. baroneza.</p> - -<p>—Como assim? disse Guiomar.</p> - -<p>—Oh! para elle seria a maior fortuna da vida, porque é hoje o seu -mais entranhado e vivo desejo, o seu desejo verdadeiramente da alma. A -senhora...</p> - -<p>—Está certa disso?</p> - -<p>—Certissima.</p> - -<p>—Não creio, não vejo nada que...</p> - -<p>—Creia, deve crer. Se me promette nada dizer desta nossa conversa, nem -fazer suspeitar por nenhum modo o que lhe estou contando...</p> - -<p>—Fale.</p> - -<p>—Pois bem,—continuou Mrs. Oswald abaixando a voz, como se alguem -podesse ouvil-a na solidão daquella alcova, e no silencio, profundo -daquella casa, que toda dormia,—pois bem, eu lhe direi que por ella -mesma tive noticia deste seu desejo. Quando eu percebi a paixão do Sr. -Jorge, falei nisso a sua madrinha, gracejando na intimidade que ella -me permitte, e a senhora baroneza em vez de sorrir, como eu esperava -que fizesse, ficou algum tempo pensativa e séria, até que rompeu nestas -palavras: «Oh! se Guiomar gostasse delle e viessem a casar-se, eu -seria completamente feliz. Não tenho hoje outra ambição na terra. Ha de -ser a minha campanha.»</p> - -<p>—Minha madrinha disse isso? perguntou Guiomar.</p> - -<p>—Tal qual. A resposta que lhe dei foi que o casamento não era -impossivel, e que nada mais natural do que virem a amar-se duas pessoas -a principio indifferentes. O amor nasce muita vez do costume.</p> - -<p>Guiomar já mal ouvia o que lhe estava dizendo a ingleza; se ainda -olhava para ella, era com os olhos indecisos e empanados, de quem vae -toda absorvida em pensamentos intimos.</p> - -<p>—Foi desde esse dia, continuou Mrs. Oswald, que me pareceu conveniente -falar-lhe algumas vezes nisso, sondar-lhe o coração, ver se elle -favorecia o sonho de sua madrinha, tornando feliz toda esta casa... -Fiz mal, convenho; mas a intenção era a mais respeitavel e santa deste -mundo.</p> - -<p>—De certo, murmurou Guiomar.</p> - -<p>Mrs. Oswald pegou-lhe n'uma das mãos e beijou-a affectuosamente. -Guiomar não a repelliu nem sequer pareceu dar-se-lhe da ternura da -ingleza. As duas olharam-se uns breves minutos, sem dizer nada, como a -lerem na alma uma da outra.</p> - -<p>Guiomar não tinha a experiencia nem a edade da ingleza, que podia ser -sua mãe; mas a experiencia e a edade eram substituidas, como sabe o -leitor, por um grande tino e sagacidade naturaes. Ha creaturas que -chegam aos cincoenta annos sem nunca passar dos quinze, tão simplices, -tão cegas, tão verdes as compõe a natureza; para essas o crepusculo -é o prolongamento da aurora. Outras não; amadurecem na sazão das -flores; vem ao mundo com a ruga da reflexão no espirito,—embora, sem -prejuiso do sentimento, que nellas vive e influe, mas não domina. -Nestas o coração nasce enfreiado; trota largo, vae a passo ou galopa, -como coração que é, mas não dispara nunca, não se perde nem perde o -cavalleiro.</p> - -<p>O que a afilhada da baroneza buscava ler no rosto de Mrs. Oswald era se -effectivamente a madrinha nutria aquelle desejo, ou se tal revelação -não era mais do que um embuste. O leitor sabe que era verdadeira; mas -admittirá, sem duvida, que a moça só depois de muito interrogar e -examinar lhe désse fé. Creu emfim; creu, porque era verosimil, creu -porque a ingleza não se arriscaria a qualquer indiscrição da parle -della, que de todo a desmascararia.</p> - -<p>—Parece-me, disse Mrs. Oswald, que não fiz mal em lhe dizer tudo o que -sabia. Conselhos não lhe dou nenhuns; o melhor delles não vale a voz -do proprio coração. O seu é puro e recto; consulte-o de boa vontade, e -verá se ha nelle indifferenca, ou se alguma faisca...</p> - -<p>—Eu sei! interrompeu Guiomar. Não me lembrou consultal-o nunca.</p> - -<p>—Faz mal, elle é o relogio da vida. Quem o não consulta, anda -naturalmente fóra do tempo. Mas que vejo! continuou Mrs. Oswald -deitando os olhos para o reloginho de Guiomar. Naquelle outro relogio -faltam dez minutos para uma hora! Uma hora! Que diria a Sra. baroneza -se soubesse que ainda estamos aqui de conversa! Retiro-me; Deus lhe -dê um somno socegado, e sobretudo a faça feliz, como merece. Não lhe -recommendo juizo, porque o tem de sobra. Adeus, até amanhã.</p> - -<p>E Mrs. Oswald sahiu pé ante pé em direcção ao seu quarto.</p> - -<p>Guiomar ficou só, alli sentada ao pé da cama, a ouvir o passo surdo, -e cautelloso da ingleza. Quando o som morreu de todo, e o silencio da -noite volveu ao que era, profundo e sepulchral, a moça deixou cair os -braços na cama, e a cabeça nas mãos, e um suspiro desentranhou-se-lhe -do peito, longo, ruidoso, magoado,—o primeiro que o leitor lhe ouve -desde que a conhece—e emfim estas palavras arrancadas da alma, tão -doloridas,—ia dizer tão lacrimosas,—vinham ellas:</p> - -<p>—Oh meus sonhos! meus sonhos!</p> - -<p>Não chorou; a alma della era das que não tem lagrimas, em quanto -lhe restam forças. Os olhos estavam seccos e firmes quando ella os -ergueu das mãos; o resto tinha vestigios do abalo, mas não havia nelle -desanimo, menos ainda desespero.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h4><a name="XI" id="XI">XI</a></h4> - - -<h4>Luiz Alves.</h4> - - -<p>Durante uma inteira e comprida semana, deixou Estevão de apparecer no -escriptorio onde trabalhava com Luiz Alves; não appareceu tambem em -Botafogo. Ninguem o viu em todo esse tempo nos logares onde elle era -mais ou menos assiduo. Foram seis dias, não digo de reclusão absoluta, -mas de completa solidão, porque ainda nas poucas vezes que saiu, fel-o -sempre a horas ou em direcções que a ninguem via, e de ninguem era -visto.</p> - -<p>Mas não fôra essa crua e malfadada crise, e é quasi certo que elle -metteria uma lança na Africa daquelles dias, que era um ponto muito -serio e grave, a questão magna da rua do Ouvidor e da casa do José -Thomaz, a ponderosa, crespa e complicada questão de saber se a -Stephanoni estrearia no <i>Ernani.</i> Esta questão, de que o leitor se -ri hoje, como se hão de rir os seus sobrinhos de outras analogas -puerilidades, esta pretenção a que se oppunha a Lagrua, allegando que -o <i>Ernani</i> era seu, pretenção que fazia gemer as almas e os prelos -daquelle tempo, era cousa muito propria a espertar os brios do nosso -Estevão, tão marechal nas cousas minimas, como recruta nas cousas -maximas.</p> - -<p>Infelizmente elle não apparecia, não sabia sequer do conflicto e do -debate, occupado como estava em travar o aspero e sangrento duelo do -homem contra si mesmo, quando lhe falta o apoio, ou a consolação dos -outros homens. Todo elle era Guiomar; Guiomar era o primeiro e o ultimo -pensamento de cada dia. A sombra da moça vivia ao pé delle e dentro -delle, no livro em que lia, na rua solitaria onde acaso transitava, nos -sonhos da noite, nas estrellas do ceu, nas poucas flores de seu inculto -jardim.</p> - -<p>Um leitor perspicaz, como eu supponho que hade ser o leitor deste -livro, dispensa que eu lhe conte os muitos planos que elle teceu, -diversos e contradictorios, como é de razão em analogas situações. -Apenas direi por alto que elle pensou tres vezes em morrer, duas em -fugir á cidade, quatro em ir affogar a sua dor mortal naquelle ainda -mais mortal pantano de corrupção em que apodrece e morre tantas vezes -a flor da mocidade. Em tudo isto era o seu espirito apenas um joguete -de sensações continuas e variadas. A força, a permanencia do affecto -não lhe bastava a dar seguimento e realidade ás concepções vagas de seu -cerebro,—enfermo, ainda quando estava de saude.</p> - -<p>A ideia do suicidio fincou-se-lhe mais a dentro no espirito, certa -tarde em que elle saiu a espairecer, e viu um enterro que passava, -caminho do Cajú. O prestito era triste,—ainda mais triste pela -indifferença que se lia no rosto dos que iam piedosamente acompanhando -o morto. Estevão descobriu-se e sinceramente desejou ir alli dentro, -mettido naquellas estreitas tabuas de pinho, com todas as suas dores, -paixões e esperanças.</p> - -<p>—Não tenho outro recurso, pensou elle; é necessario que morra. É uma -dôr só, e é a liberdade.</p> - -<p>Ao voltar para casa, uma creança que brincava na rua, em camisa, com os -pés na agua barrenta da sargeta, fel-o parar alguns instantes, invejoso -daquella boa fortuna da infancia, que ri com os pés no charco. Mas a -inveja da morte e a inveja da innocencia foram ainda substituidas pela -inveja da felicidade, quando ao recolher-se viu as janellas abertas de -uma casa visinha, e a sala illuminada, e uma noiva coroada de flores -de laranjeira, a sorrir para o noivo, que sorria igualmente para ella, -ambos com o sorriso indefinivel e unico da occasião.</p> - -<p>Os cinco dias correram-lhe assim, travados de enojo, de desespero, de -lagrimas, de reflexões amargas, de suspiros inuteis, até que raiou a -aurora do sexto dia, e com ella,—ou pouco depois della, uma carta de -Botafogo. Estevão quando viu o creado da baroneza, á porta da saia, -com uma carta na mão, sentiu tamanho alvorôço, que não ouviu nada -do que elle lhe disse. Supporia que a carta era de Guiomar? Talvez; -mas a illusão durou os poucos instantes que elle gastou em romper a -sobrecarta e desdobrar a folha de papel que vinha dentro.</p> - -<p>A carta era da baroneza.</p> - -<p>A baroneza perguntava-lhe graciosamente se elle havia morrido, e pedia -que fosse falar-lhe ácerca da demanda que ella trazia. Estevão chegara -já ao estado de só esperar um pretexto para transigir comsigo mesmo; -não podia havel-o melhor. Escreveu rapidamente duas linhas de resposta, -e á uma hora da tarde apeava-se de um tilbury á porta da funesta e -deliciosa casa, onde havia passado as melhores e as peores horas da -vida.</p> - -<p>—Sabe porque razão lhe dei este incommodo, além do prazer que tinha em -vel-o? perguntou a baroneza logo depois dos primeiros comprimentos.</p> - -<p>—Disse-me que era por causa da demanda...</p> - -<p>—Sim, precisamos assentar algumas cousas, antes da nossa partida.</p> - -<p>—V. Ex. sae da côrte?</p> - -<p>—Vamos para o roça.</p> - -<p>Estevão empallideceu. Na situação delle, aquella viagem era a melhor -cousa que lhe podia acontecer; comtudo, fez-lhe mal a noticia. A -conversa que se seguiu foi toda sobre o assumpto forense, e durou uma -longa hora, sem que apparecesse Guiomar. Ao despedir-se atreveu-se -Estevão a perguntar por ella.</p> - -<p>—Anda passeando, respondeu a baroneza.</p> - -<p>Estevão despediu-se da constituinte, que o acompanhou até á porta da -sala, repetindo-lhe algumas recommendações, que o advogado mal pôde -ouvir e absolutamente lhe não ficaram de memoria.</p> - -<p>A esperança de ver a moça levara-o, mais que tudo, áquella casa; saía -sem ter o gosto de a contemplar ainda uma vez; mais do que isso, -ameaçado de a não ver tão cedo, ou quem sabe se nunca mais. Ia elle -a reflectir nisto e a approximar-se da porta, onde parava ao mesmo -tempo um carro. Estevão estremeceu naturalmente, ante de ver quem ia -apear-se; grudou-se ao portal, com os olhos fitos na portinhola, que um -lacaio abria apressadamente.</p> - -<p>A primeira figura que desceu foi a nossa conhecida Mrs. Oswald, que o -fez, sem dar tempo a que Estevão lhe offerecesse a mão. O bacharel, -desde que a vira, approximara-se rapidamente da portinhola.</p> - -<p>Guiomar desceu logo depois. A mão apertada na luva côr de perola pousou -levemente na mão de Estevão que estremeceu todo. A moça fez-lhe um -comprimento risonho, murmurou um agradecimento e recolheu-se com a -ingleza. Era pouco; mas esse pouco alvoroçou o bacharel, que enfiou -d'alli para a cidade, em direcção ao escriptorio.</p> - -<p>Luiz Alves admirou-se de o ver; não foi com um espanto de seis dias, -como devera ser, mas de quarenta e oito horas, quando muito. Que -admira? A preocupação de Luiz Alves por aquelles dias era a candidatura -eleitoral; a boa nova devia chegar-lhe na primeira mala do norte. Ora, -em boa razão, um homem que está prestes a ser inscripto nas tabuas do -parlamento, não póde cogitar muito dos amores de um rapaz, ainda que o -rapaz seja amigo e os amores verdadeiros.</p> - -<p>Estevão não perdeu tempo em circumloquios; foi entrando e entornando a -alma toda, afflicta e consolada a um tempo, no seio do velho amigo e -companheiro. A cada trecho da confissão plena que elle alli lhe fez, -respondia um commento, ora serio, ora gracioso de Luiz Alves. Quando -Estevão porém lhe deu noticia de que a familia da baroneza ia para a -roça, Luiz Alves recolheu o meio-riso que lhe pousava nos labios desde -começo, e com a mais subita e sincera admiração exclamou:</p> - -<p>—Para a roça!</p> - -<p>—Disse-o agora mesmo a baroneza.</p> - -<p>—Mas...</p> - -<p>Luiz Alves não acabou; olhou ainda meio duvidoso para Estevão, e ficou -algum tempo calado, a coçar o queixo com a faca de marfim e a olhar -para uma gravura que pendia na parede fronteira.</p> - -<p>—Na situação em que estou, continuou Estevão, has de dizer que a -viagem é uma felicidade para mim. Pois não é; não admitto a viagem. Se -ella sair da côrte, eu saio também.</p> - -<p>—Tu estás doudo!</p> - -<p>—Talvez.</p> - -<p>Luiz Alves saiu daquella natural indifferença com que o ouvia, e lhe -falava sempre em tal assumpto. Falou-lhe carinhoso,—talvez pela -primeira vez na vida. O que lhe disse foi apenas ume edição augmentada -de que lhe havia dito em anteriores occasiões,—agora com maior -fundamento, porque depois do formal desengano de Guiomar, não havia -outro recurso mais que ir esquecel-a de todo.</p> - -<p>—Oh! isso nunca! interrompeu Estevão. Demais, não sei, não estou certo -se ella falava de coração naquella tarde...</p> - -<p>A candidez com que Estevão disse isto era a fiel traducção de seu -espirito, e a razão de taes palavras, não a procure o leitor em outra -parte mais que não seja aquelle sorriso de ha pouco, ao pé do carro, -sorriso que lhe bailava no cerebro, como raio de sol coado por entre -nuvens negras de tempestade.</p> - -<p>Luiz Alves sacudiu a cabeça e enfiou os olhos pelas folhas rabiscadas -de uns autos que tinha diante, e que entrou a folhear vagarosamente. -Subito, bateu uma pancadinha, com a mão espalmada sobre os papeis, e -levantou a cabeça:</p> - -<p>—Ha um meio talvez de saber tudo, disse elle, de saber se ella -verdadeiramente te ama, ou... Posso tenta-lo, com uma condição.</p> - -<p>—Qual?</p> - -<p>—A condição de eliminares as tuas pretenções. Que diabo ganhas tu em -nutrir uma paixão sem efficacia nem remedio?</p> - -<p>Esta promessa era a mais dura que se podia arrancar de um coração, -em que as gerações de esperanças se succediam quasi sem solução de -continuidade; fel-a, todavia, Estevão, talvez com a secreta resolução -de a trahir.</p> - -<p>Luiz Alves ficou só dahi a alguns minutos. As ultimas palavras que -disse ao collega foram duas ou tres pilherias de rapaz; mas apenas -ficou só tornou-se serio, e inclinando o corpo para a frente, com os -braços na secretaria, e a raspar as unhas com um canivete, alli esteve -largo tempo, como a reflectir, longe de Estevão, que aliás já não ía -perto, e ainda mais longe dos autos que tinha diante de si. Mas em que -pensava elle, se não era em Estevão, nem nos autos, nem tambem, por -agora, nas suas esperanças eleitoraes Paciencia, leitor; sabel-o-has -daqui a nada. Contenta-te com a noticia de que, ao cabo de vinte -minutos daquella abstracção, Luiz Alves volveu a si, proferindo em alta -voz esta simples palavra:</p> - -<p>—Não ha duvida; é uma ambiciosa.</p> - -<p>E descativado daquella preoccupação, enterrou-se de todo na leitura dos -autos.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h4><a name="XII" id="XII">XII</a></h4> - - -<h4>A viagem.</h4> - - -<p>Mal recomeçára Luiz Alves a leitura dos autos, entrou no gabinete o -criado apresentando-lhe um bilhete de visita.</p> - -<p>—Que entre! disse o advogado lendo o nome do sobrinho da baroneza.</p> - -<p>E logo se ouviu no corredor o passo medido e lento do mancebo, que -d'ahi a nada assomava á porta do gabinete, fazendo uma cortezia, -sisuda, mas graciosa.</p> - -<p>—Venho incommoda-lo, doutor? perguntou Jorge.</p> - -<p>—Pelo amor de Deus! exclamou o advogado erguendo-se e indo buscal-o -á porta. Não me incommodaria em caso nenhum; agora, sobretudo, que a -leitura de uns papeis me fatigou sobre maneira, a maior fortuna que eu -poderia desejar é a presença de um homem de espirito.</p> - -<p>Jorge agradeceu este comprimento um pouco emphatico, e retribuiu-o com -outra lisonjaria muito mais extensa e de maior alcance. Quer dizer que -elle vinha pedir alguma cousa. Effectivamente, passados os minutos de -introito e desfiadas as generalidades, Jorge impertigou-se mais do que -até alli estivera e desfechou esta pergunta abrupta:</p> - -<p>—Sabe que venho pedir-lhe uma cousa grave?</p> - -<p>Luiz Alves inclinou-se.</p> - -<p>—Grave e simples ao mesmo tempo, continuou o sobrinho da baroneza; mas -antes disso precisava saber se é tão amigo da nossa familia, como ella -o é do senhor.</p> - -<p>—Oh! de certo!</p> - -<p>—O senhor é o menos assiduo, talvez, das pessoas que lá vão, apezar de -visinho; só agora o vejo alli mais a miudo; entretanto é como flor que -se trahe pelo aroma; minha tia tem a seu respeito a melhor opinião do -mundo; acha-lhe uma gravidade, e eu tambem a sinto, e nem comprehendo -que um homem possa ser outra cousa. Os taes espiritos futeis...</p> - -<p>—São insupportaveis, concluiu Luiz Alves ancioso por chegar ao objecto -da visita.</p> - -<p>O objecto era a viagem da baroneza. Um commendador, amigo do finado -barão, e fazendeiro em Cantagallo, tinha promessa da viuva, havia dous -annos, de ir lá passar algum tempo. A baroneza esquivara-se sempre -a cumprir a palavra dada; agora porém, tal fora a insistencia, que -se resolvera a ir. Ora, o que Jorge vinha propor era—, expressões -delle,—uma conjuração de amigos para dissuadir a tia daquelle -projecto. Affiançava ao advogado que, ainda descoberta a conjuração, -teria elle a vida sã e salva.</p> - -<p>Luiz Alves suppoz a principio que aquillo era um simples pretexto; mas, -tendo observado que a bella Guiomar não era indifferente ao rapaz, -comprehendeu que este tinha na conjuração proposta, um interesse -inteiramente pessoal. Emfim, Jorge chegou a confessar que, se a tia -insistisse em sair da côrte, elle não tinha remedio senão acompanha-la.</p> - -<p>O accôrdo não foi difficil; ficou assentado que fariam todos os -esforços para dissuadir a baroneza. Jorge quiz sair logo; reteve-o Luiz -Alves algum tempo mais, com expressões de louvor habilmente tecidas e -mais habilmente encastoadas na conversação; e tambem deixando-se ir á -feição do espirito delle, acceitando-lhe as ideias e os preconceitos, e -applaudindo-os discretamente,—serio, quando elles o eram ou pareciam -ser,—chocarreiro quando vinham com ar de graça,—respondendo emfim a -todos os gestos e meneios do outro, como faz o espelho por officio e -obrigação:—toda a arte em summa de tratar os homens, de os attrahir e -de os namorar, que elle aprendera cedo e que lhe devia aproveitar mais -tarde na vida publica.</p> - -<p>De noite foi Luiz Alves á casa da baronesa, onde poucas pessoas havia, -todas de intimidade. A dona da casa, sentada na poltrona do costume, -tinha ao pé de si uma senhora da mesma edade que ella, egualmente -viuva, e defronte as suiças brancas e aposentadas de um ex-funccionario -publico. N'um sophá, viam-se Mrs. Oswald e Jorge a conversarem em -voz, ora muito baixa, ora um pouco mais elevada. Adiante, dous -moços contavam a duas senhoras o enredo da ultima peça do Gymnasio. -Mais longe, uma moça da visinhança gabava a outra a tesoura de Mme. -Bragaldi, que pedia meças, dizia ella, ao pincel do scenographo, seu -marido. Emfim, junto a uma das janellas via-se uma mocinha, viva e -bonita, a dizer mil ninharias graciosas a outra pessoa, que era nada -menos que a nossa conhecida Guiomar. A conversa, assim dividida, -tornava-se ás vezes geral, para recair logo no particularismo anterior; -os grupos modificavam-se tambem de quando em quando, do mesmo modo que -o assumpto, e assim se iam matando agradavelmente as horas, que não -resistiam, coitadas, nem apressavam o passo um minuto sequer.</p> - -<p>Luiz Alves aggregara-se ao grupo da baroneza, ao qual não tardou -juntar-se Jorge. O advogado teve a discrição de esperar que o assumpto -viesse de si, se viesse, ou de o introduzir na conversa, quando lhe -parecesse de feição. Mas Jorge, que estava impaciente, arrastou o -assumpto ao debate. Luiz Alves, mostrou-se fiel á palavra dada; -declarou amavelmente que se oppunha á viagem, como visinho e amigo, -que reclamaria em ultimo caso o auxilio de força publica; que era um -erro e um crime deixar aquella casa viuva da benevolencia e da graça e -do gosto e de todas as mais qualidades excellentes que alli iam achar -os felizes que a frequentavam; que, emfim, o mal era tamanho, que não -deixaria de ser peccado, posto não viesse apontado nos cathecismos, -e como peccado, seria de força punido, com amargas penas, no outro -seculo, pelo que, e o mais dos autos, era sua decisão que a baroneza -devia ficar.</p> - -<p>Todas estas razões foram ditas como deviam de ser, de um modo galante e -folgazão, a que a baroneza respondia egualmente, e que não daria nada -mais de si, se Luiz Alves, mudando de estylo, não fosse pôr o assumpto -em differente terreno.</p> - -<p>—Digamos a verdade, Sra. baroneza, a viagem ha de ser-lhe immensamente -incommoda, se for so isso; suas forças não são de certo eguaes ás de -seus primeiros annos; sua saude é melindrosa e não poderá soffrer tanta -fadiga. Confesso que falo em nome de certo interesse pessoal de amigo -e de visinho; mas a principal razão não é essa. Se houvesse um motivo -urgente, bem; mas tratando-se apenas de uma promessa feita ha tanto -tempo, seria crueldade da minha parte não insistir que ficasse.</p> - -<p>A baroneza defendia-se, e Luiz Alves não tardou em reconhecer de si -para si que ella não se defendia com o vigor de uma resolução original -e propria. A conversa, entretanto, tornára-se mais geral; de todos os -lados partiam votos de opposição.</p> - -<p>Guiomar havia já alguns minutos que não attendia á interlocutora; -tinha o ouvido afiado e assestado sobre o grupo da madrinha. Ninguem -a observava; mas é privilegio do romancista e do leitor ver no rosto -de uma personagem aquillo que as outras não veem ou não podem ver. -No rosto de Guiomar podemos nós ler, não só o tedio que lhe causava -aquella opinião unanime contra o projecto da baroneza, mas ainda a -expressão de um genio imperioso e voluntario.</p> - -<p>—Estamos de accordo, creio eu? perguntou Luiz Alves olhando -alternadamente para a baroneza e as outras pessoas.</p> - -<p>—Não é possível, doutor, respondia a boa senhora.</p> - -<p>—De certo que não é possível, interveiu Guiomar do lugar onde estava. -A viagem não offerece risco, nem minha madrinha está invalida. Demais, -é uma promessa feita; não se pode deixar de cumprir.</p> - -<p>Esta opinião, dita em tom sêcco e firme, ainda que a voz nada perdesse -do seu natural avelludado, equivaleu a um pouco de agua fria lançada na -fervura triumphante dos animos.</p> - -<p>—Guiomar tem razão, disse a baroneza; já agora é preciso ir; são -apenas tres ou quatro mezes.</p> - -<p>Luiz Alves olhou longamente para Guiomar, como a procurar ver-lhe -no rosto todas antecedencias da resolução da baroneza. A opposição -afrouxara; Jorge chamou em vão o advogado em seu auxilio. A resolução -da tia, se alguma vez fora abalada, tornara-se outra vez firme.</p> - -<p>Guiomar, entretanto, erguera-se e chegara ao grupo da madrinha. Jorge -fitou-a com uma expressão de vaidade e cobiça. Luiz Alves, que se -achava de pé, recuou um pouco para deixal-a passar. Os olhos com que -a contemplou não eram de cobiça nem de vaidade; a leitora, que ainda -lembrará da confissão por elle mesmo feita a Estevão, supporá talvez -que eram de amor. Talvez,—quem sabe?—amor um pouco socegado, não -louco e cego como o de Estevão, não pueril e lascivo, como o de Jorge, -um meio termo entre um e outro,—como podia havel-o no coração de um -ambicioso.</p> - -<p>—O Dr. Luiz Alves defende causas más, disse Guiomar sorrindo para -elle; não se trata de uma cousa impossivel. Quanto a mim, Cantagallo -só tem um inconveniente; sera menos divertido que a côrte; mas o tempo -passa depressa...</p> - -<p>—Nesse caso, disse Jorge suspirando eu tambem dispenso theatros e -bailes; sacrifico-me á familia.</p> - -<p>—Queres ir comnosco? perguntou a baroneza alegremente.</p> - -<p>—Que duvida!</p> - -<p>Guiomar mordeu o labio inferior, com uma expressão de despeito, que -pôde conter e abafar, sem que ninguem a percebesse, ninguem, excepto -Luiz Alves. Um sorriso tranquillo e perspicaz roçou os labios do -advogado, em quanto a moça, para esconder a impressão que lhe ficara, -de novo se dirigiu á janella, onde esteve alguns momentos sósinha, meia -voltada para fóra e meia guardada pela sombra que alli fazia a cortina. -Um rumor de passos fel-a voltar-se para dentro. Era Luiz Alves.</p> - -<p>—Ah! disse ella fingindo-se tranquilla; agradeço-lhe não haver -insistido mais nos seus conselhos.</p> - -<p>—A intenção era boa, respondeu Luiz Alves em voz baixa; mas será agora -excellente; nem tudo está perdido: eu me incumbo de salvar o resto.</p> - -<p>Guiomar franziu a testa com o mais vivo e natural espanto; tal -espanto que parecia havel-a feito esquecer outro sentimento, -igualmente natural:—o do despeito que lhe causaria aquella singular -familiaridade. Mas o assombro dominou tudo; Guiomar sentiu que elle -lera nella a razão da insistencia e o desgosto do resultado.</p> - -<p>A ruga desfez se a pouco e pouco, mas a moça não retirou logo os olhos. -Havia nelles uma interrogação imperiosa, que a alma não se atrevia -a transmittir aos lábios. Se ha nos do leitor alguma interrogação, -esperemos o capitulo seguinte.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h4><a name="XIII" id="XIII">XIII</a></h4> - - -<h4>Explicações.</h4> - - -<p>Luiz Alves comprehendera toda a expressão dos olhos de Guiomar; era, -porém, homem frio resoluto. Inclinou o busto com toda a graça correcta -e de bom tom, e disse-lhe na voz mais branda que lhe permittia o seu -orgão forte e severo:</p> - -<p>—Parece-lhe que fui um pouco audaz, não é? Fui apenas sincero; e ainda -que a sua delicadeza me condemne, estou certo de que ha em seu coração -misericordia de sobra...</p> - -<p>Guiomar tinha readquirido toda a posse de si mesma.</p> - -<p>—Está enganado, disse ella, não o condemno, pela simples razão de que -o não entendi.</p> - -<p>—Tanto melhor, redarguiu Luiz Alves sem pestanejar; o meu delicto -nesse caso não passou da esphera da intenção.</p> - -<p>—Mas... referia-se á viagem?</p> - -<p>—Referia-me; perguntava quando iam.</p> - -<p>Esta presença de espirito de Luiz Alves ia muito com o genio de -Guiomar; era um laço de sympathia. A moça respondeu que o commendador -viria buscal-as dahi a quinze ou vinte dias.</p> - -<p>—Tres mezes apenas? perguntou o advogado.</p> - -<p>—Tres ou quatro.</p> - -<p>—Quatro mezes não é a eternidade, mas Cantagallo, para uma carioca da -gemma, hade ser um degredo, ou quasí... Oxalá,—continuou Luiz Alves, -concluindo mais depressa do que queria, ao ver que Jorge se approximava -da janella,—oxalá não lhe faça esse exilio esquecer o que solemnemente -lhe digo neste momento: que a senhora tem uma alma grande e nobre, e -que eu a admiro!</p> - -<p>Jorge chegára; a conversa tinha de acabar ou tomar differente rumo.</p> - -<p>As ultimas palavras de Luiz Alves eram singularmente dispostas para -deixar sulco profundo na memoria da moça. Não era uma declaração de -amor, nem uma cortezania de sala cousas todas que ella ouvira muita -vez, que podiam lisongea-la, e de certo a lisongeavam; era mais que -um comprimento e não chegava a ser uma declaração. Commoção, não a -havia na voz do advogado; firmeza, sim, e um ar de convicção profunda. -Guiomar olhou para elle quasi sem dar pela presença de Jorge; mas Luiz -Alves voltara-se para o recem-chegado e falava-lhe em tom jovial, bem -differente daquelle que empregára pouco antes.</p> - -<p>Se esse contraste era premeditado,—não sei se o era,—não podia vir -mais de feição ao espirito de Guiomar. De quantos homens a moça tratára -até alli, era o primeiro que lhe inspirava curiosidade, e tambem, -naquella occasião, a primeira pessoa que só compadecia della. Veja o -leitor:—curiosidade e gratidão;—veja se ha duas azas mais proprias -para arrojar uma alma no seio de outra alma,—ou de um abysmo, que é ás -vezes a mesma cousa.</p> - -<p>Eu disse—compadecia—e esta só palavra, desacompanhada de outra cousa, -póde fazer crer ao leitor que, durante aquelles dias em que a perdemos -de vista, tornara-se Guiomar uma creatura desditosa. Nada disso; a -situação era a mesma, não a mesma anteriormente á carta de Jorge, mas -a mesma da noite em que ella a recebeu, situação, de certo, assaz -sombria e carregada para um coração que receia ser constrangido, mas -não desesperada nem angustiosa.</p> - -<p>A baroneza, se soubera dos factos, ou se pudera ler na alma da moça, -seria a primeira a dar-lhe todas as consolações. Mas não sabia. -Seu desejo,—ou antes o sonho da velhice, como ella dizia n'um dos -anteriores capitulos,—era deixar felizes a afilhada e o sobrinho, e -entendia que o melhor meio de os deixar felizes era casal-os um com o -outro. A noticia que tinha do coração da moça, a este respeito, era -incompleta ou inexacta; pintavam-lhe como frieza o que era repugnancia. -Mrs. Oswald dava-lhe sempre esperanças de exilo feliz e proximo, as -coleras da moça não lh'as contava nunca. Da carta de Jorge não soube, -nem da scena havida na alcova. O casamento continuava a apparecer-lhe -com todas as probabilidades de uma esperança realizavel.</p> - -<p>Dirá a leitora que o sobrinho não merecia tanto zelo nem tão pertinaz -esperança, e terá razão; mas os olhos da baroneza não são os da -leitora; ella só lhe via o lado bom,—que era realmente bom,—ainda -que de uma bondade relativa; mas não via o lado mau, não via nem podia -ver-lhe a frivolidade grave do espirito, nem o genero de affecto que se -lhe gerava no coração.</p> - -<p>Jorge era o seu unico parente de sangue,—filho de um irmã que vivêra -infeliz e mais infelizmente morrêra, não repudiada, mas aborrecida -do marido, circumstancia que lhe tornava caro aquelle moço. Mais do -que a afilhada, não; nem tanto, de certo; o coração não chegaria para -dividir-se egualmente em tão grandes porções; queria-lhe, porém, -muito, quanto bastava para desejal-o feliz, e trabalhar por fazel-o. -Accrescentemos que o destino da irmã sempre lhe estava presente -ao espirito, e que ella receiava egual sorte a Guiomar; em Jorge -parecia-lhe ver todos os dotes necessarios para tomal-a venturosa.</p> - -<p>Infelizmente, Mrs. Oswald, sabedora daquelles secretos desejos e mais -ou menos confidente dos sentimentos de Jorge, achara azada occasíão -esta para patentear toda a gratidão de que estava possuida e a profunda -amizade que a ligava á familia da baroneza. Interpoz-se para servir -aos outros, e mais ainda a si propria. Viu a difficuldade, mas não -desanimou; era preciso armar ao reconhecimento da baroneza. Por isso -não hesitou em confiar a Guiomar o desejo da madrinha, exagerando-o, -entretanto,—por que nunca a baroneza dissera que «tal casamento era -a sua campanha,» e Mrs. Oswald attribuiu-lhe esta phrase mortal para -todas as esperanças e sonhos da moça. Mas, se falava demasiado ao pé -de uma, era muito mais sobria de palavras com a outra, e da exageração -ou da attenuação da verdade resultara aquelle perenne estado de luta -abafada, de receios, de indecisão e de amarguras secretas. Convém -dizer, para dar o ultimo traço ao perfil, que esta Mrs. Oswald não -seguia só a voz do seu interesse pessoal, mas também o impulso do -proprio genio, amigo de pôr á prova a natural sagacidade, de tentar e -levar a cabo uma destas operações delicadas e difficeis, de maneira -que, se houvesse uma diplomacia domestica,—ou se se creassem cargos -para ella, Mrs. Oswald podia contar com um lugar de embaixatriz.</p> - -<p>Vindo agora á narração dos successos da historia, cumpre que o leitor -saiba, que a carta de Jorge não teve resposta escripta nem verbal. No -dia seguinte ao da entrega foi elle jantar a Botafogo; mas Guiomar não -saíra do quarto, a pretexto de uma dor de cabeça; a baroneza passou o -dia com ella; Jorge apenas conseguiu saber, quando de lá saiu, que a -moça ia melhor. Nos subsequentes dias nenhuma resposta foi ás mãos do -pretendente, nem elle conseguiu haver uns cinco minutos de conversa -solitaria com a moça; Guiomar esquivava-se sempre, com aquella arte -summa da mulher que aborrece, e que é nem mais nem menos egual á da -mulher que ama.</p> - -<p>Um dia, porém, não houve meio de fugir; e Jorge, que não tinha nenhuma -commoção na voz, porque não tinha muita no coração, olhou para ella -com olhos direitos e francamente lhe pediu uma palavra de esperança -ou de desengano. A moça hesitou alguns segundos; contudo era preciso -responder. Venceu a repugnância dizendo-lhe com um frio sorriso:</p> - -<p>—Nem uma nem outra cousa.</p> - -<p>—Nem desengano? perguntou Jorge alvoroçado.</p> - -<p>—Ninguem pode dar nem uma cousa nem outra, disse ella; costumamos -acceital-as do nosso destino.</p> - -<p>Não era responder, como vê o leitor; Jorge ia pedir uma decisão mais -transparente, mas a moça aproveitara-se da primeira impressão e -esquivara-se. Quando elle recobrou a voz não viu mais que a fimbria do -vestido, que se perdia na volta de uma porta.</p> - -<p>Guiomar encurtou as redeas á familiaridade que existia entre ella e -Jorge; mas, se o tratava com mais reserva, não o fazia com sequidão nem -frieza, nem deixava de ser polida e affavel. A dignidade natural que -havia em toda a sua pessoa servia-lhe, além disso, como de uma torre de -marfim, onde ella se acastellava e mantinha em respeito o pretendente.</p> - -<p>Dos dous homens que lhe queriam, nenhum lhe falava á alma; ella -sentia que Estevão pertencia á phalange dos tibios, Jorge á tribu dos -incapazes, duas classes de homens que não tinham com ella nenhuma -affinidade electiva. Não egualava, de certo, os dous pretendentes; um -era simplesmente trivial, outro sentimental apenas; mas nenhum delles -capaz de crear por si só o seu destino. Se os não egualava, tambem os -não via com os mesmos olhos; Jorge causava-lhe tedio, era um Diogenes -de especie nova; atravez da capa rota da sua importancia, via-se-lhe -palpitar a triste vulgaridade. Estevão inspirava-lhe mais algum -respeito; era uma alma ardente e frouxa, nascida para desejar, não para -vencer, uma especie de condor, capaz de fitar o sol, mas sem azas para -voar até lá. O sentimento de Guiomar em relação a Estevão não podia -nunca chegar ao amor; tinha muito de superioridade e perdão.</p> - -<p>Com outra indole, aspirações differentes e vivida em diversa esphera, -ama-lo-hia com certeza, do mesmo modo que elle a amava. Mas a natureza -e a sociedade deram-se as mãos para a desviar dos gozos puramente -intimos. Pedia amor, mas não o quizera fruir na vida obscura; a maior -das felicidades da terra seria para ella o maximo dos infortunios, -se lh'a puzessem n'um ermo. Creança, iam-lhe os olhos com as sedas e -as joias das mulheres que via na chacara contigua ao pobre quintal -de sua mãe; moça, iam-lhe do mesmo modo com o espectaculo brilhante -das grandezas sociaes. Ella queria um homem que, ao pé de um coração -juvenil e capaz de amar, sentisse dentro em si a força bastante para -subil-a aonde a vissem todos os olhos. Voluntariamente, só uma vez -acceitara a obscuridade e a mediania; foi quando se propoz a seguir o -officio de ensinar; mas é preciso dizer que ella contava com a ternura -da baroneza.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h4><a name="XIV" id="XIV">XIV</a></h4> - - -<h4>Ex abrupto.</h4> - - -<p>Já o leitor ficou entendendo que a viagem a Cantagallo era obra quasi -exclusiva de Guiomar. A baroneza relutara a principio, como das outras -vezes fizera, e o commendador pouca esperança tinha já de a ver na -fazenda. Mas o voto de Guiomar foi decisivo. Ella fortaleceu, com as -suas, as razões do commendador, allegando não só a obrigação em que a -madrinha estava de desempenhar a palavra dada, mas ainda a vantagem -que lhe podiam trazer aquelles tres mezes de vida roceira, longe das -agitações da côrte; emfim, invocou o seu proprio desejo de ver uma -fazenda e conhecer os habitos do interior.</p> - -<p>Não havia tal desejo, nem cousa que se parecesse com isso; mas Guiomar -sabia que na balança das resoluções da madrinha era de grande peso a -satisfação de um gosto seu. O sacrificio duraria tres ou quatro mezes; -ella afrontaria, porém, dez ou doze se tantos fossem necessarios, para -fugir algum tempo ás pretenções de Jorge, sem embargo de lhe repugnar -todo o viver que não fosse a vida fastosa e agitada da côrte. Eu, que -sou o Plutarcho desta dama illustre, não deixarei de notar, que, neste -lance, havia nella um pouco de Alcibiades,—aquelle gamenho e delicioso -homem de Estado, a quem o despeito tambem deu forças um dia para -supportar a frugalidade spartana.</p> - -<p>Infelizmente, Jorge reduziu todos esses calculos a nada. Ella contava -com o seu demasiado apego aos regalos da côrte, não contava com as -suggestões de Mrs. Oswald, que percebera o plano, e torcera a primeira -resolução de Jorge, que era ficar e esperar. O sacrificio da parte -delle era compensado pela probabilidade da victoria, a qual não -consistia só em haver por esposa uma moça bella e querida, mas ainda -em tornar muito mais summarias as partilhas do que a baroneza deixaria -por sua morte a ambos. Esta consideração, que não era a principal, -tinha ainda assim seu peso no espirito de Jorge, e, sejamos justos, -devia tel-o: possuir era o seu unico officio. Assim era que não só a -moça deixava de obter um bem, mas cahia de um mal em outro maior; tel-o -ao pé de si, onde as distracções seriam menos promptas e variadas, -equivalia a adoecer de fastio e morrer de inanição.</p> - -<p>Imagine-se por isso em que estado lhe ficou o espirito depois da -declaração de Jorge. Não havia meio de fugir ao pretendente, era -preciso tragal-o. Esta perspectiva abateu-lhe totalmente o animo. Uma -confidente, em taes situações, é um presente do ceu; mas Guiomar não a -tinha, e se alguma pessoa lhe merecesse tal confiança, é certo ou quasi -certo que lhe não diria nada. Suas dores eram altivas, as tristezas de -seu coração tinham pudor. Espiritos desta casta ignoram a consolação -que ha, nas horas de crise, em se repartirem com outro; triste, mas -feliz ignorancia que lhes poupa muita vez o contacto de uma consciência -aleivosa e ruim.</p> - -<p>No meio do longo reflectir, soaram-lhe na memoria as palavras de Luiz -Alves; ella ouviu-as de novo, taes quaes elle as proferira, desde a -phrase descortez até à expressão respeitosa. Uma era o commentario da -outra, e ambas podiam explicar-lhe o caracter de Luiz Alves, se tivesse -alguns elementos mais para conhece-lo; em todo o caso, era a ponta do -veu levantada. Embora se lhe não podesse ler no fundo do espirito, -via-se desde já qual era o seu methodo de acção.</p> - -<p>Qualquel outro homem, depois do effeito produzido pela primeira -declaração, não se atreveria ou não lhe importaria tentar mais nada -para desfazer o projecto da viagem. Mas o espirito de Luiz Alves tinha -a obstinação do dogue. Era-lhe necessario que a familia da baroneza -não saisse da côrte; este objecto havia de alcança-lo a todo o trance. -Elle espreitava as occasiões, aproveitava as circumstancias, tinha a -habilidade de intercalar o pedido em qualquer retalho de conversação, -onde menos apropriado pareceria a qualquer outro. Jorge applaudia-o com -as forças todas de que podia dispor o seu interesse. A baroneza oppunha -ás suggestões do advogado a resistencia molle e atada de quem deseja -aquillo mesmo que recusa.</p> - -<p>—O doutor é terrivel, dizia ella. Em se lhe mettendo uma cousa na -cabeça, ninguem mais o tira dahi.</p> - -<p>—Justamente, é uma ideia fixa. Sem ideia fixa não se faz nada bom -neste mundo.</p> - -<p>Guiomar sustentava a resolução da madrinha, posto não o fizesse a -miudo, nem no mesmo tom secco e imperioso da primeira noite. Seu -impulso era ser coherente; ao mesmo tempo não queria parecer aos olhos -de Luiz Alves que lhe acceitava o concurso para obter o que aliás -desejava de todo o coração; sería laval-o da primeira culpa.</p> - -<p>O argumento que mais influia no animo de todos, o que devera ter -affastado a ideia de semelhante viagem, era o perigo de affrontar -o cholera-morbus que por aquelle tempo percorria alguns pontos do -interior. Um dia de manhã soube-se que em Cantagallo havia apparecido o -terrível inimigo. Desta vez Luiz Alves triumphou sem dizer palavra; a -baroneza recuou deante daquelle facto brutal.</p> - -<p>A viagem desfez-se pois, a contento de todos, salvo talvez de Mrs. -Oswald, que receiava muito da mocidade casadeira da côrte, e dos -bellos olhos castanhos de Guiomar. Mrs. Oswald temia ver surgir a cada -passo um novo inimigo emboscado em algum theatro ou baile, ou quando -menos na rua do Ouvidor, e não via que o inimigo novo podia ser que -estivesse litteralmente ao pé da porta. A sagacidade da ingleza desta -vez foi um tanto myope. A razão é que Luiz Alves, em todos aquelles -seus preliminares, houve-se com habilidade; longe de procurar a moça, -parecia nada haver alterado nos seus sentimentos, nem desejar mudar a -especie de relações que até alli mantinha. Guiomar, entretanto, não -podia deixar de comparar aquella especie de attenciosa indifferença que -havia delle para ella, com as palavras que anteriormente lhe ouvira, e -o resultado da comparação não lhe parecia muito claro.</p> - -<p>Na noite do mesmo dia em que ficou assentado defferir a viagem para -melhores tempos, achavam-se em casa da baroneza algumas pessoas -de fóra; Guiomar, sentada ao piano, acabava de tocar, a pedido da -madrinha, um trecho de opera da moda.</p> - -<p>—Muito obrigada, disse ella a Luiz Alves que se approximára para -dirigir-lhe um comprimento. Está alegre! Parece que é a satisfação de -me haver mallogrado o maior desejo que eu tinha nesta occasião.</p> - -<p>—Não fui eu, disse elle, foi a epidemia.</p> - -<p>—Sua alliada, parece.</p> - -<p>—Tudo é alliado do homem que sabe querer, respondeu o advogado dando -a esta phrase um tanto emphatica o maior tom de simplicidade que lhe -podia sair dos labios.</p> - -<p>Guiomar curvou a cabeça e esteve alguns instantes a perpassar os dedos -pelas teclas, em quanto Luiz Alves, tirando de cima do piano outra -musica, dizia-lhe:</p> - -<p>—Podia dar-nos este pedaço de Bellini, se quizesse.</p> - -<p>Guiomar pegou machinalmente na musica e abriu-a na estante.</p> - -<p>—Era então vontade sua? perguntou ella continuando o assumpto -interropido do dialogo.</p> - -<p>—Vontade certamente, porque era necessidade.</p> - -<p>—Necessidade,—tornou ella começando a tocar, menos por tocar que por -encobrir a voz; mas necessidade por que?</p> - -<p>—Por uma razão muito simples, porque a amo.</p> - -<p>A musica estacou. Guiomar erguera-se de um salto. Mas nem o gesto da -moça, nem a sorpresa das outras pessoas, perturbou o advogado; Luiz -Alves inclinou-se para o mocho, como a concertal-o, e voltando-se para -Guiomar, disse-lhe graciosamente:</p> - -<p>—Pode sentar-se-agora; está seguro.</p> - -<p>Guiomar sentou-se outra vez muda, despeitada, a bater-lhe o coração -como nunca lhe batera em nenhuma outra occasião da vida, nem de -susto, nem de colera, nem... de amor, ia eu a dizer, sem que ella o -houvesse sentido jamais. Não se demorou muito tempo alli; com a mão -tremula folheou a musica que estava aberta na estante, deixou-a logo e -levantou-se.</p> - -<p>Nestes derradeiros movimentos ninguem reparou; e se alguem pudesse -reparar em alguma cousa, a moça tomara a peito desvanecer todas as -suspeitas. A primeira impressão fora profunda, mas Guiomar tinha força -bastante para dominar-se e fechar todo o sentimento no coração.</p> - -<p>O que se passou depois, quando, livre de olhos estranhos, pôde -entregar-se a si mesma, isso ninguem soube, a não serem as paredes -mudas do quarto, ou o raio de lua coado pelo tecido raro das cortinas -das janellas, como a espreitar aquella alma faminta de luz. Soube-o, -talvez, o seu espelho, quando no dia seguinte lhe reflectiu o rosto -desfeito e os olhos quebrados. Se foi a meditação nocturna que os -amolleceu e apagou, não o perguntou elle, naturalmente porque o sabia; -mas talvez advertiu comsigo que se eram assim mais bellos, pediam outro -rosto em que caissem melhor. O de Guiomar queria-os como elles eram, -severos, firmes e brilhantes.</p> - -<p>A baroneza tambem não deixou de ver que a afilhada não accordara com o -mesmo ar do costume; achou-a taciturna e distrahida.</p> - -<p>—Eu, madrinha? perguntou Guiomar simulando um sorriso de admiração.</p> - -<p>—Será engano de meus olhos.</p> - -<p>—Não é outra cousa; estou como sempre, como hontem, como amanhã. -Passei a noite um pouco mal, é verdade; mas o que tive desapareceu -inteiramente. A prova...</p> - -<p>Guiomar parou neste ponto, chegou-se á madrinha e deu-lhe um beijo.</p> - -<p>—A prova, continuou ella, é que ainda hoje me acha bonita, não é?</p> - -<p>—Creança! respondeu a baroneza, dando-lhe uma pancadinha na face.</p> - -<p>A tranquillidade da moça era simulada; apenas a madrinha voltou as -costas, cobriu-se-lhe o rosto com o mesmo veu. Ella aprendera desde -creança a disfarçar as suas preoccupações.</p> - -<p>Quanto a Luiz Alves, posto houvesse contado com o seu methodo cru e -abrupto, saiu dalli sem plena certeza do resultado. Esta incerteza -abalou-o mais do que elle suppunha; e foi, sem duvida, a primeira -occasião em que sentiu que a amava devéras, ainda que o seu amor fosse -como elle mesmo: placido e senhor de si. No dia seguinte, Estevão -interrogou-o a respeito de Guiomar.</p> - -<p>—Creio, disse elle depois de reflectir alguns instantes,—creio que -por ora não deves perder as esperanças todas.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h4><a name="XV" id="XV">XV</a></h4> - - -<h4>Embargos de terceiro.</h4> - - -<p>Durante tres dias deixou Luiz Alves de ir á casa da baroneza, estando -aliás a morrer por isso. Entrava porém no plano esta ausencia; era das -instrucções que elle mesmo dera ao seu coração; não havia remedio senão -observal-as.</p> - -<p>No quarto dia recebeu um bilhete da baroneza que o comprimentava pela -eleição. A mala do norte chegára, e com ella a noticia da victoria -eleitoral. Estava Luiz Alves deputado; ia emfim dar a sua demão no -fabricos das leis. Estevão foi o primeiro que o felicitou; era o antigo -companheiro dos bancos da academia; tanto ou mais do que os outros -devia applaudir aquella boa fortuna. Não lhe escondeu, entretanto a -inveja que ella lhe mettia:</p> - -<p>—Deputado! suspirou elle. Oh! eu tambem podia ser deputado.</p> - -<p>Estevão dizia isto, como a creança deseja o dixe que vê no collo -de outra creança,—nada mais. Eram os seus sonhos de outr'ora, -que renasciam taes quaes eram, inconsistentes, vagos, prestes a -dissiparem-se com o primeiro raio da manhã.</p> - -<p>Luiz Alves apressou-se a ir agradecer á baroneza a felicitação. Guiomar -teve um leve estremecimento quando o viu, mas recebeu-o tranquilla e -risonha, quasi indifferente. O advogado era habil; não a perseguiu com -os olhos; sobre accordar a attenção das demais pessoas, era seguir o -methodo commun. Elle não queria parecer-se com os outros.</p> - -<p>Guiomar, entretanto, observava-o a espaços, de revez, como a querer -sorprehendel-o; a pouco e pouco, porém, o seu olhar foi sendo mais -direito e firme. O de Luiz Alves era natural e egual como antes era, -como era ainda agora com todos.</p> - -<p>Ao sair, junto á porta de uma sala, onde acaso a topou, Luiz Alves teve -occasião de lhe dizer esta simples palavra:</p> - -<p>—Perdoou-me?</p> - -<p>A moça retirou a mão, que elle tinha presa na sua, e furtou o corpo, ao -mesmo tempo que lhe caiam as palpebras.</p> - -<p>—Perdoou-me? repetiu-elle.</p> - -<p>Guiomar retirou-se sem dizer palavra. Luiz Alves esperou que ella -desapparecesse e saiu. A moça, entretanto, ficou irritada por nada lhe -ter respondido, sendo verdade que nada achou nem acharia talvez que lhe -responder; mas arrependeu-se e pensou longo tempo naquillo.</p> - -<p>Quer dizer que o amava? Quer dizer que estava prestes a isso. A -arraiada branqueava o ceu, tingiria depois o cimo dos montes, -entornar-se-hia emfim pela encosta abaixo, até apparecer o sol,—o sol -contemporaneo de Adão, e do ultimo homem que hade vir.</p> - -<p>Dalli a dias, entrando Luiz Alves em casa da baroneza, teve a boa -fortuna de encontrar a moça sosinha, na sala do trabalho, d'onde a -baroneza se ausentára cinco minutos antes. Mrs. Oswald achava-se fóra. -Era a hora da tardinha; o dia estava prestes a afogar-se no seio da -noite.</p> - -<p>Guiomar, mollemente sentada n'uma cadeira baixa, tinha um livro aberto -sobre os joelhos e os olhos no ar. Luiz Alves sorprehendeu-a nessa -attitude meditativa, mais bella do que nunca, porque assim, e áquella -hora, e com o vestido meio escuro que lhe realçava a côr de leite da -face, tinha um quê de gracioso e severo, ao mesmo tempo, que parecia -buscado de proposito para recebe-lo.</p> - -<p>—Minha madrinha já vem, disse Guiomar logo depois de lhe estender a -mão, que elle apertou e sentiu um pouco tremula.</p> - -<p>—Talvez daqui a cinco minutos, disse elle; é bastante para decidir o -meu destino. Duas vezes lhe perguntei se me perdoara; pela terceira lhe -peço que me responda; custa pouco uma unica palavra; custa menos ainda, -um unico gesto.</p> - -<p>A moça olhou algum tempo para o livro que tinha diante de si. A manhã, -porem, era já alta no coração de Guiomar, a claridade intensa, o sol -quente e vivo, por que ella não olhou muito tempo para o livro, nem -hesitou mais do que era natural e exigivel naquella occasião. Dous -minutos depois fez o gesto, um gesto só, mas ainda mais eloquente do -que se ella falasse,—estendeu-lhe a mão.</p> - -<p>Luiz Alves apertou-lh'a entre as suas.</p> - -<p>A commoção era natural em ambos; alli estiveram alguns instantes -calados, elle com os olhos fitos nella, ella com os seus no chão. As -mãos tocavam-se e os corações palpitavam unisonos. Decorreram assim -cinco breves minutos. Ella foi a primeira que rompeu o silencio.</p> - -<p>—Um gesto, um só gesto, e é o meu destino que lhe entrego com elle, -disse Guiomar olhando em cheio para o moço.</p> - -<p>—Ainda não. Se os nossos destinos se ligarem, estou convencido de que -o meu amor, pelo menos, terá a virtude de a tornar feliz. Mas nada está -feito ainda, e se eu fui breve e apressado na confissão, não o desejo -ser na consagração que lhe peço.</p> - -<p>Luiz Alves calara-se; a moça olhava para elle como buscando entende-lo.</p> - -<p>—Sim, continuou elle; melhor é que não ceda a um instante de -enthusiasmo. Minha vida é sua; todo o meu destino está nas suas mãos... -Comtudo, não quero sorprehender-lhe o coração neste momento; no dia em -que me julgar verdadeiramente digno de ser seu esposo, ouvi-la-hei e -seguila-hei.</p> - -<p>A resposta da moça foi apertar-lhe as mãos, sorrir, e embeber os seus -olhos nos delle. O passo da baroneza interrompeu esta contemplação.</p> - -<p>Guiomar amava deveras. Mas até que ponto era involuntario aquelle -sentimento? Era-o até o ponto de lhe não desbotar á nossa heroina a -castidade do coração, de lhe não diminuirmos a força de suas faculdades -affectivas. Até ahi só; dahi por diante entrava a fria eleição do -espirito. Eu não a quero dar como uma alma que a paixão desatina e -cega, nem faze-la morrer de um amor silencioso e timido. Nada disso -era, nem faria. Sua natureza exigia e amava essas flores do coração, -mas não havia esperar que as fosse colher em sitios agrestes e nus, nem -nos ramos do arbusto modesto plantado em frente de janella rustica. -Ella queria-as bellas e viçosas, mas em vaso de Sèvres, posto sobre -movel raro, entre duas janellas urbanas, flanqueado o dito vaso e as -ditas flores pelas cortinas de cachemira, que deviam arrastar as pontas -na alcatifa do chão.</p> - -<p>Podia dar-lhe Luiz Alves este genero de amor? Podia; ella sentiu que -podia. As duas ambições tinham-se adivinhado, desde que a intimidade -as reuniu. O proceder de Luiz Alves, sobrio, directo, resoluto, sem -desfallecimentos, nem demasias ociosas, fazia perceber á moça que elle -nascera para vencer, e que a sua ambição tinha verdadeiramente azas, -ao mesmo tempo, que as tinha ou parecia tel-as o coração. Demais, o -primeiro passo do homem publico estava dado; elle ia entrar em cheio -na estrada que leva os fortes á gloria. Em torno delle ia fazer-se -aquella luz, que era a ambição da moça, a atmosphera, que ella -almejava respirar. Estevão dera-lhe a vida sentimental,—Jorge a vida -vegetativa; em Luiz Alves via ella combinadas as affeições domesticas -com o ruido exterior.</p> - -<p>Uma vez entendidos, é difficil que dous corações se encubram, pelo -menos aos olhos mais sagazes. Os de Mrs. Oswald eram dos mais finos. -A ingleza percebeu dentro de pouco tempo que entre elles havia alguma -cousa. Interrogar a moça era inutil, sobre perigoso; seria ir, de -coração leve, em busca de odio, talvez. Todavia se ainda fosse possivel -salvar tudo? Guiomar resistiria difficilmente a um desejo de madrinha; -era possível vencel-a por esse lado.</p> - -<p>Mrs. Oswald concebeu então um projecto insensato, que lhe pareceu aliás -excellente e de bom aviso. O desejo de servir a baroneza e levar uma -ideia ao fim tapou-lhe os olhos de razão. Ella foi directamente a Jorge.</p> - -<p>—Sabe o que me está parecendo? disse ella. Parece-me que ha mouro na -costa.</p> - -<p>—Mouro na costa! exclamou Jorge com uma tal expressão de desgosto, que -era facil comprehender o fundo de suspeita já existente em seu espirito.</p> - -<p>—Nada menos, disse a ingleza; mas um mouro que se póde capturar.</p> - -<p>E a ingleza expoz um plano completo que o sobrinho da baroneza ouviu um -tanto perplexo. O plano consistia em ir Jorge pedir a moça á baroneza, -em presença della propria. A baroneza, que nutria o desejo de os ver -casados, não deixaria de fazer pezar o seu voto na balança, e era muito -difficil que a gratidão de Guiomar não decidisse am favor de Jorge.</p> - -<p>—A gratidão... e o interesse, continuou ella; Devemos contar tambem -com o interesse, que é um grande conselheiro intimo. Ella não ha de -querer sacrificar a affeição da madrinha, que para ella vale...</p> - -<p>—Oh! que triste lembrança! interrompeu Jorge, recuando diante da ideia -de Mrs. Oswald.</p> - -<p>A ingleza sorriu,—e deixou por mão aquelle argumento; firmou-se porém -no da affeição. Guiomar não se opporia a um desejo da madrinha; era -urgente dar-lhe o golpe. Jorge não se atrevia a sorprehender por esse -meio a acquiescencia da moça; mas acreditava na efficacia delle, e -sobretudo receiava perder a causa. Uma vez que a vencesse, tudo podia -confiar do tempo e do seu amor.</p> - -<p>O conselho foi seguido pontualmente. De noite, em presença da -baroneza á hora da despedida,—porque elle hesitara a maior parte do -tempo,—praticou Jorge aquelle acto insensato de declarar á moça que a -amava e de lhe pedir a mão. A tia sorriu de contentamento, mas teve a -prudencia de não proferir nada emquanto Guiomar, empallidecendo, nada -dizia, porque nada achava que dizer.</p> - -<p>O silencio durou cerca de tres e quatro minutos, um silencio acanhado -a vexado, em que nenhum delles se atrevia a reatar a conversação. -A baroneza, pela sua parte, imaginava que os dous estavam emfim -entendidos, e que a declaração era autorisada pela moça. O enleio de -Guiomar não era dos que podessem dar cabimento a esta supposição; mas a -boa senhora via com os olhos dos seus bons desejos.</p> - -<p>—Pela minha parte, declarou emfim a baroneza, não me opponho; -estimaria muito que acabassem por ahi. Mas é negocio do coração; devo -esperar a resposta de Guiomar.</p> - -<p>E voltando-sa para a afilhada:</p> - -<p>—Pensa e resolve, minha filha, disse ella; e se fores feliz, sel-o-hei -ainda mais do que tu.</p> - -<p>Duas vezes pairou a negativa nos labios da moça; mas a lingua não se -atrevia a repellir a palavra do coração. No fim de alguns instantes:</p> - -<p>—Reflectirei, respondeu ella beijando a mão a madrinha; e continuou -voltando-se para Jorge:—Boa noite! Até amanhã.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h4><a name="XVI" id="XVI">XVI</a></h4> - - -<h4>A confissão.</h4> - - -<p>Na mesma noite em que Jorge, cedendo ás suggestões de Mrs. Oswald, -tentava o ultimo recurso que no intender da ingleza havia, achava-se -Luiz Alves em casa, commodamente sentado n'uma poltrona de couro, -defronte da janella com os olhos no mar e o pensamento nas suas duas -candidaturas vencidas. Meia noite estava a pingar; uma pessoa descia de -um tibury e batia-lhe á porta.</p> - -<p>Era Estevão.</p> - -<p>Luiz Alves naturalmente admirou-se de o ver alli áquella hora; mas -Estevão explicou-lhe tudo.</p> - -<p>—Venho passar meia hora comtigo, ou a noite toda se quizeres. Estava -em casa aborrecido, a pensar... bem sabes em que...</p> - -<p>—Nella? interrompeu Luiz Alves.</p> - -<p>—Agora e sempre.</p> - -<p>Luiz Alves torceu o bigode, e olhou tres ou quatro vezes para o -collega, em quanto este tirava o chapeu e dispunha-se a ir buscar uma -cadeira para sentar-se ao pé do outro.</p> - -<p>—Estevão, disse Luiz Alves depois de algums instantes de reflexão, e -voltando a poltrona para dentro, ouve-me primeiro e resolverás depois -se ficas a noite ou se te vás embora immediatamente. Talvez escolhas -este ultimo alvitre.</p> - -<p>—Vás falar-me de Guiomar?</p> - -<p>—Justamente.</p> - -<p>Estevão sentou-se defronte de Luiz Alves. Seu coração batia appressado; -dissera-se que toda a sua vida pendia dos labios do amigo. Houve um -instante de silencio.</p> - -<p>—Nenhuma.... nenhuma esperança então? murmurou Estevão.</p> - -<p>—Disseste a fatal palavra! exclamou Luiz Alves. Sim, não tens nenhuma -esperança.</p> - -<p>—Mas.... como sabes?</p> - -<p>—Não me interrogues; eu não poderia dizer-te tudo o que ha. Poupa-me, -ao menos, esse triste dever.</p> - -<p>Estevão sentiu arrasarem-se-lhe os olhos d'agua. Quiz falar, mas as -palavras iam-lhe saindo envoltas em soluços.</p> - -<p>Luiz Alves fumava tranquillamente, acompanhando com os olhos os -rolinhos de fumo que lhe fugiam da ponta do charuto. Este silencio -durou cerca de dez minutos. O mar batia compassadamente na praia. A voz -da onda e o latido de um cão ao longe eram os unicos sons que vinham -quebrar a mudez daquella hora solemne para um desses dous homens que ia -perder até o repouso da esperança.</p> - -<p>Estevão foi o primeiro que falou:</p> - -<p>—Ama a outro, não é? perguntou elle com a voz tremula.</p> - -<p>—Ama, respondeu surdamente Luiz Alves.</p> - -<p>Estevão ergueu-se e deu alguns passos na sala, sem dizer palavra, a -morder a ponta do bigode, parando ás vezes, outras traduzindo com um -gesto desordenado os sentimentos que lhe tumultuavam no coração. A dor -devia ser grande, mas a manifestação já não era a mesma que o leitor -lhe viu, dous annos antes, quando elle foi confiar ao amigo o primeiro -desengano de Guiomar.</p> - -<p>—Parece-me que eu adivinhava isto mesmo, disse elle, emfim, parando -em frente de Luiz Alves. Este desejo que me accometteu de vir aqui, a -este hora, sem certeza de encontrar-te, era mais um beneficio do meu -destino. Devia esperal-o. Que vida tem sido a minha, Luiz! Agarrei-me, -nem sei por que, á esperança de ser amado por ella, de a vencer pela -piedade, ou pelo remorso, ou por qualquer outro motivo que fosse,—o -motivo importava pouco... O essencial é que ella me pagasse em ternura -e amor todas as dores que curti, as lagrimas todas que tenho devorado -em silencio... E era so essa esperança que ainda me dava forças... que -me fazia crer feliz, como pode sel-o um desgraçado, como podia sel-o -eu, que nasci debaixo de ruim estrella.... Oh! se tu souberas... Não, -não sabes, nem ella tambem, ninguem sabe nem saberá nunca tudo quanto -tenho padecido, tudo quanto....</p> - -<p>Interrompeu-se. Duas lagrimas, espremidas do fundo do coração, -saltaram-lhe dos olhos e desceram-lhe rapidas a perder-se entre os -cabellos raros e finos da barba. Elle sentiu que outras podiam vir, e -foi sentar-se n'um sophá, meio voltado de costas para Luiz Alves. As -outras vieram, porque o coração ainda as tinha para as dôres supremas; -mas correram-lhe silenciosas, sem um soluço, sem uma queixa unica.</p> - -<p>Luiz Alves lavantara-se e chegara á janella. Seu espirito, apezar de -frio e quieto, parecia agora um pouco alvoroçado. Não era dor; e não -sei se lhe podia chamar remorso. Mau-estar apenas, e commiseração. -O coração era capaz de affeições; mas, como ficou dito no primeiro -capitulo, elle sabia rege-las, modera-las e guia-las ao seu proprio -interesse. Não era corrupto nem perverso; tambem não se póde dizer -que fosse dedicado nem cavalheresco; era, ao cabo de tudo, um homem -friamente ambicioso.</p> - -<p>Estevão levantara-se outra vez e pegara no chapeu.</p> - -<p>—Vem cá, disse Luiz Alves entrando e indo ter com elle; vejo que estás -mais homem do que antes. Resta o que sejas completamente; varre da -memoria e do coração tudo o que possa referir-se...</p> - -<p>—Que remedio! interrompeu Estevão sorrindo amargamente; que remedio -tenho eu se não esquece-la! Mas quando?</p> - -<p>—Mais breve talvez do que suppões...</p> - -<p>Luiz Alves não acabou; Estevão olhara para elle com um gesto de espanto -e fora sentar-se outra vez.</p> - -<p>—Mais breve do que supponho! exclamou elle. Tu não tens coração: não -tens sequer observação nem memoria. Não vês, não sentes que esta paixão -é o sangue do meu sangue, a vida da minha vida? Esquece-la! Era bom -se eu a pudesse esquecer; mas a minha má sina até essa esperança me -arranca, porque este padecer intimo, constante, ha de ir commigo até á -morte...</p> - -<p>Desta vez era Luiz Alves que passeava de um lado para outro. Em seu -espirito despontava uma ideia, que elle examinava, a ver se a poria -alli mesmo em execução. Era dizer-lhe tudo. Estevão viria a sabel-o -mais tarde; melhor era que o soubesse logo e por elle. Ao mesmo tempo -reflectia na exaltação dos sentimentos do rapaz; a dor certamente se -lhe aggravaria, em sabendo que era elle o preferido de Guiomar. O -coração, que perdoaria a um extranho, condemnaria ao amigo.</p> - -<p>Estevão, assentado, com os olhos no tecto, parecia entregue ás suas -reflexões, mas só parecia, por que elle não pensava, evocava antigas -memorias, fazia surgir diante de seus olhos a figura gentil de Guiomar, -sentia-lhe o imperio dos bellos olhos castanhos, ouvia-lhe a palavra -doce e avelludada entornar-se-lhe no coração. Não evocava só, creava -tambem, pintava com a imaginação a felicidade que lhe poderia dar a -moça, se entre todos os homens o escolhera, se elles dous vinculassem -os seus destinos. Elle via-a ao pé de si, cingia-lhe o braço em volta -da cintura, enchia-lhe de beijos os cabellos, tudo isto em meio de uma -paisagem unica na terra, porque a abundancia da natureza cresceria ao -contacto daquelle sentimento puro, casto e eterno. Não falo eu, leitor; -transcrevo apenas e fielmente as imaginações do namorado; fixo nesta -folha de papel os vôos que elle abria por esse espaço fóra, unica -ventura que lhe era permittida.</p> - -<p>No meio dessas visões foi accordal-o Luiz Alves.</p> - -<p>—Tens razão de sentir, disse este; mas não gastes o coração, que ha -maiores sorpresas na vida... Em todo o caso, deixa-me dizer-te que -nenhuma razão tens de censura...</p> - -<p>—Censuro eu alguém?</p> - -<p>—Ha no amor um germen de odio que póde vir a desenvolver-se depois. -Talvez chegues a accusala de te não querer; nesse dia reflecte que os -movimentos do coração não estão nas mãos da vontade. Ella não tem culpa -se outro lhe despertou o amor.</p> - -<p>—Ah! incumbiu-te da defesa!</p> - -<p>Luiz Alves sorriu; elle contava com a recriminação.</p> - -<p>—Não, não me incumbiu da defesa, disse elle; sou eu que a tomo por -minhas mãos. Que defendo eu aqui se não a natureza, a razão, a logica -dos sentimentos, dura e inflexivel como toda a outra logica? Ha no -fundo das tuas palavras um sentimento de egoismo...</p> - -<p>—O amor não é outra cousa, respondeu Estevão sorrindo por sua vez. -Queres que inda em cima lhe agradeça este desespero? Queres que vá -apertar a mão ao homem que a soube vencer?</p> - -<p>Luiz Alves mordeu a ponta do labio e acercou-se da janella. Quando ia -a voltar para dentro ouviu um rumor na janella ao pé, a primeira da -casa da baroneza. Luiz Alves deu um passo mais. Não viu ninguem; viu -apenas o resto de um vestido que fugia e um objecto que lhe caia aos -pés. Inclinou-se a apanhal-o. Era uma grande folha de papel envolvendo, -para lhe dar mais peso, outra folha pequena dobrada em quarto. Luiz -Alves aproximou-se da luz, e leu rapidamente o que alli vinha escripto. -Leu, metteu o papel na algibeira e encaminhou-se disfarçadamente para a -janella. Ninguem; a casa da baroneza dormia.</p> - -<p>Quando voltou para dentro, Estevão tinha-se levantado. Elle vira cair -o papel, apanhal-o e lel-o Luiz Alves. Não entendeu nada do que se -passara; mas seu olhar como que pedia uma explicação.</p> - -<p>Luiz Alves foi direito ao fim.</p> - -<p>—Estevão, disse elle, vás saber a verdade toda; não poderia -occultar-te o que se ha passado, nem conviria talvez que tu a soubesses -por boca de outro. Guiomar podia amar-te, eras digno della, e ella -digna de ti; mas a natureza não os fez um para o outro. São duas almas -excellentes que seriam infelizes unidas. Quem ha aqui que censurar? -Mas se a natureza explica o sentimento della, egualmente explica o de -um terceiro, que sou eu. Tu confiaste-me as dores e as esperanças de -teu coração; era conhecer toda a minha amisade e a profunda estima que -sempre te consagrei. Mas nem tu nem eu contavamos commigo; por que -tambem eu tenho coração, e os prestigios da belleza tambem falam á -minha alma. Não a pude ver a frio. A paixão obscureceu-me. Nesta minha -felicidade de amar e ser amado, acredita que sou alguma cousa infeliz, -por que ha lagrimas tuas, ha o teu padecer longo e cruel, que eu -imagino e deploro. A confissão é franca; não te falo em arrependimento, -porque são actos do coração e não da consciência, que essa é pura e -honrada. E depois desta exposição fiel, cuido que lastimarás commigo o -encontro em que o acaso ou a má sorte nos reuniu a todos tres; mas não -me accusarás nem me recusarás a tua velha estima. Falo só da estima; a -amisade, creio que não poderá ser a mesma. Mas presarás o meu caracter. -Pela minha parte, nem uma nem outra cousa perece; sei o que vales. Não -sei aonde nos lançará a onda do destino amanhã. Pela ultima vez, porém, -espero que apertarás a mão do teu amigo.</p> - -<p>Luiz Alves concluíra estendo-lhe a mão. Estevão olhou para elle, mas -não disse uma só palavra, não fez um gesto unico: caminhou para a porta -e saiu.</p> - -<p>—Estevão! gritou Luiz Alves.</p> - -<p>Mas só lhe respondeu o rumor dos pés que desciam, e pouco depois o do -tilbury que rolava surdamente na terra humida da praia.</p> - -<p>Luiz Alves levantou seccamente os hombros; chegou-se á luz e releu o -escripto.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h4><a name="XVII" id="XVII">XVII</a></h4> - - -<h4>A carta.44814481448144814481448144814481448144814481</h4> - - -<p>Não era preciso reler o papel para entendel-o; mas olhos amantes -deliciam-se com letras namoradas. O papel continha uma palavra -unica:—<i>Peça-me</i>,—escripta no centro da folha, com uma lettra fina, -elegante, feminina. Luiz Alves olhou algum tempo para o bilhete, -primeiramente como namorado, depois como simples observador. A lettra -não era tremula, mas parecia ter sido lançada ao papel em hora de -commoção.</p> - -<p>Desta observação passou Luiz Alves a uma reflexão muito natural. -Aquelle bilhete, pouco conveniente em quaesquer outras circumstancias, -estava justificado pela declaração que elle proprio fizera á moça -alguns dias antes, quando lhe pediu que o conhecesse primeiro, e que -no dia em que o julgasse digno de o tomar por esposo, elle a ouviria e -acompanharia. Mas se isto era assim em relação ao bilhete, não o era em -relação á hora. Que motivo obrigaria a moça a deitar-lhe da janella, á -meia noite, aquelle papel decisivo, eloquente na mesma sobriedade com -que o escrevêra?</p> - -<p>Luiz Alves concluiu que havia alguma razão urgente, e portanto, que -era preciso acudir á situação com os meios da situação. Quanto á razão -em si, não a pôde descobrir. Occorreu-lhe o facto, aliás patente, da -côrte que o sobrinho da baroneza fazia a Guiomar, mas ignorava as -circumtancias que lhe eram relativas, e não pôde passar além.</p> - -<p>Não direi que Luiz Alves gastasse a noite a cavar fundo no terreno das -conjecturas vagas. Não era homem que perdesse tempo em cousas inuteis; -e nada mais inútil naquella occasião do que tentar explicar o que -nenhuma explicação podia ter para elle. O que resolveu foi obedecer -ao recado da moça; pedi-la sem hesitação nem preambulo. Mas se o caso -lhe não produziu insomnia, não deixou de lhe estender a vigilia, além -da hora usual, como era de geito naquella occasião solemne, sobretudo, -tratando-se de creatura que por aquelles tempos era a inveja e a -cobiça de muitos olhos. Luiz Alves não era, como Estevão, um adoravel -scismador, não se nutria de imaginações e devaneios, alimento que -funde pouco ou nada, mas scismou algum tempo, embebeu-se uma hora -na contemplação ideial da mulher que elle soubera escolher. O somno -chegou, e o devaneio confundiu-se com o sonho.</p> - -<p>Guiomar dormiria tão repousadamente como elle? Dormia; a noite, porém, -fora-lhe muito mais agitada e amarga, como era natural depois da -declaração de Jorge e das insinuações da madrinha.</p> - -<p>A moça recolhera-se ao quarto, logo depois da declaração. As pessoas -da casa nada puderam ler-lhe no rosto, salvo a pallidez repentina e o -rubor que se lhe seguiu: mas, logo que ella se achou só, deu toda a -expansão aos sentimentos que até alli pudera conter.</p> - -<p>O primeiro delles era o despeito; Guiomar sentia-se humilhada com -aquella declaração, assim feita, de emboscada e sobresalto, para -arrancar-se-lhe um consentimento que o coração e a indole repelliam. -Nenhuma consulta, nenhuma autorisação prévia; parecia-lhe que a -tratavam como ente absolutamente passivo, sem vontade nem eleição -propria, destinado a satisfazer caprichos alheios. As palavras da -madrinha desmentiam esta supposição; mas, a noticia que ella tinha -da resolução da baroneza, neste negocio, diminuia muito o valor de -taes palavras. Se era uma campanha, como dissera Mrs. Oswald, queriam -constrangel-a com apparencias de moderação, e o tempo que lhe deixavam -para reflectir era-o realmente para considerar, sosinha comsigo, na -necessidade de pagar os benefícios que recebêra.</p> - -<p>Não a accusem de ter feito estas reflexões, logo que entrou no quarto, -com os olhos scintillantes e os labios frios de colera. Eram naturaes; -primeiramente porque suppunha que o seu casamento com Jorge estava -deliberado e se realisaria, quaesquer que fossem as circumstancias; -depois, porque a alma della era melindrosa; não esquecia os beneficios -recebidos, mas quizera que lh'os não lembrassem por meio de uma -violencia: fazel-o, era o mesmo que lançar-lh'os em rosto.</p> - -<p>—Não! murmurava emfim a moça, forçar-me, reduzir-me á condição de -simples serva, nunca!</p> - -<p>Mas esta colera apaziguou-se, e o coração venceu o coração. Guiomar -recordou a constante ternura da baroneza para com ella, a sollicitude -com que lhe satisfazia os seus menores desejos, que eram alli ordens, -e não combinava tamanho amor com a supposta violencia que lhe queria -fazer. Não tardou em arrepender-se das palavras incoherentes que lhe -haviam fugido, e dos sentimentos maus que attribuíra ao coração da -baroneza. Cruzou as mãos no peito e ergueu o pensamento ao ceu, como a -pedir-lhe perdão. Guiomar, em meio das seducções da vida, que tantas -eram para ella e de todo lhe levavam os olhos, não perdera o sentimento -religioso, nem esquecera o que lhe havia ensinado a fé ingenua e pura -de sua mãe.</p> - -<p>A cólera acabára, mas veiu depois a luta entre a gratidão e o -amor,—entre o noivo que lhe propunha a affeição da madrinha e o que -o seu proprio coração escolhera. Ella nem ousava tirar as esperanças -á baroneza, nem immolar as suas proprias,—e uma de duas cousas era -preciso que fizesse naquella solemne occasião. O que sentiu e pensou -foi longo e cruel; mas se tal duello podia travar-se-lhe na alma, -não era duvidoso o resultado. O resultado devia ser um. A vontade e -a ambição, quando verdadeiramente dominam, podem lutar com outros -sentimentos, mas hão de sempre vencer, porque ellas são as armas do -forte, e a victoria é dos fortes. Guiomar tinha de decidir por um dos -dous homens que lhe propunha o seu destino; elegeu o que lhe falava ao -coração.</p> - -<p>A resposta, porém, não podia a moça demoral-a nem esquival-a, não -convinha, talvez, prolongar a luta e a duvida. Quando isto pensou, -veiu-lhe ao espirito uma ideia decisiva, a de confessar tudo á -madrinha. Hesitou, porém, entre fazel-o ella propria ou por boca -de Luiz Alves, cujas palavras, apontadas acima trazia escriptas na -memoria. Preferia este meio; mas não lhe bastava preferil-o, era mister -realisal-o, e para isso só dous modos tinha, escrever-lhe ou falar-lhe. -O segundo podia não ser tão prompto, e talvez falhasse occasião -apropriada; adoptou o primeiro, e recuou logo. A carta seria mandada -por um famulo, mas o espirito de Guiomar era a tal ponto sobre si que -repelliu semelhante intervenção. A janella estava aberta; dalli viu luz -na sala de Luiz Alves e a sombra do moço, que passeava de um lado para -outro. Occorreu-lhe então a ideia que poz por obra, conforme ficou dito -no capitulo anterior.</p> - -<p>Tal é a historia daquella palavra escripta rapidamente n'uma folha -de papel. Apesar da declaração de Luiz Alves e das circumstancias -em que a moça se achou, o leitor facilmente comprehenderá que ella -não a escreveu sem pelejar comsigo mesma, sem vacillar muito entre a -repugnancia e a necessidade. Afinal foram vencidos os escropulos, que é -tanta vez o seu destino delles, e força é dizer que não os vencem nunca -de graça, porque elles falam, arrazoam, obstam o mais que podem, mas -é vulgar passarem-lhes por cima. A moça entretanto, apenas lançara a -carta, arrependeu-se; a dignidade teve remorsos; a consciência quasi a -accusava de uma acção vil. Era tarde; a carta chegára a seu destino.</p> - -<p>Na manhã seguinte, a baroneza acordou mais alegre que de costume. -Cuidara ver em Guiomar, na noite anterior, alguma cousa que só lhe -pareceu enleio natural da situação. Guiomar erguera-se tarde; a -manhã estava chuvosa e a madrinha não deu o seu passeio. A moça foi -beijar-lhe a mão e a face, como costumava, e receber della o osculo -materno. O rosto parecia cançado mas um veu de affectada alegria -disfarçava-lhe a expressão natural, á semelhança das posturas de -toucador, de maneira que a baroneza, pouco ledora de physionomias, não -discerniu naquella a verdade da impostura. Impostura, digo eu, devendo -entender-se que é honesta e recta, porque a intenção da moça não era -mais do que não amargurar a madrinha, e tirar-lhe motivo a qualquer -afflicção antecipada.</p> - -<p>—Dormiu bem a minha rainha de Inglaterra? perguntou Mrs. Oswald, -pondo-lhe familiarmente as mãos nos hombros.</p> - -<p>—A sua rainha de Inglaterra não tem coroa, respondeu Guiomar comum -sorriso contrafeito.</p> - -<p>Pela volta do meio dia, recebeu a baroneza uma carta de Luiz Alves. -Abriu-a e leu-a. O advogado pedia-lhe a mão de Guiomar. Poucas linhas, -cortezes, simplices, naturaes, feitas por quem parecia senhor da -situação.</p> - -<p>—Mrs. Oswald, disse a baroneza á sua dama de companhia que se achava -na mesma sala, leia isto.</p> - -<p>A ingleza obedeceu.</p> - -<p>—Isto não quer dizer nada, observou ella depois de alguns instantes. É -um pretendente mais; devemos crer, porém, que são muitos, e que se os -outros não lhe escrevem cartas destas, é por que são menos affoutos. -A Sra. baroneza pensa que os olhos de sua afilhada são innocentes? -continuou a ingleza sorrindo. Eu cuido que devem estar carregados de -crimes, e que ha mortos...</p> - -<p>—Mas não vê, Mrs. Oswald, interrompeu a baroneza, que esse homem -parece estar autorisado?</p> - -<p>Mrs. Oswald calou-se como quem reflectia. Logo depois expoz uma serie -de argumentos e considerações, se não graves em substancia, pelo menos -nas roupas com que ella os vestia, umas roupas seriamente britannicas, -como as não talharia melhor a melhor tesoura da camara dos communs. -Toda ella dava ares de um argumento vivo e sem réplica. Havia em seus -cabellos, entre louro e branco, toda a rigidez de um syllogismo; cada -narina parecia uma ponta de um dilemma. A conclusão de tudo é que -nada estava perdido, e que a felicidade de Jorge era cousa não só -possivel, mas até provavel, uma vez que a baroneza mostrasse,—era o -essencial,—certa resolução de animo muito util e até indispensavel -naquella occasião. Mrs. Oswald offerecia-se para ir chamar a moça -immediatamente.</p> - -<p>—Pois vá, vá, disse a baroneza.</p> - -<p>A ingleza saiu d'alli e foi ter com Guiomar. Quando a viu de longe -compoz um sorriso, e Guiomar, vendo-a sorrir, sentiu como que um -movimento interno de repulsa.</p> - -<p>—Venho buscal-a, disse Mrs. Oswald, para uma cousa que a senhora está -longe de imaginar.</p> - -<p>Guiomar interrogou-a com olhos.</p> - -<p>—Para casar!</p> - -<p>—Casar! exclamou Guiomar sem comprehender a intenção da mensageira.</p> - -<p>—Nada menos, respondeu esta. Admira-se, não? Tambem eu; e sua madrinha -egualmente. Mas ha quem tenha o mau gosto de apaixonar-se por seus -bellos olhos, e a affronta de a vir pedir, como se se podissem as -estrellas do ceu...</p> - -<p>Guiomar comprehendeu de que se tratava. Olhou desdenhosamente para a -ingleza, e disse em tom secco e breve:</p> - -<p>—Mas, conclua, Mrs. Oswald.</p> - -<p>—A senhora baroneza manda chamal-a.</p> - -<p>Guiomar dispoz-se a ir ter com a madrinha; Mrs. Oswald fel-a parar um -instante, e com a mais meliflua voz que possuia na escala da garganta, -disse:</p> - -<p>—Toda a felicidade desta casa está em suas mãos.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h4><a name="XVIII" id="XVIII">XVIII</a></h4> - - -<h4>A escolha.</h4> - - -<p>Mrs. Oswald tinha falado de mais. A baroneza não a incumbira de dizer á -afilhada a razão porque a mandava chamar. Aconteceu, porém, que aquella -indisçrição não foi a unica. Mrs. Oswald, em vez de esquivar-se e -deixar que entre Guiomar e a baroneza fosse tratado o assumpto que as -ia reunir, cedeu á curiosidade, e acompanhou a moça.</p> - -<p>A baroneza estava sentada, entre duas janellas, com a carta aberta nas -mãos, tão attenta em relel-a, que não ouviu o rumor dos pés de Guiomar -e de Mrs. Oswald.</p> - -<p>—Madrinha chamou-me? perguntou Guiomar parando em frente della.</p> - -<p>A baroneza ergueu a cabeça.</p> - -<p>—Ah! É verdade; sim; chamei-te. Senta-te aqui.</p> - -<p>Guiomar arrastou a cadeira que ficava mais proxima e sentou-se ao pé -da baroneza. Esta, entretanto, havia dobrado lentamente a carta, e -tinha os olhos no chão, como a procurar por onde começaria. Quando os -levantou deu com a ingleza. Ia já a falar, mas estacou. A affeição que -lhe tinha não impediu que achasse demasiada familiaridade a presença de -Mrs. Oswald em semelhante occasião. Esperou alguns instantes; mas como -a ingleza parecesse inteiramente distrahida:</p> - -<p>—Mrs. Oswald, disse a baroneza, vá ver se ja deram de comer aos -passarinhos.</p> - -<p>A ingleza percebeu que estes passarinhos, naquelle caso, eram uma -pura metaphora, e que a baroneza nada mais fazia do que pedir-lhe -delicadamente que se fôsse embora. Todavia, não se deu por achada.</p> - -<p>—Parece-me que não, disse ella; vou já saber disso.</p> - -<p>—Olhe, disse a baroneza quando ella já ia a meio caminho; encoste-me -essas portas, e dê ordem para que ninguem nos interrompa.</p> - -<p>A ingleza obedeceu e saiu. A careta que fez ao sair ninguem lh'a pôde -ver, e não se perdeu nada.</p> - -<p>As duas ficaram sós.</p> - -<p>—Senta-te aqui, Guiomar, disse a baroneza indicando um banquinho que -lhe ficava aos pés.</p> - -<p>Guiomar deixou a cadeira e foi sentar-se no banquinho, pousando -amorosamente os braços nos joelhos da madrinha. Esta cingiu-lhe a -cabeça com as mãos, e assim esteve longo tempo sem falar, mas eloquente -naquella mudez, em que a palavra pertencia ao coração. Ambas estavam -commovidas; e Guiomar, de envolta com um suspiro, murmurou este unico e -doce nome:</p> - -<p>—Mamãe!</p> - -<p>Era a primeira vez que ella lhe dava este nome, e tão fundo lhe calou -na alma á baroneza que a resposta foi cobril-a de beijos.</p> - -<p>—Sim, tua mãe, disse a madrinha; a que te deu o ser não te amaria mais -do que eu. Tens a alma e a ternura da filha que o ceu me levou, e se -todas as mães que perdem filhos podessem substituil-os do mesmo modo, -desapparecia do mundo a maior e mais cruel dor que ha nelle...</p> - -<p>A resposta de Guiomar foi apertar-lhe as mãos e beijar lh'as. Seguiu-se -uma pausa, em que a commoção a pouco e pouco desappareceu, e a baroneza -olhou para a carta de Luiz Alves, amarrotada pelo gesto de Guiomar.</p> - -<p>—Guiomar, disse ella emfim, já reflectiste no pedido de hontem á noite?</p> - -<p>A moça esperava que a madrinha lhe falasse no pedido de Luiz Alves; a -pergunta da baroneza desnorteou-a um pouco. Sua intelligencia, porém, -era clara e sagaz; a resposta foi outra pergunta:</p> - -<p>—Uma noite será bastante para decidir de todo o resto da vida? disse -ella sorrindo.</p> - -<p>—Tens razão, minha filha; mas a pergunta era natural da parte de quem -quer ver realizado um desejo. Jorge pediu-te em casamento. Sabes que é -um excellente caracter?</p> - -<p>—Excellente, respondeu a moça.</p> - -<p>—Uma boa alma, continuou a baroneza, e um moço distincto. Parece -gostar muito de ti, segundo disse hontem, não? É natural; só me admira -que não te amem muitos mais.</p> - -<p>A baroneza parou; Guiomar brincava com as franjas da manga sem se -atrever a levantar os olhos.</p> - -<p>—Deves saber, continuou a baroneza,—que eu estimaria ver que este -casamento se effectuasse; estou convencida de que te faria feliz, e -a elle também, pelo menos tanto quanto é possivel julgar das cousas -presentes... Que diz o teu coração?</p> - -<p>E como Guiomar não respondesse logo:</p> - -<p>—Ah! esquecia-me do que me disseste ha pouco. Uma noite não é bastante -para decidir de todo o resto da vida. Bem; ouvir-me-has mais duas -cousas. A primeira é que... Lê tu mesma esta carta.</p> - -<p>A baroneza deu a carta a Guiomar, que a abriu e leu o pedido que Luiz -Alves fazia de sua mão. Em quanto ella percorria com os olhos as poucas -linhas escriptas, a madrinha parecia observa-la fixamente, como a -tentar ler-lhe no rosto a impressão que o pedido lhe fazia, se espanto, -se satisfação. Não houve espanto nem satisfação apparente; Guiomar leu -a carta e entregou-a á madrinha.</p> - -<p>—Leste? É a primeira cousa que eu queria dizer-te. O Dr. Luiz Alves -pede-te em casamento; tens de escolher entre elle e Jorge. A segunda -cousa é que dos dous pretendentes Jorge é o que meu coração prefere; -mas não sou eu que me caso, és tu; escolhe com plena liberdade aquelle -que te falar ao coração.</p> - -<p>Guiomar erigiu o busto e olhou direitamente para a madrinha, com taes -signaes de espanto no rosto, que esta não poude deixar de lhe perguntar:</p> - -<p>—Que tens?</p> - -<p>A moça não respondeu; quero dizer não lhe respondeu com os labios; -travou-lhe da mão e apertou-a entre as suas, e ficou a olhar para -ella como a reflectir. A expressão de seu rosto passara do espanto á -satisfação e desta a uma cousa que parecia a um tempo indignação e asco.</p> - -<p>—Oh! madrinha! exclamou Guiomar, porque se não entenderam logo os -nossos corações? Não havia mister pôr de permeio um espirito importuno -e desconsolador. Se eu advinhara essas palavras que acabou de dizer, -não teria padecido metade do que me fazem padecer ha longos dias...</p> - -<p>—Padecer?</p> - -<p>—Padecer; nada menos. Mas deixemos isso. Foi o seu coração que falou -e o meu que ouviu; posso agora dizer-lhe francamente o que sinto, sem -receio de a affligir.</p> - -<p>Não precisava dizer mais nada; a escolha que ella ia fazer estava -já indicada pelo menos. Entendeu-o a baroneza, que fechou o rosto e -suspirou. A afilhada ouviu-lhe o suspiro, e percebeu a tristeza subita; -arrependeu-se de ter ido tão longe.</p> - -<p>—Percebo, respondeu a baroneza, queres dizer que dos dous pretendentes -escolhes o Dr. Luiz Alves?</p> - -<p>A moça conservou-se calada; a madrinha olhava para ella com uma -expressão de anciedade que a affligiu.</p> - -<p>—Fala, repetiu a baroneza.</p> - -<p>—Escolho... o Sr. Jorge, suspirou Guiomar depois de alguns instantes.</p> - -<p>A baroneza estremeceu.</p> - -<p>—Falas serio? Não creio; não é esse o sentimento do teu coração. Vê-se -que não é. Queres illudir-me e a ti também. Percebo que o não amas; não -o amaste nunca. Mas amas ao outro, não é? Que tem isso? Não me dá o -prazer que eu teria se... Que importa, se fores feliz? A tua felicidade -está acima das minhas preferencias. Era um sonho meu; desejava-o com -todas as forças; faria o que pudesse para alcançal-o; mas não se -violenta o coração,—um coração, sobretudo, como o teu! Escolhes o -outro? Pois casarás com elle.</p> - -<p>Vê o leitor que a palavra esperada, a palavra que a moça sentia vir-lhe -do coração aos labios e querer rompel-os, não foi ella quem a proferiu, -foi a madrinha; e se leu attento o que precede verá que era isso mesmo -o que ella desejava. Mas porque o nome de Jorge lhe roçou os lábios? -A moça não queria illudir a baroneza, mas traduzir-lhe infielmente -a voz de seu coração, para que a madrinha conferisse, por si mesma, -a traducção com o original. Havia nisto um pouco de meio indirecto, -de tactica, de affectação, estou quasi a dizer de hipocrisia, se não -tomassem á má parte o vocabulo. Havia, mas isto mesmo lhes dirá que -esta Guiomar, sem perder as excellencias de seu coração, era do barro -commum de que Deus fez a nossa pouco sincera humanidade; e lhes dirá -tambem que, apezar de seus verdes annos, ella comprehendia já que as -apparencias de um sacrificio valem mais, muita vez, do que o proprio -sacrificio.</p> - -<p>A baroneza acabára de falar. A alegria do rosto de Guiomar confirmou -a sua primeira impressão, e se a escolha era contraria ao que ella -desejava, a satisfação da afilhada pagou-lhe tudo quanto ella ira -perder. Era assim aquella alma de mãe; boa, dedicada e generosa.</p> - -<p>—Oh! madrinha! obrigada! exclamou a moça. Não me fica odiando?</p> - -<p>—Oh! exclamou a baroneza com um tom de reprehensão.</p> - -<p>E puxou-a para si, e abraçou-a com amor. Guiomar correspondeu ao -movimento, e as duas confundiram as suas alegrias intimas e affeições -sinceras.</p> - -<p>Mrs. Oswald viu-as dahi a pouco, risonhas e entendidas. Era facil -concluir qual dos dous pretendentes vencera; Guiomar não receberia de -tão boa cara o sobrinho da baroneza. Tudo estava acabado; e talvez que -a sua propria pessoa padecêra naquelle lance ultimo. A baroneza pedira -a Guiomar que lhe explicasse a que padecimentos alludíra, mas a moça -preferiu não dizer nada, não só por não affligir a madrinha, como por -não dar um aspecto de rivalidade á situação entre ella e Mrs. Oswald.</p> - -<p>A escolha estava feita, o consentimento dado. A baroneza respondeu -nessa mesma tarde ao pretendente feliz. Estevão teria manifestado -ruidosamente toda a alegria que semelhante resposta lhe causára; sua -alma apaixonada e exuberante contaria a Deus e aos homens aquella -immensa fortuna; Luiz Alves encerrou o prazer, aliás grande, dentro de -si; pensou na moça e no futuro alguns instantes, mas não falou delles a -ninguém.</p> - -<p>A baroneza escreveu nesse mesmo dia ao sobrinho, communicando-lhe a -resposta de Guiomar. Os leitores não terão difficuldade de admittir que -o coração de Jorge não sentiu o golpe profundamente, mas sentiu alguma -cousa. Não foi nessa noite á casa da tia; não foi tembem na segunda; na -terceira chegou a descer as escadas; na quarta embicou para Botafogo.</p> - -<p>—Tudo está acabado, disse-lhe a tia verdadeiramente sentida.</p> - -<p>—Acabado! suspirou Jorge.</p> - -<p>—Agora, é preciso animo; espero que serás homem.</p> - -<p>—Oh! serei homem! suspirou outra vez Jorge.</p> - -<p>E dous suspiros, arrancados do peito de um homem tão grave, deviam ser -por força dous suspiros gravissimos, como facilmente acredita o leitor.</p> - -<p>Effectivamente a physionomia do moço não tinha abatimento nem -afflicção; não a amarrotava o menor vestigio de noite mal dormida, -menos ainda de lagrimas enxutas. Alegre não era, mas grave e austera, -como elle a trazia sempre, a contrastar com o retezado do bigode.</p> - -<p>A baroneza imaginou comtudo que a dor do sobrinho devia te-lo -mortificado muito; apertou-lhe as mãos com ternura e disse-lhe ainda -algumas palavras de animação.</p> - -<p>Imagine-se o que seria o primeiro encontro de Jorge com Guiomar. A moça -estava serena, talvez risonha e até compassiva. Se tivesse de casar com -elle odiara-o de certo; agora já lhe perdoava o amor. Jorge pela sua -parte não deixou de ficar um tanto abalado, em parte commoção, em parte -constrangimento, sendo porém o constrangimento maior do que a commoção. -Nos labios pairou-lhe um desses sorrisos em que o olhar penetrante do -povo ou a sua imaginação pintoresca descobriu a côr amarella. Se outro -fosse o aspecto, é provavel que ella lhe conservasse, ao menos, o -respeito. Mas aquelle sorriso perdeu-o de todo no animo de Guiomar.</p> - -<p>Na primeira occasião que se lhe offereceu, expandiu-se Jorge com Mrs. -Oswald.</p> - -<p>—Perdeu-se tudo... murmurou elle.</p> - -<p>A ingleza não respondeu.</p> - -<p>Jorge continuou ainda a falar, e a ingleza e ouvir, mas a ouvir só, e a -querer divertil-o daquelle assumpto.</p> - -<p>—Tudo se perdeu, disse emfim o sobrinho da baroneza, talvez por culpa -sua.</p> - -<p>—Minha? perguntou Mrs. Oswald.</p> - -<p>—Sua.</p> - -<p>—Mas...</p> - -<p>Jorge hesitou um instante.</p> - -<p>—Não mostrou calor sufficiente, disse elle emfim.</p> - -<p>—Que quer? disse Mrs. Oswald. O coração não se pode dominar, nem ha -meio de impor-lhe um sentimento. D. Guiomar é uma santa creatura, ama -devéras ao seu rival; ha nada mais justo do que casa-los?</p> - -<p>—De maneira que...</p> - -<p>—De maneira que tudo era licito fazer na supposição de que ella não -amava a outro, mas uma vez que ama...</p> - -<p>Luiz Alves, na noite do dia em que recebeu a carta, foi á casa da -baroneza, que o recebeu com o melhor de seus sorrisos. A felicidade -de Guiomar fazia-a completamente feliz; nem iras, nem resentimentos, -como annunciara Mrs. Oswald. Todo o castello de cartas caíra por terra, -desde que a sinceridade da baroneza interveiu.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h4><a name="XIX" id="XIX">XIX</a></h4> - - -<h4>Conclusão.</h4> - - -<p>Marcado o casamento para dous mezes depois, todo o tempo de intervallo -foi despendido pelos noivos naquelle deleitoso viver, que já não é o -colloquio furtivo do simples namoro, nem é ainda a intimidade conjugal, -mas um estado intermedio e consentido, em que os corações podem -entornar-se livremente um no outro. Aquelles não tinham nada do amor -extatico e romanesco de Estevão, mas amavam sinceramente, ella ainda -mais do que elle, e tão feliz um como outro.</p> - -<p>A gente que os conhecia commentou de todos os modos e feitios aquelle -caso inesperado, e a mais de um roeu a inveja do favor com que o ceu -tratára a Luiz Alves. A gentileza e a elegancia da moça não encontravam -objecção no espirito de ninguem; todos as confessavam e applaudiam, -porque até o silencio mortificado de algumas bellezas rivaes, se -porventura as havia,—era tambem applauso e do melhor. Quanto ao -caracter de Guiomar, divergiam muito as apreciações; e um dia, em que -Luiz Alves lhe contava uns trechos de conversa ouvidos a furto, e de -que era objecto a noiva, ella pareceu reflectir longo tempo, e emfim -respondeu:</p> - -<p>—Não admira que haja tanta opinião differente; é natural, porque nunca -vulgarisei o meu espirito. Entretanto, a opinião dos outros importa-me -pouco; eu quizera saber a sua.</p> - -<p>—A minha é que é um anjo.</p> - -<p>Guiomar fez um gesto gracioso de enfado, como quem não esperava -aquelle comprimento velho e commum, aliás eternamente, novo,—porque -não ha outro mais prompto e mais bello nas nossas linguas christãs. -O noivo sorriu, mas nada lhe disse, e todavia podia dizer-lhe alguma -cousa,—aquillo, pelo menos, que o leitor lhe ouviu n'um dos capitulos -anteriores.</p> - -<p>—Se não sabe o que sou,—continuou Guiomar,—eu mesmo o direi, para -que se não case commigo assim de emboscada, e não lhe aconteça unir-se -a um demonio, suppondo que é um anjo...</p> - -<p>—Um demonio! exclamou Luiz Alves rindo.</p> - -<p>—Nem mais nem menos, retrucou ella rindo tambem. Saiba pois que sou -muito senhora da minha vontade, mas pouco amiga de a exprimir; quero -que me adivinhem e obedeçam; sou tambem um pouco altiva, ás vezes -caprichosa, e por cima de tudo isto tenho um coração exigente. Veja se -é possível encontrar tanto defeito junto.</p> - -<p>Luiz Alves respondeu que eram tudo qualidades excellentes, e esteve -quasi a dizer que lhe faltava mencionar ainda outra, que era a -fundamental de todas; preferiu alludir a ella depois do casamento.</p> - -<p>O casamento effectuou-se, no dia marcado, com as solemnidades do -estylo. A manhã daquelle dia trajava um manto de neblina cerrada, que -o nosso inverno lhe poz aos hombros, como para resguardal-a do rigor -benigno da temperatura, manto que ella sacudiu dalli a nada, afim de se -mostrar qual era, uma deliciosa e fresca manhã fluminense. Não tardou -que o sol batesse de chapa nas aguas tranquillas e azues, e nessas -collinas onde o verde natural ia alternado com a alvura das habitações -humanas. Vento nenhum; apenas uma aragem, branda e fresca, que parecia -o ultimo respirar da noite já remota, e que só a trechos agitava as -folhas do arvoredo.</p> - -<p>A chacara naquelle dia era a mesma que nos outros, mas Guiomar -achou-lhe um aspecto novo e melhor, uma como expansão divina que -animava as cousas em redor della. Toda a alma feliz é pantheista; -parece-lhe que Deus lhe sorri de dentro da flor que desabrocha, do -fundo da agua que serpeia murmurando, e até de envolta com o cipó -humilde e rustico, ou no seixo bronco e despresado do chão. Era assim a -alma de Guiomar naquella manhã. Nunca as arvores, as flores, a gramma -rasteira lhe pareceram mais vecejantes; o sentimento interno hauria -aquella vida exterior, do mesmo modo que o pulmão bebia o puro ar -matinal.</p> - -<p>De envolta com essas sensações communs a toda a alma, havia ainda as -que eram della,—della, que via alli o seu ultimo sol de moça solteira -e contemplava por antecipação a aurora nova, o dia longo e feliz de -suas férvidas ambições. Neste ponto despia a sua fantazia as azas de -folha agreste, com que andara a pairar no meio daquella vegetação, para -envergar outras de seda e brocado, e voar sabe Deus a que sitios de -grandeza humana.</p> - -<p>O acaso quiz que naquella manhã vestisse o mesmo roupão com que Estevão -a vira do outro lado da cerca, e trouxesse no collo e nos pulsos o -mesmo broche e os mesmos botões de saphira. Não tinha o livro; mas, -em falta desta circumstancia, havia outra, que era a mesma daquella -celebre manhã, havia uns olhos que do outro lado do cerca a espreitavam -namorados. Não eram, porém, os mesmos; eram os do noiva, com quem ella -foi encontrar o seus;—e o mais doloroso de tudo é que nem a cerca, nem -os demais accessorios, nada lhe lembrou o outro homem que morria por -ella. A felicidade é isto mesmo; raro lhe sobra memoria para as dores -alheias.</p> - -<p>Não menos alegre do que ella parecia a baroneza naquelle dia. De longe -em longe surgia-lhe na memoria a ideia do sobrinho, mas já não havia -tristeza de não ter effectuado o casamento, como desejára; tão leve -foi o golpe em Jorge e tão indifferente andava elle, que a boa senhora -comprehendeu que o amor, se existira, não era grande, e sobretudo não -perdurou; a ideia de que isto mesmo podia acontecer-lhe ao cabo de seis -semanas de casado, fel-a dar graças a Deus do nenhum exito de seus -planos.</p> - -<p>Mrs. Oswald egualmente se mostrava feliz,—talvez ainda mais, porque -era-o apparatosamente, como se quizesse resgatar as passadas culpas. -Guiomar entendia a intenção latente das manifestações ruidosas com que -ella andava a felicital-a e bajula-la; mas o dia não era de rancores -nem de resentimentos, e ella recebia sorrindo as cortezanices da -ingleza.</p> - -<p>O casamento fez-se, emfim. As lagrimas que a baroneza derramou, quando -viu Guiomar ligada para sempre, foram as mais bellas joias que lhe -podia dar. Nenhuma mãe as verteu mais sinceras; e, seja dito em honra -de Guiomar, nenhuma filha as recebeu mais dentro do coração.</p> - -<p>Na noite do casamento, quem olhasse para o lado do mar, veria pouco -distante dos grupos de curiosos, attrahidos pela festa de uma casa -grande e rica, um vulto de homem sentado sobre uma lagea que acaso -topára alli. Quem está affeito a ler romances, e leu esta narrativa -desde o começo, suppõe logo que esse homem podia ser Estevão. Era elle. -Talvez o leitor, em lance identico, fosse refugiar-se em sítio tão -remoto, que mal podesse acompanhal-o a lembrança do passado. A alma de -Estevão sentiu uma necessidade cruel e singular, o gosto de revolver -o ferro na ferida, uma cousa a que chamaremos—voluptuosidade da dor, -em falta de melhor donominação. E foi para alli, contemplar com os -indifferentes e ociosos aquella casa onde reinava o goso e a vida, e -naquella hora que lhe afundava o passado e o futuro de que vivera. Não -o retinha a constancia do stoico; pela face emmagrecida e pallida lhe -corriam as lagrimas derradeiras, e o coração, colhendo as forças que -lhe restavam, batia-lhe forte na arca do peito.</p> - -<p>Defronte delle refulgia de todas as suas luzes a mansão afortunada; -detraz batia a onda lenta e melancolica, e via-se o fundo da enseada, -escuro e triste. Esta disposição do logar servia ao plano que elle -concebera, e era nada menos do que matar-se alli mesmo, quando já não -pudesse soffrer a dor, especie de vingança ultima que queria tomar -dos que o faziam padecer tanto, complicando-lhes a felicidade com um -remorso.</p> - -<p>Mas este plano não podia realisar-se, pela razão de que era mais um -devaneio, que se lhe dissipou como os outros. A frouxidão do animo -negou-lhe essa ultima ambição. Os olhos podiam fitar a morte, como -podiam encarar a fortuna; mas faltavam-lhe os meios de caminhar a -ella. Esteve alli, pois, até o fim; e em vez de mergulhar na agua e no -nada, como delineára, regressou tristemente para casa, tropego como um -ebrio, deixando alli a sua mocidade toda, porque a que levava era uma -cousa descolorida e sêcca, esteril e morta. Os annos passaram depois, -e á medida que vinham, ia-se Estevão afundando no mar vasto e escuro -da multidão anonyma. O nome, que não passara da lembrança dos amigos, -ahi mesmo morreu, quando a fortuna o distanceou delles. Se elle ainda -vegeta em algum recanto da capital, ou se acabou em alguma villa do -interior, ignora-se.</p> - -<p>O destino não devia mentir nem mentiu á ambição de Luiz Alves. Guiomar -acertara; era aquelle o homem forte. Um mez depois de casados, como -elles estivessem a conversar do que conversam os recem-casados, que -é de si mesmos, e a relembrar a curta campanha do namoro, Guiomar -confessou ao marido que naquella occasião lhe conhecera todo o poder da -sua vontade.</p> - -<p>--Vi que você era homem resoluto, disse a moça a Luiz Alves, que, -assentado, a escutava.</p> - -<p>—Resoluto e ambicioso, ampliou Luiz Alves sorrindo; você deve ter -percebido que sou uma e outra cousa.</p> - -<p>—A ambição não é defeito.</p> - -<p>—Pelo contrario, é virtude; eu sinto que a tenho, e que hei de faze-la -vingar. Não me fio só na mocidade e na força moral; fio-me tambem em -você, que ha de ser para mim uma força nova.</p> - -<p>—Oh! sim! exclamou Guiomar.</p> - -<p>E com um modo gracioso continuou:</p> - -<p>—Mas que me dá você em paga? um logar na camara? uma pasta de ministro?</p> - -<p>—O lustre do meu nome, respondeu elle.</p> - -<p>Guiomar, que estava de pé defronte delle, com as mãos prezas nas -suas, deixou-se cair lentamente sobre os joelhos do marido, e as duas -ambições trocaram o osculo fraternal. Ajustavam-se ambas, como se -aquella luva tivesse sido feita para aquella mão.</p> - - -<h4>FIM</h4> - - -<hr class="full" /> -<p style="text-align: center;"> -<a id="INDICE"></a>INDICE<br /> -<br /> -<a href="#ADVERTENCIA_DE_1907">Advertência de 1907</a><br /> -<a href="#ADVERTENCIA_DE_1874">Advertência de 1874</a><br /> -</p> - -<div> -<table border="0" cellpadding="2" cellspacing="0" summary=""> -<tr><td align="left"></td><td align="right">I.</td><td align="left">—</td><td align="left"><a href="#I">O fim da carta</a></td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right">II.</td><td align="left">—</td><td align="left"><a href="#II">Um roupão</a></td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right">III.</td><td align="left">—</td><td align="left"><a href="#III">Ao pé da cerca</a></td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right">IV.</td><td align="left">—</td><td align="left"><a href="#IV">Latet anguis</a></td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right">V.</td><td align="left">—</td><td align="left"><a href="#V">Meninice</a></td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right">VI.</td><td align="left">—</td><td align="left"><a href="#VI">post-scriptum</a></td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right">VII.</td><td align="left">—</td><td align="left"><a href="#VII">Um rival</a></td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right">VIII.</td><td align="left">—</td><td align="left"><a href="#VIII">Golpe</a></td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right">IX.</td><td align="left">—</td><td align="left"><a href="#IX">Conspiração</a></td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right">X.</td><td align="left">—</td><td align="left"><a href="#X">A revelação</a></td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right">XI.</td><td align="left">—</td><td align="left"><a href="#XI">Luiz Alves</a></td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right">XII.</td><td align="left">—</td><td align="left"><a href="#XII">A viagem</a></td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right">XIII.</td><td align="left">—</td><td align="left"><a href="#XIII">Explicações</a></td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right">XIV.</td><td align="left">—</td><td align="left"><a href="#XIV">Ex-abrupto</a></td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right">XV.</td><td align="left">—</td><td align="left"><a href="#XV">Embargos de terceiro</a></td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right">XVI.</td><td align="left">—</td><td align="left"><a href="#XVI">A confissão</a></td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right">XVII.</td><td align="left">—</td><td align="left"><a href="#XVII">A carta</a></td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right">XVIII.</td><td align="left">—</td><td align="left"><a href="#XVIII">A escolha</a></td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right">XIX.</td><td align="left">—</td><td align="left"><a href="#XIX">Conclusão</a></td></tr> -</table></div> - - - - - - - - -<pre> - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of A Mao e A Luva, by Machado de Assis - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MAO E A LUVA *** - -***** This file should be named 53101-h.htm or 53101-h.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/5/3/1/0/53101/ - -Produced by Laura Natal Rodriguez and Marc D'Hooghe at -Free Literature (online soon in an extended version, also -linking to free sources for education worldwide ... MOOC's, -educational materials,...) Images generously made available -by the Bodleian Library, Oxford. - - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm -concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, -and may not be used if you charge for the eBooks, unless you receive -specific permission. If you do not charge anything for copies of this -eBook, complying with the rules is very easy. You may use this eBook -for nearly any purpose such as creation of derivative works, reports, -performances and research. They may be modified and printed and given -away--you may do practically ANYTHING in the United States with eBooks -not protected by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the -trademark license, especially commercial redistribution. - -START: FULL LICENSE - -THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE -PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK - -To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase "Project -Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg-tm License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. - -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project -Gutenberg-tm electronic works - -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all -the terms of this agreement, you must cease using and return or -destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your -possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a -Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound -by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the -person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph -1.E.8. - -1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be -used on or associated in any way with an electronic work by people who -agree to be bound by the terms of this agreement. 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Email contact links and up to -date contact information can be found at the Foundation's web site and -official page at www.gutenberg.org/contact - -For additional contact information: - - Dr. Gregory B. Newby - Chief Executive and Director - gbnewby@pglaf.org - -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide -spread public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. - -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. 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