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-The Project Gutenberg EBook of A Mao e A Luva, by Machado de Assis
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
-to check the laws of the country where you are located before using this ebook.
-
-
-
-Title: A Mao e A Luva
-
-Author: Machado de Assis
-
-Release Date: September 20, 2016 [EBook #53101]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: ISO-8859-1
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MAO E A LUVA ***
-
-
-
-
-Produced by Laura Natal Rodriguez and Marc D'Hooghe at
-Free Literature (online soon in an extended version, also
-linking to free sources for education worldwide ... MOOC's,
-educational materials,...) Images generously made available
-by the Bodleian Library, Oxford.
-
-
-
-
-
-
-A MÃO
-
-E
-
-A LUVA
-
-De
-
-MACHADO DE ASSIS
-
-da Academia Brasileira
-
-Livraria Garnier
-
-109, Rua do Ouvidor,109
-RIO DE JANEIRO
-
-6, Rue des Saints-Pères, 6
-PARIS
-
-
-COLLECÇÃO DOS AUTORES CELEBRES
-
-DA
-
-LITTERATURA
-
-1919
-
-
-
-
-ADVERTÊNCIA DE 1907
-
-Os trinta e tantos annos decorridos do apparecimento desta novella
-á reimpressão que ora se faz parece que explicam as differenças de
-composição e de maneira do autor. Se este não lhe daria agora a mesma
-feição, é certo que lh'a deu outr'ora, e, ao cabo, tudo pode servir a
-definir a mesma pessoa.
-
-Não existia, ha muito, no mercado. O autor acceitou o conselho de
-confiar a reimpressão ao editor dos outros livros seus. Não lhe
-alterou nada; apenas emendou erros typographicos, fez correcções de
-orthographia, e eliminou cerca de quinze linhas. Vae como saiu em 1874.
-
-M. DE A.
-
-
-
-ADVERTÊNCIA DE 1874
-
-Ésta novella, sugeita ás urgências da publicação diaria, saiu das mãos
-do autor capitulo a capitulo, sendo natural que a narração e o estylo
-padecessem com esse methodo de composição, um pouco fóra dos hábitos
-do autor. Se a escrevêra em outras condições, dera-lhe desenvolvimento
-maior, e algum colorido mais aos caracteres, que ahi ficam esboçados.
-Convem dizer que o desenho de taes caracteres,--o de Guiomar,
-sobretudo,--foi o meu objecto principal, senão exclusivo, servindo-me a
-acção apenas de tela em que lancei os contornos dos perfis. Incompletos
-embora, terão elles saido naturaes e verdadeiros?
-
-Mas talvez estou eu a dar proporções muito graves a uma cousa de tão
-pequeno tomo. O que ahi vae são umas poucas paginas que o leitor
-esgotará de um trago, se ellas lhe aguçarem a curiosidade ou se lhe
-sobrar alguma hora que absolutamente não possa empregar em outra
-cousa,--mais bella ou mais util.
-
-Novembro de 1814.
-
-M. DE A.
-
-
-
-
-A MÃO E A LUVA
-
-
-
-
-I
-
-
-O fim da carta.
-
-
---Mas que pretendes fazer agora?
-
---Morrer.
-
---Morrer? Que ideia! Deixa-te disso, Estevão. Não se morre por tão
-pouco....
-
---Morre-se. Quem não padece estas dores não as póde avaliar. O golpe
-foi profundo, e o meu coração é pusillanime; por mais aborrecivel que
-pareça a ideia da morte, peior, muito, peior do que ella, é a de viver.
-Ah! tu não sabes o que isto é?
-
---Sei: um namoro gorado....
-
---Luiz!
-
---.... E se em cada caso de namoro gorado morresse um homem, tinha já
-diminuído muito o genero humano, e Malthus perderia o latim. Anda, sobe.
-
-Estevão metteu a mão nos cabellos com um gesto de augustia; Luiz
-Alves sacudiu a cabeça e sorriu. Achavam-se os dous no corredor da
-casa de Luiz Alves, á rua da Constituição,--que então se chamava dos
-Ciganos;--então, isto é, em 1853, uma bagatella de vinte annos que lá
-vão, levando talvez comsigo as illusões do leitor, e deixando-lhe em
-troca (usurarios!) uma triste, crua e desconsolada experiencia.
-
-Eram nove horas da noite; Luiz Alves recolhia-se para casa, justamente
-no occasião em que Estevão o ia procurar; encontraram-se á porta. Alli
-mesmo lhe confiou Estevão tudo o que havia, e que o leitor saberá daqui
-a pouco, caso não aborreça estas historias de amor, velhas como Adão,
-e eternas como o ceu. Os dous amigos demoraram-se ainda algum tempo no
-corredor, um a insistir com o outro para que subisse, o outro a teimar
-que queria ir morrer, tão tenazes ambos, que não haveria meio de os
-vencer, se a Luiz não occoresse uma transacção.
-
---Pois sim, disse elle, convenho em que deves morrer, mas ha de ser
-amanhã. Cede da tua parte, e vem passar a noite commigo. Nestas ultimas
-horas que tens de viver na terra dar-me-has uma lição de amor, que eu
-te pagarei com outra de philosophia.
-
-Dizendo isto, Luiz Alves travou do braço de Estevão, que não resistiu
-dessa vez, ou porque a ideia da morte não se lhe houvesse entranhado
-deveras no cerebro, ou porque cedesse ao doloroso gosto de falar da
-mulher amada, ou, o que é mais provavel, por esses dous motivos juntos.
-Vamos nós com elles, escada acima, até a sala de visitas, onde Luiz foi
-beijar a mão de sua mãe.
-
---Mamãe, disse elle, hade fazer-me o favor de mandar o chá ao meu
-quarto; o Estevão passa a noite commigo.
-
-Estevão murmurou algumas palavras, a que tentou dar um ar de gracejo,
-mas que eram funebres como um cypreste. Luiz viu-lhe então, á luz
-das estearinas, alguma vermelhidão nos olhos, e adivinhou,--não
-era difficil,--que houvesse chorado. Pobre rapaz! suspirou elle
-mentalmente. D'alli foram os dous para o quarto, que era uma vasta
-sala, com tres camas, cadeiras de todos os feitios, duas estantes
-com livros e uma secretaria,--vindo a ser ao mesmo tempo, alcova e
-gabinette, de estudo.
-
-O chá subiu dahi a pouco. Estevão, a muito rogo do hospede, bebeu dous
-goles; accendeu um cigarro e entrou a passear ao longo do aposento,
-em quanto Luiz Alves, preferindo um charuto e um sophá, accendeu o
-primeiro e estirou-se no segundo, cruzando beatificamente as mãos sobre
-o ventre e contemplando o bico das chinellas, com aquella placidez
-de um homem a quem se não gorou nenhum namoro. O silencio não era
-completo; ouvia-se o rodar de carros que passavam fóra; no aposento,
-porêm, o unico rumor era dos botins de Estevão na palhinha do chão.
-
-Cursavam estes dous moços a academia de S. Paulo, estando Luiz Alves,
-no quarto anno e Estevão no terceiro. Conheceram-se na academia, e
-ficaram amigos intimos, tanto quanto podiam sel-o dous espiritos
-differentes, ou talvez por isso mesmo que o eram. Estevão, dotado de
-extrema sensibilidade, e não menor fraqueza de animo, affectuoso e
-bom, não daquella bondade varonil, que é apanagio de uma alma forte,
-mas dessa outra bondade molle e de cera, que vai á mercê de todas as
-circumstancias, tinha, além de tudo isso, o infortunio de trazer ainda
-sobre o nariz os oculos côr de rosa de suas virginaes illusões. Luiz
-Alves via bem com os olhos da cara. Não era mau rapaz, mas tinha o seu
-grão de egoismo, e se não era incapaz de affeições, sabia regel-as,
-moderal-as, e sobretudo guial-as ao seu proprio interesse. Entre estes
-dous homens travara-se amizade intima, nascida para um na sympathia,
-para outro no costume. Eram elles os naturaes confidentes um do outro,
-com a differença que Luiz Alves dava menos do que recebia, e, ainda
-assim, nem tudo o que dava exprimia grande confiança.
-
-Estevão referira ao amigo, desde tempos, toda a historia do amor,
-agora mallogrado, suas esperanças, desalentos e glorias, e, emfim,
-o inesperado desfecho. O pobre rapaz, que folheava o capitulo mais
-delicioso do romance--no sentir delle--caiu de toda a altura das
-illusões na mais dura, prosaica e miseravel realidade.
-
-A namorada de Estevão,--é tempo de dizer alguma cousa della,--era uma
-moça de 17 annos, e, por ora, simples alumna-professora no collegio de
-uma tia do nosso estudante, á rua dos Invalidos. Estevão tinha-a visto,
-pela primeira vez, seis mezes antes, e desde logo sentiu-se preso por
-ella, «até á morte», disse elle ao amigo, referindo-lhe o encontro,
-o que o fez sorrir de tão estirado prazo. Qualquer que elle fosse,
-porém, o prazo fatal daquelle captiveiro, a verdade é que Estevão no
-mesmo ponto em que a viu logo a amou, como se ama pela primeira vez na
-vida--amor um pouco estouvado e cego, mas sincero e puro. Amava-o ella?
-Estevão dizia que sim, e devia crel-o; alguns olhares ternos, meia
-duzia de apertos de mão significativos, embora a largos intervallos,
-davam a entender que o coração de Guiomar--chamava-se Guiomar--não era
-surdo á paixão do academico. Mas, fora disso, nada mais, ou pouco mais.
-
-O pouco mais foi uma flor, não colhida do pé em toda a original
-frescura, mas já murcha e sem cheiro, e não dada, senão pedida.
-
---Faz-me um favor? disse um dia Estevão apontando para a flor que
-ella trazia nos cabellos; esta flor está murcha, e, naturalmente, vai
-deital-a fóra ao despentear-se; eu desejava que m'a désse.
-
-Guiomar, sorrindo, tirou a flor do cabello, e deu-lh'a; Estevão
-recebeu-a com egual contentamento ao que teria se lhe antecipassem o
-seu quinhão do ceu. Além da flor, e para supprir as cartas, que não
-havia, nada mais obtivera. Estevão durante aquelles seis compridos
-mezes, a não serem os taes olhares, que afinal são olhares, e vão-se
-com os olhos donde vieram. Era aquillo amor, capricho, passatempo ou
-que outra cousa era?
-
-Naquella tarde, a tarde fatal, estando ambos a sós, o que era raro e
-difficil, disse-lhe elle que em breve ia voltar para S. Paulo, levando
-comsigo a imagem della, e pedindo-lhe em cambio, que uma vez ao menos
-lhe escrevesse. Guiomar franziu a testa e fitou nelle o seu magnifico
-par de olhos castanhos, com tanta irritação e dignidade, que o pobre
-rapaz ficou attonito e perplexo. Imagina-se a augustia delle diante
-do silencio que reinou entre ambos por alguns segundos; o que se não
-imagina é a dor que o prostrou,--a dor e o espanto,--quando ella,
-erguendo-se da cadeira em que estava, lhe respondeu, saindo:
-
---Esqueça-se disso.
-
---Pois quanto a mim,--disse Luiz Alves ouvindo pela terceira vez a
-narração de tão cru desenlace; quanto a mim, obedecia-lhe pontualmente;
-esquecia-me disso e ia curar-me cima dos compendios; direito romano e
-philosophia, não conheço remedio melhor para taes achaques.
-
-Estevão não ouvia as palavras do amigo; estava então assentado na cama,
-com os cotovellos fincados nas pernas, e a cabeça mettida nas mãos,
-parecendo que chorava. A principio chorou em silencio; mas não tardou
-que Luiz Alves o visse deitar-se na cama, estorcer-se convulsivamente,
-a soluçar, a abafar quanto podia os gritos que lhe saiam do peito,
-a puxar os cabellos, a pedir a morte, tudo entremeado com o nome de
-Guiomar, tão d'alma tudo aquillo, tão lastimosamente natural, que emfim
-o commoveu, e não houve remedio se não dizer-lhe algumas palavras de
-conforto. A consolação veiu a tempo; a dor, chegada ao paroxismo,
-declinou pouco a pouco, e as lagrimas estancaram, ao menos por algum
-tempo.
-
---Sei que tudo isto hade parecer-te ridículo, disse Estevão sentando-se
-na cama; mas que queres tu? Eu vivia na persuasão de que era amado, e
-era-o talvez. Por isso mesmo não entendo o que se passou hoje. Ou o que
-eu suppunha ser amor, não passava talvez de passatempo ou zombaria...
-
---Talvez, talvez, interrompeu Luiz Alves, comprehendendo que o melhor
-meio de o curar do amor era metter-lhe em brios o amor-proprio.
-
-Estevão ficou alguns instantes pensativo.
-
---Não, não, é possível, contestou elle. Tu não a conheces. É uma grave
-e nobre creatura, incapaz de conceber um sentimento desses, que seria
-vulgar ou cruel.
-
---As mulheres...
-
---Já pensei se aquillo de hoje não seria uma maneira de
-experimentar-me, de ver até que ponto eu lhe queria... Escusas de
-rir-te, Luiz; eu nada affirmo; digo que pode ser. Não admira que ella
-fizesse esse calculo,--um bom calculo, nesse caso, todo filho do
-coração...
-
-A imaginação de Estevão desceu por este declivio de floridas
-conjecturas, e Luiz Alves entendeu que era de bom aviso não
-espantar-lhe os cavallos. Ella foi, foi, foi por alli abaixo,
-redea frouxa e riso nos labios. Boa viagem! exclamou mentalmente o
-collega voltando a estirar-se no sophá. A viagem não foi longa, mas
-produziu effeito salutar no animo do namorado, adoçando-lhe as penas,
-circumstancia que Luiz Alves aproveitou para lhe falar de cem cousas
-alheias ao coração e divertil-o do pensamento que o absorvia. Conseguiu
-o seu intento durante meia hora, e conseguiu mais, por que fez com
-que o collega risse, a principio de um riso amargo e dubio, depois
-de um riso jovial e franco incompatível com intuitos tragicos. Mas,
-ai triste! a dor delle era uma especie de tosse moral, que aplacava
-e reapparecia, intensa ás vezes, ás vezes mais fraca, mas sempre
-infallivel. O rapaz acertara de abrir uma pagina de _Werther_; leu meia
-duzia de linhas, e o accesso voltou mais forte que nunca.
-
-Luiz Alves acudiu-lhe com as pastilhas da consolação; o accesso passou;
-nova palestra, novo riso, novo desespero, e assim se foram escoando
-as horas da noite, que o relogio da sala de jantar batia secca e
-regularmente, como a lembrar aos dous amigos que as nossas paixões não
-acceleram nem moderam o passo do tempo.
-
-A aurora para os dous academicos coincidiu com as badaladas do meio
-dia, o que não admira, pois só adormeceram quando ella começava
-a apagar as estrellas. Estevão passou a noite,--a manhã, quero
-dizer,--muito socegado e livre de sonhos maus. Quando abriu os olhos
-extranhou o aposento e os objectos que o rodeavam. Logo que os
-reconheceu, despertou-se-lhe, com a memoria, o coração, onde já não
-havia aquella dor aguda da vespera. Os successos, embora recentes,
-começavam a envolver-se na sombra crepuscular do passado.
-
-A natureza tem suas leis imperiosas; e o homem, ser complexo, vive não
-só do que ama, mas também (fôrça é dizel-o) do que come. Sirva isto de
-excusa ao nosso estudante, que almoçou nesse dia, como nos anteriores,
-bastando dizer em seu abono que, se o não fez com lagrimas, também o
-não fez alegre. Mas o certo é que a tempestade serenara; o que havia
-era uma ressaca, ainda forte, mas que diminuiria com o tempo. Luiz
-Alves evitou falar-lhe de Guiomar; Estevão foi o primeiro a recordar-se
-della.
-
---Dá tempo ao tempo, respondeu Luiz Alves, e ainda te has de rir
-dos teus planos de hontem. Sobretudo, agradece ao destino o haveres
-escapado tão depressa. E queres um conselho?
-
---Dize.
-
---O amor é uma carta, mais ou menos longa, escripta em papel velino,
-córte-dourado, muito cheiroso e catita; carta de parabens quando se lê,
-carta de pezames quando se acabou de ler. Tu que chegaste ao fim, põe a
-epistola no fundo da gaveta, e não te lembres de ir ver se ella tem um
-«post-scriptum»...
-
-Estavão applaudiu a metaphora com um sorriso de bom agouro.
-
-Duas vezes viu elle a formosa Guiomar, antes de seguir para S. Paulo.
-Da primeira sentiu-se ainda abalado, por que a ferida não cicatrisara
-de todo; da segunda, pôde encaral-a sem perturbação. Era melhor,--mais
-romantico pelo menos, que eu o puzesse a caminho da academia, com o
-desespero no coração, lavado em lagrimas, ou a bebel-as em silencio,
-como lhe pedia a sua dignidade de homem. Mas que lhe hei de eu fazer?
-Elle foi daqui com os olhos enxutos, distrahindo-se dos tedios da
-viagem com alguma pilheria de rapaz,--rapaz outra vez, como dantes.
-
-
-
-
-II
-
-
-Um roupão.
-
-
-Um mez depois de chegar Estevão a S. Paulo, achava-se a sua paixão
-definitivamente morta e enterrada, cantando elle mesmo um responso,
-a vozes alternadas, com duas ou tres moças da capital,--todas ellas,
-por passatempo. Claro é que dous annos depois, quando tomou o grão de
-bacharel, nenhuma ideia lhe restava do namoro da rua dos Invalidos.
-Demais, a bella Guiomar desde muito tempo deixara o collegio e fora
-morar com a madrinha. Já elle a não vira da primeira vez que veiu á
-corte. Agora voltava graduado em sciencias juridicas e sociaes, como
-fica dito, mais desejoso de devassar o futuro que de reler o passado.
-
-A corte divertia-se, como sempre se divertiu, mais ou menos, e para
-os que transpuzeram a linha dos Cincoenta divertia-se mais do que
-hoje, eterno reparo dos que já não dão á vida toda a flor dos seus
-primeiros annos. Para os varões maduros, nunca a mocidade folga como
-no tempo delles, o que é natural dizer, porque cada homem vê as cousas
-com os olhos da sua edade. Os recreios da juventude não são de certo
-egualmenle nobres, nem egualmente frivolos, em todos os tempos; mas a
-culpa ou o merecimento não é della,--a pobre juventude,--é sim do tempo
-que lhe cae em sorte.
-
-A corte divertia-se, apesar dos recentes estragos do cholera--;
-bailava-se, cantava-se, passeava-se, ia-se ao theatro. O Cassino abria
-os seus salões, como os abria o Club, como os abria o Congresso, todos
-tres fluminenses no nome e na alma. Eram os tempos homericos do theatro
-lyrico, a quadra memoravel daquellas lutas e rivalidades renovadas em
-cada semestre, talvez por um excesso de ardor e enthusiasmo, que o
-tempo diminuiu, ou transferiu,--Deus lhe perdôe,--a cousas de menor
-tomo. Quem se não lembra,--ou quem não ouviu falar das batalhas
-feridas naquella classica plateia do Campo da Acclamação, entre a
-legião casalonica e a phalange chartonica, mas sobretudo entre esta e
-o regimento lagruista? Eram batalhas campaes, com tropas frescas,--e
-maduras tambem,--apercebidas de flores, de versos, de coroas, e até
-de estalinhos. Uma noite a acção travou-se entre o campo lagruista
-e o campo chartonista, com tal violencia, que parecia uma pagina da
-_Illiada._ Desta vez, a Venus da situação saiu ferida do combate;
-um estalo rebentára no rosto da Charton. O furor, o delirio, a
-confusão foram indescriptiveis; o applauso e a pateada deram-se
-as mãos,--e os pés. A peleja passou aos jornaes. «Vergonha eterna
-(dizia um) aos cavalheiros que cuspiram na face de uma dama!»--«Si
-for mister (replicava outro) daremos os nomes dos aristarchos que
-no saguão do theatro juraram desfeitear Mlle. Lagrua.)»--«Patuleia
-desenfreada!»--«Fidalguice balofa!»
-
-Os que escaparam daquellas guerras de alecrim e mangerona hão de sentir
-hoje, após dezoito annos, que despenderam excessivo enthusiasmo em
-cousas que pediam repouso de espirito e lição de gosto.
-
-Estevão é uma das relíquias daquella Troya, e foi um dos mais
-fervorosos lagruistas, antes e depois do grão. A causa principal das
-suas preferencias, era de certo o talento da cantora; mas a que elle
-costumava dar, nas horas de bom humor, que eram todas as vinte e quatro
-do dia, tirantes as do somno, essa causa que mais que tudo o ligava
-aos «arraiaes do bom gosto» dizia elle, era,--imaginem lá,--era o buço
-de Mlle. Lagrua. Talvez não fosse elle o unico amador do buço; mas
-outro mais férvido duvido que houvesse nesta boa cidade. Um chartonista
-machiavelico, aliás escriptor elegante, elevava o tal buço á cathegoria
-de bigode, comprehendendo sagazmente que, se o buço era graça, o bigode
-era excrescencia; e elle nem ao labio da Lagrua queria perdoar.
-
---Oh! aquelle buço! exclamava Estevão nos intervallos de uma opera,
-aquelle delicioso buço hade ser a perdição da gente de bem! Quem me
-dera ir encaracolado por alli acima, até ficar mais proximo do ceu,
-quero dizer dos seus olhos, e ser visto por ella, que me não descobre
-na turba innumeravel dos seus adoradores! Querem saber uma cousa? Alli
-é que ella hade ter a alma, e eu quizera entreter-me com a alma della,
-e dizer-lhe muita cousinha que tenho cá dentro á espera de um buço que
-as queira ouvir.
-
-Estevão era mais ou menos o mesmo homem de dous annos antes. Vinha
-cheirando ainda aos cueiros da Academia, meio estudante e meio doutor,
-alliando em si, como em edade de transição, o estouvamento de um com
-a dignidade do outro. As mesmas chimeras tinha, e a mesmas simplesa
-de coração; só não as mostrára nos versos que imprimiu em jornaes
-academicos, os quaes eram todos repassados do mais puro byronismo,
-moda muito do tempo. Nelles confessava o rapaz á cidade e ao mundo
-a profunda incredulidade do seu espirito, e o seu fastio puramente
-litterario. A collação de grão interrompeu, ou talvez acabou, aquella
-vocação poetica; o ultimo suspiro desse genero que lhe saiu do peito
-foram umas sextilhas á sua _juventude perdida._ Felizmente, que só a
-perdeu em verso; na prosa e na realidade era rapaz como poucos.
-
-Posto fizesse boa figura na academia, mais presava do que amava a
-sciencia do direito. Suas preferencias intellectuaes dividiam-se, ou
-antes abrangiam a polilica e a litteratura, e ainda assim, a politica
-só lhe acenava com o que podia haver litterario nella. Tinha leitura de
-uma e outra cousa, mas leitura veloz e á flor das paginas. Estevão não
-comprehendería nunca este axioma de lord Macaulay--que mais aproveita
-digerir uma lauda que devorar um volume. Não digeria nada; e dahi vinha
-o seu nenhum apego ás sciencias que estudara. Venceu a repugnancia por
-amor proprio; mas, uma, vez dobrado o cabo das Tormentas disciplinares,
-deixou a outros o cuidado de aproar á India.
-
-Suas aspirações políticas deviam naturalmente morrer em germen, não só
-porque lhe minguava o apoio necessario para as arvorecer e fructificar,
-mas ainda por que elle não tinha em si a força indispensavel a todo o
-homem que põe a mira acima do estado em que nasceu. Eram aspirações
-vagas, intermittentes, vaporosas, umas visões legislativas e
-ministeriaes, que tão depressa lhe namoravam a imaginação, como logo
-se esvaeciam, ao resvalar dos primeiros olhos bonitos, que esses, sim,
-amava-os elle deveras. Opiniões não as tinha; alguns escriptos que
-publicara durante a quadra academica eram um complexo de doutrinas de
-toda a casta, que lhe fluctuavam no espirito, sem se fixarem nunca,
-indo e vindo, alçando-se ou descendo, conforme a recente leitura ou a
-actual disposição de espirito.
-
-Por agora militava nas fileiras do lagruismo, com ardor, dedicação
-e fidelidade de bom apostolo. Não era abastado para pagar o luxo de
-uma opinião lyrica; nascera pobre e não tinha parente em boa posição.
-Alguns poucos recursos possuia, provenientes do seu officio de
-advogado, que exercia com o amigo Luiz Alves.
-
-Uma noite assistira á representação de _Othello_, palmeando até romper
-as luvas, acclamando até cansar-lhe a voz, mas acabando a noite
-satisfeito dos seus e de si. Terminado o expectaculo, foi elle, segundo
-costumava, assistir á saida das senhoras, uma procissão de rendas,
-e sedas, e leques, e veus, e diamantes, e olhos de todas as cores e
-linguagens. Estevão era pontual nessas occasiões de espera, e raro
-deixava de ser o ultimo que saía. Tinha agora os olhos pregados em
-outros olhos, não pardos como os delle, mas azues, de um azul-ferrete,
-infelizmente uns olhos casados, quando sentiu alguem bater-lhe no
-hombro, e dizer-lhe baixinho estas palavras:
-
---Larga o pinto, que é das almas.
-
-Estevão voltou-se.
-
---Ah! és tu! disse elle vendo Luiz Alves. Quando chegaste?
-
---Hoje mesmo, respondeu o collega; venho sequioso de musica. Vassouras
-não tem Lagrua nem _Othello_...
-
---Vieste lavar a alma da poeira do caminho, disse Estevão, que, ainda
-falando em prosa, cultivava as suas metaphoras poeticas. Fizeste bem;
-não te perdoaria se preferisses a outra, a lambisgoia, que aqui nos
-querem impingir por grande cousa, e que não chega aos calcanhares do
-buço...
-
-Interrompeu-se. Luiz Alves acabava de comprimentar ceremoniosamente
-alguem que passava; Estevão volveu a cabeça para ver quem era. Era uma
-moça, que elle não chegou a ver, porque já descia as escadas; mas tão
-elegante e gentil que os olhos lhe fuzilaram de admiração.
-
---Algum namoro? perguntou ao amigo.
-
---Não; uma visinha.
-
-A desfilada acabou; sairam os dous e foram dalli cear a um hotel,
-seguindo depois para Botafogo, onde morava Luiz Alves, desde que
-perdera a mãe, alguns mezes antes.
-
-A casa de Luiz Alves ficava quasi no fim da praia de Botafogo, tendo
-ao lado direito outra casa, muito maior e de apparencia rica. A noite
-estava bella, como as mais bellas noites daquelle arrabalde. Havia
-luar, ceu limpido, infinidade de estrellas e a vaga a bater mollemente
-na praia, todo o material, em summa, de uma boa composição poetica, em
-vinte estrophes pelo menos, obrigada a rima rica, com alguns exdruxulos
-rebuscados nos diccionarios. Estevão poetou, mas poetou em prosa, com
-um enthusiasmo legitimo e sincero. Luiz Alves, menos propenso ás cousas
-bellas, preferia a mais util de todas naquella occasião, que era ir
-dormir. Não o conseguiu sem ouvir ao hospede tudo quanto elle pensava
-ácerca daquelle «pinto, que era das almas,» aquelles olhos azues, «
-profundos como o ceu,» exclamava Estevão.
-
-Afinal dormiram ambos; mas, ou fosse porque os taes olhos o
-perseguissem, ainda em sonhos, ou porque extranhasse a cama, ou por que
-o destino assim o resolvera, a verdade é que Estevão dormiu pouco, e,
-cousa rara, accordou logo depois de apparecer a arraiada.
-
-A manhã estava fresca e serena; era tudo silencio, mal quebrado
-pelo bater do mar e pelo chilrear dos passarinhos nas chacaras
-da visinhança. Estevão, amuado por não poder conciliar o somno,
-resolvera-se a ir ver a manhã, de mais perto. Ergueu-se de manso,
-lavou-se, vestiu-se, e pediu que lhe levassem café ao jardim, para onde
-foi sobraçando um livro que acaso topou ao pé da cama.
-
-O jardim ficava nos fundos da casa; era separado da chacara visinha
-por uma cerca. Relanceando os olhos pela chacara, viu Estevão que era
-plantada com esmero e arte, assaz vasta, recortada por muitas ruas
-curvas e duas grandes ruas rectas. Uma destas começava das escadas de
-pedra da casa e ia até o fim da chacara; a outra ia da cerca de Luiz
-Alves até á extremidade opposta, cortando a primeira no centro. Do
-lugar em que ficava Estevão só a segunda rua podia ser vista de ponta a
-ponta.
-
-Sentou-se o bacharel em um banco que alli achou, recebeu a chicara de
-café, que o escravo lhe trouxe dahi a pouco, accendeu um charuto e
-abriu o livro. O livro era uma _Pratica Forense._ Demos-lhe razão ao
-despeito com que o fechou e atirou ao chão, contentando-se com o canto
-dos passaros e o cheiro das flores, e a sua imaginação tambem, que
-valia as flores e os passaros.
-
-Deus sabe até onde iria ella, com as azas faceis que tinha, se um
-incidente lh'as não colhera e fizera descer á terra. Da casa visinha
-saíra um roupão,--elle não viu mais que um roupão,--e seguira pela
-rua que enfrentava com casa, a passo lento e meditativo. Estevão, que
-adorava todos os roupões, fossem ou não meditativos, deu as graças á
-Providencia, pela boa fortuna que lhe deparava, e afiou os olhos para
-contemplar aquella graciosa madrugadora. Graciosa, ainda elle não sabia
-se o era; mas assentou que devia de ser, justamente porque desejava que
-o fosse.
-
-A deliciosa paisagem ia ter emfim uma alma; o elemento humano vinha
-coroar a natureza.
-
-Ergueu-se Estevão, de toda a sua estatura elevada e gentil, para ver
-melhor,--e ser visto, digamos a verdade toda,--aquella desconhecida
-visinha, que devia ser por força a que Luiz Alves comprimentara
-no theatro. Acteon christão e modesto, não sorprehendia Diana no
-banho, mas ao sair delle; todavia, não palpitava menos de commoção e
-curiosidade.
-
-O roupão ia andando.
-
-
-
-
-III
-
-
-Ao pé da cerca.
-
-
-A primeira cousa que Estevão pôde descobrir é que a visinha era
-moça. Via-lhe o perfil, em cada aberta que deixavam as arvores, um
-perfil correcto e puro, como de esculptura antiga. Via-lhe a face côr
-de leite, sobre a qual se destacava a côr escura dos cabellos, não
-penteados de vez, mas frouxamente atados no alto da cabeça, com aquelle
-deleixo matinal que faz mais bellas as mulheres bellas. O roupão,--de
-musselina branca,--finamente bordado, não deixava ver toda a graça do
-talhe, que devia ser e era elegante, dessa elegancia que nasce com a
-creatura ou se apura com a educação, sem nada pedir, ou pedindo pouco
-á thesoura da costureira. Todo o collo ia coberto até o pescoço, onde
-o roupão era preso por um pequeno broche de saphira. Um botão, do
-mesmo mineral, fechava em cada pulso as mangas estreitas e lisas, que
-rematavam em folhos de renda.
-
-Estevão, da distancia e na posição em que se achava, não podia ver
-todas estas minucias que aqui lhes aponto, em desempenho deste meu
-dever de contador de historias. O que elle viu, além do perfil, dos
-cabellos, e da tez branca, foi a estatura da moça, que era alta, talvez
-um pouco menos do que parecia com o vestido roçagante que levava. Pôde
-ver-lhe também um livrinho, aberto nas mãos, sobre o qual pousava os
-olhos, levantando-os de espaço a espaço, quando lhe era mister voltar a
-folha, e deixando-os cair outra vez para embeber-se na leitura.
-
-Ia assim andando, sem cuidar que a visse alguem, tão serena e grave,
-como se atravesára um salão. Estevão, que não tirava os olhos della,
-mentalmente pedia ao ceu a fortuna de a ter mais proxima, e anciava por
-vel-a chegar á rua que lhe ficava diante. Comtudo, era difficil que lhe
-parecesse mais formosa do que era, vista assim de perfil, a escapar
-por entre as arvores. O jovem bacharel, par não perder o sestro dos
-primeiros tempos, avocava todas as suas reminiscencias litterarias; a
-desconhecida foi successivamente comparada a um seraphim de Klopstock,
-a uma fada de Shakespeare, a tudo quanto na memoria delle havia mais
-aereo, transparente, ideial.
-
-Em quanto elle trabalhava o espirito nestas comparações poeticas,
-não descabidas, se quizerem, em tal lugar, e ao pé de tão graciosa
-creatura, ella seguia lentamente e chegara á encrusilhada das duas
-grandes ruas da chacara. Estevão esperava que voltasse á direita, isto
-é, que viesse para o lado delle, mas sobretudo receiava que seguisse
-pela mesma rua adiante e se perdesse no fundo da chacara. A moça
-escolheu um meio termo, voltou á esquerda, dando as costas ao seu
-curioso admirador e continuando no mesmo passo vagaroso e regular.
-
-A chacara não era em demasia grande; e por mais lento que fosse o passo
-da madrugadora, não gastaria ella immenso tempo em percorrer até o fim
-aquella porção da rua em que entrára. Mas alli, ao pé daquelle coração
-juvenil e impaciente, cada minuto parecia, não direi um seculo,--seria
-abusar dos direitos do estylo,--mas uma hora, uma hora lhe parecia, com
-certeza.
-
-A moça entretanto, chegando ao fim, parou alguns instantes, pousou a
-mão nas costas de um banco rustico que alli havia e enfrentava com
-outro, collocado na extremidade opposta. A outra mão descaira-lhe, e os
-olhos tambem, o que magoou o seu curioso observador. Seriam saudades
-de alguem? Estevão sentiu uma cousa, a que chamarei ciume antecipado,
-mas que na realidade eram invejas da alheia fortuna. A inveja é um
-sentimento mau; mas nelle, que nascera para amar, e que, além disso,
-tinha em si o contraste do nascimento com o instincto, um berço obscuro
-e umas aspirações á vida elegante,--nelle a inveja era quasi um
-sentimento desculpavel.
-
-A moça voltou e veiu pela rua adiante. Emfim, disse comsigo Estevão,
-vou contemplal-a de mais perto. Ao mesmo tempo, receioso de que,
-descobrindo alli um extranho, guiasse os passos para casa, Estevão
-afastou-se do logar em que ficára, resoluto a apparecer, quando ella
-estivesse proxima á cerca do jardim. A moça vinha andando com o livro
-fechado, e os olhos ora no chão, ora nas andorinhas e camachilras que
-esvoaçavam na chacara. Se trazia saudades, não se lhe podiam ler no
-rosto, que era quieto e pensativo, sim, mas sem a menor sombra de pena
-ou de tristeza.
-
-Estevão do logar onde estava podia examinar-lhe as feições, sem ser
-visto por ella; mas foi justamente do que não cuidou, desde que
-lh'as pôde distinguir. Valia a pena, entretanto, contemplar aquelles
-grandes olhos castanhos, meio velados pelas longas, finas e bastas
-pestanas, não maviosos nem quebrados, como elle os cuidara ver, mas
-de uma belleza severa, casta e fria. Valia a pena admirar como elles
-communicavam a todo o rosto e o toda a figura um ar de magestade
-tranquilla e senhora de si. Não era ella uma dessas bellezas que, ao
-mesmo tempo, que subjugam o coração, accendem os sentidos; falava á
-intelligencia primeiro do que ao coração, tanto a arte parecia haver
-collaborado com a natureza naquella creatura, meia estatua e meia
-mulher.
-
-Tudo isto podia ver e considerar o nosso bacharel. A verdade, porém, é
-que a nenhuma destas cousas attendeu. Desde que distinguíra as feições
-de moça, ficou como tomado de assombro, com os olhos parados, a bocca
-entreaberta, fugindo-lhe a vida e o sangue todo para o coração.
-
-A moça chegara á cerca; esteve de pé algum tempo, olhou em derredor
-e por fim sentou-se no banco que alli havia, dando as costas para o
-jardim de Luiz Alves. Abriu novamente o livro, e continuou a leitura
-do ponto em que a deixara tão só comsigo, tão embebida no livro que
-tinha deante, que não a despertou o rumor, aliás sumido, dos passos de
-Estevão nas folhas seccas do chão. Teria percorrido meia pagina, quando
-Estevão, reclinando-se sobre a cerca, e procurando abafar a voz para
-que só chegasse aos ouvidos della, proferiu este simples nome:
-
---Guiomar!
-
-A moça soltou um grito de sorpreza e de susto, e voltou-se sobresaltada
-para o lado donde partira a voz. Ao mesmo tempo levantára-se. A
-impressão que lhe produzira, e não sei se tambem algum ar de colera que
-lhe notasse no rosto; e além de tudo, o remorso de não haver suffocado
-aquelle grito de seu coração, fez com que Estevão, quasi no mesmo
-instante murmurasse em tom de súpplica:
-
---Perdoe-me; foi uma scentelha do passado que estava debaixo da cinza:
-apagou-se de todo.
-
-Guiomar,--sabemos agora que era este o seu nome,--olhou séria e
-quieta para o seu mal aventurado interruptor, dous longos e mortaes
-minutos. Estevão, confuso e vexado, tinha os olhos em terra; o coração
-palpitava-lhe com força, como a despedir-se da vida. A situação ora em
-demasia afflictiva e embaraçosa para que se podesse prolongar mais.
-Estevão ia corteja-la e despedir-se; mas a moça, com um sorriso de mais
-piedade que affecto, murmurou:
-
---Está perdoado.
-
-Caminhou para a cerca e estendeu-lhe a mão, que elle apertou,--apertou
-não é bem dito,--em que elle tocou apenas, o mais ceremoniosamente que
-podia e devia naquella situação.
-
-E depois ficaram a olhar um para o outro, sem se atreverem a dizer
-nada, nem a sair dalli, a verem ambos o espectro do passado, aquelle
-tão amargo passado para um delles. Guiomar foi a primeira que rompeu o
-silencio, fazendo a Estevão uma pergunta natural, como não podia deixar
-de ser naquellas circumstancias mas ainda assim, ou por isso mesmo, a
-mais acerba que elle podia ouvir:
-
---Ha dous annos que nos não vemos, creio eu?
-
---Ha dous annos, murmurou Estevão abafando um suspiro.
-
---Já está formado, não? Lembra-me ter lido o seu nome....
-
---Estou formado. Sabe que era o desejo maior de minha tía...
-
---Não a vejo ha muito tempo, interrompeu Guiomar; eu saí do collegio,
-logo depois que o senhor seguiu para S. Paulo. Saí a convite da
-baroneza, minha madrinha, que lá foi buscar-me um dia, allegando que eu
-já não tinha que aprender, e que me não convinha ensinar.
-
---De certo, assentiu Estevão.--Minha tia é que não deixou nem podia
-deixar de ensinar; acabou no officio.
-
---Acabou?
-
---Morreu.
-
---Ah!
-
---Morreu ha cerca de um anno.
-
---Era uma boa creatura, continuou Guiomar, depois de alguns instantes
-de silencio, muito carinhosa e muito prendada. Devo-lhe o que
-aprendi..., Está admirando esta flor?
-
-Estevão, apanhado em flagrante delicto de admiração, não da flor mas da
-mão que a sustinha,--uma deliciosa mão, que devia ser por força a que
-se perdeu da Venus de Milo, Estevão balbuciou:
-
---Com effeito, é linda!
-
---Ha muita flor bonita aqui na chacara. A baroneza tem immenso gesto a
-estas cousas, e o nosso jardineiro é homem que sabe do seu officio.
-
-Aquelle natural acanhamento da primeira occasião foi desapparecendo aos
-poucos, e a conversa veiu a ser, não tão familiar, como outr'ora, mas
-em todo o caso menos fria do que a principio estivera. Havia, comtudo,
-uma differença entre os dous: elle, sem embargo do desembaraço,
-sentia-se abalado e commovido; ella, porém, vencido o sobresalto do
-principio, mostrava-se tranquilla e fria, sempre polida e grave,
-risonha ás vezes, mas de um risonho á flor do rosto, que não lhe
-alterava a serenidade e compostura.
-
-O sitio e a hora eram mais proprios de um idylio, que de uma fria e
-descolorida pratica. Um ceu claro e limpido, um ar puro, o sol a coar
-por entre as folhas uma luz ainda frouxa e tepida, a vegetação em
-derredor, todo aquelle reviver das cousas parecia estar pedindo uma
-egual aurora nas almas. Estas é que deviam falar alli a sua lingua
-dellas, amorosa e candida, em vez da outra, cortez, elegante e rigida,
-que a nenhum delles desprazia, de certo, mas que era muito menos
-volontaria nos labios de Estevão.
-
-Guiomar falava com certa graça, um pouco hirta e pausada, sem viveza,
-nem calor.
-
-Estevão, que a maior parte do tempo ficara a ouvil-a, observava entre
-si que as maneiras da moça não lhe eram desnaturaes, ainda que podiam
-ser calculadas naquella situação. A Guiomar que elle conhecera e amara
-era o embryão da Guiomar de hoje, o esboço do painel agora perfeito;
-faltava-lhe outr'ora o colorido, mas já se lhe viam as linhas do
-desenho.
-
-A conversa durou cerca de tres quartos de hora, uma migalha de tempo
-para elle, que desejara muito mais. Mas era preciso acabar; ella foi a
-primeira a dizer-lh'o.
-
---O senhor fez-me perder muito tempo. Ha talvez uma hora que estamos
-aqui a conversar. Era natural, depois de dous annos. Dous annos! Mas o
-que não era natural, continuou ella mudando de tom, era atrever-me a
-falar com un estranho neste _déshabillé_ tão pouco elegante...
-
---Elegantissimo, pelo contrario.
-
---O senhor tem sempre um comprimento de reserva: vejo que não perdeu
-o tempo na academia. Vou-me embora. São horas da baroneza dar o seu
-passeio pela chacara.
-
---Será aquella senhora que alli está no alto da escada? perguntou
-Estevão.
-
---É ella mesma, respondeu Guiomar. Está á espera que lhe vá dar o braço.
-
-E com um gesto friamente fidalgo, estendeu a mão a Estevão, dizendo:
-
---Passe bem, senhor doutor, estimei vêl-o.
-
-Estevão tocou-lhe levemente na mão, fina e macia, e inclinou-se
-respeitoso. A moça caminhou para casa. Elle acompanhou-a com os olhos,
-admirando a gentileza com que ella, desta vez a passo accelerado,
-resvalava por entre as arvores até subir as escadas da casa. Viu-a
-dar o braço á madrinha, descerem e seguirem vagarosamente pelo mesmo
-caminho por onde Guiomar seguira da primeira vez.
-
-Estevão ainda ficou algum tempo encostado á cerca, na esperança de que
-ella olhasse ou dirigisse os passos para aquelle lado; ella porém,
-passou indifferente, como se nem da existencia delle soubera. Estevão
-retirou-se dalli cabisbaixo e triste, batido de contrários sentimentos,
-cheio de uma tristeza e de uma alegria que mal se combinavam, e por
-cima de tudo isso o éco vago e surdo desta interrogação:
-
---Entro num drama ou saio de uma comedia?
-
-
-
-
-IV
-
-
-Latet anguis.
-
-
-O passeio da baroneza durou pouco mais de meia hora. O sol começava
-a aquecer, e apesar de ser bastante sombreada a chacara, o calor
-aconselhava á boa senhora que se recolhesse. Guiomar deu-lhe o braço, e
-ambas, seguindo pelo mesmo caminho, guiaram para casa.
-
---Parece muito tarde, Guiomar, disse a baroneza ao cabo de alguns
-segundos.
-
---E é, madrinha. Demorei-me hoje mais do que costumo, por causa de um
-encontro que tive aqui na chacara.
-
---Um encontro?
-
---Um homem.
-
---Algum ladrão? perguntou a madrinha parando.
-
---Não, senhora, respondeu Guiomar sorrindo, não era ladrão. A minha
-mestra de collegio... sabe que morreu?
-
---Quem disse isso?
-
---O sobrinho, o tal sugeito que encontrei aqui hoje.
-
---Você está zombando commigo! Um homem na chacara?
-
---Não era bem na chacara, mas no jardim do Dr. Luiz Alves. Estava
-encostado á cerca; trocámos algumas palavras.
-
-A baroneza olhou para ella alguns segundos.
-
---Mas, menina, isso não é bonito. Que diriam se os vissem?... Eu não
-diria nada, porque conheço o que você vale, e sei a discrição que Deus
-lhe deu.--Mas as apparencias....Que qualidade de homem é esse sobrinho?
-
-Interrompeu-as uma mulher de quarenta e quatro a quarenta e cinco
-annos, alta e magra, cabello entre louro e branco, olhos azues,
-aceiadamente vestida, a Sra. Oswald,--ou mais britannicamente, Mrs.
-Oswald,--dama de companhia da baroneza, desde alguns annos. Mrs.
-Oswald conhecêra a baroneza em 1846; viuva e sem familia, acceitou as
-prospostas que esta lhe fez. Era mulher intelligente e sagaz, dotada
-de boa indole e serviçal. Antes da ida de Guiomar para a companhia da
-madrinha, era Mrs. Oswald a alma da casa; a presença de Guiomar, que a
-baroneza amava extremosamente, alterou um pouco a situação.
-
---São nove horas! disse de longe a ingleza; pensei que hoje não queriam
-voltar para casa. O calor está forte; e a senhora baroneza sabe que não
-é conveniente expor-se aos ardores do sol, sobretudo neste tempo de
-epidemias.
-
---Tem razão, Mrs. Oswald; mas Guiomar tardou hoje tanto em ir
-buscar-me, que o passeio começou tarde.
-
---Porque me não mandou chamar?
-
---Estava talvez a dormir, ou entretida com o seu Walter Scott...
-
---Milton, emendou gravemente a ingleza; esta manhã foi dedicada a
-Milton. Que immenso poeta, D. Guiomar!
-
---Tamanho como este calor, observou Guiomar sorrindo. Apertemos o passo
-e lá dentro a ouviremos com melhor disposição.
-
-Foram as tres andando, subiram a escada e entraram na sala de jantar,
-que era vasta, com seis janellas para a chacara. Dalli seguiram para
-uma saleta, onde a baroneza sentou-se na sua poltrona, a esperar a hora
-do almoço. Guiomar saiu para ir cuidar da _toilette_; e a baroneza que
-desde alguns minutos estivera cabisbaixa e pensativa, olhou fixamente
-para Mrs. Oswald, sem dizer palavra.
-
-Era ella uma senhora de cincoenta annos, refeita, vestida com esse
-alinho e esmero da velhice, que é um resto da elegancia da mocidade. Os
-cabellos, côr de prata fosca, emmolduravam-lhe o rosto sereno, algum
-tanto arrugado, não por desgostos, que os não tivera, mas pelos annos.
-Os olhos luziam de muita vida, e eram a parte mais juvenil do rosto.
-
-Tendo casado cedo, coube-lhe a boa fortuna de ser egualemente feliz
-desde o dia do noivado até o da viuvez. A viuvez custara-lhe muito; mas
-já lá iam alguns annos, e da crua dor que tivera ficara-lhe agora a
-consolação da saudade.
-
---Chegue-se mais perto; preciso falar-lhe a sós, disse ella á ingleza,
-que se achava a alguns passos de distancia.
-
-Mrs. Oswald foi ate a porta espreitar se viria alguém e voltou a
-sentar-se ao pé da baroneza. A baroneza estava outra vez pensativa, com
-as mãos crusadas no regaço e os olhos no chão.
-
-Estiveram as duas alli silenciosas alguns dous ou tres minutos. A
-baroneza despertou emfim das reflexões, e voltou-se para a ingleza:
-
---Mrs. Oswald, disse ella, parece estar escripto que não serei
-completamente feliz. Nenhum sonho me falhou nunca; este, porém, não
-passará de sonho, e era o mais bello de minha velhice.
-
---Mas porque desespera? disse a ingleza. Tenha animo, e tudo se hade
-arranjar. Pela minha parte, oxalá pudesse contribuir para a completa
-felicidade desta familia, a quem devo tantos e tamanhos benefícios.
-
---Benefícios!
-
---E que outra cousa são os seus carinhos, a protecção que me tem dado,
-a confiança...
-
---Está bom, está bom, interrompeu affectuasamente a baroneza; falemos
-de outra cousa.
-
---Della, não é? Diz-me o coração que com alguma paciencia tudo se
-alcançará. Todos os meios se hão de tentar; e todos elles são bons
-se se trata de fazer a felicidade sua e della. Bem está o que bem
-acaba, disse um poeta nosso, homem de juizo. Por em quanto só vejo um
-obstaculo: a pouca disposição...
-
---Só esse?
-
---Que outro mais?
-
---Talvez outro, disse a baroneza abaixando a voz; póde ser que não, mas
-tão infeliz sou neste meu desejo, que hade vir a ser obstaculo, talvez.
-
---Mas que é?
-
---Um homem, um moço, não sei quem, sobrinho da mestra que foi de
-Guiomar... Ella mesma contou-me tudo ha pouco.
-
---Tudo o que?
-
---Não sei se tudo; mas emfim disse-me que, estando a passear na
-chacara, vira o tal sobrinho da mestra, junto á cerca do Dr. Luiz
-Alves, e ficara a conversar com elle. Que será isto, Mrs. Oswald?
-Algum amor que continua ou recomeça agora,--agora, que ella já não é a
-simples herdeira da pobreza de seus pais, mas a minha filha, a filha do
-meu coração.
-
-A commoção da baroneza ao proferir estas palavras era tal, que Mrs.
-Oswald pegou-lhe affectuosamente das mãos e procurou conforta-la com
-outras palavras de esperança e confiança. Disse-lhe, além disso, que o
-simples conversar com esse homem, que aliás nenhuma delias conhecia,
-não era razão para suppor uma paixão anterior.
-
---Emfim, concluiu a ingleza, custa-me crer que ella ame a alguem neste
-mundo. Por em quanto estou que não gosta de ninguém, e a nossa vantagem
-não é outra senão essa. Sua afilhada tem uma alma singular; passa
-facilmente do enthusiasmo á frieza, e da confiança ao retrahimento.
-Ha de vir a amar, mas não creio que tenha grandes paixões, ao menos
-duradouras. Em todo o caso, posso responder-lhe actualmente pelo seu
-coração, como se tivesse a chave na minha algibeira.
-
-A baroneza abanou a cabeça.
-
---Quanto a esse homem, continuou Mrs. Oswald, saberemos quem é elle, e
-que relações de affecto houve no passado.
-
---Parece-lhe possivel?
-
---Naturalmente!
-
-A ingleza proferiu esta unica palavra com a segurança necessaria para
-serenar o animo da boa senhora, que ficou algum tempo a olhar pasmada
-para ella, como quem reflectia.
-
---Ha occasiões, disse emfim a baroneza ao cabo de alguns segundos de
-silencio, ha occasiões em que eu quasi chego a sentir remorsos do amor
-que tenho a Guiomar. Ella veiu preencher na minha vida o vacuo deixado
-por aquella pobre Henriqueta, a filha das minhas entranhas, que a morte
-levou comsigno, para mal de sua mãe. Se havia de ser infeliz, melhor é
-que a chore morta, com a esperança de a ir encontrar no ceu. Mas não
-lhe quiz mais, nem talvez tanto, como a esta criança, que levei á pia,
-e de quem Deus me fez mãe...
-
-A baroneza calou-se; ouvira passos no corredor.
-
-Guiomar, embora tivesse ido vestir-se e aprimorar-se, com tão singellos
-meios o fizera, que não desdizia daquelle matinal desalinho em que o
-leitor a viu no capitulo anterior. O penteado era um capricho seu,
-expressamente inventado para realçar a um tempo a abundancia dos
-cabellos e a senhoril belleza da testa. As pontas bordadas de um
-collarinho de cambraia dobravam-se faceiramente sobre o azul do vestido
-de _glacé_, talhado e ornado com uma simplicidade artistica. Isto, e
-pouco mais, era toda a moldura do painel,--um dos mais bellos paineis
-que havia por aquelles tempos em toda a praia de Botafogo.
-
---Viva a minha rainha de Inglaterra! exclamou Mrs. Oswald quando a viu
-assomar á porta da saleta.
-
-E Guiomar sorriu com tanta, satisfação e gôzo ao ouvir-lhe esta
-saudação familiar, que um observador attento hesitaria em dizer se era
-aquillo simples vaidade de moça, ou se alguma cousa mais.
-
-A baroneza poz os olhos na afilhada, uns olhos amorosos e tristes,
-em que a moça reparou, e que a tornaram séria durante alguns rapidos
-segundos. Mas sorriu depois; e pegando das mãos da madrinha deu-lhe
-dous beijos no rosto, com tanta ternura e tão sincera, que a boa
-senhora sorriu de contentamento.
-
---Não precisa falar, disse Guiomar, já sei que me acha bonita. É o
-que me diz todos os dias, com risco de me perder, porque se eu acabo
-vaidosa, adeus, minhas encommendas, ninguem mais poderá commigo.
-
-Guiomar disse isto com tanta graça e singeleza, que a madrinha não
-pôde deixar de rir, e a melancolia acabou de todo. A sineta do almoço
-chamou-as a outros cuidados, e a nós tambem, amigo leitor. Em quanto as
-tres almoçam, relanceemos os olhos ao passado, e vejamos quem era esta
-Guiomar, tão gentil, tão buscada e tão singular, como dizia Mrs. Oswald.
-
-
-
-
-V
-
-
-Meninice.
-
-
-Guiomar tivera humilde nascimento; era filha de um empregado subalterno
-não sei de que repartição do Estado, homem probo, que morreu quando
-ella contava apenas sete annos, legando á viuva o cuidado de a educar
-e manter. A viuva era mulher energica e resoluta, enxugou as lagrimas
-com a manga do modesto vestido, olhou de frente para a situação e
-determinou-se á luta e á victoria.
-
-A madrinha de Guiomar não lhe faltou naquelle duro transe, e olhou por
-ellas, como entendia que era seu dever. A solicitude, porém, não foi
-tão constante a principio como veiu a ser depois; outros cuidados de
-familia lhe chamavam a attenção.
-
-Guiomar annunciava desde pequena as graças que o tempo lhe desabrochou
-e perfez. Era uma creaturinha galante e delicada, assaz intelligente e
-viva, um pouco travêssa, de certo, mas muito menos do que é usual na
-infancia. Sua mãe, depois que lhe morrera o marido, não tinha outro
-cuidado na terra, nem outra ambição mais, que a de ve-la prendada e
-feliz. Ella mesma lhe ensinou a ler mal, como ella sabia,--e a coser e
-bordar, e o pouco mais que possuia de seu officio de mulher. Guiomar
-não tinha difficuldade nenhuma em reter o que a mãe lhe ensinava, e
-com tal affinco lidava por aprender, que a viuva,--ao menos nessa
-parte,--sentia-se venturosa. Has-de ser a minha doutora, dizia-lhe
-muita vez; e esta simples expressão de ternura alegrava a menina e lhe
-servia de incentivo á applicação.
-
-A casa em que moravam era naturalmente modesta. Alli correu a
-infancia,--mas solitaria, o que é um pouco mais grave. A mãe, quando a
-via embebida nos jogos proprios da edade, infantilmente alegre,--mas
-de uma alegria que fazia mal a seus olhos de mãe, tão fundo lhe doia
-aquelle viver,--a mãe sentia ás vezes pularem-lhe as lagrimas dos
-olhos fora. A filha não as via, porque ella sabia escondel-as; mas
-advinhava-as atravez da tristeza que lhe ficava no rosto. Só não
-adivinhava o motivo, mas bastava que fossem maguas de sua mãe, para lhe
-descair tambem a alegria.
-
-Com o tempo, avultou outra causa de tristeza para a pobre viuva, ainda
-mais dolorosa que a primeira. Na edade apenas de dez annos, tinha
-Guiomar uns desmaios de espirito, uns dias de concentração e mudez,
-uma seriedade, a principio intermittente e rara, depois frequente e
-prolongada, que desdiziam da meninice e faziam crer á mãe que eram
-prenuncios de que Deus a chamava para si. Hoje sabemos que não eram.
-Seria acaso effeito daquella vida solitaria e austera, que já lhe ia
-affeiçoando a alma e como que apurando as forças para as pugnas da vida?
-
-A primeira vez que esta gravidade da menina se lhe tornou mais patente
-foi uma tarde, em que ella estivera a brincar no quintal da casa. O
-muro do fundo tinha uma larga fenda, por onde se via parte da chacara
-pertencente a uma casa da visinhança. A fenda era recente; e Guiomar
-acostumára-se a ir espairecer alli os olhos, já serios e pensativos.
-Naquella tarde, como estivesse olhando para as mangueiras, a cobiçar
-talvez as doces fructas amarellas que lhe pendiam dos ramos, viu
-repentinamente apparecer-lhe deante, a cinco ou seis passos do lugar em
-que estava, um rancho de moças, todas bonitas, que arrastavam por entre
-as arvores os seus vestidos, e faziam luzir aos ultimos raios do sol
-poente as joias que as enfeitavam. Ellas passaram alegres, descuidadas,
-felizes; uma ou outra lhe dispensou talvez algum affago; mas foram-se,
-e com ellas os olhos da interessante pequena, que alli ficou largo
-tempo absorta, alheia de si, vendo ainda na memoria o quadro que
-passára.
-
-A noite veiu, a menina recolheu-se pensativa e melancolica, sem nada
-explicar á solicita curiosidade da mãe. Que explicaria ella, se mal
-podia comprehender a impressão que as cousas lhe deixavam? Mas, como
-a mãe entristecesse com aquillo, Guiomar domou o proprio espirito e
-fez-se tão jovial como nos melhores dias.
-
-Esta era ainda outra feição da menina; tinha uma força de vontade
-superior aos seus annos. Com ella, e a viveza intellectual que Deus lhe
-dera, logrou aprender tudo o que a mãe lhe ensinara, e melhor ainda
-do que ella o sabia, desde que o tempo lhe permittiu desenvolver os
-primeiros elementos.
-
-Aos trese annos ficou orphã; este fundo golpe em seu coração, foi o
-primeiro que ella verdadeiramente pode sentir, e o maior que a fortuna
-lhe desfechou. Já então a madrinha a fizera entrar para um collegio,
-onde aperfeiçoava o que sabia e onde lhe ensinavam muita cousa mais.
-
-Vivia ainda então a filha de baroneza, uma interessante creança de
-trese annos, que era toda a alma e encanto de sua mãe. Guiomar visitava
-a casa da madrinha; a edade quasi egual das duas meninas, a affeição
-que as ligava a belleza e meiguice de Guiomar, a graciosa compostura
-de seus modos, tudo apertou entre a madrinha e a afilhada os laços
-puramente espirituaes que as uniam antes. Guiomar correspondia aos
-sentimentos daquella segunda mãe; havia talvez em seu affecto, aliás
-sincero, um tal encarecimento que podia parecer simulação. O affecto
-era espontaneo; o encarecimento é que seria voluntário.
-
-Tinha a moça dezeseis annos quando passou para o collegio da tia de
-Estevão, onde pareceu á baroneza se lhe poderia dar mais apurada
-educação. Guiomar manifestára então o desejo de ser professora.
-
---Não ha outro recurso, disse ella á baroneza quando lhe confiou esta
-aspiração.
-
---Como assim? perguntou a madrinha.
-
---Não ha, repetiu Guiomar. Não duvido, nem posso negar o amor que
-a senhora me tem; mas a cada qual cabe uma obrigação, que se deve
-cumprir. A minha é... é ganhar o pão.
-
-Estas ultimas palavras passaram-lhe pelos lábios como que á força.
-O rubor subiu-lhe ás faces; dissera-se que a alma cobria o rosto de
-vergonha.
-
---Guiomar! exclamou a baroneza.
-
---Peço-lhe uma cousa honrosa para mim, respondeu Guiomar com
-simplicidade.
-
-A madrinha sorriu e approvou-a com um beijo,--assentimento de boca, a
-que já o coração não respondia, e que o destino devia mudar.
-
-Pouco tempo depois padeceu a baroneza o golpe quasi mortal a que
-alludiu no capitulo anterior. A filha morreu de repente, e o inopinado
-do desastre quasi levou a mãe á sepultura.
-
-A affeição de Guiomar não se desmentiu nessa dolorosa situação. Ninguém
-mostrou sentir mais do que ella a morte de Henriqueta, ninguém consolou
-tão dedicadamente a infeliz que lhe sobrevivia. Eram ainda verdes os
-seus annos; todavia revellou ella a posse de uma alma egualmente terna
-e energica, affectuosa e resoluta. Guiomar foi durante alguns dias a
-verdadeira dona da casa; a catastrophe abatera a propria Mrs. Oswald.
-
-O coração da pobre mãe ficára tão vasio, e a vida lhe pareceu tão agra
-e deserta sem a filha, que ella morreria talvez de saudade, se não fora
-a presença de Guiomar. Nenhuma outra creatura poderia preencher, como
-esta, o logar de Henriqueta. Guiomar era já meia filha da baroneza as
-circumstancias, não menos que o coração, tinham-n'as destinado uma para
-a outra. Um dia, em que a afilhada fora visitar a madrinha, esta lhe
-disse que a iria em breve buscar para sua casa.
-
---Você será a filha que eu perdi; elle não me amou mais, nem eu já
-agora teria outra consolação.
-
---Oh! madrinha! exclamou Guiomar beijando-lhe as mãos.
-
-A baroneza estava assentada; Guiomar ajoelhou-se-lhe aos pés e poz-lhe
-a cabeça no regaço. A boa mãe curvou-se e beijou-lh'a ternamente,
-com os olhos naquella filha que os successos lhe haviam dado, e o
-pensamento no ceu, onde devia estar a outra, que Deus lhe dera e levou
-para si.
-
- * * * * *
-
-Pouco depois estabeleceu-se Guiomar definitivamente em casa da
-madrinha, onde a alegria reviveu, gradualmente, graças á nova
-moradora, em quem havia um tino e sagacidade raros. Tendo presenciado,
-durante algum tempo, e não breve, o modo de viver entre a madrinha e
-Henriqueta, Guiomar poz todo o seu esforço em reproduzir pelo mesmo
-teor os habitos de outro tempo, de maneira que a baroneza mal pudesse
-sentir a ausencia da filha. Nenhum dos cuidados da outra lhe esqueceu,
-e se em algum ponto os alterou foi para augmentar-lhe novos. Esta
-intenção não escapou ao espirito da baroneza, e é superfluo dizer que
-deste modo os vinculos do affecto mais se apertaram entre ambas.
-
-Ao mesmo tempo que ia provando os sentimentos de seu coração, revelava
-a moça, não menos, a plena harmonia de seus instinctos com a sociedade
-em que entrára. A educação, que nos últimos tempos recebera, fez muito,
-mas não fez tudo. A natureza incumbira-se de completar a obra,--melhor
-diremos, começal-a. Ninguem adivinharia nas maneiras finamente
-elegantes daquella moça, a origem mediana que ella tivera; a borboleta
-fazia esquecer a chrysalida.
-
-
-
-
-VI
-
-
-O post-scriptum.
-
-
-Aquelle conselho de Luiz Alves, na fatal noite de dous annos antes, não
-ha duvida que era judicioso e devera ter ficado no espirito de Estevão.
-Não convinha reler a carta, sob pena de lhe achar um _post-scriptum._
-Estevão era curioso de epistolas; não pode ter-se que não abrisse
-aquella. O _post-scriptum_ lá estava no fim.
-
-Vindo á linguagem natural, Estevão saiu do jardim de Luiz Alves com
-o coração meio inclinado a amar de novo a mulher que tanto o fizera
-padecer um dia. Daqui concluirá alguem que elle verdadeiramente não
-deixára de a amar Póde ser; havia talvez debaixo da cinza uma faisca,
-uma só, e essa bastava a repetir o incendio. Mas fosse de um ou de
-outro modo, o certo é que Estevão saiu dalli com o príncipio do amor no
-coração.
-
-Todo aquelle dia foi de alvoroço e agitação para elle, que não se
-resignou logo, antes buscou reagir contra a entrada da paixão nova. A
-tentativa era sincera; as forças é que eram escassas. Elle desviava de
-si a imagem da moça; ella, porém perseguia-o, tenaz, como se fora um
-remorso, fatal como a voz de seu destino.
-
-Estevão nada disse a Luiz Alves do encontro e da conversa qui tivera
-com a moça no jardim; e não lh'o escondeu por desconfiança, mas por
-vergonha. Que lhe diria porém elle que o não tivesse visto e percebido
-Luiz Alves? Da janella de seu quarto, que dava para o jardim, enfiando
-os olhos pela fresta das cortinas pôde observa-los durantes aquelles
-tres quartos de hora de innocente palestra. O espectaculo não o
-divertiu muito; Luiz Alves achou um pouco atrevida a escolha do logar.
-
-A circumstancia de os ver juntos chamou-lhe a attenção para a
-coincidencia do nome da visinha com o da antiga namorada do collega;
-era naturalmente a mesma pessoa.
-
---Vai contar-me tudo, pensou Luiz Alves quando viu o collega
-affastar-se da cerca e dirigir os passos para casa.
-
-Estevão, como disse, foi discreto. Vinha preocupado, muito outro do que
-entrára na vespera, a ler-se-lhe no rosto alguma cousa mais séria do
-que elle proprio costumava ser.
-
-Tinha Estevão contra si o passado e o futuro. O presente, sim,
-defendia-o; elle sentia que alguma cousa o distanciava de Guiomar.
-Mas o passado falava-lhe de todas as doces recordações,--as menos
-amargas,--e a memoria quasi não sabe de outras quando relembra o
-que foi. O futuro acenava-lhe com as suas esperanças todas, e basta
-dizer que eram infinitas. Além disso, a Guiomar que elle via agora,
-surgia-lhe no meio de outra atmosphera,--a mesma que o seu espirito
-almejava respirar; e apparecia-lhe para fugir logo. Sobre tudo isto
-o obstaculo, aquella porta fechada, que bem podia ser a da _cittá
-dolente_, mas que em todo o caso elle quizera ver franqueada ás suas
-ambições.
-
-Os dias correram alternados de confiança e desanimo, tecidos de ouro e
-fio negro, um lutar de todas as horas, que acabou como era de prever e
-devia acabar. O coração levou Estevão atraz de si.
-
-Nenhum meio, dos que tinha á mão, lhe esqueceu para ver Guiomar. As
-janellas da casa estavam quasi sempre desertas. Duas ou tres vezes
-aconteceu vel-a de longe; ao approximar-se-lhe, sumira-se o vulto na
-sombra do salão Não perdia theatro; mas só duas vezes teve o gosto de
-a ver: uma no Lyrico, onde se cantava _Somnambula_, outra no Gymnasio,
-onde se representavam os _Parisienses_, sem que elle ouvisse uma nota
-da opera, nem uma palavra da comedia. Todo elle, olhos e pensamento,
-estava no camarote de Guiomar. No Lyrico foi baldada essa comtemplação;
-a moça não deu por elle. No Gymnasio, sim; o theatro era pequeno;
-comtudo, antes não fôra visto, tão tenazmente deviou ella os olhos do
-logar em que elle ficára.
-
-Nem por isso deixou Estavão de ir esperal-a á saida, collocar-se
-francamente no seu caminho, sollicitar-lhe audazmente os olhos e
-attenção. A familia desceu da 2a ordem pela escada do lado de S.
-Francisco; a estreiteza do logar era excellente. Dava o braço á
-baroneza um moço de vinte e cinco annos, figura elegante, ainda que um
-tanto affectada. Desceram todos tres e ficaram á espera do carro alguns
-minutos. Na meia sombra que alli havia destacava-se o rosto marmoreo
-de Guiomar e a gentileza de seu talhe. Seus grandes olhos vagavam pela
-multidão, mas não fitavam ninguem. Ella possuia, como nenhuma outra, a
-arte de gozar, sem as ver, as homenagens da admiração publica.
-
-Irritado com a indifferença da moça, vagou Estevão toda aquella noite,
-a sós com o seu despeito e o seu amor, tecendo e destecendo mil planos,
-todos mais absurdos uns que outros. A taça enchera de todo; era mister
-entornal-a no seio de um amigo, de um amigo que houvesse nas suas mãos
-o unico remedio que elle nessa occasião pedia;--a chave daquella porta.
-Luiz Alves era esse homem.
-
---Outra vez caido! exclamou elle rindo quando Estevão lhe contou tudo.
-Eu já o havia percebido. Isto de mulheres... Queres então que te leve
-lá?
-
---Quero.
-
-Luiz Alves reflectiu alguns intantes.
-
---E uma viagem, não te seria bom fazer uma viagem? Já sei o que me vás
-dizer; mas tambem não te proponho uma viagem de recreio, á Europa.
-Olha, arranjo-te, se queres, um logar de juiz municipal...
-
-A proposta era sincera; Estevão cuidou ver-lhe uma ponta de zombaria
-e ergueu os hombros com enfado. A proposta, entretanto, merecia ser
-examinada; era uma carreira, e vinha de um homem que estava a entrar na
-vida politica, que esperava dahi a algumas semanas o resultado de uma
-eleição, com a certeza, ou quasi, de haver triumphado. Era influencia
-que nascia, e de força viria a crescer. Mas para Estevão, naquella
-occasião, toda a carreira publica, influencia, futuro, leis, tudo
-estava nos olhos castanhos de Guiomar.
-
---Eu amo-a, disse elle emfim, isto para mim é tudo. Póde bem ser
-que tenhas razão; talvez me espere algum grande desgosto; mas são
-reflexões, e eu não reflicto agora, eu sinto...
-
---Em todo o caso, acudiu Luiz Alves, desempenho o meu dever de amigo;
-digo-te que vocês não nasceram um para outro; que, se ella te não amou
-naquelle tempo, muito menos te amará hoje, e que emfim...
-
-Luiz Alves estacou.
-
---Emfim? perguntou Estevão.
-
---Emfim pedes-me um sacrificio, concluiu rindo o advogado, por que
-também eu já a namorisquei... Não é preciso carregares o sobr'olho; foi
-namoro de visinho, tentativa que durou pouco mais de vinte e quatro
-horas. Com vergonha o digo, ella não me prestou uma migalha de attenção
-sequer, e eu voltei aos meus autos.
-
---Então... gostas della? perguntou Estevão.
-
---Acho-a bonita e nada mais. Aquillo foi um lançar barro á parede; se
-acceitasse, casava-me; não acceitou...
-
---Já vês que somos differentes.
-
---Queres, então?...
-
---Um serviço de amigo.
-
---Bem, disse por fim Luiz Alves, faça-se a tua vontade. A baroneza vai
-cuidar agora de um processo e mandou-me falar. Eu passo-te a prebenda;
-entrarás alli, como advogado, o que de alguma maneira me tira um peso
-da consciência.
-
-Estevão, que só pedia um pretexto, acceitou a offerta com ambas as
-mãos, e agradeceu-lh'a com tão expansiva ternura, que fez sorrir o
-outro.
-
-A promessa cumpriu-se pontualmente. Luiz Alves apresentou Estevão
-á baroneza, na seguinte noite, como seu companheiro e amigo, como
-advogado capaz de zelar os interesses da illustre cliente. A recepção,
-foi geralmente boa, salvo por parte de Guiomar, que pareceu aborrecida
-de o ver naquella casa. Quando Estevão a saudou, como quem a conhecia
-de longo tempo, ella mal pode retribuir-lhe o cumprimento; em todo o
-resto da noite não lhe deu palavra. Daquella parte o acolhimento não
-podia ser peior; mas Estevão sentia-se feliz, desde que vel-a, respirar
-o mesmo ar, nada mais pedindo por ora, e deixando o resto á fortuna.
-
-De todas as pessoas de casa da baroneza, a primeira que reparou na
-indifferença com que Guiomar tratára Estevão, foi Mrs. Oswald. A sagaz
-ingleza afivellou a mascara mais impassivel que trouxera das ilhas
-britannicas e não os perdeu de vista. Nem da primeira nem da segunda
-vez viu nada mais que os olhos delle, que sollicitavam os della, e
-os della que pareciam surdos. Havia de certo uma paixão, solitaria e
-desattendida.
-
---Sabe que descobri um namorado seu? perguntou ella alguns dias depois
-a Guiomar.
-
-Guiomar fez um gesto de estranheza.
-
---Entendamo-nos, observou a ingleza; não digo que a senhora o namore
-também; digo que é elle quem anda apaixonado. Não adivinha?
-
---Talvez.
-
---O Dr. Estevão.
-
-Guiomar fez um gesto de desdem.
-
---Vejo que tinha adivinhado, disse Mrs. Oswald; também não era
-difficil. Quem tem alguma pratica destas cousas fareja uma paixão a
-cem legoas de distancia, por mais que ella busque recatar-se dos olhos
-estranhos. Os namorados geralmente suppõem que ninguem os vê; é uma
-lastima. Olhe, da senhora posso eu jurar que não está namorada de
-pessoa nenhuma.
-
---Que sabe disso? perguntou Guiomar deitando os olhos para o espelho de
-seu guarda vestidos. Pois estou, mas de mim mesma.
-
-Mrs. Oswald desatou a rir, de um riso grave e pausado. Ella sabia que
-a moça tinha orgulho de suas graças; era bom caminho affagar-lhe o
-sentimento. Disse-lhe muita cousa bonita, que não vem para aqui, e
-concluiu pondo-lhe as mãos nos hombros, encarando-a fito a fito, a
-emfim rompendo nestas palavras, meias suspiradas:
-
---A senhora é a flor desta sua terra. Quem a colherá? Alguem sei eu que
-a merece...
-
-Guiomar ficou séria, e desviou brandamente as mãos da ingleza,
-murmurando:
-
---Mrs. Oswald, falemos de outra cousa.
-
-
-
-
-VII
-
-
-Um rival.
-
-
-Não era a primeira vez que Mrs. Oswald alludia a alguma cousa que
-desagradava a Guiomar, nem a primeira que esta lhe respondia com a
-sequidão que e leitor viu no fim do capitulo anterior. A boa ingleza
-ficou séria e calada alguns dous ou tres minutos, a olhar para Guiomar,
-apparentemente buscando interrogar-lhe o pensamento, mas na realidade
-sem saber como sair de situação. A moça rompeu o silencio:
-
---Está bom, disse ella sorrindo, não vejo razao para que se zangue
-commigo.
-
---Não estou zangada, acudiu promptamente Mrs. Oswald. Zangada porque?
-Pêza-me, de certo, que a natureza me não dê razão, e que uma alliança
-tão conveniente, para ambos, seja repellida pela senhora; mas se isto é
-motivo de desgosto, não pode sel-o de zanga....
-
---Desgosto?
-
---Para mim.... e naturalmente para elle.
-
-Guiomar respondeu com um simples sacudir de hombros, sêcco e rápido,
-como quem se lhe não dava do mal ou não acreditava nelle. Mrs. Oswald
-não atinou qual destas impressões seria, e concluiu que fossem ambas. A
-moça, entretanto, pareceu arrepender-se daquelle movimento; travou das
-mãos da ingleza, e com uma voz ainda mais doce e macia que de costume,
-lhe disse:
-
---Veja o que é ser creança! Não parece que ainda em cima me zango com a
-senhora?
-
---Parece.
-
---Pois não é exacto. Isto são caprichos de menina mal educada. Dei para
-não gostar que me adorem... Minto; disso gósto eu; mas quizera que me
-adorassem somente, não lhe parece?
-
-E Guiomar acompanhou estas palavras com uma risadinha mimosa e uns
-gestos de creança travêssa, que destoavam inteiramente da sua gravidade
-habitual.
-
---Já sei, gosta de uma adoração como a do Dr. Estevão, silenciosa e
-resignada, uma adoração..
-
-E Mrs. Oswald, que, como boa protestante que era, tinha a Escriptura na
-ponta dos dedos, continuou por este modo, accentuando as palavras:
-
-Uma adoração como a que devia inspirar José, filho de Jacob, que era
-bello como a senhora: «por elle as moças andavam por cima da cerca...»
-
---Da cerca? perguntou Guiomar tornando-se séria.
-
---Do muro, diz a Escriptura, mas eu digo da cerca porque... nem eu sei
-porque. Não core! Olhe que se denuncia.
-
-Guiomar corára deveras; mas era a altivez e o pundonor offendido que
-lhe falavam no rosto. Olhou fria e longamente para a ingleza, com um
-desses olhares, que são, por assim dizer, um gesto da alma indignada.
-O que a irritava não era a allusão, que não valia muito, era a pessoa
-que a fazia,--inferior e mercenaria. Mrs. Oswald percebeu isto mesmo;
-mordeu a ponta do labio, mas transigiu com a moça.
-
---Meu Deus! disse ella. Parece que se zangou por uma bricadeira á toa.
-Bem sabe que eu não podia querer aggraval-a; suppol-o é offender-me a
-mim,--a mim, que também lhe tenho affecto de mãe....
-
-A ultima palavra aquietou, o animo de Guiomar; ella tinha cedido ao
-impulso do seu caracter altivo, mas a razão veiu depois, e o coração
-tambem, que não era mau. A ingleza, que possuía longa pratica da vida
-e sabia ceder a tempo, uniu o gesto á palavra e chamou-a com os braços
-para si. Guiomar deixou-se ir, um pouco de má vontade, e a conversa
-teria acabado alli, se Mrs. Oswald não lhe dissesse com a mais doce voz
-que daquella garganta podia sair:
-
---Convença-se de que eu sou importuna e indiscreta por affeição, e
-que a felicidade desta familia é toda a ambição da minha alma. Não
-pode haver intenção melhor do que esta. Um conselho ultimo,--ultimo se
-me não consentir mais falar-lhe nisto;--eu creio que a senhora sonha
-talvez de mais. Sonhará uns amores de romance, quasi ímpossiveis?
-digo-lhe que faz mal, que é melhor, muito melhor contentar-se com a
-realidade; se ella não é brilhante como os sonhos, tem pelo menos a
-vantagem de existir.
-
-Guiomar cravara desta vez os olhos no chão, com a expressão vaga
-e morta de quem os apagou para as cousas externas. As palavras de
-Mrs. Oswald responder-lhe-hiam acaso a alguma voz intima? A ingleza
-proseguiu na mesma ordem de ideias, sem que ella a interrompesse ou
-desse signal de si. Quando ella acabou, Guiomar estremeceu, como se
-acordasse; levantou a cabeça, e lenta, e commovida, proferiu esta unica
-resposta:
-
---Talvez tenha razão, Mrs. Oswald, mas em todo o caso os sonhos são tão
-bons!
-
-Mrs. Oswald abanou a cabeça e saiu; Guiomar acompanhou-a com os olhos,
-a sorrir, satisfeita de si mesma, e a murmurar tão baixo que mal a
-ouvia o seu proprio coração:
-
---Sonhos, não, realidade pura.
-
-Supponho, que o leitor estará curioso de saber quem era o feliz ou
-infeliz mortal, de quem as duas trataram no dialogo que precede, se
-é que já não suspeitou que esse era nem mais nem menos o sobrinho da
-baroneza,--aquelle moço que apenas de passagem lhe apontei nas escadas
-do Gymnasio.
-
-Era um rapaz de vinte e cinco a vinte e seis annos. Jorge chamava-se
-elle; não era feio, mas a arte estragava um pouco a obra da natureza.
-O muito mimo empece a planta, disse o poeta, e esta maxima não é só
-applicavel à poesia, mas tambem ao homem. Jorge tinha um lindo bigode
-castanho, untado e retesado com excessivo esmero. Os olhos, claros e
-vivos, seriam mais bellos, se elle não os movesse com affectação, ás
-vezes feminina. O mesmo direi dos modos, que seriam faceis e naturaes,
-se os não tornasse tão alinhados e medidos. As palavras saíam-lhe
-lentas e contadas, como a fazer sentir toda a munificencia do autor.
-Não as proferia como as demais pessoas; cada syllaba era por assim
-dizer espremida, sendo facil ver ao cabo de alguns minutos, que elle
-fazia consistir toda a belleza da elocução nesse alongar do vocabulo.
-As ideias orçavam pelo modo de as exprimir; eram chochas por dentro,
-mas traziam uma codea de gravidade pesadona, que dava vontade de ir
-espairecer o ouvido em cousas leves e folgazãs.
-
-Taes eram os defeitos apparentes de Jorge. Outros havia, e desses, o
-maior era um peccado mortal, o setimo. O nome que lhe deixara o pae, e
-a influencia da tia podiam servir-lhe nas mãos para fazer carreira em
-alguma cousa publica; elle, porém, preferia vegetar á toa, vivendo do
-peculio que dos paes herdára e das esperanças que tinha na affeição de
-baroneza. Não se lhe conhecia outra occupação.
-
-Não obstante os defeitos apontados, havia nelle qualidades boas: sabia
-dedicar-se, era generoso, incapaz de malfazer, e tinha sincero amor á
-velha parenta. A baroneza, pela sua parte, queria-lhe muito. Guiomar e
-elle eram as suas duas affeições principaes, quasi exclusivas.
-
-Tal era a pessoa cujos interesses defendia Mrs. Oswald, por amor da
-baroneza, e não menos de si propria. A baroneza tambem tinha os seus
-sonhos, como ella mesma disse, e esses eram deixar felizes aquellas
-duas crianças. Jorge pela sua parte estava dispóto a estender o collo
-ao sacrificio; e, bem examinadas as cousas, talvez amasse sinceramente
-a moça. A differença entre elle e Estevão é que o seu amor era tão
-medido como os seus gestos, e tão superficial como as suas outras
-impressões.
-
-Do que ahi fica dito, facilmente comprehenderá o leitor que, dos dous
-namorados, só um percebeu logo o sentimento do outro. A alma de Estevão
-andava-lhe nos olhos, enchendo-os de maneira que elle não podia ver
-nada mais além de Guiomar.
-
-Ao cabo de duas semanas a situação de Estevão podia dízer-se menos
-má; na opinião delle era excellente. A baroneza soube quem elle era;
-Guiomar contara-lhe tudo; mas a ingleza, não menos que a observação
-propria, lhe mostrou que nenhum perigo corria Guiomar, e excluido o
-perigo, restavam as boas qualidades do bacharel, que de todo lhe caiu
-em graça. Mrs. Oswald navegou nas mesmas aguas mansas. O proprio Jorge,
-naturalmente por que confiava em si, não temeu do rival, e pouco tardou
-que lhe abrisse os cancellos da sua gravidade. Que admira, pois, que a
-mesma Guiomar afrouxasse um pouco da primeira rigidez?
-
-Aquelle bom rapaz tinha a salutar crendice da esperança, em que muita
-vez se resumem todas as bençãos da vida. Pedia muito, como alma
-sequiosa que era, mas bem pouco bastava a contental-o. A imaginação
-multiplicava os zeros; com um grão de areia construiria um mundo. A
-affabilidade de uns e a cortezia de outros, tanto bastou para que
-elle se julgasse quasi no termo de suas aspirações; e posto não lhe
-désse Guiomar uma só das animações de outro tempo,--que aliás tão
-frageis eram, ainda assim acreditou elle piamente que o amor nascia, ou
-renascia, naquelle rebelde coração.
-
-Guiomar, no meio das affeições que a cercavam, sabia manter-se superior
-ás esperanças de uns e ás suspeitas de outros. Egualmente cortez, mas
-egualmente impassível para todos, movia os olhos com a serenidade
-da isenção, não namorados, nem sequer namoradores. Ella teria, se
-quizesse, a arte de Armida; saberia refrear ou aguilhoar os corações,
-conforme elles fossem impacientes ou tibios; faltava-lhe porém o
-gosto,--ou melhor, sobrava-lhe o sentimento do que ella achava que era
-a sua dignidade pessoal.
-
-
-
-
-VIII
-
-
-Golpe.
-
-
-Um dia de manhã accordou Estevão com a resolução feita de dar o golpe
-decisivo. Os corações frouxos tem destas energias subitas, e é proprio
-da pusilanimidade illudir-se a si mesma. Elle confessava que nada havia
-feito, e que a situação exigia alguma cousa mais.
-
---Nunca as circumstancias foram mais propicias do que hoje, pensava
-o rapaz; Guiomar trata me com affabilidade de bom agouro. Demais, ha
-nella espirito elevado; ha de reconhecer que um sentimento discreto e
-respeitoso, como este meu, vale um pouco mais do que lisonjarias de
-sala.
-
-A resolução estava essentada; restava o meio de a tornar affectiva.
-Estevão hesitou largo tempo entre dizer de viva voz o que sentia ou
-transmittil-o por via do papel. Qualquer dos modos tinha para elle mais
-perigos que vantagens. Elle receiava ser frio na declaração escripta ou
-incompleto na confissão oral. Irresoluto e vacillante, ambos os meios
-adoptou e repelliu, a curtos intervallos; emfim, deferiu a escolha para
-outra occasião.
-
-O acaso suppriu a resolução, e o premeditado cedeu o passo ao fortuito.
-
-Uma tarde, havendo algumas pessoas a jantar em casa da baroneza, foram
-passear á chacara. Estevão que, como Luiz Alves, era dos convivas,
-affastou-se gradualmente dos outros grupos, e approximou-se daquella
-cerca historica onde, após dous annos de ausencia e esquecimento, vira,
-ja transformada, a formosa Guiomar. Era a primeira vez que elle punha
-os olhos nesse sitio, depois da conversa, que ahi tivera com ella. A
-commoção que sentiu foi naturalmente grande; resurgia-lhe o quadro ante
-os olhos, a hora, o ceu brilhante, o doce alento da manhã, e por fim a
-figura da moça, que alli appareceu, como a alma do quadro, trazendo-lhe
-recordações, que elle julgava mortas, esperanças que suppunha
-impossiveis.
-
-Estevão curvou a cabeça ao doce peso daquellas memorias, a alma bebeu,
-a largos haustos, a vida toda que a imaginação lhe creava e talvez a
-noite o tomasse na mesma attitude, se a voz maviosa de Guiomar, lhe não
-dissesse a poucos passos de distancia:
-
---Sr. doutor, perdeu alguma cousa?
-
-O rapaz volveu rapidamente a cabeça, e viu a moça, que atravessava
-uma das calhes proximas, a olhar e a sorrir para elle. Estevão sorriu
-tambem, e com uma presença de espirito assaz rara em namorados,
-sobretudo em namorados como elle era, promptamente respondeu:
-
---Não perdi nada, mas achei uma cousa.
-
---Vejamos o que foi.
-
-E Guiomar approximou-se, a passo firme e seguro, e Estevão, sem muito
-vacillar, alli mesmo forjou uma reflexão philosophica a respeito de
-um insecto que casualmente passava por cima de uma folha secca. A
-reflexão não valia muito, e tinha o defeito de vir um pouco forçada e
-de acarreto; a moça sorriu, entretanto, e ia continuar o seu caminho,
-quando elle, colhendo as forças todas, a fez deter com estas palavras:
-
---E se eu tivesse achado outra cousa?
-
---Ainda mais! exclamou ella voltando-se risonha.
-
-Estevão deu dous passos para Guiomar, desta vez commovido e resoluto. A
-moça fez-se seria e dispoz-se a ouvil-o.
-
---Se eu tivesse achado neste logar, continuou elle, longos dias de
-esperança e de saudade, um passado que eu julgára não reviver mais, uma
-dor occulta e medrosa, vivida na solidão, nutrida e consolada de minhas
-próprias lagrimas? Se eu tivesse achado aqui a pagina rota de uma
-historia começada e interrompida, não por culpa de ninguem na terra,
-mas da estrella sinistra da minha vida, que um anjo mau accendeu no
-ceu, e que, talvez, talvez ninguem nunca apagará?
-
-Estevão calou-se e ficou a olhar fixamente para Guiomar.
-
-Aquella declaração repentina e rosto a rosto estava tão longe do
-temperamento do rapaz, que ella gastou alguns segundos longos primeiro
-que voltasse a si do assombro. Elle proprio admirava-se do atrevimento
-que tivera; e emquanto pendia dos labios da moca, repassava na memoria,
-aliás confusamente, o que tão a frouxo lhe saira do peito naquella hora
-de abençoada temeridade.
-
---Se tivesse achado tudo isso, respondeu Guiomar sorrindo, é natural
-que preferisse achar outra cousa menos melancolica. Entretanto,
-parece que nada mais achou do que esta occasião de falar, com a viva
-imaginação que Deus lhe deu; n'um ou n'outro caso, porém, posso de
-certo lastimal-o ou admiral-o, mas não me é dado ouvil-o.
-
-E Guiomar ia de novo affastar-se, quando Estevão, receiando perder a
-occasião que a fortuna lhe offerecia, disse de longe com voz triste e
-supplice:
-
---Attenda-me um só munito!
-
---Não um, mas dez--respondeu a moça estacando o passo e voltando o
-rosto para elle--e serão provavelmente os ultimos em que falaremos
-a sós. Cedo á commiseração que me inspira o seu estado; e pois que
-rompeu o longo e expressivo silencio em que se tem conservado até hoje,
-concedo-lhe que diga tudo, para me ouvir uma só palavra.
-
-A moça falára n'um tom secco e imperioso, em que mais dominava a
-impaciencia do que a commiseração a que vinha de alludir. O coração de
-Estevão batia-lhe como nunca,--como o coração costuma bater nas crises
-de uma angustia suprema. Todo aquelle castello de vento, laboriosamente
-construido nos seus dias de illusão, todo elle se esboroava e desfazia,
-como vento que era. Estevão arrependera-se do impulso que o levára a
-violar ainda uma vez o segredo dos seus sentimentos intimos, a abrir
-mão de tantas esperanças, alimentadas com o melhor do seu sangue
-juvenil.
-
-Alguns instantes decorreram em que nem um nem outro falou; ambos
-pareciam medir-se, ella serena e quieta, elle tremulo e gelado.
-
---Uma só palavra, repetiu Estevão, e essa adivinho que será de
-desengano. Embora! Pois que me atrevi a dizer-lhe alguma cousa, força
-é que lhe diga tudo,--feliz, se me restar, ao menos, a maior fortuna a
-que já agora posso aspirar,--o seu remorso.
-
-Guiomar ouvira-o tranquillamente; a ultima palavra fel-a estremecer.
-Sorriu, entretanto, de um sorriso um pouco voluntario e esperou.
-
-A narração foi longa, tanto quanto o permittiam a occasião, o logar
-e a pessoa; durou apenas dez minutos. Estevão nada lhe escondeu, nem
-o amor que lhe tivera out'rora, nem o que agora lhe renascia, mais
-violento que o primeiro; disse-lhe as dores que curtira, as esperanças
-que afinal lhe enfloravam a alma, tudo quanto emprehendêra para ler a
-ventura de a contemplar de perto, de gozar naquelle escasso ponto da
-terra a maior de todas as bem aventuranças.
-
-Tal é a transcripção, não litteral, mas fiel, do que disse Estevão
-durante esse dez minutos. As palavras caíam-lhe tremulas e a voz
-saía-lhe sumida, em parte por que elle forcejava em a abafar, afim
-de que o não ouvissem, em parte porque a commoção lhe comprimia a
-garganta. A dor era visivelmente sincera; a eloquência vinha do coração.
-
-Guiomar não ouvira tudo com a mesma expressão; a principio um meio riso
-parecia desabrochar-lhe os labios, mas não tardou que pelo rosto abaixo
-lhe caísse um veu mais compassivo e humano. Havia nella impaciencia e
-anciedade de acabar, de sair dalli; era, sem duvida, o receio de que a
-ausência se prolongasse de maneira que inspirasse suspeitas. Mas havia
-também commiseração e piedade.
-
---Nenhuma culpa lhe pode caber do mal que tenho padecido, disse Estevão
-concluindo; sobretudo agora, só eu, só a minha cabeça é a causa unica
-de tudo. Parecia-me ver o contrario do que existia; cheguei a suppor
-que havia em seu coração alguma cousa que não era a total indifferença;
-vejo que foi tudo illusão.
-
-O tom em que elle falára era o mesmo das palavras que ahi ficam, todas
-humildes e resignadas, sem o menor laivo de queixa ou de reproche. Uma
-submissão assim devia por força commover a uma mulher amada. Guiomar
-falou-lhe sem azedume:
-
---Era illusão, disse ella. O sentimento que me acaba de revellar
-inteiro, ninguem o recebe ou nutre de vontade; a natureza o infunde ou
-nega. Posso eu ter culpa disso?
-
---Nenhuma.
-
---Nem o senhor tambem, e espero que esta mutua justiça avigore o
-sentimento de estima devemos ter um para com o outro. Mas estima
-apenas, não póde haver outra cousa,--da minha parte ao menos. É pouco,
-de certo...
-
---Não é pouco, é cousa differente, interrompeu Estevão.
-
---Mas não espere nada mais, concluiu Guiomar sem ouvir a interrupção.
-
-Estevão abriu a bocca para falar, mas não achou palavra que lhe
-dissesse o que sentia; levou a mão ao coração, que batia fortemente, e
-ficou a olhar para ella com os olhos seccos e parados, a voz extincta,
-como se a alma lhe fugira toda. Era claro, depois daquelle desengano,
-que lhe cumpria não voltar alli mais, pelo menos com a assiduidade da
-esperança; e assim era que a unica e amarga satisfação de a ver, nem
-essa já agora se lhe consentia.
-
---Dou-lhe um conselho, disse Guiomar depois de alguns segundos de
-pausa, seja homem, vença-se a si proprio; seu grande defeito é ter
-ficado com a alma creança.
-
---Talvez, respondeu o moço suspirando.
-
---E adeus. Falamos a sós, mais do que convinha; não sei se outra
-consentiria nisto. Mas eu não só reconheço os seus sentimentos de
-respeito, como desejo que estas poucas palavras trocadas agora ponham
-termo a aspirações impossiveis.
-
-Guiomar estendeu-lhe a mão, em que elle tocou levemente.
-
-A baroneza appareceu, entretanto, a algumas braças de distancia; vinha
-encostada ao braço do sobrinho, que lhe falava, mas a quem ella já não
-ouvia. Tinha os olhos cravados nos dous interlocutores de ha pouco.
-A moça apenas vira de longe a madrinha, deu affoutamente o braço a
-Estevão, e seguiram ambos a encontrar-se com ella; o rosto de Guiomar
-não revelava nada; o de Estevão vinha perturbado e abatido. A baroneza
-franziu a testa:
-
---Jorge, disse ella em voz baixa, precisamos conversar.
-
-
-
-
-IX
-
-
-Conspiração.
-
-
-A baroneza, quando se lhe approximaram os dous interlocutores da cerca,
-mais receiosa ficou e mais perplexa. Guiomar vinha risonha e até
-gracejadora; mas o abatimento de Estevão era tão mal disfarçado, que de
-duas uma,--ou ella acabava de lhe dar o ultimo desengano,--ou aquillo
-era apenas um arrufo serio, que o moço não podia ou não queria esconder
-de olhos extranhos. Isto é o que a baroneza pensou. O que ella concluiu
-foi que, em todo caso, urgia tentar alguma cousa em favor do maior,--do
-unico senho da sua velhice.
-
-Jorge não percebeu a verdadeira razão porque a tia lhe dissera ser
-necessário conversar com ella; imaginou que se trataria de Guiomar e
-Estevão,--mas estava longe de suppor todo o alcance da entrevista.
-
-A entrevista não pode ser logo nesse dia; as visitas ficaram alli
-até tarde, e a noite foi a mais agradavel e distrahida de todas as
-noites; Guiomar, sobretudo, esteve como nunca, jovial e interessante.
-A serenidade parecia morar-lhe na alma e reflectir-se-lhe no
-rosto,--tantas vezes pensativo, mas agora tão frio e tão nú.
-
-Não será preciso dizer a um leitor arguto e de boa vontade... Oh!
-sobretudo de boa vontade, porque é mister havel-a, e muita, para vir
-até aqui, e seguir até o fim, uma historia, como esta, em que o autor
-mais se occupa de desenhar um ou dous caracteres, e de expor alguns
-sentimentos humanos, que de outra qualquer cousa, por que outra cousa
-não se animaria a fazer;--não será preciso declarar ao leitor, dizia
-eu, que toda aquella jovialidade de Guiomar eram punhaes que se lhe
-cravavam no peito ao nosso Estevão. Elle não podia suppol-a abatida;
-mas penalisada, ao menos, um pouco respeitosa para com a dor que havia
-nelle, isto, sim, imaginava que sería. Mas nada disso foi, e o pobre
-rapaz saiu dalli mais cedo do que pensára e quizera sair.
-
-Na alcova, se elle podesse vel-a mais tarde na alcova, solitaria
-e toda comsigo, sentada na poltrona rasa ao lado da cama, com os
-cabellos desfeitos, os pésinhos mettidos nas chinellas de setim preto,
-as mãos no regaço e os olhos vagando de objecto em objecto, como se
-reproduzissem fóra as attitudes interiores do pensamento, alli não
-só elle a adoraria de joelhos, mas até poderia suppor que alguma
-preoccupação lhe tirava o somno e que essa era nem mais nem menos elle
-proprio.
-
-Talvez fosse; em parte ao menos seria elle. Guiomar não tinha um
-coração tão mau, que lhe não doessem as maguas de um homem que
-acertara ou desacertara de a amar. Mas fosse uma, ou fossem muitas as
-causas daquella preoccupação, a verdade é que ella durou muito tempo.
-Guiomar passou da poltrona á janella, que abriu toda, para contemplar
-a noite,--o luar que batia nas aguas, o ceu sereno e eterno. Eterno,
-sim, eterno, leitora minha, que é a mais dasconsoladora lição que nos
-poderia dar Deus, no meio das nossas agitações, lutas, ancias, paixões
-insaciáveis, dores de um dia, gozos de um instante, que se acabam e
-passam comnosco, debaixo daquella azul eternidade, impassivel e muda
-como a morte.
-
-Pensaria nisto Guiomar? Não, não pensou nisto um minuto sequer; ella
-era toda da vida e do mundo, desabrochava agora o coração, vivia
-em plena aurora. Que lhe importava,--ou quem lhe chegara a fazer
-comprehender esta philosophia secca e arida? Ella vivia do presente
-e do futuro e,--tamanho era o seu futuro, quero dizer as ambições
-que lh'o enchiam,--tamanho, que bastava a occupar-lhe o pensamento,
-ainda que o presente nada mais lhe dera. Do passado nada queria saber;
-provavelmente havia-o esquecido.
-
-A madrugada achou-a dormindo; mas os primeiros raios do sol vieram
-accordal-a, na fórma do costume, para o matinal passeio com a madrinha.
-Guiomar sacrificava tudo á dedicação filial de que ja dera tantas
-provas. A baroneza, entretanto, estava preoccupada; o passeio foi
-differente do dos outros dias.
-
-Ao meio-dia metteu-se Guiomar no carro, com Mrs. Oswald, e sairam a
-uma visita. A baroneza ficou só; Jorge não a deixou ficar só por muito
-tempo, porque chegou dahi a pouco.
-
-A baroneza não perdeu tempo em circunloquios. Apenas viu o sobrinho
-interpellou-o directamente:
-
---Disseram-me, foi Mrs. Oswald quem me disse que tu gostas de Guiomar.
-
-Jorge não contava muito com semelhante interrogação; todavia, não era
-tão ingenuo que corasse, nem tão apaixonado que lhe tremesse a voz.
-Puchou gravemente os punhos da camisa, concertou a gravata, e respondeu
-singellamente:
-
---Não me atrevia a falar-lhe destas cousas...
-
---Porque não?--interrompeu a baroneza; são assumptos que se podem
-tratar entre mim e ti, sem desar para nemhum de nós. É então verdade o
-que me disse Mrs. Oswald?
-
---É.
-
---Amas deveras, ou...
-
---Deveras. Recuaria, se visse que uma alliança entre nós ficava mal ao
-lustre de nossa familia; mas, posto que ella seja...
-
---Guiomar é minha filha, apressou-se a dizer a baroneza.
-
---Justamente; não pode haver melhor titulo.
-
---Tem ainda outro, continuou a baroneza; é uma alma angélica e pura.
-Henriqueta não teve melhor coração nem mais amor aos seus. Além disso,
-a natureza deu-lhe um espirito superior, de maneira que a fortuna não
-fez mais do que emendar o equivoco do nascimento. Finalmente é de uma
-belleza pouco commum...
-
---Rara, titia, póde dizer que é de uma belleza rara, acudiu Jorge,
-e pela primeira vez lhe luziu nos olhos alguma cousa, que não era a
-gravidade de costume.
-
---Já vês, proseguiu a baroneza, que ella possue todos os direitos ao
-amor e á mão de um homem, como tu.
-
-A baroneza tinha um coração ingenuo e lizo, sem desvios nem astucias;
-comtudo, ha occasiões em que o mais recto espirito emprega, como por
-instincto, finuras diplomaticas. A boa senhora tinha tanto a peito
-aquella união do sobrinho com a afilhada, que não confiava só do amor;
-procurava interessar-lhe tambem o amor proprio.
-
-Jorge curvou-se com affectada modestia.
-
---Um homem, como eu,--disse elle--vale pouco por si mesmo; o valor que
-tenho, e esse é muito, vem do nome de meus pais e do seu, titia, e das
-santas qualidades que a adornam...
-
---Só uma, Jorge, só uma qualidade santissima: é a de amal-os, a ti e
-a ella. Por isso foi immenso o gôsto que senti quando Mrs. Oswald me
-disse que gostavas de Guiomar. Acredita que se eu tivesse a fortuna de
-ver a vocês unidos e felizes, morreria contente.
-
---Oh! isso! disse Jorge com ar de duvida.
-
---Julgas impossivel o casamento?
-
---Impossivel, não; impossivel, nada ha. Mas... mas supponho que a
-vontade della é indispensavel, tão indispensavel como duvidosa.
-
---Duvidosa! Estás certo disso?
-
-Jorge tinha-se levantado e dera alguns passos, não agitado de todo,
-mas um pouco fóra da impassibilidade usual. A ideia do casamento
-apparecia-lhe agora um pouco mais possivel e exequivel, desde que a tia
-francamente lhe propuzesse alliança.
-
---Estás certo disso? repetiu a baroneza.
-
---Certo não; mas ha toda a razão para a duvida. Guiomar sabe que eu
-gósto della; e comtudo não me dá o menor signal de corresponder aos
-meus sentimentos.
-
-Jorge expos longamente todas as razões que tinha para crer que a
-vontade de Guiomar não correspondia á delle; referiu-lhe, com a maior
-exacção e fidelidade, uns tres on quatro episodios que lhe pareciam boa
-prova daquillo que dizia. A baroneza não ouvia tudo com egual attenção.
-Quando elle acabou:
-
---Guiomar será muito vexada,--disse ella--e ás vezes, e por isso mesmo,
-tem essas apparencias frias. Nada impede, porém, a que venha a amar-te,
-se é que ja te não ama. Ha nella certa altivez natural, que póde
-explicar também essa frieza; parece-me que lhe seria penoso receber o
-amor de alguem que julgasse levantal-a até si.
-
---Isso, talvez...
-
---Mas esse sentimento, que póde ser e é honroso, não é de certo
-invencivel.
-
-Todas estas palavras da baroneza lisonjeavam o sobrinho, em cujos
-labios pairava agora um sorriso de íntima satisfação. De quando em
-quando não ouvia elle nada do que lhe dizia a tia; seus ouvidos
-voltavam-se para dentro; elle escutava-se a si proprio. O amor de
-Guiomar começava a parecer-lhe possivel; tudo quanto a baroneza lhe
-dizia era razoavel, com a vantagem de lhe esclarecer as faces obscuras
-da situação. Demais, até que ponto a baroneza conjecturava ou revelava?
-Bem podia ser que ella tivesse lido mais fundo no coração da moça.
-
-Estas reflexões fel-as Jorge, em quanto a baroneza continuava a falar e
-a desenvolver a ideia que ultimamente indicara. Até aquelle dia havia
-elle limitado toda a sua acção a alguns olhares, e raras palavras de
-comprimento; a entrevista com a tia dera-lhe animação; pareceu-lhe
-chegado o ensejo de sair daquella paz armada.
-
-Guiomar chegou d'ahi a pouco e achou-os na «saleta de trabalho,»
-euphemismo elegante, que queria dizer litteralmente--saleta de
-conversação entremeada de _crochet._ Mrs. Oswald vinha com ella; ambas
-riam alegremente de não sei que episodio visto no caminho. Jorge
-erguera-se, pausado mas risonho, apertou a mão de Guiomar,--apertou-a
-deveras, mais do que era usual e cortez. Guiomar não pareceu
-afligir-se; perguntou-lhe pela saude, transmittiu á madrinha as
-lembranças que lhe mandavam e dispoz-se a sair.
-
-Durante esse tempo, Jorge olhava para ella, enlevado deveras na
-contemplação de toda aquella nobre figura, agora mais bella que
-d'antes, desde que se lhe tornara possivel a alliança ha muito sonhada.
-Havia nos olhos de Jorge uns taes ou quaes vestigios lubricos, donde
-se podia colher que, se elle fosse poeta, e poeta arcadico, editaria
-pela millionesima vez a comparação da Venus e dos seus seus infalliveis
-amorinhos; comparação detestavel, sobretudo, porque a casta belleza de
-moça, se alguma cousa pagã lhe podia ser chamada, seria antes Diana
-convertida ao Evangelho.
-
-Jorge saiu dalli singularmente agitado; a conversa da baroneza dera-lhe
-nervo e resolução, e o quadro do casamento começou a desenhar-se-lhe no
-espirito, como o relogio que o menino tem de usar pela primeira vez.
-Até alli deixara-se elle ir á feição das aguas; agora via a necessidade
-e a possibilidade de abicar á riba feliz do matrimonio.
-
-As duvidas de Estevão não lhe saltearam o espirito; apenas chegou a
-casa travou da penna, e lançou na folha branca e lustrosa de seu papel
-uma confissão elegante e polida, que todavia refundiu duas ou tres
-vezes, primeiro que a désse por prompta. Acabada a redacção final,
-transcreveu aquella prosa do coração na mais nitida folha que havia em
-casa,--dobrou o metteu-o na algibeira.
-
-De noite foi á casa da tia. Achou as senhoras á volta de uma meza;
-Guiomar lia, para a madrinha ouvir, um romance francez, recentemente
-publicado em Paris e trazido pelo ultimo paquete. Mrs. Oswald lia
-tambem, mas para si, um grosso volume de Sir Walter Scott, edição
-Constable, de Edimburgo.
-
-Jorge veiu interrompel-as um pouco, mas só interromper, porque a
-leitura continuou logo depois, ajudando elle proprio a Guiomar naquella
-filial tarefa. Veiu o chá, veiu depois a hora de recolher, e a baroneza
-deu por findo o serão, ainda que o livro estava quasi findo.
-
---Um capitulo mais, aventurou Jorge com o livro aberto nas mãos.
-
-A baroneza sorriu e voltou os olhos para Guiomar, a cuja conta lançou
-aquella dedicação do sobrinho; recusou comtudo, por estar a cair de
-somno.
-
---Eu é que não me deito sem saber o resto, declarou Guiomar; levo o
-livro commigo.
-
---Ah! disse Jorge com um gesto de satisfação.
-
-E emquanto Guiomar se dispunha a acompanhar a madrinha até á porta do
-quarto, e Mrs. Oswald marcava a pagina e fechava o seu livro, Jorge
-egualmente fechava o outro, mas com tal demora e cuidado, que deu muito
-que entender á ingleza. Se ella chegou entender, vel-o-hemos depois;
-o certo é que o livro foi emfim entregue a Guiomar, tendo a pagina
-marcada, não com a fita que lá estava pendente, mas com um pedacinho de
-papel.
-
-O pedacinho de papel era a carta; apenas uns poucos centímetros de
-altura; mas por mais exiguas que tivesse as dimensões, bem podia ser
-que levasse alli dentro nada menos que uma tempestade próxima.
-
-
-
-
-X
-
-
-A revelação.
-
-
-Meia hora depois, indo a abrir o livro para continuar a leitura, viu
-Guiomar a cartinha de Jorge. Não tinha sobrecarta; era um simples
-papelinho dobrado, rescendendo a amores. O espirito de Guiomar estava
-tão longe d'aquillo que não suspeitou nada e distrahidamente o abriu. A
-primeira palavra escripta era o seu nome; a ultima era o de Jorge.
-
-O primeiro gesto de Guiomar foi de colera. Se elle pudesse espreita-la
-pelo buraco da fechadura, e ver-lhe a expressão do rosto, é mui
-provavel que se lhe convertesse em aborrecimento todo o amor que até
-agora nutria. Mas elle não estava alli, a moça podia traduzir fielmente
-no rosto os movimentos do coração.
-
---Mais um, pensou ella; este porém...
-
-E desta vez o gesto não foi de colera, foi de alguma cousa mais, metade
-fastio, metade lastima, mescla difficil e rara.
-
-A moça ficou algum tempo quieta, a olhar para o papel, sem o querer
-ler, como a hesitar entre queimal-o ou restitui-lo intacto a seu autor.
-Mas a curiosidade venceu por fim; Guiomar abriu o papel e leu estas
-linhas:
-
-«Guiomar! Perdoe-me se lhe chamo assim; as convenções sociaes
-condemnam-me de certo, mas o coração approva, que digo? elle mesmo
-escreve estas letras. Não é a minha penna, não são os meus labios que
-lhe falam deste modo, são todas as forças vivas da minha existencia,
-que em alta voz proclamam o immenso e profundo amor que lhe tenho.
-
-«Antes de o ler neste papel, já a senhora o hade ter visto, pelo menos
-adivinhado nos meus olhos, na doce embriaguez que em mim produz a
-presença dos seus. Persuado-me de que todo o meu esforço em recalcar
-este affecto é vão; por mais que eu sinceramente deseje esquecel-a,
-não o alcançarei nunca; não alcançarei mais que uma afflição nova. O
-remorso de o tentar virá coroar os demais infortunios.
-
-«Porque razão rompo hoje o silencio em que me tenho conservado, medroso
-e respeitoso silencio que, se me não abre a caminho da gloria, ao menos
-conserva-me a palma da esperança? Nem eu mesmo saberia responder-lhe;
-falo, porque uma força interior me manda falar, como trasborda o rio,
-como se derrama a luz; falo porque morreria talvez se me calasse, do
-mesmo modo que morrerei de desespero, se além do perdão que lhe peço,
-ma não der uma esperança mais segura do que esta, que me faz viver e
-consumir.--Jorge.»
-
-Guiomar leu esta carta duas vezes, uma leitura de curiosidade, outra
-de analyse e reflexão, e ao cabo da segunda achava-se tão fria como
-antes da primeira. Olhou algum tempo para o papel e mentalmente para o
-homem que o havia escripto; emfim, poz a carta de lado, abriu o livro e
-continuou o romance.
-
-Mas o espirito, que não ficara tão indifferente como o coração, entrou
-a fugir-lhe do romance para a vida com tal tenacidade que não houve
-remedio senão irem os olhos atraz delle, e a moça de novo mergulhou nas
-reflexões que lhe suggeria o caso da paixão de Jorge.
-
-Paixão não era,--não o seria ao menos no sentido inteiro do vocabulo;
-mas alguma cousa menos, ou parecida com ella, e ainda assim verdadeira,
-via bem Guiomar que o poderia ser. Até que ponto chegaria entretanto,
-o seu adorador, se ella o desattendesse logo; e, dado o amor que a
-baroneza tinha ao sobrinho, até que ponto a recusa iria magoal-a?
-Guiomar varreu do espirito os receios que lhe nasciam de taes
-interrogações; mas sentiu-os primeiro, pezou-os antes de os arredar de
-si, o que revelará ao leitor em que proporção estavam nella combinados
-o sentimento e a razão, as tendencias da alma e os calculos da vida.
-
-Excluido o receio, voltou-lhe o riso, aquelle riso interior, que é o
-mais involuntario e cruel, e tambem o menos arriscado que a gente póde
-dar ás fatuidades humanas. Não podia ser tão despresivel assim o amor
-de um homem, cuja ridiculez compensavam algumas qualidades boas, e que
-emfim era tambem distincto, ainda que a sua distincção primasse antes
-por um estylo rendilhado e complicado, que não é o melhor. Guiomar via
-tudo isso, e por outro lado, não podia obstar que elle a amasse; nem
-por isso achava menos temeraria aquella confissão.
-
-A moça reflectia tambem na posição especial que tinha naquella casa
-o sobrinho da baroneza; via-se obrigada á presença delle, e talvez
-á luta, porque o pretendente não recuaria do primeiro golpe. Não
-havia taes receios da parte de Estevão; ella reconhecia que a paixão
-deste era ardente e profunda, e por isso mais capaz de desatinos; mas
-comparava as indoles dos dous homens, e se ambos lhe pareciam de fraca
-compleixão moral, nem por isso desconhecia que ao bacharel faltava
-certa presumpção que distinguia o outro, e com a qual teria talvez de
-pelejar.
-
-Quando ella fez esta comparação entre os dous homens, ficaram-lhe os
-olhos um pouco mais molles e quebrados, obra de tres minutos apenas,
-mas tres minutos que, se Estevão soubera delles, trocaria por elles
-o resto de toda a vida. E comtudo, não era amor nem saudade; alguma
-sympathia, sim, ainda que leve e sem consequencia; mas sobretudo era
-pena de o não poder amar,--ou ainda melhor--era lastima de que tal
-coração não fora casado a outro espirito.
-
-Guiomar reflectiu ainda muito e muito, e não reflectiu só, devaneou
-também, soltando o panno todo a essa veleira escuna da imaginação, em
-que todos navegamos alguma vez na vida, quando nos cança a terra firme
-e dura, e chama-nos o mar vasto e sem praias. A imaginação della porém
-não era doentia, nem romantica, nem piegas, nem lhe dava para ir colher
-flores em regiões selvaticas ou adormecer á beira de lagos azues. Nada
-disso era nem fazia; e por mais longe que velejasse levaria entranhadas
-na alma as lembranças da terra.
-
-Volveu emfim e olhos cairam-lhe na carta. A realidade presente não se
-lhe podia mostrar de peor modo. Guiomar ergueu-se irritada, lançou mão
-do papel e machucou-o febrilmente; ia talvez rasgal-o, quando ouviu
-bater de manso á porta.
-
---Quem é? perguntou.
-
---Sou eu, respondeu a voz de Mrs. Oswald.
-
-A moça foi abrir a porta; a ingleza entrou, trajada de dormir, e um
-vivo espanto nos olhos, que pareceu tirar-lhe a voz durante alguns
-segundos. Guiomar assustada perguntou:
-
---Que é? aconteceu alguma cousa a minha madrinha?
-
---Longe vá o agouro! exclamou a ingleza. Não lhe aconteceu nada; a
-senhora baroneza dorme naturalmente a somno solto. Venho porque do meu
-quarto pareceu-me ouvir rumor de passos aqui, e depois vi luz. Pensei
-que tivesse algum incommodo. Mas, pelo que vejo, continuou a ingleza
-deitando os olhos para a mezinha em que pousava o livro aberto,--pelo
-que vejo ainda não acabou de ler o seu romance...
-
---Não li ainda uma linha, depois que me recolhi, respondeu Guiomar
-cravando os olhos no rosto da ingleza, como tomada de um pensamento
-subito.
-
---Deveras!
-
---Li outra cousa, continuou a moça; li este papel.
-
-Mrs. Oswald inclinou-se para ler também o papel, que aliás adivinhou
-qual fosse; Guiomar atirou-o sobre a mesa.
-
---Não precisa, disse ella; é uma declaração amorosa.
-
---De quem? perguntou a ingleza abrindo uns olhos espantados e
-obedientes.
-
---Leia o nome.
-
-Mrs. Oswald leu a assignatura da carta, que a moça do novo lhe
-apresentava.
-
---Naturalmente, continuou Guiomar, ha nisto obra sua...
-
---Minha! interrompeu a outra um pouco mais rispidamente do que
-costumava falar.
-
-Guiomar tinha ido sentar-se; o pésinho impaciente batia no tapete, com
-um movimento rapido e regular; cruzára os braços sobre o peito, fitando
-a ingleza com uns olhos em que se podia ler a viva exacerbação do
-espirito. Seguiu-se curto silencio; Mrs. Oswald puxou outra cadeira e
-sentou-se perto da moça.
-
---Por que ha de ser injusta commigo? disse ella dando á voz um tom
-mellifluo e supplicante; porque não ha de ver as cousas, como ellas
-naturalmente são? O que ha nisto é uma coincidencia curiosa, mas nada
-mais. Se lhe falei em semelhante cousa algumas vezes, foi porque eu
-mesma percebi o amor que lhe tem o Sr. Jorge; é cousa que todos veem.
-Imaginei que o casamento, neste caso, seria agradavel á Sra. baroneza a
-quem sou grata. Posso ter feito mal...
-
---Muito mal, interrompeu Guiomar; são cousas de familia em que a
-senhora nada tem que ver.
-
-Guiomar levantou-se outra vez, deu alguns, passos, e voltou a
-sentar-se. Com o movimento desprenderam-se-lhe os cabellos e cairam-lhe
-sobre os hombros. Mrs. Oswald approximou-se della para os colher e
-atar, mas a moça seccamente a repelliu:
-
---Deixe, deixe...
-
-E ella mesma os recompoz com as suas mãosinhas finas, e ficou depois
-a olhar para o chão, a morder o labio, a respirar fortemente, como se
-contivera a palavra que forcejava por sair impetuosa e colerica. Mrs.
-Oswald não disse nada durante alguns minutos; esperou que passasse o
-periodo agudo da irritação. Quando lhe pareceu que ella afrouxava,
-rompeu emfim o silencio.
-
---Fiz mal, fiz não ha duvida, mas a intenção não podia ser melhor.
-Talvez não me creia; paciencia! O que lhe peço,--nem lhe peço,--o que
-eu acredito piamente é que não me hade attribuir algum interesse de
-ordem...
-
-Mrs. Oswald fez uma pausa para dar aberta ao protesto de Guiomar,
-mas Guiomar não protestou, quero dizer não protestou de viva voz;
-fez apenas um gesto negativo, bastante a satisfazer os melindres
-da ingleza. A moça foi sincera; não attribuia realmente a nenhum
-interesse vil,--pecuniario,--a acção de Mrs. Oswald. Nem por isso a
-absolvia,--não só porque ella viria concorrer talvez para uma crise
-penosa, mas também,--bom é notal-o outra vez,--porque a condição da
-ingleza naquella casa era relativamente inferior.
-
-A ingleza continuou a falar em defeza propria, a justificar miudamente
-os bons sentimentos do coração, e a prometter que deixava por mão todo
-aquelle negocio, a seu juizo, o melhor que a moça podia fazer.
-
---A experiencia da vida, concluiu ella, devia ter-me convencido de que
-o melhor de todos os sentimentos é um egoismo quieto e calado.
-
-Em quanto ella falava assim, Guiomar parecia volver a tranquilidade
-habitual. A mudança foi,--não súbita,--mas um pouco mais rapida do
-que devera ser, tratando-se de um espirito, como o della, em que as
-impressões não eram superficiaes nem momentaneas. Havia até uns toques
-de affabilidade no rosto e na voz, quando ella começou, a falar, o que
-revelaria talvez ser aquella mudança muito voluntaria e meditada.
-
---Está bom, Mrs. Oswald, o que passou, passou. Sinto que as cousas
-chegassem a este ponto, e que elle se lembrasse de escrever semelhante
-carta, confessando uma paixão que acredito sincera, mas a que o meu
-coração não póde corresponder. Amores não se encommendam como vestidos:
-sobretudo não se fingem, ou não se devem fingir nunca.
-
---Oh! decerto!
-
---Eu gosto delle, como parente que é de minha madrinha, e também por
-que ella lhe tem affeição de mãe, como a mim; somos uma especie de
-irmãos, nada mais.
-
---Tem muita razão, assentiu Mrs. Oswald. A senhora pensa e fala como um
-doutor. Que se lhe ha de fazer? Quem não ama não ama. Delle é que eu
-tenho pena!
-
---Gosta muito de mim, não? perguntou Guiomar fitando os olhos na
-ingleza.
-
---Oh! parece que sim! A senhora deve sabel-o tanto como eu; eu sei o
-que tenho visto, e creio que é muito.
-
---Eu nunca vi nada, respondeu seccamente Guiomar.
-
-A resposta de Mrs. Oswald foi um sorriso de incredulidade, que a outra
-não viu ou não quiz ver. Houve uma pausa; Guiomar continuou nestes
-termos:
-
---Mas seja como for, a minha resposta é negativa. Estou que elle não me
-fará a injuria de querer casar commigo, sem que eu o ame...
-
-Guiomar parou, como a esperar, que a outra lhe dissesse alguma cousa.
-Desta vez coube a Mrs. Oswald não responder nada, nem com a voz nem com
-o gesto. A moça inclinou o corpo poz os braços sobre os joelhos, com os
-dedos cruzados, e entre um riso amavel e um olhar affectuoso, continuou:
-
---A senhora podia, se acaso elle alguma vez lhe falou nisso ou vier a
-falar-lhe, podia dissuadi-lo de taes ideias, dizendo-lhe simplesmente,
-a verdade e dando-lhe conselhos, os conselhos que a senhora hade saber
-dar, e que elle aceitará de certo, porque é um bom coração, um caracter
-estimavel...
-
---Oh! excellente! um moço excellente!
-
-E as duas ficaram a olhar uma para a outra, Guiomar a sorrir, mas de um
-sorriso, que era uma contracção voluntaria dos musculos, e a ingleza a
-fazer um rosto de piedade, e adoração, e pena, e muita cousa junta, que
-a moça só começou a comprehender, quando ella rompeu o silencio deste
-modo:
-
---Estou a duvidar se devo dizer-lhe o resto.
-
---O resto? perguntou Guiomar admirada. Pois que ha mais?
-
-A ingleza approximou a cadeira. Guiomar endireitou o busto e esperou
-anciosa a revelação,--se revelação era,--que lhe ia fazer Mrs. Oswald.
-Esta não falou logo; era razoavel hesitar um pouco, lutar comsigo
-mesma, antes de dizer alguma cousa. Emfim, com um movimento de quem
-ajunta as forças todas e as emprega em cousa superior á coragem usual:
-
---D. Guiomar, disse ella, pegando-lhe nas mãos, ninguem póde exigir que
-se case sem amar o noivo; seria na verdade uma affronta. Mas o que lhe
-digo é que o amor que não existe por ora, póde vir mais tarde, e se
-vier, e se viesse seria uma grande fortuna...
-
---Mas acabe, acabe, interrompeu a moça com impaciencia.
-
---Seria uma grande fortuna para a senhora, para elle, ouso dizer que
-para mim, que os estimo e adoro, mas sobretudo para a Sra. baroneza.
-
---Como assim? disse Guiomar.
-
---Oh! para elle seria a maior fortuna da vida, porque é hoje o seu
-mais entranhado e vivo desejo, o seu desejo verdadeiramente da alma. A
-senhora...
-
---Está certa disso?
-
---Certissima.
-
---Não creio, não vejo nada que...
-
---Creia, deve crer. Se me promette nada dizer desta nossa conversa, nem
-fazer suspeitar por nenhum modo o que lhe estou contando...
-
---Fale.
-
---Pois bem,--continuou Mrs. Oswald abaixando a voz, como se alguem
-podesse ouvil-a na solidão daquella alcova, e no silencio, profundo
-daquella casa, que toda dormia,--pois bem, eu lhe direi que por ella
-mesma tive noticia deste seu desejo. Quando eu percebi a paixão do Sr.
-Jorge, falei nisso a sua madrinha, gracejando na intimidade que ella
-me permitte, e a senhora baroneza em vez de sorrir, como eu esperava
-que fizesse, ficou algum tempo pensativa e séria, até que rompeu nestas
-palavras: «Oh! se Guiomar gostasse delle e viessem a casar-se, eu seria
-completamente feliz. Não tenho hoje outra ambição na terra. Ha de ser a
-minha campanha.»
-
---Minha madrinha disse isso? perguntou Guiomar.
-
---Tal qual. A resposta que lhe dei foi que o casamento não era
-impossivel, e que nada mais natural do que virem a amar-se duas pessoas
-a principio indifferentes. O amor nasce muita vez do costume.
-
-Guiomar já mal ouvia o que lhe estava dizendo a ingleza; se ainda
-olhava para ella, era com os olhos indecisos e empanados, de quem vae
-toda absorvida em pensamentos intimos.
-
---Foi desde esse dia, continuou Mrs. Oswald, que me pareceu conveniente
-falar-lhe algumas vezes nisso, sondar-lhe o coração, ver se elle
-favorecia o sonho de sua madrinha, tornando feliz toda esta casa...
-Fiz mal, convenho; mas a intenção era a mais respeitavel e santa deste
-mundo.
-
---De certo, murmurou Guiomar.
-
-Mrs. Oswald pegou-lhe n'uma das mãos e beijou-a affectuosamente.
-Guiomar não a repelliu nem sequer pareceu dar-se-lhe da ternura da
-ingleza. As duas olharam-se uns breves minutos, sem dizer nada, como a
-lerem na alma uma da outra.
-
-Guiomar não tinha a experiencia nem a edade da ingleza, que podia ser
-sua mãe; mas a experiencia e a edade eram substituidas, como sabe o
-leitor, por um grande tino e sagacidade naturaes. Ha creaturas que
-chegam aos cincoenta annos sem nunca passar dos quinze, tão simplices,
-tão cegas, tão verdes as compõe a natureza; para essas o crepusculo
-é o prolongamento da aurora. Outras não; amadurecem na sazão das
-flores; vem ao mundo com a ruga da reflexão no espirito,--embora, sem
-prejuiso do sentimento, que nellas vive e influe, mas não domina.
-Nestas o coração nasce enfreiado; trota largo, vae a passo ou galopa,
-como coração que é, mas não dispara nunca, não se perde nem perde o
-cavalleiro.
-
-O que a afilhada da baroneza buscava ler no rosto de Mrs. Oswald era se
-effectivamente a madrinha nutria aquelle desejo, ou se tal revelação
-não era mais do que um embuste. O leitor sabe que era verdadeira; mas
-admittirá, sem duvida, que a moça só depois de muito interrogar e
-examinar lhe désse fé. Creu emfim; creu, porque era verosimil, creu
-porque a ingleza não se arriscaria a qualquer indiscrição da parle
-della, que de todo a desmascararia.
-
---Parece-me, disse Mrs. Oswald, que não fiz mal em lhe dizer tudo o que
-sabia. Conselhos não lhe dou nenhuns; o melhor delles não vale a voz
-do proprio coração. O seu é puro e recto; consulte-o de boa vontade, e
-verá se ha nelle indifferenca, ou se alguma faisca...
-
---Eu sei! interrompeu Guiomar. Não me lembrou consultal-o nunca.
-
---Faz mal, elle é o relogio da vida. Quem o não consulta, anda
-naturalmente fóra do tempo. Mas que vejo! continuou Mrs. Oswald
-deitando os olhos para o reloginho de Guiomar. Naquelle outro relogio
-faltam dez minutos para uma hora! Uma hora! Que diria a Sra. baroneza
-se soubesse que ainda estamos aqui de conversa! Retiro-me; Deus lhe
-dê um somno socegado, e sobretudo a faça feliz, como merece. Não lhe
-recommendo juizo, porque o tem de sobra. Adeus, até amanhã.
-
-E Mrs. Oswald sahiu pé ante pé em direcção ao seu quarto.
-
-Guiomar ficou só, alli sentada ao pé da cama, a ouvir o passo surdo,
-e cautelloso da ingleza. Quando o som morreu de todo, e o silencio da
-noite volveu ao que era, profundo e sepulchral, a moça deixou cair os
-braços na cama, e a cabeça nas mãos, e um suspiro desentranhou-se-lhe
-do peito, longo, ruidoso, magoado,--o primeiro que o leitor lhe ouve
-desde que a conhece--e emfim estas palavras arrancadas da alma, tão
-doloridas,--ia dizer tão lacrimosas,--vinham ellas:
-
---Oh meus sonhos! meus sonhos!
-
-Não chorou; a alma della era das que não tem lagrimas, em quanto
-lhe restam forças. Os olhos estavam seccos e firmes quando ella os
-ergueu das mãos; o resto tinha vestigios do abalo, mas não havia nelle
-desanimo, menos ainda desespero.
-
-
-
-
-XI
-
-
-Luiz Alves.
-
-
-Durante uma inteira e comprida semana, deixou Estevão de apparecer no
-escriptorio onde trabalhava com Luiz Alves; não appareceu tambem em
-Botafogo. Ninguem o viu em todo esse tempo nos logares onde elle era
-mais ou menos assiduo. Foram seis dias, não digo de reclusão absoluta,
-mas de completa solidão, porque ainda nas poucas vezes que saiu, fel-o
-sempre a horas ou em direcções que a ninguem via, e de ninguem era
-visto.
-
-Mas não fôra essa crua e malfadada crise, e é quasi certo que elle
-metteria uma lança na Africa daquelles dias, que era um ponto muito
-serio e grave, a questão magna da rua do Ouvidor e da casa do José
-Thomaz, a ponderosa, crespa e complicada questão de saber se a
-Stephanoni estrearia no _Ernani._ Esta questão, de que o leitor se
-ri hoje, como se hão de rir os seus sobrinhos de outras analogas
-puerilidades, esta pretenção a que se oppunha a Lagrua, allegando que
-o _Ernani_ era seu, pretenção que fazia gemer as almas e os prelos
-daquelle tempo, era cousa muito propria a espertar os brios do nosso
-Estevão, tão marechal nas cousas minimas, como recruta nas cousas
-maximas.
-
-Infelizmente elle não apparecia, não sabia sequer do conflicto e do
-debate, occupado como estava em travar o aspero e sangrento duelo do
-homem contra si mesmo, quando lhe falta o apoio, ou a consolação dos
-outros homens. Todo elle era Guiomar; Guiomar era o primeiro e o ultimo
-pensamento de cada dia. A sombra da moça vivia ao pé delle e dentro
-delle, no livro em que lia, na rua solitaria onde acaso transitava, nos
-sonhos da noite, nas estrellas do ceu, nas poucas flores de seu inculto
-jardim.
-
-Um leitor perspicaz, como eu supponho que hade ser o leitor deste
-livro, dispensa que eu lhe conte os muitos planos que elle teceu,
-diversos e contradictorios, como é de razão em analogas situações.
-Apenas direi por alto que elle pensou tres vezes em morrer, duas em
-fugir á cidade, quatro em ir affogar a sua dor mortal naquelle ainda
-mais mortal pantano de corrupção em que apodrece e morre tantas vezes
-a flor da mocidade. Em tudo isto era o seu espirito apenas um joguete
-de sensações continuas e variadas. A força, a permanencia do affecto
-não lhe bastava a dar seguimento e realidade ás concepções vagas de seu
-cerebro,--enfermo, ainda quando estava de saude.
-
-A ideia do suicidio fincou-se-lhe mais a dentro no espirito, certa
-tarde em que elle saiu a espairecer, e viu um enterro que passava,
-caminho do Cajú. O prestito era triste,--ainda mais triste pela
-indifferença que se lia no rosto dos que iam piedosamente acompanhando
-o morto. Estevão descobriu-se e sinceramente desejou ir alli dentro,
-mettido naquellas estreitas tabuas de pinho, com todas as suas dores,
-paixões e esperanças.
-
---Não tenho outro recurso, pensou elle; é necessario que morra. É uma
-dôr só, e é a liberdade.
-
-Ao voltar para casa, uma creança que brincava na rua, em camisa, com os
-pés na agua barrenta da sargeta, fel-o parar alguns instantes, invejoso
-daquella boa fortuna da infancia, que ri com os pés no charco. Mas a
-inveja da morte e a inveja da innocencia foram ainda substituidas pela
-inveja da felicidade, quando ao recolher-se viu as janellas abertas de
-uma casa visinha, e a sala illuminada, e uma noiva coroada de flores
-de laranjeira, a sorrir para o noivo, que sorria igualmente para ella,
-ambos com o sorriso indefinivel e unico da occasião.
-
-Os cinco dias correram-lhe assim, travados de enojo, de desespero, de
-lagrimas, de reflexões amargas, de suspiros inuteis, até que raiou a
-aurora do sexto dia, e com ella,--ou pouco depois della, uma carta de
-Botafogo. Estevão quando viu o creado da baroneza, á porta da saia,
-com uma carta na mão, sentiu tamanho alvorôço, que não ouviu nada
-do que elle lhe disse. Supporia que a carta era de Guiomar? Talvez;
-mas a illusão durou os poucos instantes que elle gastou em romper a
-sobrecarta e desdobrar a folha de papel que vinha dentro.
-
-A carta era da baroneza.
-
-A baroneza perguntava-lhe graciosamente se elle havia morrido, e pedia
-que fosse falar-lhe ácerca da demanda que ella trazia. Estevão chegara
-já ao estado de só esperar um pretexto para transigir comsigo mesmo;
-não podia havel-o melhor. Escreveu rapidamente duas linhas de resposta,
-e á uma hora da tarde apeava-se de um tilbury á porta da funesta e
-deliciosa casa, onde havia passado as melhores e as peores horas da
-vida.
-
---Sabe porque razão lhe dei este incommodo, além do prazer que tinha em
-vel-o? perguntou a baroneza logo depois dos primeiros comprimentos.
-
---Disse-me que era por causa da demanda...
-
---Sim, precisamos assentar algumas cousas, antes da nossa partida.
-
---V. Ex. sae da côrte?
-
---Vamos para o roça.
-
-Estevão empallideceu. Na situação delle, aquella viagem era a melhor
-cousa que lhe podia acontecer; comtudo, fez-lhe mal a noticia. A
-conversa que se seguiu foi toda sobre o assumpto forense, e durou uma
-longa hora, sem que apparecesse Guiomar. Ao despedir-se atreveu-se
-Estevão a perguntar por ella.
-
---Anda passeando, respondeu a baroneza.
-
-Estevão despediu-se da constituinte, que o acompanhou até á porta da
-sala, repetindo-lhe algumas recommendações, que o advogado mal pôde
-ouvir e absolutamente lhe não ficaram de memoria.
-
-A esperança de ver a moça levara-o, mais que tudo, áquella casa; saía
-sem ter o gosto de a contemplar ainda uma vez; mais do que isso,
-ameaçado de a não ver tão cedo, ou quem sabe se nunca mais. Ia elle
-a reflectir nisto e a approximar-se da porta, onde parava ao mesmo
-tempo um carro. Estevão estremeceu naturalmente, ante de ver quem ia
-apear-se; grudou-se ao portal, com os olhos fitos na portinhola, que um
-lacaio abria apressadamente.
-
-A primeira figura que desceu foi a nossa conhecida Mrs. Oswald, que o
-fez, sem dar tempo a que Estevão lhe offerecesse a mão. O bacharel,
-desde que a vira, approximara-se rapidamente da portinhola.
-
-Guiomar desceu logo depois. A mão apertada na luva côr de perola pousou
-levemente na mão de Estevão que estremeceu todo. A moça fez-lhe um
-comprimento risonho, murmurou um agradecimento e recolheu-se com a
-ingleza. Era pouco; mas esse pouco alvoroçou o bacharel, que enfiou
-d'alli para a cidade, em direcção ao escriptorio.
-
-Luiz Alves admirou-se de o ver; não foi com um espanto de seis dias,
-como devera ser, mas de quarenta e oito horas, quando muito. Que
-admira? A preocupação de Luiz Alves por aquelles dias era a candidatura
-eleitoral; a boa nova devia chegar-lhe na primeira mala do norte. Ora,
-em boa razão, um homem que está prestes a ser inscripto nas tabuas do
-parlamento, não póde cogitar muito dos amores de um rapaz, ainda que o
-rapaz seja amigo e os amores verdadeiros.
-
-Estevão não perdeu tempo em circumloquios; foi entrando e entornando a
-alma toda, afflicta e consolada a um tempo, no seio do velho amigo e
-companheiro. A cada trecho da confissão plena que elle alli lhe fez,
-respondia um commento, ora serio, ora gracioso de Luiz Alves. Quando
-Estevão porém lhe deu noticia de que a familia da baroneza ia para a
-roça, Luiz Alves recolheu o meio-riso que lhe pousava nos labios desde
-começo, e com a mais subita e sincera admiração exclamou:
-
---Para a roça!
-
---Disse-o agora mesmo a baroneza.
-
---Mas...
-
-Luiz Alves não acabou; olhou ainda meio duvidoso para Estevão, e ficou
-algum tempo calado, a coçar o queixo com a faca de marfim e a olhar
-para uma gravura que pendia na parede fronteira.
-
---Na situação em que estou, continuou Estevão, has de dizer que a
-viagem é uma felicidade para mim. Pois não é; não admitto a viagem. Se
-ella sair da côrte, eu saio também.
-
---Tu estás doudo!
-
---Talvez.
-
-Luiz Alves saiu daquella natural indifferença com que o ouvia, e lhe
-falava sempre em tal assumpto. Falou-lhe carinhoso,--talvez pela
-primeira vez na vida. O que lhe disse foi apenas ume edição augmentada
-de que lhe havia dito em anteriores occasiões,--agora com maior
-fundamento, porque depois do formal desengano de Guiomar, não havia
-outro recurso mais que ir esquecel-a de todo.
-
---Oh! isso nunca! interrompeu Estevão. Demais, não sei, não estou certo
-se ella falava de coração naquella tarde...
-
-A candidez com que Estevão disse isto era a fiel traducção de seu
-espirito, e a razão de taes palavras, não a procure o leitor em outra
-parte mais que não seja aquelle sorriso de ha pouco, ao pé do carro,
-sorriso que lhe bailava no cerebro, como raio de sol coado por entre
-nuvens negras de tempestade.
-
-Luiz Alves sacudiu a cabeça e enfiou os olhos pelas folhas rabiscadas
-de uns autos que tinha diante, e que entrou a folhear vagarosamente.
-Subito, bateu uma pancadinha, com a mão espalmada sobre os papeis, e
-levantou a cabeça:
-
---Ha um meio talvez de saber tudo, disse elle, de saber se ella
-verdadeiramente te ama, ou... Posso tenta-lo, com uma condição.
-
---Qual?
-
---A condição de eliminares as tuas pretenções. Que diabo ganhas tu em
-nutrir uma paixão sem efficacia nem remedio?
-
-Esta promessa era a mais dura que se podia arrancar de um coração,
-em que as gerações de esperanças se succediam quasi sem solução de
-continuidade; fel-a, todavia, Estevão, talvez com a secreta resolução
-de a trahir.
-
-Luiz Alves ficou só dahi a alguns minutos. As ultimas palavras que
-disse ao collega foram duas ou tres pilherias de rapaz; mas apenas
-ficou só tornou-se serio, e inclinando o corpo para a frente, com os
-braços na secretaria, e a raspar as unhas com um canivete, alli esteve
-largo tempo, como a reflectir, longe de Estevão, que aliás já não ía
-perto, e ainda mais longe dos autos que tinha diante de si. Mas em que
-pensava elle, se não era em Estevão, nem nos autos, nem tambem, por
-agora, nas suas esperanças eleitoraes Paciencia, leitor; sabel-o-has
-daqui a nada. Contenta-te com a noticia de que, ao cabo de vinte
-minutos daquella abstracção, Luiz Alves volveu a si, proferindo em alta
-voz esta simples palavra:
-
---Não ha duvida; é uma ambiciosa.
-
-E descativado daquella preoccupação, enterrou-se de todo na leitura dos
-autos.
-
-
-
-
-XII
-
-
-A viagem.
-
-
-Mal recomeçára Luiz Alves a leitura dos autos, entrou no gabinete o
-criado apresentando-lhe um bilhete de visita.
-
---Que entre! disse o advogado lendo o nome do sobrinho da baroneza.
-
-E logo se ouviu no corredor o passo medido e lento do mancebo, que
-d'ahi a nada assomava á porta do gabinete, fazendo uma cortezia,
-sisuda, mas graciosa.
-
---Venho incommoda-lo, doutor? perguntou Jorge.
-
---Pelo amor de Deus! exclamou o advogado erguendo-se e indo buscal-o
-á porta. Não me incommodaria em caso nenhum; agora, sobretudo, que a
-leitura de uns papeis me fatigou sobre maneira, a maior fortuna que eu
-poderia desejar é a presença de um homem de espirito.
-
-Jorge agradeceu este comprimento um pouco emphatico, e retribuiu-o com
-outra lisonjaria muito mais extensa e de maior alcance. Quer dizer que
-elle vinha pedir alguma cousa. Effectivamente, passados os minutos de
-introito e desfiadas as generalidades, Jorge impertigou-se mais do que
-até alli estivera e desfechou esta pergunta abrupta:
-
---Sabe que venho pedir-lhe uma cousa grave?
-
-Luiz Alves inclinou-se.
-
---Grave e simples ao mesmo tempo, continuou o sobrinho da baroneza; mas
-antes disso precisava saber se é tão amigo da nossa familia, como ella
-o é do senhor.
-
---Oh! de certo!
-
---O senhor é o menos assiduo, talvez, das pessoas que lá vão, apezar de
-visinho; só agora o vejo alli mais a miudo; entretanto é como flor que
-se trahe pelo aroma; minha tia tem a seu respeito a melhor opinião do
-mundo; acha-lhe uma gravidade, e eu tambem a sinto, e nem comprehendo
-que um homem possa ser outra cousa. Os taes espiritos futeis...
-
---São insupportaveis, concluiu Luiz Alves ancioso por chegar ao objecto
-da visita.
-
-O objecto era a viagem da baroneza. Um commendador, amigo do finado
-barão, e fazendeiro em Cantagallo, tinha promessa da viuva, havia dous
-annos, de ir lá passar algum tempo. A baroneza esquivara-se sempre
-a cumprir a palavra dada; agora porém, tal fora a insistencia, que
-se resolvera a ir. Ora, o que Jorge vinha propor era--, expressões
-delle,--uma conjuração de amigos para dissuadir a tia daquelle
-projecto. Affiançava ao advogado que, ainda descoberta a conjuração,
-teria elle a vida sã e salva.
-
-Luiz Alves suppoz a principio que aquillo era um simples pretexto; mas,
-tendo observado que a bella Guiomar não era indifferente ao rapaz,
-comprehendeu que este tinha na conjuração proposta, um interesse
-inteiramente pessoal. Emfim, Jorge chegou a confessar que, se a tia
-insistisse em sair da côrte, elle não tinha remedio senão acompanha-la.
-
-O accôrdo não foi difficil; ficou assentado que fariam todos os
-esforços para dissuadir a baroneza. Jorge quiz sair logo; reteve-o Luiz
-Alves algum tempo mais, com expressões de louvor habilmente tecidas e
-mais habilmente encastoadas na conversação; e tambem deixando-se ir á
-feição do espirito delle, acceitando-lhe as ideias e os preconceitos, e
-applaudindo-os discretamente,--serio, quando elles o eram ou pareciam
-ser,--chocarreiro quando vinham com ar de graça,--respondendo emfim a
-todos os gestos e meneios do outro, como faz o espelho por officio e
-obrigação:--toda a arte em summa de tratar os homens, de os attrahir e
-de os namorar, que elle aprendera cedo e que lhe devia aproveitar mais
-tarde na vida publica.
-
-De noite foi Luiz Alves á casa da baronesa, onde poucas pessoas havia,
-todas de intimidade. A dona da casa, sentada na poltrona do costume,
-tinha ao pé de si uma senhora da mesma edade que ella, egualmente
-viuva, e defronte as suiças brancas e aposentadas de um ex-funccionario
-publico. N'um sophá, viam-se Mrs. Oswald e Jorge a conversarem em
-voz, ora muito baixa, ora um pouco mais elevada. Adiante, dous
-moços contavam a duas senhoras o enredo da ultima peça do Gymnasio.
-Mais longe, uma moça da visinhança gabava a outra a tesoura de Mme.
-Bragaldi, que pedia meças, dizia ella, ao pincel do scenographo, seu
-marido. Emfim, junto a uma das janellas via-se uma mocinha, viva e
-bonita, a dizer mil ninharias graciosas a outra pessoa, que era nada
-menos que a nossa conhecida Guiomar. A conversa, assim dividida,
-tornava-se ás vezes geral, para recair logo no particularismo anterior;
-os grupos modificavam-se tambem de quando em quando, do mesmo modo que
-o assumpto, e assim se iam matando agradavelmente as horas, que não
-resistiam, coitadas, nem apressavam o passo um minuto sequer.
-
-Luiz Alves aggregara-se ao grupo da baroneza, ao qual não tardou
-juntar-se Jorge. O advogado teve a discrição de esperar que o assumpto
-viesse de si, se viesse, ou de o introduzir na conversa, quando lhe
-parecesse de feição. Mas Jorge, que estava impaciente, arrastou o
-assumpto ao debate. Luiz Alves, mostrou-se fiel á palavra dada;
-declarou amavelmente que se oppunha á viagem, como visinho e amigo,
-que reclamaria em ultimo caso o auxilio de força publica; que era um
-erro e um crime deixar aquella casa viuva da benevolencia e da graça e
-do gosto e de todas as mais qualidades excellentes que alli iam achar
-os felizes que a frequentavam; que, emfim, o mal era tamanho, que não
-deixaria de ser peccado, posto não viesse apontado nos cathecismos,
-e como peccado, seria de força punido, com amargas penas, no outro
-seculo, pelo que, e o mais dos autos, era sua decisão que a baroneza
-devia ficar.
-
-Todas estas razões foram ditas como deviam de ser, de um modo galante e
-folgazão, a que a baroneza respondia egualmente, e que não daria nada
-mais de si, se Luiz Alves, mudando de estylo, não fosse pôr o assumpto
-em differente terreno.
-
---Digamos a verdade, Sra. baroneza, a viagem ha de ser-lhe immensamente
-incommoda, se for so isso; suas forças não são de certo eguaes ás de
-seus primeiros annos; sua saude é melindrosa e não poderá soffrer tanta
-fadiga. Confesso que falo em nome de certo interesse pessoal de amigo
-e de visinho; mas a principal razão não é essa. Se houvesse um motivo
-urgente, bem; mas tratando-se apenas de uma promessa feita ha tanto
-tempo, seria crueldade da minha parte não insistir que ficasse.
-
-A baroneza defendia-se, e Luiz Alves não tardou em reconhecer de si
-para si que ella não se defendia com o vigor de uma resolução original
-e propria. A conversa, entretanto, tornára-se mais geral; de todos os
-lados partiam votos de opposição.
-
-Guiomar havia já alguns minutos que não attendia á interlocutora;
-tinha o ouvido afiado e assestado sobre o grupo da madrinha. Ninguem
-a observava; mas é privilegio do romancista e do leitor ver no rosto
-de uma personagem aquillo que as outras não veem ou não podem ver.
-No rosto de Guiomar podemos nós ler, não só o tedio que lhe causava
-aquella opinião unanime contra o projecto da baroneza, mas ainda a
-expressão de um genio imperioso e voluntario.
-
---Estamos de accordo, creio eu? perguntou Luiz Alves olhando
-alternadamente para a baroneza e as outras pessoas.
-
---Não é possível, doutor, respondia a boa senhora.
-
---De certo que não é possível, interveiu Guiomar do lugar onde estava.
-A viagem não offerece risco, nem minha madrinha está invalida. Demais,
-é uma promessa feita; não se pode deixar de cumprir.
-
-Esta opinião, dita em tom sêcco e firme, ainda que a voz nada perdesse
-do seu natural avelludado, equivaleu a um pouco de agua fria lançada na
-fervura triumphante dos animos.
-
---Guiomar tem razão, disse a baroneza; já agora é preciso ir; são
-apenas tres ou quatro mezes.
-
-Luiz Alves olhou longamente para Guiomar, como a procurar ver-lhe
-no rosto todas antecedencias da resolução da baroneza. A opposição
-afrouxara; Jorge chamou em vão o advogado em seu auxilio. A resolução
-da tia, se alguma vez fora abalada, tornara-se outra vez firme.
-
-Guiomar, entretanto, erguera-se e chegara ao grupo da madrinha. Jorge
-fitou-a com uma expressão de vaidade e cobiça. Luiz Alves, que se
-achava de pé, recuou um pouco para deixal-a passar. Os olhos com que
-a contemplou não eram de cobiça nem de vaidade; a leitora, que ainda
-lembrará da confissão por elle mesmo feita a Estevão, supporá talvez
-que eram de amor. Talvez,--quem sabe?--amor um pouco socegado, não
-louco e cego como o de Estevão, não pueril e lascivo, como o de Jorge,
-um meio termo entre um e outro,--como podia havel-o no coração de um
-ambicioso.
-
---O Dr. Luiz Alves defende causas más, disse Guiomar sorrindo para
-elle; não se trata de uma cousa impossivel. Quanto a mim, Cantagallo
-só tem um inconveniente; sera menos divertido que a côrte; mas o tempo
-passa depressa...
-
---Nesse caso, disse Jorge suspirando eu tambem dispenso theatros e
-bailes; sacrifico-me á familia.
-
---Queres ir comnosco? perguntou a baroneza alegremente.
-
---Que duvida!
-
-Guiomar mordeu o labio inferior, com uma expressão de despeito, que
-pôde conter e abafar, sem que ninguem a percebesse, ninguem, excepto
-Luiz Alves. Um sorriso tranquillo e perspicaz roçou os labios do
-advogado, em quanto a moça, para esconder a impressão que lhe ficara,
-de novo se dirigiu á janella, onde esteve alguns momentos sósinha, meia
-voltada para fóra e meia guardada pela sombra que alli fazia a cortina.
-Um rumor de passos fel-a voltar-se para dentro. Era Luiz Alves.
-
---Ah! disse ella fingindo-se tranquilla; agradeço-lhe não haver
-insistido mais nos seus conselhos.
-
---A intenção era boa, respondeu Luiz Alves em voz baixa; mas será agora
-excellente; nem tudo está perdido: eu me incumbo de salvar o resto.
-
-Guiomar franziu a testa com o mais vivo e natural espanto; tal
-espanto que parecia havel-a feito esquecer outro sentimento,
-igualmente natural:--o do despeito que lhe causaria aquella singular
-familiaridade. Mas o assombro dominou tudo; Guiomar sentiu que elle
-lera nella a razão da insistencia e o desgosto do resultado.
-
-A ruga desfez se a pouco e pouco, mas a moça não retirou logo os olhos.
-Havia nelles uma interrogação imperiosa, que a alma não se atrevia
-a transmittir aos lábios. Se ha nos do leitor alguma interrogação,
-esperemos o capitulo seguinte.
-
-
-
-
-XIII
-
-
-Explicações.
-
-
-Luiz Alves comprehendera toda a expressão dos olhos de Guiomar; era,
-porém, homem frio resoluto. Inclinou o busto com toda a graça correcta
-e de bom tom, e disse-lhe na voz mais branda que lhe permittia o seu
-orgão forte e severo:
-
---Parece-lhe que fui um pouco audaz, não é? Fui apenas sincero; e ainda
-que a sua delicadeza me condemne, estou certo de que ha em seu coração
-misericordia de sobra...
-
-Guiomar tinha readquirido toda a posse de si mesma.
-
---Está enganado, disse ella, não o condemno, pela simples razão de que
-o não entendi.
-
---Tanto melhor, redarguiu Luiz Alves sem pestanejar; o meu delicto
-nesse caso não passou da esphera da intenção.
-
---Mas... referia-se á viagem?
-
---Referia-me; perguntava quando iam.
-
-Esta presença de espirito de Luiz Alves ia muito com o genio de
-Guiomar; era um laço de sympathia. A moça respondeu que o commendador
-viria buscal-as dahi a quinze ou vinte dias.
-
---Tres mezes apenas? perguntou o advogado.
-
---Tres ou quatro.
-
---Quatro mezes não é a eternidade, mas Cantagallo, para uma carioca da
-gemma, hade ser um degredo, ou quasí... Oxalá,--continuou Luiz Alves,
-concluindo mais depressa do que queria, ao ver que Jorge se approximava
-da janella,--oxalá não lhe faça esse exilio esquecer o que solemnemente
-lhe digo neste momento: que a senhora tem uma alma grande e nobre, e
-que eu a admiro!
-
-Jorge chegára; a conversa tinha de acabar ou tomar differente rumo.
-
-As ultimas palavras de Luiz Alves eram singularmente dispostas para
-deixar sulco profundo na memoria da moça. Não era uma declaração de
-amor, nem uma cortezania de sala cousas todas que ella ouvira muita
-vez, que podiam lisongea-la, e de certo a lisongeavam; era mais que
-um comprimento e não chegava a ser uma declaração. Commoção, não a
-havia na voz do advogado; firmeza, sim, e um ar de convicção profunda.
-Guiomar olhou para elle quasi sem dar pela presença de Jorge; mas Luiz
-Alves voltara-se para o recem-chegado e falava-lhe em tom jovial, bem
-differente daquelle que empregára pouco antes.
-
-Se esse contraste era premeditado,--não sei se o era,--não podia vir
-mais de feição ao espirito de Guiomar. De quantos homens a moça tratára
-até alli, era o primeiro que lhe inspirava curiosidade, e tambem,
-naquella occasião, a primeira pessoa que só compadecia della. Veja o
-leitor:--curiosidade e gratidão;--veja se ha duas azas mais proprias
-para arrojar uma alma no seio de outra alma,--ou de um abysmo, que é ás
-vezes a mesma cousa.
-
-Eu disse--compadecia--e esta só palavra, desacompanhada de outra cousa,
-póde fazer crer ao leitor que, durante aquelles dias em que a perdemos
-de vista, tornara-se Guiomar uma creatura desditosa. Nada disso; a
-situação era a mesma, não a mesma anteriormente á carta de Jorge, mas
-a mesma da noite em que ella a recebeu, situação, de certo, assaz
-sombria e carregada para um coração que receia ser constrangido, mas
-não desesperada nem angustiosa.
-
-A baroneza, se soubera dos factos, ou se pudera ler na alma da moça,
-seria a primeira a dar-lhe todas as consolações. Mas não sabia.
-Seu desejo,--ou antes o sonho da velhice, como ella dizia n'um dos
-anteriores capitulos,--era deixar felizes a afilhada e o sobrinho, e
-entendia que o melhor meio de os deixar felizes era casal-os um com o
-outro. A noticia que tinha do coração da moça, a este respeito, era
-incompleta ou inexacta; pintavam-lhe como frieza o que era repugnancia.
-Mrs. Oswald dava-lhe sempre esperanças de exilo feliz e proximo, as
-coleras da moça não lh'as contava nunca. Da carta de Jorge não soube,
-nem da scena havida na alcova. O casamento continuava a apparecer-lhe
-com todas as probabilidades de uma esperança realizavel.
-
-Dirá a leitora que o sobrinho não merecia tanto zelo nem tão pertinaz
-esperança, e terá razão; mas os olhos da baroneza não são os da
-leitora; ella só lhe via o lado bom,--que era realmente bom,--ainda
-que de uma bondade relativa; mas não via o lado mau, não via nem podia
-ver-lhe a frivolidade grave do espirito, nem o genero de affecto que se
-lhe gerava no coração.
-
-Jorge era o seu unico parente de sangue,--filho de um irmã que vivêra
-infeliz e mais infelizmente morrêra, não repudiada, mas aborrecida
-do marido, circumstancia que lhe tornava caro aquelle moço. Mais do
-que a afilhada, não; nem tanto, de certo; o coração não chegaria para
-dividir-se egualmente em tão grandes porções; queria-lhe, porém,
-muito, quanto bastava para desejal-o feliz, e trabalhar por fazel-o.
-Accrescentemos que o destino da irmã sempre lhe estava presente
-ao espirito, e que ella receiava egual sorte a Guiomar; em Jorge
-parecia-lhe ver todos os dotes necessarios para tomal-a venturosa.
-
-Infelizmente, Mrs. Oswald, sabedora daquelles secretos desejos e mais
-ou menos confidente dos sentimentos de Jorge, achara azada occasíão
-esta para patentear toda a gratidão de que estava possuida e a profunda
-amizade que a ligava á familia da baroneza. Interpoz-se para servir
-aos outros, e mais ainda a si propria. Viu a difficuldade, mas não
-desanimou; era preciso armar ao reconhecimento da baroneza. Por isso
-não hesitou em confiar a Guiomar o desejo da madrinha, exagerando-o,
-entretanto,--por que nunca a baroneza dissera que «tal casamento era
-a sua campanha,» e Mrs. Oswald attribuiu-lhe esta phrase mortal para
-todas as esperanças e sonhos da moça. Mas, se falava demasiado ao pé
-de uma, era muito mais sobria de palavras com a outra, e da exageração
-ou da attenuação da verdade resultara aquelle perenne estado de luta
-abafada, de receios, de indecisão e de amarguras secretas. Convém
-dizer, para dar o ultimo traço ao perfil, que esta Mrs. Oswald não
-seguia só a voz do seu interesse pessoal, mas também o impulso do
-proprio genio, amigo de pôr á prova a natural sagacidade, de tentar e
-levar a cabo uma destas operações delicadas e difficeis, de maneira
-que, se houvesse uma diplomacia domestica,--ou se se creassem cargos
-para ella, Mrs. Oswald podia contar com um lugar de embaixatriz.
-
-Vindo agora á narração dos successos da historia, cumpre que o leitor
-saiba, que a carta de Jorge não teve resposta escripta nem verbal. No
-dia seguinte ao da entrega foi elle jantar a Botafogo; mas Guiomar não
-saíra do quarto, a pretexto de uma dor de cabeça; a baroneza passou o
-dia com ella; Jorge apenas conseguiu saber, quando de lá saiu, que a
-moça ia melhor. Nos subsequentes dias nenhuma resposta foi ás mãos do
-pretendente, nem elle conseguiu haver uns cinco minutos de conversa
-solitaria com a moça; Guiomar esquivava-se sempre, com aquella arte
-summa da mulher que aborrece, e que é nem mais nem menos egual á da
-mulher que ama.
-
-Um dia, porém, não houve meio de fugir; e Jorge, que não tinha nenhuma
-commoção na voz, porque não tinha muita no coração, olhou para ella
-com olhos direitos e francamente lhe pediu uma palavra de esperança
-ou de desengano. A moça hesitou alguns segundos; contudo era preciso
-responder. Venceu a repugnância dizendo-lhe com um frio sorriso:
-
---Nem uma nem outra cousa.
-
---Nem desengano? perguntou Jorge alvoroçado.
-
---Ninguem pode dar nem uma cousa nem outra, disse ella; costumamos
-acceital-as do nosso destino.
-
-Não era responder, como vê o leitor; Jorge ia pedir uma decisão mais
-transparente, mas a moça aproveitara-se da primeira impressão e
-esquivara-se. Quando elle recobrou a voz não viu mais que a fimbria do
-vestido, que se perdia na volta de uma porta.
-
-Guiomar encurtou as redeas á familiaridade que existia entre ella e
-Jorge; mas, se o tratava com mais reserva, não o fazia com sequidão nem
-frieza, nem deixava de ser polida e affavel. A dignidade natural que
-havia em toda a sua pessoa servia-lhe, além disso, como de uma torre de
-marfim, onde ella se acastellava e mantinha em respeito o pretendente.
-
-Dos dous homens que lhe queriam, nenhum lhe falava á alma; ella
-sentia que Estevão pertencia á phalange dos tibios, Jorge á tribu dos
-incapazes, duas classes de homens que não tinham com ella nenhuma
-affinidade electiva. Não egualava, de certo, os dous pretendentes; um
-era simplesmente trivial, outro sentimental apenas; mas nenhum delles
-capaz de crear por si só o seu destino. Se os não egualava, tambem os
-não via com os mesmos olhos; Jorge causava-lhe tedio, era um Diogenes
-de especie nova; atravez da capa rota da sua importancia, via-se-lhe
-palpitar a triste vulgaridade. Estevão inspirava-lhe mais algum
-respeito; era uma alma ardente e frouxa, nascida para desejar, não para
-vencer, uma especie de condor, capaz de fitar o sol, mas sem azas para
-voar até lá. O sentimento de Guiomar em relação a Estevão não podia
-nunca chegar ao amor; tinha muito de superioridade e perdão.
-
-Com outra indole, aspirações differentes e vivida em diversa esphera,
-ama-lo-hia com certeza, do mesmo modo que elle a amava. Mas a natureza
-e a sociedade deram-se as mãos para a desviar dos gozos puramente
-intimos. Pedia amor, mas não o quizera fruir na vida obscura; a maior
-das felicidades da terra seria para ella o maximo dos infortunios,
-se lh'a puzessem n'um ermo. Creança, iam-lhe os olhos com as sedas e
-as joias das mulheres que via na chacara contigua ao pobre quintal
-de sua mãe; moça, iam-lhe do mesmo modo com o espectaculo brilhante
-das grandezas sociaes. Ella queria um homem que, ao pé de um coração
-juvenil e capaz de amar, sentisse dentro em si a força bastante para
-subil-a aonde a vissem todos os olhos. Voluntariamente, só uma vez
-acceitara a obscuridade e a mediania; foi quando se propoz a seguir o
-officio de ensinar; mas é preciso dizer que ella contava com a ternura
-da baroneza.
-
-
-
-
-XIV
-
-
-Ex abrupto.
-
-
-Já o leitor ficou entendendo que a viagem a Cantagallo era obra quasi
-exclusiva de Guiomar. A baroneza relutara a principio, como das outras
-vezes fizera, e o commendador pouca esperança tinha já de a ver na
-fazenda. Mas o voto de Guiomar foi decisivo. Ella fortaleceu, com as
-suas, as razões do commendador, allegando não só a obrigação em que a
-madrinha estava de desempenhar a palavra dada, mas ainda a vantagem
-que lhe podiam trazer aquelles tres mezes de vida roceira, longe das
-agitações da côrte; emfim, invocou o seu proprio desejo de ver uma
-fazenda e conhecer os habitos do interior.
-
-Não havia tal desejo, nem cousa que se parecesse com isso; mas Guiomar
-sabia que na balança das resoluções da madrinha era de grande peso a
-satisfação de um gosto seu. O sacrificio duraria tres ou quatro mezes;
-ella afrontaria, porém, dez ou doze se tantos fossem necessarios, para
-fugir algum tempo ás pretenções de Jorge, sem embargo de lhe repugnar
-todo o viver que não fosse a vida fastosa e agitada da côrte. Eu, que
-sou o Plutarcho desta dama illustre, não deixarei de notar, que, neste
-lance, havia nella um pouco de Alcibiades,--aquelle gamenho e delicioso
-homem de Estado, a quem o despeito tambem deu forças um dia para
-supportar a frugalidade spartana.
-
-Infelizmente, Jorge reduziu todos esses calculos a nada. Ella contava
-com o seu demasiado apego aos regalos da côrte, não contava com as
-suggestões de Mrs. Oswald, que percebera o plano, e torcera a primeira
-resolução de Jorge, que era ficar e esperar. O sacrificio da parte
-delle era compensado pela probabilidade da victoria, a qual não
-consistia só em haver por esposa uma moça bella e querida, mas ainda
-em tornar muito mais summarias as partilhas do que a baroneza deixaria
-por sua morte a ambos. Esta consideração, que não era a principal,
-tinha ainda assim seu peso no espirito de Jorge, e, sejamos justos,
-devia tel-o: possuir era o seu unico officio. Assim era que não só a
-moça deixava de obter um bem, mas cahia de um mal em outro maior; tel-o
-ao pé de si, onde as distracções seriam menos promptas e variadas,
-equivalia a adoecer de fastio e morrer de inanição.
-
-Imagine-se por isso em que estado lhe ficou o espirito depois da
-declaração de Jorge. Não havia meio de fugir ao pretendente, era
-preciso tragal-o. Esta perspectiva abateu-lhe totalmente o animo. Uma
-confidente, em taes situações, é um presente do ceu; mas Guiomar não a
-tinha, e se alguma pessoa lhe merecesse tal confiança, é certo ou quasi
-certo que lhe não diria nada. Suas dores eram altivas, as tristezas de
-seu coração tinham pudor. Espiritos desta casta ignoram a consolação
-que ha, nas horas de crise, em se repartirem com outro; triste, mas
-feliz ignorancia que lhes poupa muita vez o contacto de uma consciência
-aleivosa e ruim.
-
-No meio do longo reflectir, soaram-lhe na memoria as palavras de Luiz
-Alves; ella ouviu-as de novo, taes quaes elle as proferira, desde a
-phrase descortez até à expressão respeitosa. Uma era o commentario da
-outra, e ambas podiam explicar-lhe o caracter de Luiz Alves, se tivesse
-alguns elementos mais para conhece-lo; em todo o caso, era a ponta do
-veu levantada. Embora se lhe não podesse ler no fundo do espirito,
-via-se desde já qual era o seu methodo de acção.
-
-Qualquel outro homem, depois do effeito produzido pela primeira
-declaração, não se atreveria ou não lhe importaria tentar mais nada
-para desfazer o projecto da viagem. Mas o espirito de Luiz Alves tinha
-a obstinação do dogue. Era-lhe necessario que a familia da baroneza
-não saisse da côrte; este objecto havia de alcança-lo a todo o trance.
-Elle espreitava as occasiões, aproveitava as circumstancias, tinha a
-habilidade de intercalar o pedido em qualquer retalho de conversação,
-onde menos apropriado pareceria a qualquer outro. Jorge applaudia-o com
-as forças todas de que podia dispor o seu interesse. A baroneza oppunha
-ás suggestões do advogado a resistencia molle e atada de quem deseja
-aquillo mesmo que recusa.
-
---O doutor é terrivel, dizia ella. Em se lhe mettendo uma cousa na
-cabeça, ninguem mais o tira dahi.
-
---Justamente, é uma ideia fixa. Sem ideia fixa não se faz nada bom
-neste mundo.
-
-Guiomar sustentava a resolução da madrinha, posto não o fizesse a
-miudo, nem no mesmo tom secco e imperioso da primeira noite. Seu
-impulso era ser coherente; ao mesmo tempo não queria parecer aos olhos
-de Luiz Alves que lhe acceitava o concurso para obter o que aliás
-desejava de todo o coração; sería laval-o da primeira culpa.
-
-O argumento que mais influia no animo de todos, o que devera ter
-affastado a ideia de semelhante viagem, era o perigo de affrontar
-o cholera-morbus que por aquelle tempo percorria alguns pontos do
-interior. Um dia de manhã soube-se que em Cantagallo havia apparecido o
-terrível inimigo. Desta vez Luiz Alves triumphou sem dizer palavra; a
-baroneza recuou deante daquelle facto brutal.
-
-A viagem desfez-se pois, a contento de todos, salvo talvez de Mrs.
-Oswald, que receiava muito da mocidade casadeira da côrte, e dos
-bellos olhos castanhos de Guiomar. Mrs. Oswald temia ver surgir a cada
-passo um novo inimigo emboscado em algum theatro ou baile, ou quando
-menos na rua do Ouvidor, e não via que o inimigo novo podia ser que
-estivesse litteralmente ao pé da porta. A sagacidade da ingleza desta
-vez foi um tanto myope. A razão é que Luiz Alves, em todos aquelles
-seus preliminares, houve-se com habilidade; longe de procurar a moça,
-parecia nada haver alterado nos seus sentimentos, nem desejar mudar a
-especie de relações que até alli mantinha. Guiomar, entretanto, não
-podia deixar de comparar aquella especie de attenciosa indifferença que
-havia delle para ella, com as palavras que anteriormente lhe ouvira, e
-o resultado da comparação não lhe parecia muito claro.
-
-Na noite do mesmo dia em que ficou assentado defferir a viagem para
-melhores tempos, achavam-se em casa da baroneza algumas pessoas
-de fóra; Guiomar, sentada ao piano, acabava de tocar, a pedido da
-madrinha, um trecho de opera da moda.
-
---Muito obrigada, disse ella a Luiz Alves que se approximára para
-dirigir-lhe um comprimento. Está alegre! Parece que é a satisfação de
-me haver mallogrado o maior desejo que eu tinha nesta occasião.
-
---Não fui eu, disse elle, foi a epidemia.
-
---Sua alliada, parece.
-
---Tudo é alliado do homem que sabe querer, respondeu o advogado dando
-a esta phrase um tanto emphatica o maior tom de simplicidade que lhe
-podia sair dos labios.
-
-Guiomar curvou a cabeça e esteve alguns instantes a perpassar os dedos
-pelas teclas, em quanto Luiz Alves, tirando de cima do piano outra
-musica, dizia-lhe:
-
---Podia dar-nos este pedaço de Bellini, se quizesse.
-
-Guiomar pegou machinalmente na musica e abriu-a na estante.
-
---Era então vontade sua? perguntou ella continuando o assumpto
-interropido do dialogo.
-
---Vontade certamente, porque era necessidade.
-
---Necessidade,--tornou ella começando a tocar, menos por tocar que por
-encobrir a voz; mas necessidade por que?
-
---Por uma razão muito simples, porque a amo.
-
-A musica estacou. Guiomar erguera-se de um salto. Mas nem o gesto da
-moça, nem a sorpresa das outras pessoas, perturbou o advogado; Luiz
-Alves inclinou-se para o mocho, como a concertal-o, e voltando-se para
-Guiomar, disse-lhe graciosamente:
-
---Pode sentar-se-agora; está seguro.
-
-Guiomar sentou-se outra vez muda, despeitada, a bater-lhe o coração
-como nunca lhe batera em nenhuma outra occasião da vida, nem de
-susto, nem de colera, nem... de amor, ia eu a dizer, sem que ella o
-houvesse sentido jamais. Não se demorou muito tempo alli; com a mão
-tremula folheou a musica que estava aberta na estante, deixou-a logo e
-levantou-se.
-
-Nestes derradeiros movimentos ninguem reparou; e se alguem pudesse
-reparar em alguma cousa, a moça tomara a peito desvanecer todas as
-suspeitas. A primeira impressão fora profunda, mas Guiomar tinha força
-bastante para dominar-se e fechar todo o sentimento no coração.
-
-O que se passou depois, quando, livre de olhos estranhos, pôde
-entregar-se a si mesma, isso ninguem soube, a não serem as paredes
-mudas do quarto, ou o raio de lua coado pelo tecido raro das cortinas
-das janellas, como a espreitar aquella alma faminta de luz. Soube-o,
-talvez, o seu espelho, quando no dia seguinte lhe reflectiu o rosto
-desfeito e os olhos quebrados. Se foi a meditação nocturna que os
-amolleceu e apagou, não o perguntou elle, naturalmente porque o sabia;
-mas talvez advertiu comsigo que se eram assim mais bellos, pediam outro
-rosto em que caissem melhor. O de Guiomar queria-os como elles eram,
-severos, firmes e brilhantes.
-
-A baroneza tambem não deixou de ver que a afilhada não accordara com o
-mesmo ar do costume; achou-a taciturna e distrahida.
-
---Eu, madrinha? perguntou Guiomar simulando um sorriso de admiração.
-
---Será engano de meus olhos.
-
---Não é outra cousa; estou como sempre, como hontem, como amanhã.
-Passei a noite um pouco mal, é verdade; mas o que tive desapareceu
-inteiramente. A prova...
-
-Guiomar parou neste ponto, chegou-se á madrinha e deu-lhe um beijo.
-
---A prova, continuou ella, é que ainda hoje me acha bonita, não é?
-
---Creança! respondeu a baroneza, dando-lhe uma pancadinha na face.
-
-A tranquillidade da moça era simulada; apenas a madrinha voltou as
-costas, cobriu-se-lhe o rosto com o mesmo veu. Ella aprendera desde
-creança a disfarçar as suas preoccupações.
-
-Quanto a Luiz Alves, posto houvesse contado com o seu methodo cru e
-abrupto, saiu dalli sem plena certeza do resultado. Esta incerteza
-abalou-o mais do que elle suppunha; e foi, sem duvida, a primeira
-occasião em que sentiu que a amava devéras, ainda que o seu amor fosse
-como elle mesmo: placido e senhor de si. No dia seguinte, Estevão
-interrogou-o a respeito de Guiomar.
-
---Creio, disse elle depois de reflectir alguns instantes,--creio que
-por ora não deves perder as esperanças todas.
-
-
-
-
-XV
-
-
-Embargos de terceiro.
-
-
-Durante tres dias deixou Luiz Alves de ir á casa da baroneza, estando
-aliás a morrer por isso. Entrava porém no plano esta ausencia; era das
-instrucções que elle mesmo dera ao seu coração; não havia remedio senão
-observal-as.
-
-No quarto dia recebeu um bilhete da baroneza que o comprimentava pela
-eleição. A mala do norte chegára, e com ella a noticia da victoria
-eleitoral. Estava Luiz Alves deputado; ia emfim dar a sua demão no
-fabricos das leis. Estevão foi o primeiro que o felicitou; era o antigo
-companheiro dos bancos da academia; tanto ou mais do que os outros
-devia applaudir aquella boa fortuna. Não lhe escondeu, entretanto a
-inveja que ella lhe mettia:
-
---Deputado! suspirou elle. Oh! eu tambem podia ser deputado.
-
-Estevão dizia isto, como a creança deseja o dixe que vê no collo
-de outra creança,--nada mais. Eram os seus sonhos de outr'ora,
-que renasciam taes quaes eram, inconsistentes, vagos, prestes a
-dissiparem-se com o primeiro raio da manhã.
-
-Luiz Alves apressou-se a ir agradecer á baroneza a felicitação. Guiomar
-teve um leve estremecimento quando o viu, mas recebeu-o tranquilla e
-risonha, quasi indifferente. O advogado era habil; não a perseguiu com
-os olhos; sobre accordar a attenção das demais pessoas, era seguir o
-methodo commun. Elle não queria parecer-se com os outros.
-
-Guiomar, entretanto, observava-o a espaços, de revez, como a querer
-sorprehendel-o; a pouco e pouco, porém, o seu olhar foi sendo mais
-direito e firme. O de Luiz Alves era natural e egual como antes era,
-como era ainda agora com todos.
-
-Ao sair, junto á porta de uma sala, onde acaso a topou, Luiz Alves teve
-occasião de lhe dizer esta simples palavra:
-
---Perdoou-me?
-
-A moça retirou a mão, que elle tinha presa na sua, e furtou o corpo, ao
-mesmo tempo que lhe caiam as palpebras.
-
---Perdoou-me? repetiu-elle.
-
-Guiomar retirou-se sem dizer palavra. Luiz Alves esperou que ella
-desapparecesse e saiu. A moça, entretanto, ficou irritada por nada lhe
-ter respondido, sendo verdade que nada achou nem acharia talvez que lhe
-responder; mas arrependeu-se e pensou longo tempo naquillo.
-
-Quer dizer que o amava? Quer dizer que estava prestes a isso. A
-arraiada branqueava o ceu, tingiria depois o cimo dos montes,
-entornar-se-hia emfim pela encosta abaixo, até apparecer o sol,--o sol
-contemporaneo de Adão, e do ultimo homem que hade vir.
-
-Dalli a dias, entrando Luiz Alves em casa da baroneza, teve a boa
-fortuna de encontrar a moça sosinha, na sala do trabalho, d'onde a
-baroneza se ausentára cinco minutos antes. Mrs. Oswald achava-se fóra.
-Era a hora da tardinha; o dia estava prestes a afogar-se no seio da
-noite.
-
-Guiomar, mollemente sentada n'uma cadeira baixa, tinha um livro aberto
-sobre os joelhos e os olhos no ar. Luiz Alves sorprehendeu-a nessa
-attitude meditativa, mais bella do que nunca, porque assim, e áquella
-hora, e com o vestido meio escuro que lhe realçava a côr de leite da
-face, tinha um quê de gracioso e severo, ao mesmo tempo, que parecia
-buscado de proposito para recebe-lo.
-
---Minha madrinha já vem, disse Guiomar logo depois de lhe estender a
-mão, que elle apertou e sentiu um pouco tremula.
-
---Talvez daqui a cinco minutos, disse elle; é bastante para decidir o
-meu destino. Duas vezes lhe perguntei se me perdoara; pela terceira lhe
-peço que me responda; custa pouco uma unica palavra; custa menos ainda,
-um unico gesto.
-
-A moça olhou algum tempo para o livro que tinha diante de si. A manhã,
-porem, era já alta no coração de Guiomar, a claridade intensa, o sol
-quente e vivo, por que ella não olhou muito tempo para o livro, nem
-hesitou mais do que era natural e exigivel naquella occasião. Dous
-minutos depois fez o gesto, um gesto só, mas ainda mais eloquente do
-que se ella falasse,--estendeu-lhe a mão.
-
-Luiz Alves apertou-lh'a entre as suas.
-
-A commoção era natural em ambos; alli estiveram alguns instantes
-calados, elle com os olhos fitos nella, ella com os seus no chão. As
-mãos tocavam-se e os corações palpitavam unisonos. Decorreram assim
-cinco breves minutos. Ella foi a primeira que rompeu o silencio.
-
---Um gesto, um só gesto, e é o meu destino que lhe entrego com elle,
-disse Guiomar olhando em cheio para o moço.
-
---Ainda não. Se os nossos destinos se ligarem, estou convencido de que
-o meu amor, pelo menos, terá a virtude de a tornar feliz. Mas nada está
-feito ainda, e se eu fui breve e apressado na confissão, não o desejo
-ser na consagração que lhe peço.
-
-Luiz Alves calara-se; a moça olhava para elle como buscando entende-lo.
-
---Sim, continuou elle; melhor é que não ceda a um instante de
-enthusiasmo. Minha vida é sua; todo o meu destino está nas suas mãos...
-Comtudo, não quero sorprehender-lhe o coração neste momento; no dia em
-que me julgar verdadeiramente digno de ser seu esposo, ouvi-la-hei e
-seguila-hei.
-
-A resposta da moça foi apertar-lhe as mãos, sorrir, e embeber os seus
-olhos nos delle. O passo da baroneza interrompeu esta contemplação.
-
-Guiomar amava deveras. Mas até que ponto era involuntario aquelle
-sentimento? Era-o até o ponto de lhe não desbotar á nossa heroina a
-castidade do coração, de lhe não diminuirmos a força de suas faculdades
-affectivas. Até ahi só; dahi por diante entrava a fria eleição do
-espirito. Eu não a quero dar como uma alma que a paixão desatina e
-cega, nem faze-la morrer de um amor silencioso e timido. Nada disso
-era, nem faria. Sua natureza exigia e amava essas flores do coração,
-mas não havia esperar que as fosse colher em sitios agrestes e nus, nem
-nos ramos do arbusto modesto plantado em frente de janella rustica.
-Ella queria-as bellas e viçosas, mas em vaso de Sèvres, posto sobre
-movel raro, entre duas janellas urbanas, flanqueado o dito vaso e as
-ditas flores pelas cortinas de cachemira, que deviam arrastar as pontas
-na alcatifa do chão.
-
-Podia dar-lhe Luiz Alves este genero de amor? Podia; ella sentiu que
-podia. As duas ambições tinham-se adivinhado, desde que a intimidade
-as reuniu. O proceder de Luiz Alves, sobrio, directo, resoluto, sem
-desfallecimentos, nem demasias ociosas, fazia perceber á moça que elle
-nascera para vencer, e que a sua ambição tinha verdadeiramente azas,
-ao mesmo tempo, que as tinha ou parecia tel-as o coração. Demais, o
-primeiro passo do homem publico estava dado; elle ia entrar em cheio
-na estrada que leva os fortes á gloria. Em torno delle ia fazer-se
-aquella luz, que era a ambição da moça, a atmosphera, que ella
-almejava respirar. Estevão dera-lhe a vida sentimental,--Jorge a vida
-vegetativa; em Luiz Alves via ella combinadas as affeições domesticas
-com o ruido exterior.
-
-Uma vez entendidos, é difficil que dous corações se encubram, pelo
-menos aos olhos mais sagazes. Os de Mrs. Oswald eram dos mais finos.
-A ingleza percebeu dentro de pouco tempo que entre elles havia alguma
-cousa. Interrogar a moça era inutil, sobre perigoso; seria ir, de
-coração leve, em busca de odio, talvez. Todavia se ainda fosse possivel
-salvar tudo? Guiomar resistiria difficilmente a um desejo de madrinha;
-era possível vencel-a por esse lado.
-
-Mrs. Oswald concebeu então um projecto insensato, que lhe pareceu aliás
-excellente e de bom aviso. O desejo de servir a baroneza e levar uma
-ideia ao fim tapou-lhe os olhos de razão. Ella foi directamente a Jorge.
-
---Sabe o que me está parecendo? disse ella. Parece-me que ha mouro na
-costa.
-
---Mouro na costa! exclamou Jorge com uma tal expressão de desgosto, que
-era facil comprehender o fundo de suspeita já existente em seu espirito.
-
---Nada menos, disse a ingleza; mas um mouro que se póde capturar.
-
-E a ingleza expoz um plano completo que o sobrinho da baroneza ouviu um
-tanto perplexo. O plano consistia em ir Jorge pedir a moça á baroneza,
-em presença della propria. A baroneza, que nutria o desejo de os ver
-casados, não deixaria de fazer pezar o seu voto na balança, e era muito
-difficil que a gratidão de Guiomar não decidisse am favor de Jorge.
-
---A gratidão... e o interesse, continuou ella; Devemos contar tambem
-com o interesse, que é um grande conselheiro intimo. Ella não ha de
-querer sacrificar a affeição da madrinha, que para ella vale...
-
---Oh! que triste lembrança! interrompeu Jorge, recuando diante da ideia
-de Mrs. Oswald.
-
-A ingleza sorriu,--e deixou por mão aquelle argumento; firmou-se porém
-no da affeição. Guiomar não se opporia a um desejo da madrinha; era
-urgente dar-lhe o golpe. Jorge não se atrevia a sorprehender por esse
-meio a acquiescencia da moça; mas acreditava na efficacia delle, e
-sobretudo receiava perder a causa. Uma vez que a vencesse, tudo podia
-confiar do tempo e do seu amor.
-
-O conselho foi seguido pontualmente. De noite, em presença da
-baroneza á hora da despedida,--porque elle hesitara a maior parte do
-tempo,--praticou Jorge aquelle acto insensato de declarar á moça que a
-amava e de lhe pedir a mão. A tia sorriu de contentamento, mas teve a
-prudencia de não proferir nada emquanto Guiomar, empallidecendo, nada
-dizia, porque nada achava que dizer.
-
-O silencio durou cerca de tres e quatro minutos, um silencio acanhado
-a vexado, em que nenhum delles se atrevia a reatar a conversação.
-A baroneza, pela sua parte, imaginava que os dous estavam emfim
-entendidos, e que a declaração era autorisada pela moça. O enleio de
-Guiomar não era dos que podessem dar cabimento a esta supposição; mas a
-boa senhora via com os olhos dos seus bons desejos.
-
---Pela minha parte, declarou emfim a baroneza, não me opponho;
-estimaria muito que acabassem por ahi. Mas é negocio do coração; devo
-esperar a resposta de Guiomar.
-
-E voltando-sa para a afilhada:
-
---Pensa e resolve, minha filha, disse ella; e se fores feliz, sel-o-hei
-ainda mais do que tu.
-
-Duas vezes pairou a negativa nos labios da moça; mas a lingua não se
-atrevia a repellir a palavra do coração. No fim de alguns instantes:
-
---Reflectirei, respondeu ella beijando a mão a madrinha; e continuou
-voltando-se para Jorge:--Boa noite! Até amanhã.
-
-
-
-
-XVI
-
-
-A confissão.
-
-
-Na mesma noite em que Jorge, cedendo ás suggestões de Mrs. Oswald,
-tentava o ultimo recurso que no intender da ingleza havia, achava-se
-Luiz Alves em casa, commodamente sentado n'uma poltrona de couro,
-defronte da janella com os olhos no mar e o pensamento nas suas duas
-candidaturas vencidas. Meia noite estava a pingar; uma pessoa descia de
-um tibury e batia-lhe á porta.
-
-Era Estevão.
-
-Luiz Alves naturalmente admirou-se de o ver alli áquella hora; mas
-Estevão explicou-lhe tudo.
-
---Venho passar meia hora comtigo, ou a noite toda se quizeres. Estava
-em casa aborrecido, a pensar... bem sabes em que...
-
---Nella? interrompeu Luiz Alves.
-
---Agora e sempre.
-
-Luiz Alves torceu o bigode, e olhou tres ou quatro vezes para o
-collega, em quanto este tirava o chapeu e dispunha-se a ir buscar uma
-cadeira para sentar-se ao pé do outro.
-
---Estevão, disse Luiz Alves depois de algums instantes de reflexão, e
-voltando a poltrona para dentro, ouve-me primeiro e resolverás depois
-se ficas a noite ou se te vás embora immediatamente. Talvez escolhas
-este ultimo alvitre.
-
---Vás falar-me de Guiomar?
-
---Justamente.
-
-Estevão sentou-se defronte de Luiz Alves. Seu coração batia appressado;
-dissera-se que toda a sua vida pendia dos labios do amigo. Houve um
-instante de silencio.
-
---Nenhuma.... nenhuma esperança então? murmurou Estevão.
-
---Disseste a fatal palavra! exclamou Luiz Alves. Sim, não tens nenhuma
-esperança.
-
---Mas.... como sabes?
-
---Não me interrogues; eu não poderia dizer-te tudo o que ha. Poupa-me,
-ao menos, esse triste dever.
-
-Estevão sentiu arrasarem-se-lhe os olhos d'agua. Quiz falar, mas as
-palavras iam-lhe saindo envoltas em soluços.
-
-Luiz Alves fumava tranquillamente, acompanhando com os olhos os
-rolinhos de fumo que lhe fugiam da ponta do charuto. Este silencio
-durou cerca de dez minutos. O mar batia compassadamente na praia. A voz
-da onda e o latido de um cão ao longe eram os unicos sons que vinham
-quebrar a mudez daquella hora solemne para um desses dous homens que ia
-perder até o repouso da esperança.
-
-Estevão foi o primeiro que falou:
-
---Ama a outro, não é? perguntou elle com a voz tremula.
-
---Ama, respondeu surdamente Luiz Alves.
-
-Estevão ergueu-se e deu alguns passos na sala, sem dizer palavra, a
-morder a ponta do bigode, parando ás vezes, outras traduzindo com um
-gesto desordenado os sentimentos que lhe tumultuavam no coração. A dor
-devia ser grande, mas a manifestação já não era a mesma que o leitor
-lhe viu, dous annos antes, quando elle foi confiar ao amigo o primeiro
-desengano de Guiomar.
-
---Parece-me que eu adivinhava isto mesmo, disse elle, emfim, parando
-em frente de Luiz Alves. Este desejo que me accometteu de vir aqui, a
-este hora, sem certeza de encontrar-te, era mais um beneficio do meu
-destino. Devia esperal-o. Que vida tem sido a minha, Luiz! Agarrei-me,
-nem sei por que, á esperança de ser amado por ella, de a vencer pela
-piedade, ou pelo remorso, ou por qualquer outro motivo que fosse,--o
-motivo importava pouco... O essencial é que ella me pagasse em ternura
-e amor todas as dores que curti, as lagrimas todas que tenho devorado
-em silencio... E era so essa esperança que ainda me dava forças... que
-me fazia crer feliz, como pode sel-o um desgraçado, como podia sel-o
-eu, que nasci debaixo de ruim estrella.... Oh! se tu souberas... Não,
-não sabes, nem ella tambem, ninguem sabe nem saberá nunca tudo quanto
-tenho padecido, tudo quanto....
-
-Interrompeu-se. Duas lagrimas, espremidas do fundo do coração,
-saltaram-lhe dos olhos e desceram-lhe rapidas a perder-se entre os
-cabellos raros e finos da barba. Elle sentiu que outras podiam vir, e
-foi sentar-se n'um sophá, meio voltado de costas para Luiz Alves. As
-outras vieram, porque o coração ainda as tinha para as dôres supremas;
-mas correram-lhe silenciosas, sem um soluço, sem uma queixa unica.
-
-Luiz Alves lavantara-se e chegara á janella. Seu espirito, apezar de
-frio e quieto, parecia agora um pouco alvoroçado. Não era dor; e não
-sei se lhe podia chamar remorso. Mau-estar apenas, e commiseração.
-O coração era capaz de affeições; mas, como ficou dito no primeiro
-capitulo, elle sabia rege-las, modera-las e guia-las ao seu proprio
-interesse. Não era corrupto nem perverso; tambem não se póde dizer
-que fosse dedicado nem cavalheresco; era, ao cabo de tudo, um homem
-friamente ambicioso.
-
-Estevão levantara-se outra vez e pegara no chapeu.
-
---Vem cá, disse Luiz Alves entrando e indo ter com elle; vejo que estás
-mais homem do que antes. Resta o que sejas completamente; varre da
-memoria e do coração tudo o que possa referir-se...
-
---Que remedio! interrompeu Estevão sorrindo amargamente; que remedio
-tenho eu se não esquece-la! Mas quando?
-
---Mais breve talvez do que suppões...
-
-Luiz Alves não acabou; Estevão olhara para elle com um gesto de espanto
-e fora sentar-se outra vez.
-
---Mais breve do que supponho! exclamou elle. Tu não tens coração: não
-tens sequer observação nem memoria. Não vês, não sentes que esta paixão
-é o sangue do meu sangue, a vida da minha vida? Esquece-la! Era bom
-se eu a pudesse esquecer; mas a minha má sina até essa esperança me
-arranca, porque este padecer intimo, constante, ha de ir commigo até á
-morte...
-
-Desta vez era Luiz Alves que passeava de um lado para outro. Em seu
-espirito despontava uma ideia, que elle examinava, a ver se a poria
-alli mesmo em execução. Era dizer-lhe tudo. Estevão viria a sabel-o
-mais tarde; melhor era que o soubesse logo e por elle. Ao mesmo tempo
-reflectia na exaltação dos sentimentos do rapaz; a dor certamente se
-lhe aggravaria, em sabendo que era elle o preferido de Guiomar. O
-coração, que perdoaria a um extranho, condemnaria ao amigo.
-
-Estevão, assentado, com os olhos no tecto, parecia entregue ás suas
-reflexões, mas só parecia, por que elle não pensava, evocava antigas
-memorias, fazia surgir diante de seus olhos a figura gentil de Guiomar,
-sentia-lhe o imperio dos bellos olhos castanhos, ouvia-lhe a palavra
-doce e avelludada entornar-se-lhe no coração. Não evocava só, creava
-tambem, pintava com a imaginação a felicidade que lhe poderia dar a
-moça, se entre todos os homens o escolhera, se elles dous vinculassem
-os seus destinos. Elle via-a ao pé de si, cingia-lhe o braço em volta
-da cintura, enchia-lhe de beijos os cabellos, tudo isto em meio de uma
-paisagem unica na terra, porque a abundancia da natureza cresceria ao
-contacto daquelle sentimento puro, casto e eterno. Não falo eu, leitor;
-transcrevo apenas e fielmente as imaginações do namorado; fixo nesta
-folha de papel os vôos que elle abria por esse espaço fóra, unica
-ventura que lhe era permittida.
-
-No meio dessas visões foi accordal-o Luiz Alves.
-
---Tens razão de sentir, disse este; mas não gastes o coração, que ha
-maiores sorpresas na vida... Em todo o caso, deixa-me dizer-te que
-nenhuma razão tens de censura...
-
---Censuro eu alguém?
-
---Ha no amor um germen de odio que póde vir a desenvolver-se depois.
-Talvez chegues a accusala de te não querer; nesse dia reflecte que os
-movimentos do coração não estão nas mãos da vontade. Ella não tem culpa
-se outro lhe despertou o amor.
-
---Ah! incumbiu-te da defesa!
-
-Luiz Alves sorriu; elle contava com a recriminação.
-
---Não, não me incumbiu da defesa, disse elle; sou eu que a tomo por
-minhas mãos. Que defendo eu aqui se não a natureza, a razão, a logica
-dos sentimentos, dura e inflexivel como toda a outra logica? Ha no
-fundo das tuas palavras um sentimento de egoismo...
-
---O amor não é outra cousa, respondeu Estevão sorrindo por sua vez.
-Queres que inda em cima lhe agradeça este desespero? Queres que vá
-apertar a mão ao homem que a soube vencer?
-
-Luiz Alves mordeu a ponta do labio e acercou-se da janella. Quando ia
-a voltar para dentro ouviu um rumor na janella ao pé, a primeira da
-casa da baroneza. Luiz Alves deu um passo mais. Não viu ninguem; viu
-apenas o resto de um vestido que fugia e um objecto que lhe caia aos
-pés. Inclinou-se a apanhal-o. Era uma grande folha de papel envolvendo,
-para lhe dar mais peso, outra folha pequena dobrada em quarto. Luiz
-Alves aproximou-se da luz, e leu rapidamente o que alli vinha escripto.
-Leu, metteu o papel na algibeira e encaminhou-se disfarçadamente para a
-janella. Ninguem; a casa da baroneza dormia.
-
-Quando voltou para dentro, Estevão tinha-se levantado. Elle vira cair
-o papel, apanhal-o e lel-o Luiz Alves. Não entendeu nada do que se
-passara; mas seu olhar como que pedia uma explicação.
-
-Luiz Alves foi direito ao fim.
-
---Estevão, disse elle, vás saber a verdade toda; não poderia
-occultar-te o que se ha passado, nem conviria talvez que tu a soubesses
-por boca de outro. Guiomar podia amar-te, eras digno della, e ella
-digna de ti; mas a natureza não os fez um para o outro. São duas almas
-excellentes que seriam infelizes unidas. Quem ha aqui que censurar?
-Mas se a natureza explica o sentimento della, egualmente explica o de
-um terceiro, que sou eu. Tu confiaste-me as dores e as esperanças de
-teu coração; era conhecer toda a minha amisade e a profunda estima que
-sempre te consagrei. Mas nem tu nem eu contavamos commigo; por que
-tambem eu tenho coração, e os prestigios da belleza tambem falam á
-minha alma. Não a pude ver a frio. A paixão obscureceu-me. Nesta minha
-felicidade de amar e ser amado, acredita que sou alguma cousa infeliz,
-por que ha lagrimas tuas, ha o teu padecer longo e cruel, que eu
-imagino e deploro. A confissão é franca; não te falo em arrependimento,
-porque são actos do coração e não da consciência, que essa é pura e
-honrada. E depois desta exposição fiel, cuido que lastimarás commigo o
-encontro em que o acaso ou a má sorte nos reuniu a todos tres; mas não
-me accusarás nem me recusarás a tua velha estima. Falo só da estima; a
-amisade, creio que não poderá ser a mesma. Mas presarás o meu caracter.
-Pela minha parte, nem uma nem outra cousa perece; sei o que vales. Não
-sei aonde nos lançará a onda do destino amanhã. Pela ultima vez, porém,
-espero que apertarás a mão do teu amigo.
-
-Luiz Alves concluíra estendo-lhe a mão. Estevão olhou para elle, mas
-não disse uma só palavra, não fez um gesto unico: caminhou para a porta
-e saiu.
-
---Estevão! gritou Luiz Alves.
-
-Mas só lhe respondeu o rumor dos pés que desciam, e pouco depois o do
-tilbury que rolava surdamente na terra humida da praia.
-
-Luiz Alves levantou seccamente os hombros; chegou-se á luz e releu o
-escripto.
-
-
-
-
-XVII
-
-
-A carta.
-
-
-Não era preciso reler o papel para entendel-o; mas olhos amantes
-deliciam-se com letras namoradas. O papel continha uma palavra
-unica:--_Peça-me_,--escripta no centro da folha, com uma lettra fina,
-elegante, feminina. Luiz Alves olhou algum tempo para o bilhete,
-primeiramente como namorado, depois como simples observador. A lettra
-não era tremula, mas parecia ter sido lançada ao papel em hora de
-commoção.
-
-Desta observação passou Luiz Alves a uma reflexão muito natural.
-Aquelle bilhete, pouco conveniente em quaesquer outras circumstancias,
-estava justificado pela declaração que elle proprio fizera á moça
-alguns dias antes, quando lhe pediu que o conhecesse primeiro, e que
-no dia em que o julgasse digno de o tomar por esposo, elle a ouviria e
-acompanharia. Mas se isto era assim em relação ao bilhete, não o era em
-relação á hora. Que motivo obrigaria a moça a deitar-lhe da janella, á
-meia noite, aquelle papel decisivo, eloquente na mesma sobriedade com
-que o escrevêra?
-
-Luiz Alves concluiu que havia alguma razão urgente, e portanto, que
-era preciso acudir á situação com os meios da situação. Quanto á razão
-em si, não a pôde descobrir. Occorreu-lhe o facto, aliás patente, da
-côrte que o sobrinho da baroneza fazia a Guiomar, mas ignorava as
-circumtancias que lhe eram relativas, e não pôde passar além.
-
-Não direi que Luiz Alves gastasse a noite a cavar fundo no terreno das
-conjecturas vagas. Não era homem que perdesse tempo em cousas inuteis;
-e nada mais inútil naquella occasião do que tentar explicar o que
-nenhuma explicação podia ter para elle. O que resolveu foi obedecer
-ao recado da moça; pedi-la sem hesitação nem preambulo. Mas se o caso
-lhe não produziu insomnia, não deixou de lhe estender a vigilia, além
-da hora usual, como era de geito naquella occasião solemne, sobretudo,
-tratando-se de creatura que por aquelles tempos era a inveja e a
-cobiça de muitos olhos. Luiz Alves não era, como Estevão, um adoravel
-scismador, não se nutria de imaginações e devaneios, alimento que
-funde pouco ou nada, mas scismou algum tempo, embebeu-se uma hora
-na contemplação ideial da mulher que elle soubera escolher. O somno
-chegou, e o devaneio confundiu-se com o sonho.
-
-Guiomar dormiria tão repousadamente como elle? Dormia; a noite, porém,
-fora-lhe muito mais agitada e amarga, como era natural depois da
-declaração de Jorge e das insinuações da madrinha.
-
-A moça recolhera-se ao quarto, logo depois da declaração. As pessoas
-da casa nada puderam ler-lhe no rosto, salvo a pallidez repentina e o
-rubor que se lhe seguiu: mas, logo que ella se achou só, deu toda a
-expansão aos sentimentos que até alli pudera conter.
-
-O primeiro delles era o despeito; Guiomar sentia-se humilhada com
-aquella declaração, assim feita, de emboscada e sobresalto, para
-arrancar-se-lhe um consentimento que o coração e a indole repelliam.
-Nenhuma consulta, nenhuma autorisação prévia; parecia-lhe que a
-tratavam como ente absolutamente passivo, sem vontade nem eleição
-propria, destinado a satisfazer caprichos alheios. As palavras da
-madrinha desmentiam esta supposição; mas, a noticia que ella tinha
-da resolução da baroneza, neste negocio, diminuia muito o valor de
-taes palavras. Se era uma campanha, como dissera Mrs. Oswald, queriam
-constrangel-a com apparencias de moderação, e o tempo que lhe deixavam
-para reflectir era-o realmente para considerar, sosinha comsigo, na
-necessidade de pagar os benefícios que recebêra.
-
-Não a accusem de ter feito estas reflexões, logo que entrou no quarto,
-com os olhos scintillantes e os labios frios de colera. Eram naturaes;
-primeiramente porque suppunha que o seu casamento com Jorge estava
-deliberado e se realisaria, quaesquer que fossem as circumstancias;
-depois, porque a alma della era melindrosa; não esquecia os beneficios
-recebidos, mas quizera que lh'os não lembrassem por meio de uma
-violencia: fazel-o, era o mesmo que lançar-lh'os em rosto.
-
---Não! murmurava emfim a moça, forçar-me, reduzir-me á condição de
-simples serva, nunca!
-
-Mas esta colera apaziguou-se, e o coração venceu o coração. Guiomar
-recordou a constante ternura da baroneza para com ella, a sollicitude
-com que lhe satisfazia os seus menores desejos, que eram alli ordens,
-e não combinava tamanho amor com a supposta violencia que lhe queria
-fazer. Não tardou em arrepender-se das palavras incoherentes que lhe
-haviam fugido, e dos sentimentos maus que attribuíra ao coração da
-baroneza. Cruzou as mãos no peito e ergueu o pensamento ao ceu, como a
-pedir-lhe perdão. Guiomar, em meio das seducções da vida, que tantas
-eram para ella e de todo lhe levavam os olhos, não perdera o sentimento
-religioso, nem esquecera o que lhe havia ensinado a fé ingenua e pura
-de sua mãe.
-
-A cólera acabára, mas veiu depois a luta entre a gratidão e o
-amor,--entre o noivo que lhe propunha a affeição da madrinha e o que
-o seu proprio coração escolhera. Ella nem ousava tirar as esperanças
-á baroneza, nem immolar as suas proprias,--e uma de duas cousas era
-preciso que fizesse naquella solemne occasião. O que sentiu e pensou
-foi longo e cruel; mas se tal duello podia travar-se-lhe na alma,
-não era duvidoso o resultado. O resultado devia ser um. A vontade e
-a ambição, quando verdadeiramente dominam, podem lutar com outros
-sentimentos, mas hão de sempre vencer, porque ellas são as armas do
-forte, e a victoria é dos fortes. Guiomar tinha de decidir por um dos
-dous homens que lhe propunha o seu destino; elegeu o que lhe falava ao
-coração.
-
-A resposta, porém, não podia a moça demoral-a nem esquival-a, não
-convinha, talvez, prolongar a luta e a duvida. Quando isto pensou,
-veiu-lhe ao espirito uma ideia decisiva, a de confessar tudo á
-madrinha. Hesitou, porém, entre fazel-o ella propria ou por boca
-de Luiz Alves, cujas palavras, apontadas acima trazia escriptas na
-memoria. Preferia este meio; mas não lhe bastava preferil-o, era mister
-realisal-o, e para isso só dous modos tinha, escrever-lhe ou falar-lhe.
-O segundo podia não ser tão prompto, e talvez falhasse occasião
-apropriada; adoptou o primeiro, e recuou logo. A carta seria mandada
-por um famulo, mas o espirito de Guiomar era a tal ponto sobre si que
-repelliu semelhante intervenção. A janella estava aberta; dalli viu luz
-na sala de Luiz Alves e a sombra do moço, que passeava de um lado para
-outro. Occorreu-lhe então a ideia que poz por obra, conforme ficou dito
-no capitulo anterior.
-
-Tal é a historia daquella palavra escripta rapidamente n'uma folha
-de papel. Apesar da declaração de Luiz Alves e das circumstancias
-em que a moça se achou, o leitor facilmente comprehenderá que ella
-não a escreveu sem pelejar comsigo mesma, sem vacillar muito entre a
-repugnancia e a necessidade. Afinal foram vencidos os escropulos, que é
-tanta vez o seu destino delles, e força é dizer que não os vencem nunca
-de graça, porque elles falam, arrazoam, obstam o mais que podem, mas
-é vulgar passarem-lhes por cima. A moça entretanto, apenas lançara a
-carta, arrependeu-se; a dignidade teve remorsos; a consciência quasi a
-accusava de uma acção vil. Era tarde; a carta chegára a seu destino.
-
-Na manhã seguinte, a baroneza acordou mais alegre que de costume.
-Cuidara ver em Guiomar, na noite anterior, alguma cousa que só lhe
-pareceu enleio natural da situação. Guiomar erguera-se tarde; a
-manhã estava chuvosa e a madrinha não deu o seu passeio. A moça foi
-beijar-lhe a mão e a face, como costumava, e receber della o osculo
-materno. O rosto parecia cançado mas um veu de affectada alegria
-disfarçava-lhe a expressão natural, á semelhança das posturas de
-toucador, de maneira que a baroneza, pouco ledora de physionomias, não
-discerniu naquella a verdade da impostura. Impostura, digo eu, devendo
-entender-se que é honesta e recta, porque a intenção da moça não era
-mais do que não amargurar a madrinha, e tirar-lhe motivo a qualquer
-afflicção antecipada.
-
---Dormiu bem a minha rainha de Inglaterra? perguntou Mrs. Oswald,
-pondo-lhe familiarmente as mãos nos hombros.
-
---A sua rainha de Inglaterra não tem coroa, respondeu Guiomar comum
-sorriso contrafeito.
-
-Pela volta do meio dia, recebeu a baroneza uma carta de Luiz Alves.
-Abriu-a e leu-a. O advogado pedia-lhe a mão de Guiomar. Poucas linhas,
-cortezes, simplices, naturaes, feitas por quem parecia senhor da
-situação.
-
---Mrs. Oswald, disse a baroneza á sua dama de companhia que se achava
-na mesma sala, leia isto.
-
-A ingleza obedeceu.
-
---Isto não quer dizer nada, observou ella depois de alguns instantes. É
-um pretendente mais; devemos crer, porém, que são muitos, e que se os
-outros não lhe escrevem cartas destas, é por que são menos affoutos.
-A Sra. baroneza pensa que os olhos de sua afilhada são innocentes?
-continuou a ingleza sorrindo. Eu cuido que devem estar carregados de
-crimes, e que ha mortos...
-
---Mas não vê, Mrs. Oswald, interrompeu a baroneza, que esse homem
-parece estar autorisado?
-
-Mrs. Oswald calou-se como quem reflectia. Logo depois expoz uma serie
-de argumentos e considerações, se não graves em substancia, pelo menos
-nas roupas com que ella os vestia, umas roupas seriamente britannicas,
-como as não talharia melhor a melhor tesoura da camara dos communs.
-Toda ella dava ares de um argumento vivo e sem réplica. Havia em seus
-cabellos, entre louro e branco, toda a rigidez de um syllogismo; cada
-narina parecia uma ponta de um dilemma. A conclusão de tudo é que
-nada estava perdido, e que a felicidade de Jorge era cousa não só
-possivel, mas até provavel, uma vez que a baroneza mostrasse,--era o
-essencial,--certa resolução de animo muito util e até indispensavel
-naquella occasião. Mrs. Oswald offerecia-se para ir chamar a moça
-immediatamente.
-
---Pois vá, vá, disse a baroneza.
-
-A ingleza saiu d'alli e foi ter com Guiomar. Quando a viu de longe
-compoz um sorriso, e Guiomar, vendo-a sorrir, sentiu como que um
-movimento interno de repulsa.
-
---Venho buscal-a, disse Mrs. Oswald, para uma cousa que a senhora está
-longe de imaginar.
-
-Guiomar interrogou-a com olhos.
-
---Para casar!
-
---Casar! exclamou Guiomar sem comprehender a intenção da mensageira.
-
---Nada menos, respondeu esta. Admira-se, não? Tambem eu; e sua madrinha
-egualmente. Mas ha quem tenha o mau gosto de apaixonar-se por seus
-bellos olhos, e a affronta de a vir pedir, como se se podissem as
-estrellas do ceu...
-
-Guiomar comprehendeu de que se tratava. Olhou desdenhosamente para a
-ingleza, e disse em tom secco e breve:
-
---Mas, conclua, Mrs. Oswald.
-
---A senhora baroneza manda chamal-a.
-
-Guiomar dispoz-se a ir ter com a madrinha; Mrs. Oswald fel-a parar um
-instante, e com a mais meliflua voz que possuia na escala da garganta,
-disse:
-
---Toda a felicidade desta casa está em suas mãos.
-
-
-
-
-XVIII
-
-
-A escolha.
-
-
-Mrs. Oswald tinha falado de mais. A baroneza não a incumbira de dizer á
-afilhada a razão porque a mandava chamar. Aconteceu, porém, que aquella
-indisçrição não foi a unica. Mrs. Oswald, em vez de esquivar-se e
-deixar que entre Guiomar e a baroneza fosse tratado o assumpto que as
-ia reunir, cedeu á curiosidade, e acompanhou a moça.
-
-A baroneza estava sentada, entre duas janellas, com a carta aberta nas
-mãos, tão attenta em relel-a, que não ouviu o rumor dos pés de Guiomar
-e de Mrs. Oswald.
-
---Madrinha chamou-me? perguntou Guiomar parando em frente della.
-
-A baroneza ergueu a cabeça.
-
---Ah! É verdade; sim; chamei-te. Senta-te aqui.
-
-Guiomar arrastou a cadeira que ficava mais proxima e sentou-se ao pé
-da baroneza. Esta, entretanto, havia dobrado lentamente a carta, e
-tinha os olhos no chão, como a procurar por onde começaria. Quando os
-levantou deu com a ingleza. Ia já a falar, mas estacou. A affeição que
-lhe tinha não impediu que achasse demasiada familiaridade a presença de
-Mrs. Oswald em semelhante occasião. Esperou alguns instantes; mas como
-a ingleza parecesse inteiramente distrahida:
-
---Mrs. Oswald, disse a baroneza, vá ver se ja deram de comer aos
-passarinhos.
-
-A ingleza percebeu que estes passarinhos, naquelle caso, eram uma
-pura metaphora, e que a baroneza nada mais fazia do que pedir-lhe
-delicadamente que se fôsse embora. Todavia, não se deu por achada.
-
---Parece-me que não, disse ella; vou já saber disso.
-
---Olhe, disse a baroneza quando ella já ia a meio caminho; encoste-me
-essas portas, e dê ordem para que ninguem nos interrompa.
-
-A ingleza obedeceu e saiu. A careta que fez ao sair ninguem lh'a pôde
-ver, e não se perdeu nada.
-
-As duas ficaram sós.
-
---Senta-te aqui, Guiomar, disse a baroneza indicando um banquinho que
-lhe ficava aos pés.
-
-Guiomar deixou a cadeira e foi sentar-se no banquinho, pousando
-amorosamente os braços nos joelhos da madrinha. Esta cingiu-lhe a
-cabeça com as mãos, e assim esteve longo tempo sem falar, mas eloquente
-naquella mudez, em que a palavra pertencia ao coração. Ambas estavam
-commovidas; e Guiomar, de envolta com um suspiro, murmurou este unico e
-doce nome:
-
---Mamãe!
-
-Era a primeira vez que ella lhe dava este nome, e tão fundo lhe calou
-na alma á baroneza que a resposta foi cobril-a de beijos.
-
---Sim, tua mãe, disse a madrinha; a que te deu o ser não te amaria mais
-do que eu. Tens a alma e a ternura da filha que o ceu me levou, e se
-todas as mães que perdem filhos podessem substituil-os do mesmo modo,
-desapparecia do mundo a maior e mais cruel dor que ha nelle...
-
-A resposta de Guiomar foi apertar-lhe as mãos e beijar lh'as. Seguiu-se
-uma pausa, em que a commoção a pouco e pouco desappareceu, e a baroneza
-olhou para a carta de Luiz Alves, amarrotada pelo gesto de Guiomar.
-
---Guiomar, disse ella emfim, já reflectiste no pedido de hontem á noite?
-
-A moça esperava que a madrinha lhe falasse no pedido de Luiz Alves; a
-pergunta da baroneza desnorteou-a um pouco. Sua intelligencia, porém,
-era clara e sagaz; a resposta foi outra pergunta:
-
---Uma noite será bastante para decidir de todo o resto da vida? disse
-ella sorrindo.
-
---Tens razão, minha filha; mas a pergunta era natural da parte de quem
-quer ver realizado um desejo. Jorge pediu-te em casamento. Sabes que é
-um excellente caracter?
-
---Excellente, respondeu a moça.
-
---Uma boa alma, continuou a baroneza, e um moço distincto. Parece
-gostar muito de ti, segundo disse hontem, não? É natural; só me admira
-que não te amem muitos mais.
-
-A baroneza parou; Guiomar brincava com as franjas da manga sem se
-atrever a levantar os olhos.
-
---Deves saber, continuou a baroneza,--que eu estimaria ver que este
-casamento se effectuasse; estou convencida de que te faria feliz, e
-a elle também, pelo menos tanto quanto é possivel julgar das cousas
-presentes... Que diz o teu coração?
-
-E como Guiomar não respondesse logo:
-
---Ah! esquecia-me do que me disseste ha pouco. Uma noite não é bastante
-para decidir de todo o resto da vida. Bem; ouvir-me-has mais duas
-cousas. A primeira é que... Lê tu mesma esta carta.
-
-A baroneza deu a carta a Guiomar, que a abriu e leu o pedido que Luiz
-Alves fazia de sua mão. Em quanto ella percorria com os olhos as poucas
-linhas escriptas, a madrinha parecia observa-la fixamente, como a
-tentar ler-lhe no rosto a impressão que o pedido lhe fazia, se espanto,
-se satisfação. Não houve espanto nem satisfação apparente; Guiomar leu
-a carta e entregou-a á madrinha.
-
---Leste? É a primeira cousa que eu queria dizer-te. O Dr. Luiz Alves
-pede-te em casamento; tens de escolher entre elle e Jorge. A segunda
-cousa é que dos dous pretendentes Jorge é o que meu coração prefere;
-mas não sou eu que me caso, és tu; escolhe com plena liberdade aquelle
-que te falar ao coração.
-
-Guiomar erigiu o busto e olhou direitamente para a madrinha, com taes
-signaes de espanto no rosto, que esta não poude deixar de lhe perguntar:
-
---Que tens?
-
-A moça não respondeu; quero dizer não lhe respondeu com os labios;
-travou-lhe da mão e apertou-a entre as suas, e ficou a olhar para
-ella como a reflectir. A expressão de seu rosto passara do espanto á
-satisfação e desta a uma cousa que parecia a um tempo indignação e asco.
-
---Oh! madrinha! exclamou Guiomar, porque se não entenderam logo os
-nossos corações? Não havia mister pôr de permeio um espirito importuno
-e desconsolador. Se eu advinhara essas palavras que acabou de dizer,
-não teria padecido metade do que me fazem padecer ha longos dias...
-
---Padecer?
-
---Padecer; nada menos. Mas deixemos isso. Foi o seu coração que falou
-e o meu que ouviu; posso agora dizer-lhe francamente o que sinto, sem
-receio de a affligir.
-
-Não precisava dizer mais nada; a escolha que ella ia fazer estava
-já indicada pelo menos. Entendeu-o a baroneza, que fechou o rosto e
-suspirou. A afilhada ouviu-lhe o suspiro, e percebeu a tristeza subita;
-arrependeu-se de ter ido tão longe.
-
---Percebo, respondeu a baroneza, queres dizer que dos dous pretendentes
-escolhes o Dr. Luiz Alves?
-
-A moça conservou-se calada; a madrinha olhava para ella com uma
-expressão de anciedade que a affligiu.
-
---Fala, repetiu a baroneza.
-
---Escolho... o Sr. Jorge, suspirou Guiomar depois de alguns instantes.
-
-A baroneza estremeceu.
-
---Falas serio? Não creio; não é esse o sentimento do teu coração. Vê-se
-que não é. Queres illudir-me e a ti também. Percebo que o não amas; não
-o amaste nunca. Mas amas ao outro, não é? Que tem isso? Não me dá o
-prazer que eu teria se... Que importa, se fores feliz? A tua felicidade
-está acima das minhas preferencias. Era um sonho meu; desejava-o com
-todas as forças; faria o que pudesse para alcançal-o; mas não se
-violenta o coração,--um coração, sobretudo, como o teu! Escolhes o
-outro? Pois casarás com elle.
-
-Vê o leitor que a palavra esperada, a palavra que a moça sentia vir-lhe
-do coração aos labios e querer rompel-os, não foi ella quem a proferiu,
-foi a madrinha; e se leu attento o que precede verá que era isso mesmo
-o que ella desejava. Mas porque o nome de Jorge lhe roçou os lábios?
-A moça não queria illudir a baroneza, mas traduzir-lhe infielmente
-a voz de seu coração, para que a madrinha conferisse, por si mesma,
-a traducção com o original. Havia nisto um pouco de meio indirecto,
-de tactica, de affectação, estou quasi a dizer de hipocrisia, se não
-tomassem á má parte o vocabulo. Havia, mas isto mesmo lhes dirá que
-esta Guiomar, sem perder as excellencias de seu coração, era do barro
-commum de que Deus fez a nossa pouco sincera humanidade; e lhes dirá
-tambem que, apezar de seus verdes annos, ella comprehendia já que as
-apparencias de um sacrificio valem mais, muita vez, do que o proprio
-sacrificio.
-
-A baroneza acabára de falar. A alegria do rosto de Guiomar confirmou
-a sua primeira impressão, e se a escolha era contraria ao que ella
-desejava, a satisfação da afilhada pagou-lhe tudo quanto ella ira
-perder. Era assim aquella alma de mãe; boa, dedicada e generosa.
-
---Oh! madrinha! obrigada! exclamou a moça. Não me fica odiando?
-
---Oh! exclamou a baroneza com um tom de reprehensão.
-
-E puxou-a para si, e abraçou-a com amor. Guiomar correspondeu ao
-movimento, e as duas confundiram as suas alegrias intimas e affeições
-sinceras.
-
-Mrs. Oswald viu-as dahi a pouco, risonhas e entendidas. Era facil
-concluir qual dos dous pretendentes vencera; Guiomar não receberia de
-tão boa cara o sobrinho da baroneza. Tudo estava acabado; e talvez que
-a sua propria pessoa padecêra naquelle lance ultimo. A baroneza pedira
-a Guiomar que lhe explicasse a que padecimentos alludíra, mas a moça
-preferiu não dizer nada, não só por não affligir a madrinha, como por
-não dar um aspecto de rivalidade á situação entre ella e Mrs. Oswald.
-
-A escolha estava feita, o consentimento dado. A baroneza respondeu
-nessa mesma tarde ao pretendente feliz. Estevão teria manifestado
-ruidosamente toda a alegria que semelhante resposta lhe causára; sua
-alma apaixonada e exuberante contaria a Deus e aos homens aquella
-immensa fortuna; Luiz Alves encerrou o prazer, aliás grande, dentro de
-si; pensou na moça e no futuro alguns instantes, mas não falou delles a
-ninguém.
-
-A baroneza escreveu nesse mesmo dia ao sobrinho, communicando-lhe a
-resposta de Guiomar. Os leitores não terão difficuldade de admittir que
-o coração de Jorge não sentiu o golpe profundamente, mas sentiu alguma
-cousa. Não foi nessa noite á casa da tia; não foi tembem na segunda; na
-terceira chegou a descer as escadas; na quarta embicou para Botafogo.
-
---Tudo está acabado, disse-lhe a tia verdadeiramente sentida.
-
---Acabado! suspirou Jorge.
-
---Agora, é preciso animo; espero que serás homem.
-
---Oh! serei homem! suspirou outra vez Jorge.
-
-E dous suspiros, arrancados do peito de um homem tão grave, deviam ser
-por força dous suspiros gravissimos, como facilmente acredita o leitor.
-
-Effectivamente a physionomia do moço não tinha abatimento nem
-afflicção; não a amarrotava o menor vestigio de noite mal dormida,
-menos ainda de lagrimas enxutas. Alegre não era, mas grave e austera,
-como elle a trazia sempre, a contrastar com o retezado do bigode.
-
-A baroneza imaginou comtudo que a dor do sobrinho devia te-lo
-mortificado muito; apertou-lhe as mãos com ternura e disse-lhe ainda
-algumas palavras de animação.
-
-Imagine-se o que seria o primeiro encontro de Jorge com Guiomar. A moça
-estava serena, talvez risonha e até compassiva. Se tivesse de casar com
-elle odiara-o de certo; agora já lhe perdoava o amor. Jorge pela sua
-parte não deixou de ficar um tanto abalado, em parte commoção, em parte
-constrangimento, sendo porém o constrangimento maior do que a commoção.
-Nos labios pairou-lhe um desses sorrisos em que o olhar penetrante do
-povo ou a sua imaginação pintoresca descobriu a côr amarella. Se outro
-fosse o aspecto, é provavel que ella lhe conservasse, ao menos, o
-respeito. Mas aquelle sorriso perdeu-o de todo no animo de Guiomar.
-
-Na primeira occasião que se lhe offereceu, expandiu-se Jorge com Mrs.
-Oswald.
-
---Perdeu-se tudo... murmurou elle.
-
-A ingleza não respondeu.
-
-Jorge continuou ainda a falar, e a ingleza e ouvir, mas a ouvir só, e a
-querer divertil-o daquelle assumpto.
-
---Tudo se perdeu, disse emfim o sobrinho da baroneza, talvez por culpa
-sua.
-
---Minha? perguntou Mrs. Oswald.
-
---Sua.
-
---Mas...
-
-Jorge hesitou um instante.
-
---Não mostrou calor sufficiente, disse elle emfim.
-
---Que quer? disse Mrs. Oswald. O coração não se pode dominar, nem ha
-meio de impor-lhe um sentimento. D. Guiomar é uma santa creatura, ama
-devéras ao seu rival; ha nada mais justo do que casa-los?
-
---De maneira que...
-
---De maneira que tudo era licito fazer na supposição de que ella não
-amava a outro, mas uma vez que ama...
-
-Luiz Alves, na noite do dia em que recebeu a carta, foi á casa da
-baroneza, que o recebeu com o melhor de seus sorrisos. A felicidade
-de Guiomar fazia-a completamente feliz; nem iras, nem resentimentos,
-como annunciara Mrs. Oswald. Todo o castello de cartas caíra por terra,
-desde que a sinceridade da baroneza interveiu.
-
-
-
-
-XIX
-
-
-Conclusão.
-
-
-Marcado o casamento para dous mezes depois, todo o tempo de intervallo
-foi despendido pelos noivos naquelle deleitoso viver, que já não é o
-colloquio furtivo do simples namoro, nem é ainda a intimidade conjugal,
-mas um estado intermedio e consentido, em que os corações podem
-entornar-se livremente um no outro. Aquelles não tinham nada do amor
-extatico e romanesco de Estevão, mas amavam sinceramente, ella ainda
-mais do que elle, e tão feliz um como outro.
-
-A gente que os conhecia commentou de todos os modos e feitios aquelle
-caso inesperado, e a mais de um roeu a inveja do favor com que o ceu
-tratára a Luiz Alves. A gentileza e a elegancia da moça não encontravam
-objecção no espirito de ninguem; todos as confessavam e applaudiam,
-porque até o silencio mortificado de algumas bellezas rivaes, se
-porventura as havia,--era tambem applauso e do melhor. Quanto ao
-caracter de Guiomar, divergiam muito as apreciações; e um dia, em que
-Luiz Alves lhe contava uns trechos de conversa ouvidos a furto, e de
-que era objecto a noiva, ella pareceu reflectir longo tempo, e emfim
-respondeu:
-
---Não admira que haja tanta opinião differente; é natural, porque nunca
-vulgarisei o meu espirito. Entretanto, a opinião dos outros importa-me
-pouco; eu quizera saber a sua.
-
---A minha é que é um anjo.
-
-Guiomar fez um gesto gracioso de enfado, como quem não esperava
-aquelle comprimento velho e commum, aliás eternamente, novo,--porque
-não ha outro mais prompto e mais bello nas nossas linguas christãs.
-O noivo sorriu, mas nada lhe disse, e todavia podia dizer-lhe alguma
-cousa,--aquillo, pelo menos, que o leitor lhe ouviu n'um dos capitulos
-anteriores.
-
---Se não sabe o que sou,--continuou Guiomar,--eu mesmo o direi, para
-que se não case commigo assim de emboscada, e não lhe aconteça unir-se
-a um demonio, suppondo que é um anjo...
-
---Um demonio! exclamou Luiz Alves rindo.
-
---Nem mais nem menos, retrucou ella rindo tambem. Saiba pois que sou
-muito senhora da minha vontade, mas pouco amiga de a exprimir; quero
-que me adivinhem e obedeçam; sou tambem um pouco altiva, ás vezes
-caprichosa, e por cima de tudo isto tenho um coração exigente. Veja se
-é possível encontrar tanto defeito junto.
-
-Luiz Alves respondeu que eram tudo qualidades excellentes, e esteve
-quasi a dizer que lhe faltava mencionar ainda outra, que era a
-fundamental de todas; preferiu alludir a ella depois do casamento.
-
-O casamento effectuou-se, no dia marcado, com as solemnidades do
-estylo. A manhã daquelle dia trajava um manto de neblina cerrada, que
-o nosso inverno lhe poz aos hombros, como para resguardal-a do rigor
-benigno da temperatura, manto que ella sacudiu dalli a nada, afim de se
-mostrar qual era, uma deliciosa e fresca manhã fluminense. Não tardou
-que o sol batesse de chapa nas aguas tranquillas e azues, e nessas
-collinas onde o verde natural ia alternado com a alvura das habitações
-humanas. Vento nenhum; apenas uma aragem, branda e fresca, que parecia
-o ultimo respirar da noite já remota, e que só a trechos agitava as
-folhas do arvoredo.
-
-A chacara naquelle dia era a mesma que nos outros, mas Guiomar
-achou-lhe um aspecto novo e melhor, uma como expansão divina que
-animava as cousas em redor della. Toda a alma feliz é pantheista;
-parece-lhe que Deus lhe sorri de dentro da flor que desabrocha, do
-fundo da agua que serpeia murmurando, e até de envolta com o cipó
-humilde e rustico, ou no seixo bronco e despresado do chão. Era assim a
-alma de Guiomar naquella manhã. Nunca as arvores, as flores, a gramma
-rasteira lhe pareceram mais vecejantes; o sentimento interno hauria
-aquella vida exterior, do mesmo modo que o pulmão bebia o puro ar
-matinal.
-
-De envolta com essas sensações communs a toda a alma, havia ainda as
-que eram della,--della, que via alli o seu ultimo sol de moça solteira
-e contemplava por antecipação a aurora nova, o dia longo e feliz de
-suas férvidas ambições. Neste ponto despia a sua fantazia as azas de
-folha agreste, com que andara a pairar no meio daquella vegetação, para
-envergar outras de seda e brocado, e voar sabe Deus a que sitios de
-grandeza humana.
-
-O acaso quiz que naquella manhã vestisse o mesmo roupão com que Estevão
-a vira do outro lado da cerca, e trouxesse no collo e nos pulsos o
-mesmo broche e os mesmos botões de saphira. Não tinha o livro; mas,
-em falta desta circumstancia, havia outra, que era a mesma daquella
-celebre manhã, havia uns olhos que do outro lado do cerca a espreitavam
-namorados. Não eram, porém, os mesmos; eram os do noiva, com quem ella
-foi encontrar o seus;--e o mais doloroso de tudo é que nem a cerca, nem
-os demais accessorios, nada lhe lembrou o outro homem que morria por
-ella. A felicidade é isto mesmo; raro lhe sobra memoria para as dores
-alheias.
-
-Não menos alegre do que ella parecia a baroneza naquelle dia. De longe
-em longe surgia-lhe na memoria a ideia do sobrinho, mas já não havia
-tristeza de não ter effectuado o casamento, como desejára; tão leve
-foi o golpe em Jorge e tão indifferente andava elle, que a boa senhora
-comprehendeu que o amor, se existira, não era grande, e sobretudo não
-perdurou; a ideia de que isto mesmo podia acontecer-lhe ao cabo de seis
-semanas de casado, fel-a dar graças a Deus do nenhum exito de seus
-planos.
-
-Mrs. Oswald egualmente se mostrava feliz,--talvez ainda mais, porque
-era-o apparatosamente, como se quizesse resgatar as passadas culpas.
-Guiomar entendia a intenção latente das manifestações ruidosas com que
-ella andava a felicital-a e bajula-la; mas o dia não era de rancores
-nem de resentimentos, e ella recebia sorrindo as cortezanices da
-ingleza.
-
-O casamento fez-se, emfim. As lagrimas que a baroneza derramou, quando
-viu Guiomar ligada para sempre, foram as mais bellas joias que lhe
-podia dar. Nenhuma mãe as verteu mais sinceras; e, seja dito em honra
-de Guiomar, nenhuma filha as recebeu mais dentro do coração.
-
-Na noite do casamento, quem olhasse para o lado do mar, veria pouco
-distante dos grupos de curiosos, attrahidos pela festa de uma casa
-grande e rica, um vulto de homem sentado sobre uma lagea que acaso
-topára alli. Quem está affeito a ler romances, e leu esta narrativa
-desde o começo, suppõe logo que esse homem podia ser Estevão. Era elle.
-Talvez o leitor, em lance identico, fosse refugiar-se em sítio tão
-remoto, que mal podesse acompanhal-o a lembrança do passado. A alma de
-Estevão sentiu uma necessidade cruel e singular, o gosto de revolver
-o ferro na ferida, uma cousa a que chamaremos--voluptuosidade da dor,
-em falta de melhor donominação. E foi para alli, contemplar com os
-indifferentes e ociosos aquella casa onde reinava o goso e a vida, e
-naquella hora que lhe afundava o passado e o futuro de que vivera. Não
-o retinha a constancia do stoico; pela face emmagrecida e pallida lhe
-corriam as lagrimas derradeiras, e o coração, colhendo as forças que
-lhe restavam, batia-lhe forte na arca do peito.
-
-Defronte delle refulgia de todas as suas luzes a mansão afortunada;
-detraz batia a onda lenta e melancolica, e via-se o fundo da enseada,
-escuro e triste. Esta disposição do logar servia ao plano que elle
-concebera, e era nada menos do que matar-se alli mesmo, quando já não
-pudesse soffrer a dor, especie de vingança ultima que queria tomar
-dos que o faziam padecer tanto, complicando-lhes a felicidade com um
-remorso.
-
-Mas este plano não podia realisar-se, pela razão de que era mais um
-devaneio, que se lhe dissipou como os outros. A frouxidão do animo
-negou-lhe essa ultima ambição. Os olhos podiam fitar a morte, como
-podiam encarar a fortuna; mas faltavam-lhe os meios de caminhar a
-ella. Esteve alli, pois, até o fim; e em vez de mergulhar na agua e no
-nada, como delineára, regressou tristemente para casa, tropego como um
-ebrio, deixando alli a sua mocidade toda, porque a que levava era uma
-cousa descolorida e sêcca, esteril e morta. Os annos passaram depois,
-e á medida que vinham, ia-se Estevão afundando no mar vasto e escuro
-da multidão anonyma. O nome, que não passara da lembrança dos amigos,
-ahi mesmo morreu, quando a fortuna o distanceou delles. Se elle ainda
-vegeta em algum recanto da capital, ou se acabou em alguma villa do
-interior, ignora-se.
-
-O destino não devia mentir nem mentiu á ambição de Luiz Alves. Guiomar
-acertara; era aquelle o homem forte. Um mez depois de casados, como
-elles estivessem a conversar do que conversam os recem-casados, que
-é de si mesmos, e a relembrar a curta campanha do namoro, Guiomar
-confessou ao marido que naquella occasião lhe conhecera todo o poder da
-sua vontade.
-
---Vi que você era homem resoluto, disse a moça a Luiz Alves, que,
-assentado, a escutava.
-
---Resoluto e ambicioso, ampliou Luiz Alves sorrindo; você deve ter
-percebido que sou uma e outra cousa.
-
---A ambição não é defeito.
-
---Pelo contrario, é virtude; eu sinto que a tenho, e que hei de faze-la
-vingar. Não me fio só na mocidade e na força moral; fio-me tambem em
-você, que ha de ser para mim uma força nova.
-
---Oh! sim! exclamou Guiomar.
-
-E com um modo gracioso continuou:
-
---Mas que me dá você em paga? um logar na camara? uma pasta de ministro?
-
---O lustre do meu nome, respondeu elle.
-
-Guiomar, que estava de pé defronte delle, com as mãos prezas nas
-suas, deixou-se cair lentamente sobre os joelhos do marido, e as duas
-ambições trocaram o osculo fraternal. Ajustavam-se ambas, como se
-aquella luva tivesse sido feita para aquella mão.
-
-
-FIM
-
-
-
- INDICE
-
- Advertência de 1907
- Advertência de 1874
-
- I.--O fim da carta
- II.--Um roupão
- III.--Ao pé da cerca
- IV.--Latet anguis
- V.--Meninice
- VI.--post-scriptum
- VII.--Um rival
- VIII.--Golpe
- IX.--Conspiração
- X.--A revelação
- XI.--Luiz Alves
- XII.--A viagem
- XIII.--Explicações
- XIV.--Ex-abrupto
- XV.--Embargos de terceiro
- XVI.--A confissão
- XVII.----A carta
- XVIII.--A escolha
- XIX.--Conclusão
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of A Mao e A Luva, by Machado de Assis
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MAO E A LUVA ***
-
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- The Project Gutenberg eBook of A Mão e a Luva, by Machado de A.
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-
-<pre>
-
-The Project Gutenberg EBook of A Mao e A Luva, by Machado de Assis
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
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-
-
-
-Title: A Mao e A Luva
-
-Author: Machado de Assis
-
-Release Date: September 20, 2016 [EBook #53101]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: ISO-8859-1
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MAO E A LUVA ***
-
-
-
-
-Produced by Laura Natal Rodriguez and Marc D'Hooghe at
-Free Literature (online soon in an extended version, also
-linking to free sources for education worldwide ... MOOC's,
-educational materials,...) Images generously made available
-by the Bodleian Library, Oxford.
-
-
-
-
-
-
-</pre>
-
-
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-</div>
-<h1>A MÃO</h1>
-
-<h3>E</h3>
-
-<h1>A LUVA</h1>
-
-<h3>Do</h3>
-
-<h2>MACHADO DE ASSIS</h2>
-
-<h4>da Academia Brasileira</h4>
-
-<h5>Livraria Garnier</h5>
-
-<h5>109, Rua do Ouvidor,109
-RIO DE JANEIRO</h5>
-
-<h5>6, Rue des Saints-Pères, 6
-PARIS</h5>
-
-
-<h5>COLLECÇÃO DOS AUTORES CELEBRES</h5>
-
-<h5>DA</h5>
-
-<h5>LITTERATURA</h5>
-
-<h5>1919</h5>
-
-
-
-<hr class="full" />
-<h4><a name="ADVERTENCIA_DE_1907" id="ADVERTENCIA_DE_1907">ADVERTÊNCIA DE 1907</a></h4>
-
-<p>Os trinta e tantos annos decorridos do apparecimento desta novella
-á reimpressão que ora se faz parece que explicam as differenças de
-composição e de maneira do autor. Se este não lhe daria agora a mesma
-feição, é certo que lh'a deu outr'ora, e, ao cabo, tudo pode servir a
-definir a mesma pessoa.</p>
-
-<p>Não existia, ha muito, no mercado. O autor acceitou o conselho de
-confiar a reimpressão ao editor dos outros livros seus. Não lhe
-alterou nada; apenas emendou erros typographicos, fez correcções de
-orthographia, e eliminou cerca de quinze linhas. Vae como saiu em 1874.</p>
-
-<p class="smcap" style="margin-left: 60%;">M. De A.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<h4><a id="ADVERTENCIA_DE_1874"></a>ADVERTÊNCIA DE 1874</h4>
-
-<p>Ésta novella, sugeita ás urgências da publicação diaria, saiu das mãos
-do autor capitulo a capitulo, sendo natural que a narração e o estylo
-padecessem com esse methodo de composição, um pouco fóra dos hábitos
-do autor. Se a escrevêra em outras condições, dera-lhe desenvolvimento
-maior, e algum colorido mais aos caracteres, que ahi ficam esboçados.
-Convem dizer que o desenho de taes caracteres,&mdash;o de Guiomar,
-sobretudo,&mdash;foi o meu objecto principal, senão exclusivo, servindo-me a
-acção apenas de tela em que lancei os contornos dos perfis. Incompletos
-embora, terão elles saido naturaes e verdadeiros?</p>
-
-<p>Mas talvez estou eu a dar proporções muito graves a uma cousa de tão
-pequeno tomo. O que ahi vae são umas poucas paginas que o leitor
-esgotará de um trago, se ellas lhe aguçarem a curiosidade ou se lhe
-sobrar alguma hora que absolutamente não possa empregar em outra
-cousa,&mdash;mais bella ou mais util.</p>
-
-<p style="margin-left: 10%; font-size: 0.9em;">Novembro de 1874.</p>
-
-<p class="smcap" style="margin-left: 60%;">M. De A.</p>
-
-<hr class="chap" />
-<p><a href="#INDICE">Indice</a></p>
-<h3><a name="A_MAO_E_A_LUVA" id="A_MAO_E_A_LUVA">A MÃO E A LUVA</a></h3>
-
-
-
-<hr class="tb" />
-<h4><a name="I" id="I">I</a></h4>
-
-
-<h4>O fim da carta.</h4>
-
-
-<p>&mdash;Mas que pretendes fazer agora?</p>
-
-<p>&mdash;Morrer.</p>
-
-<p>&mdash;Morrer? Que ideia! Deixa-te disso, Estevão. Não se morre por tão
-pouco....</p>
-
-<p>&mdash;Morre-se. Quem não padece estas dores não as póde avaliar. O golpe
-foi profundo, e o meu coração é pusillanime; por mais aborrecivel que
-pareça a ideia da morte, peior, muito, peior do que ella, é a de viver.
-Ah! tu não sabes o que isto é?</p>
-
-<p>&mdash;Sei: um namoro gorado....</p>
-
-<p>&mdash;Luiz!</p>
-
-<p>&mdash;.... E se em cada caso de namoro gorado morresse um homem, tinha já
-diminuído muito o genero humano, e Malthus perderia o latim. Anda, sobe.</p>
-
-<p>Estevão metteu a mão nos cabellos com um gesto de augustia; Luiz
-Alves sacudiu a cabeça e sorriu. Achavam-se os dous no corredor da
-casa de Luiz Alves, á rua da Constituição,&mdash;que então se chamava dos
-Ciganos;&mdash;então, isto é, em 1853, uma bagatella de vinte annos que lá
-vão, levando talvez comsigo as illusões do leitor, e deixando-lhe em
-troca (usurarios!) uma triste, crua e desconsolada experiencia.</p>
-
-<p>Eram nove horas da noite; Luiz Alves recolhia-se para casa, justamente
-no occasião em que Estevão o ia procurar; encontraram-se á porta. Alli
-mesmo lhe confiou Estevão tudo o que havia, e que o leitor saberá daqui
-a pouco, caso não aborreça estas historias de amor, velhas como Adão,
-e eternas como o ceu. Os dous amigos demoraram-se ainda algum tempo no
-corredor, um a insistir com o outro para que subisse, o outro a teimar
-que queria ir morrer, tão tenazes ambos, que não haveria meio de os
-vencer, se a Luiz não occoresse uma transacção.</p>
-
-<p>&mdash;Pois sim, disse elle, convenho em que deves morrer, mas ha de ser
-amanhã. Cede da tua parte, e vem passar a noite commigo. Nestas ultimas
-horas que tens de viver na terra dar-me-has uma lição de amor, que eu
-te pagarei com outra de philosophia.</p>
-
-<p>Dizendo isto, Luiz Alves travou do braço de Estevão, que não resistiu
-dessa vez, ou porque a ideia da morte não se lhe houvesse entranhado
-deveras no cerebro, ou porque cedesse ao doloroso gosto de falar da
-mulher amada, ou, o que é mais provavel, por esses dous motivos juntos.
-Vamos nós com elles, escada acima, até a sala de visitas, onde Luiz foi
-beijar a mão de sua mãe.</p>
-
-<p>&mdash;Mamãe, disse elle, hade fazer-me o favor de mandar o chá ao meu
-quarto; o Estevão passa a noite commigo.</p>
-
-<p>Estevão murmurou algumas palavras, a que tentou dar um ar de gracejo,
-mas que eram funebres como um cypreste. Luiz viu-lhe então, á luz
-das estearinas, alguma vermelhidão nos olhos, e adivinhou,&mdash;não
-era difficil,&mdash;que houvesse chorado. Pobre rapaz! suspirou elle
-mentalmente. D'alli foram os dous para o quarto, que era uma vasta
-sala, com tres camas, cadeiras de todos os feitios, duas estantes
-com livros e uma secretaria,&mdash;vindo a ser ao mesmo tempo, alcova e
-gabinette, de estudo.</p>
-
-<p>O chá subiu dahi a pouco. Estevão, a muito rogo do hospede, bebeu dous
-goles; accendeu um cigarro e entrou a passear ao longo do aposento,
-em quanto Luiz Alves, preferindo um charuto e um sophá, accendeu o
-primeiro e estirou-se no segundo, cruzando beatificamente as mãos sobre
-o ventre e contemplando o bico das chinellas, com aquella placidez
-de um homem a quem se não gorou nenhum namoro. O silencio não era
-completo; ouvia-se o rodar de carros que passavam fóra; no aposento,
-porêm, o unico rumor era dos botins de Estevão na palhinha do chão.</p>
-
-<p>Cursavam estes dous moços a academia de S. Paulo, estando Luiz Alves,
-no quarto anno e Estevão no terceiro. Conheceram-se na academia, e
-ficaram amigos intimos, tanto quanto podiam sel-o dous espiritos
-differentes, ou talvez por isso mesmo que o eram. Estevão, dotado de
-extrema sensibilidade, e não menor fraqueza de animo, affectuoso e
-bom, não daquella bondade varonil, que é apanagio de uma alma forte,
-mas dessa outra bondade molle e de cera, que vai á mercê de todas as
-circumstancias, tinha, além de tudo isso, o infortunio de trazer ainda
-sobre o nariz os oculos côr de rosa de suas virginaes illusões. Luiz
-Alves via bem com os olhos da cara. Não era mau rapaz, mas tinha o seu
-grão de egoismo, e se não era incapaz de affeições, sabia regel-as,
-moderal-as, e sobretudo guial-as ao seu proprio interesse. Entre estes
-dous homens travara-se amizade intima, nascida para um na sympathia,
-para outro no costume. Eram elles os naturaes confidentes um do outro,
-com a differença que Luiz Alves dava menos do que recebia, e, ainda
-assim, nem tudo o que dava exprimia grande confiança.</p>
-
-<p>Estevão referira ao amigo, desde tempos, toda a historia do amor,
-agora mallogrado, suas esperanças, desalentos e glorias, e, emfim,
-o inesperado desfecho. O pobre rapaz, que folheava o capitulo mais
-delicioso do romance&mdash;no sentir delle&mdash;caiu de toda a altura das
-illusões na mais dura, prosaica e miseravel realidade.</p>
-
-<p>A namorada de Estevão,&mdash;é tempo de dizer alguma cousa della,&mdash;era uma
-moça de 17 annos, e, por ora, simples alumna-professora no collegio de
-uma tia do nosso estudante, á rua dos Invalidos. Estevão tinha-a visto,
-pela primeira vez, seis mezes antes, e desde logo sentiu-se preso por
-ella, «até á morte», disse elle ao amigo, referindo-lhe o encontro,
-o que o fez sorrir de tão estirado prazo. Qualquer que elle fosse,
-porém, o prazo fatal daquelle captiveiro, a verdade é que Estevão no
-mesmo ponto em que a viu logo a amou, como se ama pela primeira vez na
-vida&mdash;amor um pouco estouvado e cego, mas sincero e puro. Amava-o ella?
-Estevão dizia que sim, e devia crel-o; alguns olhares ternos, meia
-duzia de apertos de mão significativos, embora a largos intervallos,
-davam a entender que o coração de Guiomar&mdash;chamava-se Guiomar&mdash;não era
-surdo á paixão do academico. Mas, fora disso, nada mais, ou pouco mais.</p>
-
-<p>O pouco mais foi uma flor, não colhida do pé em toda a original
-frescura, mas já murcha e sem cheiro, e não dada, senão pedida.</p>
-
-<p>&mdash;Faz-me um favor? disse um dia Estevão apontando para a flor que
-ella trazia nos cabellos; esta flor está murcha, e, naturalmente, vai
-deital-a fóra ao despentear-se; eu desejava que m'a désse.</p>
-
-<p>Guiomar, sorrindo, tirou a flor do cabello, e deu-lh'a; Estevão
-recebeu-a com egual contentamento ao que teria se lhe antecipassem o
-seu quinhão do ceu. Além da flor, e para supprir as cartas, que não
-havia, nada mais obtivera. Estevão durante aquelles seis compridos
-mezes, a não serem os taes olhares, que afinal são olhares, e vão-se
-com os olhos donde vieram. Era aquillo amor, capricho, passatempo ou
-que outra cousa era?</p>
-
-<p>Naquella tarde, a tarde fatal, estando ambos a sós, o que era raro e
-difficil, disse-lhe elle que em breve ia voltar para S. Paulo, levando
-comsigo a imagem della, e pedindo-lhe em cambio, que uma vez ao menos
-lhe escrevesse. Guiomar franziu a testa e fitou nelle o seu magnifico
-par de olhos castanhos, com tanta irritação e dignidade, que o pobre
-rapaz ficou attonito e perplexo. Imagina-se a augustia delle diante
-do silencio que reinou entre ambos por alguns segundos; o que se não
-imagina é a dor que o prostrou,&mdash;a dor e o espanto,&mdash;quando ella,
-erguendo-se da cadeira em que estava, lhe respondeu, saindo:</p>
-
-<p>&mdash;Esqueça-se disso.</p>
-
-<p>&mdash;Pois quanto a mim,&mdash;disse Luiz Alves ouvindo pela terceira vez a
-narração de tão cru desenlace; quanto a mim, obedecia-lhe pontualmente;
-esquecia-me disso e ia curar-me cima dos compendios; direito romano e
-philosophia, não conheço remedio melhor para taes achaques.</p>
-
-<p>Estevão não ouvia as palavras do amigo; estava então assentado na cama,
-com os cotovellos fincados nas pernas, e a cabeça mettida nas mãos,
-parecendo que chorava. A principio chorou em silencio; mas não tardou
-que Luiz Alves o visse deitar-se na cama, estorcer-se convulsivamente,
-a soluçar, a abafar quanto podia os gritos que lhe saiam do peito,
-a puxar os cabellos, a pedir a morte, tudo entremeado com o nome de
-Guiomar, tão d'alma tudo aquillo, tão lastimosamente natural, que emfim
-o commoveu, e não houve remedio se não dizer-lhe algumas palavras de
-conforto. A consolação veiu a tempo; a dor, chegada ao paroxismo,
-declinou pouco a pouco, e as lagrimas estancaram, ao menos por algum
-tempo.</p>
-
-<p>&mdash;Sei que tudo isto hade parecer-te ridículo, disse Estevão sentando-se
-na cama; mas que queres tu? Eu vivia na persuasão de que era amado, e
-era-o talvez. Por isso mesmo não entendo o que se passou hoje. Ou o que
-eu suppunha ser amor, não passava talvez de passatempo ou zombaria...</p>
-
-<p>&mdash;Talvez, talvez, interrompeu Luiz Alves, comprehendendo que o melhor
-meio de o curar do amor era metter-lhe em brios o amor-proprio.</p>
-
-<p>Estevão ficou alguns instantes pensativo.</p>
-
-<p>&mdash;Não, não, é possível, contestou elle. Tu não a conheces. É uma grave
-e nobre creatura, incapaz de conceber um sentimento desses, que seria
-vulgar ou cruel.</p>
-
-<p>&mdash;As mulheres...</p>
-
-<p>&mdash;Já pensei se aquillo de hoje não seria uma maneira de
-experimentar-me, de ver até que ponto eu lhe queria... Escusas de
-rir-te, Luiz; eu nada affirmo; digo que pode ser. Não admira que ella
-fizesse esse calculo,&mdash;um bom calculo, nesse caso, todo filho do
-coração...</p>
-
-<p>A imaginação de Estevão desceu por este declivio de floridas
-conjecturas, e Luiz Alves entendeu que era de bom aviso não
-espantar-lhe os cavallos. Ella foi, foi, foi por alli abaixo,
-redea frouxa e riso nos labios. Boa viagem! exclamou mentalmente o
-collega voltando a estirar-se no sophá. A viagem não foi longa, mas
-produziu effeito salutar no animo do namorado, adoçando-lhe as penas,
-circumstancia que Luiz Alves aproveitou para lhe falar de cem cousas
-alheias ao coração e divertil-o do pensamento que o absorvia. Conseguiu
-o seu intento durante meia hora, e conseguiu mais, por que fez com
-que o collega risse, a principio de um riso amargo e dubio, depois
-de um riso jovial e franco incompatível com intuitos tragicos. Mas,
-ai triste! a dor delle era uma especie de tosse moral, que aplacava
-e reapparecia, intensa ás vezes, ás vezes mais fraca, mas sempre
-infallivel. O rapaz acertara de abrir uma pagina de <i>Werther</i>; leu meia
-duzia de linhas, e o accesso voltou mais forte que nunca.</p>
-
-<p>Luiz Alves acudiu-lhe com as pastilhas da consolação; o accesso passou;
-nova palestra, novo riso, novo desespero, e assim se foram escoando
-as horas da noite, que o relogio da sala de jantar batia secca e
-regularmente, como a lembrar aos dous amigos que as nossas paixões não
-acceleram nem moderam o passo do tempo.</p>
-
-<p>A aurora para os dous academicos coincidiu com as badaladas do meio
-dia, o que não admira, pois só adormeceram quando ella começava
-a apagar as estrellas. Estevão passou a noite,&mdash;a manhã, quero
-dizer,&mdash;muito socegado e livre de sonhos maus. Quando abriu os olhos
-extranhou o aposento e os objectos que o rodeavam. Logo que os
-reconheceu, despertou-se-lhe, com a memoria, o coração, onde já não
-havia aquella dor aguda da vespera. Os successos, embora recentes,
-começavam a envolver-se na sombra crepuscular do passado.</p>
-
-<p>A natureza tem suas leis imperiosas; e o homem, ser complexo, vive não
-só do que ama, mas também (fôrça é dizel-o) do que come. Sirva isto de
-excusa ao nosso estudante, que almoçou nesse dia, como nos anteriores,
-bastando dizer em seu abono que, se o não fez com lagrimas, também o
-não fez alegre. Mas o certo é que a tempestade serenara; o que havia
-era uma ressaca, ainda forte, mas que diminuiria com o tempo. Luiz
-Alves evitou falar-lhe de Guiomar; Estevão foi o primeiro a recordar-se
-della.</p>
-
-<p>&mdash;Dá tempo ao tempo, respondeu Luiz Alves, e ainda te has de rir
-dos teus planos de hontem. Sobretudo, agradece ao destino o haveres
-escapado tão depressa. E queres um conselho?</p>
-
-<p>&mdash;Dize.</p>
-
-<p>&mdash;O amor é uma carta, mais ou menos longa, escripta em papel velino,
-córte-dourado, muito cheiroso e catita; carta de parabens quando se lê,
-carta de pezames quando se acabou de ler. Tu que chegaste ao fim, põe a
-epistola no fundo da gaveta, e não te lembres de ir ver se ella tem um
-«post-scriptum»...</p>
-
-<p>Estavão applaudiu a metaphora com um sorriso de bom agouro.</p>
-
-<p>Duas vezes viu elle a formosa Guiomar, antes de seguir para S. Paulo.
-Da primeira sentiu-se ainda abalado, por que a ferida não cicatrisara
-de todo; da segunda, pôde encaral-a sem perturbação. Era melhor,&mdash;mais
-romantico pelo menos, que eu o puzesse a caminho da academia, com o
-desespero no coração, lavado em lagrimas, ou a bebel-as em silencio,
-como lhe pedia a sua dignidade de homem. Mas que lhe hei de eu fazer?
-Elle foi daqui com os olhos enxutos, distrahindo-se dos tedios da
-viagem com alguma pilheria de rapaz,&mdash;rapaz outra vez, como dantes.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h4><a name="II" id="II">II</a></h4>
-
-
-<h4>Um roupão.</h4>
-
-
-<p>Um mez depois de chegar Estevão a S. Paulo, achava-se a sua paixão
-definitivamente morta e enterrada, cantando elle mesmo um responso,
-a vozes alternadas, com duas ou tres moças da capital,&mdash;todas ellas,
-por passatempo. Claro é que dous annos depois, quando tomou o grão de
-bacharel, nenhuma ideia lhe restava do namoro da rua dos Invalidos.
-Demais, a bella Guiomar desde muito tempo deixara o collegio e fora
-morar com a madrinha. Já elle a não vira da primeira vez que veiu á
-corte. Agora voltava graduado em sciencias juridicas e sociaes, como
-fica dito, mais desejoso de devassar o futuro que de reler o passado.</p>
-
-<p>A corte divertia-se, como sempre se divertiu, mais ou menos, e para
-os que transpuzeram a linha dos Cincoenta divertia-se mais do que
-hoje, eterno reparo dos que já não dão á vida toda a flor dos seus
-primeiros annos. Para os varões maduros, nunca a mocidade folga como
-no tempo delles, o que é natural dizer, porque cada homem vê as cousas
-com os olhos da sua edade. Os recreios da juventude não são de certo
-egualmenle nobres, nem egualmente frivolos, em todos os tempos; mas a
-culpa ou o merecimento não é della,&mdash;a pobre juventude,&mdash;é sim do tempo
-que lhe cae em sorte.</p>
-
-<p>A corte divertia-se, apesar dos recentes estragos do cholera&mdash;;
-bailava-se, cantava-se, passeava-se, ia-se ao theatro. O Cassino abria
-os seus salões, como os abria o Club, como os abria o Congresso, todos
-tres fluminenses no nome e na alma. Eram os tempos homericos do theatro
-lyrico, a quadra memoravel daquellas lutas e rivalidades renovadas em
-cada semestre, talvez por um excesso de ardor e enthusiasmo, que o
-tempo diminuiu, ou transferiu,&mdash;Deus lhe perdôe,&mdash;a cousas de menor
-tomo. Quem se não lembra,&mdash;ou quem não ouviu falar das batalhas
-feridas naquella classica plateia do Campo da Acclamação, entre a
-legião casalonica e a phalange chartonica, mas sobretudo entre esta e
-o regimento lagruista? Eram batalhas campaes, com tropas frescas,&mdash;e
-maduras tambem,&mdash;apercebidas de flores, de versos, de coroas, e até
-de estalinhos. Uma noite a acção travou-se entre o campo lagruista
-e o campo chartonista, com tal violencia, que parecia uma pagina da
-<i>Illiada.</i> Desta vez, a Venus da situação saiu ferida do combate; um
-estalo rebentára no rosto da Charton. O furor, o delirio, a confusão
-foram indescriptiveis; o applauso e a pateada deram-se as mãos,&mdash;e os
-pés. A peleja passou aos jornaes. «Vergonha eterna (dizia um) aos
-cavalheiros que cuspiram na face de uma dama!»&mdash;«Si for mister
-(replicava outro) daremos os nomes dos aristarchos que no saguão do
-theatro juraram desfeitear Mlle. Lagrua.)»&mdash;«Patuleia desenfreada!»&mdash;«Fidalguice balofa!»</p>
-
-<p>Os que escaparam daquellas guerras de alecrim e mangerona hão de sentir
-hoje, após dezoito annos, que despenderam excessivo enthusiasmo em
-cousas que pediam repouso de espirito e lição de gosto.</p>
-
-<p>Estevão é uma das relíquias daquella Troya, e foi um dos mais
-fervorosos lagruistas, antes e depois do grão. A causa principal das
-suas preferencias, era de certo o talento da cantora; mas a que elle
-costumava dar, nas horas de bom humor, que eram todas as vinte e quatro
-do dia, tirantes as do somno, essa causa que mais que tudo o ligava
-aos «arraiaes do bom gosto» dizia elle, era,&mdash;imaginem lá,&mdash;era o
-buço de Mlle. Lagrua. Talvez não fosse elle o unico amador do buço; mas
-outro mais férvido duvido que houvesse nesta boa cidade. Um chartonista
-machiavelico, aliás escriptor elegante, elevava o tal buço á cathegoria
-de bigode, comprehendendo sagazmente que, se o buço era graça, o bigode
-era excrescencia; e elle nem ao labio da Lagrua queria perdoar.</p>
-
-<p>&mdash;Oh! aquelle buço! exclamava Estevão nos intervallos de uma opera,
-aquelle delicioso buço hade ser a perdição da gente de bem! Quem me
-dera ir encaracolado por alli acima, até ficar mais proximo do ceu,
-quero dizer dos seus olhos, e ser visto por ella, que me não descobre
-na turba innumeravel dos seus adoradores! Querem saber uma cousa? Alli
-é que ella hade ter a alma, e eu quizera entreter-me com a alma della,
-e dizer-lhe muita cousinha que tenho cá dentro á espera de um buço que
-as queira ouvir.</p>
-
-<p>Estevão era mais ou menos o mesmo homem de dous annos antes. Vinha
-cheirando ainda aos cueiros da Academia, meio estudante e meio doutor,
-alliando em si, como em edade de transição, o estouvamento de um com
-a dignidade do outro. As mesmas chimeras tinha, e a mesmas simplesa
-de coração; só não as mostrára nos versos que imprimiu em jornaes
-academicos, os quaes eram todos repassados do mais puro byronismo,
-moda muito do tempo. Nelles confessava o rapaz á cidade e ao mundo
-a profunda incredulidade do seu espirito, e o seu fastio puramente
-litterario. A collação de grão interrompeu, ou talvez acabou, aquella
-vocação poetica; o ultimo suspiro desse genero que lhe saiu do peito
-foram umas sextilhas á sua <i>juventude perdida.</i> Felizmente, que só a
-perdeu em verso; na prosa e na realidade era rapaz como poucos.</p>
-
-<p>Posto fizesse boa figura na academia, mais presava do que amava a
-sciencia do direito. Suas preferencias intellectuaes dividiam-se, ou
-antes abrangiam a polilica e a litteratura, e ainda assim, a politica
-só lhe acenava com o que podia haver litterario nella. Tinha leitura de
-uma e outra cousa, mas leitura veloz e á flor das paginas. Estevão não
-comprehendería nunca este axioma de lord Macaulay&mdash;que mais aproveita
-digerir uma lauda que devorar um volume. Não digeria nada; e dahi vinha
-o seu nenhum apego ás sciencias que estudara. Venceu a repugnancia por
-amor proprio; mas, uma, vez dobrado o cabo das Tormentas disciplinares,
-deixou a outros o cuidado de aproar á India.</p>
-
-<p>Suas aspirações políticas deviam naturalmente morrer em germen, não só
-porque lhe minguava o apoio necessario para as arvorecer e fructificar,
-mas ainda por que elle não tinha em si a força indispensavel a todo o
-homem que põe a mira acima do estado em que nasceu. Eram aspirações
-vagas, intermittentes, vaporosas, umas visões legislativas e
-ministeriaes, que tão depressa lhe namoravam a imaginação, como logo
-se esvaeciam, ao resvalar dos primeiros olhos bonitos, que esses, sim,
-amava-os elle deveras. Opiniões não as tinha; alguns escriptos que
-publicara durante a quadra academica eram um complexo de doutrinas de
-toda a casta, que lhe fluctuavam no espirito, sem se fixarem nunca,
-indo e vindo, alçando-se ou descendo, conforme a recente leitura ou a
-actual disposição de espirito.</p>
-
-<p>Por agora militava nas fileiras do lagruismo, com ardor, dedicação
-e fidelidade de bom apostolo. Não era abastado para pagar o luxo de
-uma opinião lyrica; nascera pobre e não tinha parente em boa posição.
-Alguns poucos recursos possuia, provenientes do seu officio de
-advogado, que exercia com o amigo Luiz Alves.</p>
-
-<p>Uma noite assistira á representação de <i>Othello</i>, palmeando até romper
-as luvas, acclamando até cansar-lhe a voz, mas acabando a noite
-satisfeito dos seus e de si. Terminado o expectaculo, foi elle, segundo
-costumava, assistir á saida das senhoras, uma procissão de rendas,
-e sedas, e leques, e veus, e diamantes, e olhos de todas as cores e
-linguagens. Estevão era pontual nessas occasiões de espera, e raro
-deixava de ser o ultimo que saía. Tinha agora os olhos pregados em
-outros olhos, não pardos como os delle, mas azues, de um azul-ferrete,
-infelizmente uns olhos casados, quando sentiu alguem bater-lhe no
-hombro, e dizer-lhe baixinho estas palavras:</p>
-
-<p>&mdash;Larga o pinto, que é das almas.</p>
-
-<p>Estevão voltou-se.</p>
-
-<p>&mdash;Ah! és tu! disse elle vendo Luiz Alves. Quando chegaste?</p>
-
-<p>&mdash;Hoje mesmo, respondeu o collega; venho sequioso de musica. Vassouras
-não tem Lagrua nem <i>Othello</i>...</p>
-
-<p>&mdash;Vieste lavar a alma da poeira do caminho, disse Estevão, que, ainda
-falando em prosa, cultivava as suas metaphoras poeticas. Fizeste bem;
-não te perdoaria se preferisses a outra, a lambisgoia, que aqui nos
-querem impingir por grande cousa, e que não chega aos calcanhares do
-buço...</p>
-
-<p>Interrompeu-se. Luiz Alves acabava de comprimentar ceremoniosamente
-alguem que passava; Estevão volveu a cabeça para ver quem era. Era uma
-moça, que elle não chegou a ver, porque já descia as escadas; mas tão
-elegante e gentil que os olhos lhe fuzilaram de admiração.</p>
-
-<p>&mdash;Algum namoro? perguntou ao amigo.</p>
-
-<p>&mdash;Não; uma visinha.</p>
-
-<p>A desfilada acabou; sairam os dous e foram dalli cear a um hotel,
-seguindo depois para Botafogo, onde morava Luiz Alves, desde que
-perdera a mãe, alguns mezes antes.</p>
-
-<p>A casa de Luiz Alves ficava quasi no fim da praia de Botafogo, tendo
-ao lado direito outra casa, muito maior e de apparencia rica. A noite
-estava bella, como as mais bellas noites daquelle arrabalde. Havia
-luar, ceu limpido, infinidade de estrellas e a vaga a bater mollemente
-na praia, todo o material, em summa, de uma boa composição poetica, em
-vinte estrophes pelo menos, obrigada a rima rica, com alguns exdruxulos
-rebuscados nos diccionarios. Estevão poetou, mas poetou em prosa, com
-um enthusiasmo legitimo e sincero. Luiz Alves, menos propenso ás cousas
-bellas, preferia a mais util de todas naquella occasião, que era ir
-dormir. Não o conseguiu sem ouvir ao hospede tudo quanto elle pensava
-ácerca daquelle «pinto, que era das almas,» aquelles olhos azues, «
-profundos como o ceu,» exclamava Estevão.</p>
-
-<p>Afinal dormiram ambos; mas, ou fosse porque os taes olhos o
-perseguissem, ainda em sonhos, ou porque extranhasse a cama, ou por que
-o destino assim o resolvera, a verdade é que Estevão dormiu pouco, e,
-cousa rara, accordou logo depois de apparecer a arraiada.</p>
-
-<p>A manhã estava fresca e serena; era tudo silencio, mal quebrado
-pelo bater do mar e pelo chilrear dos passarinhos nas chacaras
-da visinhança. Estevão, amuado por não poder conciliar o somno,
-resolvera-se a ir ver a manhã, de mais perto. Ergueu-se de manso,
-lavou-se, vestiu-se, e pediu que lhe levassem café ao jardim, para onde
-foi sobraçando um livro que acaso topou ao pé da cama.</p>
-
-<p>O jardim ficava nos fundos da casa; era separado da chacara visinha
-por uma cerca. Relanceando os olhos pela chacara, viu Estevão que era
-plantada com esmero e arte, assaz vasta, recortada por muitas ruas
-curvas e duas grandes ruas rectas. Uma destas começava das escadas de
-pedra da casa e ia até o fim da chacara; a outra ia da cerca de Luiz
-Alves até á extremidade opposta, cortando a primeira no centro. Do
-lugar em que ficava Estevão só a segunda rua podia ser vista de ponta a
-ponta.</p>
-
-<p>Sentou-se o bacharel em um banco que alli achou, recebeu a chicara de
-café, que o escravo lhe trouxe dahi a pouco, accendeu um charuto e
-abriu o livro. O livro era uma <i>Pratica Forense.</i> Demos-lhe razão ao
-despeito com que o fechou e atirou ao chão, contentando-se com o canto
-dos passaros e o cheiro das flores, e a sua imaginação tambem, que
-valia as flores e os passaros.</p>
-
-<p>Deus sabe até onde iria ella, com as azas faceis que tinha, se um
-incidente lh'as não colhera e fizera descer á terra. Da casa visinha
-saíra um roupão,&mdash;elle não viu mais que um roupão,&mdash;e seguira pela
-rua que enfrentava com casa, a passo lento e meditativo. Estevão, que
-adorava todos os roupões, fossem ou não meditativos, deu as graças á
-Providencia, pela boa fortuna que lhe deparava, e afiou os olhos para
-contemplar aquella graciosa madrugadora. Graciosa, ainda elle não sabia
-se o era; mas assentou que devia de ser, justamente porque desejava que
-o fosse.</p>
-
-<p>A deliciosa paisagem ia ter emfim uma alma; o elemento humano vinha
-coroar a natureza.</p>
-
-<p>Ergueu-se Estevão, de toda a sua estatura elevada e gentil, para ver
-melhor,&mdash;e ser visto, digamos a verdade toda,&mdash;aquella desconhecida
-visinha, que devia ser por força a que Luiz Alves comprimentara
-no theatro. Acteon christão e modesto, não sorprehendia Diana no
-banho, mas ao sair delle; todavia, não palpitava menos de commoção e
-curiosidade.</p>
-
-<p>O roupão ia andando.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h4><a name="III" id="III">III</a></h4>
-
-
-<h4>Ao pé da cerca.</h4>
-
-
-<p>A primeira cousa que Estevão pôde descobrir é que a visinha era
-moça. Via-lhe o perfil, em cada aberta que deixavam as arvores, um
-perfil correcto e puro, como de esculptura antiga. Via-lhe a face côr
-de leite, sobre a qual se destacava a côr escura dos cabellos, não
-penteados de vez, mas frouxamente atados no alto da cabeça, com aquelle
-deleixo matinal que faz mais bellas as mulheres bellas. O roupão,&mdash;de
-musselina branca,&mdash;finamente bordado, não deixava ver toda a graça do
-talhe, que devia ser e era elegante, dessa elegancia que nasce com a
-creatura ou se apura com a educação, sem nada pedir, ou pedindo pouco
-á thesoura da costureira. Todo o collo ia coberto até o pescoço, onde
-o roupão era preso por um pequeno broche de saphira. Um botão, do
-mesmo mineral, fechava em cada pulso as mangas estreitas e lisas, que
-rematavam em folhos de renda.</p>
-
-<p>Estevão, da distancia e na posição em que se achava, não podia ver
-todas estas minucias que aqui lhes aponto, em desempenho deste meu
-dever de contador de historias. O que elle viu, além do perfil, dos
-cabellos, e da tez branca, foi a estatura da moça, que era alta, talvez
-um pouco menos do que parecia com o vestido roçagante que levava. Pôde
-ver-lhe também um livrinho, aberto nas mãos, sobre o qual pousava os
-olhos, levantando-os de espaço a espaço, quando lhe era mister voltar a
-folha, e deixando-os cair outra vez para embeber-se na leitura.</p>
-
-<p>Ia assim andando, sem cuidar que a visse alguem, tão serena e grave,
-como se atravesára um salão. Estevão, que não tirava os olhos della,
-mentalmente pedia ao ceu a fortuna de a ter mais proxima, e anciava por
-vel-a chegar á rua que lhe ficava diante. Comtudo, era difficil que lhe
-parecesse mais formosa do que era, vista assim de perfil, a escapar
-por entre as arvores. O jovem bacharel, par não perder o sestro dos
-primeiros tempos, avocava todas as suas reminiscencias litterarias; a
-desconhecida foi successivamente comparada a um seraphim de Klopstock,
-a uma fada de Shakespeare, a tudo quanto na memoria delle havia mais
-aereo, transparente, ideial.</p>
-
-<p>Em quanto elle trabalhava o espirito nestas comparações poeticas,
-não descabidas, se quizerem, em tal lugar, e ao pé de tão graciosa
-creatura, ella seguia lentamente e chegara á encrusilhada das duas
-grandes ruas da chacara. Estevão esperava que voltasse á direita, isto
-é, que viesse para o lado delle, mas sobretudo receiava que seguisse
-pela mesma rua adiante e se perdesse no fundo da chacara. A moça
-escolheu um meio termo, voltou á esquerda, dando as costas ao seu
-curioso admirador e continuando no mesmo passo vagaroso e regular.</p>
-
-<p>A chacara não era em demasia grande; e por mais lento que fosse o passo
-da madrugadora, não gastaria ella immenso tempo em percorrer até o fim
-aquella porção da rua em que entrára. Mas alli, ao pé daquelle coração
-juvenil e impaciente, cada minuto parecia, não direi um seculo,&mdash;seria
-abusar dos direitos do estylo,&mdash;mas uma hora, uma hora lhe parecia, com
-certeza.</p>
-
-<p>A moça entretanto, chegando ao fim, parou alguns instantes, pousou a
-mão nas costas de um banco rustico que alli havia e enfrentava com
-outro, collocado na extremidade opposta. A outra mão descaira-lhe, e os
-olhos tambem, o que magoou o seu curioso observador. Seriam saudades
-de alguem? Estevão sentiu uma cousa, a que chamarei ciume antecipado,
-mas que na realidade eram invejas da alheia fortuna. A inveja é um
-sentimento mau; mas nelle, que nascera para amar, e que, além disso,
-tinha em si o contraste do nascimento com o instincto, um berço obscuro
-e umas aspirações á vida elegante,&mdash;nelle a inveja era quasi um
-sentimento desculpavel.</p>
-
-<p>A moça voltou e veiu pela rua adiante. Emfim, disse comsigo Estevão,
-vou contemplal-a de mais perto. Ao mesmo tempo, receioso de que,
-descobrindo alli um extranho, guiasse os passos para casa, Estevão
-afastou-se do logar em que ficára, resoluto a apparecer, quando ella
-estivesse proxima á cerca do jardim. A moça vinha andando com o livro
-fechado, e os olhos ora no chão, ora nas andorinhas e camachilras que
-esvoaçavam na chacara. Se trazia saudades, não se lhe podiam ler no
-rosto, que era quieto e pensativo, sim, mas sem a menor sombra de pena
-ou de tristeza.</p>
-
-<p>Estevão do logar onde estava podia examinar-lhe as feições, sem ser
-visto por ella; mas foi justamente do que não cuidou, desde que
-lh'as pôde distinguir. Valia a pena, entretanto, contemplar aquelles
-grandes olhos castanhos, meio velados pelas longas, finas e bastas
-pestanas, não maviosos nem quebrados, como elle os cuidara ver, mas
-de uma belleza severa, casta e fria. Valia a pena admirar como elles
-communicavam a todo o rosto e o toda a figura um ar de magestade
-tranquilla e senhora de si. Não era ella uma dessas bellezas que, ao
-mesmo tempo, que subjugam o coração, accendem os sentidos; falava á
-intelligencia primeiro do que ao coração, tanto a arte parecia haver
-collaborado com a natureza naquella creatura, meia estatua e meia
-mulher.</p>
-
-<p>Tudo isto podia ver e considerar o nosso bacharel. A verdade, porém, é
-que a nenhuma destas cousas attendeu. Desde que distinguíra as feições
-de moça, ficou como tomado de assombro, com os olhos parados, a bocca
-entreaberta, fugindo-lhe a vida e o sangue todo para o coração.</p>
-
-<p>A moça chegara á cerca; esteve de pé algum tempo, olhou em derredor
-e por fim sentou-se no banco que alli havia, dando as costas para o
-jardim de Luiz Alves. Abriu novamente o livro, e continuou a leitura
-do ponto em que a deixara tão só comsigo, tão embebida no livro que
-tinha deante, que não a despertou o rumor, aliás sumido, dos passos de
-Estevão nas folhas seccas do chão. Teria percorrido meia pagina, quando
-Estevão, reclinando-se sobre a cerca, e procurando abafar a voz para
-que só chegasse aos ouvidos della, proferiu este simples nome:</p>
-
-<p>&mdash;Guiomar!</p>
-
-<p>A moça soltou um grito de sorpreza e de susto, e voltou-se sobresaltada
-para o lado donde partira a voz. Ao mesmo tempo levantára-se. A
-impressão que lhe produzira, e não sei se tambem algum ar de colera que
-lhe notasse no rosto; e além de tudo, o remorso de não haver suffocado
-aquelle grito de seu coração, fez com que Estevão, quasi no mesmo
-instante murmurasse em tom de súpplica:</p>
-
-<p>&mdash;Perdoe-me; foi uma scentelha do passado que estava debaixo da cinza:
-apagou-se de todo.</p>
-
-<p>Guiomar,&mdash;sabemos agora que era este o seu nome,&mdash;olhou séria e
-quieta para o seu mal aventurado interruptor, dous longos e mortaes
-minutos. Estevão, confuso e vexado, tinha os olhos em terra; o coração
-palpitava-lhe com força, como a despedir-se da vida. A situação ora em
-demasia afflictiva e embaraçosa para que se podesse prolongar mais.
-Estevão ia corteja-la e despedir-se; mas a moça, com um sorriso de mais
-piedade que affecto, murmurou:</p>
-
-<p>&mdash;Está perdoado.</p>
-
-<p>Caminhou para a cerca e estendeu-lhe a mão, que elle apertou,&mdash;apertou
-não é bem dito,&mdash;em que elle tocou apenas, o mais ceremoniosamente que
-podia e devia naquella situação.</p>
-
-<p>E depois ficaram a olhar um para o outro, sem se atreverem a dizer
-nada, nem a sair dalli, a verem ambos o espectro do passado, aquelle
-tão amargo passado para um delles. Guiomar foi a primeira que rompeu o
-silencio, fazendo a Estevão uma pergunta natural, como não podia deixar
-de ser naquellas circumstancias mas ainda assim, ou por isso mesmo, a
-mais acerba que elle podia ouvir:</p>
-
-<p>&mdash;Ha dous annos que nos não vemos, creio eu?</p>
-
-<p>&mdash;Ha dous annos, murmurou Estevão abafando um suspiro.</p>
-
-<p>&mdash;Já está formado, não? Lembra-me ter lido o seu nome....</p>
-
-<p>&mdash;Estou formado. Sabe que era o desejo maior de minha tía...</p>
-
-<p>&mdash;Não a vejo ha muito tempo, interrompeu Guiomar; eu saí do collegio,
-logo depois que o senhor seguiu para S. Paulo. Saí a convite da
-baroneza, minha madrinha, que lá foi buscar-me um dia, allegando que eu
-já não tinha que aprender, e que me não convinha ensinar.</p>
-
-<p>&mdash;De certo, assentiu Estevão.&mdash;Minha tia é que não deixou nem podia
-deixar de ensinar; acabou no officio.</p>
-
-<p>&mdash;Acabou?</p>
-
-<p>&mdash;Morreu.</p>
-
-<p>&mdash;Ah!</p>
-
-<p>&mdash;Morreu ha cerca de um anno.</p>
-
-<p>&mdash;Era uma boa creatura, continuou Guiomar, depois de alguns instantes
-de silencio, muito carinhosa e muito prendada. Devo-lhe o que
-aprendi..., Está admirando esta flor?</p>
-
-<p>Estevão, apanhado em flagrante delicto de admiração, não da flor mas da
-mão que a sustinha,&mdash;uma deliciosa mão, que devia ser por força a que
-se perdeu da Venus de Milo, Estevão balbuciou:</p>
-
-<p>&mdash;Com effeito, é linda!</p>
-
-<p>&mdash;Ha muita flor bonita aqui na chacara. A baroneza tem immenso gesto a
-estas cousas, e o nosso jardineiro é homem que sabe do seu officio.</p>
-
-<p>Aquelle natural acanhamento da primeira occasião foi desapparecendo aos
-poucos, e a conversa veiu a ser, não tão familiar, como outr'ora, mas
-em todo o caso menos fria do que a principio estivera. Havia, comtudo,
-uma differença entre os dous: elle, sem embargo do desembaraço,
-sentia-se abalado e commovido; ella, porém, vencido o sobresalto do
-principio, mostrava-se tranquilla e fria, sempre polida e grave,
-risonha ás vezes, mas de um risonho á flor do rosto, que não lhe
-alterava a serenidade e compostura.</p>
-
-<p>O sitio e a hora eram mais proprios de um idylio, que de uma fria e
-descolorida pratica. Um ceu claro e limpido, um ar puro, o sol a coar
-por entre as folhas uma luz ainda frouxa e tepida, a vegetação em
-derredor, todo aquelle reviver das cousas parecia estar pedindo uma
-egual aurora nas almas. Estas é que deviam falar alli a sua lingua
-dellas, amorosa e candida, em vez da outra, cortez, elegante e rigida,
-que a nenhum delles desprazia, de certo, mas que era muito menos
-volontaria nos labios de Estevão.</p>
-
-<p>Guiomar falava com certa graça, um pouco hirta e pausada, sem viveza,
-nem calor.</p>
-
-<p>Estevão, que a maior parte do tempo ficara a ouvil-a, observava entre
-si que as maneiras da moça não lhe eram desnaturaes, ainda que podiam
-ser calculadas naquella situação. A Guiomar que elle conhecera e amara
-era o embryão da Guiomar de hoje, o esboço do painel agora perfeito;
-faltava-lhe outr'ora o colorido, mas já se lhe viam as linhas do
-desenho.</p>
-
-<p>A conversa durou cerca de tres quartos de hora, uma migalha de tempo
-para elle, que desejara muito mais. Mas era preciso acabar; ella foi a
-primeira a dizer-lh'o.</p>
-
-<p>&mdash;O senhor fez-me perder muito tempo. Ha talvez uma hora que estamos
-aqui a conversar. Era natural, depois de dous annos. Dous annos! Mas o
-que não era natural, continuou ella mudando de tom, era atrever-me a
-falar com un estranho neste <i>déshabillé</i> tão pouco elegante...</p>
-
-<p>&mdash;Elegantissimo, pelo contrario.</p>
-
-<p>&mdash;O senhor tem sempre um comprimento de reserva: vejo que não perdeu
-o tempo na academia. Vou-me embora. São horas da baroneza dar o seu
-passeio pela chacara.</p>
-
-<p>&mdash;Será aquella senhora que alli está no alto da escada? perguntou
-Estevão.</p>
-
-<p>&mdash;É ella mesma, respondeu Guiomar. Está á espera que lhe vá dar o braço.</p>
-
-<p>E com um gesto friamente fidalgo, estendeu a mão a Estevão, dizendo:</p>
-
-<p>&mdash;Passe bem, senhor doutor, estimei vêl-o.</p>
-
-<p>Estevão tocou-lhe levemente na mão, fina e macia, e inclinou-se
-respeitoso. A moça caminhou para casa. Elle acompanhou-a com os olhos,
-admirando a gentileza com que ella, desta vez a passo accelerado,
-resvalava por entre as arvores até subir as escadas da casa. Viu-a
-dar o braço á madrinha, descerem e seguirem vagarosamente pelo mesmo
-caminho por onde Guiomar seguira da primeira vez.</p>
-
-<p>Estevão ainda ficou algum tempo encostado á cerca, na esperança de que
-ella olhasse ou dirigisse os passos para aquelle lado; ella porém,
-passou indifferente, como se nem da existencia delle soubera. Estevão
-retirou-se dalli cabisbaixo e triste, batido de contrários sentimentos,
-cheio de uma tristeza e de uma alegria que mal se combinavam, e por
-cima de tudo isso o éco vago e surdo desta interrogação:</p>
-
-<p>&mdash;Entro num drama ou saio de uma comedia?</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h4><a name="IV" id="IV">IV</a></h4>
-
-
-<h4>Latet anguis.</h4>
-
-
-<p>O passeio da baroneza durou pouco mais de meia hora. O sol começava
-a aquecer, e apesar de ser bastante sombreada a chacara, o calor
-aconselhava á boa senhora que se recolhesse. Guiomar deu-lhe o braço, e
-ambas, seguindo pelo mesmo caminho, guiaram para casa.</p>
-
-<p>&mdash;Parece muito tarde, Guiomar, disse a baroneza ao cabo de alguns
-segundos.</p>
-
-<p>&mdash;E é, madrinha. Demorei-me hoje mais do que costumo, por causa de um
-encontro que tive aqui na chacara.</p>
-
-<p>&mdash;Um encontro?</p>
-
-<p>&mdash;Um homem.</p>
-
-<p>&mdash;Algum ladrão? perguntou a madrinha parando.</p>
-
-<p>&mdash;Não, senhora, respondeu Guiomar sorrindo, não era ladrão. A minha
-mestra de collegio... sabe que morreu?</p>
-
-<p>&mdash;Quem disse isso?</p>
-
-<p>&mdash;O sobrinho, o tal sugeito que encontrei aqui hoje.</p>
-
-<p>&mdash;Você está zombando commigo! Um homem na chacara?</p>
-
-<p>&mdash;Não era bem na chacara, mas no jardim do Dr. Luiz Alves. Estava
-encostado á cerca; trocámos algumas palavras.</p>
-
-<p>A baroneza olhou para ella alguns segundos.</p>
-
-<p>&mdash;Mas, menina, isso não é bonito. Que diriam se os vissem?... Eu não
-diria nada, porque conheço o que você vale, e sei a discrição que Deus
-lhe deu.&mdash;Mas as apparencias....Que qualidade de homem é esse sobrinho?</p>
-
-<p>Interrompeu-as uma mulher de quarenta e quatro a quarenta e cinco
-annos, alta e magra, cabello entre louro e branco, olhos azues,
-aceiadamente vestida, a Sra. Oswald,&mdash;ou mais britannicamente, Mrs.
-Oswald,&mdash;dama de companhia da baroneza, desde alguns annos. Mrs.
-Oswald conhecêra a baroneza em 1846; viuva e sem familia, acceitou as
-prospostas que esta lhe fez. Era mulher intelligente e sagaz, dotada
-de boa indole e serviçal. Antes da ida de Guiomar para a companhia da
-madrinha, era Mrs. Oswald a alma da casa; a presença de Guiomar, que a
-baroneza amava extremosamente, alterou um pouco a situação.</p>
-
-<p>&mdash;São nove horas! disse de longe a ingleza; pensei que hoje não queriam
-voltar para casa. O calor está forte; e a senhora baroneza sabe que não
-é conveniente expor-se aos ardores do sol, sobretudo neste tempo de
-epidemias.</p>
-
-<p>&mdash;Tem razão, Mrs. Oswald; mas Guiomar tardou hoje tanto em ir
-buscar-me, que o passeio começou tarde.</p>
-
-<p>&mdash;Porque me não mandou chamar?</p>
-
-<p>&mdash;Estava talvez a dormir, ou entretida com o seu Walter Scott...</p>
-
-<p>&mdash;Milton, emendou gravemente a ingleza; esta manhã foi dedicada a
-Milton. Que immenso poeta, D. Guiomar!</p>
-
-<p>&mdash;Tamanho como este calor, observou Guiomar sorrindo. Apertemos o passo
-e lá dentro a ouviremos com melhor disposição.</p>
-
-<p>Foram as tres andando, subiram a escada e entraram na sala de jantar,
-que era vasta, com seis janellas para a chacara. Dalli seguiram para
-uma saleta, onde a baroneza sentou-se na sua poltrona, a esperar a hora
-do almoço. Guiomar saiu para ir cuidar da <i>toilette</i>; e a baroneza que
-desde alguns minutos estivera cabisbaixa e pensativa, olhou fixamente
-para Mrs. Oswald, sem dizer palavra.</p>
-
-<p>Era ella uma senhora de cincoenta annos, refeita, vestida com esse
-alinho e esmero da velhice, que é um resto da elegancia da mocidade. Os
-cabellos, côr de prata fosca, emmolduravam-lhe o rosto sereno, algum
-tanto arrugado, não por desgostos, que os não tivera, mas pelos annos.
-Os olhos luziam de muita vida, e eram a parte mais juvenil do rosto.</p>
-
-<p>Tendo casado cedo, coube-lhe a boa fortuna de ser egualemente feliz
-desde o dia do noivado até o da viuvez. A viuvez custara-lhe muito; mas
-já lá iam alguns annos, e da crua dor que tivera ficara-lhe agora a
-consolação da saudade.</p>
-
-<p>&mdash;Chegue-se mais perto; preciso falar-lhe a sós, disse ella á ingleza,
-que se achava a alguns passos de distancia.</p>
-
-<p>Mrs. Oswald foi ate a porta espreitar se viria alguém e voltou a
-sentar-se ao pé da baroneza. A baroneza estava outra vez pensativa, com
-as mãos crusadas no regaço e os olhos no chão.</p>
-
-<p>Estiveram as duas alli silenciosas alguns dous ou tres minutos. A
-baroneza despertou emfim das reflexões, e voltou-se para a ingleza:</p>
-
-<p>&mdash;Mrs. Oswald, disse ella, parece estar escripto que não serei
-completamente feliz. Nenhum sonho me falhou nunca; este, porém, não
-passará de sonho, e era o mais bello de minha velhice.</p>
-
-<p>&mdash;Mas porque desespera? disse a ingleza. Tenha animo, e tudo se hade
-arranjar. Pela minha parte, oxalá pudesse contribuir para a completa
-felicidade desta familia, a quem devo tantos e tamanhos benefícios.</p>
-
-<p>&mdash;Benefícios!</p>
-
-<p>&mdash;E que outra cousa são os seus carinhos, a protecção que me tem dado,
-a confiança...</p>
-
-<p>&mdash;Está bom, está bom, interrompeu affectuasamente a baroneza; falemos
-de outra cousa.</p>
-
-<p>&mdash;Della, não é? Diz-me o coração que com alguma paciencia tudo se
-alcançará. Todos os meios se hão de tentar; e todos elles são bons
-se se trata de fazer a felicidade sua e della. Bem está o que bem
-acaba, disse um poeta nosso, homem de juizo. Por em quanto só vejo um
-obstaculo: a pouca disposição...</p>
-
-<p>&mdash;Só esse?</p>
-
-<p>&mdash;Que outro mais?</p>
-
-<p>&mdash;Talvez outro, disse a baroneza abaixando a voz; póde ser que não, mas
-tão infeliz sou neste meu desejo, que hade vir a ser obstaculo, talvez.</p>
-
-<p>&mdash;Mas que é?</p>
-
-<p>&mdash;Um homem, um moço, não sei quem, sobrinho da mestra que foi de
-Guiomar... Ella mesma contou-me tudo ha pouco.</p>
-
-<p>&mdash;Tudo o que?</p>
-
-<p>&mdash;Não sei se tudo; mas emfim disse-me que, estando a passear na
-chacara, vira o tal sobrinho da mestra, junto á cerca do Dr. Luiz
-Alves, e ficara a conversar com elle. Que será isto, Mrs. Oswald?
-Algum amor que continua ou recomeça agora,&mdash;agora, que ella já não é a
-simples herdeira da pobreza de seus pais, mas a minha filha, a filha do
-meu coração.</p>
-
-<p>A commoção da baroneza ao proferir estas palavras era tal, que Mrs.
-Oswald pegou-lhe affectuosamente das mãos e procurou conforta-la com
-outras palavras de esperança e confiança. Disse-lhe, além disso, que o
-simples conversar com esse homem, que aliás nenhuma delias conhecia,
-não era razão para suppor uma paixão anterior.</p>
-
-<p>&mdash;Emfim, concluiu a ingleza, custa-me crer que ella ame a alguem neste
-mundo. Por em quanto estou que não gosta de ninguém, e a nossa vantagem
-não é outra senão essa. Sua afilhada tem uma alma singular; passa
-facilmente do enthusiasmo á frieza, e da confiança ao retrahimento.
-Ha de vir a amar, mas não creio que tenha grandes paixões, ao menos
-duradouras. Em todo o caso, posso responder-lhe actualmente pelo seu
-coração, como se tivesse a chave na minha algibeira.</p>
-
-<p>A baroneza abanou a cabeça.</p>
-
-<p>&mdash;Quanto a esse homem, continuou Mrs. Oswald, saberemos quem é elle, e
-que relações de affecto houve no passado.</p>
-
-<p>&mdash;Parece-lhe possivel?</p>
-
-<p>&mdash;Naturalmente!</p>
-
-<p>A ingleza proferiu esta unica palavra com a segurança necessaria para
-serenar o animo da boa senhora, que ficou algum tempo a olhar pasmada
-para ella, como quem reflectia.</p>
-
-<p>&mdash;Ha occasiões, disse emfim a baroneza ao cabo de alguns segundos de
-silencio, ha occasiões em que eu quasi chego a sentir remorsos do amor
-que tenho a Guiomar. Ella veiu preencher na minha vida o vacuo deixado
-por aquella pobre Henriqueta, a filha das minhas entranhas, que a morte
-levou comsigno, para mal de sua mãe. Se havia de ser infeliz, melhor é
-que a chore morta, com a esperança de a ir encontrar no ceu. Mas não
-lhe quiz mais, nem talvez tanto, como a esta criança, que levei á pia,
-e de quem Deus me fez mãe...</p>
-
-<p>A baroneza calou-se; ouvira passos no corredor.</p>
-
-<p>Guiomar, embora tivesse ido vestir-se e aprimorar-se, com tão singellos
-meios o fizera, que não desdizia daquelle matinal desalinho em que o
-leitor a viu no capitulo anterior. O penteado era um capricho seu,
-expressamente inventado para realçar a um tempo a abundancia dos
-cabellos e a senhoril belleza da testa. As pontas bordadas de um
-collarinho de cambraia dobravam-se faceiramente sobre o azul do vestido
-de <i>glacé</i>, talhado e ornado com uma simplicidade artistica. Isto, e
-pouco mais, era toda a moldura do painel,&mdash;um dos mais bellos paineis
-que havia por aquelles tempos em toda a praia de Botafogo.</p>
-
-<p>&mdash;Viva a minha rainha de Inglaterra! exclamou Mrs. Oswald quando a viu
-assomar á porta da saleta.</p>
-
-<p>E Guiomar sorriu com tanta, satisfação e gôzo ao ouvir-lhe esta
-saudação familiar, que um observador attento hesitaria em dizer se era
-aquillo simples vaidade de moça, ou se alguma cousa mais.</p>
-
-<p>A baroneza poz os olhos na afilhada, uns olhos amorosos e tristes,
-em que a moça reparou, e que a tornaram séria durante alguns rapidos
-segundos. Mas sorriu depois; e pegando das mãos da madrinha deu-lhe
-dous beijos no rosto, com tanta ternura e tão sincera, que a boa
-senhora sorriu de contentamento.</p>
-
-<p>&mdash;Não precisa falar, disse Guiomar, já sei que me acha bonita. É o
-que me diz todos os dias, com risco de me perder, porque se eu acabo
-vaidosa, adeus, minhas encommendas, ninguem mais poderá commigo.</p>
-
-<p>Guiomar disse isto com tanta graça e singeleza, que a madrinha não
-pôde deixar de rir, e a melancolia acabou de todo. A sineta do almoço
-chamou-as a outros cuidados, e a nós tambem, amigo leitor. Em quanto as
-tres almoçam, relanceemos os olhos ao passado, e vejamos quem era esta
-Guiomar, tão gentil, tão buscada e tão singular, como dizia Mrs. Oswald.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h4><a name="V" id="V">V</a></h4>
-
-
-<h4>Meninice.</h4>
-
-
-<p>Guiomar tivera humilde nascimento; era filha de um empregado subalterno
-não sei de que repartição do Estado, homem probo, que morreu quando
-ella contava apenas sete annos, legando á viuva o cuidado de a educar
-e manter. A viuva era mulher energica e resoluta, enxugou as lagrimas
-com a manga do modesto vestido, olhou de frente para a situação e
-determinou-se á luta e á victoria.</p>
-
-<p>A madrinha de Guiomar não lhe faltou naquelle duro transe, e olhou por
-ellas, como entendia que era seu dever. A solicitude, porém, não foi
-tão constante a principio como veiu a ser depois; outros cuidados de
-familia lhe chamavam a attenção.</p>
-
-<p>Guiomar annunciava desde pequena as graças que o tempo lhe desabrochou
-e perfez. Era uma creaturinha galante e delicada, assaz intelligente e
-viva, um pouco travêssa, de certo, mas muito menos do que é usual na
-infancia. Sua mãe, depois que lhe morrera o marido, não tinha outro
-cuidado na terra, nem outra ambição mais, que a de ve-la prendada e
-feliz. Ella mesma lhe ensinou a ler mal, como ella sabia,&mdash;e a coser e
-bordar, e o pouco mais que possuia de seu officio de mulher. Guiomar
-não tinha difficuldade nenhuma em reter o que a mãe lhe ensinava, e
-com tal affinco lidava por aprender, que a viuva,&mdash;ao menos nessa
-parte,&mdash;sentia-se venturosa. Has-de ser a minha doutora, dizia-lhe
-muita vez; e esta simples expressão de ternura alegrava a menina e lhe
-servia de incentivo á applicação.</p>
-
-<p>A casa em que moravam era naturalmente modesta. Alli correu a
-infancia,&mdash;mas solitaria, o que é um pouco mais grave. A mãe, quando a
-via embebida nos jogos proprios da edade, infantilmente alegre,&mdash;mas
-de uma alegria que fazia mal a seus olhos de mãe, tão fundo lhe doia
-aquelle viver,&mdash;a mãe sentia ás vezes pularem-lhe as lagrimas dos
-olhos fora. A filha não as via, porque ella sabia escondel-as; mas
-advinhava-as atravez da tristeza que lhe ficava no rosto. Só não
-adivinhava o motivo, mas bastava que fossem maguas de sua mãe, para lhe
-descair tambem a alegria.</p>
-
-<p>Com o tempo, avultou outra causa de tristeza para a pobre viuva, ainda
-mais dolorosa que a primeira. Na edade apenas de dez annos, tinha
-Guiomar uns desmaios de espirito, uns dias de concentração e mudez,
-uma seriedade, a principio intermittente e rara, depois frequente e
-prolongada, que desdiziam da meninice e faziam crer á mãe que eram
-prenuncios de que Deus a chamava para si. Hoje sabemos que não eram.
-Seria acaso effeito daquella vida solitaria e austera, que já lhe ia
-affeiçoando a alma e como que apurando as forças para as pugnas da vida?</p>
-
-<p>A primeira vez que esta gravidade da menina se lhe tornou mais patente
-foi uma tarde, em que ella estivera a brincar no quintal da casa. O
-muro do fundo tinha uma larga fenda, por onde se via parte da chacara
-pertencente a uma casa da visinhança. A fenda era recente; e Guiomar
-acostumára-se a ir espairecer alli os olhos, já serios e pensativos.
-Naquella tarde, como estivesse olhando para as mangueiras, a cobiçar
-talvez as doces fructas amarellas que lhe pendiam dos ramos, viu
-repentinamente apparecer-lhe deante, a cinco ou seis passos do lugar em
-que estava, um rancho de moças, todas bonitas, que arrastavam por entre
-as arvores os seus vestidos, e faziam luzir aos ultimos raios do sol
-poente as joias que as enfeitavam. Ellas passaram alegres, descuidadas,
-felizes; uma ou outra lhe dispensou talvez algum affago; mas foram-se,
-e com ellas os olhos da interessante pequena, que alli ficou largo
-tempo absorta, alheia de si, vendo ainda na memoria o quadro que
-passára.</p>
-
-<p>A noite veiu, a menina recolheu-se pensativa e melancolica, sem nada
-explicar á solicita curiosidade da mãe. Que explicaria ella, se mal
-podia comprehender a impressão que as cousas lhe deixavam? Mas, como
-a mãe entristecesse com aquillo, Guiomar domou o proprio espirito e
-fez-se tão jovial como nos melhores dias.</p>
-
-<p>Esta era ainda outra feição da menina; tinha uma força de vontade
-superior aos seus annos. Com ella, e a viveza intellectual que Deus lhe
-dera, logrou aprender tudo o que a mãe lhe ensinara, e melhor ainda
-do que ella o sabia, desde que o tempo lhe permittiu desenvolver os
-primeiros elementos.</p>
-
-<p>Aos trese annos ficou orphã; este fundo golpe em seu coração, foi o
-primeiro que ella verdadeiramente pode sentir, e o maior que a fortuna
-lhe desfechou. Já então a madrinha a fizera entrar para um collegio,
-onde aperfeiçoava o que sabia e onde lhe ensinavam muita cousa mais.</p>
-
-<p>Vivia ainda então a filha de baroneza, uma interessante creança de
-trese annos, que era toda a alma e encanto de sua mãe. Guiomar visitava
-a casa da madrinha; a edade quasi egual das duas meninas, a affeição
-que as ligava a belleza e meiguice de Guiomar, a graciosa compostura
-de seus modos, tudo apertou entre a madrinha e a afilhada os laços
-puramente espirituaes que as uniam antes. Guiomar correspondia aos
-sentimentos daquella segunda mãe; havia talvez em seu affecto, aliás
-sincero, um tal encarecimento que podia parecer simulação. O affecto
-era espontaneo; o encarecimento é que seria voluntário.</p>
-
-<p>Tinha a moça dezeseis annos quando passou para o collegio da tia de
-Estevão, onde pareceu á baroneza se lhe poderia dar mais apurada
-educação. Guiomar manifestára então o desejo de ser professora.</p>
-
-<p>&mdash;Não ha outro recurso, disse ella á baroneza quando lhe confiou esta
-aspiração.</p>
-
-<p>&mdash;Como assim? perguntou a madrinha.</p>
-
-<p>&mdash;Não ha, repetiu Guiomar. Não duvido, nem posso negar o amor que
-a senhora me tem; mas a cada qual cabe uma obrigação, que se deve
-cumprir. A minha é... é ganhar o pão.</p>
-
-<p>Estas ultimas palavras passaram-lhe pelos lábios como que á força.
-O rubor subiu-lhe ás faces; dissera-se que a alma cobria o rosto de
-vergonha.</p>
-
-<p>&mdash;Guiomar! exclamou a baroneza.</p>
-
-<p>&mdash;Peço-lhe uma cousa honrosa para mim, respondeu Guiomar com
-simplicidade.</p>
-
-<p>A madrinha sorriu e approvou-a com um beijo,&mdash;assentimento de boca, a
-que já o coração não respondia, e que o destino devia mudar.</p>
-
-<p>Pouco tempo depois padeceu a baroneza o golpe quasi mortal a que
-alludiu no capitulo anterior. A filha morreu de repente, e o inopinado
-do desastre quasi levou a mãe á sepultura.</p>
-
-<p>A affeição de Guiomar não se desmentiu nessa dolorosa situação. Ninguém
-mostrou sentir mais do que ella a morte de Henriqueta, ninguém consolou
-tão dedicadamente a infeliz que lhe sobrevivia. Eram ainda verdes os
-seus annos; todavia revellou ella a posse de uma alma egualmente terna
-e energica, affectuosa e resoluta. Guiomar foi durante alguns dias a
-verdadeira dona da casa; a catastrophe abatera a propria Mrs. Oswald.</p>
-
-<p>O coração da pobre mãe ficára tão vasio, e a vida lhe pareceu tão agra
-e deserta sem a filha, que ella morreria talvez de saudade, se não fora
-a presença de Guiomar. Nenhuma outra creatura poderia preencher, como
-esta, o logar de Henriqueta. Guiomar era já meia filha da baroneza as
-circumstancias, não menos que o coração, tinham-n'as destinado uma para
-a outra. Um dia, em que a afilhada fora visitar a madrinha, esta lhe
-disse que a iria em breve buscar para sua casa.</p>
-
-<p>&mdash;Você será a filha que eu perdi; elle não me amou mais, nem eu já
-agora teria outra consolação.</p>
-
-<p>&mdash;Oh! madrinha! exclamou Guiomar beijando-lhe as mãos.</p>
-
-<p>A baroneza estava assentada; Guiomar ajoelhou-se-lhe aos pés e poz-lhe
-a cabeça no regaço. A boa mãe curvou-se e beijou-lh'a ternamente,
-com os olhos naquella filha que os successos lhe haviam dado, e o
-pensamento no ceu, onde devia estar a outra, que Deus lhe dera e levou
-para si.</p>
-
-<hr />
-
-<p>Pouco depois estabeleceu-se Guiomar definitivamente em casa da
-madrinha, onde a alegria reviveu, gradualmente, graças á nova
-moradora, em quem havia um tino e sagacidade raros. Tendo presenciado,
-durante algum tempo, e não breve, o modo de viver entre a madrinha e
-Henriqueta, Guiomar poz todo o seu esforço em reproduzir pelo mesmo
-teor os habitos de outro tempo, de maneira que a baroneza mal pudesse
-sentir a ausencia da filha. Nenhum dos cuidados da outra lhe esqueceu,
-e se em algum ponto os alterou foi para augmentar-lhe novos. Esta
-intenção não escapou ao espirito da baroneza, e é superfluo dizer que
-deste modo os vinculos do affecto mais se apertaram entre ambas.</p>
-
-<p>Ao mesmo tempo que ia provando os sentimentos de seu coração, revelava
-a moça, não menos, a plena harmonia de seus instinctos com a sociedade
-em que entrára. A educação, que nos últimos tempos recebera, fez muito,
-mas não fez tudo. A natureza incumbira-se de completar a obra,&mdash;melhor
-diremos, começal-a. Ninguem adivinharia nas maneiras finamente
-elegantes daquella moça, a origem mediana que ella tivera; a borboleta
-fazia esquecer a chrysalida.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h4><a name="VI" id="VI">VI</a></h4>
-
-
-<h4>O post-scriptum.</h4>
-
-
-<p>Aquelle conselho de Luiz Alves, na fatal noite de dous annos antes, não
-ha duvida que era judicioso e devera ter ficado no espirito de Estevão.
-Não convinha reler a carta, sob pena de lhe achar um <i>post-scriptum.</i>
-Estevão era curioso de epistolas; não pode ter-se que não abrisse
-aquella. O <i>post-scriptum</i> lá estava no fim.</p>
-
-<p>Vindo á linguagem natural, Estevão saiu do jardim de Luiz Alves com
-o coração meio inclinado a amar de novo a mulher que tanto o fizera
-padecer um dia. Daqui concluirá alguem que elle verdadeiramente não
-deixára de a amar Póde ser; havia talvez debaixo da cinza uma faisca,
-uma só, e essa bastava a repetir o incendio. Mas fosse de um ou de
-outro modo, o certo é que Estevão saiu dalli com o príncipio do amor no
-coração.</p>
-
-<p>Todo aquelle dia foi de alvoroço e agitação para elle, que não se
-resignou logo, antes buscou reagir contra a entrada da paixão nova. A
-tentativa era sincera; as forças é que eram escassas. Elle desviava de
-si a imagem da moça; ella, porém perseguia-o, tenaz, como se fora um
-remorso, fatal como a voz de seu destino.</p>
-
-<p>Estevão nada disse a Luiz Alves do encontro e da conversa qui tivera
-com a moça no jardim; e não lh'o escondeu por desconfiança, mas por
-vergonha. Que lhe diria porém elle que o não tivesse visto e percebido
-Luiz Alves? Da janella de seu quarto, que dava para o jardim, enfiando
-os olhos pela fresta das cortinas pôde observa-los durantes aquelles
-tres quartos de hora de innocente palestra. O espectaculo não o
-divertiu muito; Luiz Alves achou um pouco atrevida a escolha do logar.</p>
-
-<p>A circumstancia de os ver juntos chamou-lhe a attenção para a
-coincidencia do nome da visinha com o da antiga namorada do collega;
-era naturalmente a mesma pessoa.</p>
-
-<p>&mdash;Vai contar-me tudo, pensou Luiz Alves quando viu o collega
-affastar-se da cerca e dirigir os passos para casa.</p>
-
-<p>Estevão, como disse, foi discreto. Vinha preocupado, muito outro do que
-entrára na vespera, a ler-se-lhe no rosto alguma cousa mais séria do
-que elle proprio costumava ser.</p>
-
-<p>Tinha Estevão contra si o passado e o futuro. O presente, sim,
-defendia-o; elle sentia que alguma cousa o distanciava de Guiomar.
-Mas o passado falava-lhe de todas as doces recordações,&mdash;as menos
-amargas,&mdash;e a memoria quasi não sabe de outras quando relembra o
-que foi. O futuro acenava-lhe com as suas esperanças todas, e basta
-dizer que eram infinitas. Além disso, a Guiomar que elle via agora,
-surgia-lhe no meio de outra atmosphera,&mdash;a mesma que o seu espirito
-almejava respirar; e apparecia-lhe para fugir logo. Sobre tudo isto
-o obstaculo, aquella porta fechada, que bem podia ser a da <i>cittá
-dolente</i>, mas que em todo o caso elle quizera ver franqueada ás suas
-ambições.</p>
-
-<p>Os dias correram alternados de confiança e desanimo, tecidos de ouro e
-fio negro, um lutar de todas as horas, que acabou como era de prever e
-devia acabar. O coração levou Estevão atraz de si.</p>
-
-<p>Nenhum meio, dos que tinha á mão, lhe esqueceu para ver Guiomar. As
-janellas da casa estavam quasi sempre desertas. Duas ou tres vezes
-aconteceu vel-a de longe; ao approximar-se-lhe, sumira-se o vulto na
-sombra do salão Não perdia theatro; mas só duas vezes teve o gosto de
-a ver: uma no Lyrico, onde se cantava <i>Somnambula</i>, outra no Gymnasio,
-onde se representavam os <i>Parisienses</i>, sem que elle ouvisse uma nota
-da opera, nem uma palavra da comedia. Todo elle, olhos e pensamento,
-estava no camarote de Guiomar. No Lyrico foi baldada essa comtemplação;
-a moça não deu por elle. No Gymnasio, sim; o theatro era pequeno;
-comtudo, antes não fôra visto, tão tenazmente deviou ella os olhos do
-logar em que elle ficára.</p>
-
-<p>Nem por isso deixou Estavão de ir esperal-a á saida, collocar-se
-francamente no seu caminho, sollicitar-lhe audazmente os olhos e
-attenção. A familia desceu da 2<sup>a</sup> ordem pela escada do lado
-de S. Francisco; a estreiteza do logar era excellente. Dava o braço á
-baroneza um moço de vinte e cinco annos, figura elegante, ainda que um
-tanto affectada. Desceram todos tres e ficaram á espera do carro alguns
-minutos. Na meia sombra que alli havia destacava-se o rosto marmoreo
-de Guiomar e a gentileza de seu talhe. Seus grandes olhos vagavam pela
-multidão, mas não fitavam ninguem. Ella possuia, como nenhuma outra, a
-arte de gozar, sem as ver, as homenagens da admiração publica.</p>
-
-<p>Irritado com a indifferença da moça, vagou Estevão toda aquella noite,
-a sós com o seu despeito e o seu amor, tecendo e destecendo mil planos,
-todos mais absurdos uns que outros. A taça enchera de todo; era mister
-entornal-a no seio de um amigo, de um amigo que houvesse nas suas mãos
-o unico remedio que elle nessa occasião pedia;&mdash;a chave daquella porta.
-Luiz Alves era esse homem.</p>
-
-<p>&mdash;Outra vez caido! exclamou elle rindo quando Estevão lhe contou tudo.
-Eu já o havia percebido. Isto de mulheres... Queres então que te leve
-lá?</p>
-
-<p>&mdash;Quero.</p>
-
-<p>Luiz Alves reflectiu alguns intantes.</p>
-
-<p>&mdash;E uma viagem, não te seria bom fazer uma viagem? Já sei o que me vás
-dizer; mas tambem não te proponho uma viagem de recreio, á Europa.
-Olha, arranjo-te, se queres, um logar de juiz municipal...</p>
-
-<p>A proposta era sincera; Estevão cuidou ver-lhe uma ponta de zombaria
-e ergueu os hombros com enfado. A proposta, entretanto, merecia ser
-examinada; era uma carreira, e vinha de um homem que estava a entrar na
-vida politica, que esperava dahi a algumas semanas o resultado de uma
-eleição, com a certeza, ou quasi, de haver triumphado. Era influencia
-que nascia, e de força viria a crescer. Mas para Estevão, naquella
-occasião, toda a carreira publica, influencia, futuro, leis, tudo
-estava nos olhos castanhos de Guiomar.</p>
-
-<p>&mdash;Eu amo-a, disse elle emfim, isto para mim é tudo. Póde bem ser
-que tenhas razão; talvez me espere algum grande desgosto; mas são
-reflexões, e eu não reflicto agora, eu sinto...</p>
-
-<p>&mdash;Em todo o caso, acudiu Luiz Alves, desempenho o meu dever de amigo;
-digo-te que vocês não nasceram um para outro; que, se ella te não amou
-naquelle tempo, muito menos te amará hoje, e que emfim...</p>
-
-<p>Luiz Alves estacou.</p>
-
-<p>&mdash;Emfim? perguntou Estevão.</p>
-
-<p>&mdash;Emfim pedes-me um sacrificio, concluiu rindo o advogado, por que
-também eu já a namorisquei... Não é preciso carregares o sobr'olho; foi
-namoro de visinho, tentativa que durou pouco mais de vinte e quatro
-horas. Com vergonha o digo, ella não me prestou uma migalha de attenção
-sequer, e eu voltei aos meus autos.</p>
-
-<p>&mdash;Então... gostas della? perguntou Estevão.</p>
-
-<p>&mdash;Acho-a bonita e nada mais. Aquillo foi um lançar barro á parede; se
-acceitasse, casava-me; não acceitou...</p>
-
-<p>&mdash;Já vês que somos differentes.</p>
-
-<p>&mdash;Queres, então?...</p>
-
-<p>&mdash;Um serviço de amigo.</p>
-
-<p>&mdash;Bem, disse por fim Luiz Alves, faça-se a tua vontade. A baroneza vai
-cuidar agora de um processo e mandou-me falar. Eu passo-te a prebenda;
-entrarás alli, como advogado, o que de alguma maneira me tira um peso
-da consciência.</p>
-
-<p>Estevão, que só pedia um pretexto, acceitou a offerta com ambas as
-mãos, e agradeceu-lh'a com tão expansiva ternura, que fez sorrir o
-outro.</p>
-
-<p>A promessa cumpriu-se pontualmente. Luiz Alves apresentou Estevão
-á baroneza, na seguinte noite, como seu companheiro e amigo, como
-advogado capaz de zelar os interesses da illustre cliente. A recepção,
-foi geralmente boa, salvo por parte de Guiomar, que pareceu aborrecida
-de o ver naquella casa. Quando Estevão a saudou, como quem a conhecia
-de longo tempo, ella mal pode retribuir-lhe o cumprimento; em todo o
-resto da noite não lhe deu palavra. Daquella parte o acolhimento não
-podia ser peior; mas Estevão sentia-se feliz, desde que vel-a, respirar
-o mesmo ar, nada mais pedindo por ora, e deixando o resto á fortuna.</p>
-
-<p>De todas as pessoas de casa da baroneza, a primeira que reparou na
-indifferença com que Guiomar tratára Estevão, foi Mrs. Oswald. A sagaz
-ingleza afivellou a mascara mais impassivel que trouxera das ilhas
-britannicas e não os perdeu de vista. Nem da primeira nem da segunda
-vez viu nada mais que os olhos delle, que sollicitavam os della, e
-os della que pareciam surdos. Havia de certo uma paixão, solitaria e
-desattendida.</p>
-
-<p>&mdash;Sabe que descobri um namorado seu? perguntou ella alguns dias depois
-a Guiomar.</p>
-
-<p>Guiomar fez um gesto de estranheza.</p>
-
-<p>&mdash;Entendamo-nos, observou a ingleza; não digo que a senhora o namore
-também; digo que é elle quem anda apaixonado. Não adivinha?</p>
-
-<p>&mdash;Talvez.</p>
-
-<p>&mdash;O Dr. Estevão.</p>
-
-<p>Guiomar fez um gesto de desdem.</p>
-
-<p>&mdash;Vejo que tinha adivinhado, disse Mrs. Oswald; também não era
-difficil. Quem tem alguma pratica destas cousas fareja uma paixão a
-cem legoas de distancia, por mais que ella busque recatar-se dos olhos
-estranhos. Os namorados geralmente suppõem que ninguem os vê; é uma
-lastima. Olhe, da senhora posso eu jurar que não está namorada de
-pessoa nenhuma.</p>
-
-<p>&mdash;Que sabe disso? perguntou Guiomar deitando os olhos para o espelho de
-seu guarda vestidos. Pois estou, mas de mim mesma.</p>
-
-<p>Mrs. Oswald desatou a rir, de um riso grave e pausado. Ella sabia que
-a moça tinha orgulho de suas graças; era bom caminho affagar-lhe o
-sentimento. Disse-lhe muita cousa bonita, que não vem para aqui, e
-concluiu pondo-lhe as mãos nos hombros, encarando-a fito a fito, a
-emfim rompendo nestas palavras, meias suspiradas:</p>
-
-<p>&mdash;A senhora é a flor desta sua terra. Quem a colherá? Alguem sei eu que
-a merece...</p>
-
-<p>Guiomar ficou séria, e desviou brandamente as mãos da ingleza,
-murmurando:</p>
-
-<p>&mdash;Mrs. Oswald, falemos de outra cousa.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h4><a name="VII" id="VII">VII</a></h4>
-
-
-<h4>Um rival.</h4>
-
-
-<p>Não era a primeira vez que Mrs. Oswald alludia a alguma cousa que
-desagradava a Guiomar, nem a primeira que esta lhe respondia com a
-sequidão que e leitor viu no fim do capitulo anterior. A boa ingleza
-ficou séria e calada alguns dous ou tres minutos, a olhar para Guiomar,
-apparentemente buscando interrogar-lhe o pensamento, mas na realidade
-sem saber como sair de situação. A moça rompeu o silencio:</p>
-
-<p>&mdash;Está bom, disse ella sorrindo, não vejo razao para que se zangue
-commigo.</p>
-
-<p>&mdash;Não estou zangada, acudiu promptamente Mrs. Oswald. Zangada porque?
-Pêza-me, de certo, que a natureza me não dê razão, e que uma alliança
-tão conveniente, para ambos, seja repellida pela senhora; mas se isto é
-motivo de desgosto, não pode sel-o de zanga....</p>
-
-<p>&mdash;Desgosto?</p>
-
-<p>&mdash;Para mim.... e naturalmente para elle.</p>
-
-<p>Guiomar respondeu com um simples sacudir de hombros, sêcco e rápido,
-como quem se lhe não dava do mal ou não acreditava nelle. Mrs. Oswald
-não atinou qual destas impressões seria, e concluiu que fossem ambas. A
-moça, entretanto, pareceu arrepender-se daquelle movimento; travou das
-mãos da ingleza, e com uma voz ainda mais doce e macia que de costume,
-lhe disse:</p>
-
-<p>&mdash;Veja o que é ser creança! Não parece que ainda em cima me zango com a
-senhora?</p>
-
-<p>&mdash;Parece.</p>
-
-<p>&mdash;Pois não é exacto. Isto são caprichos de menina mal educada. Dei para
-não gostar que me adorem... Minto; disso gósto eu; mas quizera que me
-adorassem somente, não lhe parece?</p>
-
-<p>E Guiomar acompanhou estas palavras com uma risadinha mimosa e uns
-gestos de creança travêssa, que destoavam inteiramente da sua gravidade
-habitual.</p>
-
-<p>&mdash;Já sei, gosta de uma adoração como a do Dr. Estevão, silenciosa e
-resignada, uma adoração..</p>
-
-<p>E Mrs. Oswald, que, como boa protestante que era, tinha a Escriptura na
-ponta dos dedos, continuou por este modo, accentuando as palavras:</p>
-
-<p>Uma adoração como a que devia inspirar José, filho de Jacob, que era
-bello como a senhora: «por elle as moças andavam por cima da cerca...»</p>
-
-<p>&mdash;Da cerca? perguntou Guiomar tornando-se séria.</p>
-
-<p>&mdash;Do muro, diz a Escriptura, mas eu digo da cerca porque... nem eu sei
-porque. Não core! Olhe que se denuncia.</p>
-
-<p>Guiomar corára deveras; mas era a altivez e o pundonor offendido que
-lhe falavam no rosto. Olhou fria e longamente para a ingleza, com um
-desses olhares, que são, por assim dizer, um gesto da alma indignada.
-O que a irritava não era a allusão, que não valia muito, era a pessoa
-que a fazia,&mdash;inferior e mercenaria. Mrs. Oswald percebeu isto mesmo;
-mordeu a ponta do labio, mas transigiu com a moça.</p>
-
-<p>&mdash;Meu Deus! disse ella. Parece que se zangou por uma bricadeira á toa.
-Bem sabe que eu não podia querer aggraval-a; suppol-o é offender-me a
-mim,&mdash;a mim, que também lhe tenho affecto de mãe....</p>
-
-<p>A ultima palavra aquietou, o animo de Guiomar; ella tinha cedido ao
-impulso do seu caracter altivo, mas a razão veiu depois, e o coração
-tambem, que não era mau. A ingleza, que possuía longa pratica da vida
-e sabia ceder a tempo, uniu o gesto á palavra e chamou-a com os braços
-para si. Guiomar deixou-se ir, um pouco de má vontade, e a conversa
-teria acabado alli, se Mrs. Oswald não lhe dissesse com a mais doce voz
-que daquella garganta podia sair:</p>
-
-<p>&mdash;Convença-se de que eu sou importuna e indiscreta por affeição, e
-que a felicidade desta familia é toda a ambição da minha alma. Não
-pode haver intenção melhor do que esta. Um conselho ultimo,&mdash;ultimo se
-me não consentir mais falar-lhe nisto;&mdash;eu creio que a senhora sonha
-talvez de mais. Sonhará uns amores de romance, quasi ímpossiveis?
-digo-lhe que faz mal, que é melhor, muito melhor contentar-se com a
-realidade; se ella não é brilhante como os sonhos, tem pelo menos a
-vantagem de existir.</p>
-
-<p>Guiomar cravara desta vez os olhos no chão, com a expressão vaga
-e morta de quem os apagou para as cousas externas. As palavras de
-Mrs. Oswald responder-lhe-hiam acaso a alguma voz intima? A ingleza
-proseguiu na mesma ordem de ideias, sem que ella a interrompesse ou
-desse signal de si. Quando ella acabou, Guiomar estremeceu, como se
-acordasse; levantou a cabeça, e lenta, e commovida, proferiu esta unica
-resposta:</p>
-
-<p>&mdash;Talvez tenha razão, Mrs. Oswald, mas em todo o caso os sonhos são tão
-bons!</p>
-
-<p>Mrs. Oswald abanou a cabeça e saiu; Guiomar acompanhou-a com os olhos,
-a sorrir, satisfeita de si mesma, e a murmurar tão baixo que mal a
-ouvia o seu proprio coração:</p>
-
-<p>&mdash;Sonhos, não, realidade pura.</p>
-
-<p>Supponho, que o leitor estará curioso de saber quem era o feliz ou
-infeliz mortal, de quem as duas trataram no dialogo que precede, se
-é que já não suspeitou que esse era nem mais nem menos o sobrinho da
-baroneza,&mdash;aquelle moço que apenas de passagem lhe apontei nas escadas
-do Gymnasio.</p>
-
-<p>Era um rapaz de vinte e cinco a vinte e seis annos. Jorge chamava-se
-elle; não era feio, mas a arte estragava um pouco a obra da natureza.
-O muito mimo empece a planta, disse o poeta, e esta maxima não é só
-applicavel à poesia, mas tambem ao homem. Jorge tinha um lindo bigode
-castanho, untado e retesado com excessivo esmero. Os olhos, claros e
-vivos, seriam mais bellos, se elle não os movesse com affectação, ás
-vezes feminina. O mesmo direi dos modos, que seriam faceis e naturaes,
-se os não tornasse tão alinhados e medidos. As palavras saíam-lhe
-lentas e contadas, como a fazer sentir toda a munificencia do autor.
-Não as proferia como as demais pessoas; cada syllaba era por assim
-dizer espremida, sendo facil ver ao cabo de alguns minutos, que elle
-fazia consistir toda a belleza da elocução nesse alongar do vocabulo.
-As ideias orçavam pelo modo de as exprimir; eram chochas por dentro,
-mas traziam uma codea de gravidade pesadona, que dava vontade de ir
-espairecer o ouvido em cousas leves e folgazãs.</p>
-
-<p>Taes eram os defeitos apparentes de Jorge. Outros havia, e desses, o
-maior era um peccado mortal, o setimo. O nome que lhe deixara o pae, e
-a influencia da tia podiam servir-lhe nas mãos para fazer carreira em
-alguma cousa publica; elle, porém, preferia vegetar á toa, vivendo do
-peculio que dos paes herdára e das esperanças que tinha na affeição de
-baroneza. Não se lhe conhecia outra occupação.</p>
-
-<p>Não obstante os defeitos apontados, havia nelle qualidades boas: sabia
-dedicar-se, era generoso, incapaz de malfazer, e tinha sincero amor á
-velha parenta. A baroneza, pela sua parte, queria-lhe muito. Guiomar e
-elle eram as suas duas affeições principaes, quasi exclusivas.</p>
-
-<p>Tal era a pessoa cujos interesses defendia Mrs. Oswald, por amor da
-baroneza, e não menos de si propria. A baroneza tambem tinha os seus
-sonhos, como ella mesma disse, e esses eram deixar felizes aquellas
-duas crianças. Jorge pela sua parte estava dispóto a estender o collo
-ao sacrificio; e, bem examinadas as cousas, talvez amasse sinceramente
-a moça. A differença entre elle e Estevão é que o seu amor era tão
-medido como os seus gestos, e tão superficial como as suas outras
-impressões.</p>
-
-<p>Do que ahi fica dito, facilmente comprehenderá o leitor que, dos dous
-namorados, só um percebeu logo o sentimento do outro. A alma de Estevão
-andava-lhe nos olhos, enchendo-os de maneira que elle não podia ver
-nada mais além de Guiomar.</p>
-
-<p>Ao cabo de duas semanas a situação de Estevão podia dízer-se menos
-má; na opinião delle era excellente. A baroneza soube quem elle era;
-Guiomar contara-lhe tudo; mas a ingleza, não menos que a observação
-propria, lhe mostrou que nenhum perigo corria Guiomar, e excluido o
-perigo, restavam as boas qualidades do bacharel, que de todo lhe caiu
-em graça. Mrs. Oswald navegou nas mesmas aguas mansas. O proprio Jorge,
-naturalmente por que confiava em si, não temeu do rival, e pouco tardou
-que lhe abrisse os cancellos da sua gravidade. Que admira, pois, que a
-mesma Guiomar afrouxasse um pouco da primeira rigidez?</p>
-
-<p>Aquelle bom rapaz tinha a salutar crendice da esperança, em que muita
-vez se resumem todas as bençãos da vida. Pedia muito, como alma
-sequiosa que era, mas bem pouco bastava a contental-o. A imaginação
-multiplicava os zeros; com um grão de areia construiria um mundo. A
-affabilidade de uns e a cortezia de outros, tanto bastou para que
-elle se julgasse quasi no termo de suas aspirações; e posto não lhe
-désse Guiomar uma só das animações de outro tempo,&mdash;que aliás tão
-frageis eram, ainda assim acreditou elle piamente que o amor nascia, ou
-renascia, naquelle rebelde coração.</p>
-
-<p>Guiomar, no meio das affeições que a cercavam, sabia manter-se superior
-ás esperanças de uns e ás suspeitas de outros. Egualmente cortez, mas
-egualmente impassível para todos, movia os olhos com a serenidade
-da isenção, não namorados, nem sequer namoradores. Ella teria, se
-quizesse, a arte de Armida; saberia refrear ou aguilhoar os corações,
-conforme elles fossem impacientes ou tibios; faltava-lhe porém o
-gosto,&mdash;ou melhor, sobrava-lhe o sentimento do que ella achava que era
-a sua dignidade pessoal.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h4><a name="VIII" id="VIII">VIII</a></h4>
-
-
-<h4>Golpe.</h4>
-
-
-<p>Um dia de manhã accordou Estevão com a resolução feita de dar o golpe
-decisivo. Os corações frouxos tem destas energias subitas, e é proprio
-da pusilanimidade illudir-se a si mesma. Elle confessava que nada havia
-feito, e que a situação exigia alguma cousa mais.</p>
-
-<p>&mdash;Nunca as circumstancias foram mais propicias do que hoje, pensava
-o rapaz; Guiomar trata me com affabilidade de bom agouro. Demais, ha
-nella espirito elevado; ha de reconhecer que um sentimento discreto e
-respeitoso, como este meu, vale um pouco mais do que lisonjarias de
-sala.</p>
-
-<p>A resolução estava essentada; restava o meio de a tornar affectiva.
-Estevão hesitou largo tempo entre dizer de viva voz o que sentia ou
-transmittil-o por via do papel. Qualquer dos modos tinha para elle mais
-perigos que vantagens. Elle receiava ser frio na declaração escripta ou
-incompleto na confissão oral. Irresoluto e vacillante, ambos os meios
-adoptou e repelliu, a curtos intervallos; emfim, deferiu a escolha para
-outra occasião.</p>
-
-<p>O acaso suppriu a resolução, e o premeditado cedeu o passo ao fortuito.</p>
-
-<p>Uma tarde, havendo algumas pessoas a jantar em casa da baroneza, foram
-passear á chacara. Estevão que, como Luiz Alves, era dos convivas,
-affastou-se gradualmente dos outros grupos, e approximou-se daquella
-cerca historica onde, após dous annos de ausencia e esquecimento, vira,
-ja transformada, a formosa Guiomar. Era a primeira vez que elle punha
-os olhos nesse sitio, depois da conversa, que ahi tivera com ella. A
-commoção que sentiu foi naturalmente grande; resurgia-lhe o quadro ante
-os olhos, a hora, o ceu brilhante, o doce alento da manhã, e por fim a
-figura da moça, que alli appareceu, como a alma do quadro, trazendo-lhe
-recordações, que elle julgava mortas, esperanças que suppunha
-impossiveis.</p>
-
-<p>Estevão curvou a cabeça ao doce peso daquellas memorias, a alma bebeu,
-a largos haustos, a vida toda que a imaginação lhe creava e talvez a
-noite o tomasse na mesma attitude, se a voz maviosa de Guiomar, lhe não
-dissesse a poucos passos de distancia:</p>
-
-<p>&mdash;Sr. doutor, perdeu alguma cousa?</p>
-
-<p>O rapaz volveu rapidamente a cabeça, e viu a moça, que atravessava
-uma das calhes proximas, a olhar e a sorrir para elle. Estevão sorriu
-tambem, e com uma presença de espirito assaz rara em namorados,
-sobretudo em namorados como elle era, promptamente respondeu:</p>
-
-<p>&mdash;Não perdi nada, mas achei uma cousa.</p>
-
-<p>&mdash;Vejamos o que foi.</p>
-
-<p>E Guiomar approximou-se, a passo firme e seguro, e Estevão, sem muito
-vacillar, alli mesmo forjou uma reflexão philosophica a respeito de
-um insecto que casualmente passava por cima de uma folha secca. A
-reflexão não valia muito, e tinha o defeito de vir um pouco forçada e
-de acarreto; a moça sorriu, entretanto, e ia continuar o seu caminho,
-quando elle, colhendo as forças todas, a fez deter com estas palavras:</p>
-
-<p>&mdash;E se eu tivesse achado outra cousa?</p>
-
-<p>&mdash;Ainda mais! exclamou ella voltando-se risonha.</p>
-
-<p>Estevão deu dous passos para Guiomar, desta vez commovido e resoluto. A
-moça fez-se seria e dispoz-se a ouvil-o.</p>
-
-<p>&mdash;Se eu tivesse achado neste logar, continuou elle, longos dias de
-esperança e de saudade, um passado que eu julgára não reviver mais, uma
-dor occulta e medrosa, vivida na solidão, nutrida e consolada de minhas
-próprias lagrimas? Se eu tivesse achado aqui a pagina rota de uma
-historia começada e interrompida, não por culpa de ninguem na terra,
-mas da estrella sinistra da minha vida, que um anjo mau accendeu no
-ceu, e que, talvez, talvez ninguem nunca apagará?</p>
-
-<p>Estevão calou-se e ficou a olhar fixamente para Guiomar.</p>
-
-<p>Aquella declaração repentina e rosto a rosto estava tão longe do
-temperamento do rapaz, que ella gastou alguns segundos longos primeiro
-que voltasse a si do assombro. Elle proprio admirava-se do atrevimento
-que tivera; e emquanto pendia dos labios da moca, repassava na memoria,
-aliás confusamente, o que tão a frouxo lhe saira do peito naquella hora
-de abençoada temeridade.</p>
-
-<p>&mdash;Se tivesse achado tudo isso, respondeu Guiomar sorrindo, é natural
-que preferisse achar outra cousa menos melancolica. Entretanto,
-parece que nada mais achou do que esta occasião de falar, com a viva
-imaginação que Deus lhe deu; n'um ou n'outro caso, porém, posso de
-certo lastimal-o ou admiral-o, mas não me é dado ouvil-o.</p>
-
-<p>E Guiomar ia de novo affastar-se, quando Estevão, receiando perder a
-occasião que a fortuna lhe offerecia, disse de longe com voz triste e
-supplice:</p>
-
-<p>&mdash;Attenda-me um só munito!</p>
-
-<p>&mdash;Não um, mas dez&mdash;respondeu a moça estacando o passo e voltando o
-rosto para elle&mdash;e serão provavelmente os ultimos em que falaremos
-a sós. Cedo á commiseração que me inspira o seu estado; e pois que
-rompeu o longo e expressivo silencio em que se tem conservado até hoje,
-concedo-lhe que diga tudo, para me ouvir uma só palavra.</p>
-
-<p>A moça falára n'um tom secco e imperioso, em que mais dominava a
-impaciencia do que a commiseração a que vinha de alludir. O coração de
-Estevão batia-lhe como nunca,&mdash;como o coração costuma bater nas crises
-de uma angustia suprema. Todo aquelle castello de vento, laboriosamente
-construido nos seus dias de illusão, todo elle se esboroava e desfazia,
-como vento que era. Estevão arrependera-se do impulso que o levára a
-violar ainda uma vez o segredo dos seus sentimentos intimos, a abrir
-mão de tantas esperanças, alimentadas com o melhor do seu sangue
-juvenil.</p>
-
-<p>Alguns instantes decorreram em que nem um nem outro falou; ambos
-pareciam medir-se, ella serena e quieta, elle tremulo e gelado.</p>
-
-<p>&mdash;Uma só palavra, repetiu Estevão, e essa adivinho que será de
-desengano. Embora! Pois que me atrevi a dizer-lhe alguma cousa, força
-é que lhe diga tudo,&mdash;feliz, se me restar, ao menos, a maior fortuna a
-que já agora posso aspirar,&mdash;o seu remorso.</p>
-
-<p>Guiomar ouvira-o tranquillamente; a ultima palavra fel-a estremecer.
-Sorriu, entretanto, de um sorriso um pouco voluntario e esperou.</p>
-
-<p>A narração foi longa, tanto quanto o permittiam a occasião, o logar
-e a pessoa; durou apenas dez minutos. Estevão nada lhe escondeu, nem
-o amor que lhe tivera out'rora, nem o que agora lhe renascia, mais
-violento que o primeiro; disse-lhe as dores que curtira, as esperanças
-que afinal lhe enfloravam a alma, tudo quanto emprehendêra para ler a
-ventura de a contemplar de perto, de gozar naquelle escasso ponto da
-terra a maior de todas as bem aventuranças.</p>
-
-<p>Tal é a transcripção, não litteral, mas fiel, do que disse Estevão
-durante esse dez minutos. As palavras caíam-lhe tremulas e a voz
-saía-lhe sumida, em parte por que elle forcejava em a abafar, afim
-de que o não ouvissem, em parte porque a commoção lhe comprimia a
-garganta. A dor era visivelmente sincera; a eloquência vinha do coração.</p>
-
-<p>Guiomar não ouvira tudo com a mesma expressão; a principio um meio riso
-parecia desabrochar-lhe os labios, mas não tardou que pelo rosto abaixo
-lhe caísse um veu mais compassivo e humano. Havia nella impaciencia e
-anciedade de acabar, de sair dalli; era, sem duvida, o receio de que a
-ausência se prolongasse de maneira que inspirasse suspeitas. Mas havia
-também commiseração e piedade.</p>
-
-<p>&mdash;Nenhuma culpa lhe pode caber do mal que tenho padecido, disse Estevão
-concluindo; sobretudo agora, só eu, só a minha cabeça é a causa unica
-de tudo. Parecia-me ver o contrario do que existia; cheguei a suppor
-que havia em seu coração alguma cousa que não era a total indifferença;
-vejo que foi tudo illusão.</p>
-
-<p>O tom em que elle falára era o mesmo das palavras que ahi ficam, todas
-humildes e resignadas, sem o menor laivo de queixa ou de reproche. Uma
-submissão assim devia por força commover a uma mulher amada. Guiomar
-falou-lhe sem azedume:</p>
-
-<p>&mdash;Era illusão, disse ella. O sentimento que me acaba de revellar
-inteiro, ninguem o recebe ou nutre de vontade; a natureza o infunde ou
-nega. Posso eu ter culpa disso?</p>
-
-<p>&mdash;Nenhuma.</p>
-
-<p>&mdash;Nem o senhor tambem, e espero que esta mutua justiça avigore o
-sentimento de estima devemos ter um para com o outro. Mas estima
-apenas, não póde haver outra cousa,&mdash;da minha parte ao menos. É pouco,
-de certo...</p>
-
-<p>&mdash;Não é pouco, é cousa differente, interrompeu Estevão.</p>
-
-<p>&mdash;Mas não espere nada mais, concluiu Guiomar sem ouvir a interrupção.</p>
-
-<p>Estevão abriu a bocca para falar, mas não achou palavra que lhe
-dissesse o que sentia; levou a mão ao coração, que batia fortemente, e
-ficou a olhar para ella com os olhos seccos e parados, a voz extincta,
-como se a alma lhe fugira toda. Era claro, depois daquelle desengano,
-que lhe cumpria não voltar alli mais, pelo menos com a assiduidade da
-esperança; e assim era que a unica e amarga satisfação de a ver, nem
-essa já agora se lhe consentia.</p>
-
-<p>&mdash;Dou-lhe um conselho, disse Guiomar depois de alguns segundos de
-pausa, seja homem, vença-se a si proprio; seu grande defeito é ter
-ficado com a alma creança.</p>
-
-<p>&mdash;Talvez, respondeu o moço suspirando.</p>
-
-<p>&mdash;E adeus. Falamos a sós, mais do que convinha; não sei se outra
-consentiria nisto. Mas eu não só reconheço os seus sentimentos de
-respeito, como desejo que estas poucas palavras trocadas agora ponham
-termo a aspirações impossiveis.</p>
-
-<p>Guiomar estendeu-lhe a mão, em que elle tocou levemente.</p>
-
-<p>A baroneza appareceu, entretanto, a algumas braças de distancia; vinha
-encostada ao braço do sobrinho, que lhe falava, mas a quem ella já não
-ouvia. Tinha os olhos cravados nos dous interlocutores de ha pouco.
-A moça apenas vira de longe a madrinha, deu affoutamente o braço a
-Estevão, e seguiram ambos a encontrar-se com ella; o rosto de Guiomar
-não revelava nada; o de Estevão vinha perturbado e abatido. A baroneza
-franziu a testa:</p>
-
-<p>&mdash;Jorge, disse ella em voz baixa, precisamos conversar.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h4><a name="IX" id="IX">IX</a></h4>
-
-
-<h4>Conspiração.</h4>
-
-
-<p>A baroneza, quando se lhe approximaram os dous interlocutores da cerca,
-mais receiosa ficou e mais perplexa. Guiomar vinha risonha e até
-gracejadora; mas o abatimento de Estevão era tão mal disfarçado, que de
-duas uma,&mdash;ou ella acabava de lhe dar o ultimo desengano,&mdash;ou aquillo
-era apenas um arrufo serio, que o moço não podia ou não queria esconder
-de olhos extranhos. Isto é o que a baroneza pensou. O que ella concluiu
-foi que, em todo caso, urgia tentar alguma cousa em favor do maior,&mdash;do
-unico senho da sua velhice.</p>
-
-<p>Jorge não percebeu a verdadeira razão porque a tia lhe dissera ser
-necessário conversar com ella; imaginou que se trataria de Guiomar e
-Estevão,&mdash;mas estava longe de suppor todo o alcance da entrevista.</p>
-
-<p>A entrevista não pode ser logo nesse dia; as visitas ficaram alli
-até tarde, e a noite foi a mais agradavel e distrahida de todas as
-noites; Guiomar, sobretudo, esteve como nunca, jovial e interessante.
-A serenidade parecia morar-lhe na alma e reflectir-se-lhe no
-rosto,&mdash;tantas vezes pensativo, mas agora tão frio e tão nú.</p>
-
-<p>Não será preciso dizer a um leitor arguto e de boa vontade... Oh!
-sobretudo de boa vontade, porque é mister havel-a, e muita, para vir
-até aqui, e seguir até o fim, uma historia, como esta, em que o autor
-mais se occupa de desenhar um ou dous caracteres, e de expor alguns
-sentimentos humanos, que de outra qualquer cousa, por que outra cousa
-não se animaria a fazer;&mdash;não será preciso declarar ao leitor, dizia
-eu, que toda aquella jovialidade de Guiomar eram punhaes que se lhe
-cravavam no peito ao nosso Estevão. Elle não podia suppol-a abatida;
-mas penalisada, ao menos, um pouco respeitosa para com a dor que havia
-nelle, isto, sim, imaginava que sería. Mas nada disso foi, e o pobre
-rapaz saiu dalli mais cedo do que pensára e quizera sair.</p>
-
-<p>Na alcova, se elle podesse vel-a mais tarde na alcova, solitaria
-e toda comsigo, sentada na poltrona rasa ao lado da cama, com os
-cabellos desfeitos, os pésinhos mettidos nas chinellas de setim preto,
-as mãos no regaço e os olhos vagando de objecto em objecto, como se
-reproduzissem fóra as attitudes interiores do pensamento, alli não
-só elle a adoraria de joelhos, mas até poderia suppor que alguma
-preoccupação lhe tirava o somno e que essa era nem mais nem menos elle
-proprio.</p>
-
-<p>Talvez fosse; em parte ao menos seria elle. Guiomar não tinha um
-coração tão mau, que lhe não doessem as maguas de um homem que
-acertara ou desacertara de a amar. Mas fosse uma, ou fossem muitas as
-causas daquella preoccupação, a verdade é que ella durou muito tempo.
-Guiomar passou da poltrona á janella, que abriu toda, para contemplar
-a noite,&mdash;o luar que batia nas aguas, o ceu sereno e eterno. Eterno,
-sim, eterno, leitora minha, que é a mais dasconsoladora lição que nos
-poderia dar Deus, no meio das nossas agitações, lutas, ancias, paixões
-insaciáveis, dores de um dia, gozos de um instante, que se acabam e
-passam comnosco, debaixo daquella azul eternidade, impassivel e muda
-como a morte.</p>
-
-<p>Pensaria nisto Guiomar? Não, não pensou nisto um minuto sequer; ella
-era toda da vida e do mundo, desabrochava agora o coração, vivia
-em plena aurora. Que lhe importava,&mdash;ou quem lhe chegara a fazer
-comprehender esta philosophia secca e arida? Ella vivia do presente
-e do futuro e,&mdash;tamanho era o seu futuro, quero dizer as ambições
-que lh'o enchiam,&mdash;tamanho, que bastava a occupar-lhe o pensamento,
-ainda que o presente nada mais lhe dera. Do passado nada queria saber;
-provavelmente havia-o esquecido.</p>
-
-<p>A madrugada achou-a dormindo; mas os primeiros raios do sol vieram
-accordal-a, na fórma do costume, para o matinal passeio com a madrinha.
-Guiomar sacrificava tudo á dedicação filial de que ja dera tantas
-provas. A baroneza, entretanto, estava preoccupada; o passeio foi
-differente do dos outros dias.</p>
-
-<p>Ao meio-dia metteu-se Guiomar no carro, com Mrs. Oswald, e sairam a
-uma visita. A baroneza ficou só; Jorge não a deixou ficar só por muito
-tempo, porque chegou dahi a pouco.</p>
-
-<p>A baroneza não perdeu tempo em circunloquios. Apenas viu o sobrinho
-interpellou-o directamente:</p>
-
-<p>&mdash;Disseram-me, foi Mrs. Oswald quem me disse que tu gostas de Guiomar.</p>
-
-<p>Jorge não contava muito com semelhante interrogação; todavia, não era
-tão ingenuo que corasse, nem tão apaixonado que lhe tremesse a voz.
-Puchou gravemente os punhos da camisa, concertou a gravata, e respondeu
-singellamente:</p>
-
-<p>&mdash;Não me atrevia a falar-lhe destas cousas...</p>
-
-<p>&mdash;Porque não?&mdash;interrompeu a baroneza; são assumptos que se podem
-tratar entre mim e ti, sem desar para nemhum de nós. É então verdade o
-que me disse Mrs. Oswald?</p>
-
-<p>&mdash;É.</p>
-
-<p>&mdash;Amas deveras, ou...</p>
-
-<p>&mdash;Deveras. Recuaria, se visse que uma alliança entre nós ficava mal ao
-lustre de nossa familia; mas, posto que ella seja...</p>
-
-<p>&mdash;Guiomar é minha filha, apressou-se a dizer a baroneza.</p>
-
-<p>&mdash;Justamente; não pode haver melhor titulo.</p>
-
-<p>&mdash;Tem ainda outro, continuou a baroneza; é uma alma angélica e pura.
-Henriqueta não teve melhor coração nem mais amor aos seus. Além disso,
-a natureza deu-lhe um espirito superior, de maneira que a fortuna não
-fez mais do que emendar o equivoco do nascimento. Finalmente é de uma
-belleza pouco commum...</p>
-
-<p>&mdash;Rara, titia, póde dizer que é de uma belleza rara, acudiu Jorge,
-e pela primeira vez lhe luziu nos olhos alguma cousa, que não era a
-gravidade de costume.</p>
-
-<p>&mdash;Já vês, proseguiu a baroneza, que ella possue todos os direitos ao
-amor e á mão de um homem, como tu.</p>
-
-<p>A baroneza tinha um coração ingenuo e lizo, sem desvios nem astucias;
-comtudo, ha occasiões em que o mais recto espirito emprega, como por
-instincto, finuras diplomaticas. A boa senhora tinha tanto a peito
-aquella união do sobrinho com a afilhada, que não confiava só do amor;
-procurava interessar-lhe tambem o amor proprio.</p>
-
-<p>Jorge curvou-se com affectada modestia.</p>
-
-<p>&mdash;Um homem, como eu,&mdash;disse elle&mdash;vale pouco por si mesmo; o valor que
-tenho, e esse é muito, vem do nome de meus pais e do seu, titia, e das
-santas qualidades que a adornam...</p>
-
-<p>&mdash;Só uma, Jorge, só uma qualidade santissima: é a de amal-os, a ti e
-a ella. Por isso foi immenso o gôsto que senti quando Mrs. Oswald me
-disse que gostavas de Guiomar. Acredita que se eu tivesse a fortuna de
-ver a vocês unidos e felizes, morreria contente.</p>
-
-<p>&mdash;Oh! isso! disse Jorge com ar de duvida.</p>
-
-<p>&mdash;Julgas impossivel o casamento?</p>
-
-<p>&mdash;Impossivel, não; impossivel, nada ha. Mas... mas supponho que a
-vontade della é indispensavel, tão indispensavel como duvidosa.</p>
-
-<p>&mdash;Duvidosa! Estás certo disso?</p>
-
-<p>Jorge tinha-se levantado e dera alguns passos, não agitado de todo,
-mas um pouco fóra da impassibilidade usual. A ideia do casamento
-apparecia-lhe agora um pouco mais possivel e exequivel, desde que a tia
-francamente lhe propuzesse alliança.</p>
-
-<p>&mdash;Estás certo disso? repetiu a baroneza.</p>
-
-<p>&mdash;Certo não; mas ha toda a razão para a duvida. Guiomar sabe que eu
-gósto della; e comtudo não me dá o menor signal de corresponder aos
-meus sentimentos.</p>
-
-<p>Jorge expos longamente todas as razões que tinha para crer que a
-vontade de Guiomar não correspondia á delle; referiu-lhe, com a maior
-exacção e fidelidade, uns tres on quatro episodios que lhe pareciam boa
-prova daquillo que dizia. A baroneza não ouvia tudo com egual attenção.
-Quando elle acabou:</p>
-
-<p>&mdash;Guiomar será muito vexada,&mdash;disse ella&mdash;e ás vezes, e por isso mesmo,
-tem essas apparencias frias. Nada impede, porém, a que venha a amar-te,
-se é que ja te não ama. Ha nella certa altivez natural, que póde
-explicar também essa frieza; parece-me que lhe seria penoso receber o
-amor de alguem que julgasse levantal-a até si.</p>
-
-<p>&mdash;Isso, talvez...</p>
-
-<p>&mdash;Mas esse sentimento, que póde ser e é honroso, não é de certo
-invencivel.</p>
-
-<p>Todas estas palavras da baroneza lisonjeavam o sobrinho, em cujos
-labios pairava agora um sorriso de íntima satisfação. De quando em
-quando não ouvia elle nada do que lhe dizia a tia; seus ouvidos
-voltavam-se para dentro; elle escutava-se a si proprio. O amor de
-Guiomar começava a parecer-lhe possivel; tudo quanto a baroneza lhe
-dizia era razoavel, com a vantagem de lhe esclarecer as faces obscuras
-da situação. Demais, até que ponto a baroneza conjecturava ou revelava?
-Bem podia ser que ella tivesse lido mais fundo no coração da moça.</p>
-
-<p>Estas reflexões fel-as Jorge, em quanto a baroneza continuava a falar e
-a desenvolver a ideia que ultimamente indicara. Até aquelle dia havia
-elle limitado toda a sua acção a alguns olhares, e raras palavras de
-comprimento; a entrevista com a tia dera-lhe animação; pareceu-lhe
-chegado o ensejo de sair daquella paz armada.</p>
-
-<p>Guiomar chegou d'ahi a pouco e achou-os na «saleta de trabalho,»
-euphemismo elegante, que queria dizer litteralmente&mdash;saleta de
-conversação entremeada de <i>crochet.</i> Mrs. Oswald vinha com ella; ambas
-riam alegremente de não sei que episodio visto no caminho. Jorge
-erguera-se, pausado mas risonho, apertou a mão de Guiomar,&mdash;apertou-a
-deveras, mais do que era usual e cortez. Guiomar não pareceu
-afligir-se; perguntou-lhe pela saude, transmittiu á madrinha as
-lembranças que lhe mandavam e dispoz-se a sair.</p>
-
-<p>Durante esse tempo, Jorge olhava para ella, enlevado deveras na
-contemplação de toda aquella nobre figura, agora mais bella que
-d'antes, desde que se lhe tornara possivel a alliança ha muito sonhada.
-Havia nos olhos de Jorge uns taes ou quaes vestigios lubricos, donde
-se podia colher que, se elle fosse poeta, e poeta arcadico, editaria
-pela millionesima vez a comparação da Venus e dos seus seus infalliveis
-amorinhos; comparação detestavel, sobretudo, porque a casta belleza de
-moça, se alguma cousa pagã lhe podia ser chamada, seria antes Diana
-convertida ao Evangelho.</p>
-
-<p>Jorge saiu dalli singularmente agitado; a conversa da baroneza dera-lhe
-nervo e resolução, e o quadro do casamento começou a desenhar-se-lhe no
-espirito, como o relogio que o menino tem de usar pela primeira vez.
-Até alli deixara-se elle ir á feição das aguas; agora via a necessidade
-e a possibilidade de abicar á riba feliz do matrimonio.</p>
-
-<p>As duvidas de Estevão não lhe saltearam o espirito; apenas chegou a
-casa travou da penna, e lançou na folha branca e lustrosa de seu papel
-uma confissão elegante e polida, que todavia refundiu duas ou tres
-vezes, primeiro que a désse por prompta. Acabada a redacção final,
-transcreveu aquella prosa do coração na mais nitida folha que havia em
-casa,&mdash;dobrou o metteu-o na algibeira.</p>
-
-<p>De noite foi á casa da tia. Achou as senhoras á volta de uma meza;
-Guiomar lia, para a madrinha ouvir, um romance francez, recentemente
-publicado em Paris e trazido pelo ultimo paquete. Mrs. Oswald lia
-tambem, mas para si, um grosso volume de Sir Walter Scott, edição
-Constable, de Edimburgo.</p>
-
-<p>Jorge veiu interrompel-as um pouco, mas só interromper, porque a
-leitura continuou logo depois, ajudando elle proprio a Guiomar naquella
-filial tarefa. Veiu o chá, veiu depois a hora de recolher, e a baroneza
-deu por findo o serão, ainda que o livro estava quasi findo.</p>
-
-<p>&mdash;Um capitulo mais, aventurou Jorge com o livro aberto nas mãos.</p>
-
-<p>A baroneza sorriu e voltou os olhos para Guiomar, a cuja conta lançou
-aquella dedicação do sobrinho; recusou comtudo, por estar a cair de
-somno.</p>
-
-<p>&mdash;Eu é que não me deito sem saber o resto, declarou Guiomar; levo o
-livro commigo.</p>
-
-<p>&mdash;Ah! disse Jorge com um gesto de satisfação.</p>
-
-<p>E emquanto Guiomar se dispunha a acompanhar a madrinha até á porta do
-quarto, e Mrs. Oswald marcava a pagina e fechava o seu livro, Jorge
-egualmente fechava o outro, mas com tal demora e cuidado, que deu muito
-que entender á ingleza. Se ella chegou entender, vel-o-hemos depois;
-o certo é que o livro foi emfim entregue a Guiomar, tendo a pagina
-marcada, não com a fita que lá estava pendente, mas com um pedacinho de
-papel.</p>
-
-<p>O pedacinho de papel era a carta; apenas uns poucos centímetros de
-altura; mas por mais exiguas que tivesse as dimensões, bem podia ser
-que levasse alli dentro nada menos que uma tempestade próxima.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h4><a name="X" id="X">X</a></h4>
-
-
-<h4>A revelação.</h4>
-
-
-<p>Meia hora depois, indo a abrir o livro para continuar a leitura, viu
-Guiomar a cartinha de Jorge. Não tinha sobrecarta; era um simples
-papelinho dobrado, rescendendo a amores. O espirito de Guiomar estava
-tão longe d'aquillo que não suspeitou nada e distrahidamente o abriu. A
-primeira palavra escripta era o seu nome; a ultima era o de Jorge.</p>
-
-<p>O primeiro gesto de Guiomar foi de colera. Se elle pudesse espreita-la
-pelo buraco da fechadura, e ver-lhe a expressão do rosto, é mui
-provavel que se lhe convertesse em aborrecimento todo o amor que até
-agora nutria. Mas elle não estava alli, a moça podia traduzir fielmente
-no rosto os movimentos do coração.</p>
-
-<p>&mdash;Mais um, pensou ella; este porém...</p>
-
-<p>E desta vez o gesto não foi de colera, foi de alguma cousa mais, metade
-fastio, metade lastima, mescla difficil e rara.</p>
-
-<p>A moça ficou algum tempo quieta, a olhar para o papel, sem o querer
-ler, como a hesitar entre queimal-o ou restitui-lo intacto a seu autor.
-Mas a curiosidade venceu por fim; Guiomar abriu o papel e leu estas
-linhas:</p>
-
-<p>«Guiomar! Perdoe-me se lhe chamo assim; as convenções sociaes
-condemnam-me de certo, mas o coração approva, que digo? elle mesmo
-escreve estas letras. Não é a minha penna, não são os meus labios que
-lhe falam deste modo, são todas as forças vivas da minha existencia,
-que em alta voz proclamam o immenso e profundo amor que lhe tenho.</p>
-
-<p>«Antes de o ler neste papel, já a senhora o hade ter visto, pelo
-menos adivinhado nos meus olhos, na doce embriaguez que em mim produz
-a presença dos seus. Persuado-me de que todo o meu esforço em recalcar
-este affecto é vão; por mais que eu sinceramente deseje esquecel-a,
-não o alcançarei nunca; não alcançarei mais que uma afflição nova. O
-remorso de o tentar virá coroar os demais infortunios.</p>
-
-<p>«Porque razão rompo hoje o silencio em que me tenho conservado,
-medroso e respeitoso silencio que, se me não abre a caminho da gloria,
-ao menos conserva-me a palma da esperança? Nem eu mesmo saberia
-responder-lhe; falo, porque uma força interior me manda falar, como
-trasborda o rio, como se derrama a luz; falo porque morreria talvez se
-me calasse, do mesmo modo que morrerei de desespero, se além do perdão
-que lhe peço, ma não der uma esperança mais segura do que esta, que me
-faz viver e consumir.&mdash;Jorge.»</p>
-
-<p>Guiomar leu esta carta duas vezes, uma leitura de curiosidade, outra
-de analyse e reflexão, e ao cabo da segunda achava-se tão fria como
-antes da primeira. Olhou algum tempo para o papel e mentalmente para o
-homem que o havia escripto; emfim, poz a carta de lado, abriu o livro e
-continuou o romance.</p>
-
-<p>Mas o espirito, que não ficara tão indifferente como o coração, entrou
-a fugir-lhe do romance para a vida com tal tenacidade que não houve
-remedio senão irem os olhos atraz delle, e a moça de novo mergulhou nas
-reflexões que lhe suggeria o caso da paixão de Jorge.</p>
-
-<p>Paixão não era,&mdash;não o seria ao menos no sentido inteiro do vocabulo;
-mas alguma cousa menos, ou parecida com ella, e ainda assim verdadeira,
-via bem Guiomar que o poderia ser. Até que ponto chegaria entretanto,
-o seu adorador, se ella o desattendesse logo; e, dado o amor que a
-baroneza tinha ao sobrinho, até que ponto a recusa iria magoal-a?
-Guiomar varreu do espirito os receios que lhe nasciam de taes
-interrogações; mas sentiu-os primeiro, pezou-os antes de os arredar de
-si, o que revelará ao leitor em que proporção estavam nella combinados
-o sentimento e a razão, as tendencias da alma e os calculos da vida.</p>
-
-<p>Excluido o receio, voltou-lhe o riso, aquelle riso interior, que é o
-mais involuntario e cruel, e tambem o menos arriscado que a gente póde
-dar ás fatuidades humanas. Não podia ser tão despresivel assim o amor
-de um homem, cuja ridiculez compensavam algumas qualidades boas, e que
-emfim era tambem distincto, ainda que a sua distincção primasse antes
-por um estylo rendilhado e complicado, que não é o melhor. Guiomar via
-tudo isso, e por outro lado, não podia obstar que elle a amasse; nem
-por isso achava menos temeraria aquella confissão.</p>
-
-<p>A moça reflectia tambem na posição especial que tinha naquella casa
-o sobrinho da baroneza; via-se obrigada á presença delle, e talvez
-á luta, porque o pretendente não recuaria do primeiro golpe. Não
-havia taes receios da parte de Estevão; ella reconhecia que a paixão
-deste era ardente e profunda, e por isso mais capaz de desatinos; mas
-comparava as indoles dos dous homens, e se ambos lhe pareciam de fraca
-compleixão moral, nem por isso desconhecia que ao bacharel faltava
-certa presumpção que distinguia o outro, e com a qual teria talvez de
-pelejar.</p>
-
-<p>Quando ella fez esta comparação entre os dous homens, ficaram-lhe os
-olhos um pouco mais molles e quebrados, obra de tres minutos apenas,
-mas tres minutos que, se Estevão soubera delles, trocaria por elles
-o resto de toda a vida. E comtudo, não era amor nem saudade; alguma
-sympathia, sim, ainda que leve e sem consequencia; mas sobretudo era
-pena de o não poder amar,&mdash;ou ainda melhor&mdash;era lastima de que tal
-coração não fora casado a outro espirito.</p>
-
-<p>Guiomar reflectiu ainda muito e muito, e não reflectiu só, devaneou
-também, soltando o panno todo a essa veleira escuna da imaginação, em
-que todos navegamos alguma vez na vida, quando nos cança a terra firme
-e dura, e chama-nos o mar vasto e sem praias. A imaginação della porém
-não era doentia, nem romantica, nem piegas, nem lhe dava para ir colher
-flores em regiões selvaticas ou adormecer á beira de lagos azues. Nada
-disso era nem fazia; e por mais longe que velejasse levaria entranhadas
-na alma as lembranças da terra.</p>
-
-<p>Volveu emfim e olhos cairam-lhe na carta. A realidade presente não se
-lhe podia mostrar de peor modo. Guiomar ergueu-se irritada, lançou mão
-do papel e machucou-o febrilmente; ia talvez rasgal-o, quando ouviu
-bater de manso á porta.</p>
-
-<p>&mdash;Quem é? perguntou.</p>
-
-<p>&mdash;Sou eu, respondeu a voz de Mrs. Oswald.</p>
-
-<p>A moça foi abrir a porta; a ingleza entrou, trajada de dormir, e um
-vivo espanto nos olhos, que pareceu tirar-lhe a voz durante alguns
-segundos. Guiomar assustada perguntou:</p>
-
-<p>&mdash;Que é? aconteceu alguma cousa a minha madrinha?</p>
-
-<p>&mdash;Longe vá o agouro! exclamou a ingleza. Não lhe aconteceu nada; a
-senhora baroneza dorme naturalmente a somno solto. Venho porque do meu
-quarto pareceu-me ouvir rumor de passos aqui, e depois vi luz. Pensei
-que tivesse algum incommodo. Mas, pelo que vejo, continuou a ingleza
-deitando os olhos para a mezinha em que pousava o livro aberto,&mdash;pelo
-que vejo ainda não acabou de ler o seu romance...</p>
-
-<p>&mdash;Não li ainda uma linha, depois que me recolhi, respondeu Guiomar
-cravando os olhos no rosto da ingleza, como tomada de um pensamento
-subito.</p>
-
-<p>&mdash;Deveras!</p>
-
-<p>&mdash;Li outra cousa, continuou a moça; li este papel.</p>
-
-<p>Mrs. Oswald inclinou-se para ler também o papel, que aliás adivinhou
-qual fosse; Guiomar atirou-o sobre a mesa.</p>
-
-<p>&mdash;Não precisa, disse ella; é uma declaração amorosa.</p>
-
-<p>&mdash;De quem? perguntou a ingleza abrindo uns olhos espantados e
-obedientes.</p>
-
-<p>&mdash;Leia o nome.</p>
-
-<p>Mrs. Oswald leu a assignatura da carta, que a moça do novo lhe
-apresentava.</p>
-
-<p>&mdash;Naturalmente, continuou Guiomar, ha nisto obra sua...</p>
-
-<p>&mdash;Minha! interrompeu a outra um pouco mais rispidamente do que
-costumava falar.</p>
-
-<p>Guiomar tinha ido sentar-se; o pésinho impaciente batia no tapete, com
-um movimento rapido e regular; cruzára os braços sobre o peito, fitando
-a ingleza com uns olhos em que se podia ler a viva exacerbação do
-espirito. Seguiu-se curto silencio; Mrs. Oswald puxou outra cadeira e
-sentou-se perto da moça.</p>
-
-<p>&mdash;Por que ha de ser injusta commigo? disse ella dando á voz um tom
-mellifluo e supplicante; porque não ha de ver as cousas, como ellas
-naturalmente são? O que ha nisto é uma coincidencia curiosa, mas nada
-mais. Se lhe falei em semelhante cousa algumas vezes, foi porque eu
-mesma percebi o amor que lhe tem o Sr. Jorge; é cousa que todos veem.
-Imaginei que o casamento, neste caso, seria agradavel á Sra. baroneza a
-quem sou grata. Posso ter feito mal...</p>
-
-<p>&mdash;Muito mal, interrompeu Guiomar; são cousas de familia em que a
-senhora nada tem que ver.</p>
-
-<p>Guiomar levantou-se outra vez, deu alguns, passos, e voltou a
-sentar-se. Com o movimento desprenderam-se-lhe os cabellos e cairam-lhe
-sobre os hombros. Mrs. Oswald approximou-se della para os colher e
-atar, mas a moça seccamente a repelliu:</p>
-
-<p>&mdash;Deixe, deixe...</p>
-
-<p>E ella mesma os recompoz com as suas mãosinhas finas, e ficou depois
-a olhar para o chão, a morder o labio, a respirar fortemente, como se
-contivera a palavra que forcejava por sair impetuosa e colerica. Mrs.
-Oswald não disse nada durante alguns minutos; esperou que passasse o
-periodo agudo da irritação. Quando lhe pareceu que ella afrouxava,
-rompeu emfim o silencio.</p>
-
-<p>&mdash;Fiz mal, fiz não ha duvida, mas a intenção não podia ser melhor.
-Talvez não me creia; paciencia! O que lhe peço,&mdash;nem lhe peço,&mdash;o que
-eu acredito piamente é que não me hade attribuir algum interesse de
-ordem...</p>
-
-<p>Mrs. Oswald fez uma pausa para dar aberta ao protesto de Guiomar,
-mas Guiomar não protestou, quero dizer não protestou de viva voz;
-fez apenas um gesto negativo, bastante a satisfazer os melindres
-da ingleza. A moça foi sincera; não attribuia realmente a nenhum
-interesse vil,&mdash;pecuniario,&mdash;a acção de Mrs. Oswald. Nem por isso a
-absolvia,&mdash;não só porque ella viria concorrer talvez para uma crise
-penosa, mas também,&mdash;bom é notal-o outra vez,&mdash;porque a condição da
-ingleza naquella casa era relativamente inferior.</p>
-
-<p>A ingleza continuou a falar em defeza propria, a justificar miudamente
-os bons sentimentos do coração, e a prometter que deixava por mão todo
-aquelle negocio, a seu juizo, o melhor que a moça podia fazer.</p>
-
-<p>&mdash;A experiencia da vida, concluiu ella, devia ter-me convencido de que
-o melhor de todos os sentimentos é um egoismo quieto e calado.</p>
-
-<p>Em quanto ella falava assim, Guiomar parecia volver a tranquilidade
-habitual. A mudança foi,&mdash;não súbita,&mdash;mas um pouco mais rapida do
-que devera ser, tratando-se de um espirito, como o della, em que as
-impressões não eram superficiaes nem momentaneas. Havia até uns toques
-de affabilidade no rosto e na voz, quando ella começou, a falar, o que
-revelaria talvez ser aquella mudança muito voluntaria e meditada.</p>
-
-<p>&mdash;Está bom, Mrs. Oswald, o que passou, passou. Sinto que as cousas
-chegassem a este ponto, e que elle se lembrasse de escrever semelhante
-carta, confessando uma paixão que acredito sincera, mas a que o meu
-coração não póde corresponder. Amores não se encommendam como vestidos:
-sobretudo não se fingem, ou não se devem fingir nunca.</p>
-
-<p>&mdash;Oh! decerto!</p>
-
-<p>&mdash;Eu gosto delle, como parente que é de minha madrinha, e também por
-que ella lhe tem affeição de mãe, como a mim; somos uma especie de
-irmãos, nada mais.</p>
-
-<p>&mdash;Tem muita razão, assentiu Mrs. Oswald. A senhora pensa e fala como um
-doutor. Que se lhe ha de fazer? Quem não ama não ama. Delle é que eu
-tenho pena!</p>
-
-<p>&mdash;Gosta muito de mim, não? perguntou Guiomar fitando os olhos na
-ingleza.</p>
-
-<p>&mdash;Oh! parece que sim! A senhora deve sabel-o tanto como eu; eu sei o
-que tenho visto, e creio que é muito.</p>
-
-<p>&mdash;Eu nunca vi nada, respondeu seccamente Guiomar.</p>
-
-<p>A resposta de Mrs. Oswald foi um sorriso de incredulidade, que a outra
-não viu ou não quiz ver. Houve uma pausa; Guiomar continuou nestes
-termos:</p>
-
-<p>&mdash;Mas seja como for, a minha resposta é negativa. Estou que elle não me
-fará a injuria de querer casar commigo, sem que eu o ame...</p>
-
-<p>Guiomar parou, como a esperar, que a outra lhe dissesse alguma cousa.
-Desta vez coube a Mrs. Oswald não responder nada, nem com a voz nem com
-o gesto. A moça inclinou o corpo poz os braços sobre os joelhos, com os
-dedos cruzados, e entre um riso amavel e um olhar affectuoso, continuou:</p>
-
-<p>&mdash;A senhora podia, se acaso elle alguma vez lhe falou nisso ou vier a
-falar-lhe, podia dissuadi-lo de taes ideias, dizendo-lhe simplesmente,
-a verdade e dando-lhe conselhos, os conselhos que a senhora hade saber
-dar, e que elle aceitará de certo, porque é um bom coração, um caracter
-estimavel...</p>
-
-<p>&mdash;Oh! excellente! um moço excellente!</p>
-
-<p>E as duas ficaram a olhar uma para a outra, Guiomar a sorrir, mas de um
-sorriso, que era uma contracção voluntaria dos musculos, e a ingleza a
-fazer um rosto de piedade, e adoração, e pena, e muita cousa junta, que
-a moça só começou a comprehender, quando ella rompeu o silencio deste
-modo:</p>
-
-<p>&mdash;Estou a duvidar se devo dizer-lhe o resto.</p>
-
-<p>&mdash;O resto? perguntou Guiomar admirada. Pois que ha mais?</p>
-
-<p>A ingleza approximou a cadeira. Guiomar endireitou o busto e esperou
-anciosa a revelação,&mdash;se revelação era,&mdash;que lhe ia fazer Mrs. Oswald.
-Esta não falou logo; era razoavel hesitar um pouco, lutar comsigo
-mesma, antes de dizer alguma cousa. Emfim, com um movimento de quem
-ajunta as forças todas e as emprega em cousa superior á coragem usual:</p>
-
-<p>&mdash;D. Guiomar, disse ella, pegando-lhe nas mãos, ninguem póde exigir que
-se case sem amar o noivo; seria na verdade uma affronta. Mas o que lhe
-digo é que o amor que não existe por ora, póde vir mais tarde, e se
-vier, e se viesse seria uma grande fortuna...</p>
-
-<p>&mdash;Mas acabe, acabe, interrompeu a moça com impaciencia.</p>
-
-<p>&mdash;Seria uma grande fortuna para a senhora, para elle, ouso dizer que
-para mim, que os estimo e adoro, mas sobretudo para a Sra. baroneza.</p>
-
-<p>&mdash;Como assim? disse Guiomar.</p>
-
-<p>&mdash;Oh! para elle seria a maior fortuna da vida, porque é hoje o seu
-mais entranhado e vivo desejo, o seu desejo verdadeiramente da alma. A
-senhora...</p>
-
-<p>&mdash;Está certa disso?</p>
-
-<p>&mdash;Certissima.</p>
-
-<p>&mdash;Não creio, não vejo nada que...</p>
-
-<p>&mdash;Creia, deve crer. Se me promette nada dizer desta nossa conversa, nem
-fazer suspeitar por nenhum modo o que lhe estou contando...</p>
-
-<p>&mdash;Fale.</p>
-
-<p>&mdash;Pois bem,&mdash;continuou Mrs. Oswald abaixando a voz, como se alguem
-podesse ouvil-a na solidão daquella alcova, e no silencio, profundo
-daquella casa, que toda dormia,&mdash;pois bem, eu lhe direi que por ella
-mesma tive noticia deste seu desejo. Quando eu percebi a paixão do Sr.
-Jorge, falei nisso a sua madrinha, gracejando na intimidade que ella
-me permitte, e a senhora baroneza em vez de sorrir, como eu esperava
-que fizesse, ficou algum tempo pensativa e séria, até que rompeu nestas
-palavras: «Oh! se Guiomar gostasse delle e viessem a casar-se, eu
-seria completamente feliz. Não tenho hoje outra ambição na terra. Ha de
-ser a minha campanha.»</p>
-
-<p>&mdash;Minha madrinha disse isso? perguntou Guiomar.</p>
-
-<p>&mdash;Tal qual. A resposta que lhe dei foi que o casamento não era
-impossivel, e que nada mais natural do que virem a amar-se duas pessoas
-a principio indifferentes. O amor nasce muita vez do costume.</p>
-
-<p>Guiomar já mal ouvia o que lhe estava dizendo a ingleza; se ainda
-olhava para ella, era com os olhos indecisos e empanados, de quem vae
-toda absorvida em pensamentos intimos.</p>
-
-<p>&mdash;Foi desde esse dia, continuou Mrs. Oswald, que me pareceu conveniente
-falar-lhe algumas vezes nisso, sondar-lhe o coração, ver se elle
-favorecia o sonho de sua madrinha, tornando feliz toda esta casa...
-Fiz mal, convenho; mas a intenção era a mais respeitavel e santa deste
-mundo.</p>
-
-<p>&mdash;De certo, murmurou Guiomar.</p>
-
-<p>Mrs. Oswald pegou-lhe n'uma das mãos e beijou-a affectuosamente.
-Guiomar não a repelliu nem sequer pareceu dar-se-lhe da ternura da
-ingleza. As duas olharam-se uns breves minutos, sem dizer nada, como a
-lerem na alma uma da outra.</p>
-
-<p>Guiomar não tinha a experiencia nem a edade da ingleza, que podia ser
-sua mãe; mas a experiencia e a edade eram substituidas, como sabe o
-leitor, por um grande tino e sagacidade naturaes. Ha creaturas que
-chegam aos cincoenta annos sem nunca passar dos quinze, tão simplices,
-tão cegas, tão verdes as compõe a natureza; para essas o crepusculo
-é o prolongamento da aurora. Outras não; amadurecem na sazão das
-flores; vem ao mundo com a ruga da reflexão no espirito,&mdash;embora, sem
-prejuiso do sentimento, que nellas vive e influe, mas não domina.
-Nestas o coração nasce enfreiado; trota largo, vae a passo ou galopa,
-como coração que é, mas não dispara nunca, não se perde nem perde o
-cavalleiro.</p>
-
-<p>O que a afilhada da baroneza buscava ler no rosto de Mrs. Oswald era se
-effectivamente a madrinha nutria aquelle desejo, ou se tal revelação
-não era mais do que um embuste. O leitor sabe que era verdadeira; mas
-admittirá, sem duvida, que a moça só depois de muito interrogar e
-examinar lhe désse fé. Creu emfim; creu, porque era verosimil, creu
-porque a ingleza não se arriscaria a qualquer indiscrição da parle
-della, que de todo a desmascararia.</p>
-
-<p>&mdash;Parece-me, disse Mrs. Oswald, que não fiz mal em lhe dizer tudo o que
-sabia. Conselhos não lhe dou nenhuns; o melhor delles não vale a voz
-do proprio coração. O seu é puro e recto; consulte-o de boa vontade, e
-verá se ha nelle indifferenca, ou se alguma faisca...</p>
-
-<p>&mdash;Eu sei! interrompeu Guiomar. Não me lembrou consultal-o nunca.</p>
-
-<p>&mdash;Faz mal, elle é o relogio da vida. Quem o não consulta, anda
-naturalmente fóra do tempo. Mas que vejo! continuou Mrs. Oswald
-deitando os olhos para o reloginho de Guiomar. Naquelle outro relogio
-faltam dez minutos para uma hora! Uma hora! Que diria a Sra. baroneza
-se soubesse que ainda estamos aqui de conversa! Retiro-me; Deus lhe
-dê um somno socegado, e sobretudo a faça feliz, como merece. Não lhe
-recommendo juizo, porque o tem de sobra. Adeus, até amanhã.</p>
-
-<p>E Mrs. Oswald sahiu pé ante pé em direcção ao seu quarto.</p>
-
-<p>Guiomar ficou só, alli sentada ao pé da cama, a ouvir o passo surdo,
-e cautelloso da ingleza. Quando o som morreu de todo, e o silencio da
-noite volveu ao que era, profundo e sepulchral, a moça deixou cair os
-braços na cama, e a cabeça nas mãos, e um suspiro desentranhou-se-lhe
-do peito, longo, ruidoso, magoado,&mdash;o primeiro que o leitor lhe ouve
-desde que a conhece&mdash;e emfim estas palavras arrancadas da alma, tão
-doloridas,&mdash;ia dizer tão lacrimosas,&mdash;vinham ellas:</p>
-
-<p>&mdash;Oh meus sonhos! meus sonhos!</p>
-
-<p>Não chorou; a alma della era das que não tem lagrimas, em quanto
-lhe restam forças. Os olhos estavam seccos e firmes quando ella os
-ergueu das mãos; o resto tinha vestigios do abalo, mas não havia nelle
-desanimo, menos ainda desespero.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h4><a name="XI" id="XI">XI</a></h4>
-
-
-<h4>Luiz Alves.</h4>
-
-
-<p>Durante uma inteira e comprida semana, deixou Estevão de apparecer no
-escriptorio onde trabalhava com Luiz Alves; não appareceu tambem em
-Botafogo. Ninguem o viu em todo esse tempo nos logares onde elle era
-mais ou menos assiduo. Foram seis dias, não digo de reclusão absoluta,
-mas de completa solidão, porque ainda nas poucas vezes que saiu, fel-o
-sempre a horas ou em direcções que a ninguem via, e de ninguem era
-visto.</p>
-
-<p>Mas não fôra essa crua e malfadada crise, e é quasi certo que elle
-metteria uma lança na Africa daquelles dias, que era um ponto muito
-serio e grave, a questão magna da rua do Ouvidor e da casa do José
-Thomaz, a ponderosa, crespa e complicada questão de saber se a
-Stephanoni estrearia no <i>Ernani.</i> Esta questão, de que o leitor se
-ri hoje, como se hão de rir os seus sobrinhos de outras analogas
-puerilidades, esta pretenção a que se oppunha a Lagrua, allegando que
-o <i>Ernani</i> era seu, pretenção que fazia gemer as almas e os prelos
-daquelle tempo, era cousa muito propria a espertar os brios do nosso
-Estevão, tão marechal nas cousas minimas, como recruta nas cousas
-maximas.</p>
-
-<p>Infelizmente elle não apparecia, não sabia sequer do conflicto e do
-debate, occupado como estava em travar o aspero e sangrento duelo do
-homem contra si mesmo, quando lhe falta o apoio, ou a consolação dos
-outros homens. Todo elle era Guiomar; Guiomar era o primeiro e o ultimo
-pensamento de cada dia. A sombra da moça vivia ao pé delle e dentro
-delle, no livro em que lia, na rua solitaria onde acaso transitava, nos
-sonhos da noite, nas estrellas do ceu, nas poucas flores de seu inculto
-jardim.</p>
-
-<p>Um leitor perspicaz, como eu supponho que hade ser o leitor deste
-livro, dispensa que eu lhe conte os muitos planos que elle teceu,
-diversos e contradictorios, como é de razão em analogas situações.
-Apenas direi por alto que elle pensou tres vezes em morrer, duas em
-fugir á cidade, quatro em ir affogar a sua dor mortal naquelle ainda
-mais mortal pantano de corrupção em que apodrece e morre tantas vezes
-a flor da mocidade. Em tudo isto era o seu espirito apenas um joguete
-de sensações continuas e variadas. A força, a permanencia do affecto
-não lhe bastava a dar seguimento e realidade ás concepções vagas de seu
-cerebro,&mdash;enfermo, ainda quando estava de saude.</p>
-
-<p>A ideia do suicidio fincou-se-lhe mais a dentro no espirito, certa
-tarde em que elle saiu a espairecer, e viu um enterro que passava,
-caminho do Cajú. O prestito era triste,&mdash;ainda mais triste pela
-indifferença que se lia no rosto dos que iam piedosamente acompanhando
-o morto. Estevão descobriu-se e sinceramente desejou ir alli dentro,
-mettido naquellas estreitas tabuas de pinho, com todas as suas dores,
-paixões e esperanças.</p>
-
-<p>&mdash;Não tenho outro recurso, pensou elle; é necessario que morra. É uma
-dôr só, e é a liberdade.</p>
-
-<p>Ao voltar para casa, uma creança que brincava na rua, em camisa, com os
-pés na agua barrenta da sargeta, fel-o parar alguns instantes, invejoso
-daquella boa fortuna da infancia, que ri com os pés no charco. Mas a
-inveja da morte e a inveja da innocencia foram ainda substituidas pela
-inveja da felicidade, quando ao recolher-se viu as janellas abertas de
-uma casa visinha, e a sala illuminada, e uma noiva coroada de flores
-de laranjeira, a sorrir para o noivo, que sorria igualmente para ella,
-ambos com o sorriso indefinivel e unico da occasião.</p>
-
-<p>Os cinco dias correram-lhe assim, travados de enojo, de desespero, de
-lagrimas, de reflexões amargas, de suspiros inuteis, até que raiou a
-aurora do sexto dia, e com ella,&mdash;ou pouco depois della, uma carta de
-Botafogo. Estevão quando viu o creado da baroneza, á porta da saia,
-com uma carta na mão, sentiu tamanho alvorôço, que não ouviu nada
-do que elle lhe disse. Supporia que a carta era de Guiomar? Talvez;
-mas a illusão durou os poucos instantes que elle gastou em romper a
-sobrecarta e desdobrar a folha de papel que vinha dentro.</p>
-
-<p>A carta era da baroneza.</p>
-
-<p>A baroneza perguntava-lhe graciosamente se elle havia morrido, e pedia
-que fosse falar-lhe ácerca da demanda que ella trazia. Estevão chegara
-já ao estado de só esperar um pretexto para transigir comsigo mesmo;
-não podia havel-o melhor. Escreveu rapidamente duas linhas de resposta,
-e á uma hora da tarde apeava-se de um tilbury á porta da funesta e
-deliciosa casa, onde havia passado as melhores e as peores horas da
-vida.</p>
-
-<p>&mdash;Sabe porque razão lhe dei este incommodo, além do prazer que tinha em
-vel-o? perguntou a baroneza logo depois dos primeiros comprimentos.</p>
-
-<p>&mdash;Disse-me que era por causa da demanda...</p>
-
-<p>&mdash;Sim, precisamos assentar algumas cousas, antes da nossa partida.</p>
-
-<p>&mdash;V. Ex. sae da côrte?</p>
-
-<p>&mdash;Vamos para o roça.</p>
-
-<p>Estevão empallideceu. Na situação delle, aquella viagem era a melhor
-cousa que lhe podia acontecer; comtudo, fez-lhe mal a noticia. A
-conversa que se seguiu foi toda sobre o assumpto forense, e durou uma
-longa hora, sem que apparecesse Guiomar. Ao despedir-se atreveu-se
-Estevão a perguntar por ella.</p>
-
-<p>&mdash;Anda passeando, respondeu a baroneza.</p>
-
-<p>Estevão despediu-se da constituinte, que o acompanhou até á porta da
-sala, repetindo-lhe algumas recommendações, que o advogado mal pôde
-ouvir e absolutamente lhe não ficaram de memoria.</p>
-
-<p>A esperança de ver a moça levara-o, mais que tudo, áquella casa; saía
-sem ter o gosto de a contemplar ainda uma vez; mais do que isso,
-ameaçado de a não ver tão cedo, ou quem sabe se nunca mais. Ia elle
-a reflectir nisto e a approximar-se da porta, onde parava ao mesmo
-tempo um carro. Estevão estremeceu naturalmente, ante de ver quem ia
-apear-se; grudou-se ao portal, com os olhos fitos na portinhola, que um
-lacaio abria apressadamente.</p>
-
-<p>A primeira figura que desceu foi a nossa conhecida Mrs. Oswald, que o
-fez, sem dar tempo a que Estevão lhe offerecesse a mão. O bacharel,
-desde que a vira, approximara-se rapidamente da portinhola.</p>
-
-<p>Guiomar desceu logo depois. A mão apertada na luva côr de perola pousou
-levemente na mão de Estevão que estremeceu todo. A moça fez-lhe um
-comprimento risonho, murmurou um agradecimento e recolheu-se com a
-ingleza. Era pouco; mas esse pouco alvoroçou o bacharel, que enfiou
-d'alli para a cidade, em direcção ao escriptorio.</p>
-
-<p>Luiz Alves admirou-se de o ver; não foi com um espanto de seis dias,
-como devera ser, mas de quarenta e oito horas, quando muito. Que
-admira? A preocupação de Luiz Alves por aquelles dias era a candidatura
-eleitoral; a boa nova devia chegar-lhe na primeira mala do norte. Ora,
-em boa razão, um homem que está prestes a ser inscripto nas tabuas do
-parlamento, não póde cogitar muito dos amores de um rapaz, ainda que o
-rapaz seja amigo e os amores verdadeiros.</p>
-
-<p>Estevão não perdeu tempo em circumloquios; foi entrando e entornando a
-alma toda, afflicta e consolada a um tempo, no seio do velho amigo e
-companheiro. A cada trecho da confissão plena que elle alli lhe fez,
-respondia um commento, ora serio, ora gracioso de Luiz Alves. Quando
-Estevão porém lhe deu noticia de que a familia da baroneza ia para a
-roça, Luiz Alves recolheu o meio-riso que lhe pousava nos labios desde
-começo, e com a mais subita e sincera admiração exclamou:</p>
-
-<p>&mdash;Para a roça!</p>
-
-<p>&mdash;Disse-o agora mesmo a baroneza.</p>
-
-<p>&mdash;Mas...</p>
-
-<p>Luiz Alves não acabou; olhou ainda meio duvidoso para Estevão, e ficou
-algum tempo calado, a coçar o queixo com a faca de marfim e a olhar
-para uma gravura que pendia na parede fronteira.</p>
-
-<p>&mdash;Na situação em que estou, continuou Estevão, has de dizer que a
-viagem é uma felicidade para mim. Pois não é; não admitto a viagem. Se
-ella sair da côrte, eu saio também.</p>
-
-<p>&mdash;Tu estás doudo!</p>
-
-<p>&mdash;Talvez.</p>
-
-<p>Luiz Alves saiu daquella natural indifferença com que o ouvia, e lhe
-falava sempre em tal assumpto. Falou-lhe carinhoso,&mdash;talvez pela
-primeira vez na vida. O que lhe disse foi apenas ume edição augmentada
-de que lhe havia dito em anteriores occasiões,&mdash;agora com maior
-fundamento, porque depois do formal desengano de Guiomar, não havia
-outro recurso mais que ir esquecel-a de todo.</p>
-
-<p>&mdash;Oh! isso nunca! interrompeu Estevão. Demais, não sei, não estou certo
-se ella falava de coração naquella tarde...</p>
-
-<p>A candidez com que Estevão disse isto era a fiel traducção de seu
-espirito, e a razão de taes palavras, não a procure o leitor em outra
-parte mais que não seja aquelle sorriso de ha pouco, ao pé do carro,
-sorriso que lhe bailava no cerebro, como raio de sol coado por entre
-nuvens negras de tempestade.</p>
-
-<p>Luiz Alves sacudiu a cabeça e enfiou os olhos pelas folhas rabiscadas
-de uns autos que tinha diante, e que entrou a folhear vagarosamente.
-Subito, bateu uma pancadinha, com a mão espalmada sobre os papeis, e
-levantou a cabeça:</p>
-
-<p>&mdash;Ha um meio talvez de saber tudo, disse elle, de saber se ella
-verdadeiramente te ama, ou... Posso tenta-lo, com uma condição.</p>
-
-<p>&mdash;Qual?</p>
-
-<p>&mdash;A condição de eliminares as tuas pretenções. Que diabo ganhas tu em
-nutrir uma paixão sem efficacia nem remedio?</p>
-
-<p>Esta promessa era a mais dura que se podia arrancar de um coração,
-em que as gerações de esperanças se succediam quasi sem solução de
-continuidade; fel-a, todavia, Estevão, talvez com a secreta resolução
-de a trahir.</p>
-
-<p>Luiz Alves ficou só dahi a alguns minutos. As ultimas palavras que
-disse ao collega foram duas ou tres pilherias de rapaz; mas apenas
-ficou só tornou-se serio, e inclinando o corpo para a frente, com os
-braços na secretaria, e a raspar as unhas com um canivete, alli esteve
-largo tempo, como a reflectir, longe de Estevão, que aliás já não ía
-perto, e ainda mais longe dos autos que tinha diante de si. Mas em que
-pensava elle, se não era em Estevão, nem nos autos, nem tambem, por
-agora, nas suas esperanças eleitoraes Paciencia, leitor; sabel-o-has
-daqui a nada. Contenta-te com a noticia de que, ao cabo de vinte
-minutos daquella abstracção, Luiz Alves volveu a si, proferindo em alta
-voz esta simples palavra:</p>
-
-<p>&mdash;Não ha duvida; é uma ambiciosa.</p>
-
-<p>E descativado daquella preoccupação, enterrou-se de todo na leitura dos
-autos.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h4><a name="XII" id="XII">XII</a></h4>
-
-
-<h4>A viagem.</h4>
-
-
-<p>Mal recomeçára Luiz Alves a leitura dos autos, entrou no gabinete o
-criado apresentando-lhe um bilhete de visita.</p>
-
-<p>&mdash;Que entre! disse o advogado lendo o nome do sobrinho da baroneza.</p>
-
-<p>E logo se ouviu no corredor o passo medido e lento do mancebo, que
-d'ahi a nada assomava á porta do gabinete, fazendo uma cortezia,
-sisuda, mas graciosa.</p>
-
-<p>&mdash;Venho incommoda-lo, doutor? perguntou Jorge.</p>
-
-<p>&mdash;Pelo amor de Deus! exclamou o advogado erguendo-se e indo buscal-o
-á porta. Não me incommodaria em caso nenhum; agora, sobretudo, que a
-leitura de uns papeis me fatigou sobre maneira, a maior fortuna que eu
-poderia desejar é a presença de um homem de espirito.</p>
-
-<p>Jorge agradeceu este comprimento um pouco emphatico, e retribuiu-o com
-outra lisonjaria muito mais extensa e de maior alcance. Quer dizer que
-elle vinha pedir alguma cousa. Effectivamente, passados os minutos de
-introito e desfiadas as generalidades, Jorge impertigou-se mais do que
-até alli estivera e desfechou esta pergunta abrupta:</p>
-
-<p>&mdash;Sabe que venho pedir-lhe uma cousa grave?</p>
-
-<p>Luiz Alves inclinou-se.</p>
-
-<p>&mdash;Grave e simples ao mesmo tempo, continuou o sobrinho da baroneza; mas
-antes disso precisava saber se é tão amigo da nossa familia, como ella
-o é do senhor.</p>
-
-<p>&mdash;Oh! de certo!</p>
-
-<p>&mdash;O senhor é o menos assiduo, talvez, das pessoas que lá vão, apezar de
-visinho; só agora o vejo alli mais a miudo; entretanto é como flor que
-se trahe pelo aroma; minha tia tem a seu respeito a melhor opinião do
-mundo; acha-lhe uma gravidade, e eu tambem a sinto, e nem comprehendo
-que um homem possa ser outra cousa. Os taes espiritos futeis...</p>
-
-<p>&mdash;São insupportaveis, concluiu Luiz Alves ancioso por chegar ao objecto
-da visita.</p>
-
-<p>O objecto era a viagem da baroneza. Um commendador, amigo do finado
-barão, e fazendeiro em Cantagallo, tinha promessa da viuva, havia dous
-annos, de ir lá passar algum tempo. A baroneza esquivara-se sempre
-a cumprir a palavra dada; agora porém, tal fora a insistencia, que
-se resolvera a ir. Ora, o que Jorge vinha propor era&mdash;, expressões
-delle,&mdash;uma conjuração de amigos para dissuadir a tia daquelle
-projecto. Affiançava ao advogado que, ainda descoberta a conjuração,
-teria elle a vida sã e salva.</p>
-
-<p>Luiz Alves suppoz a principio que aquillo era um simples pretexto; mas,
-tendo observado que a bella Guiomar não era indifferente ao rapaz,
-comprehendeu que este tinha na conjuração proposta, um interesse
-inteiramente pessoal. Emfim, Jorge chegou a confessar que, se a tia
-insistisse em sair da côrte, elle não tinha remedio senão acompanha-la.</p>
-
-<p>O accôrdo não foi difficil; ficou assentado que fariam todos os
-esforços para dissuadir a baroneza. Jorge quiz sair logo; reteve-o Luiz
-Alves algum tempo mais, com expressões de louvor habilmente tecidas e
-mais habilmente encastoadas na conversação; e tambem deixando-se ir á
-feição do espirito delle, acceitando-lhe as ideias e os preconceitos, e
-applaudindo-os discretamente,&mdash;serio, quando elles o eram ou pareciam
-ser,&mdash;chocarreiro quando vinham com ar de graça,&mdash;respondendo emfim a
-todos os gestos e meneios do outro, como faz o espelho por officio e
-obrigação:&mdash;toda a arte em summa de tratar os homens, de os attrahir e
-de os namorar, que elle aprendera cedo e que lhe devia aproveitar mais
-tarde na vida publica.</p>
-
-<p>De noite foi Luiz Alves á casa da baronesa, onde poucas pessoas havia,
-todas de intimidade. A dona da casa, sentada na poltrona do costume,
-tinha ao pé de si uma senhora da mesma edade que ella, egualmente
-viuva, e defronte as suiças brancas e aposentadas de um ex-funccionario
-publico. N'um sophá, viam-se Mrs. Oswald e Jorge a conversarem em
-voz, ora muito baixa, ora um pouco mais elevada. Adiante, dous
-moços contavam a duas senhoras o enredo da ultima peça do Gymnasio.
-Mais longe, uma moça da visinhança gabava a outra a tesoura de Mme.
-Bragaldi, que pedia meças, dizia ella, ao pincel do scenographo, seu
-marido. Emfim, junto a uma das janellas via-se uma mocinha, viva e
-bonita, a dizer mil ninharias graciosas a outra pessoa, que era nada
-menos que a nossa conhecida Guiomar. A conversa, assim dividida,
-tornava-se ás vezes geral, para recair logo no particularismo anterior;
-os grupos modificavam-se tambem de quando em quando, do mesmo modo que
-o assumpto, e assim se iam matando agradavelmente as horas, que não
-resistiam, coitadas, nem apressavam o passo um minuto sequer.</p>
-
-<p>Luiz Alves aggregara-se ao grupo da baroneza, ao qual não tardou
-juntar-se Jorge. O advogado teve a discrição de esperar que o assumpto
-viesse de si, se viesse, ou de o introduzir na conversa, quando lhe
-parecesse de feição. Mas Jorge, que estava impaciente, arrastou o
-assumpto ao debate. Luiz Alves, mostrou-se fiel á palavra dada;
-declarou amavelmente que se oppunha á viagem, como visinho e amigo,
-que reclamaria em ultimo caso o auxilio de força publica; que era um
-erro e um crime deixar aquella casa viuva da benevolencia e da graça e
-do gosto e de todas as mais qualidades excellentes que alli iam achar
-os felizes que a frequentavam; que, emfim, o mal era tamanho, que não
-deixaria de ser peccado, posto não viesse apontado nos cathecismos,
-e como peccado, seria de força punido, com amargas penas, no outro
-seculo, pelo que, e o mais dos autos, era sua decisão que a baroneza
-devia ficar.</p>
-
-<p>Todas estas razões foram ditas como deviam de ser, de um modo galante e
-folgazão, a que a baroneza respondia egualmente, e que não daria nada
-mais de si, se Luiz Alves, mudando de estylo, não fosse pôr o assumpto
-em differente terreno.</p>
-
-<p>&mdash;Digamos a verdade, Sra. baroneza, a viagem ha de ser-lhe immensamente
-incommoda, se for so isso; suas forças não são de certo eguaes ás de
-seus primeiros annos; sua saude é melindrosa e não poderá soffrer tanta
-fadiga. Confesso que falo em nome de certo interesse pessoal de amigo
-e de visinho; mas a principal razão não é essa. Se houvesse um motivo
-urgente, bem; mas tratando-se apenas de uma promessa feita ha tanto
-tempo, seria crueldade da minha parte não insistir que ficasse.</p>
-
-<p>A baroneza defendia-se, e Luiz Alves não tardou em reconhecer de si
-para si que ella não se defendia com o vigor de uma resolução original
-e propria. A conversa, entretanto, tornára-se mais geral; de todos os
-lados partiam votos de opposição.</p>
-
-<p>Guiomar havia já alguns minutos que não attendia á interlocutora;
-tinha o ouvido afiado e assestado sobre o grupo da madrinha. Ninguem
-a observava; mas é privilegio do romancista e do leitor ver no rosto
-de uma personagem aquillo que as outras não veem ou não podem ver.
-No rosto de Guiomar podemos nós ler, não só o tedio que lhe causava
-aquella opinião unanime contra o projecto da baroneza, mas ainda a
-expressão de um genio imperioso e voluntario.</p>
-
-<p>&mdash;Estamos de accordo, creio eu? perguntou Luiz Alves olhando
-alternadamente para a baroneza e as outras pessoas.</p>
-
-<p>&mdash;Não é possível, doutor, respondia a boa senhora.</p>
-
-<p>&mdash;De certo que não é possível, interveiu Guiomar do lugar onde estava.
-A viagem não offerece risco, nem minha madrinha está invalida. Demais,
-é uma promessa feita; não se pode deixar de cumprir.</p>
-
-<p>Esta opinião, dita em tom sêcco e firme, ainda que a voz nada perdesse
-do seu natural avelludado, equivaleu a um pouco de agua fria lançada na
-fervura triumphante dos animos.</p>
-
-<p>&mdash;Guiomar tem razão, disse a baroneza; já agora é preciso ir; são
-apenas tres ou quatro mezes.</p>
-
-<p>Luiz Alves olhou longamente para Guiomar, como a procurar ver-lhe
-no rosto todas antecedencias da resolução da baroneza. A opposição
-afrouxara; Jorge chamou em vão o advogado em seu auxilio. A resolução
-da tia, se alguma vez fora abalada, tornara-se outra vez firme.</p>
-
-<p>Guiomar, entretanto, erguera-se e chegara ao grupo da madrinha. Jorge
-fitou-a com uma expressão de vaidade e cobiça. Luiz Alves, que se
-achava de pé, recuou um pouco para deixal-a passar. Os olhos com que
-a contemplou não eram de cobiça nem de vaidade; a leitora, que ainda
-lembrará da confissão por elle mesmo feita a Estevão, supporá talvez
-que eram de amor. Talvez,&mdash;quem sabe?&mdash;amor um pouco socegado, não
-louco e cego como o de Estevão, não pueril e lascivo, como o de Jorge,
-um meio termo entre um e outro,&mdash;como podia havel-o no coração de um
-ambicioso.</p>
-
-<p>&mdash;O Dr. Luiz Alves defende causas más, disse Guiomar sorrindo para
-elle; não se trata de uma cousa impossivel. Quanto a mim, Cantagallo
-só tem um inconveniente; sera menos divertido que a côrte; mas o tempo
-passa depressa...</p>
-
-<p>&mdash;Nesse caso, disse Jorge suspirando eu tambem dispenso theatros e
-bailes; sacrifico-me á familia.</p>
-
-<p>&mdash;Queres ir comnosco? perguntou a baroneza alegremente.</p>
-
-<p>&mdash;Que duvida!</p>
-
-<p>Guiomar mordeu o labio inferior, com uma expressão de despeito, que
-pôde conter e abafar, sem que ninguem a percebesse, ninguem, excepto
-Luiz Alves. Um sorriso tranquillo e perspicaz roçou os labios do
-advogado, em quanto a moça, para esconder a impressão que lhe ficara,
-de novo se dirigiu á janella, onde esteve alguns momentos sósinha, meia
-voltada para fóra e meia guardada pela sombra que alli fazia a cortina.
-Um rumor de passos fel-a voltar-se para dentro. Era Luiz Alves.</p>
-
-<p>&mdash;Ah! disse ella fingindo-se tranquilla; agradeço-lhe não haver
-insistido mais nos seus conselhos.</p>
-
-<p>&mdash;A intenção era boa, respondeu Luiz Alves em voz baixa; mas será agora
-excellente; nem tudo está perdido: eu me incumbo de salvar o resto.</p>
-
-<p>Guiomar franziu a testa com o mais vivo e natural espanto; tal
-espanto que parecia havel-a feito esquecer outro sentimento,
-igualmente natural:&mdash;o do despeito que lhe causaria aquella singular
-familiaridade. Mas o assombro dominou tudo; Guiomar sentiu que elle
-lera nella a razão da insistencia e o desgosto do resultado.</p>
-
-<p>A ruga desfez se a pouco e pouco, mas a moça não retirou logo os olhos.
-Havia nelles uma interrogação imperiosa, que a alma não se atrevia
-a transmittir aos lábios. Se ha nos do leitor alguma interrogação,
-esperemos o capitulo seguinte.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h4><a name="XIII" id="XIII">XIII</a></h4>
-
-
-<h4>Explicações.</h4>
-
-
-<p>Luiz Alves comprehendera toda a expressão dos olhos de Guiomar; era,
-porém, homem frio resoluto. Inclinou o busto com toda a graça correcta
-e de bom tom, e disse-lhe na voz mais branda que lhe permittia o seu
-orgão forte e severo:</p>
-
-<p>&mdash;Parece-lhe que fui um pouco audaz, não é? Fui apenas sincero; e ainda
-que a sua delicadeza me condemne, estou certo de que ha em seu coração
-misericordia de sobra...</p>
-
-<p>Guiomar tinha readquirido toda a posse de si mesma.</p>
-
-<p>&mdash;Está enganado, disse ella, não o condemno, pela simples razão de que
-o não entendi.</p>
-
-<p>&mdash;Tanto melhor, redarguiu Luiz Alves sem pestanejar; o meu delicto
-nesse caso não passou da esphera da intenção.</p>
-
-<p>&mdash;Mas... referia-se á viagem?</p>
-
-<p>&mdash;Referia-me; perguntava quando iam.</p>
-
-<p>Esta presença de espirito de Luiz Alves ia muito com o genio de
-Guiomar; era um laço de sympathia. A moça respondeu que o commendador
-viria buscal-as dahi a quinze ou vinte dias.</p>
-
-<p>&mdash;Tres mezes apenas? perguntou o advogado.</p>
-
-<p>&mdash;Tres ou quatro.</p>
-
-<p>&mdash;Quatro mezes não é a eternidade, mas Cantagallo, para uma carioca da
-gemma, hade ser um degredo, ou quasí... Oxalá,&mdash;continuou Luiz Alves,
-concluindo mais depressa do que queria, ao ver que Jorge se approximava
-da janella,&mdash;oxalá não lhe faça esse exilio esquecer o que solemnemente
-lhe digo neste momento: que a senhora tem uma alma grande e nobre, e
-que eu a admiro!</p>
-
-<p>Jorge chegára; a conversa tinha de acabar ou tomar differente rumo.</p>
-
-<p>As ultimas palavras de Luiz Alves eram singularmente dispostas para
-deixar sulco profundo na memoria da moça. Não era uma declaração de
-amor, nem uma cortezania de sala cousas todas que ella ouvira muita
-vez, que podiam lisongea-la, e de certo a lisongeavam; era mais que
-um comprimento e não chegava a ser uma declaração. Commoção, não a
-havia na voz do advogado; firmeza, sim, e um ar de convicção profunda.
-Guiomar olhou para elle quasi sem dar pela presença de Jorge; mas Luiz
-Alves voltara-se para o recem-chegado e falava-lhe em tom jovial, bem
-differente daquelle que empregára pouco antes.</p>
-
-<p>Se esse contraste era premeditado,&mdash;não sei se o era,&mdash;não podia vir
-mais de feição ao espirito de Guiomar. De quantos homens a moça tratára
-até alli, era o primeiro que lhe inspirava curiosidade, e tambem,
-naquella occasião, a primeira pessoa que só compadecia della. Veja o
-leitor:&mdash;curiosidade e gratidão;&mdash;veja se ha duas azas mais proprias
-para arrojar uma alma no seio de outra alma,&mdash;ou de um abysmo, que é ás
-vezes a mesma cousa.</p>
-
-<p>Eu disse&mdash;compadecia&mdash;e esta só palavra, desacompanhada de outra cousa,
-póde fazer crer ao leitor que, durante aquelles dias em que a perdemos
-de vista, tornara-se Guiomar uma creatura desditosa. Nada disso; a
-situação era a mesma, não a mesma anteriormente á carta de Jorge, mas
-a mesma da noite em que ella a recebeu, situação, de certo, assaz
-sombria e carregada para um coração que receia ser constrangido, mas
-não desesperada nem angustiosa.</p>
-
-<p>A baroneza, se soubera dos factos, ou se pudera ler na alma da moça,
-seria a primeira a dar-lhe todas as consolações. Mas não sabia.
-Seu desejo,&mdash;ou antes o sonho da velhice, como ella dizia n'um dos
-anteriores capitulos,&mdash;era deixar felizes a afilhada e o sobrinho, e
-entendia que o melhor meio de os deixar felizes era casal-os um com o
-outro. A noticia que tinha do coração da moça, a este respeito, era
-incompleta ou inexacta; pintavam-lhe como frieza o que era repugnancia.
-Mrs. Oswald dava-lhe sempre esperanças de exilo feliz e proximo, as
-coleras da moça não lh'as contava nunca. Da carta de Jorge não soube,
-nem da scena havida na alcova. O casamento continuava a apparecer-lhe
-com todas as probabilidades de uma esperança realizavel.</p>
-
-<p>Dirá a leitora que o sobrinho não merecia tanto zelo nem tão pertinaz
-esperança, e terá razão; mas os olhos da baroneza não são os da
-leitora; ella só lhe via o lado bom,&mdash;que era realmente bom,&mdash;ainda
-que de uma bondade relativa; mas não via o lado mau, não via nem podia
-ver-lhe a frivolidade grave do espirito, nem o genero de affecto que se
-lhe gerava no coração.</p>
-
-<p>Jorge era o seu unico parente de sangue,&mdash;filho de um irmã que vivêra
-infeliz e mais infelizmente morrêra, não repudiada, mas aborrecida
-do marido, circumstancia que lhe tornava caro aquelle moço. Mais do
-que a afilhada, não; nem tanto, de certo; o coração não chegaria para
-dividir-se egualmente em tão grandes porções; queria-lhe, porém,
-muito, quanto bastava para desejal-o feliz, e trabalhar por fazel-o.
-Accrescentemos que o destino da irmã sempre lhe estava presente
-ao espirito, e que ella receiava egual sorte a Guiomar; em Jorge
-parecia-lhe ver todos os dotes necessarios para tomal-a venturosa.</p>
-
-<p>Infelizmente, Mrs. Oswald, sabedora daquelles secretos desejos e mais
-ou menos confidente dos sentimentos de Jorge, achara azada occasíão
-esta para patentear toda a gratidão de que estava possuida e a profunda
-amizade que a ligava á familia da baroneza. Interpoz-se para servir
-aos outros, e mais ainda a si propria. Viu a difficuldade, mas não
-desanimou; era preciso armar ao reconhecimento da baroneza. Por isso
-não hesitou em confiar a Guiomar o desejo da madrinha, exagerando-o,
-entretanto,&mdash;por que nunca a baroneza dissera que «tal casamento era
-a sua campanha,» e Mrs. Oswald attribuiu-lhe esta phrase mortal para
-todas as esperanças e sonhos da moça. Mas, se falava demasiado ao pé
-de uma, era muito mais sobria de palavras com a outra, e da exageração
-ou da attenuação da verdade resultara aquelle perenne estado de luta
-abafada, de receios, de indecisão e de amarguras secretas. Convém
-dizer, para dar o ultimo traço ao perfil, que esta Mrs. Oswald não
-seguia só a voz do seu interesse pessoal, mas também o impulso do
-proprio genio, amigo de pôr á prova a natural sagacidade, de tentar e
-levar a cabo uma destas operações delicadas e difficeis, de maneira
-que, se houvesse uma diplomacia domestica,&mdash;ou se se creassem cargos
-para ella, Mrs. Oswald podia contar com um lugar de embaixatriz.</p>
-
-<p>Vindo agora á narração dos successos da historia, cumpre que o leitor
-saiba, que a carta de Jorge não teve resposta escripta nem verbal. No
-dia seguinte ao da entrega foi elle jantar a Botafogo; mas Guiomar não
-saíra do quarto, a pretexto de uma dor de cabeça; a baroneza passou o
-dia com ella; Jorge apenas conseguiu saber, quando de lá saiu, que a
-moça ia melhor. Nos subsequentes dias nenhuma resposta foi ás mãos do
-pretendente, nem elle conseguiu haver uns cinco minutos de conversa
-solitaria com a moça; Guiomar esquivava-se sempre, com aquella arte
-summa da mulher que aborrece, e que é nem mais nem menos egual á da
-mulher que ama.</p>
-
-<p>Um dia, porém, não houve meio de fugir; e Jorge, que não tinha nenhuma
-commoção na voz, porque não tinha muita no coração, olhou para ella
-com olhos direitos e francamente lhe pediu uma palavra de esperança
-ou de desengano. A moça hesitou alguns segundos; contudo era preciso
-responder. Venceu a repugnância dizendo-lhe com um frio sorriso:</p>
-
-<p>&mdash;Nem uma nem outra cousa.</p>
-
-<p>&mdash;Nem desengano? perguntou Jorge alvoroçado.</p>
-
-<p>&mdash;Ninguem pode dar nem uma cousa nem outra, disse ella; costumamos
-acceital-as do nosso destino.</p>
-
-<p>Não era responder, como vê o leitor; Jorge ia pedir uma decisão mais
-transparente, mas a moça aproveitara-se da primeira impressão e
-esquivara-se. Quando elle recobrou a voz não viu mais que a fimbria do
-vestido, que se perdia na volta de uma porta.</p>
-
-<p>Guiomar encurtou as redeas á familiaridade que existia entre ella e
-Jorge; mas, se o tratava com mais reserva, não o fazia com sequidão nem
-frieza, nem deixava de ser polida e affavel. A dignidade natural que
-havia em toda a sua pessoa servia-lhe, além disso, como de uma torre de
-marfim, onde ella se acastellava e mantinha em respeito o pretendente.</p>
-
-<p>Dos dous homens que lhe queriam, nenhum lhe falava á alma; ella
-sentia que Estevão pertencia á phalange dos tibios, Jorge á tribu dos
-incapazes, duas classes de homens que não tinham com ella nenhuma
-affinidade electiva. Não egualava, de certo, os dous pretendentes; um
-era simplesmente trivial, outro sentimental apenas; mas nenhum delles
-capaz de crear por si só o seu destino. Se os não egualava, tambem os
-não via com os mesmos olhos; Jorge causava-lhe tedio, era um Diogenes
-de especie nova; atravez da capa rota da sua importancia, via-se-lhe
-palpitar a triste vulgaridade. Estevão inspirava-lhe mais algum
-respeito; era uma alma ardente e frouxa, nascida para desejar, não para
-vencer, uma especie de condor, capaz de fitar o sol, mas sem azas para
-voar até lá. O sentimento de Guiomar em relação a Estevão não podia
-nunca chegar ao amor; tinha muito de superioridade e perdão.</p>
-
-<p>Com outra indole, aspirações differentes e vivida em diversa esphera,
-ama-lo-hia com certeza, do mesmo modo que elle a amava. Mas a natureza
-e a sociedade deram-se as mãos para a desviar dos gozos puramente
-intimos. Pedia amor, mas não o quizera fruir na vida obscura; a maior
-das felicidades da terra seria para ella o maximo dos infortunios,
-se lh'a puzessem n'um ermo. Creança, iam-lhe os olhos com as sedas e
-as joias das mulheres que via na chacara contigua ao pobre quintal
-de sua mãe; moça, iam-lhe do mesmo modo com o espectaculo brilhante
-das grandezas sociaes. Ella queria um homem que, ao pé de um coração
-juvenil e capaz de amar, sentisse dentro em si a força bastante para
-subil-a aonde a vissem todos os olhos. Voluntariamente, só uma vez
-acceitara a obscuridade e a mediania; foi quando se propoz a seguir o
-officio de ensinar; mas é preciso dizer que ella contava com a ternura
-da baroneza.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h4><a name="XIV" id="XIV">XIV</a></h4>
-
-
-<h4>Ex abrupto.</h4>
-
-
-<p>Já o leitor ficou entendendo que a viagem a Cantagallo era obra quasi
-exclusiva de Guiomar. A baroneza relutara a principio, como das outras
-vezes fizera, e o commendador pouca esperança tinha já de a ver na
-fazenda. Mas o voto de Guiomar foi decisivo. Ella fortaleceu, com as
-suas, as razões do commendador, allegando não só a obrigação em que a
-madrinha estava de desempenhar a palavra dada, mas ainda a vantagem
-que lhe podiam trazer aquelles tres mezes de vida roceira, longe das
-agitações da côrte; emfim, invocou o seu proprio desejo de ver uma
-fazenda e conhecer os habitos do interior.</p>
-
-<p>Não havia tal desejo, nem cousa que se parecesse com isso; mas Guiomar
-sabia que na balança das resoluções da madrinha era de grande peso a
-satisfação de um gosto seu. O sacrificio duraria tres ou quatro mezes;
-ella afrontaria, porém, dez ou doze se tantos fossem necessarios, para
-fugir algum tempo ás pretenções de Jorge, sem embargo de lhe repugnar
-todo o viver que não fosse a vida fastosa e agitada da côrte. Eu, que
-sou o Plutarcho desta dama illustre, não deixarei de notar, que, neste
-lance, havia nella um pouco de Alcibiades,&mdash;aquelle gamenho e delicioso
-homem de Estado, a quem o despeito tambem deu forças um dia para
-supportar a frugalidade spartana.</p>
-
-<p>Infelizmente, Jorge reduziu todos esses calculos a nada. Ella contava
-com o seu demasiado apego aos regalos da côrte, não contava com as
-suggestões de Mrs. Oswald, que percebera o plano, e torcera a primeira
-resolução de Jorge, que era ficar e esperar. O sacrificio da parte
-delle era compensado pela probabilidade da victoria, a qual não
-consistia só em haver por esposa uma moça bella e querida, mas ainda
-em tornar muito mais summarias as partilhas do que a baroneza deixaria
-por sua morte a ambos. Esta consideração, que não era a principal,
-tinha ainda assim seu peso no espirito de Jorge, e, sejamos justos,
-devia tel-o: possuir era o seu unico officio. Assim era que não só a
-moça deixava de obter um bem, mas cahia de um mal em outro maior; tel-o
-ao pé de si, onde as distracções seriam menos promptas e variadas,
-equivalia a adoecer de fastio e morrer de inanição.</p>
-
-<p>Imagine-se por isso em que estado lhe ficou o espirito depois da
-declaração de Jorge. Não havia meio de fugir ao pretendente, era
-preciso tragal-o. Esta perspectiva abateu-lhe totalmente o animo. Uma
-confidente, em taes situações, é um presente do ceu; mas Guiomar não a
-tinha, e se alguma pessoa lhe merecesse tal confiança, é certo ou quasi
-certo que lhe não diria nada. Suas dores eram altivas, as tristezas de
-seu coração tinham pudor. Espiritos desta casta ignoram a consolação
-que ha, nas horas de crise, em se repartirem com outro; triste, mas
-feliz ignorancia que lhes poupa muita vez o contacto de uma consciência
-aleivosa e ruim.</p>
-
-<p>No meio do longo reflectir, soaram-lhe na memoria as palavras de Luiz
-Alves; ella ouviu-as de novo, taes quaes elle as proferira, desde a
-phrase descortez até à expressão respeitosa. Uma era o commentario da
-outra, e ambas podiam explicar-lhe o caracter de Luiz Alves, se tivesse
-alguns elementos mais para conhece-lo; em todo o caso, era a ponta do
-veu levantada. Embora se lhe não podesse ler no fundo do espirito,
-via-se desde já qual era o seu methodo de acção.</p>
-
-<p>Qualquel outro homem, depois do effeito produzido pela primeira
-declaração, não se atreveria ou não lhe importaria tentar mais nada
-para desfazer o projecto da viagem. Mas o espirito de Luiz Alves tinha
-a obstinação do dogue. Era-lhe necessario que a familia da baroneza
-não saisse da côrte; este objecto havia de alcança-lo a todo o trance.
-Elle espreitava as occasiões, aproveitava as circumstancias, tinha a
-habilidade de intercalar o pedido em qualquer retalho de conversação,
-onde menos apropriado pareceria a qualquer outro. Jorge applaudia-o com
-as forças todas de que podia dispor o seu interesse. A baroneza oppunha
-ás suggestões do advogado a resistencia molle e atada de quem deseja
-aquillo mesmo que recusa.</p>
-
-<p>&mdash;O doutor é terrivel, dizia ella. Em se lhe mettendo uma cousa na
-cabeça, ninguem mais o tira dahi.</p>
-
-<p>&mdash;Justamente, é uma ideia fixa. Sem ideia fixa não se faz nada bom
-neste mundo.</p>
-
-<p>Guiomar sustentava a resolução da madrinha, posto não o fizesse a
-miudo, nem no mesmo tom secco e imperioso da primeira noite. Seu
-impulso era ser coherente; ao mesmo tempo não queria parecer aos olhos
-de Luiz Alves que lhe acceitava o concurso para obter o que aliás
-desejava de todo o coração; sería laval-o da primeira culpa.</p>
-
-<p>O argumento que mais influia no animo de todos, o que devera ter
-affastado a ideia de semelhante viagem, era o perigo de affrontar
-o cholera-morbus que por aquelle tempo percorria alguns pontos do
-interior. Um dia de manhã soube-se que em Cantagallo havia apparecido o
-terrível inimigo. Desta vez Luiz Alves triumphou sem dizer palavra; a
-baroneza recuou deante daquelle facto brutal.</p>
-
-<p>A viagem desfez-se pois, a contento de todos, salvo talvez de Mrs.
-Oswald, que receiava muito da mocidade casadeira da côrte, e dos
-bellos olhos castanhos de Guiomar. Mrs. Oswald temia ver surgir a cada
-passo um novo inimigo emboscado em algum theatro ou baile, ou quando
-menos na rua do Ouvidor, e não via que o inimigo novo podia ser que
-estivesse litteralmente ao pé da porta. A sagacidade da ingleza desta
-vez foi um tanto myope. A razão é que Luiz Alves, em todos aquelles
-seus preliminares, houve-se com habilidade; longe de procurar a moça,
-parecia nada haver alterado nos seus sentimentos, nem desejar mudar a
-especie de relações que até alli mantinha. Guiomar, entretanto, não
-podia deixar de comparar aquella especie de attenciosa indifferença que
-havia delle para ella, com as palavras que anteriormente lhe ouvira, e
-o resultado da comparação não lhe parecia muito claro.</p>
-
-<p>Na noite do mesmo dia em que ficou assentado defferir a viagem para
-melhores tempos, achavam-se em casa da baroneza algumas pessoas
-de fóra; Guiomar, sentada ao piano, acabava de tocar, a pedido da
-madrinha, um trecho de opera da moda.</p>
-
-<p>&mdash;Muito obrigada, disse ella a Luiz Alves que se approximára para
-dirigir-lhe um comprimento. Está alegre! Parece que é a satisfação de
-me haver mallogrado o maior desejo que eu tinha nesta occasião.</p>
-
-<p>&mdash;Não fui eu, disse elle, foi a epidemia.</p>
-
-<p>&mdash;Sua alliada, parece.</p>
-
-<p>&mdash;Tudo é alliado do homem que sabe querer, respondeu o advogado dando
-a esta phrase um tanto emphatica o maior tom de simplicidade que lhe
-podia sair dos labios.</p>
-
-<p>Guiomar curvou a cabeça e esteve alguns instantes a perpassar os dedos
-pelas teclas, em quanto Luiz Alves, tirando de cima do piano outra
-musica, dizia-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;Podia dar-nos este pedaço de Bellini, se quizesse.</p>
-
-<p>Guiomar pegou machinalmente na musica e abriu-a na estante.</p>
-
-<p>&mdash;Era então vontade sua? perguntou ella continuando o assumpto
-interropido do dialogo.</p>
-
-<p>&mdash;Vontade certamente, porque era necessidade.</p>
-
-<p>&mdash;Necessidade,&mdash;tornou ella começando a tocar, menos por tocar que por
-encobrir a voz; mas necessidade por que?</p>
-
-<p>&mdash;Por uma razão muito simples, porque a amo.</p>
-
-<p>A musica estacou. Guiomar erguera-se de um salto. Mas nem o gesto da
-moça, nem a sorpresa das outras pessoas, perturbou o advogado; Luiz
-Alves inclinou-se para o mocho, como a concertal-o, e voltando-se para
-Guiomar, disse-lhe graciosamente:</p>
-
-<p>&mdash;Pode sentar-se-agora; está seguro.</p>
-
-<p>Guiomar sentou-se outra vez muda, despeitada, a bater-lhe o coração
-como nunca lhe batera em nenhuma outra occasião da vida, nem de
-susto, nem de colera, nem... de amor, ia eu a dizer, sem que ella o
-houvesse sentido jamais. Não se demorou muito tempo alli; com a mão
-tremula folheou a musica que estava aberta na estante, deixou-a logo e
-levantou-se.</p>
-
-<p>Nestes derradeiros movimentos ninguem reparou; e se alguem pudesse
-reparar em alguma cousa, a moça tomara a peito desvanecer todas as
-suspeitas. A primeira impressão fora profunda, mas Guiomar tinha força
-bastante para dominar-se e fechar todo o sentimento no coração.</p>
-
-<p>O que se passou depois, quando, livre de olhos estranhos, pôde
-entregar-se a si mesma, isso ninguem soube, a não serem as paredes
-mudas do quarto, ou o raio de lua coado pelo tecido raro das cortinas
-das janellas, como a espreitar aquella alma faminta de luz. Soube-o,
-talvez, o seu espelho, quando no dia seguinte lhe reflectiu o rosto
-desfeito e os olhos quebrados. Se foi a meditação nocturna que os
-amolleceu e apagou, não o perguntou elle, naturalmente porque o sabia;
-mas talvez advertiu comsigo que se eram assim mais bellos, pediam outro
-rosto em que caissem melhor. O de Guiomar queria-os como elles eram,
-severos, firmes e brilhantes.</p>
-
-<p>A baroneza tambem não deixou de ver que a afilhada não accordara com o
-mesmo ar do costume; achou-a taciturna e distrahida.</p>
-
-<p>&mdash;Eu, madrinha? perguntou Guiomar simulando um sorriso de admiração.</p>
-
-<p>&mdash;Será engano de meus olhos.</p>
-
-<p>&mdash;Não é outra cousa; estou como sempre, como hontem, como amanhã.
-Passei a noite um pouco mal, é verdade; mas o que tive desapareceu
-inteiramente. A prova...</p>
-
-<p>Guiomar parou neste ponto, chegou-se á madrinha e deu-lhe um beijo.</p>
-
-<p>&mdash;A prova, continuou ella, é que ainda hoje me acha bonita, não é?</p>
-
-<p>&mdash;Creança! respondeu a baroneza, dando-lhe uma pancadinha na face.</p>
-
-<p>A tranquillidade da moça era simulada; apenas a madrinha voltou as
-costas, cobriu-se-lhe o rosto com o mesmo veu. Ella aprendera desde
-creança a disfarçar as suas preoccupações.</p>
-
-<p>Quanto a Luiz Alves, posto houvesse contado com o seu methodo cru e
-abrupto, saiu dalli sem plena certeza do resultado. Esta incerteza
-abalou-o mais do que elle suppunha; e foi, sem duvida, a primeira
-occasião em que sentiu que a amava devéras, ainda que o seu amor fosse
-como elle mesmo: placido e senhor de si. No dia seguinte, Estevão
-interrogou-o a respeito de Guiomar.</p>
-
-<p>&mdash;Creio, disse elle depois de reflectir alguns instantes,&mdash;creio que
-por ora não deves perder as esperanças todas.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h4><a name="XV" id="XV">XV</a></h4>
-
-
-<h4>Embargos de terceiro.</h4>
-
-
-<p>Durante tres dias deixou Luiz Alves de ir á casa da baroneza, estando
-aliás a morrer por isso. Entrava porém no plano esta ausencia; era das
-instrucções que elle mesmo dera ao seu coração; não havia remedio senão
-observal-as.</p>
-
-<p>No quarto dia recebeu um bilhete da baroneza que o comprimentava pela
-eleição. A mala do norte chegára, e com ella a noticia da victoria
-eleitoral. Estava Luiz Alves deputado; ia emfim dar a sua demão no
-fabricos das leis. Estevão foi o primeiro que o felicitou; era o antigo
-companheiro dos bancos da academia; tanto ou mais do que os outros
-devia applaudir aquella boa fortuna. Não lhe escondeu, entretanto a
-inveja que ella lhe mettia:</p>
-
-<p>&mdash;Deputado! suspirou elle. Oh! eu tambem podia ser deputado.</p>
-
-<p>Estevão dizia isto, como a creança deseja o dixe que vê no collo
-de outra creança,&mdash;nada mais. Eram os seus sonhos de outr'ora,
-que renasciam taes quaes eram, inconsistentes, vagos, prestes a
-dissiparem-se com o primeiro raio da manhã.</p>
-
-<p>Luiz Alves apressou-se a ir agradecer á baroneza a felicitação. Guiomar
-teve um leve estremecimento quando o viu, mas recebeu-o tranquilla e
-risonha, quasi indifferente. O advogado era habil; não a perseguiu com
-os olhos; sobre accordar a attenção das demais pessoas, era seguir o
-methodo commun. Elle não queria parecer-se com os outros.</p>
-
-<p>Guiomar, entretanto, observava-o a espaços, de revez, como a querer
-sorprehendel-o; a pouco e pouco, porém, o seu olhar foi sendo mais
-direito e firme. O de Luiz Alves era natural e egual como antes era,
-como era ainda agora com todos.</p>
-
-<p>Ao sair, junto á porta de uma sala, onde acaso a topou, Luiz Alves teve
-occasião de lhe dizer esta simples palavra:</p>
-
-<p>&mdash;Perdoou-me?</p>
-
-<p>A moça retirou a mão, que elle tinha presa na sua, e furtou o corpo, ao
-mesmo tempo que lhe caiam as palpebras.</p>
-
-<p>&mdash;Perdoou-me? repetiu-elle.</p>
-
-<p>Guiomar retirou-se sem dizer palavra. Luiz Alves esperou que ella
-desapparecesse e saiu. A moça, entretanto, ficou irritada por nada lhe
-ter respondido, sendo verdade que nada achou nem acharia talvez que lhe
-responder; mas arrependeu-se e pensou longo tempo naquillo.</p>
-
-<p>Quer dizer que o amava? Quer dizer que estava prestes a isso. A
-arraiada branqueava o ceu, tingiria depois o cimo dos montes,
-entornar-se-hia emfim pela encosta abaixo, até apparecer o sol,&mdash;o sol
-contemporaneo de Adão, e do ultimo homem que hade vir.</p>
-
-<p>Dalli a dias, entrando Luiz Alves em casa da baroneza, teve a boa
-fortuna de encontrar a moça sosinha, na sala do trabalho, d'onde a
-baroneza se ausentára cinco minutos antes. Mrs. Oswald achava-se fóra.
-Era a hora da tardinha; o dia estava prestes a afogar-se no seio da
-noite.</p>
-
-<p>Guiomar, mollemente sentada n'uma cadeira baixa, tinha um livro aberto
-sobre os joelhos e os olhos no ar. Luiz Alves sorprehendeu-a nessa
-attitude meditativa, mais bella do que nunca, porque assim, e áquella
-hora, e com o vestido meio escuro que lhe realçava a côr de leite da
-face, tinha um quê de gracioso e severo, ao mesmo tempo, que parecia
-buscado de proposito para recebe-lo.</p>
-
-<p>&mdash;Minha madrinha já vem, disse Guiomar logo depois de lhe estender a
-mão, que elle apertou e sentiu um pouco tremula.</p>
-
-<p>&mdash;Talvez daqui a cinco minutos, disse elle; é bastante para decidir o
-meu destino. Duas vezes lhe perguntei se me perdoara; pela terceira lhe
-peço que me responda; custa pouco uma unica palavra; custa menos ainda,
-um unico gesto.</p>
-
-<p>A moça olhou algum tempo para o livro que tinha diante de si. A manhã,
-porem, era já alta no coração de Guiomar, a claridade intensa, o sol
-quente e vivo, por que ella não olhou muito tempo para o livro, nem
-hesitou mais do que era natural e exigivel naquella occasião. Dous
-minutos depois fez o gesto, um gesto só, mas ainda mais eloquente do
-que se ella falasse,&mdash;estendeu-lhe a mão.</p>
-
-<p>Luiz Alves apertou-lh'a entre as suas.</p>
-
-<p>A commoção era natural em ambos; alli estiveram alguns instantes
-calados, elle com os olhos fitos nella, ella com os seus no chão. As
-mãos tocavam-se e os corações palpitavam unisonos. Decorreram assim
-cinco breves minutos. Ella foi a primeira que rompeu o silencio.</p>
-
-<p>&mdash;Um gesto, um só gesto, e é o meu destino que lhe entrego com elle,
-disse Guiomar olhando em cheio para o moço.</p>
-
-<p>&mdash;Ainda não. Se os nossos destinos se ligarem, estou convencido de que
-o meu amor, pelo menos, terá a virtude de a tornar feliz. Mas nada está
-feito ainda, e se eu fui breve e apressado na confissão, não o desejo
-ser na consagração que lhe peço.</p>
-
-<p>Luiz Alves calara-se; a moça olhava para elle como buscando entende-lo.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, continuou elle; melhor é que não ceda a um instante de
-enthusiasmo. Minha vida é sua; todo o meu destino está nas suas mãos...
-Comtudo, não quero sorprehender-lhe o coração neste momento; no dia em
-que me julgar verdadeiramente digno de ser seu esposo, ouvi-la-hei e
-seguila-hei.</p>
-
-<p>A resposta da moça foi apertar-lhe as mãos, sorrir, e embeber os seus
-olhos nos delle. O passo da baroneza interrompeu esta contemplação.</p>
-
-<p>Guiomar amava deveras. Mas até que ponto era involuntario aquelle
-sentimento? Era-o até o ponto de lhe não desbotar á nossa heroina a
-castidade do coração, de lhe não diminuirmos a força de suas faculdades
-affectivas. Até ahi só; dahi por diante entrava a fria eleição do
-espirito. Eu não a quero dar como uma alma que a paixão desatina e
-cega, nem faze-la morrer de um amor silencioso e timido. Nada disso
-era, nem faria. Sua natureza exigia e amava essas flores do coração,
-mas não havia esperar que as fosse colher em sitios agrestes e nus, nem
-nos ramos do arbusto modesto plantado em frente de janella rustica.
-Ella queria-as bellas e viçosas, mas em vaso de Sèvres, posto sobre
-movel raro, entre duas janellas urbanas, flanqueado o dito vaso e as
-ditas flores pelas cortinas de cachemira, que deviam arrastar as pontas
-na alcatifa do chão.</p>
-
-<p>Podia dar-lhe Luiz Alves este genero de amor? Podia; ella sentiu que
-podia. As duas ambições tinham-se adivinhado, desde que a intimidade
-as reuniu. O proceder de Luiz Alves, sobrio, directo, resoluto, sem
-desfallecimentos, nem demasias ociosas, fazia perceber á moça que elle
-nascera para vencer, e que a sua ambição tinha verdadeiramente azas,
-ao mesmo tempo, que as tinha ou parecia tel-as o coração. Demais, o
-primeiro passo do homem publico estava dado; elle ia entrar em cheio
-na estrada que leva os fortes á gloria. Em torno delle ia fazer-se
-aquella luz, que era a ambição da moça, a atmosphera, que ella
-almejava respirar. Estevão dera-lhe a vida sentimental,&mdash;Jorge a vida
-vegetativa; em Luiz Alves via ella combinadas as affeições domesticas
-com o ruido exterior.</p>
-
-<p>Uma vez entendidos, é difficil que dous corações se encubram, pelo
-menos aos olhos mais sagazes. Os de Mrs. Oswald eram dos mais finos.
-A ingleza percebeu dentro de pouco tempo que entre elles havia alguma
-cousa. Interrogar a moça era inutil, sobre perigoso; seria ir, de
-coração leve, em busca de odio, talvez. Todavia se ainda fosse possivel
-salvar tudo? Guiomar resistiria difficilmente a um desejo de madrinha;
-era possível vencel-a por esse lado.</p>
-
-<p>Mrs. Oswald concebeu então um projecto insensato, que lhe pareceu aliás
-excellente e de bom aviso. O desejo de servir a baroneza e levar uma
-ideia ao fim tapou-lhe os olhos de razão. Ella foi directamente a Jorge.</p>
-
-<p>&mdash;Sabe o que me está parecendo? disse ella. Parece-me que ha mouro na
-costa.</p>
-
-<p>&mdash;Mouro na costa! exclamou Jorge com uma tal expressão de desgosto, que
-era facil comprehender o fundo de suspeita já existente em seu espirito.</p>
-
-<p>&mdash;Nada menos, disse a ingleza; mas um mouro que se póde capturar.</p>
-
-<p>E a ingleza expoz um plano completo que o sobrinho da baroneza ouviu um
-tanto perplexo. O plano consistia em ir Jorge pedir a moça á baroneza,
-em presença della propria. A baroneza, que nutria o desejo de os ver
-casados, não deixaria de fazer pezar o seu voto na balança, e era muito
-difficil que a gratidão de Guiomar não decidisse am favor de Jorge.</p>
-
-<p>&mdash;A gratidão... e o interesse, continuou ella; Devemos contar tambem
-com o interesse, que é um grande conselheiro intimo. Ella não ha de
-querer sacrificar a affeição da madrinha, que para ella vale...</p>
-
-<p>&mdash;Oh! que triste lembrança! interrompeu Jorge, recuando diante da ideia
-de Mrs. Oswald.</p>
-
-<p>A ingleza sorriu,&mdash;e deixou por mão aquelle argumento; firmou-se porém
-no da affeição. Guiomar não se opporia a um desejo da madrinha; era
-urgente dar-lhe o golpe. Jorge não se atrevia a sorprehender por esse
-meio a acquiescencia da moça; mas acreditava na efficacia delle, e
-sobretudo receiava perder a causa. Uma vez que a vencesse, tudo podia
-confiar do tempo e do seu amor.</p>
-
-<p>O conselho foi seguido pontualmente. De noite, em presença da
-baroneza á hora da despedida,&mdash;porque elle hesitara a maior parte do
-tempo,&mdash;praticou Jorge aquelle acto insensato de declarar á moça que a
-amava e de lhe pedir a mão. A tia sorriu de contentamento, mas teve a
-prudencia de não proferir nada emquanto Guiomar, empallidecendo, nada
-dizia, porque nada achava que dizer.</p>
-
-<p>O silencio durou cerca de tres e quatro minutos, um silencio acanhado
-a vexado, em que nenhum delles se atrevia a reatar a conversação.
-A baroneza, pela sua parte, imaginava que os dous estavam emfim
-entendidos, e que a declaração era autorisada pela moça. O enleio de
-Guiomar não era dos que podessem dar cabimento a esta supposição; mas a
-boa senhora via com os olhos dos seus bons desejos.</p>
-
-<p>&mdash;Pela minha parte, declarou emfim a baroneza, não me opponho;
-estimaria muito que acabassem por ahi. Mas é negocio do coração; devo
-esperar a resposta de Guiomar.</p>
-
-<p>E voltando-sa para a afilhada:</p>
-
-<p>&mdash;Pensa e resolve, minha filha, disse ella; e se fores feliz, sel-o-hei
-ainda mais do que tu.</p>
-
-<p>Duas vezes pairou a negativa nos labios da moça; mas a lingua não se
-atrevia a repellir a palavra do coração. No fim de alguns instantes:</p>
-
-<p>&mdash;Reflectirei, respondeu ella beijando a mão a madrinha; e continuou
-voltando-se para Jorge:&mdash;Boa noite! Até amanhã.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h4><a name="XVI" id="XVI">XVI</a></h4>
-
-
-<h4>A confissão.</h4>
-
-
-<p>Na mesma noite em que Jorge, cedendo ás suggestões de Mrs. Oswald,
-tentava o ultimo recurso que no intender da ingleza havia, achava-se
-Luiz Alves em casa, commodamente sentado n'uma poltrona de couro,
-defronte da janella com os olhos no mar e o pensamento nas suas duas
-candidaturas vencidas. Meia noite estava a pingar; uma pessoa descia de
-um tibury e batia-lhe á porta.</p>
-
-<p>Era Estevão.</p>
-
-<p>Luiz Alves naturalmente admirou-se de o ver alli áquella hora; mas
-Estevão explicou-lhe tudo.</p>
-
-<p>&mdash;Venho passar meia hora comtigo, ou a noite toda se quizeres. Estava
-em casa aborrecido, a pensar... bem sabes em que...</p>
-
-<p>&mdash;Nella? interrompeu Luiz Alves.</p>
-
-<p>&mdash;Agora e sempre.</p>
-
-<p>Luiz Alves torceu o bigode, e olhou tres ou quatro vezes para o
-collega, em quanto este tirava o chapeu e dispunha-se a ir buscar uma
-cadeira para sentar-se ao pé do outro.</p>
-
-<p>&mdash;Estevão, disse Luiz Alves depois de algums instantes de reflexão, e
-voltando a poltrona para dentro, ouve-me primeiro e resolverás depois
-se ficas a noite ou se te vás embora immediatamente. Talvez escolhas
-este ultimo alvitre.</p>
-
-<p>&mdash;Vás falar-me de Guiomar?</p>
-
-<p>&mdash;Justamente.</p>
-
-<p>Estevão sentou-se defronte de Luiz Alves. Seu coração batia appressado;
-dissera-se que toda a sua vida pendia dos labios do amigo. Houve um
-instante de silencio.</p>
-
-<p>&mdash;Nenhuma.... nenhuma esperança então? murmurou Estevão.</p>
-
-<p>&mdash;Disseste a fatal palavra! exclamou Luiz Alves. Sim, não tens nenhuma
-esperança.</p>
-
-<p>&mdash;Mas.... como sabes?</p>
-
-<p>&mdash;Não me interrogues; eu não poderia dizer-te tudo o que ha. Poupa-me,
-ao menos, esse triste dever.</p>
-
-<p>Estevão sentiu arrasarem-se-lhe os olhos d'agua. Quiz falar, mas as
-palavras iam-lhe saindo envoltas em soluços.</p>
-
-<p>Luiz Alves fumava tranquillamente, acompanhando com os olhos os
-rolinhos de fumo que lhe fugiam da ponta do charuto. Este silencio
-durou cerca de dez minutos. O mar batia compassadamente na praia. A voz
-da onda e o latido de um cão ao longe eram os unicos sons que vinham
-quebrar a mudez daquella hora solemne para um desses dous homens que ia
-perder até o repouso da esperança.</p>
-
-<p>Estevão foi o primeiro que falou:</p>
-
-<p>&mdash;Ama a outro, não é? perguntou elle com a voz tremula.</p>
-
-<p>&mdash;Ama, respondeu surdamente Luiz Alves.</p>
-
-<p>Estevão ergueu-se e deu alguns passos na sala, sem dizer palavra, a
-morder a ponta do bigode, parando ás vezes, outras traduzindo com um
-gesto desordenado os sentimentos que lhe tumultuavam no coração. A dor
-devia ser grande, mas a manifestação já não era a mesma que o leitor
-lhe viu, dous annos antes, quando elle foi confiar ao amigo o primeiro
-desengano de Guiomar.</p>
-
-<p>&mdash;Parece-me que eu adivinhava isto mesmo, disse elle, emfim, parando
-em frente de Luiz Alves. Este desejo que me accometteu de vir aqui, a
-este hora, sem certeza de encontrar-te, era mais um beneficio do meu
-destino. Devia esperal-o. Que vida tem sido a minha, Luiz! Agarrei-me,
-nem sei por que, á esperança de ser amado por ella, de a vencer pela
-piedade, ou pelo remorso, ou por qualquer outro motivo que fosse,&mdash;o
-motivo importava pouco... O essencial é que ella me pagasse em ternura
-e amor todas as dores que curti, as lagrimas todas que tenho devorado
-em silencio... E era so essa esperança que ainda me dava forças... que
-me fazia crer feliz, como pode sel-o um desgraçado, como podia sel-o
-eu, que nasci debaixo de ruim estrella.... Oh! se tu souberas... Não,
-não sabes, nem ella tambem, ninguem sabe nem saberá nunca tudo quanto
-tenho padecido, tudo quanto....</p>
-
-<p>Interrompeu-se. Duas lagrimas, espremidas do fundo do coração,
-saltaram-lhe dos olhos e desceram-lhe rapidas a perder-se entre os
-cabellos raros e finos da barba. Elle sentiu que outras podiam vir, e
-foi sentar-se n'um sophá, meio voltado de costas para Luiz Alves. As
-outras vieram, porque o coração ainda as tinha para as dôres supremas;
-mas correram-lhe silenciosas, sem um soluço, sem uma queixa unica.</p>
-
-<p>Luiz Alves lavantara-se e chegara á janella. Seu espirito, apezar de
-frio e quieto, parecia agora um pouco alvoroçado. Não era dor; e não
-sei se lhe podia chamar remorso. Mau-estar apenas, e commiseração.
-O coração era capaz de affeições; mas, como ficou dito no primeiro
-capitulo, elle sabia rege-las, modera-las e guia-las ao seu proprio
-interesse. Não era corrupto nem perverso; tambem não se póde dizer
-que fosse dedicado nem cavalheresco; era, ao cabo de tudo, um homem
-friamente ambicioso.</p>
-
-<p>Estevão levantara-se outra vez e pegara no chapeu.</p>
-
-<p>&mdash;Vem cá, disse Luiz Alves entrando e indo ter com elle; vejo que estás
-mais homem do que antes. Resta o que sejas completamente; varre da
-memoria e do coração tudo o que possa referir-se...</p>
-
-<p>&mdash;Que remedio! interrompeu Estevão sorrindo amargamente; que remedio
-tenho eu se não esquece-la! Mas quando?</p>
-
-<p>&mdash;Mais breve talvez do que suppões...</p>
-
-<p>Luiz Alves não acabou; Estevão olhara para elle com um gesto de espanto
-e fora sentar-se outra vez.</p>
-
-<p>&mdash;Mais breve do que supponho! exclamou elle. Tu não tens coração: não
-tens sequer observação nem memoria. Não vês, não sentes que esta paixão
-é o sangue do meu sangue, a vida da minha vida? Esquece-la! Era bom
-se eu a pudesse esquecer; mas a minha má sina até essa esperança me
-arranca, porque este padecer intimo, constante, ha de ir commigo até á
-morte...</p>
-
-<p>Desta vez era Luiz Alves que passeava de um lado para outro. Em seu
-espirito despontava uma ideia, que elle examinava, a ver se a poria
-alli mesmo em execução. Era dizer-lhe tudo. Estevão viria a sabel-o
-mais tarde; melhor era que o soubesse logo e por elle. Ao mesmo tempo
-reflectia na exaltação dos sentimentos do rapaz; a dor certamente se
-lhe aggravaria, em sabendo que era elle o preferido de Guiomar. O
-coração, que perdoaria a um extranho, condemnaria ao amigo.</p>
-
-<p>Estevão, assentado, com os olhos no tecto, parecia entregue ás suas
-reflexões, mas só parecia, por que elle não pensava, evocava antigas
-memorias, fazia surgir diante de seus olhos a figura gentil de Guiomar,
-sentia-lhe o imperio dos bellos olhos castanhos, ouvia-lhe a palavra
-doce e avelludada entornar-se-lhe no coração. Não evocava só, creava
-tambem, pintava com a imaginação a felicidade que lhe poderia dar a
-moça, se entre todos os homens o escolhera, se elles dous vinculassem
-os seus destinos. Elle via-a ao pé de si, cingia-lhe o braço em volta
-da cintura, enchia-lhe de beijos os cabellos, tudo isto em meio de uma
-paisagem unica na terra, porque a abundancia da natureza cresceria ao
-contacto daquelle sentimento puro, casto e eterno. Não falo eu, leitor;
-transcrevo apenas e fielmente as imaginações do namorado; fixo nesta
-folha de papel os vôos que elle abria por esse espaço fóra, unica
-ventura que lhe era permittida.</p>
-
-<p>No meio dessas visões foi accordal-o Luiz Alves.</p>
-
-<p>&mdash;Tens razão de sentir, disse este; mas não gastes o coração, que ha
-maiores sorpresas na vida... Em todo o caso, deixa-me dizer-te que
-nenhuma razão tens de censura...</p>
-
-<p>&mdash;Censuro eu alguém?</p>
-
-<p>&mdash;Ha no amor um germen de odio que póde vir a desenvolver-se depois.
-Talvez chegues a accusala de te não querer; nesse dia reflecte que os
-movimentos do coração não estão nas mãos da vontade. Ella não tem culpa
-se outro lhe despertou o amor.</p>
-
-<p>&mdash;Ah! incumbiu-te da defesa!</p>
-
-<p>Luiz Alves sorriu; elle contava com a recriminação.</p>
-
-<p>&mdash;Não, não me incumbiu da defesa, disse elle; sou eu que a tomo por
-minhas mãos. Que defendo eu aqui se não a natureza, a razão, a logica
-dos sentimentos, dura e inflexivel como toda a outra logica? Ha no
-fundo das tuas palavras um sentimento de egoismo...</p>
-
-<p>&mdash;O amor não é outra cousa, respondeu Estevão sorrindo por sua vez.
-Queres que inda em cima lhe agradeça este desespero? Queres que vá
-apertar a mão ao homem que a soube vencer?</p>
-
-<p>Luiz Alves mordeu a ponta do labio e acercou-se da janella. Quando ia
-a voltar para dentro ouviu um rumor na janella ao pé, a primeira da
-casa da baroneza. Luiz Alves deu um passo mais. Não viu ninguem; viu
-apenas o resto de um vestido que fugia e um objecto que lhe caia aos
-pés. Inclinou-se a apanhal-o. Era uma grande folha de papel envolvendo,
-para lhe dar mais peso, outra folha pequena dobrada em quarto. Luiz
-Alves aproximou-se da luz, e leu rapidamente o que alli vinha escripto.
-Leu, metteu o papel na algibeira e encaminhou-se disfarçadamente para a
-janella. Ninguem; a casa da baroneza dormia.</p>
-
-<p>Quando voltou para dentro, Estevão tinha-se levantado. Elle vira cair
-o papel, apanhal-o e lel-o Luiz Alves. Não entendeu nada do que se
-passara; mas seu olhar como que pedia uma explicação.</p>
-
-<p>Luiz Alves foi direito ao fim.</p>
-
-<p>&mdash;Estevão, disse elle, vás saber a verdade toda; não poderia
-occultar-te o que se ha passado, nem conviria talvez que tu a soubesses
-por boca de outro. Guiomar podia amar-te, eras digno della, e ella
-digna de ti; mas a natureza não os fez um para o outro. São duas almas
-excellentes que seriam infelizes unidas. Quem ha aqui que censurar?
-Mas se a natureza explica o sentimento della, egualmente explica o de
-um terceiro, que sou eu. Tu confiaste-me as dores e as esperanças de
-teu coração; era conhecer toda a minha amisade e a profunda estima que
-sempre te consagrei. Mas nem tu nem eu contavamos commigo; por que
-tambem eu tenho coração, e os prestigios da belleza tambem falam á
-minha alma. Não a pude ver a frio. A paixão obscureceu-me. Nesta minha
-felicidade de amar e ser amado, acredita que sou alguma cousa infeliz,
-por que ha lagrimas tuas, ha o teu padecer longo e cruel, que eu
-imagino e deploro. A confissão é franca; não te falo em arrependimento,
-porque são actos do coração e não da consciência, que essa é pura e
-honrada. E depois desta exposição fiel, cuido que lastimarás commigo o
-encontro em que o acaso ou a má sorte nos reuniu a todos tres; mas não
-me accusarás nem me recusarás a tua velha estima. Falo só da estima; a
-amisade, creio que não poderá ser a mesma. Mas presarás o meu caracter.
-Pela minha parte, nem uma nem outra cousa perece; sei o que vales. Não
-sei aonde nos lançará a onda do destino amanhã. Pela ultima vez, porém,
-espero que apertarás a mão do teu amigo.</p>
-
-<p>Luiz Alves concluíra estendo-lhe a mão. Estevão olhou para elle, mas
-não disse uma só palavra, não fez um gesto unico: caminhou para a porta
-e saiu.</p>
-
-<p>&mdash;Estevão! gritou Luiz Alves.</p>
-
-<p>Mas só lhe respondeu o rumor dos pés que desciam, e pouco depois o do
-tilbury que rolava surdamente na terra humida da praia.</p>
-
-<p>Luiz Alves levantou seccamente os hombros; chegou-se á luz e releu o
-escripto.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h4><a name="XVII" id="XVII">XVII</a></h4>
-
-
-<h4>A carta.44814481448144814481448144814481448144814481</h4>
-
-
-<p>Não era preciso reler o papel para entendel-o; mas olhos amantes
-deliciam-se com letras namoradas. O papel continha uma palavra
-unica:&mdash;<i>Peça-me</i>,&mdash;escripta no centro da folha, com uma lettra fina,
-elegante, feminina. Luiz Alves olhou algum tempo para o bilhete,
-primeiramente como namorado, depois como simples observador. A lettra
-não era tremula, mas parecia ter sido lançada ao papel em hora de
-commoção.</p>
-
-<p>Desta observação passou Luiz Alves a uma reflexão muito natural.
-Aquelle bilhete, pouco conveniente em quaesquer outras circumstancias,
-estava justificado pela declaração que elle proprio fizera á moça
-alguns dias antes, quando lhe pediu que o conhecesse primeiro, e que
-no dia em que o julgasse digno de o tomar por esposo, elle a ouviria e
-acompanharia. Mas se isto era assim em relação ao bilhete, não o era em
-relação á hora. Que motivo obrigaria a moça a deitar-lhe da janella, á
-meia noite, aquelle papel decisivo, eloquente na mesma sobriedade com
-que o escrevêra?</p>
-
-<p>Luiz Alves concluiu que havia alguma razão urgente, e portanto, que
-era preciso acudir á situação com os meios da situação. Quanto á razão
-em si, não a pôde descobrir. Occorreu-lhe o facto, aliás patente, da
-côrte que o sobrinho da baroneza fazia a Guiomar, mas ignorava as
-circumtancias que lhe eram relativas, e não pôde passar além.</p>
-
-<p>Não direi que Luiz Alves gastasse a noite a cavar fundo no terreno das
-conjecturas vagas. Não era homem que perdesse tempo em cousas inuteis;
-e nada mais inútil naquella occasião do que tentar explicar o que
-nenhuma explicação podia ter para elle. O que resolveu foi obedecer
-ao recado da moça; pedi-la sem hesitação nem preambulo. Mas se o caso
-lhe não produziu insomnia, não deixou de lhe estender a vigilia, além
-da hora usual, como era de geito naquella occasião solemne, sobretudo,
-tratando-se de creatura que por aquelles tempos era a inveja e a
-cobiça de muitos olhos. Luiz Alves não era, como Estevão, um adoravel
-scismador, não se nutria de imaginações e devaneios, alimento que
-funde pouco ou nada, mas scismou algum tempo, embebeu-se uma hora
-na contemplação ideial da mulher que elle soubera escolher. O somno
-chegou, e o devaneio confundiu-se com o sonho.</p>
-
-<p>Guiomar dormiria tão repousadamente como elle? Dormia; a noite, porém,
-fora-lhe muito mais agitada e amarga, como era natural depois da
-declaração de Jorge e das insinuações da madrinha.</p>
-
-<p>A moça recolhera-se ao quarto, logo depois da declaração. As pessoas
-da casa nada puderam ler-lhe no rosto, salvo a pallidez repentina e o
-rubor que se lhe seguiu: mas, logo que ella se achou só, deu toda a
-expansão aos sentimentos que até alli pudera conter.</p>
-
-<p>O primeiro delles era o despeito; Guiomar sentia-se humilhada com
-aquella declaração, assim feita, de emboscada e sobresalto, para
-arrancar-se-lhe um consentimento que o coração e a indole repelliam.
-Nenhuma consulta, nenhuma autorisação prévia; parecia-lhe que a
-tratavam como ente absolutamente passivo, sem vontade nem eleição
-propria, destinado a satisfazer caprichos alheios. As palavras da
-madrinha desmentiam esta supposição; mas, a noticia que ella tinha
-da resolução da baroneza, neste negocio, diminuia muito o valor de
-taes palavras. Se era uma campanha, como dissera Mrs. Oswald, queriam
-constrangel-a com apparencias de moderação, e o tempo que lhe deixavam
-para reflectir era-o realmente para considerar, sosinha comsigo, na
-necessidade de pagar os benefícios que recebêra.</p>
-
-<p>Não a accusem de ter feito estas reflexões, logo que entrou no quarto,
-com os olhos scintillantes e os labios frios de colera. Eram naturaes;
-primeiramente porque suppunha que o seu casamento com Jorge estava
-deliberado e se realisaria, quaesquer que fossem as circumstancias;
-depois, porque a alma della era melindrosa; não esquecia os beneficios
-recebidos, mas quizera que lh'os não lembrassem por meio de uma
-violencia: fazel-o, era o mesmo que lançar-lh'os em rosto.</p>
-
-<p>&mdash;Não! murmurava emfim a moça, forçar-me, reduzir-me á condição de
-simples serva, nunca!</p>
-
-<p>Mas esta colera apaziguou-se, e o coração venceu o coração. Guiomar
-recordou a constante ternura da baroneza para com ella, a sollicitude
-com que lhe satisfazia os seus menores desejos, que eram alli ordens,
-e não combinava tamanho amor com a supposta violencia que lhe queria
-fazer. Não tardou em arrepender-se das palavras incoherentes que lhe
-haviam fugido, e dos sentimentos maus que attribuíra ao coração da
-baroneza. Cruzou as mãos no peito e ergueu o pensamento ao ceu, como a
-pedir-lhe perdão. Guiomar, em meio das seducções da vida, que tantas
-eram para ella e de todo lhe levavam os olhos, não perdera o sentimento
-religioso, nem esquecera o que lhe havia ensinado a fé ingenua e pura
-de sua mãe.</p>
-
-<p>A cólera acabára, mas veiu depois a luta entre a gratidão e o
-amor,&mdash;entre o noivo que lhe propunha a affeição da madrinha e o que
-o seu proprio coração escolhera. Ella nem ousava tirar as esperanças
-á baroneza, nem immolar as suas proprias,&mdash;e uma de duas cousas era
-preciso que fizesse naquella solemne occasião. O que sentiu e pensou
-foi longo e cruel; mas se tal duello podia travar-se-lhe na alma,
-não era duvidoso o resultado. O resultado devia ser um. A vontade e
-a ambição, quando verdadeiramente dominam, podem lutar com outros
-sentimentos, mas hão de sempre vencer, porque ellas são as armas do
-forte, e a victoria é dos fortes. Guiomar tinha de decidir por um dos
-dous homens que lhe propunha o seu destino; elegeu o que lhe falava ao
-coração.</p>
-
-<p>A resposta, porém, não podia a moça demoral-a nem esquival-a, não
-convinha, talvez, prolongar a luta e a duvida. Quando isto pensou,
-veiu-lhe ao espirito uma ideia decisiva, a de confessar tudo á
-madrinha. Hesitou, porém, entre fazel-o ella propria ou por boca
-de Luiz Alves, cujas palavras, apontadas acima trazia escriptas na
-memoria. Preferia este meio; mas não lhe bastava preferil-o, era mister
-realisal-o, e para isso só dous modos tinha, escrever-lhe ou falar-lhe.
-O segundo podia não ser tão prompto, e talvez falhasse occasião
-apropriada; adoptou o primeiro, e recuou logo. A carta seria mandada
-por um famulo, mas o espirito de Guiomar era a tal ponto sobre si que
-repelliu semelhante intervenção. A janella estava aberta; dalli viu luz
-na sala de Luiz Alves e a sombra do moço, que passeava de um lado para
-outro. Occorreu-lhe então a ideia que poz por obra, conforme ficou dito
-no capitulo anterior.</p>
-
-<p>Tal é a historia daquella palavra escripta rapidamente n'uma folha
-de papel. Apesar da declaração de Luiz Alves e das circumstancias
-em que a moça se achou, o leitor facilmente comprehenderá que ella
-não a escreveu sem pelejar comsigo mesma, sem vacillar muito entre a
-repugnancia e a necessidade. Afinal foram vencidos os escropulos, que é
-tanta vez o seu destino delles, e força é dizer que não os vencem nunca
-de graça, porque elles falam, arrazoam, obstam o mais que podem, mas
-é vulgar passarem-lhes por cima. A moça entretanto, apenas lançara a
-carta, arrependeu-se; a dignidade teve remorsos; a consciência quasi a
-accusava de uma acção vil. Era tarde; a carta chegára a seu destino.</p>
-
-<p>Na manhã seguinte, a baroneza acordou mais alegre que de costume.
-Cuidara ver em Guiomar, na noite anterior, alguma cousa que só lhe
-pareceu enleio natural da situação. Guiomar erguera-se tarde; a
-manhã estava chuvosa e a madrinha não deu o seu passeio. A moça foi
-beijar-lhe a mão e a face, como costumava, e receber della o osculo
-materno. O rosto parecia cançado mas um veu de affectada alegria
-disfarçava-lhe a expressão natural, á semelhança das posturas de
-toucador, de maneira que a baroneza, pouco ledora de physionomias, não
-discerniu naquella a verdade da impostura. Impostura, digo eu, devendo
-entender-se que é honesta e recta, porque a intenção da moça não era
-mais do que não amargurar a madrinha, e tirar-lhe motivo a qualquer
-afflicção antecipada.</p>
-
-<p>&mdash;Dormiu bem a minha rainha de Inglaterra? perguntou Mrs. Oswald,
-pondo-lhe familiarmente as mãos nos hombros.</p>
-
-<p>&mdash;A sua rainha de Inglaterra não tem coroa, respondeu Guiomar comum
-sorriso contrafeito.</p>
-
-<p>Pela volta do meio dia, recebeu a baroneza uma carta de Luiz Alves.
-Abriu-a e leu-a. O advogado pedia-lhe a mão de Guiomar. Poucas linhas,
-cortezes, simplices, naturaes, feitas por quem parecia senhor da
-situação.</p>
-
-<p>&mdash;Mrs. Oswald, disse a baroneza á sua dama de companhia que se achava
-na mesma sala, leia isto.</p>
-
-<p>A ingleza obedeceu.</p>
-
-<p>&mdash;Isto não quer dizer nada, observou ella depois de alguns instantes. É
-um pretendente mais; devemos crer, porém, que são muitos, e que se os
-outros não lhe escrevem cartas destas, é por que são menos affoutos.
-A Sra. baroneza pensa que os olhos de sua afilhada são innocentes?
-continuou a ingleza sorrindo. Eu cuido que devem estar carregados de
-crimes, e que ha mortos...</p>
-
-<p>&mdash;Mas não vê, Mrs. Oswald, interrompeu a baroneza, que esse homem
-parece estar autorisado?</p>
-
-<p>Mrs. Oswald calou-se como quem reflectia. Logo depois expoz uma serie
-de argumentos e considerações, se não graves em substancia, pelo menos
-nas roupas com que ella os vestia, umas roupas seriamente britannicas,
-como as não talharia melhor a melhor tesoura da camara dos communs.
-Toda ella dava ares de um argumento vivo e sem réplica. Havia em seus
-cabellos, entre louro e branco, toda a rigidez de um syllogismo; cada
-narina parecia uma ponta de um dilemma. A conclusão de tudo é que
-nada estava perdido, e que a felicidade de Jorge era cousa não só
-possivel, mas até provavel, uma vez que a baroneza mostrasse,&mdash;era o
-essencial,&mdash;certa resolução de animo muito util e até indispensavel
-naquella occasião. Mrs. Oswald offerecia-se para ir chamar a moça
-immediatamente.</p>
-
-<p>&mdash;Pois vá, vá, disse a baroneza.</p>
-
-<p>A ingleza saiu d'alli e foi ter com Guiomar. Quando a viu de longe
-compoz um sorriso, e Guiomar, vendo-a sorrir, sentiu como que um
-movimento interno de repulsa.</p>
-
-<p>&mdash;Venho buscal-a, disse Mrs. Oswald, para uma cousa que a senhora está
-longe de imaginar.</p>
-
-<p>Guiomar interrogou-a com olhos.</p>
-
-<p>&mdash;Para casar!</p>
-
-<p>&mdash;Casar! exclamou Guiomar sem comprehender a intenção da mensageira.</p>
-
-<p>&mdash;Nada menos, respondeu esta. Admira-se, não? Tambem eu; e sua madrinha
-egualmente. Mas ha quem tenha o mau gosto de apaixonar-se por seus
-bellos olhos, e a affronta de a vir pedir, como se se podissem as
-estrellas do ceu...</p>
-
-<p>Guiomar comprehendeu de que se tratava. Olhou desdenhosamente para a
-ingleza, e disse em tom secco e breve:</p>
-
-<p>&mdash;Mas, conclua, Mrs. Oswald.</p>
-
-<p>&mdash;A senhora baroneza manda chamal-a.</p>
-
-<p>Guiomar dispoz-se a ir ter com a madrinha; Mrs. Oswald fel-a parar um
-instante, e com a mais meliflua voz que possuia na escala da garganta,
-disse:</p>
-
-<p>&mdash;Toda a felicidade desta casa está em suas mãos.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h4><a name="XVIII" id="XVIII">XVIII</a></h4>
-
-
-<h4>A escolha.</h4>
-
-
-<p>Mrs. Oswald tinha falado de mais. A baroneza não a incumbira de dizer á
-afilhada a razão porque a mandava chamar. Aconteceu, porém, que aquella
-indisçrição não foi a unica. Mrs. Oswald, em vez de esquivar-se e
-deixar que entre Guiomar e a baroneza fosse tratado o assumpto que as
-ia reunir, cedeu á curiosidade, e acompanhou a moça.</p>
-
-<p>A baroneza estava sentada, entre duas janellas, com a carta aberta nas
-mãos, tão attenta em relel-a, que não ouviu o rumor dos pés de Guiomar
-e de Mrs. Oswald.</p>
-
-<p>&mdash;Madrinha chamou-me? perguntou Guiomar parando em frente della.</p>
-
-<p>A baroneza ergueu a cabeça.</p>
-
-<p>&mdash;Ah! É verdade; sim; chamei-te. Senta-te aqui.</p>
-
-<p>Guiomar arrastou a cadeira que ficava mais proxima e sentou-se ao pé
-da baroneza. Esta, entretanto, havia dobrado lentamente a carta, e
-tinha os olhos no chão, como a procurar por onde começaria. Quando os
-levantou deu com a ingleza. Ia já a falar, mas estacou. A affeição que
-lhe tinha não impediu que achasse demasiada familiaridade a presença de
-Mrs. Oswald em semelhante occasião. Esperou alguns instantes; mas como
-a ingleza parecesse inteiramente distrahida:</p>
-
-<p>&mdash;Mrs. Oswald, disse a baroneza, vá ver se ja deram de comer aos
-passarinhos.</p>
-
-<p>A ingleza percebeu que estes passarinhos, naquelle caso, eram uma
-pura metaphora, e que a baroneza nada mais fazia do que pedir-lhe
-delicadamente que se fôsse embora. Todavia, não se deu por achada.</p>
-
-<p>&mdash;Parece-me que não, disse ella; vou já saber disso.</p>
-
-<p>&mdash;Olhe, disse a baroneza quando ella já ia a meio caminho; encoste-me
-essas portas, e dê ordem para que ninguem nos interrompa.</p>
-
-<p>A ingleza obedeceu e saiu. A careta que fez ao sair ninguem lh'a pôde
-ver, e não se perdeu nada.</p>
-
-<p>As duas ficaram sós.</p>
-
-<p>&mdash;Senta-te aqui, Guiomar, disse a baroneza indicando um banquinho que
-lhe ficava aos pés.</p>
-
-<p>Guiomar deixou a cadeira e foi sentar-se no banquinho, pousando
-amorosamente os braços nos joelhos da madrinha. Esta cingiu-lhe a
-cabeça com as mãos, e assim esteve longo tempo sem falar, mas eloquente
-naquella mudez, em que a palavra pertencia ao coração. Ambas estavam
-commovidas; e Guiomar, de envolta com um suspiro, murmurou este unico e
-doce nome:</p>
-
-<p>&mdash;Mamãe!</p>
-
-<p>Era a primeira vez que ella lhe dava este nome, e tão fundo lhe calou
-na alma á baroneza que a resposta foi cobril-a de beijos.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, tua mãe, disse a madrinha; a que te deu o ser não te amaria mais
-do que eu. Tens a alma e a ternura da filha que o ceu me levou, e se
-todas as mães que perdem filhos podessem substituil-os do mesmo modo,
-desapparecia do mundo a maior e mais cruel dor que ha nelle...</p>
-
-<p>A resposta de Guiomar foi apertar-lhe as mãos e beijar lh'as. Seguiu-se
-uma pausa, em que a commoção a pouco e pouco desappareceu, e a baroneza
-olhou para a carta de Luiz Alves, amarrotada pelo gesto de Guiomar.</p>
-
-<p>&mdash;Guiomar, disse ella emfim, já reflectiste no pedido de hontem á noite?</p>
-
-<p>A moça esperava que a madrinha lhe falasse no pedido de Luiz Alves; a
-pergunta da baroneza desnorteou-a um pouco. Sua intelligencia, porém,
-era clara e sagaz; a resposta foi outra pergunta:</p>
-
-<p>&mdash;Uma noite será bastante para decidir de todo o resto da vida? disse
-ella sorrindo.</p>
-
-<p>&mdash;Tens razão, minha filha; mas a pergunta era natural da parte de quem
-quer ver realizado um desejo. Jorge pediu-te em casamento. Sabes que é
-um excellente caracter?</p>
-
-<p>&mdash;Excellente, respondeu a moça.</p>
-
-<p>&mdash;Uma boa alma, continuou a baroneza, e um moço distincto. Parece
-gostar muito de ti, segundo disse hontem, não? É natural; só me admira
-que não te amem muitos mais.</p>
-
-<p>A baroneza parou; Guiomar brincava com as franjas da manga sem se
-atrever a levantar os olhos.</p>
-
-<p>&mdash;Deves saber, continuou a baroneza,&mdash;que eu estimaria ver que este
-casamento se effectuasse; estou convencida de que te faria feliz, e
-a elle também, pelo menos tanto quanto é possivel julgar das cousas
-presentes... Que diz o teu coração?</p>
-
-<p>E como Guiomar não respondesse logo:</p>
-
-<p>&mdash;Ah! esquecia-me do que me disseste ha pouco. Uma noite não é bastante
-para decidir de todo o resto da vida. Bem; ouvir-me-has mais duas
-cousas. A primeira é que... Lê tu mesma esta carta.</p>
-
-<p>A baroneza deu a carta a Guiomar, que a abriu e leu o pedido que Luiz
-Alves fazia de sua mão. Em quanto ella percorria com os olhos as poucas
-linhas escriptas, a madrinha parecia observa-la fixamente, como a
-tentar ler-lhe no rosto a impressão que o pedido lhe fazia, se espanto,
-se satisfação. Não houve espanto nem satisfação apparente; Guiomar leu
-a carta e entregou-a á madrinha.</p>
-
-<p>&mdash;Leste? É a primeira cousa que eu queria dizer-te. O Dr. Luiz Alves
-pede-te em casamento; tens de escolher entre elle e Jorge. A segunda
-cousa é que dos dous pretendentes Jorge é o que meu coração prefere;
-mas não sou eu que me caso, és tu; escolhe com plena liberdade aquelle
-que te falar ao coração.</p>
-
-<p>Guiomar erigiu o busto e olhou direitamente para a madrinha, com taes
-signaes de espanto no rosto, que esta não poude deixar de lhe perguntar:</p>
-
-<p>&mdash;Que tens?</p>
-
-<p>A moça não respondeu; quero dizer não lhe respondeu com os labios;
-travou-lhe da mão e apertou-a entre as suas, e ficou a olhar para
-ella como a reflectir. A expressão de seu rosto passara do espanto á
-satisfação e desta a uma cousa que parecia a um tempo indignação e asco.</p>
-
-<p>&mdash;Oh! madrinha! exclamou Guiomar, porque se não entenderam logo os
-nossos corações? Não havia mister pôr de permeio um espirito importuno
-e desconsolador. Se eu advinhara essas palavras que acabou de dizer,
-não teria padecido metade do que me fazem padecer ha longos dias...</p>
-
-<p>&mdash;Padecer?</p>
-
-<p>&mdash;Padecer; nada menos. Mas deixemos isso. Foi o seu coração que falou
-e o meu que ouviu; posso agora dizer-lhe francamente o que sinto, sem
-receio de a affligir.</p>
-
-<p>Não precisava dizer mais nada; a escolha que ella ia fazer estava
-já indicada pelo menos. Entendeu-o a baroneza, que fechou o rosto e
-suspirou. A afilhada ouviu-lhe o suspiro, e percebeu a tristeza subita;
-arrependeu-se de ter ido tão longe.</p>
-
-<p>&mdash;Percebo, respondeu a baroneza, queres dizer que dos dous pretendentes
-escolhes o Dr. Luiz Alves?</p>
-
-<p>A moça conservou-se calada; a madrinha olhava para ella com uma
-expressão de anciedade que a affligiu.</p>
-
-<p>&mdash;Fala, repetiu a baroneza.</p>
-
-<p>&mdash;Escolho... o Sr. Jorge, suspirou Guiomar depois de alguns instantes.</p>
-
-<p>A baroneza estremeceu.</p>
-
-<p>&mdash;Falas serio? Não creio; não é esse o sentimento do teu coração. Vê-se
-que não é. Queres illudir-me e a ti também. Percebo que o não amas; não
-o amaste nunca. Mas amas ao outro, não é? Que tem isso? Não me dá o
-prazer que eu teria se... Que importa, se fores feliz? A tua felicidade
-está acima das minhas preferencias. Era um sonho meu; desejava-o com
-todas as forças; faria o que pudesse para alcançal-o; mas não se
-violenta o coração,&mdash;um coração, sobretudo, como o teu! Escolhes o
-outro? Pois casarás com elle.</p>
-
-<p>Vê o leitor que a palavra esperada, a palavra que a moça sentia vir-lhe
-do coração aos labios e querer rompel-os, não foi ella quem a proferiu,
-foi a madrinha; e se leu attento o que precede verá que era isso mesmo
-o que ella desejava. Mas porque o nome de Jorge lhe roçou os lábios?
-A moça não queria illudir a baroneza, mas traduzir-lhe infielmente
-a voz de seu coração, para que a madrinha conferisse, por si mesma,
-a traducção com o original. Havia nisto um pouco de meio indirecto,
-de tactica, de affectação, estou quasi a dizer de hipocrisia, se não
-tomassem á má parte o vocabulo. Havia, mas isto mesmo lhes dirá que
-esta Guiomar, sem perder as excellencias de seu coração, era do barro
-commum de que Deus fez a nossa pouco sincera humanidade; e lhes dirá
-tambem que, apezar de seus verdes annos, ella comprehendia já que as
-apparencias de um sacrificio valem mais, muita vez, do que o proprio
-sacrificio.</p>
-
-<p>A baroneza acabára de falar. A alegria do rosto de Guiomar confirmou
-a sua primeira impressão, e se a escolha era contraria ao que ella
-desejava, a satisfação da afilhada pagou-lhe tudo quanto ella ira
-perder. Era assim aquella alma de mãe; boa, dedicada e generosa.</p>
-
-<p>&mdash;Oh! madrinha! obrigada! exclamou a moça. Não me fica odiando?</p>
-
-<p>&mdash;Oh! exclamou a baroneza com um tom de reprehensão.</p>
-
-<p>E puxou-a para si, e abraçou-a com amor. Guiomar correspondeu ao
-movimento, e as duas confundiram as suas alegrias intimas e affeições
-sinceras.</p>
-
-<p>Mrs. Oswald viu-as dahi a pouco, risonhas e entendidas. Era facil
-concluir qual dos dous pretendentes vencera; Guiomar não receberia de
-tão boa cara o sobrinho da baroneza. Tudo estava acabado; e talvez que
-a sua propria pessoa padecêra naquelle lance ultimo. A baroneza pedira
-a Guiomar que lhe explicasse a que padecimentos alludíra, mas a moça
-preferiu não dizer nada, não só por não affligir a madrinha, como por
-não dar um aspecto de rivalidade á situação entre ella e Mrs. Oswald.</p>
-
-<p>A escolha estava feita, o consentimento dado. A baroneza respondeu
-nessa mesma tarde ao pretendente feliz. Estevão teria manifestado
-ruidosamente toda a alegria que semelhante resposta lhe causára; sua
-alma apaixonada e exuberante contaria a Deus e aos homens aquella
-immensa fortuna; Luiz Alves encerrou o prazer, aliás grande, dentro de
-si; pensou na moça e no futuro alguns instantes, mas não falou delles a
-ninguém.</p>
-
-<p>A baroneza escreveu nesse mesmo dia ao sobrinho, communicando-lhe a
-resposta de Guiomar. Os leitores não terão difficuldade de admittir que
-o coração de Jorge não sentiu o golpe profundamente, mas sentiu alguma
-cousa. Não foi nessa noite á casa da tia; não foi tembem na segunda; na
-terceira chegou a descer as escadas; na quarta embicou para Botafogo.</p>
-
-<p>&mdash;Tudo está acabado, disse-lhe a tia verdadeiramente sentida.</p>
-
-<p>&mdash;Acabado! suspirou Jorge.</p>
-
-<p>&mdash;Agora, é preciso animo; espero que serás homem.</p>
-
-<p>&mdash;Oh! serei homem! suspirou outra vez Jorge.</p>
-
-<p>E dous suspiros, arrancados do peito de um homem tão grave, deviam ser
-por força dous suspiros gravissimos, como facilmente acredita o leitor.</p>
-
-<p>Effectivamente a physionomia do moço não tinha abatimento nem
-afflicção; não a amarrotava o menor vestigio de noite mal dormida,
-menos ainda de lagrimas enxutas. Alegre não era, mas grave e austera,
-como elle a trazia sempre, a contrastar com o retezado do bigode.</p>
-
-<p>A baroneza imaginou comtudo que a dor do sobrinho devia te-lo
-mortificado muito; apertou-lhe as mãos com ternura e disse-lhe ainda
-algumas palavras de animação.</p>
-
-<p>Imagine-se o que seria o primeiro encontro de Jorge com Guiomar. A moça
-estava serena, talvez risonha e até compassiva. Se tivesse de casar com
-elle odiara-o de certo; agora já lhe perdoava o amor. Jorge pela sua
-parte não deixou de ficar um tanto abalado, em parte commoção, em parte
-constrangimento, sendo porém o constrangimento maior do que a commoção.
-Nos labios pairou-lhe um desses sorrisos em que o olhar penetrante do
-povo ou a sua imaginação pintoresca descobriu a côr amarella. Se outro
-fosse o aspecto, é provavel que ella lhe conservasse, ao menos, o
-respeito. Mas aquelle sorriso perdeu-o de todo no animo de Guiomar.</p>
-
-<p>Na primeira occasião que se lhe offereceu, expandiu-se Jorge com Mrs.
-Oswald.</p>
-
-<p>&mdash;Perdeu-se tudo... murmurou elle.</p>
-
-<p>A ingleza não respondeu.</p>
-
-<p>Jorge continuou ainda a falar, e a ingleza e ouvir, mas a ouvir só, e a
-querer divertil-o daquelle assumpto.</p>
-
-<p>&mdash;Tudo se perdeu, disse emfim o sobrinho da baroneza, talvez por culpa
-sua.</p>
-
-<p>&mdash;Minha? perguntou Mrs. Oswald.</p>
-
-<p>&mdash;Sua.</p>
-
-<p>&mdash;Mas...</p>
-
-<p>Jorge hesitou um instante.</p>
-
-<p>&mdash;Não mostrou calor sufficiente, disse elle emfim.</p>
-
-<p>&mdash;Que quer? disse Mrs. Oswald. O coração não se pode dominar, nem ha
-meio de impor-lhe um sentimento. D. Guiomar é uma santa creatura, ama
-devéras ao seu rival; ha nada mais justo do que casa-los?</p>
-
-<p>&mdash;De maneira que...</p>
-
-<p>&mdash;De maneira que tudo era licito fazer na supposição de que ella não
-amava a outro, mas uma vez que ama...</p>
-
-<p>Luiz Alves, na noite do dia em que recebeu a carta, foi á casa da
-baroneza, que o recebeu com o melhor de seus sorrisos. A felicidade
-de Guiomar fazia-a completamente feliz; nem iras, nem resentimentos,
-como annunciara Mrs. Oswald. Todo o castello de cartas caíra por terra,
-desde que a sinceridade da baroneza interveiu.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h4><a name="XIX" id="XIX">XIX</a></h4>
-
-
-<h4>Conclusão.</h4>
-
-
-<p>Marcado o casamento para dous mezes depois, todo o tempo de intervallo
-foi despendido pelos noivos naquelle deleitoso viver, que já não é o
-colloquio furtivo do simples namoro, nem é ainda a intimidade conjugal,
-mas um estado intermedio e consentido, em que os corações podem
-entornar-se livremente um no outro. Aquelles não tinham nada do amor
-extatico e romanesco de Estevão, mas amavam sinceramente, ella ainda
-mais do que elle, e tão feliz um como outro.</p>
-
-<p>A gente que os conhecia commentou de todos os modos e feitios aquelle
-caso inesperado, e a mais de um roeu a inveja do favor com que o ceu
-tratára a Luiz Alves. A gentileza e a elegancia da moça não encontravam
-objecção no espirito de ninguem; todos as confessavam e applaudiam,
-porque até o silencio mortificado de algumas bellezas rivaes, se
-porventura as havia,&mdash;era tambem applauso e do melhor. Quanto ao
-caracter de Guiomar, divergiam muito as apreciações; e um dia, em que
-Luiz Alves lhe contava uns trechos de conversa ouvidos a furto, e de
-que era objecto a noiva, ella pareceu reflectir longo tempo, e emfim
-respondeu:</p>
-
-<p>&mdash;Não admira que haja tanta opinião differente; é natural, porque nunca
-vulgarisei o meu espirito. Entretanto, a opinião dos outros importa-me
-pouco; eu quizera saber a sua.</p>
-
-<p>&mdash;A minha é que é um anjo.</p>
-
-<p>Guiomar fez um gesto gracioso de enfado, como quem não esperava
-aquelle comprimento velho e commum, aliás eternamente, novo,&mdash;porque
-não ha outro mais prompto e mais bello nas nossas linguas christãs.
-O noivo sorriu, mas nada lhe disse, e todavia podia dizer-lhe alguma
-cousa,&mdash;aquillo, pelo menos, que o leitor lhe ouviu n'um dos capitulos
-anteriores.</p>
-
-<p>&mdash;Se não sabe o que sou,&mdash;continuou Guiomar,&mdash;eu mesmo o direi, para
-que se não case commigo assim de emboscada, e não lhe aconteça unir-se
-a um demonio, suppondo que é um anjo...</p>
-
-<p>&mdash;Um demonio! exclamou Luiz Alves rindo.</p>
-
-<p>&mdash;Nem mais nem menos, retrucou ella rindo tambem. Saiba pois que sou
-muito senhora da minha vontade, mas pouco amiga de a exprimir; quero
-que me adivinhem e obedeçam; sou tambem um pouco altiva, ás vezes
-caprichosa, e por cima de tudo isto tenho um coração exigente. Veja se
-é possível encontrar tanto defeito junto.</p>
-
-<p>Luiz Alves respondeu que eram tudo qualidades excellentes, e esteve
-quasi a dizer que lhe faltava mencionar ainda outra, que era a
-fundamental de todas; preferiu alludir a ella depois do casamento.</p>
-
-<p>O casamento effectuou-se, no dia marcado, com as solemnidades do
-estylo. A manhã daquelle dia trajava um manto de neblina cerrada, que
-o nosso inverno lhe poz aos hombros, como para resguardal-a do rigor
-benigno da temperatura, manto que ella sacudiu dalli a nada, afim de se
-mostrar qual era, uma deliciosa e fresca manhã fluminense. Não tardou
-que o sol batesse de chapa nas aguas tranquillas e azues, e nessas
-collinas onde o verde natural ia alternado com a alvura das habitações
-humanas. Vento nenhum; apenas uma aragem, branda e fresca, que parecia
-o ultimo respirar da noite já remota, e que só a trechos agitava as
-folhas do arvoredo.</p>
-
-<p>A chacara naquelle dia era a mesma que nos outros, mas Guiomar
-achou-lhe um aspecto novo e melhor, uma como expansão divina que
-animava as cousas em redor della. Toda a alma feliz é pantheista;
-parece-lhe que Deus lhe sorri de dentro da flor que desabrocha, do
-fundo da agua que serpeia murmurando, e até de envolta com o cipó
-humilde e rustico, ou no seixo bronco e despresado do chão. Era assim a
-alma de Guiomar naquella manhã. Nunca as arvores, as flores, a gramma
-rasteira lhe pareceram mais vecejantes; o sentimento interno hauria
-aquella vida exterior, do mesmo modo que o pulmão bebia o puro ar
-matinal.</p>
-
-<p>De envolta com essas sensações communs a toda a alma, havia ainda as
-que eram della,&mdash;della, que via alli o seu ultimo sol de moça solteira
-e contemplava por antecipação a aurora nova, o dia longo e feliz de
-suas férvidas ambições. Neste ponto despia a sua fantazia as azas de
-folha agreste, com que andara a pairar no meio daquella vegetação, para
-envergar outras de seda e brocado, e voar sabe Deus a que sitios de
-grandeza humana.</p>
-
-<p>O acaso quiz que naquella manhã vestisse o mesmo roupão com que Estevão
-a vira do outro lado da cerca, e trouxesse no collo e nos pulsos o
-mesmo broche e os mesmos botões de saphira. Não tinha o livro; mas,
-em falta desta circumstancia, havia outra, que era a mesma daquella
-celebre manhã, havia uns olhos que do outro lado do cerca a espreitavam
-namorados. Não eram, porém, os mesmos; eram os do noiva, com quem ella
-foi encontrar o seus;&mdash;e o mais doloroso de tudo é que nem a cerca, nem
-os demais accessorios, nada lhe lembrou o outro homem que morria por
-ella. A felicidade é isto mesmo; raro lhe sobra memoria para as dores
-alheias.</p>
-
-<p>Não menos alegre do que ella parecia a baroneza naquelle dia. De longe
-em longe surgia-lhe na memoria a ideia do sobrinho, mas já não havia
-tristeza de não ter effectuado o casamento, como desejára; tão leve
-foi o golpe em Jorge e tão indifferente andava elle, que a boa senhora
-comprehendeu que o amor, se existira, não era grande, e sobretudo não
-perdurou; a ideia de que isto mesmo podia acontecer-lhe ao cabo de seis
-semanas de casado, fel-a dar graças a Deus do nenhum exito de seus
-planos.</p>
-
-<p>Mrs. Oswald egualmente se mostrava feliz,&mdash;talvez ainda mais, porque
-era-o apparatosamente, como se quizesse resgatar as passadas culpas.
-Guiomar entendia a intenção latente das manifestações ruidosas com que
-ella andava a felicital-a e bajula-la; mas o dia não era de rancores
-nem de resentimentos, e ella recebia sorrindo as cortezanices da
-ingleza.</p>
-
-<p>O casamento fez-se, emfim. As lagrimas que a baroneza derramou, quando
-viu Guiomar ligada para sempre, foram as mais bellas joias que lhe
-podia dar. Nenhuma mãe as verteu mais sinceras; e, seja dito em honra
-de Guiomar, nenhuma filha as recebeu mais dentro do coração.</p>
-
-<p>Na noite do casamento, quem olhasse para o lado do mar, veria pouco
-distante dos grupos de curiosos, attrahidos pela festa de uma casa
-grande e rica, um vulto de homem sentado sobre uma lagea que acaso
-topára alli. Quem está affeito a ler romances, e leu esta narrativa
-desde o começo, suppõe logo que esse homem podia ser Estevão. Era elle.
-Talvez o leitor, em lance identico, fosse refugiar-se em sítio tão
-remoto, que mal podesse acompanhal-o a lembrança do passado. A alma de
-Estevão sentiu uma necessidade cruel e singular, o gosto de revolver
-o ferro na ferida, uma cousa a que chamaremos&mdash;voluptuosidade da dor,
-em falta de melhor donominação. E foi para alli, contemplar com os
-indifferentes e ociosos aquella casa onde reinava o goso e a vida, e
-naquella hora que lhe afundava o passado e o futuro de que vivera. Não
-o retinha a constancia do stoico; pela face emmagrecida e pallida lhe
-corriam as lagrimas derradeiras, e o coração, colhendo as forças que
-lhe restavam, batia-lhe forte na arca do peito.</p>
-
-<p>Defronte delle refulgia de todas as suas luzes a mansão afortunada;
-detraz batia a onda lenta e melancolica, e via-se o fundo da enseada,
-escuro e triste. Esta disposição do logar servia ao plano que elle
-concebera, e era nada menos do que matar-se alli mesmo, quando já não
-pudesse soffrer a dor, especie de vingança ultima que queria tomar
-dos que o faziam padecer tanto, complicando-lhes a felicidade com um
-remorso.</p>
-
-<p>Mas este plano não podia realisar-se, pela razão de que era mais um
-devaneio, que se lhe dissipou como os outros. A frouxidão do animo
-negou-lhe essa ultima ambição. Os olhos podiam fitar a morte, como
-podiam encarar a fortuna; mas faltavam-lhe os meios de caminhar a
-ella. Esteve alli, pois, até o fim; e em vez de mergulhar na agua e no
-nada, como delineára, regressou tristemente para casa, tropego como um
-ebrio, deixando alli a sua mocidade toda, porque a que levava era uma
-cousa descolorida e sêcca, esteril e morta. Os annos passaram depois,
-e á medida que vinham, ia-se Estevão afundando no mar vasto e escuro
-da multidão anonyma. O nome, que não passara da lembrança dos amigos,
-ahi mesmo morreu, quando a fortuna o distanceou delles. Se elle ainda
-vegeta em algum recanto da capital, ou se acabou em alguma villa do
-interior, ignora-se.</p>
-
-<p>O destino não devia mentir nem mentiu á ambição de Luiz Alves. Guiomar
-acertara; era aquelle o homem forte. Um mez depois de casados, como
-elles estivessem a conversar do que conversam os recem-casados, que
-é de si mesmos, e a relembrar a curta campanha do namoro, Guiomar
-confessou ao marido que naquella occasião lhe conhecera todo o poder da
-sua vontade.</p>
-
-<p>--Vi que você era homem resoluto, disse a moça a Luiz Alves, que,
-assentado, a escutava.</p>
-
-<p>&mdash;Resoluto e ambicioso, ampliou Luiz Alves sorrindo; você deve ter
-percebido que sou uma e outra cousa.</p>
-
-<p>&mdash;A ambição não é defeito.</p>
-
-<p>&mdash;Pelo contrario, é virtude; eu sinto que a tenho, e que hei de faze-la
-vingar. Não me fio só na mocidade e na força moral; fio-me tambem em
-você, que ha de ser para mim uma força nova.</p>
-
-<p>&mdash;Oh! sim! exclamou Guiomar.</p>
-
-<p>E com um modo gracioso continuou:</p>
-
-<p>&mdash;Mas que me dá você em paga? um logar na camara? uma pasta de ministro?</p>
-
-<p>&mdash;O lustre do meu nome, respondeu elle.</p>
-
-<p>Guiomar, que estava de pé defronte delle, com as mãos prezas nas
-suas, deixou-se cair lentamente sobre os joelhos do marido, e as duas
-ambições trocaram o osculo fraternal. Ajustavam-se ambas, como se
-aquella luva tivesse sido feita para aquella mão.</p>
-
-
-<h4>FIM</h4>
-
-
-<hr class="full" />
-<p style="text-align: center;">
-<a id="INDICE"></a>INDICE<br />
-<br />
-<a href="#ADVERTENCIA_DE_1907">Advertência de 1907</a><br />
-<a href="#ADVERTENCIA_DE_1874">Advertência de 1874</a><br />
-</p>
-
-<div>
-<table border="0" cellpadding="2" cellspacing="0" summary="">
-<tr><td align="left"></td><td align="right">I.</td><td align="left">&mdash;</td><td align="left"><a href="#I">O fim da carta</a></td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right">II.</td><td align="left">&mdash;</td><td align="left"><a href="#II">Um roupão</a></td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right">III.</td><td align="left">&mdash;</td><td align="left"><a href="#III">Ao pé da cerca</a></td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right">IV.</td><td align="left">&mdash;</td><td align="left"><a href="#IV">Latet anguis</a></td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right">V.</td><td align="left">&mdash;</td><td align="left"><a href="#V">Meninice</a></td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right">VI.</td><td align="left">&mdash;</td><td align="left"><a href="#VI">post-scriptum</a></td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right">VII.</td><td align="left">&mdash;</td><td align="left"><a href="#VII">Um rival</a></td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right">VIII.</td><td align="left">&mdash;</td><td align="left"><a href="#VIII">Golpe</a></td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right">IX.</td><td align="left">&mdash;</td><td align="left"><a href="#IX">Conspiração</a></td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right">X.</td><td align="left">&mdash;</td><td align="left"><a href="#X">A revelação</a></td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right">XI.</td><td align="left">&mdash;</td><td align="left"><a href="#XI">Luiz Alves</a></td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right">XII.</td><td align="left">&mdash;</td><td align="left"><a href="#XII">A viagem</a></td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right">XIII.</td><td align="left">&mdash;</td><td align="left"><a href="#XIII">Explicações</a></td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right">XIV.</td><td align="left">&mdash;</td><td align="left"><a href="#XIV">Ex-abrupto</a></td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right">XV.</td><td align="left">&mdash;</td><td align="left"><a href="#XV">Embargos de terceiro</a></td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right">XVI.</td><td align="left">&mdash;</td><td align="left"><a href="#XVI">A confissão</a></td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right">XVII.</td><td align="left">&mdash;</td><td align="left"><a href="#XVII">A carta</a></td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right">XVIII.</td><td align="left">&mdash;</td><td align="left"><a href="#XVIII">A escolha</a></td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right">XIX.</td><td align="left">&mdash;</td><td align="left"><a href="#XIX">Conclusão</a></td></tr>
-</table></div>
-
-
-
-
-
-
-
-
-<pre>
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of A Mao e A Luva, by Machado de Assis
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MAO E A LUVA ***
-
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