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-The Project Gutenberg EBook of Memorias de José Garibaldi, volume I, by
-Giuseppe Garibaldi
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
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-
-Title: Memorias de José Garibaldi, volume I
- Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas
-
-Author: Giuseppe Garibaldi
-
-Translator: Alexandre Dumas
-
-Release Date: August 18, 2016 [EBook #52847]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: ISO-8859-1
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIAS DE JOSE GARIBALDI, VOL 1 ***
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-
-Produced by Júlio Reis, Leonor Silva and the Online
-Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net.
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- MEMORIAS
-
- DE
-
- JOSÉ GARIBALDI
-
- TRADUZIDAS DO MANUSCRIPTO ORIGINAL
-
- POR
-
- ALEXANDRE DUMAS
-
-
- VOLUME I.--SEGUNDA EDIÇÃO
-
-
- LISBOA--1860
- EDICTOR A. P. C.
- CHIADO, 83-85
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- [Ilustração: GARIBALDI.]
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- MEMORIAS DE GARIBALDI
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-
- PROLOGO
-
-
-Como todo o presente tem ligação com o passado é impossivel começar
-qualquer narração, ainda que seja a historia de um homem ou de um
-successo, sem lançar os olhos para esse mesmo passado.
-
-Obrigados pelo caracter aventureiro do homem de que começamos hoje a
-publicar as memorias, seremos muitas vezes forçados a ir ao Piemonte,
-patria de Garibaldi. Os homens de acção politica, quando pertencem
-ao progresso, teem momentos de desalento, nos quaes como Anteo tem
-necessidade para recobrar novas forças de tocar n'essa terra patria
-que Bruto na sua fingida loucura beijava como a mãe commum. É pois mui
-importante fazer um estudo rapido dos acontecimentos que tiveram logar
-no Piemonte de 1820 a 1834, época em que começa esta historia.
-
-As guerras da republica e as invasões do imperio tinham trazido á
-Sardenha dous homens que haviam partido para o exilio ainda jovens e
-voltavam velhos; eram dois irmãos, nos quaes terminava a posteridade
-masculina dos duques de Saboia: fallamos de Victor Manuel I e Carlos
-Felix.
-
-Ambos reinaram.
-
-O ramo mais novo da familia Saboia era representado pelo principe
-de Carignan, que em 1823 fez como granadeiro do exercito francez a
-campanha de Hespanha, tendo-se distinguido principalmente no Trocadéro.
-
-Em 1840 n'uma audiencia que me concedeu mostrou-me o seu sabre de
-granadeiro, e as dragonas de lã encarnada que conservava como reliquias
-da mocidade.
-
-Victor Manuel I subindo ao throno, que provavelmente não lhe fora dado
-senão com esta condição, havia promettido aos soberanos seus alliados,
-o não fazer ao seu povo, fossem quaes fossem as circunstancias, em que
-se encontrasse a mais pequena concessão.
-
-Mas o que era facil de prometter em 1815, era difficil de cumprir em
-1821.
-
-Desde 1820 os carbonarios haviam-se espalhado em toda a Italia. Em um
-livro que é mais uma historia do que um romance, no _José Balsamo_
-dissemos as origens do illuminismo e da franc-maçonaria.
-
-Estes dois temiveis inimigos da realeza de que a divisa era L. P.
-D. (_Lilia Pedibus Destrue_) tiveram uma grande parte na revolução
-franceza. Swedenborg, de quem os adeptos assassinaram Gustavo III,
-era mago. Quasi todos os jacobinos e grande numero de _cordeliers_
-eram maçons, Philippe-Egalité era do grande oriente. Napoleão tomou a
-maçonaria debaixo da sua protecção, mas protegendo-a, desvirtuou-a,
-desviando-a dos seus fins, torcendo-a á sua conveniencia e fazendo
-d'ella um instrumento de despotismo. Não foi esta a unica vez que se
-forjaram cadeias com espadas.
-
-José Napoleão foi grão-mestre da ordem, o archi-chanceller Cambacéres
-grão-mestre adjunto. A imperatriz Josephina estando em Strasbourg em
-1805, presidiu á festa da adopção da loja dos franc-maçons de Paris.
-Por este mesmo tempo Eugenio Beauharnais era veneravel honorario da
-loja de Santo Eugenio de Paris, e tendo vindo mais tarde á Italia com a
-dignidade de vice-rei, o Grande Oriente de Milão o nomeou grão-mestre
-e soberano conservador do supremo conselho do gráo XXXII, isto é,
-concedeu-lhe a maior honra que segundo os estatutos da ordem se póde
-dar.
-
-Bernardotte era maçon, seu filho o principe Oscar foi grão-mestre
-da loja sueca. Em differentes lojas de Paris foram successivamente
-iniciados: Alexandre, duque de Wurtemberg, o principe Bernardo de
-Saxe-Weimar, e até o embaixador persa Askeri-Khan. O presidente do
-senado, conde de Lacépêde presidia ao grande Oriente de França de que
-eram officiaes os generaes Kellermann, Massena, Soult, os principes,
-os ministros e os marechaes, os officiaes, os magistrados, emfim todos
-os homens notaveis pela sua gloria ou consideraveis pela sua posição
-ambicionavam a honra de serem maçons. As proprias mulheres quizeram
-ter as suas lojas maçonicas, nas quaes entraram M.mes de Vaudemont,
-de Carignan, de Girardin, de Bosi, de Narbonne, e muitas outras
-pertencentes á alta aristocracia franceza. Uma unica foi recebida, não
-com o titulo de irmã, mas com o de irmão: foi a celebre Xaintrailles, a
-quem o primeiro consul tinha dado a patente de chefe de esquadrão.[1]
-Mas não era só em França que n'essa época florescia a maçonaria.
-
- [1] Giuseppe La Farina, Storia d'Italia.
-
-O rei da Suecia, em 1811 instituiu a ordem civil da maçonaria.
-Frederico Guilherme III da Prussia tinha, pelos fins do mez de julho
-de 1800 approvado a constituição da grande loja de Berlin. O principe
-de Galles não cessou de governar a ordem em Inglaterra, senão quando
-em 1813 foi nomeado regente. Emfim no mez de fevereiro 1814, o rei da
-Hollanda, Frederico Guilherme, declarou-se protector da maçonaria,
-e permittiu que o principe real, seu filho acceitasse o titulo de
-veneravel honorario da loja de Guilherme Frederico de Amsterdam.
-
-Depois da volta dos Bourbons á França o marechal Bournonville pediu a
-Luiz XVIII para collocar a maçonaria debaixo da protecção d'uma pessoa
-da familia real; mas como Luiz XVIII era dotado de excellente memoria,
-e não havia esquecido a parte que ella tinha tomado na catastrophe de
-1793 recusou, dizendo que nunca consentiria que membro algum da familia
-real, formasse parte de qualquer sociedade secreta fosse ella qual
-fosse.
-
-Na Italia a maçonaria cahiu com o dominio francez, mas em seu logar
-vieram os carbonarios, que mostravam querer continuar o seu pensamento
-libertador.
-
-Duas outras seitas appareceram ao mesmo tempo.
-
-Uma que se chamava a Congregação catholica apostolica romana, e a outra
-a Consistorial.
-
-Os socios da Congregação tinham, como signal de reconhecimento, um
-cordelinho de seda amarella com cinco nós. Os pertencentes aos gráos
-inferiores não fallavam senão de actos de piedade e benificencia. Dos
-segredos da seita, conhecidos unicamente pelos altos dignatarios, só se
-podia fallar quando se achavam presentes dois associados; se por acaso
-um terceiro chegava, a conversação cessava immediatamente. A palavra de
-passe dos confrades era _éleutheria_, isto é, _liberdade_, a palavra
-secreta era _ode_, isto é, _independencia_.
-
-Esta seita creada em França, entre os neo-catholicos, e a que
-pertenceram muitos dos nossos melhores e mais constantes republicanos,
-tinha atravessado os Alpes, chegado ao Piemonte e de lá á Lombardia.
-Mas aqui foram infelizes, pois obtiveram poucos adeptos, não tardando
-muito a extinguir-se, tendo os agentes de policia alcançado em Genova
-os diplomas que se entregavam aos adeptos assim como os estatutos e
-signaes de reconhecimento.
-
-A consistorial era dirigida principalmente contra os austriacos. Á sua
-frente se achavam os principaes principes da Italia que não pertenciam
-á casa de Kabsbourg e era presidida pelo cardeal Gonsalvi. O unico
-principe que não foi excluido foi o duque de Modena. Logo que esta
-liga foi conhecida começaram as terriveis perseguições d'este principe
-contra os patriotas. É que elle queria obter da Austria o perdão da
-sua deserção, sendo necessario o sangue de Menotti seu companheiro na
-conspiração para o alcançar.
-
-Os consistoriaes queriam tirar a Italia a Francisco II e dividil-a
-entre si.
-
-Além de Roma e da Romania que elle guardava, o papa adquiria a Toscana.
-A ilha de Elba e as Marchés passavam para o poder do rei de Napoles;
-Parma, Pelazainge, e uma parte da Lombardia, com o titulo de rei ao
-duque de Modena; Massa, Carrara, e Luca ao rei da Sardenha. Emfim o
-imperador Alexandre da Russia que pela sua aversão á Austria protegia
-esta conspiração, ou recebia Ancona, Civita-Vecchia, ou Genova para
-poder ter um estabelecimento no Mediterraneo. Por esta fórma sem
-se consultar a vontade dos povos nem as demarcações territoriaes,
-dispunha-se de uma grande porção de almas, negando-se-lhe esse direito
-de escolha a que a ultima creatura nascida no solo europeo tem direito.
-
-Por felicidade um unico de todos estes projectos, o dos carbonarios,
-parecia emanado de Deus e quasi a realisar-se.
-
-Os carbonarios em quem unicamente havia esperança augmentavam
-consideravelmente nas Romanias. Haviam-se reunido á seita dos guelfos
-que tinham a sua séde em Ancona, e se apoiavam nos bonapartistas.
-
-Luciano tinha sido elevado á dignidade de grão-mestre da ordem. Nas
-reuniões secretas mostrava-se a necessidade de tirar aos padres o poder
-que haviam alcançado; invocava-se o nome de Bruto e preparavam-se os
-animos á revolta.
-
-Em a noute de 24 de junho teve logar a revolução, obtendo o funesto
-resultado que todas as primeiras tentativas d'este genero costumam
-alcançar. Toda a religião que deve ter apostolos, começa por ter
-martyres. Cinco carbonarios foram fuzilados, outros condemnados ás
-galés perpetuamente, e alguns julgados menos culpados foram encerrados
-por dez annos em uma fortaleza.
-
-Então a seita tornando-se mais prudente mudou de nome, começando
-a chamar-se a Sociedade Latina. Nesta occasião a mesma sociedade
-conspirava na Lombardia, estendendo-se pelas outras provincias da
-Italia. No meio d'um baile dado pelo conde Porgia em Rovigo o governo
-austriaco fez prender muitas pessoas e declarou no dia seguinte
-criminoso d'alta traição todo o individuo que se filiasse nas lojas dos
-carbonarios.
-
-Em Napoles foi aonde a rebellião appareceu com mais violencia. Cobetta
-affirma na sua historia que o numero dos carbonarios era de 642:000 e
-segundo um documento da chancellaria aulica de Vienna este numero ainda
-está muito abaixo da verdade. «Os carbonarios nas Duas Sicilias diz
-este documento contam mais de 800:000 adeptos, e não havendo policia
-nem vigilancia possivel para evitar tal alistamento seria loucura
-tentar anniquilal-os.»[2]
-
- [2] Storia Italia.--La Farina.
-
-Ao mesmo tempo que a rebellião tinha logar em Napoles, Riego, outro
-martyr que deixou um cantico de morte, tornado depois em canção de
-victoria, levantava no 1.º de janeiro de 1820 a bandeira da liberdade,
-e um decreto de Fernando VII annunciou que tendo-se manifestado a
-vontade do povo, estava prompto a jurar a constituição proclamada pelas
-côrtes geraes e extraordinarias de 1812.
-
-As prisões abrindo-se deram um ministerio á Hespanha.
-
-Fernando I de Napoles na sua qualidade de principe de Hespanha, devia,
-ficando rei absoluto, jurar obediencia á constituição hespanhola.
-Teve então logar uma grande rebellião na Calabria, em Capitanata e em
-Palermo. O governo napolitano fraco, indeciso e desconfiado decretou
-algumas refórmas insufficientes que não impediram o general Pepe
-de fazer uma revolução. Napoles teve então como 1798, um governo
-provisorio e uma camara de deputados.
-
-Foi algum tempo depois que por sua vez rebentou a revolução piemonteza.
-Na manhã de 10 de março o capitão conde Palma dando o grito de «o rei e
-a constituição hespanhola» fez pegar em armas ao regimento de Genova.
-
-No dia seguinte um governo provisorio estava estabelecido, e em nome do
-reino de Italia declarava a guerra á Austria.
-
-D'este modo a revolução partindo d'Ancona tinha chegado a Napoles
-voltando a Turim. Tres volcões se tinham aberto na Italia sem contar a
-Hespanha; agitando-se a Lombardia n'um triangulo de fogo.
-
-O rei Victor Manuel havia promettido, como já dissemos, á santa
-alliança não fazer ao seu povo nenhuma concessão.
-
-No dia seguinte para ficar fiel á sua palavra, o rei Victor Manuel
-abdicou em favor de seu irmão Carlos Felix que se achava então em
-Modena, e nomeou regente o principe de Carignan, que foi depois o rei
-Carlos Alberto.
-
-Para todos os patriotas esta abdicação de um rei dedicado aos italianos
-em um principe dominado pela côrte de Austria era uma grande desgraça.
-
-Santa Rosa um dos primeiros promotores da rebellião diz:
-
- «A noute de 13 de março de 1821 foi bem fatal para minha
- patria. Foi n'essa noute que perdemos todas as nossas
- esperanças, foi n'essa noute que milhares de espadas erguidas
- para a defeza da patria se abaixaram. Com o rei Victor Manuel
- a patria estava no rei, ella se personalisava n'esse coração
- leal, e nós fazendo esta revolução, diziamos: «Coragem! O rei
- talvez um dia nos perdoe de o havermos feito senhor de seis
- milhões de italianos.»
-
-Com Carlos Felix succedia exactamente o contrario. Estavam outra vez
-debaixo do jugo da Austria, e viam-se obrigados a começar de novo os
-seus trabalhos.
-
-Comtudo toda a esperança ainda não estava perdida.
-
-No dia 14 de março o principe de Carignan nomeado regente appareceu á
-janella, e no meio dos vivas calorosos do povo proclamou a constituição
-de Hespanha.
-
-Como este facto devia ter no futuro grande importancia, como o principe
-Carlos Alberto devia um dia desmentir o principe de Carignan, é
-necessario não só citar o facto da constituição proclamada em alta voz,
-mas tambem dar uma cópia do edital que foi affixado nos muros de Turim.
-
-Eis a traducção fiel:
-
- «Nas circumstancias difficeis em que nos achamos é necessario
- sahir fóra dos limites que a nossa qualidade de regente nos
- impõe. O nosso respeito e submissão a sua magestade Carlos
- Felix, actual soberano, devia-nos obstar a que fizessemos
- alguma alteração nas leis fundamentaes do estado, até que
- soubessemos as intenções do nosso novo soberano, mas como as
- circumstancias imperiosas porque passamos são conhecidas por
- todos, e como queremos entregar ao novo rei um povo socegado e
- feliz e não despedaçado pela guerra civil, decidimos, ouvido
- o nosso conselho e na esperança de que sua magestade levado
- pelas mesmas considerações, revistirá a nossa deliberação da
- sua approvação soberana, que a constituição de Hespanha seja
- reconhecida como lei do estado, fazendo-se as alterações que o
- rei e a representação nacional entenderem.»
-
-Eis o que os carbonarios tinham obtido cinco annos depois do seu
-estabelecimento em Italia: uma constituição em Hespanha, outra em
-Napoles, e outra no Piemonte.
-
-Mas esta tendo sido a ultima em apparecer, foi a primeira a ser
-destruida.
-
-Em logar de voltar a Genova ou a Milão, em logar de approvar as
-liberdades concedidas pelo principe de Carignan, o rei Carlos Felix
-publicou no dia 3 de abril seguinte o edito que vamos ler:
-
- «_Sendo o dever de todo o subdito fiel sujeitar-se da melhor
- vontade á ordem de cousas estabelecidas por Deus e pelo
- exercicio da soberana authoridade, declaro que emanando o nosso
- poder só de Deus, só a nós pertence escolher os meios que
- julgarmos mais convenientes para chegar a qualquer fim, e que
- em consequencia não teremos como subdito fiel aquelle que se
- atrever a murmurar contra as medidas que julgarmos necessario
- adoptar, ficando conhecidos só como vassallos fieis aquelles
- que se submetterem immediatamente, impondo esta submissão como
- condicção para voltarmos aos nossos estados._»
-
-Ao mesmo tempo que o rei Carlos Felix publicava este edito modelo de
-cegueira e asneira, nomeava uma commissão militar encarregada de tomar
-conhecimento dos crimes de traição, rebellião e insubordinação que
-tinham sido commettidos.
-
-Felizmente os principaes criminosos, isto é, aquelles de que os nomes
-são hoje os mais gloriosos do Piemonte, haviam tomado a fuga.
-
-A commissão nomeada por Carlos Felix não perdeu o tempo. Em cinco
-mezes, cento e setenta e oito prisioneiros foram julgados. Setenta
-e tres foram condemnados á morte e ao fisco, e os outros á prisão
-e galés. Dos condemnados á morte sessenta eram contumazes e foram
-enforcados em effigie.
-
-Julgamos conveniente dizer os nomes d'esses homens para que se conheçam
-aquelles que feriram esse poder estupidamente absoluto que desde
-Tarquino não tem sabido abater senão as cabeças mais intelligentes e
-elevadas.
-
-Eram os tenentes Pavia e Ansaldi, o medico Ratazzi, o engenheiro
-Appiani, o advogado Dossena, o advogado Lurri, o capitão Baroni, o
-conde Bianco, o coronel Regis, o major Santa-Rosa, o capitão Lesio,
-o coronel Caraglio, o major Collegno, o capitão Radice, o coronel
-Morozzo, o principe della Cisterna, o capitão Ferraso, o capitão
-Pachiarotte, o advogado Marochetti, o segundo tenente Auzzano, e o
-advogado Ravina.
-
-Ao todo seis officiaes superiores, trinta officiaes subalternos,
-cinco medicos, dez advogados, e um principe, todos notaveis pela
-intelligencia e pelas qualidades moraes.
-
-Dois tinham sido presos e executados.
-
-Eram o tenente de carabineiros João Baptista Lanari e o capitão Jacome
-Garelli.
-
-Um foi executado a 21 de julho, e o outro a 25 de agosto.
-
-O principal criminoso era, sem duvida, Carlos Alberto, pois havia
-proclamado a constituição, não como dizem os seus partidarios, _salvo a
-approvação de Carlos Felix_, mais n'estes termos que estão mui longe de
-serem reservados:
-
- «_Nella fiducia che sua Maesta il re, nosso dál eistesse
- considerazioni_ SARA PER RIVESTIRE _questa deliberazione della
- sua socrasia approvazione, la constituzione di Spagna_ SARA
- PROMULGATA ET OSSERVATA COM LEGE DELLO STATO.»
-
-Por isso assim que o principe de Carignan recebeu a carta que lhe
-participava a recusa do rei Carlos Felix, correu a Modena, mas o rei
-recusou recebel-o e o duque mandou-o intimar para deixar os seus
-estados.
-
-O principe de Carignan retirou-se para Florença para o lado do grão
-duque de Toscana.
-
-Para Carlos Alberto não se tratava unicamente de um simples exilio, ou
-d'um desvalimento momentaneo, mas sim da perda do throno do Piemonte.
-Espalhou-se então que Carlos Felix legava a corôa ao duque de Modena, e
-este que não a havia alcançado na conspiração dos principes italianos
-contra a Austria, esperava esta vez realisar a sua ardente ambição.
-
-O principe de Carignan disse ao conde de la Maison-Fort, nosso ministro
-em Florença, qual era a sua posição, e este escreveu a Luiz XVIII
-relatando-lhe tudo.
-
-Eis um fragmento da carta d'este ministro:
-
- «Para despojar o principe de Carignan da sua herança é
- necessario chamar ao throno a duqueza de Modena, filha mais
- velha do rei Victor Manuel. Esta facilidade em affastar a nobre
- casa da Saboia de um throno por ella creado, esta ingratidão,
- exemplo do seculo em que vivemos, não póde ser partilhada
- pelo chefe de uma casa alliada com a Saboia dezoito vezes. A
- França pois não póde seguir esta politica, porque tem ao menos
- o direito de exigir a completa independencia do soberano que
- possue a chave da Italia.»
-
-Luiz XVIII foi de opinião do seu ministro, e escreveu ao principe
-offerecendo-lhe um refugio na côrte de França. A conducta de Luiz XVIII
-era o mesmo que dizer--Não tem cousa alguma a receiar, tomo-o debaixo
-da minha protecção e não consentirei que outro seja rei do Piemonte.
-
-E na verdade um rei que havia dado a carta ao seu povo, não podia
-criminar um principe por ter promettido uma constituição que não havia
-reconhecido.
-
-Das tres constituições creadas pelos carbonarios, uma, a do Piemonte
-tinha sido logo anniquilada pelo rei Carlos Felix; a de Napoles havia
-sido destruida pela invasão austriaca, e a terceira, a unica existente
-ia desapparecer com a invasão franceza.
-
-Era, pois, necessario ao principe de Carignan que havia proclamado a
-constituição hespanhola em Turim ir combater essa mesma constituição a
-Madrid.
-
-Na realidade era uma posição difficil para o principe, mas a corôa do
-Piemonte tinha muitos attractivos para elle se occupar de bagatellas.
-
-O principe de Carignan occultou a vergonha debaixo da barretina de
-granadeiro; fez a campanha de Hespanha e foi um dos vencedores de
-Trocadéro. D'esta sorte quando Carlos Felix falleceu, 27 de abril de
-1851, o principe de Carignan subiu ao throno, com o nome de Carlos
-Alberto, tendo a vencer poucas difficuldades. A Austria que antes
-queria ver no throno o seu archi-duque de Modena, enfureceu-se
-e apresentou aos reis Carlos Alberto como um carbonario, e aos
-carbonarios como um traidor.
-
-A Austria mentia.
-
-Carlos Alberto não era carbonario: a proclamação em que concedia a
-constituição mostrava que a dava contra sua vontade.
-
-Carlos Alberto não era um traidor, era um principe que ambicionando o
-titulo de rei, não havia feito compromissos pessoaes. A vergonha de ir
-abolir á Hespanha a constituição que tinha proclamado em Turim, tinha
-desapparecido pela coragem do granadeiro: o soldado havia absolvido o
-principe.
-
-D'esta sorte a sua acclamação foi saudada com alegria pelos patriotas
-italianos.
-
-Del Pozzo escreveu-lhe de Londres aonde se achava refugiado:
-
- «Os meios termos e as medidas incompletas na politica
- não servem para cousa alguma: o Piemonte quer um rei
- constitucional.»
-
-Outro patriota que guardou o incognito, escreveu-lhe de Marselha:
-
- «Colloque-se á frente da nação, escreva na sua
- bandeira--_União, liberdade e independencia_--declare se
- vingador e interprete dos direitos populares, trate de
- regenerar a Italia, livre-a dos seus inimigos, e cuidando
- no futuro dê o seu nome a um seculo, e seja o Napoleão da
- liberdade italiana.
-
- «Atire á Austria com a luva o nome da Italia, e estou certo que
- com este escudo fará prodigios. Appelle para tudo o que ha de
- grande e generoso na Peninsula. Uma mocidade ardente e corajosa
- impellida pelas duas paixões que fazem os heroes, o odio e a
- gloria, vive ha muito tempo com um só pensamento, e o seu mais
- ardente desejo é realisal-o.
-
- «Chame essa mocidade ás armas, ponha as cidades e fortalezas
- debaixo da guarda dos cidadãos, e livre por este modo de todo
- e qualquer cuidado que não seja o vencer, reuna em volta de si
- todos aquelles que sendo notaveis pela intelligencia e pelo
- valor estejam isemptos de paixões infames. Inspire confiança
- ao povo, dissipe todas as duvidas sobre as suas intenções,
- chamando para o seu lado os homens livres. Senhor, digo-lhe a
- verdade: os verdadeiros patriotas hão-de avalial-o pelas suas
- acções, mas sejam ellas quaes forem, esteja seguro de que a
- posteridade verá em V. M. o primeiro dos homens ou o ultimo dos
- tyrannos.
-
- «Escolha.»
-
-O que na realidade torna os reis os escolhidos do Senhor é que só
-a elles se escrevem similhantes cartas. Se Carlos Alberto tivesse
-seguido os conselhos do seu mysterioso correspondente, teria sem duvida
-começado por Goita, mas talvez não tivesse finalisado por Novara.
-
-Carlos Alberto despresou estes conselhos, e em logar de entrar no largo
-caminho que se lhe apresentava, metteu-se em uma estrada tortuosa
-d'onde poucos teem saido incolumes.
-
-Desde este momento o divorcio foi declarado entre o rei da Sardenha e
-a joven Italia. A joven Italia! Foi por esta epocha que pela primeira
-vez se pronunciaram estas tres palavras. De que se compunha ella então?
-De José Mazzini o infatigavel promotor da união italiana. José Mazzini
-apenas conhecido n'esta epocha por algumas publicações politicas
-vendo-se perseguido pela policia havia-se refugiado em Marselha aonde
-collocava a primeira pedra da sua grande empreza enviando com milhares
-de difficuldades para o Piemonte os exemplares da sua _Joven Italia_.
-
-A nobreza e o clero piemontez que se haviam apoderado do espirito de
-Carlos Alberto, começaram a receiar pelo seu poder. Havia dois annos
-que se tinham estabelecido na côrte, e por isso conheciam qual elle
-era. Desconfiavam da politica duvidosa de Carlos Alberto, e tinham medo
-que um dia lhe apparecesse, não alguma sombra de liberdade, mas sim uma
-idéa ambiciosa. Sabiam que Carlos Alberto n'essas noites de febre, como
-só os reis teem, sonhava com o throno da Italia.
-
-Para alcançar esse throno seria necessario coadjuvar a revolução. O
-throno de Italia não estava á disposição dos reis, mas sim do povo.
-
-Era necessario collocar uma barreira entre elle e os patriotas.
-
-Um dia alguem disse:
-
-É tempo de lhe fazer derramar algum sangue.
-
-No mesmo dia Carlos Alberto foi prevenido de que no exercito uma grande
-conspiração se tramava com o fim de lhe tirar o throno.
-
-Os factos foram desnaturados, os perigos exagerados. Attacaram todas as
-fibras do homem e do principe para lhe dar esse ressentimento mortal de
-que tinham necessidade esses homens que se intitulam os salvadores das
-monarchias.
-
-Uma commissão criminal extraordinaria foi creada em Turim para dirigir
-todos os supplicios que tivessem logar no Piemonte.
-
-Esta commissão decidiu que todos os accusados militares ou paisanos
-seriam sentenciados por ella. Foi a primeira violação do codigo penal.
-
-Por esta occasião é que se deu o facto memoravel que vamos relatar.
-
-Um official que se assentava como juiz no conselho de investigação
-fez algumas perguntas sobre principios de direito criminal a um
-jurisconsulto. Este respondeu-lhe que a primeira base de toda e
-qualquer lei, que a primeira regra de todo o codigo era:
-
- «Que um conselho de investigação militar se devia declarar
- incompetente para julgar cidadãos.»
-
---Isso é impossivel, disse o official, porque o general ordenou que nos
-declarassemos competentes.
-
-D'esta vez a base da lei, a regra do codigo foi a ordem do general.
-
-O primeiro que manchou com o seu sangue o manto do novo rei, foi o cabo
-Tamburelli, que foi fuzilado pelas costas, por haver commettido o crime
-de lêr aos seus soldados a _Joven Italia_. O segundo foi o tenente
-Tolla culpado por ter tido em seu poder livros sediciosos, e conhecendo
-o author não o haver denunciado. Como Tamburelli foi fuzilado pelas
-costas. Era uma engenhosa invenção da magistratura piemonteza para
-assemelhar o supplicio do fuzilado ao da forca.
-
-Já não era sufficiente matar, era preciso tambem deshonrar. A de 15 de
-Junho foram tão bem fuzillados _pelas costas_ o sargento Miglio, José
-Deglia e Antonio Gaortti.
-
-Todos morreram com uma coragem admiravel.
-
-Jacopo Rufini estava encerrado nas prisões da torre de Genova. Tentavam
-tirar-lhe as forças por todos os meios possiveis: falto de comida e de
-somno, sentia que se enfraquecia, não só physicamente, mas moralmente,
-por isso resolveu não esperar que o collocassem entre a morte e a
-vergonha, e receiando que chegado esse momento não tivesse forças
-para escapar á morte, arrancou uma lança de ferro da porta da prisão,
-afiou-a e degolou-se com ella.
-
-Nas agonias da morte teve forças sufficientes para escrever na muralha
-com letras de sangue:
-
- «Lego á Italia a minha vingança.»
-
-Quando no dia seguinte entraram na prisão acharam-n'o morto.
-
-Em Genova foram fuzilados Luciano Placenzo e Luiz Turfo.
-
-Em Alexandria Domingos Ferrari, José Menardi, José Rigano, Assani
-Costa, Giovanni Marini e depois Andrea Vochieri.
-
-Escreveremos algumas linhas sobre Andrea Vochieri, assim como fizemos
-de Jacopo Rufini.
-
-Um condemnado d'Alexandria que escapou ás torturas de Fenestrelle,
-deixou nas suas memorias a narração da agonia de Andrea Vochieri:
-
- «Tiraram-me, diz elle, fallando de si, os meus livros que
- se compunham de uma Biblia, de um livro de orações e de uma
- Historia dos Capuchos illustres do Piemonte. Depois pozeram-me
- ferros aos pés e conduziram-me a outra prisão mais humida mais
- escura e mais sordida que primeira. As janellas tinham duas
- ordens de grades e as portas cadêas dobradas. Esta prisão
- era proxima da do pobre Vochieri. Alguns buracos na parede
- permittiam-me ver tudo quanto ali se passava.
-
- «Estava deitado em um miseravel banco com ferros aos pés, dois
- guardas collocados ao lado com a espada núa, e uma sentinella
- armada com uma espingarda se achava á porta. Reinava n'este
- medonho carcere um silencio sepulchral e os soldados pareciam
- mais consternados do que o proprio prisioneiro. Dois frades
- capuchos vinham com curtos intervallos vel-o e exhortal-o.
-
- «Apesar da grande dôr que sentia em vêr aquelle martyr em
- similhante estado não podia deixar de o contemplar a todos os
- momentos. No fim de oito dias vieram buscal-o para o conduzir á
- morte.»
-
-O que este prisioneiro não relata porque não o sabia, é que Vochieri
-foi levado ao supplicio pelo caminho mais longo, sendo obrigado a
-passar por defronte da casa aonde habitava sua irmã, sua esposa e seus
-filhos. Esperavam que vendo tudo o que elle tinha de mais cara no mundo
-perdesse a coragem e fizesse algumas revelações.
-
-Vochieri sorriu tristemente:
-
---Esqueceram, disse elle, que ha no mundo uma coisa que adoro mais do
-que esposa, irmã e filhos... é a Italia. Viva a Italia!
-
-Voltando-se então para os guardas que o iam fuzilar, e que eram
-condemnados das galés em logar de soldados, disse esta unica palavra:
-
---Vamos!
-
-Quinze minutos depois cahia atravessado por seis ballas.
-
-Havia n'essa época em Niza um mancebo de vinte e seis annos que vendo
-correr este sangue fazia comsigo mesmo o juramento de consagrar toda a
-sua vida ao culto d'essa liberdade pela qual morriam tantos martyres.
-
-Esse mancebo era GARIBALDI.
-
- =ALEXANDRE DUMAS.=
-
-
-
-
- MEMORIAS DE GARIBALDI
-
- I
-
- MEUS PAES
-
-
-Nasci em Niza, a 22 de julho de 1807, não só na casa, mas no proprio
-quarto em que nasceu Masséna. O illustre marechal era, como ninguem
-ignora, filho de um padeiro. Nas lojas d'aquelle predio ainda hoje se
-conserva uma padaria.
-
-Antes de fallar a meu respeito seja-me permittido dizer duas palavras
-de meus estimados paes de que o excellente caracter e profunda ternura
-tanta influencia tiveram na minha educação e disposições physicas.
-
-Meu pae, Domingos Garibaldi, natural de Chiavari, era como meu avô
-maritimo. Vindo ao mundo o primeiro objecto que seus olhos viram foi o
-mar, e era no mar que devia passar quasi toda a sua vida. Estava bem
-longe de possuir os conhecimentos que são o apanagio dos homens da sua
-classe, e principalmente do nosso seculo. Não havia formado a sua
-educação em uma escóla especial, mas sim nos navios de meu avô.
-
-Mais tarde capitaneou uma embarcação com grande felicidade. Soffreu
-immensos incidentes uns felizes, outros desgraçados, e muitas vezes
-ouvi dizer que nos poderia ter deixado mais bens de fortuna do que nos
-legou.
-
-Mas que importa isso! Meu pobre pae era livre de gastar como
-intendesse um dinheiro tão laboriosamente ganho, e eu não lhe sou
-menos reconhecido por esse facto. De mais ha uma coisa, de que estou
-intimamente convencido e é, de que todo o dinheiro que dispendeu n'este
-mundo o que gastou com a minha educação foi o que com mais prazer saín
-das suas algibeiras apesar dos grandes sacrificios que para isso era
-obrigado a fazer.
-
-Não julguem por isto que a minha educação foi aristocratica. Meu
-pae não me mandou ensinar gymnastica, jogo d'armas ou equitação. A
-gymnastica apprendi-a trepando pelos cabos dos navios, e deixando-me
-escorregar pelas enxarcias; a esgrima defendendo a minha cabeça e
-tentando o melhor que podia quebrar a dos outros, e a equitação tomando
-os exemplos dos primeiros cavalleiros do mundo, isto é, dos Gauchos.
-
-O unico exercicio corporal da minha mocidade, para o qual tambem não
-tive mestre, foi a natação. Não me lembro quando, e como aprendi a
-nadar, mas julgo que sempre o soube, pois desconfio que nasci amphibio.
-Assim não obstante o pouco prazer que tenho em me prodigalisar elogios,
-como sabem todos aquelles que me conhecem, não posso deixar de dizer
-que, sou um dos melhores nadadores existentes. Sendo conhecida a
-confiança que tenho em mim é escuzado dizer que nunca hesitei em me
-atirar á agua quando era necessario salvar um dos similhantes.
-
-Entretanto se meu pae não me mandou ensinar todos estes exercicios a
-culpa não foi sua, mas sim da epocha calamitosa porque atravessavamos.
-N'estes tempos desgraçados o clero era o senhor absoluto do Piemonte,
-e todos os seus esforços eram tornar os mancebos em frades inuteis e
-mandriões em logar de cidadãos aptos para servirem a nossa desgraçada
-patria. O amor profundo que me consagrava meu pobre pae, até lhe fazia
-receiar que se eu recebesse alguma instrucção, isso me fosse funesto
-para o futuro.
-
-Rosa Raymundo, minha mãe, era, digo-o com bastante orgulho, o modelo
-das mulheres. Todo o bom filho deve dizer o mesmo de sua mãe, mas
-nenhum o dirá com mais justiça do que eu.
-
-Um dos remorsos de toda a minha vida, talvez o maior, foi e será o
-ter tornado desgraçados os seus ultimos dias! Só Deus sabe quanto ella
-soffreu com a minha vida aventureira, porque só Deus sabe o immenso
-amor que minha mãe me consagrava. Se em mim existe algum sentimento
-bom, confesso-o, e com bastante ufania, é a ella a quem o devo. O seu
-caracter angelico devia forçosamente deixar-me alguns vestigios. Não
-será á sua piedade pelos desgraçados, á sua compaixão pelos infelizes,
-que eu devo este amor pela patria, amor que me mereceu a affeição e
-sympathia dos meus compatriotas?
-
-Não sou supersticioso, mas devo dizer que nas circumstancias mais
-criticas da minha vida, quando o oceano rugindo erguia o meu navio como
-um pedaço de cortiça, quando as bombas assobiavam a meus ouvidos como
-o vento da tempestade, quando as ballas cahiam em volta de mim como a
-saraiva, via sempre minha pobre mãe ajoelhada aos pés do SENHOR orando
-pelo filho das suas entranhas. Se algumas vezes mostrei uma coragem
-de que muitos se admiraram, é porque estava convencido de que não me
-succederia desgraça alguma quando tão santa mulher, quando similhante
-anjo orava por mim.
-
-
-
-
- II
-
- OS MEUS PRIMEIROS ANNOS
-
-
-Os primeiros annos da minha mocidade foram passados, como são os de
-todas as creanças, isto é, rindo e chorando sem saber porque, estimando
-mais o prazer que o trabalho, os divertimentos que o estudo, e não
-aproveitando, como devia ter feito, os sacrificios que meus paes faziam
-por meu respeito. Cousa alguma extraordinaria aconteceu durante a minha
-infancia. Tinha um excellente coração, sendo este um bem emanado de
-Deus e de minha mãe. Escusado é dizer que os impulsos d'esse coração
-eram por mim immediatamente satisfeitos. Tive sempre grande compaixão
-por tudo o que era fraco e soffredor. Esta compaixão estendia-se
-até aos animaes, ou antes começava por elles. Lembra-me de que um
-dia apanhei um grillo e que levando-o para o meu quarto, ahi passei
-alguns momentos brincando com elle, até que com essa inepcia ou antes
-brutalidade da infancia lhe arranquei uma perna: a minha dôr foi tal,
-que passei muitas horas encerrado no meu quarto chorando amargamente.
-
-Outra vez indo a Var á caça com um primo meu, parei ao pé d'um profundo
-fosso aonde as lavadeiras costumavam lavar a roupa e aonde n'aquelle
-momento se achava uma pobre mulher lavando a sua. Não sei como, mas
-esta desgraçada caiu no fosso. Apesar de ser mui novo--tinha então oito
-annos--atirei-me á agua conseguindo salval-a. Conto este caso para
-provar quanto é natural em mim um sentimento que me leva a soccorrer o
-meu similhante, e para se conhecer o pouco valor que tem o fazel-o.
-
-Entre os professores que tive n'esta epocha da minha vida, contam-se o
-padre Giovanni e o senhor Arene, a quem eu conservo um reconhecimento
-particular.
-
-Com o primeiro aproveitei pouco, porque, como já disse, tinha mais
-disposição para brincar e vadear, do que para trabalhar. Resta-me
-sobre tudo o pesar de não haver estudado o inglez, como o teria podido
-fazer, porque sendo o padre Giovanni de casa e quasi de familia, as
-suas lições resentiam-se da muita familiaridade que entre nós existia.
-Todas as vezes que sou obrigado a tractar com inglezes, que não são
-poucas, este sentimento renova-se sempre. Ao segundo, optimo professor,
-é a quem devo o pouco que sei, mas o que mais lhe agradeço, e porque
-lhe serei eternamente grato, é haver-me ensinado a minha lingua materna
-pela constante leitura da historia romana.
-
-A grave falta de não ensinar ás creanças a lingua e historia patria é
-frequentemente commettida em Italia, e principalmente em Niza, onde
-a proximidade de França influe muitissimo na educação. É pois a esta
-primeira leitura da nossa historia, e á persistencia com que meu irmão
-mais velho, Angelo, me recommendava o seu estudo, que eu devo o pouco
-que sei da sciencia historica e a facilidade de exprimir os meus
-pensamentos.
-
-Termino este primeiro periodo da minha juventude narrando um facto que,
-apezar da sua pouca importancia dará uma idéa da minha disposição para
-a vida aventureira.
-
-Fatigado de estudar, e soffrendo muito pela vida sedentaria que era
-obrigado a levar, propuz um dia a alguns dos meus companheiros que
-fugissemos para Genova. A proposta foi logo approvada e desatando um
-barco de pesca fizemo-nos de véla para o Oriente. Estavamos nas alturas
-de Monaco quando um pirata, mandado por meu excellente pae nos apanhou
-e entregou cheios de vergonha ás nossas familias. Um abbade que nos
-havia visto foi o denunciante. D'este facto é que provavelmente vem as
-poucas sympathias que sinto pelos abbades.
-
-Os meus companheiros n'esta aventura eram, se bem me recordo, César
-Parodi, Rafael de Andreis e Celestino Dermond.
-
-
-
-
- III
-
- AS MINHAS PRIMEIRAS VIAGENS
-
-
-«Oh! primavera, juventude do anno. Oh! juventude, primavera da vida!»
-disse Metastasio, eu ajuntarei: Como tudo se aformosea ao sol da
-juventude e da primavera!
-
-Foi illuminado por esse bello sol que tu linda _Constanza_, primeiro
-navio em que sulquei os mares, me appareceste. Os teus robustos
-flancos, a tua elevada e ligeira mastreação, a tua espaçosa coberta,
-e até o busto de mulher que se patenteava soberbo na tua prôa,
-ficarão eternamente gravados na minha idéa! Como os teus marinheiros,
-verdadeiros typos dos nossos Ligurios, se inclinavam graciosamente sob
-os remos!
-
-Com que alegria me dependurava na amurada para ouvir as suas canções
-populares.
-
-Cantavam canções de amor; ninguem então lhe ensinava outras, e estas
-por mais insignificantes que fossem, enterneciam-me e arrebatavam-me.
-Se esses cantos tivessem sido pela patria, talvez me enlouquecessem!
-Quem lhe diria então que havia uma Italia? Quem lhe diria que tinhamos
-uma patria a vingar e a tornar livre?
-
-Ninguem!
-
-Fomos educados e crescemos como judeus, isto é, na crença de que a vida
-não tem senão um fim--fazer fortuna.
-
-Em quanto olhava alegre para o navio em que ia embarcar, minha mãe
-preparava, chorando, a minha bagagem.
-
-A minha vocação era a vida aventureira do mar. Meu pae fez todo o
-possivel para me tirar similhante idéa, a sua vontade era que eu
-seguisse, uma carreira pacifica e sem perigos; que fosse padre,
-advogado ou medico. Mas a minha persistencia o fez desistir, e o seu
-amor cedeu á minha juvenil obstinação. Embarquei então na _Constanza_
-de que era capitão Angelo Pesante o mais atrevido maritimo que tenho
-conhecido. Se a nossa marinha tivesse tomado as proporções que se
-podiam esperar, o capitão Pesante teria direito ao commando de um dos
-nossos navios de guerra, e ninguem o teria excedido. Pesante nunca
-commandou uma esquadra, mas que se dirijam a elle, e em breve tempo
-já terá arranjado uma, desde as barcas até ás naus de tres pontos. Se
-elle algum dia obtivesse uma tal commissão, posso assegurar que haveria
-proveito e gloria para a patria.
-
-Fiz a minha primeira viagem a Odessa. Estas viagens tornaram-se depois
-tão communs e faceis que é inutil descrevel-as.
-
-A minha segunda viagem foi a Roma, mas na companhia de meu pae que
-tendo na minha primeira ausencia soffrido mortaes inquietações,
-se tinha resolvido visto eu não querer ceder da minha teima, a
-acompanhar-me.
-
-Fizemos a viagem na sua tartana a _Santa Reparata_.
-
-A Roma! Com que alegria eu partia! Já disse como pelos conselhos de
-meu irmão e pelos cuidados do meu digno professor havia estudado,
-a historia romana. Roma era para mim, admirador da antiguidade, a
-capital do mundo. É verdade que se achava destruida, mas as suas
-ruinas eram immensas, gigantescas e d'ellas sae a memoria de tudo
-quanto é bello e grandioso. Roma foi não só a capital do mundo, mas
-o berço d'essa religião santa que quebrou a cadêa dos escravos, que
-ennobreceu a humanidade, d'essa religião de que os primeiros apostolos
-foram os instituidores das nações, os emancipadores dos povos, mas
-de que infelizmente os successores degenerados teem sido o flagello
-da Italia, vendendo sua mãe, ou antes nossa mãe, aos estrangeiros!
-Não! não! a Roma que eu via nos sonhos da minha mocidade não era só
-a Roma do passado, mas tambem a do futuro, abrigando em seu seio a
-idéa regeneradora de um povo perseguido pela inveja das outras nações,
-porque nasceu grande e porque tem sempre marchado á frente dos povos,
-guiados por ella á civilisação.
-
-Roma! quando penso na sua desgraça, no seu abatimento, no seu martyrio,
-parece-me superior a todo o mundo. Amava-a com todas as forças da
-minha alma, não só nos combates soberbos da sua grandeza durante tres
-seculos; mas até nos mais pequenos successos que eu recolhia no meu
-coração como um precioso deposito.
-
-O meu amor em logar de diminuir, tem augmentado com o desterro. Muitas
-vezes, no outro lado dos mares, a tres mil leguas de distancia, pedia
-ao SENHOR como uma graça especial o tornar a vêl-a. Finalmente, Roma
-era para mim a Italia, porque eu não vejo a Italia senão na reunião dos
-seus membros dispersos, e Roma é para mim o symbolo da unidade italiana.
-
-
-
-
- IV
-
- AS MINHAS PRIMEIRAS AVENTURAS
-
-
-Durante algum tempo naveguei na companhia de meu pae; depois fui a
-Cagliari no bergantim _Etna_, de que era capitão José Gervino.
-
-N'esta viagem presenciei uma horrivel catastrophe que me deixou
-uma eterna recordação. Vindo de Cagliari, na altura do cabo Noli,
-navegavamos na companhia de alguns navios, entre os quaes se achava
-uma encantadora falua catalã. Depois de gosarmos dois ou tres dias de
-um bello tempo, começámos a sentir algumas rajadas d'esse vento a que
-os nossos marinheiros chamam _Libieno_, por que antes de chegar ao
-Mediterraneo passa pelo deserto de Lybia. Impellido por elle o mar não
-tardou a enfurecer-se, e tão furiosamente que nos arrastou para Vado.
-
-A falua de que já fallei sustentou-se admiravelmente no começo da
-tormenta, e não duvido dizer que todos nós receiando que a tempestade
-augmentasse, desejavamos antes estar a bordo da falua, do que dos
-nossos navios. Infelizmente a desgraçada embarcação estava destinada
-a offerecer-nos um doloroso espectaculo: uma vaga horrivel a
-cobriu, e em bem poucos instantes todos aquelles desgraçados foram
-submergidos. A catastrophe tinha logar á nossa direita, e por isso nos
-era absolutamente impossivel soccorrel-os. Os outros navios que nos
-acompanhavam tambem se achavam na mesma impossibilidade. Nove pessoas
-da mesma familia morreram á nossa vista, sem lhe podermos prestar o
-mais leve soccorro. Algumas lagrimas appareceram nos olhos dos mais
-endurecidos dos nossos marinheiros, mas o perigo proprio era tal que
-ellas bem depressa seccaram. A tempestade abrandou, como se estivesse
-satisfeita por haver immolado estas victimas; e chegamos a Vado sem
-incídente.
-
-De Vado parti para Genova, e de Genova voltei a Niza.
-
-Então comecei uma serie de viagens ao Levante, durante as quaes fomos
-tres vezes tomados e roubados pelos piratas. Duas vezes o fomos na
-mesma viagem, o que tornou os segundos piratas mui furiosos, visto que
-não nos encontravam cousa alguma para roubar. Foi n'estes ataques que
-comecei a familiarisar-me com o perigo, e a vêr que sem ser Nelson,
-podia como elle perguntar:--O que é o medo?
-
-Foi n'uma destas viagens, no bergantim _Cortese_, capitão Barlasemeria,
-que fiquei doente em Constantinopla. O navio foi obrigado a fazer-se
-de véla, e prolongando-se a minha doença mais do que eu tinha julgado,
-achei-me muito falto de recursos.
-
-Como em todas as situações desgraçadas em que me tenho achado, sempre
-encontrei alguma alma caridosa que me soccorresse, nunca pensei muito
-na falta de dinheiro.
-
-Entre essas almas caridosas encontrei uma que nunca esquecerei: é a
-excellente senhora Luiza Sauvaigo, de Niza, que me fez convencer de que
-as duas mulheres mais perfeitas do mundo, eram minha mãe e ella.
-
-Luiza fazia a felicidade de um marido, excellente homem, e tratava com
-uma admiravel intelligencia da educação de seus filhos.
-
-Porque razão fallei agora de Luiza? É porque escrevendo para
-satisfazer uma necessidade do coração, ella me dictou o que acabo de
-lançar ao papel.
-
-A guerra então existente entre a Porta Ottomana e a Russia contribuiu
-a prolongar a minha estada na capital do imperio turco. Durante este
-tempo e ignorando ainda como poderia alcançar recursos para viver,
-fui admittido como preceptor em casa da viuva Timoni. Este emprego
-foi-me dado sob recommendação de M. Diego, doutor em medicina, e a
-quem dou aqui um voto de agradecimento pelo serviço que me prestou.
-Estava, pois, preceptor de tres meninos. Assim fiquei muitos mezes,
-até que a vontade de navegar vindo de novo, me embarquei no bergantim
-_Notre-Dame-de-Grace_, de que tinha sido capitão Casanova.
-
-Foi este o primeiro navio em que embarquei como capitão.
-
-Não fatigarei o leitor fallando nas minhas viagens, em que nada de
-extraordinario me succedeu, direi unicamente que atormentado sempre por
-um profundo patriotismo, nunca cessei de perguntar noticias sobre a
-ressurreição de Italia, mas infelizmente até á edade de vinte e quatro
-annos todo o trabalho foi inutil.
-
-Emfim, n'uma viagem a Taganrog veiu a bordo do meu navio um patriota
-italiano, que me deu algumas noticias sob a maneira porque marchavam os
-negocios de Italia.
-
-Havia alguma esperança para o nosso desgraçado paiz.
-
-Christovão Colombo, não foi mais feliz, quando perdido no meio do
-Atlantico, e ameaçado pelos seus companheiros a quem havia pedido só
-tres dias, ouviu gritar: «Terra», do que eu quando ouvi pronunciar a
-palavra _patria_, e vi no horisonte o primeiro pharol preparado pela
-revolução franceza de 1830.
-
-Havia então homens que se occupavam da redempção da Italia!
-
-Em outra viagem, transportei no _Clorinde_, a Constantinopla alguns
-_Simoniacos_, conduzidos por Emilio Parrault.
-
-Tinha ouvido fallar pouco na seita de «Saint-Simon»; sabia unicamente
-que estes homens eram os apostolos perseguidos de uma nova religião.
-
-Vendo em Parrault um patriota italiano, dei-lhe parte de todos os meus
-pensamentos. Então durante essas noutes transparentes do Oriente, que,
-como diz Chateaubriand, não são as trevas, mas unicamente a ausencia
-do dia, debaixo d'esse ceu marchetado de estrellas, sobre esse mar de
-que a brisa parecia cheia de inspirações generosas, discutimos, não só
-as mesquinhas questões de nacionalidade nas quaes havia pensado muito,
-questões restrictas á Italia, e a cada provincia--mas até a grande
-questão da humanidade.
-
-Este apostolo provou-me que o homem que defende a sua patria, ou que
-ataca a dos outros, é no primeiro caso um soldado piedoso; injusto no
-segundo,--mas o homem que tornando-se cosmopolita, adopta a todas por
-patria e vae offerecer a sua espada e o seu sangue ao povo que lucta
-contra a tyrannia, é mais que um soldado--é um heroe.
-
-Teve então logar no meu espirito uma mudança repentina. Pareceu-me vêr
-em um navio não o vehiculo encarregado de transportar mercadorias entre
-os diversos paizes, mas o mensageiro do SENHOR. Havia partido avido
-de emoções, e curioso por vêr cousas novas, e a mim mesmo perguntava
-se esta idéa irresistivel que me perseguia não tinha horisontes mais
-dilatados e por descobrir. Via esses horisontes atravez o longiquo véo
-do futuro.
-
-
-
-
- V
-
- OS ACONTECIMENTOS DE S. JULIÃO
-
-
-O navio em que desta vez voltei do Oriente destinava-se a Marselha.
-
-Chegando a esta cidade soube da revolução suffocada no Piemonte e dos
-fuzilamentos de Chambéry, Alexandria e Genova.
-
-Em Marselha travei relações intimas com Covi, que me apresentou a
-Mazzini.
-
-Então estava longe de suspeitar a grande communidade de principios
-que um dia me uniria a Mazzini. Ninguem conhecia ainda o persistente
-e obstinado pensador, que nem a propria ingratidão tem feito desistir
-da grande obra que emprehendeu. Quando soube da morte de Vocchieri,
-Mazzini tinha dado um verdadeiro grito de guerra.
-
-Escreveu na sua _Joven Italia_: «Italianos, é tempo de nos juntarmos,
-se queremos ficar dignos do nosso nome; e derramar o nosso sangue
-amalgamando-o com o dos martyres piemontezes.»
-
-Mas em França, em 1833, não se diziam impunemente d'estas cousas. Algum
-tempo depois de lhe haver sido apresentado, e de lhe ter dito que podia
-contar comigo, Mazzini, o eterno proscripto, era obrigado a deixar a
-França e a retirar-se a Genova.
-
-N'esta occasião o partido republicano parecia completamente morto na
-França. Era um anno apenas decorrido: estavamos a 5 de junho,--alguns
-mezes depois do processo dos combatentes do claustro Saint-Merry.
-
-Mazzini havia escolhido este momento para fazer uma nova tentativa.
-
-Os patriotas tinham respondido que estavam promptos, mas pediam um
-chefe.
-
-Pensaram em Romarino, ainda coberto de louros por causa das suas luctas
-na Polonia.
-
-Mazzini não approvava esta escolha, o seu espirito activo e profundo
-prevenia-o contra os grandes nomes; mas a maioria queria Romarino, e
-então Mazzini cedeu.
-
-Chamado a Genova, Romarino acceitou o commando da expedição. Na
-primeira conferencia com Mazzini foi convencionado que duas columnas
-republicanas se deviam dirigir ao Piemonte, uma pela Saboia outra por
-Genova.
-
-Romarino recebeu quarenta mil francos para fazer face ás primeiras
-despezas, e partiu com um secretario de Mazzini que ia encarregado de o
-vigiar.[3]
-
- [3] Estes successos que tinham logar em um ponto aonde não
- estava Garibaldi, são aqui referidos unicamente para explicação
- historica, sendo extrahidos de Angelo Brofferio.
-
-Todos estes acontecimentos tiveram logar em setembro de 1833; a
-expedição devia ter logar em outubro.
-
-Mas Romarino conduziu tudo de tal modo que a expedição não estava
-prompta senão em janeiro de 1834.
-
-Mazzini não obstante todas as tergivergencias do general tinha-se
-mostrado firme.
-
-Em fim a 31 de janeiro, Ramorino collocado na ultima extremidade por
-Mazzini reuniu-se a elle em Genova, com dois outros generaes e um
-ajudante de campo.
-
-A conferencia foi triste, e mal annunciada por pessimos agouros.
-Mazzini propoz que se occupasse militarmente a villa de S. Julião, onde
-se achavam reunidos os patriotas saboyanos e os republicanos francezes,
-que haviam adherido ao movimento.
-
-Era em S. Julião que se devia levantar o grito de rebellião.
-
-Ramorino era da opinião de Mazzini. As duas columnas deviam pôr-se
-em marcha no mesmo dia: uma partiria de Caronge, e a outra de Nyon,
-devendo esta atravessar o lago para se reunir á primeira na estrada de
-S. Julião.
-
-Ramorino ficava com o commando da primeira columna: a segunda estava
-debaixo das ordens de Graboky.
-
-O governo genovez receioso de se indispor, por um lado com a França,
-por outro com o Piemonte, viu com maus olhos este movimento. Quiz
-oppor-se á partida da columna de Caronge commandada por Romarino, mas o
-povo sublevou-se, e o governo foi forçado a deixal-a marchar.
-
-Não succedeu o mesmo com a que devia partir de Nyon.
-
-Dous barcos se haviam feito de véla, levando um soldados, e o outro
-armas.
-
-Mandaram em sua perseguição um navio de guerra a vapor, que trouxe as
-armas e aprisionou os soldados.
-
-Ramorino não vendo chegar a tropa que se lhe devia juntar, em logar de
-proseguir na sua marcha sobre S. Julião, começou a costear o lago.
-
-Muito tempo se passou sem saber aonde iam. Não se conheciam as
-intenções do general: o frio era intenso, e os caminhos estavam em um
-estado deploravel.
-
-Exceptuando alguns polacos, a columna era composta de voluntarios
-italianos, impacientes pela hora do combate, mas que cançavam
-facilmente pela extensão e difficuldade do caminho.
-
-A bandeira italiana atravessou algumas pobres villas, nenhuma voz
-amiga a saudou, não encontrando por toda a parte senão curiosos ou
-indifferentes.
-
-Fatigado pelos seus largos trabalhos, Mazzini que tinha trocado a
-penna pela espingarda, seguia a columna: soffrendo uma febre ardente,
-arrastava-se por aquelles asperos caminhos com a dôr escripta na fronte.
-
-Já por varias vezes tinha perguntado a Ramorino quaes eram as suas
-intenções, e que caminho seguia.
-
-As respostas do general nunca o haviam satisfeito.
-
-Chegaram a Carra e detiveram-se para ahi passar a noite; Mazzini e
-Ramorino achavam-se na mesma camara.
-
-Ramorino estava embrulhado na sua capa; Mazzini fixava sobre elle o seu
-olhar sombrio desconfiado.
-
---Não é seguindo este caminho, disse elle com a sua voz sonora, tornada
-mais vibrante pela febre, que temos a esperança de encontrar o inimigo.
-Devemos ir ao seu encontro, e se a victoria é impossivel, provemos ao
-menos á Italia que sabemos morrer.
-
---Não nos faltará nem o tempo, nem a occasião, respondeu o general,
-para affrontar perigos inuteis: considero como um crime o expôr
-inutilmente a flôr da mocidade italiana.
-
---Não ha religião sem martyres, respondeu Mazzini, fundemos a nossa,
-ainda que seja com o nosso sangue.
-
-Mal acabava de pronunciar estas palavras, que o estrondo da fuzilaria
-se ouviu.
-
-Ramorino deu um salto. Mazzini pegou n'uma carabina, agradecendo a Deus
-o ter-lhe feito encontrar o inimigo. Mas este era o ultimo esforço da
-sua energia: a febre devorava-o; os seus companheiros correndo de noite
-pareciam-lhe fantasmas, a fronte escaldava-lhe, e a terra tremia-lhe
-debaixo dos pés. Depois de alguns minutos de afflicção caíu desmaiado.
-
-Quando voltou a si achou-se na Suissa, aonde os seus companheiros o
-tinham conduzido com grande trabalho: a fuzilaria de Carra tinha sido
-um rebate falso.
-
-Ramorino declarou então que tudo estava perdido: recusou-se a ir mais
-longe e ordenou a retirada.
-
-Durante este tempo uma columna de cem homens, da qual faziam parte
-um certo numero de republicanos francezes, partiu para Grenoble, e
-atravessou a fronteira da Saboya.
-
-O perfeito francez preveniu as auctoridades sardas: os republicanos
-foram attacados de noute e de improviso, ao pé das grutas de Cobellos,
-e dispersos depois d'um combate que durou uma hora.
-
-N'este combate os soldados sardos fizeram dois prisioneiros. Angelo
-Volantieri e José Borrel: conduzidos voluntariamente a Chamberg e
-condemnados á morte, foram fuzilados na mesma terra aonde ainda estava
-fumegante o sangue de Elfico Tolla.
-
-Por este modo terminou aquella expedição.
-
-
-
-
- VI
-
- O DEUS DOS BONS
-
-
-Tinha tambem a minha parte a cumprir no movimento que devia ter tido
-logar, e havia-a acceitado sem discutir.
-
-Havia entrado no serviço do estado como marinheiro de primeira classe
-da fragata _Eurydice_. A minha missão era alcançar proselytos para a
-nossa causa, e para conseguir este fim tinha feito tudo quanto me era
-possivel.
-
-Dado o caso que o nosso movimento tivesse bom resultado, devia com
-os meus companheiros apoderar-me da fragata e pôl-a á disposição dos
-republicanos.
-
-Não havia querido, impellido pelo ardor que sentia, limitar-me a este
-papel. Tinha ouvido dizer que um movimento teria logar em Genova,
-devendo por esta occasião apoderarem-se do quartel dos gendarmes
-situado na praça de Sarzana. Deixei aos meus companheiros o cuidado
-de se assenhorearem do navio, e proximo da hora em que devia rebentar
-a rebellião de Genova deitei uma canôa ao mar e desembarquei na
-alfandega, gastando poucos momentos a chegar á praça de Sarzana, onde,
-como já disse, estava situado o quartel.
-
-Esperei quasi uma hora, mas nenhum indicio de rebellião appareceu.
-Bem depressa ouvi dizer que tudo estava perdido, havendo-se posto os
-republicanos em fuga: dizendo-se tambem que varias prisões haviam sido
-feitas.
-
-Como não me tinha engajado na marinha sarda senão para ajudar o
-movimento republicano, julguei inutil voltar a bordo do _Eurydice_,
-começando a pensar nos meios de me pôr em fuga.
-
-No momento em que fazia estas reflexões, alguma tropa prevenida sem
-duvida do projecto de nos apoderarmos do quartel, começou a guarnecer a
-praça.
-
-Vi então que não havia tempo a perder. Refugiei-me em casa de uma
-vendedeira de fructa e confessei-lhe a situação em que me achava.
-
-A excellente mulher não fez nenhuma reflexão e escondeu-me nos quartos
-interiores do seu estabelecimento. No dia seguinte procurou-me um fato
-completo de camponez, e pelas oito horas da noite sahi, como se andasse
-passeando, de Genova pela porta da Lanterne, começando então essa vida
-de exilio, luto e perseguição, que, segundo todas as probabilidades,
-ainda não finalisou.
-
-Estavamos a 5 de fevereiro de 1834.
-
-Abandonando os caminhos batidos e trilhados dirigi-me por atalhos para
-as montanhas. Tinha bastantes jardins que atravessar, e muitos muros
-que saltar. Felizmente estava familiarisado com estes exercicios, e
-depois de uma hora de gymnastica achava-me fóra do ultimo jardim.
-
-Encaminhado-me para Cassiopea, ganhei as montanhas de Sestri, e no fim
-de dez dias, ou antes de dez noites; cheguei a Niza, dirigindo-me logo
-a casa de minha tia, na praça da Victoria, a fim de que ella prevenindo
-minha mãe lhe tirasse todos os cuidados.
-
-Descancei um dia, e na noite seguinte parti acompanhado por dois
-amigos, José Jaun, e Engelo Gostavini.
-
-Chegados ao Var, achamol-o innundado pelas chuvas, mas para um nadador
-como eu, não era isto um obstaculo. Atravessei-o metade a nado, metade
-a vau.
-
-Os meus dois amigos haviam ficado na outra margem. Disse-lhe adeus.
-
-Estava salvo, ou quasi, como se vae vêr.
-
-N'esta esperança dirigi-me a um corpo de guardas da alfandega;
-disse-lhe quem era, e qual o motivo porque havia deixado Genova.
-
-Os guardas disseram-me que era seu prisioneiro, até nova ordem, e que a
-iam mandar pedir a Paris.
-
-Julgando que acharia facilmente occasião de fugir, não fiz nenhuma
-resistencia, e deixei-me conduzir a Grasse, e de Grasse a Draguignan.
-
-Em Draguignan metteram-me em um quarto do primeiro andar, cuja janella
-sem grades, dava para um jardim.
-
-Aproximei-me d'ella como se quizesse vêr o jardim: da janella ao chão
-havia a altura de quinze pés. Dei um salto, e em quanto os guardas,
-menos ligeiros e estimando mais as pernas do que eu estimava as minhas,
-saíam pela escada; ganhei-lhe muita dianteira embrenhando-me nas
-montanhas.
-
-Não conhecia o caminho, mas era marinheiro, e lendo no ceo, n'esse
-grande livro, aonde estava habituado a lêr, orientei-me e dirigi-me a
-Marselha. No dia seguinte de tarde cheguei a uma villa de que nunca
-soube o nome, porque nem tive tempo para o perguntar.
-
-Entrei n'uma estalagem. Um mancebo e uma mulher ainda joven estavam á
-mesa esperando pela ceia.
-
-Pedi alguma cousa de comer: desde a vespera que não havia tomado nenhum
-alimento.
-
-O dono da hospedaria convidou-me para ceiar na sua companhia e de sua
-mulher. Acceitei.
-
-A comida era boa, o vinho do paiz agradavel, e o fogo excellente.
-Senti então um d'esses momentos de bem estar e felicidade, como só se
-experimentam depois de se haver passado um perigo, e quando se julga
-não haver mais nada a receiar.
-
-O dono da hospedaria felicitou-me pelo meu bom appetite, e pelo meu
-rosto alegre e prasenteiro.
-
-Disse-lhe que o meu appetite não tinha nada de extraordinario,
-porque não tinha comido havia dezoito horas e que o achar-me alegre
-e satisfeito era por haver escapado talvez á morte no meu paiz--e em
-França á prisão.
-
-Tendo-me adiantado tanto, não podia fazer segredo do resto. O
-estalajadeiro e sua mulher pareciam-me tão boas pessoas que lhe contei
-tudo.
-
-Então, com grande espanto meu, o estalajadeiro ficou pensativo.
-
---Que tem? lhe perguntei.
-
---É que depois da confissão que acaba de fazer, respondeu elle, não
-tenho remedio senão prendel-o.
-
-Dei uma grande gargalhada porque não tomei este dito ao serio, e demais
-se o fosse eramos um contra um, e não havia no mundo um unico homem
-que eu temesse.
-
---Bem, disse eu, mas como julgo que não tem muita pressa, peço-lhe que
-me deixe ceiar com todo o descanço, pois temos muito tempo depois do
-_dessert_. E continuei comendo sem mostrar a mais leve inquietação.
-
-Infelizmente vi bem depressa que se o estalajadeiro tivesse necessidade
-de ajudantes para realisar os seus projectos, esses ajudantes não lhe
-faltavam.
-
-A sua estalagem era o logar aonde toda a mocidade da villa se reunia ás
-noutes para beber, fumar, e fallar da politica.
-
-A sociedade do costume começava a reunir-se, e bem depressa estavam na
-estalagem mais de doze mancebos, jogando as cartas, bebendo e fumando.
-
-O estalajadeiro não tornou a fallar na minha prisão, mas tambem não me
-perdia de vista.
-
-É verdade que não tendo eu a mais pequena mala, não tinha cousa alguma
-que lhe assegurasse o pagamento da minha despesa.
-
-Como tinha na algibeira alguns escudos, fiz barulho com elles, o que
-pareceu socegar o meu homem.
-
-No momento em que um dos bebedores acabava, no meio dos applausos
-geraes, de cantar uma canção, ergui o copo que tinha na mão:
-
---Agora pertence-me, disse eu:
-
-E comecei a cantar o _Deus dos bons_.
-
-Se não tivesse outra vocação teria podido fazer-me cantor, porque tenho
-uma voz de tenor que cultivada alcançaria uma certa extensão.
-
-Os versos de Beranger, a franquesa com que eram cantados, a
-fraternidade do estribilho, a popularidade do poeta, arrebataram todo o
-auditório.
-
-Fizeram-me repetir dois ou tres couplets e abraçando-me todos quando
-acabei, gritaram--Viva Beranger! Viva a França! Viva a Italia!
-
-Depois de haver obtido tal successo era escusado pensar em prender-me;
-o estalajadeiro conheceu isso porque nunca mais me fallou de tal,
-ignorando eu por isso se elle fallava seriamente ou se zombava.
-
-Passou-se a noite a cantar, jogar e a beber; e ao romper do dia todos
-os meus companheiros da noite se offereceram para me acompanhar, honra
-que acceitei sem difficuldade: caminhámos juntos seis milhas.
-
-Com toda a certeza Beranger morreu sem saber o grande serviço que me
-prestou.
-
-
-
-
- VII
-
- ENTRO AO SERVIÇO DA REPUBLICA DO RIO GRANDE
-
-
-Cheguei a Marselha sem incidente, vinte dias depois de ter deixado
-Genova.
-
-Engano-me, um incidente, que li no _Povo Soberano_, me succedeu.
-
-Estava condemnado á morte.
-
-Era a primeira vez que tinha a honra de ver o meu nome impresso em um
-jornal.
-
-Como desde então era perigoso continuar a usar d'elle, comecei a
-chamar-me Pane.
-
-Fiquei alguns mezes occioso em Marselha, aproveitando-me da
-hospitalidade do meu amigo José Paris.
-
-Passado algum tempo consegui ser admittido como segundo commandante no
-navio _Union_, capitão Gozan.
-
-No domingo seguinte achando-me pelas cinco horas da tarde á janella com
-o capitão, seguia com a vista um collegial em ferias que se divertia
-no caes de Santo André a saltar de uma barca para outra, até que
-faltando-lhe um pé caíu ao mar.
-
-Estava vestido á _domingueira_, mas apesar d'isso, ouvindo os gritos
-dados pela desgraçada creança arrojei-me á agua completamente vestido.
-Duas vezes mergulhei inutilmente, mas á terceira fui mais feliz porque
-o agarrei por debaixo dos braços, conseguindo trazel-o sem difficuldade
-até á praia. Uma grande quantidade de povo ahi estava reunida, sendo eu
-recebido no meio dos seus applausos e bravos.
-
-Era um rapaz de quatorze annos que se chamava José Bambau. As lagrimas
-de alegria e as bençãos de sua mãe pagaram-me largamente do banho que
-tinha tomado.
-
-Como o salvei debaixo do nome de José Pane, é provavel que se é ainda
-vivo, nunca soubesse o verdadeiro nome de seu salvador.
-
-Fiz na _Union_ a minha terceira viagem a Odessa, depois á volta
-embarquei-me em uma fragata do bey de Tunis. Deixei-a no porto de
-Goletta, voltando a Marselha em um brigue turco. Quando cheguei a esta
-cidade encontrei-a quasi no mesmo estado que M. de Belzunce a viu em
-1720 quando ali grassava a febre negra.
-
-O cholera fazia então estragos horriveis.
-
-Na cidade só existiam os medicos e as irmãs da caridade, quasi todo o
-resto da população havia desertado e viviam nas quintas dos arrebaldes.
-Marselha tinha o aspecto d'um vasto cemiterio.
-
-Os medicos pediam os benevolos. É assim, como se sabe, que são chamados
-nos hospitaes os enfermeiros voluntarios.
-
-Offereci-me ao mesmo tempo que um rapaz de Trieste que voltou de Tunis
-comigo. Estabelecemo-nos no hospital, e ahi partilhavamos as vigilias.
-
-Este serviço durou quinze dias. No fim d'este tempo, como o cholera
-diminuiu de intensidade e achava uma occasião favoravel de ver novos
-paizes, embarquei-me, como segundo no brigue _Nantonnier_, de Nantes,
-capitão Beauregard, que se achava proximo a partir para o Rio de
-Janeiro.
-
-Muitos dos meus amigos me teem dito que antes de tudo sou poeta.
-
-Se para ser poeta é necessario escrever a _Iliada_, a _Divina Comedia_,
-as _Meditações de Lamartine_, ou os _Orientaes_, de Victor Hugo, eu
-não sou poeta: mas se para o ser é necessario passar horas e horas
-a procurar nas aguas asuladas e profundas do mar os mysterios da
-vegetação submarina, se é necessario ficar em extase diante da bahia do
-Rio de Janeiro, de Napoles ou de Constantinopla, se é preciso pensar no
-amor filial, nas recordações infantis, ou n'um amor juvenil no meio das
-ballas e bombas, sem pensar que esse sonho ha-de acabar pela cabeça ou
-por um braço quebrado--então sou poeta.
-
-Recordo-me que um dia, durante a ultima guerra, não dormindo havia
-quarenta horas, e morto de cançasso costeava Urbano e os seus doze mil
-homens com os meus quarenta bersaglieri, os meus quarenta cavalleiros e
-um milhar de homens armados na sua maioria pessimamente, seguia por um
-pequeno atalho do outro lado do monte Orfano com o coronel Turr e cinco
-ou seis homens, quando parei repentinamente, esquecendo a fadiga e o
-perigo para ouvir um rouxinol.
-
-Era uma noite magnifica. Sonhava ouvindo este amigo de infancia, que
-um orvalho benefico e regenerador chovia em torno de mim. Os que me
-rodeavam julgaram ou que hesitava no caminho a seguir, ou que ouvia
-ao longe troar os canhões, ou os passos da cavallaria inimiga. Não!
-Escutava um rouxinol que ha mais de dez annos, póde ser, eu não tinha
-ouvido. Este extase durou não até que os que me rodeavam me tivessem
-repetido duas ou tres vezes «General, ahi está o inimigo» mas até que
-este rompendo o fogo fizesse desapparecer o meu encanto.
-
-Quando depois de ter costeado os rochedos graniticos que occultam a
-todas as vistas o porto, que os indios na sua linguagem expressiva
-chamam Nelheroky, quer dizer, agua occulta, quando depois de haver
-passado a estrada que conduz á nova bahia socegada como um lago; quando
-na margem occidental d'esta bahia, vi elevar-se a cidade chamada
-_Paus d'Assucar_, immenso rochedo conico que serve não de pharol,
-mas de balisa aos navegantes, quando appareceu em volta de mim essa
-natureza luxuriante de que a Africa e a Asia só me tinham dado uma
-fraca idéa, fiquei maravilhado do espectaculo esplendido que meus olhos
-contemplavam.
-
-Foi no Rio de Janeiro que a minha boa estrella fez com que eu
-encontrasse a coisa mais rara do mundo, isto é, um amigo.
-
-Não tive necessidade de o procurar, não tivemos necessidade de nos
-estudar, para nos conhecermos, encontramo-nos, trocamos um olhar e nada
-mais; depois um sorriso, um aperto de mão, e Rossetti e eu eramos dous
-irmãos.
-
-Mais tarde terei occasião de dizer o que valia esta nobre alma; e não
-obstante, eu, o seu maior amigo, seu irmão, o seu companheiro por tanto
-tempo inseparavel, morrerei, póde ser, sem ter occasião de plantar uma
-cruz no ponto ignorado da terra aonde repousam os restos deste generoso
-e valente cidadão.
-
-Depois de termos passado algum tempo na _ociosidade_--Chamo ociosidade
-o estarmos Rossetti e eu, seguindo um modo de vida para que não
-tinhamos disposição alguma--o acaso fez com que travassemos relações
-com Zambecarri, secretario de Bento Gonçalves, presidente da republica
-do Rio Grande, que se achava então em guerra com o Brasil. Ambos
-estavam prisioneiros de guerra em Santa Cruz n'uma fortaleza que se
-eleva á direita á entrada do porto d'onde chamam os navios á falla.
-Zambecarri, filho do famoso areonauta perdido n'uma viagem á Syria e de
-que nunca mais se ouviu fallar, apresentou-me ao presidente que me deu
-a carta para poder piratear os navios brasileiros.
-
-Algum tempo depois Bento Gonçalves e Zambecarri fugiram a nado chegando
-livres de todo o perigo ao Rio Grande.
-
-
-
-
- VIII
-
- CORSARIO
-
-
-Armámos em guerra o _Mazzini_, pequeno navio de trinta toneladas, e
-fizemo-nos ao mar com dezeseis companheiros de aventuras. Finalmente
-eramos livres, navegavamos debaixo de um pavilhão republicano; emfim
-eramos _corsarios_.
-
-Com dezeseis homens de equipagem e um navio eramos capazes de declarar
-a guerra a um imperio.
-
-Sahindo do porto dirigi-me para as ilhas Marica, situadas a cinco ou
-seis milhas da embocadura da barra. As nossas armas e munições estavam
-occultas debaixo das carnes salgadas e da mandioca, unico alimento dos
-negros.
-
-Naveguei para a maior d'estas ilhas, que possue um ancuradouro, lancei
-a ancora, saltei em terra e subi ao monte mais elevado.
-
-Ahi estendi os braços com um sentimento de felicidade e orgulho
-inexplicavel, dando um grito similhante ao da aguia quando paira no
-mais alto dos ares.
-
-O Oceano pertencia-me e eu tomava posse do meu imperio.
-
-A occasião de o exercer não se fez esperar.
-
-Em quanto estava como um passaro do mar, debruçado sobre o meu
-observatorio, vi uma galeota navegando com o pavilhão brasileiro.
-
-Mandei apromptar tudo para nos fazermos immediatamente ao mar, e desci
-á praia.
-
-Navegámos direitos á galeota que não julgava por certo correr tão
-grande perigo a tres milhas da barra do Rio de Janeiro.
-
-Abordando-a fizemo-nos conhecer, e intimámos o capitão para se render
-immediatamente. Para sua justiça é necessario dizer que não fizeram a
-mais pequena resistencia. Em poucos momentos estavamos a seu bordo.
-Vi então dirigir-se-me um passageiro portuguez, que trazia na mão uma
-caixa. Abriu-a, e mostrou-a cheia de diamantes, que me offereceu em
-troca da vida.
-
-Fechei a caixa e entreguei-lh'a, dizendo-lhe que a sua vida não corria
-perigo algum, e que por consequencia, podia guardar os seus diamantes
-para melhor occasião.
-
-Não tinhamos tempo a perder, estavamos quasi debaixo do fogo das
-baterias do porto. Transportámos as armas e munições para bordo da
-galeota e affundámos o _Mazzini_ que como se vê, tinha tido uma curta,
-mas gloriosa existencia.
-
-A galeota pertencia a um rico negociante austriaco que habitava a ilha
-Grande, situada á direita sahindo do porto, a quinze milhas de terra, e
-estava carregada de café que era enviado á Europa.
-
-O navio era para mim, por todos os motivos, uma excellente presa,
-porque pertencia a um austriaco a quem eu tinha feito a guerra na
-Europa, e a um negociante brasileiro domiciliado no Brasil a quem eu
-fazia a guerra na America.
-
-Dei á galeota o nome de _Farropilha_, derivado de _Farrapos_, nome que
-no imperio do Brasil se dá aos habitantes das republicas da America do
-Sul, assim como Filippe II chamava _mendigos de terra ou de mar_, aos
-revoltosos dos Paizes Baixos.
-
-Até então a galeota chamava-se _Luiza_.
-
-O nome que lhe havia dado calhava perfeitamente. Os meus companheiros
-não eram Rossettis, e devo confessar, que a figura de alguns d'elles,
-não era satisfatoria; isto explica a rapida entrega da galeota e o
-terror do portuguez que me offereceu os seus diamantes.
-
-Durante todo o tempo que fui corsario dei ordem á minha gente para
-a vida, honra e fortuna dos passageiros ser respeitada... ir dizer
-debaixo de pena de morte, mas não devo dizer tal, porque não tendo até
-hoje ninguem infringindo as minhas ordens, não tenho tido ninguem que
-punir.
-
-Depois de concluidos os nossos primeiros arranjos dirigi-me para
-o Rio da Prata, e para dar o exemplo de respeito que eu queria se
-tivesse no futuro pela vida, liberdade e bens dos passageiros, quando
-cheguei á altura da ilha de Santa Catharina, um pouco abaixo do cabo
-Itapoya, mandei deitar ao mar a lancha do navio e entregando tudo
-quanto pertencia aos passageiros e alguns mantimentos os fiz embarcar
-deixando-os livres de se dirigirem para onde quizessem.
-
-Cinco pretos escravos da galeota e a quem eu havia dado a liberdade
-engajaram-se como marinheiros.
-
-Quando chegámos ao Rio da Prata, ancorámos em Maldonato pertencente á
-republica oriental de Uruguay.
-
-Fomos admiravelmente recebidos pela população e mesmo pelas
-auctoridades, o que me pareceu de excellente agouro. Rossetti partiu
-pois tranquilamente para Montevideo afim de ahi vender o nosso café e
-apurar algum dinheiro.
-
-Nós ficámos em Maldonato,--quer dizer á entrada d'esse magnifico rio
-que na sua embocadura tem trinta leguas de largo--durante oito dias que
-se passaram em festas continuas, que infelizmente estiveram para acabar
-tragicamente. Oribe, que, na sua qualidade de chefe da republica de
-Montevideo não reconhecia as outras republicas, deu ordem ao governador
-de Montevideo para me prender e apoderar-se da galeota. Felizmente
-o governador de Maldonato era um excellente homem que em logar de
-executar a ordem que recebeu, o que não lhe teria sido difficil pela
-pouca ou nenhuma desconfiança que eu tinha, mandou-me prevenir para que
-levantasse ancora e partisse para o meu destino, se é que o tinha.
-
-Prometti partir na mesma noite, mas antes tinha um negocio pessoal a
-tractar em terra.
-
-Tinha vendido, para comprar viveres, a um negociante de Montevideo
-algumas saccas de café e algumas bijouterias, pertencentes ao nosso
-austriaco. Mas ou porque o meu comprador fosse máu pagador, ou porque
-tendo ouvido dizer que eu talvez fosse preso, julgasse que poderia
-passar sem me pagar, ainda não me tinha sido possivel receber o meu
-dinheiro. Sendo pois obrigado a partir n'aquella mesma noute, e
-querendo entrar de posse do que me pertencia antes de deixar Maldonato,
-não tinha tempo a perder.
-
-Por conseguinte ás nove horas da noute mandei apparelhar, e mettendo
-um par de pistolas na cintura, embrulhei-me na minha capa e dirigi-me
-tranquillamente para casa do negociante.
-
-Fazia um luar magnifico. Pouco distante da casa do meu homem vi-o á
-porta tomando o fresco, elle tambem me viu e reconheceu, porque me fez
-signal de me affastar, indicando-me por este modo que a minha vida
-corria risco.
-
-Fiz que não via, fui direito a elle, e por toda a explicação
-apresentei-lhe uma pistola aos peitos:
-
---O meu dinheiro, lhe disse eu.
-
-Quiz responder-me, mas quando lhe repeti pela terceira vez «o meu
-dinheiro» fez-me entrar em sua casa, pagando-me logo os dois mil
-patacões que me devia.
-
-Metti de novo a pistola no cinturão, puz o sacco do dinheiro debaixo do
-braço, e voltei ao meu navio sem me ter acontecido o menor incidente.
-
-Ás onze horas da noute levantámos ancora.
-
-
-
-
- IX
-
- O RIO DA PRATA
-
-
-Ao romper do dia, com grande admiração nossa, estavamos no meio dos
-cachopos das Pedras Negras.
-
-Como me achava em tal situação é que eu não podería explicar. Não havia
-dormido um minuto, não tinha deixado de olhar um momento para a costa,
-consultando a todos os instantes a bussola, dirigindo-me pelas suas
-indicações, e apezar d'isso achava-me no perigo que queria evitar.
-
-Não havia momento a perder: o perigo era enorme: estavamos cercados por
-todos os lados de cachopos. Saltei para a verga do traquete, e d'ahi
-mandei orçar sobre bombordo, e em quanto se executava esta manobra foi
-arrebatada pelo vento a nossa pequena gavea.
-
-Do logar onde me achava dominava o navio e os recifes, podendo por
-isso indicar o caminho que era necessario fazer seguir á galeota, que
-do seu lado parecendo um ente animado, e conhecedora do perigo em
-que estavamos, obedecia com toda a docilidade ao leme. No fim de uma
-hora, durante a qual estivemos entre a vida e a morte, e em que vi
-empallidecer os meus mais valentes marinheiros, estavamos salvos.
-
-Depois de passado o perigo, quiz conhecer qual o motivo porque havia
-sido lançado no meio d'esses terriveis cachopos, tão conhecidos dos
-navegantes, tão bem indicados nas cartas maritimas, e a tres milhas dos
-quaes julgava estar quando me achava no meio d'elles.
-
-Consultei a bussola: continuava a divagar: teria pois naufragado, se
-por infelicidade, amanhecendo, não tivesse conhecido o perigo:
-
-Em pouco tempo tudo me foi explicado.
-
-Quando sahi do navio para pedir os dois mil patacões ao meu comprador
-do café, tinha mandado pôr no tambadilho os sabres e fuzís, para
-estar prevenido no caso de algum ataque: executando a minha ordem, os
-marinheiros tinham collocado as armas ao pé da bitácola.
-
-Esta massa de ferro tinha attrahido a si a agulha, que como se sabe,
-tem iman nas duas extremidades. Mandei pois tirar as armas, e a bussola
-continuou a andar regularmente.
-
-Proseguimos a nossa viagem chegando a Jesus-Maria, que do outro lado de
-Montevideo está quasi na mesma distancia que Maldonato.
-
-A unica novidade que ali nos succedeu, foi acabarem-se completamente
-os viveres, por isso que não tinhamos tido tempo de os comprar antes
-da nossa partida. Como não nos era possivel desembarcar, pelas ordens
-dadas, era necessario lançar mão de algum expediente para arranjarmos
-comestiveis.
-
-Começámos a bordejar, sem comtudo nos affastarmos da costa.
-
-Uma manhã descobri na distancia de quasi quatro milhas uma casa, que
-pelo seu aspecto me pareceu uma herdade. Mandei ancorar o mais perto
-possivel da praia, e como não tinha escaler, porque, como já disse,
-havia dado o meu aos individuos que tinham desembarcado em Santa
-Catharina, arranjei uma jangada com uma mesa e alguns tonneis, e armado
-com um croque, embarquei n'esta embarcação de novo gosto com um unico
-marinheiro, que sem ser meu parente tinha comtudo o nome de Garibaldi:
-o seu pronome era Mauricio.
-
-O navio estava seguro por duas amarras, em consequencia dos ventos
-pampeiros que eram mui violentos.
-
-Eis-me pois no meio dos recifes não navegando, mas sim dançando em cima
-de uma mesa, arriscado a todos os momentos a ser submergido. Depois
-de termos praticado maravilhosos trabalhos de equilibrio, conseguimos
-encalhar na praia. Deixei Mauricio encarregado de guardar a jangada, e
-desembarquei.
-
-
-
-
- X
-
- AS PLANICIES ORIENTAES
-
-
-O espectaculo que então se me offereceu á vista, e que admirava pela
-primeira vez, teria, para ser dignamente descripto, necessidade da
-penna de um poeta ou do pincel de um pintor. Via ondular na minha
-frente como as vagas de um mar solidificado os immensos horisontes
-das--planicies orientaes--assim chamadas porque estão no lado oriental
-do rio Uruguay, que vae lançar-se no rio da Prata, defronte de
-Buenos-Ayres, abaixo de Colonia. Era, posso jural-o, um espectaculo
-cheio de novidade para um homem chegado do outro lado do Atlantico, e
-sobre tudo para um italiano, nascido em um paiz em que é difficultoso
-vêr um palmo de terra sem encontrar uma casa ou alguma obra dos homens.
-
-Ali pelo contrario existia unicamente a obra de Deus, tal como havia
-sahido das suas mãos no dia da creação.
-
-Era uma vasta, uma immensa campina, e o seu aspecto que é o de um
-tapete de verdura e flores, não muda senão nas margens do ribeiro
-Arroga, onde se elevam balanceando ao vento encantadores grupos de
-arvores com folhas luxuriantes.
-
-Os cavallos, os bois, as gazellas, as avestruzes são, á falta de
-creaturas humanas os habitantes d'essas immensas solidões, que só são
-atravessadas pelos gauchos, esses centauros do novo mundo, como para
-dar a entender a essas turbas de animaes selvagens que Deus lhe deu um
-senhor... Mas esse senhor, como o veem passar os touros, as avestruzes,
-as gazellas! É a quem protestará primeiro contra a sua supposta
-dominação: o touro pelos seus mugidos, a avestruz e a gazella pela fuga.
-
-Esta vista fez-me pensar na patria, onde quando passa o austriaco
-que os opprime, os homens, essas creaturas creadas á imagem de Deus,
-cumprimentam-no e se curvam, não ousando dar os mesmos signaes de
-independencia que os animaes selvagens dão á vista do gaucho.
-
-SENHOR, até quando permittireis tão grande aviltamento da vossa
-creatura!?
-
-Deixemos o velho mundo, tão triste e aviltado, e voltemos ao novo, tão
-joven, e tão cheio de esperanças!
-
-Como é bello o cavallo das planicies orientaes, com os seus jarretes
-estendidos, com as ventas fumantes, com os seus labios que nunca
-sentiram a friesa do aço! Como respiram livremente debaixo do contacto
-da sua clina e juba, os seus flancos que nunca foram apertados pelo
-joelho dos cavalleiros, nem ensanguentados pelas suas esporas! Como é
-soberbo quando reune, chamando pelos seus rinchos a sua horda de eguas
-dispersas e que verdadeiro sultão do deserto, evita, fugindo em sua
-companhia, a presença dominadora do homem!
-
-Oh! maravilha da natureza! Milagre da creação! Como heide exprimir a
-emoção que á vossa vista experimentou esse corsario de vinte e cinco
-annos, que pela primeira vez estendia os braços para a immensidade.
-
-Mas como esse corsario estava a pé, nem o touro nem o cavallo o
-reconheciam por um homem. Nos desertos da America o cavallo é
-um complemento do homem, e sem o saber, o ultimo dos animaes.
-Primeiramente pararam estupefactos pela minha vista, mas bem depressa
-desprezando sem duvida a minha fraqueza, aproximaram-se de mim a tal
-ponto que sentia o rosto humedecido pela sua respiração. Ninguem
-deve ter receio do cavallo, animal nobre e generoso; mas todos devem
-desconfiar do touro, animal dissimulado e traiçoeiro. As gazellas
-e avestruzes depois de terem, como os cavallos e touros, mas mais
-circumspectamente, feito o seu reconhecimento, partiram rapidas como a
-flecha, e chegando ao alto d'um montezinho voltaram-se para verem se
-eram perseguidas.
-
-N'este tempo, isto é, pelos fins de 1834 e principios de 1835, esta
-parte do terreno oriental estava ainda virgem de toda a guerra; eis o
-motivo porque ali se encontrava tanta quantidade de animaes selvagens.
-
-
-
-
- XI
-
- A POETISA
-
-
-Continuei dirigindo-me para uma _estancia_.[4] Ahi encontrei só a
-mulher do _capataz_.[5] Como não podia vender-me ou dar um boi sem
-consentimento de seu marido, era necessario esperar a sua volta. Demais
-era tarde e antes do dia seguinte não se podia conduzir o animal até ao
-mar.
-
- [4] Nome das herdades na America do Sul.
-
- [5] Dono do estabelecimento.
-
-Ha momentos na vida de que a recordação ao mesmo tempo que elles se
-affastam continúa vivendo e augmentando na nossa memoria e tão bem
-que sejam quaes forem os outros successos da nossa existencia, essa
-recordação só se apaga com a morte. Era destino meu encontrar no meio
-d'este deserto, esposa de um homem quasi selvagem uma mulher de uma
-educação cultivada, uma poetiza sabendo pelo coração Dante, Petrarcha e
-Tasso.
-
-Depois de ter esgotado toda a minha sciencia na lingua hespanhola,
-fiquei agradavelmente surprehendido, ouvindo-a responder-me em
-italiano, convidando-me graciosamente a assentar-me, em quanto seu
-marido não chegava. No meio da nossa conversação, a minha encantadora
-hospedeira, perguntou-me se eu conhecia as poesias de Quintana, e
-ouvindo a minha resposta negativa, fez-me presente de um volume d'essas
-poesias, dizendo-me que m'o dava para apprender por sua causa o
-hespanhol. Perguntei-lhe então se era poetisa.
-
---Ha alguem, me respondeu, que diante d'esta natureza não seja poeta?
-
-E sem se fazer rogar recitou-me muitos trechos de poesias suas em que
-achei muito sentimento e uma grande harmonia. Teria passado toda a
-noite a escutal-a sem me lembrar de Mauricio que me esperava guardando
-a meza-jangada, mas a entrada do marido fez cessar o lado poetico para
-me chamar ao fim material da minha visita. Disse-lhe o que queria e foi
-combinado que no dia seguinte me venderia e levaria á praia um boi.
-
-Ao romper do dia despedi-me da minha bella poetisa e fui ter com
-Mauricio. O pobre diabo tinha passado a noite o melhor que poude,
-mettido entre os quatro toneis, e muito inquieto por meu respeito,
-receiando que eu tivesse sido devorado pelos tigres, muito communs
-n'esta parte da America e menos inoffensivos que os cavallos e os
-touros.
-
-No fim de alguns momentos appareceu o capataz trazendo um boi ao
-laço. Em poucos momentos o animal foi morto e esquartejado, tal é a
-habilidade que os homens do sul teem para estas obras de sangue.
-
-Faltava transportar o boi, cortado em pedaços e leval-o para o navio,
-isto é, a mil passos de distancia, pelo menos, tendo de atravessar os
-cachopos onde se despedaçavam as ondas furiosas.
-
-Mauricio e eu démos começo á nossa empreza.
-
-Já sabem como era construida a jangada que nos devia conduzir a bordo:
-uma meza com um tonel amarrado a cada pé, um pau no centro, que vindo
-do navio, tinha servido para suspender os nossos vestidos, e que
-voltando devia conduzir os viveres sustentando-os ao de cima da agua.
-
-Deitámos a jangada ao mar, pozemo-nos em cima, e Mauricio com uma vara
-na mão, e eu com um croque, começámos a manobrar temdo agua até aos
-joelhos, porque o peso que a jangada levava era excessivo.
-
-A nossa manobra executou-se com grandes applausos do americano e da
-tripulação da galeota, que fazia ardentes votos, póde ser, não pela
-nossa salvação, mas sim pela da carne que conduziamos. A nossa viagem
-ao principio foi feliz, mas chegamos a uma linha de cachopos que nos
-era necessario atravessar, achámo-nos por duas vezes quasi submergidos.
-
-Felizmente atravessamo-la sem novidade.
-
-Mas livres dos cachopos, estavamos em perigo mais imminente.
-
-Não encontravamos o fundo com os nossos croques, e por conseguinte era
-impossivel dirigir a embarcação. Alem d'isso a corrente tornando-se
-mais violenta, á medida que avançamos no rio, arrojava-nos para longe
-da galeota.
-
-Pareceu-me chegado o momento de atravessar o Atlantico parando só em
-Santa Helena ou no Cabo da Boa Esperança.
-
-Os nossos companheiros, se nos quizessem apanhar, não tinham senão o
-recurso de largarem as velas. Foi o que fizeram, e como o vento estava
-de terra a galeota bem depressa nos alcançou.
-
-Passando junto de nós os nossos companheiros, lançaram-nos um cabo.
-Amarramos com elle a jangada ao navio, e depois de termos içado todos
-os viveres é que Mauricio e eu subimos. Em seguida içámos a meza que
-foi reintregada no seu logar na casa do jantar, não tardando muito a
-exercer as suas funcções habituaes.
-
-Vendo o appetite com que os nossos companheiros atacaram a carne, que
-com tanto trabalho tinhamos alcançado, consideramo-nos sufficientemente
-recompensados das nossas fadigas.
-
-Alguns dias depois comprei por trinta escudos a canoa d'um navio que
-cruzava n'estas paragens.
-
-Estivemos ainda este dia á vista do pico de Jesus Maria.
-
-
-
-
- XII
-
- O COMBATE
-
-
-Tinhamos passado a noite ancorados, quasi seis milhas, ao meio dia
-do pico de Jesus Maria, em frente dos barrancos de S. Gregorio. Uma
-pequena brisa do norte começava a apparecer quando vimos vir do lado de
-Montevideo duas barcas que julgámos serem amigas; mas como não tinham
-o pavilhão encarnado, signal convenciado entre nós, julguei prudente
-o fazer-me de vela em quanto os esperava. Além d'isso mandei pôr no
-tombadilho os mosquetes e sabres.
-
-Esta precaução, como se vae vêr não foi inutil. A primeira barca
-continuava a avançar unicamente com tres homens á vista; chegada
-ao alcance do porta-voz, o que nos parecia o chefe disse que nos
-rendessemos e ao mesmo tempo o convez da barca encheu-se de homens
-armados que sem nos dar o tempo de responder á sua intimação começaram
-o fogo. Dei o grito de «Ás armas» e agarrei n'um fuzil, depois
-respondendo a este cumprimento conforme podia, e como estavamos com
-todo o pano mandei.--Ás vélas de diante.
-
-Não sentindo a galeota obedecer ao leme com a docilidade costumada,
-voltei-me e vi que a primeira descarga tinha morto o marinheiro que
-n'aquella occasião ia ao leme, e que era um dos nossos valentes.
-Chamava-se Florentino e tinha nascido em uma das nossas ilhas.
-
-Não havia tempo a perder. O combate estava travado com todo o furor. O
-lanchão, é o nome que dão á qualidade dos barcos com que combatiamos, o
-lanchão tinha-nos abordado pela direita e alguns dos seus marinheiros
-haviam já saltado no nosso barco, mas por felicidade alguns golpes de
-fuzil e sabre nos livraram d'elles.
-
-Depois de ter coadjuvado os meus companheiros a repellir esta abordagem
-agarrei no leme que se achava sem governo por causa da morte de
-Florentino. Infelizmente no momento em que o agarrava para executar uma
-manobra uma balla atravessou-me o pescoço ferindo-me entre a orelha e a
-carotida, fazendo-me cahir sem conhecimento.
-
-O resto do combate que durou uma hora, foi sustentado por Luiz
-Carniglia, piloto, e por Pascoal Sodola, Giovani Lamberti, Mauricio
-Garibaldi e dous maltezes. Os italianos fizeram prodigios de valor, mas
-os estrangeiros e os cinco negros fugiram para o porão. Emfim o inimigo
-fatigado de nossa defeza e tendo uma dezena de homens fóra de combate
-fugiu, em quanto que nós tendo apparecido algum vento continuámos a
-subir o rio.
-
-Ainda que tivesse tornado a mim, fiquei completamente inerte e inutil
-durante o resto do combate.
-
-Confesso, as primeiras impressões que senti abrindo os olhos, foram
-deliciosas. Podia dizer que havia sido morto e que tinha resuscitado,
-tanto o meu desmaio foi profundo. Entretanto esse sentimento de bem
-estar foi bem depressa abafado pelo conhecimento da situação em que
-nos achavamos. Ferido mortalmente, não tendo a bordo quem possuisse
-o menor conhecimento geographico, mandei buscar a carta, e com muita
-difficuldade pois, me achava com a vista coberta com um véo que me
-parecia o da morte, indiquei com o dedo Santa Fé no Rio Parana. Só
-Mauricio é que uma unica vez tinha feito uma viagem ao rio da Prata;
-para todos nós eram pois completamente estranhas aquellas paragens.
-Os marinheiros aterrados--os italianos, devo dizel-o, não partilhavam
-estes sentimentos ou pelo menos sabiam occultal-os--e receiando serem
-presos e considerados como piratas, desertaram na primeira occasião que
-se lhe apresentou. Em quanto esperavam por este momento, em cada barco,
-em cada canoa, em cada tronco d'arvore fluctuante viam um navio inimigo
-enviado em sua perseguição.
-
-O cadaver do nosso desgraçado camarada foi deitado ao mar, com as
-cerimonias costumadas n'estas occasiões, por que durante muitos dias
-não podemos desembarcar em parte alguma.
-
-Este genero de enterramento não era muito do meu agrado, e sentia por
-elle uma grande repugnancia, talvez por me julgar proximo a ter igual
-sorte. Confessei esta aversão a Luiz Carniglia.
-
-No momento em que lhe fazia esta confissão vieram-me á lembrança estes
-versos de Foscolo:
-
-«Uma pedra, um unico signal que difference os meus ossos d'aquelles que
-a morte semea todos os dias na terra e no Oceano.»
-
-O meu pobre amigo chorava promettendo não me deixar lançar á agua. Quem
-sabe se apesar do seu desejo teria podido executar a sua promessa. O
-meu cadaver serviria então para matar a fome a algum lobo marinho, ou
-caiman. Não tornaria a vêr a Italia, não me teria batido por ella, que
-era a minha unica esperança!
-
-Quem diria ao meu caro Luiz que antes d'um anno era eu que o veria
-rolando pelos cachopos, desapparecer no mar, e que procuraria debalde
-o seu cadaver, para cumprir a promessa que elle me havia feito, de
-o sepultar na terra e collocar na sua ultima morada uma cruz que o
-recommendasse á oração dos viandantes. Pobre Luiz! durante a minha
-longa e cruel enfermidade fostes tu que tivestes sempre por mim um
-carinho paternal.
-
-
-
-
- XIII
-
- LUIZ CARNIGLIA
-
-
-Vou dizer algumas palavras sobre o meu pobre amigo Luiz. E porque é
-um simples marinheiro não lhe hei-de dedicar algumas linhas? Porque
-elle não é... Oh! posso assegural-o, a sua alma era bastante nobre
-para sustentar em todas as circumstancias a honra italiana: nobre para
-affrontar todas as tormentas, nobre emfim para me proteger, e para
-cuidar de mim, como se fosse seu filho! Quando estava deitado no meu
-leito de agonia, abandonado por todos, e delirava com o delirio da
-morte, era Luiz que sentado á cabeceira do meu leito com a dedicação e
-paciencia de um anjo não se affastava de mim um instante senão para ir
-chorar e occultar as suas lagrimas. Os seus ossos espalhados no Oceano
-mereciam um monumento onde o proscripto reconhecido podesse um dia
-dizer as suas virtudes aos seus concidadãos, devolvendo-lhe as lagrimas
-piedosas que me consagrou.
-
-Luiz Carniglia era de Deiva, pequeno paiz do Levante. Não havia
-recebido instrucção litteraria, mas suppria esta falta por um
-maravilhoso intendimento. Privado de todos os conhecimentos nauticos
-que são necessarios aos pilotos, governava os navios até Gualeguay com
-a sagacidade e felicidade de um piloto consumado. No combate que acabo
-de referir, foi a elle que principalmente devemos o não ter cahido
-nas mãos do inimigo: armado de um machado estava sempre no logar onde
-havia maior perigo sendo por este modo o terror dos assaltantes. De
-uma estatura elevada e mui robusta reunia uma grande agilidade a um
-extraordinario valor. Dotado de uma grande bondade nas cousas da vida,
-possuia o raro dom de se fazer amar por todos. Infelizmente todos os
-melhores filhos da nossa desgraçada patria teem morrido como este em
-terra estrangeira esquecidos e sem ter quem derrame uma lagrima por
-elles!
-
-
-
-
- XIV
-
- PRISIONEIRO
-
-
-Fiquei desanove dias recebendo unicamente os cuidados de Luiz Carniglia.
-
-No fim d'este tempo chegámos a Gualeguay.
-
-Tinhamos encontrado na embocadura do Ibiqui, um navio commandado por D.
-Lucas Tantalo, excellente homem que teve toda a sorte de cuidados por
-mim prestando-me o que julgava ser-me util na minha posição.
-
-Acceitámos os seus presentes com grande prazer, porque não tinhamos a
-bordo senão café que era o nosso unico alimento. Davam-me pois café
-a todos os momentos sem se importarem se isso era ou não conveniente
-para a minha doença. Comecei por ter uma febre assustadora acompanhada
-por uma grande difficuldade de engolir fosse o que fosse, o que não
-admirava, porque a balla atravessando-me o pescoço de lado a lado
-tinha passado entre as vertebras cervicaes e a pharinge. Decorridos
-oito dias n'este estado afflictivo, a febre havia diminuido, sentindo
-grandes melhoras.
-
-D. Lucas tinha feito mais: partindo, deu-me cartas de recommendação
-para Gualeguay,--fazendo o mesmo a um seu passageiro chamado Arraigada,
-biscainho, que se achava estabelecido na America--e particularmente
-para o governador da provincia d'Entre-Rios, D. Paschal Echague, a quem
-por ter de fazer uma viagem, deixou o seu proprio medico, D. Romão
-Delarea, joven argentino, de muito merito, que examinando a minha
-ferida, e tendo sentido a balla do lado opposto áquelle por que tinha
-entrado, fez a extracção com toda a habilidade, tratando-me durante
-algumas semanas, isto é até ao meu completo restabelecimento, com os
-cuidados mais affectuosos e desinteressados.
-
-Fiquei seis mezes em Gualeguay em casa de D. Jacintho Andreas, que
-teve, bem como a sua familia, por mim os maiores cuidados.
-
-Infelizmente estava quasi prisioneiro. Não obstante a boa vontade
-do governador Echague, e o interesse que por mim tinha a população
-de Gualeguay, era obrigado a esperar a resolução do dictador de
-Buenos-Ayres que não decidia cousa alguma.
-
-O dictador de Buenos-Ayres era n'esta occasião Rosas, de quem tratando
-de Montevideo, terei occasião de fallar mais de vagar.
-
-Curado da minha ferida, comecei a dar alguns passeios, que por ordem
-da authoridade eram mui limitados. Em troca do meu navio confiscado
-davam-me um escudo por dia, o que na realidade era muito para um paiz
-em que sendo tudo mui barato quasi se não gasta dinheiro: mas tudo isto
-não valia a minha liberdade.
-
-Provavelmente esta despeza d'um escudo por dia parecia muito elevada ao
-governador, porque em differentes occasiões me foram feitas offertas de
-se me favorecer a fuga, mas as pessoas que me faziam essas offertas,
-eram, sem o saberem, agentes provocadores! Diziam-me que o governo
-veria a minha fuga sem grande pesar. Não era pois necessario fazer
-grande violencia para que eu adoptasse uma resolução de que ja havia
-formado o projecto. O governador depois da partida de D. Paschoal, era
-um certo Leonardo Millan, que não me havia até áquella épocha mostrado
-nem interesse, nem odio, não tendo pois o mais pequeno motivo para me
-queixar d'elle.
-
-Resolvi então fugir, começando logo os meus preparativos, afim de estar
-prompto na primeira occasião que se me apresentasse. Uma noute de
-tempestade dirigi-me para casa d'um excellente homem que costumava de
-quando em quando ir visitar, e que habitava a tres milhas de Gualeguay.
-
-Dei-lhe parte da minha resolução, pedindo-lhe que me procurasse um
-guia e cavallos, esperando chegar a uma «estancia» pertencente a um
-inglez, situada na margem esquerda do Parana, onde eu provavelmente
-encontraria algum barco que me transportasse incognito a Buenos-Ayres
-ou Montevideo. O guia e os cavallos foram arranjados, e começámos a
-andar por meio dos campos para não sermos descobertos. Tinhamos que
-caminhar cincoenta e quatro milhas, podendo vencer perfeitamente este
-espaço em meia noute.
-
-Quando rompeu o dia estavamos á vista de Ibiqui, na distancia de meia
-milha do rio. O guia disse-me então que parasse ali em quanto elle ia
-saber que caminho deviamos seguir.
-
-Fiquei pois só.
-
-Apeei-me, amarrei as redeas do cavallo ao tronco de uma arvore e
-deitei-me, esperando assim durante duas ou tres horas, até que vendo
-que o meu guia não apparecia, levantei-me resolvido a ir pessoalmente
-informar-me, quando repentinamente ouvi por detraz de mim um tiro.
-Voltei-me e vi um destacamento de cavallaria que me perseguia de sabre
-em punho. Estavam já entre o meu cavallo e eu, era pois impossivel
-defender-me ou fugir.
-
-Entreguei-me.
-
-
-
-
- XV
-
- A APOLEAÇÃO
-
-
-Ligaram-me as mãos atraz das costas, pozeram-me a cavallo, e depois
-ligaram-me tambem os pés como o haviam feito ás mãos, sujeitando-os á
-cilha do animal.
-
-Foi n'este estado que cheguei a Gualeguay, onde, como se vae vêr, me
-esperava um peor tratamento.
-
-Ainda hoje, e já são passados bastantes annos, estremeço quando penso
-n'esta circumstancia da minha vida.
-
-Conduzido á presença de Leonardo Millan fui intimado por elle para
-denunciar quem me havia fornecido os meios de effectuar a minha fuga.
-É escusado dizer que não fiz tal confissão, pois declarei que só eu a
-tinha arranjado e executado. Então como me achava ligado e Leonardo não
-tinha cousa alguma a temer, aproximou-se de mim e começou a bater-me
-nas faces com o chicote. Depois renovou as suas perguntas, não sendo
-mais feliz que da primeira vez.
-
-Mandou-me conduzir á prisão, e disse em voz baixa algumas palavras ao
-ouvido d'um dos guardas.
-
-Estas palavras eram a ordem de me applicar a tortura.
-
-Chegando á camara que me estava destinada, os guardas deixaram-me as
-mãos ligadas atraz das costas, collocaram-me nos pulsos uma nova corda,
-e passaram a outra extremidade a uma trave, suspendendo-me a quatro ou
-cinco pés do chão.
-
-Então Leonardo entrou na prisão e perguntou-me de novo se estava
-resolvido a dizer a verdade.
-
-A unica vingança que podia tomar era cuspir-lhe no rosto, e assim o fiz.
-
---Quando o prisioneiro, disse elle retirando-se, quizer declarar
-quem foram os seus cumplices, mandem-me chamar, e depois de fazer a
-confissão podem pol-o no chão.
-
-Depois sahiu.
-
-Fiquei duas horas n'esta horrivel posição. O peso do meu corpo
-sobrecarregava nos meus punhos ensanguentados e nos meus hombros
-deslocados.
-
-Parecia-me estar sobre brasas.
-
-A todos os momentos pedia agua, e os meus guardas mais humanos que
-o meu carrasco davam-me, mas ella não me matava a sede devoradora
-que soffria. Pode-se fazer uma idéa dos meus padecimentos, lendo as
-torturas que se inflingiam aos prisioneiros na idade media. No fim de
-duas horas os meus guardas tendo piedade do meu estado, ou julgando-me
-morto desceram-me.
-
-Cahi no chão sem movimento.
-
-Era uma massa inerte, sem outro sentimento que o de uma profunda e muda
-dôr--era quasi um cadaver.
-
-N'este estado sem eu saber o que faziam de mim metteram-me nos cepos.
-
-Tinha andado com as mãos e pés ligados atravez de pantanos cincoenta
-milhas. Os mosquitos numerosos e enraivecidos n'esta estação tinham-me
-tornado o rosto e as mãos n'uma grande chaga. Havia soffrido durante
-duas horas horriveis torturas, e quando tornei a mim achei-me ligado a
-um assassino.
-
-Ainda que não tivesse dito uma unica palavra, no meio dos meus atrozes
-soffrimentos, D. Jacintho Andreas tinha sido preso. Os habitantes do
-paiz estavam cheios de espanto.
-
-Em quanto a mim senão fossem os cuidados de uma mulher que foi para
-mim um anjo de caridade teria succumbido a tão atrozes soffrimentos.
-Despresando todo o perigo, vinha ver-me todos os dias, trazendo-me o
-que eu necessitava.
-
-Chamava-se Allemand.
-
-Poucos dias depois o governador vendo que eram inuteis todas as
-tentativas que fazia para me obrigar a fallar, e convencido que
-eu morreria antes de denunciar um dos meus amigos, não querendo
-provavelmente tomar sobre si a responsabilidade da minha morte
-mandou-me para a capital da provincia Bagada. Fiquei dois mezes na
-prisão no fim dos quaes o governador me mandou dizer que me era
-permitido sahir livremente da provincia. Ainda que eu tenho opiniões
-oppostas a Echague e que por mais de uma vez, depois d'esse dia,
-tenha combatido contra elle não devo occultar as obrigações de que
-lhe sou devedor e ambicionava hoje ter occasião de lhe provar todo o
-reconhecimento que lhe consagro pelos serviços que me prestou.
-
-Mais tarde o acaso fez cahir nas minhas mãos os chefes militares da
-provincia de Gualeguay e todos foram postos em liberdade sem se lhe
-fazer a menor offensa, nem a elles nem ás suas propriedades.
-
-Em quanto a Leonardo Millan nunca o quiz vêr com receio que a sua
-presença, fazendo-me recordar do que havia soffrido me obrigasse a
-praticar alguma acção indigna de mim.
-
-
-
-
- XVI
-
- VIAGEM NA PROVINCIA DO RIO GRANDE
-
-
-Em Bajada embarquei n'um bergantim italiano, capitão Ventura. Este
-maritimo homem recommendavel a todos os respeitos, tratou-me sempre
-com a maior generosidade e cavalheirismo. Conduziu-me á embocadura
-do Iguassu, affluente do Parana, ahi passei para bordo de um barco,
-capitaneado por Pascoal Carbone, que se destinava a Montevideo.
-
-Estava então em maré de ventura; Carbone obsequiou-me tambem
-admiravelmente.
-
-A fortuna, assim como as infelicidades vem sempre em grandes porções;
-estas haviam finalisado para mim; aquellas começavam a affluir sem
-interrupção.
-
-A minha proscripção continuava em Montevideo. A resistencia que
-empregára contra os lanchões e a perda que lhes haviamos causado era
-para isso pretexto plausivel. Fui então obrigado a esconder-me em casa
-de Pazante aonde me conservei por espaço de um mez.
-
-Comtudo a minha reclusão tornava-se supportavel, por que era suavisada
-pelas visitas de muitos compatriotas, que em tempo de prosperidade e de
-paz tinham vindo estabelecer-se no paiz e exerciam para com os amigos
-do velho mundo a mais generosa hospitalidade. A guerra, e sobretudo
-o cerco de Montevideo veiu mudar a posição da maior parte d'elles e
-de feliz que era tornou-l'ha não só má, porém pessima. Pobres homens!
-bastantes vezes os deplorei, e desgraçadamente não podia fazer mais do
-que lamental-os!
-
-Passado um mez, era tempo de seguirmos viagem; parti com Rossetti para
-o Rio Grande; a nossa jornada devia ser e foi feita a cavallo, o que me
-deu muito prazer. Viajavamos á _escotero_.
-
-Darei uma pequena explicação sobre esta maneira de viajar, que pela sua
-rapidez deixa bem longe a posta por mais ligeira que ella seja.
-
-Sejam dois, tres ou quatro os viajantes, vão acompanhados por vinte
-cavallos habituados a seguir os que vão montados; quando depois alguns
-dos cavalleiros vê que o seu cavallo está fatigado, apeia-se, passa o
-selim e os arreios para um dos que vem livres, e segue a galope tres
-ou quatro leguas; depois toma outro, e assim successivamente os vae
-mudando até chegar ao seu destino; os cavallos cançados, mesmo tendo
-de seguir os outros, recuperam forças, porque vão livres de selim e do
-cavalleiro.
-
-O pouco tempo que os cavalleiros gastam n'estas mudas, os cavallos o
-aproveitam para comerem alguma herva e beberem agua, se por acaso a
-encontram; as verdadeiras rações são duas vezes ao dia, pela manhã e á
-noite.
-
-D'este modo chegámos a Piratini, séde do governo do Rio Grande; a
-capital da provincia é Porto Allegre, porém como estava occupada pelos
-imperiaes, o governo republicano estabelecera-se em Piratini.
-
-Piratini é realmente um dos mais bellos paizes do mundo; divide-se em
-duas regiões; uma de planicies e a outra montanhosa.
-
-As planicies verdadeiramente tropicaes produzem a banana, a cana
-d'assucar, e a laranja. Junto aos troncos das suas arvores, e por
-entre as plantas arrasta-se a serpente cascavel, a serpente negra, e a
-serpente coral; ali, como na India, vê-se saltar o tigre, o jaguar, a
-puma, e o leão inoffensivo, de dimensões eguaes a qualquer dos enormes
-cães do monte de S. Bernardo.
-
-A região montanhosa é temperada como o meu bello clima de Niza;
-colhe-se o bom pecego, a pera, a ameixa, e toda a qualidade de fructos
-da Europa, encontram-se as magnificas florestas, das quaes nenhuma pena
-seria capaz de fazer exacta descripção, com os seus pinheiros direitos
-como os mastros dos navios, e d'altura de duzentos pés, e dos quaes
-talvez cinco ou seis homens não podessem abraçar o tronco. Á sombra
-d'esses pinheiros vegetam os taquares, canas gigantescas que chegam a
-oitenta pés d'altura, e das quaes na base não excedem a grossura do
-corpo d'um homem; existe tambem ali a _barba de pau_, litteralmente
-dita a barba das arvores, que entrelaçando-se multiplicadamente
-fórma espeços bosques; nas vastas planicies chamadas campestres
-estendem-se cidades inteiras, como Cima da Serra, Vaccaria, Lages; não
-tres cidades, mas tres provincias; população caucasiana, de origem
-portugueza, e essencialmente hospitaleira.
-
-O viajante não tem precisão de dizer nem de pedir coisa alguma; entra
-em qualquer habitação, vae direito á camara dos hospedes; os criados
-apparecem, sem que sejam chamados, descalçam-o e lavam-lhe os pés.
-Fica ali por quanto tempo quer, e quando lhe appetece retira-se sem
-despedir-se nem agradecer; e apesar d'esta descortesia, outro que venha
-depois d'elle não é recebido com menos agrado.
-
-É a juventude da natureza, o erguer da humanidade.
-
-
-
-
- XVII
-
- A LAGOA DOS PATOS
-
-
-Chegando a Piratini, fui magnificamente recebido pelo governo da
-republica. Bento Gonçalves--verdadeiro cavalleiro andante do seculo
-de Carlos-Magno, irmão, pelo coração, dos Oliveiros e dos Roldões
-vigoroso, agil e leal como elles, verdadeiro centauro, manejando um
-cavallo como ainda não vi manejar senão ao general Netto--modelo
-completo para um cavalleiro--estava ausente e em marcha com uma brigada
-de cavallaria, para atacar Silva Tanaris, chefe imperial, que tendo
-atravessado o canal de S. Gonçalo, infestava esta parte da provincia
-Piratini, séde do governo republicano, e pequena villa encantadora pela
-sua posição e cabeça de districto do mesmo nome, guarnecida por uma
-população bellicosa e essencialmente dedicada á causa da liberdade.
-
-Na ausencia d'aquelle general, foi o ministro da fazenda quem me fez as
-honras da cidade.
-
-Agora uma palavra respectivamente ao Rio Grande, o qual, por este
-nome, poderia suppor-se situado ao longo de um grande rio, ou um rio
-propriamente dito.
-
-O Rio Grande é o Lago dos Patos, e terá trinta leguas de extensão.
-Além de alguns baixos muito fundos, dos quaes mais tarde fallaremos, é
-em toda essa extensão bastante profundo e povoado por caimans; sendo
-formado por cinco rios, os quaes vindo terminar na extremidade do
-norte, apresentam a disposição de cinco dedos da mão, da qual a palma é
-o fim do lago.
-
-Ha um ponto d'onde se descobrem perfeitamente esses cinco rios, e que
-por essa razão se chamava _Viamão_--Vi a mão.
-
-Viamão mudara, porém de nome, e chamava-se _Settembrina_ em
-commemoração de haver sido em setembro proclamada a republica.
-
-Achava-me em Piratini sem ter em que me occupar; pedi então para fazer
-parte da columna de operações, que se dirigia sobre S. Gonçalo, e era
-commandada pelo presidente da republica.
-
-Foi então que pela primeira vez vi aquelle valente, gosando alguns
-dias a sua intimidade. Era realmente o filho querido da natureza--que
-lhe havia prodigalisado tudo o que torna o homem um verdadeiro
-heroe.--Bento Gonçalves teria então sessenta annos. Alto, esvelto,
-montava a cavallo, como já disse, com um garbo e agilidade admiraveis.
-N'aquella posição ninguem o julgaria com mais de vinte e cinco
-annos.--Valente e feliz, não teria hesitado um momento, como um
-cavalleiro de Arioste, em atacar um gigante: tivesse elle a estatura de
-Polyphemo ou a armadura de Ferragus.
-
-Fôra um dos primeiros a levantar o grito de guerra, não com vistas
-de ambição pessoal, mas como qualquer outro belligerante filho
-d'aquelle povo. Na campanha passava como o mais infimo habitante das
-campinas; isto é, com a carne assada e agua pura.--No dia em que nos
-encontrámos pela primeira vez, convidou-me para o seu banquete frugal;
-e conversámos com tanta familiaridade como se fossemos companheiros de
-infancia e eguaes em posição. Com taes dotes naturaes e adquiridos,
-Bento Gonçalves era o idolo de seus concidadãos; porém cousa estranha,
-foi quasi sempre infeliz nas emprezas guerreiras; o que me faz
-acreditar que o acaso é superior ao genio para os successos da guerra,
-e para a fortuna dos heroes.
-
-Acompanhei a columna até Camodos,--passagem do canal de S. Gonçalo que
-liga a lagôa dos Patos a Meryn.
-
-Silva Tanaris havia-se retirado precipitadamente, logo que soube da
-aproximação de uma columna do exercito republicano.
-
-Não podendo alcançal-o, o presidente retrocedeu. Fiz outro tanto,
-tomando o caminho de Piratini.
-
-N'esta occasião recebemos noticia da batalha de Rio Pardo, na qual o
-exercito imperial fôra completamente destroçado pelos republicanos.
-
-
-
-
- XVIII
-
- ARMAMENTO DE LANCHÕES EM CAMACUA
-
-
-Fui encarregado do armamento de dois lanchões que existiam nas aguas do
-Camacua, rio que corre quasi parallelo e a pouca distancia do canal de
-S. Gonçalo, e que como este vae desaguar no lago dos _Patos_.
-
-Reuni alguns marinheiros vindos de Montevideo a outros que achei no
-Piratini, completando ao todo uns trinta homens de diversas nações.
-Infelizmente para elle tambem ali se achava o meu caro Luiz Carniglia.
-Tinhamos um outro recruta francez de estatura collossal, bertão, por
-nascimento, a que chamavamos João-Grande, e outro por nome Francisco,
-verdadeiro corsario, e digno _irmão da costa_.
-
-Chegando a Camacua, encontrámos ahi o americano John Griggs, que
-habitando n'uma herdade pertencente a Bento Gonçalves estava
-encarregado de vigiar o acabamento de dois _sloops_.
-
-Fui nomeado chefe d'essa frota ainda em construcção, com o posto de
-capitão-tenente. Era curioso aquelle methodo de construcção que fazia
-honra á bem conhecida persistencia dos americanos. Ia procurar-se
-á madeira a uma parte e o ferro a outra; dois ou tres carpinteiros
-cortavam e apparelhavam aquella, um mulato forjava o ferro. Foi assim
-que se fabricaram os dois _sloops_, desde os pregos até aos circulos de
-ferro dos mastros.
-
-No fim de dois mezes a esquadrilha estava prompta. Cada um dos vasos
-foi armado com duas peças de bronze; quarenta negros ou mulatos foram
-aggregados aos trinta europeus, formando d'esse modo duas equipagens
-que comprehendiam setenta homens.
-
-O lote dos lanchões seria um de dezoito, outro de doze a quinze
-tonelladas.
-
-Tomei o commando do mais forte a que puzemos o nome de _Rio-Pardo_.
-
-John Griggs foi encarregado do segundo, que se chamou--_O Republicano_.
-
-Rossetti tinha ficado em Piratini, incumbido da redacção do jornal _O
-Povo_.
-
-Começaram então as nossas correrias pelo lago dos Patos. Passaram-se
-alguns dias sem fazermos mais do que prezas insignificantes.
-
-Os imperiaes tinham, para fazer frente aos nossos dois _sloops_, de
-vinte e oito tonelladas, trinta navios de guerra e um barco a vapor.
-
-Porém nós tinhamos a nosso favor os baixios das aguas.
-
-O lago não era navegavel para os grandes barcos, se não n'uma especie
-de canal que seguia ao longo da sua margem do oriente.
-
-No lado opposto succedia o contrario, porque o solo era cortado em
-declive, e nós mesmos viamo-nos ás vezes encalhados antes de tocar na
-margem.
-
-Os bancos d'areia estendiam-se pela lagôa á similhança dos dentes de um
-pente, e só havia de bom que esses dentes eram bastante affastados uns
-dos outros.
-
-Quando eramos forçados a encalhar, e os canhões dos navios de guerra ou
-do vapor nos incommodavam, dizia:
-
---Ávante, meus patos, saltemos á agua.
-
-E os meus patos cahiam n'agua, e á força de braços erguiam o lanchão,
-transportando-o para o outro lado do banco de areia.
-
-No meio de todos estes pequenos acontecimentos tomámos um barco
-ricamente carregado que foi conduzido immediatamente para a costa
-occidental do lago, junto a Camacua, aonde o queimamos depois de
-havermos tirado tudo o que era aproveitavel.
-
-Foi esta a primeira preza que fizemos, mas que valeu bem o trabalho; e
-alegrou a nossa marinha. Todos tiveram a sua parte nos despojos, e com
-um fundo reservado mandei fazer uniformes para todos os meus bravos.
-
-Os imperiaes, que até ali nos haviam desprezado, não perdendo
-occasião de escarnecer-nos, começaram a comprehender qual era a nossa
-importancia no lago, e trataram de empregar grande numero de navios
-para protegerem o seu commercio.
-
-A vida que passavamos era laboriosa e cercada de perigos, em razão
-da superioridade numerica dos inimigos; mas ao mesmo tempo essa vida
-era encantadora, pittoresca, e muito em harmonia com o meu caracter.
-Não eramos unicamente maritimos, seriamos tambem cavalleiros no caso
-de necessidade. No momento de perigo encontrariamos quantos cavallos
-quizessemos, e formariamos um esquadrão se não elegante, ao menos
-temivel.
-
-Nas margens da lagôa encontravam-se estancias que, pela aproximação
-da guerra, tinham sido abandonadas pelos proprietarios, aonde achamos
-muita abundancia de gado cavallar e o necessario para o seu sustento;
-por outro lado nas herdades existiam terrenos cultivados, aonde
-colhiamos abundancia de trigo, batata doce, e muitas vezes excellentes
-laranjas; que são as melhores de toda a America do Sul.
-
-A gente que me acompanhava verdadeira tropa cosmopolita era composta
-de homens de todas as côres e de todas as nações. Tratava-os com
-uma bondade, de que talvez parecessem pouco dignos, porém posso
-affirmar uma coisa: é que nunca tive motivo de arrepender-me d'essa
-bondade--todos obedeciam á minha primeira ordem e nunca me fatigaram,
-nem me vi na necessidade de os punir.
-
-
-
-
- XIX
-
- A ESTANCIA DA BARRA
-
-
-Sobre o Camacua, aonde tinhamos o nosso pequeno arsenal, e d'onde
-sahira a frota republicana, habitavam occupando uma grande extensão de
-terreno as familias dos irmãos de Bento Gonçalves, assim como outros
-parentes mais affastados; innumeraveis rebanhos se apascentavam n'esta
-magnifica planicie que a guerra havia respeitado, porque se achava ao
-abrigo do seu poder destruidor.
-
-As producções agricolas achavam-se ali agglomeradas em tanta
-abundancia, como não tenho idéa de vêr em parte alguma da Europa.
-
-Já disse em outra parte que em nenhum logar do mundo se encontra
-hospitalidade mais franca e cordeal do que n'este paiz; e foi o que nós
-achámos em todas as familias, nas quaes existia por nós a mais decidida
-sympathia.
-
-As estancias que por estarem mais proximas ao rio, e por esperarmos
-ser ahi mais bem recebidos, procuravamos de preferencia para nos
-hospedarmos, eram as de D. Anna e D. Antonia, irmãs do presidente.
-Aquella situada á margem do Camacua, e esta nas do Arroyo Grande.
-
-Não sei se por effeito da minha imaginação, ou por um privilegio dos
-meus vinte e seis annos, tudo ali era encantador aos meus olhos, e
-posso assegurar que nenhuma época da minha vida está como esta tão
-ligada ao meu pensamento, e nada se me apresenta mais fascinador do que
-este periodo que recordo com prazer.
-
-A casa de D. Anna era para mim um verdadeiro paraiso; posto que já não
-fosse joven, esta bella senhora conservava comtudo um caracter alegre.
-
-Tinha em sua companhia uma familia inteira, emigrada de Pelotas,
-cidade da provincia, da qual era chefe o doutor Paulo Ferreira; tres
-meninas que rivalisavam nos encantos, eram o perfeito ornamento d'este
-delicioso recinto. Uma d'essas jovens, Manuela, era a senhora absoluta
-do meu coração: sem esperança de poder possuil-a, ainda assim não podia
-deixar de a amar. Era desposada de um dos filhos de Bento Gonçalves.
-
-Em um momento de perigo tive occasião de conhecer que não era
-totalmente indifferente á dama dos meus pensamentos; e a certeza que
-obtive da sua sympathia serviu a minorar o desgosto de nunca dever
-pertencer-me.
-
-Geralmente as mulheres do Rio Grande são bellas, e os meus
-homens tornaram-se facilmente escravos d'essas bellezas; porém
-conscienciosamente affirmo que nenhum d'elles tinha pelo seu idolo um
-culto tão puro e desinteressado como eu por Manuela. Portanto, todas as
-vezes que um vento contrario, uma borrasca ou uma expedição nos levava
-ao Arroyo Grande ou a Camacua, era para nós dia de festa; o pequeno
-bosque de Firiva, que indica a entrada para aquella, ou o pomar das
-larangeiras que occulta o caminho para a ultima, eram sempre saudados
-por uma triplicada salva de _hourras_, que mostravam a força do nosso
-enthusiasmo amoroso.
-
-Um dia, depois de havermos puchado para terra as nossas embarcações,
-descançavamos na estancia de D. Antonia, irmã do presidente, a pouca
-distancia de uma d'essas choupanas, aonde salgam e defumam a carne, ás
-quaes dão no paiz o nome de _galpon de chargueada_, quando me vieram
-dizer que o coronel João Pedro de Abreu, appellidado _Mouringue_, isto
-é, Foinha, em consequencia de ser muito astucioso, havia desembarcado
-a duas ou tres leguas de distancia, com setenta homens de cavallaria e
-oitenta de infanteria.
-
-Havia probabilidade para acreditar esta noticia, porque depois da
-tomada do barco que haviamos queimado depois de nos assenhorearmos do
-mais precioso que elle tinha, sabiamos que Mouringue jurara tirar uma
-boa vingança.
-
-Esta noticia encheu-me de alegria.
-
-Os homens commandados pelo coronel Mouringue eram mercenarios allemães
-ou austriacos aos quaes ainda eu não estava enfastiado de fazer pagar
-a divida que todo o bom italiano tem contrahido com os seus irmãos da
-Europa.
-
-Eramos sessenta ao todo; porém eu conhecia bem esses sessenta homens,
-e com elles era capaz de fazer frente não só a cento e cincoenta
-austriacos, mas a trezentos.
-
-Tratei de destacar espias para todos os lados e fiquei com uns
-cincoenta homens junto a mim.
-
-Os dez ou doze que enviara a explorar terreno, voltaram, e disseram a
-uma voz:
-
---Não vimos cousa alguma,
-
-Havia então um denso nevoeiro, e foi protegido por elle que o inimigo
-poude subtrahir-se ás suas pesquisas.
-
-Resolvi não confiar unicamente na intelligencia humana, e quiz
-interrogar tambem o instincto dos animaes.
-
-Ordinariamente, quando qualquer expedição d'este genero se aproxima,
-e homens d'outros sitios vem preparar uma emboscada junto a alguma
-estancia, os animaes que sentem ruido estranho, dão signaes de
-inquietação, e quem tacitamente os interroga, raras vezes se engana.
-
-Os cavallos espalhados pela minha gente, começaram a andar mui
-socegados em torno da estancia, manifestando assim que nada de novo se
-passava nas proximidades.
-
-Portanto acreditando que não havia surpreza a temer, ordenei á minha
-gente que arrumasse as armas, todavia carregadas, e as munições nos
-cabides que mandara construir dentro da arribana, e dei-lhes o exemplo
-de segurança, começando a almoçar, e convidando-os a fazer outro tanto.
-
-Por costume, nunca se faziam rogar para este convite.
-
-Graças a Deus, tambem nunca as munições de bocca nos faltavam.
-
-Terminado o almoço, mandei cada um a tratar da sua occupação.
-
-Toda a minha gente trabalhava do mesmo modo que comia; isto é, sempre
-com boa vontade: não se fazendo rogar: uns foram para os lanchões que
-estavam sobre a praia, afim de tratarem de algum arranjo de que elles
-carecessem, outros dirigiram-se á forja, estes a buscar madeira para
-queimar, e aquelles finalmente para a pesca.
-
-Fiquei eu só e o mestre cosinheiro, que havia estabelecido a sua
-cosinha á luz do dia, em frente da arribana, e ahi vigiava as nossas
-marmitas.
-
-Quanto a mim, saboreava voluptuosamente o meu _mate_, especie de chá do
-Paraguay, que se toma de uma cabaça com o auxilio de um canudo de vidro
-ou de pau.
-
-Comtudo, não duvidava que o coronel Fuinha, sendo natural do paiz,
-tivesse com a sua astucia illudido a vigilancia da minha tropa, não
-causando a sua presença sobresalto aos animaes, e que estaria talvez
-com os seus cento e cincoenta austriacos deitado em algum bosque a
-quinhentos ou seiscentos passos de nós.
-
-Repentinamente, com grande admiração minha, ouvi por detraz de mim,
-tocar a carregar.
-
-Voltei-me.
-
-Infanteria e cavallaria carregavam ao gallope; cada cavalleiro trazia
-um homem na garupa. Os que não tinham cavallos corriam a pé agarrados
-ás crinas. Dei um salto e achei-me no _galpon_; fui seguido pelo
-cosinheiro mas o inimigo estava tão proximo de nós que no momento em
-que eu transpunha o liminar da porta, senti o chapeu atravessado por
-uma lança.
-
-Ja disse que os fuzis estavam carregados na grade da mangedoura. Tinha
-sessenta.
-
-Agarrei em um e descarreguei-o, depois um segundo, e um terceiro, com
-tanta rapidez, que não se poderia julgar que me achava só, e com tanta
-felicidade que tres homens cahiram.
-
-Tres outros tiros se succederam aos primeiros, e como atirava ao grupo,
-todos eram funestos.
-
-Se o inimigo, tivesse a idéa de assaltar o _galpon_ estaria tudo
-acabado, mas o cosinheiro tinha-se-me unido e fazia tambem fogo, de
-modo que o coronel Fuinha, apesar de toda a sua esperteza, julgou que
-todos nós estavamos reunidos.
-
-Por consequencia retirou-se para uns cem passos de distancia do
-alpendre, e começou a fazer alguns tiros de quando em quando.
-
-Foi o que me salvou.
-
-Como o cosinheiro não era bom atirador, e na nossa situação cada tiro
-perdido era uma falta irreparavel, disse-lhe que se entertesse em
-carregar os fuzis que eu os iria descarregando.
-
-Estava intimamente convencido de que a minha gente, suspeitando já
-que o inimigo tinha desembarcado, e ouvindo o estrondo da fuzilaria,
-comprehenderia tudo e viria em meu auxilio.
-
-Não me enganava.
-
-O meu bravo Luiz Carniglia foi o primeiro que appareceu atravez as
-nuvens de fumo que existiam entre o _galpon_ e a tropa inimiga que
-fazia um fogo infernal.
-
-Depois d'elle appareceram Ignacio Bilbao, biscainho, e um italiano
-chamado Lourenço. N'um momento estavam a meu lado, e começaram a
-imitar-me o melhor que poderam; depois chegaram Eduardo Mutru,
-Nascimento Raphael e Procopio--estes dois ultimos eram negros--e
-Francisco da Silva. Queria em logar de escrever no papel, gravar no
-bronze os nomes d'estes valentes companheiros, que no numero de treze
-se me reuniram combatendo durante cinco horas cincoenta inimigos.
-
-O inimigo tinha-se apoderado de todas as casas e barracas que nos
-rodeavam, fazendo-nos d'ahi um fogo terrivel. Alguns dos seus soldados
-haviam subido aos telhados de que tiraram as telhas, disparando-nos
-tiros pelos buracos e lançando-nos fachinas accesas. Mas em quanto uns
-apagavam as fachinas, e outros respondiam á fuzillaria, dois ou tres
-cairam mortos pelo mesmo buraco que haviam feito. Tinhamos praticado
-com as nossas bayonetas algumas setteiras na muralha do _galpon_, e por
-ahi faziamos fogo quasi cobertos.
-
-Pelas tres horas o negro Procopio deu um tiro que teve um exito feliz:
-quebrou um braço ao coronel Moringue. No mesmo momento o coronel tocou
-a retirada, e partiu levando os feridos, mas deixando quinze mortos no
-campo da batalha.
-
-Dos meus companheiros tive cinco feridos e tres mortos. Custou-me pois
-oito homens esta refrega, que foi uma das mais serias em que me tenho
-achado.
-
-Estes combates eram tanto mais funestos para nós que não tinhamos
-nem medico nem cirurgião. As feridas ligeiras eram pensadas com agua
-fresca, renovando-se este medicamento o maior numero de vezes possivel.
-
-Rossetti, que por acaso se achava com os seus companheiros em Camacua,
-não se nos pôde reunir, com grande pesar seu. Sendo perseguidos e
-não tendo armas, foram obrigados uns a passar o rio a nado, outros a
-entranharem-se na floresta: um unico foi descoberto e morto.
-
-Este combate tão perigoso e que teve tão feliz resultado, deu uma
-grande confiança aos meus homens e aos habitantes d'este lado do paiz,
-expostos ha muito tempo ás excursões d'este inimigo aventureiro e
-intrepido.
-
-Moringue foi na realidade o chefe mais habilitado que tiveram os
-imperiaes. Era muito apto para estas emprezas, e devo dizer que sempre
-se tinha conduzido com uma finura que lhe teria merecido o appellido de
-_Fuinha_, se já o não tivesse.
-
-Nascido no paiz, que como já disse, conhecia perfeitamente, e dotado de
-uma astucia e intrepidez a toda a prova, causou graves prejuizos aos
-republicanos, e o imperio do Brazil deve-lhe sem duvida alguma a melhor
-parte na submissão d'esta corajosa provincia.
-
-Celebrámos a nossa victoria. D. Antonia deu em nossa honra uma festa na
-sua estancia, distante doze milhas do _galpon_, em que tinha tido logar
-o combate.
-
-Foi n'esta festa que eu soube que uma linda menina, constando-lhe o
-perigo que eu corria, havia impallidecido e perguntado com toda a
-anciedade noticias minhas. Esta noticia foi mais agradavel para mim,
-do que a victoria sanguinolenta que poucos momentos antes tinha ganho.
-Como me achava soberbo e feliz por lhe pertencer, ainda que não fosse
-senão pelo pensamento. Devia pertencer a outro, mas a sorte havia-me
-destinado essa flor do Brazil, que eternamente chorarei. Não era só
-nos prazeres e alegrias que a encontrava sempre a meu lado, foi na
-adversidade que eu conhecia o quanto valia o nobre coração da mãe de
-meus filhos.
-
-Annita! cara Annita!
-
-
-
-
- XX
-
- EXPEDIÇÃO A SANTA CATHARINA
-
-
-Depois d'este successo nada de importante nos succedeu no lago dos
-Patos.
-
-Começámos a construcção de dois novos lanchões. Os elementos primarios
-tinham-se achado na preza antecedente, e em quanto á sua confecção
-eramos coadjuvados valorosamente pelos habitantes da visinhança.
-
-Tinham-se apenas acabado e armado os dois novos navios de guerra,
-quando fomos avisados para nos juntarmos ao exercito republicano que
-então sitiava Porto-Alegre, capital da provincia. O exercito e nós não
-fizemos cousa alguma em quanto estivemos n'esta parte do lago.
-
-Não obstante este cerco era dirigido por Bento Manuel em quem todos
-reconheciam um grande merito como soldado, como general e como
-organisador. Foi este que depois trahindo os republicanos se passou aos
-imperiaes.
-
-Pensava-se então na expedicção de Santa Catharina. Fui convidado para
-tomar parte n'ella, debaixo das ordens do general Canavarro.
-
-Havia no cumprimento d'este projecto uma grande difficuldade que era
-o sahirmos da lagôa, visto que a embocadura estava guardada pelos
-imperiaes.
-
-Na margem meridional estava a cidade fortificada do Rio Grande do
-Sul, e na margem septentrional S. José do Norte, cidade mais pequena,
-mas fortificada tambem. Estas duas praças, bem como Porto Alegre,
-achavam-se em poder dos imperiaes tornando-se por isso senhores da
-entrada e sahida do lago. Possuiam, é verdade, unicamente estas duas
-praças, mas ellas eram bastante importantes pela sua posição.
-
-Para homens como os que tinha debaixo das minhas ordens não havia
-comtudo coisa alguma impossivel.
-
-Formei então o seguinte plano de guerra. Os dous mais pequenos lanchões
-ficavam na lagôa, sendo seu chefe o excellente maritimo Zeferino
-d'Ultra. Eu com os outros dous lanchões tendo debaixo das minhas ordens
-Griggs e os melhores dos nossos aventureiros acompanharia a expedição
-operando por mar em quanto o general Canavarro operava por terra.
-
-Era um bello plano, mas era mui difficil pela sua execução.
-
-Propuz então que se construissem duas carretas d'um tamanho e solidez
-necessaria para collocar em cada uma d'ellas um lanchão, devendo-se
-atrelar a cada carreta o numero de cavallos e bois sufficientes para as
-poderem puchar.
-
-A minha proposta foi adoptada, e fui encarregado de lhe dar execução.
-
-Pensando então maduramente n'este projecto fiz-lhe as seguintes
-modificações.
-
-Mandei construir por um habil carpinteiro chamado Abreu oito enormes
-rodas de uma solidez a toda a prova para poderem sustentar o
-extraordinario peso que devia supportar.
-
-N'uma das extremidades do lago--a que é opposta ao Rio Grande do
-Sul--isto é, ao noroeste, existe no fundo de um barranco um pequeno
-ribeiro que corre do lago dos Patos ao lago Tramandai, ao qual
-tratavamos de transportar os dous lanchões.
-
-Fiz descer a este barranco um dos nossos carros, depois levantámos o
-lanchão até que aquelle estivesse em cima do carro. Cem bois mansos
-foram atrelados, e vi então com grande satisfação o maior dos nossos
-lanchões caminhar como se fosse uma penna.
-
-O segundo carro desceu por sua vez, e como no primeiro obtivemos um
-exito feliz.
-
-Os habitantes gosaram então d'um espectaculo curioso e desusado, isto
-é, verem dois navios em cima de duas carretas, e puxados por duzentos
-bois, atravessarem cincoenta e quatro milhas, isto é, dezoito leguas,
-sem a menor difficuldade, sem o mais pequeno incidente.
-
-Chegados á margem do lago Tramandai os lanchões foram deitados ao mar
-do mesmo modo porque tinham sido embarcados. Necessitavam de alguns
-pequenos reparos, que no fim de tres dias estavam concluidos.
-
-O lago Tramandai é formado por aguas que tem a sua fonte nos montes
-d'Epinasso, e finalisa-o no Atlantico. É pouco fundo, pois nas maiores
-enchentes só tem quatro ou cinco pés d'agua. N'esta parte da costa
-reinam sempre grandes tempestades.
-
-O estrondo que o mar faz batendo n'estes rochedos, que os marinheiros
-chamam cavallos, por causa da espuma que fazem voar em roda d'elles,
-ouve-se a muitas milhas de distancia, e muitas vezes é tomado pelo
-rumor da tormenta.
-
-
-
-
- XXI
-
- PARTIDA E NAUFRAGIO
-
-
-Promptos a partir esperámos pela maré cheia, sahindo ás quatro horas da
-tarde.
-
-Foi n'esta occasião que soubemos apreciar o bem que nos resultava
-da pratica que tinhamos de navegar entre os rochedos. Não obstante
-esta pratica, não sei hoje dizer porque audaciosa ou antes porque
-habil manobra chegámos a tirar os nossos navios d'entre os rochedos,
-ainda que tivessemos, como já disse, escolhido a maré cheia. O fundo
-necessario para navegarmos faltava-nos por toda a parte, foi pois só
-ao cair da noite que os nossos esforços obtiveram um resultado feliz
-conseguindo deitar ancora no Oceano.
-
-Julgo conveniente dizer que os nossos navios foram os primeiros que
-sahiram do lago Tramandai.
-
-Ás oito horas da noite levantámos ancora e começámos a nossa viagem.
-
-No dia seguinte pelas tres horas da tarde tinhamos naufragado na
-embocadura do Aserigua, rio que tem a sua nascente na serra Espinasso,
-e que se lança ao mar na provincia de Santa Catharina, entre as torres
-e Santa Maura.
-
-De trinta homens da equipagem, dezeseis affogaram-se.
-
-Direi em duas palavras como aconteceu esta terrivel catastrophe.
-
-No momento da nossa partida, o vento do meio dia começava a apparecer.
-Corriamos parallelos á costa. O _Rio Pardo_ tinha, como já disse,
-trinta homens de equipagem, uma peça de doze, uma grande porção de
-caixas, e outros objectos de toda a especie, que tinhamos levado por
-precaução, por não sabermos o tempo que estariamos no mar, e a que
-praia chegariamos, e qual seriam as circumstancias em que estaria essa
-praia no momento em que nos dirigiamos para um paiz inimigo.
-
-O lanchão achava-se pois mui subcarregado, e as vagas cobrindo-o de
-minuto em minuto, ameaçavam submergil-o. Resolvi então aproximar-me
-da costa e tomar terra na parte que me pareceu accessivel; mas o mar
-que ia sempre crescendo, não nos deixou escolher a posição que nos
-convinha, e uma vaga enorme nos arremeçou para a costa.
-
-Estava n'essa occasião na parte mais elevada do mastro do traquete,
-d'onde esperava descobrir uma passagem atravez os rochedos. O lanchão
-inclinou-se sobre o estribordo e eu fui lançado a trinta pés de
-distancia.
-
-Ainda que estivesse n'uma posição perigosa, a confiança que tinha nas
-minhas forças como nadador, fez com que não pensasse um unico momento
-na morte, e tendo comigo alguns companheiros, que não eram marinheiros,
-e que momentos antes tinha visto deitados no tombadilho e mui enjoados;
-em logar de nadar para a costa, comecei a reunir uma parte dos
-objectos, que pela sua ligeireza promettiam conservar-se á superficie,
-e comecei a empurral-os para o navio gritando aos meus homens que se
-lançassem ao mar e que apanhassem alguns d'aquelles objectos, tratando
-de ganhar a costa que se achava na distancia de uma milha. O navio
-tinha-se afundado, mas a mastreação conservava-o com os seus flancos de
-bombordo fóra de agua.
-
-O primeiro que eu vi agarrado ás enxarcias foi Eduardo Mutru um
-dos meus melhores amigos: atirei-lhe um fragmento da escotilha
-recommendando-lhe que o não alargasse.
-
-Este estando quasi salvo, lancei os olhos para o navio.
-
-Vi então o meu caro e corajoso Luiz Carniglia. Estava ao leme no
-momento da catastrophe, e havia ficado agarrado á popa do navio.
-Infelizmente estava n'esta occasião vestido com uma jaqueta de uma
-enorme roda. Não havia tido tempo de a tirar, não podendo por isso
-nadar em quanto a tivesse vestida. Vendo que me dirigia para elle
-começou a gritar.
-
---Agarra-te bem, lhe respondi, que já te dou soccorro.
-
-Subindo ao navio como o teria podido fazer um gato, cheguei ate junto
-d'elle; agarrei-me com uma mão a uma borda, e com a outra tirando da
-algibeira uma faca que infelizmente cortava pessimamente, comecei
-a rasgar as costas da jaleca. Tinha quasi finalisado esta minha
-ardua tarefa, e Carniglia estava quasi salvo, quando um golpe de mar
-horrivel, envolvendo-nos fez em pedaços o navio e lançou ao mar os
-homens que ainda se conservavam a bordo.
-
-Carniglia foi tambem precipitado e não tornou a apparecer.
-
-Lançado ao fundo do mar como um projectil, voltei á superficie todo
-aturdido, mas tendo uma unica idéa--a de soccorrer ao meu charo Luiz.
-Comecei a nadar em volta da carcassa do navio chamando-o em altos
-gritos, mas elle não me respondeu. Esse bom amigo que já me tinha salvo
-a vida, tinha morrido sem eu o poder soccorrer.
-
-No momento em que abandonava a esperança de salvar Carniglia, lancei
-os olhos em volta de mim. Por uma graça especial de Deus, n'este
-momento de agonia para todo o mundo, não pensei um unico momento em mim
-tratando unicamente dos outros.
-
-Vi então os meus companheiros nadando para a praia, separados uns dos
-outros segundo a sua agilidade ou força. Alcancei-os em um momento
-e animando-os com os meus gritos, passei-lhe adiante, sendo um dos
-primeiros a atravessar os rochedos, cortando para isso vagas tão altas
-como montanhas.
-
-Puz pé em terra. Mas a dôr por perder o meu pobre Carniglia,
-deixando-me indifferente sobre a minha propria sorte, dava-lhe uma
-força invencivel.
-
-Apenas tinha posto pé em terra que me voltei movido por uma derradeira
-esperança.
-
-Póde ser, ir vêr Luiz.
-
-Interroguei todas essas figuras assustadas, mas todas me davam a mesma
-resposta. Já não me restava esperança alguma.
-
-Vi então Eduardo Mutru, que depois de Carniglia era quem eu
-estimava mais, e a quem tinha passado um fragmento da escotilha
-recommendando-lhe que se agarrasse com toda a força. A violencia das
-vagas tinha-lhe, sem duvida, tirado este apoio. Ainda nadava, mas pela
-convulsão dos seus movimentos indicava a extremidade a que se achava
-reduzido. Já disse como o amava, era pois o segundo irmão que ia perder
-no mesmo dia. Não quiz em um momento perder tudo o que mais presava
-no mundo. Lancei ao mar os restos do navio que me tinham servido para
-ajudar a ganhar a praia, e lancei-me de novo ao mar, indo novamente
-affrontar um perigo ao qual tinha poucos momentos antes escapado. No
-fim d'um minuto só algumas braças me separavam de Eduardo.
-
---Coragem... Coragem, lhe disse eu.
-
-Vã esperança, vãos esforços! No momento em que encaminhava para elle o
-pedaço de madeira salvadora desappareceu.
-
-Dei um grito, e mergulhei. Depois não encontrando o meu pobre amigo
-julguei que teria vindo á superficie. Voltei tambem: Ninguem! Mergulhei
-de novo e de novo voltei ao cimo d'agua. Dei gritos desesperados, mas
-tudo foi em vão. Eduardo Mutru tinha tambem sido engolido por esse
-Oceano que elle não tinha tido receio de atravessar para, unindo-se-me,
-servir a causa dos povos.
-
-Ainda um martyr da liberdade italiana que não teve um tumulo, uma cruz!
-
-Os cadaveres dos dezeseis afogados que nós contamos n'este desastre,
-fieis companheiros das minhas aventuras, foram arremeçados pelas vagas
-a mais de trinta milhas de distancia para o norte. Procurei então entre
-os quatorze que haviam escapado e que n'este momento estavam na praia,
-um rosto amigo, uma figura italiana.
-
-Nenhuma!
-
-Os seis italianos que me acompanhavam estavam mortos. Carniglia, Mutru,
-Staderini, Nadonne e Giovanni... Não me recordo do nome do sexto.
-
-Peço perdão á patria por o haver esquecido, bem sei que escrevo estas
-memorias doze annos depois d'estes successos terem logar, bem sei que
-muitos acontecimentos tão terriveis como o que acabo de descrever, tem
-tido logar na minha vida; bem sei que vi cair uma nação, e que tentei
-defender uma cidade; bem sei que perseguido, exilado, e tratado como um
-animal feroz, depuz no tumulo a mulher a quem amava mais que a propria
-vida, bem sei que depois de fechado o seu tumulo fui obrigado a fugir
-como os condemnados de Dante; bem sei que não tenho um asylo, e que do
-extremo d'Africa onde me acho, olho para essa Europa que me repelle
-como um bandido, apesar de não ter tido até hoje senão um pensamento,
-um amor--a patria; sei tudo isto, mas não obstante devia-me lembrar
-d'esse nome.
-
-E comtudo não o sei!!
-
-Tanger, março de 1857.--_G. G._
-
-
-
-
- XXII
-
- JOÃO GRIGGS
-
-
-Os melhores nadadores tinham succumbido! Sem duvida confiando na
-sua habilidade, não se tinham querido apoderar dos restos do navio,
-esperando suster-se na agua sem este soccorro, em quanto que ao
-contrario, entre os que via sãos e salvos estavam alguns americanos que
-em muitas occasiões tinha visto embaraçados, por terem de atravessar um
-pequeno rio de dez a doze pés de largo.
-
-Parecia-me isto estranho, e comtudo era a verdade.
-
-O mundo era para mim um deserto.
-
-Assentei-me na praia, e encostando a cabeça ás mãos julguei que ia
-chorar.
-
-No meio da minha atonia ouvi um gemido.
-
-Lembrei-me então que não obstante serem-me esses homens desconhecidos,
-visto que eu era seu chefe no combate e no naufragio, devia tambem
-sel-o na desgraça.
-
-Ergui a cabeça.
-
---Que tem, perguntei, e quem se queixa?
-
-Duas ou tres vozes me responderam:
-
---Tenho frio.
-
-Eu que até então não tinha pensado em tal, comecei tambem a sentil-o.
-
-Levantei-me e enchugei-me. Alguns dos meus companheiros estavam já
-assentados ou deitados para nunca mais se levantarem.
-
-Chamei em meu auxilio os mais vigorosos, e obriguei os que se achavam
-tolhidos a erguerem-se. Peguei-lhe por uma mão, e disse aos que ainda
-não haviam perdido totalmente as forças que fizessem outro tanto,
-gritando:
-
---Corramos!
-
-E dei ao mesmo tempo o exemplo.
-
-No principio sentimos uma grande difficuldade, ou para melhor dizer,
-uma grande dôr por sermos obrigados a fazer mover os nossos membros
-tolhidos pelo frio, mas em pouco tempo começámos a sentir algum calor.
-
-Entregámo-nos durante uma hora a este exercicio. No fim d'este espaço,
-o nosso sangue aquecendo tinha recomeçado a sua circulação.
-
-Estavamos então perto do rio Aserigue. Dirigimo-nos pela sua margem
-direita, e a quatro milhas encontrámos uma estancia, e n'ella a
-hospitalidade que existe sempre em todas as casas americanas.
-
-O nosso segundo lanchão, commandado por Griggs, chamado o _Seival_,
-um pouco maior que o _Rio Pardo_, mas de construcção differente, póde
-luctar contra a tempestade, seguindo a sua viagem.
-
-É necessario dizer que Griggs era um excellente maritimo.
-
-Não sei se ámanhã serei obrigado a deixar o asylo, onde me acho
-actualmente. Não sei pois se mais tarde terei occasião de dizer d'este
-excellente e valeroso mancebo tudo o que penso d'elle, vou pois,
-aproveitando esta occasião, pagar o tributo que devo á sua memoria.
-
-Pobre Griggs! tenho apenas dito duas palavras a seu respeito, e comtudo
-onde encontrei eu um homem mais corajoso e com melhor caracter?
-Nascido d'uma familia rica, tinha vindo offerecer o seu ouro, a sua
-intelligencia, e o seu sangue á republica nascente, dando-lhe tudo
-quanto havia offerecido. Um dia chegou uma carta d'um dos seus parentes
-da America do Norte, convidando-o a ir receber uma herança enorme.
-Mas Griggs já havia recebido a mais bella herança que se póde dar a um
-homem de convicção e fé,--a corôa do martyrio. Tinha morrido defendendo
-um povo desgraçado, mas generoso e valente.
-
-E eu que tinha visto tantas mortes gloriosas, vi o corpo do meu
-infeliz amigo cortado em dois como o tronco de um carvalho pela hacha
-do lenhador. Um tiro de metralha o tinha ferido na distancia de vinte
-passos, no dia em que com um dos meus companheiros, largando o fogo á
-esquadrilha, por ordem do general Canavarro, subi ao navio de Griggs
-que acabava de ser litteralmente fulminado pela esquadra inimiga.
-
-Oh! liberdade! liberdade! que rainha da terra se póde encher de orgulho
-por ter um cortejo de heroes como tu tens no ceu!!
-
-
-
-
- XXIII
-
- SANTA CATHARINA
-
-
-Felizmente a parte da provincia de Santa Catharina onde haviamos
-naufragado, tinha-se tambem revoltado contra o imperador, logo que
-souberam da aproximação das tropas republicanas. Em logar pois de
-encontrar inimigos, achamos alliados, em logar de sermos combatidos
-fomos festejados, e obtivemos em um momento todos os meios de
-transporte de que aquelles pobres habitantes podiam dispôr.
-
-O capitão Balduino offereceu-me o seu cavallo, e pozemo-nos
-immediatamente em marcha para alcançar a guarda avançada do general
-Canavarro, commandada pelo coronel Teixeira, que se dirigia a toda a
-pressa sobre o lago de Santa Catharina, esperando surprehendel-o.[6]
-
- [6] A provincia de Santa Catharina foi dada em dote pelo
- imperador a sua irmã, quando ella casou com o principe de
- Joinville.
-
-Devo confessar que não tivemos grande difficuldade em nos apoderarmos
-da pequena cidade que precede o lago e que por isso tem o seu nome.
-A guarnição fugiu precipitadamente, e tres pequenos navios de guerra
-renderam-se depois de um fraco combate. Passei então com os meus
-naufragos para bordo da goleta _Itaparika_, que estava armada com sete
-canhões.
-
-Durante os primeiros dias d'esta occupação, a fortuna parecia ter feito
-um pacto com os republicanos. Não temendo uma invasão tão repentina
-da nossa parte, de quem só tinham noticias de quando em quando, os
-imperiaes tinham mandado guarnecer aquella povoação com soldados, armas
-e munições. Mas estas cahiram em nosso poder, porque chegaram depois de
-estarmos senhores da cidade.
-
-Os habitantes tratavam-nos como irmãos e libertadores, titulo que
-infelizmente não soubemos justificar em quanto estivemos n'esta
-povoação amiga.
-
-Canavarro estabeleceu o seu quartel general em Santa Catharina,
-chamada pelos republicanos _Giuliana_, por que tinham ali entrado no
-mez de julho. O general permittiu a creação de um governo provincial
-de que foi presidente um sacerdote veneravel, que exercia um grande
-prestigio no povo. Rossetti com o titulo de secretario do governo era
-verdadeiramente a sua alma. Rossetti estava talhado para todos os
-empregos!
-
-Tudo marchava ás mil maravilhas. O coronel Teixeira com a sua columna
-avançada tinha perseguido o inimigo até o encerrar na capital da
-provincia, apoderando-se de quasi todo o paiz. Por toda a parte eramos
-recebidos com os braços abertos, e todos os dias se nos juntavam
-desertores imperiaes.
-
-O general Canavarro traçava magnificos planos. Rude na apparencia,
-excellente no fundo, tinha o costume de dizer que do lago de Santa
-Catharina sahiria a hydra que devoraria o imperio, e talvez tivesse
-razão se houvessem olhado para esta expedição com mais juizo e
-attenção. Infelizmente as nossas maneiras orgulhosas para com os
-habitantes e a insufficiencia dos meios que tinhamos á nossa disposição
-fizeram perder o fructo d'esta brilhante campanha.
-
-
-
-
- XXIV
-
- UMA MULHER
-
-
-Nunca havia pensado no casamento, visto que me considerava incapaz de
-ser um bom marido por causa da minha grande independencia de caracter
-e decidida paixão pelas aventuras. Ter mulher e filhos parecia
-humanamente impossivel ao homem que consagrou a sua vida a um principio
-de que o successo, por mais completo que seja, não póde deixar nunca
-o socego necessario a um chefe de familia. O destino havia decidido o
-contrario: depois da morte de Luiz, Eduardo e dos meus outros amigos,
-achava-me n'um isolamento completo, parecendo-me existir só no mundo.
-
-Não me havia ficado um só d'esses amigos de que o coração tem
-necessidade como a vida de alimento. Os que tinham escapado, eram
-como já disse, estrangeiros. Eram sem duvida dotados de um excellente
-coração, mas conhecia-os á pouco tempo para ter com elles grande
-intimidade. N'esse espaço enorme que aquella terrivel catastrophe
-tinha feito em volta de mim, sentia a necessidade d'uma alma que me
-amasse, porque sem essa alma, a existencia era-me insuportavel, quasi
-impossivel. Havia, é verdade, encontrado Rossetti, isto é, um irmão;
-mas Rossetti obrigado pelos deveres do seu emprego não podia viver
-comigo, vendo-o apenas uma vez por semana. Tinha pois necessidade
-d'alguem que me amasse. A amisade é fructo do tempo, e é por isso
-necessario muitos annos para amadurecer, em quanto que o amor é como o
-relampago, filho muitas vezes da tempestade. Mas que importava! Não sou
-eu dos que preferem as tempestades á bonança e socego d'alma.
-
-Era pois uma mulher que se me tornava necessaria, só uma mulher
-me podia curar, uma mulher quer diser, o unico refugio, um anjo
-consolador, a estrella da tempestade. A mulher é uma divindade que
-nunca se implora em vão, especialmente quando se é desgraçado.
-
-Era com este incessante pensamento que, do meu camarote a bordo do
-_Itarapika_, voltava sem cessar o meu olhar para a terra. D'ahi
-descobria formosas meninas occupadas em differentes trabalhos
-domesticos. Uma d'ellas, principalmente, attraia-me a attenção.
-Mandaram-me desembarcar e immediatamente me encaminhei para a
-casa sobre que ha tanto tempo se fixava o meu olhar. O coração
-batia-me apressado, mas tinha formado uma d'essas resoluções que
-uma vez tomadas, nunca mais enfraquecem.--Um homem convidou-me a
-entrar,--teria-o feito ainda mesmo que elle o prohibisse--tinha-o
-visto uma vez--vi sua filha e disse-lhe: «Virgem pertences-me!»
-Havia por estas simples palavras creado um laço que só a morte podia
-quebrar.--Tinha encontrado um thesouro prohibido, mas de tal preço!...
-Se houve uma falta commettida, a responsabilidade só a mim pertence;
-se foi uma falta, unirem-se dois corações, despedaçando a alma de um
-innocente.
-
-Mas ella está morta e elle vingado--Onde conheci a grandeza da minha
-falta?--Na embocadura do Cridam no dia em que esperando disputal-a
-á morte, lhe apertava convulsivamente o pulso para contar as suas
-ultimas pulsações, absorvendo o seu alento fugitivo...... Beijava os
-seus labios muribundos, e apertava nos meus braços um cadaver chorando
-lagrimas de desesperação.[7]
-
- [7] Quando acabei de lêr este capitulo fiquei admirado de o vêr
- pouco comprehensivel. Voltei-me para Garibaldi, e disse-lhe:
-
- --Lê isso, acho ahi uma grande falta.
-
- Lêu, e depois de um momento de silencio, disse-me suspirando:
-
- --É necessario que isso fique como está.
-
- Dous dias depois recebi um manuscripto intitulado--_Annita
- Garibaldi_.
-
-
-
-
- XXV
-
- O CRUZEIRO
-
-
-O general tinha determinado que eu sahisse com tres navios armados
-para atacar as bandeiras imperiaes que crusavam na costa do Brasil.
-Preparei-me para cumprir esta ardua tarefa, reunindo todos os elementos
-necessarios ao meu armamento. Os meus tres navios eram o _Rio Pardo_,
-commandado por mim--a _Cassapara_, por Griggs, ambos goletas e o
-_Seival_ commandado pelo italiano Lourenço. A embocadura do lago estava
-bloqueada pelos navios de guerra imperiaes, mas apesar d'isso sahimos
-de noute e sem ser incommodados.--Annita, então companhia de toda a
-minha vida, e por consequencia, de todos os meus perigos, tinha querido
-acompanhar-me.
-
-Chegados á altura de Santos, encontrámos uma corveta imperial,
-que durante dois dias, nos deu caça inutilmente. No segundo dia
-aproximamo-nos da ilha do _Abrigo_ onde tomámos duas sumacas carregadas
-de arroz. Continuámos o cruzeiro e fizemos mais algumas prezas. Oito
-dias depois da nossa partida dirigi-me para o lago.
-
-Não sei porque, tinha um sinistro presentimento do que ali se passava,
-visto que antes da nossa partida já um certo descontentamento se
-manifestava contra nós. Estava além d'isso prevenido da aproximação
-d'um corpo consideravel de tropas, commandadas pelo general Andréa a
-quem a pacificação do Pará, tinha dado uma grande reputação.
-
-Na altura da ilha de Santa Catharina, quando voltavamos, encontrámos
-um patacho de guerra brasileiro.--Tinha unicamente comigo dous navios
-o _Rio Pardo_ e o _Seival_, porque a _Cassapara_ havia muitos dias
-que se tinha separado de nós por causa d'um grande nevoeiro. Quando
-descobrimos o navio inimigo estava na nossa prôa, por isso não havia
-meio de o evitar. Navegámos então direitos a elle e o atacámol-o
-resolutamente. Começámos o fogo e o inimigo respondeu-nos, mas
-este combate teve um exito mediocre por causa do muito mar.--O seu
-resultado foi a perda de algumas das nossas presas, porque os seus
-commandantes assustados pela superioridade do inimigo baixaram os
-pavilhões.--Outros deram á costa.
-
-Uma só das nossas presas foi salva. Era capitaneada por Ignacio Bilbáo,
-o nosso bravo biscainho que o conduzio a Imbituba, que então se achava
-em nosso poder. O _Seival_ tendo a peça desmontada e fazendo agua,
-tomou o mesmo caminho, e eu fui obrigado a seguil-os por que estava com
-mui poucas forças para andar só no mar.
-
-Entrámos em Imbituba, impellidos pelo nordeste. Com este vento
-era-nos impossivel entrar no lago e com certeza os navios imperiaes
-estacionados em Santa Catharina, informados pelo _Andorinha_, assim se
-chamava o navio de guerra com que tinhamos combatido, não tardariam a
-vir atacar-nos; era pois necessario prepararmo-nos para o combate. O
-canhão desmontado do _Seival_ foi içado n'um promontorio que fechava
-a bahia do lado do levante, e ahi construimos uma bateria coberta com
-cestões.
-
-Com effeito no dia seguinte ao apparecer da aurora vimos tres navios
-dirigindo-se para nós. O _Rio Pardo_, começou então um combate mui
-desigual, porque os imperiaes nos eram mui superiores em numero.
-
-Havia querido desembarcar Annita, mas ella não tinha consentido, e como
-do fundo da minha alma admirava a sua coragem e me achava orgulhoso
-pelo seu valor, cedi aos seus rogos.
-
-O inimigo favorecido na sua manobra pelo vento que então fazia,
-manteve-se á véla canhoneando-nos furiosamente. Podia d'esta maneira
-aproveitar todos os seus canhões dirigindo todo o seu fogo contra a
-nossa goleta. Nós, pelo nosso lado, combatiamos com a mais obstinada
-resolução e como estavamos tão perto que nos podiamos servir das nossas
-clavinas; as perdas eram de parte a parte importantes. As nossas
-comtudo eram mais numerosas em razão da inferioridade numerica, e a
-coberta ja se achava cheia de mortos e feridos. Apesar de tudo isto,
-apesar do flanco do nosso navio estar crivado de ballas, da nossa
-mastreação ter avaria, estavamos resolvidos a não ceder deixando-nos
-matar até ao ultimo. É verdade que eramos conservados n'esta resolução
-pela vista da amazona brasileira que estava a bordo. Annita, que, como
-ja disse, não havia querido desembarcar, tinha tambem tomado parte no
-combate, e com a clavina na mão coadjuva-nos admiravelmente. Eramos
-tambem, devo dizel-o, perfeitamente sustentados pelo bravo Manuel
-Rodrigues, commandante da nossa bateria de terra.
-
-O inimigo estava mui encarniçado especialmente contra a goleta.
-Muitas vezes durante este combate, aproximou-se tanto que julguei hia
-abordal-a, o que me dava muito prazer, porque estavamos preparados para
-tudo.
-
-No fim de cinco horas de uma lucta terrivel, o inimigo, com grande
-admiração nossa, retirou-se. Soubemos depois que a morte do capitão da
-_Bella-Americana_ tinha sido a causa.
-
-Tive durante este combate uma das mais vivas e crueis emoções da minha
-vida. Annita achava-se de sabre em punho em cima do tombadilho animando
-os meus homens. Repentinamente uma balla a derribou e a dous dos meus
-camaradas. Corri para ella, julgando não encontrar mais que um cadaver,
-mas Annita levantou-se sãa e salva; os dous homens estavam mortos;
-suppliquei-lhe então que descesse para a camara.
-
---Sim, vou descer, me disse ella, mas é para enxutar os poltrões que lá
-se foram esconder.
-
-E bem depressa tornou a apparecer trazendo adiante de si dous ou tres
-marinheiros envergonhados por serem menos bravos que uma mulher.
-
-Passámos o resto do dia a sepultar os mortos e a reparar as avarias,
-que não eram pequenas, causadas á goleta pelo fogo do inimigo. No dia
-seguinte os imperiaes não appareceram, porque sem duvida se preparavam
-para algum novo ataque; vendo isto embarcámos o nosso canhão e
-levantando ancora pela noite, dirigimo-nos para o lago.
-
-Quando o inimigo deu pela nossa partida, começou a perseguir-nos, mas
-só no dia seguinte é que nos poude enviar algumas ballas que não nos
-causaram prejuizo algum. Entrámos, pois, sem outro incidente no lago
-onde fomos festejados pelos nossos que se admiravam de termos escapado
-a um inimigo tão superior em numero.
-
-
-
-
- XXVI
-
- SAQUE DE IMERUI
-
-
-Outros acontecimentos nos esperavam no lago.
-
-Como o inimigo continuava a avançar por terra, e em tal numero que
-era loucura o tentar resistir-lhe, e como por outro lado as nossas
-tolices e brutalidades nos tinham indisposto com os habitantes de
-Santa Catharina que estavam promptos a revoltarem-se e a reunirem-se
-aos imperiaes, tendo-se já rebellado a cidade de Imerui, situada na
-extremidade do lago, foi-me determinado pelo general Canavarro que
-fosse castigar este desgraçado paiz, pelo ferro e pelo fogo: vi-me
-obrigado obedecer a esta ordem.
-
-Como os habitantes e a guarnição tinham feito preparativos de defeza
-pelo lado do mar, desembarquei então a tres milhas de distancia,
-e assaltei-os, no momento em que menos o esperavam, pelo lado da
-montanha. Surprehendida e batida a guarnição, foi posta em fuga,
-achando-nos senhores da cidade.
-
-Desejo não só para mim, para todos os individuos, o não receber uma
-ordem igual á que eu tinha recebido, e que era por tal modo terminante,
-que não havia meio de a illudir. Ainda que existam longas e prolixas
-relações de acontecimentos iguaes, julgo impossivel que a mais terrivel
-se aproxima da verdade. Deus me perdôe! mas não tenho em toda a minha
-vida, successo que me deixasse tão amargas recordações como o saque
-de Imerui. Ninguem póde fazer idéa do que soffri para alcançar que,
-deixando livre a pilhagem, não se attentasse contra a vida de pessoa
-alguma, limitando a destruição ás coisas inanimadas, alcancei o que
-pertendia, mas emquanto ás propriedades foi impossivel evitar a
-desordem. Nem a authoridade de commandante, nem os castigos poderam
-alcançar coisa alguma. Cheguei a ameaçal-os com a volta do inimigo.
-
-Espalhei o boato de que elle tendo recebido reforços vinha atacar-nos;
-mas tudo foi inutil, e na verdade, se o inimigo tornasse atraz
-achando-nos assim debandados teria-nos, sem muita difficuldade,
-anniquillado. Infelizmente, a cidade ainda que pequena, tinha muitos
-armazens cheios de vinho e licôres, de modo, que exceptuando-me, porque
-não bebo senão agua, e alguns officiaes que consegui conservar ao pé de
-mim, tudo se achava embriagado. Além d'isso os meus soldados eram na
-sua maioria recrutas, homens que eu apenas conhecia, e por conseguinte
-indisciplinados. Cincoenta soldados determinados atacando-nos de
-improviso teria-nos desbaratado. Emfim á força de ameaças e esforços
-consegui reembarcar estes animaes selvagens.
-
-Conduziram a bordo alguns viveres e objectos salvos da pilhagem,
-destinados á divisão e voltamos ao lago.
-
-Durante este tempo o coronel Teixeira com a sua vanguarda retirava-se
-diante do inimigo que avançava rapido e vigoroso.
-
-Quando chegámos ao lago, começavam a conduzir as bagagens á margem
-direita, e bem depressa os soldados deviam seguil-as.
-
-
-
-
- XXVII
-
- NOVOS COMBATES
-
-
-Tive muito que fazer no dia em que se effectuou a passagem da divisão
-para a margem meridional, porque, se o exercito era pouco numeroso
-as bagagens pareciam não ter fim.--Na parte mais estreita do rio a
-corrente redobrava de violencia.--Trabalhámos pois desde o nascer do
-sol até ao meio dia para fazer passar a divisão.
-
-Pelo meio dia começou a apparecer a flotilha inimiga, composta de vinte
-e duas vélas. Combinavam os seus movimentos com a tropa de terra, e
-traziam a bordo além de equipagem grande numero de soldados. Subi á
-montanha mais proxima para observar o inimigo, e vi immediatamente que
-o seu plano era reunir as suas forças á entrada do lago. Dei logo parte
-ao general Canavarro que no mesmo momento deu as ordens convenientes,
-mas não obstante essas ordens os nossos homens não chegaram a tempo
-de defender a entrada do lago. Uma bateria que haviamos construido
-na embocadura do lago e que era dirigida pelo bravo Capotto resistiu
-fracamente, pois não tinha senão peças de pequeno calibre, e alem
-d'isso mal servidas por artilheiros inhabeis. Os nossos tres pequenos
-navios estavam reduzidos á metade da equipagem, porque a outra metade
-tendo sido mandada para terra para coadjuvar a passagem das tropas, não
-se nos juntou, deixando-nos sós para combater um tão temivel inimigo.
-
-Durante este tempo o inimigo ajudado pelo vento e mare vinha para nós
-com toda a força. Dirigi-me então a toda a pressa para o meu posto a
-bordo do _Rio Pardo_, onde já a minha corajosa Annita tinha começado
-o combate, apontando e dando ella mesmo fogo á peça de que se tinha
-encarregado, animando com a voz e o exemplo os meus companheiros um
-pouco atemorisados.
-
-O combate foi horrivel e mais mortifero que se poderia julgar. Tive
-poucos mortos, porque, como já disse, metade da equipagem estava em
-terra, mas dos seis officiaes que estavam nos tres navios só eu escapei
-são e salvo.
-
-Todas as nossas peças estavam desmontadas, mas o combale continuou á
-clavina e não cessámos de atirar em quanto o inimigo passou por diante
-de nós. Durante o combate Annita ficou sempre ao meu lado, no posto
-mais perigoso, não querendo nem desembarcar nem aproveitar-se de nenhum
-alivio, e despresando mesmo o inclinar-se como faz o homem mais bravo,
-quando vê a mecha aproximar-se do canhão inimigo.
-
-Soffrendo mil cuidados por a vêr exposta a tantos perigos, julguei
-encontrar um meio de affastar.
-
-Ordenei-lhe, foi necessario uma ordem, para me obedecer que fosse pedir
-reforço ao general dando-lhe a minha palavra de que se me enviasse
-esse reforço entraria no lago perseguindo os imperiaes e tratando-os
-de tal maneira que elles não pensariam em desembarcar, embora tivesse
-que largar o fogo á sua flotilha. Obriguei Annita a prometter-me que
-ficaria em terra enviando-me a resposta por um homem seguro; mas com
-bastante pesar meu foi Annita, que trouxe a resposta do general:
-
-«Não tinha soldados para me mandar, e ordenava-me que não largasse o
-fogo á esquadra inimiga, mas que viesse para a terra salvando as armas
-e munições.»
-
-Obedeci. Então debaixo de um fogo que não cessou um momento,
-conseguimos fazer transportar a terra as armas e munições. Foi Annita
-quem á falta de officiaes dirigiu esta operação em quanto eu passando
-de um navio a outro collocava no logar mais inflamavel de cada um
-d'elles, o fogo que o devia devorar.
-
-Foi uma missão terrivel que me fez passar uma triplece revista de
-mortos e feridos. Era um verdadeiro açougue de carne humana; andava-se
-por cima de montões de cadaveres. O commandante do _Itaparika_ João
-Henriques de la Laguna estava deitado no meio de dous terços da sua
-equipagem com uma balla que lhe tinha feito no meio do peito um buraco
-por onde podia entrar perfeitamente um braço. O pobre João Griggs
-tinha, como já disse, o corpo separado em dois por um tiro de metralha.
-Fiquei suffocado, com a vista de similhante espectaculo, e perguntei a
-mim mesmo como poderia ter escapado.
-
-N'um momento uma nuvem de fumo envolveu os nossos navios e os nossos
-bravos tiveram ao menos uma sepultura digna d'elles.
-
-Em quanto tinha comprido a minha obra de destruição, Annita pela sua
-parte havia cumprido a sua de salvação. Para transportar á praia todas
-as nossas armas e munições fez talvez vinte viagens ao navio passando
-constantemente debaixo do fogo do inimigo. Andava n'um pequeno barco
-com dois remadores, e os pobres diabos curvavam-se o mais possivel,
-para evitar as ballas.
-
-Annita pelo contrario na pôpa, no meio da metralha, estava direita e
-socegada como uma estatua de Pallas, e Deus que me cobria com uma das
-suas mãos, estendia-lhe tambem essa protecção.
-
-Era noite fechada quando tendo reunido todos os marinheiros que
-haviam escapado, me juntei com a nossa divisão, e nos retirámos para
-o Rio Grande seguindo o mesmo caminho que alguns mezes antes tinhamos
-atravessado com o coração cheio de esperança e procedidos pela
-victoria.
-
-
-
-
- XXVIII
-
- A CAVALLO
-
-
-No meio das peripecias da minha aventureira existencia, tenho tido
-sempre horas bem agradaveis, e ainda que esta em que me achava não
-parecesse á primeira vista fazer parte das que me tem deixado uma grata
-lembrança, foi ao menos cheia de emoções.
-
-Á testa de alguns homens, resto de tantos combatentes, que tinham com
-justa rasão merecido o titulo de bravos, caminhava a cavallo, orgulhoso
-dos vivos, orgulhoso dos mortos, e quasi orgulhoso de mim mesmo. Ao meu
-lado hia a rainha da minha alma, a mulher digna de toda a admiração.
-Estava lançado n'uma carreira mais attrahente do que a de marinha: que
-me importava pois, como o philosopho grego, não possuir senão o que
-tinha comigo? Que me importava servir uma republica pobre, que não
-pagava a ninguem, e de que ainda que fosse rica, eu não teria acceitado
-cousa alguma? Não tinha ao lado um sabre, uma clavina passada atravez
-do arção do meu cavallo? Não tinha perto de mim Annita, o meu thesouro,
-caracter tão ardente como o meu pela liberdade dos povos? Não encarava
-ella os combates como um divertimento, como uma simples distracção? O
-futuro sorria-me sempre afortunado, e quanto mais se me apresentavam
-selvagens e desertas as solidões americanas, mais deliciosas e bellas
-me pareciam.
-
-Continuámos a retirar para as Torres, limite das duas provincias onde
-estabelecemos o nosso acampamento. O inimigo contentou-se em retomar o
-lago, não nos perseguindo.
-
-A divisão Cunha que vinha da provincia de S. Paulo, juntando-se com a
-divisão Andrea, dirigiam-se para _Cimo da Serra_, provincia da montanha
-pertencente ao Rio Grande.
-
-Os montanhezes nossos amigos, pediram soccorro ao general Canavarro,
-que mandou em seu auxilio uma expedição ás ordens do coronel Teixeira.
-Fizemos parte d'esta expedição. Recebidos pelos serraminhos,
-commandados pelo coronel Aranha, batemos completamente o inimigo em
-Santa Victoria. Cunha affogou-se no rio Pelatos e a maior parte das
-suas tropas ficou prisioneira.
-
-Esta victoria poz debaixo do dominio da republica as duas provincias de
-Vaccaria e das Lages, e nós entramos em triumpho na principal povoação
-d'esta ultima.
-
-A noticia da invasão imperial tinha feito acordar o partido brasileiro,
-e Mello, chefe inimigo, tinha enviado a esta provincia o seu corpo de
-cavallaria, composto quasi de quinhentos homens.
-
-O general Bento Manoel, encarregado de o atacar não o tinha podido
-fazer por causa da sua retirada, contentando-se em enviar o coronel
-Portinko em perseguição de Mello que se dirigia sobre S. Paulo.
-
-A posição que occupavamos e as nossas forças, permettia-nos não só
-oppor-nos á passagem de Mello, mas tambem de o anniquillar. Mas a
-fortuna não o quiz: o coronel Teixeira incerto se o inimigo vinha
-por Vaccaria ou por Coritibani, dividiu a sua tropa em dois corpos,
-enviando o coronel Aranha a Vaccaria com a melhor cavallaria, em quanto
-que nós com a infanteria e só com alguns soldados de cavallaria,
-tirados quasi todos dos prisioneiros inimigos, nos dirigimos para
-Coritibani. Foi este o caminho que tomou o inimigo.
-
-Esta divisão das nossas forças foi-nos fatal: a recente victoria, o
-caracter ardente do nosso chefe, e as noticias que tinhamos do inimigo
-fizeram com que o desprezassemos mais do que merecia.
-
-Em tres dias de marcha chegámos a Coritibani, e acampámos a pouca
-distancia de Maromba por onde julgavamos que deviam passar os
-imperiaes. Collocamos um posto na praia e sentinellas nos sitios que
-julgamos convenientes, e ficamos mui descançados.
-
-Em quanto a mim, o habito que tinha d'estas guerras fez com que, como
-se costuma dizer, dormisse com um olho aberto e outro fechado.
-
-Pela meia noite o posto que se achava na praia, foi atacado e com tanta
-furia que os nossos soldados tiveram apenas tempo de fugir trocando
-alguns tiros com o inimigo.
-
-Quando senti o primeiro tiro puz-me logo a pé dando o grito de «Ás
-armas.» Em poucos minutos todos estavamos promptos para o combate.
-Algum tempo depois de nascer o dia o inimigo appareceu, e tendo passado
-o rio parou a alguma distancia formado em batalha. Vendo o numero
-superior do inimigo o coronel Teixeira deveria ter expedido correios
-para chamar em seu auxilio a segunda divisão, mas Teixeira temendo
-que elle se retirasse sem ter occasião de combater, lançou-se no
-combate importando-se pouco da sua inferioridade numerica e da posição
-vantajosa que o inimigo occupava.
-
-Este aproveitando-se das irregularidades do terreno tinha estabelecido
-a sua linha de batalha n'uma collina mui elevada, diante da qual
-existia um vale profundo obstruido por muitos abrolhos tinha além
-d'isso embuscado nos seus flancos alguns pelotões. Teixeira ordenou o
-ataque que começou com todo o vigor. O inimigo então fingiu retirar-se.
-Os nossos soldados começaram a perseguil-os sem cessar a fazillaria,
-mas repentinamente foram atacados pelos pelotões embuscados que elles
-não tinham visto e que tomando-os pelos flancos os obrigaram a passar
-o vale em desordem. Perdemos n'este combate um dos nossos melhores
-officiaes, Manoel N...... que era mui estimado pelo chefe. A nossa
-linha, bem depressa organisada de novo atacou o inimigo com tal
-impetuosidade, que foi posto em retirada.
-
-O numero de mortos e feridos de parte a parte foi pouco numeroso,
-porque as tropas que tomaram parte no combate foram diminutas.
-
-O inimigo retirou-se com precipitação e nós fomos em sua perseguição
-com grande encarniçamento. Infelizmente como tinhamos pouca cavallaria
-não podémos perseguir a sua que fugia a todo a galope. Aproximando-se
-do _Passo de Maromba_ o chefe da nossa vanguarda o major Jacintho
-participou ao coronel que o inimigo fazia passar em uma grande desordem
-o rio aos seus bois e cavallos, o que provava de que elle queria
-continuar a retirar-se. Teixeira não hesitou um momento; ordenou ao
-nosso pequeno esquadrão que mettesse a galope, recommendando-me que o
-seguisse o mais de perto possivel com a minha infanteria.
-
-A retirada do inimigo não era comtudo senão uma astucia, e infelizmente
-esta astucia teve para nós terriveis resultados. Por causa das
-irregularidades do terreno e pela precipitação com que o tinha
-atravessado o inimigo achou-se fóra da nossa vista e chegando ao rio,
-havia, como nos tinha participado o major Jacintho, passado para a
-outra banda os bois e cavallos, mas os soldados tinham ficado occultos
-por detraz de collinas que os escondiam completamente á nossa vista.
-
-Tomadas estas precauções e tendo deixado um pelotão para sustentar a
-sua linha de atiradores, os imperiaes, sabendo da nossa imprudencia
-em deixar a infanteria na retaguarda, fizeram uma contra-marcha e
-repentinamente os seus esquadrões appareceram no cimo de um valle.
-
-O nosso pelotão que perseguia o inimigo na sua fuga simulada, foi o
-primeiro a conhecer o laço, mas infelizmente não teve tempo para o
-evitar. Atacado pelos flancos foi completamente destroçado. Os tres
-outros esquadrões de cavallaria tiveram a mesma sorte, não obstante a
-coragem e resolução de Teixeira e de alguns de nossos officiaes do Rio
-Grande: em alguns momentos a nossa cavallaria estava espalhada em todas
-as direcções.
-
-Os soldados de cavallaria eram, como já disse, na sua maioria,
-prisioneiros de Santa Victoria, e tinhamos feito mal em contar tanto
-com elles, porque na realidade não podiam ser muito affeiçoados á
-nossa causa, e além d'isso sendo soldados novos vindos da provincia,
-estavam pouco acostumados a andar a cavallo. Assim logo que teve logar
-o primeiro choque, fugiram.
-
-Montado n'um excellente cavallo, depois de ter excitado a minha
-infanteria a marchar o mais rapidamente possivel, tinha-lhe tomado a
-frente e chegado ao alto de uma collina, d'ahi vi o triste resultado
-d'este combate.
-
-Os meus infantes fizeram todo o possivel para chegar a tempo, mas tudo
-foi em vão. Do alto da eminencia onde me achava julguei que era muito
-tarde para que elles nos podessem dar a victoria, mas muito cedo para
-ainda a não julgarmos perdida.--Chamei uma duzia dos meus antigos
-companheiros, os mais ligeiros e mais bravos, e deixando o major
-Peixoto encarregado dos restantes, tomei com este punhado de valentes,
-uma forte posição no cimo d'uma collina fortificada por muitas
-arvores.--D'ahi fizemos frente ao inimigo, que conheceu que ainda não
-era totalmente vencedor, e servimos de ponto de apoio aquelles dos
-nossos que não tinham perdido completamente a coragem.--O coronel veiu
-para o nosso lado com alguns cavallos depois de ter obrado milagres de
-coragem.--O resto de infanteria uni-se-nos então e a defeza começou
-terrivel e mortifera.
-
-Fortes na nossa posição e no numero de setenta e tres lutamos com
-vantagem. O inimigo tendo falta de infanteria e pouco habituado a
-combater contra esta arma dava cargas inutilmente: quinhentos homens de
-excellente cavallaria, brilhante e orgulhosa pela victoria cançaram-se
-inutilmente diante de um punhado de homens sem alcançar vantagem
-alguma. Comtudo apesar d'esta vantagem momentanea era necessario não
-dar ao inimigo tempo de reunir as suas forças, de que a metade estava
-ainda empregada a perseguir os nossos fugitivos, e sobre tudo era
-necessario procurar um refugio mais seguro do que aquelle em que nos
-achavamos.--Uma floresta se nos apresentava á vista na distancia de
-quasi uma milha; começámos então a nossa retirada dirigindo-nos para
-ella.--Em vão o inimigo tentava romper o nosso quadrado, em vão nos
-dava repetidas cargas, quando o terreno o permettia, tudo foi inutil.
-
-Foi para nós uma grande fortuna, o estarem os officiaes armados de
-clavinas, e como todos eramos homens aguerridos, conservamo-nos unidos
-fazendo face ao inimigo por qualquer lado que se apresentava e recuando
-em excellente ordem, fazendo um fogo terrivel e bem dirigido, ganhámos
-o nosso refugio onde o inimigo não se atreveu a penetrar. Uma vez
-na floresta encontrámos um claro e sempre unidos e de fuzil na mão,
-esperámos pela noute.
-
-O inimigo gritava-nos a todos os momentos--_Rendam-se_, mas nós só lhe
-respondiamos com o silencio.
-
-
-
-
- XXIX
-
- A RETIRADA
-
-
-Chegada a noute preparámo-nos para partir, sendo o nosso disignio o
-tomar novamente o caminho das Lages. A maior difficuldade que tinhamos
-a vencer, era o transportar os feridos. O major Peixoto não nos podia
-coadjuvar, porque tinha um pé atravessado por uma balla.
-
-Pelas dez horas da noute, estando os feridos accommodados o melhor
-possivel, começámos a nossa marcha, abandonando o crado e seguindo
-a linha da floresta, que sendo a maior que existe talvez no mundo,
-se estende do rio Prata aos Amazonas, coroando os cumes da serra
-Espinasso, sobre uma extensão de trinta graus de latitude: não conheço
-a sua extensão em longitude, mas deve ser immensa.
-
-As tres provincias de Cima da Serra, Vaccaria e Lages, são segundo
-julgo ter já dito situadas no crados d'esta floresta. Coritibani,
-especie de colonia, estabelecida pelos habitantes de Coritiba situada
-no districto das Lages, provincia de Santa Catharina era o theatro do
-episodio que estou contando: costeavamos pois o nosso bosque isolado,
-para nos aproximarmos o mais possivel da floresta, tratando de nos
-juntarmos á divisão de Aranha, que se havia infelizmente separado de
-nós.
-
-Á sahida do bosque aconteceu-nos um d'esses successos que provam como
-o homem é filho das circumstancias e o poder que tem um terror panico
-ainda sobre os mais corajosos. Marchavamos em silencio, como convinha á
-nossa situação dispostos a combater o inimigo se se oppozesse á nossa
-retirada. Um cavallo que se achava na durela da floresta sentindo a
-pouca bulha que faziamos tomou medo e fugiu.
-
-Ouviu-se então gritar uma voz:
-
---É o inimigo!
-
-No mesmo momento os setenta e tres homens que tinham resistido a
-quinhentos com tanta coragem que se podia dizer que haviam sido os
-vencedores, tomáram medo e começaram a fugir dispersando-se de tal modo
-que foi uma felicidade o não ter algum dos nossos acordado o inimigo
-dando-lhe o signal de alarme.
-
-Consegui com muito trabalho reunir alguns d'elles ao qual pouco a pouco
-se foi juntando o resto, de modo que ao raiar da aurora estavamos na
-aurela da floresta dirigindo-nos para as Lages.
-
-O inimigo que não havia dado pela nossa fuga, procurou-nos inutilmente
-no dia seguinte.
-
-No dia do combate o perigo tinha sido grande, a fadiga enorme, a fome
-imperiosa, a sede ardente, mas era necessario combater, combater pela
-vida e esta idéa dominava todas. Mas uma vez na floresta tudo mudou.
-Faltavam todas as coisas e a miseria não tendo a distracção do perigo
-fez-se sentir terrivel, cruel, insupportavel. A falta de viveres, o
-abatimento de todos, as feridas de alguns, e a carencia dos meios de as
-tratar, lançaram-nos na desanimação.
-
-Ficámos quatro dias sem encontrar senão raizes e julgo desnecessario
-descrever a fadiga que tivemos para achar n'esta floresta um caminho
-onde não existia o mais pequeno atalho e onde a natureza mui fecunda
-faz a cada passo encontrar barrancos enormes.
-
-Alguns dos meus homens desertaram desesperados e tivemos grande
-trabalho para os juntarmos e impor-lhes respeito. Não existia senão um
-unico recurso para dissipar esta desanimação e fui eu que o encontrei.
-Disse a todos que lhe dava a liberdade de se retirarem para onde
-quizessem, ou de continuarem a marchar unidos e em corpo, protegendo
-os feridos e defendendo-se mutuamente. O remedio foi efficaz. Desde
-que cada um foi livre de fazer o que quizesse ninguem pensou mais em
-desertar e a confiança voltou a todos.
-
-Cinco dias depois do combate encontrámos uma _picada_, atalho de
-largura d'um homem, e raras vezes de dois que nos conduziu a uma casa
-onde nos refrescámos matando dois bois.
-
-Continuámos o nosso caminho para as Lages onde chegámos n'um dia de
-perfeito inverno.
-
-
-
-
- XXX
-
- ESTADA NAS LAGES E NOS ARRABALDES
-
-
-Este bom paiz das Lages que nos tinha festejado tanto, quando eramos
-victoriosos, havia quando recebeu a noticia da nossa derrota mudado
-de opinião, e alguns dos mais resolutos tinham restabelecido o poder
-imperial. Estes fugiram á nossa aproximação, e como a maior parte
-d'elles eram negociantes, tinham deixado os seus armazens providos
-de muitos objectos. Foi uma providencia, por que julgámos poder sem
-remorsos aproveitar-nos das mercadorias dos nossos inimigos, e graças á
-variedade do commercio que exerciam melhorar muito a nossa posição.
-
-Entretanto Teixeira escreveu a Aranha ordenando-lhe que se nos unisse,
-tendo por este tempo a noticia da chegada do coronel Portinko que tinha
-sido enviado por Bento Manoel para seguir esse mesmo corpo de Mello,
-encontrado desgraçadamente por nós em Coritibani.
-
-Tinha servido sinceramente na America a causa dos povos, e havia lá
-sido como na Europa o adversario do absolutismo. Tenho algumas vezes
-admirado os homens, muitas lamentado, mas nunca odeado. Quando os
-tenho encontrado egoistas e tratantes, tenho posto o seu egoismo
-e trantantisse de parte, mettendo-o na conta da nossa desgraçada
-natureza. Como estou afastado duas mil leguas do logar onde estes
-acontecimentos tiveram logar, e já são passados doze annos póde-se
-por isso acreditar na minha imparcialidade. Digo-o tanto pelos meus
-amigos como pelos meus inimigos; eram intrepidos filhos do continente
-americano.
-
-Era uma audaciosa empreza o defender Lages contra um inimigo dez vezes
-superior, e além d'isso orgulhoso pela recente victoria. Separados
-d'elle pelo rio Canoas, que nós não tinhamos podido guarnecer
-sufficientemente, esperámos durante muitos dias a juncção de Aranha
-e Portinko, e durante este periodo o inimigo foi sustentado por um
-punhado de homens, atacando-o logo que nos chegaram os reforços, mas
-foi elle que se retirou sem acceitar o combate para a provincia visinha
-de S. Paulo, aonde esperava encontrar um poderoso soccorro.
-
-Foi n'esta circumstancia que eu verifiquei os vicios geralmente
-imputados ao exercito republicano, que se compunha de homens cheios de
-patriotismo e coragem, mas que não ficam juntos ás bandeiras, senão
-quando o inimigo os ameaça, abandonando-as quando este se affasta. Este
-costume foi quasi a nossa ruina, e poderia causar a nossa perda n'estas
-circumstancias, porque se o inimigo tivesse mais paciencia, teria
-podido destruir-nos totalmente.
-
-Os serraminos foram os primeiros a abandonar as fileiras. Os soldados
-de Portinko em breve os seguiram. Note-se bem que os desertores não só
-levavam os seus cavallos, mas os da divisão. Em poucos dias as nossas
-forças se separaram com tanta rapidez que fomos obrigados a abandonar
-Lages, retirando-nos para a provincia do Rio Grande, temendo a presença
-d'esse inimigo, que tinha sido obrigado a fugir diante de nós, e de que
-a fuga nos tinha feito vencedores.
-
-Que estes exemplos sirvam aos povos que querem ser livres, e que
-não é com flores, festas e illuminações que se combatem os soldados
-aguerridos do despotismo, mas com soldados mais disciplinados e mais
-aguerridos do que elles, não querendo para generaes os que não são
-capazes de disciplinar um povo depois de o haver sublevado.
-
-É verdade que tambem ha povos que não merecem a pena de serem
-sublevados: a gangrena não tem cura.
-
-O resto das nossas forças assim dissimadas--quando estavam privadas
-das cousas mais necessarias e principalmente de vestidos--privação
-terrível na aproximação do inverno sombrio e rude n'estas regiões
-elevadas,--o resto das nossas forças, começou a desmoralisar-se e a
-pedir para se retirarem para suas casas. Teixeira foi obrigado a ceder
-a essa exigencia, e ordenou-me de descer a montanha e de me reunir ao
-exercito, em quanto se preparava a fazer outro tanto. Esta retirada
-foi rude por causa da escabrosidade dos caminhos e das hostilidades
-occultas dos habitantes da floresta, inimigos encarniçados dos
-republicanos.
-
-Em numero de setenta, pouco mais ou menos, descemos a _Picada di
-Peloffo_--já disse o que era uma picada--e tivemos que affrontar
-emboscadas repetidas e imprevistas que nós atravessamos com uma
-felicidade incrivel devida á resolução dos homens que eu commandava, e
-um pouco á confiança que geralmente inspiro aos que me seguem. O atalho
-que atravessavamos era tão estreito que unicamente podiam passar dois
-homens a par, e como o inimigo era nascido no paiz, por isso conhecedor
-do terreno, emboscava-se nos sitios mais favoraveis, rodeando-nos
-e dando gritos horriveis, em quanto que um circulo de chammas nos
-cercava, sem que nós podessemos vêr os atiradores, que felizmente
-faziam mais barulho do que obra. De resto a união que os meus homens
-tiveram no perigo foi tal que apenas alguns foram feridos, tendo só um
-cavallo morto.
-
-Estes acontecimentos fazem recordar as florestas encantadas de Tasso,
-aonde as arvores viviam.
-
-Chegámos então a _Mala-Casa_ aonde se achava Gonçalves, que reunia as
-funcções de presidente ás de general em chefe.
-
-
-
-
- XXXI
-
- BATALHA DE TAQUARI
-
-
-O exercito republicano preparava-se para se pôr em marcha. O inimigo
-depois da derrota de Rio Pardo, tinha-se refeito em Porto Alegre,
-d'onde tinha sahido debaixo das ordens do velho general Georgio, e
-havia estabelecido o seu acampamento nas praias de Cahé, aonde esperava
-a juncção do general Calderon, que com um corpo consideravel de
-cavallaria se lhe devia reunir.
-
-O grande inconveniente da dispersão das tropas republicanas quando
-não estavam em face do inimigo, dava-lhe facilidade em tudo que elle
-queria emprehender, de modo que no momento em que o general Netto, que
-commandava as forças, teve reunido um numero sufficiente de soldados
-para bater Calderon, este tinha já reunido no Cahe a maior parte do
-exercito imperial.
-
-Era absolutamente indispensavel ao presidente se queria bater o
-inimigo, o reunir-se á divisão Netto, e foi por isto que elle levantou
-o cerco. Esta manobra e a juncção que se lhe seguiu, tiveram um
-feliz resultado e fizeram grande honra á capacidade militar de Bento
-Gonçalves. Partimos de Mala-Casa com o exercito, tomando a direcção de
-Leopoldo, passando a duas milhas das forças inimigas, e depois de dous
-dias e duas noites de marcha continua, nas quaes quasi que não comemos
-nem bebemos chegámos perto de Taquari onde encontrámos o general Netto
-que nos procurava.
-
-Disse que haviamos passado quasi sem comer, e disse a verdade. Logo que
-o inimigo soube da nossa aproximação, marchou resolutamente ao nosso
-encontro e muitas vezes nos alcançou em quanto descançavamos um momento
-e estavamos occupados a assar alguma carne, nosso unico alimento.
-Por dez vezes estando a comida quasi prompta as sentinellas gritavam
-ás armas, e era por isso necessario ir combater em logar de jantar ou
-almoçar. Emfim fizemos alto em Pinheirinho a seis milhas de Taquari, e
-ahi tomámos todas as disposições para o combate.
-
-O exercito republicano forte de mil homens de infanteria e cinco mil
-de cavallaria, occupava as alturas do Pinheirinho, montanha coberta
-de pinhos, como indica o seu nome, pouco elevada, mas dominando as
-montanhas visinhas. A infanteria estava no centro commandada pelo
-velho coronel Crezungio. A ala direita obedecia ao general Netto e a
-ala esquerda a Canavarro. As duas alas eram compostas unicamente de
-cavallaria que sem exaggeração era a melhor do mundo. A infanteria era
-tambem excellente, e o desejo de começar o combate era geral.
-
-O coronel Santo Antonio formava a reserva com um corpo de cavallaria.
-
-O inimigo do seu lado tinha quatro mil homens de infanteria, tres mil
-de cavallaria e algumas peças. Estava do outro lado da pequena torrente
-que nos separava e a sua apparencia era longe de ser miseravel. O
-exercito compunha-se das melhores tropas do imperio commandadas por um
-general velho e experimentado.
-
-O general inimigo tinha até então marchado ardentemente em nossa
-perseguição, e havia tomado todas as posições para um ataque em quanto
-as suas peças metralhavam a nossa cavallaria. Os nossos valentes da
-primeira brigada ás ordens de Netto, tinham tirado os sabres da bainha
-e não esperavam senão pelo signal para se lançarem aos dous batalhões
-que tinham atravessado a corrente. Estes bravos estavam convencidos
-que ficavam victoriosos porque nunca nem elles nem Netto tinham sido
-batidos. A infanteria collocada em divisões no alto da colina, e
-coberta pelas curvas do terreno, estava anciosa pelo momento do combate.
-
-Os terriveis lanceiros de Canavarro tinham já feito um movimento
-envolvendo o flanco direito do inimigo, obrigando-o por isso a mudar de
-posição, mudança que se tinha feito em desordem.
-
-Este corpo de lanceiros composto na sua maioria de negros libertos
-da republica, e escolhidos entre os melhores domadores de cavallos de
-provincia, tinha unicamente os officiaes superiores brancos, e nunca
-o inimigo tinha visto as costas d'estes filhos da liberdade. As suas
-lanças que eram maiores do que o ordinario, os seus rostos pretos
-como azeviche, os seus robustos membros e a sua perfeita disciplina
-tornava-os o terror dos inimigos.
-
-A voz animadora do chefe já havia feito tremer todos aquelles corações.
-«Que todos combatam como se tivessem quatro corpos para defender a
-patria e quatro almas para a amar, havia dito esse valente, que tinha
-todas as qualidades de um grande capitão menos a felicidade.
-
-Quanto a nós sentiamos, por assim dizer, as palpitações da batalha,
-e tinhamos a certeza de ganhar a victoria. Nunca em minha vida tinha
-visto um mais bello, mais magnifico espectaculo. Collocado no centro da
-nossa infanteria, no alto da collina descobria todo o campo de batalha.
-As planicies sobre as quaes iam ficar tantos cadaveres, estavam
-semeadas de plantas baixas e raras, não fazendo pois nenhum obstaculo
-nem aos movimentos estrategicos nem ao olhar que os seguia, e podia
-dizer que aos meus pés em poucos momentos seriam resolvidos os destinos
-da maior parte do continente americano.
-
-Esses corpos tão compactos, tão unidos uns aos outros vão ser dispersos
-e derrotados? Todos esses homens serão em um momento cadaveres? Toda
-essa bella e vigorosa mocidade verá destruidas as suas mais bellas
-esperanças? Vamos! Tocae fanfarras, troae canhões, e que tudo seja
-decidido como em Zama, Pharsale e Actium.
-
-Mas não era ainda n'esta planicie que devia ter logar o combate. O
-general inimigo intimidado pela forte posição que occupavamos e pela
-nossa firmeza, hesitou e fez repassar o rio aos dois batalhões, tomando
-a defensiva em logar da offensiva. O general Caldeira tinha sido morto
-no começo do combate e d'ahi provinha, talvez, a hesitação de Georgio.
-No momento em que elle não nos atacava, não deviamos nós atacal-o?
-Tal era a opinião da maioria. Seriamos bem succedidos? Travando-se
-o combate nas condições primitivas e conservando a nossa excellente
-posição todas as probabilidades eram por nós, mas abandonando-as para
-seguir um inimigo que nos era quatro vezes superior em infanteria, era
-necessario dar a batalha no outro lado da corrente.
-
-Era escabroso, ainda que tentador.
-
-Passámos todo o dia em frente do inimigo, fazendo conjecturas e
-disparando alguns tiros.
-
-Tinham-se-nos acabado os comestiveis, e a infanteria principalmente
-soffria muito com essa falta. A agua tambem se nos tinha acabado, e
-a sua falta era-nos mais sensivel que a dos viveres. Á nossa vista
-existia uma grande quantidade d'agua, mas que infelizmente se achava em
-poder do inimigo. Por fortuna os nossos soldados estavam habituados a
-soffrer toda a sorte de privações, e por isso uma só queixa sahia dos
-seus labios--era a demora em começar o combate.
-
-Ó italianos, italianos, no dia em que sejaes unidos e sobrios, no
-dia em que possaes soffrer todas as privações como os habitantes do
-continente americano, o estrangeiro, estae certo, não escravisará a
-vossa patria, nem enxovalhará os vossos lares. N'esse dia a Italia
-terá retomado o seu logar não só no meio; mas á frente das nações do
-universo.
-
-Durante a noite o velho general Georgio tinha desapparecido, e ao raiar
-da aurora foi em vão que o procurámos; só ás dez horas, quando se
-dissipou o forte nevoeiro, foi que o avistámos nas posições de Taquari.
-
-Pouco tempo depois fomos avisados de que a sua cavallaria atravessava
-o rio. Os imperiaes estavam pois em completa retirada, era necessario
-atacal-os e o nosso general não hesitou.
-
-A cavallaria inimiga havia atravessado o rio, protegida por alguns dos
-navios imperiaes, mas a infanteria tinha ficado na margem esquerda,
-protegida por esses mesmos navios e pela floresta, sendo por isso a
-sua posição a mais vantajosa possivel. A nossa segunda brigada de
-infanteria, composta do terceiro e vigessimo batalhão, era a destinada
-a começar o combate, effectuando-o com a sua costumada bravura. Mas
-o inimigo era tão superior em numero que estes bravos, depois de
-terem praticado prodigios de valor, foram obrigados a retirarem-se,
-sustentados pela segunda brigada e primeiro batalhão de artilharia--sem
-canhões--e de marinha. O combate foi terrivel, especialmente na
-floresta onde o estrondo da fuzilaria e arvores despedaçadas, no meio
-d'um espesso fumo, parecia o d'uma infernal tempestade.
-
-De cada lado não contámos menos de quinhentos mortos e feridos. Os
-cadaveres dos nossos valentes republicanos foram até encontrados
-na ribanceira do rio, para onde elles tinham arrojado o inimigo.
-Infelizmente estas perdas foram sem resultado relativamente á sua
-importancia, porque logo que começou a retirada da segunda brigada a
-batalha finalisou.
-
-Tendo chegado a noite o inimigo pôde tranquillamente acabar de passar o
-rio.
-
-No meio das brilhantes qualidades, das quaes julgo ter já fallado,
-citarei alguns dos deffeitos do general Bento Gonçalves: o mais
-deploravel d'entre elles era uma certa hesitação, razão provavel dos
-resultados funestos das suas operações. Teria sido melhor que em logar
-de lançar esses quinhentos homens tão inferiores em numero aos que
-elles atacavam, tivessem enviado não só toda a infanteria, mas tambem
-a sua cavallaria, a pé, visto que a difficuldade do terreno não lhe
-permittia combater a cavallo: uma tal manobra teria certamente dado em
-resultado uma esplendida victoria, e fazendo perder pé ao inimigo nós
-conseguiriamos lançal-o no rio; mas infelizmente o general teve receios
-de aventurar toda a sua infantaria, a unica que elle teve, e que teve a
-republica.
-
-Em todo o caso o resultado foi para nós pessimo, porque não sabiamos
-como reparar as faltas que havia soffrido a infanteria, arma em que o
-inimigo nos era mui superior, e se achava todos os dias recebendo novos
-reforços.
-
-O inimigo ficou na margem direita de Taquari, e por isso senhor de todo
-o campo. Nós tomámos então o caminho de _Mala-Casa_.
-
-Todas estas falsas manobras peioraram a situação da republica. Voltámos
-a S. Leopoldo e a Settembrina e depois ao nosso antigo acampamento de
-_Mala-Casa_, que foi abandonado em alguns dias pelo da _Bella-Vista_.
-
-Uma operação concebida n'este tempo pelo general, teria podido pôr-nos
-em excellente posição, se a fortuna tivesse, como devia, secundado os
-esforços d'este homem tão superior e tão desgraçado.
-
-
-
-
- XXXII
-
- ASSALTO A S. JOSÉ DO NORTE
-
-
-O inimigo, para poder fazer as suas correrias pelos campos, havia
-sido obrigado a desguarnecer de infanteria as suas praças fortes.
-Principalmente S. José do Norte tinha um pequeno numero de soldados.
-
-Esta praça, situada na margem septentrional da embocadura da lagôa dos
-Patos, era uma das chaves da provincia, não só commercialmente, mas
-politicamente; a sua posse teria mudado completamente a nossa posição,
-que n'esta occasião era bem aterradora; a sua tomada tornava-se, pois,
-mais que util, era necessaria. A cidade encerrava objectos de toda
-a qualidade, indispensaveis para o vestuario dos soldados, que do
-nosso lado estavam no mais deploravel estado. Não só por esta razão,
-mas tambem por dominar o unico porto da provincia, S. José do Norte,
-merecia que fizessemos todos os esforços para nos apoderarmos d'ella,
-mas tambem porque só d'este lado se encontrava a _atalaia_, isto é, o
-mastro dos signaes dos navios, que servia para lhe indicar a profundura
-das aguas na embocadura.
-
-N'esta expedição succedeu infelizmente o mesmo que tinha acontecido em
-Taquari. Preparada com admiravel sciencia e profundo segredo, perdeu-se
-todo o trabalho por se ter hesitado em dar o ultimo golpe.
-
-Uma marcha forçada de oito dias, a vinte e cinco milhas por dia, nos
-conduziu defronte dos muros da praça.
-
-Era uma d'essas noites de inverno, durante as quaes um abrigo e um
-bom fogo são um beneficio da Providencia, e os nossos pobres soldados
-da liberdade, esfaimados, vestidos de pedaços, tolhidos pelo frio e
-gelados pela chuva d'uma horrivel tempestade, avançavam silenciosos
-contra os fortes e trincheiras guarnecidas de soldados.
-
-A pouca distancia das muralhas os cavallos dos chefes foram confiados á
-guarda d'um esquadrão de cavallaria commandado pelo coronel Amaral, e
-todos nos preparámos para o combate.
-
-O _quem vive_ da sentinella foi o signal do assalto, e a resistencia
-foi pequena e de pouca duração sobre as muralhas. Á hora e meia
-da manhã démos o assalto, e as duas horas estavamos senhores das
-trincheiras e de tres ou quatro fortes que as guarneciam, e que foram
-tomados á bayoneta.
-
-Senhores das trincheiras e dos fortes, tendo entrado na cidade parecia
-impossivel que ella nos escapasse. Entretanto ainda esta vez o que
-parecia impossivel nos estava reservado.--Uma vez dentro dos muros, uma
-vez nas ruas de S. José, os nossos soldados julgaram que tudo estava
-acabado, e a maior parte se dispersou, arrastada pelo appetite da
-pilhagem. Durante este tempo os imperiaes voltando a si da sua surpreza
-reuniram-se n'um bairro que se achava fortificado. Ahi os fomos atacar,
-mas repelliram-nos. Os chefes procuravam por todos os lados os soldados
-para continuar no ataque, mas era inutil, porque se se encontravam
-alguns, eram carregados dos despojos, ou bebados, ou tendo quebrado os
-fuzis á força de despedaçar as portas das casas.
-
-O inimigo do seu lado não perdia o tempo: muitos navios de guerra que
-se achavam no porto tomaram posição, varrendo com o fogo dos seus
-canhões as ruas onde nos achavamos. Pediu-se soccorro a Rio Grande do
-Sul, cidade situada na margem opposta da embocadura dos Patos, emquanto
-um unico forte que haviamos desprezado servia de refugio ao inimigo.
-O primeiro d'estes fortes, o do imperador, do qual a tomada nos tinha
-custado um glorioso e mortifero assalto, foi destruido por uma explosão
-terrivel de polvora, que nos matou bom numero de soldados.--Emfim
-o mais glorioso dos triumphos estava mudado, ao meio dia, na mais
-vergonhosa retirada, e os verdadeiros amigos da liberdade choravam de
-desesperação.
-
-A nossa perda, comparativamente á nossa situação, foi enorme.
-
-Desde este momento a nossa infanteria não foi senão um esqueleto;
-emquanto á pouca cavallaria que tinha vindo na expedição serviu para
-proteger a retirada.
-
-A divisão entrou nos seus quarteis da Bella-Vista, e eu fiquei em S.
-Simão com a marinha.
-
-Todos os meus soldados estavam reduzidos a quarenta homens, contando
-tambem os officiaes.
-
-
-
-
- XXXIII
-
- ANNITA
-
-
-O motivo da minha partida para S. Simão teve por fim, o mandar fazer
-algumas d'essas canôas, construidas d'um só tronco d'arvore, com a
-ajuda das quaes eu queria abrir communicações com a outra parte do
-lago. Mas durante os mezes que eu ahi fiquei, as arvores promettidas
-não chegaram, e o nosso projecto por consequencia não se pôde realisar.
-Como eu tinha um grande horror pela ociosidade, não podendo construir
-barcos, dediquei-me a ensinar cavallos. Em S. Simão havia uma grande
-quantidade de poltros que me serviram para fazer cavalleiros dos meus
-marinheiros.
-
-S. Simão era uma bella e espaçosa herdade, que se achava então
-abandonada. Pertencia ao conde de S. Simão, antigamente exilado, e de
-quem os herdeiros estavam tambem exilados como inimigos da republica.
-Eu não sei se elle era ainda parente do famoso conde de S. Simão,
-fundador d'essa religião de que os adeptos me tinham iniciado na
-paternidade universal; mas n'esta occasião, como a familia de S. Simão
-era considerada por nós como inimiga, tratámos a sua herdade como uma
-conquista; isto é, apoderámo-nos das casas para ahi habitarmos, e dos
-animaes domesticos que ahi havia para fazermos o nosso sustento.
-
-Os nossos unicos divertimentos eram ensinar os nossos poltros, ou, para
-melhor dizer, os poltros dos S. Simonnianos.
-
-Foi n'esta occasião que a minha chara Annita deu á luz o primeiro
-filho. Em logar de lhe dar o nome d'um santo, dei-lhe o nome d'um
-martyr.
-
-Chamou-se Menoti.
-
-Nasceu a 16 de setembro de 1840, exactamente no mesmo dia em que fazia
-nove mezes que tinha tido logar o combate de Santa Victoria. A sua
-apparição n'este mundo sem accidente, era um verdadeiro milagre depois
-das privações e dos perigos soffridos por sua mãe. Essas privações e
-esses soffrimentos de que eu ainda não fallei, afim de não interromper
-a minha narração, devem aqui achar logar, e é do meu dever fazer
-conhecer se não ao mundo, ao menos a alguns amigos que lerem este
-jornal a admiravel creatura que perdi.[8]
-
- [8] É escusado repetir que estas Memorias tinham sido escriptas
- por Garibaldi unicamente para serem lidas por alguns amigos.
-
-Annita, como sempre, tinha querido seguir-me e havia-me acompanhado na
-campanha que acabavamos de fazer, e que acabo de contar.
-
-O leitor deve lembrar-se que reunidos aos serraminnos, commandados pelo
-coronel Aranha, nós batemos em Santa Victoria o brigadeiro Cunha, e de
-tal modo que a divisão inimiga foi completamente destruida. Durante o
-combate Annita, a cavallo no meio do fogo, era espectadora da victoria
-e derrota dos imperiaes. Foi ella n'esse dia o anjo providencial dos
-nossos feridos, porque não tendo nós nem cirurgião nem ambulancia, eram
-curados, sabe Deus como, por nós mesmos. Esta victoria submetteu de
-novo, pelo menos momentaneamente, as tres provincias, Lages, Vaccaria
-e de Cima da Serra á authoridade da republica, e já contei como no fim
-d'alguns dias entrámos triumphantes em Lages. O exito do combate de
-Coritibani longe esteve de ser egual.
-
-Já disse a maneira por que, apesar da bravura de Teixeira, a nossa
-cavallaria foi rota, e como com os meus sessenta e tres infantes me vi
-cercado por mais de quinhentos homens de cavallaria inimiga. Annita
-devia n'este dia assistir ás mais terriveis peripecias da guerra. A
-muito custo submettendo-se ao papel de simples espectadora do combate,
-Annita apressava a marcha das munições receiosa de que os cartuxos
-faltassem aos combatentes: com effeito o fogo que nos viamos obrigados
-a fazer era tão violento que dava margem a suppor-se, com toda a
-razão, que se as nossas munições não fossem renovadas bem depressa,
-não teriamos um unico cartuxo; com este fito aproximava-se do logar
-onde o combate era mais renhido, quando um esquadrão de vinte cavallos
-inimigos perseguindo alguns dos nossos que fugiam, cairam de improviso
-sobre os soldados que conduziam a bagagem.
-
-Excellente cavalleira, e montando um admiravel cavallo, bem poderia
-Annita ter fugido; mas dentro d'esse peito de mulher batia o
-coração d'um heroe: em logar de fugir animava os nossos soldados a
-defenderem-se, e n'um momento se viu cercada pelos imperiaes.
-
-Annita enterrou as esporas no ventre do cavallo, e d'um salto passou
-pelo meio do inimigo, não tendo recebido mais do que uma unica balla
-que lhe atravessou o chapeo e levou parte dos cabellos, sem lhe
-tocar no craneo. Talvez ella podesse fugir se o cavallo não caisse
-ferido mortalmente por outra balla, e sendo obrigada a render-se foi
-apresentada ao coronel inimigo. Sublime de coragem no perigo, Annita
-maior vulto tomava ainda, se é possivel, na adversidade; de sorte que
-na presença d'esse estado maior maravilhado do seu arrojo, mas que
-não teve o bom gosto de occultar diante de uma mulher o orgulho da
-victoria. Annita repelliu com uma rude e desdenhosa altivez algumas
-palavras que lhe fizeram antever um tal ou qual despreso pelos
-republicanos, e tão vigorosamente combateu com a palavra como já o
-fizera com as armas. Annita julgava que eu tinha morrido. N'esta
-persuasão pediu e obteve licença de ir ao campo de batalha procurar o
-meu corpo no meio dos cadaveres. Qual a ventesma infernal passeando
-sobre campina ensanguentada, Annita errou só e por muito tempo
-procurando aquelle que ella receiava de encontrar, voltando os mortos
-que tinham caido de rosto para a terra, e nos quaes pelo fato ou pela
-altura ella imaginava terem alguma similhança comigo.
-
-Foram inuteis as suas pesquisas, era a mim pelo contrario que sorte
-reservava a dôr suprema de banhar com as minhas lagrimas suas faces
-gelidas, e quando esse momento de angustia chegou impossivel me foi de
-lançar um punhado de terra, uma flor, ao menos sobre a cova onde jazia
-a mãe de meus filhos.
-
-Desde que Annita esteve segura de que eu existia, não teve senão um
-pensamento, o de fugir, e a occasião não tardou a apresentar-se-lhe.
-Aproveitando-se do delirio do inimigo victorioso, passou para uma
-casa perto d'aquella onde a tinham prisioneira, e ahi, sem ser
-reconhecida, uma mulher a recebeu e protegeu. O meu capote, que eu
-havia abandonado para ter os movimentos mais livres, e que tinha caido
-em poder de um soldado inimigo, foi por ella trocado pelo seu, que era
-de grande valor. Quando chegou a noute Annita lançou-se na floresta
-e desappareceu. Era necessario possuir um coração de leão para assim
-se arriscar. Só quem já viu as immensas florestas que cobrem os cimos
-de Espinasso, com os seus pinheiros seculares que parecem destinados
-a sustentar o ceo, e que são as columnas d'esse esplendido templo da
-natureza, as gigantescas cannas que povoam os intervallos e que estão
-cheias de animaes ferozes e de reptis de que a mordedura é venenosa,
-poderá fazer uma idea dos perigos que ella correu, e das difficuldades
-que teve a vencer. Felizmente Annita ignorava o que era medo. De
-Caritibani a Lages são vinte legoas. Como ella atravessou esses bosques
-impenetraveis, só, e sem alimentos, só Deus o sabe.
-
-Os poucos habitantes d'esta parte da provincia que ella tinha a
-atravessar eram hostis aos republicanos, e logo que souberam da
-nossa derrota armaram-se e fizeram emboscadas sobre muitos pontos, e
-principalmente nas _picadas_ que os fugitivos tinham a atravessar de
-Caritibani ás Lages.
-
-Nos _cabecaes_, isto é, nos sitios quasi impraticaveis destes atalhos,
-teve logar uma horrivel carnagem nos nossos desgraçados companheiros.
-Annita atravessou de noite estes sitios perigosos, e ou fosse a sua boa
-estrella ou a admiravel resolução com que os atravessou, o seu aspecto
-fez sempre fugir os assassinos, que fugiam, diziam elles, perseguidos
-por um ser mysterioso!
-
-Na realidade era estranho ver esta valente mulher, montada n'um ardente
-cavallo, pedido e obtido n'uma casa onde havia recebido a hospitalidade
-durante uma noite de tempestade, galopando por cima dos rochedos á
-claridade dos relampagos. Quatro cavalleiros collocados na passagem
-do rio Canoas, fugiram á vista d'esta visão, escondendo-se atraz
-das moitas que guarnecem o rio. Durante este tempo Annita chegara á
-margem do rio, tornado mui tempestuoso por causa das muitas cheias, e
-atravessou-o, não como o tinha feito dias antes, n'um excellente barco,
-mas sim a váu, animando com a voz o seu magnifico cavallo.
-
-As ondas precipitavam-se furiosas, não n'um estreito espaço, mas n'uma
-extensão de quinhentos passos, e apesar d'isso Annita chegou sãa e
-salva á outra margem.
-
-Uma chavena de café foi o unico alimento que a intrepida viajanta tomou
-durante os quatro dias que gastou em alcançar na Vaccaria a tropa do
-coronel Aranha.
-
-Foi ahi que nos encontramos, Annita e eu, depois de uma separação de
-oito dias e de nos julgarmos mortos.
-
-Que alegria não foi a nossa! Maior foi ainda a que senti no dia em que
-Annita, na peninsula que fecha a lagoa dos Patos do lado do Atlantico,
-deu á luz n'uma casa que nos dava hospitalidade o meu querido Menotti,
-que veiu ao mundo com uma cicatriz na cabeça procedida pela queda do
-cavallo que tinha dado sua mãe.
-
-Renovo aqui mais uma vez os meus agradecimentos ás excellentes pessoas
-que nos deram esta hospitalidade, assegurando-lhe um reconhecimento
-eterno. No campo onde nos faltavam todas as cousas mais necessarias,
-e onde eu não lhe teria podido dar um unico lenço, Annita não teria
-podido triumphar n'este momento supremo onde a mulher tem tanta
-necessidade de forças e cuidados.
-
-Decidi-me então a fazer uma viagem a Settembrina para ahi comprar
-muitas cousas de maior urgencia que faltavam aos meus entes queridos.
-Tinha ali bons amigos, e entre elles um excellente homem chamado
-Blingini. Comecei então a minha viagem atravez os campos innundados,
-onde eu tinha a agua até ao ventre do cavallo; passei por meio d'um
-campo antigamente cultivado chamado _Rocha velha_, onde encontrei o
-capitão de lanceiros Maximo, que me recebeu perfeitamente. Acceitei a
-sua hospitalidade durante dois dias, por causa do pessimo tempo não me
-deixar continuar a jornada.
-
-No fim d'elles quiz partir, apesar de todos os esforços que fez o bom
-capitão para me conservar na sua companhia.
-
-Mas o fim para que tinha partido era para mim mui sagrado para que me
-demorasse mais, e não obstante as observações d'este bom amigo, puz-me
-a caminho por essas planicies que pareciam um vasto lago. Na distancia
-de algumas milhas, ouvi do lado que acabava de deixar o estrondo da
-fuzilaria, concebi então algumas suspeitas cheias de angustias, mas não
-podia voltar atraz.
-
-Cheguei a Settembrina onde comprei os objectos de que tinha
-necessidade, e sempre inquieto por essa fuzilaria que tinha ouvido,
-puz-me logo a caminho para São Simão. Descançamos em Rocha Velha, onde
-soube a causa d'esse estrondo que tinha ouvido e o triste acontecimento
-que tinha tido logar no mesmo dia da minha partida.
-
-Morinque--o mesmo que me havia surprehendido em Camacua e que eu e os
-meus quatorze homens tinhamos obrigado a fugir com um braço quebrado,
-tinha surprehendido o capitão Maximo, todos os seus soldados feitos
-prisioneiros, e a maior parte das seus cavallos tambem tomados, e os
-mais mortos.
-
-Morinque havia effectuado esta surpreza com alguns navios de guerra e
-infanteria. Embarcou depois a infanteria, e dirigiu-se com a cavallaria
-para o Rio Grande do Norte, espantando pelo caminho todas as pequenas
-guerrilhas republicanas, que julgando-se em segurança se haviam
-espalhado pelo territorio; entre elles achavam-se os meus marinheiros
-que foram obrigados a refugiar-se na floresta.
-
-O meu primeiro grito foi como se deve julgar: «Annita! onde está
-Annita?»
-
-Annita doze dias depois de ter tido o seu feliz successo, tinha sido
-obrigada a montar a cavallo, e meio nua, com o seu pobre filho nos
-braços, tinha sido obrigada a refugiar-se na floresta.
-
-Não encontrei pois no _rancho_ nem Annita, nem os nossos hospedeiros,
-mas alcancei-os na ourela d'um bosque onde elles se conservavam não
-sabendo onde se achava o inimigo, nem se ainda tinham alguma cousa a
-receiar d'elles.
-
-Voltamos a São Simão, e ahi nos demoramos algum tempo, depois mudamos
-o nosso acampamento, estabelecendo-nos na margem esquerda do Capivari,
-isto é, no mesmo sitio onde um anno antes tinhamos transportado
-os nossos lanchões em carros para a expedição de Santa Catharina,
-expedição que tão mau exito teve.
-
-N'essa occasião tinha sentido bastantes esperanças que infelizmente
-haviam desapparecido.
-
-O Capivari é formado de differentes riachos que tem a sua nascente nos
-lagos numerosos que guarnecem a parte septentrional da provincia do Rio
-Grande, sobre as costas do mar e sobre a vertente oriental da cadea de
-Espinasso. Toma este nome da _capinara_, especie de canniços muito
-communs na America meridional e que nas Colonias se chamam _capineios_.
-
-De Capivari e de Sangrador d'Abreu canal que serve de communicação
-entre um charco e um lago onde tinhamos reunidas com muito trabalho
-algumas canôas, fizemos algumas viagens á costa occidental do lago,
-estabelecendo communicações entre as duas margens e transportando os
-passageiros.
-
-
-
-
- XXXIV
-
- LEVANTA-SE O CERCO.--ROSSETTI
-
-
-Comtudo a situação do exercito republicano peiorava de dia para dia;
-as suas necessidades augmentavam e os seus recursos diminuiam. Os dois
-combates de Taquari e S. José do Norte tinham dizimado a infanteria que
-apezar de ser pouco numerosa era um poderoso recurso para as operações
-de cerco. As grandes necessidades animavam as deserções, as populações
-como succede n'estas guerras mui prolongadas cançavam, e foram atacadas
-de uma suprema indifferença, começando nós então a conhecer que estava
-proximo o momento de tudo se acabar.
-
-N'este estado de cousas os imperiaes fizeram propostas que, ainda que
-vantajosas para os republicanos foram por estes recusadas. Esta recusa
-augmentou o descontentamento dos mais desgraçados, e por conseguinte da
-parte mais fatigada do exercito e do povo, sendo decidido que o cerco
-seria abandonado e que todos se retirariam.
-
-A divisão Canavarro de que faziam parte os marinheiros foi designada
-para começar o movimento e abrir as passagens da serra, occupadas pelo
-general Labattue, francez ao serviço do imperador. Bento Gonçalves com
-o resto do exercito formaria a retaguarda.
-
-A guarnição republicana de Settembrina devia seguir-nos, mas não pôde
-executar este movimento, porque surprehendida pelo famoso Morinque a
-cidade foi tomada.
-
-Foi ahi que morreu o meu caro Rossetti.
-
-Tendo caido do cavallo, depois de ter praticado prodigios de valor,
-ferido perigosamente, e intimado para se render, preferiu antes que o
-matassem do que entregar a sua espada.
-
-Ainda uma outra ferida para o meu coração. Já fallei muitas vezes de
-Rossetti, sabe-se pois como o amava, seja-me pois permittido dizer
-á Italia o que já tenho dito tantas vezes: Oh! Italia, minha mãe,
-acabamos de perder, eu um dos meus irmãos mais caros, e tu um dos teus
-filhos mais generosos.
-
-Era natural de Genova. Havia sido, por paes que conheciam pouco o
-seu caracter, destinado á vida ecclesiastica, quando era um dos mais
-ardentes patriotas italianos que tenho conhecido. Inclinado á vida
-aventureira e não podendo respirar na Italia, partiu para o Rio de
-Janeiro onde foi negociante e corretor; mas não tendo Rossetti nascido
-negociante, era uma planta exotica dando-se mal na terra do agio e
-calculo, não porque elle não fosse dotado de uma intelligencia fina e
-apta a enriquecer-se de todos os conhecimentos, mas porque Rossetti
-era o mais italiano de todos os italianos, isto é, o mais generoso e
-prodigo dos homens, e com taes _vicios_ não se faz fortuna, mas antes
-se caminha a grandes passos para a ruina.
-
-Foi o que aconteceu com Rossetti.
-
-Bom para com todos, a sua casa achava-se franca para toda a gente,
-e especialmente para os italianos desgraçados. Não esperava que os
-proscriptos o fossem procurar, era elle que os ia encontrar, esgotando
-assim em pouco tempo os seus recursos. Bem desgraçado, esse coração
-do anjo não podia ver soffrer um italiano. Se o não podia soccorrer
-immediatamente, fazia-o esperar na sua pobre cabana, e corria as
-ruas da cidade, e não entrava em sua casa senão quando trazia algum
-soccorro para aquelle ou aquelles que o esperavam. É verdade que a sua
-bondade, a sua franqueza e a sua lealdade o tinham tornado estimado de
-todos, e por isso quando se achava n'estes piedosos embaraços, todos o
-coadjuvavam com prazer.
-
-A batalha de Tarifa teve logar, e os republicanos foram batidos pelos
-imperiaes; Bento Gonçalves e os principaes chefes feitos prisioneiros,
-e conduzidos ao Rio de Janeiro. Entre elles achava-se o nosso capitão
-Zambecarri, com quem travamos relações, segundo já disse, nas prisões
-de Santa Cruz. Fallou-se de nos fazermos corsarios, e desde esse
-momento Rossetti e eu não tivemos um minuto de descanço em quanto
-não nos lançamos no Occeano com a bandeira republicana. Rossetti
-encarregou-se de tudo e alcançou o fim que pertendiamos.
-
-Os leitores sabem o resto, porque desde esse momento não nos perdemos
-de vista.
-
-Infelizmente não ha um canto da terra onde não descansem os ossos de um
-italiano generoso, devendo por isso a Italia cobrir-se de luto e não
-encher-se de gloria. Pobre Italia, tu sentirás verdadeiramente a sua
-falta no dia em que tentares arrancar o teu cadaver aos corvos que o
-devoram.
-
-
-
-
- XXXV
-
- A PICADA DAS ANTAS
-
-
-Esta retirada emprehendida na estação invernosa, por um paiz montanhoso
-e debaixo de uma chuva incessante foi a mais terrivel e mais desastrosa
-que tenho visto.
-
-Conduziamos por precaução algumas vaccas, sabendo perfeitamente que no
-caminho que tinhamos a atravessar não encontrariamos comestiveis alguns.
-
-Retirando-nos, seguiamos a divisão do general Labattue, mas
-infelizmente sem a podermos alcançar. Só os selvagens manifestavam
-as suas sympathias por nós, atacando-lhe a guarda avançada. Tivemos
-occasião de vêr de perto esses homens da natureza que não nos foram
-hostis.
-
-Annita durante esta retirada de tres mezes soffreu toda a casta de
-privações e incommodos com um stoicismo e uma coragem admiravel.
-
-É necessario ter algum conhecimento das florestas d'esta parte do
-Brazil para fazer idéa das privações soffridas por uma porção de homens
-sem meios de transporte, e tendo unicamente por recurso o _laço_, arma
-mui util nas planicies cobertas de animaes, mas perfeitamente inutil
-n'essas expessas florestas abundantes em tigres e leões.
-
-Para a nossa desgraça ser ainda maior, os rios muito proximos uns dos
-outros n'estas florestas virgens engrossavam cada vez mais. A horrivel
-chuva que nos perseguia não cessava de cair, acontecendo muitas vezes
-que uma parte dos nossos soldados se achavam entre duas correntes de
-agua e ahi ficavam privados de todo o alimento, morrendo muitos de
-fome, e principalmente as mulheres e creanças que não podiam supportar
-tanto as privações. Era uma carnagem mais horrivel do que a de uma
-sanguinolenta batalha.
-
-A nossa pobre infanteria principalmente soffria muito mais, porque não
-tinha como a cavallaria o recurso de matar os cavallos. Poucas mulheres
-e menos creanças sairam vivas da floresta. As poucas que escaparam
-foram salvas pelos cavalleiros que tendo a felicidade de conservar os
-cavallos, tiveram dó d'aquelles pequenos entes, abandonados por suas
-mães mortas de fome, frio e fadiga.
-
-Annita tremia com a idéa de perder o nosso Menoti, que foi salvo
-unicamente por milagre. Nos sitios mais perigosos, e na passagem dos
-rios, conduzia o nosso pobre filho, de tres annos de edade, suspenso
-ao meu pescoço por um lenço, podendo aquecel-o d'este modo com o meu
-alento. De doze mulas e cavallos com que tinha entrado na floresta, e
-que eram destinadas ao meu serviço, não tinha podido salvar mais que
-duas mulas e dois cavallos, as demais tinham morrido de fome ou de
-fadiga. Para completar a nossa desgraça, os guias tinham-se perdido no
-caminho, o que foi a causa principal dos nossos sofrimentos na temivel
-floresta das Antas.
-
-Quanto mais andavamos, menos viamos chegar o fim d'esta picada maldita.
-Fiquei muito longe dos meus companheiros, com duas mulas horrivelmente
-fatigadas, e que eu esperava salvar, fazendo-as caminhar mui devagar e
-sustentando-as com folhas de taquaras a que Taquari deve o seu nome.
-Durante este tempo enviei Annita adiante com um criado e meu filho,
-afim de que elle procurasse o fim d'esta interminavel floresta e algum
-alimento.
-
-Os dois cavallos que eu havia deixado a Annita e que ella montava
-simultaneamente, foi quem nos salvaram. Ella achou o fim da floresta e
-ahi encontrou um piquete dos meus bravos soldados assentados a um bello
-fogo, o que não era commum pelo tempo que fazia.
-
-Os meus companheiros que por felicidade tinham conservado alguns
-vestidos de lã, embrulharam n'elles a creança, aquecendo-a e
-chamando-a por este modo á vida, quando já a pobre mãe começava a
-perder todas as esperanças. Mas ainda não é tudo: estes excellentes
-rapazes começaram então a procurar com uma grande sollicitudde alguns
-alimentos, que elles não tinham procurado para si, mas que agora
-procuravam por minha causa.
-
-O que d'entre todos prestou a minha esposa e filho os primeiros e mais
-efficazes soccorros foi Mangio: que o seu nome seja abençoado.
-
-Tinha tido grande difficuldade em salvar os meus dois cavallos, e por
-fim vi-me na necessidade de abandonar os dois pobres animaes esfalfados
-e aguados, sendo obrigado, apezar do estado miseravel em que me achava,
-a atravessar o resto da floresta a pé.
-
-No mesmo dia encontrei minha mulher e filho e soube então o que os meus
-companheiros tinham feito por causa d'ella.
-
-Nove dias depois da nossa entrada na floresta conseguimos sair! Poucos
-officiaes tinham conseguido salvar os seus cavallos. O inimigo que nos
-precedia, fugindo diante de nós, tinha deixado duas peças de artilheria
-na picada; mas de que nos serviriam ellas? Faltavam todos os meios de
-transporte e póde ser que ellas ainda estejam no mesmo logar em que as
-vi.
-
-As tempestades pareciam conscriptas na floresta. Apenas saimos d'ella e
-nos aproximamos de Cima da Serra e de Vaccaria que o bom tempo começou,
-caindo então em nosso poder alguns bois, que indemnisando-nos do nosso
-longo jejum nos fizeram esquecer a fadiga, a fome e a chuva.
-
-Ficámos na Vaccaria alguns dias, esperando pela divisão de Bento
-Gonçalves, que se nos uniu em completa desordem, e com menos um terço
-dos soldados.
-
-O infatigavel Morinque sabendo da retirada d'esta divisão, tinha
-começado a perseguil-a, sem descanço, atacando-a em todas as occasiões,
-alliando-se para esta obra de destruição aos montanhezes, sempre hostis
-aos republicanos. Todos estes successos deram tempo a Labattue a fazer
-a sua retirada, e depois a sua juncção com o exercito imperial, tendo
-apenas, apezar d'isto, algumas centenas de homens á sua disposição.
-Então as mesmas dificuldades que haviam existido para nós, appareceram
-para elles que tiveram além d'isso a vencer um obstaculo imprevisto, e
-que eu noto por causa da sua raridade.
-
-O general Labattue tendo que atravessar no seu caminho dois bosques
-chamados de Mattos, ahi encontrou algumas d'essas tribus indigenas
-chamadas de _Bragis_, que são as mais selvagens que se conhecem no
-Brazil. Estas tribus sabendo da passagem dos imperiaes, armaram-lhe
-tres ou quatro emboscadas, fazendo-lhe grande mal. Em quanto a nós não
-nos causaram a mais pequena inquietação e ainda que houvesse no caminho
-muitos d'esses alçapãos, que os indios collocam na passagem dos seus
-inimigos, todos se achavam descobertos em logar de estarem disfarçados
-com ramos de arvores, segundo o costume.
-
-Durante a curta paragem que fizemos na ourela de um d'esses bosques
-gigantescos, appareceu-nos uma mulher, que na sua mocidade tinha sido
-roubada pelos selvagens, e que havia aproveitado a nossa presença para
-fugir.
-
-A pobre mulher achava-se n'um deploravel estado.
-
-Como não tinhamos então nenhum inimigo a atacar ou de quem fugissemos,
-continuamos a nossa marcha mui vagarosamente, porque não possuiamos
-cavallos, e era necessario ir domando os poltros.
-
-O corpo de lanceiros republicanos, tendo ficado completamente
-desmontado, foi tambem obrigado a lançar mão dos poltros.
-
-Era na verdade um explendido espectaculo, sempre novo, ainda que
-repetido todos os dias, o vêr esses jovens e robustos negros que
-mereciam o epitheto de domadores de cavallos que Virgilio dá a Pelops.
-Era necessario vêl-os saltar sobre esses selvagens filhos do deserto,
-que não conheciam nem freio, nem selim, agarrando-se ás crinas, e
-correndo pelas planicies, até que cedendo ao homem o quadrupede se
-confessava vencido. Mas a lucta era longa, e o animal não se rendia
-senão depois de ter exgotado todas as forças em se desembaraçar do seu
-tyranno, que do seu lado admiravel de agilidade e coragem, o apertava
-entre os joelhos, como entre duas tenazes, não o deixando senão depois
-de o ter domado.
-
-Tres dias são sufficientes a um bom domador de cavallos para que o
-animal o mais rebelde possa sofrer o freio.
-
-Raramente, comtudo os poltros são bem domesticados pelos soldados,
-sobretudo nas marchas onde os muitos afazeres impedem os domadores de
-lhe prestar todos os cuidados necessarios.
-
-Tendo passado os _Mattos_ atravessámos a provincia das Missões,
-dirigindo-nos para Cruz Alta, capital d'esta pequena provincia, depois
-de Cruz Alta dirigimo-nos a S. Gabriel onde se estabeleceu o quartel
-general, e edificaram barracas para o acampamento do exercito.
-
-Seis annos d'esta vida de aventuras e perigos não me tinham fatigado
-em quanto era só, mas actualmente que tinha uma pequena familia, a
-separação de todos os meus antigos conhecimentos, a ignorancia completa
-em que me achava ha tantos annos sobre o estado da minha familia,
-fizeram nascer o desejo de me aproximar de um ponto onde podesse
-receber noticias de meu pae e minha mãe, porque se tinha por um momento
-esquecido essas ternas affeições, ellas appareciam de novo. Tambem não
-tinha noticias da minha outra mãe, da Italia!
-
-Decidi então ir a Montevideo; ao menos temporariamente. Pedi pois
-licença ao presidente, assim como para levar alguns bois, de que a
-venda devia servir para me sustentar durante a jornada.
-
-
-
-
- XXXVI
-
- CONDUCTOR DE BOIS
-
-
-Eis-me pois _truppiere_, isto é conductor de bois.
-
-Em consequencia n'uma estancia chamada o _Casal das Pedras_, com a
-authorisação do ministro da fazenda, consegui reunir em vinte dias e
-com grande difficuldade novecentos bois, quasi todos selvagens. Maiores
-dificuldades me esperavam ainda durante o caminho onde encontrei
-obstaculos quasi invenciveis. O maior de todos foi o Rio-Negro, onde
-tive quasi perdido todo o meu capital. Da passagem do rio, da minha
-inexperiencia no meu novo mister, e sobre tudo da rapina de certos
-_capatazes_, mercenarios que tinha alugado como conductores, salvei
-com muito custo quinhentos bois, que visto o mau sustento e o pessimo
-caminho foram julgados incapazes de chegar ao seu destino.
-
-Resolvi em consequencia matal-os e tirar-lhe as pelles, que vendi,
-ficando-me livres de toda a despeza uns trezentos escudos que serviram
-para fazer face ás primeiras necessidades da minha familia.
-
-É aqui que devo mencionar um encontro que me deu um dos meus mais
-charos e melhores amigos.
-
-Aproximando-me de S. Gabriel, na retirada que acabavamos de fazer,
-tinha ouvido fallar de um official italiano, dotado de grande valor e
-intelligencia, que, exilado como carbonario se tinha batido em França
-no dia 5 de junho de 1832, e depois no Porto durante o cerco que ahi
-houve por causa da guerra entre os dois irmãos D. Pedro e D. Miguel,
-vindo depois offerecer-se ao serviço das jovens republicas da America
-do Sul.
-
-Contavam-se a seu respeito cousas tão extraordinarias que muitas vezes
-disse:
-
---Quando encontrar esse homem, ha-de ser meu amigo.
-
-Chamava-se Anzani.
-
-Chegando á America, tinha-se apresentado com uma carta de recommendação
-a dois dos seus compatriotas MM.*** negociantes em S. Gabriel, que
-tinham feito d'elle o seu _factotum_.
-
-Anzani exercia todos os empregos, caixeiro, guarda-livros, homem de
-confiança, emfim era o bom genio d'esta casa.
-
-Como todos os homens fortes e corajosos, Anzani era socegado e dotado
-de um excellente genio.
-
-A casa commercial de que elle se tinha tornado director era uma d'essas
-casas como se acham unicamente na America do Sul, isto é vendendo tudo
-o que é possivel imaginar.
-
-A villa onde residiam os nossos dois compatriotas era infelizmente
-proxima da floresta que servia de refugio a essas tribus de indios de
-que já dissemos algumas palavras no capitulo precedente.
-
-Um dos chefes d'estes indios tinha-se tornado o terror d'esta pequena
-villa, á qual vinha duas vezes por anno, com a sua tribu, roubando
-quanto queria sem encontrar a menor resistencia.
-
-Primeiramente veiu acompanhado por duzentos ou trezentos homens, depois
-com cem, depois com cincoenta, segundo elle tinha visto augmentar o
-terror estabelecendo o seu poder, e depois sentindo-se o senhor tinha
-vindo só, e dava as suas ordens que eram obedecidas, como se por
-detraz de si tivesse a sua tribu prompta a assassinar aquelle que lhe
-recusasse obedecer.
-
-Anzani tinha ouvido fallar d'este homem e tinha escutado tudo o que
-se dizia a seu respeito, sem manifestar a sua opinião sobre a audacia
-d'este chefe selvagem e sobre o terror que inspirava a sua ferocidade.
-
-Este terror era tamanho que quando se ouvia dizer o _chefe dos Mattos_
-todas as janellas se fechavam, e todas as portas se trancavam como se
-na villa andassem alguns cães damnados.
-
-O indio estava habituado a estes signaes de terror, que lisongeavam o
-seu orgulho, escolhia a porta que queria vêr aberta, batia--abrindo-se
-logo com a rapidez do relampago--e roubava tudo sem encontrar a menor
-resistencia.
-
-Havia justamente dois mezes que Anzani dirigia a casa de commercio nos
-seus maiores como menores detalhes, quando se ouviu o grito terrivel:
-
---O chefe dos Mattos!
-
-Como o costume, portas e janellas fecharam-se precipitadamente.
-
-Anzani estava só em casa arranjando as contas da semana, e não julgando
-que o estrondoso annuncio que acabavam de fazer valesse a pena de se
-incommodar ficou assentado á sua mesa, com as janellas e portas abertas.
-
-O indio parou espantado diante d'essa casa que no meio do terror geral
-que causava a sua chegada, se conservava indifferente á sua apparição.
-
-Entrou e viu encostado ao balcão um homem que socegadamente fazia as
-suas contas. Parou diante d'elle de braços cruzados e olhando-o com
-espanto.
-
-Anzani levantou a cabeça.
-
-Anzani era a politica em pessoa.
-
---Que quer meu amigo? perguntou elle ao indio.
-
---Como! que quero?! disse este.
-
---Sem duvida, disse Anzani, quando se entra n'um armazem é que se quer
-comprar alguma cousa.
-
-O indio começou a rir.
-
---Pelo que vejo não me conheces? perguntou ele a Anzani.
-
---Como queres que te conheça, se é a primeira vez que te vejo!
-
---Sou o chefe dos Mattos, replicou o indio, mostrando no seu cinto um
-arsenal composto de quatro pistollas e um punhal.
-
---Então que queres?
-
---Beber.
-
---O que?
-
---Um copo de agua-ardente.
-
---Não ha nada mais facil; paga primeiro e depois tens a agua-ardente
-que quizeres.
-
-O indio começou a rir de novo.
-
-Anzani franziu as sobrancelhas.
-
---Em logar de me responder, tornas de novo a rir. Não acho isso mui
-politico. Previno-te, pois, que se isso succede outra vez ponho-te fóra
-da porta.
-
-Anzani tinha pronunciado estas palavras com tal firmeza, que outro
-qualquer homem que não fosse o indio teria comprehendido com quem tinha
-a tratar.
-
-Talvez o selvagem houvesse comprehendido, mas não o deu a conhecer.
-
---Já te disse que me desses um copo de agua-ardente, repetiu elle
-batendo com o punho no balcão.
-
---E eu já te disse que o pagasses primeiro, disse Anzani, quando não,
-não a bebes.
-
-O indio deitou um olhar colerico a Anzani, mas o olhar d'este encontrou
-o seu,--o relampago havia encontrado o relampago.
-
-Anzani dizia muitas vezes:
-
---A unica força que existe é a moral. Olhae fixa e obstinadamente o
-homem que vos encarar, se elle abaixar os olhos, estaes senhor d'elle,
-mas se pelo contrario sois vós que os abaixaes estaes perdido.
-
-O olhar de Anzani tinha um irresistivel poder. Foi o indio que foi
-vencido, e conhecendo a sua inferioridade, e furioso d'este poder
-desconhecido, quiz ganhar animo bebendo.
-
---Está bem, disse elle, ahi tens meia piastra, da-me de beber.
-
---É obrigação minha servir quem me paga, disse tranquilamente Anzani.
-
-E deu ao indio um copo de agua-ardente.
-
-O indio bebeu.
-
---Outro, disse elle.
-
-Anzani deu-lhe outro copo.
-
-O indio bebeu-o como o primeiro.
-
---Ainda outro, disse elle.
-
-Em quanto Anzani teve dinheiro suficiente para se pagar da despeza do
-indio, não lhe fez nenhuma observação, mas quando o bebedor já não
-tinha dinheiro para pagar, cessou de encher-lhe o copo.
-
---Então? perguntou o selvagem.
-
-Anzani fez-lhe a sua conta.
-
---Depois? insistiu o selvagem.
-
---Depois?... Como não tem dinheiro, não bebe mais agua-ardente,
-respondeu Anzani.
-
-O indio tinha formado bem o seu calculo. Os cinco ou seis copos de
-agua-ardente que havia bebido, tinham-lhe dado a coragem que havia
-perdido com o olhar de Anzani.
-
---Agua-ardente, disse elle levando a mão a uma das pistollas,
-agua-ardente, ou morres.
-
-Anzani que já previa o final d'esta scena, estava preparado. Tinha
-cinco pés e nove pollegadas, e era dotado de uma força e agilidade
-pasmosa. Apoiou a mão no balcão e saltando para o outro lado deixou-se
-cair sobre o indio, agarrando-lhe o punho direito.
-
-O selvagem não poude aguentar o choque e caiu; Anzani não o largou e
-poz-lhe o pé no peito.
-
-Então agarrando com a mão esquerda a mão direita do indio, tornando-lhe
-por isso inoffensiva a arma, Anzani tirou-lhe do cinto as pistollas
-e punhal, que espalhou pelo armazem, e arrancando-lhe a pistolla da
-mão, quebrou-lhe o cano na cabeça e na cara, e julgando que o selvagem
-já se achava bem castigado foi empurrando-o aos pontapés até á porta
-deitando-o no meio de um grande lamaçal.
-
-O indio levantou-se com muita difficuldade e fugiu, mas em tal estado
-que nunca mais tornou a apparecer em S. Gabriel.
-
-Anzani havia feito debaixo do nome de Ferrari a guerra de Portugal.
-Com este nome tinha-se conduzido admiravelmente, ganho a patente de
-capitão e recebido duas graves feridas: uma na testa, outra no peito, e
-tão graves que no fim de dezeseis annos morreu por causa d'ellas.
-
-A ferida da cabeça era um golpe de sabre que lhe tinha aberto o craneo.
-
-A do peito foi uma balla que lhe tinha ficado no pulmão, e de que mais
-tarde lhe nasceu uma phtisica pulmonar.
-
-Quando se lhe fallava dos prodigios de coragem que tinha praticado
-debaixo do nome de Ferrari, sorria-se e dizia que elle e Ferrari eram
-dois entes differentes.
-
-Infelizmente não podia, ao mesmo tempo que attribuia os seus prodigios
-de valor a um ente imaginario, trespassar-lhe as duas feridas.
-
-Tal era o homem de quem me haviam fallado, e a quem eu desejava
-conhecer e ter por amigo.
-
-Em S. Gabriel soube que tinha ido tratar de alguns negocios a sessenta
-milhas de distancia. Montei então a cavallo para o procurar.
-
-No caminho, na margem de um pequeno rio, encontrei um homem, com o
-peito nú lavando uma camisa--vi que era este o homem que procurava.
-
-Dirigi-me a elle, estendi-lhe a mão e disse-lhe quem era.
-
-Desde este momento fomos irmãos.
-
-Já não estava na casa de commercio, e como eu havia entrado ao serviço
-da republica do Rio Grande. Era commandante de infanteria da divisão de
-João Antonio, um chefe republicano dos mais conhecidos. Como eu deixava
-o serviço e dirigia-se aos _saltos_.
-
-Depois de um dia passado juntos, demos os nossos _adresses_ respectivos
-e combinámos que não emprehenderiamos movimento algum importante sem o
-participarmos mutuamente.
-
-Seja-me permittido narrar um facto que dá bem a conhecer a nossa
-miseria e a nossa fraternidade.
-
-Achava-me tão pobre como Anzani em camisas, em quanto que elle tinha
-mais um par de calças.
-
-Dormimos no mesmo quarto, mas Anzani partiu antes de romper o dia e sem
-se despedir.
-
-Quando accordei encontrei sobre o meu leito o melhor dos seus dois
-pares de calças.
-
-Conhecia apenas Anzani, mas era um d'esses homens que se apreciam á
-primeira vista, e tanto que quando entrei ao serviço da republica de
-Montevideo e fui encarregado de organisar a legião italiana, o meu
-primeiro cuidado foi escrever-lhe convidando-o a vir acompanhar-me.
-
-Veiu com effeito e desde esse dia não nos deixamos mais, até que elle
-tocando na terra de Italia morreu entre os meus braços.
-
-
-
-
- XXXVII
-
- PROFESSOR DE MATHEMATICA E CORRETOR DE COMMERCIO
-
-
-Em Montevideo dirigi-me a casa de um dos meus amigos chamado Napoleão
-Castellini. Ao seu excellente coração sou devedor de muito, para jámais
-me esquecer, assim como a G. D. Cunes,--amigo de toda a minha vida,--e
-aos irmãos Antoninho e Giovanni Risso.
-
-Gastos os poucos escudos que me tinham produzido as minhas pelles de
-bois, e para não ficar com minha mulher e filho ás sopas dos meus
-amigos, emprehendi duas industrias que, devo confessal-o, chegavam
-apenas para satisfazer as minhas necessidades.
-
-A primeira era corretor de fazendas. A segunda era a de professor de
-mathematica, na casa do estimavel Paulo Semidei.
-
-Este modo de vida durou até á minha entrada na legião oriental.
-
-Os negocios do Rio Grande começavam a estabelecer-se e a arranjar-se,
-não tendo eu pois nada a esperar d'este lado. A republica oriental--é
-assim que se chamava a republica de Montevideo--sabendo que me achava
-livre não tardou em me offerecer uma occupação mais em harmonia com os
-meus meios e com o meu caracter, do que a de professor de mathematica e
-corretor.
-
-Offereceram-me e acceitei o commando da corveta--_Constituição_.
-
-A esquadra oriental achava-se debaixo das ordens do coronel Cosse, e a
-de Buenos-Ayres ás ordens do general Brown.
-
-
- [Ilustração: _Lith. de Castro, Poço Novo N.º 33._
- FRANCISCO 2.º]
-
-
-
-
- MONTEVIDEO
-
-Quando o viajante chega da Europa n'um d'esses navios, que os primeiros
-habitantes do paiz tomavam por casas volantes, o que vê--logo que o
-marinheiro de vigia grita: «Terra» são duas montanhas.
-
-Uma que é a cathedral, e a outra ornada de um pharol, que é a montanha
-do _Cerro_.
-
-Á medida que o viajante se aproxima das torres da cathedral, de que
-os ornatos de porcellana brilham ao sol, o viajante vê os _mirantes_
-sem numero e de fórmas variadas que ornam todas as casas, depois essas
-mesmas casas, encarnadas ou brancas, com os seus terraços, depois ao pé
-do Cerro, as _salgadoras_, vastos edificios onde se salgam as carnes;
-e emfim ao fundo da bacia, á borda do mar as encantadoras _quintas_,
-delicia e orgulho dos habitantes onde elles vão passar todos os
-domingos e dias de festa.
-
-Então se deitaes a ancora, entre o Cerro e a cidade, dominada, por
-qualquer ponto de vista que a olheis, pela sua gigantesca cathedral,
-se a canôa vos leva para a praia, puchada por seis valentes remadores,
-se de dia encontraes pelas estradas grupos de encantadoras mulheres
-vestidas de amazonas, se de tarde atravez as janellas abertas, deitando
-para a rua torrentes de luz e harmonia, ouvis os sons do piano e de
-outros instrumentos, é que estaes em Montevideo, a vice-rainha d'esse
-rio de prata, de que Buenos-Ayres pretende ser a rainha, e que se lança
-no Occeano por uma embocadura de oitenta leguas.
-
-Foi João Dias o que no principio de 1516 descobriu as praias da Prata.
-A primeira cousa que o marinheiro de quarto avistou foi o Cerro, e
-cheio de alegria exclamou em latim:
-
---_Montem video!_
-
-Sendo este o nome que ficou á republica, de que vamos rapidamente
-escrever a historia.
-
-João Dias, já com bastante orgulho de haver no anno passado descoberto
-o Rio de Janeiro, não gosou por muito tempo da sua gloria.
-
-Tendo deixado na bahia dois dos seus navios, e havendo subido o rio
-Prata com o terceiro, confiando nos signaes de amizade que lhe fizeram
-os indios, caiu n'uma emboscada sendo morto, despadaçado e devorado na
-margem do rio, que em memoria d'este triste acontecimento tem o nome de
-_Solis_.
-
-Estes indios anthropóphagos pertenciam á tribu dos Charruas que era
-senhora do paiz, como na extremidade opposta do grande continente o
-eram os Hures e os Sioux.
-
-Os hespanhoes foram pois obrigados a edificar Montevideo no meio de
-combates, que se renovavam todos os dias e todas as noites, contando
-por isso Montevideo apenas cem annos, apezar de ter sido descoberto em
-1516.
-
-Pelo fim do ultimo seculo, appareceu um homem que promoveu aos
-senhores primitivos da costa uma guerra de exterminação, em que foram
-aniquilados.
-
-Tres ultimos combates--em que collocaram entre si suas mulheres e
-filhos, e caíam sem recuar um passo--viram desapparecer os seus ultimos
-restos, e monumentos d'esta derrota suprema; o viajante póde ainda vêr
-ao pé da montanha _Augua_ os ossos dos ultimos Charruas.
-
-Este novo Mario era Jorge Pacheco, pae do general Pacheco e Obes de
-quem, como já dissemos, tivemos todos estes promenores.
-
-Mas os selvagens destruidos deixaram a Pacheco inimigos mais ferozes,
-mais perigosos, e mais inexterminaveis que os indios, visto que
-aquelles eram sustentados, não por uma crença religiosa, que todos
-os dias ia enfraquecendo, mas, pelo contrario, por um interesse
-material que ia augmentando sensivelmente. Estes inimigos eram os
-contrabandistas do Brazil.
-
-O systema prohibitivo era a base do commercio hespanhol. Havia pois
-uma guerra encarniçada entre o exercito e os contrabandistas, que ou
-pela estrategia ou pela força tentavam introduzir no territorio de
-Montevideo as suas sedas e tabaco.
-
-A lucta foi longa, encarniçada e mortal. D. Jorge Pacheco dotado de
-uma força herculea, de um talhe gigantesco, e de uma grande finura,
-tinha alcançado--pelo menos assim o julgava--não a aniquillar os
-contrabandistas, como havia feito aos Charruas, mas a affastal-os da
-cidade, quando repentinamente tornaram a apparecer mais atrevidos,
-mais activos, e reunidos como nunca em roda de uma vontade unica, tão
-poderosa, tão corajosa, e tão intelligente como podia ser a do general
-Pacheco.
-
-Pacheco mandou espiões por toda a parte a informarem-se do motivo
-d'esta reapparição.
-
-Todos voltaram pronunciando um unico nome:
-
---Artigas!
-
-Quem era este Artigas?
-
-Um mancebo de vinte a vinte e cinco annos, bravo como um velho
-hespanhol, esperto como um Charrua, e agil como um _gaucho_: tinha tres
-raças senão no sangue ao menos no espirito. Começou então uma lucta
-admiravel de esperteza e força entre o general e o contrabandista, mas
-um era moço e todos os dias a sua força augmentava, o outro não era
-velho, mas estava já cançado.
-
-Durante quatro ou cinco annos Pacheco perseguiu Artigas, batendo-o
-por toda a parte por onde apparecia; mas Artigas derrotado não era
-nem morto, nem feito prisioneiro, e no dia seguinte começava de novo
-a lucta. Pacheco cansou primeiro e como um d'esses romanos da antiga
-republica, que sacrificavam o seu orgulho ao bem do paiz, disse ao
-governo que resignava os seus poderes com a condição que Artigas
-seria nomeado general em seu logar, porque só Artigas podia acabar a
-destruição dos contrabandistas.
-
-O governo acceitou, e como esses bandidos romanos que se submettem ao
-poder do papa e passeam venerados na cidade de que foram o terror,
-Artigas fez a sua entrada triumphal em Montevideo, e começou a obra de
-destruição para que havia sido chamado.
-
-Estes factos tiveram logar cincoenta e oito ou sessenta annos antes
-dos acontecimentos em que Garibaldi vae tomar parte, mas como nós
-somos author dramatico e não podemos deixar de começar um drama por um
-prologo, vamos dar a conhecer aos leitores, homens e terras que lhe são
-bem desconhecidos.
-
-Artigas tinha então vinte e sete ou vinte e oito annos, tendo na época
-em que o general Pacheco me deu estes detalhes noventa e tres annos,
-vivendo ignorado n'uma pequena quinta pertencente ao presidente do
-Paraguay. Hoje provavelmente já tem morrido.
-
-Era um mancebo bello e bravo, e que representava um dos tres poderes
-que reinaram em Montevideo.
-
-Jorge Pacheco era o typo do valor cavalheiresco do velho mundo, que
-atravessou os mares com Colombo, Pizarro e Fernando Cortez. Artigas
-era o homem do campo, e podia representar, o que chamavam o partido
-nacional, collocado entre os portuguezes e hespanhoes, isto é entre os
-estrangeiros que se tinham tornado portuguezes e hespanhoes, pela sua
-habitação nas cidades onde tudo fazia lembrar os costumes portuguezes e
-hespanhoes.
-
-Ainda havia um terceiro typo e mesmo uma terceira potencia que foi o
-flagello de todos e de que é necessario dizer duas palavras.
-
-Este terceiro typo é o gaucho, a quem Garibaldi chama o centauro do
-novo mundo.
-
-Na França chamamos gaucho a tudo quanto vive n'estas vastas planicies,
-mas commettemos um erro: o capitão Head da marinha ingleza, foi o
-primeiro a pôr em moda esta mania de confundir o gaucho com o habitante
-do campo, que na sua soberba repelle não só a similhança, mas até a
-comparação.
-
-O gaucho é o bohemio do novo mundo. Sem terras, sem casa, sem familia,
-possue por toda a fortuna um casaco, um cavallo, uma faca e o laço.
-
-A faca é a sua arma, o laço a sua industria.
-
-A nomeação de Artigas foi recebida com satisfação por todos, excepto
-pelos contrabandistas, e ainda se achava occupando este alto cargo
-quando rebentou a revolução de 1810, revolução que tinha por fim, e que
-obteve, destruir o dominio hespanhol no novo mundo.
-
-Esta revolução começou em 1810 em Buenos-Ayres e acabou em Bolivia na
-batalha de Ayacuncho em 1824.
-
-O chefe das forças independentes era então o general Antonio José de
-Soure, e tinha cinco mil homens ás suas ordens.
-
-O general em chefe das tropas hespanholas era D. José de Laserna, o
-ultimo vice-rei do Peru, e commandava onze mil homens.
-
-Os patriotas não possuiam senão uma unica peça, eram um contra dois,
-e achavam-se completamente desprovidos de munições, e de provisões de
-boca. Não tinham remedio senão esperar, assim o fizeram, e quando foram
-atacados ficaram vencedores.
-
-Foi o general patriota Aleixo Cordova que começou o combate.
-Commandava mil e quinhentos homens. Poz a bandeira na ponta da espada e
-gritou:
-
---Ávante!
-
---A marche marche, ou no passo ordinario? perguntou um official.
-
---No passo da victoria, respondeu elle.
-
-N'essa mesma tarde todo o exercito hespanhol tinha capitulado, e
-achava-se prisioneiro d'aquelles que o tinham sido seus.
-
-Artigas havia sido um dos primeiros a festejar a revolução. Tinha-se
-posto á testa do movimento, e por sua vez offereceu a Pacheco o
-commando, como annos antes elle o havia feito.
-
-Esta troca ia-se talvez operar quando Pacheco foi surprehendido na Casa
-branca, no Uruguay, por marinheiros hespanhoes, e ficou seu prisioneiro.
-
-Artigas continuou a sua tarefa libertadora. Em pouco tempo expulsou os
-hespanhoes do campo de que se havia tornado rei, reduzindo-os a serem
-senhores unicamente de Montevideo, que podia apresentar uma séria
-resistencia, visto ser a segunda cidade fortificada da America.
-
-A primeira era S. João de Ulloa.
-
-Em Montevideo achavam-se refugiados todos os partidarios dos
-hespanhoes, protegidos por um exercito de quatro mil homens. Artigas
-sustentado pela alliança de Buenos-Ayres começou o cerco da cidade, mas
-um exercito portuguez veiu em auxilio dos hespanhoes e Artigas teve de
-retirar-se. Em 1812 Montevideo soffreu novo cerco. O general Rondeau
-commandava as forças de Buenos-Ayres e Artigas as dos patriotas, e
-foram estes que de novo cercaram a cidade.
-
-O cerco durou vinte e tres mezes, tendo logar no fim d'este tempo uma
-capitulação que entregou a capital da futura republica oriental aos
-sitiantes, commandados então pelo general Alvear.
-
-Porque razão era então general em chefe Alvear e não Artigas? Vamos
-dizel-o.
-
-É que no fim de vinte mezes de cerco, depois de tres annos de contacto
-entre os homens de Buenos-Ayres e os de Montevideo, as differenças de
-habitos, de costumes, e direi mesmo de raças, que tinham sido causa
-de simples desintelligencias, haviam-se tornado em motivos de odios
-mortaes.
-
-Artigas, como Achilles havia-se retirado desapparecendo pelos campos
-tão seus conhecidos no tempo da sua mocidade em que exercia o mister de
-contrabandista.
-
-O general Alvear tinha-o substituido, sendo general em chefe dos
-_Portenos_, na occasião em que Montevideo se entregou.
-
-_Portenos_ é o nome que dão aos naturaes de Buenos-Ayres, e _Orientaes_
-aos de Montevideo.
-
-Tentaremos explicar as differenças que ha entre os _Portenos_ e os
-_Orientaes_.
-
-O habitante de Buenos-Ayres fixado no paiz ha trezentos annos na pessoa
-de seus avós, perdeu desde o fim do primeiro seculo da sua existencia
-na America, todas as tradicções da mãe patria, isto é da Hespanha.
-Os habitantes de Buenos-Ayres são hoje tão americanos, como o eram
-antigamente os indios que d'ali expulsaram.
-
-O habitante de Montevideo, ao contrario, existindo apenas ha um seculo
-no paiz,--sempre na pessoa de seus avós, bem entendido--não teve o
-tempo de esquecer que é de raça hespanhola. Tem o sentimento da sua
-nova nacionalidade, mas sem ter esquecido as tradicções da velha
-Europa, em quanto que o de Buenos-Ayres, se affasta todos os dias da
-Europa para entrar na barbaria.
-
-O paiz não deixa de ter sua influencia, sobre este movimento retrogrado
-de um lado, progressivo do outro.
-
-A população de Buenos-Ayres, espalhada em areaes immensos, com
-habitações muito affastadas umas das outras, em sitios completamente
-desprovidos de agua, e de todos os objectos necessarios, e habitando
-cabanas mal construidas, ganha um caracter sombrio, insociavel e
-bulhento. As suas tendencias dirigem-se para os indios selvagens
-das fronteiras, com os quaes elles negoceiam em todos os objectos
-que trazem dos sitios onde a civilisação ainda não penetrou, e são
-completamente desconhecidos aos europeus, dos quaes recebem em troca
-agua-ardente e tabaco que levam para as grandes planicies dos pampas,
-de que tomaram o nome, ou a quem póde ser deram o seu.
-
-A população de Montevideo, pelo contrario, possue um bello paiz,
-cortado por muitos rios. Não possue vastos bosques, não tem grandes
-florestas, como a America do Norte, mas as margens dos seus rios são
-ornadas de bellas e magestosas arvores. Possue além d'isso bellos
-edificios, e a terra produz todo o necessario para o seu sustento. As
-suas casas, quintas e herdades são proximas umas das outras, e o seu
-caracter franco e hospitaleiro, é inclinado a essa civilisação de que a
-aproximação do mar lhe conduz continuamente.
-
-Para a população de Buenos-Ayres o typo da perfeição é o indio a
-cavallo.
-
-Para a de Montevideo é o europeo apertado na sua casaca, na sua gravata
-e nas botas de polimento.
-
-Os naturaes de Buenos-Ayres tem a pertenção de serem os primeiros da
-America em elegancia. Teem mais imaginação que os de Montevideo, e os
-primeiros poetas que a America conheceu, nasceram em Buenos-Ayres.
-Varela e Lafinur. Domingos e Marmol são poetas portenos.
-
-O habitante de Montevideo é menos poetico, mas mais socegado e mais
-firme nas suas resoluções e nos seus projectos. Se o seu rival tem
-a pertenção de ser o primeiro em elegancia, elle tem a de o ser
-na coragem. Entre os seus poetas figuram de Hidalgo, de Berro, de
-Figueira, e João Carlos Gomes.
-
-As mulheres de Buenos-Ayres tambem teem a pretenção de serem as mais
-bellas da America meridional desde Lemairé até ao Amazonas.
-
-Póde ser que na realidade o rosto das mulheres de Montevideo seja menos
-formoso que o das suas visinhas, mas as suas fórmas são maravilhosas.
-
-Ha pois entre os dois paizes;
-
-Rivalidade de coragem e elegancia, entre os homens;
-
-Rivalidade de belleza e elegancia, entre as mulheres;
-
-Rivalidade de talento entre os poetas, esses hermaphroditas da
-sociedade, colericos como os homens, caprichosos como as mulheres e
-simples muitas vezes como as creanças mais innocentes.
-
-Havia pois, como se vê por tudo que acabamos de dizer, motivos
-sufficientes para as relações serem interrompidas entre Montevideo e
-Buenos-Ayres, entre Artigas e Alvear.
-
-Não foi unicamente uma separação, que teve logar, mas sim uma guerra.
-
-Todos os elementos de antipathia foram dirigidos contra os homens
-de Buenos-Ayres pelo antigo chefe de contrabandistas. Pouco lhe
-importavam então os meios, de que tinha a servir-se, com tanto que
-alcançasse o seu fim que era expulsar do paiz os Portenos.
-
-Foi então que Artigas reunindo todos os recursos que lhe offerecia o
-paiz, se poz á testa d'esses bohemios da America que se chamam gauchos.
-
-A guerra que fazia Artigas tinha alguma cousa de santa; assim nada
-lhe podia resistir, nem o exercito de Buenos-Ayres, nem o partido
-hespanhol, que sabia perfeitamente que a entrada de Artigas em
-Montevideo, era a substituição da força brutal á intelligencia.
-
-Os que tinham previsto esta volta á barbaria não se haviam enganado.
-Pela primeira vez homens vagabundos, por civilisar, e sem organisação,
-viam-se formando um exercito e com um general. Durante a dictadura de
-Artigas teve logar um periodo que tem alguma analogia com o nosso de
-1793. Montevideo viu o reinado do homem dos pés nús, dos _casoncillos_
-fluctuantes, da _chiripa_ escosseza, do _puncho_ despedaçado, e com o
-chapeu deitado sobre a orelha seguro pelo _barlipo_.
-
-Então Montevideo foi testemunha de scenas inauditas grotescas, e
-algumas vezes terriveis. Muitas vezes as primeiras classes da sociedade
-foram reduzidas á impotencia, Artigas tendo de menos a crueldade e de
-mais a coragem, tornou-se então o que mais tarde devia ser Rosas.
-
-A dictadura de Artigas teve não obstante muitas cousas de brilhante e
-nacional. Uma foi a lucta de Montevideo contra Buenos-Ayres, em que
-Artigas derrotou sempre as forças d'este paiz e de que fez cessar a
-influencia e a resistencia ao exercito portuguez que invadiu o paiz em
-1815.
-
-O pretexto d'esta invasão foi a desordem da administração de Artigas
-e a necessidade de salvar os povos visinhos de desordens eguaes, que
-podia fazer nascer entre elles o contagio do exemplo. Estas desordens
-tinham no mesmo paiz, dobrado a opposição que fazia o partido da
-civilisação. As classes elevadas sobre tudo desejavam do coração uma
-victoria que substituisse o dominio portuguez a esse dominio nacional
-que trazia a brutal tyrannia da força material. Comtudo não obstante
-os ataques portenos e dos portuguezes, Artigas resistiu quatro annos,
-dando tres batalhas, e vencido retirou-se para Entre rios, isto
-é para o outro lado do Uruguay. Ahi, apezar de se achar fugitivo,
-Artigas representava ainda, se não pelas suas forças, ao menos pelo
-seu nome, um poder respeitavel, quando Ramiro seu tenente se revoltou,
-contra elle, collocando-se á frente da terça parte das suas forças, e
-derrotando-o de modo que lhe tirou toda a esperança de reconquistar a
-sua posição perdida, obrigando-o a sair d'este paiz aonde como Anteo,
-parecia ganhar novas forças todas as vezes que ahi tocava.
-
-Foi então que, egual a uma d'essas trombas que se evaporam, depois
-de ter deixado a desolação e as ruinas na sua passagem, Artigas
-desappareceu retirando-se para o Paraguay, onde, como já dissemos, em
-1848 na época em que Garibaldi defendia Montevideo, vivia ainda tendo
-noventa e tres ou noventa e quatro annos, gosando de todas as suas
-faculdades intellectuaes e de quasi todas as suas forças.
-
-Artigas vencido não fez opposição ao dominio portuguez que se
-estabeleceu no paiz, e o barão de Laguna francez de origem foi seu
-representante em 1825. N'este anno Montevideo como todas as possessões
-portuguezas da America foram cedidas ao Brazil.
-
-Montevideo foi então occupado por um exercito de oito mil homens e tudo
-parecia assegurar ao imperador a sua pacifica posse.
-
-Foi então que um natural de Montevideo, proscripto, residente em
-Buenos-Ayres, reuniu trinta e dois companheiros proscriptos como elle,
-e decidiram que dariam a liberdade á patria ou que morreriam.
-
-Este punhado de patriotas embarcou em duas canoas e desembarcou no
-Grande Areal.
-
-O chefe chamava-se João Antonio Lavalleja.
-
-Lavalleja havia de antecipação tido relações com um proprietario do
-paiz que devia no momento do seu desembarque, ter os cavallos promptos.
-Assim logo que desembarcou enviou-lhe um mensageiro, que lhe trouxe
-em resposta que tudo estava descoberto, que os cavallos haviam sido
-roubados e que Lavalleja e os seus companheiros não tinham outro
-partido a tomar senão embarcarem de novo e o mais depressa possivel,
-devendo dirigir-se para Buenos-Ayres.
-
-Mas Lavalleja respondeu que não partia, pois não podia, nem queria
-recuar, e ordenando aos remadores de voltarem para Buenos-Ayres sem
-elle, tomou posse, no dia 19 de abril, de Montevideo em nome da
-liberdade.
-
-No dia seguinte os trinta valentes que tinham apanhado alguns cavallos,
-com o consentimento de seus donos, pozeram-se em marcha para a capital,
-mas foram encontrados por um destacamento de cavalleiros, de que
-quarenta eram brazileiros e cento e sessenta orientaes.
-
-Eram commandados por um antigo irmão de armas de Lavalleja, o coronel
-Jurien. Lavalleja podia evitar o combate, mas não o quiz e marchou
-direito aos duzentos cavalleiros, e pediu uma entrevista ao coronel
-antes de entrar em combate.
-
---Que quer e que vem aqui fazer? perguntou Jurien a Lavalleja.
-
---Venho libertar Montevideo do dominio estrangeiro, respondeu
-Lavalleja, se tem as minhas idéas acompanhe-me, se não, entregue-me as
-suas armas, ou prepare-se para o combate.
-
---Não comprehendo o que querem dizer essas palavras = _entregue-me as
-suas armas_, respondeu o coronel, e espero que ninguem m'as ha-de
-explicar.
-
---Então tome o commando dos seus soldados, e vamos vêr por quem é Deus.
-
---Veremos, disse Jurien.
-
-E partiu a galope a unir-se aos seus soldados.
-
-Mas no mesmo momento Lavalleja desenrolou a bandeira nacional, azul,
-branca e encarnada e immediatamente os cento e sessenta orientaes
-passaram para o seu lado.
-
-Os quarenta brazileiros foram feitos prisioneiros.
-
-A marcha de Lavalleja para Montevideo foi uma verdadeira marcha
-triumphal, de que o resultado foi que a republica oriental, proclamada
-pela vontade e enthusiasmo de um povo inteiro, tomou logar entre as
-nações.
-
-
-
-
- ROSAS
-
-
-Durante estes acontecimentos engrandecia-se um nome que mais tarde
-devia ser o terror da federação argentina.
-
-Pouco depois da revolução de 1810 um mancebo de quinze a dezaseis
-annos saía de Buenos-Ayres, abandonando a cidade e dirigindo-se para o
-campo. Ia muito perturbado e caminhava apressadamente.
-
-Este mancebo chamava-se João Manoel Rosas.
-
-Porque esta creança, este fugitivo abandonava a casa onde havia
-nascido? Porque ia pedir um asylo aos habitantes dos montes? É porque
-acabava de insultar sua mãe, como mais tarde devia insultar a sua
-patria; ia perseguido pela maldição paterna.
-
-Este successo, sem nenhuma importancia para os acontecimentos d'aquelle
-paiz, esqueceu bem depressa no meio de factos mais serios que então
-tiveram logar, e em quanto todos os antigos companheiros do fugitivo
-se reuniam debaixo do estandarte da independencia para combater os
-hespanhoes, Rosas, andava pelos _pampas_ entregando-se á vida dos
-gauchos, adoptando o seu vestuario e costumes, tornando-se um dos
-melhores cavalleiros e um dos homens mais habeis d'essas immensas
-planicies, no manejo do laço e da bola, de sorte que vendo-o tão habil
-n'estes exercicios selvagens, quem não o conhecesse não o tomaria por
-um habitante da cidade, nem por um _pueblero_ fugitivo, mas por um
-verdadeiro gaucho.
-
-Rosas entrou primeiramente como _peon_, isto é jornaleiro, em uma
-estancia, depois foi _capataz_,--Garibaldi já nos explicou o que era um
-_capataz_--chegando depois a _mayordomo_.
-
-N'esta qualidade governava os bens da poderosa familia Anchorena. É
-d'ahi que começa a sua fortuna como proprietario.
-
-Sendo o nosso designio fazer conhecer Rosas debaixo de todos os
-aspectos; vamos dizer qual era a situação do seu espirito no meio dos
-acontecimentos que então tinham logar.
-
-Rosas tinha estado em Buenos-Ayres durante os prodigios praticados
-pela revolução contra a Hespanha. Então quem tinha coragem procurava
-a celebridade no campo da batalha, quem tinha instrucção procurava-a
-nos conselhos. Rosas era ambicioso de celebridade, mas qual era a que
-elle poderia esperar? Que nome poderia adquirir, elle que não tinha nem
-coragem para se apresentar no campo da batalha, nem instrucção alguma
-para adquirir um nome entre os homens da sciencia? A todos os momentos
-ouvia proferir a seu lado alguns nomes que se haviam tornado celebres.
-Eram como ministros, Rivadaria, de Pasos, de Aguerro, como guerreiros,
-Saint-Martin, de Baléarés, de Rodrigues, e de Las Heras.
-
-E todos estes nomes de que o ruido, vindo da cidade, ia achar éco nas
-solidões dos campos, todos estes nomes avivavam o seu odio contra essa
-cidade que tendo triumphos para todos, não tinha para elle senão o
-exilio.
-
-Já n'esta época Rosas pensava no futuro e preparava-o. Errando pelos
-pampas, confundido com os gauchos, fazia-se o companheiro da miseria do
-povo, elogiando os prejuizos do homem das planicies, excitando-o contra
-os cidadãos, demonstrando-lhe a superioridade do numero e diligenciando
-fazer-lhe comprehender que quando quizessem os habitantes do campo,
-seriam senhores da cidade.
-
-Os annos foram passando, até que chegamos a 1820.
-
-Foi então que Rosas começou a apparecer, apoiado na influencia que
-havia adquirido nos habitantes das planicies.
-
-Já vimos o que se passou em Montevideo. Vejamos agora o que se passou
-em Buenos-Ayres.
-
-A milicia de Buenos-Ayres rebellou-se contra o governador Rodrigues.
-Então um regimento das milicias do campo, _los colorados de las
-Conchas_ entraram na cidade, em 5 de outubro de 1820, tendo á sua
-frente um coronel, que era conhecido em Buenos-Ayres, e que conhecia
-Buenos Ayres.
-
-Este coronel era Rosas.
-
-No dia seguinte as milicias do campo, e as milicias da cidade vieram ás
-mãos, mas n'esse dia o coronel não estava á frente do regimento.
-
-Uma violenta dôr de dentes, que Rosas deixou de soffrer assim que
-finalisou o combate, affastava-o, com grande pezar, do campo da
-batalha. E porque não teria elle razão? Octavio tambem teve um grande
-ataque de febre no dia da batalha de Actium.
-
-Rosas parecia-se muito com Octavio; mas mais tarde Octavio foi Augusto,
-o que segundo todas as probabilidades nunca será Rosas.
-
-Esta entrada em Buenos-Ayres foi a unica expedição guerreira em que
-Rosas tomou parte durante toda a sua vida politica.
-
-Foi então que Rivadavia, já mui conhecido, foi nomeado ministro do
-reino, tomando a direcção de todos os negocios.
-
-Rivadavia era um d'esses homens de genio, como apparecem no meio das
-revoluções durante os dias de tormenta. Havia viajado muito na Europa,
-possuindo uma instrucção universal, e parecendo animado do mais ardente
-e puro patriotismo. Infelizmente a vista da civilisação europea, que
-tinha estudado em Paris e Londres havia-lhe feito nascer falsas idéas
-da sua applicação a um povo que não tendo por detraz de si dez seculos
-de luctas sociaes, não as podia admittir.
-
-Rivadavia queria dobrar a marcha do tempo e fazer o mesmo pela America
-que Pedro o Grande havia feito pela Russia; mas não tendo á sua
-disposição os meios de Pedro foi obrigado a desistir das suas intenções.
-
-Póde ser que com mais alguma esperteza Rivadavia as tivesse alcançado,
-mas censurava os homens pelos seus habitos e certos habitos são uma
-nacionalidade e outros um orgulho. Escarnecia os trajes americanos,
-manifestando a sua repugnancia pela _jaqueta_, o seu desprezo pela
-_chiripa_, o vestuario do homem dos campos, e como ao mesmo tempo
-não occultava a sua preferencia pela casaca e bota de polimento,
-despopularisou-se pouco a pouco, e sentiu o poder prestes a escapar-lhe.
-
-E não obstante que de beneficios não fez ao seu paiz em troca d'esses
-vestidos ridiculos que lhe queria tirar? A sua administração foi a mais
-prospera que Buenos-Ayres teve. Foi elle que fundou a universidade,
-os liceos, e que introduziu nas escolas o ensino mutuo. Durante a sua
-administração, muitos sabios foram chamados da Europa, as artes foram
-protegidas, desenvolvendo-se muito, emfim Buenos-Ayres era chamada a
-Athenas da America do Sul.
-
-Já fallámos da guerra de Buenos-Ayres em 1826. Para sustentar esta
-guerra, Buenos-Ayres fez sacrificios enormes, exgotando as suas
-finanças, e enfraquecendo por esse motivo muito as molas da sua
-administração.
-
-Exgotadas as finanças, enfraquecido o governo, as revoluções começaram.
-
-Já dissemos que em Buenos-Ayres como em Montevideo, o campo e a cidade
-nunca estavam em harmonias de opiniões, como nunca o estavam em
-harmonias de interesse.
-
-Buenos-Ayres fez uma revolução.
-
-Immediatamente o campo fez uma revolução, e dirigindo-se sobre
-Buenos-Ayres, invadiu a cidade e fez o seu chefe governador.
-
-Este chefe era Rosas.
-
-Vamos fechar o parenthesis, aberto algumas paginas atraz.
-
-Em 1830 Rosas foi eleito governador pela influencia dos habitantes do
-campo, não obstante a opposição da cidade, que elle encontrou meia
-policiada pela administração de Rivadavia.
-
-Então Rosas, o gaucho, tentou reconciliar-se com a civilisação,
-parecendo querer esquecer os costumes selvagens adoptados por elle até
-então: a serpente queria mudar de pelle.
-
-Mas a cidade resistiu ás suas tentativas, e a civilisação recusou
-receber o transfuga que se havia passado para o campo da barbaria.
-Rosas mostrava-se revestido de um uniforme, e immediatamente os
-militares perguntavam em que campo de batalha havia elle ganho aquellas
-dragonas. Fallava n'uma reunião, e logo os homens intelligentes
-perguntavam entre si onde tinha elle ido aprender aquelle estylo;
-quando apparecia n'um passeio, as mulheres designando-o com o dedo
-diziam: «Ahi vae o gaucho disfarçado!»
-
-Os tres annos do seu governo passaram-se n'esta lucta mortal para o
-seu orgulho, e póde ser que a estas torturas moraes que lhe fizeram
-soffrer n'este periodo, seja devida a sua ferocidade. D'esta maneira
-quando resignou o poder e desceu a escada do palacio, com a alma cheia
-de odio, e o coração de fel, sabendo que desde então não havia alliança
-possivel com a cidade, foi ter de novo com os seus fieis gauchos, e as
-suas estancias de que era o senhor, com a intenção de um dia entrar
-de novo em Buenos-Ayres, como Scylla, que elle não conhecia e de quem
-provavelmente nunca havia ouvido fallar, havia entrado em Roma, com a
-espada n'uma mão e uma tocha m outra.
-
-Para alcançar este fim vejamos o que elle fez. Pedia ao governo que lhe
-concedesse um commando qualquer no exercito que ia combater os indios
-selvagens. O governo que o temia julgou affastal-o concedendo-lhe este
-favor, e deu-lhe todas as tropas de que podia dispôr, esquecendo que se
-enfraquecia mettendo todo o poder nas mãos de Rosas.
-
-Este logo que se achou á frente do exercito fez uma revolução em
-Buenos-Ayres, fez-se chamar ao poder que não acceitou senão com grandes
-condições, porque tinha ás suas ordens todo o exercito, e entrou em
-Buenos-Ayres com a dictadura mais absoluta de que se tem conhecimento,
-isto é _com toda la suma del poder publico_--com toda a extensão do
-poder publico.
-
-O governador que elle fez cair, ou antes que elle precipitou era o
-general João Romão Baleace, um dos homens que tinha mais trabalhado
-na guerra da independencia, e um dos chefes do partido federal de
-que Rosas se dizia o sustentaculo. Baleace era um nobre coração e a
-sua fidelidade á patria era proverbial. Havia acreditado em Rosas e
-tinha trabalhado muito para a sua elevação. Baleace foi o primeiro
-sacrificado por Rosas, morrendo proscripto e quando o seu cadaver
-repassou a fronteira, protegido pela morte, Rosas recusou á sua
-familia, não as honras funebres que eram devidas a um ex-governador,
-mas as simples ceremonias a quem todo o cidadão tem direito.
-
-Em 1833 foi que começou o verdadeiro poder de Rosas. No seu primeiro
-governo, cheio de dissimulação, não tinha apresentado os seus
-instinctos de crueldade, que fizeram depois d'elle uma celebridade
-de sangue. Este primeiro periodo não tinha sido marcado senão pelo
-fuzilamento do major Monteiro e dos prisioneiros de S. Nicolau. Comtudo
-não devemos esquecer que foi n'esta época que tiveram logar muitas
-mortes sombrias e subitas, d'essas mortes de que a historia inscreve a
-data com tinta encarnada no livro das nações.
-
-D'esta maneira desappareceram dois chefes de que a influencia poderia
-fazer alguma sombra a Rosas. As mortes de Arbolito e de Molina tiveram
-logar n'esta época. O mesmo aconteceu, segundo nos parece, aos dois
-consules que acompanharam Octavio na sua primeira batalha contra
-Antonio.
-
-Daremos mais alguns detalhes de Rosas que ainda não nos appareceu
-senão como dictador, mas tendo já alcançado um poder como poucos homens
-tem exercido n'uma nação.
-
-Em 1833, Rosas contava trinta e nove annos. Tinha o aspecto europeo,
-cabellos louros, olhos azues, e uma presença soffrivel. Não usava
-nem de barbas, nem de bigodes. O seu olhar seria bello se se podesse
-examinar, mas Rosas havia-se habituado a não olhar de frente, nem os
-seus amigos nem os seus inimigos, porque sabia que n'um amigo existe
-quasi sempre um inimigo disfarçado. A sua voz era doce, e, quando tinha
-necessidade de agradar a sua conversação tinha muito de attrahente.
-A sua reputação de cobarde é proverbial, e a de esperto é universal.
-Adorava as mystificações, sendo esta a sua grande occupação antes de se
-entregar aos negocios serios. Uma vez chegado ao poder, não foi senão
-uma distracção, que eram brutaes como a sua natureza.
-
-Citemos um ou dois exemplos:
-
-Uma tarde que devia jantar na companhia de um dos seus amigos, occultou
-o vinho destinado a beber-se e deixou unicamente no bofete uma garrafa
-do famoso licor de Leroy, que para ser completamente celebre só lhe
-falta ser descuberto no tempo de Moliere. O amigo procurando o vinho
-só achou a garrafa de Leroy e encontrando-lhe um gosto mui agradavel,
-bebeu-a toda. Rosas não bebeu se não agua, e partiu logo que acabou o
-jantar para a sua estancia.
-
-Durante a noite o amigo de Rosas soffreu dores infernaes. Rosas riu
-muito d'este seu innocente brinquedo, se elle tivesse morrido, Rosas
-teria, sem duvida, rido muito mais.
-
-Quando recebia algum cidadão em uma das suas estancias, fazia-o montar
-em cavallos muito fogosos e a sua alegria era conforme a gravidade da
-queda que o cavalleiro dava.
-
-No palacio do governo achava-se sempre rodeado de loucos e de imbecis,
-e no meio dos negocios mais serios conservava este singular cortejo.
-Quando sitiava Buenos-Ayres, em 1829, tinha a seu lado quatro d'estes
-pobres diabos, que havia feito monges, tornando-se em virtude do seu
-poder, seu prior. Chamavam-se frei Biqua, frei Chaja, frei Lechuza, e
-frei Biscacha. Rosas gostava muito de confeitos, tendo-os sempre de
-todas os qualidades na sua tenda.
-
-Os monges que tambem gostavam muito de confeitos, roubavam alguns de
-quando em quando. Rosas então chamava-os a todos e os monges que sabiam
-o que lhe custaria a mentir, confessavam o crime.
-
-Immediatamente o culpado era despojado dos vestidos e fustigado pelos
-seus tres companheiros.
-
-Todos conheciam em Buenos-Ayres o seu mulato Eusebio, e para isso muito
-concorreu Rosas que em um dia de recepção publica, teve a idéa de fazer
-o mesmo que a condessa Dubarry fazia com o preto Zamora.
-
-Eusebio vestido de governador recebeu os cumprimentos das authoridades,
-em logar do seu _senhor_.
-
-Não obstante a amizade que Rosas tinha a Eusebio, teve um dia a
-lembrança de lhe fazer uma _brincadeira_, como costumavam ser todas
-as que esta boa alma inventava. Fingiu que acabava de ser descoberta
-uma conspiração, contra elle, de que o chefe era Eusebio. O fim
-d'esta conspiração era matar Rosas. Eusebio foi preso apezar dos seus
-protestos de innocencia. Rosas dominava os juizes a tal ponto que elles
-não se importavam se o accusado era ou não innocente. Rosas accusava, e
-elles julgaram e condemnaram Eusebio á morte.
-
-Eusebio soffreu todos os preparativos do supplicio. Confessou-se, e
-sendo depois conduzido ao logar do supplicio, ahi encontrou o carrasco
-e seus ajudantes, e quando este _brinquedo_ estava quasi a terminar
-tragicamente, appareceu Rosas que disse a Eusebio estar sua filha
-Manuelita apaixonada por elle, e que por isso lhe perdoava, com a
-condição de a desposar.
-
-É inutil dizer que Eusebio não morrendo do supplicio esteve quasi a
-morrer de medo.
-
-Vamos agora dizer aos nossos leitores quem era como mulher esta
-Manuelita que a Providencia tinha collocado ao pé de seu pae como um
-bom anjo, de que a principal occupação, durante toda a sua vida, foi
-repetir todos os dias a palavra _perdão_, alcançando-o muitas vezes.
-
-Manuelita é hoje uma mulher de quarenta annos que por dedicação por
-seu pae, e póde ser, que talvez pela missão que recebeu do ceu, se tem
-conservado solteira, pelo menos até 1850, época em que a perdemos de
-vista.
-
-Manuelita não era precisamente uma mulher encantadora, mas era bella,
-com uma figura distincta, dotada de um tacto profundo, coquette como
-uma parisiense, e muito preoccupada, sobre tudo do effeito que produzia
-nos estrangeiros.
-
-Manuelita foi muito calumniada, o que era muito natural por ser filha
-de Rosas, isto é, do homem sobre o qual convergiam todos os odios. Era
-accusada de ter herdado os sentimentos crueis de seu pae, e de ter,
-como a filha do papa Borgia, esquecido o amor filial por outro mais
-terno e menos christão.
-
-Tudo isto é falso. Manuelita ficou solteira por duas razões: a primeira
-porque Rosas sentia muitas vezes a necessidade de ser amado, e sabia
-que o unico amor real, dedicado, infinito, sobre que podia contar era
-o de sua filha. Manuelita ficou solteira porque, talvez, nos seus
-sonhos de realeza, Rosas, hoje simples particular, vivendo num canto da
-Inglaterra, via no futuro brilhar para Manuelita alguma alliança mais
-aristocratica do que aquellas a que poderia então aspirar.
-
-Tanto a historia deve ser severa para com Rosas, tanto, a menos de
-ser injusta, deve ser cheia de indulgencia para com Manuelita, a quem
-todos que a conhecem fazem justiça, reconhecendo o que dizemos como uma
-verdade. Manuelita foi o dique eterno, que fazia parar a colera de seu
-pae. Quando creança tinha um meio muito extravagante para obter d'elle
-a graça que pedia.
-
-Fazia despir completamente o mulato Eusebio, arreiando-o como um
-cavallo, e calçava uns lindos sapatos com esporas. Eusebio punha as
-mãos no chão, e Manuelita montava-se-lhe nas costas, fazendo caracolar
-o seu bucephalo humano diante de seu pae que ria muito d'este singular
-brinquedo, concedendo a Manuelita o perdão que implorava.
-
-Mais tarde quando ella comprehendeu que não podia empregar este meio,
-apezar de ser tão efficaz, começou a pôr em pratica a obra de Mecena ao
-pé de Augusto, quando elle lhe lançava as suas tabuas nas quaes estava
-escripto: _Surge, carnifex_! Mas Manuelita procedia de outra maneira,
-porque conhecendo seu pae perfeitamente, sabia as vaidades secretas que
-era necessario fazer vibrar, e por isso muitas vezes alcançava o que
-pedia.
-
-Manuelita era ao mesmo tempo a rainha e escrava de seu pae.
-Administrava a casa, cuidava de Rosas, e encarregada de todas
-as relações diplomaticas era o verdadeiro ministro dos negocios
-estrangeiros de Buenos-Ayres.
-
-Assim como Rosas era um ente á parte, que não se confundia com pessoa
-alguma na sociedade, Manuelita era tambem uma creatura não só estranha
-no meio de todas, mas mesmo estranha a todas, e que viveu n'este mundo
-solitaria, longe do amor dos homens e da sympathia das mulheres.
-
-Rosas tambem tinha um filho chamado João, mas que nunca seguiu a
-politica de seu pae, e uma filha que ainda creança casou, sendo hoje
-uma casta esposa e mãi feliz, tendo um nome, o de seu marido, honrado e
-respeitado por todos.
-
-Tendo alcançado o poder, o grande trabalho de Rosas, foi anniquilar a
-federação.
-
-Lopes o seu fundador, cahiu doente. Rosas mandou-o vir para
-Buenos-Ayres e tornou-se seu enfermeiro.
-
-Lopes morreu envenenado.
-
-Quiroga, o chefe da federação, que havia escapado são e salvo de
-vinte batalhas, e de quem a coragem e lealdade era proverbial, morreu
-assassinado.
-
-Cullen, o conselheiro da federação, foi nomeado governador de Santa
-Fé. Rosas improvisou uma revolução, e Cullen foi entregue a Rosas pelo
-governador de São Thiago.
-
-Cullen foi fuzillado.
-
-Todos os homens notaveis no partido federal tiveram a mesma sorte que
-tinham tido na Italia os homens de consideração durante o dominio dos
-Borgias. Pouco a pouco, Rosas, empregando os mesmos meios que Alexandre
-VI e seu filho Cesar, conseguiu reinar na republica argentina, que
-apezar de reduzida a uma perfeita unidade, conserva ainda o nome
-pomposo de federação, e vae talvez, ser inimiga dos _unitarios_.
-
-Diremos algumas palavras dos homens que acabamos de nomear, fazendo
-reviver algum tempo os seus spectros accusadores, o que dará alguma
-idéa da scena de Shakespeare no _Ricardo 3.º_, antes do combate.
-
-Havia n'esses homens uma especie de selvajaria politica que é digna de
-ser conhecida.
-
-Fallemos primeiramente do general Lopes. Uma unica anedocta, dará não
-sómente idéa d'este chefe, mas fará conhecidos os homens com quem elle
-tinha a tratar.
-
-Lopes era governador da Santa Fé, e tinha em Entre Rios um inimigo
-pessoal, o coronel Ovando, que em seguida a uma revolta foi conduzido
-prisioneiro ao general Lopes.
-
-O general almoçava. Recebeu perfeitamente Ovando e convidou-o a
-almoçar. A conversação travou-se entre elles como entre dois convivas,
-aos quaes uma egualdade de condições tivesse ordenado a mais perfeita
-cortezia.
-
-Comtudo no meio da conversação, Lopes exclamou:
-
---Coronel, se eu tivesse cahido nas suas mãos, como cahiu nas minhas e
-isto no momento em que almoçasse, que faria?
-
---Convidal-o-ia para almoçar, como v. ex.ª acaba de fazer.
-
---E depois?
-
---Mandava-o fuzillar.
-
---Estimo muito que pense do mesmo modo que eu. Acabando de almoçar será
-fuzillado.
-
---Se não se quer demorar muito, póde ser já.
-
---Não, não, acabe de comer descançado, não tenho muita pressa.
-
-E continuaram a almoçar com todo o descanço, e tendo concluido:
-
---Julgo ser tempo, disse Ovando.
-
---Agradeço-lhe o não haver esperado que eu o lembrasse, respondeu Lopes.
-
-Depois chamando o seu camarada.
-
---O piquete está prompto? perguntou elle.
-
---Sim, meu general, respondeu o soldado.
-
-Então voltando-se para Ovando:
-
---Adeus, coronel, disse Lopes.
-
---Adeus, não; mas sim até á vista, porque não se vive muito tempo
-quando se fazem guerras como as nossas.
-
-E cumprimentando Lopes sahiu. Cinco minutos depois, o estrondo de uma
-descarga annunciou a Lopes que o coronel Ovando havia entregue a alma a
-Deos.
-
-Passemos a Quiroga.
-
-
-
-
- QUIROGA
-
-
-Este é mais nosso conhecido. A sua reputação atravessando os mares, fez
-echo em Paris, e a moda apoderou-se d'elle: de 1820 a 1823 todos tinham
-capotes á Quiroga e chapeus á Bolivar. É provavel que nem um nem outro
-tivessem usado dos capotes e chapeus que os seus admiradores adoptaram
-a duas mil leguas de distancia.
-
-Quiroga, como Rosas, era tambem camponez e havia servido, na sua
-mocidade, como sargento no exercito de linha contra os hespanhoes.
-
-Retirado ao seu paiz natal, a Rioja, entrou nos partidos internos, e
-tornado-se senhor do paiz, lançou-se na lucta das differentes facções
-da republica, e foi n'estas luctas que se mostrou pela primeira vez á
-America.
-
-No fim de um anno, Quiroga era a espada do partido federal, e é talvez
-o unico homem que tenha obtido similhantes resultados pela simples
-applicação do seu valor pessoal. O seu nome tinha alcançado um tal
-prestigio que só elle valia muitos exercitos.
-
-A sua grande tactica no meio dos combates, era chamar para o pé de si o
-maior numero de perigos, e quando repentinamente dava o grito de guerra
-brandindo na mão essa longa lança que era a sua arma predilecta, os
-mais bravos faziam conhecimento com o medo.
-
-Quiroga era cruel, ou antes feroz, mas na sua ferocidade havia sempre
-alguma cousa de grande e generoso. Era a ferocidade do leão e não a do
-tigre.
-
-Quando o coronel Pringles, um dos seus maiores inimigos, foi feito
-prisioneiro e assassinado, o seu assassino apresentou-se a Quiroga, seu
-chefe, julgando ter ganho uma boa recompensa.
-
-Quiroga deixou-lhe contar o seu crime, e mandou-o fuzillar.
-
-Uma outra vez dois officiaes pertencentes ao partido inimigo foram
-feitos prisioneiros pelos soldados de Quiroga que lembrando-se do
-castigo do seu camarada, os conduziram sãos e salvos á presença do seu
-chefe.
-
-Quiroga offereceu-lhe abandonar as suas bandeiras, servindo debaixo das
-suas ordens.
-
-Um acceitou, outro recusou.
-
---Está bem, disse elle ao que havia acceitado, montemos a cavallo e
-vamos vêr fuzillar o seu camarada.
-
-Aquelle sem fazer a menor observação, apressou-se a obedecer, e
-conversou todo o caminho alegremente com Quiroga de quem se julgava já
-ajudante de campo, em quanto o seu camarada cercado por um piquete, com
-as armas carregadas, marchava tranquillamente para a morte.
-
-Chegado ao logar destinado para a execução, Quiroga mandou ajoelhar o
-official que tinha recusado trahir o seu partido, e disse-lhe que se
-preparasse para morrer, e quando o viu prompto:
-
---Vamos, disse Quiroga, ao pobre official que se julgava já morto, és
-um bravo.--Monta no cavallo do teu camarada e parte.
-
-E designava o cavallo do renegado.
-
---E eu? perguntou este.
-
---Tu, respondeu Quiroga, não precisas cavallo porque vaes morrer.
-
-E apezar das supplicas que lhe fez em favor do seu camarada, aquelle a
-quem acabava de dar a vida, mandou-o fuzillar.
-
-Quiroga só foi vencido uma vez, e essa pelo general Paz, o Fabio
-americano. Duas vezes destruiu o exercito de Quiroga nas terriveis
-batalhas de Tablada e Oncativo. Era um bello espectaculo para esses
-jovens republicanos o vêr a arte, a tactica e a estrategia em lucta
-contra a coragem indomavel e a vontade de ferro de Quiroga. Mas uma vez
-o general Paz foi feito prisioneiro, a cem passos do seu exercito, e
-desde essa época Quiroga foi invencivel.
-
-Terminada a guerra entre o partido unitario e o partido federal,
-Quiroga emprehendeu uma viagem ás provincias interiores sendo na
-volta, attacado em Barrancallaco por trinta assassinos, que fizeram
-fogo sobre a carroagem. Quiroga que se achava n'esta occasião doente,
-estava deitado, na carroagem, tendo-lhe por isso atravessado o peito
-uma balla. Apesar d'isso Quiroga levantou-se pallido e ensanguentado e
-abriu a portinhola. Vendo-o em pé, apezar de estar quasi cadaver, os
-assassinos fugiram; mas Santos Peres, seu chefe, dirigiu-se a Quiroga
-e dando-lhe um golpe na cabeça acabou de o matar.
-
-Então os assassinos voltaram e acabaram a obra começada. Eram os irmãos
-Renafé, commandantes em Cordova que de accordo com Rosas dirigiam esta
-expedição. Mas Rosas tinha tido todo o cuidado de affastar de si todas
-as suspeitas, de modo que ninguem julgou fosse elle um dos cumplices em
-similhante morte, podendo por isso tomar o partido do que tinha feito
-assassinar, perseguindo os assassinos que foram presos, julgados, e
-fuzillados.
-
-Falta Cullen.
-
-Cullen, que tinha nascido em Hespanha, havia-se estabelecido na
-cidade de Santa Fé, onde se tinha ligado com Lopes, sendo depois seu
-ministro e director na politica. A immensa influencia que Lopes teve na
-republica argentina, desde 1820 até á sua morte em 1833, fez de Cullen
-uma personagem muito importante. Quando nos dias de sua desgraça, Rosas
-proscripto emigrou para Santa Fé, recebeu de Cullen toda a especie
-de serviços, mas esses serviços não poderam fazer esquecer ao futuro
-dictador que Cullen era um dos homens que queriam acabar com o reinado
-da arbitrariedade na republica argentina. Comtudo soube occultar o seu
-odio a Cullen debaixo das apparencias da maior amizade.
-
-Pela morte de Lopes, Cullen foi nomeado governador da Santa Fé
-consagrando-se a fazer grandes melhoramentos na provincia, e em
-logar de se mostrar inimigo da França, mostrou por esta nação muitas
-sympathias, considerando que a sua alliança era um grande passo para
-as suas idéas civilisadoras. Então Rosas promoveu uma revolução, que
-appoiou publicamente, sendo coadjuvado por alguma tropa. Cullen vencido
-refugiou-se na provincia de Santiago del Estero, que governava o seu
-amigo Ibarra. Rosas, que destruindo a federação tinha já declarado
-Cullen _selvagem unitario_, entabolou negociações com Ibarra afim de
-lhe entregar Cullen.
-
-Durante muito tempo estas negociações não obtiverão resultado algum,
-julgando-se Cullen, seguro pela confiança que tinha no seu amigo, mas
-um dia foi preso pelos soldados de Ibarra e conduzido a Rosas que o
-mandou assassinar no meio do caminho, porque disse elle n'uma carta
-dirigida ao governador de Santa Fé que tinha succedido a Cullen, o seu
-_processo estava feito pelos seus crimes que eram conhecidos por todos_.
-
-Cullen era dotado d'uma conversação agradavel e d'um coração generoso.
-A sua influencia sobre Lopes foi sempre empregada a evitar toda a
-especie de rigor, e foi em resultado d'esta influencia que o general
-Lopes, não obstante as supplicas de Rosas, não consentiu em mandar
-fuzillar um unico dos prisioneiros da campanha de 1831, campanha que
-poz em seu poder os chefes mais importantes do partido unitario.
-
-Cullen possuia uma instrucção superficial e os seus talentos eram
-mediocres.
-
-Foi d'esta sorte que Rosas, o unico que talvez não teve nenhuma gloria
-militar, entre os chefes do partido federal, se desembaraçou dos
-chefes d'este partido, ficando desde então a pessoa mais importante da
-republica argentina, e senhor absoluto de Buenos Ayres.
-
-Então Rosas tendo alcançado todo o poder, commeçou a sua vingança
-contra as classes elevadas que até então o tinham despresado. No meio
-das personagens mais aristocratas e mais elegantes mostrava-se sempre
-vestido de jaqueta, ou sem gravata. Aos seus bailes a que presidia com
-sua mulher e filha, não eram convidados senão os carreiros, sapateiros,
-etc. Um dia abriu o baile dançando com uma escrava, e Manuelita com um
-gaucho.
-
-Mas não foi só d'esta maneira que elle puniu a soberba cidade, porque
-proclamou o terrivel principio:
-
- «_o que não está comigo é contra mim_»
-
-E desde então todo o homem que lhe desagradava foi classificado de
-_selvagem unitario_, e o que uma vez Rosas havia designando por este
-nome não tinha mais direito nem á vida nem á honra.
-
-Então para por em pratica as theorias de Rosas, organisou-se debaixo
-dos seus auspicios a famosa sociedade MAS-FORCA, isto é, ainda ha
-forca. Esta sociedade era composta de tudo quanto havia de peor na
-sociedade.
-
-N'ella se achavam filiados por ordem superior o chefe da policia, os
-juizes de paz, e todos aquelles que deviam vigiar pela ordem publica.
-Por este meio quando os membros d'esta sociedade entravam em casa de
-qualquer cidadão, para a roubar ou assassinar o seu proprietario, era
-escusado chamar em seu auxilio a policia, porque ninguem corria a
-soccorrer a desgraçada victima. Estas excursões tinham logar quasi
-sempre de dia, tanto era o receio dos criminosos.
-
-E quer o leitor alguns exemplos? Vamos dal-os, por que não é costume
-nosso fazer uma accusação sem a provar.
-
-Os elegantes de Buenos-Ayres tinham n'esta época o habito de trazer os
-bigodes de modo que pareciam formar um U, e isto era sufficiente para
-a sociedade dos MAS-FORCA, debaixo do pretexto de que o U queria dizer
-unitario, se apoderar do desgraçado, rapando-lhe a cara com navalhas
-mal afiadas, de modo que a carne vinha juntamente aos pedaços com os
-cabellos. Depois de praticarem esta barbaridade, abandonavam a victima
-aos caprichos da populaça, que muitas vezes continuava esta brincadeira
-até dar a morte áquelle desgraçado.
-
-As mulheres do povo começavam a usar nos cabellos a fita encarnada
-chamada _mono_. Um dia a Mas-forca collocada ás portas das principaes
-egrejas, marcou com um ferro em brasa todas as mulheres que entravam ou
-sahiam sem ter a tal fita.
-
-Tambem não era uma cousa extraordinaria o ver uma mulher despojada dos
-seus vestidos e açoitada no meio da rua, e isto porque ella trazia
-um lenço, um vestido um enfeite qualquer, no qual havia a cor azul
-ou verde. O mesmo succedia com os homens da mais elevada posição,
-sendo apenas necessario para elles correrem os maiores perigos que se
-apresentassem em publico de casaca ou com uma gravata.
-
-Ao mesmo tempo que as pessoas, sem duvida designadas á muito, e que
-pertenciam ás classes superiores da sociedade perseguidas por uma cruel
-vingança, eram victimas d'estas violencias, centenas de cidadãos eram
-encarcerados, e isso só porque as suas opiniões não estavam em harmonia
-com as do dictador. Ninguem conhecia o crime porque era preso, mas isso
-tambem era desnecessario, visto ser conhecido de Rosas. Do mesmo modo
-que o crime ficava desconhecido, tambem o julgamento era considerado
-inutil, e todos os dias as prisões para poderem dar entrada a novas
-victimas, eram despojadas de algumas d'ellas que erão fuziladas. Estes
-fuzilamentos tinham logar de noute, sendo a cidade constantemente
-accordada de sobresalto.
-
-De manhã, cousa horrivel que nem mesmo em França se viu durante os
-terriveis dias de 1793, os carreiros apanhavão tranquillamente os
-cadaveres dos assassinados e hiam ás prisões buscar os dos que tinham
-sido fuzillados, e conduzindo-os a um grande fosso onde eram todos
-lançados, sem que fosse permittido aos parentes das victimas o vir
-reconhecel-as e prestar-lhe as ultimas honras funebres.
-
-Ainda não é tudo: os carreiros que conduzião estes restos deploraveis
-annunciavam a sua chegada por terriveis gracejos que faziam fechar
-todas as portas e fugir a população. Muitas vezes decepavam a cabeça
-do tronco, enchendo cestos com ellas, e offerecendo-as depois aos
-tranzuentes assustados.
-
-Bem depressa o calculo se juntou á barbaridade, o fisco á morte.
-
-Rosas comprehendeu que o meio de se conservar no poder era crear em
-volta de si interesses inseparaveis dos seus.
-
-Então mostrou a uma parte da sociedade metade da fortuna da outra
-dizendo-lhe--É tua.
-
-A partir d'este momento a ruina dos antigos proprietarios de
-Buenos-Ayres foi consumada, começando os amigos de Rosas a obter
-grandes fortunas.
-
-O que não tinha ousado pensar nenhum tyranno, o que não tinha vindo á
-idéa de Nero, foi executado por Rosas: depois de haver assassinado o
-pai prohibiu ao filho o deitar luto. A lei que continha esta prohibição
-foi proclamada e fixada nas esquinas, e bem necessaria foi, porque
-quando não, tudo em Buenos Ayres andaria de luto!
-
-Os excessos d'este despotismo admiraram alguns estrangeiros e sobre
-tudo alguns francezes. Rosas cansou a paciencia de Luiz Felippe,
-paciencia bem reconhecida, e logo depois teve lugar o primeiro bloqueio
-pela esquadra franceza.
-
-Entretanto as classes elevadas tão mal tractadas, commeçarão a fugir
-de Buenos Ayres e para encontrar um asylo refugiaram-se no estado
-oriental, onde a maioria da cidade proscripta achou hospitalidade.
-
-Foi em vão que a policia de Rosas redobrou de vigilancia, foi em vão
-que uma lei prohibio de morte a emigração, foi em vão que a essa morte
-se juntaram os mais crueis detalhes, porque Rosas conheceu bem depressa
-que a morte só não era sufficiente; o terror e o odio que inspirava
-Rosas eram mais fortes que os meios inventados por elle, e a emigração
-augmentava d'uma maneira espantosa a todos os momentos. Para realisar
-a fuga de toda uma familia, era só necessario encontrar um barco que
-a podesse transportar. Encontrado elle, pai, mãe, filhos, irmãos, ahi
-se lançavam, abandonando casa, bens, fortuna, e todos os dias, se via
-chegar ao estado oriental, isto é a Montevideo algumas d'essas barcas
-cheias de passageiros tendo por unica fortuna o fato que levavam em
-cima de si.
-
-Nenhum d'esses fugitivos teve de se arrepender da confiança que tinham
-posto na hospitalidade do povo oriental, pois essa hospitalidade foi
-como o teria sido a d'uma republica antiga; hospitalidade como devia
-esperar o povo argentino d'amigos, ou antes d'irmãos, que tantas vezes
-tinham combatido unidos para repellir os inglezes, hespanhoes ou
-brasileiros,--inimigos communs, inimigos estrangeiros--menos perigosos
-comtudo do que esse que havia nascido no meio d'elles.
-
-Os argentinos chegavão em grande quantidade, e erão esperados no
-porto pelos habitantes, que escolhiam em rasão dos seus recursos
-pecuniarios, ou do tamanho da sua casa os emigrados que podiam
-recolher. Então viveres, dinheiro, fato, tudo era posto á disposição
-d'esses desgraçados, até que elles tivessem alcançado alguns
-recursos, no que todos os coadjuvavão. Elles do seu lado reconhecidos
-entregavam-se ao trabalho, afim de alliviar o fardo que impunhão aos
-seus hospedes, dando-lhe assim os meios de receber novos fugitivos.
-Para poderem praticar tão nobre acção, as pessoas mais habituadas ao
-luxo trabalhavão nos misteres mais infimos, enobrecendo-se tanto mais a
-occupação a que se entregavam era em opposição com o seu estado social.
-
-Foi por este modo que os mais bellos nomes da republica argentina
-figuram na emigração.
-
-Lavallée, a espada mais brilhante do seu exercito, Florencio Varella,
-o seu mais bello talento, Aguero, um dos seus primeiros homens de
-estado; Echaverria, o seu Lamartine; La Vega, o Bayardo do exercito das
-Andes; Guttierez, o feliz cantor das glorias nacionaes; Alsina o grande
-advogado e illustre cidadão, pertencem ao numero dos emigrados, assim
-como apparecem Saenz, Valente, Molino, Torres, Ramos, Megia, grandes
-proprietarios; como apparecem, Rodrigues, o velho general dos exercitos
-da independencia, e unitario; Olozabal, um dos mais bravos d'esse
-exercito das Andes de que dissemos ter sido La Vega o Bayardo. Rosas
-perseguia igualmente o _unitario_ e o _federal_, não se preocupando
-senão de se desembaraçar de todos os que podiam ser um obstaculo á sua
-dictadura.
-
-É á hospitalidade concedida aos homens que elle perseguia que deve ser
-attribuido o odio de Rosas ao Estado oriental.
-
-Na épocha a que nos referimos a presidencia da republica era exercida
-pelo general Fructuoso Rivera.
-
-Rivera era camponez, como Rosas, como Quiroga; unicamente os seus
-instinctos erão humanitarios o que o fazia inimigo de Rosas. Como
-homem de guerra, a bravura de Rivera não podia ser excedida; como
-chefe de partido a sua generosidade não podia ser igualada. Durante
-trinta e cinco annos figurou nas scenas politicas do seu paiz. Quando
-a revolução contra a Espanha começou, Rivera sacrificou a sua fortuna,
-por que não era só generoso, era prodigo.
-
-Do mesmo modo que Rivera era prodigo para com os homens, Deus tinha
-sido prodigo para com elle. Era um bello cavalheiro, em todo o sentido
-da palavra hespanhola _caballero_, que comprehende ao mesmo tempo o
-soldado e o gentilhomem, de estatura elevada, de olhar prescutador,
-conversando com graça, e attraindo todos por um gesto particular
-que só lhe pertencia, sendo por isso o homem mais popular dos
-Estados orientaes. Mas se Rivera como homem era mui apreciavel, como
-administrador nunca houve nenhum que desorganisasse mais os recursos
-pecuniarios d'uma nação. Assim como havia destruido a sua fortuna
-particular, destruiu a fortuna publica, não para se enriquecer, mas
-porque homem publico tinha conservado todos os habitos do homem
-particular.
-
-Na epocha que descrevemos, essa ruina ainda não se fazia sentir:
-Rivera, commeçava a sua presidencia, e estava rodeado dos homens mais
-notaveis do paiz: Obez, Herrero, Vasques, Alvares, Ellauri, Luiz
-Eduardo Peres, erão verdadeiramente senão seus ministros ao menos seus
-directores, e com estes homens tudo o que era progresso, liberdade e
-prosperidade, estava promettido a este bello paiz.
-
-Obez, o primeiro dos amigos de Rivera era um homem d'um caracter
-respeitavel. O seu patriotismo, o seu talento eminente, a sua
-instrucção profunda o collocaram no numero dos grandes homens da
-America, e para que nada faltasse á sua popularidade, morreu no exilio
-victima do systema de Rosas no Estado oriental.
-
-Luiz Eduardo Peres, era o Aristides de Montevideo. Republicano severo,
-patriota exaltado, consagrou a sua longa existencia á virtude, á
-liberdade, e ao seu paiz.
-
-Vasquez, homem de talento e instrucção, rendeu os primeiros serviços ao
-seu paiz no cerco de Montevideo, na guerra contra a Hespanha e acabou a
-sua carreira durante o cerco contra Rosas.
-
-Herrera, Alvares, e Ellauri cunhados de Obez, não ficaram atraz dos que
-temos nomeado. Foram deffensores dedicados do Estado oriental, e de
-toda a causa americana, sendo por isso os seus nomes mui respeitados em
-todo o territorio americano.
-
-
-
-
- MANUEL ORIBE
-
-
-A presidencia de Rivera finalisou em 1834. O general Manuel Oribe
-foi quem lhe succedeu, por influencia do proprio Rivera que contava
-ter n'elle um amigo e continuador do seu systema. Com effeito Manuel
-Oribe tinha sido nomeado general por Rivera, e havia feito parte da
-precedente administração, como ministro da guerra.
-
-Oribe pertencia ás primeiras familias do paiz. O seu espirito era
-fraco, a sua intelligencia acanhada, explicando-se por isso a sua
-alliança com Rosas, a quem se entregou totalmente, sem pensar que essa
-alliança trazia comsigo a perda d'essa mesma independencia pela qual
-tantas vezes havia combatido.
-
-Como general a sua incapacidade era incompleta. As suas paixões tinham
-a violencia das organisações nervosas e arrastavam-n'o á crueldade.
-Como particular era um homem honesto.
-
-Como administrador foi mais economico que Rivera e não se lhe pode
-censurar o ter augmentado o defficit do thesouro, e comtudo é a
-elle que cabe toda a responsabilidade da ruina do Estado oriental.
-Esquecendo que para ser chefe de partido, não é sufficiente só o querer
-sel-o, recusou o ficar alliado do grande partido nacional de que Rivera
-era chefe. Querendo formar um partido seu, excitou a desconfiança de
-todos e espantado pela sua fraqueza lançou-se nos braços de Rosas.
-Ainda que o tratado tivesse ficado secreto todos conheceram esta
-alliança pelas hostilidades secretas do governo contra a emigração
-argentina e como todos detestavão o systema de Rosas, o paiz seguiu
-Rivera, quando elle em 1836 se collocou á frente d'uma revolução contra
-Oribe.
-
-Não obstante essa revolução em que tomou parte quasi todo o paiz, Oribe
-resistiu até 1838.
-
-Oribe deixou a presidencia por renuncia feita officialmente perante as
-camaras e sahiu do paiz tendo pedido ás mesmas camaras licença para se
-retirar.
-
-Rosas, vendo-o abandonar a sua posição, obrigou-o a protestar contra
-essa renuncia, e reconhece-o como chefe do paiz de que havia sido
-expulso. Foi o mesmo do que se Luiz Filippe, tivesse em Clermont
-reconhecido o duque de Bordeos como vice-rei da republica franceza.
-
-Em Montevideo zombaram ao principio d'essa excentricidade do dictador,
-mas elle preparava-se para mudar esses risos em lagrimas.
-
-A consequencia natural da conducta de Rosas era a guerra entre as duas
-nações.
-
-Esta guerra foi horrivel.
-
-Oribe, a quem alguns dos nossos jornaes, pagos por Rosas, chamaram o
-_illustre_ e o _virtuoso_ Oribe, foi ao mesmo tempo general e carrasco.
-
-Mostremos aos leitores algumas d'essas paginas de sangue publicadas
-pela _America do Sul_, e nas quaes vem registados dez mil assassinatos.
-
-Tomemos ao acaso alguns dos relatorios feitos a Rosas pelos seus
-agentes e officiaes.
-
-O general D. Marianno Achaque serve no exercito contrario a Rosas,
-defende S. João e no dia 22 de agosto de 1841 rende se depois de
-quarenta e oito horas de resistencia. D. José Ramires official de Rosas
-transmitte então ao governo de S. João o relatorio official d'este
-successo. Copiaremos estas linhas:
-
- _Tudo se acha em nosso poder, mas com perdão e garantia para
- todos os prisioneiros. Entre elles está um filho de Lamadrid._
-
-Agora leia-se o numero 2067 do _Diario da tarde_ de Buenos Ayres, de
-22 de outubro de 1841, e em opposição do documento official de José
-Ramires, que assegura a vida dos prisioneiros, veja o leitor o seguinte:
-
- Desaguedero, 22 de setembro de 1841.
-
- «_O selvagem unitario Marianno Acha foi hontem decapitado e a
- sua cabeça exposta ao publico._
-
- Assignado: _Angelo Pacheco._»
-
-É necessario não confundir este Pacheco, tenente de Rosas com seu primo
-Pacheco y Obes um dos seus inimigos mais encarniçados.
-
-O leitor deve lembrar-se que no relatorio de Ramires se acha esta frase.
-
- «_Entre os prisioneiros está um filho de Lamadrid._»
-
-Veja-se a _Gazeta Mercantil_, numero 5703, de 20 de abril de 1842 e
-ahi se encontrará esta carta escripta por Mazario Benavides a D. João
-Manoel Rosas:
-
- Miraflore 7 de abril de 1842.
-
- «Em um despacho precedente, dei-lhe parte dos motivos porque
- conservava o selvagem Gyriaco Lamadrid, mas sabendo que
- elle se tinha dirigido a muitos chefes da provincia para os
- resolver a tomar a sua defesa, mandei assim que cheguei a Rioja
- _decapital-o, assim como o salvagem unitario Manoel Julião
- Frias, natural de Santiago_.
-
- Assignado: _Mazario Benavides._»
-
-Manoel Oribe á testa dos exercitos de Rosas encarregados de submetter
-as provincias Argentinas, derrotou, a 15 de abril de 1842, no
-territorio de Santa-Fé as forças commandadas pelo general João Paulo
-Lopes.
-
-Entre os prisioneiros encontra-se o general D. João Martins.
-
-Lêde esse fragmento d'uma carta d'Oribe:
-
- «No quartel general de Banancas de Cosonda 17 de abril de
- 1842.--Trinta e tantos mortos e alguns prisioneiros, entre as
- quaes se achava _João Martines a quem hontem mandei decepar a
- cabeça_.
-
- Assignado: _Manoel Oribe._»
-
-Se ainda tendes em vosso poder a _Gazeta mercantil_, vêde o numero
-5903, de 20 de setembro de 1842, e ahi encontrareis um relatorio
-official de Manuel Antonio Saravia, empregado no exercito de Oribe.
-
-Este relatorio contém uma lista de desasete individuos, de que um era
-chefe de batalhão e outro capitão, que foram prisioneiros em Numayan,
-soffrendo ahi o _castigo ordinario da pena de morte_.
-
-Voltemos ao _illustre_ e _virtuoso_ Oribe, numero 3007 do _Diario da
-tarde_, onde vem o seguinte a proposito da batalha de Monte Grande.
-
- «Quartel general no Ceibal 14 de setembro de 1841.
-
- «Entre os prisioneiros foi encontrado o traidor selvagem
- unitario, ex-coronel Facundo Borda, que _foi executado
- immediatamente, com outros pertendidos officiaes de cavallaria
- e infanteria_.
-
- _Manoel Oribe._»
-
-Oribe estava feliz; um traidor lhe entregou o governador de Tucuman e
-os seus officiaes. Eis como elle annuncia esta noticia a Rosas.
-
- «Quartel general de Métau 3 de outubro de 1841.
-
- «Os selvagens unitarios que me entregaram o commandante
- Sandoval e que são Marion, o pertendido governador general
- de Tucuman, Avellanieda, o pertendido coronel J. M. Villela,
- o capitão José Espejo, e o tenente Leonardo de Sousa, _foram
- immediatamente executados na forma ordinaria_, á excepção
- de Avellanieda a quem ordenei que cortassem a cabeça, sendo
- exposta ao publico na praça de Tucuman.
-
- _Manoel Oribe._»
-
-Agora passemos a outro carrasco de Rosas.
-
- «Casamarca 29 do mez de Rosas 1841. A S. Excellencia o senhor
- governador Arredondo.
-
- «Depois de duas horas de fogo a infanteria foi passada á
- espada, e a cavallaria posta na mais completa desordem.
-
- «O general conseguiu escapar-se pela serra de Ambaste com
- trinta homens, mas foi perseguido e apanhado e a sua cabeça
- será bem depressa exposta na praça publica, assim como já o
- estão as dos perteadidos ministros Gonçalves Dulce e Espeche.
-
- «Viva a federação!
-
- Assignado: _M. Maza._»
-
- «_Lista dos selvagens unitarios pertendidos chefes e officiaes
- que foram executados depois da acção de 29_:
-
- «Coronel: Vicente Mercao.
-
- «Commandantes: Modesto, Villafane, João Pedro Ponce, Damasio
- Arias, Manoel Lopes, Pedro Rodrigues.
-
- «Chefes de batalhão; Manoel Riso, Santiago da Cruz.
-
- «Capitães: João de Deus Ponce, José Salas, Pedro Araujo,
- Izidoro Ponce, Pedro Barros.
-
- «Ajudantes: Damario Sarmento, Eugenio Novillo, Francisco
- Quinteros Daniel Rodrigues.
-
- «Tenente: Domingos Dias.
-
- Assignado: _M. Maza._»
-
-Apresentaremos mais esta carta de Maza, para depois voltarmos a Rosas.
-
- «Casamarca, 4 de novembro de 1841.
-
- «Já lhe disse que pozemos em completa desordem o selvagem
- unitario Cubas, e que era perseguido, esperando ter em breve
- em meu poder a cabeça do bandido. Foi com effeito prisioneiro
- no Cerro das Ambastes, e a sua cabeça está exposta na praça
- publica da cidade.
-
- «Depois da acção foram feitos prisioneiros dezenove officiaes
- que seguiam Cubas. _Não dei quartel._ O triumpho foi completo.
-
- _M. Maza._»
-
-Vejamos de passagem no _Boletim de Mendonça_ n.º 12, esta carta
-escripta no campo de batalha d'Arroyo Grande e dirigida ao governador
-Aldao pelo coronel D. Jeronymo Costa.
-
- «Fizemos prisioneiros mais de cento e cincoenta officiaes que
- foram executados immediatamente.»
-
-Todo o fogo de artificio tem o seu ramalhete, terminaremos pelo seu
-ramalhete este fogo de artificio de sangue.
-
-Prometti fallar de novo em Rosas, e vou agora cumprir a minha promessa.
-
-O coronel Zelallaran foi morto e a sua cabeça offerecida a Rosas que
-passou tres horas a dar-lhe pontapés. N'esse momento soube que um
-outro coronel, irmão d'armas do primeiro, havia sido feito prisioneiro.
-No primeiro momento teve tenção de o mandar fuzillar, mas depois
-mudou de resolução, e condemnou-o a ter doze horas por dia, durante
-tres dias, essa cabeça cortada em cima de uma meza que se devia achar
-collocada na sua frente.
-
-Rosas mandou fuzillar na praça de S. Nicolau alguns dos prisioneiros do
-general Paz.
-
-Entre elles estava o coronel Vedela antigo governador de S. Luiz; no
-meio do supplicio o filho do condemnado lançou-se nos braços de seu pae.
-
---Fuzillae ambos, disse Rosas.
-
-E o pae e o filho expiraram nos braços um do outro.
-
-Rosas mandou conduzir a uma das praças de Buenos Ayres oitenta
-prisioneiros indios, e em pleno dia e na presença de todos os mandou
-matar a estocadas.
-
-Camilla O'Gorman menina de dezoito annos e oriunda d'uma das principaes
-familias de Buenos-Ayres, foi seduzida por um padre de vinte e quatro,
-e fugiram ambos de Buenos-Ayres, refugiando-se n'uma pequena villa de
-Corrientes onde passando por esposos, estabeleceram uma pequena escola.
-Corrientes cahe em poder de Rosas, e os dous fugitivos reconhecidos
-por um padre e denunciados por elle a Rosas, são presos e conduzidos a
-Buenos-Ayres, onde sem julgamento Rosas os mandou fuzillar.
-
---Mas, diz alguem a Rosas, Camilla está gravida!
-
---Baptisae o ventre, diz Rosas, que como _excellente christão_, quer
-salvar a alma do menino.
-
-Esta cerimonia executada, Camilla O'Gorman foi fuzillada.
-
-Tres ballas atravessaram os braços da desgraçada mãe que os havia
-estendido para proteger seu filho...
-
-Depois d'isto como diremos que a França se pronunciou em favor de Rosas?
-
-E com effeito o tratado de 1840 assignado pelo almirante Mackan, firmou
-então o poder de Rosas, deixando só a republica oriental engagada na
-lucta.
-
-Foi então que appareceu Garibaldi na sua volta do Rio Grande.
-
-D'um lado Rosas e Oribe, isto é, a força, a riqueza, o poder combatendo
-pelo despotismo.
-
-Do outro lado, uma pequena republica, uma cidade arruinada, um thesouro
-exhausto, um povo sem recursos, não podendo pagar aos seus defensores,
-mas combattendo pela liberdade.
-
-Garibaldi não hesitou; e encaminhou-se para os deffensores da liberdade.
-
-Agora abandonamos a penna para lhe deixarmos contar a historia d'esse
-cerco, que como o de Troia, durou nove annos.
-
-
- FIM DO PRIMEIRO VOLUME
-
-
- * * * * *
-
-
- ÍNDICE
-
- PROLOGO 5
- I MEUS PAES 25
- II OS MEUS PRIMEIROS ANNOS 27
- III AS MINHAS PRIMEIRAS VIAGENS 29
- IV AS MINHAS PRIMEIRAS AVENTURAS 31
- V OS ACONTECIMENTOS DE S. JULIÃO 34
- VI O DEUS DOS BONS 38
- VII ENTRO AO SERVIÇO DA REPUBLICA DO RIO GRANDE 42
- VIII CORSARIO 45
- IX O RIO DA PRATA 48
- X AS PLANICIES ORIENTAES 50
- XI A POETISA 52
- XII O COMBATE 55
- XIII LUIZ CARNIGLIA 57
- XIV PRISIONEIRO 58
- XV A APOLEAÇÃO 60
- XVI VIAGEM NA PROVINCIA DO RIO GRANDE 62
- XVII A LAGOA DOS PATOS 65
- XVIII ARMAMENTO DE LANCHÕES EM CAMACUA 67
- XIX A ESTANCIA DA BARRA 69
- XX EXPEDIÇÃO A SANTA CATHARINA 75
- XXI PARTIDA E NAUFRAGIO 77
- XXII JOÃO GRIGGS 81
- XXIII SANTA CATHARINA 83
- XXIV UMA MULHER 85
- XXV O CRUZEIRO 87
- XXVI SAQUE DE IMERUI 90
- XXVII NOVOS COMBATES 91
- XXVIII A CAVALLO 94
- XXIX A RETIRADA 98
- XXX ESTADA NAS LAGES E NOS ARRABALDES 100
- XXXI BATALHA DE TAQUARI 103
- XXXII ASSALTO A S. JOSÉ DO NORTE 108
- XXXIII ANNITA 110
- XXXIV LEVANTA-SE O CERCO.--ROSSETTI 116
- XXXV A PICADA DAS ANTAS 118
- XXXVI CONDUCTOR DE BOIS 122
- XXXVII PROFESSOR DE MATHEMATICA E CORRETOR DE COMMERCIO 128
- MONTEVIDEO 130
- ROSAS 139
- QUIROGA 150
- MANUEL ORIBE 158
-
-
- * * * * *
-
-
- Nota do Transcritor
-
-
- Pontuação e hifenização foram normalizados.
-
- O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso
- em 1860. A ortografia originais foi mantida com exceção de alguns
- erros óbvios.
-
- Palavras em itálico e frases são apresentados por em torno do
- texto com sublinhados (_itálico_).
-
- O índice foi adicionado.
-
-
-
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Memorias de José Garibaldi, volume I, by
-Giuseppe Garibaldi
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIAS DE JOSE GARIBALDI, VOL 1 ***
-
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