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-The Project Gutenberg EBook of Memorias de José Garibaldi, volume I, by
-Giuseppe Garibaldi
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
-to check the laws of the country where you are located before using this ebook.
-
-Title: Memorias de José Garibaldi, volume I
- Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas
-
-Author: Giuseppe Garibaldi
-
-Translator: Alexandre Dumas
-
-Release Date: August 18, 2016 [EBook #52847]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: ISO-8859-1
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIAS DE JOSE GARIBALDI, VOL 1 ***
-
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-
-Produced by Júlio Reis, Leonor Silva and the Online
-Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net.
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-
- MEMORIAS
-
- DE
-
- JOSÉ GARIBALDI
-
- TRADUZIDAS DO MANUSCRIPTO ORIGINAL
-
- POR
-
- ALEXANDRE DUMAS
-
-
- VOLUME I.--SEGUNDA EDIÇÃO
-
-
- LISBOA--1860
- EDICTOR A. P. C.
- CHIADO, 83-85
-
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-
-
- [Ilustração: GARIBALDI.]
-
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-
-
- MEMORIAS DE GARIBALDI
-
-
-
-
- PROLOGO
-
-
-Como todo o presente tem ligação com o passado é impossivel começar
-qualquer narração, ainda que seja a historia de um homem ou de um
-successo, sem lançar os olhos para esse mesmo passado.
-
-Obrigados pelo caracter aventureiro do homem de que começamos hoje a
-publicar as memorias, seremos muitas vezes forçados a ir ao Piemonte,
-patria de Garibaldi. Os homens de acção politica, quando pertencem
-ao progresso, teem momentos de desalento, nos quaes como Anteo tem
-necessidade para recobrar novas forças de tocar n'essa terra patria
-que Bruto na sua fingida loucura beijava como a mãe commum. É pois mui
-importante fazer um estudo rapido dos acontecimentos que tiveram logar
-no Piemonte de 1820 a 1834, época em que começa esta historia.
-
-As guerras da republica e as invasões do imperio tinham trazido á
-Sardenha dous homens que haviam partido para o exilio ainda jovens e
-voltavam velhos; eram dois irmãos, nos quaes terminava a posteridade
-masculina dos duques de Saboia: fallamos de Victor Manuel I e Carlos
-Felix.
-
-Ambos reinaram.
-
-O ramo mais novo da familia Saboia era representado pelo principe
-de Carignan, que em 1823 fez como granadeiro do exercito francez a
-campanha de Hespanha, tendo-se distinguido principalmente no Trocadéro.
-
-Em 1840 n'uma audiencia que me concedeu mostrou-me o seu sabre de
-granadeiro, e as dragonas de lã encarnada que conservava como reliquias
-da mocidade.
-
-Victor Manuel I subindo ao throno, que provavelmente não lhe fora dado
-senão com esta condição, havia promettido aos soberanos seus alliados,
-o não fazer ao seu povo, fossem quaes fossem as circunstancias, em que
-se encontrasse a mais pequena concessão.
-
-Mas o que era facil de prometter em 1815, era difficil de cumprir em
-1821.
-
-Desde 1820 os carbonarios haviam-se espalhado em toda a Italia. Em um
-livro que é mais uma historia do que um romance, no _José Balsamo_
-dissemos as origens do illuminismo e da franc-maçonaria.
-
-Estes dois temiveis inimigos da realeza de que a divisa era L. P.
-D. (_Lilia Pedibus Destrue_) tiveram uma grande parte na revolução
-franceza. Swedenborg, de quem os adeptos assassinaram Gustavo III,
-era mago. Quasi todos os jacobinos e grande numero de _cordeliers_
-eram maçons, Philippe-Egalité era do grande oriente. Napoleão tomou a
-maçonaria debaixo da sua protecção, mas protegendo-a, desvirtuou-a,
-desviando-a dos seus fins, torcendo-a á sua conveniencia e fazendo
-d'ella um instrumento de despotismo. Não foi esta a unica vez que se
-forjaram cadeias com espadas.
-
-José Napoleão foi grão-mestre da ordem, o archi-chanceller Cambacéres
-grão-mestre adjunto. A imperatriz Josephina estando em Strasbourg em
-1805, presidiu á festa da adopção da loja dos franc-maçons de Paris.
-Por este mesmo tempo Eugenio Beauharnais era veneravel honorario da
-loja de Santo Eugenio de Paris, e tendo vindo mais tarde á Italia com a
-dignidade de vice-rei, o Grande Oriente de Milão o nomeou grão-mestre
-e soberano conservador do supremo conselho do gráo XXXII, isto é,
-concedeu-lhe a maior honra que segundo os estatutos da ordem se póde
-dar.
-
-Bernardotte era maçon, seu filho o principe Oscar foi grão-mestre
-da loja sueca. Em differentes lojas de Paris foram successivamente
-iniciados: Alexandre, duque de Wurtemberg, o principe Bernardo de
-Saxe-Weimar, e até o embaixador persa Askeri-Khan. O presidente do
-senado, conde de Lacépêde presidia ao grande Oriente de França de que
-eram officiaes os generaes Kellermann, Massena, Soult, os principes,
-os ministros e os marechaes, os officiaes, os magistrados, emfim todos
-os homens notaveis pela sua gloria ou consideraveis pela sua posição
-ambicionavam a honra de serem maçons. As proprias mulheres quizeram
-ter as suas lojas maçonicas, nas quaes entraram M.mes de Vaudemont,
-de Carignan, de Girardin, de Bosi, de Narbonne, e muitas outras
-pertencentes á alta aristocracia franceza. Uma unica foi recebida, não
-com o titulo de irmã, mas com o de irmão: foi a celebre Xaintrailles, a
-quem o primeiro consul tinha dado a patente de chefe de esquadrão.[1]
-Mas não era só em França que n'essa época florescia a maçonaria.
-
- [1] Giuseppe La Farina, Storia d'Italia.
-
-O rei da Suecia, em 1811 instituiu a ordem civil da maçonaria.
-Frederico Guilherme III da Prussia tinha, pelos fins do mez de julho
-de 1800 approvado a constituição da grande loja de Berlin. O principe
-de Galles não cessou de governar a ordem em Inglaterra, senão quando
-em 1813 foi nomeado regente. Emfim no mez de fevereiro 1814, o rei da
-Hollanda, Frederico Guilherme, declarou-se protector da maçonaria,
-e permittiu que o principe real, seu filho acceitasse o titulo de
-veneravel honorario da loja de Guilherme Frederico de Amsterdam.
-
-Depois da volta dos Bourbons á França o marechal Bournonville pediu a
-Luiz XVIII para collocar a maçonaria debaixo da protecção d'uma pessoa
-da familia real; mas como Luiz XVIII era dotado de excellente memoria,
-e não havia esquecido a parte que ella tinha tomado na catastrophe de
-1793 recusou, dizendo que nunca consentiria que membro algum da familia
-real, formasse parte de qualquer sociedade secreta fosse ella qual
-fosse.
-
-Na Italia a maçonaria cahiu com o dominio francez, mas em seu logar
-vieram os carbonarios, que mostravam querer continuar o seu pensamento
-libertador.
-
-Duas outras seitas appareceram ao mesmo tempo.
-
-Uma que se chamava a Congregação catholica apostolica romana, e a outra
-a Consistorial.
-
-Os socios da Congregação tinham, como signal de reconhecimento, um
-cordelinho de seda amarella com cinco nós. Os pertencentes aos gráos
-inferiores não fallavam senão de actos de piedade e benificencia. Dos
-segredos da seita, conhecidos unicamente pelos altos dignatarios, só se
-podia fallar quando se achavam presentes dois associados; se por acaso
-um terceiro chegava, a conversação cessava immediatamente. A palavra de
-passe dos confrades era _éleutheria_, isto é, _liberdade_, a palavra
-secreta era _ode_, isto é, _independencia_.
-
-Esta seita creada em França, entre os neo-catholicos, e a que
-pertenceram muitos dos nossos melhores e mais constantes republicanos,
-tinha atravessado os Alpes, chegado ao Piemonte e de lá á Lombardia.
-Mas aqui foram infelizes, pois obtiveram poucos adeptos, não tardando
-muito a extinguir-se, tendo os agentes de policia alcançado em Genova
-os diplomas que se entregavam aos adeptos assim como os estatutos e
-signaes de reconhecimento.
-
-A consistorial era dirigida principalmente contra os austriacos. Á sua
-frente se achavam os principaes principes da Italia que não pertenciam
-á casa de Kabsbourg e era presidida pelo cardeal Gonsalvi. O unico
-principe que não foi excluido foi o duque de Modena. Logo que esta
-liga foi conhecida começaram as terriveis perseguições d'este principe
-contra os patriotas. É que elle queria obter da Austria o perdão da
-sua deserção, sendo necessario o sangue de Menotti seu companheiro na
-conspiração para o alcançar.
-
-Os consistoriaes queriam tirar a Italia a Francisco II e dividil-a
-entre si.
-
-Além de Roma e da Romania que elle guardava, o papa adquiria a Toscana.
-A ilha de Elba e as Marchés passavam para o poder do rei de Napoles;
-Parma, Pelazainge, e uma parte da Lombardia, com o titulo de rei ao
-duque de Modena; Massa, Carrara, e Luca ao rei da Sardenha. Emfim o
-imperador Alexandre da Russia que pela sua aversão á Austria protegia
-esta conspiração, ou recebia Ancona, Civita-Vecchia, ou Genova para
-poder ter um estabelecimento no Mediterraneo. Por esta fórma sem
-se consultar a vontade dos povos nem as demarcações territoriaes,
-dispunha-se de uma grande porção de almas, negando-se-lhe esse direito
-de escolha a que a ultima creatura nascida no solo europeo tem direito.
-
-Por felicidade um unico de todos estes projectos, o dos carbonarios,
-parecia emanado de Deus e quasi a realisar-se.
-
-Os carbonarios em quem unicamente havia esperança augmentavam
-consideravelmente nas Romanias. Haviam-se reunido á seita dos guelfos
-que tinham a sua séde em Ancona, e se apoiavam nos bonapartistas.
-
-Luciano tinha sido elevado á dignidade de grão-mestre da ordem. Nas
-reuniões secretas mostrava-se a necessidade de tirar aos padres o poder
-que haviam alcançado; invocava-se o nome de Bruto e preparavam-se os
-animos á revolta.
-
-Em a noute de 24 de junho teve logar a revolução, obtendo o funesto
-resultado que todas as primeiras tentativas d'este genero costumam
-alcançar. Toda a religião que deve ter apostolos, começa por ter
-martyres. Cinco carbonarios foram fuzilados, outros condemnados ás
-galés perpetuamente, e alguns julgados menos culpados foram encerrados
-por dez annos em uma fortaleza.
-
-Então a seita tornando-se mais prudente mudou de nome, começando
-a chamar-se a Sociedade Latina. Nesta occasião a mesma sociedade
-conspirava na Lombardia, estendendo-se pelas outras provincias da
-Italia. No meio d'um baile dado pelo conde Porgia em Rovigo o governo
-austriaco fez prender muitas pessoas e declarou no dia seguinte
-criminoso d'alta traição todo o individuo que se filiasse nas lojas dos
-carbonarios.
-
-Em Napoles foi aonde a rebellião appareceu com mais violencia. Cobetta
-affirma na sua historia que o numero dos carbonarios era de 642:000 e
-segundo um documento da chancellaria aulica de Vienna este numero ainda
-está muito abaixo da verdade. «Os carbonarios nas Duas Sicilias diz
-este documento contam mais de 800:000 adeptos, e não havendo policia
-nem vigilancia possivel para evitar tal alistamento seria loucura
-tentar anniquilal-os.»[2]
-
- [2] Storia Italia.--La Farina.
-
-Ao mesmo tempo que a rebellião tinha logar em Napoles, Riego, outro
-martyr que deixou um cantico de morte, tornado depois em canção de
-victoria, levantava no 1.º de janeiro de 1820 a bandeira da liberdade,
-e um decreto de Fernando VII annunciou que tendo-se manifestado a
-vontade do povo, estava prompto a jurar a constituição proclamada pelas
-côrtes geraes e extraordinarias de 1812.
-
-As prisões abrindo-se deram um ministerio á Hespanha.
-
-Fernando I de Napoles na sua qualidade de principe de Hespanha, devia,
-ficando rei absoluto, jurar obediencia á constituição hespanhola.
-Teve então logar uma grande rebellião na Calabria, em Capitanata e em
-Palermo. O governo napolitano fraco, indeciso e desconfiado decretou
-algumas refórmas insufficientes que não impediram o general Pepe
-de fazer uma revolução. Napoles teve então como 1798, um governo
-provisorio e uma camara de deputados.
-
-Foi algum tempo depois que por sua vez rebentou a revolução piemonteza.
-Na manhã de 10 de março o capitão conde Palma dando o grito de «o rei e
-a constituição hespanhola» fez pegar em armas ao regimento de Genova.
-
-No dia seguinte um governo provisorio estava estabelecido, e em nome do
-reino de Italia declarava a guerra á Austria.
-
-D'este modo a revolução partindo d'Ancona tinha chegado a Napoles
-voltando a Turim. Tres volcões se tinham aberto na Italia sem contar a
-Hespanha; agitando-se a Lombardia n'um triangulo de fogo.
-
-O rei Victor Manuel havia promettido, como já dissemos, á santa
-alliança não fazer ao seu povo nenhuma concessão.
-
-No dia seguinte para ficar fiel á sua palavra, o rei Victor Manuel
-abdicou em favor de seu irmão Carlos Felix que se achava então em
-Modena, e nomeou regente o principe de Carignan, que foi depois o rei
-Carlos Alberto.
-
-Para todos os patriotas esta abdicação de um rei dedicado aos italianos
-em um principe dominado pela côrte de Austria era uma grande desgraça.
-
-Santa Rosa um dos primeiros promotores da rebellião diz:
-
- «A noute de 13 de março de 1821 foi bem fatal para minha
- patria. Foi n'essa noute que perdemos todas as nossas
- esperanças, foi n'essa noute que milhares de espadas erguidas
- para a defeza da patria se abaixaram. Com o rei Victor Manuel
- a patria estava no rei, ella se personalisava n'esse coração
- leal, e nós fazendo esta revolução, diziamos: «Coragem! O rei
- talvez um dia nos perdoe de o havermos feito senhor de seis
- milhões de italianos.»
-
-Com Carlos Felix succedia exactamente o contrario. Estavam outra vez
-debaixo do jugo da Austria, e viam-se obrigados a começar de novo os
-seus trabalhos.
-
-Comtudo toda a esperança ainda não estava perdida.
-
-No dia 14 de março o principe de Carignan nomeado regente appareceu á
-janella, e no meio dos vivas calorosos do povo proclamou a constituição
-de Hespanha.
-
-Como este facto devia ter no futuro grande importancia, como o principe
-Carlos Alberto devia um dia desmentir o principe de Carignan, é
-necessario não só citar o facto da constituição proclamada em alta voz,
-mas tambem dar uma cópia do edital que foi affixado nos muros de Turim.
-
-Eis a traducção fiel:
-
- «Nas circumstancias difficeis em que nos achamos é necessario
- sahir fóra dos limites que a nossa qualidade de regente nos
- impõe. O nosso respeito e submissão a sua magestade Carlos
- Felix, actual soberano, devia-nos obstar a que fizessemos
- alguma alteração nas leis fundamentaes do estado, até que
- soubessemos as intenções do nosso novo soberano, mas como as
- circumstancias imperiosas porque passamos são conhecidas por
- todos, e como queremos entregar ao novo rei um povo socegado e
- feliz e não despedaçado pela guerra civil, decidimos, ouvido
- o nosso conselho e na esperança de que sua magestade levado
- pelas mesmas considerações, revistirá a nossa deliberação da
- sua approvação soberana, que a constituição de Hespanha seja
- reconhecida como lei do estado, fazendo-se as alterações que o
- rei e a representação nacional entenderem.»
-
-Eis o que os carbonarios tinham obtido cinco annos depois do seu
-estabelecimento em Italia: uma constituição em Hespanha, outra em
-Napoles, e outra no Piemonte.
-
-Mas esta tendo sido a ultima em apparecer, foi a primeira a ser
-destruida.
-
-Em logar de voltar a Genova ou a Milão, em logar de approvar as
-liberdades concedidas pelo principe de Carignan, o rei Carlos Felix
-publicou no dia 3 de abril seguinte o edito que vamos ler:
-
- «_Sendo o dever de todo o subdito fiel sujeitar-se da melhor
- vontade á ordem de cousas estabelecidas por Deus e pelo
- exercicio da soberana authoridade, declaro que emanando o nosso
- poder só de Deus, só a nós pertence escolher os meios que
- julgarmos mais convenientes para chegar a qualquer fim, e que
- em consequencia não teremos como subdito fiel aquelle que se
- atrever a murmurar contra as medidas que julgarmos necessario
- adoptar, ficando conhecidos só como vassallos fieis aquelles
- que se submetterem immediatamente, impondo esta submissão como
- condicção para voltarmos aos nossos estados._»
-
-Ao mesmo tempo que o rei Carlos Felix publicava este edito modelo de
-cegueira e asneira, nomeava uma commissão militar encarregada de tomar
-conhecimento dos crimes de traição, rebellião e insubordinação que
-tinham sido commettidos.
-
-Felizmente os principaes criminosos, isto é, aquelles de que os nomes
-são hoje os mais gloriosos do Piemonte, haviam tomado a fuga.
-
-A commissão nomeada por Carlos Felix não perdeu o tempo. Em cinco
-mezes, cento e setenta e oito prisioneiros foram julgados. Setenta
-e tres foram condemnados á morte e ao fisco, e os outros á prisão
-e galés. Dos condemnados á morte sessenta eram contumazes e foram
-enforcados em effigie.
-
-Julgamos conveniente dizer os nomes d'esses homens para que se conheçam
-aquelles que feriram esse poder estupidamente absoluto que desde
-Tarquino não tem sabido abater senão as cabeças mais intelligentes e
-elevadas.
-
-Eram os tenentes Pavia e Ansaldi, o medico Ratazzi, o engenheiro
-Appiani, o advogado Dossena, o advogado Lurri, o capitão Baroni, o
-conde Bianco, o coronel Regis, o major Santa-Rosa, o capitão Lesio,
-o coronel Caraglio, o major Collegno, o capitão Radice, o coronel
-Morozzo, o principe della Cisterna, o capitão Ferraso, o capitão
-Pachiarotte, o advogado Marochetti, o segundo tenente Auzzano, e o
-advogado Ravina.
-
-Ao todo seis officiaes superiores, trinta officiaes subalternos,
-cinco medicos, dez advogados, e um principe, todos notaveis pela
-intelligencia e pelas qualidades moraes.
-
-Dois tinham sido presos e executados.
-
-Eram o tenente de carabineiros João Baptista Lanari e o capitão Jacome
-Garelli.
-
-Um foi executado a 21 de julho, e o outro a 25 de agosto.
-
-O principal criminoso era, sem duvida, Carlos Alberto, pois havia
-proclamado a constituição, não como dizem os seus partidarios, _salvo a
-approvação de Carlos Felix_, mais n'estes termos que estão mui longe de
-serem reservados:
-
- «_Nella fiducia che sua Maesta il re, nosso dál eistesse
- considerazioni_ SARA PER RIVESTIRE _questa deliberazione della
- sua socrasia approvazione, la constituzione di Spagna_ SARA
- PROMULGATA ET OSSERVATA COM LEGE DELLO STATO.»
-
-Por isso assim que o principe de Carignan recebeu a carta que lhe
-participava a recusa do rei Carlos Felix, correu a Modena, mas o rei
-recusou recebel-o e o duque mandou-o intimar para deixar os seus
-estados.
-
-O principe de Carignan retirou-se para Florença para o lado do grão
-duque de Toscana.
-
-Para Carlos Alberto não se tratava unicamente de um simples exilio, ou
-d'um desvalimento momentaneo, mas sim da perda do throno do Piemonte.
-Espalhou-se então que Carlos Felix legava a corôa ao duque de Modena, e
-este que não a havia alcançado na conspiração dos principes italianos
-contra a Austria, esperava esta vez realisar a sua ardente ambição.
-
-O principe de Carignan disse ao conde de la Maison-Fort, nosso ministro
-em Florença, qual era a sua posição, e este escreveu a Luiz XVIII
-relatando-lhe tudo.
-
-Eis um fragmento da carta d'este ministro:
-
- «Para despojar o principe de Carignan da sua herança é
- necessario chamar ao throno a duqueza de Modena, filha mais
- velha do rei Victor Manuel. Esta facilidade em affastar a nobre
- casa da Saboia de um throno por ella creado, esta ingratidão,
- exemplo do seculo em que vivemos, não póde ser partilhada
- pelo chefe de uma casa alliada com a Saboia dezoito vezes. A
- França pois não póde seguir esta politica, porque tem ao menos
- o direito de exigir a completa independencia do soberano que
- possue a chave da Italia.»
-
-Luiz XVIII foi de opinião do seu ministro, e escreveu ao principe
-offerecendo-lhe um refugio na côrte de França. A conducta de Luiz XVIII
-era o mesmo que dizer--Não tem cousa alguma a receiar, tomo-o debaixo
-da minha protecção e não consentirei que outro seja rei do Piemonte.
-
-E na verdade um rei que havia dado a carta ao seu povo, não podia
-criminar um principe por ter promettido uma constituição que não havia
-reconhecido.
-
-Das tres constituições creadas pelos carbonarios, uma, a do Piemonte
-tinha sido logo anniquilada pelo rei Carlos Felix; a de Napoles havia
-sido destruida pela invasão austriaca, e a terceira, a unica existente
-ia desapparecer com a invasão franceza.
-
-Era, pois, necessario ao principe de Carignan que havia proclamado a
-constituição hespanhola em Turim ir combater essa mesma constituição a
-Madrid.
-
-Na realidade era uma posição difficil para o principe, mas a corôa do
-Piemonte tinha muitos attractivos para elle se occupar de bagatellas.
-
-O principe de Carignan occultou a vergonha debaixo da barretina de
-granadeiro; fez a campanha de Hespanha e foi um dos vencedores de
-Trocadéro. D'esta sorte quando Carlos Felix falleceu, 27 de abril de
-1851, o principe de Carignan subiu ao throno, com o nome de Carlos
-Alberto, tendo a vencer poucas difficuldades. A Austria que antes
-queria ver no throno o seu archi-duque de Modena, enfureceu-se
-e apresentou aos reis Carlos Alberto como um carbonario, e aos
-carbonarios como um traidor.
-
-A Austria mentia.
-
-Carlos Alberto não era carbonario: a proclamação em que concedia a
-constituição mostrava que a dava contra sua vontade.
-
-Carlos Alberto não era um traidor, era um principe que ambicionando o
-titulo de rei, não havia feito compromissos pessoaes. A vergonha de ir
-abolir á Hespanha a constituição que tinha proclamado em Turim, tinha
-desapparecido pela coragem do granadeiro: o soldado havia absolvido o
-principe.
-
-D'esta sorte a sua acclamação foi saudada com alegria pelos patriotas
-italianos.
-
-Del Pozzo escreveu-lhe de Londres aonde se achava refugiado:
-
- «Os meios termos e as medidas incompletas na politica
- não servem para cousa alguma: o Piemonte quer um rei
- constitucional.»
-
-Outro patriota que guardou o incognito, escreveu-lhe de Marselha:
-
- «Colloque-se á frente da nação, escreva na sua
- bandeira--_União, liberdade e independencia_--declare se
- vingador e interprete dos direitos populares, trate de
- regenerar a Italia, livre-a dos seus inimigos, e cuidando
- no futuro dê o seu nome a um seculo, e seja o Napoleão da
- liberdade italiana.
-
- «Atire á Austria com a luva o nome da Italia, e estou certo que
- com este escudo fará prodigios. Appelle para tudo o que ha de
- grande e generoso na Peninsula. Uma mocidade ardente e corajosa
- impellida pelas duas paixões que fazem os heroes, o odio e a
- gloria, vive ha muito tempo com um só pensamento, e o seu mais
- ardente desejo é realisal-o.
-
- «Chame essa mocidade ás armas, ponha as cidades e fortalezas
- debaixo da guarda dos cidadãos, e livre por este modo de todo
- e qualquer cuidado que não seja o vencer, reuna em volta de si
- todos aquelles que sendo notaveis pela intelligencia e pelo
- valor estejam isemptos de paixões infames. Inspire confiança
- ao povo, dissipe todas as duvidas sobre as suas intenções,
- chamando para o seu lado os homens livres. Senhor, digo-lhe a
- verdade: os verdadeiros patriotas hão-de avalial-o pelas suas
- acções, mas sejam ellas quaes forem, esteja seguro de que a
- posteridade verá em V. M. o primeiro dos homens ou o ultimo dos
- tyrannos.
-
- «Escolha.»
-
-O que na realidade torna os reis os escolhidos do Senhor é que só
-a elles se escrevem similhantes cartas. Se Carlos Alberto tivesse
-seguido os conselhos do seu mysterioso correspondente, teria sem duvida
-começado por Goita, mas talvez não tivesse finalisado por Novara.
-
-Carlos Alberto despresou estes conselhos, e em logar de entrar no largo
-caminho que se lhe apresentava, metteu-se em uma estrada tortuosa
-d'onde poucos teem saido incolumes.
-
-Desde este momento o divorcio foi declarado entre o rei da Sardenha e
-a joven Italia. A joven Italia! Foi por esta epocha que pela primeira
-vez se pronunciaram estas tres palavras. De que se compunha ella então?
-De José Mazzini o infatigavel promotor da união italiana. José Mazzini
-apenas conhecido n'esta epocha por algumas publicações politicas
-vendo-se perseguido pela policia havia-se refugiado em Marselha aonde
-collocava a primeira pedra da sua grande empreza enviando com milhares
-de difficuldades para o Piemonte os exemplares da sua _Joven Italia_.
-
-A nobreza e o clero piemontez que se haviam apoderado do espirito de
-Carlos Alberto, começaram a receiar pelo seu poder. Havia dois annos
-que se tinham estabelecido na côrte, e por isso conheciam qual elle
-era. Desconfiavam da politica duvidosa de Carlos Alberto, e tinham medo
-que um dia lhe apparecesse, não alguma sombra de liberdade, mas sim uma
-idéa ambiciosa. Sabiam que Carlos Alberto n'essas noites de febre, como
-só os reis teem, sonhava com o throno da Italia.
-
-Para alcançar esse throno seria necessario coadjuvar a revolução. O
-throno de Italia não estava á disposição dos reis, mas sim do povo.
-
-Era necessario collocar uma barreira entre elle e os patriotas.
-
-Um dia alguem disse:
-
-É tempo de lhe fazer derramar algum sangue.
-
-No mesmo dia Carlos Alberto foi prevenido de que no exercito uma grande
-conspiração se tramava com o fim de lhe tirar o throno.
-
-Os factos foram desnaturados, os perigos exagerados. Attacaram todas as
-fibras do homem e do principe para lhe dar esse ressentimento mortal de
-que tinham necessidade esses homens que se intitulam os salvadores das
-monarchias.
-
-Uma commissão criminal extraordinaria foi creada em Turim para dirigir
-todos os supplicios que tivessem logar no Piemonte.
-
-Esta commissão decidiu que todos os accusados militares ou paisanos
-seriam sentenciados por ella. Foi a primeira violação do codigo penal.
-
-Por esta occasião é que se deu o facto memoravel que vamos relatar.
-
-Um official que se assentava como juiz no conselho de investigação
-fez algumas perguntas sobre principios de direito criminal a um
-jurisconsulto. Este respondeu-lhe que a primeira base de toda e
-qualquer lei, que a primeira regra de todo o codigo era:
-
- «Que um conselho de investigação militar se devia declarar
- incompetente para julgar cidadãos.»
-
---Isso é impossivel, disse o official, porque o general ordenou que nos
-declarassemos competentes.
-
-D'esta vez a base da lei, a regra do codigo foi a ordem do general.
-
-O primeiro que manchou com o seu sangue o manto do novo rei, foi o cabo
-Tamburelli, que foi fuzilado pelas costas, por haver commettido o crime
-de lêr aos seus soldados a _Joven Italia_. O segundo foi o tenente
-Tolla culpado por ter tido em seu poder livros sediciosos, e conhecendo
-o author não o haver denunciado. Como Tamburelli foi fuzilado pelas
-costas. Era uma engenhosa invenção da magistratura piemonteza para
-assemelhar o supplicio do fuzilado ao da forca.
-
-Já não era sufficiente matar, era preciso tambem deshonrar. A de 15 de
-Junho foram tão bem fuzillados _pelas costas_ o sargento Miglio, José
-Deglia e Antonio Gaortti.
-
-Todos morreram com uma coragem admiravel.
-
-Jacopo Rufini estava encerrado nas prisões da torre de Genova. Tentavam
-tirar-lhe as forças por todos os meios possiveis: falto de comida e de
-somno, sentia que se enfraquecia, não só physicamente, mas moralmente,
-por isso resolveu não esperar que o collocassem entre a morte e a
-vergonha, e receiando que chegado esse momento não tivesse forças
-para escapar á morte, arrancou uma lança de ferro da porta da prisão,
-afiou-a e degolou-se com ella.
-
-Nas agonias da morte teve forças sufficientes para escrever na muralha
-com letras de sangue:
-
- «Lego á Italia a minha vingança.»
-
-Quando no dia seguinte entraram na prisão acharam-n'o morto.
-
-Em Genova foram fuzilados Luciano Placenzo e Luiz Turfo.
-
-Em Alexandria Domingos Ferrari, José Menardi, José Rigano, Assani
-Costa, Giovanni Marini e depois Andrea Vochieri.
-
-Escreveremos algumas linhas sobre Andrea Vochieri, assim como fizemos
-de Jacopo Rufini.
-
-Um condemnado d'Alexandria que escapou ás torturas de Fenestrelle,
-deixou nas suas memorias a narração da agonia de Andrea Vochieri:
-
- «Tiraram-me, diz elle, fallando de si, os meus livros que
- se compunham de uma Biblia, de um livro de orações e de uma
- Historia dos Capuchos illustres do Piemonte. Depois pozeram-me
- ferros aos pés e conduziram-me a outra prisão mais humida mais
- escura e mais sordida que primeira. As janellas tinham duas
- ordens de grades e as portas cadêas dobradas. Esta prisão
- era proxima da do pobre Vochieri. Alguns buracos na parede
- permittiam-me ver tudo quanto ali se passava.
-
- «Estava deitado em um miseravel banco com ferros aos pés, dois
- guardas collocados ao lado com a espada núa, e uma sentinella
- armada com uma espingarda se achava á porta. Reinava n'este
- medonho carcere um silencio sepulchral e os soldados pareciam
- mais consternados do que o proprio prisioneiro. Dois frades
- capuchos vinham com curtos intervallos vel-o e exhortal-o.
-
- «Apesar da grande dôr que sentia em vêr aquelle martyr em
- similhante estado não podia deixar de o contemplar a todos os
- momentos. No fim de oito dias vieram buscal-o para o conduzir á
- morte.»
-
-O que este prisioneiro não relata porque não o sabia, é que Vochieri
-foi levado ao supplicio pelo caminho mais longo, sendo obrigado a
-passar por defronte da casa aonde habitava sua irmã, sua esposa e seus
-filhos. Esperavam que vendo tudo o que elle tinha de mais cara no mundo
-perdesse a coragem e fizesse algumas revelações.
-
-Vochieri sorriu tristemente:
-
---Esqueceram, disse elle, que ha no mundo uma coisa que adoro mais do
-que esposa, irmã e filhos... é a Italia. Viva a Italia!
-
-Voltando-se então para os guardas que o iam fuzilar, e que eram
-condemnados das galés em logar de soldados, disse esta unica palavra:
-
---Vamos!
-
-Quinze minutos depois cahia atravessado por seis ballas.
-
-Havia n'essa época em Niza um mancebo de vinte e seis annos que vendo
-correr este sangue fazia comsigo mesmo o juramento de consagrar toda a
-sua vida ao culto d'essa liberdade pela qual morriam tantos martyres.
-
-Esse mancebo era GARIBALDI.
-
- =ALEXANDRE DUMAS.=
-
-
-
-
- MEMORIAS DE GARIBALDI
-
- I
-
- MEUS PAES
-
-
-Nasci em Niza, a 22 de julho de 1807, não só na casa, mas no proprio
-quarto em que nasceu Masséna. O illustre marechal era, como ninguem
-ignora, filho de um padeiro. Nas lojas d'aquelle predio ainda hoje se
-conserva uma padaria.
-
-Antes de fallar a meu respeito seja-me permittido dizer duas palavras
-de meus estimados paes de que o excellente caracter e profunda ternura
-tanta influencia tiveram na minha educação e disposições physicas.
-
-Meu pae, Domingos Garibaldi, natural de Chiavari, era como meu avô
-maritimo. Vindo ao mundo o primeiro objecto que seus olhos viram foi o
-mar, e era no mar que devia passar quasi toda a sua vida. Estava bem
-longe de possuir os conhecimentos que são o apanagio dos homens da sua
-classe, e principalmente do nosso seculo. Não havia formado a sua
-educação em uma escóla especial, mas sim nos navios de meu avô.
-
-Mais tarde capitaneou uma embarcação com grande felicidade. Soffreu
-immensos incidentes uns felizes, outros desgraçados, e muitas vezes
-ouvi dizer que nos poderia ter deixado mais bens de fortuna do que nos
-legou.
-
-Mas que importa isso! Meu pobre pae era livre de gastar como
-intendesse um dinheiro tão laboriosamente ganho, e eu não lhe sou
-menos reconhecido por esse facto. De mais ha uma coisa, de que estou
-intimamente convencido e é, de que todo o dinheiro que dispendeu n'este
-mundo o que gastou com a minha educação foi o que com mais prazer saín
-das suas algibeiras apesar dos grandes sacrificios que para isso era
-obrigado a fazer.
-
-Não julguem por isto que a minha educação foi aristocratica. Meu
-pae não me mandou ensinar gymnastica, jogo d'armas ou equitação. A
-gymnastica apprendi-a trepando pelos cabos dos navios, e deixando-me
-escorregar pelas enxarcias; a esgrima defendendo a minha cabeça e
-tentando o melhor que podia quebrar a dos outros, e a equitação tomando
-os exemplos dos primeiros cavalleiros do mundo, isto é, dos Gauchos.
-
-O unico exercicio corporal da minha mocidade, para o qual tambem não
-tive mestre, foi a natação. Não me lembro quando, e como aprendi a
-nadar, mas julgo que sempre o soube, pois desconfio que nasci amphibio.
-Assim não obstante o pouco prazer que tenho em me prodigalisar elogios,
-como sabem todos aquelles que me conhecem, não posso deixar de dizer
-que, sou um dos melhores nadadores existentes. Sendo conhecida a
-confiança que tenho em mim é escuzado dizer que nunca hesitei em me
-atirar á agua quando era necessario salvar um dos similhantes.
-
-Entretanto se meu pae não me mandou ensinar todos estes exercicios a
-culpa não foi sua, mas sim da epocha calamitosa porque atravessavamos.
-N'estes tempos desgraçados o clero era o senhor absoluto do Piemonte,
-e todos os seus esforços eram tornar os mancebos em frades inuteis e
-mandriões em logar de cidadãos aptos para servirem a nossa desgraçada
-patria. O amor profundo que me consagrava meu pobre pae, até lhe fazia
-receiar que se eu recebesse alguma instrucção, isso me fosse funesto
-para o futuro.
-
-Rosa Raymundo, minha mãe, era, digo-o com bastante orgulho, o modelo
-das mulheres. Todo o bom filho deve dizer o mesmo de sua mãe, mas
-nenhum o dirá com mais justiça do que eu.
-
-Um dos remorsos de toda a minha vida, talvez o maior, foi e será o
-ter tornado desgraçados os seus ultimos dias! Só Deus sabe quanto ella
-soffreu com a minha vida aventureira, porque só Deus sabe o immenso
-amor que minha mãe me consagrava. Se em mim existe algum sentimento
-bom, confesso-o, e com bastante ufania, é a ella a quem o devo. O seu
-caracter angelico devia forçosamente deixar-me alguns vestigios. Não
-será á sua piedade pelos desgraçados, á sua compaixão pelos infelizes,
-que eu devo este amor pela patria, amor que me mereceu a affeição e
-sympathia dos meus compatriotas?
-
-Não sou supersticioso, mas devo dizer que nas circumstancias mais
-criticas da minha vida, quando o oceano rugindo erguia o meu navio como
-um pedaço de cortiça, quando as bombas assobiavam a meus ouvidos como
-o vento da tempestade, quando as ballas cahiam em volta de mim como a
-saraiva, via sempre minha pobre mãe ajoelhada aos pés do SENHOR orando
-pelo filho das suas entranhas. Se algumas vezes mostrei uma coragem
-de que muitos se admiraram, é porque estava convencido de que não me
-succederia desgraça alguma quando tão santa mulher, quando similhante
-anjo orava por mim.
-
-
-
-
- II
-
- OS MEUS PRIMEIROS ANNOS
-
-
-Os primeiros annos da minha mocidade foram passados, como são os de
-todas as creanças, isto é, rindo e chorando sem saber porque, estimando
-mais o prazer que o trabalho, os divertimentos que o estudo, e não
-aproveitando, como devia ter feito, os sacrificios que meus paes faziam
-por meu respeito. Cousa alguma extraordinaria aconteceu durante a minha
-infancia. Tinha um excellente coração, sendo este um bem emanado de
-Deus e de minha mãe. Escusado é dizer que os impulsos d'esse coração
-eram por mim immediatamente satisfeitos. Tive sempre grande compaixão
-por tudo o que era fraco e soffredor. Esta compaixão estendia-se
-até aos animaes, ou antes começava por elles. Lembra-me de que um
-dia apanhei um grillo e que levando-o para o meu quarto, ahi passei
-alguns momentos brincando com elle, até que com essa inepcia ou antes
-brutalidade da infancia lhe arranquei uma perna: a minha dôr foi tal,
-que passei muitas horas encerrado no meu quarto chorando amargamente.
-
-Outra vez indo a Var á caça com um primo meu, parei ao pé d'um profundo
-fosso aonde as lavadeiras costumavam lavar a roupa e aonde n'aquelle
-momento se achava uma pobre mulher lavando a sua. Não sei como, mas
-esta desgraçada caiu no fosso. Apesar de ser mui novo--tinha então oito
-annos--atirei-me á agua conseguindo salval-a. Conto este caso para
-provar quanto é natural em mim um sentimento que me leva a soccorrer o
-meu similhante, e para se conhecer o pouco valor que tem o fazel-o.
-
-Entre os professores que tive n'esta epocha da minha vida, contam-se o
-padre Giovanni e o senhor Arene, a quem eu conservo um reconhecimento
-particular.
-
-Com o primeiro aproveitei pouco, porque, como já disse, tinha mais
-disposição para brincar e vadear, do que para trabalhar. Resta-me
-sobre tudo o pesar de não haver estudado o inglez, como o teria podido
-fazer, porque sendo o padre Giovanni de casa e quasi de familia, as
-suas lições resentiam-se da muita familiaridade que entre nós existia.
-Todas as vezes que sou obrigado a tractar com inglezes, que não são
-poucas, este sentimento renova-se sempre. Ao segundo, optimo professor,
-é a quem devo o pouco que sei, mas o que mais lhe agradeço, e porque
-lhe serei eternamente grato, é haver-me ensinado a minha lingua materna
-pela constante leitura da historia romana.
-
-A grave falta de não ensinar ás creanças a lingua e historia patria é
-frequentemente commettida em Italia, e principalmente em Niza, onde
-a proximidade de França influe muitissimo na educação. É pois a esta
-primeira leitura da nossa historia, e á persistencia com que meu irmão
-mais velho, Angelo, me recommendava o seu estudo, que eu devo o pouco
-que sei da sciencia historica e a facilidade de exprimir os meus
-pensamentos.
-
-Termino este primeiro periodo da minha juventude narrando um facto que,
-apezar da sua pouca importancia dará uma idéa da minha disposição para
-a vida aventureira.
-
-Fatigado de estudar, e soffrendo muito pela vida sedentaria que era
-obrigado a levar, propuz um dia a alguns dos meus companheiros que
-fugissemos para Genova. A proposta foi logo approvada e desatando um
-barco de pesca fizemo-nos de véla para o Oriente. Estavamos nas alturas
-de Monaco quando um pirata, mandado por meu excellente pae nos apanhou
-e entregou cheios de vergonha ás nossas familias. Um abbade que nos
-havia visto foi o denunciante. D'este facto é que provavelmente vem as
-poucas sympathias que sinto pelos abbades.
-
-Os meus companheiros n'esta aventura eram, se bem me recordo, César
-Parodi, Rafael de Andreis e Celestino Dermond.
-
-
-
-
- III
-
- AS MINHAS PRIMEIRAS VIAGENS
-
-
-«Oh! primavera, juventude do anno. Oh! juventude, primavera da vida!»
-disse Metastasio, eu ajuntarei: Como tudo se aformosea ao sol da
-juventude e da primavera!
-
-Foi illuminado por esse bello sol que tu linda _Constanza_, primeiro
-navio em que sulquei os mares, me appareceste. Os teus robustos
-flancos, a tua elevada e ligeira mastreação, a tua espaçosa coberta,
-e até o busto de mulher que se patenteava soberbo na tua prôa,
-ficarão eternamente gravados na minha idéa! Como os teus marinheiros,
-verdadeiros typos dos nossos Ligurios, se inclinavam graciosamente sob
-os remos!
-
-Com que alegria me dependurava na amurada para ouvir as suas canções
-populares.
-
-Cantavam canções de amor; ninguem então lhe ensinava outras, e estas
-por mais insignificantes que fossem, enterneciam-me e arrebatavam-me.
-Se esses cantos tivessem sido pela patria, talvez me enlouquecessem!
-Quem lhe diria então que havia uma Italia? Quem lhe diria que tinhamos
-uma patria a vingar e a tornar livre?
-
-Ninguem!
-
-Fomos educados e crescemos como judeus, isto é, na crença de que a vida
-não tem senão um fim--fazer fortuna.
-
-Em quanto olhava alegre para o navio em que ia embarcar, minha mãe
-preparava, chorando, a minha bagagem.
-
-A minha vocação era a vida aventureira do mar. Meu pae fez todo o
-possivel para me tirar similhante idéa, a sua vontade era que eu
-seguisse, uma carreira pacifica e sem perigos; que fosse padre,
-advogado ou medico. Mas a minha persistencia o fez desistir, e o seu
-amor cedeu á minha juvenil obstinação. Embarquei então na _Constanza_
-de que era capitão Angelo Pesante o mais atrevido maritimo que tenho
-conhecido. Se a nossa marinha tivesse tomado as proporções que se
-podiam esperar, o capitão Pesante teria direito ao commando de um dos
-nossos navios de guerra, e ninguem o teria excedido. Pesante nunca
-commandou uma esquadra, mas que se dirijam a elle, e em breve tempo
-já terá arranjado uma, desde as barcas até ás naus de tres pontos. Se
-elle algum dia obtivesse uma tal commissão, posso assegurar que haveria
-proveito e gloria para a patria.
-
-Fiz a minha primeira viagem a Odessa. Estas viagens tornaram-se depois
-tão communs e faceis que é inutil descrevel-as.
-
-A minha segunda viagem foi a Roma, mas na companhia de meu pae que
-tendo na minha primeira ausencia soffrido mortaes inquietações,
-se tinha resolvido visto eu não querer ceder da minha teima, a
-acompanhar-me.
-
-Fizemos a viagem na sua tartana a _Santa Reparata_.
-
-A Roma! Com que alegria eu partia! Já disse como pelos conselhos de
-meu irmão e pelos cuidados do meu digno professor havia estudado,
-a historia romana. Roma era para mim, admirador da antiguidade, a
-capital do mundo. É verdade que se achava destruida, mas as suas
-ruinas eram immensas, gigantescas e d'ellas sae a memoria de tudo
-quanto é bello e grandioso. Roma foi não só a capital do mundo, mas
-o berço d'essa religião santa que quebrou a cadêa dos escravos, que
-ennobreceu a humanidade, d'essa religião de que os primeiros apostolos
-foram os instituidores das nações, os emancipadores dos povos, mas
-de que infelizmente os successores degenerados teem sido o flagello
-da Italia, vendendo sua mãe, ou antes nossa mãe, aos estrangeiros!
-Não! não! a Roma que eu via nos sonhos da minha mocidade não era só
-a Roma do passado, mas tambem a do futuro, abrigando em seu seio a
-idéa regeneradora de um povo perseguido pela inveja das outras nações,
-porque nasceu grande e porque tem sempre marchado á frente dos povos,
-guiados por ella á civilisação.
-
-Roma! quando penso na sua desgraça, no seu abatimento, no seu martyrio,
-parece-me superior a todo o mundo. Amava-a com todas as forças da
-minha alma, não só nos combates soberbos da sua grandeza durante tres
-seculos; mas até nos mais pequenos successos que eu recolhia no meu
-coração como um precioso deposito.
-
-O meu amor em logar de diminuir, tem augmentado com o desterro. Muitas
-vezes, no outro lado dos mares, a tres mil leguas de distancia, pedia
-ao SENHOR como uma graça especial o tornar a vêl-a. Finalmente, Roma
-era para mim a Italia, porque eu não vejo a Italia senão na reunião dos
-seus membros dispersos, e Roma é para mim o symbolo da unidade italiana.
-
-
-
-
- IV
-
- AS MINHAS PRIMEIRAS AVENTURAS
-
-
-Durante algum tempo naveguei na companhia de meu pae; depois fui a
-Cagliari no bergantim _Etna_, de que era capitão José Gervino.
-
-N'esta viagem presenciei uma horrivel catastrophe que me deixou
-uma eterna recordação. Vindo de Cagliari, na altura do cabo Noli,
-navegavamos na companhia de alguns navios, entre os quaes se achava
-uma encantadora falua catalã. Depois de gosarmos dois ou tres dias de
-um bello tempo, começámos a sentir algumas rajadas d'esse vento a que
-os nossos marinheiros chamam _Libieno_, por que antes de chegar ao
-Mediterraneo passa pelo deserto de Lybia. Impellido por elle o mar não
-tardou a enfurecer-se, e tão furiosamente que nos arrastou para Vado.
-
-A falua de que já fallei sustentou-se admiravelmente no começo da
-tormenta, e não duvido dizer que todos nós receiando que a tempestade
-augmentasse, desejavamos antes estar a bordo da falua, do que dos
-nossos navios. Infelizmente a desgraçada embarcação estava destinada
-a offerecer-nos um doloroso espectaculo: uma vaga horrivel a
-cobriu, e em bem poucos instantes todos aquelles desgraçados foram
-submergidos. A catastrophe tinha logar á nossa direita, e por isso nos
-era absolutamente impossivel soccorrel-os. Os outros navios que nos
-acompanhavam tambem se achavam na mesma impossibilidade. Nove pessoas
-da mesma familia morreram á nossa vista, sem lhe podermos prestar o
-mais leve soccorro. Algumas lagrimas appareceram nos olhos dos mais
-endurecidos dos nossos marinheiros, mas o perigo proprio era tal que
-ellas bem depressa seccaram. A tempestade abrandou, como se estivesse
-satisfeita por haver immolado estas victimas; e chegamos a Vado sem
-incídente.
-
-De Vado parti para Genova, e de Genova voltei a Niza.
-
-Então comecei uma serie de viagens ao Levante, durante as quaes fomos
-tres vezes tomados e roubados pelos piratas. Duas vezes o fomos na
-mesma viagem, o que tornou os segundos piratas mui furiosos, visto que
-não nos encontravam cousa alguma para roubar. Foi n'estes ataques que
-comecei a familiarisar-me com o perigo, e a vêr que sem ser Nelson,
-podia como elle perguntar:--O que é o medo?
-
-Foi n'uma destas viagens, no bergantim _Cortese_, capitão Barlasemeria,
-que fiquei doente em Constantinopla. O navio foi obrigado a fazer-se
-de véla, e prolongando-se a minha doença mais do que eu tinha julgado,
-achei-me muito falto de recursos.
-
-Como em todas as situações desgraçadas em que me tenho achado, sempre
-encontrei alguma alma caridosa que me soccorresse, nunca pensei muito
-na falta de dinheiro.
-
-Entre essas almas caridosas encontrei uma que nunca esquecerei: é a
-excellente senhora Luiza Sauvaigo, de Niza, que me fez convencer de que
-as duas mulheres mais perfeitas do mundo, eram minha mãe e ella.
-
-Luiza fazia a felicidade de um marido, excellente homem, e tratava com
-uma admiravel intelligencia da educação de seus filhos.
-
-Porque razão fallei agora de Luiza? É porque escrevendo para
-satisfazer uma necessidade do coração, ella me dictou o que acabo de
-lançar ao papel.
-
-A guerra então existente entre a Porta Ottomana e a Russia contribuiu
-a prolongar a minha estada na capital do imperio turco. Durante este
-tempo e ignorando ainda como poderia alcançar recursos para viver,
-fui admittido como preceptor em casa da viuva Timoni. Este emprego
-foi-me dado sob recommendação de M. Diego, doutor em medicina, e a
-quem dou aqui um voto de agradecimento pelo serviço que me prestou.
-Estava, pois, preceptor de tres meninos. Assim fiquei muitos mezes,
-até que a vontade de navegar vindo de novo, me embarquei no bergantim
-_Notre-Dame-de-Grace_, de que tinha sido capitão Casanova.
-
-Foi este o primeiro navio em que embarquei como capitão.
-
-Não fatigarei o leitor fallando nas minhas viagens, em que nada de
-extraordinario me succedeu, direi unicamente que atormentado sempre por
-um profundo patriotismo, nunca cessei de perguntar noticias sobre a
-ressurreição de Italia, mas infelizmente até á edade de vinte e quatro
-annos todo o trabalho foi inutil.
-
-Emfim, n'uma viagem a Taganrog veiu a bordo do meu navio um patriota
-italiano, que me deu algumas noticias sob a maneira porque marchavam os
-negocios de Italia.
-
-Havia alguma esperança para o nosso desgraçado paiz.
-
-Christovão Colombo, não foi mais feliz, quando perdido no meio do
-Atlantico, e ameaçado pelos seus companheiros a quem havia pedido só
-tres dias, ouviu gritar: «Terra», do que eu quando ouvi pronunciar a
-palavra _patria_, e vi no horisonte o primeiro pharol preparado pela
-revolução franceza de 1830.
-
-Havia então homens que se occupavam da redempção da Italia!
-
-Em outra viagem, transportei no _Clorinde_, a Constantinopla alguns
-_Simoniacos_, conduzidos por Emilio Parrault.
-
-Tinha ouvido fallar pouco na seita de «Saint-Simon»; sabia unicamente
-que estes homens eram os apostolos perseguidos de uma nova religião.
-
-Vendo em Parrault um patriota italiano, dei-lhe parte de todos os meus
-pensamentos. Então durante essas noutes transparentes do Oriente, que,
-como diz Chateaubriand, não são as trevas, mas unicamente a ausencia
-do dia, debaixo d'esse ceu marchetado de estrellas, sobre esse mar de
-que a brisa parecia cheia de inspirações generosas, discutimos, não só
-as mesquinhas questões de nacionalidade nas quaes havia pensado muito,
-questões restrictas á Italia, e a cada provincia--mas até a grande
-questão da humanidade.
-
-Este apostolo provou-me que o homem que defende a sua patria, ou que
-ataca a dos outros, é no primeiro caso um soldado piedoso; injusto no
-segundo,--mas o homem que tornando-se cosmopolita, adopta a todas por
-patria e vae offerecer a sua espada e o seu sangue ao povo que lucta
-contra a tyrannia, é mais que um soldado--é um heroe.
-
-Teve então logar no meu espirito uma mudança repentina. Pareceu-me vêr
-em um navio não o vehiculo encarregado de transportar mercadorias entre
-os diversos paizes, mas o mensageiro do SENHOR. Havia partido avido
-de emoções, e curioso por vêr cousas novas, e a mim mesmo perguntava
-se esta idéa irresistivel que me perseguia não tinha horisontes mais
-dilatados e por descobrir. Via esses horisontes atravez o longiquo véo
-do futuro.
-
-
-
-
- V
-
- OS ACONTECIMENTOS DE S. JULIÃO
-
-
-O navio em que desta vez voltei do Oriente destinava-se a Marselha.
-
-Chegando a esta cidade soube da revolução suffocada no Piemonte e dos
-fuzilamentos de Chambéry, Alexandria e Genova.
-
-Em Marselha travei relações intimas com Covi, que me apresentou a
-Mazzini.
-
-Então estava longe de suspeitar a grande communidade de principios
-que um dia me uniria a Mazzini. Ninguem conhecia ainda o persistente
-e obstinado pensador, que nem a propria ingratidão tem feito desistir
-da grande obra que emprehendeu. Quando soube da morte de Vocchieri,
-Mazzini tinha dado um verdadeiro grito de guerra.
-
-Escreveu na sua _Joven Italia_: «Italianos, é tempo de nos juntarmos,
-se queremos ficar dignos do nosso nome; e derramar o nosso sangue
-amalgamando-o com o dos martyres piemontezes.»
-
-Mas em França, em 1833, não se diziam impunemente d'estas cousas. Algum
-tempo depois de lhe haver sido apresentado, e de lhe ter dito que podia
-contar comigo, Mazzini, o eterno proscripto, era obrigado a deixar a
-França e a retirar-se a Genova.
-
-N'esta occasião o partido republicano parecia completamente morto na
-França. Era um anno apenas decorrido: estavamos a 5 de junho,--alguns
-mezes depois do processo dos combatentes do claustro Saint-Merry.
-
-Mazzini havia escolhido este momento para fazer uma nova tentativa.
-
-Os patriotas tinham respondido que estavam promptos, mas pediam um
-chefe.
-
-Pensaram em Romarino, ainda coberto de louros por causa das suas luctas
-na Polonia.
-
-Mazzini não approvava esta escolha, o seu espirito activo e profundo
-prevenia-o contra os grandes nomes; mas a maioria queria Romarino, e
-então Mazzini cedeu.
-
-Chamado a Genova, Romarino acceitou o commando da expedição. Na
-primeira conferencia com Mazzini foi convencionado que duas columnas
-republicanas se deviam dirigir ao Piemonte, uma pela Saboia outra por
-Genova.
-
-Romarino recebeu quarenta mil francos para fazer face ás primeiras
-despezas, e partiu com um secretario de Mazzini que ia encarregado de o
-vigiar.[3]
-
- [3] Estes successos que tinham logar em um ponto aonde não
- estava Garibaldi, são aqui referidos unicamente para explicação
- historica, sendo extrahidos de Angelo Brofferio.
-
-Todos estes acontecimentos tiveram logar em setembro de 1833; a
-expedição devia ter logar em outubro.
-
-Mas Romarino conduziu tudo de tal modo que a expedição não estava
-prompta senão em janeiro de 1834.
-
-Mazzini não obstante todas as tergivergencias do general tinha-se
-mostrado firme.
-
-Em fim a 31 de janeiro, Ramorino collocado na ultima extremidade por
-Mazzini reuniu-se a elle em Genova, com dois outros generaes e um
-ajudante de campo.
-
-A conferencia foi triste, e mal annunciada por pessimos agouros.
-Mazzini propoz que se occupasse militarmente a villa de S. Julião, onde
-se achavam reunidos os patriotas saboyanos e os republicanos francezes,
-que haviam adherido ao movimento.
-
-Era em S. Julião que se devia levantar o grito de rebellião.
-
-Ramorino era da opinião de Mazzini. As duas columnas deviam pôr-se
-em marcha no mesmo dia: uma partiria de Caronge, e a outra de Nyon,
-devendo esta atravessar o lago para se reunir á primeira na estrada de
-S. Julião.
-
-Ramorino ficava com o commando da primeira columna: a segunda estava
-debaixo das ordens de Graboky.
-
-O governo genovez receioso de se indispor, por um lado com a França,
-por outro com o Piemonte, viu com maus olhos este movimento. Quiz
-oppor-se á partida da columna de Caronge commandada por Romarino, mas o
-povo sublevou-se, e o governo foi forçado a deixal-a marchar.
-
-Não succedeu o mesmo com a que devia partir de Nyon.
-
-Dous barcos se haviam feito de véla, levando um soldados, e o outro
-armas.
-
-Mandaram em sua perseguição um navio de guerra a vapor, que trouxe as
-armas e aprisionou os soldados.
-
-Ramorino não vendo chegar a tropa que se lhe devia juntar, em logar de
-proseguir na sua marcha sobre S. Julião, começou a costear o lago.
-
-Muito tempo se passou sem saber aonde iam. Não se conheciam as
-intenções do general: o frio era intenso, e os caminhos estavam em um
-estado deploravel.
-
-Exceptuando alguns polacos, a columna era composta de voluntarios
-italianos, impacientes pela hora do combate, mas que cançavam
-facilmente pela extensão e difficuldade do caminho.
-
-A bandeira italiana atravessou algumas pobres villas, nenhuma voz
-amiga a saudou, não encontrando por toda a parte senão curiosos ou
-indifferentes.
-
-Fatigado pelos seus largos trabalhos, Mazzini que tinha trocado a
-penna pela espingarda, seguia a columna: soffrendo uma febre ardente,
-arrastava-se por aquelles asperos caminhos com a dôr escripta na fronte.
-
-Já por varias vezes tinha perguntado a Ramorino quaes eram as suas
-intenções, e que caminho seguia.
-
-As respostas do general nunca o haviam satisfeito.
-
-Chegaram a Carra e detiveram-se para ahi passar a noite; Mazzini e
-Ramorino achavam-se na mesma camara.
-
-Ramorino estava embrulhado na sua capa; Mazzini fixava sobre elle o seu
-olhar sombrio desconfiado.
-
---Não é seguindo este caminho, disse elle com a sua voz sonora, tornada
-mais vibrante pela febre, que temos a esperança de encontrar o inimigo.
-Devemos ir ao seu encontro, e se a victoria é impossivel, provemos ao
-menos á Italia que sabemos morrer.
-
---Não nos faltará nem o tempo, nem a occasião, respondeu o general,
-para affrontar perigos inuteis: considero como um crime o expôr
-inutilmente a flôr da mocidade italiana.
-
---Não ha religião sem martyres, respondeu Mazzini, fundemos a nossa,
-ainda que seja com o nosso sangue.
-
-Mal acabava de pronunciar estas palavras, que o estrondo da fuzilaria
-se ouviu.
-
-Ramorino deu um salto. Mazzini pegou n'uma carabina, agradecendo a Deus
-o ter-lhe feito encontrar o inimigo. Mas este era o ultimo esforço da
-sua energia: a febre devorava-o; os seus companheiros correndo de noite
-pareciam-lhe fantasmas, a fronte escaldava-lhe, e a terra tremia-lhe
-debaixo dos pés. Depois de alguns minutos de afflicção caíu desmaiado.
-
-Quando voltou a si achou-se na Suissa, aonde os seus companheiros o
-tinham conduzido com grande trabalho: a fuzilaria de Carra tinha sido
-um rebate falso.
-
-Ramorino declarou então que tudo estava perdido: recusou-se a ir mais
-longe e ordenou a retirada.
-
-Durante este tempo uma columna de cem homens, da qual faziam parte
-um certo numero de republicanos francezes, partiu para Grenoble, e
-atravessou a fronteira da Saboya.
-
-O perfeito francez preveniu as auctoridades sardas: os republicanos
-foram attacados de noute e de improviso, ao pé das grutas de Cobellos,
-e dispersos depois d'um combate que durou uma hora.
-
-N'este combate os soldados sardos fizeram dois prisioneiros. Angelo
-Volantieri e José Borrel: conduzidos voluntariamente a Chamberg e
-condemnados á morte, foram fuzilados na mesma terra aonde ainda estava
-fumegante o sangue de Elfico Tolla.
-
-Por este modo terminou aquella expedição.
-
-
-
-
- VI
-
- O DEUS DOS BONS
-
-
-Tinha tambem a minha parte a cumprir no movimento que devia ter tido
-logar, e havia-a acceitado sem discutir.
-
-Havia entrado no serviço do estado como marinheiro de primeira classe
-da fragata _Eurydice_. A minha missão era alcançar proselytos para a
-nossa causa, e para conseguir este fim tinha feito tudo quanto me era
-possivel.
-
-Dado o caso que o nosso movimento tivesse bom resultado, devia com
-os meus companheiros apoderar-me da fragata e pôl-a á disposição dos
-republicanos.
-
-Não havia querido, impellido pelo ardor que sentia, limitar-me a este
-papel. Tinha ouvido dizer que um movimento teria logar em Genova,
-devendo por esta occasião apoderarem-se do quartel dos gendarmes
-situado na praça de Sarzana. Deixei aos meus companheiros o cuidado
-de se assenhorearem do navio, e proximo da hora em que devia rebentar
-a rebellião de Genova deitei uma canôa ao mar e desembarquei na
-alfandega, gastando poucos momentos a chegar á praça de Sarzana, onde,
-como já disse, estava situado o quartel.
-
-Esperei quasi uma hora, mas nenhum indicio de rebellião appareceu.
-Bem depressa ouvi dizer que tudo estava perdido, havendo-se posto os
-republicanos em fuga: dizendo-se tambem que varias prisões haviam sido
-feitas.
-
-Como não me tinha engajado na marinha sarda senão para ajudar o
-movimento republicano, julguei inutil voltar a bordo do _Eurydice_,
-começando a pensar nos meios de me pôr em fuga.
-
-No momento em que fazia estas reflexões, alguma tropa prevenida sem
-duvida do projecto de nos apoderarmos do quartel, começou a guarnecer a
-praça.
-
-Vi então que não havia tempo a perder. Refugiei-me em casa de uma
-vendedeira de fructa e confessei-lhe a situação em que me achava.
-
-A excellente mulher não fez nenhuma reflexão e escondeu-me nos quartos
-interiores do seu estabelecimento. No dia seguinte procurou-me um fato
-completo de camponez, e pelas oito horas da noite sahi, como se andasse
-passeando, de Genova pela porta da Lanterne, começando então essa vida
-de exilio, luto e perseguição, que, segundo todas as probabilidades,
-ainda não finalisou.
-
-Estavamos a 5 de fevereiro de 1834.
-
-Abandonando os caminhos batidos e trilhados dirigi-me por atalhos para
-as montanhas. Tinha bastantes jardins que atravessar, e muitos muros
-que saltar. Felizmente estava familiarisado com estes exercicios, e
-depois de uma hora de gymnastica achava-me fóra do ultimo jardim.
-
-Encaminhado-me para Cassiopea, ganhei as montanhas de Sestri, e no fim
-de dez dias, ou antes de dez noites; cheguei a Niza, dirigindo-me logo
-a casa de minha tia, na praça da Victoria, a fim de que ella prevenindo
-minha mãe lhe tirasse todos os cuidados.
-
-Descancei um dia, e na noite seguinte parti acompanhado por dois
-amigos, José Jaun, e Engelo Gostavini.
-
-Chegados ao Var, achamol-o innundado pelas chuvas, mas para um nadador
-como eu, não era isto um obstaculo. Atravessei-o metade a nado, metade
-a vau.
-
-Os meus dois amigos haviam ficado na outra margem. Disse-lhe adeus.
-
-Estava salvo, ou quasi, como se vae vêr.
-
-N'esta esperança dirigi-me a um corpo de guardas da alfandega;
-disse-lhe quem era, e qual o motivo porque havia deixado Genova.
-
-Os guardas disseram-me que era seu prisioneiro, até nova ordem, e que a
-iam mandar pedir a Paris.
-
-Julgando que acharia facilmente occasião de fugir, não fiz nenhuma
-resistencia, e deixei-me conduzir a Grasse, e de Grasse a Draguignan.
-
-Em Draguignan metteram-me em um quarto do primeiro andar, cuja janella
-sem grades, dava para um jardim.
-
-Aproximei-me d'ella como se quizesse vêr o jardim: da janella ao chão
-havia a altura de quinze pés. Dei um salto, e em quanto os guardas,
-menos ligeiros e estimando mais as pernas do que eu estimava as minhas,
-saíam pela escada; ganhei-lhe muita dianteira embrenhando-me nas
-montanhas.
-
-Não conhecia o caminho, mas era marinheiro, e lendo no ceo, n'esse
-grande livro, aonde estava habituado a lêr, orientei-me e dirigi-me a
-Marselha. No dia seguinte de tarde cheguei a uma villa de que nunca
-soube o nome, porque nem tive tempo para o perguntar.
-
-Entrei n'uma estalagem. Um mancebo e uma mulher ainda joven estavam á
-mesa esperando pela ceia.
-
-Pedi alguma cousa de comer: desde a vespera que não havia tomado nenhum
-alimento.
-
-O dono da hospedaria convidou-me para ceiar na sua companhia e de sua
-mulher. Acceitei.
-
-A comida era boa, o vinho do paiz agradavel, e o fogo excellente.
-Senti então um d'esses momentos de bem estar e felicidade, como só se
-experimentam depois de se haver passado um perigo, e quando se julga
-não haver mais nada a receiar.
-
-O dono da hospedaria felicitou-me pelo meu bom appetite, e pelo meu
-rosto alegre e prasenteiro.
-
-Disse-lhe que o meu appetite não tinha nada de extraordinario,
-porque não tinha comido havia dezoito horas e que o achar-me alegre
-e satisfeito era por haver escapado talvez á morte no meu paiz--e em
-França á prisão.
-
-Tendo-me adiantado tanto, não podia fazer segredo do resto. O
-estalajadeiro e sua mulher pareciam-me tão boas pessoas que lhe contei
-tudo.
-
-Então, com grande espanto meu, o estalajadeiro ficou pensativo.
-
---Que tem? lhe perguntei.
-
---É que depois da confissão que acaba de fazer, respondeu elle, não
-tenho remedio senão prendel-o.
-
-Dei uma grande gargalhada porque não tomei este dito ao serio, e demais
-se o fosse eramos um contra um, e não havia no mundo um unico homem
-que eu temesse.
-
---Bem, disse eu, mas como julgo que não tem muita pressa, peço-lhe que
-me deixe ceiar com todo o descanço, pois temos muito tempo depois do
-_dessert_. E continuei comendo sem mostrar a mais leve inquietação.
-
-Infelizmente vi bem depressa que se o estalajadeiro tivesse necessidade
-de ajudantes para realisar os seus projectos, esses ajudantes não lhe
-faltavam.
-
-A sua estalagem era o logar aonde toda a mocidade da villa se reunia ás
-noutes para beber, fumar, e fallar da politica.
-
-A sociedade do costume começava a reunir-se, e bem depressa estavam na
-estalagem mais de doze mancebos, jogando as cartas, bebendo e fumando.
-
-O estalajadeiro não tornou a fallar na minha prisão, mas tambem não me
-perdia de vista.
-
-É verdade que não tendo eu a mais pequena mala, não tinha cousa alguma
-que lhe assegurasse o pagamento da minha despesa.
-
-Como tinha na algibeira alguns escudos, fiz barulho com elles, o que
-pareceu socegar o meu homem.
-
-No momento em que um dos bebedores acabava, no meio dos applausos
-geraes, de cantar uma canção, ergui o copo que tinha na mão:
-
---Agora pertence-me, disse eu:
-
-E comecei a cantar o _Deus dos bons_.
-
-Se não tivesse outra vocação teria podido fazer-me cantor, porque tenho
-uma voz de tenor que cultivada alcançaria uma certa extensão.
-
-Os versos de Beranger, a franquesa com que eram cantados, a
-fraternidade do estribilho, a popularidade do poeta, arrebataram todo o
-auditório.
-
-Fizeram-me repetir dois ou tres couplets e abraçando-me todos quando
-acabei, gritaram--Viva Beranger! Viva a França! Viva a Italia!
-
-Depois de haver obtido tal successo era escusado pensar em prender-me;
-o estalajadeiro conheceu isso porque nunca mais me fallou de tal,
-ignorando eu por isso se elle fallava seriamente ou se zombava.
-
-Passou-se a noite a cantar, jogar e a beber; e ao romper do dia todos
-os meus companheiros da noite se offereceram para me acompanhar, honra
-que acceitei sem difficuldade: caminhámos juntos seis milhas.
-
-Com toda a certeza Beranger morreu sem saber o grande serviço que me
-prestou.
-
-
-
-
- VII
-
- ENTRO AO SERVIÇO DA REPUBLICA DO RIO GRANDE
-
-
-Cheguei a Marselha sem incidente, vinte dias depois de ter deixado
-Genova.
-
-Engano-me, um incidente, que li no _Povo Soberano_, me succedeu.
-
-Estava condemnado á morte.
-
-Era a primeira vez que tinha a honra de ver o meu nome impresso em um
-jornal.
-
-Como desde então era perigoso continuar a usar d'elle, comecei a
-chamar-me Pane.
-
-Fiquei alguns mezes occioso em Marselha, aproveitando-me da
-hospitalidade do meu amigo José Paris.
-
-Passado algum tempo consegui ser admittido como segundo commandante no
-navio _Union_, capitão Gozan.
-
-No domingo seguinte achando-me pelas cinco horas da tarde á janella com
-o capitão, seguia com a vista um collegial em ferias que se divertia
-no caes de Santo André a saltar de uma barca para outra, até que
-faltando-lhe um pé caíu ao mar.
-
-Estava vestido á _domingueira_, mas apesar d'isso, ouvindo os gritos
-dados pela desgraçada creança arrojei-me á agua completamente vestido.
-Duas vezes mergulhei inutilmente, mas á terceira fui mais feliz porque
-o agarrei por debaixo dos braços, conseguindo trazel-o sem difficuldade
-até á praia. Uma grande quantidade de povo ahi estava reunida, sendo eu
-recebido no meio dos seus applausos e bravos.
-
-Era um rapaz de quatorze annos que se chamava José Bambau. As lagrimas
-de alegria e as bençãos de sua mãe pagaram-me largamente do banho que
-tinha tomado.
-
-Como o salvei debaixo do nome de José Pane, é provavel que se é ainda
-vivo, nunca soubesse o verdadeiro nome de seu salvador.
-
-Fiz na _Union_ a minha terceira viagem a Odessa, depois á volta
-embarquei-me em uma fragata do bey de Tunis. Deixei-a no porto de
-Goletta, voltando a Marselha em um brigue turco. Quando cheguei a esta
-cidade encontrei-a quasi no mesmo estado que M. de Belzunce a viu em
-1720 quando ali grassava a febre negra.
-
-O cholera fazia então estragos horriveis.
-
-Na cidade só existiam os medicos e as irmãs da caridade, quasi todo o
-resto da população havia desertado e viviam nas quintas dos arrebaldes.
-Marselha tinha o aspecto d'um vasto cemiterio.
-
-Os medicos pediam os benevolos. É assim, como se sabe, que são chamados
-nos hospitaes os enfermeiros voluntarios.
-
-Offereci-me ao mesmo tempo que um rapaz de Trieste que voltou de Tunis
-comigo. Estabelecemo-nos no hospital, e ahi partilhavamos as vigilias.
-
-Este serviço durou quinze dias. No fim d'este tempo, como o cholera
-diminuiu de intensidade e achava uma occasião favoravel de ver novos
-paizes, embarquei-me, como segundo no brigue _Nantonnier_, de Nantes,
-capitão Beauregard, que se achava proximo a partir para o Rio de
-Janeiro.
-
-Muitos dos meus amigos me teem dito que antes de tudo sou poeta.
-
-Se para ser poeta é necessario escrever a _Iliada_, a _Divina Comedia_,
-as _Meditações de Lamartine_, ou os _Orientaes_, de Victor Hugo, eu
-não sou poeta: mas se para o ser é necessario passar horas e horas
-a procurar nas aguas asuladas e profundas do mar os mysterios da
-vegetação submarina, se é necessario ficar em extase diante da bahia do
-Rio de Janeiro, de Napoles ou de Constantinopla, se é preciso pensar no
-amor filial, nas recordações infantis, ou n'um amor juvenil no meio das
-ballas e bombas, sem pensar que esse sonho ha-de acabar pela cabeça ou
-por um braço quebrado--então sou poeta.
-
-Recordo-me que um dia, durante a ultima guerra, não dormindo havia
-quarenta horas, e morto de cançasso costeava Urbano e os seus doze mil
-homens com os meus quarenta bersaglieri, os meus quarenta cavalleiros e
-um milhar de homens armados na sua maioria pessimamente, seguia por um
-pequeno atalho do outro lado do monte Orfano com o coronel Turr e cinco
-ou seis homens, quando parei repentinamente, esquecendo a fadiga e o
-perigo para ouvir um rouxinol.
-
-Era uma noite magnifica. Sonhava ouvindo este amigo de infancia, que
-um orvalho benefico e regenerador chovia em torno de mim. Os que me
-rodeavam julgaram ou que hesitava no caminho a seguir, ou que ouvia
-ao longe troar os canhões, ou os passos da cavallaria inimiga. Não!
-Escutava um rouxinol que ha mais de dez annos, póde ser, eu não tinha
-ouvido. Este extase durou não até que os que me rodeavam me tivessem
-repetido duas ou tres vezes «General, ahi está o inimigo» mas até que
-este rompendo o fogo fizesse desapparecer o meu encanto.
-
-Quando depois de ter costeado os rochedos graniticos que occultam a
-todas as vistas o porto, que os indios na sua linguagem expressiva
-chamam Nelheroky, quer dizer, agua occulta, quando depois de haver
-passado a estrada que conduz á nova bahia socegada como um lago; quando
-na margem occidental d'esta bahia, vi elevar-se a cidade chamada
-_Paus d'Assucar_, immenso rochedo conico que serve não de pharol,
-mas de balisa aos navegantes, quando appareceu em volta de mim essa
-natureza luxuriante de que a Africa e a Asia só me tinham dado uma
-fraca idéa, fiquei maravilhado do espectaculo esplendido que meus olhos
-contemplavam.
-
-Foi no Rio de Janeiro que a minha boa estrella fez com que eu
-encontrasse a coisa mais rara do mundo, isto é, um amigo.
-
-Não tive necessidade de o procurar, não tivemos necessidade de nos
-estudar, para nos conhecermos, encontramo-nos, trocamos um olhar e nada
-mais; depois um sorriso, um aperto de mão, e Rossetti e eu eramos dous
-irmãos.
-
-Mais tarde terei occasião de dizer o que valia esta nobre alma; e não
-obstante, eu, o seu maior amigo, seu irmão, o seu companheiro por tanto
-tempo inseparavel, morrerei, póde ser, sem ter occasião de plantar uma
-cruz no ponto ignorado da terra aonde repousam os restos deste generoso
-e valente cidadão.
-
-Depois de termos passado algum tempo na _ociosidade_--Chamo ociosidade
-o estarmos Rossetti e eu, seguindo um modo de vida para que não
-tinhamos disposição alguma--o acaso fez com que travassemos relações
-com Zambecarri, secretario de Bento Gonçalves, presidente da republica
-do Rio Grande, que se achava então em guerra com o Brasil. Ambos
-estavam prisioneiros de guerra em Santa Cruz n'uma fortaleza que se
-eleva á direita á entrada do porto d'onde chamam os navios á falla.
-Zambecarri, filho do famoso areonauta perdido n'uma viagem á Syria e de
-que nunca mais se ouviu fallar, apresentou-me ao presidente que me deu
-a carta para poder piratear os navios brasileiros.
-
-Algum tempo depois Bento Gonçalves e Zambecarri fugiram a nado chegando
-livres de todo o perigo ao Rio Grande.
-
-
-
-
- VIII
-
- CORSARIO
-
-
-Armámos em guerra o _Mazzini_, pequeno navio de trinta toneladas, e
-fizemo-nos ao mar com dezeseis companheiros de aventuras. Finalmente
-eramos livres, navegavamos debaixo de um pavilhão republicano; emfim
-eramos _corsarios_.
-
-Com dezeseis homens de equipagem e um navio eramos capazes de declarar
-a guerra a um imperio.
-
-Sahindo do porto dirigi-me para as ilhas Marica, situadas a cinco ou
-seis milhas da embocadura da barra. As nossas armas e munições estavam
-occultas debaixo das carnes salgadas e da mandioca, unico alimento dos
-negros.
-
-Naveguei para a maior d'estas ilhas, que possue um ancuradouro, lancei
-a ancora, saltei em terra e subi ao monte mais elevado.
-
-Ahi estendi os braços com um sentimento de felicidade e orgulho
-inexplicavel, dando um grito similhante ao da aguia quando paira no
-mais alto dos ares.
-
-O Oceano pertencia-me e eu tomava posse do meu imperio.
-
-A occasião de o exercer não se fez esperar.
-
-Em quanto estava como um passaro do mar, debruçado sobre o meu
-observatorio, vi uma galeota navegando com o pavilhão brasileiro.
-
-Mandei apromptar tudo para nos fazermos immediatamente ao mar, e desci
-á praia.
-
-Navegámos direitos á galeota que não julgava por certo correr tão
-grande perigo a tres milhas da barra do Rio de Janeiro.
-
-Abordando-a fizemo-nos conhecer, e intimámos o capitão para se render
-immediatamente. Para sua justiça é necessario dizer que não fizeram a
-mais pequena resistencia. Em poucos momentos estavamos a seu bordo.
-Vi então dirigir-se-me um passageiro portuguez, que trazia na mão uma
-caixa. Abriu-a, e mostrou-a cheia de diamantes, que me offereceu em
-troca da vida.
-
-Fechei a caixa e entreguei-lh'a, dizendo-lhe que a sua vida não corria
-perigo algum, e que por consequencia, podia guardar os seus diamantes
-para melhor occasião.
-
-Não tinhamos tempo a perder, estavamos quasi debaixo do fogo das
-baterias do porto. Transportámos as armas e munições para bordo da
-galeota e affundámos o _Mazzini_ que como se vê, tinha tido uma curta,
-mas gloriosa existencia.
-
-A galeota pertencia a um rico negociante austriaco que habitava a ilha
-Grande, situada á direita sahindo do porto, a quinze milhas de terra, e
-estava carregada de café que era enviado á Europa.
-
-O navio era para mim, por todos os motivos, uma excellente presa,
-porque pertencia a um austriaco a quem eu tinha feito a guerra na
-Europa, e a um negociante brasileiro domiciliado no Brasil a quem eu
-fazia a guerra na America.
-
-Dei á galeota o nome de _Farropilha_, derivado de _Farrapos_, nome que
-no imperio do Brasil se dá aos habitantes das republicas da America do
-Sul, assim como Filippe II chamava _mendigos de terra ou de mar_, aos
-revoltosos dos Paizes Baixos.
-
-Até então a galeota chamava-se _Luiza_.
-
-O nome que lhe havia dado calhava perfeitamente. Os meus companheiros
-não eram Rossettis, e devo confessar, que a figura de alguns d'elles,
-não era satisfatoria; isto explica a rapida entrega da galeota e o
-terror do portuguez que me offereceu os seus diamantes.
-
-Durante todo o tempo que fui corsario dei ordem á minha gente para
-a vida, honra e fortuna dos passageiros ser respeitada... ir dizer
-debaixo de pena de morte, mas não devo dizer tal, porque não tendo até
-hoje ninguem infringindo as minhas ordens, não tenho tido ninguem que
-punir.
-
-Depois de concluidos os nossos primeiros arranjos dirigi-me para
-o Rio da Prata, e para dar o exemplo de respeito que eu queria se
-tivesse no futuro pela vida, liberdade e bens dos passageiros, quando
-cheguei á altura da ilha de Santa Catharina, um pouco abaixo do cabo
-Itapoya, mandei deitar ao mar a lancha do navio e entregando tudo
-quanto pertencia aos passageiros e alguns mantimentos os fiz embarcar
-deixando-os livres de se dirigirem para onde quizessem.
-
-Cinco pretos escravos da galeota e a quem eu havia dado a liberdade
-engajaram-se como marinheiros.
-
-Quando chegámos ao Rio da Prata, ancorámos em Maldonato pertencente á
-republica oriental de Uruguay.
-
-Fomos admiravelmente recebidos pela população e mesmo pelas
-auctoridades, o que me pareceu de excellente agouro. Rossetti partiu
-pois tranquilamente para Montevideo afim de ahi vender o nosso café e
-apurar algum dinheiro.
-
-Nós ficámos em Maldonato,--quer dizer á entrada d'esse magnifico rio
-que na sua embocadura tem trinta leguas de largo--durante oito dias que
-se passaram em festas continuas, que infelizmente estiveram para acabar
-tragicamente. Oribe, que, na sua qualidade de chefe da republica de
-Montevideo não reconhecia as outras republicas, deu ordem ao governador
-de Montevideo para me prender e apoderar-se da galeota. Felizmente
-o governador de Maldonato era um excellente homem que em logar de
-executar a ordem que recebeu, o que não lhe teria sido difficil pela
-pouca ou nenhuma desconfiança que eu tinha, mandou-me prevenir para que
-levantasse ancora e partisse para o meu destino, se é que o tinha.
-
-Prometti partir na mesma noite, mas antes tinha um negocio pessoal a
-tractar em terra.
-
-Tinha vendido, para comprar viveres, a um negociante de Montevideo
-algumas saccas de café e algumas bijouterias, pertencentes ao nosso
-austriaco. Mas ou porque o meu comprador fosse máu pagador, ou porque
-tendo ouvido dizer que eu talvez fosse preso, julgasse que poderia
-passar sem me pagar, ainda não me tinha sido possivel receber o meu
-dinheiro. Sendo pois obrigado a partir n'aquella mesma noute, e
-querendo entrar de posse do que me pertencia antes de deixar Maldonato,
-não tinha tempo a perder.
-
-Por conseguinte ás nove horas da noute mandei apparelhar, e mettendo
-um par de pistolas na cintura, embrulhei-me na minha capa e dirigi-me
-tranquillamente para casa do negociante.
-
-Fazia um luar magnifico. Pouco distante da casa do meu homem vi-o á
-porta tomando o fresco, elle tambem me viu e reconheceu, porque me fez
-signal de me affastar, indicando-me por este modo que a minha vida
-corria risco.
-
-Fiz que não via, fui direito a elle, e por toda a explicação
-apresentei-lhe uma pistola aos peitos:
-
---O meu dinheiro, lhe disse eu.
-
-Quiz responder-me, mas quando lhe repeti pela terceira vez «o meu
-dinheiro» fez-me entrar em sua casa, pagando-me logo os dois mil
-patacões que me devia.
-
-Metti de novo a pistola no cinturão, puz o sacco do dinheiro debaixo do
-braço, e voltei ao meu navio sem me ter acontecido o menor incidente.
-
-Ás onze horas da noute levantámos ancora.
-
-
-
-
- IX
-
- O RIO DA PRATA
-
-
-Ao romper do dia, com grande admiração nossa, estavamos no meio dos
-cachopos das Pedras Negras.
-
-Como me achava em tal situação é que eu não podería explicar. Não havia
-dormido um minuto, não tinha deixado de olhar um momento para a costa,
-consultando a todos os instantes a bussola, dirigindo-me pelas suas
-indicações, e apezar d'isso achava-me no perigo que queria evitar.
-
-Não havia momento a perder: o perigo era enorme: estavamos cercados por
-todos os lados de cachopos. Saltei para a verga do traquete, e d'ahi
-mandei orçar sobre bombordo, e em quanto se executava esta manobra foi
-arrebatada pelo vento a nossa pequena gavea.
-
-Do logar onde me achava dominava o navio e os recifes, podendo por
-isso indicar o caminho que era necessario fazer seguir á galeota, que
-do seu lado parecendo um ente animado, e conhecedora do perigo em
-que estavamos, obedecia com toda a docilidade ao leme. No fim de uma
-hora, durante a qual estivemos entre a vida e a morte, e em que vi
-empallidecer os meus mais valentes marinheiros, estavamos salvos.
-
-Depois de passado o perigo, quiz conhecer qual o motivo porque havia
-sido lançado no meio d'esses terriveis cachopos, tão conhecidos dos
-navegantes, tão bem indicados nas cartas maritimas, e a tres milhas dos
-quaes julgava estar quando me achava no meio d'elles.
-
-Consultei a bussola: continuava a divagar: teria pois naufragado, se
-por infelicidade, amanhecendo, não tivesse conhecido o perigo:
-
-Em pouco tempo tudo me foi explicado.
-
-Quando sahi do navio para pedir os dois mil patacões ao meu comprador
-do café, tinha mandado pôr no tambadilho os sabres e fuzís, para
-estar prevenido no caso de algum ataque: executando a minha ordem, os
-marinheiros tinham collocado as armas ao pé da bitácola.
-
-Esta massa de ferro tinha attrahido a si a agulha, que como se sabe,
-tem iman nas duas extremidades. Mandei pois tirar as armas, e a bussola
-continuou a andar regularmente.
-
-Proseguimos a nossa viagem chegando a Jesus-Maria, que do outro lado de
-Montevideo está quasi na mesma distancia que Maldonato.
-
-A unica novidade que ali nos succedeu, foi acabarem-se completamente
-os viveres, por isso que não tinhamos tido tempo de os comprar antes
-da nossa partida. Como não nos era possivel desembarcar, pelas ordens
-dadas, era necessario lançar mão de algum expediente para arranjarmos
-comestiveis.
-
-Começámos a bordejar, sem comtudo nos affastarmos da costa.
-
-Uma manhã descobri na distancia de quasi quatro milhas uma casa, que
-pelo seu aspecto me pareceu uma herdade. Mandei ancorar o mais perto
-possivel da praia, e como não tinha escaler, porque, como já disse,
-havia dado o meu aos individuos que tinham desembarcado em Santa
-Catharina, arranjei uma jangada com uma mesa e alguns tonneis, e armado
-com um croque, embarquei n'esta embarcação de novo gosto com um unico
-marinheiro, que sem ser meu parente tinha comtudo o nome de Garibaldi:
-o seu pronome era Mauricio.
-
-O navio estava seguro por duas amarras, em consequencia dos ventos
-pampeiros que eram mui violentos.
-
-Eis-me pois no meio dos recifes não navegando, mas sim dançando em cima
-de uma mesa, arriscado a todos os momentos a ser submergido. Depois
-de termos praticado maravilhosos trabalhos de equilibrio, conseguimos
-encalhar na praia. Deixei Mauricio encarregado de guardar a jangada, e
-desembarquei.
-
-
-
-
- X
-
- AS PLANICIES ORIENTAES
-
-
-O espectaculo que então se me offereceu á vista, e que admirava pela
-primeira vez, teria, para ser dignamente descripto, necessidade da
-penna de um poeta ou do pincel de um pintor. Via ondular na minha
-frente como as vagas de um mar solidificado os immensos horisontes
-das--planicies orientaes--assim chamadas porque estão no lado oriental
-do rio Uruguay, que vae lançar-se no rio da Prata, defronte de
-Buenos-Ayres, abaixo de Colonia. Era, posso jural-o, um espectaculo
-cheio de novidade para um homem chegado do outro lado do Atlantico, e
-sobre tudo para um italiano, nascido em um paiz em que é difficultoso
-vêr um palmo de terra sem encontrar uma casa ou alguma obra dos homens.
-
-Ali pelo contrario existia unicamente a obra de Deus, tal como havia
-sahido das suas mãos no dia da creação.
-
-Era uma vasta, uma immensa campina, e o seu aspecto que é o de um
-tapete de verdura e flores, não muda senão nas margens do ribeiro
-Arroga, onde se elevam balanceando ao vento encantadores grupos de
-arvores com folhas luxuriantes.
-
-Os cavallos, os bois, as gazellas, as avestruzes são, á falta de
-creaturas humanas os habitantes d'essas immensas solidões, que só são
-atravessadas pelos gauchos, esses centauros do novo mundo, como para
-dar a entender a essas turbas de animaes selvagens que Deus lhe deu um
-senhor... Mas esse senhor, como o veem passar os touros, as avestruzes,
-as gazellas! É a quem protestará primeiro contra a sua supposta
-dominação: o touro pelos seus mugidos, a avestruz e a gazella pela fuga.
-
-Esta vista fez-me pensar na patria, onde quando passa o austriaco
-que os opprime, os homens, essas creaturas creadas á imagem de Deus,
-cumprimentam-no e se curvam, não ousando dar os mesmos signaes de
-independencia que os animaes selvagens dão á vista do gaucho.
-
-SENHOR, até quando permittireis tão grande aviltamento da vossa
-creatura!?
-
-Deixemos o velho mundo, tão triste e aviltado, e voltemos ao novo, tão
-joven, e tão cheio de esperanças!
-
-Como é bello o cavallo das planicies orientaes, com os seus jarretes
-estendidos, com as ventas fumantes, com os seus labios que nunca
-sentiram a friesa do aço! Como respiram livremente debaixo do contacto
-da sua clina e juba, os seus flancos que nunca foram apertados pelo
-joelho dos cavalleiros, nem ensanguentados pelas suas esporas! Como é
-soberbo quando reune, chamando pelos seus rinchos a sua horda de eguas
-dispersas e que verdadeiro sultão do deserto, evita, fugindo em sua
-companhia, a presença dominadora do homem!
-
-Oh! maravilha da natureza! Milagre da creação! Como heide exprimir a
-emoção que á vossa vista experimentou esse corsario de vinte e cinco
-annos, que pela primeira vez estendia os braços para a immensidade.
-
-Mas como esse corsario estava a pé, nem o touro nem o cavallo o
-reconheciam por um homem. Nos desertos da America o cavallo é
-um complemento do homem, e sem o saber, o ultimo dos animaes.
-Primeiramente pararam estupefactos pela minha vista, mas bem depressa
-desprezando sem duvida a minha fraqueza, aproximaram-se de mim a tal
-ponto que sentia o rosto humedecido pela sua respiração. Ninguem
-deve ter receio do cavallo, animal nobre e generoso; mas todos devem
-desconfiar do touro, animal dissimulado e traiçoeiro. As gazellas
-e avestruzes depois de terem, como os cavallos e touros, mas mais
-circumspectamente, feito o seu reconhecimento, partiram rapidas como a
-flecha, e chegando ao alto d'um montezinho voltaram-se para verem se
-eram perseguidas.
-
-N'este tempo, isto é, pelos fins de 1834 e principios de 1835, esta
-parte do terreno oriental estava ainda virgem de toda a guerra; eis o
-motivo porque ali se encontrava tanta quantidade de animaes selvagens.
-
-
-
-
- XI
-
- A POETISA
-
-
-Continuei dirigindo-me para uma _estancia_.[4] Ahi encontrei só a
-mulher do _capataz_.[5] Como não podia vender-me ou dar um boi sem
-consentimento de seu marido, era necessario esperar a sua volta. Demais
-era tarde e antes do dia seguinte não se podia conduzir o animal até ao
-mar.
-
- [4] Nome das herdades na America do Sul.
-
- [5] Dono do estabelecimento.
-
-Ha momentos na vida de que a recordação ao mesmo tempo que elles se
-affastam continúa vivendo e augmentando na nossa memoria e tão bem
-que sejam quaes forem os outros successos da nossa existencia, essa
-recordação só se apaga com a morte. Era destino meu encontrar no meio
-d'este deserto, esposa de um homem quasi selvagem uma mulher de uma
-educação cultivada, uma poetiza sabendo pelo coração Dante, Petrarcha e
-Tasso.
-
-Depois de ter esgotado toda a minha sciencia na lingua hespanhola,
-fiquei agradavelmente surprehendido, ouvindo-a responder-me em
-italiano, convidando-me graciosamente a assentar-me, em quanto seu
-marido não chegava. No meio da nossa conversação, a minha encantadora
-hospedeira, perguntou-me se eu conhecia as poesias de Quintana, e
-ouvindo a minha resposta negativa, fez-me presente de um volume d'essas
-poesias, dizendo-me que m'o dava para apprender por sua causa o
-hespanhol. Perguntei-lhe então se era poetisa.
-
---Ha alguem, me respondeu, que diante d'esta natureza não seja poeta?
-
-E sem se fazer rogar recitou-me muitos trechos de poesias suas em que
-achei muito sentimento e uma grande harmonia. Teria passado toda a
-noite a escutal-a sem me lembrar de Mauricio que me esperava guardando
-a meza-jangada, mas a entrada do marido fez cessar o lado poetico para
-me chamar ao fim material da minha visita. Disse-lhe o que queria e foi
-combinado que no dia seguinte me venderia e levaria á praia um boi.
-
-Ao romper do dia despedi-me da minha bella poetisa e fui ter com
-Mauricio. O pobre diabo tinha passado a noite o melhor que poude,
-mettido entre os quatro toneis, e muito inquieto por meu respeito,
-receiando que eu tivesse sido devorado pelos tigres, muito communs
-n'esta parte da America e menos inoffensivos que os cavallos e os
-touros.
-
-No fim de alguns momentos appareceu o capataz trazendo um boi ao
-laço. Em poucos momentos o animal foi morto e esquartejado, tal é a
-habilidade que os homens do sul teem para estas obras de sangue.
-
-Faltava transportar o boi, cortado em pedaços e leval-o para o navio,
-isto é, a mil passos de distancia, pelo menos, tendo de atravessar os
-cachopos onde se despedaçavam as ondas furiosas.
-
-Mauricio e eu démos começo á nossa empreza.
-
-Já sabem como era construida a jangada que nos devia conduzir a bordo:
-uma meza com um tonel amarrado a cada pé, um pau no centro, que vindo
-do navio, tinha servido para suspender os nossos vestidos, e que
-voltando devia conduzir os viveres sustentando-os ao de cima da agua.
-
-Deitámos a jangada ao mar, pozemo-nos em cima, e Mauricio com uma vara
-na mão, e eu com um croque, começámos a manobrar temdo agua até aos
-joelhos, porque o peso que a jangada levava era excessivo.
-
-A nossa manobra executou-se com grandes applausos do americano e da
-tripulação da galeota, que fazia ardentes votos, póde ser, não pela
-nossa salvação, mas sim pela da carne que conduziamos. A nossa viagem
-ao principio foi feliz, mas chegamos a uma linha de cachopos que nos
-era necessario atravessar, achámo-nos por duas vezes quasi submergidos.
-
-Felizmente atravessamo-la sem novidade.
-
-Mas livres dos cachopos, estavamos em perigo mais imminente.
-
-Não encontravamos o fundo com os nossos croques, e por conseguinte era
-impossivel dirigir a embarcação. Alem d'isso a corrente tornando-se
-mais violenta, á medida que avançamos no rio, arrojava-nos para longe
-da galeota.
-
-Pareceu-me chegado o momento de atravessar o Atlantico parando só em
-Santa Helena ou no Cabo da Boa Esperança.
-
-Os nossos companheiros, se nos quizessem apanhar, não tinham senão o
-recurso de largarem as velas. Foi o que fizeram, e como o vento estava
-de terra a galeota bem depressa nos alcançou.
-
-Passando junto de nós os nossos companheiros, lançaram-nos um cabo.
-Amarramos com elle a jangada ao navio, e depois de termos içado todos
-os viveres é que Mauricio e eu subimos. Em seguida içámos a meza que
-foi reintregada no seu logar na casa do jantar, não tardando muito a
-exercer as suas funcções habituaes.
-
-Vendo o appetite com que os nossos companheiros atacaram a carne, que
-com tanto trabalho tinhamos alcançado, consideramo-nos sufficientemente
-recompensados das nossas fadigas.
-
-Alguns dias depois comprei por trinta escudos a canoa d'um navio que
-cruzava n'estas paragens.
-
-Estivemos ainda este dia á vista do pico de Jesus Maria.
-
-
-
-
- XII
-
- O COMBATE
-
-
-Tinhamos passado a noite ancorados, quasi seis milhas, ao meio dia
-do pico de Jesus Maria, em frente dos barrancos de S. Gregorio. Uma
-pequena brisa do norte começava a apparecer quando vimos vir do lado de
-Montevideo duas barcas que julgámos serem amigas; mas como não tinham
-o pavilhão encarnado, signal convenciado entre nós, julguei prudente
-o fazer-me de vela em quanto os esperava. Além d'isso mandei pôr no
-tombadilho os mosquetes e sabres.
-
-Esta precaução, como se vae vêr não foi inutil. A primeira barca
-continuava a avançar unicamente com tres homens á vista; chegada
-ao alcance do porta-voz, o que nos parecia o chefe disse que nos
-rendessemos e ao mesmo tempo o convez da barca encheu-se de homens
-armados que sem nos dar o tempo de responder á sua intimação começaram
-o fogo. Dei o grito de «Ás armas» e agarrei n'um fuzil, depois
-respondendo a este cumprimento conforme podia, e como estavamos com
-todo o pano mandei.--Ás vélas de diante.
-
-Não sentindo a galeota obedecer ao leme com a docilidade costumada,
-voltei-me e vi que a primeira descarga tinha morto o marinheiro que
-n'aquella occasião ia ao leme, e que era um dos nossos valentes.
-Chamava-se Florentino e tinha nascido em uma das nossas ilhas.
-
-Não havia tempo a perder. O combate estava travado com todo o furor. O
-lanchão, é o nome que dão á qualidade dos barcos com que combatiamos, o
-lanchão tinha-nos abordado pela direita e alguns dos seus marinheiros
-haviam já saltado no nosso barco, mas por felicidade alguns golpes de
-fuzil e sabre nos livraram d'elles.
-
-Depois de ter coadjuvado os meus companheiros a repellir esta abordagem
-agarrei no leme que se achava sem governo por causa da morte de
-Florentino. Infelizmente no momento em que o agarrava para executar uma
-manobra uma balla atravessou-me o pescoço ferindo-me entre a orelha e a
-carotida, fazendo-me cahir sem conhecimento.
-
-O resto do combate que durou uma hora, foi sustentado por Luiz
-Carniglia, piloto, e por Pascoal Sodola, Giovani Lamberti, Mauricio
-Garibaldi e dous maltezes. Os italianos fizeram prodigios de valor, mas
-os estrangeiros e os cinco negros fugiram para o porão. Emfim o inimigo
-fatigado de nossa defeza e tendo uma dezena de homens fóra de combate
-fugiu, em quanto que nós tendo apparecido algum vento continuámos a
-subir o rio.
-
-Ainda que tivesse tornado a mim, fiquei completamente inerte e inutil
-durante o resto do combate.
-
-Confesso, as primeiras impressões que senti abrindo os olhos, foram
-deliciosas. Podia dizer que havia sido morto e que tinha resuscitado,
-tanto o meu desmaio foi profundo. Entretanto esse sentimento de bem
-estar foi bem depressa abafado pelo conhecimento da situação em que
-nos achavamos. Ferido mortalmente, não tendo a bordo quem possuisse
-o menor conhecimento geographico, mandei buscar a carta, e com muita
-difficuldade pois, me achava com a vista coberta com um véo que me
-parecia o da morte, indiquei com o dedo Santa Fé no Rio Parana. Só
-Mauricio é que uma unica vez tinha feito uma viagem ao rio da Prata;
-para todos nós eram pois completamente estranhas aquellas paragens.
-Os marinheiros aterrados--os italianos, devo dizel-o, não partilhavam
-estes sentimentos ou pelo menos sabiam occultal-os--e receiando serem
-presos e considerados como piratas, desertaram na primeira occasião que
-se lhe apresentou. Em quanto esperavam por este momento, em cada barco,
-em cada canoa, em cada tronco d'arvore fluctuante viam um navio inimigo
-enviado em sua perseguição.
-
-O cadaver do nosso desgraçado camarada foi deitado ao mar, com as
-cerimonias costumadas n'estas occasiões, por que durante muitos dias
-não podemos desembarcar em parte alguma.
-
-Este genero de enterramento não era muito do meu agrado, e sentia por
-elle uma grande repugnancia, talvez por me julgar proximo a ter igual
-sorte. Confessei esta aversão a Luiz Carniglia.
-
-No momento em que lhe fazia esta confissão vieram-me á lembrança estes
-versos de Foscolo:
-
-«Uma pedra, um unico signal que difference os meus ossos d'aquelles que
-a morte semea todos os dias na terra e no Oceano.»
-
-O meu pobre amigo chorava promettendo não me deixar lançar á agua. Quem
-sabe se apesar do seu desejo teria podido executar a sua promessa. O
-meu cadaver serviria então para matar a fome a algum lobo marinho, ou
-caiman. Não tornaria a vêr a Italia, não me teria batido por ella, que
-era a minha unica esperança!
-
-Quem diria ao meu caro Luiz que antes d'um anno era eu que o veria
-rolando pelos cachopos, desapparecer no mar, e que procuraria debalde
-o seu cadaver, para cumprir a promessa que elle me havia feito, de
-o sepultar na terra e collocar na sua ultima morada uma cruz que o
-recommendasse á oração dos viandantes. Pobre Luiz! durante a minha
-longa e cruel enfermidade fostes tu que tivestes sempre por mim um
-carinho paternal.
-
-
-
-
- XIII
-
- LUIZ CARNIGLIA
-
-
-Vou dizer algumas palavras sobre o meu pobre amigo Luiz. E porque é
-um simples marinheiro não lhe hei-de dedicar algumas linhas? Porque
-elle não é... Oh! posso assegural-o, a sua alma era bastante nobre
-para sustentar em todas as circumstancias a honra italiana: nobre para
-affrontar todas as tormentas, nobre emfim para me proteger, e para
-cuidar de mim, como se fosse seu filho! Quando estava deitado no meu
-leito de agonia, abandonado por todos, e delirava com o delirio da
-morte, era Luiz que sentado á cabeceira do meu leito com a dedicação e
-paciencia de um anjo não se affastava de mim um instante senão para ir
-chorar e occultar as suas lagrimas. Os seus ossos espalhados no Oceano
-mereciam um monumento onde o proscripto reconhecido podesse um dia
-dizer as suas virtudes aos seus concidadãos, devolvendo-lhe as lagrimas
-piedosas que me consagrou.
-
-Luiz Carniglia era de Deiva, pequeno paiz do Levante. Não havia
-recebido instrucção litteraria, mas suppria esta falta por um
-maravilhoso intendimento. Privado de todos os conhecimentos nauticos
-que são necessarios aos pilotos, governava os navios até Gualeguay com
-a sagacidade e felicidade de um piloto consumado. No combate que acabo
-de referir, foi a elle que principalmente devemos o não ter cahido
-nas mãos do inimigo: armado de um machado estava sempre no logar onde
-havia maior perigo sendo por este modo o terror dos assaltantes. De
-uma estatura elevada e mui robusta reunia uma grande agilidade a um
-extraordinario valor. Dotado de uma grande bondade nas cousas da vida,
-possuia o raro dom de se fazer amar por todos. Infelizmente todos os
-melhores filhos da nossa desgraçada patria teem morrido como este em
-terra estrangeira esquecidos e sem ter quem derrame uma lagrima por
-elles!
-
-
-
-
- XIV
-
- PRISIONEIRO
-
-
-Fiquei desanove dias recebendo unicamente os cuidados de Luiz Carniglia.
-
-No fim d'este tempo chegámos a Gualeguay.
-
-Tinhamos encontrado na embocadura do Ibiqui, um navio commandado por D.
-Lucas Tantalo, excellente homem que teve toda a sorte de cuidados por
-mim prestando-me o que julgava ser-me util na minha posição.
-
-Acceitámos os seus presentes com grande prazer, porque não tinhamos a
-bordo senão café que era o nosso unico alimento. Davam-me pois café
-a todos os momentos sem se importarem se isso era ou não conveniente
-para a minha doença. Comecei por ter uma febre assustadora acompanhada
-por uma grande difficuldade de engolir fosse o que fosse, o que não
-admirava, porque a balla atravessando-me o pescoço de lado a lado
-tinha passado entre as vertebras cervicaes e a pharinge. Decorridos
-oito dias n'este estado afflictivo, a febre havia diminuido, sentindo
-grandes melhoras.
-
-D. Lucas tinha feito mais: partindo, deu-me cartas de recommendação
-para Gualeguay,--fazendo o mesmo a um seu passageiro chamado Arraigada,
-biscainho, que se achava estabelecido na America--e particularmente
-para o governador da provincia d'Entre-Rios, D. Paschal Echague, a quem
-por ter de fazer uma viagem, deixou o seu proprio medico, D. Romão
-Delarea, joven argentino, de muito merito, que examinando a minha
-ferida, e tendo sentido a balla do lado opposto áquelle por que tinha
-entrado, fez a extracção com toda a habilidade, tratando-me durante
-algumas semanas, isto é até ao meu completo restabelecimento, com os
-cuidados mais affectuosos e desinteressados.
-
-Fiquei seis mezes em Gualeguay em casa de D. Jacintho Andreas, que
-teve, bem como a sua familia, por mim os maiores cuidados.
-
-Infelizmente estava quasi prisioneiro. Não obstante a boa vontade
-do governador Echague, e o interesse que por mim tinha a população
-de Gualeguay, era obrigado a esperar a resolução do dictador de
-Buenos-Ayres que não decidia cousa alguma.
-
-O dictador de Buenos-Ayres era n'esta occasião Rosas, de quem tratando
-de Montevideo, terei occasião de fallar mais de vagar.
-
-Curado da minha ferida, comecei a dar alguns passeios, que por ordem
-da authoridade eram mui limitados. Em troca do meu navio confiscado
-davam-me um escudo por dia, o que na realidade era muito para um paiz
-em que sendo tudo mui barato quasi se não gasta dinheiro: mas tudo isto
-não valia a minha liberdade.
-
-Provavelmente esta despeza d'um escudo por dia parecia muito elevada ao
-governador, porque em differentes occasiões me foram feitas offertas de
-se me favorecer a fuga, mas as pessoas que me faziam essas offertas,
-eram, sem o saberem, agentes provocadores! Diziam-me que o governo
-veria a minha fuga sem grande pesar. Não era pois necessario fazer
-grande violencia para que eu adoptasse uma resolução de que ja havia
-formado o projecto. O governador depois da partida de D. Paschoal, era
-um certo Leonardo Millan, que não me havia até áquella épocha mostrado
-nem interesse, nem odio, não tendo pois o mais pequeno motivo para me
-queixar d'elle.
-
-Resolvi então fugir, começando logo os meus preparativos, afim de estar
-prompto na primeira occasião que se me apresentasse. Uma noute de
-tempestade dirigi-me para casa d'um excellente homem que costumava de
-quando em quando ir visitar, e que habitava a tres milhas de Gualeguay.
-
-Dei-lhe parte da minha resolução, pedindo-lhe que me procurasse um
-guia e cavallos, esperando chegar a uma «estancia» pertencente a um
-inglez, situada na margem esquerda do Parana, onde eu provavelmente
-encontraria algum barco que me transportasse incognito a Buenos-Ayres
-ou Montevideo. O guia e os cavallos foram arranjados, e começámos a
-andar por meio dos campos para não sermos descobertos. Tinhamos que
-caminhar cincoenta e quatro milhas, podendo vencer perfeitamente este
-espaço em meia noute.
-
-Quando rompeu o dia estavamos á vista de Ibiqui, na distancia de meia
-milha do rio. O guia disse-me então que parasse ali em quanto elle ia
-saber que caminho deviamos seguir.
-
-Fiquei pois só.
-
-Apeei-me, amarrei as redeas do cavallo ao tronco de uma arvore e
-deitei-me, esperando assim durante duas ou tres horas, até que vendo
-que o meu guia não apparecia, levantei-me resolvido a ir pessoalmente
-informar-me, quando repentinamente ouvi por detraz de mim um tiro.
-Voltei-me e vi um destacamento de cavallaria que me perseguia de sabre
-em punho. Estavam já entre o meu cavallo e eu, era pois impossivel
-defender-me ou fugir.
-
-Entreguei-me.
-
-
-
-
- XV
-
- A APOLEAÇÃO
-
-
-Ligaram-me as mãos atraz das costas, pozeram-me a cavallo, e depois
-ligaram-me tambem os pés como o haviam feito ás mãos, sujeitando-os á
-cilha do animal.
-
-Foi n'este estado que cheguei a Gualeguay, onde, como se vae vêr, me
-esperava um peor tratamento.
-
-Ainda hoje, e já são passados bastantes annos, estremeço quando penso
-n'esta circumstancia da minha vida.
-
-Conduzido á presença de Leonardo Millan fui intimado por elle para
-denunciar quem me havia fornecido os meios de effectuar a minha fuga.
-É escusado dizer que não fiz tal confissão, pois declarei que só eu a
-tinha arranjado e executado. Então como me achava ligado e Leonardo não
-tinha cousa alguma a temer, aproximou-se de mim e começou a bater-me
-nas faces com o chicote. Depois renovou as suas perguntas, não sendo
-mais feliz que da primeira vez.
-
-Mandou-me conduzir á prisão, e disse em voz baixa algumas palavras ao
-ouvido d'um dos guardas.
-
-Estas palavras eram a ordem de me applicar a tortura.
-
-Chegando á camara que me estava destinada, os guardas deixaram-me as
-mãos ligadas atraz das costas, collocaram-me nos pulsos uma nova corda,
-e passaram a outra extremidade a uma trave, suspendendo-me a quatro ou
-cinco pés do chão.
-
-Então Leonardo entrou na prisão e perguntou-me de novo se estava
-resolvido a dizer a verdade.
-
-A unica vingança que podia tomar era cuspir-lhe no rosto, e assim o fiz.
-
---Quando o prisioneiro, disse elle retirando-se, quizer declarar
-quem foram os seus cumplices, mandem-me chamar, e depois de fazer a
-confissão podem pol-o no chão.
-
-Depois sahiu.
-
-Fiquei duas horas n'esta horrivel posição. O peso do meu corpo
-sobrecarregava nos meus punhos ensanguentados e nos meus hombros
-deslocados.
-
-Parecia-me estar sobre brasas.
-
-A todos os momentos pedia agua, e os meus guardas mais humanos que
-o meu carrasco davam-me, mas ella não me matava a sede devoradora
-que soffria. Pode-se fazer uma idéa dos meus padecimentos, lendo as
-torturas que se inflingiam aos prisioneiros na idade media. No fim de
-duas horas os meus guardas tendo piedade do meu estado, ou julgando-me
-morto desceram-me.
-
-Cahi no chão sem movimento.
-
-Era uma massa inerte, sem outro sentimento que o de uma profunda e muda
-dôr--era quasi um cadaver.
-
-N'este estado sem eu saber o que faziam de mim metteram-me nos cepos.
-
-Tinha andado com as mãos e pés ligados atravez de pantanos cincoenta
-milhas. Os mosquitos numerosos e enraivecidos n'esta estação tinham-me
-tornado o rosto e as mãos n'uma grande chaga. Havia soffrido durante
-duas horas horriveis torturas, e quando tornei a mim achei-me ligado a
-um assassino.
-
-Ainda que não tivesse dito uma unica palavra, no meio dos meus atrozes
-soffrimentos, D. Jacintho Andreas tinha sido preso. Os habitantes do
-paiz estavam cheios de espanto.
-
-Em quanto a mim senão fossem os cuidados de uma mulher que foi para
-mim um anjo de caridade teria succumbido a tão atrozes soffrimentos.
-Despresando todo o perigo, vinha ver-me todos os dias, trazendo-me o
-que eu necessitava.
-
-Chamava-se Allemand.
-
-Poucos dias depois o governador vendo que eram inuteis todas as
-tentativas que fazia para me obrigar a fallar, e convencido que
-eu morreria antes de denunciar um dos meus amigos, não querendo
-provavelmente tomar sobre si a responsabilidade da minha morte
-mandou-me para a capital da provincia Bagada. Fiquei dois mezes na
-prisão no fim dos quaes o governador me mandou dizer que me era
-permitido sahir livremente da provincia. Ainda que eu tenho opiniões
-oppostas a Echague e que por mais de uma vez, depois d'esse dia,
-tenha combatido contra elle não devo occultar as obrigações de que
-lhe sou devedor e ambicionava hoje ter occasião de lhe provar todo o
-reconhecimento que lhe consagro pelos serviços que me prestou.
-
-Mais tarde o acaso fez cahir nas minhas mãos os chefes militares da
-provincia de Gualeguay e todos foram postos em liberdade sem se lhe
-fazer a menor offensa, nem a elles nem ás suas propriedades.
-
-Em quanto a Leonardo Millan nunca o quiz vêr com receio que a sua
-presença, fazendo-me recordar do que havia soffrido me obrigasse a
-praticar alguma acção indigna de mim.
-
-
-
-
- XVI
-
- VIAGEM NA PROVINCIA DO RIO GRANDE
-
-
-Em Bajada embarquei n'um bergantim italiano, capitão Ventura. Este
-maritimo homem recommendavel a todos os respeitos, tratou-me sempre
-com a maior generosidade e cavalheirismo. Conduziu-me á embocadura
-do Iguassu, affluente do Parana, ahi passei para bordo de um barco,
-capitaneado por Pascoal Carbone, que se destinava a Montevideo.
-
-Estava então em maré de ventura; Carbone obsequiou-me tambem
-admiravelmente.
-
-A fortuna, assim como as infelicidades vem sempre em grandes porções;
-estas haviam finalisado para mim; aquellas começavam a affluir sem
-interrupção.
-
-A minha proscripção continuava em Montevideo. A resistencia que
-empregára contra os lanchões e a perda que lhes haviamos causado era
-para isso pretexto plausivel. Fui então obrigado a esconder-me em casa
-de Pazante aonde me conservei por espaço de um mez.
-
-Comtudo a minha reclusão tornava-se supportavel, por que era suavisada
-pelas visitas de muitos compatriotas, que em tempo de prosperidade e de
-paz tinham vindo estabelecer-se no paiz e exerciam para com os amigos
-do velho mundo a mais generosa hospitalidade. A guerra, e sobretudo
-o cerco de Montevideo veiu mudar a posição da maior parte d'elles e
-de feliz que era tornou-l'ha não só má, porém pessima. Pobres homens!
-bastantes vezes os deplorei, e desgraçadamente não podia fazer mais do
-que lamental-os!
-
-Passado um mez, era tempo de seguirmos viagem; parti com Rossetti para
-o Rio Grande; a nossa jornada devia ser e foi feita a cavallo, o que me
-deu muito prazer. Viajavamos á _escotero_.
-
-Darei uma pequena explicação sobre esta maneira de viajar, que pela sua
-rapidez deixa bem longe a posta por mais ligeira que ella seja.
-
-Sejam dois, tres ou quatro os viajantes, vão acompanhados por vinte
-cavallos habituados a seguir os que vão montados; quando depois alguns
-dos cavalleiros vê que o seu cavallo está fatigado, apeia-se, passa o
-selim e os arreios para um dos que vem livres, e segue a galope tres
-ou quatro leguas; depois toma outro, e assim successivamente os vae
-mudando até chegar ao seu destino; os cavallos cançados, mesmo tendo
-de seguir os outros, recuperam forças, porque vão livres de selim e do
-cavalleiro.
-
-O pouco tempo que os cavalleiros gastam n'estas mudas, os cavallos o
-aproveitam para comerem alguma herva e beberem agua, se por acaso a
-encontram; as verdadeiras rações são duas vezes ao dia, pela manhã e á
-noite.
-
-D'este modo chegámos a Piratini, séde do governo do Rio Grande; a
-capital da provincia é Porto Allegre, porém como estava occupada pelos
-imperiaes, o governo republicano estabelecera-se em Piratini.
-
-Piratini é realmente um dos mais bellos paizes do mundo; divide-se em
-duas regiões; uma de planicies e a outra montanhosa.
-
-As planicies verdadeiramente tropicaes produzem a banana, a cana
-d'assucar, e a laranja. Junto aos troncos das suas arvores, e por
-entre as plantas arrasta-se a serpente cascavel, a serpente negra, e a
-serpente coral; ali, como na India, vê-se saltar o tigre, o jaguar, a
-puma, e o leão inoffensivo, de dimensões eguaes a qualquer dos enormes
-cães do monte de S. Bernardo.
-
-A região montanhosa é temperada como o meu bello clima de Niza;
-colhe-se o bom pecego, a pera, a ameixa, e toda a qualidade de fructos
-da Europa, encontram-se as magnificas florestas, das quaes nenhuma pena
-seria capaz de fazer exacta descripção, com os seus pinheiros direitos
-como os mastros dos navios, e d'altura de duzentos pés, e dos quaes
-talvez cinco ou seis homens não podessem abraçar o tronco. Á sombra
-d'esses pinheiros vegetam os taquares, canas gigantescas que chegam a
-oitenta pés d'altura, e das quaes na base não excedem a grossura do
-corpo d'um homem; existe tambem ali a _barba de pau_, litteralmente
-dita a barba das arvores, que entrelaçando-se multiplicadamente
-fórma espeços bosques; nas vastas planicies chamadas campestres
-estendem-se cidades inteiras, como Cima da Serra, Vaccaria, Lages; não
-tres cidades, mas tres provincias; população caucasiana, de origem
-portugueza, e essencialmente hospitaleira.
-
-O viajante não tem precisão de dizer nem de pedir coisa alguma; entra
-em qualquer habitação, vae direito á camara dos hospedes; os criados
-apparecem, sem que sejam chamados, descalçam-o e lavam-lhe os pés.
-Fica ali por quanto tempo quer, e quando lhe appetece retira-se sem
-despedir-se nem agradecer; e apesar d'esta descortesia, outro que venha
-depois d'elle não é recebido com menos agrado.
-
-É a juventude da natureza, o erguer da humanidade.
-
-
-
-
- XVII
-
- A LAGOA DOS PATOS
-
-
-Chegando a Piratini, fui magnificamente recebido pelo governo da
-republica. Bento Gonçalves--verdadeiro cavalleiro andante do seculo
-de Carlos-Magno, irmão, pelo coração, dos Oliveiros e dos Roldões
-vigoroso, agil e leal como elles, verdadeiro centauro, manejando um
-cavallo como ainda não vi manejar senão ao general Netto--modelo
-completo para um cavalleiro--estava ausente e em marcha com uma brigada
-de cavallaria, para atacar Silva Tanaris, chefe imperial, que tendo
-atravessado o canal de S. Gonçalo, infestava esta parte da provincia
-Piratini, séde do governo republicano, e pequena villa encantadora pela
-sua posição e cabeça de districto do mesmo nome, guarnecida por uma
-população bellicosa e essencialmente dedicada á causa da liberdade.
-
-Na ausencia d'aquelle general, foi o ministro da fazenda quem me fez as
-honras da cidade.
-
-Agora uma palavra respectivamente ao Rio Grande, o qual, por este
-nome, poderia suppor-se situado ao longo de um grande rio, ou um rio
-propriamente dito.
-
-O Rio Grande é o Lago dos Patos, e terá trinta leguas de extensão.
-Além de alguns baixos muito fundos, dos quaes mais tarde fallaremos, é
-em toda essa extensão bastante profundo e povoado por caimans; sendo
-formado por cinco rios, os quaes vindo terminar na extremidade do
-norte, apresentam a disposição de cinco dedos da mão, da qual a palma é
-o fim do lago.
-
-Ha um ponto d'onde se descobrem perfeitamente esses cinco rios, e que
-por essa razão se chamava _Viamão_--Vi a mão.
-
-Viamão mudara, porém de nome, e chamava-se _Settembrina_ em
-commemoração de haver sido em setembro proclamada a republica.
-
-Achava-me em Piratini sem ter em que me occupar; pedi então para fazer
-parte da columna de operações, que se dirigia sobre S. Gonçalo, e era
-commandada pelo presidente da republica.
-
-Foi então que pela primeira vez vi aquelle valente, gosando alguns
-dias a sua intimidade. Era realmente o filho querido da natureza--que
-lhe havia prodigalisado tudo o que torna o homem um verdadeiro
-heroe.--Bento Gonçalves teria então sessenta annos. Alto, esvelto,
-montava a cavallo, como já disse, com um garbo e agilidade admiraveis.
-N'aquella posição ninguem o julgaria com mais de vinte e cinco
-annos.--Valente e feliz, não teria hesitado um momento, como um
-cavalleiro de Arioste, em atacar um gigante: tivesse elle a estatura de
-Polyphemo ou a armadura de Ferragus.
-
-Fôra um dos primeiros a levantar o grito de guerra, não com vistas
-de ambição pessoal, mas como qualquer outro belligerante filho
-d'aquelle povo. Na campanha passava como o mais infimo habitante das
-campinas; isto é, com a carne assada e agua pura.--No dia em que nos
-encontrámos pela primeira vez, convidou-me para o seu banquete frugal;
-e conversámos com tanta familiaridade como se fossemos companheiros de
-infancia e eguaes em posição. Com taes dotes naturaes e adquiridos,
-Bento Gonçalves era o idolo de seus concidadãos; porém cousa estranha,
-foi quasi sempre infeliz nas emprezas guerreiras; o que me faz
-acreditar que o acaso é superior ao genio para os successos da guerra,
-e para a fortuna dos heroes.
-
-Acompanhei a columna até Camodos,--passagem do canal de S. Gonçalo que
-liga a lagôa dos Patos a Meryn.
-
-Silva Tanaris havia-se retirado precipitadamente, logo que soube da
-aproximação de uma columna do exercito republicano.
-
-Não podendo alcançal-o, o presidente retrocedeu. Fiz outro tanto,
-tomando o caminho de Piratini.
-
-N'esta occasião recebemos noticia da batalha de Rio Pardo, na qual o
-exercito imperial fôra completamente destroçado pelos republicanos.
-
-
-
-
- XVIII
-
- ARMAMENTO DE LANCHÕES EM CAMACUA
-
-
-Fui encarregado do armamento de dois lanchões que existiam nas aguas do
-Camacua, rio que corre quasi parallelo e a pouca distancia do canal de
-S. Gonçalo, e que como este vae desaguar no lago dos _Patos_.
-
-Reuni alguns marinheiros vindos de Montevideo a outros que achei no
-Piratini, completando ao todo uns trinta homens de diversas nações.
-Infelizmente para elle tambem ali se achava o meu caro Luiz Carniglia.
-Tinhamos um outro recruta francez de estatura collossal, bertão, por
-nascimento, a que chamavamos João-Grande, e outro por nome Francisco,
-verdadeiro corsario, e digno _irmão da costa_.
-
-Chegando a Camacua, encontrámos ahi o americano John Griggs, que
-habitando n'uma herdade pertencente a Bento Gonçalves estava
-encarregado de vigiar o acabamento de dois _sloops_.
-
-Fui nomeado chefe d'essa frota ainda em construcção, com o posto de
-capitão-tenente. Era curioso aquelle methodo de construcção que fazia
-honra á bem conhecida persistencia dos americanos. Ia procurar-se
-á madeira a uma parte e o ferro a outra; dois ou tres carpinteiros
-cortavam e apparelhavam aquella, um mulato forjava o ferro. Foi assim
-que se fabricaram os dois _sloops_, desde os pregos até aos circulos de
-ferro dos mastros.
-
-No fim de dois mezes a esquadrilha estava prompta. Cada um dos vasos
-foi armado com duas peças de bronze; quarenta negros ou mulatos foram
-aggregados aos trinta europeus, formando d'esse modo duas equipagens
-que comprehendiam setenta homens.
-
-O lote dos lanchões seria um de dezoito, outro de doze a quinze
-tonelladas.
-
-Tomei o commando do mais forte a que puzemos o nome de _Rio-Pardo_.
-
-John Griggs foi encarregado do segundo, que se chamou--_O Republicano_.
-
-Rossetti tinha ficado em Piratini, incumbido da redacção do jornal _O
-Povo_.
-
-Começaram então as nossas correrias pelo lago dos Patos. Passaram-se
-alguns dias sem fazermos mais do que prezas insignificantes.
-
-Os imperiaes tinham, para fazer frente aos nossos dois _sloops_, de
-vinte e oito tonelladas, trinta navios de guerra e um barco a vapor.
-
-Porém nós tinhamos a nosso favor os baixios das aguas.
-
-O lago não era navegavel para os grandes barcos, se não n'uma especie
-de canal que seguia ao longo da sua margem do oriente.
-
-No lado opposto succedia o contrario, porque o solo era cortado em
-declive, e nós mesmos viamo-nos ás vezes encalhados antes de tocar na
-margem.
-
-Os bancos d'areia estendiam-se pela lagôa á similhança dos dentes de um
-pente, e só havia de bom que esses dentes eram bastante affastados uns
-dos outros.
-
-Quando eramos forçados a encalhar, e os canhões dos navios de guerra ou
-do vapor nos incommodavam, dizia:
-
---Ávante, meus patos, saltemos á agua.
-
-E os meus patos cahiam n'agua, e á força de braços erguiam o lanchão,
-transportando-o para o outro lado do banco de areia.
-
-No meio de todos estes pequenos acontecimentos tomámos um barco
-ricamente carregado que foi conduzido immediatamente para a costa
-occidental do lago, junto a Camacua, aonde o queimamos depois de
-havermos tirado tudo o que era aproveitavel.
-
-Foi esta a primeira preza que fizemos, mas que valeu bem o trabalho; e
-alegrou a nossa marinha. Todos tiveram a sua parte nos despojos, e com
-um fundo reservado mandei fazer uniformes para todos os meus bravos.
-
-Os imperiaes, que até ali nos haviam desprezado, não perdendo
-occasião de escarnecer-nos, começaram a comprehender qual era a nossa
-importancia no lago, e trataram de empregar grande numero de navios
-para protegerem o seu commercio.
-
-A vida que passavamos era laboriosa e cercada de perigos, em razão
-da superioridade numerica dos inimigos; mas ao mesmo tempo essa vida
-era encantadora, pittoresca, e muito em harmonia com o meu caracter.
-Não eramos unicamente maritimos, seriamos tambem cavalleiros no caso
-de necessidade. No momento de perigo encontrariamos quantos cavallos
-quizessemos, e formariamos um esquadrão se não elegante, ao menos
-temivel.
-
-Nas margens da lagôa encontravam-se estancias que, pela aproximação
-da guerra, tinham sido abandonadas pelos proprietarios, aonde achamos
-muita abundancia de gado cavallar e o necessario para o seu sustento;
-por outro lado nas herdades existiam terrenos cultivados, aonde
-colhiamos abundancia de trigo, batata doce, e muitas vezes excellentes
-laranjas; que são as melhores de toda a America do Sul.
-
-A gente que me acompanhava verdadeira tropa cosmopolita era composta
-de homens de todas as côres e de todas as nações. Tratava-os com
-uma bondade, de que talvez parecessem pouco dignos, porém posso
-affirmar uma coisa: é que nunca tive motivo de arrepender-me d'essa
-bondade--todos obedeciam á minha primeira ordem e nunca me fatigaram,
-nem me vi na necessidade de os punir.
-
-
-
-
- XIX
-
- A ESTANCIA DA BARRA
-
-
-Sobre o Camacua, aonde tinhamos o nosso pequeno arsenal, e d'onde
-sahira a frota republicana, habitavam occupando uma grande extensão de
-terreno as familias dos irmãos de Bento Gonçalves, assim como outros
-parentes mais affastados; innumeraveis rebanhos se apascentavam n'esta
-magnifica planicie que a guerra havia respeitado, porque se achava ao
-abrigo do seu poder destruidor.
-
-As producções agricolas achavam-se ali agglomeradas em tanta
-abundancia, como não tenho idéa de vêr em parte alguma da Europa.
-
-Já disse em outra parte que em nenhum logar do mundo se encontra
-hospitalidade mais franca e cordeal do que n'este paiz; e foi o que nós
-achámos em todas as familias, nas quaes existia por nós a mais decidida
-sympathia.
-
-As estancias que por estarem mais proximas ao rio, e por esperarmos
-ser ahi mais bem recebidos, procuravamos de preferencia para nos
-hospedarmos, eram as de D. Anna e D. Antonia, irmãs do presidente.
-Aquella situada á margem do Camacua, e esta nas do Arroyo Grande.
-
-Não sei se por effeito da minha imaginação, ou por um privilegio dos
-meus vinte e seis annos, tudo ali era encantador aos meus olhos, e
-posso assegurar que nenhuma época da minha vida está como esta tão
-ligada ao meu pensamento, e nada se me apresenta mais fascinador do que
-este periodo que recordo com prazer.
-
-A casa de D. Anna era para mim um verdadeiro paraiso; posto que já não
-fosse joven, esta bella senhora conservava comtudo um caracter alegre.
-
-Tinha em sua companhia uma familia inteira, emigrada de Pelotas,
-cidade da provincia, da qual era chefe o doutor Paulo Ferreira; tres
-meninas que rivalisavam nos encantos, eram o perfeito ornamento d'este
-delicioso recinto. Uma d'essas jovens, Manuela, era a senhora absoluta
-do meu coração: sem esperança de poder possuil-a, ainda assim não podia
-deixar de a amar. Era desposada de um dos filhos de Bento Gonçalves.
-
-Em um momento de perigo tive occasião de conhecer que não era
-totalmente indifferente á dama dos meus pensamentos; e a certeza que
-obtive da sua sympathia serviu a minorar o desgosto de nunca dever
-pertencer-me.
-
-Geralmente as mulheres do Rio Grande são bellas, e os meus
-homens tornaram-se facilmente escravos d'essas bellezas; porém
-conscienciosamente affirmo que nenhum d'elles tinha pelo seu idolo um
-culto tão puro e desinteressado como eu por Manuela. Portanto, todas as
-vezes que um vento contrario, uma borrasca ou uma expedição nos levava
-ao Arroyo Grande ou a Camacua, era para nós dia de festa; o pequeno
-bosque de Firiva, que indica a entrada para aquella, ou o pomar das
-larangeiras que occulta o caminho para a ultima, eram sempre saudados
-por uma triplicada salva de _hourras_, que mostravam a força do nosso
-enthusiasmo amoroso.
-
-Um dia, depois de havermos puchado para terra as nossas embarcações,
-descançavamos na estancia de D. Antonia, irmã do presidente, a pouca
-distancia de uma d'essas choupanas, aonde salgam e defumam a carne, ás
-quaes dão no paiz o nome de _galpon de chargueada_, quando me vieram
-dizer que o coronel João Pedro de Abreu, appellidado _Mouringue_, isto
-é, Foinha, em consequencia de ser muito astucioso, havia desembarcado
-a duas ou tres leguas de distancia, com setenta homens de cavallaria e
-oitenta de infanteria.
-
-Havia probabilidade para acreditar esta noticia, porque depois da
-tomada do barco que haviamos queimado depois de nos assenhorearmos do
-mais precioso que elle tinha, sabiamos que Mouringue jurara tirar uma
-boa vingança.
-
-Esta noticia encheu-me de alegria.
-
-Os homens commandados pelo coronel Mouringue eram mercenarios allemães
-ou austriacos aos quaes ainda eu não estava enfastiado de fazer pagar
-a divida que todo o bom italiano tem contrahido com os seus irmãos da
-Europa.
-
-Eramos sessenta ao todo; porém eu conhecia bem esses sessenta homens,
-e com elles era capaz de fazer frente não só a cento e cincoenta
-austriacos, mas a trezentos.
-
-Tratei de destacar espias para todos os lados e fiquei com uns
-cincoenta homens junto a mim.
-
-Os dez ou doze que enviara a explorar terreno, voltaram, e disseram a
-uma voz:
-
---Não vimos cousa alguma,
-
-Havia então um denso nevoeiro, e foi protegido por elle que o inimigo
-poude subtrahir-se ás suas pesquisas.
-
-Resolvi não confiar unicamente na intelligencia humana, e quiz
-interrogar tambem o instincto dos animaes.
-
-Ordinariamente, quando qualquer expedição d'este genero se aproxima,
-e homens d'outros sitios vem preparar uma emboscada junto a alguma
-estancia, os animaes que sentem ruido estranho, dão signaes de
-inquietação, e quem tacitamente os interroga, raras vezes se engana.
-
-Os cavallos espalhados pela minha gente, começaram a andar mui
-socegados em torno da estancia, manifestando assim que nada de novo se
-passava nas proximidades.
-
-Portanto acreditando que não havia surpreza a temer, ordenei á minha
-gente que arrumasse as armas, todavia carregadas, e as munições nos
-cabides que mandara construir dentro da arribana, e dei-lhes o exemplo
-de segurança, começando a almoçar, e convidando-os a fazer outro tanto.
-
-Por costume, nunca se faziam rogar para este convite.
-
-Graças a Deus, tambem nunca as munições de bocca nos faltavam.
-
-Terminado o almoço, mandei cada um a tratar da sua occupação.
-
-Toda a minha gente trabalhava do mesmo modo que comia; isto é, sempre
-com boa vontade: não se fazendo rogar: uns foram para os lanchões que
-estavam sobre a praia, afim de tratarem de algum arranjo de que elles
-carecessem, outros dirigiram-se á forja, estes a buscar madeira para
-queimar, e aquelles finalmente para a pesca.
-
-Fiquei eu só e o mestre cosinheiro, que havia estabelecido a sua
-cosinha á luz do dia, em frente da arribana, e ahi vigiava as nossas
-marmitas.
-
-Quanto a mim, saboreava voluptuosamente o meu _mate_, especie de chá do
-Paraguay, que se toma de uma cabaça com o auxilio de um canudo de vidro
-ou de pau.
-
-Comtudo, não duvidava que o coronel Fuinha, sendo natural do paiz,
-tivesse com a sua astucia illudido a vigilancia da minha tropa, não
-causando a sua presença sobresalto aos animaes, e que estaria talvez
-com os seus cento e cincoenta austriacos deitado em algum bosque a
-quinhentos ou seiscentos passos de nós.
-
-Repentinamente, com grande admiração minha, ouvi por detraz de mim,
-tocar a carregar.
-
-Voltei-me.
-
-Infanteria e cavallaria carregavam ao gallope; cada cavalleiro trazia
-um homem na garupa. Os que não tinham cavallos corriam a pé agarrados
-ás crinas. Dei um salto e achei-me no _galpon_; fui seguido pelo
-cosinheiro mas o inimigo estava tão proximo de nós que no momento em
-que eu transpunha o liminar da porta, senti o chapeu atravessado por
-uma lança.
-
-Ja disse que os fuzis estavam carregados na grade da mangedoura. Tinha
-sessenta.
-
-Agarrei em um e descarreguei-o, depois um segundo, e um terceiro, com
-tanta rapidez, que não se poderia julgar que me achava só, e com tanta
-felicidade que tres homens cahiram.
-
-Tres outros tiros se succederam aos primeiros, e como atirava ao grupo,
-todos eram funestos.
-
-Se o inimigo, tivesse a idéa de assaltar o _galpon_ estaria tudo
-acabado, mas o cosinheiro tinha-se-me unido e fazia tambem fogo, de
-modo que o coronel Fuinha, apesar de toda a sua esperteza, julgou que
-todos nós estavamos reunidos.
-
-Por consequencia retirou-se para uns cem passos de distancia do
-alpendre, e começou a fazer alguns tiros de quando em quando.
-
-Foi o que me salvou.
-
-Como o cosinheiro não era bom atirador, e na nossa situação cada tiro
-perdido era uma falta irreparavel, disse-lhe que se entertesse em
-carregar os fuzis que eu os iria descarregando.
-
-Estava intimamente convencido de que a minha gente, suspeitando já
-que o inimigo tinha desembarcado, e ouvindo o estrondo da fuzilaria,
-comprehenderia tudo e viria em meu auxilio.
-
-Não me enganava.
-
-O meu bravo Luiz Carniglia foi o primeiro que appareceu atravez as
-nuvens de fumo que existiam entre o _galpon_ e a tropa inimiga que
-fazia um fogo infernal.
-
-Depois d'elle appareceram Ignacio Bilbao, biscainho, e um italiano
-chamado Lourenço. N'um momento estavam a meu lado, e começaram a
-imitar-me o melhor que poderam; depois chegaram Eduardo Mutru,
-Nascimento Raphael e Procopio--estes dois ultimos eram negros--e
-Francisco da Silva. Queria em logar de escrever no papel, gravar no
-bronze os nomes d'estes valentes companheiros, que no numero de treze
-se me reuniram combatendo durante cinco horas cincoenta inimigos.
-
-O inimigo tinha-se apoderado de todas as casas e barracas que nos
-rodeavam, fazendo-nos d'ahi um fogo terrivel. Alguns dos seus soldados
-haviam subido aos telhados de que tiraram as telhas, disparando-nos
-tiros pelos buracos e lançando-nos fachinas accesas. Mas em quanto uns
-apagavam as fachinas, e outros respondiam á fuzillaria, dois ou tres
-cairam mortos pelo mesmo buraco que haviam feito. Tinhamos praticado
-com as nossas bayonetas algumas setteiras na muralha do _galpon_, e por
-ahi faziamos fogo quasi cobertos.
-
-Pelas tres horas o negro Procopio deu um tiro que teve um exito feliz:
-quebrou um braço ao coronel Moringue. No mesmo momento o coronel tocou
-a retirada, e partiu levando os feridos, mas deixando quinze mortos no
-campo da batalha.
-
-Dos meus companheiros tive cinco feridos e tres mortos. Custou-me pois
-oito homens esta refrega, que foi uma das mais serias em que me tenho
-achado.
-
-Estes combates eram tanto mais funestos para nós que não tinhamos
-nem medico nem cirurgião. As feridas ligeiras eram pensadas com agua
-fresca, renovando-se este medicamento o maior numero de vezes possivel.
-
-Rossetti, que por acaso se achava com os seus companheiros em Camacua,
-não se nos pôde reunir, com grande pesar seu. Sendo perseguidos e
-não tendo armas, foram obrigados uns a passar o rio a nado, outros a
-entranharem-se na floresta: um unico foi descoberto e morto.
-
-Este combate tão perigoso e que teve tão feliz resultado, deu uma
-grande confiança aos meus homens e aos habitantes d'este lado do paiz,
-expostos ha muito tempo ás excursões d'este inimigo aventureiro e
-intrepido.
-
-Moringue foi na realidade o chefe mais habilitado que tiveram os
-imperiaes. Era muito apto para estas emprezas, e devo dizer que sempre
-se tinha conduzido com uma finura que lhe teria merecido o appellido de
-_Fuinha_, se já o não tivesse.
-
-Nascido no paiz, que como já disse, conhecia perfeitamente, e dotado de
-uma astucia e intrepidez a toda a prova, causou graves prejuizos aos
-republicanos, e o imperio do Brazil deve-lhe sem duvida alguma a melhor
-parte na submissão d'esta corajosa provincia.
-
-Celebrámos a nossa victoria. D. Antonia deu em nossa honra uma festa na
-sua estancia, distante doze milhas do _galpon_, em que tinha tido logar
-o combate.
-
-Foi n'esta festa que eu soube que uma linda menina, constando-lhe o
-perigo que eu corria, havia impallidecido e perguntado com toda a
-anciedade noticias minhas. Esta noticia foi mais agradavel para mim,
-do que a victoria sanguinolenta que poucos momentos antes tinha ganho.
-Como me achava soberbo e feliz por lhe pertencer, ainda que não fosse
-senão pelo pensamento. Devia pertencer a outro, mas a sorte havia-me
-destinado essa flor do Brazil, que eternamente chorarei. Não era só
-nos prazeres e alegrias que a encontrava sempre a meu lado, foi na
-adversidade que eu conhecia o quanto valia o nobre coração da mãe de
-meus filhos.
-
-Annita! cara Annita!
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- XX
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- EXPEDIÇÃO A SANTA CATHARINA
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-Depois d'este successo nada de importante nos succedeu no lago dos
-Patos.
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-Começámos a construcção de dois novos lanchões. Os elementos primarios
-tinham-se achado na preza antecedente, e em quanto á sua confecção
-eramos coadjuvados valorosamente pelos habitantes da visinhança.
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-Tinham-se apenas acabado e armado os dois novos navios de guerra,
-quando fomos avisados para nos juntarmos ao exercito republicano que
-então sitiava Porto-Alegre, capital da provincia. O exercito e nós não
-fizemos cousa alguma em quanto estivemos n'esta parte do lago.
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-Não obstante este cerco era dirigido por Bento Manuel em quem todos
-reconheciam um grande merito como soldado, como general e como
-organisador. Foi este que depois trahindo os republicanos se passou aos
-imperiaes.
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-Pensava-se então na expedicção de Santa Catharina. Fui convidado para
-tomar parte n'ella, debaixo das ordens do general Canavarro.
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-Havia no cumprimento d'este projecto uma grande difficuldade que era
-o sahirmos da lagôa, visto que a embocadura estava guardada pelos
-imperiaes.
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-Na margem meridional estava a cidade fortificada do Rio Grande do
-Sul, e na margem septentrional S. José do Norte, cidade mais pequena,
-mas fortificada tambem. Estas duas praças, bem como Porto Alegre,
-achavam-se em poder dos imperiaes tornando-se por isso senhores da
-entrada e sahida do lago. Possuiam, é verdade, unicamente estas duas
-praças, mas ellas eram bastante importantes pela sua posição.
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-Para homens como os que tinha debaixo das minhas ordens não havia
-comtudo coisa alguma impossivel.
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-Formei então o seguinte plano de guerra. Os dous mais pequenos lanchões
-ficavam na lagôa, sendo seu chefe o excellente maritimo Zeferino
-d'Ultra. Eu com os outros dous lanchões tendo debaixo das minhas ordens
-Griggs e os melhores dos nossos aventureiros acompanharia a expedição
-operando por mar em quanto o general Canavarro operava por terra.
-
-Era um bello plano, mas era mui difficil pela sua execução.
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-Propuz então que se construissem duas carretas d'um tamanho e solidez
-necessaria para collocar em cada uma d'ellas um lanchão, devendo-se
-atrelar a cada carreta o numero de cavallos e bois sufficientes para as
-poderem puchar.
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-A minha proposta foi adoptada, e fui encarregado de lhe dar execução.
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-Pensando então maduramente n'este projecto fiz-lhe as seguintes
-modificações.
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-Mandei construir por um habil carpinteiro chamado Abreu oito enormes
-rodas de uma solidez a toda a prova para poderem sustentar o
-extraordinario peso que devia supportar.
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-N'uma das extremidades do lago--a que é opposta ao Rio Grande do
-Sul--isto é, ao noroeste, existe no fundo de um barranco um pequeno
-ribeiro que corre do lago dos Patos ao lago Tramandai, ao qual
-tratavamos de transportar os dous lanchões.
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-Fiz descer a este barranco um dos nossos carros, depois levantámos o
-lanchão até que aquelle estivesse em cima do carro. Cem bois mansos
-foram atrelados, e vi então com grande satisfação o maior dos nossos
-lanchões caminhar como se fosse uma penna.
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-O segundo carro desceu por sua vez, e como no primeiro obtivemos um
-exito feliz.
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-Os habitantes gosaram então d'um espectaculo curioso e desusado, isto
-é, verem dois navios em cima de duas carretas, e puxados por duzentos
-bois, atravessarem cincoenta e quatro milhas, isto é, dezoito leguas,
-sem a menor difficuldade, sem o mais pequeno incidente.
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-Chegados á margem do lago Tramandai os lanchões foram deitados ao mar
-do mesmo modo porque tinham sido embarcados. Necessitavam de alguns
-pequenos reparos, que no fim de tres dias estavam concluidos.
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-O lago Tramandai é formado por aguas que tem a sua fonte nos montes
-d'Epinasso, e finalisa-o no Atlantico. É pouco fundo, pois nas maiores
-enchentes só tem quatro ou cinco pés d'agua. N'esta parte da costa
-reinam sempre grandes tempestades.
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-O estrondo que o mar faz batendo n'estes rochedos, que os marinheiros
-chamam cavallos, por causa da espuma que fazem voar em roda d'elles,
-ouve-se a muitas milhas de distancia, e muitas vezes é tomado pelo
-rumor da tormenta.
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-
- XXI
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- PARTIDA E NAUFRAGIO
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-Promptos a partir esperámos pela maré cheia, sahindo ás quatro horas da
-tarde.
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-Foi n'esta occasião que soubemos apreciar o bem que nos resultava
-da pratica que tinhamos de navegar entre os rochedos. Não obstante
-esta pratica, não sei hoje dizer porque audaciosa ou antes porque
-habil manobra chegámos a tirar os nossos navios d'entre os rochedos,
-ainda que tivessemos, como já disse, escolhido a maré cheia. O fundo
-necessario para navegarmos faltava-nos por toda a parte, foi pois só
-ao cair da noite que os nossos esforços obtiveram um resultado feliz
-conseguindo deitar ancora no Oceano.
-
-Julgo conveniente dizer que os nossos navios foram os primeiros que
-sahiram do lago Tramandai.
-
-Ás oito horas da noite levantámos ancora e começámos a nossa viagem.
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-No dia seguinte pelas tres horas da tarde tinhamos naufragado na
-embocadura do Aserigua, rio que tem a sua nascente na serra Espinasso,
-e que se lança ao mar na provincia de Santa Catharina, entre as torres
-e Santa Maura.
-
-De trinta homens da equipagem, dezeseis affogaram-se.
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-Direi em duas palavras como aconteceu esta terrivel catastrophe.
-
-No momento da nossa partida, o vento do meio dia começava a apparecer.
-Corriamos parallelos á costa. O _Rio Pardo_ tinha, como já disse,
-trinta homens de equipagem, uma peça de doze, uma grande porção de
-caixas, e outros objectos de toda a especie, que tinhamos levado por
-precaução, por não sabermos o tempo que estariamos no mar, e a que
-praia chegariamos, e qual seriam as circumstancias em que estaria essa
-praia no momento em que nos dirigiamos para um paiz inimigo.
-
-O lanchão achava-se pois mui subcarregado, e as vagas cobrindo-o de
-minuto em minuto, ameaçavam submergil-o. Resolvi então aproximar-me
-da costa e tomar terra na parte que me pareceu accessivel; mas o mar
-que ia sempre crescendo, não nos deixou escolher a posição que nos
-convinha, e uma vaga enorme nos arremeçou para a costa.
-
-Estava n'essa occasião na parte mais elevada do mastro do traquete,
-d'onde esperava descobrir uma passagem atravez os rochedos. O lanchão
-inclinou-se sobre o estribordo e eu fui lançado a trinta pés de
-distancia.
-
-Ainda que estivesse n'uma posição perigosa, a confiança que tinha nas
-minhas forças como nadador, fez com que não pensasse um unico momento
-na morte, e tendo comigo alguns companheiros, que não eram marinheiros,
-e que momentos antes tinha visto deitados no tombadilho e mui enjoados;
-em logar de nadar para a costa, comecei a reunir uma parte dos
-objectos, que pela sua ligeireza promettiam conservar-se á superficie,
-e comecei a empurral-os para o navio gritando aos meus homens que se
-lançassem ao mar e que apanhassem alguns d'aquelles objectos, tratando
-de ganhar a costa que se achava na distancia de uma milha. O navio
-tinha-se afundado, mas a mastreação conservava-o com os seus flancos de
-bombordo fóra de agua.
-
-O primeiro que eu vi agarrado ás enxarcias foi Eduardo Mutru um
-dos meus melhores amigos: atirei-lhe um fragmento da escotilha
-recommendando-lhe que o não alargasse.
-
-Este estando quasi salvo, lancei os olhos para o navio.
-
-Vi então o meu caro e corajoso Luiz Carniglia. Estava ao leme no
-momento da catastrophe, e havia ficado agarrado á popa do navio.
-Infelizmente estava n'esta occasião vestido com uma jaqueta de uma
-enorme roda. Não havia tido tempo de a tirar, não podendo por isso
-nadar em quanto a tivesse vestida. Vendo que me dirigia para elle
-começou a gritar.
-
---Agarra-te bem, lhe respondi, que já te dou soccorro.
-
-Subindo ao navio como o teria podido fazer um gato, cheguei ate junto
-d'elle; agarrei-me com uma mão a uma borda, e com a outra tirando da
-algibeira uma faca que infelizmente cortava pessimamente, comecei
-a rasgar as costas da jaleca. Tinha quasi finalisado esta minha
-ardua tarefa, e Carniglia estava quasi salvo, quando um golpe de mar
-horrivel, envolvendo-nos fez em pedaços o navio e lançou ao mar os
-homens que ainda se conservavam a bordo.
-
-Carniglia foi tambem precipitado e não tornou a apparecer.
-
-Lançado ao fundo do mar como um projectil, voltei á superficie todo
-aturdido, mas tendo uma unica idéa--a de soccorrer ao meu charo Luiz.
-Comecei a nadar em volta da carcassa do navio chamando-o em altos
-gritos, mas elle não me respondeu. Esse bom amigo que já me tinha salvo
-a vida, tinha morrido sem eu o poder soccorrer.
-
-No momento em que abandonava a esperança de salvar Carniglia, lancei
-os olhos em volta de mim. Por uma graça especial de Deus, n'este
-momento de agonia para todo o mundo, não pensei um unico momento em mim
-tratando unicamente dos outros.
-
-Vi então os meus companheiros nadando para a praia, separados uns dos
-outros segundo a sua agilidade ou força. Alcancei-os em um momento
-e animando-os com os meus gritos, passei-lhe adiante, sendo um dos
-primeiros a atravessar os rochedos, cortando para isso vagas tão altas
-como montanhas.
-
-Puz pé em terra. Mas a dôr por perder o meu pobre Carniglia,
-deixando-me indifferente sobre a minha propria sorte, dava-lhe uma
-força invencivel.
-
-Apenas tinha posto pé em terra que me voltei movido por uma derradeira
-esperança.
-
-Póde ser, ir vêr Luiz.
-
-Interroguei todas essas figuras assustadas, mas todas me davam a mesma
-resposta. Já não me restava esperança alguma.
-
-Vi então Eduardo Mutru, que depois de Carniglia era quem eu
-estimava mais, e a quem tinha passado um fragmento da escotilha
-recommendando-lhe que se agarrasse com toda a força. A violencia das
-vagas tinha-lhe, sem duvida, tirado este apoio. Ainda nadava, mas pela
-convulsão dos seus movimentos indicava a extremidade a que se achava
-reduzido. Já disse como o amava, era pois o segundo irmão que ia perder
-no mesmo dia. Não quiz em um momento perder tudo o que mais presava
-no mundo. Lancei ao mar os restos do navio que me tinham servido para
-ajudar a ganhar a praia, e lancei-me de novo ao mar, indo novamente
-affrontar um perigo ao qual tinha poucos momentos antes escapado. No
-fim d'um minuto só algumas braças me separavam de Eduardo.
-
---Coragem... Coragem, lhe disse eu.
-
-Vã esperança, vãos esforços! No momento em que encaminhava para elle o
-pedaço de madeira salvadora desappareceu.
-
-Dei um grito, e mergulhei. Depois não encontrando o meu pobre amigo
-julguei que teria vindo á superficie. Voltei tambem: Ninguem! Mergulhei
-de novo e de novo voltei ao cimo d'agua. Dei gritos desesperados, mas
-tudo foi em vão. Eduardo Mutru tinha tambem sido engolido por esse
-Oceano que elle não tinha tido receio de atravessar para, unindo-se-me,
-servir a causa dos povos.
-
-Ainda um martyr da liberdade italiana que não teve um tumulo, uma cruz!
-
-Os cadaveres dos dezeseis afogados que nós contamos n'este desastre,
-fieis companheiros das minhas aventuras, foram arremeçados pelas vagas
-a mais de trinta milhas de distancia para o norte. Procurei então entre
-os quatorze que haviam escapado e que n'este momento estavam na praia,
-um rosto amigo, uma figura italiana.
-
-Nenhuma!
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-Os seis italianos que me acompanhavam estavam mortos. Carniglia, Mutru,
-Staderini, Nadonne e Giovanni... Não me recordo do nome do sexto.
-
-Peço perdão á patria por o haver esquecido, bem sei que escrevo estas
-memorias doze annos depois d'estes successos terem logar, bem sei que
-muitos acontecimentos tão terriveis como o que acabo de descrever, tem
-tido logar na minha vida; bem sei que vi cair uma nação, e que tentei
-defender uma cidade; bem sei que perseguido, exilado, e tratado como um
-animal feroz, depuz no tumulo a mulher a quem amava mais que a propria
-vida, bem sei que depois de fechado o seu tumulo fui obrigado a fugir
-como os condemnados de Dante; bem sei que não tenho um asylo, e que do
-extremo d'Africa onde me acho, olho para essa Europa que me repelle
-como um bandido, apesar de não ter tido até hoje senão um pensamento,
-um amor--a patria; sei tudo isto, mas não obstante devia-me lembrar
-d'esse nome.
-
-E comtudo não o sei!!
-
-Tanger, março de 1857.--_G. G._
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-
- XXII
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- JOÃO GRIGGS
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-
-Os melhores nadadores tinham succumbido! Sem duvida confiando na
-sua habilidade, não se tinham querido apoderar dos restos do navio,
-esperando suster-se na agua sem este soccorro, em quanto que ao
-contrario, entre os que via sãos e salvos estavam alguns americanos que
-em muitas occasiões tinha visto embaraçados, por terem de atravessar um
-pequeno rio de dez a doze pés de largo.
-
-Parecia-me isto estranho, e comtudo era a verdade.
-
-O mundo era para mim um deserto.
-
-Assentei-me na praia, e encostando a cabeça ás mãos julguei que ia
-chorar.
-
-No meio da minha atonia ouvi um gemido.
-
-Lembrei-me então que não obstante serem-me esses homens desconhecidos,
-visto que eu era seu chefe no combate e no naufragio, devia tambem
-sel-o na desgraça.
-
-Ergui a cabeça.
-
---Que tem, perguntei, e quem se queixa?
-
-Duas ou tres vozes me responderam:
-
---Tenho frio.
-
-Eu que até então não tinha pensado em tal, comecei tambem a sentil-o.
-
-Levantei-me e enchugei-me. Alguns dos meus companheiros estavam já
-assentados ou deitados para nunca mais se levantarem.
-
-Chamei em meu auxilio os mais vigorosos, e obriguei os que se achavam
-tolhidos a erguerem-se. Peguei-lhe por uma mão, e disse aos que ainda
-não haviam perdido totalmente as forças que fizessem outro tanto,
-gritando:
-
---Corramos!
-
-E dei ao mesmo tempo o exemplo.
-
-No principio sentimos uma grande difficuldade, ou para melhor dizer,
-uma grande dôr por sermos obrigados a fazer mover os nossos membros
-tolhidos pelo frio, mas em pouco tempo começámos a sentir algum calor.
-
-Entregámo-nos durante uma hora a este exercicio. No fim d'este espaço,
-o nosso sangue aquecendo tinha recomeçado a sua circulação.
-
-Estavamos então perto do rio Aserigue. Dirigimo-nos pela sua margem
-direita, e a quatro milhas encontrámos uma estancia, e n'ella a
-hospitalidade que existe sempre em todas as casas americanas.
-
-O nosso segundo lanchão, commandado por Griggs, chamado o _Seival_,
-um pouco maior que o _Rio Pardo_, mas de construcção differente, póde
-luctar contra a tempestade, seguindo a sua viagem.
-
-É necessario dizer que Griggs era um excellente maritimo.
-
-Não sei se ámanhã serei obrigado a deixar o asylo, onde me acho
-actualmente. Não sei pois se mais tarde terei occasião de dizer d'este
-excellente e valeroso mancebo tudo o que penso d'elle, vou pois,
-aproveitando esta occasião, pagar o tributo que devo á sua memoria.
-
-Pobre Griggs! tenho apenas dito duas palavras a seu respeito, e comtudo
-onde encontrei eu um homem mais corajoso e com melhor caracter?
-Nascido d'uma familia rica, tinha vindo offerecer o seu ouro, a sua
-intelligencia, e o seu sangue á republica nascente, dando-lhe tudo
-quanto havia offerecido. Um dia chegou uma carta d'um dos seus parentes
-da America do Norte, convidando-o a ir receber uma herança enorme.
-Mas Griggs já havia recebido a mais bella herança que se póde dar a um
-homem de convicção e fé,--a corôa do martyrio. Tinha morrido defendendo
-um povo desgraçado, mas generoso e valente.
-
-E eu que tinha visto tantas mortes gloriosas, vi o corpo do meu
-infeliz amigo cortado em dois como o tronco de um carvalho pela hacha
-do lenhador. Um tiro de metralha o tinha ferido na distancia de vinte
-passos, no dia em que com um dos meus companheiros, largando o fogo á
-esquadrilha, por ordem do general Canavarro, subi ao navio de Griggs
-que acabava de ser litteralmente fulminado pela esquadra inimiga.
-
-Oh! liberdade! liberdade! que rainha da terra se póde encher de orgulho
-por ter um cortejo de heroes como tu tens no ceu!!
-
-
-
-
- XXIII
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- SANTA CATHARINA
-
-
-Felizmente a parte da provincia de Santa Catharina onde haviamos
-naufragado, tinha-se tambem revoltado contra o imperador, logo que
-souberam da aproximação das tropas republicanas. Em logar pois de
-encontrar inimigos, achamos alliados, em logar de sermos combatidos
-fomos festejados, e obtivemos em um momento todos os meios de
-transporte de que aquelles pobres habitantes podiam dispôr.
-
-O capitão Balduino offereceu-me o seu cavallo, e pozemo-nos
-immediatamente em marcha para alcançar a guarda avançada do general
-Canavarro, commandada pelo coronel Teixeira, que se dirigia a toda a
-pressa sobre o lago de Santa Catharina, esperando surprehendel-o.[6]
-
- [6] A provincia de Santa Catharina foi dada em dote pelo
- imperador a sua irmã, quando ella casou com o principe de
- Joinville.
-
-Devo confessar que não tivemos grande difficuldade em nos apoderarmos
-da pequena cidade que precede o lago e que por isso tem o seu nome.
-A guarnição fugiu precipitadamente, e tres pequenos navios de guerra
-renderam-se depois de um fraco combate. Passei então com os meus
-naufragos para bordo da goleta _Itaparika_, que estava armada com sete
-canhões.
-
-Durante os primeiros dias d'esta occupação, a fortuna parecia ter feito
-um pacto com os republicanos. Não temendo uma invasão tão repentina
-da nossa parte, de quem só tinham noticias de quando em quando, os
-imperiaes tinham mandado guarnecer aquella povoação com soldados, armas
-e munições. Mas estas cahiram em nosso poder, porque chegaram depois de
-estarmos senhores da cidade.
-
-Os habitantes tratavam-nos como irmãos e libertadores, titulo que
-infelizmente não soubemos justificar em quanto estivemos n'esta
-povoação amiga.
-
-Canavarro estabeleceu o seu quartel general em Santa Catharina,
-chamada pelos republicanos _Giuliana_, por que tinham ali entrado no
-mez de julho. O general permittiu a creação de um governo provincial
-de que foi presidente um sacerdote veneravel, que exercia um grande
-prestigio no povo. Rossetti com o titulo de secretario do governo era
-verdadeiramente a sua alma. Rossetti estava talhado para todos os
-empregos!
-
-Tudo marchava ás mil maravilhas. O coronel Teixeira com a sua columna
-avançada tinha perseguido o inimigo até o encerrar na capital da
-provincia, apoderando-se de quasi todo o paiz. Por toda a parte eramos
-recebidos com os braços abertos, e todos os dias se nos juntavam
-desertores imperiaes.
-
-O general Canavarro traçava magnificos planos. Rude na apparencia,
-excellente no fundo, tinha o costume de dizer que do lago de Santa
-Catharina sahiria a hydra que devoraria o imperio, e talvez tivesse
-razão se houvessem olhado para esta expedição com mais juizo e
-attenção. Infelizmente as nossas maneiras orgulhosas para com os
-habitantes e a insufficiencia dos meios que tinhamos á nossa disposição
-fizeram perder o fructo d'esta brilhante campanha.
-
-
-
-
- XXIV
-
- UMA MULHER
-
-
-Nunca havia pensado no casamento, visto que me considerava incapaz de
-ser um bom marido por causa da minha grande independencia de caracter
-e decidida paixão pelas aventuras. Ter mulher e filhos parecia
-humanamente impossivel ao homem que consagrou a sua vida a um principio
-de que o successo, por mais completo que seja, não póde deixar nunca
-o socego necessario a um chefe de familia. O destino havia decidido o
-contrario: depois da morte de Luiz, Eduardo e dos meus outros amigos,
-achava-me n'um isolamento completo, parecendo-me existir só no mundo.
-
-Não me havia ficado um só d'esses amigos de que o coração tem
-necessidade como a vida de alimento. Os que tinham escapado, eram
-como já disse, estrangeiros. Eram sem duvida dotados de um excellente
-coração, mas conhecia-os á pouco tempo para ter com elles grande
-intimidade. N'esse espaço enorme que aquella terrivel catastrophe
-tinha feito em volta de mim, sentia a necessidade d'uma alma que me
-amasse, porque sem essa alma, a existencia era-me insuportavel, quasi
-impossivel. Havia, é verdade, encontrado Rossetti, isto é, um irmão;
-mas Rossetti obrigado pelos deveres do seu emprego não podia viver
-comigo, vendo-o apenas uma vez por semana. Tinha pois necessidade
-d'alguem que me amasse. A amisade é fructo do tempo, e é por isso
-necessario muitos annos para amadurecer, em quanto que o amor é como o
-relampago, filho muitas vezes da tempestade. Mas que importava! Não sou
-eu dos que preferem as tempestades á bonança e socego d'alma.
-
-Era pois uma mulher que se me tornava necessaria, só uma mulher
-me podia curar, uma mulher quer diser, o unico refugio, um anjo
-consolador, a estrella da tempestade. A mulher é uma divindade que
-nunca se implora em vão, especialmente quando se é desgraçado.
-
-Era com este incessante pensamento que, do meu camarote a bordo do
-_Itarapika_, voltava sem cessar o meu olhar para a terra. D'ahi
-descobria formosas meninas occupadas em differentes trabalhos
-domesticos. Uma d'ellas, principalmente, attraia-me a attenção.
-Mandaram-me desembarcar e immediatamente me encaminhei para a
-casa sobre que ha tanto tempo se fixava o meu olhar. O coração
-batia-me apressado, mas tinha formado uma d'essas resoluções que
-uma vez tomadas, nunca mais enfraquecem.--Um homem convidou-me a
-entrar,--teria-o feito ainda mesmo que elle o prohibisse--tinha-o
-visto uma vez--vi sua filha e disse-lhe: «Virgem pertences-me!»
-Havia por estas simples palavras creado um laço que só a morte podia
-quebrar.--Tinha encontrado um thesouro prohibido, mas de tal preço!...
-Se houve uma falta commettida, a responsabilidade só a mim pertence;
-se foi uma falta, unirem-se dois corações, despedaçando a alma de um
-innocente.
-
-Mas ella está morta e elle vingado--Onde conheci a grandeza da minha
-falta?--Na embocadura do Cridam no dia em que esperando disputal-a
-á morte, lhe apertava convulsivamente o pulso para contar as suas
-ultimas pulsações, absorvendo o seu alento fugitivo...... Beijava os
-seus labios muribundos, e apertava nos meus braços um cadaver chorando
-lagrimas de desesperação.[7]
-
- [7] Quando acabei de lêr este capitulo fiquei admirado de o vêr
- pouco comprehensivel. Voltei-me para Garibaldi, e disse-lhe:
-
- --Lê isso, acho ahi uma grande falta.
-
- Lêu, e depois de um momento de silencio, disse-me suspirando:
-
- --É necessario que isso fique como está.
-
- Dous dias depois recebi um manuscripto intitulado--_Annita
- Garibaldi_.
-
-
-
-
- XXV
-
- O CRUZEIRO
-
-
-O general tinha determinado que eu sahisse com tres navios armados
-para atacar as bandeiras imperiaes que crusavam na costa do Brasil.
-Preparei-me para cumprir esta ardua tarefa, reunindo todos os elementos
-necessarios ao meu armamento. Os meus tres navios eram o _Rio Pardo_,
-commandado por mim--a _Cassapara_, por Griggs, ambos goletas e o
-_Seival_ commandado pelo italiano Lourenço. A embocadura do lago estava
-bloqueada pelos navios de guerra imperiaes, mas apesar d'isso sahimos
-de noute e sem ser incommodados.--Annita, então companhia de toda a
-minha vida, e por consequencia, de todos os meus perigos, tinha querido
-acompanhar-me.
-
-Chegados á altura de Santos, encontrámos uma corveta imperial,
-que durante dois dias, nos deu caça inutilmente. No segundo dia
-aproximamo-nos da ilha do _Abrigo_ onde tomámos duas sumacas carregadas
-de arroz. Continuámos o cruzeiro e fizemos mais algumas prezas. Oito
-dias depois da nossa partida dirigi-me para o lago.
-
-Não sei porque, tinha um sinistro presentimento do que ali se passava,
-visto que antes da nossa partida já um certo descontentamento se
-manifestava contra nós. Estava além d'isso prevenido da aproximação
-d'um corpo consideravel de tropas, commandadas pelo general Andréa a
-quem a pacificação do Pará, tinha dado uma grande reputação.
-
-Na altura da ilha de Santa Catharina, quando voltavamos, encontrámos
-um patacho de guerra brasileiro.--Tinha unicamente comigo dous navios
-o _Rio Pardo_ e o _Seival_, porque a _Cassapara_ havia muitos dias
-que se tinha separado de nós por causa d'um grande nevoeiro. Quando
-descobrimos o navio inimigo estava na nossa prôa, por isso não havia
-meio de o evitar. Navegámos então direitos a elle e o atacámol-o
-resolutamente. Começámos o fogo e o inimigo respondeu-nos, mas
-este combate teve um exito mediocre por causa do muito mar.--O seu
-resultado foi a perda de algumas das nossas presas, porque os seus
-commandantes assustados pela superioridade do inimigo baixaram os
-pavilhões.--Outros deram á costa.
-
-Uma só das nossas presas foi salva. Era capitaneada por Ignacio Bilbáo,
-o nosso bravo biscainho que o conduzio a Imbituba, que então se achava
-em nosso poder. O _Seival_ tendo a peça desmontada e fazendo agua,
-tomou o mesmo caminho, e eu fui obrigado a seguil-os por que estava com
-mui poucas forças para andar só no mar.
-
-Entrámos em Imbituba, impellidos pelo nordeste. Com este vento
-era-nos impossivel entrar no lago e com certeza os navios imperiaes
-estacionados em Santa Catharina, informados pelo _Andorinha_, assim se
-chamava o navio de guerra com que tinhamos combatido, não tardariam a
-vir atacar-nos; era pois necessario prepararmo-nos para o combate. O
-canhão desmontado do _Seival_ foi içado n'um promontorio que fechava
-a bahia do lado do levante, e ahi construimos uma bateria coberta com
-cestões.
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-Com effeito no dia seguinte ao apparecer da aurora vimos tres navios
-dirigindo-se para nós. O _Rio Pardo_, começou então um combate mui
-desigual, porque os imperiaes nos eram mui superiores em numero.
-
-Havia querido desembarcar Annita, mas ella não tinha consentido, e como
-do fundo da minha alma admirava a sua coragem e me achava orgulhoso
-pelo seu valor, cedi aos seus rogos.
-
-O inimigo favorecido na sua manobra pelo vento que então fazia,
-manteve-se á véla canhoneando-nos furiosamente. Podia d'esta maneira
-aproveitar todos os seus canhões dirigindo todo o seu fogo contra a
-nossa goleta. Nós, pelo nosso lado, combatiamos com a mais obstinada
-resolução e como estavamos tão perto que nos podiamos servir das nossas
-clavinas; as perdas eram de parte a parte importantes. As nossas
-comtudo eram mais numerosas em razão da inferioridade numerica, e a
-coberta ja se achava cheia de mortos e feridos. Apesar de tudo isto,
-apesar do flanco do nosso navio estar crivado de ballas, da nossa
-mastreação ter avaria, estavamos resolvidos a não ceder deixando-nos
-matar até ao ultimo. É verdade que eramos conservados n'esta resolução
-pela vista da amazona brasileira que estava a bordo. Annita, que, como
-ja disse, não havia querido desembarcar, tinha tambem tomado parte no
-combate, e com a clavina na mão coadjuva-nos admiravelmente. Eramos
-tambem, devo dizel-o, perfeitamente sustentados pelo bravo Manuel
-Rodrigues, commandante da nossa bateria de terra.
-
-O inimigo estava mui encarniçado especialmente contra a goleta.
-Muitas vezes durante este combate, aproximou-se tanto que julguei hia
-abordal-a, o que me dava muito prazer, porque estavamos preparados para
-tudo.
-
-No fim de cinco horas de uma lucta terrivel, o inimigo, com grande
-admiração nossa, retirou-se. Soubemos depois que a morte do capitão da
-_Bella-Americana_ tinha sido a causa.
-
-Tive durante este combate uma das mais vivas e crueis emoções da minha
-vida. Annita achava-se de sabre em punho em cima do tombadilho animando
-os meus homens. Repentinamente uma balla a derribou e a dous dos meus
-camaradas. Corri para ella, julgando não encontrar mais que um cadaver,
-mas Annita levantou-se sãa e salva; os dous homens estavam mortos;
-suppliquei-lhe então que descesse para a camara.
-
---Sim, vou descer, me disse ella, mas é para enxutar os poltrões que lá
-se foram esconder.
-
-E bem depressa tornou a apparecer trazendo adiante de si dous ou tres
-marinheiros envergonhados por serem menos bravos que uma mulher.
-
-Passámos o resto do dia a sepultar os mortos e a reparar as avarias,
-que não eram pequenas, causadas á goleta pelo fogo do inimigo. No dia
-seguinte os imperiaes não appareceram, porque sem duvida se preparavam
-para algum novo ataque; vendo isto embarcámos o nosso canhão e
-levantando ancora pela noite, dirigimo-nos para o lago.
-
-Quando o inimigo deu pela nossa partida, começou a perseguir-nos, mas
-só no dia seguinte é que nos poude enviar algumas ballas que não nos
-causaram prejuizo algum. Entrámos, pois, sem outro incidente no lago
-onde fomos festejados pelos nossos que se admiravam de termos escapado
-a um inimigo tão superior em numero.
-
-
-
-
- XXVI
-
- SAQUE DE IMERUI
-
-
-Outros acontecimentos nos esperavam no lago.
-
-Como o inimigo continuava a avançar por terra, e em tal numero que
-era loucura o tentar resistir-lhe, e como por outro lado as nossas
-tolices e brutalidades nos tinham indisposto com os habitantes de
-Santa Catharina que estavam promptos a revoltarem-se e a reunirem-se
-aos imperiaes, tendo-se já rebellado a cidade de Imerui, situada na
-extremidade do lago, foi-me determinado pelo general Canavarro que
-fosse castigar este desgraçado paiz, pelo ferro e pelo fogo: vi-me
-obrigado obedecer a esta ordem.
-
-Como os habitantes e a guarnição tinham feito preparativos de defeza
-pelo lado do mar, desembarquei então a tres milhas de distancia,
-e assaltei-os, no momento em que menos o esperavam, pelo lado da
-montanha. Surprehendida e batida a guarnição, foi posta em fuga,
-achando-nos senhores da cidade.
-
-Desejo não só para mim, para todos os individuos, o não receber uma
-ordem igual á que eu tinha recebido, e que era por tal modo terminante,
-que não havia meio de a illudir. Ainda que existam longas e prolixas
-relações de acontecimentos iguaes, julgo impossivel que a mais terrivel
-se aproxima da verdade. Deus me perdôe! mas não tenho em toda a minha
-vida, successo que me deixasse tão amargas recordações como o saque
-de Imerui. Ninguem póde fazer idéa do que soffri para alcançar que,
-deixando livre a pilhagem, não se attentasse contra a vida de pessoa
-alguma, limitando a destruição ás coisas inanimadas, alcancei o que
-pertendia, mas emquanto ás propriedades foi impossivel evitar a
-desordem. Nem a authoridade de commandante, nem os castigos poderam
-alcançar coisa alguma. Cheguei a ameaçal-os com a volta do inimigo.
-
-Espalhei o boato de que elle tendo recebido reforços vinha atacar-nos;
-mas tudo foi inutil, e na verdade, se o inimigo tornasse atraz
-achando-nos assim debandados teria-nos, sem muita difficuldade,
-anniquillado. Infelizmente, a cidade ainda que pequena, tinha muitos
-armazens cheios de vinho e licôres, de modo, que exceptuando-me, porque
-não bebo senão agua, e alguns officiaes que consegui conservar ao pé de
-mim, tudo se achava embriagado. Além d'isso os meus soldados eram na
-sua maioria recrutas, homens que eu apenas conhecia, e por conseguinte
-indisciplinados. Cincoenta soldados determinados atacando-nos de
-improviso teria-nos desbaratado. Emfim á força de ameaças e esforços
-consegui reembarcar estes animaes selvagens.
-
-Conduziram a bordo alguns viveres e objectos salvos da pilhagem,
-destinados á divisão e voltamos ao lago.
-
-Durante este tempo o coronel Teixeira com a sua vanguarda retirava-se
-diante do inimigo que avançava rapido e vigoroso.
-
-Quando chegámos ao lago, começavam a conduzir as bagagens á margem
-direita, e bem depressa os soldados deviam seguil-as.
-
-
-
-
- XXVII
-
- NOVOS COMBATES
-
-
-Tive muito que fazer no dia em que se effectuou a passagem da divisão
-para a margem meridional, porque, se o exercito era pouco numeroso
-as bagagens pareciam não ter fim.--Na parte mais estreita do rio a
-corrente redobrava de violencia.--Trabalhámos pois desde o nascer do
-sol até ao meio dia para fazer passar a divisão.
-
-Pelo meio dia começou a apparecer a flotilha inimiga, composta de vinte
-e duas vélas. Combinavam os seus movimentos com a tropa de terra, e
-traziam a bordo além de equipagem grande numero de soldados. Subi á
-montanha mais proxima para observar o inimigo, e vi immediatamente que
-o seu plano era reunir as suas forças á entrada do lago. Dei logo parte
-ao general Canavarro que no mesmo momento deu as ordens convenientes,
-mas não obstante essas ordens os nossos homens não chegaram a tempo
-de defender a entrada do lago. Uma bateria que haviamos construido
-na embocadura do lago e que era dirigida pelo bravo Capotto resistiu
-fracamente, pois não tinha senão peças de pequeno calibre, e alem
-d'isso mal servidas por artilheiros inhabeis. Os nossos tres pequenos
-navios estavam reduzidos á metade da equipagem, porque a outra metade
-tendo sido mandada para terra para coadjuvar a passagem das tropas, não
-se nos juntou, deixando-nos sós para combater um tão temivel inimigo.
-
-Durante este tempo o inimigo ajudado pelo vento e mare vinha para nós
-com toda a força. Dirigi-me então a toda a pressa para o meu posto a
-bordo do _Rio Pardo_, onde já a minha corajosa Annita tinha começado
-o combate, apontando e dando ella mesmo fogo á peça de que se tinha
-encarregado, animando com a voz e o exemplo os meus companheiros um
-pouco atemorisados.
-
-O combate foi horrivel e mais mortifero que se poderia julgar. Tive
-poucos mortos, porque, como já disse, metade da equipagem estava em
-terra, mas dos seis officiaes que estavam nos tres navios só eu escapei
-são e salvo.
-
-Todas as nossas peças estavam desmontadas, mas o combale continuou á
-clavina e não cessámos de atirar em quanto o inimigo passou por diante
-de nós. Durante o combate Annita ficou sempre ao meu lado, no posto
-mais perigoso, não querendo nem desembarcar nem aproveitar-se de nenhum
-alivio, e despresando mesmo o inclinar-se como faz o homem mais bravo,
-quando vê a mecha aproximar-se do canhão inimigo.
-
-Soffrendo mil cuidados por a vêr exposta a tantos perigos, julguei
-encontrar um meio de affastar.
-
-Ordenei-lhe, foi necessario uma ordem, para me obedecer que fosse pedir
-reforço ao general dando-lhe a minha palavra de que se me enviasse
-esse reforço entraria no lago perseguindo os imperiaes e tratando-os
-de tal maneira que elles não pensariam em desembarcar, embora tivesse
-que largar o fogo á sua flotilha. Obriguei Annita a prometter-me que
-ficaria em terra enviando-me a resposta por um homem seguro; mas com
-bastante pesar meu foi Annita, que trouxe a resposta do general:
-
-«Não tinha soldados para me mandar, e ordenava-me que não largasse o
-fogo á esquadra inimiga, mas que viesse para a terra salvando as armas
-e munições.»
-
-Obedeci. Então debaixo de um fogo que não cessou um momento,
-conseguimos fazer transportar a terra as armas e munições. Foi Annita
-quem á falta de officiaes dirigiu esta operação em quanto eu passando
-de um navio a outro collocava no logar mais inflamavel de cada um
-d'elles, o fogo que o devia devorar.
-
-Foi uma missão terrivel que me fez passar uma triplece revista de
-mortos e feridos. Era um verdadeiro açougue de carne humana; andava-se
-por cima de montões de cadaveres. O commandante do _Itaparika_ João
-Henriques de la Laguna estava deitado no meio de dous terços da sua
-equipagem com uma balla que lhe tinha feito no meio do peito um buraco
-por onde podia entrar perfeitamente um braço. O pobre João Griggs
-tinha, como já disse, o corpo separado em dois por um tiro de metralha.
-Fiquei suffocado, com a vista de similhante espectaculo, e perguntei a
-mim mesmo como poderia ter escapado.
-
-N'um momento uma nuvem de fumo envolveu os nossos navios e os nossos
-bravos tiveram ao menos uma sepultura digna d'elles.
-
-Em quanto tinha comprido a minha obra de destruição, Annita pela sua
-parte havia cumprido a sua de salvação. Para transportar á praia todas
-as nossas armas e munições fez talvez vinte viagens ao navio passando
-constantemente debaixo do fogo do inimigo. Andava n'um pequeno barco
-com dois remadores, e os pobres diabos curvavam-se o mais possivel,
-para evitar as ballas.
-
-Annita pelo contrario na pôpa, no meio da metralha, estava direita e
-socegada como uma estatua de Pallas, e Deus que me cobria com uma das
-suas mãos, estendia-lhe tambem essa protecção.
-
-Era noite fechada quando tendo reunido todos os marinheiros que
-haviam escapado, me juntei com a nossa divisão, e nos retirámos para
-o Rio Grande seguindo o mesmo caminho que alguns mezes antes tinhamos
-atravessado com o coração cheio de esperança e procedidos pela
-victoria.
-
-
-
-
- XXVIII
-
- A CAVALLO
-
-
-No meio das peripecias da minha aventureira existencia, tenho tido
-sempre horas bem agradaveis, e ainda que esta em que me achava não
-parecesse á primeira vista fazer parte das que me tem deixado uma grata
-lembrança, foi ao menos cheia de emoções.
-
-Á testa de alguns homens, resto de tantos combatentes, que tinham com
-justa rasão merecido o titulo de bravos, caminhava a cavallo, orgulhoso
-dos vivos, orgulhoso dos mortos, e quasi orgulhoso de mim mesmo. Ao meu
-lado hia a rainha da minha alma, a mulher digna de toda a admiração.
-Estava lançado n'uma carreira mais attrahente do que a de marinha: que
-me importava pois, como o philosopho grego, não possuir senão o que
-tinha comigo? Que me importava servir uma republica pobre, que não
-pagava a ninguem, e de que ainda que fosse rica, eu não teria acceitado
-cousa alguma? Não tinha ao lado um sabre, uma clavina passada atravez
-do arção do meu cavallo? Não tinha perto de mim Annita, o meu thesouro,
-caracter tão ardente como o meu pela liberdade dos povos? Não encarava
-ella os combates como um divertimento, como uma simples distracção? O
-futuro sorria-me sempre afortunado, e quanto mais se me apresentavam
-selvagens e desertas as solidões americanas, mais deliciosas e bellas
-me pareciam.
-
-Continuámos a retirar para as Torres, limite das duas provincias onde
-estabelecemos o nosso acampamento. O inimigo contentou-se em retomar o
-lago, não nos perseguindo.
-
-A divisão Cunha que vinha da provincia de S. Paulo, juntando-se com a
-divisão Andrea, dirigiam-se para _Cimo da Serra_, provincia da montanha
-pertencente ao Rio Grande.
-
-Os montanhezes nossos amigos, pediram soccorro ao general Canavarro,
-que mandou em seu auxilio uma expedição ás ordens do coronel Teixeira.
-Fizemos parte d'esta expedição. Recebidos pelos serraminhos,
-commandados pelo coronel Aranha, batemos completamente o inimigo em
-Santa Victoria. Cunha affogou-se no rio Pelatos e a maior parte das
-suas tropas ficou prisioneira.
-
-Esta victoria poz debaixo do dominio da republica as duas provincias de
-Vaccaria e das Lages, e nós entramos em triumpho na principal povoação
-d'esta ultima.
-
-A noticia da invasão imperial tinha feito acordar o partido brasileiro,
-e Mello, chefe inimigo, tinha enviado a esta provincia o seu corpo de
-cavallaria, composto quasi de quinhentos homens.
-
-O general Bento Manoel, encarregado de o atacar não o tinha podido
-fazer por causa da sua retirada, contentando-se em enviar o coronel
-Portinko em perseguição de Mello que se dirigia sobre S. Paulo.
-
-A posição que occupavamos e as nossas forças, permettia-nos não só
-oppor-nos á passagem de Mello, mas tambem de o anniquillar. Mas a
-fortuna não o quiz: o coronel Teixeira incerto se o inimigo vinha
-por Vaccaria ou por Coritibani, dividiu a sua tropa em dois corpos,
-enviando o coronel Aranha a Vaccaria com a melhor cavallaria, em quanto
-que nós com a infanteria e só com alguns soldados de cavallaria,
-tirados quasi todos dos prisioneiros inimigos, nos dirigimos para
-Coritibani. Foi este o caminho que tomou o inimigo.
-
-Esta divisão das nossas forças foi-nos fatal: a recente victoria, o
-caracter ardente do nosso chefe, e as noticias que tinhamos do inimigo
-fizeram com que o desprezassemos mais do que merecia.
-
-Em tres dias de marcha chegámos a Coritibani, e acampámos a pouca
-distancia de Maromba por onde julgavamos que deviam passar os
-imperiaes. Collocamos um posto na praia e sentinellas nos sitios que
-julgamos convenientes, e ficamos mui descançados.
-
-Em quanto a mim, o habito que tinha d'estas guerras fez com que, como
-se costuma dizer, dormisse com um olho aberto e outro fechado.
-
-Pela meia noite o posto que se achava na praia, foi atacado e com tanta
-furia que os nossos soldados tiveram apenas tempo de fugir trocando
-alguns tiros com o inimigo.
-
-Quando senti o primeiro tiro puz-me logo a pé dando o grito de «Ás
-armas.» Em poucos minutos todos estavamos promptos para o combate.
-Algum tempo depois de nascer o dia o inimigo appareceu, e tendo passado
-o rio parou a alguma distancia formado em batalha. Vendo o numero
-superior do inimigo o coronel Teixeira deveria ter expedido correios
-para chamar em seu auxilio a segunda divisão, mas Teixeira temendo
-que elle se retirasse sem ter occasião de combater, lançou-se no
-combate importando-se pouco da sua inferioridade numerica e da posição
-vantajosa que o inimigo occupava.
-
-Este aproveitando-se das irregularidades do terreno tinha estabelecido
-a sua linha de batalha n'uma collina mui elevada, diante da qual
-existia um vale profundo obstruido por muitos abrolhos tinha além
-d'isso embuscado nos seus flancos alguns pelotões. Teixeira ordenou o
-ataque que começou com todo o vigor. O inimigo então fingiu retirar-se.
-Os nossos soldados começaram a perseguil-os sem cessar a fazillaria,
-mas repentinamente foram atacados pelos pelotões embuscados que elles
-não tinham visto e que tomando-os pelos flancos os obrigaram a passar
-o vale em desordem. Perdemos n'este combate um dos nossos melhores
-officiaes, Manoel N...... que era mui estimado pelo chefe. A nossa
-linha, bem depressa organisada de novo atacou o inimigo com tal
-impetuosidade, que foi posto em retirada.
-
-O numero de mortos e feridos de parte a parte foi pouco numeroso,
-porque as tropas que tomaram parte no combate foram diminutas.
-
-O inimigo retirou-se com precipitação e nós fomos em sua perseguição
-com grande encarniçamento. Infelizmente como tinhamos pouca cavallaria
-não podémos perseguir a sua que fugia a todo a galope. Aproximando-se
-do _Passo de Maromba_ o chefe da nossa vanguarda o major Jacintho
-participou ao coronel que o inimigo fazia passar em uma grande desordem
-o rio aos seus bois e cavallos, o que provava de que elle queria
-continuar a retirar-se. Teixeira não hesitou um momento; ordenou ao
-nosso pequeno esquadrão que mettesse a galope, recommendando-me que o
-seguisse o mais de perto possivel com a minha infanteria.
-
-A retirada do inimigo não era comtudo senão uma astucia, e infelizmente
-esta astucia teve para nós terriveis resultados. Por causa das
-irregularidades do terreno e pela precipitação com que o tinha
-atravessado o inimigo achou-se fóra da nossa vista e chegando ao rio,
-havia, como nos tinha participado o major Jacintho, passado para a
-outra banda os bois e cavallos, mas os soldados tinham ficado occultos
-por detraz de collinas que os escondiam completamente á nossa vista.
-
-Tomadas estas precauções e tendo deixado um pelotão para sustentar a
-sua linha de atiradores, os imperiaes, sabendo da nossa imprudencia
-em deixar a infanteria na retaguarda, fizeram uma contra-marcha e
-repentinamente os seus esquadrões appareceram no cimo de um valle.
-
-O nosso pelotão que perseguia o inimigo na sua fuga simulada, foi o
-primeiro a conhecer o laço, mas infelizmente não teve tempo para o
-evitar. Atacado pelos flancos foi completamente destroçado. Os tres
-outros esquadrões de cavallaria tiveram a mesma sorte, não obstante a
-coragem e resolução de Teixeira e de alguns de nossos officiaes do Rio
-Grande: em alguns momentos a nossa cavallaria estava espalhada em todas
-as direcções.
-
-Os soldados de cavallaria eram, como já disse, na sua maioria,
-prisioneiros de Santa Victoria, e tinhamos feito mal em contar tanto
-com elles, porque na realidade não podiam ser muito affeiçoados á
-nossa causa, e além d'isso sendo soldados novos vindos da provincia,
-estavam pouco acostumados a andar a cavallo. Assim logo que teve logar
-o primeiro choque, fugiram.
-
-Montado n'um excellente cavallo, depois de ter excitado a minha
-infanteria a marchar o mais rapidamente possivel, tinha-lhe tomado a
-frente e chegado ao alto de uma collina, d'ahi vi o triste resultado
-d'este combate.
-
-Os meus infantes fizeram todo o possivel para chegar a tempo, mas tudo
-foi em vão. Do alto da eminencia onde me achava julguei que era muito
-tarde para que elles nos podessem dar a victoria, mas muito cedo para
-ainda a não julgarmos perdida.--Chamei uma duzia dos meus antigos
-companheiros, os mais ligeiros e mais bravos, e deixando o major
-Peixoto encarregado dos restantes, tomei com este punhado de valentes,
-uma forte posição no cimo d'uma collina fortificada por muitas
-arvores.--D'ahi fizemos frente ao inimigo, que conheceu que ainda não
-era totalmente vencedor, e servimos de ponto de apoio aquelles dos
-nossos que não tinham perdido completamente a coragem.--O coronel veiu
-para o nosso lado com alguns cavallos depois de ter obrado milagres de
-coragem.--O resto de infanteria uni-se-nos então e a defeza começou
-terrivel e mortifera.
-
-Fortes na nossa posição e no numero de setenta e tres lutamos com
-vantagem. O inimigo tendo falta de infanteria e pouco habituado a
-combater contra esta arma dava cargas inutilmente: quinhentos homens de
-excellente cavallaria, brilhante e orgulhosa pela victoria cançaram-se
-inutilmente diante de um punhado de homens sem alcançar vantagem
-alguma. Comtudo apesar d'esta vantagem momentanea era necessario não
-dar ao inimigo tempo de reunir as suas forças, de que a metade estava
-ainda empregada a perseguir os nossos fugitivos, e sobre tudo era
-necessario procurar um refugio mais seguro do que aquelle em que nos
-achavamos.--Uma floresta se nos apresentava á vista na distancia de
-quasi uma milha; começámos então a nossa retirada dirigindo-nos para
-ella.--Em vão o inimigo tentava romper o nosso quadrado, em vão nos
-dava repetidas cargas, quando o terreno o permettia, tudo foi inutil.
-
-Foi para nós uma grande fortuna, o estarem os officiaes armados de
-clavinas, e como todos eramos homens aguerridos, conservamo-nos unidos
-fazendo face ao inimigo por qualquer lado que se apresentava e recuando
-em excellente ordem, fazendo um fogo terrivel e bem dirigido, ganhámos
-o nosso refugio onde o inimigo não se atreveu a penetrar. Uma vez
-na floresta encontrámos um claro e sempre unidos e de fuzil na mão,
-esperámos pela noute.
-
-O inimigo gritava-nos a todos os momentos--_Rendam-se_, mas nós só lhe
-respondiamos com o silencio.
-
-
-
-
- XXIX
-
- A RETIRADA
-
-
-Chegada a noute preparámo-nos para partir, sendo o nosso disignio o
-tomar novamente o caminho das Lages. A maior difficuldade que tinhamos
-a vencer, era o transportar os feridos. O major Peixoto não nos podia
-coadjuvar, porque tinha um pé atravessado por uma balla.
-
-Pelas dez horas da noute, estando os feridos accommodados o melhor
-possivel, começámos a nossa marcha, abandonando o crado e seguindo
-a linha da floresta, que sendo a maior que existe talvez no mundo,
-se estende do rio Prata aos Amazonas, coroando os cumes da serra
-Espinasso, sobre uma extensão de trinta graus de latitude: não conheço
-a sua extensão em longitude, mas deve ser immensa.
-
-As tres provincias de Cima da Serra, Vaccaria e Lages, são segundo
-julgo ter já dito situadas no crados d'esta floresta. Coritibani,
-especie de colonia, estabelecida pelos habitantes de Coritiba situada
-no districto das Lages, provincia de Santa Catharina era o theatro do
-episodio que estou contando: costeavamos pois o nosso bosque isolado,
-para nos aproximarmos o mais possivel da floresta, tratando de nos
-juntarmos á divisão de Aranha, que se havia infelizmente separado de
-nós.
-
-Á sahida do bosque aconteceu-nos um d'esses successos que provam como
-o homem é filho das circumstancias e o poder que tem um terror panico
-ainda sobre os mais corajosos. Marchavamos em silencio, como convinha á
-nossa situação dispostos a combater o inimigo se se oppozesse á nossa
-retirada. Um cavallo que se achava na durela da floresta sentindo a
-pouca bulha que faziamos tomou medo e fugiu.
-
-Ouviu-se então gritar uma voz:
-
---É o inimigo!
-
-No mesmo momento os setenta e tres homens que tinham resistido a
-quinhentos com tanta coragem que se podia dizer que haviam sido os
-vencedores, tomáram medo e começaram a fugir dispersando-se de tal modo
-que foi uma felicidade o não ter algum dos nossos acordado o inimigo
-dando-lhe o signal de alarme.
-
-Consegui com muito trabalho reunir alguns d'elles ao qual pouco a pouco
-se foi juntando o resto, de modo que ao raiar da aurora estavamos na
-aurela da floresta dirigindo-nos para as Lages.
-
-O inimigo que não havia dado pela nossa fuga, procurou-nos inutilmente
-no dia seguinte.
-
-No dia do combate o perigo tinha sido grande, a fadiga enorme, a fome
-imperiosa, a sede ardente, mas era necessario combater, combater pela
-vida e esta idéa dominava todas. Mas uma vez na floresta tudo mudou.
-Faltavam todas as coisas e a miseria não tendo a distracção do perigo
-fez-se sentir terrivel, cruel, insupportavel. A falta de viveres, o
-abatimento de todos, as feridas de alguns, e a carencia dos meios de as
-tratar, lançaram-nos na desanimação.
-
-Ficámos quatro dias sem encontrar senão raizes e julgo desnecessario
-descrever a fadiga que tivemos para achar n'esta floresta um caminho
-onde não existia o mais pequeno atalho e onde a natureza mui fecunda
-faz a cada passo encontrar barrancos enormes.
-
-Alguns dos meus homens desertaram desesperados e tivemos grande
-trabalho para os juntarmos e impor-lhes respeito. Não existia senão um
-unico recurso para dissipar esta desanimação e fui eu que o encontrei.
-Disse a todos que lhe dava a liberdade de se retirarem para onde
-quizessem, ou de continuarem a marchar unidos e em corpo, protegendo
-os feridos e defendendo-se mutuamente. O remedio foi efficaz. Desde
-que cada um foi livre de fazer o que quizesse ninguem pensou mais em
-desertar e a confiança voltou a todos.
-
-Cinco dias depois do combate encontrámos uma _picada_, atalho de
-largura d'um homem, e raras vezes de dois que nos conduziu a uma casa
-onde nos refrescámos matando dois bois.
-
-Continuámos o nosso caminho para as Lages onde chegámos n'um dia de
-perfeito inverno.
-
-
-
-
- XXX
-
- ESTADA NAS LAGES E NOS ARRABALDES
-
-
-Este bom paiz das Lages que nos tinha festejado tanto, quando eramos
-victoriosos, havia quando recebeu a noticia da nossa derrota mudado
-de opinião, e alguns dos mais resolutos tinham restabelecido o poder
-imperial. Estes fugiram á nossa aproximação, e como a maior parte
-d'elles eram negociantes, tinham deixado os seus armazens providos
-de muitos objectos. Foi uma providencia, por que julgámos poder sem
-remorsos aproveitar-nos das mercadorias dos nossos inimigos, e graças á
-variedade do commercio que exerciam melhorar muito a nossa posição.
-
-Entretanto Teixeira escreveu a Aranha ordenando-lhe que se nos unisse,
-tendo por este tempo a noticia da chegada do coronel Portinko que tinha
-sido enviado por Bento Manoel para seguir esse mesmo corpo de Mello,
-encontrado desgraçadamente por nós em Coritibani.
-
-Tinha servido sinceramente na America a causa dos povos, e havia lá
-sido como na Europa o adversario do absolutismo. Tenho algumas vezes
-admirado os homens, muitas lamentado, mas nunca odeado. Quando os
-tenho encontrado egoistas e tratantes, tenho posto o seu egoismo
-e trantantisse de parte, mettendo-o na conta da nossa desgraçada
-natureza. Como estou afastado duas mil leguas do logar onde estes
-acontecimentos tiveram logar, e já são passados doze annos póde-se
-por isso acreditar na minha imparcialidade. Digo-o tanto pelos meus
-amigos como pelos meus inimigos; eram intrepidos filhos do continente
-americano.
-
-Era uma audaciosa empreza o defender Lages contra um inimigo dez vezes
-superior, e além d'isso orgulhoso pela recente victoria. Separados
-d'elle pelo rio Canoas, que nós não tinhamos podido guarnecer
-sufficientemente, esperámos durante muitos dias a juncção de Aranha
-e Portinko, e durante este periodo o inimigo foi sustentado por um
-punhado de homens, atacando-o logo que nos chegaram os reforços, mas
-foi elle que se retirou sem acceitar o combate para a provincia visinha
-de S. Paulo, aonde esperava encontrar um poderoso soccorro.
-
-Foi n'esta circumstancia que eu verifiquei os vicios geralmente
-imputados ao exercito republicano, que se compunha de homens cheios de
-patriotismo e coragem, mas que não ficam juntos ás bandeiras, senão
-quando o inimigo os ameaça, abandonando-as quando este se affasta. Este
-costume foi quasi a nossa ruina, e poderia causar a nossa perda n'estas
-circumstancias, porque se o inimigo tivesse mais paciencia, teria
-podido destruir-nos totalmente.
-
-Os serraminos foram os primeiros a abandonar as fileiras. Os soldados
-de Portinko em breve os seguiram. Note-se bem que os desertores não só
-levavam os seus cavallos, mas os da divisão. Em poucos dias as nossas
-forças se separaram com tanta rapidez que fomos obrigados a abandonar
-Lages, retirando-nos para a provincia do Rio Grande, temendo a presença
-d'esse inimigo, que tinha sido obrigado a fugir diante de nós, e de que
-a fuga nos tinha feito vencedores.
-
-Que estes exemplos sirvam aos povos que querem ser livres, e que
-não é com flores, festas e illuminações que se combatem os soldados
-aguerridos do despotismo, mas com soldados mais disciplinados e mais
-aguerridos do que elles, não querendo para generaes os que não são
-capazes de disciplinar um povo depois de o haver sublevado.
-
-É verdade que tambem ha povos que não merecem a pena de serem
-sublevados: a gangrena não tem cura.
-
-O resto das nossas forças assim dissimadas--quando estavam privadas
-das cousas mais necessarias e principalmente de vestidos--privação
-terrível na aproximação do inverno sombrio e rude n'estas regiões
-elevadas,--o resto das nossas forças, começou a desmoralisar-se e a
-pedir para se retirarem para suas casas. Teixeira foi obrigado a ceder
-a essa exigencia, e ordenou-me de descer a montanha e de me reunir ao
-exercito, em quanto se preparava a fazer outro tanto. Esta retirada
-foi rude por causa da escabrosidade dos caminhos e das hostilidades
-occultas dos habitantes da floresta, inimigos encarniçados dos
-republicanos.
-
-Em numero de setenta, pouco mais ou menos, descemos a _Picada di
-Peloffo_--já disse o que era uma picada--e tivemos que affrontar
-emboscadas repetidas e imprevistas que nós atravessamos com uma
-felicidade incrivel devida á resolução dos homens que eu commandava, e
-um pouco á confiança que geralmente inspiro aos que me seguem. O atalho
-que atravessavamos era tão estreito que unicamente podiam passar dois
-homens a par, e como o inimigo era nascido no paiz, por isso conhecedor
-do terreno, emboscava-se nos sitios mais favoraveis, rodeando-nos
-e dando gritos horriveis, em quanto que um circulo de chammas nos
-cercava, sem que nós podessemos vêr os atiradores, que felizmente
-faziam mais barulho do que obra. De resto a união que os meus homens
-tiveram no perigo foi tal que apenas alguns foram feridos, tendo só um
-cavallo morto.
-
-Estes acontecimentos fazem recordar as florestas encantadas de Tasso,
-aonde as arvores viviam.
-
-Chegámos então a _Mala-Casa_ aonde se achava Gonçalves, que reunia as
-funcções de presidente ás de general em chefe.
-
-
-
-
- XXXI
-
- BATALHA DE TAQUARI
-
-
-O exercito republicano preparava-se para se pôr em marcha. O inimigo
-depois da derrota de Rio Pardo, tinha-se refeito em Porto Alegre,
-d'onde tinha sahido debaixo das ordens do velho general Georgio, e
-havia estabelecido o seu acampamento nas praias de Cahé, aonde esperava
-a juncção do general Calderon, que com um corpo consideravel de
-cavallaria se lhe devia reunir.
-
-O grande inconveniente da dispersão das tropas republicanas quando
-não estavam em face do inimigo, dava-lhe facilidade em tudo que elle
-queria emprehender, de modo que no momento em que o general Netto, que
-commandava as forças, teve reunido um numero sufficiente de soldados
-para bater Calderon, este tinha já reunido no Cahe a maior parte do
-exercito imperial.
-
-Era absolutamente indispensavel ao presidente se queria bater o
-inimigo, o reunir-se á divisão Netto, e foi por isto que elle levantou
-o cerco. Esta manobra e a juncção que se lhe seguiu, tiveram um
-feliz resultado e fizeram grande honra á capacidade militar de Bento
-Gonçalves. Partimos de Mala-Casa com o exercito, tomando a direcção de
-Leopoldo, passando a duas milhas das forças inimigas, e depois de dous
-dias e duas noites de marcha continua, nas quaes quasi que não comemos
-nem bebemos chegámos perto de Taquari onde encontrámos o general Netto
-que nos procurava.
-
-Disse que haviamos passado quasi sem comer, e disse a verdade. Logo que
-o inimigo soube da nossa aproximação, marchou resolutamente ao nosso
-encontro e muitas vezes nos alcançou em quanto descançavamos um momento
-e estavamos occupados a assar alguma carne, nosso unico alimento.
-Por dez vezes estando a comida quasi prompta as sentinellas gritavam
-ás armas, e era por isso necessario ir combater em logar de jantar ou
-almoçar. Emfim fizemos alto em Pinheirinho a seis milhas de Taquari, e
-ahi tomámos todas as disposições para o combate.
-
-O exercito republicano forte de mil homens de infanteria e cinco mil
-de cavallaria, occupava as alturas do Pinheirinho, montanha coberta
-de pinhos, como indica o seu nome, pouco elevada, mas dominando as
-montanhas visinhas. A infanteria estava no centro commandada pelo
-velho coronel Crezungio. A ala direita obedecia ao general Netto e a
-ala esquerda a Canavarro. As duas alas eram compostas unicamente de
-cavallaria que sem exaggeração era a melhor do mundo. A infanteria era
-tambem excellente, e o desejo de começar o combate era geral.
-
-O coronel Santo Antonio formava a reserva com um corpo de cavallaria.
-
-O inimigo do seu lado tinha quatro mil homens de infanteria, tres mil
-de cavallaria e algumas peças. Estava do outro lado da pequena torrente
-que nos separava e a sua apparencia era longe de ser miseravel. O
-exercito compunha-se das melhores tropas do imperio commandadas por um
-general velho e experimentado.
-
-O general inimigo tinha até então marchado ardentemente em nossa
-perseguição, e havia tomado todas as posições para um ataque em quanto
-as suas peças metralhavam a nossa cavallaria. Os nossos valentes da
-primeira brigada ás ordens de Netto, tinham tirado os sabres da bainha
-e não esperavam senão pelo signal para se lançarem aos dous batalhões
-que tinham atravessado a corrente. Estes bravos estavam convencidos
-que ficavam victoriosos porque nunca nem elles nem Netto tinham sido
-batidos. A infanteria collocada em divisões no alto da colina, e
-coberta pelas curvas do terreno, estava anciosa pelo momento do combate.
-
-Os terriveis lanceiros de Canavarro tinham já feito um movimento
-envolvendo o flanco direito do inimigo, obrigando-o por isso a mudar de
-posição, mudança que se tinha feito em desordem.
-
-Este corpo de lanceiros composto na sua maioria de negros libertos
-da republica, e escolhidos entre os melhores domadores de cavallos de
-provincia, tinha unicamente os officiaes superiores brancos, e nunca
-o inimigo tinha visto as costas d'estes filhos da liberdade. As suas
-lanças que eram maiores do que o ordinario, os seus rostos pretos
-como azeviche, os seus robustos membros e a sua perfeita disciplina
-tornava-os o terror dos inimigos.
-
-A voz animadora do chefe já havia feito tremer todos aquelles corações.
-«Que todos combatam como se tivessem quatro corpos para defender a
-patria e quatro almas para a amar, havia dito esse valente, que tinha
-todas as qualidades de um grande capitão menos a felicidade.
-
-Quanto a nós sentiamos, por assim dizer, as palpitações da batalha,
-e tinhamos a certeza de ganhar a victoria. Nunca em minha vida tinha
-visto um mais bello, mais magnifico espectaculo. Collocado no centro da
-nossa infanteria, no alto da collina descobria todo o campo de batalha.
-As planicies sobre as quaes iam ficar tantos cadaveres, estavam
-semeadas de plantas baixas e raras, não fazendo pois nenhum obstaculo
-nem aos movimentos estrategicos nem ao olhar que os seguia, e podia
-dizer que aos meus pés em poucos momentos seriam resolvidos os destinos
-da maior parte do continente americano.
-
-Esses corpos tão compactos, tão unidos uns aos outros vão ser dispersos
-e derrotados? Todos esses homens serão em um momento cadaveres? Toda
-essa bella e vigorosa mocidade verá destruidas as suas mais bellas
-esperanças? Vamos! Tocae fanfarras, troae canhões, e que tudo seja
-decidido como em Zama, Pharsale e Actium.
-
-Mas não era ainda n'esta planicie que devia ter logar o combate. O
-general inimigo intimidado pela forte posição que occupavamos e pela
-nossa firmeza, hesitou e fez repassar o rio aos dois batalhões, tomando
-a defensiva em logar da offensiva. O general Caldeira tinha sido morto
-no começo do combate e d'ahi provinha, talvez, a hesitação de Georgio.
-No momento em que elle não nos atacava, não deviamos nós atacal-o?
-Tal era a opinião da maioria. Seriamos bem succedidos? Travando-se
-o combate nas condições primitivas e conservando a nossa excellente
-posição todas as probabilidades eram por nós, mas abandonando-as para
-seguir um inimigo que nos era quatro vezes superior em infanteria, era
-necessario dar a batalha no outro lado da corrente.
-
-Era escabroso, ainda que tentador.
-
-Passámos todo o dia em frente do inimigo, fazendo conjecturas e
-disparando alguns tiros.
-
-Tinham-se-nos acabado os comestiveis, e a infanteria principalmente
-soffria muito com essa falta. A agua tambem se nos tinha acabado, e
-a sua falta era-nos mais sensivel que a dos viveres. Á nossa vista
-existia uma grande quantidade d'agua, mas que infelizmente se achava em
-poder do inimigo. Por fortuna os nossos soldados estavam habituados a
-soffrer toda a sorte de privações, e por isso uma só queixa sahia dos
-seus labios--era a demora em começar o combate.
-
-Ó italianos, italianos, no dia em que sejaes unidos e sobrios, no
-dia em que possaes soffrer todas as privações como os habitantes do
-continente americano, o estrangeiro, estae certo, não escravisará a
-vossa patria, nem enxovalhará os vossos lares. N'esse dia a Italia
-terá retomado o seu logar não só no meio; mas á frente das nações do
-universo.
-
-Durante a noite o velho general Georgio tinha desapparecido, e ao raiar
-da aurora foi em vão que o procurámos; só ás dez horas, quando se
-dissipou o forte nevoeiro, foi que o avistámos nas posições de Taquari.
-
-Pouco tempo depois fomos avisados de que a sua cavallaria atravessava
-o rio. Os imperiaes estavam pois em completa retirada, era necessario
-atacal-os e o nosso general não hesitou.
-
-A cavallaria inimiga havia atravessado o rio, protegida por alguns dos
-navios imperiaes, mas a infanteria tinha ficado na margem esquerda,
-protegida por esses mesmos navios e pela floresta, sendo por isso a
-sua posição a mais vantajosa possivel. A nossa segunda brigada de
-infanteria, composta do terceiro e vigessimo batalhão, era a destinada
-a começar o combate, effectuando-o com a sua costumada bravura. Mas
-o inimigo era tão superior em numero que estes bravos, depois de
-terem praticado prodigios de valor, foram obrigados a retirarem-se,
-sustentados pela segunda brigada e primeiro batalhão de artilharia--sem
-canhões--e de marinha. O combate foi terrivel, especialmente na
-floresta onde o estrondo da fuzilaria e arvores despedaçadas, no meio
-d'um espesso fumo, parecia o d'uma infernal tempestade.
-
-De cada lado não contámos menos de quinhentos mortos e feridos. Os
-cadaveres dos nossos valentes republicanos foram até encontrados
-na ribanceira do rio, para onde elles tinham arrojado o inimigo.
-Infelizmente estas perdas foram sem resultado relativamente á sua
-importancia, porque logo que começou a retirada da segunda brigada a
-batalha finalisou.
-
-Tendo chegado a noite o inimigo pôde tranquillamente acabar de passar o
-rio.
-
-No meio das brilhantes qualidades, das quaes julgo ter já fallado,
-citarei alguns dos deffeitos do general Bento Gonçalves: o mais
-deploravel d'entre elles era uma certa hesitação, razão provavel dos
-resultados funestos das suas operações. Teria sido melhor que em logar
-de lançar esses quinhentos homens tão inferiores em numero aos que
-elles atacavam, tivessem enviado não só toda a infanteria, mas tambem
-a sua cavallaria, a pé, visto que a difficuldade do terreno não lhe
-permittia combater a cavallo: uma tal manobra teria certamente dado em
-resultado uma esplendida victoria, e fazendo perder pé ao inimigo nós
-conseguiriamos lançal-o no rio; mas infelizmente o general teve receios
-de aventurar toda a sua infantaria, a unica que elle teve, e que teve a
-republica.
-
-Em todo o caso o resultado foi para nós pessimo, porque não sabiamos
-como reparar as faltas que havia soffrido a infanteria, arma em que o
-inimigo nos era mui superior, e se achava todos os dias recebendo novos
-reforços.
-
-O inimigo ficou na margem direita de Taquari, e por isso senhor de todo
-o campo. Nós tomámos então o caminho de _Mala-Casa_.
-
-Todas estas falsas manobras peioraram a situação da republica. Voltámos
-a S. Leopoldo e a Settembrina e depois ao nosso antigo acampamento de
-_Mala-Casa_, que foi abandonado em alguns dias pelo da _Bella-Vista_.
-
-Uma operação concebida n'este tempo pelo general, teria podido pôr-nos
-em excellente posição, se a fortuna tivesse, como devia, secundado os
-esforços d'este homem tão superior e tão desgraçado.
-
-
-
-
- XXXII
-
- ASSALTO A S. JOSÉ DO NORTE
-
-
-O inimigo, para poder fazer as suas correrias pelos campos, havia
-sido obrigado a desguarnecer de infanteria as suas praças fortes.
-Principalmente S. José do Norte tinha um pequeno numero de soldados.
-
-Esta praça, situada na margem septentrional da embocadura da lagôa dos
-Patos, era uma das chaves da provincia, não só commercialmente, mas
-politicamente; a sua posse teria mudado completamente a nossa posição,
-que n'esta occasião era bem aterradora; a sua tomada tornava-se, pois,
-mais que util, era necessaria. A cidade encerrava objectos de toda
-a qualidade, indispensaveis para o vestuario dos soldados, que do
-nosso lado estavam no mais deploravel estado. Não só por esta razão,
-mas tambem por dominar o unico porto da provincia, S. José do Norte,
-merecia que fizessemos todos os esforços para nos apoderarmos d'ella,
-mas tambem porque só d'este lado se encontrava a _atalaia_, isto é, o
-mastro dos signaes dos navios, que servia para lhe indicar a profundura
-das aguas na embocadura.
-
-N'esta expedição succedeu infelizmente o mesmo que tinha acontecido em
-Taquari. Preparada com admiravel sciencia e profundo segredo, perdeu-se
-todo o trabalho por se ter hesitado em dar o ultimo golpe.
-
-Uma marcha forçada de oito dias, a vinte e cinco milhas por dia, nos
-conduziu defronte dos muros da praça.
-
-Era uma d'essas noites de inverno, durante as quaes um abrigo e um
-bom fogo são um beneficio da Providencia, e os nossos pobres soldados
-da liberdade, esfaimados, vestidos de pedaços, tolhidos pelo frio e
-gelados pela chuva d'uma horrivel tempestade, avançavam silenciosos
-contra os fortes e trincheiras guarnecidas de soldados.
-
-A pouca distancia das muralhas os cavallos dos chefes foram confiados á
-guarda d'um esquadrão de cavallaria commandado pelo coronel Amaral, e
-todos nos preparámos para o combate.
-
-O _quem vive_ da sentinella foi o signal do assalto, e a resistencia
-foi pequena e de pouca duração sobre as muralhas. Á hora e meia
-da manhã démos o assalto, e as duas horas estavamos senhores das
-trincheiras e de tres ou quatro fortes que as guarneciam, e que foram
-tomados á bayoneta.
-
-Senhores das trincheiras e dos fortes, tendo entrado na cidade parecia
-impossivel que ella nos escapasse. Entretanto ainda esta vez o que
-parecia impossivel nos estava reservado.--Uma vez dentro dos muros, uma
-vez nas ruas de S. José, os nossos soldados julgaram que tudo estava
-acabado, e a maior parte se dispersou, arrastada pelo appetite da
-pilhagem. Durante este tempo os imperiaes voltando a si da sua surpreza
-reuniram-se n'um bairro que se achava fortificado. Ahi os fomos atacar,
-mas repelliram-nos. Os chefes procuravam por todos os lados os soldados
-para continuar no ataque, mas era inutil, porque se se encontravam
-alguns, eram carregados dos despojos, ou bebados, ou tendo quebrado os
-fuzis á força de despedaçar as portas das casas.
-
-O inimigo do seu lado não perdia o tempo: muitos navios de guerra que
-se achavam no porto tomaram posição, varrendo com o fogo dos seus
-canhões as ruas onde nos achavamos. Pediu-se soccorro a Rio Grande do
-Sul, cidade situada na margem opposta da embocadura dos Patos, emquanto
-um unico forte que haviamos desprezado servia de refugio ao inimigo.
-O primeiro d'estes fortes, o do imperador, do qual a tomada nos tinha
-custado um glorioso e mortifero assalto, foi destruido por uma explosão
-terrivel de polvora, que nos matou bom numero de soldados.--Emfim
-o mais glorioso dos triumphos estava mudado, ao meio dia, na mais
-vergonhosa retirada, e os verdadeiros amigos da liberdade choravam de
-desesperação.
-
-A nossa perda, comparativamente á nossa situação, foi enorme.
-
-Desde este momento a nossa infanteria não foi senão um esqueleto;
-emquanto á pouca cavallaria que tinha vindo na expedição serviu para
-proteger a retirada.
-
-A divisão entrou nos seus quarteis da Bella-Vista, e eu fiquei em S.
-Simão com a marinha.
-
-Todos os meus soldados estavam reduzidos a quarenta homens, contando
-tambem os officiaes.
-
-
-
-
- XXXIII
-
- ANNITA
-
-
-O motivo da minha partida para S. Simão teve por fim, o mandar fazer
-algumas d'essas canôas, construidas d'um só tronco d'arvore, com a
-ajuda das quaes eu queria abrir communicações com a outra parte do
-lago. Mas durante os mezes que eu ahi fiquei, as arvores promettidas
-não chegaram, e o nosso projecto por consequencia não se pôde realisar.
-Como eu tinha um grande horror pela ociosidade, não podendo construir
-barcos, dediquei-me a ensinar cavallos. Em S. Simão havia uma grande
-quantidade de poltros que me serviram para fazer cavalleiros dos meus
-marinheiros.
-
-S. Simão era uma bella e espaçosa herdade, que se achava então
-abandonada. Pertencia ao conde de S. Simão, antigamente exilado, e de
-quem os herdeiros estavam tambem exilados como inimigos da republica.
-Eu não sei se elle era ainda parente do famoso conde de S. Simão,
-fundador d'essa religião de que os adeptos me tinham iniciado na
-paternidade universal; mas n'esta occasião, como a familia de S. Simão
-era considerada por nós como inimiga, tratámos a sua herdade como uma
-conquista; isto é, apoderámo-nos das casas para ahi habitarmos, e dos
-animaes domesticos que ahi havia para fazermos o nosso sustento.
-
-Os nossos unicos divertimentos eram ensinar os nossos poltros, ou, para
-melhor dizer, os poltros dos S. Simonnianos.
-
-Foi n'esta occasião que a minha chara Annita deu á luz o primeiro
-filho. Em logar de lhe dar o nome d'um santo, dei-lhe o nome d'um
-martyr.
-
-Chamou-se Menoti.
-
-Nasceu a 16 de setembro de 1840, exactamente no mesmo dia em que fazia
-nove mezes que tinha tido logar o combate de Santa Victoria. A sua
-apparição n'este mundo sem accidente, era um verdadeiro milagre depois
-das privações e dos perigos soffridos por sua mãe. Essas privações e
-esses soffrimentos de que eu ainda não fallei, afim de não interromper
-a minha narração, devem aqui achar logar, e é do meu dever fazer
-conhecer se não ao mundo, ao menos a alguns amigos que lerem este
-jornal a admiravel creatura que perdi.[8]
-
- [8] É escusado repetir que estas Memorias tinham sido escriptas
- por Garibaldi unicamente para serem lidas por alguns amigos.
-
-Annita, como sempre, tinha querido seguir-me e havia-me acompanhado na
-campanha que acabavamos de fazer, e que acabo de contar.
-
-O leitor deve lembrar-se que reunidos aos serraminnos, commandados pelo
-coronel Aranha, nós batemos em Santa Victoria o brigadeiro Cunha, e de
-tal modo que a divisão inimiga foi completamente destruida. Durante o
-combate Annita, a cavallo no meio do fogo, era espectadora da victoria
-e derrota dos imperiaes. Foi ella n'esse dia o anjo providencial dos
-nossos feridos, porque não tendo nós nem cirurgião nem ambulancia, eram
-curados, sabe Deus como, por nós mesmos. Esta victoria submetteu de
-novo, pelo menos momentaneamente, as tres provincias, Lages, Vaccaria
-e de Cima da Serra á authoridade da republica, e já contei como no fim
-d'alguns dias entrámos triumphantes em Lages. O exito do combate de
-Coritibani longe esteve de ser egual.
-
-Já disse a maneira por que, apesar da bravura de Teixeira, a nossa
-cavallaria foi rota, e como com os meus sessenta e tres infantes me vi
-cercado por mais de quinhentos homens de cavallaria inimiga. Annita
-devia n'este dia assistir ás mais terriveis peripecias da guerra. A
-muito custo submettendo-se ao papel de simples espectadora do combate,
-Annita apressava a marcha das munições receiosa de que os cartuxos
-faltassem aos combatentes: com effeito o fogo que nos viamos obrigados
-a fazer era tão violento que dava margem a suppor-se, com toda a
-razão, que se as nossas munições não fossem renovadas bem depressa,
-não teriamos um unico cartuxo; com este fito aproximava-se do logar
-onde o combate era mais renhido, quando um esquadrão de vinte cavallos
-inimigos perseguindo alguns dos nossos que fugiam, cairam de improviso
-sobre os soldados que conduziam a bagagem.
-
-Excellente cavalleira, e montando um admiravel cavallo, bem poderia
-Annita ter fugido; mas dentro d'esse peito de mulher batia o
-coração d'um heroe: em logar de fugir animava os nossos soldados a
-defenderem-se, e n'um momento se viu cercada pelos imperiaes.
-
-Annita enterrou as esporas no ventre do cavallo, e d'um salto passou
-pelo meio do inimigo, não tendo recebido mais do que uma unica balla
-que lhe atravessou o chapeo e levou parte dos cabellos, sem lhe
-tocar no craneo. Talvez ella podesse fugir se o cavallo não caisse
-ferido mortalmente por outra balla, e sendo obrigada a render-se foi
-apresentada ao coronel inimigo. Sublime de coragem no perigo, Annita
-maior vulto tomava ainda, se é possivel, na adversidade; de sorte que
-na presença d'esse estado maior maravilhado do seu arrojo, mas que
-não teve o bom gosto de occultar diante de uma mulher o orgulho da
-victoria. Annita repelliu com uma rude e desdenhosa altivez algumas
-palavras que lhe fizeram antever um tal ou qual despreso pelos
-republicanos, e tão vigorosamente combateu com a palavra como já o
-fizera com as armas. Annita julgava que eu tinha morrido. N'esta
-persuasão pediu e obteve licença de ir ao campo de batalha procurar o
-meu corpo no meio dos cadaveres. Qual a ventesma infernal passeando
-sobre campina ensanguentada, Annita errou só e por muito tempo
-procurando aquelle que ella receiava de encontrar, voltando os mortos
-que tinham caido de rosto para a terra, e nos quaes pelo fato ou pela
-altura ella imaginava terem alguma similhança comigo.
-
-Foram inuteis as suas pesquisas, era a mim pelo contrario que sorte
-reservava a dôr suprema de banhar com as minhas lagrimas suas faces
-gelidas, e quando esse momento de angustia chegou impossivel me foi de
-lançar um punhado de terra, uma flor, ao menos sobre a cova onde jazia
-a mãe de meus filhos.
-
-Desde que Annita esteve segura de que eu existia, não teve senão um
-pensamento, o de fugir, e a occasião não tardou a apresentar-se-lhe.
-Aproveitando-se do delirio do inimigo victorioso, passou para uma
-casa perto d'aquella onde a tinham prisioneira, e ahi, sem ser
-reconhecida, uma mulher a recebeu e protegeu. O meu capote, que eu
-havia abandonado para ter os movimentos mais livres, e que tinha caido
-em poder de um soldado inimigo, foi por ella trocado pelo seu, que era
-de grande valor. Quando chegou a noute Annita lançou-se na floresta
-e desappareceu. Era necessario possuir um coração de leão para assim
-se arriscar. Só quem já viu as immensas florestas que cobrem os cimos
-de Espinasso, com os seus pinheiros seculares que parecem destinados
-a sustentar o ceo, e que são as columnas d'esse esplendido templo da
-natureza, as gigantescas cannas que povoam os intervallos e que estão
-cheias de animaes ferozes e de reptis de que a mordedura é venenosa,
-poderá fazer uma idea dos perigos que ella correu, e das difficuldades
-que teve a vencer. Felizmente Annita ignorava o que era medo. De
-Caritibani a Lages são vinte legoas. Como ella atravessou esses bosques
-impenetraveis, só, e sem alimentos, só Deus o sabe.
-
-Os poucos habitantes d'esta parte da provincia que ella tinha a
-atravessar eram hostis aos republicanos, e logo que souberam da
-nossa derrota armaram-se e fizeram emboscadas sobre muitos pontos, e
-principalmente nas _picadas_ que os fugitivos tinham a atravessar de
-Caritibani ás Lages.
-
-Nos _cabecaes_, isto é, nos sitios quasi impraticaveis destes atalhos,
-teve logar uma horrivel carnagem nos nossos desgraçados companheiros.
-Annita atravessou de noite estes sitios perigosos, e ou fosse a sua boa
-estrella ou a admiravel resolução com que os atravessou, o seu aspecto
-fez sempre fugir os assassinos, que fugiam, diziam elles, perseguidos
-por um ser mysterioso!
-
-Na realidade era estranho ver esta valente mulher, montada n'um ardente
-cavallo, pedido e obtido n'uma casa onde havia recebido a hospitalidade
-durante uma noite de tempestade, galopando por cima dos rochedos á
-claridade dos relampagos. Quatro cavalleiros collocados na passagem
-do rio Canoas, fugiram á vista d'esta visão, escondendo-se atraz
-das moitas que guarnecem o rio. Durante este tempo Annita chegara á
-margem do rio, tornado mui tempestuoso por causa das muitas cheias, e
-atravessou-o, não como o tinha feito dias antes, n'um excellente barco,
-mas sim a váu, animando com a voz o seu magnifico cavallo.
-
-As ondas precipitavam-se furiosas, não n'um estreito espaço, mas n'uma
-extensão de quinhentos passos, e apesar d'isso Annita chegou sãa e
-salva á outra margem.
-
-Uma chavena de café foi o unico alimento que a intrepida viajanta tomou
-durante os quatro dias que gastou em alcançar na Vaccaria a tropa do
-coronel Aranha.
-
-Foi ahi que nos encontramos, Annita e eu, depois de uma separação de
-oito dias e de nos julgarmos mortos.
-
-Que alegria não foi a nossa! Maior foi ainda a que senti no dia em que
-Annita, na peninsula que fecha a lagoa dos Patos do lado do Atlantico,
-deu á luz n'uma casa que nos dava hospitalidade o meu querido Menotti,
-que veiu ao mundo com uma cicatriz na cabeça procedida pela queda do
-cavallo que tinha dado sua mãe.
-
-Renovo aqui mais uma vez os meus agradecimentos ás excellentes pessoas
-que nos deram esta hospitalidade, assegurando-lhe um reconhecimento
-eterno. No campo onde nos faltavam todas as cousas mais necessarias,
-e onde eu não lhe teria podido dar um unico lenço, Annita não teria
-podido triumphar n'este momento supremo onde a mulher tem tanta
-necessidade de forças e cuidados.
-
-Decidi-me então a fazer uma viagem a Settembrina para ahi comprar
-muitas cousas de maior urgencia que faltavam aos meus entes queridos.
-Tinha ali bons amigos, e entre elles um excellente homem chamado
-Blingini. Comecei então a minha viagem atravez os campos innundados,
-onde eu tinha a agua até ao ventre do cavallo; passei por meio d'um
-campo antigamente cultivado chamado _Rocha velha_, onde encontrei o
-capitão de lanceiros Maximo, que me recebeu perfeitamente. Acceitei a
-sua hospitalidade durante dois dias, por causa do pessimo tempo não me
-deixar continuar a jornada.
-
-No fim d'elles quiz partir, apesar de todos os esforços que fez o bom
-capitão para me conservar na sua companhia.
-
-Mas o fim para que tinha partido era para mim mui sagrado para que me
-demorasse mais, e não obstante as observações d'este bom amigo, puz-me
-a caminho por essas planicies que pareciam um vasto lago. Na distancia
-de algumas milhas, ouvi do lado que acabava de deixar o estrondo da
-fuzilaria, concebi então algumas suspeitas cheias de angustias, mas não
-podia voltar atraz.
-
-Cheguei a Settembrina onde comprei os objectos de que tinha
-necessidade, e sempre inquieto por essa fuzilaria que tinha ouvido,
-puz-me logo a caminho para São Simão. Descançamos em Rocha Velha, onde
-soube a causa d'esse estrondo que tinha ouvido e o triste acontecimento
-que tinha tido logar no mesmo dia da minha partida.
-
-Morinque--o mesmo que me havia surprehendido em Camacua e que eu e os
-meus quatorze homens tinhamos obrigado a fugir com um braço quebrado,
-tinha surprehendido o capitão Maximo, todos os seus soldados feitos
-prisioneiros, e a maior parte das seus cavallos tambem tomados, e os
-mais mortos.
-
-Morinque havia effectuado esta surpreza com alguns navios de guerra e
-infanteria. Embarcou depois a infanteria, e dirigiu-se com a cavallaria
-para o Rio Grande do Norte, espantando pelo caminho todas as pequenas
-guerrilhas republicanas, que julgando-se em segurança se haviam
-espalhado pelo territorio; entre elles achavam-se os meus marinheiros
-que foram obrigados a refugiar-se na floresta.
-
-O meu primeiro grito foi como se deve julgar: «Annita! onde está
-Annita?»
-
-Annita doze dias depois de ter tido o seu feliz successo, tinha sido
-obrigada a montar a cavallo, e meio nua, com o seu pobre filho nos
-braços, tinha sido obrigada a refugiar-se na floresta.
-
-Não encontrei pois no _rancho_ nem Annita, nem os nossos hospedeiros,
-mas alcancei-os na ourela d'um bosque onde elles se conservavam não
-sabendo onde se achava o inimigo, nem se ainda tinham alguma cousa a
-receiar d'elles.
-
-Voltamos a São Simão, e ahi nos demoramos algum tempo, depois mudamos
-o nosso acampamento, estabelecendo-nos na margem esquerda do Capivari,
-isto é, no mesmo sitio onde um anno antes tinhamos transportado
-os nossos lanchões em carros para a expedição de Santa Catharina,
-expedição que tão mau exito teve.
-
-N'essa occasião tinha sentido bastantes esperanças que infelizmente
-haviam desapparecido.
-
-O Capivari é formado de differentes riachos que tem a sua nascente nos
-lagos numerosos que guarnecem a parte septentrional da provincia do Rio
-Grande, sobre as costas do mar e sobre a vertente oriental da cadea de
-Espinasso. Toma este nome da _capinara_, especie de canniços muito
-communs na America meridional e que nas Colonias se chamam _capineios_.
-
-De Capivari e de Sangrador d'Abreu canal que serve de communicação
-entre um charco e um lago onde tinhamos reunidas com muito trabalho
-algumas canôas, fizemos algumas viagens á costa occidental do lago,
-estabelecendo communicações entre as duas margens e transportando os
-passageiros.
-
-
-
-
- XXXIV
-
- LEVANTA-SE O CERCO.--ROSSETTI
-
-
-Comtudo a situação do exercito republicano peiorava de dia para dia;
-as suas necessidades augmentavam e os seus recursos diminuiam. Os dois
-combates de Taquari e S. José do Norte tinham dizimado a infanteria que
-apezar de ser pouco numerosa era um poderoso recurso para as operações
-de cerco. As grandes necessidades animavam as deserções, as populações
-como succede n'estas guerras mui prolongadas cançavam, e foram atacadas
-de uma suprema indifferença, começando nós então a conhecer que estava
-proximo o momento de tudo se acabar.
-
-N'este estado de cousas os imperiaes fizeram propostas que, ainda que
-vantajosas para os republicanos foram por estes recusadas. Esta recusa
-augmentou o descontentamento dos mais desgraçados, e por conseguinte da
-parte mais fatigada do exercito e do povo, sendo decidido que o cerco
-seria abandonado e que todos se retirariam.
-
-A divisão Canavarro de que faziam parte os marinheiros foi designada
-para começar o movimento e abrir as passagens da serra, occupadas pelo
-general Labattue, francez ao serviço do imperador. Bento Gonçalves com
-o resto do exercito formaria a retaguarda.
-
-A guarnição republicana de Settembrina devia seguir-nos, mas não pôde
-executar este movimento, porque surprehendida pelo famoso Morinque a
-cidade foi tomada.
-
-Foi ahi que morreu o meu caro Rossetti.
-
-Tendo caido do cavallo, depois de ter praticado prodigios de valor,
-ferido perigosamente, e intimado para se render, preferiu antes que o
-matassem do que entregar a sua espada.
-
-Ainda uma outra ferida para o meu coração. Já fallei muitas vezes de
-Rossetti, sabe-se pois como o amava, seja-me pois permittido dizer
-á Italia o que já tenho dito tantas vezes: Oh! Italia, minha mãe,
-acabamos de perder, eu um dos meus irmãos mais caros, e tu um dos teus
-filhos mais generosos.
-
-Era natural de Genova. Havia sido, por paes que conheciam pouco o
-seu caracter, destinado á vida ecclesiastica, quando era um dos mais
-ardentes patriotas italianos que tenho conhecido. Inclinado á vida
-aventureira e não podendo respirar na Italia, partiu para o Rio de
-Janeiro onde foi negociante e corretor; mas não tendo Rossetti nascido
-negociante, era uma planta exotica dando-se mal na terra do agio e
-calculo, não porque elle não fosse dotado de uma intelligencia fina e
-apta a enriquecer-se de todos os conhecimentos, mas porque Rossetti
-era o mais italiano de todos os italianos, isto é, o mais generoso e
-prodigo dos homens, e com taes _vicios_ não se faz fortuna, mas antes
-se caminha a grandes passos para a ruina.
-
-Foi o que aconteceu com Rossetti.
-
-Bom para com todos, a sua casa achava-se franca para toda a gente,
-e especialmente para os italianos desgraçados. Não esperava que os
-proscriptos o fossem procurar, era elle que os ia encontrar, esgotando
-assim em pouco tempo os seus recursos. Bem desgraçado, esse coração
-do anjo não podia ver soffrer um italiano. Se o não podia soccorrer
-immediatamente, fazia-o esperar na sua pobre cabana, e corria as
-ruas da cidade, e não entrava em sua casa senão quando trazia algum
-soccorro para aquelle ou aquelles que o esperavam. É verdade que a sua
-bondade, a sua franqueza e a sua lealdade o tinham tornado estimado de
-todos, e por isso quando se achava n'estes piedosos embaraços, todos o
-coadjuvavam com prazer.
-
-A batalha de Tarifa teve logar, e os republicanos foram batidos pelos
-imperiaes; Bento Gonçalves e os principaes chefes feitos prisioneiros,
-e conduzidos ao Rio de Janeiro. Entre elles achava-se o nosso capitão
-Zambecarri, com quem travamos relações, segundo já disse, nas prisões
-de Santa Cruz. Fallou-se de nos fazermos corsarios, e desde esse
-momento Rossetti e eu não tivemos um minuto de descanço em quanto
-não nos lançamos no Occeano com a bandeira republicana. Rossetti
-encarregou-se de tudo e alcançou o fim que pertendiamos.
-
-Os leitores sabem o resto, porque desde esse momento não nos perdemos
-de vista.
-
-Infelizmente não ha um canto da terra onde não descansem os ossos de um
-italiano generoso, devendo por isso a Italia cobrir-se de luto e não
-encher-se de gloria. Pobre Italia, tu sentirás verdadeiramente a sua
-falta no dia em que tentares arrancar o teu cadaver aos corvos que o
-devoram.
-
-
-
-
- XXXV
-
- A PICADA DAS ANTAS
-
-
-Esta retirada emprehendida na estação invernosa, por um paiz montanhoso
-e debaixo de uma chuva incessante foi a mais terrivel e mais desastrosa
-que tenho visto.
-
-Conduziamos por precaução algumas vaccas, sabendo perfeitamente que no
-caminho que tinhamos a atravessar não encontrariamos comestiveis alguns.
-
-Retirando-nos, seguiamos a divisão do general Labattue, mas
-infelizmente sem a podermos alcançar. Só os selvagens manifestavam
-as suas sympathias por nós, atacando-lhe a guarda avançada. Tivemos
-occasião de vêr de perto esses homens da natureza que não nos foram
-hostis.
-
-Annita durante esta retirada de tres mezes soffreu toda a casta de
-privações e incommodos com um stoicismo e uma coragem admiravel.
-
-É necessario ter algum conhecimento das florestas d'esta parte do
-Brazil para fazer idéa das privações soffridas por uma porção de homens
-sem meios de transporte, e tendo unicamente por recurso o _laço_, arma
-mui util nas planicies cobertas de animaes, mas perfeitamente inutil
-n'essas expessas florestas abundantes em tigres e leões.
-
-Para a nossa desgraça ser ainda maior, os rios muito proximos uns dos
-outros n'estas florestas virgens engrossavam cada vez mais. A horrivel
-chuva que nos perseguia não cessava de cair, acontecendo muitas vezes
-que uma parte dos nossos soldados se achavam entre duas correntes de
-agua e ahi ficavam privados de todo o alimento, morrendo muitos de
-fome, e principalmente as mulheres e creanças que não podiam supportar
-tanto as privações. Era uma carnagem mais horrivel do que a de uma
-sanguinolenta batalha.
-
-A nossa pobre infanteria principalmente soffria muito mais, porque não
-tinha como a cavallaria o recurso de matar os cavallos. Poucas mulheres
-e menos creanças sairam vivas da floresta. As poucas que escaparam
-foram salvas pelos cavalleiros que tendo a felicidade de conservar os
-cavallos, tiveram dó d'aquelles pequenos entes, abandonados por suas
-mães mortas de fome, frio e fadiga.
-
-Annita tremia com a idéa de perder o nosso Menoti, que foi salvo
-unicamente por milagre. Nos sitios mais perigosos, e na passagem dos
-rios, conduzia o nosso pobre filho, de tres annos de edade, suspenso
-ao meu pescoço por um lenço, podendo aquecel-o d'este modo com o meu
-alento. De doze mulas e cavallos com que tinha entrado na floresta, e
-que eram destinadas ao meu serviço, não tinha podido salvar mais que
-duas mulas e dois cavallos, as demais tinham morrido de fome ou de
-fadiga. Para completar a nossa desgraça, os guias tinham-se perdido no
-caminho, o que foi a causa principal dos nossos sofrimentos na temivel
-floresta das Antas.
-
-Quanto mais andavamos, menos viamos chegar o fim d'esta picada maldita.
-Fiquei muito longe dos meus companheiros, com duas mulas horrivelmente
-fatigadas, e que eu esperava salvar, fazendo-as caminhar mui devagar e
-sustentando-as com folhas de taquaras a que Taquari deve o seu nome.
-Durante este tempo enviei Annita adiante com um criado e meu filho,
-afim de que elle procurasse o fim d'esta interminavel floresta e algum
-alimento.
-
-Os dois cavallos que eu havia deixado a Annita e que ella montava
-simultaneamente, foi quem nos salvaram. Ella achou o fim da floresta e
-ahi encontrou um piquete dos meus bravos soldados assentados a um bello
-fogo, o que não era commum pelo tempo que fazia.
-
-Os meus companheiros que por felicidade tinham conservado alguns
-vestidos de lã, embrulharam n'elles a creança, aquecendo-a e
-chamando-a por este modo á vida, quando já a pobre mãe começava a
-perder todas as esperanças. Mas ainda não é tudo: estes excellentes
-rapazes começaram então a procurar com uma grande sollicitudde alguns
-alimentos, que elles não tinham procurado para si, mas que agora
-procuravam por minha causa.
-
-O que d'entre todos prestou a minha esposa e filho os primeiros e mais
-efficazes soccorros foi Mangio: que o seu nome seja abençoado.
-
-Tinha tido grande difficuldade em salvar os meus dois cavallos, e por
-fim vi-me na necessidade de abandonar os dois pobres animaes esfalfados
-e aguados, sendo obrigado, apezar do estado miseravel em que me achava,
-a atravessar o resto da floresta a pé.
-
-No mesmo dia encontrei minha mulher e filho e soube então o que os meus
-companheiros tinham feito por causa d'ella.
-
-Nove dias depois da nossa entrada na floresta conseguimos sair! Poucos
-officiaes tinham conseguido salvar os seus cavallos. O inimigo que nos
-precedia, fugindo diante de nós, tinha deixado duas peças de artilheria
-na picada; mas de que nos serviriam ellas? Faltavam todos os meios de
-transporte e póde ser que ellas ainda estejam no mesmo logar em que as
-vi.
-
-As tempestades pareciam conscriptas na floresta. Apenas saimos d'ella e
-nos aproximamos de Cima da Serra e de Vaccaria que o bom tempo começou,
-caindo então em nosso poder alguns bois, que indemnisando-nos do nosso
-longo jejum nos fizeram esquecer a fadiga, a fome e a chuva.
-
-Ficámos na Vaccaria alguns dias, esperando pela divisão de Bento
-Gonçalves, que se nos uniu em completa desordem, e com menos um terço
-dos soldados.
-
-O infatigavel Morinque sabendo da retirada d'esta divisão, tinha
-começado a perseguil-a, sem descanço, atacando-a em todas as occasiões,
-alliando-se para esta obra de destruição aos montanhezes, sempre hostis
-aos republicanos. Todos estes successos deram tempo a Labattue a fazer
-a sua retirada, e depois a sua juncção com o exercito imperial, tendo
-apenas, apezar d'isto, algumas centenas de homens á sua disposição.
-Então as mesmas dificuldades que haviam existido para nós, appareceram
-para elles que tiveram além d'isso a vencer um obstaculo imprevisto, e
-que eu noto por causa da sua raridade.
-
-O general Labattue tendo que atravessar no seu caminho dois bosques
-chamados de Mattos, ahi encontrou algumas d'essas tribus indigenas
-chamadas de _Bragis_, que são as mais selvagens que se conhecem no
-Brazil. Estas tribus sabendo da passagem dos imperiaes, armaram-lhe
-tres ou quatro emboscadas, fazendo-lhe grande mal. Em quanto a nós não
-nos causaram a mais pequena inquietação e ainda que houvesse no caminho
-muitos d'esses alçapãos, que os indios collocam na passagem dos seus
-inimigos, todos se achavam descobertos em logar de estarem disfarçados
-com ramos de arvores, segundo o costume.
-
-Durante a curta paragem que fizemos na ourela de um d'esses bosques
-gigantescos, appareceu-nos uma mulher, que na sua mocidade tinha sido
-roubada pelos selvagens, e que havia aproveitado a nossa presença para
-fugir.
-
-A pobre mulher achava-se n'um deploravel estado.
-
-Como não tinhamos então nenhum inimigo a atacar ou de quem fugissemos,
-continuamos a nossa marcha mui vagarosamente, porque não possuiamos
-cavallos, e era necessario ir domando os poltros.
-
-O corpo de lanceiros republicanos, tendo ficado completamente
-desmontado, foi tambem obrigado a lançar mão dos poltros.
-
-Era na verdade um explendido espectaculo, sempre novo, ainda que
-repetido todos os dias, o vêr esses jovens e robustos negros que
-mereciam o epitheto de domadores de cavallos que Virgilio dá a Pelops.
-Era necessario vêl-os saltar sobre esses selvagens filhos do deserto,
-que não conheciam nem freio, nem selim, agarrando-se ás crinas, e
-correndo pelas planicies, até que cedendo ao homem o quadrupede se
-confessava vencido. Mas a lucta era longa, e o animal não se rendia
-senão depois de ter exgotado todas as forças em se desembaraçar do seu
-tyranno, que do seu lado admiravel de agilidade e coragem, o apertava
-entre os joelhos, como entre duas tenazes, não o deixando senão depois
-de o ter domado.
-
-Tres dias são sufficientes a um bom domador de cavallos para que o
-animal o mais rebelde possa sofrer o freio.
-
-Raramente, comtudo os poltros são bem domesticados pelos soldados,
-sobretudo nas marchas onde os muitos afazeres impedem os domadores de
-lhe prestar todos os cuidados necessarios.
-
-Tendo passado os _Mattos_ atravessámos a provincia das Missões,
-dirigindo-nos para Cruz Alta, capital d'esta pequena provincia, depois
-de Cruz Alta dirigimo-nos a S. Gabriel onde se estabeleceu o quartel
-general, e edificaram barracas para o acampamento do exercito.
-
-Seis annos d'esta vida de aventuras e perigos não me tinham fatigado
-em quanto era só, mas actualmente que tinha uma pequena familia, a
-separação de todos os meus antigos conhecimentos, a ignorancia completa
-em que me achava ha tantos annos sobre o estado da minha familia,
-fizeram nascer o desejo de me aproximar de um ponto onde podesse
-receber noticias de meu pae e minha mãe, porque se tinha por um momento
-esquecido essas ternas affeições, ellas appareciam de novo. Tambem não
-tinha noticias da minha outra mãe, da Italia!
-
-Decidi então ir a Montevideo; ao menos temporariamente. Pedi pois
-licença ao presidente, assim como para levar alguns bois, de que a
-venda devia servir para me sustentar durante a jornada.
-
-
-
-
- XXXVI
-
- CONDUCTOR DE BOIS
-
-
-Eis-me pois _truppiere_, isto é conductor de bois.
-
-Em consequencia n'uma estancia chamada o _Casal das Pedras_, com a
-authorisação do ministro da fazenda, consegui reunir em vinte dias e
-com grande difficuldade novecentos bois, quasi todos selvagens. Maiores
-dificuldades me esperavam ainda durante o caminho onde encontrei
-obstaculos quasi invenciveis. O maior de todos foi o Rio-Negro, onde
-tive quasi perdido todo o meu capital. Da passagem do rio, da minha
-inexperiencia no meu novo mister, e sobre tudo da rapina de certos
-_capatazes_, mercenarios que tinha alugado como conductores, salvei
-com muito custo quinhentos bois, que visto o mau sustento e o pessimo
-caminho foram julgados incapazes de chegar ao seu destino.
-
-Resolvi em consequencia matal-os e tirar-lhe as pelles, que vendi,
-ficando-me livres de toda a despeza uns trezentos escudos que serviram
-para fazer face ás primeiras necessidades da minha familia.
-
-É aqui que devo mencionar um encontro que me deu um dos meus mais
-charos e melhores amigos.
-
-Aproximando-me de S. Gabriel, na retirada que acabavamos de fazer,
-tinha ouvido fallar de um official italiano, dotado de grande valor e
-intelligencia, que, exilado como carbonario se tinha batido em França
-no dia 5 de junho de 1832, e depois no Porto durante o cerco que ahi
-houve por causa da guerra entre os dois irmãos D. Pedro e D. Miguel,
-vindo depois offerecer-se ao serviço das jovens republicas da America
-do Sul.
-
-Contavam-se a seu respeito cousas tão extraordinarias que muitas vezes
-disse:
-
---Quando encontrar esse homem, ha-de ser meu amigo.
-
-Chamava-se Anzani.
-
-Chegando á America, tinha-se apresentado com uma carta de recommendação
-a dois dos seus compatriotas MM.*** negociantes em S. Gabriel, que
-tinham feito d'elle o seu _factotum_.
-
-Anzani exercia todos os empregos, caixeiro, guarda-livros, homem de
-confiança, emfim era o bom genio d'esta casa.
-
-Como todos os homens fortes e corajosos, Anzani era socegado e dotado
-de um excellente genio.
-
-A casa commercial de que elle se tinha tornado director era uma d'essas
-casas como se acham unicamente na America do Sul, isto é vendendo tudo
-o que é possivel imaginar.
-
-A villa onde residiam os nossos dois compatriotas era infelizmente
-proxima da floresta que servia de refugio a essas tribus de indios de
-que já dissemos algumas palavras no capitulo precedente.
-
-Um dos chefes d'estes indios tinha-se tornado o terror d'esta pequena
-villa, á qual vinha duas vezes por anno, com a sua tribu, roubando
-quanto queria sem encontrar a menor resistencia.
-
-Primeiramente veiu acompanhado por duzentos ou trezentos homens, depois
-com cem, depois com cincoenta, segundo elle tinha visto augmentar o
-terror estabelecendo o seu poder, e depois sentindo-se o senhor tinha
-vindo só, e dava as suas ordens que eram obedecidas, como se por
-detraz de si tivesse a sua tribu prompta a assassinar aquelle que lhe
-recusasse obedecer.
-
-Anzani tinha ouvido fallar d'este homem e tinha escutado tudo o que
-se dizia a seu respeito, sem manifestar a sua opinião sobre a audacia
-d'este chefe selvagem e sobre o terror que inspirava a sua ferocidade.
-
-Este terror era tamanho que quando se ouvia dizer o _chefe dos Mattos_
-todas as janellas se fechavam, e todas as portas se trancavam como se
-na villa andassem alguns cães damnados.
-
-O indio estava habituado a estes signaes de terror, que lisongeavam o
-seu orgulho, escolhia a porta que queria vêr aberta, batia--abrindo-se
-logo com a rapidez do relampago--e roubava tudo sem encontrar a menor
-resistencia.
-
-Havia justamente dois mezes que Anzani dirigia a casa de commercio nos
-seus maiores como menores detalhes, quando se ouviu o grito terrivel:
-
---O chefe dos Mattos!
-
-Como o costume, portas e janellas fecharam-se precipitadamente.
-
-Anzani estava só em casa arranjando as contas da semana, e não julgando
-que o estrondoso annuncio que acabavam de fazer valesse a pena de se
-incommodar ficou assentado á sua mesa, com as janellas e portas abertas.
-
-O indio parou espantado diante d'essa casa que no meio do terror geral
-que causava a sua chegada, se conservava indifferente á sua apparição.
-
-Entrou e viu encostado ao balcão um homem que socegadamente fazia as
-suas contas. Parou diante d'elle de braços cruzados e olhando-o com
-espanto.
-
-Anzani levantou a cabeça.
-
-Anzani era a politica em pessoa.
-
---Que quer meu amigo? perguntou elle ao indio.
-
---Como! que quero?! disse este.
-
---Sem duvida, disse Anzani, quando se entra n'um armazem é que se quer
-comprar alguma cousa.
-
-O indio começou a rir.
-
---Pelo que vejo não me conheces? perguntou ele a Anzani.
-
---Como queres que te conheça, se é a primeira vez que te vejo!
-
---Sou o chefe dos Mattos, replicou o indio, mostrando no seu cinto um
-arsenal composto de quatro pistollas e um punhal.
-
---Então que queres?
-
---Beber.
-
---O que?
-
---Um copo de agua-ardente.
-
---Não ha nada mais facil; paga primeiro e depois tens a agua-ardente
-que quizeres.
-
-O indio começou a rir de novo.
-
-Anzani franziu as sobrancelhas.
-
---Em logar de me responder, tornas de novo a rir. Não acho isso mui
-politico. Previno-te, pois, que se isso succede outra vez ponho-te fóra
-da porta.
-
-Anzani tinha pronunciado estas palavras com tal firmeza, que outro
-qualquer homem que não fosse o indio teria comprehendido com quem tinha
-a tratar.
-
-Talvez o selvagem houvesse comprehendido, mas não o deu a conhecer.
-
---Já te disse que me desses um copo de agua-ardente, repetiu elle
-batendo com o punho no balcão.
-
---E eu já te disse que o pagasses primeiro, disse Anzani, quando não,
-não a bebes.
-
-O indio deitou um olhar colerico a Anzani, mas o olhar d'este encontrou
-o seu,--o relampago havia encontrado o relampago.
-
-Anzani dizia muitas vezes:
-
---A unica força que existe é a moral. Olhae fixa e obstinadamente o
-homem que vos encarar, se elle abaixar os olhos, estaes senhor d'elle,
-mas se pelo contrario sois vós que os abaixaes estaes perdido.
-
-O olhar de Anzani tinha um irresistivel poder. Foi o indio que foi
-vencido, e conhecendo a sua inferioridade, e furioso d'este poder
-desconhecido, quiz ganhar animo bebendo.
-
---Está bem, disse elle, ahi tens meia piastra, da-me de beber.
-
---É obrigação minha servir quem me paga, disse tranquilamente Anzani.
-
-E deu ao indio um copo de agua-ardente.
-
-O indio bebeu.
-
---Outro, disse elle.
-
-Anzani deu-lhe outro copo.
-
-O indio bebeu-o como o primeiro.
-
---Ainda outro, disse elle.
-
-Em quanto Anzani teve dinheiro suficiente para se pagar da despeza do
-indio, não lhe fez nenhuma observação, mas quando o bebedor já não
-tinha dinheiro para pagar, cessou de encher-lhe o copo.
-
---Então? perguntou o selvagem.
-
-Anzani fez-lhe a sua conta.
-
---Depois? insistiu o selvagem.
-
---Depois?... Como não tem dinheiro, não bebe mais agua-ardente,
-respondeu Anzani.
-
-O indio tinha formado bem o seu calculo. Os cinco ou seis copos de
-agua-ardente que havia bebido, tinham-lhe dado a coragem que havia
-perdido com o olhar de Anzani.
-
---Agua-ardente, disse elle levando a mão a uma das pistollas,
-agua-ardente, ou morres.
-
-Anzani que já previa o final d'esta scena, estava preparado. Tinha
-cinco pés e nove pollegadas, e era dotado de uma força e agilidade
-pasmosa. Apoiou a mão no balcão e saltando para o outro lado deixou-se
-cair sobre o indio, agarrando-lhe o punho direito.
-
-O selvagem não poude aguentar o choque e caiu; Anzani não o largou e
-poz-lhe o pé no peito.
-
-Então agarrando com a mão esquerda a mão direita do indio, tornando-lhe
-por isso inoffensiva a arma, Anzani tirou-lhe do cinto as pistollas
-e punhal, que espalhou pelo armazem, e arrancando-lhe a pistolla da
-mão, quebrou-lhe o cano na cabeça e na cara, e julgando que o selvagem
-já se achava bem castigado foi empurrando-o aos pontapés até á porta
-deitando-o no meio de um grande lamaçal.
-
-O indio levantou-se com muita difficuldade e fugiu, mas em tal estado
-que nunca mais tornou a apparecer em S. Gabriel.
-
-Anzani havia feito debaixo do nome de Ferrari a guerra de Portugal.
-Com este nome tinha-se conduzido admiravelmente, ganho a patente de
-capitão e recebido duas graves feridas: uma na testa, outra no peito, e
-tão graves que no fim de dezeseis annos morreu por causa d'ellas.
-
-A ferida da cabeça era um golpe de sabre que lhe tinha aberto o craneo.
-
-A do peito foi uma balla que lhe tinha ficado no pulmão, e de que mais
-tarde lhe nasceu uma phtisica pulmonar.
-
-Quando se lhe fallava dos prodigios de coragem que tinha praticado
-debaixo do nome de Ferrari, sorria-se e dizia que elle e Ferrari eram
-dois entes differentes.
-
-Infelizmente não podia, ao mesmo tempo que attribuia os seus prodigios
-de valor a um ente imaginario, trespassar-lhe as duas feridas.
-
-Tal era o homem de quem me haviam fallado, e a quem eu desejava
-conhecer e ter por amigo.
-
-Em S. Gabriel soube que tinha ido tratar de alguns negocios a sessenta
-milhas de distancia. Montei então a cavallo para o procurar.
-
-No caminho, na margem de um pequeno rio, encontrei um homem, com o
-peito nú lavando uma camisa--vi que era este o homem que procurava.
-
-Dirigi-me a elle, estendi-lhe a mão e disse-lhe quem era.
-
-Desde este momento fomos irmãos.
-
-Já não estava na casa de commercio, e como eu havia entrado ao serviço
-da republica do Rio Grande. Era commandante de infanteria da divisão de
-João Antonio, um chefe republicano dos mais conhecidos. Como eu deixava
-o serviço e dirigia-se aos _saltos_.
-
-Depois de um dia passado juntos, demos os nossos _adresses_ respectivos
-e combinámos que não emprehenderiamos movimento algum importante sem o
-participarmos mutuamente.
-
-Seja-me permittido narrar um facto que dá bem a conhecer a nossa
-miseria e a nossa fraternidade.
-
-Achava-me tão pobre como Anzani em camisas, em quanto que elle tinha
-mais um par de calças.
-
-Dormimos no mesmo quarto, mas Anzani partiu antes de romper o dia e sem
-se despedir.
-
-Quando accordei encontrei sobre o meu leito o melhor dos seus dois
-pares de calças.
-
-Conhecia apenas Anzani, mas era um d'esses homens que se apreciam á
-primeira vista, e tanto que quando entrei ao serviço da republica de
-Montevideo e fui encarregado de organisar a legião italiana, o meu
-primeiro cuidado foi escrever-lhe convidando-o a vir acompanhar-me.
-
-Veiu com effeito e desde esse dia não nos deixamos mais, até que elle
-tocando na terra de Italia morreu entre os meus braços.
-
-
-
-
- XXXVII
-
- PROFESSOR DE MATHEMATICA E CORRETOR DE COMMERCIO
-
-
-Em Montevideo dirigi-me a casa de um dos meus amigos chamado Napoleão
-Castellini. Ao seu excellente coração sou devedor de muito, para jámais
-me esquecer, assim como a G. D. Cunes,--amigo de toda a minha vida,--e
-aos irmãos Antoninho e Giovanni Risso.
-
-Gastos os poucos escudos que me tinham produzido as minhas pelles de
-bois, e para não ficar com minha mulher e filho ás sopas dos meus
-amigos, emprehendi duas industrias que, devo confessal-o, chegavam
-apenas para satisfazer as minhas necessidades.
-
-A primeira era corretor de fazendas. A segunda era a de professor de
-mathematica, na casa do estimavel Paulo Semidei.
-
-Este modo de vida durou até á minha entrada na legião oriental.
-
-Os negocios do Rio Grande começavam a estabelecer-se e a arranjar-se,
-não tendo eu pois nada a esperar d'este lado. A republica oriental--é
-assim que se chamava a republica de Montevideo--sabendo que me achava
-livre não tardou em me offerecer uma occupação mais em harmonia com os
-meus meios e com o meu caracter, do que a de professor de mathematica e
-corretor.
-
-Offereceram-me e acceitei o commando da corveta--_Constituição_.
-
-A esquadra oriental achava-se debaixo das ordens do coronel Cosse, e a
-de Buenos-Ayres ás ordens do general Brown.
-
-
- [Ilustração: _Lith. de Castro, Poço Novo N.º 33._
- FRANCISCO 2.º]
-
-
-
-
- MONTEVIDEO
-
-Quando o viajante chega da Europa n'um d'esses navios, que os primeiros
-habitantes do paiz tomavam por casas volantes, o que vê--logo que o
-marinheiro de vigia grita: «Terra» são duas montanhas.
-
-Uma que é a cathedral, e a outra ornada de um pharol, que é a montanha
-do _Cerro_.
-
-Á medida que o viajante se aproxima das torres da cathedral, de que
-os ornatos de porcellana brilham ao sol, o viajante vê os _mirantes_
-sem numero e de fórmas variadas que ornam todas as casas, depois essas
-mesmas casas, encarnadas ou brancas, com os seus terraços, depois ao pé
-do Cerro, as _salgadoras_, vastos edificios onde se salgam as carnes;
-e emfim ao fundo da bacia, á borda do mar as encantadoras _quintas_,
-delicia e orgulho dos habitantes onde elles vão passar todos os
-domingos e dias de festa.
-
-Então se deitaes a ancora, entre o Cerro e a cidade, dominada, por
-qualquer ponto de vista que a olheis, pela sua gigantesca cathedral,
-se a canôa vos leva para a praia, puchada por seis valentes remadores,
-se de dia encontraes pelas estradas grupos de encantadoras mulheres
-vestidas de amazonas, se de tarde atravez as janellas abertas, deitando
-para a rua torrentes de luz e harmonia, ouvis os sons do piano e de
-outros instrumentos, é que estaes em Montevideo, a vice-rainha d'esse
-rio de prata, de que Buenos-Ayres pretende ser a rainha, e que se lança
-no Occeano por uma embocadura de oitenta leguas.
-
-Foi João Dias o que no principio de 1516 descobriu as praias da Prata.
-A primeira cousa que o marinheiro de quarto avistou foi o Cerro, e
-cheio de alegria exclamou em latim:
-
---_Montem video!_
-
-Sendo este o nome que ficou á republica, de que vamos rapidamente
-escrever a historia.
-
-João Dias, já com bastante orgulho de haver no anno passado descoberto
-o Rio de Janeiro, não gosou por muito tempo da sua gloria.
-
-Tendo deixado na bahia dois dos seus navios, e havendo subido o rio
-Prata com o terceiro, confiando nos signaes de amizade que lhe fizeram
-os indios, caiu n'uma emboscada sendo morto, despadaçado e devorado na
-margem do rio, que em memoria d'este triste acontecimento tem o nome de
-_Solis_.
-
-Estes indios anthropóphagos pertenciam á tribu dos Charruas que era
-senhora do paiz, como na extremidade opposta do grande continente o
-eram os Hures e os Sioux.
-
-Os hespanhoes foram pois obrigados a edificar Montevideo no meio de
-combates, que se renovavam todos os dias e todas as noites, contando
-por isso Montevideo apenas cem annos, apezar de ter sido descoberto em
-1516.
-
-Pelo fim do ultimo seculo, appareceu um homem que promoveu aos
-senhores primitivos da costa uma guerra de exterminação, em que foram
-aniquilados.
-
-Tres ultimos combates--em que collocaram entre si suas mulheres e
-filhos, e caíam sem recuar um passo--viram desapparecer os seus ultimos
-restos, e monumentos d'esta derrota suprema; o viajante póde ainda vêr
-ao pé da montanha _Augua_ os ossos dos ultimos Charruas.
-
-Este novo Mario era Jorge Pacheco, pae do general Pacheco e Obes de
-quem, como já dissemos, tivemos todos estes promenores.
-
-Mas os selvagens destruidos deixaram a Pacheco inimigos mais ferozes,
-mais perigosos, e mais inexterminaveis que os indios, visto que
-aquelles eram sustentados, não por uma crença religiosa, que todos
-os dias ia enfraquecendo, mas, pelo contrario, por um interesse
-material que ia augmentando sensivelmente. Estes inimigos eram os
-contrabandistas do Brazil.
-
-O systema prohibitivo era a base do commercio hespanhol. Havia pois
-uma guerra encarniçada entre o exercito e os contrabandistas, que ou
-pela estrategia ou pela força tentavam introduzir no territorio de
-Montevideo as suas sedas e tabaco.
-
-A lucta foi longa, encarniçada e mortal. D. Jorge Pacheco dotado de
-uma força herculea, de um talhe gigantesco, e de uma grande finura,
-tinha alcançado--pelo menos assim o julgava--não a aniquillar os
-contrabandistas, como havia feito aos Charruas, mas a affastal-os da
-cidade, quando repentinamente tornaram a apparecer mais atrevidos,
-mais activos, e reunidos como nunca em roda de uma vontade unica, tão
-poderosa, tão corajosa, e tão intelligente como podia ser a do general
-Pacheco.
-
-Pacheco mandou espiões por toda a parte a informarem-se do motivo
-d'esta reapparição.
-
-Todos voltaram pronunciando um unico nome:
-
---Artigas!
-
-Quem era este Artigas?
-
-Um mancebo de vinte a vinte e cinco annos, bravo como um velho
-hespanhol, esperto como um Charrua, e agil como um _gaucho_: tinha tres
-raças senão no sangue ao menos no espirito. Começou então uma lucta
-admiravel de esperteza e força entre o general e o contrabandista, mas
-um era moço e todos os dias a sua força augmentava, o outro não era
-velho, mas estava já cançado.
-
-Durante quatro ou cinco annos Pacheco perseguiu Artigas, batendo-o
-por toda a parte por onde apparecia; mas Artigas derrotado não era
-nem morto, nem feito prisioneiro, e no dia seguinte começava de novo
-a lucta. Pacheco cansou primeiro e como um d'esses romanos da antiga
-republica, que sacrificavam o seu orgulho ao bem do paiz, disse ao
-governo que resignava os seus poderes com a condição que Artigas
-seria nomeado general em seu logar, porque só Artigas podia acabar a
-destruição dos contrabandistas.
-
-O governo acceitou, e como esses bandidos romanos que se submettem ao
-poder do papa e passeam venerados na cidade de que foram o terror,
-Artigas fez a sua entrada triumphal em Montevideo, e começou a obra de
-destruição para que havia sido chamado.
-
-Estes factos tiveram logar cincoenta e oito ou sessenta annos antes
-dos acontecimentos em que Garibaldi vae tomar parte, mas como nós
-somos author dramatico e não podemos deixar de começar um drama por um
-prologo, vamos dar a conhecer aos leitores, homens e terras que lhe são
-bem desconhecidos.
-
-Artigas tinha então vinte e sete ou vinte e oito annos, tendo na época
-em que o general Pacheco me deu estes detalhes noventa e tres annos,
-vivendo ignorado n'uma pequena quinta pertencente ao presidente do
-Paraguay. Hoje provavelmente já tem morrido.
-
-Era um mancebo bello e bravo, e que representava um dos tres poderes
-que reinaram em Montevideo.
-
-Jorge Pacheco era o typo do valor cavalheiresco do velho mundo, que
-atravessou os mares com Colombo, Pizarro e Fernando Cortez. Artigas
-era o homem do campo, e podia representar, o que chamavam o partido
-nacional, collocado entre os portuguezes e hespanhoes, isto é entre os
-estrangeiros que se tinham tornado portuguezes e hespanhoes, pela sua
-habitação nas cidades onde tudo fazia lembrar os costumes portuguezes e
-hespanhoes.
-
-Ainda havia um terceiro typo e mesmo uma terceira potencia que foi o
-flagello de todos e de que é necessario dizer duas palavras.
-
-Este terceiro typo é o gaucho, a quem Garibaldi chama o centauro do
-novo mundo.
-
-Na França chamamos gaucho a tudo quanto vive n'estas vastas planicies,
-mas commettemos um erro: o capitão Head da marinha ingleza, foi o
-primeiro a pôr em moda esta mania de confundir o gaucho com o habitante
-do campo, que na sua soberba repelle não só a similhança, mas até a
-comparação.
-
-O gaucho é o bohemio do novo mundo. Sem terras, sem casa, sem familia,
-possue por toda a fortuna um casaco, um cavallo, uma faca e o laço.
-
-A faca é a sua arma, o laço a sua industria.
-
-A nomeação de Artigas foi recebida com satisfação por todos, excepto
-pelos contrabandistas, e ainda se achava occupando este alto cargo
-quando rebentou a revolução de 1810, revolução que tinha por fim, e que
-obteve, destruir o dominio hespanhol no novo mundo.
-
-Esta revolução começou em 1810 em Buenos-Ayres e acabou em Bolivia na
-batalha de Ayacuncho em 1824.
-
-O chefe das forças independentes era então o general Antonio José de
-Soure, e tinha cinco mil homens ás suas ordens.
-
-O general em chefe das tropas hespanholas era D. José de Laserna, o
-ultimo vice-rei do Peru, e commandava onze mil homens.
-
-Os patriotas não possuiam senão uma unica peça, eram um contra dois,
-e achavam-se completamente desprovidos de munições, e de provisões de
-boca. Não tinham remedio senão esperar, assim o fizeram, e quando foram
-atacados ficaram vencedores.
-
-Foi o general patriota Aleixo Cordova que começou o combate.
-Commandava mil e quinhentos homens. Poz a bandeira na ponta da espada e
-gritou:
-
---Ávante!
-
---A marche marche, ou no passo ordinario? perguntou um official.
-
---No passo da victoria, respondeu elle.
-
-N'essa mesma tarde todo o exercito hespanhol tinha capitulado, e
-achava-se prisioneiro d'aquelles que o tinham sido seus.
-
-Artigas havia sido um dos primeiros a festejar a revolução. Tinha-se
-posto á testa do movimento, e por sua vez offereceu a Pacheco o
-commando, como annos antes elle o havia feito.
-
-Esta troca ia-se talvez operar quando Pacheco foi surprehendido na Casa
-branca, no Uruguay, por marinheiros hespanhoes, e ficou seu prisioneiro.
-
-Artigas continuou a sua tarefa libertadora. Em pouco tempo expulsou os
-hespanhoes do campo de que se havia tornado rei, reduzindo-os a serem
-senhores unicamente de Montevideo, que podia apresentar uma séria
-resistencia, visto ser a segunda cidade fortificada da America.
-
-A primeira era S. João de Ulloa.
-
-Em Montevideo achavam-se refugiados todos os partidarios dos
-hespanhoes, protegidos por um exercito de quatro mil homens. Artigas
-sustentado pela alliança de Buenos-Ayres começou o cerco da cidade, mas
-um exercito portuguez veiu em auxilio dos hespanhoes e Artigas teve de
-retirar-se. Em 1812 Montevideo soffreu novo cerco. O general Rondeau
-commandava as forças de Buenos-Ayres e Artigas as dos patriotas, e
-foram estes que de novo cercaram a cidade.
-
-O cerco durou vinte e tres mezes, tendo logar no fim d'este tempo uma
-capitulação que entregou a capital da futura republica oriental aos
-sitiantes, commandados então pelo general Alvear.
-
-Porque razão era então general em chefe Alvear e não Artigas? Vamos
-dizel-o.
-
-É que no fim de vinte mezes de cerco, depois de tres annos de contacto
-entre os homens de Buenos-Ayres e os de Montevideo, as differenças de
-habitos, de costumes, e direi mesmo de raças, que tinham sido causa
-de simples desintelligencias, haviam-se tornado em motivos de odios
-mortaes.
-
-Artigas, como Achilles havia-se retirado desapparecendo pelos campos
-tão seus conhecidos no tempo da sua mocidade em que exercia o mister de
-contrabandista.
-
-O general Alvear tinha-o substituido, sendo general em chefe dos
-_Portenos_, na occasião em que Montevideo se entregou.
-
-_Portenos_ é o nome que dão aos naturaes de Buenos-Ayres, e _Orientaes_
-aos de Montevideo.
-
-Tentaremos explicar as differenças que ha entre os _Portenos_ e os
-_Orientaes_.
-
-O habitante de Buenos-Ayres fixado no paiz ha trezentos annos na pessoa
-de seus avós, perdeu desde o fim do primeiro seculo da sua existencia
-na America, todas as tradicções da mãe patria, isto é da Hespanha.
-Os habitantes de Buenos-Ayres são hoje tão americanos, como o eram
-antigamente os indios que d'ali expulsaram.
-
-O habitante de Montevideo, ao contrario, existindo apenas ha um seculo
-no paiz,--sempre na pessoa de seus avós, bem entendido--não teve o
-tempo de esquecer que é de raça hespanhola. Tem o sentimento da sua
-nova nacionalidade, mas sem ter esquecido as tradicções da velha
-Europa, em quanto que o de Buenos-Ayres, se affasta todos os dias da
-Europa para entrar na barbaria.
-
-O paiz não deixa de ter sua influencia, sobre este movimento retrogrado
-de um lado, progressivo do outro.
-
-A população de Buenos-Ayres, espalhada em areaes immensos, com
-habitações muito affastadas umas das outras, em sitios completamente
-desprovidos de agua, e de todos os objectos necessarios, e habitando
-cabanas mal construidas, ganha um caracter sombrio, insociavel e
-bulhento. As suas tendencias dirigem-se para os indios selvagens
-das fronteiras, com os quaes elles negoceiam em todos os objectos
-que trazem dos sitios onde a civilisação ainda não penetrou, e são
-completamente desconhecidos aos europeus, dos quaes recebem em troca
-agua-ardente e tabaco que levam para as grandes planicies dos pampas,
-de que tomaram o nome, ou a quem póde ser deram o seu.
-
-A população de Montevideo, pelo contrario, possue um bello paiz,
-cortado por muitos rios. Não possue vastos bosques, não tem grandes
-florestas, como a America do Norte, mas as margens dos seus rios são
-ornadas de bellas e magestosas arvores. Possue além d'isso bellos
-edificios, e a terra produz todo o necessario para o seu sustento. As
-suas casas, quintas e herdades são proximas umas das outras, e o seu
-caracter franco e hospitaleiro, é inclinado a essa civilisação de que a
-aproximação do mar lhe conduz continuamente.
-
-Para a população de Buenos-Ayres o typo da perfeição é o indio a
-cavallo.
-
-Para a de Montevideo é o europeo apertado na sua casaca, na sua gravata
-e nas botas de polimento.
-
-Os naturaes de Buenos-Ayres tem a pertenção de serem os primeiros da
-America em elegancia. Teem mais imaginação que os de Montevideo, e os
-primeiros poetas que a America conheceu, nasceram em Buenos-Ayres.
-Varela e Lafinur. Domingos e Marmol são poetas portenos.
-
-O habitante de Montevideo é menos poetico, mas mais socegado e mais
-firme nas suas resoluções e nos seus projectos. Se o seu rival tem
-a pertenção de ser o primeiro em elegancia, elle tem a de o ser
-na coragem. Entre os seus poetas figuram de Hidalgo, de Berro, de
-Figueira, e João Carlos Gomes.
-
-As mulheres de Buenos-Ayres tambem teem a pretenção de serem as mais
-bellas da America meridional desde Lemairé até ao Amazonas.
-
-Póde ser que na realidade o rosto das mulheres de Montevideo seja menos
-formoso que o das suas visinhas, mas as suas fórmas são maravilhosas.
-
-Ha pois entre os dois paizes;
-
-Rivalidade de coragem e elegancia, entre os homens;
-
-Rivalidade de belleza e elegancia, entre as mulheres;
-
-Rivalidade de talento entre os poetas, esses hermaphroditas da
-sociedade, colericos como os homens, caprichosos como as mulheres e
-simples muitas vezes como as creanças mais innocentes.
-
-Havia pois, como se vê por tudo que acabamos de dizer, motivos
-sufficientes para as relações serem interrompidas entre Montevideo e
-Buenos-Ayres, entre Artigas e Alvear.
-
-Não foi unicamente uma separação, que teve logar, mas sim uma guerra.
-
-Todos os elementos de antipathia foram dirigidos contra os homens
-de Buenos-Ayres pelo antigo chefe de contrabandistas. Pouco lhe
-importavam então os meios, de que tinha a servir-se, com tanto que
-alcançasse o seu fim que era expulsar do paiz os Portenos.
-
-Foi então que Artigas reunindo todos os recursos que lhe offerecia o
-paiz, se poz á testa d'esses bohemios da America que se chamam gauchos.
-
-A guerra que fazia Artigas tinha alguma cousa de santa; assim nada
-lhe podia resistir, nem o exercito de Buenos-Ayres, nem o partido
-hespanhol, que sabia perfeitamente que a entrada de Artigas em
-Montevideo, era a substituição da força brutal á intelligencia.
-
-Os que tinham previsto esta volta á barbaria não se haviam enganado.
-Pela primeira vez homens vagabundos, por civilisar, e sem organisação,
-viam-se formando um exercito e com um general. Durante a dictadura de
-Artigas teve logar um periodo que tem alguma analogia com o nosso de
-1793. Montevideo viu o reinado do homem dos pés nús, dos _casoncillos_
-fluctuantes, da _chiripa_ escosseza, do _puncho_ despedaçado, e com o
-chapeu deitado sobre a orelha seguro pelo _barlipo_.
-
-Então Montevideo foi testemunha de scenas inauditas grotescas, e
-algumas vezes terriveis. Muitas vezes as primeiras classes da sociedade
-foram reduzidas á impotencia, Artigas tendo de menos a crueldade e de
-mais a coragem, tornou-se então o que mais tarde devia ser Rosas.
-
-A dictadura de Artigas teve não obstante muitas cousas de brilhante e
-nacional. Uma foi a lucta de Montevideo contra Buenos-Ayres, em que
-Artigas derrotou sempre as forças d'este paiz e de que fez cessar a
-influencia e a resistencia ao exercito portuguez que invadiu o paiz em
-1815.
-
-O pretexto d'esta invasão foi a desordem da administração de Artigas
-e a necessidade de salvar os povos visinhos de desordens eguaes, que
-podia fazer nascer entre elles o contagio do exemplo. Estas desordens
-tinham no mesmo paiz, dobrado a opposição que fazia o partido da
-civilisação. As classes elevadas sobre tudo desejavam do coração uma
-victoria que substituisse o dominio portuguez a esse dominio nacional
-que trazia a brutal tyrannia da força material. Comtudo não obstante
-os ataques portenos e dos portuguezes, Artigas resistiu quatro annos,
-dando tres batalhas, e vencido retirou-se para Entre rios, isto
-é para o outro lado do Uruguay. Ahi, apezar de se achar fugitivo,
-Artigas representava ainda, se não pelas suas forças, ao menos pelo
-seu nome, um poder respeitavel, quando Ramiro seu tenente se revoltou,
-contra elle, collocando-se á frente da terça parte das suas forças, e
-derrotando-o de modo que lhe tirou toda a esperança de reconquistar a
-sua posição perdida, obrigando-o a sair d'este paiz aonde como Anteo,
-parecia ganhar novas forças todas as vezes que ahi tocava.
-
-Foi então que, egual a uma d'essas trombas que se evaporam, depois
-de ter deixado a desolação e as ruinas na sua passagem, Artigas
-desappareceu retirando-se para o Paraguay, onde, como já dissemos, em
-1848 na época em que Garibaldi defendia Montevideo, vivia ainda tendo
-noventa e tres ou noventa e quatro annos, gosando de todas as suas
-faculdades intellectuaes e de quasi todas as suas forças.
-
-Artigas vencido não fez opposição ao dominio portuguez que se
-estabeleceu no paiz, e o barão de Laguna francez de origem foi seu
-representante em 1825. N'este anno Montevideo como todas as possessões
-portuguezas da America foram cedidas ao Brazil.
-
-Montevideo foi então occupado por um exercito de oito mil homens e tudo
-parecia assegurar ao imperador a sua pacifica posse.
-
-Foi então que um natural de Montevideo, proscripto, residente em
-Buenos-Ayres, reuniu trinta e dois companheiros proscriptos como elle,
-e decidiram que dariam a liberdade á patria ou que morreriam.
-
-Este punhado de patriotas embarcou em duas canoas e desembarcou no
-Grande Areal.
-
-O chefe chamava-se João Antonio Lavalleja.
-
-Lavalleja havia de antecipação tido relações com um proprietario do
-paiz que devia no momento do seu desembarque, ter os cavallos promptos.
-Assim logo que desembarcou enviou-lhe um mensageiro, que lhe trouxe
-em resposta que tudo estava descoberto, que os cavallos haviam sido
-roubados e que Lavalleja e os seus companheiros não tinham outro
-partido a tomar senão embarcarem de novo e o mais depressa possivel,
-devendo dirigir-se para Buenos-Ayres.
-
-Mas Lavalleja respondeu que não partia, pois não podia, nem queria
-recuar, e ordenando aos remadores de voltarem para Buenos-Ayres sem
-elle, tomou posse, no dia 19 de abril, de Montevideo em nome da
-liberdade.
-
-No dia seguinte os trinta valentes que tinham apanhado alguns cavallos,
-com o consentimento de seus donos, pozeram-se em marcha para a capital,
-mas foram encontrados por um destacamento de cavalleiros, de que
-quarenta eram brazileiros e cento e sessenta orientaes.
-
-Eram commandados por um antigo irmão de armas de Lavalleja, o coronel
-Jurien. Lavalleja podia evitar o combate, mas não o quiz e marchou
-direito aos duzentos cavalleiros, e pediu uma entrevista ao coronel
-antes de entrar em combate.
-
---Que quer e que vem aqui fazer? perguntou Jurien a Lavalleja.
-
---Venho libertar Montevideo do dominio estrangeiro, respondeu
-Lavalleja, se tem as minhas idéas acompanhe-me, se não, entregue-me as
-suas armas, ou prepare-se para o combate.
-
---Não comprehendo o que querem dizer essas palavras = _entregue-me as
-suas armas_, respondeu o coronel, e espero que ninguem m'as ha-de
-explicar.
-
---Então tome o commando dos seus soldados, e vamos vêr por quem é Deus.
-
---Veremos, disse Jurien.
-
-E partiu a galope a unir-se aos seus soldados.
-
-Mas no mesmo momento Lavalleja desenrolou a bandeira nacional, azul,
-branca e encarnada e immediatamente os cento e sessenta orientaes
-passaram para o seu lado.
-
-Os quarenta brazileiros foram feitos prisioneiros.
-
-A marcha de Lavalleja para Montevideo foi uma verdadeira marcha
-triumphal, de que o resultado foi que a republica oriental, proclamada
-pela vontade e enthusiasmo de um povo inteiro, tomou logar entre as
-nações.
-
-
-
-
- ROSAS
-
-
-Durante estes acontecimentos engrandecia-se um nome que mais tarde
-devia ser o terror da federação argentina.
-
-Pouco depois da revolução de 1810 um mancebo de quinze a dezaseis
-annos saía de Buenos-Ayres, abandonando a cidade e dirigindo-se para o
-campo. Ia muito perturbado e caminhava apressadamente.
-
-Este mancebo chamava-se João Manoel Rosas.
-
-Porque esta creança, este fugitivo abandonava a casa onde havia
-nascido? Porque ia pedir um asylo aos habitantes dos montes? É porque
-acabava de insultar sua mãe, como mais tarde devia insultar a sua
-patria; ia perseguido pela maldição paterna.
-
-Este successo, sem nenhuma importancia para os acontecimentos d'aquelle
-paiz, esqueceu bem depressa no meio de factos mais serios que então
-tiveram logar, e em quanto todos os antigos companheiros do fugitivo
-se reuniam debaixo do estandarte da independencia para combater os
-hespanhoes, Rosas, andava pelos _pampas_ entregando-se á vida dos
-gauchos, adoptando o seu vestuario e costumes, tornando-se um dos
-melhores cavalleiros e um dos homens mais habeis d'essas immensas
-planicies, no manejo do laço e da bola, de sorte que vendo-o tão habil
-n'estes exercicios selvagens, quem não o conhecesse não o tomaria por
-um habitante da cidade, nem por um _pueblero_ fugitivo, mas por um
-verdadeiro gaucho.
-
-Rosas entrou primeiramente como _peon_, isto é jornaleiro, em uma
-estancia, depois foi _capataz_,--Garibaldi já nos explicou o que era um
-_capataz_--chegando depois a _mayordomo_.
-
-N'esta qualidade governava os bens da poderosa familia Anchorena. É
-d'ahi que começa a sua fortuna como proprietario.
-
-Sendo o nosso designio fazer conhecer Rosas debaixo de todos os
-aspectos; vamos dizer qual era a situação do seu espirito no meio dos
-acontecimentos que então tinham logar.
-
-Rosas tinha estado em Buenos-Ayres durante os prodigios praticados
-pela revolução contra a Hespanha. Então quem tinha coragem procurava
-a celebridade no campo da batalha, quem tinha instrucção procurava-a
-nos conselhos. Rosas era ambicioso de celebridade, mas qual era a que
-elle poderia esperar? Que nome poderia adquirir, elle que não tinha nem
-coragem para se apresentar no campo da batalha, nem instrucção alguma
-para adquirir um nome entre os homens da sciencia? A todos os momentos
-ouvia proferir a seu lado alguns nomes que se haviam tornado celebres.
-Eram como ministros, Rivadaria, de Pasos, de Aguerro, como guerreiros,
-Saint-Martin, de Baléarés, de Rodrigues, e de Las Heras.
-
-E todos estes nomes de que o ruido, vindo da cidade, ia achar éco nas
-solidões dos campos, todos estes nomes avivavam o seu odio contra essa
-cidade que tendo triumphos para todos, não tinha para elle senão o
-exilio.
-
-Já n'esta época Rosas pensava no futuro e preparava-o. Errando pelos
-pampas, confundido com os gauchos, fazia-se o companheiro da miseria do
-povo, elogiando os prejuizos do homem das planicies, excitando-o contra
-os cidadãos, demonstrando-lhe a superioridade do numero e diligenciando
-fazer-lhe comprehender que quando quizessem os habitantes do campo,
-seriam senhores da cidade.
-
-Os annos foram passando, até que chegamos a 1820.
-
-Foi então que Rosas começou a apparecer, apoiado na influencia que
-havia adquirido nos habitantes das planicies.
-
-Já vimos o que se passou em Montevideo. Vejamos agora o que se passou
-em Buenos-Ayres.
-
-A milicia de Buenos-Ayres rebellou-se contra o governador Rodrigues.
-Então um regimento das milicias do campo, _los colorados de las
-Conchas_ entraram na cidade, em 5 de outubro de 1820, tendo á sua
-frente um coronel, que era conhecido em Buenos-Ayres, e que conhecia
-Buenos Ayres.
-
-Este coronel era Rosas.
-
-No dia seguinte as milicias do campo, e as milicias da cidade vieram ás
-mãos, mas n'esse dia o coronel não estava á frente do regimento.
-
-Uma violenta dôr de dentes, que Rosas deixou de soffrer assim que
-finalisou o combate, affastava-o, com grande pezar, do campo da
-batalha. E porque não teria elle razão? Octavio tambem teve um grande
-ataque de febre no dia da batalha de Actium.
-
-Rosas parecia-se muito com Octavio; mas mais tarde Octavio foi Augusto,
-o que segundo todas as probabilidades nunca será Rosas.
-
-Esta entrada em Buenos-Ayres foi a unica expedição guerreira em que
-Rosas tomou parte durante toda a sua vida politica.
-
-Foi então que Rivadavia, já mui conhecido, foi nomeado ministro do
-reino, tomando a direcção de todos os negocios.
-
-Rivadavia era um d'esses homens de genio, como apparecem no meio das
-revoluções durante os dias de tormenta. Havia viajado muito na Europa,
-possuindo uma instrucção universal, e parecendo animado do mais ardente
-e puro patriotismo. Infelizmente a vista da civilisação europea, que
-tinha estudado em Paris e Londres havia-lhe feito nascer falsas idéas
-da sua applicação a um povo que não tendo por detraz de si dez seculos
-de luctas sociaes, não as podia admittir.
-
-Rivadavia queria dobrar a marcha do tempo e fazer o mesmo pela America
-que Pedro o Grande havia feito pela Russia; mas não tendo á sua
-disposição os meios de Pedro foi obrigado a desistir das suas intenções.
-
-Póde ser que com mais alguma esperteza Rivadavia as tivesse alcançado,
-mas censurava os homens pelos seus habitos e certos habitos são uma
-nacionalidade e outros um orgulho. Escarnecia os trajes americanos,
-manifestando a sua repugnancia pela _jaqueta_, o seu desprezo pela
-_chiripa_, o vestuario do homem dos campos, e como ao mesmo tempo
-não occultava a sua preferencia pela casaca e bota de polimento,
-despopularisou-se pouco a pouco, e sentiu o poder prestes a escapar-lhe.
-
-E não obstante que de beneficios não fez ao seu paiz em troca d'esses
-vestidos ridiculos que lhe queria tirar? A sua administração foi a mais
-prospera que Buenos-Ayres teve. Foi elle que fundou a universidade,
-os liceos, e que introduziu nas escolas o ensino mutuo. Durante a sua
-administração, muitos sabios foram chamados da Europa, as artes foram
-protegidas, desenvolvendo-se muito, emfim Buenos-Ayres era chamada a
-Athenas da America do Sul.
-
-Já fallámos da guerra de Buenos-Ayres em 1826. Para sustentar esta
-guerra, Buenos-Ayres fez sacrificios enormes, exgotando as suas
-finanças, e enfraquecendo por esse motivo muito as molas da sua
-administração.
-
-Exgotadas as finanças, enfraquecido o governo, as revoluções começaram.
-
-Já dissemos que em Buenos-Ayres como em Montevideo, o campo e a cidade
-nunca estavam em harmonias de opiniões, como nunca o estavam em
-harmonias de interesse.
-
-Buenos-Ayres fez uma revolução.
-
-Immediatamente o campo fez uma revolução, e dirigindo-se sobre
-Buenos-Ayres, invadiu a cidade e fez o seu chefe governador.
-
-Este chefe era Rosas.
-
-Vamos fechar o parenthesis, aberto algumas paginas atraz.
-
-Em 1830 Rosas foi eleito governador pela influencia dos habitantes do
-campo, não obstante a opposição da cidade, que elle encontrou meia
-policiada pela administração de Rivadavia.
-
-Então Rosas, o gaucho, tentou reconciliar-se com a civilisação,
-parecendo querer esquecer os costumes selvagens adoptados por elle até
-então: a serpente queria mudar de pelle.
-
-Mas a cidade resistiu ás suas tentativas, e a civilisação recusou
-receber o transfuga que se havia passado para o campo da barbaria.
-Rosas mostrava-se revestido de um uniforme, e immediatamente os
-militares perguntavam em que campo de batalha havia elle ganho aquellas
-dragonas. Fallava n'uma reunião, e logo os homens intelligentes
-perguntavam entre si onde tinha elle ido aprender aquelle estylo;
-quando apparecia n'um passeio, as mulheres designando-o com o dedo
-diziam: «Ahi vae o gaucho disfarçado!»
-
-Os tres annos do seu governo passaram-se n'esta lucta mortal para o
-seu orgulho, e póde ser que a estas torturas moraes que lhe fizeram
-soffrer n'este periodo, seja devida a sua ferocidade. D'esta maneira
-quando resignou o poder e desceu a escada do palacio, com a alma cheia
-de odio, e o coração de fel, sabendo que desde então não havia alliança
-possivel com a cidade, foi ter de novo com os seus fieis gauchos, e as
-suas estancias de que era o senhor, com a intenção de um dia entrar
-de novo em Buenos-Ayres, como Scylla, que elle não conhecia e de quem
-provavelmente nunca havia ouvido fallar, havia entrado em Roma, com a
-espada n'uma mão e uma tocha m outra.
-
-Para alcançar este fim vejamos o que elle fez. Pedia ao governo que lhe
-concedesse um commando qualquer no exercito que ia combater os indios
-selvagens. O governo que o temia julgou affastal-o concedendo-lhe este
-favor, e deu-lhe todas as tropas de que podia dispôr, esquecendo que se
-enfraquecia mettendo todo o poder nas mãos de Rosas.
-
-Este logo que se achou á frente do exercito fez uma revolução em
-Buenos-Ayres, fez-se chamar ao poder que não acceitou senão com grandes
-condições, porque tinha ás suas ordens todo o exercito, e entrou em
-Buenos-Ayres com a dictadura mais absoluta de que se tem conhecimento,
-isto é _com toda la suma del poder publico_--com toda a extensão do
-poder publico.
-
-O governador que elle fez cair, ou antes que elle precipitou era o
-general João Romão Baleace, um dos homens que tinha mais trabalhado
-na guerra da independencia, e um dos chefes do partido federal de
-que Rosas se dizia o sustentaculo. Baleace era um nobre coração e a
-sua fidelidade á patria era proverbial. Havia acreditado em Rosas e
-tinha trabalhado muito para a sua elevação. Baleace foi o primeiro
-sacrificado por Rosas, morrendo proscripto e quando o seu cadaver
-repassou a fronteira, protegido pela morte, Rosas recusou á sua
-familia, não as honras funebres que eram devidas a um ex-governador,
-mas as simples ceremonias a quem todo o cidadão tem direito.
-
-Em 1833 foi que começou o verdadeiro poder de Rosas. No seu primeiro
-governo, cheio de dissimulação, não tinha apresentado os seus
-instinctos de crueldade, que fizeram depois d'elle uma celebridade
-de sangue. Este primeiro periodo não tinha sido marcado senão pelo
-fuzilamento do major Monteiro e dos prisioneiros de S. Nicolau. Comtudo
-não devemos esquecer que foi n'esta época que tiveram logar muitas
-mortes sombrias e subitas, d'essas mortes de que a historia inscreve a
-data com tinta encarnada no livro das nações.
-
-D'esta maneira desappareceram dois chefes de que a influencia poderia
-fazer alguma sombra a Rosas. As mortes de Arbolito e de Molina tiveram
-logar n'esta época. O mesmo aconteceu, segundo nos parece, aos dois
-consules que acompanharam Octavio na sua primeira batalha contra
-Antonio.
-
-Daremos mais alguns detalhes de Rosas que ainda não nos appareceu
-senão como dictador, mas tendo já alcançado um poder como poucos homens
-tem exercido n'uma nação.
-
-Em 1833, Rosas contava trinta e nove annos. Tinha o aspecto europeo,
-cabellos louros, olhos azues, e uma presença soffrivel. Não usava
-nem de barbas, nem de bigodes. O seu olhar seria bello se se podesse
-examinar, mas Rosas havia-se habituado a não olhar de frente, nem os
-seus amigos nem os seus inimigos, porque sabia que n'um amigo existe
-quasi sempre um inimigo disfarçado. A sua voz era doce, e, quando tinha
-necessidade de agradar a sua conversação tinha muito de attrahente.
-A sua reputação de cobarde é proverbial, e a de esperto é universal.
-Adorava as mystificações, sendo esta a sua grande occupação antes de se
-entregar aos negocios serios. Uma vez chegado ao poder, não foi senão
-uma distracção, que eram brutaes como a sua natureza.
-
-Citemos um ou dois exemplos:
-
-Uma tarde que devia jantar na companhia de um dos seus amigos, occultou
-o vinho destinado a beber-se e deixou unicamente no bofete uma garrafa
-do famoso licor de Leroy, que para ser completamente celebre só lhe
-falta ser descuberto no tempo de Moliere. O amigo procurando o vinho
-só achou a garrafa de Leroy e encontrando-lhe um gosto mui agradavel,
-bebeu-a toda. Rosas não bebeu se não agua, e partiu logo que acabou o
-jantar para a sua estancia.
-
-Durante a noite o amigo de Rosas soffreu dores infernaes. Rosas riu
-muito d'este seu innocente brinquedo, se elle tivesse morrido, Rosas
-teria, sem duvida, rido muito mais.
-
-Quando recebia algum cidadão em uma das suas estancias, fazia-o montar
-em cavallos muito fogosos e a sua alegria era conforme a gravidade da
-queda que o cavalleiro dava.
-
-No palacio do governo achava-se sempre rodeado de loucos e de imbecis,
-e no meio dos negocios mais serios conservava este singular cortejo.
-Quando sitiava Buenos-Ayres, em 1829, tinha a seu lado quatro d'estes
-pobres diabos, que havia feito monges, tornando-se em virtude do seu
-poder, seu prior. Chamavam-se frei Biqua, frei Chaja, frei Lechuza, e
-frei Biscacha. Rosas gostava muito de confeitos, tendo-os sempre de
-todas os qualidades na sua tenda.
-
-Os monges que tambem gostavam muito de confeitos, roubavam alguns de
-quando em quando. Rosas então chamava-os a todos e os monges que sabiam
-o que lhe custaria a mentir, confessavam o crime.
-
-Immediatamente o culpado era despojado dos vestidos e fustigado pelos
-seus tres companheiros.
-
-Todos conheciam em Buenos-Ayres o seu mulato Eusebio, e para isso muito
-concorreu Rosas que em um dia de recepção publica, teve a idéa de fazer
-o mesmo que a condessa Dubarry fazia com o preto Zamora.
-
-Eusebio vestido de governador recebeu os cumprimentos das authoridades,
-em logar do seu _senhor_.
-
-Não obstante a amizade que Rosas tinha a Eusebio, teve um dia a
-lembrança de lhe fazer uma _brincadeira_, como costumavam ser todas
-as que esta boa alma inventava. Fingiu que acabava de ser descoberta
-uma conspiração, contra elle, de que o chefe era Eusebio. O fim
-d'esta conspiração era matar Rosas. Eusebio foi preso apezar dos seus
-protestos de innocencia. Rosas dominava os juizes a tal ponto que elles
-não se importavam se o accusado era ou não innocente. Rosas accusava, e
-elles julgaram e condemnaram Eusebio á morte.
-
-Eusebio soffreu todos os preparativos do supplicio. Confessou-se, e
-sendo depois conduzido ao logar do supplicio, ahi encontrou o carrasco
-e seus ajudantes, e quando este _brinquedo_ estava quasi a terminar
-tragicamente, appareceu Rosas que disse a Eusebio estar sua filha
-Manuelita apaixonada por elle, e que por isso lhe perdoava, com a
-condição de a desposar.
-
-É inutil dizer que Eusebio não morrendo do supplicio esteve quasi a
-morrer de medo.
-
-Vamos agora dizer aos nossos leitores quem era como mulher esta
-Manuelita que a Providencia tinha collocado ao pé de seu pae como um
-bom anjo, de que a principal occupação, durante toda a sua vida, foi
-repetir todos os dias a palavra _perdão_, alcançando-o muitas vezes.
-
-Manuelita é hoje uma mulher de quarenta annos que por dedicação por
-seu pae, e póde ser, que talvez pela missão que recebeu do ceu, se tem
-conservado solteira, pelo menos até 1850, época em que a perdemos de
-vista.
-
-Manuelita não era precisamente uma mulher encantadora, mas era bella,
-com uma figura distincta, dotada de um tacto profundo, coquette como
-uma parisiense, e muito preoccupada, sobre tudo do effeito que produzia
-nos estrangeiros.
-
-Manuelita foi muito calumniada, o que era muito natural por ser filha
-de Rosas, isto é, do homem sobre o qual convergiam todos os odios. Era
-accusada de ter herdado os sentimentos crueis de seu pae, e de ter,
-como a filha do papa Borgia, esquecido o amor filial por outro mais
-terno e menos christão.
-
-Tudo isto é falso. Manuelita ficou solteira por duas razões: a primeira
-porque Rosas sentia muitas vezes a necessidade de ser amado, e sabia
-que o unico amor real, dedicado, infinito, sobre que podia contar era
-o de sua filha. Manuelita ficou solteira porque, talvez, nos seus
-sonhos de realeza, Rosas, hoje simples particular, vivendo num canto da
-Inglaterra, via no futuro brilhar para Manuelita alguma alliança mais
-aristocratica do que aquellas a que poderia então aspirar.
-
-Tanto a historia deve ser severa para com Rosas, tanto, a menos de
-ser injusta, deve ser cheia de indulgencia para com Manuelita, a quem
-todos que a conhecem fazem justiça, reconhecendo o que dizemos como uma
-verdade. Manuelita foi o dique eterno, que fazia parar a colera de seu
-pae. Quando creança tinha um meio muito extravagante para obter d'elle
-a graça que pedia.
-
-Fazia despir completamente o mulato Eusebio, arreiando-o como um
-cavallo, e calçava uns lindos sapatos com esporas. Eusebio punha as
-mãos no chão, e Manuelita montava-se-lhe nas costas, fazendo caracolar
-o seu bucephalo humano diante de seu pae que ria muito d'este singular
-brinquedo, concedendo a Manuelita o perdão que implorava.
-
-Mais tarde quando ella comprehendeu que não podia empregar este meio,
-apezar de ser tão efficaz, começou a pôr em pratica a obra de Mecena ao
-pé de Augusto, quando elle lhe lançava as suas tabuas nas quaes estava
-escripto: _Surge, carnifex_! Mas Manuelita procedia de outra maneira,
-porque conhecendo seu pae perfeitamente, sabia as vaidades secretas que
-era necessario fazer vibrar, e por isso muitas vezes alcançava o que
-pedia.
-
-Manuelita era ao mesmo tempo a rainha e escrava de seu pae.
-Administrava a casa, cuidava de Rosas, e encarregada de todas
-as relações diplomaticas era o verdadeiro ministro dos negocios
-estrangeiros de Buenos-Ayres.
-
-Assim como Rosas era um ente á parte, que não se confundia com pessoa
-alguma na sociedade, Manuelita era tambem uma creatura não só estranha
-no meio de todas, mas mesmo estranha a todas, e que viveu n'este mundo
-solitaria, longe do amor dos homens e da sympathia das mulheres.
-
-Rosas tambem tinha um filho chamado João, mas que nunca seguiu a
-politica de seu pae, e uma filha que ainda creança casou, sendo hoje
-uma casta esposa e mãi feliz, tendo um nome, o de seu marido, honrado e
-respeitado por todos.
-
-Tendo alcançado o poder, o grande trabalho de Rosas, foi anniquilar a
-federação.
-
-Lopes o seu fundador, cahiu doente. Rosas mandou-o vir para
-Buenos-Ayres e tornou-se seu enfermeiro.
-
-Lopes morreu envenenado.
-
-Quiroga, o chefe da federação, que havia escapado são e salvo de
-vinte batalhas, e de quem a coragem e lealdade era proverbial, morreu
-assassinado.
-
-Cullen, o conselheiro da federação, foi nomeado governador de Santa
-Fé. Rosas improvisou uma revolução, e Cullen foi entregue a Rosas pelo
-governador de São Thiago.
-
-Cullen foi fuzillado.
-
-Todos os homens notaveis no partido federal tiveram a mesma sorte que
-tinham tido na Italia os homens de consideração durante o dominio dos
-Borgias. Pouco a pouco, Rosas, empregando os mesmos meios que Alexandre
-VI e seu filho Cesar, conseguiu reinar na republica argentina, que
-apezar de reduzida a uma perfeita unidade, conserva ainda o nome
-pomposo de federação, e vae talvez, ser inimiga dos _unitarios_.
-
-Diremos algumas palavras dos homens que acabamos de nomear, fazendo
-reviver algum tempo os seus spectros accusadores, o que dará alguma
-idéa da scena de Shakespeare no _Ricardo 3.º_, antes do combate.
-
-Havia n'esses homens uma especie de selvajaria politica que é digna de
-ser conhecida.
-
-Fallemos primeiramente do general Lopes. Uma unica anedocta, dará não
-sómente idéa d'este chefe, mas fará conhecidos os homens com quem elle
-tinha a tratar.
-
-Lopes era governador da Santa Fé, e tinha em Entre Rios um inimigo
-pessoal, o coronel Ovando, que em seguida a uma revolta foi conduzido
-prisioneiro ao general Lopes.
-
-O general almoçava. Recebeu perfeitamente Ovando e convidou-o a
-almoçar. A conversação travou-se entre elles como entre dois convivas,
-aos quaes uma egualdade de condições tivesse ordenado a mais perfeita
-cortezia.
-
-Comtudo no meio da conversação, Lopes exclamou:
-
---Coronel, se eu tivesse cahido nas suas mãos, como cahiu nas minhas e
-isto no momento em que almoçasse, que faria?
-
---Convidal-o-ia para almoçar, como v. ex.ª acaba de fazer.
-
---E depois?
-
---Mandava-o fuzillar.
-
---Estimo muito que pense do mesmo modo que eu. Acabando de almoçar será
-fuzillado.
-
---Se não se quer demorar muito, póde ser já.
-
---Não, não, acabe de comer descançado, não tenho muita pressa.
-
-E continuaram a almoçar com todo o descanço, e tendo concluido:
-
---Julgo ser tempo, disse Ovando.
-
---Agradeço-lhe o não haver esperado que eu o lembrasse, respondeu Lopes.
-
-Depois chamando o seu camarada.
-
---O piquete está prompto? perguntou elle.
-
---Sim, meu general, respondeu o soldado.
-
-Então voltando-se para Ovando:
-
---Adeus, coronel, disse Lopes.
-
---Adeus, não; mas sim até á vista, porque não se vive muito tempo
-quando se fazem guerras como as nossas.
-
-E cumprimentando Lopes sahiu. Cinco minutos depois, o estrondo de uma
-descarga annunciou a Lopes que o coronel Ovando havia entregue a alma a
-Deos.
-
-Passemos a Quiroga.
-
-
-
-
- QUIROGA
-
-
-Este é mais nosso conhecido. A sua reputação atravessando os mares, fez
-echo em Paris, e a moda apoderou-se d'elle: de 1820 a 1823 todos tinham
-capotes á Quiroga e chapeus á Bolivar. É provavel que nem um nem outro
-tivessem usado dos capotes e chapeus que os seus admiradores adoptaram
-a duas mil leguas de distancia.
-
-Quiroga, como Rosas, era tambem camponez e havia servido, na sua
-mocidade, como sargento no exercito de linha contra os hespanhoes.
-
-Retirado ao seu paiz natal, a Rioja, entrou nos partidos internos, e
-tornado-se senhor do paiz, lançou-se na lucta das differentes facções
-da republica, e foi n'estas luctas que se mostrou pela primeira vez á
-America.
-
-No fim de um anno, Quiroga era a espada do partido federal, e é talvez
-o unico homem que tenha obtido similhantes resultados pela simples
-applicação do seu valor pessoal. O seu nome tinha alcançado um tal
-prestigio que só elle valia muitos exercitos.
-
-A sua grande tactica no meio dos combates, era chamar para o pé de si o
-maior numero de perigos, e quando repentinamente dava o grito de guerra
-brandindo na mão essa longa lança que era a sua arma predilecta, os
-mais bravos faziam conhecimento com o medo.
-
-Quiroga era cruel, ou antes feroz, mas na sua ferocidade havia sempre
-alguma cousa de grande e generoso. Era a ferocidade do leão e não a do
-tigre.
-
-Quando o coronel Pringles, um dos seus maiores inimigos, foi feito
-prisioneiro e assassinado, o seu assassino apresentou-se a Quiroga, seu
-chefe, julgando ter ganho uma boa recompensa.
-
-Quiroga deixou-lhe contar o seu crime, e mandou-o fuzillar.
-
-Uma outra vez dois officiaes pertencentes ao partido inimigo foram
-feitos prisioneiros pelos soldados de Quiroga que lembrando-se do
-castigo do seu camarada, os conduziram sãos e salvos á presença do seu
-chefe.
-
-Quiroga offereceu-lhe abandonar as suas bandeiras, servindo debaixo das
-suas ordens.
-
-Um acceitou, outro recusou.
-
---Está bem, disse elle ao que havia acceitado, montemos a cavallo e
-vamos vêr fuzillar o seu camarada.
-
-Aquelle sem fazer a menor observação, apressou-se a obedecer, e
-conversou todo o caminho alegremente com Quiroga de quem se julgava já
-ajudante de campo, em quanto o seu camarada cercado por um piquete, com
-as armas carregadas, marchava tranquillamente para a morte.
-
-Chegado ao logar destinado para a execução, Quiroga mandou ajoelhar o
-official que tinha recusado trahir o seu partido, e disse-lhe que se
-preparasse para morrer, e quando o viu prompto:
-
---Vamos, disse Quiroga, ao pobre official que se julgava já morto, és
-um bravo.--Monta no cavallo do teu camarada e parte.
-
-E designava o cavallo do renegado.
-
---E eu? perguntou este.
-
---Tu, respondeu Quiroga, não precisas cavallo porque vaes morrer.
-
-E apezar das supplicas que lhe fez em favor do seu camarada, aquelle a
-quem acabava de dar a vida, mandou-o fuzillar.
-
-Quiroga só foi vencido uma vez, e essa pelo general Paz, o Fabio
-americano. Duas vezes destruiu o exercito de Quiroga nas terriveis
-batalhas de Tablada e Oncativo. Era um bello espectaculo para esses
-jovens republicanos o vêr a arte, a tactica e a estrategia em lucta
-contra a coragem indomavel e a vontade de ferro de Quiroga. Mas uma vez
-o general Paz foi feito prisioneiro, a cem passos do seu exercito, e
-desde essa época Quiroga foi invencivel.
-
-Terminada a guerra entre o partido unitario e o partido federal,
-Quiroga emprehendeu uma viagem ás provincias interiores sendo na
-volta, attacado em Barrancallaco por trinta assassinos, que fizeram
-fogo sobre a carroagem. Quiroga que se achava n'esta occasião doente,
-estava deitado, na carroagem, tendo-lhe por isso atravessado o peito
-uma balla. Apesar d'isso Quiroga levantou-se pallido e ensanguentado e
-abriu a portinhola. Vendo-o em pé, apezar de estar quasi cadaver, os
-assassinos fugiram; mas Santos Peres, seu chefe, dirigiu-se a Quiroga
-e dando-lhe um golpe na cabeça acabou de o matar.
-
-Então os assassinos voltaram e acabaram a obra começada. Eram os irmãos
-Renafé, commandantes em Cordova que de accordo com Rosas dirigiam esta
-expedição. Mas Rosas tinha tido todo o cuidado de affastar de si todas
-as suspeitas, de modo que ninguem julgou fosse elle um dos cumplices em
-similhante morte, podendo por isso tomar o partido do que tinha feito
-assassinar, perseguindo os assassinos que foram presos, julgados, e
-fuzillados.
-
-Falta Cullen.
-
-Cullen, que tinha nascido em Hespanha, havia-se estabelecido na
-cidade de Santa Fé, onde se tinha ligado com Lopes, sendo depois seu
-ministro e director na politica. A immensa influencia que Lopes teve na
-republica argentina, desde 1820 até á sua morte em 1833, fez de Cullen
-uma personagem muito importante. Quando nos dias de sua desgraça, Rosas
-proscripto emigrou para Santa Fé, recebeu de Cullen toda a especie
-de serviços, mas esses serviços não poderam fazer esquecer ao futuro
-dictador que Cullen era um dos homens que queriam acabar com o reinado
-da arbitrariedade na republica argentina. Comtudo soube occultar o seu
-odio a Cullen debaixo das apparencias da maior amizade.
-
-Pela morte de Lopes, Cullen foi nomeado governador da Santa Fé
-consagrando-se a fazer grandes melhoramentos na provincia, e em
-logar de se mostrar inimigo da França, mostrou por esta nação muitas
-sympathias, considerando que a sua alliança era um grande passo para
-as suas idéas civilisadoras. Então Rosas promoveu uma revolução, que
-appoiou publicamente, sendo coadjuvado por alguma tropa. Cullen vencido
-refugiou-se na provincia de Santiago del Estero, que governava o seu
-amigo Ibarra. Rosas, que destruindo a federação tinha já declarado
-Cullen _selvagem unitario_, entabolou negociações com Ibarra afim de
-lhe entregar Cullen.
-
-Durante muito tempo estas negociações não obtiverão resultado algum,
-julgando-se Cullen, seguro pela confiança que tinha no seu amigo, mas
-um dia foi preso pelos soldados de Ibarra e conduzido a Rosas que o
-mandou assassinar no meio do caminho, porque disse elle n'uma carta
-dirigida ao governador de Santa Fé que tinha succedido a Cullen, o seu
-_processo estava feito pelos seus crimes que eram conhecidos por todos_.
-
-Cullen era dotado d'uma conversação agradavel e d'um coração generoso.
-A sua influencia sobre Lopes foi sempre empregada a evitar toda a
-especie de rigor, e foi em resultado d'esta influencia que o general
-Lopes, não obstante as supplicas de Rosas, não consentiu em mandar
-fuzillar um unico dos prisioneiros da campanha de 1831, campanha que
-poz em seu poder os chefes mais importantes do partido unitario.
-
-Cullen possuia uma instrucção superficial e os seus talentos eram
-mediocres.
-
-Foi d'esta sorte que Rosas, o unico que talvez não teve nenhuma gloria
-militar, entre os chefes do partido federal, se desembaraçou dos
-chefes d'este partido, ficando desde então a pessoa mais importante da
-republica argentina, e senhor absoluto de Buenos Ayres.
-
-Então Rosas tendo alcançado todo o poder, commeçou a sua vingança
-contra as classes elevadas que até então o tinham despresado. No meio
-das personagens mais aristocratas e mais elegantes mostrava-se sempre
-vestido de jaqueta, ou sem gravata. Aos seus bailes a que presidia com
-sua mulher e filha, não eram convidados senão os carreiros, sapateiros,
-etc. Um dia abriu o baile dançando com uma escrava, e Manuelita com um
-gaucho.
-
-Mas não foi só d'esta maneira que elle puniu a soberba cidade, porque
-proclamou o terrivel principio:
-
- «_o que não está comigo é contra mim_»
-
-E desde então todo o homem que lhe desagradava foi classificado de
-_selvagem unitario_, e o que uma vez Rosas havia designando por este
-nome não tinha mais direito nem á vida nem á honra.
-
-Então para por em pratica as theorias de Rosas, organisou-se debaixo
-dos seus auspicios a famosa sociedade MAS-FORCA, isto é, ainda ha
-forca. Esta sociedade era composta de tudo quanto havia de peor na
-sociedade.
-
-N'ella se achavam filiados por ordem superior o chefe da policia, os
-juizes de paz, e todos aquelles que deviam vigiar pela ordem publica.
-Por este meio quando os membros d'esta sociedade entravam em casa de
-qualquer cidadão, para a roubar ou assassinar o seu proprietario, era
-escusado chamar em seu auxilio a policia, porque ninguem corria a
-soccorrer a desgraçada victima. Estas excursões tinham logar quasi
-sempre de dia, tanto era o receio dos criminosos.
-
-E quer o leitor alguns exemplos? Vamos dal-os, por que não é costume
-nosso fazer uma accusação sem a provar.
-
-Os elegantes de Buenos-Ayres tinham n'esta época o habito de trazer os
-bigodes de modo que pareciam formar um U, e isto era sufficiente para
-a sociedade dos MAS-FORCA, debaixo do pretexto de que o U queria dizer
-unitario, se apoderar do desgraçado, rapando-lhe a cara com navalhas
-mal afiadas, de modo que a carne vinha juntamente aos pedaços com os
-cabellos. Depois de praticarem esta barbaridade, abandonavam a victima
-aos caprichos da populaça, que muitas vezes continuava esta brincadeira
-até dar a morte áquelle desgraçado.
-
-As mulheres do povo começavam a usar nos cabellos a fita encarnada
-chamada _mono_. Um dia a Mas-forca collocada ás portas das principaes
-egrejas, marcou com um ferro em brasa todas as mulheres que entravam ou
-sahiam sem ter a tal fita.
-
-Tambem não era uma cousa extraordinaria o ver uma mulher despojada dos
-seus vestidos e açoitada no meio da rua, e isto porque ella trazia
-um lenço, um vestido um enfeite qualquer, no qual havia a cor azul
-ou verde. O mesmo succedia com os homens da mais elevada posição,
-sendo apenas necessario para elles correrem os maiores perigos que se
-apresentassem em publico de casaca ou com uma gravata.
-
-Ao mesmo tempo que as pessoas, sem duvida designadas á muito, e que
-pertenciam ás classes superiores da sociedade perseguidas por uma cruel
-vingança, eram victimas d'estas violencias, centenas de cidadãos eram
-encarcerados, e isso só porque as suas opiniões não estavam em harmonia
-com as do dictador. Ninguem conhecia o crime porque era preso, mas isso
-tambem era desnecessario, visto ser conhecido de Rosas. Do mesmo modo
-que o crime ficava desconhecido, tambem o julgamento era considerado
-inutil, e todos os dias as prisões para poderem dar entrada a novas
-victimas, eram despojadas de algumas d'ellas que erão fuziladas. Estes
-fuzilamentos tinham logar de noute, sendo a cidade constantemente
-accordada de sobresalto.
-
-De manhã, cousa horrivel que nem mesmo em França se viu durante os
-terriveis dias de 1793, os carreiros apanhavão tranquillamente os
-cadaveres dos assassinados e hiam ás prisões buscar os dos que tinham
-sido fuzillados, e conduzindo-os a um grande fosso onde eram todos
-lançados, sem que fosse permittido aos parentes das victimas o vir
-reconhecel-as e prestar-lhe as ultimas honras funebres.
-
-Ainda não é tudo: os carreiros que conduzião estes restos deploraveis
-annunciavam a sua chegada por terriveis gracejos que faziam fechar
-todas as portas e fugir a população. Muitas vezes decepavam a cabeça
-do tronco, enchendo cestos com ellas, e offerecendo-as depois aos
-tranzuentes assustados.
-
-Bem depressa o calculo se juntou á barbaridade, o fisco á morte.
-
-Rosas comprehendeu que o meio de se conservar no poder era crear em
-volta de si interesses inseparaveis dos seus.
-
-Então mostrou a uma parte da sociedade metade da fortuna da outra
-dizendo-lhe--É tua.
-
-A partir d'este momento a ruina dos antigos proprietarios de
-Buenos-Ayres foi consumada, começando os amigos de Rosas a obter
-grandes fortunas.
-
-O que não tinha ousado pensar nenhum tyranno, o que não tinha vindo á
-idéa de Nero, foi executado por Rosas: depois de haver assassinado o
-pai prohibiu ao filho o deitar luto. A lei que continha esta prohibição
-foi proclamada e fixada nas esquinas, e bem necessaria foi, porque
-quando não, tudo em Buenos Ayres andaria de luto!
-
-Os excessos d'este despotismo admiraram alguns estrangeiros e sobre
-tudo alguns francezes. Rosas cansou a paciencia de Luiz Felippe,
-paciencia bem reconhecida, e logo depois teve lugar o primeiro bloqueio
-pela esquadra franceza.
-
-Entretanto as classes elevadas tão mal tractadas, commeçarão a fugir
-de Buenos Ayres e para encontrar um asylo refugiaram-se no estado
-oriental, onde a maioria da cidade proscripta achou hospitalidade.
-
-Foi em vão que a policia de Rosas redobrou de vigilancia, foi em vão
-que uma lei prohibio de morte a emigração, foi em vão que a essa morte
-se juntaram os mais crueis detalhes, porque Rosas conheceu bem depressa
-que a morte só não era sufficiente; o terror e o odio que inspirava
-Rosas eram mais fortes que os meios inventados por elle, e a emigração
-augmentava d'uma maneira espantosa a todos os momentos. Para realisar
-a fuga de toda uma familia, era só necessario encontrar um barco que
-a podesse transportar. Encontrado elle, pai, mãe, filhos, irmãos, ahi
-se lançavam, abandonando casa, bens, fortuna, e todos os dias, se via
-chegar ao estado oriental, isto é a Montevideo algumas d'essas barcas
-cheias de passageiros tendo por unica fortuna o fato que levavam em
-cima de si.
-
-Nenhum d'esses fugitivos teve de se arrepender da confiança que tinham
-posto na hospitalidade do povo oriental, pois essa hospitalidade foi
-como o teria sido a d'uma republica antiga; hospitalidade como devia
-esperar o povo argentino d'amigos, ou antes d'irmãos, que tantas vezes
-tinham combatido unidos para repellir os inglezes, hespanhoes ou
-brasileiros,--inimigos communs, inimigos estrangeiros--menos perigosos
-comtudo do que esse que havia nascido no meio d'elles.
-
-Os argentinos chegavão em grande quantidade, e erão esperados no
-porto pelos habitantes, que escolhiam em rasão dos seus recursos
-pecuniarios, ou do tamanho da sua casa os emigrados que podiam
-recolher. Então viveres, dinheiro, fato, tudo era posto á disposição
-d'esses desgraçados, até que elles tivessem alcançado alguns
-recursos, no que todos os coadjuvavão. Elles do seu lado reconhecidos
-entregavam-se ao trabalho, afim de alliviar o fardo que impunhão aos
-seus hospedes, dando-lhe assim os meios de receber novos fugitivos.
-Para poderem praticar tão nobre acção, as pessoas mais habituadas ao
-luxo trabalhavão nos misteres mais infimos, enobrecendo-se tanto mais a
-occupação a que se entregavam era em opposição com o seu estado social.
-
-Foi por este modo que os mais bellos nomes da republica argentina
-figuram na emigração.
-
-Lavallée, a espada mais brilhante do seu exercito, Florencio Varella,
-o seu mais bello talento, Aguero, um dos seus primeiros homens de
-estado; Echaverria, o seu Lamartine; La Vega, o Bayardo do exercito das
-Andes; Guttierez, o feliz cantor das glorias nacionaes; Alsina o grande
-advogado e illustre cidadão, pertencem ao numero dos emigrados, assim
-como apparecem Saenz, Valente, Molino, Torres, Ramos, Megia, grandes
-proprietarios; como apparecem, Rodrigues, o velho general dos exercitos
-da independencia, e unitario; Olozabal, um dos mais bravos d'esse
-exercito das Andes de que dissemos ter sido La Vega o Bayardo. Rosas
-perseguia igualmente o _unitario_ e o _federal_, não se preocupando
-senão de se desembaraçar de todos os que podiam ser um obstaculo á sua
-dictadura.
-
-É á hospitalidade concedida aos homens que elle perseguia que deve ser
-attribuido o odio de Rosas ao Estado oriental.
-
-Na épocha a que nos referimos a presidencia da republica era exercida
-pelo general Fructuoso Rivera.
-
-Rivera era camponez, como Rosas, como Quiroga; unicamente os seus
-instinctos erão humanitarios o que o fazia inimigo de Rosas. Como
-homem de guerra, a bravura de Rivera não podia ser excedida; como
-chefe de partido a sua generosidade não podia ser igualada. Durante
-trinta e cinco annos figurou nas scenas politicas do seu paiz. Quando
-a revolução contra a Espanha começou, Rivera sacrificou a sua fortuna,
-por que não era só generoso, era prodigo.
-
-Do mesmo modo que Rivera era prodigo para com os homens, Deus tinha
-sido prodigo para com elle. Era um bello cavalheiro, em todo o sentido
-da palavra hespanhola _caballero_, que comprehende ao mesmo tempo o
-soldado e o gentilhomem, de estatura elevada, de olhar prescutador,
-conversando com graça, e attraindo todos por um gesto particular
-que só lhe pertencia, sendo por isso o homem mais popular dos
-Estados orientaes. Mas se Rivera como homem era mui apreciavel, como
-administrador nunca houve nenhum que desorganisasse mais os recursos
-pecuniarios d'uma nação. Assim como havia destruido a sua fortuna
-particular, destruiu a fortuna publica, não para se enriquecer, mas
-porque homem publico tinha conservado todos os habitos do homem
-particular.
-
-Na epocha que descrevemos, essa ruina ainda não se fazia sentir:
-Rivera, commeçava a sua presidencia, e estava rodeado dos homens mais
-notaveis do paiz: Obez, Herrero, Vasques, Alvares, Ellauri, Luiz
-Eduardo Peres, erão verdadeiramente senão seus ministros ao menos seus
-directores, e com estes homens tudo o que era progresso, liberdade e
-prosperidade, estava promettido a este bello paiz.
-
-Obez, o primeiro dos amigos de Rivera era um homem d'um caracter
-respeitavel. O seu patriotismo, o seu talento eminente, a sua
-instrucção profunda o collocaram no numero dos grandes homens da
-America, e para que nada faltasse á sua popularidade, morreu no exilio
-victima do systema de Rosas no Estado oriental.
-
-Luiz Eduardo Peres, era o Aristides de Montevideo. Republicano severo,
-patriota exaltado, consagrou a sua longa existencia á virtude, á
-liberdade, e ao seu paiz.
-
-Vasquez, homem de talento e instrucção, rendeu os primeiros serviços ao
-seu paiz no cerco de Montevideo, na guerra contra a Hespanha e acabou a
-sua carreira durante o cerco contra Rosas.
-
-Herrera, Alvares, e Ellauri cunhados de Obez, não ficaram atraz dos que
-temos nomeado. Foram deffensores dedicados do Estado oriental, e de
-toda a causa americana, sendo por isso os seus nomes mui respeitados em
-todo o territorio americano.
-
-
-
-
- MANUEL ORIBE
-
-
-A presidencia de Rivera finalisou em 1834. O general Manuel Oribe
-foi quem lhe succedeu, por influencia do proprio Rivera que contava
-ter n'elle um amigo e continuador do seu systema. Com effeito Manuel
-Oribe tinha sido nomeado general por Rivera, e havia feito parte da
-precedente administração, como ministro da guerra.
-
-Oribe pertencia ás primeiras familias do paiz. O seu espirito era
-fraco, a sua intelligencia acanhada, explicando-se por isso a sua
-alliança com Rosas, a quem se entregou totalmente, sem pensar que essa
-alliança trazia comsigo a perda d'essa mesma independencia pela qual
-tantas vezes havia combatido.
-
-Como general a sua incapacidade era incompleta. As suas paixões tinham
-a violencia das organisações nervosas e arrastavam-n'o á crueldade.
-Como particular era um homem honesto.
-
-Como administrador foi mais economico que Rivera e não se lhe pode
-censurar o ter augmentado o defficit do thesouro, e comtudo é a
-elle que cabe toda a responsabilidade da ruina do Estado oriental.
-Esquecendo que para ser chefe de partido, não é sufficiente só o querer
-sel-o, recusou o ficar alliado do grande partido nacional de que Rivera
-era chefe. Querendo formar um partido seu, excitou a desconfiança de
-todos e espantado pela sua fraqueza lançou-se nos braços de Rosas.
-Ainda que o tratado tivesse ficado secreto todos conheceram esta
-alliança pelas hostilidades secretas do governo contra a emigração
-argentina e como todos detestavão o systema de Rosas, o paiz seguiu
-Rivera, quando elle em 1836 se collocou á frente d'uma revolução contra
-Oribe.
-
-Não obstante essa revolução em que tomou parte quasi todo o paiz, Oribe
-resistiu até 1838.
-
-Oribe deixou a presidencia por renuncia feita officialmente perante as
-camaras e sahiu do paiz tendo pedido ás mesmas camaras licença para se
-retirar.
-
-Rosas, vendo-o abandonar a sua posição, obrigou-o a protestar contra
-essa renuncia, e reconhece-o como chefe do paiz de que havia sido
-expulso. Foi o mesmo do que se Luiz Filippe, tivesse em Clermont
-reconhecido o duque de Bordeos como vice-rei da republica franceza.
-
-Em Montevideo zombaram ao principio d'essa excentricidade do dictador,
-mas elle preparava-se para mudar esses risos em lagrimas.
-
-A consequencia natural da conducta de Rosas era a guerra entre as duas
-nações.
-
-Esta guerra foi horrivel.
-
-Oribe, a quem alguns dos nossos jornaes, pagos por Rosas, chamaram o
-_illustre_ e o _virtuoso_ Oribe, foi ao mesmo tempo general e carrasco.
-
-Mostremos aos leitores algumas d'essas paginas de sangue publicadas
-pela _America do Sul_, e nas quaes vem registados dez mil assassinatos.
-
-Tomemos ao acaso alguns dos relatorios feitos a Rosas pelos seus
-agentes e officiaes.
-
-O general D. Marianno Achaque serve no exercito contrario a Rosas,
-defende S. João e no dia 22 de agosto de 1841 rende se depois de
-quarenta e oito horas de resistencia. D. José Ramires official de Rosas
-transmitte então ao governo de S. João o relatorio official d'este
-successo. Copiaremos estas linhas:
-
- _Tudo se acha em nosso poder, mas com perdão e garantia para
- todos os prisioneiros. Entre elles está um filho de Lamadrid._
-
-Agora leia-se o numero 2067 do _Diario da tarde_ de Buenos Ayres, de
-22 de outubro de 1841, e em opposição do documento official de José
-Ramires, que assegura a vida dos prisioneiros, veja o leitor o seguinte:
-
- Desaguedero, 22 de setembro de 1841.
-
- «_O selvagem unitario Marianno Acha foi hontem decapitado e a
- sua cabeça exposta ao publico._
-
- Assignado: _Angelo Pacheco._»
-
-É necessario não confundir este Pacheco, tenente de Rosas com seu primo
-Pacheco y Obes um dos seus inimigos mais encarniçados.
-
-O leitor deve lembrar-se que no relatorio de Ramires se acha esta frase.
-
- «_Entre os prisioneiros está um filho de Lamadrid._»
-
-Veja-se a _Gazeta Mercantil_, numero 5703, de 20 de abril de 1842 e
-ahi se encontrará esta carta escripta por Mazario Benavides a D. João
-Manoel Rosas:
-
- Miraflore 7 de abril de 1842.
-
- «Em um despacho precedente, dei-lhe parte dos motivos porque
- conservava o selvagem Gyriaco Lamadrid, mas sabendo que
- elle se tinha dirigido a muitos chefes da provincia para os
- resolver a tomar a sua defesa, mandei assim que cheguei a Rioja
- _decapital-o, assim como o salvagem unitario Manoel Julião
- Frias, natural de Santiago_.
-
- Assignado: _Mazario Benavides._»
-
-Manoel Oribe á testa dos exercitos de Rosas encarregados de submetter
-as provincias Argentinas, derrotou, a 15 de abril de 1842, no
-territorio de Santa-Fé as forças commandadas pelo general João Paulo
-Lopes.
-
-Entre os prisioneiros encontra-se o general D. João Martins.
-
-Lêde esse fragmento d'uma carta d'Oribe:
-
- «No quartel general de Banancas de Cosonda 17 de abril de
- 1842.--Trinta e tantos mortos e alguns prisioneiros, entre as
- quaes se achava _João Martines a quem hontem mandei decepar a
- cabeça_.
-
- Assignado: _Manoel Oribe._»
-
-Se ainda tendes em vosso poder a _Gazeta mercantil_, vêde o numero
-5903, de 20 de setembro de 1842, e ahi encontrareis um relatorio
-official de Manuel Antonio Saravia, empregado no exercito de Oribe.
-
-Este relatorio contém uma lista de desasete individuos, de que um era
-chefe de batalhão e outro capitão, que foram prisioneiros em Numayan,
-soffrendo ahi o _castigo ordinario da pena de morte_.
-
-Voltemos ao _illustre_ e _virtuoso_ Oribe, numero 3007 do _Diario da
-tarde_, onde vem o seguinte a proposito da batalha de Monte Grande.
-
- «Quartel general no Ceibal 14 de setembro de 1841.
-
- «Entre os prisioneiros foi encontrado o traidor selvagem
- unitario, ex-coronel Facundo Borda, que _foi executado
- immediatamente, com outros pertendidos officiaes de cavallaria
- e infanteria_.
-
- _Manoel Oribe._»
-
-Oribe estava feliz; um traidor lhe entregou o governador de Tucuman e
-os seus officiaes. Eis como elle annuncia esta noticia a Rosas.
-
- «Quartel general de Métau 3 de outubro de 1841.
-
- «Os selvagens unitarios que me entregaram o commandante
- Sandoval e que são Marion, o pertendido governador general
- de Tucuman, Avellanieda, o pertendido coronel J. M. Villela,
- o capitão José Espejo, e o tenente Leonardo de Sousa, _foram
- immediatamente executados na forma ordinaria_, á excepção
- de Avellanieda a quem ordenei que cortassem a cabeça, sendo
- exposta ao publico na praça de Tucuman.
-
- _Manoel Oribe._»
-
-Agora passemos a outro carrasco de Rosas.
-
- «Casamarca 29 do mez de Rosas 1841. A S. Excellencia o senhor
- governador Arredondo.
-
- «Depois de duas horas de fogo a infanteria foi passada á
- espada, e a cavallaria posta na mais completa desordem.
-
- «O general conseguiu escapar-se pela serra de Ambaste com
- trinta homens, mas foi perseguido e apanhado e a sua cabeça
- será bem depressa exposta na praça publica, assim como já o
- estão as dos perteadidos ministros Gonçalves Dulce e Espeche.
-
- «Viva a federação!
-
- Assignado: _M. Maza._»
-
- «_Lista dos selvagens unitarios pertendidos chefes e officiaes
- que foram executados depois da acção de 29_:
-
- «Coronel: Vicente Mercao.
-
- «Commandantes: Modesto, Villafane, João Pedro Ponce, Damasio
- Arias, Manoel Lopes, Pedro Rodrigues.
-
- «Chefes de batalhão; Manoel Riso, Santiago da Cruz.
-
- «Capitães: João de Deus Ponce, José Salas, Pedro Araujo,
- Izidoro Ponce, Pedro Barros.
-
- «Ajudantes: Damario Sarmento, Eugenio Novillo, Francisco
- Quinteros Daniel Rodrigues.
-
- «Tenente: Domingos Dias.
-
- Assignado: _M. Maza._»
-
-Apresentaremos mais esta carta de Maza, para depois voltarmos a Rosas.
-
- «Casamarca, 4 de novembro de 1841.
-
- «Já lhe disse que pozemos em completa desordem o selvagem
- unitario Cubas, e que era perseguido, esperando ter em breve
- em meu poder a cabeça do bandido. Foi com effeito prisioneiro
- no Cerro das Ambastes, e a sua cabeça está exposta na praça
- publica da cidade.
-
- «Depois da acção foram feitos prisioneiros dezenove officiaes
- que seguiam Cubas. _Não dei quartel._ O triumpho foi completo.
-
- _M. Maza._»
-
-Vejamos de passagem no _Boletim de Mendonça_ n.º 12, esta carta
-escripta no campo de batalha d'Arroyo Grande e dirigida ao governador
-Aldao pelo coronel D. Jeronymo Costa.
-
- «Fizemos prisioneiros mais de cento e cincoenta officiaes que
- foram executados immediatamente.»
-
-Todo o fogo de artificio tem o seu ramalhete, terminaremos pelo seu
-ramalhete este fogo de artificio de sangue.
-
-Prometti fallar de novo em Rosas, e vou agora cumprir a minha promessa.
-
-O coronel Zelallaran foi morto e a sua cabeça offerecida a Rosas que
-passou tres horas a dar-lhe pontapés. N'esse momento soube que um
-outro coronel, irmão d'armas do primeiro, havia sido feito prisioneiro.
-No primeiro momento teve tenção de o mandar fuzillar, mas depois
-mudou de resolução, e condemnou-o a ter doze horas por dia, durante
-tres dias, essa cabeça cortada em cima de uma meza que se devia achar
-collocada na sua frente.
-
-Rosas mandou fuzillar na praça de S. Nicolau alguns dos prisioneiros do
-general Paz.
-
-Entre elles estava o coronel Vedela antigo governador de S. Luiz; no
-meio do supplicio o filho do condemnado lançou-se nos braços de seu pae.
-
---Fuzillae ambos, disse Rosas.
-
-E o pae e o filho expiraram nos braços um do outro.
-
-Rosas mandou conduzir a uma das praças de Buenos Ayres oitenta
-prisioneiros indios, e em pleno dia e na presença de todos os mandou
-matar a estocadas.
-
-Camilla O'Gorman menina de dezoito annos e oriunda d'uma das principaes
-familias de Buenos-Ayres, foi seduzida por um padre de vinte e quatro,
-e fugiram ambos de Buenos-Ayres, refugiando-se n'uma pequena villa de
-Corrientes onde passando por esposos, estabeleceram uma pequena escola.
-Corrientes cahe em poder de Rosas, e os dous fugitivos reconhecidos
-por um padre e denunciados por elle a Rosas, são presos e conduzidos a
-Buenos-Ayres, onde sem julgamento Rosas os mandou fuzillar.
-
---Mas, diz alguem a Rosas, Camilla está gravida!
-
---Baptisae o ventre, diz Rosas, que como _excellente christão_, quer
-salvar a alma do menino.
-
-Esta cerimonia executada, Camilla O'Gorman foi fuzillada.
-
-Tres ballas atravessaram os braços da desgraçada mãe que os havia
-estendido para proteger seu filho...
-
-Depois d'isto como diremos que a França se pronunciou em favor de Rosas?
-
-E com effeito o tratado de 1840 assignado pelo almirante Mackan, firmou
-então o poder de Rosas, deixando só a republica oriental engagada na
-lucta.
-
-Foi então que appareceu Garibaldi na sua volta do Rio Grande.
-
-D'um lado Rosas e Oribe, isto é, a força, a riqueza, o poder combatendo
-pelo despotismo.
-
-Do outro lado, uma pequena republica, uma cidade arruinada, um thesouro
-exhausto, um povo sem recursos, não podendo pagar aos seus defensores,
-mas combattendo pela liberdade.
-
-Garibaldi não hesitou; e encaminhou-se para os deffensores da liberdade.
-
-Agora abandonamos a penna para lhe deixarmos contar a historia d'esse
-cerco, que como o de Troia, durou nove annos.
-
-
- FIM DO PRIMEIRO VOLUME
-
-
- * * * * *
-
-
- ÍNDICE
-
- PROLOGO 5
- I MEUS PAES 25
- II OS MEUS PRIMEIROS ANNOS 27
- III AS MINHAS PRIMEIRAS VIAGENS 29
- IV AS MINHAS PRIMEIRAS AVENTURAS 31
- V OS ACONTECIMENTOS DE S. JULIÃO 34
- VI O DEUS DOS BONS 38
- VII ENTRO AO SERVIÇO DA REPUBLICA DO RIO GRANDE 42
- VIII CORSARIO 45
- IX O RIO DA PRATA 48
- X AS PLANICIES ORIENTAES 50
- XI A POETISA 52
- XII O COMBATE 55
- XIII LUIZ CARNIGLIA 57
- XIV PRISIONEIRO 58
- XV A APOLEAÇÃO 60
- XVI VIAGEM NA PROVINCIA DO RIO GRANDE 62
- XVII A LAGOA DOS PATOS 65
- XVIII ARMAMENTO DE LANCHÕES EM CAMACUA 67
- XIX A ESTANCIA DA BARRA 69
- XX EXPEDIÇÃO A SANTA CATHARINA 75
- XXI PARTIDA E NAUFRAGIO 77
- XXII JOÃO GRIGGS 81
- XXIII SANTA CATHARINA 83
- XXIV UMA MULHER 85
- XXV O CRUZEIRO 87
- XXVI SAQUE DE IMERUI 90
- XXVII NOVOS COMBATES 91
- XXVIII A CAVALLO 94
- XXIX A RETIRADA 98
- XXX ESTADA NAS LAGES E NOS ARRABALDES 100
- XXXI BATALHA DE TAQUARI 103
- XXXII ASSALTO A S. JOSÉ DO NORTE 108
- XXXIII ANNITA 110
- XXXIV LEVANTA-SE O CERCO.--ROSSETTI 116
- XXXV A PICADA DAS ANTAS 118
- XXXVI CONDUCTOR DE BOIS 122
- XXXVII PROFESSOR DE MATHEMATICA E CORRETOR DE COMMERCIO 128
- MONTEVIDEO 130
- ROSAS 139
- QUIROGA 150
- MANUEL ORIBE 158
-
-
- * * * * *
-
-
- Nota do Transcritor
-
-
- Pontuação e hifenização foram normalizados.
-
- O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso
- em 1860. A ortografia originais foi mantida com exceção de alguns
- erros óbvios.
-
- Palavras em itálico e frases são apresentados por em torno do
- texto com sublinhados (_itálico_).
-
- O índice foi adicionado.
-
-
-
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Memorias de José Garibaldi, volume I, by
-Giuseppe Garibaldi
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIAS DE JOSE GARIBALDI, VOL 1 ***
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-
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-
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-<title>The Project Gutenberg eBook of Memorias de Garibaldi Volume I, by Giuseppe Garibaldi</title>
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-
- </style>
- </head>
- <body>
-
-
-<pre>
-
-The Project Gutenberg EBook of Memorias de José Garibaldi, volume I, by
-Giuseppe Garibaldi
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
-to check the laws of the country where you are located before using this ebook.
-
-Title: Memorias de José Garibaldi, volume I
- Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas
-
-Author: Giuseppe Garibaldi
-
-Translator: Alexandre Dumas
-
-Release Date: August 18, 2016 [EBook #52847]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: ISO-8859-1
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIAS DE JOSE GARIBALDI, VOL 1 ***
-
-
-
-
-Produced by Júlio Reis, Leonor Silva and the Online
-Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net.
-
-
-
-
-
-
-</pre>
-
-
-<hr />
-
-<p class="ext"><a href="#tnote">Nota do transcritor</a>.</p>
-
-<p class="ext"><a href="#toc">Índice</a>.</p>
-
-<div class="figcenter screenonly">
- <img src="images/cover-s.jpg" alt="" title="" width="375" height="600" />
- <p class="ext cs7">A imagem da capa foi criada pelo transcritor<br />
- e é colocado no domínio público.</p>
-</div>
-
- <div class="npage">
-
-<div class="figcenter">
- <img class="brd" src="images/img-1.jpg" alt="" title="" width="550" height="677" />
- <p class="cent">GARIBALDI.</p>
-</div>
-
- </div>
-
- <div class="npage">
-
-<h1><span class="cs9">MEMORIAS</span><br />
-<span class="cs4">DE</span><br />
-JOSÉ GARIBALDI</h1>
-
-<p class="sep3 center esp2"><b>TRADUZIDAS DO MANUSCRIPTO ORIGINAL</b><br />
-<span class="cs5">POR</span><br />
-<span class="cs12">ALEXANDRE DUMAS</span></p>
-
-<hr class="small5t" />
-
-<p class="center cs6"><b>VOLUME I.&mdash;SEGUNDA EDIÇÃO</b></p>
-
-<hr class="small5b" />
-
-<p class="center"><b>LISBOA&mdash;1860</b><br />
-<span class="gesp">EDICTOR A. P. C.</span><br />
-<span class="cs8">CHIADO, 83-85</span></p>
-
- </div>
-
- <div class="npage">
-
-<p class="center cs12"><b>MEMORIAS DE GARIBALDI</b></p>
-
-<hr class="small5t" />
-
-<h2 id="cap_prologo">PROLOGO</h2>
-
-<p>Como todo o presente tem ligação com o passado
-é impossivel começar qualquer narração, ainda que
-seja a historia de um homem ou de um successo, sem
-lançar os olhos para esse mesmo passado.</p>
-
-<p>Obrigados pelo caracter aventureiro do homem
-de que começamos hoje a publicar as memorias, seremos
-muitas vezes forçados a ir ao Piemonte, patria
-de Garibaldi. Os homens de acção politica, quando
-pertencem ao progresso, teem momentos de desalento,
-nos quaes como Anteo tem necessidade para recobrar
-novas forças de tocar n'essa terra patria que
-Bruto na sua fingida loucura beijava como a mãe commum.
-É pois mui importante fazer um estudo rapido
-dos acontecimentos que tiveram logar no Piemonte
-de 1820 a 1834, época em que começa esta historia.</p>
-
-<p>As guerras da republica e as invasões do imperio
-tinham trazido á Sardenha dous homens que haviam
-<span class="pagenum" id="Page_6">6</span>
-partido para o exilio ainda jovens e voltavam
-velhos; eram dois irmãos, nos quaes terminava a posteridade
-masculina dos duques de Saboia: fallamos
-de Victor Manuel <span class="cs7">I</span> e Carlos Felix.</p>
-
-<p>Ambos reinaram.</p>
-
-<p>O ramo mais novo da familia Saboia era representado
-pelo principe de Carignan, que em 1823
-fez como granadeiro do exercito francez a campanha
-de Hespanha, tendo-se distinguido principalmente no
-Trocadéro.</p>
-
-<p>Em 1840 n'uma audiencia que me concedeu
-mostrou-me o seu sabre de granadeiro, e as dragonas
-de lã encarnada que conservava como reliquias
-da mocidade.</p>
-
-<p>Victor Manuel <span class="cs7">I</span> subindo ao throno, que provavelmente
-não lhe fora dado senão com esta condição,
-havia promettido aos soberanos seus alliados,
-o não fazer ao seu povo, fossem quaes fossem as
-circunstancias, em que se encontrasse a mais pequena
-concessão.</p>
-
-<p>Mas o que era facil de prometter em 1815, era
-difficil de cumprir em 1821.</p>
-
-<p>Desde 1820 os carbonarios haviam-se espalhado
-em toda a Italia. Em um livro que é mais uma
-historia do que um romance, no <i>José Balsamo</i> dissemos
-as origens do illuminismo e da franc-maçonaria.</p>
-
-<p>Estes dois temiveis inimigos da realeza de que
-a divisa era L. P. D. (<i>Lilia Pedibus Destrue</i>) tiveram
-uma grande parte na revolução franceza. Swedenborg,
-de quem os adeptos assassinaram Gustavo <span class="cs7">III</span>,
-era mago. Quasi todos os jacobinos e grande numero
-de <i>cordeliers</i> eram maçons, Philippe-Egalité
-era do grande oriente. Napoleão tomou a maçonaria
-debaixo da sua protecção, mas protegendo-a,
-<span class="pagenum" id="Page_7">7</span>
-desvirtuou-a, desviando-a dos seus fins, torcendo-a á
-sua conveniencia e fazendo d'ella um instrumento
-de despotismo. Não foi esta a unica vez que se forjaram
-cadeias com espadas.</p>
-
-<p>José Napoleão foi grão-mestre da ordem, o archi-chanceller
-Cambacéres grão-mestre adjunto. A
-imperatriz Josephina estando em Strasbourg em 1805,
-presidiu á festa da adopção da loja dos franc-maçons
-de Paris. Por este mesmo tempo Eugenio Beauharnais
-era veneravel honorario da loja de Santo Eugenio
-de Paris, e tendo vindo mais tarde á Italia
-com a dignidade de vice-rei, o Grande Oriente de
-Milão o nomeou grão-mestre e soberano conservador
-do supremo conselho do gráo <span class="cs7">XXXII</span>, isto é, concedeu-lhe
-a maior honra que segundo os estatutos
-da ordem se póde dar.</p>
-
-<p>Bernardotte era maçon, seu filho o principe Oscar
-foi grão-mestre da loja sueca. Em differentes lojas
-de Paris foram successivamente iniciados: Alexandre,
-duque de Wurtemberg, o principe Bernardo
-de Saxe-Weimar, e até o embaixador persa Askeri-Khan.
-O presidente do senado, conde de Lacépêde
-presidia ao grande Oriente de França de que
-eram officiaes os generaes Kellermann, Massena,
-Soult, os principes, os ministros e os marechaes,
-os officiaes, os magistrados, emfim todos os homens
-notaveis pela sua gloria ou consideraveis pela sua
-posição ambicionavam a honra de serem maçons. As
-proprias mulheres quizeram ter as suas lojas maçonicas,
-nas quaes entraram M.<sup>mes</sup> de Vaudemont, de
-Carignan, de Girardin, de Bosi, de Narbonne, e muitas
-outras pertencentes á alta aristocracia franceza.
-Uma unica foi recebida, não com o titulo de
-irmã, mas com o de irmão: foi a celebre Xaintrailles,
-a quem o primeiro consul tinha dado a patente
-<span class="pagenum" id="Page_8">8</span>
-de chefe de esquadrão.<a name="FNanchor_1" id="FNanchor_1" href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a> Mas não era só em
-França que n'essa época florescia a maçonaria.</p>
-
-<p>O rei da Suecia, em 1811 instituiu a ordem civil
-da maçonaria. Frederico Guilherme <span class="cs7">III</span> da Prussia
-tinha, pelos fins do mez de julho de 1800 approvado
-a constituição da grande loja de Berlin. O principe
-de Galles não cessou de governar a ordem em
-Inglaterra, senão quando em 1813 foi nomeado regente.
-Emfim no mez de fevereiro 1814, o rei da
-Hollanda, Frederico Guilherme, declarou-se protector
-da maçonaria, e permittiu que o principe real,
-seu filho acceitasse o titulo de veneravel honorario
-da loja de Guilherme Frederico de Amsterdam.</p>
-
-<p>Depois da volta dos Bourbons á França o marechal
-Bournonville pediu a Luiz <span class="cs7">XVIII</span> para collocar
-a maçonaria debaixo da protecção d'uma pessoa
-da familia real; mas como Luiz <span class="cs7">XVIII</span> era dotado de
-excellente memoria, e não havia esquecido a parte
-que ella tinha tomado na catastrophe de 1793 recusou,
-dizendo que nunca consentiria que membro algum
-da familia real, formasse parte de qualquer sociedade
-secreta fosse ella qual fosse.</p>
-
-<p>Na Italia a maçonaria cahiu com o dominio francez,
-mas em seu logar vieram os carbonarios, que
-mostravam querer continuar o seu pensamento libertador.</p>
-
-<p>Duas outras seitas appareceram ao mesmo tempo.</p>
-
-<p>Uma que se chamava a Congregação catholica apostolica
-romana, e a outra a Consistorial.</p>
-
-<p>Os socios da Congregação tinham, como signal
-de reconhecimento, um cordelinho de seda amarella
-com cinco nós. Os pertencentes aos gráos inferiores
-não fallavam senão de actos de piedade e benificencia.
-<span class="pagenum" id="Page_9">9</span>
-Dos segredos da seita, conhecidos unicamente pelos
-altos dignatarios, só se podia fallar quando se achavam
-presentes dois associados; se por acaso um terceiro
-chegava, a conversação cessava immediatamente.
-A palavra de passe dos confrades era <i>éleutheria</i>,
-isto é, <i>liberdade</i>, a palavra secreta era <i>ode</i>, isto é,
-<i>independencia</i>.</p>
-
-<p>Esta seita creada em França, entre os neo-catholicos,
-e a que pertenceram muitos dos nossos melhores
-e mais constantes republicanos, tinha atravessado
-os Alpes, chegado ao Piemonte e de lá á Lombardia.
-Mas aqui foram infelizes, pois obtiveram poucos adeptos,
-não tardando muito a extinguir-se, tendo os agentes
-de policia alcançado em Genova os diplomas que
-se entregavam aos adeptos assim como os estatutos e
-signaes de reconhecimento.</p>
-
-<p>A consistorial era dirigida principalmente contra
-os austriacos. Á sua frente se achavam os principaes
-principes da Italia que não pertenciam á casa de Kabsbourg
-e era presidida pelo cardeal Gonsalvi. O unico
-principe que não foi excluido foi o duque de Modena.
-Logo que esta liga foi conhecida começaram as
-terriveis perseguições d'este principe contra os patriotas.
-É que elle queria obter da Austria o perdão da
-sua deserção, sendo necessario o sangue de Menotti
-seu companheiro na conspiração para o alcançar.</p>
-
-<p>Os consistoriaes queriam tirar a Italia a Francisco
-II e dividil-a entre si.</p>
-
-<p>Além de Roma e da Romania que elle guardava,
-o papa adquiria a Toscana. A ilha de Elba e as Marchés
-passavam para o poder do rei de Napoles; Parma,
-Pelazainge, e uma parte da Lombardia, com o
-titulo de rei ao duque de Modena; Massa, Carrara, e
-Luca ao rei da Sardenha. Emfim o imperador Alexandre
-da Russia que pela sua aversão á Austria protegia
-<span class="pagenum" id="Page_10">10</span>
-esta conspiração, ou recebia Ancona, Civita-Vecchia,
-ou Genova para poder ter um estabelecimento
-no Mediterraneo. Por esta fórma sem se consultar a
-vontade dos povos nem as demarcações territoriaes,
-dispunha-se de uma grande porção de almas, negando-se-lhe
-esse direito de escolha a que a ultima creatura
-nascida no solo europeo tem direito.</p>
-
-<p>Por felicidade um unico de todos estes projectos,
-o dos carbonarios, parecia emanado de Deus e quasi
-a realisar-se.</p>
-
-<p>Os carbonarios em quem unicamente havia esperança
-augmentavam consideravelmente nas Romanias.
-Haviam-se reunido á seita dos guelfos que tinham a
-sua séde em Ancona, e se apoiavam nos bonapartistas.</p>
-
-<p>Luciano tinha sido elevado á dignidade de grão-mestre
-da ordem. Nas reuniões secretas mostrava-se
-a necessidade de tirar aos padres o poder que haviam
-alcançado; invocava-se o nome de Bruto e preparavam-se
-os animos á revolta.</p>
-
-<p>Em a noute de 24 de junho teve logar a revolução,
-obtendo o funesto resultado que todas as primeiras
-tentativas d'este genero costumam alcançar. Toda
-a religião que deve ter apostolos, começa por ter martyres.
-Cinco carbonarios foram fuzilados, outros condemnados
-ás galés perpetuamente, e alguns julgados
-menos culpados foram encerrados por dez annos em
-uma fortaleza.</p>
-
-<p>Então a seita tornando-se mais prudente mudou de
-nome, começando a chamar-se a Sociedade Latina. Nesta
-occasião a mesma sociedade conspirava na Lombardia,
-estendendo-se pelas outras provincias da Italia. No
-meio d'um baile dado pelo conde Porgia em Rovigo o
-governo austriaco fez prender muitas pessoas e declarou
-no dia seguinte criminoso d'alta traição todo o
-individuo que se filiasse nas lojas dos carbonarios.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_11">11</span>
-Em Napoles foi aonde a rebellião appareceu com
-mais violencia. Cobetta affirma na sua historia que o
-numero dos carbonarios era de 642:000 e segundo um
-documento da chancellaria aulica de Vienna este numero
-ainda está muito abaixo da verdade. «Os carbonarios
-nas Duas Sicilias diz este documento contam
-mais de 800:000 adeptos, e não havendo policia nem
-vigilancia possivel para evitar tal alistamento seria
-loucura tentar anniquilal-os.»<a name="FNanchor_2" id="FNanchor_2" href="#Footnote_2" class="fnanchor">[2]</a></p>
-
-<p>Ao mesmo tempo que a rebellião tinha logar em
-Napoles, Riego, outro martyr que deixou um cantico
-de morte, tornado depois em canção de victoria, levantava
-no 1.<sup>o</sup> de janeiro de 1820 a bandeira da liberdade,
-e um decreto de Fernando <span class="cs7">VII</span> annunciou
-que tendo-se manifestado a vontade do povo, estava
-prompto a jurar a constituição proclamada pelas côrtes
-geraes e extraordinarias de 1812.</p>
-
-<p>As prisões abrindo-se deram um ministerio á Hespanha.</p>
-
-<p>Fernando <span class="cs7">I</span> de Napoles na sua qualidade de principe
-de Hespanha, devia, ficando rei absoluto, jurar
-obediencia á constituição hespanhola. Teve então logar
-uma grande rebellião na Calabria, em Capitanata
-e em Palermo. O governo napolitano fraco, indeciso
-e desconfiado decretou algumas refórmas insufficientes
-que não impediram o general Pepe de fazer uma revolução.
-Napoles teve então como 1798, um governo
-provisorio e uma camara de deputados.</p>
-
-<p>Foi algum tempo depois que por sua vez rebentou
-a revolução piemonteza. Na manhã de 10 de março
-o capitão conde Palma dando o grito de «o rei e a
-constituição hespanhola» fez pegar em armas ao regimento
-de Genova.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_12">12</span>
-No dia seguinte um governo provisorio estava estabelecido,
-e em nome do reino de Italia declarava a
-guerra á Austria.</p>
-
-<p>D'este modo a revolução partindo d'Ancona tinha
-chegado a Napoles voltando a Turim. Tres volcões se
-tinham aberto na Italia sem contar a Hespanha; agitando-se
-a Lombardia n'um triangulo de fogo.</p>
-
-<p>O rei Victor Manuel havia promettido, como já
-dissemos, á santa alliança não fazer ao seu povo nenhuma
-concessão.</p>
-
-<p>No dia seguinte para ficar fiel á sua palavra, o
-rei Victor Manuel abdicou em favor de seu irmão Carlos
-Felix que se achava então em Modena, e nomeou
-regente o principe de Carignan, que foi depois o rei
-Carlos Alberto.</p>
-
-<p>Para todos os patriotas esta abdicação de um rei
-dedicado aos italianos em um principe dominado pela
-côrte de Austria era uma grande desgraça.</p>
-
-<p>Santa Rosa um dos primeiros promotores da rebellião
-diz:</p>
-
-<div class="manuscr">
-<p>«A noute de 13 de março de 1821 foi bem fatal
-para minha patria. Foi n'essa noute que perdemos
-todas as nossas esperanças, foi n'essa noute que
-milhares de espadas erguidas para a defeza da patria
-se abaixaram. Com o rei Victor Manuel a patria estava
-no rei, ella se personalisava n'esse coração leal,
-e nós fazendo esta revolução, diziamos: «Coragem!
-O rei talvez um dia nos perdoe de o havermos feito
-senhor de seis milhões de italianos.»</p>
-</div>
-
-<p>Com Carlos Felix succedia exactamente o contrario.
-Estavam outra vez debaixo do jugo da Austria,
-e viam-se obrigados a começar de novo os seus trabalhos.</p>
-
-<p>Comtudo toda a esperança ainda não estava perdida.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_13">13</span>
-No dia 14 de março o principe de Carignan nomeado
-regente appareceu á janella, e no meio dos vivas
-calorosos do povo proclamou a constituição de Hespanha.</p>
-
-<p>Como este facto devia ter no futuro grande importancia,
-como o principe Carlos Alberto devia um
-dia desmentir o principe de Carignan, é necessario
-não só citar o facto da constituição proclamada em
-alta voz, mas tambem dar uma cópia do edital que
-foi affixado nos muros de Turim.</p>
-
-<p>Eis a traducção fiel:</p>
-
-<div class="manuscr">
-<p>«Nas circumstancias difficeis em que nos achamos
-é necessario sahir fóra dos limites que a nossa qualidade
-de regente nos impõe. O nosso respeito e submissão
-a sua magestade Carlos Felix, actual soberano,
-devia-nos obstar a que fizessemos alguma alteração
-nas leis fundamentaes do estado, até que soubessemos
-as intenções do nosso novo soberano, mas como as
-circumstancias imperiosas porque passamos são conhecidas
-por todos, e como queremos entregar ao novo
-rei um povo socegado e feliz e não despedaçado
-pela guerra civil, decidimos, ouvido o nosso conselho
-e na esperança de que sua magestade levado pelas
-mesmas considerações, revistirá a nossa deliberação
-da sua approvação soberana, que a constituição de
-Hespanha seja reconhecida como lei do estado, fazendo-se
-as alterações que o rei e a representação nacional
-entenderem.»</p>
-</div>
-
-<p>Eis o que os carbonarios tinham obtido cinco annos
-depois do seu estabelecimento em Italia: uma constituição
-em Hespanha, outra em Napoles, e outra no
-Piemonte.</p>
-
-<p>Mas esta tendo sido a ultima em apparecer, foi a
-primeira a ser destruida.</p>
-
-<p>Em logar de voltar a Genova ou a Milão, em logar
-<span class="pagenum" id="Page_14">14</span>
-de approvar as liberdades concedidas pelo principe
-de Carignan, o rei Carlos Felix publicou no dia 3
-de abril seguinte o edito que vamos ler:</p>
-
-<div class="manuscr">
-<p>«<i>Sendo o dever de todo o subdito fiel sujeitar-se
-da melhor vontade á ordem de cousas estabelecidas
-por Deus e pelo exercicio da soberana authoridade,
-declaro que emanando o nosso poder só de
-Deus, só a nós pertence escolher os meios que julgarmos
-mais convenientes para chegar a qualquer
-fim, e que em consequencia não teremos como subdito
-fiel aquelle que se atrever a murmurar contra
-as medidas que julgarmos necessario adoptar, ficando
-conhecidos só como vassallos fieis aquelles que
-se submetterem immediatamente, impondo esta submissão
-como condicção para voltarmos aos nossos
-estados.</i>»</p>
-</div>
-
-<p>Ao mesmo tempo que o rei Carlos Felix publicava
-este edito modelo de cegueira e asneira, nomeava
-uma commissão militar encarregada de tomar conhecimento
-dos crimes de traição, rebellião e insubordinação
-que tinham sido commettidos.</p>
-
-<p>Felizmente os principaes criminosos, isto é, aquelles
-de que os nomes são hoje os mais gloriosos do Piemonte,
-haviam tomado a fuga.</p>
-
-<p>A commissão nomeada por Carlos Felix não perdeu
-o tempo. Em cinco mezes, cento e setenta e oito
-prisioneiros foram julgados. Setenta e tres foram condemnados
-á morte e ao fisco, e os outros á prisão e
-galés. Dos condemnados á morte sessenta eram contumazes
-e foram enforcados em effigie.</p>
-
-<p>Julgamos conveniente dizer os nomes d'esses homens
-para que se conheçam aquelles que feriram esse
-poder estupidamente absoluto que desde Tarquino
-não tem sabido abater senão as cabeças mais intelligentes
-e elevadas.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_15">15</span>
-Eram os tenentes Pavia e Ansaldi, o medico Ratazzi,
-o engenheiro Appiani, o advogado Dossena, o
-advogado Lurri, o capitão Baroni, o conde Bianco, o
-coronel Regis, o major Santa-Rosa, o capitão Lesio,
-o coronel Caraglio, o major Collegno, o capitão Radice,
-o coronel Morozzo, o principe della Cisterna, o
-capitão Ferraso, o capitão Pachiarotte, o advogado
-Marochetti, o segundo tenente Auzzano, e o advogado
-Ravina.</p>
-
-<p>Ao todo seis officiaes superiores, trinta officiaes
-subalternos, cinco medicos, dez advogados, e um principe,
-todos notaveis pela intelligencia e pelas qualidades
-moraes.</p>
-
-<p>Dois tinham sido presos e executados.</p>
-
-<p>Eram o tenente de carabineiros João Baptista Lanari
-e o capitão Jacome Garelli.</p>
-
-<p>Um foi executado a 21 de julho, e o outro a 25
-de agosto.</p>
-
-<p>O principal criminoso era, sem duvida, Carlos
-Alberto, pois havia proclamado a constituição, não
-como dizem os seus partidarios, <i>salvo a approvação
-de Carlos Felix</i>, mais n'estes termos que estão mui
-longe de serem reservados:</p>
-
-<div class="manuscr">
-<p>«<i>Nella fiducia che sua Maesta il re, nosso dál
-eistesse considerazioni</i> <span class="cs7">SARA PER RIVESTIRE</span> <i>questa
-deliberazione della sua socrasia approvazione,
-la constituzione di Spagna</i> <span class="cs7">SARA PROMULGATA ET
-OSSERVATA COM LEGE DELLO STATO</span>.»</p>
-</div>
-
-<p>Por isso assim que o principe de Carignan recebeu
-a carta que lhe participava a recusa do rei Carlos
-Felix, correu a Modena, mas o rei recusou recebel-o
-e o duque mandou-o intimar para deixar os seus
-estados.</p>
-
-<p>O principe de Carignan retirou-se para Florença
-para o lado do grão duque de Toscana.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_16">16</span>
-Para Carlos Alberto não se tratava unicamente de
-um simples exilio, ou d'um desvalimento momentaneo,
-mas sim da perda do throno do Piemonte. Espalhou-se
-então que Carlos Felix legava a corôa ao duque de
-Modena, e este que não a havia alcançado na conspiração
-dos principes italianos contra a Austria, esperava
-esta vez realisar a sua ardente ambição.</p>
-
-<p>O principe de Carignan disse ao conde de la Maison-Fort,
-nosso ministro em Florença, qual era a sua
-posição, e este escreveu a Luiz <span class="cs7">XVIII</span> relatando-lhe
-tudo.</p>
-
-<p>Eis um fragmento da carta d'este ministro:</p>
-
-<div class="manuscr">
-<p>«Para despojar o principe de Carignan da sua herança
-é necessario chamar ao throno a duqueza de
-Modena, filha mais velha do rei Victor Manuel. Esta
-facilidade em affastar a nobre casa da Saboia de um
-throno por ella creado, esta ingratidão, exemplo do seculo
-em que vivemos, não póde ser partilhada pelo
-chefe de uma casa alliada com a Saboia dezoito vezes.
-A França pois não póde seguir esta politica, porque
-tem ao menos o direito de exigir a completa independencia
-do soberano que possue a chave da Italia.»</p>
-</div>
-
-<p>Luiz <span class="cs7">XVIII</span> foi de opinião do seu ministro, e escreveu
-ao principe offerecendo-lhe um refugio na côrte
-de França. A conducta de Luiz <span class="cs7">XVIII</span> era o mesmo que
-dizer&mdash;Não tem cousa alguma a receiar, tomo-o debaixo
-da minha protecção e não consentirei que outro
-seja rei do Piemonte.</p>
-
-<p>E na verdade um rei que havia dado a carta ao
-seu povo, não podia criminar um principe por ter
-promettido uma constituição que não havia reconhecido.</p>
-
-<p>Das tres constituições creadas pelos carbonarios,
-uma, a do Piemonte tinha sido logo anniquilada pelo
-rei Carlos Felix; a de Napoles havia sido destruida
-<span class="pagenum" id="Page_17">17</span>
-pela invasão austriaca, e a terceira, a unica existente
-ia desapparecer com a invasão franceza.</p>
-
-<p>Era, pois, necessario ao principe de Carignan que
-havia proclamado a constituição hespanhola em Turim
-ir combater essa mesma constituição a Madrid.</p>
-
-<p>Na realidade era uma posição difficil para o principe,
-mas a corôa do Piemonte tinha muitos attractivos
-para elle se occupar de bagatellas.</p>
-
-<p>O principe de Carignan occultou a vergonha debaixo
-da barretina de granadeiro; fez a campanha
-de Hespanha e foi um dos vencedores de Trocadéro.
-D'esta sorte quando Carlos Felix falleceu, 27 de abril
-de 1851, o principe de Carignan subiu ao throno,
-com o nome de Carlos Alberto, tendo a vencer poucas
-difficuldades. A Austria que antes queria ver no
-throno o seu archi-duque de Modena, enfureceu-se e
-apresentou aos reis Carlos Alberto como um carbonario,
-e aos carbonarios como um traidor.</p>
-
-<p>A Austria mentia.</p>
-
-<p>Carlos Alberto não era carbonario: a proclamação
-em que concedia a constituição mostrava que a
-dava contra sua vontade.</p>
-
-<p>Carlos Alberto não era um traidor, era um principe
-que ambicionando o titulo de rei, não havia feito
-compromissos pessoaes. A vergonha de ir abolir á
-Hespanha a constituição que tinha proclamado em Turim,
-tinha desapparecido pela coragem do granadeiro:
-o soldado havia absolvido o principe.</p>
-
-<p>D'esta sorte a sua acclamação foi saudada com
-alegria pelos patriotas italianos.</p>
-
-<p>Del Pozzo escreveu-lhe de Londres aonde se achava
-refugiado:</p>
-
-<div class="manuscr">
-<p>«Os meios termos e as medidas incompletas na
-politica não servem para cousa alguma: o Piemonte
-quer um rei constitucional.»</p>
-</div>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_18">18</span>
-Outro patriota que guardou o incognito, escreveu-lhe
-de Marselha:</p>
-
-<div class="manuscr">
-<p>«Colloque-se á frente da nação, escreva na sua
-bandeira&mdash;<i>União, liberdade e independencia</i>&mdash;declare
-se vingador e interprete dos direitos populares,
-trate de regenerar a Italia, livre-a dos seus inimigos,
-e cuidando no futuro dê o seu nome a um
-seculo, e seja o Napoleão da liberdade italiana.</p>
-
-<p>«Atire á Austria com a luva o nome da Italia,
-e estou certo que com este escudo fará prodigios.
-Appelle para tudo o que ha de grande e generoso
-na Peninsula. Uma mocidade ardente e corajosa
-impellida pelas duas paixões que fazem os heroes,
-o odio e a gloria, vive ha muito tempo com um só
-pensamento, e o seu mais ardente desejo é realisal-o.</p>
-
-<p>«Chame essa mocidade ás armas, ponha as cidades
-e fortalezas debaixo da guarda dos cidadãos,
-e livre por este modo de todo e qualquer cuidado
-que não seja o vencer, reuna em volta de si todos
-aquelles que sendo notaveis pela intelligencia e pelo
-valor estejam isemptos de paixões infames. Inspire
-confiança ao povo, dissipe todas as duvidas sobre
-as suas intenções, chamando para o seu lado os homens
-livres. Senhor, digo-lhe a verdade: os verdadeiros
-patriotas hão-de avalial-o pelas suas acções,
-mas sejam ellas quaes forem, esteja seguro
-de que a posteridade verá em V. M. o primeiro dos
-homens ou o ultimo dos tyrannos.</p>
-
-<p>«Escolha.»</p>
-</div>
-
-<p>O que na realidade torna os reis os escolhidos do
-Senhor é que só a elles se escrevem similhantes cartas.
-Se Carlos Alberto tivesse seguido os conselhos do
-seu mysterioso correspondente, teria sem duvida começado
-por Goita, mas talvez não tivesse finalisado
-por Novara.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_19">19</span>
-Carlos Alberto despresou estes conselhos, e em
-logar de entrar no largo caminho que se lhe apresentava,
-metteu-se em uma estrada tortuosa d'onde poucos
-teem saido incolumes.</p>
-
-<p>Desde este momento o divorcio foi declarado entre
-o rei da Sardenha e a joven Italia. A joven Italia!
-Foi por esta epocha que pela primeira vez se pronunciaram
-estas tres palavras. De que se compunha ella
-então? De José Mazzini o infatigavel promotor da
-união italiana. José Mazzini apenas conhecido n'esta
-epocha por algumas publicações politicas vendo-se perseguido
-pela policia havia-se refugiado em Marselha
-aonde collocava a primeira pedra da sua grande empreza
-enviando com milhares de difficuldades para o
-Piemonte os exemplares da sua <i>Joven Italia</i>.</p>
-
-<p>A nobreza e o clero piemontez que se haviam
-apoderado do espirito de Carlos Alberto, começaram
-a receiar pelo seu poder. Havia dois annos que se tinham
-estabelecido na côrte, e por isso conheciam qual
-elle era. Desconfiavam da politica duvidosa de Carlos
-Alberto, e tinham medo que um dia lhe apparecesse,
-não alguma sombra de liberdade, mas sim uma idéa
-ambiciosa. Sabiam que Carlos Alberto n'essas noites
-de febre, como só os reis teem, sonhava com o throno
-da Italia.</p>
-
-<p>Para alcançar esse throno seria necessario coadjuvar
-a revolução. O throno de Italia não estava á disposição
-dos reis, mas sim do povo.</p>
-
-<p>Era necessario collocar uma barreira entre elle
-e os patriotas.</p>
-
-<p>Um dia alguem disse:</p>
-
-<p>É tempo de lhe fazer derramar algum sangue.</p>
-
-<p>No mesmo dia Carlos Alberto foi prevenido de
-que no exercito uma grande conspiração se tramava
-com o fim de lhe tirar o throno.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_20">20</span>
-Os factos foram desnaturados, os perigos exagerados.
-Attacaram todas as fibras do homem e do principe
-para lhe dar esse ressentimento mortal de que tinham
-necessidade esses homens que se intitulam os
-salvadores das monarchias.</p>
-
-<p>Uma commissão criminal extraordinaria foi creada
-em Turim para dirigir todos os supplicios que tivessem
-logar no Piemonte.</p>
-
-<p>Esta commissão decidiu que todos os accusados
-militares ou paisanos seriam sentenciados por ella.
-Foi a primeira violação do codigo penal.</p>
-
-<p>Por esta occasião é que se deu o facto memoravel
-que vamos relatar.</p>
-
-<p>Um official que se assentava como juiz no conselho
-de investigação fez algumas perguntas sobre
-principios de direito criminal a um jurisconsulto.
-Este respondeu-lhe que a primeira base de toda e
-qualquer lei, que a primeira regra de todo o codigo
-era:</p>
-
-<div class="manuscr">
-<p>«Que um conselho de investigação militar se devia
-declarar incompetente para julgar cidadãos.»</p>
-</div>
-
-<p>&mdash;Isso é impossivel, disse o official, porque o
-general ordenou que nos declarassemos competentes.</p>
-
-<p>D'esta vez a base da lei, a regra do codigo foi a
-ordem do general.</p>
-
-<p>O primeiro que manchou com o seu sangue o
-manto do novo rei, foi o cabo Tamburelli, que foi fuzilado
-pelas costas, por haver commettido o crime de
-lêr aos seus soldados a <i>Joven Italia</i>. O segundo foi
-o tenente Tolla culpado por ter tido em seu poder livros
-sediciosos, e conhecendo o author não o haver
-denunciado. Como Tamburelli foi fuzilado pelas costas.
-Era uma engenhosa invenção da magistratura
-piemonteza para assemelhar o supplicio do fuzilado
-ao da forca.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_21">21</span>
-Já não era sufficiente matar, era preciso tambem
-deshonrar. A de 15 de Junho foram tão bem fuzillados
-<i>pelas costas</i> o sargento Miglio, José Deglia e Antonio
-Gaortti.</p>
-
-<p>Todos morreram com uma coragem admiravel.</p>
-
-<p>Jacopo Rufini estava encerrado nas prisões da torre
-de Genova. Tentavam tirar-lhe as forças por todos os
-meios possiveis: falto de comida e de somno, sentia
-que se enfraquecia, não só physicamente, mas moralmente,
-por isso resolveu não esperar que o collocassem
-entre a morte e a vergonha, e receiando que chegado
-esse momento não tivesse forças para escapar á
-morte, arrancou uma lança de ferro da porta da prisão,
-afiou-a e degolou-se com ella.</p>
-
-<p>Nas agonias da morte teve forças sufficientes para
-escrever na muralha com letras de sangue:</p>
-
-<div class="manuscr">
-<p>«Lego á Italia a minha vingança.»</p>
-</div>
-
-<p>Quando no dia seguinte entraram na prisão acharam-n'o
-morto.</p>
-
-<p>Em Genova foram fuzilados Luciano Placenzo e
-Luiz Turfo.</p>
-
-<p>Em Alexandria Domingos Ferrari, José Menardi,
-José Rigano, Assani Costa, Giovanni Marini e depois
-Andrea Vochieri.</p>
-
-<p>Escreveremos algumas linhas sobre Andrea Vochieri,
-assim como fizemos de Jacopo Rufini.</p>
-
-<p>Um condemnado d'Alexandria que escapou ás
-torturas de Fenestrelle, deixou nas suas memorias a
-narração da agonia de Andrea Vochieri:</p>
-
-<div class="manuscr">
-<p>«Tiraram-me, diz elle, fallando de si, os meus
-livros que se compunham de uma Biblia, de um livro
-de orações e de uma Historia dos Capuchos illustres
-do Piemonte. Depois pozeram-me ferros aos pés e
-conduziram-me a outra prisão mais humida mais escura
-e mais sordida que primeira. As janellas tinham
-<span class="pagenum" id="Page_22">22</span>
-duas ordens de grades e as portas cadêas dobradas.
-Esta prisão era proxima da do pobre Vochieri. Alguns
-buracos na parede permittiam-me ver tudo quanto
-ali se passava.</p>
-
-<p>«Estava deitado em um miseravel banco com
-ferros aos pés, dois guardas collocados ao lado com
-a espada núa, e uma sentinella armada com uma
-espingarda se achava á porta. Reinava n'este medonho
-carcere um silencio sepulchral e os soldados
-pareciam mais consternados do que o proprio prisioneiro.
-Dois frades capuchos vinham com curtos
-intervallos vel-o e exhortal-o.</p>
-
-<p>«Apesar da grande dôr que sentia em vêr aquelle
-martyr em similhante estado não podia deixar
-de o contemplar a todos os momentos. No fim de
-oito dias vieram buscal-o para o conduzir á morte.»</p>
-</div>
-
-<p>O que este prisioneiro não relata porque não o
-sabia, é que Vochieri foi levado ao supplicio pelo caminho
-mais longo, sendo obrigado a passar por defronte
-da casa aonde habitava sua irmã, sua esposa
-e seus filhos. Esperavam que vendo tudo o que elle
-tinha de mais cara no mundo perdesse a coragem e
-fizesse algumas revelações.</p>
-
-<p>Vochieri sorriu tristemente:</p>
-
-<p>&mdash;Esqueceram, disse elle, que ha no mundo uma
-coisa que adoro mais do que esposa, irmã e filhos...
-é a Italia. Viva a Italia!</p>
-
-<p>Voltando-se então para os guardas que o iam fuzilar,
-e que eram condemnados das galés em logar de
-soldados, disse esta unica palavra:</p>
-
-<p>&mdash;Vamos!</p>
-
-<p>Quinze minutos depois cahia atravessado por seis
-ballas.</p>
-
-<p>Havia n'essa época em Niza um mancebo de vinte
-e seis annos que vendo correr este sangue fazia
-<span class="pagenum" id="Page_23">23</span>
-comsigo mesmo o juramento de consagrar toda a sua
-vida ao culto d'essa liberdade pela qual morriam
-tantos martyres.</p>
-
-<p>Esse mancebo era <span class="smcap">Garibaldi</span>.</p>
-
-<p class="right cs7"><b>ALEXANDRE DUMAS.</b></p>
-
- </div>
-
- <div class="npage">
-
-<p class="center cs12"><b>MEMORIAS DE GARIBALDI</b></p>
-
-<h2 id="cap_1">I<br />
-MEUS PAES</h2>
-
-<p>Nasci em Niza, a 22 de julho de 1807, não só na casa,
-mas no proprio quarto em que nasceu Masséna. O illustre
-marechal era, como ninguem ignora, filho de um padeiro.
-Nas lojas d'aquelle predio ainda hoje se conserva uma padaria.</p>
-
-<p>Antes de fallar a meu respeito seja-me permittido dizer
-duas palavras de meus estimados paes de que o excellente
-caracter e profunda ternura tanta influencia tiveram na minha
-educação e disposições physicas.</p>
-
-<p>Meu pae, Domingos Garibaldi, natural de Chiavari, era
-como meu avô maritimo. Vindo ao mundo o primeiro objecto
-que seus olhos viram foi o mar, e era no mar que devia passar
-quasi toda a sua vida. Estava bem longe de possuir os
-conhecimentos que são o apanagio dos homens da sua classe,
-e principalmente do nosso seculo. Não havia formado a sua
-educação em uma escóla especial, mas sim nos navios de
-meu avô.</p>
-
-<p>Mais tarde capitaneou uma embarcação com grande felicidade.
-<span class="pagenum" id="Page_26">26</span>
-Soffreu immensos incidentes uns felizes, outros
-desgraçados, e muitas vezes ouvi dizer que nos poderia ter
-deixado mais bens de fortuna do que nos legou.</p>
-
-<p>Mas que importa isso! Meu pobre pae era livre de gastar
-como intendesse um dinheiro tão laboriosamente ganho,
-e eu não lhe sou menos reconhecido por esse facto. De mais
-ha uma coisa, de que estou intimamente convencido e é, de
-que todo o dinheiro que dispendeu n'este mundo o que gastou
-com a minha educação foi o que com mais prazer saín
-das suas algibeiras apesar dos grandes sacrificios que para
-isso era obrigado a fazer.</p>
-
-<p>Não julguem por isto que a minha educação foi aristocratica.
-Meu pae não me mandou ensinar gymnastica, jogo
-d'armas ou equitação. A gymnastica apprendi-a trepando
-pelos cabos dos navios, e deixando-me escorregar pelas enxarcias;
-a esgrima defendendo a minha cabeça e tentando
-o melhor que podia quebrar a dos outros, e a equitação tomando
-os exemplos dos primeiros cavalleiros do mundo, isto
-é, dos Gauchos.</p>
-
-<p>O unico exercicio corporal da minha mocidade, para o
-qual tambem não tive mestre, foi a natação. Não me lembro
-quando, e como aprendi a nadar, mas julgo que sempre
-o soube, pois desconfio que nasci amphibio. Assim não
-obstante o pouco prazer que tenho em me prodigalisar elogios,
-como sabem todos aquelles que me conhecem, não
-posso deixar de dizer que, sou um dos melhores nadadores
-existentes. Sendo conhecida a confiança que tenho
-em mim é escuzado dizer que nunca hesitei em me atirar
-á agua quando era necessario salvar um dos similhantes.</p>
-
-<p>Entretanto se meu pae não me mandou ensinar todos
-estes exercicios a culpa não foi sua, mas sim da epocha
-calamitosa porque atravessavamos. N'estes tempos desgraçados
-o clero era o senhor absoluto do Piemonte, e todos
-os seus esforços eram tornar os mancebos em frades inuteis
-e mandriões em logar de cidadãos aptos para servirem
-a nossa desgraçada patria. O amor profundo que me consagrava
-meu pobre pae, até lhe fazia receiar que se eu
-recebesse alguma instrucção, isso me fosse funesto para o
-futuro.</p>
-
-<p>Rosa Raymundo, minha mãe, era, digo-o com bastante
-orgulho, o modelo das mulheres. Todo o bom filho deve dizer
-o mesmo de sua mãe, mas nenhum o dirá com mais justiça
-do que eu.</p>
-
-<p>Um dos remorsos de toda a minha vida, talvez o
-<span class="pagenum" id="Page_27">27</span>
-maior, foi e será o ter tornado desgraçados os seus ultimos
-dias! Só Deus sabe quanto ella soffreu com a minha vida
-aventureira, porque só Deus sabe o immenso amor que minha
-mãe me consagrava. Se em mim existe algum sentimento
-bom, confesso-o, e com bastante ufania, é a ella a quem
-o devo. O seu caracter angelico devia forçosamente deixar-me
-alguns vestigios. Não será á sua piedade pelos desgraçados,
-á sua compaixão pelos infelizes, que eu devo este
-amor pela patria, amor que me mereceu a affeição e sympathia
-dos meus compatriotas?</p>
-
-<p>Não sou supersticioso, mas devo dizer que nas circumstancias
-mais criticas da minha vida, quando o oceano rugindo
-erguia o meu navio como um pedaço de cortiça,
-quando as bombas assobiavam a meus ouvidos como o vento
-da tempestade, quando as ballas cahiam em volta de mim
-como a saraiva, via sempre minha pobre mãe ajoelhada aos
-pés do <span class="smcap">Senhor</span> orando pelo filho das suas entranhas. Se algumas
-vezes mostrei uma coragem de que muitos se admiraram,
-é porque estava convencido de que não me succederia
-desgraça alguma quando tão santa mulher, quando
-similhante anjo orava por mim.</p>
-
-<h2 id="cap_2">II<br />
-OS MEUS PRIMEIROS ANNOS</h2>
-
-<p>Os primeiros annos da minha mocidade foram passados,
-como são os de todas as creanças, isto é, rindo e chorando
-sem saber porque, estimando mais o prazer que o
-trabalho, os divertimentos que o estudo, e não aproveitando,
-como devia ter feito, os sacrificios que meus paes
-faziam por meu respeito. Cousa alguma extraordinaria
-aconteceu durante a minha infancia. Tinha um excellente
-coração, sendo este um bem emanado de Deus e de minha
-mãe. Escusado é dizer que os impulsos d'esse coração
-eram por mim immediatamente satisfeitos. Tive sempre
-<span class="pagenum" id="Page_28">28</span>
-grande compaixão por tudo o que era fraco e soffredor.
-Esta compaixão estendia-se até aos animaes, ou antes
-começava por elles. Lembra-me de que um dia apanhei
-um grillo e que levando-o para o meu quarto, ahi passei
-alguns momentos brincando com elle, até que com essa
-inepcia ou antes brutalidade da infancia lhe arranquei uma
-perna: a minha dôr foi tal, que passei muitas horas encerrado
-no meu quarto chorando amargamente.</p>
-
-<p>Outra vez indo a Var á caça com um primo meu, parei
-ao pé d'um profundo fosso aonde as lavadeiras costumavam
-lavar a roupa e aonde n'aquelle momento se achava uma
-pobre mulher lavando a sua. Não sei como, mas esta desgraçada
-caiu no fosso. Apesar de ser mui novo&mdash;tinha então
-oito annos&mdash;atirei-me á agua conseguindo salval-a.
-Conto este caso para provar quanto é natural em mim um
-sentimento que me leva a soccorrer o meu similhante, e
-para se conhecer o pouco valor que tem o fazel-o.</p>
-
-<p>Entre os professores que tive n'esta epocha da minha
-vida, contam-se o padre Giovanni e o senhor Arene, a quem
-eu conservo um reconhecimento particular.</p>
-
-<p>Com o primeiro aproveitei pouco, porque, como já disse,
-tinha mais disposição para brincar e vadear, do que para
-trabalhar. Resta-me sobre tudo o pesar de não haver estudado
-o inglez, como o teria podido fazer, porque sendo o
-padre Giovanni de casa e quasi de familia, as suas lições
-resentiam-se da muita familiaridade que entre nós existia.
-Todas as vezes que sou obrigado a tractar com inglezes,
-que não são poucas, este sentimento renova-se sempre.
-Ao segundo, optimo professor, é a quem devo o pouco que
-sei, mas o que mais lhe agradeço, e porque lhe serei eternamente
-grato, é haver-me ensinado a minha lingua materna
-pela constante leitura da historia romana.</p>
-
-<p>A grave falta de não ensinar ás creanças a lingua e historia
-patria é frequentemente commettida em Italia, e principalmente
-em Niza, onde a proximidade de França influe
-muitissimo na educação. É pois a esta primeira leitura da
-nossa historia, e á persistencia com que meu irmão mais
-velho, Angelo, me recommendava o seu estudo, que eu
-devo o pouco que sei da sciencia historica e a facilidade de
-exprimir os meus pensamentos.</p>
-
-<p>Termino este primeiro periodo da minha juventude
-narrando um facto que, apezar da sua pouca importancia
-dará uma idéa da minha disposição para a vida aventureira.</p>
-
-<p>Fatigado de estudar, e soffrendo muito pela vida sedentaria
-<span class="pagenum" id="Page_29">29</span>
-que era obrigado a levar, propuz um dia a alguns
-dos meus companheiros que fugissemos para Genova.
-A proposta foi logo approvada e desatando um barco
-de pesca fizemo-nos de véla para o Oriente. Estavamos
-nas alturas de Monaco quando um pirata, mandado por
-meu excellente pae nos apanhou e entregou cheios de vergonha
-ás nossas familias. Um abbade que nos havia visto foi
-o denunciante. D'este facto é que provavelmente vem as poucas
-sympathias que sinto pelos abbades.</p>
-
-<p>Os meus companheiros n'esta aventura eram, se bem
-me recordo, César Parodi, Rafael de Andreis e Celestino
-Dermond.</p>
-
-<h2 id="cap_3">III<br />
-AS MINHAS PRIMEIRAS VIAGENS</h2>
-
-<p>«Oh! primavera, juventude do anno. Oh! juventude,
-primavera da vida!» disse Metastasio, eu ajuntarei: Como
-tudo se aformosea ao sol da juventude e da primavera!</p>
-
-<p>Foi illuminado por esse bello sol que tu linda <i>Constanza</i>,
-primeiro navio em que sulquei os mares, me appareceste.
-Os teus robustos flancos, a tua elevada e ligeira
-mastreação, a tua espaçosa coberta, e até o busto de mulher
-que se patenteava soberbo na tua prôa, ficarão eternamente
-gravados na minha idéa! Como os teus marinheiros, verdadeiros
-typos dos nossos Ligurios, se inclinavam graciosamente
-sob os remos!</p>
-
-<p>Com que alegria me dependurava na amurada para ouvir
-as suas canções populares.</p>
-
-<p>Cantavam canções de amor; ninguem então lhe ensinava
-outras, e estas por mais insignificantes que fossem, enterneciam-me
-e arrebatavam-me. Se esses cantos tivessem sido
-pela patria, talvez me enlouquecessem! Quem lhe diria então
-<span class="pagenum" id="Page_30">30</span>
-que havia uma Italia? Quem lhe diria que tinhamos uma
-patria a vingar e a tornar livre?</p>
-
-<p>Ninguem!</p>
-
-<p>Fomos educados e crescemos como judeus, isto é, na
-crença de que a vida não tem senão um fim&mdash;fazer fortuna.</p>
-
-<p>Em quanto olhava alegre para o navio em que ia embarcar,
-minha mãe preparava, chorando, a minha bagagem.</p>
-
-<p>A minha vocação era a vida aventureira do mar. Meu
-pae fez todo o possivel para me tirar similhante idéa, a
-sua vontade era que eu seguisse, uma carreira pacifica e
-sem perigos; que fosse padre, advogado ou medico. Mas a
-minha persistencia o fez desistir, e o seu amor cedeu á minha
-juvenil obstinação. Embarquei então na <i>Constanza</i> de
-que era capitão Angelo Pesante o mais atrevido maritimo que
-tenho conhecido. Se a nossa marinha tivesse tomado as
-proporções que se podiam esperar, o capitão Pesante teria
-direito ao commando de um dos nossos navios de guerra,
-e ninguem o teria excedido. Pesante nunca commandou
-uma esquadra, mas que se dirijam a elle, e em breve
-tempo já terá arranjado uma, desde as barcas até ás
-naus de tres pontos. Se elle algum dia obtivesse uma tal
-commissão, posso assegurar que haveria proveito e gloria
-para a patria.</p>
-
-<p>Fiz a minha primeira viagem a Odessa. Estas viagens
-tornaram-se depois tão communs e faceis que é inutil descrevel-as.</p>
-
-<p>A minha segunda viagem foi a Roma, mas na companhia
-de meu pae que tendo na minha primeira ausencia soffrido
-mortaes inquietações, se tinha resolvido visto eu não querer
-ceder da minha teima, a acompanhar-me.</p>
-
-<p>Fizemos a viagem na sua tartana a <i>Santa Reparata</i>.</p>
-
-<p>A Roma! Com que alegria eu partia! Já disse como pelos
-conselhos de meu irmão e pelos cuidados do meu digno
-professor havia estudado, a historia romana. Roma era para
-mim, admirador da antiguidade, a capital do mundo. É
-verdade que se achava destruida, mas as suas ruinas eram
-immensas, gigantescas e d'ellas sae a memoria de tudo
-quanto é bello e grandioso. Roma foi não só a capital do
-mundo, mas o berço d'essa religião santa que quebrou a cadêa
-dos escravos, que ennobreceu a humanidade, d'essa religião
-de que os primeiros apostolos foram os instituidores
-das nações, os emancipadores dos povos, mas de que infelizmente
-os successores degenerados teem sido o flagello da
-<span class="pagenum" id="Page_31">31</span>
-Italia, vendendo sua mãe, ou antes nossa mãe, aos estrangeiros!
-Não! não! a Roma que eu via nos sonhos da minha
-mocidade não era só a Roma do passado, mas tambem a do
-futuro, abrigando em seu seio a idéa regeneradora de um
-povo perseguido pela inveja das outras nações, porque nasceu
-grande e porque tem sempre marchado á frente dos povos,
-guiados por ella á civilisação.</p>
-
-<p>Roma! quando penso na sua desgraça, no seu abatimento,
-no seu martyrio, parece-me superior a todo o mundo.
-Amava-a com todas as forças da minha alma, não só
-nos combates soberbos da sua grandeza durante tres seculos;
-mas até nos mais pequenos successos que eu recolhia
-no meu coração como um precioso deposito.</p>
-
-<p>O meu amor em logar de diminuir, tem augmentado
-com o desterro. Muitas vezes, no outro lado dos mares, a
-tres mil leguas de distancia, pedia ao <span class="smcap">Senhor</span> como uma
-graça especial o tornar a vêl-a. Finalmente, Roma era para
-mim a Italia, porque eu não vejo a Italia senão na reunião
-dos seus membros dispersos, e Roma é para mim o symbolo
-da unidade italiana.</p>
-
-<h2 id="cap_4">IV<br />
-AS MINHAS PRIMEIRAS AVENTURAS</h2>
-
-<p>Durante algum tempo naveguei na companhia de meu
-pae; depois fui a Cagliari no bergantim <i>Etna</i>, de que era
-capitão José Gervino.</p>
-
-<p>N'esta viagem presenciei uma horrivel catastrophe que
-me deixou uma eterna recordação. Vindo de Cagliari, na
-altura do cabo Noli, navegavamos na companhia de alguns
-navios, entre os quaes se achava uma encantadora falua catalã.
-Depois de gosarmos dois ou tres dias de um bello tempo,
-começámos a sentir algumas rajadas d'esse vento a que
-os nossos marinheiros chamam <i>Libieno</i>, por que antes de
-chegar ao Mediterraneo passa pelo deserto de Lybia. Impellido
-<span class="pagenum" id="Page_32">32</span>
-por elle o mar não tardou a enfurecer-se, e tão furiosamente
-que nos arrastou para Vado.</p>
-
-<p>A falua de que já fallei sustentou-se admiravelmente
-no começo da tormenta, e não duvido dizer que todos nós
-receiando que a tempestade augmentasse, desejavamos antes
-estar a bordo da falua, do que dos nossos navios. Infelizmente
-a desgraçada embarcação estava destinada a offerecer-nos
-um doloroso espectaculo: uma vaga horrivel
-a cobriu, e em bem poucos instantes todos aquelles desgraçados
-foram submergidos. A catastrophe tinha logar á nossa
-direita, e por isso nos era absolutamente impossivel soccorrel-os.
-Os outros navios que nos acompanhavam tambem
-se achavam na mesma impossibilidade. Nove pessoas da
-mesma familia morreram á nossa vista, sem lhe podermos
-prestar o mais leve soccorro. Algumas lagrimas appareceram
-nos olhos dos mais endurecidos dos nossos marinheiros,
-mas o perigo proprio era tal que ellas bem depressa seccaram.
-A tempestade abrandou, como se estivesse satisfeita
-por haver immolado estas victimas; e chegamos a Vado sem
-incídente.</p>
-
-<p>De Vado parti para Genova, e de Genova voltei a Niza.</p>
-
-<p>Então comecei uma serie de viagens ao Levante, durante
-as quaes fomos tres vezes tomados e roubados pelos
-piratas. Duas vezes o fomos na mesma viagem, o que tornou
-os segundos piratas mui furiosos, visto que não nos
-encontravam cousa alguma para roubar. Foi n'estes ataques
-que comecei a familiarisar-me com o perigo, e a vêr
-que sem ser Nelson, podia como elle perguntar:&mdash;O que é
-o medo?</p>
-
-<p>Foi n'uma destas viagens, no bergantim <i>Cortese</i>, capitão
-Barlasemeria, que fiquei doente em Constantinopla. O
-navio foi obrigado a fazer-se de véla, e prolongando-se a
-minha doença mais do que eu tinha julgado, achei-me muito
-falto de recursos.</p>
-
-<p>Como em todas as situações desgraçadas em que me
-tenho achado, sempre encontrei alguma alma caridosa que
-me soccorresse, nunca pensei muito na falta de dinheiro.</p>
-
-<p>Entre essas almas caridosas encontrei uma que nunca
-esquecerei: é a excellente senhora Luiza Sauvaigo, de Niza,
-que me fez convencer de que as duas mulheres mais
-perfeitas do mundo, eram minha mãe e ella.</p>
-
-<p>Luiza fazia a felicidade de um marido, excellente homem,
-e tratava com uma admiravel intelligencia da educação
-de seus filhos.</p>
-
-<p>Porque razão fallei agora de Luiza? É porque escrevendo
-<span class="pagenum" id="Page_33">33</span>
-para satisfazer uma necessidade do coração, ella me
-dictou o que acabo de lançar ao papel.</p>
-
-<p>A guerra então existente entre a Porta Ottomana e a
-Russia contribuiu a prolongar a minha estada na capital do
-imperio turco. Durante este tempo e ignorando ainda como
-poderia alcançar recursos para viver, fui admittido como
-preceptor em casa da viuva Timoni. Este emprego foi-me
-dado sob recommendação de M. Diego, doutor em medicina,
-e a quem dou aqui um voto de agradecimento pelo
-serviço que me prestou. Estava, pois, preceptor de tres
-meninos. Assim fiquei muitos mezes, até que a vontade
-de navegar vindo de novo, me embarquei no bergantim
-<i>Notre-Dame-de-Grace</i>, de que tinha sido capitão Casanova.</p>
-
-<p>Foi este o primeiro navio em que embarquei como capitão.</p>
-
-<p>Não fatigarei o leitor fallando nas minhas viagens, em
-que nada de extraordinario me succedeu, direi unicamente
-que atormentado sempre por um profundo patriotismo, nunca
-cessei de perguntar noticias sobre a ressurreição de Italia, mas
-infelizmente até á edade de vinte e quatro annos
-todo o trabalho foi inutil.</p>
-
-<p>Emfim, n'uma viagem a Taganrog veiu a bordo do
-meu navio um patriota italiano, que me deu algumas noticias
-sob a maneira porque marchavam os negocios de
-Italia.</p>
-
-<p>Havia alguma esperança para o nosso desgraçado paiz.</p>
-
-<p>Christovão Colombo, não foi mais feliz, quando perdido
-no meio do Atlantico, e ameaçado pelos seus companheiros
-a quem havia pedido só tres dias, ouviu gritar: «Terra», do
-que eu quando ouvi pronunciar a palavra <i>patria</i>, e vi no
-horisonte o primeiro pharol preparado pela revolução franceza
-de 1830.</p>
-
-<p>Havia então homens que se occupavam da redempção
-da Italia!</p>
-
-<p>Em outra viagem, transportei no <i>Clorinde</i>, a Constantinopla
-alguns <i>Simoniacos</i>, conduzidos por Emilio Parrault.</p>
-
-<p>Tinha ouvido fallar pouco na seita de «Saint-Simon»;
-sabia unicamente que estes homens eram os apostolos perseguidos
-de uma nova religião.</p>
-
-<p>Vendo em Parrault um patriota italiano, dei-lhe parte
-de todos os meus pensamentos. Então durante essas noutes
-transparentes do Oriente, que, como diz Chateaubriand,
-não são as trevas, mas unicamente a ausencia do dia, debaixo
-<span class="pagenum" id="Page_34">34</span>
-d'esse ceu marchetado de estrellas, sobre esse mar
-de que a brisa parecia cheia de inspirações generosas, discutimos,
-não só as mesquinhas questões de nacionalidade
-nas quaes havia pensado muito, questões restrictas á Italia,
-e a cada provincia&mdash;mas até a grande questão da humanidade.</p>
-
-<p>Este apostolo provou-me que o homem que defende a
-sua patria, ou que ataca a dos outros, é no primeiro caso
-um soldado piedoso; injusto no segundo,&mdash;mas o homem
-que tornando-se cosmopolita, adopta a todas por patria
-e vae offerecer a sua espada e o seu sangue ao povo que
-lucta contra a tyrannia, é mais que um soldado&mdash;é um
-heroe.</p>
-
-<p>Teve então logar no meu espirito uma mudança repentina.
-Pareceu-me vêr em um navio não o vehiculo encarregado
-de transportar mercadorias entre os diversos paizes,
-mas o mensageiro do <span class="smcap">Senhor</span>. Havia partido avido de emoções,
-e curioso por vêr cousas novas, e a mim mesmo perguntava
-se esta idéa irresistivel que me perseguia não tinha
-horisontes mais dilatados e por descobrir. Via esses horisontes
-atravez o longiquo véo do futuro.</p>
-
-<h2 id="cap_5">V<br />
-OS ACONTECIMENTOS DE S. JULIÃO</h2>
-
-<p>O navio em que desta vez voltei do Oriente destinava-se
-a Marselha.</p>
-
-<p>Chegando a esta cidade soube da revolução suffocada
-no Piemonte e dos fuzilamentos de Chambéry, Alexandria
-e Genova.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_35">35</span>
-Em Marselha travei relações intimas com Covi, que me
-apresentou a Mazzini.</p>
-
-<p>Então estava longe de suspeitar a grande communidade
-de principios que um dia me uniria a Mazzini. Ninguem
-conhecia ainda o persistente e obstinado pensador, que
-nem a propria ingratidão tem feito desistir da grande obra
-que emprehendeu. Quando soube da morte de Vocchieri,
-Mazzini tinha dado um verdadeiro grito de guerra.</p>
-
-<p>Escreveu na sua <i>Joven Italia</i>: «Italianos, é tempo de
-nos juntarmos, se queremos ficar dignos do nosso nome; e
-derramar o nosso sangue amalgamando-o com o dos martyres
-piemontezes.»</p>
-
-<p>Mas em França, em 1833, não se diziam impunemente
-d'estas cousas. Algum tempo depois de lhe haver sido apresentado,
-e de lhe ter dito que podia contar comigo, Mazzini,
-o eterno proscripto, era obrigado a deixar a França e
-a retirar-se a Genova.</p>
-
-<p>N'esta occasião o partido republicano parecia completamente
-morto na França. Era um anno apenas decorrido:
-estavamos a 5 de junho,&mdash;alguns mezes depois do processo
-dos combatentes do claustro Saint-Merry.</p>
-
-<p>Mazzini havia escolhido este momento para fazer uma
-nova tentativa.</p>
-
-<p>Os patriotas tinham respondido que estavam promptos,
-mas pediam um chefe.</p>
-
-<p>Pensaram em Romarino, ainda coberto de louros por
-causa das suas luctas na Polonia.</p>
-
-<p>Mazzini não approvava esta escolha, o seu espirito activo
-e profundo prevenia-o contra os grandes nomes; mas a
-maioria queria Romarino, e então Mazzini cedeu.</p>
-
-<p>Chamado a Genova, Romarino acceitou o commando da
-expedição. Na primeira conferencia com Mazzini foi convencionado
-que duas columnas republicanas se deviam dirigir
-ao Piemonte, uma pela Saboia outra por Genova.</p>
-
-<p>Romarino recebeu quarenta mil francos para fazer face
-ás primeiras despezas, e partiu com um secretario de Mazzini
-que ia encarregado de o vigiar.<a name="FNanchor_3" id="FNanchor_3" href="#Footnote_3" class="fnanchor">[3]</a></p>
-
-<p>Todos estes acontecimentos tiveram logar em setembro
-de 1833; a expedição devia ter logar em outubro.</p>
-
-<p>Mas Romarino conduziu tudo de tal modo que a expedição
-não estava prompta senão em janeiro de 1834.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_36">36</span>
-Mazzini não obstante todas as tergivergencias do general
-tinha-se mostrado firme.</p>
-
-<p>Em fim a 31 de janeiro, Ramorino collocado na ultima
-extremidade por Mazzini reuniu-se a elle em Genova, com
-dois outros generaes e um ajudante de campo.</p>
-
-<p>A conferencia foi triste, e mal annunciada por pessimos
-agouros. Mazzini propoz que se occupasse militarmente a
-villa de S. Julião, onde se achavam reunidos os patriotas
-saboyanos e os republicanos francezes, que haviam adherido
-ao movimento.</p>
-
-<p>Era em S. Julião que se devia levantar o grito de rebellião.</p>
-
-<p>Ramorino era da opinião de Mazzini. As duas columnas
-deviam pôr-se em marcha no mesmo dia: uma partiria
-de Caronge, e a outra de Nyon, devendo esta atravessar
-o lago para se reunir á primeira na estrada de S. Julião.</p>
-
-<p>Ramorino ficava com o commando da primeira columna:
-a segunda estava debaixo das ordens de Graboky.</p>
-
-<p>O governo genovez receioso de se indispor, por um
-lado com a França, por outro com o Piemonte, viu com
-maus olhos este movimento. Quiz oppor-se á partida da
-columna de Caronge commandada por Romarino, mas o
-povo sublevou-se, e o governo foi forçado a deixal-a marchar.</p>
-
-<p>Não succedeu o mesmo com a que devia partir de
-Nyon.</p>
-
-<p>Dous barcos se haviam feito de véla, levando um soldados,
-e o outro armas.</p>
-
-<p>Mandaram em sua perseguição um navio de guerra a
-vapor, que trouxe as armas e aprisionou os soldados.</p>
-
-<p>Ramorino não vendo chegar a tropa que se lhe devia
-juntar, em logar de proseguir na sua marcha sobre S. Julião,
-começou a costear o lago.</p>
-
-<p>Muito tempo se passou sem saber aonde iam. Não se
-conheciam as intenções do general: o frio era intenso, e os
-caminhos estavam em um estado deploravel.</p>
-
-<p>Exceptuando alguns polacos, a columna era composta
-de voluntarios italianos, impacientes pela hora do combate,
-mas que cançavam facilmente pela extensão e difficuldade
-do caminho.</p>
-
-<p>A bandeira italiana atravessou algumas pobres villas,
-nenhuma voz amiga a saudou, não encontrando por toda a
-parte senão curiosos ou indifferentes.</p>
-
-<p>Fatigado pelos seus largos trabalhos, Mazzini que tinha
-<span class="pagenum" id="Page_37">37</span>
-trocado a penna pela espingarda, seguia a columna: soffrendo
-uma febre ardente, arrastava-se por aquelles asperos
-caminhos com a dôr escripta na fronte.</p>
-
-<p>Já por varias vezes tinha perguntado a Ramorino quaes
-eram as suas intenções, e que caminho seguia.</p>
-
-<p>As respostas do general nunca o haviam satisfeito.</p>
-
-<p>Chegaram a Carra e detiveram-se para ahi passar a noite;
-Mazzini e Ramorino achavam-se na mesma camara.</p>
-
-<p>Ramorino estava embrulhado na sua capa; Mazzini fixava
-sobre elle o seu olhar sombrio desconfiado.</p>
-
-<p>&mdash;Não é seguindo este caminho, disse elle com a sua
-voz sonora, tornada mais vibrante pela febre, que temos a
-esperança de encontrar o inimigo. Devemos ir ao seu encontro,
-e se a victoria é impossivel, provemos ao menos á
-Italia que sabemos morrer.</p>
-
-<p>&mdash;Não nos faltará nem o tempo, nem a occasião, respondeu
-o general, para affrontar perigos inuteis: considero
-como um crime o expôr inutilmente a flôr da mocidade italiana.</p>
-
-<p>&mdash;Não ha religião sem martyres, respondeu Mazzini,
-fundemos a nossa, ainda que seja com o nosso sangue.</p>
-
-<p>Mal acabava de pronunciar estas palavras, que o estrondo
-da fuzilaria se ouviu.</p>
-
-<p>Ramorino deu um salto. Mazzini pegou n'uma carabina,
-agradecendo a Deus o ter-lhe feito encontrar o inimigo.
-Mas este era o ultimo esforço da sua energia: a febre devorava-o;
-os seus companheiros correndo de noite pareciam-lhe
-fantasmas, a fronte escaldava-lhe, e a terra tremia-lhe
-debaixo dos pés. Depois de alguns minutos de afflicção
-caíu desmaiado.</p>
-
-<p>Quando voltou a si achou-se na Suissa, aonde os seus
-companheiros o tinham conduzido com grande trabalho: a
-fuzilaria de Carra tinha sido um rebate falso.</p>
-
-<p>Ramorino declarou então que tudo estava perdido: recusou-se
-a ir mais longe e ordenou a retirada.</p>
-
-<p>Durante este tempo uma columna de cem homens, da
-qual faziam parte um certo numero de republicanos francezes,
-partiu para Grenoble, e atravessou a fronteira da
-Saboya.</p>
-
-<p>O perfeito francez preveniu as auctoridades sardas: os
-republicanos foram attacados de noute e de improviso, ao
-pé das grutas de Cobellos, e dispersos depois d'um combate
-que durou uma hora.</p>
-
-<p>N'este combate os soldados sardos fizeram dois prisioneiros.
-Angelo Volantieri e José Borrel: conduzidos voluntariamente
-<span class="pagenum" id="Page_38">38</span>
-a Chamberg e condemnados á morte, foram fuzilados
-na mesma terra aonde ainda estava fumegante o
-sangue de Elfico Tolla.</p>
-
-<p>Por este modo terminou aquella expedição.</p>
-
-<h2 id="cap_6">VI<br />
-O DEUS DOS BONS</h2>
-
-<p>Tinha tambem a minha parte a cumprir no movimento
-que devia ter tido logar, e havia-a acceitado sem discutir.</p>
-
-<p>Havia entrado no serviço do estado como marinheiro
-de primeira classe da fragata <i>Eurydice</i>. A minha missão era
-alcançar proselytos para a nossa causa, e para conseguir
-este fim tinha feito tudo quanto me era possivel.</p>
-
-<p>Dado o caso que o nosso movimento tivesse bom resultado,
-devia com os meus companheiros apoderar-me da fragata
-e pôl-a á disposição dos republicanos.</p>
-
-<p>Não havia querido, impellido pelo ardor que sentia, limitar-me
-a este papel. Tinha ouvido dizer que um movimento
-teria logar em Genova, devendo por esta occasião
-apoderarem-se do quartel dos gendarmes situado na praça
-de Sarzana. Deixei aos meus companheiros o cuidado de
-se assenhorearem do navio, e proximo da hora em que devia
-rebentar a rebellião de Genova deitei uma canôa ao mar
-e desembarquei na alfandega, gastando poucos momentos
-a chegar á praça de Sarzana, onde, como já disse, estava
-situado o quartel.</p>
-
-<p>Esperei quasi uma hora, mas nenhum indicio de rebellião
-<span class="pagenum" id="Page_39">39</span>
-appareceu. Bem depressa ouvi dizer que tudo estava
-perdido, havendo-se posto os republicanos em fuga: dizendo-se
-tambem que varias prisões haviam sido feitas.</p>
-
-<p>Como não me tinha engajado na marinha sarda senão
-para ajudar o movimento republicano, julguei inutil voltar
-a bordo do <i>Eurydice</i>, começando a pensar nos meios de me
-pôr em fuga.</p>
-
-<p>No momento em que fazia estas reflexões, alguma tropa
-prevenida sem duvida do projecto de nos apoderarmos do
-quartel, começou a guarnecer a praça.</p>
-
-<p>Vi então que não havia tempo a perder. Refugiei-me
-em casa de uma vendedeira de fructa e confessei-lhe a situação
-em que me achava.</p>
-
-<p>A excellente mulher não fez nenhuma reflexão e escondeu-me
-nos quartos interiores do seu estabelecimento. No
-dia seguinte procurou-me um fato completo de camponez,
-e pelas oito horas da noite sahi, como se andasse passeando,
-de Genova pela porta da Lanterne, começando então
-essa vida de exilio, luto e perseguição, que, segundo todas
-as probabilidades, ainda não finalisou.</p>
-
-<p>Estavamos a 5 de fevereiro de 1834.</p>
-
-<p>Abandonando os caminhos batidos e trilhados dirigi-me
-por atalhos para as montanhas. Tinha bastantes jardins que
-atravessar, e muitos muros que saltar. Felizmente estava
-familiarisado com estes exercicios, e depois de uma hora de
-gymnastica achava-me fóra do ultimo jardim.</p>
-
-<p>Encaminhado-me para Cassiopea, ganhei as montanhas
-de Sestri, e no fim de dez dias, ou antes de dez noites;
-cheguei a Niza, dirigindo-me logo a casa de minha tia, na
-praça da Victoria, a fim de que ella prevenindo minha mãe
-lhe tirasse todos os cuidados.</p>
-
-<p>Descancei um dia, e na noite seguinte parti acompanhado
-por dois amigos, José Jaun, e Engelo Gostavini.</p>
-
-<p>Chegados ao Var, achamol-o innundado pelas chuvas,
-mas para um nadador como eu, não era isto um obstaculo.
-Atravessei-o metade a nado, metade a vau.</p>
-
-<p>Os meus dois amigos haviam ficado na outra margem.
-Disse-lhe adeus.</p>
-
-<p>Estava salvo, ou quasi, como se vae vêr.</p>
-
-<p>N'esta esperança dirigi-me a um corpo de guardas da
-alfandega; disse-lhe quem era, e qual o motivo porque havia
-deixado Genova.</p>
-
-<p>Os guardas disseram-me que era seu prisioneiro, até
-nova ordem, e que a iam mandar pedir a Paris.</p>
-
-<p>Julgando que acharia facilmente occasião de fugir, não
-<span class="pagenum" id="Page_40">40</span>
-fiz nenhuma resistencia, e deixei-me conduzir a Grasse, e
-de Grasse a Draguignan.</p>
-
-<p>Em Draguignan metteram-me em um quarto do primeiro
-andar, cuja janella sem grades, dava para um jardim.</p>
-
-<p>Aproximei-me d'ella como se quizesse vêr o jardim: da
-janella ao chão havia a altura de quinze pés. Dei um salto,
-e em quanto os guardas, menos ligeiros e estimando mais
-as pernas do que eu estimava as minhas, saíam pela escada;
-ganhei-lhe muita dianteira embrenhando-me nas montanhas.</p>
-
-<p>Não conhecia o caminho, mas era marinheiro, e lendo
-no ceo, n'esse grande livro, aonde estava habituado a lêr,
-orientei-me e dirigi-me a Marselha. No dia seguinte de tarde
-cheguei a uma villa de que nunca soube o nome, porque
-nem tive tempo para o perguntar.</p>
-
-<p>Entrei n'uma estalagem. Um mancebo e uma mulher
-ainda joven estavam á mesa esperando pela ceia.</p>
-
-<p>Pedi alguma cousa de comer: desde a vespera que não
-havia tomado nenhum alimento.</p>
-
-<p>O dono da hospedaria convidou-me para ceiar na sua
-companhia e de sua mulher. Acceitei.</p>
-
-<p>A comida era boa, o vinho do paiz agradavel, e o fogo
-excellente. Senti então um d'esses momentos de bem estar
-e felicidade, como só se experimentam depois de se haver
-passado um perigo, e quando se julga não haver mais nada
-a receiar.</p>
-
-<p>O dono da hospedaria felicitou-me pelo meu bom appetite,
-e pelo meu rosto alegre e prasenteiro.</p>
-
-<p>Disse-lhe que o meu appetite não tinha nada de extraordinario,
-porque não tinha comido havia dezoito horas
-e que o achar-me alegre e satisfeito era por haver escapado
-talvez á morte no meu paiz&mdash;e em França á prisão.</p>
-
-<p>Tendo-me adiantado tanto, não podia fazer segredo do
-resto. O estalajadeiro e sua mulher pareciam-me tão boas
-pessoas que lhe contei tudo.</p>
-
-<p>Então, com grande espanto meu, o estalajadeiro ficou
-pensativo.</p>
-
-<p>&mdash;Que tem? lhe perguntei.</p>
-
-<p>&mdash;É que depois da confissão que acaba de fazer, respondeu
-elle, não tenho remedio senão prendel-o.</p>
-
-<p>Dei uma grande gargalhada porque não tomei este
-dito ao serio, e demais se o fosse eramos um contra um,
-<span class="pagenum" id="Page_41">41</span>
-e não havia no mundo um unico homem que eu temesse.</p>
-
-<p>&mdash;Bem, disse eu, mas como julgo que não tem muita
-pressa, peço-lhe que me deixe ceiar com todo o descanço,
-pois temos muito tempo depois do <i>dessert</i>. E continuei comendo
-sem mostrar a mais leve inquietação.</p>
-
-<p>Infelizmente vi bem depressa que se o estalajadeiro tivesse
-necessidade de ajudantes para realisar os seus projectos,
-esses ajudantes não lhe faltavam.</p>
-
-<p>A sua estalagem era o logar aonde toda a mocidade da
-villa se reunia ás noutes para beber, fumar, e fallar da politica.</p>
-
-<p>A sociedade do costume começava a reunir-se, e bem
-depressa estavam na estalagem mais de doze mancebos,
-jogando as cartas, bebendo e fumando.</p>
-
-<p>O estalajadeiro não tornou a fallar na minha prisão,
-mas tambem não me perdia de vista.</p>
-
-<p>É verdade que não tendo eu a mais pequena mala, não
-tinha cousa alguma que lhe assegurasse o pagamento da
-minha despesa.</p>
-
-<p>Como tinha na algibeira alguns escudos, fiz barulho
-com elles, o que pareceu socegar o meu homem.</p>
-
-<p>No momento em que um dos bebedores acabava, no
-meio dos applausos geraes, de cantar uma canção, ergui o
-copo que tinha na mão:</p>
-
-<p>&mdash;Agora pertence-me, disse eu:</p>
-
-<p>E comecei a cantar o <i>Deus dos bons</i>.</p>
-
-<p>Se não tivesse outra vocação teria podido fazer-me
-cantor, porque tenho uma voz de tenor que cultivada alcançaria
-uma certa extensão.</p>
-
-<p>Os versos de Beranger, a franquesa com que eram cantados,
-a fraternidade do estribilho, a popularidade do poeta,
-arrebataram todo o auditório.</p>
-
-<p>Fizeram-me repetir dois ou tres couplets e abraçando-me
-todos quando acabei, gritaram&mdash;Viva Beranger! Viva
-a França! Viva a Italia!</p>
-
-<p>Depois de haver obtido tal successo era escusado pensar
-em prender-me; o estalajadeiro conheceu isso porque
-nunca mais me fallou de tal, ignorando eu por isso se elle
-fallava seriamente ou se zombava.</p>
-
-<p>Passou-se a noite a cantar, jogar e a beber; e ao romper
-do dia todos os meus companheiros da noite se offereceram
-para me acompanhar, honra que acceitei sem difficuldade:
-caminhámos juntos seis milhas.</p>
-
-<p>Com toda a certeza Beranger morreu sem saber o grande
-serviço que me prestou.</p>
-
-<div class="pagenum" id="Page_42">42</div>
-
-<h2 id="cap_7">VII<br />
-ENTRO AO SERVIÇO DA REPUBLICA DO RIO GRANDE</h2>
-
-<p>Cheguei a Marselha sem incidente, vinte dias depois de
-ter deixado Genova.</p>
-
-<p>Engano-me, um incidente, que li no <i>Povo Soberano</i>,
-me succedeu.</p>
-
-<p>Estava condemnado á morte.</p>
-
-<p>Era a primeira vez que tinha a honra de ver o meu nome
-impresso em um jornal.</p>
-
-<p>Como desde então era perigoso continuar a usar d'elle,
-comecei a chamar-me Pane.</p>
-
-<p>Fiquei alguns mezes occioso em Marselha, aproveitando-me
-da hospitalidade do meu amigo José Paris.</p>
-
-<p>Passado algum tempo consegui ser admittido como segundo
-commandante no navio <i>Union</i>, capitão Gozan.</p>
-
-<p>No domingo seguinte achando-me pelas cinco horas da
-tarde á janella com o capitão, seguia com a vista um collegial
-em ferias que se divertia no caes de Santo André a
-saltar de uma barca para outra, até que faltando-lhe um pé
-caíu ao mar.</p>
-
-<p>Estava vestido á <i>domingueira</i>, mas apesar d'isso, ouvindo
-os gritos dados pela desgraçada creança arrojei-me
-á agua completamente vestido. Duas vezes mergulhei inutilmente,
-mas á terceira fui mais feliz porque o agarrei por
-debaixo dos braços, conseguindo trazel-o sem difficuldade
-até á praia. Uma grande quantidade de povo ahi estava
-reunida, sendo eu recebido no meio dos seus applausos e
-bravos.</p>
-
-<p>Era um rapaz de quatorze annos que se chamava José
-Bambau. As lagrimas de alegria e as bençãos de sua mãe
-pagaram-me largamente do banho que tinha tomado.</p>
-
-<p>Como o salvei debaixo do nome de José Pane, é provavel
-<span class="pagenum" id="Page_43">43</span>
-que se é ainda vivo, nunca soubesse o verdadeiro
-nome de seu salvador.</p>
-
-<p>Fiz na <i>Union</i> a minha terceira viagem a Odessa, depois
-á volta embarquei-me em uma fragata do bey de Tunis.
-Deixei-a no porto de Goletta, voltando a Marselha em um
-brigue turco. Quando cheguei a esta cidade encontrei-a
-quasi no mesmo estado que M. de Belzunce a viu em 1720
-quando ali grassava a febre negra.</p>
-
-<p>O cholera fazia então estragos horriveis.</p>
-
-<p>Na cidade só existiam os medicos e as irmãs da caridade,
-quasi todo o resto da população havia desertado e viviam
-nas quintas dos arrebaldes. Marselha tinha o aspecto
-d'um vasto cemiterio.</p>
-
-<p>Os medicos pediam os benevolos. É assim, como se sabe,
-que são chamados nos hospitaes os enfermeiros voluntarios.</p>
-
-<p>Offereci-me ao mesmo tempo que um rapaz de Trieste
-que voltou de Tunis comigo. Estabelecemo-nos no hospital,
-e ahi partilhavamos as vigilias.</p>
-
-<p>Este serviço durou quinze dias. No fim d'este tempo,
-como o cholera diminuiu de intensidade e achava uma occasião
-favoravel de ver novos paizes, embarquei-me, como
-segundo no brigue <i>Nantonnier</i>, de Nantes, capitão Beauregard,
-que se achava proximo a partir para o Rio de Janeiro.</p>
-
-<p>Muitos dos meus amigos me teem dito que antes de
-tudo sou poeta.</p>
-
-<p>Se para ser poeta é necessario escrever a <i>Iliada</i>, a <i>Divina
-Comedia</i>, as <i>Meditações de Lamartine</i>, ou os <i>Orientaes</i>,
-de Victor Hugo, eu não sou poeta: mas se para o ser é necessario
-passar horas e horas a procurar nas aguas asuladas
-e profundas do mar os mysterios da vegetação submarina,
-se é necessario ficar em extase diante da bahia do Rio de
-Janeiro, de Napoles ou de Constantinopla, se é preciso pensar
-no amor filial, nas recordações infantis, ou n'um amor
-juvenil no meio das ballas e bombas, sem pensar que esse
-sonho ha-de acabar pela cabeça ou por um braço quebrado&mdash;então
-sou poeta.</p>
-
-<p>Recordo-me que um dia, durante a ultima guerra, não
-dormindo havia quarenta horas, e morto de cançasso costeava
-Urbano e os seus doze mil homens com os meus quarenta
-bersaglieri, os meus quarenta cavalleiros e um milhar
-de homens armados na sua maioria pessimamente, seguia
-por um pequeno atalho do outro lado do monte Orfano
-com o coronel Turr e cinco ou seis homens, quando
-<span class="pagenum" id="Page_44">44</span>
-parei repentinamente, esquecendo a fadiga e o perigo para
-ouvir um rouxinol.</p>
-
-<p>Era uma noite magnifica. Sonhava ouvindo este amigo
-de infancia, que um orvalho benefico e regenerador chovia
-em torno de mim. Os que me rodeavam julgaram ou que
-hesitava no caminho a seguir, ou que ouvia ao longe troar
-os canhões, ou os passos da cavallaria inimiga. Não! Escutava
-um rouxinol que ha mais de dez annos, póde ser, eu
-não tinha ouvido. Este extase durou não até que os que me
-rodeavam me tivessem repetido duas ou tres vezes «General,
-ahi está o inimigo» mas até que este rompendo o fogo fizesse
-desapparecer o meu encanto.</p>
-
-<p>Quando depois de ter costeado os rochedos graniticos
-que occultam a todas as vistas o porto, que os indios na
-sua linguagem expressiva chamam Nelheroky, quer dizer,
-agua occulta, quando depois de haver passado a estrada
-que conduz á nova bahia socegada como um lago; quando
-na margem occidental d'esta bahia, vi elevar-se a cidade
-chamada <i>Paus d'Assucar</i>, immenso rochedo conico que
-serve não de pharol, mas de balisa aos navegantes, quando
-appareceu em volta de mim essa natureza luxuriante de
-que a Africa e a Asia só me tinham dado uma fraca idéa,
-fiquei maravilhado do espectaculo esplendido que meus
-olhos contemplavam.</p>
-
-<p>Foi no Rio de Janeiro que a minha boa estrella fez com
-que eu encontrasse a coisa mais rara do mundo, isto é, um
-amigo.</p>
-
-<p>Não tive necessidade de o procurar, não tivemos necessidade
-de nos estudar, para nos conhecermos, encontramo-nos,
-trocamos um olhar e nada mais; depois um
-sorriso, um aperto de mão, e Rossetti e eu eramos dous
-irmãos.</p>
-
-<p>Mais tarde terei occasião de dizer o que valia esta nobre
-alma; e não obstante, eu, o seu maior amigo, seu irmão,
-o seu companheiro por tanto tempo inseparavel, morrerei,
-póde ser, sem ter occasião de plantar uma cruz no
-ponto ignorado da terra aonde repousam os restos deste
-generoso e valente cidadão.</p>
-
-<p>Depois de termos passado algum tempo na <i>ociosidade</i>&mdash;Chamo
-ociosidade o estarmos Rossetti e eu, seguindo
-um modo de vida para que não tinhamos disposição alguma&mdash;o
-acaso fez com que travassemos relações com
-Zambecarri, secretario de Bento Gonçalves, presidente da
-republica do Rio Grande, que se achava então em guerra
-com o Brasil. Ambos estavam prisioneiros de guerra em Santa
-<span class="pagenum" id="Page_45">45</span>
-Cruz n'uma fortaleza que se eleva á direita á entrada do
-porto d'onde chamam os navios á falla. Zambecarri, filho
-do famoso areonauta perdido n'uma viagem á Syria e de
-que nunca mais se ouviu fallar, apresentou-me ao presidente
-que me deu a carta para poder piratear os navios
-brasileiros.</p>
-
-<p>Algum tempo depois Bento Gonçalves e Zambecarri fugiram
-a nado chegando livres de todo o perigo ao Rio
-Grande.</p>
-
-<h2 id="cap_8">VIII<br />
-CORSARIO</h2>
-
-<p>Armámos em guerra o <i>Mazzini</i>, pequeno navio de
-trinta toneladas, e fizemo-nos ao mar com dezeseis companheiros
-de aventuras. Finalmente eramos livres, navegavamos
-debaixo de um pavilhão republicano; emfim eramos
-<i>corsarios</i>.</p>
-
-<p>Com dezeseis homens de equipagem e um navio eramos
-capazes de declarar a guerra a um imperio.</p>
-
-<p>Sahindo do porto dirigi-me para as ilhas Marica, situadas
-a cinco ou seis milhas da embocadura da barra.
-As nossas armas e munições estavam occultas debaixo das
-carnes salgadas e da mandioca, unico alimento dos negros.</p>
-
-<p>Naveguei para a maior d'estas ilhas, que possue um ancuradouro,
-lancei a ancora, saltei em terra e subi ao monte
-mais elevado.</p>
-
-<p>Ahi estendi os braços com um sentimento de felicidade
-e orgulho inexplicavel, dando um grito similhante ao da aguia
-quando paira no mais alto dos ares.</p>
-
-<p>O Oceano pertencia-me e eu tomava posse do meu
-imperio.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_46">46</span>
-A occasião de o exercer não se fez esperar.</p>
-
-<p>Em quanto estava como um passaro do mar, debruçado
-sobre o meu observatorio, vi uma galeota navegando com
-o pavilhão brasileiro.</p>
-
-<p>Mandei apromptar tudo para nos fazermos immediatamente
-ao mar, e desci á praia.</p>
-
-<p>Navegámos direitos á galeota que não julgava por certo
-correr tão grande perigo a tres milhas da barra do Rio de
-Janeiro.</p>
-
-<p>Abordando-a fizemo-nos conhecer, e intimámos o capitão
-para se render immediatamente. Para sua justiça é necessario
-dizer que não fizeram a mais pequena resistencia.
-Em poucos momentos estavamos a seu bordo. Vi então dirigir-se-me
-um passageiro portuguez, que trazia na mão
-uma caixa. Abriu-a, e mostrou-a cheia de diamantes, que
-me offereceu em troca da vida.</p>
-
-<p>Fechei a caixa e entreguei-lh'a, dizendo-lhe que a sua
-vida não corria perigo algum, e que por consequencia, podia
-guardar os seus diamantes para melhor occasião.</p>
-
-<p>Não tinhamos tempo a perder, estavamos quasi debaixo
-do fogo das baterias do porto. Transportámos as armas e
-munições para bordo da galeota e affundámos o <i>Mazzini</i>
-que como se vê, tinha tido uma curta, mas gloriosa existencia.</p>
-
-<p>A galeota pertencia a um rico negociante austriaco que
-habitava a ilha Grande, situada á direita sahindo do porto,
-a quinze milhas de terra, e estava carregada de café que
-era enviado á Europa.</p>
-
-<p>O navio era para mim, por todos os motivos, uma
-excellente presa, porque pertencia a um austriaco a quem
-eu tinha feito a guerra na Europa, e a um negociante brasileiro
-domiciliado no Brasil a quem eu fazia a guerra na
-America.</p>
-
-<p>Dei á galeota o nome de <i>Farropilha</i>, derivado de <i>Farrapos</i>,
-nome que no imperio do Brasil se dá aos habitantes
-das republicas da America do Sul, assim como Filippe II
-chamava <i>mendigos de terra ou de mar</i>, aos revoltosos dos
-Paizes Baixos.</p>
-
-<p>Até então a galeota chamava-se <i>Luiza</i>.</p>
-
-<p>O nome que lhe havia dado calhava perfeitamente.
-Os meus companheiros não eram Rossettis, e devo confessar,
-que a figura de alguns d'elles, não era satisfatoria;
-isto explica a rapida entrega da galeota e o terror do portuguez
-que me offereceu os seus diamantes.</p>
-
-<p>Durante todo o tempo que fui corsario dei ordem á minha
-<span class="pagenum" id="Page_47">47</span>
-gente para a vida, honra e fortuna dos passageiros ser
-respeitada... ir dizer debaixo de pena de morte, mas não
-devo dizer tal, porque não tendo até hoje ninguem infringindo
-as minhas ordens, não tenho tido ninguem que
-punir.</p>
-
-<p>Depois de concluidos os nossos primeiros arranjos dirigi-me
-para o Rio da Prata, e para dar o exemplo de respeito
-que eu queria se tivesse no futuro pela vida, liberdade
-e bens dos passageiros, quando cheguei á altura da
-ilha de Santa Catharina, um pouco abaixo do cabo Itapoya,
-mandei deitar ao mar a lancha do navio e entregando tudo
-quanto pertencia aos passageiros e alguns mantimentos os
-fiz embarcar deixando-os livres de se dirigirem para onde
-quizessem.</p>
-
-<p>Cinco pretos escravos da galeota e a quem eu havia dado
-a liberdade engajaram-se como marinheiros.</p>
-
-<p>Quando chegámos ao Rio da Prata, ancorámos em Maldonato
-pertencente á republica oriental de Uruguay.</p>
-
-<p>Fomos admiravelmente recebidos pela população e mesmo
-pelas auctoridades, o que me pareceu de excellente
-agouro. Rossetti partiu pois tranquilamente para Montevideo
-afim de ahi vender o nosso café e apurar algum dinheiro.</p>
-
-<p>Nós ficámos em Maldonato,&mdash;quer dizer á entrada
-d'esse magnifico rio que na sua embocadura tem trinta leguas
-de largo&mdash;durante oito dias que se passaram em festas
-continuas, que infelizmente estiveram para acabar tragicamente.
-Oribe, que, na sua qualidade de chefe da republica
-de Montevideo não reconhecia as outras republicas,
-deu ordem ao governador de Montevideo para me
-prender e apoderar-se da galeota. Felizmente o governador
-de Maldonato era um excellente homem que em logar
-de executar a ordem que recebeu, o que não lhe teria sido
-difficil pela pouca ou nenhuma desconfiança que eu tinha,
-mandou-me prevenir para que levantasse ancora e partisse
-para o meu destino, se é que o tinha.</p>
-
-<p>Prometti partir na mesma noite, mas antes tinha um negocio
-pessoal a tractar em terra.</p>
-
-<p>Tinha vendido, para comprar viveres, a um negociante
-de Montevideo algumas saccas de café e algumas bijouterias,
-pertencentes ao nosso austriaco. Mas ou porque o
-meu comprador fosse máu pagador, ou porque tendo ouvido
-dizer que eu talvez fosse preso, julgasse que poderia
-passar sem me pagar, ainda não me tinha sido possivel receber
-o meu dinheiro. Sendo pois obrigado a partir n'aquella
-<span class="pagenum" id="Page_48">48</span>
-mesma noute, e querendo entrar de posse do que
-me pertencia antes de deixar Maldonato, não tinha tempo
-a perder.</p>
-
-<p>Por conseguinte ás nove horas da noute mandei apparelhar,
-e mettendo um par de pistolas na cintura, embrulhei-me
-na minha capa e dirigi-me tranquillamente para
-casa do negociante.</p>
-
-<p>Fazia um luar magnifico. Pouco distante da casa do
-meu homem vi-o á porta tomando o fresco, elle tambem
-me viu e reconheceu, porque me fez signal de me affastar,
-indicando-me por este modo que a minha vida corria
-risco.</p>
-
-<p>Fiz que não via, fui direito a elle, e por toda a explicação
-apresentei-lhe uma pistola aos peitos:</p>
-
-<p>&mdash;O meu dinheiro, lhe disse eu.</p>
-
-<p>Quiz responder-me, mas quando lhe repeti pela terceira
-vez «o meu dinheiro» fez-me entrar em sua casa, pagando-me
-logo os dois mil patacões que me devia.</p>
-
-<p>Metti de novo a pistola no cinturão, puz o sacco do dinheiro
-debaixo do braço, e voltei ao meu navio sem me ter
-acontecido o menor incidente.</p>
-
-<p>Ás onze horas da noute levantámos ancora.</p>
-
-<h2 id="cap_9">IX<br />
-O RIO DA PRATA</h2>
-
-<p>Ao romper do dia, com grande admiração nossa, estavamos
-no meio dos cachopos das Pedras Negras.</p>
-
-<p>Como me achava em tal situação é que eu não podería
-explicar. Não havia dormido um minuto, não tinha
-deixado de olhar um momento para a costa, consultando
-a todos os instantes a bussola, dirigindo-me pelas suas
-<span class="pagenum" id="Page_49">49</span>
-indicações, e apezar d'isso achava-me no perigo que queria
-evitar.</p>
-
-<p>Não havia momento a perder: o perigo era enorme: estavamos
-cercados por todos os lados de cachopos. Saltei
-para a verga do traquete, e d'ahi mandei orçar sobre bombordo,
-e em quanto se executava esta manobra foi arrebatada
-pelo vento a nossa pequena gavea.</p>
-
-<p>Do logar onde me achava dominava o navio e os recifes,
-podendo por isso indicar o caminho que era necessario
-fazer seguir á galeota, que do seu lado parecendo um ente
-animado, e conhecedora do perigo em que estavamos, obedecia
-com toda a docilidade ao leme. No fim de uma hora,
-durante a qual estivemos entre a vida e a morte, e em que
-vi empallidecer os meus mais valentes marinheiros, estavamos
-salvos.</p>
-
-<p>Depois de passado o perigo, quiz conhecer qual o motivo
-porque havia sido lançado no meio d'esses terriveis cachopos,
-tão conhecidos dos navegantes, tão bem indicados
-nas cartas maritimas, e a tres milhas dos quaes julgava estar
-quando me achava no meio d'elles.</p>
-
-<p>Consultei a bussola: continuava a divagar: teria pois
-naufragado, se por infelicidade, amanhecendo, não tivesse
-conhecido o perigo:</p>
-
-<p>Em pouco tempo tudo me foi explicado.</p>
-
-<p>Quando sahi do navio para pedir os dois mil patacões ao
-meu comprador do café, tinha mandado pôr no tambadilho
-os sabres e fuzís, para estar prevenido no caso de algum
-ataque: executando a minha ordem, os marinheiros tinham
-collocado as armas ao pé da bitácola.</p>
-
-<p>Esta massa de ferro tinha attrahido a si a agulha, que
-como se sabe, tem iman nas duas extremidades. Mandei
-pois tirar as armas, e a bussola continuou a andar regularmente.</p>
-
-<p>Proseguimos a nossa viagem chegando a Jesus-Maria,
-que do outro lado de Montevideo está quasi na mesma distancia
-que Maldonato.</p>
-
-<p>A unica novidade que ali nos succedeu, foi acabarem-se
-completamente os viveres, por isso que não tinhamos
-tido tempo de os comprar antes da nossa partida. Como não
-nos era possivel desembarcar, pelas ordens dadas, era necessario
-lançar mão de algum expediente para arranjarmos
-comestiveis.</p>
-
-<p>Começámos a bordejar, sem comtudo nos affastarmos da
-costa.</p>
-
-<p>Uma manhã descobri na distancia de quasi quatro milhas
-<span class="pagenum" id="Page_50">50</span>
-uma casa, que pelo seu aspecto me pareceu uma herdade.
-Mandei ancorar o mais perto possivel da praia, e como
-não tinha escaler, porque, como já disse, havia dado o meu
-aos individuos que tinham desembarcado em Santa Catharina,
-arranjei uma jangada com uma mesa e alguns tonneis,
-e armado com um croque, embarquei n'esta embarcação de
-novo gosto com um unico marinheiro, que sem ser meu parente
-tinha comtudo o nome de Garibaldi: o seu pronome
-era Mauricio.</p>
-
-<p>O navio estava seguro por duas amarras, em consequencia
-dos ventos pampeiros que eram mui violentos.</p>
-
-<p>Eis-me pois no meio dos recifes não navegando, mas
-sim dançando em cima de uma mesa, arriscado a todos os
-momentos a ser submergido. Depois de termos praticado
-maravilhosos trabalhos de equilibrio, conseguimos encalhar
-na praia. Deixei Mauricio encarregado de guardar a jangada,
-e desembarquei.</p>
-
-<h2 id="cap_10">X<br />
-AS PLANICIES ORIENTAES</h2>
-
-<p>O espectaculo que então se me offereceu á vista, e que
-admirava pela primeira vez, teria, para ser dignamente
-descripto, necessidade da penna de um poeta ou do pincel
-de um pintor. Via ondular na minha frente como as vagas
-de um mar solidificado os immensos horisontes das&mdash;planicies
-orientaes&mdash;assim chamadas porque estão no lado oriental
-do rio Uruguay, que vae lançar-se no rio da Prata, defronte
-de Buenos-Ayres, abaixo de Colonia. Era, posso jural-o,
-um espectaculo cheio de novidade para um homem
-<span class="pagenum" id="Page_51">51</span>
-chegado do outro lado do Atlantico, e sobre tudo para um
-italiano, nascido em um paiz em que é difficultoso vêr um
-palmo de terra sem encontrar uma casa ou alguma obra dos
-homens.</p>
-
-<p>Ali pelo contrario existia unicamente a obra de Deus,
-tal como havia sahido das suas mãos no dia da creação.</p>
-
-<p>Era uma vasta, uma immensa campina, e o seu aspecto
-que é o de um tapete de verdura e flores, não muda senão
-nas margens do ribeiro Arroga, onde se elevam balanceando
-ao vento encantadores grupos de arvores com folhas luxuriantes.</p>
-
-<p>Os cavallos, os bois, as gazellas, as avestruzes são, á
-falta de creaturas humanas os habitantes d'essas immensas
-solidões, que só são atravessadas pelos gauchos, esses centauros
-do novo mundo, como para dar a entender a essas
-turbas de animaes selvagens que Deus lhe deu um senhor...
-Mas esse senhor, como o veem passar os touros, as avestruzes,
-as gazellas! É a quem protestará primeiro contra a sua
-supposta dominação: o touro pelos seus mugidos, a avestruz
-e a gazella pela fuga.</p>
-
-<p>Esta vista fez-me pensar na patria, onde quando passa o
-austriaco que os opprime, os homens, essas creaturas creadas
-á imagem de Deus, cumprimentam-no e se curvam, não
-ousando dar os mesmos signaes de independencia que os
-animaes selvagens dão á vista do gaucho.</p>
-
-<p><span class="smcap">Senhor</span>, até quando permittireis tão grande aviltamento
-da vossa creatura!?</p>
-
-<p>Deixemos o velho mundo, tão triste e aviltado, e voltemos
-ao novo, tão joven, e tão cheio de esperanças!</p>
-
-<p>Como é bello o cavallo das planicies orientaes, com os
-seus jarretes estendidos, com as ventas fumantes, com os
-seus labios que nunca sentiram a friesa do aço! Como respiram
-livremente debaixo do contacto da sua clina e juba,
-os seus flancos que nunca foram apertados pelo joelho dos
-cavalleiros, nem ensanguentados pelas suas esporas! Como
-é soberbo quando reune, chamando pelos seus rinchos a sua
-horda de eguas dispersas e que verdadeiro sultão do deserto,
-evita, fugindo em sua companhia, a presença dominadora
-do homem!</p>
-
-<p>Oh! maravilha da natureza! Milagre da creação! Como
-heide exprimir a emoção que á vossa vista experimentou
-esse corsario de vinte e cinco annos, que pela primeira vez
-estendia os braços para a immensidade.</p>
-
-<p>Mas como esse corsario estava a pé, nem o touro nem
-o cavallo o reconheciam por um homem. Nos desertos da
-<span class="pagenum" id="Page_52">52</span>
-America o cavallo é um complemento do homem, e sem
-o saber, o ultimo dos animaes. Primeiramente pararam
-estupefactos pela minha vista, mas bem depressa desprezando
-sem duvida a minha fraqueza, aproximaram-se de
-mim a tal ponto que sentia o rosto humedecido pela sua respiração.
-Ninguem deve ter receio do cavallo, animal nobre
-e generoso; mas todos devem desconfiar do touro, animal
-dissimulado e traiçoeiro. As gazellas e avestruzes depois de
-terem, como os cavallos e touros, mas mais circumspectamente,
-feito o seu reconhecimento, partiram rapidas como
-a flecha, e chegando ao alto d'um montezinho voltaram-se
-para verem se eram perseguidas.</p>
-
-<p>N'este tempo, isto é, pelos fins de 1834 e principios de
-1835, esta parte do terreno oriental estava ainda virgem de
-toda a guerra; eis o motivo porque ali se encontrava tanta
-quantidade de animaes selvagens.</p>
-
-<h2 id="cap_11">XI<br />
-A POETISA</h2>
-
-<p>Continuei dirigindo-me para uma <i>estancia</i>.<a name="FNanchor_4" id="FNanchor_4" href="#Footnote_4" class="fnanchor">[4]</a> Ahi encontrei
-só a mulher do <i>capataz</i>.<a name="FNanchor_5" id="FNanchor_5" href="#Footnote_5" class="fnanchor">[5]</a> Como não podia vender-me
-ou dar um boi sem consentimento de seu marido, era
-necessario esperar a sua volta. Demais era tarde e antes do
-dia seguinte não se podia conduzir o animal até ao mar.</p>
-
-<p>Ha momentos na vida de que a recordação ao mesmo
-tempo que elles se affastam continúa vivendo e augmentando
-na nossa memoria e tão bem que sejam quaes forem os
-outros successos da nossa existencia, essa recordação só se
-apaga com a morte. Era destino meu encontrar no meio
-d'este deserto, esposa de um homem quasi selvagem uma
-<span class="pagenum" id="Page_53">53</span>
-mulher de uma educação cultivada, uma poetiza sabendo
-pelo coração Dante, Petrarcha e Tasso.</p>
-
-<p>Depois de ter esgotado toda a minha sciencia na lingua
-hespanhola, fiquei agradavelmente surprehendido,
-ouvindo-a responder-me em italiano, convidando-me graciosamente
-a assentar-me, em quanto seu marido não
-chegava. No meio da nossa conversação, a minha encantadora
-hospedeira, perguntou-me se eu conhecia as poesias
-de Quintana, e ouvindo a minha resposta negativa, fez-me
-presente de um volume d'essas poesias, dizendo-me que
-m'o dava para apprender por sua causa o hespanhol. Perguntei-lhe
-então se era poetisa.</p>
-
-<p>&mdash;Ha alguem, me respondeu, que diante d'esta natureza
-não seja poeta?</p>
-
-<p>E sem se fazer rogar recitou-me muitos trechos de poesias
-suas em que achei muito sentimento e uma grande
-harmonia. Teria passado toda a noite a escutal-a sem me
-lembrar de Mauricio que me esperava guardando a meza-jangada,
-mas a entrada do marido fez cessar o lado poetico
-para me chamar ao fim material da minha visita. Disse-lhe
-o que queria e foi combinado que no dia seguinte me venderia
-e levaria á praia um boi.</p>
-
-<p>Ao romper do dia despedi-me da minha bella poetisa
-e fui ter com Mauricio. O pobre diabo tinha passado a
-noite o melhor que poude, mettido entre os quatro toneis,
-e muito inquieto por meu respeito, receiando que eu tivesse
-sido devorado pelos tigres, muito communs n'esta
-parte da America e menos inoffensivos que os cavallos e os
-touros.</p>
-
-<p>No fim de alguns momentos appareceu o capataz trazendo
-um boi ao laço. Em poucos momentos o animal foi
-morto e esquartejado, tal é a habilidade que os homens do
-sul teem para estas obras de sangue.</p>
-
-<p>Faltava transportar o boi, cortado em pedaços e leval-o
-para o navio, isto é, a mil passos de distancia, pelo menos,
-tendo de atravessar os cachopos onde se despedaçavam as
-ondas furiosas.</p>
-
-<p>Mauricio e eu démos começo á nossa empreza.</p>
-
-<p>Já sabem como era construida a jangada que nos devia
-conduzir a bordo: uma meza com um tonel amarrado a
-cada pé, um pau no centro, que vindo do navio, tinha servido
-para suspender os nossos vestidos, e que voltando
-devia conduzir os viveres sustentando-os ao de cima da
-agua.</p>
-
-<p>Deitámos a jangada ao mar, pozemo-nos em cima, e
-<span class="pagenum" id="Page_54">54</span>
-Mauricio com uma vara na mão, e eu com um croque, começámos
-a manobrar temdo agua até aos joelhos, porque
-o peso que a jangada levava era excessivo.</p>
-
-<p>A nossa manobra executou-se com grandes applausos
-do americano e da tripulação da galeota, que fazia ardentes
-votos, póde ser, não pela nossa salvação, mas sim pela
-da carne que conduziamos. A nossa viagem ao principio
-foi feliz, mas chegamos a uma linha de cachopos que nos
-era necessario atravessar, achámo-nos por duas vezes quasi
-submergidos.</p>
-
-<p>Felizmente atravessamo-la sem novidade.</p>
-
-<p>Mas livres dos cachopos, estavamos em perigo mais imminente.</p>
-
-<p>Não encontravamos o fundo com os nossos croques, e
-por conseguinte era impossivel dirigir a embarcação. Alem
-d'isso a corrente tornando-se mais violenta, á medida que
-avançamos no rio, arrojava-nos para longe da galeota.</p>
-
-<p>Pareceu-me chegado o momento de atravessar o Atlantico
-parando só em Santa Helena ou no Cabo da Boa Esperança.</p>
-
-<p>Os nossos companheiros, se nos quizessem apanhar,
-não tinham senão o recurso de largarem as velas. Foi o
-que fizeram, e como o vento estava de terra a galeota bem
-depressa nos alcançou.</p>
-
-<p>Passando junto de nós os nossos companheiros, lançaram-nos
-um cabo. Amarramos com elle a jangada ao navio,
-e depois de termos içado todos os viveres é que Mauricio e
-eu subimos. Em seguida içámos a meza que foi reintregada
-no seu logar na casa do jantar, não tardando muito a
-exercer as suas funcções habituaes.</p>
-
-<p>Vendo o appetite com que os nossos companheiros atacaram
-a carne, que com tanto trabalho tinhamos alcançado,
-consideramo-nos sufficientemente recompensados das
-nossas fadigas.</p>
-
-<p>Alguns dias depois comprei por trinta escudos a canoa
-d'um navio que cruzava n'estas paragens.</p>
-
-<p>Estivemos ainda este dia á vista do pico de Jesus Maria.</p>
-
-<div class="pagenum" id="Page_55">55</div>
-
-<h2 id="cap_12">XII<br />
-O COMBATE</h2>
-
-<p>Tinhamos passado a noite ancorados, quasi seis milhas,
-ao meio dia do pico de Jesus Maria, em frente dos
-barrancos de S. Gregorio. Uma pequena brisa do norte começava
-a apparecer quando vimos vir do lado de Montevideo
-duas barcas que julgámos serem amigas; mas como não
-tinham o pavilhão encarnado, signal convenciado entre nós,
-julguei prudente o fazer-me de vela em quanto os esperava.
-Além d'isso mandei pôr no tombadilho os mosquetes e sabres.</p>
-
-<p>Esta precaução, como se vae vêr não foi inutil. A primeira
-barca continuava a avançar unicamente com tres homens
-á vista; chegada ao alcance do porta-voz, o que nos
-parecia o chefe disse que nos rendessemos e ao mesmo
-tempo o convez da barca encheu-se de homens armados
-que sem nos dar o tempo de responder á sua intimação começaram
-o fogo. Dei o grito de «Ás armas» e agarrei n'um
-fuzil, depois respondendo a este cumprimento conforme podia,
-e como estavamos com todo o pano mandei.&mdash;Ás vélas
-de diante.</p>
-
-<p>Não sentindo a galeota obedecer ao leme com a docilidade
-costumada, voltei-me e vi que a primeira descarga tinha
-morto o marinheiro que n'aquella occasião ia ao leme,
-e que era um dos nossos valentes. Chamava-se Florentino e
-tinha nascido em uma das nossas ilhas.</p>
-
-<p>Não havia tempo a perder. O combate estava travado
-com todo o furor. O lanchão, é o nome que dão á qualidade
-dos barcos com que combatiamos, o lanchão tinha-nos abordado
-pela direita e alguns dos seus marinheiros haviam já
-saltado no nosso barco, mas por felicidade alguns golpes de
-fuzil e sabre nos livraram d'elles.</p>
-
-<p>Depois de ter coadjuvado os meus companheiros a repellir
-esta abordagem agarrei no leme que se achava sem
-governo por causa da morte de Florentino. Infelizmente no
-momento em que o agarrava para executar uma manobra
-uma balla atravessou-me o pescoço ferindo-me entre a orelha
-e a carotida, fazendo-me cahir sem conhecimento.</p>
-
-<p>O resto do combate que durou uma hora, foi sustentado
-por Luiz Carniglia, piloto, e por Pascoal Sodola, Giovani
-Lamberti, Mauricio Garibaldi e dous maltezes. Os italianos
-fizeram prodigios de valor, mas os estrangeiros e os cinco
-negros fugiram para o porão. Emfim o inimigo fatigado de
-<span class="pagenum" id="Page_56">56</span>
-nossa defeza e tendo uma dezena de homens fóra de combate
-fugiu, em quanto que nós tendo apparecido algum
-vento continuámos a subir o rio.</p>
-
-<p>Ainda que tivesse tornado a mim, fiquei completamente
-inerte e inutil durante o resto do combate.</p>
-
-<p>Confesso, as primeiras impressões que senti abrindo os
-olhos, foram deliciosas. Podia dizer que havia sido morto e
-que tinha resuscitado, tanto o meu desmaio foi profundo.
-Entretanto esse sentimento de bem estar foi bem depressa
-abafado pelo conhecimento da situação em que nos achavamos.
-Ferido mortalmente, não tendo a bordo quem
-possuisse o menor conhecimento geographico, mandei buscar
-a carta, e com muita difficuldade pois, me achava
-com a vista coberta com um véo que me parecia o da
-morte, indiquei com o dedo Santa Fé no Rio Parana. Só
-Mauricio é que uma unica vez tinha feito uma viagem
-ao rio da Prata; para todos nós eram pois completamente
-estranhas aquellas paragens. Os marinheiros aterrados&mdash;os
-italianos, devo dizel-o, não partilhavam estes sentimentos
-ou pelo menos sabiam occultal-os&mdash;e receiando serem presos
-e considerados como piratas, desertaram na primeira occasião
-que se lhe apresentou. Em quanto esperavam por
-este momento, em cada barco, em cada canoa, em cada
-tronco d'arvore fluctuante viam um navio inimigo enviado
-em sua perseguição.</p>
-
-<p>O cadaver do nosso desgraçado camarada foi deitado ao
-mar, com as cerimonias costumadas n'estas occasiões, por
-que durante muitos dias não podemos desembarcar em parte
-alguma.</p>
-
-<p>Este genero de enterramento não era muito do meu
-agrado, e sentia por elle uma grande repugnancia, talvez
-por me julgar proximo a ter igual sorte. Confessei esta aversão
-a Luiz Carniglia.</p>
-
-<p>No momento em que lhe fazia esta confissão vieram-me
-á lembrança estes versos de Foscolo:</p>
-
-<p>«Uma pedra, um unico signal que difference os meus ossos
-d'aquelles que a morte semea todos os dias na terra e no
-Oceano.»</p>
-
-<p>O meu pobre amigo chorava promettendo não me deixar
-lançar á agua. Quem sabe se apesar do seu desejo teria podido
-executar a sua promessa. O meu cadaver serviria então
-para matar a fome a algum lobo marinho, ou caiman.
-Não tornaria a vêr a Italia, não me teria batido por ella, que
-era a minha unica esperança!</p>
-
-<p>Quem diria ao meu caro Luiz que antes d'um anno
-<span class="pagenum" id="Page_57">57</span>
-era eu que o veria rolando pelos cachopos, desapparecer
-no mar, e que procuraria debalde o seu cadaver, para
-cumprir a promessa que elle me havia feito, de o sepultar
-na terra e collocar na sua ultima morada uma cruz
-que o recommendasse á oração dos viandantes. Pobre Luiz!
-durante a minha longa e cruel enfermidade fostes tu que
-tivestes sempre por mim um carinho paternal.</p>
-
-<h2 id="cap_13">XIII<br />
-LUIZ CARNIGLIA</h2>
-
-<p>Vou dizer algumas palavras sobre o meu pobre amigo
-Luiz. E porque é um simples marinheiro não lhe hei-de
-dedicar algumas linhas? Porque elle não é... Oh! posso
-assegural-o, a sua alma era bastante nobre para sustentar
-em todas as circumstancias a honra italiana: nobre para
-affrontar todas as tormentas, nobre emfim para me proteger,
-e para cuidar de mim, como se fosse seu filho!
-Quando estava deitado no meu leito de agonia, abandonado
-por todos, e delirava com o delirio da morte, era
-Luiz que sentado á cabeceira do meu leito com a dedicação
-e paciencia de um anjo não se affastava de mim
-um instante senão para ir chorar e occultar as suas lagrimas.
-Os seus ossos espalhados no Oceano mereciam
-um monumento onde o proscripto reconhecido podesse um
-dia dizer as suas virtudes aos seus concidadãos, devolvendo-lhe
-as lagrimas piedosas que me consagrou.</p>
-
-<p>Luiz Carniglia era de Deiva, pequeno paiz do Levante.
-Não havia recebido instrucção litteraria, mas suppria
-esta falta por um maravilhoso intendimento. Privado de
-todos os conhecimentos nauticos que são necessarios aos
-pilotos, governava os navios até Gualeguay com a sagacidade
-e felicidade de um piloto consumado. No combate
-que acabo de referir, foi a elle que principalmente
-devemos o não ter cahido nas mãos do inimigo: armado
-de um machado estava sempre no logar onde havia maior
-perigo sendo por este modo o terror dos assaltantes. De
-uma estatura elevada e mui robusta reunia uma grande
-<span class="pagenum" id="Page_58">58</span>
-agilidade a um extraordinario valor. Dotado de uma grande
-bondade nas cousas da vida, possuia o raro dom de se
-fazer amar por todos. Infelizmente todos os melhores filhos
-da nossa desgraçada patria teem morrido como este
-em terra estrangeira esquecidos e sem ter quem derrame
-uma lagrima por elles!</p>
-
-<h2 id="cap_14">XIV<br />
-PRISIONEIRO</h2>
-
-<p>Fiquei desanove dias recebendo unicamente os cuidados
-de Luiz Carniglia.</p>
-
-<p>No fim d'este tempo chegámos a Gualeguay.</p>
-
-<p>Tinhamos encontrado na embocadura do Ibiqui, um
-navio commandado por D. Lucas Tantalo, excellente homem
-que teve toda a sorte de cuidados por mim prestando-me
-o que julgava ser-me util na minha posição.</p>
-
-<p>Acceitámos os seus presentes com grande prazer, porque
-não tinhamos a bordo senão café que era o nosso
-unico alimento. Davam-me pois café a todos os momentos
-sem se importarem se isso era ou não conveniente para
-a minha doença. Comecei por ter uma febre assustadora
-acompanhada por uma grande difficuldade de engolir fosse
-o que fosse, o que não admirava, porque a balla atravessando-me
-o pescoço de lado a lado tinha passado entre
-as vertebras cervicaes e a pharinge. Decorridos oito
-dias n'este estado afflictivo, a febre havia diminuido, sentindo
-grandes melhoras.</p>
-
-<p>D. Lucas tinha feito mais: partindo, deu-me cartas
-de recommendação para Gualeguay,&mdash;fazendo o mesmo
-a um seu passageiro chamado Arraigada, biscainho,
-que se achava estabelecido na America&mdash;e particularmente
-para o governador da provincia d'Entre-Rios, D. Paschal
-Echague, a quem por ter de fazer uma viagem, deixou
-o seu proprio medico, D. Romão Delarea, joven argentino,
-de muito merito, que examinando a minha ferida,
-e tendo sentido a balla do lado opposto áquelle por
-que tinha entrado, fez a extracção com toda a habilidade,
-tratando-me durante algumas semanas, isto é até ao meu
-<span class="pagenum" id="Page_59">59</span>
-completo restabelecimento, com os cuidados mais affectuosos
-e desinteressados.</p>
-
-<p>Fiquei seis mezes em Gualeguay em casa de D. Jacintho
-Andreas, que teve, bem como a sua familia, por
-mim os maiores cuidados.</p>
-
-<p>Infelizmente estava quasi prisioneiro. Não obstante a
-boa vontade do governador Echague, e o interesse que
-por mim tinha a população de Gualeguay, era obrigado
-a esperar a resolução do dictador de Buenos-Ayres que
-não decidia cousa alguma.</p>
-
-<p>O dictador de Buenos-Ayres era n'esta occasião Rosas,
-de quem tratando de Montevideo, terei occasião de
-fallar mais de vagar.</p>
-
-<p>Curado da minha ferida, comecei a dar alguns passeios,
-que por ordem da authoridade eram mui limitados.
-Em troca do meu navio confiscado davam-me um escudo
-por dia, o que na realidade era muito para um paiz em
-que sendo tudo mui barato quasi se não gasta dinheiro:
-mas tudo isto não valia a minha liberdade.</p>
-
-<p>Provavelmente esta despeza d'um escudo por dia parecia
-muito elevada ao governador, porque em differentes
-occasiões me foram feitas offertas de se me favorecer a fuga,
-mas as pessoas que me faziam essas offertas, eram,
-sem o saberem, agentes provocadores! Diziam-me que o
-governo veria a minha fuga sem grande pesar. Não era
-pois necessario fazer grande violencia para que eu adoptasse
-uma resolução de que ja havia formado o projecto.
-O governador depois da partida de D. Paschoal, era um
-certo Leonardo Millan, que não me havia até áquella épocha
-mostrado nem interesse, nem odio, não tendo pois o
-mais pequeno motivo para me queixar d'elle.</p>
-
-<p>Resolvi então fugir, começando logo os meus preparativos,
-afim de estar prompto na primeira occasião que
-se me apresentasse. Uma noute de tempestade dirigi-me
-para casa d'um excellente homem que costumava de quando
-em quando ir visitar, e que habitava a tres milhas
-de Gualeguay.</p>
-
-<p>Dei-lhe parte da minha resolução, pedindo-lhe que
-me procurasse um guia e cavallos, esperando chegar a
-uma «estancia» pertencente a um inglez, situada na margem
-esquerda do Parana, onde eu provavelmente encontraria
-algum barco que me transportasse incognito a Buenos-Ayres
-<span class="pagenum" id="Page_60">60</span>
-ou Montevideo. O guia e os cavallos foram arranjados,
-e começámos a andar por meio dos campos para
-não sermos descobertos. Tinhamos que caminhar cincoenta
-e quatro milhas, podendo vencer perfeitamente este
-espaço em meia noute.</p>
-
-<p>Quando rompeu o dia estavamos á vista de Ibiqui,
-na distancia de meia milha do rio. O guia disse-me então
-que parasse ali em quanto elle ia saber que caminho
-deviamos seguir.</p>
-
-<p>Fiquei pois só.</p>
-
-<p>Apeei-me, amarrei as redeas do cavallo ao tronco de
-uma arvore e deitei-me, esperando assim durante duas
-ou tres horas, até que vendo que o meu guia não apparecia,
-levantei-me resolvido a ir pessoalmente informar-me,
-quando repentinamente ouvi por detraz de mim um
-tiro. Voltei-me e vi um destacamento de cavallaria que
-me perseguia de sabre em punho. Estavam já entre o meu
-cavallo e eu, era pois impossivel defender-me ou fugir.</p>
-
-<p>Entreguei-me.</p>
-
-<h2 id="cap_15">XV<br />
-A APOLEAÇÃO</h2>
-
-<p>Ligaram-me as mãos atraz das costas, pozeram-me a
-cavallo, e depois ligaram-me tambem os pés como o haviam
-feito ás mãos, sujeitando-os á cilha do animal.</p>
-
-<p>Foi n'este estado que cheguei a Gualeguay, onde, como
-se vae vêr, me esperava um peor tratamento.</p>
-
-<p>Ainda hoje, e já são passados bastantes annos, estremeço
-quando penso n'esta circumstancia da minha vida.</p>
-
-<p>Conduzido á presença de Leonardo Millan fui intimado
-por elle para denunciar quem me havia fornecido os
-meios de effectuar a minha fuga. É escusado dizer que
-não fiz tal confissão, pois declarei que só eu a tinha arranjado
-e executado. Então como me achava ligado e Leonardo
-não tinha cousa alguma a temer, aproximou-se de
-mim e começou a bater-me nas faces com o chicote. Depois
-renovou as suas perguntas, não sendo mais feliz que
-da primeira vez.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_61">61</span>
-Mandou-me conduzir á prisão, e disse em voz baixa
-algumas palavras ao ouvido d'um dos guardas.</p>
-
-<p>Estas palavras eram a ordem de me applicar a tortura.</p>
-
-<p>Chegando á camara que me estava destinada, os guardas
-deixaram-me as mãos ligadas atraz das costas, collocaram-me
-nos pulsos uma nova corda, e passaram a outra
-extremidade a uma trave, suspendendo-me a quatro ou cinco
-pés do chão.</p>
-
-<p>Então Leonardo entrou na prisão e perguntou-me de
-novo se estava resolvido a dizer a verdade.</p>
-
-<p>A unica vingança que podia tomar era cuspir-lhe no
-rosto, e assim o fiz.</p>
-
-<p>&mdash;Quando o prisioneiro, disse elle retirando-se, quizer
-declarar quem foram os seus cumplices, mandem-me
-chamar, e depois de fazer a confissão podem pol-o no chão.</p>
-
-<p>Depois sahiu.</p>
-
-<p>Fiquei duas horas n'esta horrivel posição. O peso do
-meu corpo sobrecarregava nos meus punhos ensanguentados
-e nos meus hombros deslocados.</p>
-
-<p>Parecia-me estar sobre brasas.</p>
-
-<p>A todos os momentos pedia agua, e os meus guardas
-mais humanos que o meu carrasco davam-me, mas ella
-não me matava a sede devoradora que soffria. Pode-se
-fazer uma idéa dos meus padecimentos, lendo as torturas
-que se inflingiam aos prisioneiros na idade media. No
-fim de duas horas os meus guardas tendo piedade do meu
-estado, ou julgando-me morto desceram-me.</p>
-
-<p>Cahi no chão sem movimento.</p>
-
-<p>Era uma massa inerte, sem outro sentimento que o
-de uma profunda e muda dôr&mdash;era quasi um cadaver.</p>
-
-<p>N'este estado sem eu saber o que faziam de mim metteram-me
-nos cepos.</p>
-
-<p>Tinha andado com as mãos e pés ligados atravez de
-pantanos cincoenta milhas. Os mosquitos numerosos e
-enraivecidos n'esta estação tinham-me tornado o rosto e
-as mãos n'uma grande chaga. Havia soffrido durante duas
-horas horriveis torturas, e quando tornei a mim achei-me
-ligado a um assassino.</p>
-
-<p>Ainda que não tivesse dito uma unica palavra, no
-meio dos meus atrozes soffrimentos, D. Jacintho Andreas
-tinha sido preso. Os habitantes do paiz estavam cheios de
-espanto.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_62">62</span>
-Em quanto a mim senão fossem os cuidados de uma
-mulher que foi para mim um anjo de caridade teria succumbido
-a tão atrozes soffrimentos. Despresando todo o
-perigo, vinha ver-me todos os dias, trazendo-me o que
-eu necessitava.</p>
-
-<p>Chamava-se Allemand.</p>
-
-<p>Poucos dias depois o governador vendo que eram inuteis
-todas as tentativas que fazia para me obrigar a fallar, e
-convencido que eu morreria antes de denunciar um dos
-meus amigos, não querendo provavelmente tomar sobre
-si a responsabilidade da minha morte mandou-me para a
-capital da provincia Bagada. Fiquei dois mezes na prisão
-no fim dos quaes o governador me mandou dizer que me
-era permitido sahir livremente da provincia.
-Ainda que eu tenho opiniões oppostas a Echague e que por mais de
-uma vez, depois d'esse dia, tenha combatido contra elle
-não devo occultar as obrigações de que lhe sou devedor
-e ambicionava hoje ter occasião de lhe provar todo o reconhecimento
-que lhe consagro pelos serviços que me prestou.</p>
-
-<p>Mais tarde o acaso fez cahir nas minhas mãos os chefes
-militares da provincia de Gualeguay e todos foram
-postos em liberdade sem se lhe fazer a menor offensa,
-nem a elles nem ás suas propriedades.</p>
-
-<p>Em quanto a Leonardo Millan nunca o quiz vêr com
-receio que a sua presença, fazendo-me recordar do que
-havia soffrido me obrigasse a praticar alguma acção indigna
-de mim.</p>
-
-<h2 id="cap_16">XVI<br />
-VIAGEM NA PROVINCIA DO RIO GRANDE</h2>
-
-<p>Em Bajada embarquei n'um bergantim italiano, capitão
-Ventura. Este maritimo homem recommendavel a todos
-os respeitos, tratou-me sempre com a maior generosidade
-e cavalheirismo. Conduziu-me á embocadura do
-Iguassu, affluente do Parana, ahi passei para bordo de
-um barco, capitaneado por Pascoal Carbone, que se destinava
-a Montevideo.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_63">63</span>
-Estava então em maré de ventura; Carbone obsequiou-me
-tambem admiravelmente.</p>
-
-<p>A fortuna, assim como as infelicidades vem sempre
-em grandes porções; estas haviam finalisado para mim;
-aquellas começavam a affluir sem interrupção.</p>
-
-<p>A minha proscripção continuava em Montevideo. A
-resistencia que empregára contra os lanchões e a perda
-que lhes haviamos causado era para isso pretexto plausivel.
-Fui então obrigado a esconder-me em casa de Pazante
-aonde me conservei por espaço de um mez.</p>
-
-<p>Comtudo a minha reclusão tornava-se supportavel, por
-que era suavisada pelas visitas de muitos compatriotas,
-que em tempo de prosperidade e de paz tinham vindo
-estabelecer-se no paiz e exerciam para com os amigos do
-velho mundo a mais generosa hospitalidade. A guerra, e
-sobretudo o cerco de Montevideo veiu mudar a posição
-da maior parte d'elles e de feliz que era tornou-l'ha não
-só má, porém pessima. Pobres homens! bastantes vezes
-os deplorei, e desgraçadamente não podia fazer mais do
-que lamental-os!</p>
-
-<p>Passado um mez, era tempo de seguirmos viagem;
-parti com Rossetti para o Rio Grande; a nossa jornada
-devia ser e foi feita a cavallo, o que me deu muito prazer.
-Viajavamos á <i>escotero</i>.</p>
-
-<p>Darei uma pequena explicação sobre esta maneira de
-viajar, que pela sua rapidez deixa bem longe a posta por
-mais ligeira que ella seja.</p>
-
-<p>Sejam dois, tres ou quatro os viajantes, vão acompanhados
-por vinte cavallos habituados a seguir os que
-vão montados; quando depois alguns dos cavalleiros
-vê que o seu cavallo está fatigado, apeia-se, passa
-o selim e os arreios para um dos que vem livres, e segue
-a galope tres ou quatro leguas; depois toma outro,
-e assim successivamente os vae mudando até chegar ao
-seu destino; os cavallos cançados, mesmo tendo de seguir
-os outros, recuperam forças, porque vão livres de selim e
-do cavalleiro.</p>
-
-<p>O pouco tempo que os cavalleiros gastam n'estas mudas,
-os cavallos o aproveitam para comerem alguma herva
-e beberem agua, se por acaso a encontram; as verdadeiras
-rações são duas vezes ao dia, pela manhã e á noite.</p>
-
-<p>D'este modo chegámos a Piratini, séde do governo do
-<span class="pagenum" id="Page_64">64</span>
-Rio Grande; a capital da provincia é Porto Allegre, porém
-como estava occupada pelos imperiaes, o governo republicano
-estabelecera-se em Piratini.</p>
-
-<p>Piratini é realmente um dos mais bellos paizes do
-mundo; divide-se em duas regiões; uma de planicies e
-a outra montanhosa.</p>
-
-<p>As planicies verdadeiramente tropicaes produzem a
-banana, a cana d'assucar, e a laranja. Junto aos troncos
-das suas arvores, e por entre as plantas arrasta-se a serpente
-cascavel, a serpente negra, e a serpente coral; ali,
-como na India, vê-se saltar o tigre, o jaguar, a puma, e
-o leão inoffensivo, de dimensões eguaes a qualquer dos
-enormes cães do monte de S. Bernardo.</p>
-
-<p>A região montanhosa é temperada como o meu bello
-clima de Niza; colhe-se o bom pecego, a pera, a ameixa,
-e toda a qualidade de fructos da Europa, encontram-se as
-magnificas florestas, das quaes nenhuma pena seria capaz
-de fazer exacta descripção, com os seus pinheiros direitos
-como os mastros dos navios, e d'altura de duzentos
-pés, e dos quaes talvez cinco ou seis homens não podessem
-abraçar o tronco. Á sombra d'esses pinheiros vegetam
-os taquares, canas gigantescas que chegam a oitenta
-pés d'altura, e das quaes na base não excedem a grossura
-do corpo d'um homem; existe tambem ali a <i>barba de
-pau</i>, litteralmente dita a barba das arvores, que entrelaçando-se
-multiplicadamente fórma espeços bosques; nas
-vastas planicies chamadas campestres estendem-se cidades
-inteiras, como Cima da Serra, Vaccaria, Lages; não tres
-cidades, mas tres provincias; população caucasiana, de
-origem portugueza, e essencialmente hospitaleira.</p>
-
-<p>O viajante não tem precisão de dizer nem de pedir
-coisa alguma; entra em qualquer habitação, vae direito
-á camara dos hospedes; os criados apparecem, sem que
-sejam chamados, descalçam-o e lavam-lhe os pés. Fica ali
-por quanto tempo quer, e quando lhe appetece retira-se
-sem despedir-se nem agradecer; e apesar d'esta descortesia,
-outro que venha depois d'elle não é recebido com
-menos agrado.</p>
-
-<p>É a juventude da natureza, o erguer da humanidade.</p>
-
-<div class="pagenum" id="Page_65">65</div>
-
-<h2 id="cap_17">XVII<br />
-A LAGOA DOS PATOS</h2>
-
-<p>Chegando a Piratini, fui magnificamente recebido pelo
-governo da republica. Bento Gonçalves&mdash;verdadeiro cavalleiro
-andante do seculo de Carlos-Magno, irmão, pelo
-coração, dos Oliveiros e dos Roldões vigoroso, agil e leal
-como elles, verdadeiro centauro, manejando um cavallo
-como ainda não vi manejar senão ao general Netto&mdash;modelo
-completo para um cavalleiro&mdash;estava ausente e em
-marcha com uma brigada de cavallaria, para atacar Silva
-Tanaris, chefe imperial, que tendo atravessado o canal
-de S. Gonçalo, infestava esta parte da provincia Piratini,
-séde do governo republicano, e pequena villa encantadora
-pela sua posição e cabeça de districto do mesmo nome,
-guarnecida por uma população bellicosa e essencialmente
-dedicada á causa da liberdade.</p>
-
-<p>Na ausencia d'aquelle general, foi o ministro da fazenda
-quem me fez as honras da cidade.</p>
-
-<p>Agora uma palavra respectivamente ao Rio Grande, o
-qual, por este nome, poderia suppor-se situado ao longo
-de um grande rio, ou um rio propriamente dito.</p>
-
-<p>O Rio Grande é o Lago dos Patos, e terá trinta leguas
-de extensão. Além de alguns baixos muito fundos,
-dos quaes mais tarde fallaremos, é em toda essa extensão
-bastante profundo e povoado por caimans; sendo formado
-por cinco rios, os quaes vindo terminar na extremidade
-do norte, apresentam a disposição de cinco dedos da
-mão, da qual a palma é o fim do lago.</p>
-
-<p>Ha um ponto d'onde se descobrem perfeitamente esses
-cinco rios, e que por essa razão se chamava <i>Viamão</i>&mdash;Vi
-a mão.</p>
-
-<p>Viamão mudara, porém de nome, e chamava-se <i>Settembrina</i>
-em commemoração de haver sido em setembro
-proclamada a republica.</p>
-
-<p>Achava-me em Piratini sem ter em que me occupar;
-pedi então para fazer parte da columna de operações, que
-<span class="pagenum" id="Page_66">66</span>
-se dirigia sobre S. Gonçalo, e era commandada pelo presidente
-da republica.</p>
-
-<p>Foi então que pela primeira vez vi aquelle valente,
-gosando alguns dias a sua intimidade. Era realmente o
-filho querido da natureza&mdash;que lhe havia prodigalisado
-tudo o que torna o homem um verdadeiro heroe.&mdash;Bento
-Gonçalves teria então sessenta annos. Alto, esvelto, montava
-a cavallo, como já disse, com um garbo e agilidade
-admiraveis. N'aquella posição ninguem o julgaria com
-mais de vinte e cinco annos.&mdash;Valente e feliz, não teria
-hesitado um momento, como um cavalleiro de Arioste, em
-atacar um gigante: tivesse elle a estatura de Polyphemo
-ou a armadura de Ferragus.</p>
-
-<p>Fôra um dos primeiros a levantar o grito de guerra,
-não com vistas de ambição pessoal, mas como qualquer
-outro belligerante filho d'aquelle povo. Na campanha passava
-como o mais infimo habitante das campinas; isto é,
-com a carne assada e agua pura.&mdash;No dia em que nos
-encontrámos pela primeira vez, convidou-me para o seu
-banquete frugal; e conversámos com tanta familiaridade
-como se fossemos companheiros de infancia e eguaes em
-posição. Com taes dotes naturaes e adquiridos, Bento
-Gonçalves era o idolo de seus concidadãos; porém cousa
-estranha, foi quasi sempre infeliz nas emprezas guerreiras;
-o que me faz acreditar que o acaso é superior ao genio
-para os successos da guerra, e para a fortuna dos heroes.</p>
-
-<p>Acompanhei a columna até Camodos,&mdash;passagem do
-canal de S. Gonçalo que liga a lagôa dos Patos a Meryn.</p>
-
-<p>Silva Tanaris havia-se retirado precipitadamente, logo
-que soube da aproximação de uma columna do exercito
-republicano.</p>
-
-<p>Não podendo alcançal-o, o presidente retrocedeu. Fiz
-outro tanto, tomando o caminho de Piratini.</p>
-
-<p>N'esta occasião recebemos noticia da batalha de Rio
-Pardo, na qual o exercito imperial fôra completamente
-destroçado pelos republicanos.</p>
-
-<div class="pagenum" id="Page_67">67</div>
-
-<h2 id="cap_18">XVIII<br />
-ARMAMENTO DE LANCHÕES EM CAMACUA</h2>
-
-<p>Fui encarregado do armamento de dois lanchões que
-existiam nas aguas do Camacua, rio que corre quasi parallelo
-e a pouca distancia do canal de S. Gonçalo, e que
-como este vae desaguar no lago dos <i>Patos</i>.</p>
-
-<p>Reuni alguns marinheiros vindos de Montevideo a
-outros que achei no Piratini, completando ao todo uns
-trinta homens de diversas nações. Infelizmente para elle
-tambem ali se achava o meu caro Luiz Carniglia. Tinhamos
-um outro recruta francez de estatura collossal, bertão, por
-nascimento, a que chamavamos João-Grande, e outro por
-nome Francisco, verdadeiro corsario, e digno <i>irmão da
-costa</i>.</p>
-
-<p>Chegando a Camacua, encontrámos ahi o americano
-John Griggs, que habitando n'uma herdade pertencente
-a Bento Gonçalves estava encarregado de vigiar o acabamento
-de dois <i>sloops</i>.</p>
-
-<p>Fui nomeado chefe d'essa frota ainda em construcção,
-com o posto de capitão-tenente. Era curioso aquelle
-methodo de construcção que fazia honra á bem conhecida
-persistencia dos americanos. Ia procurar-se á madeira
-a uma parte e o ferro a outra; dois ou tres carpinteiros
-cortavam e apparelhavam aquella, um mulato
-forjava o ferro. Foi assim que se fabricaram os dois <i>sloops</i>,
-desde os pregos até aos circulos de ferro dos mastros.</p>
-
-<p>No fim de dois mezes a esquadrilha estava prompta.
-Cada um dos vasos foi armado com duas peças de bronze;
-quarenta negros ou mulatos foram aggregados aos
-trinta europeus, formando d'esse modo duas equipagens
-que comprehendiam setenta homens.</p>
-
-<p>O lote dos lanchões seria um de dezoito, outro de doze
-a quinze tonelladas.</p>
-
-<p>Tomei o commando do mais forte a que puzemos o
-nome de <i>Rio-Pardo</i>.</p>
-
-<p>John Griggs foi encarregado do segundo, que se chamou&mdash;<i>O
-Republicano</i>.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_68">68</span>
-Rossetti tinha ficado em Piratini, incumbido da redacção
-do jornal <i>O Povo</i>.</p>
-
-<p>Começaram então as nossas correrias pelo lago dos
-Patos. Passaram-se alguns dias sem fazermos mais do
-que prezas insignificantes.</p>
-
-<p>Os imperiaes tinham, para fazer frente aos nossos dois
-<i>sloops</i>, de vinte e oito tonelladas, trinta navios de guerra
-e um barco a vapor.</p>
-
-<p>Porém nós tinhamos a nosso favor os baixios das aguas.</p>
-
-<p>O lago não era navegavel para os grandes barcos, se
-não n'uma especie de canal que seguia ao longo da sua
-margem do oriente.</p>
-
-<p>No lado opposto succedia o contrario, porque o solo
-era cortado em declive, e nós mesmos viamo-nos ás vezes
-encalhados antes de tocar na margem.</p>
-
-<p>Os bancos d'areia estendiam-se pela lagôa á similhança
-dos dentes de um pente, e só havia de bom que esses
-dentes eram bastante affastados uns dos outros.</p>
-
-<p>Quando eramos forçados a encalhar, e os canhões dos
-navios de guerra ou do vapor nos incommodavam, dizia:</p>
-
-<p>&mdash;Ávante, meus patos, saltemos á agua.</p>
-
-<p>E os meus patos cahiam n'agua, e á força de braços
-erguiam o lanchão, transportando-o para o outro lado do
-banco de areia.</p>
-
-<p>No meio de todos estes pequenos acontecimentos tomámos
-um barco ricamente carregado que foi conduzido
-immediatamente para a costa occidental do lago, junto a
-Camacua, aonde o queimamos depois de havermos tirado
-tudo o que era aproveitavel.</p>
-
-<p>Foi esta a primeira preza que fizemos, mas que valeu
-bem o trabalho; e alegrou a nossa marinha. Todos tiveram
-a sua parte nos despojos, e com um fundo reservado
-mandei fazer uniformes para todos os meus bravos.</p>
-
-<p>Os imperiaes, que até ali nos haviam desprezado, não
-perdendo occasião de escarnecer-nos, começaram a comprehender
-qual era a nossa importancia no lago, e trataram
-de empregar grande numero de navios para protegerem
-o seu commercio.</p>
-
-<p>A vida que passavamos era laboriosa e cercada de perigos,
-em razão da superioridade numerica dos inimigos;
-mas ao mesmo tempo essa vida era encantadora, pittoresca,
-<span class="pagenum" id="Page_69">69</span>
-e muito em harmonia com o meu caracter. Não
-eramos unicamente maritimos, seriamos tambem cavalleiros
-no caso de necessidade. No momento de perigo encontrariamos
-quantos cavallos quizessemos, e formariamos
-um esquadrão se não elegante, ao menos temivel.</p>
-
-<p>Nas margens da lagôa encontravam-se estancias que,
-pela aproximação da guerra, tinham sido abandonadas
-pelos proprietarios, aonde achamos muita abundancia de
-gado cavallar e o necessario para o seu sustento; por outro
-lado nas herdades existiam terrenos cultivados, aonde
-colhiamos abundancia de trigo, batata doce, e muitas vezes
-excellentes laranjas; que são as melhores de toda a
-America do Sul.</p>
-
-<p>A gente que me acompanhava verdadeira tropa cosmopolita
-era composta de homens de todas as côres e de
-todas as nações. Tratava-os com uma bondade, de que
-talvez parecessem pouco dignos, porém posso affirmar uma
-coisa: é que nunca tive motivo de arrepender-me d'essa
-bondade&mdash;todos obedeciam á minha primeira ordem e nunca
-me fatigaram, nem me vi na necessidade de os punir.</p>
-
-<h2 id="cap_19">XIX<br />
-A ESTANCIA DA BARRA</h2>
-
-<p>Sobre o Camacua, aonde tinhamos o nosso pequeno
-arsenal, e d'onde sahira a frota republicana, habitavam
-occupando uma grande extensão de terreno as familias dos
-irmãos de Bento Gonçalves, assim como outros parentes
-mais affastados; innumeraveis rebanhos se apascentavam
-n'esta magnifica planicie que a guerra havia respeitado,
-porque se achava ao abrigo do seu poder destruidor.</p>
-
-<p>As producções agricolas achavam-se ali agglomeradas
-em tanta abundancia, como não tenho idéa de vêr em
-parte alguma da Europa.</p>
-
-<p>Já disse em outra parte que em nenhum logar do mundo
-se encontra hospitalidade mais franca e cordeal do que
-n'este paiz; e foi o que nós achámos em todas as familias,
-nas quaes existia por nós a mais decidida sympathia.</p>
-
-<p>As estancias que por estarem mais proximas ao rio,
-<span class="pagenum" id="Page_70">70</span>
-e por esperarmos ser ahi mais bem recebidos, procuravamos
-de preferencia para nos hospedarmos, eram as de
-D. Anna e D. Antonia, irmãs do presidente. Aquella situada
-á margem do Camacua, e esta nas do Arroyo
-Grande.</p>
-
-<p>Não sei se por effeito da minha imaginação, ou por
-um privilegio dos meus vinte e seis annos, tudo ali era
-encantador aos meus olhos, e posso assegurar que nenhuma
-época da minha vida está como esta tão ligada ao meu
-pensamento, e nada se me apresenta mais fascinador do
-que este periodo que recordo com prazer.</p>
-
-<p>A casa de D. Anna era para mim um verdadeiro paraiso;
-posto que já não fosse joven, esta bella senhora
-conservava comtudo um caracter alegre.</p>
-
-<p>Tinha em sua companhia uma familia inteira, emigrada
-de Pelotas, cidade da provincia, da qual era chefe
-o doutor Paulo Ferreira; tres meninas que rivalisavam
-nos encantos, eram o perfeito ornamento d'este delicioso
-recinto. Uma d'essas jovens, Manuela, era a senhora absoluta
-do meu coração: sem esperança de poder possuil-a,
-ainda assim não podia deixar de a amar. Era desposada
-de um dos filhos de Bento Gonçalves.</p>
-
-<p>Em um momento de perigo tive occasião de conhecer
-que não era totalmente indifferente á dama dos meus pensamentos;
-e a certeza que obtive da sua sympathia serviu
-a minorar o desgosto de nunca dever pertencer-me.</p>
-
-<p>Geralmente as mulheres do Rio Grande são bellas, e
-os meus homens tornaram-se facilmente escravos d'essas
-bellezas; porém conscienciosamente affirmo que nenhum
-d'elles tinha pelo seu idolo um culto tão puro e desinteressado
-como eu por Manuela. Portanto, todas as vezes
-que um vento contrario, uma borrasca ou uma expedição
-nos levava ao Arroyo Grande ou a Camacua, era para nós
-dia de festa; o pequeno bosque de Firiva, que indica a
-entrada para aquella, ou o pomar das larangeiras que occulta
-o caminho para a ultima, eram sempre saudados
-por uma triplicada salva de <i>hourras</i>, que mostravam a força
-do nosso enthusiasmo amoroso.</p>
-
-<p>Um dia, depois de havermos puchado para terra as
-nossas embarcações, descançavamos na estancia de D. Antonia,
-irmã do presidente, a pouca distancia de uma d'essas
-choupanas, aonde salgam e defumam a carne, ás quaes
-<span class="pagenum" id="Page_71">71</span>
-dão no paiz o nome de <i>galpon de chargueada</i>, quando me
-vieram dizer que o coronel João Pedro de Abreu, appellidado
-<i>Mouringue</i>, isto é, Foinha, em consequencia de
-ser muito astucioso, havia desembarcado a duas ou tres
-leguas de distancia, com setenta homens de cavallaria e
-oitenta de infanteria.</p>
-
-<p>Havia probabilidade para acreditar esta noticia, porque
-depois da tomada do barco que haviamos queimado
-depois de nos assenhorearmos do mais precioso que elle
-tinha, sabiamos que Mouringue jurara tirar uma boa vingança.</p>
-
-<p>Esta noticia encheu-me de alegria.</p>
-
-<p>Os homens commandados pelo coronel Mouringue eram
-mercenarios allemães ou austriacos aos quaes ainda eu não
-estava enfastiado de fazer pagar a divida que todo o bom
-italiano tem contrahido com os seus irmãos da Europa.</p>
-
-<p>Eramos sessenta ao todo; porém eu conhecia bem esses
-sessenta homens, e com elles era capaz de fazer frente
-não só a cento e cincoenta austriacos, mas a trezentos.</p>
-
-<p>Tratei de destacar espias para todos os lados e fiquei
-com uns cincoenta homens junto a mim.</p>
-
-<p>Os dez ou doze que enviara a explorar terreno, voltaram,
-e disseram a uma voz:</p>
-
-<p>&mdash;Não vimos cousa alguma,</p>
-
-<p>Havia então um denso nevoeiro, e foi protegido por
-elle que o inimigo poude subtrahir-se ás suas pesquisas.</p>
-
-<p>Resolvi não confiar unicamente na intelligencia humana,
-e quiz interrogar tambem o instincto dos animaes.</p>
-
-<p>Ordinariamente, quando qualquer expedição d'este genero
-se aproxima, e homens d'outros sitios vem preparar
-uma emboscada junto a alguma estancia, os animaes que
-sentem ruido estranho, dão signaes de inquietação, e
-quem tacitamente os interroga, raras vezes se engana.</p>
-
-<p>Os cavallos espalhados pela minha gente, começaram
-a andar mui socegados em torno da estancia, manifestando
-assim que nada de novo se passava nas proximidades.</p>
-
-<p>Portanto acreditando que não havia surpreza a temer,
-ordenei á minha gente que arrumasse as armas, todavia
-carregadas, e as munições nos cabides que mandara construir
-dentro da arribana, e dei-lhes o exemplo de segurança,
-<span class="pagenum" id="Page_72">72</span>
-começando a almoçar, e convidando-os a fazer outro
-tanto.</p>
-
-<p>Por costume, nunca se faziam rogar para este convite.</p>
-
-<p>Graças a Deus, tambem nunca as munições de bocca
-nos faltavam.</p>
-
-<p>Terminado o almoço, mandei cada um a tratar da sua
-occupação.</p>
-
-<p>Toda a minha gente trabalhava do mesmo modo que
-comia; isto é, sempre com boa vontade: não se fazendo
-rogar: uns foram para os lanchões que estavam sobre a
-praia, afim de tratarem de algum arranjo de que elles
-carecessem, outros dirigiram-se á forja, estes a buscar
-madeira para queimar, e aquelles finalmente para a pesca.</p>
-
-<p>Fiquei eu só e o mestre cosinheiro, que havia estabelecido
-a sua cosinha á luz do dia, em frente da arribana,
-e ahi vigiava as nossas marmitas.</p>
-
-<p>Quanto a mim, saboreava voluptuosamente o meu <i>mate</i>,
-especie de chá do Paraguay, que se toma de uma cabaça
-com o auxilio de um canudo de vidro ou de pau.</p>
-
-<p>Comtudo, não duvidava que o coronel Fuinha, sendo
-natural do paiz, tivesse com a sua astucia illudido a vigilancia
-da minha tropa, não causando a sua presença sobresalto
-aos animaes, e que estaria talvez com os seus
-cento e cincoenta austriacos deitado em algum bosque a
-quinhentos ou seiscentos passos de nós.</p>
-
-<p>Repentinamente, com grande admiração minha, ouvi
-por detraz de mim, tocar a carregar.</p>
-
-<p>Voltei-me.</p>
-
-<p>Infanteria e cavallaria carregavam ao gallope; cada
-cavalleiro trazia um homem na garupa. Os que não tinham
-cavallos corriam a pé agarrados ás crinas. Dei um
-salto e achei-me no <i>galpon</i>; fui seguido pelo cosinheiro
-mas o inimigo estava tão proximo de nós que no momento
-em que eu transpunha o liminar da porta, senti o chapeu
-atravessado por uma lança.</p>
-
-<p>Ja disse que os fuzis estavam carregados na grade da
-mangedoura. Tinha sessenta.</p>
-
-<p>Agarrei em um e descarreguei-o, depois um segundo,
-e um terceiro, com tanta rapidez, que não se poderia julgar
-que me achava só, e com tanta felicidade que tres
-homens cahiram.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_73">73</span>
-Tres outros tiros se succederam aos primeiros, e como
-atirava ao grupo, todos eram funestos.</p>
-
-<p>Se o inimigo, tivesse a idéa de assaltar o <i>galpon</i> estaria
-tudo acabado, mas o cosinheiro tinha-se-me unido
-e fazia tambem fogo, de modo que o coronel Fuinha,
-apesar de toda a sua esperteza, julgou que todos nós estavamos
-reunidos.</p>
-
-<p>Por consequencia retirou-se para uns cem passos de
-distancia do alpendre, e começou a fazer alguns tiros de
-quando em quando.</p>
-
-<p>Foi o que me salvou.</p>
-
-<p>Como o cosinheiro não era bom atirador, e na nossa
-situação cada tiro perdido era uma falta irreparavel, disse-lhe
-que se entertesse em carregar os fuzis que eu os
-iria descarregando.</p>
-
-<p>Estava intimamente convencido de que a minha gente,
-suspeitando já que o inimigo tinha desembarcado, e
-ouvindo o estrondo da fuzilaria, comprehenderia tudo e
-viria em meu auxilio.</p>
-
-<p>Não me enganava.</p>
-
-<p>O meu bravo Luiz Carniglia foi o primeiro que appareceu
-atravez as nuvens de fumo que existiam entre o
-<i>galpon</i> e a tropa inimiga que fazia um fogo infernal.</p>
-
-<p>Depois d'elle appareceram Ignacio Bilbao, biscainho,
-e um italiano chamado Lourenço. N'um momento estavam
-a meu lado, e começaram a imitar-me o melhor que
-poderam; depois chegaram Eduardo Mutru, Nascimento
-Raphael e Procopio&mdash;estes dois ultimos eram negros&mdash;e
-Francisco da Silva. Queria em logar de escrever no
-papel, gravar no bronze os nomes d'estes valentes companheiros,
-que no numero de treze se me reuniram combatendo
-durante cinco horas cincoenta inimigos.</p>
-
-<p>O inimigo tinha-se apoderado de todas as casas e barracas
-que nos rodeavam, fazendo-nos d'ahi um fogo terrivel.
-Alguns dos seus soldados haviam subido aos telhados
-de que tiraram as telhas, disparando-nos tiros pelos buracos
-e lançando-nos fachinas accesas. Mas em quanto uns
-apagavam as fachinas, e outros respondiam á fuzillaria,
-dois ou tres cairam mortos pelo mesmo buraco que haviam
-feito. Tinhamos praticado com as nossas bayonetas
-algumas setteiras na muralha do <i>galpon</i>, e por ahi faziamos
-fogo quasi cobertos.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_74">74</span>
-Pelas tres horas o negro Procopio deu um tiro que teve
-um exito feliz: quebrou um braço ao coronel Moringue.
-No mesmo momento o coronel tocou a retirada, e
-partiu levando os feridos, mas deixando quinze mortos
-no campo da batalha.</p>
-
-<p>Dos meus companheiros tive cinco feridos e tres mortos.
-Custou-me pois oito homens esta refrega, que foi uma
-das mais serias em que me tenho achado.</p>
-
-<p>Estes combates eram tanto mais funestos para nós que
-não tinhamos nem medico nem cirurgião. As feridas ligeiras
-eram pensadas com agua fresca, renovando-se este
-medicamento o maior numero de vezes possivel.</p>
-
-<p>Rossetti, que por acaso se achava com os seus companheiros
-em Camacua, não se nos pôde reunir, com grande
-pesar seu. Sendo perseguidos e não tendo armas, foram
-obrigados uns a passar o rio a nado, outros a entranharem-se
-na floresta: um unico foi descoberto e morto.</p>
-
-<p>Este combate tão perigoso e que teve tão feliz resultado,
-deu uma grande confiança aos meus homens e aos
-habitantes d'este lado do paiz, expostos ha muito tempo
-ás excursões d'este inimigo aventureiro e intrepido.</p>
-
-<p>Moringue foi na realidade o chefe mais habilitado que
-tiveram os imperiaes. Era muito apto para estas emprezas,
-e devo dizer que sempre se tinha conduzido com uma
-finura que lhe teria merecido o appellido de <i>Fuinha</i>, se
-já o não tivesse.</p>
-
-<p>Nascido no paiz, que como já disse, conhecia perfeitamente,
-e dotado de uma astucia e intrepidez a toda a
-prova, causou graves prejuizos aos republicanos, e o imperio
-do Brazil deve-lhe sem duvida alguma a melhor parte
-na submissão d'esta corajosa provincia.</p>
-
-<p>Celebrámos a nossa victoria. D. Antonia deu em nossa
-honra uma festa na sua estancia, distante doze milhas
-do <i>galpon</i>, em que tinha tido logar o combate.</p>
-
-<p>Foi n'esta festa que eu soube que uma linda menina,
-constando-lhe o perigo que eu corria, havia impallidecido
-e perguntado com toda a anciedade noticias minhas. Esta
-noticia foi mais agradavel para mim, do que a victoria
-sanguinolenta que poucos momentos antes tinha ganho.
-Como me achava soberbo e feliz por lhe pertencer, ainda
-que não fosse senão pelo pensamento. Devia pertencer a
-outro, mas a sorte havia-me destinado essa flor do Brazil,
-<span class="pagenum" id="Page_75">75</span>
-que eternamente chorarei. Não era só nos prazeres e alegrias
-que a encontrava sempre a meu lado, foi na adversidade
-que eu conhecia o quanto valia o nobre coração
-da mãe de meus filhos.</p>
-
-<p>Annita! cara Annita!</p>
-
-<h2 id="cap_20">XX<br />
-EXPEDIÇÃO A SANTA CATHARINA</h2>
-
-<p>Depois d'este successo nada de importante nos succedeu
-no lago dos Patos.</p>
-
-<p>Começámos a construcção de dois novos lanchões. Os
-elementos primarios tinham-se achado na preza antecedente,
-e em quanto á sua confecção eramos coadjuvados valorosamente
-pelos habitantes da visinhança.</p>
-
-<p>Tinham-se apenas acabado e armado os dois novos
-navios de guerra, quando fomos avisados para nos juntarmos
-ao exercito republicano que então sitiava Porto-Alegre,
-capital da provincia. O exercito e nós não fizemos
-cousa alguma em quanto estivemos n'esta parte do lago.</p>
-
-<p>Não obstante este cerco era dirigido por Bento Manuel
-em quem todos reconheciam um grande merito como soldado,
-como general e como organisador. Foi este que depois
-trahindo os republicanos se passou aos imperiaes.</p>
-
-<p>Pensava-se então na expedicção de Santa Catharina.
-Fui convidado para tomar parte n'ella, debaixo das ordens
-do general Canavarro.</p>
-
-<p>Havia no cumprimento d'este projecto uma grande difficuldade
-que era o sahirmos da lagôa, visto que a embocadura
-estava guardada pelos imperiaes.</p>
-
-<p>Na margem meridional estava a cidade fortificada do
-Rio Grande do Sul, e na margem septentrional S. José do
-Norte, cidade mais pequena, mas fortificada tambem. Estas
-duas praças, bem como Porto Alegre, achavam-se em
-poder dos imperiaes tornando-se por isso senhores da entrada
-e sahida do lago. Possuiam, é verdade, unicamente
-estas duas praças, mas ellas eram bastante importantes
-pela sua posição.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_76">76</span>
-Para homens como os que tinha debaixo das minhas
-ordens não havia comtudo coisa alguma impossivel.</p>
-
-<p>Formei então o seguinte plano de guerra. Os dous
-mais pequenos lanchões ficavam na lagôa, sendo seu chefe
-o excellente maritimo Zeferino d'Ultra. Eu com os outros
-dous lanchões tendo debaixo das minhas ordens Griggs
-e os melhores dos nossos aventureiros acompanharia a expedição
-operando por mar em quanto o general Canavarro
-operava por terra.</p>
-
-<p>Era um bello plano, mas era mui difficil pela sua execução.</p>
-
-<p>Propuz então que se construissem duas carretas d'um
-tamanho e solidez necessaria para collocar em cada uma
-d'ellas um lanchão, devendo-se atrelar a cada carreta o
-numero de cavallos e bois sufficientes para as poderem
-puchar.</p>
-
-<p>A minha proposta foi adoptada, e fui encarregado de
-lhe dar execução.</p>
-
-<p>Pensando então maduramente n'este projecto fiz-lhe
-as seguintes modificações.</p>
-
-<p>Mandei construir por um habil carpinteiro chamado
-Abreu oito enormes rodas de uma solidez a toda a prova
-para poderem sustentar o extraordinario peso que devia
-supportar.</p>
-
-<p>N'uma das extremidades do lago&mdash;a que é opposta ao
-Rio Grande do Sul&mdash;isto é, ao noroeste, existe no fundo
-de um barranco um pequeno ribeiro que corre do lago
-dos Patos ao lago Tramandai, ao qual tratavamos de
-transportar os dous lanchões.</p>
-
-<p>Fiz descer a este barranco um dos nossos carros, depois
-levantámos o lanchão até que aquelle estivesse em
-cima do carro. Cem bois mansos foram atrelados, e vi então
-com grande satisfação o maior dos nossos lanchões caminhar
-como se fosse uma penna.</p>
-
-<p>O segundo carro desceu por sua vez, e como no primeiro
-obtivemos um exito feliz.</p>
-
-<p>Os habitantes gosaram então d'um espectaculo curioso
-e desusado, isto é, verem dois navios em cima de duas
-carretas, e puxados por duzentos bois, atravessarem cincoenta
-e quatro milhas, isto é, dezoito leguas, sem a menor
-difficuldade, sem o mais pequeno incidente.</p>
-
-<p>Chegados á margem do lago Tramandai os lanchões
-<span class="pagenum" id="Page_77">77</span>
-foram deitados ao mar do mesmo modo porque tinham
-sido embarcados. Necessitavam de alguns pequenos reparos,
-que no fim de tres dias estavam concluidos.</p>
-
-<p>O lago Tramandai é formado por aguas que tem a sua
-fonte nos montes d'Epinasso, e finalisa-o no Atlantico. É
-pouco fundo, pois nas maiores enchentes só tem quatro
-ou cinco pés d'agua. N'esta parte da costa reinam sempre
-grandes tempestades.</p>
-
-<p>O estrondo que o mar faz batendo n'estes rochedos,
-que os marinheiros chamam cavallos, por causa da espuma
-que fazem voar em roda d'elles, ouve-se a muitas milhas
-de distancia, e muitas vezes é tomado pelo rumor
-da tormenta.</p>
-
-<h2 id="cap_21">XXI<br />
-PARTIDA E NAUFRAGIO</h2>
-
-<p>Promptos a partir esperámos pela maré cheia, sahindo
-ás quatro horas da tarde.</p>
-
-<p>Foi n'esta occasião que soubemos apreciar o bem que
-nos resultava da pratica que tinhamos de navegar entre
-os rochedos. Não obstante esta pratica, não sei hoje dizer
-porque audaciosa ou antes porque habil manobra chegámos
-a tirar os nossos navios d'entre os rochedos, ainda
-que tivessemos, como já disse, escolhido a maré cheia. O
-fundo necessario para navegarmos faltava-nos por toda a
-parte, foi pois só ao cair da noite que os nossos esforços
-obtiveram um resultado feliz conseguindo deitar ancora
-no Oceano.</p>
-
-<p>Julgo conveniente dizer que os nossos navios foram
-os primeiros que sahiram do lago Tramandai.</p>
-
-<p>Ás oito horas da noite levantámos ancora e começámos
-a nossa viagem.</p>
-
-<p>No dia seguinte pelas tres horas da tarde tinhamos
-naufragado na embocadura do Aserigua, rio que tem a
-sua nascente na serra Espinasso, e que se lança ao mar
-na provincia de Santa Catharina, entre as torres e Santa
-Maura.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_78">78</span>
-De trinta homens da equipagem, dezeseis affogaram-se.</p>
-
-<p>Direi em duas palavras como aconteceu esta terrivel
-catastrophe.</p>
-
-<p>No momento da nossa partida, o vento do meio dia
-começava a apparecer. Corriamos parallelos á costa. O <i>Rio
-Pardo</i> tinha, como já disse, trinta homens de equipagem,
-uma peça de doze, uma grande porção de caixas, e outros
-objectos de toda a especie, que tinhamos levado por
-precaução, por não sabermos o tempo que estariamos no
-mar, e a que praia chegariamos, e qual seriam as circumstancias
-em que estaria essa praia no momento em que
-nos dirigiamos para um paiz inimigo.</p>
-
-<p>O lanchão achava-se pois mui subcarregado, e as vagas
-cobrindo-o de minuto em minuto, ameaçavam submergil-o.
-Resolvi então aproximar-me da costa e tomar
-terra na parte que me pareceu accessivel; mas o mar
-que ia sempre crescendo, não nos deixou escolher a posição
-que nos convinha, e uma vaga enorme nos arremeçou
-para a costa.</p>
-
-<p>Estava n'essa occasião na parte mais elevada do mastro
-do traquete, d'onde esperava descobrir uma passagem
-atravez os rochedos. O lanchão inclinou-se sobre o estribordo
-e eu fui lançado a trinta pés de distancia.</p>
-
-<p>Ainda que estivesse n'uma posição perigosa, a confiança
-que tinha nas minhas forças como nadador, fez
-com que não pensasse um unico momento na morte, e
-tendo comigo alguns companheiros, que não eram marinheiros,
-e que momentos antes tinha visto deitados no
-tombadilho e mui enjoados; em logar de nadar para a
-costa, comecei a reunir uma parte dos objectos, que pela
-sua ligeireza promettiam conservar-se á superficie, e comecei
-a empurral-os para o navio gritando aos meus homens
-que se lançassem ao mar e que apanhassem alguns
-d'aquelles objectos, tratando de ganhar a costa que se
-achava na distancia de uma milha. O navio tinha-se afundado,
-mas a mastreação conservava-o com os seus flancos
-de bombordo fóra de agua.</p>
-
-<p>O primeiro que eu vi agarrado ás enxarcias foi Eduardo
-Mutru um dos meus melhores amigos: atirei-lhe um
-fragmento da escotilha recommendando-lhe que o não
-alargasse.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_79">79</span>
-Este estando quasi salvo, lancei os olhos para o navio.</p>
-
-<p>Vi então o meu caro e corajoso Luiz Carniglia. Estava
-ao leme no momento da catastrophe, e havia ficado
-agarrado á popa do navio. Infelizmente estava n'esta occasião
-vestido com uma jaqueta de uma enorme roda.
-Não havia tido tempo de a tirar, não podendo por isso
-nadar em quanto a tivesse vestida. Vendo que me dirigia
-para elle começou a gritar.</p>
-
-<p>&mdash;Agarra-te bem, lhe respondi, que já te dou soccorro.</p>
-
-<p>Subindo ao navio como o teria podido fazer um gato,
-cheguei ate junto d'elle; agarrei-me com uma mão a uma
-borda, e com a outra tirando da algibeira uma faca que
-infelizmente cortava pessimamente, comecei a rasgar as
-costas da jaleca. Tinha quasi finalisado esta minha ardua
-tarefa, e Carniglia estava quasi salvo, quando um golpe
-de mar horrivel, envolvendo-nos fez em pedaços o navio
-e lançou ao mar os homens que ainda se conservavam a
-bordo.</p>
-
-<p>Carniglia foi tambem precipitado e não tornou a apparecer.</p>
-
-<p>Lançado ao fundo do mar como um projectil, voltei
-á superficie todo aturdido, mas tendo uma unica idéa&mdash;a
-de soccorrer ao meu charo Luiz. Comecei a nadar em
-volta da carcassa do navio chamando-o em altos gritos,
-mas elle não me respondeu. Esse bom amigo que já me
-tinha salvo a vida, tinha morrido sem eu o poder soccorrer.</p>
-
-<p>No momento em que abandonava a esperança de salvar
-Carniglia, lancei os olhos em volta de mim. Por uma
-graça especial de Deus, n'este momento de agonia para
-todo o mundo, não pensei um unico momento em mim
-tratando unicamente dos outros.</p>
-
-<p>Vi então os meus companheiros nadando para a praia,
-separados uns dos outros segundo a sua agilidade ou força.
-Alcancei-os em um momento e animando-os com os
-meus gritos, passei-lhe adiante, sendo um dos primeiros
-a atravessar os rochedos, cortando para isso vagas tão
-altas como montanhas.</p>
-
-<p>Puz pé em terra. Mas a dôr por perder o meu pobre
-Carniglia, deixando-me indifferente sobre a minha propria
-sorte, dava-lhe uma força invencivel.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_80">80</span>
-Apenas tinha posto pé em terra que me voltei movido
-por uma derradeira esperança.</p>
-
-<p>Póde ser, ir vêr Luiz.</p>
-
-<p>Interroguei todas essas figuras assustadas, mas todas
-me davam a mesma resposta. Já não me restava esperança
-alguma.</p>
-
-<p>Vi então Eduardo Mutru, que depois de Carniglia
-era quem eu estimava mais, e a quem tinha passado um
-fragmento da escotilha recommendando-lhe que se agarrasse
-com toda a força. A violencia das vagas tinha-lhe,
-sem duvida, tirado este apoio. Ainda nadava, mas pela
-convulsão dos seus movimentos indicava a extremidade a
-que se achava reduzido. Já disse como o amava, era pois o
-segundo irmão que ia perder no mesmo dia. Não quiz em um
-momento perder tudo o que mais presava no mundo. Lancei
-ao mar os restos do navio que me tinham servido para
-ajudar a ganhar a praia, e lancei-me de novo ao mar,
-indo novamente affrontar um perigo ao qual tinha poucos
-momentos antes escapado. No fim d'um minuto só
-algumas braças me separavam de Eduardo.</p>
-
-<p>&mdash;Coragem... Coragem, lhe disse eu.</p>
-
-<p>Vã esperança, vãos esforços! No momento em que encaminhava
-para elle o pedaço de madeira salvadora desappareceu.</p>
-
-<p>Dei um grito, e mergulhei. Depois não encontrando
-o meu pobre amigo julguei que teria vindo á superficie.
-Voltei tambem: Ninguem! Mergulhei de novo e de
-novo voltei ao cimo d'agua. Dei gritos desesperados, mas
-tudo foi em vão. Eduardo Mutru tinha tambem sido engolido
-por esse Oceano que elle não tinha tido receio de
-atravessar para, unindo-se-me, servir a causa dos povos.</p>
-
-<p>Ainda um martyr da liberdade italiana que não teve
-um tumulo, uma cruz!</p>
-
-<p>Os cadaveres dos dezeseis afogados que nós contamos
-n'este desastre, fieis companheiros das minhas aventuras,
-foram arremeçados pelas vagas a mais de trinta milhas
-de distancia para o norte. Procurei então entre os
-quatorze que haviam escapado e que n'este momento estavam
-na praia, um rosto amigo, uma figura italiana.</p>
-
-<p>Nenhuma!</p>
-
-<p>Os seis italianos que me acompanhavam estavam mortos.
-Carniglia, Mutru, Staderini, Nadonne e Giovanni...
-Não me recordo do nome do sexto.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_81">81</span>
-Peço perdão á patria por o haver esquecido, bem sei
-que escrevo estas memorias doze annos depois d'estes successos
-terem logar, bem sei que muitos acontecimentos tão
-terriveis como o que acabo de descrever, tem tido logar na
-minha vida; bem sei que vi cair uma nação, e que tentei
-defender uma cidade; bem sei que perseguido, exilado,
-e tratado como um animal feroz, depuz no tumulo a
-mulher a quem amava mais que a propria vida, bem sei
-que depois de fechado o seu tumulo fui obrigado a fugir
-como os condemnados de Dante; bem sei que não tenho
-um asylo, e que do extremo d'Africa onde me acho,
-olho para essa Europa que me repelle como um bandido,
-apesar de não ter tido até hoje senão um pensamento, um
-amor&mdash;a patria; sei tudo isto, mas não obstante devia-me
-lembrar d'esse nome.</p>
-
-<p>E comtudo não o sei!!</p>
-
-<p>Tanger, março de 1857.&mdash;<i>G. G.</i></p>
-
-<h2 id="cap_22">XXII<br />
-JOÃO GRIGGS</h2>
-
-<p>Os melhores nadadores tinham succumbido! Sem duvida
-confiando na sua habilidade, não se tinham querido
-apoderar dos restos do navio, esperando suster-se na agua
-sem este soccorro, em quanto que ao contrario, entre os
-que via sãos e salvos estavam alguns americanos que em
-muitas occasiões tinha visto embaraçados, por terem de
-atravessar um pequeno rio de dez a doze pés de largo.</p>
-
-<p>Parecia-me isto estranho, e comtudo era a verdade.</p>
-
-<p>O mundo era para mim um deserto.</p>
-
-<p>Assentei-me na praia, e encostando a cabeça ás mãos
-julguei que ia chorar.</p>
-
-<p>No meio da minha atonia ouvi um gemido.</p>
-
-<p>Lembrei-me então que não obstante serem-me esses
-homens desconhecidos, visto que eu era seu chefe no combate
-e no naufragio, devia tambem sel-o na desgraça.</p>
-
-<p>Ergui a cabeça.</p>
-
-<p>&mdash;Que tem, perguntei, e quem se queixa?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_82">82</span>
-Duas ou tres vozes me responderam:</p>
-
-<p>&mdash;Tenho frio.</p>
-
-<p>Eu que até então não tinha pensado em tal, comecei
-tambem a sentil-o.</p>
-
-<p>Levantei-me e enchugei-me. Alguns dos meus companheiros
-estavam já assentados ou deitados para nunca mais
-se levantarem.</p>
-
-<p>Chamei em meu auxilio os mais vigorosos, e obriguei os
-que se achavam tolhidos a erguerem-se. Peguei-lhe por
-uma mão, e disse aos que ainda não haviam perdido totalmente
-as forças que fizessem outro tanto, gritando:</p>
-
-<p>&mdash;Corramos!</p>
-
-<p>E dei ao mesmo tempo o exemplo.</p>
-
-<p>No principio sentimos uma grande difficuldade, ou para
-melhor dizer, uma grande dôr por sermos obrigados a
-fazer mover os nossos membros tolhidos pelo frio, mas em
-pouco tempo começámos a sentir algum calor.</p>
-
-<p>Entregámo-nos durante uma hora a este exercicio. No
-fim d'este espaço, o nosso sangue aquecendo tinha recomeçado
-a sua circulação.</p>
-
-<p>Estavamos então perto do rio Aserigue. Dirigimo-nos
-pela sua margem direita, e a quatro milhas encontrámos
-uma estancia, e n'ella a hospitalidade que existe sempre
-em todas as casas americanas.</p>
-
-<p>O nosso segundo lanchão, commandado por Griggs,
-chamado o <i>Seival</i>, um pouco maior que o <i>Rio Pardo</i>, mas
-de construcção differente, póde luctar contra a tempestade,
-seguindo a sua viagem.</p>
-
-<p>É necessario dizer que Griggs era um excellente maritimo.</p>
-
-<p>Não sei se ámanhã serei obrigado a deixar o asylo,
-onde me acho actualmente. Não sei pois se mais tarde terei
-occasião de dizer d'este excellente e valeroso mancebo
-tudo o que penso d'elle, vou pois, aproveitando esta occasião,
-pagar o tributo que devo á sua memoria.</p>
-
-<p>Pobre Griggs! tenho apenas dito duas palavras a seu
-respeito, e comtudo onde encontrei eu um homem mais
-corajoso e com melhor caracter? Nascido d'uma familia rica,
-tinha vindo offerecer o seu ouro, a sua intelligencia,
-e o seu sangue á republica nascente, dando-lhe tudo
-quanto havia offerecido. Um dia chegou uma carta d'um
-dos seus parentes da America do Norte, convidando-o a
-<span class="pagenum" id="Page_83">83</span>
-ir receber uma herança enorme. Mas Griggs já havia recebido
-a mais bella herança que se póde dar a um homem
-de convicção e fé,&mdash;a corôa do martyrio. Tinha morrido
-defendendo um povo desgraçado, mas generoso e
-valente.</p>
-
-<p>E eu que tinha visto tantas mortes gloriosas, vi o corpo
-do meu infeliz amigo cortado em dois como o tronco
-de um carvalho pela hacha do lenhador. Um tiro de metralha
-o tinha ferido na distancia de vinte passos, no dia
-em que com um dos meus companheiros, largando o fogo
-á esquadrilha, por ordem do general Canavarro, subi
-ao navio de Griggs que acabava de ser litteralmente fulminado
-pela esquadra inimiga.</p>
-
-<p>Oh! liberdade! liberdade! que rainha da terra se póde
-encher de orgulho por ter um cortejo de heroes como
-tu tens no ceu!!</p>
-
-<h2 id="cap_23">XXIII<br />
-SANTA CATHARINA</h2>
-
-<p>Felizmente a parte da provincia de Santa Catharina
-onde haviamos naufragado, tinha-se tambem revoltado contra
-o imperador, logo que souberam da aproximação das
-tropas republicanas. Em logar pois de encontrar inimigos,
-achamos alliados, em logar de sermos combatidos fomos
-festejados, e obtivemos em um momento todos os meios
-de transporte de que aquelles pobres habitantes podiam
-dispôr.</p>
-
-<p>O capitão Balduino offereceu-me o seu cavallo, e pozemo-nos
-immediatamente em marcha para alcançar a
-guarda avançada do general Canavarro, commandada pelo
-coronel Teixeira, que se dirigia a toda a pressa sobre o
-lago de Santa Catharina, esperando surprehendel-o.<a name="FNanchor_6" id="FNanchor_6" href="#Footnote_6" class="fnanchor">[6]</a></p>
-
-<p>Devo confessar que não tivemos grande difficuldade
-em nos apoderarmos da pequena cidade que precede o
-<span class="pagenum" id="Page_84">84</span>
-lago e que por isso tem o seu nome. A guarnição fugiu
-precipitadamente, e tres pequenos navios de guerra renderam-se
-depois de um fraco combate. Passei então com
-os meus naufragos para bordo da goleta <i>Itaparika</i>, que
-estava armada com sete canhões.</p>
-
-<p>Durante os primeiros dias d'esta occupação, a fortuna
-parecia ter feito um pacto com os republicanos. Não temendo
-uma invasão tão repentina da nossa parte, de quem
-só tinham noticias de quando em quando, os imperiaes
-tinham mandado guarnecer aquella povoação com soldados,
-armas e munições. Mas estas cahiram em nosso poder,
-porque chegaram depois de estarmos senhores da cidade.</p>
-
-<p>Os habitantes tratavam-nos como irmãos e libertadores,
-titulo que infelizmente não soubemos justificar em
-quanto estivemos n'esta povoação amiga.</p>
-
-<p>Canavarro estabeleceu o seu quartel general em Santa
-Catharina, chamada pelos republicanos <i>Giuliana</i>, por
-que tinham ali entrado no mez de julho. O general permittiu
-a creação de um governo provincial de que foi presidente
-um sacerdote veneravel, que exercia um grande
-prestigio no povo. Rossetti com o titulo de secretario do
-governo era verdadeiramente a sua alma. Rossetti estava
-talhado para todos os empregos!</p>
-
-<p>Tudo marchava ás mil maravilhas. O coronel Teixeira
-com a sua columna avançada tinha perseguido o inimigo
-até o encerrar na capital da provincia, apoderando-se de
-quasi todo o paiz. Por toda a parte eramos recebidos com
-os braços abertos, e todos os dias se nos juntavam desertores
-imperiaes.</p>
-
-<p>O general Canavarro traçava magnificos planos. Rude
-na apparencia, excellente no fundo, tinha o costume de dizer
-que do lago de Santa Catharina sahiria a hydra que
-devoraria o imperio, e talvez tivesse razão se houvessem
-olhado para esta expedição com mais juizo e attenção. Infelizmente
-as nossas maneiras orgulhosas para com os habitantes
-e a insufficiencia dos meios que tinhamos á nossa
-disposição fizeram perder o fructo d'esta brilhante campanha.</p>
-
-<div class="pagenum" id="Page_85">85</div>
-
-<h2 id="cap_24">XXIV<br />
-UMA MULHER</h2>
-
-<p>Nunca havia pensado no casamento, visto que me considerava
-incapaz de ser um bom marido por causa da minha
-grande independencia de caracter e decidida paixão
-pelas aventuras. Ter mulher e filhos parecia humanamente
-impossivel ao homem que consagrou a sua vida a
-um principio de que o successo, por mais completo que
-seja, não póde deixar nunca o socego necessario a um
-chefe de familia. O destino havia decidido o contrario:
-depois da morte de Luiz, Eduardo e dos meus outros amigos,
-achava-me n'um isolamento completo, parecendo-me
-existir só no mundo.</p>
-
-<p>Não me havia ficado um só d'esses amigos de que o coração
-tem necessidade como a vida de alimento. Os que
-tinham escapado, eram como já disse, estrangeiros. Eram
-sem duvida dotados de um excellente coração, mas conhecia-os
-á pouco tempo para ter com elles grande intimidade.
-N'esse espaço enorme que aquella terrivel catastrophe
-tinha feito em volta de mim, sentia a necessidade
-d'uma alma que me amasse, porque sem essa alma, a existencia
-era-me insuportavel, quasi impossivel. Havia, é verdade,
-encontrado Rossetti, isto é, um irmão; mas Rossetti
-obrigado pelos deveres do seu emprego não podia viver
-comigo, vendo-o apenas uma vez por semana. Tinha
-pois necessidade d'alguem que me amasse. A amisade é
-fructo do tempo, e é por isso necessario muitos annos para
-amadurecer, em quanto que o amor é como o relampago,
-filho muitas vezes da tempestade. Mas que importava!
-Não sou eu dos que preferem as tempestades á bonança
-e socego d'alma.</p>
-
-<p>Era pois uma mulher que se me tornava necessaria,
-só uma mulher me podia curar, uma mulher quer diser,
-o unico refugio, um anjo consolador, a estrella da tempestade.
-A mulher é uma divindade que nunca se implora
-em vão, especialmente quando se é desgraçado.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_86">86</span>
-Era com este incessante pensamento que, do meu camarote
-a bordo do <i>Itarapika</i>, voltava sem cessar o meu
-olhar para a terra. D'ahi descobria formosas meninas
-occupadas em differentes trabalhos domesticos. Uma d'ellas,
-principalmente, attraia-me a attenção. Mandaram-me
-desembarcar e immediatamente me encaminhei para a
-casa sobre que ha tanto tempo se fixava o meu olhar. O
-coração batia-me apressado, mas tinha formado uma d'essas
-resoluções que uma vez tomadas, nunca mais enfraquecem.&mdash;Um
-homem convidou-me a entrar,&mdash;teria-o
-feito ainda mesmo que elle o prohibisse&mdash;tinha-o visto
-uma vez&mdash;vi sua filha e disse-lhe: «Virgem pertences-me!»
-Havia por estas simples palavras creado um laço
-que só a morte podia quebrar.&mdash;Tinha encontrado um
-thesouro prohibido, mas de tal preço!... Se houve uma
-falta commettida, a responsabilidade só a mim pertence;
-se foi uma falta, unirem-se dois corações, despedaçando
-a alma de um innocente.</p>
-
-<p>Mas ella está morta e elle vingado&mdash;Onde conheci
-a grandeza da minha falta?&mdash;Na embocadura do Cridam
-no dia em que esperando disputal-a á morte, lhe apertava
-convulsivamente o pulso para contar as suas ultimas
-pulsações, absorvendo o seu alento fugitivo...... Beijava
-os seus labios muribundos, e apertava nos meus braços
-um cadaver chorando lagrimas de desesperação.<a name="FNanchor_7" id="FNanchor_7" href="#Footnote_7" class="fnanchor">[7]</a></p>
-
-<div class="pagenum" id="Page_87">87</div>
-
-<h2 id="cap_25">XXV<br />
-O CRUZEIRO</h2>
-
-<p>O general tinha determinado que eu sahisse com tres navios
-armados para atacar as bandeiras imperiaes que crusavam
-na costa do Brasil. Preparei-me para cumprir esta
-ardua tarefa, reunindo todos os elementos necessarios ao
-meu armamento. Os meus tres navios eram o <i>Rio Pardo</i>,
-commandado por mim&mdash;a <i>Cassapara</i>, por Griggs, ambos
-goletas e o <i>Seival</i> commandado pelo italiano Lourenço.
-A embocadura do lago estava bloqueada pelos navios
-de guerra imperiaes, mas apesar d'isso sahimos de
-noute e sem ser incommodados.&mdash;Annita, então companhia
-de toda a minha vida, e por consequencia, de todos
-os meus perigos, tinha querido acompanhar-me.</p>
-
-<p>Chegados á altura de Santos, encontrámos uma corveta
-imperial, que durante dois dias, nos deu caça inutilmente.
-No segundo dia aproximamo-nos da ilha do
-<i>Abrigo</i> onde tomámos duas sumacas carregadas de arroz.
-Continuámos o cruzeiro e fizemos mais algumas prezas.
-Oito dias depois da nossa partida dirigi-me para o lago.</p>
-
-<p>Não sei porque, tinha um sinistro presentimento do
-que ali se passava, visto que antes da nossa partida já
-um certo descontentamento se manifestava contra nós.
-Estava além d'isso prevenido da aproximação d'um corpo
-consideravel de tropas, commandadas pelo general Andréa
-a quem a pacificação do Pará, tinha dado uma grande
-reputação.</p>
-
-<p>Na altura da ilha de Santa Catharina, quando voltavamos,
-encontrámos um patacho de guerra brasileiro.&mdash;Tinha
-unicamente comigo dous navios o <i>Rio Pardo</i> e o
-<i>Seival</i>, porque a <i>Cassapara</i> havia muitos dias que se tinha
-separado de nós por causa d'um grande nevoeiro. Quando
-descobrimos o navio inimigo estava na nossa prôa, por
-isso não havia meio de o evitar. Navegámos então direitos
-a elle e o atacámol-o resolutamente. Começámos o fogo
-e o inimigo respondeu-nos, mas este combate teve um
-exito mediocre por causa do muito mar.&mdash;O seu resultado
-<span class="pagenum" id="Page_88">88</span>
-foi a perda de algumas das nossas presas, porque os
-seus commandantes assustados pela superioridade do inimigo
-baixaram os pavilhões.&mdash;Outros deram á costa.</p>
-
-<p>Uma só das nossas presas foi salva. Era capitaneada
-por Ignacio Bilbáo, o nosso bravo biscainho que o conduzio
-a Imbituba, que então se achava em nosso poder. O
-<i>Seival</i> tendo a peça desmontada e fazendo agua, tomou
-o mesmo caminho, e eu fui obrigado a seguil-os por
-que estava com mui poucas forças para andar só no mar.</p>
-
-<p>Entrámos em Imbituba, impellidos pelo nordeste. Com
-este vento era-nos impossivel entrar no lago e com certeza
-os navios imperiaes estacionados em Santa Catharina,
-informados pelo <i>Andorinha</i>, assim se chamava o navio
-de guerra com que tinhamos combatido, não tardariam
-a vir atacar-nos; era pois necessario prepararmo-nos
-para o combate. O canhão desmontado do <i>Seival</i> foi içado
-n'um promontorio que fechava a bahia do lado do levante,
-e ahi construimos uma bateria coberta com cestões.</p>
-
-<p>Com effeito no dia seguinte ao apparecer da aurora
-vimos tres navios dirigindo-se para nós. O <i>Rio Pardo</i>,
-começou então um combate mui desigual, porque os imperiaes
-nos eram mui superiores em numero.</p>
-
-<p>Havia querido desembarcar Annita, mas ella não tinha
-consentido, e como do fundo da minha alma admirava
-a sua coragem e me achava orgulhoso pelo seu valor,
-cedi aos seus rogos.</p>
-
-<p>O inimigo favorecido na sua manobra pelo vento que
-então fazia, manteve-se á véla canhoneando-nos furiosamente.
-Podia d'esta maneira aproveitar todos os seus canhões
-dirigindo todo o seu fogo contra a nossa goleta.
-Nós, pelo nosso lado, combatiamos com a mais obstinada
-resolução e como estavamos tão perto que nos podiamos
-servir das nossas clavinas; as perdas eram de parte a parte
-importantes. As nossas comtudo eram mais numerosas em
-razão da inferioridade numerica, e a coberta ja se achava
-cheia de mortos e feridos. Apesar de tudo isto, apesar
-do flanco do nosso navio estar crivado de ballas, da
-nossa mastreação ter avaria, estavamos resolvidos a não
-ceder deixando-nos matar até ao ultimo. É verdade que
-eramos conservados n'esta resolução pela vista da amazona
-brasileira que estava a bordo. Annita, que, como
-<span class="pagenum" id="Page_89">89</span>
-ja disse, não havia querido desembarcar, tinha tambem tomado
-parte no combate, e com a clavina na mão coadjuva-nos
-admiravelmente. Eramos tambem, devo dizel-o,
-perfeitamente sustentados pelo bravo Manuel Rodrigues,
-commandante da nossa bateria de terra.</p>
-
-<p>O inimigo estava mui encarniçado especialmente contra
-a goleta. Muitas vezes durante este combate, aproximou-se
-tanto que julguei hia abordal-a, o que me dava
-muito prazer, porque estavamos preparados para tudo.</p>
-
-<p>No fim de cinco horas de uma lucta terrivel, o inimigo,
-com grande admiração nossa, retirou-se. Soubemos
-depois que a morte do capitão da <i>Bella-Americana</i> tinha
-sido a causa.</p>
-
-<p>Tive durante este combate uma das mais vivas e crueis
-emoções da minha vida. Annita achava-se de sabre em
-punho em cima do tombadilho animando os meus homens.
-Repentinamente uma balla a derribou e a dous dos meus
-camaradas. Corri para ella, julgando não encontrar mais
-que um cadaver, mas Annita levantou-se sãa e salva; os
-dous homens estavam mortos; suppliquei-lhe então que
-descesse para a camara.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, vou descer, me disse ella, mas é para enxutar
-os poltrões que lá se foram esconder.</p>
-
-<p>E bem depressa tornou a apparecer trazendo adiante
-de si dous ou tres marinheiros envergonhados por serem
-menos bravos que uma mulher.</p>
-
-<p>Passámos o resto do dia a sepultar os mortos e a reparar
-as avarias, que não eram pequenas, causadas á goleta
-pelo fogo do inimigo. No dia seguinte os imperiaes
-não appareceram, porque sem duvida se preparavam para
-algum novo ataque; vendo isto embarcámos o nosso canhão
-e levantando ancora pela noite, dirigimo-nos para
-o lago.</p>
-
-<p>Quando o inimigo deu pela nossa partida, começou a
-perseguir-nos, mas só no dia seguinte é que nos poude
-enviar algumas ballas que não nos causaram prejuizo algum.
-Entrámos, pois, sem outro incidente no lago onde
-fomos festejados pelos nossos que se admiravam de termos
-escapado a um inimigo tão superior em numero.</p>
-
-<div class="pagenum" id="Page_90">90</div>
-
-<h2 id="cap_26">XXVI<br />
-SAQUE DE IMERUI</h2>
-
-<p>Outros acontecimentos nos esperavam no lago.</p>
-
-<p>Como o inimigo continuava a avançar por terra, e em
-tal numero que era loucura o tentar resistir-lhe, e como
-por outro lado as nossas tolices e brutalidades nos tinham
-indisposto com os habitantes de Santa Catharina
-que estavam promptos a revoltarem-se e a reunirem-se
-aos imperiaes, tendo-se já rebellado a cidade de Imerui,
-situada na extremidade do lago, foi-me determinado pelo
-general Canavarro que fosse castigar este desgraçado
-paiz, pelo ferro e pelo fogo: vi-me obrigado obedecer a
-esta ordem.</p>
-
-<p>Como os habitantes e a guarnição tinham feito preparativos
-de defeza pelo lado do mar, desembarquei então
-a tres milhas de distancia, e assaltei-os, no momento
-em que menos o esperavam, pelo lado da montanha. Surprehendida
-e batida a guarnição, foi posta em fuga, achando-nos
-senhores da cidade.</p>
-
-<p>Desejo não só para mim, para todos os individuos, o
-não receber uma ordem igual á que eu tinha recebido, e
-que era por tal modo terminante, que não havia meio de
-a illudir. Ainda que existam longas e prolixas relações
-de acontecimentos iguaes, julgo impossivel que a mais
-terrivel se aproxima da verdade. Deus me perdôe! mas
-não tenho em toda a minha vida, successo que me deixasse
-tão amargas recordações como o saque de Imerui.
-Ninguem póde fazer idéa do que soffri para alcançar
-que, deixando livre a pilhagem, não se attentasse contra
-a vida de pessoa alguma, limitando a destruição ás coisas
-inanimadas, alcancei o que pertendia, mas emquanto
-ás propriedades foi impossivel evitar a desordem. Nem
-a authoridade de commandante, nem os castigos poderam
-alcançar coisa alguma. Cheguei a ameaçal-os com a
-volta do inimigo.</p>
-
-<p>Espalhei o boato de que elle tendo recebido reforços
-vinha atacar-nos; mas tudo foi inutil, e na verdade, se
-<span class="pagenum" id="Page_91">91</span>
-o inimigo tornasse atraz achando-nos assim debandados
-teria-nos, sem muita difficuldade, anniquillado. Infelizmente,
-a cidade ainda que pequena, tinha muitos armazens
-cheios de vinho e licôres, de modo, que exceptuando-me,
-porque não bebo senão agua, e alguns officiaes
-que consegui conservar ao pé de mim, tudo se achava
-embriagado. Além d'isso os meus soldados eram na
-sua maioria recrutas, homens que eu apenas conhecia, e
-por conseguinte indisciplinados. Cincoenta soldados determinados
-atacando-nos de improviso teria-nos desbaratado.
-Emfim á força de ameaças e esforços consegui reembarcar
-estes animaes selvagens.</p>
-
-<p>Conduziram a bordo alguns viveres e objectos salvos
-da pilhagem, destinados á divisão e voltamos ao lago.</p>
-
-<p>Durante este tempo o coronel Teixeira com a sua
-vanguarda retirava-se diante do inimigo que avançava
-rapido e vigoroso.</p>
-
-<p>Quando chegámos ao lago, começavam a conduzir as
-bagagens á margem direita, e bem depressa os soldados
-deviam seguil-as.</p>
-
-<h2 id="cap_27">XXVII<br />
-NOVOS COMBATES</h2>
-
-<p>Tive muito que fazer no dia em que se effectuou a
-passagem da divisão para a margem meridional, porque,
-se o exercito era pouco numeroso as bagagens pareciam
-não ter fim.&mdash;Na parte mais estreita do rio a corrente
-redobrava de violencia.&mdash;Trabalhámos pois desde o nascer
-do sol até ao meio dia para fazer passar a divisão.</p>
-
-<p>Pelo meio dia começou a apparecer a flotilha inimiga,
-composta de vinte e duas vélas. Combinavam os seus
-movimentos com a tropa de terra, e traziam a bordo além
-de equipagem grande numero de soldados. Subi á montanha
-mais proxima para observar o inimigo, e vi immediatamente
-que o seu plano era reunir as suas forças á
-entrada do lago. Dei logo parte ao general Canavarro que
-no mesmo momento deu as ordens convenientes, mas não
-obstante essas ordens os nossos homens não chegaram a
-tempo de defender a entrada do lago. Uma bateria que
-<span class="pagenum" id="Page_92">92</span>
-haviamos construido na embocadura do lago e que era
-dirigida pelo bravo Capotto resistiu fracamente, pois não
-tinha senão peças de pequeno calibre, e alem d'isso mal
-servidas por artilheiros inhabeis. Os nossos tres pequenos
-navios estavam reduzidos á metade da equipagem,
-porque a outra metade tendo sido mandada para terra
-para coadjuvar a passagem das tropas, não se nos juntou,
-deixando-nos sós para combater um tão temivel inimigo.</p>
-
-<p>Durante este tempo o inimigo ajudado pelo vento e
-mare vinha para nós com toda a força. Dirigi-me então
-a toda a pressa para o meu posto a bordo do <i>Rio Pardo</i>,
-onde já a minha corajosa Annita tinha começado o combate,
-apontando e dando ella mesmo fogo á peça de que
-se tinha encarregado, animando com a voz e o exemplo
-os meus companheiros um pouco atemorisados.</p>
-
-<p>O combate foi horrivel e mais mortifero que se poderia
-julgar. Tive poucos mortos, porque, como já disse,
-metade da equipagem estava em terra, mas dos seis officiaes
-que estavam nos tres navios só eu escapei são e
-salvo.</p>
-
-<p>Todas as nossas peças estavam desmontadas, mas o
-combale continuou á clavina e não cessámos de atirar
-em quanto o inimigo passou por diante de nós. Durante
-o combate Annita ficou sempre ao meu lado, no posto
-mais perigoso, não querendo nem desembarcar nem aproveitar-se
-de nenhum alivio, e despresando mesmo o inclinar-se
-como faz o homem mais bravo, quando vê a mecha
-aproximar-se do canhão inimigo.</p>
-
-<p>Soffrendo mil cuidados por a vêr exposta a tantos perigos,
-julguei encontrar um meio de affastar.</p>
-
-<p>Ordenei-lhe, foi necessario uma ordem, para me obedecer
-que fosse pedir reforço ao general dando-lhe a minha
-palavra de que se me enviasse esse reforço entraria
-no lago perseguindo os imperiaes e tratando-os de
-tal maneira que elles não pensariam em desembarcar,
-embora tivesse que largar o fogo á sua flotilha. Obriguei
-Annita a prometter-me que ficaria em terra enviando-me
-a resposta por um homem seguro; mas com bastante pesar
-meu foi Annita, que trouxe a resposta do general:</p>
-
-<p>«Não tinha soldados para me mandar, e ordenava-me
-que não largasse o fogo á esquadra inimiga, mas que
-viesse para a terra salvando as armas e munições.»</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_93">93</span>
-Obedeci. Então debaixo de um fogo que não cessou
-um momento, conseguimos fazer transportar a terra as armas
-e munições. Foi Annita quem á falta de officiaes dirigiu
-esta operação em quanto eu passando de um navio
-a outro collocava no logar mais inflamavel de cada um
-d'elles, o fogo que o devia devorar.</p>
-
-<p>Foi uma missão terrivel que me fez passar uma triplece
-revista de mortos e feridos. Era um verdadeiro açougue
-de carne humana; andava-se por cima de montões
-de cadaveres. O commandante do <i>Itaparika</i> João Henriques
-de la Laguna estava deitado no meio de dous terços
-da sua equipagem com uma balla que lhe tinha feito no
-meio do peito um buraco por onde podia entrar perfeitamente
-um braço. O pobre João Griggs tinha, como já
-disse, o corpo separado em dois por um tiro de metralha.
-Fiquei suffocado, com a vista de similhante espectaculo,
-e perguntei a mim mesmo como poderia ter escapado.</p>
-
-<p>N'um momento uma nuvem de fumo envolveu os nossos
-navios e os nossos bravos tiveram ao menos uma sepultura
-digna d'elles.</p>
-
-<p>Em quanto tinha comprido a minha obra de destruição,
-Annita pela sua parte havia cumprido a sua de salvação.
-Para transportar á praia todas as nossas armas e munições
-fez talvez vinte viagens ao navio passando constantemente
-debaixo do fogo do inimigo. Andava n'um pequeno
-barco com dois remadores, e os pobres diabos curvavam-se
-o mais possivel, para evitar as ballas.</p>
-
-<p>Annita pelo contrario na pôpa, no meio da metralha,
-estava direita e socegada como uma estatua de Pallas, e
-Deus que me cobria com uma das suas mãos, estendia-lhe
-tambem essa protecção.</p>
-
-<p>Era noite fechada quando tendo reunido todos os marinheiros
-que haviam escapado, me juntei com a nossa
-divisão, e nos retirámos para o Rio Grande seguindo o
-mesmo caminho que alguns mezes antes tinhamos atravessado
-com o coração cheio de esperança e procedidos
-pela victoria.</p>
-
-<div class="pagenum" id="Page_94">94</div>
-
-<h2 id="cap_28">XXVIII<br />
-A CAVALLO</h2>
-
-<p>No meio das peripecias da minha aventureira existencia,
-tenho tido sempre horas bem agradaveis, e ainda que
-esta em que me achava não parecesse á primeira vista fazer
-parte das que me tem deixado uma grata lembrança,
-foi ao menos cheia de emoções.</p>
-
-<p>Á testa de alguns homens, resto de tantos combatentes,
-que tinham com justa rasão merecido o titulo de bravos,
-caminhava a cavallo, orgulhoso dos vivos, orgulhoso
-dos mortos, e quasi orgulhoso de mim mesmo. Ao meu
-lado hia a rainha da minha alma, a mulher digna de toda
-a admiração. Estava lançado n'uma carreira mais attrahente
-do que a de marinha: que me importava pois,
-como o philosopho grego, não possuir senão o que tinha
-comigo? Que me importava servir uma republica pobre,
-que não pagava a ninguem, e de que ainda que fosse rica,
-eu não teria acceitado cousa alguma? Não tinha ao lado
-um sabre, uma clavina passada atravez do arção do meu
-cavallo? Não tinha perto de mim Annita, o meu thesouro,
-caracter tão ardente como o meu pela liberdade dos povos?
-Não encarava ella os combates como um divertimento,
-como uma simples distracção? O futuro sorria-me
-sempre afortunado, e quanto mais se me apresentavam
-selvagens e desertas as solidões americanas, mais deliciosas
-e bellas me pareciam.</p>
-
-<p>Continuámos a retirar para as Torres, limite das duas
-provincias onde estabelecemos o nosso acampamento. O
-inimigo contentou-se em retomar o lago, não nos perseguindo.</p>
-
-<p>A divisão Cunha que vinha da provincia de S. Paulo,
-juntando-se com a divisão Andrea, dirigiam-se para
-<i>Cimo da Serra</i>, provincia da montanha pertencente ao Rio
-Grande.</p>
-
-<p>Os montanhezes nossos amigos, pediram soccorro ao
-general Canavarro, que mandou em seu auxilio uma expedição
-ás ordens do coronel Teixeira. Fizemos parte
-<span class="pagenum" id="Page_95">95</span>
-d'esta expedição. Recebidos pelos serraminhos, commandados
-pelo coronel Aranha, batemos completamente o inimigo
-em Santa Victoria. Cunha affogou-se no rio Pelatos
-e a maior parte das suas tropas ficou prisioneira.</p>
-
-<p>Esta victoria poz debaixo do dominio da republica as
-duas provincias de Vaccaria e das Lages, e nós entramos
-em triumpho na principal povoação d'esta ultima.</p>
-
-<p>A noticia da invasão imperial tinha feito acordar o
-partido brasileiro, e Mello, chefe inimigo, tinha enviado
-a esta provincia o seu corpo de cavallaria, composto quasi
-de quinhentos homens.</p>
-
-<p>O general Bento Manoel, encarregado de o atacar
-não o tinha podido fazer por causa da sua retirada, contentando-se
-em enviar o coronel Portinko em perseguição
-de Mello que se dirigia sobre S. Paulo.</p>
-
-<p>A posição que occupavamos e as nossas forças, permettia-nos
-não só oppor-nos á passagem de Mello, mas
-tambem de o anniquillar. Mas a fortuna não o quiz: o
-coronel Teixeira incerto se o inimigo vinha por Vaccaria
-ou por Coritibani, dividiu a sua tropa em dois corpos,
-enviando o coronel Aranha a Vaccaria com a melhor cavallaria,
-em quanto que nós com a infanteria e só com
-alguns soldados de cavallaria, tirados quasi todos dos prisioneiros
-inimigos, nos dirigimos para Coritibani. Foi este
-o caminho que tomou o inimigo.</p>
-
-<p>Esta divisão das nossas forças foi-nos fatal: a recente
-victoria, o caracter ardente do nosso chefe, e as noticias
-que tinhamos do inimigo fizeram com que o desprezassemos
-mais do que merecia.</p>
-
-<p>Em tres dias de marcha chegámos a Coritibani, e
-acampámos a pouca distancia de Maromba por onde julgavamos
-que deviam passar os imperiaes. Collocamos um
-posto na praia e sentinellas nos sitios que julgamos convenientes,
-e ficamos mui descançados.</p>
-
-<p>Em quanto a mim, o habito que tinha d'estas guerras
-fez com que, como se costuma dizer, dormisse com
-um olho aberto e outro fechado.</p>
-
-<p>Pela meia noite o posto que se achava na praia, foi
-atacado e com tanta furia que os nossos soldados tiveram
-apenas tempo de fugir trocando alguns tiros com o inimigo.</p>
-
-<p>Quando senti o primeiro tiro puz-me logo a pé dando
-<span class="pagenum" id="Page_96">96</span>
-o grito de «Ás armas.» Em poucos minutos todos estavamos
-promptos para o combate. Algum tempo depois
-de nascer o dia o inimigo appareceu, e tendo passado o
-rio parou a alguma distancia formado em batalha. Vendo
-o numero superior do inimigo o coronel Teixeira deveria
-ter expedido correios para chamar em seu auxilio a segunda
-divisão, mas Teixeira temendo que elle se retirasse
-sem ter occasião de combater, lançou-se no combate
-importando-se pouco da sua inferioridade numerica
-e da posição vantajosa que o inimigo occupava.</p>
-
-<p>Este aproveitando-se das irregularidades do terreno tinha
-estabelecido a sua linha de batalha n'uma collina
-mui elevada, diante da qual existia um vale profundo
-obstruido por muitos abrolhos tinha além d'isso embuscado
-nos seus flancos alguns pelotões. Teixeira ordenou o
-ataque que começou com todo o vigor. O inimigo então
-fingiu retirar-se. Os nossos soldados começaram a perseguil-os
-sem cessar a fazillaria, mas repentinamente foram
-atacados pelos pelotões embuscados que elles não tinham
-visto e que tomando-os pelos flancos os obrigaram
-a passar o vale em desordem. Perdemos n'este combate
-um dos nossos melhores officiaes, Manoel N...... que era
-mui estimado pelo chefe. A nossa linha, bem depressa organisada
-de novo atacou o inimigo com tal impetuosidade,
-que foi posto em retirada.</p>
-
-<p>O numero de mortos e feridos de parte a parte foi
-pouco numeroso, porque as tropas que tomaram parte no
-combate foram diminutas.</p>
-
-<p>O inimigo retirou-se com precipitação e nós fomos em
-sua perseguição com grande encarniçamento. Infelizmente
-como tinhamos pouca cavallaria não podémos perseguir
-a sua que fugia a todo a galope. Aproximando-se do
-<i>Passo de Maromba</i> o chefe da nossa vanguarda o major
-Jacintho participou ao coronel que o inimigo fazia passar
-em uma grande desordem o rio aos seus bois e cavallos,
-o que provava de que elle queria continuar a retirar-se.
-Teixeira não hesitou um momento; ordenou ao
-nosso pequeno esquadrão que mettesse a galope, recommendando-me
-que o seguisse o mais de perto possivel
-com a minha infanteria.</p>
-
-<p>A retirada do inimigo não era comtudo senão uma
-astucia, e infelizmente esta astucia teve para nós terriveis
-<span class="pagenum" id="Page_97">97</span>
-resultados. Por causa das irregularidades do terreno
-e pela precipitação com que o tinha atravessado o
-inimigo achou-se fóra da nossa vista e chegando ao rio,
-havia, como nos tinha participado o major Jacintho, passado
-para a outra banda os bois e cavallos, mas os soldados
-tinham ficado occultos por detraz de collinas que os
-escondiam completamente á nossa vista.</p>
-
-<p>Tomadas estas precauções e tendo deixado um pelotão
-para sustentar a sua linha de atiradores, os imperiaes,
-sabendo da nossa imprudencia em deixar a infanteria na
-retaguarda, fizeram uma contra-marcha e repentinamente
-os seus esquadrões appareceram no cimo de um valle.</p>
-
-<p>O nosso pelotão que perseguia o inimigo na sua fuga
-simulada, foi o primeiro a conhecer o laço, mas infelizmente
-não teve tempo para o evitar. Atacado pelos flancos
-foi completamente destroçado. Os tres outros esquadrões
-de cavallaria tiveram a mesma sorte, não obstante a coragem
-e resolução de Teixeira e de alguns de nossos officiaes
-do Rio Grande: em alguns momentos a nossa cavallaria
-estava espalhada em todas as direcções.</p>
-
-<p>Os soldados de cavallaria eram, como já disse, na sua
-maioria, prisioneiros de Santa Victoria, e tinhamos feito
-mal em contar tanto com elles, porque na realidade não
-podiam ser muito affeiçoados á nossa causa, e além d'isso
-sendo soldados novos vindos da provincia, estavam pouco
-acostumados a andar a cavallo. Assim logo que teve logar
-o primeiro choque, fugiram.</p>
-
-<p>Montado n'um excellente cavallo, depois de ter excitado
-a minha infanteria a marchar o mais rapidamente
-possivel, tinha-lhe tomado a frente e chegado ao alto de
-uma collina, d'ahi vi o triste resultado d'este combate.</p>
-
-<p>Os meus infantes fizeram todo o possivel para chegar a
-tempo, mas tudo foi em vão. Do alto da eminencia onde me
-achava julguei que era muito tarde para que elles nos podessem
-dar a victoria, mas muito cedo para ainda a não
-julgarmos perdida.&mdash;Chamei uma duzia dos meus antigos
-companheiros, os mais ligeiros e mais bravos, e deixando
-o major Peixoto encarregado dos restantes, tomei
-com este punhado de valentes, uma forte posição no cimo
-d'uma collina fortificada por muitas arvores.&mdash;D'ahi
-fizemos frente ao inimigo, que conheceu que ainda não
-era totalmente vencedor, e servimos de ponto de apoio
-<span class="pagenum" id="Page_98">98</span>
-aquelles dos nossos que não tinham perdido completamente
-a coragem.&mdash;O coronel veiu para o nosso lado com
-alguns cavallos depois de ter obrado milagres de coragem.&mdash;O
-resto de infanteria uni-se-nos então e a defeza
-começou terrivel e mortifera.</p>
-
-<p>Fortes na nossa posição e no numero de setenta e tres
-lutamos com vantagem. O inimigo tendo falta de infanteria
-e pouco habituado a combater contra esta arma dava
-cargas inutilmente: quinhentos homens de excellente
-cavallaria, brilhante e orgulhosa pela victoria cançaram-se
-inutilmente diante de um punhado de homens sem
-alcançar vantagem alguma. Comtudo apesar d'esta vantagem
-momentanea era necessario não dar ao inimigo tempo
-de reunir as suas forças, de que a metade estava ainda
-empregada a perseguir os nossos fugitivos, e sobre tudo
-era necessario procurar um refugio mais seguro do que
-aquelle em que nos achavamos.&mdash;Uma floresta se nos
-apresentava á vista na distancia de quasi uma milha; começámos
-então a nossa retirada dirigindo-nos para ella.&mdash;Em
-vão o inimigo tentava romper o nosso quadrado,
-em vão nos dava repetidas cargas, quando o terreno o permettia,
-tudo foi inutil.</p>
-
-<p>Foi para nós uma grande fortuna, o estarem os officiaes
-armados de clavinas, e como todos eramos homens
-aguerridos, conservamo-nos unidos fazendo face ao inimigo
-por qualquer lado que se apresentava e recuando
-em excellente ordem, fazendo um fogo terrivel e bem dirigido,
-ganhámos o nosso refugio onde o inimigo não se
-atreveu a penetrar. Uma vez na floresta encontrámos um
-claro e sempre unidos e de fuzil na mão, esperámos pela
-noute.</p>
-
-<p>O inimigo gritava-nos a todos os momentos&mdash;<i>Rendam-se</i>,
-mas nós só lhe respondiamos com o silencio.</p>
-
-<h2 id="cap_29">XXIX<br />
-A RETIRADA</h2>
-
-<p>Chegada a noute preparámo-nos para partir, sendo
-o nosso disignio o tomar novamente o caminho das Lages.
-<span class="pagenum" id="Page_99">99</span>
-A maior difficuldade que tinhamos a vencer, era o
-transportar os feridos. O major Peixoto não nos podia coadjuvar,
-porque tinha um pé atravessado por uma balla.</p>
-
-<p>Pelas dez horas da noute, estando os feridos accommodados
-o melhor possivel, começámos a nossa marcha,
-abandonando o crado e seguindo a linha da floresta,
-que sendo a maior que existe talvez no mundo, se estende
-do rio Prata aos Amazonas, coroando os cumes da serra
-Espinasso, sobre uma extensão de trinta graus de latitude:
-não conheço a sua extensão em longitude, mas
-deve ser immensa.</p>
-
-<p>As tres provincias de Cima da Serra, Vaccaria e Lages,
-são segundo julgo ter já dito situadas no crados
-d'esta floresta. Coritibani, especie de colonia, estabelecida
-pelos habitantes de Coritiba situada no districto das
-Lages, provincia de Santa Catharina era o theatro do
-episodio que estou contando: costeavamos pois o nosso
-bosque isolado, para nos aproximarmos o mais possivel da
-floresta, tratando de nos juntarmos á divisão de Aranha,
-que se havia infelizmente separado de nós.</p>
-
-<p>Á sahida do bosque aconteceu-nos um d'esses successos
-que provam como o homem é filho das circumstancias e
-o poder que tem um terror panico ainda sobre os mais
-corajosos. Marchavamos em silencio, como convinha á nossa
-situação dispostos a combater o inimigo se se oppozesse
-á nossa retirada. Um cavallo que se achava na durela da
-floresta sentindo a pouca bulha que faziamos tomou medo
-e fugiu.</p>
-
-<p>Ouviu-se então gritar uma voz:</p>
-
-<p>&mdash;É o inimigo!</p>
-
-<p>No mesmo momento os setenta e tres homens que tinham
-resistido a quinhentos com tanta coragem que se
-podia dizer que haviam sido os vencedores, tomáram medo
-e começaram a fugir dispersando-se de tal modo que
-foi uma felicidade o não ter algum dos nossos acordado o
-inimigo dando-lhe o signal de alarme.</p>
-
-<p>Consegui com muito trabalho reunir alguns d'elles ao
-qual pouco a pouco se foi juntando o resto, de modo que
-ao raiar da aurora estavamos na aurela da floresta dirigindo-nos
-para as Lages.</p>
-
-<p>O inimigo que não havia dado pela nossa fuga, procurou-nos
-inutilmente no dia seguinte.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_100">100</span>
-No dia do combate o perigo tinha sido grande, a fadiga
-enorme, a fome imperiosa, a sede ardente, mas era
-necessario combater, combater pela vida e esta idéa dominava
-todas. Mas uma vez na floresta tudo mudou. Faltavam
-todas as coisas e a miseria não tendo a distracção
-do perigo fez-se sentir terrivel, cruel, insupportavel. A
-falta de viveres, o abatimento de todos, as feridas de alguns,
-e a carencia dos meios de as tratar, lançaram-nos
-na desanimação.</p>
-
-<p>Ficámos quatro dias sem encontrar senão raizes e julgo
-desnecessario descrever a fadiga que tivemos para achar
-n'esta floresta um caminho onde não existia o mais pequeno
-atalho e onde a natureza mui fecunda faz a cada
-passo encontrar barrancos enormes.</p>
-
-<p>Alguns dos meus homens desertaram desesperados e
-tivemos grande trabalho para os juntarmos e impor-lhes
-respeito. Não existia senão um unico recurso para dissipar
-esta desanimação e fui eu que o encontrei. Disse a todos
-que lhe dava a liberdade de se retirarem para onde quizessem,
-ou de continuarem a marchar unidos e em corpo,
-protegendo os feridos e defendendo-se mutuamente.
-O remedio foi efficaz. Desde que cada um foi livre de fazer
-o que quizesse ninguem pensou mais em desertar e a
-confiança voltou a todos.</p>
-
-<p>Cinco dias depois do combate encontrámos uma <i>picada</i>,
-atalho de largura d'um homem, e raras vezes de dois
-que nos conduziu a uma casa onde nos refrescámos matando
-dois bois.</p>
-
-<p>Continuámos o nosso caminho para as Lages onde
-chegámos n'um dia de perfeito inverno.</p>
-
-<h2 id="cap_30">XXX<br />
-ESTADA NAS LAGES E NOS ARRABALDES</h2>
-
-<p>Este bom paiz das Lages que nos tinha festejado tanto,
-quando eramos victoriosos, havia quando recebeu a
-noticia da nossa derrota mudado de opinião, e alguns dos
-mais resolutos tinham restabelecido o poder imperial. Estes
-fugiram á nossa aproximação, e como a maior parte
-<span class="pagenum" id="Page_101">101</span>
-d'elles eram negociantes, tinham deixado os seus armazens
-providos de muitos objectos. Foi uma providencia, por
-que julgámos poder sem remorsos aproveitar-nos das mercadorias
-dos nossos inimigos, e graças á variedade do
-commercio que exerciam melhorar muito a nossa posição.</p>
-
-<p>Entretanto Teixeira escreveu a Aranha ordenando-lhe
-que se nos unisse, tendo por este tempo a noticia da chegada
-do coronel Portinko que tinha sido enviado por Bento
-Manoel para seguir esse mesmo corpo de Mello, encontrado
-desgraçadamente por nós em Coritibani.</p>
-
-<p>Tinha servido sinceramente na America a causa dos
-povos, e havia lá sido como na Europa o adversario do
-absolutismo. Tenho algumas vezes admirado os homens,
-muitas lamentado, mas nunca odeado. Quando os tenho encontrado
-egoistas e tratantes, tenho posto o seu egoismo
-e trantantisse de parte, mettendo-o na conta da nossa desgraçada
-natureza. Como estou afastado duas mil leguas
-do logar onde estes acontecimentos tiveram logar, e já
-são passados doze annos póde-se por isso acreditar na
-minha imparcialidade. Digo-o tanto pelos meus amigos como
-pelos meus inimigos; eram intrepidos filhos do continente
-americano.</p>
-
-<p>Era uma audaciosa empreza o defender Lages contra
-um inimigo dez vezes superior, e além d'isso orgulhoso pela
-recente victoria. Separados d'elle pelo rio Canoas, que
-nós não tinhamos podido guarnecer sufficientemente, esperámos
-durante muitos dias a juncção de Aranha e Portinko,
-e durante este periodo o inimigo foi sustentado por
-um punhado de homens, atacando-o logo que nos chegaram
-os reforços, mas foi elle que se retirou sem acceitar
-o combate para a provincia visinha de S. Paulo, aonde
-esperava encontrar um poderoso soccorro.</p>
-
-<p>Foi n'esta circumstancia que eu verifiquei os vicios geralmente
-imputados ao exercito republicano, que se compunha
-de homens cheios de patriotismo e coragem, mas
-que não ficam juntos ás bandeiras, senão quando o inimigo
-os ameaça, abandonando-as quando este se affasta.
-Este costume foi quasi a nossa ruina, e poderia causar a
-nossa perda n'estas circumstancias, porque se o inimigo
-tivesse mais paciencia, teria podido destruir-nos totalmente.</p>
-
-<p>Os serraminos foram os primeiros a abandonar as fileiras.
-Os soldados de Portinko em breve os seguiram.
-<span class="pagenum" id="Page_102">102</span>
-Note-se bem que os desertores não só levavam os seus cavallos,
-mas os da divisão. Em poucos dias as nossas forças
-se separaram com tanta rapidez que fomos obrigados
-a abandonar Lages, retirando-nos para a provincia do Rio
-Grande, temendo a presença d'esse inimigo, que tinha sido
-obrigado a fugir diante de nós, e de que a fuga nos
-tinha feito vencedores.</p>
-
-<p>Que estes exemplos sirvam aos povos que querem ser
-livres, e que não é com flores, festas e illuminações que
-se combatem os soldados aguerridos do despotismo, mas
-com soldados mais disciplinados e mais aguerridos do que
-elles, não querendo para generaes os que não são capazes
-de disciplinar um povo depois de o haver sublevado.</p>
-
-<p>É verdade que tambem ha povos que não merecem a
-pena de serem sublevados: a gangrena não tem cura.</p>
-
-<p>O resto das nossas forças assim dissimadas&mdash;quando
-estavam privadas das cousas mais necessarias e principalmente
-de vestidos&mdash;privação terrível na aproximação do
-inverno sombrio e rude n'estas regiões elevadas,&mdash;o resto
-das nossas forças, começou a desmoralisar-se e a pedir para
-se retirarem para suas casas. Teixeira foi obrigado a
-ceder a essa exigencia, e ordenou-me de descer a montanha
-e de me reunir ao exercito, em quanto se preparava
-a fazer outro tanto. Esta retirada foi rude por causa da escabrosidade
-dos caminhos e das hostilidades occultas dos habitantes
-da floresta, inimigos encarniçados dos republicanos.</p>
-
-<p>Em numero de setenta, pouco mais ou menos, descemos
-a <i>Picada di Peloffo</i>&mdash;já disse o que era uma picada&mdash;e
-tivemos que affrontar emboscadas repetidas e imprevistas
-que nós atravessamos com uma felicidade incrivel
-devida á resolução dos homens que eu commandava,
-e um pouco á confiança que geralmente inspiro aos que
-me seguem. O atalho que atravessavamos era tão estreito
-que unicamente podiam passar dois homens a par, e como
-o inimigo era nascido no paiz, por isso conhecedor
-do terreno, emboscava-se nos sitios mais favoraveis, rodeando-nos
-e dando gritos horriveis, em quanto que um
-circulo de chammas nos cercava, sem que nós podessemos
-vêr os atiradores, que felizmente faziam mais barulho do
-que obra. De resto a união que os meus homens tiveram
-no perigo foi tal que apenas alguns foram feridos, tendo
-só um cavallo morto.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_103">103</span>
-Estes acontecimentos fazem recordar as florestas encantadas
-de Tasso, aonde as arvores viviam.</p>
-
-<p>Chegámos então a <i>Mala-Casa</i> aonde se achava Gonçalves,
-que reunia as funcções de presidente ás de general
-em chefe.</p>
-
-<h2 id="cap_31">XXXI<br />
-BATALHA DE TAQUARI</h2>
-
-<p>O exercito republicano preparava-se para se pôr em
-marcha. O inimigo depois da derrota de Rio Pardo, tinha-se
-refeito em Porto Alegre, d'onde tinha sahido debaixo
-das ordens do velho general Georgio, e havia estabelecido
-o seu acampamento nas praias de Cahé, aonde
-esperava a juncção do general Calderon, que com um
-corpo consideravel de cavallaria se lhe devia reunir.</p>
-
-<p>O grande inconveniente da dispersão das tropas republicanas
-quando não estavam em face do inimigo, dava-lhe
-facilidade em tudo que elle queria emprehender,
-de modo que no momento em que o general Netto, que
-commandava as forças, teve reunido um numero sufficiente
-de soldados para bater Calderon, este tinha já reunido
-no Cahe a maior parte do exercito imperial.</p>
-
-<p>Era absolutamente indispensavel ao presidente se queria
-bater o inimigo, o reunir-se á divisão Netto, e foi por
-isto que elle levantou o cerco. Esta manobra e a juncção
-que se lhe seguiu, tiveram um feliz resultado e fizeram
-grande honra á capacidade militar de Bento Gonçalves.
-Partimos de Mala-Casa com o exercito, tomando a direcção
-de Leopoldo, passando a duas milhas das forças inimigas,
-e depois de dous dias e duas noites de marcha
-continua, nas quaes quasi que não comemos nem bebemos
-chegámos perto de Taquari onde encontrámos o
-general Netto que nos procurava.</p>
-
-<p>Disse que haviamos passado quasi sem comer, e disse
-a verdade. Logo que o inimigo soube da nossa aproximação,
-marchou resolutamente ao nosso encontro e muitas
-vezes nos alcançou em quanto descançavamos um momento
-e estavamos occupados a assar alguma carne, nosso
-<span class="pagenum" id="Page_104">104</span>
-unico alimento. Por dez vezes estando a comida quasi
-prompta as sentinellas gritavam ás armas, e era por isso
-necessario ir combater em logar de jantar ou almoçar.
-Emfim fizemos alto em Pinheirinho a seis milhas de
-Taquari, e ahi tomámos todas as disposições para o combate.</p>
-
-<p>O exercito republicano forte de mil homens de infanteria
-e cinco mil de cavallaria, occupava as alturas do Pinheirinho,
-montanha coberta de pinhos, como indica o
-seu nome, pouco elevada, mas dominando as montanhas
-visinhas. A infanteria estava no centro commandada pelo
-velho coronel Crezungio. A ala direita obedecia ao general
-Netto e a ala esquerda a Canavarro. As duas alas
-eram compostas unicamente de cavallaria que sem exaggeração
-era a melhor do mundo. A infanteria era tambem
-excellente, e o desejo de começar o combate era
-geral.</p>
-
-<p>O coronel Santo Antonio formava a reserva com um
-corpo de cavallaria.</p>
-
-<p>O inimigo do seu lado tinha quatro mil homens de
-infanteria, tres mil de cavallaria e algumas peças. Estava
-do outro lado da pequena torrente que nos separava
-e a sua apparencia era longe de ser miseravel. O exercito
-compunha-se das melhores tropas do imperio commandadas
-por um general velho e experimentado.</p>
-
-<p>O general inimigo tinha até então marchado ardentemente
-em nossa perseguição, e havia tomado todas as
-posições para um ataque em quanto as suas peças metralhavam
-a nossa cavallaria. Os nossos valentes da primeira
-brigada ás ordens de Netto, tinham tirado os sabres da
-bainha e não esperavam senão pelo signal para se lançarem
-aos dous batalhões que tinham atravessado a corrente.
-Estes bravos estavam convencidos que ficavam victoriosos
-porque nunca nem elles nem Netto tinham sido
-batidos. A infanteria collocada em divisões no alto da colina,
-e coberta pelas curvas do terreno, estava anciosa pelo
-momento do combate.</p>
-
-<p>Os terriveis lanceiros de Canavarro tinham já feito um
-movimento envolvendo o flanco direito do inimigo, obrigando-o
-por isso a mudar de posição, mudança que se
-tinha feito em desordem.</p>
-
-<p>Este corpo de lanceiros composto na sua maioria de
-<span class="pagenum" id="Page_105">105</span>
-negros libertos da republica, e escolhidos entre os melhores
-domadores de cavallos de provincia, tinha unicamente
-os officiaes superiores brancos, e nunca o inimigo
-tinha visto as costas d'estes filhos da liberdade. As suas
-lanças que eram maiores do que o ordinario, os seus rostos
-pretos como azeviche, os seus robustos membros e a
-sua perfeita disciplina tornava-os o terror dos inimigos.</p>
-
-<p>A voz animadora do chefe já havia feito tremer todos
-aquelles corações. «Que todos combatam como se
-tivessem quatro corpos para defender a patria e quatro
-almas para a amar, havia dito esse valente, que tinha
-todas as qualidades de um grande capitão menos a felicidade.</p>
-
-<p>Quanto a nós sentiamos, por assim dizer, as palpitações
-da batalha, e tinhamos a certeza de ganhar a victoria.
-Nunca em minha vida tinha visto um mais bello,
-mais magnifico espectaculo. Collocado no centro da nossa
-infanteria, no alto da collina descobria todo o campo de
-batalha. As planicies sobre as quaes iam ficar tantos cadaveres,
-estavam semeadas de plantas baixas e raras, não
-fazendo pois nenhum obstaculo nem aos movimentos estrategicos
-nem ao olhar que os seguia, e podia dizer que
-aos meus pés em poucos momentos seriam resolvidos os
-destinos da maior parte do continente americano.</p>
-
-<p>Esses corpos tão compactos, tão unidos uns aos outros
-vão ser dispersos e derrotados? Todos esses homens serão
-em um momento cadaveres? Toda essa bella e vigorosa
-mocidade verá destruidas as suas mais bellas esperanças?
-Vamos! Tocae fanfarras, troae canhões, e que tudo seja
-decidido como em Zama, Pharsale e Actium.</p>
-
-<p>Mas não era ainda n'esta planicie que devia ter logar
-o combate. O general inimigo intimidado pela forte posição
-que occupavamos e pela nossa firmeza, hesitou e fez
-repassar o rio aos dois batalhões, tomando a defensiva em
-logar da offensiva. O general Caldeira tinha sido morto
-no começo do combate e d'ahi provinha, talvez, a hesitação
-de Georgio. No momento em que elle não nos atacava,
-não deviamos nós atacal-o? Tal era a opinião da maioria.
-Seriamos bem succedidos? Travando-se o combate
-nas condições primitivas e conservando a nossa excellente
-posição todas as probabilidades eram por nós,
-mas abandonando-as para seguir um inimigo que nos era
-<span class="pagenum" id="Page_106">106</span>
-quatro vezes superior em infanteria, era necessario dar a
-batalha no outro lado da corrente.</p>
-
-<p>Era escabroso, ainda que tentador.</p>
-
-<p>Passámos todo o dia em frente do inimigo, fazendo
-conjecturas e disparando alguns tiros.</p>
-
-<p>Tinham-se-nos acabado os comestiveis, e a infanteria
-principalmente soffria muito com essa falta. A agua
-tambem se nos tinha acabado, e a sua falta era-nos mais
-sensivel que a dos viveres. Á nossa vista existia uma
-grande quantidade d'agua, mas que infelizmente se achava
-em poder do inimigo. Por fortuna os nossos soldados estavam
-habituados a soffrer toda a sorte de privações, e por
-isso uma só queixa sahia dos seus labios&mdash;era a demora
-em começar o combate.</p>
-
-<p>Ó italianos, italianos, no dia em que sejaes unidos e
-sobrios, no dia em que possaes soffrer todas as privações
-como os habitantes do continente americano, o estrangeiro,
-estae certo, não escravisará a vossa patria, nem enxovalhará
-os vossos lares. N'esse dia a Italia terá retomado
-o seu logar não só no meio; mas á frente das nações
-do universo.</p>
-
-<p>Durante a noite o velho general Georgio tinha desapparecido,
-e ao raiar da aurora foi em vão que o procurámos;
-só ás dez horas, quando se dissipou o forte nevoeiro,
-foi que o avistámos nas posições de Taquari.</p>
-
-<p>Pouco tempo depois fomos avisados de que a sua cavallaria
-atravessava o rio. Os imperiaes estavam pois em
-completa retirada, era necessario atacal-os e o nosso general
-não hesitou.</p>
-
-<p>A cavallaria inimiga havia atravessado o rio, protegida
-por alguns dos navios imperiaes, mas a infanteria
-tinha ficado na margem esquerda, protegida por esses
-mesmos navios e pela floresta, sendo por isso a sua posição
-a mais vantajosa possivel. A nossa segunda brigada
-de infanteria, composta do terceiro e vigessimo batalhão,
-era a destinada a começar o combate, effectuando-o com
-a sua costumada bravura. Mas o inimigo era tão superior
-em numero que estes bravos, depois de terem praticado
-prodigios de valor, foram obrigados a retirarem-se, sustentados
-pela segunda brigada e primeiro batalhão de artilharia&mdash;sem
-canhões&mdash;e de marinha. O combate foi
-terrivel, especialmente na floresta onde o estrondo da fuzilaria
-<span class="pagenum" id="Page_107">107</span>
-e arvores despedaçadas, no meio d'um espesso fumo,
-parecia o d'uma infernal tempestade.</p>
-
-<p>De cada lado não contámos menos de quinhentos mortos
-e feridos. Os cadaveres dos nossos valentes republicanos
-foram até encontrados na ribanceira do rio, para
-onde elles tinham arrojado o inimigo. Infelizmente estas
-perdas foram sem resultado relativamente á sua importancia,
-porque logo que começou a retirada da segunda
-brigada a batalha finalisou.</p>
-
-<p>Tendo chegado a noite o inimigo pôde tranquillamente
-acabar de passar o rio.</p>
-
-<p>No meio das brilhantes qualidades, das quaes julgo
-ter já fallado, citarei alguns dos deffeitos do general Bento
-Gonçalves: o mais deploravel d'entre elles era uma
-certa hesitação, razão provavel dos resultados funestos
-das suas operações. Teria sido melhor que em logar de lançar
-esses quinhentos homens tão inferiores em numero
-aos que elles atacavam, tivessem enviado não só toda a
-infanteria, mas tambem a sua cavallaria, a pé, visto que
-a difficuldade do terreno não lhe permittia combater a
-cavallo: uma tal manobra teria certamente dado em resultado
-uma esplendida victoria, e fazendo perder pé ao inimigo
-nós conseguiriamos lançal-o no rio; mas infelizmente
-o general teve receios de aventurar toda a sua infantaria,
-a unica que elle teve, e que teve a republica.</p>
-
-<p>Em todo o caso o resultado foi para nós pessimo, porque
-não sabiamos como reparar as faltas que havia soffrido
-a infanteria, arma em que o inimigo nos era mui
-superior, e se achava todos os dias recebendo novos reforços.</p>
-
-<p>O inimigo ficou na margem direita de Taquari, e por
-isso senhor de todo o campo. Nós tomámos então o caminho
-de <i>Mala-Casa</i>.</p>
-
-<p>Todas estas falsas manobras peioraram a situação da
-republica. Voltámos a S. Leopoldo e a Settembrina e depois
-ao nosso antigo acampamento de <i>Mala-Casa</i>, que foi
-abandonado em alguns dias pelo da <i>Bella-Vista</i>.</p>
-
-<p>Uma operação concebida n'este tempo pelo general,
-teria podido pôr-nos em excellente posição, se a fortuna
-tivesse, como devia, secundado os esforços d'este homem
-tão superior e tão desgraçado.</p>
-
-<div class="pagenum" id="Page_108">108</div>
-
-<h2 id="cap_32">XXXII<br />
-ASSALTO A S. JOSÉ DO NORTE</h2>
-
-<p>O inimigo, para poder fazer as suas correrias pelos
-campos, havia sido obrigado a desguarnecer de infanteria
-as suas praças fortes. Principalmente S. José do Norte
-tinha um pequeno numero de soldados.</p>
-
-<p>Esta praça, situada na margem septentrional da embocadura
-da lagôa dos Patos, era uma das chaves da provincia,
-não só commercialmente, mas politicamente; a sua
-posse teria mudado completamente a nossa posição, que
-n'esta occasião era bem aterradora; a sua tomada tornava-se,
-pois, mais que util, era necessaria. A cidade encerrava
-objectos de toda a qualidade, indispensaveis para o vestuario
-dos soldados, que do nosso lado estavam no mais
-deploravel estado. Não só por esta razão, mas tambem
-por dominar o unico porto da provincia, S. José do Norte,
-merecia que fizessemos todos os esforços para nos apoderarmos
-d'ella, mas tambem porque só d'este lado se encontrava
-a <i>atalaia</i>, isto é, o mastro dos signaes dos navios,
-que servia para lhe indicar a profundura das aguas
-na embocadura.</p>
-
-<p>N'esta expedição succedeu infelizmente o mesmo que
-tinha acontecido em Taquari. Preparada com admiravel
-sciencia e profundo segredo, perdeu-se todo o trabalho
-por se ter hesitado em dar o ultimo golpe.</p>
-
-<p>Uma marcha forçada de oito dias, a vinte e cinco milhas
-por dia, nos conduziu defronte dos muros da praça.</p>
-
-<p>Era uma d'essas noites de inverno, durante as quaes
-um abrigo e um bom fogo são um beneficio da Providencia,
-e os nossos pobres soldados da liberdade, esfaimados,
-vestidos de pedaços, tolhidos pelo frio e gelados pela chuva
-d'uma horrivel tempestade, avançavam silenciosos contra
-os fortes e trincheiras guarnecidas de soldados.</p>
-
-<p>A pouca distancia das muralhas os cavallos dos chefes
-foram confiados á guarda d'um esquadrão de cavallaria
-commandado pelo coronel Amaral, e todos nos preparámos
-para o combate.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_109">109</span>
-O <i>quem vive</i> da sentinella foi o signal do assalto, e a
-resistencia foi pequena e de pouca duração sobre as muralhas.
-Á hora e meia da manhã démos o assalto, e as
-duas horas estavamos senhores das trincheiras e de tres
-ou quatro fortes que as guarneciam, e que foram tomados
-á bayoneta.</p>
-
-<p>Senhores das trincheiras e dos fortes, tendo entrado
-na cidade parecia impossivel que ella nos escapasse. Entretanto
-ainda esta vez o que parecia impossivel nos estava
-reservado.&mdash;Uma vez dentro dos muros, uma vez
-nas ruas de S. José, os nossos soldados julgaram que tudo
-estava acabado, e a maior parte se dispersou, arrastada
-pelo appetite da pilhagem. Durante este tempo os imperiaes
-voltando a si da sua surpreza reuniram-se n'um
-bairro que se achava fortificado. Ahi os fomos atacar, mas
-repelliram-nos. Os chefes procuravam por todos os lados
-os soldados para continuar no ataque, mas era inutil,
-porque se se encontravam alguns, eram carregados dos
-despojos, ou bebados, ou tendo quebrado os fuzis á força
-de despedaçar as portas das casas.</p>
-
-<p>O inimigo do seu lado não perdia o tempo: muitos navios
-de guerra que se achavam no porto tomaram posição,
-varrendo com o fogo dos seus canhões as ruas onde nos
-achavamos. Pediu-se soccorro a Rio Grande do Sul, cidade
-situada na margem opposta da embocadura dos Patos, emquanto
-um unico forte que haviamos desprezado servia de
-refugio ao inimigo. O primeiro d'estes fortes, o do imperador,
-do qual a tomada nos tinha custado um glorioso
-e mortifero assalto, foi destruido por uma explosão terrivel
-de polvora, que nos matou bom numero de soldados.&mdash;Emfim
-o mais glorioso dos triumphos estava mudado,
-ao meio dia, na mais vergonhosa retirada, e os verdadeiros
-amigos da liberdade choravam de desesperação.</p>
-
-<p>A nossa perda, comparativamente á nossa situação,
-foi enorme.</p>
-
-<p>Desde este momento a nossa infanteria não foi senão
-um esqueleto; emquanto á pouca cavallaria que tinha
-vindo na expedição serviu para proteger a retirada.</p>
-
-<p>A divisão entrou nos seus quarteis da Bella-Vista, e
-eu fiquei em S. Simão com a marinha.</p>
-
-<p>Todos os meus soldados estavam reduzidos a quarenta
-homens, contando tambem os officiaes.</p>
-
-<div class="pagenum" id="Page_110">110</div>
-
-<h2 id="cap_33">XXXIII<br />
-ANNITA</h2>
-
-<p>O motivo da minha partida para S. Simão teve por
-fim, o mandar fazer algumas d'essas canôas, construidas
-d'um só tronco d'arvore, com a ajuda das quaes eu queria
-abrir communicações com a outra parte do lago. Mas
-durante os mezes que eu ahi fiquei, as arvores promettidas
-não chegaram, e o nosso projecto por consequencia
-não se pôde realisar. Como eu tinha um grande horror
-pela ociosidade, não podendo construir barcos, dediquei-me
-a ensinar cavallos. Em S. Simão havia uma grande
-quantidade de poltros que me serviram para fazer cavalleiros
-dos meus marinheiros.</p>
-
-<p>S. Simão era uma bella e espaçosa herdade, que se
-achava então abandonada. Pertencia ao conde de S. Simão,
-antigamente exilado, e de quem os herdeiros estavam
-tambem exilados como inimigos da republica. Eu não
-sei se elle era ainda parente do famoso conde de S. Simão,
-fundador d'essa religião de que os adeptos me tinham
-iniciado na paternidade universal; mas n'esta occasião,
-como a familia de S. Simão era considerada por
-nós como inimiga, tratámos a sua herdade como uma
-conquista; isto é, apoderámo-nos das casas para ahi habitarmos,
-e dos animaes domesticos que ahi havia para fazermos
-o nosso sustento.</p>
-
-<p>Os nossos unicos divertimentos eram ensinar os nossos
-poltros, ou, para melhor dizer, os poltros dos S. Simonnianos.</p>
-
-<p>Foi n'esta occasião que a minha chara Annita deu á
-luz o primeiro filho. Em logar de lhe dar o nome d'um
-santo, dei-lhe o nome d'um martyr.</p>
-
-<p>Chamou-se Menoti.</p>
-
-<p>Nasceu a 16 de setembro de 1840, exactamente no
-mesmo dia em que fazia nove mezes que tinha tido logar
-o combate de Santa Victoria. A sua apparição n'este
-mundo sem accidente, era um verdadeiro milagre depois
-das privações e dos perigos soffridos por sua mãe. Essas
-<span class="pagenum" id="Page_111">111</span>
-privações e esses soffrimentos de que eu ainda não fallei,
-afim de não interromper a minha narração, devem aqui
-achar logar, e é do meu dever fazer conhecer se não ao
-mundo, ao menos a alguns amigos que lerem este jornal
-a admiravel creatura que perdi.<a name="FNanchor_8" id="FNanchor_8" href="#Footnote_8" class="fnanchor">[8]</a></p>
-
-<p>Annita, como sempre, tinha querido seguir-me e havia-me
-acompanhado na campanha que acabavamos de
-fazer, e que acabo de contar.</p>
-
-<p>O leitor deve lembrar-se que reunidos aos serraminnos,
-commandados pelo coronel Aranha, nós batemos em
-Santa Victoria o brigadeiro Cunha, e de tal modo que a
-divisão inimiga foi completamente destruida. Durante o
-combate Annita, a cavallo no meio do fogo, era espectadora
-da victoria e derrota dos imperiaes. Foi ella n'esse
-dia o anjo providencial dos nossos feridos, porque não
-tendo nós nem cirurgião nem ambulancia, eram curados,
-sabe Deus como, por nós mesmos. Esta victoria submetteu
-de novo, pelo menos momentaneamente, as tres provincias,
-Lages, Vaccaria e de Cima da Serra á authoridade
-da republica, e já contei como no fim d'alguns dias
-entrámos triumphantes em Lages. O exito do combate de
-Coritibani longe esteve de ser egual.</p>
-
-<p>Já disse a maneira por que, apesar da bravura de
-Teixeira, a nossa cavallaria foi rota, e como com os meus
-sessenta e tres infantes me vi cercado por mais de quinhentos
-homens de cavallaria inimiga. Annita devia n'este
-dia assistir ás mais terriveis peripecias da guerra. A
-muito custo submettendo-se ao papel de simples espectadora
-do combate, Annita apressava a marcha das munições
-receiosa de que os cartuxos faltassem aos combatentes:
-com effeito o fogo que nos viamos obrigados a fazer
-era tão violento que dava margem a suppor-se, com
-toda a razão, que se as nossas munições não fossem renovadas
-bem depressa, não teriamos um unico cartuxo;
-com este fito aproximava-se do logar onde o combate
-era mais renhido, quando um esquadrão de vinte cavallos
-inimigos perseguindo alguns dos nossos que fugiam,
-cairam de improviso sobre os soldados que conduziam a
-bagagem.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_112">112</span>
-Excellente cavalleira, e montando um admiravel cavallo,
-bem poderia Annita ter fugido; mas dentro d'esse
-peito de mulher batia o coração d'um heroe: em logar
-de fugir animava os nossos soldados a defenderem-se, e
-n'um momento se viu cercada pelos imperiaes.</p>
-
-<p>Annita enterrou as esporas no ventre do cavallo, e
-d'um salto passou pelo meio do inimigo, não tendo recebido
-mais do que uma unica balla que lhe atravessou
-o chapeo e levou parte dos cabellos, sem lhe tocar no craneo.
-Talvez ella podesse fugir se o cavallo não caisse ferido
-mortalmente por outra balla, e sendo obrigada a render-se
-foi apresentada ao coronel inimigo. Sublime de coragem
-no perigo, Annita maior vulto tomava ainda, se é
-possivel, na adversidade; de sorte que na presença d'esse
-estado maior maravilhado do seu arrojo, mas que não teve
-o bom gosto de occultar diante de uma mulher o orgulho da
-victoria. Annita repelliu com uma rude e desdenhosa altivez
-algumas palavras que lhe fizeram antever um tal ou qual
-despreso pelos republicanos, e tão vigorosamente combateu
-com a palavra como já o fizera com as armas. Annita
-julgava que eu tinha morrido. N'esta persuasão pediu
-e obteve licença de ir ao campo de batalha procurar o
-meu corpo no meio dos cadaveres. Qual a ventesma infernal
-passeando sobre campina ensanguentada, Annita
-errou só e por muito tempo procurando aquelle que ella
-receiava de encontrar, voltando os mortos que tinham caido
-de rosto para a terra, e nos quaes pelo fato ou pela
-altura ella imaginava terem alguma similhança comigo.</p>
-
-<p>Foram inuteis as suas pesquisas, era a mim pelo contrario
-que sorte reservava a dôr suprema de banhar com
-as minhas lagrimas suas faces gelidas, e quando esse momento
-de angustia chegou impossivel me foi de lançar um
-punhado de terra, uma flor, ao menos sobre a cova onde
-jazia a mãe de meus filhos.</p>
-
-<p>Desde que Annita esteve segura de que eu existia,
-não teve senão um pensamento, o de fugir, e a occasião
-não tardou a apresentar-se-lhe. Aproveitando-se do delirio
-do inimigo victorioso, passou para uma casa perto
-d'aquella onde a tinham prisioneira, e ahi, sem ser reconhecida,
-uma mulher a recebeu e protegeu. O meu capote,
-que eu havia abandonado para ter os movimentos
-mais livres, e que tinha caido em poder de um soldado
-<span class="pagenum" id="Page_113">113</span>
-inimigo, foi por ella trocado pelo seu, que era de grande
-valor. Quando chegou a noute Annita lançou-se na floresta
-e desappareceu. Era necessario possuir um coração
-de leão para assim se arriscar. Só quem já viu as immensas
-florestas que cobrem os cimos de Espinasso, com os
-seus pinheiros seculares que parecem destinados a sustentar
-o ceo, e que são as columnas d'esse esplendido templo
-da natureza, as gigantescas cannas que povoam os
-intervallos e que estão cheias de animaes ferozes e de reptis
-de que a mordedura é venenosa, poderá fazer uma
-idea dos perigos que ella correu, e das difficuldades que
-teve a vencer. Felizmente Annita ignorava o que era medo.
-De Caritibani a Lages são vinte legoas. Como ella
-atravessou esses bosques impenetraveis, só, e sem alimentos,
-só Deus o sabe.</p>
-
-<p>Os poucos habitantes d'esta parte da provincia que
-ella tinha a atravessar eram hostis aos republicanos, e logo
-que souberam da nossa derrota armaram-se e fizeram
-emboscadas sobre muitos pontos, e principalmente nas
-<i>picadas</i> que os fugitivos tinham a atravessar de Caritibani
-ás Lages.</p>
-
-<p>Nos <i>cabecaes</i>, isto é, nos sitios quasi impraticaveis destes
-atalhos, teve logar uma horrivel carnagem nos nossos
-desgraçados companheiros. Annita atravessou de noite
-estes sitios perigosos, e ou fosse a sua boa estrella ou a
-admiravel resolução com que os atravessou, o seu aspecto
-fez sempre fugir os assassinos, que fugiam, diziam elles,
-perseguidos por um ser mysterioso!</p>
-
-<p>Na realidade era estranho ver esta valente mulher,
-montada n'um ardente cavallo, pedido e obtido n'uma casa
-onde havia recebido a hospitalidade durante uma noite
-de tempestade, galopando por cima dos rochedos á claridade
-dos relampagos. Quatro cavalleiros collocados na passagem
-do rio Canoas, fugiram á vista d'esta visão, escondendo-se
-atraz das moitas que guarnecem o rio. Durante
-este tempo Annita chegara á margem do rio, tornado mui
-tempestuoso por causa das muitas cheias, e atravessou-o,
-não como o tinha feito dias antes, n'um excellente barco,
-mas sim a váu, animando com a voz o seu magnifico
-cavallo.</p>
-
-<p>As ondas precipitavam-se furiosas, não n'um estreito
-espaço, mas n'uma extensão de quinhentos passos, e
-<span class="pagenum" id="Page_114">114</span>
-apesar d'isso Annita chegou sãa e salva á outra margem.</p>
-
-<p>Uma chavena de café foi o unico alimento que a intrepida
-viajanta tomou durante os quatro dias que gastou
-em alcançar na Vaccaria a tropa do coronel Aranha.</p>
-
-<p>Foi ahi que nos encontramos, Annita e eu, depois de
-uma separação de oito dias e de nos julgarmos mortos.</p>
-
-<p>Que alegria não foi a nossa! Maior foi ainda a que
-senti no dia em que Annita, na peninsula que fecha a lagoa
-dos Patos do lado do Atlantico, deu á luz n'uma casa que
-nos dava hospitalidade o meu querido Menotti, que veiu
-ao mundo com uma cicatriz na cabeça procedida pela queda
-do cavallo que tinha dado sua mãe.</p>
-
-<p>Renovo aqui mais uma vez os meus agradecimentos ás
-excellentes pessoas que nos deram esta hospitalidade, assegurando-lhe
-um reconhecimento eterno. No campo onde
-nos faltavam todas as cousas mais necessarias, e onde eu
-não lhe teria podido dar um unico lenço, Annita não teria
-podido triumphar n'este momento supremo onde a mulher
-tem tanta necessidade de forças e cuidados.</p>
-
-<p>Decidi-me então a fazer uma viagem a Settembrina
-para ahi comprar muitas cousas de maior urgencia que
-faltavam aos meus entes queridos. Tinha ali bons amigos,
-e entre elles um excellente homem chamado Blingini.
-Comecei então a minha viagem atravez os campos
-innundados, onde eu tinha a agua até ao ventre do cavallo;
-passei por meio d'um campo antigamente cultivado
-chamado <i>Rocha velha</i>, onde encontrei o capitão de
-lanceiros Maximo, que me recebeu perfeitamente. Acceitei
-a sua hospitalidade durante dois dias, por causa do
-pessimo tempo não me deixar continuar a jornada.</p>
-
-<p>No fim d'elles quiz partir, apesar de todos os esforços
-que fez o bom capitão para me conservar na sua companhia.</p>
-
-<p>Mas o fim para que tinha partido era para mim mui
-sagrado para que me demorasse mais, e não obstante as
-observações d'este bom amigo, puz-me a caminho por essas
-planicies que pareciam um vasto lago. Na distancia de
-algumas milhas, ouvi do lado que acabava de deixar o
-estrondo da fuzilaria, concebi então algumas suspeitas
-cheias de angustias, mas não podia voltar atraz.</p>
-
-<p>Cheguei a Settembrina onde comprei os objectos de
-<span class="pagenum" id="Page_115">115</span>
-que tinha necessidade, e sempre inquieto por essa fuzilaria
-que tinha ouvido, puz-me logo a caminho para São
-Simão. Descançamos em Rocha Velha, onde soube a causa
-d'esse estrondo que tinha ouvido e o triste acontecimento
-que tinha tido logar no mesmo dia da minha partida.</p>
-
-<p>Morinque&mdash;o mesmo que me havia surprehendido em
-Camacua e que eu e os meus quatorze homens tinhamos
-obrigado a fugir com um braço quebrado, tinha surprehendido
-o capitão Maximo, todos os seus soldados feitos
-prisioneiros, e a maior parte das seus cavallos tambem
-tomados, e os mais mortos.</p>
-
-<p>Morinque havia effectuado esta surpreza com alguns
-navios de guerra e infanteria. Embarcou depois a infanteria,
-e dirigiu-se com a cavallaria para o Rio Grande do
-Norte, espantando pelo caminho todas as pequenas guerrilhas
-republicanas, que julgando-se em segurança se haviam
-espalhado pelo territorio; entre elles achavam-se os
-meus marinheiros que foram obrigados a refugiar-se na
-floresta.</p>
-
-<p>O meu primeiro grito foi como se deve julgar: «Annita!
-onde está Annita?»</p>
-
-<p>Annita doze dias depois de ter tido o seu feliz successo,
-tinha sido obrigada a montar a cavallo, e meio nua,
-com o seu pobre filho nos braços, tinha sido obrigada a
-refugiar-se na floresta.</p>
-
-<p>Não encontrei pois no <i>rancho</i> nem Annita, nem os
-nossos hospedeiros, mas alcancei-os na ourela d'um bosque
-onde elles se conservavam não sabendo onde se achava
-o inimigo, nem se ainda tinham alguma cousa a receiar
-d'elles.</p>
-
-<p>Voltamos a São Simão, e ahi nos demoramos algum
-tempo, depois mudamos o nosso acampamento, estabelecendo-nos
-na margem esquerda do Capivari, isto é, no
-mesmo sitio onde um anno antes tinhamos transportado
-os nossos lanchões em carros para a expedição de Santa
-Catharina, expedição que tão mau exito teve.</p>
-
-<p>N'essa occasião tinha sentido bastantes esperanças que
-infelizmente haviam desapparecido.</p>
-
-<p>O Capivari é formado de differentes riachos que tem
-a sua nascente nos lagos numerosos que guarnecem a parte
-septentrional da provincia do Rio Grande, sobre as costas
-do mar e sobre a vertente oriental da cadea de Espinasso.
-<span class="pagenum" id="Page_116">116</span>
-Toma este nome da <i>capinara</i>, especie de canniços
-muito communs na America meridional e que nas Colonias
-se chamam <i>capineios</i>.</p>
-
-<p>De Capivari e de Sangrador d'Abreu canal que serve de
-communicação entre um charco e um lago onde tinhamos
-reunidas com muito trabalho algumas canôas, fizemos algumas
-viagens á costa occidental do lago, estabelecendo
-communicações entre as duas margens e transportando os
-passageiros.</p>
-
-<h2 id="cap_34">XXXIV<br />
-LEVANTA-SE O CERCO.&mdash;ROSSETTI</h2>
-
-<p>Comtudo a situação do exercito republicano peiorava
-de dia para dia; as suas necessidades augmentavam e os
-seus recursos diminuiam. Os dois combates de Taquari e
-S. José do Norte tinham dizimado a infanteria que apezar
-de ser pouco numerosa era um poderoso recurso para
-as operações de cerco. As grandes necessidades animavam
-as deserções, as populações como succede n'estas
-guerras mui prolongadas cançavam, e foram atacadas de
-uma suprema indifferença, começando nós então a conhecer
-que estava proximo o momento de tudo se acabar.</p>
-
-<p>N'este estado de cousas os imperiaes fizeram propostas
-que, ainda que vantajosas para os republicanos foram
-por estes recusadas. Esta recusa augmentou o descontentamento
-dos mais desgraçados, e por conseguinte da parte
-mais fatigada do exercito e do povo, sendo decidido que
-o cerco seria abandonado e que todos se retirariam.</p>
-
-<p>A divisão Canavarro de que faziam parte os marinheiros
-foi designada para começar o movimento e abrir as passagens
-da serra, occupadas pelo general Labattue, francez
-ao serviço do imperador. Bento Gonçalves com o resto
-do exercito formaria a retaguarda.</p>
-
-<p>A guarnição republicana de Settembrina devia seguir-nos,
-mas não pôde executar este movimento, porque surprehendida
-pelo famoso Morinque a cidade foi tomada.</p>
-
-<p>Foi ahi que morreu o meu caro Rossetti.</p>
-
-<p>Tendo caido do cavallo, depois de ter praticado prodigios
-<span class="pagenum" id="Page_117">117</span>
-de valor, ferido perigosamente, e intimado para se
-render, preferiu antes que o matassem do que entregar a
-sua espada.</p>
-
-<p>Ainda uma outra ferida para o meu coração. Já fallei
-muitas vezes de Rossetti, sabe-se pois como o amava,
-seja-me pois permittido dizer á Italia o que já tenho
-dito tantas vezes: Oh! Italia, minha mãe, acabamos de
-perder, eu um dos meus irmãos mais caros, e tu um dos
-teus filhos mais generosos.</p>
-
-<p>Era natural de Genova. Havia sido, por paes que conheciam
-pouco o seu caracter, destinado á vida ecclesiastica,
-quando era um dos mais ardentes patriotas italianos
-que tenho conhecido. Inclinado á vida aventureira e não
-podendo respirar na Italia, partiu para o Rio de Janeiro
-onde foi negociante e corretor; mas não tendo Rossetti
-nascido negociante, era uma planta exotica dando-se mal
-na terra do agio e calculo, não porque elle não fosse dotado
-de uma intelligencia fina e apta a enriquecer-se de
-todos os conhecimentos, mas porque Rossetti era o mais
-italiano de todos os italianos, isto é, o mais generoso e
-prodigo dos homens, e com taes <i>vicios</i> não se faz fortuna,
-mas antes se caminha a grandes passos para a ruina.</p>
-
-<p>Foi o que aconteceu com Rossetti.</p>
-
-<p>Bom para com todos, a sua casa achava-se franca para
-toda a gente, e especialmente para os italianos desgraçados.
-Não esperava que os proscriptos o fossem procurar,
-era elle que os ia encontrar, esgotando assim em
-pouco tempo os seus recursos. Bem desgraçado, esse coração
-do anjo não podia ver soffrer um italiano. Se o não
-podia soccorrer immediatamente, fazia-o esperar na sua
-pobre cabana, e corria as ruas da cidade, e não entrava
-em sua casa senão quando trazia algum soccorro para
-aquelle ou aquelles que o esperavam. É verdade que a
-sua bondade, a sua franqueza e a sua lealdade o tinham
-tornado estimado de todos, e por isso quando se achava
-n'estes piedosos embaraços, todos o coadjuvavam com
-prazer.</p>
-
-<p>A batalha de Tarifa teve logar, e os republicanos foram
-batidos pelos imperiaes; Bento Gonçalves e os principaes
-chefes feitos prisioneiros, e conduzidos ao Rio de
-Janeiro. Entre elles achava-se o nosso capitão Zambecarri,
-com quem travamos relações, segundo já disse, nas
-<span class="pagenum" id="Page_118">118</span>
-prisões de Santa Cruz. Fallou-se de nos fazermos corsarios,
-e desde esse momento Rossetti e eu não tivemos um
-minuto de descanço em quanto não nos lançamos no Occeano
-com a bandeira republicana. Rossetti encarregou-se
-de tudo e alcançou o fim que pertendiamos.</p>
-
-<p>Os leitores sabem o resto, porque desde esse momento
-não nos perdemos de vista.</p>
-
-<p>Infelizmente não ha um canto da terra onde não descansem
-os ossos de um italiano generoso, devendo por isso
-a Italia cobrir-se de luto e não encher-se de gloria.
-Pobre Italia, tu sentirás verdadeiramente a sua falta no
-dia em que tentares arrancar o teu cadaver aos corvos
-que o devoram.</p>
-
-<h2 id="cap_35">XXXV<br />
-A PICADA DAS ANTAS</h2>
-
-<p>Esta retirada emprehendida na estação invernosa, por
-um paiz montanhoso e debaixo de uma chuva incessante
-foi a mais terrivel e mais desastrosa que tenho visto.</p>
-
-<p>Conduziamos por precaução algumas vaccas, sabendo
-perfeitamente que no caminho que tinhamos a atravessar
-não encontrariamos comestiveis alguns.</p>
-
-<p>Retirando-nos, seguiamos a divisão do general Labattue,
-mas infelizmente sem a podermos alcançar. Só os
-selvagens manifestavam as suas sympathias por nós, atacando-lhe
-a guarda avançada. Tivemos occasião de vêr
-de perto esses homens da natureza que não nos foram
-hostis.</p>
-
-<p>Annita durante esta retirada de tres mezes soffreu toda
-a casta de privações e incommodos com um stoicismo
-e uma coragem admiravel.</p>
-
-<p>É necessario ter algum conhecimento das florestas d'esta
-parte do Brazil para fazer idéa das privações soffridas
-por uma porção de homens sem meios de transporte, e tendo
-unicamente por recurso o <i>laço</i>, arma mui util nas planicies
-cobertas de animaes, mas perfeitamente inutil n'essas
-expessas florestas abundantes em tigres e leões.</p>
-
-<p>Para a nossa desgraça ser ainda maior, os rios muito
-proximos uns dos outros n'estas florestas virgens engrossavam
-<span class="pagenum" id="Page_119">119</span>
-cada vez mais. A horrivel chuva que nos perseguia
-não cessava de cair, acontecendo muitas vezes que uma
-parte dos nossos soldados se achavam entre duas correntes
-de agua e ahi ficavam privados de todo o alimento,
-morrendo muitos de fome, e principalmente as mulheres
-e creanças que não podiam supportar tanto as privações.
-Era uma carnagem mais horrivel do que a de uma sanguinolenta
-batalha.</p>
-
-<p>A nossa pobre infanteria principalmente soffria muito
-mais, porque não tinha como a cavallaria o recurso de
-matar os cavallos. Poucas mulheres e menos creanças sairam
-vivas da floresta. As poucas que escaparam foram salvas
-pelos cavalleiros que tendo a felicidade de conservar
-os cavallos, tiveram dó d'aquelles pequenos entes, abandonados
-por suas mães mortas de fome, frio e fadiga.</p>
-
-<p>Annita tremia com a idéa de perder o nosso Menoti, que
-foi salvo unicamente por milagre. Nos sitios mais perigosos,
-e na passagem dos rios, conduzia o nosso pobre
-filho, de tres annos de edade, suspenso ao meu pescoço
-por um lenço, podendo aquecel-o d'este modo com o meu
-alento. De doze mulas e cavallos com que tinha entrado
-na floresta, e que eram destinadas ao meu serviço, não
-tinha podido salvar mais que duas mulas e dois cavallos,
-as demais tinham morrido de fome ou de fadiga. Para completar
-a nossa desgraça, os guias tinham-se perdido no caminho,
-o que foi a causa principal dos nossos sofrimentos
-na temivel floresta das Antas.</p>
-
-<p>Quanto mais andavamos, menos viamos chegar o fim
-d'esta picada maldita. Fiquei muito longe dos meus companheiros,
-com duas mulas horrivelmente fatigadas, e que
-eu esperava salvar, fazendo-as caminhar mui devagar e
-sustentando-as com folhas de taquaras a que Taquari deve
-o seu nome. Durante este tempo enviei Annita adiante
-com um criado e meu filho, afim de que elle procurasse
-o fim d'esta interminavel floresta e algum alimento.</p>
-
-<p>Os dois cavallos que eu havia deixado a Annita e que
-ella montava simultaneamente, foi quem nos salvaram. Ella
-achou o fim da floresta e ahi encontrou um piquete dos
-meus bravos soldados assentados a um bello fogo, o que
-não era commum pelo tempo que fazia.</p>
-
-<p>Os meus companheiros que por felicidade tinham conservado
-alguns vestidos de lã, embrulharam n'elles a creança,
-<span class="pagenum" id="Page_120">120</span>
-aquecendo-a e chamando-a por este modo á vida, quando
-já a pobre mãe começava a perder todas as esperanças.
-Mas ainda não é tudo: estes excellentes rapazes começaram
-então a procurar com uma grande sollicitudde alguns
-alimentos, que elles não tinham procurado para si, mas
-que agora procuravam por minha causa.</p>
-
-<p>O que d'entre todos prestou a minha esposa e filho os
-primeiros e mais efficazes soccorros foi Mangio: que o seu
-nome seja abençoado.</p>
-
-<p>Tinha tido grande difficuldade em salvar os meus dois
-cavallos, e por fim vi-me na necessidade de abandonar os
-dois pobres animaes esfalfados e aguados, sendo obrigado,
-apezar do estado miseravel em que me achava, a
-atravessar o resto da floresta a pé.</p>
-
-<p>No mesmo dia encontrei minha mulher e filho e soube
-então o que os meus companheiros tinham feito por
-causa d'ella.</p>
-
-<p>Nove dias depois da nossa entrada na floresta conseguimos
-sair! Poucos officiaes tinham conseguido salvar os
-seus cavallos. O inimigo que nos precedia, fugindo diante
-de nós, tinha deixado duas peças de artilheria na picada;
-mas de que nos serviriam ellas? Faltavam todos os meios
-de transporte e póde ser que ellas ainda estejam no mesmo
-logar em que as vi.</p>
-
-<p>As tempestades pareciam conscriptas na floresta. Apenas
-saimos d'ella e nos aproximamos de Cima da Serra e
-de Vaccaria que o bom tempo começou, caindo então em
-nosso poder alguns bois, que indemnisando-nos do nosso
-longo jejum nos fizeram esquecer a fadiga, a fome e a
-chuva.</p>
-
-<p>Ficámos na Vaccaria alguns dias, esperando pela divisão
-de Bento Gonçalves, que se nos uniu em completa
-desordem, e com menos um terço dos soldados.</p>
-
-<p>O infatigavel Morinque sabendo da retirada d'esta divisão,
-tinha começado a perseguil-a, sem descanço, atacando-a
-em todas as occasiões, alliando-se para esta obra
-de destruição aos montanhezes, sempre hostis aos republicanos.
-Todos estes successos deram tempo a Labattue
-a fazer a sua retirada, e depois a sua juncção com o
-exercito imperial, tendo apenas, apezar d'isto, algumas
-centenas de homens á sua disposição. Então as mesmas
-dificuldades que haviam existido para nós, appareceram
-<span class="pagenum" id="Page_121">121</span>
-para elles que tiveram além d'isso a vencer um obstaculo
-imprevisto, e que eu noto por causa da sua raridade.</p>
-
-<p>O general Labattue tendo que atravessar no seu caminho
-dois bosques chamados de Mattos, ahi encontrou
-algumas d'essas tribus indigenas chamadas de <i>Bragis</i>, que
-são as mais selvagens que se conhecem no Brazil. Estas tribus
-sabendo da passagem dos imperiaes, armaram-lhe tres
-ou quatro emboscadas, fazendo-lhe grande mal. Em quanto
-a nós não nos causaram a mais pequena inquietação e
-ainda que houvesse no caminho muitos d'esses alçapãos,
-que os indios collocam na passagem dos seus inimigos,
-todos se achavam descobertos em logar de estarem disfarçados
-com ramos de arvores, segundo o costume.</p>
-
-<p>Durante a curta paragem que fizemos na ourela de um
-d'esses bosques gigantescos, appareceu-nos uma mulher,
-que na sua mocidade tinha sido roubada pelos selvagens,
-e que havia aproveitado a nossa presença para fugir.</p>
-
-<p>A pobre mulher achava-se n'um deploravel estado.</p>
-
-<p>Como não tinhamos então nenhum inimigo a atacar
-ou de quem fugissemos, continuamos a nossa marcha mui
-vagarosamente, porque não possuiamos cavallos, e era necessario
-ir domando os poltros.</p>
-
-<p>O corpo de lanceiros republicanos, tendo ficado completamente
-desmontado, foi tambem obrigado a lançar mão
-dos poltros.</p>
-
-<p>Era na verdade um explendido espectaculo, sempre
-novo, ainda que repetido todos os dias, o vêr esses jovens
-e robustos negros que mereciam o epitheto de domadores
-de cavallos que Virgilio dá a Pelops. Era necessario vêl-os
-saltar sobre esses selvagens filhos do deserto, que não conheciam
-nem freio, nem selim, agarrando-se ás crinas, e
-correndo pelas planicies, até que cedendo ao homem o
-quadrupede se confessava vencido. Mas a lucta era longa,
-e o animal não se rendia senão depois de ter exgotado
-todas as forças em se desembaraçar do seu tyranno,
-que do seu lado admiravel de agilidade e coragem, o apertava
-entre os joelhos, como entre duas tenazes, não o deixando
-senão depois de o ter domado.</p>
-
-<p>Tres dias são sufficientes a um bom domador de cavallos
-para que o animal o mais rebelde possa sofrer o
-freio.</p>
-
-<p>Raramente, comtudo os poltros são bem domesticados
-<span class="pagenum" id="Page_122">122</span>
-pelos soldados, sobretudo nas marchas onde os muitos afazeres
-impedem os domadores de lhe prestar todos os cuidados
-necessarios.</p>
-
-<p>Tendo passado os <i>Mattos</i> atravessámos a provincia das
-Missões, dirigindo-nos para Cruz Alta, capital d'esta pequena
-provincia, depois de Cruz Alta dirigimo-nos a S.
-Gabriel onde se estabeleceu o quartel general, e edificaram
-barracas para o acampamento do exercito.</p>
-
-<p>Seis annos d'esta vida de aventuras e perigos não me
-tinham fatigado em quanto era só, mas actualmente que
-tinha uma pequena familia, a separação de todos os meus
-antigos conhecimentos, a ignorancia completa em que me
-achava ha tantos annos sobre o estado da minha familia,
-fizeram nascer o desejo de me aproximar de um ponto onde
-podesse receber noticias de meu pae e minha mãe,
-porque se tinha por um momento esquecido essas ternas
-affeições, ellas appareciam de novo. Tambem não tinha
-noticias da minha outra mãe, da Italia!</p>
-
-<p>Decidi então ir a Montevideo; ao menos temporariamente.
-Pedi pois licença ao presidente, assim como para
-levar alguns bois, de que a venda devia servir para me
-sustentar durante a jornada.</p>
-
-<h2 id="cap_36">XXXVI<br />
-CONDUCTOR DE BOIS</h2>
-
-<p>Eis-me pois <i>truppiere</i>, isto é conductor de bois.</p>
-
-<p>Em consequencia n'uma estancia chamada o <i>Casal das
-Pedras</i>, com a authorisação do ministro da fazenda, consegui
-reunir em vinte dias e com grande difficuldade novecentos
-bois, quasi todos selvagens. Maiores dificuldades
-me esperavam ainda durante o caminho onde encontrei obstaculos
-quasi invenciveis. O maior de todos foi o Rio-Negro,
-onde tive quasi perdido todo o meu capital. Da passagem
-do rio, da minha inexperiencia no meu novo mister,
-e sobre tudo da rapina de certos <i>capatazes</i>, mercenarios
-que tinha alugado como conductores, salvei com muito
-custo quinhentos bois, que visto o mau sustento e o pessimo
-<span class="pagenum" id="Page_123">123</span>
-caminho foram julgados incapazes de chegar ao seu
-destino.</p>
-
-<p>Resolvi em consequencia matal-os e tirar-lhe as pelles,
-que vendi, ficando-me livres de toda a despeza uns
-trezentos escudos que serviram para fazer face ás primeiras
-necessidades da minha familia.</p>
-
-<p>É aqui que devo mencionar um encontro que me deu
-um dos meus mais charos e melhores amigos.</p>
-
-<p>Aproximando-me de S. Gabriel, na retirada que acabavamos
-de fazer, tinha ouvido fallar de um official italiano,
-dotado de grande valor e intelligencia, que, exilado
-como carbonario se tinha batido em França no dia 5
-de junho de 1832, e depois no Porto durante o cerco que
-ahi houve por causa da guerra entre os dois irmãos D. Pedro
-e D. Miguel, vindo depois offerecer-se ao serviço das
-jovens republicas da America do Sul.</p>
-
-<p>Contavam-se a seu respeito cousas tão extraordinarias
-que muitas vezes disse:</p>
-
-<p>&mdash;Quando encontrar esse homem, ha-de ser meu
-amigo.</p>
-
-<p>Chamava-se Anzani.</p>
-
-<p>Chegando á America, tinha-se apresentado com uma
-carta de recommendação a dois dos seus compatriotas MM.***
-negociantes em S. Gabriel, que tinham feito d'elle o seu
-<i>factotum</i>.</p>
-
-<p>Anzani exercia todos os empregos, caixeiro, guarda-livros,
-homem de confiança, emfim era o bom genio d'esta
-casa.</p>
-
-<p>Como todos os homens fortes e corajosos, Anzani era
-socegado e dotado de um excellente genio.</p>
-
-<p>A casa commercial de que elle se tinha tornado director
-era uma d'essas casas como se acham unicamente na
-America do Sul, isto é vendendo tudo o que é possivel
-imaginar.</p>
-
-<p>A villa onde residiam os nossos dois compatriotas era
-infelizmente proxima da floresta que servia de refugio a
-essas tribus de indios de que já dissemos algumas palavras
-no capitulo precedente.</p>
-
-<p>Um dos chefes d'estes indios tinha-se tornado o terror
-d'esta pequena villa, á qual vinha duas vezes por anno,
-com a sua tribu, roubando quanto queria sem encontrar
-a menor resistencia.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_124">124</span>
-Primeiramente veiu acompanhado por duzentos ou trezentos
-homens, depois com cem, depois com cincoenta, segundo
-elle tinha visto augmentar o terror estabelecendo
-o seu poder, e depois sentindo-se o senhor tinha vindo só,
-e dava as suas ordens que eram obedecidas, como se por
-detraz de si tivesse a sua tribu prompta a assassinar aquelle
-que lhe recusasse obedecer.</p>
-
-<p>Anzani tinha ouvido fallar d'este homem e tinha escutado
-tudo o que se dizia a seu respeito, sem manifestar
-a sua opinião sobre a audacia d'este chefe selvagem e sobre
-o terror que inspirava a sua ferocidade.</p>
-
-<p>Este terror era tamanho que quando se ouvia dizer o
-<i>chefe dos Mattos</i> todas as janellas se fechavam, e todas as
-portas se trancavam como se na villa andassem alguns cães
-damnados.</p>
-
-<p>O indio estava habituado a estes signaes de terror, que
-lisongeavam o seu orgulho, escolhia a porta que queria
-vêr aberta, batia&mdash;abrindo-se logo com a rapidez do relampago&mdash;e
-roubava tudo sem encontrar a menor resistencia.</p>
-
-<p>Havia justamente dois mezes que Anzani dirigia a casa
-de commercio nos seus maiores como menores detalhes,
-quando se ouviu o grito terrivel:</p>
-
-<p>&mdash;O chefe dos Mattos!</p>
-
-<p>Como o costume, portas e janellas fecharam-se precipitadamente.</p>
-
-<p>Anzani estava só em casa arranjando as contas da semana,
-e não julgando que o estrondoso annuncio que acabavam
-de fazer valesse a pena de se incommodar ficou assentado
-á sua mesa, com as janellas e portas abertas.</p>
-
-<p>O indio parou espantado diante d'essa casa que no
-meio do terror geral que causava a sua chegada, se conservava
-indifferente á sua apparição.</p>
-
-<p>Entrou e viu encostado ao balcão um homem que socegadamente
-fazia as suas contas. Parou diante d'elle de
-braços cruzados e olhando-o com espanto.</p>
-
-<p>Anzani levantou a cabeça.</p>
-
-<p>Anzani era a politica em pessoa.</p>
-
-<p>&mdash;Que quer meu amigo? perguntou elle ao indio.</p>
-
-<p>&mdash;Como! que quero?! disse este.</p>
-
-<p>&mdash;Sem duvida, disse Anzani, quando se entra n'um
-armazem é que se quer comprar alguma cousa.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_125">125</span>
-O indio começou a rir.</p>
-
-<p>&mdash;Pelo que vejo não me conheces? perguntou ele a
-Anzani.</p>
-
-<p>&mdash;Como queres que te conheça, se é a primeira vez
-que te vejo!</p>
-
-<p>&mdash;Sou o chefe dos Mattos, replicou o indio, mostrando
-no seu cinto um arsenal composto de quatro pistollas
-e um punhal.</p>
-
-<p>&mdash;Então que queres?</p>
-
-<p>&mdash;Beber.</p>
-
-<p>&mdash;O que?</p>
-
-<p>&mdash;Um copo de agua-ardente.</p>
-
-<p>&mdash;Não ha nada mais facil; paga primeiro e depois
-tens a agua-ardente que quizeres.</p>
-
-<p>O indio começou a rir de novo.</p>
-
-<p>Anzani franziu as sobrancelhas.</p>
-
-<p>&mdash;Em logar de me responder, tornas de novo a rir.
-Não acho isso mui politico. Previno-te, pois, que se isso
-succede outra vez ponho-te fóra da porta.</p>
-
-<p>Anzani tinha pronunciado estas palavras com tal firmeza,
-que outro qualquer homem que não fosse o indio
-teria comprehendido com quem tinha a tratar.</p>
-
-<p>Talvez o selvagem houvesse comprehendido, mas não
-o deu a conhecer.</p>
-
-<p>&mdash;Já te disse que me desses um copo de agua-ardente,
-repetiu elle batendo com o punho no balcão.</p>
-
-<p>&mdash;E eu já te disse que o pagasses primeiro, disse Anzani,
-quando não, não a bebes.</p>
-
-<p>O indio deitou um olhar colerico a Anzani, mas o olhar
-d'este encontrou o seu,&mdash;o relampago havia encontrado
-o relampago.</p>
-
-<p>Anzani dizia muitas vezes:</p>
-
-<p>&mdash;A unica força que existe é a moral. Olhae fixa e
-obstinadamente o homem que vos encarar, se elle abaixar
-os olhos, estaes senhor d'elle, mas se pelo contrario sois
-vós que os abaixaes estaes perdido.</p>
-
-<p>O olhar de Anzani tinha um irresistivel poder. Foi o
-indio que foi vencido, e conhecendo a sua inferioridade,
-e furioso d'este poder desconhecido, quiz ganhar animo
-bebendo.</p>
-
-<p>&mdash;Está bem, disse elle, ahi tens meia piastra, da-me
-de beber.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_126">126</span>
-&mdash;É obrigação minha servir quem me paga, disse tranquilamente
-Anzani.</p>
-
-<p>E deu ao indio um copo de agua-ardente.</p>
-
-<p>O indio bebeu.</p>
-
-<p>&mdash;Outro, disse elle.</p>
-
-<p>Anzani deu-lhe outro copo.</p>
-
-<p>O indio bebeu-o como o primeiro.</p>
-
-<p>&mdash;Ainda outro, disse elle.</p>
-
-<p>Em quanto Anzani teve dinheiro suficiente para se pagar
-da despeza do indio, não lhe fez nenhuma observação,
-mas quando o bebedor já não tinha dinheiro para
-pagar, cessou de encher-lhe o copo.</p>
-
-<p>&mdash;Então? perguntou o selvagem.</p>
-
-<p>Anzani fez-lhe a sua conta.</p>
-
-<p>&mdash;Depois? insistiu o selvagem.</p>
-
-<p>&mdash;Depois?... Como não tem dinheiro, não bebe mais
-agua-ardente, respondeu Anzani.</p>
-
-<p>O indio tinha formado bem o seu calculo. Os cinco ou
-seis copos de agua-ardente que havia bebido, tinham-lhe
-dado a coragem que havia perdido com o olhar de Anzani.</p>
-
-<p>&mdash;Agua-ardente, disse elle levando a mão a uma das
-pistollas, agua-ardente, ou morres.</p>
-
-<p>Anzani que já previa o final d'esta scena, estava preparado.
-Tinha cinco pés e nove pollegadas, e era dotado
-de uma força e agilidade pasmosa. Apoiou a mão no balcão
-e saltando para o outro lado deixou-se cair sobre o
-indio, agarrando-lhe o punho direito.</p>
-
-<p>O selvagem não poude aguentar o choque e caiu; Anzani
-não o largou e poz-lhe o pé no peito.</p>
-
-<p>Então agarrando com a mão esquerda a mão direita
-do indio, tornando-lhe por isso inoffensiva a arma, Anzani
-tirou-lhe do cinto as pistollas e punhal, que espalhou
-pelo armazem, e arrancando-lhe a pistolla da mão, quebrou-lhe
-o cano na cabeça e na cara, e julgando que o
-selvagem já se achava bem castigado foi empurrando-o
-aos pontapés até á porta deitando-o no meio de um grande
-lamaçal.</p>
-
-<p>O indio levantou-se com muita difficuldade e fugiu,
-mas em tal estado que nunca mais tornou a apparecer em
-S. Gabriel.</p>
-
-<p>Anzani havia feito debaixo do nome de Ferrari a guerra
-de Portugal. Com este nome tinha-se conduzido admiravelmente,
-<span class="pagenum" id="Page_127">127</span>
-ganho a patente de capitão e recebido duas
-graves feridas: uma na testa, outra no peito, e tão graves
-que no fim de dezeseis annos morreu por causa d'ellas.</p>
-
-<p>A ferida da cabeça era um golpe de sabre que lhe tinha
-aberto o craneo.</p>
-
-<p>A do peito foi uma balla que lhe tinha ficado no pulmão,
-e de que mais tarde lhe nasceu uma phtisica pulmonar.</p>
-
-<p>Quando se lhe fallava dos prodigios de coragem que
-tinha praticado debaixo do nome de Ferrari, sorria-se e
-dizia que elle e Ferrari eram dois entes differentes.</p>
-
-<p>Infelizmente não podia, ao mesmo tempo que attribuia
-os seus prodigios de valor a um ente imaginario, trespassar-lhe
-as duas feridas.</p>
-
-<p>Tal era o homem de quem me haviam fallado, e a quem
-eu desejava conhecer e ter por amigo.</p>
-
-<p>Em S. Gabriel soube que tinha ido tratar de alguns
-negocios a sessenta milhas de distancia. Montei então a
-cavallo para o procurar.</p>
-
-<p>No caminho, na margem de um pequeno rio, encontrei
-um homem, com o peito nú lavando uma camisa&mdash;vi que
-era este o homem que procurava.</p>
-
-<p>Dirigi-me a elle, estendi-lhe a mão e disse-lhe quem
-era.</p>
-
-<p>Desde este momento fomos irmãos.</p>
-
-<p>Já não estava na casa de commercio, e como eu havia
-entrado ao serviço da republica do Rio Grande. Era
-commandante de infanteria da divisão de João Antonio,
-um chefe republicano dos mais conhecidos. Como eu deixava
-o serviço e dirigia-se aos <i>saltos</i>.</p>
-
-<p>Depois de um dia passado juntos, demos os nossos
-<i>adresses</i> respectivos e combinámos que não emprehenderiamos
-movimento algum importante sem o participarmos
-mutuamente.</p>
-
-<p>Seja-me permittido narrar um facto que dá bem a conhecer
-a nossa miseria e a nossa fraternidade.</p>
-
-<p>Achava-me tão pobre como Anzani em camisas, em
-quanto que elle tinha mais um par de calças.</p>
-
-<p>Dormimos no mesmo quarto, mas Anzani partiu antes
-de romper o dia e sem se despedir.</p>
-
-<p>Quando accordei encontrei sobre o meu leito o melhor
-dos seus dois pares de calças.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_128">128</span>
-Conhecia apenas Anzani, mas era um d'esses homens
-que se apreciam á primeira vista, e tanto que quando entrei
-ao serviço da republica de Montevideo e fui encarregado
-de organisar a legião italiana, o meu primeiro cuidado
-foi escrever-lhe convidando-o a vir acompanhar-me.</p>
-
-<p>Veiu com effeito e desde esse dia não nos deixamos
-mais, até que elle tocando na terra de Italia morreu entre
-os meus braços.</p>
-
-<h2 id="cap_37">XXXVII<br />
-PROFESSOR DE MATHEMATICA E CORRETOR DE COMMERCIO</h2>
-
-<p>Em Montevideo dirigi-me a casa de um dos meus amigos
-chamado Napoleão Castellini. Ao seu excellente coração
-sou devedor de muito, para jámais me esquecer, assim
-como a G. D. Cunes,&mdash;amigo de toda a minha vida,&mdash;e
-aos irmãos Antoninho e Giovanni Risso.</p>
-
-<p>Gastos os poucos escudos que me tinham produzido as
-minhas pelles de bois, e para não ficar com minha mulher
-e filho ás sopas dos meus amigos, emprehendi duas industrias
-que, devo confessal-o, chegavam apenas para satisfazer
-as minhas necessidades.</p>
-
-<p>A primeira era corretor de fazendas. A segunda era a
-de professor de mathematica, na casa do estimavel Paulo
-Semidei.</p>
-
-<p>Este modo de vida durou até á minha entrada na legião
-oriental.</p>
-
-<p>Os negocios do Rio Grande começavam a estabelecer-se
-e a arranjar-se, não tendo eu pois nada a esperar d'este
-lado. A republica oriental&mdash;é assim que se chamava
-a republica de Montevideo&mdash;sabendo que me achava livre
-não tardou em me offerecer uma occupação mais em
-harmonia com os meus meios e com o meu caracter, do
-que a de professor de mathematica e corretor.</p>
-
-<p>Offereceram-me e acceitei o commando da corveta&mdash;<i>Constituição</i>.</p>
-
-<p>A esquadra oriental achava-se debaixo das ordens do
-coronel Cosse, e a de Buenos-Ayres ás ordens do general
-Brown.</p>
-
-<div class="figcenter">
- <img class="brd" src="images/img-2.jpg" alt="" title="" width="502" height="800" />
- <p class="right cs6"><i>Lith. de Castro, Poço Novo N.<sup>o</sup> 33.</i></p>
- <p>FRANCISCO 2.<sup>o</sup></p>
-</div>
-
-<div class="pagenum" id="Page_130">130</div>
-
-<h2 id="cap_montevideo">MONTEVIDEO</h2>
-
-<p>Quando o viajante chega da Europa n'um d'esses navios,
-que os primeiros habitantes do paiz tomavam por casas
-volantes, o que vê&mdash;logo que o marinheiro de vigia
-grita: «Terra» são duas montanhas.</p>
-
-<p>Uma que é a cathedral, e a outra ornada de um pharol,
-que é a montanha do <i>Cerro</i>.</p>
-
-<p>Á medida que o viajante se aproxima das torres da cathedral,
-de que os ornatos de porcellana brilham ao sol,
-o viajante vê os <i>mirantes</i> sem numero e de fórmas variadas
-que ornam todas as casas, depois essas mesmas casas,
-encarnadas ou brancas, com os seus terraços, depois
-ao pé do Cerro, as <i>salgadoras</i>, vastos edificios onde se salgam
-as carnes; e emfim ao fundo da bacia, á borda do
-mar as encantadoras <i>quintas</i>, delicia e orgulho dos habitantes
-onde elles vão passar todos os domingos e dias de
-festa.</p>
-
-<p>Então se deitaes a ancora, entre o Cerro e a cidade,
-dominada, por qualquer ponto de vista que a olheis, pela
-sua gigantesca cathedral, se a canôa vos leva para a praia,
-puchada por seis valentes remadores, se de dia encontraes
-pelas estradas grupos de encantadoras mulheres vestidas de
-amazonas, se de tarde atravez as janellas abertas, deitando
-para a rua torrentes de luz e harmonia, ouvis os sons do
-piano e de outros instrumentos, é que estaes em Montevideo,
-a vice-rainha d'esse rio de prata, de que Buenos-Ayres
-pretende ser a rainha, e que se lança no Occeano
-por uma embocadura de oitenta leguas.</p>
-
-<p>Foi João Dias o que no principio de 1516 descobriu
-as praias da Prata. A primeira cousa que o marinheiro de
-quarto avistou foi o Cerro, e cheio de alegria exclamou
-em latim:</p>
-
-<p>&mdash;<i>Montem video!</i></p>
-
-<p>Sendo este o nome que ficou á republica, de que vamos
-rapidamente escrever a historia.</p>
-
-<p>João Dias, já com bastante orgulho de haver no anno
-passado descoberto o Rio de Janeiro, não gosou por muito
-tempo da sua gloria.</p>
-
-<p>Tendo deixado na bahia dois dos seus navios, e havendo
-<span class="pagenum" id="Page_131">131</span>
-subido o rio Prata com o terceiro, confiando nos signaes
-de amizade que lhe fizeram os indios, caiu n'uma emboscada
-sendo morto, despadaçado e devorado na margem
-do rio, que em memoria d'este triste acontecimento tem o
-nome de <i>Solis</i>.</p>
-
-<p>Estes indios anthropóphagos pertenciam á tribu dos Charruas
-que era senhora do paiz, como na extremidade opposta
-do grande continente o eram os Hures e os Sioux.</p>
-
-<p>Os hespanhoes foram pois obrigados a edificar Montevideo
-no meio de combates, que se renovavam todos os
-dias e todas as noites, contando por isso Montevideo apenas
-cem annos, apezar de ter sido descoberto em 1516.</p>
-
-<p>Pelo fim do ultimo seculo, appareceu um homem que
-promoveu aos senhores primitivos da costa uma guerra de
-exterminação, em que foram aniquilados.</p>
-
-<p>Tres ultimos combates&mdash;em que collocaram entre si
-suas mulheres e filhos, e caíam sem recuar um passo&mdash;viram
-desapparecer os seus ultimos restos, e monumentos
-d'esta derrota suprema; o viajante póde ainda vêr ao pé
-da montanha <i>Augua</i> os ossos dos ultimos Charruas.</p>
-
-<p>Este novo Mario era Jorge Pacheco, pae do general
-Pacheco e Obes de quem, como já dissemos, tivemos todos
-estes promenores.</p>
-
-<p>Mas os selvagens destruidos deixaram a Pacheco inimigos
-mais ferozes, mais perigosos, e mais inexterminaveis
-que os indios, visto que aquelles eram sustentados,
-não por uma crença religiosa, que todos os dias ia enfraquecendo,
-mas, pelo contrario, por um interesse material
-que ia augmentando sensivelmente. Estes inimigos eram
-os contrabandistas do Brazil.</p>
-
-<p>O systema prohibitivo era a base do commercio hespanhol.
-Havia pois uma guerra encarniçada entre o exercito
-e os contrabandistas, que ou pela estrategia ou pela
-força tentavam introduzir no territorio de Montevideo as
-suas sedas e tabaco.</p>
-
-<p>A lucta foi longa, encarniçada e mortal. D. Jorge Pacheco
-dotado de uma força herculea, de um talhe gigantesco,
-e de uma grande finura, tinha alcançado&mdash;pelo
-menos assim o julgava&mdash;não a aniquillar os contrabandistas,
-como havia feito aos Charruas, mas a affastal-os
-da cidade, quando repentinamente tornaram a apparecer
-mais atrevidos, mais activos, e reunidos como nunca em
-<span class="pagenum" id="Page_132">132</span>
-roda de uma vontade unica, tão poderosa, tão corajosa,
-e tão intelligente como podia ser a do general Pacheco.</p>
-
-<p>Pacheco mandou espiões por toda a parte a informarem-se
-do motivo d'esta reapparição.</p>
-
-<p>Todos voltaram pronunciando um unico nome:</p>
-
-<p>&mdash;Artigas!</p>
-
-<p>Quem era este Artigas?</p>
-
-<p>Um mancebo de vinte a vinte e cinco annos, bravo
-como um velho hespanhol, esperto como um Charrua, e
-agil como um <i>gaucho</i>: tinha tres raças senão no sangue
-ao menos no espirito. Começou então uma lucta admiravel
-de esperteza e força entre o general e o contrabandista,
-mas um era moço e todos os dias a sua força augmentava,
-o outro não era velho, mas estava já cançado.</p>
-
-<p>Durante quatro ou cinco annos Pacheco perseguiu Artigas,
-batendo-o por toda a parte por onde apparecia; mas
-Artigas derrotado não era nem morto, nem feito prisioneiro,
-e no dia seguinte começava de novo a lucta. Pacheco
-cansou primeiro e como um d'esses romanos da antiga
-republica, que sacrificavam o seu orgulho ao bem do
-paiz, disse ao governo que resignava os seus poderes com
-a condição que Artigas seria nomeado general em seu logar,
-porque só Artigas podia acabar a destruição dos contrabandistas.</p>
-
-<p>O governo acceitou, e como esses bandidos romanos
-que se submettem ao poder do papa e passeam venerados
-na cidade de que foram o terror, Artigas fez a sua entrada
-triumphal em Montevideo, e começou a obra de destruição
-para que havia sido chamado.</p>
-
-<p>Estes factos tiveram logar cincoenta e oito ou sessenta
-annos antes dos acontecimentos em que Garibaldi vae tomar
-parte, mas como nós somos author dramatico e não
-podemos deixar de começar um drama por um prologo,
-vamos dar a conhecer aos leitores, homens e terras que
-lhe são bem desconhecidos.</p>
-
-<p>Artigas tinha então vinte e sete ou vinte e oito annos,
-tendo na época em que o general Pacheco me deu estes
-detalhes noventa e tres annos, vivendo ignorado n'uma pequena
-quinta pertencente ao presidente do Paraguay. Hoje
-provavelmente já tem morrido.</p>
-
-<p>Era um mancebo bello e bravo, e que representava
-um dos tres poderes que reinaram em Montevideo.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_133">133</span>
-Jorge Pacheco era o typo do valor cavalheiresco do
-velho mundo, que atravessou os mares com Colombo, Pizarro
-e Fernando Cortez. Artigas era o homem do campo,
-e podia representar, o que chamavam o partido nacional,
-collocado entre os portuguezes e hespanhoes, isto é entre
-os estrangeiros que se tinham tornado portuguezes e hespanhoes,
-pela sua habitação nas cidades onde tudo fazia
-lembrar os costumes portuguezes e hespanhoes.</p>
-
-<p>Ainda havia um terceiro typo e mesmo uma terceira
-potencia que foi o flagello de todos e de que é necessario
-dizer duas palavras.</p>
-
-<p>Este terceiro typo é o gaucho, a quem Garibaldi chama
-o centauro do novo mundo.</p>
-
-<p>Na França chamamos gaucho a tudo quanto vive n'estas
-vastas planicies, mas commettemos um erro: o capitão
-Head da marinha ingleza, foi o primeiro a pôr em moda
-esta mania de confundir o gaucho com o habitante do campo,
-que na sua soberba repelle não só a similhança, mas
-até a comparação.</p>
-
-<p>O gaucho é o bohemio do novo mundo. Sem terras,
-sem casa, sem familia, possue por toda a fortuna um casaco,
-um cavallo, uma faca e o laço.</p>
-
-<p>A faca é a sua arma, o laço a sua industria.</p>
-
-<p>A nomeação de Artigas foi recebida com satisfação por
-todos, excepto pelos contrabandistas, e ainda se achava
-occupando este alto cargo quando rebentou a revolução
-de 1810, revolução que tinha por fim, e que obteve, destruir
-o dominio hespanhol no novo mundo.</p>
-
-<p>Esta revolução começou em 1810 em Buenos-Ayres e
-acabou em Bolivia na batalha de Ayacuncho em 1824.</p>
-
-<p>O chefe das forças independentes era então o general
-Antonio José de Soure, e tinha cinco mil homens ás suas
-ordens.</p>
-
-<p>O general em chefe das tropas hespanholas era D. José
-de Laserna, o ultimo vice-rei do Peru, e commandava onze
-mil homens.</p>
-
-<p>Os patriotas não possuiam senão uma unica peça,
-eram um contra dois, e achavam-se completamente desprovidos
-de munições, e de provisões de boca. Não tinham
-remedio senão esperar, assim o fizeram, e quando foram
-atacados ficaram vencedores.</p>
-
-<p>Foi o general patriota Aleixo Cordova que começou o
-<span class="pagenum" id="Page_134">134</span>
-combate. Commandava mil e quinhentos homens. Poz a
-bandeira na ponta da espada e gritou:</p>
-
-<p>&mdash;Ávante!</p>
-
-<p>&mdash;A marche marche, ou no passo ordinario? perguntou
-um official.</p>
-
-<p>&mdash;No passo da victoria, respondeu elle.</p>
-
-<p>N'essa mesma tarde todo o exercito hespanhol tinha
-capitulado, e achava-se prisioneiro d'aquelles que o tinham
-sido seus.</p>
-
-<p>Artigas havia sido um dos primeiros a festejar a revolução.
-Tinha-se posto á testa do movimento, e por sua
-vez offereceu a Pacheco o commando, como annos antes
-elle o havia feito.</p>
-
-<p>Esta troca ia-se talvez operar quando Pacheco foi surprehendido
-na Casa branca, no Uruguay, por marinheiros
-hespanhoes, e ficou seu prisioneiro.</p>
-
-<p>Artigas continuou a sua tarefa libertadora. Em pouco
-tempo expulsou os hespanhoes do campo de que se havia
-tornado rei, reduzindo-os a serem senhores unicamente de
-Montevideo, que podia apresentar uma séria resistencia,
-visto ser a segunda cidade fortificada da America.</p>
-
-<p>A primeira era S. João de Ulloa.</p>
-
-<p>Em Montevideo achavam-se refugiados todos os partidarios
-dos hespanhoes, protegidos por um exercito de quatro
-mil homens. Artigas sustentado pela alliança de Buenos-Ayres
-começou o cerco da cidade, mas um exercito
-portuguez veiu em auxilio dos hespanhoes e Artigas teve
-de retirar-se. Em 1812 Montevideo soffreu novo cerco. O
-general Rondeau commandava as forças de Buenos-Ayres
-e Artigas as dos patriotas, e foram estes que de novo cercaram
-a cidade.</p>
-
-<p>O cerco durou vinte e tres mezes, tendo logar no fim
-d'este tempo uma capitulação que entregou a capital da
-futura republica oriental aos sitiantes, commandados então
-pelo general Alvear.</p>
-
-<p>Porque razão era então general em chefe Alvear e não
-Artigas? Vamos dizel-o.</p>
-
-<p>É que no fim de vinte mezes de cerco, depois de tres
-annos de contacto entre os homens de Buenos-Ayres e os de
-Montevideo, as differenças de habitos, de costumes, e direi
-mesmo de raças, que tinham sido causa de simples desintelligencias,
-haviam-se tornado em motivos de odios mortaes.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_135">135</span>
-Artigas, como Achilles havia-se retirado desapparecendo
-pelos campos tão seus conhecidos no tempo da sua
-mocidade em que exercia o mister de contrabandista.</p>
-
-<p>O general Alvear tinha-o substituido, sendo general
-em chefe dos <i>Portenos</i>, na occasião em que Montevideo
-se entregou.</p>
-
-<p><i>Portenos</i> é o nome que dão aos naturaes de Buenos-Ayres,
-e <i>Orientaes</i> aos de Montevideo.</p>
-
-<p>Tentaremos explicar as differenças que ha entre os
-<i>Portenos</i> e os <i>Orientaes</i>.</p>
-
-<p>O habitante de Buenos-Ayres fixado no paiz ha trezentos
-annos na pessoa de seus avós, perdeu desde o fim do
-primeiro seculo da sua existencia na America, todas as tradicções
-da mãe patria, isto é da Hespanha. Os habitantes
-de Buenos-Ayres são hoje tão americanos, como o eram
-antigamente os indios que d'ali expulsaram.</p>
-
-<p>O habitante de Montevideo, ao contrario, existindo
-apenas ha um seculo no paiz,&mdash;sempre na pessoa de seus
-avós, bem entendido&mdash;não teve o tempo de esquecer que
-é de raça hespanhola. Tem o sentimento da sua nova nacionalidade,
-mas sem ter esquecido as tradicções da velha
-Europa, em quanto que o de Buenos-Ayres, se affasta todos
-os dias da Europa para entrar na barbaria.</p>
-
-<p>O paiz não deixa de ter sua influencia, sobre este movimento
-retrogrado de um lado, progressivo do outro.</p>
-
-<p>A população de Buenos-Ayres, espalhada em areaes
-immensos, com habitações muito affastadas umas das outras,
-em sitios completamente desprovidos de agua, e de
-todos os objectos necessarios, e habitando cabanas mal construidas,
-ganha um caracter sombrio, insociavel e bulhento.
-As suas tendencias dirigem-se para os indios selvagens
-das fronteiras, com os quaes elles negoceiam em todos os
-objectos que trazem dos sitios onde a civilisação ainda
-não penetrou, e são completamente desconhecidos aos europeus,
-dos quaes recebem em troca agua-ardente e tabaco
-que levam para as grandes planicies dos pampas,
-de que tomaram o nome, ou a quem póde ser deram
-o seu.</p>
-
-<p>A população de Montevideo, pelo contrario, possue um
-bello paiz, cortado por muitos rios. Não possue vastos bosques,
-não tem grandes florestas, como a America do Norte,
-mas as margens dos seus rios são ornadas de bellas e
-<span class="pagenum" id="Page_136">136</span>
-magestosas arvores. Possue além d'isso bellos edificios, e
-a terra produz todo o necessario para o seu sustento. As
-suas casas, quintas e herdades são proximas umas das outras,
-e o seu caracter franco e hospitaleiro, é inclinado a
-essa civilisação de que a aproximação do mar lhe conduz
-continuamente.</p>
-
-<p>Para a população de Buenos-Ayres o typo da perfeição
-é o indio a cavallo.</p>
-
-<p>Para a de Montevideo é o europeo apertado na sua
-casaca, na sua gravata e nas botas de polimento.</p>
-
-<p>Os naturaes de Buenos-Ayres tem a pertenção de serem
-os primeiros da America em elegancia. Teem mais
-imaginação que os de Montevideo, e os primeiros poetas
-que a America conheceu, nasceram em Buenos-Ayres. Varela
-e Lafinur. Domingos e Marmol são poetas portenos.</p>
-
-<p>O habitante de Montevideo é menos poetico, mas mais
-socegado e mais firme nas suas resoluções e nos seus projectos.
-Se o seu rival tem a pertenção de ser o primeiro
-em elegancia, elle tem a de o ser na coragem. Entre os
-seus poetas figuram de Hidalgo, de Berro, de Figueira, e
-João Carlos Gomes.</p>
-
-<p>As mulheres de Buenos-Ayres tambem teem a pretenção
-de serem as mais bellas da America meridional desde
-Lemairé até ao Amazonas.</p>
-
-<p>Póde ser que na realidade o rosto das mulheres de Montevideo
-seja menos formoso que o das suas visinhas, mas
-as suas fórmas são maravilhosas.</p>
-
-<p>Ha pois entre os dois paizes;</p>
-
-<p>Rivalidade de coragem e elegancia, entre os homens;</p>
-
-<p>Rivalidade de belleza e elegancia, entre as mulheres;</p>
-
-<p>Rivalidade de talento entre os poetas, esses hermaphroditas
-da sociedade, colericos como os homens, caprichosos
-como as mulheres e simples muitas vezes como as
-creanças mais innocentes.</p>
-
-<p>Havia pois, como se vê por tudo que acabamos de dizer,
-motivos sufficientes para as relações serem interrompidas
-entre Montevideo e Buenos-Ayres, entre Artigas e
-Alvear.</p>
-
-<p>Não foi unicamente uma separação, que teve logar,
-mas sim uma guerra.</p>
-
-<p>Todos os elementos de antipathia foram dirigidos contra
-os homens de Buenos-Ayres pelo antigo chefe de contrabandistas.
-<span class="pagenum" id="Page_137">137</span>
-Pouco lhe importavam então os meios, de
-que tinha a servir-se, com tanto que alcançasse o seu fim
-que era expulsar do paiz os Portenos.</p>
-
-<p>Foi então que Artigas reunindo todos os recursos que
-lhe offerecia o paiz, se poz á testa d'esses bohemios da
-America que se chamam gauchos.</p>
-
-<p>A guerra que fazia Artigas tinha alguma cousa de santa;
-assim nada lhe podia resistir, nem o exercito de Buenos-Ayres,
-nem o partido hespanhol, que sabia perfeitamente
-que a entrada de Artigas em Montevideo, era a
-substituição da força brutal á intelligencia.</p>
-
-<p>Os que tinham previsto esta volta á barbaria não se
-haviam enganado. Pela primeira vez homens vagabundos,
-por civilisar, e sem organisação, viam-se formando um
-exercito e com um general. Durante a dictadura de Artigas
-teve logar um periodo que tem alguma analogia com
-o nosso de 1793. Montevideo viu o reinado do homem dos
-pés nús, dos <i>casoncillos</i> fluctuantes, da <i>chiripa</i> escosseza,
-do <i>puncho</i> despedaçado, e com o chapeu deitado sobre
-a orelha seguro pelo <i>barlipo</i>.</p>
-
-<p>Então Montevideo foi testemunha de scenas inauditas
-grotescas, e algumas vezes terriveis. Muitas vezes as primeiras
-classes da sociedade foram reduzidas á impotencia,
-Artigas tendo de menos a crueldade e de mais a coragem,
-tornou-se então o que mais tarde devia ser Rosas.</p>
-
-<p>A dictadura de Artigas teve não obstante muitas cousas
-de brilhante e nacional. Uma foi a lucta de Montevideo
-contra Buenos-Ayres, em que Artigas derrotou sempre
-as forças d'este paiz e de que fez cessar a influencia
-e a resistencia ao exercito portuguez que invadiu o paiz
-em 1815.</p>
-
-<p>O pretexto d'esta invasão foi a desordem da administração
-de Artigas e a necessidade de salvar os povos visinhos
-de desordens eguaes, que podia fazer nascer entre
-elles o contagio do exemplo. Estas desordens tinham no
-mesmo paiz, dobrado a opposição que fazia o partido
-da civilisação. As classes elevadas sobre tudo desejavam
-do coração uma victoria que substituisse o dominio
-portuguez a esse dominio nacional que trazia a brutal tyrannia
-da força material. Comtudo não obstante os ataques
-portenos e dos portuguezes, Artigas resistiu quatro
-annos, dando tres batalhas, e vencido retirou-se para
-<span class="pagenum" id="Page_138">138</span>
-Entre rios, isto é para o outro lado do Uruguay. Ahi, apezar
-de se achar fugitivo, Artigas representava ainda, se
-não pelas suas forças, ao menos pelo seu nome, um poder
-respeitavel, quando Ramiro seu tenente se revoltou,
-contra elle, collocando-se á frente da terça parte das suas
-forças, e derrotando-o de modo que lhe tirou toda a esperança
-de reconquistar a sua posição perdida, obrigando-o
-a sair d'este paiz aonde como Anteo, parecia ganhar
-novas forças todas as vezes que ahi tocava.</p>
-
-<p>Foi então que, egual a uma d'essas trombas que se
-evaporam, depois de ter deixado a desolação e as ruinas
-na sua passagem, Artigas desappareceu retirando-se
-para o Paraguay, onde, como já dissemos, em 1848 na
-época em que Garibaldi defendia Montevideo, vivia ainda
-tendo noventa e tres ou noventa e quatro annos, gosando
-de todas as suas faculdades intellectuaes e de quasi
-todas as suas forças.</p>
-
-<p>Artigas vencido não fez opposição ao dominio portuguez
-que se estabeleceu no paiz, e o barão de Laguna
-francez de origem foi seu representante em 1825. N'este
-anno Montevideo como todas as possessões portuguezas da
-America foram cedidas ao Brazil.</p>
-
-<p>Montevideo foi então occupado por um exercito de oito
-mil homens e tudo parecia assegurar ao imperador a sua
-pacifica posse.</p>
-
-<p>Foi então que um natural de Montevideo, proscripto,
-residente em Buenos-Ayres, reuniu trinta e dois companheiros
-proscriptos como elle, e decidiram que dariam a
-liberdade á patria ou que morreriam.</p>
-
-<p>Este punhado de patriotas embarcou em duas canoas
-e desembarcou no Grande Areal.</p>
-
-<p>O chefe chamava-se João Antonio Lavalleja.</p>
-
-<p>Lavalleja havia de antecipação tido relações com um
-proprietario do paiz que devia no momento do seu desembarque,
-ter os cavallos promptos. Assim logo que desembarcou
-enviou-lhe um mensageiro, que lhe trouxe em
-resposta que tudo estava descoberto, que os cavallos haviam
-sido roubados e que Lavalleja e os seus companheiros
-não tinham outro partido a tomar senão embarcarem
-de novo e o mais depressa possivel, devendo dirigir-se
-para Buenos-Ayres.</p>
-
-<p>Mas Lavalleja respondeu que não partia, pois não podia,
-<span class="pagenum" id="Page_139">139</span>
- nem queria recuar, e ordenando aos remadores de
-voltarem para Buenos-Ayres sem elle, tomou posse, no dia
-19 de abril, de Montevideo em nome da liberdade.</p>
-
-<p>No dia seguinte os trinta valentes que tinham apanhado
-alguns cavallos, com o consentimento de seus donos,
-pozeram-se em marcha para a capital, mas foram encontrados
-por um destacamento de cavalleiros, de que quarenta
-eram brazileiros e cento e sessenta orientaes.</p>
-
-<p>Eram commandados por um antigo irmão de armas de
-Lavalleja, o coronel Jurien. Lavalleja podia evitar o combate,
-mas não o quiz e marchou direito aos duzentos cavalleiros,
-e pediu uma entrevista ao coronel antes de entrar
-em combate.</p>
-
-<p>&mdash;Que quer e que vem aqui fazer? perguntou Jurien
-a Lavalleja.</p>
-
-<p>&mdash;Venho libertar Montevideo do dominio estrangeiro,
-respondeu Lavalleja, se tem as minhas idéas acompanhe-me,
-se não, entregue-me as suas armas, ou prepare-se
-para o combate.</p>
-
-<p>&mdash;Não comprehendo o que querem dizer essas palavras=<i>entregue-me
-as suas armas</i>, respondeu o coronel,
-e espero que ninguem m'as ha-de explicar.</p>
-
-<p>&mdash;Então tome o commando dos seus soldados, e vamos
-vêr por quem é Deus.</p>
-
-<p>&mdash;Veremos, disse Jurien.</p>
-
-<p>E partiu a galope a unir-se aos seus soldados.</p>
-
-<p>Mas no mesmo momento Lavalleja desenrolou a bandeira
-nacional, azul, branca e encarnada e immediatamente
-os cento e sessenta orientaes passaram para o seu
-lado.</p>
-
-<p>Os quarenta brazileiros foram feitos prisioneiros.</p>
-
-<p>A marcha de Lavalleja para Montevideo foi uma verdadeira
-marcha triumphal, de que o resultado foi que a
-republica oriental, proclamada pela vontade e enthusiasmo
-de um povo inteiro, tomou logar entre as nações.</p>
-
-<h2 id="cap_rosas">ROSAS</h2>
-
-<p>Durante estes acontecimentos engrandecia-se um nome
-que mais tarde devia ser o terror da federação argentina.</p>
-
-<p>Pouco depois da revolução de 1810 um mancebo de
-<span class="pagenum" id="Page_140">140</span>
-quinze a dezaseis annos saía de Buenos-Ayres, abandonando
-a cidade e dirigindo-se para o campo. Ia muito perturbado
-e caminhava apressadamente.</p>
-
-<p>Este mancebo chamava-se João Manoel Rosas.</p>
-
-<p>Porque esta creança, este fugitivo abandonava a casa
-onde havia nascido? Porque ia pedir um asylo aos habitantes
-dos montes? É porque acabava de insultar sua mãe,
-como mais tarde devia insultar a sua patria; ia perseguido
-pela maldição paterna.</p>
-
-<p>Este successo, sem nenhuma importancia para os
-acontecimentos d'aquelle paiz, esqueceu bem depressa
-no meio de factos mais serios que então tiveram logar, e
-em quanto todos os antigos companheiros do fugitivo se
-reuniam debaixo do estandarte da independencia para combater
-os hespanhoes, Rosas, andava pelos <i>pampas</i> entregando-se
-á vida dos gauchos, adoptando o seu vestuario
-e costumes, tornando-se um dos melhores cavalleiros e um
-dos homens mais habeis d'essas immensas planicies, no
-manejo do laço e da bola, de sorte que vendo-o tão habil
-n'estes exercicios selvagens, quem não o conhecesse
-não o tomaria por um habitante da cidade, nem por um
-<i>pueblero</i> fugitivo, mas por um verdadeiro gaucho.</p>
-
-<p>Rosas entrou primeiramente como <i>peon</i>, isto é jornaleiro,
-em uma estancia, depois foi <i>capataz</i>,&mdash;Garibaldi já
-nos explicou o que era um <i>capataz</i>&mdash;chegando depois a
-<i>mayordomo</i>.</p>
-
-<p>N'esta qualidade governava os bens da poderosa familia
-Anchorena. É d'ahi que começa a sua fortuna como
-proprietario.</p>
-
-<p>Sendo o nosso designio fazer conhecer Rosas debaixo
-de todos os aspectos; vamos dizer qual era a situação do
-seu espirito no meio dos acontecimentos que então tinham
-logar.</p>
-
-<p>Rosas tinha estado em Buenos-Ayres durante os prodigios
-praticados pela revolução contra a Hespanha. Então
-quem tinha coragem procurava a celebridade no campo
-da batalha, quem tinha instrucção procurava-a nos
-conselhos. Rosas era ambicioso de celebridade, mas qual
-era a que elle poderia esperar? Que nome poderia adquirir,
-elle que não tinha nem coragem para se apresentar
-no campo da batalha, nem instrucção alguma para adquirir
-um nome entre os homens da sciencia? A todos
-<span class="pagenum" id="Page_141">141</span>
-os momentos ouvia proferir a seu lado alguns nomes que
-se haviam tornado celebres. Eram como ministros, Rivadaria,
-de Pasos, de Aguerro, como guerreiros, Saint-Martin,
-de Baléarés, de Rodrigues, e de Las Heras.</p>
-
-<p>E todos estes nomes de que o ruido, vindo da cidade,
-ia achar éco nas solidões dos campos, todos estes nomes
-avivavam o seu odio contra essa cidade que tendo triumphos
-para todos, não tinha para elle senão o exilio.</p>
-
-<p>Já n'esta época Rosas pensava no futuro e preparava-o.
-Errando pelos pampas, confundido com os gauchos,
-fazia-se o companheiro da miseria do povo, elogiando os
-prejuizos do homem das planicies, excitando-o contra os
-cidadãos, demonstrando-lhe a superioridade do numero e
-diligenciando fazer-lhe comprehender que quando quizessem
-os habitantes do campo, seriam senhores da cidade.</p>
-
-<p>Os annos foram passando, até que chegamos a 1820.</p>
-
-<p>Foi então que Rosas começou a apparecer, apoiado na
-influencia que havia adquirido nos habitantes das planicies.</p>
-
-<p>Já vimos o que se passou em Montevideo. Vejamos
-agora o que se passou em Buenos-Ayres.</p>
-
-<p>A milicia de Buenos-Ayres rebellou-se contra o governador
-Rodrigues. Então um regimento das milicias do campo,
-<i>los colorados de las Conchas</i> entraram na cidade, em
-5 de outubro de 1820, tendo á sua frente um coronel, que
-era conhecido em Buenos-Ayres, e que conhecia Buenos
-Ayres.</p>
-
-<p>Este coronel era Rosas.</p>
-
-<p>No dia seguinte as milicias do campo, e as milicias
-da cidade vieram ás mãos, mas n'esse dia o coronel não
-estava á frente do regimento.</p>
-
-<p>Uma violenta dôr de dentes, que Rosas deixou de soffrer
-assim que finalisou o combate, affastava-o, com grande
-pezar, do campo da batalha. E porque não teria elle razão?
-Octavio tambem teve um grande ataque de febre
-no dia da batalha de Actium.</p>
-
-<p>Rosas parecia-se muito com Octavio; mas mais tarde
-Octavio foi Augusto, o que segundo todas as probabilidades
-nunca será Rosas.</p>
-
-<p>Esta entrada em Buenos-Ayres foi a unica expedição
-guerreira em que Rosas tomou parte durante toda a sua
-vida politica.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_142">142</span>
-Foi então que Rivadavia, já mui conhecido, foi nomeado
-ministro do reino, tomando a direcção de todos os
-negocios.</p>
-
-<p>Rivadavia era um d'esses homens de genio, como apparecem
-no meio das revoluções durante os dias de tormenta.
-Havia viajado muito na Europa, possuindo uma
-instrucção universal, e parecendo animado do mais ardente
-e puro patriotismo. Infelizmente a vista da civilisação
-europea, que tinha estudado em Paris e Londres
-havia-lhe feito nascer falsas idéas da sua applicação a um
-povo que não tendo por detraz de si dez seculos de luctas
-sociaes, não as podia admittir.</p>
-
-<p>Rivadavia queria dobrar a marcha do tempo e fazer
-o mesmo pela America que Pedro o Grande havia feito
-pela Russia; mas não tendo á sua disposição os meios de
-Pedro foi obrigado a desistir das suas intenções.</p>
-
-<p>Póde ser que com mais alguma esperteza Rivadavia
-as tivesse alcançado, mas censurava os homens pelos seus
-habitos e certos habitos são uma nacionalidade e outros um
-orgulho. Escarnecia os trajes americanos, manifestando a
-sua repugnancia pela <i>jaqueta</i>, o seu desprezo pela <i>chiripa</i>,
-o vestuario do homem dos campos, e como ao mesmo
-tempo não occultava a sua preferencia pela casaca e bota
-de polimento, despopularisou-se pouco a pouco, e sentiu
-o poder prestes a escapar-lhe.</p>
-
-<p>E não obstante que de beneficios não fez ao seu paiz
-em troca d'esses vestidos ridiculos que lhe queria tirar?
-A sua administração foi a mais prospera que Buenos-Ayres
-teve. Foi elle que fundou a universidade, os liceos,
-e que introduziu nas escolas o ensino mutuo. Durante a
-sua administração, muitos sabios foram chamados da Europa,
-as artes foram protegidas, desenvolvendo-se muito,
-emfim Buenos-Ayres era chamada a Athenas da America
-do Sul.</p>
-
-<p>Já fallámos da guerra de Buenos-Ayres em 1826. Para
-sustentar esta guerra, Buenos-Ayres fez sacrificios enormes,
-exgotando as suas finanças, e enfraquecendo por
-esse motivo muito as molas da sua administração.</p>
-
-<p>Exgotadas as finanças, enfraquecido o governo, as revoluções
-começaram.</p>
-
-<p>Já dissemos que em Buenos-Ayres como em Montevideo,
-o campo e a cidade nunca estavam em harmonias de
-<span class="pagenum" id="Page_143">143</span>
-opiniões, como nunca o estavam em harmonias de interesse.</p>
-
-<p>Buenos-Ayres fez uma revolução.</p>
-
-<p>Immediatamente o campo fez uma revolução, e dirigindo-se
-sobre Buenos-Ayres, invadiu a cidade e fez o
-seu chefe governador.</p>
-
-<p>Este chefe era Rosas.</p>
-
-<p>Vamos fechar o parenthesis, aberto algumas paginas
-atraz.</p>
-
-<p>Em 1830 Rosas foi eleito governador pela influencia
-dos habitantes do campo, não obstante a opposição da cidade,
-que elle encontrou meia policiada pela administração
-de Rivadavia.</p>
-
-<p>Então Rosas, o gaucho, tentou reconciliar-se com a
-civilisação, parecendo querer esquecer os costumes selvagens
-adoptados por elle até então: a serpente queria mudar
-de pelle.</p>
-
-<p>Mas a cidade resistiu ás suas tentativas, e a civilisação
-recusou receber o transfuga que se havia passado para
-o campo da barbaria. Rosas mostrava-se revestido de
-um uniforme, e immediatamente os militares perguntavam
-em que campo de batalha havia elle ganho aquellas dragonas.
-Fallava n'uma reunião, e logo os homens intelligentes
-perguntavam entre si onde tinha elle ido aprender
-aquelle estylo; quando apparecia n'um passeio, as mulheres
-designando-o com o dedo diziam: «Ahi vae o gaucho
-disfarçado!»</p>
-
-<p>Os tres annos do seu governo passaram-se n'esta lucta
-mortal para o seu orgulho, e póde ser que a estas torturas
-moraes que lhe fizeram soffrer n'este periodo, seja
-devida a sua ferocidade. D'esta maneira quando resignou
-o poder e desceu a escada do palacio, com a alma cheia
-de odio, e o coração de fel, sabendo que desde então não
-havia alliança possivel com a cidade, foi ter de novo com
-os seus fieis gauchos, e as suas estancias de que era o senhor,
-com a intenção de um dia entrar de novo em Buenos-Ayres,
-como Scylla, que elle não conhecia e de quem
-provavelmente nunca havia ouvido fallar, havia entrado
-em Roma, com a espada n'uma mão e uma tocha m outra.</p>
-
-<p>Para alcançar este fim vejamos o que elle fez. Pedia
-ao governo que lhe concedesse um commando qualquer
-<span class="pagenum" id="Page_144">144</span>
-no exercito que ia combater os indios selvagens. O governo
-que o temia julgou affastal-o concedendo-lhe este
-favor, e deu-lhe todas as tropas de que podia dispôr, esquecendo
-que se enfraquecia mettendo todo o poder nas
-mãos de Rosas.</p>
-
-<p>Este logo que se achou á frente do exercito fez uma
-revolução em Buenos-Ayres, fez-se chamar ao poder que
-não acceitou senão com grandes condições, porque tinha
-ás suas ordens todo o exercito, e entrou em Buenos-Ayres
-com a dictadura mais absoluta de que se tem conhecimento,
-isto é <i>com toda la suma del poder publico</i>&mdash;com
-toda a extensão do poder publico.</p>
-
-<p>O governador que elle fez cair, ou antes que elle precipitou
-era o general João Romão Baleace, um dos homens
-que tinha mais trabalhado na guerra da independencia,
-e um dos chefes do partido federal de que Rosas
-se dizia o sustentaculo. Baleace era um nobre coração e
-a sua fidelidade á patria era proverbial. Havia acreditado
-em Rosas e tinha trabalhado muito para a sua elevação.
-Baleace foi o primeiro sacrificado por Rosas, morrendo proscripto
-e quando o seu cadaver repassou a fronteira, protegido
-pela morte, Rosas recusou á sua familia, não as
-honras funebres que eram devidas a um ex-governador,
-mas as simples ceremonias a quem todo o cidadão tem direito.</p>
-
-<p>Em 1833 foi que começou o verdadeiro poder de Rosas.
-No seu primeiro governo, cheio de dissimulação, não
-tinha apresentado os seus instinctos de crueldade, que fizeram
-depois d'elle uma celebridade de sangue. Este primeiro
-periodo não tinha sido marcado senão pelo fuzilamento
-do major Monteiro e dos prisioneiros de S. Nicolau.
-Comtudo não devemos esquecer que foi n'esta época que
-tiveram logar muitas mortes sombrias e subitas, d'essas
-mortes de que a historia inscreve a data com tinta encarnada
-no livro das nações.</p>
-
-<p>D'esta maneira desappareceram dois chefes de que a
-influencia poderia fazer alguma sombra a Rosas. As mortes
-de Arbolito e de Molina tiveram logar n'esta época. O
-mesmo aconteceu, segundo nos parece, aos dois consules
-que acompanharam Octavio na sua primeira batalha contra
-Antonio.</p>
-
-<p>Daremos mais alguns detalhes de Rosas que ainda não
-<span class="pagenum" id="Page_145">145</span>
-nos appareceu senão como dictador, mas tendo já alcançado
-um poder como poucos homens tem exercido n'uma
-nação.</p>
-
-<p>Em 1833, Rosas contava trinta e nove annos. Tinha o
-aspecto europeo, cabellos louros, olhos azues, e uma presença
-soffrivel. Não usava nem de barbas, nem de bigodes. O
-seu olhar seria bello se se podesse examinar, mas Rosas havia-se
-habituado a não olhar de frente, nem os seus amigos
-nem os seus inimigos, porque sabia que n'um amigo
-existe quasi sempre um inimigo disfarçado. A sua voz era
-doce, e, quando tinha necessidade de agradar a sua conversação
-tinha muito de attrahente. A sua reputação de
-cobarde é proverbial, e a de esperto é universal. Adorava
-as mystificações, sendo esta a sua grande occupação antes
-de se entregar aos negocios serios. Uma vez chegado ao
-poder, não foi senão uma distracção, que eram brutaes
-como a sua natureza.</p>
-
-<p>Citemos um ou dois exemplos:</p>
-
-<p>Uma tarde que devia jantar na companhia de um dos
-seus amigos, occultou o vinho destinado a beber-se e deixou
-unicamente no bofete uma garrafa do famoso licor de
-Leroy, que para ser completamente celebre só lhe falta ser
-descuberto no tempo de Moliere. O amigo procurando o
-vinho só achou a garrafa de Leroy e encontrando-lhe um
-gosto mui agradavel, bebeu-a toda. Rosas não bebeu se
-não agua, e partiu logo que acabou o jantar para a sua
-estancia.</p>
-
-<p>Durante a noite o amigo de Rosas soffreu dores infernaes.
-Rosas riu muito d'este seu innocente brinquedo, se
-elle tivesse morrido, Rosas teria, sem duvida, rido muito
-mais.</p>
-
-<p>Quando recebia algum cidadão em uma das suas estancias,
-fazia-o montar em cavallos muito fogosos e a sua
-alegria era conforme a gravidade da queda que o cavalleiro
-dava.</p>
-
-<p>No palacio do governo achava-se sempre rodeado de
-loucos e de imbecis, e no meio dos negocios mais serios
-conservava este singular cortejo. Quando sitiava Buenos-Ayres,
-em 1829, tinha a seu lado quatro d'estes pobres
-diabos, que havia feito monges, tornando-se em virtude do
-seu poder, seu prior. Chamavam-se frei Biqua, frei Chaja,
-frei Lechuza, e frei Biscacha. Rosas gostava muito de
-<span class="pagenum" id="Page_146">146</span>
-confeitos, tendo-os sempre de todas os qualidades na sua
-tenda.</p>
-
-<p>Os monges que tambem gostavam muito de confeitos,
-roubavam alguns de quando em quando. Rosas então chamava-os
-a todos e os monges que sabiam o que lhe custaria
-a mentir, confessavam o crime.</p>
-
-<p>Immediatamente o culpado era despojado dos vestidos
-e fustigado pelos seus tres companheiros.</p>
-
-<p>Todos conheciam em Buenos-Ayres o seu mulato Eusebio,
-e para isso muito concorreu Rosas que em um dia
-de recepção publica, teve a idéa de fazer o mesmo que a
-condessa Dubarry fazia com o preto Zamora.</p>
-
-<p>Eusebio vestido de governador recebeu os cumprimentos
-das authoridades, em logar do seu <i>senhor</i>.</p>
-
-<p>Não obstante a amizade que Rosas tinha a Eusebio,
-teve um dia a lembrança de lhe fazer uma <i>brincadeira</i>,
-como costumavam ser todas as que esta boa alma inventava.
-Fingiu que acabava de ser descoberta uma conspiração,
-contra elle, de que o chefe era Eusebio. O fim
-d'esta conspiração era matar Rosas. Eusebio foi preso apezar
-dos seus protestos de innocencia. Rosas dominava
-os juizes a tal ponto que elles não se importavam se o
-accusado era ou não innocente. Rosas accusava, e elles
-julgaram e condemnaram Eusebio á morte.</p>
-
-<p>Eusebio soffreu todos os preparativos do supplicio. Confessou-se,
-e sendo depois conduzido ao logar do supplicio,
-ahi encontrou o carrasco e seus ajudantes, e quando este
-<i>brinquedo</i> estava quasi a terminar tragicamente, appareceu
-Rosas que disse a Eusebio estar sua filha Manuelita
-apaixonada por elle, e que por isso lhe perdoava, com a
-condição de a desposar.</p>
-
-<p>É inutil dizer que Eusebio não morrendo do supplicio
-esteve quasi a morrer de medo.</p>
-
-<p>Vamos agora dizer aos nossos leitores quem era como
-mulher esta Manuelita que a Providencia tinha collocado
-ao pé de seu pae como um bom anjo, de que a principal
-occupação, durante toda a sua vida, foi repetir todos os
-dias a palavra <i>perdão</i>, alcançando-o muitas vezes.</p>
-
-<p>Manuelita é hoje uma mulher de quarenta annos que
-por dedicação por seu pae, e póde ser, que talvez pela
-missão que recebeu do ceu, se tem conservado solteira,
-pelo menos até 1850, época em que a perdemos de vista.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_147">147</span>
-Manuelita não era precisamente uma mulher encantadora,
-mas era bella, com uma figura distincta, dotada
-de um tacto profundo, coquette como uma parisiense, e
-muito preoccupada, sobre tudo do effeito que produzia
-nos estrangeiros.</p>
-
-<p>Manuelita foi muito calumniada, o que era muito natural
-por ser filha de Rosas, isto é, do homem sobre o qual
-convergiam todos os odios. Era accusada de ter herdado
-os sentimentos crueis de seu pae, e de ter, como a filha
-do papa Borgia, esquecido o amor filial por outro mais
-terno e menos christão.</p>
-
-<p>Tudo isto é falso. Manuelita ficou solteira por duas
-razões: a primeira porque Rosas sentia muitas vezes a necessidade
-de ser amado, e sabia que o unico amor real,
-dedicado, infinito, sobre que podia contar era o de sua
-filha. Manuelita ficou solteira porque, talvez, nos seus sonhos
-de realeza, Rosas, hoje simples particular, vivendo
-num canto da Inglaterra, via no futuro brilhar para Manuelita
-alguma alliança mais aristocratica do que aquellas
-a que poderia então aspirar.</p>
-
-<p>Tanto a historia deve ser severa para com Rosas, tanto,
-a menos de ser injusta, deve ser cheia de indulgencia
-para com Manuelita, a quem todos que a conhecem fazem
-justiça, reconhecendo o que dizemos como uma verdade.
-Manuelita foi o dique eterno, que fazia parar a colera de
-seu pae. Quando creança tinha um meio muito extravagante
-para obter d'elle a graça que pedia.</p>
-
-<p>Fazia despir completamente o mulato Eusebio, arreiando-o
-como um cavallo, e calçava uns lindos sapatos com
-esporas. Eusebio punha as mãos no chão, e Manuelita
-montava-se-lhe nas costas, fazendo caracolar o seu bucephalo
-humano diante de seu pae que ria muito d'este singular
-brinquedo, concedendo a Manuelita o perdão que
-implorava.</p>
-
-<p>Mais tarde quando ella comprehendeu que não podia
-empregar este meio, apezar de ser tão efficaz, começou a
-pôr em pratica a obra de Mecena ao pé de Augusto, quando
-elle lhe lançava as suas tabuas nas quaes estava escripto:
-<i>Surge, carnifex</i>! Mas Manuelita procedia de outra
-maneira, porque conhecendo seu pae perfeitamente,
-sabia as vaidades secretas que era necessario fazer vibrar,
-e por isso muitas vezes alcançava o que pedia.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_148">148</span>
-Manuelita era ao mesmo tempo a rainha e escrava de
-seu pae. Administrava a casa, cuidava de Rosas, e encarregada
-de todas as relações diplomaticas era o verdadeiro
-ministro dos negocios estrangeiros de Buenos-Ayres.</p>
-
-<p>Assim como Rosas era um ente á parte, que não se
-confundia com pessoa alguma na sociedade, Manuelita era
-tambem uma creatura não só estranha no meio de todas,
-mas mesmo estranha a todas, e que viveu n'este mundo
-solitaria, longe do amor dos homens e da sympathia das
-mulheres.</p>
-
-<p>Rosas tambem tinha um filho chamado João, mas que
-nunca seguiu a politica de seu pae, e uma filha que ainda
-creança casou, sendo hoje uma casta esposa e mãi feliz,
-tendo um nome, o de seu marido, honrado e respeitado
-por todos.</p>
-
-<p>Tendo alcançado o poder, o grande trabalho de Rosas,
-foi anniquilar a federação.</p>
-
-<p>Lopes o seu fundador, cahiu doente. Rosas mandou-o
-vir para Buenos-Ayres e tornou-se seu enfermeiro.</p>
-
-<p>Lopes morreu envenenado.</p>
-
-<p>Quiroga, o chefe da federação, que havia escapado
-são e salvo de vinte batalhas, e de quem a coragem e lealdade
-era proverbial, morreu assassinado.</p>
-
-<p>Cullen, o conselheiro da federação, foi nomeado governador
-de Santa Fé. Rosas improvisou uma revolução,
-e Cullen foi entregue a Rosas pelo governador de São
-Thiago.</p>
-
-<p>Cullen foi fuzillado.</p>
-
-<p>Todos os homens notaveis no partido federal tiveram
-a mesma sorte que tinham tido na Italia os homens de
-consideração durante o dominio dos Borgias. Pouco a pouco,
-Rosas, empregando os mesmos meios que Alexandre VI
-e seu filho Cesar, conseguiu reinar na republica argentina,
-que apezar de reduzida a uma perfeita unidade, conserva
-ainda o nome pomposo de federação, e vae talvez,
-ser inimiga dos <i>unitarios</i>.</p>
-
-<p>Diremos algumas palavras dos homens que acabamos
-de nomear, fazendo reviver algum tempo os seus spectros
-accusadores, o que dará alguma idéa da scena de
-Shakespeare no <i>Ricardo 3.<sup>o</sup></i>, antes do combate.</p>
-
-<p>Havia n'esses homens uma especie de selvajaria politica
-que é digna de ser conhecida.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_149">149</span>
-Fallemos primeiramente do general Lopes. Uma unica
-anedocta, dará não sómente idéa d'este chefe, mas fará
-conhecidos os homens com quem elle tinha a tratar.</p>
-
-<p>Lopes era governador da Santa Fé, e tinha em Entre
-Rios um inimigo pessoal, o coronel Ovando, que em seguida
-a uma revolta foi conduzido prisioneiro ao general
-Lopes.</p>
-
-<p>O general almoçava. Recebeu perfeitamente Ovando
-e convidou-o a almoçar. A conversação travou-se entre
-elles como entre dois convivas, aos quaes uma egualdade
-de condições tivesse ordenado a mais perfeita cortezia.</p>
-
-<p>Comtudo no meio da conversação, Lopes exclamou:</p>
-
-<p>&mdash;Coronel, se eu tivesse cahido nas suas mãos, como
-cahiu nas minhas e isto no momento em que almoçasse,
-que faria?</p>
-
-<p>&mdash;Convidal-o-ia para almoçar, como v. ex.<sup>a</sup> acaba de
-fazer.</p>
-
-<p>&mdash;E depois?</p>
-
-<p>&mdash;Mandava-o fuzillar.</p>
-
-<p>&mdash;Estimo muito que pense do mesmo modo que eu.
-Acabando de almoçar será fuzillado.</p>
-
-<p>&mdash;Se não se quer demorar muito, póde ser já.</p>
-
-<p>&mdash;Não, não, acabe de comer descançado, não tenho
-muita pressa.</p>
-
-<p>E continuaram a almoçar com todo o descanço, e tendo
-concluido:</p>
-
-<p>&mdash;Julgo ser tempo, disse Ovando.</p>
-
-<p>&mdash;Agradeço-lhe o não haver esperado que eu o lembrasse,
-respondeu Lopes.</p>
-
-<p>Depois chamando o seu camarada.</p>
-
-<p>&mdash;O piquete está prompto? perguntou elle.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, meu general, respondeu o soldado.</p>
-
-<p>Então voltando-se para Ovando:</p>
-
-<p>&mdash;Adeus, coronel, disse Lopes.</p>
-
-<p>&mdash;Adeus, não; mas sim até á vista, porque não se
-vive muito tempo quando se fazem guerras como as nossas.</p>
-
-<p>E cumprimentando Lopes sahiu. Cinco minutos depois,
-o estrondo de uma descarga annunciou a Lopes que o coronel
-Ovando havia entregue a alma a Deos.</p>
-
-<p>Passemos a Quiroga.</p>
-
-<div class="pagenum" id="Page_150">150</div>
-
-<h2 id="cap_quiroga">QUIROGA</h2>
-
-<p>Este é mais nosso conhecido. A sua reputação atravessando
-os mares, fez echo em Paris, e a moda apoderou-se
-d'elle: de 1820 a 1823 todos tinham capotes á
-Quiroga e chapeus á Bolivar. É provavel que nem um nem
-outro tivessem usado dos capotes e chapeus que os seus
-admiradores adoptaram a duas mil leguas de distancia.</p>
-
-<p>Quiroga, como Rosas, era tambem camponez e havia
-servido, na sua mocidade, como sargento no exercito de
-linha contra os hespanhoes.</p>
-
-<p>Retirado ao seu paiz natal, a Rioja, entrou nos partidos
-internos, e tornado-se senhor do paiz, lançou-se na lucta
-das differentes facções da republica, e foi n'estas luctas
-que se mostrou pela primeira vez á America.</p>
-
-<p>No fim de um anno, Quiroga era a espada do partido
-federal, e é talvez o unico homem que tenha obtido similhantes
-resultados pela simples applicação do seu valor pessoal.
-O seu nome tinha alcançado um tal prestigio que só
-elle valia muitos exercitos.</p>
-
-<p>A sua grande tactica no meio dos combates, era chamar
-para o pé de si o maior numero de perigos, e quando
-repentinamente dava o grito de guerra brandindo na
-mão essa longa lança que era a sua arma predilecta, os
-mais bravos faziam conhecimento com o medo.</p>
-
-<p>Quiroga era cruel, ou antes feroz, mas na sua ferocidade
-havia sempre alguma cousa de grande e generoso.
-Era a ferocidade do leão e não a do tigre.</p>
-
-<p>Quando o coronel Pringles, um dos seus maiores inimigos,
-foi feito prisioneiro e assassinado, o seu assassino
-apresentou-se a Quiroga, seu chefe, julgando ter ganho
-uma boa recompensa.</p>
-
-<p>Quiroga deixou-lhe contar o seu crime, e mandou-o
-fuzillar.</p>
-
-<p>Uma outra vez dois officiaes pertencentes ao partido
-inimigo foram feitos prisioneiros pelos soldados de Quiroga
-que lembrando-se do castigo do seu camarada, os conduziram
-sãos e salvos á presença do seu chefe.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_151">151</span>
-Quiroga offereceu-lhe abandonar as suas bandeiras,
-servindo debaixo das suas ordens.</p>
-
-<p>Um acceitou, outro recusou.</p>
-
-<p>&mdash;Está bem, disse elle ao que havia acceitado, montemos
-a cavallo e vamos vêr fuzillar o seu camarada.</p>
-
-<p>Aquelle sem fazer a menor observação, apressou-se a
-obedecer, e conversou todo o caminho alegremente com
-Quiroga de quem se julgava já ajudante de campo, em
-quanto o seu camarada cercado por um piquete, com as
-armas carregadas, marchava tranquillamente para a morte.</p>
-
-<p>Chegado ao logar destinado para a execução, Quiroga
-mandou ajoelhar o official que tinha recusado trahir
-o seu partido, e disse-lhe que se preparasse para morrer,
-e quando o viu prompto:</p>
-
-<p>&mdash;Vamos, disse Quiroga, ao pobre official que se julgava
-já morto, és um bravo.&mdash;Monta no cavallo do teu
-camarada e parte.</p>
-
-<p>E designava o cavallo do renegado.</p>
-
-<p>&mdash;E eu? perguntou este.</p>
-
-<p>&mdash;Tu, respondeu Quiroga, não precisas cavallo porque
-vaes morrer.</p>
-
-<p>E apezar das supplicas que lhe fez em favor do seu
-camarada, aquelle a quem acabava de dar a vida, mandou-o
-fuzillar.</p>
-
-<p>Quiroga só foi vencido uma vez, e essa pelo general
-Paz, o Fabio americano. Duas vezes destruiu o exercito
-de Quiroga nas terriveis batalhas de Tablada e Oncativo.
-Era um bello espectaculo para esses jovens republicanos
-o vêr a arte, a tactica e a estrategia em lucta contra a
-coragem indomavel e a vontade de ferro de Quiroga. Mas
-uma vez o general Paz foi feito prisioneiro, a cem passos
-do seu exercito, e desde essa época Quiroga foi invencivel.</p>
-
-<p>Terminada a guerra entre o partido unitario e o partido
-federal, Quiroga emprehendeu uma viagem ás provincias
-interiores sendo na volta, attacado em Barrancallaco
-por trinta assassinos, que fizeram fogo sobre a carroagem.
-Quiroga que se achava n'esta occasião doente,
-estava deitado, na carroagem, tendo-lhe por isso atravessado
-o peito uma balla. Apesar d'isso Quiroga levantou-se
-pallido e ensanguentado e abriu a portinhola. Vendo-o
-em pé, apezar de estar quasi cadaver, os assassinos fugiram;
-<span class="pagenum" id="Page_152">152</span>
-mas Santos Peres, seu chefe, dirigiu-se a Quiroga
-e dando-lhe um golpe na cabeça acabou de o matar.</p>
-
-<p>Então os assassinos voltaram e acabaram a obra começada.
-Eram os irmãos Renafé, commandantes em Cordova
-que de accordo com Rosas dirigiam esta expedição.
-Mas Rosas tinha tido todo o cuidado de affastar de si todas
-as suspeitas, de modo que ninguem julgou fosse elle
-um dos cumplices em similhante morte, podendo por isso
-tomar o partido do que tinha feito assassinar, perseguindo
-os assassinos que foram presos, julgados, e fuzillados.</p>
-
-<p>Falta Cullen.</p>
-
-<p>Cullen, que tinha nascido em Hespanha, havia-se estabelecido
-na cidade de Santa Fé, onde se tinha ligado
-com Lopes, sendo depois seu ministro e director na politica.
-A immensa influencia que Lopes teve na republica
-argentina, desde 1820 até á sua morte em 1833, fez
-de Cullen uma personagem muito importante. Quando nos
-dias de sua desgraça, Rosas proscripto emigrou para Santa
-Fé, recebeu de Cullen toda a especie de serviços, mas
-esses serviços não poderam fazer esquecer ao futuro dictador
-que Cullen era um dos homens que queriam acabar
-com o reinado da arbitrariedade na republica argentina.
-Comtudo soube occultar o seu odio a Cullen debaixo
-das apparencias da maior amizade.</p>
-
-<p>Pela morte de Lopes, Cullen foi nomeado governador
-da Santa Fé consagrando-se a fazer grandes melhoramentos
-na provincia, e em logar de se mostrar inimigo
-da França, mostrou por esta nação muitas sympathias,
-considerando que a sua alliança era um grande passo para
-as suas idéas civilisadoras. Então Rosas promoveu uma
-revolução, que appoiou publicamente, sendo coadjuvado
-por alguma tropa. Cullen vencido refugiou-se na provincia
-de Santiago del Estero, que governava o seu amigo
-Ibarra. Rosas, que destruindo a federação tinha já declarado
-Cullen <i>selvagem unitario</i>, entabolou negociações
-com Ibarra afim de lhe entregar Cullen.</p>
-
-<p>Durante muito tempo estas negociações não obtiverão
-resultado algum, julgando-se Cullen, seguro pela confiança
-que tinha no seu amigo, mas um dia foi preso pelos
-soldados de Ibarra e conduzido a Rosas que o mandou
-assassinar no meio do caminho, porque disse elle n'uma
-carta dirigida ao governador de Santa Fé que tinha
-<span class="pagenum" id="Page_153">153</span>
-succedido a Cullen, o seu <i>processo estava feito pelos seus
-crimes que eram conhecidos por todos</i>.</p>
-
-<p>Cullen era dotado d'uma conversação agradavel e
-d'um coração generoso. A sua influencia sobre Lopes
-foi sempre empregada a evitar toda a especie de rigor,
-e foi em resultado d'esta influencia que o general
-Lopes, não obstante as supplicas de Rosas, não consentiu
-em mandar fuzillar um unico dos prisioneiros da campanha
-de 1831, campanha que poz em seu poder os chefes
-mais importantes do partido unitario.</p>
-
-<p>Cullen possuia uma instrucção superficial e os seus
-talentos eram mediocres.</p>
-
-<p>Foi d'esta sorte que Rosas, o unico que talvez não
-teve nenhuma gloria militar, entre os chefes do partido
-federal, se desembaraçou dos chefes d'este partido, ficando
-desde então a pessoa mais importante da republica argentina,
-e senhor absoluto de Buenos Ayres.</p>
-
-<p>Então Rosas tendo alcançado todo o poder, commeçou
-a sua vingança contra as classes elevadas que até então
-o tinham despresado. No meio das personagens mais aristocratas
-e mais elegantes mostrava-se sempre vestido de
-jaqueta, ou sem gravata. Aos seus bailes a que presidia
-com sua mulher e filha, não eram convidados senão os
-carreiros, sapateiros, etc. Um dia abriu o baile dançando
-com uma escrava, e Manuelita com um gaucho.</p>
-
-<p>Mas não foi só d'esta maneira que elle puniu a soberba
-cidade, porque proclamou o terrivel principio:</p>
-
-<div class="manuscr">
-<p>«<i>o que não está comigo é contra mim</i>»</p>
-</div>
-
-<p>E desde então todo o homem que lhe desagradava foi
-classificado de <i>selvagem unitario</i>, e o que uma vez Rosas
-havia designando por este nome não tinha mais direito
-nem á vida nem á honra.</p>
-
-<p>Então para por em pratica as theorias de Rosas, organisou-se
-debaixo dos seus auspicios a famosa sociedade
-<span class="smcap">Mas-forca</span>, isto é, ainda ha forca. Esta sociedade era
-composta de tudo quanto havia de peor na sociedade.</p>
-
-<p>N'ella se achavam filiados por ordem superior o chefe
-da policia, os juizes de paz, e todos aquelles que deviam
-vigiar pela ordem publica. Por este meio quando
-os membros d'esta sociedade entravam em casa de qualquer
-cidadão, para a roubar ou assassinar o seu proprietario,
-era escusado chamar em seu auxilio a policia, porque
-<span class="pagenum" id="Page_154">154</span>
-ninguem corria a soccorrer a desgraçada victima.
-Estas excursões tinham logar quasi sempre de dia, tanto
-era o receio dos criminosos.</p>
-
-<p>E quer o leitor alguns exemplos? Vamos dal-os, por
-que não é costume nosso fazer uma accusação sem a provar.</p>
-
-<p>Os elegantes de Buenos-Ayres tinham n'esta época o
-habito de trazer os bigodes de modo que pareciam formar
-um U, e isto era sufficiente para a sociedade dos
-<span class="cs7">MAS-FORCA</span>, debaixo do pretexto de que o U queria dizer
-unitario, se apoderar do desgraçado, rapando-lhe a
-cara com navalhas mal afiadas, de modo que a carne vinha
-juntamente aos pedaços com os cabellos. Depois de
-praticarem esta barbaridade, abandonavam a victima aos
-caprichos da populaça, que muitas vezes continuava esta
-brincadeira até dar a morte áquelle desgraçado.</p>
-
-<p>As mulheres do povo começavam a usar nos cabellos
-a fita encarnada chamada <i>mono</i>. Um dia a Mas-forca collocada
-ás portas das principaes egrejas, marcou com
-um ferro em brasa todas as mulheres que entravam ou
-sahiam sem ter a tal fita.</p>
-
-<p>Tambem não era uma cousa extraordinaria o ver uma
-mulher despojada dos seus vestidos e açoitada no meio
-da rua, e isto porque ella trazia um lenço, um vestido
-um enfeite qualquer, no qual havia a cor azul ou verde.
-O mesmo succedia com os homens da mais elevada posição,
-sendo apenas necessario para elles correrem os
-maiores perigos que se apresentassem em publico de casaca
-ou com uma gravata.</p>
-
-<p>Ao mesmo tempo que as pessoas, sem duvida designadas
-á muito, e que pertenciam ás classes superiores
-da sociedade perseguidas por uma cruel vingança, eram
-victimas d'estas violencias, centenas de cidadãos eram
-encarcerados, e isso só porque as suas opiniões não estavam
-em harmonia com as do dictador. Ninguem conhecia
-o crime porque era preso, mas isso tambem era
-desnecessario, visto ser conhecido de Rosas. Do mesmo
-modo que o crime ficava desconhecido, tambem o
-julgamento era considerado inutil, e todos os dias as prisões
-para poderem dar entrada a novas victimas, eram
-despojadas de algumas d'ellas que erão fuziladas. Estes
-<span class="pagenum" id="Page_155">155</span>
-fuzilamentos tinham logar de noute, sendo a cidade constantemente
-accordada de sobresalto.</p>
-
-<p>De manhã, cousa horrivel que nem mesmo em França
-se viu durante os terriveis dias de 1793, os carreiros
-apanhavão tranquillamente os cadaveres dos assassinados
-e hiam ás prisões buscar os dos que tinham sido fuzillados,
-e conduzindo-os a um grande fosso onde eram todos
-lançados, sem que fosse permittido aos parentes das
-victimas o vir reconhecel-as e prestar-lhe as ultimas honras
-funebres.</p>
-
-<p>Ainda não é tudo: os carreiros que conduzião estes
-restos deploraveis annunciavam a sua chegada por
-terriveis gracejos que faziam fechar todas as portas e fugir
-a população. Muitas vezes decepavam a cabeça do tronco,
-enchendo cestos com ellas, e offerecendo-as depois
-aos tranzuentes assustados.</p>
-
-<p>Bem depressa o calculo se juntou á barbaridade, o
-fisco á morte.</p>
-
-<p>Rosas comprehendeu que o meio de se conservar no
-poder era crear em volta de si interesses inseparaveis dos
-seus.</p>
-
-<p>Então mostrou a uma parte da sociedade metade da
-fortuna da outra dizendo-lhe&mdash;É tua.</p>
-
-<p>A partir d'este momento a ruina dos antigos proprietarios
-de Buenos-Ayres foi consumada, começando os amigos
-de Rosas a obter grandes fortunas.</p>
-
-<p>O que não tinha ousado pensar nenhum tyranno, o
-que não tinha vindo á idéa de Nero, foi executado por
-Rosas: depois de haver assassinado o pai prohibiu ao filho
-o deitar luto. A lei que continha esta prohibição
-foi proclamada e fixada nas esquinas, e bem necessaria
-foi, porque quando não, tudo em Buenos Ayres andaria
-de luto!</p>
-
-<p>Os excessos d'este despotismo admiraram alguns estrangeiros
-e sobre tudo alguns francezes. Rosas cansou a paciencia
-de Luiz Felippe, paciencia bem reconhecida, e
-logo depois teve lugar o primeiro bloqueio pela esquadra
-franceza.</p>
-
-<p>Entretanto as classes elevadas tão mal tractadas, commeçarão
-a fugir de Buenos Ayres e para encontrar um
-asylo refugiaram-se no estado oriental, onde a maioria da
-cidade proscripta achou hospitalidade.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_156">156</span>
-Foi em vão que a policia de Rosas redobrou de vigilancia,
-foi em vão que uma lei prohibio de morte a emigração,
-foi em vão que a essa morte se juntaram os mais
-crueis detalhes, porque Rosas conheceu bem depressa que
-a morte só não era sufficiente; o terror e o odio que inspirava
-Rosas eram mais fortes que os meios inventados
-por elle, e a emigração augmentava d'uma maneira espantosa
-a todos os momentos. Para realisar a fuga de toda
-uma familia, era só necessario encontrar um barco que
-a podesse transportar. Encontrado elle, pai, mãe, filhos,
-irmãos, ahi se lançavam, abandonando casa, bens, fortuna,
-e todos os dias, se via chegar ao estado oriental,
-isto é a Montevideo algumas d'essas barcas cheias de passageiros
-tendo por unica fortuna o fato que levavam em
-cima de si.</p>
-
-<p>Nenhum d'esses fugitivos teve de se arrepender da
-confiança que tinham posto na hospitalidade do povo oriental,
-pois essa hospitalidade foi como o teria sido a d'uma
-republica antiga; hospitalidade como devia esperar o
-povo argentino d'amigos, ou antes d'irmãos, que tantas
-vezes tinham combatido unidos para repellir os inglezes,
-hespanhoes ou brasileiros,&mdash;inimigos communs, inimigos
-estrangeiros&mdash;menos perigosos comtudo do que esse que
-havia nascido no meio d'elles.</p>
-
-<p>Os argentinos chegavão em grande quantidade, e erão
-esperados no porto pelos habitantes, que escolhiam em
-rasão dos seus recursos pecuniarios, ou do tamanho da
-sua casa os emigrados que podiam recolher. Então viveres,
-dinheiro, fato, tudo era posto á disposição d'esses
-desgraçados, até que elles tivessem alcançado alguns recursos,
-no que todos os coadjuvavão. Elles do seu lado
-reconhecidos entregavam-se ao trabalho, afim de alliviar
-o fardo que impunhão aos seus hospedes, dando-lhe assim
-os meios de receber novos fugitivos. Para poderem
-praticar tão nobre acção, as pessoas mais habituadas ao
-luxo trabalhavão nos misteres mais infimos, enobrecendo-se
-tanto mais a occupação a que se entregavam era
-em opposição com o seu estado social.</p>
-
-<p>Foi por este modo que os mais bellos nomes da republica
-argentina figuram na emigração.</p>
-
-<p>Lavallée, a espada mais brilhante do seu exercito,
-Florencio Varella, o seu mais bello talento, Aguero, um
-<span class="pagenum" id="Page_157">157</span>
-dos seus primeiros homens de estado; Echaverria, o seu
-Lamartine; La Vega, o Bayardo do exercito das Andes;
-Guttierez, o feliz cantor das glorias nacionaes; Alsina o
-grande advogado e illustre cidadão, pertencem ao numero
-dos emigrados, assim como apparecem Saenz, Valente,
-Molino, Torres, Ramos, Megia, grandes proprietarios;
-como apparecem, Rodrigues, o velho general dos exercitos
-da independencia, e unitario; Olozabal, um dos mais
-bravos d'esse exercito das Andes de que dissemos ter
-sido La Vega o Bayardo. Rosas perseguia igualmente o
-<i>unitario</i> e o <i>federal</i>, não se preocupando senão de se
-desembaraçar de todos os que podiam ser um obstaculo
-á sua dictadura.</p>
-
-<p>É á hospitalidade concedida aos homens que elle perseguia
-que deve ser attribuido o odio de Rosas ao Estado
-oriental.</p>
-
-<p>Na épocha a que nos referimos a presidencia da republica
-era exercida pelo general Fructuoso Rivera.</p>
-
-<p>Rivera era camponez, como Rosas, como Quiroga;
-unicamente os seus instinctos erão humanitarios o que
-o fazia inimigo de Rosas. Como homem de guerra, a
-bravura de Rivera não podia ser excedida; como chefe
-de partido a sua generosidade não podia ser igualada.
-Durante trinta e cinco annos figurou nas scenas politicas
-do seu paiz. Quando a revolução contra a Espanha começou,
-Rivera sacrificou a sua fortuna, por que não era
-só generoso, era prodigo.</p>
-
-<p>Do mesmo modo que Rivera era prodigo para com os
-homens, Deus tinha sido prodigo para com elle. Era um
-bello cavalheiro, em todo o sentido da palavra hespanhola
-<i>caballero</i>, que comprehende ao mesmo tempo o soldado e
-o gentilhomem, de estatura elevada, de olhar prescutador,
-conversando com graça, e attraindo todos por um
-gesto particular que só lhe pertencia, sendo por isso o
-homem mais popular dos Estados orientaes. Mas se Rivera
-como homem era mui apreciavel, como administrador
-nunca houve nenhum que desorganisasse mais os recursos
-pecuniarios d'uma nação. Assim como havia destruido
-a sua fortuna particular, destruiu a fortuna publica,
-não para se enriquecer, mas porque homem publico
-tinha conservado todos os habitos do homem particular.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_158">158</span>
-Na epocha que descrevemos, essa ruina ainda não se
-fazia sentir: Rivera, commeçava a sua presidencia, e estava
-rodeado dos homens mais notaveis do paiz: Obez,
-Herrero, Vasques, Alvares, Ellauri, Luiz Eduardo Peres,
-erão verdadeiramente senão seus ministros ao menos seus
-directores, e com estes homens tudo o que era progresso,
-liberdade e prosperidade, estava promettido a este
-bello paiz.</p>
-
-<p>Obez, o primeiro dos amigos de Rivera era um homem
-d'um caracter respeitavel. O seu patriotismo, o seu
-talento eminente, a sua instrucção profunda o collocaram
-no numero dos grandes homens da America, e para
-que nada faltasse á sua popularidade, morreu no exilio
-victima do systema de Rosas no Estado oriental.</p>
-
-<p>Luiz Eduardo Peres, era o Aristides de Montevideo.
-Republicano severo, patriota exaltado, consagrou a sua
-longa existencia á virtude, á liberdade, e ao seu paiz.</p>
-
-<p>Vasquez, homem de talento e instrucção, rendeu os
-primeiros serviços ao seu paiz no cerco de Montevideo,
-na guerra contra a Hespanha e acabou a sua carreira durante
-o cerco contra Rosas.</p>
-
-<p>Herrera, Alvares, e Ellauri cunhados de Obez, não
-ficaram atraz dos que temos nomeado. Foram deffensores
-dedicados do Estado oriental, e de toda a causa americana,
-sendo por isso os seus nomes mui respeitados em
-todo o territorio americano.</p>
-
-<h2 id="cap_oribe">MANUEL ORIBE</h2>
-
-<p>A presidencia de Rivera finalisou em 1834. O general
-Manuel Oribe foi quem lhe succedeu, por influencia
-do proprio Rivera que contava ter n'elle um amigo e continuador
-do seu systema. Com effeito Manuel Oribe tinha
-sido nomeado general por Rivera, e havia feito parte
-da precedente administração, como ministro da guerra.</p>
-
-<p>Oribe pertencia ás primeiras familias do paiz. O seu
-espirito era fraco, a sua intelligencia acanhada, explicando-se
-por isso a sua alliança com Rosas, a quem se
-entregou totalmente, sem pensar que essa alliança trazia
-comsigo a perda d'essa mesma independencia pela qual
-tantas vezes havia combatido.</p>
-
-<p>Como general a sua incapacidade era incompleta. As
-<span class="pagenum" id="Page_159">159</span>
-suas paixões tinham a violencia das organisações nervosas
-e arrastavam-n'o á crueldade. Como particular era
-um homem honesto.</p>
-
-<p>Como administrador foi mais economico que Rivera
-e não se lhe pode censurar o ter augmentado o defficit
-do thesouro, e comtudo é a elle que cabe toda a responsabilidade
-da ruina do Estado oriental. Esquecendo que
-para ser chefe de partido, não é sufficiente só o querer
-sel-o, recusou o ficar alliado do grande partido nacional
-de que Rivera era chefe. Querendo formar um partido
-seu, excitou a desconfiança de todos e espantado pela sua
-fraqueza lançou-se nos braços de Rosas. Ainda que o tratado
-tivesse ficado secreto todos conheceram esta alliança
-pelas hostilidades secretas do governo contra a emigração
-argentina e como todos detestavão o systema de Rosas,
-o paiz seguiu Rivera, quando elle em 1836 se collocou
-á frente d'uma revolução contra Oribe.</p>
-
-<p>Não obstante essa revolução em que tomou parte quasi
-todo o paiz, Oribe resistiu até 1838.</p>
-
-<p>Oribe deixou a presidencia por renuncia feita officialmente
-perante as camaras e sahiu do paiz tendo pedido
-ás mesmas camaras licença para se retirar.</p>
-
-<p>Rosas, vendo-o abandonar a sua posição, obrigou-o
-a protestar contra essa renuncia, e reconhece-o como chefe
-do paiz de que havia sido expulso. Foi o mesmo do
-que se Luiz Filippe, tivesse em Clermont reconhecido o
-duque de Bordeos como vice-rei da republica franceza.</p>
-
-<p>Em Montevideo zombaram ao principio d'essa excentricidade
-do dictador, mas elle preparava-se para mudar
-esses risos em lagrimas.</p>
-
-<p>A consequencia natural da conducta de Rosas era a
-guerra entre as duas nações.</p>
-
-<p>Esta guerra foi horrivel.</p>
-
-<p>Oribe, a quem alguns dos nossos jornaes, pagos por
-Rosas, chamaram o <i>illustre</i> e o <i>virtuoso</i> Oribe, foi ao
-mesmo tempo general e carrasco.</p>
-
-<p>Mostremos aos leitores algumas d'essas paginas de
-sangue publicadas pela <i>America do Sul</i>, e nas quaes vem
-registados dez mil assassinatos.</p>
-
-<p>Tomemos ao acaso alguns dos relatorios feitos a Rosas
-pelos seus agentes e officiaes.</p>
-
-<p>O general D. Marianno Achaque serve no exercito
-<span class="pagenum" id="Page_160">160</span>
-contrario a Rosas, defende S. João e no dia 22 de agosto
-de 1841 rende se depois de quarenta e oito horas de
-resistencia. D. José Ramires official de Rosas transmitte
-então ao governo de S. João o relatorio official d'este
-successo. Copiaremos estas linhas:</p>
-
-<div class="manuscr">
-<p><i>Tudo se acha em nosso poder, mas com perdão e garantia
-para todos os prisioneiros. Entre elles está um filho
-de Lamadrid.</i></p>
-</div>
-
-<p>Agora leia-se o numero 2067 do <i>Diario da tarde</i> de
-Buenos Ayres, de 22 de outubro de 1841, e em opposição
-do documento official de José Ramires, que assegura a
-vida dos prisioneiros, veja o leitor o seguinte:</p>
-
-<div class="manuscr">
-<p class="right">Desaguedero, 22 de setembro de 1841.</p>
-
-<p>«<i>O selvagem unitario Marianno Acha foi hontem decapitado
-e a sua cabeça exposta ao publico.</i></p>
-
-<p class="right">Assignado: <i>Angelo Pacheco.</i>»</p>
-</div>
-
-<p>É necessario não confundir este Pacheco, tenente de
-Rosas com seu primo Pacheco y Obes um dos seus inimigos
-mais encarniçados.</p>
-
-<p>O leitor deve lembrar-se que no relatorio de Ramires
-se acha esta frase.</p>
-
-<div class="manuscr">
-<p>«<i>Entre os prisioneiros está um filho de Lamadrid.</i>»</p>
-</div>
-
-<p>Veja-se a <i>Gazeta Mercantil</i>, numero 5703, de 20 de
-abril de 1842 e ahi se encontrará esta carta escripta por
-Mazario Benavides a D. João Manoel Rosas:</p>
-
-<div class="manuscr">
-<p class="right">Miraflore 7 de abril de 1842.</p>
-
-<p>«Em um despacho precedente, dei-lhe parte dos motivos
-porque conservava o selvagem Gyriaco Lamadrid,
-mas sabendo que elle se tinha dirigido a muitos chefes
-da provincia para os resolver a tomar a sua defesa, mandei
-assim que cheguei a Rioja <i>decapital-o, assim como o
-salvagem unitario Manoel Julião Frias, natural de Santiago</i>.</p>
-
-<p class="right">Assignado: <i>Mazario Benavides.</i>»</p>
-</div>
-
-<p>Manoel Oribe á testa dos exercitos de Rosas encarregados
-de submetter as provincias Argentinas, derrotou,
-a 15 de abril de 1842, no territorio de Santa-Fé as forças
-commandadas pelo general João Paulo Lopes.</p>
-
-<p>Entre os prisioneiros encontra-se o general D. João
-Martins.</p>
-
-<p>Lêde esse fragmento d'uma carta d'Oribe:</p>
-
-<div class="manuscr">
-<p>«No quartel general de Banancas de Cosonda 17 de
-<span class="pagenum" id="Page_161">161</span>
-abril de 1842.&mdash;Trinta e tantos mortos e alguns prisioneiros,
-entre as quaes se achava <i>João Martines a quem
-hontem mandei decepar a cabeça</i>.</p>
-
-<p class="right">Assignado: <i>Manoel Oribe.</i>»</p>
-</div>
-
-<p>Se ainda tendes em vosso poder a <i>Gazeta mercantil</i>,
-vêde o numero 5903, de 20 de setembro de 1842, e ahi
-encontrareis um relatorio official de Manuel Antonio Saravia,
-empregado no exercito de Oribe.</p>
-
-<p>Este relatorio contém uma lista de desasete individuos,
-de que um era chefe de batalhão e outro capitão, que
-foram prisioneiros em Numayan, soffrendo ahi o <i>castigo
-ordinario da pena de morte</i>.</p>
-
-<p>Voltemos ao <i>illustre</i> e <i>virtuoso</i> Oribe, numero 3007
-do <i>Diario da tarde</i>, onde vem o seguinte a proposito da
-batalha de Monte Grande.</p>
-
-<div class="manuscr">
-<p class="right">«Quartel general no Ceibal 14 de setembro de 1841.</p>
-
-<p>«Entre os prisioneiros foi encontrado o traidor selvagem
-unitario, ex-coronel Facundo Borda, que <i>foi executado
-immediatamente, com outros pertendidos officiaes de
-cavallaria e infanteria</i>.</p>
-
-<p class="right"><i>Manoel Oribe.</i>»</p>
-</div>
-
-<p>Oribe estava feliz; um traidor lhe entregou o governador
-de Tucuman e os seus officiaes. Eis como elle annuncia
-esta noticia a Rosas.</p>
-
-<div class="manuscr">
-<p class="right">«Quartel general de Métau 3 de outubro de 1841.</p>
-
-<p>«Os selvagens unitarios que me entregaram o commandante
-Sandoval e que são Marion, o pertendido governador
-general de Tucuman, Avellanieda, o pertendido
-coronel J. M. Villela, o capitão José Espejo, e o tenente
-Leonardo de Sousa, <i>foram immediatamente executados na
-forma ordinaria</i>, á excepção de Avellanieda a quem ordenei
-que cortassem a cabeça, sendo exposta ao publico
-na praça de Tucuman.</p>
-
-<p class="right"><i>Manoel Oribe.</i>»</p>
-</div>
-
-<p>Agora passemos a outro carrasco de Rosas.</p>
-
-<div class="manuscr">
-<p>«Casamarca 29 do mez de Rosas 1841. A S. Excellencia
-o senhor governador Arredondo.</p>
-
-<p>«Depois de duas horas de fogo a infanteria foi passada
-á espada, e a cavallaria posta na mais completa
-desordem.</p>
-
-<p>«O general conseguiu escapar-se pela serra de Ambaste
-com trinta homens, mas foi perseguido e apanhado e
-<span class="pagenum" id="Page_162">162</span>
-a sua cabeça será bem depressa exposta na praça publica,
-assim como já o estão as dos perteadidos ministros
-Gonçalves Dulce e Espeche.</p>
-
-<p>«Viva a federação!</p>
-
-<p class="right">Assignado: <i>M. Maza.</i>»</p>
-
-<p>«<i>Lista dos selvagens unitarios pertendidos chefes e
-officiaes que foram executados depois da acção de 29</i>:</p>
-
-<p>«Coronel: Vicente Mercao.</p>
-
-<p>«Commandantes: Modesto, Villafane, João Pedro Ponce,
-Damasio Arias, Manoel Lopes, Pedro Rodrigues.</p>
-
-<p>«Chefes de batalhão; Manoel Riso, Santiago da Cruz.</p>
-
-<p>«Capitães: João de Deus Ponce, José Salas, Pedro
-Araujo, Izidoro Ponce, Pedro Barros.</p>
-
-<p>«Ajudantes: Damario Sarmento, Eugenio Novillo,
-Francisco Quinteros Daniel Rodrigues.</p>
-
-<p>«Tenente: Domingos Dias.</p>
-
-<p class="right">Assignado: <i>M. Maza.</i>»</p>
-</div>
-
-<p>Apresentaremos mais esta carta de Maza, para depois
-voltarmos a Rosas.</p>
-
-<div class="manuscr">
-<p class="right">«Casamarca, 4 de novembro de 1841.</p>
-
-<p>«Já lhe disse que pozemos em completa desordem o
-selvagem unitario Cubas, e que era perseguido, esperando
-ter em breve em meu poder a cabeça do bandido. Foi
-com effeito prisioneiro no Cerro das Ambastes, e a sua
-cabeça está exposta na praça publica da cidade.</p>
-
-<p>«Depois da acção foram feitos prisioneiros dezenove
-officiaes que seguiam Cubas. <i>Não dei quartel.</i> O triumpho
-foi completo.</p>
-
-<p class="right"><i>M. Maza.</i>»</p>
-</div>
-
-<p>Vejamos de passagem no <i>Boletim de Mendonça</i> n.<sup>o</sup>
-12, esta carta escripta no campo de batalha d'Arroyo
-Grande e dirigida ao governador Aldao pelo coronel D.
-Jeronymo Costa.</p>
-
-<div class="manuscr">
-<p>«Fizemos prisioneiros mais de cento e cincoenta officiaes
-que foram executados immediatamente.»</p>
-</div>
-
-<p>Todo o fogo de artificio tem o seu ramalhete, terminaremos
-pelo seu ramalhete este fogo de artificio de sangue.</p>
-
-<p>Prometti fallar de novo em Rosas, e vou agora cumprir
-a minha promessa.</p>
-
-<p>O coronel Zelallaran foi morto e a sua cabeça offerecida
-a Rosas que passou tres horas a dar-lhe pontapés.
-<span class="pagenum" id="Page_163">163</span>
-N'esse momento soube que um outro coronel, irmão d'armas
-do primeiro, havia sido feito prisioneiro. No primeiro
-momento teve tenção de o mandar fuzillar, mas depois
-mudou de resolução, e condemnou-o a ter doze horas por
-dia, durante tres dias, essa cabeça cortada em cima de
-uma meza que se devia achar collocada na sua frente.</p>
-
-<p>Rosas mandou fuzillar na praça de S. Nicolau alguns
-dos prisioneiros do general Paz.</p>
-
-<p>Entre elles estava o coronel Vedela antigo governador
-de S. Luiz; no meio do supplicio o filho do condemnado
-lançou-se nos braços de seu pae.</p>
-
-<p>&mdash;Fuzillae ambos, disse Rosas.</p>
-
-<p>E o pae e o filho expiraram nos braços um do outro.</p>
-
-<p>Rosas mandou conduzir a uma das praças de Buenos
-Ayres oitenta prisioneiros indios, e em pleno dia e na
-presença de todos os mandou matar a estocadas.</p>
-
-<p>Camilla O'Gorman menina de dezoito annos e oriunda
-d'uma das principaes familias de Buenos-Ayres, foi
-seduzida por um padre de vinte e quatro, e fugiram ambos
-de Buenos-Ayres, refugiando-se n'uma pequena villa
-de Corrientes onde passando por esposos, estabeleceram
-uma pequena escola. Corrientes cahe em poder de
-Rosas, e os dous fugitivos reconhecidos por um padre e
-denunciados por elle a Rosas, são presos e conduzidos a
-Buenos-Ayres, onde sem julgamento Rosas os mandou
-fuzillar.</p>
-
-<p>&mdash;Mas, diz alguem a Rosas, Camilla está gravida!</p>
-
-<p>&mdash;Baptisae o ventre, diz Rosas, que como <i>excellente
-christão</i>, quer salvar a alma do menino.</p>
-
-<p>Esta cerimonia executada, Camilla O'Gorman foi fuzillada.</p>
-
-<p>Tres ballas atravessaram os braços da desgraçada mãe
-que os havia estendido para proteger seu filho...</p>
-
-<p>Depois d'isto como diremos que a França se pronunciou
-em favor de Rosas?</p>
-
-<p>E com effeito o tratado de 1840 assignado pelo almirante
-Mackan, firmou então o poder de Rosas, deixando
-só a republica oriental engagada na lucta.</p>
-
-<p>Foi então que appareceu Garibaldi na sua volta do
-Rio Grande.</p>
-
-<p>D'um lado Rosas e Oribe, isto é, a força, a riqueza,
-o poder combatendo pelo despotismo.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_164">164</span>
-Do outro lado, uma pequena republica, uma cidade
-arruinada, um thesouro exhausto, um povo sem recursos,
-não podendo pagar aos seus defensores, mas combattendo
-pela liberdade.</p>
-
-<p>Garibaldi não hesitou; e encaminhou-se para os deffensores
-da liberdade.</p>
-
-<p>Agora abandonamos a penna para lhe deixarmos contar
-a historia d'esse cerco, que como o de Troia, durou
-nove annos.</p>
-
-<div class="notesb">
-
-<h3>Notas.</h3>
-
-<p><a name="Footnote_1" id="Footnote_1" href="#FNanchor_1"><span class="label">[1]</span></a>
-Giuseppe La Farina, Storia d'Italia.</p>
-
-<p><a name="Footnote_2" id="Footnote_2" href="#FNanchor_2"><span class="label">[2]</span></a>
-Storia Italia.&mdash;La Farina.</p>
-
-<p><a name="Footnote_3" id="Footnote_3" href="#FNanchor_3"><span class="label">[3]</span></a>
-Estes successos que tinham logar em um ponto aonde
-não estava Garibaldi, são aqui referidos unicamente para explicação
-historica, sendo extrahidos de Angelo Brofferio.</p>
-
-<p><a name="Footnote_4" id="Footnote_4" href="#FNanchor_4"><span class="label">[4]</span></a>
-Nome das herdades na America do Sul.</p>
-
-<p><a name="Footnote_5" id="Footnote_5" href="#FNanchor_5"><span class="label">[5]</span></a>
-Dono do estabelecimento.</p>
-
-<p><a name="Footnote_6" id="Footnote_6" href="#FNanchor_6"><span class="label">[6]</span></a>
-A provincia de Santa Catharina foi dada em dote
-pelo imperador a sua irmã, quando ella casou com o principe
-de Joinville.</p>
-
-<p><a name="Footnote_7" id="Footnote_7" href="#FNanchor_7"><span class="label">[7]</span></a>
-Quando acabei de lêr este capitulo fiquei admirado
-de o vêr pouco comprehensivel. Voltei-me para Garibaldi,
-e disse-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;Lê isso, acho ahi uma grande falta.</p>
-
-<p>Lêu, e depois de um momento de silencio, disse-me
-suspirando:</p>
-
-<p>&mdash;É necessario que isso fique como está.</p>
-
-<p>Dous dias depois recebi um manuscripto intitulado&mdash;<i>Annita
-Garibaldi</i>.</p>
-
-<p><a name="Footnote_8" id="Footnote_8" href="#FNanchor_8"><span class="label">[8]</span></a>
-É escusado repetir que estas Memorias tinham sido
-escriptas por Garibaldi unicamente para serem lidas por alguns
-amigos.</p>
-</div>
-
-<p class="sep3 center">FIM DO PRIMEIRO VOLUME</p>
-
- </div>
-
- <div class="npage">
-
- <div class="notesnb" id="toc">
-
-<h3>ÍNDICE</h3>
-
-<div class="center">
- <table class="tabmat" summary="Índice do volume I" border="0" cellspacing="0">
- <tr>
- <td class="tdrtop">&nbsp;</td>
- <td class="tdltop">PROLOGO</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_prologo">5</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">I</td>
- <td class="tdltop">MEUS PAES</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_1">25</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">II</td>
- <td class="tdltop">OS MEUS PRIMEIROS ANNOS</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_2">27</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">III</td>
- <td class="tdltop">AS MINHAS PRIMEIRAS VIAGENS</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_3">29</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">IV</td>
- <td class="tdltop">AS MINHAS PRIMEIRAS AVENTURAS</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_4">31</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">V</td>
- <td class="tdltop">OS ACONTECIMENTOS DE S. JULIÃO</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_5">34</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">VI</td>
- <td class="tdltop">O DEUS DOS BONS</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_6">38</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">VII</td>
- <td class="tdltop">ENTRO AO SERVIÇO DA REPUBLICA DO RIO GRANDE</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_7">42</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">VIII</td>
- <td class="tdltop">CORSARIO</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_8">45</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">IX</td>
- <td class="tdltop">O RIO DA PRATA</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_9">48</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">X</td>
- <td class="tdltop">AS PLANICIES ORIENTAES</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_10">50</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">XI</td>
- <td class="tdltop">A POETISA</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_11">52</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">XII</td>
- <td class="tdltop">O COMBATE</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_12">55</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">XIII</td>
- <td class="tdltop">LUIZ CARNIGLIA</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_13">57</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">XIV</td>
- <td class="tdltop">PRISIONEIRO</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_14">58</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">XV</td>
- <td class="tdltop">A APOLEAÇÃO</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_15">60</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">XVI</td>
- <td class="tdltop">VIAGEM NA PROVINCIA DO RIO GRANDE</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_16">62</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">XVII</td>
- <td class="tdltop">A LAGOA DOS PATOS</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_17">65</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">XVIII</td>
- <td class="tdltop">ARMAMENTO DE LANCHÕES EM CAMACUA</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_18">67</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">XIX</td>
- <td class="tdltop">A ESTANCIA DA BARRA</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_19">69</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">XX</td>
- <td class="tdltop">EXPEDIÇÃO A SANTA CATHARINA</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_20">75</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">XXI</td>
- <td class="tdltop">PARTIDA E NAUFRAGIO</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_21">77</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">XXII</td>
- <td class="tdltop">JOÃO GRIGGS</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_22">81</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">XXIII</td>
- <td class="tdltop">SANTA CATHARINA</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_23">83</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">XXIV</td>
- <td class="tdltop">UMA MULHER</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_24">85</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">XXV</td>
- <td class="tdltop">O CRUZEIRO</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_25">87</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">XXVI</td>
- <td class="tdltop">SAQUE DE IMERUI</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_26">90</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">XXVII</td>
- <td class="tdltop">NOVOS COMBATES</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_27">91</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">XXVIII</td>
- <td class="tdltop">A CAVALLO</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_28">94</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">XXIX</td>
- <td class="tdltop">A RETIRADA</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_29">98</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">XXX</td>
- <td class="tdltop">ESTADA NAS LAGES E NOS ARRABALDES</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_30">100</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">XXXI</td>
- <td class="tdltop">BATALHA DE TAQUARI</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_31">103</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">XXXII</td>
- <td class="tdltop">ASSALTO A S. JOSÉ DO NORTE</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_32">108</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">XXXIII</td>
- <td class="tdltop">ANNITA</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_33">110</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">XXXIV</td>
- <td class="tdltop">LEVANTA-SE O CERCO.&mdash;ROSSETTI</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_34">116</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">XXXV</td>
- <td class="tdltop">A PICADA DAS ANTAS</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_35">118</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">XXXVI</td>
- <td class="tdltop">CONDUCTOR DE BOIS</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_36">122</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">XXXVII</td>
- <td class="tdltop">PROFESSOR DE MATHEMATICA E CORRETOR DE COMMERCIO</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_37">128</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">&nbsp;</td>
- <td class="tdltop">MONTEVIDEO</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_montevideo">130</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">&nbsp;</td>
- <td class="tdltop">ROSAS</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_rosas">139</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">&nbsp;</td>
- <td class="tdltop">QUIROGA</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_quiroga">150</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdrtop">&nbsp;</td>
- <td class="tdltop">MANUEL ORIBE</td>
- <td class="tdrbot"><a href="#cap_oribe">158</a></td>
- </tr>
- </table>
-</div>
-
- </div>
-
- </div>
-
-<div class="tnote" id="tnote">
-<h3>Nota do Transcritor</h3>
-
-<p>Pontuação e hifenização foram normalizados.</p>
-
-<p>O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1860.
-A ortografia originais foi mantida com exceção de alguns erros óbvios.</p>
-
-<p>O índice foi adicionado.</p>
-</div>
-
-<hr />
-
-
-
-
-
-
-
-
-<pre>
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Memorias de José Garibaldi, volume I, by
-Giuseppe Garibaldi
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIAS DE JOSE GARIBALDI, VOL 1 ***
-
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-1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
-in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO
-OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT
-LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
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-1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
-warranties or the exclusion or limitation of certain types of
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-violates the law of the state applicable to this agreement, the
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-unenforceability of any provision of this agreement shall not void the
-remaining provisions.
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-1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
-trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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-accordance with this agreement, and any volunteers associated with the
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-electronic works, harmless from all liability, costs and expenses,
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-or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or
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-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
-
-Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
-electronic works in formats readable by the widest variety of
-computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
-exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
-from people in all walks of life.
-
-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
-assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
-goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
-remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
-and permanent future for Project Gutenberg-tm and future
-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at
-www.gutenberg.org
-
-
-
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
-U.S. federal laws and your state's laws.
-
-The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the
-mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its
-volunteers and employees are scattered throughout numerous
-locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt
-Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to
-date contact information can be found at the Foundation's web site and
-official page at www.gutenberg.org/contact
-
-For additional contact information:
-
- Dr. Gregory B. Newby
- Chief Executive and Director
- gbnewby@pglaf.org
-
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
-Literary Archive Foundation
-
-Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
-spread public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
-charities and charitable donations in all 50 states of the United
-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
-considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
-with these requirements. We do not solicit donations in locations
-where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
-DONATIONS or determine the status of compliance for any particular
-state visit www.gutenberg.org/donate
-
-While we cannot and do not solicit contributions from states where we
-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
-against accepting unsolicited donations from donors in such states who
-approach us with offers to donate.
-
-International donations are gratefully accepted, but we cannot make
-any statements concerning tax treatment of donations received from
-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
-
-Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations. To
-donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
-
-Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works.
-
-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of
-volunteer support.
-
-Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
-the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
-necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
-edition.
-
-Most people start at our Web site which has the main PG search
-facility: www.gutenberg.org
-
-This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
-including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
-subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
-
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