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If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: Memorias de José Garibaldi, volume I - Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas - -Author: Giuseppe Garibaldi - -Translator: Alexandre Dumas - -Release Date: August 18, 2016 [EBook #52847] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: ISO-8859-1 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIAS DE JOSE GARIBALDI, VOL 1 *** - - - - -Produced by Júlio Reis, Leonor Silva and the Online -Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net. - - - - - - - - - - MEMORIAS - - DE - - JOSÉ GARIBALDI - - TRADUZIDAS DO MANUSCRIPTO ORIGINAL - - POR - - ALEXANDRE DUMAS - - - VOLUME I.--SEGUNDA EDIÇÃO - - - LISBOA--1860 - EDICTOR A. P. C. - CHIADO, 83-85 - - - - - [Ilustração: GARIBALDI.] - - - - - MEMORIAS DE GARIBALDI - - - - - PROLOGO - - -Como todo o presente tem ligação com o passado é impossivel começar -qualquer narração, ainda que seja a historia de um homem ou de um -successo, sem lançar os olhos para esse mesmo passado. - -Obrigados pelo caracter aventureiro do homem de que começamos hoje a -publicar as memorias, seremos muitas vezes forçados a ir ao Piemonte, -patria de Garibaldi. Os homens de acção politica, quando pertencem -ao progresso, teem momentos de desalento, nos quaes como Anteo tem -necessidade para recobrar novas forças de tocar n'essa terra patria -que Bruto na sua fingida loucura beijava como a mãe commum. É pois mui -importante fazer um estudo rapido dos acontecimentos que tiveram logar -no Piemonte de 1820 a 1834, época em que começa esta historia. - -As guerras da republica e as invasões do imperio tinham trazido á -Sardenha dous homens que haviam partido para o exilio ainda jovens e -voltavam velhos; eram dois irmãos, nos quaes terminava a posteridade -masculina dos duques de Saboia: fallamos de Victor Manuel I e Carlos -Felix. - -Ambos reinaram. - -O ramo mais novo da familia Saboia era representado pelo principe -de Carignan, que em 1823 fez como granadeiro do exercito francez a -campanha de Hespanha, tendo-se distinguido principalmente no Trocadéro. - -Em 1840 n'uma audiencia que me concedeu mostrou-me o seu sabre de -granadeiro, e as dragonas de lã encarnada que conservava como reliquias -da mocidade. - -Victor Manuel I subindo ao throno, que provavelmente não lhe fora dado -senão com esta condição, havia promettido aos soberanos seus alliados, -o não fazer ao seu povo, fossem quaes fossem as circunstancias, em que -se encontrasse a mais pequena concessão. - -Mas o que era facil de prometter em 1815, era difficil de cumprir em -1821. - -Desde 1820 os carbonarios haviam-se espalhado em toda a Italia. Em um -livro que é mais uma historia do que um romance, no _José Balsamo_ -dissemos as origens do illuminismo e da franc-maçonaria. - -Estes dois temiveis inimigos da realeza de que a divisa era L. P. -D. (_Lilia Pedibus Destrue_) tiveram uma grande parte na revolução -franceza. Swedenborg, de quem os adeptos assassinaram Gustavo III, -era mago. Quasi todos os jacobinos e grande numero de _cordeliers_ -eram maçons, Philippe-Egalité era do grande oriente. Napoleão tomou a -maçonaria debaixo da sua protecção, mas protegendo-a, desvirtuou-a, -desviando-a dos seus fins, torcendo-a á sua conveniencia e fazendo -d'ella um instrumento de despotismo. Não foi esta a unica vez que se -forjaram cadeias com espadas. - -José Napoleão foi grão-mestre da ordem, o archi-chanceller Cambacéres -grão-mestre adjunto. A imperatriz Josephina estando em Strasbourg em -1805, presidiu á festa da adopção da loja dos franc-maçons de Paris. -Por este mesmo tempo Eugenio Beauharnais era veneravel honorario da -loja de Santo Eugenio de Paris, e tendo vindo mais tarde á Italia com a -dignidade de vice-rei, o Grande Oriente de Milão o nomeou grão-mestre -e soberano conservador do supremo conselho do gráo XXXII, isto é, -concedeu-lhe a maior honra que segundo os estatutos da ordem se póde -dar. - -Bernardotte era maçon, seu filho o principe Oscar foi grão-mestre -da loja sueca. Em differentes lojas de Paris foram successivamente -iniciados: Alexandre, duque de Wurtemberg, o principe Bernardo de -Saxe-Weimar, e até o embaixador persa Askeri-Khan. O presidente do -senado, conde de Lacépêde presidia ao grande Oriente de França de que -eram officiaes os generaes Kellermann, Massena, Soult, os principes, -os ministros e os marechaes, os officiaes, os magistrados, emfim todos -os homens notaveis pela sua gloria ou consideraveis pela sua posição -ambicionavam a honra de serem maçons. As proprias mulheres quizeram -ter as suas lojas maçonicas, nas quaes entraram M.mes de Vaudemont, -de Carignan, de Girardin, de Bosi, de Narbonne, e muitas outras -pertencentes á alta aristocracia franceza. Uma unica foi recebida, não -com o titulo de irmã, mas com o de irmão: foi a celebre Xaintrailles, a -quem o primeiro consul tinha dado a patente de chefe de esquadrão.[1] -Mas não era só em França que n'essa época florescia a maçonaria. - - [1] Giuseppe La Farina, Storia d'Italia. - -O rei da Suecia, em 1811 instituiu a ordem civil da maçonaria. -Frederico Guilherme III da Prussia tinha, pelos fins do mez de julho -de 1800 approvado a constituição da grande loja de Berlin. O principe -de Galles não cessou de governar a ordem em Inglaterra, senão quando -em 1813 foi nomeado regente. Emfim no mez de fevereiro 1814, o rei da -Hollanda, Frederico Guilherme, declarou-se protector da maçonaria, -e permittiu que o principe real, seu filho acceitasse o titulo de -veneravel honorario da loja de Guilherme Frederico de Amsterdam. - -Depois da volta dos Bourbons á França o marechal Bournonville pediu a -Luiz XVIII para collocar a maçonaria debaixo da protecção d'uma pessoa -da familia real; mas como Luiz XVIII era dotado de excellente memoria, -e não havia esquecido a parte que ella tinha tomado na catastrophe de -1793 recusou, dizendo que nunca consentiria que membro algum da familia -real, formasse parte de qualquer sociedade secreta fosse ella qual -fosse. - -Na Italia a maçonaria cahiu com o dominio francez, mas em seu logar -vieram os carbonarios, que mostravam querer continuar o seu pensamento -libertador. - -Duas outras seitas appareceram ao mesmo tempo. - -Uma que se chamava a Congregação catholica apostolica romana, e a outra -a Consistorial. - -Os socios da Congregação tinham, como signal de reconhecimento, um -cordelinho de seda amarella com cinco nós. Os pertencentes aos gráos -inferiores não fallavam senão de actos de piedade e benificencia. Dos -segredos da seita, conhecidos unicamente pelos altos dignatarios, só se -podia fallar quando se achavam presentes dois associados; se por acaso -um terceiro chegava, a conversação cessava immediatamente. A palavra de -passe dos confrades era _éleutheria_, isto é, _liberdade_, a palavra -secreta era _ode_, isto é, _independencia_. - -Esta seita creada em França, entre os neo-catholicos, e a que -pertenceram muitos dos nossos melhores e mais constantes republicanos, -tinha atravessado os Alpes, chegado ao Piemonte e de lá á Lombardia. -Mas aqui foram infelizes, pois obtiveram poucos adeptos, não tardando -muito a extinguir-se, tendo os agentes de policia alcançado em Genova -os diplomas que se entregavam aos adeptos assim como os estatutos e -signaes de reconhecimento. - -A consistorial era dirigida principalmente contra os austriacos. Á sua -frente se achavam os principaes principes da Italia que não pertenciam -á casa de Kabsbourg e era presidida pelo cardeal Gonsalvi. O unico -principe que não foi excluido foi o duque de Modena. Logo que esta -liga foi conhecida começaram as terriveis perseguições d'este principe -contra os patriotas. É que elle queria obter da Austria o perdão da -sua deserção, sendo necessario o sangue de Menotti seu companheiro na -conspiração para o alcançar. - -Os consistoriaes queriam tirar a Italia a Francisco II e dividil-a -entre si. - -Além de Roma e da Romania que elle guardava, o papa adquiria a Toscana. -A ilha de Elba e as Marchés passavam para o poder do rei de Napoles; -Parma, Pelazainge, e uma parte da Lombardia, com o titulo de rei ao -duque de Modena; Massa, Carrara, e Luca ao rei da Sardenha. Emfim o -imperador Alexandre da Russia que pela sua aversão á Austria protegia -esta conspiração, ou recebia Ancona, Civita-Vecchia, ou Genova para -poder ter um estabelecimento no Mediterraneo. Por esta fórma sem -se consultar a vontade dos povos nem as demarcações territoriaes, -dispunha-se de uma grande porção de almas, negando-se-lhe esse direito -de escolha a que a ultima creatura nascida no solo europeo tem direito. - -Por felicidade um unico de todos estes projectos, o dos carbonarios, -parecia emanado de Deus e quasi a realisar-se. - -Os carbonarios em quem unicamente havia esperança augmentavam -consideravelmente nas Romanias. Haviam-se reunido á seita dos guelfos -que tinham a sua séde em Ancona, e se apoiavam nos bonapartistas. - -Luciano tinha sido elevado á dignidade de grão-mestre da ordem. Nas -reuniões secretas mostrava-se a necessidade de tirar aos padres o poder -que haviam alcançado; invocava-se o nome de Bruto e preparavam-se os -animos á revolta. - -Em a noute de 24 de junho teve logar a revolução, obtendo o funesto -resultado que todas as primeiras tentativas d'este genero costumam -alcançar. Toda a religião que deve ter apostolos, começa por ter -martyres. Cinco carbonarios foram fuzilados, outros condemnados ás -galés perpetuamente, e alguns julgados menos culpados foram encerrados -por dez annos em uma fortaleza. - -Então a seita tornando-se mais prudente mudou de nome, começando -a chamar-se a Sociedade Latina. Nesta occasião a mesma sociedade -conspirava na Lombardia, estendendo-se pelas outras provincias da -Italia. No meio d'um baile dado pelo conde Porgia em Rovigo o governo -austriaco fez prender muitas pessoas e declarou no dia seguinte -criminoso d'alta traição todo o individuo que se filiasse nas lojas dos -carbonarios. - -Em Napoles foi aonde a rebellião appareceu com mais violencia. Cobetta -affirma na sua historia que o numero dos carbonarios era de 642:000 e -segundo um documento da chancellaria aulica de Vienna este numero ainda -está muito abaixo da verdade. «Os carbonarios nas Duas Sicilias diz -este documento contam mais de 800:000 adeptos, e não havendo policia -nem vigilancia possivel para evitar tal alistamento seria loucura -tentar anniquilal-os.»[2] - - [2] Storia Italia.--La Farina. - -Ao mesmo tempo que a rebellião tinha logar em Napoles, Riego, outro -martyr que deixou um cantico de morte, tornado depois em canção de -victoria, levantava no 1.º de janeiro de 1820 a bandeira da liberdade, -e um decreto de Fernando VII annunciou que tendo-se manifestado a -vontade do povo, estava prompto a jurar a constituição proclamada pelas -côrtes geraes e extraordinarias de 1812. - -As prisões abrindo-se deram um ministerio á Hespanha. - -Fernando I de Napoles na sua qualidade de principe de Hespanha, devia, -ficando rei absoluto, jurar obediencia á constituição hespanhola. -Teve então logar uma grande rebellião na Calabria, em Capitanata e em -Palermo. O governo napolitano fraco, indeciso e desconfiado decretou -algumas refórmas insufficientes que não impediram o general Pepe -de fazer uma revolução. Napoles teve então como 1798, um governo -provisorio e uma camara de deputados. - -Foi algum tempo depois que por sua vez rebentou a revolução piemonteza. -Na manhã de 10 de março o capitão conde Palma dando o grito de «o rei e -a constituição hespanhola» fez pegar em armas ao regimento de Genova. - -No dia seguinte um governo provisorio estava estabelecido, e em nome do -reino de Italia declarava a guerra á Austria. - -D'este modo a revolução partindo d'Ancona tinha chegado a Napoles -voltando a Turim. Tres volcões se tinham aberto na Italia sem contar a -Hespanha; agitando-se a Lombardia n'um triangulo de fogo. - -O rei Victor Manuel havia promettido, como já dissemos, á santa -alliança não fazer ao seu povo nenhuma concessão. - -No dia seguinte para ficar fiel á sua palavra, o rei Victor Manuel -abdicou em favor de seu irmão Carlos Felix que se achava então em -Modena, e nomeou regente o principe de Carignan, que foi depois o rei -Carlos Alberto. - -Para todos os patriotas esta abdicação de um rei dedicado aos italianos -em um principe dominado pela côrte de Austria era uma grande desgraça. - -Santa Rosa um dos primeiros promotores da rebellião diz: - - «A noute de 13 de março de 1821 foi bem fatal para minha - patria. Foi n'essa noute que perdemos todas as nossas - esperanças, foi n'essa noute que milhares de espadas erguidas - para a defeza da patria se abaixaram. Com o rei Victor Manuel - a patria estava no rei, ella se personalisava n'esse coração - leal, e nós fazendo esta revolução, diziamos: «Coragem! O rei - talvez um dia nos perdoe de o havermos feito senhor de seis - milhões de italianos.» - -Com Carlos Felix succedia exactamente o contrario. Estavam outra vez -debaixo do jugo da Austria, e viam-se obrigados a começar de novo os -seus trabalhos. - -Comtudo toda a esperança ainda não estava perdida. - -No dia 14 de março o principe de Carignan nomeado regente appareceu á -janella, e no meio dos vivas calorosos do povo proclamou a constituição -de Hespanha. - -Como este facto devia ter no futuro grande importancia, como o principe -Carlos Alberto devia um dia desmentir o principe de Carignan, é -necessario não só citar o facto da constituição proclamada em alta voz, -mas tambem dar uma cópia do edital que foi affixado nos muros de Turim. - -Eis a traducção fiel: - - «Nas circumstancias difficeis em que nos achamos é necessario - sahir fóra dos limites que a nossa qualidade de regente nos - impõe. O nosso respeito e submissão a sua magestade Carlos - Felix, actual soberano, devia-nos obstar a que fizessemos - alguma alteração nas leis fundamentaes do estado, até que - soubessemos as intenções do nosso novo soberano, mas como as - circumstancias imperiosas porque passamos são conhecidas por - todos, e como queremos entregar ao novo rei um povo socegado e - feliz e não despedaçado pela guerra civil, decidimos, ouvido - o nosso conselho e na esperança de que sua magestade levado - pelas mesmas considerações, revistirá a nossa deliberação da - sua approvação soberana, que a constituição de Hespanha seja - reconhecida como lei do estado, fazendo-se as alterações que o - rei e a representação nacional entenderem.» - -Eis o que os carbonarios tinham obtido cinco annos depois do seu -estabelecimento em Italia: uma constituição em Hespanha, outra em -Napoles, e outra no Piemonte. - -Mas esta tendo sido a ultima em apparecer, foi a primeira a ser -destruida. - -Em logar de voltar a Genova ou a Milão, em logar de approvar as -liberdades concedidas pelo principe de Carignan, o rei Carlos Felix -publicou no dia 3 de abril seguinte o edito que vamos ler: - - «_Sendo o dever de todo o subdito fiel sujeitar-se da melhor - vontade á ordem de cousas estabelecidas por Deus e pelo - exercicio da soberana authoridade, declaro que emanando o nosso - poder só de Deus, só a nós pertence escolher os meios que - julgarmos mais convenientes para chegar a qualquer fim, e que - em consequencia não teremos como subdito fiel aquelle que se - atrever a murmurar contra as medidas que julgarmos necessario - adoptar, ficando conhecidos só como vassallos fieis aquelles - que se submetterem immediatamente, impondo esta submissão como - condicção para voltarmos aos nossos estados._» - -Ao mesmo tempo que o rei Carlos Felix publicava este edito modelo de -cegueira e asneira, nomeava uma commissão militar encarregada de tomar -conhecimento dos crimes de traição, rebellião e insubordinação que -tinham sido commettidos. - -Felizmente os principaes criminosos, isto é, aquelles de que os nomes -são hoje os mais gloriosos do Piemonte, haviam tomado a fuga. - -A commissão nomeada por Carlos Felix não perdeu o tempo. Em cinco -mezes, cento e setenta e oito prisioneiros foram julgados. Setenta -e tres foram condemnados á morte e ao fisco, e os outros á prisão -e galés. Dos condemnados á morte sessenta eram contumazes e foram -enforcados em effigie. - -Julgamos conveniente dizer os nomes d'esses homens para que se conheçam -aquelles que feriram esse poder estupidamente absoluto que desde -Tarquino não tem sabido abater senão as cabeças mais intelligentes e -elevadas. - -Eram os tenentes Pavia e Ansaldi, o medico Ratazzi, o engenheiro -Appiani, o advogado Dossena, o advogado Lurri, o capitão Baroni, o -conde Bianco, o coronel Regis, o major Santa-Rosa, o capitão Lesio, -o coronel Caraglio, o major Collegno, o capitão Radice, o coronel -Morozzo, o principe della Cisterna, o capitão Ferraso, o capitão -Pachiarotte, o advogado Marochetti, o segundo tenente Auzzano, e o -advogado Ravina. - -Ao todo seis officiaes superiores, trinta officiaes subalternos, -cinco medicos, dez advogados, e um principe, todos notaveis pela -intelligencia e pelas qualidades moraes. - -Dois tinham sido presos e executados. - -Eram o tenente de carabineiros João Baptista Lanari e o capitão Jacome -Garelli. - -Um foi executado a 21 de julho, e o outro a 25 de agosto. - -O principal criminoso era, sem duvida, Carlos Alberto, pois havia -proclamado a constituição, não como dizem os seus partidarios, _salvo a -approvação de Carlos Felix_, mais n'estes termos que estão mui longe de -serem reservados: - - «_Nella fiducia che sua Maesta il re, nosso dál eistesse - considerazioni_ SARA PER RIVESTIRE _questa deliberazione della - sua socrasia approvazione, la constituzione di Spagna_ SARA - PROMULGATA ET OSSERVATA COM LEGE DELLO STATO.» - -Por isso assim que o principe de Carignan recebeu a carta que lhe -participava a recusa do rei Carlos Felix, correu a Modena, mas o rei -recusou recebel-o e o duque mandou-o intimar para deixar os seus -estados. - -O principe de Carignan retirou-se para Florença para o lado do grão -duque de Toscana. - -Para Carlos Alberto não se tratava unicamente de um simples exilio, ou -d'um desvalimento momentaneo, mas sim da perda do throno do Piemonte. -Espalhou-se então que Carlos Felix legava a corôa ao duque de Modena, e -este que não a havia alcançado na conspiração dos principes italianos -contra a Austria, esperava esta vez realisar a sua ardente ambição. - -O principe de Carignan disse ao conde de la Maison-Fort, nosso ministro -em Florença, qual era a sua posição, e este escreveu a Luiz XVIII -relatando-lhe tudo. - -Eis um fragmento da carta d'este ministro: - - «Para despojar o principe de Carignan da sua herança é - necessario chamar ao throno a duqueza de Modena, filha mais - velha do rei Victor Manuel. Esta facilidade em affastar a nobre - casa da Saboia de um throno por ella creado, esta ingratidão, - exemplo do seculo em que vivemos, não póde ser partilhada - pelo chefe de uma casa alliada com a Saboia dezoito vezes. A - França pois não póde seguir esta politica, porque tem ao menos - o direito de exigir a completa independencia do soberano que - possue a chave da Italia.» - -Luiz XVIII foi de opinião do seu ministro, e escreveu ao principe -offerecendo-lhe um refugio na côrte de França. A conducta de Luiz XVIII -era o mesmo que dizer--Não tem cousa alguma a receiar, tomo-o debaixo -da minha protecção e não consentirei que outro seja rei do Piemonte. - -E na verdade um rei que havia dado a carta ao seu povo, não podia -criminar um principe por ter promettido uma constituição que não havia -reconhecido. - -Das tres constituições creadas pelos carbonarios, uma, a do Piemonte -tinha sido logo anniquilada pelo rei Carlos Felix; a de Napoles havia -sido destruida pela invasão austriaca, e a terceira, a unica existente -ia desapparecer com a invasão franceza. - -Era, pois, necessario ao principe de Carignan que havia proclamado a -constituição hespanhola em Turim ir combater essa mesma constituição a -Madrid. - -Na realidade era uma posição difficil para o principe, mas a corôa do -Piemonte tinha muitos attractivos para elle se occupar de bagatellas. - -O principe de Carignan occultou a vergonha debaixo da barretina de -granadeiro; fez a campanha de Hespanha e foi um dos vencedores de -Trocadéro. D'esta sorte quando Carlos Felix falleceu, 27 de abril de -1851, o principe de Carignan subiu ao throno, com o nome de Carlos -Alberto, tendo a vencer poucas difficuldades. A Austria que antes -queria ver no throno o seu archi-duque de Modena, enfureceu-se -e apresentou aos reis Carlos Alberto como um carbonario, e aos -carbonarios como um traidor. - -A Austria mentia. - -Carlos Alberto não era carbonario: a proclamação em que concedia a -constituição mostrava que a dava contra sua vontade. - -Carlos Alberto não era um traidor, era um principe que ambicionando o -titulo de rei, não havia feito compromissos pessoaes. A vergonha de ir -abolir á Hespanha a constituição que tinha proclamado em Turim, tinha -desapparecido pela coragem do granadeiro: o soldado havia absolvido o -principe. - -D'esta sorte a sua acclamação foi saudada com alegria pelos patriotas -italianos. - -Del Pozzo escreveu-lhe de Londres aonde se achava refugiado: - - «Os meios termos e as medidas incompletas na politica - não servem para cousa alguma: o Piemonte quer um rei - constitucional.» - -Outro patriota que guardou o incognito, escreveu-lhe de Marselha: - - «Colloque-se á frente da nação, escreva na sua - bandeira--_União, liberdade e independencia_--declare se - vingador e interprete dos direitos populares, trate de - regenerar a Italia, livre-a dos seus inimigos, e cuidando - no futuro dê o seu nome a um seculo, e seja o Napoleão da - liberdade italiana. - - «Atire á Austria com a luva o nome da Italia, e estou certo que - com este escudo fará prodigios. Appelle para tudo o que ha de - grande e generoso na Peninsula. Uma mocidade ardente e corajosa - impellida pelas duas paixões que fazem os heroes, o odio e a - gloria, vive ha muito tempo com um só pensamento, e o seu mais - ardente desejo é realisal-o. - - «Chame essa mocidade ás armas, ponha as cidades e fortalezas - debaixo da guarda dos cidadãos, e livre por este modo de todo - e qualquer cuidado que não seja o vencer, reuna em volta de si - todos aquelles que sendo notaveis pela intelligencia e pelo - valor estejam isemptos de paixões infames. Inspire confiança - ao povo, dissipe todas as duvidas sobre as suas intenções, - chamando para o seu lado os homens livres. Senhor, digo-lhe a - verdade: os verdadeiros patriotas hão-de avalial-o pelas suas - acções, mas sejam ellas quaes forem, esteja seguro de que a - posteridade verá em V. M. o primeiro dos homens ou o ultimo dos - tyrannos. - - «Escolha.» - -O que na realidade torna os reis os escolhidos do Senhor é que só -a elles se escrevem similhantes cartas. Se Carlos Alberto tivesse -seguido os conselhos do seu mysterioso correspondente, teria sem duvida -começado por Goita, mas talvez não tivesse finalisado por Novara. - -Carlos Alberto despresou estes conselhos, e em logar de entrar no largo -caminho que se lhe apresentava, metteu-se em uma estrada tortuosa -d'onde poucos teem saido incolumes. - -Desde este momento o divorcio foi declarado entre o rei da Sardenha e -a joven Italia. A joven Italia! Foi por esta epocha que pela primeira -vez se pronunciaram estas tres palavras. De que se compunha ella então? -De José Mazzini o infatigavel promotor da união italiana. José Mazzini -apenas conhecido n'esta epocha por algumas publicações politicas -vendo-se perseguido pela policia havia-se refugiado em Marselha aonde -collocava a primeira pedra da sua grande empreza enviando com milhares -de difficuldades para o Piemonte os exemplares da sua _Joven Italia_. - -A nobreza e o clero piemontez que se haviam apoderado do espirito de -Carlos Alberto, começaram a receiar pelo seu poder. Havia dois annos -que se tinham estabelecido na côrte, e por isso conheciam qual elle -era. Desconfiavam da politica duvidosa de Carlos Alberto, e tinham medo -que um dia lhe apparecesse, não alguma sombra de liberdade, mas sim uma -idéa ambiciosa. Sabiam que Carlos Alberto n'essas noites de febre, como -só os reis teem, sonhava com o throno da Italia. - -Para alcançar esse throno seria necessario coadjuvar a revolução. O -throno de Italia não estava á disposição dos reis, mas sim do povo. - -Era necessario collocar uma barreira entre elle e os patriotas. - -Um dia alguem disse: - -É tempo de lhe fazer derramar algum sangue. - -No mesmo dia Carlos Alberto foi prevenido de que no exercito uma grande -conspiração se tramava com o fim de lhe tirar o throno. - -Os factos foram desnaturados, os perigos exagerados. Attacaram todas as -fibras do homem e do principe para lhe dar esse ressentimento mortal de -que tinham necessidade esses homens que se intitulam os salvadores das -monarchias. - -Uma commissão criminal extraordinaria foi creada em Turim para dirigir -todos os supplicios que tivessem logar no Piemonte. - -Esta commissão decidiu que todos os accusados militares ou paisanos -seriam sentenciados por ella. Foi a primeira violação do codigo penal. - -Por esta occasião é que se deu o facto memoravel que vamos relatar. - -Um official que se assentava como juiz no conselho de investigação -fez algumas perguntas sobre principios de direito criminal a um -jurisconsulto. Este respondeu-lhe que a primeira base de toda e -qualquer lei, que a primeira regra de todo o codigo era: - - «Que um conselho de investigação militar se devia declarar - incompetente para julgar cidadãos.» - ---Isso é impossivel, disse o official, porque o general ordenou que nos -declarassemos competentes. - -D'esta vez a base da lei, a regra do codigo foi a ordem do general. - -O primeiro que manchou com o seu sangue o manto do novo rei, foi o cabo -Tamburelli, que foi fuzilado pelas costas, por haver commettido o crime -de lêr aos seus soldados a _Joven Italia_. O segundo foi o tenente -Tolla culpado por ter tido em seu poder livros sediciosos, e conhecendo -o author não o haver denunciado. Como Tamburelli foi fuzilado pelas -costas. Era uma engenhosa invenção da magistratura piemonteza para -assemelhar o supplicio do fuzilado ao da forca. - -Já não era sufficiente matar, era preciso tambem deshonrar. A de 15 de -Junho foram tão bem fuzillados _pelas costas_ o sargento Miglio, José -Deglia e Antonio Gaortti. - -Todos morreram com uma coragem admiravel. - -Jacopo Rufini estava encerrado nas prisões da torre de Genova. Tentavam -tirar-lhe as forças por todos os meios possiveis: falto de comida e de -somno, sentia que se enfraquecia, não só physicamente, mas moralmente, -por isso resolveu não esperar que o collocassem entre a morte e a -vergonha, e receiando que chegado esse momento não tivesse forças -para escapar á morte, arrancou uma lança de ferro da porta da prisão, -afiou-a e degolou-se com ella. - -Nas agonias da morte teve forças sufficientes para escrever na muralha -com letras de sangue: - - «Lego á Italia a minha vingança.» - -Quando no dia seguinte entraram na prisão acharam-n'o morto. - -Em Genova foram fuzilados Luciano Placenzo e Luiz Turfo. - -Em Alexandria Domingos Ferrari, José Menardi, José Rigano, Assani -Costa, Giovanni Marini e depois Andrea Vochieri. - -Escreveremos algumas linhas sobre Andrea Vochieri, assim como fizemos -de Jacopo Rufini. - -Um condemnado d'Alexandria que escapou ás torturas de Fenestrelle, -deixou nas suas memorias a narração da agonia de Andrea Vochieri: - - «Tiraram-me, diz elle, fallando de si, os meus livros que - se compunham de uma Biblia, de um livro de orações e de uma - Historia dos Capuchos illustres do Piemonte. Depois pozeram-me - ferros aos pés e conduziram-me a outra prisão mais humida mais - escura e mais sordida que primeira. As janellas tinham duas - ordens de grades e as portas cadêas dobradas. Esta prisão - era proxima da do pobre Vochieri. Alguns buracos na parede - permittiam-me ver tudo quanto ali se passava. - - «Estava deitado em um miseravel banco com ferros aos pés, dois - guardas collocados ao lado com a espada núa, e uma sentinella - armada com uma espingarda se achava á porta. Reinava n'este - medonho carcere um silencio sepulchral e os soldados pareciam - mais consternados do que o proprio prisioneiro. Dois frades - capuchos vinham com curtos intervallos vel-o e exhortal-o. - - «Apesar da grande dôr que sentia em vêr aquelle martyr em - similhante estado não podia deixar de o contemplar a todos os - momentos. No fim de oito dias vieram buscal-o para o conduzir á - morte.» - -O que este prisioneiro não relata porque não o sabia, é que Vochieri -foi levado ao supplicio pelo caminho mais longo, sendo obrigado a -passar por defronte da casa aonde habitava sua irmã, sua esposa e seus -filhos. Esperavam que vendo tudo o que elle tinha de mais cara no mundo -perdesse a coragem e fizesse algumas revelações. - -Vochieri sorriu tristemente: - ---Esqueceram, disse elle, que ha no mundo uma coisa que adoro mais do -que esposa, irmã e filhos... é a Italia. Viva a Italia! - -Voltando-se então para os guardas que o iam fuzilar, e que eram -condemnados das galés em logar de soldados, disse esta unica palavra: - ---Vamos! - -Quinze minutos depois cahia atravessado por seis ballas. - -Havia n'essa época em Niza um mancebo de vinte e seis annos que vendo -correr este sangue fazia comsigo mesmo o juramento de consagrar toda a -sua vida ao culto d'essa liberdade pela qual morriam tantos martyres. - -Esse mancebo era GARIBALDI. - - =ALEXANDRE DUMAS.= - - - - - MEMORIAS DE GARIBALDI - - I - - MEUS PAES - - -Nasci em Niza, a 22 de julho de 1807, não só na casa, mas no proprio -quarto em que nasceu Masséna. O illustre marechal era, como ninguem -ignora, filho de um padeiro. Nas lojas d'aquelle predio ainda hoje se -conserva uma padaria. - -Antes de fallar a meu respeito seja-me permittido dizer duas palavras -de meus estimados paes de que o excellente caracter e profunda ternura -tanta influencia tiveram na minha educação e disposições physicas. - -Meu pae, Domingos Garibaldi, natural de Chiavari, era como meu avô -maritimo. Vindo ao mundo o primeiro objecto que seus olhos viram foi o -mar, e era no mar que devia passar quasi toda a sua vida. Estava bem -longe de possuir os conhecimentos que são o apanagio dos homens da sua -classe, e principalmente do nosso seculo. Não havia formado a sua -educação em uma escóla especial, mas sim nos navios de meu avô. - -Mais tarde capitaneou uma embarcação com grande felicidade. Soffreu -immensos incidentes uns felizes, outros desgraçados, e muitas vezes -ouvi dizer que nos poderia ter deixado mais bens de fortuna do que nos -legou. - -Mas que importa isso! Meu pobre pae era livre de gastar como -intendesse um dinheiro tão laboriosamente ganho, e eu não lhe sou -menos reconhecido por esse facto. De mais ha uma coisa, de que estou -intimamente convencido e é, de que todo o dinheiro que dispendeu n'este -mundo o que gastou com a minha educação foi o que com mais prazer saín -das suas algibeiras apesar dos grandes sacrificios que para isso era -obrigado a fazer. - -Não julguem por isto que a minha educação foi aristocratica. Meu -pae não me mandou ensinar gymnastica, jogo d'armas ou equitação. A -gymnastica apprendi-a trepando pelos cabos dos navios, e deixando-me -escorregar pelas enxarcias; a esgrima defendendo a minha cabeça e -tentando o melhor que podia quebrar a dos outros, e a equitação tomando -os exemplos dos primeiros cavalleiros do mundo, isto é, dos Gauchos. - -O unico exercicio corporal da minha mocidade, para o qual tambem não -tive mestre, foi a natação. Não me lembro quando, e como aprendi a -nadar, mas julgo que sempre o soube, pois desconfio que nasci amphibio. -Assim não obstante o pouco prazer que tenho em me prodigalisar elogios, -como sabem todos aquelles que me conhecem, não posso deixar de dizer -que, sou um dos melhores nadadores existentes. Sendo conhecida a -confiança que tenho em mim é escuzado dizer que nunca hesitei em me -atirar á agua quando era necessario salvar um dos similhantes. - -Entretanto se meu pae não me mandou ensinar todos estes exercicios a -culpa não foi sua, mas sim da epocha calamitosa porque atravessavamos. -N'estes tempos desgraçados o clero era o senhor absoluto do Piemonte, -e todos os seus esforços eram tornar os mancebos em frades inuteis e -mandriões em logar de cidadãos aptos para servirem a nossa desgraçada -patria. O amor profundo que me consagrava meu pobre pae, até lhe fazia -receiar que se eu recebesse alguma instrucção, isso me fosse funesto -para o futuro. - -Rosa Raymundo, minha mãe, era, digo-o com bastante orgulho, o modelo -das mulheres. Todo o bom filho deve dizer o mesmo de sua mãe, mas -nenhum o dirá com mais justiça do que eu. - -Um dos remorsos de toda a minha vida, talvez o maior, foi e será o -ter tornado desgraçados os seus ultimos dias! Só Deus sabe quanto ella -soffreu com a minha vida aventureira, porque só Deus sabe o immenso -amor que minha mãe me consagrava. Se em mim existe algum sentimento -bom, confesso-o, e com bastante ufania, é a ella a quem o devo. O seu -caracter angelico devia forçosamente deixar-me alguns vestigios. Não -será á sua piedade pelos desgraçados, á sua compaixão pelos infelizes, -que eu devo este amor pela patria, amor que me mereceu a affeição e -sympathia dos meus compatriotas? - -Não sou supersticioso, mas devo dizer que nas circumstancias mais -criticas da minha vida, quando o oceano rugindo erguia o meu navio como -um pedaço de cortiça, quando as bombas assobiavam a meus ouvidos como -o vento da tempestade, quando as ballas cahiam em volta de mim como a -saraiva, via sempre minha pobre mãe ajoelhada aos pés do SENHOR orando -pelo filho das suas entranhas. Se algumas vezes mostrei uma coragem -de que muitos se admiraram, é porque estava convencido de que não me -succederia desgraça alguma quando tão santa mulher, quando similhante -anjo orava por mim. - - - - - II - - OS MEUS PRIMEIROS ANNOS - - -Os primeiros annos da minha mocidade foram passados, como são os de -todas as creanças, isto é, rindo e chorando sem saber porque, estimando -mais o prazer que o trabalho, os divertimentos que o estudo, e não -aproveitando, como devia ter feito, os sacrificios que meus paes faziam -por meu respeito. Cousa alguma extraordinaria aconteceu durante a minha -infancia. Tinha um excellente coração, sendo este um bem emanado de -Deus e de minha mãe. Escusado é dizer que os impulsos d'esse coração -eram por mim immediatamente satisfeitos. Tive sempre grande compaixão -por tudo o que era fraco e soffredor. Esta compaixão estendia-se -até aos animaes, ou antes começava por elles. Lembra-me de que um -dia apanhei um grillo e que levando-o para o meu quarto, ahi passei -alguns momentos brincando com elle, até que com essa inepcia ou antes -brutalidade da infancia lhe arranquei uma perna: a minha dôr foi tal, -que passei muitas horas encerrado no meu quarto chorando amargamente. - -Outra vez indo a Var á caça com um primo meu, parei ao pé d'um profundo -fosso aonde as lavadeiras costumavam lavar a roupa e aonde n'aquelle -momento se achava uma pobre mulher lavando a sua. Não sei como, mas -esta desgraçada caiu no fosso. Apesar de ser mui novo--tinha então oito -annos--atirei-me á agua conseguindo salval-a. Conto este caso para -provar quanto é natural em mim um sentimento que me leva a soccorrer o -meu similhante, e para se conhecer o pouco valor que tem o fazel-o. - -Entre os professores que tive n'esta epocha da minha vida, contam-se o -padre Giovanni e o senhor Arene, a quem eu conservo um reconhecimento -particular. - -Com o primeiro aproveitei pouco, porque, como já disse, tinha mais -disposição para brincar e vadear, do que para trabalhar. Resta-me -sobre tudo o pesar de não haver estudado o inglez, como o teria podido -fazer, porque sendo o padre Giovanni de casa e quasi de familia, as -suas lições resentiam-se da muita familiaridade que entre nós existia. -Todas as vezes que sou obrigado a tractar com inglezes, que não são -poucas, este sentimento renova-se sempre. Ao segundo, optimo professor, -é a quem devo o pouco que sei, mas o que mais lhe agradeço, e porque -lhe serei eternamente grato, é haver-me ensinado a minha lingua materna -pela constante leitura da historia romana. - -A grave falta de não ensinar ás creanças a lingua e historia patria é -frequentemente commettida em Italia, e principalmente em Niza, onde -a proximidade de França influe muitissimo na educação. É pois a esta -primeira leitura da nossa historia, e á persistencia com que meu irmão -mais velho, Angelo, me recommendava o seu estudo, que eu devo o pouco -que sei da sciencia historica e a facilidade de exprimir os meus -pensamentos. - -Termino este primeiro periodo da minha juventude narrando um facto que, -apezar da sua pouca importancia dará uma idéa da minha disposição para -a vida aventureira. - -Fatigado de estudar, e soffrendo muito pela vida sedentaria que era -obrigado a levar, propuz um dia a alguns dos meus companheiros que -fugissemos para Genova. A proposta foi logo approvada e desatando um -barco de pesca fizemo-nos de véla para o Oriente. Estavamos nas alturas -de Monaco quando um pirata, mandado por meu excellente pae nos apanhou -e entregou cheios de vergonha ás nossas familias. Um abbade que nos -havia visto foi o denunciante. D'este facto é que provavelmente vem as -poucas sympathias que sinto pelos abbades. - -Os meus companheiros n'esta aventura eram, se bem me recordo, César -Parodi, Rafael de Andreis e Celestino Dermond. - - - - - III - - AS MINHAS PRIMEIRAS VIAGENS - - -«Oh! primavera, juventude do anno. Oh! juventude, primavera da vida!» -disse Metastasio, eu ajuntarei: Como tudo se aformosea ao sol da -juventude e da primavera! - -Foi illuminado por esse bello sol que tu linda _Constanza_, primeiro -navio em que sulquei os mares, me appareceste. Os teus robustos -flancos, a tua elevada e ligeira mastreação, a tua espaçosa coberta, -e até o busto de mulher que se patenteava soberbo na tua prôa, -ficarão eternamente gravados na minha idéa! Como os teus marinheiros, -verdadeiros typos dos nossos Ligurios, se inclinavam graciosamente sob -os remos! - -Com que alegria me dependurava na amurada para ouvir as suas canções -populares. - -Cantavam canções de amor; ninguem então lhe ensinava outras, e estas -por mais insignificantes que fossem, enterneciam-me e arrebatavam-me. -Se esses cantos tivessem sido pela patria, talvez me enlouquecessem! -Quem lhe diria então que havia uma Italia? Quem lhe diria que tinhamos -uma patria a vingar e a tornar livre? - -Ninguem! - -Fomos educados e crescemos como judeus, isto é, na crença de que a vida -não tem senão um fim--fazer fortuna. - -Em quanto olhava alegre para o navio em que ia embarcar, minha mãe -preparava, chorando, a minha bagagem. - -A minha vocação era a vida aventureira do mar. Meu pae fez todo o -possivel para me tirar similhante idéa, a sua vontade era que eu -seguisse, uma carreira pacifica e sem perigos; que fosse padre, -advogado ou medico. Mas a minha persistencia o fez desistir, e o seu -amor cedeu á minha juvenil obstinação. Embarquei então na _Constanza_ -de que era capitão Angelo Pesante o mais atrevido maritimo que tenho -conhecido. Se a nossa marinha tivesse tomado as proporções que se -podiam esperar, o capitão Pesante teria direito ao commando de um dos -nossos navios de guerra, e ninguem o teria excedido. Pesante nunca -commandou uma esquadra, mas que se dirijam a elle, e em breve tempo -já terá arranjado uma, desde as barcas até ás naus de tres pontos. Se -elle algum dia obtivesse uma tal commissão, posso assegurar que haveria -proveito e gloria para a patria. - -Fiz a minha primeira viagem a Odessa. Estas viagens tornaram-se depois -tão communs e faceis que é inutil descrevel-as. - -A minha segunda viagem foi a Roma, mas na companhia de meu pae que -tendo na minha primeira ausencia soffrido mortaes inquietações, -se tinha resolvido visto eu não querer ceder da minha teima, a -acompanhar-me. - -Fizemos a viagem na sua tartana a _Santa Reparata_. - -A Roma! Com que alegria eu partia! Já disse como pelos conselhos de -meu irmão e pelos cuidados do meu digno professor havia estudado, -a historia romana. Roma era para mim, admirador da antiguidade, a -capital do mundo. É verdade que se achava destruida, mas as suas -ruinas eram immensas, gigantescas e d'ellas sae a memoria de tudo -quanto é bello e grandioso. Roma foi não só a capital do mundo, mas -o berço d'essa religião santa que quebrou a cadêa dos escravos, que -ennobreceu a humanidade, d'essa religião de que os primeiros apostolos -foram os instituidores das nações, os emancipadores dos povos, mas -de que infelizmente os successores degenerados teem sido o flagello -da Italia, vendendo sua mãe, ou antes nossa mãe, aos estrangeiros! -Não! não! a Roma que eu via nos sonhos da minha mocidade não era só -a Roma do passado, mas tambem a do futuro, abrigando em seu seio a -idéa regeneradora de um povo perseguido pela inveja das outras nações, -porque nasceu grande e porque tem sempre marchado á frente dos povos, -guiados por ella á civilisação. - -Roma! quando penso na sua desgraça, no seu abatimento, no seu martyrio, -parece-me superior a todo o mundo. Amava-a com todas as forças da -minha alma, não só nos combates soberbos da sua grandeza durante tres -seculos; mas até nos mais pequenos successos que eu recolhia no meu -coração como um precioso deposito. - -O meu amor em logar de diminuir, tem augmentado com o desterro. Muitas -vezes, no outro lado dos mares, a tres mil leguas de distancia, pedia -ao SENHOR como uma graça especial o tornar a vêl-a. Finalmente, Roma -era para mim a Italia, porque eu não vejo a Italia senão na reunião dos -seus membros dispersos, e Roma é para mim o symbolo da unidade italiana. - - - - - IV - - AS MINHAS PRIMEIRAS AVENTURAS - - -Durante algum tempo naveguei na companhia de meu pae; depois fui a -Cagliari no bergantim _Etna_, de que era capitão José Gervino. - -N'esta viagem presenciei uma horrivel catastrophe que me deixou -uma eterna recordação. Vindo de Cagliari, na altura do cabo Noli, -navegavamos na companhia de alguns navios, entre os quaes se achava -uma encantadora falua catalã. Depois de gosarmos dois ou tres dias de -um bello tempo, começámos a sentir algumas rajadas d'esse vento a que -os nossos marinheiros chamam _Libieno_, por que antes de chegar ao -Mediterraneo passa pelo deserto de Lybia. Impellido por elle o mar não -tardou a enfurecer-se, e tão furiosamente que nos arrastou para Vado. - -A falua de que já fallei sustentou-se admiravelmente no começo da -tormenta, e não duvido dizer que todos nós receiando que a tempestade -augmentasse, desejavamos antes estar a bordo da falua, do que dos -nossos navios. Infelizmente a desgraçada embarcação estava destinada -a offerecer-nos um doloroso espectaculo: uma vaga horrivel a -cobriu, e em bem poucos instantes todos aquelles desgraçados foram -submergidos. A catastrophe tinha logar á nossa direita, e por isso nos -era absolutamente impossivel soccorrel-os. Os outros navios que nos -acompanhavam tambem se achavam na mesma impossibilidade. Nove pessoas -da mesma familia morreram á nossa vista, sem lhe podermos prestar o -mais leve soccorro. Algumas lagrimas appareceram nos olhos dos mais -endurecidos dos nossos marinheiros, mas o perigo proprio era tal que -ellas bem depressa seccaram. A tempestade abrandou, como se estivesse -satisfeita por haver immolado estas victimas; e chegamos a Vado sem -incídente. - -De Vado parti para Genova, e de Genova voltei a Niza. - -Então comecei uma serie de viagens ao Levante, durante as quaes fomos -tres vezes tomados e roubados pelos piratas. Duas vezes o fomos na -mesma viagem, o que tornou os segundos piratas mui furiosos, visto que -não nos encontravam cousa alguma para roubar. Foi n'estes ataques que -comecei a familiarisar-me com o perigo, e a vêr que sem ser Nelson, -podia como elle perguntar:--O que é o medo? - -Foi n'uma destas viagens, no bergantim _Cortese_, capitão Barlasemeria, -que fiquei doente em Constantinopla. O navio foi obrigado a fazer-se -de véla, e prolongando-se a minha doença mais do que eu tinha julgado, -achei-me muito falto de recursos. - -Como em todas as situações desgraçadas em que me tenho achado, sempre -encontrei alguma alma caridosa que me soccorresse, nunca pensei muito -na falta de dinheiro. - -Entre essas almas caridosas encontrei uma que nunca esquecerei: é a -excellente senhora Luiza Sauvaigo, de Niza, que me fez convencer de que -as duas mulheres mais perfeitas do mundo, eram minha mãe e ella. - -Luiza fazia a felicidade de um marido, excellente homem, e tratava com -uma admiravel intelligencia da educação de seus filhos. - -Porque razão fallei agora de Luiza? É porque escrevendo para -satisfazer uma necessidade do coração, ella me dictou o que acabo de -lançar ao papel. - -A guerra então existente entre a Porta Ottomana e a Russia contribuiu -a prolongar a minha estada na capital do imperio turco. Durante este -tempo e ignorando ainda como poderia alcançar recursos para viver, -fui admittido como preceptor em casa da viuva Timoni. Este emprego -foi-me dado sob recommendação de M. Diego, doutor em medicina, e a -quem dou aqui um voto de agradecimento pelo serviço que me prestou. -Estava, pois, preceptor de tres meninos. Assim fiquei muitos mezes, -até que a vontade de navegar vindo de novo, me embarquei no bergantim -_Notre-Dame-de-Grace_, de que tinha sido capitão Casanova. - -Foi este o primeiro navio em que embarquei como capitão. - -Não fatigarei o leitor fallando nas minhas viagens, em que nada de -extraordinario me succedeu, direi unicamente que atormentado sempre por -um profundo patriotismo, nunca cessei de perguntar noticias sobre a -ressurreição de Italia, mas infelizmente até á edade de vinte e quatro -annos todo o trabalho foi inutil. - -Emfim, n'uma viagem a Taganrog veiu a bordo do meu navio um patriota -italiano, que me deu algumas noticias sob a maneira porque marchavam os -negocios de Italia. - -Havia alguma esperança para o nosso desgraçado paiz. - -Christovão Colombo, não foi mais feliz, quando perdido no meio do -Atlantico, e ameaçado pelos seus companheiros a quem havia pedido só -tres dias, ouviu gritar: «Terra», do que eu quando ouvi pronunciar a -palavra _patria_, e vi no horisonte o primeiro pharol preparado pela -revolução franceza de 1830. - -Havia então homens que se occupavam da redempção da Italia! - -Em outra viagem, transportei no _Clorinde_, a Constantinopla alguns -_Simoniacos_, conduzidos por Emilio Parrault. - -Tinha ouvido fallar pouco na seita de «Saint-Simon»; sabia unicamente -que estes homens eram os apostolos perseguidos de uma nova religião. - -Vendo em Parrault um patriota italiano, dei-lhe parte de todos os meus -pensamentos. Então durante essas noutes transparentes do Oriente, que, -como diz Chateaubriand, não são as trevas, mas unicamente a ausencia -do dia, debaixo d'esse ceu marchetado de estrellas, sobre esse mar de -que a brisa parecia cheia de inspirações generosas, discutimos, não só -as mesquinhas questões de nacionalidade nas quaes havia pensado muito, -questões restrictas á Italia, e a cada provincia--mas até a grande -questão da humanidade. - -Este apostolo provou-me que o homem que defende a sua patria, ou que -ataca a dos outros, é no primeiro caso um soldado piedoso; injusto no -segundo,--mas o homem que tornando-se cosmopolita, adopta a todas por -patria e vae offerecer a sua espada e o seu sangue ao povo que lucta -contra a tyrannia, é mais que um soldado--é um heroe. - -Teve então logar no meu espirito uma mudança repentina. Pareceu-me vêr -em um navio não o vehiculo encarregado de transportar mercadorias entre -os diversos paizes, mas o mensageiro do SENHOR. Havia partido avido -de emoções, e curioso por vêr cousas novas, e a mim mesmo perguntava -se esta idéa irresistivel que me perseguia não tinha horisontes mais -dilatados e por descobrir. Via esses horisontes atravez o longiquo véo -do futuro. - - - - - V - - OS ACONTECIMENTOS DE S. JULIÃO - - -O navio em que desta vez voltei do Oriente destinava-se a Marselha. - -Chegando a esta cidade soube da revolução suffocada no Piemonte e dos -fuzilamentos de Chambéry, Alexandria e Genova. - -Em Marselha travei relações intimas com Covi, que me apresentou a -Mazzini. - -Então estava longe de suspeitar a grande communidade de principios -que um dia me uniria a Mazzini. Ninguem conhecia ainda o persistente -e obstinado pensador, que nem a propria ingratidão tem feito desistir -da grande obra que emprehendeu. Quando soube da morte de Vocchieri, -Mazzini tinha dado um verdadeiro grito de guerra. - -Escreveu na sua _Joven Italia_: «Italianos, é tempo de nos juntarmos, -se queremos ficar dignos do nosso nome; e derramar o nosso sangue -amalgamando-o com o dos martyres piemontezes.» - -Mas em França, em 1833, não se diziam impunemente d'estas cousas. Algum -tempo depois de lhe haver sido apresentado, e de lhe ter dito que podia -contar comigo, Mazzini, o eterno proscripto, era obrigado a deixar a -França e a retirar-se a Genova. - -N'esta occasião o partido republicano parecia completamente morto na -França. Era um anno apenas decorrido: estavamos a 5 de junho,--alguns -mezes depois do processo dos combatentes do claustro Saint-Merry. - -Mazzini havia escolhido este momento para fazer uma nova tentativa. - -Os patriotas tinham respondido que estavam promptos, mas pediam um -chefe. - -Pensaram em Romarino, ainda coberto de louros por causa das suas luctas -na Polonia. - -Mazzini não approvava esta escolha, o seu espirito activo e profundo -prevenia-o contra os grandes nomes; mas a maioria queria Romarino, e -então Mazzini cedeu. - -Chamado a Genova, Romarino acceitou o commando da expedição. Na -primeira conferencia com Mazzini foi convencionado que duas columnas -republicanas se deviam dirigir ao Piemonte, uma pela Saboia outra por -Genova. - -Romarino recebeu quarenta mil francos para fazer face ás primeiras -despezas, e partiu com um secretario de Mazzini que ia encarregado de o -vigiar.[3] - - [3] Estes successos que tinham logar em um ponto aonde não - estava Garibaldi, são aqui referidos unicamente para explicação - historica, sendo extrahidos de Angelo Brofferio. - -Todos estes acontecimentos tiveram logar em setembro de 1833; a -expedição devia ter logar em outubro. - -Mas Romarino conduziu tudo de tal modo que a expedição não estava -prompta senão em janeiro de 1834. - -Mazzini não obstante todas as tergivergencias do general tinha-se -mostrado firme. - -Em fim a 31 de janeiro, Ramorino collocado na ultima extremidade por -Mazzini reuniu-se a elle em Genova, com dois outros generaes e um -ajudante de campo. - -A conferencia foi triste, e mal annunciada por pessimos agouros. -Mazzini propoz que se occupasse militarmente a villa de S. Julião, onde -se achavam reunidos os patriotas saboyanos e os republicanos francezes, -que haviam adherido ao movimento. - -Era em S. Julião que se devia levantar o grito de rebellião. - -Ramorino era da opinião de Mazzini. As duas columnas deviam pôr-se -em marcha no mesmo dia: uma partiria de Caronge, e a outra de Nyon, -devendo esta atravessar o lago para se reunir á primeira na estrada de -S. Julião. - -Ramorino ficava com o commando da primeira columna: a segunda estava -debaixo das ordens de Graboky. - -O governo genovez receioso de se indispor, por um lado com a França, -por outro com o Piemonte, viu com maus olhos este movimento. Quiz -oppor-se á partida da columna de Caronge commandada por Romarino, mas o -povo sublevou-se, e o governo foi forçado a deixal-a marchar. - -Não succedeu o mesmo com a que devia partir de Nyon. - -Dous barcos se haviam feito de véla, levando um soldados, e o outro -armas. - -Mandaram em sua perseguição um navio de guerra a vapor, que trouxe as -armas e aprisionou os soldados. - -Ramorino não vendo chegar a tropa que se lhe devia juntar, em logar de -proseguir na sua marcha sobre S. Julião, começou a costear o lago. - -Muito tempo se passou sem saber aonde iam. Não se conheciam as -intenções do general: o frio era intenso, e os caminhos estavam em um -estado deploravel. - -Exceptuando alguns polacos, a columna era composta de voluntarios -italianos, impacientes pela hora do combate, mas que cançavam -facilmente pela extensão e difficuldade do caminho. - -A bandeira italiana atravessou algumas pobres villas, nenhuma voz -amiga a saudou, não encontrando por toda a parte senão curiosos ou -indifferentes. - -Fatigado pelos seus largos trabalhos, Mazzini que tinha trocado a -penna pela espingarda, seguia a columna: soffrendo uma febre ardente, -arrastava-se por aquelles asperos caminhos com a dôr escripta na fronte. - -Já por varias vezes tinha perguntado a Ramorino quaes eram as suas -intenções, e que caminho seguia. - -As respostas do general nunca o haviam satisfeito. - -Chegaram a Carra e detiveram-se para ahi passar a noite; Mazzini e -Ramorino achavam-se na mesma camara. - -Ramorino estava embrulhado na sua capa; Mazzini fixava sobre elle o seu -olhar sombrio desconfiado. - ---Não é seguindo este caminho, disse elle com a sua voz sonora, tornada -mais vibrante pela febre, que temos a esperança de encontrar o inimigo. -Devemos ir ao seu encontro, e se a victoria é impossivel, provemos ao -menos á Italia que sabemos morrer. - ---Não nos faltará nem o tempo, nem a occasião, respondeu o general, -para affrontar perigos inuteis: considero como um crime o expôr -inutilmente a flôr da mocidade italiana. - ---Não ha religião sem martyres, respondeu Mazzini, fundemos a nossa, -ainda que seja com o nosso sangue. - -Mal acabava de pronunciar estas palavras, que o estrondo da fuzilaria -se ouviu. - -Ramorino deu um salto. Mazzini pegou n'uma carabina, agradecendo a Deus -o ter-lhe feito encontrar o inimigo. Mas este era o ultimo esforço da -sua energia: a febre devorava-o; os seus companheiros correndo de noite -pareciam-lhe fantasmas, a fronte escaldava-lhe, e a terra tremia-lhe -debaixo dos pés. Depois de alguns minutos de afflicção caíu desmaiado. - -Quando voltou a si achou-se na Suissa, aonde os seus companheiros o -tinham conduzido com grande trabalho: a fuzilaria de Carra tinha sido -um rebate falso. - -Ramorino declarou então que tudo estava perdido: recusou-se a ir mais -longe e ordenou a retirada. - -Durante este tempo uma columna de cem homens, da qual faziam parte -um certo numero de republicanos francezes, partiu para Grenoble, e -atravessou a fronteira da Saboya. - -O perfeito francez preveniu as auctoridades sardas: os republicanos -foram attacados de noute e de improviso, ao pé das grutas de Cobellos, -e dispersos depois d'um combate que durou uma hora. - -N'este combate os soldados sardos fizeram dois prisioneiros. Angelo -Volantieri e José Borrel: conduzidos voluntariamente a Chamberg e -condemnados á morte, foram fuzilados na mesma terra aonde ainda estava -fumegante o sangue de Elfico Tolla. - -Por este modo terminou aquella expedição. - - - - - VI - - O DEUS DOS BONS - - -Tinha tambem a minha parte a cumprir no movimento que devia ter tido -logar, e havia-a acceitado sem discutir. - -Havia entrado no serviço do estado como marinheiro de primeira classe -da fragata _Eurydice_. A minha missão era alcançar proselytos para a -nossa causa, e para conseguir este fim tinha feito tudo quanto me era -possivel. - -Dado o caso que o nosso movimento tivesse bom resultado, devia com -os meus companheiros apoderar-me da fragata e pôl-a á disposição dos -republicanos. - -Não havia querido, impellido pelo ardor que sentia, limitar-me a este -papel. Tinha ouvido dizer que um movimento teria logar em Genova, -devendo por esta occasião apoderarem-se do quartel dos gendarmes -situado na praça de Sarzana. Deixei aos meus companheiros o cuidado -de se assenhorearem do navio, e proximo da hora em que devia rebentar -a rebellião de Genova deitei uma canôa ao mar e desembarquei na -alfandega, gastando poucos momentos a chegar á praça de Sarzana, onde, -como já disse, estava situado o quartel. - -Esperei quasi uma hora, mas nenhum indicio de rebellião appareceu. -Bem depressa ouvi dizer que tudo estava perdido, havendo-se posto os -republicanos em fuga: dizendo-se tambem que varias prisões haviam sido -feitas. - -Como não me tinha engajado na marinha sarda senão para ajudar o -movimento republicano, julguei inutil voltar a bordo do _Eurydice_, -começando a pensar nos meios de me pôr em fuga. - -No momento em que fazia estas reflexões, alguma tropa prevenida sem -duvida do projecto de nos apoderarmos do quartel, começou a guarnecer a -praça. - -Vi então que não havia tempo a perder. Refugiei-me em casa de uma -vendedeira de fructa e confessei-lhe a situação em que me achava. - -A excellente mulher não fez nenhuma reflexão e escondeu-me nos quartos -interiores do seu estabelecimento. No dia seguinte procurou-me um fato -completo de camponez, e pelas oito horas da noite sahi, como se andasse -passeando, de Genova pela porta da Lanterne, começando então essa vida -de exilio, luto e perseguição, que, segundo todas as probabilidades, -ainda não finalisou. - -Estavamos a 5 de fevereiro de 1834. - -Abandonando os caminhos batidos e trilhados dirigi-me por atalhos para -as montanhas. Tinha bastantes jardins que atravessar, e muitos muros -que saltar. Felizmente estava familiarisado com estes exercicios, e -depois de uma hora de gymnastica achava-me fóra do ultimo jardim. - -Encaminhado-me para Cassiopea, ganhei as montanhas de Sestri, e no fim -de dez dias, ou antes de dez noites; cheguei a Niza, dirigindo-me logo -a casa de minha tia, na praça da Victoria, a fim de que ella prevenindo -minha mãe lhe tirasse todos os cuidados. - -Descancei um dia, e na noite seguinte parti acompanhado por dois -amigos, José Jaun, e Engelo Gostavini. - -Chegados ao Var, achamol-o innundado pelas chuvas, mas para um nadador -como eu, não era isto um obstaculo. Atravessei-o metade a nado, metade -a vau. - -Os meus dois amigos haviam ficado na outra margem. Disse-lhe adeus. - -Estava salvo, ou quasi, como se vae vêr. - -N'esta esperança dirigi-me a um corpo de guardas da alfandega; -disse-lhe quem era, e qual o motivo porque havia deixado Genova. - -Os guardas disseram-me que era seu prisioneiro, até nova ordem, e que a -iam mandar pedir a Paris. - -Julgando que acharia facilmente occasião de fugir, não fiz nenhuma -resistencia, e deixei-me conduzir a Grasse, e de Grasse a Draguignan. - -Em Draguignan metteram-me em um quarto do primeiro andar, cuja janella -sem grades, dava para um jardim. - -Aproximei-me d'ella como se quizesse vêr o jardim: da janella ao chão -havia a altura de quinze pés. Dei um salto, e em quanto os guardas, -menos ligeiros e estimando mais as pernas do que eu estimava as minhas, -saíam pela escada; ganhei-lhe muita dianteira embrenhando-me nas -montanhas. - -Não conhecia o caminho, mas era marinheiro, e lendo no ceo, n'esse -grande livro, aonde estava habituado a lêr, orientei-me e dirigi-me a -Marselha. No dia seguinte de tarde cheguei a uma villa de que nunca -soube o nome, porque nem tive tempo para o perguntar. - -Entrei n'uma estalagem. Um mancebo e uma mulher ainda joven estavam á -mesa esperando pela ceia. - -Pedi alguma cousa de comer: desde a vespera que não havia tomado nenhum -alimento. - -O dono da hospedaria convidou-me para ceiar na sua companhia e de sua -mulher. Acceitei. - -A comida era boa, o vinho do paiz agradavel, e o fogo excellente. -Senti então um d'esses momentos de bem estar e felicidade, como só se -experimentam depois de se haver passado um perigo, e quando se julga -não haver mais nada a receiar. - -O dono da hospedaria felicitou-me pelo meu bom appetite, e pelo meu -rosto alegre e prasenteiro. - -Disse-lhe que o meu appetite não tinha nada de extraordinario, -porque não tinha comido havia dezoito horas e que o achar-me alegre -e satisfeito era por haver escapado talvez á morte no meu paiz--e em -França á prisão. - -Tendo-me adiantado tanto, não podia fazer segredo do resto. O -estalajadeiro e sua mulher pareciam-me tão boas pessoas que lhe contei -tudo. - -Então, com grande espanto meu, o estalajadeiro ficou pensativo. - ---Que tem? lhe perguntei. - ---É que depois da confissão que acaba de fazer, respondeu elle, não -tenho remedio senão prendel-o. - -Dei uma grande gargalhada porque não tomei este dito ao serio, e demais -se o fosse eramos um contra um, e não havia no mundo um unico homem -que eu temesse. - ---Bem, disse eu, mas como julgo que não tem muita pressa, peço-lhe que -me deixe ceiar com todo o descanço, pois temos muito tempo depois do -_dessert_. E continuei comendo sem mostrar a mais leve inquietação. - -Infelizmente vi bem depressa que se o estalajadeiro tivesse necessidade -de ajudantes para realisar os seus projectos, esses ajudantes não lhe -faltavam. - -A sua estalagem era o logar aonde toda a mocidade da villa se reunia ás -noutes para beber, fumar, e fallar da politica. - -A sociedade do costume começava a reunir-se, e bem depressa estavam na -estalagem mais de doze mancebos, jogando as cartas, bebendo e fumando. - -O estalajadeiro não tornou a fallar na minha prisão, mas tambem não me -perdia de vista. - -É verdade que não tendo eu a mais pequena mala, não tinha cousa alguma -que lhe assegurasse o pagamento da minha despesa. - -Como tinha na algibeira alguns escudos, fiz barulho com elles, o que -pareceu socegar o meu homem. - -No momento em que um dos bebedores acabava, no meio dos applausos -geraes, de cantar uma canção, ergui o copo que tinha na mão: - ---Agora pertence-me, disse eu: - -E comecei a cantar o _Deus dos bons_. - -Se não tivesse outra vocação teria podido fazer-me cantor, porque tenho -uma voz de tenor que cultivada alcançaria uma certa extensão. - -Os versos de Beranger, a franquesa com que eram cantados, a -fraternidade do estribilho, a popularidade do poeta, arrebataram todo o -auditório. - -Fizeram-me repetir dois ou tres couplets e abraçando-me todos quando -acabei, gritaram--Viva Beranger! Viva a França! Viva a Italia! - -Depois de haver obtido tal successo era escusado pensar em prender-me; -o estalajadeiro conheceu isso porque nunca mais me fallou de tal, -ignorando eu por isso se elle fallava seriamente ou se zombava. - -Passou-se a noite a cantar, jogar e a beber; e ao romper do dia todos -os meus companheiros da noite se offereceram para me acompanhar, honra -que acceitei sem difficuldade: caminhámos juntos seis milhas. - -Com toda a certeza Beranger morreu sem saber o grande serviço que me -prestou. - - - - - VII - - ENTRO AO SERVIÇO DA REPUBLICA DO RIO GRANDE - - -Cheguei a Marselha sem incidente, vinte dias depois de ter deixado -Genova. - -Engano-me, um incidente, que li no _Povo Soberano_, me succedeu. - -Estava condemnado á morte. - -Era a primeira vez que tinha a honra de ver o meu nome impresso em um -jornal. - -Como desde então era perigoso continuar a usar d'elle, comecei a -chamar-me Pane. - -Fiquei alguns mezes occioso em Marselha, aproveitando-me da -hospitalidade do meu amigo José Paris. - -Passado algum tempo consegui ser admittido como segundo commandante no -navio _Union_, capitão Gozan. - -No domingo seguinte achando-me pelas cinco horas da tarde á janella com -o capitão, seguia com a vista um collegial em ferias que se divertia -no caes de Santo André a saltar de uma barca para outra, até que -faltando-lhe um pé caíu ao mar. - -Estava vestido á _domingueira_, mas apesar d'isso, ouvindo os gritos -dados pela desgraçada creança arrojei-me á agua completamente vestido. -Duas vezes mergulhei inutilmente, mas á terceira fui mais feliz porque -o agarrei por debaixo dos braços, conseguindo trazel-o sem difficuldade -até á praia. Uma grande quantidade de povo ahi estava reunida, sendo eu -recebido no meio dos seus applausos e bravos. - -Era um rapaz de quatorze annos que se chamava José Bambau. As lagrimas -de alegria e as bençãos de sua mãe pagaram-me largamente do banho que -tinha tomado. - -Como o salvei debaixo do nome de José Pane, é provavel que se é ainda -vivo, nunca soubesse o verdadeiro nome de seu salvador. - -Fiz na _Union_ a minha terceira viagem a Odessa, depois á volta -embarquei-me em uma fragata do bey de Tunis. Deixei-a no porto de -Goletta, voltando a Marselha em um brigue turco. Quando cheguei a esta -cidade encontrei-a quasi no mesmo estado que M. de Belzunce a viu em -1720 quando ali grassava a febre negra. - -O cholera fazia então estragos horriveis. - -Na cidade só existiam os medicos e as irmãs da caridade, quasi todo o -resto da população havia desertado e viviam nas quintas dos arrebaldes. -Marselha tinha o aspecto d'um vasto cemiterio. - -Os medicos pediam os benevolos. É assim, como se sabe, que são chamados -nos hospitaes os enfermeiros voluntarios. - -Offereci-me ao mesmo tempo que um rapaz de Trieste que voltou de Tunis -comigo. Estabelecemo-nos no hospital, e ahi partilhavamos as vigilias. - -Este serviço durou quinze dias. No fim d'este tempo, como o cholera -diminuiu de intensidade e achava uma occasião favoravel de ver novos -paizes, embarquei-me, como segundo no brigue _Nantonnier_, de Nantes, -capitão Beauregard, que se achava proximo a partir para o Rio de -Janeiro. - -Muitos dos meus amigos me teem dito que antes de tudo sou poeta. - -Se para ser poeta é necessario escrever a _Iliada_, a _Divina Comedia_, -as _Meditações de Lamartine_, ou os _Orientaes_, de Victor Hugo, eu -não sou poeta: mas se para o ser é necessario passar horas e horas -a procurar nas aguas asuladas e profundas do mar os mysterios da -vegetação submarina, se é necessario ficar em extase diante da bahia do -Rio de Janeiro, de Napoles ou de Constantinopla, se é preciso pensar no -amor filial, nas recordações infantis, ou n'um amor juvenil no meio das -ballas e bombas, sem pensar que esse sonho ha-de acabar pela cabeça ou -por um braço quebrado--então sou poeta. - -Recordo-me que um dia, durante a ultima guerra, não dormindo havia -quarenta horas, e morto de cançasso costeava Urbano e os seus doze mil -homens com os meus quarenta bersaglieri, os meus quarenta cavalleiros e -um milhar de homens armados na sua maioria pessimamente, seguia por um -pequeno atalho do outro lado do monte Orfano com o coronel Turr e cinco -ou seis homens, quando parei repentinamente, esquecendo a fadiga e o -perigo para ouvir um rouxinol. - -Era uma noite magnifica. Sonhava ouvindo este amigo de infancia, que -um orvalho benefico e regenerador chovia em torno de mim. Os que me -rodeavam julgaram ou que hesitava no caminho a seguir, ou que ouvia -ao longe troar os canhões, ou os passos da cavallaria inimiga. Não! -Escutava um rouxinol que ha mais de dez annos, póde ser, eu não tinha -ouvido. Este extase durou não até que os que me rodeavam me tivessem -repetido duas ou tres vezes «General, ahi está o inimigo» mas até que -este rompendo o fogo fizesse desapparecer o meu encanto. - -Quando depois de ter costeado os rochedos graniticos que occultam a -todas as vistas o porto, que os indios na sua linguagem expressiva -chamam Nelheroky, quer dizer, agua occulta, quando depois de haver -passado a estrada que conduz á nova bahia socegada como um lago; quando -na margem occidental d'esta bahia, vi elevar-se a cidade chamada -_Paus d'Assucar_, immenso rochedo conico que serve não de pharol, -mas de balisa aos navegantes, quando appareceu em volta de mim essa -natureza luxuriante de que a Africa e a Asia só me tinham dado uma -fraca idéa, fiquei maravilhado do espectaculo esplendido que meus olhos -contemplavam. - -Foi no Rio de Janeiro que a minha boa estrella fez com que eu -encontrasse a coisa mais rara do mundo, isto é, um amigo. - -Não tive necessidade de o procurar, não tivemos necessidade de nos -estudar, para nos conhecermos, encontramo-nos, trocamos um olhar e nada -mais; depois um sorriso, um aperto de mão, e Rossetti e eu eramos dous -irmãos. - -Mais tarde terei occasião de dizer o que valia esta nobre alma; e não -obstante, eu, o seu maior amigo, seu irmão, o seu companheiro por tanto -tempo inseparavel, morrerei, póde ser, sem ter occasião de plantar uma -cruz no ponto ignorado da terra aonde repousam os restos deste generoso -e valente cidadão. - -Depois de termos passado algum tempo na _ociosidade_--Chamo ociosidade -o estarmos Rossetti e eu, seguindo um modo de vida para que não -tinhamos disposição alguma--o acaso fez com que travassemos relações -com Zambecarri, secretario de Bento Gonçalves, presidente da republica -do Rio Grande, que se achava então em guerra com o Brasil. Ambos -estavam prisioneiros de guerra em Santa Cruz n'uma fortaleza que se -eleva á direita á entrada do porto d'onde chamam os navios á falla. -Zambecarri, filho do famoso areonauta perdido n'uma viagem á Syria e de -que nunca mais se ouviu fallar, apresentou-me ao presidente que me deu -a carta para poder piratear os navios brasileiros. - -Algum tempo depois Bento Gonçalves e Zambecarri fugiram a nado chegando -livres de todo o perigo ao Rio Grande. - - - - - VIII - - CORSARIO - - -Armámos em guerra o _Mazzini_, pequeno navio de trinta toneladas, e -fizemo-nos ao mar com dezeseis companheiros de aventuras. Finalmente -eramos livres, navegavamos debaixo de um pavilhão republicano; emfim -eramos _corsarios_. - -Com dezeseis homens de equipagem e um navio eramos capazes de declarar -a guerra a um imperio. - -Sahindo do porto dirigi-me para as ilhas Marica, situadas a cinco ou -seis milhas da embocadura da barra. As nossas armas e munições estavam -occultas debaixo das carnes salgadas e da mandioca, unico alimento dos -negros. - -Naveguei para a maior d'estas ilhas, que possue um ancuradouro, lancei -a ancora, saltei em terra e subi ao monte mais elevado. - -Ahi estendi os braços com um sentimento de felicidade e orgulho -inexplicavel, dando um grito similhante ao da aguia quando paira no -mais alto dos ares. - -O Oceano pertencia-me e eu tomava posse do meu imperio. - -A occasião de o exercer não se fez esperar. - -Em quanto estava como um passaro do mar, debruçado sobre o meu -observatorio, vi uma galeota navegando com o pavilhão brasileiro. - -Mandei apromptar tudo para nos fazermos immediatamente ao mar, e desci -á praia. - -Navegámos direitos á galeota que não julgava por certo correr tão -grande perigo a tres milhas da barra do Rio de Janeiro. - -Abordando-a fizemo-nos conhecer, e intimámos o capitão para se render -immediatamente. Para sua justiça é necessario dizer que não fizeram a -mais pequena resistencia. Em poucos momentos estavamos a seu bordo. -Vi então dirigir-se-me um passageiro portuguez, que trazia na mão uma -caixa. Abriu-a, e mostrou-a cheia de diamantes, que me offereceu em -troca da vida. - -Fechei a caixa e entreguei-lh'a, dizendo-lhe que a sua vida não corria -perigo algum, e que por consequencia, podia guardar os seus diamantes -para melhor occasião. - -Não tinhamos tempo a perder, estavamos quasi debaixo do fogo das -baterias do porto. Transportámos as armas e munições para bordo da -galeota e affundámos o _Mazzini_ que como se vê, tinha tido uma curta, -mas gloriosa existencia. - -A galeota pertencia a um rico negociante austriaco que habitava a ilha -Grande, situada á direita sahindo do porto, a quinze milhas de terra, e -estava carregada de café que era enviado á Europa. - -O navio era para mim, por todos os motivos, uma excellente presa, -porque pertencia a um austriaco a quem eu tinha feito a guerra na -Europa, e a um negociante brasileiro domiciliado no Brasil a quem eu -fazia a guerra na America. - -Dei á galeota o nome de _Farropilha_, derivado de _Farrapos_, nome que -no imperio do Brasil se dá aos habitantes das republicas da America do -Sul, assim como Filippe II chamava _mendigos de terra ou de mar_, aos -revoltosos dos Paizes Baixos. - -Até então a galeota chamava-se _Luiza_. - -O nome que lhe havia dado calhava perfeitamente. Os meus companheiros -não eram Rossettis, e devo confessar, que a figura de alguns d'elles, -não era satisfatoria; isto explica a rapida entrega da galeota e o -terror do portuguez que me offereceu os seus diamantes. - -Durante todo o tempo que fui corsario dei ordem á minha gente para -a vida, honra e fortuna dos passageiros ser respeitada... ir dizer -debaixo de pena de morte, mas não devo dizer tal, porque não tendo até -hoje ninguem infringindo as minhas ordens, não tenho tido ninguem que -punir. - -Depois de concluidos os nossos primeiros arranjos dirigi-me para -o Rio da Prata, e para dar o exemplo de respeito que eu queria se -tivesse no futuro pela vida, liberdade e bens dos passageiros, quando -cheguei á altura da ilha de Santa Catharina, um pouco abaixo do cabo -Itapoya, mandei deitar ao mar a lancha do navio e entregando tudo -quanto pertencia aos passageiros e alguns mantimentos os fiz embarcar -deixando-os livres de se dirigirem para onde quizessem. - -Cinco pretos escravos da galeota e a quem eu havia dado a liberdade -engajaram-se como marinheiros. - -Quando chegámos ao Rio da Prata, ancorámos em Maldonato pertencente á -republica oriental de Uruguay. - -Fomos admiravelmente recebidos pela população e mesmo pelas -auctoridades, o que me pareceu de excellente agouro. Rossetti partiu -pois tranquilamente para Montevideo afim de ahi vender o nosso café e -apurar algum dinheiro. - -Nós ficámos em Maldonato,--quer dizer á entrada d'esse magnifico rio -que na sua embocadura tem trinta leguas de largo--durante oito dias que -se passaram em festas continuas, que infelizmente estiveram para acabar -tragicamente. Oribe, que, na sua qualidade de chefe da republica de -Montevideo não reconhecia as outras republicas, deu ordem ao governador -de Montevideo para me prender e apoderar-se da galeota. Felizmente -o governador de Maldonato era um excellente homem que em logar de -executar a ordem que recebeu, o que não lhe teria sido difficil pela -pouca ou nenhuma desconfiança que eu tinha, mandou-me prevenir para que -levantasse ancora e partisse para o meu destino, se é que o tinha. - -Prometti partir na mesma noite, mas antes tinha um negocio pessoal a -tractar em terra. - -Tinha vendido, para comprar viveres, a um negociante de Montevideo -algumas saccas de café e algumas bijouterias, pertencentes ao nosso -austriaco. Mas ou porque o meu comprador fosse máu pagador, ou porque -tendo ouvido dizer que eu talvez fosse preso, julgasse que poderia -passar sem me pagar, ainda não me tinha sido possivel receber o meu -dinheiro. Sendo pois obrigado a partir n'aquella mesma noute, e -querendo entrar de posse do que me pertencia antes de deixar Maldonato, -não tinha tempo a perder. - -Por conseguinte ás nove horas da noute mandei apparelhar, e mettendo -um par de pistolas na cintura, embrulhei-me na minha capa e dirigi-me -tranquillamente para casa do negociante. - -Fazia um luar magnifico. Pouco distante da casa do meu homem vi-o á -porta tomando o fresco, elle tambem me viu e reconheceu, porque me fez -signal de me affastar, indicando-me por este modo que a minha vida -corria risco. - -Fiz que não via, fui direito a elle, e por toda a explicação -apresentei-lhe uma pistola aos peitos: - ---O meu dinheiro, lhe disse eu. - -Quiz responder-me, mas quando lhe repeti pela terceira vez «o meu -dinheiro» fez-me entrar em sua casa, pagando-me logo os dois mil -patacões que me devia. - -Metti de novo a pistola no cinturão, puz o sacco do dinheiro debaixo do -braço, e voltei ao meu navio sem me ter acontecido o menor incidente. - -Ás onze horas da noute levantámos ancora. - - - - - IX - - O RIO DA PRATA - - -Ao romper do dia, com grande admiração nossa, estavamos no meio dos -cachopos das Pedras Negras. - -Como me achava em tal situação é que eu não podería explicar. Não havia -dormido um minuto, não tinha deixado de olhar um momento para a costa, -consultando a todos os instantes a bussola, dirigindo-me pelas suas -indicações, e apezar d'isso achava-me no perigo que queria evitar. - -Não havia momento a perder: o perigo era enorme: estavamos cercados por -todos os lados de cachopos. Saltei para a verga do traquete, e d'ahi -mandei orçar sobre bombordo, e em quanto se executava esta manobra foi -arrebatada pelo vento a nossa pequena gavea. - -Do logar onde me achava dominava o navio e os recifes, podendo por -isso indicar o caminho que era necessario fazer seguir á galeota, que -do seu lado parecendo um ente animado, e conhecedora do perigo em -que estavamos, obedecia com toda a docilidade ao leme. No fim de uma -hora, durante a qual estivemos entre a vida e a morte, e em que vi -empallidecer os meus mais valentes marinheiros, estavamos salvos. - -Depois de passado o perigo, quiz conhecer qual o motivo porque havia -sido lançado no meio d'esses terriveis cachopos, tão conhecidos dos -navegantes, tão bem indicados nas cartas maritimas, e a tres milhas dos -quaes julgava estar quando me achava no meio d'elles. - -Consultei a bussola: continuava a divagar: teria pois naufragado, se -por infelicidade, amanhecendo, não tivesse conhecido o perigo: - -Em pouco tempo tudo me foi explicado. - -Quando sahi do navio para pedir os dois mil patacões ao meu comprador -do café, tinha mandado pôr no tambadilho os sabres e fuzís, para -estar prevenido no caso de algum ataque: executando a minha ordem, os -marinheiros tinham collocado as armas ao pé da bitácola. - -Esta massa de ferro tinha attrahido a si a agulha, que como se sabe, -tem iman nas duas extremidades. Mandei pois tirar as armas, e a bussola -continuou a andar regularmente. - -Proseguimos a nossa viagem chegando a Jesus-Maria, que do outro lado de -Montevideo está quasi na mesma distancia que Maldonato. - -A unica novidade que ali nos succedeu, foi acabarem-se completamente -os viveres, por isso que não tinhamos tido tempo de os comprar antes -da nossa partida. Como não nos era possivel desembarcar, pelas ordens -dadas, era necessario lançar mão de algum expediente para arranjarmos -comestiveis. - -Começámos a bordejar, sem comtudo nos affastarmos da costa. - -Uma manhã descobri na distancia de quasi quatro milhas uma casa, que -pelo seu aspecto me pareceu uma herdade. Mandei ancorar o mais perto -possivel da praia, e como não tinha escaler, porque, como já disse, -havia dado o meu aos individuos que tinham desembarcado em Santa -Catharina, arranjei uma jangada com uma mesa e alguns tonneis, e armado -com um croque, embarquei n'esta embarcação de novo gosto com um unico -marinheiro, que sem ser meu parente tinha comtudo o nome de Garibaldi: -o seu pronome era Mauricio. - -O navio estava seguro por duas amarras, em consequencia dos ventos -pampeiros que eram mui violentos. - -Eis-me pois no meio dos recifes não navegando, mas sim dançando em cima -de uma mesa, arriscado a todos os momentos a ser submergido. Depois -de termos praticado maravilhosos trabalhos de equilibrio, conseguimos -encalhar na praia. Deixei Mauricio encarregado de guardar a jangada, e -desembarquei. - - - - - X - - AS PLANICIES ORIENTAES - - -O espectaculo que então se me offereceu á vista, e que admirava pela -primeira vez, teria, para ser dignamente descripto, necessidade da -penna de um poeta ou do pincel de um pintor. Via ondular na minha -frente como as vagas de um mar solidificado os immensos horisontes -das--planicies orientaes--assim chamadas porque estão no lado oriental -do rio Uruguay, que vae lançar-se no rio da Prata, defronte de -Buenos-Ayres, abaixo de Colonia. Era, posso jural-o, um espectaculo -cheio de novidade para um homem chegado do outro lado do Atlantico, e -sobre tudo para um italiano, nascido em um paiz em que é difficultoso -vêr um palmo de terra sem encontrar uma casa ou alguma obra dos homens. - -Ali pelo contrario existia unicamente a obra de Deus, tal como havia -sahido das suas mãos no dia da creação. - -Era uma vasta, uma immensa campina, e o seu aspecto que é o de um -tapete de verdura e flores, não muda senão nas margens do ribeiro -Arroga, onde se elevam balanceando ao vento encantadores grupos de -arvores com folhas luxuriantes. - -Os cavallos, os bois, as gazellas, as avestruzes são, á falta de -creaturas humanas os habitantes d'essas immensas solidões, que só são -atravessadas pelos gauchos, esses centauros do novo mundo, como para -dar a entender a essas turbas de animaes selvagens que Deus lhe deu um -senhor... Mas esse senhor, como o veem passar os touros, as avestruzes, -as gazellas! É a quem protestará primeiro contra a sua supposta -dominação: o touro pelos seus mugidos, a avestruz e a gazella pela fuga. - -Esta vista fez-me pensar na patria, onde quando passa o austriaco -que os opprime, os homens, essas creaturas creadas á imagem de Deus, -cumprimentam-no e se curvam, não ousando dar os mesmos signaes de -independencia que os animaes selvagens dão á vista do gaucho. - -SENHOR, até quando permittireis tão grande aviltamento da vossa -creatura!? - -Deixemos o velho mundo, tão triste e aviltado, e voltemos ao novo, tão -joven, e tão cheio de esperanças! - -Como é bello o cavallo das planicies orientaes, com os seus jarretes -estendidos, com as ventas fumantes, com os seus labios que nunca -sentiram a friesa do aço! Como respiram livremente debaixo do contacto -da sua clina e juba, os seus flancos que nunca foram apertados pelo -joelho dos cavalleiros, nem ensanguentados pelas suas esporas! Como é -soberbo quando reune, chamando pelos seus rinchos a sua horda de eguas -dispersas e que verdadeiro sultão do deserto, evita, fugindo em sua -companhia, a presença dominadora do homem! - -Oh! maravilha da natureza! Milagre da creação! Como heide exprimir a -emoção que á vossa vista experimentou esse corsario de vinte e cinco -annos, que pela primeira vez estendia os braços para a immensidade. - -Mas como esse corsario estava a pé, nem o touro nem o cavallo o -reconheciam por um homem. Nos desertos da America o cavallo é -um complemento do homem, e sem o saber, o ultimo dos animaes. -Primeiramente pararam estupefactos pela minha vista, mas bem depressa -desprezando sem duvida a minha fraqueza, aproximaram-se de mim a tal -ponto que sentia o rosto humedecido pela sua respiração. Ninguem -deve ter receio do cavallo, animal nobre e generoso; mas todos devem -desconfiar do touro, animal dissimulado e traiçoeiro. As gazellas -e avestruzes depois de terem, como os cavallos e touros, mas mais -circumspectamente, feito o seu reconhecimento, partiram rapidas como a -flecha, e chegando ao alto d'um montezinho voltaram-se para verem se -eram perseguidas. - -N'este tempo, isto é, pelos fins de 1834 e principios de 1835, esta -parte do terreno oriental estava ainda virgem de toda a guerra; eis o -motivo porque ali se encontrava tanta quantidade de animaes selvagens. - - - - - XI - - A POETISA - - -Continuei dirigindo-me para uma _estancia_.[4] Ahi encontrei só a -mulher do _capataz_.[5] Como não podia vender-me ou dar um boi sem -consentimento de seu marido, era necessario esperar a sua volta. Demais -era tarde e antes do dia seguinte não se podia conduzir o animal até ao -mar. - - [4] Nome das herdades na America do Sul. - - [5] Dono do estabelecimento. - -Ha momentos na vida de que a recordação ao mesmo tempo que elles se -affastam continúa vivendo e augmentando na nossa memoria e tão bem -que sejam quaes forem os outros successos da nossa existencia, essa -recordação só se apaga com a morte. Era destino meu encontrar no meio -d'este deserto, esposa de um homem quasi selvagem uma mulher de uma -educação cultivada, uma poetiza sabendo pelo coração Dante, Petrarcha e -Tasso. - -Depois de ter esgotado toda a minha sciencia na lingua hespanhola, -fiquei agradavelmente surprehendido, ouvindo-a responder-me em -italiano, convidando-me graciosamente a assentar-me, em quanto seu -marido não chegava. No meio da nossa conversação, a minha encantadora -hospedeira, perguntou-me se eu conhecia as poesias de Quintana, e -ouvindo a minha resposta negativa, fez-me presente de um volume d'essas -poesias, dizendo-me que m'o dava para apprender por sua causa o -hespanhol. Perguntei-lhe então se era poetisa. - ---Ha alguem, me respondeu, que diante d'esta natureza não seja poeta? - -E sem se fazer rogar recitou-me muitos trechos de poesias suas em que -achei muito sentimento e uma grande harmonia. Teria passado toda a -noite a escutal-a sem me lembrar de Mauricio que me esperava guardando -a meza-jangada, mas a entrada do marido fez cessar o lado poetico para -me chamar ao fim material da minha visita. Disse-lhe o que queria e foi -combinado que no dia seguinte me venderia e levaria á praia um boi. - -Ao romper do dia despedi-me da minha bella poetisa e fui ter com -Mauricio. O pobre diabo tinha passado a noite o melhor que poude, -mettido entre os quatro toneis, e muito inquieto por meu respeito, -receiando que eu tivesse sido devorado pelos tigres, muito communs -n'esta parte da America e menos inoffensivos que os cavallos e os -touros. - -No fim de alguns momentos appareceu o capataz trazendo um boi ao -laço. Em poucos momentos o animal foi morto e esquartejado, tal é a -habilidade que os homens do sul teem para estas obras de sangue. - -Faltava transportar o boi, cortado em pedaços e leval-o para o navio, -isto é, a mil passos de distancia, pelo menos, tendo de atravessar os -cachopos onde se despedaçavam as ondas furiosas. - -Mauricio e eu démos começo á nossa empreza. - -Já sabem como era construida a jangada que nos devia conduzir a bordo: -uma meza com um tonel amarrado a cada pé, um pau no centro, que vindo -do navio, tinha servido para suspender os nossos vestidos, e que -voltando devia conduzir os viveres sustentando-os ao de cima da agua. - -Deitámos a jangada ao mar, pozemo-nos em cima, e Mauricio com uma vara -na mão, e eu com um croque, começámos a manobrar temdo agua até aos -joelhos, porque o peso que a jangada levava era excessivo. - -A nossa manobra executou-se com grandes applausos do americano e da -tripulação da galeota, que fazia ardentes votos, póde ser, não pela -nossa salvação, mas sim pela da carne que conduziamos. A nossa viagem -ao principio foi feliz, mas chegamos a uma linha de cachopos que nos -era necessario atravessar, achámo-nos por duas vezes quasi submergidos. - -Felizmente atravessamo-la sem novidade. - -Mas livres dos cachopos, estavamos em perigo mais imminente. - -Não encontravamos o fundo com os nossos croques, e por conseguinte era -impossivel dirigir a embarcação. Alem d'isso a corrente tornando-se -mais violenta, á medida que avançamos no rio, arrojava-nos para longe -da galeota. - -Pareceu-me chegado o momento de atravessar o Atlantico parando só em -Santa Helena ou no Cabo da Boa Esperança. - -Os nossos companheiros, se nos quizessem apanhar, não tinham senão o -recurso de largarem as velas. Foi o que fizeram, e como o vento estava -de terra a galeota bem depressa nos alcançou. - -Passando junto de nós os nossos companheiros, lançaram-nos um cabo. -Amarramos com elle a jangada ao navio, e depois de termos içado todos -os viveres é que Mauricio e eu subimos. Em seguida içámos a meza que -foi reintregada no seu logar na casa do jantar, não tardando muito a -exercer as suas funcções habituaes. - -Vendo o appetite com que os nossos companheiros atacaram a carne, que -com tanto trabalho tinhamos alcançado, consideramo-nos sufficientemente -recompensados das nossas fadigas. - -Alguns dias depois comprei por trinta escudos a canoa d'um navio que -cruzava n'estas paragens. - -Estivemos ainda este dia á vista do pico de Jesus Maria. - - - - - XII - - O COMBATE - - -Tinhamos passado a noite ancorados, quasi seis milhas, ao meio dia -do pico de Jesus Maria, em frente dos barrancos de S. Gregorio. Uma -pequena brisa do norte começava a apparecer quando vimos vir do lado de -Montevideo duas barcas que julgámos serem amigas; mas como não tinham -o pavilhão encarnado, signal convenciado entre nós, julguei prudente -o fazer-me de vela em quanto os esperava. Além d'isso mandei pôr no -tombadilho os mosquetes e sabres. - -Esta precaução, como se vae vêr não foi inutil. A primeira barca -continuava a avançar unicamente com tres homens á vista; chegada -ao alcance do porta-voz, o que nos parecia o chefe disse que nos -rendessemos e ao mesmo tempo o convez da barca encheu-se de homens -armados que sem nos dar o tempo de responder á sua intimação começaram -o fogo. Dei o grito de «Ás armas» e agarrei n'um fuzil, depois -respondendo a este cumprimento conforme podia, e como estavamos com -todo o pano mandei.--Ás vélas de diante. - -Não sentindo a galeota obedecer ao leme com a docilidade costumada, -voltei-me e vi que a primeira descarga tinha morto o marinheiro que -n'aquella occasião ia ao leme, e que era um dos nossos valentes. -Chamava-se Florentino e tinha nascido em uma das nossas ilhas. - -Não havia tempo a perder. O combate estava travado com todo o furor. O -lanchão, é o nome que dão á qualidade dos barcos com que combatiamos, o -lanchão tinha-nos abordado pela direita e alguns dos seus marinheiros -haviam já saltado no nosso barco, mas por felicidade alguns golpes de -fuzil e sabre nos livraram d'elles. - -Depois de ter coadjuvado os meus companheiros a repellir esta abordagem -agarrei no leme que se achava sem governo por causa da morte de -Florentino. Infelizmente no momento em que o agarrava para executar uma -manobra uma balla atravessou-me o pescoço ferindo-me entre a orelha e a -carotida, fazendo-me cahir sem conhecimento. - -O resto do combate que durou uma hora, foi sustentado por Luiz -Carniglia, piloto, e por Pascoal Sodola, Giovani Lamberti, Mauricio -Garibaldi e dous maltezes. Os italianos fizeram prodigios de valor, mas -os estrangeiros e os cinco negros fugiram para o porão. Emfim o inimigo -fatigado de nossa defeza e tendo uma dezena de homens fóra de combate -fugiu, em quanto que nós tendo apparecido algum vento continuámos a -subir o rio. - -Ainda que tivesse tornado a mim, fiquei completamente inerte e inutil -durante o resto do combate. - -Confesso, as primeiras impressões que senti abrindo os olhos, foram -deliciosas. Podia dizer que havia sido morto e que tinha resuscitado, -tanto o meu desmaio foi profundo. Entretanto esse sentimento de bem -estar foi bem depressa abafado pelo conhecimento da situação em que -nos achavamos. Ferido mortalmente, não tendo a bordo quem possuisse -o menor conhecimento geographico, mandei buscar a carta, e com muita -difficuldade pois, me achava com a vista coberta com um véo que me -parecia o da morte, indiquei com o dedo Santa Fé no Rio Parana. Só -Mauricio é que uma unica vez tinha feito uma viagem ao rio da Prata; -para todos nós eram pois completamente estranhas aquellas paragens. -Os marinheiros aterrados--os italianos, devo dizel-o, não partilhavam -estes sentimentos ou pelo menos sabiam occultal-os--e receiando serem -presos e considerados como piratas, desertaram na primeira occasião que -se lhe apresentou. Em quanto esperavam por este momento, em cada barco, -em cada canoa, em cada tronco d'arvore fluctuante viam um navio inimigo -enviado em sua perseguição. - -O cadaver do nosso desgraçado camarada foi deitado ao mar, com as -cerimonias costumadas n'estas occasiões, por que durante muitos dias -não podemos desembarcar em parte alguma. - -Este genero de enterramento não era muito do meu agrado, e sentia por -elle uma grande repugnancia, talvez por me julgar proximo a ter igual -sorte. Confessei esta aversão a Luiz Carniglia. - -No momento em que lhe fazia esta confissão vieram-me á lembrança estes -versos de Foscolo: - -«Uma pedra, um unico signal que difference os meus ossos d'aquelles que -a morte semea todos os dias na terra e no Oceano.» - -O meu pobre amigo chorava promettendo não me deixar lançar á agua. Quem -sabe se apesar do seu desejo teria podido executar a sua promessa. O -meu cadaver serviria então para matar a fome a algum lobo marinho, ou -caiman. Não tornaria a vêr a Italia, não me teria batido por ella, que -era a minha unica esperança! - -Quem diria ao meu caro Luiz que antes d'um anno era eu que o veria -rolando pelos cachopos, desapparecer no mar, e que procuraria debalde -o seu cadaver, para cumprir a promessa que elle me havia feito, de -o sepultar na terra e collocar na sua ultima morada uma cruz que o -recommendasse á oração dos viandantes. Pobre Luiz! durante a minha -longa e cruel enfermidade fostes tu que tivestes sempre por mim um -carinho paternal. - - - - - XIII - - LUIZ CARNIGLIA - - -Vou dizer algumas palavras sobre o meu pobre amigo Luiz. E porque é -um simples marinheiro não lhe hei-de dedicar algumas linhas? Porque -elle não é... Oh! posso assegural-o, a sua alma era bastante nobre -para sustentar em todas as circumstancias a honra italiana: nobre para -affrontar todas as tormentas, nobre emfim para me proteger, e para -cuidar de mim, como se fosse seu filho! Quando estava deitado no meu -leito de agonia, abandonado por todos, e delirava com o delirio da -morte, era Luiz que sentado á cabeceira do meu leito com a dedicação e -paciencia de um anjo não se affastava de mim um instante senão para ir -chorar e occultar as suas lagrimas. Os seus ossos espalhados no Oceano -mereciam um monumento onde o proscripto reconhecido podesse um dia -dizer as suas virtudes aos seus concidadãos, devolvendo-lhe as lagrimas -piedosas que me consagrou. - -Luiz Carniglia era de Deiva, pequeno paiz do Levante. Não havia -recebido instrucção litteraria, mas suppria esta falta por um -maravilhoso intendimento. Privado de todos os conhecimentos nauticos -que são necessarios aos pilotos, governava os navios até Gualeguay com -a sagacidade e felicidade de um piloto consumado. No combate que acabo -de referir, foi a elle que principalmente devemos o não ter cahido -nas mãos do inimigo: armado de um machado estava sempre no logar onde -havia maior perigo sendo por este modo o terror dos assaltantes. De -uma estatura elevada e mui robusta reunia uma grande agilidade a um -extraordinario valor. Dotado de uma grande bondade nas cousas da vida, -possuia o raro dom de se fazer amar por todos. Infelizmente todos os -melhores filhos da nossa desgraçada patria teem morrido como este em -terra estrangeira esquecidos e sem ter quem derrame uma lagrima por -elles! - - - - - XIV - - PRISIONEIRO - - -Fiquei desanove dias recebendo unicamente os cuidados de Luiz Carniglia. - -No fim d'este tempo chegámos a Gualeguay. - -Tinhamos encontrado na embocadura do Ibiqui, um navio commandado por D. -Lucas Tantalo, excellente homem que teve toda a sorte de cuidados por -mim prestando-me o que julgava ser-me util na minha posição. - -Acceitámos os seus presentes com grande prazer, porque não tinhamos a -bordo senão café que era o nosso unico alimento. Davam-me pois café -a todos os momentos sem se importarem se isso era ou não conveniente -para a minha doença. Comecei por ter uma febre assustadora acompanhada -por uma grande difficuldade de engolir fosse o que fosse, o que não -admirava, porque a balla atravessando-me o pescoço de lado a lado -tinha passado entre as vertebras cervicaes e a pharinge. Decorridos -oito dias n'este estado afflictivo, a febre havia diminuido, sentindo -grandes melhoras. - -D. Lucas tinha feito mais: partindo, deu-me cartas de recommendação -para Gualeguay,--fazendo o mesmo a um seu passageiro chamado Arraigada, -biscainho, que se achava estabelecido na America--e particularmente -para o governador da provincia d'Entre-Rios, D. Paschal Echague, a quem -por ter de fazer uma viagem, deixou o seu proprio medico, D. Romão -Delarea, joven argentino, de muito merito, que examinando a minha -ferida, e tendo sentido a balla do lado opposto áquelle por que tinha -entrado, fez a extracção com toda a habilidade, tratando-me durante -algumas semanas, isto é até ao meu completo restabelecimento, com os -cuidados mais affectuosos e desinteressados. - -Fiquei seis mezes em Gualeguay em casa de D. Jacintho Andreas, que -teve, bem como a sua familia, por mim os maiores cuidados. - -Infelizmente estava quasi prisioneiro. Não obstante a boa vontade -do governador Echague, e o interesse que por mim tinha a população -de Gualeguay, era obrigado a esperar a resolução do dictador de -Buenos-Ayres que não decidia cousa alguma. - -O dictador de Buenos-Ayres era n'esta occasião Rosas, de quem tratando -de Montevideo, terei occasião de fallar mais de vagar. - -Curado da minha ferida, comecei a dar alguns passeios, que por ordem -da authoridade eram mui limitados. Em troca do meu navio confiscado -davam-me um escudo por dia, o que na realidade era muito para um paiz -em que sendo tudo mui barato quasi se não gasta dinheiro: mas tudo isto -não valia a minha liberdade. - -Provavelmente esta despeza d'um escudo por dia parecia muito elevada ao -governador, porque em differentes occasiões me foram feitas offertas de -se me favorecer a fuga, mas as pessoas que me faziam essas offertas, -eram, sem o saberem, agentes provocadores! Diziam-me que o governo -veria a minha fuga sem grande pesar. Não era pois necessario fazer -grande violencia para que eu adoptasse uma resolução de que ja havia -formado o projecto. O governador depois da partida de D. Paschoal, era -um certo Leonardo Millan, que não me havia até áquella épocha mostrado -nem interesse, nem odio, não tendo pois o mais pequeno motivo para me -queixar d'elle. - -Resolvi então fugir, começando logo os meus preparativos, afim de estar -prompto na primeira occasião que se me apresentasse. Uma noute de -tempestade dirigi-me para casa d'um excellente homem que costumava de -quando em quando ir visitar, e que habitava a tres milhas de Gualeguay. - -Dei-lhe parte da minha resolução, pedindo-lhe que me procurasse um -guia e cavallos, esperando chegar a uma «estancia» pertencente a um -inglez, situada na margem esquerda do Parana, onde eu provavelmente -encontraria algum barco que me transportasse incognito a Buenos-Ayres -ou Montevideo. O guia e os cavallos foram arranjados, e começámos a -andar por meio dos campos para não sermos descobertos. Tinhamos que -caminhar cincoenta e quatro milhas, podendo vencer perfeitamente este -espaço em meia noute. - -Quando rompeu o dia estavamos á vista de Ibiqui, na distancia de meia -milha do rio. O guia disse-me então que parasse ali em quanto elle ia -saber que caminho deviamos seguir. - -Fiquei pois só. - -Apeei-me, amarrei as redeas do cavallo ao tronco de uma arvore e -deitei-me, esperando assim durante duas ou tres horas, até que vendo -que o meu guia não apparecia, levantei-me resolvido a ir pessoalmente -informar-me, quando repentinamente ouvi por detraz de mim um tiro. -Voltei-me e vi um destacamento de cavallaria que me perseguia de sabre -em punho. Estavam já entre o meu cavallo e eu, era pois impossivel -defender-me ou fugir. - -Entreguei-me. - - - - - XV - - A APOLEAÇÃO - - -Ligaram-me as mãos atraz das costas, pozeram-me a cavallo, e depois -ligaram-me tambem os pés como o haviam feito ás mãos, sujeitando-os á -cilha do animal. - -Foi n'este estado que cheguei a Gualeguay, onde, como se vae vêr, me -esperava um peor tratamento. - -Ainda hoje, e já são passados bastantes annos, estremeço quando penso -n'esta circumstancia da minha vida. - -Conduzido á presença de Leonardo Millan fui intimado por elle para -denunciar quem me havia fornecido os meios de effectuar a minha fuga. -É escusado dizer que não fiz tal confissão, pois declarei que só eu a -tinha arranjado e executado. Então como me achava ligado e Leonardo não -tinha cousa alguma a temer, aproximou-se de mim e começou a bater-me -nas faces com o chicote. Depois renovou as suas perguntas, não sendo -mais feliz que da primeira vez. - -Mandou-me conduzir á prisão, e disse em voz baixa algumas palavras ao -ouvido d'um dos guardas. - -Estas palavras eram a ordem de me applicar a tortura. - -Chegando á camara que me estava destinada, os guardas deixaram-me as -mãos ligadas atraz das costas, collocaram-me nos pulsos uma nova corda, -e passaram a outra extremidade a uma trave, suspendendo-me a quatro ou -cinco pés do chão. - -Então Leonardo entrou na prisão e perguntou-me de novo se estava -resolvido a dizer a verdade. - -A unica vingança que podia tomar era cuspir-lhe no rosto, e assim o fiz. - ---Quando o prisioneiro, disse elle retirando-se, quizer declarar -quem foram os seus cumplices, mandem-me chamar, e depois de fazer a -confissão podem pol-o no chão. - -Depois sahiu. - -Fiquei duas horas n'esta horrivel posição. O peso do meu corpo -sobrecarregava nos meus punhos ensanguentados e nos meus hombros -deslocados. - -Parecia-me estar sobre brasas. - -A todos os momentos pedia agua, e os meus guardas mais humanos que -o meu carrasco davam-me, mas ella não me matava a sede devoradora -que soffria. Pode-se fazer uma idéa dos meus padecimentos, lendo as -torturas que se inflingiam aos prisioneiros na idade media. No fim de -duas horas os meus guardas tendo piedade do meu estado, ou julgando-me -morto desceram-me. - -Cahi no chão sem movimento. - -Era uma massa inerte, sem outro sentimento que o de uma profunda e muda -dôr--era quasi um cadaver. - -N'este estado sem eu saber o que faziam de mim metteram-me nos cepos. - -Tinha andado com as mãos e pés ligados atravez de pantanos cincoenta -milhas. Os mosquitos numerosos e enraivecidos n'esta estação tinham-me -tornado o rosto e as mãos n'uma grande chaga. Havia soffrido durante -duas horas horriveis torturas, e quando tornei a mim achei-me ligado a -um assassino. - -Ainda que não tivesse dito uma unica palavra, no meio dos meus atrozes -soffrimentos, D. Jacintho Andreas tinha sido preso. Os habitantes do -paiz estavam cheios de espanto. - -Em quanto a mim senão fossem os cuidados de uma mulher que foi para -mim um anjo de caridade teria succumbido a tão atrozes soffrimentos. -Despresando todo o perigo, vinha ver-me todos os dias, trazendo-me o -que eu necessitava. - -Chamava-se Allemand. - -Poucos dias depois o governador vendo que eram inuteis todas as -tentativas que fazia para me obrigar a fallar, e convencido que -eu morreria antes de denunciar um dos meus amigos, não querendo -provavelmente tomar sobre si a responsabilidade da minha morte -mandou-me para a capital da provincia Bagada. Fiquei dois mezes na -prisão no fim dos quaes o governador me mandou dizer que me era -permitido sahir livremente da provincia. Ainda que eu tenho opiniões -oppostas a Echague e que por mais de uma vez, depois d'esse dia, -tenha combatido contra elle não devo occultar as obrigações de que -lhe sou devedor e ambicionava hoje ter occasião de lhe provar todo o -reconhecimento que lhe consagro pelos serviços que me prestou. - -Mais tarde o acaso fez cahir nas minhas mãos os chefes militares da -provincia de Gualeguay e todos foram postos em liberdade sem se lhe -fazer a menor offensa, nem a elles nem ás suas propriedades. - -Em quanto a Leonardo Millan nunca o quiz vêr com receio que a sua -presença, fazendo-me recordar do que havia soffrido me obrigasse a -praticar alguma acção indigna de mim. - - - - - XVI - - VIAGEM NA PROVINCIA DO RIO GRANDE - - -Em Bajada embarquei n'um bergantim italiano, capitão Ventura. Este -maritimo homem recommendavel a todos os respeitos, tratou-me sempre -com a maior generosidade e cavalheirismo. Conduziu-me á embocadura -do Iguassu, affluente do Parana, ahi passei para bordo de um barco, -capitaneado por Pascoal Carbone, que se destinava a Montevideo. - -Estava então em maré de ventura; Carbone obsequiou-me tambem -admiravelmente. - -A fortuna, assim como as infelicidades vem sempre em grandes porções; -estas haviam finalisado para mim; aquellas começavam a affluir sem -interrupção. - -A minha proscripção continuava em Montevideo. A resistencia que -empregára contra os lanchões e a perda que lhes haviamos causado era -para isso pretexto plausivel. Fui então obrigado a esconder-me em casa -de Pazante aonde me conservei por espaço de um mez. - -Comtudo a minha reclusão tornava-se supportavel, por que era suavisada -pelas visitas de muitos compatriotas, que em tempo de prosperidade e de -paz tinham vindo estabelecer-se no paiz e exerciam para com os amigos -do velho mundo a mais generosa hospitalidade. A guerra, e sobretudo -o cerco de Montevideo veiu mudar a posição da maior parte d'elles e -de feliz que era tornou-l'ha não só má, porém pessima. Pobres homens! -bastantes vezes os deplorei, e desgraçadamente não podia fazer mais do -que lamental-os! - -Passado um mez, era tempo de seguirmos viagem; parti com Rossetti para -o Rio Grande; a nossa jornada devia ser e foi feita a cavallo, o que me -deu muito prazer. Viajavamos á _escotero_. - -Darei uma pequena explicação sobre esta maneira de viajar, que pela sua -rapidez deixa bem longe a posta por mais ligeira que ella seja. - -Sejam dois, tres ou quatro os viajantes, vão acompanhados por vinte -cavallos habituados a seguir os que vão montados; quando depois alguns -dos cavalleiros vê que o seu cavallo está fatigado, apeia-se, passa o -selim e os arreios para um dos que vem livres, e segue a galope tres -ou quatro leguas; depois toma outro, e assim successivamente os vae -mudando até chegar ao seu destino; os cavallos cançados, mesmo tendo -de seguir os outros, recuperam forças, porque vão livres de selim e do -cavalleiro. - -O pouco tempo que os cavalleiros gastam n'estas mudas, os cavallos o -aproveitam para comerem alguma herva e beberem agua, se por acaso a -encontram; as verdadeiras rações são duas vezes ao dia, pela manhã e á -noite. - -D'este modo chegámos a Piratini, séde do governo do Rio Grande; a -capital da provincia é Porto Allegre, porém como estava occupada pelos -imperiaes, o governo republicano estabelecera-se em Piratini. - -Piratini é realmente um dos mais bellos paizes do mundo; divide-se em -duas regiões; uma de planicies e a outra montanhosa. - -As planicies verdadeiramente tropicaes produzem a banana, a cana -d'assucar, e a laranja. Junto aos troncos das suas arvores, e por -entre as plantas arrasta-se a serpente cascavel, a serpente negra, e a -serpente coral; ali, como na India, vê-se saltar o tigre, o jaguar, a -puma, e o leão inoffensivo, de dimensões eguaes a qualquer dos enormes -cães do monte de S. Bernardo. - -A região montanhosa é temperada como o meu bello clima de Niza; -colhe-se o bom pecego, a pera, a ameixa, e toda a qualidade de fructos -da Europa, encontram-se as magnificas florestas, das quaes nenhuma pena -seria capaz de fazer exacta descripção, com os seus pinheiros direitos -como os mastros dos navios, e d'altura de duzentos pés, e dos quaes -talvez cinco ou seis homens não podessem abraçar o tronco. Á sombra -d'esses pinheiros vegetam os taquares, canas gigantescas que chegam a -oitenta pés d'altura, e das quaes na base não excedem a grossura do -corpo d'um homem; existe tambem ali a _barba de pau_, litteralmente -dita a barba das arvores, que entrelaçando-se multiplicadamente -fórma espeços bosques; nas vastas planicies chamadas campestres -estendem-se cidades inteiras, como Cima da Serra, Vaccaria, Lages; não -tres cidades, mas tres provincias; população caucasiana, de origem -portugueza, e essencialmente hospitaleira. - -O viajante não tem precisão de dizer nem de pedir coisa alguma; entra -em qualquer habitação, vae direito á camara dos hospedes; os criados -apparecem, sem que sejam chamados, descalçam-o e lavam-lhe os pés. -Fica ali por quanto tempo quer, e quando lhe appetece retira-se sem -despedir-se nem agradecer; e apesar d'esta descortesia, outro que venha -depois d'elle não é recebido com menos agrado. - -É a juventude da natureza, o erguer da humanidade. - - - - - XVII - - A LAGOA DOS PATOS - - -Chegando a Piratini, fui magnificamente recebido pelo governo da -republica. Bento Gonçalves--verdadeiro cavalleiro andante do seculo -de Carlos-Magno, irmão, pelo coração, dos Oliveiros e dos Roldões -vigoroso, agil e leal como elles, verdadeiro centauro, manejando um -cavallo como ainda não vi manejar senão ao general Netto--modelo -completo para um cavalleiro--estava ausente e em marcha com uma brigada -de cavallaria, para atacar Silva Tanaris, chefe imperial, que tendo -atravessado o canal de S. Gonçalo, infestava esta parte da provincia -Piratini, séde do governo republicano, e pequena villa encantadora pela -sua posição e cabeça de districto do mesmo nome, guarnecida por uma -população bellicosa e essencialmente dedicada á causa da liberdade. - -Na ausencia d'aquelle general, foi o ministro da fazenda quem me fez as -honras da cidade. - -Agora uma palavra respectivamente ao Rio Grande, o qual, por este -nome, poderia suppor-se situado ao longo de um grande rio, ou um rio -propriamente dito. - -O Rio Grande é o Lago dos Patos, e terá trinta leguas de extensão. -Além de alguns baixos muito fundos, dos quaes mais tarde fallaremos, é -em toda essa extensão bastante profundo e povoado por caimans; sendo -formado por cinco rios, os quaes vindo terminar na extremidade do -norte, apresentam a disposição de cinco dedos da mão, da qual a palma é -o fim do lago. - -Ha um ponto d'onde se descobrem perfeitamente esses cinco rios, e que -por essa razão se chamava _Viamão_--Vi a mão. - -Viamão mudara, porém de nome, e chamava-se _Settembrina_ em -commemoração de haver sido em setembro proclamada a republica. - -Achava-me em Piratini sem ter em que me occupar; pedi então para fazer -parte da columna de operações, que se dirigia sobre S. Gonçalo, e era -commandada pelo presidente da republica. - -Foi então que pela primeira vez vi aquelle valente, gosando alguns -dias a sua intimidade. Era realmente o filho querido da natureza--que -lhe havia prodigalisado tudo o que torna o homem um verdadeiro -heroe.--Bento Gonçalves teria então sessenta annos. Alto, esvelto, -montava a cavallo, como já disse, com um garbo e agilidade admiraveis. -N'aquella posição ninguem o julgaria com mais de vinte e cinco -annos.--Valente e feliz, não teria hesitado um momento, como um -cavalleiro de Arioste, em atacar um gigante: tivesse elle a estatura de -Polyphemo ou a armadura de Ferragus. - -Fôra um dos primeiros a levantar o grito de guerra, não com vistas -de ambição pessoal, mas como qualquer outro belligerante filho -d'aquelle povo. Na campanha passava como o mais infimo habitante das -campinas; isto é, com a carne assada e agua pura.--No dia em que nos -encontrámos pela primeira vez, convidou-me para o seu banquete frugal; -e conversámos com tanta familiaridade como se fossemos companheiros de -infancia e eguaes em posição. Com taes dotes naturaes e adquiridos, -Bento Gonçalves era o idolo de seus concidadãos; porém cousa estranha, -foi quasi sempre infeliz nas emprezas guerreiras; o que me faz -acreditar que o acaso é superior ao genio para os successos da guerra, -e para a fortuna dos heroes. - -Acompanhei a columna até Camodos,--passagem do canal de S. Gonçalo que -liga a lagôa dos Patos a Meryn. - -Silva Tanaris havia-se retirado precipitadamente, logo que soube da -aproximação de uma columna do exercito republicano. - -Não podendo alcançal-o, o presidente retrocedeu. Fiz outro tanto, -tomando o caminho de Piratini. - -N'esta occasião recebemos noticia da batalha de Rio Pardo, na qual o -exercito imperial fôra completamente destroçado pelos republicanos. - - - - - XVIII - - ARMAMENTO DE LANCHÕES EM CAMACUA - - -Fui encarregado do armamento de dois lanchões que existiam nas aguas do -Camacua, rio que corre quasi parallelo e a pouca distancia do canal de -S. Gonçalo, e que como este vae desaguar no lago dos _Patos_. - -Reuni alguns marinheiros vindos de Montevideo a outros que achei no -Piratini, completando ao todo uns trinta homens de diversas nações. -Infelizmente para elle tambem ali se achava o meu caro Luiz Carniglia. -Tinhamos um outro recruta francez de estatura collossal, bertão, por -nascimento, a que chamavamos João-Grande, e outro por nome Francisco, -verdadeiro corsario, e digno _irmão da costa_. - -Chegando a Camacua, encontrámos ahi o americano John Griggs, que -habitando n'uma herdade pertencente a Bento Gonçalves estava -encarregado de vigiar o acabamento de dois _sloops_. - -Fui nomeado chefe d'essa frota ainda em construcção, com o posto de -capitão-tenente. Era curioso aquelle methodo de construcção que fazia -honra á bem conhecida persistencia dos americanos. Ia procurar-se -á madeira a uma parte e o ferro a outra; dois ou tres carpinteiros -cortavam e apparelhavam aquella, um mulato forjava o ferro. Foi assim -que se fabricaram os dois _sloops_, desde os pregos até aos circulos de -ferro dos mastros. - -No fim de dois mezes a esquadrilha estava prompta. Cada um dos vasos -foi armado com duas peças de bronze; quarenta negros ou mulatos foram -aggregados aos trinta europeus, formando d'esse modo duas equipagens -que comprehendiam setenta homens. - -O lote dos lanchões seria um de dezoito, outro de doze a quinze -tonelladas. - -Tomei o commando do mais forte a que puzemos o nome de _Rio-Pardo_. - -John Griggs foi encarregado do segundo, que se chamou--_O Republicano_. - -Rossetti tinha ficado em Piratini, incumbido da redacção do jornal _O -Povo_. - -Começaram então as nossas correrias pelo lago dos Patos. Passaram-se -alguns dias sem fazermos mais do que prezas insignificantes. - -Os imperiaes tinham, para fazer frente aos nossos dois _sloops_, de -vinte e oito tonelladas, trinta navios de guerra e um barco a vapor. - -Porém nós tinhamos a nosso favor os baixios das aguas. - -O lago não era navegavel para os grandes barcos, se não n'uma especie -de canal que seguia ao longo da sua margem do oriente. - -No lado opposto succedia o contrario, porque o solo era cortado em -declive, e nós mesmos viamo-nos ás vezes encalhados antes de tocar na -margem. - -Os bancos d'areia estendiam-se pela lagôa á similhança dos dentes de um -pente, e só havia de bom que esses dentes eram bastante affastados uns -dos outros. - -Quando eramos forçados a encalhar, e os canhões dos navios de guerra ou -do vapor nos incommodavam, dizia: - ---Ávante, meus patos, saltemos á agua. - -E os meus patos cahiam n'agua, e á força de braços erguiam o lanchão, -transportando-o para o outro lado do banco de areia. - -No meio de todos estes pequenos acontecimentos tomámos um barco -ricamente carregado que foi conduzido immediatamente para a costa -occidental do lago, junto a Camacua, aonde o queimamos depois de -havermos tirado tudo o que era aproveitavel. - -Foi esta a primeira preza que fizemos, mas que valeu bem o trabalho; e -alegrou a nossa marinha. Todos tiveram a sua parte nos despojos, e com -um fundo reservado mandei fazer uniformes para todos os meus bravos. - -Os imperiaes, que até ali nos haviam desprezado, não perdendo -occasião de escarnecer-nos, começaram a comprehender qual era a nossa -importancia no lago, e trataram de empregar grande numero de navios -para protegerem o seu commercio. - -A vida que passavamos era laboriosa e cercada de perigos, em razão -da superioridade numerica dos inimigos; mas ao mesmo tempo essa vida -era encantadora, pittoresca, e muito em harmonia com o meu caracter. -Não eramos unicamente maritimos, seriamos tambem cavalleiros no caso -de necessidade. No momento de perigo encontrariamos quantos cavallos -quizessemos, e formariamos um esquadrão se não elegante, ao menos -temivel. - -Nas margens da lagôa encontravam-se estancias que, pela aproximação -da guerra, tinham sido abandonadas pelos proprietarios, aonde achamos -muita abundancia de gado cavallar e o necessario para o seu sustento; -por outro lado nas herdades existiam terrenos cultivados, aonde -colhiamos abundancia de trigo, batata doce, e muitas vezes excellentes -laranjas; que são as melhores de toda a America do Sul. - -A gente que me acompanhava verdadeira tropa cosmopolita era composta -de homens de todas as côres e de todas as nações. Tratava-os com -uma bondade, de que talvez parecessem pouco dignos, porém posso -affirmar uma coisa: é que nunca tive motivo de arrepender-me d'essa -bondade--todos obedeciam á minha primeira ordem e nunca me fatigaram, -nem me vi na necessidade de os punir. - - - - - XIX - - A ESTANCIA DA BARRA - - -Sobre o Camacua, aonde tinhamos o nosso pequeno arsenal, e d'onde -sahira a frota republicana, habitavam occupando uma grande extensão de -terreno as familias dos irmãos de Bento Gonçalves, assim como outros -parentes mais affastados; innumeraveis rebanhos se apascentavam n'esta -magnifica planicie que a guerra havia respeitado, porque se achava ao -abrigo do seu poder destruidor. - -As producções agricolas achavam-se ali agglomeradas em tanta -abundancia, como não tenho idéa de vêr em parte alguma da Europa. - -Já disse em outra parte que em nenhum logar do mundo se encontra -hospitalidade mais franca e cordeal do que n'este paiz; e foi o que nós -achámos em todas as familias, nas quaes existia por nós a mais decidida -sympathia. - -As estancias que por estarem mais proximas ao rio, e por esperarmos -ser ahi mais bem recebidos, procuravamos de preferencia para nos -hospedarmos, eram as de D. Anna e D. Antonia, irmãs do presidente. -Aquella situada á margem do Camacua, e esta nas do Arroyo Grande. - -Não sei se por effeito da minha imaginação, ou por um privilegio dos -meus vinte e seis annos, tudo ali era encantador aos meus olhos, e -posso assegurar que nenhuma época da minha vida está como esta tão -ligada ao meu pensamento, e nada se me apresenta mais fascinador do que -este periodo que recordo com prazer. - -A casa de D. Anna era para mim um verdadeiro paraiso; posto que já não -fosse joven, esta bella senhora conservava comtudo um caracter alegre. - -Tinha em sua companhia uma familia inteira, emigrada de Pelotas, -cidade da provincia, da qual era chefe o doutor Paulo Ferreira; tres -meninas que rivalisavam nos encantos, eram o perfeito ornamento d'este -delicioso recinto. Uma d'essas jovens, Manuela, era a senhora absoluta -do meu coração: sem esperança de poder possuil-a, ainda assim não podia -deixar de a amar. Era desposada de um dos filhos de Bento Gonçalves. - -Em um momento de perigo tive occasião de conhecer que não era -totalmente indifferente á dama dos meus pensamentos; e a certeza que -obtive da sua sympathia serviu a minorar o desgosto de nunca dever -pertencer-me. - -Geralmente as mulheres do Rio Grande são bellas, e os meus -homens tornaram-se facilmente escravos d'essas bellezas; porém -conscienciosamente affirmo que nenhum d'elles tinha pelo seu idolo um -culto tão puro e desinteressado como eu por Manuela. Portanto, todas as -vezes que um vento contrario, uma borrasca ou uma expedição nos levava -ao Arroyo Grande ou a Camacua, era para nós dia de festa; o pequeno -bosque de Firiva, que indica a entrada para aquella, ou o pomar das -larangeiras que occulta o caminho para a ultima, eram sempre saudados -por uma triplicada salva de _hourras_, que mostravam a força do nosso -enthusiasmo amoroso. - -Um dia, depois de havermos puchado para terra as nossas embarcações, -descançavamos na estancia de D. Antonia, irmã do presidente, a pouca -distancia de uma d'essas choupanas, aonde salgam e defumam a carne, ás -quaes dão no paiz o nome de _galpon de chargueada_, quando me vieram -dizer que o coronel João Pedro de Abreu, appellidado _Mouringue_, isto -é, Foinha, em consequencia de ser muito astucioso, havia desembarcado -a duas ou tres leguas de distancia, com setenta homens de cavallaria e -oitenta de infanteria. - -Havia probabilidade para acreditar esta noticia, porque depois da -tomada do barco que haviamos queimado depois de nos assenhorearmos do -mais precioso que elle tinha, sabiamos que Mouringue jurara tirar uma -boa vingança. - -Esta noticia encheu-me de alegria. - -Os homens commandados pelo coronel Mouringue eram mercenarios allemães -ou austriacos aos quaes ainda eu não estava enfastiado de fazer pagar -a divida que todo o bom italiano tem contrahido com os seus irmãos da -Europa. - -Eramos sessenta ao todo; porém eu conhecia bem esses sessenta homens, -e com elles era capaz de fazer frente não só a cento e cincoenta -austriacos, mas a trezentos. - -Tratei de destacar espias para todos os lados e fiquei com uns -cincoenta homens junto a mim. - -Os dez ou doze que enviara a explorar terreno, voltaram, e disseram a -uma voz: - ---Não vimos cousa alguma, - -Havia então um denso nevoeiro, e foi protegido por elle que o inimigo -poude subtrahir-se ás suas pesquisas. - -Resolvi não confiar unicamente na intelligencia humana, e quiz -interrogar tambem o instincto dos animaes. - -Ordinariamente, quando qualquer expedição d'este genero se aproxima, -e homens d'outros sitios vem preparar uma emboscada junto a alguma -estancia, os animaes que sentem ruido estranho, dão signaes de -inquietação, e quem tacitamente os interroga, raras vezes se engana. - -Os cavallos espalhados pela minha gente, começaram a andar mui -socegados em torno da estancia, manifestando assim que nada de novo se -passava nas proximidades. - -Portanto acreditando que não havia surpreza a temer, ordenei á minha -gente que arrumasse as armas, todavia carregadas, e as munições nos -cabides que mandara construir dentro da arribana, e dei-lhes o exemplo -de segurança, começando a almoçar, e convidando-os a fazer outro tanto. - -Por costume, nunca se faziam rogar para este convite. - -Graças a Deus, tambem nunca as munições de bocca nos faltavam. - -Terminado o almoço, mandei cada um a tratar da sua occupação. - -Toda a minha gente trabalhava do mesmo modo que comia; isto é, sempre -com boa vontade: não se fazendo rogar: uns foram para os lanchões que -estavam sobre a praia, afim de tratarem de algum arranjo de que elles -carecessem, outros dirigiram-se á forja, estes a buscar madeira para -queimar, e aquelles finalmente para a pesca. - -Fiquei eu só e o mestre cosinheiro, que havia estabelecido a sua -cosinha á luz do dia, em frente da arribana, e ahi vigiava as nossas -marmitas. - -Quanto a mim, saboreava voluptuosamente o meu _mate_, especie de chá do -Paraguay, que se toma de uma cabaça com o auxilio de um canudo de vidro -ou de pau. - -Comtudo, não duvidava que o coronel Fuinha, sendo natural do paiz, -tivesse com a sua astucia illudido a vigilancia da minha tropa, não -causando a sua presença sobresalto aos animaes, e que estaria talvez -com os seus cento e cincoenta austriacos deitado em algum bosque a -quinhentos ou seiscentos passos de nós. - -Repentinamente, com grande admiração minha, ouvi por detraz de mim, -tocar a carregar. - -Voltei-me. - -Infanteria e cavallaria carregavam ao gallope; cada cavalleiro trazia -um homem na garupa. Os que não tinham cavallos corriam a pé agarrados -ás crinas. Dei um salto e achei-me no _galpon_; fui seguido pelo -cosinheiro mas o inimigo estava tão proximo de nós que no momento em -que eu transpunha o liminar da porta, senti o chapeu atravessado por -uma lança. - -Ja disse que os fuzis estavam carregados na grade da mangedoura. Tinha -sessenta. - -Agarrei em um e descarreguei-o, depois um segundo, e um terceiro, com -tanta rapidez, que não se poderia julgar que me achava só, e com tanta -felicidade que tres homens cahiram. - -Tres outros tiros se succederam aos primeiros, e como atirava ao grupo, -todos eram funestos. - -Se o inimigo, tivesse a idéa de assaltar o _galpon_ estaria tudo -acabado, mas o cosinheiro tinha-se-me unido e fazia tambem fogo, de -modo que o coronel Fuinha, apesar de toda a sua esperteza, julgou que -todos nós estavamos reunidos. - -Por consequencia retirou-se para uns cem passos de distancia do -alpendre, e começou a fazer alguns tiros de quando em quando. - -Foi o que me salvou. - -Como o cosinheiro não era bom atirador, e na nossa situação cada tiro -perdido era uma falta irreparavel, disse-lhe que se entertesse em -carregar os fuzis que eu os iria descarregando. - -Estava intimamente convencido de que a minha gente, suspeitando já -que o inimigo tinha desembarcado, e ouvindo o estrondo da fuzilaria, -comprehenderia tudo e viria em meu auxilio. - -Não me enganava. - -O meu bravo Luiz Carniglia foi o primeiro que appareceu atravez as -nuvens de fumo que existiam entre o _galpon_ e a tropa inimiga que -fazia um fogo infernal. - -Depois d'elle appareceram Ignacio Bilbao, biscainho, e um italiano -chamado Lourenço. N'um momento estavam a meu lado, e começaram a -imitar-me o melhor que poderam; depois chegaram Eduardo Mutru, -Nascimento Raphael e Procopio--estes dois ultimos eram negros--e -Francisco da Silva. Queria em logar de escrever no papel, gravar no -bronze os nomes d'estes valentes companheiros, que no numero de treze -se me reuniram combatendo durante cinco horas cincoenta inimigos. - -O inimigo tinha-se apoderado de todas as casas e barracas que nos -rodeavam, fazendo-nos d'ahi um fogo terrivel. Alguns dos seus soldados -haviam subido aos telhados de que tiraram as telhas, disparando-nos -tiros pelos buracos e lançando-nos fachinas accesas. Mas em quanto uns -apagavam as fachinas, e outros respondiam á fuzillaria, dois ou tres -cairam mortos pelo mesmo buraco que haviam feito. Tinhamos praticado -com as nossas bayonetas algumas setteiras na muralha do _galpon_, e por -ahi faziamos fogo quasi cobertos. - -Pelas tres horas o negro Procopio deu um tiro que teve um exito feliz: -quebrou um braço ao coronel Moringue. No mesmo momento o coronel tocou -a retirada, e partiu levando os feridos, mas deixando quinze mortos no -campo da batalha. - -Dos meus companheiros tive cinco feridos e tres mortos. Custou-me pois -oito homens esta refrega, que foi uma das mais serias em que me tenho -achado. - -Estes combates eram tanto mais funestos para nós que não tinhamos -nem medico nem cirurgião. As feridas ligeiras eram pensadas com agua -fresca, renovando-se este medicamento o maior numero de vezes possivel. - -Rossetti, que por acaso se achava com os seus companheiros em Camacua, -não se nos pôde reunir, com grande pesar seu. Sendo perseguidos e -não tendo armas, foram obrigados uns a passar o rio a nado, outros a -entranharem-se na floresta: um unico foi descoberto e morto. - -Este combate tão perigoso e que teve tão feliz resultado, deu uma -grande confiança aos meus homens e aos habitantes d'este lado do paiz, -expostos ha muito tempo ás excursões d'este inimigo aventureiro e -intrepido. - -Moringue foi na realidade o chefe mais habilitado que tiveram os -imperiaes. Era muito apto para estas emprezas, e devo dizer que sempre -se tinha conduzido com uma finura que lhe teria merecido o appellido de -_Fuinha_, se já o não tivesse. - -Nascido no paiz, que como já disse, conhecia perfeitamente, e dotado de -uma astucia e intrepidez a toda a prova, causou graves prejuizos aos -republicanos, e o imperio do Brazil deve-lhe sem duvida alguma a melhor -parte na submissão d'esta corajosa provincia. - -Celebrámos a nossa victoria. D. Antonia deu em nossa honra uma festa na -sua estancia, distante doze milhas do _galpon_, em que tinha tido logar -o combate. - -Foi n'esta festa que eu soube que uma linda menina, constando-lhe o -perigo que eu corria, havia impallidecido e perguntado com toda a -anciedade noticias minhas. Esta noticia foi mais agradavel para mim, -do que a victoria sanguinolenta que poucos momentos antes tinha ganho. -Como me achava soberbo e feliz por lhe pertencer, ainda que não fosse -senão pelo pensamento. Devia pertencer a outro, mas a sorte havia-me -destinado essa flor do Brazil, que eternamente chorarei. Não era só -nos prazeres e alegrias que a encontrava sempre a meu lado, foi na -adversidade que eu conhecia o quanto valia o nobre coração da mãe de -meus filhos. - -Annita! cara Annita! - - - - - XX - - EXPEDIÇÃO A SANTA CATHARINA - - -Depois d'este successo nada de importante nos succedeu no lago dos -Patos. - -Começámos a construcção de dois novos lanchões. Os elementos primarios -tinham-se achado na preza antecedente, e em quanto á sua confecção -eramos coadjuvados valorosamente pelos habitantes da visinhança. - -Tinham-se apenas acabado e armado os dois novos navios de guerra, -quando fomos avisados para nos juntarmos ao exercito republicano que -então sitiava Porto-Alegre, capital da provincia. O exercito e nós não -fizemos cousa alguma em quanto estivemos n'esta parte do lago. - -Não obstante este cerco era dirigido por Bento Manuel em quem todos -reconheciam um grande merito como soldado, como general e como -organisador. Foi este que depois trahindo os republicanos se passou aos -imperiaes. - -Pensava-se então na expedicção de Santa Catharina. Fui convidado para -tomar parte n'ella, debaixo das ordens do general Canavarro. - -Havia no cumprimento d'este projecto uma grande difficuldade que era -o sahirmos da lagôa, visto que a embocadura estava guardada pelos -imperiaes. - -Na margem meridional estava a cidade fortificada do Rio Grande do -Sul, e na margem septentrional S. José do Norte, cidade mais pequena, -mas fortificada tambem. Estas duas praças, bem como Porto Alegre, -achavam-se em poder dos imperiaes tornando-se por isso senhores da -entrada e sahida do lago. Possuiam, é verdade, unicamente estas duas -praças, mas ellas eram bastante importantes pela sua posição. - -Para homens como os que tinha debaixo das minhas ordens não havia -comtudo coisa alguma impossivel. - -Formei então o seguinte plano de guerra. Os dous mais pequenos lanchões -ficavam na lagôa, sendo seu chefe o excellente maritimo Zeferino -d'Ultra. Eu com os outros dous lanchões tendo debaixo das minhas ordens -Griggs e os melhores dos nossos aventureiros acompanharia a expedição -operando por mar em quanto o general Canavarro operava por terra. - -Era um bello plano, mas era mui difficil pela sua execução. - -Propuz então que se construissem duas carretas d'um tamanho e solidez -necessaria para collocar em cada uma d'ellas um lanchão, devendo-se -atrelar a cada carreta o numero de cavallos e bois sufficientes para as -poderem puchar. - -A minha proposta foi adoptada, e fui encarregado de lhe dar execução. - -Pensando então maduramente n'este projecto fiz-lhe as seguintes -modificações. - -Mandei construir por um habil carpinteiro chamado Abreu oito enormes -rodas de uma solidez a toda a prova para poderem sustentar o -extraordinario peso que devia supportar. - -N'uma das extremidades do lago--a que é opposta ao Rio Grande do -Sul--isto é, ao noroeste, existe no fundo de um barranco um pequeno -ribeiro que corre do lago dos Patos ao lago Tramandai, ao qual -tratavamos de transportar os dous lanchões. - -Fiz descer a este barranco um dos nossos carros, depois levantámos o -lanchão até que aquelle estivesse em cima do carro. Cem bois mansos -foram atrelados, e vi então com grande satisfação o maior dos nossos -lanchões caminhar como se fosse uma penna. - -O segundo carro desceu por sua vez, e como no primeiro obtivemos um -exito feliz. - -Os habitantes gosaram então d'um espectaculo curioso e desusado, isto -é, verem dois navios em cima de duas carretas, e puxados por duzentos -bois, atravessarem cincoenta e quatro milhas, isto é, dezoito leguas, -sem a menor difficuldade, sem o mais pequeno incidente. - -Chegados á margem do lago Tramandai os lanchões foram deitados ao mar -do mesmo modo porque tinham sido embarcados. Necessitavam de alguns -pequenos reparos, que no fim de tres dias estavam concluidos. - -O lago Tramandai é formado por aguas que tem a sua fonte nos montes -d'Epinasso, e finalisa-o no Atlantico. É pouco fundo, pois nas maiores -enchentes só tem quatro ou cinco pés d'agua. N'esta parte da costa -reinam sempre grandes tempestades. - -O estrondo que o mar faz batendo n'estes rochedos, que os marinheiros -chamam cavallos, por causa da espuma que fazem voar em roda d'elles, -ouve-se a muitas milhas de distancia, e muitas vezes é tomado pelo -rumor da tormenta. - - - - - XXI - - PARTIDA E NAUFRAGIO - - -Promptos a partir esperámos pela maré cheia, sahindo ás quatro horas da -tarde. - -Foi n'esta occasião que soubemos apreciar o bem que nos resultava -da pratica que tinhamos de navegar entre os rochedos. Não obstante -esta pratica, não sei hoje dizer porque audaciosa ou antes porque -habil manobra chegámos a tirar os nossos navios d'entre os rochedos, -ainda que tivessemos, como já disse, escolhido a maré cheia. O fundo -necessario para navegarmos faltava-nos por toda a parte, foi pois só -ao cair da noite que os nossos esforços obtiveram um resultado feliz -conseguindo deitar ancora no Oceano. - -Julgo conveniente dizer que os nossos navios foram os primeiros que -sahiram do lago Tramandai. - -Ás oito horas da noite levantámos ancora e começámos a nossa viagem. - -No dia seguinte pelas tres horas da tarde tinhamos naufragado na -embocadura do Aserigua, rio que tem a sua nascente na serra Espinasso, -e que se lança ao mar na provincia de Santa Catharina, entre as torres -e Santa Maura. - -De trinta homens da equipagem, dezeseis affogaram-se. - -Direi em duas palavras como aconteceu esta terrivel catastrophe. - -No momento da nossa partida, o vento do meio dia começava a apparecer. -Corriamos parallelos á costa. O _Rio Pardo_ tinha, como já disse, -trinta homens de equipagem, uma peça de doze, uma grande porção de -caixas, e outros objectos de toda a especie, que tinhamos levado por -precaução, por não sabermos o tempo que estariamos no mar, e a que -praia chegariamos, e qual seriam as circumstancias em que estaria essa -praia no momento em que nos dirigiamos para um paiz inimigo. - -O lanchão achava-se pois mui subcarregado, e as vagas cobrindo-o de -minuto em minuto, ameaçavam submergil-o. Resolvi então aproximar-me -da costa e tomar terra na parte que me pareceu accessivel; mas o mar -que ia sempre crescendo, não nos deixou escolher a posição que nos -convinha, e uma vaga enorme nos arremeçou para a costa. - -Estava n'essa occasião na parte mais elevada do mastro do traquete, -d'onde esperava descobrir uma passagem atravez os rochedos. O lanchão -inclinou-se sobre o estribordo e eu fui lançado a trinta pés de -distancia. - -Ainda que estivesse n'uma posição perigosa, a confiança que tinha nas -minhas forças como nadador, fez com que não pensasse um unico momento -na morte, e tendo comigo alguns companheiros, que não eram marinheiros, -e que momentos antes tinha visto deitados no tombadilho e mui enjoados; -em logar de nadar para a costa, comecei a reunir uma parte dos -objectos, que pela sua ligeireza promettiam conservar-se á superficie, -e comecei a empurral-os para o navio gritando aos meus homens que se -lançassem ao mar e que apanhassem alguns d'aquelles objectos, tratando -de ganhar a costa que se achava na distancia de uma milha. O navio -tinha-se afundado, mas a mastreação conservava-o com os seus flancos de -bombordo fóra de agua. - -O primeiro que eu vi agarrado ás enxarcias foi Eduardo Mutru um -dos meus melhores amigos: atirei-lhe um fragmento da escotilha -recommendando-lhe que o não alargasse. - -Este estando quasi salvo, lancei os olhos para o navio. - -Vi então o meu caro e corajoso Luiz Carniglia. Estava ao leme no -momento da catastrophe, e havia ficado agarrado á popa do navio. -Infelizmente estava n'esta occasião vestido com uma jaqueta de uma -enorme roda. Não havia tido tempo de a tirar, não podendo por isso -nadar em quanto a tivesse vestida. Vendo que me dirigia para elle -começou a gritar. - ---Agarra-te bem, lhe respondi, que já te dou soccorro. - -Subindo ao navio como o teria podido fazer um gato, cheguei ate junto -d'elle; agarrei-me com uma mão a uma borda, e com a outra tirando da -algibeira uma faca que infelizmente cortava pessimamente, comecei -a rasgar as costas da jaleca. Tinha quasi finalisado esta minha -ardua tarefa, e Carniglia estava quasi salvo, quando um golpe de mar -horrivel, envolvendo-nos fez em pedaços o navio e lançou ao mar os -homens que ainda se conservavam a bordo. - -Carniglia foi tambem precipitado e não tornou a apparecer. - -Lançado ao fundo do mar como um projectil, voltei á superficie todo -aturdido, mas tendo uma unica idéa--a de soccorrer ao meu charo Luiz. -Comecei a nadar em volta da carcassa do navio chamando-o em altos -gritos, mas elle não me respondeu. Esse bom amigo que já me tinha salvo -a vida, tinha morrido sem eu o poder soccorrer. - -No momento em que abandonava a esperança de salvar Carniglia, lancei -os olhos em volta de mim. Por uma graça especial de Deus, n'este -momento de agonia para todo o mundo, não pensei um unico momento em mim -tratando unicamente dos outros. - -Vi então os meus companheiros nadando para a praia, separados uns dos -outros segundo a sua agilidade ou força. Alcancei-os em um momento -e animando-os com os meus gritos, passei-lhe adiante, sendo um dos -primeiros a atravessar os rochedos, cortando para isso vagas tão altas -como montanhas. - -Puz pé em terra. Mas a dôr por perder o meu pobre Carniglia, -deixando-me indifferente sobre a minha propria sorte, dava-lhe uma -força invencivel. - -Apenas tinha posto pé em terra que me voltei movido por uma derradeira -esperança. - -Póde ser, ir vêr Luiz. - -Interroguei todas essas figuras assustadas, mas todas me davam a mesma -resposta. Já não me restava esperança alguma. - -Vi então Eduardo Mutru, que depois de Carniglia era quem eu -estimava mais, e a quem tinha passado um fragmento da escotilha -recommendando-lhe que se agarrasse com toda a força. A violencia das -vagas tinha-lhe, sem duvida, tirado este apoio. Ainda nadava, mas pela -convulsão dos seus movimentos indicava a extremidade a que se achava -reduzido. Já disse como o amava, era pois o segundo irmão que ia perder -no mesmo dia. Não quiz em um momento perder tudo o que mais presava -no mundo. Lancei ao mar os restos do navio que me tinham servido para -ajudar a ganhar a praia, e lancei-me de novo ao mar, indo novamente -affrontar um perigo ao qual tinha poucos momentos antes escapado. No -fim d'um minuto só algumas braças me separavam de Eduardo. - ---Coragem... Coragem, lhe disse eu. - -Vã esperança, vãos esforços! No momento em que encaminhava para elle o -pedaço de madeira salvadora desappareceu. - -Dei um grito, e mergulhei. Depois não encontrando o meu pobre amigo -julguei que teria vindo á superficie. Voltei tambem: Ninguem! Mergulhei -de novo e de novo voltei ao cimo d'agua. Dei gritos desesperados, mas -tudo foi em vão. Eduardo Mutru tinha tambem sido engolido por esse -Oceano que elle não tinha tido receio de atravessar para, unindo-se-me, -servir a causa dos povos. - -Ainda um martyr da liberdade italiana que não teve um tumulo, uma cruz! - -Os cadaveres dos dezeseis afogados que nós contamos n'este desastre, -fieis companheiros das minhas aventuras, foram arremeçados pelas vagas -a mais de trinta milhas de distancia para o norte. Procurei então entre -os quatorze que haviam escapado e que n'este momento estavam na praia, -um rosto amigo, uma figura italiana. - -Nenhuma! - -Os seis italianos que me acompanhavam estavam mortos. Carniglia, Mutru, -Staderini, Nadonne e Giovanni... Não me recordo do nome do sexto. - -Peço perdão á patria por o haver esquecido, bem sei que escrevo estas -memorias doze annos depois d'estes successos terem logar, bem sei que -muitos acontecimentos tão terriveis como o que acabo de descrever, tem -tido logar na minha vida; bem sei que vi cair uma nação, e que tentei -defender uma cidade; bem sei que perseguido, exilado, e tratado como um -animal feroz, depuz no tumulo a mulher a quem amava mais que a propria -vida, bem sei que depois de fechado o seu tumulo fui obrigado a fugir -como os condemnados de Dante; bem sei que não tenho um asylo, e que do -extremo d'Africa onde me acho, olho para essa Europa que me repelle -como um bandido, apesar de não ter tido até hoje senão um pensamento, -um amor--a patria; sei tudo isto, mas não obstante devia-me lembrar -d'esse nome. - -E comtudo não o sei!! - -Tanger, março de 1857.--_G. G._ - - - - - XXII - - JOÃO GRIGGS - - -Os melhores nadadores tinham succumbido! Sem duvida confiando na -sua habilidade, não se tinham querido apoderar dos restos do navio, -esperando suster-se na agua sem este soccorro, em quanto que ao -contrario, entre os que via sãos e salvos estavam alguns americanos que -em muitas occasiões tinha visto embaraçados, por terem de atravessar um -pequeno rio de dez a doze pés de largo. - -Parecia-me isto estranho, e comtudo era a verdade. - -O mundo era para mim um deserto. - -Assentei-me na praia, e encostando a cabeça ás mãos julguei que ia -chorar. - -No meio da minha atonia ouvi um gemido. - -Lembrei-me então que não obstante serem-me esses homens desconhecidos, -visto que eu era seu chefe no combate e no naufragio, devia tambem -sel-o na desgraça. - -Ergui a cabeça. - ---Que tem, perguntei, e quem se queixa? - -Duas ou tres vozes me responderam: - ---Tenho frio. - -Eu que até então não tinha pensado em tal, comecei tambem a sentil-o. - -Levantei-me e enchugei-me. Alguns dos meus companheiros estavam já -assentados ou deitados para nunca mais se levantarem. - -Chamei em meu auxilio os mais vigorosos, e obriguei os que se achavam -tolhidos a erguerem-se. Peguei-lhe por uma mão, e disse aos que ainda -não haviam perdido totalmente as forças que fizessem outro tanto, -gritando: - ---Corramos! - -E dei ao mesmo tempo o exemplo. - -No principio sentimos uma grande difficuldade, ou para melhor dizer, -uma grande dôr por sermos obrigados a fazer mover os nossos membros -tolhidos pelo frio, mas em pouco tempo começámos a sentir algum calor. - -Entregámo-nos durante uma hora a este exercicio. No fim d'este espaço, -o nosso sangue aquecendo tinha recomeçado a sua circulação. - -Estavamos então perto do rio Aserigue. Dirigimo-nos pela sua margem -direita, e a quatro milhas encontrámos uma estancia, e n'ella a -hospitalidade que existe sempre em todas as casas americanas. - -O nosso segundo lanchão, commandado por Griggs, chamado o _Seival_, -um pouco maior que o _Rio Pardo_, mas de construcção differente, póde -luctar contra a tempestade, seguindo a sua viagem. - -É necessario dizer que Griggs era um excellente maritimo. - -Não sei se ámanhã serei obrigado a deixar o asylo, onde me acho -actualmente. Não sei pois se mais tarde terei occasião de dizer d'este -excellente e valeroso mancebo tudo o que penso d'elle, vou pois, -aproveitando esta occasião, pagar o tributo que devo á sua memoria. - -Pobre Griggs! tenho apenas dito duas palavras a seu respeito, e comtudo -onde encontrei eu um homem mais corajoso e com melhor caracter? -Nascido d'uma familia rica, tinha vindo offerecer o seu ouro, a sua -intelligencia, e o seu sangue á republica nascente, dando-lhe tudo -quanto havia offerecido. Um dia chegou uma carta d'um dos seus parentes -da America do Norte, convidando-o a ir receber uma herança enorme. -Mas Griggs já havia recebido a mais bella herança que se póde dar a um -homem de convicção e fé,--a corôa do martyrio. Tinha morrido defendendo -um povo desgraçado, mas generoso e valente. - -E eu que tinha visto tantas mortes gloriosas, vi o corpo do meu -infeliz amigo cortado em dois como o tronco de um carvalho pela hacha -do lenhador. Um tiro de metralha o tinha ferido na distancia de vinte -passos, no dia em que com um dos meus companheiros, largando o fogo á -esquadrilha, por ordem do general Canavarro, subi ao navio de Griggs -que acabava de ser litteralmente fulminado pela esquadra inimiga. - -Oh! liberdade! liberdade! que rainha da terra se póde encher de orgulho -por ter um cortejo de heroes como tu tens no ceu!! - - - - - XXIII - - SANTA CATHARINA - - -Felizmente a parte da provincia de Santa Catharina onde haviamos -naufragado, tinha-se tambem revoltado contra o imperador, logo que -souberam da aproximação das tropas republicanas. Em logar pois de -encontrar inimigos, achamos alliados, em logar de sermos combatidos -fomos festejados, e obtivemos em um momento todos os meios de -transporte de que aquelles pobres habitantes podiam dispôr. - -O capitão Balduino offereceu-me o seu cavallo, e pozemo-nos -immediatamente em marcha para alcançar a guarda avançada do general -Canavarro, commandada pelo coronel Teixeira, que se dirigia a toda a -pressa sobre o lago de Santa Catharina, esperando surprehendel-o.[6] - - [6] A provincia de Santa Catharina foi dada em dote pelo - imperador a sua irmã, quando ella casou com o principe de - Joinville. - -Devo confessar que não tivemos grande difficuldade em nos apoderarmos -da pequena cidade que precede o lago e que por isso tem o seu nome. -A guarnição fugiu precipitadamente, e tres pequenos navios de guerra -renderam-se depois de um fraco combate. Passei então com os meus -naufragos para bordo da goleta _Itaparika_, que estava armada com sete -canhões. - -Durante os primeiros dias d'esta occupação, a fortuna parecia ter feito -um pacto com os republicanos. Não temendo uma invasão tão repentina -da nossa parte, de quem só tinham noticias de quando em quando, os -imperiaes tinham mandado guarnecer aquella povoação com soldados, armas -e munições. Mas estas cahiram em nosso poder, porque chegaram depois de -estarmos senhores da cidade. - -Os habitantes tratavam-nos como irmãos e libertadores, titulo que -infelizmente não soubemos justificar em quanto estivemos n'esta -povoação amiga. - -Canavarro estabeleceu o seu quartel general em Santa Catharina, -chamada pelos republicanos _Giuliana_, por que tinham ali entrado no -mez de julho. O general permittiu a creação de um governo provincial -de que foi presidente um sacerdote veneravel, que exercia um grande -prestigio no povo. Rossetti com o titulo de secretario do governo era -verdadeiramente a sua alma. Rossetti estava talhado para todos os -empregos! - -Tudo marchava ás mil maravilhas. O coronel Teixeira com a sua columna -avançada tinha perseguido o inimigo até o encerrar na capital da -provincia, apoderando-se de quasi todo o paiz. Por toda a parte eramos -recebidos com os braços abertos, e todos os dias se nos juntavam -desertores imperiaes. - -O general Canavarro traçava magnificos planos. Rude na apparencia, -excellente no fundo, tinha o costume de dizer que do lago de Santa -Catharina sahiria a hydra que devoraria o imperio, e talvez tivesse -razão se houvessem olhado para esta expedição com mais juizo e -attenção. Infelizmente as nossas maneiras orgulhosas para com os -habitantes e a insufficiencia dos meios que tinhamos á nossa disposição -fizeram perder o fructo d'esta brilhante campanha. - - - - - XXIV - - UMA MULHER - - -Nunca havia pensado no casamento, visto que me considerava incapaz de -ser um bom marido por causa da minha grande independencia de caracter -e decidida paixão pelas aventuras. Ter mulher e filhos parecia -humanamente impossivel ao homem que consagrou a sua vida a um principio -de que o successo, por mais completo que seja, não póde deixar nunca -o socego necessario a um chefe de familia. O destino havia decidido o -contrario: depois da morte de Luiz, Eduardo e dos meus outros amigos, -achava-me n'um isolamento completo, parecendo-me existir só no mundo. - -Não me havia ficado um só d'esses amigos de que o coração tem -necessidade como a vida de alimento. Os que tinham escapado, eram -como já disse, estrangeiros. Eram sem duvida dotados de um excellente -coração, mas conhecia-os á pouco tempo para ter com elles grande -intimidade. N'esse espaço enorme que aquella terrivel catastrophe -tinha feito em volta de mim, sentia a necessidade d'uma alma que me -amasse, porque sem essa alma, a existencia era-me insuportavel, quasi -impossivel. Havia, é verdade, encontrado Rossetti, isto é, um irmão; -mas Rossetti obrigado pelos deveres do seu emprego não podia viver -comigo, vendo-o apenas uma vez por semana. Tinha pois necessidade -d'alguem que me amasse. A amisade é fructo do tempo, e é por isso -necessario muitos annos para amadurecer, em quanto que o amor é como o -relampago, filho muitas vezes da tempestade. Mas que importava! Não sou -eu dos que preferem as tempestades á bonança e socego d'alma. - -Era pois uma mulher que se me tornava necessaria, só uma mulher -me podia curar, uma mulher quer diser, o unico refugio, um anjo -consolador, a estrella da tempestade. A mulher é uma divindade que -nunca se implora em vão, especialmente quando se é desgraçado. - -Era com este incessante pensamento que, do meu camarote a bordo do -_Itarapika_, voltava sem cessar o meu olhar para a terra. D'ahi -descobria formosas meninas occupadas em differentes trabalhos -domesticos. Uma d'ellas, principalmente, attraia-me a attenção. -Mandaram-me desembarcar e immediatamente me encaminhei para a -casa sobre que ha tanto tempo se fixava o meu olhar. O coração -batia-me apressado, mas tinha formado uma d'essas resoluções que -uma vez tomadas, nunca mais enfraquecem.--Um homem convidou-me a -entrar,--teria-o feito ainda mesmo que elle o prohibisse--tinha-o -visto uma vez--vi sua filha e disse-lhe: «Virgem pertences-me!» -Havia por estas simples palavras creado um laço que só a morte podia -quebrar.--Tinha encontrado um thesouro prohibido, mas de tal preço!... -Se houve uma falta commettida, a responsabilidade só a mim pertence; -se foi uma falta, unirem-se dois corações, despedaçando a alma de um -innocente. - -Mas ella está morta e elle vingado--Onde conheci a grandeza da minha -falta?--Na embocadura do Cridam no dia em que esperando disputal-a -á morte, lhe apertava convulsivamente o pulso para contar as suas -ultimas pulsações, absorvendo o seu alento fugitivo...... Beijava os -seus labios muribundos, e apertava nos meus braços um cadaver chorando -lagrimas de desesperação.[7] - - [7] Quando acabei de lêr este capitulo fiquei admirado de o vêr - pouco comprehensivel. Voltei-me para Garibaldi, e disse-lhe: - - --Lê isso, acho ahi uma grande falta. - - Lêu, e depois de um momento de silencio, disse-me suspirando: - - --É necessario que isso fique como está. - - Dous dias depois recebi um manuscripto intitulado--_Annita - Garibaldi_. - - - - - XXV - - O CRUZEIRO - - -O general tinha determinado que eu sahisse com tres navios armados -para atacar as bandeiras imperiaes que crusavam na costa do Brasil. -Preparei-me para cumprir esta ardua tarefa, reunindo todos os elementos -necessarios ao meu armamento. Os meus tres navios eram o _Rio Pardo_, -commandado por mim--a _Cassapara_, por Griggs, ambos goletas e o -_Seival_ commandado pelo italiano Lourenço. A embocadura do lago estava -bloqueada pelos navios de guerra imperiaes, mas apesar d'isso sahimos -de noute e sem ser incommodados.--Annita, então companhia de toda a -minha vida, e por consequencia, de todos os meus perigos, tinha querido -acompanhar-me. - -Chegados á altura de Santos, encontrámos uma corveta imperial, -que durante dois dias, nos deu caça inutilmente. No segundo dia -aproximamo-nos da ilha do _Abrigo_ onde tomámos duas sumacas carregadas -de arroz. Continuámos o cruzeiro e fizemos mais algumas prezas. Oito -dias depois da nossa partida dirigi-me para o lago. - -Não sei porque, tinha um sinistro presentimento do que ali se passava, -visto que antes da nossa partida já um certo descontentamento se -manifestava contra nós. Estava além d'isso prevenido da aproximação -d'um corpo consideravel de tropas, commandadas pelo general Andréa a -quem a pacificação do Pará, tinha dado uma grande reputação. - -Na altura da ilha de Santa Catharina, quando voltavamos, encontrámos -um patacho de guerra brasileiro.--Tinha unicamente comigo dous navios -o _Rio Pardo_ e o _Seival_, porque a _Cassapara_ havia muitos dias -que se tinha separado de nós por causa d'um grande nevoeiro. Quando -descobrimos o navio inimigo estava na nossa prôa, por isso não havia -meio de o evitar. Navegámos então direitos a elle e o atacámol-o -resolutamente. Começámos o fogo e o inimigo respondeu-nos, mas -este combate teve um exito mediocre por causa do muito mar.--O seu -resultado foi a perda de algumas das nossas presas, porque os seus -commandantes assustados pela superioridade do inimigo baixaram os -pavilhões.--Outros deram á costa. - -Uma só das nossas presas foi salva. Era capitaneada por Ignacio Bilbáo, -o nosso bravo biscainho que o conduzio a Imbituba, que então se achava -em nosso poder. O _Seival_ tendo a peça desmontada e fazendo agua, -tomou o mesmo caminho, e eu fui obrigado a seguil-os por que estava com -mui poucas forças para andar só no mar. - -Entrámos em Imbituba, impellidos pelo nordeste. Com este vento -era-nos impossivel entrar no lago e com certeza os navios imperiaes -estacionados em Santa Catharina, informados pelo _Andorinha_, assim se -chamava o navio de guerra com que tinhamos combatido, não tardariam a -vir atacar-nos; era pois necessario prepararmo-nos para o combate. O -canhão desmontado do _Seival_ foi içado n'um promontorio que fechava -a bahia do lado do levante, e ahi construimos uma bateria coberta com -cestões. - -Com effeito no dia seguinte ao apparecer da aurora vimos tres navios -dirigindo-se para nós. O _Rio Pardo_, começou então um combate mui -desigual, porque os imperiaes nos eram mui superiores em numero. - -Havia querido desembarcar Annita, mas ella não tinha consentido, e como -do fundo da minha alma admirava a sua coragem e me achava orgulhoso -pelo seu valor, cedi aos seus rogos. - -O inimigo favorecido na sua manobra pelo vento que então fazia, -manteve-se á véla canhoneando-nos furiosamente. Podia d'esta maneira -aproveitar todos os seus canhões dirigindo todo o seu fogo contra a -nossa goleta. Nós, pelo nosso lado, combatiamos com a mais obstinada -resolução e como estavamos tão perto que nos podiamos servir das nossas -clavinas; as perdas eram de parte a parte importantes. As nossas -comtudo eram mais numerosas em razão da inferioridade numerica, e a -coberta ja se achava cheia de mortos e feridos. Apesar de tudo isto, -apesar do flanco do nosso navio estar crivado de ballas, da nossa -mastreação ter avaria, estavamos resolvidos a não ceder deixando-nos -matar até ao ultimo. É verdade que eramos conservados n'esta resolução -pela vista da amazona brasileira que estava a bordo. Annita, que, como -ja disse, não havia querido desembarcar, tinha tambem tomado parte no -combate, e com a clavina na mão coadjuva-nos admiravelmente. Eramos -tambem, devo dizel-o, perfeitamente sustentados pelo bravo Manuel -Rodrigues, commandante da nossa bateria de terra. - -O inimigo estava mui encarniçado especialmente contra a goleta. -Muitas vezes durante este combate, aproximou-se tanto que julguei hia -abordal-a, o que me dava muito prazer, porque estavamos preparados para -tudo. - -No fim de cinco horas de uma lucta terrivel, o inimigo, com grande -admiração nossa, retirou-se. Soubemos depois que a morte do capitão da -_Bella-Americana_ tinha sido a causa. - -Tive durante este combate uma das mais vivas e crueis emoções da minha -vida. Annita achava-se de sabre em punho em cima do tombadilho animando -os meus homens. Repentinamente uma balla a derribou e a dous dos meus -camaradas. Corri para ella, julgando não encontrar mais que um cadaver, -mas Annita levantou-se sãa e salva; os dous homens estavam mortos; -suppliquei-lhe então que descesse para a camara. - ---Sim, vou descer, me disse ella, mas é para enxutar os poltrões que lá -se foram esconder. - -E bem depressa tornou a apparecer trazendo adiante de si dous ou tres -marinheiros envergonhados por serem menos bravos que uma mulher. - -Passámos o resto do dia a sepultar os mortos e a reparar as avarias, -que não eram pequenas, causadas á goleta pelo fogo do inimigo. No dia -seguinte os imperiaes não appareceram, porque sem duvida se preparavam -para algum novo ataque; vendo isto embarcámos o nosso canhão e -levantando ancora pela noite, dirigimo-nos para o lago. - -Quando o inimigo deu pela nossa partida, começou a perseguir-nos, mas -só no dia seguinte é que nos poude enviar algumas ballas que não nos -causaram prejuizo algum. Entrámos, pois, sem outro incidente no lago -onde fomos festejados pelos nossos que se admiravam de termos escapado -a um inimigo tão superior em numero. - - - - - XXVI - - SAQUE DE IMERUI - - -Outros acontecimentos nos esperavam no lago. - -Como o inimigo continuava a avançar por terra, e em tal numero que -era loucura o tentar resistir-lhe, e como por outro lado as nossas -tolices e brutalidades nos tinham indisposto com os habitantes de -Santa Catharina que estavam promptos a revoltarem-se e a reunirem-se -aos imperiaes, tendo-se já rebellado a cidade de Imerui, situada na -extremidade do lago, foi-me determinado pelo general Canavarro que -fosse castigar este desgraçado paiz, pelo ferro e pelo fogo: vi-me -obrigado obedecer a esta ordem. - -Como os habitantes e a guarnição tinham feito preparativos de defeza -pelo lado do mar, desembarquei então a tres milhas de distancia, -e assaltei-os, no momento em que menos o esperavam, pelo lado da -montanha. Surprehendida e batida a guarnição, foi posta em fuga, -achando-nos senhores da cidade. - -Desejo não só para mim, para todos os individuos, o não receber uma -ordem igual á que eu tinha recebido, e que era por tal modo terminante, -que não havia meio de a illudir. Ainda que existam longas e prolixas -relações de acontecimentos iguaes, julgo impossivel que a mais terrivel -se aproxima da verdade. Deus me perdôe! mas não tenho em toda a minha -vida, successo que me deixasse tão amargas recordações como o saque -de Imerui. Ninguem póde fazer idéa do que soffri para alcançar que, -deixando livre a pilhagem, não se attentasse contra a vida de pessoa -alguma, limitando a destruição ás coisas inanimadas, alcancei o que -pertendia, mas emquanto ás propriedades foi impossivel evitar a -desordem. Nem a authoridade de commandante, nem os castigos poderam -alcançar coisa alguma. Cheguei a ameaçal-os com a volta do inimigo. - -Espalhei o boato de que elle tendo recebido reforços vinha atacar-nos; -mas tudo foi inutil, e na verdade, se o inimigo tornasse atraz -achando-nos assim debandados teria-nos, sem muita difficuldade, -anniquillado. Infelizmente, a cidade ainda que pequena, tinha muitos -armazens cheios de vinho e licôres, de modo, que exceptuando-me, porque -não bebo senão agua, e alguns officiaes que consegui conservar ao pé de -mim, tudo se achava embriagado. Além d'isso os meus soldados eram na -sua maioria recrutas, homens que eu apenas conhecia, e por conseguinte -indisciplinados. Cincoenta soldados determinados atacando-nos de -improviso teria-nos desbaratado. Emfim á força de ameaças e esforços -consegui reembarcar estes animaes selvagens. - -Conduziram a bordo alguns viveres e objectos salvos da pilhagem, -destinados á divisão e voltamos ao lago. - -Durante este tempo o coronel Teixeira com a sua vanguarda retirava-se -diante do inimigo que avançava rapido e vigoroso. - -Quando chegámos ao lago, começavam a conduzir as bagagens á margem -direita, e bem depressa os soldados deviam seguil-as. - - - - - XXVII - - NOVOS COMBATES - - -Tive muito que fazer no dia em que se effectuou a passagem da divisão -para a margem meridional, porque, se o exercito era pouco numeroso -as bagagens pareciam não ter fim.--Na parte mais estreita do rio a -corrente redobrava de violencia.--Trabalhámos pois desde o nascer do -sol até ao meio dia para fazer passar a divisão. - -Pelo meio dia começou a apparecer a flotilha inimiga, composta de vinte -e duas vélas. Combinavam os seus movimentos com a tropa de terra, e -traziam a bordo além de equipagem grande numero de soldados. Subi á -montanha mais proxima para observar o inimigo, e vi immediatamente que -o seu plano era reunir as suas forças á entrada do lago. Dei logo parte -ao general Canavarro que no mesmo momento deu as ordens convenientes, -mas não obstante essas ordens os nossos homens não chegaram a tempo -de defender a entrada do lago. Uma bateria que haviamos construido -na embocadura do lago e que era dirigida pelo bravo Capotto resistiu -fracamente, pois não tinha senão peças de pequeno calibre, e alem -d'isso mal servidas por artilheiros inhabeis. Os nossos tres pequenos -navios estavam reduzidos á metade da equipagem, porque a outra metade -tendo sido mandada para terra para coadjuvar a passagem das tropas, não -se nos juntou, deixando-nos sós para combater um tão temivel inimigo. - -Durante este tempo o inimigo ajudado pelo vento e mare vinha para nós -com toda a força. Dirigi-me então a toda a pressa para o meu posto a -bordo do _Rio Pardo_, onde já a minha corajosa Annita tinha começado -o combate, apontando e dando ella mesmo fogo á peça de que se tinha -encarregado, animando com a voz e o exemplo os meus companheiros um -pouco atemorisados. - -O combate foi horrivel e mais mortifero que se poderia julgar. Tive -poucos mortos, porque, como já disse, metade da equipagem estava em -terra, mas dos seis officiaes que estavam nos tres navios só eu escapei -são e salvo. - -Todas as nossas peças estavam desmontadas, mas o combale continuou á -clavina e não cessámos de atirar em quanto o inimigo passou por diante -de nós. Durante o combate Annita ficou sempre ao meu lado, no posto -mais perigoso, não querendo nem desembarcar nem aproveitar-se de nenhum -alivio, e despresando mesmo o inclinar-se como faz o homem mais bravo, -quando vê a mecha aproximar-se do canhão inimigo. - -Soffrendo mil cuidados por a vêr exposta a tantos perigos, julguei -encontrar um meio de affastar. - -Ordenei-lhe, foi necessario uma ordem, para me obedecer que fosse pedir -reforço ao general dando-lhe a minha palavra de que se me enviasse -esse reforço entraria no lago perseguindo os imperiaes e tratando-os -de tal maneira que elles não pensariam em desembarcar, embora tivesse -que largar o fogo á sua flotilha. Obriguei Annita a prometter-me que -ficaria em terra enviando-me a resposta por um homem seguro; mas com -bastante pesar meu foi Annita, que trouxe a resposta do general: - -«Não tinha soldados para me mandar, e ordenava-me que não largasse o -fogo á esquadra inimiga, mas que viesse para a terra salvando as armas -e munições.» - -Obedeci. Então debaixo de um fogo que não cessou um momento, -conseguimos fazer transportar a terra as armas e munições. Foi Annita -quem á falta de officiaes dirigiu esta operação em quanto eu passando -de um navio a outro collocava no logar mais inflamavel de cada um -d'elles, o fogo que o devia devorar. - -Foi uma missão terrivel que me fez passar uma triplece revista de -mortos e feridos. Era um verdadeiro açougue de carne humana; andava-se -por cima de montões de cadaveres. O commandante do _Itaparika_ João -Henriques de la Laguna estava deitado no meio de dous terços da sua -equipagem com uma balla que lhe tinha feito no meio do peito um buraco -por onde podia entrar perfeitamente um braço. O pobre João Griggs -tinha, como já disse, o corpo separado em dois por um tiro de metralha. -Fiquei suffocado, com a vista de similhante espectaculo, e perguntei a -mim mesmo como poderia ter escapado. - -N'um momento uma nuvem de fumo envolveu os nossos navios e os nossos -bravos tiveram ao menos uma sepultura digna d'elles. - -Em quanto tinha comprido a minha obra de destruição, Annita pela sua -parte havia cumprido a sua de salvação. Para transportar á praia todas -as nossas armas e munições fez talvez vinte viagens ao navio passando -constantemente debaixo do fogo do inimigo. Andava n'um pequeno barco -com dois remadores, e os pobres diabos curvavam-se o mais possivel, -para evitar as ballas. - -Annita pelo contrario na pôpa, no meio da metralha, estava direita e -socegada como uma estatua de Pallas, e Deus que me cobria com uma das -suas mãos, estendia-lhe tambem essa protecção. - -Era noite fechada quando tendo reunido todos os marinheiros que -haviam escapado, me juntei com a nossa divisão, e nos retirámos para -o Rio Grande seguindo o mesmo caminho que alguns mezes antes tinhamos -atravessado com o coração cheio de esperança e procedidos pela -victoria. - - - - - XXVIII - - A CAVALLO - - -No meio das peripecias da minha aventureira existencia, tenho tido -sempre horas bem agradaveis, e ainda que esta em que me achava não -parecesse á primeira vista fazer parte das que me tem deixado uma grata -lembrança, foi ao menos cheia de emoções. - -Á testa de alguns homens, resto de tantos combatentes, que tinham com -justa rasão merecido o titulo de bravos, caminhava a cavallo, orgulhoso -dos vivos, orgulhoso dos mortos, e quasi orgulhoso de mim mesmo. Ao meu -lado hia a rainha da minha alma, a mulher digna de toda a admiração. -Estava lançado n'uma carreira mais attrahente do que a de marinha: que -me importava pois, como o philosopho grego, não possuir senão o que -tinha comigo? Que me importava servir uma republica pobre, que não -pagava a ninguem, e de que ainda que fosse rica, eu não teria acceitado -cousa alguma? Não tinha ao lado um sabre, uma clavina passada atravez -do arção do meu cavallo? Não tinha perto de mim Annita, o meu thesouro, -caracter tão ardente como o meu pela liberdade dos povos? Não encarava -ella os combates como um divertimento, como uma simples distracção? O -futuro sorria-me sempre afortunado, e quanto mais se me apresentavam -selvagens e desertas as solidões americanas, mais deliciosas e bellas -me pareciam. - -Continuámos a retirar para as Torres, limite das duas provincias onde -estabelecemos o nosso acampamento. O inimigo contentou-se em retomar o -lago, não nos perseguindo. - -A divisão Cunha que vinha da provincia de S. Paulo, juntando-se com a -divisão Andrea, dirigiam-se para _Cimo da Serra_, provincia da montanha -pertencente ao Rio Grande. - -Os montanhezes nossos amigos, pediram soccorro ao general Canavarro, -que mandou em seu auxilio uma expedição ás ordens do coronel Teixeira. -Fizemos parte d'esta expedição. Recebidos pelos serraminhos, -commandados pelo coronel Aranha, batemos completamente o inimigo em -Santa Victoria. Cunha affogou-se no rio Pelatos e a maior parte das -suas tropas ficou prisioneira. - -Esta victoria poz debaixo do dominio da republica as duas provincias de -Vaccaria e das Lages, e nós entramos em triumpho na principal povoação -d'esta ultima. - -A noticia da invasão imperial tinha feito acordar o partido brasileiro, -e Mello, chefe inimigo, tinha enviado a esta provincia o seu corpo de -cavallaria, composto quasi de quinhentos homens. - -O general Bento Manoel, encarregado de o atacar não o tinha podido -fazer por causa da sua retirada, contentando-se em enviar o coronel -Portinko em perseguição de Mello que se dirigia sobre S. Paulo. - -A posição que occupavamos e as nossas forças, permettia-nos não só -oppor-nos á passagem de Mello, mas tambem de o anniquillar. Mas a -fortuna não o quiz: o coronel Teixeira incerto se o inimigo vinha -por Vaccaria ou por Coritibani, dividiu a sua tropa em dois corpos, -enviando o coronel Aranha a Vaccaria com a melhor cavallaria, em quanto -que nós com a infanteria e só com alguns soldados de cavallaria, -tirados quasi todos dos prisioneiros inimigos, nos dirigimos para -Coritibani. Foi este o caminho que tomou o inimigo. - -Esta divisão das nossas forças foi-nos fatal: a recente victoria, o -caracter ardente do nosso chefe, e as noticias que tinhamos do inimigo -fizeram com que o desprezassemos mais do que merecia. - -Em tres dias de marcha chegámos a Coritibani, e acampámos a pouca -distancia de Maromba por onde julgavamos que deviam passar os -imperiaes. Collocamos um posto na praia e sentinellas nos sitios que -julgamos convenientes, e ficamos mui descançados. - -Em quanto a mim, o habito que tinha d'estas guerras fez com que, como -se costuma dizer, dormisse com um olho aberto e outro fechado. - -Pela meia noite o posto que se achava na praia, foi atacado e com tanta -furia que os nossos soldados tiveram apenas tempo de fugir trocando -alguns tiros com o inimigo. - -Quando senti o primeiro tiro puz-me logo a pé dando o grito de «Ás -armas.» Em poucos minutos todos estavamos promptos para o combate. -Algum tempo depois de nascer o dia o inimigo appareceu, e tendo passado -o rio parou a alguma distancia formado em batalha. Vendo o numero -superior do inimigo o coronel Teixeira deveria ter expedido correios -para chamar em seu auxilio a segunda divisão, mas Teixeira temendo -que elle se retirasse sem ter occasião de combater, lançou-se no -combate importando-se pouco da sua inferioridade numerica e da posição -vantajosa que o inimigo occupava. - -Este aproveitando-se das irregularidades do terreno tinha estabelecido -a sua linha de batalha n'uma collina mui elevada, diante da qual -existia um vale profundo obstruido por muitos abrolhos tinha além -d'isso embuscado nos seus flancos alguns pelotões. Teixeira ordenou o -ataque que começou com todo o vigor. O inimigo então fingiu retirar-se. -Os nossos soldados começaram a perseguil-os sem cessar a fazillaria, -mas repentinamente foram atacados pelos pelotões embuscados que elles -não tinham visto e que tomando-os pelos flancos os obrigaram a passar -o vale em desordem. Perdemos n'este combate um dos nossos melhores -officiaes, Manoel N...... que era mui estimado pelo chefe. A nossa -linha, bem depressa organisada de novo atacou o inimigo com tal -impetuosidade, que foi posto em retirada. - -O numero de mortos e feridos de parte a parte foi pouco numeroso, -porque as tropas que tomaram parte no combate foram diminutas. - -O inimigo retirou-se com precipitação e nós fomos em sua perseguição -com grande encarniçamento. Infelizmente como tinhamos pouca cavallaria -não podémos perseguir a sua que fugia a todo a galope. Aproximando-se -do _Passo de Maromba_ o chefe da nossa vanguarda o major Jacintho -participou ao coronel que o inimigo fazia passar em uma grande desordem -o rio aos seus bois e cavallos, o que provava de que elle queria -continuar a retirar-se. Teixeira não hesitou um momento; ordenou ao -nosso pequeno esquadrão que mettesse a galope, recommendando-me que o -seguisse o mais de perto possivel com a minha infanteria. - -A retirada do inimigo não era comtudo senão uma astucia, e infelizmente -esta astucia teve para nós terriveis resultados. Por causa das -irregularidades do terreno e pela precipitação com que o tinha -atravessado o inimigo achou-se fóra da nossa vista e chegando ao rio, -havia, como nos tinha participado o major Jacintho, passado para a -outra banda os bois e cavallos, mas os soldados tinham ficado occultos -por detraz de collinas que os escondiam completamente á nossa vista. - -Tomadas estas precauções e tendo deixado um pelotão para sustentar a -sua linha de atiradores, os imperiaes, sabendo da nossa imprudencia -em deixar a infanteria na retaguarda, fizeram uma contra-marcha e -repentinamente os seus esquadrões appareceram no cimo de um valle. - -O nosso pelotão que perseguia o inimigo na sua fuga simulada, foi o -primeiro a conhecer o laço, mas infelizmente não teve tempo para o -evitar. Atacado pelos flancos foi completamente destroçado. Os tres -outros esquadrões de cavallaria tiveram a mesma sorte, não obstante a -coragem e resolução de Teixeira e de alguns de nossos officiaes do Rio -Grande: em alguns momentos a nossa cavallaria estava espalhada em todas -as direcções. - -Os soldados de cavallaria eram, como já disse, na sua maioria, -prisioneiros de Santa Victoria, e tinhamos feito mal em contar tanto -com elles, porque na realidade não podiam ser muito affeiçoados á -nossa causa, e além d'isso sendo soldados novos vindos da provincia, -estavam pouco acostumados a andar a cavallo. Assim logo que teve logar -o primeiro choque, fugiram. - -Montado n'um excellente cavallo, depois de ter excitado a minha -infanteria a marchar o mais rapidamente possivel, tinha-lhe tomado a -frente e chegado ao alto de uma collina, d'ahi vi o triste resultado -d'este combate. - -Os meus infantes fizeram todo o possivel para chegar a tempo, mas tudo -foi em vão. Do alto da eminencia onde me achava julguei que era muito -tarde para que elles nos podessem dar a victoria, mas muito cedo para -ainda a não julgarmos perdida.--Chamei uma duzia dos meus antigos -companheiros, os mais ligeiros e mais bravos, e deixando o major -Peixoto encarregado dos restantes, tomei com este punhado de valentes, -uma forte posição no cimo d'uma collina fortificada por muitas -arvores.--D'ahi fizemos frente ao inimigo, que conheceu que ainda não -era totalmente vencedor, e servimos de ponto de apoio aquelles dos -nossos que não tinham perdido completamente a coragem.--O coronel veiu -para o nosso lado com alguns cavallos depois de ter obrado milagres de -coragem.--O resto de infanteria uni-se-nos então e a defeza começou -terrivel e mortifera. - -Fortes na nossa posição e no numero de setenta e tres lutamos com -vantagem. O inimigo tendo falta de infanteria e pouco habituado a -combater contra esta arma dava cargas inutilmente: quinhentos homens de -excellente cavallaria, brilhante e orgulhosa pela victoria cançaram-se -inutilmente diante de um punhado de homens sem alcançar vantagem -alguma. Comtudo apesar d'esta vantagem momentanea era necessario não -dar ao inimigo tempo de reunir as suas forças, de que a metade estava -ainda empregada a perseguir os nossos fugitivos, e sobre tudo era -necessario procurar um refugio mais seguro do que aquelle em que nos -achavamos.--Uma floresta se nos apresentava á vista na distancia de -quasi uma milha; começámos então a nossa retirada dirigindo-nos para -ella.--Em vão o inimigo tentava romper o nosso quadrado, em vão nos -dava repetidas cargas, quando o terreno o permettia, tudo foi inutil. - -Foi para nós uma grande fortuna, o estarem os officiaes armados de -clavinas, e como todos eramos homens aguerridos, conservamo-nos unidos -fazendo face ao inimigo por qualquer lado que se apresentava e recuando -em excellente ordem, fazendo um fogo terrivel e bem dirigido, ganhámos -o nosso refugio onde o inimigo não se atreveu a penetrar. Uma vez -na floresta encontrámos um claro e sempre unidos e de fuzil na mão, -esperámos pela noute. - -O inimigo gritava-nos a todos os momentos--_Rendam-se_, mas nós só lhe -respondiamos com o silencio. - - - - - XXIX - - A RETIRADA - - -Chegada a noute preparámo-nos para partir, sendo o nosso disignio o -tomar novamente o caminho das Lages. A maior difficuldade que tinhamos -a vencer, era o transportar os feridos. O major Peixoto não nos podia -coadjuvar, porque tinha um pé atravessado por uma balla. - -Pelas dez horas da noute, estando os feridos accommodados o melhor -possivel, começámos a nossa marcha, abandonando o crado e seguindo -a linha da floresta, que sendo a maior que existe talvez no mundo, -se estende do rio Prata aos Amazonas, coroando os cumes da serra -Espinasso, sobre uma extensão de trinta graus de latitude: não conheço -a sua extensão em longitude, mas deve ser immensa. - -As tres provincias de Cima da Serra, Vaccaria e Lages, são segundo -julgo ter já dito situadas no crados d'esta floresta. Coritibani, -especie de colonia, estabelecida pelos habitantes de Coritiba situada -no districto das Lages, provincia de Santa Catharina era o theatro do -episodio que estou contando: costeavamos pois o nosso bosque isolado, -para nos aproximarmos o mais possivel da floresta, tratando de nos -juntarmos á divisão de Aranha, que se havia infelizmente separado de -nós. - -Á sahida do bosque aconteceu-nos um d'esses successos que provam como -o homem é filho das circumstancias e o poder que tem um terror panico -ainda sobre os mais corajosos. Marchavamos em silencio, como convinha á -nossa situação dispostos a combater o inimigo se se oppozesse á nossa -retirada. Um cavallo que se achava na durela da floresta sentindo a -pouca bulha que faziamos tomou medo e fugiu. - -Ouviu-se então gritar uma voz: - ---É o inimigo! - -No mesmo momento os setenta e tres homens que tinham resistido a -quinhentos com tanta coragem que se podia dizer que haviam sido os -vencedores, tomáram medo e começaram a fugir dispersando-se de tal modo -que foi uma felicidade o não ter algum dos nossos acordado o inimigo -dando-lhe o signal de alarme. - -Consegui com muito trabalho reunir alguns d'elles ao qual pouco a pouco -se foi juntando o resto, de modo que ao raiar da aurora estavamos na -aurela da floresta dirigindo-nos para as Lages. - -O inimigo que não havia dado pela nossa fuga, procurou-nos inutilmente -no dia seguinte. - -No dia do combate o perigo tinha sido grande, a fadiga enorme, a fome -imperiosa, a sede ardente, mas era necessario combater, combater pela -vida e esta idéa dominava todas. Mas uma vez na floresta tudo mudou. -Faltavam todas as coisas e a miseria não tendo a distracção do perigo -fez-se sentir terrivel, cruel, insupportavel. A falta de viveres, o -abatimento de todos, as feridas de alguns, e a carencia dos meios de as -tratar, lançaram-nos na desanimação. - -Ficámos quatro dias sem encontrar senão raizes e julgo desnecessario -descrever a fadiga que tivemos para achar n'esta floresta um caminho -onde não existia o mais pequeno atalho e onde a natureza mui fecunda -faz a cada passo encontrar barrancos enormes. - -Alguns dos meus homens desertaram desesperados e tivemos grande -trabalho para os juntarmos e impor-lhes respeito. Não existia senão um -unico recurso para dissipar esta desanimação e fui eu que o encontrei. -Disse a todos que lhe dava a liberdade de se retirarem para onde -quizessem, ou de continuarem a marchar unidos e em corpo, protegendo -os feridos e defendendo-se mutuamente. O remedio foi efficaz. Desde -que cada um foi livre de fazer o que quizesse ninguem pensou mais em -desertar e a confiança voltou a todos. - -Cinco dias depois do combate encontrámos uma _picada_, atalho de -largura d'um homem, e raras vezes de dois que nos conduziu a uma casa -onde nos refrescámos matando dois bois. - -Continuámos o nosso caminho para as Lages onde chegámos n'um dia de -perfeito inverno. - - - - - XXX - - ESTADA NAS LAGES E NOS ARRABALDES - - -Este bom paiz das Lages que nos tinha festejado tanto, quando eramos -victoriosos, havia quando recebeu a noticia da nossa derrota mudado -de opinião, e alguns dos mais resolutos tinham restabelecido o poder -imperial. Estes fugiram á nossa aproximação, e como a maior parte -d'elles eram negociantes, tinham deixado os seus armazens providos -de muitos objectos. Foi uma providencia, por que julgámos poder sem -remorsos aproveitar-nos das mercadorias dos nossos inimigos, e graças á -variedade do commercio que exerciam melhorar muito a nossa posição. - -Entretanto Teixeira escreveu a Aranha ordenando-lhe que se nos unisse, -tendo por este tempo a noticia da chegada do coronel Portinko que tinha -sido enviado por Bento Manoel para seguir esse mesmo corpo de Mello, -encontrado desgraçadamente por nós em Coritibani. - -Tinha servido sinceramente na America a causa dos povos, e havia lá -sido como na Europa o adversario do absolutismo. Tenho algumas vezes -admirado os homens, muitas lamentado, mas nunca odeado. Quando os -tenho encontrado egoistas e tratantes, tenho posto o seu egoismo -e trantantisse de parte, mettendo-o na conta da nossa desgraçada -natureza. Como estou afastado duas mil leguas do logar onde estes -acontecimentos tiveram logar, e já são passados doze annos póde-se -por isso acreditar na minha imparcialidade. Digo-o tanto pelos meus -amigos como pelos meus inimigos; eram intrepidos filhos do continente -americano. - -Era uma audaciosa empreza o defender Lages contra um inimigo dez vezes -superior, e além d'isso orgulhoso pela recente victoria. Separados -d'elle pelo rio Canoas, que nós não tinhamos podido guarnecer -sufficientemente, esperámos durante muitos dias a juncção de Aranha -e Portinko, e durante este periodo o inimigo foi sustentado por um -punhado de homens, atacando-o logo que nos chegaram os reforços, mas -foi elle que se retirou sem acceitar o combate para a provincia visinha -de S. Paulo, aonde esperava encontrar um poderoso soccorro. - -Foi n'esta circumstancia que eu verifiquei os vicios geralmente -imputados ao exercito republicano, que se compunha de homens cheios de -patriotismo e coragem, mas que não ficam juntos ás bandeiras, senão -quando o inimigo os ameaça, abandonando-as quando este se affasta. Este -costume foi quasi a nossa ruina, e poderia causar a nossa perda n'estas -circumstancias, porque se o inimigo tivesse mais paciencia, teria -podido destruir-nos totalmente. - -Os serraminos foram os primeiros a abandonar as fileiras. Os soldados -de Portinko em breve os seguiram. Note-se bem que os desertores não só -levavam os seus cavallos, mas os da divisão. Em poucos dias as nossas -forças se separaram com tanta rapidez que fomos obrigados a abandonar -Lages, retirando-nos para a provincia do Rio Grande, temendo a presença -d'esse inimigo, que tinha sido obrigado a fugir diante de nós, e de que -a fuga nos tinha feito vencedores. - -Que estes exemplos sirvam aos povos que querem ser livres, e que -não é com flores, festas e illuminações que se combatem os soldados -aguerridos do despotismo, mas com soldados mais disciplinados e mais -aguerridos do que elles, não querendo para generaes os que não são -capazes de disciplinar um povo depois de o haver sublevado. - -É verdade que tambem ha povos que não merecem a pena de serem -sublevados: a gangrena não tem cura. - -O resto das nossas forças assim dissimadas--quando estavam privadas -das cousas mais necessarias e principalmente de vestidos--privação -terrível na aproximação do inverno sombrio e rude n'estas regiões -elevadas,--o resto das nossas forças, começou a desmoralisar-se e a -pedir para se retirarem para suas casas. Teixeira foi obrigado a ceder -a essa exigencia, e ordenou-me de descer a montanha e de me reunir ao -exercito, em quanto se preparava a fazer outro tanto. Esta retirada -foi rude por causa da escabrosidade dos caminhos e das hostilidades -occultas dos habitantes da floresta, inimigos encarniçados dos -republicanos. - -Em numero de setenta, pouco mais ou menos, descemos a _Picada di -Peloffo_--já disse o que era uma picada--e tivemos que affrontar -emboscadas repetidas e imprevistas que nós atravessamos com uma -felicidade incrivel devida á resolução dos homens que eu commandava, e -um pouco á confiança que geralmente inspiro aos que me seguem. O atalho -que atravessavamos era tão estreito que unicamente podiam passar dois -homens a par, e como o inimigo era nascido no paiz, por isso conhecedor -do terreno, emboscava-se nos sitios mais favoraveis, rodeando-nos -e dando gritos horriveis, em quanto que um circulo de chammas nos -cercava, sem que nós podessemos vêr os atiradores, que felizmente -faziam mais barulho do que obra. De resto a união que os meus homens -tiveram no perigo foi tal que apenas alguns foram feridos, tendo só um -cavallo morto. - -Estes acontecimentos fazem recordar as florestas encantadas de Tasso, -aonde as arvores viviam. - -Chegámos então a _Mala-Casa_ aonde se achava Gonçalves, que reunia as -funcções de presidente ás de general em chefe. - - - - - XXXI - - BATALHA DE TAQUARI - - -O exercito republicano preparava-se para se pôr em marcha. O inimigo -depois da derrota de Rio Pardo, tinha-se refeito em Porto Alegre, -d'onde tinha sahido debaixo das ordens do velho general Georgio, e -havia estabelecido o seu acampamento nas praias de Cahé, aonde esperava -a juncção do general Calderon, que com um corpo consideravel de -cavallaria se lhe devia reunir. - -O grande inconveniente da dispersão das tropas republicanas quando -não estavam em face do inimigo, dava-lhe facilidade em tudo que elle -queria emprehender, de modo que no momento em que o general Netto, que -commandava as forças, teve reunido um numero sufficiente de soldados -para bater Calderon, este tinha já reunido no Cahe a maior parte do -exercito imperial. - -Era absolutamente indispensavel ao presidente se queria bater o -inimigo, o reunir-se á divisão Netto, e foi por isto que elle levantou -o cerco. Esta manobra e a juncção que se lhe seguiu, tiveram um -feliz resultado e fizeram grande honra á capacidade militar de Bento -Gonçalves. Partimos de Mala-Casa com o exercito, tomando a direcção de -Leopoldo, passando a duas milhas das forças inimigas, e depois de dous -dias e duas noites de marcha continua, nas quaes quasi que não comemos -nem bebemos chegámos perto de Taquari onde encontrámos o general Netto -que nos procurava. - -Disse que haviamos passado quasi sem comer, e disse a verdade. Logo que -o inimigo soube da nossa aproximação, marchou resolutamente ao nosso -encontro e muitas vezes nos alcançou em quanto descançavamos um momento -e estavamos occupados a assar alguma carne, nosso unico alimento. -Por dez vezes estando a comida quasi prompta as sentinellas gritavam -ás armas, e era por isso necessario ir combater em logar de jantar ou -almoçar. Emfim fizemos alto em Pinheirinho a seis milhas de Taquari, e -ahi tomámos todas as disposições para o combate. - -O exercito republicano forte de mil homens de infanteria e cinco mil -de cavallaria, occupava as alturas do Pinheirinho, montanha coberta -de pinhos, como indica o seu nome, pouco elevada, mas dominando as -montanhas visinhas. A infanteria estava no centro commandada pelo -velho coronel Crezungio. A ala direita obedecia ao general Netto e a -ala esquerda a Canavarro. As duas alas eram compostas unicamente de -cavallaria que sem exaggeração era a melhor do mundo. A infanteria era -tambem excellente, e o desejo de começar o combate era geral. - -O coronel Santo Antonio formava a reserva com um corpo de cavallaria. - -O inimigo do seu lado tinha quatro mil homens de infanteria, tres mil -de cavallaria e algumas peças. Estava do outro lado da pequena torrente -que nos separava e a sua apparencia era longe de ser miseravel. O -exercito compunha-se das melhores tropas do imperio commandadas por um -general velho e experimentado. - -O general inimigo tinha até então marchado ardentemente em nossa -perseguição, e havia tomado todas as posições para um ataque em quanto -as suas peças metralhavam a nossa cavallaria. Os nossos valentes da -primeira brigada ás ordens de Netto, tinham tirado os sabres da bainha -e não esperavam senão pelo signal para se lançarem aos dous batalhões -que tinham atravessado a corrente. Estes bravos estavam convencidos -que ficavam victoriosos porque nunca nem elles nem Netto tinham sido -batidos. A infanteria collocada em divisões no alto da colina, e -coberta pelas curvas do terreno, estava anciosa pelo momento do combate. - -Os terriveis lanceiros de Canavarro tinham já feito um movimento -envolvendo o flanco direito do inimigo, obrigando-o por isso a mudar de -posição, mudança que se tinha feito em desordem. - -Este corpo de lanceiros composto na sua maioria de negros libertos -da republica, e escolhidos entre os melhores domadores de cavallos de -provincia, tinha unicamente os officiaes superiores brancos, e nunca -o inimigo tinha visto as costas d'estes filhos da liberdade. As suas -lanças que eram maiores do que o ordinario, os seus rostos pretos -como azeviche, os seus robustos membros e a sua perfeita disciplina -tornava-os o terror dos inimigos. - -A voz animadora do chefe já havia feito tremer todos aquelles corações. -«Que todos combatam como se tivessem quatro corpos para defender a -patria e quatro almas para a amar, havia dito esse valente, que tinha -todas as qualidades de um grande capitão menos a felicidade. - -Quanto a nós sentiamos, por assim dizer, as palpitações da batalha, -e tinhamos a certeza de ganhar a victoria. Nunca em minha vida tinha -visto um mais bello, mais magnifico espectaculo. Collocado no centro da -nossa infanteria, no alto da collina descobria todo o campo de batalha. -As planicies sobre as quaes iam ficar tantos cadaveres, estavam -semeadas de plantas baixas e raras, não fazendo pois nenhum obstaculo -nem aos movimentos estrategicos nem ao olhar que os seguia, e podia -dizer que aos meus pés em poucos momentos seriam resolvidos os destinos -da maior parte do continente americano. - -Esses corpos tão compactos, tão unidos uns aos outros vão ser dispersos -e derrotados? Todos esses homens serão em um momento cadaveres? Toda -essa bella e vigorosa mocidade verá destruidas as suas mais bellas -esperanças? Vamos! Tocae fanfarras, troae canhões, e que tudo seja -decidido como em Zama, Pharsale e Actium. - -Mas não era ainda n'esta planicie que devia ter logar o combate. O -general inimigo intimidado pela forte posição que occupavamos e pela -nossa firmeza, hesitou e fez repassar o rio aos dois batalhões, tomando -a defensiva em logar da offensiva. O general Caldeira tinha sido morto -no começo do combate e d'ahi provinha, talvez, a hesitação de Georgio. -No momento em que elle não nos atacava, não deviamos nós atacal-o? -Tal era a opinião da maioria. Seriamos bem succedidos? Travando-se -o combate nas condições primitivas e conservando a nossa excellente -posição todas as probabilidades eram por nós, mas abandonando-as para -seguir um inimigo que nos era quatro vezes superior em infanteria, era -necessario dar a batalha no outro lado da corrente. - -Era escabroso, ainda que tentador. - -Passámos todo o dia em frente do inimigo, fazendo conjecturas e -disparando alguns tiros. - -Tinham-se-nos acabado os comestiveis, e a infanteria principalmente -soffria muito com essa falta. A agua tambem se nos tinha acabado, e -a sua falta era-nos mais sensivel que a dos viveres. Á nossa vista -existia uma grande quantidade d'agua, mas que infelizmente se achava em -poder do inimigo. Por fortuna os nossos soldados estavam habituados a -soffrer toda a sorte de privações, e por isso uma só queixa sahia dos -seus labios--era a demora em começar o combate. - -Ó italianos, italianos, no dia em que sejaes unidos e sobrios, no -dia em que possaes soffrer todas as privações como os habitantes do -continente americano, o estrangeiro, estae certo, não escravisará a -vossa patria, nem enxovalhará os vossos lares. N'esse dia a Italia -terá retomado o seu logar não só no meio; mas á frente das nações do -universo. - -Durante a noite o velho general Georgio tinha desapparecido, e ao raiar -da aurora foi em vão que o procurámos; só ás dez horas, quando se -dissipou o forte nevoeiro, foi que o avistámos nas posições de Taquari. - -Pouco tempo depois fomos avisados de que a sua cavallaria atravessava -o rio. Os imperiaes estavam pois em completa retirada, era necessario -atacal-os e o nosso general não hesitou. - -A cavallaria inimiga havia atravessado o rio, protegida por alguns dos -navios imperiaes, mas a infanteria tinha ficado na margem esquerda, -protegida por esses mesmos navios e pela floresta, sendo por isso a -sua posição a mais vantajosa possivel. A nossa segunda brigada de -infanteria, composta do terceiro e vigessimo batalhão, era a destinada -a começar o combate, effectuando-o com a sua costumada bravura. Mas -o inimigo era tão superior em numero que estes bravos, depois de -terem praticado prodigios de valor, foram obrigados a retirarem-se, -sustentados pela segunda brigada e primeiro batalhão de artilharia--sem -canhões--e de marinha. O combate foi terrivel, especialmente na -floresta onde o estrondo da fuzilaria e arvores despedaçadas, no meio -d'um espesso fumo, parecia o d'uma infernal tempestade. - -De cada lado não contámos menos de quinhentos mortos e feridos. Os -cadaveres dos nossos valentes republicanos foram até encontrados -na ribanceira do rio, para onde elles tinham arrojado o inimigo. -Infelizmente estas perdas foram sem resultado relativamente á sua -importancia, porque logo que começou a retirada da segunda brigada a -batalha finalisou. - -Tendo chegado a noite o inimigo pôde tranquillamente acabar de passar o -rio. - -No meio das brilhantes qualidades, das quaes julgo ter já fallado, -citarei alguns dos deffeitos do general Bento Gonçalves: o mais -deploravel d'entre elles era uma certa hesitação, razão provavel dos -resultados funestos das suas operações. Teria sido melhor que em logar -de lançar esses quinhentos homens tão inferiores em numero aos que -elles atacavam, tivessem enviado não só toda a infanteria, mas tambem -a sua cavallaria, a pé, visto que a difficuldade do terreno não lhe -permittia combater a cavallo: uma tal manobra teria certamente dado em -resultado uma esplendida victoria, e fazendo perder pé ao inimigo nós -conseguiriamos lançal-o no rio; mas infelizmente o general teve receios -de aventurar toda a sua infantaria, a unica que elle teve, e que teve a -republica. - -Em todo o caso o resultado foi para nós pessimo, porque não sabiamos -como reparar as faltas que havia soffrido a infanteria, arma em que o -inimigo nos era mui superior, e se achava todos os dias recebendo novos -reforços. - -O inimigo ficou na margem direita de Taquari, e por isso senhor de todo -o campo. Nós tomámos então o caminho de _Mala-Casa_. - -Todas estas falsas manobras peioraram a situação da republica. Voltámos -a S. Leopoldo e a Settembrina e depois ao nosso antigo acampamento de -_Mala-Casa_, que foi abandonado em alguns dias pelo da _Bella-Vista_. - -Uma operação concebida n'este tempo pelo general, teria podido pôr-nos -em excellente posição, se a fortuna tivesse, como devia, secundado os -esforços d'este homem tão superior e tão desgraçado. - - - - - XXXII - - ASSALTO A S. JOSÉ DO NORTE - - -O inimigo, para poder fazer as suas correrias pelos campos, havia -sido obrigado a desguarnecer de infanteria as suas praças fortes. -Principalmente S. José do Norte tinha um pequeno numero de soldados. - -Esta praça, situada na margem septentrional da embocadura da lagôa dos -Patos, era uma das chaves da provincia, não só commercialmente, mas -politicamente; a sua posse teria mudado completamente a nossa posição, -que n'esta occasião era bem aterradora; a sua tomada tornava-se, pois, -mais que util, era necessaria. A cidade encerrava objectos de toda -a qualidade, indispensaveis para o vestuario dos soldados, que do -nosso lado estavam no mais deploravel estado. Não só por esta razão, -mas tambem por dominar o unico porto da provincia, S. José do Norte, -merecia que fizessemos todos os esforços para nos apoderarmos d'ella, -mas tambem porque só d'este lado se encontrava a _atalaia_, isto é, o -mastro dos signaes dos navios, que servia para lhe indicar a profundura -das aguas na embocadura. - -N'esta expedição succedeu infelizmente o mesmo que tinha acontecido em -Taquari. Preparada com admiravel sciencia e profundo segredo, perdeu-se -todo o trabalho por se ter hesitado em dar o ultimo golpe. - -Uma marcha forçada de oito dias, a vinte e cinco milhas por dia, nos -conduziu defronte dos muros da praça. - -Era uma d'essas noites de inverno, durante as quaes um abrigo e um -bom fogo são um beneficio da Providencia, e os nossos pobres soldados -da liberdade, esfaimados, vestidos de pedaços, tolhidos pelo frio e -gelados pela chuva d'uma horrivel tempestade, avançavam silenciosos -contra os fortes e trincheiras guarnecidas de soldados. - -A pouca distancia das muralhas os cavallos dos chefes foram confiados á -guarda d'um esquadrão de cavallaria commandado pelo coronel Amaral, e -todos nos preparámos para o combate. - -O _quem vive_ da sentinella foi o signal do assalto, e a resistencia -foi pequena e de pouca duração sobre as muralhas. Á hora e meia -da manhã démos o assalto, e as duas horas estavamos senhores das -trincheiras e de tres ou quatro fortes que as guarneciam, e que foram -tomados á bayoneta. - -Senhores das trincheiras e dos fortes, tendo entrado na cidade parecia -impossivel que ella nos escapasse. Entretanto ainda esta vez o que -parecia impossivel nos estava reservado.--Uma vez dentro dos muros, uma -vez nas ruas de S. José, os nossos soldados julgaram que tudo estava -acabado, e a maior parte se dispersou, arrastada pelo appetite da -pilhagem. Durante este tempo os imperiaes voltando a si da sua surpreza -reuniram-se n'um bairro que se achava fortificado. Ahi os fomos atacar, -mas repelliram-nos. Os chefes procuravam por todos os lados os soldados -para continuar no ataque, mas era inutil, porque se se encontravam -alguns, eram carregados dos despojos, ou bebados, ou tendo quebrado os -fuzis á força de despedaçar as portas das casas. - -O inimigo do seu lado não perdia o tempo: muitos navios de guerra que -se achavam no porto tomaram posição, varrendo com o fogo dos seus -canhões as ruas onde nos achavamos. Pediu-se soccorro a Rio Grande do -Sul, cidade situada na margem opposta da embocadura dos Patos, emquanto -um unico forte que haviamos desprezado servia de refugio ao inimigo. -O primeiro d'estes fortes, o do imperador, do qual a tomada nos tinha -custado um glorioso e mortifero assalto, foi destruido por uma explosão -terrivel de polvora, que nos matou bom numero de soldados.--Emfim -o mais glorioso dos triumphos estava mudado, ao meio dia, na mais -vergonhosa retirada, e os verdadeiros amigos da liberdade choravam de -desesperação. - -A nossa perda, comparativamente á nossa situação, foi enorme. - -Desde este momento a nossa infanteria não foi senão um esqueleto; -emquanto á pouca cavallaria que tinha vindo na expedição serviu para -proteger a retirada. - -A divisão entrou nos seus quarteis da Bella-Vista, e eu fiquei em S. -Simão com a marinha. - -Todos os meus soldados estavam reduzidos a quarenta homens, contando -tambem os officiaes. - - - - - XXXIII - - ANNITA - - -O motivo da minha partida para S. Simão teve por fim, o mandar fazer -algumas d'essas canôas, construidas d'um só tronco d'arvore, com a -ajuda das quaes eu queria abrir communicações com a outra parte do -lago. Mas durante os mezes que eu ahi fiquei, as arvores promettidas -não chegaram, e o nosso projecto por consequencia não se pôde realisar. -Como eu tinha um grande horror pela ociosidade, não podendo construir -barcos, dediquei-me a ensinar cavallos. Em S. Simão havia uma grande -quantidade de poltros que me serviram para fazer cavalleiros dos meus -marinheiros. - -S. Simão era uma bella e espaçosa herdade, que se achava então -abandonada. Pertencia ao conde de S. Simão, antigamente exilado, e de -quem os herdeiros estavam tambem exilados como inimigos da republica. -Eu não sei se elle era ainda parente do famoso conde de S. Simão, -fundador d'essa religião de que os adeptos me tinham iniciado na -paternidade universal; mas n'esta occasião, como a familia de S. Simão -era considerada por nós como inimiga, tratámos a sua herdade como uma -conquista; isto é, apoderámo-nos das casas para ahi habitarmos, e dos -animaes domesticos que ahi havia para fazermos o nosso sustento. - -Os nossos unicos divertimentos eram ensinar os nossos poltros, ou, para -melhor dizer, os poltros dos S. Simonnianos. - -Foi n'esta occasião que a minha chara Annita deu á luz o primeiro -filho. Em logar de lhe dar o nome d'um santo, dei-lhe o nome d'um -martyr. - -Chamou-se Menoti. - -Nasceu a 16 de setembro de 1840, exactamente no mesmo dia em que fazia -nove mezes que tinha tido logar o combate de Santa Victoria. A sua -apparição n'este mundo sem accidente, era um verdadeiro milagre depois -das privações e dos perigos soffridos por sua mãe. Essas privações e -esses soffrimentos de que eu ainda não fallei, afim de não interromper -a minha narração, devem aqui achar logar, e é do meu dever fazer -conhecer se não ao mundo, ao menos a alguns amigos que lerem este -jornal a admiravel creatura que perdi.[8] - - [8] É escusado repetir que estas Memorias tinham sido escriptas - por Garibaldi unicamente para serem lidas por alguns amigos. - -Annita, como sempre, tinha querido seguir-me e havia-me acompanhado na -campanha que acabavamos de fazer, e que acabo de contar. - -O leitor deve lembrar-se que reunidos aos serraminnos, commandados pelo -coronel Aranha, nós batemos em Santa Victoria o brigadeiro Cunha, e de -tal modo que a divisão inimiga foi completamente destruida. Durante o -combate Annita, a cavallo no meio do fogo, era espectadora da victoria -e derrota dos imperiaes. Foi ella n'esse dia o anjo providencial dos -nossos feridos, porque não tendo nós nem cirurgião nem ambulancia, eram -curados, sabe Deus como, por nós mesmos. Esta victoria submetteu de -novo, pelo menos momentaneamente, as tres provincias, Lages, Vaccaria -e de Cima da Serra á authoridade da republica, e já contei como no fim -d'alguns dias entrámos triumphantes em Lages. O exito do combate de -Coritibani longe esteve de ser egual. - -Já disse a maneira por que, apesar da bravura de Teixeira, a nossa -cavallaria foi rota, e como com os meus sessenta e tres infantes me vi -cercado por mais de quinhentos homens de cavallaria inimiga. Annita -devia n'este dia assistir ás mais terriveis peripecias da guerra. A -muito custo submettendo-se ao papel de simples espectadora do combate, -Annita apressava a marcha das munições receiosa de que os cartuxos -faltassem aos combatentes: com effeito o fogo que nos viamos obrigados -a fazer era tão violento que dava margem a suppor-se, com toda a -razão, que se as nossas munições não fossem renovadas bem depressa, -não teriamos um unico cartuxo; com este fito aproximava-se do logar -onde o combate era mais renhido, quando um esquadrão de vinte cavallos -inimigos perseguindo alguns dos nossos que fugiam, cairam de improviso -sobre os soldados que conduziam a bagagem. - -Excellente cavalleira, e montando um admiravel cavallo, bem poderia -Annita ter fugido; mas dentro d'esse peito de mulher batia o -coração d'um heroe: em logar de fugir animava os nossos soldados a -defenderem-se, e n'um momento se viu cercada pelos imperiaes. - -Annita enterrou as esporas no ventre do cavallo, e d'um salto passou -pelo meio do inimigo, não tendo recebido mais do que uma unica balla -que lhe atravessou o chapeo e levou parte dos cabellos, sem lhe -tocar no craneo. Talvez ella podesse fugir se o cavallo não caisse -ferido mortalmente por outra balla, e sendo obrigada a render-se foi -apresentada ao coronel inimigo. Sublime de coragem no perigo, Annita -maior vulto tomava ainda, se é possivel, na adversidade; de sorte que -na presença d'esse estado maior maravilhado do seu arrojo, mas que -não teve o bom gosto de occultar diante de uma mulher o orgulho da -victoria. Annita repelliu com uma rude e desdenhosa altivez algumas -palavras que lhe fizeram antever um tal ou qual despreso pelos -republicanos, e tão vigorosamente combateu com a palavra como já o -fizera com as armas. Annita julgava que eu tinha morrido. N'esta -persuasão pediu e obteve licença de ir ao campo de batalha procurar o -meu corpo no meio dos cadaveres. Qual a ventesma infernal passeando -sobre campina ensanguentada, Annita errou só e por muito tempo -procurando aquelle que ella receiava de encontrar, voltando os mortos -que tinham caido de rosto para a terra, e nos quaes pelo fato ou pela -altura ella imaginava terem alguma similhança comigo. - -Foram inuteis as suas pesquisas, era a mim pelo contrario que sorte -reservava a dôr suprema de banhar com as minhas lagrimas suas faces -gelidas, e quando esse momento de angustia chegou impossivel me foi de -lançar um punhado de terra, uma flor, ao menos sobre a cova onde jazia -a mãe de meus filhos. - -Desde que Annita esteve segura de que eu existia, não teve senão um -pensamento, o de fugir, e a occasião não tardou a apresentar-se-lhe. -Aproveitando-se do delirio do inimigo victorioso, passou para uma -casa perto d'aquella onde a tinham prisioneira, e ahi, sem ser -reconhecida, uma mulher a recebeu e protegeu. O meu capote, que eu -havia abandonado para ter os movimentos mais livres, e que tinha caido -em poder de um soldado inimigo, foi por ella trocado pelo seu, que era -de grande valor. Quando chegou a noute Annita lançou-se na floresta -e desappareceu. Era necessario possuir um coração de leão para assim -se arriscar. Só quem já viu as immensas florestas que cobrem os cimos -de Espinasso, com os seus pinheiros seculares que parecem destinados -a sustentar o ceo, e que são as columnas d'esse esplendido templo da -natureza, as gigantescas cannas que povoam os intervallos e que estão -cheias de animaes ferozes e de reptis de que a mordedura é venenosa, -poderá fazer uma idea dos perigos que ella correu, e das difficuldades -que teve a vencer. Felizmente Annita ignorava o que era medo. De -Caritibani a Lages são vinte legoas. Como ella atravessou esses bosques -impenetraveis, só, e sem alimentos, só Deus o sabe. - -Os poucos habitantes d'esta parte da provincia que ella tinha a -atravessar eram hostis aos republicanos, e logo que souberam da -nossa derrota armaram-se e fizeram emboscadas sobre muitos pontos, e -principalmente nas _picadas_ que os fugitivos tinham a atravessar de -Caritibani ás Lages. - -Nos _cabecaes_, isto é, nos sitios quasi impraticaveis destes atalhos, -teve logar uma horrivel carnagem nos nossos desgraçados companheiros. -Annita atravessou de noite estes sitios perigosos, e ou fosse a sua boa -estrella ou a admiravel resolução com que os atravessou, o seu aspecto -fez sempre fugir os assassinos, que fugiam, diziam elles, perseguidos -por um ser mysterioso! - -Na realidade era estranho ver esta valente mulher, montada n'um ardente -cavallo, pedido e obtido n'uma casa onde havia recebido a hospitalidade -durante uma noite de tempestade, galopando por cima dos rochedos á -claridade dos relampagos. Quatro cavalleiros collocados na passagem -do rio Canoas, fugiram á vista d'esta visão, escondendo-se atraz -das moitas que guarnecem o rio. Durante este tempo Annita chegara á -margem do rio, tornado mui tempestuoso por causa das muitas cheias, e -atravessou-o, não como o tinha feito dias antes, n'um excellente barco, -mas sim a váu, animando com a voz o seu magnifico cavallo. - -As ondas precipitavam-se furiosas, não n'um estreito espaço, mas n'uma -extensão de quinhentos passos, e apesar d'isso Annita chegou sãa e -salva á outra margem. - -Uma chavena de café foi o unico alimento que a intrepida viajanta tomou -durante os quatro dias que gastou em alcançar na Vaccaria a tropa do -coronel Aranha. - -Foi ahi que nos encontramos, Annita e eu, depois de uma separação de -oito dias e de nos julgarmos mortos. - -Que alegria não foi a nossa! Maior foi ainda a que senti no dia em que -Annita, na peninsula que fecha a lagoa dos Patos do lado do Atlantico, -deu á luz n'uma casa que nos dava hospitalidade o meu querido Menotti, -que veiu ao mundo com uma cicatriz na cabeça procedida pela queda do -cavallo que tinha dado sua mãe. - -Renovo aqui mais uma vez os meus agradecimentos ás excellentes pessoas -que nos deram esta hospitalidade, assegurando-lhe um reconhecimento -eterno. No campo onde nos faltavam todas as cousas mais necessarias, -e onde eu não lhe teria podido dar um unico lenço, Annita não teria -podido triumphar n'este momento supremo onde a mulher tem tanta -necessidade de forças e cuidados. - -Decidi-me então a fazer uma viagem a Settembrina para ahi comprar -muitas cousas de maior urgencia que faltavam aos meus entes queridos. -Tinha ali bons amigos, e entre elles um excellente homem chamado -Blingini. Comecei então a minha viagem atravez os campos innundados, -onde eu tinha a agua até ao ventre do cavallo; passei por meio d'um -campo antigamente cultivado chamado _Rocha velha_, onde encontrei o -capitão de lanceiros Maximo, que me recebeu perfeitamente. Acceitei a -sua hospitalidade durante dois dias, por causa do pessimo tempo não me -deixar continuar a jornada. - -No fim d'elles quiz partir, apesar de todos os esforços que fez o bom -capitão para me conservar na sua companhia. - -Mas o fim para que tinha partido era para mim mui sagrado para que me -demorasse mais, e não obstante as observações d'este bom amigo, puz-me -a caminho por essas planicies que pareciam um vasto lago. Na distancia -de algumas milhas, ouvi do lado que acabava de deixar o estrondo da -fuzilaria, concebi então algumas suspeitas cheias de angustias, mas não -podia voltar atraz. - -Cheguei a Settembrina onde comprei os objectos de que tinha -necessidade, e sempre inquieto por essa fuzilaria que tinha ouvido, -puz-me logo a caminho para São Simão. Descançamos em Rocha Velha, onde -soube a causa d'esse estrondo que tinha ouvido e o triste acontecimento -que tinha tido logar no mesmo dia da minha partida. - -Morinque--o mesmo que me havia surprehendido em Camacua e que eu e os -meus quatorze homens tinhamos obrigado a fugir com um braço quebrado, -tinha surprehendido o capitão Maximo, todos os seus soldados feitos -prisioneiros, e a maior parte das seus cavallos tambem tomados, e os -mais mortos. - -Morinque havia effectuado esta surpreza com alguns navios de guerra e -infanteria. Embarcou depois a infanteria, e dirigiu-se com a cavallaria -para o Rio Grande do Norte, espantando pelo caminho todas as pequenas -guerrilhas republicanas, que julgando-se em segurança se haviam -espalhado pelo territorio; entre elles achavam-se os meus marinheiros -que foram obrigados a refugiar-se na floresta. - -O meu primeiro grito foi como se deve julgar: «Annita! onde está -Annita?» - -Annita doze dias depois de ter tido o seu feliz successo, tinha sido -obrigada a montar a cavallo, e meio nua, com o seu pobre filho nos -braços, tinha sido obrigada a refugiar-se na floresta. - -Não encontrei pois no _rancho_ nem Annita, nem os nossos hospedeiros, -mas alcancei-os na ourela d'um bosque onde elles se conservavam não -sabendo onde se achava o inimigo, nem se ainda tinham alguma cousa a -receiar d'elles. - -Voltamos a São Simão, e ahi nos demoramos algum tempo, depois mudamos -o nosso acampamento, estabelecendo-nos na margem esquerda do Capivari, -isto é, no mesmo sitio onde um anno antes tinhamos transportado -os nossos lanchões em carros para a expedição de Santa Catharina, -expedição que tão mau exito teve. - -N'essa occasião tinha sentido bastantes esperanças que infelizmente -haviam desapparecido. - -O Capivari é formado de differentes riachos que tem a sua nascente nos -lagos numerosos que guarnecem a parte septentrional da provincia do Rio -Grande, sobre as costas do mar e sobre a vertente oriental da cadea de -Espinasso. Toma este nome da _capinara_, especie de canniços muito -communs na America meridional e que nas Colonias se chamam _capineios_. - -De Capivari e de Sangrador d'Abreu canal que serve de communicação -entre um charco e um lago onde tinhamos reunidas com muito trabalho -algumas canôas, fizemos algumas viagens á costa occidental do lago, -estabelecendo communicações entre as duas margens e transportando os -passageiros. - - - - - XXXIV - - LEVANTA-SE O CERCO.--ROSSETTI - - -Comtudo a situação do exercito republicano peiorava de dia para dia; -as suas necessidades augmentavam e os seus recursos diminuiam. Os dois -combates de Taquari e S. José do Norte tinham dizimado a infanteria que -apezar de ser pouco numerosa era um poderoso recurso para as operações -de cerco. As grandes necessidades animavam as deserções, as populações -como succede n'estas guerras mui prolongadas cançavam, e foram atacadas -de uma suprema indifferença, começando nós então a conhecer que estava -proximo o momento de tudo se acabar. - -N'este estado de cousas os imperiaes fizeram propostas que, ainda que -vantajosas para os republicanos foram por estes recusadas. Esta recusa -augmentou o descontentamento dos mais desgraçados, e por conseguinte da -parte mais fatigada do exercito e do povo, sendo decidido que o cerco -seria abandonado e que todos se retirariam. - -A divisão Canavarro de que faziam parte os marinheiros foi designada -para começar o movimento e abrir as passagens da serra, occupadas pelo -general Labattue, francez ao serviço do imperador. Bento Gonçalves com -o resto do exercito formaria a retaguarda. - -A guarnição republicana de Settembrina devia seguir-nos, mas não pôde -executar este movimento, porque surprehendida pelo famoso Morinque a -cidade foi tomada. - -Foi ahi que morreu o meu caro Rossetti. - -Tendo caido do cavallo, depois de ter praticado prodigios de valor, -ferido perigosamente, e intimado para se render, preferiu antes que o -matassem do que entregar a sua espada. - -Ainda uma outra ferida para o meu coração. Já fallei muitas vezes de -Rossetti, sabe-se pois como o amava, seja-me pois permittido dizer -á Italia o que já tenho dito tantas vezes: Oh! Italia, minha mãe, -acabamos de perder, eu um dos meus irmãos mais caros, e tu um dos teus -filhos mais generosos. - -Era natural de Genova. Havia sido, por paes que conheciam pouco o -seu caracter, destinado á vida ecclesiastica, quando era um dos mais -ardentes patriotas italianos que tenho conhecido. Inclinado á vida -aventureira e não podendo respirar na Italia, partiu para o Rio de -Janeiro onde foi negociante e corretor; mas não tendo Rossetti nascido -negociante, era uma planta exotica dando-se mal na terra do agio e -calculo, não porque elle não fosse dotado de uma intelligencia fina e -apta a enriquecer-se de todos os conhecimentos, mas porque Rossetti -era o mais italiano de todos os italianos, isto é, o mais generoso e -prodigo dos homens, e com taes _vicios_ não se faz fortuna, mas antes -se caminha a grandes passos para a ruina. - -Foi o que aconteceu com Rossetti. - -Bom para com todos, a sua casa achava-se franca para toda a gente, -e especialmente para os italianos desgraçados. Não esperava que os -proscriptos o fossem procurar, era elle que os ia encontrar, esgotando -assim em pouco tempo os seus recursos. Bem desgraçado, esse coração -do anjo não podia ver soffrer um italiano. Se o não podia soccorrer -immediatamente, fazia-o esperar na sua pobre cabana, e corria as -ruas da cidade, e não entrava em sua casa senão quando trazia algum -soccorro para aquelle ou aquelles que o esperavam. É verdade que a sua -bondade, a sua franqueza e a sua lealdade o tinham tornado estimado de -todos, e por isso quando se achava n'estes piedosos embaraços, todos o -coadjuvavam com prazer. - -A batalha de Tarifa teve logar, e os republicanos foram batidos pelos -imperiaes; Bento Gonçalves e os principaes chefes feitos prisioneiros, -e conduzidos ao Rio de Janeiro. Entre elles achava-se o nosso capitão -Zambecarri, com quem travamos relações, segundo já disse, nas prisões -de Santa Cruz. Fallou-se de nos fazermos corsarios, e desde esse -momento Rossetti e eu não tivemos um minuto de descanço em quanto -não nos lançamos no Occeano com a bandeira republicana. Rossetti -encarregou-se de tudo e alcançou o fim que pertendiamos. - -Os leitores sabem o resto, porque desde esse momento não nos perdemos -de vista. - -Infelizmente não ha um canto da terra onde não descansem os ossos de um -italiano generoso, devendo por isso a Italia cobrir-se de luto e não -encher-se de gloria. Pobre Italia, tu sentirás verdadeiramente a sua -falta no dia em que tentares arrancar o teu cadaver aos corvos que o -devoram. - - - - - XXXV - - A PICADA DAS ANTAS - - -Esta retirada emprehendida na estação invernosa, por um paiz montanhoso -e debaixo de uma chuva incessante foi a mais terrivel e mais desastrosa -que tenho visto. - -Conduziamos por precaução algumas vaccas, sabendo perfeitamente que no -caminho que tinhamos a atravessar não encontrariamos comestiveis alguns. - -Retirando-nos, seguiamos a divisão do general Labattue, mas -infelizmente sem a podermos alcançar. Só os selvagens manifestavam -as suas sympathias por nós, atacando-lhe a guarda avançada. Tivemos -occasião de vêr de perto esses homens da natureza que não nos foram -hostis. - -Annita durante esta retirada de tres mezes soffreu toda a casta de -privações e incommodos com um stoicismo e uma coragem admiravel. - -É necessario ter algum conhecimento das florestas d'esta parte do -Brazil para fazer idéa das privações soffridas por uma porção de homens -sem meios de transporte, e tendo unicamente por recurso o _laço_, arma -mui util nas planicies cobertas de animaes, mas perfeitamente inutil -n'essas expessas florestas abundantes em tigres e leões. - -Para a nossa desgraça ser ainda maior, os rios muito proximos uns dos -outros n'estas florestas virgens engrossavam cada vez mais. A horrivel -chuva que nos perseguia não cessava de cair, acontecendo muitas vezes -que uma parte dos nossos soldados se achavam entre duas correntes de -agua e ahi ficavam privados de todo o alimento, morrendo muitos de -fome, e principalmente as mulheres e creanças que não podiam supportar -tanto as privações. Era uma carnagem mais horrivel do que a de uma -sanguinolenta batalha. - -A nossa pobre infanteria principalmente soffria muito mais, porque não -tinha como a cavallaria o recurso de matar os cavallos. Poucas mulheres -e menos creanças sairam vivas da floresta. As poucas que escaparam -foram salvas pelos cavalleiros que tendo a felicidade de conservar os -cavallos, tiveram dó d'aquelles pequenos entes, abandonados por suas -mães mortas de fome, frio e fadiga. - -Annita tremia com a idéa de perder o nosso Menoti, que foi salvo -unicamente por milagre. Nos sitios mais perigosos, e na passagem dos -rios, conduzia o nosso pobre filho, de tres annos de edade, suspenso -ao meu pescoço por um lenço, podendo aquecel-o d'este modo com o meu -alento. De doze mulas e cavallos com que tinha entrado na floresta, e -que eram destinadas ao meu serviço, não tinha podido salvar mais que -duas mulas e dois cavallos, as demais tinham morrido de fome ou de -fadiga. Para completar a nossa desgraça, os guias tinham-se perdido no -caminho, o que foi a causa principal dos nossos sofrimentos na temivel -floresta das Antas. - -Quanto mais andavamos, menos viamos chegar o fim d'esta picada maldita. -Fiquei muito longe dos meus companheiros, com duas mulas horrivelmente -fatigadas, e que eu esperava salvar, fazendo-as caminhar mui devagar e -sustentando-as com folhas de taquaras a que Taquari deve o seu nome. -Durante este tempo enviei Annita adiante com um criado e meu filho, -afim de que elle procurasse o fim d'esta interminavel floresta e algum -alimento. - -Os dois cavallos que eu havia deixado a Annita e que ella montava -simultaneamente, foi quem nos salvaram. Ella achou o fim da floresta e -ahi encontrou um piquete dos meus bravos soldados assentados a um bello -fogo, o que não era commum pelo tempo que fazia. - -Os meus companheiros que por felicidade tinham conservado alguns -vestidos de lã, embrulharam n'elles a creança, aquecendo-a e -chamando-a por este modo á vida, quando já a pobre mãe começava a -perder todas as esperanças. Mas ainda não é tudo: estes excellentes -rapazes começaram então a procurar com uma grande sollicitudde alguns -alimentos, que elles não tinham procurado para si, mas que agora -procuravam por minha causa. - -O que d'entre todos prestou a minha esposa e filho os primeiros e mais -efficazes soccorros foi Mangio: que o seu nome seja abençoado. - -Tinha tido grande difficuldade em salvar os meus dois cavallos, e por -fim vi-me na necessidade de abandonar os dois pobres animaes esfalfados -e aguados, sendo obrigado, apezar do estado miseravel em que me achava, -a atravessar o resto da floresta a pé. - -No mesmo dia encontrei minha mulher e filho e soube então o que os meus -companheiros tinham feito por causa d'ella. - -Nove dias depois da nossa entrada na floresta conseguimos sair! Poucos -officiaes tinham conseguido salvar os seus cavallos. O inimigo que nos -precedia, fugindo diante de nós, tinha deixado duas peças de artilheria -na picada; mas de que nos serviriam ellas? Faltavam todos os meios de -transporte e póde ser que ellas ainda estejam no mesmo logar em que as -vi. - -As tempestades pareciam conscriptas na floresta. Apenas saimos d'ella e -nos aproximamos de Cima da Serra e de Vaccaria que o bom tempo começou, -caindo então em nosso poder alguns bois, que indemnisando-nos do nosso -longo jejum nos fizeram esquecer a fadiga, a fome e a chuva. - -Ficámos na Vaccaria alguns dias, esperando pela divisão de Bento -Gonçalves, que se nos uniu em completa desordem, e com menos um terço -dos soldados. - -O infatigavel Morinque sabendo da retirada d'esta divisão, tinha -começado a perseguil-a, sem descanço, atacando-a em todas as occasiões, -alliando-se para esta obra de destruição aos montanhezes, sempre hostis -aos republicanos. Todos estes successos deram tempo a Labattue a fazer -a sua retirada, e depois a sua juncção com o exercito imperial, tendo -apenas, apezar d'isto, algumas centenas de homens á sua disposição. -Então as mesmas dificuldades que haviam existido para nós, appareceram -para elles que tiveram além d'isso a vencer um obstaculo imprevisto, e -que eu noto por causa da sua raridade. - -O general Labattue tendo que atravessar no seu caminho dois bosques -chamados de Mattos, ahi encontrou algumas d'essas tribus indigenas -chamadas de _Bragis_, que são as mais selvagens que se conhecem no -Brazil. Estas tribus sabendo da passagem dos imperiaes, armaram-lhe -tres ou quatro emboscadas, fazendo-lhe grande mal. Em quanto a nós não -nos causaram a mais pequena inquietação e ainda que houvesse no caminho -muitos d'esses alçapãos, que os indios collocam na passagem dos seus -inimigos, todos se achavam descobertos em logar de estarem disfarçados -com ramos de arvores, segundo o costume. - -Durante a curta paragem que fizemos na ourela de um d'esses bosques -gigantescos, appareceu-nos uma mulher, que na sua mocidade tinha sido -roubada pelos selvagens, e que havia aproveitado a nossa presença para -fugir. - -A pobre mulher achava-se n'um deploravel estado. - -Como não tinhamos então nenhum inimigo a atacar ou de quem fugissemos, -continuamos a nossa marcha mui vagarosamente, porque não possuiamos -cavallos, e era necessario ir domando os poltros. - -O corpo de lanceiros republicanos, tendo ficado completamente -desmontado, foi tambem obrigado a lançar mão dos poltros. - -Era na verdade um explendido espectaculo, sempre novo, ainda que -repetido todos os dias, o vêr esses jovens e robustos negros que -mereciam o epitheto de domadores de cavallos que Virgilio dá a Pelops. -Era necessario vêl-os saltar sobre esses selvagens filhos do deserto, -que não conheciam nem freio, nem selim, agarrando-se ás crinas, e -correndo pelas planicies, até que cedendo ao homem o quadrupede se -confessava vencido. Mas a lucta era longa, e o animal não se rendia -senão depois de ter exgotado todas as forças em se desembaraçar do seu -tyranno, que do seu lado admiravel de agilidade e coragem, o apertava -entre os joelhos, como entre duas tenazes, não o deixando senão depois -de o ter domado. - -Tres dias são sufficientes a um bom domador de cavallos para que o -animal o mais rebelde possa sofrer o freio. - -Raramente, comtudo os poltros são bem domesticados pelos soldados, -sobretudo nas marchas onde os muitos afazeres impedem os domadores de -lhe prestar todos os cuidados necessarios. - -Tendo passado os _Mattos_ atravessámos a provincia das Missões, -dirigindo-nos para Cruz Alta, capital d'esta pequena provincia, depois -de Cruz Alta dirigimo-nos a S. Gabriel onde se estabeleceu o quartel -general, e edificaram barracas para o acampamento do exercito. - -Seis annos d'esta vida de aventuras e perigos não me tinham fatigado -em quanto era só, mas actualmente que tinha uma pequena familia, a -separação de todos os meus antigos conhecimentos, a ignorancia completa -em que me achava ha tantos annos sobre o estado da minha familia, -fizeram nascer o desejo de me aproximar de um ponto onde podesse -receber noticias de meu pae e minha mãe, porque se tinha por um momento -esquecido essas ternas affeições, ellas appareciam de novo. Tambem não -tinha noticias da minha outra mãe, da Italia! - -Decidi então ir a Montevideo; ao menos temporariamente. Pedi pois -licença ao presidente, assim como para levar alguns bois, de que a -venda devia servir para me sustentar durante a jornada. - - - - - XXXVI - - CONDUCTOR DE BOIS - - -Eis-me pois _truppiere_, isto é conductor de bois. - -Em consequencia n'uma estancia chamada o _Casal das Pedras_, com a -authorisação do ministro da fazenda, consegui reunir em vinte dias e -com grande difficuldade novecentos bois, quasi todos selvagens. Maiores -dificuldades me esperavam ainda durante o caminho onde encontrei -obstaculos quasi invenciveis. O maior de todos foi o Rio-Negro, onde -tive quasi perdido todo o meu capital. Da passagem do rio, da minha -inexperiencia no meu novo mister, e sobre tudo da rapina de certos -_capatazes_, mercenarios que tinha alugado como conductores, salvei -com muito custo quinhentos bois, que visto o mau sustento e o pessimo -caminho foram julgados incapazes de chegar ao seu destino. - -Resolvi em consequencia matal-os e tirar-lhe as pelles, que vendi, -ficando-me livres de toda a despeza uns trezentos escudos que serviram -para fazer face ás primeiras necessidades da minha familia. - -É aqui que devo mencionar um encontro que me deu um dos meus mais -charos e melhores amigos. - -Aproximando-me de S. Gabriel, na retirada que acabavamos de fazer, -tinha ouvido fallar de um official italiano, dotado de grande valor e -intelligencia, que, exilado como carbonario se tinha batido em França -no dia 5 de junho de 1832, e depois no Porto durante o cerco que ahi -houve por causa da guerra entre os dois irmãos D. Pedro e D. Miguel, -vindo depois offerecer-se ao serviço das jovens republicas da America -do Sul. - -Contavam-se a seu respeito cousas tão extraordinarias que muitas vezes -disse: - ---Quando encontrar esse homem, ha-de ser meu amigo. - -Chamava-se Anzani. - -Chegando á America, tinha-se apresentado com uma carta de recommendação -a dois dos seus compatriotas MM.*** negociantes em S. Gabriel, que -tinham feito d'elle o seu _factotum_. - -Anzani exercia todos os empregos, caixeiro, guarda-livros, homem de -confiança, emfim era o bom genio d'esta casa. - -Como todos os homens fortes e corajosos, Anzani era socegado e dotado -de um excellente genio. - -A casa commercial de que elle se tinha tornado director era uma d'essas -casas como se acham unicamente na America do Sul, isto é vendendo tudo -o que é possivel imaginar. - -A villa onde residiam os nossos dois compatriotas era infelizmente -proxima da floresta que servia de refugio a essas tribus de indios de -que já dissemos algumas palavras no capitulo precedente. - -Um dos chefes d'estes indios tinha-se tornado o terror d'esta pequena -villa, á qual vinha duas vezes por anno, com a sua tribu, roubando -quanto queria sem encontrar a menor resistencia. - -Primeiramente veiu acompanhado por duzentos ou trezentos homens, depois -com cem, depois com cincoenta, segundo elle tinha visto augmentar o -terror estabelecendo o seu poder, e depois sentindo-se o senhor tinha -vindo só, e dava as suas ordens que eram obedecidas, como se por -detraz de si tivesse a sua tribu prompta a assassinar aquelle que lhe -recusasse obedecer. - -Anzani tinha ouvido fallar d'este homem e tinha escutado tudo o que -se dizia a seu respeito, sem manifestar a sua opinião sobre a audacia -d'este chefe selvagem e sobre o terror que inspirava a sua ferocidade. - -Este terror era tamanho que quando se ouvia dizer o _chefe dos Mattos_ -todas as janellas se fechavam, e todas as portas se trancavam como se -na villa andassem alguns cães damnados. - -O indio estava habituado a estes signaes de terror, que lisongeavam o -seu orgulho, escolhia a porta que queria vêr aberta, batia--abrindo-se -logo com a rapidez do relampago--e roubava tudo sem encontrar a menor -resistencia. - -Havia justamente dois mezes que Anzani dirigia a casa de commercio nos -seus maiores como menores detalhes, quando se ouviu o grito terrivel: - ---O chefe dos Mattos! - -Como o costume, portas e janellas fecharam-se precipitadamente. - -Anzani estava só em casa arranjando as contas da semana, e não julgando -que o estrondoso annuncio que acabavam de fazer valesse a pena de se -incommodar ficou assentado á sua mesa, com as janellas e portas abertas. - -O indio parou espantado diante d'essa casa que no meio do terror geral -que causava a sua chegada, se conservava indifferente á sua apparição. - -Entrou e viu encostado ao balcão um homem que socegadamente fazia as -suas contas. Parou diante d'elle de braços cruzados e olhando-o com -espanto. - -Anzani levantou a cabeça. - -Anzani era a politica em pessoa. - ---Que quer meu amigo? perguntou elle ao indio. - ---Como! que quero?! disse este. - ---Sem duvida, disse Anzani, quando se entra n'um armazem é que se quer -comprar alguma cousa. - -O indio começou a rir. - ---Pelo que vejo não me conheces? perguntou ele a Anzani. - ---Como queres que te conheça, se é a primeira vez que te vejo! - ---Sou o chefe dos Mattos, replicou o indio, mostrando no seu cinto um -arsenal composto de quatro pistollas e um punhal. - ---Então que queres? - ---Beber. - ---O que? - ---Um copo de agua-ardente. - ---Não ha nada mais facil; paga primeiro e depois tens a agua-ardente -que quizeres. - -O indio começou a rir de novo. - -Anzani franziu as sobrancelhas. - ---Em logar de me responder, tornas de novo a rir. Não acho isso mui -politico. Previno-te, pois, que se isso succede outra vez ponho-te fóra -da porta. - -Anzani tinha pronunciado estas palavras com tal firmeza, que outro -qualquer homem que não fosse o indio teria comprehendido com quem tinha -a tratar. - -Talvez o selvagem houvesse comprehendido, mas não o deu a conhecer. - ---Já te disse que me desses um copo de agua-ardente, repetiu elle -batendo com o punho no balcão. - ---E eu já te disse que o pagasses primeiro, disse Anzani, quando não, -não a bebes. - -O indio deitou um olhar colerico a Anzani, mas o olhar d'este encontrou -o seu,--o relampago havia encontrado o relampago. - -Anzani dizia muitas vezes: - ---A unica força que existe é a moral. Olhae fixa e obstinadamente o -homem que vos encarar, se elle abaixar os olhos, estaes senhor d'elle, -mas se pelo contrario sois vós que os abaixaes estaes perdido. - -O olhar de Anzani tinha um irresistivel poder. Foi o indio que foi -vencido, e conhecendo a sua inferioridade, e furioso d'este poder -desconhecido, quiz ganhar animo bebendo. - ---Está bem, disse elle, ahi tens meia piastra, da-me de beber. - ---É obrigação minha servir quem me paga, disse tranquilamente Anzani. - -E deu ao indio um copo de agua-ardente. - -O indio bebeu. - ---Outro, disse elle. - -Anzani deu-lhe outro copo. - -O indio bebeu-o como o primeiro. - ---Ainda outro, disse elle. - -Em quanto Anzani teve dinheiro suficiente para se pagar da despeza do -indio, não lhe fez nenhuma observação, mas quando o bebedor já não -tinha dinheiro para pagar, cessou de encher-lhe o copo. - ---Então? perguntou o selvagem. - -Anzani fez-lhe a sua conta. - ---Depois? insistiu o selvagem. - ---Depois?... Como não tem dinheiro, não bebe mais agua-ardente, -respondeu Anzani. - -O indio tinha formado bem o seu calculo. Os cinco ou seis copos de -agua-ardente que havia bebido, tinham-lhe dado a coragem que havia -perdido com o olhar de Anzani. - ---Agua-ardente, disse elle levando a mão a uma das pistollas, -agua-ardente, ou morres. - -Anzani que já previa o final d'esta scena, estava preparado. Tinha -cinco pés e nove pollegadas, e era dotado de uma força e agilidade -pasmosa. Apoiou a mão no balcão e saltando para o outro lado deixou-se -cair sobre o indio, agarrando-lhe o punho direito. - -O selvagem não poude aguentar o choque e caiu; Anzani não o largou e -poz-lhe o pé no peito. - -Então agarrando com a mão esquerda a mão direita do indio, tornando-lhe -por isso inoffensiva a arma, Anzani tirou-lhe do cinto as pistollas -e punhal, que espalhou pelo armazem, e arrancando-lhe a pistolla da -mão, quebrou-lhe o cano na cabeça e na cara, e julgando que o selvagem -já se achava bem castigado foi empurrando-o aos pontapés até á porta -deitando-o no meio de um grande lamaçal. - -O indio levantou-se com muita difficuldade e fugiu, mas em tal estado -que nunca mais tornou a apparecer em S. Gabriel. - -Anzani havia feito debaixo do nome de Ferrari a guerra de Portugal. -Com este nome tinha-se conduzido admiravelmente, ganho a patente de -capitão e recebido duas graves feridas: uma na testa, outra no peito, e -tão graves que no fim de dezeseis annos morreu por causa d'ellas. - -A ferida da cabeça era um golpe de sabre que lhe tinha aberto o craneo. - -A do peito foi uma balla que lhe tinha ficado no pulmão, e de que mais -tarde lhe nasceu uma phtisica pulmonar. - -Quando se lhe fallava dos prodigios de coragem que tinha praticado -debaixo do nome de Ferrari, sorria-se e dizia que elle e Ferrari eram -dois entes differentes. - -Infelizmente não podia, ao mesmo tempo que attribuia os seus prodigios -de valor a um ente imaginario, trespassar-lhe as duas feridas. - -Tal era o homem de quem me haviam fallado, e a quem eu desejava -conhecer e ter por amigo. - -Em S. Gabriel soube que tinha ido tratar de alguns negocios a sessenta -milhas de distancia. Montei então a cavallo para o procurar. - -No caminho, na margem de um pequeno rio, encontrei um homem, com o -peito nú lavando uma camisa--vi que era este o homem que procurava. - -Dirigi-me a elle, estendi-lhe a mão e disse-lhe quem era. - -Desde este momento fomos irmãos. - -Já não estava na casa de commercio, e como eu havia entrado ao serviço -da republica do Rio Grande. Era commandante de infanteria da divisão de -João Antonio, um chefe republicano dos mais conhecidos. Como eu deixava -o serviço e dirigia-se aos _saltos_. - -Depois de um dia passado juntos, demos os nossos _adresses_ respectivos -e combinámos que não emprehenderiamos movimento algum importante sem o -participarmos mutuamente. - -Seja-me permittido narrar um facto que dá bem a conhecer a nossa -miseria e a nossa fraternidade. - -Achava-me tão pobre como Anzani em camisas, em quanto que elle tinha -mais um par de calças. - -Dormimos no mesmo quarto, mas Anzani partiu antes de romper o dia e sem -se despedir. - -Quando accordei encontrei sobre o meu leito o melhor dos seus dois -pares de calças. - -Conhecia apenas Anzani, mas era um d'esses homens que se apreciam á -primeira vista, e tanto que quando entrei ao serviço da republica de -Montevideo e fui encarregado de organisar a legião italiana, o meu -primeiro cuidado foi escrever-lhe convidando-o a vir acompanhar-me. - -Veiu com effeito e desde esse dia não nos deixamos mais, até que elle -tocando na terra de Italia morreu entre os meus braços. - - - - - XXXVII - - PROFESSOR DE MATHEMATICA E CORRETOR DE COMMERCIO - - -Em Montevideo dirigi-me a casa de um dos meus amigos chamado Napoleão -Castellini. Ao seu excellente coração sou devedor de muito, para jámais -me esquecer, assim como a G. D. Cunes,--amigo de toda a minha vida,--e -aos irmãos Antoninho e Giovanni Risso. - -Gastos os poucos escudos que me tinham produzido as minhas pelles de -bois, e para não ficar com minha mulher e filho ás sopas dos meus -amigos, emprehendi duas industrias que, devo confessal-o, chegavam -apenas para satisfazer as minhas necessidades. - -A primeira era corretor de fazendas. A segunda era a de professor de -mathematica, na casa do estimavel Paulo Semidei. - -Este modo de vida durou até á minha entrada na legião oriental. - -Os negocios do Rio Grande começavam a estabelecer-se e a arranjar-se, -não tendo eu pois nada a esperar d'este lado. A republica oriental--é -assim que se chamava a republica de Montevideo--sabendo que me achava -livre não tardou em me offerecer uma occupação mais em harmonia com os -meus meios e com o meu caracter, do que a de professor de mathematica e -corretor. - -Offereceram-me e acceitei o commando da corveta--_Constituição_. - -A esquadra oriental achava-se debaixo das ordens do coronel Cosse, e a -de Buenos-Ayres ás ordens do general Brown. - - - [Ilustração: _Lith. de Castro, Poço Novo N.º 33._ - FRANCISCO 2.º] - - - - - MONTEVIDEO - -Quando o viajante chega da Europa n'um d'esses navios, que os primeiros -habitantes do paiz tomavam por casas volantes, o que vê--logo que o -marinheiro de vigia grita: «Terra» são duas montanhas. - -Uma que é a cathedral, e a outra ornada de um pharol, que é a montanha -do _Cerro_. - -Á medida que o viajante se aproxima das torres da cathedral, de que -os ornatos de porcellana brilham ao sol, o viajante vê os _mirantes_ -sem numero e de fórmas variadas que ornam todas as casas, depois essas -mesmas casas, encarnadas ou brancas, com os seus terraços, depois ao pé -do Cerro, as _salgadoras_, vastos edificios onde se salgam as carnes; -e emfim ao fundo da bacia, á borda do mar as encantadoras _quintas_, -delicia e orgulho dos habitantes onde elles vão passar todos os -domingos e dias de festa. - -Então se deitaes a ancora, entre o Cerro e a cidade, dominada, por -qualquer ponto de vista que a olheis, pela sua gigantesca cathedral, -se a canôa vos leva para a praia, puchada por seis valentes remadores, -se de dia encontraes pelas estradas grupos de encantadoras mulheres -vestidas de amazonas, se de tarde atravez as janellas abertas, deitando -para a rua torrentes de luz e harmonia, ouvis os sons do piano e de -outros instrumentos, é que estaes em Montevideo, a vice-rainha d'esse -rio de prata, de que Buenos-Ayres pretende ser a rainha, e que se lança -no Occeano por uma embocadura de oitenta leguas. - -Foi João Dias o que no principio de 1516 descobriu as praias da Prata. -A primeira cousa que o marinheiro de quarto avistou foi o Cerro, e -cheio de alegria exclamou em latim: - ---_Montem video!_ - -Sendo este o nome que ficou á republica, de que vamos rapidamente -escrever a historia. - -João Dias, já com bastante orgulho de haver no anno passado descoberto -o Rio de Janeiro, não gosou por muito tempo da sua gloria. - -Tendo deixado na bahia dois dos seus navios, e havendo subido o rio -Prata com o terceiro, confiando nos signaes de amizade que lhe fizeram -os indios, caiu n'uma emboscada sendo morto, despadaçado e devorado na -margem do rio, que em memoria d'este triste acontecimento tem o nome de -_Solis_. - -Estes indios anthropóphagos pertenciam á tribu dos Charruas que era -senhora do paiz, como na extremidade opposta do grande continente o -eram os Hures e os Sioux. - -Os hespanhoes foram pois obrigados a edificar Montevideo no meio de -combates, que se renovavam todos os dias e todas as noites, contando -por isso Montevideo apenas cem annos, apezar de ter sido descoberto em -1516. - -Pelo fim do ultimo seculo, appareceu um homem que promoveu aos -senhores primitivos da costa uma guerra de exterminação, em que foram -aniquilados. - -Tres ultimos combates--em que collocaram entre si suas mulheres e -filhos, e caíam sem recuar um passo--viram desapparecer os seus ultimos -restos, e monumentos d'esta derrota suprema; o viajante póde ainda vêr -ao pé da montanha _Augua_ os ossos dos ultimos Charruas. - -Este novo Mario era Jorge Pacheco, pae do general Pacheco e Obes de -quem, como já dissemos, tivemos todos estes promenores. - -Mas os selvagens destruidos deixaram a Pacheco inimigos mais ferozes, -mais perigosos, e mais inexterminaveis que os indios, visto que -aquelles eram sustentados, não por uma crença religiosa, que todos -os dias ia enfraquecendo, mas, pelo contrario, por um interesse -material que ia augmentando sensivelmente. Estes inimigos eram os -contrabandistas do Brazil. - -O systema prohibitivo era a base do commercio hespanhol. Havia pois -uma guerra encarniçada entre o exercito e os contrabandistas, que ou -pela estrategia ou pela força tentavam introduzir no territorio de -Montevideo as suas sedas e tabaco. - -A lucta foi longa, encarniçada e mortal. D. Jorge Pacheco dotado de -uma força herculea, de um talhe gigantesco, e de uma grande finura, -tinha alcançado--pelo menos assim o julgava--não a aniquillar os -contrabandistas, como havia feito aos Charruas, mas a affastal-os da -cidade, quando repentinamente tornaram a apparecer mais atrevidos, -mais activos, e reunidos como nunca em roda de uma vontade unica, tão -poderosa, tão corajosa, e tão intelligente como podia ser a do general -Pacheco. - -Pacheco mandou espiões por toda a parte a informarem-se do motivo -d'esta reapparição. - -Todos voltaram pronunciando um unico nome: - ---Artigas! - -Quem era este Artigas? - -Um mancebo de vinte a vinte e cinco annos, bravo como um velho -hespanhol, esperto como um Charrua, e agil como um _gaucho_: tinha tres -raças senão no sangue ao menos no espirito. Começou então uma lucta -admiravel de esperteza e força entre o general e o contrabandista, mas -um era moço e todos os dias a sua força augmentava, o outro não era -velho, mas estava já cançado. - -Durante quatro ou cinco annos Pacheco perseguiu Artigas, batendo-o -por toda a parte por onde apparecia; mas Artigas derrotado não era -nem morto, nem feito prisioneiro, e no dia seguinte começava de novo -a lucta. Pacheco cansou primeiro e como um d'esses romanos da antiga -republica, que sacrificavam o seu orgulho ao bem do paiz, disse ao -governo que resignava os seus poderes com a condição que Artigas -seria nomeado general em seu logar, porque só Artigas podia acabar a -destruição dos contrabandistas. - -O governo acceitou, e como esses bandidos romanos que se submettem ao -poder do papa e passeam venerados na cidade de que foram o terror, -Artigas fez a sua entrada triumphal em Montevideo, e começou a obra de -destruição para que havia sido chamado. - -Estes factos tiveram logar cincoenta e oito ou sessenta annos antes -dos acontecimentos em que Garibaldi vae tomar parte, mas como nós -somos author dramatico e não podemos deixar de começar um drama por um -prologo, vamos dar a conhecer aos leitores, homens e terras que lhe são -bem desconhecidos. - -Artigas tinha então vinte e sete ou vinte e oito annos, tendo na época -em que o general Pacheco me deu estes detalhes noventa e tres annos, -vivendo ignorado n'uma pequena quinta pertencente ao presidente do -Paraguay. Hoje provavelmente já tem morrido. - -Era um mancebo bello e bravo, e que representava um dos tres poderes -que reinaram em Montevideo. - -Jorge Pacheco era o typo do valor cavalheiresco do velho mundo, que -atravessou os mares com Colombo, Pizarro e Fernando Cortez. Artigas -era o homem do campo, e podia representar, o que chamavam o partido -nacional, collocado entre os portuguezes e hespanhoes, isto é entre os -estrangeiros que se tinham tornado portuguezes e hespanhoes, pela sua -habitação nas cidades onde tudo fazia lembrar os costumes portuguezes e -hespanhoes. - -Ainda havia um terceiro typo e mesmo uma terceira potencia que foi o -flagello de todos e de que é necessario dizer duas palavras. - -Este terceiro typo é o gaucho, a quem Garibaldi chama o centauro do -novo mundo. - -Na França chamamos gaucho a tudo quanto vive n'estas vastas planicies, -mas commettemos um erro: o capitão Head da marinha ingleza, foi o -primeiro a pôr em moda esta mania de confundir o gaucho com o habitante -do campo, que na sua soberba repelle não só a similhança, mas até a -comparação. - -O gaucho é o bohemio do novo mundo. Sem terras, sem casa, sem familia, -possue por toda a fortuna um casaco, um cavallo, uma faca e o laço. - -A faca é a sua arma, o laço a sua industria. - -A nomeação de Artigas foi recebida com satisfação por todos, excepto -pelos contrabandistas, e ainda se achava occupando este alto cargo -quando rebentou a revolução de 1810, revolução que tinha por fim, e que -obteve, destruir o dominio hespanhol no novo mundo. - -Esta revolução começou em 1810 em Buenos-Ayres e acabou em Bolivia na -batalha de Ayacuncho em 1824. - -O chefe das forças independentes era então o general Antonio José de -Soure, e tinha cinco mil homens ás suas ordens. - -O general em chefe das tropas hespanholas era D. José de Laserna, o -ultimo vice-rei do Peru, e commandava onze mil homens. - -Os patriotas não possuiam senão uma unica peça, eram um contra dois, -e achavam-se completamente desprovidos de munições, e de provisões de -boca. Não tinham remedio senão esperar, assim o fizeram, e quando foram -atacados ficaram vencedores. - -Foi o general patriota Aleixo Cordova que começou o combate. -Commandava mil e quinhentos homens. Poz a bandeira na ponta da espada e -gritou: - ---Ávante! - ---A marche marche, ou no passo ordinario? perguntou um official. - ---No passo da victoria, respondeu elle. - -N'essa mesma tarde todo o exercito hespanhol tinha capitulado, e -achava-se prisioneiro d'aquelles que o tinham sido seus. - -Artigas havia sido um dos primeiros a festejar a revolução. Tinha-se -posto á testa do movimento, e por sua vez offereceu a Pacheco o -commando, como annos antes elle o havia feito. - -Esta troca ia-se talvez operar quando Pacheco foi surprehendido na Casa -branca, no Uruguay, por marinheiros hespanhoes, e ficou seu prisioneiro. - -Artigas continuou a sua tarefa libertadora. Em pouco tempo expulsou os -hespanhoes do campo de que se havia tornado rei, reduzindo-os a serem -senhores unicamente de Montevideo, que podia apresentar uma séria -resistencia, visto ser a segunda cidade fortificada da America. - -A primeira era S. João de Ulloa. - -Em Montevideo achavam-se refugiados todos os partidarios dos -hespanhoes, protegidos por um exercito de quatro mil homens. Artigas -sustentado pela alliança de Buenos-Ayres começou o cerco da cidade, mas -um exercito portuguez veiu em auxilio dos hespanhoes e Artigas teve de -retirar-se. Em 1812 Montevideo soffreu novo cerco. O general Rondeau -commandava as forças de Buenos-Ayres e Artigas as dos patriotas, e -foram estes que de novo cercaram a cidade. - -O cerco durou vinte e tres mezes, tendo logar no fim d'este tempo uma -capitulação que entregou a capital da futura republica oriental aos -sitiantes, commandados então pelo general Alvear. - -Porque razão era então general em chefe Alvear e não Artigas? Vamos -dizel-o. - -É que no fim de vinte mezes de cerco, depois de tres annos de contacto -entre os homens de Buenos-Ayres e os de Montevideo, as differenças de -habitos, de costumes, e direi mesmo de raças, que tinham sido causa -de simples desintelligencias, haviam-se tornado em motivos de odios -mortaes. - -Artigas, como Achilles havia-se retirado desapparecendo pelos campos -tão seus conhecidos no tempo da sua mocidade em que exercia o mister de -contrabandista. - -O general Alvear tinha-o substituido, sendo general em chefe dos -_Portenos_, na occasião em que Montevideo se entregou. - -_Portenos_ é o nome que dão aos naturaes de Buenos-Ayres, e _Orientaes_ -aos de Montevideo. - -Tentaremos explicar as differenças que ha entre os _Portenos_ e os -_Orientaes_. - -O habitante de Buenos-Ayres fixado no paiz ha trezentos annos na pessoa -de seus avós, perdeu desde o fim do primeiro seculo da sua existencia -na America, todas as tradicções da mãe patria, isto é da Hespanha. -Os habitantes de Buenos-Ayres são hoje tão americanos, como o eram -antigamente os indios que d'ali expulsaram. - -O habitante de Montevideo, ao contrario, existindo apenas ha um seculo -no paiz,--sempre na pessoa de seus avós, bem entendido--não teve o -tempo de esquecer que é de raça hespanhola. Tem o sentimento da sua -nova nacionalidade, mas sem ter esquecido as tradicções da velha -Europa, em quanto que o de Buenos-Ayres, se affasta todos os dias da -Europa para entrar na barbaria. - -O paiz não deixa de ter sua influencia, sobre este movimento retrogrado -de um lado, progressivo do outro. - -A população de Buenos-Ayres, espalhada em areaes immensos, com -habitações muito affastadas umas das outras, em sitios completamente -desprovidos de agua, e de todos os objectos necessarios, e habitando -cabanas mal construidas, ganha um caracter sombrio, insociavel e -bulhento. As suas tendencias dirigem-se para os indios selvagens -das fronteiras, com os quaes elles negoceiam em todos os objectos -que trazem dos sitios onde a civilisação ainda não penetrou, e são -completamente desconhecidos aos europeus, dos quaes recebem em troca -agua-ardente e tabaco que levam para as grandes planicies dos pampas, -de que tomaram o nome, ou a quem póde ser deram o seu. - -A população de Montevideo, pelo contrario, possue um bello paiz, -cortado por muitos rios. Não possue vastos bosques, não tem grandes -florestas, como a America do Norte, mas as margens dos seus rios são -ornadas de bellas e magestosas arvores. Possue além d'isso bellos -edificios, e a terra produz todo o necessario para o seu sustento. As -suas casas, quintas e herdades são proximas umas das outras, e o seu -caracter franco e hospitaleiro, é inclinado a essa civilisação de que a -aproximação do mar lhe conduz continuamente. - -Para a população de Buenos-Ayres o typo da perfeição é o indio a -cavallo. - -Para a de Montevideo é o europeo apertado na sua casaca, na sua gravata -e nas botas de polimento. - -Os naturaes de Buenos-Ayres tem a pertenção de serem os primeiros da -America em elegancia. Teem mais imaginação que os de Montevideo, e os -primeiros poetas que a America conheceu, nasceram em Buenos-Ayres. -Varela e Lafinur. Domingos e Marmol são poetas portenos. - -O habitante de Montevideo é menos poetico, mas mais socegado e mais -firme nas suas resoluções e nos seus projectos. Se o seu rival tem -a pertenção de ser o primeiro em elegancia, elle tem a de o ser -na coragem. Entre os seus poetas figuram de Hidalgo, de Berro, de -Figueira, e João Carlos Gomes. - -As mulheres de Buenos-Ayres tambem teem a pretenção de serem as mais -bellas da America meridional desde Lemairé até ao Amazonas. - -Póde ser que na realidade o rosto das mulheres de Montevideo seja menos -formoso que o das suas visinhas, mas as suas fórmas são maravilhosas. - -Ha pois entre os dois paizes; - -Rivalidade de coragem e elegancia, entre os homens; - -Rivalidade de belleza e elegancia, entre as mulheres; - -Rivalidade de talento entre os poetas, esses hermaphroditas da -sociedade, colericos como os homens, caprichosos como as mulheres e -simples muitas vezes como as creanças mais innocentes. - -Havia pois, como se vê por tudo que acabamos de dizer, motivos -sufficientes para as relações serem interrompidas entre Montevideo e -Buenos-Ayres, entre Artigas e Alvear. - -Não foi unicamente uma separação, que teve logar, mas sim uma guerra. - -Todos os elementos de antipathia foram dirigidos contra os homens -de Buenos-Ayres pelo antigo chefe de contrabandistas. Pouco lhe -importavam então os meios, de que tinha a servir-se, com tanto que -alcançasse o seu fim que era expulsar do paiz os Portenos. - -Foi então que Artigas reunindo todos os recursos que lhe offerecia o -paiz, se poz á testa d'esses bohemios da America que se chamam gauchos. - -A guerra que fazia Artigas tinha alguma cousa de santa; assim nada -lhe podia resistir, nem o exercito de Buenos-Ayres, nem o partido -hespanhol, que sabia perfeitamente que a entrada de Artigas em -Montevideo, era a substituição da força brutal á intelligencia. - -Os que tinham previsto esta volta á barbaria não se haviam enganado. -Pela primeira vez homens vagabundos, por civilisar, e sem organisação, -viam-se formando um exercito e com um general. Durante a dictadura de -Artigas teve logar um periodo que tem alguma analogia com o nosso de -1793. Montevideo viu o reinado do homem dos pés nús, dos _casoncillos_ -fluctuantes, da _chiripa_ escosseza, do _puncho_ despedaçado, e com o -chapeu deitado sobre a orelha seguro pelo _barlipo_. - -Então Montevideo foi testemunha de scenas inauditas grotescas, e -algumas vezes terriveis. Muitas vezes as primeiras classes da sociedade -foram reduzidas á impotencia, Artigas tendo de menos a crueldade e de -mais a coragem, tornou-se então o que mais tarde devia ser Rosas. - -A dictadura de Artigas teve não obstante muitas cousas de brilhante e -nacional. Uma foi a lucta de Montevideo contra Buenos-Ayres, em que -Artigas derrotou sempre as forças d'este paiz e de que fez cessar a -influencia e a resistencia ao exercito portuguez que invadiu o paiz em -1815. - -O pretexto d'esta invasão foi a desordem da administração de Artigas -e a necessidade de salvar os povos visinhos de desordens eguaes, que -podia fazer nascer entre elles o contagio do exemplo. Estas desordens -tinham no mesmo paiz, dobrado a opposição que fazia o partido da -civilisação. As classes elevadas sobre tudo desejavam do coração uma -victoria que substituisse o dominio portuguez a esse dominio nacional -que trazia a brutal tyrannia da força material. Comtudo não obstante -os ataques portenos e dos portuguezes, Artigas resistiu quatro annos, -dando tres batalhas, e vencido retirou-se para Entre rios, isto -é para o outro lado do Uruguay. Ahi, apezar de se achar fugitivo, -Artigas representava ainda, se não pelas suas forças, ao menos pelo -seu nome, um poder respeitavel, quando Ramiro seu tenente se revoltou, -contra elle, collocando-se á frente da terça parte das suas forças, e -derrotando-o de modo que lhe tirou toda a esperança de reconquistar a -sua posição perdida, obrigando-o a sair d'este paiz aonde como Anteo, -parecia ganhar novas forças todas as vezes que ahi tocava. - -Foi então que, egual a uma d'essas trombas que se evaporam, depois -de ter deixado a desolação e as ruinas na sua passagem, Artigas -desappareceu retirando-se para o Paraguay, onde, como já dissemos, em -1848 na época em que Garibaldi defendia Montevideo, vivia ainda tendo -noventa e tres ou noventa e quatro annos, gosando de todas as suas -faculdades intellectuaes e de quasi todas as suas forças. - -Artigas vencido não fez opposição ao dominio portuguez que se -estabeleceu no paiz, e o barão de Laguna francez de origem foi seu -representante em 1825. N'este anno Montevideo como todas as possessões -portuguezas da America foram cedidas ao Brazil. - -Montevideo foi então occupado por um exercito de oito mil homens e tudo -parecia assegurar ao imperador a sua pacifica posse. - -Foi então que um natural de Montevideo, proscripto, residente em -Buenos-Ayres, reuniu trinta e dois companheiros proscriptos como elle, -e decidiram que dariam a liberdade á patria ou que morreriam. - -Este punhado de patriotas embarcou em duas canoas e desembarcou no -Grande Areal. - -O chefe chamava-se João Antonio Lavalleja. - -Lavalleja havia de antecipação tido relações com um proprietario do -paiz que devia no momento do seu desembarque, ter os cavallos promptos. -Assim logo que desembarcou enviou-lhe um mensageiro, que lhe trouxe -em resposta que tudo estava descoberto, que os cavallos haviam sido -roubados e que Lavalleja e os seus companheiros não tinham outro -partido a tomar senão embarcarem de novo e o mais depressa possivel, -devendo dirigir-se para Buenos-Ayres. - -Mas Lavalleja respondeu que não partia, pois não podia, nem queria -recuar, e ordenando aos remadores de voltarem para Buenos-Ayres sem -elle, tomou posse, no dia 19 de abril, de Montevideo em nome da -liberdade. - -No dia seguinte os trinta valentes que tinham apanhado alguns cavallos, -com o consentimento de seus donos, pozeram-se em marcha para a capital, -mas foram encontrados por um destacamento de cavalleiros, de que -quarenta eram brazileiros e cento e sessenta orientaes. - -Eram commandados por um antigo irmão de armas de Lavalleja, o coronel -Jurien. Lavalleja podia evitar o combate, mas não o quiz e marchou -direito aos duzentos cavalleiros, e pediu uma entrevista ao coronel -antes de entrar em combate. - ---Que quer e que vem aqui fazer? perguntou Jurien a Lavalleja. - ---Venho libertar Montevideo do dominio estrangeiro, respondeu -Lavalleja, se tem as minhas idéas acompanhe-me, se não, entregue-me as -suas armas, ou prepare-se para o combate. - ---Não comprehendo o que querem dizer essas palavras = _entregue-me as -suas armas_, respondeu o coronel, e espero que ninguem m'as ha-de -explicar. - ---Então tome o commando dos seus soldados, e vamos vêr por quem é Deus. - ---Veremos, disse Jurien. - -E partiu a galope a unir-se aos seus soldados. - -Mas no mesmo momento Lavalleja desenrolou a bandeira nacional, azul, -branca e encarnada e immediatamente os cento e sessenta orientaes -passaram para o seu lado. - -Os quarenta brazileiros foram feitos prisioneiros. - -A marcha de Lavalleja para Montevideo foi uma verdadeira marcha -triumphal, de que o resultado foi que a republica oriental, proclamada -pela vontade e enthusiasmo de um povo inteiro, tomou logar entre as -nações. - - - - - ROSAS - - -Durante estes acontecimentos engrandecia-se um nome que mais tarde -devia ser o terror da federação argentina. - -Pouco depois da revolução de 1810 um mancebo de quinze a dezaseis -annos saía de Buenos-Ayres, abandonando a cidade e dirigindo-se para o -campo. Ia muito perturbado e caminhava apressadamente. - -Este mancebo chamava-se João Manoel Rosas. - -Porque esta creança, este fugitivo abandonava a casa onde havia -nascido? Porque ia pedir um asylo aos habitantes dos montes? É porque -acabava de insultar sua mãe, como mais tarde devia insultar a sua -patria; ia perseguido pela maldição paterna. - -Este successo, sem nenhuma importancia para os acontecimentos d'aquelle -paiz, esqueceu bem depressa no meio de factos mais serios que então -tiveram logar, e em quanto todos os antigos companheiros do fugitivo -se reuniam debaixo do estandarte da independencia para combater os -hespanhoes, Rosas, andava pelos _pampas_ entregando-se á vida dos -gauchos, adoptando o seu vestuario e costumes, tornando-se um dos -melhores cavalleiros e um dos homens mais habeis d'essas immensas -planicies, no manejo do laço e da bola, de sorte que vendo-o tão habil -n'estes exercicios selvagens, quem não o conhecesse não o tomaria por -um habitante da cidade, nem por um _pueblero_ fugitivo, mas por um -verdadeiro gaucho. - -Rosas entrou primeiramente como _peon_, isto é jornaleiro, em uma -estancia, depois foi _capataz_,--Garibaldi já nos explicou o que era um -_capataz_--chegando depois a _mayordomo_. - -N'esta qualidade governava os bens da poderosa familia Anchorena. É -d'ahi que começa a sua fortuna como proprietario. - -Sendo o nosso designio fazer conhecer Rosas debaixo de todos os -aspectos; vamos dizer qual era a situação do seu espirito no meio dos -acontecimentos que então tinham logar. - -Rosas tinha estado em Buenos-Ayres durante os prodigios praticados -pela revolução contra a Hespanha. Então quem tinha coragem procurava -a celebridade no campo da batalha, quem tinha instrucção procurava-a -nos conselhos. Rosas era ambicioso de celebridade, mas qual era a que -elle poderia esperar? Que nome poderia adquirir, elle que não tinha nem -coragem para se apresentar no campo da batalha, nem instrucção alguma -para adquirir um nome entre os homens da sciencia? A todos os momentos -ouvia proferir a seu lado alguns nomes que se haviam tornado celebres. -Eram como ministros, Rivadaria, de Pasos, de Aguerro, como guerreiros, -Saint-Martin, de Baléarés, de Rodrigues, e de Las Heras. - -E todos estes nomes de que o ruido, vindo da cidade, ia achar éco nas -solidões dos campos, todos estes nomes avivavam o seu odio contra essa -cidade que tendo triumphos para todos, não tinha para elle senão o -exilio. - -Já n'esta época Rosas pensava no futuro e preparava-o. Errando pelos -pampas, confundido com os gauchos, fazia-se o companheiro da miseria do -povo, elogiando os prejuizos do homem das planicies, excitando-o contra -os cidadãos, demonstrando-lhe a superioridade do numero e diligenciando -fazer-lhe comprehender que quando quizessem os habitantes do campo, -seriam senhores da cidade. - -Os annos foram passando, até que chegamos a 1820. - -Foi então que Rosas começou a apparecer, apoiado na influencia que -havia adquirido nos habitantes das planicies. - -Já vimos o que se passou em Montevideo. Vejamos agora o que se passou -em Buenos-Ayres. - -A milicia de Buenos-Ayres rebellou-se contra o governador Rodrigues. -Então um regimento das milicias do campo, _los colorados de las -Conchas_ entraram na cidade, em 5 de outubro de 1820, tendo á sua -frente um coronel, que era conhecido em Buenos-Ayres, e que conhecia -Buenos Ayres. - -Este coronel era Rosas. - -No dia seguinte as milicias do campo, e as milicias da cidade vieram ás -mãos, mas n'esse dia o coronel não estava á frente do regimento. - -Uma violenta dôr de dentes, que Rosas deixou de soffrer assim que -finalisou o combate, affastava-o, com grande pezar, do campo da -batalha. E porque não teria elle razão? Octavio tambem teve um grande -ataque de febre no dia da batalha de Actium. - -Rosas parecia-se muito com Octavio; mas mais tarde Octavio foi Augusto, -o que segundo todas as probabilidades nunca será Rosas. - -Esta entrada em Buenos-Ayres foi a unica expedição guerreira em que -Rosas tomou parte durante toda a sua vida politica. - -Foi então que Rivadavia, já mui conhecido, foi nomeado ministro do -reino, tomando a direcção de todos os negocios. - -Rivadavia era um d'esses homens de genio, como apparecem no meio das -revoluções durante os dias de tormenta. Havia viajado muito na Europa, -possuindo uma instrucção universal, e parecendo animado do mais ardente -e puro patriotismo. Infelizmente a vista da civilisação europea, que -tinha estudado em Paris e Londres havia-lhe feito nascer falsas idéas -da sua applicação a um povo que não tendo por detraz de si dez seculos -de luctas sociaes, não as podia admittir. - -Rivadavia queria dobrar a marcha do tempo e fazer o mesmo pela America -que Pedro o Grande havia feito pela Russia; mas não tendo á sua -disposição os meios de Pedro foi obrigado a desistir das suas intenções. - -Póde ser que com mais alguma esperteza Rivadavia as tivesse alcançado, -mas censurava os homens pelos seus habitos e certos habitos são uma -nacionalidade e outros um orgulho. Escarnecia os trajes americanos, -manifestando a sua repugnancia pela _jaqueta_, o seu desprezo pela -_chiripa_, o vestuario do homem dos campos, e como ao mesmo tempo -não occultava a sua preferencia pela casaca e bota de polimento, -despopularisou-se pouco a pouco, e sentiu o poder prestes a escapar-lhe. - -E não obstante que de beneficios não fez ao seu paiz em troca d'esses -vestidos ridiculos que lhe queria tirar? A sua administração foi a mais -prospera que Buenos-Ayres teve. Foi elle que fundou a universidade, -os liceos, e que introduziu nas escolas o ensino mutuo. Durante a sua -administração, muitos sabios foram chamados da Europa, as artes foram -protegidas, desenvolvendo-se muito, emfim Buenos-Ayres era chamada a -Athenas da America do Sul. - -Já fallámos da guerra de Buenos-Ayres em 1826. Para sustentar esta -guerra, Buenos-Ayres fez sacrificios enormes, exgotando as suas -finanças, e enfraquecendo por esse motivo muito as molas da sua -administração. - -Exgotadas as finanças, enfraquecido o governo, as revoluções começaram. - -Já dissemos que em Buenos-Ayres como em Montevideo, o campo e a cidade -nunca estavam em harmonias de opiniões, como nunca o estavam em -harmonias de interesse. - -Buenos-Ayres fez uma revolução. - -Immediatamente o campo fez uma revolução, e dirigindo-se sobre -Buenos-Ayres, invadiu a cidade e fez o seu chefe governador. - -Este chefe era Rosas. - -Vamos fechar o parenthesis, aberto algumas paginas atraz. - -Em 1830 Rosas foi eleito governador pela influencia dos habitantes do -campo, não obstante a opposição da cidade, que elle encontrou meia -policiada pela administração de Rivadavia. - -Então Rosas, o gaucho, tentou reconciliar-se com a civilisação, -parecendo querer esquecer os costumes selvagens adoptados por elle até -então: a serpente queria mudar de pelle. - -Mas a cidade resistiu ás suas tentativas, e a civilisação recusou -receber o transfuga que se havia passado para o campo da barbaria. -Rosas mostrava-se revestido de um uniforme, e immediatamente os -militares perguntavam em que campo de batalha havia elle ganho aquellas -dragonas. Fallava n'uma reunião, e logo os homens intelligentes -perguntavam entre si onde tinha elle ido aprender aquelle estylo; -quando apparecia n'um passeio, as mulheres designando-o com o dedo -diziam: «Ahi vae o gaucho disfarçado!» - -Os tres annos do seu governo passaram-se n'esta lucta mortal para o -seu orgulho, e póde ser que a estas torturas moraes que lhe fizeram -soffrer n'este periodo, seja devida a sua ferocidade. D'esta maneira -quando resignou o poder e desceu a escada do palacio, com a alma cheia -de odio, e o coração de fel, sabendo que desde então não havia alliança -possivel com a cidade, foi ter de novo com os seus fieis gauchos, e as -suas estancias de que era o senhor, com a intenção de um dia entrar -de novo em Buenos-Ayres, como Scylla, que elle não conhecia e de quem -provavelmente nunca havia ouvido fallar, havia entrado em Roma, com a -espada n'uma mão e uma tocha m outra. - -Para alcançar este fim vejamos o que elle fez. Pedia ao governo que lhe -concedesse um commando qualquer no exercito que ia combater os indios -selvagens. O governo que o temia julgou affastal-o concedendo-lhe este -favor, e deu-lhe todas as tropas de que podia dispôr, esquecendo que se -enfraquecia mettendo todo o poder nas mãos de Rosas. - -Este logo que se achou á frente do exercito fez uma revolução em -Buenos-Ayres, fez-se chamar ao poder que não acceitou senão com grandes -condições, porque tinha ás suas ordens todo o exercito, e entrou em -Buenos-Ayres com a dictadura mais absoluta de que se tem conhecimento, -isto é _com toda la suma del poder publico_--com toda a extensão do -poder publico. - -O governador que elle fez cair, ou antes que elle precipitou era o -general João Romão Baleace, um dos homens que tinha mais trabalhado -na guerra da independencia, e um dos chefes do partido federal de -que Rosas se dizia o sustentaculo. Baleace era um nobre coração e a -sua fidelidade á patria era proverbial. Havia acreditado em Rosas e -tinha trabalhado muito para a sua elevação. Baleace foi o primeiro -sacrificado por Rosas, morrendo proscripto e quando o seu cadaver -repassou a fronteira, protegido pela morte, Rosas recusou á sua -familia, não as honras funebres que eram devidas a um ex-governador, -mas as simples ceremonias a quem todo o cidadão tem direito. - -Em 1833 foi que começou o verdadeiro poder de Rosas. No seu primeiro -governo, cheio de dissimulação, não tinha apresentado os seus -instinctos de crueldade, que fizeram depois d'elle uma celebridade -de sangue. Este primeiro periodo não tinha sido marcado senão pelo -fuzilamento do major Monteiro e dos prisioneiros de S. Nicolau. Comtudo -não devemos esquecer que foi n'esta época que tiveram logar muitas -mortes sombrias e subitas, d'essas mortes de que a historia inscreve a -data com tinta encarnada no livro das nações. - -D'esta maneira desappareceram dois chefes de que a influencia poderia -fazer alguma sombra a Rosas. As mortes de Arbolito e de Molina tiveram -logar n'esta época. O mesmo aconteceu, segundo nos parece, aos dois -consules que acompanharam Octavio na sua primeira batalha contra -Antonio. - -Daremos mais alguns detalhes de Rosas que ainda não nos appareceu -senão como dictador, mas tendo já alcançado um poder como poucos homens -tem exercido n'uma nação. - -Em 1833, Rosas contava trinta e nove annos. Tinha o aspecto europeo, -cabellos louros, olhos azues, e uma presença soffrivel. Não usava -nem de barbas, nem de bigodes. O seu olhar seria bello se se podesse -examinar, mas Rosas havia-se habituado a não olhar de frente, nem os -seus amigos nem os seus inimigos, porque sabia que n'um amigo existe -quasi sempre um inimigo disfarçado. A sua voz era doce, e, quando tinha -necessidade de agradar a sua conversação tinha muito de attrahente. -A sua reputação de cobarde é proverbial, e a de esperto é universal. -Adorava as mystificações, sendo esta a sua grande occupação antes de se -entregar aos negocios serios. Uma vez chegado ao poder, não foi senão -uma distracção, que eram brutaes como a sua natureza. - -Citemos um ou dois exemplos: - -Uma tarde que devia jantar na companhia de um dos seus amigos, occultou -o vinho destinado a beber-se e deixou unicamente no bofete uma garrafa -do famoso licor de Leroy, que para ser completamente celebre só lhe -falta ser descuberto no tempo de Moliere. O amigo procurando o vinho -só achou a garrafa de Leroy e encontrando-lhe um gosto mui agradavel, -bebeu-a toda. Rosas não bebeu se não agua, e partiu logo que acabou o -jantar para a sua estancia. - -Durante a noite o amigo de Rosas soffreu dores infernaes. Rosas riu -muito d'este seu innocente brinquedo, se elle tivesse morrido, Rosas -teria, sem duvida, rido muito mais. - -Quando recebia algum cidadão em uma das suas estancias, fazia-o montar -em cavallos muito fogosos e a sua alegria era conforme a gravidade da -queda que o cavalleiro dava. - -No palacio do governo achava-se sempre rodeado de loucos e de imbecis, -e no meio dos negocios mais serios conservava este singular cortejo. -Quando sitiava Buenos-Ayres, em 1829, tinha a seu lado quatro d'estes -pobres diabos, que havia feito monges, tornando-se em virtude do seu -poder, seu prior. Chamavam-se frei Biqua, frei Chaja, frei Lechuza, e -frei Biscacha. Rosas gostava muito de confeitos, tendo-os sempre de -todas os qualidades na sua tenda. - -Os monges que tambem gostavam muito de confeitos, roubavam alguns de -quando em quando. Rosas então chamava-os a todos e os monges que sabiam -o que lhe custaria a mentir, confessavam o crime. - -Immediatamente o culpado era despojado dos vestidos e fustigado pelos -seus tres companheiros. - -Todos conheciam em Buenos-Ayres o seu mulato Eusebio, e para isso muito -concorreu Rosas que em um dia de recepção publica, teve a idéa de fazer -o mesmo que a condessa Dubarry fazia com o preto Zamora. - -Eusebio vestido de governador recebeu os cumprimentos das authoridades, -em logar do seu _senhor_. - -Não obstante a amizade que Rosas tinha a Eusebio, teve um dia a -lembrança de lhe fazer uma _brincadeira_, como costumavam ser todas -as que esta boa alma inventava. Fingiu que acabava de ser descoberta -uma conspiração, contra elle, de que o chefe era Eusebio. O fim -d'esta conspiração era matar Rosas. Eusebio foi preso apezar dos seus -protestos de innocencia. Rosas dominava os juizes a tal ponto que elles -não se importavam se o accusado era ou não innocente. Rosas accusava, e -elles julgaram e condemnaram Eusebio á morte. - -Eusebio soffreu todos os preparativos do supplicio. Confessou-se, e -sendo depois conduzido ao logar do supplicio, ahi encontrou o carrasco -e seus ajudantes, e quando este _brinquedo_ estava quasi a terminar -tragicamente, appareceu Rosas que disse a Eusebio estar sua filha -Manuelita apaixonada por elle, e que por isso lhe perdoava, com a -condição de a desposar. - -É inutil dizer que Eusebio não morrendo do supplicio esteve quasi a -morrer de medo. - -Vamos agora dizer aos nossos leitores quem era como mulher esta -Manuelita que a Providencia tinha collocado ao pé de seu pae como um -bom anjo, de que a principal occupação, durante toda a sua vida, foi -repetir todos os dias a palavra _perdão_, alcançando-o muitas vezes. - -Manuelita é hoje uma mulher de quarenta annos que por dedicação por -seu pae, e póde ser, que talvez pela missão que recebeu do ceu, se tem -conservado solteira, pelo menos até 1850, época em que a perdemos de -vista. - -Manuelita não era precisamente uma mulher encantadora, mas era bella, -com uma figura distincta, dotada de um tacto profundo, coquette como -uma parisiense, e muito preoccupada, sobre tudo do effeito que produzia -nos estrangeiros. - -Manuelita foi muito calumniada, o que era muito natural por ser filha -de Rosas, isto é, do homem sobre o qual convergiam todos os odios. Era -accusada de ter herdado os sentimentos crueis de seu pae, e de ter, -como a filha do papa Borgia, esquecido o amor filial por outro mais -terno e menos christão. - -Tudo isto é falso. Manuelita ficou solteira por duas razões: a primeira -porque Rosas sentia muitas vezes a necessidade de ser amado, e sabia -que o unico amor real, dedicado, infinito, sobre que podia contar era -o de sua filha. Manuelita ficou solteira porque, talvez, nos seus -sonhos de realeza, Rosas, hoje simples particular, vivendo num canto da -Inglaterra, via no futuro brilhar para Manuelita alguma alliança mais -aristocratica do que aquellas a que poderia então aspirar. - -Tanto a historia deve ser severa para com Rosas, tanto, a menos de -ser injusta, deve ser cheia de indulgencia para com Manuelita, a quem -todos que a conhecem fazem justiça, reconhecendo o que dizemos como uma -verdade. Manuelita foi o dique eterno, que fazia parar a colera de seu -pae. Quando creança tinha um meio muito extravagante para obter d'elle -a graça que pedia. - -Fazia despir completamente o mulato Eusebio, arreiando-o como um -cavallo, e calçava uns lindos sapatos com esporas. Eusebio punha as -mãos no chão, e Manuelita montava-se-lhe nas costas, fazendo caracolar -o seu bucephalo humano diante de seu pae que ria muito d'este singular -brinquedo, concedendo a Manuelita o perdão que implorava. - -Mais tarde quando ella comprehendeu que não podia empregar este meio, -apezar de ser tão efficaz, começou a pôr em pratica a obra de Mecena ao -pé de Augusto, quando elle lhe lançava as suas tabuas nas quaes estava -escripto: _Surge, carnifex_! Mas Manuelita procedia de outra maneira, -porque conhecendo seu pae perfeitamente, sabia as vaidades secretas que -era necessario fazer vibrar, e por isso muitas vezes alcançava o que -pedia. - -Manuelita era ao mesmo tempo a rainha e escrava de seu pae. -Administrava a casa, cuidava de Rosas, e encarregada de todas -as relações diplomaticas era o verdadeiro ministro dos negocios -estrangeiros de Buenos-Ayres. - -Assim como Rosas era um ente á parte, que não se confundia com pessoa -alguma na sociedade, Manuelita era tambem uma creatura não só estranha -no meio de todas, mas mesmo estranha a todas, e que viveu n'este mundo -solitaria, longe do amor dos homens e da sympathia das mulheres. - -Rosas tambem tinha um filho chamado João, mas que nunca seguiu a -politica de seu pae, e uma filha que ainda creança casou, sendo hoje -uma casta esposa e mãi feliz, tendo um nome, o de seu marido, honrado e -respeitado por todos. - -Tendo alcançado o poder, o grande trabalho de Rosas, foi anniquilar a -federação. - -Lopes o seu fundador, cahiu doente. Rosas mandou-o vir para -Buenos-Ayres e tornou-se seu enfermeiro. - -Lopes morreu envenenado. - -Quiroga, o chefe da federação, que havia escapado são e salvo de -vinte batalhas, e de quem a coragem e lealdade era proverbial, morreu -assassinado. - -Cullen, o conselheiro da federação, foi nomeado governador de Santa -Fé. Rosas improvisou uma revolução, e Cullen foi entregue a Rosas pelo -governador de São Thiago. - -Cullen foi fuzillado. - -Todos os homens notaveis no partido federal tiveram a mesma sorte que -tinham tido na Italia os homens de consideração durante o dominio dos -Borgias. Pouco a pouco, Rosas, empregando os mesmos meios que Alexandre -VI e seu filho Cesar, conseguiu reinar na republica argentina, que -apezar de reduzida a uma perfeita unidade, conserva ainda o nome -pomposo de federação, e vae talvez, ser inimiga dos _unitarios_. - -Diremos algumas palavras dos homens que acabamos de nomear, fazendo -reviver algum tempo os seus spectros accusadores, o que dará alguma -idéa da scena de Shakespeare no _Ricardo 3.º_, antes do combate. - -Havia n'esses homens uma especie de selvajaria politica que é digna de -ser conhecida. - -Fallemos primeiramente do general Lopes. Uma unica anedocta, dará não -sómente idéa d'este chefe, mas fará conhecidos os homens com quem elle -tinha a tratar. - -Lopes era governador da Santa Fé, e tinha em Entre Rios um inimigo -pessoal, o coronel Ovando, que em seguida a uma revolta foi conduzido -prisioneiro ao general Lopes. - -O general almoçava. Recebeu perfeitamente Ovando e convidou-o a -almoçar. A conversação travou-se entre elles como entre dois convivas, -aos quaes uma egualdade de condições tivesse ordenado a mais perfeita -cortezia. - -Comtudo no meio da conversação, Lopes exclamou: - ---Coronel, se eu tivesse cahido nas suas mãos, como cahiu nas minhas e -isto no momento em que almoçasse, que faria? - ---Convidal-o-ia para almoçar, como v. ex.ª acaba de fazer. - ---E depois? - ---Mandava-o fuzillar. - ---Estimo muito que pense do mesmo modo que eu. Acabando de almoçar será -fuzillado. - ---Se não se quer demorar muito, póde ser já. - ---Não, não, acabe de comer descançado, não tenho muita pressa. - -E continuaram a almoçar com todo o descanço, e tendo concluido: - ---Julgo ser tempo, disse Ovando. - ---Agradeço-lhe o não haver esperado que eu o lembrasse, respondeu Lopes. - -Depois chamando o seu camarada. - ---O piquete está prompto? perguntou elle. - ---Sim, meu general, respondeu o soldado. - -Então voltando-se para Ovando: - ---Adeus, coronel, disse Lopes. - ---Adeus, não; mas sim até á vista, porque não se vive muito tempo -quando se fazem guerras como as nossas. - -E cumprimentando Lopes sahiu. Cinco minutos depois, o estrondo de uma -descarga annunciou a Lopes que o coronel Ovando havia entregue a alma a -Deos. - -Passemos a Quiroga. - - - - - QUIROGA - - -Este é mais nosso conhecido. A sua reputação atravessando os mares, fez -echo em Paris, e a moda apoderou-se d'elle: de 1820 a 1823 todos tinham -capotes á Quiroga e chapeus á Bolivar. É provavel que nem um nem outro -tivessem usado dos capotes e chapeus que os seus admiradores adoptaram -a duas mil leguas de distancia. - -Quiroga, como Rosas, era tambem camponez e havia servido, na sua -mocidade, como sargento no exercito de linha contra os hespanhoes. - -Retirado ao seu paiz natal, a Rioja, entrou nos partidos internos, e -tornado-se senhor do paiz, lançou-se na lucta das differentes facções -da republica, e foi n'estas luctas que se mostrou pela primeira vez á -America. - -No fim de um anno, Quiroga era a espada do partido federal, e é talvez -o unico homem que tenha obtido similhantes resultados pela simples -applicação do seu valor pessoal. O seu nome tinha alcançado um tal -prestigio que só elle valia muitos exercitos. - -A sua grande tactica no meio dos combates, era chamar para o pé de si o -maior numero de perigos, e quando repentinamente dava o grito de guerra -brandindo na mão essa longa lança que era a sua arma predilecta, os -mais bravos faziam conhecimento com o medo. - -Quiroga era cruel, ou antes feroz, mas na sua ferocidade havia sempre -alguma cousa de grande e generoso. Era a ferocidade do leão e não a do -tigre. - -Quando o coronel Pringles, um dos seus maiores inimigos, foi feito -prisioneiro e assassinado, o seu assassino apresentou-se a Quiroga, seu -chefe, julgando ter ganho uma boa recompensa. - -Quiroga deixou-lhe contar o seu crime, e mandou-o fuzillar. - -Uma outra vez dois officiaes pertencentes ao partido inimigo foram -feitos prisioneiros pelos soldados de Quiroga que lembrando-se do -castigo do seu camarada, os conduziram sãos e salvos á presença do seu -chefe. - -Quiroga offereceu-lhe abandonar as suas bandeiras, servindo debaixo das -suas ordens. - -Um acceitou, outro recusou. - ---Está bem, disse elle ao que havia acceitado, montemos a cavallo e -vamos vêr fuzillar o seu camarada. - -Aquelle sem fazer a menor observação, apressou-se a obedecer, e -conversou todo o caminho alegremente com Quiroga de quem se julgava já -ajudante de campo, em quanto o seu camarada cercado por um piquete, com -as armas carregadas, marchava tranquillamente para a morte. - -Chegado ao logar destinado para a execução, Quiroga mandou ajoelhar o -official que tinha recusado trahir o seu partido, e disse-lhe que se -preparasse para morrer, e quando o viu prompto: - ---Vamos, disse Quiroga, ao pobre official que se julgava já morto, és -um bravo.--Monta no cavallo do teu camarada e parte. - -E designava o cavallo do renegado. - ---E eu? perguntou este. - ---Tu, respondeu Quiroga, não precisas cavallo porque vaes morrer. - -E apezar das supplicas que lhe fez em favor do seu camarada, aquelle a -quem acabava de dar a vida, mandou-o fuzillar. - -Quiroga só foi vencido uma vez, e essa pelo general Paz, o Fabio -americano. Duas vezes destruiu o exercito de Quiroga nas terriveis -batalhas de Tablada e Oncativo. Era um bello espectaculo para esses -jovens republicanos o vêr a arte, a tactica e a estrategia em lucta -contra a coragem indomavel e a vontade de ferro de Quiroga. Mas uma vez -o general Paz foi feito prisioneiro, a cem passos do seu exercito, e -desde essa época Quiroga foi invencivel. - -Terminada a guerra entre o partido unitario e o partido federal, -Quiroga emprehendeu uma viagem ás provincias interiores sendo na -volta, attacado em Barrancallaco por trinta assassinos, que fizeram -fogo sobre a carroagem. Quiroga que se achava n'esta occasião doente, -estava deitado, na carroagem, tendo-lhe por isso atravessado o peito -uma balla. Apesar d'isso Quiroga levantou-se pallido e ensanguentado e -abriu a portinhola. Vendo-o em pé, apezar de estar quasi cadaver, os -assassinos fugiram; mas Santos Peres, seu chefe, dirigiu-se a Quiroga -e dando-lhe um golpe na cabeça acabou de o matar. - -Então os assassinos voltaram e acabaram a obra começada. Eram os irmãos -Renafé, commandantes em Cordova que de accordo com Rosas dirigiam esta -expedição. Mas Rosas tinha tido todo o cuidado de affastar de si todas -as suspeitas, de modo que ninguem julgou fosse elle um dos cumplices em -similhante morte, podendo por isso tomar o partido do que tinha feito -assassinar, perseguindo os assassinos que foram presos, julgados, e -fuzillados. - -Falta Cullen. - -Cullen, que tinha nascido em Hespanha, havia-se estabelecido na -cidade de Santa Fé, onde se tinha ligado com Lopes, sendo depois seu -ministro e director na politica. A immensa influencia que Lopes teve na -republica argentina, desde 1820 até á sua morte em 1833, fez de Cullen -uma personagem muito importante. Quando nos dias de sua desgraça, Rosas -proscripto emigrou para Santa Fé, recebeu de Cullen toda a especie -de serviços, mas esses serviços não poderam fazer esquecer ao futuro -dictador que Cullen era um dos homens que queriam acabar com o reinado -da arbitrariedade na republica argentina. Comtudo soube occultar o seu -odio a Cullen debaixo das apparencias da maior amizade. - -Pela morte de Lopes, Cullen foi nomeado governador da Santa Fé -consagrando-se a fazer grandes melhoramentos na provincia, e em -logar de se mostrar inimigo da França, mostrou por esta nação muitas -sympathias, considerando que a sua alliança era um grande passo para -as suas idéas civilisadoras. Então Rosas promoveu uma revolução, que -appoiou publicamente, sendo coadjuvado por alguma tropa. Cullen vencido -refugiou-se na provincia de Santiago del Estero, que governava o seu -amigo Ibarra. Rosas, que destruindo a federação tinha já declarado -Cullen _selvagem unitario_, entabolou negociações com Ibarra afim de -lhe entregar Cullen. - -Durante muito tempo estas negociações não obtiverão resultado algum, -julgando-se Cullen, seguro pela confiança que tinha no seu amigo, mas -um dia foi preso pelos soldados de Ibarra e conduzido a Rosas que o -mandou assassinar no meio do caminho, porque disse elle n'uma carta -dirigida ao governador de Santa Fé que tinha succedido a Cullen, o seu -_processo estava feito pelos seus crimes que eram conhecidos por todos_. - -Cullen era dotado d'uma conversação agradavel e d'um coração generoso. -A sua influencia sobre Lopes foi sempre empregada a evitar toda a -especie de rigor, e foi em resultado d'esta influencia que o general -Lopes, não obstante as supplicas de Rosas, não consentiu em mandar -fuzillar um unico dos prisioneiros da campanha de 1831, campanha que -poz em seu poder os chefes mais importantes do partido unitario. - -Cullen possuia uma instrucção superficial e os seus talentos eram -mediocres. - -Foi d'esta sorte que Rosas, o unico que talvez não teve nenhuma gloria -militar, entre os chefes do partido federal, se desembaraçou dos -chefes d'este partido, ficando desde então a pessoa mais importante da -republica argentina, e senhor absoluto de Buenos Ayres. - -Então Rosas tendo alcançado todo o poder, commeçou a sua vingança -contra as classes elevadas que até então o tinham despresado. No meio -das personagens mais aristocratas e mais elegantes mostrava-se sempre -vestido de jaqueta, ou sem gravata. Aos seus bailes a que presidia com -sua mulher e filha, não eram convidados senão os carreiros, sapateiros, -etc. Um dia abriu o baile dançando com uma escrava, e Manuelita com um -gaucho. - -Mas não foi só d'esta maneira que elle puniu a soberba cidade, porque -proclamou o terrivel principio: - - «_o que não está comigo é contra mim_» - -E desde então todo o homem que lhe desagradava foi classificado de -_selvagem unitario_, e o que uma vez Rosas havia designando por este -nome não tinha mais direito nem á vida nem á honra. - -Então para por em pratica as theorias de Rosas, organisou-se debaixo -dos seus auspicios a famosa sociedade MAS-FORCA, isto é, ainda ha -forca. Esta sociedade era composta de tudo quanto havia de peor na -sociedade. - -N'ella se achavam filiados por ordem superior o chefe da policia, os -juizes de paz, e todos aquelles que deviam vigiar pela ordem publica. -Por este meio quando os membros d'esta sociedade entravam em casa de -qualquer cidadão, para a roubar ou assassinar o seu proprietario, era -escusado chamar em seu auxilio a policia, porque ninguem corria a -soccorrer a desgraçada victima. Estas excursões tinham logar quasi -sempre de dia, tanto era o receio dos criminosos. - -E quer o leitor alguns exemplos? Vamos dal-os, por que não é costume -nosso fazer uma accusação sem a provar. - -Os elegantes de Buenos-Ayres tinham n'esta época o habito de trazer os -bigodes de modo que pareciam formar um U, e isto era sufficiente para -a sociedade dos MAS-FORCA, debaixo do pretexto de que o U queria dizer -unitario, se apoderar do desgraçado, rapando-lhe a cara com navalhas -mal afiadas, de modo que a carne vinha juntamente aos pedaços com os -cabellos. Depois de praticarem esta barbaridade, abandonavam a victima -aos caprichos da populaça, que muitas vezes continuava esta brincadeira -até dar a morte áquelle desgraçado. - -As mulheres do povo começavam a usar nos cabellos a fita encarnada -chamada _mono_. Um dia a Mas-forca collocada ás portas das principaes -egrejas, marcou com um ferro em brasa todas as mulheres que entravam ou -sahiam sem ter a tal fita. - -Tambem não era uma cousa extraordinaria o ver uma mulher despojada dos -seus vestidos e açoitada no meio da rua, e isto porque ella trazia -um lenço, um vestido um enfeite qualquer, no qual havia a cor azul -ou verde. O mesmo succedia com os homens da mais elevada posição, -sendo apenas necessario para elles correrem os maiores perigos que se -apresentassem em publico de casaca ou com uma gravata. - -Ao mesmo tempo que as pessoas, sem duvida designadas á muito, e que -pertenciam ás classes superiores da sociedade perseguidas por uma cruel -vingança, eram victimas d'estas violencias, centenas de cidadãos eram -encarcerados, e isso só porque as suas opiniões não estavam em harmonia -com as do dictador. Ninguem conhecia o crime porque era preso, mas isso -tambem era desnecessario, visto ser conhecido de Rosas. Do mesmo modo -que o crime ficava desconhecido, tambem o julgamento era considerado -inutil, e todos os dias as prisões para poderem dar entrada a novas -victimas, eram despojadas de algumas d'ellas que erão fuziladas. Estes -fuzilamentos tinham logar de noute, sendo a cidade constantemente -accordada de sobresalto. - -De manhã, cousa horrivel que nem mesmo em França se viu durante os -terriveis dias de 1793, os carreiros apanhavão tranquillamente os -cadaveres dos assassinados e hiam ás prisões buscar os dos que tinham -sido fuzillados, e conduzindo-os a um grande fosso onde eram todos -lançados, sem que fosse permittido aos parentes das victimas o vir -reconhecel-as e prestar-lhe as ultimas honras funebres. - -Ainda não é tudo: os carreiros que conduzião estes restos deploraveis -annunciavam a sua chegada por terriveis gracejos que faziam fechar -todas as portas e fugir a população. Muitas vezes decepavam a cabeça -do tronco, enchendo cestos com ellas, e offerecendo-as depois aos -tranzuentes assustados. - -Bem depressa o calculo se juntou á barbaridade, o fisco á morte. - -Rosas comprehendeu que o meio de se conservar no poder era crear em -volta de si interesses inseparaveis dos seus. - -Então mostrou a uma parte da sociedade metade da fortuna da outra -dizendo-lhe--É tua. - -A partir d'este momento a ruina dos antigos proprietarios de -Buenos-Ayres foi consumada, começando os amigos de Rosas a obter -grandes fortunas. - -O que não tinha ousado pensar nenhum tyranno, o que não tinha vindo á -idéa de Nero, foi executado por Rosas: depois de haver assassinado o -pai prohibiu ao filho o deitar luto. A lei que continha esta prohibição -foi proclamada e fixada nas esquinas, e bem necessaria foi, porque -quando não, tudo em Buenos Ayres andaria de luto! - -Os excessos d'este despotismo admiraram alguns estrangeiros e sobre -tudo alguns francezes. Rosas cansou a paciencia de Luiz Felippe, -paciencia bem reconhecida, e logo depois teve lugar o primeiro bloqueio -pela esquadra franceza. - -Entretanto as classes elevadas tão mal tractadas, commeçarão a fugir -de Buenos Ayres e para encontrar um asylo refugiaram-se no estado -oriental, onde a maioria da cidade proscripta achou hospitalidade. - -Foi em vão que a policia de Rosas redobrou de vigilancia, foi em vão -que uma lei prohibio de morte a emigração, foi em vão que a essa morte -se juntaram os mais crueis detalhes, porque Rosas conheceu bem depressa -que a morte só não era sufficiente; o terror e o odio que inspirava -Rosas eram mais fortes que os meios inventados por elle, e a emigração -augmentava d'uma maneira espantosa a todos os momentos. Para realisar -a fuga de toda uma familia, era só necessario encontrar um barco que -a podesse transportar. Encontrado elle, pai, mãe, filhos, irmãos, ahi -se lançavam, abandonando casa, bens, fortuna, e todos os dias, se via -chegar ao estado oriental, isto é a Montevideo algumas d'essas barcas -cheias de passageiros tendo por unica fortuna o fato que levavam em -cima de si. - -Nenhum d'esses fugitivos teve de se arrepender da confiança que tinham -posto na hospitalidade do povo oriental, pois essa hospitalidade foi -como o teria sido a d'uma republica antiga; hospitalidade como devia -esperar o povo argentino d'amigos, ou antes d'irmãos, que tantas vezes -tinham combatido unidos para repellir os inglezes, hespanhoes ou -brasileiros,--inimigos communs, inimigos estrangeiros--menos perigosos -comtudo do que esse que havia nascido no meio d'elles. - -Os argentinos chegavão em grande quantidade, e erão esperados no -porto pelos habitantes, que escolhiam em rasão dos seus recursos -pecuniarios, ou do tamanho da sua casa os emigrados que podiam -recolher. Então viveres, dinheiro, fato, tudo era posto á disposição -d'esses desgraçados, até que elles tivessem alcançado alguns -recursos, no que todos os coadjuvavão. Elles do seu lado reconhecidos -entregavam-se ao trabalho, afim de alliviar o fardo que impunhão aos -seus hospedes, dando-lhe assim os meios de receber novos fugitivos. -Para poderem praticar tão nobre acção, as pessoas mais habituadas ao -luxo trabalhavão nos misteres mais infimos, enobrecendo-se tanto mais a -occupação a que se entregavam era em opposição com o seu estado social. - -Foi por este modo que os mais bellos nomes da republica argentina -figuram na emigração. - -Lavallée, a espada mais brilhante do seu exercito, Florencio Varella, -o seu mais bello talento, Aguero, um dos seus primeiros homens de -estado; Echaverria, o seu Lamartine; La Vega, o Bayardo do exercito das -Andes; Guttierez, o feliz cantor das glorias nacionaes; Alsina o grande -advogado e illustre cidadão, pertencem ao numero dos emigrados, assim -como apparecem Saenz, Valente, Molino, Torres, Ramos, Megia, grandes -proprietarios; como apparecem, Rodrigues, o velho general dos exercitos -da independencia, e unitario; Olozabal, um dos mais bravos d'esse -exercito das Andes de que dissemos ter sido La Vega o Bayardo. Rosas -perseguia igualmente o _unitario_ e o _federal_, não se preocupando -senão de se desembaraçar de todos os que podiam ser um obstaculo á sua -dictadura. - -É á hospitalidade concedida aos homens que elle perseguia que deve ser -attribuido o odio de Rosas ao Estado oriental. - -Na épocha a que nos referimos a presidencia da republica era exercida -pelo general Fructuoso Rivera. - -Rivera era camponez, como Rosas, como Quiroga; unicamente os seus -instinctos erão humanitarios o que o fazia inimigo de Rosas. Como -homem de guerra, a bravura de Rivera não podia ser excedida; como -chefe de partido a sua generosidade não podia ser igualada. Durante -trinta e cinco annos figurou nas scenas politicas do seu paiz. Quando -a revolução contra a Espanha começou, Rivera sacrificou a sua fortuna, -por que não era só generoso, era prodigo. - -Do mesmo modo que Rivera era prodigo para com os homens, Deus tinha -sido prodigo para com elle. Era um bello cavalheiro, em todo o sentido -da palavra hespanhola _caballero_, que comprehende ao mesmo tempo o -soldado e o gentilhomem, de estatura elevada, de olhar prescutador, -conversando com graça, e attraindo todos por um gesto particular -que só lhe pertencia, sendo por isso o homem mais popular dos -Estados orientaes. Mas se Rivera como homem era mui apreciavel, como -administrador nunca houve nenhum que desorganisasse mais os recursos -pecuniarios d'uma nação. Assim como havia destruido a sua fortuna -particular, destruiu a fortuna publica, não para se enriquecer, mas -porque homem publico tinha conservado todos os habitos do homem -particular. - -Na epocha que descrevemos, essa ruina ainda não se fazia sentir: -Rivera, commeçava a sua presidencia, e estava rodeado dos homens mais -notaveis do paiz: Obez, Herrero, Vasques, Alvares, Ellauri, Luiz -Eduardo Peres, erão verdadeiramente senão seus ministros ao menos seus -directores, e com estes homens tudo o que era progresso, liberdade e -prosperidade, estava promettido a este bello paiz. - -Obez, o primeiro dos amigos de Rivera era um homem d'um caracter -respeitavel. O seu patriotismo, o seu talento eminente, a sua -instrucção profunda o collocaram no numero dos grandes homens da -America, e para que nada faltasse á sua popularidade, morreu no exilio -victima do systema de Rosas no Estado oriental. - -Luiz Eduardo Peres, era o Aristides de Montevideo. Republicano severo, -patriota exaltado, consagrou a sua longa existencia á virtude, á -liberdade, e ao seu paiz. - -Vasquez, homem de talento e instrucção, rendeu os primeiros serviços ao -seu paiz no cerco de Montevideo, na guerra contra a Hespanha e acabou a -sua carreira durante o cerco contra Rosas. - -Herrera, Alvares, e Ellauri cunhados de Obez, não ficaram atraz dos que -temos nomeado. Foram deffensores dedicados do Estado oriental, e de -toda a causa americana, sendo por isso os seus nomes mui respeitados em -todo o territorio americano. - - - - - MANUEL ORIBE - - -A presidencia de Rivera finalisou em 1834. O general Manuel Oribe -foi quem lhe succedeu, por influencia do proprio Rivera que contava -ter n'elle um amigo e continuador do seu systema. Com effeito Manuel -Oribe tinha sido nomeado general por Rivera, e havia feito parte da -precedente administração, como ministro da guerra. - -Oribe pertencia ás primeiras familias do paiz. O seu espirito era -fraco, a sua intelligencia acanhada, explicando-se por isso a sua -alliança com Rosas, a quem se entregou totalmente, sem pensar que essa -alliança trazia comsigo a perda d'essa mesma independencia pela qual -tantas vezes havia combatido. - -Como general a sua incapacidade era incompleta. As suas paixões tinham -a violencia das organisações nervosas e arrastavam-n'o á crueldade. -Como particular era um homem honesto. - -Como administrador foi mais economico que Rivera e não se lhe pode -censurar o ter augmentado o defficit do thesouro, e comtudo é a -elle que cabe toda a responsabilidade da ruina do Estado oriental. -Esquecendo que para ser chefe de partido, não é sufficiente só o querer -sel-o, recusou o ficar alliado do grande partido nacional de que Rivera -era chefe. Querendo formar um partido seu, excitou a desconfiança de -todos e espantado pela sua fraqueza lançou-se nos braços de Rosas. -Ainda que o tratado tivesse ficado secreto todos conheceram esta -alliança pelas hostilidades secretas do governo contra a emigração -argentina e como todos detestavão o systema de Rosas, o paiz seguiu -Rivera, quando elle em 1836 se collocou á frente d'uma revolução contra -Oribe. - -Não obstante essa revolução em que tomou parte quasi todo o paiz, Oribe -resistiu até 1838. - -Oribe deixou a presidencia por renuncia feita officialmente perante as -camaras e sahiu do paiz tendo pedido ás mesmas camaras licença para se -retirar. - -Rosas, vendo-o abandonar a sua posição, obrigou-o a protestar contra -essa renuncia, e reconhece-o como chefe do paiz de que havia sido -expulso. Foi o mesmo do que se Luiz Filippe, tivesse em Clermont -reconhecido o duque de Bordeos como vice-rei da republica franceza. - -Em Montevideo zombaram ao principio d'essa excentricidade do dictador, -mas elle preparava-se para mudar esses risos em lagrimas. - -A consequencia natural da conducta de Rosas era a guerra entre as duas -nações. - -Esta guerra foi horrivel. - -Oribe, a quem alguns dos nossos jornaes, pagos por Rosas, chamaram o -_illustre_ e o _virtuoso_ Oribe, foi ao mesmo tempo general e carrasco. - -Mostremos aos leitores algumas d'essas paginas de sangue publicadas -pela _America do Sul_, e nas quaes vem registados dez mil assassinatos. - -Tomemos ao acaso alguns dos relatorios feitos a Rosas pelos seus -agentes e officiaes. - -O general D. Marianno Achaque serve no exercito contrario a Rosas, -defende S. João e no dia 22 de agosto de 1841 rende se depois de -quarenta e oito horas de resistencia. D. José Ramires official de Rosas -transmitte então ao governo de S. João o relatorio official d'este -successo. Copiaremos estas linhas: - - _Tudo se acha em nosso poder, mas com perdão e garantia para - todos os prisioneiros. Entre elles está um filho de Lamadrid._ - -Agora leia-se o numero 2067 do _Diario da tarde_ de Buenos Ayres, de -22 de outubro de 1841, e em opposição do documento official de José -Ramires, que assegura a vida dos prisioneiros, veja o leitor o seguinte: - - Desaguedero, 22 de setembro de 1841. - - «_O selvagem unitario Marianno Acha foi hontem decapitado e a - sua cabeça exposta ao publico._ - - Assignado: _Angelo Pacheco._» - -É necessario não confundir este Pacheco, tenente de Rosas com seu primo -Pacheco y Obes um dos seus inimigos mais encarniçados. - -O leitor deve lembrar-se que no relatorio de Ramires se acha esta frase. - - «_Entre os prisioneiros está um filho de Lamadrid._» - -Veja-se a _Gazeta Mercantil_, numero 5703, de 20 de abril de 1842 e -ahi se encontrará esta carta escripta por Mazario Benavides a D. João -Manoel Rosas: - - Miraflore 7 de abril de 1842. - - «Em um despacho precedente, dei-lhe parte dos motivos porque - conservava o selvagem Gyriaco Lamadrid, mas sabendo que - elle se tinha dirigido a muitos chefes da provincia para os - resolver a tomar a sua defesa, mandei assim que cheguei a Rioja - _decapital-o, assim como o salvagem unitario Manoel Julião - Frias, natural de Santiago_. - - Assignado: _Mazario Benavides._» - -Manoel Oribe á testa dos exercitos de Rosas encarregados de submetter -as provincias Argentinas, derrotou, a 15 de abril de 1842, no -territorio de Santa-Fé as forças commandadas pelo general João Paulo -Lopes. - -Entre os prisioneiros encontra-se o general D. João Martins. - -Lêde esse fragmento d'uma carta d'Oribe: - - «No quartel general de Banancas de Cosonda 17 de abril de - 1842.--Trinta e tantos mortos e alguns prisioneiros, entre as - quaes se achava _João Martines a quem hontem mandei decepar a - cabeça_. - - Assignado: _Manoel Oribe._» - -Se ainda tendes em vosso poder a _Gazeta mercantil_, vêde o numero -5903, de 20 de setembro de 1842, e ahi encontrareis um relatorio -official de Manuel Antonio Saravia, empregado no exercito de Oribe. - -Este relatorio contém uma lista de desasete individuos, de que um era -chefe de batalhão e outro capitão, que foram prisioneiros em Numayan, -soffrendo ahi o _castigo ordinario da pena de morte_. - -Voltemos ao _illustre_ e _virtuoso_ Oribe, numero 3007 do _Diario da -tarde_, onde vem o seguinte a proposito da batalha de Monte Grande. - - «Quartel general no Ceibal 14 de setembro de 1841. - - «Entre os prisioneiros foi encontrado o traidor selvagem - unitario, ex-coronel Facundo Borda, que _foi executado - immediatamente, com outros pertendidos officiaes de cavallaria - e infanteria_. - - _Manoel Oribe._» - -Oribe estava feliz; um traidor lhe entregou o governador de Tucuman e -os seus officiaes. Eis como elle annuncia esta noticia a Rosas. - - «Quartel general de Métau 3 de outubro de 1841. - - «Os selvagens unitarios que me entregaram o commandante - Sandoval e que são Marion, o pertendido governador general - de Tucuman, Avellanieda, o pertendido coronel J. M. Villela, - o capitão José Espejo, e o tenente Leonardo de Sousa, _foram - immediatamente executados na forma ordinaria_, á excepção - de Avellanieda a quem ordenei que cortassem a cabeça, sendo - exposta ao publico na praça de Tucuman. - - _Manoel Oribe._» - -Agora passemos a outro carrasco de Rosas. - - «Casamarca 29 do mez de Rosas 1841. A S. Excellencia o senhor - governador Arredondo. - - «Depois de duas horas de fogo a infanteria foi passada á - espada, e a cavallaria posta na mais completa desordem. - - «O general conseguiu escapar-se pela serra de Ambaste com - trinta homens, mas foi perseguido e apanhado e a sua cabeça - será bem depressa exposta na praça publica, assim como já o - estão as dos perteadidos ministros Gonçalves Dulce e Espeche. - - «Viva a federação! - - Assignado: _M. Maza._» - - «_Lista dos selvagens unitarios pertendidos chefes e officiaes - que foram executados depois da acção de 29_: - - «Coronel: Vicente Mercao. - - «Commandantes: Modesto, Villafane, João Pedro Ponce, Damasio - Arias, Manoel Lopes, Pedro Rodrigues. - - «Chefes de batalhão; Manoel Riso, Santiago da Cruz. - - «Capitães: João de Deus Ponce, José Salas, Pedro Araujo, - Izidoro Ponce, Pedro Barros. - - «Ajudantes: Damario Sarmento, Eugenio Novillo, Francisco - Quinteros Daniel Rodrigues. - - «Tenente: Domingos Dias. - - Assignado: _M. Maza._» - -Apresentaremos mais esta carta de Maza, para depois voltarmos a Rosas. - - «Casamarca, 4 de novembro de 1841. - - «Já lhe disse que pozemos em completa desordem o selvagem - unitario Cubas, e que era perseguido, esperando ter em breve - em meu poder a cabeça do bandido. Foi com effeito prisioneiro - no Cerro das Ambastes, e a sua cabeça está exposta na praça - publica da cidade. - - «Depois da acção foram feitos prisioneiros dezenove officiaes - que seguiam Cubas. _Não dei quartel._ O triumpho foi completo. - - _M. Maza._» - -Vejamos de passagem no _Boletim de Mendonça_ n.º 12, esta carta -escripta no campo de batalha d'Arroyo Grande e dirigida ao governador -Aldao pelo coronel D. Jeronymo Costa. - - «Fizemos prisioneiros mais de cento e cincoenta officiaes que - foram executados immediatamente.» - -Todo o fogo de artificio tem o seu ramalhete, terminaremos pelo seu -ramalhete este fogo de artificio de sangue. - -Prometti fallar de novo em Rosas, e vou agora cumprir a minha promessa. - -O coronel Zelallaran foi morto e a sua cabeça offerecida a Rosas que -passou tres horas a dar-lhe pontapés. N'esse momento soube que um -outro coronel, irmão d'armas do primeiro, havia sido feito prisioneiro. -No primeiro momento teve tenção de o mandar fuzillar, mas depois -mudou de resolução, e condemnou-o a ter doze horas por dia, durante -tres dias, essa cabeça cortada em cima de uma meza que se devia achar -collocada na sua frente. - -Rosas mandou fuzillar na praça de S. Nicolau alguns dos prisioneiros do -general Paz. - -Entre elles estava o coronel Vedela antigo governador de S. Luiz; no -meio do supplicio o filho do condemnado lançou-se nos braços de seu pae. - ---Fuzillae ambos, disse Rosas. - -E o pae e o filho expiraram nos braços um do outro. - -Rosas mandou conduzir a uma das praças de Buenos Ayres oitenta -prisioneiros indios, e em pleno dia e na presença de todos os mandou -matar a estocadas. - -Camilla O'Gorman menina de dezoito annos e oriunda d'uma das principaes -familias de Buenos-Ayres, foi seduzida por um padre de vinte e quatro, -e fugiram ambos de Buenos-Ayres, refugiando-se n'uma pequena villa de -Corrientes onde passando por esposos, estabeleceram uma pequena escola. -Corrientes cahe em poder de Rosas, e os dous fugitivos reconhecidos -por um padre e denunciados por elle a Rosas, são presos e conduzidos a -Buenos-Ayres, onde sem julgamento Rosas os mandou fuzillar. - ---Mas, diz alguem a Rosas, Camilla está gravida! - ---Baptisae o ventre, diz Rosas, que como _excellente christão_, quer -salvar a alma do menino. - -Esta cerimonia executada, Camilla O'Gorman foi fuzillada. - -Tres ballas atravessaram os braços da desgraçada mãe que os havia -estendido para proteger seu filho... - -Depois d'isto como diremos que a França se pronunciou em favor de Rosas? - -E com effeito o tratado de 1840 assignado pelo almirante Mackan, firmou -então o poder de Rosas, deixando só a republica oriental engagada na -lucta. - -Foi então que appareceu Garibaldi na sua volta do Rio Grande. - -D'um lado Rosas e Oribe, isto é, a força, a riqueza, o poder combatendo -pelo despotismo. - -Do outro lado, uma pequena republica, uma cidade arruinada, um thesouro -exhausto, um povo sem recursos, não podendo pagar aos seus defensores, -mas combattendo pela liberdade. - -Garibaldi não hesitou; e encaminhou-se para os deffensores da liberdade. - -Agora abandonamos a penna para lhe deixarmos contar a historia d'esse -cerco, que como o de Troia, durou nove annos. - - - FIM DO PRIMEIRO VOLUME - - - * * * * * - - - ÍNDICE - - PROLOGO 5 - I MEUS PAES 25 - II OS MEUS PRIMEIROS ANNOS 27 - III AS MINHAS PRIMEIRAS VIAGENS 29 - IV AS MINHAS PRIMEIRAS AVENTURAS 31 - V OS ACONTECIMENTOS DE S. JULIÃO 34 - VI O DEUS DOS BONS 38 - VII ENTRO AO SERVIÇO DA REPUBLICA DO RIO GRANDE 42 - VIII CORSARIO 45 - IX O RIO DA PRATA 48 - X AS PLANICIES ORIENTAES 50 - XI A POETISA 52 - XII O COMBATE 55 - XIII LUIZ CARNIGLIA 57 - XIV PRISIONEIRO 58 - XV A APOLEAÇÃO 60 - XVI VIAGEM NA PROVINCIA DO RIO GRANDE 62 - XVII A LAGOA DOS PATOS 65 - XVIII ARMAMENTO DE LANCHÕES EM CAMACUA 67 - XIX A ESTANCIA DA BARRA 69 - XX EXPEDIÇÃO A SANTA CATHARINA 75 - XXI PARTIDA E NAUFRAGIO 77 - XXII JOÃO GRIGGS 81 - XXIII SANTA CATHARINA 83 - XXIV UMA MULHER 85 - XXV O CRUZEIRO 87 - XXVI SAQUE DE IMERUI 90 - XXVII NOVOS COMBATES 91 - XXVIII A CAVALLO 94 - XXIX A RETIRADA 98 - XXX ESTADA NAS LAGES E NOS ARRABALDES 100 - XXXI BATALHA DE TAQUARI 103 - XXXII ASSALTO A S. JOSÉ DO NORTE 108 - XXXIII ANNITA 110 - XXXIV LEVANTA-SE O CERCO.--ROSSETTI 116 - XXXV A PICADA DAS ANTAS 118 - XXXVI CONDUCTOR DE BOIS 122 - XXXVII PROFESSOR DE MATHEMATICA E CORRETOR DE COMMERCIO 128 - MONTEVIDEO 130 - ROSAS 139 - QUIROGA 150 - MANUEL ORIBE 158 - - - * * * * * - - - Nota do Transcritor - - - Pontuação e hifenização foram normalizados. - - O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso - em 1860. A ortografia originais foi mantida com exceção de alguns - erros óbvios. - - Palavras em itálico e frases são apresentados por em torno do - texto com sublinhados (_itálico_). - - O índice foi adicionado. - - - - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Memorias de José Garibaldi, volume I, by -Giuseppe Garibaldi - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIAS DE JOSE GARIBALDI, VOL 1 *** - -***** This file should be named 52847-8.txt or 52847-8.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/5/2/8/4/52847/ - -Produced by Júlio Reis, Leonor Silva and the Online -Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net. - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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Email contact links and up to -date contact information can be found at the Foundation's web site and -official page at www.gutenberg.org/contact - -For additional contact information: - - Dr. Gregory B. Newby - Chief Executive and Director - gbnewby@pglaf.org - -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide -spread public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. - -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. 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You may copy it, give it away or re-use it under the terms of -the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: Memorias de José Garibaldi, volume I - Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas - -Author: Giuseppe Garibaldi - -Translator: Alexandre Dumas - -Release Date: August 18, 2016 [EBook #52847] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: ISO-8859-1 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIAS DE JOSE GARIBALDI, VOL 1 *** - - - - -Produced by Júlio Reis, Leonor Silva and the Online -Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net. - - - - - - -</pre> - - -<hr /> - -<p class="ext"><a href="#tnote">Nota do transcritor</a>.</p> - -<p class="ext"><a href="#toc">Índice</a>.</p> - -<div class="figcenter screenonly"> - <img src="images/cover-s.jpg" alt="" title="" width="375" height="600" /> - <p class="ext cs7">A imagem da capa foi criada pelo transcritor<br /> - e é colocado no domínio público.</p> -</div> - - <div class="npage"> - -<div class="figcenter"> - <img class="brd" src="images/img-1.jpg" alt="" title="" width="550" height="677" /> - <p class="cent">GARIBALDI.</p> -</div> - - </div> - - <div class="npage"> - -<h1><span class="cs9">MEMORIAS</span><br /> -<span class="cs4">DE</span><br /> -JOSÉ GARIBALDI</h1> - -<p class="sep3 center esp2"><b>TRADUZIDAS DO MANUSCRIPTO ORIGINAL</b><br /> -<span class="cs5">POR</span><br /> -<span class="cs12">ALEXANDRE DUMAS</span></p> - -<hr class="small5t" /> - -<p class="center cs6"><b>VOLUME I.—SEGUNDA EDIÇÃO</b></p> - -<hr class="small5b" /> - -<p class="center"><b>LISBOA—1860</b><br /> -<span class="gesp">EDICTOR A. P. C.</span><br /> -<span class="cs8">CHIADO, 83-85</span></p> - - </div> - - <div class="npage"> - -<p class="center cs12"><b>MEMORIAS DE GARIBALDI</b></p> - -<hr class="small5t" /> - -<h2 id="cap_prologo">PROLOGO</h2> - -<p>Como todo o presente tem ligação com o passado -é impossivel começar qualquer narração, ainda que -seja a historia de um homem ou de um successo, sem -lançar os olhos para esse mesmo passado.</p> - -<p>Obrigados pelo caracter aventureiro do homem -de que começamos hoje a publicar as memorias, seremos -muitas vezes forçados a ir ao Piemonte, patria -de Garibaldi. Os homens de acção politica, quando -pertencem ao progresso, teem momentos de desalento, -nos quaes como Anteo tem necessidade para recobrar -novas forças de tocar n'essa terra patria que -Bruto na sua fingida loucura beijava como a mãe commum. -É pois mui importante fazer um estudo rapido -dos acontecimentos que tiveram logar no Piemonte -de 1820 a 1834, época em que começa esta historia.</p> - -<p>As guerras da republica e as invasões do imperio -tinham trazido á Sardenha dous homens que haviam -<span class="pagenum" id="Page_6">6</span> -partido para o exilio ainda jovens e voltavam -velhos; eram dois irmãos, nos quaes terminava a posteridade -masculina dos duques de Saboia: fallamos -de Victor Manuel <span class="cs7">I</span> e Carlos Felix.</p> - -<p>Ambos reinaram.</p> - -<p>O ramo mais novo da familia Saboia era representado -pelo principe de Carignan, que em 1823 -fez como granadeiro do exercito francez a campanha -de Hespanha, tendo-se distinguido principalmente no -Trocadéro.</p> - -<p>Em 1840 n'uma audiencia que me concedeu -mostrou-me o seu sabre de granadeiro, e as dragonas -de lã encarnada que conservava como reliquias -da mocidade.</p> - -<p>Victor Manuel <span class="cs7">I</span> subindo ao throno, que provavelmente -não lhe fora dado senão com esta condição, -havia promettido aos soberanos seus alliados, -o não fazer ao seu povo, fossem quaes fossem as -circunstancias, em que se encontrasse a mais pequena -concessão.</p> - -<p>Mas o que era facil de prometter em 1815, era -difficil de cumprir em 1821.</p> - -<p>Desde 1820 os carbonarios haviam-se espalhado -em toda a Italia. Em um livro que é mais uma -historia do que um romance, no <i>José Balsamo</i> dissemos -as origens do illuminismo e da franc-maçonaria.</p> - -<p>Estes dois temiveis inimigos da realeza de que -a divisa era L. P. D. (<i>Lilia Pedibus Destrue</i>) tiveram -uma grande parte na revolução franceza. Swedenborg, -de quem os adeptos assassinaram Gustavo <span class="cs7">III</span>, -era mago. Quasi todos os jacobinos e grande numero -de <i>cordeliers</i> eram maçons, Philippe-Egalité -era do grande oriente. Napoleão tomou a maçonaria -debaixo da sua protecção, mas protegendo-a, -<span class="pagenum" id="Page_7">7</span> -desvirtuou-a, desviando-a dos seus fins, torcendo-a á -sua conveniencia e fazendo d'ella um instrumento -de despotismo. Não foi esta a unica vez que se forjaram -cadeias com espadas.</p> - -<p>José Napoleão foi grão-mestre da ordem, o archi-chanceller -Cambacéres grão-mestre adjunto. A -imperatriz Josephina estando em Strasbourg em 1805, -presidiu á festa da adopção da loja dos franc-maçons -de Paris. Por este mesmo tempo Eugenio Beauharnais -era veneravel honorario da loja de Santo Eugenio -de Paris, e tendo vindo mais tarde á Italia -com a dignidade de vice-rei, o Grande Oriente de -Milão o nomeou grão-mestre e soberano conservador -do supremo conselho do gráo <span class="cs7">XXXII</span>, isto é, concedeu-lhe -a maior honra que segundo os estatutos -da ordem se póde dar.</p> - -<p>Bernardotte era maçon, seu filho o principe Oscar -foi grão-mestre da loja sueca. Em differentes lojas -de Paris foram successivamente iniciados: Alexandre, -duque de Wurtemberg, o principe Bernardo -de Saxe-Weimar, e até o embaixador persa Askeri-Khan. -O presidente do senado, conde de Lacépêde -presidia ao grande Oriente de França de que -eram officiaes os generaes Kellermann, Massena, -Soult, os principes, os ministros e os marechaes, -os officiaes, os magistrados, emfim todos os homens -notaveis pela sua gloria ou consideraveis pela sua -posição ambicionavam a honra de serem maçons. As -proprias mulheres quizeram ter as suas lojas maçonicas, -nas quaes entraram M.<sup>mes</sup> de Vaudemont, de -Carignan, de Girardin, de Bosi, de Narbonne, e muitas -outras pertencentes á alta aristocracia franceza. -Uma unica foi recebida, não com o titulo de -irmã, mas com o de irmão: foi a celebre Xaintrailles, -a quem o primeiro consul tinha dado a patente -<span class="pagenum" id="Page_8">8</span> -de chefe de esquadrão.<a name="FNanchor_1" id="FNanchor_1" href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a> Mas não era só em -França que n'essa época florescia a maçonaria.</p> - -<p>O rei da Suecia, em 1811 instituiu a ordem civil -da maçonaria. Frederico Guilherme <span class="cs7">III</span> da Prussia -tinha, pelos fins do mez de julho de 1800 approvado -a constituição da grande loja de Berlin. O principe -de Galles não cessou de governar a ordem em -Inglaterra, senão quando em 1813 foi nomeado regente. -Emfim no mez de fevereiro 1814, o rei da -Hollanda, Frederico Guilherme, declarou-se protector -da maçonaria, e permittiu que o principe real, -seu filho acceitasse o titulo de veneravel honorario -da loja de Guilherme Frederico de Amsterdam.</p> - -<p>Depois da volta dos Bourbons á França o marechal -Bournonville pediu a Luiz <span class="cs7">XVIII</span> para collocar -a maçonaria debaixo da protecção d'uma pessoa -da familia real; mas como Luiz <span class="cs7">XVIII</span> era dotado de -excellente memoria, e não havia esquecido a parte -que ella tinha tomado na catastrophe de 1793 recusou, -dizendo que nunca consentiria que membro algum -da familia real, formasse parte de qualquer sociedade -secreta fosse ella qual fosse.</p> - -<p>Na Italia a maçonaria cahiu com o dominio francez, -mas em seu logar vieram os carbonarios, que -mostravam querer continuar o seu pensamento libertador.</p> - -<p>Duas outras seitas appareceram ao mesmo tempo.</p> - -<p>Uma que se chamava a Congregação catholica apostolica -romana, e a outra a Consistorial.</p> - -<p>Os socios da Congregação tinham, como signal -de reconhecimento, um cordelinho de seda amarella -com cinco nós. Os pertencentes aos gráos inferiores -não fallavam senão de actos de piedade e benificencia. -<span class="pagenum" id="Page_9">9</span> -Dos segredos da seita, conhecidos unicamente pelos -altos dignatarios, só se podia fallar quando se achavam -presentes dois associados; se por acaso um terceiro -chegava, a conversação cessava immediatamente. -A palavra de passe dos confrades era <i>éleutheria</i>, -isto é, <i>liberdade</i>, a palavra secreta era <i>ode</i>, isto é, -<i>independencia</i>.</p> - -<p>Esta seita creada em França, entre os neo-catholicos, -e a que pertenceram muitos dos nossos melhores -e mais constantes republicanos, tinha atravessado -os Alpes, chegado ao Piemonte e de lá á Lombardia. -Mas aqui foram infelizes, pois obtiveram poucos adeptos, -não tardando muito a extinguir-se, tendo os agentes -de policia alcançado em Genova os diplomas que -se entregavam aos adeptos assim como os estatutos e -signaes de reconhecimento.</p> - -<p>A consistorial era dirigida principalmente contra -os austriacos. Á sua frente se achavam os principaes -principes da Italia que não pertenciam á casa de Kabsbourg -e era presidida pelo cardeal Gonsalvi. O unico -principe que não foi excluido foi o duque de Modena. -Logo que esta liga foi conhecida começaram as -terriveis perseguições d'este principe contra os patriotas. -É que elle queria obter da Austria o perdão da -sua deserção, sendo necessario o sangue de Menotti -seu companheiro na conspiração para o alcançar.</p> - -<p>Os consistoriaes queriam tirar a Italia a Francisco -II e dividil-a entre si.</p> - -<p>Além de Roma e da Romania que elle guardava, -o papa adquiria a Toscana. A ilha de Elba e as Marchés -passavam para o poder do rei de Napoles; Parma, -Pelazainge, e uma parte da Lombardia, com o -titulo de rei ao duque de Modena; Massa, Carrara, e -Luca ao rei da Sardenha. Emfim o imperador Alexandre -da Russia que pela sua aversão á Austria protegia -<span class="pagenum" id="Page_10">10</span> -esta conspiração, ou recebia Ancona, Civita-Vecchia, -ou Genova para poder ter um estabelecimento -no Mediterraneo. Por esta fórma sem se consultar a -vontade dos povos nem as demarcações territoriaes, -dispunha-se de uma grande porção de almas, negando-se-lhe -esse direito de escolha a que a ultima creatura -nascida no solo europeo tem direito.</p> - -<p>Por felicidade um unico de todos estes projectos, -o dos carbonarios, parecia emanado de Deus e quasi -a realisar-se.</p> - -<p>Os carbonarios em quem unicamente havia esperança -augmentavam consideravelmente nas Romanias. -Haviam-se reunido á seita dos guelfos que tinham a -sua séde em Ancona, e se apoiavam nos bonapartistas.</p> - -<p>Luciano tinha sido elevado á dignidade de grão-mestre -da ordem. Nas reuniões secretas mostrava-se -a necessidade de tirar aos padres o poder que haviam -alcançado; invocava-se o nome de Bruto e preparavam-se -os animos á revolta.</p> - -<p>Em a noute de 24 de junho teve logar a revolução, -obtendo o funesto resultado que todas as primeiras -tentativas d'este genero costumam alcançar. Toda -a religião que deve ter apostolos, começa por ter martyres. -Cinco carbonarios foram fuzilados, outros condemnados -ás galés perpetuamente, e alguns julgados -menos culpados foram encerrados por dez annos em -uma fortaleza.</p> - -<p>Então a seita tornando-se mais prudente mudou de -nome, começando a chamar-se a Sociedade Latina. Nesta -occasião a mesma sociedade conspirava na Lombardia, -estendendo-se pelas outras provincias da Italia. No -meio d'um baile dado pelo conde Porgia em Rovigo o -governo austriaco fez prender muitas pessoas e declarou -no dia seguinte criminoso d'alta traição todo o -individuo que se filiasse nas lojas dos carbonarios.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_11">11</span> -Em Napoles foi aonde a rebellião appareceu com -mais violencia. Cobetta affirma na sua historia que o -numero dos carbonarios era de 642:000 e segundo um -documento da chancellaria aulica de Vienna este numero -ainda está muito abaixo da verdade. «Os carbonarios -nas Duas Sicilias diz este documento contam -mais de 800:000 adeptos, e não havendo policia nem -vigilancia possivel para evitar tal alistamento seria -loucura tentar anniquilal-os.»<a name="FNanchor_2" id="FNanchor_2" href="#Footnote_2" class="fnanchor">[2]</a></p> - -<p>Ao mesmo tempo que a rebellião tinha logar em -Napoles, Riego, outro martyr que deixou um cantico -de morte, tornado depois em canção de victoria, levantava -no 1.<sup>o</sup> de janeiro de 1820 a bandeira da liberdade, -e um decreto de Fernando <span class="cs7">VII</span> annunciou -que tendo-se manifestado a vontade do povo, estava -prompto a jurar a constituição proclamada pelas côrtes -geraes e extraordinarias de 1812.</p> - -<p>As prisões abrindo-se deram um ministerio á Hespanha.</p> - -<p>Fernando <span class="cs7">I</span> de Napoles na sua qualidade de principe -de Hespanha, devia, ficando rei absoluto, jurar -obediencia á constituição hespanhola. Teve então logar -uma grande rebellião na Calabria, em Capitanata -e em Palermo. O governo napolitano fraco, indeciso -e desconfiado decretou algumas refórmas insufficientes -que não impediram o general Pepe de fazer uma revolução. -Napoles teve então como 1798, um governo -provisorio e uma camara de deputados.</p> - -<p>Foi algum tempo depois que por sua vez rebentou -a revolução piemonteza. Na manhã de 10 de março -o capitão conde Palma dando o grito de «o rei e a -constituição hespanhola» fez pegar em armas ao regimento -de Genova.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_12">12</span> -No dia seguinte um governo provisorio estava estabelecido, -e em nome do reino de Italia declarava a -guerra á Austria.</p> - -<p>D'este modo a revolução partindo d'Ancona tinha -chegado a Napoles voltando a Turim. Tres volcões se -tinham aberto na Italia sem contar a Hespanha; agitando-se -a Lombardia n'um triangulo de fogo.</p> - -<p>O rei Victor Manuel havia promettido, como já -dissemos, á santa alliança não fazer ao seu povo nenhuma -concessão.</p> - -<p>No dia seguinte para ficar fiel á sua palavra, o -rei Victor Manuel abdicou em favor de seu irmão Carlos -Felix que se achava então em Modena, e nomeou -regente o principe de Carignan, que foi depois o rei -Carlos Alberto.</p> - -<p>Para todos os patriotas esta abdicação de um rei -dedicado aos italianos em um principe dominado pela -côrte de Austria era uma grande desgraça.</p> - -<p>Santa Rosa um dos primeiros promotores da rebellião -diz:</p> - -<div class="manuscr"> -<p>«A noute de 13 de março de 1821 foi bem fatal -para minha patria. Foi n'essa noute que perdemos -todas as nossas esperanças, foi n'essa noute que -milhares de espadas erguidas para a defeza da patria -se abaixaram. Com o rei Victor Manuel a patria estava -no rei, ella se personalisava n'esse coração leal, -e nós fazendo esta revolução, diziamos: «Coragem! -O rei talvez um dia nos perdoe de o havermos feito -senhor de seis milhões de italianos.»</p> -</div> - -<p>Com Carlos Felix succedia exactamente o contrario. -Estavam outra vez debaixo do jugo da Austria, -e viam-se obrigados a começar de novo os seus trabalhos.</p> - -<p>Comtudo toda a esperança ainda não estava perdida.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_13">13</span> -No dia 14 de março o principe de Carignan nomeado -regente appareceu á janella, e no meio dos vivas -calorosos do povo proclamou a constituição de Hespanha.</p> - -<p>Como este facto devia ter no futuro grande importancia, -como o principe Carlos Alberto devia um -dia desmentir o principe de Carignan, é necessario -não só citar o facto da constituição proclamada em -alta voz, mas tambem dar uma cópia do edital que -foi affixado nos muros de Turim.</p> - -<p>Eis a traducção fiel:</p> - -<div class="manuscr"> -<p>«Nas circumstancias difficeis em que nos achamos -é necessario sahir fóra dos limites que a nossa qualidade -de regente nos impõe. O nosso respeito e submissão -a sua magestade Carlos Felix, actual soberano, -devia-nos obstar a que fizessemos alguma alteração -nas leis fundamentaes do estado, até que soubessemos -as intenções do nosso novo soberano, mas como as -circumstancias imperiosas porque passamos são conhecidas -por todos, e como queremos entregar ao novo -rei um povo socegado e feliz e não despedaçado -pela guerra civil, decidimos, ouvido o nosso conselho -e na esperança de que sua magestade levado pelas -mesmas considerações, revistirá a nossa deliberação -da sua approvação soberana, que a constituição de -Hespanha seja reconhecida como lei do estado, fazendo-se -as alterações que o rei e a representação nacional -entenderem.»</p> -</div> - -<p>Eis o que os carbonarios tinham obtido cinco annos -depois do seu estabelecimento em Italia: uma constituição -em Hespanha, outra em Napoles, e outra no -Piemonte.</p> - -<p>Mas esta tendo sido a ultima em apparecer, foi a -primeira a ser destruida.</p> - -<p>Em logar de voltar a Genova ou a Milão, em logar -<span class="pagenum" id="Page_14">14</span> -de approvar as liberdades concedidas pelo principe -de Carignan, o rei Carlos Felix publicou no dia 3 -de abril seguinte o edito que vamos ler:</p> - -<div class="manuscr"> -<p>«<i>Sendo o dever de todo o subdito fiel sujeitar-se -da melhor vontade á ordem de cousas estabelecidas -por Deus e pelo exercicio da soberana authoridade, -declaro que emanando o nosso poder só de -Deus, só a nós pertence escolher os meios que julgarmos -mais convenientes para chegar a qualquer -fim, e que em consequencia não teremos como subdito -fiel aquelle que se atrever a murmurar contra -as medidas que julgarmos necessario adoptar, ficando -conhecidos só como vassallos fieis aquelles que -se submetterem immediatamente, impondo esta submissão -como condicção para voltarmos aos nossos -estados.</i>»</p> -</div> - -<p>Ao mesmo tempo que o rei Carlos Felix publicava -este edito modelo de cegueira e asneira, nomeava -uma commissão militar encarregada de tomar conhecimento -dos crimes de traição, rebellião e insubordinação -que tinham sido commettidos.</p> - -<p>Felizmente os principaes criminosos, isto é, aquelles -de que os nomes são hoje os mais gloriosos do Piemonte, -haviam tomado a fuga.</p> - -<p>A commissão nomeada por Carlos Felix não perdeu -o tempo. Em cinco mezes, cento e setenta e oito -prisioneiros foram julgados. Setenta e tres foram condemnados -á morte e ao fisco, e os outros á prisão e -galés. Dos condemnados á morte sessenta eram contumazes -e foram enforcados em effigie.</p> - -<p>Julgamos conveniente dizer os nomes d'esses homens -para que se conheçam aquelles que feriram esse -poder estupidamente absoluto que desde Tarquino -não tem sabido abater senão as cabeças mais intelligentes -e elevadas.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_15">15</span> -Eram os tenentes Pavia e Ansaldi, o medico Ratazzi, -o engenheiro Appiani, o advogado Dossena, o -advogado Lurri, o capitão Baroni, o conde Bianco, o -coronel Regis, o major Santa-Rosa, o capitão Lesio, -o coronel Caraglio, o major Collegno, o capitão Radice, -o coronel Morozzo, o principe della Cisterna, o -capitão Ferraso, o capitão Pachiarotte, o advogado -Marochetti, o segundo tenente Auzzano, e o advogado -Ravina.</p> - -<p>Ao todo seis officiaes superiores, trinta officiaes -subalternos, cinco medicos, dez advogados, e um principe, -todos notaveis pela intelligencia e pelas qualidades -moraes.</p> - -<p>Dois tinham sido presos e executados.</p> - -<p>Eram o tenente de carabineiros João Baptista Lanari -e o capitão Jacome Garelli.</p> - -<p>Um foi executado a 21 de julho, e o outro a 25 -de agosto.</p> - -<p>O principal criminoso era, sem duvida, Carlos -Alberto, pois havia proclamado a constituição, não -como dizem os seus partidarios, <i>salvo a approvação -de Carlos Felix</i>, mais n'estes termos que estão mui -longe de serem reservados:</p> - -<div class="manuscr"> -<p>«<i>Nella fiducia che sua Maesta il re, nosso dál -eistesse considerazioni</i> <span class="cs7">SARA PER RIVESTIRE</span> <i>questa -deliberazione della sua socrasia approvazione, -la constituzione di Spagna</i> <span class="cs7">SARA PROMULGATA ET -OSSERVATA COM LEGE DELLO STATO</span>.»</p> -</div> - -<p>Por isso assim que o principe de Carignan recebeu -a carta que lhe participava a recusa do rei Carlos -Felix, correu a Modena, mas o rei recusou recebel-o -e o duque mandou-o intimar para deixar os seus -estados.</p> - -<p>O principe de Carignan retirou-se para Florença -para o lado do grão duque de Toscana.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_16">16</span> -Para Carlos Alberto não se tratava unicamente de -um simples exilio, ou d'um desvalimento momentaneo, -mas sim da perda do throno do Piemonte. Espalhou-se -então que Carlos Felix legava a corôa ao duque de -Modena, e este que não a havia alcançado na conspiração -dos principes italianos contra a Austria, esperava -esta vez realisar a sua ardente ambição.</p> - -<p>O principe de Carignan disse ao conde de la Maison-Fort, -nosso ministro em Florença, qual era a sua -posição, e este escreveu a Luiz <span class="cs7">XVIII</span> relatando-lhe -tudo.</p> - -<p>Eis um fragmento da carta d'este ministro:</p> - -<div class="manuscr"> -<p>«Para despojar o principe de Carignan da sua herança -é necessario chamar ao throno a duqueza de -Modena, filha mais velha do rei Victor Manuel. Esta -facilidade em affastar a nobre casa da Saboia de um -throno por ella creado, esta ingratidão, exemplo do seculo -em que vivemos, não póde ser partilhada pelo -chefe de uma casa alliada com a Saboia dezoito vezes. -A França pois não póde seguir esta politica, porque -tem ao menos o direito de exigir a completa independencia -do soberano que possue a chave da Italia.»</p> -</div> - -<p>Luiz <span class="cs7">XVIII</span> foi de opinião do seu ministro, e escreveu -ao principe offerecendo-lhe um refugio na côrte -de França. A conducta de Luiz <span class="cs7">XVIII</span> era o mesmo que -dizer—Não tem cousa alguma a receiar, tomo-o debaixo -da minha protecção e não consentirei que outro -seja rei do Piemonte.</p> - -<p>E na verdade um rei que havia dado a carta ao -seu povo, não podia criminar um principe por ter -promettido uma constituição que não havia reconhecido.</p> - -<p>Das tres constituições creadas pelos carbonarios, -uma, a do Piemonte tinha sido logo anniquilada pelo -rei Carlos Felix; a de Napoles havia sido destruida -<span class="pagenum" id="Page_17">17</span> -pela invasão austriaca, e a terceira, a unica existente -ia desapparecer com a invasão franceza.</p> - -<p>Era, pois, necessario ao principe de Carignan que -havia proclamado a constituição hespanhola em Turim -ir combater essa mesma constituição a Madrid.</p> - -<p>Na realidade era uma posição difficil para o principe, -mas a corôa do Piemonte tinha muitos attractivos -para elle se occupar de bagatellas.</p> - -<p>O principe de Carignan occultou a vergonha debaixo -da barretina de granadeiro; fez a campanha -de Hespanha e foi um dos vencedores de Trocadéro. -D'esta sorte quando Carlos Felix falleceu, 27 de abril -de 1851, o principe de Carignan subiu ao throno, -com o nome de Carlos Alberto, tendo a vencer poucas -difficuldades. A Austria que antes queria ver no -throno o seu archi-duque de Modena, enfureceu-se e -apresentou aos reis Carlos Alberto como um carbonario, -e aos carbonarios como um traidor.</p> - -<p>A Austria mentia.</p> - -<p>Carlos Alberto não era carbonario: a proclamação -em que concedia a constituição mostrava que a -dava contra sua vontade.</p> - -<p>Carlos Alberto não era um traidor, era um principe -que ambicionando o titulo de rei, não havia feito -compromissos pessoaes. A vergonha de ir abolir á -Hespanha a constituição que tinha proclamado em Turim, -tinha desapparecido pela coragem do granadeiro: -o soldado havia absolvido o principe.</p> - -<p>D'esta sorte a sua acclamação foi saudada com -alegria pelos patriotas italianos.</p> - -<p>Del Pozzo escreveu-lhe de Londres aonde se achava -refugiado:</p> - -<div class="manuscr"> -<p>«Os meios termos e as medidas incompletas na -politica não servem para cousa alguma: o Piemonte -quer um rei constitucional.»</p> -</div> - -<p><span class="pagenum" id="Page_18">18</span> -Outro patriota que guardou o incognito, escreveu-lhe -de Marselha:</p> - -<div class="manuscr"> -<p>«Colloque-se á frente da nação, escreva na sua -bandeira—<i>União, liberdade e independencia</i>—declare -se vingador e interprete dos direitos populares, -trate de regenerar a Italia, livre-a dos seus inimigos, -e cuidando no futuro dê o seu nome a um -seculo, e seja o Napoleão da liberdade italiana.</p> - -<p>«Atire á Austria com a luva o nome da Italia, -e estou certo que com este escudo fará prodigios. -Appelle para tudo o que ha de grande e generoso -na Peninsula. Uma mocidade ardente e corajosa -impellida pelas duas paixões que fazem os heroes, -o odio e a gloria, vive ha muito tempo com um só -pensamento, e o seu mais ardente desejo é realisal-o.</p> - -<p>«Chame essa mocidade ás armas, ponha as cidades -e fortalezas debaixo da guarda dos cidadãos, -e livre por este modo de todo e qualquer cuidado -que não seja o vencer, reuna em volta de si todos -aquelles que sendo notaveis pela intelligencia e pelo -valor estejam isemptos de paixões infames. Inspire -confiança ao povo, dissipe todas as duvidas sobre -as suas intenções, chamando para o seu lado os homens -livres. Senhor, digo-lhe a verdade: os verdadeiros -patriotas hão-de avalial-o pelas suas acções, -mas sejam ellas quaes forem, esteja seguro -de que a posteridade verá em V. M. o primeiro dos -homens ou o ultimo dos tyrannos.</p> - -<p>«Escolha.»</p> -</div> - -<p>O que na realidade torna os reis os escolhidos do -Senhor é que só a elles se escrevem similhantes cartas. -Se Carlos Alberto tivesse seguido os conselhos do -seu mysterioso correspondente, teria sem duvida começado -por Goita, mas talvez não tivesse finalisado -por Novara.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_19">19</span> -Carlos Alberto despresou estes conselhos, e em -logar de entrar no largo caminho que se lhe apresentava, -metteu-se em uma estrada tortuosa d'onde poucos -teem saido incolumes.</p> - -<p>Desde este momento o divorcio foi declarado entre -o rei da Sardenha e a joven Italia. A joven Italia! -Foi por esta epocha que pela primeira vez se pronunciaram -estas tres palavras. De que se compunha ella -então? De José Mazzini o infatigavel promotor da -união italiana. José Mazzini apenas conhecido n'esta -epocha por algumas publicações politicas vendo-se perseguido -pela policia havia-se refugiado em Marselha -aonde collocava a primeira pedra da sua grande empreza -enviando com milhares de difficuldades para o -Piemonte os exemplares da sua <i>Joven Italia</i>.</p> - -<p>A nobreza e o clero piemontez que se haviam -apoderado do espirito de Carlos Alberto, começaram -a receiar pelo seu poder. Havia dois annos que se tinham -estabelecido na côrte, e por isso conheciam qual -elle era. Desconfiavam da politica duvidosa de Carlos -Alberto, e tinham medo que um dia lhe apparecesse, -não alguma sombra de liberdade, mas sim uma idéa -ambiciosa. Sabiam que Carlos Alberto n'essas noites -de febre, como só os reis teem, sonhava com o throno -da Italia.</p> - -<p>Para alcançar esse throno seria necessario coadjuvar -a revolução. O throno de Italia não estava á disposição -dos reis, mas sim do povo.</p> - -<p>Era necessario collocar uma barreira entre elle -e os patriotas.</p> - -<p>Um dia alguem disse:</p> - -<p>É tempo de lhe fazer derramar algum sangue.</p> - -<p>No mesmo dia Carlos Alberto foi prevenido de -que no exercito uma grande conspiração se tramava -com o fim de lhe tirar o throno.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_20">20</span> -Os factos foram desnaturados, os perigos exagerados. -Attacaram todas as fibras do homem e do principe -para lhe dar esse ressentimento mortal de que tinham -necessidade esses homens que se intitulam os -salvadores das monarchias.</p> - -<p>Uma commissão criminal extraordinaria foi creada -em Turim para dirigir todos os supplicios que tivessem -logar no Piemonte.</p> - -<p>Esta commissão decidiu que todos os accusados -militares ou paisanos seriam sentenciados por ella. -Foi a primeira violação do codigo penal.</p> - -<p>Por esta occasião é que se deu o facto memoravel -que vamos relatar.</p> - -<p>Um official que se assentava como juiz no conselho -de investigação fez algumas perguntas sobre -principios de direito criminal a um jurisconsulto. -Este respondeu-lhe que a primeira base de toda e -qualquer lei, que a primeira regra de todo o codigo -era:</p> - -<div class="manuscr"> -<p>«Que um conselho de investigação militar se devia -declarar incompetente para julgar cidadãos.»</p> -</div> - -<p>—Isso é impossivel, disse o official, porque o -general ordenou que nos declarassemos competentes.</p> - -<p>D'esta vez a base da lei, a regra do codigo foi a -ordem do general.</p> - -<p>O primeiro que manchou com o seu sangue o -manto do novo rei, foi o cabo Tamburelli, que foi fuzilado -pelas costas, por haver commettido o crime de -lêr aos seus soldados a <i>Joven Italia</i>. O segundo foi -o tenente Tolla culpado por ter tido em seu poder livros -sediciosos, e conhecendo o author não o haver -denunciado. Como Tamburelli foi fuzilado pelas costas. -Era uma engenhosa invenção da magistratura -piemonteza para assemelhar o supplicio do fuzilado -ao da forca.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_21">21</span> -Já não era sufficiente matar, era preciso tambem -deshonrar. A de 15 de Junho foram tão bem fuzillados -<i>pelas costas</i> o sargento Miglio, José Deglia e Antonio -Gaortti.</p> - -<p>Todos morreram com uma coragem admiravel.</p> - -<p>Jacopo Rufini estava encerrado nas prisões da torre -de Genova. Tentavam tirar-lhe as forças por todos os -meios possiveis: falto de comida e de somno, sentia -que se enfraquecia, não só physicamente, mas moralmente, -por isso resolveu não esperar que o collocassem -entre a morte e a vergonha, e receiando que chegado -esse momento não tivesse forças para escapar á -morte, arrancou uma lança de ferro da porta da prisão, -afiou-a e degolou-se com ella.</p> - -<p>Nas agonias da morte teve forças sufficientes para -escrever na muralha com letras de sangue:</p> - -<div class="manuscr"> -<p>«Lego á Italia a minha vingança.»</p> -</div> - -<p>Quando no dia seguinte entraram na prisão acharam-n'o -morto.</p> - -<p>Em Genova foram fuzilados Luciano Placenzo e -Luiz Turfo.</p> - -<p>Em Alexandria Domingos Ferrari, José Menardi, -José Rigano, Assani Costa, Giovanni Marini e depois -Andrea Vochieri.</p> - -<p>Escreveremos algumas linhas sobre Andrea Vochieri, -assim como fizemos de Jacopo Rufini.</p> - -<p>Um condemnado d'Alexandria que escapou ás -torturas de Fenestrelle, deixou nas suas memorias a -narração da agonia de Andrea Vochieri:</p> - -<div class="manuscr"> -<p>«Tiraram-me, diz elle, fallando de si, os meus -livros que se compunham de uma Biblia, de um livro -de orações e de uma Historia dos Capuchos illustres -do Piemonte. Depois pozeram-me ferros aos pés e -conduziram-me a outra prisão mais humida mais escura -e mais sordida que primeira. As janellas tinham -<span class="pagenum" id="Page_22">22</span> -duas ordens de grades e as portas cadêas dobradas. -Esta prisão era proxima da do pobre Vochieri. Alguns -buracos na parede permittiam-me ver tudo quanto -ali se passava.</p> - -<p>«Estava deitado em um miseravel banco com -ferros aos pés, dois guardas collocados ao lado com -a espada núa, e uma sentinella armada com uma -espingarda se achava á porta. Reinava n'este medonho -carcere um silencio sepulchral e os soldados -pareciam mais consternados do que o proprio prisioneiro. -Dois frades capuchos vinham com curtos -intervallos vel-o e exhortal-o.</p> - -<p>«Apesar da grande dôr que sentia em vêr aquelle -martyr em similhante estado não podia deixar -de o contemplar a todos os momentos. No fim de -oito dias vieram buscal-o para o conduzir á morte.»</p> -</div> - -<p>O que este prisioneiro não relata porque não o -sabia, é que Vochieri foi levado ao supplicio pelo caminho -mais longo, sendo obrigado a passar por defronte -da casa aonde habitava sua irmã, sua esposa -e seus filhos. Esperavam que vendo tudo o que elle -tinha de mais cara no mundo perdesse a coragem e -fizesse algumas revelações.</p> - -<p>Vochieri sorriu tristemente:</p> - -<p>—Esqueceram, disse elle, que ha no mundo uma -coisa que adoro mais do que esposa, irmã e filhos... -é a Italia. Viva a Italia!</p> - -<p>Voltando-se então para os guardas que o iam fuzilar, -e que eram condemnados das galés em logar de -soldados, disse esta unica palavra:</p> - -<p>—Vamos!</p> - -<p>Quinze minutos depois cahia atravessado por seis -ballas.</p> - -<p>Havia n'essa época em Niza um mancebo de vinte -e seis annos que vendo correr este sangue fazia -<span class="pagenum" id="Page_23">23</span> -comsigo mesmo o juramento de consagrar toda a sua -vida ao culto d'essa liberdade pela qual morriam -tantos martyres.</p> - -<p>Esse mancebo era <span class="smcap">Garibaldi</span>.</p> - -<p class="right cs7"><b>ALEXANDRE DUMAS.</b></p> - - </div> - - <div class="npage"> - -<p class="center cs12"><b>MEMORIAS DE GARIBALDI</b></p> - -<h2 id="cap_1">I<br /> -MEUS PAES</h2> - -<p>Nasci em Niza, a 22 de julho de 1807, não só na casa, -mas no proprio quarto em que nasceu Masséna. O illustre -marechal era, como ninguem ignora, filho de um padeiro. -Nas lojas d'aquelle predio ainda hoje se conserva uma padaria.</p> - -<p>Antes de fallar a meu respeito seja-me permittido dizer -duas palavras de meus estimados paes de que o excellente -caracter e profunda ternura tanta influencia tiveram na minha -educação e disposições physicas.</p> - -<p>Meu pae, Domingos Garibaldi, natural de Chiavari, era -como meu avô maritimo. Vindo ao mundo o primeiro objecto -que seus olhos viram foi o mar, e era no mar que devia passar -quasi toda a sua vida. Estava bem longe de possuir os -conhecimentos que são o apanagio dos homens da sua classe, -e principalmente do nosso seculo. Não havia formado a sua -educação em uma escóla especial, mas sim nos navios de -meu avô.</p> - -<p>Mais tarde capitaneou uma embarcação com grande felicidade. -<span class="pagenum" id="Page_26">26</span> -Soffreu immensos incidentes uns felizes, outros -desgraçados, e muitas vezes ouvi dizer que nos poderia ter -deixado mais bens de fortuna do que nos legou.</p> - -<p>Mas que importa isso! Meu pobre pae era livre de gastar -como intendesse um dinheiro tão laboriosamente ganho, -e eu não lhe sou menos reconhecido por esse facto. De mais -ha uma coisa, de que estou intimamente convencido e é, de -que todo o dinheiro que dispendeu n'este mundo o que gastou -com a minha educação foi o que com mais prazer saín -das suas algibeiras apesar dos grandes sacrificios que para -isso era obrigado a fazer.</p> - -<p>Não julguem por isto que a minha educação foi aristocratica. -Meu pae não me mandou ensinar gymnastica, jogo -d'armas ou equitação. A gymnastica apprendi-a trepando -pelos cabos dos navios, e deixando-me escorregar pelas enxarcias; -a esgrima defendendo a minha cabeça e tentando -o melhor que podia quebrar a dos outros, e a equitação tomando -os exemplos dos primeiros cavalleiros do mundo, isto -é, dos Gauchos.</p> - -<p>O unico exercicio corporal da minha mocidade, para o -qual tambem não tive mestre, foi a natação. Não me lembro -quando, e como aprendi a nadar, mas julgo que sempre -o soube, pois desconfio que nasci amphibio. Assim não -obstante o pouco prazer que tenho em me prodigalisar elogios, -como sabem todos aquelles que me conhecem, não -posso deixar de dizer que, sou um dos melhores nadadores -existentes. Sendo conhecida a confiança que tenho -em mim é escuzado dizer que nunca hesitei em me atirar -á agua quando era necessario salvar um dos similhantes.</p> - -<p>Entretanto se meu pae não me mandou ensinar todos -estes exercicios a culpa não foi sua, mas sim da epocha -calamitosa porque atravessavamos. N'estes tempos desgraçados -o clero era o senhor absoluto do Piemonte, e todos -os seus esforços eram tornar os mancebos em frades inuteis -e mandriões em logar de cidadãos aptos para servirem -a nossa desgraçada patria. O amor profundo que me consagrava -meu pobre pae, até lhe fazia receiar que se eu -recebesse alguma instrucção, isso me fosse funesto para o -futuro.</p> - -<p>Rosa Raymundo, minha mãe, era, digo-o com bastante -orgulho, o modelo das mulheres. Todo o bom filho deve dizer -o mesmo de sua mãe, mas nenhum o dirá com mais justiça -do que eu.</p> - -<p>Um dos remorsos de toda a minha vida, talvez o -<span class="pagenum" id="Page_27">27</span> -maior, foi e será o ter tornado desgraçados os seus ultimos -dias! Só Deus sabe quanto ella soffreu com a minha vida -aventureira, porque só Deus sabe o immenso amor que minha -mãe me consagrava. Se em mim existe algum sentimento -bom, confesso-o, e com bastante ufania, é a ella a quem -o devo. O seu caracter angelico devia forçosamente deixar-me -alguns vestigios. Não será á sua piedade pelos desgraçados, -á sua compaixão pelos infelizes, que eu devo este -amor pela patria, amor que me mereceu a affeição e sympathia -dos meus compatriotas?</p> - -<p>Não sou supersticioso, mas devo dizer que nas circumstancias -mais criticas da minha vida, quando o oceano rugindo -erguia o meu navio como um pedaço de cortiça, -quando as bombas assobiavam a meus ouvidos como o vento -da tempestade, quando as ballas cahiam em volta de mim -como a saraiva, via sempre minha pobre mãe ajoelhada aos -pés do <span class="smcap">Senhor</span> orando pelo filho das suas entranhas. Se algumas -vezes mostrei uma coragem de que muitos se admiraram, -é porque estava convencido de que não me succederia -desgraça alguma quando tão santa mulher, quando -similhante anjo orava por mim.</p> - -<h2 id="cap_2">II<br /> -OS MEUS PRIMEIROS ANNOS</h2> - -<p>Os primeiros annos da minha mocidade foram passados, -como são os de todas as creanças, isto é, rindo e chorando -sem saber porque, estimando mais o prazer que o -trabalho, os divertimentos que o estudo, e não aproveitando, -como devia ter feito, os sacrificios que meus paes -faziam por meu respeito. Cousa alguma extraordinaria -aconteceu durante a minha infancia. Tinha um excellente -coração, sendo este um bem emanado de Deus e de minha -mãe. Escusado é dizer que os impulsos d'esse coração -eram por mim immediatamente satisfeitos. Tive sempre -<span class="pagenum" id="Page_28">28</span> -grande compaixão por tudo o que era fraco e soffredor. -Esta compaixão estendia-se até aos animaes, ou antes -começava por elles. Lembra-me de que um dia apanhei -um grillo e que levando-o para o meu quarto, ahi passei -alguns momentos brincando com elle, até que com essa -inepcia ou antes brutalidade da infancia lhe arranquei uma -perna: a minha dôr foi tal, que passei muitas horas encerrado -no meu quarto chorando amargamente.</p> - -<p>Outra vez indo a Var á caça com um primo meu, parei -ao pé d'um profundo fosso aonde as lavadeiras costumavam -lavar a roupa e aonde n'aquelle momento se achava uma -pobre mulher lavando a sua. Não sei como, mas esta desgraçada -caiu no fosso. Apesar de ser mui novo—tinha então -oito annos—atirei-me á agua conseguindo salval-a. -Conto este caso para provar quanto é natural em mim um -sentimento que me leva a soccorrer o meu similhante, e -para se conhecer o pouco valor que tem o fazel-o.</p> - -<p>Entre os professores que tive n'esta epocha da minha -vida, contam-se o padre Giovanni e o senhor Arene, a quem -eu conservo um reconhecimento particular.</p> - -<p>Com o primeiro aproveitei pouco, porque, como já disse, -tinha mais disposição para brincar e vadear, do que para -trabalhar. Resta-me sobre tudo o pesar de não haver estudado -o inglez, como o teria podido fazer, porque sendo o -padre Giovanni de casa e quasi de familia, as suas lições -resentiam-se da muita familiaridade que entre nós existia. -Todas as vezes que sou obrigado a tractar com inglezes, -que não são poucas, este sentimento renova-se sempre. -Ao segundo, optimo professor, é a quem devo o pouco que -sei, mas o que mais lhe agradeço, e porque lhe serei eternamente -grato, é haver-me ensinado a minha lingua materna -pela constante leitura da historia romana.</p> - -<p>A grave falta de não ensinar ás creanças a lingua e historia -patria é frequentemente commettida em Italia, e principalmente -em Niza, onde a proximidade de França influe -muitissimo na educação. É pois a esta primeira leitura da -nossa historia, e á persistencia com que meu irmão mais -velho, Angelo, me recommendava o seu estudo, que eu -devo o pouco que sei da sciencia historica e a facilidade de -exprimir os meus pensamentos.</p> - -<p>Termino este primeiro periodo da minha juventude -narrando um facto que, apezar da sua pouca importancia -dará uma idéa da minha disposição para a vida aventureira.</p> - -<p>Fatigado de estudar, e soffrendo muito pela vida sedentaria -<span class="pagenum" id="Page_29">29</span> -que era obrigado a levar, propuz um dia a alguns -dos meus companheiros que fugissemos para Genova. -A proposta foi logo approvada e desatando um barco -de pesca fizemo-nos de véla para o Oriente. Estavamos -nas alturas de Monaco quando um pirata, mandado por -meu excellente pae nos apanhou e entregou cheios de vergonha -ás nossas familias. Um abbade que nos havia visto foi -o denunciante. D'este facto é que provavelmente vem as poucas -sympathias que sinto pelos abbades.</p> - -<p>Os meus companheiros n'esta aventura eram, se bem -me recordo, César Parodi, Rafael de Andreis e Celestino -Dermond.</p> - -<h2 id="cap_3">III<br /> -AS MINHAS PRIMEIRAS VIAGENS</h2> - -<p>«Oh! primavera, juventude do anno. Oh! juventude, -primavera da vida!» disse Metastasio, eu ajuntarei: Como -tudo se aformosea ao sol da juventude e da primavera!</p> - -<p>Foi illuminado por esse bello sol que tu linda <i>Constanza</i>, -primeiro navio em que sulquei os mares, me appareceste. -Os teus robustos flancos, a tua elevada e ligeira -mastreação, a tua espaçosa coberta, e até o busto de mulher -que se patenteava soberbo na tua prôa, ficarão eternamente -gravados na minha idéa! Como os teus marinheiros, verdadeiros -typos dos nossos Ligurios, se inclinavam graciosamente -sob os remos!</p> - -<p>Com que alegria me dependurava na amurada para ouvir -as suas canções populares.</p> - -<p>Cantavam canções de amor; ninguem então lhe ensinava -outras, e estas por mais insignificantes que fossem, enterneciam-me -e arrebatavam-me. Se esses cantos tivessem sido -pela patria, talvez me enlouquecessem! Quem lhe diria então -<span class="pagenum" id="Page_30">30</span> -que havia uma Italia? Quem lhe diria que tinhamos uma -patria a vingar e a tornar livre?</p> - -<p>Ninguem!</p> - -<p>Fomos educados e crescemos como judeus, isto é, na -crença de que a vida não tem senão um fim—fazer fortuna.</p> - -<p>Em quanto olhava alegre para o navio em que ia embarcar, -minha mãe preparava, chorando, a minha bagagem.</p> - -<p>A minha vocação era a vida aventureira do mar. Meu -pae fez todo o possivel para me tirar similhante idéa, a -sua vontade era que eu seguisse, uma carreira pacifica e -sem perigos; que fosse padre, advogado ou medico. Mas a -minha persistencia o fez desistir, e o seu amor cedeu á minha -juvenil obstinação. Embarquei então na <i>Constanza</i> de -que era capitão Angelo Pesante o mais atrevido maritimo que -tenho conhecido. Se a nossa marinha tivesse tomado as -proporções que se podiam esperar, o capitão Pesante teria -direito ao commando de um dos nossos navios de guerra, -e ninguem o teria excedido. Pesante nunca commandou -uma esquadra, mas que se dirijam a elle, e em breve -tempo já terá arranjado uma, desde as barcas até ás -naus de tres pontos. Se elle algum dia obtivesse uma tal -commissão, posso assegurar que haveria proveito e gloria -para a patria.</p> - -<p>Fiz a minha primeira viagem a Odessa. Estas viagens -tornaram-se depois tão communs e faceis que é inutil descrevel-as.</p> - -<p>A minha segunda viagem foi a Roma, mas na companhia -de meu pae que tendo na minha primeira ausencia soffrido -mortaes inquietações, se tinha resolvido visto eu não querer -ceder da minha teima, a acompanhar-me.</p> - -<p>Fizemos a viagem na sua tartana a <i>Santa Reparata</i>.</p> - -<p>A Roma! Com que alegria eu partia! Já disse como pelos -conselhos de meu irmão e pelos cuidados do meu digno -professor havia estudado, a historia romana. Roma era para -mim, admirador da antiguidade, a capital do mundo. É -verdade que se achava destruida, mas as suas ruinas eram -immensas, gigantescas e d'ellas sae a memoria de tudo -quanto é bello e grandioso. Roma foi não só a capital do -mundo, mas o berço d'essa religião santa que quebrou a cadêa -dos escravos, que ennobreceu a humanidade, d'essa religião -de que os primeiros apostolos foram os instituidores -das nações, os emancipadores dos povos, mas de que infelizmente -os successores degenerados teem sido o flagello da -<span class="pagenum" id="Page_31">31</span> -Italia, vendendo sua mãe, ou antes nossa mãe, aos estrangeiros! -Não! não! a Roma que eu via nos sonhos da minha -mocidade não era só a Roma do passado, mas tambem a do -futuro, abrigando em seu seio a idéa regeneradora de um -povo perseguido pela inveja das outras nações, porque nasceu -grande e porque tem sempre marchado á frente dos povos, -guiados por ella á civilisação.</p> - -<p>Roma! quando penso na sua desgraça, no seu abatimento, -no seu martyrio, parece-me superior a todo o mundo. -Amava-a com todas as forças da minha alma, não só -nos combates soberbos da sua grandeza durante tres seculos; -mas até nos mais pequenos successos que eu recolhia -no meu coração como um precioso deposito.</p> - -<p>O meu amor em logar de diminuir, tem augmentado -com o desterro. Muitas vezes, no outro lado dos mares, a -tres mil leguas de distancia, pedia ao <span class="smcap">Senhor</span> como uma -graça especial o tornar a vêl-a. Finalmente, Roma era para -mim a Italia, porque eu não vejo a Italia senão na reunião -dos seus membros dispersos, e Roma é para mim o symbolo -da unidade italiana.</p> - -<h2 id="cap_4">IV<br /> -AS MINHAS PRIMEIRAS AVENTURAS</h2> - -<p>Durante algum tempo naveguei na companhia de meu -pae; depois fui a Cagliari no bergantim <i>Etna</i>, de que era -capitão José Gervino.</p> - -<p>N'esta viagem presenciei uma horrivel catastrophe que -me deixou uma eterna recordação. Vindo de Cagliari, na -altura do cabo Noli, navegavamos na companhia de alguns -navios, entre os quaes se achava uma encantadora falua catalã. -Depois de gosarmos dois ou tres dias de um bello tempo, -começámos a sentir algumas rajadas d'esse vento a que -os nossos marinheiros chamam <i>Libieno</i>, por que antes de -chegar ao Mediterraneo passa pelo deserto de Lybia. Impellido -<span class="pagenum" id="Page_32">32</span> -por elle o mar não tardou a enfurecer-se, e tão furiosamente -que nos arrastou para Vado.</p> - -<p>A falua de que já fallei sustentou-se admiravelmente -no começo da tormenta, e não duvido dizer que todos nós -receiando que a tempestade augmentasse, desejavamos antes -estar a bordo da falua, do que dos nossos navios. Infelizmente -a desgraçada embarcação estava destinada a offerecer-nos -um doloroso espectaculo: uma vaga horrivel -a cobriu, e em bem poucos instantes todos aquelles desgraçados -foram submergidos. A catastrophe tinha logar á nossa -direita, e por isso nos era absolutamente impossivel soccorrel-os. -Os outros navios que nos acompanhavam tambem -se achavam na mesma impossibilidade. Nove pessoas da -mesma familia morreram á nossa vista, sem lhe podermos -prestar o mais leve soccorro. Algumas lagrimas appareceram -nos olhos dos mais endurecidos dos nossos marinheiros, -mas o perigo proprio era tal que ellas bem depressa seccaram. -A tempestade abrandou, como se estivesse satisfeita -por haver immolado estas victimas; e chegamos a Vado sem -incídente.</p> - -<p>De Vado parti para Genova, e de Genova voltei a Niza.</p> - -<p>Então comecei uma serie de viagens ao Levante, durante -as quaes fomos tres vezes tomados e roubados pelos -piratas. Duas vezes o fomos na mesma viagem, o que tornou -os segundos piratas mui furiosos, visto que não nos -encontravam cousa alguma para roubar. Foi n'estes ataques -que comecei a familiarisar-me com o perigo, e a vêr -que sem ser Nelson, podia como elle perguntar:—O que é -o medo?</p> - -<p>Foi n'uma destas viagens, no bergantim <i>Cortese</i>, capitão -Barlasemeria, que fiquei doente em Constantinopla. O -navio foi obrigado a fazer-se de véla, e prolongando-se a -minha doença mais do que eu tinha julgado, achei-me muito -falto de recursos.</p> - -<p>Como em todas as situações desgraçadas em que me -tenho achado, sempre encontrei alguma alma caridosa que -me soccorresse, nunca pensei muito na falta de dinheiro.</p> - -<p>Entre essas almas caridosas encontrei uma que nunca -esquecerei: é a excellente senhora Luiza Sauvaigo, de Niza, -que me fez convencer de que as duas mulheres mais -perfeitas do mundo, eram minha mãe e ella.</p> - -<p>Luiza fazia a felicidade de um marido, excellente homem, -e tratava com uma admiravel intelligencia da educação -de seus filhos.</p> - -<p>Porque razão fallei agora de Luiza? É porque escrevendo -<span class="pagenum" id="Page_33">33</span> -para satisfazer uma necessidade do coração, ella me -dictou o que acabo de lançar ao papel.</p> - -<p>A guerra então existente entre a Porta Ottomana e a -Russia contribuiu a prolongar a minha estada na capital do -imperio turco. Durante este tempo e ignorando ainda como -poderia alcançar recursos para viver, fui admittido como -preceptor em casa da viuva Timoni. Este emprego foi-me -dado sob recommendação de M. Diego, doutor em medicina, -e a quem dou aqui um voto de agradecimento pelo -serviço que me prestou. Estava, pois, preceptor de tres -meninos. Assim fiquei muitos mezes, até que a vontade -de navegar vindo de novo, me embarquei no bergantim -<i>Notre-Dame-de-Grace</i>, de que tinha sido capitão Casanova.</p> - -<p>Foi este o primeiro navio em que embarquei como capitão.</p> - -<p>Não fatigarei o leitor fallando nas minhas viagens, em -que nada de extraordinario me succedeu, direi unicamente -que atormentado sempre por um profundo patriotismo, nunca -cessei de perguntar noticias sobre a ressurreição de Italia, mas -infelizmente até á edade de vinte e quatro annos -todo o trabalho foi inutil.</p> - -<p>Emfim, n'uma viagem a Taganrog veiu a bordo do -meu navio um patriota italiano, que me deu algumas noticias -sob a maneira porque marchavam os negocios de -Italia.</p> - -<p>Havia alguma esperança para o nosso desgraçado paiz.</p> - -<p>Christovão Colombo, não foi mais feliz, quando perdido -no meio do Atlantico, e ameaçado pelos seus companheiros -a quem havia pedido só tres dias, ouviu gritar: «Terra», do -que eu quando ouvi pronunciar a palavra <i>patria</i>, e vi no -horisonte o primeiro pharol preparado pela revolução franceza -de 1830.</p> - -<p>Havia então homens que se occupavam da redempção -da Italia!</p> - -<p>Em outra viagem, transportei no <i>Clorinde</i>, a Constantinopla -alguns <i>Simoniacos</i>, conduzidos por Emilio Parrault.</p> - -<p>Tinha ouvido fallar pouco na seita de «Saint-Simon»; -sabia unicamente que estes homens eram os apostolos perseguidos -de uma nova religião.</p> - -<p>Vendo em Parrault um patriota italiano, dei-lhe parte -de todos os meus pensamentos. Então durante essas noutes -transparentes do Oriente, que, como diz Chateaubriand, -não são as trevas, mas unicamente a ausencia do dia, debaixo -<span class="pagenum" id="Page_34">34</span> -d'esse ceu marchetado de estrellas, sobre esse mar -de que a brisa parecia cheia de inspirações generosas, discutimos, -não só as mesquinhas questões de nacionalidade -nas quaes havia pensado muito, questões restrictas á Italia, -e a cada provincia—mas até a grande questão da humanidade.</p> - -<p>Este apostolo provou-me que o homem que defende a -sua patria, ou que ataca a dos outros, é no primeiro caso -um soldado piedoso; injusto no segundo,—mas o homem -que tornando-se cosmopolita, adopta a todas por patria -e vae offerecer a sua espada e o seu sangue ao povo que -lucta contra a tyrannia, é mais que um soldado—é um -heroe.</p> - -<p>Teve então logar no meu espirito uma mudança repentina. -Pareceu-me vêr em um navio não o vehiculo encarregado -de transportar mercadorias entre os diversos paizes, -mas o mensageiro do <span class="smcap">Senhor</span>. Havia partido avido de emoções, -e curioso por vêr cousas novas, e a mim mesmo perguntava -se esta idéa irresistivel que me perseguia não tinha -horisontes mais dilatados e por descobrir. Via esses horisontes -atravez o longiquo véo do futuro.</p> - -<h2 id="cap_5">V<br /> -OS ACONTECIMENTOS DE S. JULIÃO</h2> - -<p>O navio em que desta vez voltei do Oriente destinava-se -a Marselha.</p> - -<p>Chegando a esta cidade soube da revolução suffocada -no Piemonte e dos fuzilamentos de Chambéry, Alexandria -e Genova.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_35">35</span> -Em Marselha travei relações intimas com Covi, que me -apresentou a Mazzini.</p> - -<p>Então estava longe de suspeitar a grande communidade -de principios que um dia me uniria a Mazzini. Ninguem -conhecia ainda o persistente e obstinado pensador, que -nem a propria ingratidão tem feito desistir da grande obra -que emprehendeu. Quando soube da morte de Vocchieri, -Mazzini tinha dado um verdadeiro grito de guerra.</p> - -<p>Escreveu na sua <i>Joven Italia</i>: «Italianos, é tempo de -nos juntarmos, se queremos ficar dignos do nosso nome; e -derramar o nosso sangue amalgamando-o com o dos martyres -piemontezes.»</p> - -<p>Mas em França, em 1833, não se diziam impunemente -d'estas cousas. Algum tempo depois de lhe haver sido apresentado, -e de lhe ter dito que podia contar comigo, Mazzini, -o eterno proscripto, era obrigado a deixar a França e -a retirar-se a Genova.</p> - -<p>N'esta occasião o partido republicano parecia completamente -morto na França. Era um anno apenas decorrido: -estavamos a 5 de junho,—alguns mezes depois do processo -dos combatentes do claustro Saint-Merry.</p> - -<p>Mazzini havia escolhido este momento para fazer uma -nova tentativa.</p> - -<p>Os patriotas tinham respondido que estavam promptos, -mas pediam um chefe.</p> - -<p>Pensaram em Romarino, ainda coberto de louros por -causa das suas luctas na Polonia.</p> - -<p>Mazzini não approvava esta escolha, o seu espirito activo -e profundo prevenia-o contra os grandes nomes; mas a -maioria queria Romarino, e então Mazzini cedeu.</p> - -<p>Chamado a Genova, Romarino acceitou o commando da -expedição. Na primeira conferencia com Mazzini foi convencionado -que duas columnas republicanas se deviam dirigir -ao Piemonte, uma pela Saboia outra por Genova.</p> - -<p>Romarino recebeu quarenta mil francos para fazer face -ás primeiras despezas, e partiu com um secretario de Mazzini -que ia encarregado de o vigiar.<a name="FNanchor_3" id="FNanchor_3" href="#Footnote_3" class="fnanchor">[3]</a></p> - -<p>Todos estes acontecimentos tiveram logar em setembro -de 1833; a expedição devia ter logar em outubro.</p> - -<p>Mas Romarino conduziu tudo de tal modo que a expedição -não estava prompta senão em janeiro de 1834.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_36">36</span> -Mazzini não obstante todas as tergivergencias do general -tinha-se mostrado firme.</p> - -<p>Em fim a 31 de janeiro, Ramorino collocado na ultima -extremidade por Mazzini reuniu-se a elle em Genova, com -dois outros generaes e um ajudante de campo.</p> - -<p>A conferencia foi triste, e mal annunciada por pessimos -agouros. Mazzini propoz que se occupasse militarmente a -villa de S. Julião, onde se achavam reunidos os patriotas -saboyanos e os republicanos francezes, que haviam adherido -ao movimento.</p> - -<p>Era em S. Julião que se devia levantar o grito de rebellião.</p> - -<p>Ramorino era da opinião de Mazzini. As duas columnas -deviam pôr-se em marcha no mesmo dia: uma partiria -de Caronge, e a outra de Nyon, devendo esta atravessar -o lago para se reunir á primeira na estrada de S. Julião.</p> - -<p>Ramorino ficava com o commando da primeira columna: -a segunda estava debaixo das ordens de Graboky.</p> - -<p>O governo genovez receioso de se indispor, por um -lado com a França, por outro com o Piemonte, viu com -maus olhos este movimento. Quiz oppor-se á partida da -columna de Caronge commandada por Romarino, mas o -povo sublevou-se, e o governo foi forçado a deixal-a marchar.</p> - -<p>Não succedeu o mesmo com a que devia partir de -Nyon.</p> - -<p>Dous barcos se haviam feito de véla, levando um soldados, -e o outro armas.</p> - -<p>Mandaram em sua perseguição um navio de guerra a -vapor, que trouxe as armas e aprisionou os soldados.</p> - -<p>Ramorino não vendo chegar a tropa que se lhe devia -juntar, em logar de proseguir na sua marcha sobre S. Julião, -começou a costear o lago.</p> - -<p>Muito tempo se passou sem saber aonde iam. Não se -conheciam as intenções do general: o frio era intenso, e os -caminhos estavam em um estado deploravel.</p> - -<p>Exceptuando alguns polacos, a columna era composta -de voluntarios italianos, impacientes pela hora do combate, -mas que cançavam facilmente pela extensão e difficuldade -do caminho.</p> - -<p>A bandeira italiana atravessou algumas pobres villas, -nenhuma voz amiga a saudou, não encontrando por toda a -parte senão curiosos ou indifferentes.</p> - -<p>Fatigado pelos seus largos trabalhos, Mazzini que tinha -<span class="pagenum" id="Page_37">37</span> -trocado a penna pela espingarda, seguia a columna: soffrendo -uma febre ardente, arrastava-se por aquelles asperos -caminhos com a dôr escripta na fronte.</p> - -<p>Já por varias vezes tinha perguntado a Ramorino quaes -eram as suas intenções, e que caminho seguia.</p> - -<p>As respostas do general nunca o haviam satisfeito.</p> - -<p>Chegaram a Carra e detiveram-se para ahi passar a noite; -Mazzini e Ramorino achavam-se na mesma camara.</p> - -<p>Ramorino estava embrulhado na sua capa; Mazzini fixava -sobre elle o seu olhar sombrio desconfiado.</p> - -<p>—Não é seguindo este caminho, disse elle com a sua -voz sonora, tornada mais vibrante pela febre, que temos a -esperança de encontrar o inimigo. Devemos ir ao seu encontro, -e se a victoria é impossivel, provemos ao menos á -Italia que sabemos morrer.</p> - -<p>—Não nos faltará nem o tempo, nem a occasião, respondeu -o general, para affrontar perigos inuteis: considero -como um crime o expôr inutilmente a flôr da mocidade italiana.</p> - -<p>—Não ha religião sem martyres, respondeu Mazzini, -fundemos a nossa, ainda que seja com o nosso sangue.</p> - -<p>Mal acabava de pronunciar estas palavras, que o estrondo -da fuzilaria se ouviu.</p> - -<p>Ramorino deu um salto. Mazzini pegou n'uma carabina, -agradecendo a Deus o ter-lhe feito encontrar o inimigo. -Mas este era o ultimo esforço da sua energia: a febre devorava-o; -os seus companheiros correndo de noite pareciam-lhe -fantasmas, a fronte escaldava-lhe, e a terra tremia-lhe -debaixo dos pés. Depois de alguns minutos de afflicção -caíu desmaiado.</p> - -<p>Quando voltou a si achou-se na Suissa, aonde os seus -companheiros o tinham conduzido com grande trabalho: a -fuzilaria de Carra tinha sido um rebate falso.</p> - -<p>Ramorino declarou então que tudo estava perdido: recusou-se -a ir mais longe e ordenou a retirada.</p> - -<p>Durante este tempo uma columna de cem homens, da -qual faziam parte um certo numero de republicanos francezes, -partiu para Grenoble, e atravessou a fronteira da -Saboya.</p> - -<p>O perfeito francez preveniu as auctoridades sardas: os -republicanos foram attacados de noute e de improviso, ao -pé das grutas de Cobellos, e dispersos depois d'um combate -que durou uma hora.</p> - -<p>N'este combate os soldados sardos fizeram dois prisioneiros. -Angelo Volantieri e José Borrel: conduzidos voluntariamente -<span class="pagenum" id="Page_38">38</span> -a Chamberg e condemnados á morte, foram fuzilados -na mesma terra aonde ainda estava fumegante o -sangue de Elfico Tolla.</p> - -<p>Por este modo terminou aquella expedição.</p> - -<h2 id="cap_6">VI<br /> -O DEUS DOS BONS</h2> - -<p>Tinha tambem a minha parte a cumprir no movimento -que devia ter tido logar, e havia-a acceitado sem discutir.</p> - -<p>Havia entrado no serviço do estado como marinheiro -de primeira classe da fragata <i>Eurydice</i>. A minha missão era -alcançar proselytos para a nossa causa, e para conseguir -este fim tinha feito tudo quanto me era possivel.</p> - -<p>Dado o caso que o nosso movimento tivesse bom resultado, -devia com os meus companheiros apoderar-me da fragata -e pôl-a á disposição dos republicanos.</p> - -<p>Não havia querido, impellido pelo ardor que sentia, limitar-me -a este papel. Tinha ouvido dizer que um movimento -teria logar em Genova, devendo por esta occasião -apoderarem-se do quartel dos gendarmes situado na praça -de Sarzana. Deixei aos meus companheiros o cuidado de -se assenhorearem do navio, e proximo da hora em que devia -rebentar a rebellião de Genova deitei uma canôa ao mar -e desembarquei na alfandega, gastando poucos momentos -a chegar á praça de Sarzana, onde, como já disse, estava -situado o quartel.</p> - -<p>Esperei quasi uma hora, mas nenhum indicio de rebellião -<span class="pagenum" id="Page_39">39</span> -appareceu. Bem depressa ouvi dizer que tudo estava -perdido, havendo-se posto os republicanos em fuga: dizendo-se -tambem que varias prisões haviam sido feitas.</p> - -<p>Como não me tinha engajado na marinha sarda senão -para ajudar o movimento republicano, julguei inutil voltar -a bordo do <i>Eurydice</i>, começando a pensar nos meios de me -pôr em fuga.</p> - -<p>No momento em que fazia estas reflexões, alguma tropa -prevenida sem duvida do projecto de nos apoderarmos do -quartel, começou a guarnecer a praça.</p> - -<p>Vi então que não havia tempo a perder. Refugiei-me -em casa de uma vendedeira de fructa e confessei-lhe a situação -em que me achava.</p> - -<p>A excellente mulher não fez nenhuma reflexão e escondeu-me -nos quartos interiores do seu estabelecimento. No -dia seguinte procurou-me um fato completo de camponez, -e pelas oito horas da noite sahi, como se andasse passeando, -de Genova pela porta da Lanterne, começando então -essa vida de exilio, luto e perseguição, que, segundo todas -as probabilidades, ainda não finalisou.</p> - -<p>Estavamos a 5 de fevereiro de 1834.</p> - -<p>Abandonando os caminhos batidos e trilhados dirigi-me -por atalhos para as montanhas. Tinha bastantes jardins que -atravessar, e muitos muros que saltar. Felizmente estava -familiarisado com estes exercicios, e depois de uma hora de -gymnastica achava-me fóra do ultimo jardim.</p> - -<p>Encaminhado-me para Cassiopea, ganhei as montanhas -de Sestri, e no fim de dez dias, ou antes de dez noites; -cheguei a Niza, dirigindo-me logo a casa de minha tia, na -praça da Victoria, a fim de que ella prevenindo minha mãe -lhe tirasse todos os cuidados.</p> - -<p>Descancei um dia, e na noite seguinte parti acompanhado -por dois amigos, José Jaun, e Engelo Gostavini.</p> - -<p>Chegados ao Var, achamol-o innundado pelas chuvas, -mas para um nadador como eu, não era isto um obstaculo. -Atravessei-o metade a nado, metade a vau.</p> - -<p>Os meus dois amigos haviam ficado na outra margem. -Disse-lhe adeus.</p> - -<p>Estava salvo, ou quasi, como se vae vêr.</p> - -<p>N'esta esperança dirigi-me a um corpo de guardas da -alfandega; disse-lhe quem era, e qual o motivo porque havia -deixado Genova.</p> - -<p>Os guardas disseram-me que era seu prisioneiro, até -nova ordem, e que a iam mandar pedir a Paris.</p> - -<p>Julgando que acharia facilmente occasião de fugir, não -<span class="pagenum" id="Page_40">40</span> -fiz nenhuma resistencia, e deixei-me conduzir a Grasse, e -de Grasse a Draguignan.</p> - -<p>Em Draguignan metteram-me em um quarto do primeiro -andar, cuja janella sem grades, dava para um jardim.</p> - -<p>Aproximei-me d'ella como se quizesse vêr o jardim: da -janella ao chão havia a altura de quinze pés. Dei um salto, -e em quanto os guardas, menos ligeiros e estimando mais -as pernas do que eu estimava as minhas, saíam pela escada; -ganhei-lhe muita dianteira embrenhando-me nas montanhas.</p> - -<p>Não conhecia o caminho, mas era marinheiro, e lendo -no ceo, n'esse grande livro, aonde estava habituado a lêr, -orientei-me e dirigi-me a Marselha. No dia seguinte de tarde -cheguei a uma villa de que nunca soube o nome, porque -nem tive tempo para o perguntar.</p> - -<p>Entrei n'uma estalagem. Um mancebo e uma mulher -ainda joven estavam á mesa esperando pela ceia.</p> - -<p>Pedi alguma cousa de comer: desde a vespera que não -havia tomado nenhum alimento.</p> - -<p>O dono da hospedaria convidou-me para ceiar na sua -companhia e de sua mulher. Acceitei.</p> - -<p>A comida era boa, o vinho do paiz agradavel, e o fogo -excellente. Senti então um d'esses momentos de bem estar -e felicidade, como só se experimentam depois de se haver -passado um perigo, e quando se julga não haver mais nada -a receiar.</p> - -<p>O dono da hospedaria felicitou-me pelo meu bom appetite, -e pelo meu rosto alegre e prasenteiro.</p> - -<p>Disse-lhe que o meu appetite não tinha nada de extraordinario, -porque não tinha comido havia dezoito horas -e que o achar-me alegre e satisfeito era por haver escapado -talvez á morte no meu paiz—e em França á prisão.</p> - -<p>Tendo-me adiantado tanto, não podia fazer segredo do -resto. O estalajadeiro e sua mulher pareciam-me tão boas -pessoas que lhe contei tudo.</p> - -<p>Então, com grande espanto meu, o estalajadeiro ficou -pensativo.</p> - -<p>—Que tem? lhe perguntei.</p> - -<p>—É que depois da confissão que acaba de fazer, respondeu -elle, não tenho remedio senão prendel-o.</p> - -<p>Dei uma grande gargalhada porque não tomei este -dito ao serio, e demais se o fosse eramos um contra um, -<span class="pagenum" id="Page_41">41</span> -e não havia no mundo um unico homem que eu temesse.</p> - -<p>—Bem, disse eu, mas como julgo que não tem muita -pressa, peço-lhe que me deixe ceiar com todo o descanço, -pois temos muito tempo depois do <i>dessert</i>. E continuei comendo -sem mostrar a mais leve inquietação.</p> - -<p>Infelizmente vi bem depressa que se o estalajadeiro tivesse -necessidade de ajudantes para realisar os seus projectos, -esses ajudantes não lhe faltavam.</p> - -<p>A sua estalagem era o logar aonde toda a mocidade da -villa se reunia ás noutes para beber, fumar, e fallar da politica.</p> - -<p>A sociedade do costume começava a reunir-se, e bem -depressa estavam na estalagem mais de doze mancebos, -jogando as cartas, bebendo e fumando.</p> - -<p>O estalajadeiro não tornou a fallar na minha prisão, -mas tambem não me perdia de vista.</p> - -<p>É verdade que não tendo eu a mais pequena mala, não -tinha cousa alguma que lhe assegurasse o pagamento da -minha despesa.</p> - -<p>Como tinha na algibeira alguns escudos, fiz barulho -com elles, o que pareceu socegar o meu homem.</p> - -<p>No momento em que um dos bebedores acabava, no -meio dos applausos geraes, de cantar uma canção, ergui o -copo que tinha na mão:</p> - -<p>—Agora pertence-me, disse eu:</p> - -<p>E comecei a cantar o <i>Deus dos bons</i>.</p> - -<p>Se não tivesse outra vocação teria podido fazer-me -cantor, porque tenho uma voz de tenor que cultivada alcançaria -uma certa extensão.</p> - -<p>Os versos de Beranger, a franquesa com que eram cantados, -a fraternidade do estribilho, a popularidade do poeta, -arrebataram todo o auditório.</p> - -<p>Fizeram-me repetir dois ou tres couplets e abraçando-me -todos quando acabei, gritaram—Viva Beranger! Viva -a França! Viva a Italia!</p> - -<p>Depois de haver obtido tal successo era escusado pensar -em prender-me; o estalajadeiro conheceu isso porque -nunca mais me fallou de tal, ignorando eu por isso se elle -fallava seriamente ou se zombava.</p> - -<p>Passou-se a noite a cantar, jogar e a beber; e ao romper -do dia todos os meus companheiros da noite se offereceram -para me acompanhar, honra que acceitei sem difficuldade: -caminhámos juntos seis milhas.</p> - -<p>Com toda a certeza Beranger morreu sem saber o grande -serviço que me prestou.</p> - -<div class="pagenum" id="Page_42">42</div> - -<h2 id="cap_7">VII<br /> -ENTRO AO SERVIÇO DA REPUBLICA DO RIO GRANDE</h2> - -<p>Cheguei a Marselha sem incidente, vinte dias depois de -ter deixado Genova.</p> - -<p>Engano-me, um incidente, que li no <i>Povo Soberano</i>, -me succedeu.</p> - -<p>Estava condemnado á morte.</p> - -<p>Era a primeira vez que tinha a honra de ver o meu nome -impresso em um jornal.</p> - -<p>Como desde então era perigoso continuar a usar d'elle, -comecei a chamar-me Pane.</p> - -<p>Fiquei alguns mezes occioso em Marselha, aproveitando-me -da hospitalidade do meu amigo José Paris.</p> - -<p>Passado algum tempo consegui ser admittido como segundo -commandante no navio <i>Union</i>, capitão Gozan.</p> - -<p>No domingo seguinte achando-me pelas cinco horas da -tarde á janella com o capitão, seguia com a vista um collegial -em ferias que se divertia no caes de Santo André a -saltar de uma barca para outra, até que faltando-lhe um pé -caíu ao mar.</p> - -<p>Estava vestido á <i>domingueira</i>, mas apesar d'isso, ouvindo -os gritos dados pela desgraçada creança arrojei-me -á agua completamente vestido. Duas vezes mergulhei inutilmente, -mas á terceira fui mais feliz porque o agarrei por -debaixo dos braços, conseguindo trazel-o sem difficuldade -até á praia. Uma grande quantidade de povo ahi estava -reunida, sendo eu recebido no meio dos seus applausos e -bravos.</p> - -<p>Era um rapaz de quatorze annos que se chamava José -Bambau. As lagrimas de alegria e as bençãos de sua mãe -pagaram-me largamente do banho que tinha tomado.</p> - -<p>Como o salvei debaixo do nome de José Pane, é provavel -<span class="pagenum" id="Page_43">43</span> -que se é ainda vivo, nunca soubesse o verdadeiro -nome de seu salvador.</p> - -<p>Fiz na <i>Union</i> a minha terceira viagem a Odessa, depois -á volta embarquei-me em uma fragata do bey de Tunis. -Deixei-a no porto de Goletta, voltando a Marselha em um -brigue turco. Quando cheguei a esta cidade encontrei-a -quasi no mesmo estado que M. de Belzunce a viu em 1720 -quando ali grassava a febre negra.</p> - -<p>O cholera fazia então estragos horriveis.</p> - -<p>Na cidade só existiam os medicos e as irmãs da caridade, -quasi todo o resto da população havia desertado e viviam -nas quintas dos arrebaldes. Marselha tinha o aspecto -d'um vasto cemiterio.</p> - -<p>Os medicos pediam os benevolos. É assim, como se sabe, -que são chamados nos hospitaes os enfermeiros voluntarios.</p> - -<p>Offereci-me ao mesmo tempo que um rapaz de Trieste -que voltou de Tunis comigo. Estabelecemo-nos no hospital, -e ahi partilhavamos as vigilias.</p> - -<p>Este serviço durou quinze dias. No fim d'este tempo, -como o cholera diminuiu de intensidade e achava uma occasião -favoravel de ver novos paizes, embarquei-me, como -segundo no brigue <i>Nantonnier</i>, de Nantes, capitão Beauregard, -que se achava proximo a partir para o Rio de Janeiro.</p> - -<p>Muitos dos meus amigos me teem dito que antes de -tudo sou poeta.</p> - -<p>Se para ser poeta é necessario escrever a <i>Iliada</i>, a <i>Divina -Comedia</i>, as <i>Meditações de Lamartine</i>, ou os <i>Orientaes</i>, -de Victor Hugo, eu não sou poeta: mas se para o ser é necessario -passar horas e horas a procurar nas aguas asuladas -e profundas do mar os mysterios da vegetação submarina, -se é necessario ficar em extase diante da bahia do Rio de -Janeiro, de Napoles ou de Constantinopla, se é preciso pensar -no amor filial, nas recordações infantis, ou n'um amor -juvenil no meio das ballas e bombas, sem pensar que esse -sonho ha-de acabar pela cabeça ou por um braço quebrado—então -sou poeta.</p> - -<p>Recordo-me que um dia, durante a ultima guerra, não -dormindo havia quarenta horas, e morto de cançasso costeava -Urbano e os seus doze mil homens com os meus quarenta -bersaglieri, os meus quarenta cavalleiros e um milhar -de homens armados na sua maioria pessimamente, seguia -por um pequeno atalho do outro lado do monte Orfano -com o coronel Turr e cinco ou seis homens, quando -<span class="pagenum" id="Page_44">44</span> -parei repentinamente, esquecendo a fadiga e o perigo para -ouvir um rouxinol.</p> - -<p>Era uma noite magnifica. Sonhava ouvindo este amigo -de infancia, que um orvalho benefico e regenerador chovia -em torno de mim. Os que me rodeavam julgaram ou que -hesitava no caminho a seguir, ou que ouvia ao longe troar -os canhões, ou os passos da cavallaria inimiga. Não! Escutava -um rouxinol que ha mais de dez annos, póde ser, eu -não tinha ouvido. Este extase durou não até que os que me -rodeavam me tivessem repetido duas ou tres vezes «General, -ahi está o inimigo» mas até que este rompendo o fogo fizesse -desapparecer o meu encanto.</p> - -<p>Quando depois de ter costeado os rochedos graniticos -que occultam a todas as vistas o porto, que os indios na -sua linguagem expressiva chamam Nelheroky, quer dizer, -agua occulta, quando depois de haver passado a estrada -que conduz á nova bahia socegada como um lago; quando -na margem occidental d'esta bahia, vi elevar-se a cidade -chamada <i>Paus d'Assucar</i>, immenso rochedo conico que -serve não de pharol, mas de balisa aos navegantes, quando -appareceu em volta de mim essa natureza luxuriante de -que a Africa e a Asia só me tinham dado uma fraca idéa, -fiquei maravilhado do espectaculo esplendido que meus -olhos contemplavam.</p> - -<p>Foi no Rio de Janeiro que a minha boa estrella fez com -que eu encontrasse a coisa mais rara do mundo, isto é, um -amigo.</p> - -<p>Não tive necessidade de o procurar, não tivemos necessidade -de nos estudar, para nos conhecermos, encontramo-nos, -trocamos um olhar e nada mais; depois um -sorriso, um aperto de mão, e Rossetti e eu eramos dous -irmãos.</p> - -<p>Mais tarde terei occasião de dizer o que valia esta nobre -alma; e não obstante, eu, o seu maior amigo, seu irmão, -o seu companheiro por tanto tempo inseparavel, morrerei, -póde ser, sem ter occasião de plantar uma cruz no -ponto ignorado da terra aonde repousam os restos deste -generoso e valente cidadão.</p> - -<p>Depois de termos passado algum tempo na <i>ociosidade</i>—Chamo -ociosidade o estarmos Rossetti e eu, seguindo -um modo de vida para que não tinhamos disposição alguma—o -acaso fez com que travassemos relações com -Zambecarri, secretario de Bento Gonçalves, presidente da -republica do Rio Grande, que se achava então em guerra -com o Brasil. Ambos estavam prisioneiros de guerra em Santa -<span class="pagenum" id="Page_45">45</span> -Cruz n'uma fortaleza que se eleva á direita á entrada do -porto d'onde chamam os navios á falla. Zambecarri, filho -do famoso areonauta perdido n'uma viagem á Syria e de -que nunca mais se ouviu fallar, apresentou-me ao presidente -que me deu a carta para poder piratear os navios -brasileiros.</p> - -<p>Algum tempo depois Bento Gonçalves e Zambecarri fugiram -a nado chegando livres de todo o perigo ao Rio -Grande.</p> - -<h2 id="cap_8">VIII<br /> -CORSARIO</h2> - -<p>Armámos em guerra o <i>Mazzini</i>, pequeno navio de -trinta toneladas, e fizemo-nos ao mar com dezeseis companheiros -de aventuras. Finalmente eramos livres, navegavamos -debaixo de um pavilhão republicano; emfim eramos -<i>corsarios</i>.</p> - -<p>Com dezeseis homens de equipagem e um navio eramos -capazes de declarar a guerra a um imperio.</p> - -<p>Sahindo do porto dirigi-me para as ilhas Marica, situadas -a cinco ou seis milhas da embocadura da barra. -As nossas armas e munições estavam occultas debaixo das -carnes salgadas e da mandioca, unico alimento dos negros.</p> - -<p>Naveguei para a maior d'estas ilhas, que possue um ancuradouro, -lancei a ancora, saltei em terra e subi ao monte -mais elevado.</p> - -<p>Ahi estendi os braços com um sentimento de felicidade -e orgulho inexplicavel, dando um grito similhante ao da aguia -quando paira no mais alto dos ares.</p> - -<p>O Oceano pertencia-me e eu tomava posse do meu -imperio.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_46">46</span> -A occasião de o exercer não se fez esperar.</p> - -<p>Em quanto estava como um passaro do mar, debruçado -sobre o meu observatorio, vi uma galeota navegando com -o pavilhão brasileiro.</p> - -<p>Mandei apromptar tudo para nos fazermos immediatamente -ao mar, e desci á praia.</p> - -<p>Navegámos direitos á galeota que não julgava por certo -correr tão grande perigo a tres milhas da barra do Rio de -Janeiro.</p> - -<p>Abordando-a fizemo-nos conhecer, e intimámos o capitão -para se render immediatamente. Para sua justiça é necessario -dizer que não fizeram a mais pequena resistencia. -Em poucos momentos estavamos a seu bordo. Vi então dirigir-se-me -um passageiro portuguez, que trazia na mão -uma caixa. Abriu-a, e mostrou-a cheia de diamantes, que -me offereceu em troca da vida.</p> - -<p>Fechei a caixa e entreguei-lh'a, dizendo-lhe que a sua -vida não corria perigo algum, e que por consequencia, podia -guardar os seus diamantes para melhor occasião.</p> - -<p>Não tinhamos tempo a perder, estavamos quasi debaixo -do fogo das baterias do porto. Transportámos as armas e -munições para bordo da galeota e affundámos o <i>Mazzini</i> -que como se vê, tinha tido uma curta, mas gloriosa existencia.</p> - -<p>A galeota pertencia a um rico negociante austriaco que -habitava a ilha Grande, situada á direita sahindo do porto, -a quinze milhas de terra, e estava carregada de café que -era enviado á Europa.</p> - -<p>O navio era para mim, por todos os motivos, uma -excellente presa, porque pertencia a um austriaco a quem -eu tinha feito a guerra na Europa, e a um negociante brasileiro -domiciliado no Brasil a quem eu fazia a guerra na -America.</p> - -<p>Dei á galeota o nome de <i>Farropilha</i>, derivado de <i>Farrapos</i>, -nome que no imperio do Brasil se dá aos habitantes -das republicas da America do Sul, assim como Filippe II -chamava <i>mendigos de terra ou de mar</i>, aos revoltosos dos -Paizes Baixos.</p> - -<p>Até então a galeota chamava-se <i>Luiza</i>.</p> - -<p>O nome que lhe havia dado calhava perfeitamente. -Os meus companheiros não eram Rossettis, e devo confessar, -que a figura de alguns d'elles, não era satisfatoria; -isto explica a rapida entrega da galeota e o terror do portuguez -que me offereceu os seus diamantes.</p> - -<p>Durante todo o tempo que fui corsario dei ordem á minha -<span class="pagenum" id="Page_47">47</span> -gente para a vida, honra e fortuna dos passageiros ser -respeitada... ir dizer debaixo de pena de morte, mas não -devo dizer tal, porque não tendo até hoje ninguem infringindo -as minhas ordens, não tenho tido ninguem que -punir.</p> - -<p>Depois de concluidos os nossos primeiros arranjos dirigi-me -para o Rio da Prata, e para dar o exemplo de respeito -que eu queria se tivesse no futuro pela vida, liberdade -e bens dos passageiros, quando cheguei á altura da -ilha de Santa Catharina, um pouco abaixo do cabo Itapoya, -mandei deitar ao mar a lancha do navio e entregando tudo -quanto pertencia aos passageiros e alguns mantimentos os -fiz embarcar deixando-os livres de se dirigirem para onde -quizessem.</p> - -<p>Cinco pretos escravos da galeota e a quem eu havia dado -a liberdade engajaram-se como marinheiros.</p> - -<p>Quando chegámos ao Rio da Prata, ancorámos em Maldonato -pertencente á republica oriental de Uruguay.</p> - -<p>Fomos admiravelmente recebidos pela população e mesmo -pelas auctoridades, o que me pareceu de excellente -agouro. Rossetti partiu pois tranquilamente para Montevideo -afim de ahi vender o nosso café e apurar algum dinheiro.</p> - -<p>Nós ficámos em Maldonato,—quer dizer á entrada -d'esse magnifico rio que na sua embocadura tem trinta leguas -de largo—durante oito dias que se passaram em festas -continuas, que infelizmente estiveram para acabar tragicamente. -Oribe, que, na sua qualidade de chefe da republica -de Montevideo não reconhecia as outras republicas, -deu ordem ao governador de Montevideo para me -prender e apoderar-se da galeota. Felizmente o governador -de Maldonato era um excellente homem que em logar -de executar a ordem que recebeu, o que não lhe teria sido -difficil pela pouca ou nenhuma desconfiança que eu tinha, -mandou-me prevenir para que levantasse ancora e partisse -para o meu destino, se é que o tinha.</p> - -<p>Prometti partir na mesma noite, mas antes tinha um negocio -pessoal a tractar em terra.</p> - -<p>Tinha vendido, para comprar viveres, a um negociante -de Montevideo algumas saccas de café e algumas bijouterias, -pertencentes ao nosso austriaco. Mas ou porque o -meu comprador fosse máu pagador, ou porque tendo ouvido -dizer que eu talvez fosse preso, julgasse que poderia -passar sem me pagar, ainda não me tinha sido possivel receber -o meu dinheiro. Sendo pois obrigado a partir n'aquella -<span class="pagenum" id="Page_48">48</span> -mesma noute, e querendo entrar de posse do que -me pertencia antes de deixar Maldonato, não tinha tempo -a perder.</p> - -<p>Por conseguinte ás nove horas da noute mandei apparelhar, -e mettendo um par de pistolas na cintura, embrulhei-me -na minha capa e dirigi-me tranquillamente para -casa do negociante.</p> - -<p>Fazia um luar magnifico. Pouco distante da casa do -meu homem vi-o á porta tomando o fresco, elle tambem -me viu e reconheceu, porque me fez signal de me affastar, -indicando-me por este modo que a minha vida corria -risco.</p> - -<p>Fiz que não via, fui direito a elle, e por toda a explicação -apresentei-lhe uma pistola aos peitos:</p> - -<p>—O meu dinheiro, lhe disse eu.</p> - -<p>Quiz responder-me, mas quando lhe repeti pela terceira -vez «o meu dinheiro» fez-me entrar em sua casa, pagando-me -logo os dois mil patacões que me devia.</p> - -<p>Metti de novo a pistola no cinturão, puz o sacco do dinheiro -debaixo do braço, e voltei ao meu navio sem me ter -acontecido o menor incidente.</p> - -<p>Ás onze horas da noute levantámos ancora.</p> - -<h2 id="cap_9">IX<br /> -O RIO DA PRATA</h2> - -<p>Ao romper do dia, com grande admiração nossa, estavamos -no meio dos cachopos das Pedras Negras.</p> - -<p>Como me achava em tal situação é que eu não podería -explicar. Não havia dormido um minuto, não tinha -deixado de olhar um momento para a costa, consultando -a todos os instantes a bussola, dirigindo-me pelas suas -<span class="pagenum" id="Page_49">49</span> -indicações, e apezar d'isso achava-me no perigo que queria -evitar.</p> - -<p>Não havia momento a perder: o perigo era enorme: estavamos -cercados por todos os lados de cachopos. Saltei -para a verga do traquete, e d'ahi mandei orçar sobre bombordo, -e em quanto se executava esta manobra foi arrebatada -pelo vento a nossa pequena gavea.</p> - -<p>Do logar onde me achava dominava o navio e os recifes, -podendo por isso indicar o caminho que era necessario -fazer seguir á galeota, que do seu lado parecendo um ente -animado, e conhecedora do perigo em que estavamos, obedecia -com toda a docilidade ao leme. No fim de uma hora, -durante a qual estivemos entre a vida e a morte, e em que -vi empallidecer os meus mais valentes marinheiros, estavamos -salvos.</p> - -<p>Depois de passado o perigo, quiz conhecer qual o motivo -porque havia sido lançado no meio d'esses terriveis cachopos, -tão conhecidos dos navegantes, tão bem indicados -nas cartas maritimas, e a tres milhas dos quaes julgava estar -quando me achava no meio d'elles.</p> - -<p>Consultei a bussola: continuava a divagar: teria pois -naufragado, se por infelicidade, amanhecendo, não tivesse -conhecido o perigo:</p> - -<p>Em pouco tempo tudo me foi explicado.</p> - -<p>Quando sahi do navio para pedir os dois mil patacões ao -meu comprador do café, tinha mandado pôr no tambadilho -os sabres e fuzís, para estar prevenido no caso de algum -ataque: executando a minha ordem, os marinheiros tinham -collocado as armas ao pé da bitácola.</p> - -<p>Esta massa de ferro tinha attrahido a si a agulha, que -como se sabe, tem iman nas duas extremidades. Mandei -pois tirar as armas, e a bussola continuou a andar regularmente.</p> - -<p>Proseguimos a nossa viagem chegando a Jesus-Maria, -que do outro lado de Montevideo está quasi na mesma distancia -que Maldonato.</p> - -<p>A unica novidade que ali nos succedeu, foi acabarem-se -completamente os viveres, por isso que não tinhamos -tido tempo de os comprar antes da nossa partida. Como não -nos era possivel desembarcar, pelas ordens dadas, era necessario -lançar mão de algum expediente para arranjarmos -comestiveis.</p> - -<p>Começámos a bordejar, sem comtudo nos affastarmos da -costa.</p> - -<p>Uma manhã descobri na distancia de quasi quatro milhas -<span class="pagenum" id="Page_50">50</span> -uma casa, que pelo seu aspecto me pareceu uma herdade. -Mandei ancorar o mais perto possivel da praia, e como -não tinha escaler, porque, como já disse, havia dado o meu -aos individuos que tinham desembarcado em Santa Catharina, -arranjei uma jangada com uma mesa e alguns tonneis, -e armado com um croque, embarquei n'esta embarcação de -novo gosto com um unico marinheiro, que sem ser meu parente -tinha comtudo o nome de Garibaldi: o seu pronome -era Mauricio.</p> - -<p>O navio estava seguro por duas amarras, em consequencia -dos ventos pampeiros que eram mui violentos.</p> - -<p>Eis-me pois no meio dos recifes não navegando, mas -sim dançando em cima de uma mesa, arriscado a todos os -momentos a ser submergido. Depois de termos praticado -maravilhosos trabalhos de equilibrio, conseguimos encalhar -na praia. Deixei Mauricio encarregado de guardar a jangada, -e desembarquei.</p> - -<h2 id="cap_10">X<br /> -AS PLANICIES ORIENTAES</h2> - -<p>O espectaculo que então se me offereceu á vista, e que -admirava pela primeira vez, teria, para ser dignamente -descripto, necessidade da penna de um poeta ou do pincel -de um pintor. Via ondular na minha frente como as vagas -de um mar solidificado os immensos horisontes das—planicies -orientaes—assim chamadas porque estão no lado oriental -do rio Uruguay, que vae lançar-se no rio da Prata, defronte -de Buenos-Ayres, abaixo de Colonia. Era, posso jural-o, -um espectaculo cheio de novidade para um homem -<span class="pagenum" id="Page_51">51</span> -chegado do outro lado do Atlantico, e sobre tudo para um -italiano, nascido em um paiz em que é difficultoso vêr um -palmo de terra sem encontrar uma casa ou alguma obra dos -homens.</p> - -<p>Ali pelo contrario existia unicamente a obra de Deus, -tal como havia sahido das suas mãos no dia da creação.</p> - -<p>Era uma vasta, uma immensa campina, e o seu aspecto -que é o de um tapete de verdura e flores, não muda senão -nas margens do ribeiro Arroga, onde se elevam balanceando -ao vento encantadores grupos de arvores com folhas luxuriantes.</p> - -<p>Os cavallos, os bois, as gazellas, as avestruzes são, á -falta de creaturas humanas os habitantes d'essas immensas -solidões, que só são atravessadas pelos gauchos, esses centauros -do novo mundo, como para dar a entender a essas -turbas de animaes selvagens que Deus lhe deu um senhor... -Mas esse senhor, como o veem passar os touros, as avestruzes, -as gazellas! É a quem protestará primeiro contra a sua -supposta dominação: o touro pelos seus mugidos, a avestruz -e a gazella pela fuga.</p> - -<p>Esta vista fez-me pensar na patria, onde quando passa o -austriaco que os opprime, os homens, essas creaturas creadas -á imagem de Deus, cumprimentam-no e se curvam, não -ousando dar os mesmos signaes de independencia que os -animaes selvagens dão á vista do gaucho.</p> - -<p><span class="smcap">Senhor</span>, até quando permittireis tão grande aviltamento -da vossa creatura!?</p> - -<p>Deixemos o velho mundo, tão triste e aviltado, e voltemos -ao novo, tão joven, e tão cheio de esperanças!</p> - -<p>Como é bello o cavallo das planicies orientaes, com os -seus jarretes estendidos, com as ventas fumantes, com os -seus labios que nunca sentiram a friesa do aço! Como respiram -livremente debaixo do contacto da sua clina e juba, -os seus flancos que nunca foram apertados pelo joelho dos -cavalleiros, nem ensanguentados pelas suas esporas! Como -é soberbo quando reune, chamando pelos seus rinchos a sua -horda de eguas dispersas e que verdadeiro sultão do deserto, -evita, fugindo em sua companhia, a presença dominadora -do homem!</p> - -<p>Oh! maravilha da natureza! Milagre da creação! Como -heide exprimir a emoção que á vossa vista experimentou -esse corsario de vinte e cinco annos, que pela primeira vez -estendia os braços para a immensidade.</p> - -<p>Mas como esse corsario estava a pé, nem o touro nem -o cavallo o reconheciam por um homem. Nos desertos da -<span class="pagenum" id="Page_52">52</span> -America o cavallo é um complemento do homem, e sem -o saber, o ultimo dos animaes. Primeiramente pararam -estupefactos pela minha vista, mas bem depressa desprezando -sem duvida a minha fraqueza, aproximaram-se de -mim a tal ponto que sentia o rosto humedecido pela sua respiração. -Ninguem deve ter receio do cavallo, animal nobre -e generoso; mas todos devem desconfiar do touro, animal -dissimulado e traiçoeiro. As gazellas e avestruzes depois de -terem, como os cavallos e touros, mas mais circumspectamente, -feito o seu reconhecimento, partiram rapidas como -a flecha, e chegando ao alto d'um montezinho voltaram-se -para verem se eram perseguidas.</p> - -<p>N'este tempo, isto é, pelos fins de 1834 e principios de -1835, esta parte do terreno oriental estava ainda virgem de -toda a guerra; eis o motivo porque ali se encontrava tanta -quantidade de animaes selvagens.</p> - -<h2 id="cap_11">XI<br /> -A POETISA</h2> - -<p>Continuei dirigindo-me para uma <i>estancia</i>.<a name="FNanchor_4" id="FNanchor_4" href="#Footnote_4" class="fnanchor">[4]</a> Ahi encontrei -só a mulher do <i>capataz</i>.<a name="FNanchor_5" id="FNanchor_5" href="#Footnote_5" class="fnanchor">[5]</a> Como não podia vender-me -ou dar um boi sem consentimento de seu marido, era -necessario esperar a sua volta. Demais era tarde e antes do -dia seguinte não se podia conduzir o animal até ao mar.</p> - -<p>Ha momentos na vida de que a recordação ao mesmo -tempo que elles se affastam continúa vivendo e augmentando -na nossa memoria e tão bem que sejam quaes forem os -outros successos da nossa existencia, essa recordação só se -apaga com a morte. Era destino meu encontrar no meio -d'este deserto, esposa de um homem quasi selvagem uma -<span class="pagenum" id="Page_53">53</span> -mulher de uma educação cultivada, uma poetiza sabendo -pelo coração Dante, Petrarcha e Tasso.</p> - -<p>Depois de ter esgotado toda a minha sciencia na lingua -hespanhola, fiquei agradavelmente surprehendido, -ouvindo-a responder-me em italiano, convidando-me graciosamente -a assentar-me, em quanto seu marido não -chegava. No meio da nossa conversação, a minha encantadora -hospedeira, perguntou-me se eu conhecia as poesias -de Quintana, e ouvindo a minha resposta negativa, fez-me -presente de um volume d'essas poesias, dizendo-me que -m'o dava para apprender por sua causa o hespanhol. Perguntei-lhe -então se era poetisa.</p> - -<p>—Ha alguem, me respondeu, que diante d'esta natureza -não seja poeta?</p> - -<p>E sem se fazer rogar recitou-me muitos trechos de poesias -suas em que achei muito sentimento e uma grande -harmonia. Teria passado toda a noite a escutal-a sem me -lembrar de Mauricio que me esperava guardando a meza-jangada, -mas a entrada do marido fez cessar o lado poetico -para me chamar ao fim material da minha visita. Disse-lhe -o que queria e foi combinado que no dia seguinte me venderia -e levaria á praia um boi.</p> - -<p>Ao romper do dia despedi-me da minha bella poetisa -e fui ter com Mauricio. O pobre diabo tinha passado a -noite o melhor que poude, mettido entre os quatro toneis, -e muito inquieto por meu respeito, receiando que eu tivesse -sido devorado pelos tigres, muito communs n'esta -parte da America e menos inoffensivos que os cavallos e os -touros.</p> - -<p>No fim de alguns momentos appareceu o capataz trazendo -um boi ao laço. Em poucos momentos o animal foi -morto e esquartejado, tal é a habilidade que os homens do -sul teem para estas obras de sangue.</p> - -<p>Faltava transportar o boi, cortado em pedaços e leval-o -para o navio, isto é, a mil passos de distancia, pelo menos, -tendo de atravessar os cachopos onde se despedaçavam as -ondas furiosas.</p> - -<p>Mauricio e eu démos começo á nossa empreza.</p> - -<p>Já sabem como era construida a jangada que nos devia -conduzir a bordo: uma meza com um tonel amarrado a -cada pé, um pau no centro, que vindo do navio, tinha servido -para suspender os nossos vestidos, e que voltando -devia conduzir os viveres sustentando-os ao de cima da -agua.</p> - -<p>Deitámos a jangada ao mar, pozemo-nos em cima, e -<span class="pagenum" id="Page_54">54</span> -Mauricio com uma vara na mão, e eu com um croque, começámos -a manobrar temdo agua até aos joelhos, porque -o peso que a jangada levava era excessivo.</p> - -<p>A nossa manobra executou-se com grandes applausos -do americano e da tripulação da galeota, que fazia ardentes -votos, póde ser, não pela nossa salvação, mas sim pela -da carne que conduziamos. A nossa viagem ao principio -foi feliz, mas chegamos a uma linha de cachopos que nos -era necessario atravessar, achámo-nos por duas vezes quasi -submergidos.</p> - -<p>Felizmente atravessamo-la sem novidade.</p> - -<p>Mas livres dos cachopos, estavamos em perigo mais imminente.</p> - -<p>Não encontravamos o fundo com os nossos croques, e -por conseguinte era impossivel dirigir a embarcação. Alem -d'isso a corrente tornando-se mais violenta, á medida que -avançamos no rio, arrojava-nos para longe da galeota.</p> - -<p>Pareceu-me chegado o momento de atravessar o Atlantico -parando só em Santa Helena ou no Cabo da Boa Esperança.</p> - -<p>Os nossos companheiros, se nos quizessem apanhar, -não tinham senão o recurso de largarem as velas. Foi o -que fizeram, e como o vento estava de terra a galeota bem -depressa nos alcançou.</p> - -<p>Passando junto de nós os nossos companheiros, lançaram-nos -um cabo. Amarramos com elle a jangada ao navio, -e depois de termos içado todos os viveres é que Mauricio e -eu subimos. Em seguida içámos a meza que foi reintregada -no seu logar na casa do jantar, não tardando muito a -exercer as suas funcções habituaes.</p> - -<p>Vendo o appetite com que os nossos companheiros atacaram -a carne, que com tanto trabalho tinhamos alcançado, -consideramo-nos sufficientemente recompensados das -nossas fadigas.</p> - -<p>Alguns dias depois comprei por trinta escudos a canoa -d'um navio que cruzava n'estas paragens.</p> - -<p>Estivemos ainda este dia á vista do pico de Jesus Maria.</p> - -<div class="pagenum" id="Page_55">55</div> - -<h2 id="cap_12">XII<br /> -O COMBATE</h2> - -<p>Tinhamos passado a noite ancorados, quasi seis milhas, -ao meio dia do pico de Jesus Maria, em frente dos -barrancos de S. Gregorio. Uma pequena brisa do norte começava -a apparecer quando vimos vir do lado de Montevideo -duas barcas que julgámos serem amigas; mas como não -tinham o pavilhão encarnado, signal convenciado entre nós, -julguei prudente o fazer-me de vela em quanto os esperava. -Além d'isso mandei pôr no tombadilho os mosquetes e sabres.</p> - -<p>Esta precaução, como se vae vêr não foi inutil. A primeira -barca continuava a avançar unicamente com tres homens -á vista; chegada ao alcance do porta-voz, o que nos -parecia o chefe disse que nos rendessemos e ao mesmo -tempo o convez da barca encheu-se de homens armados -que sem nos dar o tempo de responder á sua intimação começaram -o fogo. Dei o grito de «Ás armas» e agarrei n'um -fuzil, depois respondendo a este cumprimento conforme podia, -e como estavamos com todo o pano mandei.—Ás vélas -de diante.</p> - -<p>Não sentindo a galeota obedecer ao leme com a docilidade -costumada, voltei-me e vi que a primeira descarga tinha -morto o marinheiro que n'aquella occasião ia ao leme, -e que era um dos nossos valentes. Chamava-se Florentino e -tinha nascido em uma das nossas ilhas.</p> - -<p>Não havia tempo a perder. O combate estava travado -com todo o furor. O lanchão, é o nome que dão á qualidade -dos barcos com que combatiamos, o lanchão tinha-nos abordado -pela direita e alguns dos seus marinheiros haviam já -saltado no nosso barco, mas por felicidade alguns golpes de -fuzil e sabre nos livraram d'elles.</p> - -<p>Depois de ter coadjuvado os meus companheiros a repellir -esta abordagem agarrei no leme que se achava sem -governo por causa da morte de Florentino. Infelizmente no -momento em que o agarrava para executar uma manobra -uma balla atravessou-me o pescoço ferindo-me entre a orelha -e a carotida, fazendo-me cahir sem conhecimento.</p> - -<p>O resto do combate que durou uma hora, foi sustentado -por Luiz Carniglia, piloto, e por Pascoal Sodola, Giovani -Lamberti, Mauricio Garibaldi e dous maltezes. Os italianos -fizeram prodigios de valor, mas os estrangeiros e os cinco -negros fugiram para o porão. Emfim o inimigo fatigado de -<span class="pagenum" id="Page_56">56</span> -nossa defeza e tendo uma dezena de homens fóra de combate -fugiu, em quanto que nós tendo apparecido algum -vento continuámos a subir o rio.</p> - -<p>Ainda que tivesse tornado a mim, fiquei completamente -inerte e inutil durante o resto do combate.</p> - -<p>Confesso, as primeiras impressões que senti abrindo os -olhos, foram deliciosas. Podia dizer que havia sido morto e -que tinha resuscitado, tanto o meu desmaio foi profundo. -Entretanto esse sentimento de bem estar foi bem depressa -abafado pelo conhecimento da situação em que nos achavamos. -Ferido mortalmente, não tendo a bordo quem -possuisse o menor conhecimento geographico, mandei buscar -a carta, e com muita difficuldade pois, me achava -com a vista coberta com um véo que me parecia o da -morte, indiquei com o dedo Santa Fé no Rio Parana. Só -Mauricio é que uma unica vez tinha feito uma viagem -ao rio da Prata; para todos nós eram pois completamente -estranhas aquellas paragens. Os marinheiros aterrados—os -italianos, devo dizel-o, não partilhavam estes sentimentos -ou pelo menos sabiam occultal-os—e receiando serem presos -e considerados como piratas, desertaram na primeira occasião -que se lhe apresentou. Em quanto esperavam por -este momento, em cada barco, em cada canoa, em cada -tronco d'arvore fluctuante viam um navio inimigo enviado -em sua perseguição.</p> - -<p>O cadaver do nosso desgraçado camarada foi deitado ao -mar, com as cerimonias costumadas n'estas occasiões, por -que durante muitos dias não podemos desembarcar em parte -alguma.</p> - -<p>Este genero de enterramento não era muito do meu -agrado, e sentia por elle uma grande repugnancia, talvez -por me julgar proximo a ter igual sorte. Confessei esta aversão -a Luiz Carniglia.</p> - -<p>No momento em que lhe fazia esta confissão vieram-me -á lembrança estes versos de Foscolo:</p> - -<p>«Uma pedra, um unico signal que difference os meus ossos -d'aquelles que a morte semea todos os dias na terra e no -Oceano.»</p> - -<p>O meu pobre amigo chorava promettendo não me deixar -lançar á agua. Quem sabe se apesar do seu desejo teria podido -executar a sua promessa. O meu cadaver serviria então -para matar a fome a algum lobo marinho, ou caiman. -Não tornaria a vêr a Italia, não me teria batido por ella, que -era a minha unica esperança!</p> - -<p>Quem diria ao meu caro Luiz que antes d'um anno -<span class="pagenum" id="Page_57">57</span> -era eu que o veria rolando pelos cachopos, desapparecer -no mar, e que procuraria debalde o seu cadaver, para -cumprir a promessa que elle me havia feito, de o sepultar -na terra e collocar na sua ultima morada uma cruz -que o recommendasse á oração dos viandantes. Pobre Luiz! -durante a minha longa e cruel enfermidade fostes tu que -tivestes sempre por mim um carinho paternal.</p> - -<h2 id="cap_13">XIII<br /> -LUIZ CARNIGLIA</h2> - -<p>Vou dizer algumas palavras sobre o meu pobre amigo -Luiz. E porque é um simples marinheiro não lhe hei-de -dedicar algumas linhas? Porque elle não é... Oh! posso -assegural-o, a sua alma era bastante nobre para sustentar -em todas as circumstancias a honra italiana: nobre para -affrontar todas as tormentas, nobre emfim para me proteger, -e para cuidar de mim, como se fosse seu filho! -Quando estava deitado no meu leito de agonia, abandonado -por todos, e delirava com o delirio da morte, era -Luiz que sentado á cabeceira do meu leito com a dedicação -e paciencia de um anjo não se affastava de mim -um instante senão para ir chorar e occultar as suas lagrimas. -Os seus ossos espalhados no Oceano mereciam -um monumento onde o proscripto reconhecido podesse um -dia dizer as suas virtudes aos seus concidadãos, devolvendo-lhe -as lagrimas piedosas que me consagrou.</p> - -<p>Luiz Carniglia era de Deiva, pequeno paiz do Levante. -Não havia recebido instrucção litteraria, mas suppria -esta falta por um maravilhoso intendimento. Privado de -todos os conhecimentos nauticos que são necessarios aos -pilotos, governava os navios até Gualeguay com a sagacidade -e felicidade de um piloto consumado. No combate -que acabo de referir, foi a elle que principalmente -devemos o não ter cahido nas mãos do inimigo: armado -de um machado estava sempre no logar onde havia maior -perigo sendo por este modo o terror dos assaltantes. De -uma estatura elevada e mui robusta reunia uma grande -<span class="pagenum" id="Page_58">58</span> -agilidade a um extraordinario valor. Dotado de uma grande -bondade nas cousas da vida, possuia o raro dom de se -fazer amar por todos. Infelizmente todos os melhores filhos -da nossa desgraçada patria teem morrido como este -em terra estrangeira esquecidos e sem ter quem derrame -uma lagrima por elles!</p> - -<h2 id="cap_14">XIV<br /> -PRISIONEIRO</h2> - -<p>Fiquei desanove dias recebendo unicamente os cuidados -de Luiz Carniglia.</p> - -<p>No fim d'este tempo chegámos a Gualeguay.</p> - -<p>Tinhamos encontrado na embocadura do Ibiqui, um -navio commandado por D. Lucas Tantalo, excellente homem -que teve toda a sorte de cuidados por mim prestando-me -o que julgava ser-me util na minha posição.</p> - -<p>Acceitámos os seus presentes com grande prazer, porque -não tinhamos a bordo senão café que era o nosso -unico alimento. Davam-me pois café a todos os momentos -sem se importarem se isso era ou não conveniente para -a minha doença. Comecei por ter uma febre assustadora -acompanhada por uma grande difficuldade de engolir fosse -o que fosse, o que não admirava, porque a balla atravessando-me -o pescoço de lado a lado tinha passado entre -as vertebras cervicaes e a pharinge. Decorridos oito -dias n'este estado afflictivo, a febre havia diminuido, sentindo -grandes melhoras.</p> - -<p>D. Lucas tinha feito mais: partindo, deu-me cartas -de recommendação para Gualeguay,—fazendo o mesmo -a um seu passageiro chamado Arraigada, biscainho, -que se achava estabelecido na America—e particularmente -para o governador da provincia d'Entre-Rios, D. Paschal -Echague, a quem por ter de fazer uma viagem, deixou -o seu proprio medico, D. Romão Delarea, joven argentino, -de muito merito, que examinando a minha ferida, -e tendo sentido a balla do lado opposto áquelle por -que tinha entrado, fez a extracção com toda a habilidade, -tratando-me durante algumas semanas, isto é até ao meu -<span class="pagenum" id="Page_59">59</span> -completo restabelecimento, com os cuidados mais affectuosos -e desinteressados.</p> - -<p>Fiquei seis mezes em Gualeguay em casa de D. Jacintho -Andreas, que teve, bem como a sua familia, por -mim os maiores cuidados.</p> - -<p>Infelizmente estava quasi prisioneiro. Não obstante a -boa vontade do governador Echague, e o interesse que -por mim tinha a população de Gualeguay, era obrigado -a esperar a resolução do dictador de Buenos-Ayres que -não decidia cousa alguma.</p> - -<p>O dictador de Buenos-Ayres era n'esta occasião Rosas, -de quem tratando de Montevideo, terei occasião de -fallar mais de vagar.</p> - -<p>Curado da minha ferida, comecei a dar alguns passeios, -que por ordem da authoridade eram mui limitados. -Em troca do meu navio confiscado davam-me um escudo -por dia, o que na realidade era muito para um paiz em -que sendo tudo mui barato quasi se não gasta dinheiro: -mas tudo isto não valia a minha liberdade.</p> - -<p>Provavelmente esta despeza d'um escudo por dia parecia -muito elevada ao governador, porque em differentes -occasiões me foram feitas offertas de se me favorecer a fuga, -mas as pessoas que me faziam essas offertas, eram, -sem o saberem, agentes provocadores! Diziam-me que o -governo veria a minha fuga sem grande pesar. Não era -pois necessario fazer grande violencia para que eu adoptasse -uma resolução de que ja havia formado o projecto. -O governador depois da partida de D. Paschoal, era um -certo Leonardo Millan, que não me havia até áquella épocha -mostrado nem interesse, nem odio, não tendo pois o -mais pequeno motivo para me queixar d'elle.</p> - -<p>Resolvi então fugir, começando logo os meus preparativos, -afim de estar prompto na primeira occasião que -se me apresentasse. Uma noute de tempestade dirigi-me -para casa d'um excellente homem que costumava de quando -em quando ir visitar, e que habitava a tres milhas -de Gualeguay.</p> - -<p>Dei-lhe parte da minha resolução, pedindo-lhe que -me procurasse um guia e cavallos, esperando chegar a -uma «estancia» pertencente a um inglez, situada na margem -esquerda do Parana, onde eu provavelmente encontraria -algum barco que me transportasse incognito a Buenos-Ayres -<span class="pagenum" id="Page_60">60</span> -ou Montevideo. O guia e os cavallos foram arranjados, -e começámos a andar por meio dos campos para -não sermos descobertos. Tinhamos que caminhar cincoenta -e quatro milhas, podendo vencer perfeitamente este -espaço em meia noute.</p> - -<p>Quando rompeu o dia estavamos á vista de Ibiqui, -na distancia de meia milha do rio. O guia disse-me então -que parasse ali em quanto elle ia saber que caminho -deviamos seguir.</p> - -<p>Fiquei pois só.</p> - -<p>Apeei-me, amarrei as redeas do cavallo ao tronco de -uma arvore e deitei-me, esperando assim durante duas -ou tres horas, até que vendo que o meu guia não apparecia, -levantei-me resolvido a ir pessoalmente informar-me, -quando repentinamente ouvi por detraz de mim um -tiro. Voltei-me e vi um destacamento de cavallaria que -me perseguia de sabre em punho. Estavam já entre o meu -cavallo e eu, era pois impossivel defender-me ou fugir.</p> - -<p>Entreguei-me.</p> - -<h2 id="cap_15">XV<br /> -A APOLEAÇÃO</h2> - -<p>Ligaram-me as mãos atraz das costas, pozeram-me a -cavallo, e depois ligaram-me tambem os pés como o haviam -feito ás mãos, sujeitando-os á cilha do animal.</p> - -<p>Foi n'este estado que cheguei a Gualeguay, onde, como -se vae vêr, me esperava um peor tratamento.</p> - -<p>Ainda hoje, e já são passados bastantes annos, estremeço -quando penso n'esta circumstancia da minha vida.</p> - -<p>Conduzido á presença de Leonardo Millan fui intimado -por elle para denunciar quem me havia fornecido os -meios de effectuar a minha fuga. É escusado dizer que -não fiz tal confissão, pois declarei que só eu a tinha arranjado -e executado. Então como me achava ligado e Leonardo -não tinha cousa alguma a temer, aproximou-se de -mim e começou a bater-me nas faces com o chicote. Depois -renovou as suas perguntas, não sendo mais feliz que -da primeira vez.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_61">61</span> -Mandou-me conduzir á prisão, e disse em voz baixa -algumas palavras ao ouvido d'um dos guardas.</p> - -<p>Estas palavras eram a ordem de me applicar a tortura.</p> - -<p>Chegando á camara que me estava destinada, os guardas -deixaram-me as mãos ligadas atraz das costas, collocaram-me -nos pulsos uma nova corda, e passaram a outra -extremidade a uma trave, suspendendo-me a quatro ou cinco -pés do chão.</p> - -<p>Então Leonardo entrou na prisão e perguntou-me de -novo se estava resolvido a dizer a verdade.</p> - -<p>A unica vingança que podia tomar era cuspir-lhe no -rosto, e assim o fiz.</p> - -<p>—Quando o prisioneiro, disse elle retirando-se, quizer -declarar quem foram os seus cumplices, mandem-me -chamar, e depois de fazer a confissão podem pol-o no chão.</p> - -<p>Depois sahiu.</p> - -<p>Fiquei duas horas n'esta horrivel posição. O peso do -meu corpo sobrecarregava nos meus punhos ensanguentados -e nos meus hombros deslocados.</p> - -<p>Parecia-me estar sobre brasas.</p> - -<p>A todos os momentos pedia agua, e os meus guardas -mais humanos que o meu carrasco davam-me, mas ella -não me matava a sede devoradora que soffria. Pode-se -fazer uma idéa dos meus padecimentos, lendo as torturas -que se inflingiam aos prisioneiros na idade media. No -fim de duas horas os meus guardas tendo piedade do meu -estado, ou julgando-me morto desceram-me.</p> - -<p>Cahi no chão sem movimento.</p> - -<p>Era uma massa inerte, sem outro sentimento que o -de uma profunda e muda dôr—era quasi um cadaver.</p> - -<p>N'este estado sem eu saber o que faziam de mim metteram-me -nos cepos.</p> - -<p>Tinha andado com as mãos e pés ligados atravez de -pantanos cincoenta milhas. Os mosquitos numerosos e -enraivecidos n'esta estação tinham-me tornado o rosto e -as mãos n'uma grande chaga. Havia soffrido durante duas -horas horriveis torturas, e quando tornei a mim achei-me -ligado a um assassino.</p> - -<p>Ainda que não tivesse dito uma unica palavra, no -meio dos meus atrozes soffrimentos, D. Jacintho Andreas -tinha sido preso. Os habitantes do paiz estavam cheios de -espanto.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_62">62</span> -Em quanto a mim senão fossem os cuidados de uma -mulher que foi para mim um anjo de caridade teria succumbido -a tão atrozes soffrimentos. Despresando todo o -perigo, vinha ver-me todos os dias, trazendo-me o que -eu necessitava.</p> - -<p>Chamava-se Allemand.</p> - -<p>Poucos dias depois o governador vendo que eram inuteis -todas as tentativas que fazia para me obrigar a fallar, e -convencido que eu morreria antes de denunciar um dos -meus amigos, não querendo provavelmente tomar sobre -si a responsabilidade da minha morte mandou-me para a -capital da provincia Bagada. Fiquei dois mezes na prisão -no fim dos quaes o governador me mandou dizer que me -era permitido sahir livremente da provincia. -Ainda que eu tenho opiniões oppostas a Echague e que por mais de -uma vez, depois d'esse dia, tenha combatido contra elle -não devo occultar as obrigações de que lhe sou devedor -e ambicionava hoje ter occasião de lhe provar todo o reconhecimento -que lhe consagro pelos serviços que me prestou.</p> - -<p>Mais tarde o acaso fez cahir nas minhas mãos os chefes -militares da provincia de Gualeguay e todos foram -postos em liberdade sem se lhe fazer a menor offensa, -nem a elles nem ás suas propriedades.</p> - -<p>Em quanto a Leonardo Millan nunca o quiz vêr com -receio que a sua presença, fazendo-me recordar do que -havia soffrido me obrigasse a praticar alguma acção indigna -de mim.</p> - -<h2 id="cap_16">XVI<br /> -VIAGEM NA PROVINCIA DO RIO GRANDE</h2> - -<p>Em Bajada embarquei n'um bergantim italiano, capitão -Ventura. Este maritimo homem recommendavel a todos -os respeitos, tratou-me sempre com a maior generosidade -e cavalheirismo. Conduziu-me á embocadura do -Iguassu, affluente do Parana, ahi passei para bordo de -um barco, capitaneado por Pascoal Carbone, que se destinava -a Montevideo.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_63">63</span> -Estava então em maré de ventura; Carbone obsequiou-me -tambem admiravelmente.</p> - -<p>A fortuna, assim como as infelicidades vem sempre -em grandes porções; estas haviam finalisado para mim; -aquellas começavam a affluir sem interrupção.</p> - -<p>A minha proscripção continuava em Montevideo. A -resistencia que empregára contra os lanchões e a perda -que lhes haviamos causado era para isso pretexto plausivel. -Fui então obrigado a esconder-me em casa de Pazante -aonde me conservei por espaço de um mez.</p> - -<p>Comtudo a minha reclusão tornava-se supportavel, por -que era suavisada pelas visitas de muitos compatriotas, -que em tempo de prosperidade e de paz tinham vindo -estabelecer-se no paiz e exerciam para com os amigos do -velho mundo a mais generosa hospitalidade. A guerra, e -sobretudo o cerco de Montevideo veiu mudar a posição -da maior parte d'elles e de feliz que era tornou-l'ha não -só má, porém pessima. Pobres homens! bastantes vezes -os deplorei, e desgraçadamente não podia fazer mais do -que lamental-os!</p> - -<p>Passado um mez, era tempo de seguirmos viagem; -parti com Rossetti para o Rio Grande; a nossa jornada -devia ser e foi feita a cavallo, o que me deu muito prazer. -Viajavamos á <i>escotero</i>.</p> - -<p>Darei uma pequena explicação sobre esta maneira de -viajar, que pela sua rapidez deixa bem longe a posta por -mais ligeira que ella seja.</p> - -<p>Sejam dois, tres ou quatro os viajantes, vão acompanhados -por vinte cavallos habituados a seguir os que -vão montados; quando depois alguns dos cavalleiros -vê que o seu cavallo está fatigado, apeia-se, passa -o selim e os arreios para um dos que vem livres, e segue -a galope tres ou quatro leguas; depois toma outro, -e assim successivamente os vae mudando até chegar ao -seu destino; os cavallos cançados, mesmo tendo de seguir -os outros, recuperam forças, porque vão livres de selim e -do cavalleiro.</p> - -<p>O pouco tempo que os cavalleiros gastam n'estas mudas, -os cavallos o aproveitam para comerem alguma herva -e beberem agua, se por acaso a encontram; as verdadeiras -rações são duas vezes ao dia, pela manhã e á noite.</p> - -<p>D'este modo chegámos a Piratini, séde do governo do -<span class="pagenum" id="Page_64">64</span> -Rio Grande; a capital da provincia é Porto Allegre, porém -como estava occupada pelos imperiaes, o governo republicano -estabelecera-se em Piratini.</p> - -<p>Piratini é realmente um dos mais bellos paizes do -mundo; divide-se em duas regiões; uma de planicies e -a outra montanhosa.</p> - -<p>As planicies verdadeiramente tropicaes produzem a -banana, a cana d'assucar, e a laranja. Junto aos troncos -das suas arvores, e por entre as plantas arrasta-se a serpente -cascavel, a serpente negra, e a serpente coral; ali, -como na India, vê-se saltar o tigre, o jaguar, a puma, e -o leão inoffensivo, de dimensões eguaes a qualquer dos -enormes cães do monte de S. Bernardo.</p> - -<p>A região montanhosa é temperada como o meu bello -clima de Niza; colhe-se o bom pecego, a pera, a ameixa, -e toda a qualidade de fructos da Europa, encontram-se as -magnificas florestas, das quaes nenhuma pena seria capaz -de fazer exacta descripção, com os seus pinheiros direitos -como os mastros dos navios, e d'altura de duzentos -pés, e dos quaes talvez cinco ou seis homens não podessem -abraçar o tronco. Á sombra d'esses pinheiros vegetam -os taquares, canas gigantescas que chegam a oitenta -pés d'altura, e das quaes na base não excedem a grossura -do corpo d'um homem; existe tambem ali a <i>barba de -pau</i>, litteralmente dita a barba das arvores, que entrelaçando-se -multiplicadamente fórma espeços bosques; nas -vastas planicies chamadas campestres estendem-se cidades -inteiras, como Cima da Serra, Vaccaria, Lages; não tres -cidades, mas tres provincias; população caucasiana, de -origem portugueza, e essencialmente hospitaleira.</p> - -<p>O viajante não tem precisão de dizer nem de pedir -coisa alguma; entra em qualquer habitação, vae direito -á camara dos hospedes; os criados apparecem, sem que -sejam chamados, descalçam-o e lavam-lhe os pés. Fica ali -por quanto tempo quer, e quando lhe appetece retira-se -sem despedir-se nem agradecer; e apesar d'esta descortesia, -outro que venha depois d'elle não é recebido com -menos agrado.</p> - -<p>É a juventude da natureza, o erguer da humanidade.</p> - -<div class="pagenum" id="Page_65">65</div> - -<h2 id="cap_17">XVII<br /> -A LAGOA DOS PATOS</h2> - -<p>Chegando a Piratini, fui magnificamente recebido pelo -governo da republica. Bento Gonçalves—verdadeiro cavalleiro -andante do seculo de Carlos-Magno, irmão, pelo -coração, dos Oliveiros e dos Roldões vigoroso, agil e leal -como elles, verdadeiro centauro, manejando um cavallo -como ainda não vi manejar senão ao general Netto—modelo -completo para um cavalleiro—estava ausente e em -marcha com uma brigada de cavallaria, para atacar Silva -Tanaris, chefe imperial, que tendo atravessado o canal -de S. Gonçalo, infestava esta parte da provincia Piratini, -séde do governo republicano, e pequena villa encantadora -pela sua posição e cabeça de districto do mesmo nome, -guarnecida por uma população bellicosa e essencialmente -dedicada á causa da liberdade.</p> - -<p>Na ausencia d'aquelle general, foi o ministro da fazenda -quem me fez as honras da cidade.</p> - -<p>Agora uma palavra respectivamente ao Rio Grande, o -qual, por este nome, poderia suppor-se situado ao longo -de um grande rio, ou um rio propriamente dito.</p> - -<p>O Rio Grande é o Lago dos Patos, e terá trinta leguas -de extensão. Além de alguns baixos muito fundos, -dos quaes mais tarde fallaremos, é em toda essa extensão -bastante profundo e povoado por caimans; sendo formado -por cinco rios, os quaes vindo terminar na extremidade -do norte, apresentam a disposição de cinco dedos da -mão, da qual a palma é o fim do lago.</p> - -<p>Ha um ponto d'onde se descobrem perfeitamente esses -cinco rios, e que por essa razão se chamava <i>Viamão</i>—Vi -a mão.</p> - -<p>Viamão mudara, porém de nome, e chamava-se <i>Settembrina</i> -em commemoração de haver sido em setembro -proclamada a republica.</p> - -<p>Achava-me em Piratini sem ter em que me occupar; -pedi então para fazer parte da columna de operações, que -<span class="pagenum" id="Page_66">66</span> -se dirigia sobre S. Gonçalo, e era commandada pelo presidente -da republica.</p> - -<p>Foi então que pela primeira vez vi aquelle valente, -gosando alguns dias a sua intimidade. Era realmente o -filho querido da natureza—que lhe havia prodigalisado -tudo o que torna o homem um verdadeiro heroe.—Bento -Gonçalves teria então sessenta annos. Alto, esvelto, montava -a cavallo, como já disse, com um garbo e agilidade -admiraveis. N'aquella posição ninguem o julgaria com -mais de vinte e cinco annos.—Valente e feliz, não teria -hesitado um momento, como um cavalleiro de Arioste, em -atacar um gigante: tivesse elle a estatura de Polyphemo -ou a armadura de Ferragus.</p> - -<p>Fôra um dos primeiros a levantar o grito de guerra, -não com vistas de ambição pessoal, mas como qualquer -outro belligerante filho d'aquelle povo. Na campanha passava -como o mais infimo habitante das campinas; isto é, -com a carne assada e agua pura.—No dia em que nos -encontrámos pela primeira vez, convidou-me para o seu -banquete frugal; e conversámos com tanta familiaridade -como se fossemos companheiros de infancia e eguaes em -posição. Com taes dotes naturaes e adquiridos, Bento -Gonçalves era o idolo de seus concidadãos; porém cousa -estranha, foi quasi sempre infeliz nas emprezas guerreiras; -o que me faz acreditar que o acaso é superior ao genio -para os successos da guerra, e para a fortuna dos heroes.</p> - -<p>Acompanhei a columna até Camodos,—passagem do -canal de S. Gonçalo que liga a lagôa dos Patos a Meryn.</p> - -<p>Silva Tanaris havia-se retirado precipitadamente, logo -que soube da aproximação de uma columna do exercito -republicano.</p> - -<p>Não podendo alcançal-o, o presidente retrocedeu. Fiz -outro tanto, tomando o caminho de Piratini.</p> - -<p>N'esta occasião recebemos noticia da batalha de Rio -Pardo, na qual o exercito imperial fôra completamente -destroçado pelos republicanos.</p> - -<div class="pagenum" id="Page_67">67</div> - -<h2 id="cap_18">XVIII<br /> -ARMAMENTO DE LANCHÕES EM CAMACUA</h2> - -<p>Fui encarregado do armamento de dois lanchões que -existiam nas aguas do Camacua, rio que corre quasi parallelo -e a pouca distancia do canal de S. Gonçalo, e que -como este vae desaguar no lago dos <i>Patos</i>.</p> - -<p>Reuni alguns marinheiros vindos de Montevideo a -outros que achei no Piratini, completando ao todo uns -trinta homens de diversas nações. Infelizmente para elle -tambem ali se achava o meu caro Luiz Carniglia. Tinhamos -um outro recruta francez de estatura collossal, bertão, por -nascimento, a que chamavamos João-Grande, e outro por -nome Francisco, verdadeiro corsario, e digno <i>irmão da -costa</i>.</p> - -<p>Chegando a Camacua, encontrámos ahi o americano -John Griggs, que habitando n'uma herdade pertencente -a Bento Gonçalves estava encarregado de vigiar o acabamento -de dois <i>sloops</i>.</p> - -<p>Fui nomeado chefe d'essa frota ainda em construcção, -com o posto de capitão-tenente. Era curioso aquelle -methodo de construcção que fazia honra á bem conhecida -persistencia dos americanos. Ia procurar-se á madeira -a uma parte e o ferro a outra; dois ou tres carpinteiros -cortavam e apparelhavam aquella, um mulato -forjava o ferro. Foi assim que se fabricaram os dois <i>sloops</i>, -desde os pregos até aos circulos de ferro dos mastros.</p> - -<p>No fim de dois mezes a esquadrilha estava prompta. -Cada um dos vasos foi armado com duas peças de bronze; -quarenta negros ou mulatos foram aggregados aos -trinta europeus, formando d'esse modo duas equipagens -que comprehendiam setenta homens.</p> - -<p>O lote dos lanchões seria um de dezoito, outro de doze -a quinze tonelladas.</p> - -<p>Tomei o commando do mais forte a que puzemos o -nome de <i>Rio-Pardo</i>.</p> - -<p>John Griggs foi encarregado do segundo, que se chamou—<i>O -Republicano</i>.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_68">68</span> -Rossetti tinha ficado em Piratini, incumbido da redacção -do jornal <i>O Povo</i>.</p> - -<p>Começaram então as nossas correrias pelo lago dos -Patos. Passaram-se alguns dias sem fazermos mais do -que prezas insignificantes.</p> - -<p>Os imperiaes tinham, para fazer frente aos nossos dois -<i>sloops</i>, de vinte e oito tonelladas, trinta navios de guerra -e um barco a vapor.</p> - -<p>Porém nós tinhamos a nosso favor os baixios das aguas.</p> - -<p>O lago não era navegavel para os grandes barcos, se -não n'uma especie de canal que seguia ao longo da sua -margem do oriente.</p> - -<p>No lado opposto succedia o contrario, porque o solo -era cortado em declive, e nós mesmos viamo-nos ás vezes -encalhados antes de tocar na margem.</p> - -<p>Os bancos d'areia estendiam-se pela lagôa á similhança -dos dentes de um pente, e só havia de bom que esses -dentes eram bastante affastados uns dos outros.</p> - -<p>Quando eramos forçados a encalhar, e os canhões dos -navios de guerra ou do vapor nos incommodavam, dizia:</p> - -<p>—Ávante, meus patos, saltemos á agua.</p> - -<p>E os meus patos cahiam n'agua, e á força de braços -erguiam o lanchão, transportando-o para o outro lado do -banco de areia.</p> - -<p>No meio de todos estes pequenos acontecimentos tomámos -um barco ricamente carregado que foi conduzido -immediatamente para a costa occidental do lago, junto a -Camacua, aonde o queimamos depois de havermos tirado -tudo o que era aproveitavel.</p> - -<p>Foi esta a primeira preza que fizemos, mas que valeu -bem o trabalho; e alegrou a nossa marinha. Todos tiveram -a sua parte nos despojos, e com um fundo reservado -mandei fazer uniformes para todos os meus bravos.</p> - -<p>Os imperiaes, que até ali nos haviam desprezado, não -perdendo occasião de escarnecer-nos, começaram a comprehender -qual era a nossa importancia no lago, e trataram -de empregar grande numero de navios para protegerem -o seu commercio.</p> - -<p>A vida que passavamos era laboriosa e cercada de perigos, -em razão da superioridade numerica dos inimigos; -mas ao mesmo tempo essa vida era encantadora, pittoresca, -<span class="pagenum" id="Page_69">69</span> -e muito em harmonia com o meu caracter. Não -eramos unicamente maritimos, seriamos tambem cavalleiros -no caso de necessidade. No momento de perigo encontrariamos -quantos cavallos quizessemos, e formariamos -um esquadrão se não elegante, ao menos temivel.</p> - -<p>Nas margens da lagôa encontravam-se estancias que, -pela aproximação da guerra, tinham sido abandonadas -pelos proprietarios, aonde achamos muita abundancia de -gado cavallar e o necessario para o seu sustento; por outro -lado nas herdades existiam terrenos cultivados, aonde -colhiamos abundancia de trigo, batata doce, e muitas vezes -excellentes laranjas; que são as melhores de toda a -America do Sul.</p> - -<p>A gente que me acompanhava verdadeira tropa cosmopolita -era composta de homens de todas as côres e de -todas as nações. Tratava-os com uma bondade, de que -talvez parecessem pouco dignos, porém posso affirmar uma -coisa: é que nunca tive motivo de arrepender-me d'essa -bondade—todos obedeciam á minha primeira ordem e nunca -me fatigaram, nem me vi na necessidade de os punir.</p> - -<h2 id="cap_19">XIX<br /> -A ESTANCIA DA BARRA</h2> - -<p>Sobre o Camacua, aonde tinhamos o nosso pequeno -arsenal, e d'onde sahira a frota republicana, habitavam -occupando uma grande extensão de terreno as familias dos -irmãos de Bento Gonçalves, assim como outros parentes -mais affastados; innumeraveis rebanhos se apascentavam -n'esta magnifica planicie que a guerra havia respeitado, -porque se achava ao abrigo do seu poder destruidor.</p> - -<p>As producções agricolas achavam-se ali agglomeradas -em tanta abundancia, como não tenho idéa de vêr em -parte alguma da Europa.</p> - -<p>Já disse em outra parte que em nenhum logar do mundo -se encontra hospitalidade mais franca e cordeal do que -n'este paiz; e foi o que nós achámos em todas as familias, -nas quaes existia por nós a mais decidida sympathia.</p> - -<p>As estancias que por estarem mais proximas ao rio, -<span class="pagenum" id="Page_70">70</span> -e por esperarmos ser ahi mais bem recebidos, procuravamos -de preferencia para nos hospedarmos, eram as de -D. Anna e D. Antonia, irmãs do presidente. Aquella situada -á margem do Camacua, e esta nas do Arroyo -Grande.</p> - -<p>Não sei se por effeito da minha imaginação, ou por -um privilegio dos meus vinte e seis annos, tudo ali era -encantador aos meus olhos, e posso assegurar que nenhuma -época da minha vida está como esta tão ligada ao meu -pensamento, e nada se me apresenta mais fascinador do -que este periodo que recordo com prazer.</p> - -<p>A casa de D. Anna era para mim um verdadeiro paraiso; -posto que já não fosse joven, esta bella senhora -conservava comtudo um caracter alegre.</p> - -<p>Tinha em sua companhia uma familia inteira, emigrada -de Pelotas, cidade da provincia, da qual era chefe -o doutor Paulo Ferreira; tres meninas que rivalisavam -nos encantos, eram o perfeito ornamento d'este delicioso -recinto. Uma d'essas jovens, Manuela, era a senhora absoluta -do meu coração: sem esperança de poder possuil-a, -ainda assim não podia deixar de a amar. Era desposada -de um dos filhos de Bento Gonçalves.</p> - -<p>Em um momento de perigo tive occasião de conhecer -que não era totalmente indifferente á dama dos meus pensamentos; -e a certeza que obtive da sua sympathia serviu -a minorar o desgosto de nunca dever pertencer-me.</p> - -<p>Geralmente as mulheres do Rio Grande são bellas, e -os meus homens tornaram-se facilmente escravos d'essas -bellezas; porém conscienciosamente affirmo que nenhum -d'elles tinha pelo seu idolo um culto tão puro e desinteressado -como eu por Manuela. Portanto, todas as vezes -que um vento contrario, uma borrasca ou uma expedição -nos levava ao Arroyo Grande ou a Camacua, era para nós -dia de festa; o pequeno bosque de Firiva, que indica a -entrada para aquella, ou o pomar das larangeiras que occulta -o caminho para a ultima, eram sempre saudados -por uma triplicada salva de <i>hourras</i>, que mostravam a força -do nosso enthusiasmo amoroso.</p> - -<p>Um dia, depois de havermos puchado para terra as -nossas embarcações, descançavamos na estancia de D. Antonia, -irmã do presidente, a pouca distancia de uma d'essas -choupanas, aonde salgam e defumam a carne, ás quaes -<span class="pagenum" id="Page_71">71</span> -dão no paiz o nome de <i>galpon de chargueada</i>, quando me -vieram dizer que o coronel João Pedro de Abreu, appellidado -<i>Mouringue</i>, isto é, Foinha, em consequencia de -ser muito astucioso, havia desembarcado a duas ou tres -leguas de distancia, com setenta homens de cavallaria e -oitenta de infanteria.</p> - -<p>Havia probabilidade para acreditar esta noticia, porque -depois da tomada do barco que haviamos queimado -depois de nos assenhorearmos do mais precioso que elle -tinha, sabiamos que Mouringue jurara tirar uma boa vingança.</p> - -<p>Esta noticia encheu-me de alegria.</p> - -<p>Os homens commandados pelo coronel Mouringue eram -mercenarios allemães ou austriacos aos quaes ainda eu não -estava enfastiado de fazer pagar a divida que todo o bom -italiano tem contrahido com os seus irmãos da Europa.</p> - -<p>Eramos sessenta ao todo; porém eu conhecia bem esses -sessenta homens, e com elles era capaz de fazer frente -não só a cento e cincoenta austriacos, mas a trezentos.</p> - -<p>Tratei de destacar espias para todos os lados e fiquei -com uns cincoenta homens junto a mim.</p> - -<p>Os dez ou doze que enviara a explorar terreno, voltaram, -e disseram a uma voz:</p> - -<p>—Não vimos cousa alguma,</p> - -<p>Havia então um denso nevoeiro, e foi protegido por -elle que o inimigo poude subtrahir-se ás suas pesquisas.</p> - -<p>Resolvi não confiar unicamente na intelligencia humana, -e quiz interrogar tambem o instincto dos animaes.</p> - -<p>Ordinariamente, quando qualquer expedição d'este genero -se aproxima, e homens d'outros sitios vem preparar -uma emboscada junto a alguma estancia, os animaes que -sentem ruido estranho, dão signaes de inquietação, e -quem tacitamente os interroga, raras vezes se engana.</p> - -<p>Os cavallos espalhados pela minha gente, começaram -a andar mui socegados em torno da estancia, manifestando -assim que nada de novo se passava nas proximidades.</p> - -<p>Portanto acreditando que não havia surpreza a temer, -ordenei á minha gente que arrumasse as armas, todavia -carregadas, e as munições nos cabides que mandara construir -dentro da arribana, e dei-lhes o exemplo de segurança, -<span class="pagenum" id="Page_72">72</span> -começando a almoçar, e convidando-os a fazer outro -tanto.</p> - -<p>Por costume, nunca se faziam rogar para este convite.</p> - -<p>Graças a Deus, tambem nunca as munições de bocca -nos faltavam.</p> - -<p>Terminado o almoço, mandei cada um a tratar da sua -occupação.</p> - -<p>Toda a minha gente trabalhava do mesmo modo que -comia; isto é, sempre com boa vontade: não se fazendo -rogar: uns foram para os lanchões que estavam sobre a -praia, afim de tratarem de algum arranjo de que elles -carecessem, outros dirigiram-se á forja, estes a buscar -madeira para queimar, e aquelles finalmente para a pesca.</p> - -<p>Fiquei eu só e o mestre cosinheiro, que havia estabelecido -a sua cosinha á luz do dia, em frente da arribana, -e ahi vigiava as nossas marmitas.</p> - -<p>Quanto a mim, saboreava voluptuosamente o meu <i>mate</i>, -especie de chá do Paraguay, que se toma de uma cabaça -com o auxilio de um canudo de vidro ou de pau.</p> - -<p>Comtudo, não duvidava que o coronel Fuinha, sendo -natural do paiz, tivesse com a sua astucia illudido a vigilancia -da minha tropa, não causando a sua presença sobresalto -aos animaes, e que estaria talvez com os seus -cento e cincoenta austriacos deitado em algum bosque a -quinhentos ou seiscentos passos de nós.</p> - -<p>Repentinamente, com grande admiração minha, ouvi -por detraz de mim, tocar a carregar.</p> - -<p>Voltei-me.</p> - -<p>Infanteria e cavallaria carregavam ao gallope; cada -cavalleiro trazia um homem na garupa. Os que não tinham -cavallos corriam a pé agarrados ás crinas. Dei um -salto e achei-me no <i>galpon</i>; fui seguido pelo cosinheiro -mas o inimigo estava tão proximo de nós que no momento -em que eu transpunha o liminar da porta, senti o chapeu -atravessado por uma lança.</p> - -<p>Ja disse que os fuzis estavam carregados na grade da -mangedoura. Tinha sessenta.</p> - -<p>Agarrei em um e descarreguei-o, depois um segundo, -e um terceiro, com tanta rapidez, que não se poderia julgar -que me achava só, e com tanta felicidade que tres -homens cahiram.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_73">73</span> -Tres outros tiros se succederam aos primeiros, e como -atirava ao grupo, todos eram funestos.</p> - -<p>Se o inimigo, tivesse a idéa de assaltar o <i>galpon</i> estaria -tudo acabado, mas o cosinheiro tinha-se-me unido -e fazia tambem fogo, de modo que o coronel Fuinha, -apesar de toda a sua esperteza, julgou que todos nós estavamos -reunidos.</p> - -<p>Por consequencia retirou-se para uns cem passos de -distancia do alpendre, e começou a fazer alguns tiros de -quando em quando.</p> - -<p>Foi o que me salvou.</p> - -<p>Como o cosinheiro não era bom atirador, e na nossa -situação cada tiro perdido era uma falta irreparavel, disse-lhe -que se entertesse em carregar os fuzis que eu os -iria descarregando.</p> - -<p>Estava intimamente convencido de que a minha gente, -suspeitando já que o inimigo tinha desembarcado, e -ouvindo o estrondo da fuzilaria, comprehenderia tudo e -viria em meu auxilio.</p> - -<p>Não me enganava.</p> - -<p>O meu bravo Luiz Carniglia foi o primeiro que appareceu -atravez as nuvens de fumo que existiam entre o -<i>galpon</i> e a tropa inimiga que fazia um fogo infernal.</p> - -<p>Depois d'elle appareceram Ignacio Bilbao, biscainho, -e um italiano chamado Lourenço. N'um momento estavam -a meu lado, e começaram a imitar-me o melhor que -poderam; depois chegaram Eduardo Mutru, Nascimento -Raphael e Procopio—estes dois ultimos eram negros—e -Francisco da Silva. Queria em logar de escrever no -papel, gravar no bronze os nomes d'estes valentes companheiros, -que no numero de treze se me reuniram combatendo -durante cinco horas cincoenta inimigos.</p> - -<p>O inimigo tinha-se apoderado de todas as casas e barracas -que nos rodeavam, fazendo-nos d'ahi um fogo terrivel. -Alguns dos seus soldados haviam subido aos telhados -de que tiraram as telhas, disparando-nos tiros pelos buracos -e lançando-nos fachinas accesas. Mas em quanto uns -apagavam as fachinas, e outros respondiam á fuzillaria, -dois ou tres cairam mortos pelo mesmo buraco que haviam -feito. Tinhamos praticado com as nossas bayonetas -algumas setteiras na muralha do <i>galpon</i>, e por ahi faziamos -fogo quasi cobertos.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_74">74</span> -Pelas tres horas o negro Procopio deu um tiro que teve -um exito feliz: quebrou um braço ao coronel Moringue. -No mesmo momento o coronel tocou a retirada, e -partiu levando os feridos, mas deixando quinze mortos -no campo da batalha.</p> - -<p>Dos meus companheiros tive cinco feridos e tres mortos. -Custou-me pois oito homens esta refrega, que foi uma -das mais serias em que me tenho achado.</p> - -<p>Estes combates eram tanto mais funestos para nós que -não tinhamos nem medico nem cirurgião. As feridas ligeiras -eram pensadas com agua fresca, renovando-se este -medicamento o maior numero de vezes possivel.</p> - -<p>Rossetti, que por acaso se achava com os seus companheiros -em Camacua, não se nos pôde reunir, com grande -pesar seu. Sendo perseguidos e não tendo armas, foram -obrigados uns a passar o rio a nado, outros a entranharem-se -na floresta: um unico foi descoberto e morto.</p> - -<p>Este combate tão perigoso e que teve tão feliz resultado, -deu uma grande confiança aos meus homens e aos -habitantes d'este lado do paiz, expostos ha muito tempo -ás excursões d'este inimigo aventureiro e intrepido.</p> - -<p>Moringue foi na realidade o chefe mais habilitado que -tiveram os imperiaes. Era muito apto para estas emprezas, -e devo dizer que sempre se tinha conduzido com uma -finura que lhe teria merecido o appellido de <i>Fuinha</i>, se -já o não tivesse.</p> - -<p>Nascido no paiz, que como já disse, conhecia perfeitamente, -e dotado de uma astucia e intrepidez a toda a -prova, causou graves prejuizos aos republicanos, e o imperio -do Brazil deve-lhe sem duvida alguma a melhor parte -na submissão d'esta corajosa provincia.</p> - -<p>Celebrámos a nossa victoria. D. Antonia deu em nossa -honra uma festa na sua estancia, distante doze milhas -do <i>galpon</i>, em que tinha tido logar o combate.</p> - -<p>Foi n'esta festa que eu soube que uma linda menina, -constando-lhe o perigo que eu corria, havia impallidecido -e perguntado com toda a anciedade noticias minhas. Esta -noticia foi mais agradavel para mim, do que a victoria -sanguinolenta que poucos momentos antes tinha ganho. -Como me achava soberbo e feliz por lhe pertencer, ainda -que não fosse senão pelo pensamento. Devia pertencer a -outro, mas a sorte havia-me destinado essa flor do Brazil, -<span class="pagenum" id="Page_75">75</span> -que eternamente chorarei. Não era só nos prazeres e alegrias -que a encontrava sempre a meu lado, foi na adversidade -que eu conhecia o quanto valia o nobre coração -da mãe de meus filhos.</p> - -<p>Annita! cara Annita!</p> - -<h2 id="cap_20">XX<br /> -EXPEDIÇÃO A SANTA CATHARINA</h2> - -<p>Depois d'este successo nada de importante nos succedeu -no lago dos Patos.</p> - -<p>Começámos a construcção de dois novos lanchões. Os -elementos primarios tinham-se achado na preza antecedente, -e em quanto á sua confecção eramos coadjuvados valorosamente -pelos habitantes da visinhança.</p> - -<p>Tinham-se apenas acabado e armado os dois novos -navios de guerra, quando fomos avisados para nos juntarmos -ao exercito republicano que então sitiava Porto-Alegre, -capital da provincia. O exercito e nós não fizemos -cousa alguma em quanto estivemos n'esta parte do lago.</p> - -<p>Não obstante este cerco era dirigido por Bento Manuel -em quem todos reconheciam um grande merito como soldado, -como general e como organisador. Foi este que depois -trahindo os republicanos se passou aos imperiaes.</p> - -<p>Pensava-se então na expedicção de Santa Catharina. -Fui convidado para tomar parte n'ella, debaixo das ordens -do general Canavarro.</p> - -<p>Havia no cumprimento d'este projecto uma grande difficuldade -que era o sahirmos da lagôa, visto que a embocadura -estava guardada pelos imperiaes.</p> - -<p>Na margem meridional estava a cidade fortificada do -Rio Grande do Sul, e na margem septentrional S. José do -Norte, cidade mais pequena, mas fortificada tambem. Estas -duas praças, bem como Porto Alegre, achavam-se em -poder dos imperiaes tornando-se por isso senhores da entrada -e sahida do lago. Possuiam, é verdade, unicamente -estas duas praças, mas ellas eram bastante importantes -pela sua posição.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_76">76</span> -Para homens como os que tinha debaixo das minhas -ordens não havia comtudo coisa alguma impossivel.</p> - -<p>Formei então o seguinte plano de guerra. Os dous -mais pequenos lanchões ficavam na lagôa, sendo seu chefe -o excellente maritimo Zeferino d'Ultra. Eu com os outros -dous lanchões tendo debaixo das minhas ordens Griggs -e os melhores dos nossos aventureiros acompanharia a expedição -operando por mar em quanto o general Canavarro -operava por terra.</p> - -<p>Era um bello plano, mas era mui difficil pela sua execução.</p> - -<p>Propuz então que se construissem duas carretas d'um -tamanho e solidez necessaria para collocar em cada uma -d'ellas um lanchão, devendo-se atrelar a cada carreta o -numero de cavallos e bois sufficientes para as poderem -puchar.</p> - -<p>A minha proposta foi adoptada, e fui encarregado de -lhe dar execução.</p> - -<p>Pensando então maduramente n'este projecto fiz-lhe -as seguintes modificações.</p> - -<p>Mandei construir por um habil carpinteiro chamado -Abreu oito enormes rodas de uma solidez a toda a prova -para poderem sustentar o extraordinario peso que devia -supportar.</p> - -<p>N'uma das extremidades do lago—a que é opposta ao -Rio Grande do Sul—isto é, ao noroeste, existe no fundo -de um barranco um pequeno ribeiro que corre do lago -dos Patos ao lago Tramandai, ao qual tratavamos de -transportar os dous lanchões.</p> - -<p>Fiz descer a este barranco um dos nossos carros, depois -levantámos o lanchão até que aquelle estivesse em -cima do carro. Cem bois mansos foram atrelados, e vi então -com grande satisfação o maior dos nossos lanchões caminhar -como se fosse uma penna.</p> - -<p>O segundo carro desceu por sua vez, e como no primeiro -obtivemos um exito feliz.</p> - -<p>Os habitantes gosaram então d'um espectaculo curioso -e desusado, isto é, verem dois navios em cima de duas -carretas, e puxados por duzentos bois, atravessarem cincoenta -e quatro milhas, isto é, dezoito leguas, sem a menor -difficuldade, sem o mais pequeno incidente.</p> - -<p>Chegados á margem do lago Tramandai os lanchões -<span class="pagenum" id="Page_77">77</span> -foram deitados ao mar do mesmo modo porque tinham -sido embarcados. Necessitavam de alguns pequenos reparos, -que no fim de tres dias estavam concluidos.</p> - -<p>O lago Tramandai é formado por aguas que tem a sua -fonte nos montes d'Epinasso, e finalisa-o no Atlantico. É -pouco fundo, pois nas maiores enchentes só tem quatro -ou cinco pés d'agua. N'esta parte da costa reinam sempre -grandes tempestades.</p> - -<p>O estrondo que o mar faz batendo n'estes rochedos, -que os marinheiros chamam cavallos, por causa da espuma -que fazem voar em roda d'elles, ouve-se a muitas milhas -de distancia, e muitas vezes é tomado pelo rumor -da tormenta.</p> - -<h2 id="cap_21">XXI<br /> -PARTIDA E NAUFRAGIO</h2> - -<p>Promptos a partir esperámos pela maré cheia, sahindo -ás quatro horas da tarde.</p> - -<p>Foi n'esta occasião que soubemos apreciar o bem que -nos resultava da pratica que tinhamos de navegar entre -os rochedos. Não obstante esta pratica, não sei hoje dizer -porque audaciosa ou antes porque habil manobra chegámos -a tirar os nossos navios d'entre os rochedos, ainda -que tivessemos, como já disse, escolhido a maré cheia. O -fundo necessario para navegarmos faltava-nos por toda a -parte, foi pois só ao cair da noite que os nossos esforços -obtiveram um resultado feliz conseguindo deitar ancora -no Oceano.</p> - -<p>Julgo conveniente dizer que os nossos navios foram -os primeiros que sahiram do lago Tramandai.</p> - -<p>Ás oito horas da noite levantámos ancora e começámos -a nossa viagem.</p> - -<p>No dia seguinte pelas tres horas da tarde tinhamos -naufragado na embocadura do Aserigua, rio que tem a -sua nascente na serra Espinasso, e que se lança ao mar -na provincia de Santa Catharina, entre as torres e Santa -Maura.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_78">78</span> -De trinta homens da equipagem, dezeseis affogaram-se.</p> - -<p>Direi em duas palavras como aconteceu esta terrivel -catastrophe.</p> - -<p>No momento da nossa partida, o vento do meio dia -começava a apparecer. Corriamos parallelos á costa. O <i>Rio -Pardo</i> tinha, como já disse, trinta homens de equipagem, -uma peça de doze, uma grande porção de caixas, e outros -objectos de toda a especie, que tinhamos levado por -precaução, por não sabermos o tempo que estariamos no -mar, e a que praia chegariamos, e qual seriam as circumstancias -em que estaria essa praia no momento em que -nos dirigiamos para um paiz inimigo.</p> - -<p>O lanchão achava-se pois mui subcarregado, e as vagas -cobrindo-o de minuto em minuto, ameaçavam submergil-o. -Resolvi então aproximar-me da costa e tomar -terra na parte que me pareceu accessivel; mas o mar -que ia sempre crescendo, não nos deixou escolher a posição -que nos convinha, e uma vaga enorme nos arremeçou -para a costa.</p> - -<p>Estava n'essa occasião na parte mais elevada do mastro -do traquete, d'onde esperava descobrir uma passagem -atravez os rochedos. O lanchão inclinou-se sobre o estribordo -e eu fui lançado a trinta pés de distancia.</p> - -<p>Ainda que estivesse n'uma posição perigosa, a confiança -que tinha nas minhas forças como nadador, fez -com que não pensasse um unico momento na morte, e -tendo comigo alguns companheiros, que não eram marinheiros, -e que momentos antes tinha visto deitados no -tombadilho e mui enjoados; em logar de nadar para a -costa, comecei a reunir uma parte dos objectos, que pela -sua ligeireza promettiam conservar-se á superficie, e comecei -a empurral-os para o navio gritando aos meus homens -que se lançassem ao mar e que apanhassem alguns -d'aquelles objectos, tratando de ganhar a costa que se -achava na distancia de uma milha. O navio tinha-se afundado, -mas a mastreação conservava-o com os seus flancos -de bombordo fóra de agua.</p> - -<p>O primeiro que eu vi agarrado ás enxarcias foi Eduardo -Mutru um dos meus melhores amigos: atirei-lhe um -fragmento da escotilha recommendando-lhe que o não -alargasse.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_79">79</span> -Este estando quasi salvo, lancei os olhos para o navio.</p> - -<p>Vi então o meu caro e corajoso Luiz Carniglia. Estava -ao leme no momento da catastrophe, e havia ficado -agarrado á popa do navio. Infelizmente estava n'esta occasião -vestido com uma jaqueta de uma enorme roda. -Não havia tido tempo de a tirar, não podendo por isso -nadar em quanto a tivesse vestida. Vendo que me dirigia -para elle começou a gritar.</p> - -<p>—Agarra-te bem, lhe respondi, que já te dou soccorro.</p> - -<p>Subindo ao navio como o teria podido fazer um gato, -cheguei ate junto d'elle; agarrei-me com uma mão a uma -borda, e com a outra tirando da algibeira uma faca que -infelizmente cortava pessimamente, comecei a rasgar as -costas da jaleca. Tinha quasi finalisado esta minha ardua -tarefa, e Carniglia estava quasi salvo, quando um golpe -de mar horrivel, envolvendo-nos fez em pedaços o navio -e lançou ao mar os homens que ainda se conservavam a -bordo.</p> - -<p>Carniglia foi tambem precipitado e não tornou a apparecer.</p> - -<p>Lançado ao fundo do mar como um projectil, voltei -á superficie todo aturdido, mas tendo uma unica idéa—a -de soccorrer ao meu charo Luiz. Comecei a nadar em -volta da carcassa do navio chamando-o em altos gritos, -mas elle não me respondeu. Esse bom amigo que já me -tinha salvo a vida, tinha morrido sem eu o poder soccorrer.</p> - -<p>No momento em que abandonava a esperança de salvar -Carniglia, lancei os olhos em volta de mim. Por uma -graça especial de Deus, n'este momento de agonia para -todo o mundo, não pensei um unico momento em mim -tratando unicamente dos outros.</p> - -<p>Vi então os meus companheiros nadando para a praia, -separados uns dos outros segundo a sua agilidade ou força. -Alcancei-os em um momento e animando-os com os -meus gritos, passei-lhe adiante, sendo um dos primeiros -a atravessar os rochedos, cortando para isso vagas tão -altas como montanhas.</p> - -<p>Puz pé em terra. Mas a dôr por perder o meu pobre -Carniglia, deixando-me indifferente sobre a minha propria -sorte, dava-lhe uma força invencivel.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_80">80</span> -Apenas tinha posto pé em terra que me voltei movido -por uma derradeira esperança.</p> - -<p>Póde ser, ir vêr Luiz.</p> - -<p>Interroguei todas essas figuras assustadas, mas todas -me davam a mesma resposta. Já não me restava esperança -alguma.</p> - -<p>Vi então Eduardo Mutru, que depois de Carniglia -era quem eu estimava mais, e a quem tinha passado um -fragmento da escotilha recommendando-lhe que se agarrasse -com toda a força. A violencia das vagas tinha-lhe, -sem duvida, tirado este apoio. Ainda nadava, mas pela -convulsão dos seus movimentos indicava a extremidade a -que se achava reduzido. Já disse como o amava, era pois o -segundo irmão que ia perder no mesmo dia. Não quiz em um -momento perder tudo o que mais presava no mundo. Lancei -ao mar os restos do navio que me tinham servido para -ajudar a ganhar a praia, e lancei-me de novo ao mar, -indo novamente affrontar um perigo ao qual tinha poucos -momentos antes escapado. No fim d'um minuto só -algumas braças me separavam de Eduardo.</p> - -<p>—Coragem... Coragem, lhe disse eu.</p> - -<p>Vã esperança, vãos esforços! No momento em que encaminhava -para elle o pedaço de madeira salvadora desappareceu.</p> - -<p>Dei um grito, e mergulhei. Depois não encontrando -o meu pobre amigo julguei que teria vindo á superficie. -Voltei tambem: Ninguem! Mergulhei de novo e de -novo voltei ao cimo d'agua. Dei gritos desesperados, mas -tudo foi em vão. Eduardo Mutru tinha tambem sido engolido -por esse Oceano que elle não tinha tido receio de -atravessar para, unindo-se-me, servir a causa dos povos.</p> - -<p>Ainda um martyr da liberdade italiana que não teve -um tumulo, uma cruz!</p> - -<p>Os cadaveres dos dezeseis afogados que nós contamos -n'este desastre, fieis companheiros das minhas aventuras, -foram arremeçados pelas vagas a mais de trinta milhas -de distancia para o norte. Procurei então entre os -quatorze que haviam escapado e que n'este momento estavam -na praia, um rosto amigo, uma figura italiana.</p> - -<p>Nenhuma!</p> - -<p>Os seis italianos que me acompanhavam estavam mortos. -Carniglia, Mutru, Staderini, Nadonne e Giovanni... -Não me recordo do nome do sexto.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_81">81</span> -Peço perdão á patria por o haver esquecido, bem sei -que escrevo estas memorias doze annos depois d'estes successos -terem logar, bem sei que muitos acontecimentos tão -terriveis como o que acabo de descrever, tem tido logar na -minha vida; bem sei que vi cair uma nação, e que tentei -defender uma cidade; bem sei que perseguido, exilado, -e tratado como um animal feroz, depuz no tumulo a -mulher a quem amava mais que a propria vida, bem sei -que depois de fechado o seu tumulo fui obrigado a fugir -como os condemnados de Dante; bem sei que não tenho -um asylo, e que do extremo d'Africa onde me acho, -olho para essa Europa que me repelle como um bandido, -apesar de não ter tido até hoje senão um pensamento, um -amor—a patria; sei tudo isto, mas não obstante devia-me -lembrar d'esse nome.</p> - -<p>E comtudo não o sei!!</p> - -<p>Tanger, março de 1857.—<i>G. G.</i></p> - -<h2 id="cap_22">XXII<br /> -JOÃO GRIGGS</h2> - -<p>Os melhores nadadores tinham succumbido! Sem duvida -confiando na sua habilidade, não se tinham querido -apoderar dos restos do navio, esperando suster-se na agua -sem este soccorro, em quanto que ao contrario, entre os -que via sãos e salvos estavam alguns americanos que em -muitas occasiões tinha visto embaraçados, por terem de -atravessar um pequeno rio de dez a doze pés de largo.</p> - -<p>Parecia-me isto estranho, e comtudo era a verdade.</p> - -<p>O mundo era para mim um deserto.</p> - -<p>Assentei-me na praia, e encostando a cabeça ás mãos -julguei que ia chorar.</p> - -<p>No meio da minha atonia ouvi um gemido.</p> - -<p>Lembrei-me então que não obstante serem-me esses -homens desconhecidos, visto que eu era seu chefe no combate -e no naufragio, devia tambem sel-o na desgraça.</p> - -<p>Ergui a cabeça.</p> - -<p>—Que tem, perguntei, e quem se queixa?</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_82">82</span> -Duas ou tres vozes me responderam:</p> - -<p>—Tenho frio.</p> - -<p>Eu que até então não tinha pensado em tal, comecei -tambem a sentil-o.</p> - -<p>Levantei-me e enchugei-me. Alguns dos meus companheiros -estavam já assentados ou deitados para nunca mais -se levantarem.</p> - -<p>Chamei em meu auxilio os mais vigorosos, e obriguei os -que se achavam tolhidos a erguerem-se. Peguei-lhe por -uma mão, e disse aos que ainda não haviam perdido totalmente -as forças que fizessem outro tanto, gritando:</p> - -<p>—Corramos!</p> - -<p>E dei ao mesmo tempo o exemplo.</p> - -<p>No principio sentimos uma grande difficuldade, ou para -melhor dizer, uma grande dôr por sermos obrigados a -fazer mover os nossos membros tolhidos pelo frio, mas em -pouco tempo começámos a sentir algum calor.</p> - -<p>Entregámo-nos durante uma hora a este exercicio. No -fim d'este espaço, o nosso sangue aquecendo tinha recomeçado -a sua circulação.</p> - -<p>Estavamos então perto do rio Aserigue. Dirigimo-nos -pela sua margem direita, e a quatro milhas encontrámos -uma estancia, e n'ella a hospitalidade que existe sempre -em todas as casas americanas.</p> - -<p>O nosso segundo lanchão, commandado por Griggs, -chamado o <i>Seival</i>, um pouco maior que o <i>Rio Pardo</i>, mas -de construcção differente, póde luctar contra a tempestade, -seguindo a sua viagem.</p> - -<p>É necessario dizer que Griggs era um excellente maritimo.</p> - -<p>Não sei se ámanhã serei obrigado a deixar o asylo, -onde me acho actualmente. Não sei pois se mais tarde terei -occasião de dizer d'este excellente e valeroso mancebo -tudo o que penso d'elle, vou pois, aproveitando esta occasião, -pagar o tributo que devo á sua memoria.</p> - -<p>Pobre Griggs! tenho apenas dito duas palavras a seu -respeito, e comtudo onde encontrei eu um homem mais -corajoso e com melhor caracter? Nascido d'uma familia rica, -tinha vindo offerecer o seu ouro, a sua intelligencia, -e o seu sangue á republica nascente, dando-lhe tudo -quanto havia offerecido. Um dia chegou uma carta d'um -dos seus parentes da America do Norte, convidando-o a -<span class="pagenum" id="Page_83">83</span> -ir receber uma herança enorme. Mas Griggs já havia recebido -a mais bella herança que se póde dar a um homem -de convicção e fé,—a corôa do martyrio. Tinha morrido -defendendo um povo desgraçado, mas generoso e -valente.</p> - -<p>E eu que tinha visto tantas mortes gloriosas, vi o corpo -do meu infeliz amigo cortado em dois como o tronco -de um carvalho pela hacha do lenhador. Um tiro de metralha -o tinha ferido na distancia de vinte passos, no dia -em que com um dos meus companheiros, largando o fogo -á esquadrilha, por ordem do general Canavarro, subi -ao navio de Griggs que acabava de ser litteralmente fulminado -pela esquadra inimiga.</p> - -<p>Oh! liberdade! liberdade! que rainha da terra se póde -encher de orgulho por ter um cortejo de heroes como -tu tens no ceu!!</p> - -<h2 id="cap_23">XXIII<br /> -SANTA CATHARINA</h2> - -<p>Felizmente a parte da provincia de Santa Catharina -onde haviamos naufragado, tinha-se tambem revoltado contra -o imperador, logo que souberam da aproximação das -tropas republicanas. Em logar pois de encontrar inimigos, -achamos alliados, em logar de sermos combatidos fomos -festejados, e obtivemos em um momento todos os meios -de transporte de que aquelles pobres habitantes podiam -dispôr.</p> - -<p>O capitão Balduino offereceu-me o seu cavallo, e pozemo-nos -immediatamente em marcha para alcançar a -guarda avançada do general Canavarro, commandada pelo -coronel Teixeira, que se dirigia a toda a pressa sobre o -lago de Santa Catharina, esperando surprehendel-o.<a name="FNanchor_6" id="FNanchor_6" href="#Footnote_6" class="fnanchor">[6]</a></p> - -<p>Devo confessar que não tivemos grande difficuldade -em nos apoderarmos da pequena cidade que precede o -<span class="pagenum" id="Page_84">84</span> -lago e que por isso tem o seu nome. A guarnição fugiu -precipitadamente, e tres pequenos navios de guerra renderam-se -depois de um fraco combate. Passei então com -os meus naufragos para bordo da goleta <i>Itaparika</i>, que -estava armada com sete canhões.</p> - -<p>Durante os primeiros dias d'esta occupação, a fortuna -parecia ter feito um pacto com os republicanos. Não temendo -uma invasão tão repentina da nossa parte, de quem -só tinham noticias de quando em quando, os imperiaes -tinham mandado guarnecer aquella povoação com soldados, -armas e munições. Mas estas cahiram em nosso poder, -porque chegaram depois de estarmos senhores da cidade.</p> - -<p>Os habitantes tratavam-nos como irmãos e libertadores, -titulo que infelizmente não soubemos justificar em -quanto estivemos n'esta povoação amiga.</p> - -<p>Canavarro estabeleceu o seu quartel general em Santa -Catharina, chamada pelos republicanos <i>Giuliana</i>, por -que tinham ali entrado no mez de julho. O general permittiu -a creação de um governo provincial de que foi presidente -um sacerdote veneravel, que exercia um grande -prestigio no povo. Rossetti com o titulo de secretario do -governo era verdadeiramente a sua alma. Rossetti estava -talhado para todos os empregos!</p> - -<p>Tudo marchava ás mil maravilhas. O coronel Teixeira -com a sua columna avançada tinha perseguido o inimigo -até o encerrar na capital da provincia, apoderando-se de -quasi todo o paiz. Por toda a parte eramos recebidos com -os braços abertos, e todos os dias se nos juntavam desertores -imperiaes.</p> - -<p>O general Canavarro traçava magnificos planos. Rude -na apparencia, excellente no fundo, tinha o costume de dizer -que do lago de Santa Catharina sahiria a hydra que -devoraria o imperio, e talvez tivesse razão se houvessem -olhado para esta expedição com mais juizo e attenção. Infelizmente -as nossas maneiras orgulhosas para com os habitantes -e a insufficiencia dos meios que tinhamos á nossa -disposição fizeram perder o fructo d'esta brilhante campanha.</p> - -<div class="pagenum" id="Page_85">85</div> - -<h2 id="cap_24">XXIV<br /> -UMA MULHER</h2> - -<p>Nunca havia pensado no casamento, visto que me considerava -incapaz de ser um bom marido por causa da minha -grande independencia de caracter e decidida paixão -pelas aventuras. Ter mulher e filhos parecia humanamente -impossivel ao homem que consagrou a sua vida a -um principio de que o successo, por mais completo que -seja, não póde deixar nunca o socego necessario a um -chefe de familia. O destino havia decidido o contrario: -depois da morte de Luiz, Eduardo e dos meus outros amigos, -achava-me n'um isolamento completo, parecendo-me -existir só no mundo.</p> - -<p>Não me havia ficado um só d'esses amigos de que o coração -tem necessidade como a vida de alimento. Os que -tinham escapado, eram como já disse, estrangeiros. Eram -sem duvida dotados de um excellente coração, mas conhecia-os -á pouco tempo para ter com elles grande intimidade. -N'esse espaço enorme que aquella terrivel catastrophe -tinha feito em volta de mim, sentia a necessidade -d'uma alma que me amasse, porque sem essa alma, a existencia -era-me insuportavel, quasi impossivel. Havia, é verdade, -encontrado Rossetti, isto é, um irmão; mas Rossetti -obrigado pelos deveres do seu emprego não podia viver -comigo, vendo-o apenas uma vez por semana. Tinha -pois necessidade d'alguem que me amasse. A amisade é -fructo do tempo, e é por isso necessario muitos annos para -amadurecer, em quanto que o amor é como o relampago, -filho muitas vezes da tempestade. Mas que importava! -Não sou eu dos que preferem as tempestades á bonança -e socego d'alma.</p> - -<p>Era pois uma mulher que se me tornava necessaria, -só uma mulher me podia curar, uma mulher quer diser, -o unico refugio, um anjo consolador, a estrella da tempestade. -A mulher é uma divindade que nunca se implora -em vão, especialmente quando se é desgraçado.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_86">86</span> -Era com este incessante pensamento que, do meu camarote -a bordo do <i>Itarapika</i>, voltava sem cessar o meu -olhar para a terra. D'ahi descobria formosas meninas -occupadas em differentes trabalhos domesticos. Uma d'ellas, -principalmente, attraia-me a attenção. Mandaram-me -desembarcar e immediatamente me encaminhei para a -casa sobre que ha tanto tempo se fixava o meu olhar. O -coração batia-me apressado, mas tinha formado uma d'essas -resoluções que uma vez tomadas, nunca mais enfraquecem.—Um -homem convidou-me a entrar,—teria-o -feito ainda mesmo que elle o prohibisse—tinha-o visto -uma vez—vi sua filha e disse-lhe: «Virgem pertences-me!» -Havia por estas simples palavras creado um laço -que só a morte podia quebrar.—Tinha encontrado um -thesouro prohibido, mas de tal preço!... Se houve uma -falta commettida, a responsabilidade só a mim pertence; -se foi uma falta, unirem-se dois corações, despedaçando -a alma de um innocente.</p> - -<p>Mas ella está morta e elle vingado—Onde conheci -a grandeza da minha falta?—Na embocadura do Cridam -no dia em que esperando disputal-a á morte, lhe apertava -convulsivamente o pulso para contar as suas ultimas -pulsações, absorvendo o seu alento fugitivo...... Beijava -os seus labios muribundos, e apertava nos meus braços -um cadaver chorando lagrimas de desesperação.<a name="FNanchor_7" id="FNanchor_7" href="#Footnote_7" class="fnanchor">[7]</a></p> - -<div class="pagenum" id="Page_87">87</div> - -<h2 id="cap_25">XXV<br /> -O CRUZEIRO</h2> - -<p>O general tinha determinado que eu sahisse com tres navios -armados para atacar as bandeiras imperiaes que crusavam -na costa do Brasil. Preparei-me para cumprir esta -ardua tarefa, reunindo todos os elementos necessarios ao -meu armamento. Os meus tres navios eram o <i>Rio Pardo</i>, -commandado por mim—a <i>Cassapara</i>, por Griggs, ambos -goletas e o <i>Seival</i> commandado pelo italiano Lourenço. -A embocadura do lago estava bloqueada pelos navios -de guerra imperiaes, mas apesar d'isso sahimos de -noute e sem ser incommodados.—Annita, então companhia -de toda a minha vida, e por consequencia, de todos -os meus perigos, tinha querido acompanhar-me.</p> - -<p>Chegados á altura de Santos, encontrámos uma corveta -imperial, que durante dois dias, nos deu caça inutilmente. -No segundo dia aproximamo-nos da ilha do -<i>Abrigo</i> onde tomámos duas sumacas carregadas de arroz. -Continuámos o cruzeiro e fizemos mais algumas prezas. -Oito dias depois da nossa partida dirigi-me para o lago.</p> - -<p>Não sei porque, tinha um sinistro presentimento do -que ali se passava, visto que antes da nossa partida já -um certo descontentamento se manifestava contra nós. -Estava além d'isso prevenido da aproximação d'um corpo -consideravel de tropas, commandadas pelo general Andréa -a quem a pacificação do Pará, tinha dado uma grande -reputação.</p> - -<p>Na altura da ilha de Santa Catharina, quando voltavamos, -encontrámos um patacho de guerra brasileiro.—Tinha -unicamente comigo dous navios o <i>Rio Pardo</i> e o -<i>Seival</i>, porque a <i>Cassapara</i> havia muitos dias que se tinha -separado de nós por causa d'um grande nevoeiro. Quando -descobrimos o navio inimigo estava na nossa prôa, por -isso não havia meio de o evitar. Navegámos então direitos -a elle e o atacámol-o resolutamente. Começámos o fogo -e o inimigo respondeu-nos, mas este combate teve um -exito mediocre por causa do muito mar.—O seu resultado -<span class="pagenum" id="Page_88">88</span> -foi a perda de algumas das nossas presas, porque os -seus commandantes assustados pela superioridade do inimigo -baixaram os pavilhões.—Outros deram á costa.</p> - -<p>Uma só das nossas presas foi salva. Era capitaneada -por Ignacio Bilbáo, o nosso bravo biscainho que o conduzio -a Imbituba, que então se achava em nosso poder. O -<i>Seival</i> tendo a peça desmontada e fazendo agua, tomou -o mesmo caminho, e eu fui obrigado a seguil-os por -que estava com mui poucas forças para andar só no mar.</p> - -<p>Entrámos em Imbituba, impellidos pelo nordeste. Com -este vento era-nos impossivel entrar no lago e com certeza -os navios imperiaes estacionados em Santa Catharina, -informados pelo <i>Andorinha</i>, assim se chamava o navio -de guerra com que tinhamos combatido, não tardariam -a vir atacar-nos; era pois necessario prepararmo-nos -para o combate. O canhão desmontado do <i>Seival</i> foi içado -n'um promontorio que fechava a bahia do lado do levante, -e ahi construimos uma bateria coberta com cestões.</p> - -<p>Com effeito no dia seguinte ao apparecer da aurora -vimos tres navios dirigindo-se para nós. O <i>Rio Pardo</i>, -começou então um combate mui desigual, porque os imperiaes -nos eram mui superiores em numero.</p> - -<p>Havia querido desembarcar Annita, mas ella não tinha -consentido, e como do fundo da minha alma admirava -a sua coragem e me achava orgulhoso pelo seu valor, -cedi aos seus rogos.</p> - -<p>O inimigo favorecido na sua manobra pelo vento que -então fazia, manteve-se á véla canhoneando-nos furiosamente. -Podia d'esta maneira aproveitar todos os seus canhões -dirigindo todo o seu fogo contra a nossa goleta. -Nós, pelo nosso lado, combatiamos com a mais obstinada -resolução e como estavamos tão perto que nos podiamos -servir das nossas clavinas; as perdas eram de parte a parte -importantes. As nossas comtudo eram mais numerosas em -razão da inferioridade numerica, e a coberta ja se achava -cheia de mortos e feridos. Apesar de tudo isto, apesar -do flanco do nosso navio estar crivado de ballas, da -nossa mastreação ter avaria, estavamos resolvidos a não -ceder deixando-nos matar até ao ultimo. É verdade que -eramos conservados n'esta resolução pela vista da amazona -brasileira que estava a bordo. Annita, que, como -<span class="pagenum" id="Page_89">89</span> -ja disse, não havia querido desembarcar, tinha tambem tomado -parte no combate, e com a clavina na mão coadjuva-nos -admiravelmente. Eramos tambem, devo dizel-o, -perfeitamente sustentados pelo bravo Manuel Rodrigues, -commandante da nossa bateria de terra.</p> - -<p>O inimigo estava mui encarniçado especialmente contra -a goleta. Muitas vezes durante este combate, aproximou-se -tanto que julguei hia abordal-a, o que me dava -muito prazer, porque estavamos preparados para tudo.</p> - -<p>No fim de cinco horas de uma lucta terrivel, o inimigo, -com grande admiração nossa, retirou-se. Soubemos -depois que a morte do capitão da <i>Bella-Americana</i> tinha -sido a causa.</p> - -<p>Tive durante este combate uma das mais vivas e crueis -emoções da minha vida. Annita achava-se de sabre em -punho em cima do tombadilho animando os meus homens. -Repentinamente uma balla a derribou e a dous dos meus -camaradas. Corri para ella, julgando não encontrar mais -que um cadaver, mas Annita levantou-se sãa e salva; os -dous homens estavam mortos; suppliquei-lhe então que -descesse para a camara.</p> - -<p>—Sim, vou descer, me disse ella, mas é para enxutar -os poltrões que lá se foram esconder.</p> - -<p>E bem depressa tornou a apparecer trazendo adiante -de si dous ou tres marinheiros envergonhados por serem -menos bravos que uma mulher.</p> - -<p>Passámos o resto do dia a sepultar os mortos e a reparar -as avarias, que não eram pequenas, causadas á goleta -pelo fogo do inimigo. No dia seguinte os imperiaes -não appareceram, porque sem duvida se preparavam para -algum novo ataque; vendo isto embarcámos o nosso canhão -e levantando ancora pela noite, dirigimo-nos para -o lago.</p> - -<p>Quando o inimigo deu pela nossa partida, começou a -perseguir-nos, mas só no dia seguinte é que nos poude -enviar algumas ballas que não nos causaram prejuizo algum. -Entrámos, pois, sem outro incidente no lago onde -fomos festejados pelos nossos que se admiravam de termos -escapado a um inimigo tão superior em numero.</p> - -<div class="pagenum" id="Page_90">90</div> - -<h2 id="cap_26">XXVI<br /> -SAQUE DE IMERUI</h2> - -<p>Outros acontecimentos nos esperavam no lago.</p> - -<p>Como o inimigo continuava a avançar por terra, e em -tal numero que era loucura o tentar resistir-lhe, e como -por outro lado as nossas tolices e brutalidades nos tinham -indisposto com os habitantes de Santa Catharina -que estavam promptos a revoltarem-se e a reunirem-se -aos imperiaes, tendo-se já rebellado a cidade de Imerui, -situada na extremidade do lago, foi-me determinado pelo -general Canavarro que fosse castigar este desgraçado -paiz, pelo ferro e pelo fogo: vi-me obrigado obedecer a -esta ordem.</p> - -<p>Como os habitantes e a guarnição tinham feito preparativos -de defeza pelo lado do mar, desembarquei então -a tres milhas de distancia, e assaltei-os, no momento -em que menos o esperavam, pelo lado da montanha. Surprehendida -e batida a guarnição, foi posta em fuga, achando-nos -senhores da cidade.</p> - -<p>Desejo não só para mim, para todos os individuos, o -não receber uma ordem igual á que eu tinha recebido, e -que era por tal modo terminante, que não havia meio de -a illudir. Ainda que existam longas e prolixas relações -de acontecimentos iguaes, julgo impossivel que a mais -terrivel se aproxima da verdade. Deus me perdôe! mas -não tenho em toda a minha vida, successo que me deixasse -tão amargas recordações como o saque de Imerui. -Ninguem póde fazer idéa do que soffri para alcançar -que, deixando livre a pilhagem, não se attentasse contra -a vida de pessoa alguma, limitando a destruição ás coisas -inanimadas, alcancei o que pertendia, mas emquanto -ás propriedades foi impossivel evitar a desordem. Nem -a authoridade de commandante, nem os castigos poderam -alcançar coisa alguma. Cheguei a ameaçal-os com a -volta do inimigo.</p> - -<p>Espalhei o boato de que elle tendo recebido reforços -vinha atacar-nos; mas tudo foi inutil, e na verdade, se -<span class="pagenum" id="Page_91">91</span> -o inimigo tornasse atraz achando-nos assim debandados -teria-nos, sem muita difficuldade, anniquillado. Infelizmente, -a cidade ainda que pequena, tinha muitos armazens -cheios de vinho e licôres, de modo, que exceptuando-me, -porque não bebo senão agua, e alguns officiaes -que consegui conservar ao pé de mim, tudo se achava -embriagado. Além d'isso os meus soldados eram na -sua maioria recrutas, homens que eu apenas conhecia, e -por conseguinte indisciplinados. Cincoenta soldados determinados -atacando-nos de improviso teria-nos desbaratado. -Emfim á força de ameaças e esforços consegui reembarcar -estes animaes selvagens.</p> - -<p>Conduziram a bordo alguns viveres e objectos salvos -da pilhagem, destinados á divisão e voltamos ao lago.</p> - -<p>Durante este tempo o coronel Teixeira com a sua -vanguarda retirava-se diante do inimigo que avançava -rapido e vigoroso.</p> - -<p>Quando chegámos ao lago, começavam a conduzir as -bagagens á margem direita, e bem depressa os soldados -deviam seguil-as.</p> - -<h2 id="cap_27">XXVII<br /> -NOVOS COMBATES</h2> - -<p>Tive muito que fazer no dia em que se effectuou a -passagem da divisão para a margem meridional, porque, -se o exercito era pouco numeroso as bagagens pareciam -não ter fim.—Na parte mais estreita do rio a corrente -redobrava de violencia.—Trabalhámos pois desde o nascer -do sol até ao meio dia para fazer passar a divisão.</p> - -<p>Pelo meio dia começou a apparecer a flotilha inimiga, -composta de vinte e duas vélas. Combinavam os seus -movimentos com a tropa de terra, e traziam a bordo além -de equipagem grande numero de soldados. Subi á montanha -mais proxima para observar o inimigo, e vi immediatamente -que o seu plano era reunir as suas forças á -entrada do lago. Dei logo parte ao general Canavarro que -no mesmo momento deu as ordens convenientes, mas não -obstante essas ordens os nossos homens não chegaram a -tempo de defender a entrada do lago. Uma bateria que -<span class="pagenum" id="Page_92">92</span> -haviamos construido na embocadura do lago e que era -dirigida pelo bravo Capotto resistiu fracamente, pois não -tinha senão peças de pequeno calibre, e alem d'isso mal -servidas por artilheiros inhabeis. Os nossos tres pequenos -navios estavam reduzidos á metade da equipagem, -porque a outra metade tendo sido mandada para terra -para coadjuvar a passagem das tropas, não se nos juntou, -deixando-nos sós para combater um tão temivel inimigo.</p> - -<p>Durante este tempo o inimigo ajudado pelo vento e -mare vinha para nós com toda a força. Dirigi-me então -a toda a pressa para o meu posto a bordo do <i>Rio Pardo</i>, -onde já a minha corajosa Annita tinha começado o combate, -apontando e dando ella mesmo fogo á peça de que -se tinha encarregado, animando com a voz e o exemplo -os meus companheiros um pouco atemorisados.</p> - -<p>O combate foi horrivel e mais mortifero que se poderia -julgar. Tive poucos mortos, porque, como já disse, -metade da equipagem estava em terra, mas dos seis officiaes -que estavam nos tres navios só eu escapei são e -salvo.</p> - -<p>Todas as nossas peças estavam desmontadas, mas o -combale continuou á clavina e não cessámos de atirar -em quanto o inimigo passou por diante de nós. Durante -o combate Annita ficou sempre ao meu lado, no posto -mais perigoso, não querendo nem desembarcar nem aproveitar-se -de nenhum alivio, e despresando mesmo o inclinar-se -como faz o homem mais bravo, quando vê a mecha -aproximar-se do canhão inimigo.</p> - -<p>Soffrendo mil cuidados por a vêr exposta a tantos perigos, -julguei encontrar um meio de affastar.</p> - -<p>Ordenei-lhe, foi necessario uma ordem, para me obedecer -que fosse pedir reforço ao general dando-lhe a minha -palavra de que se me enviasse esse reforço entraria -no lago perseguindo os imperiaes e tratando-os de -tal maneira que elles não pensariam em desembarcar, -embora tivesse que largar o fogo á sua flotilha. Obriguei -Annita a prometter-me que ficaria em terra enviando-me -a resposta por um homem seguro; mas com bastante pesar -meu foi Annita, que trouxe a resposta do general:</p> - -<p>«Não tinha soldados para me mandar, e ordenava-me -que não largasse o fogo á esquadra inimiga, mas que -viesse para a terra salvando as armas e munições.»</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_93">93</span> -Obedeci. Então debaixo de um fogo que não cessou -um momento, conseguimos fazer transportar a terra as armas -e munições. Foi Annita quem á falta de officiaes dirigiu -esta operação em quanto eu passando de um navio -a outro collocava no logar mais inflamavel de cada um -d'elles, o fogo que o devia devorar.</p> - -<p>Foi uma missão terrivel que me fez passar uma triplece -revista de mortos e feridos. Era um verdadeiro açougue -de carne humana; andava-se por cima de montões -de cadaveres. O commandante do <i>Itaparika</i> João Henriques -de la Laguna estava deitado no meio de dous terços -da sua equipagem com uma balla que lhe tinha feito no -meio do peito um buraco por onde podia entrar perfeitamente -um braço. O pobre João Griggs tinha, como já -disse, o corpo separado em dois por um tiro de metralha. -Fiquei suffocado, com a vista de similhante espectaculo, -e perguntei a mim mesmo como poderia ter escapado.</p> - -<p>N'um momento uma nuvem de fumo envolveu os nossos -navios e os nossos bravos tiveram ao menos uma sepultura -digna d'elles.</p> - -<p>Em quanto tinha comprido a minha obra de destruição, -Annita pela sua parte havia cumprido a sua de salvação. -Para transportar á praia todas as nossas armas e munições -fez talvez vinte viagens ao navio passando constantemente -debaixo do fogo do inimigo. Andava n'um pequeno -barco com dois remadores, e os pobres diabos curvavam-se -o mais possivel, para evitar as ballas.</p> - -<p>Annita pelo contrario na pôpa, no meio da metralha, -estava direita e socegada como uma estatua de Pallas, e -Deus que me cobria com uma das suas mãos, estendia-lhe -tambem essa protecção.</p> - -<p>Era noite fechada quando tendo reunido todos os marinheiros -que haviam escapado, me juntei com a nossa -divisão, e nos retirámos para o Rio Grande seguindo o -mesmo caminho que alguns mezes antes tinhamos atravessado -com o coração cheio de esperança e procedidos -pela victoria.</p> - -<div class="pagenum" id="Page_94">94</div> - -<h2 id="cap_28">XXVIII<br /> -A CAVALLO</h2> - -<p>No meio das peripecias da minha aventureira existencia, -tenho tido sempre horas bem agradaveis, e ainda que -esta em que me achava não parecesse á primeira vista fazer -parte das que me tem deixado uma grata lembrança, -foi ao menos cheia de emoções.</p> - -<p>Á testa de alguns homens, resto de tantos combatentes, -que tinham com justa rasão merecido o titulo de bravos, -caminhava a cavallo, orgulhoso dos vivos, orgulhoso -dos mortos, e quasi orgulhoso de mim mesmo. Ao meu -lado hia a rainha da minha alma, a mulher digna de toda -a admiração. Estava lançado n'uma carreira mais attrahente -do que a de marinha: que me importava pois, -como o philosopho grego, não possuir senão o que tinha -comigo? Que me importava servir uma republica pobre, -que não pagava a ninguem, e de que ainda que fosse rica, -eu não teria acceitado cousa alguma? Não tinha ao lado -um sabre, uma clavina passada atravez do arção do meu -cavallo? Não tinha perto de mim Annita, o meu thesouro, -caracter tão ardente como o meu pela liberdade dos povos? -Não encarava ella os combates como um divertimento, -como uma simples distracção? O futuro sorria-me -sempre afortunado, e quanto mais se me apresentavam -selvagens e desertas as solidões americanas, mais deliciosas -e bellas me pareciam.</p> - -<p>Continuámos a retirar para as Torres, limite das duas -provincias onde estabelecemos o nosso acampamento. O -inimigo contentou-se em retomar o lago, não nos perseguindo.</p> - -<p>A divisão Cunha que vinha da provincia de S. Paulo, -juntando-se com a divisão Andrea, dirigiam-se para -<i>Cimo da Serra</i>, provincia da montanha pertencente ao Rio -Grande.</p> - -<p>Os montanhezes nossos amigos, pediram soccorro ao -general Canavarro, que mandou em seu auxilio uma expedição -ás ordens do coronel Teixeira. Fizemos parte -<span class="pagenum" id="Page_95">95</span> -d'esta expedição. Recebidos pelos serraminhos, commandados -pelo coronel Aranha, batemos completamente o inimigo -em Santa Victoria. Cunha affogou-se no rio Pelatos -e a maior parte das suas tropas ficou prisioneira.</p> - -<p>Esta victoria poz debaixo do dominio da republica as -duas provincias de Vaccaria e das Lages, e nós entramos -em triumpho na principal povoação d'esta ultima.</p> - -<p>A noticia da invasão imperial tinha feito acordar o -partido brasileiro, e Mello, chefe inimigo, tinha enviado -a esta provincia o seu corpo de cavallaria, composto quasi -de quinhentos homens.</p> - -<p>O general Bento Manoel, encarregado de o atacar -não o tinha podido fazer por causa da sua retirada, contentando-se -em enviar o coronel Portinko em perseguição -de Mello que se dirigia sobre S. Paulo.</p> - -<p>A posição que occupavamos e as nossas forças, permettia-nos -não só oppor-nos á passagem de Mello, mas -tambem de o anniquillar. Mas a fortuna não o quiz: o -coronel Teixeira incerto se o inimigo vinha por Vaccaria -ou por Coritibani, dividiu a sua tropa em dois corpos, -enviando o coronel Aranha a Vaccaria com a melhor cavallaria, -em quanto que nós com a infanteria e só com -alguns soldados de cavallaria, tirados quasi todos dos prisioneiros -inimigos, nos dirigimos para Coritibani. Foi este -o caminho que tomou o inimigo.</p> - -<p>Esta divisão das nossas forças foi-nos fatal: a recente -victoria, o caracter ardente do nosso chefe, e as noticias -que tinhamos do inimigo fizeram com que o desprezassemos -mais do que merecia.</p> - -<p>Em tres dias de marcha chegámos a Coritibani, e -acampámos a pouca distancia de Maromba por onde julgavamos -que deviam passar os imperiaes. Collocamos um -posto na praia e sentinellas nos sitios que julgamos convenientes, -e ficamos mui descançados.</p> - -<p>Em quanto a mim, o habito que tinha d'estas guerras -fez com que, como se costuma dizer, dormisse com -um olho aberto e outro fechado.</p> - -<p>Pela meia noite o posto que se achava na praia, foi -atacado e com tanta furia que os nossos soldados tiveram -apenas tempo de fugir trocando alguns tiros com o inimigo.</p> - -<p>Quando senti o primeiro tiro puz-me logo a pé dando -<span class="pagenum" id="Page_96">96</span> -o grito de «Ás armas.» Em poucos minutos todos estavamos -promptos para o combate. Algum tempo depois -de nascer o dia o inimigo appareceu, e tendo passado o -rio parou a alguma distancia formado em batalha. Vendo -o numero superior do inimigo o coronel Teixeira deveria -ter expedido correios para chamar em seu auxilio a segunda -divisão, mas Teixeira temendo que elle se retirasse -sem ter occasião de combater, lançou-se no combate -importando-se pouco da sua inferioridade numerica -e da posição vantajosa que o inimigo occupava.</p> - -<p>Este aproveitando-se das irregularidades do terreno tinha -estabelecido a sua linha de batalha n'uma collina -mui elevada, diante da qual existia um vale profundo -obstruido por muitos abrolhos tinha além d'isso embuscado -nos seus flancos alguns pelotões. Teixeira ordenou o -ataque que começou com todo o vigor. O inimigo então -fingiu retirar-se. Os nossos soldados começaram a perseguil-os -sem cessar a fazillaria, mas repentinamente foram -atacados pelos pelotões embuscados que elles não tinham -visto e que tomando-os pelos flancos os obrigaram -a passar o vale em desordem. Perdemos n'este combate -um dos nossos melhores officiaes, Manoel N...... que era -mui estimado pelo chefe. A nossa linha, bem depressa organisada -de novo atacou o inimigo com tal impetuosidade, -que foi posto em retirada.</p> - -<p>O numero de mortos e feridos de parte a parte foi -pouco numeroso, porque as tropas que tomaram parte no -combate foram diminutas.</p> - -<p>O inimigo retirou-se com precipitação e nós fomos em -sua perseguição com grande encarniçamento. Infelizmente -como tinhamos pouca cavallaria não podémos perseguir -a sua que fugia a todo a galope. Aproximando-se do -<i>Passo de Maromba</i> o chefe da nossa vanguarda o major -Jacintho participou ao coronel que o inimigo fazia passar -em uma grande desordem o rio aos seus bois e cavallos, -o que provava de que elle queria continuar a retirar-se. -Teixeira não hesitou um momento; ordenou ao -nosso pequeno esquadrão que mettesse a galope, recommendando-me -que o seguisse o mais de perto possivel -com a minha infanteria.</p> - -<p>A retirada do inimigo não era comtudo senão uma -astucia, e infelizmente esta astucia teve para nós terriveis -<span class="pagenum" id="Page_97">97</span> -resultados. Por causa das irregularidades do terreno -e pela precipitação com que o tinha atravessado o -inimigo achou-se fóra da nossa vista e chegando ao rio, -havia, como nos tinha participado o major Jacintho, passado -para a outra banda os bois e cavallos, mas os soldados -tinham ficado occultos por detraz de collinas que os -escondiam completamente á nossa vista.</p> - -<p>Tomadas estas precauções e tendo deixado um pelotão -para sustentar a sua linha de atiradores, os imperiaes, -sabendo da nossa imprudencia em deixar a infanteria na -retaguarda, fizeram uma contra-marcha e repentinamente -os seus esquadrões appareceram no cimo de um valle.</p> - -<p>O nosso pelotão que perseguia o inimigo na sua fuga -simulada, foi o primeiro a conhecer o laço, mas infelizmente -não teve tempo para o evitar. Atacado pelos flancos -foi completamente destroçado. Os tres outros esquadrões -de cavallaria tiveram a mesma sorte, não obstante a coragem -e resolução de Teixeira e de alguns de nossos officiaes -do Rio Grande: em alguns momentos a nossa cavallaria -estava espalhada em todas as direcções.</p> - -<p>Os soldados de cavallaria eram, como já disse, na sua -maioria, prisioneiros de Santa Victoria, e tinhamos feito -mal em contar tanto com elles, porque na realidade não -podiam ser muito affeiçoados á nossa causa, e além d'isso -sendo soldados novos vindos da provincia, estavam pouco -acostumados a andar a cavallo. Assim logo que teve logar -o primeiro choque, fugiram.</p> - -<p>Montado n'um excellente cavallo, depois de ter excitado -a minha infanteria a marchar o mais rapidamente -possivel, tinha-lhe tomado a frente e chegado ao alto de -uma collina, d'ahi vi o triste resultado d'este combate.</p> - -<p>Os meus infantes fizeram todo o possivel para chegar a -tempo, mas tudo foi em vão. Do alto da eminencia onde me -achava julguei que era muito tarde para que elles nos podessem -dar a victoria, mas muito cedo para ainda a não -julgarmos perdida.—Chamei uma duzia dos meus antigos -companheiros, os mais ligeiros e mais bravos, e deixando -o major Peixoto encarregado dos restantes, tomei -com este punhado de valentes, uma forte posição no cimo -d'uma collina fortificada por muitas arvores.—D'ahi -fizemos frente ao inimigo, que conheceu que ainda não -era totalmente vencedor, e servimos de ponto de apoio -<span class="pagenum" id="Page_98">98</span> -aquelles dos nossos que não tinham perdido completamente -a coragem.—O coronel veiu para o nosso lado com -alguns cavallos depois de ter obrado milagres de coragem.—O -resto de infanteria uni-se-nos então e a defeza -começou terrivel e mortifera.</p> - -<p>Fortes na nossa posição e no numero de setenta e tres -lutamos com vantagem. O inimigo tendo falta de infanteria -e pouco habituado a combater contra esta arma dava -cargas inutilmente: quinhentos homens de excellente -cavallaria, brilhante e orgulhosa pela victoria cançaram-se -inutilmente diante de um punhado de homens sem -alcançar vantagem alguma. Comtudo apesar d'esta vantagem -momentanea era necessario não dar ao inimigo tempo -de reunir as suas forças, de que a metade estava ainda -empregada a perseguir os nossos fugitivos, e sobre tudo -era necessario procurar um refugio mais seguro do que -aquelle em que nos achavamos.—Uma floresta se nos -apresentava á vista na distancia de quasi uma milha; começámos -então a nossa retirada dirigindo-nos para ella.—Em -vão o inimigo tentava romper o nosso quadrado, -em vão nos dava repetidas cargas, quando o terreno o permettia, -tudo foi inutil.</p> - -<p>Foi para nós uma grande fortuna, o estarem os officiaes -armados de clavinas, e como todos eramos homens -aguerridos, conservamo-nos unidos fazendo face ao inimigo -por qualquer lado que se apresentava e recuando -em excellente ordem, fazendo um fogo terrivel e bem dirigido, -ganhámos o nosso refugio onde o inimigo não se -atreveu a penetrar. Uma vez na floresta encontrámos um -claro e sempre unidos e de fuzil na mão, esperámos pela -noute.</p> - -<p>O inimigo gritava-nos a todos os momentos—<i>Rendam-se</i>, -mas nós só lhe respondiamos com o silencio.</p> - -<h2 id="cap_29">XXIX<br /> -A RETIRADA</h2> - -<p>Chegada a noute preparámo-nos para partir, sendo -o nosso disignio o tomar novamente o caminho das Lages. -<span class="pagenum" id="Page_99">99</span> -A maior difficuldade que tinhamos a vencer, era o -transportar os feridos. O major Peixoto não nos podia coadjuvar, -porque tinha um pé atravessado por uma balla.</p> - -<p>Pelas dez horas da noute, estando os feridos accommodados -o melhor possivel, começámos a nossa marcha, -abandonando o crado e seguindo a linha da floresta, -que sendo a maior que existe talvez no mundo, se estende -do rio Prata aos Amazonas, coroando os cumes da serra -Espinasso, sobre uma extensão de trinta graus de latitude: -não conheço a sua extensão em longitude, mas -deve ser immensa.</p> - -<p>As tres provincias de Cima da Serra, Vaccaria e Lages, -são segundo julgo ter já dito situadas no crados -d'esta floresta. Coritibani, especie de colonia, estabelecida -pelos habitantes de Coritiba situada no districto das -Lages, provincia de Santa Catharina era o theatro do -episodio que estou contando: costeavamos pois o nosso -bosque isolado, para nos aproximarmos o mais possivel da -floresta, tratando de nos juntarmos á divisão de Aranha, -que se havia infelizmente separado de nós.</p> - -<p>Á sahida do bosque aconteceu-nos um d'esses successos -que provam como o homem é filho das circumstancias e -o poder que tem um terror panico ainda sobre os mais -corajosos. Marchavamos em silencio, como convinha á nossa -situação dispostos a combater o inimigo se se oppozesse -á nossa retirada. Um cavallo que se achava na durela da -floresta sentindo a pouca bulha que faziamos tomou medo -e fugiu.</p> - -<p>Ouviu-se então gritar uma voz:</p> - -<p>—É o inimigo!</p> - -<p>No mesmo momento os setenta e tres homens que tinham -resistido a quinhentos com tanta coragem que se -podia dizer que haviam sido os vencedores, tomáram medo -e começaram a fugir dispersando-se de tal modo que -foi uma felicidade o não ter algum dos nossos acordado o -inimigo dando-lhe o signal de alarme.</p> - -<p>Consegui com muito trabalho reunir alguns d'elles ao -qual pouco a pouco se foi juntando o resto, de modo que -ao raiar da aurora estavamos na aurela da floresta dirigindo-nos -para as Lages.</p> - -<p>O inimigo que não havia dado pela nossa fuga, procurou-nos -inutilmente no dia seguinte.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_100">100</span> -No dia do combate o perigo tinha sido grande, a fadiga -enorme, a fome imperiosa, a sede ardente, mas era -necessario combater, combater pela vida e esta idéa dominava -todas. Mas uma vez na floresta tudo mudou. Faltavam -todas as coisas e a miseria não tendo a distracção -do perigo fez-se sentir terrivel, cruel, insupportavel. A -falta de viveres, o abatimento de todos, as feridas de alguns, -e a carencia dos meios de as tratar, lançaram-nos -na desanimação.</p> - -<p>Ficámos quatro dias sem encontrar senão raizes e julgo -desnecessario descrever a fadiga que tivemos para achar -n'esta floresta um caminho onde não existia o mais pequeno -atalho e onde a natureza mui fecunda faz a cada -passo encontrar barrancos enormes.</p> - -<p>Alguns dos meus homens desertaram desesperados e -tivemos grande trabalho para os juntarmos e impor-lhes -respeito. Não existia senão um unico recurso para dissipar -esta desanimação e fui eu que o encontrei. Disse a todos -que lhe dava a liberdade de se retirarem para onde quizessem, -ou de continuarem a marchar unidos e em corpo, -protegendo os feridos e defendendo-se mutuamente. -O remedio foi efficaz. Desde que cada um foi livre de fazer -o que quizesse ninguem pensou mais em desertar e a -confiança voltou a todos.</p> - -<p>Cinco dias depois do combate encontrámos uma <i>picada</i>, -atalho de largura d'um homem, e raras vezes de dois -que nos conduziu a uma casa onde nos refrescámos matando -dois bois.</p> - -<p>Continuámos o nosso caminho para as Lages onde -chegámos n'um dia de perfeito inverno.</p> - -<h2 id="cap_30">XXX<br /> -ESTADA NAS LAGES E NOS ARRABALDES</h2> - -<p>Este bom paiz das Lages que nos tinha festejado tanto, -quando eramos victoriosos, havia quando recebeu a -noticia da nossa derrota mudado de opinião, e alguns dos -mais resolutos tinham restabelecido o poder imperial. Estes -fugiram á nossa aproximação, e como a maior parte -<span class="pagenum" id="Page_101">101</span> -d'elles eram negociantes, tinham deixado os seus armazens -providos de muitos objectos. Foi uma providencia, por -que julgámos poder sem remorsos aproveitar-nos das mercadorias -dos nossos inimigos, e graças á variedade do -commercio que exerciam melhorar muito a nossa posição.</p> - -<p>Entretanto Teixeira escreveu a Aranha ordenando-lhe -que se nos unisse, tendo por este tempo a noticia da chegada -do coronel Portinko que tinha sido enviado por Bento -Manoel para seguir esse mesmo corpo de Mello, encontrado -desgraçadamente por nós em Coritibani.</p> - -<p>Tinha servido sinceramente na America a causa dos -povos, e havia lá sido como na Europa o adversario do -absolutismo. Tenho algumas vezes admirado os homens, -muitas lamentado, mas nunca odeado. Quando os tenho encontrado -egoistas e tratantes, tenho posto o seu egoismo -e trantantisse de parte, mettendo-o na conta da nossa desgraçada -natureza. Como estou afastado duas mil leguas -do logar onde estes acontecimentos tiveram logar, e já -são passados doze annos póde-se por isso acreditar na -minha imparcialidade. Digo-o tanto pelos meus amigos como -pelos meus inimigos; eram intrepidos filhos do continente -americano.</p> - -<p>Era uma audaciosa empreza o defender Lages contra -um inimigo dez vezes superior, e além d'isso orgulhoso pela -recente victoria. Separados d'elle pelo rio Canoas, que -nós não tinhamos podido guarnecer sufficientemente, esperámos -durante muitos dias a juncção de Aranha e Portinko, -e durante este periodo o inimigo foi sustentado por -um punhado de homens, atacando-o logo que nos chegaram -os reforços, mas foi elle que se retirou sem acceitar -o combate para a provincia visinha de S. Paulo, aonde -esperava encontrar um poderoso soccorro.</p> - -<p>Foi n'esta circumstancia que eu verifiquei os vicios geralmente -imputados ao exercito republicano, que se compunha -de homens cheios de patriotismo e coragem, mas -que não ficam juntos ás bandeiras, senão quando o inimigo -os ameaça, abandonando-as quando este se affasta. -Este costume foi quasi a nossa ruina, e poderia causar a -nossa perda n'estas circumstancias, porque se o inimigo -tivesse mais paciencia, teria podido destruir-nos totalmente.</p> - -<p>Os serraminos foram os primeiros a abandonar as fileiras. -Os soldados de Portinko em breve os seguiram. -<span class="pagenum" id="Page_102">102</span> -Note-se bem que os desertores não só levavam os seus cavallos, -mas os da divisão. Em poucos dias as nossas forças -se separaram com tanta rapidez que fomos obrigados -a abandonar Lages, retirando-nos para a provincia do Rio -Grande, temendo a presença d'esse inimigo, que tinha sido -obrigado a fugir diante de nós, e de que a fuga nos -tinha feito vencedores.</p> - -<p>Que estes exemplos sirvam aos povos que querem ser -livres, e que não é com flores, festas e illuminações que -se combatem os soldados aguerridos do despotismo, mas -com soldados mais disciplinados e mais aguerridos do que -elles, não querendo para generaes os que não são capazes -de disciplinar um povo depois de o haver sublevado.</p> - -<p>É verdade que tambem ha povos que não merecem a -pena de serem sublevados: a gangrena não tem cura.</p> - -<p>O resto das nossas forças assim dissimadas—quando -estavam privadas das cousas mais necessarias e principalmente -de vestidos—privação terrível na aproximação do -inverno sombrio e rude n'estas regiões elevadas,—o resto -das nossas forças, começou a desmoralisar-se e a pedir para -se retirarem para suas casas. Teixeira foi obrigado a -ceder a essa exigencia, e ordenou-me de descer a montanha -e de me reunir ao exercito, em quanto se preparava -a fazer outro tanto. Esta retirada foi rude por causa da escabrosidade -dos caminhos e das hostilidades occultas dos habitantes -da floresta, inimigos encarniçados dos republicanos.</p> - -<p>Em numero de setenta, pouco mais ou menos, descemos -a <i>Picada di Peloffo</i>—já disse o que era uma picada—e -tivemos que affrontar emboscadas repetidas e imprevistas -que nós atravessamos com uma felicidade incrivel -devida á resolução dos homens que eu commandava, -e um pouco á confiança que geralmente inspiro aos que -me seguem. O atalho que atravessavamos era tão estreito -que unicamente podiam passar dois homens a par, e como -o inimigo era nascido no paiz, por isso conhecedor -do terreno, emboscava-se nos sitios mais favoraveis, rodeando-nos -e dando gritos horriveis, em quanto que um -circulo de chammas nos cercava, sem que nós podessemos -vêr os atiradores, que felizmente faziam mais barulho do -que obra. De resto a união que os meus homens tiveram -no perigo foi tal que apenas alguns foram feridos, tendo -só um cavallo morto.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_103">103</span> -Estes acontecimentos fazem recordar as florestas encantadas -de Tasso, aonde as arvores viviam.</p> - -<p>Chegámos então a <i>Mala-Casa</i> aonde se achava Gonçalves, -que reunia as funcções de presidente ás de general -em chefe.</p> - -<h2 id="cap_31">XXXI<br /> -BATALHA DE TAQUARI</h2> - -<p>O exercito republicano preparava-se para se pôr em -marcha. O inimigo depois da derrota de Rio Pardo, tinha-se -refeito em Porto Alegre, d'onde tinha sahido debaixo -das ordens do velho general Georgio, e havia estabelecido -o seu acampamento nas praias de Cahé, aonde -esperava a juncção do general Calderon, que com um -corpo consideravel de cavallaria se lhe devia reunir.</p> - -<p>O grande inconveniente da dispersão das tropas republicanas -quando não estavam em face do inimigo, dava-lhe -facilidade em tudo que elle queria emprehender, -de modo que no momento em que o general Netto, que -commandava as forças, teve reunido um numero sufficiente -de soldados para bater Calderon, este tinha já reunido -no Cahe a maior parte do exercito imperial.</p> - -<p>Era absolutamente indispensavel ao presidente se queria -bater o inimigo, o reunir-se á divisão Netto, e foi por -isto que elle levantou o cerco. Esta manobra e a juncção -que se lhe seguiu, tiveram um feliz resultado e fizeram -grande honra á capacidade militar de Bento Gonçalves. -Partimos de Mala-Casa com o exercito, tomando a direcção -de Leopoldo, passando a duas milhas das forças inimigas, -e depois de dous dias e duas noites de marcha -continua, nas quaes quasi que não comemos nem bebemos -chegámos perto de Taquari onde encontrámos o -general Netto que nos procurava.</p> - -<p>Disse que haviamos passado quasi sem comer, e disse -a verdade. Logo que o inimigo soube da nossa aproximação, -marchou resolutamente ao nosso encontro e muitas -vezes nos alcançou em quanto descançavamos um momento -e estavamos occupados a assar alguma carne, nosso -<span class="pagenum" id="Page_104">104</span> -unico alimento. Por dez vezes estando a comida quasi -prompta as sentinellas gritavam ás armas, e era por isso -necessario ir combater em logar de jantar ou almoçar. -Emfim fizemos alto em Pinheirinho a seis milhas de -Taquari, e ahi tomámos todas as disposições para o combate.</p> - -<p>O exercito republicano forte de mil homens de infanteria -e cinco mil de cavallaria, occupava as alturas do Pinheirinho, -montanha coberta de pinhos, como indica o -seu nome, pouco elevada, mas dominando as montanhas -visinhas. A infanteria estava no centro commandada pelo -velho coronel Crezungio. A ala direita obedecia ao general -Netto e a ala esquerda a Canavarro. As duas alas -eram compostas unicamente de cavallaria que sem exaggeração -era a melhor do mundo. A infanteria era tambem -excellente, e o desejo de começar o combate era -geral.</p> - -<p>O coronel Santo Antonio formava a reserva com um -corpo de cavallaria.</p> - -<p>O inimigo do seu lado tinha quatro mil homens de -infanteria, tres mil de cavallaria e algumas peças. Estava -do outro lado da pequena torrente que nos separava -e a sua apparencia era longe de ser miseravel. O exercito -compunha-se das melhores tropas do imperio commandadas -por um general velho e experimentado.</p> - -<p>O general inimigo tinha até então marchado ardentemente -em nossa perseguição, e havia tomado todas as -posições para um ataque em quanto as suas peças metralhavam -a nossa cavallaria. Os nossos valentes da primeira -brigada ás ordens de Netto, tinham tirado os sabres da -bainha e não esperavam senão pelo signal para se lançarem -aos dous batalhões que tinham atravessado a corrente. -Estes bravos estavam convencidos que ficavam victoriosos -porque nunca nem elles nem Netto tinham sido -batidos. A infanteria collocada em divisões no alto da colina, -e coberta pelas curvas do terreno, estava anciosa pelo -momento do combate.</p> - -<p>Os terriveis lanceiros de Canavarro tinham já feito um -movimento envolvendo o flanco direito do inimigo, obrigando-o -por isso a mudar de posição, mudança que se -tinha feito em desordem.</p> - -<p>Este corpo de lanceiros composto na sua maioria de -<span class="pagenum" id="Page_105">105</span> -negros libertos da republica, e escolhidos entre os melhores -domadores de cavallos de provincia, tinha unicamente -os officiaes superiores brancos, e nunca o inimigo -tinha visto as costas d'estes filhos da liberdade. As suas -lanças que eram maiores do que o ordinario, os seus rostos -pretos como azeviche, os seus robustos membros e a -sua perfeita disciplina tornava-os o terror dos inimigos.</p> - -<p>A voz animadora do chefe já havia feito tremer todos -aquelles corações. «Que todos combatam como se -tivessem quatro corpos para defender a patria e quatro -almas para a amar, havia dito esse valente, que tinha -todas as qualidades de um grande capitão menos a felicidade.</p> - -<p>Quanto a nós sentiamos, por assim dizer, as palpitações -da batalha, e tinhamos a certeza de ganhar a victoria. -Nunca em minha vida tinha visto um mais bello, -mais magnifico espectaculo. Collocado no centro da nossa -infanteria, no alto da collina descobria todo o campo de -batalha. As planicies sobre as quaes iam ficar tantos cadaveres, -estavam semeadas de plantas baixas e raras, não -fazendo pois nenhum obstaculo nem aos movimentos estrategicos -nem ao olhar que os seguia, e podia dizer que -aos meus pés em poucos momentos seriam resolvidos os -destinos da maior parte do continente americano.</p> - -<p>Esses corpos tão compactos, tão unidos uns aos outros -vão ser dispersos e derrotados? Todos esses homens serão -em um momento cadaveres? Toda essa bella e vigorosa -mocidade verá destruidas as suas mais bellas esperanças? -Vamos! Tocae fanfarras, troae canhões, e que tudo seja -decidido como em Zama, Pharsale e Actium.</p> - -<p>Mas não era ainda n'esta planicie que devia ter logar -o combate. O general inimigo intimidado pela forte posição -que occupavamos e pela nossa firmeza, hesitou e fez -repassar o rio aos dois batalhões, tomando a defensiva em -logar da offensiva. O general Caldeira tinha sido morto -no começo do combate e d'ahi provinha, talvez, a hesitação -de Georgio. No momento em que elle não nos atacava, -não deviamos nós atacal-o? Tal era a opinião da maioria. -Seriamos bem succedidos? Travando-se o combate -nas condições primitivas e conservando a nossa excellente -posição todas as probabilidades eram por nós, -mas abandonando-as para seguir um inimigo que nos era -<span class="pagenum" id="Page_106">106</span> -quatro vezes superior em infanteria, era necessario dar a -batalha no outro lado da corrente.</p> - -<p>Era escabroso, ainda que tentador.</p> - -<p>Passámos todo o dia em frente do inimigo, fazendo -conjecturas e disparando alguns tiros.</p> - -<p>Tinham-se-nos acabado os comestiveis, e a infanteria -principalmente soffria muito com essa falta. A agua -tambem se nos tinha acabado, e a sua falta era-nos mais -sensivel que a dos viveres. Á nossa vista existia uma -grande quantidade d'agua, mas que infelizmente se achava -em poder do inimigo. Por fortuna os nossos soldados estavam -habituados a soffrer toda a sorte de privações, e por -isso uma só queixa sahia dos seus labios—era a demora -em começar o combate.</p> - -<p>Ó italianos, italianos, no dia em que sejaes unidos e -sobrios, no dia em que possaes soffrer todas as privações -como os habitantes do continente americano, o estrangeiro, -estae certo, não escravisará a vossa patria, nem enxovalhará -os vossos lares. N'esse dia a Italia terá retomado -o seu logar não só no meio; mas á frente das nações -do universo.</p> - -<p>Durante a noite o velho general Georgio tinha desapparecido, -e ao raiar da aurora foi em vão que o procurámos; -só ás dez horas, quando se dissipou o forte nevoeiro, -foi que o avistámos nas posições de Taquari.</p> - -<p>Pouco tempo depois fomos avisados de que a sua cavallaria -atravessava o rio. Os imperiaes estavam pois em -completa retirada, era necessario atacal-os e o nosso general -não hesitou.</p> - -<p>A cavallaria inimiga havia atravessado o rio, protegida -por alguns dos navios imperiaes, mas a infanteria -tinha ficado na margem esquerda, protegida por esses -mesmos navios e pela floresta, sendo por isso a sua posição -a mais vantajosa possivel. A nossa segunda brigada -de infanteria, composta do terceiro e vigessimo batalhão, -era a destinada a começar o combate, effectuando-o com -a sua costumada bravura. Mas o inimigo era tão superior -em numero que estes bravos, depois de terem praticado -prodigios de valor, foram obrigados a retirarem-se, sustentados -pela segunda brigada e primeiro batalhão de artilharia—sem -canhões—e de marinha. O combate foi -terrivel, especialmente na floresta onde o estrondo da fuzilaria -<span class="pagenum" id="Page_107">107</span> -e arvores despedaçadas, no meio d'um espesso fumo, -parecia o d'uma infernal tempestade.</p> - -<p>De cada lado não contámos menos de quinhentos mortos -e feridos. Os cadaveres dos nossos valentes republicanos -foram até encontrados na ribanceira do rio, para -onde elles tinham arrojado o inimigo. Infelizmente estas -perdas foram sem resultado relativamente á sua importancia, -porque logo que começou a retirada da segunda -brigada a batalha finalisou.</p> - -<p>Tendo chegado a noite o inimigo pôde tranquillamente -acabar de passar o rio.</p> - -<p>No meio das brilhantes qualidades, das quaes julgo -ter já fallado, citarei alguns dos deffeitos do general Bento -Gonçalves: o mais deploravel d'entre elles era uma -certa hesitação, razão provavel dos resultados funestos -das suas operações. Teria sido melhor que em logar de lançar -esses quinhentos homens tão inferiores em numero -aos que elles atacavam, tivessem enviado não só toda a -infanteria, mas tambem a sua cavallaria, a pé, visto que -a difficuldade do terreno não lhe permittia combater a -cavallo: uma tal manobra teria certamente dado em resultado -uma esplendida victoria, e fazendo perder pé ao inimigo -nós conseguiriamos lançal-o no rio; mas infelizmente -o general teve receios de aventurar toda a sua infantaria, -a unica que elle teve, e que teve a republica.</p> - -<p>Em todo o caso o resultado foi para nós pessimo, porque -não sabiamos como reparar as faltas que havia soffrido -a infanteria, arma em que o inimigo nos era mui -superior, e se achava todos os dias recebendo novos reforços.</p> - -<p>O inimigo ficou na margem direita de Taquari, e por -isso senhor de todo o campo. Nós tomámos então o caminho -de <i>Mala-Casa</i>.</p> - -<p>Todas estas falsas manobras peioraram a situação da -republica. Voltámos a S. Leopoldo e a Settembrina e depois -ao nosso antigo acampamento de <i>Mala-Casa</i>, que foi -abandonado em alguns dias pelo da <i>Bella-Vista</i>.</p> - -<p>Uma operação concebida n'este tempo pelo general, -teria podido pôr-nos em excellente posição, se a fortuna -tivesse, como devia, secundado os esforços d'este homem -tão superior e tão desgraçado.</p> - -<div class="pagenum" id="Page_108">108</div> - -<h2 id="cap_32">XXXII<br /> -ASSALTO A S. JOSÉ DO NORTE</h2> - -<p>O inimigo, para poder fazer as suas correrias pelos -campos, havia sido obrigado a desguarnecer de infanteria -as suas praças fortes. Principalmente S. José do Norte -tinha um pequeno numero de soldados.</p> - -<p>Esta praça, situada na margem septentrional da embocadura -da lagôa dos Patos, era uma das chaves da provincia, -não só commercialmente, mas politicamente; a sua -posse teria mudado completamente a nossa posição, que -n'esta occasião era bem aterradora; a sua tomada tornava-se, -pois, mais que util, era necessaria. A cidade encerrava -objectos de toda a qualidade, indispensaveis para o vestuario -dos soldados, que do nosso lado estavam no mais -deploravel estado. Não só por esta razão, mas tambem -por dominar o unico porto da provincia, S. José do Norte, -merecia que fizessemos todos os esforços para nos apoderarmos -d'ella, mas tambem porque só d'este lado se encontrava -a <i>atalaia</i>, isto é, o mastro dos signaes dos navios, -que servia para lhe indicar a profundura das aguas -na embocadura.</p> - -<p>N'esta expedição succedeu infelizmente o mesmo que -tinha acontecido em Taquari. Preparada com admiravel -sciencia e profundo segredo, perdeu-se todo o trabalho -por se ter hesitado em dar o ultimo golpe.</p> - -<p>Uma marcha forçada de oito dias, a vinte e cinco milhas -por dia, nos conduziu defronte dos muros da praça.</p> - -<p>Era uma d'essas noites de inverno, durante as quaes -um abrigo e um bom fogo são um beneficio da Providencia, -e os nossos pobres soldados da liberdade, esfaimados, -vestidos de pedaços, tolhidos pelo frio e gelados pela chuva -d'uma horrivel tempestade, avançavam silenciosos contra -os fortes e trincheiras guarnecidas de soldados.</p> - -<p>A pouca distancia das muralhas os cavallos dos chefes -foram confiados á guarda d'um esquadrão de cavallaria -commandado pelo coronel Amaral, e todos nos preparámos -para o combate.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_109">109</span> -O <i>quem vive</i> da sentinella foi o signal do assalto, e a -resistencia foi pequena e de pouca duração sobre as muralhas. -Á hora e meia da manhã démos o assalto, e as -duas horas estavamos senhores das trincheiras e de tres -ou quatro fortes que as guarneciam, e que foram tomados -á bayoneta.</p> - -<p>Senhores das trincheiras e dos fortes, tendo entrado -na cidade parecia impossivel que ella nos escapasse. Entretanto -ainda esta vez o que parecia impossivel nos estava -reservado.—Uma vez dentro dos muros, uma vez -nas ruas de S. José, os nossos soldados julgaram que tudo -estava acabado, e a maior parte se dispersou, arrastada -pelo appetite da pilhagem. Durante este tempo os imperiaes -voltando a si da sua surpreza reuniram-se n'um -bairro que se achava fortificado. Ahi os fomos atacar, mas -repelliram-nos. Os chefes procuravam por todos os lados -os soldados para continuar no ataque, mas era inutil, -porque se se encontravam alguns, eram carregados dos -despojos, ou bebados, ou tendo quebrado os fuzis á força -de despedaçar as portas das casas.</p> - -<p>O inimigo do seu lado não perdia o tempo: muitos navios -de guerra que se achavam no porto tomaram posição, -varrendo com o fogo dos seus canhões as ruas onde nos -achavamos. Pediu-se soccorro a Rio Grande do Sul, cidade -situada na margem opposta da embocadura dos Patos, emquanto -um unico forte que haviamos desprezado servia de -refugio ao inimigo. O primeiro d'estes fortes, o do imperador, -do qual a tomada nos tinha custado um glorioso -e mortifero assalto, foi destruido por uma explosão terrivel -de polvora, que nos matou bom numero de soldados.—Emfim -o mais glorioso dos triumphos estava mudado, -ao meio dia, na mais vergonhosa retirada, e os verdadeiros -amigos da liberdade choravam de desesperação.</p> - -<p>A nossa perda, comparativamente á nossa situação, -foi enorme.</p> - -<p>Desde este momento a nossa infanteria não foi senão -um esqueleto; emquanto á pouca cavallaria que tinha -vindo na expedição serviu para proteger a retirada.</p> - -<p>A divisão entrou nos seus quarteis da Bella-Vista, e -eu fiquei em S. Simão com a marinha.</p> - -<p>Todos os meus soldados estavam reduzidos a quarenta -homens, contando tambem os officiaes.</p> - -<div class="pagenum" id="Page_110">110</div> - -<h2 id="cap_33">XXXIII<br /> -ANNITA</h2> - -<p>O motivo da minha partida para S. Simão teve por -fim, o mandar fazer algumas d'essas canôas, construidas -d'um só tronco d'arvore, com a ajuda das quaes eu queria -abrir communicações com a outra parte do lago. Mas -durante os mezes que eu ahi fiquei, as arvores promettidas -não chegaram, e o nosso projecto por consequencia -não se pôde realisar. Como eu tinha um grande horror -pela ociosidade, não podendo construir barcos, dediquei-me -a ensinar cavallos. Em S. Simão havia uma grande -quantidade de poltros que me serviram para fazer cavalleiros -dos meus marinheiros.</p> - -<p>S. Simão era uma bella e espaçosa herdade, que se -achava então abandonada. Pertencia ao conde de S. Simão, -antigamente exilado, e de quem os herdeiros estavam -tambem exilados como inimigos da republica. Eu não -sei se elle era ainda parente do famoso conde de S. Simão, -fundador d'essa religião de que os adeptos me tinham -iniciado na paternidade universal; mas n'esta occasião, -como a familia de S. Simão era considerada por -nós como inimiga, tratámos a sua herdade como uma -conquista; isto é, apoderámo-nos das casas para ahi habitarmos, -e dos animaes domesticos que ahi havia para fazermos -o nosso sustento.</p> - -<p>Os nossos unicos divertimentos eram ensinar os nossos -poltros, ou, para melhor dizer, os poltros dos S. Simonnianos.</p> - -<p>Foi n'esta occasião que a minha chara Annita deu á -luz o primeiro filho. Em logar de lhe dar o nome d'um -santo, dei-lhe o nome d'um martyr.</p> - -<p>Chamou-se Menoti.</p> - -<p>Nasceu a 16 de setembro de 1840, exactamente no -mesmo dia em que fazia nove mezes que tinha tido logar -o combate de Santa Victoria. A sua apparição n'este -mundo sem accidente, era um verdadeiro milagre depois -das privações e dos perigos soffridos por sua mãe. Essas -<span class="pagenum" id="Page_111">111</span> -privações e esses soffrimentos de que eu ainda não fallei, -afim de não interromper a minha narração, devem aqui -achar logar, e é do meu dever fazer conhecer se não ao -mundo, ao menos a alguns amigos que lerem este jornal -a admiravel creatura que perdi.<a name="FNanchor_8" id="FNanchor_8" href="#Footnote_8" class="fnanchor">[8]</a></p> - -<p>Annita, como sempre, tinha querido seguir-me e havia-me -acompanhado na campanha que acabavamos de -fazer, e que acabo de contar.</p> - -<p>O leitor deve lembrar-se que reunidos aos serraminnos, -commandados pelo coronel Aranha, nós batemos em -Santa Victoria o brigadeiro Cunha, e de tal modo que a -divisão inimiga foi completamente destruida. Durante o -combate Annita, a cavallo no meio do fogo, era espectadora -da victoria e derrota dos imperiaes. Foi ella n'esse -dia o anjo providencial dos nossos feridos, porque não -tendo nós nem cirurgião nem ambulancia, eram curados, -sabe Deus como, por nós mesmos. Esta victoria submetteu -de novo, pelo menos momentaneamente, as tres provincias, -Lages, Vaccaria e de Cima da Serra á authoridade -da republica, e já contei como no fim d'alguns dias -entrámos triumphantes em Lages. O exito do combate de -Coritibani longe esteve de ser egual.</p> - -<p>Já disse a maneira por que, apesar da bravura de -Teixeira, a nossa cavallaria foi rota, e como com os meus -sessenta e tres infantes me vi cercado por mais de quinhentos -homens de cavallaria inimiga. Annita devia n'este -dia assistir ás mais terriveis peripecias da guerra. A -muito custo submettendo-se ao papel de simples espectadora -do combate, Annita apressava a marcha das munições -receiosa de que os cartuxos faltassem aos combatentes: -com effeito o fogo que nos viamos obrigados a fazer -era tão violento que dava margem a suppor-se, com -toda a razão, que se as nossas munições não fossem renovadas -bem depressa, não teriamos um unico cartuxo; -com este fito aproximava-se do logar onde o combate -era mais renhido, quando um esquadrão de vinte cavallos -inimigos perseguindo alguns dos nossos que fugiam, -cairam de improviso sobre os soldados que conduziam a -bagagem.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_112">112</span> -Excellente cavalleira, e montando um admiravel cavallo, -bem poderia Annita ter fugido; mas dentro d'esse -peito de mulher batia o coração d'um heroe: em logar -de fugir animava os nossos soldados a defenderem-se, e -n'um momento se viu cercada pelos imperiaes.</p> - -<p>Annita enterrou as esporas no ventre do cavallo, e -d'um salto passou pelo meio do inimigo, não tendo recebido -mais do que uma unica balla que lhe atravessou -o chapeo e levou parte dos cabellos, sem lhe tocar no craneo. -Talvez ella podesse fugir se o cavallo não caisse ferido -mortalmente por outra balla, e sendo obrigada a render-se -foi apresentada ao coronel inimigo. Sublime de coragem -no perigo, Annita maior vulto tomava ainda, se é -possivel, na adversidade; de sorte que na presença d'esse -estado maior maravilhado do seu arrojo, mas que não teve -o bom gosto de occultar diante de uma mulher o orgulho da -victoria. Annita repelliu com uma rude e desdenhosa altivez -algumas palavras que lhe fizeram antever um tal ou qual -despreso pelos republicanos, e tão vigorosamente combateu -com a palavra como já o fizera com as armas. Annita -julgava que eu tinha morrido. N'esta persuasão pediu -e obteve licença de ir ao campo de batalha procurar o -meu corpo no meio dos cadaveres. Qual a ventesma infernal -passeando sobre campina ensanguentada, Annita -errou só e por muito tempo procurando aquelle que ella -receiava de encontrar, voltando os mortos que tinham caido -de rosto para a terra, e nos quaes pelo fato ou pela -altura ella imaginava terem alguma similhança comigo.</p> - -<p>Foram inuteis as suas pesquisas, era a mim pelo contrario -que sorte reservava a dôr suprema de banhar com -as minhas lagrimas suas faces gelidas, e quando esse momento -de angustia chegou impossivel me foi de lançar um -punhado de terra, uma flor, ao menos sobre a cova onde -jazia a mãe de meus filhos.</p> - -<p>Desde que Annita esteve segura de que eu existia, -não teve senão um pensamento, o de fugir, e a occasião -não tardou a apresentar-se-lhe. Aproveitando-se do delirio -do inimigo victorioso, passou para uma casa perto -d'aquella onde a tinham prisioneira, e ahi, sem ser reconhecida, -uma mulher a recebeu e protegeu. O meu capote, -que eu havia abandonado para ter os movimentos -mais livres, e que tinha caido em poder de um soldado -<span class="pagenum" id="Page_113">113</span> -inimigo, foi por ella trocado pelo seu, que era de grande -valor. Quando chegou a noute Annita lançou-se na floresta -e desappareceu. Era necessario possuir um coração -de leão para assim se arriscar. Só quem já viu as immensas -florestas que cobrem os cimos de Espinasso, com os -seus pinheiros seculares que parecem destinados a sustentar -o ceo, e que são as columnas d'esse esplendido templo -da natureza, as gigantescas cannas que povoam os -intervallos e que estão cheias de animaes ferozes e de reptis -de que a mordedura é venenosa, poderá fazer uma -idea dos perigos que ella correu, e das difficuldades que -teve a vencer. Felizmente Annita ignorava o que era medo. -De Caritibani a Lages são vinte legoas. Como ella -atravessou esses bosques impenetraveis, só, e sem alimentos, -só Deus o sabe.</p> - -<p>Os poucos habitantes d'esta parte da provincia que -ella tinha a atravessar eram hostis aos republicanos, e logo -que souberam da nossa derrota armaram-se e fizeram -emboscadas sobre muitos pontos, e principalmente nas -<i>picadas</i> que os fugitivos tinham a atravessar de Caritibani -ás Lages.</p> - -<p>Nos <i>cabecaes</i>, isto é, nos sitios quasi impraticaveis destes -atalhos, teve logar uma horrivel carnagem nos nossos -desgraçados companheiros. Annita atravessou de noite -estes sitios perigosos, e ou fosse a sua boa estrella ou a -admiravel resolução com que os atravessou, o seu aspecto -fez sempre fugir os assassinos, que fugiam, diziam elles, -perseguidos por um ser mysterioso!</p> - -<p>Na realidade era estranho ver esta valente mulher, -montada n'um ardente cavallo, pedido e obtido n'uma casa -onde havia recebido a hospitalidade durante uma noite -de tempestade, galopando por cima dos rochedos á claridade -dos relampagos. Quatro cavalleiros collocados na passagem -do rio Canoas, fugiram á vista d'esta visão, escondendo-se -atraz das moitas que guarnecem o rio. Durante -este tempo Annita chegara á margem do rio, tornado mui -tempestuoso por causa das muitas cheias, e atravessou-o, -não como o tinha feito dias antes, n'um excellente barco, -mas sim a váu, animando com a voz o seu magnifico -cavallo.</p> - -<p>As ondas precipitavam-se furiosas, não n'um estreito -espaço, mas n'uma extensão de quinhentos passos, e -<span class="pagenum" id="Page_114">114</span> -apesar d'isso Annita chegou sãa e salva á outra margem.</p> - -<p>Uma chavena de café foi o unico alimento que a intrepida -viajanta tomou durante os quatro dias que gastou -em alcançar na Vaccaria a tropa do coronel Aranha.</p> - -<p>Foi ahi que nos encontramos, Annita e eu, depois de -uma separação de oito dias e de nos julgarmos mortos.</p> - -<p>Que alegria não foi a nossa! Maior foi ainda a que -senti no dia em que Annita, na peninsula que fecha a lagoa -dos Patos do lado do Atlantico, deu á luz n'uma casa que -nos dava hospitalidade o meu querido Menotti, que veiu -ao mundo com uma cicatriz na cabeça procedida pela queda -do cavallo que tinha dado sua mãe.</p> - -<p>Renovo aqui mais uma vez os meus agradecimentos ás -excellentes pessoas que nos deram esta hospitalidade, assegurando-lhe -um reconhecimento eterno. No campo onde -nos faltavam todas as cousas mais necessarias, e onde eu -não lhe teria podido dar um unico lenço, Annita não teria -podido triumphar n'este momento supremo onde a mulher -tem tanta necessidade de forças e cuidados.</p> - -<p>Decidi-me então a fazer uma viagem a Settembrina -para ahi comprar muitas cousas de maior urgencia que -faltavam aos meus entes queridos. Tinha ali bons amigos, -e entre elles um excellente homem chamado Blingini. -Comecei então a minha viagem atravez os campos -innundados, onde eu tinha a agua até ao ventre do cavallo; -passei por meio d'um campo antigamente cultivado -chamado <i>Rocha velha</i>, onde encontrei o capitão de -lanceiros Maximo, que me recebeu perfeitamente. Acceitei -a sua hospitalidade durante dois dias, por causa do -pessimo tempo não me deixar continuar a jornada.</p> - -<p>No fim d'elles quiz partir, apesar de todos os esforços -que fez o bom capitão para me conservar na sua companhia.</p> - -<p>Mas o fim para que tinha partido era para mim mui -sagrado para que me demorasse mais, e não obstante as -observações d'este bom amigo, puz-me a caminho por essas -planicies que pareciam um vasto lago. Na distancia de -algumas milhas, ouvi do lado que acabava de deixar o -estrondo da fuzilaria, concebi então algumas suspeitas -cheias de angustias, mas não podia voltar atraz.</p> - -<p>Cheguei a Settembrina onde comprei os objectos de -<span class="pagenum" id="Page_115">115</span> -que tinha necessidade, e sempre inquieto por essa fuzilaria -que tinha ouvido, puz-me logo a caminho para São -Simão. Descançamos em Rocha Velha, onde soube a causa -d'esse estrondo que tinha ouvido e o triste acontecimento -que tinha tido logar no mesmo dia da minha partida.</p> - -<p>Morinque—o mesmo que me havia surprehendido em -Camacua e que eu e os meus quatorze homens tinhamos -obrigado a fugir com um braço quebrado, tinha surprehendido -o capitão Maximo, todos os seus soldados feitos -prisioneiros, e a maior parte das seus cavallos tambem -tomados, e os mais mortos.</p> - -<p>Morinque havia effectuado esta surpreza com alguns -navios de guerra e infanteria. Embarcou depois a infanteria, -e dirigiu-se com a cavallaria para o Rio Grande do -Norte, espantando pelo caminho todas as pequenas guerrilhas -republicanas, que julgando-se em segurança se haviam -espalhado pelo territorio; entre elles achavam-se os -meus marinheiros que foram obrigados a refugiar-se na -floresta.</p> - -<p>O meu primeiro grito foi como se deve julgar: «Annita! -onde está Annita?»</p> - -<p>Annita doze dias depois de ter tido o seu feliz successo, -tinha sido obrigada a montar a cavallo, e meio nua, -com o seu pobre filho nos braços, tinha sido obrigada a -refugiar-se na floresta.</p> - -<p>Não encontrei pois no <i>rancho</i> nem Annita, nem os -nossos hospedeiros, mas alcancei-os na ourela d'um bosque -onde elles se conservavam não sabendo onde se achava -o inimigo, nem se ainda tinham alguma cousa a receiar -d'elles.</p> - -<p>Voltamos a São Simão, e ahi nos demoramos algum -tempo, depois mudamos o nosso acampamento, estabelecendo-nos -na margem esquerda do Capivari, isto é, no -mesmo sitio onde um anno antes tinhamos transportado -os nossos lanchões em carros para a expedição de Santa -Catharina, expedição que tão mau exito teve.</p> - -<p>N'essa occasião tinha sentido bastantes esperanças que -infelizmente haviam desapparecido.</p> - -<p>O Capivari é formado de differentes riachos que tem -a sua nascente nos lagos numerosos que guarnecem a parte -septentrional da provincia do Rio Grande, sobre as costas -do mar e sobre a vertente oriental da cadea de Espinasso. -<span class="pagenum" id="Page_116">116</span> -Toma este nome da <i>capinara</i>, especie de canniços -muito communs na America meridional e que nas Colonias -se chamam <i>capineios</i>.</p> - -<p>De Capivari e de Sangrador d'Abreu canal que serve de -communicação entre um charco e um lago onde tinhamos -reunidas com muito trabalho algumas canôas, fizemos algumas -viagens á costa occidental do lago, estabelecendo -communicações entre as duas margens e transportando os -passageiros.</p> - -<h2 id="cap_34">XXXIV<br /> -LEVANTA-SE O CERCO.—ROSSETTI</h2> - -<p>Comtudo a situação do exercito republicano peiorava -de dia para dia; as suas necessidades augmentavam e os -seus recursos diminuiam. Os dois combates de Taquari e -S. José do Norte tinham dizimado a infanteria que apezar -de ser pouco numerosa era um poderoso recurso para -as operações de cerco. As grandes necessidades animavam -as deserções, as populações como succede n'estas -guerras mui prolongadas cançavam, e foram atacadas de -uma suprema indifferença, começando nós então a conhecer -que estava proximo o momento de tudo se acabar.</p> - -<p>N'este estado de cousas os imperiaes fizeram propostas -que, ainda que vantajosas para os republicanos foram -por estes recusadas. Esta recusa augmentou o descontentamento -dos mais desgraçados, e por conseguinte da parte -mais fatigada do exercito e do povo, sendo decidido que -o cerco seria abandonado e que todos se retirariam.</p> - -<p>A divisão Canavarro de que faziam parte os marinheiros -foi designada para começar o movimento e abrir as passagens -da serra, occupadas pelo general Labattue, francez -ao serviço do imperador. Bento Gonçalves com o resto -do exercito formaria a retaguarda.</p> - -<p>A guarnição republicana de Settembrina devia seguir-nos, -mas não pôde executar este movimento, porque surprehendida -pelo famoso Morinque a cidade foi tomada.</p> - -<p>Foi ahi que morreu o meu caro Rossetti.</p> - -<p>Tendo caido do cavallo, depois de ter praticado prodigios -<span class="pagenum" id="Page_117">117</span> -de valor, ferido perigosamente, e intimado para se -render, preferiu antes que o matassem do que entregar a -sua espada.</p> - -<p>Ainda uma outra ferida para o meu coração. Já fallei -muitas vezes de Rossetti, sabe-se pois como o amava, -seja-me pois permittido dizer á Italia o que já tenho -dito tantas vezes: Oh! Italia, minha mãe, acabamos de -perder, eu um dos meus irmãos mais caros, e tu um dos -teus filhos mais generosos.</p> - -<p>Era natural de Genova. Havia sido, por paes que conheciam -pouco o seu caracter, destinado á vida ecclesiastica, -quando era um dos mais ardentes patriotas italianos -que tenho conhecido. Inclinado á vida aventureira e não -podendo respirar na Italia, partiu para o Rio de Janeiro -onde foi negociante e corretor; mas não tendo Rossetti -nascido negociante, era uma planta exotica dando-se mal -na terra do agio e calculo, não porque elle não fosse dotado -de uma intelligencia fina e apta a enriquecer-se de -todos os conhecimentos, mas porque Rossetti era o mais -italiano de todos os italianos, isto é, o mais generoso e -prodigo dos homens, e com taes <i>vicios</i> não se faz fortuna, -mas antes se caminha a grandes passos para a ruina.</p> - -<p>Foi o que aconteceu com Rossetti.</p> - -<p>Bom para com todos, a sua casa achava-se franca para -toda a gente, e especialmente para os italianos desgraçados. -Não esperava que os proscriptos o fossem procurar, -era elle que os ia encontrar, esgotando assim em -pouco tempo os seus recursos. Bem desgraçado, esse coração -do anjo não podia ver soffrer um italiano. Se o não -podia soccorrer immediatamente, fazia-o esperar na sua -pobre cabana, e corria as ruas da cidade, e não entrava -em sua casa senão quando trazia algum soccorro para -aquelle ou aquelles que o esperavam. É verdade que a -sua bondade, a sua franqueza e a sua lealdade o tinham -tornado estimado de todos, e por isso quando se achava -n'estes piedosos embaraços, todos o coadjuvavam com -prazer.</p> - -<p>A batalha de Tarifa teve logar, e os republicanos foram -batidos pelos imperiaes; Bento Gonçalves e os principaes -chefes feitos prisioneiros, e conduzidos ao Rio de -Janeiro. Entre elles achava-se o nosso capitão Zambecarri, -com quem travamos relações, segundo já disse, nas -<span class="pagenum" id="Page_118">118</span> -prisões de Santa Cruz. Fallou-se de nos fazermos corsarios, -e desde esse momento Rossetti e eu não tivemos um -minuto de descanço em quanto não nos lançamos no Occeano -com a bandeira republicana. Rossetti encarregou-se -de tudo e alcançou o fim que pertendiamos.</p> - -<p>Os leitores sabem o resto, porque desde esse momento -não nos perdemos de vista.</p> - -<p>Infelizmente não ha um canto da terra onde não descansem -os ossos de um italiano generoso, devendo por isso -a Italia cobrir-se de luto e não encher-se de gloria. -Pobre Italia, tu sentirás verdadeiramente a sua falta no -dia em que tentares arrancar o teu cadaver aos corvos -que o devoram.</p> - -<h2 id="cap_35">XXXV<br /> -A PICADA DAS ANTAS</h2> - -<p>Esta retirada emprehendida na estação invernosa, por -um paiz montanhoso e debaixo de uma chuva incessante -foi a mais terrivel e mais desastrosa que tenho visto.</p> - -<p>Conduziamos por precaução algumas vaccas, sabendo -perfeitamente que no caminho que tinhamos a atravessar -não encontrariamos comestiveis alguns.</p> - -<p>Retirando-nos, seguiamos a divisão do general Labattue, -mas infelizmente sem a podermos alcançar. Só os -selvagens manifestavam as suas sympathias por nós, atacando-lhe -a guarda avançada. Tivemos occasião de vêr -de perto esses homens da natureza que não nos foram -hostis.</p> - -<p>Annita durante esta retirada de tres mezes soffreu toda -a casta de privações e incommodos com um stoicismo -e uma coragem admiravel.</p> - -<p>É necessario ter algum conhecimento das florestas d'esta -parte do Brazil para fazer idéa das privações soffridas -por uma porção de homens sem meios de transporte, e tendo -unicamente por recurso o <i>laço</i>, arma mui util nas planicies -cobertas de animaes, mas perfeitamente inutil n'essas -expessas florestas abundantes em tigres e leões.</p> - -<p>Para a nossa desgraça ser ainda maior, os rios muito -proximos uns dos outros n'estas florestas virgens engrossavam -<span class="pagenum" id="Page_119">119</span> -cada vez mais. A horrivel chuva que nos perseguia -não cessava de cair, acontecendo muitas vezes que uma -parte dos nossos soldados se achavam entre duas correntes -de agua e ahi ficavam privados de todo o alimento, -morrendo muitos de fome, e principalmente as mulheres -e creanças que não podiam supportar tanto as privações. -Era uma carnagem mais horrivel do que a de uma sanguinolenta -batalha.</p> - -<p>A nossa pobre infanteria principalmente soffria muito -mais, porque não tinha como a cavallaria o recurso de -matar os cavallos. Poucas mulheres e menos creanças sairam -vivas da floresta. As poucas que escaparam foram salvas -pelos cavalleiros que tendo a felicidade de conservar -os cavallos, tiveram dó d'aquelles pequenos entes, abandonados -por suas mães mortas de fome, frio e fadiga.</p> - -<p>Annita tremia com a idéa de perder o nosso Menoti, que -foi salvo unicamente por milagre. Nos sitios mais perigosos, -e na passagem dos rios, conduzia o nosso pobre -filho, de tres annos de edade, suspenso ao meu pescoço -por um lenço, podendo aquecel-o d'este modo com o meu -alento. De doze mulas e cavallos com que tinha entrado -na floresta, e que eram destinadas ao meu serviço, não -tinha podido salvar mais que duas mulas e dois cavallos, -as demais tinham morrido de fome ou de fadiga. Para completar -a nossa desgraça, os guias tinham-se perdido no caminho, -o que foi a causa principal dos nossos sofrimentos -na temivel floresta das Antas.</p> - -<p>Quanto mais andavamos, menos viamos chegar o fim -d'esta picada maldita. Fiquei muito longe dos meus companheiros, -com duas mulas horrivelmente fatigadas, e que -eu esperava salvar, fazendo-as caminhar mui devagar e -sustentando-as com folhas de taquaras a que Taquari deve -o seu nome. Durante este tempo enviei Annita adiante -com um criado e meu filho, afim de que elle procurasse -o fim d'esta interminavel floresta e algum alimento.</p> - -<p>Os dois cavallos que eu havia deixado a Annita e que -ella montava simultaneamente, foi quem nos salvaram. Ella -achou o fim da floresta e ahi encontrou um piquete dos -meus bravos soldados assentados a um bello fogo, o que -não era commum pelo tempo que fazia.</p> - -<p>Os meus companheiros que por felicidade tinham conservado -alguns vestidos de lã, embrulharam n'elles a creança, -<span class="pagenum" id="Page_120">120</span> -aquecendo-a e chamando-a por este modo á vida, quando -já a pobre mãe começava a perder todas as esperanças. -Mas ainda não é tudo: estes excellentes rapazes começaram -então a procurar com uma grande sollicitudde alguns -alimentos, que elles não tinham procurado para si, mas -que agora procuravam por minha causa.</p> - -<p>O que d'entre todos prestou a minha esposa e filho os -primeiros e mais efficazes soccorros foi Mangio: que o seu -nome seja abençoado.</p> - -<p>Tinha tido grande difficuldade em salvar os meus dois -cavallos, e por fim vi-me na necessidade de abandonar os -dois pobres animaes esfalfados e aguados, sendo obrigado, -apezar do estado miseravel em que me achava, a -atravessar o resto da floresta a pé.</p> - -<p>No mesmo dia encontrei minha mulher e filho e soube -então o que os meus companheiros tinham feito por -causa d'ella.</p> - -<p>Nove dias depois da nossa entrada na floresta conseguimos -sair! Poucos officiaes tinham conseguido salvar os -seus cavallos. O inimigo que nos precedia, fugindo diante -de nós, tinha deixado duas peças de artilheria na picada; -mas de que nos serviriam ellas? Faltavam todos os meios -de transporte e póde ser que ellas ainda estejam no mesmo -logar em que as vi.</p> - -<p>As tempestades pareciam conscriptas na floresta. Apenas -saimos d'ella e nos aproximamos de Cima da Serra e -de Vaccaria que o bom tempo começou, caindo então em -nosso poder alguns bois, que indemnisando-nos do nosso -longo jejum nos fizeram esquecer a fadiga, a fome e a -chuva.</p> - -<p>Ficámos na Vaccaria alguns dias, esperando pela divisão -de Bento Gonçalves, que se nos uniu em completa -desordem, e com menos um terço dos soldados.</p> - -<p>O infatigavel Morinque sabendo da retirada d'esta divisão, -tinha começado a perseguil-a, sem descanço, atacando-a -em todas as occasiões, alliando-se para esta obra -de destruição aos montanhezes, sempre hostis aos republicanos. -Todos estes successos deram tempo a Labattue -a fazer a sua retirada, e depois a sua juncção com o -exercito imperial, tendo apenas, apezar d'isto, algumas -centenas de homens á sua disposição. Então as mesmas -dificuldades que haviam existido para nós, appareceram -<span class="pagenum" id="Page_121">121</span> -para elles que tiveram além d'isso a vencer um obstaculo -imprevisto, e que eu noto por causa da sua raridade.</p> - -<p>O general Labattue tendo que atravessar no seu caminho -dois bosques chamados de Mattos, ahi encontrou -algumas d'essas tribus indigenas chamadas de <i>Bragis</i>, que -são as mais selvagens que se conhecem no Brazil. Estas tribus -sabendo da passagem dos imperiaes, armaram-lhe tres -ou quatro emboscadas, fazendo-lhe grande mal. Em quanto -a nós não nos causaram a mais pequena inquietação e -ainda que houvesse no caminho muitos d'esses alçapãos, -que os indios collocam na passagem dos seus inimigos, -todos se achavam descobertos em logar de estarem disfarçados -com ramos de arvores, segundo o costume.</p> - -<p>Durante a curta paragem que fizemos na ourela de um -d'esses bosques gigantescos, appareceu-nos uma mulher, -que na sua mocidade tinha sido roubada pelos selvagens, -e que havia aproveitado a nossa presença para fugir.</p> - -<p>A pobre mulher achava-se n'um deploravel estado.</p> - -<p>Como não tinhamos então nenhum inimigo a atacar -ou de quem fugissemos, continuamos a nossa marcha mui -vagarosamente, porque não possuiamos cavallos, e era necessario -ir domando os poltros.</p> - -<p>O corpo de lanceiros republicanos, tendo ficado completamente -desmontado, foi tambem obrigado a lançar mão -dos poltros.</p> - -<p>Era na verdade um explendido espectaculo, sempre -novo, ainda que repetido todos os dias, o vêr esses jovens -e robustos negros que mereciam o epitheto de domadores -de cavallos que Virgilio dá a Pelops. Era necessario vêl-os -saltar sobre esses selvagens filhos do deserto, que não conheciam -nem freio, nem selim, agarrando-se ás crinas, e -correndo pelas planicies, até que cedendo ao homem o -quadrupede se confessava vencido. Mas a lucta era longa, -e o animal não se rendia senão depois de ter exgotado -todas as forças em se desembaraçar do seu tyranno, -que do seu lado admiravel de agilidade e coragem, o apertava -entre os joelhos, como entre duas tenazes, não o deixando -senão depois de o ter domado.</p> - -<p>Tres dias são sufficientes a um bom domador de cavallos -para que o animal o mais rebelde possa sofrer o -freio.</p> - -<p>Raramente, comtudo os poltros são bem domesticados -<span class="pagenum" id="Page_122">122</span> -pelos soldados, sobretudo nas marchas onde os muitos afazeres -impedem os domadores de lhe prestar todos os cuidados -necessarios.</p> - -<p>Tendo passado os <i>Mattos</i> atravessámos a provincia das -Missões, dirigindo-nos para Cruz Alta, capital d'esta pequena -provincia, depois de Cruz Alta dirigimo-nos a S. -Gabriel onde se estabeleceu o quartel general, e edificaram -barracas para o acampamento do exercito.</p> - -<p>Seis annos d'esta vida de aventuras e perigos não me -tinham fatigado em quanto era só, mas actualmente que -tinha uma pequena familia, a separação de todos os meus -antigos conhecimentos, a ignorancia completa em que me -achava ha tantos annos sobre o estado da minha familia, -fizeram nascer o desejo de me aproximar de um ponto onde -podesse receber noticias de meu pae e minha mãe, -porque se tinha por um momento esquecido essas ternas -affeições, ellas appareciam de novo. Tambem não tinha -noticias da minha outra mãe, da Italia!</p> - -<p>Decidi então ir a Montevideo; ao menos temporariamente. -Pedi pois licença ao presidente, assim como para -levar alguns bois, de que a venda devia servir para me -sustentar durante a jornada.</p> - -<h2 id="cap_36">XXXVI<br /> -CONDUCTOR DE BOIS</h2> - -<p>Eis-me pois <i>truppiere</i>, isto é conductor de bois.</p> - -<p>Em consequencia n'uma estancia chamada o <i>Casal das -Pedras</i>, com a authorisação do ministro da fazenda, consegui -reunir em vinte dias e com grande difficuldade novecentos -bois, quasi todos selvagens. Maiores dificuldades -me esperavam ainda durante o caminho onde encontrei obstaculos -quasi invenciveis. O maior de todos foi o Rio-Negro, -onde tive quasi perdido todo o meu capital. Da passagem -do rio, da minha inexperiencia no meu novo mister, -e sobre tudo da rapina de certos <i>capatazes</i>, mercenarios -que tinha alugado como conductores, salvei com muito -custo quinhentos bois, que visto o mau sustento e o pessimo -<span class="pagenum" id="Page_123">123</span> -caminho foram julgados incapazes de chegar ao seu -destino.</p> - -<p>Resolvi em consequencia matal-os e tirar-lhe as pelles, -que vendi, ficando-me livres de toda a despeza uns -trezentos escudos que serviram para fazer face ás primeiras -necessidades da minha familia.</p> - -<p>É aqui que devo mencionar um encontro que me deu -um dos meus mais charos e melhores amigos.</p> - -<p>Aproximando-me de S. Gabriel, na retirada que acabavamos -de fazer, tinha ouvido fallar de um official italiano, -dotado de grande valor e intelligencia, que, exilado -como carbonario se tinha batido em França no dia 5 -de junho de 1832, e depois no Porto durante o cerco que -ahi houve por causa da guerra entre os dois irmãos D. Pedro -e D. Miguel, vindo depois offerecer-se ao serviço das -jovens republicas da America do Sul.</p> - -<p>Contavam-se a seu respeito cousas tão extraordinarias -que muitas vezes disse:</p> - -<p>—Quando encontrar esse homem, ha-de ser meu -amigo.</p> - -<p>Chamava-se Anzani.</p> - -<p>Chegando á America, tinha-se apresentado com uma -carta de recommendação a dois dos seus compatriotas MM.*** -negociantes em S. Gabriel, que tinham feito d'elle o seu -<i>factotum</i>.</p> - -<p>Anzani exercia todos os empregos, caixeiro, guarda-livros, -homem de confiança, emfim era o bom genio d'esta -casa.</p> - -<p>Como todos os homens fortes e corajosos, Anzani era -socegado e dotado de um excellente genio.</p> - -<p>A casa commercial de que elle se tinha tornado director -era uma d'essas casas como se acham unicamente na -America do Sul, isto é vendendo tudo o que é possivel -imaginar.</p> - -<p>A villa onde residiam os nossos dois compatriotas era -infelizmente proxima da floresta que servia de refugio a -essas tribus de indios de que já dissemos algumas palavras -no capitulo precedente.</p> - -<p>Um dos chefes d'estes indios tinha-se tornado o terror -d'esta pequena villa, á qual vinha duas vezes por anno, -com a sua tribu, roubando quanto queria sem encontrar -a menor resistencia.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_124">124</span> -Primeiramente veiu acompanhado por duzentos ou trezentos -homens, depois com cem, depois com cincoenta, segundo -elle tinha visto augmentar o terror estabelecendo -o seu poder, e depois sentindo-se o senhor tinha vindo só, -e dava as suas ordens que eram obedecidas, como se por -detraz de si tivesse a sua tribu prompta a assassinar aquelle -que lhe recusasse obedecer.</p> - -<p>Anzani tinha ouvido fallar d'este homem e tinha escutado -tudo o que se dizia a seu respeito, sem manifestar -a sua opinião sobre a audacia d'este chefe selvagem e sobre -o terror que inspirava a sua ferocidade.</p> - -<p>Este terror era tamanho que quando se ouvia dizer o -<i>chefe dos Mattos</i> todas as janellas se fechavam, e todas as -portas se trancavam como se na villa andassem alguns cães -damnados.</p> - -<p>O indio estava habituado a estes signaes de terror, que -lisongeavam o seu orgulho, escolhia a porta que queria -vêr aberta, batia—abrindo-se logo com a rapidez do relampago—e -roubava tudo sem encontrar a menor resistencia.</p> - -<p>Havia justamente dois mezes que Anzani dirigia a casa -de commercio nos seus maiores como menores detalhes, -quando se ouviu o grito terrivel:</p> - -<p>—O chefe dos Mattos!</p> - -<p>Como o costume, portas e janellas fecharam-se precipitadamente.</p> - -<p>Anzani estava só em casa arranjando as contas da semana, -e não julgando que o estrondoso annuncio que acabavam -de fazer valesse a pena de se incommodar ficou assentado -á sua mesa, com as janellas e portas abertas.</p> - -<p>O indio parou espantado diante d'essa casa que no -meio do terror geral que causava a sua chegada, se conservava -indifferente á sua apparição.</p> - -<p>Entrou e viu encostado ao balcão um homem que socegadamente -fazia as suas contas. Parou diante d'elle de -braços cruzados e olhando-o com espanto.</p> - -<p>Anzani levantou a cabeça.</p> - -<p>Anzani era a politica em pessoa.</p> - -<p>—Que quer meu amigo? perguntou elle ao indio.</p> - -<p>—Como! que quero?! disse este.</p> - -<p>—Sem duvida, disse Anzani, quando se entra n'um -armazem é que se quer comprar alguma cousa.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_125">125</span> -O indio começou a rir.</p> - -<p>—Pelo que vejo não me conheces? perguntou ele a -Anzani.</p> - -<p>—Como queres que te conheça, se é a primeira vez -que te vejo!</p> - -<p>—Sou o chefe dos Mattos, replicou o indio, mostrando -no seu cinto um arsenal composto de quatro pistollas -e um punhal.</p> - -<p>—Então que queres?</p> - -<p>—Beber.</p> - -<p>—O que?</p> - -<p>—Um copo de agua-ardente.</p> - -<p>—Não ha nada mais facil; paga primeiro e depois -tens a agua-ardente que quizeres.</p> - -<p>O indio começou a rir de novo.</p> - -<p>Anzani franziu as sobrancelhas.</p> - -<p>—Em logar de me responder, tornas de novo a rir. -Não acho isso mui politico. Previno-te, pois, que se isso -succede outra vez ponho-te fóra da porta.</p> - -<p>Anzani tinha pronunciado estas palavras com tal firmeza, -que outro qualquer homem que não fosse o indio -teria comprehendido com quem tinha a tratar.</p> - -<p>Talvez o selvagem houvesse comprehendido, mas não -o deu a conhecer.</p> - -<p>—Já te disse que me desses um copo de agua-ardente, -repetiu elle batendo com o punho no balcão.</p> - -<p>—E eu já te disse que o pagasses primeiro, disse Anzani, -quando não, não a bebes.</p> - -<p>O indio deitou um olhar colerico a Anzani, mas o olhar -d'este encontrou o seu,—o relampago havia encontrado -o relampago.</p> - -<p>Anzani dizia muitas vezes:</p> - -<p>—A unica força que existe é a moral. Olhae fixa e -obstinadamente o homem que vos encarar, se elle abaixar -os olhos, estaes senhor d'elle, mas se pelo contrario sois -vós que os abaixaes estaes perdido.</p> - -<p>O olhar de Anzani tinha um irresistivel poder. Foi o -indio que foi vencido, e conhecendo a sua inferioridade, -e furioso d'este poder desconhecido, quiz ganhar animo -bebendo.</p> - -<p>—Está bem, disse elle, ahi tens meia piastra, da-me -de beber.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_126">126</span> -—É obrigação minha servir quem me paga, disse tranquilamente -Anzani.</p> - -<p>E deu ao indio um copo de agua-ardente.</p> - -<p>O indio bebeu.</p> - -<p>—Outro, disse elle.</p> - -<p>Anzani deu-lhe outro copo.</p> - -<p>O indio bebeu-o como o primeiro.</p> - -<p>—Ainda outro, disse elle.</p> - -<p>Em quanto Anzani teve dinheiro suficiente para se pagar -da despeza do indio, não lhe fez nenhuma observação, -mas quando o bebedor já não tinha dinheiro para -pagar, cessou de encher-lhe o copo.</p> - -<p>—Então? perguntou o selvagem.</p> - -<p>Anzani fez-lhe a sua conta.</p> - -<p>—Depois? insistiu o selvagem.</p> - -<p>—Depois?... Como não tem dinheiro, não bebe mais -agua-ardente, respondeu Anzani.</p> - -<p>O indio tinha formado bem o seu calculo. Os cinco ou -seis copos de agua-ardente que havia bebido, tinham-lhe -dado a coragem que havia perdido com o olhar de Anzani.</p> - -<p>—Agua-ardente, disse elle levando a mão a uma das -pistollas, agua-ardente, ou morres.</p> - -<p>Anzani que já previa o final d'esta scena, estava preparado. -Tinha cinco pés e nove pollegadas, e era dotado -de uma força e agilidade pasmosa. Apoiou a mão no balcão -e saltando para o outro lado deixou-se cair sobre o -indio, agarrando-lhe o punho direito.</p> - -<p>O selvagem não poude aguentar o choque e caiu; Anzani -não o largou e poz-lhe o pé no peito.</p> - -<p>Então agarrando com a mão esquerda a mão direita -do indio, tornando-lhe por isso inoffensiva a arma, Anzani -tirou-lhe do cinto as pistollas e punhal, que espalhou -pelo armazem, e arrancando-lhe a pistolla da mão, quebrou-lhe -o cano na cabeça e na cara, e julgando que o -selvagem já se achava bem castigado foi empurrando-o -aos pontapés até á porta deitando-o no meio de um grande -lamaçal.</p> - -<p>O indio levantou-se com muita difficuldade e fugiu, -mas em tal estado que nunca mais tornou a apparecer em -S. Gabriel.</p> - -<p>Anzani havia feito debaixo do nome de Ferrari a guerra -de Portugal. Com este nome tinha-se conduzido admiravelmente, -<span class="pagenum" id="Page_127">127</span> -ganho a patente de capitão e recebido duas -graves feridas: uma na testa, outra no peito, e tão graves -que no fim de dezeseis annos morreu por causa d'ellas.</p> - -<p>A ferida da cabeça era um golpe de sabre que lhe tinha -aberto o craneo.</p> - -<p>A do peito foi uma balla que lhe tinha ficado no pulmão, -e de que mais tarde lhe nasceu uma phtisica pulmonar.</p> - -<p>Quando se lhe fallava dos prodigios de coragem que -tinha praticado debaixo do nome de Ferrari, sorria-se e -dizia que elle e Ferrari eram dois entes differentes.</p> - -<p>Infelizmente não podia, ao mesmo tempo que attribuia -os seus prodigios de valor a um ente imaginario, trespassar-lhe -as duas feridas.</p> - -<p>Tal era o homem de quem me haviam fallado, e a quem -eu desejava conhecer e ter por amigo.</p> - -<p>Em S. Gabriel soube que tinha ido tratar de alguns -negocios a sessenta milhas de distancia. Montei então a -cavallo para o procurar.</p> - -<p>No caminho, na margem de um pequeno rio, encontrei -um homem, com o peito nú lavando uma camisa—vi que -era este o homem que procurava.</p> - -<p>Dirigi-me a elle, estendi-lhe a mão e disse-lhe quem -era.</p> - -<p>Desde este momento fomos irmãos.</p> - -<p>Já não estava na casa de commercio, e como eu havia -entrado ao serviço da republica do Rio Grande. Era -commandante de infanteria da divisão de João Antonio, -um chefe republicano dos mais conhecidos. Como eu deixava -o serviço e dirigia-se aos <i>saltos</i>.</p> - -<p>Depois de um dia passado juntos, demos os nossos -<i>adresses</i> respectivos e combinámos que não emprehenderiamos -movimento algum importante sem o participarmos -mutuamente.</p> - -<p>Seja-me permittido narrar um facto que dá bem a conhecer -a nossa miseria e a nossa fraternidade.</p> - -<p>Achava-me tão pobre como Anzani em camisas, em -quanto que elle tinha mais um par de calças.</p> - -<p>Dormimos no mesmo quarto, mas Anzani partiu antes -de romper o dia e sem se despedir.</p> - -<p>Quando accordei encontrei sobre o meu leito o melhor -dos seus dois pares de calças.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_128">128</span> -Conhecia apenas Anzani, mas era um d'esses homens -que se apreciam á primeira vista, e tanto que quando entrei -ao serviço da republica de Montevideo e fui encarregado -de organisar a legião italiana, o meu primeiro cuidado -foi escrever-lhe convidando-o a vir acompanhar-me.</p> - -<p>Veiu com effeito e desde esse dia não nos deixamos -mais, até que elle tocando na terra de Italia morreu entre -os meus braços.</p> - -<h2 id="cap_37">XXXVII<br /> -PROFESSOR DE MATHEMATICA E CORRETOR DE COMMERCIO</h2> - -<p>Em Montevideo dirigi-me a casa de um dos meus amigos -chamado Napoleão Castellini. Ao seu excellente coração -sou devedor de muito, para jámais me esquecer, assim -como a G. D. Cunes,—amigo de toda a minha vida,—e -aos irmãos Antoninho e Giovanni Risso.</p> - -<p>Gastos os poucos escudos que me tinham produzido as -minhas pelles de bois, e para não ficar com minha mulher -e filho ás sopas dos meus amigos, emprehendi duas industrias -que, devo confessal-o, chegavam apenas para satisfazer -as minhas necessidades.</p> - -<p>A primeira era corretor de fazendas. A segunda era a -de professor de mathematica, na casa do estimavel Paulo -Semidei.</p> - -<p>Este modo de vida durou até á minha entrada na legião -oriental.</p> - -<p>Os negocios do Rio Grande começavam a estabelecer-se -e a arranjar-se, não tendo eu pois nada a esperar d'este -lado. A republica oriental—é assim que se chamava -a republica de Montevideo—sabendo que me achava livre -não tardou em me offerecer uma occupação mais em -harmonia com os meus meios e com o meu caracter, do -que a de professor de mathematica e corretor.</p> - -<p>Offereceram-me e acceitei o commando da corveta—<i>Constituição</i>.</p> - -<p>A esquadra oriental achava-se debaixo das ordens do -coronel Cosse, e a de Buenos-Ayres ás ordens do general -Brown.</p> - -<div class="figcenter"> - <img class="brd" src="images/img-2.jpg" alt="" title="" width="502" height="800" /> - <p class="right cs6"><i>Lith. de Castro, Poço Novo N.<sup>o</sup> 33.</i></p> - <p>FRANCISCO 2.<sup>o</sup></p> -</div> - -<div class="pagenum" id="Page_130">130</div> - -<h2 id="cap_montevideo">MONTEVIDEO</h2> - -<p>Quando o viajante chega da Europa n'um d'esses navios, -que os primeiros habitantes do paiz tomavam por casas -volantes, o que vê—logo que o marinheiro de vigia -grita: «Terra» são duas montanhas.</p> - -<p>Uma que é a cathedral, e a outra ornada de um pharol, -que é a montanha do <i>Cerro</i>.</p> - -<p>Á medida que o viajante se aproxima das torres da cathedral, -de que os ornatos de porcellana brilham ao sol, -o viajante vê os <i>mirantes</i> sem numero e de fórmas variadas -que ornam todas as casas, depois essas mesmas casas, -encarnadas ou brancas, com os seus terraços, depois -ao pé do Cerro, as <i>salgadoras</i>, vastos edificios onde se salgam -as carnes; e emfim ao fundo da bacia, á borda do -mar as encantadoras <i>quintas</i>, delicia e orgulho dos habitantes -onde elles vão passar todos os domingos e dias de -festa.</p> - -<p>Então se deitaes a ancora, entre o Cerro e a cidade, -dominada, por qualquer ponto de vista que a olheis, pela -sua gigantesca cathedral, se a canôa vos leva para a praia, -puchada por seis valentes remadores, se de dia encontraes -pelas estradas grupos de encantadoras mulheres vestidas de -amazonas, se de tarde atravez as janellas abertas, deitando -para a rua torrentes de luz e harmonia, ouvis os sons do -piano e de outros instrumentos, é que estaes em Montevideo, -a vice-rainha d'esse rio de prata, de que Buenos-Ayres -pretende ser a rainha, e que se lança no Occeano -por uma embocadura de oitenta leguas.</p> - -<p>Foi João Dias o que no principio de 1516 descobriu -as praias da Prata. A primeira cousa que o marinheiro de -quarto avistou foi o Cerro, e cheio de alegria exclamou -em latim:</p> - -<p>—<i>Montem video!</i></p> - -<p>Sendo este o nome que ficou á republica, de que vamos -rapidamente escrever a historia.</p> - -<p>João Dias, já com bastante orgulho de haver no anno -passado descoberto o Rio de Janeiro, não gosou por muito -tempo da sua gloria.</p> - -<p>Tendo deixado na bahia dois dos seus navios, e havendo -<span class="pagenum" id="Page_131">131</span> -subido o rio Prata com o terceiro, confiando nos signaes -de amizade que lhe fizeram os indios, caiu n'uma emboscada -sendo morto, despadaçado e devorado na margem -do rio, que em memoria d'este triste acontecimento tem o -nome de <i>Solis</i>.</p> - -<p>Estes indios anthropóphagos pertenciam á tribu dos Charruas -que era senhora do paiz, como na extremidade opposta -do grande continente o eram os Hures e os Sioux.</p> - -<p>Os hespanhoes foram pois obrigados a edificar Montevideo -no meio de combates, que se renovavam todos os -dias e todas as noites, contando por isso Montevideo apenas -cem annos, apezar de ter sido descoberto em 1516.</p> - -<p>Pelo fim do ultimo seculo, appareceu um homem que -promoveu aos senhores primitivos da costa uma guerra de -exterminação, em que foram aniquilados.</p> - -<p>Tres ultimos combates—em que collocaram entre si -suas mulheres e filhos, e caíam sem recuar um passo—viram -desapparecer os seus ultimos restos, e monumentos -d'esta derrota suprema; o viajante póde ainda vêr ao pé -da montanha <i>Augua</i> os ossos dos ultimos Charruas.</p> - -<p>Este novo Mario era Jorge Pacheco, pae do general -Pacheco e Obes de quem, como já dissemos, tivemos todos -estes promenores.</p> - -<p>Mas os selvagens destruidos deixaram a Pacheco inimigos -mais ferozes, mais perigosos, e mais inexterminaveis -que os indios, visto que aquelles eram sustentados, -não por uma crença religiosa, que todos os dias ia enfraquecendo, -mas, pelo contrario, por um interesse material -que ia augmentando sensivelmente. Estes inimigos eram -os contrabandistas do Brazil.</p> - -<p>O systema prohibitivo era a base do commercio hespanhol. -Havia pois uma guerra encarniçada entre o exercito -e os contrabandistas, que ou pela estrategia ou pela -força tentavam introduzir no territorio de Montevideo as -suas sedas e tabaco.</p> - -<p>A lucta foi longa, encarniçada e mortal. D. Jorge Pacheco -dotado de uma força herculea, de um talhe gigantesco, -e de uma grande finura, tinha alcançado—pelo -menos assim o julgava—não a aniquillar os contrabandistas, -como havia feito aos Charruas, mas a affastal-os -da cidade, quando repentinamente tornaram a apparecer -mais atrevidos, mais activos, e reunidos como nunca em -<span class="pagenum" id="Page_132">132</span> -roda de uma vontade unica, tão poderosa, tão corajosa, -e tão intelligente como podia ser a do general Pacheco.</p> - -<p>Pacheco mandou espiões por toda a parte a informarem-se -do motivo d'esta reapparição.</p> - -<p>Todos voltaram pronunciando um unico nome:</p> - -<p>—Artigas!</p> - -<p>Quem era este Artigas?</p> - -<p>Um mancebo de vinte a vinte e cinco annos, bravo -como um velho hespanhol, esperto como um Charrua, e -agil como um <i>gaucho</i>: tinha tres raças senão no sangue -ao menos no espirito. Começou então uma lucta admiravel -de esperteza e força entre o general e o contrabandista, -mas um era moço e todos os dias a sua força augmentava, -o outro não era velho, mas estava já cançado.</p> - -<p>Durante quatro ou cinco annos Pacheco perseguiu Artigas, -batendo-o por toda a parte por onde apparecia; mas -Artigas derrotado não era nem morto, nem feito prisioneiro, -e no dia seguinte começava de novo a lucta. Pacheco -cansou primeiro e como um d'esses romanos da antiga -republica, que sacrificavam o seu orgulho ao bem do -paiz, disse ao governo que resignava os seus poderes com -a condição que Artigas seria nomeado general em seu logar, -porque só Artigas podia acabar a destruição dos contrabandistas.</p> - -<p>O governo acceitou, e como esses bandidos romanos -que se submettem ao poder do papa e passeam venerados -na cidade de que foram o terror, Artigas fez a sua entrada -triumphal em Montevideo, e começou a obra de destruição -para que havia sido chamado.</p> - -<p>Estes factos tiveram logar cincoenta e oito ou sessenta -annos antes dos acontecimentos em que Garibaldi vae tomar -parte, mas como nós somos author dramatico e não -podemos deixar de começar um drama por um prologo, -vamos dar a conhecer aos leitores, homens e terras que -lhe são bem desconhecidos.</p> - -<p>Artigas tinha então vinte e sete ou vinte e oito annos, -tendo na época em que o general Pacheco me deu estes -detalhes noventa e tres annos, vivendo ignorado n'uma pequena -quinta pertencente ao presidente do Paraguay. Hoje -provavelmente já tem morrido.</p> - -<p>Era um mancebo bello e bravo, e que representava -um dos tres poderes que reinaram em Montevideo.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_133">133</span> -Jorge Pacheco era o typo do valor cavalheiresco do -velho mundo, que atravessou os mares com Colombo, Pizarro -e Fernando Cortez. Artigas era o homem do campo, -e podia representar, o que chamavam o partido nacional, -collocado entre os portuguezes e hespanhoes, isto é entre -os estrangeiros que se tinham tornado portuguezes e hespanhoes, -pela sua habitação nas cidades onde tudo fazia -lembrar os costumes portuguezes e hespanhoes.</p> - -<p>Ainda havia um terceiro typo e mesmo uma terceira -potencia que foi o flagello de todos e de que é necessario -dizer duas palavras.</p> - -<p>Este terceiro typo é o gaucho, a quem Garibaldi chama -o centauro do novo mundo.</p> - -<p>Na França chamamos gaucho a tudo quanto vive n'estas -vastas planicies, mas commettemos um erro: o capitão -Head da marinha ingleza, foi o primeiro a pôr em moda -esta mania de confundir o gaucho com o habitante do campo, -que na sua soberba repelle não só a similhança, mas -até a comparação.</p> - -<p>O gaucho é o bohemio do novo mundo. Sem terras, -sem casa, sem familia, possue por toda a fortuna um casaco, -um cavallo, uma faca e o laço.</p> - -<p>A faca é a sua arma, o laço a sua industria.</p> - -<p>A nomeação de Artigas foi recebida com satisfação por -todos, excepto pelos contrabandistas, e ainda se achava -occupando este alto cargo quando rebentou a revolução -de 1810, revolução que tinha por fim, e que obteve, destruir -o dominio hespanhol no novo mundo.</p> - -<p>Esta revolução começou em 1810 em Buenos-Ayres e -acabou em Bolivia na batalha de Ayacuncho em 1824.</p> - -<p>O chefe das forças independentes era então o general -Antonio José de Soure, e tinha cinco mil homens ás suas -ordens.</p> - -<p>O general em chefe das tropas hespanholas era D. José -de Laserna, o ultimo vice-rei do Peru, e commandava onze -mil homens.</p> - -<p>Os patriotas não possuiam senão uma unica peça, -eram um contra dois, e achavam-se completamente desprovidos -de munições, e de provisões de boca. Não tinham -remedio senão esperar, assim o fizeram, e quando foram -atacados ficaram vencedores.</p> - -<p>Foi o general patriota Aleixo Cordova que começou o -<span class="pagenum" id="Page_134">134</span> -combate. Commandava mil e quinhentos homens. Poz a -bandeira na ponta da espada e gritou:</p> - -<p>—Ávante!</p> - -<p>—A marche marche, ou no passo ordinario? perguntou -um official.</p> - -<p>—No passo da victoria, respondeu elle.</p> - -<p>N'essa mesma tarde todo o exercito hespanhol tinha -capitulado, e achava-se prisioneiro d'aquelles que o tinham -sido seus.</p> - -<p>Artigas havia sido um dos primeiros a festejar a revolução. -Tinha-se posto á testa do movimento, e por sua -vez offereceu a Pacheco o commando, como annos antes -elle o havia feito.</p> - -<p>Esta troca ia-se talvez operar quando Pacheco foi surprehendido -na Casa branca, no Uruguay, por marinheiros -hespanhoes, e ficou seu prisioneiro.</p> - -<p>Artigas continuou a sua tarefa libertadora. Em pouco -tempo expulsou os hespanhoes do campo de que se havia -tornado rei, reduzindo-os a serem senhores unicamente de -Montevideo, que podia apresentar uma séria resistencia, -visto ser a segunda cidade fortificada da America.</p> - -<p>A primeira era S. João de Ulloa.</p> - -<p>Em Montevideo achavam-se refugiados todos os partidarios -dos hespanhoes, protegidos por um exercito de quatro -mil homens. Artigas sustentado pela alliança de Buenos-Ayres -começou o cerco da cidade, mas um exercito -portuguez veiu em auxilio dos hespanhoes e Artigas teve -de retirar-se. Em 1812 Montevideo soffreu novo cerco. O -general Rondeau commandava as forças de Buenos-Ayres -e Artigas as dos patriotas, e foram estes que de novo cercaram -a cidade.</p> - -<p>O cerco durou vinte e tres mezes, tendo logar no fim -d'este tempo uma capitulação que entregou a capital da -futura republica oriental aos sitiantes, commandados então -pelo general Alvear.</p> - -<p>Porque razão era então general em chefe Alvear e não -Artigas? Vamos dizel-o.</p> - -<p>É que no fim de vinte mezes de cerco, depois de tres -annos de contacto entre os homens de Buenos-Ayres e os de -Montevideo, as differenças de habitos, de costumes, e direi -mesmo de raças, que tinham sido causa de simples desintelligencias, -haviam-se tornado em motivos de odios mortaes.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_135">135</span> -Artigas, como Achilles havia-se retirado desapparecendo -pelos campos tão seus conhecidos no tempo da sua -mocidade em que exercia o mister de contrabandista.</p> - -<p>O general Alvear tinha-o substituido, sendo general -em chefe dos <i>Portenos</i>, na occasião em que Montevideo -se entregou.</p> - -<p><i>Portenos</i> é o nome que dão aos naturaes de Buenos-Ayres, -e <i>Orientaes</i> aos de Montevideo.</p> - -<p>Tentaremos explicar as differenças que ha entre os -<i>Portenos</i> e os <i>Orientaes</i>.</p> - -<p>O habitante de Buenos-Ayres fixado no paiz ha trezentos -annos na pessoa de seus avós, perdeu desde o fim do -primeiro seculo da sua existencia na America, todas as tradicções -da mãe patria, isto é da Hespanha. Os habitantes -de Buenos-Ayres são hoje tão americanos, como o eram -antigamente os indios que d'ali expulsaram.</p> - -<p>O habitante de Montevideo, ao contrario, existindo -apenas ha um seculo no paiz,—sempre na pessoa de seus -avós, bem entendido—não teve o tempo de esquecer que -é de raça hespanhola. Tem o sentimento da sua nova nacionalidade, -mas sem ter esquecido as tradicções da velha -Europa, em quanto que o de Buenos-Ayres, se affasta todos -os dias da Europa para entrar na barbaria.</p> - -<p>O paiz não deixa de ter sua influencia, sobre este movimento -retrogrado de um lado, progressivo do outro.</p> - -<p>A população de Buenos-Ayres, espalhada em areaes -immensos, com habitações muito affastadas umas das outras, -em sitios completamente desprovidos de agua, e de -todos os objectos necessarios, e habitando cabanas mal construidas, -ganha um caracter sombrio, insociavel e bulhento. -As suas tendencias dirigem-se para os indios selvagens -das fronteiras, com os quaes elles negoceiam em todos os -objectos que trazem dos sitios onde a civilisação ainda -não penetrou, e são completamente desconhecidos aos europeus, -dos quaes recebem em troca agua-ardente e tabaco -que levam para as grandes planicies dos pampas, -de que tomaram o nome, ou a quem póde ser deram -o seu.</p> - -<p>A população de Montevideo, pelo contrario, possue um -bello paiz, cortado por muitos rios. Não possue vastos bosques, -não tem grandes florestas, como a America do Norte, -mas as margens dos seus rios são ornadas de bellas e -<span class="pagenum" id="Page_136">136</span> -magestosas arvores. Possue além d'isso bellos edificios, e -a terra produz todo o necessario para o seu sustento. As -suas casas, quintas e herdades são proximas umas das outras, -e o seu caracter franco e hospitaleiro, é inclinado a -essa civilisação de que a aproximação do mar lhe conduz -continuamente.</p> - -<p>Para a população de Buenos-Ayres o typo da perfeição -é o indio a cavallo.</p> - -<p>Para a de Montevideo é o europeo apertado na sua -casaca, na sua gravata e nas botas de polimento.</p> - -<p>Os naturaes de Buenos-Ayres tem a pertenção de serem -os primeiros da America em elegancia. Teem mais -imaginação que os de Montevideo, e os primeiros poetas -que a America conheceu, nasceram em Buenos-Ayres. Varela -e Lafinur. Domingos e Marmol são poetas portenos.</p> - -<p>O habitante de Montevideo é menos poetico, mas mais -socegado e mais firme nas suas resoluções e nos seus projectos. -Se o seu rival tem a pertenção de ser o primeiro -em elegancia, elle tem a de o ser na coragem. Entre os -seus poetas figuram de Hidalgo, de Berro, de Figueira, e -João Carlos Gomes.</p> - -<p>As mulheres de Buenos-Ayres tambem teem a pretenção -de serem as mais bellas da America meridional desde -Lemairé até ao Amazonas.</p> - -<p>Póde ser que na realidade o rosto das mulheres de Montevideo -seja menos formoso que o das suas visinhas, mas -as suas fórmas são maravilhosas.</p> - -<p>Ha pois entre os dois paizes;</p> - -<p>Rivalidade de coragem e elegancia, entre os homens;</p> - -<p>Rivalidade de belleza e elegancia, entre as mulheres;</p> - -<p>Rivalidade de talento entre os poetas, esses hermaphroditas -da sociedade, colericos como os homens, caprichosos -como as mulheres e simples muitas vezes como as -creanças mais innocentes.</p> - -<p>Havia pois, como se vê por tudo que acabamos de dizer, -motivos sufficientes para as relações serem interrompidas -entre Montevideo e Buenos-Ayres, entre Artigas e -Alvear.</p> - -<p>Não foi unicamente uma separação, que teve logar, -mas sim uma guerra.</p> - -<p>Todos os elementos de antipathia foram dirigidos contra -os homens de Buenos-Ayres pelo antigo chefe de contrabandistas. -<span class="pagenum" id="Page_137">137</span> -Pouco lhe importavam então os meios, de -que tinha a servir-se, com tanto que alcançasse o seu fim -que era expulsar do paiz os Portenos.</p> - -<p>Foi então que Artigas reunindo todos os recursos que -lhe offerecia o paiz, se poz á testa d'esses bohemios da -America que se chamam gauchos.</p> - -<p>A guerra que fazia Artigas tinha alguma cousa de santa; -assim nada lhe podia resistir, nem o exercito de Buenos-Ayres, -nem o partido hespanhol, que sabia perfeitamente -que a entrada de Artigas em Montevideo, era a -substituição da força brutal á intelligencia.</p> - -<p>Os que tinham previsto esta volta á barbaria não se -haviam enganado. Pela primeira vez homens vagabundos, -por civilisar, e sem organisação, viam-se formando um -exercito e com um general. Durante a dictadura de Artigas -teve logar um periodo que tem alguma analogia com -o nosso de 1793. Montevideo viu o reinado do homem dos -pés nús, dos <i>casoncillos</i> fluctuantes, da <i>chiripa</i> escosseza, -do <i>puncho</i> despedaçado, e com o chapeu deitado sobre -a orelha seguro pelo <i>barlipo</i>.</p> - -<p>Então Montevideo foi testemunha de scenas inauditas -grotescas, e algumas vezes terriveis. Muitas vezes as primeiras -classes da sociedade foram reduzidas á impotencia, -Artigas tendo de menos a crueldade e de mais a coragem, -tornou-se então o que mais tarde devia ser Rosas.</p> - -<p>A dictadura de Artigas teve não obstante muitas cousas -de brilhante e nacional. Uma foi a lucta de Montevideo -contra Buenos-Ayres, em que Artigas derrotou sempre -as forças d'este paiz e de que fez cessar a influencia -e a resistencia ao exercito portuguez que invadiu o paiz -em 1815.</p> - -<p>O pretexto d'esta invasão foi a desordem da administração -de Artigas e a necessidade de salvar os povos visinhos -de desordens eguaes, que podia fazer nascer entre -elles o contagio do exemplo. Estas desordens tinham no -mesmo paiz, dobrado a opposição que fazia o partido -da civilisação. As classes elevadas sobre tudo desejavam -do coração uma victoria que substituisse o dominio -portuguez a esse dominio nacional que trazia a brutal tyrannia -da força material. Comtudo não obstante os ataques -portenos e dos portuguezes, Artigas resistiu quatro -annos, dando tres batalhas, e vencido retirou-se para -<span class="pagenum" id="Page_138">138</span> -Entre rios, isto é para o outro lado do Uruguay. Ahi, apezar -de se achar fugitivo, Artigas representava ainda, se -não pelas suas forças, ao menos pelo seu nome, um poder -respeitavel, quando Ramiro seu tenente se revoltou, -contra elle, collocando-se á frente da terça parte das suas -forças, e derrotando-o de modo que lhe tirou toda a esperança -de reconquistar a sua posição perdida, obrigando-o -a sair d'este paiz aonde como Anteo, parecia ganhar -novas forças todas as vezes que ahi tocava.</p> - -<p>Foi então que, egual a uma d'essas trombas que se -evaporam, depois de ter deixado a desolação e as ruinas -na sua passagem, Artigas desappareceu retirando-se -para o Paraguay, onde, como já dissemos, em 1848 na -época em que Garibaldi defendia Montevideo, vivia ainda -tendo noventa e tres ou noventa e quatro annos, gosando -de todas as suas faculdades intellectuaes e de quasi -todas as suas forças.</p> - -<p>Artigas vencido não fez opposição ao dominio portuguez -que se estabeleceu no paiz, e o barão de Laguna -francez de origem foi seu representante em 1825. N'este -anno Montevideo como todas as possessões portuguezas da -America foram cedidas ao Brazil.</p> - -<p>Montevideo foi então occupado por um exercito de oito -mil homens e tudo parecia assegurar ao imperador a sua -pacifica posse.</p> - -<p>Foi então que um natural de Montevideo, proscripto, -residente em Buenos-Ayres, reuniu trinta e dois companheiros -proscriptos como elle, e decidiram que dariam a -liberdade á patria ou que morreriam.</p> - -<p>Este punhado de patriotas embarcou em duas canoas -e desembarcou no Grande Areal.</p> - -<p>O chefe chamava-se João Antonio Lavalleja.</p> - -<p>Lavalleja havia de antecipação tido relações com um -proprietario do paiz que devia no momento do seu desembarque, -ter os cavallos promptos. Assim logo que desembarcou -enviou-lhe um mensageiro, que lhe trouxe em -resposta que tudo estava descoberto, que os cavallos haviam -sido roubados e que Lavalleja e os seus companheiros -não tinham outro partido a tomar senão embarcarem -de novo e o mais depressa possivel, devendo dirigir-se -para Buenos-Ayres.</p> - -<p>Mas Lavalleja respondeu que não partia, pois não podia, -<span class="pagenum" id="Page_139">139</span> - nem queria recuar, e ordenando aos remadores de -voltarem para Buenos-Ayres sem elle, tomou posse, no dia -19 de abril, de Montevideo em nome da liberdade.</p> - -<p>No dia seguinte os trinta valentes que tinham apanhado -alguns cavallos, com o consentimento de seus donos, -pozeram-se em marcha para a capital, mas foram encontrados -por um destacamento de cavalleiros, de que quarenta -eram brazileiros e cento e sessenta orientaes.</p> - -<p>Eram commandados por um antigo irmão de armas de -Lavalleja, o coronel Jurien. Lavalleja podia evitar o combate, -mas não o quiz e marchou direito aos duzentos cavalleiros, -e pediu uma entrevista ao coronel antes de entrar -em combate.</p> - -<p>—Que quer e que vem aqui fazer? perguntou Jurien -a Lavalleja.</p> - -<p>—Venho libertar Montevideo do dominio estrangeiro, -respondeu Lavalleja, se tem as minhas idéas acompanhe-me, -se não, entregue-me as suas armas, ou prepare-se -para o combate.</p> - -<p>—Não comprehendo o que querem dizer essas palavras=<i>entregue-me -as suas armas</i>, respondeu o coronel, -e espero que ninguem m'as ha-de explicar.</p> - -<p>—Então tome o commando dos seus soldados, e vamos -vêr por quem é Deus.</p> - -<p>—Veremos, disse Jurien.</p> - -<p>E partiu a galope a unir-se aos seus soldados.</p> - -<p>Mas no mesmo momento Lavalleja desenrolou a bandeira -nacional, azul, branca e encarnada e immediatamente -os cento e sessenta orientaes passaram para o seu -lado.</p> - -<p>Os quarenta brazileiros foram feitos prisioneiros.</p> - -<p>A marcha de Lavalleja para Montevideo foi uma verdadeira -marcha triumphal, de que o resultado foi que a -republica oriental, proclamada pela vontade e enthusiasmo -de um povo inteiro, tomou logar entre as nações.</p> - -<h2 id="cap_rosas">ROSAS</h2> - -<p>Durante estes acontecimentos engrandecia-se um nome -que mais tarde devia ser o terror da federação argentina.</p> - -<p>Pouco depois da revolução de 1810 um mancebo de -<span class="pagenum" id="Page_140">140</span> -quinze a dezaseis annos saía de Buenos-Ayres, abandonando -a cidade e dirigindo-se para o campo. Ia muito perturbado -e caminhava apressadamente.</p> - -<p>Este mancebo chamava-se João Manoel Rosas.</p> - -<p>Porque esta creança, este fugitivo abandonava a casa -onde havia nascido? Porque ia pedir um asylo aos habitantes -dos montes? É porque acabava de insultar sua mãe, -como mais tarde devia insultar a sua patria; ia perseguido -pela maldição paterna.</p> - -<p>Este successo, sem nenhuma importancia para os -acontecimentos d'aquelle paiz, esqueceu bem depressa -no meio de factos mais serios que então tiveram logar, e -em quanto todos os antigos companheiros do fugitivo se -reuniam debaixo do estandarte da independencia para combater -os hespanhoes, Rosas, andava pelos <i>pampas</i> entregando-se -á vida dos gauchos, adoptando o seu vestuario -e costumes, tornando-se um dos melhores cavalleiros e um -dos homens mais habeis d'essas immensas planicies, no -manejo do laço e da bola, de sorte que vendo-o tão habil -n'estes exercicios selvagens, quem não o conhecesse -não o tomaria por um habitante da cidade, nem por um -<i>pueblero</i> fugitivo, mas por um verdadeiro gaucho.</p> - -<p>Rosas entrou primeiramente como <i>peon</i>, isto é jornaleiro, -em uma estancia, depois foi <i>capataz</i>,—Garibaldi já -nos explicou o que era um <i>capataz</i>—chegando depois a -<i>mayordomo</i>.</p> - -<p>N'esta qualidade governava os bens da poderosa familia -Anchorena. É d'ahi que começa a sua fortuna como -proprietario.</p> - -<p>Sendo o nosso designio fazer conhecer Rosas debaixo -de todos os aspectos; vamos dizer qual era a situação do -seu espirito no meio dos acontecimentos que então tinham -logar.</p> - -<p>Rosas tinha estado em Buenos-Ayres durante os prodigios -praticados pela revolução contra a Hespanha. Então -quem tinha coragem procurava a celebridade no campo -da batalha, quem tinha instrucção procurava-a nos -conselhos. Rosas era ambicioso de celebridade, mas qual -era a que elle poderia esperar? Que nome poderia adquirir, -elle que não tinha nem coragem para se apresentar -no campo da batalha, nem instrucção alguma para adquirir -um nome entre os homens da sciencia? A todos -<span class="pagenum" id="Page_141">141</span> -os momentos ouvia proferir a seu lado alguns nomes que -se haviam tornado celebres. Eram como ministros, Rivadaria, -de Pasos, de Aguerro, como guerreiros, Saint-Martin, -de Baléarés, de Rodrigues, e de Las Heras.</p> - -<p>E todos estes nomes de que o ruido, vindo da cidade, -ia achar éco nas solidões dos campos, todos estes nomes -avivavam o seu odio contra essa cidade que tendo triumphos -para todos, não tinha para elle senão o exilio.</p> - -<p>Já n'esta época Rosas pensava no futuro e preparava-o. -Errando pelos pampas, confundido com os gauchos, -fazia-se o companheiro da miseria do povo, elogiando os -prejuizos do homem das planicies, excitando-o contra os -cidadãos, demonstrando-lhe a superioridade do numero e -diligenciando fazer-lhe comprehender que quando quizessem -os habitantes do campo, seriam senhores da cidade.</p> - -<p>Os annos foram passando, até que chegamos a 1820.</p> - -<p>Foi então que Rosas começou a apparecer, apoiado na -influencia que havia adquirido nos habitantes das planicies.</p> - -<p>Já vimos o que se passou em Montevideo. Vejamos -agora o que se passou em Buenos-Ayres.</p> - -<p>A milicia de Buenos-Ayres rebellou-se contra o governador -Rodrigues. Então um regimento das milicias do campo, -<i>los colorados de las Conchas</i> entraram na cidade, em -5 de outubro de 1820, tendo á sua frente um coronel, que -era conhecido em Buenos-Ayres, e que conhecia Buenos -Ayres.</p> - -<p>Este coronel era Rosas.</p> - -<p>No dia seguinte as milicias do campo, e as milicias -da cidade vieram ás mãos, mas n'esse dia o coronel não -estava á frente do regimento.</p> - -<p>Uma violenta dôr de dentes, que Rosas deixou de soffrer -assim que finalisou o combate, affastava-o, com grande -pezar, do campo da batalha. E porque não teria elle razão? -Octavio tambem teve um grande ataque de febre -no dia da batalha de Actium.</p> - -<p>Rosas parecia-se muito com Octavio; mas mais tarde -Octavio foi Augusto, o que segundo todas as probabilidades -nunca será Rosas.</p> - -<p>Esta entrada em Buenos-Ayres foi a unica expedição -guerreira em que Rosas tomou parte durante toda a sua -vida politica.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_142">142</span> -Foi então que Rivadavia, já mui conhecido, foi nomeado -ministro do reino, tomando a direcção de todos os -negocios.</p> - -<p>Rivadavia era um d'esses homens de genio, como apparecem -no meio das revoluções durante os dias de tormenta. -Havia viajado muito na Europa, possuindo uma -instrucção universal, e parecendo animado do mais ardente -e puro patriotismo. Infelizmente a vista da civilisação -europea, que tinha estudado em Paris e Londres -havia-lhe feito nascer falsas idéas da sua applicação a um -povo que não tendo por detraz de si dez seculos de luctas -sociaes, não as podia admittir.</p> - -<p>Rivadavia queria dobrar a marcha do tempo e fazer -o mesmo pela America que Pedro o Grande havia feito -pela Russia; mas não tendo á sua disposição os meios de -Pedro foi obrigado a desistir das suas intenções.</p> - -<p>Póde ser que com mais alguma esperteza Rivadavia -as tivesse alcançado, mas censurava os homens pelos seus -habitos e certos habitos são uma nacionalidade e outros um -orgulho. Escarnecia os trajes americanos, manifestando a -sua repugnancia pela <i>jaqueta</i>, o seu desprezo pela <i>chiripa</i>, -o vestuario do homem dos campos, e como ao mesmo -tempo não occultava a sua preferencia pela casaca e bota -de polimento, despopularisou-se pouco a pouco, e sentiu -o poder prestes a escapar-lhe.</p> - -<p>E não obstante que de beneficios não fez ao seu paiz -em troca d'esses vestidos ridiculos que lhe queria tirar? -A sua administração foi a mais prospera que Buenos-Ayres -teve. Foi elle que fundou a universidade, os liceos, -e que introduziu nas escolas o ensino mutuo. Durante a -sua administração, muitos sabios foram chamados da Europa, -as artes foram protegidas, desenvolvendo-se muito, -emfim Buenos-Ayres era chamada a Athenas da America -do Sul.</p> - -<p>Já fallámos da guerra de Buenos-Ayres em 1826. Para -sustentar esta guerra, Buenos-Ayres fez sacrificios enormes, -exgotando as suas finanças, e enfraquecendo por -esse motivo muito as molas da sua administração.</p> - -<p>Exgotadas as finanças, enfraquecido o governo, as revoluções -começaram.</p> - -<p>Já dissemos que em Buenos-Ayres como em Montevideo, -o campo e a cidade nunca estavam em harmonias de -<span class="pagenum" id="Page_143">143</span> -opiniões, como nunca o estavam em harmonias de interesse.</p> - -<p>Buenos-Ayres fez uma revolução.</p> - -<p>Immediatamente o campo fez uma revolução, e dirigindo-se -sobre Buenos-Ayres, invadiu a cidade e fez o -seu chefe governador.</p> - -<p>Este chefe era Rosas.</p> - -<p>Vamos fechar o parenthesis, aberto algumas paginas -atraz.</p> - -<p>Em 1830 Rosas foi eleito governador pela influencia -dos habitantes do campo, não obstante a opposição da cidade, -que elle encontrou meia policiada pela administração -de Rivadavia.</p> - -<p>Então Rosas, o gaucho, tentou reconciliar-se com a -civilisação, parecendo querer esquecer os costumes selvagens -adoptados por elle até então: a serpente queria mudar -de pelle.</p> - -<p>Mas a cidade resistiu ás suas tentativas, e a civilisação -recusou receber o transfuga que se havia passado para -o campo da barbaria. Rosas mostrava-se revestido de -um uniforme, e immediatamente os militares perguntavam -em que campo de batalha havia elle ganho aquellas dragonas. -Fallava n'uma reunião, e logo os homens intelligentes -perguntavam entre si onde tinha elle ido aprender -aquelle estylo; quando apparecia n'um passeio, as mulheres -designando-o com o dedo diziam: «Ahi vae o gaucho -disfarçado!»</p> - -<p>Os tres annos do seu governo passaram-se n'esta lucta -mortal para o seu orgulho, e póde ser que a estas torturas -moraes que lhe fizeram soffrer n'este periodo, seja -devida a sua ferocidade. D'esta maneira quando resignou -o poder e desceu a escada do palacio, com a alma cheia -de odio, e o coração de fel, sabendo que desde então não -havia alliança possivel com a cidade, foi ter de novo com -os seus fieis gauchos, e as suas estancias de que era o senhor, -com a intenção de um dia entrar de novo em Buenos-Ayres, -como Scylla, que elle não conhecia e de quem -provavelmente nunca havia ouvido fallar, havia entrado -em Roma, com a espada n'uma mão e uma tocha m outra.</p> - -<p>Para alcançar este fim vejamos o que elle fez. Pedia -ao governo que lhe concedesse um commando qualquer -<span class="pagenum" id="Page_144">144</span> -no exercito que ia combater os indios selvagens. O governo -que o temia julgou affastal-o concedendo-lhe este -favor, e deu-lhe todas as tropas de que podia dispôr, esquecendo -que se enfraquecia mettendo todo o poder nas -mãos de Rosas.</p> - -<p>Este logo que se achou á frente do exercito fez uma -revolução em Buenos-Ayres, fez-se chamar ao poder que -não acceitou senão com grandes condições, porque tinha -ás suas ordens todo o exercito, e entrou em Buenos-Ayres -com a dictadura mais absoluta de que se tem conhecimento, -isto é <i>com toda la suma del poder publico</i>—com -toda a extensão do poder publico.</p> - -<p>O governador que elle fez cair, ou antes que elle precipitou -era o general João Romão Baleace, um dos homens -que tinha mais trabalhado na guerra da independencia, -e um dos chefes do partido federal de que Rosas -se dizia o sustentaculo. Baleace era um nobre coração e -a sua fidelidade á patria era proverbial. Havia acreditado -em Rosas e tinha trabalhado muito para a sua elevação. -Baleace foi o primeiro sacrificado por Rosas, morrendo proscripto -e quando o seu cadaver repassou a fronteira, protegido -pela morte, Rosas recusou á sua familia, não as -honras funebres que eram devidas a um ex-governador, -mas as simples ceremonias a quem todo o cidadão tem direito.</p> - -<p>Em 1833 foi que começou o verdadeiro poder de Rosas. -No seu primeiro governo, cheio de dissimulação, não -tinha apresentado os seus instinctos de crueldade, que fizeram -depois d'elle uma celebridade de sangue. Este primeiro -periodo não tinha sido marcado senão pelo fuzilamento -do major Monteiro e dos prisioneiros de S. Nicolau. -Comtudo não devemos esquecer que foi n'esta época que -tiveram logar muitas mortes sombrias e subitas, d'essas -mortes de que a historia inscreve a data com tinta encarnada -no livro das nações.</p> - -<p>D'esta maneira desappareceram dois chefes de que a -influencia poderia fazer alguma sombra a Rosas. As mortes -de Arbolito e de Molina tiveram logar n'esta época. O -mesmo aconteceu, segundo nos parece, aos dois consules -que acompanharam Octavio na sua primeira batalha contra -Antonio.</p> - -<p>Daremos mais alguns detalhes de Rosas que ainda não -<span class="pagenum" id="Page_145">145</span> -nos appareceu senão como dictador, mas tendo já alcançado -um poder como poucos homens tem exercido n'uma -nação.</p> - -<p>Em 1833, Rosas contava trinta e nove annos. Tinha o -aspecto europeo, cabellos louros, olhos azues, e uma presença -soffrivel. Não usava nem de barbas, nem de bigodes. O -seu olhar seria bello se se podesse examinar, mas Rosas havia-se -habituado a não olhar de frente, nem os seus amigos -nem os seus inimigos, porque sabia que n'um amigo -existe quasi sempre um inimigo disfarçado. A sua voz era -doce, e, quando tinha necessidade de agradar a sua conversação -tinha muito de attrahente. A sua reputação de -cobarde é proverbial, e a de esperto é universal. Adorava -as mystificações, sendo esta a sua grande occupação antes -de se entregar aos negocios serios. Uma vez chegado ao -poder, não foi senão uma distracção, que eram brutaes -como a sua natureza.</p> - -<p>Citemos um ou dois exemplos:</p> - -<p>Uma tarde que devia jantar na companhia de um dos -seus amigos, occultou o vinho destinado a beber-se e deixou -unicamente no bofete uma garrafa do famoso licor de -Leroy, que para ser completamente celebre só lhe falta ser -descuberto no tempo de Moliere. O amigo procurando o -vinho só achou a garrafa de Leroy e encontrando-lhe um -gosto mui agradavel, bebeu-a toda. Rosas não bebeu se -não agua, e partiu logo que acabou o jantar para a sua -estancia.</p> - -<p>Durante a noite o amigo de Rosas soffreu dores infernaes. -Rosas riu muito d'este seu innocente brinquedo, se -elle tivesse morrido, Rosas teria, sem duvida, rido muito -mais.</p> - -<p>Quando recebia algum cidadão em uma das suas estancias, -fazia-o montar em cavallos muito fogosos e a sua -alegria era conforme a gravidade da queda que o cavalleiro -dava.</p> - -<p>No palacio do governo achava-se sempre rodeado de -loucos e de imbecis, e no meio dos negocios mais serios -conservava este singular cortejo. Quando sitiava Buenos-Ayres, -em 1829, tinha a seu lado quatro d'estes pobres -diabos, que havia feito monges, tornando-se em virtude do -seu poder, seu prior. Chamavam-se frei Biqua, frei Chaja, -frei Lechuza, e frei Biscacha. Rosas gostava muito de -<span class="pagenum" id="Page_146">146</span> -confeitos, tendo-os sempre de todas os qualidades na sua -tenda.</p> - -<p>Os monges que tambem gostavam muito de confeitos, -roubavam alguns de quando em quando. Rosas então chamava-os -a todos e os monges que sabiam o que lhe custaria -a mentir, confessavam o crime.</p> - -<p>Immediatamente o culpado era despojado dos vestidos -e fustigado pelos seus tres companheiros.</p> - -<p>Todos conheciam em Buenos-Ayres o seu mulato Eusebio, -e para isso muito concorreu Rosas que em um dia -de recepção publica, teve a idéa de fazer o mesmo que a -condessa Dubarry fazia com o preto Zamora.</p> - -<p>Eusebio vestido de governador recebeu os cumprimentos -das authoridades, em logar do seu <i>senhor</i>.</p> - -<p>Não obstante a amizade que Rosas tinha a Eusebio, -teve um dia a lembrança de lhe fazer uma <i>brincadeira</i>, -como costumavam ser todas as que esta boa alma inventava. -Fingiu que acabava de ser descoberta uma conspiração, -contra elle, de que o chefe era Eusebio. O fim -d'esta conspiração era matar Rosas. Eusebio foi preso apezar -dos seus protestos de innocencia. Rosas dominava -os juizes a tal ponto que elles não se importavam se o -accusado era ou não innocente. Rosas accusava, e elles -julgaram e condemnaram Eusebio á morte.</p> - -<p>Eusebio soffreu todos os preparativos do supplicio. Confessou-se, -e sendo depois conduzido ao logar do supplicio, -ahi encontrou o carrasco e seus ajudantes, e quando este -<i>brinquedo</i> estava quasi a terminar tragicamente, appareceu -Rosas que disse a Eusebio estar sua filha Manuelita -apaixonada por elle, e que por isso lhe perdoava, com a -condição de a desposar.</p> - -<p>É inutil dizer que Eusebio não morrendo do supplicio -esteve quasi a morrer de medo.</p> - -<p>Vamos agora dizer aos nossos leitores quem era como -mulher esta Manuelita que a Providencia tinha collocado -ao pé de seu pae como um bom anjo, de que a principal -occupação, durante toda a sua vida, foi repetir todos os -dias a palavra <i>perdão</i>, alcançando-o muitas vezes.</p> - -<p>Manuelita é hoje uma mulher de quarenta annos que -por dedicação por seu pae, e póde ser, que talvez pela -missão que recebeu do ceu, se tem conservado solteira, -pelo menos até 1850, época em que a perdemos de vista.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_147">147</span> -Manuelita não era precisamente uma mulher encantadora, -mas era bella, com uma figura distincta, dotada -de um tacto profundo, coquette como uma parisiense, e -muito preoccupada, sobre tudo do effeito que produzia -nos estrangeiros.</p> - -<p>Manuelita foi muito calumniada, o que era muito natural -por ser filha de Rosas, isto é, do homem sobre o qual -convergiam todos os odios. Era accusada de ter herdado -os sentimentos crueis de seu pae, e de ter, como a filha -do papa Borgia, esquecido o amor filial por outro mais -terno e menos christão.</p> - -<p>Tudo isto é falso. Manuelita ficou solteira por duas -razões: a primeira porque Rosas sentia muitas vezes a necessidade -de ser amado, e sabia que o unico amor real, -dedicado, infinito, sobre que podia contar era o de sua -filha. Manuelita ficou solteira porque, talvez, nos seus sonhos -de realeza, Rosas, hoje simples particular, vivendo -num canto da Inglaterra, via no futuro brilhar para Manuelita -alguma alliança mais aristocratica do que aquellas -a que poderia então aspirar.</p> - -<p>Tanto a historia deve ser severa para com Rosas, tanto, -a menos de ser injusta, deve ser cheia de indulgencia -para com Manuelita, a quem todos que a conhecem fazem -justiça, reconhecendo o que dizemos como uma verdade. -Manuelita foi o dique eterno, que fazia parar a colera de -seu pae. Quando creança tinha um meio muito extravagante -para obter d'elle a graça que pedia.</p> - -<p>Fazia despir completamente o mulato Eusebio, arreiando-o -como um cavallo, e calçava uns lindos sapatos com -esporas. Eusebio punha as mãos no chão, e Manuelita -montava-se-lhe nas costas, fazendo caracolar o seu bucephalo -humano diante de seu pae que ria muito d'este singular -brinquedo, concedendo a Manuelita o perdão que -implorava.</p> - -<p>Mais tarde quando ella comprehendeu que não podia -empregar este meio, apezar de ser tão efficaz, começou a -pôr em pratica a obra de Mecena ao pé de Augusto, quando -elle lhe lançava as suas tabuas nas quaes estava escripto: -<i>Surge, carnifex</i>! Mas Manuelita procedia de outra -maneira, porque conhecendo seu pae perfeitamente, -sabia as vaidades secretas que era necessario fazer vibrar, -e por isso muitas vezes alcançava o que pedia.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_148">148</span> -Manuelita era ao mesmo tempo a rainha e escrava de -seu pae. Administrava a casa, cuidava de Rosas, e encarregada -de todas as relações diplomaticas era o verdadeiro -ministro dos negocios estrangeiros de Buenos-Ayres.</p> - -<p>Assim como Rosas era um ente á parte, que não se -confundia com pessoa alguma na sociedade, Manuelita era -tambem uma creatura não só estranha no meio de todas, -mas mesmo estranha a todas, e que viveu n'este mundo -solitaria, longe do amor dos homens e da sympathia das -mulheres.</p> - -<p>Rosas tambem tinha um filho chamado João, mas que -nunca seguiu a politica de seu pae, e uma filha que ainda -creança casou, sendo hoje uma casta esposa e mãi feliz, -tendo um nome, o de seu marido, honrado e respeitado -por todos.</p> - -<p>Tendo alcançado o poder, o grande trabalho de Rosas, -foi anniquilar a federação.</p> - -<p>Lopes o seu fundador, cahiu doente. Rosas mandou-o -vir para Buenos-Ayres e tornou-se seu enfermeiro.</p> - -<p>Lopes morreu envenenado.</p> - -<p>Quiroga, o chefe da federação, que havia escapado -são e salvo de vinte batalhas, e de quem a coragem e lealdade -era proverbial, morreu assassinado.</p> - -<p>Cullen, o conselheiro da federação, foi nomeado governador -de Santa Fé. Rosas improvisou uma revolução, -e Cullen foi entregue a Rosas pelo governador de São -Thiago.</p> - -<p>Cullen foi fuzillado.</p> - -<p>Todos os homens notaveis no partido federal tiveram -a mesma sorte que tinham tido na Italia os homens de -consideração durante o dominio dos Borgias. Pouco a pouco, -Rosas, empregando os mesmos meios que Alexandre VI -e seu filho Cesar, conseguiu reinar na republica argentina, -que apezar de reduzida a uma perfeita unidade, conserva -ainda o nome pomposo de federação, e vae talvez, -ser inimiga dos <i>unitarios</i>.</p> - -<p>Diremos algumas palavras dos homens que acabamos -de nomear, fazendo reviver algum tempo os seus spectros -accusadores, o que dará alguma idéa da scena de -Shakespeare no <i>Ricardo 3.<sup>o</sup></i>, antes do combate.</p> - -<p>Havia n'esses homens uma especie de selvajaria politica -que é digna de ser conhecida.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_149">149</span> -Fallemos primeiramente do general Lopes. Uma unica -anedocta, dará não sómente idéa d'este chefe, mas fará -conhecidos os homens com quem elle tinha a tratar.</p> - -<p>Lopes era governador da Santa Fé, e tinha em Entre -Rios um inimigo pessoal, o coronel Ovando, que em seguida -a uma revolta foi conduzido prisioneiro ao general -Lopes.</p> - -<p>O general almoçava. Recebeu perfeitamente Ovando -e convidou-o a almoçar. A conversação travou-se entre -elles como entre dois convivas, aos quaes uma egualdade -de condições tivesse ordenado a mais perfeita cortezia.</p> - -<p>Comtudo no meio da conversação, Lopes exclamou:</p> - -<p>—Coronel, se eu tivesse cahido nas suas mãos, como -cahiu nas minhas e isto no momento em que almoçasse, -que faria?</p> - -<p>—Convidal-o-ia para almoçar, como v. ex.<sup>a</sup> acaba de -fazer.</p> - -<p>—E depois?</p> - -<p>—Mandava-o fuzillar.</p> - -<p>—Estimo muito que pense do mesmo modo que eu. -Acabando de almoçar será fuzillado.</p> - -<p>—Se não se quer demorar muito, póde ser já.</p> - -<p>—Não, não, acabe de comer descançado, não tenho -muita pressa.</p> - -<p>E continuaram a almoçar com todo o descanço, e tendo -concluido:</p> - -<p>—Julgo ser tempo, disse Ovando.</p> - -<p>—Agradeço-lhe o não haver esperado que eu o lembrasse, -respondeu Lopes.</p> - -<p>Depois chamando o seu camarada.</p> - -<p>—O piquete está prompto? perguntou elle.</p> - -<p>—Sim, meu general, respondeu o soldado.</p> - -<p>Então voltando-se para Ovando:</p> - -<p>—Adeus, coronel, disse Lopes.</p> - -<p>—Adeus, não; mas sim até á vista, porque não se -vive muito tempo quando se fazem guerras como as nossas.</p> - -<p>E cumprimentando Lopes sahiu. Cinco minutos depois, -o estrondo de uma descarga annunciou a Lopes que o coronel -Ovando havia entregue a alma a Deos.</p> - -<p>Passemos a Quiroga.</p> - -<div class="pagenum" id="Page_150">150</div> - -<h2 id="cap_quiroga">QUIROGA</h2> - -<p>Este é mais nosso conhecido. A sua reputação atravessando -os mares, fez echo em Paris, e a moda apoderou-se -d'elle: de 1820 a 1823 todos tinham capotes á -Quiroga e chapeus á Bolivar. É provavel que nem um nem -outro tivessem usado dos capotes e chapeus que os seus -admiradores adoptaram a duas mil leguas de distancia.</p> - -<p>Quiroga, como Rosas, era tambem camponez e havia -servido, na sua mocidade, como sargento no exercito de -linha contra os hespanhoes.</p> - -<p>Retirado ao seu paiz natal, a Rioja, entrou nos partidos -internos, e tornado-se senhor do paiz, lançou-se na lucta -das differentes facções da republica, e foi n'estas luctas -que se mostrou pela primeira vez á America.</p> - -<p>No fim de um anno, Quiroga era a espada do partido -federal, e é talvez o unico homem que tenha obtido similhantes -resultados pela simples applicação do seu valor pessoal. -O seu nome tinha alcançado um tal prestigio que só -elle valia muitos exercitos.</p> - -<p>A sua grande tactica no meio dos combates, era chamar -para o pé de si o maior numero de perigos, e quando -repentinamente dava o grito de guerra brandindo na -mão essa longa lança que era a sua arma predilecta, os -mais bravos faziam conhecimento com o medo.</p> - -<p>Quiroga era cruel, ou antes feroz, mas na sua ferocidade -havia sempre alguma cousa de grande e generoso. -Era a ferocidade do leão e não a do tigre.</p> - -<p>Quando o coronel Pringles, um dos seus maiores inimigos, -foi feito prisioneiro e assassinado, o seu assassino -apresentou-se a Quiroga, seu chefe, julgando ter ganho -uma boa recompensa.</p> - -<p>Quiroga deixou-lhe contar o seu crime, e mandou-o -fuzillar.</p> - -<p>Uma outra vez dois officiaes pertencentes ao partido -inimigo foram feitos prisioneiros pelos soldados de Quiroga -que lembrando-se do castigo do seu camarada, os conduziram -sãos e salvos á presença do seu chefe.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_151">151</span> -Quiroga offereceu-lhe abandonar as suas bandeiras, -servindo debaixo das suas ordens.</p> - -<p>Um acceitou, outro recusou.</p> - -<p>—Está bem, disse elle ao que havia acceitado, montemos -a cavallo e vamos vêr fuzillar o seu camarada.</p> - -<p>Aquelle sem fazer a menor observação, apressou-se a -obedecer, e conversou todo o caminho alegremente com -Quiroga de quem se julgava já ajudante de campo, em -quanto o seu camarada cercado por um piquete, com as -armas carregadas, marchava tranquillamente para a morte.</p> - -<p>Chegado ao logar destinado para a execução, Quiroga -mandou ajoelhar o official que tinha recusado trahir -o seu partido, e disse-lhe que se preparasse para morrer, -e quando o viu prompto:</p> - -<p>—Vamos, disse Quiroga, ao pobre official que se julgava -já morto, és um bravo.—Monta no cavallo do teu -camarada e parte.</p> - -<p>E designava o cavallo do renegado.</p> - -<p>—E eu? perguntou este.</p> - -<p>—Tu, respondeu Quiroga, não precisas cavallo porque -vaes morrer.</p> - -<p>E apezar das supplicas que lhe fez em favor do seu -camarada, aquelle a quem acabava de dar a vida, mandou-o -fuzillar.</p> - -<p>Quiroga só foi vencido uma vez, e essa pelo general -Paz, o Fabio americano. Duas vezes destruiu o exercito -de Quiroga nas terriveis batalhas de Tablada e Oncativo. -Era um bello espectaculo para esses jovens republicanos -o vêr a arte, a tactica e a estrategia em lucta contra a -coragem indomavel e a vontade de ferro de Quiroga. Mas -uma vez o general Paz foi feito prisioneiro, a cem passos -do seu exercito, e desde essa época Quiroga foi invencivel.</p> - -<p>Terminada a guerra entre o partido unitario e o partido -federal, Quiroga emprehendeu uma viagem ás provincias -interiores sendo na volta, attacado em Barrancallaco -por trinta assassinos, que fizeram fogo sobre a carroagem. -Quiroga que se achava n'esta occasião doente, -estava deitado, na carroagem, tendo-lhe por isso atravessado -o peito uma balla. Apesar d'isso Quiroga levantou-se -pallido e ensanguentado e abriu a portinhola. Vendo-o -em pé, apezar de estar quasi cadaver, os assassinos fugiram; -<span class="pagenum" id="Page_152">152</span> -mas Santos Peres, seu chefe, dirigiu-se a Quiroga -e dando-lhe um golpe na cabeça acabou de o matar.</p> - -<p>Então os assassinos voltaram e acabaram a obra começada. -Eram os irmãos Renafé, commandantes em Cordova -que de accordo com Rosas dirigiam esta expedição. -Mas Rosas tinha tido todo o cuidado de affastar de si todas -as suspeitas, de modo que ninguem julgou fosse elle -um dos cumplices em similhante morte, podendo por isso -tomar o partido do que tinha feito assassinar, perseguindo -os assassinos que foram presos, julgados, e fuzillados.</p> - -<p>Falta Cullen.</p> - -<p>Cullen, que tinha nascido em Hespanha, havia-se estabelecido -na cidade de Santa Fé, onde se tinha ligado -com Lopes, sendo depois seu ministro e director na politica. -A immensa influencia que Lopes teve na republica -argentina, desde 1820 até á sua morte em 1833, fez -de Cullen uma personagem muito importante. Quando nos -dias de sua desgraça, Rosas proscripto emigrou para Santa -Fé, recebeu de Cullen toda a especie de serviços, mas -esses serviços não poderam fazer esquecer ao futuro dictador -que Cullen era um dos homens que queriam acabar -com o reinado da arbitrariedade na republica argentina. -Comtudo soube occultar o seu odio a Cullen debaixo -das apparencias da maior amizade.</p> - -<p>Pela morte de Lopes, Cullen foi nomeado governador -da Santa Fé consagrando-se a fazer grandes melhoramentos -na provincia, e em logar de se mostrar inimigo -da França, mostrou por esta nação muitas sympathias, -considerando que a sua alliança era um grande passo para -as suas idéas civilisadoras. Então Rosas promoveu uma -revolução, que appoiou publicamente, sendo coadjuvado -por alguma tropa. Cullen vencido refugiou-se na provincia -de Santiago del Estero, que governava o seu amigo -Ibarra. Rosas, que destruindo a federação tinha já declarado -Cullen <i>selvagem unitario</i>, entabolou negociações -com Ibarra afim de lhe entregar Cullen.</p> - -<p>Durante muito tempo estas negociações não obtiverão -resultado algum, julgando-se Cullen, seguro pela confiança -que tinha no seu amigo, mas um dia foi preso pelos -soldados de Ibarra e conduzido a Rosas que o mandou -assassinar no meio do caminho, porque disse elle n'uma -carta dirigida ao governador de Santa Fé que tinha -<span class="pagenum" id="Page_153">153</span> -succedido a Cullen, o seu <i>processo estava feito pelos seus -crimes que eram conhecidos por todos</i>.</p> - -<p>Cullen era dotado d'uma conversação agradavel e -d'um coração generoso. A sua influencia sobre Lopes -foi sempre empregada a evitar toda a especie de rigor, -e foi em resultado d'esta influencia que o general -Lopes, não obstante as supplicas de Rosas, não consentiu -em mandar fuzillar um unico dos prisioneiros da campanha -de 1831, campanha que poz em seu poder os chefes -mais importantes do partido unitario.</p> - -<p>Cullen possuia uma instrucção superficial e os seus -talentos eram mediocres.</p> - -<p>Foi d'esta sorte que Rosas, o unico que talvez não -teve nenhuma gloria militar, entre os chefes do partido -federal, se desembaraçou dos chefes d'este partido, ficando -desde então a pessoa mais importante da republica argentina, -e senhor absoluto de Buenos Ayres.</p> - -<p>Então Rosas tendo alcançado todo o poder, commeçou -a sua vingança contra as classes elevadas que até então -o tinham despresado. No meio das personagens mais aristocratas -e mais elegantes mostrava-se sempre vestido de -jaqueta, ou sem gravata. Aos seus bailes a que presidia -com sua mulher e filha, não eram convidados senão os -carreiros, sapateiros, etc. Um dia abriu o baile dançando -com uma escrava, e Manuelita com um gaucho.</p> - -<p>Mas não foi só d'esta maneira que elle puniu a soberba -cidade, porque proclamou o terrivel principio:</p> - -<div class="manuscr"> -<p>«<i>o que não está comigo é contra mim</i>»</p> -</div> - -<p>E desde então todo o homem que lhe desagradava foi -classificado de <i>selvagem unitario</i>, e o que uma vez Rosas -havia designando por este nome não tinha mais direito -nem á vida nem á honra.</p> - -<p>Então para por em pratica as theorias de Rosas, organisou-se -debaixo dos seus auspicios a famosa sociedade -<span class="smcap">Mas-forca</span>, isto é, ainda ha forca. Esta sociedade era -composta de tudo quanto havia de peor na sociedade.</p> - -<p>N'ella se achavam filiados por ordem superior o chefe -da policia, os juizes de paz, e todos aquelles que deviam -vigiar pela ordem publica. Por este meio quando -os membros d'esta sociedade entravam em casa de qualquer -cidadão, para a roubar ou assassinar o seu proprietario, -era escusado chamar em seu auxilio a policia, porque -<span class="pagenum" id="Page_154">154</span> -ninguem corria a soccorrer a desgraçada victima. -Estas excursões tinham logar quasi sempre de dia, tanto -era o receio dos criminosos.</p> - -<p>E quer o leitor alguns exemplos? Vamos dal-os, por -que não é costume nosso fazer uma accusação sem a provar.</p> - -<p>Os elegantes de Buenos-Ayres tinham n'esta época o -habito de trazer os bigodes de modo que pareciam formar -um U, e isto era sufficiente para a sociedade dos -<span class="cs7">MAS-FORCA</span>, debaixo do pretexto de que o U queria dizer -unitario, se apoderar do desgraçado, rapando-lhe a -cara com navalhas mal afiadas, de modo que a carne vinha -juntamente aos pedaços com os cabellos. Depois de -praticarem esta barbaridade, abandonavam a victima aos -caprichos da populaça, que muitas vezes continuava esta -brincadeira até dar a morte áquelle desgraçado.</p> - -<p>As mulheres do povo começavam a usar nos cabellos -a fita encarnada chamada <i>mono</i>. Um dia a Mas-forca collocada -ás portas das principaes egrejas, marcou com -um ferro em brasa todas as mulheres que entravam ou -sahiam sem ter a tal fita.</p> - -<p>Tambem não era uma cousa extraordinaria o ver uma -mulher despojada dos seus vestidos e açoitada no meio -da rua, e isto porque ella trazia um lenço, um vestido -um enfeite qualquer, no qual havia a cor azul ou verde. -O mesmo succedia com os homens da mais elevada posição, -sendo apenas necessario para elles correrem os -maiores perigos que se apresentassem em publico de casaca -ou com uma gravata.</p> - -<p>Ao mesmo tempo que as pessoas, sem duvida designadas -á muito, e que pertenciam ás classes superiores -da sociedade perseguidas por uma cruel vingança, eram -victimas d'estas violencias, centenas de cidadãos eram -encarcerados, e isso só porque as suas opiniões não estavam -em harmonia com as do dictador. Ninguem conhecia -o crime porque era preso, mas isso tambem era -desnecessario, visto ser conhecido de Rosas. Do mesmo -modo que o crime ficava desconhecido, tambem o -julgamento era considerado inutil, e todos os dias as prisões -para poderem dar entrada a novas victimas, eram -despojadas de algumas d'ellas que erão fuziladas. Estes -<span class="pagenum" id="Page_155">155</span> -fuzilamentos tinham logar de noute, sendo a cidade constantemente -accordada de sobresalto.</p> - -<p>De manhã, cousa horrivel que nem mesmo em França -se viu durante os terriveis dias de 1793, os carreiros -apanhavão tranquillamente os cadaveres dos assassinados -e hiam ás prisões buscar os dos que tinham sido fuzillados, -e conduzindo-os a um grande fosso onde eram todos -lançados, sem que fosse permittido aos parentes das -victimas o vir reconhecel-as e prestar-lhe as ultimas honras -funebres.</p> - -<p>Ainda não é tudo: os carreiros que conduzião estes -restos deploraveis annunciavam a sua chegada por -terriveis gracejos que faziam fechar todas as portas e fugir -a população. Muitas vezes decepavam a cabeça do tronco, -enchendo cestos com ellas, e offerecendo-as depois -aos tranzuentes assustados.</p> - -<p>Bem depressa o calculo se juntou á barbaridade, o -fisco á morte.</p> - -<p>Rosas comprehendeu que o meio de se conservar no -poder era crear em volta de si interesses inseparaveis dos -seus.</p> - -<p>Então mostrou a uma parte da sociedade metade da -fortuna da outra dizendo-lhe—É tua.</p> - -<p>A partir d'este momento a ruina dos antigos proprietarios -de Buenos-Ayres foi consumada, começando os amigos -de Rosas a obter grandes fortunas.</p> - -<p>O que não tinha ousado pensar nenhum tyranno, o -que não tinha vindo á idéa de Nero, foi executado por -Rosas: depois de haver assassinado o pai prohibiu ao filho -o deitar luto. A lei que continha esta prohibição -foi proclamada e fixada nas esquinas, e bem necessaria -foi, porque quando não, tudo em Buenos Ayres andaria -de luto!</p> - -<p>Os excessos d'este despotismo admiraram alguns estrangeiros -e sobre tudo alguns francezes. Rosas cansou a paciencia -de Luiz Felippe, paciencia bem reconhecida, e -logo depois teve lugar o primeiro bloqueio pela esquadra -franceza.</p> - -<p>Entretanto as classes elevadas tão mal tractadas, commeçarão -a fugir de Buenos Ayres e para encontrar um -asylo refugiaram-se no estado oriental, onde a maioria da -cidade proscripta achou hospitalidade.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_156">156</span> -Foi em vão que a policia de Rosas redobrou de vigilancia, -foi em vão que uma lei prohibio de morte a emigração, -foi em vão que a essa morte se juntaram os mais -crueis detalhes, porque Rosas conheceu bem depressa que -a morte só não era sufficiente; o terror e o odio que inspirava -Rosas eram mais fortes que os meios inventados -por elle, e a emigração augmentava d'uma maneira espantosa -a todos os momentos. Para realisar a fuga de toda -uma familia, era só necessario encontrar um barco que -a podesse transportar. Encontrado elle, pai, mãe, filhos, -irmãos, ahi se lançavam, abandonando casa, bens, fortuna, -e todos os dias, se via chegar ao estado oriental, -isto é a Montevideo algumas d'essas barcas cheias de passageiros -tendo por unica fortuna o fato que levavam em -cima de si.</p> - -<p>Nenhum d'esses fugitivos teve de se arrepender da -confiança que tinham posto na hospitalidade do povo oriental, -pois essa hospitalidade foi como o teria sido a d'uma -republica antiga; hospitalidade como devia esperar o -povo argentino d'amigos, ou antes d'irmãos, que tantas -vezes tinham combatido unidos para repellir os inglezes, -hespanhoes ou brasileiros,—inimigos communs, inimigos -estrangeiros—menos perigosos comtudo do que esse que -havia nascido no meio d'elles.</p> - -<p>Os argentinos chegavão em grande quantidade, e erão -esperados no porto pelos habitantes, que escolhiam em -rasão dos seus recursos pecuniarios, ou do tamanho da -sua casa os emigrados que podiam recolher. Então viveres, -dinheiro, fato, tudo era posto á disposição d'esses -desgraçados, até que elles tivessem alcançado alguns recursos, -no que todos os coadjuvavão. Elles do seu lado -reconhecidos entregavam-se ao trabalho, afim de alliviar -o fardo que impunhão aos seus hospedes, dando-lhe assim -os meios de receber novos fugitivos. Para poderem -praticar tão nobre acção, as pessoas mais habituadas ao -luxo trabalhavão nos misteres mais infimos, enobrecendo-se -tanto mais a occupação a que se entregavam era -em opposição com o seu estado social.</p> - -<p>Foi por este modo que os mais bellos nomes da republica -argentina figuram na emigração.</p> - -<p>Lavallée, a espada mais brilhante do seu exercito, -Florencio Varella, o seu mais bello talento, Aguero, um -<span class="pagenum" id="Page_157">157</span> -dos seus primeiros homens de estado; Echaverria, o seu -Lamartine; La Vega, o Bayardo do exercito das Andes; -Guttierez, o feliz cantor das glorias nacionaes; Alsina o -grande advogado e illustre cidadão, pertencem ao numero -dos emigrados, assim como apparecem Saenz, Valente, -Molino, Torres, Ramos, Megia, grandes proprietarios; -como apparecem, Rodrigues, o velho general dos exercitos -da independencia, e unitario; Olozabal, um dos mais -bravos d'esse exercito das Andes de que dissemos ter -sido La Vega o Bayardo. Rosas perseguia igualmente o -<i>unitario</i> e o <i>federal</i>, não se preocupando senão de se -desembaraçar de todos os que podiam ser um obstaculo -á sua dictadura.</p> - -<p>É á hospitalidade concedida aos homens que elle perseguia -que deve ser attribuido o odio de Rosas ao Estado -oriental.</p> - -<p>Na épocha a que nos referimos a presidencia da republica -era exercida pelo general Fructuoso Rivera.</p> - -<p>Rivera era camponez, como Rosas, como Quiroga; -unicamente os seus instinctos erão humanitarios o que -o fazia inimigo de Rosas. Como homem de guerra, a -bravura de Rivera não podia ser excedida; como chefe -de partido a sua generosidade não podia ser igualada. -Durante trinta e cinco annos figurou nas scenas politicas -do seu paiz. Quando a revolução contra a Espanha começou, -Rivera sacrificou a sua fortuna, por que não era -só generoso, era prodigo.</p> - -<p>Do mesmo modo que Rivera era prodigo para com os -homens, Deus tinha sido prodigo para com elle. Era um -bello cavalheiro, em todo o sentido da palavra hespanhola -<i>caballero</i>, que comprehende ao mesmo tempo o soldado e -o gentilhomem, de estatura elevada, de olhar prescutador, -conversando com graça, e attraindo todos por um -gesto particular que só lhe pertencia, sendo por isso o -homem mais popular dos Estados orientaes. Mas se Rivera -como homem era mui apreciavel, como administrador -nunca houve nenhum que desorganisasse mais os recursos -pecuniarios d'uma nação. Assim como havia destruido -a sua fortuna particular, destruiu a fortuna publica, -não para se enriquecer, mas porque homem publico -tinha conservado todos os habitos do homem particular.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_158">158</span> -Na epocha que descrevemos, essa ruina ainda não se -fazia sentir: Rivera, commeçava a sua presidencia, e estava -rodeado dos homens mais notaveis do paiz: Obez, -Herrero, Vasques, Alvares, Ellauri, Luiz Eduardo Peres, -erão verdadeiramente senão seus ministros ao menos seus -directores, e com estes homens tudo o que era progresso, -liberdade e prosperidade, estava promettido a este -bello paiz.</p> - -<p>Obez, o primeiro dos amigos de Rivera era um homem -d'um caracter respeitavel. O seu patriotismo, o seu -talento eminente, a sua instrucção profunda o collocaram -no numero dos grandes homens da America, e para -que nada faltasse á sua popularidade, morreu no exilio -victima do systema de Rosas no Estado oriental.</p> - -<p>Luiz Eduardo Peres, era o Aristides de Montevideo. -Republicano severo, patriota exaltado, consagrou a sua -longa existencia á virtude, á liberdade, e ao seu paiz.</p> - -<p>Vasquez, homem de talento e instrucção, rendeu os -primeiros serviços ao seu paiz no cerco de Montevideo, -na guerra contra a Hespanha e acabou a sua carreira durante -o cerco contra Rosas.</p> - -<p>Herrera, Alvares, e Ellauri cunhados de Obez, não -ficaram atraz dos que temos nomeado. Foram deffensores -dedicados do Estado oriental, e de toda a causa americana, -sendo por isso os seus nomes mui respeitados em -todo o territorio americano.</p> - -<h2 id="cap_oribe">MANUEL ORIBE</h2> - -<p>A presidencia de Rivera finalisou em 1834. O general -Manuel Oribe foi quem lhe succedeu, por influencia -do proprio Rivera que contava ter n'elle um amigo e continuador -do seu systema. Com effeito Manuel Oribe tinha -sido nomeado general por Rivera, e havia feito parte -da precedente administração, como ministro da guerra.</p> - -<p>Oribe pertencia ás primeiras familias do paiz. O seu -espirito era fraco, a sua intelligencia acanhada, explicando-se -por isso a sua alliança com Rosas, a quem se -entregou totalmente, sem pensar que essa alliança trazia -comsigo a perda d'essa mesma independencia pela qual -tantas vezes havia combatido.</p> - -<p>Como general a sua incapacidade era incompleta. As -<span class="pagenum" id="Page_159">159</span> -suas paixões tinham a violencia das organisações nervosas -e arrastavam-n'o á crueldade. Como particular era -um homem honesto.</p> - -<p>Como administrador foi mais economico que Rivera -e não se lhe pode censurar o ter augmentado o defficit -do thesouro, e comtudo é a elle que cabe toda a responsabilidade -da ruina do Estado oriental. Esquecendo que -para ser chefe de partido, não é sufficiente só o querer -sel-o, recusou o ficar alliado do grande partido nacional -de que Rivera era chefe. Querendo formar um partido -seu, excitou a desconfiança de todos e espantado pela sua -fraqueza lançou-se nos braços de Rosas. Ainda que o tratado -tivesse ficado secreto todos conheceram esta alliança -pelas hostilidades secretas do governo contra a emigração -argentina e como todos detestavão o systema de Rosas, -o paiz seguiu Rivera, quando elle em 1836 se collocou -á frente d'uma revolução contra Oribe.</p> - -<p>Não obstante essa revolução em que tomou parte quasi -todo o paiz, Oribe resistiu até 1838.</p> - -<p>Oribe deixou a presidencia por renuncia feita officialmente -perante as camaras e sahiu do paiz tendo pedido -ás mesmas camaras licença para se retirar.</p> - -<p>Rosas, vendo-o abandonar a sua posição, obrigou-o -a protestar contra essa renuncia, e reconhece-o como chefe -do paiz de que havia sido expulso. Foi o mesmo do -que se Luiz Filippe, tivesse em Clermont reconhecido o -duque de Bordeos como vice-rei da republica franceza.</p> - -<p>Em Montevideo zombaram ao principio d'essa excentricidade -do dictador, mas elle preparava-se para mudar -esses risos em lagrimas.</p> - -<p>A consequencia natural da conducta de Rosas era a -guerra entre as duas nações.</p> - -<p>Esta guerra foi horrivel.</p> - -<p>Oribe, a quem alguns dos nossos jornaes, pagos por -Rosas, chamaram o <i>illustre</i> e o <i>virtuoso</i> Oribe, foi ao -mesmo tempo general e carrasco.</p> - -<p>Mostremos aos leitores algumas d'essas paginas de -sangue publicadas pela <i>America do Sul</i>, e nas quaes vem -registados dez mil assassinatos.</p> - -<p>Tomemos ao acaso alguns dos relatorios feitos a Rosas -pelos seus agentes e officiaes.</p> - -<p>O general D. Marianno Achaque serve no exercito -<span class="pagenum" id="Page_160">160</span> -contrario a Rosas, defende S. João e no dia 22 de agosto -de 1841 rende se depois de quarenta e oito horas de -resistencia. D. José Ramires official de Rosas transmitte -então ao governo de S. João o relatorio official d'este -successo. Copiaremos estas linhas:</p> - -<div class="manuscr"> -<p><i>Tudo se acha em nosso poder, mas com perdão e garantia -para todos os prisioneiros. Entre elles está um filho -de Lamadrid.</i></p> -</div> - -<p>Agora leia-se o numero 2067 do <i>Diario da tarde</i> de -Buenos Ayres, de 22 de outubro de 1841, e em opposição -do documento official de José Ramires, que assegura a -vida dos prisioneiros, veja o leitor o seguinte:</p> - -<div class="manuscr"> -<p class="right">Desaguedero, 22 de setembro de 1841.</p> - -<p>«<i>O selvagem unitario Marianno Acha foi hontem decapitado -e a sua cabeça exposta ao publico.</i></p> - -<p class="right">Assignado: <i>Angelo Pacheco.</i>»</p> -</div> - -<p>É necessario não confundir este Pacheco, tenente de -Rosas com seu primo Pacheco y Obes um dos seus inimigos -mais encarniçados.</p> - -<p>O leitor deve lembrar-se que no relatorio de Ramires -se acha esta frase.</p> - -<div class="manuscr"> -<p>«<i>Entre os prisioneiros está um filho de Lamadrid.</i>»</p> -</div> - -<p>Veja-se a <i>Gazeta Mercantil</i>, numero 5703, de 20 de -abril de 1842 e ahi se encontrará esta carta escripta por -Mazario Benavides a D. João Manoel Rosas:</p> - -<div class="manuscr"> -<p class="right">Miraflore 7 de abril de 1842.</p> - -<p>«Em um despacho precedente, dei-lhe parte dos motivos -porque conservava o selvagem Gyriaco Lamadrid, -mas sabendo que elle se tinha dirigido a muitos chefes -da provincia para os resolver a tomar a sua defesa, mandei -assim que cheguei a Rioja <i>decapital-o, assim como o -salvagem unitario Manoel Julião Frias, natural de Santiago</i>.</p> - -<p class="right">Assignado: <i>Mazario Benavides.</i>»</p> -</div> - -<p>Manoel Oribe á testa dos exercitos de Rosas encarregados -de submetter as provincias Argentinas, derrotou, -a 15 de abril de 1842, no territorio de Santa-Fé as forças -commandadas pelo general João Paulo Lopes.</p> - -<p>Entre os prisioneiros encontra-se o general D. João -Martins.</p> - -<p>Lêde esse fragmento d'uma carta d'Oribe:</p> - -<div class="manuscr"> -<p>«No quartel general de Banancas de Cosonda 17 de -<span class="pagenum" id="Page_161">161</span> -abril de 1842.—Trinta e tantos mortos e alguns prisioneiros, -entre as quaes se achava <i>João Martines a quem -hontem mandei decepar a cabeça</i>.</p> - -<p class="right">Assignado: <i>Manoel Oribe.</i>»</p> -</div> - -<p>Se ainda tendes em vosso poder a <i>Gazeta mercantil</i>, -vêde o numero 5903, de 20 de setembro de 1842, e ahi -encontrareis um relatorio official de Manuel Antonio Saravia, -empregado no exercito de Oribe.</p> - -<p>Este relatorio contém uma lista de desasete individuos, -de que um era chefe de batalhão e outro capitão, que -foram prisioneiros em Numayan, soffrendo ahi o <i>castigo -ordinario da pena de morte</i>.</p> - -<p>Voltemos ao <i>illustre</i> e <i>virtuoso</i> Oribe, numero 3007 -do <i>Diario da tarde</i>, onde vem o seguinte a proposito da -batalha de Monte Grande.</p> - -<div class="manuscr"> -<p class="right">«Quartel general no Ceibal 14 de setembro de 1841.</p> - -<p>«Entre os prisioneiros foi encontrado o traidor selvagem -unitario, ex-coronel Facundo Borda, que <i>foi executado -immediatamente, com outros pertendidos officiaes de -cavallaria e infanteria</i>.</p> - -<p class="right"><i>Manoel Oribe.</i>»</p> -</div> - -<p>Oribe estava feliz; um traidor lhe entregou o governador -de Tucuman e os seus officiaes. Eis como elle annuncia -esta noticia a Rosas.</p> - -<div class="manuscr"> -<p class="right">«Quartel general de Métau 3 de outubro de 1841.</p> - -<p>«Os selvagens unitarios que me entregaram o commandante -Sandoval e que são Marion, o pertendido governador -general de Tucuman, Avellanieda, o pertendido -coronel J. M. Villela, o capitão José Espejo, e o tenente -Leonardo de Sousa, <i>foram immediatamente executados na -forma ordinaria</i>, á excepção de Avellanieda a quem ordenei -que cortassem a cabeça, sendo exposta ao publico -na praça de Tucuman.</p> - -<p class="right"><i>Manoel Oribe.</i>»</p> -</div> - -<p>Agora passemos a outro carrasco de Rosas.</p> - -<div class="manuscr"> -<p>«Casamarca 29 do mez de Rosas 1841. A S. Excellencia -o senhor governador Arredondo.</p> - -<p>«Depois de duas horas de fogo a infanteria foi passada -á espada, e a cavallaria posta na mais completa -desordem.</p> - -<p>«O general conseguiu escapar-se pela serra de Ambaste -com trinta homens, mas foi perseguido e apanhado e -<span class="pagenum" id="Page_162">162</span> -a sua cabeça será bem depressa exposta na praça publica, -assim como já o estão as dos perteadidos ministros -Gonçalves Dulce e Espeche.</p> - -<p>«Viva a federação!</p> - -<p class="right">Assignado: <i>M. Maza.</i>»</p> - -<p>«<i>Lista dos selvagens unitarios pertendidos chefes e -officiaes que foram executados depois da acção de 29</i>:</p> - -<p>«Coronel: Vicente Mercao.</p> - -<p>«Commandantes: Modesto, Villafane, João Pedro Ponce, -Damasio Arias, Manoel Lopes, Pedro Rodrigues.</p> - -<p>«Chefes de batalhão; Manoel Riso, Santiago da Cruz.</p> - -<p>«Capitães: João de Deus Ponce, José Salas, Pedro -Araujo, Izidoro Ponce, Pedro Barros.</p> - -<p>«Ajudantes: Damario Sarmento, Eugenio Novillo, -Francisco Quinteros Daniel Rodrigues.</p> - -<p>«Tenente: Domingos Dias.</p> - -<p class="right">Assignado: <i>M. Maza.</i>»</p> -</div> - -<p>Apresentaremos mais esta carta de Maza, para depois -voltarmos a Rosas.</p> - -<div class="manuscr"> -<p class="right">«Casamarca, 4 de novembro de 1841.</p> - -<p>«Já lhe disse que pozemos em completa desordem o -selvagem unitario Cubas, e que era perseguido, esperando -ter em breve em meu poder a cabeça do bandido. Foi -com effeito prisioneiro no Cerro das Ambastes, e a sua -cabeça está exposta na praça publica da cidade.</p> - -<p>«Depois da acção foram feitos prisioneiros dezenove -officiaes que seguiam Cubas. <i>Não dei quartel.</i> O triumpho -foi completo.</p> - -<p class="right"><i>M. Maza.</i>»</p> -</div> - -<p>Vejamos de passagem no <i>Boletim de Mendonça</i> n.<sup>o</sup> -12, esta carta escripta no campo de batalha d'Arroyo -Grande e dirigida ao governador Aldao pelo coronel D. -Jeronymo Costa.</p> - -<div class="manuscr"> -<p>«Fizemos prisioneiros mais de cento e cincoenta officiaes -que foram executados immediatamente.»</p> -</div> - -<p>Todo o fogo de artificio tem o seu ramalhete, terminaremos -pelo seu ramalhete este fogo de artificio de sangue.</p> - -<p>Prometti fallar de novo em Rosas, e vou agora cumprir -a minha promessa.</p> - -<p>O coronel Zelallaran foi morto e a sua cabeça offerecida -a Rosas que passou tres horas a dar-lhe pontapés. -<span class="pagenum" id="Page_163">163</span> -N'esse momento soube que um outro coronel, irmão d'armas -do primeiro, havia sido feito prisioneiro. No primeiro -momento teve tenção de o mandar fuzillar, mas depois -mudou de resolução, e condemnou-o a ter doze horas por -dia, durante tres dias, essa cabeça cortada em cima de -uma meza que se devia achar collocada na sua frente.</p> - -<p>Rosas mandou fuzillar na praça de S. Nicolau alguns -dos prisioneiros do general Paz.</p> - -<p>Entre elles estava o coronel Vedela antigo governador -de S. Luiz; no meio do supplicio o filho do condemnado -lançou-se nos braços de seu pae.</p> - -<p>—Fuzillae ambos, disse Rosas.</p> - -<p>E o pae e o filho expiraram nos braços um do outro.</p> - -<p>Rosas mandou conduzir a uma das praças de Buenos -Ayres oitenta prisioneiros indios, e em pleno dia e na -presença de todos os mandou matar a estocadas.</p> - -<p>Camilla O'Gorman menina de dezoito annos e oriunda -d'uma das principaes familias de Buenos-Ayres, foi -seduzida por um padre de vinte e quatro, e fugiram ambos -de Buenos-Ayres, refugiando-se n'uma pequena villa -de Corrientes onde passando por esposos, estabeleceram -uma pequena escola. Corrientes cahe em poder de -Rosas, e os dous fugitivos reconhecidos por um padre e -denunciados por elle a Rosas, são presos e conduzidos a -Buenos-Ayres, onde sem julgamento Rosas os mandou -fuzillar.</p> - -<p>—Mas, diz alguem a Rosas, Camilla está gravida!</p> - -<p>—Baptisae o ventre, diz Rosas, que como <i>excellente -christão</i>, quer salvar a alma do menino.</p> - -<p>Esta cerimonia executada, Camilla O'Gorman foi fuzillada.</p> - -<p>Tres ballas atravessaram os braços da desgraçada mãe -que os havia estendido para proteger seu filho...</p> - -<p>Depois d'isto como diremos que a França se pronunciou -em favor de Rosas?</p> - -<p>E com effeito o tratado de 1840 assignado pelo almirante -Mackan, firmou então o poder de Rosas, deixando -só a republica oriental engagada na lucta.</p> - -<p>Foi então que appareceu Garibaldi na sua volta do -Rio Grande.</p> - -<p>D'um lado Rosas e Oribe, isto é, a força, a riqueza, -o poder combatendo pelo despotismo.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_164">164</span> -Do outro lado, uma pequena republica, uma cidade -arruinada, um thesouro exhausto, um povo sem recursos, -não podendo pagar aos seus defensores, mas combattendo -pela liberdade.</p> - -<p>Garibaldi não hesitou; e encaminhou-se para os deffensores -da liberdade.</p> - -<p>Agora abandonamos a penna para lhe deixarmos contar -a historia d'esse cerco, que como o de Troia, durou -nove annos.</p> - -<div class="notesb"> - -<h3>Notas.</h3> - -<p><a name="Footnote_1" id="Footnote_1" href="#FNanchor_1"><span class="label">[1]</span></a> -Giuseppe La Farina, Storia d'Italia.</p> - -<p><a name="Footnote_2" id="Footnote_2" href="#FNanchor_2"><span class="label">[2]</span></a> -Storia Italia.—La Farina.</p> - -<p><a name="Footnote_3" id="Footnote_3" href="#FNanchor_3"><span class="label">[3]</span></a> -Estes successos que tinham logar em um ponto aonde -não estava Garibaldi, são aqui referidos unicamente para explicação -historica, sendo extrahidos de Angelo Brofferio.</p> - -<p><a name="Footnote_4" id="Footnote_4" href="#FNanchor_4"><span class="label">[4]</span></a> -Nome das herdades na America do Sul.</p> - -<p><a name="Footnote_5" id="Footnote_5" href="#FNanchor_5"><span class="label">[5]</span></a> -Dono do estabelecimento.</p> - -<p><a name="Footnote_6" id="Footnote_6" href="#FNanchor_6"><span class="label">[6]</span></a> -A provincia de Santa Catharina foi dada em dote -pelo imperador a sua irmã, quando ella casou com o principe -de Joinville.</p> - -<p><a name="Footnote_7" id="Footnote_7" href="#FNanchor_7"><span class="label">[7]</span></a> -Quando acabei de lêr este capitulo fiquei admirado -de o vêr pouco comprehensivel. Voltei-me para Garibaldi, -e disse-lhe:</p> - -<p>—Lê isso, acho ahi uma grande falta.</p> - -<p>Lêu, e depois de um momento de silencio, disse-me -suspirando:</p> - -<p>—É necessario que isso fique como está.</p> - -<p>Dous dias depois recebi um manuscripto intitulado—<i>Annita -Garibaldi</i>.</p> - -<p><a name="Footnote_8" id="Footnote_8" href="#FNanchor_8"><span class="label">[8]</span></a> -É escusado repetir que estas Memorias tinham sido -escriptas por Garibaldi unicamente para serem lidas por alguns -amigos.</p> -</div> - -<p class="sep3 center">FIM DO PRIMEIRO VOLUME</p> - - </div> - - <div class="npage"> - - <div class="notesnb" id="toc"> - -<h3>ÍNDICE</h3> - -<div class="center"> - <table class="tabmat" summary="Índice do volume I" border="0" cellspacing="0"> - <tr> - <td class="tdrtop"> </td> - <td class="tdltop">PROLOGO</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_prologo">5</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">I</td> - <td class="tdltop">MEUS PAES</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_1">25</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">II</td> - <td class="tdltop">OS MEUS PRIMEIROS ANNOS</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_2">27</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">III</td> - <td class="tdltop">AS MINHAS PRIMEIRAS VIAGENS</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_3">29</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">IV</td> - <td class="tdltop">AS MINHAS PRIMEIRAS AVENTURAS</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_4">31</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">V</td> - <td class="tdltop">OS ACONTECIMENTOS DE S. JULIÃO</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_5">34</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">VI</td> - <td class="tdltop">O DEUS DOS BONS</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_6">38</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">VII</td> - <td class="tdltop">ENTRO AO SERVIÇO DA REPUBLICA DO RIO GRANDE</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_7">42</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">VIII</td> - <td class="tdltop">CORSARIO</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_8">45</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">IX</td> - <td class="tdltop">O RIO DA PRATA</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_9">48</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">X</td> - <td class="tdltop">AS PLANICIES ORIENTAES</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_10">50</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">XI</td> - <td class="tdltop">A POETISA</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_11">52</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">XII</td> - <td class="tdltop">O COMBATE</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_12">55</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">XIII</td> - <td class="tdltop">LUIZ CARNIGLIA</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_13">57</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">XIV</td> - <td class="tdltop">PRISIONEIRO</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_14">58</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">XV</td> - <td class="tdltop">A APOLEAÇÃO</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_15">60</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">XVI</td> - <td class="tdltop">VIAGEM NA PROVINCIA DO RIO GRANDE</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_16">62</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">XVII</td> - <td class="tdltop">A LAGOA DOS PATOS</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_17">65</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">XVIII</td> - <td class="tdltop">ARMAMENTO DE LANCHÕES EM CAMACUA</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_18">67</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">XIX</td> - <td class="tdltop">A ESTANCIA DA BARRA</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_19">69</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">XX</td> - <td class="tdltop">EXPEDIÇÃO A SANTA CATHARINA</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_20">75</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">XXI</td> - <td class="tdltop">PARTIDA E NAUFRAGIO</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_21">77</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">XXII</td> - <td class="tdltop">JOÃO GRIGGS</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_22">81</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">XXIII</td> - <td class="tdltop">SANTA CATHARINA</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_23">83</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">XXIV</td> - <td class="tdltop">UMA MULHER</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_24">85</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">XXV</td> - <td class="tdltop">O CRUZEIRO</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_25">87</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">XXVI</td> - <td class="tdltop">SAQUE DE IMERUI</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_26">90</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">XXVII</td> - <td class="tdltop">NOVOS COMBATES</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_27">91</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">XXVIII</td> - <td class="tdltop">A CAVALLO</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_28">94</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">XXIX</td> - <td class="tdltop">A RETIRADA</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_29">98</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">XXX</td> - <td class="tdltop">ESTADA NAS LAGES E NOS ARRABALDES</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_30">100</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">XXXI</td> - <td class="tdltop">BATALHA DE TAQUARI</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_31">103</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">XXXII</td> - <td class="tdltop">ASSALTO A S. JOSÉ DO NORTE</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_32">108</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">XXXIII</td> - <td class="tdltop">ANNITA</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_33">110</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">XXXIV</td> - <td class="tdltop">LEVANTA-SE O CERCO.—ROSSETTI</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_34">116</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">XXXV</td> - <td class="tdltop">A PICADA DAS ANTAS</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_35">118</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">XXXVI</td> - <td class="tdltop">CONDUCTOR DE BOIS</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_36">122</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop">XXXVII</td> - <td class="tdltop">PROFESSOR DE MATHEMATICA E CORRETOR DE COMMERCIO</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_37">128</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop"> </td> - <td class="tdltop">MONTEVIDEO</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_montevideo">130</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop"> </td> - <td class="tdltop">ROSAS</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_rosas">139</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop"> </td> - <td class="tdltop">QUIROGA</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_quiroga">150</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdrtop"> </td> - <td class="tdltop">MANUEL ORIBE</td> - <td class="tdrbot"><a href="#cap_oribe">158</a></td> - </tr> - </table> -</div> - - </div> - - </div> - -<div class="tnote" id="tnote"> -<h3>Nota do Transcritor</h3> - -<p>Pontuação e hifenização foram normalizados.</p> - -<p>O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1860. -A ortografia originais foi mantida com exceção de alguns erros óbvios.</p> - -<p>O índice foi adicionado.</p> -</div> - -<hr /> - - - - - - - - -<pre> - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Memorias de José Garibaldi, volume I, by -Giuseppe Garibaldi - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIAS DE JOSE GARIBALDI, VOL 1 *** - -***** This file should be named 52847-h.htm or 52847-h.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/5/2/8/4/52847/ - -Produced by Júlio Reis, Leonor Silva and the Online -Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net. - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation - -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by -U.S. federal laws and your state's laws. - -The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the -mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its -volunteers and employees are scattered throughout numerous -locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt -Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. 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