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-The Project Gutenberg EBook of Principios e questões de philosophia
-politica (Vol. II), by António Candido Ribeiro da Costa
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
-almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
-re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
-with this eBook or online at www.gutenberg.org
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-
-Title: Principios e questões de philosophia politica (Vol. II)
-
-Author: António Candido Ribeiro da Costa
-
-Release Date: November 5, 2012 [EBook #41293]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: ISO-8859-1
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-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PRINCIPIOS E QUESTÕES DE ***
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-Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
-Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
-produced from images generously made available by National
-Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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-*Preço--700 réis*
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-
-PRINCIPIOS E QUESTÕES
-
-DE
-
-PHILOSOPHIA POLITICA
-
-POR
-
-ANTONIO CANDIDO RIBEIRO DA COSTA
-
-II
-
-LISTA MULTIPLA E VOTO UNINOMINAL
-
-COIMBRA
-
-LIVRARIA CENTRAL DE JOSÉ DIOGO PIRES
-9--Largo da Sé Velha--10
-1881
-
-
-
-
-PRINCIPIOS E QUESTÕES
-
-DE
-
-PHILOSOPHIA POLITICA
-
-
-
-
-PRINCIPIOS E QUESTÕES
-
-DE
-
-PHILOSOPHIA POLITICA
-
-POR
-
-ANTONIO CANDIDO RIBEIRO DA COSTA
-
-II
-
-LISTA MULTIPLA E VOTO UNINOMINAL
-
-COIMBRA
-IMPRENSA DA UNIVERSIDADE
-1881
-
-
-
-
-AO
-
-DR. JOSÉ CABRAL TEIXEIRA COELHO
-
-EM HOMENAGEM Á LEALDADE DO SEU CORAÇÃO
-E Á EXEMPLAR PROBIDADE DO SEU TALENTO
-
-Off.
-
- _O auctor._
-
-
-
-
-SUMMARIO
-
-
-I Comprehensão actual do suffragio politico. Opiniões de Dupont White,
-Bluntschli, Wirouboff, Oliveira Martins. Antinomias d'aquelle facto
-social; diversas soluções para as reduzir; a que deve ser preferida.--II
-Estado da questão tratada n'este folheto: a votação deve ser uninominal,
-ou de muitos nomes? É, fundamentalmente, uma questão de anthropologia. A
-philosophia naturalista do seculo XVIII em contradicção com a moderna
-anthropologia.--III Historia da lista multipla (_scrutin de liste_) na
-França e entre nós. Tem por si as melhores tradições democraticas. Juizo
-de Gambetta sobre a revolução de 1848. Como a questão eleitoral foi
-considerada no nosso parlamento em 1859.--IV A lista multipla é
-preferivel ao voto uninominal. Tem, principalmente, a vantágem de
-inverter o suffragio, tornando-o indirecto. Porque foi inefficaz na
-constituição da assembléa franceza de 1871. Objecções contra a lista
-multipla.--V Analyse da primeira objecção. O suffragio directo é uma
-illusão; se tem de ser dirigido, antes o seja pelas grandes commissões
-dos partidos do que pelas influencias locaes. Este regimen produz, quasi
-sempre, as melhores assembléas legislativas. Importancia da imprensa
-n'este modo de eleger; sua justificação.--IV Analyse da segunda
-objecção. A lista multipla rompe a intimidade do eleitor com o seu
-representante. O sentimento pessoal não é da essencia do voto. Aquella
-intimidade produz as seguintes consequencias: rebaixa a lucta eleitoral,
-permitte a seducção pelo dinheiro, obriga os eleitos a um servilismo
-indecoroso. Demonstração.--VII É o regimen mais proprio para a formação
-de parlamentos fortes e de governos viaveis. É esta a sua maior
-excellencia n'este momento da civilisação occidental. Apreciação rapida
-do estado da França, da Italia, da Hespanha e de Portugal. A
-representação das minorias é compativel com a fortaleza dos governos. A
-lista multipla, só por si, permitte, até certo ponto, aquella
-representação. Demonstra-se isto.--VIII Commentario a uma phrase de Lord
-Derby. Considerações sobre o presente estado da civilisação politica.
-Perigos das agitações muito repetidas. Incerteza do futuro. Gravidade
-d'esta incerteza.
-
-
-
-
-I
-
-
-O suffragio politico, que é, desde muito, um facto consummado na vida
-dos povos mais cultos, está ainda longe de ser um raciocinio triumphante
-uma verdade positivamente liquidada nas especulações da sciencia.
-
-Em quanto dominou o mundo a philosophia absoluta, que tinha a intuição
-por methodo principal, a discussão d'aquelle facto foi apaixonada, levou
-alguns interessados n'ella á prova extrema do martyrio, chegou a
-determinar uma formidavel revolução, que é um dos acontecimentos
-culminantes d'este seculo; mas a ponderação das suas difficuldades
-praticas e o verdadeiro conhecimento da sua indole, antinomica com
-irrecusaveis condições sociaes, são obra de outra escola, que antepõe a
-analyse ao enthusiasmo inconsciente e a realidade das cousas ao
-optimismo dos espiritos.
-
-E não são já sómente os discipulos d'essa escola, os puritanos
-seguidores da philosophia experimental, que vêem no suffragio politico
-as difficuldades, que elle importa, e as contradicções, que elle
-encerra. Graças á influencia dos novos methodos, sentida ainda por
-aquelles que fazem gala de os combater, essa instituição do Direito
-Publico perdeu o falso prestigio sentimental que a aureolava, e é
-geralmente tida hoje pela mais perigosa de todas as funcções sociaes.
-
-Ao invez de tantos que saudaram o suffragio generalisado como aurora
-d'uma liberdade viavel e fecunda, insignes publicistas de todos os
-matizes são attestes em consideral-o um _mal_ gravissimo, a que urge
-applicar remedio. Dupont White qualifica a democracia de contra-senso,
-de pura chimera, porque entrega e confia o que _a sociedade tem de mais
-difficil nas suas obras a quem é mais incapaz entre os seus membros, e
-para a mais alta das funcções, que é o governo, destina o mais grosseiro
-de todos os orgãos, o suffragio do povo_![1]. Bluntschli friza muitas
-vezes a mesma idéa, e, na violenta apprehensão que lhe causam os
-perigosos abusos do voto universal, propõe, como forçoso antecedente ao
-exercicio dos direitos politicos, o que elle chama _consagração civica_,
-uma especie de chrisma administrado pelo Estado, n'uma festa solemne,
-aos que a edade vai collocando na categoria de cidadãos[2]. Wirouboff, o
-energico continuador de Littré, teve ainda ha pouco a coragem de dizer
-em plena França, no paiz classico do suffragio universal, que este,
-quando não era uma flagrante contradicção, não passava d'uma inanidade,
-a que a rhetorica constitucional revestia, a seu talante, toda a sorte
-de roupagens[3]. E, para produzirmos uma auctoridade nossa,
-transcrevemos as seguintes palavras de Oliveira Martins, o poderoso e
-brilhante escriptor, que dia a dia se habilita para exercitar
-gloriosamente o primado das letras portuguezas: _«O descredito chegou a
-um ponto que os maiores amigos do systema são hoje os inimigos da
-liberdade. Os cesaristas são os primeiros defensores do suffragio
-universal, que a democracia, como partido, não teve ainda a coragem de
-confessar que é uma burla»_[4].
-
-Por outro lado, a legislação eleitoral muda, transforma-se sempre dentro
-de curtos periodos, revelando-se assim frequentemente a desillusão
-padecida pelos povos, que teem de repellir, por inefficazes, as suas
-creações no dia seguinte ao da producção d'ellas. A propria Inglaterra,
-tão adherente ás suas tradições de toda a ordem, excepciona, a este
-respeito, o temperamento da sua raça.
-
-Que explicação tem este grave conflicto, em que estão empenhados os mais
-distinctos entendimentos e os mais importantes interesses do nosso
-tempo? Tem a seguinte: a imprudentissima antecipação de reformas, que o
-povo, _a ultima e mais numerosa classe da sociedade_, está longe de
-comprehender e executar, e a manifesta impossibilidade de restringir
-faculdades, que a lei e o costume consagraram como direitos.
-
-É certo que na Suissa e nos Estados-Unidos o suffragio universal
-funcciona menos imperfeitamente; mas o povo d'essas duas florescentes
-republicas tem uma longa educação democratica, e, sobre tudo, uma larga
-descentralisação administrativa e politica, e por isso o voto individual
-dos seus cidadãos satisfaz, pelo menos, a estes requisitos de todo o
-legitimo suffragio: _interesse immediato e especialisação do saber_. Nos
-outros paizes o regimen unitario annulla estas duas condições, e causa
-lastima, profunda lastima, ver como a humanidade culta relucta ahi
-infructuosamente com a fatalidade d'um legado historico, que não sabe
-aproveitar e não póde repellir!
-
-Partindo da mesma comprehensão d'este phenomeno social, são
-diversissimas as direcções seguidas pelos pensadores que consideram e
-sentem as difficuldades do problema. Uns limitam-se, no maior desalento,
-á negação pessimista de todo o progresso. Outros, tão insensatos e
-estereis como aquelles, esperam que o suffragio universal se curará a si
-mesmo todos os males, como se fosse alguma cousa mais do que um
-instrumento material, manejavel a quaesquer impulsos! Não falta quem se
-contente com ostentosos programmas das reformas a operar para que o voto
-politico seja uma realidade efficaz, esquecendo-se de que taes reformas
-só em muito distante futuro são realisaveis, e de que, no entretanto, a
-suspensão do suffragio universal é absolutamente impossivel. Ha, emfim,
-alguns espiritos melhormente avisados, que, vendo as cousas como ellas
-são, curam de applicar _desde já_ ao suffragio universal um systema de
-modificações que o torne mais racionavel na sua organisação e menos
-damnoso nos seus effeitos. Para estes toda a discussão dos fundamentos
-do suffragio é abandonada por ociosa e inutil. Elles sabem que são
-totalmente indifferentes ao interesse real dos povos as controversias
-apparatosas, que podem entreter os ocios d'uma sabia academia, mas não
-accrescentam um ceitil á economia das sociedades, nem despontam a rudeza
-das infimas classes, que, sem saberem para quê, nem porquê, estão hoje
-investidas dos supremos poderes.
-
-Acceito o pensamento d'este grupo de pensadores, e já procurei servil-o
-formulando e desenvolvendo a grande verdade da _representação
-proporcional_[5]; e hoje continúo o primeiro trabalho, examinando uma
-questão, tambem eleitoral, que a França retomou ainda ha pouco, e
-exhibiu ao mundo n'aquella magnifica fórma com que esta gloriosa nação
-avulta e sobredoira sempre todos os assumptos que a impressionam
-sériamente.
-
-Esta questão versa sobre a _unidade_ ou _multiplicidade de nomes na
-lista de cada eleitor_.
-
-
-II
-
-
-O suffragio politico é concedido para a formação de assembléas
-legislativas, ou de corporações incumbidas da administração local. Para
-que elle produza, pelo melhor modo, o seu resultado, qual d'estas duas
-cousas será mais conveniente: a votação de cada eleitor n'um só nome,
-destinado a representar um determinado circulo, ou a votação de lista
-com muitos nomes, que ficam constituindo a representação collectiva
-d'uma area mais larga?
-
-Do simples enunciado da questão resalta já que ella é de pura _fórma_,
-extranha ao que poderia chamar-se, em linguagem antiga, a _essencia_ do
-suffragio. O que se debate é o valor relativo de dois processos
-empregados para a consecução da mesma cousa, de dois modos de aproveitar
-praticamente uma força, que, em qualquer d'elles, subsiste como era.
-
-Não partem da mesma ordem de idéas os que defendem o voto uninominal e
-os que rompem lanças em defesa da lista multipla. Aquelles preoccupam-se
-mais do interesse e da competencia do eleitor; estes visam
-principalmente á melhor constituição das assembléas politicas. Os
-primeiros representam, n'esta questão, a escola que considera o
-suffragio como um direito; os segundos pertencem á que considera o voto
-politico, não como um direito do _homem_, mas como o privilegio do
-_cidadão_, subordinado aos interesses geraes do Estado.
-
-Diga-se de passagem que esta distincção tem um grande sabor metaphysico.
-Contra a comprehensão do suffragio como um direito insurge-se a
-anthropologia, estudada pelos modernos processos; contra a definição
-d'elle como privilegio levanta-se a historia da sua generalisação, póde
-dizer-se que até ao limite extremo, nos mais adeantados povos da Europa
-e da America.
-
-É á philosophia naturalista do seculo XVIII que se deve a idéa de que
-todos os homens, pelo só facto de serem homens, devem ter egual
-participação no governo das sociedades. A _declaração dos direitos do
-homem e do cidadão_, com que abre a constituição franceza de 1793,
-consagra, no art. 6.^o, este principio: _a liberdade tem por fundamento
-a natureza_. Esta phrase vem da Encyclopedia.
-
-Mas a natureza, como a entendia aquelle seculo, não é qual a descrevem
-as sciencias de hoje. Era então um mixto de factos positivos e de
-abstracções idealistas, um conceito absoluto de que era facil deduzir as
-mais ousadas consequencias. E passava-se da natureza para a sociedade,
-importando ao regimen d'esta as mesmas illusões _egualitarias_ que a
-sciencia consagrava n'aquella. Se a natureza é a mesma em todos os
-homens, todos os homens devem ter os mesmos direitos politicos. Era este
-o raciocinio, sympathico ás inferioridades sociaes, fulminante para as
-tradições estabelecidas, excellente como instrumento de negação, mas
-falso, falsissimo, como base da nova ordem de instituições, que era
-necessario edificar sobre os escombros do passado.
-
-O naturalismo de hoje formúla conclusões oppostas áquella doutrina.
-Buffon e Diderot são triumphantemente combatidos por Darwin e Haekel. É
-já verdade incontestada que os progressos da civilisação, differentes de
-povo para povo, e, dentro do mesmo povo, de classe para classe, produzem
-novas faculdades naturaes, e que a obra do esforço humano se perpetúa
-conjunctamente nas paginas da historia e na anatomia do cerebro.
-
-A este modo de explicar as desegualdades sociaes corresponde a doutrina
-que considera o voto como um _encargo_, na phrase de Stuart Mill[6], ou
-como um direito _publico_, por opposição a direito _natural_, na
-linguagem de Bluntschli[7]. _O direito de suffragio_, diz este illustre
-professor, _não é um direito natural do individuo, como pretende o
-Contracto Social, mas um direito publico derivado do Estado, existindo
-só no Estado, não podendo servir contra elle. É como cidadão, não como
-homem, que o eleitor vota; elle não deduz o seu direito de si mesmo, das
-necessidades da sua existencia, ou do seu desenvolvimento pessoal, mas
-da constituição do Estado, e para bem d'este_.
-
-Infelizmente as lições da moderna biologia e as profundas theorias dos
-mais eminentes publicistas vieram tarde, demasiadamente tarde. A
-revolução politica, que estendeu a todas as classes a faculdade de
-intervirem na gerencia social, sem consideração pelo seu estado mental e
-pela sua situação economica, estava já consummada quando vieram a lume
-aquellas verdades. E uma revolução feita é uma fatalidade
-indestructivel; deixa sempre na organisação dos povos um elemento novo,
-bom ou máo, mas tão firme, tão persistente como as camadas geologicas
-que se sobrepõem na constituição do nosso planeta.
-
-
-III
-
-
-Quando, no verão passado, a questão da lista multipla (_scrutin de
-liste_) appareceu no parlamento francez por uma proposta do deputado
-Bardoux, defensores e adversarios d'ella invocaram a historia dos dois
-regimes eleitoraes, querendo os primeiros mostrar que estavam com as
-mais genuinas tradições republicanas, e sustentando os segundos, com
-inflammado interesse, a these opposta.
-
-Sem embargo de ser pouco edificante vêr uma das mais brilhantes
-assembléas do mundo dividir-se assim na interpretação de factos tam
-proximos e tam geraes, é certo que a intenção de todos elles era
-perfeitamente legitima, porque a melhor prova d'uma instituição pratica
-é a experiencia que d'ella se faz.
-
-Houve exaggero de um e outro lado, mas da parte dos que pugnavam pela
-lista multipla estava maior porção de verdade historica. A lei de 22 de
-dezembro de 1789, a primeira que a França teve sobre liberdade politica,
-mandava fazer as eleições pelo voto plurinominal, e do mesmo modo
-dispunham a Constituição de 1791, o decreto de 12 de agosto de 1792, a
-Constituição de 1793 e a do anno III. Este systema, hybridamente
-combinado com o do suffragio uninominal, atravessou todo o periodo da
-Restauração, e só em 1831, no estabelecimento da monarchia de julho, foi
-que elle teve de ceder, ficando em vigor, até 1848, o suffragio por
-circulo, que a revolução d'esta data aboliu logo por um acto do governo
-provisorio, sendo a lista multipla adoptada para a formação das duas
-assembléas republicanas. O principe L. Bonaparte, ainda presidente,
-substituiu-lhe o voto uninominal, que serviu admiravelmente, em todo o
-tempo do imperio, aos nefastos intuitos d'este famoso aventureiro. A
-terceira republica reviveu o regimen eleitoral de 1849, e foi por elle
-formada a assembléa de 1871. Substituido pelo outro systema em 1875,
-voltou, no anno corrente, a ser proposto, questionado apaixonadamente e
-por fim votado na camara franceza, depois d'um dos mais notaveis
-discursos com que a poderosa eloquencia de Gambetta tem illuminado a
-tribuna de Mirabeau; e se a fortuna lhe foi adversa no senado, talvez
-isso se deva antes a rivalidades pessoaes do que a divergencias de
-doutrina.
-
-D'este summario historico vê-se que a democracia franceza tem decidida
-predilecção pela _lista multipla_, que ainda póde invocar em seu favor
-as malquerenças dos ministros de Luiz Philippe e dos cortesãos de
-Napoleão III.
-
-Menos avisado andava, pois, o deputado Charles Boysset, relator da
-commissão que deu parecer contrario á proposta de Bardoux, quando
-escrevia que aquelle systema eleitoral não tinha honrosos precedentes; e
-ainda menos feliz quando a paixão e o interesse partidario o levavam á
-injustiça de dizer que a assembléa de 1848 era _mediocre de espirito e
-de coração_! A grande voz de Gambetta vingou nobremente a memoria da
-revolução de 1848 n'estas eloquentes palavras: _A assembléa constituinte
-d'esta epocha está acima de todas as aggressões e de todas as criticas,
-quer se falle do seu coração, quer do seu espirito. Todos podem julgar,
-á sua vontade, o coração das assembléas, mas o brilho do talento, o
-prestigio dos caracteres... Qual é o talento, o genio, o illustre homem
-politico que não tinha logar na assembléa de 1848, com excepção do sr.
-Guizot? Eu vejo-os ahi todos. A sua politica pertence ás disputas dos
-homens, mas não o ascendente do seu espirito, da sua auctoridade. Eu
-creio que, depois da Convenção, a assembléa de 1848 é a maior que a
-França tem na ma historia._
-
-A camara de Versailles não merecia ao eminente orador uma phrase de
-rehabilitação; mas, n'um dos mais distinctos movimentos da sua
-eloquencia, o suffragio universal e a _lista multipla_ ficaram salvos
-d'essa prova, _pela reacção que logo operaram contra as suas proprias
-fraquezas_.
-
-Os adversarios da proposta de Bardoux não podiam sustentar-se dignamente
-n'este campo. O voto plurinominal, segundo o espirito d'aquella
-proposta, é vulneravel em alguns pontos, mas, como logo veremos, não se
-lhe póde negar a qualidade de ser, mais que outro qualquer systema,
-favoravel á formação de assembléas fortes pelo seu pensamento politico e
-luzidas pela distincção intellectual dos seus membros. E esta qualidade,
-sempre consideravel, é hoje preciosissima, porque os deveres da
-civilisação, instantemente reclamados em toda a parte, só podem ser
-satisfeitos por situações politicas muito definidas e muito vigorosas.
-
-Na nossa prática constitucional foram já adoptados os dois regimens.
-Estabelecida a eleição directa, começou-se pela lista multipla. Consagra
-este systema eleitoral o decreto de 30 de setembro de 1852[8].
-
-Durou sete annos este regimen, que não pôde resistir á valente opposição
-que lhe fez José Estevão. A lei de 23 de novembro de 1859 foi inspirada
-por este glorioso orador, que, d'essa vez, desserviu um pouco a
-liberdade que elle tantas vezes honrara com o seu talento e com o seu
-caracter, porque não pôde prever que o systema de 1859 ainda havia de
-produzir peores resultados, muito peores, do que o de 1852.
-
-No relatorio do projecto, que se converteu n'aquella lei, diz-se: «_A
-commissão adopta o principio dos circulos pequenos, propondo um só
-deputado por cada circulo. Buscando assim a unidade e a verdade da
-representação, e procurando obter a expressão genuina de todas as
-opiniões e conveniencias das povoações, considerou a commissão que os
-interesses locaes são distinctos, mas não contrarios ao interesse geral,
-e que este não póde compôr-se senão da somma de todos aquelles_.» E com
-estas poucas idéas, variadamente paraphraseadas nas duas camaras, correu
-toda a discussão d'um projecto importantissimo, que interessava á
-propria existencia da liberdade, porque esta tem, com o suffragio
-politico, a mesma estreita relação que as funcções vitaes têem com os
-seus respectivos orgãos!
-
-Estudada nas sessões das camaras, aquella discussão é d'uma esterilidade
-absoluta. Não ha alli um argumento estatistico, uma consideração
-pratica, uma alta theoria, a comprehensão, por qualquer modo
-manifestada, de que se questionava o mais momentoso assumpto que póde
-ser sujeito a assembléas politicas. Passou-se d'um para outro regimen
-eleitoral, sem que o systema revogado fosse convencido da sua
-iniquidade, e o que vinha substituil-o recebesse a calorosa consagração
-que os amigos da liberdade offerecem sempre ás novas fórmas d'este
-augusto principio. Pois na camara, que votou a lei de 23 de novembro,
-estavam os eloquentissimos oradores José Estevão e Rebello da Silva, e
-batia o coração do sincero democrata F. Coelho do Amaral!
-
-
-IV
-
-
-Prefiro a lista multipla á votação uninominal. Aquella tem para mim a
-preciosa vantagem de restringir a extensão do suffragio e de realisar,
-pela melhor fórma, a votação em dous gráus, não como ella é proposta em
-theoria e tem sido praticada em todos os paizes, mas de modo inverso:
-collocando n'uma especie de assembléa primaria os eleitores influentes,
-os que constituem a parte pensante da sociedade, e deixando aos outros a
-mera confirmação da escolha feita.
-
-Sei que esta opinião irrita as coleras de todos os visionarios do
-suffragio directo, os quaes acham delicioso zelar e defender, no
-conforto do gabinete, os direitos da multidão, salva sempre a disposição
-de sacrificar esses direitos na primeira opportunidade que appareça; mas
-eu procuro uma solução pratica, e o que menos contribue para isso é o
-platonismo de publicistas que, a despeito das mais rudes lições da
-experiencia, continuam a considerar o povo uma abstracção, e a recortar
-n'esta abstracção os caprichosos arabescos da sua phantasia.
-
-Se admitisse a realidade d'uma ligação moral entre os eleitores e os
-seus representantes; se não soubesse que entre uns e outros só raramente
-se produz uma relação politica, no mais nobre significado d'esta phrase;
-se a observação quotidiana não estivesse ahi a mostrar aos mais
-refractarios que a grande maioria dos cidadãos ignora sempre as
-qualidades, os precedentes e os intuitos dos candidatos que elege; se
-fosse possivel alterar, dentro de curto praso, as condições mentaes da
-turba, que não sabe, nem quer saber, os rudimentos da boa educação
-civica; se não fosse vão e esteril todo o proposito de levar, pelos
-processos usados, á consciencia do povo a luz dos seus deveres e a
-dignidade dos seus direitos--ainda poderia hesitar entre os dois
-systemas. Mas como voaram, ha muito, as douradas illusões com que o meu
-espirito se creou, e me parece que é perfeitamente legitimo tirar de
-situações defeituosas o maior partido possivel, entendo que, vista a
-impossibilidade de realisar no maior numero de individuos a intenção do
-voto, deve este servir a mais alguma cousa do que ao triumpho inglorio
-das insignificancias locaes, ou ás predilecções dos governos, as quaes
-recáem quasi sempre em amigos pessoaes e partidarios accommodaticios, e
-lançar-se mão da lista multipla, que não póde, é certo, photographar as
-feições miudas da sociedade, mas desenha as linhas principaes da sua
-physionomia politica.
-
-Não é infallivel este meio. Em determinadas circumstancias póde ser
-inefficaz para a formação de uma boa assembléa politica; e um exemplo
-recente, a camara franceza de 1871, é prova d'isso. Caíu o imperio nas
-ignominias de Sédan; os deputados de Paris, tendo á sua frente o general
-Trochu, assumiram o governo provisorio e deram brilhantes manifestações
-do seu patriotismo e da sua coragem; fieis ás suas tradições,
-despertadas em 1869 por uma celebre proposta de Ferry, Gambetta e Arago,
-os homens que tinham a responsabilidade da situação reviveram logo a
-lista multipla, suspensa desde 1852; não havia razão para invocar as
-obliteradas tradições do velho regimen; a despeito da violenta
-compressão exercida sobre o movimento democratico nos vinte annos
-precedentes, a corrente das idéas modernas tinha engrossado de dia para
-dia; tudo parecia indicar que a urna, abandonada á sua espontaneidade
-por expressas recommendações de F. Herold, o honrado ministro que
-presidiu ao acto eleitoral, consagraria definitivamente a republica como
-fórmula comprehensiva de todas as aspirações politicas... Pois o que
-aconteceu foi exactamente o contrario de quanto se esperava: os
-elementos reaccionarios apparecerem em grande maioria; o partido
-republicano, com que a França se encontrava na hora da desgraça, foi o
-menos considerado pelo suffragio universal!
-
-As angustiosas circumstancias em que estava, aquelle paiz explicam
-sufficientemente este phenomeno sociologico. O desejo da paz era o mais
-forte sentimento que dominava os espiritos; os republicanos, talvez pela
-vehemencia com que tinham dirigido a sua recente opposição ao imperio,
-passavam na opinião geral por demasiadamente insoffridos, e, por tanto,
-perigosos n'aquella difficillima conjuncção. Por outro lado, os
-exercitos allemães pesavam ainda, como um castigo e uma ameaça de ferro,
-no solo da França, e o delirio communalista, que era o exaggero d'uma
-idéa, levava naturalmente aos extremos da reacção contra tudo o que de
-algum modo se assimilhasse a essa idéa, na essencia ou na fórma, de
-longe ou de perto, na realidade ou no nome.
-
-A lista multipla serviu á situação moral d'aquelle momento. Traduziu com
-fidelidade um estado máu, que ella não podia alterar nem substituir por
-outro. E, vistas as cousas d'este modo, a assembléa de 1871, _condemnada
-ao infortunio de se reunir por graça e sob a inspecção do vencedor_, na
-phrase de L. Blanc, não é razão plausivel contra o systema eleitoral que
-a formou.
-
-Diz-se contra este systema que elle é a negação do suffragio universal
-directo, porque a incidencia do voto tem de ser regulada, forçosamente,
-por grandes commissões centraes do governo e da opposição;
-
-que rompe a intimidade do eleitor com o seu representante;
-
-que favorece os abusos do poder, e permitte, sob apparencias
-parlamentares, os maiores excessos da dictadura.
-
-Vejâmos o que estes argumentos valem. Contra elles opponho desde já a
-affirmação de que, com a representação das minorias[9], a lista multipla
-é o menos inconveniente de todos os regimens applicaveis a um Estado
-unitario,--e de que, ainda sem aquella representação, é preferivel a
-outro qualquer systema.
-
-
-V
-
-
-O que fica dito nos numeros precedentes é bastante para annullar a
-preoccupação do suffragio directo, que avulta em todos os defensores do
-voto uninominal. O suffragio não é, em caso algum, verdadeiramente
-directo, se esta phrase significa a acção immediata e a intenção
-conscienciosa do eleitor no exercicio da sua liberdade politica.
-
-Em circulos de um só deputado, ou em districtos de muitos, a maioria dos
-cidadãos determina-se por motivos completamente extranhos á inspiração
-do seu direito, porque esta inspiração não é possivel na cerrada
-ignorancia e na invencivel dependencia das classes inferiores. Isto é
-evidente a todas as luzes; é uma verdade de applicação geral a todos os
-povos, não lhe escapando a propria França, que tem por si a vantagem
-d'uma mais adeantada cultura, e o effeito inapagavel da sua educação
-revolucionaria. Lá, como em toda a parte, o povo é esta grande classe
-operaria, numerosissima, que trabalha para viver, sem se importar muito
-com quem governa, confundindo as côres das bandeiras politicas, e
-fazendo do seu voto um presente de favor ou um objecto de mercancia.
-
-Não podia ser d'outro modo. Que interesse póde ter o eleitor em decidir
-com um acto da sua vontade questões que não conhece, e julgar homens que
-é incompetente para apreciar?
-
-O suffragio directo é, pois, uma illusão, uma mentira, a hypocrisia da
-lei, que se contenta com a apresentação da sua letra, e não se importa
-para nada com a sophismação do seu espirito.
-
-Considerados, sob este aspecto positivo, os factos eleitoraes de todos
-os paizes, qual d'estas duas soluções é melhor: deixar á mercê de
-pequenos interesses pessoaes e locaes a faculdade de que a lei investe o
-povo, ou organisar o suffragio de maneira que essa faculdade tenha de
-ser movida por mais elevadas causas, quaes são o prestigio d'um partido
-e a influencia d'uma doutrina?
-
-É esta a melhor solução. Os principios tomam o logar aos individuos; o
-espirito do eleitor sobe da confiança absoluta n'um homem á comprehensão
-de que alguma cousa mais importante depende do seu voto; os cidadãos
-intelligentes, verdadeiramente interessados nos negocios publicos, têm
-uma area mais larga para o exercicio dos seus direitos; estabelecem-se
-correntes de idéas e de factos em que podem colher ensinamento e lição
-os que são capazes d'isso; e n'estas condições sempre o voto dos
-eleitores, consciencioso ou não, serve á elevação de homens distinctos,
-collocados á maior luz pela fama do seu merecimento e pelo respeito do
-seu partido.
-
-Com a lista multipla vem a necessidade de commissões politicas, que
-discutam e escolham os nomes mais prestigiosos, combinem as influencias
-locaes, aconselhem e dirijam todo o movimento. É isto uma objecção
-válida contra a lista multipla, como pretendem os defensores do outro
-systema?
-
-Pelo contrario. Fica o suffragio popular com o que elle mais precisa:
-uma grande escola; advem aos partidos uma nova força, que elles, em
-geral, só teem no nome: a força da disciplina.
-
-Não se comprehende o horror que muita gente professa pelas grandes
-commissões directoras dos partidos, quando essa mesma gente vê, sem
-magua, as que disputam o ascendente eleitoral no espaço breve e fechado
-d'uma pequena localidade; e não se comprehende porque, em primeiro
-logar, o systema da lista multipla não inutilisa as influencias que são
-legitimas, mas aproveita-as n'um sentido impessoal e mais nobre,--e
-depois é claro que aquellas commissões, no seu proprio interesse, hão de
-mostrar-se determinadas por motivos dignos da ampla discussão a que
-estão sujeitas, e da grave responsabilidade que assumem.
-
-Não ha vida publica, elevada e digna, sem partidos fortemente
-organisados. Quando a opinião é anarchica, sem principios certos e
-indicações positivas, o governo é fatalmente pessoal, sem culpa sua, por
-necessidade das cousas. Tudo o que possa dar cohesão e nervo á
-disciplina dos partidos é por tanto de aproveitar a bem da liberdade e
-da ordem, principalmente da ordem, porque, segundo um profundo conceito
-de Augusto Comte, é por esta que mais hoje se deve receiar, sendo, como
-é, a liberdade um facto radicado nos costumes e, de todo o ponto,
-superior a quaesquer tentativas para o annullar.
-
-Não é indifferente á organisação dos partidos o modo de fazer as
-eleições. Tal systema póde inutilisar todos os esforços politicos, por
-melhor commando que tenham; outro, pelo contrario, liquída e apura com
-verdade, pelo menos aproximada, as forças compromettidas n'uma lucta
-eleitoral. Na vigencia do primeiro, produzem-se a inacção e a
-indifferença; sob garantia do segundo, a actividade politica multiplica
-os seus meios de propaganda e de combate.
-
-Parece-me que, dos regimens usados e conhecidos, é a lista multipla o
-mais adequado a fomentar e entreter nos partidos o seu espirito de
-disciplina. Este regimen importa uma certa centralisação eleitoral, e
-sem esta não ha, como não ha no governo sem centralisação politica, a
-energia que convem á pratica de principios que hão de soffrer opposição,
-e á realisação de actos que teem de ser contestados.
-
-Com o voto uninominal é frequente a imposição feita aos chefes dos
-partidos, supremos representantes da sua dignidade e da sua força, pelas
-influencias locaes, que fazem questão d'uma pessoa, recusam toda a
-transacção proposta, e reclamam ainda o que julgam preço devido pela sua
-dedicação, que não passa de miseravelmente egoista. No outro systema
-taes intransigencias seriam quasi sempre impossiveis por virtude d'este
-dilemma: sujeição ao pensamento geral do partido, ou perda dos votos
-dissidentes. Como esta solução difficilmente encontraria seguidores,
-aquella viria a vingar, e, com ella, o maior lustre da vida publica, que
-está, evidentemente, em substituir as mediocridades, que o favor ou a
-dependencia dos vizinhos eleva ás assembléas legislativas, pelos
-talentos mais prestimosos e pelos mais veneraveis caracteres que
-sustentam e brazonam as aggremiações partidarias.
-
-Não falta quem, por uma notavel inversão das observações mais repetidas,
-desconheça aquella vantagem da lista multipla, e até lhe faça cargo de
-favorecer a elevação de insignificancias politicas, que só valem porque
-a opinião, n'um dos seus movimentos mais imprevistos e menos
-reflectidos, lhes põe os nomes no primeiro plano. N'esta falsa
-preoccupação escreveu o duque de Broglie[10]: _É um meio_ (a lista
-multipla) _de dar ingresso no parlamento aos corypheus do jornalismo, ás
-reputações de coterie, a estes idolos de uma popularidade facticia e
-ephemera, que um dia levanta e o dia seguinte abate e prostra no chão
-inconsistente da capital_. Não é assim. Se a illusão é possivel, e é
-algumas vezes, mais facilmente irá por deante nos pequenos circulos,
-onde os echos dos grandes centros teem sempre uma repercussão
-amplificada, do que no juizo de homens illustrados e experientes, que se
-não deixam vencer pela fascinação de effeitos postiços, quasi sempre
-preparados com uma arte de que só os ingenuos desconhecem o segredo.
-
-Não haja receio de que a lista multipla sacrifique as influencias
-particulares, que têm por objectivo o real, o verdadeiro merecimento.
-Essas subsistem, essas fazem-se valer, seja qual fôr o systema adoptado,
-porque os homens dignos e valorosos encontram sempre uma acceitação
-sympathica, e se trazem, de virtude propria, a consagração eleitoral das
-suas qualidades, tanto melhor para elles e para as causas que veem
-servir. Os que padecem, mas justamente, são os que, tendo alcançado por
-meios, bons ou máus, um certo ascendente nas povoações em que vivem,
-jogam depois com elle a sabor dos seus interesses, explorando
-conjunctamente a affeição dos seus constituintes e a necessidade e
-dependencia do seu partido.
-
-É indispensavel vêr as cousas como ellas são na realidade, e não sómente
-como as descreve a sciencia de gabinete. Não se fórma juizo seguro a
-respeito dos factos sociaes sem praticar os homens, surprehender as suas
-paixões, apreciar, pessoalmente, a intelligencia e a moralidade d'elles,
-diversas em cada classe, e acompanhal-os, de perto, nos actos mais
-importantes da sua vida publica. Não se estuda a geographia botanica
-dentro d'uma estufa; não se apprende a biologia pela só analyse d'um
-exemplar vivo; bem clara, bem simples, bem regular é a existencia das
-estrellas, e não ha uma, entre as que a astronomia conta, que não haja
-sido observada mil vezes. Como se ha de dizer, com acerto, das
-complicações do suffragio universal, se apenas se conhecem theoricamente
-de auctores, que persistem em metter a humanidade nos moldes brincados
-da sua artificiosa phantasia?!
-
-Raro adversario da lista multipla deixa de se mostrar apprehensivo pela
-grande parte que ella confere á imprensa nas evoluções eleitoraes. Mas é
-sem razão. O elogio da imprensa é um logar commum a que, applicando uma
-phrase celebre, já não vale a pena pôr gravatas brancas. A luz, que ella
-diffunde, allumia toda a vida moderna. Se fosse possivel extinguil-a,
-far-se-ia noite no espirito humano. Quantas faculdades se lhe concedam,
-quantas influencias se lhe facilitem, não serão de mais, não serão nunca
-excessivas, porque ella retribue, centuplicadas, as vantagens que se lhe
-fazem. Por isso é uma excellencia da lista multipla o que passa, entre
-muitos, pelo seu mais grave defeito.
-
-Estabelecida a lucta eleitoral, a imprensa assume as proporções d'uma
-aula solemne, em que os partidos discutem os seus programmas, relembram
-a sua historia, traçam o seu itinerario, explicam todo o seu modo de vêr
-e sentir as necessidades do seu tempo e do seu paiz. Quem é capaz de
-apprender, apprende; quem procura os elementos precisos a uma orientação
-segura, colhe-os facilmente. As questões pessoaes, em que tantas vezes a
-injuria substitue a critica, cedem o logar ás correntes de idéas, que
-circulam copiosamente, inundando todas as consciencias que a educação
-predispoz ás fecundações do ensino; e, d'este modo, as questões
-politicas, que o suffragio popular é chamado a decidir, transfiguram-se
-na sua verdadeira luz: em vez de apparecerem na fórma de um homem,
-apresentam-se e elevam-se na grandeza de uma doutrina.
-
-Em face de tudo isto não será conveniente que a direcção do suffragio
-popular, o qual é e será ainda por muito tempo um facto subalterno, suba
-da intriga local, pequena nos intuitos e indigna nos processos, para os
-conselhos centraes dos partidos, que obedecem a mais altas inspirações?
-
-Penso que é, e sem hesitação, sem uma sombra de duvida.
-
-
-VI
-
-
-A lista multipla tira ao suffragio politico o sentimento pessoal, que
-deve revestil-o, e rompe toda a intimidade necessaria entre o eleitor e
-o seu representante. Eis outro argumento vibrado contra aquelle regimen,
-e, de certo, o mais perigoso pelas falsas apparencias que o esmaltam.
-
-Aquelle sentimento é uma circumstancia sem valor; o rompimento d'aquella
-intimidade é inevitavel n'este modo de eleger, mas é excellente.
-
-O voto eleitoral não é occasião para gosos sentimentaes, as nupcias
-mysticas do cidadão com o seu representante, o vinculo sympathico de
-pessoas intimamente conhecidas, mas, simplesmente, a funcção material
-que serve a liberdade de opinião sobre os variadissimos negocios do
-Estado. Ora esta opinião exerce-se sobre idéas, e só secundariamente
-sobre pessoas; e quando se refere a pessoas, é mais ás que commandam um
-partido do que ás que formam o seu cortejo parlamentar. De maneira que a
-votação por listas, que significam programmas, traduz mais propriamente
-as legitimas intenções da liberdade politica do que o suffragio
-praticado d'outro modo. Se coincide a confiança pessoal com a convicção
-politica, o acto do eleitor é mais intenso e mais agradavel, mas o
-essencial é que elle diga como entende os negocios publicos, e não que
-nos desvele a sua particular sympathia em algum dos seus amigos.
-
-Mas, concedida a legitimidade d'aquelle sentimento pessoal, a sua
-consagração legal não dará azo aos mil inconvenientes que embaraçam e
-deshonram o suffragio universal?
-
-Dá.
-
-Em primeiro logar a lucta politica, reduzida á mera concorrencia de
-pessoas, é quasi sempre infamada por injurias, arremessadas de lado a
-lado, por doestos verbaes e impressos, por calumnias de todo o genero.
-No periodo eleitoral suspendem-se as garantias da moralidade publica, e
-todos os ruins instinctos, todos os baixos sentimentos irrompem e
-circulam desenfreiados e soltos, n'uma verdadeira profanação da
-liberdade que os tolera. E este consectario do systema uninominal é tão
-geralmente sentido, que raro publicista deixa de o ponderar com a devida
-gravidade, e de lhe procurar um remedio qualquer, que seja ou pareça
-efficaz.
-
-A representação das minorias, dando ás aspirações de todos os partidos
-uma satisfação proporcional ás suas forças, debellaria inteiramente
-aquelles desastrados effeitos; a votação por lista multipla não os acaba
-de todo, mas attenua-os muito, attenua-os consideravelmente, porque dá
-logar a combinações em que podem ser attendidas varias exigencias
-pessoaes ou politicas.
-
-Descrevendo aquelle feio aspecto do regimen eleitoral vigente, e
-fazendo-o servir á impreterivel necessidade da representação das
-minorias, disse eu na minha _dissertação inaugural_[11]:
-
-«Tem ainda contra si o actual systema o imprimir nos actos eleitoraes o
-caracter d'uma pugna violenta, intransigente, farta de odios e de
-paixões. Só quem não tem assistido a eleições é que ignora as pequenas
-miserias que se exhibem n'ellas. Todas as dependencias são invocadas e
-não ha pressão que se não exerça. A lucta é a todo o transe. Porque não
-ha espaço para todos nos ambitos da lei, o dilemma de viver ou morrer
-apresenta-se fatalmente a todos os espiritos. Os nomes dos candidatos
-apparecem aos eleitores sob esta dupla fórma: vestidos de luz e cheios
-de lama. Recontam-se anecdotas, forjam-se calumnias, o libello
-diffamatorio dos pretendentes avoluma progressivamente á medida que se
-approxima o dia fatal. A divergencia de idéas importa rompimento de
-relações, e o sentimento do odio estende-se a familias inteiras. Não
-raras vezes a violencia material, o pugilato, o assassinio até, põem
-nodoas de sangue n'aquelle acto, que devia ser incruento e pacifico. Não
-ha cidadão que sáia incolume d'um prelio d'esta ordem: um perdeu o
-amparo e a protecção que tinha; outro é logo executado pelas suas
-dividas; a vingança toma conta de todos e sacrifica-os cedo ou tarde. A
-imprensa, essa augusta tribuna da verdade, demuda-se em pelourinho de
-infamias. Finda a lucta, o espaço em que ella foi ferida fica mais
-repugnante do que um campo de batalha em que se dilaceraram dois
-exercitos: n'este alastram-se corpos mutilados, horrivelmente
-desformados, com as visagens medonhas em que a morte os surprehendeu;
-mas n'aquelle, no espaço em que se digladiaram dois partidos, ha mil
-reputações feridas de morte, ha muita dignidade trucidada; e, ao invez
-do que acontece depois d'um combate ordinario,--depois da guerra
-eleitoral continuam os odios, referve ainda a vindicta, e as paixões
-imperam com toda a força, peiores no momento da reflexão do que eram no
-momento primitivo!»
-
-O desenho afigura-se-me verdadeiro. As sombras que o escurentam são
-copiadas d'uma realidade vulgar e frequente. Verifique, quem duvidar;
-julgue, quem tiver consciencia.
-
-Mas ha peior. Aquelle systema importa o emprego de dinheiro como meio de
-seducção eleitoral, e o nosso paiz está, desgraçadamente, exemplificando
-isso com uma largueza e uma desvergonha terrivelmente assustadoras! A
-simonia politica é já, entre nós, um facto corrente. Esta infamia
-estadêa por toda a parte os attributos do seu impudor. O leilão é
-publico, á clara luz do sol, ás vistas de toda a gente! É um commercio
-de escravos, vestidos pela lei á feição de homens livres. Uma miseria e
-uma irrisão! Vendem-se individuos, freguezias, concelhos, circulos. Já é
-possivel escrever, no mappa eleitoral, á margem de muitos circulos o seu
-preço ordinario! As cousas têm progredido em tão devastadora proporção
-que, apenas aberto o periodo eleitoral, pensa-se mais, muito mais, nos
-homens de dinheiro do que nos que sabem e querem prestar serviços ao seu
-paiz e ao seu partido; e cidadãos distinctos, dignissimos do parlamento,
-vêem-se inhibidos de ir lá, ao passo que triumpha facilmente o
-argentario boçal, que considera lustre e grandeza para o seu nome o que
-é um ridiculo e uma deshonra para o seu caracter. E ha corretores
-encartados n'aquelle mercado, que surdem da sua obscuridade no momento
-opportuno, apparecem nos gremios politicos, combinam e discutem o
-pagamento dos seus serviços, e dão, com as suas physionomias
-caracteristicas, um aspecto repugnante e sordido ás reuniões e
-conferencias eleitoraes...
-
-Na Inglaterra, antes da reforma de 1832, era frequente a exhibição
-d'estes espectaculos. A expressão _burgos-podres_ vem de lá. Na França
-começa a manifestar-se esta vergonhosa enfermidade, e é Gambetta[12]
-quem a denuncía. _São costumes que principiam_ (disse o grande tribuno),
-_mas se vós sustentaes o regimen parcellar applicado ao suffragio
-universal, elles propagar-se-hão rapidamente, e vós ficareis, deante da
-historia, com esta tremenda responsabilidade: a de ter inoculado a
-gangrena do dinheiro na democracia franceza_.
-
-É certo que, estabelecido o voto plurinominal, ainda póde continuar esta
-miseravel industria, mas não é menos certo que ella ficará reduzida a
-mais restrictas proporções, e é digno de benção tudo o que contribua
-para apagar esta mancha nos costumes da liberdade.
-
-Outro inconveniente do actual modo de fazer eleições é a dependencia
-pessoal, quasi servil, do deputado para os seus constituintes. Isto é
-sabido. Ou o deputado satisfaz todas as exigencias, ainda as mais
-irracionaes, dos seus eleitores, e n'este caso a sua popularidade
-alarga-se e consolida-se, mas á custa da dignidade propria e de graves
-sacrificios da administração publica,--ou não faz isso, considera por
-outra fórma os deveres do seu mandato, e então os arcos de flores, que
-lhe festejaram a eleição, volvem-se-lhe em forcas caudinas, e o cantico
-que serviu á celebração do seu triumpho demuda-se n'um brado geral de
-indignação e de censura.
-
-Libertar o deputado d'estas relações humilhantes; collocal-o a salvo de
-tão indignas dependencias; varrer as secretarias de Estado das
-importunas pretensões, que, por necessidade, os representantes da nação
-levam lá a toda a hora; desaffrontar as camaras, vexadas por aquelle
-dilemma, e deixar o poder executivo na maior liberdade da sua
-acção,--seriam effeitos seguros, certissimos, do systema da lista
-multipla, que, só por isto, merece preferido ao que ahi vigora
-actualmente.
-
-
-VII
-
-
-Com o regimen, que defendemos, formam-se parlamentos fortes, de côr
-politica muito definida; os governos, que esses parlamentos sustentarem,
-poderão ser energicos, firmes, resolutos no desenvolvimento dos seus
-programmas. Está n'isto a sua maior vantagem, ao menos n'este momento da
-civilisação occidental. Mas nem todos veem as cousas d'este modo, e foi
-precisamente por aquelle lado que a proposta de Bardoux soffreu mais
-rijas aggressões.
-
-É facil de comprehender o motivo por que este regimen eleitoral produz
-assembléas vigorosas, muito accentuadas, e, por tanto, situações
-politicas longamente viaveis. Os homens de maior valor de cada partido
-são necessariamente os indicados para os districtos em que a victoria é
-mais provavel, e é evidente que as assembléas se caracterisam mais pela
-qualidade do que pelo numero das pessoas que as constituem. Por outro
-lado, a lista multipla retrata a opinião dominante no seu conjuncto,
-toma-a pelo seu relevo, surprehende-a e colhe-a na sua maior
-intensidade, e d'esta fórma as maiorias parlamentares representam o
-pensamento e a vontade da nação, no que esse pensamento e essa vontade
-teem de real e verdadeiro.
-
-A maior contrariedade de que padece a moderna politica é a fraqueza dos
-governos na maior parte das nações. Duram pouco, e, geralmente, vivem
-mal. Antithese completa do antigo regimen, em que a auctoridade era
-resistente e inabalavel, e o conceito da ordem, um conceito majestoso e
-terrivel, era, ao mesmo tempo, a maior preoccupação dos estadistas e o
-principal objectivo das revoluções. Hoje tudo se divide e subdivide; a
-unidade é mais um esforço do espirito do que uma propriedade das cousas;
-cada fracção social, por minima que seja, procura tornar-se
-independente; os elementos de sua natureza mais affins, em vez de se
-unirem pelas suas similhanças, que são essenciaes, separam-se e
-distinguem-se pelas suas differenças, que são apenas secundarias. Parece
-que um poderoso dissolvente foi lançado á consciencia humana, e que, sob
-a sua irresistivel acção, tudo se desorganisa, tudo se desfibra, tudo se
-decompõe!
-
-É uma verdadeira necessidade a reacção immediata contra este estado de
-cousas. Até agora a liberdade não tem dado senão o que póde o seu
-caracter negativo; é urgente que ella nos edifique com as fecundas
-germinações d'uma justiça positiva, reconstituinte, omnimodamente
-organisadora. N'um laboratorio chimico a analyse, levada ás extremas
-moleculas da materia, póde desfazer, pulverisar os objectos, e deixar
-disgregadas e soltas as particulas que os formavam. A natureza é um
-reservatorio infinito, inexhaurivel; a cohesão e a affinidade são leis
-muito superiores ás precisões do estudo e ás contingencias do acaso. Mas
-na sociologia pratica a analyse excessiva póde importar uma dissolução
-perigosa. As leis que presidem á evolução historica não podem ser
-quebradas pelo arbitrio humano, mas podem ser distrahidas da sua
-legitima direcção, e modificadas, para mais ou para menos, na sua
-progressiva intensidade. As experiencias naturaes realisam-se n'um
-determinado ponto, e o universo subsiste extranho a ellas, na grandiosa
-majestade da sua immensa força; as que se operam na consciencia
-dominam-na, affectam-na toda, reproduzem-se logo n'um milhão de
-individuos, com rapidez e facilidade inapreciaveis...
-
-Um simples relanço de olhos sobre as nações latinas, e ficará evidente a
-necessidade de fortalecer em todas ellas as instituições e os poderes
-publicos.
-
-A França ainda apenas esboçou as reformas organicas da democracia. Tem
-de revolver, e animar d'um novo espirito, todos os grandes serviços do
-Estado: exercito, escola, justiça, fazenda. O programma de Belleville
-indica summariamente o que ha a fazer desde já; da sua leitura vê-se que
-só um parlamento seguro e um ministerio largamente apoiado poderão levar
-a cabo as idéas formuladas por Gambetta e, ao que parece,
-sympathicamente recebidas por todo o paiz. Foi na conscienciosa
-comprehensão d'esta verdade que o chefe do opportunismo protegeu e
-sustentou a lista multipla; a hostilidade do Senado a esta proposta
-obstou a que a maioria da camara franceza tivesse a direcção e
-disciplina que aquelle systema eleitoral lhe havia de imprimir, e com as
-quaes o annunciado ministerio de Gambetta assentaria definitivamente,
-n'uma base indestructivel, as fórmas e os costumes da republica
-conservadora.
-
-Na Italia a onda revolucionaria, conductora do novo ideal politico,
-recresce incessantemente e sobe já, de quando em quando, os proprios
-degraus do throno. Exhibe-se n'esta nação o espectaculo unico de
-transigirem, e se accordarem na politica interna, o representante da
-fórma monarchica e os chefes do partido republicano; por isso alli a
-republica, ao estabelecer-se, deve ter uma saudação e uma benção para a
-dynastia vencida! Mas apesar da boa vontade de todos, a existencia dos
-ultimos governos italianos tem sido angustiosa e difficil. Ha muito que
-os ministerios representam, não uma opinião triumphante, mas transacções
-que uma conformidade de momento celebra, e logo qualquer divergencia
-desfaz e inutilisa. É recente a famosa crise, que se prolongou por
-algumas semanas, sem que o rei Humberto podesse escolher, á mingua de
-indicações parlamentares, um chefe de gabinete entre os tantos que se
-habilitavam para isso: Depretis, Zanardelli, Sella, Crispi, Nicotera...
-N'estas condições, o que a Italia necessita é uma reforma eleitoral, que
-lhe dê camaras disciplinadas, inspiradas n'um pensamento commum, com
-energia necessaria á resolução dos grandes problemas interiores e
-diplomaticos, que as circumstancias lhe formulam e impõem no actual
-momento. Um projecto de reforma n'este sentido foi já apresentado; é
-crivel que seja brevemente convertido em lei do paiz.
-
-A Hespanha é outro claro argumento da these sujeita. Ella não deve o seu
-relativo bem-estar senão á dominação conservadora de Canovas del
-Castillo, que realisou o extranho milagre de se equilibrar n'aquelle
-meio inconsistente, onde cada idéa que nasce traz implicita a febre
-d'uma revolução, onde os partidos são aguerridos como exercitos e
-fanatisados como seitas, onde a concepção theocratica, combatida ha
-cinco seculos, é ainda uma escola militante, e o federalismo
-communalista uma doutrina publica, com historia, com hierarchia e com
-programma! O actual ministerio, de côr liberal, está, a estas horas, na
-prova mais solemne da sua competencia e da sua lealdade; é de receiar
-que não sáia d'esta prova tam galhardamente como deseja, porque, apesar
-da excellente lei eleitoral de 1878[13], não tem ainda todas as
-condições precisas para caminhar sem estorvos, e ir adeante, e depressa,
-ao seu fim.
-
-Entre nós existe, na maior parte das consciencias, uma aspiração
-vehemente para progredir, mas falta vontade, decisão pratica,
-determinação decidida para requerer, de modo efficaz, as reformas
-necessarias. A esta indolencia da nação corresponde a esterilidade dos
-governos. O systema eleitoral vigente, longe de a combater, favorece a
-inercia nacional, porque toca apenas na superficie do espirito publico,
-em vez de o interessar intimamente, revocando-o á vida, obrigando-o a
-luctar. Sob este aspecto, Portugal diverge profundamente de outros povos
-da mesma communidade historica. Ao passo que n'esses é flagrante a
-disparidade entre a força da opinião e a energia dos governos,--no nosso
-paiz é tão fraca a opinião como os governos são debeis, timidos,
-incoherentes. Se um logra conservar-se por mais tempo, é á indifferença
-publica que deve a sua duração. Mas dura, não vive. Se, de quando em
-quando, desperta uma agitação qualquer, não se ennobrece com ella a
-liberdade. Em geral, não é o sentimento da justiça que a determina; é a
-sensação da fome que lhe dá origem. E, satisfeita a fome, recomeça o
-entorpecimento...
-
-É por tanto evidente que se necessita em todos estes Estados politica
-activa, com pensamento certo e facilidade de acção, e que isso não
-poderá conseguir-se senão fabricando novos moldes em que o suffragio
-universal assuma proporções largas, completas, em substituição das
-pequenas fórmas em que elle ahi se retalha e desfigura. A fortaleza do
-poder é a primeira garantia da verdadeira liberdade; quem se arreceia de
-governos vigorosos não tem, de certo, a melhor comprehensão do fim do
-Estado, ou assiste de olhos cerrados á assombrosa multiplicação de
-encargos e deveres, que a civilisação vai creando de dia para dia, de
-hora para hora, no commercio, na industria, em todas as applicações do
-direito, em todas as repartições do trabalho humano.
-
-Disse, n'um dos numeros precedentes, que a votação por lista multipla,
-com representação das minorias, seria um regimen eleitoral perfeito;
-depois tentei demonstrar que a mais instante necessidade de hoje é a
-formação de parlamentos que representem a opinião publica, não nos seus
-infinitos desvios, mas nas linhas principaes, mais salientes e mais
-caracteristicas. Parecem contradictorias estas duas affirmações, porque
-a representação proporcional de todos os partidos accidenta, n'uma
-grande variedade, as assembléas legislativas, e tira-lhes a força que
-resulta da unanimidade ou, quando esta não é possivel, do accordo do
-maior numero.
-
-Mas a antinomia é só apparente. Se todos os partidos forem representados
-na proporção das suas influencias, a opinião mais seguida no momento
-eleitoral vingará uma justa maioria que a exprima e faça valer. Estando
-n'essa maioria e nas restantes fracções os homens de mais extremado
-valor, a camara terá a elevação d'uma escola onde as doutrinas sociaes
-serão discutidas com seriedade e applicadas com prudencia. Por outro
-lado, as divisões parlamentares, que correspondem realmente a aspectos
-diversos da consciencia publica, não são as que enfraquecem mais o poder
-legislativo; as que o debilitam e embaraçam a olhos vistos são as que se
-improvisam no seio de assembléas artificiaes, arranjadas pela habilidade
-dos politicos, de todo o ponto alheias ao pensamento da sociedade, que
-ellas teem a pretensão, ingenua ou cynica, de comprehender e significar.
-N'este caso a ambição pessoal organisa grupos, inventa programmas,
-colore bandeiras, consagra distincções, estabelece categorias, finge que
-serve doutrinas, e, com grande dispendio de phantasia e de arte, logra
-dar a um parlamento, que a urna não produziu de sua virtude propria, as
-postiças apparencias d'uma differenciação real e positiva! E, ainda
-n'esta vulgarissima hypothese, vê-se frequentemente surdir no primeiro
-plano um homem sem cortejo partidario, sem imprensa sua, erguendo a
-propria vaidade á altura d'uma indicação politica, reclamando o direito
-de governar, atirando com a sua personalidade ao meio da lucta, como se
-o certamen fôsse de pessoas apenas, e não tambem de doutrinas! São estas
-divisões que esterilisam e deturpam o systema representativo, não as que
-resultam de partidos realmente existentes; e tanto mais que, em geral,
-sómente dois d'estes disputam com interessado empenho a posse immediata
-do poder, limitando-se um dos extremos a formular os protestos do
-passado, com uma logica vencida e uma sentimentalidade facil, e
-satisfazendo-se o outro em desenhar, com mão mais corajosa do que
-acertada, as nebulosas prespectivas d'um futuro muito distante...
-
-A lista multipla, ainda que não tenha a intenção de representar as
-minorias, póde conseguir approximadamente este effeito. Quando a votação
-é só d'um nome, é impossivel a união das minorias; quando é d'uma lista
-de nomes, nada mais facil do que combinarem-se em alguns d'elles. Para
-isto requer-se apenas uma condição: a de que estejam organisados os
-partidos, obedecendo todas as suas influencias a uma impulsão central.
-Desde que se constituam assim, na verdadeira realidade e na precisa
-ostentação da sua força, serão frequentes as concessões reciprocas, e as
-maiorias serão predominantes, mas não esmagadoras. E quebrar-se-hão nas
-mãos dos empregados administrativos algumas armas das que elles mais
-certeiramente apontam á liberdade dos eleitores, porque é muito mais
-facil assediar e vencer o corpo eleitoral no espaço cerrado d'um pequeno
-circulo, do que n'um amplo districto onde as resistencias se multiplicam
-sempre, e a estrategia da defesa tem de ser, por necessidade, mais
-complicada e mais segura[14].
-
-Em resumo: não é facil incluir n'uma fórmula todas as exigencias da
-politica de hoje. São complexas como a sociologia, a que pertencem,
-cambiantes de momento para momento, como tudo o que se refere á fórma
-dos agrupamentos humanos. Mas parece-me que a mais clara de todas as
-indicações é a que visa a reestabelecer em novos fundamentos a missão
-dos governos, que deve ser mais comprehensiva do que a fazem os
-melindres d'uma mal entendida liberdade, e superior em força ao que ella
-é actualmente nos povos de mais graduada civilisação. Tambem é certo que
-não ha governos fortes sem uma solida opinião que os sustente, e que
-esta, para que seja válida, tem de ser colhida, não por meios que a
-fraccionem, mas com emprego de processos, que a recebam inteira e viva.
-Para este effeito a lista multipla é mil vezes mais apta do que a
-votação d'um só nome. Aquella dá-lhe o retrato em tamanho natural; esta,
-funccionando a pouca luz e com machinas de pequeno alcance, apenas tira
-essas miniaturas imperfeitissimas, em que se convencionou que o povo
-reconhecesse a sua imagem.
-
-
-VIII
-
-
-Li, não sei onde, que Lord Derby chamára á revolução franceza de 1848 um
-_salto nas trevas_. É felicissima a phrase. O suffragio universal, que
-tem a sua mais solemne consagração n'aquella data, lançou a politica
-n'um caminho de aventuras, escabroso, cortado de incertezas, não
-deixando vêr dois passos seguros para deante do logar occupado.
-
-Até hoje o excesso da lei tem sido annullado pela habilidade, mais ou
-menos digna, dos estadistas. Alguns, sinceramente convictos de que a
-liberdade é como a formularam os clubs revolucionarios de 1848, fazem a
-sua côrte permanente ao suffragio universal, tem com elle toda a sorte
-de attenções, simulam que o consultam ainda quando procuram
-impressional-o ou esclarecel-o, e, se alguma vez o attraiçoam, não ha
-véo que não lancem sobre a sua infidelidade. Outros, descrentes
-d'aquella instituição por effeito de reflexão ou por commodidade da
-propria indolencia, corrompem-n'a, viciam-n'a, desvirtuam-n'a,
-violentam-n'a se é preciso, acariciam-n'a ou insultam-n'a consoante a
-opportunidade, e sempre conseguem vencer, com armas boas ou más, as
-resistencias que ella lhes oppõe.
-
-O passado é isto. O presente assimilha-se-lhe. Como será o futuro? A
-interrogação é difficil, e não é indifferente á sensibilidade de quem a
-formúla que a resposta seja de um ou de outro modo. Presente-se que terá
-um termo a meia somnolencia em que vivem alguns povos, talvez por
-effeito d'esta dupla causa: a fadiga do trabalho consummado, um immenso
-trabalho de negação e de critica, e o desalento produzido pelas mil
-difficuldades a vencer ainda na reconstituição de tudo o que foi abatido
-e desmantelado.
-
-D'aquelle torpor desperta-se por uma agitação forte. Mas de que origem
-ha de vir? Mas em que sentido deve ser? Mas que tempo póde durar?... A
-agitação vale, serve, é excellente para sacudir uma geração adormecida
-pelo habito ou prostrada pelo cansasso; como regimen permanente, e ainda
-como expediente muito repetido, é a negação de tudo o que a natureza diz
-e a historia repete. Por meios compassados e gradações evolutivas é que
-a nossa especie se desenvolve, desde o estado rudimentar, em que ella é
-um mysterio cheio de sombras, até á perfeição de hoje, em que ella é já
-um enigma cheio de luzes. Os movimentos bruscos, os impulsos violentos
-são, na sociedade, como os remedios heroicos na therapeutica:
-necessarios, mas raros e perigosos. Collocar um individuo,
-constantemente, sob a acção convulsionada d'uma pilha electrica sería
-desconcertar o seu systema nervoso, e abreviar-lhe a existencia
-atormentada e esteril; ter a humanidade no sobresalto contínuo de crises
-successivas e de revoluções interminaveis é deslocal-a dos seus
-fundamentos, impellil-a e desvial-a do seu equilibrio, desligal-a dos
-seus mais caros interesses, e tirar-lhe, a final, o proprio gosto da
-vida! O pessimismo, como escola moral, não é um facto alheio a estas
-situações anomalas.
-
-Luctar é viver, diz-se. É uma phrase das muitas que se constellam na
-memoria dos povos, mais para seu damno do que para sua utilidade. A que
-lamentaveis erros conduzem! A que desvairamentos levam! Desde crimes
-individuaes até grandes perturbações collectivas, a phraseologia de
-effeito, repartida em fracções accommodadas a todos os momentos, tem
-operado um mal enorme, complexo, irreparavel! Está por escrever a sua
-historia, que demanda uma sondagem profunda e uma observação
-delicadissima.
-
-Luctar é viver, mas descansar é tambem viver. A verdade é isto. A
-propria natureza a exemplifica. Os vulcões não irrompem todos os dias do
-seio abrazeado da terra; na machina complicada do corpo humano
-revesam-se os orgãos no trabalho mais intenso da vida; a morte é o
-somno, é o socego preciso á grande força mysteriosa que sustenta e anima
-tudo. Se a humanidade tivesse sómente necessidades politicas a
-satisfazer, se mais nenhum grande interesse a preoccupasse, ainda a
-civilisação da _cidade_ teria de effectuar-se n'um progresso contínuo,
-mas lento. Exemplo: a de Athenas no periodo de sua gloriosa hegemonia.
-Em combinação com aquellas necessidades existem, porém, outras que se
-compadecem menos com surprezas e instabilidades, e hão de formular-se e
-cumprir-se a salvo das intermittencias radicaes, que ameaçam d'uma
-excessiva prodigalidade o presente e o futuro. A industria, o entranhado
-amor ao que se cria ou se possue, a vantagem, tão legitima, de se contar
-com o dia seguinte, o direito de cada cousa a desenvolver-se antes de
-transformar-se, são outros tantos obstaculos irremoviveis ao proposito,
-aliás generoso e sympathico, de accelerar o movimento da historia na
-ousada proporção da logica das doutrinas.
-
-A liberdade politica é uma creação enorme, uma _génese_ complicada, a
-ascenção gradual, successiva, das consciencias todas á posse absoluta de
-si mesmas. Mas entre o nada e a ordem ha o chaos, e é este o periodo que
-atravessamos, e o espirito de Deus mal começa a deslisar pela superficie
-irrequieta das cousas, na sua missão de as definir, nivelando as que são
-eguaes, differenciando as que são diversas.
-
-Ponderando as antinomias do suffragio universal, escrevia, ha pouco,
-Alberto Wolf, o jornalista francez que possue a mais completa fórmula da
-politica conservadora:
-
-_Tout pour le peuple, rien par le peuple._
-
-Sim, mas ha duas pequenas dificuldades: a de convencer o povo de que se
-deixe governar, e a de apparecer quem lhe inspire confiança. A abdicação
-obrigada é impossivel, porque elle tem a força; a abdicação voluntaria é
-improvavel, porque elle conhece a historia...
-
-Não é sem dôr que o meu espirito comprehende assim os factos d'este
-tempo. Se a verdade não fosse infinitamente amavel, invejaria o
-romanesco optimismo dos que, sobreviventes d'um systema condemnado, ahi
-se desatam ainda em festivas saudações ao que julgam felicissimo reinado
-da liberdade e do direito. Desservem a humanidade, mas gosam os prazeres
-egoistas d'uma illusão, que deve ser deliciosa.
-
-Quero dizer que a sciencia exclue o sentimento? De modo algum. Toda a
-philosophia tem uma sensibilidade propria. Na fórmula actual dos
-destinos da nossa especie está implicita a maior acção que os grandes
-corações podem produzir e empregar. Quando o pantheismo dominava as
-consciencias, a natureza e a sociedade estavam na perennal divinisação
-d'uma arte formosissima; compunham-se na mais esplendida luz os quadros
-do presente; as prespectivas do futuro, ridentes de abundosas
-esperanças, eram o encanto e o enlevo de quem as contemplava. A
-phantasia humana revia-se, contentissima, na sua propria obra! Mas este
-systema passou, acabou. Ninguem o reviverá. A prosa eloquente de Renan,
-o ultimo pantheista, não é a revelação d'uma escola viva, actual; é
-apenas o vestigio luminoso e perfumado d'uma grande illusão que se
-extinguiu... É outra hoje, e muito diversa, a inspiração sentimental das
-cousas. É melhor? É peior? É, simplesmente, mais verdadeira. Menos vaga,
-mas mais determinada, mais precisa, mais util. Não abarca tanto espaço,
-mas envolve-o, circumda-o, aperta-o mais estreitamente. Não tenta
-romper, aguia valentissima, as bramas cerradas do futuro, nem desfere
-vôo na direcção do sol; mas as suas azas desdobram-se como anteparo e
-abrigo, e a sua vista, que os grandes deslumbramentos não ferem,
-conserva-se limpida e penetrante sobre a terra de que não foge!
-
-É d'esta sentimentalidade que se impressionam quantos veem claramente as
-contradicções que a liberdade inclue, as incertezas gravissimas de que
-está cheio o mais proximo futuro. Ha sómente duas soluções: o povo
-reclama a direcção de si mesmo, ou continúa sob tutella. No primeiro
-caso, será tumulto, anarchia, conflicto permanente o que devera ser
-progresso e paz, liberdade e ordem. No outro, quem sabe como elle será
-dirigido, se o explorará a ambição, se a lisonja o adormecerá nos seus
-braços insidiosos, se o despotismo o vencerá por muito tempo, se, por
-tudo isto, elle terá de recomeçar infinitas vezes a ascenção da
-suspirada montanha, onde o espirito é livre, amplo o horisonte e o ar
-purissimo!
-
-Tudo é possivel. O salto foi grande, mas... _foi nas trevas_, como disse
-Lord Derby.
-
-
-*Notas:*
-
-[1] _Politique Actuelle_, pag. 249.
-
-[2] _La Politique_, pag. 277 e 278.
-
-[3] _Les elections nouvelles et la vieille politique_--_Revue de la
-Phil. Posit._, septembre-octobre, 1881.
-
-[4] _As Eleições_, pag. 24.
-
-N'este opusculo, fortemente pensado e escripto com grande eloquencia,
-procura o sr. Oliveira Martins resolver o problema eleitoral pela
-representação organica das categorias sociaes. Apreciando a obra do
-radicalismo individualista, que só foi excellente na sua parte critica,
-attribue-lhe com evidentissima razão a geral desordem de interesses e de
-idéas que caracterisa a evolução politica do nosso tempo. «Por ter
-cahido a crença no principio esoterico, onde se estribava a hierarchia
-das classes, cahiu tambem a organisação inteira. Ao apagar-se a luz
-dentro do sanctuario desabaram as paredes por terra. Em nome da
-liberdade prégou-se a destruição de tudo. Do principio de que em todos
-os homens havia capacidade juridica egual, deduziu-se o de que, entre os
-homens, eram todos aptos para tudo, e assentou-se em que á lei não
-cumpria especialisar funcções, nem dividir o trabalho, nem tornar
-independentes os orgãos sociaes. Opinou-se e fez-se. A sociedade passou,
-em nome da liberdade, a ser uma massa inorganica de homens, um cahos,
-onde os individuos, como os elementos nas edades geologicas, deixam
-debater e debatem os seus interesses e paixões, agitando-se á tôa,
-inteiramente entregues a si, e abrindo por tal fórma a era das
-revoluções e das crises permanentes ou successivas» (pag. 35).
-
-A observação é profunda e exacta. O gravissimo defeito da nossa
-civilisação está aqui apontado com coragem e verdade. Cahiu em
-descredito o optimismo dos que pensavam que as consciencias individuaes,
-libertas das pressões antigas, tinham, de propria iniciativa, o poder de
-se organisar, e que a solidariedade humana era um sentimento universal,
-independente de qualquer consagração politica. A reacção contra a
-concepção _atomistica_ do Estado é um facto geral na mais moderna
-sciencia; mas, como é natural, não falta quem a exaggere fóra de termo e
-medida. O ultimo numero da _Philosophia Positiva_ dá conta de um livro
-em que Armand Hayem intenta provar que as _classes sociaes constituem
-fórmas tão irreductivas como as de especie e de raça_! A verdade é muito
-menos do que isto. As classes têm um estreito laço de união, que é a
-communidade do mesmo interesse profissional, mas isso não é bastante
-para alterar as linhas predominantes na physionomia moral dos povos. A
-preoccupação profissional não é tão intensa que importe modificações
-organicas; por outro lado a successão dos officios ou misteres sociaes
-dentro das familias é excepcionada a cada momento.
-
-O sr. Oliveira Martins intenta remediar os inconvenientes do actual
-estado de cousas reestabelecendo a Ordem, não com o velho conteúdo
-d'este termo, mas com a realidade de todas as forças, de todos os
-elementos activos, que são o nervo e a substancia das nações. «Desde que
-a origem do Poder é immanente e social, o modo de tornar concreta ou
-positiva essa auctoridade é constituil-a por meio da reunião de todos os
-orgãos da sociedade n'um corpo uno. Esses orgãos são de varias
-naturezas: são as classes ou profissões, base economica da sociedade;
-são as escolas e as instituições, base intellectual e administrativa;
-são as regiões, base natural e geographica. A reunião d'esses orgãos
-constitue a sociedade, e o Estado, que a exprime syntheticamente, têm de
-formar-se por emanações ou delegações de cada um d'elles.» Os periodos
-transcriptos resumem o pensamento todo do eminente publicista, que, com
-Hartmann, considera a Vontade como synthese do Estado, e, com Krause,
-comprehende o direito como um principio de coordenação, só com a
-differença de que o philosopho allemão deduzia-o da propria essencia do
-Bem, manifesta na consciencia, ao passo que o sr. Oliveira Martins
-infere-o da observação objectiva de factos biologicos e sociaes.
-
-A indole d'este trabalho, e a forçada rapidez com que escrevo,
-inhibem-me de consagrar á apreciação do systema exposto o espaço que
-seria preciso. Por isso resumo em poucas palavras a impressão que me
-deixou a recente leitura do sr. Oliveira Martins.
-
-Muito antes d'este illustre escriptor, em 1830, o eminente Silvestre
-Pinheiro Ferreira combatia a representação dos individuos, consagrada
-nas instituições da Inglaterra e dos Estados Unidos, e d'ahi trasladada
-para todos os paizes liberaes. Queria a representação dos tres estados:
-_propriedade_, _industria_, _serviços publicos_, subdivididos esses
-estados nas suas classes naturaes. «É falso, dizia elle, que n'um
-determinado assumpto em que divergem especialistas, possam ter opinião
-segura individuos dotados apenas de conhecimentos geraes; é absurdo que
-uma opinião de especialistas possa ser annullada por uma maioria de
-homens que não têem, para julgar o objecto em discussão, senão aquelles
-conhecimentos geraes.» (_Cours de Droit Public interne e externe_, pag.
-373 e seg.).
-
-Seja dicto de passagem que este absurdo, se o é, seria sempre inevitavel
-desde que não houvesse para cada classe um parlamento soberano.
-
-Não me parece que a representação dos _estados_ ou das categorias
-resolvesse as difficuldades sentidas por aquelles illustres pensadores;
-e ainda que tal se conseguisse, não seria isso de realisação facil e
-immediata.
-
-Em primeiro logar, essa representação não faria variar o suffragio pelo
-que respeita á sua extensão. Deixava-o como está, como a historia o
-produziu. E o grande inconveniente de attribuir o direito de voto a
-individuos analphabetos subsiste n'esta theoria, como necessariamente
-tem de subsistir em todas, porque a razão dos homens cultos é e será
-sempre impotente contra a corrente dos factos consummados. Além d'isto,
-o suffragio universal não ficaria efficazmente descentralisado, visto
-que todos os cidadãos da mesma categoria teriam egual ingerencia
-politica; e é certo que de individuo para individuo da mesma classe ha
-muitas vezes maior differença de nivel intellectual do que de classe
-para classe ou de categoria para categoria. Isto pelo que respeita á
-eleição da maior parte dos representantes; para a de alguns, propõe o
-sr. Oliveira Martins o suffragio universal em unidade de collegio, o que
-não diminue, antes aggrava os actuaes inconvenientes.
-
-A organisação dos grupos naturaes e convencionaes da sociedade é
-necessaria, será utilissima, mas isso resolverá, quando muito, metade
-das difficuldades; ainda fica tudo o que se refere á adaptação d'um
-delicadissimo instrumento politico, qual é o suffragio, a individuos e
-classes que não sabem usal-o, não comprehendem a sua funcção, nem
-calculam o seu effeito.
-
-Por ultimo, afigura-se-me que a lei é inefficaz para influir nas classes
-um novo espirito de solidariedade, e o que ellas têm não lhes dá a
-cohesão e disciplina necessarias para a realisação prática d'aquelle
-projecto. Tendo desapparecido as razões historicas que mantiverem cada
-classe dentro da sua area definida; tendo acabado a necessidade que
-havia de resistir, por aquelle meio, a conflictos que já hoje não podem
-ter logar, julgo que o Estado, havendo de limitar-se a consagrar o que
-existe, não lograria a pretendida reorganisação, que, por outro lado, o
-preconceito radical prejudicaria por todas as fórmas. Se o nosso paiz
-não chegou a comprehender ainda a necessidade e a virtude do principio
-de associação...
-
-[5] _Principios e Questões de Philosophia Politica_--I.
-
-[6] _Gouvern. Représ._, pag. 226.
-
-[7] _La Politique_, pag. 275.
-
-[8] «Art. 38.º A eleição de deputados faz-se por circulos eleitoraes.
-
-«Art. 39.º Os circulos elegem um deputado por cada 6:500 fogos.
-
-«Se a fracção restante dos fogos de qualquer circulo eleitoral for egual
-ou superior a 4:332 fogos, eleger-se-ha mais um deputado.
-
-«Art. 40.º O continente de Portugal, as ilhas adjacentes e as provincias
-ultramarinas são, para este fim, divididas nos circulos que constam do
-mappa juncto.
-
-«O numero de deputados, que compete a cada circulo eleitoral, é o que se
-acha designado no mesmo mappa.»
-
-Segundo este decreto, o continente, as ilhas adjacentes e as provincias
-ultramarinas comprehendiam 48 circulos, e elegiam 156 deputados. D'estes
-circulos o maior, pertencente ao districto de Vizeu, tinha 47:416 fogos,
-e elegia 7 deputados. Faziam excepção ao principio geral, estabelecido
-n'este decreto, os circulos de Macau e de Solor e Timor, cada um dos
-quaes elegia sómente um deputado.
-
-[9] O sr. Oliveira Martins considera a representação das minorias um
-expediente provisorio, acceitavel como meio de combater, em parte, o
-vicio das organisações vigentes, mas inefficaz para regenerar a pratica
-do suffragio universal. «Minoria, maioria, são expressões relativas do
-numero dos eleitores; a minoria é ainda uma maioria, porque, a menos de
-se achar reduzida a um voto, representa sempre um numero superior a um
-outro. E, perante a critica, como se distingue entre o valor de uma
-minoria de 100, de 20, de 2 votos?» (_Eleições_, pag. 51).
-
-Discordo do sr. Oliveira Martins n'esta parte da sua publicação, por
-tantos titulos recommendavel. Afigura-se-me que o trahiu n'este ponto o
-criterio, talvez exaggeradamente negativo, com que o seu grande
-entendimento invade e desbasta o que encontra estabelecido na
-philosophia e na historia. É isto apenas defeito d'uma eminente
-qualidade, a meu vêr.
-
-Um pensamento social ou politico, que não agremiou ainda uma
-consideravel quantidade de cidadãos, está longe da sua verdade
-historica, e por isso não tem direito a ser representado no parlamento,
-que é destinado á discussão das doutrinas vivas, de interesse immediato,
-questionadas pela opinião geral, e não á apresentação e defesa de
-convicções isoladas, que só um longo discurso de tempo póde apurar e
-desenvolver. Antes de entrarem nas assembléas deliberativas, aquellas
-convicções têm o seu tirocinio e a sua prova na sciencia e na
-propaganda.
-
-Mas ainda que a representação não seja proporcional e completa, e fiquem
-algumas escolas politicas sem consagração eleitoral, é isso razão para
-rejeitar um systema que melhora o actual estado de cousas e satisfaz uma
-grande parte do ideal democratico? Não. Está longe de ser boa norma
-scientifica desprezar o que é menos defeituoso só porque não é
-absolutamente perfeito.
-
-Preoccupado com a idéa de realisar a representação das classes, idéa
-digna de sérias meditações, esquece-se o sr. Oliveira Martins de que
-dentro da mesma classe ha sempre conflictos de opiniões e antagonismos
-de interesses, e de que a lei da maioria, applicada á hypothese da sua
-organisação social, produziria o despotismo do numero, certamente mais
-damnoso do que o actual, porque n'aquella hypothese a politica teria de
-ser mais intensa na sua força e muito mais comprehensiva na sua
-applicação do que é hoje.
-
-[10] _Vues sur le gouvernement de la France_, pag. 162.
-
-[11] _Principios e Questões de Philosophia Politica_, pag. 119 e 120.
-
-[12] Discurso de 19 de maio, na discussão da proposta de Bardoux.
-
-[13] Tem a data de 28 de novembro, e é assignada pelo ministro da
-_governação_, Francisco Romero y Robledo.
-
-N'uma carta celebre, dirigida por E. Castelar a E. Girardin, pouco antes
-da morte d'este eminente jornalista, affirmava o grande tribuno
-hespanhol que aquella lei era a mais perfeita de toda a Europa. Tinha
-toda a razão. Quem extranhou e combateu aquelle juizo desconhecia as
-melhores theorias do direito eleitoral, ou nunca tinha lido as
-disposições da lei de 28 de novembro. Esta lei resolve, em grande parte,
-as maiores difficuldades do suffragio politico: o despotismo das
-maiorias, e a excessiva intervenção dos governos. Contra a primeira
-adopta o conhecido systema da _lista incompleta_, não em toda a extensão
-da Hespanha, mas nos seguintes districtos, que são os mais importantes
-de todo o paiz: Madrid, Barcelona, Sevilha, Cadiz, Carthagena, Palma de
-Mallorca, Jerez de la Frontera, Valencia, Malaga, Murcia, Tenerife,
-Zaragoza, Granada, Alicante, Almeria, Badajoz, Burgos, Cordoba, Coruña,
-Jaen, Lugo, Oviedo, Pamplona, Santander, Tarragona, Valladolid (artt.
-2.º e 84.º); e tambem, no mesmo intuito, para corrigir o inconveniente
-de ainda ficarem muitos circulos uninominaes, admitte, em cada camara,
-10 deputados que tenham obtido em diversos districtos, e em eleição
-geral, em minoria ou empate, a accumulação de 10:000 votos cada um, pelo
-menos (art. 115.º). A este systema de accumulação tem devido o seu
-ingresso no parlamento hespanhol alguns dos homens mais benemeritos e
-notaveis. Ainda na recente eleição geral se aproveitou d'elle o illustre
-Salmeron.
-
-Para garantir a genuinidade do voto tem excellentes disposições,
-designadamente a que prohibe nomeações, transferencias, suspensões de
-empregados administrativos de qualquer categoria, no periodo que vai
-desde o decreto que convoca os collegios eleitoraes até que esteja
-concluida a eleição, sempre que taes actos não sejam fundamentados em
-causa legitima (art. 147.º).
-
-D'este simples extracto vê-se que a apreciação de Castelar era
-profundamente verdadeira. A França, a Inglaterra, a propria Dinamarca
-não merecem comparadas á Hespanha n'este importantissimo ramo da
-administração publica.
-
-[14] Do mappa seguinte vê-se, approximadamente, qual tem sido a
-proporção em que os partidos teem podido resistir á pressão eleitoral
-dos governos. O mappa designa o numero de deputados opposicionistas no
-principio de cada legislatura, numero que, como é sabido, varia depois
-por influencia de varias causas... Até 1859 vigorou a lista multipla;
-n'este periodo a opposição conseguiu, termo medio, vingar mais
-candidaturas do que sob o regimen eleitoral inaugurado n'aquella data. E
-é de notar que os primeiros annos immediatos ao movimento de 1852 foram
-assignalados por uma pacificação, relativamente grande, para a qual
-contribuiram a fadiga das luctas de 1844 a 1851 e a nefasta corrupção
-politica de Rodrigo da Fonseca Magalhães.
-
------------------------------------------------+--------------
- Duração das legislaturas | Deputados
- desde 1852 a 1881 | da Opposição
------------------------------------------------+--------------
-15 de dezembro de 1851 a 24 de julho de 1852 | 34
- 2 » janeiro » 1853 » 19 » julho » 1856 | 35
- 2 » janeiro » 1857 » 26 » março » 1858 | 38
- 7 » junho » 1858 » 23 » novembro » 1859 | 24
-26 » janeiro » 1860 » 27 » março » 1861 | 15
-20 » maio » 1861 » 18 » junho » 1864 | 40
- 2 » janeiro » 1865 » 20 » maio » 1865 | 32
-30 » julho » 1865 » 14 » janeiro » 1868 | 47
-15 » abril » 1868 » 23 » janeiro » 1869 | 53
-26 » abril » 1869 » 20 » janeiro » 1870 | 12
-30 » março » 1870 » 21 » julho » 1870 | 14
-15 » outubro » 1870 » 3 » junho » 1871 | 18
-22 » julho » 1871 » 9 » abril » 1874 | 10
- 2 » janeiro » 1875 » 4 » maio » 1878 | 11
- 2 » janeiro » 1879 » 20 » agosto » 1879 | 32
- 2 » janeiro » 1880 » 4 » junho » 1881 | 19
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-End of the Project Gutenberg EBook of Principios e questões de philosophia
-politica (Vol. II), by António Candido Ribeiro da Costa
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