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+Project Gutenberg's Obras posthumas, by Nicolau Tolentino de Almeida
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: Obras posthumas
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+Author: Nicolau Tolentino de Almeida
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+Release Date: July 3, 2011 [EBook #36608]
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+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OBRAS POSTHUMAS ***
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+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
+
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+
+
+
+
+
+
+OBRAS
+
+POSTHUMAS
+
+DE
+
+NICOLÁO TOLENTINO
+
+DE ALMEIDA.
+
+
+
+LISBOA, 1828.
+
+NA TYPOGRAPHIA ROLLANDIANA.
+
+_Com Licença da Meza do Desembargo
+do Paço._
+
+
+
+
+_A Sua Alteza._
+
+
+SONETO I.
+
+
+Tornai, tornai, Senhor, ao Tejo undoso,
+ Vinde honrar-lhe outra vez a clara enchente,
+ E deixai que ajoelhe entre a mais gente
+ Hum protegido humilde, e respeitoso.
+
+Não leva a vossos pés rogo teimoso
+ De importuno cansado pertendente;
+ Vem beijar-vos a mão humildemente,
+ A mão augusta que o fará ditoso.
+
+Pois foi por Vós benignamente ouvido,
+ Não vai fazer em pertenções estudo,
+ Vai só mostrar-vos que he agradecido.
+
+Ante Vós ajoelha humilde, e mudo:
+ Mostrai-lhe que inda he Vosso protegido;
+ Que se isto lhe ficou, ficou-lhe tudo.
+
+
+
+
+_A Sua Alteza.­_
+
+
+SONETO II.
+
+
+Qual naufrago, Senhor, que foi alçado
+ Por mão piedosa d'entre as ondas frias,
+ Tal eu de antigas duras agonias
+ Por vossas Reaes mãos fui resgatado:
+
+Pois vencestes as teimas do meu fado,
+ E já vejo raiar dourados dias,
+ Deixai que possa em minhas poesias
+ O vosso Augusto Nome ser cantado.
+
+Não he digna de vós minha escriptura,
+ Nem harmonia, nem estilo a adoça;
+ Mas valha-lhe, Senhor, vontade pura.
+
+Principe excelso, consentí que eu possa
+ Fazer inda maior minha ventura,
+ Contando ao mundo que foi obra Vossa.
+
+
+
+
+_Sahindo Conselheiro da Fazenda o Illustrissimo, e Excellentissimo
+Senhor D. Diogo de Noronha_.
+
+
+SONETO III.
+
+
+Nem sempre em verdes annos a imprudencia
+ Produz irregular procedimento:
+ N­em sempre encontra o humano entendimento
+ Só perto do sepulcro a sã prudencia.
+
+Em Vós não esperou a Providencia
+ Que longas cans vos dêm merecimento:
+ Em Vós mostrou que estudos, e talento
+ Valem mais do que a larga experiencia.
+
+Os eruditos velhos Conselheiros,
+ Depois que o vosso voto alli for dado,
+ Serão de Vós eternos pregoeiros:
+
+E dirão que deveis ser escutado
+ Onde os Ministros vossos companheiros
+ Não sejão da Fazenda, mas do Estado.
+
+
+
+
+_Aos leques mui pequenos, chamados Marotinhos._
+
+SONETO IV.[1]
+
+
+Fofo colchão, as plumas bem erguidas,
+ E sobre os hombros nas jucundas frentes
+ De enrolado cabello anneis pendentes,
+ Longos chorões, bellezas estendidas,
+
+Era esta das­ matronas presumidas
+ A moda, que trazião bem contentes;
+ Rião-se dellas as modestas gentes
+ Vendo pequenas poupas esquecidas.
+
+Nisto a gentil Madama aperaltada,
+ Grande auctora de trastes exquisitos,
+ Nova moda lhe inventa abandalhada.
+
+Reprova-lhe aureos leques com mil ditos.
+ Eis senão quando (oh moda endiabrada!)
+ Abanão-se com azas de mosquitos.
+
+
+
+
+_O cruel disfarce._
+
+SONETO V.
+
+
+Sem murmurar padecerei callado
+ Cumprindo o teu preceito violento:
+ Faltava a envenenar o meu tormento
+ Dever ser por mim mesmo disfarçado.
+
+De trazer o semblante socegado
+ Farei o inculpavel fingimento:
+ Nos olhos mostrarei contentamento,
+ Tendo hum punhal no coração cravado.
+
+Este peito onde nunca engano viste,
+ Que não sabe a vil arte de affectar-se,
+ Onde a verdade, e a intacta fé­ existe,
+
+Martyr do amor, e do infiel disfarce,
+ Nas tuas adoraveis mãos desiste
+ Té dos tristes direitos de quei­xar-se!
+
+
+
+
+_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Visconde de Ponte de Lima,
+Secretario de Estado_.
+
+
+SONETO VI.
+
+
+A longa cabelleira branquejando,
+ Encostado no braço de hum Tenente,
+ Cercado de infeliz chorosa gente
+ Hia passando o velho venerando.[2]
+
+Geraes repostas para o lado dando:
+ «Sim Senhor; Bem me lembra; Brevemente;»
+ Na praguejada mão omnipotente
+ Nunca lidos papeis hia aceitando.
+
+Mas eu que já esperava altas mudanças,
+ Melhor tempo aguardei, e na algibeira
+ Metti a Petiçã­o, e as esperanças.
+
+Chegou, Senhor Visconde, a _viradeira_:
+ Soltai-me a mim tambem destas crianças,
+ Onde tenho o meu Forte da Junqueira.
+
+
+
+
+_Fazendo Annos a Illustrissima, e Excellentissima Senhora Marqueza de
+Angeja._
+
+
+SONETO VII.
+
+
+Senhora, ha muito tempo pertendia
+ Ser do vosso favor patrocinado:
+ Mil vezes vos quiz dar este recado;
+ Porém sempre o respeito me impedia.
+
+Chegou em fim o venturoso dia
+ A fazer beneficios destinado:
+ Vou neste privilegio confiado;
+ Que a não ser isso não me atreveria:
+
+Vou pedir que descendo da Cadeira,
+ Onde explico os crueis Quintilianos,
+ Me ensineis a tomar melhor carreira.
+
+Que em mim ponhais os olhos soberanos,
+ E que me chegue em fim a _viradeira_[3]
+ No faustissimo dia destes annos.
+
+
+
+
+_Aos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde d­e
+Avintes._
+
+
+SONETO VIII.
+
+
+A varonil idade florecente
+ Vos tece, illustre Heróe, annos dourados­
+ Para serem á Patria consagrados;
+ Pois sois de Almeidas claro descendente.
+
+Sobre as terras, e mares do Oriente
+ Inda vejo os trofeos alevantados:
+ Vejo beber mil corpos aboiados
+ Do turvo Gange a fervida corrente.
+
+No difficil caminho d'honra, e gloria
+ Por ferro, e fogo a seus bons Reis servindo,
+ Vos deixão por doutrina a sua historia.
+
+Forão diante o duro passo abrindo:
+ Entrai, Senhor, no Templo da Memoria,
+ Os­ bons Avós, e o illustre Pai seguindo.
+
+
+
+
+_Estando nas Caldas_.
+
+
+SONETO IX.
+
+
+Por mais que vos alongue olhos cansados,
+ Olhos ha tanto tempo descontentes,
+ Não vedes mais que pallidos doentes
+ Por mãos estranhas n'agoa sustentados.
+
+Quantas vezes ficastes magoados
+ Por ver ir entre as fervidas correntes
+ Envolvidas mil lagrimas ardentes
+ Do que em vão quer alçar braços mirrados!
+
+Vistas são estas de bem pouco gosto;
+ Poré­m bem pagos ficareis hum dia
+ Quando virdes de Arminda o lindo rosto.
+
+E o pranto, que atégora vos cahia
+ De lastima, d'auzencia, e de desgosto,
+ Ella o fará correr; mas de alegria.
+
+
+
+
+_A huns Annos._
+
+
+SONETO X.
+
+
+Foi este o dia em que a teus pés baixárão
+ Venus, e as lindas Graças innocentes,
+ E em torno do aureo berço reverentes
+ Ao som de alegres hymnos te embalárão.
+
+Aos teus olhos gentís communicárão
+ Cruel poder de conquistar as gentes:
+ Mil suspiros, mil lagrimas ardentes
+ A muitos corações prognosticárão.
+
+Dérão-te huma alma heroica, hum nobre peito:
+ Dérão-te discrição, e formosura,
+ Dons a que o mundo está mui pouco afeito.
+
+Mas, oh humana sorte, triste, escura!
+ Para na terra nada haver perfeito,
+ Dérão-te hum coração de pedra dura.
+
+
+
+
+_Ao disfarce das Mulheres._
+
+
+SONETO XI.
+
+
+Vens debalde, oh bellissima perjura,
+ C'o lindo rosto em lagrimas banhado:
+ Já fui por ti mil vezes enganado,
+ E sempre me affectaste essa ternura.
+
+Esse alvo peito, que he de neve pura,
+ Mas de aço, e fino bronze temperado,
+ Encobre hum coração refalseado,
+ Hum coração de viva rocha dura.
+
+Em vão trabalhas, se enganar-me queres,
+ Vejo correr com animo sereno
+ Esse pranto em que fundas teus poderes:
+
+Mal inventado ardil: ardil pequeno:
+ Tu mesma me ensinaste, que as mulheres
+ Misturão com as lagrimas veneno.
+
+
+
+
+_A huma Camponeza._
+
+SONETO XII.
+
+
+Não morão em palacios estucados
+ Almas singelas, almas extremosas:
+ Nutrem da Corte as damas enganosas
+ Em tenros peitos corações dobrados.
+
+Venhão por longos mares conquistados
+ As Indianas sedas preciosas:
+ Cubrão-lhe as carnes alvas, e mimosas
+ Ricos vestidos em Paris bordados.
+
+São isto effeitos da arte, e da ventura:
+ Estimo mais que toda a vã grandeza
+ Hum limpo coração, huma alma pura.
+
+Não na Corte; das serras na aspereza
+ Fui achar innocencia, e formosura,
+ Sagrados dons da simples Natureza.
+
+
+
+
+_A huma Dama interesseira._
+
+
+SONETO XIII.
+
+
+Podião ser felices meus amores
+ Quando por ouro o amor se não vendia:
+ Já de palavras Nize desconfia,
+ Só crê ou em dinheiro, ou em penhores.
+
+Vio-me assaltado d'ancias, e temores
+ Quando na porta irada mão batia:
+ Por costume infeliz ella sabia
+ Que era algum dos cansados acredores.
+
+Forão-se os dias bemaventurados,
+ Em que só almas grandes, peitos nobres,
+ Erão do Deus de amor agazalhados:
+
+Negro destino hoje preside aos pobres:
+ Poz termo a bella Nize aos seus agrados,
+ Vendo esta bolça condemnada a cobres.
+
+
+
+
+_Ao faustissimo dia da Inauguração da Estatua Equestre­ d'El-Rey
+Fidelissimo o Senhor D. José I._
+
+
+SONETO XIV.
+
+
+Em quanto o Reino cheio de ternura
+ Ao grande Bemfeitor te ha consagrado,
+ E respeita aos teus pés ajoelhado
+ O Rey Augusto de quem és figura:
+
+Em quanto os que me vencem em ventura
+ Abrindo o antigo cofre chapeado,
+ Mandão de prata, e d'ouro recamado
+ Entretecer a rica vestidura:
+
+Eu que não tenho desta louçania,
+ De outra sem pejo sahirei composto,
+ Que não cede á mais fina pedraria.
+
+São ternissimas lagrimas de gosto:
+ Nem infama o triunfo deste dia
+ Quem põe por gala o coração no rosto.
+
+
+
+
+_Descripção de­ Badajoz._
+
+
+SONETO XV.
+
+
+Passei o Rio, que tornou atraz,
+ Se acaso he certo o que Camões nos diz,
+ Em cuja ponte hum bando de Aguazis
+ Registrão tudo quanto a gente traz.
+
+Segue-se hum largo, em frente delle jaz
+ Longa fileira de baiucas vís:
+ Cigarro acezo, fumo no nariz,
+ He como a companhia alli se faz.
+
+A cidade por dentro he fraca rez,
+ As moças põem mantilhas, e andão sós,
+ Tem boa cara; mas não tem bons pés.
+
+Isto, coifas de prata, e de retroz,
+ E a cada canto hum sórdido Marquez,
+ Foi tudo quanto vi em Badajoz.
+
+
+
+
+_Á Serenissima Princeza entrando no banho._
+
+
+SONETO XVI.
+
+
+Nynfas do Téjo já por mim cantadas,­
+ Nossa Augusta Princeza esta presente;
+ Pedí-lhe, que honre a placida corrente,
+ E as agoas ficaráõ mais prateadas.
+
+Diante de seus pés ajoelhadas
+ Em justo acatamento reverente,
+ Serenem vossas mãos a clara enchente,
+ E as frias agoas corrão temperadas.
+
+Sobre as ondas as frentes levantando,
+ Ao tempo que as douradas tranças bellas
+ Brandamente lhe fordes enxugando,
+
+Dizei-lhe, que sustento Irmãas donzellas,
+ Outras viuvas; e ide-lhe lembrando,
+ Que o bem que me fizer he feito a ellas.
+
+
+
+
+_Levantando-se o Author da meza de hum Grande por serem horas de ir para
+a Aula._
+
+
+SONETO XVII.
+
+
+Não tomando em desprezo o escuro estado
+ Em que me poz Fortuna, e Natureza,
+ Olhastes sem horror minha baixeza,
+ E fizestes sentar-me ao vosso lado.
+
+Então de ingrata obrigação chamado
+ Deixei á força a companhia, e a meza,
+ E inda cheio de ideias de grandeza
+ Vim dar por thema hum Verbo conjugado.
+
+Não sei com dous oppostos conformar-me;
+ Soffrem-me os Grandes, sou taful, e moço,
+ Não sei a _Senhor Mestre_ costumar-me.
+
+Taes extremos, Senhor, unir não posso;
+ De dous genios não sou: mandai fechar-me
+ Ou a minha Aula, ou o Palacio vosso.
+
+
+
+
+_Ao Excellentissimo Senhor Marquez de Penalva chegando o A. á quinta das
+Lapas._
+
+
+SONETO XVIII.
+
+
+Hum triste fatigado caminhante
+ Chega a Vós, Illustrissimo Penalva:
+ Co'a mão na espada a augusta Casa salva
+ Segundo as leis de cavalleiro andante.
+
+Sobre ronceiro fraco Rocinante,
+ Que pesca a dente encontradiça malva
+ Por duras rochas, por areia calva
+ Cem vezes pronta morte vio diante.
+
+Cuidando achar aqui melhores fados,
+ Aos pés de outro Rocim, por novo caso,
+ Quasi que vio seus dias acabados.
+
+Quiz correr junto a Vós sobre o Pegaso:
+ Cahio, e por sinal colheis regados
+ Do sangue seu os louros do Parnaso.
+
+
+
+
+_Descripção de hum Peralta amaltezado._
+
+SONETO XIX.[4]
+
+
+Hum vulto cuja fórma desconsola
+ Pelo muito que mostra o pouco sizo,
+ E que pela pobreza do juizo
+ Mil trastes exquisitos desenrola:
+
+Chapeo que bem carrega hum mariola,
+ E que ainda aos sizudos causa rizo,
+ Cazaqui­nha cortada de improvizo,
+ Fivela que lhe vem de sola a sola:
+
+Espantalho que em praça nunca falta
+ Sem ter occupação nem má, nem boa,
+ Que apenas moça vê logo lhe salta:
+
+Eis-aqui, sem medir qualquer pessoa,
+ Breve quadro de hum mi­sero Peralta,
+ Que affecta de Maltez cá em Lisboa.
+
+
+
+
+_Aos Annos do Serenissimo Principe Nosso Senhor._
+
+
+SONETO XX.
+
+
+Foi este, Alto Senhor, o santo dia,
+ O Ceo o concedeo, o Ceo que he justo
+ Afflicto o Povo, posto em dôr, e em susto
+ Com lagrimas ardentes lho pedia.
+
+O fertil Ganges nas entranhas cria
+ Offertas para Vós, Principe Augusto,
+ E ajoelhado na praia o Povo adusto
+ Rico thesouro a vossos pés envia.
+
+Ao Reino tecereis dias dourados,
+ Sem precizar que os Fastos Lusitanos
+ Vos contem as acções dos Reis passados.
+
+Ponde os olhos nos vivos Soberanos,
+ Estudai-lhe as doutrinas, e os cuidados,
+ E a patria acclamará os vossos Annos.
+
+
+
+
+_A hum Leigo Arrabido vesgo, despedido da Meza do S. C. P. Silva, por
+tomar a melhor pera da Meza. He o de que se trata nas Decimas, Tom. II.
+pag. 178_, Ferio sacrilega espada.
+
+
+SONETO XXI.
+
+
+O vesgo monstro que co'a gente ralha
+ E de manhãa a todos atravessa,
+ A cuja hirsuta sordida cabeça
+ Nunca chegou juizo, nem navalha;
+
+Que os gazeos olhos pela meza espalha
+ Por ver se ha mais comer que tire, ou peça,
+ Entrando nelle com tal fome, e pressa
+ Qual faminto frizão em branda palha;
+
+Por crimes de alta gula, e pouco sizo,
+ De meza bem servida, mas severa,
+ Foi n'hum dia lançado de improviso.
+
+Hoje chorando o seu perdão espera:
+ Perdêrão dous glotões o Paraiso,
+ O antigo por maçãa, este por pera.
+
+
+
+
+_Aos toucados altos._
+
+
+SONETO XXII.[5]
+
+
+Foi ao Manique hum homem accusado
+ Por contrabandos ter; elle sciente
+ Chama a quadrilha, corre diligente,
+ Entra, busca, e não acha o Malsinado.
+
+Acha a mulher, que tinha por toucado
+ A torre de Belem: ella que o sente,
+ Banhada em pranto, desmaiada a frente,
+ Prostra por terra o corpo delicado.
+
+C'o boléo se esbandalha a mata espessa,
+ Sahem della esguiões, cassas lavradas,
+ E de belbute trinta e huma peça,
+
+Fivelas, espadins, rendas bordadas:
+ Até tinha escondido na cabeça
+ O marido, e tres arcas encouradas.
+
+
+
+
+_Mettendo a ridiculo humas contradanças_.
+
+
+SONETO XXIII.
+
+
+N'huma tremula s­ala mal armada
+ Com placas velhas, e papel pintado;
+ Clamava já o povo alvoroçado
+ Que fosse a Favorita começada.
+
+Guincha em venal rabeca desgrudada
+ De velho musico o arco estuporado:
+ Cadeia, grita hum muito suado,
+ Olhem que vai a contradança errada.
+
+Ne­rvoso chispo, saborosas frutas
+ He fazenda que alli nunca governa:
+ Aquellas bocas andão sempre enxutas.
+
+Nunca mais alli tórno a fazer perna:
+ Quanto mais val o ir com quatro trutas
+ Fazer huma função n'huma taberna.
+
+
+
+
+_Por occasião de estranharem ao Author hum sonho que a ninguem
+offendia._
+
+
+SONETO XXIV.
+
+
+Atiça, ó moço, a moribunda chama
+ Dessa faminta, sordida candêa,
+ E encostado á parede cabecêa,
+ Posta de guarda ao pé da minha cama.
+
+Se o sono, que em meus olhos se derrama,
+ E os languidos sentidos me encadêa,
+ Tentar com sonhos esta pobre idéa,
+ Em altos gritos por meu nome chama:
+
+Assenta-me na cara essas mãos frias:
+ Pois ves o fructo, que sonhando tiro,
+ Corta em raiz traidores fantasias.
+
+Contra os sonhos desde hoje me conspiro:
+ Se ao primeiro me dizem heresias,
+ Em sonhando outros pregão-me hum tiro!
+
+
+
+
+_Á moda dos chapeos maiores da marca._
+
+
+SONETO XXV.
+
+
+Amigos, e Senhor meu, de França, ou Malta
+ Hum chapeo mande vir a toda a pressa;
+ A cópa que me ajuste na cabeça;
+ Mas as abas na fórma a mais peralta.
+
+A detraz que me fique muito alta,
+ A prezilha, e botão pequena peça:
+ Estimarei que disto não se esqueça;
+ Que a demora me faz bastante falta.
+
+Gostei muito do invento, he bem traçado,
+ Porque vi no Loreto hum certo dia
+ Muito povo a correr para o Chiado,
+
+Para ver hum Senhor, quem tal diria:
+ C'hum chapeo de tal fórma desmarcado
+ Que nem a gente a pé passar podia.
+
+
+
+
+_Ás fivelas chamadas a la Chartre._
+
+
+SONETO XXVI.
+
+
+Oh quantos Mexicanos patacões,
+ Mareados talheres já sem par,
+ Á tonta Avó o neto vai furtar
+ De mofentos­ decrepitos caixões:
+
+Fundidos em quadrados fivelões
+ Para á Chartres o neto passear,
+ Traz nos pés a baixela singular
+ Que podia servir em correões.
+
+Capitão Vento-Sul, rico Hollandez,
+ Que de prata subtil pequenos Ós
+ Servem só de fivelas nos teus pés,
+
+Vem admirar-te, vendo que entre nós
+ Traz o pobre peralta Portuguez
+ Por fivelas molduras de tremós.
+
+
+
+
+_A huma Velha presumida._
+
+
+SONETO XXVII.
+
+
+Debalde sobre a face encarquilhada
+ Pendendo louros bugres emprestados,
+ Dás inda ao louco amor teus vãos cuidados,
+ Em carmins enganosos confiada.
+
+Postiça formosura, em vão comprada,
+ Não torna atraz os annos apressados:
+ Nem alvos dentes de marfim talhados,
+ Tornão em nova a tremula queixada.
+
+De ti no mesmo tempo que do Gama
+ Cantou mil bens a Deosa Trombeteira,
+ A que os baixos Poetas chamão Fama:
+
+Porém sempre ficaste em boa esteira;
+ Porque, se já não prestas para dama,
+ Inda serves mui bem como terceira.
+
+
+
+
+_Aos Annos de huma formosa Dama._
+
+
+SONETO XXVIII.
+
+
+Deixai, Pastores, na montanha os gados,
+ Vinde ao sitio melhor desta campina
+ Beijar a mão á bella, e peregrina
+ Deidade tutelar dos nossos prados:
+
+Vinde offertar-lhe aos annos celebrados
+ O cravo, a roza, a angelica, a bonina;
+ E ao mais suave som da flauta fina
+ Decantar seus illustres predicados.
+
+Mas já a cercão pastores, e pastoras;
+ Huma lhe beija a mão, outra o vestido;
+ Elles a coroão de vistosas flores,
+
+E em doces vozes todo o rancho unido
+ Canta que ella he a Deosa dos Amores;
+ Pois tem no rosto as settas d­e Cupido.
+
+
+
+
+_A Sua Alteza._
+
+
+SONETO XXIX.
+
+
+Nesta cansada triste poesia
+ Vedes, Senhor, hum novo pertendente,
+ Que aborrece o que estima toda a gente,
+ Que he ter no mundo cargos, e valia.
+
+Sobre alto throno ha annos que regia
+ De docil povo turba obediente:
+ Mas quer antes sentar-se humildemente
+ N'hum banco da Real Secretaria;
+
+Qual modesto Capucho reverendo,
+ Que em fim de Guardiania triennal
+ Passa a Porteiro as chaves recebendo.
+
+Em mim conheço vocação igual:
+ E co'a mesma humildade hoje pertendo
+ Passar de Mestre a ser Official.
+
+
+
+
+_A hum Padre Guardião._
+
+
+SONETO XXX.
+
+
+Meu Padre Guardião, que exemplarmente
+ Regeis essa Capucha Sociedade,
+ Que munida do véo da Santidade
+ Passa como não passa a mais da gente:
+
+Vós que á força de braço omnipotente
+ Fazeis tremer do inferno a potestade,
+ E aos exorcismos só de hum vosso Frade
+ Se explica o Demo em Portuguez corrente:
+
+Logo que dessa estola o forte escudo
+ Buscar esbelta Nynfa, que atacada
+ Seja d'algum Demonio surdo, ou mudo,
+
+Mandai dos Márques conte a trapalhada:[6]
+ Pois só elle, que foi o que urdio tudo,
+ Sabe quem commetteo a velhacada.
+
+
+
+
+_Em louvor de Caporalini, Actor do Theatro de S. Carlos._
+
+
+SONETO XXXI.
+
+
+No grão Theatro vejo sempre enchentes:
+ As cans annosas, os cabellos louros,
+ Illustradas nações, barbaros Mouros,
+ Todos da tua voz ficão pendentes.
+
+Que importa que não deixem descendentes
+ Teus ex-virís deshabitados couros;
+ Que importa que tu roubes aos vindouros
+ Se enriqueces, se encantas os presentes?
+
+Não he traição ao sexo feminino;
+ He só razão quem te elogia, e preza,
+ Comico Mestre, Musico divino.
+
+Oh nação de harmonia, e de crueza!
+ O teu ferro nem sempre he assassino:
+ Não i­nsultou, honrou a natureza.
+
+
+
+
+_Achando-se o Author prezo dos bellos olhos de Marcia._
+
+
+SONETO XXXII.
+
+
+Eu vi a Marcia bella, vi Cupido
+ Com arco, settas, e cruel aljava,
+ Com impeto sahir de donde estava,
+ E voar para mim enfurecido.
+
+Fugí; bradei: porém não fui ouvido;
+ E o tyranno Rapaz que me buscava,
+ Com huma, e outra setta me atirava,
+ Até de todo me deixar rendido.
+
+Atou-me as mãos com asperas cadeias,
+ Sem o mover o sangue que corria
+ Do roto coração, das rotas veias.
+
+Antes, com frio rizo me dizia:
+ «E não sabias tu, que Amor receias,
+ Que nos olhos de Marcia Amor vivia?»
+
+
+
+
+_Sobre a Ingratidão de huma Dama._
+
+
+SONETO XXXIII.
+
+
+Coração, de que gemes, de que choras?
+ Que parece tens odio á propria vida!
+ Se perdeste teu bem, foi mão perdida,
+ Com te pôr a morrer nada melhoras.
+
+Eu bem sei­ que a belleza a quem adoras,
+ Foi-te ingrata, e cruel, foi fementida;
+ Mas que esperavas tu, se he lei sabida
+ O mudar-se a Mulher todas as horas.
+
+Socega, Coração, deixa a tristeza;
+ Quem te mandou querer com fé tão pura,
+ Quem te mandou mostrar tanta firmeza!
+
+Erraste, tem paciencia, em fim procura
+ Não fazer por Mulher jámais fineza,
+ Acharás mais amor, maior ventura.
+
+
+
+
+CANTIGAS
+
+_Feitas nas Caldas com o Estribilho:_
+
+
+ _Negras tristezas,
+ Adeos, adeos._
+
+Não ha nas Caldas­
+Melancolia,
+Dão alegria
+Os ares seus.
+ _Negras tristezas,
+ Adeos, adeos._
+
+Sara-me a terra,
+E não as agoas:
+Não curão magoas
+Os banhos seus.
+ _Negras &c._
+
+Huns lindos olhos,
+Que o dia aclárão,
+Afugentárão
+Os males meus.
+ _Negras &c._
+
+Brandos­ sorrizos
+A furto dados
+Fazem dourados
+Os dias meus.
+ _Negras &c._
+
+Se entra nos banhos
+Marilia bella,
+Entra com ella
+O cego Deos.
+ _Negras &c._
+
+Alli tempéra
+Nas agoas puras
+As pontas duras
+Dos ferros seus.
+ _Negras &c._
+
+Enxuga as tranças
+Da Nynfa loura,
+E nellas doura
+Os farpões seus.
+ _Negras &c._
+
+Caldas ditosas
+Teu nome cresça,
+Alça a cabeça
+Até­ os Ceos.
+ _Negras &c._
+
+O pobre Anfriso,
+Que estas calçadas
+Deixou regadas
+Dos olhos seus,
+ _Negras &c._
+
+Hoje em triunfo
+De seus pezares
+Levanta altares
+De Gnido ao Deos.
+ _Negras &c._
+
+
+
+
+ENDECHAS.
+
+
+
+No sacro Templo
+ Que Amor habita
+ Minha alma afflicta
+ Fui immolar.
+
+Na ruiva flamma
+ Que silva ardendo
+ A mão detendo
+ Jurei-te amar.
+
+Fumoso sangue,
+ Mal findo o voto,
+ Do peito roto
+ Vi gotejar.
+
+D'alma opprimida
+ A insana pena
+ Causou-lhe El­ena
+ Que soube amar.
+
+N­os fidos peitos
+ O morto lume
+ Negro Ciume
+ Hia ateiar.
+
+Vulcano féro
+ Ante Mavorte
+ O rival forte
+ Não póde olhar.
+
+Dos desprezados,
+ Que soffrem tanto,
+ O rouco pranto
+ Feria o ar.
+
+Aqui jaz Delio
+ Terno, e vencido.
+ Sem de Cupido
+ Premio alcançar:
+
+Que Dafne esquiva,
+ Com triste agouro,
+ Em verde louro
+ Vio transformar.
+
+Pan segue a Nynfa,
+ Que tanto adora;
+ Seu fado chora
+ Vendo-a mudar.
+
+De tenras cannas
+ Amor lhe manda,
+ Que a frauta branda
+ Vá fabricar.
+
+Cercada Dido
+ De angustias fêas,
+ Ah falso Eneas!
+ Se ouve bradar.
+
+Seus lindos olhos
+ Frouxos erravão;
+ Em vão buscavão
+ O vago mar.
+
+Subtís enredos
+ De acerbo dano
+ Bifronte engano
+ Eu vi tramar.
+
+Por Thisbe bella,
+ Que busca errante,
+ Pyramo amante
+ Vai acabar.
+
+Conhece a amada
+ O infeliz erro,
+ Ousa impio ferro
+ Em si cravar.
+
+Serve-lhe a terra
+ De duro leito,
+ Vê-s­e-lhe o peito
+ Inda arquejar:
+
+As pardas sombras;
+ Que Amor mistura,
+ Na Estyge escura
+ Vão aportar:
+
+Desenrugando
+ A crespa fronte,
+ Lédo Acheronte
+ As foi buscar.
+
+E eu combatido
+ De mil pezares
+ Vou pelos ares
+ A suspirar.
+
+Sei ser-te amante
+ Sem premios vivo,
+ Este o motivo
+ Do meu penar.
+
+Vês mil exemplos,
+ E jámais pensas
+ Que póde offensas
+ Amor vingar.
+
+Ah! sê piedosa:
+ As­ cruas penas
+ Torne serenas
+ Teu brando olhar.
+
+
+
+
+_Em dia dos annos do Illustrissimo Principal Almeida._
+
+
+Por mais que esse sangue honrado
+Vos inspire os pondonores
+De merecer os louvores
+E não querer ser louvado,
+Este dia he consagrado
+A elogios soberanos:
+Sem vir enfeitar enganos
+Com mão venal, e fingida,
+Em contar a minha vida
+Louvarei os vossos annos.
+
+Tecêrão-me em baixo estado
+A Fortuna, e a Natureza:
+Entre os­ braços da Pobreza
+Fui desde o berço lançado.
+Pelas vossas mãos alçado
+Quebrei da desgraça o fio:
+
+Se da crua fome, e frio
+Livro o Pai­, livro os Irmãos,
+He obra das vossas mãos,
+E faz o vosso elogio.[7]
+
+
+
+
+MOTE.
+
+
+_Olhos de Lize, olhos bellos,
+Olhos para mim fataes,
+Que hum vosso girar sómente
+Me faz temer mil rivaes._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Da alva Lize os brancos dentes,
+O rosto affavel, e brando,
+A boca, donde em fallando
+Ficamos todos pendentes,
+Nos lizos hombros patentes
+Soltos os longos cabellos
+Não são causa dos desvellos­,
+Nem das ancias em que vivo:
+Vós sois, vós sois o motivo,
+Olhos de Lize, olhos bellos.
+
+Vós sois os meus vencedores,
+E sois gloria do vencido:­
+De vós me atira Cupido
+Mil farpados passadores.
+Se vence o Deus dos Amores,
+Vós as armas lhe emprestais.
+Que ternos saudosos ais,
+Que pranto em vão derramado,
+Me não tendes vós custado,
+Olhos para mim fataes!
+
+Se o rosto ao Ceo levantado
+Alçais as pestanas pretas,
+Logo de brilhantes setas
+Vejo todo o ar cruzado.
+Cupido, que tem jurado
+Crua guerra á humana gente,
+Das nuas costas pendente
+Dura aljava, e passadores,
+Fará conquistas menores
+Que hum vosso girar sómente.
+
+Quando desses claros lumes
+Sahem as chammas brilhantes;
+De mil rendidos amantes
+Ouço saudosos queixumes.
+Não chameis loucos ciumes,
+Ó Lize, os que em mim causaes:
+Do poder de huns olhos taes
+Quem ha que livrar-se possa,
+Se a menor perfeição vossa
+Me faz temer mil rivaes?
+
+
+
+
+MOTE.
+
+
+_Tu teimas em desprezar-me,
+Eu teimo em te idolatrar,
+Juntarei teima com teima,
+Teimando te hei de abrandar._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+De ser comigo piedosa
+Não dás, Marilia, esperanças:
+Inda, cruel, não te cansas
+De ser esquiva, e teimosa!
+Que importa, ó Ninfa formosa,
+Vir neste pégo arriscar-me,
+De mergulho ao mar lançar-me,
+E os livres peixes colher-te;
+Se quanto eu teimo em querer-te,
+Tu teimas em desprezar-me?
+
+C'os olhos ao Ceo erguidos,
+Ou postos nos longos mares,
+Por ti encho os vagos ares
+De mil saudosos gemidos:
+Nos rochedos desabridos,
+Que em vão bate o rouco mar,
+Devorando o meu pezar,
+Já que de ouvi­-lo te cansas,
+Sem premio, sem esperanças
+Eu teimo em te idolatrar.
+
+Teimando, se mal não penso,
+Hei de abrandar teus rigores;
+Porque assim como em amores,
+Tambem em teimas te venço.
+Juro pelo Sol intenso,
+Que a prumo estas rochas queima,
+Que mais do que eu ninguem teima.
+São as causas desiguais:
+Mas por vêr quem teima mais,
+Juntarei teima com teima.
+
+Se alva fonte murmurando
+Gasta em torno os duros seixos,
+E vai dos annosos freixos
+As raizes escarnando:
+Se duras rochas quebrando
+Vai c'o tempo o bravo mar:
+Se bronzes póde cortar
+Mordente lima teimosa:
+Tambem eu, Ninfa formosa,
+Teimando te hei de abrandar.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+
+_Não sei que quer a desgraça,
+Que atraz de mim corre tanto:
+Hei de parar, e mostrar-lhe
+Que de ve-la não me espanto._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Não sei que outro mal profundo
+Inda a desgraça me guarda,
+Se me tirou em Anarda
+O que tem de bom o mundo!
+Foi este golpe tão fundo,
+Que outro não tem que me faça:
+Se em levar-me o gesto, e a graça
+De huns olhos, por quem vivia,
+Me fez quanto mal podia,
+Não sei que quer a desgraça!
+
+Debalde outros gostos pintas,
+Amor, para cativar-me:
+Já não tornas a enganar-me,
+Por mais, e mais que me mintas.
+Inda tens as settas tintas,
+Inda enxugo inutil pranto:
+Ao teu venenoso encanto
+Novas victimas procura;
+E dá-lhe dessa ventura,
+Que atraz de mim corre tanto.
+
+Fizeste, ó desgraça, hum erro
+Em vires do Amor valer-te:
+Como ha de elle socorrer-te,
+Se eu já conheço o seu ferro?­
+Á sua voz o ouvido cerro:
+Custou-me sangue o escapar-lhe:
+E para melhor provar-lhe,
+Que eu já sou dos seus cortados,
+Sinaes inda mal fechados
+Hei de parar, e mostrar-lhe.
+
+Tu só me déste hum desgosto,
+Outro já não pódes dar-me:
+Já agora sempre has de achar-me
+A mesma alma, e o mesmo rosto,
+Se em ferros por ti for posto,
+Verás que ao som delles canto;
+Se envolta em sanguineo manto
+Me pões a morte diante,
+Notarás no meu semblante,
+Que de ve-la não me espanto.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+_Os meus olhos a chorar._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Pranto inutil são os meios
+Das pessoas desgraçadas:
+Pagai, lagrimas cansadas,
+Pagai delictos alheios.
+Já que de ouro cofres cheios
+Nunca pude a Nize dar,
+Já que devo em fim pagar
+Culpa, que só tem meus fados,
+Fiquem sempre condemnados
+Os meus olhos a chorar.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+_Já disse tudo a Cupido._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Na vossa ­gentil figura
+Mil dões natureza pôz:
+Todos cuidão que sois vós
+A Deosa da Formosura.
+Venus mil vinganças jura,
+Vendo o seu culto esquecido:
+Vai de settas o ar ferido.
+Senhora, andai cuidadosa,
+Que a louca Deosa invejosa
+Já disse tudo a Cupido.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+_Distancias, e saudades._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+As nodosas carvalheiras,
+Que assombrão hermas estradas;
+Altas rochas, penduradas
+Sobre medonhas ribeiras;
+Duras, íngremes ladeiras,
+Escuras concavidades;
+São as tristes soledades,
+A quem meu cansado peito
+Conta o mal, que lhe tem feito
+Distancias, e saudades.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+
+_Cantarei alegres penas,
+Que cercão meu coração._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Que eu cante alegre me ordenas?
+Que cruel, que dura Lei!
+Porém obedecerei,
+Cantarei alegres penas:
+Por todo o modo envenenas
+A minha infeliz paixão;
+Tu déras valor á acção
+De eu affectar alegrias,
+Se visses as agonias
+Que cercão meu coração.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+
+_Nada no mundo figura,
+Quem não chega a ter amor._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Deos de Amor, sempre a ventura
+De tuas mãos pendente vi:
+Tu pódes tudo; sem ti
+Nada no mundo figura.
+Recolhe da terra dura
+Fructo immenso o Lavrador;
+Mas occulto dissabor
+No fundo da alma lhe diz,
+Que não chega a ser feliz
+Quem não chega a ter amor.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+
+_Amor para me prender
+Os teus olhos me mostrou._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Mil bellezas me fez vêr,
+Porque alguma me rendesse,
+Não sabia o que fizesse
+Amor, para me prender.
+Mil laços me foi tecer,
+Laços vãos, que em vão me armou;
+Provadas settas tirou,
+Que hia em veneno ensopando;
+Porém só me rendi quando
+Os teus olhos me mostrou.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+
+_A minha felicidade._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Cesse, ó Nize, o teu rigor:
+Esse odio injusto reprime:
+Perdem o nome de crime
+Os crimes que faz amor.
+Torne ao seu antigo ardor
+A nossa antiga amizade:
+Adoça a rigoridade
+Do penoso estado meu,
+E faze c'hum riso teu
+A minha felicidade.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+
+_Quem adora occultamente
+Sem declarar seu amor
+Sente mil ancias no peito,
+Vive cercado de dôr._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Por que barbara razão
+Hum justo amor se reprime,
+E ha de julgar-se por crime
+Pôr na boca o coração?
+Claros olhos ferir vão
+Hum coração innocente;
+Nem ao triste se consente
+Dar sinaes de seu cuidado!
+Deoses! quanto he desgraçado
+Quem adora occultamente!
+
+No peito a chamma accendida
+As entranhas lhe abrazou;
+Mas da ingrata, que a ateou,
+He crime ser percebida.
+Se deita sangue a ferida
+Á vista do matador,
+Vejão de que nova dôr
+Sente o triste a alma cortada,
+Fallando co'a sua Amada
+Sem declarar seu amor!
+
+Arde em hum fogo escondido:
+Pois­ se conta o seu cuidado,
+Além de ser desgraçado,
+Chamão-lhe em cima atrevido.
+Até quasi tem perdido
+De olhar o livre direito;
+Vive sempre contrafeito;
+E entre mil contrarios posto,
+Mostra alegria no rosto,
+Sente mil ancias no peito.
+
+Busca alegres companhias,
+Por curar o mal que sente:
+Entra a ingrata de repente,
+Despertão-se as­ cinzas frias.
+Ternas Arias, Synfonias,
+Tudo aviva o seu amor;
+Mas dos fados o rigor
+Tem sobre elle taes poderes,
+Que no meio dos prazeres
+Vive cercado de dôr.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+
+_Nos olhos o amor explico
+Que trago no coração;
+Que não se póde occultar
+No peito a doce paixão._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Mandas-me, ó Anarda, em vão
+Os olhos meus reprimir;
+Que elles sempre hão de seguir
+O impulso do coração.
+Sem querer sinaes daráõ
+Do affecto, que não publíco:
+Co'a boca, que mortifico,
+Que importa que o não revele,
+Se eu, por mais que me acautele,
+Nos olhos o amor explico?
+
+Amor os faz descuidados:
+Em vão, Anarda, os abaxo;­
+Pois dahi a pouco os acho
+Outra vez nos teus pregados.
+Trazellos mais castigados
+Não está­ na minha mão:
+Esta continua omissão,
+Este erro, como tu dizes,
+He hum fructo das raizes,
+Que trago no coração.
+
+De que serve olhar a medo,
+E fallar acautelado,
+Se hum suspiro descuidado
+Vem descobrir o segredo?
+Este artificio, este enredo
+Pouco poderá durar:
+Meus olhos me hão de entregar;
+Que hum amor na alma arraigado
+He como hum fogo ateado,
+Que se não póde occultar.
+
+Tempo, e arte tenho posto
+Para disfarçar-me em tudo:
+Mas sae-me perdido o estudo,
+Em vendo o teu lindo rosto.
+Disfarça-se mal hum gosto,
+Que nasce do coração:
+Tambem tu dessa lição
+Talvez­ que bem não sahiras,
+Se assim como eu sentiras
+No peito a doce paixão:
+
+
+
+
+MOTE.
+
+
+_Por passos sem esperança,
+Onde me leva o dezejo?_
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Vão pensamento, descança,
+Reconhece as forças minhas:
+Tu não sabes, que caminhas
+Por passos sem esperança?
+Junto da corrente mansa
+Me pões do dourado Tejo:
+Cá de longe o si­tio vejo:
+Mas não devo hum passo dar,
+Que eu não mereço chegar
+Onde me leva o dezejo.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+
+_Eu já tenho exp'rimentado
+As minhas inclinações._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Que nunca teu doce agrado
+De amizade simples passa,
+Por minha grande desgraça
+Eu já tenho exp'rimentado.
+Antes odio declarado,
+Que estas equivocações!
+Quero as ternas espressões
+De que as almas se alimentão:
+Com menos não se contentão
+As minhas inclinações.
+
+
+
+
+_Ao mesmo Mote outra_
+
+
+GLOZA.
+
+
+Senhora, eu tenho encontrado
+No teu amor mil intrigas:
+Não preciso que mo digas,
+Eu já tenho exp'rimentado.
+São premios do meu cuidado
+Enganos, e ingratidões;
+E por occultas razões
+São, inda que mo não dizes,
+Tão justas, como infelizes,
+As­ minhas inclinações.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+
+_Ouvi, ó Senhora, ouvi
+Os suspiros de huma voz,
+Que quando por vós suspira,
+Aspira sómente a vós._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Chegou finalmente a hora
+De saberdes quem vos ama:
+Rebente esta antiga chama,
+Que ardeo occulta atégora.
+Amar callando, Senhora,
+Assaz o fiz atéqui:
+As ancias, que padeci,
+Sejão finalmente expostas...
+Ah! não me volteis as costas:
+Ouví­, ó Senhora, ouví.
+
+Perdei huma vez o horror
+A ouvir ternos gemidos;
+Nunca ferírão ouvidos
+Brandas palavras de Amor.
+Que hora, e que sitio melhor,
+Do que este em que estamos sós?
+Que culpa, que crime atroz
+Temeis que ante vós farão
+As queixas de hum coração,
+Os suspiros de huma voz?­
+
+Meu coração vos adora;
+Sem saber o conquistais:
+Estas ancias, estes ais
+São obra vossa, ó Senhora.
+Em segredo amou até­gora;
+De amor vive; amor respira;
+E se vós, depondo a ira,
+Lhe prometteis compaixão,
+Que melhor occasião,
+Que quando por vós suspira?
+
+Nelle, Senhora, não posso
+Nutrir estranha paixão:
+Em fim este coração
+Foi feito para ser vosso:
+Para encher-se de alvoroço
+Basta ouvir a vossa voz:
+Passa indiff'rente, e veloz
+Por mil bellezas, que admira,
+Nada o enche, a nada aspira­,
+Aspira sómente a vós.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+
+_Hei de amar-te até á morte,
+Quer tu me queiras, quer não:
+Serei no amor desgraçado;
+Mas com discreta eleição._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Não fujo, pódes rasgar
+Este peito desgraçado;
+Que o teu gesto retratado
+Has de, cruel, nelle achar.
+Posto que veja roubar
+Á Parca a tesoura forte,
+E dar-me na vida córte,
+Inda ouvirás, que te digo:
+«Ingrata, não me desdigo,
+Hei de amar-te até á morte.»
+
+Vem, Amor, auctorizar
+O sagrado juramento
+De até ao final alento
+Firmemente te adorar.
+De joelhos, no Altar
+Co'a devida submissão
+Resoluto ponho a mão;
+Juro nas settas tremendas
+De te amar, quer tu me offendas,
+Quer tu me queiras, quer não.
+
+Amor co'as mãos apressadas
+Ergue dos olhos a venda,
+E pasma da jura horrenda,
+Que assusta as aras sagradas.
+«Eis as correntes pezadas,
+Que te esperão,» diz irado.
+Eu as acceito humilhado,
+«Não, ó Deos, não esmoreço
+C'os ferros, posto conheço
+Serei no amor desgraçado.»
+
+A Liberdade ultrajada
+Lança-me a revez a vista;
+Risca-me da honrada lista,
+E chama-me escravo irada.
+Não crimines indignada
+Esta nobre sujeição.
+Arrastro o ferreo grilhão;
+Mas por quem? Por Nize bella.
+Ah! sim te deixo por ella;
+Mas com discreta eleição.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+_Toda a Mulher he perjura._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Triste solitario freixo,
+Mais triste do que eras d'antes,
+Conta, conta aos caminhantes
+A razão com que eu me queixo.
+Em teu tronco escrita deixo
+Minha funesta aventura:
+Reconta esta historia dura,
+Por que veja quem a ler,
+Que depois de Armida o ser
+Toda a Mulher he perjura.
+
+
+
+
+_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Penalva._
+
+
+Illustrissimo Penalva,
+Já que me dais protecção,
+Sentido na occasião,
+Porque bem sabeis que he calva.
+Se o vosso braço me salva
+Das­ criança­s pertinazes,
+Se a poder das vossas frazes
+Meu duro grilhão se corta,
+Por triunfo á vossa porta
+Pendurarei dous rapazes.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+_De mil suspiros que eu dou._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Parto em fim desesperado,
+E sem que o motivo conte
+Vou a estranho horizonte
+Chorar o meu triste fado.
+Já vejo o laço quebrado
+Que a ventura me forjou;
+E como Nize o quebrou,
+Conservando os olhos seccos,
+Ao menos não ouça os éccos
+De mil suspiros que eu dou.
+
+
+
+
+_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Penalva._
+
+
+Hontem soube o que podia
+Estilo suave, e brando:
+E quanto podeis fallando
+Eu o vi na Academia.
+Nas almas fogo accendia
+Vossa discreta Oração.
+Sobre a minha pertensão
+Vos peço que assim oreis,
+E que ao Principe falleis
+Como fallais á Nação.
+
+
+
+
+_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde._
+
+
+Mandais-me que os versos traga
+Que na almofada fallárão;
+Porque os outros vos ficárão
+Nas mãos da Illustre Arriaga.
+Essa honra he huma paga,
+Que elles nunca merecêrão:
+Se os seus olhos se puzerão
+Sobre tão baixa escritura,
+Devo essa grande ventura
+Ás illustres mãos que os dérão.
+
+Mas he do meu triste fado
+Tão teimosa a crueldade,
+Que até na felicidade
+Vejo que sou desgraçado:
+Pois devi­eis cautelado
+Segurar a occasião:
+Fingindo que errava a mão,
+Entre mil papeis diversos
+Podieis em vez dos Versos
+Dar-lhe a minha petição.
+
+
+
+
+_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde._
+
+
+Assisti á Sagração,
+Acto, Senhor, dos mais serios,
+Que envolve augustos Mysterios
+Da nossa Religião.
+Lembrou-me crismar-me então
+Por ser acto Episcopal;
+Por permittir acção tal
+Que outro appellido se tome;
+Lembrou-me trocar o nome
+De Mestre em Official.
+
+Busquei as horas melhores,
+E encommendei-me á fortuna;
+Cheguei, e para a Tribuna
+Tinhão já ido os Senhores.
+Pelos frios corredores
+O bom Lima me encaminha;­
+Foi-me pôr na tal portinha
+Onde os pertendentes vão
+Pôr os joelhos no chão,
+E os olhos na Rainha.
+
+Co'a cabeça estopetada,
+Como quem dorme sem cama,
+Roto fumo, e alguma lama
+Sobre a casaca encarnada,
+Vi o tal que grita, e brada,
+Quer na Sala, quer na rua.
+Por mais que trabalha, e sua,
+Guarda-roupa he louca idéa:
+Como ha de guardar a alhêa
+Quem trata tão mal da sua?
+
+Ao pé a figura rara
+Do pardo Cardeal astuto,
+Que para cumprir o luto
+Lhe basta mostrar a cara.
+Dos dous na justiça clara
+Grandes fundamentos acho;
+Mas fujo mais para baixo,
+E dispenso amigos taes,
+Por não ficarmos iguaes
+Na justiça, e no despacho.
+
+
+
+
+_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde, quando
+morreo o Pai do Author._
+
+
+Peito de tanta bondade
+De bom Pai o nome preza;
+Levou-me hum a Natureza;
+Mas deixou-me outro a piedade.
+Amparai minha orfandade,
+Porque a vossos pés me humilho:
+Se não me abrís outro trilho,
+Tal a minha estrada vai­,
+Que irão co'a vida do Pai
+As esperanças do Filho.
+
+
+
+
+_Vagando hum Officio que o A. pertendia._
+
+
+Jaz o defunto enterrado:
+E agora saber intento,
+Se a caso no testamento
+Me ficou algum legado.
+A vossos pés ajoelhado
+Ponho em vós minha esperança:
+Tenho Parte, e não descansa;
+E nesta causa infeliz­,
+Se não fordes o juiz,
+Perderei de certo a herança.
+
+
+
+
+_Ao Doutor Joaquim Ignacio Seixas, Medico das Caldas._
+
+
+Meu Doutor, bem sei que quer
+Que eu venha ás Ave-Marias;
+Mas olhe: ha huns certos dias
+Em que isto não póde ser.
+Dona Antonia Xavier
+(Que o Ceo por seculos guarde)
+Faz annos, e eu esta tarde
+Perco á Medicina o medo:
+N'outros dias virei cedo;
+Mas neste, ha de ser bem tarde.
+
+
+
+
+DECIMA.
+
+
+_A hum Prégador celebre (Fr. João Jacintho) estando jantando com o A._
+
+
+Se deste potente vinho
+Não cerceias as rações,
+Temo que nos teus Sermões
+Allegues só São Martinho.
+Se lhe dás largo caminho
+Pelo teu fecundo peito
+Seu fatal magico effeito
+Deixando-te a tres de fundo,
+Te fará ser o segundo
+Que diga: _sempre me deito_.[8]
+
+
+
+
+_Carta a Lourenço da Mota, Official da Secretaria._
+
+
+Amigo Lourenço: Se tu não sabes o que he não ter dinheiro, eu to
+explico: Abaixo de Estupores he o maior mal do mundo, principalmente
+para quem herdou Irmãas sem nenhum rendimento, e com muito bom estomago.
+
+Por vêr se aligeirava esta carga, empenhei-me em hum milhão para lhes
+comprar tenças, e em outro para lhas assentar; mas como as não cobrão,
+morrem de fome, e depois que são ricas, tornão-se a mim, e dellas
+aprendo o que são lucros cessantes, e damnos emergentes. Cuidei que
+tinha mettido huma lança em Africa, e vejo que a metti em mim mesmo; e
+arde agora a vela pelas duas pontas.
+
+Tu que tens bom coração, e que estás ao pé do Senhor Marquez, que o tem
+melhor, pede-lhe por caridade o despacho dessa petição.
+
+Não te assustem os tres annos; porque ainda mal que ouço que no de 93
+não tiverão cabimento. Pede-lhe que já que me livrou de crianças, me
+livre tambem de velhas, gado ainda mais impertinente, e que se não
+contenta com figuras de Rhetorica. Interessa-te pelo teu Nicoláo, Amigo,
+e Collega, e sabe que, se lhe não mandas as Portarias, terás a vergonha
+de o vêr andar pelas outras. Recomenda-se á tua efficacia.
+
+
+O teu fiel Amigo
+
+_N. T._
+
+
+
+
+
+Peço que mates a fome
+A este meu povo immenso,
+E peço-te, meu Lourenço,
+Pelo Santo do teu Nome.
+Por hum bom serviço tome
+A paga das taes tencinhas.
+Pois teve as carnes mesquinhas
+Em vivas brazas vermelhas,
+Em louvor das suas grelhas
+Peço me livres das minhas.
+
+Com esta tenho enviado
+Tres cartas, segundo penso,
+Ao meu amigo Lourenço:
+Nem reposta, nem mandado.
+A dôr de que estou tomado
+Sim desejo allivialla:
+Mas a tua mais me aballa,
+E parece mais intensa:
+Pois eu sim fico sem Tença;
+Porém tu estás sem falla.
+
+
+
+
+_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde,
+andando o A. na pertenção de ser Official da Secretaria de Estado._
+
+
+DECIMA.
+
+
+Senhor, venho perguntar
+Quando ides ficar no Paço:
+Para que á força de braço
+Lanceis esta náo ao mar.
+Sabe montes aplanar
+Vossa discreta portia:
+E pinta-me a fantasia,
+A qual nem sempre me engana,
+Que só na Vossa semana
+Me ha de chegar o meu dia.
+
+
+
+
+_Ao Juiz do Crime de Andaluz, dando-lhe este parte que estava para
+casar, e mostrando-lhe versos, que fizera á Noiva. He o de que trata o
+soneto 33, Tom. I. pag. 35._
+
+
+M­anoel, muda o cuidado,
+Abafa essa chamma ardente:
+Não falla hum são a hum doente;
+Falla-te outro exp'ri­mentado.
+
+Já servi ao Deos do engano,
+Fórte com forças alheias.
+Passei nas suas cadeias
+Apoz hum anno outro anno.
+
+Prometteo-me alto favor;
+Mas sabe, pois que começas,
+Que o que tive das promessas
+Forão lagrimas, e dôr.
+
+Não te deixes enganar
+Do rosto brando, e sereno:
+Tempéra em riso o veneno;
+Afaga para matar.
+
+Com mil modos attractivos
+Chama a cega, e incauta gente:
+Lança-lhe dura corrente,
+E escarnece dos cativos.
+
+Como trata os infelizes,
+Que andou outr'ora amimando,
+Meu peito to está mostrando
+Nesta frescas cicatrizes.
+
+Até em cousas de peta
+Quer mostrar o seu rigor:
+Faz entrar n'hum prosador
+A mania de poeta.
+
+Mas esses laços que trazes,
+Dom desse Deos inimigo,
+Talvez que sejão castigo
+D'outras prizões, que tu fazes.
+
+Fere a muitos tua mão,
+Inda que tanto a reprimes,
+E vens a pagar teus crimes
+Com pena de Talião.
+
+
+
+
+MEMORIAL
+
+
+_A Suas Altezas._
+
+
+Se os Principes nos são dados
+Para geral beneficio,
+E se o seu mais digno officio
+He ouvir os desgraçados:
+
+Ouví minha desventura,
+E consentí que esta vez
+Se lastime a vossos pés
+Hum queixoso da ventura.
+
+Sahirem humildes ais
+De hum peito singelo, e aberto,
+He o direito mais certo,
+Quando os Juizes são tais.
+
+Fundadas sobre a verdade
+As minhas supplicas vão:
+Não peço por ambição,
+Peço por necessidade.
+
+Em mim o cuidado cae
+De Irmãs postas em pobreza:
+A piedade, e a natureza
+Me fazem Irmão, e Pae.
+
+Olhos em pranto banhados,
+Que eu sem dôr não posso ver,
+Vos fazem agora ler
+Estes versos mal limados.
+
+São tristes Orfãs donzellas,
+E merecem suas dôres
+Que vós, Augustos Senhores,
+Hajais piedade dellas.
+
+Por mais esforços que eu faça
+Como hei de dar-lhe favor,
+Se o seu triste bemfeitor
+Vive na mesma desgraça?
+
+Da miseria as tirareis,
+Se eu da miseria sahir:
+Sobre muitos vai cahir
+O favor que me fazeis.
+
+Vós, ó Augusta Princeza,
+Em quem o Ceo quiz juntar
+O melhor que pódem dar
+A fortuna, a natureza,
+
+Tende dó de seu lamento;
+E dai a mão favoravel
+A hum sexo respeitavel,
+De que vós sois ornamento.
+
+A petição que vos faço
+Não he de facil indulto;
+Para pouco, fora insulto
+Valer-me do Vosso braço.
+
+Não he facil, mas he justa:
+E será bem despachada,
+Se huma vez apresentada
+For por Vós á Irmã Augusta.
+
+Principes, tende piedade:
+Ponde a meus queixumes pausa:
+Protegei na minha causa
+A causa da humanidade.
+
+O que de Tito se diz,
+Hum Rei Vosso Avô dizia;
+Chamava perdido o dia,
+Se não fez alguem feliz.
+
+Motivo de tristes ais
+Quaesquer mãos o pódem dar;
+Más venturas emendar
+Só pertence a mãos Reais.
+
+Dos homens, inda que ingratos,
+Ouve Deos os rogos justos:
+Vós, ó Pri­ncipes Augustos,
+Sois na terra os seus retratos.
+
+Mas já o tempo opportuno
+Apressa as azas escassas,
+E não devo ás mais desgraças
+Ajuntar a de importuno.
+
+Acabe a triste escriptura,
+Digna por tal de piedade:
+Eu dei-lhe pranto, e verdade,
+Vós podeis dar-lhe ventura.
+
+
+
+
+_No dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de
+Villa Verde._
+
+
+Não venho dourar enganos;
+A vida não he louvor;
+Pois tambem vivem Tyrannos:
+Eu venho, illustre Senhor
+Louvar obras, e não annos.
+
+De homem commum não se exime
+Quem não tem virtudes claras:
+He pouco fugir do crime:
+Consagrão-se as almas raras
+A trabalho mais sublime;
+
+A trabalho heroico: e creio
+Pelo provado aforismo,
+Que em sãos Filosofos leio,
+Que o verdadeiro heroismo
+He fazer o bem alheio.
+
+Taes trabalhos honra dão
+Á digna mão que os procura:
+Não amo Heróes da ambição:
+Buscão a sua ventura;
+Vós buscais a da Nação.
+
+Serem por vós levantados
+Os talentos esquecidos;
+Do triste os ais desprezados
+Serem aos Reaes Ouvidos
+Pelas vossas mãos levados;
+
+De quem a vós se a­colheo,
+Remediar o queixume;
+Ter como proprio o mal seu;
+He este o vosso costume,
+E o genio que o Ceo vos deo.
+
+E o Throno aos Povos propicio,
+Que vigia em seu favor,
+Fez-lhe o geral beneficio
+De mandar, que em vós, Senhor,
+O que he genio fosse Officio.
+
+Parti­o Offi­cios pezados
+Com quem os servisse bem:
+São projectos acertados:
+Quem do Throno o sangue tem,
+Tenha tambem os cuidados.
+
+Dai aos gratos Lusitanos
+Longo tempo Mão segura
+Contra injustiças, e enganos;
+E seja a sua ventura
+O louvor dos vossos Annos.
+
+Mas, Senhor, moços Poetas
+Vinguem meus esforços vãos:
+Musas zombão de Jarretas:
+Pedem-me as tremulas mãos,
+Mais do que Lyra, muletas.
+
+Fogosos Vates emprehendão
+Altos vôos neste dia:
+Musas com Musas contendão:
+Sáião Odes á porfia;
+E queira Deos que se entendão.
+
+
+
+
+QUINTILHAS
+
+
+_Em louvor de hu­ma Senhora._
+
+
+Lyra minha, rouca lyra,
+Hoje afinada consente,
+Que a tremula mão te fira:
+Cante huma só vez contente
+Quem por costume suspira.
+
+Louvemos Anarda bella;
+Eu vejo aos astros subir
+Meus versos em honra della,
+E possa quem os ouvir
+Adora-la antes de vê-la.
+
+Já lédo as vozes desato:
+Ouve, ó Nynfa, os teus louvores:
+Não pertendo ser-te grato
+Traçando com vivas cores
+Teu angelico retrato.
+
+Permitte, Anarda piedosa,
+Que se farte o meu desejo
+N'outra empreza mais gloriosa;
+Que o menor dom que em ti vejo,
+He o dom de ser formosa.
+
+Rubra boca, os olhos bel­los,
+Que brandamente movidos,
+São de Amor agudos zelos;
+Sobre alvo collo es­parzídos
+Louros ondados cabellos;
+
+Braço airoso, a mão de neve;
+Proporcionada cintura;
+Eis a tua copia breve:
+Porém vôa a formosura
+Nas azas do tempo leve.
+
+Outros bens mais duradouros
+Não são á tua alma esquivos,
+Bens que nos annos vindouros
+Valem mais que huns olhos vivos,
+Que huns soltos cabellos louros.
+
+A destruir a belleza
+A curva velhice corre:
+Nada conserva firmeza;
+Só a virtude não morre:
+Vence as leis da Natureza.
+
+Tu, que prezas a verdade;
+Que tratas falsos sujeitos
+Só com a côr de amizade,
+E para os sinceros peitos
+Mostras ter sinceridade;
+
+Tu, que os enganos deslizas;
+Que sabes vencer desgostos;
+Que a lisonja ufana pizas;
+Que não vês sómente os rostos;
+Que até corações divizas;
+
+Tu, que da seria prudencia
+Segues os dictames puros;
+Que tens amado a innocencia,
+E nos conselhos maduros
+Mostras de idade experiencia;
+
+Teu nome eterno ha de ser
+Estampado entre as estrellas;
+Has de as mais Nynfas vencer,
+Que sómente em serem bellas
+Fundão todo o seu poder.
+
+Amão a fofa vaidade;
+Dos homens a seu sabor
+Prendem a solta vontade:
+Trazem nos olhos amor,
+No coração falsidade.
+
+Muitas fingem desprezar
+Finezas de amante rude;
+Fingem os sabios amar:
+Não o fazem por virtude,
+Querem talentos mostrar.
+
+De que serve huma alma pura,
+Se os pezados membros cobre
+Rota humilde vestidura?
+Nada val hum peito nobre
+N'huma grosseira figura.
+
+Corpo esbelto, onde ajustado
+Brilha, cheio de ouro immenso,
+Curto fraque afrancezado;
+Cheiroso, candido lenço;
+O cabello apolvilhado;
+
+Jocosas palavras ôcas;
+Estes os dons relevantes,
+Que deixão de vencer poucas
+Das que fingem ser amantes,
+E não passão de ser loucas.
+
+Tu tens outro entendimento:
+És sempre igual: não te vales
+Das côres do fingimento:
+Quer séria, quer rindo falles,
+Não fundas torres no vento.
+
+Rís da baixa adulação,
+Mal que os teus ouvidos toca
+A contrafeita expressão:
+Conheces na falsa boca
+O enganoso coração.
+
+Ver sobre molle tapete,
+Curvando as pernas, e os braços,
+Peralta de alto topete,
+Com destros miudos passos,
+Dançar Francez minuete;
+
+Vê-lo nutrindo esperanças
+Entre agradaveis parceiras,
+Fazer rapidas mudanças,
+Torcendo as mãos nas ligeiras
+Buliçosas contradanças;
+
+Fervente rebeca ouvir,
+Que infunde vivos prazeres,
+Jámais te faz distrahir;
+Pois antes dos Sabios queres
+Sabios conceitos ouvir.
+
+Só te vejo attenta em quanto
+Ouves palavras discretas;
+As Musas estimas tanto,
+Que até dos tristes Poetas
+Te commove o triste pranto.
+
+Conheces seu duro mal;
+Que sempre tributão fé
+A coração desleal:
+Que por isso em todos he
+A tristeza natural.
+
+Que ás Nynfas endurecidas
+Lhes não causão terno effeito;
+Que triunfão das fingidas,
+Guardando dentro do peito
+Inda frescas as feridas.
+
+Porém já que ouzei fallar
+De Amor nas sanguineas reixas,
+Vou a lyra pendurar:
+Não quero com minhas queixas
+Teus louvores misturar.
+
+Tu dirás que não tens parte
+No meu mal cruento, e fero;
+Que vou tristezas lembrar-te;
+Dirás que affligir-te quero,
+Quando desejo louvar-te.
+
+Não te deves admirar:
+Sei que em vão me estou queixando;
+Mas quem sente o seu pezar,
+Se principia cantando,
+Sempre acaba a suspirar.
+
+
+
+
+QUIXOTADA.
+
+
+Espicaça esse animal,
+Companheiro Sancho Pança,
+Entremos em Portugal,
+E vamos molhar a lança
+A pró do triste Pombal.
+
+Poetas principiantes,
+Já estou em circo raso:
+Tambem Apollo he Cervantes,
+Tambem cria no Parnaso
+Seus cavalleiros andantes.
+
+Não vos chamo, ó sujo rancho,
+Que até os versos errais;
+Em tal sangue as mãos não mancho:
+Para vós, e outros que taes
+Sobeja a espada do Sancho.
+
+Sobre vós carrego a mão,
+Sobre vós, ó folhas velhas,
+Que dais n'hum homem no chão,
+Sem vos lembrar, que entre ovelhas
+He fraqueza ser leão.
+
+Essa boca enganadora,
+Que he hoje da maldição,
+Mil vezes se poz outra hora
+Sobre a praguejada mão,
+E lhe chamou bemfeitora.
+
+Pois já que vós sois assim,
+Povo revoltoso, e ingrato,
+Hoje castigar-vos vim:
+Ireis pelo pó do gato,
+Nem esp'reis quartel em mim.
+
+Santo Téjo, o curso enfreia,
+E montando rochas duras
+Torna atraz a clara veia:
+Conta novas aventuras
+Á formosa Dulcineia.
+
+Nova guerra o mundo veja,
+Guerra em que pouco se arrisca:
+Serão armas na peleja,
+Provado fuzil, e isca,
+Secca, espinhosa carqueja.
+
+Irmão Sancho, põe-te a pé,
+Põe essas Rimas a prumo,
+Principio á obra se dê,
+Tolde o ar o negro fumo
+Deste novo Auto da Fé.
+
+Queima essas Satyras frias,
+Faltas de sizo, e conselho:
+Queima prosas, e poesias:
+Acabe o cansado velho
+Em paz os seus tristes dias.
+
+Porém poupa sempre alguma
+Das raras que tem sabor:
+Das outras nem deixes huma,
+Dessas que tudo he rancor,
+E poesia nenhuma.
+
+Em tanto as­ armas pendura:
+Mas se houver desassizados,
+Que queirão guerra mais dura,
+Da minha lança cortados
+Descerão á sepultura.
+
+Já nuvens de fumo vejo:
+Já chamma brilhante o arreda:
+Já se farta o meu desejo;
+Já da viva lavareda
+Dá o clarão sobre o Tejo.
+
+Essas cinzas denegridas,
+Que ao velho poupão mil magoas,
+Leve-as o Téjo envolvidas,
+Fiquem no fundo das aguas
+Para sempre submergidas.
+
+Vês, Sancho, do nome meu
+Como vôa a clara fama?
+Nem viva alma appareceo
+A apagar a voraz chamma,
+Ninguem, ninguem se atreveo!
+
+Vês como ajuda o destino.
+A hum bom cavalleiro andante?
+Não precizei de aço fino,
+Nem de pés de Rocinante,
+Nem de elmo de Mambrino.
+
+Ó tu que alçaste a viseira
+Forcejando os nervos velhos,
+E para ver a fogueira
+Limpaste os olhos vermelhos
+Na felpuda cabelleira:
+
+Abaixa a proa huma vez,
+Chega a Dulcinea bella,
+E dize posto a seus pés:
+«Formosissima Donzella,
+Eu sou hum triste Marquez,
+
+«Que fugindo a hum povo inteiro,
+A quem mettêra em furor
+Minha privança, e dinheiro,
+Vim achar mantenedor
+Em teu nobre cavalleiro.
+
+«Disse este povo malvado,
+Que eu tinha o reino extorquido;
+Que era gatuno afamado,
+E que em jogos de partido
+Tinha com todos levado;
+
+«Que no Tabaco levava
+Hum quinhão avantajado;
+Que o Sabão não me escapava;
+E que sem ser Deputado
+Nas Companhias entrava.
+
+«Das minhas Leis murmuravão:
+E os seus pequenos juizos
+Tão pouco o ponto tocavão,
+Que sempre me erão precisos
+Assentos que as declaravão.
+
+«Té na lingoa sem motivo
+Dérão criticos revezes:
+Fiz nella estudo excessivo,
+Bebi nos bons Portuguezes
+_Monopolio_, e _respectivo_.
+
+«Disse mais o povo insano,
+Que perdi de Roma o trilho;
+Que fui Sultão soberano;
+Que andei cazando meu filho
+Segundo o rito Othomano.
+
+«Mas toda a maldade he sua:
+Vêm riquezas, e palacio,
+Comem-se de inveja crua:
+São huns novos cães de Horacio
+Ladrando debalde á lua.
+
+«Já se me dá pouco, ou nada
+Da sua guerra pequena:
+Tenho gente em campo armada,
+Tenho Mendoça co'a penna,
+E Dom Quixote co'a espada.»
+
+Es­ta falla, ou outra igual
+Acabada, meu Marquez,
+Faze rev'rencia formal,
+E arrastra os gotozos pés
+Para a villa do Pombal.
+
+Nella vive descansado,
+Porque as aguas vão serenas;
+Sempre Ministro de Estado,
+Mandando cousas pequenas
+No teu Lopes encostado.
+
+Junto á Estatua vil canalha
+Desprende as lingoas tyrannas:
+E se esta rude gentalha
+Arrancar com mãos profanas
+A carrancuda medalha:
+
+Armas em ouro gravadas
+Ser-te-hão por mim erigidas,
+E por ti mesmo traçadas,
+Em sangue humano tingidas,
+E com mil leis penduradas.
+
+
+
+
+ODE
+
+
+_Offerecida a SS. MAGESTADES, no dia da Acclamação da Rainha N.
+Senhora._
+
+
+A vida escura em que a natureza, e a fortuna me lançárão tão longe dos
+Reaes pés de VV. MAGESTADES; o medo justo de mandar huma voz fraca, e
+desconhecida aos ouvidos de Reis, prenderião hoje a minha lingoa
+temerosa, se o amor da Patria, e o gosto de a ver feliz, dando-me novo
+espirito, me não puzessem na boca esta lingoagem, de huma alma singela,
+estes versos sem arte dictados pelo amor respeitoso, e que em lugar de
+enganosa, e enfeitada poesia, descobrem unicamente os sentimentos de hum
+coração fiel, onde VV. MAGESTADES reinão Soberanamente.
+
+Neste Throno, a que poucos Monarcas sobem, tem a Nação Portugueza
+collocado a VV. MAGESTADES por aquelle talento de agradar, dom do Ceo,
+precioso, e raro na Sagrada Pessoa dos Reis, que querem (como VV.
+MAGESTADES conseguírão) ser acclamados pela alegria publica, e pela
+torrente de lagrimas, com que hum povo inteiro, transportado de gosto,
+levantava ás estrellas os Augustos Nomes de seus novos Reis. Eu vi,
+Senhores, este grande espectaculo; foi huma scena de ternura, que
+arrancaria lagrimas ainda a hum coração que não fosse Portuguez. Vi
+soldados velhos, que endurecidos ao frio, e á calma, queimados com o
+fogo da polvora, annunciavão hum coração de ferro, banharem pela
+primeira vez de lagrimas ternissimas aquelles honrados rostos, aquellas
+cerradas feridas, que recebêrão pela Patria, e que tornarião a abrir com
+gosto, se o felicissimo Reinado de VV. MAGESTADES não estivesse
+destinado á paz, e á felicidade dos seus povos; era preciso ser
+insensivel para que no meio de hum povo entregue á doce, e tumultuosa
+desordem, que cansa a alegria excessiva, se conservasse a minha alma na
+sua situação ordinaria; prendeo nella huma faisca do fogo sublime, que
+eu vi atear nos corações Portuguezes: a alta idéa das Virtudes de VV.
+MAGESTADES, a multidão de beneficios com que vemos dourados os dias do
+seu faustissimo Reinado, huma longa serie de felicidades aberta no
+futuro diante dos meus olhos, me levarião a través do povo, e das armas
+ao Throno dos Reis, onde á face do Ceo, e dos homens me desentranhasse
+em gritos de alegria, e mostrasse nesta especie de delirio, que o
+coração de VV. MAGESTADES não trabalha para ingratos; mas o profundo, e
+sagrado respeito, que pôde suffocar em mim este impeto de ternura, não
+pôde fazer callar-me; levado da invencivel força do amor, e do
+reconhecimento, me atrevo a pôr na Real presença de VV. MAGESTADES
+grandes cousas em máos versos; ponho a simples verdade, ponho os votos
+da Nação, e algumas das muitas acções de piedade com que VV. MAGESTADES
+tem mandado contentes os que levão por valia a razão, ou as desgraças.
+Se VV. MAGESTADES do alto do Throno se dignarem lançar os olhos sobre
+estes humildes versos, reconheceráõ nelles não o Estro que faz Poetas,
+mas o que faz vassallos amantes de seus Soberanos. Estro sublime, e que
+deve tocar mais no coração dos Monarcas, do que o das Odes famosas de
+Pindaro, e de Horacio, cheias da mais bella poesia; mas filhas da arte,
+e da lisonja, e onde não fuzila aquella luz de verdade, que dará logo
+nos Reaes olhos de VV. MAGESTADES, se eu tiver a incomparavel honra de
+que este papel seja apresentado diante do Augusto, e Respeitavel Throno
+dos Pais da Patria, dos Amigos, dos Bemfeitores, dos Reis adorados da
+felicissima, e sempre fiel Nação Portugueza.
+
+
+
+
+ODE.
+
+
+ Das virtudes guiados
+Subí ao alto Throno, oh Reis Augustos;
+ Nem sempre esquivos fados
+Se nos hão de mostrar surdos, e injustos:
+ Abrem vasto thesouro,
+E nos mandão por Vós a Idade de Ouro.
+
+ Do Rei aos Ceos erguido
+O Reino, e o coração tendes herdado,
+ Benigno, enternecido,
+De mil virtudes solidas dotado;
+ Por genio piedoso,
+E digno em fim de tempo mais ditoso.
+
+ Da Eterna Providencia
+Os beneficos raios fuzilárão;
+ Já se estima a innocencia,
+Já os tempos de Ferro se abrandárão,
+ Já vem o ar talhando
+A Piedade, e a Justiça os braços dando.
+
+ Com subita alegria
+Tornai a ver os conhecidos lares,
+ Tornai a ver o dia,
+Vós que habitastes horridos lugares,
+ Lugares deshumanos
+Onde passastes dez, e outros dez annos.
+
+ Do chão desentranhados
+Vinde jurar os novos Reis felizes:
+ Nos pulsos descarnados
+Mostrai ao Povo as roxas cicatrizes,
+ E os grilhões inda quentes
+Na praça triunfal deixai pendentes.
+
+ Que lagrimas levaste,
+Patrio Téjo, na tua escura veia
+ Quando turvo passaste!
+E as ondas, que quebravas sobre a areia,
+ Que cinzas que regárão!
+Que triste sangue para o mar levárão!
+
+ Mas torna, oh manso Téjo,
+Torna a volver corrente prateada:
+ Já taes males não vejo:
+E até já foge a nuvem carregada,
+ Que á triste Lusa terra
+Promettia fatal, e pronta guerra.
+
+ De pelouro violento
+Não vê cahir o exangue companheiro;
+ E dorme ao som do vento
+Em campo aberto o molle pegureiro;
+ O lavrador cantando
+Em paz herdados campos vai cortando.
+
+ Da sorte das batalhas
+Livrai, Piedosos Reis, os Portuguezes;
+ Pendurem duras malhas,
+E os temperados lucidos arnezes
+ Os ardidos soldados
+Das lagrimosas Mãis em vão chamados.
+
+ Que dias florecentes
+Ao vosso fiel povo preparastes!
+ Quando com mãos prudentes
+O pezo dos negocios espalhastes
+ Sobre os hombros robustos
+De Ministros inteiros, sabios, justos.
+
+ Gemêo maniatado
+Longo tempo o infeliz merecimento;
+ Mas já, o collo alçado,
+Sacode o negro pó do esquecimento,
+ E a virtude innocente
+De illustres palmas lhe coroa a frente.
+
+ Já vingadas seráõ
+Do vil tutor as timidas donzellas;
+ Já não erguem em vão
+As mãos, e os tristes olhos ás estrellas;
+ Nua de falsidade
+Aos ouvidos dos Reis chega a verdade.
+
+ Mil louvores lhe cantão,
+O limpo coração pondo no rosto:
+ E n'alma lhe levantão
+Novo Throno, sobre ella melhor posto,
+ Que entre espessas falanges,
+Que sobre ouro, ou perolas do Ganges.
+
+ Novos Reis Soberanos,
+Que hoje as rédeas tomais do Reino vosso,
+ Os Fastos Lusitanos
+Dirão de Vós o que eu dizer não posso:
+ Vossa Augusta Memoria
+Abrirá largo campo á longa Historia.
+
+ Sem trabalho podeis
+Fazer feliz a gente Portugueza,
+ Seguindo as santas leis,
+Que n'alma vos gravou a Natureza,
+ A rara humanidade
+A incorrupta Justiça, a sã Verdade.
+
+
+
+
+_No dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de
+Angeja._
+
+
+ODE
+
+
+A rouca Lyra, Musa, temperemos,
+ Cordas de ouro lhe ponho:
+O triste Boticario em paz deixemos,
+ E o Gamaõ enfadonho;
+Inspira-me huma vez sonoros hinos,
+Que Apollo julgue deste dia dinos.
+
+Ensina-me a louvar do Illustre Angeja
+ Talentos sup'riores;
+Que soffreo os­ assaltos d'alta inveja,
+ Como soffre os louvores;
+Cuja alma não conhece vís mudanças,
+Ou corrão tempestades, ou bonanças.
+
+Sem temor estalar o raio ouvia,
+ Que ao perto fuzilava;
+O recto coração tendo por guia,
+ Seguro caminhava;
+Em vão medonha tempestade freme,
+Seu grande coração só crimes teme.
+
+Ao pé do Throno Augusto em fim chamado
+ Venceo a crua inveja;
+Quem no Conselho o poz dos Reis ao lado
+ Não foi sangue de Angeja,
+Não foi de Hespanha antigo Filhamento,
+Foi sã justiça, foi merecimento.
+
+Não revolvo a Real Genealogia
+ De Henrique, e de Fernando;
+Os sãos louvores deste grande dia
+ De ti mesmo tirando,
+Só louvarei com paternaes façanhas
+Quem seu nome dever a mãos estranhas.
+
+Vias correr teus dias socegados­
+ Nutrindo esse alto esp'rito
+No que ficou dos seculos dourados
+ Em prosa, ou verso escrito;
+Recolhendo na próvida memoria
+De estranhos Reis, e de teus Reis a historia.
+
+Outras vezes rasgando á vasta terra
+ Seu peito cavernoso,
+Ou descobrindo quanto o mar encerra
+ De raro, e precioso,
+Profundavas com seria madureza
+Os segredos da occulta natureza.
+
+De tão doces estudos arrancado
+ Por mais altos destinos,
+Da Lusa gente, e de seus Reis chamado
+ A empregos de ti dinos,
+Sacrificas aos novos Soberanos
+De maduro saber teus cheios annos.
+
+Permitta o Ceo que em taes trabalhos vivas
+ Claro nome estendendo;
+E que as douradas horas fugitivas,
+ As azas encolhendo,
+Fação que o tempo demorando o passo
+Sinta a fouce cahir do frouxo braço.
+
+Que cem vezes raiando este bom dia
+ O Oriente esclareça;
+Que imperturbavel solida alegria
+ Com elle te amanheça;
+Que em naturaes ternissimos affetos
+A mão te beijem Netos de teus Netos.
+
+Mas deixa, ó Musa, a frouxa poesia
+ Para assumptos menores;
+Não profanem de Angeja a gloria, e o dia
+ Importunos louvores;
+Pois inda que soubesses dirigi-los,
+Quer merece-los; mas não quer ouvi-los.
+
+Engana-te o dezejo, que te inspira,
+ Reconhece o teu erro;
+Se vês, que só ajustão nesta lyra
+ Negras cordas de ferro,
+Não torças, não, teu misero fadario:
+Torna ao Gamão, e ao triste Boticario.
+
+
+
+
+ODE
+
+
+_Ao Senhor D. Domingos de Assís Mascarenhas._
+
+
+
+ Clio huma setta tira
+Da aljava de ouro, que pelo ar vazio
+ Longe correndo fira
+Junto ao Mondego saudoso rio:
+Alli em torno ás suas margens vôe,
+E por feliz tres vezes o apregôe.
+
+ As claras aguas regão
+Plantas bellas, fecundas, generosas:
+ Com desvelo se empregão
+Em cultiva-las mãos industriosas:
+Quão doces fructos, quão cheirosas flores
+De taes aguas, taes plantas, taes cultores:
+
+ Ergue, illustre Mondego,
+Ergue tua cabeça sobre as agoas:
+ Assás no fundo pégo
+Choraste hum tempo tuas tristes magoas.
+Olha teus campos como esmalta agor­a
+Em formosa união Pomona, e Flora.
+
+ Ó seio de candura,
+Mascarenhas, Tu és o alvo, a méta,
+ Que anciosa procura
+Da minha Clio a empennada setta.
+Tu na alma paz, na sanguinosa guerra
+Pódes ornar a tua, e alheia terra.
+
+ Mas boa sorte mude
+Meu dito, e a outra parte te não chame
+ E onde tanta virtude
+Tem a raiz, os fructos seus derrame;
+Nem menos tempo o Sol illustre, e aquente
+A quem o vio desde o seu claro oriente.
+
+ Porém, se he ordenado
+Da Providencia sabia, santa, eterna,
+ Christão peito humilhado
+Adora o Summo Ser que assim governa:
+Antes se goza, e dentro n'alma estima
+Que Astro tão bello alegre mais d'hum clima.
+
+ Entre tanto diffunde
+Na Patria tua luz copiosa, e clara;
+ Que, se logo confunde
+Os fracos olhos, depois guia, e aclara.
+Arda ante incertos pés (e gritem vicios)
+Alta tocha, que mostre os precipicios.
+
+ Constancia! que guardado
+Está o galardão a teus suores,
+ Onde em cume estrellado
+Vibra o Templo da Gloria resplandores.
+Dalli olhos não tires; que ao trabalho
+He doce viração, he fresco orvalho.
+
+ Tu, e esse Coro illustre
+De mancebos Heróes, que se obrigárão
+ A dar ao mundo lustre,
+Quando o alto sangue dos Avós herdárão;
+Concebei novo fogo, e novo brio
+Ouvindo onde vos chama a minha Clio.
+
+ Oh, se alguem me puzesse
+Nas margens do Mondego claro, e frio:
+ Certo me não vencesse
+Cysne de Dirce sobre o patrio rio.
+Alli tão docemente vos cantára,
+Que a ouvir-me feras, montes abalára.
+
+ Mas engenho ir recusa
+Onde ir Amor, e Gratidão me incita:
+ Nescia, se o esperas, Musa!
+Não corre lasso pé 'strada infinita.
+Almas illustres, havereis sómente
+O dom sincero de hum dezejo ardente.
+
+ Só mal sonora rima,
+Que sem veia forjou saudade, e zelo,
+ Leráõ o amavel Lima,
+O sabio Castro, e o profundo Mello,
+Pedras, que tu mal soffres, ó Lisboa,
+Faltarem tanto tempo á tua c'roa.
+
+
+
+
+_Em louvor da Saude._
+
+
+ODE.
+
+
+Não procura palacios sumptuozos
+ A brilhante Saude;
+O seu rosto agradavel, e rizonho,
+ Até aos Reis se esconde:
+Ella faz com que seja venturozo
+ O roto Peregrino,
+Se entre a negra gadelha, lhe apparece
+ Hum semblante sádio.
+O Captivo Remeiro fatigado,
+ Do ardente Sol não fuja:
+Em ferros envolvido o duro corpo,
+ Trabalhe o dia inteiro:
+O queimado semblante ande banhando
+ De violento suor:
+Apressado mastigue, e poucas vezes,
+ O corrupto biscoito:
+Mas tenha o rosto alegre, e socegado
+ Entre as duras prizões,
+Se á pallida doença não tem visto
+ O macilento aspeito;
+Se com braço membrudo, e vigorozo
+ Força o remo pezado.
+Inda sinto inflammar-me em teus louvores,
+ Oh Saude aprazivel!
+Tu és Filha do Ceo, Mãi da alegria,
+ Dom de Deus Piedoso.
+Se os miseros mortaes expõem a vida
+ Por danozas riquezas;
+Por ellas que farião, se servissem
+ De te fazer propicia?­
+Filha do Ceo benigno, se te déras
+ Por ouro, ou fina prata,
+Eu não temêra as tempestuosas ondas
+ Do fervido oceano:
+Nos occultos sertões iria entrando
+ Co'a mesma côr no rosto;
+Não me assustára o dente venenozo
+ Da enroscada serpente;
+Do fertil oriente nos outeiros
+ Cavaria anciozo,
+Por ver se das entranhas te trazia
+ Abundantes thesouros.
+Mas a bella Saude, he dom celeste;
+ Com ouro não se compra:
+Ella foge dos impios, que se assentão
+ A saborozas mezas;
+Que adormecem em leitos guarnecidos
+ De preciosas sedas;
+E vai guardar, com próvido cuidado,
+ O simples Pescador,
+Que sobre ásperas rochas, sem abrigo
+ Aos rigorozos tempos,
+Vai nutrindo no corpo mal vestido
+ Hum coração sincero;
+Que humilde sabe erguer ao Ceo piedozo
+ As innocentes mãos.
+
+
+FIM.
+
+
+
+
+INDICE.
+
+
+SONETOS.
+
+
+_A Sua Alteza_ Pag. 3. 4. 31.
+
+_Sahindo Conselheiro da Fazenda o Illustrissimo, e Excellentissimo
+Senhor D. Diogo de Noronha_ 5.
+
+_Aos leques mui pequenos, chamados Marotinhos_ 6.
+
+_O cruel Disfarce_ 7.
+
+_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Visconde de Ponte de
+Lima, Secretario de Estado_ 8.
+
+_Fazendo annos a Illustrissima, e Excellentissima Senhora Marqueza
+de Angeja_ 9.
+
+_Aos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de
+Avintes_ 10.
+
+_Estando nas Caldas_ 11.
+
+_A huns Annos_ 12.
+
+_Ao Disfarce das Mulheres_ 13.
+
+_A huma Camponeza_ 14.
+
+_A huma Dama interesseira_ 15.
+
+_Ao faustissimo dia da Inauguração da Estatua Equestre d'El-Rei
+Fidelissimo o Senhor D. José I._ 16.
+
+_Descripção de Badajoz_ 17.
+
+_Á Serenissima Princeza entrando no banho_ 18.
+
+_Levantando-se o Author da meza de hum Grande por serem horas de ir para
+a Aula_ 19.
+
+_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Penalva, chegando
+o Author á Quinta das Lapas_ 20.
+
+_Descripção de hum Peralta amaltezado_ 21.
+
+_Aos Annos do Serenissimo Principe N. Senhor_ 22.
+
+_A hum Leigo Arrabido vesgo_ 23.
+
+_Aos Toucados altos_ 24.
+
+_Mettendo a ridiculo humas Contradanças_ 25.
+
+_Por occasião de estranharem ao Author hum sonho que a ninguem offendia_
+26.
+
+_Á moda dos Chapéos maiores da marca_ 27.
+
+_Ás Fivelas chamadas_ à la Chartre 28.
+
+_A huma Velha presumida_ 29.
+
+_Aos Annos de huma formosa Dama_ 30.
+
+_A hum Padre Guardião_ 32.
+
+_Em louvor de Caporalini, Actor do Theatro de S. Carlos_ 33.
+
+_Achando-se o Author prezo dos bellos olhos de Marcia_ 34.
+
+_Sobre a Ingratidão de huma Dama_ 35.
+
+CANTIGAS _feitas nas Caldas_ 36.
+
+ENDECHAS 39.
+
+
+
+
+DECIMAS
+
+
+_Em dia dos annos do Illustrissimo Principal Almeida_ 45.
+
+Mote: _Olhos de Lize, olhos bellos, &c._ 47.
+
+Mote: _Tu teimas em desprezar-me, &c._ 50.
+
+Mote: _Não sei que quer a desgraçada, &c._ 53.
+
+Mote: _Os meus olhos a chorar_ 56.
+
+Mote: _Já disse tudo a Cupido_ 57.
+
+Mote: _Distancias, e saudades_ 58.
+
+Mote: _Cantarei alegres penas, &c._ 59.
+
+Mote: _Nada no mundo figura, &c._ 60.
+
+Mote: _Amor para me prender, &c._ 61.
+
+Mote: _A minha felicidade_ 62.
+
+Mote: _Quem adora occultamente &c._ 63.
+
+Mote: _Nos olhos o amor explico, &c._ 66.
+
+Mote: _Por passos sem esperança, &c._ 69.
+
+Mote: _Eu já tenho exp'rimentado &c._ 70. 71.
+
+Mote: _Ouvi, ó Senhora, ouvi, &c._ 72.
+
+Mote: _Hei de amar-te até á morte, &c._ 75.
+
+Mote: _Toda a Mulher he perjura_ 78.
+
+Mote: _De mil suspiros que eu dou_ 80.
+
+_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Penalva_ 79. 81.
+
+_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde_ 82.
+84. 87. 94.
+
+_Vagando hum Officio que o A. pertendia_ 88.
+
+_Ao Doutor Joaquim Ignacio Seixas, Medico das Caldas_ 89.
+
+_A hum Pregador celebre_ 90.
+
+_Carta a Lourenço da Mota, Official da Secretaria_ 91.
+
+
+
+
+QUADRAS.
+
+
+_Ao Juiz do Crime de Andaluz_ 95.
+
+_Memorial a Suas Altezas_ 98.
+
+
+
+
+QUINTILHAS.
+
+
+_No dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de
+Villa Verde_ 103.
+
+_Em louvor de huma Senhora_ 106.
+
+_Quixotada._ 114.
+
+
+
+
+ODES.
+
+
+_A SS. MAGESTADES, no dia da Acclamação da Rainha N. Senhora_ 122.
+
+_No dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de
+Angeja_ 132.
+
+_Ao Senhor D. Domingos de Assís Mascarenhas_ 137.
+
+_Em louvor da Saude_ 142.
+
+
+
+
+
+Notas:
+
+[1] _Duvidoso._
+
+[2] _O Marquez de Pombal._
+
+[3] _Tem allusão ao Soneto VI._
+
+[4] _Duvidoso._
+
+[5] _Duvidoso._
+
+[6] _Os Márques comprárão em Lisboa humas casas a certo homem da mesma
+por preço exorbitante: feita a escritura, e passado o dinheiro em
+cartuxos, voltou brevemente o vendedor dizendo que indo em casa a contar
+os cartuxos achára cobre, e não ouro. Quem compra por preço tal, parece
+que não faz tenção de pagar: Quem vende por tal preço, parece ter
+demasiada cubiça. Todos estavão em boa reputação._
+
+[7] _Estas Decimas fez o A. em agradecimento de ser provido pelo
+Principal, então Director dos Estudos, na Cadeira de Rhetorica, de que
+depois se queixou tanto._
+
+[8] _Outro Pregador tendo bebido demasiado, chegou ao pulpito, e só
+pronunciou estas palavras:_ Sempre me deito.
+
+
+
+
+
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+
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+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
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+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
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